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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ABRAÇO DE NÉMESIS / Steven Saylor
ABRAÇO DE NÉMESIS / Steven Saylor

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

 ABRAÇO DE NÉMESIS

 

Apesar das suas excelentes qualidades da sua honestidade e da sua devoção, da sua esperteza, da sua inquietante agilidade, Eco não estava preparado para atender à porta. Eco era mudo.

 

Mas não era nem nunca fora surdo. Na realidade, eu não conhecia ninguém com uma tão nítida capacidade auditiva. Também tinha o sono leve, um hábito que adquirira nos terríveis dias de vigília da sua infância, antes de a mãe o ter abandonado e de eu o ter encontrado na rua e o ter finalmente adoptado. Não é de espantar que tivesse sido Eco a ouvir bater à porta na segunda hora depois do cair da noite, quando já todos nos tínhamos ido deitar. Foi Eco quem recebeu o meu visitante nocturno, mas não pôde mandá-lo embora, por não ser capaz de o enxotar como um agricultor enxota um ganso errante da porta de casa.

 

Assim sendo, que outra coisa poderia Eco ter feito? Poderia ter acordado Belbo, o meu homem de mão. Arrastando o seu fedor a alho, e esfregando estupidamente os olhos por causa do sono, Belbo poderia ter intimidado o meu visitante, mas duvido de que se tivesse visto livre dele; o estrangeiro era persistente, e duas vezes mais inteligente do que Belbo era forte. Assim, Eco fez o que tinha de fazer; indicou ao meu visitante para que esperasse na entrada e foi bater suavemente à porta do meu quarto. Não tendo conseguido acordar-me com essas pancadinhas suaves doses generosas da sopa de peixe e cevada de Betesda, regadas com vinho branco, tinham-me feito adormecer rapidamente, Eco abriu cautelosamente a porta, entrou no quarto pé ante pé, e abanou-me o ombro.

 

Ao meu lado, Betesda agitou-se e suspirou. Uma massa de cabelo preto viera cobrir-me o rosto e o pescoço. Os fios mais pequenos faziam-me cócegas no nariz e nos lábios. O odor da sua hena perfumada fez-me sentir um frémito erótico abaixo da cintura. Voltei-me para ela, formando um beijo com os lábios, e correndo-lhe as mãos pelo corpo. Como era possível, perguntei a mim próprio, que ela conseguisse passar por cima de mim e vir tocar-me com a mão no ombro?

 

Eco nunca gostara de fazer o género de ruídos semianimalescos que emitem aqueles que não conseguem falar, pois achava que isso era um comportamento degradante e embaraçoso. Preferia manter um austero silêncio, como a Esfinge, e deixar que as suas mãos falassem por si. Agarrou-me no ombro com mais força e abanou-o com um pouco mais de firmeza. Nessa altura, eu reconheci o seu toque, com a certeza com que se reconhece uma voz que nos é familiar. Até consegui compreender o que ele estava a dizer.

 

Alguém bateu à porta? murmurei, limpando a garganta e mantendo os olhos fechados durante mais um momento.

 

Eco deu-me uma ligeira pancada de assentimento no ombro, que era a sua maneira de dizer ”sim” na escuridão.

 

Eu aninhei-me de encontro a Betesda, que tinha voltado as costas à perturbação. Toquei-lhe no ombro com os lábios. Ela expirou, fazendo um ruído algures entre um arrulho e um suspiro. Em todas as minhas viagens, desde os Pilares de Hércules até à fronteira com os Partos, nunca encontrara uma mulher que reagisse como ela. Como uma lira requintadamente construída, pensei, perfeitamente afinada e polida, que se vai aperfeiçoando com o passar dos anos; que homem de sorte és tu, Gordiano, o Descobridor, que descoberta fizeste naquele mercado de escravos de Alexandria, há já quinze anos.

 

Algures por baixo dos lençóis, o gatinho ronronava. Egípcia até às entranhas, Betesda sempre tivera gatos, e até os convidava para a nossa cama. Este atravessava o vale que se formara entre os nossos dois corpos, passando de uma coxa para outra. Até agora, mantivera as unhas encolhidas; ainda bem porque, nos últimos instantes, a mais vulnerável das minhas partes tornara-se conspicuamente mais vulnerável, e o gatinho parecia estar a dirigir-se exactamente para aí, talvez pensando que se tratava de uma serpente com que poderia brincar. Enrosquei-me contra Betesda, para me proteger. Ela suspirou. Eu lembrei-me de uma noite de chuva, há pelo menos dez anos, antes de Eco vir viver connosco o gato era diferente, a cama era outra, mas a casa era a mesma, era esta casa que o meu pai me deixou, e nós os dois, Betesda e eu, éramos mais jovens, mas não muito diferentes do que somos hoje. Passei pelo sono, e quase sonhei.

 

Voltei a sentir as pancadas decididas no ombro.

 

Duas pancadas eram a maneira de Eco dizer ”não”, como se estivesse a abanar a cabeça. Não, não queria ou não podia mandar embora o meu visitante.

 

Voltou a dar-me duas pancadas decididas no ombro.

 

Está bem, está bem! murmurei. Betesda voltou-se agressivamente, afastando-se de mim, puxando o lençol e expondo-me ao ar desagradavelmente frio de Setembro. O gatinho caiu na minha direcção, pondo as unhas de fora para se reequilibrar.

 

Bolas de Numa! lancei eu, embora não tenha sido o fabuloso rei Numa a ser magoado por uma unha pequenina. Eco ignorou discretamente o meu gemido de dor. Betesda riu-se sonolentamente na escuridão.

 

Eu saí da cama e mexi-me desajeitadamente à procura da túnica. Eco já a tinha na mão, preparada para eu me meter dentro dela.

 

Espero que seja alguma coisa importante! disse eu.

 

Era importante, e nem eu tive maneira de perceber, nessa noite e durante algum tempo, quão importante era. Se o emissário que esperava no vestíbulo de minha casa tivesse sido claro, se tivesse tido a franqueza de dizer por que tinha vindo e quem o enviara, eu ter-me-ia vergado aos seus desejos sem a menor hesitação. Casos e clientes como aquele que me caiu no colo naquela noite são poucos e esparsos; eu teria lutado pela possibilidade de conseguir aquele trabalho. Em vez disso, o homem, que se apresentou concisamente como Marco Múmio, afectou um ar de portentoso secretismo e tratou-me com uma desconfiança que se aproximava do desprezo.

 

Disse-me que os meus serviços eram necessários, sem demora, para um trabalho que me obrigaria a afastar-me de Roma durante vários dias.

 

Estás metido nalgum sarilho? perguntei-lhe.

 

Não sou eu! rugiu ele. Parecia incapaz de falar num tom de voz aceitável numa casa cujos habitantes estavam todos a dormir. As palavras saíam-lhe da boca numa série de resmungos e ladridos, como alguém que falasse com um escravo rebelde ou com um cão desobediente. Não há língua mais feia do que o Latim, quando é falado desta maneira como ele se fala nas casernas, quero eu dizer, pois, por muito sonolento e muito entorpecido pelo vinho que eu estivesse, começava a fazer algumas deduções acerca do meu visitante não convidado. Disfarçado por trás da sua barba bem tratada, da sua túnica preta, austera mas de aparência dispendiosa, das suas botas de boa qualidade e da sua capa de pelúcia, detectei um soldado, um homem habituado a dar ordens e a ser imediatamente obedecido.

 

Bem disse ele, olhando-me de cima a baixo, como se eu fosse um recruta preguiçoso que tivesse acabado de sair da cama e arrastasse os pés antes da marcha do dia. Vens ou não?

 

Eco, ofendido com esta grosseria, pôs as mãos nas ancas com um ar carregado. Múmio lançou a cabeça para trás e resfolegou, num acesso de impaciência.

 

Eu limpei a garganta.

 

Eco disse eu, traz-me um copo de vinho, por favor. Aquecido, se puderes; vê se os carvões ainda estão a arder na cozinha. Também queres um copo, Marco Múmio? O meu convidado franziu as sobrancelhas e abanou a cabeça rapidamente, como um bom legionário de guarda.

 

Talvez um pouco de cidra aquecida? Não, insisto, Marco Múmio. A noite está fresca. Anda, segue-me até ao meu escritório. Olha, Eco acendeu-nos as lamparinas; ele prevê todas as minhas necessidades. Vem, senta-te, não insisto. Muito bem, Marco Múmio, presumo que tenhas vindo oferecer-me trabalho.

 

No escritório, onde a luz era mais forte, percebi que Múmio parecia gasto e cansado, como se não dormisse bem há algum tempo. Agitou-se na cadeira, mantendo os olhos abertos de uma forma pouco natural. Passado um momento, ergueu-se e começou a andar de um lado para o outro e, quando Eco regressou com a cidra morna, recusou-se a aceitá-la. É o que faz um soldado encarregado de uma longa vigília: evita sentir-se confortável, com receio de que o sono o tome, contra a sua vontade.

 

Sim disse por fim. Vim convocar-te...

 

Convocar-me? Ninguém convoca Gordiano, o Descobridor. Sou um cidadão, não sou escravo nem liberto de ninguém e, tanto quanto sei, Roma ainda é uma república, por muito estranho que isso pareça, e não uma ditadura. Outros cidadãos vêm consultar-me, pedir-me os meus serviços, contratar-me. E normalmente vêm durante o dia. Pelo menos aqueles que são honestos.

 

Múmio parecia estar a esforçar-se enormemente por conter a sua exasperação.

 

Isto é ridículo disse ele. Serás pago, evidentemente, se é isso que te preocupa. De facto, estou autorizado a oferecer-te cinco vezes aquilo que normalmente recebes por dia, considerando os inconvenientes da... viagem disse ele cautelosamente. Cinco dias de honorários garantidos, mais o alojamento e as despesas.

 

Ele captara toda a minha atenção. Pelo canto do olho, vi Eco erguer uma sobrancelha, aconselhando-me a ser esperto; os filhos das ruas aprendem a negociar com dureza.

 

És muito generoso, Marco Múmio, muito generoso disse eu. Claro que talvez não saibas que os meus honorários aumentaram o mês passado. Os preços em Roma estão sempre a subir, com a revolta dos escravos e o invencível Espártaco a alvoroçar o campo, a espalhar o caos...

 

Invencível? Múmio parecia pessoalmente ofendido. Espártaco invencível? Resolveremos isso rapidamente.

 

Invencível quando se confronta com o exército romano, quero eu dizer. Os adeptos de Espártaco derrotaram todos os contingentes enviados contra eles; até enxotaram dois cônsules romanos, que regressaram a casa em desgraça. Suponho que quando Pompeu...

 

Pompeu! Múmio cuspiu o nome.

 

Sim, suponho que quando Pompeu finalmente conseguir trazer as suas tropas de Espanha, a revolta seja rapidamente ultrapassada... Só continuei a divagar porque me parecia que a questão irritava o meu convidado, e eu queria mantê-lo distraído enquanto fazia aumentar o meu preço.

 

Múmio cooperava gloriosamente, andando de um lado para o outro, rangendo os dentes, com um olhar ameaçador. Mas parecia-me que ele não desceria ao nível de coscuvilhar acerca de uma questão tão importante como a revolta dos escravos.

 

Veremos era tudo o que ele murmurava, tentando penosamente interromper-me. Finalmente, ergueu a voz ao nível da ordem e conseguiu efectivamente cortar-me a palavra. Em breve trataremos de Espártaco. Pois bem, estavas a dizer qualquer coisa sobre os teus honorários.

 

Eu limpei a garganta e bebi um golo de vinho morno.

 

Sim. Bem, como eu estava a dizer, com os preços fora de controlo como estão...

 

Sim, sim...

 

Bem, não sei o que é que tu ou o teu empregador ouviram dizer sobre os meus honorários. Não sei quem te indicou o meu nome ou quem me recomendou.

 

Deixa lá isso.

 

Muito bem. Mas disseste que eram cinco vezes...

 

Sim, cinco vezes o que ganhas diariamente!

 

Isso pode ser um tanto exorbitante, considerando que o meu preço normal... Eco passara para trás do homem e apontava com o polegar para cima, para cima, para cima. Oitenta sestércios por dia disse eu, escolhendo um número ao acaso, cerca do dobro do salário que recebia por mês um legionário regular.

 

Múmio olhou para mim com estranheza e, por um momento, eu pensei que tinha ido longe de mais. Ah, bom, se ele se voltasse e saísse lá de casa sem mais uma palavra, pelo menos eu podia regressar para o quente da cama, para o lado de Betesda. De qualquer modo, o mais provável era estar a tentar enganar-me.

 

Depois, ele desatou a rir.

 

Até Eco ficou surpreendido. Por cima do ombro de Múmio, vi-o franzir o sobrolho.

 

Oitenta sestércios por dia disse eu tão serenamente quanto pude, tentando não espelhar a confusão de Eco. Compreendes, não compreendes?

 

Oh, sim disse Múmio com as suas gargalhadas de caserna reduzidas a um sorriso afectado.

 

É cinco vezes isso...

 

Quatrocentos por dia! lançou ele. Eu sei fazer contas. Depois bufou, com um desprezo tão sincero que eu percebi que poderia ter pedido muito mais.

 

É frequente o meu trabalho pôr-me em contacto com as classes abastadas de Roma. Os ricos precisam de advogados nas suas batalhas uns contra os outros; os advogados precisam de informações; obter informações é a minha especialidade. Tenho aceite honorários de advogados como Hortênsio e Cícero, e por vezes directamente de clientes tão distintos como as grandes famílias dos Metelos e dos Messalas. Mas até eles hesitariam perante a ideia de pagar a Gordiano, o Descobridor, um vencimento diário de quatrocentos sestércios. Até que ponto seria abastado o cliente que Marco Múmio representava?

 

Não havia qualquer dúvida de que eu aceitaria este trabalho. O dinheiro garantia que assim fosse Betesda arrulharia com deleite ao ver tanta prata entrar nos cofres da casa, e alguns credores poderiam começar a receber-me com sorrisos, em vez de lançarem os cães atrás de mim. Mas a verdadeira armadilha foi a curiosidade. Eu queria saber quem tinha mandado Marco Múmio bater-me à porta. Apesar de tudo, não queria que ele percebesse que já me tinha conquistado.

 

Esta investigação deve ser muito importante disse eu suavemente, tentando mostrar-me profissionalmente distanciado, enquanto me ressoavam na cabeça correntes de moedas de prata. Quatrocentos sestércios por dia, multiplicados por cinco dias garantidos de trabalho, eram dois mil sestércios. Poderia, pelo menos, mandar arranjar a parede de trás da casa, comprar azulejos novos para mandar substituir os azulejos partidos do átrio, e talvez pudesse mesmo comprar uma nova escrava para ajudar Betesda nas suas tarefas domésticas...

 

Múmio acenou gravemente.

 

É o caso mais importante para que serás alguma vez chamado.

 

E sensível, presumo.

 

Extremamente.

 

Que exige discrição.

 

Muita discrição concordou ele.

 

Presumo que não estarão em causa apenas questões de propriedade. Honra, talvez?

 

Mais do que a honra disse Múmio gravemente, com uma expressão perturbada.

 

É uma vida? Está em causa uma vida? Pela expressão dos seus olhos, eu percebi que estávamos a falar de um caso de assassínio. Honorários gordos, um cliente misterioso, um assassínio as minhas resistências tinham caído. Fiz o possível para que a minha cara se mantivesse desprovida de expressão.

 

Múmio tinha um ar muito grave o ar que os homens têm num campo de batalha, não no ímpeto de excitação que precede a matança, mas depois, no meio da carnificina e do desespero.

 

Não é uma vida disse ele, não é apenas uma vida que está em causa, são muitas vidas. Há centenas de vidas de homens, de mulheres, de crianças no prato da balança. A não ser que se faça qualquer coisa para o impedir, o sangue correrá como água, e o choro dos bebés será ouvido nas próprias Goelas do Hades.

 

Terminei o vinho e pus o copo de lado.

 

Marco Múmio, queres dizer-me afinal quem te mandou, e o que queres que eu faça?

 

Ele abanou a cabeça.

 

Já te disse demasiado. Talvez, quando lá chegarmos, a crise tenha terminado, o problema tenha sido resolvido, e não haja afinal necessidade dos teus serviços. Nesse caso, é melhor que nada saibas, nem agora nem nunca.

 

Não me serão dadas explicações?

 

Nenhuma explicação. Mas serás pago, aconteça o que acontecer.

 

Eu acenei com a cabeça.

 

Quanto tempo estarei fora de Roma?

 

Cinco dias, como já te disse.

 

Pareces muito seguro.

 

Cinco dias garantiu-me ele, e depois podes regressar a Roma. A não ser que seja antes. Mas não será mais do que isso. Dentro de cinco dias, tudo estará acabado, de uma maneira ou de outra, para melhor... ou para pior.

 

Estou a ver disse eu, nada vendo. E exactamente para onde é que vamos?

 

Múmio apertou os lábios.

 

É que disse eu não estou certo de que me apeteça muito ir agora passear pelo campo, sem ter sequer uma ideia do sítio para onde me dirijo. Está a haver uma pequena revolta de escravos; penso que estávamos a discuti-la há uns momentos. As minhas fontes do campo dizem-me que as viagens desnecessárias são altamente desaconselhadas.

 

Estarás a salvo lançou Múmio com autoridade.

 

Tenho então a tua palavra de soldado ou será de ex-soldado? de que não serei colocado em risco táctico?

 

Múmio estreitou os olhos.

 

Já te disse que estarás a salvo.

 

Muito bem. Então penso que deixarei Belbo aqui, para proteger Betesda; tenho a certeza de que o teu empregador poderá fornecer-me um guarda-costas, se eu precisar dele. Mas quero levar Eco comigo. Presumo que a generosidade do teu empregador se alargará a ponto de o alimentar e lhe dar onde dormir?

 

Ele olhou por cima do ombro para Eco, com uma expressão de cepticismo.

 

Ele é apenas um rapaz.

 

Eco tem dezoito anos; há mais de dois anos que vestiu a sua primeira toga de adulto.

 

É mudo, não é?

 

Sim. É o ideal para um soldado, julgo eu. Múmio resmungou.

 

Está bem, podes levá-lo.

 

Quando partimos? perguntei eu.

 

Logo que estejas pronto.

 

Amanhã de manhã?

 

Ele olhou para mim como se eu fosse um legionário preguiçoso que lhe estivesse a pedir para fazer uma sesta antes de uma batalha. A dureza do comandante voltou a fazer-se sentir na sua voz.

 

Não, logo que estejas pronto! Já perdemos muito tempo!

 

Muito bem bocejei eu. Vou só dizer a Betesda para juntar algumas coisas...

 

Não é necessário. Múmio ergueu-se a toda a altura da sua estatura, ainda com um ar cansado, mas satisfeito por estar finalmente a controlar os acontecimentos. Tudo aquilo de que precisares ser-te-á fornecido.

 

Claro; um cliente disposto a pagar quatrocentos sestércios por dia poderia certamente tratar de simples necessidades, como uma muda de roupa ou um pente ou um escravo para me levar as coisas.

 

Então, espera só um momento, para eu me despedir de Betesda.

 

Já ia a sair da sala, quando Múmio limpou a garganta.

 

Só para ter a certeza disse ele, olhando alternadamente para mim e para Eco, presumo que nenhum de vocês enjoe no mar.

 

Mas para onde é que esse homem te leva? exigiu Betesda saber. (Sim, ”exigiu”, apesar do seu estatuto de escrava. Se a sua impertinência vos parece improvável, é porque não conhecem Betesda.) Quem é ele? O que te leva a pensar que podes confiar nele? E se ele tiver sido enviado por um dos teus velhos inimigos, só para te atrair para fora da cidade, para poder cortar-te o pescoço sem ninguém ver?

 

Betesda, se alguém quisesse cortar-me o pescoço, poderia ter muito menos trabalho e fazê-lo aqui mesmo, na Subura. Podiam contratar um assassino numa esquina.

 

Sim, e é por isso que tens Belbo para te proteger. Por que não o levas contigo?

 

Porque prefiro que ele fique aqui, para te proteger, a ti e aos outros escravos, na minha ausência, para não ter de me preocupar contigo enquanto estiver ausente.

 

Mesmo acordada a meio da noite, Betesda estava espectacular. O seu cabelo, preto com fios de prata, contornava-lhe o rosto numa glória despenteada. Embora estivesse maldisposta, mantinha o mesmo ar de imperturbável dignidade que há quinze anos me atraíra no mercado de escravos de Alexandria. Senti uma ponta de dúvida, como sempre acontece quando me separo dela. O mundo era um lugar inseguro e incerto, e a vida que eu escolhi atrai frequentemente o perigo. Há muito que aprendi a não mostrar as minhas dúvidas. Betesda fazia o contrário.

 

É muito dinheiro disse-lhe eu. Ela fungou.

 

Se ele estiver a dizer a verdade.

 

Acho que está. Um homem não sobrevive numa cidade como Roma, como eu tenho sobrevivido, sem ganhar uma certa capacidade de avaliar os outros. Marco Múmio é honesto, tanto quanto pode sê-lo. Admito que não é muito acessível...

 

Mas ele nem sequer te quer dizer quem o enviou!

 

É verdade, mas admite abertamente que não o fará. Por outras palavras, está a dizer a verdade.

 

Betesda fez um ruído insolente com os lábios.

 

Pareces um daqueles oradores para quem costumas trabalhar, como aquele ridículo Cícero, que dizem que a verdade é uma mentira e que uma mentira é a verdade, desde que isso lhes convenha.

 

Eu mordi a língua e inspirei profundamente.

 

Confia em mim, Betesda. Até agora, tenho-me mantido vivo, não tenho? Olhei-a nos olhos e pensei ver um pouco de calor por entre o fogo gelado. Pus-lhe a mão no ombro. Ela enxotou-me e voltou-se para o outro lado. É sempre assim.

 

Aproximei-me dela e pus-lhe as mãos na parte de trás do pescoço, metendo-as por entre as cascatas do seu cabelo. Ela não tinha o direito de me recusar, e não me afastou, mas mostrou-se rígida quando lhe toquei e manteve a cabeça erguida, mesmo quando me inclinei para a beijar numa orelha.

 

Hei-de regressar disse eu. Regresso daqui a cinco dias. Foi o que o homem me prometeu.

 

O seu rosto ficou tenso e o queixo tremeu-lhe. Ela pestanejou rapidamente, e eu observei o leque de rugas que, com o tempo, se formara no canto exterior do seu olho. Ela olhava fixamente para a parede branca que tinha diante de si.

 

Seria diferente se eu soubesse para onde vais.

 

Sorri. Betesda só conhecera duas cidades em toda a sua vida, Alexandria e Roma, e, à excepção da viagem que fizera entre ambas, nunca se aventurara um quilómetro para longe de nenhuma delas. Que lhe interessava se eu ia para Cumas ou para Cartago?

 

Bem suspirei eu, se isso te consola, suspeito de que Eco e eu vamos passar os próximos dias algures nas proximidades de Baias. Já ouviste falar, não ouviste?

 

Ela acenou com a cabeça.

 

É uma região muito bonita, ao longo da costa, para sul disse eu, no interior do cabo de Miseno, na baía a que as pessoas da zona chamam a Taça, do outro lado de Putéolos e Pompeia. Dizem que a vista de Capri e do Vesúvio é esplêndida. Os mais ricos dos ricos constróem lindas casas à beira-mar e tomam banhos de lama quente.

 

Mas como é que sabes para onde vais, se o homem não te disse?

 

Estou a adivinhar.

 

Betesda abrandou ao toque das minhas mãos. Suspirou e eu percebi que tinha aceite a minha partida, juntamente com a perspectiva de ser a dona da casa durante alguns dias, com total comando sobre os outros escravos. Eu sabia, de experiências anteriores, que na minha ausência ela era uma tirana totalmente implacável. Só esperava que Belbo conseguisse aguentar as suas rédeas curtas. A ideia fez-me sorrir.

 

Voltei-me e vi Eco, à minha espera à porta do quarto. Por um instante, o seu rosto exibiu uma expressão de intenso fascínio; depois, ele cruzou os braços e fez rolar os olhos, como que para negar qualquer interesse ou simpatia pelo momento de ternura que interrompera. Eu beijei rapidamente o rosto de Betesda e voltei-me para partir.

 

Marco Múmio percorria o vestíbulo de um lado para o outro, parecendo cansado e impaciente. Ergueu as mãos quando me viu e encaminhou-se rapidamente para a porta, não esperando sequer que eu o apanhasse, e limitando-se a lançar-me um olhar por cima do ombro, para mostrar o que achava de eu perder tanto tempo a dizer adeus a uma mulher, e ainda por cima uma escrava.

 

Descemos apressadamente a encosta inclinada do Esquilino, tentando evitar os buracos à luz da tocha de Eco. No ponto em que o caminho terminava, entrando na Via Subura, estavam à nossa espera quatro cavalos e dois homens.

 

Os homens de Múmio pareciam legionários sem uniforme e agiam como tal. Por baixo das suas capas leves de lã, detectei o brilho dos punhais, o que me fez sentir mais seguro perante a perspectiva de me aventurar pelas ruas de Roma depois de escurecer. Meti a mão dentro da capa e toquei o meu próprio punhal. Múmio dissera-me que atenderiam a todas as minhas necessidades, mas eu preferira trazer a minha própria arma.

 

Múmio não contara com Eco, por isso deram-me a montada mais forte e ele montou atrás de mim, agarrando-se à minha cintura. Onde o meu corpo é largo e compacto, nos ombros e no peito (e, nos últimos anos, também no meio), o de Eco é estreito e seco; o peso que ele acrescentava ao meu quase não seria notado pelo animal.

 

A noite estava morna, sentindo-se no ar apenas um leve fresco de princípio de Outono, mas as ruas estavam quase desertas. Em tempos de perturbação, os Romanos evitam a escuridão e fecham-se dentro de casa ao pôr do Sol, deixando as ruas para os proxenetas, os bêbedos e os sedentos de animação. Assim foi no tumulto das guerras civis e nos anos sombrios da ditadura de Sula; assim era novamente, agora que a revolta de Espártaco era o motivo de conversa de toda a gente. No Fórum, contavam-se histórias aterradoras de aldeias inteiras cujos cidadãos tinham sido dominados e tostados vivos por escravos, que tinham comido os seus antigos senhores ao jantar. Depois do pôr do Sol, os Romanos recusavam convites para festas e desocupavam as ruas. Fechavam-se à chave no quarto, mantendo à distância até os seus escravos de maior confiança enquanto dormiam, e acordavam dos seus pesadelos empapados em suor. O caos estava novamente à solta no mundo e o seu nome era Espártaco.

 

Cavalgámos pela Subura, passando por becos que fediam a urina e a couves podres. Aqui e ali, o nosso caminho era iluminado pelo brilho proveniente de janelas abertas alinhadas em andares superiores salientes; fragmentos de música e de risos embriagados pairavam acima das nossas cabeças, desvanecendo-se atrás de nós. Lá no alto, as estrelas pareciam muito distantes e muito frias, como um sinal do Inverno gelado que se aproximava. O tempo devia estar mais quente em Baias, pensei eu, onde o Verão se demora à sombra do Vesúvio.

 

A Via da Subura desembocou finalmente no Fórum, e os cascos dos nossos cavalos ecoaram estranhamente alto nas praças e nos templos desertos. Contornámos as áreas mais sagradas, que os cavalos não podem pisar, nem sequer de noite, e dirigimo-nos para sul, atravessando o estreito vale entre o Capitólio e o monte Palatino. O cheiro a palha e a excrementos predominava no grande mercado de gado do Fórum Boário, silencioso, à excepção dos ocasionais mugidos dos animais fechados nas suas cercas. O enorme boi de bronze erguia-se acima de nós, no alto do pedestal, uma grande silhueta provida de cornos contra o céu estrelado, como um minotauro gigante equilibrado numa elevação.

 

Dei uma pancada na perna de Eco e ele inclinou-se para diante, aproximando o ouvido dos meus lábios.

 

Tal como eu pensava disse-lhe. Estamos a dirigir-nos para o Tibre. Estás com sono?

 

Ele deu-me duas pancadas enfáticas.

 

Óptimo ri-me eu. Então continua vigilante enquanto descemos o rio até Óstia.

 

À beira-rio, estavam à nossa espera mais homens de Múmio, a quem entregámos os cavalos ao desmontar. Na extremidade do cais mais longo, estava o nosso barco, já pronto. Se, na minha sonolência, eu concebera uma viagem lenta e simpática, descendo o Tibre até à costa, estava enganado. O barco não era o minúsculo esquife que eu imaginara, mas uma pequena lancha com uma dúzia de escravos aos remos, um timoneiro na retaguarda e um dossel ao meio, um navio veloz e forte. Múmio não perdeu tempo a acompanhar-nos a bordo. Os seus guarda-costas seguiram-nos, e partimos imediatamente.

 

Podem dormir, se quiserem disse ele, indicando o espaço por baixo do dossel, para onde tinham sido casualmente atirados uns cobertores. Não é muito luxuoso, e não temos nenhuma escrava para te manter aquecido, mas não tem piolhos. A não ser que tenham sido trazidos por estes. Deu um pontapé no ombro de um dos remadores. Remem! rugiu. E é bom que façam um tempo melhor do que na viagem para cá, senão mando-vos todos definitivamente para o barco grande. Riu-se sem alegria. De regresso ao seu elemento, Múmio começava a mostrar uma personalidade mais jovial, e eu não estava certo de gostar do que via. Pôs um dos seus homens ao comando e deslizou para debaixo dos cobertores.

 

Acorda-me se precisares de mim murmurei eu para Eco, apertando-lhe a mão para ter a certeza de que estava a ouvir-me. Ou dorme, se puderes; duvido de que haja perigo. Depois juntei-me a Múmio por baixo da tenda, acomodando-me na outra extremidade e procurando não pensar na minha própria cama e no corpo quente de Betesda.
Tentei dormir, mas sem grande êxito. O ranger das grilhetas, o bater dos remos na água e a constante agitação do rio contra o fundo do barco acabaram por me embalar numa semi-sonolência irregular, da qual despertei uma vez e outra, sempre ao som do ressonar de Marco Múmio. Da quarta vez que acordei por causa daquele ruído, estendi o pé por debaixo do cobertor e dei-lhe um ligeiro pontapé. Ele parou por um momento e depois recomeçou, fazendo um barulho que parecia o de um homem a ser lentamente estrangulado até à morte. Ouvi umas gargalhadas discretas e apoiei-me nos cotovelos, avistando os seus dois guardas que me sorriam da proa. Estavam perto um do outro, falando em voz baixa, bem acordados. Olhei para trás e vi o timoneiro no seu lugar, um gigante barbudo que me parecia nada ver nem ouvir para além do rio. Eco estava inclinado ali ao pé, olhando para a água por sobre a baixa amurada, semelhante a uma estátua de Narciso que contemplasse o seu reflexo sob o céu estrelado.

 

Finalmente, o ressonar de Múmio acalmou-se e misturou-se com o bater das águas na madeira e o movimento calmo e rítmico dos remadores mas, apesar disso, o abraço profundo e calmante de Morfeu passou-me ao lado. Sacudi-me e voltei-me desconfortavelmente dentro dos cobertores, primeiro com calor, depois com frio, com os pensamentos vogando por vielas sem saída e voltando-se sobre si próprios. A sonolência trouxe consigo uma indolência sem repouso, uma tranquilidade sem vigor; quando finalmente chegámos a Óstia e ao mar, eu era um homem mais embotado do que aquele que Marco Múmio convencera a sair da cama umas horas antes. Na estranha disjunção do espaço e do tempo que me enevoava a mente, imaginei que a noite nunca mais teria fim e que prosseguiríamos para sempre na escuridão.

 

Múmio precedeu-nos da lancha para um cais. Os guarda-costas vieram connosco, mas os remadores ficaram no barco, tossindo exaustos, inclinados sobre os remos. Olhei para trás por um momento, para as suas costas largas e nuas, que se erguiam e brilhavam de suor à luz das estrelas. Um deles inclinou-se sobre a amurada e começou a vomitar. A determinado ponto da viagem, eu deixara de ouvir a sua respiração compassada e o bater regular dos remos; esquecera-me completamente deles, como se esquecem as pás de um moinho. Quem repara numa roda até ela precisar de ser oleada, ou num escravo até ele ficar doente, ou ter fome, ou se mostrar violento? Estremeci e apertei o cobertor à volta dos ombros, para me proteger do ar frio do mar.

 

Múmio conduziu-nos ao longo da margem do rio. Para lá do passeio marginal, ouvia-se o suave bater das ondas contra os postes de madeira. À nossa direita, estava agrupada uma frota de pequenos barcos de rio, presos às docas. À nossa esquerda, erguia-se uma parede baixa de pedra, à qual estavam encostados grades e cestos, numa enorme confusão de sombras. Para lá da parede, ficava a cidade adormecida de Ostia. Aqui e ali, avistei nos andares superiores uma ou outra janela iluminada e, a intervalos, lamparinas presas aos muros da cidade, mas para além de nós não se via vivalma. A luz pregava estranhas partidas; imaginei que via uma família de pedintes amontoada a um canto, depois vi uma ratazana sair a correr do monte, que se transformou diante dos meus olhos em nada mais do que uma pilha de trapos.

 

Tropecei numa tábua solta. Eco agarrou-me no ombro para me equilibrar, e depois Múmio quase me deitou ao chão com a palmada que me deu nas costas.

 

Não dormiste o suficiente? bramiu na sua voz de caserna. Eu consigo aguentar-me com duas horas por dia. No exército, aprendemos a dormir de pé, e mesmo em marcha, se for necessário.

 

Acenei pesadamente. Passámos por armazéns e paredões, por mercados e estaleiros fechados. O cheiro a sal tornava-se cada vez mais intenso, e o vago murmúrio do mar juntava-se ao movimento constante do rio. Chegámos à extremidade das docas, onde o Tibre se alarga abruptamente e desemboca no mar. Os muros da cidade viravam para sul, e diante de nós abria-se um amplo panorama de águas calmas iluminadas pelas estrelas. Aqui, estava à nossa espera outro navio, de maiores dimensões. Múmio precedeu-nos pelas escadas abaixo, até ao porão. Rugiu ao vigilante e o barco pôs-se em movimento.

 

A doca afastou-se. As ondas começaram a erguer-se à nossa volta. Eco pareceu assustado e agarrou-se à minha manga.

 

Não te preocupes disse-lhe eu. Não vamos ficar neste barco durante muito tempo.

 

Momentos depois, enquanto navegávamos à volta de um promontório baixo e rochoso, avistámos o navio.

 

Um trirreme! murmurei eu.

 

Chama-se Fúria disse Múmio, vendo a minha surpresa e sorrindo com orgulho.

 

Eu esperava um navio grande, mas não tão grande. No convés erguiam-se três mastros, com as velas soltas. Três fileiras de remos projectavam-se do seu interior. Não parecia possível que um monstro pesado como este tivesse sido enviado para ir buscar um único homem. Múmio acendeu uma tocha e acenou com ela por cima da cabeça. No convés, acendeu-se outra tocha, que também acenou. À medida que nos aproximávamos, começaram subitamente a reunir-se homens no convés e a subir aos mastros, silenciosos como fantasmas à luz das estrelas. Os remos, retirados da água, estenderam-se como as patas palpitantes de uma centopeia e mergulharam fundo. As velas foram desenroladas e enfunaram-se à brisa suave. Múmio molhou o dedo e ergueu-o.

 

Não há muito vento, mas é regular e de sul. Óptimo! Aproximámo-nos de través. Foi descida uma escada de corda. Eco trepou primeiro e eu segui-o. Marco Múmio foi o último, e puxou a escada atrás de si. O barco mais pequeno afastou-se, regressando a Óstia. Múmio andava rapidamente de um lado para o outro no convés do navio, dando ordens. O Fúria ergueu-se e oscilou de um lado para o outro. O ritmo constante dos remadores que gemiam em uníssono chegava até nós através das tábuas de madeira e, do outro lado, ouviu-se uma pancada na água quando o primeiro golpe cortou as ondas. Eu olhei para trás, para Óstia, para a estreita praia que se estendia diante da cidade e para os telhados das casas que se erguiam acima das muralhas. A cidade ia ficando para trás com assombrosa rapidez, à medida que aumentava a extensão de água escura. Roma pareceu-me subitamente muito distante.

 

Marco Múmio, ocupado com a tripulação, ignorou-nos. Eco e eu descobrimos um lugar calmo e fizemos o possível por dormir, encostando-nos um ao outro e agasalhando-nos nos cobertores, para nos protegermos do frio do mar alto.

 

Subitamente, Múmio abanou-me para me acordar.

 

O que estás a fazer no convés? Um citadino mimado como tu não tarda a apanhar uma febre e a morrer por causa desta humidade. Venham daí os dois, há um quarto na popa onde se podem deitar.

 

Seguimo-lo, tropeçando em rolos de corda e em alçapões escondidos. Para leste, os primeiros raios da madrugada erguiam-se sobre as colinas. Múmio fez-nos descer um curto lance de escadas, conduzindo-nos para dentro de uma sala minúscula com duas enxergas, dispostas lado a lado. Eu atirei-me para cima da mais próxima e estremeci em consequência do agradável choque de me sentir submerso num colchão espesso de excelentes penas de ganso. Eco deitou-se na outra e começou a bocejar e a estender-se como um gato. Eu enrolei o cobertor à volta do pescoço, já meio a dormir, e perguntei a mim próprio, vagamente, se Múmio nos teria permitido usar o seu próprio compartimento.

 

Abri os olhos e vi-o de pé, de braços cruzados, encostado à parede do corredor. O seu rosto mal se via na pálida luz da madrugada mas, pelo suave batimento das suas pálpebras e pelo abrandamento do seu queixo, não podia haver dúvidas de que Marco Múmio, um soldado honesto que não gostava de se gabar, dormia profundamente e sonhava, de pé.

 

Acordei sobressaltado, sem saber onde me encontrava. Devia ser de manhã porque, embora fosse dissoluto, eu raramente dormia até à tarde, mas a forte luz do Sol que entrava pela janela, acima da minha cabeça, tinha a suave qualidade da luz da tarde do início do Outono. A terra parecia estremecer, mas não com a súbita convulsão de um terramoto. A casa rangia e gemia à minha volta e, quando comecei a levantar-me, senti os ombros afundarem-se numa enorme e interminável almofada de penas.

 

Uma voz vagamente familiar entrou pela vigia acima da minha cabeça, uma voz áspera de soldado gritando ordens, e imediatamente me recordei de tudo.

 

Ao meu lado, Eco resmungou e pestanejou. Eu consegui erguer-me e sentar-me na borda da cama, que parecia estar a tentar empurrar-me para trás, para a bruma de suavidade e abandono daquela luxuosa montanha de penas. Abanei a cabeça para aclará-la. Vi um jarro de água enganchado num suporte na parede. Peguei nele por ambas as pegas e bebi um pouco, depois enchi as mãos de água para salpicar a cara.

 

Não a desperdices bramiu uma voz. Isso é água doce do Tibre. É para beber, não é para te lavares. Olhei para cima, e vi Marco Múmio de pé na ombreira da porta, de braços cruzados, parecendo desperto e alerta e exibindo o sorriso superior daqueles que se levantam cedo. Tinha vestido o seu traje militar, uma túnica de linho encarnado e de couro encarnado por baixo de uma armadura de cota de malha.

 

Que horas são?

 

Passam duas horas do meio-dia. Ou, como vocês dizem em terra, é a nona hora do dia. Ainda não paraste de dormir e ressonar desde que te deitaste nessa cama, a noite passada. Ele abanou a cabeça. Não devia ser permitido a um verdadeiro romano dormir numa cama tão macia. Na minha opinião, esse género de tolices devia ser para os Egípcios, que são uns extravagantes. Pensei que tivesses adoecido, mas dizem-me que os homens que estão à beira da morte nunca ressonam, por isso achei que não devia ser muito grave. Riu-se, e eu permiti-me a sinistra fantasia de o imaginar a ser subitamente trespassado por uma extravagante lança egípcia. Voltei a abanar a cabeça.

 

Quanto tempo falta? Neste navio, quero eu dizer. Ele franziu a testa.

 

Isso seria revelador, não seria? Eu suspirei.

 

Então responde-me a isto: daqui a quanto tempo chegaremos a Baias?

 

Múmio pareceu subitamente enjoado.

 

Eu não te disse...

 

Claro que não disseste. És um bom soldado, Marco Múmio, e não me contaste nada que tivesses jurado ocultar-me. Ainda assim, tenho curiosidade em saber quando chegaremos a Baias.

 

O que te leva a pensar...

 

Eu penso, Marco Múmio, é exactamente isso. Dificilmente seria o homem que o teu empregador procura se não conseguisse desvendar um mistério tão simples como o do nosso destino. Primeiro, estamos sem dúvida nenhuma a dirigir-nos para sul; não sou grande marinheiro, mas sei que o Sol nasce a oriente e se põe a ocidente e, dado que o Sol da tarde está à nossa direita e a costa à nossa esquerda, deduzo que estejamos a navegar para sul. Tendo em conta que me prometeste que o meu trabalho não demoraria mais do que cinco dias, dificilmente poderemos estar a dirigir-nos para fora de Itália. Para que outro sítio poderemos estar a dirigir-nos, senão para uma cidade situada na costa sul, e muito provavelmente na Taça? Oh, talvez não tenha tido razão ao escolher Baias; também pode ser Putéolos, ou Nápoles, ou mesmo Pompeia, mas julgo que não. Uma pessoa tão rica como o teu empregador disposto a pagar-me o quíntuplo dos meus honorários sem pestanejar, é capaz de enviar um navio deste tamanho para o que parece ser o cumprimento de um capricho uma pessoa tão rica tem de ter uma casa em Baias, porque Baias é o sítio onde qualquer romano que tenha dinheiro para isso constrói a sua villa para o Verão. Além disso, ontem disseste qualquer coisa sobre as Goelas do Hades.

 

Eu nunca...

 

Sim, disseste que estavam em causa muitas vidas, e falaste de bebés a chorar nas Goelas do Hades. Podias estar a falar em metáforas, claro, como um poeta, mas suspeito de que existe na tua alma uma conspícua ausência de poesia, Marco Múmio. Empunhas uma espada, e não uma lira, de maneira que, quando falaste das ”Goelas do Hades”, estavas a falar literalmente. Nunca as vi pessoalmente, mas os colonos gregos que originalmente se instalaram à volta da Taça julgavam ter localizado a entrada para o mundo subterrâneo numa cratera sulfurosa chamada lago Averno também conhecido pelo nome de Goelas do Hades, dado que Hades é a palavra com que os Gregos denominam o mundo subterrâneo, a que os Romanos antigos ainda chamam Orço. Pelo que me disseram, o lugar fica a curta distância das melhores casas de Baias.

 

Múmio olhou para mim argutamente.

 

És muito esperto disse por fim. Talvez valhas os teus honorários, afinal de contas. Não detectei qualquer sarcasmo na sua voz. Havia nela antes uma espécie de tristeza, como se ele realmente tivesse esperança de que eu fosse bem-sucedido na minha tarefa, mas estivesse à espera de que fracassasse.

 

Momentos depois, Múmio afastava-se emproado da porta, bramindo por cima do ombro.

 

Calculo que tenham fome, depois de terem ressonado o dia inteiro. Há comida na cabina da messe, a meio do navio, provavelmente melhor do que aquela a que estão habituados em vossa casa. É demasiadamente boa para mim eu prefiro uma taça de vinho aguado e uma crosta de pão duro, mas o dono manda vir sempre o melhor, ou aquilo que os mercadores lhe dizem que é o melhor, quer dizer, aquilo que é mais caro. Depois de comerem, podem fazer uma grande sesta. Riu-se. É melhor mesmo, se estiverem acordados só incomodam. Os passageiros são completamente inúteis num navio. Não têm muito que fazer. O melhor é fingirem que são um saco de trigo e arranjarem um sítio onde possam ganhar bolor. Venham comigo.

 

Ao mudar de assunto, Marco Múmio evitara confirmar que Baias era o nosso destino. Não valia a pena insistir; eu já sabia para onde nos dirigíamos, e agora pesava-me na mente uma questão mais importante, pois começava a suspeitar de que conhecia a identidade do meu misterioso novo empregador. Quem poderia dar-se ao luxo de proporcionar um meio de transporte tão faustoso a um mero contratado, ainda por cima com a fraca reputação de Gordiano, o Descobridor? Talvez Pompeu, que poderia orientar este género de recursos para uma fantasia privada, mas Pompeu estava em Espanha. Quem seria então, senão o homem que tinha fama de ser o mais rico romano sobre a Terra, ou mesmo o mais rico romano de sempre mas que poderia Marco Lúcio Crasso querer de mim, quando possuía cidades inteiras de escravos e podia comprar os serviços de qualquer homem livre que desejasse?

 

Poderia ter importunado Múmio com mais perguntas, mas decidi que já tinha experimentado suficientemente a sua paciência. Segui-o para o sol da tarde e chegou até mim o odor a cordeiro assado, transportado pela tonificante brisa marítima. O meu estômago rugiu como um leão, e eu abandonei a curiosidade para satisfazer um apetite mais premente.

 

Múmio não tinha razão ao pensar que eu me aborreceria por nada ter para fazer a bordo do Fúria, pelo menos enquanto o Sol se não tivesse posto. A vista sempre diferente da costa de Itália, os gritos das gaivotas, lá no alto, o trabalho dos marinheiros, o brilho do sol sobre as águas, os cardumes de peixes que corriam abaixo da superfície, o ar fresco e picante de um dia que já não era de Verão, mas ainda não era bem de Outono tudo isto era mais do que suficiente para me ocupar, enquanto o Sol se ia pondo.

 

Eco estava ainda mais extasiado. Tudo o fascinava. Um par de golfinhos aproximou-se de nós ao lusco-fusco, nadando ao lado do navio até escurecer, saltando alegremente no rasto de espuma por ele deixado. Por vezes, parecia estarem a rir-se como homens, e Eco imitava esse som em resposta, como se partilhasse um segredo com eles. Quando finalmente desapareceram por baixo da espuma, para não regressarem, ele foi deitar-se a sorrir e adormeceu imediatamente.

 

Eu não tive tanta sorte. Tendo passado a maior parte do dia a dormir, confrontei-me com a perspectiva de uma noite sem sono. Durante algum tempo, as sombras da costa e o brilho das estrelas na água encantaram-me quase tanto como me encantara a tarde luminosa, mas depois a noite arrefeceu, e eu recolhi à cama. Marco Múmio tinha razão: a cama era demasiadamente mole, ou o cobertor era excessivamente áspero, ou então a fraca luz das estrelas que entrava pela vigia distraía-me e os ruídos que Eco fazia a dormir, imitando o riso dos golfinhos, feriam-me os ouvidos. Não conseguia dormir.

 

Depois ouvi o tambor. Vinha de algures, de baixo, numas batidas surdas e palpitantes, mais lentas do que o meu pulso, mas igualmente constantes. Na noite anterior, estava de tal maneira exausto, que não o tinha ouvido; agora, parecia-me impossível ignorá-lo. Era o tambor que dirigia os escravos que manejavam os remos, no convés inferior, estabelecendo o ritmo que fazia o navio aproximar-se cada vez mais de Baias. Quanto mais tentava não o ouvir, mais fortemente ele parecia atravessar as tábuas e chegar até mim, batendo, batendo, batendo. Quanto mais eu me mexia e me virava, mais o sono parecia recuar para longe.

 

Dei por mim tentando recordar-me do rosto de Marco Crasso, o homem mais rico de Roma. Vira-o uma centena de vezes no Fórum, mas o seu rosto escapava-me. Contei dinheiro mentalmente, imaginando o suave tinir das moedas numa bolsa, e gastando os meus honorários uma dúzia de vezes. Pensei em Betesda; imaginei-a a dormir sozinha, com o gatinho enrolado de encontro ao seio, e percorri de memória toda a minha casa em Roma, passeando de quarto em quarto, como um fantasma invisível que tivesse montado guarda. Abruptamente, formou-se na minha mente uma imagem espontânea, de Belbo atravessado no portal num estupor embriagado, com a porta aberta para trás, para qualquer ladrão e assassino por ela entrar...

 

Tive um sobressalto e sentei-me. Eco voltou-se, a dormir, e rangeu os dentes. Eu calcei os sapatos, enrolei o cobertor à minha volta como uma capa e voltei ao convés.

 

Aqui e ali, os marinheiros dormiam amontoados. Alguns passeavam pelo convés, vigilantes e atentos a qualquer perigo, proveniente do mar ou de terra. Uma brisa regular soprava de norte, enfunando as velas e arrepiando-me nos pontos dos braços e das pernas que o cobertor não tapava. Dei uma volta pelo convés, depois percebi que estava junto do portal situado a meio do navio, que conduzia à cozinha.

 

É curioso que um homem possa viajar em diversos navios ao longo da sua vida, sem nunca se preocupar com a oculta energia motora que os faz mover, mas é assim que muitas pessoas vivem a sua vida, todos os dias os homens comem e vestem-se e tratam dos seus assuntos, sem nunca pensarem no suor de todos os escravos que trabalham para moer o trigo e tecer os tecidos e pavimentar as estradas, não pensando nessas coisas como não pensam no sangue que lhes aquece o corpo ou no muco que lhes aconchega o cérebro.

 

Atravessei o portal e desci as escadas. Instantaneamente, uma onda de calor atingiu-me o rosto, quente e sufocante como vapor. Ouvi o bater palpitante do tambor e o movimento de muitos homens. Cheirei-os antes de os ver. Todos os odores que o corpo humano é capaz de produzir estavam concentrados naquele espaço fechado, erguendo-se no ar como o bafo de demónios proveniente de um poço sulfuroso. Desci mais um degrau e entrei num mundo de cadáveres vivos, pensando que as Goelas do Hades dificilmente poderiam conduzir a um mundo infernal mais terrível do que este.

 

O sítio era uma espécie de caverna longa e estreita. Aqui e ali, lamparinas suspensas do tecto lançavam uma luz sinistra sobre os corpos pálidos e nus dos remadores. A princípio, na obscuridade, apenas avistei uma impressão de movimentos ondulantes a toda a minha volta, como contorções de macacos. À medida que os meus olhos se ajustavam, fui-me apercebendo lentamente dos pormenores.

 

No centro, havia uma ilha estreita, semelhante a uma ponte suspensa. De cada um dos lados da ponte, os escravos estavam organizados em bancadas, que formavam três degraus. Aqueles que estavam encostados ao casco podiam ficar sentados no seu lugar, dispendendo um esforço mínimo para mover os seus remos, que eram curtos. Os do meio estavam sentados mais acima, e tinham de se abraçar a um apoio de pés a cada movimento para trás, e depois erguer-se dos seus lugares para empurrar os remos para diante. Os da ilha eram os mais infelizes. Corriam ao longo da passagem, movendo-se para trás e para diante para obrigarem os seus remos a fazer um grande círculo, esticando-se em bicos dos pés a toda a extensão do seu corpo, depois ajoelhando-se e inclinando-se para diante para tirar os remos da água. Cada escravo estava preso ao seu remo por uma enferrujada cadeia que tinha à volta do pulso.

 

Eram centenas, amontoados em cima uns dos outros, esfregando-se uns contra os outros quando empurravam e puxavam e se esticavam. Pensei em bois ou em cabras, comprimidos numa cerca, mas os animais movem-se sem objectivos. Aqui, cada homem era uma pequena roda de uma vasta máquina em constante movimento, que se movia ao som do tambor.

 

Voltei-me e vi na popa o homem do tambor, sentado num pequeno banco que devia estar colocado mesmo por baixo da minha cama. Tinha as pernas abertas, e os joelhos seguravam os bordos de um tambor baixo e largo. Tinha umas correias enroladas à volta das mãos e, na extremidade de cada correia, uma bola de pele. Erguia as bolas no ar, uma a seguir à outra, e fazia-as descer contra a pele do tambor, emitindo um batimento baixo que palpitava no ar quente e denso. Estava sentado de olhos fechados, com um vago sorriso no rosto, como se estivesse a sonhar, mas o ritmo nunca se alterava.

 

A seu lado, erguia-se outro homem, vestido de soldado e com um longo chicote na mão direita. Olhou-me carrancudo quando me viu, e depois fez estalar o chicote no ar, como que para me impressionar. Os escravos que estavam mais perto dele estremeceram e alguns gemeram, como se tivesse passado sobre eles uma onda de dor.

 

Apertei o cobertor diante da boca e do nariz para filtrar o fedor. Quando a luz da lamparina penetrou no labirinto de passagens e de pés presos com grilhetas, vi que o fundo do porão estava inundado de uma mistura de fezes, de urina, de vómito e de pedaços de comida podre. Como é que eles aguentavam? Habituar-se-iam àquilo com o passar do tempo, como os homens se habituam ao tinido das grilhetas? Ou nunca deixariam de se sentir nauseados, como eu próprio me sentia?

 

Há no Oriente seitas religiosas que postulam domicílios de castigo eterno para as sombras dos perversos. Os seus deuses não se contentam em ver um homem sofrer neste mundo, estão dispostos a persegui-lo com o fogo e com tormentos no próximo. Nada sei acerca disso, mas sei que, se existe algum lugar de condenação aqui na Terra, é certamente nas entranhas de uma galera romana, onde os homens são obrigados a trabalhar até arruinarem os seus corpos, por entre o fedor do seu próprio suor, do seu vomitado e das suas excreções, angustiadamente confrontados até ao fim com o maníaco e incessante pulsar do tambor. Transformar-se em mero combustível, ser consumido, esgotado e descartado sem a menor preocupação, é certamente a condenação mais horrível que alguém pode sofrer.

 

Dizem que a maioria dos homens morre depois de passar três ou quatro anos nas galeras; os que têm sorte morrem mais cedo. Um prisioneiro cativo ou um escravo acusado de roubo pode escolher entre ir para as minas ou tornar-se gladiador, antes de ir servir nas galeras. De entre todas as sentenças cruéis que podem ser impostas a um homem, a escravatura nas galeras é considerada a mais cruel. A morte chega, mas só depois de as derradeiras forças terem sido espremidas do corpo de um homem e de toda a sua dignidade ter sido aniquilada pelo sofrimento e pelo desespero.

 

Nas galeras, os homens transformam-se em monstros. Alguns capitães de navios nunca fazem rotação das posições dos escravos; um homem colocado dia após dia, mês após mês no mesmo local, especialmente se estiver na passagem, desenvolve grandes músculos num dos lados do seu corpo, completamente desproporcionados relativamente ao outro. Ao mesmo tempo, a sua carne torna-se pálida como a de um peixe, por falta de luz do Sol. Se um homem destes escapa, é facilmente detectado por causa da sua deformidade. Certa vez, vi na Subura uma tropa de guardas privados arrastarem um homem assim para fora de um bordel, nu e aos gritos. Eco, que na altura era apenas um rapaz, ficou horrorizado com a aparência do homem e, depois de eu lhe ter explicado do que se tratava, começou a chorar.

 

Mas os homens também se transformam em deuses nas galeras. Crasso, se era de facto ele o dono deste barco, tinha o cuidado de rodar os seus remadores, ou então gastava-os mais rapidamente do que a maioria, porque não avistei monstros desequilibrados entre eles. O que vi foram jovens de peitos fundos e grandes ombros e braços, e entre eles alguns sobreviventes mais velhos, com físicos ainda mais compactos, como uma tripulação de Apolos barbados, com um Hércules encanecido aqui e ali, pelo menos do pescoço para baixo. Acima do pescoço, os seus rostos eram demasiadamente humanos, retorcidos de cautela e sofrimento.

 

À medida que eu ia olhando para cada um deles, a maioria desviava os olhos, como se a minha atenção pudesse feri-los tão profundamente como os açoites do senhor do chicote. Mas alguns atreveram-se a devolver-me o olhar. Vi olhos amortecidos por um trabalho e uma monotonia sem fim; olhos invejosos de um homem que possuía a simples liberdade de ir para onde lhe apetecia, de enxugar o suor do rosto, de se limpar depois de defecar. Em alguns olhos, vi espreitar o medo e o ódio, e noutros uma espécie de fascínio, quase uma cobiça, o tipo de olhar vazio que um homem faminto poderia lançar a um glutão.

 

Tomou conta de mim uma espécie de febre, quente e arrebatadora, enquanto atravessava a longa ilha central por entre os escravos nus, com as narinas cheias do cheiro da sua carne, a pele inundada pelo calor húmido dos seus corpos em esforço, os meus olhos vagueando por entre a enorme congregação de dor em constante movimento na escuridão. Eu era um homem que sonhava, observando outros homens mergulhados num pesadelo.

 

Longe da plataforma do tocador de tambor e da escada central, havia menos lamparinas mas, aqui e ali, um raio de luar conseguia abrir caminho até ao lúgubre porão, luzindo com um azul-prateado nos braços e nas costas brilhantes de suor dos remadores, cintilando nas grilhetas que lhes mantinham as mãos presas aos lugares, por cima dos remos. O monótono bater do tambor tornou-se menos forte, à medida que dele me afastava, mas prosseguiu, lento e constante, estabelecendo um andamento nocturno fácil, com um ritmo constante tão hipnótico como o murmúrio sibilante das ondas batendo contra a proa.

 

Cheguei ao fim do estrado. Voltei-me e olhei para trás, para a multidão em labor. Subitamente, percebi que já tinha visto o suficiente; dirigi-me apressadamente para a saída. À minha frente, iluminado pelas lamparinas como se estivesse num palco, vi o senhor do chicote olhar na minha direcção e acenar com um ar conhecedor. Mesmo à distância, pude perceber o desdém no seu rosto. Este era o seu domínio; eu era um intruso, um curioso, demasiadamente mole e mimado para um local como aquele. Fez estalar o chicote sobre a cabeça em minha honra e sorriu à onda de gemidos que passou pelos escravos que se encontravam a seus pés.

 

Pus um pé no primeiro degrau e teria prosseguido, mas fui detido por um rosto que avistei à luz da lamparina. O rapaz deve ter-me recordado Eco, e foi por isso que reparei no seu rosto, no meio dos restantes. Ele ocupava um lugar na bancada superior, ao longo da ilha. Quando se voltou para olhar para mim, um raio de luar incidiu na sua cara, fazendo com que metade ficasse iluminada pelo luar e a outra metade pela luz da lamparina, metade azul-clara e metade cor de laranja. Apesar dos seus ombros e do seu peito maciços, pouco mais era do que uma criança. Juntamente com a sujidade que lhe empestava a cara e o sofrimento que lhe enchia os olhos, havia nele uma estranha expressão de inocência. As suas feições escuras eram estranhamente belas, tinha o nariz e a boca proeminentes e nos seus grandes olhos negros uma sugestão do Oriente. Enquanto eu o estudava ao luar, ele atreveu-se a devolver-me o olhar, e depois sorriu um sorriso triste e patético, tentativo e temeroso.

 

Pensei quão facilmente Eco poderia ter acabado num lugar como aquele, se eu não o tivesse descoberto e levado para casa naquele dia, há muito tempo um rapaz forte, sem língua nem família que o defendesse podia perfeitamente ter-se transviado e ter sido vendido em leilão. Voltei a olhar para o rapaz. Tentei corresponder ao seu sorriso, mas não fui capaz.

 

Subitamente, um homem desceu as escadas e passou por mim com brusquidão, dirigindo-se depois apressadamente para a popa. Gritou qualquer coisa e o tambor acelerou abruptamente para o dobro do ritmo. Houve um grande solavanco, quando o navio avançou. Eu caí contra o corrimão da escada. O aumento de velocidade foi espantoso.

 

O tambor soava cada vez mais alto, cada vez mais rapidamente. O mensageiro voltou a passar apressadamente por mim, dirigindo-se para o convés. Eu agarrei-lhe na manga da túnica.

 

Piratas! disse ele, com um tom teatral. Dois navios deslizaram para fora de uma caverna escondida quando passámos. Estão neste momento a perseguir-nos. Tinha uma expressão sinistra mas, quando se soltou da minha mão, pareceu-me vê-lo rir-se, o que me espantou extraordinariamente.

 

Comecei a subir atrás dele, depois parei, fascinado com o súbito espectáculo que me rodeava. O tambor batia mais depressa. Os remadores gemiam e seguiam o ritmo. O senhor do chicote pavoneava-se pela ilha. Fazia estalar o chicote no ar, estendendo o braço. Os remadores aninhavam-se com medo.

 

O ritmo aumentou. Os remadores das extremidades do barco conseguiam manter-se nos seus lugares, mas aqueles que se encontravam na ilha foram abruptamente obrigados a pôr-se em bicos de pés por causa do aumento do movimento dos remos, esforçando-se por manter o ritmo, esticando os braços para o ar, para manter controlados os remos giratórios. Agrilhoados à madeira, não tinham alternativa.

 

O ritmo acelerou ainda mais. A vasta máquina rodava a toda a velocidade. Os remos moviam-se em grandes círculos, a um ritmo louco. Os escravos lançavam-nos com toda a força de que dispunham. Horrorizado, mas incapaz de desviar os olhos, eu estudava as caras esforçadas dentes cerrados, olhos ardentes de medo e confusão.

 

Ouviu-se uma pancada forte e um estalido, como se algum dos enormes remos tivesse subitamente escapado, tão perto de mim, que eu tapei a cara. Nesse mesmo instante, o rapaz que me tinha sorrido inclinou a cabeça para trás. A sua boca abriu-se num grito silencioso.

 

O senhor do chicote voltou a erguer o braço. O látego deslizou pelo ar. O rapaz guinchou como se se tivesse escaldado. Eu vi o chicote pousar sobre os seus ombros nus. Ele vacilou contra o remo, tropeçando na passagem. Durante um longo momento, manteve-se suspenso das grilhetas que tinha à volta dos pulsos, enquanto era empurrado para diante, para trás e novamente para diante. Quando se encontrava no ponto mais elevado, tentando desesperadamente retomar o equilíbrio, o chicote voltou a pousar sobre as suas coxas.

 

O rapaz gritou, convulsionou-se e voltou a cair. O remo obrigou-o a nova revolução. Fosse como fosse, recuperou o ritmo e juntou o seu esforço ao dos outros, com todos os músculos tensos. O chicote voltou a estalar. O tambor ressoou. O chicote ergueu-se e caiu. Guinchando e arquejando por causa da dor, o rapaz dançou espasmodicamente. Os seus ombros largos convulsionaram-se ao ritmo do senhor do chicote, fora de tempo relativamente à grande máquina. O seu rosto contorceu-se de agonia. Chorava como uma criança. O senhor do chicote bateu-lhe mais uma vez, e outra.

 

Eu olhei para o homem. Ele sorriu-me lugubremente, exibindo uma boca cheia de dentes podres, depois voltou-se e atingiu as costas dos esforçados escravos. Olhou-me nos olhos e voltou a erguer o chicote, como que desafiando-me a intervir. A uma só voz, os remadores gemeram, como membros de um coro trágico. Eu olhei para o rapaz, que não cessara de remar. Ele devolveu-me o olhar, e moveu os lábios, incapaz de falar.

 

Subitamente, ouvi passos vindos do alto. O mensageiro regressou, erguendo a mão aberta num sinal ao tocador de tambor.

 

Já passou! Já passou! gritou ele.

 

O ressoar do tambor cessou abruptamente. Os remos ficaram quietos. O súbito silêncio apenas era quebrado pelo bater das ondas contra o navio, o estalar da madeira e a respiração rouca e arquejante dos remadores. Aos meus pés, o rapaz jazia esgotado em cima do remo, afogado em soluços. Olhei para baixo, para as suas costas largas de músculos salientes, lívidas de vergões. As feridas recentes cobriam uma acumulação de cicatrizes mais antigas; não era a primeira vez que o senhor do chicote o escolhia.

 

Subitamente, deixei de ver e de ouvir o que quer que fosse; o cheiro tomou conta de mim, como se o suor de tantos corpos empacotados uns contra os outros tivesse transformado o ar fétido em veneno. Empurrei o mensageiro para o lado e subi apressadamente as escadas, até ao ar fresco. À luz das estrelas, inclinei-me por cima da amurada e esvaziei o estômago.

 

Depois olhei em volta, desorientado, fraco, desgostoso. Os homens do convés estavam ocupados a retirar a vela auxiliar do segundo mastro. As águas estavam calmas, a costa era escura e silenciosa.

 

Marco Múmio viu-me e aproximou-se de mim. Estava muito bem-disposto.

 

Deitaste fora o jantar, eh? Às vezes acontece, quando avançamos a grande velocidade e temos o estômago cheio. Disse ao dono para não trazer provisões tão ricas. Prefiro despejar um estômago cheio de pão e água do que um estômago cheio de carne semimastigada e de bílis.

 

Eu limpei o queixo.

 

Quer dizer que os deixámos ficar para trás? Que o perigo passou?

 

Múmio encolheu os ombros.

 

Por assim dizer.

 

O que queres dizer? Olhei para a popa. Atrás de nós, o mar estava vazio. Quantos eram? Para onde foram?

 

Oh, havia pelo menos um milhar de navios, todos com bandeiras de piratas. E agora regressaram ao Hades, que é onde devem estar. Viu a minha expressão e riu-se. São piratas fantasmas explicou-me. Espíritos do mar.

 

O quê? Não compreendo. Os homens do mar são supersticiosos, mas eu não conseguia acreditar que Múmio quase tivesse morto os escravos da galera para evitar uns quantos vapores marinhos ou uma baleia perdida.

 

Mas Múmio não era louco; era pior do que isso.

 

Foi um treino disse ele por fim, abanando a cabeça e dando-me uma palmada nas costas, como se fosse uma piada que eu era demasiadamente estúpido para compreender.

 

Um treino?

 

Sim! Um treino, um exercício. De vez em quando é necessário fazer exercícios, especialmente num navio não militar como o Fúria, para ter a certeza de que toda a gente está a postos. Pelo menos é assim que as coisas funcionam com... Começou a dizer o nome, depois conteve-se. Com o meu comandante terminou. Quando o fazemos à noite, os escravos são mesmo apanhados de surpresa!

 

Um treino? repeti eu estupidamente. Quer dizer que não havia piratas nenhuns? Que foi tudo desnecessário? Mas os escravos lá em baixo estão em farrapos...

 

Óptimo! disse Múmio, erguendo o queixo. ”Os escravos de um senhor romano têm de estar sempre preparados, têm de ser sempre fortes. Senão, não servem para nada.” As palavras não eram suas; ele estava a citar alguém. Que tipo de homem mandava em Marco Múmio e podia dar-se ao luxo de ser tão desregrado com as suas ferramentas humanas?

 

Olhei para os remos que se projectavam do Fúria, imóveis, suspensos sobre as águas. Momentos depois, os remos agitaram-se e mergulharam nas ondas. Tinha sido concedida uma curta pausa aos escravos, que agora voltavam ao trabalho.

 

Eu ergui a cabeça, inspirei fundo o ar salgado e desejei estar em Roma, a dormir nos braços de Betesda.

 

Fui despertado por uma cotovelada entre as costelas. Eco estava de pé ao meu lado, indicando-me por gestos que me levantasse.

 

O sol lançava os seus raios pela vigia. Pus-me de joelhos no colchão e olhei para fora, vendo terra perto, com habitações aqui e ali, por entre as escarpas rochosas. Os edifícios situados mais abaixo, junto da água, eram coisas desmanteladas, habitações humildes, amontoados de pedaços de madeira engrinaldados de redes e rodeados por pequenos estaleiros. Os edifícios situados mais acima eram marcadamente diferentes enormes villas com colunas brancas e latadas de vinhas.

 

Ergui-me e espreguicei-me o melhor que pude naquele quarto apertado. Salpiquei a cara com água, sorvi um grande golo, bochechei com ele para lavar a língua e cuspi-o pela vigia. Eco já me tinha preparado a minha melhor túnica. Enquanto eu me vestia, ele penteou-me e depois fez de barbeiro. Quando o navio dava um pequeno safanão, eu sustinha a respiração, mas ele não me cortou uma só vez.

 

Eco foi buscar pão e maçãs, e comemos os dois no convés, contemplando a paisagem enquanto Marco Múmio conduzia o navio para a grande baía a que os Romanos sempre chamaram a Taça, por se parecer com uma grande tigela de água, com aldeias a toda a volta da sua orla. Os Gregos antigos, que primeiro colonizaram a região, chamavam-lhe baía de Neápolis, julgo eu, do nome da principal colónia. Cícero, um ocasional cliente meu, chama-lhe baía do Luxo, e pronuncia o nome com algum desprezo; ele próprio não tem aqui nenhuma villa por enquanto.

 

Entrámos na Taça vindos do Norte, rodeando os estreitos entre o cabo de Miseno e a pequena ilha de Prócida. Precisamente diante de nós, na extremidade da baía, erguia-se a enorme ilha de Capri, uma espécie de dedo escarpado que apontava para o céu. O Sol ia alto, estava um dia lindo e claro, sem ponta de espuma na água. Entre nós e o estreito oposto, que separa Capri do Promontório de Minerva, a água estava salpicada com as velas multicolores de barcos de pesca, e as velas maiores dos navios de carga e de transporte que circulam pela baía, transportando produtos e passageiros de Surrento e de Pompeia, no lado sul, para Neápolis e Putéolos, a norte.

 

Rodeámos o promontório, e a baía abriu-se à nossa frente, brilhando à luz do Sol. No seu cume, erguendo-se por cima da pequena vila de Herculâneo, avistava-se o Vesúvio. A sua visão impressiona-me sempre. A montanha eleva-se no horizonte, como uma enorme pirâmide, plana no topo. Com as suas encostas férteis cobertas de prados e vinhas, o Vesúvio preside à Taça como um deus liberal e benevolente, um emblema de constância e serenidade. Durante algum tempo, nos primeiros dias da revolta, Espártaco e os seus homens refugiaram-se nas encostas mais altas.

 

O Fúria manteve-se junto a terra, rodeando o cabo de Miseno, e voltando depois as costas ao Vesúvio para deslizar majestosamente para o porto escondido. As velas estavam enfunadas; os marinheiros corriam pelo convés, segurando cordas e ganchos. Eu afastei Eco do caminho, temendo que, sem voz que o protegesse, ele fosse pisado ou ficasse enleado nas cordas oscilantes. Ele afastou suavemente a minha mão do seu ombro e rolou os olhos. Já não sou nenhuma criança, parecia estar a dizer, mas era com a excitação de uma criança que ele voltava a cabeça de um lado para o outro, tentando observar tudo ao mesmo tempo, estendendo o pescoço e andando para cá e para lá com uma expressão respeitosa. Os seus olhos não perdiam coisa alguma; no meio da confusão, agarrou-se ao meu braço e apontou para o esquife que largara das docas e se aproximava do Fúria.

 

O barco movia-se de lado. Marco Múmio inclinou-se por cima da amurada e gritou uma pergunta. Depois de ter ouvido a resposta, endireitou-se e suspirou não percebi se de alívio ou de pena.

 

Olhou para cima e franziu o sobrolho quando me viu aproximar.

 

Nada se resolveu na minha ausência suspirou. Afinal, vais ser necessário. Pelo menos, valeu a pena a viagem.

 

Então já podes dizer-me oficialmente que o meu empregador é Marco Crasso?

 

Múmio olhou para mim lugubremente.

 

Achas-te muito esperto, não achas? Só espero que sejas igualmente esperto quando for necessário. Agora vai-te embora desce essa escada.

 

E tu?

 

Eu vou mais tarde, depois de ter tratado do navio. Para já, ficas entregue a Fausto Fábio. Ele conduzir-te-á à villa de Baias, e tratará do que for preciso.

 

Eco e eu descemos para o esquife, onde fomos recebidos por um homem alto e ruivo vestido com uma túnica azul-escura. Tinha o rosto de um jovem, mas eu detectei as rugas da idade no canto dos seus olhos verdes de gato; teria trinta e poucos anos, aproximadamente a mesma idade que Múmio. Segurou-me na mão e eu vi o brilho de um anel de patrício no seu dedo, mas não era necessário nenhum anel de ouro para se perceber que ele pertencia a uma família antiga. Os Fábios são tão antigos como os Cornélios ou os Emílios, mais antigos do que os Cláudios. Mas, mesmo sem o anel e sem o nome, eu teria percebido que ele era um patrício. Só um nobre romano da mais venerável ascendência pode endireitar os ombros com tanta firmeza e manter o queixo tão rigidamente erguido mesmo num barco pequeno e oscilante sem parecer pomposo ou ridículo.

 

És aquele a quem chamam o Descobridor? A sua voz era suave e profunda. Enquanto falava, ergueu uma sobrancelha, num gesto tão tipicamente patrício, que eu às vezes pergunto a mim próprio se a antiga nobreza terá um músculo a mais na testa, só para este fim.

 

Gordiano, de Roma disse eu.

 

Óptimo, óptimo. Vem, é melhor sentarmo-nos, a não ser que sejas um excelente nadador.

 

Na verdade, nado bastante mal confessei. Fausto Fábio acenou com a cabeça.

 

E o teu assistente?

 

O meu filho, Eco.

 

Estou a ver. Ainda bem que chegaram. Gelina vai ficar aliviada. Por qualquer razão, meteu na cabeça que talvez Múmio conseguisse regressar ontem à noite. Todos lhe dissemos que era impossível; mesmo nas melhores condições, o navio nunca poderia estar de volta antes desta tarde. Mas ela não nos deu ouvidos. Antes de se ir deitar, dispôs que fossem enviados mensageiros ao porto, de hora a hora, para ver se o navio teria chegado. A casa está um caos, como poderás imaginar.

 

Ele observou a minha expressão de confusão.

 

Ah, mas suponho que Múmio não te disse quase nada. Sim, eram essas as suas instruções. Não tenhas receio, eu explico-te tudo. Voltou o rosto para a brisa e inspirou profundamente, deixando o seu cabelo, excessivamente comprido para o que a moda ordenava, flutuar ao vento como uma juba vermelha.

 

Olhei à volta da baía. O Fúria era, de longe, o maior dos navios que lá se encontravam. Os restantes eram pequenos barcos de pesca e de passeio. Miseno nunca fora um porto especialmente movimentado; a maioria do comércio que entra e sai da Taça é canalizado através de Putéolos, o porto mais movimentado de Itália. Mas parecia-me que Miseno estava mais calmo do que seria de esperar, considerando a sua proximidade do luxuoso bairro de Baias, e das suas famosas fontes minerais. Isso mesmo disse a Fausto Fábio.

 

Então já cá tinhas vindo? perguntou ele.

 

Algumas vezes.

 

Estás bem informado acerca dos navios de comércio e dos negócios da costa da Campânia, não?

 

Eu encolhi os ombros.

 

Ao longo dos anos, a minha actividade obrigou-me a vir uma ou outra vez à Taça. Não sou nenhum especialista no comércio marítimo, mas não é verdade que o porto parece um tanto vazio?

 

Ele fez uma ligeira careta.

 

É verdade, é. Entre os piratas, no mar, e Espártaco, em terra, o comércio da Campânia tem estado parado. Quase nada se move, em terra ou por mar o que torna ainda mais extraordinário o facto de Marco se ter disposto a mandar o Fúria ir-te buscar.

 

Esse Marco é Marco Múmio?

 

Claro que não; Múmio não é homem para ter um trirreme! É Marco Crasso. Fábio sorriu ligeiramente. Oh, mas não devias saber isso, pois não?, pelo menos até chegares a terra. Bem, cá estamos. Cuidado com o solavanco estes remadores são uns desajeitados, parece que estão a tentar abalroar um navio inimigo. Uma passagem pelo Fúria talvez lhes fizesse bem. Vi os escravos dos remos agacharem-se, ou fingir que o faziam.

 

Quando saltámos para a doca, voltei a olhar para a baía.

 

Queres dizer que actualmente não há comércio nenhum?

 

Fábio encolheu os ombros, eu atribuí a sua careta ao tradicional desdém dos patrícios por todas as questões relacionadas com o comércio.

 

Os barcos à vela e os esquifes andam de um lado para o outro da Taça, claro, trocando produtos e passageiros entre as aldeias disse ele. Mas é cada vez mais raro ver um grande navio proveniente do Egipto ou de África, ou mesmo de Espanha, dirigir-se às docas de Putéolos. Claro que, dentro de umas semanas, as viagens por mar vão parar por completo por causa do Inverno. Quanto aos produtos do continente, todo o Sul de Itália se encontra neste momento sob a sombra de Espártaco. Ele montou o seu quartel-general de Inverno nas montanhas à volta de Túrio, depois de ter passado o Verão a aterrorizar a região a leste do Vesúvio. As colheitas foram destruídas, as quintas e as villas foram incendiadas. Os mercados estão vazios. Ainda bem que os habitantes locais não têm de viver apenas de pão; aqui, ninguém passará fome enquanto houver peixe na Taça e ostras no lago Lucrino.

 

Voltou-se e conduziu-nos pela doca.

 

Presumo que não haja escassez de produtos em Roma, apesar dos problemas? Não é permitido haver escassez do que quer que seja em Roma.

 

”O povo teme, mas não sofre” citei eu; era uma frase de um longo discurso que ouvira recentemente no Fórum.

 

Fábio resfolegou.

 

É mesmo típico do Senado. Farão o que for preciso para que a ralé de Roma se sinta confortável. Entretanto, não conseguem mandar um comandante decente que consiga dominar, quer Espártaco, quer os piratas. Que congregação de incompetentes! Roma nunca mais foi a mesma desde que Sula abriu as portas do Senado como recompensa a todos os seus amiguinhos abastados; agora, os comerciantes de berloques e os mercadores de azeite fazem fila para pronunciar os seus discursos, enquanto os gladiadores arrasam o campo. Só por sorte é que Espártaco ainda não pensou ou não teve coragem para marchar sobre Roma.

 

Essa possibilidade é diariamente discutida.

 

Estou certo de que sim. Os Romanos não têm mais nada sobre que falar, para além de pratos de caviar e de codornizes recheadas.

 

Pompeu é sempre um tema popular de coscuvilhice propus eu. Dizem que já quase derrotou os rebeldes em Espanha. A opinião popular espera que Pompeu se apresse a regressar para pôr fim a Espártaco.

 

Pompeu! Fausto Fábio pronunciou o nome quase com tanto desdém como o pronunciara Marco Múmio. Não é que ele não seja de boas famílias, claro, e ninguém pode ignorar os seus feitos militares. Mas, desta vez, Pompeu não é o homem adequado no sítio adequado no momento adequado.

 

Então quem é?

 

Fábio sorriu e dilatou as suas largas narinas.

 

Conhecê-lo-ás dentro de pouco tempo.

 

Tínhamos cavalos à nossa espera. Acompanhados pelos guarda-costas de Fábio, atravessámos a aldeia de Miseno, dirigindo-nos em seguida para norte, por uma estrada pavimentada de pedra, que corria ao lado da praia larga e lamacenta. A certa altura, a estrada virava para o interior, e subia uma pequena crista arborizada. Comecei a avistar por entre as árvores, de ambos os lados da estrada, grandes casas, separadas umas das outras por jardins cultivados e pedaços de mata. Eco abria muito os olhos. Ao meu lado, conhecera homens abastados e fora-lhe ocasionalmente permitido entrar em sua casa, mas uma ostentação como aquela a que se assiste na Taça era uma coisa nova para ele. As casas de cidade dos ricos, próximas umas das outras e de fachadas simples, não são tão imponentes como as suas villas do campo. Longe dos olhos invejosos das massas urbanas, em lugares onde provavelmente apenas virão bater-lhes à porta escravos e visitantes tão ricos como eles próprios, os grandes de Roma não mostram receio de tornar público o seu gosto e a sua capacidade de o pagar. Os oradores antiquados do Fórum afirmam que antigamente a riqueza não se pavoneava, mas a verdade é que, ao longo da minha vida, o ouro nunca temeu mostrar a sua face, especialmente na baía do Luxo.

 

Fausto Fábio marcou um ritmo de passeio. A missão não parecia ser urgente. Havia qualquer coisa no ar da Campânia que descontraía os mais atormentados citadinos do Norte. Eu próprio o senti uma vivacidade no ar perfumado com o cheiro dos pinheiros, temperado com a espuma do mar, uma especial claridade da luz do Sol, que enchia o céu e se reflectia na ampla taça da baía, um sentimento de harmonia com os deuses da terra, do ar, do fogo e da água. Este género de contentamento solta a língua, e foi-me fácil provocar as confidências de Fausto Fábio fazendo exclamações acerca da paisagem e algumas perguntas sobre a topografia e a culinária locais. Ele era romano dos pés à cabeça, mas era claro que visitava a região com suficiente frequência para ter um conhecimento profundo dos Campanianos da costa e dos seus antigos costumes gregos.

 

Tenho de te confessar, Fausto Fábio, que o meu anfitrião em terra está disposto a fornecer-me mais informações do que o que tive no mar. Ele recebeu o comentário com um ligeiro sorriso e um aceno de reconhecimento; percebi que não tinha grande afecto por Marco Múmio. Diz-me uma coisa prossegui, quem é exactamente este Múmio?

 

Fábio ergueu uma sobrancelha.

 

Pensava que soubesses. Múmio foi um dos protegidos de Crasso nas guerras civis; desde então, tornou-se a mão direita de Crasso para os assuntos militares. Os Múmios não são uma família particularmente distinta mas, tal como a maioria das famílias romanas que sobrevivem tempo suficiente, possuem pelo menos um antepassado famoso. Infelizmente, a fama anda a par com uma nota de escândalo. O bisavô de Marco Múmio foi cônsul no tempo dos Crácios; obteve grandes triunfos nas suas campanhas em Espanha e na Grécia. Nunca ouviste falar de Múmio, o Louco, também conhecido como o Bárbaro?

 

Eu encolhi os ombros. A mente dos patrícios é certamente diferente da dos homens comuns; de outra forma, como poderiam eles catalogar sem esforço tanta glória, tanta coscuvilhice e tantos escândalos acerca de tantos antepassados, não apenas os seus próprios, mas os de toda a gente? À menor solicitação, são capazes de narrar pormenores pitorescos de vida após vida, recuando até ao rei Numa, e ainda mais. Fábio sorriu.

 

Não é provável, mas se o assunto for referido na presença de Marco, tem cuidado com o que dizes; ele é surpreendentemente sensível no que diz respeito à reputação do seu antepassado. Pois muito bem: há muitos anos, este Múmio, o Louco, foi encarregado pelo Senado de pôr fim à revolta da Liga Aqueia, na Grécia. Múmio destruiu-os completamente, e depois saqueou Corinto de uma forma sistemática antes de arrasar a cidade e escravizar a populaça por decreto senatorial.

 

Outro glorioso capítulo na história do nosso império. É certamente um antepassado de que qualquer romano pode estar orgulhoso.

 

De facto disse Fábio, com os dentes ligeiramente cerrados perante a ironia que detectou na minha voz.

 

E foi essa carnificina que lhe valeu o nome de Múmio, o Louco?

 

Oh, por Hércules, não. Não foi a sua sede de sangue nem a sua crueldade. Foi o modo indiscriminado como tratou as obras de arte que mandou de barco para Roma. Estátuas valiosíssimas chegaram desfeitas, urnas de filigrana cheias de cortes e de arranhões, com as jóias arrancadas dos guarda-jóias, peças de vidro precioso completamente destruídas. Dizem que o homem não distinguia um Políclito de um Polidoro!

 

Imagina!

 

Não, a sério! Dizem que um Juno de Políclito e uma Vénus de Polidoro perderam ambos a cabeça na viagem, e que, quando as mandou compor, Múmio, o Louco, mandou ligar as cabeças às estátuas erradas. O erro era evidente para qualquer pateta que tivesse olhos na cara. Um dos cativos de Corinto, ofendido pela blasfémia, mostrou o erro a Múmio, o Louco, e o general mandou chicotear valentemente o velho, e vendeu-o para as minas. Depois ordenou aos seus homens que deixassem ficar as estátuas exactamente como estavam, dizendo que achava que ficavam melhor assim. Fábio abanou a cabeça desgostosamente; para um patrício, um escândalo que teve lugar há cem anos continua a ser um escândalo hoje de manhã. O velho Múmio passou a ser conhecido pelo nome de Múmio, o Louco, o Bárbaro, dado que a sua sensibilidade não era mais apurada que a de um Trácio ou de um Gaulês. A família nunca conseguiu libertar-se completamente da vergonha. É uma pena, porque o nosso Marco Múmio idolatrava o seu antepassado por causa das suas aptidões militares, e tinha razões para isso.

 

E Crasso reconhece as aptidões de Marco Múmio?

 

Ele é a sua mão direita, como já te disse. Eu acenei com a cabeça.

 

E tu o que és, Fausto Fábio?

 

Olhei para ele insistentemente, tentando perfurar o seu semblante felino, mas ele recompensou o meu escrutínio com uma ausência de expressão, que parecia ser um sorriso de um lado e um rosto severo do outro.

 

Suponho que isso faz de mim a mão esquerda de Crasso disse ele.

 

A estrada voltou a ser plana quando chegámos ao cimo da escarpa. Por entre as árvores, à direita, entrevia-se a água lá em baixo, e muito ao longe, do outro lado da enseada, os telhados de barro de Putéolos, brilhantes como minúsculas pérolas vermelhas. Durante algum tempo, não vi casas de nenhum dos lados; parecia que estávamos a atravessar uma única propriedade, de grandes dimensões. Passámos por vinhas e campos cultivados, mas não vi escravos a trabalhar. Fiz uma observação acerca da ausência de quaisquer sinais de vida. Pensando que Fábio não me ouvira por causa do barulho dos cascos dos cavalos, repeti a observação em voz mais alta, mas ele limitou-se a continuar a olhar para diante, sem responder.

 

Finalmente, surgiu uma estrada mais pequena, à direita. Não havia portão, mas dois pilares flanqueavam a estrada. Cada uma das colunas pintadas de vermelho tinha no topo uma cabeça de bronze de um boi, com um anel atravessado no nariz.

 

A terra de ambos os lados da estrada estava por cultivar, e arborizada. O caminho inclinava-se gradualmente para baixo, em direcção à costa. Por entre as árvores, avistei a água azul, salpicada de velas distantes, e novamente, do outro lado da água, os telhados de Putéolos. Depois, a estrada fazia uma curva pronunciada, à volta de um grande bloco de pedra. As árvores e o matagal recuavam abruptamente, revelando a maciça fachada da villa.

 

O telhado era de telhas de argila, de um vermelho-fogo que brilhava à luz do Sol. As paredes estavam pintadas de cor de açafrão. A massa central tinha dois andares, flanqueados por alas que se projectavam para norte e para sul. Parámos no pátio de cascalho, onde um par de escravos veio a correr ajudar-nos a desmontar e conduzir os cavalos para os estábulos, que eram ali ao pé. Eco sacudiu o pó da túnica e olhou à volta, de olhos muito abertos, enquanto Fausto Fábio nos acompanhava até à entrada. As altas portas de carvalho estavam adornadas com grinaldas funerárias, de cipreste e de abeto.

 

Fábio bateu. A porta abriu-se apenas o suficiente para um olho cintilante poder espreitar, e depois foi aberta para trás por um escravo invisível, que se escondeu atrás dela. Fábio ergueu a mão, num gesto que nos convidava a segui-lo, ao mesmo tempo que exigia silêncio. Os meus olhos estavam habituados à luz do Sol, de maneira que a entrada me pareceu escura. As máscaras de cera dos antepassados da família, colocadas nos seus nichos, pareceram-me apenas sombras vagas, como espíritos sem corpos espreitando de pequenas janelas.

 

A entrada escura dava para um átrio. Era um espaço quadrado, rodeado por um pórtico colunado no andar de baixo e por um estreito corredor no andar de cima. Caminhos de pedra serpenteavam por um jardim baixo. No centro, havia uma pequena fonte, onde um fauno de bronze inclinava a cabeça para trás, deliciado, lançando pequenos jactos de água pela boca. O trabalho de artífice era excelente. A criatura parecia estar viva, pronta para saltar e dançar; o som da água borbulhante parecia o seu riso. Quando nos aproximámos, dois pássaros amarelos que estavam a tomar banho na minúscula piscina levantaram voo num círculo assustado à volta das patas empinadas do fauno, indo depois encarrapitar-se no alto, na balaustrada que rodeava o andar de cima, e subindo em seguida para o céu azul.

 

Observei a sua ascensão, e voltei a baixar os olhos para o jardim. Foi então que avistei, na extremidade do átrio, o enorme ataúde funerário e o corpo que estava poisado sobre ele.

 

Fábio avançou para o jardim, onde fez uma pausa para mergulhar os dedos na taça que se encontrava aos pés do fauno, tocando em seguida na testa com eles. Eco e eu seguimos-lhe o exemplo, e juntámo-nos a ele diante do corpo.

 

Lúcio Licínio disse Fábio em voz baixa.

 

Em vida, o morto possuíra grande riqueza; ou então, as despesas do seu funeral estavam a ser pagas por outra pessoa, alguém com uma bolsa notável. Até mesmo as famílias muito ricas costumam contentar-se em depositar os seus mortos numa cama de madeira com pegas de marfim, e talvez uns embutidos decorativos de marfim. Esta cama elegantemente esculpida era toda de marfim, da cabeça até aos pés. Eu já tinha ouvido falar deste género de prodigalidade, mas nunca vira nenhum exemplo. A preciosa substância brilhava com uma palidez encerada, tão suave e destituída de cor como a carne do próprio morto.

 

Mantas de púrpura bordadas a ouro estavam colocadas sobre a cama, juntamente com adornos de áster e ramos de sempre-verdes. O cadáver tinha vestida uma toga branca, com elegantes bordados verdes e brancos. Nos pés, tinha calçadas uma sandálias recentemente oleadas, apontando na direcção da porta da casa, como mandava a tradição.

 

Eco torceu o nariz. Instantes depois, eu fiz o mesmo. Apesar dos perfumes e dos unguentos com que o corpo fora ungido, e do recipiente de incenso colocado sobre um braseiro lento, ali ao pé, havia no ar um nítido cheiro a podre. Eco fez menção de tapar o nariz com a ponta da manga; eu dei-lhe uma palmada na mão, e franzi o sobrolho perante a sua grosseria.

 

Fábio disse em voz baixa:

 

Este é o quinto dia. Nesse caso, ainda faltavam dois dias para o funeral, o que somaria os sete dias de luto público. Nessa altura, o corpo teria um aspecto pungente. Com uma tão ostentatória exibição de riqueza, certamente que a família teria pago aos melhores ungidores de Baias, e o mais provável era mesmo que os tivesse mandado vir da azafamada Putéolos, mas a sua arte não era suficientemente boa. Havia um outro toque de ironia na falta de cuidado com que o falecido era exibido; tinham-lhe caído sobre a cabeça uns ramos perdidos de hera, obscurecendo-lhe, não apenas metade do rosto, mas a coroa de louros que ele provavelmente teria posta, em memória de honras terrenas.

 

Esta hera disse eu quase parece ter sido colocada sobre o seu rosto de propósito...

 

Fábio não me contrariou quando eu ergui suavemente os ramos, cuidadosamente dispostos por forma a esconder o cimo da cabeça do morto. A ferida que estava por baixo era o género de ferida que leva os ungidores de mortos a torcer as mãos de desespero era quase impossível de purificar e selar, demasiadamente grande para ser escondida de uma forma subtil, demasiadamente profunda e feia para se olhar para ela durante muito tempo. Eco emitiu um som involuntário de repugnância e virou o rosto, depois voltou a aproximar-se para vê-la mais de perto.

 

É horrendo, não é? murmurou Fábio, desviando o rosto. E Lúcio Licínio era um homem tão vaidoso. É uma pena que não esteja no seu melhor depois de morto.

 

Eu obriguei-me a olhar para a cara do morto. Um ou vários golpes fortes e precisos tinham destruído o quadrante superior direito da sua cara, arrancando-lhe a orelha, esmagando-lhe o malar e o maxilar e atravessando o olho que, apesar dos esforços feitos para o fechar depois da morte permanecia ligeiramente aberto e coberto de sangue coagulado. Estudei aquilo que restava da cara, e consegui imaginar um belo homem de meia-idade, cujo cabelo começava a ficar branco nas têmporas, com um nariz e um queixo fortes. Os lábios estavam ligeiramente abertos, permitindo ver a moeda de ouro que lhe fora colocada na língua pelos ungidores era o pagamento para o barqueiro Caronte, para que o transportasse através do rio Styx.

 

Quer dizer que a sua morte não foi acidental? propus eu.

 

Seria difícil.

 

Uma altercação que chegou a vias de facto?

 

Possivelmente. Aconteceu a altas horas da noite. O seu corpo foi encontrado aqui no átrio, na manhã seguinte. As circunstâncias eram óbvias.

 

Sim?

 

Um escravo fugitivo aparentemente, um louco que seguiu o exemplo de Espártaco. Outra pessoa te explicará os factos com mais pormenor.

 

Foi um escravo fugido que fez isto? Eu não sou um caçador de escravos, Fausto Fábio. Para que me chamaram?

 

Ele olhou para o morto, depois para o fauno que borbulhava.

 

Outra pessoa te explicará.

 

Muito bem. A vítima como é que lhe chamaste?

 

Lúcio Licínio.

 

Era o dono da casa?

 

Mais ou menos disse Fábio.

 

Deixa-te de adivinhas, por favor. Fábio apertou os lábios.

 

Devia ter sido Múmio a fazer isto, e não eu. Eu acedi em trazer-te até à villa, mas não acedi em explicar-te o problema quando cá chegasses.

 

Marco Múmio não está aqui. Mas eu estou, e está aqui também o cadáver do homem assassinado.

 

Fábio fez uma careta. Patrício ou não, pareceu-me ser um homem habituado a ter de desempenhar tarefas desagradáveis, e a quem o facto não agradava. O que dissera ele acerca de si próprio que era a mão esquerda de Crasso?

 

Muito bem disse por fim. As coisas passavam-se da seguinte maneira com Lúcio Licínio. Ele e Crasso eram primos, familiares próximos. Julgo que mal se conheciam quando eram jovens, mas a situação alterou-se quando chegaram à idade adulta. Muitos dos Licínios foram destruídos durante as guerras civis; quando as coisas voltaram à normalidade, na ditadura de Sula, Crasso e Lúcio estabeleceram uma relação mais íntima.

 

Não era uma amizade?

 

Era mais uma parceria de negócios. Fábio sorriu. Mas a verdade é que, com Marco Crasso, tudo são negócios. Seja como for, em todas as relações tem de haver um sócio mais forte e um sócio mais fraco. Julgo que conhecerás Crasso suficientemente, mesmo que seja só de ouvir falar, para imaginares qual deles era o sócio subserviente.

 

Lúcio Licínio.

 

Sim. No começo, Lúcio era um homem pobre, e assim teria ficado sem a ajuda de Crasso. Lúcio tinha tão pouca imaginação; não era o tipo de homem que vê uma oportunidade e a aproveita, a não ser que seja empurrado. Entretanto, Crasso estava ocupado em Roma, a juntar os seus milhões em propriedades deves conhecer a lenda. Eu acenei com a cabeça. Quando o ditador Sula finalmente triunfou nas guerras civis, destruiu os seus inimigos, apoderando-se das suas propriedades e recompensando os seus apoiantes, Pompeu e Crasso, entre outros, com villas e quintas; assim começara Crasso a sua ascensão, movido por um apetite aparentemente ilimitado por propriedades. Certa vez, nas ruas de Roma, eu assistira ao incêndio de um edifício, e lá estava Crasso a comprar o edifício ao lado desse. O proprietário, confuso e desesperado, e pensando que estava prestes a perder a sua propriedade, que acabaria por ser invadida pelas chamas, vendeu-o logo ali a Crasso, em troca de uma canção; nessa altura, o milionário chamou os seus bombeiros privados para apagar as chamas. Estas histórias sobre Crasso eram um lugar comum em Roma.

 

Tudo aquilo em que Crasso tocava parecia transformar-se em ouro explicava Fábio. O seu primo Lúcio, por seu lado, arrastava-se indolentamente, tentando viver da terra, como qualquer bom plebeu fora de moda. Foi perdendo uma propriedade atrás de outra, até que chegou à bancarrota. Finalmente, pediu a Crasso que o salvasse, e Crasso acedeu. Fez de Lúcio uma espécie de feitor, um representante seu, que tomava conta de alguns dos seus negócios na Taça. Num ano bom sem piratas e sem Espártaco, fazem-se muitos negócios na Taça; isto não é tudo villas de luxo e viveiros de ostras. Crasso possui minas em Espanha, e uma frota de barcos que traz o minério para Putéolos. Possui artífices de metal em Neápolis e em Pompeia, que transformam o minério em utensílios e armas e obras de arte. Possui navios, que transportam escravos de Alexandria para Putéolos. Possui quintas e vinhedos em toda a Campânia, e fornece as hordas de escravos necessários para os cultivar. Crasso não pode cuidar pessoalmente de todos estes pormenores; os seus interesses estendem-se de Espanha até ao Egipto. Ele delegava a responsabilidade dos negócios aqui da Taça em Lúcio, que vigiava os investimentos e as empresas de Crasso de uma forma laboriosa mas adequada.

 

O funcionamento desta casa, por exemplo?

 

Na verdade, é Crasso o proprietário da casa e das terras que a rodeiam. Ele não gosta de villas; escarnece da ideia de se retirar para o campo para repousar e ler poesia. E, no entanto, por qualquer razão, continua a adquiri-las, possuindo actualmente dúzias de villas. Não está interessado em manter casas fechadas por toda a Itália, por isso prefere arrendá-las à sua família e aos seus feitores. Assim, quando viaja, pode ficar alojado nelas quando precisa de o fazer, como convidado, mas sem ser bem um convidado.

 

E os escravos da casa?

 

Também pertencem a Crasso.

 

E o Fúria, o trirreme que está na baía e que me trouxe de Ostia?

 

Também é propriedade de Crasso, embora fosse Lúcio que controlasse a sua actividade.

 

E os vinhedos e campos desertos por onde passámos quando vínhamos de Miseno?

 

São propriedade de Crasso. Juntamente com numerosas outras propriedades e manufacturas e escolas de gladiadores e quintas da região, desde aqui até Surrento.

 

Então, quando dizes que Lúcio Licínio era o senhor desta casa...

 

Lúcio dava as ordens e agia de forma independente na sua casa, não há dúvida disso. Mas nada mais era do que uma criatura de Crasso. Na realidade, era um servo, embora fosse um servo privilegiado e mimado.

 

Estou a ver. Há alguma viúva?

 

Chama-se Gelina.

 

E filhos?

 

O casamento era estéril.

 

Não há nenhum herdeiro?

 

Crasso, seu primo e seu patrão, herdará todas as dívidas e as posses de Licínio.

 

E Gelina?

 

Está agora dependente de Crasso.

 

Pela maneira como falas, Fausto Fábio, parece que Crasso é dono do mundo inteiro.

 

Às vezes parece-me que é. Ou que virá a ser disse ele, erguendo uma sobrancelha.

 

Ouviu-se uma forte pancada na porta. Um escravo acorreu a responder. A porta abriu-se gravemente, iluminando a sombria entrada com uma fatia de sol de fundo que enquadrou uma silhueta entroncada, de ombros largos, que vestia a flutuante capa vermelha dos oficiais militares. Marco Múmio marchou em direcção a nós, atravessando o jardinzinho, esmagando um canteiro de ervas e batendo com o cotovelo no delicado fauno.

 

Parou diante do corpo e franziu o sobrolho ao ver a ferida exposta.

 

Então já a viste disse ele, estendendo a mão para substituir a camuflagem de hera, e dando cabo de tudo. Pobre Lúcio Licínio. Suponho que Fábio já te explicou tudo.

 

De maneira nenhuma disse eu.

 

Óptimo! Porque não é a ele que compete pôr-te ao corrente. Nunca pensei que conseguisse manter a boca fechada perante um estrangeiro, mas talvez ainda acabemos por fazer dele um bom soldado. Múmio fez um largo sorriso.

 

Fábio lançou-lhe um olhar fulminante.

 

Parece que estás muito bem-disposto.

 

Obriguei os meus homens a virem a toda a velocidade desde Miseno. Uma cavalgada veloz para soltar as juntas depois de uns dias no mar, isso e o ar da Taça devem pôr um homem bem-disposto.

 

Apesar disso, podias baixar um pouco a voz, em deferência para com os mortos.

 

O sorriso de Múmio desapareceu por entre a barba.

 

Desculpa murmurou, e voltou à fonte, passando a mão pela água e tocando na testa inclinada com os dedos húmidos. Olhou pouco à vontade para o corpo, depois para cada um de nós, à espera de que qualquer sombra da sua impiedade à memória de Lúcio Licínio se dissipasse.

 

Talvez devêssemos ir ter com Gelina disse por fim.

 

Sem mim disse Fábio. Tenho umas coisas a tratar em Putéolos, e não me resta muito tempo para ir até lá e voltar antes do pôr do Sol.

 

Onde está Crasso? perguntou Múmio enquanto ele se afastava.

 

Também está em Putéolos, a tratar de negócios seus. Partiu esta manhã, deixando dito que Gelina não devia esperar por ele antes do jantar. A porta abriu-se para deixá-lo passar, puxada por um escravo que se manteve invisível nas sombras, de maneira que parecia ter-se aberto magicamente à sua aproximação. Ele passou para a luz e desapareceu.

 

Que pretensioso murmurou Múmio discretamente. E, apesar daquela atitude superior, parece que a família mal teve dinheiro para lhe comprar um tutor decente. O sangue é bom, mas um dos seus antepassados esvaziou os cofres da família, e nunca mais ninguém voltou a enchê-los. Crasso tomou-o como seu lugar-tenente como um favor ao pai de Fábio; percebeu-se que também não tinha muito talento para militar. Poderia nomear algumas famílias plebeias que deixaram uma marca mais significativa na última centena de anos. Sorriu um pouco presumidamente, depois chamou um jovem escravo que atravessava o átrio. Tu aí, Meto, vai procurar a tua senhora e diz-lhe que já cheguei com o convidado de Roma. Logo que nos tivermos refrescado nos banhos, vamos ter com ela.

 

Será mesmo necessário? perguntei eu. Depois da pressa insana com que me trouxeste até aqui, achas realmente que devemos perder tempo com um balde de água?

 

Que disparate. Não queres ser apresentado a Gelina a cheirar como um cavalo marinho. Riu-se da sua própria piada e pôs-me a mão no ombro para me afastar do cadáver. Além disso, ir aos banhos é a primeira coisa que se faz quando se chega a Baias. É como rezar a Neptuno antes de partir para o mar. Aqui, as águas são vivas, sabes. Temos de prestar-lhes a nossa homenagem.

 

Aparentemente, os ares repousantes da Taça até conseguiam abrandar a pesada e severa disciplina de Múmio. Pus o braço à volta dos ombros de Eco e segui o nosso anfitrião, abanando a cabeça espantado.

 

Aquilo a que Múmio chamara casualmente os banhos era na realidade uma instalação impressionante no interior da casa, aparentemente construída por cima de um terraço natural na parte lateral da colina, diante da baía. Uma grande cúpula apainelada laçada com tinta de ouro formava um arco sobre o espaço, perfurado no topo por um orifício redondo, que dava entrada a um raio de pura luz branca. Por baixo deste orifício, havia uma piscina redonda com degraus concêntricos que conduziam às suas profundezas, e cuja superfície estava obscurecida por massas onduladas de vapor sulfuroso. No lado oriental, uma arcada dava para um terraço, decorado com mesas e cadeiras, e com vista para a baía. Uma série de portas à volta da piscina definia uma arcada semicircular; as portas eram de madeira, pintadas de vermelho-escuro; as maçanetas eram douradas e tinham a forma de um peixe, com a cabeça e a cauda presas à madeira. A primeira porta dava para uma sala aquecida, que servia para mudar de roupa; enquanto despíamos as túnicas, Múmio explicou-me que as outras salas continham piscinas de diversos tamanhos e formas, cheias de água a várias temperaturas.

 

Construídas pessoalmente pelo famoso Sérgio Orata gabou-se Múmio. Já ouviste falar dele?

 

Não.

 

É o mais famoso de todos os Puteolanos, o homem que fez de Baias aquilo que ela é hoje. Foi ele que deu início aos viveiros de ostras do lago Lucrino com que ganhou a sua primeira fortuna. Depois transformou-se em mestre engenheiro, construindo piscinas e tanques de peixes, e os donos de villas à volta da Taça submergiram-no em encomendas. Esta casa continha uns banhos modestos quando Crasso adquiriu a propriedade. Com a autorização de Crasso e, claro, com o dinheiro de Crasso, Lúcio Licínio mandou construir o andar de cima, uma nova ala, e mandou reconstruir completamente os banhos, empregando o próprio Sérgio Orata para fazer os planos e acompanhar a sua execução. Por mim, teria preferido uma pequena gruta nos bosques ou uma vulgar piscina de cidade este género de luxo é um pouco absurdo, não é? É impressionante, mas excessivo, como dizem os filósofos.

 

Múmio estendeu o braço para um gancho de metal com a forma das cabeças de Cerbero, fixado na parede. Enfiou os sapatos em duas das cabeças e pendurou o cinto nas goelas abertas da terceira. Tirou a pesada cota de malha pela cabeça e começou a desatar correias de couro.

 

Mas tens de admitir que se trata de uma façanha de canalização. Há uma nascente de água quente que sai da terra precisamente neste ponto; foi por isso que o primeiro dono decidiu construir a casa aqui por causa disso e da vista. Quando Orata fez a reconstrução, desenhou a canalização de tal maneira, que algumas das piscinas recebem a água quente, enquanto outros recebem essa água, misturada com uma água mais fresca de outra nascente, situada mais acima. Pode passar-se da mais fresca para a mais quente, e regressar à primeira. No Inverno, alguns dos compartimentos da casa são mesmo aquecidos por água proveniente da nascente quente, canalizada por baixo do chão. Esta sala para mudar de roupa, por exemplo, mantém-se a esta temperatura durante todo o ano.

 

Notável concordei eu, puxando a túnica interior por cima da cabeça. Comecei a colocá-la numa das prateleiras que havia na parede, mas Múmio interveio. Chamou um escravo velho e curvado, que se mantinha a uma distância discreta, do outro lado da sala.

 

Leva isto para lavar disse ele, indicando as minhas coisas e as de Eco, e tirando a sua própria túnica. E traz-nos qualquer coisa adequada a uma audiência com a tua senhora. O escravo reuniu as roupas, estudou-nos por um momento, calculando os nossos tamanhos, e depois retirou-se.

 

Nu, Marco Múmio parecia um urso, com os ombros largos, um peito amplo e densos caracóis de pêlo preto por todo o corpo, excepto nos pontos em que estava marcado por cicatrizes. Eco parecia particularmente intrigado por uma longa faixa que atravessava a parte esquerda do seu peito como uma clareira numa floresta.

 

Batalha da Porta de Colina disse Múmio orgulhosamente, olhando para baixo e apontando para a cicatriz. Foi o momento de maior orgulho de Crasso, e meu. Foi o dia em que reconquistámos Roma para Sula; o ditador nunca esqueceu o que fizemos por ele. Eu fui ferido no princípio do dia, mas felizmente foi do lado esquerdo, o que me permitiu continuar a utilizar o braço da espada. Imitou o movimento, inclinando-se para diante e fazendo girar o braço, fazendo com que a robusta espada que tinha entre as pernas oscilasse também para diante e para trás. No auge da batalha, mal me apercebi da ferida, era apenas mais uma queimadura. Só ao fim do dia, quando fui entregar uma mensagem a Crasso, é que desmaiei. Disseram-me que estava branco como a cal, e que só acordei dois dias depois. Oh, mas isso foi há mais de dez anos, nessa altura era apenas um rapaz não devia ser muito mais velho do que tu disse ele, socando Eco no ombro.

 

Eco sorriu-lhe de viés, e examinou Múmio com curiosidade, à procura de mais cicatrizes, que eram abundantes. Ele tinha pequenas incisões e entalhes minúsculos espalhados pelos membros e pelo tronco, como distintivos, facilmente detectáveis porque interrompiam a abundância dos pêlos que lhe cobriam o corpo.

 

Apertou uma toalha à volta da cintura e indicou-nos por gestos que fizéssemos o mesmo, e depois conduziu-nos de volta à grande abóboda cupulada com a piscina circular. O dia começava a arrefecer e o vapor erguia-se da água em grandes nuvens, sibilando e cheirando fortemente a enxofre.

 

Apolónio! Múmio fez um amplo sorriso e dirigiu-se à outra extremidade da piscina, onde um jovem escravo vestido com uma túnica verde estava de pé à beira da água, escondido pela névoa.

 

Quando nos aproximámos, fiquei impressionado com a extraordinária beleza do escravo. O seu cabelo era espesso e quase azul-preto, da cor do céu numa noite sem Lua. Os seus olhos eram de um azul vibrante. A sua testa, o nariz, a cara e o queixo eram perfeitamente harmoniosos e tinham as serenas proporções que para os Gregos definem a perfeição. Os seus lábios cheios em forma de arco pareciam suspensos, à beira de um sorriso. Não era alto mas, por baixo das dobras soltas da sua túnica, tinha claramente um físico de atleta.

 

Apolónio! disse Múmio novamente. Olhou para mim por cima do ombro. Vou começar pela piscina mais quente anunciou, apontando para uma porta em frente, seguida por uma vigorosa massagem de Apolónio. E tu?

 

Acho que vou começar por experimentar estas águas disse eu, mergulhando o pé na piscina principal e retirando-o rapidamente. Ou talvez por outras um pouco menos escaldantes.

 

Tenta aquela, é a mais fresca disse Múmio, indicando uma câmara ao lado da sala onde mudáramos de roupa. Afastou-se com a mão no ombro do escravo, entoando baixinho uma ruidosa marcha militar.

 

Suámos e esfregámo-nos com estrigis de mármore; mergulhámos numa piscina e depois noutra, passando da água fresca à água quente e voltando à água fresca e, quando terminámos as nossas abluções, Marco Múmio juntou-se a nós na sala aquecida para mudar de roupa, onde nos tinham sido preparadas roupas interiores e túnicas lavadas. A minha era de lã azul-escura com um simples rebordo preto, adequada a um convidado numa casa enlutada. O velho escravo era perspicaz; servia-me perfeitamente, não estando sequer apertada nos ombros, como é costume acontecer-me com os fatos emprestados. Múmio vestiu a túnica preta, simples mas bem talhada, que vestia na noite em que foi convocar-me.

 

Eco ficou menos satisfeito com a sua veste. O escravo, aparentemente pensando que ele era mais jovem do que na realidade era, ou então demasiadamente belo para andar pela casa de pernas e braços à mostra, trouxera-lhe uma túnica azul de mangas compridas que lhe chegava aos joelhos. Era de tal maneira modesta, que seria mais adequada a um rapaz ou a uma rapariga de treze anos. Eu disse a Eco que ele devia sentir-se lisonjeado pelo facto de o velho escravo o ter achado tão entontecedor, que devia andar escondido. Múmio riu-se; Eco corou e não quis saber do que eu estava a dizer. Recusou-se a vestir-se enquanto o escravo não lhe trouxe uma túnica semelhante à minha. Não lhe ficava tão bem, mas Eco apertou o cinto preto de lã à volta da cintura, e pareceu satisfeito por vestir uma veste mais adulta, que lhe permitia exibir os braços e as pernas.

 

Múmio conduziu-nos através de longos corredores, onde os escravos inclinavam a cabeça e se afastavam assustados à nossa passagem; subimos e descemos diversos lanços de escadas, passámos por salas decoradas com estátuas de grande qualidade e sumptuosos frescos, por jardins onde se respirava o ar doce do fim do Verão. Finalmente, chegámos a uma sala semicircular, situada na extremidade norte da casa, por cima de uma rocha escarpada, de onde se avistava a baía. Uma jovem escrava anunciou-nos e retirou-se.

 

A sala tinha a forma de um anfiteatro. No local do palco, havia uns degraus que levavam a uma galeria colunada. Daí, tinha-se uma espectacular perspectiva da água brilhante em baixo, do porto de Putéolos à distância, e ao longe, à direita, uma vista desimpedida do monte Vesúvio no horizonte, e das cidades de Herculâneo e Pompeia, aos seus pés.

 

O interior da sala estava tão escuro, e a luz que vinha do exterior era tão ofuscante, que apenas consegui ver a mulher que estava reclinada no terraço como uma silhueta recortada. Ela estava sentada, de pernas estendidas e costas direitas, num canapé baixo ao lado de uma pequena mesa, onde tinham sido dispostos um jarro e copos. Olhava fixamente para a baía, e não teve qualquer reacção quando nós entrámos; poderia ser mais uma estátua, se uma suave brisa que vogava pela colunata não fizesse erguer as orlas suspensas da sua veste.

 

Voltou-se para nós. Não consegui ainda distinguir as suas feições, mas senti um sorriso caloroso na sua voz.

 

Marco disse ela, estendendo o braço direito ao longo do corpo, num gesto de boas-vindas.

 

Múmio avançou para o terraço, pegou-lhe na mão e fez uma vénia.

 

Chegou o teu convidado.

 

Vejo que sim. Na realidade, são dois. Tu deves ser Gordiano, aquele a quem chamam o Descobridor.

 

Sim.

 

E este?

 

É o meu filho, que se chama Eco. Não fala, mas ouve.

 

Ela acenou com a cabeça, e com um gesto indicou-nos que nos sentássemos. À medida que os meus olhos se iam adaptando à luz, comecei a distinguir as suas feições, austeras e um pouco rígidas um queixo forte, malares altos, uma testa larga, suavizadas pelo luxuriante negrume das suas sobrancelhas e das suas pestanas e pela suavidade dos seus olhos cinzentos. Em deferência para com a sua viuvez, o seu cabelo negro, tocado de cinzento nas têmporas, não estava erguido nem arranjado, mas simplesmente escovado para trás, deixando-lhe o rosto a descoberto. Estava embrulhada, do pescoço até aos tornozelos, numa estola preta, ligeiramente cintada por baixo dos seios, bem como na cintura. O seu rosto era como a paisagem que se avistava por trás dela, mais grandioso que belo, animado mas serenamente distanciado. Falava num tom harmonioso e equilibrado, e parecia medir cada pensamento antes de o pronunciar.

 

Chamo-me Gelina. O meu pai era Gaio Gelino. A minha mãe era da família dos Cornélios, parente afastada do ditador Sula. Os Gelinos são oriundos do interior da Campânia, mas vivem em Roma há muito tempo. Nos últimos anos, muitos morreram nas guerras civis, lutando com Cina e Mário, do lado de Sula. Somos uma família antiga e orgulhosa, mas não somos ricos nem particularmente prolíficos. Já não restam muitos Gelinos.

 

Fez uma pausa para tomar um golo do copo de prata que estava em cima da mesa, ao seu lado. O vinho era quase preto. Os seus lábios ficaram vivamente manchados de magenta. Ela apontou para os copos que estavam em cima da mesa, e que já tinham sido cheios para nós.

 

Não tendo dote para oferecer prosseguiu, tive muita sorte em me casar com um homem como Lúcio Licínio. O casamento foi decidido por nós, não foi uma combinação familiar. Tendes de compreender, isto passou-se antes da ditadura de Sula, durante as guerras; os tempos eram cruéis e o futuro, muito incerto. As nossas famílias tinham ambas empobrecido, e estavam pouco entusiasmadas com o rumo dos acontecimentos, mas concordaram. Lamento dizer que, em vinte anos de casamento, nunca tivemos filhos, e que o meu marido não era tão rico como podereis pensar ao ver esta casa. Mas, à nossa maneira, prosperámos.

 

Começou a dispor ociosamente as dobras da veste em cima do joelho, como que para assinalar uma mudança de assunto.

 

Deves querer saber como te conheço, Gordiano. Quem me falou de ti foi o nosso amigo comum Marco Túlio Cícero. Ele tem-te em alta consideração.

 

A sério?

 

A sério. Eu própria só no Inverno passado conheci Cícero, quando Lúcio e eu ficámos casualmente sentados ao seu lado num jantar, em Roma. Ele é um homem verdadeiramente encantador.

 

Essa é uma palavra que algumas pessoas utilizam para descrever Cícero concordei eu.

 

Interroguei-o acerca da sua carreira nos tribunais os homens costumam gostar de falar da sua carreira disse Gelina. Normalmente, só oiço metade, mas houve algo na sua maneira de falar que forçou a minha atenção.

 

Dizem que ele é um orador que força a atenção.

 

Oh, sim, sem sombra de dúvida. Certamente que já o terás ouvido pessoalmente, a falar da Rostra, no Fórum.

 

Frequentes vezes.

 

Gelina estreitou os olhos, recordando-se, tão serena como o perfil do Vesúvio acima da sua cabeça.

 

Dei por mim enfeitiçada pela sua narrativa do caso de Sexto Róscio, um agricultor abastado acusado de ter assassinado o próprio pai, que apelou a Cícero procurando de aconselhamento legal quando mais ninguém em Roma quis auxiliá-lo. Foi o primeiro caso de assassínio de Cícero; ouvi dizer que foi graças a ele que ganhou a reputação que tem. Cícero contou-me que tinha sido auxiliado por um homem chamado Gordiano, o Descobridor. Foste absolutamente imprescindível para ele corajoso como uma águia e teimoso como uma mula, disse ele.

 

Ele disse isso? Sim, bem, isso foi há oito anos. Eu era um jovem e Cícero era ainda mais jovem.

 

Desde então, ascendeu como um cometa. É o advogado mais falado de Roma um feito notável, para um homem de uma família tão obscura. Ouvi dizer que ele solicitou os teus serviços em diversas ocasiões.

 

Eu acenei com a cabeça.

 

Houve uma questão com uma mulher de Arrécio, pouco depois do julgamento de Sexto Róscio, quando Sula ainda era vivo. E, ao longo dos anos, diversos julgamentos de assassínio, casos de extorsão, e problemas com propriedades, já para não falar de algumas questões privadas relativamente às quais não posso mencionar nomes.

 

Deve ser muito compensador trabalhar para um homem como ele.

 

Nota: Ver Sangue Romano. (N. T.)

 

Por vezes, gostava de ser mudo como Eco, para não ter de morder a língua. Já me zanguei e fiz as pazes com Cícero tantas vezes, que me cansei de as contar. Será ele um homem honesto ou um oportunista crasso? Um homem de princípios, que defende o povo, ou um apologista da nobreza abastada? Se fosse claramente uma coisa ou outra, como a maioria dos homens, eu saberia o que pensar dele. Mas a verdade é que ele é o homem mais exasperante de Roma. A sua atitude presunçosa e superior, por muito justificada que seja, não mo torna mais estimado; nem a sua propensão para dizer apenas metade da verdade, mesmo quando os seus fins são honrosos. Cícero faz-me dores de cabeça.

 

Gelina deu um golo no seu vinho.

 

Quando surgiu esta questão e eu perguntei a mim própria a quem poderia recorrer uma pessoa que fosse discreta e digna de confiança, que não fosse da Taça, um homem que procurasse obstinadamente a verdade e não tivesse medo que fosse corajoso como uma águia, no dizer de Cícero...

 

E teimoso como uma mula.

 

E esperto. Acima de tudo, esperto... Gelina suspirou e olhou para fora, para a água. Parecia estar a reunir as suas forças. Já viste o corpo do meu marido?

 

Sim.

 

Ele foi assassinado.

 

Sim.

 

Brutalmente assassinado. O caso passou-se há cinco dias, nos Nonos de Setembro embora o corpo só tenha sido descoberto na manhã seguinte... Subitamente, a sua serenidade abandonou-a; a voz tremeu-lhe e ela desviou o olhar.

 

Múmio aproximou-se dela e tomou-lhe a mão.

 

Coragem murmurou-lhe ele. Gelina acenou com a cabeça e recuperou o fôlego. Apertou-lhe a mão com força e depois soltou-a.

 

Para poder ajudar-te disse eu suavemente, tenho de saber tudo.

 

Durante um longo momento, Gelina estudou a paisagem. Quando voltou a olhar para mim, o seu rosto tinha-se recomposto, como se ela fosse capaz de absorver o sereno distanciamento do panorama olhando para ele. A sua voz estava firme e calma quando ela prosseguiu.

 

Foi descoberto, como te dizia, na manhã seguinte, muito cedo.

 

Foi descoberto onde? E por quem?

 

No átrio da frente, perto do sítio onde o corpo jaz neste momento. Foi um dos escravos que o descobriu Meto, o rapazinho que leva as mensagens e acorda os outros escravos para eles iniciarem os seus deveres matinais. Ainda estava escuro; o galo ainda não tinha cantado, disse o rapaz, e o mundo inteiro parecia tranquilo como a morte.

 

Qual era a disposição exacta do corpo? Talvez seja melhor chamarmos esse Meto...

 

Não, eu posso dizer-te. Meto veio chamar-me imediatamente, e ninguém tocou em nada antes de eu chegar. Lúcio estava deitado de costas, com os olhos ainda abertos.

 

Estava completamente deitado de costas?

 

Sim.

 

Como estavam os braços e as pernas, todos dobrados? Tinha as mãos na cabeça?

 

Não. Tinha as pernas direitas e os braços acima da cabeça.

 

Como Atlas, a segurar o mundo?

 

Suponho que sim.

 

E a arma utilizada para o matar, estava ali perto?

 

Nunca foi encontrada.

 

Não? Certamente que haveria uma pedra manchada de sangue ou um pedaço de metal. Se não dentro de casa, talvez no quintal.

 

Não. Mas havia um pedaço de tecido. Ela estremeceu. Múmio sentou-se mais direito. Aparentemente, desconhecia este pormenor.

 

De tecido? disse eu.

 

Uma capa de homem, ensopada em sangue. Só ontem foi encontrado, não no quintal, mas a cerca de setecentos metros, na estrada que sobe para norte, em direcção a Cumas e a Putéolos. Um dos escravos que ia ao mercado viu-o por acaso, entre os arbustos, e trouxe-mo.

 

Era de alguma capa do teu marido? Gelina franziu o sobrolho.

 

Não sei. É difícil dizer como seria anteriormente; quase nem se percebe que era uma capa sem a examinar com atenção está toda amarrotada e rígida por causa do sangue, compreendes? Ela inspirou profundamente. É de lã simples, tingida de castanho-escuro, quase preto. É natural que tenha pertencido a Lúcio; ele tinha muitas capas. Podia ser de qualquer pessoa.

 

Certamente que não. Era uma capa de um homem rico ou de um escravo? Era velha ou nova, bem talhada ou de mau gosto?

 

Gelina encolheu os ombros.

 

É difícil dizer.

 

Vou precisar de a ver.

 

Claro. Podes pedir a Meto, mais tarde; neste momento, não suportaria olhar para ela.

 

Compreendo. Mas diz-me uma coisa: havia muito sangue no chão, por baixo da ferida? Ou havia pouco sangue?

 

Penso que só havia um bocadinho. Sim, lembro-me de pensar como era possível que uma ferida tão horrível tivesse sangrado tão pouco.

 

Então talvez possamos presumir que o sangue dessa capa era de Lúcio Licínio. Que mais podes dizer-me?

 

Gelina fez uma longa pausa. Percebi que se confrontava com a necessidade de fazer uma declaração desagradável, mas inevitável.

 

Na manhã em que Lúcio foi encontrado morto, faltavam dois escravos cá em casa. Ainda não voltaram. Mas não acredito que qualquer deles tenha assassinado Lúcio.

 

Quem são esses escravos?

 

Chamam-se Zenão e Alexandre. Zenão é era o contabilista e secretário do meu marido. Escrevia cartas, fazia os balanços das contas, geria as coisas. Há quase seis anos que estava com Lúcio, desde que Crasso começou a favorecer-nos e que a nossa fortuna mudou. Era um escravo grego com estudos, discreto e cortês, muito bem-educado, com uma pequena barba e um corpo frágil. Eu sempre esperara que, se chegássemos a ter um filho, Zenão fosse o seu primeiro tutor. Não é, pura e simplesmente, concebível que ele tenha assassinado Lúcio. A ideia de que ele pudesse assassinar fosse quem fosse é inaceitável.

 

E o outro escravo?

 

Era um jovem trácio, chamado Alexandre. Comprámo-lo há quatro meses, no mercado de Putéolos, para trabalhar nos estábulos. Ele lida maravilhosamente com cavalos. Também sabia ler e fazer somas simples. Por vezes, Zenão utilizava-o na biblioteca do meu marido, para somar algarismos e copiar letras. Alexandre aprende muito depressa, é muito esperto. Nunca mostrou sinais de descontentamento. Pelo contrário, parecia-me que ele era um dos escravos mais felizes de nossa casa. Não posso acreditar que tenha assassinado Lúcio.

 

E, no entanto, ambos desapareceram na noite em que o teu marido foi assassinado?

 

Sim. É uma coisa que eu não consigo explicar.

 

Múmio, que até então se mantivera silencioso, limpou a garganta.

 

A história não fica por aí. Há uma prova definitivamente condenatória. Gelina desviou o olhar, depois acenou com a cabeça, resignada. Fez-lhe um gesto, indicando-lhe que continuasse. No chão, aos pés de Lúcio, alguém usou uma faca para gravar sete letras. Eram letras rudes e superficiais, feitas à pressa, mas liam-se com bastante clareza.

 

O que diziam elas? perguntei.

 

O nome de uma famosa vila da Grécia disse Múmio lugubremente. Embora uma pessoa esperta como tu possa presumir que, quem quer que as tenha garatujado, não teve, muito simplesmente, tempo para acabar o que estava a fazer.

 

Que aldeia? Não compreendo.

 

Múmio meteu o dedo dentro da taça e escreveu as letras em vinho cor de sangue na mesa de mármore, com linhas direitas e pontos exactos:

 

                   ESPARTA

 

Sim, estou a ver disse eu. Uma vila da Grécia. Ou então, uma homenagem apressada, interrompida, ao rei dos escravos em fuga, ao assassino dos proprietários de escravos romanos, ao gladiador trácio que anda fugitivo: Espártaco.

 

Nessa noite, ninguém ouviu nada, ninguém viu nada?

 

Não disse Gelina.

 

E, contudo, se o nome de Espártaco ficou incompleto, isso parece indicar que, quem quer que estivesse a gravá-lo, foi perturbado e fugiu; muito estranho.

 

Talvez tenha simplesmente entrado em pânico disse Múmio.

 

Talvez. Na manhã seguinte, que mais tinha desaparecido da casa, para além dos dois escravos?

 

Gelina pensou durante um momento, depois abanou a cabeça.

 

Nada.

 

Nada? Nem moedas? Nem armas? Facas da cozinha? Seria de esperar que dois escravos em fuga saqueassem a casa, à procura de prata e de armas.

 

A não ser que, como disseste, tenham sido perturbados disse Múmio.

 

E cavalos?

 

Sim disse Gelina, na manhã seguinte, tinham desaparecido dois cavalos, mas com a confusão ninguém se apercebeu disso até ambos regressarem sozinhos à tarde.

 

Sem cavalos, não poderiam ter ido muito longe... murmurei eu.

 

Gelina abanou a cabeça.

 

Já estás a pressupor aquilo que toda a gente pressupõe que Zenão e Alexandre assassinaram Lúcio e partiram para se irem juntar a Espártaco.

 

Que outra coisa posso eu pressupor? O dono da casa é encontrado assassinado no átrio de sua casa; faltam dois escravos, que evidentemente fugiram a cavalo. Um dos escravos é um jovem trácio, como Espártaco e está tão orgulhoso do seu infame conterrâneo que gravou insolentemente o nome aos pés do seu senhor morto. Não são propriamente necessárias as minhas competências para se perceber o que aconteceu. É uma história que se tem repetido por toda a Itália, com muitas variações, nos últimos meses. Para que precisas de mim? Como já disse há bocado a Fausto Fábio, eu não procuro escravos fugidos. Lamento os esforços absurdos que foram feitos para me trazer aqui, mas não consigo imaginar o que poderás querer de mim.

 

A verdade! disse Gelina desesperadamente. Cícero diz que tu farejas a verdade, como um porco fareja trufas.

 

Ah, já compreendo por que me tem Cícero tratado tão desprezivelmente ao longo dos anos. Eu sou uma colecção de animais, não sou um homem!

 

Os olhos de Gelina relampejaram. Múmio carregou fortemente o sobrolho e, pelo canto do olho, vi Eco estremecer. Discretamente, por baixo da mesa, dei-lhe um toque no pé com o meu, para lhe dizer que estava tudo sob controlo; ele relanceou o olhar para mim e deu um conspiratório suspiro de alívio. Já tive muitas entrevistas com clientes abastados, em diversas circunstâncias. Mesmo aqueles que mais precisam e que sinceramente desejam a minha ajuda, são muitas vezes desesperantemente lentos a expor os seus problemas. Prefiro de longe conferenciar com mercadores comuns ou simples comerciantes, homens que me dizem imediatamente aquilo que pretendem de mim. Os ricos parecem pensar que eu devo adivinhar as suas necessidades sem que eles me digam quais são. Por vezes, a brusquidão ou um pouco de descortesia fingida apressam-nos.

 

Não estás a compreender disse Gelina desesperadamente.

 

Não, não estou. O que queres de mim? Por que me foste buscar de uma forma tão misteriosa, e de maneira tão extravagante? O que significa este estranho jogo, Gelina?

 

A animação abandonou o seu rosto. Como se fosse uma máscara flexível, a sua serenidade transformou-se em simples resignação, embotada por um pouco de vinho em excesso.

 

Já te disse tudo o que podia dizer-te. Não tenho forças para te explicar tudo. Mas, a não ser que alguém descubra a verdade... Interrompeu-se e mordeu o lábio. Vão todos morrer, todos eles sussurrou numa voz rouca. O sofrimento, o desperdício não consigo suportá-lo...

 

O que queres dizer? Quem é que vai morrer?

 

Os escravos disse Múmio. Todos os escravos da casa. Subitamente, senti um arrepio. Eco estremeceu, e eu percebi que ele sentira o mesmo, embora o ar estivesse temperado e calmo.

 

Explica-te, Marco Múmio.

 

Ele endireitou-se e tornou-se rígido, como um comandante reportando ao seu tenente.

 

Sabes que Marco Licínio Crasso é o actual proprietário desta casa?

 

Foi o que percebi.

 

Muito bem. Ora acontece que, na noite do assassínio, Crasso e a sua comitiva, incluindo Fábio e eu próprio, acabávamos de chegar de Roma. Estávamos ocupados a montar o acampamento na planície ao lado do lago Lucrino, apenas a alguns quilómetros daqui, juntamente com os nossos recrutas.

 

Recrutas?

 

Soldados, muitos deles veteranos, que serviram sob o comando de Crasso nas guerras civis.

 

Quantos soldados?

 

Seiscentos.

 

Uma coorte inteira.

 

Múmio olhou para mim hesitantemente.

 

Já agora, posso revelar-to. Determinados acontecimentos estão a ter lugar em Roma; Marco Crasso começou a fazer pressão para que seja criada uma comissão especial do Senado, que o autorize a organizar o seu próprio exército e a marchar contra Espártaco.

 

Mas isso é trabalho para pretores e cônsules, para oficiais eleitos...

 

Os oficiais eleitos fracassaram, infelizmente. Crasso tem a capacidade militar e os meios financeiros necessários para resolver de uma vez por todas o problema dos rebeldes. Veio de Roma para reunir uns recrutas e consolidar o seu apoio político e financeiro aqui na Taça. Quando estiver pronto, espicaçará o Senado de Roma, para que vote na criação da tal comissão especial.

 

É mesmo disso de que a República precisa disse eu, de outro senhor da guerra com o seu exército privado.

 

É exactamente disso que Roma precisa! disse Múmio. Ou preferes que os escravos andem a saquear o campo?

 

E que tem isso a ver com o assassínio do primo de Crasso, ou com o facto de eu estar aqui?

 

Já te digo. Na noite em que Lúcio Licínio foi morto, estávamos acampados no lago Lucrino. Na manhã seguinte, Crasso reuniu a sua equipa, e dirigimo-nos a Baias. Chegámos aqui à villa poucas horas depois de Lúcio ter sido encontrado morto. Crasso ficou indignado, naturalmente. Eu próprio organizei equipas de homens, para procurarem os escravos fugitivos; na minha ausência, a caçada prosseguiu, mas os escravos continuam fugidos. Suspirou. E assim chegamos ao ponto crucial. O funeral de Lúcio Licínio terá lugar no sétimo dia do luto ou seja, depois de amanhã. Crasso decretou que, no dia seguinte, haverá jogos funerários com gladiadores, de acordo com a antiga tradição. Estaremos então nos Idos de Setembro, na lua cheia; é uma data propícia para jogos sagrados.

 

E depois de os gladiadores terem feito os seus jogos? disse eu, suspeitando de qual seria a resposta.

 

Todos os escravos da sua casa serão publicamente executados.

 

Já imaginaste? murmurou Gelina. Incluindo os velhos e os inocentes; todos eles serão mortos. Alguma vez ouviste falar de uma lei assim?

 

Oh, sim disse eu, trata-se de uma lei muito antiga e venerada, transmitida pelos nossos antepassados: se um escravo mata o seu senhor, todos os escravos da casa têm de morrer. Estas medidas tão rigorosas mantêm os escravos no seu lugar, e há quem argumente que, tendo visto outro escravo matar o senhor de ambos, até o mais submisso fica contaminado por esse conhecimento, não voltando a ser digno de confiança. Hoje em dia, a aplicação da lei é discricionária. A morte de um senhor por um escravo é uma atrocidade rara, ou era, antes de Espártaco. Confrontada com a alternativa de matar todos os escravos da sua casa ou de castigar apenas os malfeitores, a maioria dos herdeiros prefere preservar a sua propriedade. Crasso tem a reputação de ser muito ganancioso; por que há-de ele preferir sacrificar todos os escravos desta propriedade?

 

Quer marcar posição disse Múmio.

 

Mas isso significa matar crianças e velhas protestou Gelina.

 

Deixa-me explicar-te a situação, Gordiano. Múmio parecia um comandante sorumbático, dirigindo-se às suas tropas antes de uma batalha incerta. Crasso veio à Campânia e à Taça procurar apoio para a sua proposta de que lhe seja atribuído o comando militar contra Espártaco. A campanha do Senado tem sido um longo fracasso exércitos romanos derrotados, generais humilhados que regressam a casa em desgraça, cônsules obrigados a abandonar os seus lugares por afronta do público, o Estado sem um chefe. Tantos estragos, produzidos por um exército de ralé de criminosos e escravos fugitivos! Toda a Itália oscila de medo e ultraje.

 

Crasso é um excelente comandante; provou-o quando foi chefiado por Sula. Com a sua riqueza e a derrota de Espártaco a seu crédito está bastante bem lançado para o consulado. Enquanto homens menores estão a fugir da tarefa, Crasso vê esse comando como uma oportunidade. O romano que detiver Espártaco será um herói. Crasso quer ser esse homem.

 

Porque, se assim não for, esse homem será Pompeu. Múmio fez uma careta.

 

Provavelmente. Metade dos Senadores de Roma partiu para as suas villas, para tentar salvar as suas próprias propriedades, enquanto a outra metade rói as unhas à espera que Pompeu regresse de Espanha, rezando para que o Estado sobreviva até lá. Como se Pompeu fosse outro Alexandre! Um comandante qualificado é quanto basta para pôr fim a Espártaco. Crasso poderá fazê-lo numa questão de meses, desde que o Senado o aprove. Poderá reunir os restos das legiões sobreviventes aqui em Itália, juntar-lhes o seu próprio exército privado, criado em grande medida com o apoio dos seus clientes aqui do Sul, e tornar-se o salvador da República da noite para o dia.

 

Olhei para a baía e para o Vesúvio, que se erguia para além dela.

 

Estou a perceber. É por isso que o assassínio de Lúcio Licínio é mais do que uma simples tragédia.

 

É uma vergonha inacreditável, é o que é! disse Múmio. Permitir que dois escravos cometam um assassínio e fujam de uma das suas casas no momento em que solicita ao Senado que lhe entregue uma espada para punir Espártaco no Fórum, rir-se-iam até às lágrimas. É por isso que ele se sente obrigado a impor a mais rigorosa das sentenças possíveis, a recuperar a tradição e a lei antiga, quanto mais severa melhor.

 

Para transformar uma vergonha numa vantagem política, queres tu dizer.

 

Exactamente. Aquilo que poderia ser um desastre pode transformar-se precisamente no tipo de vitória de propaganda de que ele precisa. ”Crasso, brando com escravos fugitivos? De modo nenhum! O homem mandou matar uma casa inteira deles em Baias, homens, mulheres e crianças, não mostrando sombra de misericórdia, fazendo daquilo um espectáculo público, um dia de festa é precisamente o tipo de homem que tomará conta de Espártaco e da sua populaça assassina!” É isso que as pessoas dirão.

 

Sim. Estou a perceber.

 

Mas Zenão e Alexandre estão inocentes disse Gelina fatigadamente. Eu sei que estão. Lúcio deve ter sido assassinado por outra pessoa. Nenhum dos escravos devia ser castigado, mas Crasso recusa-se a ouvir-me. Graças aos deuses por Marco Múmio, que me compreende. Juntos, convencemos Crasso a pelo menos permitir-me chamar-te. Não havia outra maneira de chegares a tempo, a não ser mandando o Fúria; Crasso fez uma grande exibição da sua generosidade ao permitir-me utilizá-lo. Também se ofereceu para pagar os teus serviços, só para me agradar. Não lhe posso pedir mais nenhum favor, não lhe posso pedir adiamentos. Temos tão pouco tempo. Só faltam três dias até aos jogos funerários e depois...

 

Quantos escravos são ao todo, sem contar com Zenão e Alexandre? perguntei eu.

 

Fiquei acordada a noite passada, a contá-los: noventa e nove. Eram cento e um, contando com Zenão e Alexandre.

 

Tantos, para uma villa?

 

Há vinhas a norte e a sul disse ela vagamente e, claro, os pomares de oliveiras, os estábulos, a casa dos barcos.

 

Os escravos sabem? perguntei eu.

 

Múmio olhou para Gelina, que olhava para mim com as sobrancelhas bem erguidas.

 

A maioria dos escravos está a ser guardada no anexo, ao lado dos estábulos disse ela suavemente. Crasso não permite que os escravos de campo saiam para o trabalho, e apenas me autoriza a ter em casa os escravos essenciais. Eles estão sob custódia, e sabem disso, mas ninguém lhes contou toda a verdade. Não podes de maneira nenhuma contar-lhes. Quem sabe o que poderia transpirar se os escravos soubessem...

 

Acenei com a cabeça, mas não percebi a vantagem do secretismo. À excepção do jovem Apolónio que vira nos banhos, eu quase não avistara nesta casa o rosto de um escravo, tendo visto apenas uma sucessão de cabeças inclinadas e olhos desviados. Mesmo que ninguém lhes tivesse dito, fosse como fosse, eles sabiam.

 

Despedimo-nos de Gelina. A entrevista esgotara-a. Quando saímos da sala semicircular, virei-me e vi a sua silhueta estender o braço para o jarro, a fim de voltar a encher de vinho o copo.

 

Múmio levou-nos novamente até ao átrio e mostrou-me o sítio onde tinham sido escritas nas lajes as letras ESPARTA. As letras eram do tamanho de um dedo meu. Tal como Múmio dissera, parecia terem sido feitas à pressa, mais toscamente raspadas do que esculpidas. Eu já as pisara sem reparar quando entrara na casa pela primeira vez, com Fausto Fábio. Era fácil não as ver por causa da luz sombria da entrada. Que estranhos pareciam subitamente a entrada e o átrio, com as máscaras de morte dos antepassados olhando para nós dos seus nichos, o fauno cabriolando na sua fonte, o morto no seu ataúde de mármore, e o nome do mais temido e dos mais desprezível dos homens de toda a Itália semigaratujado no chão.

 

A luz do átrio estava a ficar suave e nublada; em breve seriam horas de acender as lamparinas, mas ainda havia luz suficiente antes do jantar para sair a cavalo e ir ver onde tinha sido encontrada a capa ensanguentada. Múmio chamou o rapaz Meto, que foi buscar a capa e o escravo que a encontrara, e partimos, atravessando os pilares em direcção à estrada para norte.

 

A capa era inclassificável, tal como Gelina dissera; era uma veste escura de cor indefinida, nem velha nem nova. Não tinha decorações nem bordados que indicassem se seria de fabrico local ou se teria vindo de longe, se era uma capa de um rico ou de um pobre. A mancha de sangue cobria uma grande parte do tecido, não apenas num ponto, mas espalhada por todo ele. Um dos cantos parecia ter sido cortado para erradicar uma insígnia ou um selo identificativos?

 

O escravo descobrira-a numa parte estreita e isolada da estrada, a que se seguia uma escarpa íngreme, por sobre a baía. Alguém devia tê-la atirado da beira da escarpa, tentando lançá-la à água; a capa amarrotada fora apanhada no esqueleto de uma árvore que se projectava da colina rochosa, alguns metros abaixo da estrada. Quem passasse por ali, a cavalo ou a pé, não conseguiria avistá-la, a não ser que se aproximasse da extremidade da escarpa e espreitasse para baixo; o escravo, empoleirado em cima de uma carroça, avistara-a vagamente quando ia a caminho do mercado, e só no regresso de Putéolos fora observá-la mais atentamente e percebera que podia ser importante.

 

O louco diz que não esteve para se incomodar a ir buscá-la porque percebeu que estava manchada de sangue disse Múmio, ofegante. Percebeu que estava estragada e que não teria utilidade para ele; depois, ocorreu-lhe que o sangue poderia ser do seu senhor.

 

Ou de Zenão e Alexandre disse eu. Diz-me uma coisa, quem mais sabe que esta capa foi descoberta?

 

Só o escravo que a descobriu, Gelina e o rapaz, Meto. E agora tu próprio, Eco e eu.

 

Óptimo. Marco Múmio, penso que podemos ter esperança.

 

Sim? Os seus olhos iluminaram-se. Para um militar endurecido, que tratava os escravos da sua galera com tanta dureza, ele parecia estranhamente ansioso por salvar os escravos de casa de Gelina.

 

Não digo isto porque tenha uma solução, mas porque, tal como se apresentam, as coisas são mais complicadas do que deviam ser. Por exemplo, embora ela não tenha sido encontrada, aparentemente, o assassino terá usado uma espécie de moca para matar Lúcio Licínio. Porquê, quando tinha à mão uma faca?

 

Uma faca?

 

O assassino deve ter usado algum tipo de lâmina para fazer as letras. E por que foi o corpo arrastado para ali, em vez de ser deixado onde caiu?

 

Por que achas que foi arrastado?

 

Por causa da posição descrita por Gelina. Pensa: pernas direitas, braços acima da cabeça não é provável que fosse essa a posição de um homem que cai no chão depois de ter sido ferido na cabeça, mas é precisamente a posição de um corpo que foi arrastado pelo chão. Arrastado de onde, e por que razão? E depois temos esta capa.

 

Sim?

 

Não podemos saber de quem é o sangue, mas por agora, e apenas porque é muito sangue, vamos pressupor que é do morto. Gelina disse-nos que havia pouco sangue no chão ao lado da ferida, mas Lúcio deve ter sangrado profusamente; parece provável que esta capa tenha sido utilizada para absorver o sangue. E, contudo, esta veste dificilmente seria do próprio Lúcio; tendo visto a casa extravagante em que vivia, não posso acreditar que escolhesse uma veste tão desinteressante. Não, esta é a melhor capa de um homem vulgar, ou o tipo de capa que um homem rico com pretensões de antiga virtude romana usaria com afectação, ou simplesmente uma capa escura que um homem ou uma mulher escolheriam para andarem de um lado para o outro, durante a noite, sem serem vistos a capa de um assassino.

 

Por qualquer razão, esta capa deve ser incriminatória. Se assim não fosse, porquê retirá-la da cena do crime, e porquê tentar lançá-la ao mar? E porquê cortar-lhe um canto? Se de facto os escravos fugitivos mataram Lúcio, é óbvio que foram suficientemente ousados para se gabarem do facto escrevendo no chão o nome de Espártaco; por que haviam de se incomodar a esconder a capa, depois de terem proclamado tão descaradamente de quem eram adeptos? Por que não a deixaram para trás, para todos olharem para ela com horror? Temos de ter muito cuidado em evitar que mais alguém saiba que esta capa foi descoberta. O verdadeiro assassino deve pensar que conseguiu atirá-la para a água. Vou levá-la comigo, e escondê-la entre as minhas coisas pessoais.

 

Eco, que estivera a ouvir atentamente, deu-me um puxão na túnica. Perante a sua insistência, eu entreguei-lhe a capa manchada de sangue, e ele apontou para diversas manchas de sangue e imitou uma série de operações com a palma da mão aberta.

 

Múmio olhou para ele, confuso.

 

O que está ele a dizer?

 

Eco tem toda a razão! Olha aqui, onde o sangue está mais concentrado, formando uma espécie de círculo como se estivesse sido colocado debaixo de uma ferida de onde jorrasse sangue, para o apanhar. Enquanto no resto da capa o sangue está espalhado em manchas aproximadamente do tamanho de uma mão como se ela tivesse sido utilizada para limpar o sangue, talvez do chão.

 

Eco voltou a fazer uma imitação, deitado de costas com as mãos por cima da cabeça, depois com os dois braços estendidos como se estivesse a puxar um objecto pesado, tudo de forma tão entusiasmada, que eu temi que ele caísse do cavalo.

 

E o que é aquilo tudo? disse Múmio.

 

Eco está a chamar a atenção para a possibilidade de a capa ter sido primeiro colocada debaixo da cabeça do morto, para aparar o sangue enquanto o corpo era arrastado pelo chão. Depois, o assassino poderá ter utilizado a parte limpa do tecido para apanhar as manchas de sangue espalhadas pelo compartimento onde foram desferidos os golpes, bem como o que tivesse caído no chão pelo caminho.

 

Múmio cruzou os braços.

 

Ele é mesmo assim tão eloquente?

 

Não estou sequer a fazer-lhe justiça. Já falámos o suficiente da capa. O mais perturbador de tudo é o facto de os dois cavalos desaparecidos terem regressado ao estábulo no dia seguinte. Certamente que Zenão e Alexandre os não terão libertado propositadamente a não ser que tenham obtido cavalos noutro sítio.

 

Múmio abanou a cabeça.

 

Os meus homens andaram a inquirir. Não houve roubos de cavalos nesta zona.

 

Então Zenão e Alexandre teriam ficado reduzidos a prosseguir a pé. Numa área civilizada como esta, com tanto tráfego nas estradas, tantas suspeitas e tanto medo de escravos fugitivos entre a populaça, e com os teus homens a procurarem activamente, não parece possível que pudessem escapar.

 

Eco intersectou uma mão com a outra, imitando uma vela no mar. Múmio pareceu espantado durante algum tempo, depois percebeu.

 

Claro que investigámos junto dos proprietários de barcos. Nenhum dos navios de transporte para Pompeia ou Herculâneo levaria dois escravos fugitivos, e não houve roubos de barcos. De qualquer maneira, nenhum deles sabia manejar um barco.

 

Então, que possibilidades restam? disse eu. Múmio encolheu os ombros.

 

Ainda estão algures por aqui, escondidos.

 

Ou então, e é o mais provável, estão ambos mortos. A luz começava a desaparecer rapidamente. A escarpa lançava uma longa sombra sobre as águas. Olhei na direcção da villa e, por cima das árvores, apenas consegui avistar algumas telhas e uns fios de fumo; os fogões e as lareiras estavam a ser acesos. Virei o cavalo. Diz-me uma coisa, Múmio, quem reside habitualmente na villa?

 

Para além de Gelina, só uma mão-cheia de pessoas. Estamos no fim da estação de férias em Baias. Este ano não houve muitos visitantes, mesmo na Primavera. Eu próprio estive cá em Maio, juntamente com Crasso e Fábio, e alguns outros. Baias parecia uma sombra de si própria. Entre Espártaco e os piratas, toda a gente tem medo de sair de Roma.

 

Está bem, mas quem vive lá agora?

 

Deixa-me pensar, Gelina, evidentemente. E Dionísio, o seu filósofo residente apresenta-se como polímato, escreve peças de teatro e histórias e pretende ter uma conversa inteligente, mas faz-me sono. Há também laia, a pintora.

 

laia? Uma mulher? Ele acenou com a cabeça.

 

É natural de Cízico. Crasso diz que ela estava na moda quando ele era jovem, que tinha pinturas nas melhores casas de Roma e a toda a volta da Taça. É especialista em retratos, sobretudo de mulheres.

 

Nunca se casou, mas parece ter tido bastante êxito sozinha. Actualmente, está reformada e pinta por prazer, juntamente com uma jovem assistente, a quem dá lições. Estão cá a desenvolver um projecto qualquer, a pintar a antessala dos banhos das mulheres, a pedido de Gelina.

 

E quem é a assistente de laia?

 

Olímpias, que é natural de Neápolis, do outro lado da baía.

 

É uma rapariga? perguntei eu.

 

Uma rapariga muito bonita garantiu-me Múmio, ao que os olhos de Eco se iluminaram. laia trata-a como a uma filha. Têm uma pequena villa na costa, lá em cima em Cumas, mas é frequente ficarem cá dias seguidos, trabalhando durante a manhã e fazendo companhia a Gelina à noite.

 

Estavam cá em casa na noite em que Lúcio foi morto?

 

Não. Estavam em Cumas.

 

Isso é longe daqui?

 

Não é muito; uma hora a pé, menos a cavalo.

 

Para além do filósofo e das pintoras, há outros convidados? Múmio pensou.

 

Sim, há dois.

 

E estavam cá na noite do assassínio?

 

Sim disse Múmio lentamente, mas nenhum deles pode de maneira nenhuma ser suspeito de assassínio.

 

Apesar de tudo...

 

Muito bem, o primeiro é Sérgio Orata. Já te falei dele, é o construtor dos banhos da ala sul. É de Putéolos e possui villas a toda a volta da Taça, mas é habitual ficar instalado em casa de outras pessoas; é assim que as coisas se passam aqui, os ricos andam a fazer de convidados em casa uns dos outros. Gelina diz que ele estava cá a tratar de negócios com Lúcio quando foram informados de que Crasso estava a chegar de Roma e queria encontrar-se com ambos. Orata decidiu ir ficando, para que os três homens pudessem tratar dos seus negócios num sítio só. Estava cá na noite do assassínio e continua cá, instalado numa suite de quartos na ala norte.

 

E o outro convidado?

 

É Metróbio, que tem uma villa do outro lado da baía, em Pompeia.

 

Metróbio? Esse nome não me é estranho.

 

É um actor famoso, que já foi o mais amado imitador de mulheres de Roma. Era um favorito de Sula. Foi assim que conseguiu a sua villa, na altura em que Sula era ditador e dava de presente aos membros do seu círculo íntimo as propriedades confiscadas aos seus inimigos.

 

Ah, sim, uma vez vi Metróbio actuar.

 

Eu nunca tive esse privilégio disse Múmio, com uma sugestão de sarcasmo na voz. Era Flauto, ou alguma criação sua?

 

Nem uma coisa nem outra. Estava a fazer uma imitação bastante lúbrica de uma homenagem a Sula em casa de Crisógono, há uns anos.

 

E tu estavas presente? Múmio parecia céptico perante a ideia de que eu pudesse mover-me em círculos tão rarefeitos e debochados.

 

Era um conviva não convidado. Nada convidado, mesmo. Mas o que faz Metróbio aqui?

 

É um grande amigo de Gelina. Conversam durante horas, trocando bisbilhotices. Pelo menos foi o que me contaram. Entre nós, não consigo estar mais do que uns minutos na mesma sala que ele.

 

Não gostas de Metróbio?

 

Tenho as minhas razões.

 

Mas não suspeitas de que ele seja um assassino. Múmio fungou.

 

Deixa-me dizer-te uma coisa, Gordiano. Já matei um razoável número de homens, sempre honrosamente e no campo de batalha, compreendes, mas matar é matar. Já matei com uma espada, já matei com uma moca, até já matei com as minhas próprias mãos. Sei o que é preciso para tirar a vida a outro homem. Acredita em mim, Metróbio não teria energia suficiente para amolgar o crânio de Lúcio, mesmo que tivesse alguma razão para o fazer.

 

E Zenão e Alexandre, os dois escravos?

 

Não me parece nada provável.

 

Mas não é impossível? Ele encolheu os ombros.

 

Portanto disse eu, sabemos que as seguintes pessoas estavam lá em casa na noite do assassínio: Dionísio, o polímato residente, Sérgio Orata, o homem de negócios de Putéolos, e Metróbio, o actor reformado. laia, a pintora, e a sua assistente Olímpias ficam cá instaladas muitas vezes, mas nessa noite não tinham ficado.

 

Tanto quanto sei. Todos os que aqui se encontravam estavam a dormir sozinhos nas suas camas, pelo menos é o que afirmam. Nenhum deles ouviu o que quer que fosse, o que é perfeitamente possível, dada a distância entre os quartos. Também nenhum dos escravos afirma ter ouvido coisa alguma, o que também parece plausível, uma vez que dormem nos seus próprios aposentos, ao pé dos estábulos.

 

Certamente que haverá pelo menos um escravo que tem o dever de ficar de vigia durante a noite disse eu.

 

Sim, mas nos quintais, não dentro de casa. Tem de fazer um circuito, para vigiar a estrada diante da casa, bem como a costa, do lado de trás. Por vezes, os piratas atacam as villas privadas da costa, embora nunca o tenham feito em Baias, tanto quanto sei. Quando os escravos fugiram, o vigilante devia estar do lado de trás. Nada viu.

 

Suspeitas de alguém? De algum dos residentes ou dos convidados de Gelina, que te pareça ter mais probabilidades de ter morto Lúcio do que os escravos?

 

Como resposta, ele apenas encolheu os ombros e franziu o sobrolho.

 

O que me faz perguntar-te, Múmio, por que gastaste tanto tempo e tantas energias a ajudar Gelina a provar que os escravos estão inocentes.

 

Tenho as minhas razões disse ele concisamente, fechando a boca com força e olhando fixamente em frente. Esporeou o cavalo, e regressou sozinho à villa, a galope.

 

                   AS GOELAS DO HADES

 

O jantar iniciou-se à décima segunda hora do dia, logo depois do pôr do Sol, numa sala modestamente mobilada, no canto sudeste do andar de cima. As janelas ofereciam vistas de Putéolos, a leste, e do Vesúvio, para sul. Um corropio de escravos circulava discretamente pela sala e pelos corredores contíguos, acendendo lareiras por causa do frio ligeiro e iluminando as paredes ricamente coloridas com uma fileira de lamparinas penduradas. O ar estava parado, não se ouviam canções de pássaros nem outras coisas vivas; o único som proveniente do mundo exterior era o vago murmúrio do mar, que parecia um suspirar longínquo. Olhando pela janela voltada a sul, avistei uma única estrela, brilhando por cima do Vesúvio num céu azul-escuro. Desceu sobre a villa uma sensação de quietude luxuosa, aquela especial sensação de conforto e de sumptuoso privilégio peculiar às casas dos ricos ao lusco-fusco.

 

Gelina, já reclinada no seu canapé, dava as boas-vindas aos seus convidados à medida que eles iam entrando, sozinhos ou aos pares, todos vestidos de azul-escuro ou de preto. Havia ao todo lugar para onze pessoas, o que era um número estranho para um jantar, mas Gelina conseguiu acomodar-nos formando um quadrado com três canapés em cada um dos três lados e dois canapés no último, um para si própria, e outro reservado para Crasso. Nas mesinhas colocadas diante de cada canapé estavam já dispostos copos de vinho misturado com mel, azeitonas brancas e pretas e um aperitivo de ouriços-do-mar num molho de cominhos.

 

A pintora laia e a sua protegida Olímpias estavam sentadas, juntamente com o polímato Dionísio, do lado oposto ao de Gelina; Marco Múmio, Fausto Fábio e Sérgio Orata estavam sentados à sua direita; Eco e eu estávamos à sua esquerda, juntamente com o actor Metróbio. Gelina apresentou-nos simplesmente como Gordiano, de Roma, e o seu filho, sem mais explicações. Pelas suas expressões, percebi que os convidados de Gelina já tinham uma ideia do que eu estava ali a fazer. Detectei nos seus olhos diversos graus de cepticismo, suspeição e desinteresse.

 

laia, notável na sua estola negra de azeviche, nas suas jóias de prata e com o cabelo magenta (seguramente pintado) volumosamente penteado, tinha sem qualquer dúvida sido de uma grande beleza na sua juventude; agora, exsudava aquele género de atractivo maduro e autoconfiante das mulheres que perderam a juventude mas mantêm o encanto. Os seus malares elevados estavam generosamente cobertos de rouge, e tinha as sobrancelhas rapadas e pintadas.

 

Enquanto laia me lançava olhares frios, a sua jovem protegida, uma loura estonteante, olhava para mim fixa e descaradamente, como se a minha presença fosse uma espécie de afronta. Olímpias podia dar-se ao luxo de não cuidar da sua beleza; o seu cabelo desarranjado era uma juba de caracóis dourados e prateados, os seus olhos eram de um tom de azul quase púrpura, que teriam feito o menor vestígio de maquilhagem, caso ela se tivesse dado ao trabalho de a pôr, parecer pálida e aparatosa sobre a sua carne perfeita. A sua estola azul-escura, sem mangas, era absolutamente lisa, ainda mais lisa do que as túnicas que Eco e eu próprio tínhamos vestidas, sem bordados nem orlas. Não usava jóias. Detectei vestígios de pigmentos nos seus dedos, e algumas manchas de tinta junto da bainha inferior da sua veste.

 

Dionísio, um homem lúgubre de barba encanecida, com uma expressão superior, lançou-me uns olhares matreiros enquanto depenicava azeitonas com a mão esquerda. Esteve quase sempre silencioso durante a primeira parte da noite, como se estivesse a guardar as palavras de reserva, para posterior utilização. Olhava para mim como um homem que possuísse um segredo, mas talvez isso se devesse apenas à aparência de presumida sagacidade que afectava, como acontece a tantos outros filósofos.

 

A atitude reservada e ácida de Dionísio contrastava fortemente com a de Orata, o homem de negócios e engenheiro local, que partilhava o canto com o polímato. Quase calvo, à excepção de uma fiada de cabelo cor de laranja que parecia uma grinalda de vitória, Orata tinha a constituição corpulenta de um homem que engordou à custa dos seus êxitos. O seu rosto roliço e divertido parecia deslocado no meio da tristeza geral. Quando por acaso olhava para mim, eu não conseguia perceber se tinha gostado de mim à primeira vista, ou se estaria a sorrir artisticamente para esconder qualquer outra reacção. Em geral, parecia não reparar muito em mim, ocupado em ordenar aos escravos de mesa atribuídos ao seu canapé que lhe tirassem os caroços das azeitonas e lhe chegassem mais molho de cominhos.

 

O venerável actor Metróbio, reclinado à minha direita, fez-me um aceno de cabeça quando fui apresentado, e voltou imediatamente a sua atenção para Gelina. Estava reclinado sobre o seu lado direito, e ela sobre o esquerdo, de maneira que as cabeças de ambos se encontravam juntas. Falavam um com o outro em voz baixa e, ocasionalmente, Metróbio estendia o braço e apertava-lhe a mão, animadoramente. A sua longa veste flutuante cobria-o da cabeça aos pés; à primeira vista, o linho finamente tecido parecia negro mas, depois de o observar melhor, percebi que era roxo muito escuro. Usava enfeites de ouro à volta do pescoço e dos pulsos, e ostentava na mão esquerda um grande anel com uma jóia incrustada, que reflectia a luz sempre que ele erguia o copo. Dizia-se que Metróbio fora o grande amor de Sula, companheiro e amigo do ditador durante toda a sua vida, sobrevivendo a todos os casamentos e a todas as ligações de Sula. Os encantos físicos que tivesse possuído na juventude há muito que tinham desaparecido, mas havia uma dignidade assertiva na sua grande juba de cabelo branco e uma espécie de beleza robusta nas rugas desgastadas do seu rosto. Recordei a noite em que, dez anos antes, o vira cantar para Sula, e o fascínio que a sua presença exercia. Mesmo com a sua atenção dirigida para Gelina, senti o poder carismático que ele exsudava, tão palpável como o cheiro a mirra e a rosas que condimentava as suas vestes. Todos os seus movimentos eram feitos com uma graça não estudada, e o murmúrio baixo e calmo da sua voz tinha uma qualidade apaziguadora semelhante ao bater da chuva numa noite de Verão ou ao sussurro do vento nos ramos das árvores.

 

À excepção de Eco e de mim próprio, parecia uma reunião típica da hora do jantar numa villa de Baias um militar e um patrício, uma pintora e a sua protegida, um polímato e um construtor, um actor e a anfitriã de todos eles. O anfitrião estava ausente ou, mais precisamente, repousava num ataúde de mármore no átrio, no andar de baixo, mas em seu lugar teríamos connosco o homem mais rico de Roma. Contudo, até este momento, Marco Crasso não se dignara aparecer.

 

Dado um grupo tão espirituoso, a conversa era surpreendentemente desligada. Múmio e Fausto discutiam calmamente os negócios do dia e as provisões para o acampamento de Crasso no lago Lucrino; laia e Olímpias trocavam sussurros inaudíveis; o filósofo cismava sobre a sua comida, enquanto o construtor parecia saborear cada dentada; Gelina e Metróbio pareciam esquecidos de tudo, para além de si próprios. Finalmente, o escravo Meto entrou e murmurou qualquer coisa ao ouvido de Gelina. Ela acenou com a cabeça e mandou-o embora.

 

Temo que Marco Crasso não possa juntar-se a nós esta noite anunciou ela. Eu pensava que a vaga tensão existente no ambiente se devia à minha presença, ou ao ar de morte que pairava na casa, mas nesse instante o grupo pareceu dar um suspiro de alívio colectivo.

 

Os negócios retiveram-no em Putéolos, foi? perguntou Múmio, com a boca cheia de ouriços-do-mar.

 

Sim. Mandou dizer que já tratou do seu próprio jantar e que regressará a casa a seguir. Por isso, não precisamos de esperar mais tempo. Fez um sinal aos escravos, que retiraram os aperitivos e serviram os pratos principais um guisado de limão doce de pernil de porco e maças, tartes de marisco temperadas com ligústico e pimenta, e filetes de peixe com alho porro e coentros, tudo servido em travessas de prata, juntamente com uma sopa de cevada e lentilhas, que bebemos de pequenos potes de barro.

 

À medida que a refeição avançava, a conversa ia-se tornando mais animada. O tema principal era a comida. A morte e a tragédia iminente, as ambições políticas e a ameaça que Espártaco constituía foram ignoradas a favor dos méritos relativos da lebre e do porco. Discutiu-se a vaca, que foi decididamente declarada incomestível. Fausto Fábio declarou que a única utilidade das vacas era a pele, mas o filósofo Dionísio, que falava num tom didáctico, afirmou que os Bárbaros do Norte preferiam o leite de vaca ao leite de cabra.

 

Sérgio Orata parecia ser uma espécie de especialista no comércio de especiarias e de outros acepipes com o Oriente. Certa vez, fora até Partia investigar o potencial dos mercados e, no Eufrates, fora induzido pelas boas maneiras e ingerir a bebida local, feita de cevada fermentada, que os partos preferiam ao vinho.

 

Era exactamente da cor da urina riu-se ele, e sabia a urina!

 

Mas como é que tu sabes? Costumas beber urina? perguntou Olímpias, que baixou modestamente a cabeça, de maneira que lhe caiu sobre um olho uma madeixa de cabelo louro. laia olhou-a de esguelha, reprimindo um sorriso. A cabeça calva de Orata ficou cor-de-rosa. Múmio riu-se roucamente.

 

É preferível beber urina a comer feijão! exclamou Dionísio. Conhecem a advertência de Platão. Devemos partir para o reino dos sonhos com o espírito purificado.

 

E o que tem isso a ver com os feijões? perguntou Fábio.

 

Conheces certamente a opinião dos Pitagóricos, não? Os feijões produzem uma grande flatulência, o que induz uma condição de guerra com a alma, quando esta busca a verdade.

 

Realmente, como se fosse a alma, e não o estômago, que se enche de vento! exclamou Metróbio, que se inclinou na minha direcção e baixou a voz. Estes filósofos nenhuma ideia é demasiadamente absurda para eles. Este é, sem qualquer dúvida, um saco de vento, mas eu acho que ele lhe sai todo pela boca, e não pela outra extremidade!

 

Gelina parecia imune, tanto às graças como às impertinências, e comia em silêncio, petiscando inquieta e pedindo que lhe enchessem o copo com mais frequência do que qualquer dos seus convidados.

 

Metróbio começou a esclarecer-me acerca das diferenças entre a culinária de Roma e de Baias.

 

Naturalmente que aqui há maior variedade de marisco nos mercados, e muitas especialidades marítimas desconhecidas em Roma, mas as distinções são mais subtis do que isso. Por exemplo, qualquer cozinheiro te dirá que os melhores tachos são uns tachos feitos de um barro especial, que só se encontra nas proximidades de Cumas. Em Roma, esses tachos são preciosos e difíceis de substituir, mas aqui todos os pescadores os possuem, por isso existe toda uma série de pratos típicos, tão sublimes como simples como esta sopa de cevada, por exemplo. Depois, há o famoso feijão verde de Baias, que é mais tenro e mais doce que qualquer outro. O cozinheiro de Gelina faz um prato com feijão verde, coentros e cebolinhas, que é um prato de Bacanal. Ah, mas os escravos começaram a levar os pratos principais, o que significa que deve estar a chegar o segundo prato.

 

Entraram escravos com tabuleiros de prata que brilhavam à luz das lamparinas, transportando pêras cozidas recheadas de canela, castanhas assadas e queijo curado em sumo de bagas fermentado. Lá fora, o céu passava de azul-escuro para negro, e estava coberto de estrelas brilhantes. Gelina teve um arrepio e ordenou que aproximassem os braseiros. As chamas saltitantes reflectiam-se nas travessas de prata, de maneira que as iguarias que havia em cima das mesas pareciam flutuar em piscinas de fogo.

 

É uma pena que Marco Crasso não esteja presente, para se divertir nesta festa disse Metróbio, alcançando uma pêra recheada e cheirando o seu aroma. Claro que, se Crasso aqui estivesse, as conversas seriam todas à volta de política, política e política.

 

Múmio olhou-o carrancudo.

 

Um tema acerca do qual algumas pessoas sabem menos do que nada. Uma boa discussão política deixaria algumas pessoas silenciosas, para variar. Meteu numa castanha na boca e fez estalar os lábios.

 

Tem maneiras de bárbaro murmurou Metróbio para mim.

 

O que é que disseste? Múmio inclinou-se para diante.

 

Disse que tens as maneiras capazes de um agrário. A tua família ainda se dedica à agricultura, não é verdade?

 

Múmio encostou-se lentamente, com uma expressão de cepticismo.

 

Talvez devamos conversar sobre qualquer coisa que todos tenhamos em comum sugeriu Metróbio. Sobre arte, por exemplo, laia e Olímpias são criadoras, Dionísio é um contemplador, Orata um comprador. Sérgio, é verdade que te contrataram para construíres e decorares um tanque de peixes de um dos Cornélios, em Miseno?

 

É disse Sérgio Orata.

 

Ah, estes proprietários de villas da Taça, e o seu amor pelos tanques de peixes decorativos. Adoram os seus salmonetes barbados!

 

Já ouvi falar de senadores que dão nomes aos peixes e os alimentam à mão desde a infância e depois, quando os salmonetes crescem, não suportam comê-los.

 

Gelina sorriu finalmente.

 

Pára com isso, Metróbio. Não há ninguém que seja assim tão tolo.

 

Há, sim. Ouvi dizer que os Cornélios insistem em rodear o seu novo tanque com uma série de lindas estátuas não para usufruto dos seus convidados humanos, mas para edificação dos peixes.

 

Que disparate! Gelina riu-se e esvaziou o copo, levantando-o em seguida, para que o escravo voltasse a enchê-lo.

 

Metróbio parecia falar completamente a sério.

 

Claro que o problema é que os salmonetes oh, detesto contar uma coscuvilhice tão horrível, mas dizem que os salmonetes dos Cornélios são tão estúpidos, que nem sabem a diferença entre um Políclito e um Polidoro. Podia trocar-se as cabeças de Juno e de Vénus, que eles não percebiam. Imaginem! Por entre as gargalhadas de todos, Metróbio agitou o dedo a Orata. Por isso tem cuidado, Sérgio, com o tipo de estatuária que vais mandar vir para o lago novo dos Cornélios! Não vale a pena gastares uma fortuna com um Salmonete Louco que não sabe apreciar a diferença.

 

Orata corou suavemente. Múmio parecia apopléctico. Reparei que Fausto Fábio colocara uma mão sobre a coxa de Múmio, para o refrear, e a apertava com tanta força, que os nós dos seus dedos estavam brancos, enquanto com a mão esquerda levava o copo aos lábios, para esconder o sorriso.

 

Gelina ficou subitamente comunicativa.

 

Se queres falar sobre arte, devíamos falar sobre o projecto de laia no andar de baixo, na antessala dos banhos das mulheres. É maravilhoso! Desde o chão até ao tecto, nas quatro paredes, polvos e chocos e golfinhos, todos a fazerem cabriolas à luz do Sol. Faz-me sentir tão serena e protegida, como se estivesse no fundo do mar. Aqueles tons de azul azul-escuro e azul-claro, com algas azul-esverdeadas. Adoro o azul, e tu? disse ela ebriamente, sorrindo para Olímpias. Trazes hoje um fato de um azul tão bonito, que fica tão bem com o teu lindo cabelo louro. Têm ambas tanto talento!

 

laia apertou os lábios.

 

Obrigada, Gelina, mas penso que já todos viram a obra.

 

Não! disse Gelina. Gordiano ainda não a viu, nem o seu encantador rapaz, Eco. Temos de lhes mostrar tudo. Compreendes? Não podemos esconder-lhes nada, absolutamente nada. É para isso que eles aqui estão. Para ver, para observar. Dizem que ele é um excelente observador. Não quero dizer que seja um conhecedor, mas é um caçador. Ou um Descobridor, é assim que te apresentas, não é? Talvez amanhã possas mostrar-lhe o teu trabalho, laia, e deixá-lo contemplar a maravilha dos teus peixes voadores e dos teus extraordinários chocos. Sim, não vejo porque não, desde que não haja mulheres nos banhos das mulheres, quer dizer, mulheres a tomar banho. Porque não? Estou certa de que Gordiano é um apreciador de arte como qualquer de nós.

 

Olímpias ergueu uma sobrancelha e olhou friamente para mim, depois para Eco, que se agitou. laia, imperturbável, sorriu e acenou com a cabeça.

 

Com certeza, Gelina, tenho todo o gosto em mostrar o nosso trabalho a Gordiano. Talvez de manhã, na altura em que há melhor luz. Mas, já que estamos a falar de arte, sei que Dionísio está a escrever uma nova peça, e quase não temos ouvido falar do assunto.

 

Porque Crasso o manda sempre calar murmurou Metróbio ao meu ouvido.

 

Na verdade, pus a minha comédia de lado, à espera de melhor oportunidade. Os finos lábios de Dionísio comprimiram-se num sorriso. Os acontecimentos dos últimos meses, e sobretudo dos últimos dias, fizeram com que os meus pensamentos se voltassem para assuntos mais sérios. Estou a trabalhar numa nova obra, um tratado com um tema muito oportuno é um estudo de anteriores revoltas de escravos, com algumas observações sobre a melhor maneira de evitar que essas perturbações ocorram no futuro.

 

Anteriores revoltas? disse Gelina. Quer dizer que aconteceram coisas destas antes de Espártaco?

 

Oh, sim. A primeira de que temos informação deu-se há cerca de cento e vinte anos, depois da guerra com Aníbal. A vitória de Roma resultou numa grande captura de cartagineses, que foram feitos reféns e prisioneiros de guerra. Os escravos desses cartagineses foram igualmente capturados e vendidos como saque. Acontece que um grande número desses reféns e desses escravos se concentrou na cidade de Sécia, perto de Roma. Os reféns conspiraram para se libertar, e envolveram os seus antigos escravos nesse empreendimento, prometendo-lhes a liberdade se eles se insurgissem contra os seus senhores romanos e ajudassem os seus antigos senhores a regressar a Cartago. Estavam organizados uns jogos de gladiadores para daí a uns dias, em Sécia; o plano era amotinarem-se nessa altura e chacinarem a populaça. Felizmente, dois dos escravos revelaram a conspiração ao pretor de Roma, que reuniu uma força de dois mil homens e marchou para Sécia. Os chefes da conspiração foram presos, mas deu-se uma grande fuga de escravos da cidade. Acabaram por ser todos recapturados ou chacinados, mas não sem antes espalharem o terror pela vizinhança. Os dois escravos que sensatamente denunciaram os seus colegas foram recompensados com vinte e cinco mil moedas de bronze e a liberdade.

 

Ah! Gelina, que estava a ouvir de olhos muito abertos, acenou com a cabeça em sinal de aprovação. Gosto de histórias com um fim feliz.

 

A única coisa mais aborrecida do que a política é a história disse Metróbio com um bocejo. Parece-me que, em tempos de grandes crises, como aquela que actualmente vivemos, Dionísio prestaria um serviço muito maior ao mundo se produzisse uma comédia decente, em vez de andar a produzir novas versões do passado, que está morto.

 

Que raio encontrava um homem como Sula para conversar com um homem como tu? resmungou Múmio.

 

Metróbio olhou para ele com um ar sinistro.

 

Podia fazer a mesma pergunta sobre ti e o teu...

 

Por favor, nada de coisas desagradáveis depois da refeição insistiu Gelina. Perturba a digestão. Dionísio, continua, por favor. Como descobriste uma história tão fascinante?

 

Tenho dado muitas graças a Minerva e à sombra de Heródoto pela magnífica biblioteca tão assiduamente coleccionada pelo teu falecido marido disse Dionísio delicadamente. Para um homem como eu, residir numa casa cheia de conhecimento é uma fonte de inspiração quase tão grande como residir numa casa cheia de beleza. Aqui nesta villa, felizmente, nunca tive de escolher entre um e outra. Gelina sorriu, e ouviu-se um murmúrio de aprovação geral perante um cumprimento tão amável.

 

Mas continuando. A revolta abortada de Sécia foi o primeiro exemplo que encontrei de uma revolta geral ou de uma tentativa de fuga por parte de um amplo e organizado corpo de escravos. Seguiram-se-lhe algumas ocorrências similares ao longo dos anos, em Itália e noutros pontos, mas sobre elas só encontrei uma documentação muito esparsa. E são pouco importantes, comparadas com as duas guerras de escravos que tiveram lugar na Sicília, a primeira das quais começou aproximadamente há sessenta anos no ano em que eu nasci. Quando era criança, ouvi muitas histórias acerca dela.

 

”Parece que, naquela altura, os proprietários de terras da Sicília começaram a acumular muitas riquezas e a juntar um grande número de escravos. A riqueza fazia com que os Sicilianos fossem arrogantes; o constante influxo de escravos de províncias capturadas de África e do Oriente fazia com que tratassem os escravos com pouco cuidado, porque um escravo estropiado por excesso de trabalho ou por malnutrição era facilmente substituível. Na realidade, muitos proprietários mandavam os escravos para o campo pastar o gado sem vestuário adequado, e mesmo sem comida. Quando esses escravos se queixavam pelo facto de estarem nus e de terem fome, os senhores diziam-lhes que roubassem roupas e comida aos viajantes! Apesar de toda a sua riqueza, a Sicília degenerou num local desesperado e sem lei.

 

”Havia um proprietário de terras, Antígenes de seu nome, que era conhecido por todos pela sua crueldade excessiva. Foi o primeiro homem da ilha a marcar os seus escravos para que pudessem ser identificados, e a prática em breve se generalizou a toda a Sicília. Os escravos que iam ter com ele, pedindo-lhe comida ou roupas, eram açoitados, presos e exibidos de forma humilhante antes de serem novamente despachados para os seus afazeres, tão despidos e famintos como antes. ”Na verdade, este Antígenes tinha um escravo favorito, que se deliciava, tanto a amimar como a humilhar, um sírio chamado Euno, que se tomava a si próprio por feiticeiro e taumaturgo. Este Euno afirmava que tinha sonhos em que os deuses falavam com ele. Toda a gente gosta de ouvir histórias destas, mesmo que seja um escravo a contá-las. Não tardou que Euno começasse a ver os deuses, ou a fingir que os via, e a conversar com eles em línguas estranhas, enquanto outros o olhavam espantados. Além disso, era capaz de cuspir fogo.

 

Fogo? Gelina estava horrorizada.

 

É um velho truque do teatro explicou Metróbio. Fazem-se uns buracos nas extremidades de uma noz ou de outra coisa semelhante, enche-se a noz de combustível, pega-se fogo e mete-se na boca, e depois sopram-se chamas e faíscas. Qualquer prestidigitador da Subura sabe fazer isso.

 

Ah, mas foi Euno quem trouxe esse truque da Síria disse Dionísio. O seu senhor, Antígenes, exibia-o nos jantares, onde Euno entrava em transe, cuspia fogo e depois revelava o futuro. Quanto mais estranha era a história, melhor era recebida. Por exemplo, ele disse a Antígenes e aos seus convidados que lhe tinha aparecido uma deusa síria, que lhe prometera que ele, um escravo, se tornaria rei da Sicília, mas que eles não deviam temê-lo, porque ele teria uma atitude muito tolerante relativamente aos proprietários de escravos. Os convidados de Antígenes achavam isto extremamente divertido e recompensavam Euno oferecendo-lhe iguarias da mesa, pedindo-lhe que se recordasse daquela gentileza quando fosse rei. Mal sabiam eles o que o futuro lhes reservava.

 

”Acontece que os escravos de Antígenes decidiram revoltar-se contra o seu senhor, mas primeiro consultaram Euno, perguntando-lhe se os deuses favoreceriam o empreendimento. Euno disse-lhes que a sua revolta seria bem-sucedida, desde que eles atacassem brutalmente e sem hesitações. Nessa noite, os escravos, cerca de quatrocentos, organizaram uma cerimónia ao ar livre, trocando juramentos e fazendo ritos e sacrifícios, de acordo com as instruções de Euno. Puseram-se num frenesim assassino e entraram na cidade, matando homens livres, violando mulheres, e chegando mesmo a chacinar bebés. Antígenes foi capturado, despido, açoitado e decapitado. Os escravos vestiram Euno com roupas vistosas, puseram-lhe na cabeça uma coroa de folhas de ouro e proclamaram-no rei.

 

”A notícia da rebelião espalhou-se pela ilha com a velocidade de um relâmpago, incitando outros escravos à revolta. Constituíram-se grupos rivais de escravos rebeldes, e houve a esperança de que eles se voltassem uns contra os outros. Em vez disso, juntaram-se entre si, recebendo no seu exército todo o género de bandidos e proscritos. A notícia do seu êxito estendeu-se para além da Sicília e encorajou a agitação generalizada cento e cinquenta escravos conspiraram para se revoltarem em Roma, mais de mil em Atenas, e houve perturbações semelhantes em toda a Itália e na Grécia. Todas elas foram rapidamente suprimidas, mas a situação na Sicília deteriorou-se até ao caos absoluto.

 

”A Sicília estava dominada pelos escravos revoltosos, que proclamaram Euno seu rei. As pessoas simples, num acesso de ódio contra os ricos, chegaram a tomar o partido dos escravos. Apesar de toda a loucura, a revolta foi conduzida com alguma inteligência pois, embora muitos proprietários de terras fossem torturados e mortos, os escravos pensaram no futuro e evitaram destruir colheitas e propriedades que pudessem vir a ser-lhes úteis.

 

Como é que isso acabou? perguntou Gelina.

 

Foram enviados exércitos de Roma. Houve uma série de batalhas em toda a Sicília e, durante algum tempo, parecia que os escravos eram invencíveis, até que finalmente o governador romano, Públio Rupílio, conseguiu encurralá-los na cidade de Tauroménio. O cerco prosseguiu até os revoltosos ficarem reduzidos a uma situação de fome inominável, e por fim de canibalismo. Começaram por comer as crianças, depois as mulheres e por fim uns aos outros.

 

Oh! E o mágico? murmurou Gelina.

 

Fugiu de Tauroménio e escondeu-se numa gruta, até que Rupílio o expulsou de lá. Tal como os escravos se tinham comido uns aos outros, assim também o rei dos escravos foi encontrado meio comido pelos vermes sim, os mesmos vermes que se diz que atormentaram o grande Sula nos seus últimos anos, aqui na Taça, antes da sua morte de apoplexia, o que demonstra que estes vermes devoradores, tal como o grau inferior dos humanos, estão dispostos a aproveitar-se de qualquer chefe, seja ele grande ou pequeno. Euno foi arrastado para fora da sua gruta, gritando e arranhando a própria carne, e metido numa prisão em Morgantina. O feiticeiro continuou a ter visões, que se tornaram cada vez mais horríveis. Os vermes acabaram por consumi-lo, e assim chegou ao seu miserável fim a primeira grande revolta de escravos.

 

Fez-se um profundo silêncio. Os rostos dos convidados de Gelina estavam impassíveis, à excepção de Eco, que estava sentado de olhos muito abertos, e da jovem Olímpias, que parecia ter lágrimas nos olhos. Múmio agitou-se no seu canapé. O silêncio foi quebrado pelos passos suaves e arrastados de um escravo que se retirava para as cozinhas com uma travessa vazia. Eu olhei à volta da sala, para os rostos dos escravos de mesa, que se mantinham rigidamente nos seus lugares, por trás dos convidados. Nenhum deles olhou para mim de frente, nem olharam uns para os outros; preferiram olhar fixamente o chão.

 

Estás a ver disse Metróbio, e a sua voz pareceu estranhamente alta depois do silêncio, tens à tua disposição todos os elementos para uma comédia divina, Dionísio! Chama-lhe ”Euno de Sicília”, e deixa-me ser eu a encená-la.

 

Metróbio, francamente! protestou Gelina.

 

Estou a falar a sério. Tens apenas de juntar os papéis tradicionais. Vejamos: um presumido proprietário de terras siciliano e o seu filho, evidentemente apaixonado pela filha do vizinho; acrescenta-lhe o tutor do filho, um escravo simpático que se sentirá tentado a aderir à revolta de escravos, mas preferirá a virtude, salvando o seu jovem senhor da populaça. Podemos colocar esse Euno em palco para umas quantas voltas de comédia grotesca, cuspindo fogo e balbuciando tolices. O general Rupílio aparecerá como um fanfarrão bombástico, que confunde o escravo simpático, o tutor, com Euno e quer crucificá-lo; no último minuto, o jovem senhor salva o seu tutor da morte, retribuindo-lhe o facto de ele lhe ter salvo a sua própria vida. A revolta é reprimida fora de cena, e tudo termina com uma canção feliz! Na verdade, nem o próprio Flauto se teria lembrado de uma história assim.

 

Tenho a impressão de que estás a falar meio a sério disse laia astutamente.

 

Tudo isso me parece de um certo mau gosto queixou-se Orata, considerando as actuais circunstâncias.

 

Pois é, talvez tenhas razão admitiu Metróbio. Talvez eu esteja há demasiado tempo longe dos palcos. Continua, Dionísio. Só espero que a tua próxima narrativa de atrocidades passadas seja tão divertida como esta.

 

O filósofo clareou a garganta.

 

Temo que fiques desiludido, Metróbio. Depois de Euno, houve uma série de revoltas de escravos na Sicília; parece que há qualquer coisa naquela ilha que encoraja a depravação dos ricos e as insurreições dos escravos. A última e a maior destas revoltas centrou-se em Siracusa, nos dias em que Mário era cônsul, há trinta e cinco anos. A sua escala foi tão grande como a da primeira revolta chefiada por Euno, mas temo que a história seja muito menos colorida.

 

Não há mágicos que cospem fogo? disse Metróbio.

 

Não disse Dionísio. Apenas milhares de escravos perigosos em tumulto pelos campos, violando e pilhando, coroando falsos reis e desafiando o poder de Roma, e no fim chega um general e crucifica os cabecilhas, prende os restantes, e a lei e a ordem são restabelecidas.

 

E sempre assim será disse Fausto Fábio sombriamente, enquanto os escravos forem suficientemente loucos para pôr em causa a ordem natural. Ao seu lado, Orata e Múmio acenaram gravemente, em sinal de concordância.

 

Basta de tristezas disse Gelina abruptamente. Mudemos de assunto. Penso que chegou a altura de nos divertirmos um pouco. Metróbio, recita-nos qualquer coisa. O actor abanou a sua cabeça branca. Gelina não insistiu. Então, talvez uma canção. Sim, uma canção é aquilo de que precisamos para descontrair. Meto... Meto! Meto, vai buscar aquele rapaz que canta de uma forma tão divina, sabes a quem me refiro. Sim, aquele grego muito bonito, de sorriso doce e caracóis pretos.

 

Vi uma estranha expressão atravessar o rosto de Múmio. Enquanto esperávamos a chegada do escravo, Gelina bebeu mais um copo de vinho, e insistiu em que todos nós seguíssemos o seu exemplo. Só Dionísio recusou; em vez do vinho, um escravo trouxe-lhe uma mistura verde borbulhante num copo de prata.

 

Em nome de Hércules, o que é aquilo? perguntei eu.

 

Olímpia riu-se.

 

É uma coisa que Dionísio bebe duas vezes por dia, antes da refeição do meio-dia e depois do jantar, e já tentou convencer-nos a seguir o seu exemplo. É uma poção com um aspecto horrível, não é? Mas claro, se Orata bebe urina...

 

Não era urina, era centeio fermentado. Eu só disse que parecia urina.

 

Dionísio riu-se.

 

Isto não contém nada tão exótico ou deverei dizer vulgar? como urina. Bebeu um golo e depois baixou o copo, exibindo os lábios manchados de verde. Nem é uma poção; não tem nada de

mágico. É simplesmente puré de agrião e folhas de parra, juntamente com uma mistura minha de ervas medicinais ruda para manter a vista apurada, sílfio para fazer os pulmões fortes, alho para dar energia...

 

O que explica disse Fausto Fábio afavelmente que Dionísio possa ler durante horas e falar durante dias, sem nunca desfalecer ainda que o seu público desfaleça!

 

Houve uma gargalhada geral, e em seguida entrou o jovem grego, trazendo consigo uma lira. Era Apolónio, o escravo que atendera Marco Múmio nos banhos. Olhei de relance para Múmio. Ele bocejou e mostrou-se desinteressado, mas o seu bocejo pareceu-me demasiadamente elaborado e o seu olhar inexpressivo era desconfortável. As lamparinas foram reduzidas, projectando a sala na sombra. Gelina pediu uma canção com um nome grego ”é uma canção alegre”, garantiu-nos, e o rapaz começou a tocar.

 

Apolónio cantou em dialecto grego, do qual eu apenas compreendia palavras e frases soltas. Talvez fosse uma canção de pastores, porque ouvi-o falar de campos verdes e de grandes montanhas e nuvens de lã, ou talvez fosse uma lenda, pois ouvi a sua voz de ouro pronunciar o nome de Apolo e falar da luz do Sol tremeluzindo nas águas do Cíclades ”como seixos de lápis-lazúli num mar de ouro”, cantava ele, ”como os olhos da deusa no rosto da lua”. Talvez fosse uma canção de amor, porque o ouvi falar de um cabelo preto de azeviche e de um olhar que trespassava como setas. Talvez fosse uma canção de perda, porque ele repetia em todos os refrões ”nunca mais, nunca mais, nunca mais”.

 

Fosse o que fosse, eu não lhe teria chamado uma canção alegre. Talvez não fosse a canção que Gelina esperava. Ela ouvia com uma sóbria intensidade e, lentamente, a sua expressão foi ficando tão desanimada como estava nessa tarde, quando eu a conhecera. Não se viam sorrisos entre os convidados; até Metróbio ouvia com uma espécie de reverência, com os olhos semicerrados. Estranhamente, para uma canção tão triste, cantada com tanta comoção, houve em toda a sala apenas uma lágrima. Eu vi-a descer o rosto grisalho de Marco Múmio, como um traço de cristal, brilhante à luz da lamparina, que desapareceu rapidamente por entre a sua barba e à qual se seguiu outra, com igual rapidez.

 

Olhei para Apolónio, para os seus lábios trementes, abertos para entoar uma nota perfeita, cheia de toda a solidão e de toda a impotência do mundo. Estremeci; a minha pele formigou e arrepiou-se, não por causa do sentimento provocado pela canção, nem da súbita brisa marítima de ar frio que soprou dentro da sala. Apercebi-me de que, dentro de três dias, ele estaria morto, juntamente com todos os outros escravos, e de que não mais voltaria a cantar.

 

À minha frente, oculto nas sombras, Múmio cobriu o rosto e chorou silenciosamente.

 

As nossas acomodações eram generosas: um pequeno quarto na ala sul, com duas camas sumptuosamente almofadadas e um espesso tapete no chão. Uma porta virada a leste dava para uma pequena varanda de onde se via a abóboda que se erguia por cima dos banhos. Eco queixou-se de que não conseguia ver a baía. Eu respondi-lhe que era uma sorte Gelina não nos ter instalado nos estábulos.

 

Ele despiu a túnica interior e testou a cama, saltando sobre ela, até que eu lhe dei uma palmada na testa.

 

Então, o que achas, Eco? Em que pé nos encontramos?

 

Ele olhou por momentos para o tecto, depois esfregou a palma da mão no nariz.

 

Sim, sinto-me inclinado a concordar. Desta vez, temos diante de nós uma parede de tijolos. Suponho que me pagarão, aconteça o que acontecer, mas o que pode a mulher esperar de mim em três dias? Na realidade, são apenas dois dias, amanhã é o dia do funeral; depois é o dia dos jogos e, se Crasso levar a sua avante, da execução dos escravos. É só um dia, se pensarmos bem, porque não podemos esperar fazer grande coisa no dia do funeral. Então, Eco, viste algum assassino à refeição?

 

Eco indicou o cabelo comprido de Olímpias.

 

A protegida da pintora? Não estás a falar a sério. Ele sorriu, e fez um gesto de uma seta a trespassar-lhe o coração.

 

Eu ri-me suavemente e tirei a túnica escura por cima dos ombros.

 

Pelo menos um de nós terá sonhos agradáveis esta noite. Apaguei as lamparinas e fiquei sentado na cama durante muito tempo, com os pés descalços sobre o tapete. Olhei pela janela, para as estrelas frias e a Lua quase cheia. Ao lado da janela, havia uma pequena arca, onde eu escondera a túnica manchada de sangue e guardara as nossas coisas, incluindo os punhais que tínhamos trazido de Roma. Por cima da arca, estava pendurado na parede um espelho polido. Levantei-me e avancei em direcção ao singelo reflexo do meu rosto iluminado pela Lua.

 

Vi um homem de trinta e oito anos, surpreendentemente saudável, tendo em conta as suas muitas viagens e os perigos da sua profissão, de ombros largos e uma cintura ampla e fios cinzentos por entre os seus caracóis escuros não vi um jovem, mas também não vi um velho. Não era um rosto particularmente belo, mas também não era um rosto feio, com um nariz chato, ligeiramente adunco, queixada larga e serenos olhos castanhos. Um homem cheio de sorte, pensei, que não foi adulado pela Fortuna, mas também não foi desprezado por ela. Um homem com uma casa em Roma, trabalho regular, uma linda mulher, que partilha a sua cama e governa a sua casa, e um filho que transmitirá o seu nome. Não importava que a casa, herdada do seu pai, estivesse a desmoronar-se, ou que o trabalho fosse muitas vezes desonroso e frequentemente perigoso, nem que a mulher fosse uma escrava, e não uma esposa, ou que o filho não fosse do seu sangue e fosse mudo apesar de tudo, e no fim das contas, era um homem cheio de sorte.

 

Pensei nos escravos do Fúria no repugnante fedor dos seus corpos, nos seus olhos assombrados pela infelicidade, na total impotência do seu desespero propriedade de um homem que nunca veria as suas caras nem saberia os seus nomes, que nem sequer saberia se eles estavam vivos ou mortos enquanto um secretário lhe não entregasse uma requisição, pedindo-lhe mais escravos para os substituir. Pensei no rapaz que me tinha feito lembrar Eco, aquele que o senhor do chicote escolhera castigar e humilhar, e na forma como ele olhara para mim, com um sorriso patético, como se, de alguma maneira, eu tivesse poder para o ajudar, como se, pelo simples facto de ser um homem livre, eu fosse, de certa forma, como um deus.

 

Estava cansado, mas o sono parecia-me muito distante. Puxei uma cadeira que estava a um canto e sentei-me a contemplar o meu rosto. Pensei no jovem escravo Apolónio. As notas da sua canção ecoaram pela minha cabeça. Lembrei-me da história que o filósofo contara acerca do escravo-mágico Euno, que cuspia fogo e sublevou os seus companheiros, conduzindo-os a uma revolta louca. A determinada altura, devo ter começado a sonhar, porque pensei ver Euno a meu lado no espelho, assobiando, com uma coroa de fogo na cabeça e pequenas chamas saindo-lhe pelas narinas e por entre os dentes. Por cima do outro ombro, surgiu o rosto de Lúcio Licínio, com o olho meio fechado e coberto de sangue, um cadáver capaz de falar num vago murmúrio, demasiadamente baixo para que eu pudesse compreendê-lo. Deu umas pancadas no chão, como se fosse um código. Eu abanei a cabeça, perplexo, e disse-lhe que falasse mais alto, mas em vez disso ele começou a deitar sangue pela boca. Algum desse sangue caiu sobre o meu ombro, escorregando-me para o colo. Olhei para baixo e vi uma capa ensanguentada, que se contorcia e assobiava. Estava coberta por milhares de vermes, os mesmos vermes que tinham comido um ditador e um rei-escravo. Tentei afastar a capa, mas não consegui mexer-me.

 

Depois senti uma pancada forte e pesada no ombro não em sonhos, mas na realidade. Abri os olhos, sobressaltado. No espelho, vi o rosto de um homem abruptamente desperto de um sonho profundo, com o queixo descaído e os olhos pesados de sono. Pestanejei ao reflexo de uma lamparina que alguém segurava no ar, por trás de mim. No espelho, vi um gigante ameaçador, vestido de soldado. O seu rosto estava sujo, era feio e estúpido, como uma máscara de comédia. Era um guarda-costas um assassino treinado, pensei eu, reconhecendo instantaneamente o género. Parecia cruelmente injusto que alguém da casa já tivesse mandado um assassino matar-me, mesmo antes de eu ter sequer começado a levantar problemas.

 

Acordei-te? A sua voz era rouca, mas surpreendentemente suave. Bati à porta, e havia de jurar que te ouvi responder, por isso entrei. Vendo-te aí sentado na cadeira, pensei que estivesses acordado.

 

Ergueu uma sobrancelha. Eu olhei para ele em silêncio, já sem ter bem a certeza de estar acordado, e perguntando a mim próprio como teria ele tropeçado para dentro do meu sonho.

 

O que fazes aqui? disse por fim.

 

O feio rosto do soldado abriu-se num sorriso insinuante.

 

Marco Crasso solicita a tua presença na biblioteca, no andar de baixo. Se não estiveres demasiadamente ocupado, claro.

 

Apenas precisei de um momento para calçar as sandálias. Comecei a procurar uma túnica adequada aproveitando a luz da lamparina, mas o guarda-costas disse-me que fosse como estava. Enquanto isto, Eco ressonava suavemente. Os acontecimentos do dia tinham-no esgotado, e o seu sono era invulgarmente profundo.

 

Um longo e estreito corredor levou-nos até ao átrio central; havia um lance de escadas que conduzia ao jardim ao ar livre, onde a luz de minúsculas lamparinas colocadas no chão lançava estranhas sombras sobre o cadáver de Lúcio Licínio. A biblioteca era a curta distância, subindo-se um corredor em direcção à ala norte. Ao passarmos, o guarda indicou-me uma porta à nossa direita e pôs um dedo sobre os lábios.

 

A senhora Gelina está a dormir explicou-me ele. Alguns passos mais adiante, abriu uma porta à nossa esquerda e entrou à minha frente.

 

Gordiano de Roma anunciou.

 

Uma figura embrulhada numa capa estava sentada a uma mesa quadrada do outro lado do compartimento, de costas para nós. Perto dela, estava outro guarda-costas. A figura voltou-se um pouco na sua cadeira sem encosto, apenas o suficiente para olhar rapidamente para mim com um olho só, e regressou ao que estava a fazer, indicando com um gesto a ambos os guardas que saíssem.

 

Passados uns momentos, ergueu-se, tirou a ampla capa que trazia vestida um clâmide grego, como o que os Romanos frequentemente adoptam quando visitam a Taça e voltou-se para me cumprimentar. Trazia vestida uma túnica modesta, de um tecido duradouro e de corte simples. Estava ligeiramente despenteado, como se tivesse andado a cavalo. O seu sorriso era cansado, mas não era falso.

 

Então és tu o Gordiano disse ele, encostando-se à mesa, atulhada de documentos. Suponho que sabes quem eu sou.

 

Sim, Marco Crasso. Era apenas ligeiramente mais velho do que eu, mas consideravelmente mais grisalho o que não é surpreendente, tendo em conta as dificuldades e as tragédias por que passara no princípio da vida, incluindo a fuga para Espanha depois do suicídio do seu pai e do assassínio do seu irmão por forças anti-Sula. Eu vira-o muitas vezes no Fórum, fazendo discursos ou vigiando os seus interesses no mercado, sempre rodeado por um enorme séquito de secretários e sicofantas. Era um pouco enervante vê-lo tão de perto o seu cabelo sujo, os seus olhos cansados, as suas mãos por lavar e manchadas das rédeas. Afinal, era bastante humano, apesar da sua fabulosa riqueza. ”Crasso, Crasso, rico como Creso”, dizia a canção, e a imaginação popular de Roma imaginava-o um homem de hábitos excessivos. Mas aqueles que eram suficientemente poderosos para se moverem no seu círculo pintavam um quadro diferente, que era sustentado pela sua aparência despretensiosa; a ânsia que Crasso tinha de riquezas não visava os luxos que o ouro pode comprar, mas o poder que ele pode sustentar.

 

É estranho que nunca nos tenhamos encontrado disse ele, com a sua voz suave de orador. Já ouvi falar de ti, naturalmente. Houve aquele problema das Virgens Vestais, o ano passado; tu contribuíste para salvar a pele de Catalina, segundo sei. Também ouvi Cícero elogiar o teu trabalho, embora de uma forma indirecta. E Hortênsio. Reconheço a tua cara, do Fórum, suspeito eu. Geralmente, não contrato agentes livres como tu. Prefiro utilizar homens meus.

 

Ou possuir os homens que usas?

 

Compreendes-me bastante bem. Se eu quiser, digamos, construir uma nova villa, é muito mais eficaz comprar um escravo instruído, ou instruir um escravo inteligente, em vez de contratar qualquer arquitecto que esteja na moda, por um preço exorbitante. Prefiro comprar um arquitecto, a comprar os serviços de um arquitecto; assim poderei voltar a utilizá-lo, uma vez e outra, sem custos acrescidos.

 

Algumas das proficiências que eu ofereço estão para além das capacidades de um escravo disse eu.

 

Sim, suponho que sim. Por exemplo, um escravo dificilmente poderia ter sido convidado para se juntar aos convidados de Gelina ao jantar, interrogando-os à sua vontade. Já descobriste alguma coisa de valor desde que chegaste?

 

Na verdade, já.

 

Sim? Então fala. Afinal, fui eu que te contratei.

 

Pensei que tinha sido Gelina quem me tinha mandado buscar.

 

Mas foi o meu barco que te trouxe, e será da minha bolsa que serão pagos os teus honorários. Isso quer dizer que és meu empregado.

 

Apesar disso, se me permites, para já, prefiro não falar sobre as minhas descobertas. Por vezes, a informação é como o sumo espremido de uma uva; precisa de fermentar num lugar escuro e calmo, longe de olhares curiosos.

 

Estou a ver. Bem, então não vou insistir. Francamente, penso que a tua presença aqui é um desperdício do meu dinheiro e do teu tempo. Mas Gelina insistiu e, dado que foi o marido dela que foi morto, eu decidi fazer-lhe a vontade.

 

Tu próprio não estás curioso acerca do assassínio de Lúcio Licínio? Sei que ele era teu primo, e que era há muitos anos administrador das tuas propriedades.

 

Crasso encolheu os ombros.

 

Há realmente alguma dúvida sobre quem o matou? Certamente que Gelina te falou sobre os escravos fugitivos e sobre as letras garatujadas aos pés de Lúcio? O facto de uma coisa destas acontecer a um parente meu, numa das minhas villas, é ultrajante. É uma coisa que não pode ser ignorada.

 

E, contudo, pode haver razões para pensar que os escravos estão inocentes do crime.

 

Que razões? Ah, já me esquecia, a tua cabeça é uma espécie de urna escura onde a verdade fermenta lentamente. Sorriu de forma sinistra. Certamente que Metróbio poderia apresentar uma série de trocadilhos sobre o mesmo tema, mas eu estou demasiadamente cansado para isso. Ah, estes registos contabilísticos são um escândalo. Voltou-se de costas para mim para estudar os rolos de pergaminho colocados sobre a mesa, aparentemente já desinteressado da minha presença. Não fazia ideia de que Lúcio fosse tão descuidado. Sem o escravo Zenão, é completamente impossível perceber estes documentos...

 

Já não precisas mais de mim, Marco Crasso?

 

Ele estava absorvido nos registos, e parecia não me ter ouvido. Eu olhei à volta. O chão do compartimento estava coberto por uma espessa carpete, com um desenho geométrico em vermelho e preto. As paredes da esquerda e da direita estavam forradas de prateleiras cheias de rolos de pergaminho, uns agrupados e outros ordenadamente metidos em orifícios. Na parede oposta à porta abriam-se duas estreitas

janelas que davam para o pátio situado diante da casa, fechadas por causa do frio e cobertas por tapeçarias vermelho-escuras.

 

Entre as janelas, por cima da mesa onde Crasso trabalhava, via-se uma pintura de Gelina. Era um retrato de rara distinção, com um toque de vida, como dizem os Gregos. Ao fundo, erguia-se o Vesúvio, com o céu azul por cima e o mar verde abaixo; em primeiro plano, a imagem de Gelina parecia irradiar um sentido de profunda equanimidade e graça. A retratista estava evidentemente muito orgulhosa do seu trabalho, pois escrevera no canto inferior direito IAIA CIZICENA. A letra ”A” era desenhada com um floreado excêntrico, com a barra transversal fortemente inclinada para baixo e para a direita.

 

Dos dois lados da mesa, viam-se uns pequenos pedestais, que sustentavam umas estatuetas de bronze, cada uma delas aproximadamente da altura do antebraço de um homem. Não consegui ver a estátua da esquerda, porque estava tapada pela clâmide descuidadamente largado por Crasso. A da direita era uma estátua de Hércules, com uma clava atravessada sobre os ombros, despido à excepção de uma capa de pele de leão, com a cabeça do leão como capuz e as suas patas apertadas no pescoço. Era uma escolha estranha para uma biblioteca, mas o trabalho artístico era notável. Os tufos da pele do leão tinham sido escrupulosamente modelados; a textura da pele contrastava com a suave muscularidade da carne do semideus. Lúcio Licínio era tão descuidado com a sua arte como com os seus registos, pensei eu, pois parecia que a pele da cabeça do leão, em forma de concha, começara, de alguma maneira, a enferrujar.

 

Marco Crasso... recomecei.

 

Ele suspirou e acenou-me sem levantar a cabeça.

 

Sim, podes ir. Suponho que ficou claro que não tenho qualquer entusiasmo pelo teu projecto, mas apoiar-te-ei em tudo aquilo de que precisares. Vai primeiro ter com Fábio ou com Múmio. Se eles não atenderem às tuas necessidades em algum ponto, vem ter directamente comigo, embora não te possa garantir que consigas encontrar-me. Tenho uma série de negócios para resolver antes de regressar a Roma, e não disponho de muito tempo. O importante é que, quando este assunto terminar, ninguém possa dizer que a verdade não foi procurada ou que a justiça não prevaleceu. Voltou finalmente a cabeça, apenas para me lançar um sorriso cansado e pouco sincero de despedida.

 

Eu saí para o corredor e fechei a porta atrás de mim. O guarda ofereceu-se para me mostrar o caminho para o meu quarto, mas eu disse-lhe que estava perfeitamente acordado. Fiz uma pausa por momentos no átrio central, para olhar uma vez mais para o cadáver de Lúcio Licínio. O incenso fora renovado, mas o cheiro a podre, tal como o odor a rosas, parecia aumentar durante a noite. Estava a meio caminho do meu quarto quando voltei abruptamente atrás.

 

O guarda ficou surpreendido e um pouco desconfiado. Insistiu em entrar primeiro na biblioteca para consultar Crasso, antes de me permitir entrar. Depois saiu para o corredor e fechou a porta, deixando-nos novamente sozinhos.

 

Crasso ainda estava debruçado sobre os registos. Estava agora em roupa interior, tendo despido a sua túnica de viagem, que lançara para cima do Hércules. Nos poucos momentos em que eu estivera ausente, um dos escravos trouxera um tabuleiro com um copo fumegante, do qual ele bebia pequenos golos. A infusão de água quente e menta enchia o compartimento com o seu odor.

 

Sim? Ele ergueu impacientemente uma sobrancelha. Esqueci-me de discutir alguma coisa?

 

É uma coisa sem importância, Marco Crasso. Se calhar estou completamente enganado disse eu, erguendo a sua túnica de cima do Hércules. O tecido ainda guardava o calor do seu corpo. Crasso olhou para mim sombriamente. Era óbvio que não estava habituado a que as suas coisas fossem mexidas por pessoas que não lhe pertenciam. Uma estátua muito interessante observei eu, olhando para o Hércules de cima.

 

Suponho que sim. Trata-se de uma cópia de um original que eu tenho na minha villa de Falério. Lúcio admirou-a numa visita, por isso eu mandei fazer uma para ele.

 

É então irónico que tenha sido usada para o assassinar.

 

O quê?

 

Penso que ambos estamos suficientemente familiarizados com o sangue para o reconhecermos, Marco Crasso. Como explicas esta substância enferrujada metida nos interstícios da pele do leão?

 

Ele ergueu-se da cadeira e inclinou-se, depois pegou na estátua com as duas mãos e segurou-a por baixo de uma das lamparinas penduradas. Por fim, colocou-a sobre a mesa e olhou para mim ponderadamente.

 

És muito observador, Gordiano. Mas parece-me pouco provável que esta incómoda moca tenha sido arrastada pelo corredor até ao átrio com o objectivo de assassinar o meu primo Lúcio, e depois novamente trazida para aqui.

 

Não foi a estátua que foi transportada disse eu, foi o corpo. Crasso não se mostrou convencido.

 

Considera a postura do corpo quando foi encontrado, é uma postura de um homem que foi arrastado. Certamente que a distância deste compartimento até ao átrio não é demasiada para um homem forte arrastar um corpo.

 

É mais fácil se forem dois homens disse ele, e eu percebi que ele se referia aos escravos desaparecidos. Mas onde está o resto do sangue? Certamente que haveria mais sangue na estátua, e um corpo arrastado teria deixado vestígios.

 

A não ser que lhe tivessem colocado um tecido debaixo da cabeça, e que esse mesmo tecido tivesse sido utilizado para limpar o sangue deixado para trás.

 

Esse tecido foi encontrado? Eu hesitei.

 

Marco Crasso, perdoa-me a minha presunção, se te peço que não partilhes este conhecimento com ninguém. Gelina, Múmio e dois dos escravos já estão a par. Sim, esse tecido foi encontrado, empapado em sangue, na estrada, num ponto onde alguém tentou lançá-lo ao mar.

 

Ele olhou para mim astuciosamente.

 

Esse tecido manchado de sangue é uma das descobertas de que me falaste, um dos segredos que preferes esconder-me enquanto as provas fermentam na tua cabeça?

 

Sim. Acocorei-me e procurei vestígios de sangue no chão. Uma capa não teria sido o pano mais adequado para limpar o sangue de uma carpete escura, mas àquela luz mortiça era impossível detectar manchas.

 

Mas por que haviam os assassinos de arrastar o corpo? Ele pegou na estátua com a mão esquerda e passou os dedos da mão direita sobre o sangue encrustado, depois pô-la em cima da mesa com uma careta.

 

Falas de assassinos, e não de um assassino, Marco Crasso.

- Os escravos...

 

Talvez o corpo tenha sido movido e o nome de Espártaco gravado precisamente para implicar os escravos e nos distrair da verdade.

 

Ou talvez os escravos tenham movido o corpo para a parte mais pública da casa precisamente para marcarem a sua posição, num sítio onde todos pudessem vê-lo e ao nome que foi gravado.

 

Eu não tinha resposta para isso. Uma dúvida conduzia a outra.

 

Parece improvável que o assassínio tenha tido lugar neste compartimento sem ninguém ouvir, especialmente se se tiver seguido a uma discussão, ou se Lúcio tiver conseguido fazer algum ruído. Gelina dorme do outro lado do corredor; certamente que teria acordado com o barulho.

 

Crasso sorriu-me sardonicamente.

 

Gelina não tem de figurar nos nossos cálculos.

 

Não?

 

- Gelina dorme como os mortos. Talvez tenhas reparado no seu consumo liberal de vinho? Não é um hábito novo. Podias pôr dançarinas com címbalos no corredor, que Gelina não se mexeria.

 

Então a pergunta deve ser: por que foi Lúcio morto, aqui, nesta biblioteca?

 

Não, Gordiano, a pergunta é a mesma que sempre foi: onde estão os dois escravos fugitivos? Que Zenão, o seu secretário, tenha assassinado Lúcio aqui, no compartimento onde ambos trabalhavam frequentemente, não é surpreendente. O jovem Alexandre, o trabalhador nos estábulos, devia estar aqui com eles; disseram-me que ele sabia ler e fazer contas, e que por vezes Zenão recorria a ele para o ajudar. Talvez tenha sido esse Alexandre a cometer o crime; um trabalhador dos estábulos devia ter força suficiente para arrastar Lúcio ao longo do corredor, e um trácio teria o atrevimento de rabiscar o nome do seu conterrâneo no chão. Algo o interrompeu e ele fugiu antes de conseguir escrever o nome completo.

 

Mas ninguém o interrompeu. O corpo só foi descoberto na manhã seguinte.

 

Crasso encolheu os ombros.

 

Um mocho piou, ou um gato buliu um seixo. Ou talvez, muito simplesmente, esse escravo trácio não tivesse aprendido a letra C e se tivesse atrapalhado disse ele a brincar, esfregando os olhos com o indicador e o polegar. Perdoa-me, Gordiano, mas acho que já chega por hoje. Até Marco Múmio se foi deitar, e nós devemos fazer a mesma coisa. Pegou no Hércules que estava em cima da mesa e voltou a colocá-lo no pedestal. Suponho que este será outro dos teus segredos que têm de fermentar. Terei o cuidado de só o mencionar a Morfeu, em sonhos.

 

A lamparina que iluminava o corredor empalidecera. Eu passei diante da porta de Gelina, evitando fazer barulho, apesar da afirmação de Crasso de que nada poderia acordá-la. Na escuridão, uma sensação fantasmagórica tomou conta de mim; este era exactamente o percurso por onde fora arrastado o corpo de Lúcio, moribundo ou já sem vida. Olhei por cima do ombro, quase desejando ter aceite a oferta que o guarda-costas me fizera de me acompanhar até ao meu quarto.

 

Fiz uma longa pausa no átrio iluminado pelo luar. O lugar estava tranquilo, mas não inteiramente silencioso. A fonte continuava a deitar água; esse som ecoava no átrio, que tinha a forma de um poço, e certamente que seria suficientemente forte para cobrir quaisquer ruídos acidentais feitos por um homem que se movesse sub-repticiamente. Mas poderia ter abafado os guinchos agudos de uma faca gravando letras numa laje dura? A simples ideia desse ruído causou-me arrepios.

 

Pelo canto do olho, vi uma forma estranha, semelhante a um véu branco, flutuar à volta do ataúde funerário. Recuei, com o coração aos saltos, e depois percebi que se tratava apenas de uma coluna de fumo do incenso, momentaneamente captada por um raio de luar. Estremeci e atribuí-o à humidade do ar.

 

Subi as escadas para o andar de cima. Devo ter-me enganado no corredor e, não sei como, perdi-me. Pequenas lamparinas iluminavam as passagens a intervalos e as janelas deixavam entrar dardos de luar, mas eu continuava a sentir-me confuso. Tentei decidir pelo ouvido qual era a direcção da baía, mas dei por mim a ouvir o desmaiado gorgolejo da água quente passando pelos amados canos de Orata, invisivelmente instalados debaixo do chão e ao longo das paredes. Passei por uma porta fechada, do outro lado da qual ouvi um riso abafado a voz profunda de Marco Múmio, quase de certeza, e outra voz, mais suave, que lhe respondia. Continuei a andar e cheguei a uma porta aberta, de onde provinha um ressonar constante e rouco. Entrei, olhando furtivamente para a escuridão, e vi o que me pareceu ser o bolboso perfil de Sérgio Orata reclinado sobre um enorme canapé com um dossel transparente. Regressei ao corredor e prossegui, até chegar ao compartimento semicircular onde Gelina nos acolhera naquele dia.

 

E chamas-te tu ”Gordiano, o Descobridor”, pensei desgostoso, agradecendo aos deuses por não haver ali ninguém que se risse de mim. Chegara à extremidade norte da casa, tendo justamente voltado para o lado errado depois de ter subido as escadas, vindo do átrio. Preparava-me para regressar, quando decidi sair para a varanda para respirar um pouco de ar puro, a fim de clarificar o espírito.

 

Iluminada por uma Lua quase cheia, a baía era uma vasta extensão de prata, rendilhada de minúsculas ondas pretas e rodeada por montanhas escuras, pespontadas, aqui e ali, por um ponto de luz amarela, que indicava uma lamparina distante no interior de uma casa distante. O céu era rasgado por ocasionais farrapos de nuvens, avermelhadas por causa do brilho da lua, mas à parte isso estava cheio de estrelas. Arrebatado pelo panorama, quase não reparava no minúsculo brilho de uma lamparina em baixo, na costa, no sítio onde a terra se inclinava em escarpa, indo ao encontro da água.

 

Gelina mencionara uma casa de barcos. Um afloramento de rocha e os topos das árvores altas obscureciam a vista mas, quase directamente abaixo de mim, avistei um pedaço de telhado e aquilo que devia ser um embarcadouro projectando-se para dentro de água, muito pequeno, visto àquela distância. A intervalos, detectei o brilho de uma pequena chama, que ia e vinha. Escutei com mais atenção, e pareceu-me que cada aparecimento da lamparina coincidia com um suave chapinhar, como se alguma coisa estivesse a ser silenciosamente lançada à água.

 

Olhei à volta, tentando localizar uma escada, e vi um caminho largo, a descer, que partia de uma extremidade da varanda onde me encontrava. Avancei cuidadosamente.

 

O caminho começava por ser uma rampa pavimentada que dava uma volta sobre si própria, estreitando em seguida para uma escadaria inclinada, que ia dar a outro lance de escadas, proveniente de outro ponto da villa. As escadas estreitavam, formando um trilho pavimentado que serpenteava pela encosta da colina, por baixo de um dossel de arbustos e de árvores. Perdi rapidamente de vista a villa e, durante algum tempo, também não consegui ver a casa dos barcos, ao fundo.

 

Finalmente, contornei uma esquina e vi abaixo de mim um telhado e, para além dele, a extremidade do molhe, projectando-se na água. Uma lamparina brilhava no molhe; ouvi um chapinhar e a lamparina desapareceu imediatamente. No mesmo instante, senti-me escorregar e dei por mim deslizando pelo caminho, provocando um jacto de cascalho, que caiu como chuva sobre o telhado da casa dos barcos.

 

Sentei-me completamente imóvel no silêncio que se seguiu, sustendo a respiração e escutando, desejando ter trazido o meu punhal. A luz não voltou a aparecer, mas ouvi um súbito chapinhar ruidoso, seguido pelo silêncio, depois um barulho na vegetação ao lado, como se um gamo assustado tivesse fugido. Ergui-me e desci o caminho até ao fim. Entre o final do caminho e a casa dos barcos, havia um fragmento profundamente sombreado de escuridão quase impenetrável, coberta de árvores e vinhas. Avancei lentamente, ouvindo o som amplificado dos meus próprios passos na erva e o suave bater da água contra o molhe.

 

Para além de um círculo de sombra, a casa dos barcos e o molhe estavam completamente iluminados pelo luar. O molhe projectava-se talvez uns cento e cinquenta metros para dentro de água; não tinha corrimão, mas estava guarnecido de ambos os lados com postes de ancoragem. Não havia barcos ancorados e o molhe estava deserto. A casa dos barcos era um edifício simples e quadrado, com uma única porta, que dava para o molhe. A porta estava aberta.

 

Avancei para o luar, em direcção à porta aberta. Entrei, atento a qualquer ruído, mas nada ouvi. Uma janela no alto da parede deixava entrar luz suficiente para me permitir avistar os rolos de corda que havia no chão, alguns remos amontoados ao lado da porta e os utensílios obscuros que estavam pendurados na parede oposta. Sombras profundas enchiam os cantos do compartimento. No total silêncio, conseguia ouvir a minha própria respiração, mas não ouvia a de mais ninguém. Retirei-me e avancei para o molhe.

 

Fui até à ponta, onde o disco da lua parecia pairar sobre as águas, mesmo a seguir ao molhe. A costa, que se estendia em curva de ambos os lados, estava salpicada com as luzes de villas distantes e ao longe, do outro lado da comprida lisura da água, as lamparinas de Putéolos pareciam estrelas. Olhei por cima da extremidade do molhe, mas nada consegui ver nas águas negras, à excepção do reflexo da minha própria expressão franzida. Recuei.

 

A pancada pareceu-me vir de nenhures, como um maço invisível lançado de um abismo negro. Atingiu-me na testa e fez-me cambalear para trás. Não senti dor, mas apenas uma súbita vertigem avassaladora. O maço invisível foi novamente lançado da escuridão mas, desta vez, eu vi-o era um remo curto e sólido. Evitei a segunda pancada simultaneamente por acaso e por desígnio um homem cambaleante constitui um alvo incerto. Relâmpagos de cor vogavam diante dos meus olhos mas, para além do remo, consegui ver a figura negra e encapuçada que o empunhava.

 

Depois caí à água. Os homens que me contratam perguntam-me por vezes se eu sei nadar. Normalmente digo-lhes que sim, o que é mentira. Gritei. Chapinhei. Fosse como fosse, consegui flutuar e estendi desesperadamente a mão para o molhe, embora a figura encapuçada estivesse à minha espera, com o remo erguido.

 

Estendi a mão para um dos postes de ancoragem. Os meus dedos escorregaram no musgo verde. O remo ergueu-se para me atingir na mão mas, não sei bem como, eu consegui agarrá-lo. Puxei com força, mais para sair da água do que para o empurrar para dentro dela, mas o resultado foi o meu atacante perder o equilíbrio. Um momento mais tarde, com uma ruidosa pancada, ele juntou-se a mim nas águas negras.

 

Veio à superfície ao meu lado, atingiu-me no peito com o cotovelo e estendeu o braço para o molhe. Eu agarrei-me à sua capa, tentando freneticamente trepar para o molhe por cima dele. Juntos, agitámo-nos e lutámos. O sal ardia-me nos olhos. Abri a boca e engoli um gole ardente de água salgada. Agarrei-me a ele, firme e cegamente.

 

Julgo que ele percebeu que, se lutasse comigo, nos mataríamos um ao outro. Libertou-se de mim e afastou-se a nadar do molhe, em direcção à margem coberta de ervas, para lá da casa dos barcos. Eu agarrei-me ao escorregadio poste de ancoragem e vi-o afastar-se como um poderoso monstro marinho, esmagado pelo peso das suas roupas. Quando ele se encontrava a uma distância segura, icei-me esforçadamente para o molhe, e ali fiquei, tentando recuperar o fôlego. Ele desapareceu nas sombras, para além da casa dos barcos. Ouvi-o sair da água, escorregando e chapinhando, e depois avançar pelo meio dos arbustos.

 

O mundo voltou a ficar calmo, à excepção do barulho da minha própria respiração ofegante. Toquei na testa e arquejei, sentindo uma dor aguda, mas não senti sangue. Avancei a cambalear, com as pernas a tremer, mas lúcido.

 

Nunca devia ter vindo à casa dos barcos à noite, sozinho e desarmado; devia ter trazido Eco comigo, e uma lamparina, e um punhal afiado, mas agora era tarde de mais. Tirei o remo da água, para o usar como arma e corri para a base do caminho. Tratava-se de um caminho difícil e escarpado, mas eu corri até lá acima, observando todos os pontos escuros e fazendo girar o remo para o invisível assassino que talvez estivesse aí escondido. O caminho passou a escadas, as escadas passaram a rampa, a rampa chegou à varanda, onde me senti finalmente a salvo. Fiz uma longa pausa para recuperar o fôlego. Comecei a sentir frio, por causa da túnica molhada. Atravessei apressadamente a casa às escuras, a tremer, e ainda com o remo na mão. Finalmente, cheguei ao meu quarto.

 

Entrei e fechei a porta atrás de mim. Eco ressonava pacificamente. Eu estendi a mão e toquei no caracol de cabelo fino que lhe atravessava a testa, sentindo uma súbita onda de ternura por ele e um enorme desejo de o proteger mas de quem e de quê? Mas sentia-me sobretudo frio e molhado, e tão cansado que seria incapaz de dar mais um passo ou de pensar no que quer que fosse. Tirei a túnica encharcada e sequei-me o melhor que pude com um cobertor, depois tirei a cobertura da minha cama e deitei-me de costas, ansiando desesperadamente por dormir.

 

Uma coisa dura e aguçada espetou-me por trás. Pus-me de pé com um salto. As surpresas da noite ainda não tinham acabado.

 

Olhei para baixo e apenas consegui ver uma forma escura em cima da almofada. Saí freneticamente do quarto, nu, para ir buscar uma lamparina ao corredor. Ao brilho lúgubre da sua luz, estudei aquilo que alguém deixara sobre a minha cama. Tratava-se de uma figurinha do tamanho da minha mão, esculpida em pedra negra porosa, uma criatura grotesca com uma cara horrenda. Os seus olhos eram feitos de minúsculos fragmentos de vidro vermelho, que brilhavam à luz da lamparina. Fora o nariz aguçado que me espetara.

 

Que coisa tão feia murmurei. Eco fez um barulho com a garganta, e virou-se na direcção da parede, profundamente adormecido. Tal como Gelina, teria dormido ainda que passasse no corredor um grupo de dançarinas tocando címbalos. Eu coloquei o monstrozinho no peitoril da janela, sem saber o que fazer com ele, e demasiadamente esgotado para conseguir pensar nisso.

 

Pus a lamparina em cima de uma mesa, e deixei-a ficar a arder, não porque confiasse na protecção da luz, mas porque estava demasiadamente cansado para apagá-la. Deixei-me cair em cima da cama e adormeci quase instantaneamente. Mesmo antes de Morfeu me ter reclamado, percebi com um arrepio por que tinha sido aquela coisa posta na minha cama. Amigável ou não, a presente advertência ou maldição, tratava-se de um acto de feitiçaria. Estávamos na região da Taça, onde a terra respira enxofre e vapor, onde os antigos habitantes praticavam magias da terra e para onde os colonizadores gregos tinham trazido novos deuses e oráculos. Essa informação perturbou-me os sonhos e enublou-me o sono, mas nada, nem sequer um grupo de dançarinas no corredor, poderia ter-me mantido acordado por mais um segundo que fosse.

 

Estremeci ao sentir uma forte dor de cabeça, como se alguém estivesse a picar-me com uma urtiga, abri os olhos e vi Eco debruçado sobre mim, franzindo os lábios pensativamente. Estendeu a mão para tocar num ponto da minha testa, mesmo abaixo do couro cabeludo. Estremeceu solidariamente e recuou, abanando a cabeça.

 

Tem assim tão mau aspecto? disse eu, colocando os pés no chão e inclinando-me para diante, para olhar para o espelho. Mesmo à luz cinzenta da madrugada, o inchaço era bastante evidente, como uma protuberância vermelha que parecia mais dolorosa do que realmente era. Eco pegou na minha túnica ainda húmida com uma mão e no remo com a outra. Olhou para mim com desaprovação, exigindo uma explicação.

 

Comecei pela entrevista com Crasso as marcas de sangue na estátua de Hércules, a evidência de que Lúcio Licínio fora morto na sua biblioteca, o decidido desinteresse do nosso empregador. Falei-lhe acerca da lamparina que se movia na casa dos barcos, do periódico chapinhar, como se alguma coisa estivesse a ser lançada à água, da descida escarpada, do molhe e da casa dos barcos desertos, do remo girando por cima da minha cabeça, da luta na água.

 

Eco abanou a cabeça irritadamente e bateu com o pé no chão.

 

Sim, Eco, fui um louco, e também tive muita sorte. Devia ter-te ido buscar à cama para te levar comigo, em vez de ir a correr investigar. Ou, melhor ainda, devia ter trazido Belbo comigo para fazer de guarda-costas, e ter-te deixado em Roma para cuidares de Betesda. A sugestão irritou-o ainda mais. Não faço ideia de quem me atingiu. Quanto à casa dos barcos e ao molhe, não se via nada, pelo menos à noite. Odeio a água! Recordei-me do golo ardente da água salgada na garganta, da luta e das pancadas; as mãos começaram subitamente a tremer-me e tive de fazer um esforço para respirar. A irritação de Eco desvaneceu-se e ele abraçou-me, apertando-me com força. Recuperei o fôlego e dei-lhe umas pancadinhas na mão.

 

E, como se a aventura na casa dos barcos não tivesse sido suficiente, ao regressar, encontrei isto em cima da cama. Estendi a mão para a janela e peguei na figurinha. A pedra negra e porosa parecia húmida. Eu acordara várias vezes durante a noite e vira-a olhar para mim do peitoril da janela, o seu rosto feio e estranho iluminado pela luz da lamparina, com os olhos vermelhos e brilhantes. A determinado momento, pensei mesmo que a vira mexer-se, ondulando-se numa espécie de dança mas tratava-se apenas de um sonho, evidentemente.

 

O que é que ela te recorda? Eco encolheu os ombros.

 

Já vi uma coisa parecida; faz-me lembrar um deus doméstico egípcio do prazer chamado Bes, um sujeitinho feio, que atrai a alegria e a frivolidade para a casa onde habita. É tão horrendo que, quem não saiba que se trata de um deus amigável, pode assustar-se tem uma boca enorme e escancarada, olhos esbugalhados, um nariz pontiagudo. Mas isto não é o Bes; para já, é um hermafrodita estás a ver os minúsculos seios redondos e o pequeno pénis? Além disso, o trabalho de escultura não é egípcio. Parece ser feito de pedra local, daquela coisa preta e porosa que se encontra nas encostas do Vesúvio. Presumo que seja difícil de trabalhar, deve esmigalhar-se facilmente, por isso não sei dizer se a escultura é imperfeita, ou se foi simplesmente talhada à pressa. Quem poderá ter feito tal coisa, e por que vieram pô-la na minha cama?

 

”A prática da bruxaria é muito popular aqui na Taça, muito mais do que em Roma. Aqueles cujas famílias sempre viveram aqui, cuja linhagem é anterior aos Romanos nesta zona, possuem artes mágicas próprias. Depois, os Gregos vieram instalar-se neste local, trazendo consigo os seus oráculos. Apesar disso, parece-me mais uma coisa feita por um oriental, e mais provavelmente por uma mulher do que por um homem. O que achas Eco? estará um dos escravos da casa a tentar lançar uma maldição sobre mim? Ou poderá ser...

 

Eco bateu as palmas e apontou para a porta, atrás de si, onde o jovem escravo Meto se encontrava de pé, expectante, trazendo nas mãos um tabuleiro de pão e frutos. Vi os seus olhos vaguearem nervosamente à volta do quarto. Escondi a figurinha enquanto me voltava de maneira que, quando olhei para ele, a tinha oculta atrás das costas. Sorri-lhe. Ele sorriu-me também. Depois, apresentei a figurinha e empurrei-a para cima do tabuleiro. Ele teve um pequeno sobressalto.

 

Já tinhas visto isto? disse eu, num tom acusatório.

 

Não! - murmurou ele. Isso podia ser literalmente verdade, dado o modo frenético como ele desviava os olhos.

 

Mas sabes o que é, e de onde vem?

 

Ele manteve-se em silêncio, mordendo os lábios. O tabuleiro tremeu. Uma maçã caiu e rolou para cima de um monte de figos. Eu tirei-lhe o tabuleiro das mãos e coloquei-o em cima da cama, peguei na estatueta e aproximei-lha do nariz. Ele olhou para ela de lado e depois fechou os olhos com força.

 

Então? insisti eu.

 

Por favor, se te disser, pode não funcionar...

 

O quê? Explica-te.

 

Se eu te explicar, o teste pode não resultar.

 

Estás a ouvir isto, Eco? Alguém está a testar-me. Gostaria de saber quem e porquê.

 

Meto vacilou perante o meu olhar inquisitivo.

 

Por favor, eu próprio não percebo nada disso, foi só uma coisa que por acaso ouvi.

 

O que ouviste? Quando?

 

A noite passada.

 

Aqui em casa?

 

Sim.

 

Presumo que oiças muitas coisas por acaso, dado que andas sempre de um lado para o outro.

 

Por vezes, mas nunca faço de propósito.

 

E quem é que ouviste falar a noite passada?

 

Por favor!

 

Olhei para ele durante uns momentos, depois recuei e abandonei completamente a minha expressão de severidade.

 

Sabes por que estou aqui, não sabes, Meto? Ele abanou a cabeça.

 

Julgo que sim.

 

Estou aqui porque tu e muitos outros se encontram numa situação de grande perigo. Eu quero ajudar-vos, se puder.

 

Ele olhou para mim cepticamente.

 

Se eu tivesse a certeza disso... murmurou num tom muito baixo.

 

Podes ter a certeza, Meto. Julgo que sabes quão grande é o perigo. Ele era apenas um rapazinho, demasiadamente jovem para se sujeitar àquilo que Crasso planeara para ele. Teria alguma vez visto um homem a ser morto? Teria idade suficiente para compreender? Confia em mim, Meto. Diz-me de onde veio esta estátua.

 

Ele olhou fixamente para mim por momentos, depois olhou resolutamente para a coisa grotesca que eu tinha na mão.

 

Não posso dizer-te isso disse ele por fim. Eco aproximou-se dele, exasperado; eu detive-o com o braço. Mas posso dizer-te...

 

Sim, Meto?

 

Não deves mostrar a figura a mais ninguém. E que não deves falar dela a ninguém. E...

 

Sim?

 

Ele mordeu o lábio inferior.

 

Quando saíres deste quarto, não a leves contigo. Deixa-a ficar aqui. Mas não a deixes em cima da mesa nem no peitoril da janela...

 

Então onde devo deixá-la? Onde a encontrei?

 

Ele pareceu aliviado, como se a sua honra ficasse menos comprometida por ser eu a falar em vez dele.

 

Sim, mas...

 

Fala, Meto!

 

Mas deixa-a em posição contrária àquela em que a encontraste.

 

Voltada para baixo?

 

Sim, e...

 

Com os pés voltados para a parede?

 

Ele acenou com a cabeça, e depois olhou rapidamente para a estátua. Bateu-lhe com a mão na boca e encolheu-se.

 

Vê como ela olha para mim! Oh, o que fiz eu?

 

Fizeste o que devias, garanti-lhe eu, colocando a estátua fora do alcance da sua vista. Olha, quero que me faças um recado: vai pôr este remo na casa dos barcos. Agora vai-te embora e não contes a ninguém que falaste comigo. A ninguém! Pára de tremer, senão as pessoas vão reparar. Fizeste o que devias disse eu novamente, fechando a porta atrás dele e acrescentando em seguida: Espero eu!

 

Depois de um pequeno-almoço apressado, dirigimo-nos à biblioteca. Os escravos já estavam de pé e circulavam pela casa, varrendo e arrumando e espalhando odores culinários provenientes da cozinha, mas ninguém mais parecia agitar-se. Algumas lamparinas continuavam acesas nos corredores, e ainda havia sombras escondidas nos cantos mais remotos, mas a maior parte da casa estava mergulhada numa suave luz azul. Passámos por uma janela comprida, que dava para leste; o Sol, que ainda não se erguera para lá do Vesúvio, punha um halo de ouro pálido à volta das abas das montanhas. Era a primeira hora do dia, uma hora em que muitos romanos já andavam de pé, a tratar dos seus negócios. Mas os habitantes da Taça tinham um horário mais ocioso.

 

A biblioteca estava vazia e sem guardas. Eu abri as portadas para deixar entrar toda a luz possível. Eco avançou para a direita da mesa e estudou os resíduos secos de sangue na estátua de Hércules, a fim de confirmar o que eu lhe dissera, depois estremeceu em consequência do ar fresco da manhã que entrava pelas janelas, vindo do pátio saibroso. Pegou na clâmide que Crasso lançara para cima da outra estátua, representando um centauro, e pô-la à volta dos seus ombros.

 

Se fosse a ti, não me apoderava dessa capa, Eco. Não sei bem como reagiria um homem como Crasso ao ver uma pessoa como tu mexer nas suas coisas pessoais.

 

Eco limitou-se a encolher os ombros e a circular lentamente à volta do compartimento, observando com os olhos muito abertos todos aqueles rolos de pergaminho. A maioria estava ordenadamente enrolada, inserida em longas capas de tecido ou de pele e identificada através de pequenas etiquetas. Aparentemente, as obras mais literárias, destinadas ao prazer ou à instrução tratados filosóficos, novelas gregas exóticas, peças, histórias estavam marcadas com etiquetas vermelhas ou verdes, e catalogadas um pouco ao acaso, colocadas umas em cima das outras em prateleiras altas e estreitas. Os documentos relacionados com transacções comerciais estavam mais prosaicamente arrumados em orifícios individuais, e tinham etiquetas azuis ou amarelas. Ao todo, havia centenas de rolos de pergaminho, que enchiam duas paredes, desde o chão até ao tecto. Eco emitiu um pequeno assobio.

 

Sim, é bastante impressionante concordei eu. Não me parece que tenha alguma vez visto tantos pergaminhos num só local, nem sequer em casa de Cícero. Mas, por agora, preferia que dirigisses os olhos para baixo, para o chão. Se alguma carpete foi alguma vez tecida por forma a esconder uma mancha de sangue, foi uma carpete como esta, toda vermelha e preta. Apesar disso, se Lúcio sangrou para o chão e se o assassino apenas utilizou uma capa para limpar o sangue, deve haver algum sinal da mancha.

 

Eco auxiliou-me na tarefa de esquadrinhar o desenho geométrico. A luz da manhã ia-se tornando cada vez mais forte mas, quanto mais procurávamos, mais desconcertante parecia tornar-se o padrão escuro. Juntos, atravessámos a carpete de um lado ao outro. Finalmente, Eco pôs-se de joelhos como um cão de caça, mas de nada serviu. Se alguma vez tivesse havido alguma gota de sangue nesta carpete, algum deus a transformara em pó e a soprara para longe.

 

O chão de ladrilhos, que aparecia para além das extremidades da carpete, não era mais revelador. Levantei uma ponta da carpete e dobrei-a para trás, pensando que talvez tivesse sido arrastada para cobrir umas gotas de sangue, mas não descobri nada.

 

Se calhar Lúcio não foi morto neste compartimento suspirei eu. Deve ter sangrado em algum sítio, e não há sítio nenhum para ele sangrar, excepto o chão. A não ser que... Dirigi-me à mesa. A não ser que estivesse de pé aqui, diante da mesa, que era o sítio mais natural para ele estar na sua biblioteca. O golpe foi dado na parte da frente da cabeça e não na parte de trás, por isso ele devia estar de frente para o seu atacante. E foi do lado direito e não do lado esquerdo, por isso devia estar voltado para norte, com o lado esquerdo voltado para a mesa e o lado direito exposto. Para lhe atingir a têmpora direita, o assaltante deve ter utilizado a sua mão esquerda; isso pode ser muito importante, Eco quem quer que pegue numa pedra pesada para utilizá-la como moca fá-lo-á com o braço em que tem mais força. Portanto, vamos presumir que o assassino era canhoto. Lúcio terá caído de lado em cima da mesa...

 

Eco inclinou-se obsequiosamente por cima da mesa, por entre a confusão de documentos que Crasso estivera a estudar na noite anterior. Caiu de cara para baixo, com um braço sob o corpo e o outro estendido.

 

Caso em que o sangue deverá ter-se espalhado sobre a mesa e na parede de onde poderia ter sido facilmente limpo. Não estou a ver sangue nenhum. A não ser que se tenha espalhado ainda mais para cima... Subi de joelhos para cima da mesa. Eco ergueu-se para se juntar a mim, estudando o quadro de Gelina. Encáustico em tela, numa moldura de madeira preta com embutidos de madrepérola fácil de limpar e metido na parede. Se algum do sangue tivesse ido parar à pintura propriamente dita, duvido de que o assassino se tivesse atrevido a esfregar a cera com toda a força, pois recearia danificá-lo, se é que viu o sangue por entre estes pigmentos. É espantosa a quantidade de cores que há numa pintura, e de que só nos apercebemos quando olhamos assim de perto, não é? A esta distância, a assinatura de laia é certamente bastante grande, e a vermelho, mas é mais provável que seja feita a cinábio do que a sangue. As dobras da estola de Gelina são a vermelho e preto, sarapintado; não há dúvida de que ela escolheu esta carpete para condizer com o seu fato na pintura. Vermelho aqui, preto ali e Eco, estás a ver?

 

Eco acenou com a cabeça, ansiosamente. Por cima de uma mancha de verde, num ponto onde nenhum pintor seria suficientemente descuidado para deixá-lo cair, via-se um esguicho de gotas vermelho-escuras, cor de sangue seco. Eco aproximou-se mais, e depois começou a apontar para outras gotas no fundo, na estola, em vários pontos da parte inferior do quadro, e até uma nódoa atravessada em cima da assinatura de laia. Quanto mais olhávamos, mais víamos. Na crescente luz da manhã, as gotas pareciam desabrochar diante dos nossos olhos, como se o próprio quadro estivesse a pingar sangue. Eco faz uma careta e eu respondi-lhe com outra, concordando com ele: o golpe desferido na cabeça de Lúcio Licínio devia ter sido terrível, para ter espalhado tanto sangue. Afastei-me do quadro, repugnado.

 

Que ironia murmurei, que Lúcio tenha poluído com o seu próprio sangue o quadro da mulher com quem se casou por amor, e tenha acabado aqui, um cadáver, prostrado diante da sua imagem. Um amante ciumento, Eco? Tê-lo-á alguém assassinado intencionalmente aqui, diante do quadro? Deve ter sido uma cena notável, o marido morto caindo sem vida diante da serena imagem da sua mulher. Mas, se alguém pretendia que assim fosse, então por que foi o seu corpo arrastado, e o espectro de Espártaco invocado?

 

Saltei para baixo da mesa, imitado por Eco.

 

Devia haver sangue sobre a mesa, que foi facilmente limpo. O que significa que não havia documentos, como há agora, pois de outra maneira também teriam ficado ensanguentados, e seria impossível limpá-los-, o sangue sai facilmente de madeira laçada, mas não de pergaminho nem de papiro. No entanto, pergunto a mim próprio... ajuda-me aqui a afastar a mesa da parede.

 

Era mais fácil de dizer do que de fazer. A mesa era pesada, talvez excessivamente pesada para um homem sozinho a levantar. Mesmo com um de nós a pegar em cada extremidade, a tarefa foi difícil; derrubámos uma cadeira, enrugámos a carpete e produzimos um guincho enorme quando uma das pernas da mesa raspou nos ladrilhos do chão. A nossa recompensa foi sangue: tanto na parede como na parte traseira da mesa, metidas onde nenhum pano poderia tê-las alcançado, viam-se manchas de uma substância pegajosa, vermelho-escura. O sangue de Lúcio escorrera pela mesa e acumulara-se no espaço estreito entre a mesa e a parede, deixando vestígios em ambas.

 

Eco enrugou o nariz.

 

Mais uma prova de que Lúcio foi morto aqui, se preciso fosse disse eu. Mas o que podemos deduzir daqui? Não faz sentido que os escravos desaparecidos tivessem limpo o sangue, especialmente se estavam orgulhosos do seu crime; mas serão necessárias provas mais contundentes para afastar Crasso do seu objectivo. Eco, ajuda-me a pôr a mesa onde estava. Estou a ouvir passos no corredor.

 

Precisamente quando eu estava a apanhar a cadeira, e Eco a endireitar a carpete, um rosto inquisitivo espreitou do outro lado da esquina.

 

Meto! És justamente a pessoa que me faz falta. Entra e fecha a porta atrás de ti.

 

Ele fez como eu lhe ordenei, mas não sem hesitar.

 

Tens a certeza de que devíamos estar nesta sala? murmurou ele.

 

Meto, a tua senhora deixou claro que eu devia ter acesso a todas as partes da casa, não é verdade?

 

Suponho que sim. Mas ninguém podia entrar neste compartimento sem licença do senhor.

 

Ninguém? Nem mesmo as criadas da limpeza?

 

Só quando o senhor as deixava entrar e, mesmo então, costumava querer que ele próprio ou Zenão estivessem presentes.

 

Mas não há aqui nada que um escravo possa roubar nem moedas pequenas, nem jóias, bem berloques.

 

Apesar disso certa vez, eu esgueirei-me cá para dentro, porque queria ver melhor o cavalo...

 

O cavalo? Ah, a estátua do centauro.

 

Sim, e foi o próprio senhor que me descobriu. Ficou imediatamente furioso, e normalmente o senhor não era um homem que se enfurecesse. Mas ficou vermelhíssimo e gritou comigo de tal maneira, que eu pensei que ia morrer com as pancadas que ele me deu no peito. Os olhos de Meto abriram-se muito, ao recordar a cena. Arquejou um pouco e abanou a cabeça, como um homem tentando recuperar de um sonho horrível. Mandou chamar Alexandre e ordenou-lhe que me espancasse, aqui mesmo. Normalmente, seria Clitão a fazer isso; ele também trabalha nos estábulos e gosta de espancar os outros, mas eu tive sorte porque, nesse dia, Clitão estava a trabalhar em Putéolos. Tive de me inclinar e de pôr as mãos no chão enquanto Alex me dava dez vergastadas com uma vara. Ele só fez isso porque o senhor o obrigou. Podia ter-me batido com muito mais força, tenho a certeza disso, mas ainda assim fez-me chorar.

 

Estou a ver. Gostavas desse Alexandre? Os olhos do rapaz brilharam.

 

Claro. Toda a gente gosta de Alex.

 

E Zenão, também gostavas dele? Ele encolheu os ombros.

 

Ninguém gostava de Zenão. Não é que ele seja cruel ou mandão, como Clitão. Mas é arrogante e fala outras línguas e julga que é melhor que os outros escravos. E peida-se muito.

 

Parece uma pessoa muito desagradável. Diz-me uma coisa, na noite em que o teu senhor foi assassinado, alguém andava a circular pela casa? Tu, por exemplo, ou outro escravo qualquer?

 

Ele abanou a cabeça.

 

Tens a certeza? Ninguém ouviu nada, ninguém viu nada?

 

Todos temos falado do caso, claro. Mas ninguém sabe o que aconteceu. No dia seguinte, a senhora disse-nos que, se alguém soubesse alguma coisa, devia ir ter directamente com o senhor Crasso, ou Múmio ou Fábio. Se alguém tivesse visto ou ouvido o que se passou, tenho a certeza de que contava.

 

E entre os escravos, não se ouvem rumores, nem sussurros?

 

Nada. E, se alguém tivesse dito alguma coisa, mesmo em segredo, aquele que tinha mais probabilidades de ouvir era eu. Não é que eu oiça atrás das portas...

 

Compreendo. As tuas obrigações fazem-te andar pela casa inteira, de quarto em quarto, de manhã até à noite, enquanto os cozinheiros e os homens dos estábulos estão todo o dia no mesmo sítio e conversam uns com os outros. Não deves envergonhar-te de ouvir coisas e de ver coisas, Meto. É essa a minha profissão. Quando te vi pela primeira vez, percebi imediatamente que eras os olhos e os ouvidos desta casa.

 

Ele olhou para mim maravilhado, e depois sorriu cautelosamente, como se nunca ninguém se tivesse apercebido do seu valor.

 

Diz-me uma coisa, Meto, naquela noite, teria Zenão estado nesta sala com o teu senhor?

 

É possível que sim. Eles vinham para aqui muitas vezes e trabalhavam juntos depois de escurecer, por vezes até muito tarde, especialmente se tivesse chegado algum navio, ou se estivesse para partir de Putéolos, ou se o Senhor Crasso estivesse a chegar.

 

E Alexandre também estaria aqui?

 

É possível.

 

Mas, nessa noite, não viste ninguém entrar ou sair desta sala? Nada ouviste nos estábulos nem no átrio?

 

Eu durmo num quartinho, com alguns dos outros disse ele, lentamente, na ala oeste da casa, ao lado dos estábulos. Normalmente, sou o último a deitar-me. Alex ria-se e dizia que nunca conhecera um rapaz que precisasse de dormir tão pouco. Em qualquer outra noite, talvez me tivesse levantado e tivesse vagueado pela casa. Talvez tivesse visto aquilo que tu queres saber. Mas, nessa noite, estava tão cansado de ter feito tantos recados e de levar tantas mensagens de um lado para o outro o dia todo... A sua voz começou a fraquejar. Lamento.

 

Eu pus as mãos sobre os seus ombros magros.

 

Nada tens a lamentar, Meto. Mas responde-me a mais uma pergunta. A noite passada andaste a vaguear pela casa?

 

Ele pareceu pensativo.

 

Ontem estive muito ocupado, com a vossa chegada e de Múmio no Fúria, e o trabalho extra para preparar o jantar...

 

Quer dizer que te foste deitar cedo?

 

Sim.

 

Então não viste nada de anormal, não ouviste ninguém a passear nos corredores nem a descer a colina até à casa dos barcos.

 

Ele encolheu os ombros impotente e mordeu o lábio, entristecido com o facto de ter de me desiludir. Eu olhei para ele com gravidade e acenei com a cabeça.

 

Está bem, só pensei que pudesses saber alguma coisa que eu não soubesse. Mas vem cá, antes de te ires embora quero que vejas aqui uma coisa.

 

Conduzi-o com uma mão no ombro, colocando-o diante da estátua do centauro.

 

Olha para ela à vontade. Toca nela, se quiseres. Ele olhou para mim para confirmar que era verdade, depois estendeu a mão, com os dedos trémulos e um brilho nos olhos, e em seguida recuou abruptamente e mordeu os lábios.

 

Não, não, não tem importância disse eu. Não vou deixar que ninguém te castigue.

 

Nem vou permitir que Marco Crasso te destrua, pensei, embora me não atrevesse a pronunciar em voz alta uma garantia tão temerária. A Fortuna poderia escutá-la e castigar-me por ter feito promessas que nem um deus podia ter a certeza de ser capaz de cumprir.

 

Quando era jovem, nunca teria condescendido em pintar um fresco. Pinta-se em encáustico, em painéis de tela ou de madeira, utilizando um cavalete, mas nunca, nunca, se fazem frescos em paredes; foi o que o meu mentor me ensinou. ”Os pintores de paredes são meros trabalhadores”, dizia ele, ”enquanto um pintor de cavalete, ah, um pintor de cavalete é tratado como a própria mão de Apolo! Os pintores de cavalete recebem toda a glória, e o ouro. Assenta a tua reputação no cavalete, e eles andarão à tua volta como pombas no Fórum.” Mas que grande inchaço que tu tens na testa.

 

laia tinha uma aparência muito diferente da da noite anterior, ao jantar. As jóias e a elegante estola tinham desaparecido; vestia agora um fato de mangas compridas, que lhe chegava até aos pés. Era feito de linho grosseiro e estava todo manchado de cores variadas. A sua jovem assistente estava vestida de maneira semelhante, e era ainda mais bela à luz do dia. Juntas, pareciam duas sacerdotisas de um qualquer culto estranho de mulheres, que preferissem usar as pinturas no vestuário, em vez de as usarem no rosto.

 

A luz do Sol enchia a pequena antessala circular de um cone de luz amarela, à volta do qual girava um vórtice de azuis e verdes submarinos, povoados de cardumes prateados de peixes e de estranhos monstros das profundezas. As figuras eram notavelmente fluidas e estavam soberbamente sombreadas, e a própria pintura da água produzia ilusões de profundeza impossível; Eco e eu, juntos, de braços abertos, chegávamos de parede a parede mas, em alguns pontos, as profundezas sombrias parecia recuarem interminavelmente. Se não fosse a confusão de andaimes e panos caídos, a cena seria quase assustadoramente real, como um sonho de morte por afogamento.

 

Claro que, hoje em dia, já não ando a lutar por encomendas prosseguiu laia. Fiz a minha fortuna nos bons velhos tempos.

 

Sabias que, no auge da minha carreira, cheguei a ser mais bem paga que Sópole? É verdade. Todas as matronas ricas de Roma queriam o seu retrato pintado pela extravagante jovem de Císico. Agora, pinto aquilo que quero e quando quero. Este projecto é apenas um favor que estou a fazer a Gelina. Certo dia, estávamos a sair dos banhos, sentíamo-nos frescas e descontraídas, e ela queixou-se de que este compartimento era simples de mais. Subitamente, eu tive uma visão de peixes, peixes, peixes por todo o lado! Peixes a voar por cima das nossas cabeças, e polvos enrolando-se aos nossos pés. E golfinhos, precipitando-se por entre as algas. O que te parece?

 

Extraordinário disse eu. Eco olhou à volta e abanou as mãos como se estivesse encharcado.

 

laia riu-se.

 

Está quase acabado. Já não falta propriamente pintar coisa nenhuma. Estamos na fase de selar as cores com um verniz de encáustico, e é por isso que estes escravos estão a ajudar-nos. Não são necessárias grandes aptidões, basta passar o verniz suavemente com um pincel, mas eu tenho de estar a vigiá-los, para ter a certeza de que não estragam nada. Olímpias, faz sinal a esse aí, no alto do andaime. Está a ficar muito espesso assim, as cores desaparecem.

 

Olímpias olhou para baixo, por cima das nossas cabeças, e sorriu. Eu dei um discreto beliscão a Eco, que olhava de boca aberta, mas não para a obra de arte que nos rodeava.

 

Ah, sim, nos bons velhos tempos, eu nunca teria aceite um projecto como este prosseguiu laia. O meu mentor não mo teria permitido. Sei exactamente como teria ele reagido. ”É demasiadamente vulgar”, diria ele, ”é meramente decorativo. Pintar histórias ou fábulas com um objectivo moral é uma coisa, mas pintar peixes? Os retratos são o teu ponto forte, laia, e os retratos de mulheres; nenhum homem é capaz de pintar uma mulher com metade da perfeição com que tu o fazes. Mas bastará um olhar para estas cabeças de peixe e nenhuma matrona voltará a permitir-te que a pintes! Há-de andar à procura de vestígios de sátira em cada pincelada!” Bem, seria isso que o meu antigo mentor me diria. Mas agora, se eu quiser pintar peixes, por Neptuno, pinto mesmo. Acho que estão lindíssimos.

 

Ela parecia arrebatada pela sua própria obra, uma imodéstia talvez desculpável numa artista nos estádios finais de uma criação quase terminada.

 

Percebo porque te tornaste conhecida pelos teus retratos disse eu. Vi o retrato de Gelina na galeria.

 

O seu sorriso vacilou.

 

Sim, fiz esse retrato apenas há um ano. Gelina queria que ele fosse um presente de anos para Lúcio. Passámos semanas a trabalhar nele, no exterior, na sua varanda privada, na extremidade norte da casa, e no quarto dela, onde Lúcio nunca entrava, para que fosse uma surpresa.

 

Ele não gostou?

 

Francamente, não. Foi feito especialmente para a parede por cima da sua mesa, na biblioteca. Bem, ele deixou muito claro que não o queria ali. Se já viste o compartimento, terás visto como era o seu gosto aquelas horríveis estátuas de Hércules de Quíron. A pintura que estava por cima da mesa era ainda pior, era uma coisa horrível que pretendia retratar os Argonautas atacados por harpias, era uma vergonha tão grande, que eu não conseguia perceber como ele se atrevia a deixar entrar visitas na biblioteca. Era um quadro realmente mau, feito por um artista de aluguer em Neápolis, uma salgaIhada de seios nus e garras no ar e guerreiros rigidamente pintados, brandindo espadas. É difícil exagerar o horror que aquilo era. Não tenho razão, Olímpias?

 

A rapariga olhou para baixo, para ela, e riu-se.

 

Era um quadro muito mau, laia.

 

Por fim, Lúcio aquiesceu e mandou tirar aquela coisa, para poder colocar o retrato de Gelina na parede, mas foi bastante indelicado. Gelina encomendara um tapete a condizer, e ele queixou-se infinitamente por causa da despesa. Ela desatou a chorar mais do que uma vez, graças a esse episódio. Evidentemente que os problemas de dinheiro eram uma história antiga nesta casa. Lúcio era um fracassado! Um impostor! De que vale viver numa villa como esta, se se tem de contar os sestércios?

 

Sentiu-se uma súbita tensão na sala. Olímpias deixou de sorrir. Um dos escravos tropeçou num recipiente de verniz e lançou uma praga. Até os peixes pareceram vacilar de constrangimento. laia baixou a voz.

 

Vamos até aos banhos. Os compartimentos estão vazios e, nesta altura do dia, a luz é deliciosa. O rapaz pode ficar aqui e observar Olímpias a trabalhar.

 

O plano dos banhos das mulheres era um reflexo do dos homens, à excepção da escala, que era consideravelmente menor. A vista sobre o terraço aberto era mais ou menos a mesma; por baixo do Sol nascente, brilhavam na baía milhares de pequenos pontos de luz prateada. Caminhámos à volta de uma piscina circular, onde se formavam pequenas ondas em consequência do vapor, no fresco ar da manhã. As nossas vozes tinham um eco estranho por baixo da alta abóboda.

 

Pensei que Lúcio e Gelina eram um casal feliz disse eu.

 

Ela parece-te uma mulher feliz?

 

O marido morreu de uma morte horrível há poucos dias. Não esperava que ela me recebesse a sorrir.

 

A sua disposição é agora um pouco diferente do que era. Nessa altura era miserável, graças a ele, e continua a ser miserável, novamente graças a ele e à confusão que foi a sua morte.

 

Ela não parece miserável no quadro. A imagem é uma mentira?

 

A imagem captou aquilo que ela era. Por que te parece ela tão feliz e tão pacificada no retrato? Considera que posou para ele e que ele foi pintado no único compartimento da casa onde Lúcio nunca entrava.

 

Disseram-me que o casamento tinha sido por amor.

 

Pois foi, e já estás a ver no que resulta esse género de casamentos. Eu conheci Gelina quando ela era uma rapariga, antes de se ter casado. A mãe dela era mais ou menos da minha idade e éramos muito amigas. Quando Gelina se casou com Lúcio, eu não estava propriamente em posição de a criticar, mas sabia que daí apenas resultaria sofrimento.

 

Como podias estar tão certa? Ele tinha uma personalidade assim tão perversa?

 

Ela manteve-se silenciosa por momentos.

 

Não pretendo ser capaz de avaliar perfeitamente o carácter das pessoas, Gordiano, pelo menos quando se trata de homens. Sabes como me chamavam nos bons velhos tempos? laia Cizicena, a Sempre Virgem, era como me chamavam, e tinham razão. No que diz respeito aos homens, tenho pouca experiência, e não pretendo ter especial intuição. Estou certa de que a minha avaliação do carácter de um homem é menos fiável do que a de muitas mulheres. Mas o juízo baseado na experiência só vai até certo ponto. Há outras maneiras, mais seguras, de prever o futuro. Ela olhou fixamente para a neblina que pairava em remoinhos acima da água.

 

Sim? E o que reserva o futuro para esta casa e para os seus habitantes?

 

Um destino obscuro e terrível, aconteça o que acontecer. Ela estremeceu. Mas a resposta à tua pergunta é: não, Lúcio não era perverso, era apenas fraco. Era um homem sem visão, sem energia, sem ambição. Se não fosse Crasso, há muito que ele e Gelina teriam morrido de fome.

 

Uma villa e uma centena de escravos estão longe da inanidade.

 

Mas só uma parte muito pequena era de Lúcio! Por aquilo que pude perceber, o seu rendimento era totalmente gasto na gestão deste palácio e na manutenção de uma fachada de grande riqueza. Dada a sua ligação com Crasso, há muito que qualquer outro homem se teria tornado independente e rico. Mas Lúcio não; ele contentava-se em andar por aí, recebendo aquilo que lhe era dado e nada mais pedindo, como um cão mimado que solicita as migalhas da mesa do seu senhor. Certamente que a mão que o erguera também o mantinha oprimido; Crasso parecia decidido a fazer com que Lúcio fosse o seu parente sempre agachado, sempre agradecido, nunca um igual nem um rival, e Crasso tem maneiras de manter as pessoas nos seus lugares. Bem, Gelina merecia melhor do que isso. Agora está completamente à mercê de Crasso, e nem sequer pode dizer se os escravos da sua própria casa devem viver ou morrer.

 

E se isso acontecer?

 

laia olhou intensamente para a neblina e não respondeu. Demos uma volta à piscina em silêncio.

 

Independentemente das diferenças que houvesse entre ambos, julgo que Gelina sofreu muito com a morte do marido disse eu suavemente. E sofrerá ainda mais se Crasso levar a cabo este plano horrível.

 

Sim disse laia numa voz apagada e distante. E não estará sozinha nesse sofrimento.

 

Certamente que, se tiver sido alguém aqui da casa a assassinar Lúcio, essa pessoa não aguentará ficar a assistir à carnificina de tantas pessoas, mortas por sua causa.

 

Não são pessoas corrigiu-me ela. São escravos.

 

Ainda assim...

 

É dar a morte a escravos, ainda que sejam noventa e nove, em benefício de um homem importante e abastado não é assim que Roma funciona?

 

Para isso, eu não possuía resposta. Deixei-a ao pé da piscina, olhando para as suas profundezas sulfurosas.

 

Na antessala, Eco estava de pé em cima do andaime, segurando um pincel de crina de cavalo, com Olímpias ao seu lado, a mão suavemente pousada sobre a dele, guiando-lhe as pinceladas.

 

Um único movimento suave dizia ela. Aplica-o numa camada fina e homogénea.

 

Muito bem, Eco disse-lhe eu cá de baixo, nunca imaginei que fosses dotado para a pintura.

 

Ele teve um sobressalto. Olímpias olhou por cima do ombro com um sorriso alegre.

 

Ele tem uma mão muito segura disse ela.

 

Estou certo de que sim. Mas penso que é melhor irmos andando. Vem, Eco. Ele desceu com agilidade, parecendo corado e ligeiramente desorientado e olhando embaraçado para trás, por cima do ombro, quando atravessámos o pórtico para o exterior.

 

Foste tu que chamaste a sua atenção, Eco, ou foi Olímpias quem sugeriu que te juntasses a ela no andaime? Eco indicou a segunda alternativa. Ah, foi ela que se aproximou muito, rodeando-te com o braço? Ele acenou sonhadoramente, depois franziu o sobrolho ao ver-me apertar os lábios. Eu não me sentiria totalmente confiante relativamente à amizade daquela jovem, Eco. Não, não sejas tolo; não estou com ciúmes de ti. Há qualquer coisa na forma como ela sorri que me faz sentir pouco à vontade.

 

Uma voz chamou-nos, e eu voltei-me e vi Metróbio e Sérgio Orata, cada um deles acompanhado por um escravo.

 

Também vão para os banhos? perguntou o homem de negócios com um bocejo que indicava que acabara de sair da cama.

 

Sim disse eu. Porque não?

 

Enquanto Orata e Eco descontraíam na piscina quente, eu aceitei a oferta de Metróbio para partilhar o seu massagista. Despimo-nos e reclinámo-nos lado a lado em enxergas no compartimento onde se mudava de roupa. O escravo andava de um lado para o outro entre nós, massajando-nos os ombros e dando-nos pancadinhas na coluna. Era um homem alto e chupado, com umas mãos extraordinariamente fortes.

 

Se eu fosse rico grunhi eu, acho que proporcionaria a mim próprio este tratamento todos os dias.

 

Eu sou rico disse Metróbio, e é o que faço. Como é que arranjaste esse alto horrível na cabeça?

 

Oh, não foi nada. Foi um corredor que era mais curto do que eu esperava. Oh! Que bom! Sim, aí, nesse ponto abaixo do ombro... Estes banhos são maravilhosos, não são? Eco e eu estivemos aqui ontem, depois de termos chegado. Múmio queria exibir a canalização. O rapaz que cantou ontem à noite fez-lhe uma massagem, chama-se Apolónio, não é? Mas duvido de que Apolónio tenha metade do jeito do teu homem.

 

Não faço ideia disse Metróbio cautelosamente, deitado de lado, com a cabeça apoiada numa mão e olhando para mim com uma súbita desconfiança.

 

Não? És um convidado tão frequente da casa, que eu pensei que já tivesses tido oportunidade de te servir desse Apolónio.

 

Metróbio fez um ruído surdo e ergueu uma sobrancelha.

 

Mólio é o único que me faz massagens. Foi um presente de Sula, há uns anos. Conhece todos os músculos doridos e todos os ossos estalados deste corpo velho e cansado. O mais provável era um jovem inexperiente como Apolónio fazer-me alguma entorse.

 

Sim, suponho que Múmio pode correr esse risco. Não é propriamente uma pessoa delicada. Pelo seu aspecto, deve ser rijo como um boi.

 

E quase igualmente inteligente.

 

Oh! Podes repetir, Mólio? Por qualquer razão, Metróbio, tenho a impressão de que não gostas de Marco Múmio.

 

É-me indiferente.

 

Detesta-lo.

 

Confesso que sim. Vem cá, Mólio, presta-me agora atenção. Gordiano já teve a sua dose.

 

Eu encontrava-me num estado de felicidade, flácido como farinha amassada. Fechei os olhos e tive visões de estrelas do mar e de polvos, acompanhadas por estranhos ruídos arquejantes. Era a vez de Metróbio gemer e arquejar.

 

Qual a origem de um rancor tão profundo? perguntei eu.

 

Nunca gostei de Múmio, desde o primeiro momento em que o vi.

 

Mas deve ter havido algum incidente, alguma ofensa.

 

Oh, muito bem suspirou ele. Foi há dez anos, logo depois de Sula ter sido nomeado ditador. Lembras-te de que Sula organizou listas de proscritos e as publicou no Fórum, oferecendo recompensas a quem lhe levasse as cabeças dos seus inimigos?

 

Lembro-me muito bem.

 

Foi um processo horrível, mas inevitável. A República tinha de ser purgada. Para que Sula restaurasse a ordem e pusesse fim a anos de guerras civis, a oposição tinha de ser eliminada. De outra forma, os conflitos e as vinganças teriam prosseguido interminavelmente.

 

E o que tem isso a ver com a tua contenda com Múmio?

 

As propriedades dos inimigos de Sula passaram para o Estado e foram vendidas em hasta pública. Não preciso de te dizer que as primeiras pessoas da fila para esses chamados leilões públicos eram normalmente os amigos íntimos e os associados de Sula. De que outra maneira poderia um mero actor como eu ter uma villa na Taça? Mas havia outros na fila, à minha frente.

 

Incluindo Múmio?

 

Sim. Crasso era na altura um dos favoritos, quase tão importante como Pompeu. Por fim, acabou por ir longe de mais e envergonhar Sula; deves recordar-te de um certo escândalo, que implicou um homem inocente acrescentado às listas de Sula apenas para que Crasso ficasse com a propriedade do pobre homem.

 

Houve mais do que um escândalo desses.

 

Sim, mas Crasso era um romano de boas famílias, um general, o herói da Porta Colina, que as pessoas consideravam que estaria acima dessas porcarias. Apesar disso, Sula limitou-se a dar-lhe umas palmadas nas mãos por essa ofensa. Mas, antes do escândalo, Crasso era o primeiro em todas as coisas, logo a seguir a Pompeu. E os homens de Crasso tinham de ser mimados e acarinhados, estando até acima dos mais antigos amigos e apoiantes de Sula.

 

Como tu.

 

Sim.

 

Presumo que Múmio te ultrapassou em alguma coisa, e que Sula tomou o seu partido.

 

Houve uma certa propriedade que ambos cobiçámos.

 

De terras ou humana?

 

Um escravo.

 

Estou a ver.

 

Não, não estás. O rapaz fora propriedade de um senador de Roma. Certa vez, ouvi-o cantar num jantar. Ele era originário da minha cidade, na Etrúria. Cantou no dialecto da minha infância. Comovi-me até às lágrimas ao ouvi-lo. Quando soube que estava a ser vendido num lote com o resto dos escravos da casa, corri até ao Fórum. O leiloeiro era por acaso um amigo de Crasso. Aconteceu que Múmio também desejava o rapaz, e não era pelos seus dotes como cantor. O leiloeiro ignorou as minhas ofertas, e o lote de escravos foi atribuído por inteiro a Marco Múmio, pelo preço de uma túnica usada. A sua presunção quando passou por mim para ir buscar o recibo! Trocámos ameaças. Eu tirei um punhal. Havia diversos homens de Crasso espalhados por entre a multidão e eu tive de fugir para salvar a vida, enquanto eles corriam atrás de mim gritando escárnios. Fui ter com Sula, exigindo justiça, mas ele recusou-se a intervir. Múmio era demasiadamente íntimo de Crasso, disse ele, e naquele momento não podia dar-se ao luxo de ofender Crasso.

 

Quer dizer que Múmio te ultrapassou e ficou com o rapaz?

 

A coisa não acabou aí. Bastaram-lhe dois anos para se cansar do escravo. Múmio decidiu ver-se livre dele, mas recusou-se a vender-mo, por puro e simples despeito. Nessa altura, já Sula estava morto e eu não tinha qualquer influência em Roma. Escrevi a Múmio uma carta, pedindo-lhe com toda a humildade que consegui que me deixasse comprar-lhe o rapaz. Sabes o que ele fez? Passou a carta à volta num jantar e todos se riram dela. Depois, passou o rapaz à volta. E fez com que eu tivesse conhecimento disso.

 

E o rapaz?

 

Múmio vendeu-o a um comerciante de escravos que se dirigia para Alexandria. O rapaz desapareceu para sempre. Mólio! lançou. Esta manhã, as tuas mãos não prestam para nada!

 

Paciência, senhor arrulhou o escravo chupado. A tua coluna está rígida como a madeira. Os teus ombros parecem gonzos enferrujados.

 

A porta abriu-se. Uma corrente de ar fresco trouxe consigo a voz aguda e aflautada de Sérgio Orata.

 

E há outros tubos, que correm por baixo deste chão e atravessam estas duas paredes dizia ele. Podes ver as aberturas que deixam sair o ar quente, distribuídas homogeneamente. Eco seguia-o, acenando com a cabeça sem grande entusiasmo. Orata estava nu, à excepção de uma enorme toalha, enrolada à volta da cintura. Nuvens de vapor erguiam-se da sua carne roliça e cor-de-rosa. Gordiano, o teu filho é um excelente aluno. Nunca encontrei outro ouvinte como ele. Julgo mesmo que o rapaz tem talento para a engenharia.

 

A sério? Olhei para Eco por cima do ombro do homem gordo; ele parecia bastante aborrecido. Sem dúvida, os seus pensamentos estariam fixados num meio mais salgado, flutuando com Olímpias pela paisagem marinha da antessala das mulheres. Eu próprio sempre estive convencido disso, Sérgio Orata. Certamente que ele tem dificuldade em colocar perguntas complicadas, mas julgo recordar que ontem se mostrou muito curioso acerca do que acontecia às águas depois de circularem pelas piscinas. Disse-lhe que presumia que haveria um sistema de canos que ia dar à baía, mas a minha explicação não lhe pareceu satisfatória.

 

Sim? Orata parecia satisfeito. Eco olhou fixamente para mim, perplexo, depois percebeu a minha piscadela de olho, quando Orata voltou as costas. Então terei de lho explicar em pormenor, nada deixando por referir. Vem comigo, jovem. Orata desapareceu pela porta, com Eco trotando atrás dele.

 

Metróbio riu-se, depois resmungou quando o escravo Mólio recomeçou a beliscá-lo e a dar-lhe pancadinhas.

 

Sérgio Orata não é exactamente a alma simples que finge ser disse ele com um sorriso de esguelha. Por cima daqueles ombros há uma cabeça que pensa, que está sempre a fazer contas e a calcular os seus lucros. Não há dúvida de que é bastante rico, e há boatos que aludem a uma fraqueza pelo jogo e por dançarinas. Apesar disso, nesta casa deve parecer um modelo de virtudes não é, nem de longe, tão ganancioso como Crasso nem perverso como Múmio.

 

Sei muito pouco acerca de Crasso confessei eu, sei apenas aquilo que se diz no Fórum, nas costas dele.

 

É tudo verdade. Surpreende-me até que ele não tenha roubado a moeda da boca do cadáver.

 

Quanto a Múmio...

 

Esse porco.

 

Parece-me um homem bastante estranho. Concedo-te que há nele um lado desagradável. Vi um exemplo desse lado na nossa viagem para cá. Como exercício, ordenou que puxassem pelos escravos da galera até à exaustão foi o espectáculo mais assustador a que já assisti.

 

Isso parece mesmo típico de Múmio, com a sua estúpida disciplina militar. A disciplina é um deus que ele utiliza como desculpa para qualquer acto de maldade, por muito vil que seja, da mesma maneira que Crasso pode justificar todos os seus crimes em função da aquisição. São duas faces da mesma moeda, opostos em muitas coisas, mas essencialmente semelhantes. Vinda de um homem que fora um aliado tão íntimo de Sula, esta crítica pareceu-me estranha. Mas, como dizem os Etruscos, o amor fecha os olhos à corrupção, enquanto a inveja se apercebe de todos os vícios.

 

E, contudo disse eu, julgo detectar em ambos uma certa fraqueza, uma brandura que se entrevê por trás da armadura. A armadura de Múmio é de aço, enquanto a de Crasso é de prata, mas para que se cobre um homem com uma armadura, a não ser para resguardar a sua vulnerabilidade?

 

Metróbio ergueu uma sobrancelha e olhou para mim com astúcia.

 

Bem, Gordiano de Roma, se calhar és mais subtil do que eu pensava. Que fraquezas são essas que são evidenciadas por Crasso e pelo seu lugar-tenente?

 

Eu encolhi os ombros.

 

Ainda não conheço suficientemente nenhum deles para poder dizer-te.

 

Metróbio acenou com a cabeça.

 

Procura, que talvez descubras, Descobridor. Mas já estou farto de falar desses dois. Virou-se para o outro lado e deixou o escravo estender-lhe os braços por cima da cabeça. Mudemos de assunto.

 

Talvez possas dizer-me alguma coisa acerca de Lúcio e de Gelina. Ouvi dizer que tu e Gelina são amigos íntimos.

 

Somos de facto.

 

E Lúcio?

 

Não vieste agora mesmo do compartimento que laia está a pintar?

 

Vim.

 

Então deves ter visto o seu retrato.

 

Oh?

 

A alforreca, mesmo por cima da porta.

 

O quê? Oh, estou a perceber, é uma piada.

 

Não é uma piada. Observa-o com atenção da próxima vez que tiveres oportunidade. O corpo é de uma alforreca, mas a cara é inequivocamente a de Lúcio. São os olhos. É uma sátira brilhante, tanto mais interessante quanto o próprio Lúcio nunca teria percebido a piada. Eleva o mural ao nível de arte superior. No seu tempo, laia foi considerada a melhor retratista de Roma, e havia boas razões para isso.

 

Então Lúcio era uma alforreca?

 

Ele fungou.

 

Nunca conheci um homem tão inútil. Não passava de um capacho de Crasso, e talvez um capacho tivesse mais personalidade. Está muito melhor morto do que estava vivo.

 

Mas Gelina amava-o.

 

Amava? Sim, suponho que sim. ”O amor cega”, como dizem os Etruscos.

 

Estava precisamente a pensar nesse provérbio. Mas presumo que Gelina seja, por natureza, uma mulher emotiva. Não há dúvida que se sente perturbada com o destino dos seus escravos.

 

Ele encolheu os ombros.

 

Se Crasso insistir em matá-los, será um desperdício estúpido, mas tenho a certeza de que lhe dará outros. Crasso tem mais escravos do que há peixes no mar.

 

Impressiona-me o facto de Gelina ter conseguido convencer Crasso a mandar-me buscar de barco.

 

Gelina? Metróbio sorriu estranhamente. Sim, foi Gelina a primeira a mencionar o teu nome mas duvido de que tivesse conseguido convencer Crasso a fazer tantos esforços e tantas despesas por causa de uns meros escravos.

 

O que queres dizer?

 

Pensei que soubesses. Há outro que anseia ver esses escravos arrancados às garras da morte.

 

Estás a falar de quem?

 

Que foi até Roma apenas para te ir buscar.

 

Marco Múmio? Um homem que leva um navio inteiro de escravos até à beira da morte por um simples exercício? Por que havia ele de erguer um dedo para salvar os escravos de Gelina, especialmente desafiando a vontade de Crasso?

 

Metróbio olhou-me com uma expressão estranha.

 

Estava convencido de que sabias. Quando disseste que Múmio tinha uma fraqueza... Estremeceu. Desiludes-me, Descobridor. Talvez afinal sejas mesmo tão estúpido como eu originalmente pensei. Estavas sentado ao meu lado ontem à noite, ao jantar. Viste tão claramente como eu as lágrimas que brotaram dos olhos de Múmio quando aquele rapaz cantou. Achas que ele chorou por sentimentalismo barato? Um homem como Múmio só chora quando tem o coração despedaçado.

 

Queres dizer...?

 

No outro dia, quando Crasso decidiu que os escravos deviam morrer, discutiram ambos durante muito tempo. Múmio pôs-se praticamente de joelhos, suplicando a Crasso que abrisse uma excepção. Mas Crasso insiste em que sejam todos castigados, incluindo o belo Apolónio, por muito inofensivo e inocente que o rapaz possa ser, e por muito que Múmio o deseje. Por isso, no dia a seguir ao do funeral, Marco Múmio terá de ver os seus próprios homens levarem o rapaz até à arena e matarem-no, juntamente com os restantes escravos domésticos. Pergunto a mim próprio se os decapitarão um por um. Certamente que não, isso levaria a tarde toda, e até o entedeado público de Baias se agitaria. Talvez mandem gladiadores fazer o trabalho sujo, apanhando os escravos em redes e investindo sobre eles com espadas...

 

Então Múmio deseja salvá-los a todos, apenas por causa de Apolónio?

 

Claro. Está absolutamente disposto a fazer figura de parvo por causa do rapaz. Tudo começou na última visita que aqui fez com Crasso, na Primavera passada. Múmio ficou imediatamente impressionado, como um veado atingido por uma seta entre os olhos. Durante o Verão, escreveu ao rapaz uma carta de Roma. Lúcio interceptou-a, e ficou um tanto indignado.

 

Porque a carta era pornográfica?

 

Pornografia, vinda de Múmio? Por favor, estou certo de que ele não tem, nem imaginação, nem habilidade literária. Pelo contrário, era muito casta e cautelosa, mais parecia uma epístola de Platão a um dos seus discípulos, cheia de elogios piedosos à sabedoria espiritual de Apolónio e à sua beleza transcendente, esse género de coisas.

 

Mas Lúcio casou-se por amor. É de supor que tivesse simpatizado como uma coisa dessas.

 

O que escandalizou Lúcio foi a inconveniência. Um cidadão relacionar-se com um dos seus próprios escravos é uma coisa; ninguém precisa de saber. Agora, um cidadão escrever cartas ao escravo de outro homem é uma vergonha para toda a gente. Lúcio queixou-se a Crasso, que deve ter dito qualquer coisa a Múmio, uma vez que não chegaram mais cartas. Mas Múmio continuou impressionado. Queria comprar Apolónio mas, para isso, precisava de passar por Lúcio e por Crasso. Um deles ter-se-á recusado a vender-lho talvez tenha sido Lúcio, para contrariar Múmio, ou talvez tenha sido Crasso, querendo evitar mais vergonhas por parte do seu lugar-tenente.

 

E agora Múmio está à espera de que o escravo seja destruído.

 

Sim. Tem tentado esconder a sua angústia a Fausto Fábio e aos restantes membros da comitiva de Crasso, e sobretudo aos homens que tem sob o seu comando, mas toda a gente sabe. Os boatos espalham-se muito rapidamente num exército pequeno e privado. Foi um espectáculo vê-lo prostrado diante de Crasso na biblioteca, no outro dia, à procura dos argumentos mais risíveis para salvar Apolónio...

 

Presumo que isso se tenha passado à porta fechada?

 

Não tenho culpa de ter conseguido ouvir tudo através das janelas que dão para o pátio. Múmio suplicava que a vida do rapaz fosse poupada; Crasso invocava a solene majestade da lei romana. Múmio pedia que fosse aberta uma excepção; Crasso dizia-lhe que deixasse de fazer figura de parvo. Acho que, a determinada altura, chegou mesmo a dizer a Múmio que ele era ”anti-Romano”, que é o insulto mais terrível que um soldado impassível como Múmio poderia receber do seu comandante. Se achas que Gelina está perturbada, devias ter ouvido Múmio naquele dia. Não imagino como reagirá quando uma lâmina romana entrar na carne tenra e jovem de Apolónio e o belo escravo começar a sangrar... Metróbio fechou lentamente os olhos, e uma estranha expressão surgiu no seu rosto.

 

Estás a sorrir? murmurei eu.

 

Porque não? Mólio é o melhor massagista da Taça. Sinto-me deliciado e estou pronto para o banho.

 

Metróbio levantou-se e ergueu os braços, enquanto o escravo lhe enrolava uma toalha à volta do corpo. Eu sentei-me e limpei a testa, coberta de suor.

 

Será imaginação minha disse eu suavemente, ou há nesta casa pessoas que querem realmente ver os escravos executados? Um romano deve procurar justiça, e não vingança.

 

Metróbio não respondeu, mas voltou-se lentamente e saiu da sala.

 

É uma pena que não sejas melhor nadador do que eu disse a Eco quando saímos dos banhos. Ele lançou-me um olhar pesaroso, mas não discutiu o facto. A nossa próxima tarefa é ir investigar as águas à volta da casa dos barcos. O que estava a ser lançado do molhe ontem à noite, e porquê? Olhei para baixo, da varanda ao lado dos banhos. Do ponto onde me encontrava, conseguia avistar a casa dos barcos e a maior parte do molhe. Não se via por ali ninguém. A linha de costa estava ponteada de rochas escarpadas, e a água parecia suficientemente profunda para ser assustadora. Pergunto-me se aquele rapaz, Meto, saberá nadar. É provável que tenha crescido aqui na Taça; os rapazes daqui não são todos nadadores e mergulhadores, incluindo os escravos? Se conseguirmos encontrá-lo rapidamente, talvez possamos explorar a casa dos barcos e os arredores antes da refeição do meio-dia. Encontrámo-lo no andar de cima. Quando nos viu, sorriu e veio ter connosco a correr.

 

Eu comecei a falar, mas ele agarrou-me na mão e empurrou-me.

 

Tens de voltar ao teu quarto murmurou ele. Eu tentei obrigá-lo a explicar-se, mas ele limitou-se a abanar a cabeça e a repetir o que tinha dito. Eco e eu seguimo-lo, enquanto ele corria à nossa frente.

 

O quarto estava inundado de sol. Ainda ninguém viera fazer-nos as camas, mas eu senti que alguém estivera dentro do quarto. Olhei de lado para Meto, que olhava para mim de trás da porta. Então, puxei a cobertura da cama.

 

A feia figurinha desaparecera. Em seu lugar, encontrava-se um pedaço de pergaminho com uma mensagem escrita em letras encarnadas:

 

                 VAI RAPIDAMENTE CONSULTAR

                 A SIBILA DE CUMAS

 

Bem, Eco, isto vai obrigar-nos a alterar os nossos planos. Não iremos nadar esta manhã. Alguém fez com que recebêssemos uma mensagem directamente dos deuses.

 

Eco olhou para o pedaço de pergaminho e depois devolveu-mo. Ao contrário de mim, parecia não ter reparado que, sempre que ocorria, a letra ”A” era desenhada com um floreado excêntrico, com a barra transversal fortemente inclinada para baixo e para a direita.

 

Quando perguntei a Meto se ele poderia indicar-nos o caminho para a gruta da Sibila, ou pelo menos para Cumas, ele recuou, abanando a cabeça. Quando insisti, empalideceu.

 

Não, não murmurou ele. Tenho medo da Sibila. Mas sei quem pode indicar-te.

 

Sim?

 

Olímpias vai a Cumas todos os dias por esta hora, buscar coisas a casa de laia e ver se está tudo em ordem.

 

Isso é muito conveniente para nós disse eu. Ela vai nalguma carroça, ou prefere o luxo de uma liteira?

 

Oh, não, ela monta a cavalo tão bem como qualquer homem. O mais provável é estar no estábulo neste momento. Se te apressares...

 

Vamos, Eco comecei eu a dizer, mas ele já se me adiantara. Eu quase esperava ver Olímpias à nossa espera, mas ela pareceu

 

genuinamente surpreendida quando a chamei do pátio. Já estava a sair do estábulo, montada num pequeno cavalo branco. Trocara o seu fato de pintora, comprido e destituído de forma, por uma estola curta que lhe permitia ir escarranchada no cavalo. Esta veste deixava-lhe as pernas completamente nuas, do joelho para baixo. Eco fingiu estudar o cavalo com admiração, ao mesmo tempo que lançava olhares à curvatura perfeita das pernas alouradas encostadas aos flancos do animal.

 

Olímpias concordou em nos acompanhar até Cumas, mas só depois de uma breve hesitação. Quando lhe disse que íamos à procura da Sibila, mostrou-se inicialmente alarmada, e depois céptica. A sua confusão surpreendeu-me. Eu pensava que ela tivesse desempenhado algum papel naquele plano sombrio para me atrair a Cumas, mas ela parecia pouco satisfeita com a nossa companhia. Esperou que Eco e eu fôssemos pedir cavalos emprestados ao encarregado dos estábulos, e depois partimos os três.

 

O rapaz Meto disse-nos que fazes este caminho todos os dias. Não é uma viagem muito longa?

 

Conheço um atalho disse ela.

 

Passámos pelos pilares coroados com as cabeças de bois e entrámos no caminho público, depois voltámos à direita, como Múmio e eu fizéramos no dia anterior, quando o escravo nos fora mostrar onde tinha sido encontrada a túnica ensanguentada. Passámos rapidamente por esse local e prosseguimos para norte. As colinas à nossa esquerda estavam cobertas de pomares de oliveiras, com os ramos pesados de uma colheita têmpora; não se avistavam escravos. Depois dos pomares, veio a vinha, depois diversas leiras de terras cultivadas, depois um bosque.

 

Esta terra a toda a volta da Taça é notável pela sua fertilidade disse eu.

 

E por outras coisas, mais estranhas observou Olímpias.

 

A estrada começou a inclinar-se para baixo. Por entre as árvores, avistei diante de nós aquilo que devia ser o lago Lucrino, uma grande lagoa separada da baía por uma pequena extensão de praia.

 

Foi ali que Sérgio Orata fez fortuna disse eu a Eco. Com viveiros de ostras, que vendia aos ricos. Se ele estivesse aqui connosco, estou certo de que gostaria de tos mostrar e explicar com pormenor. Eco fez rolar os olhos e estremeceu exageradamente.

 

A vista ampliou-se e, adiante de nós, consegui perceber o curso da estrada, que seguia a linha da costa, entre o lago e a baía, e depois fazia uma curva em direcção a leste, onde passava por uma série de colinas baixas, antes de descer uma vez mais, em direcção à cidade de Putéolos. Aí, avistei uma série de docas mas, como Fausto Fábio dissera, poucos barcos de grandes dimensões.

 

Olímpias olhou por cima do ombro.

 

Se fizéssemos essa estrada, passaríamos pelo lago Lucrino e iríamos até perto de Putéolos, antes de virarmos para Cumas. Mas esse caminho é para as carroças e as liteiras, que precisam de uma estrada pavimentada. Eu cá vou por aqui. Saiu da estrada para um caminho estreito que passava pelo meio de arbustos baixos. Atravessámos um túnel de árvores e prosseguimos até uma crista nua, seguindo um trilho estreito que mais parecia um caminho de cabras. À nossa esquerda, viam-se colinas ondeadas mas, à nossa direita, na direcção do lago Lucrino, a terra caía a pique. Ao longe e abaixo de nós, na planície ampla e baixa que rodeava o lago, estava acampado o exército privado de Crasso.

 

Tinham sido montadas tendas a toda a volta da praia. Das fogueiras onde se cozinhava, erguiam-se pequenas colinas de fumo. Homens galopavam brandamente pela planície, fazendo erguer nuvens de pó. Os soldados exercitavam-se em formação de marcha, ou praticavam combates de espada em grupos de dois. Chegava até nós o ruído das espadas chocando com os escudos, juntamente com uma voz rouca e profunda, demasiadamente indistinta para ser compreendida, mas que seria impossível não reconhecer. Marco Múmio gritava instruções a um grupo de soldados em formação rígida. Ali ao pé, diante da tenda de maiores dimensões, encontrava-se Fausto Fábio, reconhecível pela sua crina de cabelo ruivo; estava inclinado para diante e falava com Crasso, sentado numa cadeira articulada sem costas. Crasso estava fardado a rigor, com os ornamentos prateados a brilhar ao sol e a sua enorme capa vermelha viva como uma gota de sangue sobre a paisagem poeirenta.

 

Dizem que se está a preparar para obter o comando de um exército contra Espártaco disse Olímpias, olhando para baixo com um ar melancólico. O Senado tem o seu próprio exército, evidentemente, mas as fileiras foram devastadas pelas derrotas da Primavera e do Verão. Por isso, Crasso está a reunir o seu próprio exército. Fábio contou-me que estão seiscentos homens no lago Lucrino. Crasso já reuniu seis vezes esse número num campo nos arredores de Roma, e conseguirá reunir outros tantos mal o Senado o aprove. Diz Crasso que nenhum homem pode dizer que é rico a não ser que possa pagar o seu próprio exército.

 

Enquanto observávamos, foi tocado um címbalo e os soldados começaram a congregar-se para a refeição do meio-dia. Os escravos andavam de um lado para o outro, por entre as panelas a ferver.

 

Reconheces as túnicas? Aqueles escravos de cozinha são da casa de Gelina disse Olímpias. Afadigam-se a alimentar os mesmos homens que, daqui a dois dias, lhes cortarão o pescoço.

 

Eco tocou-me no braço e apontou para a extremidade da planície, onde o campo aberto dava lugar a um bosque. Tinha sido abatida uma série de árvores na floresta, e um grupo de soldados estava a construir uma arena temporária com essa madeira. Tinham escavado na terra uma grande concavidade que depois fora alisada e, à sua volta, os soldados estavam a construir um muro alto, rodeado por bancadas de assentos. Eu desviei rapidamente o olhar, e só com dificuldade me apercebi dos grupos de homens protegidos com capacetes que, dentro da arena, praticavam o combate com espadas, tridentes e redes.

 

É para os jogos funerários murmurei eu. Os gladiadores já devem ter chegado. Vai ser aqui que vão combater depois de amanhã, em honra de Lúcio Licínio. Também deve ser aqui que...

 

Sim disse Olímpias. Que os escravos vão ser mortos. O seu rosto endureceu. Os homens de Crasso não deviam ter utilizado aquelas árvores. Elas pertencem à floresta do lago Averno, mais para norte. Não são de ninguém. O bosque avernino é um bosque sagrado. É uma grande impiedade cortar, ainda que sejam poucas árvores, seja para o que for. Mas ter cortado tantas árvores para satisfazer os seus ambiciosos planos é um terrível acto de hubris da parte de Marco Crasso. Não virá daí bem nenhum. Verás. Se não acreditas em mim, pergunta à Sibila quando estiveres com ela.

 

Prosseguimos em silêncio ao longo da saliência, depois voltámos a entrar na floresta e começámos a descer gradualmente. Os bosques tornaram-se mais espessos. O carácter das próprias árvores mudou. As suas folhas deixaram de ser verdes, tornando-se quase pretas; grandes árvores desgrenhadas erguiam-se à nossa volta, espetando o ar com ramos convolutos. A zona inferior tornava-se cada vez mais densa, com arbustos espinhosos e tufos pendurados de líquenes húmidos. Debaixo dos nossos pés brotavam cogumelos. O caminho de cabras desaparecera, e parecia-me que Olímpias prosseguia pelo meio do bosque por instinto. Envolvia-nos um silêncio pesado, apenas quebrado pelas passadas dos nossos cavalos e pelo grito longínquo de uma ave estranha.

 

Costumas andar por aqui sozinha? disse eu. É um local tão solitário, não te sentes insegura?

 

Quem pode fazer-me mal neste bosque? Bandidos, assaltantes, escravos fugitivos? Olímpias olhava em frente, por forma a que eu não pudesse ver-lhe a cara. Estes bosques foram consagrados à deusa Diana; pertencem a Diana há um milhar de anos, mesmo antes de os Gregos aqui chegarem. Diana anda acompanhada por um grande arco, com o qual protege os seus domínios. Quando aponta, nenhum coração vivo pode escapar à sua seta. Não sinto mais medo aqui do que sentiria se fosse uma corça ou um falcão. Só o homem que entra nestes bosques com intenções vis tem algo a temer. Os fora-da-lei sabem que assim é e não entram cá. Sentes medo, Gordiano? Uma nuvem escondeu o Sol. As manchas de Sol empalideceram e um arrepio cinzento espalhou-se por toda a floresta. Uma estranha ilusão tomou conta de mim: a noite reinava nos bosques, o Sol escondido fora substituído pela Lua, e a escuridão deslizava para fora das concavidades profundas das árvores mortas e das sombras obscuras formadas por ramos caídos. Tudo era silêncio, à excepção dos passos dos cavalos; e até esse ruído parecia abafado, como se a terra humedecida engolisse o som de cada passo. Uma estranha sonolência desceu sobre mim, não como se estivesse a adormecer, mas como se estivesse a despertar lentamente para um domínio onde todos os meus sentidos estivessem ligeiramente embotados.

 

Sentes medo, Gordiano?

 

Olhei fixamente para a parte de trás da sua cabeça, para a suave crina doirada que era o seu cabelo. Imaginei uma coisa muito estranha que, se ela se voltasse subitamente, eu não veria o seu belo rosto, mas uma fisionomia demasiadamente horrível para ser olhada, uma máscara rude e sorridente, de olhos cruéis, o rosto de uma deusa enfurecida.

 

Não, não sinto medo murmurei roucamente.

 

Óptimo. Então tens direito a estar aqui, e estarás a salvo. Ela voltou-se, e foi apenas o rosto inofensivo e sorridente de Olímpias que me devolveu o olhar. Eu suspirei de alívio.

 

O bosque tornou-se mais escuro. Um nevoeiro pesado e pegajoso espalhou-se pela floresta. O cheiro do mar misturava-se com os odores húmidos das folhas podres e das cascas das árvores a desfazerem-se. Depois, chegou até nós outro cheiro, o fedor do enxofre em ebulição.

 

Olímpias apontou para uma clareira à nossa direita. Aproximámo-nos de uma borda de rocha dura. Por cima de nós, erguia-se a aresta esfarrapada de um denso nevoeiro proveniente do mar. Abaixo de nós, abria-se um enorme precipício. Lá ao fundo, redemoinhava uma ampla cavidade de vapor, rodeada por árvores negras e pensativas. Por entre os vapores, discerni vagamente a superfície de uma grande fossa turva que borbulhava, fervilhava e cuspia.

 

As Goelas do Hades sussurrei. Olímpias acenou com a cabeça.

 

Há quem diga que foi aqui que Plutão empurrou Prosérpina para o Mundo Subterrâneo. Dizem que, por baixo desta piscina de lama crepitante de enxofre, nas profundezas das turbulentas entranhas da terra, corre uma rede de rios subterrâneos, que separa o reino dos vivos do reino dos mortos. São eles Aqueronte, o rio da aflição, e Cocito, o rio das lamentações. Flegonte, o rio do fogo e Letes, o rio do esquecimento. Todos eles convergem no grande rio Styx, ao longo do qual o barqueiro Caronte transporta os espíritos dos mortos para as ermas planícies do Tártaro. Dizem que, de vez em quando, o cão de guarda de Plutão, Cérbero, escapa às correntes e foge para o mundo superior. Certa vez, falei com um agricultor de Cumas que ouvira o monstro nos bosque averninos, com as três cabeças uivando em conjunto, à lua cheia. Noutras noites, as terríveis lémures fogem do lago Averno, espíritos maliciosos dos mortos que assombram os bosques e habitam corpos de lobos. Mas Plutão consegue sempre recuperá-las pela manhã. Ninguém escapa ao seu domínio durante muito tempo. Ela desviou os olhos da sinistra visão e olhou para Eco, que lhe devolveu o olhar, de olhos esgazeados. É estranho, não é disse ela, pensar que tudo isto existe tão perto da civilização e do conforto de Baias e das suas villas. Em casa de Gelina, o mundo parece ser um lugar feito de luz do Sol dançando nas águas, e de ar fresco e salgado; é fácil esquecer os deuses que vivem debaixo de pedras húmidas e as lémures que habitam sob poços de enxofre. O lago Averno já existia antes dos Romanos, antes dos Gregos. Estes bosques já existiam, bem como as fumarolas de vapor e os fedorentos poços em ebulição que rodeiam a Taça. É aqui que o Mundo Subterrâneo mais se aproxima do mundo dos vivos. As belas casas e as luzes brilhantes que rodeiam a Taça são como uma máscara, uma charada, tão pouco substanciais como uma bolha; por baixo delas, o enxofre continua a ressoar e a referver, como sempre aconteceu. Muito depois de as belas casas terem apodrecido e de as luzes terem enfraquecido, as Goelas de Hades continuarão a arrotar de boca aberta, prontas para receberem as sombras dos mortos.

 

Eu olhei para ela espantado, perturbado com o facto de palavras como estas provirem dos lábios de uma criatura tão jovem e tão cheia de vida. Ela olhou-me de frente por um instante e sorriu com o seu sorriso críptico, depois esporeou o cavalo.

 

Não convém olhar o rosto de Averno ou respirar os seus vapores durante muito tempo.

 

O nosso caminho começou a descer gradualmente. Por fim, saímos do bosque e entrámos numa paisagem coberta de ervas, de colinas baixas atravessadas por rochas brancas denteadas. As colinas foram-se tornando mais e mais ventosas e estéreis à medida que nos aproximávamos do mar: o nevoeiro levantou e pairou por cima das nossas cabeças em farrapos. As rochas tornaram-se grandes como casas, espalhadas à nossa volta como ossos quebrados e gastos de gigantes. Assumiram formas fantásticas, com extremidades aguçadas e atravessadas por túneis em remoinho e buracos de vermes.

 

Atravessámos o labirinto de rochas durante algum tempo, até chegarmos a uma cavidade escondida numa encosta escarpada, em forma de cotovelo. O estreito desfiladeiro estava semeado de rochas e árvores caídas, estranhamente esculpidas pelo vento.

 

É aqui que eu vos deixo disse Olímpias. Procurem um sítio para prender os cavalos e esperem. A sacerdotisa não tardará a vir ter convosco.

 

Mas onde é o templo?

 

A sacerdotisa leva-vos até ao templo.

 

Mas eu pensava que havia um grande templo, marcando o local do altar da Sibila.

 

Olímpias acenou com a cabeça.

 

Estás a referir-te ao templo que Dédalo construiu quando veio à terra neste local, depois do seu grande voo. Dédalo construiu esse templo em honra de Apolo, decorou-o com painéis em ouro martelado e cobriu-o com um telhado de ouro. É o que dizem as pessoas da aldeia de Cumas. Mas o templo dourado não passa de uma lenda, ou então há muito que a terra o engoliu. Isso acontece por vezes, nesta zona a terra abre-se e devora casas inteiras. Actualmente, o templo fica num sítio rochoso e escondido, ao pé da entrada da gruta da Sibila. Não te preocupes, a sacerdotisa há-de vir ter convosco. Trouxeste algum presente, em ouro ou em prata?

 

Trouxe as moedas que tinha comigo no meu quarto.

 

É o suficiente. Agora deixo-vos. Puxou impacientemente as rédeas do cavalo.

 

Espera! Como é que nós voltamos a encontrar-te?

 

Para que queres voltar a encontrar-me? Havia uma nota de desagrado na sua voz. Trouxe-te até aqui, como me pediste. Achas que não consegues encontrar o caminho de regresso?

 

Eu olhei para o labirinto de rochas. O nevoeiro que descia sobre nós rodopiava por cima das nossas cabeças e um vento baixo gemia por entre as pedras. Encolhi vagamente os ombros.

 

Muito bem disse ela, quando acabarem a vossa conversa com a Sibila, andem um pouco em direcção ao mar. Sobre a crista de uma colina coberta de ervas, descobrirão a aldeia de Cumas. A casa de laia é na extremidade da aldeia. Um dos escravos deixar-vos-á entrar, se... ela fez uma pausa, hesitando, se eu não estiver lá. Esperem por mim.

 

Em que outro sítio poderás estar?

 

Ela afastou-se sem responder, e desapareceu rapidamente por entre as pedras.

 

Que assunto vital a traz a Cumas todos os dias? perguntei a mim próprio. E por que está ela tão ansiosa por se livrar de nós? Bem, Eco, o que pensas deste lugar?

 

Eco estreitou o seu próprio corpo com os braços e estremeceu, mas não foi de frio.

 

Concordo. Há aqui qualquer coisa que me faz arrepiar. Olhei para o labirinto de rochas que nos rodeava. O vento gemia e assobiava por entre os buracos de vermes. Não se consegue ver mais do que alguns metros em nenhuma direcção, por causa de todas estas rochas entalhadas. Seria possível esconder aqui um exército inteiro, um assassino atrás de cada rocha.

 

Desmontámos e levámos os cavalos para a curva da colina. Segura a um ramo retorcido, via-se uma correia com marcas, mostrando o ponto onde muitos outros tinham prendido os seus cavalos antes de nós. Eu segurei os animais, e depois senti Eco puxar-me urgentemente pela manga.

 

Sim, o que...

 

Parei de imediato. Aparentemente vinda do nada, uma figura passou por entre duas pedras próximas, seguindo o mesmo caminho que Olímpias tomara. O nevoeiro que descia engolia por completo o barulho das passadas do seu cavalo, de tal maneira que a figura passou por nós tão silenciosamente como um fantasma. Só foi visível durante um instante, embrulhada numa capa preta com capuz.

 

O que te parece? murmurei a Eco.

 

Eco saltou para a rocha mais elevada de todas as que nos rodeavam e trepou até ao alto, apoiando os dedos nos buracos de vermes. Espreitou para meia distância. Por um instante, o seu rosto iluminou-se, e depois voltou a obscurecer-se. Acenou na minha direcção, mas sem tirar os olhos do labirinto de rochas. Como um sinal, tocou no queixo e apontou com os dedos para longe.

 

Uma barba comprida? disse eu. Eco acenou com a cabeça. Queres dizer com isso que o cavaleiro é Dionísio, o filósofo? Ele voltou a acenar. Que estranho. Ainda consegues vê-lo? Eco franziu o sobrolho e abanou a cabeça. Depois voltou a animar-se. Fez com o dedo o gesto de uma seta a voar, formando um arco, e depois a cair, indicando qualquer coisa ao longe. Depois fez o sinal com que se referia às tranças de Olímpias. Consegues ver a rapariga? Ele acenou que sim, depois que não, quando ela lhe saiu do alcance da vista. E parece-te que o filósofo a persegue? Eco observou mais um momento, depois olhou para mim com uma expressão de grande preocupação, e acenou lentamente com a cabeça.

 

Que estranho. Mas que estranho. Se não consegues ver mais nada, desce daí. Eco observou mais um momento, depois sentou-se na rocha e atirou-se para baixo, aterrando com um gemido. Correu para os cavalos e apontou para as correias presas.

 

Ir atrás deles? Não sejas ridículo. Não temos qualquer razão para presumir que Dionísio quer mal à rapariga. Talvez nem esteja a segui-la. Eco pôs as mãos nas coxas e olhou para mim como Betesda faz muitas vezes, como se eu fosse uma criança louca. Muito bem, admito que é estranho ele vir pelo mesmo caminho obscuro, logo atrás de nós, a não ser que tenha qualquer motivação secreta. Talvez viesse a seguir-nos, e não a Olímpias, e assim nós enganámo-lo.

 

Eco não se sentia satisfeito. Cruzou os braços e mostrou-se inquieto.

 

Não disse eu com firmeza. Não vamos atrás deles. E não, não vais partir sozinho. Por esta altura, já Olímpias está provavelmente em Cumas. Além disso, duvido de que uma jovem forte e capaz como Olímpias precise de protecção contra um velho de barba grisalha como Dionísio.

 

Eco franziu o sobrolho e deu um pontapé numa pedra. Com os braços ainda cruzados, começou a dirigir-se à mesma rocha alta, como se tencionasse voltar a trepá-la. Passado um momento, estacou e voltou-se, e o mesmo fiz eu.

 

A voz era estranha e enervante áspera, arquejante, dificilmente reconhecível como uma voz de mulher. A sua dona vestia uma capa vermelha com capuz e tinha os braços cruzados metidos dentro das mangas largas, de maneira que nenhuma parte do seu corpo era visível. A voz que saía do interior da sombra profunda que lhe escondia o rosto parecia um gemido de um fantasma proveniente das Goelas do Hades.

 

Recua, jovem! A rapariga está a salvo. Já tu és um intruso neste local, e estás constantemente em perigo enquanto o deus não vir o teu rosto nu e decidir se há-de destruir-te com um raio ou abrir-te os ouvidos à voz da Sibila. Reunam a vossa coragem, os dois, e sigam-me. Imediatamente!

 

Há muito tempo, reinava entre os Romanos um homem chamado Tarquínio, o Orgulhoso. Certo dia, chegou a Roma uma feiticeira vinda da sua gruta de Cumas e apresentou a Tarquínio nove livros de conhecimentos ocultos. Esses livros eram feitos de folhas de palmeira e não estavam ligados em rolo, de forma que as suas páginas podiam ser ordenadas de diferentes maneiras. Tarquínio achou aquilo muito estranho. Além disso, estavam escritos em grego, e não em latim, mas a feiticeira afirmava que os livros previam todo o futuro de Roma. Aqueles que os estudassem, disse ela, compreenderiam os estranhos fenómenos por meio dos quais os deuses tornam a sua vontade conhecida na terra, como quando se vêem gansos voando para norte no Inverno, ou a água se transforma em chamas ou se ouvem corvos a grasnar ao lusco-fusco.

 

Tarquínio considerou a oferta, mas a soma de ouro que ela pedia era demasiadamente grande. Mandou-a embora dizendo-lhe que, cem anos antes, o rei Numa estabelecera os sacerdócios, os cultos e os rituais dos Romanos e que essas instituições sempre tinham sido suficientes para discernir a vontade dos deuses.

 

Nessa noite, foram avistadas três bolas de fogo pairando por cima do horizonte. O povo assustou-se. Tarquínio pediu aos sacerdotes que explicassem o fenómeno mas, para grande desgosto destes, não foi possível encontrar qualquer explicação.

 

No dia seguinte, a sacerdotisa voltou a visitar Tarquínio, dizendo-lhe que tinha seis livros de conhecimentos para vender. Pediu a mesma quantia que pedira pelos nove livros no dia anterior. Tarquínio exigiu saber o que acontecera aos restantes três livros, e a bruxa disse que os tinha queimado durante a noite. Tarquínio, insultado com o facto de a feiticeira pedir por seis livros aquilo que ele se recusara a pagar por nove, mandou-a embora.

 

Nessa noite, ergueram-se no horizonte três colunas de fumo, sopradas pelo vento e iluminadas pela Lua, que assumiram um aspecto grotesco e agourento. Uma vez mais, o povo assustou-se, pensando que devia tratar-se de um sinal de um deus irado. Tarquínio convocou os sacerdotes. Uma vez mais, eles não souberam o que dizer.

 

No dia seguinte, a feiticeira foi novamente visitar o rei. Disse-lhe que queimara mais três livros na noite anterior, e que lhe oferecia os últimos três pelo mesmo preço que pedira originalmente pelos nove. Embora isso o tivesse vexado profundamente, Tarquínio pagou à mulher aquilo que ela lhe pedia.

 

E assim, por causa das hesitações de Tarquínio, os Livros Sibilinos foram recebidos de forma fragmentária. O futuro de Roma apenas podia ser discernido de maneira imperfeita, e a leitura dos auspícios e dos augúrios nem sempre era precisa. Tarquínio foi, simultaneamente, reverenciado por ter obtido os livros sagrados e ridicularizado por os não ter adquirido todos. A Sibila de Cumas ganhou uma reputação lendária pela sua sabedoria. Era respeitada por ser uma grande feiticeira, e ao mesmo tempo uma negociante astuta, tendo obtido o preço de nove livros por apenas três.

 

Os Livros Sibilinos tornaram-se objecto de tremenda veneração. Sobreviveram aos reis de Roma e tornaram-se a mais sagrada propriedade do povo romano. O Senado decretou que fossem mantidos numa arca de pedra, enterrada no templo de Júpiter, no Capitólio, por cima do Fórum. Os livros eram consultados em tempos de grande calamidade, ou quando surgiam augúrios inexplicáveis. Os sacerdotes especialmente encarregados de estudar os livros eram obrigados, sob pena de morte, a manter secreto o seu conteúdo, não o revelando sequer ao Senado. Contudo, houve um facto curioso relativo aos versos que se tornou conhecido. Eles estavam escritos em acróstico; quer dizer, o conjunto das primeiras letras de cada linha revelava o tema do verso. Uma habilidade como esta, que teria levado um mortal à loucura, deve ter sido uma brincadeira de crianças para a vontade divina.

 

Dado que os livros permaneciam misteriosos, muito poucas pessoas sabem exactamente o que se perdeu quando, há dez anos, nas convulsões finais das guerras civis, um grande incêndio varreu o Capitólio e comsumiu o templo de Júpiter, penetrando na arca de pedra e reduzindo os Livros Sibilinos a cinzas. Sula atribuiu a responsabilidade do incêndio aos seus inimigos, os seus inimigos atribuíram-na a Sula; de qualquer maneira, não foi um começo auspicioso para o reinado de três anos do ditador. Sem dispor dos Livros Sibilinos para o revelarem, teria Roma algum futuro? O Senado enviou mensageiros especiais a toda a Grécia e à Ásia, à procura de textos sagrados que substituíssem os Livros Sibilinos. Oficialmente, os sacerdotes e o Senado ficaram inteiramente satisfeitos com a missão. Para aqueles que respeitam a vontade divina, mas são cépticos em relação às instituições humanas, as oportunidades de fraude e de burla proprocionadas por esta caçada necrófila são demasiadamente espantosas para serem enumeradas.

 

O facto de nenhum mensageiro lhe ter sido enviado quando os livros originais se perderam não é um pequeno sinal das profundezas a que a Sibila de Cumas caíra na estima pública, pelo menos em Roma. Certamente que faria sentido voltar à fonte, a fim de substituir os livros arcanos ou terá o Senado hesitado perante a perspectiva de ser novamente ultrapassado, num segundo negócio com a Sibila de Cumas?

 

À volta da Taça, a Sibila continua a ser venerada, especialmente pelos habitantes das antigas cidades gregas, onde se usam clâmides em vez de togas e se fala o grego com mais frequência do que o latim, não apenas nos mercados, mas também nos templos e nos tribunais. A Sibila é um oráculo no sentido oriental; ela é uma força mediadora entre o humano e o divino, pois é capaz de tocar os dois mundos. Quando a Sibila toma posse de uma das sacerdotisas, esta fala com a voz do próprio Apolo. Estes oráculos existem desde a aurora dos tempos, desde a Pérsia até à Grécia, e nas longínquas colónias gregas de antigamente, como Cumas, mas os Romanos nunca aderiram completamente a eles, pois preferem que indivíduos inspirados interpretem a vontade dos deuses observando fios de fumo ou feijões saltitantes numa cabaça, em vez de proferirem directamente a mensagem divina. A Sibila de Cumas continua a ser venerada pelos aldeões locais, que lhe trazem presentes de gado e de moedas, mas não tem os favores da elite de Roma que habita as enormes villas à beira-mar; os membros desta elite preferem procurar a sabedoria de filósofos visitantes e conferir o seu patrocínio aos respeitáveis templos de Júpiter e da Fortuna nos fóruns de Putéolos, de Neápolis e de Pompeia.

 

Não me surpreendeu encontrar o templo de Apolo ligado ao altar da Sibila num certo estado de degradação. Nunca fora uma estrutura grandiosa, apesar das lendas de Dédalo e dos seus adornos dourados. Nem sequer era de pedra, mas de madeira, e tinha ao centro uma estátua de bronze de Apolo sobre um pedestal de mármore. As colunas pintadas de vermelho, verde e açafrão eram encimadas por um telhado circular, cujo cabouco era segmentado em triângulos e tinha pintadas imagens de Apolo dirigindo diversos actos da lenda de Teseu: o desejo de Pasífae por um touro e o nascimento do minotauro de Creta, o lançamento de sortes para o sacrifício anual de sete filhos atenienses ao animal; a construção do grande labirinto por Dédalo; o sofrimento de Ariadne; a prisão do monstro por Teseu; a fuga alada de Dédalo e do seu filho condenado, ícaro. Algumas das pinturas pareciam muito antigas e estavam tão apagadas que quase não se viam; outras tinham sido recentemente retocadas e brilhavam com cores vivas. Estava a ter lugar um restauro, e eu suspeitava de que conhecia a responsável por ele.

 

O templo estava situado num recanto de terra rodeado em três lados por paredes de pedra entalhada. Era a única superfície plana da colina escarpada, toda semeada de pedregulhos; as grandes pedras pareciam ter-se imobilizado a meio de uma avalancha, e sobre elas cresciam árvores torcidas, que parecia estenderem os ramos para se impedirem de cair. A sacerdotisa entrou à nossa frente, com um sereno e inabalável sentido de equilíbrio, sem dar um único passo em falso, enquanto Eco e eu seguíamos atrás dela, lançando pedrinhas pela colina abaixo enquanto nos agarrávamos aos ramos das árvores para nos equilibrarmos.

 

O sítio era escondido e protegido do vento. Reinava sobre nós um calmo silêncio. Sobre as nossas cabeças, o nevoeiro lutava para passar por cima do topo da colina e emergia em farrapos, lançando sobre o local uma estranha e manchada combinação de escuridão e luz do Sol.

 

Dentro do templo, a sacerdotisa voltou o rosto para nós. As suas feições permaneceram escondidas dentro da escuridão do capuz. A sua voz emergiu, tão estranha como antes, como Esopo afirma que os animais falariam se pudessem fazê-lo, forçando as suas gargantas inumanas a emitir ruídos humanos.

 

É óbvio disse ela que não trouxeste uma vaca.

 

Não.

 

Nem uma cabra.

 

Não.

 

Só os cavalos, que não constituem um sacrifício adequado ao deus. Então tens dinheiro para comprar um animal para o sacrifício?

 

Sim.

 

Ela referiu uma soma que não me pareceu escandalosa; aparentemente, a Sibila de Cumas já não era tão boa negociante como no passado. Tirei o dinheiro da bolsa e perguntei a mim próprio se Crasso aceitaria a despesa como uma adenda aos meus honorários.

 

Vi-lhe a mão direita apenas por um instante, quando ela recebeu as moedas que lhe entreguei. Era a mão de uma velha, como seria de esperar, com ossos proeminentes e marcas de carne descolorida. Não usava anéis nem pulseiras. Contudo, via-se uma mancha de tinta azul-esverdeada no polegar, exactamente do tom que laia poderia ter utilizado nessa manhã para retocar um pouco do seu mosaico.

 

Talvez ela também tivesse visto a mancha de tinta. Ou então estava impaciente pelo dinheiro, porque apertou as moedas e recolheu a mão, escondendo-a novamente dentro das mangas da sua veste. Reparei ainda que as bainhas das mangas eram de um vermelho mais escuro do que o resto do fato, pois estavam manchadas de sangue.

 

Dámon! chamou ela. Vai buscar um cordeiro!

 

Uma criança surgiu do nada, um rapazinho que meteu a cabeça por entre duas colunas e depois desapareceu a correr. Uns momentos mais tarde, reapareceu, trazendo aos ombros um cordeiro que balia. Não se tratava de um animal de criação, mas de um animal mimado de templo, engordado para o sacrifício ritual, sempre limpo e cuidadosamente tratado e escovado. O rapaz lançou-o de cima dos ombros para um pequeno altar colocado diante da estátua de Apolo. A criatura baliu ao contacto com o mármore frio, mas o rapaz conseguiu acalmá-lo com umas pancadinhas ligeiras e uns murmúrios ao seu ouvido, enquanto lhe atava habilmente as patas.

 

Afastou-se a correr e depois regressou, trazendo nas mãos estendidas uma longa lâmina de prata, com o punho encrustado de lápis-lazúli e granadas. A sacerdotisa tirou-lha da mão e colocou-se diante do cordeiro, de costas para nós, erguendo a lâmina e murmurando encantações. Eu esperara uma cerimónia mais longa e talvez uma série de perguntas, como muitos oráculos solicitam aos seus suplicantes, por isso fiquei um pouco surpreendido quando, subitamente, a lâmina cintilou e desceu.

 

A sacerdotisa era hábil, e tinha mais força do que me parecera. A lâmina deve ter ido directamente ao coração do animal, matando-o instantaneamente. Seguiram-se algumas convulsões e sangue espalhado, mas não se ouviu um único som, o menor queixume de protesto, enquanto ele entregava a sua vida ao deus. Morreriam os escravos de Baias com a mesma facilidade? Nesse momento, desceu sobre aquele lugar um frio glacial, embora o ar estivesse parado. Eco também o sentiu, porque o vi estremecer ao meu lado.

 

A sacerdotisa cortou o cordeiro desde o peito até ao estômago, e meteu a mão lá dentro. Percebi por que razão as bainhas das suas mangas tinham ficado manchadas de sangue. Procurou por momentos, depois encontrou o que buscava. Voltou-se para nós, com o coração palpitante e uma porção das entranhas do cordeiro nas mãos. Nós seguimo-la até uma curta distância, na parte lateral do templo, onde um fogareiro tosco fora talhado na parede de pedra. O rapaz já preparara o fogo.

 

A sacerdotisa lançou os órgãos para cima de uma pedra quente. Ouviu-se uma grande chiadeira e deu-se uma pequena explosão de vapor. O vapor afastou-se para o exterior, e depois foi atraído para a parede de rocha, metendo-se nas fissuras das pedras como fumo puxado por uma chaminé. A sacerdotisa mexeu as entranhas chiantes com um pau. O cheiro a carne crestada recordou-me que não tínhamos comido ao meio-dia. O meu estômago protestou. Ela lançou uma mão-cheia de qualquer coisa sobre a pedra aquecida, produzindo outra nuvem de fumo. Um odor estranho e aromático, como o de cânhamo a arder, encheu o ar, entontecendo-me. Ao meu lado, Eco vacilou tão violentamente, que eu estendi a mão para o ajudar a manter-se de pé mas, quando lhe agarrei no ombro, ele olhou para mim de uma forma estranha, como se tivesse sido eu a vacilar. Detectei um movimento pelo canto do olho e olhei para a grande parede de pedra por cima e diante de nós, onde tinham começado a surgir rostos peculiares por entre as fissuras e as sombras.

 

Estas aparições não são estranhas nos altares sagrados. Eu já as observara. Contudo, há sempre um ligeiro estremecimento de temor e dúvida naquele instante em que o mundo se altera e os poderes do invisível começam a manifestar-se.

 

Embora não conseguisse ver o seu rosto, mergulhado na sombra, sabia que a sacerdotisa estava a observar-me. Ela percebeu que eu estava pronto. Seguimo-la novamente, subindo um caminho de pedra escarpado que atravessava a encosta, e descendo em seguida para uma ravina escura e cada vez mais funda. O caminho parecia muito distante. O percurso era tão difícil, que eu dei por mim inclinado para diante, apoiando-me nas mãos e nos pés. Olhei para trás e vi que Eco fazia a mesma coisa. Estranhamente, a sacerdotisa conseguia caminhar direita, avançando com passos perfeitamente equilibrados.

 

Chegámos à boca de uma gruta. Quando entrámos, bateu-me no rosto um vento frio e húmido, trazendo consigo um estranho odor, como o hálito de muitas flores a apodrecer. Olhei para cima e percebi que a gruta não era um túnel, mas uma câmara alta e arejada, perfurada a toda a volta por pequenos orifícios e fissuras entalhadas. Estas aberturas deixavam entrar um brilho de lusco-fusco e, ao passar por elas, o vento suspirava, criando uma cacofonia sempre mutável, que ora parecia música, ora constituía um grande coro de queixumes. Por vezes, um som singular erguia-se acima de todos os outros, desvanecendo-se em seguida era um trinado de notas, como de um sátiro tocando flauta, ou a voz tronitoante de um actor famoso que eu ouvira certa vez, quando era criança, ou o suspiro de Betesda antes de acordar, de manhã.

 

Descemos para o interior da gruta, para um local onde as paredes se estreitavam. A escuridão aumentou e o coro de vozes recuou. A sacerdotisa ergueu o braço, indicando-nos que não prosseguíssemos. Na semiobscuridade, o seu fato vermelho tornara-se preto de azeviche, tão escuro que parecia uma abertura escancarada, que se movia de um lado para o outro numa melancolia cinzenta. Ela avançou para um estrado baixo de pedra, uma espécie de palco e, por um momento, pareceu-me que estava a dançar. O fato preto girou e torceu-se e pareceu dobrar-se sobre si próprio. Ouviu-se um longo guincho lamentoso, que me fez arrepiar os cabelos. As contorções não eram uma dança, eram as convulsões de uma sacerdotisa cujo corpo estava possuído pela Sibila.

 

O fato preto agitou-se até ao chão, transformando-se em nada mais do que um enorme monte de tecido. Eco avançou para lhe tocar, mas eu detive-o. No instante seguinte, o fato começou a encher-se de novo e ergueu-se. A Sibila de Cumas estava a tomar forma diante dos nossos olhos. Parecia mais alta do que a sacerdotisa, maior do que a vida. Ergueu as mãos e tirou o capuz que lhe cobria a cara.

 

O seu rosto não se discernia bem na escuridão e, no entanto, parecia-me conseguir avistar as suas feições numa espécie de claridade sobrenatural. Censurei-me por ter alguma vez pensado que a sacerdotisa era laia. Certamente que este era o rosto de uma velha e, em alguns aspectos superficiais, se parecia com laia; a boca podia ser a mesma, bem como os malares altos e magros e a testa orgulhosa mas nenhuma voz mortal alguma vez pronunciou ruídos semelhantes a estes, e nenhum mortal possuiu alguma vez olhos como aqueles, de tal maneira brilhantes que eram como a luz que atravessava as fissuras da gruta.

 

Ela começou a falar, depois agarrou-se a si própria. O seu peito ergueu-se e saiu-lhe da garganta um ruído de matraca, quando o deus começou a respirar através dela. Um vento súbito soprou de baixo de nós e espalhou o seu cabelo como gavinhas. Ela debateu-se, ainda não totalmente submetida ao deus e tentando afastá-lo do cérebro, como um cavalo que tentasse derrubar o seu cavaleiro. Saíam-lhe da garganta ruídos semelhantes aos do vento numa caverna, depois aos do gorgolejar da água num cano. Pouco a pouco, o deus dominou-a e depois acalmou-a. Ela escondeu o rosto nas mãos e em seguida, lentamente, ergueu-se.

 

O deus está comigo disse ela, numa voz que não era de homem nem de mulher. A Sibila parecia limitar-se a pronunciar palavras que provinham de outra fonte. Eu olhei de lado para Eco. Ele tinha a testa coberta de suor, os olhos muito abertos, as narinas dilatadas. Agarrei-lhe na mão, para lhe dar força na escuridão.

 

Por que viestes? perguntou a Sibila.

 

Eu comecei a falar, mas tinha a garganta apertada. Engoli e voltei a tentar.

 

Disseram-nos... que viéssemos. Até a minha voz me parecia estranha.

 

O que procurais?

 

Viemos... procurar o conhecimento... de certos acontecimentos... que ocorreram em Baias.

 

Ela acenou com a cabeça.

 

Vindes da casa do morto, Lúcio Licínio.

 

Sim.

 

Procurais a resposta a um enigma.

 

Procuramos saber como morreu ele... e às mãos de quem.

 

Não foi às mãos daqueles que são acusados disse a Sibila enfaticamente.

 

Mas não temos provas disso. A não ser que eu possa mostrar quem matou Licínio... todos os escravos da casa serão mortos. O homem que procura fazê-lo apenas pensa nas suas próprias vantagens... não nas da justiça. Seria uma tragédia cruel. Podes dizer-me o nome do homem que matou Licínio?

 

A Sibila ficou silenciosa.

 

Podes mostrar-me o seu rosto em sonhos?

 

A Sibila pousou os olhos em mim. Um arrepio gelado atravessou-me os ossos. Ela abanou a cabeça.

 

Mas é isso que eu preciso de saber protestei. É esse o conhecimento que procuro.

 

A Sibila abanou novamente a cabeça.

 

Se um general viesse ter comigo e me pedisse que matasse os seus inimigos, não teria eu de recusar? Se um médico viesse ter comigo e me pedisse que curasse o seu paciente, não teria eu de o mandar embora? O oráculo não existe para fazer o trabalho que os homens devem fazer. Contudo, se estes homens viessem ter comigo apenas procurando o conhecimento, eu conceder-lho-ia. Se essa fosse a vontade do deus, diria ao general onde se esconde o seu inimigo e diria ao médico onde poderia encontrar a erva que talvez salvasse o seu paciente. O resto seria com eles.

 

”O que farei então contigo, Gordiano de Roma? O teu trabalho é descobrir o conhecimento, e não vou ser eu a fazer o teu trabalho. Se te der a resposta que procuras, privar-te-ei dos próprios meios através dos quais podes atingir o teu fim. Se fores ter com Crasso levando apenas um nome, ele limitar-se-á a rir-se de ti e a castigar-te por fazeres acusações falsas. A não ser que o adquiras sozinho, utilizando as tuas capacidades, o conhecimento que procuras será desprovido de sentido. Tens de ser capaz de provar aquilo que afirmas. É vontade do deus que eu te auxilie, mas não farei o teu trabalho por ti.

 

Eu abanei a cabeça. Para que servia a Sibila, se se recusava a pronunciar um simples nome? Seria possível que ela não soubesse? Estremeci de medo pelo facto de albergar pensamentos tão ímpios mas, ao mesmo tempo, pareceu-me que um véu estava a ser-me lentamente tirado da frente dos olhos e que a Sibila começava novamente a parecer-se de forma muito suspeita como laia.

 

Eco tocou-me na manga, solicitando a minha atenção. Ergueu dois dedos de uma mão e, com a outra mão, voltou esses dedos para baixo, o sinal que ele utilizava para indicar um homem: dois homens. Pôs uma mão à volta do pulso da outra, simbolizando uma grilheta, o sinal que utilizava para um escravo: dois escravos.

 

Eu olhei novamente para a Sibila.

 

Os dois escravos desaparecidos, Zenão e Alexandre estão vivos ou mortos? Onde posso encontrá-los?

 

A Sibila acenou em sinal de austera aprovação.

 

Fazes uma pergunta sensata. Dir-te-ei que um deles está escondido e o outro está à vista de todos.

 

Sim?

 

Dir-te-ei que, depois de terem fugido de Baias, foi este o seu primeiro destino.

 

Aqui? Vieram para a tua gruta?

 

Vieram procurar a orientação da Sibila. Vieram ter comigo como homens inocentes, e não culpados.

 

Onde posso encontrá-los?

 

A seu tempo encontrarás aquele que está escondido. Quanto ao que está à vista de todos, encontrá-lo-ás quando regressares a Baias.

 

Nos bosques?

 

Não.

 

Então onde?

 

Há uma parede de pedra que dá para o lago Averno...

 

Olímpias mostrou-nos onde era.

 

Do lado esquerdo do precipício existe um caminho estreito que leva até ao lago. Tapa a boca e o nariz com a manga e desce até à beira do poço. Ele estará aí à tua espera.

 

O quê, é uma sombra de um morto fugindo do Tártaro?

 

Reconhecê-lo-ás quando o vires. Ele receber-te-á com os olhos abertos.

 

Era um lugar inteligente para ele se esconder, claro, mas que género de homem armaria o seu acampamento nas margens do Averno, por entre o enxofre, o vapor e as exalações dos fantasmas dos mortos? A parede de pedra era o mais longe que eu estava interessado em me aventurar; o pensamento de descer até à sua crista fez-me arrepiar. Pela maneira como se agarrou ao meu braço, percebi que a ideia desagradava a Eco tanto como me desagradava a mim.

 

O rapaz disse a Sibila secamente, por que não fala ele?

 

Não consegue falar.

 

Estás a mentir!

 

Não, ele não consegue falar.

 

Surdo de nascença?

 

Não. Quando era muito pequeno, foi atingido por uma febre. O seu pai foi morto pela mesma febre; a partir desse dia, Eco não voltou a falar. Foi o que me contou a sua mãe antes de o abandonar.

 

Ele conseguiria falar neste momento, se tentasse.

 

Como podia ela dizer uma coisa daquelas? Comecei a objectar, mas ela interrompeu-me.

 

Deixa-o tentar. Diz-me como te chamas, rapaz!

 

Eco olhou para ela com medo, e depois com um estranho brilho de esperança nos olhos. Foi outro momento estranho num dia cheio de momentos estranhos, e eu quase acreditei que o impossível acontecesse aqui, na gruta da Sibila. Eco também deve ter acreditado. Abriu a boca. A sua garganta estremeceu e as suas faces ficaram tensas.

 

Diz-me como te chamas! exigiu a Sibila.

 

Eco esforçou-se. O seu rosto toldou-se. Tremeram-lhe os lábios.

 

Diz-me!

 

Eco tentou. Mas o som que lhe saiu da garganta não foi de fala humana. Foi um ruído abafado e distorcido, feio e dissonante. Eu fechei os olhos, envergonhado por causa dele, depois senti-o enconstar-se ao meu peito, a tremer e a chorar. Apertei-o com força e perguntei a mim próprio porque exigiria a Sibila um preço tão cruel a humilhação de um rapaz inocente em troca de tão pouco. Inspirei profundamente, enchendo os pulmões com o odor a flores mortas. Reuni toda a minha coragem e abri os olhos, decidido a repreendê-la, fosse ela receptáculo do deus ou não, mas a Sibila tinha desaparecido.

 

Saímos da gruta da Sibila. A caverna de ecos e de vozes deixou de parecer tão misteriosa era um recinto curioso, certamente, mas já não tinha a aparência atemorizadora que tivera quando entrámos. O caminho de regresso ao templo era difícil e rochoso, mas não tivemos de utilizar as mãos para ajudar; nem nos pareceu tão longo no regresso como nos parecera quando nos dirigíamos à gruta da Sibila. O mundo inteiro parecia ter despertado de um estranho sonho. Até o nevoeiro irregular recuara e a colina brilhava ao sol da tarde.

 

O fogo morrera no fogareiro. As entranhas enegrecidas ainda crepitavam e estalavam ocasionalmente sobre a pedra quente, assustando a nuvem de moscas que voavam por cima delas. Era uma visão desagradável, mas o cheiro a carne carbonizada voltou a recordar-me que não tínhamos comido a horas. Numa pequena reentrância ao lado do templo, o rapaz Dámon pendurara e esfolara a carcaça do cordeiro e recortava-a com surpreendente habilidade.

 

Descemos a ravina e soltámos os cavalos. O sol brilhante reflectia-se no labirinto de rochas, fazendo dele um lugar tão desconcertante como anteriormente, ainda que menos ameaçador. Dirigimo-nos para a costa. Na crista de uma pequena elevação, abriu-se diante de nós uma extensão brilhante, que não era a área circunscrita da Taça, mas o mar autêntico, um corpo de água sem limites que se estendia até à Sardenha e para além dela, e até aos Pilares de Hércules, para oeste. Aos nossos pés, avistámos a antiga aldeia de Cumas.

 

Avançávamos em silêncio. Quando viajamos, costumo manter uma conversa, ainda que Eco não possa responder-me vocalmente. Agora, não conseguia pensar em nada para dizer. O silêncio entre nós era pesado, de uma melancolia indizível.

 

O condutor de uma carroça indicou-nos a casa de laia, empoleirada em cima de um penhasco, na extremidade da aldeia, directamente sobre o mar. Não era uma villa monumental, mas era provavelmente a maior casa da aldeia, com alas modestas que se estendiam para norte e para sul e o que parecia ser outro andar construído mais abaixo, na direcção do mar, para oeste. O conjunto de cores que decoravam a fachada era subtilmente original, uma mistura de açafrão e ocre com toques de azul e de verde. A casa erguia-se ousadamente contra o pano de fundo do mar mas, ao mesmo tempo, parecia constituir uma parte essencial da paisagem. A mão e o olhar de laia transformavam todas as coisas em obras de arte.

 

O escravo que atendeu à porta informou-nos de que Olímpias tinha saído mas regressaria em breve, e deixara dito que atendessem às nossas necessidades. Conduziu-nos a uma pequena varanda com vista para o mar e trouxe-nos de comer e de beber. Presenteado com uma taça de papa de aveia fumegante, Eco começou a voltar a ser ele próprio. Comeu com satisfação e eu fiquei contente por vê-lo sacudir a tristeza. Depois de comermos, descansámos, reclinados em canapés na varanda, e contemplando o mar, mas eu comecei rapidamente a ficar inquieto e a interrogar os escravos sobre o paradeiro de Olímpias. Se sabiam onde ela estava, não quiseram dizer-me. Deixei Eco a dormitar no seu canapé e fui dar uma volta pela casa.

 

laia coleccionara muitas coisas belas ao longo da sua carreira mesas e cadeiras finamente trabalhadas, pequenas esculturas tão delicadamente moldadas e pintadas, que quase parecia respirarem, objectos preciosos feitos de vidro, figurinhas de marfim, e quadros de outros artistas, bem como pinturas suas. Estas coisas estavam em exposição pela casa com um grande sentido de harmonia e um olhar infalível para a beleza. Não era de espantar que se sentisse tão distante do gosto de Lúcio Licínio, em pintura e escultura.

 

Foi o nariz que me conduziu ao compartimento onde laia e Olímpias criavam os seus pigmentos. Atravessei um corredor atrás de uma estranha mistura de odores e desemboquei numa câmara atravancada de potes, braseiras, almofarizes e pilões. Amontoados por todo o compartimento viam-se dezenas de recipientes de argila, uns maiores, outros mais pequenos, todos etiquetados pela mesma mão que assinara o retrato de Gelina. Abri as tampas e examinei as diversas plantas secas e os minerais em pó. Reconheci alguns deles sinople castanho-escuro, feita de ferro enferrujado de Sinople; cinábrio espanhol da cor do sangue; areia roxa de Putéolos; azul-anilado feito de um pó raspado nos canaviais do Egipto.

 

Havia outros frascos, que parecia conterem, não pigmentos, mas ervas medicinais heléboro preto e branco reduzido a pó, venenoso, mas com diversas utilizações; o holósteon, ou planta ”óssea” (nome que lhe é perversamente atribuído pelos Gregos por ser totalmente macia, da mesma maneira que chamam ”doce” ao fel), com as suas raízes finas que parecem cabelos, próprio para sarar feridas e curar entorses; sementes de látire branca, próprias para curar a hidropisia e para dissolver a bílis. Estava precisamente a pôr a tampa num frasquinho cheio de acónito, também chamado morte-de-pantera, quando alguém tossiu ligeiramente atrás de mim. O escravo que atendia à porta observava-me do corredor, com desaprovação.

 

Deves ter cuidado antes de meteres o nariz dentro dos frascos disse ele. Algumas das coisas que estão dentro deles podem ser muito venenosas.

 

Sim concordei eu, como isto aqui. Acónito dizem que saiu da espuma da boca de Cérbero quando Hércules o expulsou do Mundo Subterrâneo. É por isso que cresce junto das passagens para o Mundo Subterrâneo, como as Goelas do Hades. Ouvi dizer que é bom para matar panteras... e pessoas. Pergunto a mim próprio para que o quererá a tua senhora.

 

Para as mordidelas de escorpião respondeu o escravo concisamente. Mistura-se com vinho para fazer um cataplasma.

 

Ah, a tua senhora deve saber muito destas coisas.

 

O escravo cruzou os braços e olhou fixamente para mim como um basilisco. Eu coloquei lentamente o frasco na prateleira e saí do compartimento.

 

Decidi ir dar um passeio ao longo dos penhascos, do outro lado da aldeia. O sol da tarde estava quente, mas o céu parecia um cristal. Uma procissão de nuvens deslocava-se ao longo do horizonte azul e, por cima de mim, as gaivotas voavam em círculos, guinchando. O nevoeiro que cobrira a costa uma hora antes desaparecera. A Sibila de Cumas começava a parecer-me irreal, semelhante aos vapores que se erguiam do lago Averno, como se tudo aquilo que acontecera desde que saíramos de Baias nessa manhã tivesse sido um sonho acordado. Inspirei profundamente o ar do mar e, subitamente, senti-me cansado da villa de Baias e de todos os seus mistérios. Ansiava por estar novamente em Roma, passeando pelas ruas movimentadas da Subura, observando os bandos de rapazes que jogavam ao trígono nas praças. Ansiava pela calma recolhida do meu jardim, pelo conforto da minha cama e pelo cheiro dos cozinhados de Betesda.

 

Depois vi Olímpias trepar um caminho estreito proveniente da praia. Trazia na mão um pequeno cesto. Ainda estava bastante longe, mas percebi que sorria não era o sorriso ambíguo que habitualmente exibia na villa de Gelina, mas um verdadeiro sorriso, radiante e satisfeito. Também vi que a bainha da sua curta estola de andar a cavalo estava escura, como se ela tivesse estado mergulhada em água até aos joelhos.

 

Olhei para além dela e tentei imaginar de onde viria. O caminho por onde vinha desaparecia por entre uma confusão de rochas, e eu não consegui ver nenhuma praia à beira da água. Se ela queria apanhar conchas ou criaturas do mar, certamente haveria lugares mais seguros nas proximidades de Cumas.

 

Quando se aproximou, escondi-me atrás de uma pedra. Dei a volta por trás dela, tentando arranjar maneira de a observar sem ser visto, e detectei um movimento pelo canto do olho. A uma centena de passos de distância, avistei aquilo que podia ser a minha imagem ao espelho, se vestisse uma capa escura com capuz e tivesse uma comprida barba pontiaguda. O filósofo Dionísio estava exactamente na mesma posição que eu, escondido atrás de uma rocha na extremidade da falésia, observando furtivamente Olímpias a subir a colina.

 

Ele não me viu. Movi-me lentamente à volta da pedra, escondendo-me, tanto de Olímpias como de Dionísio, e depois afastei-me da falésia a correr até ficar fora do alcance da vista de qualquer deles. Apressei-me a regressar a casa de laia e juntei-me a Eco na varanda.

 

Olímpias chegou uns momentos depois. O escravo que atendia à porta falou com ela em voz baixa. Olímpias passou a outro compartimento. Quando reapareceu, uns momentos mais tarde, vestira uma estola seca e já não trazia o cesto na mão.

 

A vossa visita à Sibila foi frutífera? perguntou ela, sorrindo agradavelmente.

 

Eco estremeceu e desviou os olhos.

 

Talvez disse eu. Descobri-lo-emos no caminho de regresso a Baias.

 

Olímpias pareceu confusa, mas nada poderia perturbar a sua disposição alegre. Andou um pouco pela varanda, acariciando as flores que desabrochavam nos vasos.

 

Querem regressar? perguntou ela.

 

Acho que sim. Eco e eu ainda temos que fazer e deve haver uma enorme confusão em casa de Gelina, como costuma acontecer na véspera de um grande funeral.

 

Ah, sim, o funeral. Olímpias suspirou com gravidade. Depois acenou com a cabeça pensativamente, e o sorriso quase desapareceu dos seus lábios encantadores quando inclinou a cabeça para cheirar as flores.

 

O ar do mar faz-te bem disse eu. Ela parecia mais bela do que nunca, com os olhos a brilhar e o cabelo louro arrastado pelo vento. Foste dar um passeio pela praia?

 

Um passeio curto, sim disse ela, desviando os olhos.

 

Quando entraste, há bocado, pareceu-me que trazias um cesto. Andaste a apanhar ouriços-do-mar?

 

Não.

 

Conchas?

 

Ela pareceu pouco à vontade.

 

Na verdade, não fui à praia. O brilho dos seus olhos tornou-se opaco. Fui dar uma volta pela falésia. Recolhi algumas pedras bonitas, se queres saber. laia costuma utilizá-las para decorar o jardim.

 

Estou a ver.

 

Partimos pouco depois. Enquanto passávamos pela sala de estar, em direcção à porta, vi que Olímpias não se preocupara em esconder o cesto ao entrar, tendo-o deixado à vista de todos no canto oposto ao do tamborete do escravo que atendia à porta. Enquanto Olímpias saía para a luz do Sol, eu fiquei para trás, dirigi-me ao cesto e ergui a tampa com o pé. Lá dentro não havia pedras nenhumas. À excepção de uma pequena faca e de umas migalhas de pão, o cesto estava vazio.

 

A passagem pelo labirinto de pedras e pelos campos vazios e ventosos pareceu-me muito diferente à luz brilhante do Sol mas, quando começámos a entrar nos bosques que rodeavam o lago Averno, senti a mesma atmosfera de sinistro isolamento que sentira anteriormente. Olhava ocasionalmente para trás mas, se Dionísio nos seguia, mantinha-se fora do alcance da vista.

 

Só quando chegámos ao precipício é que eu disse a Olímpias que pretendia parar.

 

Mas eu já te mostrei o sítio protestou ela. Não acredito que queiras vê-lo outra vez. Pensa como o dia deve estar bonito em Baias.

 

Mas eu quero vê-lo insisti eu. Enquanto Eco procurava um sítio para prender os cavalos, eu localizei o princípio do caminho do lado esquerdo da parede, tal como a Sibila o descrevera. A passagem estava escondida por arbustos e ramos velhos, e o caminho propriamente dito era incerto e pouco usado. Não se viam sinais de pegadas recentes na terra humedecida pelo nevoeiro, nem sequer as marcas de um veado. Passei por entre os arbustos, com Eco atrás de mim. Olímpias protestou, mas seguiu-nos.

 

O caminho descia em ziguezagues pronunciados, por um chão estéril e rochoso. O cheiro a enxofre era cada vez mais forte, trazido por uma onda de ar quente e ascendente, até que, a certa altura, fomos obrigados a tapar o rosto com a manga. Finalmente, demos por nós numa praia ampla e baixa de lama amarela. O lago não era uma superfície líquida uniforme, como parecia de cima, mas uma série de piscinas de enxofre ligadas entre si, cobertas por nuvens de vapor e separadas por pontes de rocha que poderiam ser utilizadas para passar de um para outro lado, se um homem quisesse correr esse risco e conseguisse sobreviver ao calor e ao cheiro. O fedor dos poços borbulhantes era quase impossível de suportar, mas pareceu-me detectar um odor ainda mais desagradável, transportado pelo vapor.

 

Olhei para cima. Estávamos quase directamente por baixo da parede de rocha da qual descêramos. Diante da falésia, não consegui avistar nenhuma gruta, ou outros locais de abrigo. Abanei a cabeça, duvidando mais do que nunca da palavra da Sibila.

 

Como é que alguém pode vir ter connosco aqui? resmunguei para Eco. Era mais provável que víssemos o Minotauro a correr por esta praia, do que um dos escravos fugitivos de Gelina. Eco olhava atentamente para um lado e para o outro da praia, até onde a névoa o permitia. Depois ergueu as sobrancelhas e apontou para qualquer coisa à beira da água, a apenas alguns metros de nós.

 

Eu já vira aquela coisa, mas não tinha reparado nela, pensando que se tratava de um pedaço de madeira ou de qualquer detrito natural que o lago tivesse expulsado. Mas agora olhei mais atentamente, e percebi com o choque o que devia ser.

 

Eco e eu avançámos cautelosamente na sua direcção, com Olímpias atrás de nós. Em determinado momento, a maior parte daquela coisa devia ter estado submersa no poço, onde uma grande porção fora comida pela lama cáustica e borbulhante. O que restava era destituído de cor, estava manchado de lama e degradava-se rapidamente. Olhámos para os restos de uma cabeça humana presa a uns ombros ainda cobertos por pedaços de tecido descolorido. O rosto estava voltado para baixo, na direcção da lama. Na parte de trás da cabeça do cadáver, um caracol de cabelo grisalho enroscara-se à volta de uma zona calva. Eco recuou atemorizado e olhou para o lago, como se pensasse que a coisa emergira do poço, em vez de ter caído lá dentro.

 

Eu encontrei um pau e empurrei os ombros, a fim de virar a coisa ao contrário, ao mesmo tempo que mantinha o nariz tapado. Não foi fácil; a carne do rosto parecia ter-se derretido na lama. Quando finalmente consegui, a visão era difícil de suportar, mas ainda havia feições suficientes para Olímpias o reconhecer. Ela inspirou a tremer, e gemeu de encontro à manga:

 

Zenão!

 

Antes de eu conseguir pensar o que havia de fazer, Olímpias decidiu por mim. Com um guincho agudo, inclinou-se, agarrou na cabeça pelo cabelo que ainda restava e atirou-a para o lago. Ela voou por entre o nevoeiro, agitando-o e alvoroçando-o, e mergulhou, não com um chape, mas com uma palmada. Por um fantástico momento, o tempo parou e a cabeça flutuou no caldeirão borbulhante. Por baixo dela, ouviu-se o ruído sibilante do vapor. Por entre os fumos, pareceu-me ver os olhos da coisa abrirem-se e olharem para nós, como um homem que se afoga olha desesperadamente para aqueles que estão na margem. Depois, afundou-se na lama e desapareceu por completo. Agora, pertence para sempre às Goelas do Hades murmurei eu para ninguém, porque Olímpias corria precipitadamente para o caminho, tropeçando e chorando, e Eco estava de joelhos, a vomitar na praia.

 

                   A MORTE NUMA TAÇA

 

Este dia acabará jamais? Olhei atentamente para o tecto por cima da minha cabeça e esfreguei a cara com as duas mãos. Amanhã vão doer-me as costas, por causa de todas estas cavalgadas, a subir e a descer colinas, atravessando bosques e desertos. Balbuciava, como fazem os homens cansados quando se lhes dá uma oportunidade para descansarem no decurso de um longo dia e eles percebem que estão demasiadamente extenuados para conseguirem descansar. Talvez as coisas melhorassem se eu fechasse os olhos mas, sempre que o fazia, via o rosto horrivelmente degradado de Zenão olhar para mim do interior de uma boca escancarada de chamas.

 

”Eco, podes encher-me um copo com água desse jarro que está no peitoril da janela? Água! Bati com a mão na testa. Ainda temos de descobrir alguém que mergulhe fundo nas sombras que rodeiam a casa dos barcos para vermos o que foi lançado do molhe a noite passada. Sentei-me para receber o copo das mãos de Eco e espreitei para a janela por cima do seu ombro. O Sol ainda ia alto, mas não por muito mais tempo. Quando descobrisse Meto, pressupondo que ele poderia desempenhar-se da tarefa, e chegasse à beira da água, as sombras estariam mais longas e o frio da noite teria começado a instalar-se. Precisávamos que a luz do Sol perfurasse as águas para encontrarmos o que quer que fosse por entre as rochas do fundo. Essa tarefa teria de esperar.

 

Resmunguei e esfreguei os olhos depois afastei rapidamente as mãos, quando o rosto de Zenão se avultou diante de mim.

 

Temos pouco tempo, Eco, temos pouco tempo. De que valem todas estas correrias se não pudermos esperar chegar ao fundo das coisas antes de Crasso fazer o que pretende? Se Olímpias não tivesse lançado a cabeça para dentro do lago, tendo regressado a correr à villa, sozinha, teríamos pelo menos qualquer coisa que mostrar a Crasso uma prova de que tínhamos encontrado um dos escravos. Mas de que teria servido isso? Crasso teria visto nela mais uma prova da culpa de Zenão que melhor maneira de os deuses mostrarem a sua fúria para com um escravo assassino, do que o próprio Plutão engolir o depravado, a começar pelos pés?

 

”Apesar de todo o trabalho que já tivemos, só nos restam perguntas, Eco. Quem me atacou naquele molhe, a noite passada? O que andou Olímpias a fazer hoje, e por que foi Dionísio atrás dela? E que papel desempenha laia em tudo isto? Ela parece ter um plano próprio, mas com que finalidade, e por que desempenha ela esse papel por trás de um véu de segredos e de magia?

 

Estendi os braços e as pernas e senti-me subitamente pesado como chumbo. Eco caiu sobre a cama, com o rosto voltado para a parede.

 

Não devíamos continuar aqui deitados murmurei eu. Temos tão pouco tempo. Ainda não falei com Sérgio Orata, o homem de negócios. Nem com Dionísio, já que falámos nele. Se conseguisse apanhar o filósofo desprevenido...

 

Fechei os olhos só por um instante, pensei. Pareceu-me que, à minha volta, o próprio quarto suspirou pesadamente. Empoleirado no alto da villa com uma varanda voltada para leste, ele recebia o calor da manhã e armazenava-o durante todo o dia, mas agora as paredes começavam a ceder esse calor. O ar fresco entrava pela janela e espalhava-se pelo quarto. Eu sentia a parte de trás do meu corpo, pressionada contra a cama, deliciosamente quente, mas tinha as mãos os pés um pouco frios. Uma manta ligeira saber-me-ia bem, mas sentia-me demasiadamente cansado para me incomodar. Estava deitado sobre a cama, exausto, alerta a todas as sensações, mas começava a dormitar.

 

O sonho iniciava-se na cama onde me encontrava, mas parecia-me que estava na minha casa de Roma, porque dei por mim deitado de lado, com Betesda encostada a mim, o seu rosto encostado ao meu. Com os olhos fechados, passava as mãos pelas suas coxas mornas e por cima da sua barriga, espantado com o facto de a sua carne ser ainda tão firme e flexível como quando eu a comprara, em Alexandria. Ela ronronava como um gato às minhas festas; o seu corpo enroscava-se contra o meu e eu comecei a sentir-me cada vez mais duro entre as pernas. Mexi-me para entrar dentro dela, mas ela retesou-se e afastou-me.

 

Quando abri os olhos, não vi Betesda, mas Olímpias, olhando para mim de longe, com desdém.

 

O que pensas tu que eu sou? murmurou ela com altivez, uma escrava que tu podes usar? Ela afastou-se da cama e ergueu-se, despida, banhada pela suave luz brilhante proveniente da varanda. O seu cabelo formava uma auréola dourada à volta do seu rosto; as curvas cheias e suaves e os subtis ocos do seu corpo possuíam uma beleza que era quase insuportável contemplar. Eu estendi a mão e ela recuou. Pensei que estava a fazer troça de mim, mas subitamente ela cobriu o rosto com as mãos e saiu a correr do quarto, a soluçar, batendo com a porta atrás de si.

 

Eu ergui-me da cama e segui-a. Abri a porta com um certo mau presságio e senti um bafo de ar quente no rosto. A porta não dava para um corredor, mas para a parede de rocha por cima do lago Averno. Não se percebia se era de dia ou de noite; todas as coisas estavam iluminadas com um brilho áspero, vermelho de sangue. Na extremidade da rocha, estava sentado um homem numa cadeira baixa, embrulhado numa capa militar cor de carmesim. Estava inclinado para a frente, com o queixo apoiado na mão e o cotovelo apoiado no joelho, como se estivesse a observar o progresso de uma batalha, ao longe. Eu olhei por cima do seu ombro e vi que todo o lago era uma enorme piscina de chamas, cheio de uma ponta à outra de corpos de homens, mulheres e crianças que se contorciam, presos até à cintura na lama ardente. As suas bocas estavam escancaradas de agonia, mas a distância abafava-lhes os gritos, de maneira que ouvi-los era como escutar o rugido do mar ou o som de uma multidão num anfiteatro. Estavam demasiadamente longe para se conseguirem distinguir os seus rostos, mas apesar disso eu reconheci entre eles o escravo Meto e o jovem Apolónio.

 

Crasso olhou por cima do ombro. ”Justiça romana”, disse ele com uma careta de satisfação, ”e tu nada podes fazer para impedi-la.” Olhava para mim de uma forma estranha, e eu percebi que estava nu. Dei meia volta para regressar ao quarto, mas não consegui encontrar a porta. Na confusão, aproximei-me demasiadamente da borda. Uma parte da rocha começou a esmigalhar-se e a ceder. Crasso parece não ter reparado que eu caí para trás, tentando desesperadamente agarrar-me à rocha que caía comigo, mergulhando no espaço vazio...

 

Acordei coberto de suores frios e vi a meu lado o jovem Meto, com uma expressão de grave preocupação no rosto. Vindo do outro lado do quarto, chegou até mim o suave ressonar de Eco. Pestanejei e passei a mão pela testa, surpreendido por encontrá-la perlada de suor. O céu para além da varanda estava azul-escuro, avivado pelas primeiras estrelas da noite. O quarto estava iluminado por uma lamparina, que Meto transportava na sua mãozinha.

 

Estão à tua espera disse ele por fim, erguendo as sobrancelhas de uma forma hesitante.

 

Quem? Para quê? Eu pestanejei confuso e observei a luz da lamparina tremeluzir no tecto.

 

Está lá toda a gente, excepto tu disse ele.

 

Onde?

 

Na sala de jantar. Estão à tua espera para começarem a jantar. Mas não sei por que estão com tanta pressa prosseguiu ele, enquanto eu abanava a cabeça para clarear as ideias e lutava por me levantar da cama.

 

Por que dizes isso?

 

Porque se trata de um jantar que nem para os escravos servia.

 

Uma grande melancolia parecia ter-se instalado na sala de jantar. Ela provinha em parte da solenidade da ocasião, pois esta seria a última refeição antes do funeral; durante toda a noite e todo o dia seguinte, até ao festim do funeral que se seguiria à cremação e ao enterro de Lúcio Licínio, todos os que viviam na casa fariam jejum. A tradição prescrevia uma refeição de rigorosa simplicidade: pão vulgar e taças de lentilhas simples, vinho aguado e uma papa de trigo. Para inovar, o cozinheiro de Gelina introduzira alguns acepipes, todos de cor preta: ovas pretas servidas sobre côdeas de pão escuro, ovos de conserva pintados de preto, azeitonas pretas e peixe esmagado em tinta de choco. Não era um repasto que suscitasse uma conversa animada, nem sequer por parte de Metróbio. Do outro lado da sala, Sérgio Orata observava o ambiente com um ar carregado e enchia-se de ovos de conserva, metendo-os na boca inteiros.

 

A melancolia tinha outra fonte, que emanava do canapé ao lado do de Gelina. Esta noite, Marco Crasso estava presente, e a sua presença parecia engolir por completo toda a espontaneidade. Os seus lugares-tenente, Múmio e Fábio, reclinados perto um do outro à sua direita, pareciam incapazes de espantar a sua taciturna atitude militar e era evidente, pelos olhares de esguelha e as expressões carregadas de ambos, que nem Metróbio nem laia se sentiam à vontade na presença do grande homem. Olímpias estava compreensivelmente distraída; considerando o choque que recebera no lago Averno, era surpreendente que estivesse sequer presente. Petiscava a comida, mordia os lábios e mantinha os olhos baixos. Tinha uma expressão assombrada que mais não fazia que acentuar a sua beleza ao brilho de fundo das lamparinas. Reparei que Eco não conseguia desviar os olhos dela.

 

Gelina encontrava-se num estado de irritável agitação. Não conseguia estar quieta, estava constantemente a acenar aos escravos e depois, quando eles se aproximavam, não se recordava por que razão os chamara. A sua expressão passava do desespero esgazeado para um sorriso tímido sem razão aparente e, longe de desviar os olhos, olhava à volta da sala, fixando cada um de nós com um olhar intenso e imprescrutável que era enervante. Nem Metróbio conseguia aguentar; de vez em quando, pegava-lhe na mão e apertava-lha para a reconfortar, mas evitava olhar para ela. O seu bom humor parecia ter secado.

 

O próprio Crasso mostrava-se preocupado e distante. A maior parte da sua conversa era reservada para Múmio e Fábio, com quem trocava observações sóbrias sobre o estado das tropas e os progressos feitos para completar o anfiteatro junto do lago Lucrino. À parte isso, quase se podia dizer que jantava sozinho, a avaliar pela atenção que prestava aos seus convidados. Comia com vontade mas estava pensativo e ausente.

 

Só o filósofo Dionísio parecia estar bem-disposto. As suas faces tinham um calor de rubi e os seus olhos brilhavam. Cavalgar até Cumas e regressar tinha-o revigorado, pensei eu, ou então estava muito satisfeito com o resultado que obtivera da espionagem de Olímpias nessa tarde. Subitamente, ocorreu-me que talvez ele estivesse tão impressionado com a sua beleza como todos os outros e que o seu objectivo ao segui-la fosse simplesmente lúbrico. Lembrei-me de que o vira no penhasco, observando furtivamente Olímpias por trás das dobras da sua capa e, com um arrepio, imaginei-o acariciando-se a si próprio em segredo. Se o sorriso dessa noite era o resplendor resultante de ter satisfeito o seu peculiar apetite sexual, então os deuses estavam a conceder-me uma visão muito mais íntima da alma do homem do que aquela que eu desejava ter.

 

Contudo, para um homem obcecado, Dionísio parecia perfeitamente capaz de ignorar Olímpias e a sua perturbação, embora ela estivesse reclinada à sua direita. As suas atenções estavam antes centradas em Crasso. Tal como na noite anterior, foi Dionísio quem finalmente tomou as rédeas da conversa desordenada e procurou entreter-nos, ou pelo menos impressionar-nos, com a sua erudição.

 

A noite passada, falámos um pouco sobre a história das revoltas de escravos, Marco Crasso. Lamentei que não estivesses presente. Talvez desconhecesses alguns pontos da minha investigação.

 

Crasso acabou calmamente de mastigar uma côdea de pão, antes de replicar.

 

Duvido seriamente, Dionísio. Eu próprio tenho feito alguma investigação sobre o assunto nos últimos meses, principalmente centrada nos erros cometidos por comandantes romanos mal-sucedidos quando confrontados com forças de grande dimensão, mas indisciplinadas.

 

Ah. Dionísio fez um aceno de cabeça. O homem sábio interessa-se, não apenas pelo seu inimigo, mas também, digamos assim, pela herança do seu inimigo, e pelos poderes históricos que o seu inimigo tem à sua disposição, por muito imperfeitos e vergonhosos que sejam.

 

Mas afinal de que estás tu a falar? disse Crasso, quase não olhando para ele.

 

Quero dizer que Espártaco não surgiu propriamente do nada. Eu tenho a teoria de que se contam entre esses escravos lendas acerca das revoltas de escravos do passado, histórias construídas à volta de personagens como o feiticeiro-escravo Euno, e adornadas com todo o tipo de pormenores pretensamente heróicos e de ilusões.

 

Que disparate disse Fausto Fábio, empurrando para trás uma madeixa de cabelo ruivo desalinhado. Os escravos não têm lendas, nem heróis, tal como não têm mulheres, nem mães, nem filhos a que possam chamar seus. Os escravos têm deveres e têm senhores. É assim que funciona o mundo, tal como os deuses o ordenaram. Ouviu-se um murmúrio geral de concordância à volta da sala.

 

Mas o modo como o mundo funciona pode ser alterado disse Dionísio, como vimos muito claramente nos últimos dois anos, em que Espártaco e a sua ralé cabriolaram de um lado para o outro por toda a Itália, espalhando o caos e incitando cada vez mais escravos a juntarem-se a eles. Esses homens põem em causa a ordem natural das coisas.

 

E é por isso que chegou a altura de um romano forte restabelecer essa ordem! rugiu Múmio.

 

Mas certamente que seria útil insistiu Dionísio compreender as motivações e as aspirações desses escravos rebeldes, para mais seguramente os derrotar.

 

Fábio enrolou o lábio com ironia e trincou uma azeitona.

 

A sua motivação é escapar à vida de serviço e de trabalho que a Fortuna lhes reservou. A sua aspiração é serem homens livres, embora lhes falte, para isso, o necessário carácter moral, especialmente àqueles que já nasceram escravos.

 

E àqueles que foram reduzidos à escravatura, por terem sido capturados na guerra ou se terem tornado indigentes? A pergunta proveio de Olímpias, que corou ao fazê-la.

 

Poderá um homem degradado até à escravatura voltar alguma vez a ser um verdadeiro homem, mesmo que o seu senhor ache adequado libertá-lo? Fábio ergueu a cabeça. Quando a Fortuna transformou um homem em propriedade, é-lhe impossível recuperar a sua dignidade. Poderá redimir o seu corpo, mas nunca o espírito.

 

E, no entanto, por lei... começou Olímpias.

 

As leis mudam. Fábio atirou um caroço de azeitona para a mesinha que tinha diante de si. Ele caiu fora do tabuleiro das azeitonas e foi parar ao chão, onde um escravo se apressou a ir buscá-lo. Sim, um escravo pode comprar a sua liberdade, mas só se o seu senhor lho permitir. O próprio acto de permitir a um escravo acumular o seu preço em prata é uma ficção legal, uma vez que verdadeiramente um escravo nada pode possuir tudo aquilo que ele possui pertence ao seu senhor. Mesmo depois da emancipação, um liberto pode ser novamente reduzido à escravatura se for impertinente com o seu antigo senhor. Está politicamente limitado, socialmente atrasado e impedido pelo bom gosto de entrar pelo casamento em qualquer família respeitável. Um liberto poderá ser um cidadão, mas nunca será um verdadeiro homem.

 

Gelina olhou por cima do ombro, para o escravo que apanhara o caroço de azeitona e que agora se retirava para as cozinhas com um tabuleiro.

 

Acham que é sensato manter estas discussões, tendo em conta... Crasso resfolegou e encostou-se no canapé.

 

Francamente, Gelina, se um romano não pode discutir a natureza da propriedade diante dessa propriedade, então chegámos a uma triste situação. Tudo aquilo que Fábio está a dizer é verdade. Quanto a Dionísio e à sua ideia de uma espécie de vaga continuidade entre as revoltas de escravos, isso é absurdo. Os escravos não têm qualquer ligação com o passado; como poderiam tê-la, se nem sequer sabem os nomes dos seus antepassados? Eles são como os cogumelos: nascem da terra em grande número por desejo dos deuses. Com que objectivo? Servir como instrumentos de homens maiores do que eles, para que esses homens possam realizar ambições superiores. Os escravos são as ferramentas humanas que nos foram dadas por essa vontade divina que inspira os grandes homens e enriquece uma grande república como a nossa. Não têm passado e o passado não lhes diz respeito. Nem têm qualquer sentido do futuro; de outra forma, Espártaco e os da sua laia saberiam que estão condenados a um destino muito pior do que aquele de que pensavam escapar quando se voltaram contra os seus senhores.

 

Oiçam, oiçam! disse Múmio alcoolicamente, batendo com o copo na mesa. Metróbio lançou-lhe um olhar de desprezo e fez menção de falar, depois achou melhor calar-se.

 

O escravo comum que trabalha nos campos vive o dia-a-dia prosseguiu Crasso consciente de muito pouco, para além das suas necessidades imediatas e da necessidade de satisfazer o seu senhor.

 

O consentimento, ou pelo menos a resignação, é a condição natural da escravatura; é de facto antinatural um homem desses erguer-se e matar o seu senhor, de outro modo estaria sempre a acontecer e a escravatura não poderia existir, que o mesmo é dizer que a civilização não poderia existir. A revolta de Espártaco, tal como a do feiticeiro Euno e a de alguns outros, é uma aberração, uma perversão, um rasgão no pano do cosmo tecido pelas Parcas.

 

Dionísio inclinou-se para diante, olhando para Crasso com uma admiração desagradável.

 

És verdadeiramente o homem do momento, Marco Crasso. Não és apenas um homem de Estado e um general, és também um filósofo. Poderá haver quem diga, ainda que perversamente, que Espártaco é o homem do momento, que ele dita os acontecimentos, que domina as nossas esperanças e os nossos medos, mas eu penso que Roma se esquecerá rapidamente dele, no esplendor da tua vitória. A lei e a ordem serão restabelecidas e tudo será como se Espártaco nunca tivesse existido.

 

Oiçam, oiçam! disse Múmio.

 

Dionísio reclinou-se para trás e sorriu modestamente.

 

Pergunto a mim próprio onde estará neste momento esse infeliz Espártaco.

 

Metido num buraco, perto de Túrio disse Múmio.

 

Sim, mas o que estará ele a fazer enquanto nós estamos aqui a conversar? Enfartar-se-á de vitualhas roubadas, regozijando-se com os seus homens pelas vitórias roubadas? Ou já se terá retirado para dormir afinal que tipo de conversa pode ter um bando de escravos incultos, que os mantenha acordados depois de escurecer? Imagino-o deitado na escuridão, inquieto e bem acordado, vagamente perturbado pela intuição daquilo que a Fortuna e Marco Crasso reservaram para si. Estará deitado dentro de uma tenda que exala o seu cheiro desagradável? Ou sobre pedras duras, por baixo de um céu estrelado não, certamente que não, porque nesse caso estaria despido aos olhos dos deuses, que o desprezam. Penso que um homem desses deve dormir numa gruta, escavada na terra fria, como a besta selvagem que é.

 

Múmio riu secamente.

 

Dormir numa gruta não é assim tão horrível. Pelo menos pelas histórias que tenho ouvido a um certo homem acerca da sua juventude. Lançou um olhar cúmplice a Crasso, que fez um sorriso forçado.

 

Dionísio apertou os lábios para reprimir o seu próprio sorriso de triunfo com esta viragem na conversa, que obviamente fora sua intenção e na qual Múmio fora seu cúmplice involuntário. Encostou-se para trás e acenou com a cabeça.

 

Ah, sim, como é possível que eu me tenha esquecido de uma história tão encantadora? Foi naquela época horrível, antes de Sula, quando os tiranos Cina e Mário, inimigos de todos os Licínios, espalharam o terror pela República. Eles levaram o pai de Crasso ao suicídio e mataram-lhe o irmão, e o jovem Marco não devias ter mais do que vinte e cinco anos foi obrigado a fugir para Espanha para salvar a vida.

 

Na verdade, Dionísio, creio que já todos os presentes ouviram essa história demasiadas vezes. Crasso tentou parecer aborrecido e mostrar desaprovação, mas o sorriso ao canto da boca atraiçoou-o. Pareceu-me que ele estava tão consciente como eu de que Dionísio maquinara para trazer o assunto à conversa a fim de defender um qualquer ponto a que ainda se não referira, mas era óbvio que a recordação da história agradava demasiadamente a Crasso para ele resistir a contá-la de novo.

 

Dionísio insistiu.

 

Certamente que nem todos ouviram a história Gordiano, por exemplo, e o seu filho Eco. É a história da gruta explicou ele, olhando para mim.

 

Parece-me vagamente familiar admiti eu. Talvez tenha sido alguma coscuvilhice que eu ouvi no Fórum.

 

E laia e a sua jovem protegida certamente que a história de Crasso na gruta do mar é nova para elas. Dionísio voltou-se para as mulheres com um olhar estranhamente mal-intencionado. A reacção de ambas foi igualmente estranha. Olímpias corou profundamente enquanto laia empalidecia e se endireitava rigidamente.

 

Eu conheço bastante bem a história protestou ela.

 

Pois muito bem, mas ela deve ser contada em honra de Gordiano. Quando o jovem Crasso chegou a Espanha, fugindo da devastação provocada por Mário e por Cina, talvez esperasse ser calorosamente recebido. A sua família tinha ligações antigas; o seu pai fora pretor em Espanha, e Marco passara algum tempo nessa região durante a sua infância. Mas o que encontrou foram os colonos romanos e os seus súbditos aterrados com o medo que Mário lhes inspirava; ninguém lhe falava, e ainda menos o ajudava, e havia até um perigo considerável de que alguém o atraiçoasse e entregasse a sua cabeça aos partidários de Mário. Por isso fugiu da cidade, mas não foi sozinho tinhas chegado com uns companheiros, não é verdade?

 

Três amigos e dez escravos disse Crasso.

 

Pois, portanto ele fugiu da cidade com os seus três amigos e os seus dez escravos e viajou até à costa, até à propriedade de um antigo conhecido do seu pai. Escapa-me o nome...

 

Víbio Pacíaco disse Crasso com um sorriso melancólico.

- Ah, sim, Víbio. Ora, acontece que havia na propriedade uma grande gruta, mesmo à beira-mar, de que Crasso se recordava da sua infância. Decidiu esconder-se aí com os seus acompanhantes durante algum tempo, sem contar a Víbio, não vendo razões para pôr em perigo o seu antigo amigo. Mas as provisões acabaram por se esgotar, pelo que Crasso enviou um escravo a Víbio para o sondar. O velhote ficou encantado por saber que Crasso escapara e estava vivo. Questionou o escravo sobre o tamanho da companhia e, embora não fosse lá pessoalmente, ordenou ao seu administrador que mandasse preparar comida diariamente e a colocasse num local escondido, na falésia. Víbio ameaçou o administrador de morte se ele investigasse o assunto mais profundamente ou começasse a espalhar rumores, e prometeu-lhe a liberdade se ele cumprisse as suas ordens fielmente. Com o tempo, o homem começou a levar também livros, bolas de pele para o trígono e outras diversões, nunca chegando a ver os fugitivos nem o local onde eles estavam escondidos. A própria gruta...

 

Oh, aquela gruta! interrompeu Crasso. Eu brincava lá dentro quando era pequeno, e nessa altura ela parecia-me tão misteriosa e assombrada como a gruta da Sibila. Fica muito perto do mar, mas a salvo, por cima da praia, rodeada por falésias escarpadas. O caminho que conduz à entrada é estreito e inclinado, difícil de encontrar; a gruta é espantosamente alta, com uma câmara de cada lado. Da base das falésias emerge uma corrente de águas claras, por isso há água em abundância. A rocha está cheia de fissuras, deixando entrar bastante luz, mas também está protegida da chuva e do vento. Não é um sítio escuro e húmido, graças à espessura das paredes de pedra; o ar era bastante seco e puro. Eu sentia-me regressado à infância, livre de todas as preocupações, excepto a de me esconder. Os meses anteriores tinham sido uma provação horrível, com a morte do meu pai e do meu irmão e o pânico que grassava em Roma. Houve dias de melancolia naquela gruta, mas também havia a sensação de que o tempo tinha parado, de que nada me era exigido, nem dor, nem vingança, nem a luta por um lugar no mundo. Penso que os meus amigos acabaram por se sentir aborrecidos e nervosos, e os escravos pouco tinham que fazer, mas para mim foi um período de repouso e de isolamento, intensamente desejados.

 

E, por fim, diz a lenda, todas as necessidades foram satisfeitas disse Dionísio.

 

Aleteia e Diona disse Crasso, sorrindo à recordação. Certa manhã, o escravo que tinha ido buscar as nossas provisões diárias regressou a correr, agitado e incapaz de falar, dizendo que duas deusas, uma loura e outra morena, tinham emergido do mar e se dirigiam a nós pela praia. Eu esgueirei-me para o caminho e olhei para elas por trás de umas rochas. Se tinham emergido do mar, estavam curiosamente secas, da cabeça aos pés, e se eram deusas, era estranho que tivessem vestidos fatos tão vulgares, muito menos belos do que elas.

 

”Coloquei-me à vista delas, que se aproximaram sem hesitações. A loura avançou e anunciou-me que era Aleteia, uma escrava, e perguntou-me se eu era o seu senhor. Percebi então que fora Víbio quem as enviara, pois sabia que eu não estava com uma mulher desde que saíra de Roma, e desejava ser o melhor anfitrião possível para um jovem de vinte e cinco anos. Aleteia e Diona tornaram o resto daqueles oito meses bem mais agradáveis.

 

Como terminou a vossa estada? perguntei eu.

 

Fomos informados de que Cina fora morto e de que Mário se encontrava finalmente vulnerável. Eu reuni todos os apoiantes que encontrei e fui juntar-me a Sula.

 

E as escravas? perguntou Fábio. Crasso sorriu.

 

Alguns anos mais tarde, comprei-as a Víbio. Nem a sua beleza nem a minha juventude tinham ainda desaparecido. Foi um reencontro muito agradável. Encontrei lugar para elas na minha casa de Roma, e desde essa altura que me servem. Fiz com que fossem sempre bem tratadas.

 

Um episódio encantador de uma vida turbulenta e fascinante! disse Dionísio, batendo as palmas. Essa história sempre me fascinou, e especialmente nos últimos dias. Há qualquer coisa de adorável e esquivo nos seus elementos incongruentes a ideia de uma gruta no mar, utilizada como esconderijo, a imagem de uma bela rapariga que traz meios de sustento ao fugitivo, a sedutora improbabilidade de tudo isto. E quase demasiadamente fantástico para ter realmente acontecido. Parece-vos que uma coisa dessas possa alguma vez voltar a acontecer? Que uma circunstância tão estranha como essa possa ser um pouco alterada e ocorrer noutro tempo e noutro lugar?

 

Dionísio estava cheio de si próprio, ronronando como um gato, deliciado com a sua própria retórica, mas eu dei por mim olhando para Olímpias, que tremia visivelmente, e para laia, que pegou na mão da sua protegida e a apertou, aparentemente com alguma força, a avaliar pelo modo como a carne da rapariga empalideceu.

 

Estás a apresentar alguma espécie de enigma? perguntou Crasso, começando novamente a entediar-se.

 

Talvez disse Dionísio. Ou talvez não. Acontecem muitas coisas peculiares no mundo de hoje, do tipo de coisas alarmantes que acontecem quando a vontade dos deuses é distorcida e a diferença entre escravos e homens livres se esbate. No meio deste caos, forjam-se alianças antinaturais e florescem traições perversas. É assim que chegamos a ter um homem como Gordiano entre nós. Não é verdade que ele está aqui para descobrir a verdade e dissolver a nossa desconfiança? Diz-me, Gordiano, objectarias se eu decidisse constituir-me como teu rival nesta procura do conhecimento? O filósofo contra o Descobridor. O que dirias tu a isso, Crasso?

 

Crasso olhou para ele sombriamente, tentando, tal como eu, sondar o seu objectivo.

 

Se pretendes dizer que és capaz de resolver o mistério do assassínio do meu primo Lúcio...

 

É exactamente isso que eu pretendo dizer. Juntamente com Gordiano, em paralelo, digamos assim, tenho feito as minhas próprias investigações, embora numa linha um pouco diferente. Nada tenho a revelar de momento, mas penso que, dentro em breve, poderei responder a todas as perguntas suscitadas por este acontecimento trágico. Considero ser meu dever fazê-lo, como filósofo, e como teu amigo, Marco Crasso. Formou um sorriso rígido e sem alegria e olhou à volta da sala, passando de rosto em rosto. Ah, mas a refeição deve ter acabado, porque aí vem o meu preparado.

 

Dionísio pegou no copo que lhe entregou o escravo, que se manteve de pé, silenciosamente, ao lado do seu canapé. Bebeu um golo da espuma verde. Ao seu lado, Olímpias e laia contorciam-se como se os seus canapés estivessem cheios de minúsculas urtigas. Faziam um enorme esforço, pensei eu, para esconder o pânico silencioso que tomara lentamente conta delas, e estavam a fracassar miseravelmente.

 

Nem mais uma dentada até amanhã à tarde. Já viste bem? Sérgio Orata estava sozinho na varanda, no exterior da sala de jantar. Olhou por cima do ombro ao sentir-me chegar, depois contemplou melancolicamente as luzes de Putéolos, como se pudesse cheirar o aroma de um jantar tardio que estivesse a ser servido do outro lado da baía. Jejuar já é suficientemente mau, mas fazê-lo depois de uma refeição tão desoladora. O meu estômago vai roncar durante toda a oração fúnebre. Lúcio Licínio não quereria que fosse assim. Quando Lúcio era vivo, todas as noites eram de festa.

 

À nossa volta, os topos das árvores sussurravam, movidos pela brisa. Dentro de casa, os escravos juntavam silenciosamente os restos do repasto da tarde, com um ruído abafado de facas e de colheres. Tendo em conta a solenidade da ocasião, não houvera entretenimentos a seguir à refeição. Logo que Marco Crasso pedira licença para se levantar e se retirara, os outros convidados tinham dispersado, como crianças ansiosas dispensadas pelo seu tutor. Eco, quase incapaz de manter os olhos abertos, fora-se deitar imediatamente. Só restávamos Orata e eu. Imaginei que ele se mantinha junto do fantasma do jantar como um amante frustrado se arrasta junto da cama vazia do seu amado, alimentando-se do odor e da memória daquilo por que ansiava, mas que não podia ter.

 

Lúcio Licínio era assim tão extravagante? perguntei eu.

 

Extravagante? Lúcio? Orata encolheu os seus ombros redondos. De acordo com os padrões de Baias, não. Pelos padrões de Roma, julgo que seria do tipo a quem o Senado está sempre a ameaçar fazer aprovar uma lei punitiva da sumptuosidade. Digamos que gastava o seu dinheiro com deleite.

 

O seu ou o de Crasso? Orata franziu o sobrolho.

 

Estritamente falando, o de Crasso. No entanto...

 

Eu estava de pé ao seu lado, e apoiei-me no corrimão de pedra. Depois do primeiro frio da noite, o ar parecia ter-se acalmado e ter aquecido ligeiramente, como por vezes acontece na Taça. Estudei a linha de luzes, minúsculas como estrelas, que rodeavam a costa. Áreas de escuridão alternavam com feixes de fogos mudos, nos sítios onde as aldeias brilhavam como jóias no ar cristalino.

 

Estavas cá em casa na noite em que Lúcio foi assassinado, não estavas? disse eu suavemente. Deve ter sido um choque considerável, acordar na manhã seguinte e descobrir...

 

Foi realmente um choque. E, quando ouvi falar do nome que tinha sido rabiscado aos seus pés, e do facto de os responsáveis serem os seus escravos imagina, podiam ter-nos assassinado a todos, enquanto dormíamos! Aconteceu uma coisa assim há algumas semanas, em Lucânia, onde Espártaco lutava por abrir caminho até Túrio. Uma família abastada foi massacrada durante a noite, juntamente com todos os convidados. As mulheres foram violadas; as crianças foram obrigadas a ver os seus pais serem decapitados. De fazer gelar o sangue.

 

Eu acenei com a cabeça.

 

A tua visita foi estritamente social? Orata fez um sorriso desmaiado.

 

Eu raramente faço visitas estritamente sociais. Até comer serve um desígnio vital, não é verdade? Faço muitas visitas em toda a Taça, em todas as estações do ano; divirto-me imensamente. Mas há sempre ocasião para os negócios. Ser totalmente ocioso e perseguir o prazer como um fim em si mesmo é ser decadente. Eu estou sempre a lutar por conseguir um objectivo; nasci em Putéolos, mas julgo que sou um seguidor das virtudes romanas.

 

Então tinhas negócios a tratar com Lúcio Licínio?

 

Tínhamos uns planos a discutir.

 

Já lhe tinhas reconstruído os banhos foi um trabalho formidável. Ele sorriu ao ouvir o elogio. Que outras coisas havia a fazer? Construir um tanque de peixes?

 

Para começar.

 

Era uma piada.

 

Não digas piadas sobre tanques de peixes aqui em Baias. Aqui, há grandes homens que choram lágrimas de desgosto quando lhes morrem os salmonetes, e lágrimas de alegria quando eles desovam.

 

Em Roma, diz-se que os habitantes de Baias desenvolveram uma verdadeira mania da piscicultura.

 

Transformaram-na num vício confidenciou-me Orata com uma gargalhada, tal como se diz que os Partos transformaram num vício as corridas de cavalos. Mas isso proporciona um lucro simpático ao homem que conhece os segredos da arte.

 

É um passatempo dispendioso?

 

Pode ser.

 

E Lúcio estava disposto a dedicar-se a ele? Não compreendo. Ele era rico ou não? Se era assim tão abastado, por que não tinha uma casa sua?

 

Na verdade... Orata fez uma pausa e o seu rosto alongou-se. Tens de compreender, Gordiano, que, depois dos meus antepassados e dos deuses, não há nada que eu respeite tanto como a confidencialidade das finanças privadas de outro homem. Não sou do género de coscuvilhar acerca das fontes ou da dimensão dos rendimentos de outra pessoa. Mas, dado que Lúcio morreu...

 

Sim?

 

Que a sua sombra me perdoe se te disser que as finanças de Lúcio não eram uma questão tão simples como parece à primeira vista.

 

Não estou a compreender.

 

Lúcio tinha em mente uma série de melhoramentos para a sua villa. Renovações e acrescentos dispendiosos. Foi por isso que me pediu que me instalasse cá em casa durante uns dias, para discutir a possibilidade e os gastos envolvidos em alguns projectos que ele tinha em mente.

 

Mas por que havia ele de gastar tanto dinheiro a melhorar uma casa em que era apenas um inquilino?

 

Porque tinha planos para comprá-la a Crasso, dentro em breve.

 

E Crasso sabia disso?

 

Julgo que não. Lúcio disse-me que tencionava fazer uma oferta a Crasso dentro de aproximadamente um mês, e parecia estar confiante de que Crasso a aceitaria. Tens alguma ideia de quanto custa uma villa como esta, especialmente considerando as despesas de manutenção? Orata baixou a voz. Ele disse-me, muito confidencialmente, que a sua oportunidade de se afastar de Crasso se tinha finalmente apresentado. Sugeriu-me que fizéssemos uma parceria: a minha experiência nos negócios, juntamente com o seu capital. E tenho de admitir que apresentou algumas boas ideias.

 

Mas tu estavas desconfiado.

 

A palavra ”parceria” faz-me sempre desconfiar. Aprendi muito cedo a manter-me independente.

 

Mas se Lúcio oferecia o dinheiro...

 

A questão era justamente essa: onde ia ele buscá-lo? Quando eu reconstruí os banhos nesta casa, foi Crasso quem assinou o contrato final, e Crasso sempre vigiou para que eu recebesse os meus honorários a tempo. Mas, ocasionalmente, havia uma ou outra despesa, pequenas coisas com as quais Lúcio não queria incomodar Crasso, por isso era Lúcio quem as pagava. Fazia-o sempre como se fosse um grande sacrifício entregar-me alguns sestércios para pagar um carregamento de cal. Orata franziu a sua testa roliça. Disse-te há bocado que Lúcio costumava dar jantares sumptuosos, mas isso só começou a acontecer no último ano ou nos últimos dois anos. Antes disso, ele fingia sempre viver melhor do que vivia. Via-se o metal por baixo do ouro, por assim dizer as ostras podiam ser frescas, mas percebia-se que os escravos estavam sempre a lavar as mesmas colheres para servir os novos pratos, porque as colheres de prata não eram suficientes para durarem toda a refeição.

 

Esse é um elemento subtil, sem dúvida.

 

Na minha actividade, aprende-se a observar as finas distinções entre a verdadeira riqueza e a riqueza fingida. Odeio ficar com contas por pagar.

 

E no último ano Lúcio conseguiu comprar todas as colheres de prata de que precisava.

 

Exactamente. E parecia estar interessado em comprar mais coisas.

 

Suponho que terá poupado durante muito tempo o estipêndio que recebia de Crasso.

 

Orata abanou a cabeça sombriamente.

 

Então o que foi? Ele tinha mais alguma fonte de rendimentos?

 

Que eu saiba, não. E são muito poucas as coisas que transpiram na Taça e que eu não sei isto é, muito poucas coisas de natureza legítima e legal.

 

Queres dizer...

 

Quero apenas dizer que a súbita riqueza de Lúcio foi um mistério para mim.

 

E para Crasso?

 

Não creio que Crasso estivesse informado.

 

Mas o que poderá Lúcio ter feito, sem que Crasso soubesse? Estás a sugerir algum negócio clandestino...

 

Não estou a sugerir coisa alguma insistiu Orata suavemente. Afastou os olhos da baía e olhou para dentro de casa. Os últimos vestígios do jantar tinham desaparecido, e até as mesas tinham sido tiradas. Suspirou e, subitamente, pareceu perder por completo o interesse na nossa conversa. Acho que vou para o meu quarto.

 

Mas, Sérgio Orata, certamente que tens algumas ideias, algumas suspeitas...

 

Ele encolheu os ombros de uma forma extravagante, num gesto praticado, bom para evitar investidores indesejados e clientes demasiadamente pequenos para com eles se incomodar.

 

Sei apenas que uma das razões por que Marco Crasso cá veio era verificar cuidadosamente os registos financeiros de Lúcio, para poder avaliar os seus próprios recursos na Taça. Suspeito de que, se os investigar o suficiente, Crasso terá algumas surpresas desagradáveis.

 

Quando me dirigia à biblioteca, evitei passar pelo átrio onde estavam expostos os restos de Lúcio Licínio; se uma parte da minha missão incluía neste momento descobrir transacções embaraçosas ou mesmo actividades criminosas por ele levadas a cabo, eu não estava interessado em encontrar-me com a sua sombra a meio da noite. Peguei numa lamparina para descobrir o caminho no meio dos corredores desconhecidos, mas quase não precisei dela; o luar entrava pelas janelas e pelas clarabóias como prata líquida, invadindo os corredores e os espaços abertos com uma luminescência fria.

 

Esperava encontrar a biblioteca vazia mas, quando virei a esquina, vi o mesmo guarda-costas que guardava a porta na noite anterior. Ao ver-me aproximar, ele voltou a cabeça com precisão militar e fixou-me com um olhar penetrante, que se suavizou quando me reconheceu. A frígida máscara do seu rosto abrandou; de facto, quanto mais eu me aproximava, mais mortificado ele me parecia. Quando me aproximei o suficiente para ouvir as vozes que vinham do interior, compreendi o seu embaraço.

 

Deviam estar a falar muito alto, para o som atravessar a pesada porta de carvalho. A voz de Crasso, com o seu treino de oratória, era mais clara; a outra voz tinha um timbre mais baixo e surdo, menos fácil de distinguir mas, pelo tom bombástico, pertencia sem sombra de dúvida a Marco Múmio.

 

Pela última vez, não haverá excepções! Era a voz de Crasso. Seguiu-se uma resposta surda de Múmio, demasiadamente abafada para eu perceber mais do que algumas palavras ”quantas vezes... sempre leal, mesmo quando... deves-me esse favor...”

 

Não, Marco, nem sequer como um favor! gritou Crasso. Pára de desenterrar o passado. Trata-se de uma questão política não há nela nada de pessoal. Se eu consentir uma única excepção, elas nunca mais acabarão Gelina há-de querer que eu os salve a todos! Que aspecto achas que isso terá em Roma? Não, não me levarás a fazer figura de parvo só porque a tua falta de bom senso te impediu de evitar este género de ligação ridícula...

 

Isto provocou uma gritaria irritada por parte de Múmio; eu não conseguia perceber as palavras, mas não havia engano possível quanto à nota de angústia que se detectava por entre a fúria. Instantes depois, a porta abriu-se bruscamente, com tanta violência que o guarda-costas recuou e empunhou a espada.

 

Múmio emergiu, corado, com os olhos salientes e uma expressão de quem estava disposto a comer pedras. Voltou-se para o interior do compartimento e cerrou os punhos ao longo do corpo, fazendo com que as veias dos seus espessos antebraços inchassem como aquela que lhe pulsava na testa.

 

Se tu e Lúcio me tivessem permitido comprá-lo, nada disto estaria a acontecer! Não poderias tocar no rapaz! Se o próprio Júpiter tentasse atingi-lo num só cabelo, eu...

 

Fez um ruído abafado e começou a tremer, incapaz de prosseguir. Pela primeira vez, pareceu aperceber-se de que havia mais alguém no corredor. Voltou-se e olhou sem nos ver, primeiro para o guarda, depois para mim. A sua expressão furiosa não se alterou, mas os seus olhos começaram a cintilar, ao encherem-se de lágrimas.

 

Ao fundo do corredor, na direcção do átrio, abriu-se uma porta. Gelina, com o cabelo em desalinho e a maquilhagem esborratada, espreitou em direcção a nós com um olhar confuso.

 

Lúcio? murmurou ela em voz rouca. Apesar da distância, chegou até mim o odor a vinho que lhe saía dos poros.

 

Crasso emergiu da biblioteca. Houve um momento de silêncio tenso.

 

Gelina, volta para a cama disse Crasso severamente. Ela juntou as sobrancelhas e obedeceu mansamente. Crasso dilatou as narinas inspirando profundamente, e ergueu o queixo. Por longos momentos, Múmio devolveu-lhe o olhar, depois voltou-se e desceu rapidamente o corredor. O jovem guarda guardou silenciosamente a sua espada, cerrou os dentes e olhou directamente em frente. Eu abri a boca, procurando alguma maneira de explicar a minha presença, mas Crasso libertou-me dessa obrigação.

 

Não fiques aí de boca aberta no corredor. Entra!

 

Com a delicadeza típica da nobreza, Crasso não disse absolutamente nada acerca da discussão que eu acabara de presenciar. À excepção de um ligeiro rubor na sua testa e de um suspiro que lhe escapou dos lábios quando fechou a porta atrás de nós, era como se nada tivesse acontecido. Tal como na noite anterior, ele vestia um clâmide grego, em vez de uma capa, para se resguardar do frio; aparentemente, a altercação aquecera-o bastante, porque despiu a veste e lançou-a para cima da estátua do centauro.

 

Vinho? ofereceu ele, tirando um copo da prateleira. Eu reparei que já havia dois copos na mesa, um para si próprio e outro para Múmio; ambos estavam vazios.

 

Não estamos a jejuar? Crasso ergueu uma sobrancelha.

 

De acordo com uma alta autoridade, não temos de nos abster de vinho enquanto jejuamos pelos mortos. O costume pode ser adaptado para qualquer dos lados, segundo me disseram, e, de acordo com a minha experiência, é sempre melhor adaptar os costumes às necessidades do momento.

 

Dizes que foi uma alta autoridade? Eu aceitei a cadeira que Crasso me ofereceu, enquanto ele próprio virava a sua e se inclinava em direcção à mesa, que estava a abarrotar de documentos.

 

Crasso sorriu e bebeu um golo de vinho. Fechou os olhos e passou os dedos pelo cabelo ralo. Subitamente, pareceu muito cansado.

 

Foi uma alta autoridade. Dionísio disse-me que o vinho é o equivalente metafísico do sangue, por isso não deve ser negado a um homem em jejum, tal como não deve ser-lhe negado o ar que respira.

 

Suspeito de que Dionísio está disposto a dizer-te o que quer que lhe pareça que tu queres ouvir.

 

Crasso acenou com a cabeça.

 

Exactamente. É um sicofanta inveterado e não é de sicofantas que eu preciso neste momento. Que tolice foi aquela esta noite, sobre ele ser o teu rival? Ofendeste-o?

 

Mal falei com ele.

 

Ah, então ele inventou um esquema qualquer para resolver o assassínio de Lúcio sozinho, pensando que consegue impressionar-me com isso. Estás a perceber o que se passa, não estás? Com Lúcio desaparecido e a família a dissolver-se... de uma maneira ou de outra... ele vai precisar de um novo patrono e de uma nova residência.

 

E gostaria de se ligar a ti?

 

Crasso riu-se sem alegria e bebeu mais vinho.

 

Suponho que devia sentir-me lisonjeado. É óbvio que ele pensa que a minha importância está a aumentar. Espártaco só humilhou dois cônsules romanos e derrotou todos os exércitos enviados para o destruir; não tenho grande coisa com que me preocupar.

 

Esta nota de autodúvida era de tal maneira inesperada que, por um momento, me passou completamente ao lado.

 

Então é certo que te entregarão o comando das operações contra Espártaco?

 

A quem mais poderiam entregá-lo? Todos os políticos de Roma com alguma experiência militar tremem de medo. Todos eles querem que Espártaco seja um problema de outro.

 

E...

 

Não pronuncies sequer o seu nome! Se não voltar a ouvi-lo, poderei morrer feliz. Crasso deu um murro na mesa. A sua expressão suavizou-se. Na verdade, não odeio Pompeu. Éramos bons camaradas, quando estávamos sob o comando de Sula. Ninguém pode dizer que a sua glória não é merecida. O homem é brilhante é um excelente estratega, um esplêndido chefe, um soberbo político. Além disso, é belo como um semideus. Parece-se mesmo com o busto de Alexandre, ou pelo menos parecia. E é rico! As pessoas dizem que eu sou rico, mas esquecem-se de que Pompeu é tão abastado como eu, se não mais. Pompeu é brilhante, dizem, Pompeu é belo, mas ser rico é algo que apenas dizem acerca de mim ”Crasso, Crasso, rico como Creso”. Estendeu a mão para o vinho e encheu novamente o copo. Ofereceu-me mais, mas eu mostrei-lhe o meu copo ainda meio cheio. Além de que Pompeu está ocupadíssimo em Espanha, onde anda a varrer aquele rebelde, Sertório. Não pode de maneira nenhuma regressar a tempo de acabar com Espártaco. Na realidade, podia, mas não o fará, porque eu já terei realizado essa tarefa. Mas afinal o que sabes tu acerca de Espártaco?

 

Não mais do que aquilo que sabem os comerciantes da Subura, quando me dizem que os preços triplicaram por causa de uma pessoa chamada Espártaco.

 

Resume-se tudo a isso, não é? Eles podem queimar uma cidade inteira no campo e pendurar os pais da cidade pelos tornozelos, mas o verdadeiro problema surge quando Espártaco e a sua revoltazinha começam a tornar a vida difícil à ralé de Roma. A situação é tão absurda que ninguém poderia tê-la inventado; é como um pesadelo que nunca mais acaba. Sabes onde tudo começou?

 

Em Cápua, não foi? Crasso acenou com a cabeça.

 

Foi perto daqui, subindo a Via Consulária, à saída de Putéolos. Um louco chamado Batíato tinha uma quinta de gladiadores na extremidade da cidade; comprava os escravos por junto, eliminava os fracos, treinava os fortes e vendia-os aos seus clientes, espalhados por toda a Itália. Adquiriu uma série de trácios bons lutadores, mas notoriamente temperamentais. Batíato decidiu pô-los no seu lugar logo de início, mantendo-os para isso dentro de gaiolas como se fossem animais selvagens, alimentando-os apenas com farinha diluída e água e só os deixando sair para os exercícios e os treinos. O idiota! Por que razão homens que nunca se lembrariam de espancar um cavalo ou de salgar uma leira de boa terra são tão cruéis com a sua propriedade humana? Especialmente o tipo de propriedade que sabe manejar uma arma e matar. Um escravo é um instrumento se o utilizarmos sabiamente, poderá ser proveitoso, mas se o utilizarmos de forma absurda, todos os nossos esforços serão em vão.

 

”Mas eu estava a falar acerca de Espártaco. No curso normal dos acontecimentos, aqueles trácios ter-se-iam submetido à vontade de Batíato, de uma maneira ou de outra, ou poderiam ter-se revoltado contra ele e seriam imediatamente mortos, pondo um lamentável fim a um lamentável episódio. Porém, havia entre eles um homem chamado Espártaco. Acontece por vezes que, mesmo entre os escravos, se encontra um homem de carácter determinado, um bruto capaz de levar os brutos que o rodeiam a fazer o que ele quer. Não há nisso nada de místico suponho que Dionísio palrou contigo acerca dessa história do suposto mágico Euno e da revolta de escravos na Sicília, há sessenta anos, um episódio absolutamente desagradável; pelo menos ficou-se por uma ilha. Já andam a dizer o mesmo tipo de tolices acerca de Espártaco, que antes de ter sido vendido como escravo foi visto a dormir com cobras enroladas à volta da sua cabeça, e que a escrava a quem ele chama sua mulher é uma espécie de profetisa que entra em convulsões e fala pelo deus Baco.

 

É o que se diz nos mercados da Subura admiti eu. Crasso enrugou o nariz.

 

Como é que alguém pode viver na Subura quando há tantos bairros agradáveis em Roma...

 

O meu pai deixou-me uma casa no alto do Esquilino expliquei eu.

 

Segue o meu conselho, vende essa casa que tens no Esquilino e compra uma habitação mais recente fora dos muros da cidade; no Campo de Marte, a seguir ao Fórum Holitório, está a ser construída uma série de novos edifícios, junto dos antigos estaleiros navais. Perto do rio, ar limpo, bons valores. Mais vinho?

 

Aceitei. Crasso esfregou os olhos mas, pelo modo como rangeu os dentes, percebi que não tinha sono.

 

Mas estávamos a falar de Espártaco disse ele. No princípio, eram apenas setenta consegues imaginar, apenas setenta miseráveis gladiadores trácios, que decidiram fugir ao seu senhor. Nem sequer tinham um plano; iam esperar para ver, e espreitar uma oportunidade mas, quando um deles os atraiçoou os escravos atraiçoam-se constantemente uns aos outros, agiram por impulso, utilizando como armas machados e espetos roubados da cozinha. A deusa Fortuna deve ter olhado para baixo e ter-se sentido divertida porque, ao saírem da cidade, depararam com um condutor com uma carroça cheia de armas verdadeiras, que se dirigia à quinta de gladiadores de Batíato. A partir daí, parecia que nada poderia detê-los. Certamente que, a princípio, a ameaça foi mal-avaliada; ninguém em Roma poderia levar a sério uma revolta de escravos, por isso mandaram Clódio com meia legião de irregulares, pensando que isso resolveria o problema. Ah! Foi o fim da carreira política de Clódio. A vitória alimenta-se de vitória; cada vez que triunfava das armas romanas, mais fácil era para Espártaco incitar novos escravos a juntarem-se a ele. Dizem que ele comanda actualmente uma nação móvel de mais de cem mil homens, mulheres e crianças. E não são apenas escravos; há boieiros e pastores nascidos livres que tomaram o seu partido. Dizem que ele distribui o saque sem ter em consideração lugar ou posição; os seus soldados rasos recebem uma parte igual à dos generais.

 

Crasso enrolou o lábio, como se o vinho tivesse azedado.

 

Tudo aquilo é perverso! Ao que as coisas chegaram, eu andar à procura de glória enfrentando um escravo, um gladiador. O Senado nem sequer me permitirá um triunfo em Roma se eu vencer, ainda que a ameaça que Espártaco constitui para a República seja muito maior do que foram Mitrídates ou Jugurta. Terei muita sorte se me atribuírem uma coroa. E, se eu perder... Uma sombra atravessou-lhe o rosto. Murmurou uma oração de súplica, mergulhou os dedos no copo de vinho e lançou as gotas por cima do ombro.

 

Pareceu-me uma boa altura para mudar de assunto.

 

A história que Dionísio contou esta noite acerca da gruta no mar era verdadeira?

 

Crasso sorriu, como sorrira ao jantar.

 

Absolutamente. Oh, suponho que será um pouco adornada, à medida que vai sendo contada, ao longo dos anos, recebendo um verniz nostálgico. Foram tempos terríveis para mim, por muitas razões, meses miseráveis de espera ansiosa. E de dor. Ele fez girar o copo e estudou as suas profundezas. É muito difícil para um jovem perder o pai, especialmente se ele se suicida. Foram os seus inimigos que o levaram a isso. E ver um irmão mais velho assassinado, só porque Cina e Mário estavam decididos a destruir as melhores famílias de Roma. Teriam varrido por completo toda a nobreza se tivesse tido oportunidade. Graças aos deuses, e especialmente à Fortuna, que Sula se ergueu para nos salvar.

 

Suspirou.

 

Sabes que, fechado naquela caverna miserável dia após dia, mês após mês, eu todas as manhãs fazia um voto: eles não hão-de apanhar-me, dizia eu. Destruíram o meu pai, destruíram o meu irmão, mas eu não serei destruído! E até agora não fui.

 

Fez girar o copo e pestanejou, fechando os olhos com força e depois abrindo-os muito, parecendo cansado, mas de modo nenhum sonolento.

 

Fiz o que devia fazer, sabes, cumpri os meus deveres de piedade. Honrei os deuses e as sombras dos mortos. Paguei as dívidas do meu pai, embora tenha ficado sem nada por causa disso, e abracei a sua causa. E, quando as coisas acalmaram, casei-me com a viúva do meu irmão. Não me casei com Tertula por amor, mas por piedade; apesar disso, nunca lamentei tê-lo feito. Nem todos podemos permitir-nos um sentimentalismo barato, como Lúcio Licínio. Ou Múmio! bufou ele. Agora, Lúcio morreu e eu eu sou o homem do momento, como Dionísio te dirá alegremente, ou então sou aquele homem que marcha decididamente e sem a menor hesitação para a sua ruína total às mãos de um escravo. Preferia ver a minha fortuna destruída, do que ouvi-los dizer nas minhas costas, no Fórum: ”Foi humilhado por um mero gladiador...”

 

Enquanto eu me mexia na minha cadeira, pouco à vontade, ele fez uma pausa para beberricar o seu vinho.

 

Achas que eu devia poupar os escravos, não achas, Gordiano?

 

Posso provar-te que eles não deviam morrer. Ele abanou tristemente a cabeça.

 

Todos os homens estão destinados a morrer, Gordiano. Por que razão isso lhes desagrada tanto? A riqueza e as posses, a alegria e a dor, até o corpo especialmente o corpo, tudo isso se desvanece na roda do tempo. No fim, só a honra importa. A honra é aquilo de que os homens se recordam. Ou a desonra.

 

Esta maneira de pensar resume bem a diferença entre os nobres e os homens vulgares, pensei eu; desculpa as maiores atrocidades e deixa escapar as oportunidades mais simples para a caridade e a misericórdia.

 

Mas deves ter vindo aqui por alguma razão disse Crasso, a não ser que estivesses apenas a escutar à porta. Tens alguma coisa a relatar-me, Gordiano?

 

Só que encontrámos o corpo de um dos escravos desaparecidos.

 

Sim? Ele ergueu uma sobrancelha. De qual?

 

Do velho secretário, Zenão.

 

Onde estava ele? Supostamente, os meus homens procuraram em todos os locais onde alguém poderia ter-se escondido num raio de um dia de viagem.

 

Estava bem visível. Pelo menos aquilo que restava dele. Não sei como, acabou no lago Averno. Encontrámos o que restava dele na margem; a maior parte do seu corpo já fora comida. Felizmente, restava ainda o suficiente do seu rosto para Olímpias o reconhecer.

 

Averno! Eu sei que, antes de partir para Roma, Múmio atribuiu a um grupo de homens a tarefa de procurarem a toda a volta do lago, incluindo a margem. Há quanto tempo lá estava Zenão?

 

Pelo menos há uns dias.

 

Então, fosse por que razão fosse, eles não o encontraram. Provavelmente, um deles terá visto um pedaço de nevoeiro que tinha a forma da sua mulher, já morta, ou então o lago cuspiu como um bebé com cólicas, e eles voltaram-se todos e fugiram, e depois disseram que não tinham encontrado nada. Terão de ser disciplinados; o tempo de estabelecer a autoridade é muito antes de o combate começar. Mais um dos intermináveis pormenores com que terei de preocupar-me amanhã! Voltou-se fatigadamente para a mesa e procurou por entre os documentos até encontrar uma tabuinha de cera e um estilete. Rabiscou uma nota e atirou a tabuinha para cima da mesa. Onde está neste momento o corpo de Zenão, ou o que resta dele?

 

Pouco restava dele, como te disse. Infelizmente, o meu filho Eco escorregou na lama enquanto transportava a cabeça ao longo da margem; ela caiu numa piscina de água a ferver... Encolhi os ombros. Não sabia bem por que tinha mentido, mas a verdade é que queria evitar chamar a atenção para Olímpias.

 

Queres dizer que não tens nada para me mostrar? Crasso pareceu subitamente atingir os limites da sua paciência. Tudo isto é absurdo. Tu, Gelina, Múmio, o dia foi realmente muito longo, Gordiano, e o de amanhã será ainda mais longo. Penso que podes ir-te embora.

 

Claro. Eu levantei-me e comecei a voltar-me, mas depois parei. Só uma coisa, se me permites que abuse da tua paciência por mais uns momentos, Marco Crasso. Vejo que tens estado a analisar os documentos de Lúcio Licínio.

 

Sim?

 

Gostaria de saber se deparaste com alguma coisa... incorrecta.

 

O que queres dizer?

 

Não sei bem. Por vezes, os registos de um homem revelam coisas inesperadas. Poderá haver no meio de todos esses documentos alguma coisa relacionada com o meu trabalho.

 

Não consigo ver como. A verdade é que, normalmente, Lúcio mantinha uns registos impecáveis; eu assim lho exigia. Quando aqui estive na Primavera, dei uma vista de olhos aos livros e encontrei tudo contabilizado, através dos métodos por mim prescritos. Agora está tudo uma confusão.

 

Como assim?

 

Entraram despesas sem qualquer explicação. Há indicações contraditórias acerca do número de utilizações do Fúria, e dos seus destinos. O que é ainda mais estranho é que me parece que faltam alguns documentos. A princípio, pensei que seria capaz de os reconstruir e de perceber, mas agora acho que não. Se soubesse em que estado as coisas se encontravam, teria trazido comigo o meu contabilista chefe de Roma, mas não fazia ideia de que os negócios de Lúcio estivessem neste caos.

 

E encontras nisso algo de sugestivo?

 

Sugestivo de quê? Ele olhou para mim com uma expressão trocista, depois resfolegou. Contigo, tudo se reduz ao assassínio. Sim, isto sugere-me qualquer coisa nomeadamente que o velho secretário, Zenão, fez uma tal confusão com as contas, que Lúcio decidiu aplicar-lhe uma boa tareia, em consequência da qual o temperamental Alexandre, o jovem dos estábulos, explodiu numa raiva trácia e matou o seu senhor, em consequência do que os dois escravos fugiram durante a noite, acabando por ser engolidos pelas Goelas do Hades. Pronto, já fiz o teu trabalho por ti, Gordiano. Já podes ir para a cama satisfeito.

 

Pelo tom da sua voz, percebi que Crasso insistia em dizer a última palavra. Já me encontrava perto da porta, e estendia a mão para abri-la, quando ela se imobilizou. Havia qualquer coisa que não era inteiramente adequada desde o momento em que eu entrara na sala; eu sentira uma apreensão tão vaga, que a afastara como se pestaneja para afastar um grão de poeira. Nesse instante, percebi o que era, o que tinha visto, não uma vez, mas vezes sem conta, enquanto permanecia sentado a ouvir Crasso, deixando os meus olhos vaguear pela sala.

 

Voltei-me e caminhei em direcção à pequena estátua de Hércules com o seu capuz de leão.

 

Marco Crasso, alguém esteve de guarda a este compartimento durante o dia?

 

Claro que não. Os meus guarda-costas vão para onde eu vou. O compartimento esteve vazio, tanto quanto eu sei. Para além de mim, não há ninguém que tenha o que quer que seja a fazer aqui.

 

Mas alguém pode ter entrado?

 

Suponho que sim. Por que perguntas?

 

Marco Crasso, mencionaste a alguém o sangue da estátua?

 

Nem sequer a Morfeu disse ele com enfado, com quem tenho um encontro há muito adiado.

 

E, no entanto, alguém nesta casa estava a par do assunto. Porque, desde a última vez que falámos, alguém removeu o sangue seco da juba do leão.

 

O quê?

 

Estás a ver aqui, onde na noite passada se via perfeitamente o sangue por entre os pêlos esculpidos? Alguém os escovou, deliberada e cuidadosamente. Até se conseguem ver os sítios onde o metal foi arranhado.

 

Ele apertou os lábios.

 

E então?

 

O resto do compartimento não foi recentemente limpo; vejo pó nas prateleiras, e um círculo em cima da mesa, onde esteve poisado um copo de vinho. Parece-me improvável que um escravo se entregasse a uma limpeza tão completa deste objecto em particular neste compartimento, havendo tanto que fazer, com os preparativos para o funeral. Além disso, qualquer escravo doméstico com qualidade para servir nesta casa saberia limpar uma estátua sem riscar o metal. Não, penso que isto foi feito apressadamente por uma pessoa que não sabia que o sangue já fora detectado, e que esperava evitar que nós o víssemos. Essa pessoa não foi Alexandre, e certamente que não foi Zenão. Donde se segue que o assassino de Lúcio Licínio, ou alguém que sabe alguma coisa acerca do assassínio, está entre nós, activamente ocupado a esconder provas.

 

Possivelmente admitiu Crasso, parecendo cansado e contrariado. Está a ficar frio queixou-se ele, puxando a clâmide de cima da estátua do centauro e enrolando-a à volta dos ombros.

 

Marco Crasso, penso que seria uma boa ideia colocar um guarda à porta deste compartimento a todas as horas, para termos a certeza de que mais nada é tirado ou alterado sem o nosso conhecimento.

 

Se assim desejas. Muito bem, mais alguma coisa?

 

Mais nada, Marco Crasso disse eu suavemente, enquanto saía da biblioteca às arrecuas e inclinando a cabeça em sinal de deferência.

 

Porquê tu? perguntou-me Eco cepticamente, através de sinais, na manhã seguinte, quando lhe contei a minha conversa nocturna com Crasso. Presumi que ele quisesse dizer: Por que haveria um homem tão importante como Crasso de confidenciar tantas coisas a um homem como tu?

 

Porque não? disse eu, borrifando a cara com água fria. Há mais alguém com quem ele possa falar nesta casa?

 

Eco endireitou os ombros e imitou uma barba.

 

Sim, Marco Múmio é o seu velho amigo e confidente mas, neste momento, estão em conflito por causa do destino do escravo, Apolónio.

 

Eco ergueu o nariz e indicou madeixas de cabelo atiradas para trás.

 

Sim, também há Fausto Fábio, mas não consigo imaginar Crasso a mostrar as suas fraquezas a um patrício, especialmente um patrício que por acaso é seu subordinado.

 

Eco juntou os braços num círculo diante de si e fez inchar as faces com ar. Eu abanei a cabeça.

 

Sérgio Orata? Não, é ainda menos provável que Crasso exibisse as suas fraquezas diante de um sócio de negócios. Um filósofo seria a escolha mais natural mas, se Crasso possui algum, deixou-o em Roma, e despreza Dionísio. Contudo, Crasso precisa desesperadamente de alguém, seja quem for, que o oiça aqui e agora, porque os deuses estão demasiadamente longe. Ele enfrenta uma grave crise; está cheio de dúvidas. A dúvida persegue-o hora a hora, momento a momento, e não diz respeito apenas à sua decisão de atacar Espártaco. Penso que ele até duvida secretamente da sua decisão de massacrar os escravos de Gelina. É um homem habituado a ter controlo sobre tudo e a tomar decisões simples e claras, contando perdas e ganhos tangíveis.

 

O passado persegue-o o caos sangrento e a morte daqueles a quem mais amava. Agora, preparara-se para avançar para um futuro negro e incerto para uma aposta terrível, mas que vale a pena fazer porque, se for bem sucedido, poderá finalmente vir a ser tão poderoso, que nenhum poder sobre a terra possa voltar a atingi-lo. Encolhi os ombros.

 

Por isso, por que não há-de contar tudo a Gordiano, o Descobridor, a quem, de qualquer maneira, ninguém é capaz de esconder um segredo. Quanto à confidencialidade, tenho fama de a manter sou quase tão famoso por não falar como tu.

 

Eco borrifou-me com uma mão-cheia de água.

 

Pára com isso! Além de que há em mim qualquer coisa que impele as pessoas a abrirem-me o coração. Disse-o a brincar, mas era verdade; há pessoas a quem os outros confidenciam naturalmente os seus segredos mais profundos, e eu sempre fui uma dessas pessoas. Olhei-me ao espelho. Se o poder de arrancar a verdade aos outros residia algures na minha cara, eu não conseguia detectá-lo. Era uma cara vulgar, pensei eu, com um nariz que parecia ter sido partido, embora isso não tivesse acontecido, uns olhos castanhos vulgares e uns caracóis pretos vulgares, por entre os quais se avistavam cada vez mais fios de prata. Com a passagem do tempo, começara a fazer-me lembrar a cara do meu pai, tal como eu me recordava dela. Mal me lembrava da minha mãe mas, se o meu pai estivesse a dizer-me a verdade quando insistia em que ela fora muito bela, então eu não herdara essa beleza.

 

Era também uma cara que precisava desesperadamente de ser barbeada, se eu quisesse ter uma aparência decente no funeral de Lúcio Licínio.

 

Vamos, Eco. Certamente que, em noventa e nove escravos, Gelina terá algum que seja um barbeiro decente. Tu também precisas de fazer a barba. Disse-o apenas para lhe agradar mas, quando olhei para o seu rosto sorridente à luz do Sol da manhã, vi que havia de facto uma sombra no seu maxilar.

 

”Ainda ontem eras um miúdo” murmurei para mim próprio.

 

Por muito irónico que isso pareça, não há nada tão vivo como uma casa romana num dia de funeral. A villa estava cheia de convidados, que se amontoavam no átrio e nos corredores e transbordavam dos banhos. Enquanto Eco e eu nos reclinávamos em canapés, submetendo a cara ao barbeiro, uma série de desconhecidos demorava-se à volta das piscinas, nus, refrescando-se depois de duras cavalgadas matinais, vindos de pontos tão distantes como Cápua, na extremidade mais longínqua do Vesúvio. Outros tinham vindo de barco, transportados através da baía desde Surrento, Estábias e Pompeia. Depois das abluções, fui até à varanda dos banhos e olhei para baixo, para a casa dos barcos, cujo diminuto molhe era demasiadamente pequeno para todas as embarcações que nesse momento dele se aproximavam; esquifes e lanchas eram amarrados uns atrás dos outros, de tal maneira que os últimos a chegar tinham de caminhar até ao molhe através de uma pequena cidade flutuante de barcos.

 

Metróbio, envolvido numa volumosa toalha, juntou-se a mim na varanda.

 

Lúcio Licínio devia ser um homem muito amado disse eu. Ele fungou.

 

Não penses que eles vieram todos apenas para ver o pobre Lúcio dissolver-se em fumo. Não, toda esta nobreza em férias e estes mercadores e proprietários abastados estão aqui por outro motivo. Querem impressionar, tu-sabes-quem. Ele olhou por cima do ombro para a piscina aquecida, onde o escravo Apolónio ajudava um velho a emergir da água. Tive de abrir caminho pela casa para conseguir chegar até aqui. O átrio já está tão cheio de gente, que tive imensa dificuldade em atravessá-lo. Desde que Sula morreu, em Putéolos, que eu não via tantas vestes pretas. Embora tenha reparado disse ele, enrugando o nariz, que a maioria dos convidados evita o cadáver. Riu-se suavemente. E já estão a murmurar piadas; normalmente, isso só começa depois da cerimónia, quando se inicia a refeição.

 

Piadas?

 

Sabes como é aproximam-se do carro fúnebre, espreitam para a boca do cadáver, depois suspiram: ”A moeda ainda lá está! Imagina, com Crasso cá em casa!” E não te atrevas a contar a Crasso acrescentou ele rapidamente. Ou, pelo menos, não lhe digas que fui eu que te contei. Afastou-se com um sorriso seco. Aparentemente, esquecera-se que ele próprio me tinha dito a mesma piada no dia anterior.

 

Voltei a espreitar da varanda, perguntando a mim próprio como conseguiria descobrir aquilo que tinha sido lançado à água com tantos barcos atracados. Muitos dos remadores ainda estavam dentro dos barcos, ou arrastavam-se à volta da casa dos barcos, à espera que os seus senhores regressassem.

 

Finalmente, descobri Eco, que desaparecera para dentro de um dos cubículos, para tomar um banho frio depois do banho quente. Vestimos as sóbrias vestes pretas que tinham sido preparadas para nós naquela manhã. O escravo Apolónio ajudou-nos a endireitar as diversas pregas e dobras. A sua atitude era grave, como adequava-se à ocasião, mas os seus olhos eram de um azul-claro estonteante, não enevoado pelo medo que assombrava os olhos dos outros escravos. Seria possível que Múmio tivesse conseguido, de alguma maneira, impedi-lo de saber o que o esperava no dia seguinte? O mais provável, pensei eu, era que Múmio lhe tivesse garantido em segredo que ele seria poupado. Saberia ele que Múmio não conseguira convencer Crasso?

 

Enquanto ele me vestia, aproveitei a oportunidade para estudá-lo mais atentamente. Que ele era belo, era óbvio à primeira vista mas, quanto mais olhava para ele, mais belo me parecia. A sua perfeição era quase irreal, era como se o famoso Lançador do Disco de Míron tivesse adquirido vida; enquanto ele se movia, os planos mutáveis de luz que lhe atravessavam o rosto iluminavam uma sucessão de expressões, cada uma mais impressionante que a anterior. Enquanto muitos jovens da sua idade têm um porte hesitante, ele movia-se como um atleta ou um dançarino, sem qualquer sombra de artifício. As suas mãos eram hábeis, enchendo cada movimento de uma graça inata e inconsciente. Quando se aproximava de mim, eu sentia o calor das suas mãos e a doce suavidade do seu hálito.

 

Há momentos raros em que sentimos, não a superfície de outros homens e de outras mulheres, mas a própria força da vida que anima o seu ser, e por extensão toda a vida. Eu já tive vislumbres desses em momentos de paixão com Betesda, e em algumas outras ocasiões, na presença de homens ou de mulheres em situações extremas, nas convulsões de um orgasmo ou próximos da morte, ou reduzidos por uma crise à sua essência. É assustador e terrível, avistar a alma para lá dos véus da carne. De alguma maneira, a força de vida era tão grande em Apolónio, que atravessava esses véus, ou então inundava-os com a perfeita encarnação física de si própria. Era difícil olhar para ele e imaginar que uma coisa tão viva, tão perfeita, pudesse alguma vez envelhecer e morrer, e muito menos ser apagada num instante, para engrandecimento da carreira de um político.

 

Subitamente, senti uma enorme pena de Marco Múmio. Na viagem de Roma, a bordo do Fúria, eu observara duramente que não havia poesia na sua alma. Falara imprudentemente e por ignorância. Múmio tocara a face de Eros e ficara impressionado; não era de espantar que estivesse tão desesperado por salvar o rapaz de uma morte sem sentido às mãos de Crasso.

 

Pouco a pouco, os convidados foram esvaziando a casa e foram-se alinhando na estrada que saía da villa. Aqueles que eram mais íntimos de Gelina ou o tinham sido de Lúcio congregaram-se no pátio, para participarem na procissão. O mestre-de-cerimónias, um homem pequeno e mirrado que Crasso contratara e fora buscar a Putéolos, dispôs os participantes. Eco e eu, não tendo lugar na procissão, fomos andando para encontrar um lugar ao sol na estrada ladeada de árvores e cheia de gente

 

Finalmente, ouvimos a toada da música de luto. O som foi aumentando à medida que a procissão se tornava visível. Os músicos vinham à frente, tocando trompas e flautas e agitando chocalhos de bronze. Em Roma, talvez a deferência para com a opinião pública e a antiga Lei das Doze Tábuas tivesse limitado a dez o número dos músicos, mas Crasso contratara pelo menos o dobro. Era óbvio que pretendia impressionar.

 

Vinham a seguir as carpideiras contratadas, um cortejo de mulheres que caminhavam de forma arrastada, tinham o cabelo descomposto e cantavam um refrão que parafraseava o famoso epitáfio do dramaturgo Névio: ”Se a morte de algum mortal entristece os corações imortais, os deuses do alto deverão lamentar a morte deste homem...” Olhavam em frente, ignorando a multidão; estremeciam e choravam, caindo-lhes pelo rosto grandes torrentes de lágrimas.

 

Havia um pequeno intervalo na procissão, apenas o suficiente para que a canção queixosa das carpideiras se esbatesse, antes de chegarem os bufos e os actores de pantomima. Eco rejubilou ao vê-los, mas eu gemi interiormente: não há nada tão embaraçoso como uma procissão funerária estragada por palhaços incompetentes. Estes, porém, eram bastante bons; mesmo no final da estação de veraneio, não faltam profissionais de primeira classe na Taça, e o mestre-de-cerimónias contratara os melhores. Enquanto alguns deles recorriam à comédia grosseira, mas eficaz, provocando risos polidos na multidão, um deles recitava, com uma voz arrebatada, passagens de poesia trágica. Conheço a maioria das passagens habitualmente recitadas em procissões funerárias, mas estas palavras eram de um poeta novo e desconhecido da escola epicurista:

 

Como pode a morte assustar um homem

 

Se as almas morrem como morrem os corpos?

 

Quando o invólucro mortal se desfizer,

 

E este pedaço de carne for pela vida abandonado,

 

Seremos libertos do sofrimento e da dor

 

Deixaremos de sentir, tendo deixado de ser.

 

Mas suponhamos que, depois de encontrarmos o Destino,

 

A alma continua a sentir no seu estado dividido.

 

Que nos importa isso? Pois só somos nós

 

Enquanto corpo e alma são um só.

 

E se os nossos átomos forem recombinados pelo acaso

 

E a nossa matéria abandonada voltar à dança,

 

Que ganho nos trará tal coisa?

 

Este homem novo será uma coisa nova.

 

Nós, mortos e acabados, não teremos qualquer papel

 

Em todos os prazeres, nem sentiremos os tormentos

 

Que sofrerá esse homem

 

Que o Tempo moldará de novo com a nossa matéria.

 

Atentai, pois, ouvi e escutai:

 

O que há ainda na morte que possamos temer?

 

Depois de a pausa da vida se ter interposto,

 

Tudo volta a ser o mesmo como se nunca tivéssemos sido.

 

O declamador foi abruptamente interrompido por um dos bufos, que lhe espetou um dedo diante da cara.

 

Que quantidade de tolices. O meu corpo, a minha alma, o meu corpo, a minha alma papagueou o bufo, balançando a cabeça de um lado para o outro. Que quantidade de tolices epicuristas! Certa vez, tive em minha casa um filósofo epicurista, mas corri-o a pontapés. Prefiro de longe um estóico um bocado estúpido como aquele palhaço do Dionísio!

 

Ouviram-se risos abafados de reconhecimento por entre a multidão. Presumi que se tratasse do Arquimimo, a quem o mestre-de-cerimónias encomendara uma paródia simpática do morto.

 

E também não penses que te vou pagar sequer meia moeda de cobre por essa declamação patética prosseguiu ele, continuando de dedo espetado, ou por esta espécie de entretenimento. Espero coisas realmente valiosas em troca do meu dinheiro, compreendes? Coisas valiosas! O dinheiro não cai do céu, sabias, pelo menos não cai nas minhas mãos! Talvez caia nas mãos do meu primo Crasso, mas nas minhas, não! Apertou abruptamente os lábios, virou-se juntando as mãos atrás das costas e começou a andar.

 

Ouvi o homem que estava ao meu lado murmurar:

 

Apanhou Licínio na perfeição!

 

É inquietante! concordou a mulher dele.

 

Mas não penses que não quero pagar-te apenas por não poder pagar-te disse o Arquimimo com uma voz esganiçada. Poderia pagar-te! Gostava de te pagar! Simplesmente, tenho dívidas em sete lojas de Putéolos e em seis de Neápoles e em cinco de Surrento e em quatro de Pompeia e em três de Miseno e em duas de Herculâneo o Arquimimo arquejou e inspirou profundamente mais uma dívida de longo prazo a uma avozinha que vende maçãs à beira da estrada, aqui em Baias! Depois de as ter pago todas, podes regressar e tentar recitar outro poema, seu tolo epicurista, e talvez eu te cante outra toada.

 

Outra toada... assobiou o homem ao meu lado.

 

Canta outra toada! disse a mulher, acenando com a cabeça e rindo-se apreciativamente. Ao que parecia, o Arquimimo lançara uma das frases predilectas de Lúcio Licínio.

 

Oh, já sei prosseguiu ele, cruzando os braços de forma petulante, todos vocês pensam que eu sou feito de dinheiro só porque vivo como um rei, mas não é assim. Pelo menos por enquanto. Ergueu e franziu as sobrancelhas. Mas esperem, porque eu tenho um plano. Oh, sim, um plano, um plano. Um plano para fazer mais dinheiro do que vocês, os grandes de Baias, poderão engolir com uma colher de serviço. Um plano, um plano. Abram caminho para o homem que tem um plano! baliu ele, diluindo a sua personagem e indo a correr juntar-se aos outros bufos.

 

Um plano murmurou o homem ao meu lado.

 

Tal como Lúcio estava sempre a dizer sorriu a sua mulher. Vai sempre ficar rico amanhã! Suspirou. Só que, em vez disso, aconteceu isto. A vontade dos deuses...

 

...e os caminhos da Fortuna concluiu o homem. Recordei-me das sugestões de Sérgio Orata acerca da existência de negócios obscuros. Começou a formar-se na minha cabeça uma suspeita inquietante, que se dissolveu e desapareceu com a chegada das máscaras de cera.

 

O ramo de Lúcio da família dos Licínios tivera os seus antepassados distintos. As suas imagens naturais em cera, habitualmente exibidas na entrada de sua casa, passavam agora em parada diante do seu carro fúnebre, ostentadas por pessoas especialmente contratadas para essa tarefa pelo mestre-de-cerimónias e vestidas com os fatos autênticos dos cargos que tinham tido ao serviço do Estado. Este género de apresentação faz parte das procissões funerárias de todos os nobres romanos. Os actores mascarados caminhavam lenta e solenemente, voltando a cabeça de um lado para o outro, parecendo mortos regressados à vida. Deste modo, até na morte se distinguem os nobres dos ignóbeis, os ”conhecidos” dos ”desconhecidos”, pavoneando orgulhosamente a sua linhagem diante dos elementos da multidão que, como eu, não têm antepassados, mas apenas parentes esquecidos.

 

Vinha em seguida o próprio Lúcio Licínio, repousando sobre o seu canapé de marfim e rodeado de flores e folhas recentemente cortadas, exalando perfumes fortes, que não conseguiam esconder o odor a putrefacção. Crasso era um dos principais portadores, ostentando uma expressão austera e impassível.

 

Seguia-se a família. Não eram muitos os Licínios do ramo de Lúcio que tinham sobrevivido às guerras civis, e a maioria pertencia a uma geração mais antiga. Gelina vinha à frente, acompanhada por Metróbio. Tenho visto mulheres em procissões funerárias pelas ruas de Roma, cambaleando em paroxismos de dor, ferindo o rosto num desafio às leis das Doze Tábuas, mas Gelina não chorava. Avançava entorpecida, olhando para os pés.

 

Conspicuamente ausentes da procissão estavam os escravos da casa do morto.

 

Depois de a família ter passado, os espectadores que se alinhavam na estrada fecharam-se atrás dela e juntaram-se à comitiva. Finalmente, chegámos a uma clareira ao lado da estrada, onde um intervalo entre as árvores permitia avistar a baía. Ali perto, havia um sepulcro de pedra da altura de um homem. Era um sepulcro recente; as lajes estavam polidas e não desgastadas, e a terra que o rodeava estava cheia de pegadas e de pó de pedra cinzelada. Tinha como única decoração um baixo relevo simples de uma cabeça de cavalo, o antigo símbolo da morte e da partida.

 

No centro da clareira, fora erigida uma pira funerária de madeira seca, empilhada com a forma de um altar quadrado. Normalmente, a base de marfim que transportava o cadáver seria empinado contra ela, como são normalmente empinadas essas bases contra a Rostra, no Fórum, em Roma, para que os espectadores possam olhar para o morto enquanto é pronunciada a oração, mas o cadáver de Lúcio foi colocado directamente em cima da pira, fora do alcance da vista, certamente por deferência para com a ferida que tinha na cabeça, e que o desfigurava.

 

Surgiram escravos, com cadeiras desdobráveis para a família. Quando a multidão se acalmou, Marco Crasso colocou-se diante da pira. O silêncio caiu sobre o grupo reunido. Por cima de nós, ouviu-se o grito de uma gaivota. Uma ligeira brisa agitou os topos das árvores. Crasso iniciou o seu discurso; não havia na sua voz a sugestão de indecisão e incerteza que exibira diante de mim na noite anterior. Era a voz de um orador treinado, especializada em todas as técnicas do volume, da tonalidade e do ritmo. Começou num tom calmo e deferente que se tornou gradualmente mais enérgico.

 

Gelina, esposa dedicada do meu amado primo Lúcio Licínio; membros da família, que viestes de longe e de perto; sombras dos seus antepassados, aqui representadas pelas suas queridas imagens; amigos e membros da sua casa, conhecidos e pessoas de Baias e de todas as cidades vizinhas da Campânia e da Taça: juntámo-nos aqui para sepultar Lúcio Licínio.

 

”Tudo isto parece muito simples: morreu um homem, por isso consumimos o seu corpo nas chamas e sepultamos as suas cinzas. É um acontecimento vulgar. Nem o facto de ele ter morrido violentamente o distingue; hoje em dia, essa violência tornou-se um lugar comum. Tem havido na nossa família tanto sofrimento e tantas perdas impostas pela violência, que nos tornámos indiferentes aos caprichos da Fortuna.

 

”E, contudo, a presença de todos vós hoje aqui prova que a morte de Lúcio Licínio não foi uma coisa de pouca importância. Ele mantinha muitas relações com muitos homens, e qual de vós pode dizer que alguma vez foi menos do que honesto? Era um romano, uma encarnação das virtudes romanas. Era um excelente marido. O facto de os deuses não terem abençoado o seu casamento com filhos de ele não ter deixado descendência a quem legar o seu nome e o seu sangue, que o venere e venere os seus antepassados, essa foi uma das coisas que a precoce e amarga tragédia da sua morte deixou por cumprir.

 

”Sem um filho que olhe pela sua desolada viúva e vingue o seu assassínio sem sentido, esses deveres caíram sobre os ombros de outro, de um homem ligado a Lúcio pelo sangue e por longos anos de respeito mútuo. Esses deveres caem sobre os meus ombros.

 

”Já tereis ouvido falar da forma como Lúcio encontrou a morte. Não tenhais dúvidas de que a enfrentou corajosamente. Ele não era homem para vacilar diante de um adversário, fosse ele quem fosse. Talvez o seu único erro tenha sido confiar em quem não merecia a sua confiança mas que homem pode prever o momento em que uma lâmina fiável muitas vezes utilizada se quebrará subitamente ou em que um cão leal se tornará traiçoeiro sem aviso?

 

”O destino de Lúcio Licínio está longe de ser único. Na realidade, de alguns pontos de vista, ele é o paradigma do bom cidadão e do próprio Estado, pois não é verdade que Roma se encontrou subitamente posta em perigo por uma nação inteira de mastins fiáveis, enlouquecidos pelo seu desejo de sangue e de saque? Lúcio foi mais uma vítima desta pestilência que ameaça destruir a ordem da natureza, varrer a nossa tradição e a nossa honra, perverter o curso normal do relacionamento entre os homens.

 

”Essa pestilência tem nome. Não o direi em voz baixa, porque o não temo: Espártaco. Essa pestilência entrou na casa de Lúcio Licínio; dissolveu os laços de obrigação e de lealdade; voltou as mãos dos escravos contra o seu senhor. Aquilo que aconteceu nesta casa não pode ser esquecido nem perdoado. A sombra de Lúcio Licínio está inquieta; ela paira sobre nós neste preciso momento, reforçada pelas sombras dos seus antepassados, que reclamam em coro que nós, os vivos, corrijamos esta perversão.

 

Olhei à minha volta, para os rostos dos convidados. Eles observavam Crasso com um misto de admiração e de pesar, na expectativa da declaração que ele preparara. Senti um baque de terror.

 

Alguns dirão que Lúcio Licínio era, sem sombra de dúvida, um homem bom, mas não era um grande homem, que não ascendeu, durante a sua vida, a grandes cargos, que não realizou coisas maravilhosas. Temo que essa seja a trágica verdade; foi morto antes de chegar ao seu apogeu, e a sua vida foi mais curta do que devia ter sido. Mas a sua morte não foi pequena. Se pode haver uma morte grandiosa, a morte de Lúcio foi isso mesmo uma coisa terrível, tremenda, profundamente errada, uma ofensa aos deuses e aos homens. Uma morte como esta exige mais do que dor e piedade, mais do que palavras de louvor ou votos de vingança. Exige que todos nós tomemos providências, senão como veículos da vingança, então como suas testemunhas.

 

Crasso ergueu o braço. Ao seu lado, o mestre-de-cerimónias e um dos seus homens começaram a acender as suas tochas, que imediatamente se incendiaram.

 

Há muito tempo, os nossos antepassados fundaram a tradição de organizar concursos de gladiadores em honra dos mortos. Normalmente, esta tradição gloriosa é reservada para a morte dos grandes e dos poderosos, mas eu penso que os deuses não invejarão o facto de prestarmos honrarias à sombra de Lúcio Licínio com um dia de jogos. Estes jogos terão início amanhã, na planície junto ao lago Lucrino. Há quem se lamurie, dizendo que devíamos suspender a utilização de gladiadores, tendo em conta que Espártaco era um gladiador, e que nenhum escravo devia usar armas enquanto Espártaco andar à solta. Mas eu afirmo que é melhor honrar as tradições dos nossos antepassados do que temer um escravo. Afirmo igualmente que a ocasião destes jogos nos proporcionará uma oportunidade, não apenas para homenagearmos a sombra de Lúcio Licínio, mas também para iniciarmos a tarefa de vingar a sua morte.

 

Crasso desviou-se. Pegou numa das tochas e tocou com ela na pira, enquanto, do outro lado, o mestre-de-cerimónias fazia a mesma coisa. A madeira seca incendiou-se e estalou, emitindo línguas de chamas e dedos de fumo cinzento.

 

Com o tempo, a pira seria consumida. Os carvões seriam ensopados de vinho e os ossos e as cinzas de Lúcio Licínio seriam reunidos por Crasso e por Gelina, que os aspergiriam com perfume e os colocariam numa urna de alabastro. Um sacerdote purificaria a multidão, circulando no meio dela e aspergindo-a com água lançada por um ramo de oliveira. Os restos de Lúcio seriam selados no seu sepulcro, e a multidão murmuraria em conjunto: ”Adeus, adeus, adeus...” Mas eu fui-me embora antes de estas coisas serem feitas. Não fui purificado; não disse adeus. Em vez disso, afastei-me discretamente e regressei a casa, levando Eco comigo. Faltava tão pouco tempo antes de a matança começar.

 

Onde andará o rapaz, Meto? perguntei eu. O átrio, que nessa manhã estivera apinhado com os convidados para o funeral e os seus escravos pessoais, estava agora deserto. Os nossos passos ecoaram surdamente no espaço vazio. O incenso e as flores tinham desaparecido, mas o seu odor, tal como o do cadáver em decomposição de Lúcio Licínio, permanecia no ar.

 

Segui o meu nariz até às cozinhas. Muito antes de as ter descoberto, comecei a ouvir o barulho estridente da actividade que nelas reinava. Ainda era necessário fazer muitos preparativos para a festa do funeral.

 

Atravessámos uma enorme porta de madeira e vimo-nos mergulhados em ruído e calor. Com as túnicas manchadas e sujas de fuligem, os escravos da cozinha corriam de um lado para o outro. Vozes roucas gritavam para trás e para diante, facas pesadas caíam sobre blocos de madeira, caldeiras ferviam e assobiavam. Eco tapou as orelhas, em protesto contra o barulho, depois apontou para uma figura, do outro lado do compartimento.

 

O pequeno Meto, de pé em cima de uma banqueta, estava quase metido dentro de um enorme pote de barro, em cima de uma mesa. Olhou à volta para ver se alguém estava a observá-lo, depois tirou uma mão-cheia de qualquer coisa e meteu-a na boca. Eu atravessei a cozinha, esquivando-me para evitar os escravos apressados, e agarrei-lhe na parte de trás da túnica, pelo pescoço.

 

Ele soltou um grasnido e olhou para mim, por cima do ombro. A sua boca, coberta de uma pasta de mel, milho-miúdo e nozes esmagadas, abriu-se num grito de aflição, transformando-se abruptamente num sorriso quando viu que era eu e retorcendo-se de forma igualmente abrupta num gemido de dor quando uma colher de madeira lhe caiu em cima da cabeça com um estalido.

 

Sai já da cozinha! Já! Já! gritou um velho escravo, cuja maneira de vestir e atitude superior indicavam ser o cozinheiro chefe. Parecia disposto a atingir-me também a mim, mas depois viu o meu anel de ferro. Perdoa-me, Cidadão, mas com Meto a roubar doces e os escravos de todos estes convidados a entrarem sorrateiramente para roubar comida, não temos grandes possibilidades para fazer o nosso trabalho. Não te importas de arranjar qualquer coisa para essa pestezinha fazer?

 

Vinha justamente buscá-lo disse eu. Dei a Meto uma rápida palmada no rabo quando ele desceu da banqueta e atravessou a correr o compartimento cheio de gente em direcção à porta, lambendo o mel dos dedos e fazendo tropeçar cozinheiros e ajudantes à sua passagem. Eco apanhou-o à saída e agarrou-o.

 

Meto! gritei eu quando cheguei ao pé dele, fechando a porta atrás de mim. És precisamente o homem que eu procurava. Nadas bem, Meto?

 

Ele olhou para mim com gravidade, lambendo a papa doce dos cantos da boca. Lentamente, abanou a cabeça.

 

Não?

 

Não, senhor.

 

Não sabes nadar?

 

Nem uma braçada garantiu-me ele. Abanei a cabeça, aborrecido.

 

Desiludes-me, Meto, embora não tenhas propriamente culpa. Eu estava convencido de que eras filho de um fauno e de uma ninfa do rio.

 

Ele ficou perplexo por um momento, depois riu-se alto da minha patetice.

 

Mas conheço uma pessoa que nada como ninguém! propôs ele.

 

Sim? E quem é ela?

 

Vem comigo, eu mostro-te. Está com os outros nos estábulos! Começou a correr pelo corredor, até Eco o apanhar, e lhe agarrar na parte de trás da túnica, pelo pescoço, como se fosse uma coleira. Ele deixou-se guiar até ao centro da casa, passando pelo átrio e saindo para o pátio. Depois escapou à mão de Eco e correu para os estábulos. Aproximámo-nos das portas abertas, para onde o ar fresco proveniente do interior transportava o odor misturado do feno e do estrume. Meto continuou.

 

Espera! Disseste que ias levar-nos aos estábulos! protestei eu.

 

Não são esses estábulos! respondeu ele por cima do ombro. Apontou para diante e deu a volta ao edifício, a correr. Eu pensei que ele devia estar a brincar connosco, até que voltei a esquina e avistei um anexo de madeira, comprido e baixo, ligado aos estábulos de pedra.

 

Mas esta villa nunca mais acaba? murmurei para Eco. Depois avistei os soldados que guardavam a entrada do anexo.

 

Estavam os seis sentados, de pernas cruzadas, numa pequena clareira ao lado das sempre-verdes. Não nos viram, até que um assobio agudo atravessou o ar. Olhei para cima e vi um sétimo guarda no alto do telhado vermelho do anexo, com a lança debaixo do braço e os dedos dentro da boca.

 

Os outros seis levantaram-se imediatamente, empunhando as espadas e abandonando os dados no pó. O seu chefe ou pelo menos aquele que tinha maior número de insígnias avançou na minha direcção, brandindo a espada e olhando-me com um ar carrancudo, por entre a sua barba listada de cinzento.

 

Quem são vocês e o que querem? perguntou com brusquidão. Ignorou Meto, que passou por ele e correu para a porta do anexo. Presumi que os guardas já o conhecessem; um deles estendeu mesmo a mão e despenteou-o afectuosamente.

 

Mantive os braços estendidos ao longo do corpo, um pouco distanciados do tronco, com as mãos bem visíveis. Eco olhou para mim nervosamente e fez o mesmo.

 

O meu nome é Gordiano. Sou um convidado de Gelina e do vosso general, Marco Crasso. Este é o meu filho, Eco.

 

O soldado estreitou os olhos, desconfiado, e depois baixou a espada.

 

Está tudo bem, homens disse ele por cima do ombro. É aquele de quem Marco Múmio nos falou. Chama-se a si próprio o Descobridor. E que esperas tu descobrir aqui? Deixara de parecer um guerreiro terrível, disposto a matar, para se transformar num homem bastante afável e polido. Parecia sobretudo um homem extremamente entediado, satisfeito com qualquer interrupção que quebrasse a monotonia.

 

Foi o rapaz que nos trouxe até aqui expliquei eu. Já me tinha esquecido de que os estábulos tinham um anexo.

 

Sim, não se vê do pátio por causa dos estábulos; e, segundo me dizem, também não se consegue avistar da casa, nem sequer do andar de cima. O que faz dele o local ideal para os esconder a todos, bem longe da vista.

 

Esconder quem? disse eu, esquecendo-me do que Gelina me dissera acerca do paradeiro da maioria dos escravos.

 

Vê com os teus próprios olhos. Parece que Meto está ansioso para que tu o sigas. Não há problema, Pronto disse ele ao guarda que agarrara Meto pelo cabelo. Podes abrir a porta.

 

O guarda tirou uma enorme chave de metal e meteu-a num cadeado, pendurado numa corrente. O cadeado abriu-se e a porta balançou para dentro. Os guardas mantiveram-se à distância, com as mãos nos punhos das espadas e os olhos alerta. Meto correu para o interior, fazendo-nos sinal para que o seguíssemos.

 

O cheiro que vinha lá de dentro era bastante diferente daquele que vinha dos estábulos. Havia um cheiro doce a palha, naturalmente, mas o odor a urina e a dejectos não era de animais, era de homens. O fedor do suor humano pesava igualmente no ar, juntamente com o cheiro das mulheres com o período e os odores misturados de comida podre e de vómito. Lembrei-me do cheiro que reinava por baixo do convés do Fúria não era tão acre como o fedor de homens à beira do colapso, mas também não era aliviado pelas frescas brisas salgadas; era mais o fedor imundo, fechado, bolorento de um matadouro do que de uma galera de escravos.

 

Eco hesitou em entrar, mas eu peguei-lhe no braço. A porta fechou-se atrás de nós.

 

Batam na porta e chamem quando quiserem sair gritou o guarda através da madeira. A corrente chocalhou e o cadeado fechou-se com um estalido.

 

Os meus olhos demoraram um momento a adaptar-se à obscuridade. Havia apenas umas quantas janelas gradeadas junto ao chão, que deixavam entrar raios de luz do Sol cobertos de um pó espesso.

 

Que lugar é este? murmurei eu.

 

Não estava à espera de uma resposta, mas o rapaz, Meto, estava ali ao pé.

 

O senhor costumava armazenar aqui todo o tipo de coisas disse ele, baixando o tom de voz para condizer com o meu. Freios velhos, e selas e mantas, e rodas de carros e de carroças de bois partidas. Por vezes, até havia aqui espadas e lanças, e escudos e elmos. Mas isto estava quase vazio quando o Senhor Lúcio morreu. Quando o Senhor Crasso chegou, no dia seguinte, foi aqui que mandou meter os escravos, à excepção de alguns.

 

O lugar ficara silencioso quando nós entrámos, mas agora começavam a ouvir-se murmúrios na escuridão.

 

Meto! ouvi uma velha chamar. Meto, vem cá dar-me um abraço!

 

O rapaz desapareceu no meio das sombras. À medida que o compartimento se ia iluminando, pude ver a mulher que o abraçava. Estava sentada num chão coberto de palha, tinha o cabelo branco penteado num rolo e as suas mãos compridas e pálidas tremiam na luz indistinta enquanto ela acariciava o cabelo do rapaz. Para onde quer que olhasse, via cada vez mais homens, mulheres e crianças, todos os escravos que tinham sido tirados dos campos ou libertados de tarefas domésticas desnecessárias e fechados a cadeado, à espera do julgamento de Crasso.

 

Estavam sentados em monte encostados às paredes. Passei pelo meio deles, atravessando o longo e estreito compartimento. Eco seguia atrás de mim, olhando esgazeado de rosto para rosto e tropeçando no chão irregular. O cheiro a urina e a dejectos era mais forte na extremidade do compartimento. Os escravos obrigados a sentarem-se ali amontoavam-se o mais longe que podiam do fedor. Expostos a ele, dia após dia, deviam ter-se habituado o suficiente para conseguirem suportá-lo. Tapei a cara com uma ponta do pesado trajo funerário mas, apesar disso, mal podia respirar.

 

Senti um puxão no joelho. Meto olhava para mim com gravidade.

 

O melhor nadador que alguma vez existiu garantiu-me ele com um murmúrio. Melhor do que Leandro, e ele conseguiu atravessar o Helesponto. Melhor do que Glauco, que nadou atrás de Cila, e Glauco era meio-peixe!

 

Não nos serve de nada aqui fechado, pensei eu. Depois vi o jovem para quem Meto apontava. Estava ajoelhado na palha, com as mãos de um velho nas suas e falando baixinho. A luz pálida dava ao seu rosto uma suavidade marmórea, de tal maneira que ele parecia, mais do que nunca, uma estátua viva, ou um jovem rapaz transformado em pedra.

 

Apolónio disse eu, surpreendido por vê-lo ali.

 

Ele deu uma última pancadinha às mãos do velho, depois ergueu-se e sacudiu a palha dos joelhos. Este movimento tão simples era elegante como um poema. Existe uma aristocracia altiva e

artificial, a aristocracia de patrícios como Fausto Fábio, pensei eu, mas existe também a aristocracia natural de espécimes como este, que procede dos deuses e ignora o estatuto terreno.

 

O que estás aqui a fazer? perguntei eu, pensando que Crasso devia tê-lo banido da casa apenas para despeitar Múmio. Mas a sua explicação era simples.

 

A maioria dos escravos está aqui fechada desde o dia em que o senhor foi encontrado morto. Alguns de nós fomos autorizados a permanecer nos nossos lugares, dormindo nos nossos quartos habituais, entre os estábulos e a casa. Tal como Meto, eu venho aqui sempre que posso, para ver os outros. Os guardas conhecem-me e deixam-me passar.

 

É o teu pai? disse eu, baixando os olhos para o velho. Apolónio sorriu, mas os olhos pareciam tristes.

 

Eu não tive pai. Sótero é um conhecedor de ervas e de cataplasmas. Cuida dos outros escravos quando eles estão doentes, mas agora é ele que está doente. Anseia por água, mas não pode beber, tem os intestinos soltos. Olha, parece-me que adormeceu. Quando eu tive uma febre, ele cuidou de mim noite e dia, salvando-me a vida. E tudo isso para nada.

 

Não detectei na sua voz qualquer amargura, ou qualquer outra emoção. Era como a voz do seu homónimo, fria e misteriosa.

 

Eu apertei o trajo de encontro ao rosto e tentei respirar.

 

Sabes nadar? perguntei-lhe, lembrando-me ao que tinha vindo.

 

Apolónio sorriu, com um sorriso genuíno.

 

Como um golfinho disse ele.

 

Havia um caminho que se iniciava a sul do anexo e ia ter à casa dos barcos, ziguezagueando pela encosta inclinada da colina, por baixo da ala sul e dos banhos. Era quase todo invisível da casa, escondido pela folhagem e pelo ângulo inclinado da encosta da colina. Era um caminho mais difícil do que aquele que eu percorrera quando descera da varanda, na ala norte, mas estava bem calcado e, em muitas passagens, era suficientemente largo para duas pessoas caminharem a par. O rapaz, Meto, ia à frente, saltando por cima das raízes das árvores e trepando às rochas. Eco e eu descíamos a um ritmo mais calmo, enquanto Apolónio seguia deferencialmente atrás de nós.

 

Era a hora mais quente e mais indolente do dia. Quando nos aproximámos da casa dos barcos, eu olhei para cima, para as colinas, pensando na congregação funerária, forçada a permanecer de pé durante horas, enquanto as chamas desintegravam lentamente aquilo que restava de Lúcio Licínio. Avistei pequenas colunas de fumo que se erguiam por cima dos topos das árvores, espessas e brancas, mas rapidamente dissolvidas em farrapos de fumo pela brisa marítima, e desaparecendo por completo no céu azul.

 

Os barcos da pequena armada ancorada no embarcadouro chocavam suavemente uns contra os outros. Quando nos aproximámos do molhe, detectei apenas algumas figuras sonolentas recostadas nos barcos, com os pés baloiçando dentro de água e as caras cobertas por chapéus de marinheiros, de abas largas. A maioria dos barqueiros e dos escravos fora procurar comida, seguindo o odor das carnes assadas que vinha das cozinhas, lá no alto, ou então fora fazer uma sesta por entre as árvores da sombria encosta da colina.

 

O que foi que perdeste? perguntou Apolónio, debruçando-se sobre a água clara, no espaço entre dois barcos.

 

Não se trata exactamente de uma coisa que eu perdi...

 

Mas o que queres que eu procure?

 

Não sei bem. Uma coisa suficientemente pesada para fazer um ruído audível. Talvez sejam vários objectos.

 

Ele olhou para mim com hesitação, depois encolheu os ombros.

 

A água podia estar mais limpa, mas suponho que a maioria das poeiras provocadas pela chegada destes barcos todos já deve ter poisado. E gostava de ter mais luz; estes barcos lançam uma grande sombra no fundo. Mas, se vir alguma coisa que não devesse lá estar, trá-la-ei para cima.

 

Desapertou o cinto e despiu a túnica, depois tirou a túnica interior pela cabeça e ficou nu, com o cabelo desgrenhado brilhando em tons de preto-azul à luz do Sol, enquanto losangos de luz, reflectidos da água, dançavam por entre os músculos lisos do seu pescoço e das suas pernas. Eco olhou para ele com um misto de curiosidade e inveja. De baixo de um dos chapéus de abas largas, um dos marinheiros emitiu um assobio pouco elegante, mas elogioso. Apolónio ergueu uma sobrancelha, mas à parte isso ignorou o som; há muito que devia ter-se habituado ao facto de os outros repararem na sua aparência.

 

Endireitou os ombros e inspirou fundo várias vezes, depois descobriu um sítio entre dois barcos, com espaço suficiente para mergulhar. A superfície da água mal se ondulou atrás dele.

 

Eu comecei a andar de um lado para o outro do pontão, debruçado nas verdes profundezas e avistando a sua brancura nua, enquanto ele deslizava por entre as pedras cobertas de musgo e os ramos de madeira. Ele circulava dentro de água com tanta graciosidade como se movia em terra, batendo as duas pernas em uníssono e utilizando os braços como se fossem asas.

 

Por cima de nós, voou uma gaivota. A coluna de fumo proveniente da pira funerária continuava a erguer-se por sobre as árvores. Mas Apolónio ainda estava debaixo de água. Finalmente, vi o seu rosto olhar para mim por entre o fundo musgoso, depois ficar cada vez maior, enquanto ele se aproximava, e finalmente atravessar a superfície.

 

Comecei a perguntar-lhe o que tinha ele visto, mas ele tossiu e ergueu a mão. Precisava de respirar, e não de falar. Gradualmente, a sua respiração foi-se tornando mais lenta e mais regular. Finalmente, abriu a boca para falar, pensei eu, mas ele inspirou profundamente, dobrou o corpo em dois, e voltou a mergulhar. O movimento dos seus pés deixou para trás uma espuma de bolhinhas.

 

Mergulhou a direito, desaparecendo na escuridão. Eu voltei a andar de um lado para o outro no molhe, olhando por cima da borda. A gaivota fez um círculo, o fumo ergueu-se no ar, uma nuvem passou diante do Sol. Por esta altura, a dúzia de figuras que estavam a dormitar nos barcos tinha acordado e observava-nos com curiosidade por baixo das abas dos chapéus.

 

Já está lá em baixo há muito tempo disse finalmente uma delas.

 

Há muito tempo disse outra, mesmo para um rapaz com um peito tão grande.

 

Ah, não é nada disse uma terceira. O meu irmão é mergulhador de pérolas, e consegue ficar lá em baixo o dobro do tempo.

 

Ainda assim...

 

Eu olhei por entre os barcos, tentando ver se ele teria regressado à superfície em algum ponto escondido, perguntando a mim próprio se teria batido com a cabeça. Fora uma má altura para lhe pedir que fizesse aquilo, com tantos barcos ancorados na doca. O próprio Apolónio queixara-se da sombra escura que cobria o fundo; até os golfinhos precisam de luz para nadar. Independentemente daquilo que dizia o irmão do mergulhador de pérolas, não parecia possível que um homem pudesse permanecer debaixo de água tanto tempo.

 

Comecei a agitar-me. Eco não sabia nadar, nem o rapaz Meto, segundo ele próprio dissera. A ideia de me meter eu próprio dentro de água fez-me pensar na provação da outra noite; senti o sabor da água do mar na garganta, senti-a queimar-me as narinas e experimentei um tremor de pânico. Olhei para o coro disperso de chapéus de marinheiros e para as faces sombrias abrigadas por baixo deles.

 

Vocês! disse por fim. - Deve haver entre vós um bom nadador! Pago a qualquer de vós cinco sestércios para irem ver por baixo do molhe e me dizerem o que aconteceu ao escravo.

 

Houve um movimento nos barcos dispersos. Os pés foram retirados de dentro de água, as caras apareceram, as mãos procuraram o equilíbrio.

 

Depressa! gritei eu, olhando para a escuridão negra sem fundo e sentindo uma garra de medo frio, apertar-me o pescoço. Depressa! Mergulhem de onde estão! Dez sestércios...

 

Mas, nesse momento, fui silenciado pela bizarra aparição que emergia da água na extremidade do molhe. Os barqueiros imobilizaram-se e olharam espantados, vendo uma longa e brilhante lâmina elevar-se nos ares, muito direita. Envolvida em ervas marinhas, a lâmina cintilava a prata e verde à luz do Sol. Seguiu-se um braço comprido e musculoso, e depois os ombros largos e o rosto arquejante de Apolónio, exibindo um sorriso de triunfo.

 

Apolónio comparara-se a um golfinho e, de facto, deitado nu sobre o molhe, com um braço sobre o rosto, o seu peito largo e rasgado ansiando por ar, a sua carne pálida molhada e brilhante, ele pareceu-me um jovem deus do oceano, ascendido das profundezas. As tábuas à sua volta estavam escuras por causa da água, formando um contorno tosco do seu corpo. Saía vapor da sua carne tensa e por entre as estrias da sua barriga brilhavam contas com as cores do arco-íris. Meto foi-lhe buscar a túnica interior, que Apolónio lançou casualmente para cima do regaço.

 

Ao seu lado, a espada brilhava ao sol. Eu ajoelhei-me e puxei as cordas de algas que a cobriam. Não estivera muito tempo debaixo de água; não se viam traços de ferrugem no copo. Eu não sabia grande coisa acerca da produção destas armas mas, pela decoração do cabo, pareceu-me ser de fabrico romano.

 

Apolónio sentou-se, cruzando as pernas e encostando-se para trás, apoiado nos braços. Passou uma mão pelo cabelo, lançando um jacto de água pelo ar. Algumas dessas gotas atingiram Eco num olho. Ele limpou a cara e olhou para Apolónio com um estranho e sombrio fascínio, desviando os olhos em seguida. Eram ambos aproximadamente da mesma idade; imaginei como Eco devia sentir-se intimidado na presença de outro macho de aparência tão soberba, que exibia a sua perfeição nua sem a menor sugestão de incómodo.

 

Não é a única? disse eu, pegando na espada para vê-la mais de perto.

 

Longe disso. Há uma série de feixes delas, amarrados com tiras de couro. Tentei trazer um feixe, mas era demasiadamente pesado. As tiras estão enlaçadas e inchadas por causa da água, é impossível desfazer os nós; finalmente, consegui esfregar uma das tiras contra uma lâmina e tirá-la.

 

Só viste espadas? Ele abanou a cabeça.

 

E lanças, amarradas da mesma maneira. E sacas cheias de qualquer outra coisa. Estavam fechadas, por isso não consegui ver o que continham, e eram demasiadamente pesadas para eu conseguir levantá-las.

 

Pergunto a mim próprio o que haverá nessas sacas disse eu, e tive uma intuição. Daqui a quanto tempo consegues voltar a mergulhar?

 

Apolónio encolheu os ombros, um gesto que alterou as poças de água que se tinham formado na sua clavícula, fazendo a água correr como prata sobre o seu peito.

 

Já recuperei o fôlego. Mas, desta vez, é melhor levar uma faca. Os curiosos barqueiros mantinham-se à distância, mas tinham-se aproximado o suficiente para ouvirem a conversa. Um deles ofereceu a sua faca, uma lâmina forte, boa para cortar tiras de couro, e Apolónio voltou a desaparecer debaixo de água.

 

Não esteve lá muito tempo. Desta vez, veio à superfície de costas e, quando subiu para o molhe, a faca parecia ser a única coisa que trazia consigo. Espetou-a na madeira, tirou a sua túnica interior das mãos de Meto, e dirigiu-se apressadamente à casa dos barcos, sem dizer uma palavra. Meto correu atrás dele. Eco e eu seguimo-lo. Reparei que a mão esquerda de Apolónio estava fechada com força.

 

Demos a volta à casa dos barcos e enconstámo-nos à parede, longe da vista dos barqueiros. Eu aproximei-me dele, inclinando a cabeça zombeteiramente.

 

Junta as mãos murmurou ele, como uma taça.

 

Estendeu o braço e abriu a mão. As moedas molhadas escorregaram para as minhas mãos, como um cardume de pequenos peixes de prata.

 

Essas mesmas moedas, entretanto secas, tilintaram com um ruído mais forte quando as atirei para cima da mesa da biblioteca. Crasso acabava de regressar da cerimónia funerária, ainda vestia os seus trajos pretos e cheirava a fumo de madeira. Ergueu uma sobrancelha espantada.

 

Onde é que as encontraste?

 

Nos baixios, à saída do molhe. Na noite em que aqui cheguei, vi alguém atirar qualquer coisa da doca. Quem quer que fosse, empurrou-me para dentro de água e tentou afogar-me. Esteve quase a conseguir. Só hoje consegui mandar alguém ver as águas. O escravo Apolónio sim, o favorito de Múmio. Foi isto que ele encontrou. Sacas e sacas cheias de prata, diz ele. E não são apenas moedas; parece haver sacas cheias de ouro e de jóias em prata e também de bugigangas. E armas.

 

Armas?

 

Feixes de espadas e de lanças. Não são armas de gladiadores nem armas cerimoniais, são armas de soldados. Trouxe comigo uma das espadas para te mostrar, mas o teu guarda confiscou-ma à porta. E, por falar em guardas, sugiro que mandes colocar vários na casa dos barcos imediatamente. Deixei lá Eco e Apolónio, a vigiarem os barqueiros, mas será necessário uma guarda armada noite e dia, até se conseguir recuperar tudo aquilo.

 

Crasso chamou o guarda que estava do lado de fora da porta e deu-lhe instruções, depois mandou-o trazer a espada que Apolónio recuperara. Pela porta aberta, chegou até nós o ruído dos convidados funerários, reunidos no átrio. Crasso esperou que a porta se fechasse, antes de falar.

 

Curioso disse ele. Isto foi feito numa das minhas fundições, aqui na Campânia, de minério proveniente de uma das minhas minas, em Espanha; vê-se por este selo aqui no punho. Como terá ido ali parar?

 

E, o que é mais importante disse eu, qual seria o seu destino?

 

O que queres dizer?

 

Se presumirmos que estas coisas estavam a ser armazenadas na casa dos barcos, e tinham sido lá postas por Lúcio Licínio, então para que precisava ele de tantas armas?

 

Para nada.

 

Eram para teu uso?

 

Se eu quisesse que Lúcio retirasse armas de uma das minhas fundições e as trouxesse para aqui, ter-lhe-ia dito disse Crasso com brusquidão.

 

Então talvez estas armas estivessem a ser aqui armazenadas para outra pessoa. Quem poderia ter necessidade de tantas lanças e espadas?

 

Crasso olhou para mim sombriamente, compreendendo mas indisposto a dizer o nome em voz alta.

 

Pensa nos valores prossegui eu, nas moedas, nas jóias, nas peças de metal, todas metidas em sacas como se fossem o saque de um pirata. Pressupondo que Lúcio não as roubou, então talvez lhe tenham sido entregues como pagamento.

 

Pagamento de quê?

 

De uma coisa de que ele não precisava pessoalmente, mas que podia obter armas.

 

Crasso olhou para mim, muito pálido.

 

Atreves-te a sugerir que o meu primo Lúcio contrabandeava armas para um inimigo de Roma?

 

Que outra coisa pode um homem razoável deduzir quando depara com um carregamento de armas e de valores, todos metidos num esconderijo? E é natural que a casa dos barcos não fosse o único sítio onde estas coisas eram armazenadas em trânsito. O rapaz Meto referiu-me que, por vezes, via lanças e espadas guardadas no anexo ao lado dos estábulos, no sítio onde os escravos estão presos. O anexo poderá ter sido esvaziado dessa mercadoria quando tu chegaste, mas isso não significa que, anteriormente, não tenha albergado carregamentos de armas. E não apenas de armas; Meto também me disse que vira pilhas de escudos e de elmos. Ouvi dizer que alguns dos adeptos de Espártaco estão reduzidos a usar cascas secas de melão como elmos. Espártaco precisa desesperadamente de armas de boa qualidade.

 

Crasso olhou para mim e inspirou profundamente, mas nada disse.

 

Também ouvi dizer que Espártaco proibiu a utilização de dinheiro entre os seus homens. Eles formam uma nação sem moeda. Para as necessidades da vida, recorrem aos produtos da terra e às pessoas que se dedicam a essa tarefa, mas não usam bens de luxo. Tudo é partilhado. Espártaco considera que o dinheiro apenas servirá para corromper os seus guerreiros. Que melhor uso dar a todas as lindas moedas e bugigangas que acumulou, do que passá-las clandestinamente para fora da sua zona de influência, em troca de coisas de que ele e os seus guerreiros precisam verdadeiramente coisas como espadas, escudos, elmos e lanças?

 

Crasso pensou por momentos.

 

Mas não pode ter sido Lúcio a atirar essas coisas do molhe objectou ele. Acabas de me dizer que as ouviste ser lançadas à água na noite em que chegaste. Disseste-me que quem estava a fazê-lo te atacou e tentou afogar-te. Certamente que não era Lúcio, a não ser que acredites que era a sua sombra que te perseguia no molhe, nessa noite.

 

Não, não era a sua sombra. Mas talvez fosse o seu sócio.

 

Um sócio? Num empreendimento tão repugnante?

 

Talvez não. Talvez Lúcio estivesse inocente, e todo o negócio estivesse a ser levado a cabo debaixo do seu nariz, sem o seu conhecimento. Talvez ele o tenha descoberto e tenha sido por isso que foi assassinado.

 

O nariz do meu primo lançava uma sombra considerável, mas não o suficiente para esconder um negócio como este. E por que insistes em relacionar esta descoberta com a sua morte? Sabes tão bem como eu que ele foi assassinado por esses dois escravos fugitivos, Zenão e Alexandre.

 

Acreditas realmente nisso, Marco Crasso? Alguma vez acreditaste nisso? Ou é simplesmente tão conveniente para os teus esquemas, que te recusas a ver qualquer outra possibilidade? As palavras saíram-me de sopetão, num tom mais alto e mais rude do que eu planeara. Crasso recuou. A porta abriu-se e o guarda olhou lá para dentro. Eu afastei-me de Crasso, mordendo a língua.

 

Crasso mandou embora o guarda com um aceno de mão. Cruzou os braços e começou a andar à volta do compartimento. Finalmente, parou diante das prateleiras e olhou fixamente para uma pilha de rolos de pergaminho.

 

Faltam bastantes documentos dos registos de Lúcio disse ele numa voz lenta e cautelosa. Aqueles que deviam explicar todas as viagens feitas pelo Fúria este Verão, os inventários da sua carga...

 

Então manda vir o capitão do navio, ou um dos membros da sua tripulação.

 

Lúcio despediu o capitão e a tripulação poucos dias antes de eu chegar. Por que pensas que mandei o barco com Múmio e os meus homens para te ir buscar? Já enviei mensageiros à procura do capitão a Putéolos e a Neápolis, mas sem êxito. Apesar disso, há provas de que Lúcio utilizou o navio numa série de viagens que não estão registadas.

 

Que outros documentos estão em falta?

 

Registos de uma série de despesas. Sem saber o que aqui havia, é impossível dizer o que falta.

 

Então aquilo que eu estou a dizer é possível, não é? Lúcio Licínio poderá ter mantido um negócio clandestino sem o teu conhecimento. Um negócio de traição.

 

Crasso manteve-se silencioso por longos momentos.

 

Sim.

 

E há alguém que sabe disto, para além de nós os dois, porque alguém que estava a tentar ocultar as provas, escondendo as armas e o saque debaixo de água, da mesma maneira que alguém limpou o sangue da estátua que matou Lúcio a mesma pessoa que deve ter furtado os registos incriminatórios. Não é muito mais provável que essa pessoa tenha sido responsável pela morte de Lúcio, do que dois escravos inofensivos, que subitamente decidiram ir juntar-se a Espártaco?

 

Prova-o! disse Crasso, voltando-me as costas.

 

E se eu não conseguir?

 

Ainda tens um dia e uma noite.

 

E se eu fracassar?

 

Será feita justiça. A retribuição será pronta e terrível. Fiz a minha promessa no funeral, e tenciono cumpri-la.

 

Mas, Marco Crasso, a morte de noventa e nove escravos inocentes, sem qualquer finalidade...

 

Tudo aquilo que eu faço disse ele lentamente, salientando cada palavra, tem uma finalidade.

 

Sim. Eu sei. Inclinei a cabeça, derrotado. Tentei pensar num último argumento. Crasso dirigiu-se a uma das janelas e olhou para os convidados do funeral, que passeavam pelo pátio.

 

Esse rapazinho Meto, como tu lhe chamas anda de um lado para o outro, anunciando aos convidados que o banquete está prestes a começar disse ele suavemente. São horas de trocarmos os nossos fatos pretos por outros brancos. Peço-te que me dês licença, pois tenho de ir ao quarto mudar de roupa, Gordiano.

 

Só mais uma coisa, Marco Crasso. Se a crise chegar se aquilo que tu determinaste vier a acontecer peço-te que consideres a honestidade do escravo Apolónio. Ele podia não ter revelado que descobrira a prata...

 

Ora, estando decidido que morrerá amanhã? A prata não tem qualquer valor para ele.

 

Apesar disso, se pudesses arranjar maneira de lhe perdoar, e talvez ao rapaz, Meto...

 

Nenhum desses escravos fez nada que tenha algum mérito extraordinário.

 

Mas talvez pudesses ser misericordioso...

 

Roma não está para misericórdias. Agora vai, Gordiano. Enquanto eu saía do compartimento, ele permaneceu imóvel, de braços cruzados, com os ombros muito direitos, olhando através da janela para coisa nenhuma. Imediatamente antes de atravessar a porta, vi-o voltar-se e olhar fixamente para a pequena pilha de moedas de prata que eu deixara em cima da mesa. Os seus olhos brilharam e eu vi o canto da sua boca estremecer e retorcer-se naquilo que poderia ser um sorriso.

 

O átrio estava novamente cheio de convidados, alguns ainda de preto, outros já vestidos de branco para o banquete. Abri caminho por entre a multidão, subi as escadas e dirigi-me ao meu quarto.

 

O pequeno corredor estava deserto e silencioso. A porta do meu quarto estava ligeiramente aberta. Quando me aproximei, ouvi estranhos ruídos no interior. Fiz uma pausa, tentando perceber do que se tratava. Parecia o som de um animalzinho ferido ou o balbuciar destituído de sentido de um idiota a quem tivessem cortado o língua. O meu primeiro pensamento foi que laia realizara nova bruxaria no meu quarto, por isso aproximei-me cautelosamente.

 

Olhei através da estreita abertura e vi Eco sentado diante do espelho, contorcendo o rosto e emitindo uma série de sons bizarros. Parou, analisou-se cuidadosamente ao espelho e recomeçou.

 

Estava a tentar falar.

 

Eu recuei. Inspirei profundamente. Subi um pouco o corredor, depois bati com o cotovelo contra a parede, para fazer um ruído que ele ouvisse. Regressei ao quarto.

 

Encontrei Eco lá dentro, já não diante do espelho, mas rigidamente sentado na cama. Ele olhou para mim quando eu entrei e sorriu de través, depois estremeceu e olhou rapidamente pela janela. Vi-o engolir e erguer a mão para tocar na garganta, como se lhe doesse.

 

Os guardas de Crasso foram substituir-te na casa dos barcos?- disse eu.

 

Ele acenou com a cabeça.

 

Óptimo. Olha, aqui estão os nossos trajos brancos para o banquete, já preparados. Vai ser uma festa sumptuosa.

 

Eco acenou com a cabeça. Voltou a olhar pela janela. Os seus olhos estavam ardentes e brilhantes. Mordeu o lábio, pestanejou e inspirou profundamente. Brilhou na sua face qualquer coisa molhada, mas ele limpou-a rapidamente.

 

O banquete teve lugar em três grandes salas ligadas umas às outras, situadas ao longo da ala leste da casa, todas elas com vista para a baía. Os convidados entraram nas salas como uma onda de espuma branca do mar. O zumbido da multidão nas salas de tectos altos fazia lembrar o suave bramir do oceano.

 

Como sua última tarefa, o mestre-de-cerimónias distribuiu os lugares, mandando um escravo indicar o seu lugar a cada convidado. Crasso, resplandecente de branco e ouro, sentou-se na sala mais a norte, rodeado por Fábio, Múmio, Orata, e pelos mais importantes homens de negócios e políticos de diversas cidades à volta da Taça. Gelina presidia à sala do meio, com Metróbio ao seu lado, rodeada por laia e Olímpias e pelas convidadas mais proeminentes.

 

Na terceira sala, a maior e a mais distante das cozinhas, foram colocados aqueles que, como eu, não pertenciam a nenhuma das outras duas categorias, os sócios mais jovens e os segundos filhos, os restos e os penduras. Eu diverti-me ao ver ser atribuída a Dionísio a nossa companhia; ele recusou-se a sentar-se quando o escravo lhe designou o seu canapé, exigiu em voz baixa falar com o mestre-de-cerimónias, sendo depois sumariamente mandado de volta para o seu lugar, do outro lado da sala, relativamente a Eco e a mim, metido num canto, nem sequer perto da janela. Em circunstâncias normais, o filósofo residente teria ficado sentado junto do dono ou da dona da casa. Suspeitei de que fora Crasso a dar instruções ao mestre-de-cerimónias, para que metesse Dionísio num canto escuro, como uma afronta deliberada. Ele desprezava realmente o filósofo.

 

Dado que era mais perto do meio-dia do que do fim da tarde, Dionísio decidiu beber a sua poção verde antes, e não depois, da refeição. Para mitigar a sua dignidade, chamou a atenção de todos exigindo que ela lhe fosse servida imediatamente, e foi desnecessariamente mal-educado com a jovem escrava que correu às cozinhas para ir buscar-lha. Momentos depois, ela regressou com as mãos a tremer e colocou o copo na mesinha diante dele.

 

Eu olhei à volta da sala, para os diversos canapés agrupados em torno de mesinhas. Não vi ninguém conhecido. Eco mostrava-se pensativo e absorto, e não tinha apetite. Eu dediquei-me a mordiscar os acepipes colocados diante de mim e a pensar no que faria durante as horas que ainda me restavam.

 

De onde me encontrava, conseguia avistar o fundo das restantes salas. Se me erguesse apoiado no cotovelo, poderia ver Crasso beberricando o seu vinho e conferenciando com Sérgio Orata. Fora Orata o primeiro a dizer-me que Lúcio Licínio se tornara inexplicavelmente rico; saberia ele mais do que me dissera? Seria ele o sócio oculto envolvido no esquema de contrabando de Lúcio? Com a sua cara redonda e satisfeita consigo própria, não parecia propriamente capaz de matar, mas eu tenho vindo a aperceber-me de que os ricos são capazes de tudo.