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ABRAÇO MORTAL - P.2 / Jackie Collins
ABRAÇO MORTAL - P.2 / Jackie Collins

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ABRAÇO MORTAL

Segunda Parte

 

                   Dani: 1972

- Devolveste-lhe o anel? - exclamou Gemini com estupefacção. - Porquê? - Porque não lhe disse que sim. Logo não havia razão para que eu o aceitasse - explicou Dani.

Estavam nos bastidores preparando-se para entrar: duas jovens mulheres, altas e espectaculares, ambas loiras e com trajes idênticos justos de lantejoulas, penas e rendas, com muita pele à mostra e toucados extravagantes. As duas juntas com as suas longas pernas e grandes seios eram a fantasia de qualquer homem.

- És louca! - disse Gemini, lambendo os lábios extremamente brilhantes. Deves saber que uma rapariga nunca devolve jóias.

- Não podia deixá-lo enganado.

- Pobre criança, tens tanto que aprender.

- E tenho a certeza de que planeias ensinar-me.

- Estou a ver que tenho de o fazer.

Várias outras raparigas acotovelavam-se para assumirem a sua posição. Gemmi e Dani mantiveram-se atrás. Faziam a sua entrada alguns minutos após as dançarinas. Esculturais, deslumbrantes. Encanto total.

- Em que pé ficaram as coisas? - perguntou Gemini.

- Ele tinha de viajar para Houston - disse Dani. - Volta daqui a duas semanas. Disse-lhe que tentaria dar- lhe uma resposta nessa altura. Entretanto, deu-me o nome de um advogado para eu lhe telefonar.

- Então, de que estás à espera? - disse Gemini, dando uma rápida espreitadela ao espelho de corpo inteiro dos bastidores. - Telefona ao homem.

- Vou fazê-lo - prometeu Dani.

Tinha-se debatido com os seus sentimentos todo o dia. Como seria simples dizer sim a Dean, fazer as malas, pegar em Vincent e mudar para Houston.

E, no entanto, algo a retinha. Recusava-se a deixar-se envolver em outro casamento sem amor como acontecera com Sam. Não era justo para Vincent trazer alguém para a sua vida que poderia não ser permanente. Nem se sentia segura de saber o que era o amor. Murmurara as palavras apenas uma vez na sua vida, a Michael.

Ah... Michael. Uma noite mágica do seu passado, em que ainda não era mais do que uma criança. No entanto, por muito que tentasse, não conseguia esquecê-lo. Como poderia fazê-lo, com Vincent ali para a levar a recordar?

Na manhã seguinte, ela e Gemini fizeram exercício no ginásio, bem diferentes das criaturas deslumbrantes e intocáveis da noite anterior: não tinham maquilhagem, usavam o cabelo num simples rabo-de-cavalo e vestiam roupas desportivas. Manter uma forma perfeita era uma parte essencial do seu trabalho e ambas se afadigavam arduamente nisso.

- Acreditas no amor? - perguntou Dani, enquanto levantava pesos. Gemini acenou afirmativamente, enquanto finalizava uma série de sofridos abdominais.

- Sim, mas nunca deves confundir paixão com amor - disse, agarrando uma toalha. - Infelizmente, a paixão nunca dura. Quando casei com o pai de Nando, Moralis, ele era o homem mais apaixonado que eu já conhecera. Não conseguia respirar quando estava com ele, dei comigo a pensar nele dia e noite.

- Foi assim que me senti com Michael - suspirou Dani, pousando os pesos e dirigindo-se à passadeira.

- Não me parece que seja a mesma coisa - respondeu Gemini. - Afinal, apenas estiveste com Michael durante quê? Um dia, uma noite?

- Eu sei, mas nunca tive sentimentos como aqueles, antes ou depois - disse Dani, com ar sonhador. - E a maneira como fizemos amor...

- Foi a tua primeira vez - realçou Gemini. - Não estavas propriamente em posição de saber se ele era um bom amante ou não.

- Ele era bom - disse Dani, recordando cada detalhe.

- Eis o que tens a fazer - disse Gemini. - Sai com vários homens diferentes, arranja um termo de comparação.

Dani abanou a cabeça.

- Ia sentir que estava a ser infiel a Dean.

- Infiel! - exclamou Gemini. - Nem sequer lhe aceitaste o anel.

- Isso é verdade, mas não posso encontrar-me com outros homens. Não pareceria correcto.

- Então, é melhor que cases com Dean - disse Gemini, exasperada. - É o meu conselho.

Alguns dias depois, Dani encontrou-se com o advogado que Dean tinha recomendado. Gemini acompanhou-a para lhe dar apoio moral. O nome do advogado era Morgan Spelling Jones e era um indivíduo exuberante. Na casa dos cinquenta, tinha uma tez rosada, um riso vigoroso e mãos grandes, suaves e bem cuidadas, um texano com uma voz extremamente alta, usava um enorme chapéu de cowboy com um formal fato branco-sujo e botas de couro trabalhado. O aspecto era, no mínimo, excêntrico.

- Este deve ser o meu dia de sorte - disse ele, mirando as duas mulheres enquanto elas entravam no seu escritório. - Nosso Senhor certamente sorriu-me esta manhã para que entrassem duas tais belezas nos meus domínios.

- A Sr a Castle está aqui por causa do seu divórcio - disse Gemini, sentando-se numa cadeira em frente à secretária e cruzando as suas longas pernas.

- E a Sr. a Castle terá o seu divórcio - disse Morgan, com o seu olhar demorando-se nas pernas de Gemini. - Isso se eu tiver alguma coisa a ver com o assunto.

- Dean King recomendou-me que o procurasse - disse Dani, sentando- se na cadeira ao lado da de Gemini.

- Recomendou, sim, e falou muito bem de si, minha menina. Agora – disse ele, pegando numa dispendiosa caneta de ouro da sua imensa secretária com tampo revestido a pele e segurando-a sobre um bloco de apontamentos amarelo -, sugiro que me conte todos os detalhes sórdidos.

- Que achaste dele? - perguntou Gemini, mal saíram do seu escritório.

- Parece muito interessante - respondeu Dani.

- Interessante ou competente?

- Ambas as coisas.

- Hmm... - disse Gemini. - Não achas que a combinação do chapéu de cowboy e das botas lhe emprestavam uma certa... sensualidade?

Dani riu-se.

- Estás a brincar?

- Não - disse Gemini, com um meio sorriso. - Gosto de um homem que tem... espírito.

Gemini gostou tanto dele que começaram a encontrar-se, e, no espaço de seis semanas, casaram-se. Foi um namoro bastante rápido; e do qual Dani se sentiu como fazendo grande parte, dado que fora responsável pelo conhecimento entre eles.

Dean veio para o casamento, que teve lugar no enorme rancho de Morgan, a alguns quilómetros da cidade.

Verificou-se que Morgan Spelling Jones era rico, mesmo muito rico. Um advogado de sucesso, também herdara uma antiga fortuna financeira dos seus falecidos pais. Gemini não sabia disso. Apaixonara-se pelo seu estilo e não lhe importava nada que ele fosse quase trinta anos mais velho. Ela importava-se com Nando e, felizmente, ele e Morgan entendiam-se bem, o que era óptimo para Dani porque significava que Vincent também passava algum tempo no rancho - andando a cavalo, nadando e fazendo montes de jogos ao ar livre. Ele e Nando eram inseparáveis.

O único aspecto negativo era que, estar fora da cidade no rancho de Morgan, lembrava a Dani a sua infância e Dashell. Que sorte tivera ela em ter escapado. Que lhe teria reservado o futuro se não o tivesse conseguido?

Por vezes, perguntava a si mesma. Havia muitas noites em que ainda tinha pesadelos assustadoramente vívidos. E frequentemente pensava em regressar e procurar a sepultura da sua mãe.

Decidia sempre que não, não seria um gesto saudável. O passado era apenas isso. Esquecer era uma verdadeira liberdade.

- Agora é a tua vez - sussurrou Gemini a Dani no casamento. - Se eu posso dar este passo, tu também podes.

Dean andava a pressionar. Ela continuava hesitante.

- Pelo menos dorme com ele - insistia Gemini. - Para ver se são compatíveis na cama.

Era isso que lhe cabia fazer?

Sim. Porque era isso que todos os outros faziam.

O sexo era o grande tópico de conversa nos bastidores; uma das raparigas tinha até dormido com Frank Sinatra, o que fizera dela a heroína da semana.

A verdade era que o sexo não interessava a Dani; ela encerrara essa parte da sua vida. O sexo só trazia problemas; sabia isso demasiado bem.

Morgan falara com o advogado de Sam diversas vezes.

- O homem é especialista em negócios duvidosos - disse a Dani. - Sam não fez quaisquer exigências para ver o rapaz. Tudo o que ele quer é dinheiro, papel, muita massa.

- Quanto? - perguntou ela, desapontada por ver Sam chegar tão baixo.

- Estão a exigir uma pensão; ou, em alternativa, um pagamento único de cinquenta mil dólares.

- Cinquenta mil - disse ela, estupefacta. - Onde é que eu vou arranjar tanto dinheiro?

- Não é necessário pagar nada, Dani - explicou Morgan. - No entanto, minha querida, é a única forma garantida de o remover permanentemente da sua lista de preocupações. - Uma pausa. - Isso ou contratamos alguém para o arrumar.

- O Quê - sobressaltou-se ela, horrorizada.

- Brinco, minha querida, brinco.

Dean veio em seu socorro. Sem a consultar, reuniu-se com Morgan e pagou os cinquenta mil.

Uma semana depois, ela dormiu com ele.

Dormir com Dean não foi a pior coisa do mundo. Ele era terno e atencioso e fazia as coisas devagar. Mas Dani não conseguia superar a sensação de que estava a fazer aquilo apenas porque ele pagara o dinheiro para afastar Sam.

Sentiu-se como uma pega. Uma pega muito bem paga, mas ainda assim uma pega.

Dean estava em êxtase.

- Isto decididamente significa que vamos casar - exultou ele, fazendo aparecer o anel novamente.

- Significa que... que estamos noivos - disse ela, enquanto ele fazia deslizar o magnífico diamante no seu dedo.

- Nunca te arrependerás disto, querida, nunca! - assegurou-lhe ele, radiante.

- Quando puderes tirar alguns dias de folga, levo-vos, a ti e a Vincent, a Houston, para verem a minha casa. Fica ao vosso dispor para fazerem o que quiserem.

- Isso seria óptimo - disse ela, já se sentindo pressionada.

- Talvez devesses deixar o teu emprego - disse ele. - Afinal, não há razão para que trabalhes, agora que estamos juntos.

- Há, sim - disse ela, rapidamente. - Preciso da minha independência, Dean. Um destes dias tenciono pagar-te o dinheiro que deste a Sam.

- Pensa nisso desta forma, Dani. Quando estivermos casados, o meu dinheiro é o teu dinheiro. Portanto, que diferença faz?

- Para mim faz diferença - disse ela, calmamente. - Esta é uma dívida pela qual devo ser eu a responsável.

- Depois vemos - disse ele, pouco preocupado com o dinheiro. - Estou a planear a nossa festa de noivado. Começa a fazer uma lista.

Ela acenou afirmativamente e decidiu que, uma vez que aquele era obviamente o seu futuro, mais valia começar a sentir-se feliz com ele.

 

                   Michael: 1972

Percorrendo os jornais com o olhar, Michael teve muita dificuldade para encontrar qualquer menção à morte de Roy. Finalmente, vinte e quatro horas depois, descobriu um pequeno texto escondido no fundo da página três.

Homem baleado no Central Park. Atacante desconhecido.

Quando se preparava para o ler, Beth entrou na cozinha a caminho do instituto de moda. Pousou rapidamente o jornal e pegou na sua caneca de café.

- Quais são os nossos planos para hoje? - perguntou ela, vestida para matar, comjustasjeans pretas, uma blusa camponesa sem ombros e chinelas de tacão alto.

- Tenho uma reunião após o almoço, mas depois disso sou todo teu.

- Michael - disse ela, inclinando a cabeça com um olhar inquisitivo -, que é que tufazes exactamente?

- Um bocadinho disto, um bocadinho daquilo - respondeu ele evasivamente, bebendo um golo de café.

Não era a primeira vez que ela tentava descobrir o que ele fazia. Quando se tinham encontrado pela primeira vez, ela questionara-o incessantemente até ele a avisar que esquecesse o assunto. Anteriormente, já decidira que, quanto menos Beth soubesse dos seus negócios, melhor. Especialmente, não queria que ela soubesse acerca de Warner Carlysle e dos investimentos - os quais estavam a correr tão bem que talvez se pudesse retirar em breve do grupo de Gus e concentrar-se nas suas próprias coisas.

- Isso é o que tu dizes sempre.

- Acredita, tu não queres saber; é um aborrecimento.

- Desde que tragas o dinheiro para casa, suponho que não me devo preocupar

- disse ela, atirando para trás os seus longos cabelos negros. - Embora eu detestasse que voltasses a ser preso. Deve ter sido horrível.

Obviamente, Tina e Max tinham andado a contar-lhe coisas, o que não lhe agradava.

- Onde está Madison? - perguntou ele, mudando de assunto.

- Catherine levou-a ao parque. Mais tarde vamos ao Jardim Zoológico. Por que não vens connosco?

- Já te disse, tenho uma reunião - disse ele, levantando-se e dando-lhe um grande abraço, passando os braços em volta do seu esguio corpo até ela mal conseguir respirar.

- Para que foi isso? - arquejou ela.

- Algo para que te lembres de mim durante o dia.

- Oh - disse ela, com um ligeiro riso. - Que romântico.

- Consigo ser romântico quando quero - disse ele, sorrindo.

- Eu sei - disse ela, calorosamente. - E gosto disso.

- Gostas?

- Sim, Michael. Gosto.

Ela era inteligente, espevitada e sexy e, apesar de ser muito jovem, tinha uma alma amadurecida. Ele estava decididamente a apaixonar-se a sério. Uma surpresa. Mas uma em que ele estava decididamente empenhado.

- Estive a pensar, Beth - arriscou ele.

- Sim? - disse ela, com os seus brilhantes olhos castanhos alerta.

- Lembras-te de quando, antes de termos a Madison, falámos em casamento?

- Nós não falámos, tu falaste - disse ela vincadamente.

- Está na hora.

- De quê?

- De planear um casamento.

- Oh, não, não, não - disse ela. - Isso não é para mim.

- Então, querida - disse ele, persuasivamente. - Temos que pensar na Madison.

- Madison é uma bebé muito feliz.

- Eu sei. Mas tens que pensar nisso.

- Porquê?

- Porquê o quê?

Jesus! Ela conseguia ser muito teimosa.

- Ei - disse ele -, eis as boas notícias. Se não gostares de estar casada, podemos sempre divorciar-nos.

Ela suspirou e inclinou a cabeça para um dos lados.

- És engraçado, Michael.

- Tu ainda és mais engraçada - contrapôs ele. - És a única mulher que conheço que não se quer casar.

- Nesse caso, devias estar aos saltos de alegria.

- Não estou - disse ele, exasperado. - Porque decidi que te vais casar comigo, quer queiras, quer não.

- Vou?

- Sim.

- Isso é uma ordem?

- Podes ter a certeza.

- Está bem - disse ela, submissamente.

- Está bem o quê? Casas-te?

Ela sorriu.

- Depois digo-te.

- Dizes, é?

- Talvez.

- Que mulher!

- Oh, Michael - disse ela com um grande e largo sorriso -, finalmente chamaste-me mulher. Afinal, acho que me vou casar contigo.

- Assim é que és a minha menina!

- Não - corrigiu-o ela, ainda sorrindo. - Assim é que sou a tua mulher!

Na maior parte das tardes, Michael ficava pelo clube local com alguns dos amigos. Jogavam póquer ou bilhar, sentavam-se a ver desporto ou corridas de cavalos na televisão, faziam algumas apostas e bebiam uma cerveja ou duas.

Naquele dia específico, Michael sentia-se desconfiado. Sabia que Bone tinha que suspeitar que fora ele que eliminara Roy. Afinal, Bone revelara os detalhes do crime que tirara a vida à sua mãe e duas semanas depois Michael entrara em acção. Não era preciso ser génio para associar as coisas.

Mas Bone não estava lá e mais ninguém disse uma palavra acerca da morte de Roy.

Quando saiu, por volta das cinco, apercebeu-se de dois homens parados junto a um Cadillac preto estacionado do outro lado da rua. Sentindo que o estavam a observar, atravessou casualmente a rua e passou junto a eles. Não ficou surpreendido quando o fizeram parar.

- Michael Castellino? - perguntou um deles.

- Sim? - disse ele, reconhecendo o homem, do dia em que tentara encontrar-se com o Sr. G.

- O Sr. Giovanni quer ver-te.

- Agora?

- Sim, agora. Vamos.

Subiu para o assento traseiro do Cadillac. Estava apreensivo, mas o que lhe poderia fazer o Sr. G. Não havia nada que o ligasse ao assassínio de Roy. Livrara-se da arma, metera-a num saco plástico de lixojuntamente com alguns tijolos e atirara-a ao East River.

Nunca fiques com a arma depois de despachares alguém", martelara- lhe Chronicle. Sai mais barato comprar uma nova do que ficar com algo que te pode incriminar.

Bom conselho. Ele seguira-o.

Nenhum dos homens disse uma palavra enquanto se dirigiam à casa de Vito Giovanni.

Mal chegaram, ele saiu do carro e subiu os degraus por si mesmo. Outro homem abriu-lhe a porta e acompanhou-o para o interior.

Michael não via Vito Giovanni havia cinco anos. O homem envelhecera. Outrora tão janota nos seus bons casacos de caxemira e esvoaçantes lenços de seda, estava agora mais velho e grisalho, com óculos de lentes grossas e uma má dentadura postiça excessivamente branca.

- Mike - disse Vito, dando-lhe uma palmada nas costas. - Olha só para ti, todo crescido.

- Pois - disse ele, cautelosamente. - Todo crescido.

- É bom ver a tua cara feia. Vai um copo?

- Pode ser um Jack.

- Pode ser um Jack - repetiu Vito. - Apanhaste o calão. Todo fixe, todo bonitão. Não perdeste o bom aspecto, ficaste melhor.

- Obrigado - disse ele acanhadamente, perguntando a si mesmo que raio estava a fazer ali.

- Ei, Luigi - chamou Vito. - Arranja um Jack Daniel com gelo para Michael e outro para mim também. - Voltou-se de novo para Michael. - E a bebida favorita do Sinatra. Tive o prazer de conhecer o homem há uns meses. Mas que curtido. Um tipo à minha maneira.

Michael não apreciava Sinatra, preferia Elvis ou os loucos sons da salsa de Beth.

- Deves estar a pensar por que é que te chamei aqui - disse Vito, acendendo um grande e grosso charuto com um isqueiro de ouro maciço.

- Sim.

- Tenho alguém que quer falar contigo.

- E quem seria?

- Outro antigo conhecido teu - disse Vito, estalando os dedos para que Luigi abrisse a porta.

Luigi fê-lo e entrou Mamie. Que visão!

Cabelo liso amarelo com raízes negras de uma polegada, olhos vermelhos inchados, ligeiramente mais pesada e ainda vestida como uma adolescente, com a sua curta saia de cabedal, camisola justa cor de laranja e saltos de prostituta. Michael olhou-a com desprezo. Agora que sabia a verdade, odiava-a.

- Provavelmente, ouviste que Mamie e eu já não estamos juntos – explicou Vito, lançando uma baforada do seu charuto. - No entanto, dado que Mamie foi minha mulher durante muitos anos, mantenho o respeito, e se ela vem ter comigo com um problema, isso significa que eu tenho um problema. Capisce?

Michael acenou afirmativamente, perguntando a si mesmo onde ia levar aquela conversa.

- Então, sabes - continuou Vito, sentando-se na sua cadeira de braços favorita -, Mamie tem um grande problema.

- Tem?

- Tu sabes - disse ela furiosamente, lançando um olhar feroz a Michael. - O meu primo Roy. O meu melhor amigo. Ele e eu éramos como irmão e irmã.

- Alguém despachou Roy - disse Vito, tão indiferentemente como se estivesse a falar de uma carteira perdida. - E corre o boato de que esse alguém podes ter sido tu.

- Por que faria eu uma coisa dessas? - disse Michael, assegurando-se de que a sua expressão se mantinha vazia.

Luigi aproximou-se e deu-lhe a bebida. Ele bebeu um golo. Estava a precisar. Vito soltou um suspiro cansado.

- Deixa-me contar-te a história que corre por aí - disse. - Parece que há muitos anos a tua mãe foi baleada num assalto e as pessoas andam a dizer que tu poderás ter pensado que Roy teve algo a ver com isso, e daí despachaste o sacaninha.

Mantendo o rosto inexpressivo, Michael não disse nada.

- É a primeira vez que ouço isto - continuou Vito, sorvendo a sua bebida. A minha mulher - acrescentou, apontando para Mamie, que estava agora afundada no sofá, mantendo o olhar feroz apontado a Michael - vem ter comigo, histérica. Olha só para ela.

Michael olhou de frente para Mamie, com os olhos a enviarem-lhe uma mensagem. Sim, alvejei Roy. E fá-lo-ia de novo se tivesse oportunidade.

- Roy era tudo para mim - choramingou ela. - Quero a pessoa que o matou. Quero vingança.

- Sei como se sente - disse Michael, reprimindo o impulso de lhe cuspir na cara, excessivamente maquilhada. - Eu gostava de me vingar do assassínio da minha mãe. - Fez uma longa pausa, com os seus pensamentos em ebulição. Como se espalhara a história tão depressa depois de todos aqueles anos de silêncio? Seria Bone o responsável? E, se sim, porquê? - E já que estamos a falar do que se conta na rua - continuou ele, decidindo tentar a sua sorte -, ouvi dizer que você pode ter tido algo a ver com esse assalto. Tretas, Mamie? Ou a verdade?

Ela lançou um olhar rápido ao marido.

- Onde ouviste isso? - perguntou, estreitando os olhos pintados de vermelho. Agora era a vez de Vito olhar para ela.

- Tiveste alguma coisa a ver com isso, Mamie? - perguntou ele. - Porque se tiveste, é melhor confessares tudo.

- Não - disse ela, aparentando culpa.

- Não parece ajustar-se? - disse Michael, cortando a direito. - Você andava com o meu pai. Depois ele conheceu a minha mãe, engravidou-a, casou com ela e, logo a seguir, alguém assalta a loja. Os jornais disseram que a Polícia procurava uma mulher loira e dois homens.

- Mamie - disse Vito, com a voz a endurecer -, é melhor dizeres-me já a puta da verdade.

- Vim cá para te pedir ajuda, não para sofrer um interrogatório policial deste miúdo vadio - cuspiu ela, cheia de veneno.

Vito riu-se subitamente.

- Foste tu, não foste? - disse ele, incredulamente. - Foste mesmo tu.

- Não, não fui eu - disse ela, por entre dentes.

- Ah, sim, foste! - disse ele, apagando o charuto e levantando-se. - Nunca foste boa a mentir. Que aconteceu, foi Roy que puxou o gatilho?

- Não foi Roy - disse ela, rancorosamente, deixando sair o veneno. - Roy não sabia usar uma arma. Foi Bone que matou a vagabunda e só porque ela tentou atacá-lo. Teve de o fazer. Foi em defesa própria. Aí tens! - Olhou ferozmente para Michael. - Satisfeito?

Ele reprimiu um desejo de lhe esborrachar a cara.

- Sua cabra doente! - disse. - Como é que consegues viver contigo mesma?

- Então, é esse o agradecimento que tenho por tomar conta de ti todos estes anos - disse ela, de rosto contorcido pela fúria.

- Não tomou conta de mim. Usou-me para se tentar livrardo seu sentimento de culpa.

- Falhado mal-agradecido! - gritou ela. - És exactamente como o inútil do teu papá. São ambos falhados!

- Jesus Cristo, Mamie! - exclamou Vito, indignado. - Põe-te já no caralho.

- Estalou os dedos. - Luigi, leva-a a casa.

- E que vais fazer com ele? - perguntou ela, apontando para Michael e levantando a voz. - Ele assassinou o meu Roy. O meu próprio primo. Não o vais deixar safar-se com isso, pois não?

- A vingança é uma coisa estranha e maravilhosa - disse Vito. - Arranja sempre maneira de voltar e nos vir morder no cu.

- Vais pagar por isto - gritou Mamie para Michael, enquanto Luigi a agarrava pelo braço e começava a puxá-la para fora da sala. - Vais pagar bem.

- Mulheres; nunca se pode confiar nelas - disse Vito, mal ela saiu.

- Desculpe... - começou Michael.

Vito levantou a mão.

- Não peças desculpas. Fizeste o que achaste certo. Só que agora é melhor tratares de Bone. - Riu-se secamente. - Talvez tenhas arranjado um novo trabalho.

- E que trabalho seria esse?

- Queres ser um matador a soldo? Ganha-se bem.

- Não é isso que eu faço - disse Michael devagar.

- Ficas feliz em ser apenas parte de um grupo na familia Lucchese, é? - disse Vito, agitando a sua bebida.

- Não tenho razões de queixa - disse ele, sem intenção de revelar o seu outro lucrativo negócio.

- Estive a pensar que talvez quisesses trabalhar para mim novamente - disse Vito. - Houve uma altura em que tinha grandes planos para ti.

- Foi o que eu pensei - disse Michael. - Por isso logo que saí da choça vim ter consigo. Problema. Disseram-me que tinha de marcar entrevista com seis semanas de antecedência.

- Não soube nada disso.

- Eu teria voltado para trabalhar consigo, apesar de terem sido Tommaso e Roy a prepararem-me a cilada.

- Eles?

- Você deve ter sabido disso.

- Merda, não!

Michael não tinha a certeza se acreditava nele ou não.

- Afinal, onde está Tommaso? - perguntou.

- No hospital - disse Vito. - O desgraçado foi apanhado num fogo cruzado. Michael acenou com a cabeça. Duas semanas antes lera no jornal acerca de um tiroteio à porta de um salão de jogo. Aparentemente, o atirador não acertara em Vito e a bala atingira Tommaso no ombro. Pena não ter sido um tiro fatal.

- Então, que dizes? - disse Vito. - Queres voltar?

- Faço bom dinheiro onde estou.

- Farás ainda mais comigo.

- Sempre gostei de estar perto de si, Sr. G. Sentia uma lealdade. O caso é que, quando não consegui chegar perto de si, isso incomodou-me.

- Lealdade - disse Vito, esfregando as mãos uma na outra -, isso é que é importante. Quando se tem poder, é preciso ter pessoas que nos protejam as costas. Pessoas que se preocupem.

Michael demonstrou a sua concordância acenando com a cabeça.

- Queres pensar nisso? - disse Vito.

- Vou fazê-lo.

- Óptimo, óptimo. Só que não me faças esperar. Não sou um homem paciente.

Havia algo que Michael tinha que fazer e, por muito que o receasse, apanhou um avião e viajou para Miami, onde o seu pai montara residência num apartamento junto ao mar. Sabia exactamente onde Vinny estava a viver, acompanhara-o à distância ao longo dos anos, embora não se tivessem falado desde que Vinny fizera as malas e o deixara com trezentos dólares e mais nada.

Quando disse a Beth que estava a planear visitar o pai, ela rogou- lhe que a levasse com ele.

- Não - disse ele. - Não é necessário.

- Oh, sim, Michael, por favor! - disse ela, lançando os braços em volta do pescoço dele. - É necessário. Miami, o sol. A música. A comida. - Uma longa e significativa pausa e depois aquele sorriso sedutor dela. - O sexo.

- Não, Beth - disse ele, firmemente. - Ficas cá.

- Ele sabe acerca de Madison? - perguntou ela, jogando a cartada da família.

- Certamente ia gostar de vê-la. Afinal, é avô dela.

- Vinny não é do tipo avô. Ele... tu sabes, tem mau feitio. Além do mais, não quero que ele saiba nada acerca de Madison.

- Isso não é justo - disse ela, amuando. - Eu quero ir a Miami. É um lugar fixe, vai dar-me inspiração para os meus desenhos.

- Lamento, querida. Justo ou não, vais ter de viver com isso.

- Vai-te foder, Michael! - disse ela, de olhos castanhos faiscando em sinais de máximo perigo.

Uma coisa não se podia negar, Beth tinha decididamente espírito. E cá uma boca. Era completamente diferente de qualquer mulher que ele já tivesse conhecido e amava-a por isso.

- Estarei de volta esta noite - disse ele. - Não esperes acordada.

- Como se eu fosse esperar acordada - disse ela, desdenhosamente. - Eu vou sair. Catherine fica com a bebé.

- Por que é que não podes ficar em casa?

- E por que hei-de fazê-lo? Tu vais estar em Miami sem mim.

- Que tem isso a ver com o assunto? Eu vou encontrar-me com o meu pai.

- Eu sei, Michael, logo, enquanto tu estás lá, eu vou até à cidade com amigos. Afinal, como tu realçaste, não somos casados.

Por que se sentiria ele subitamente ciumento?

Havia algo em Beth que o fazia querê-la só para si.

Miami estava quente e húmida. Michael apanhou um táxi no aeroporto directamente para o apartamento de Vinny. Parou à porta de um antigo e sólido edifício pintado de rosa- pálido. Pagou ao taxista e entrou para um bafiento vestíbulo. Depois, meteu-se no elevador, que cheirava a couve muito cozida e mijo seco de gato. Subiu chiando lentamente até ao terceiro andar, onde Michael saiu e bateu à porta do apartamento de Vinny. Ficou espantado quando uma mulher abriu a porta.

- Sim? - disse a mulher, num tom pouco amistoso. Estava na casa dos quarenta e era magra, com cabelo castanho liso e um longo nariz. Usava uma velha bata florida e chinelos felpudos, que já tinham sido cor-de-rosa, nos pés.

- Procuro Vinny Castelino - disse ele, perguntando a si mesmo se o endereço estaria correcto.

- Não é o único - disse ela, incisivamente.

- Desculpe?

- Se vem para cobrar uma dívida, está com azar. Ele ficou falido a semana passada, portanto, ponha-se a mexer.

Não era exactamente aquela recepção que ele esperava.

- Eu sou Michael - disse, rapidamente, bloqueando a porta com o pé antes de ela lha fechar na cara. - Filho de Vinny.

- Ah - disse ela. - Nesse caso... tem algum dinheiro? Porque o seu pai está sem cheta.

- Como pode ele estar sem cheta? Vendeu a casa e a loja. Deve ter muito dinheiro.

- Contas do médico - disse ela, vagamente. - Tretas dessas. - Um suspiro cansado. - E depois há o jogo.

- Jogo?

- Um homem tem que ter algum prazer na vida, não tem?

- Ele está em casa?

- É melhor entrar - disse ela, abrindo a porta para trás.

O apartamento tinha bastante luz. Tanta que ele imediatamente se apercebeu de espessas camadas de pó sobre todas as superfícies e de um caleidoscópio de nódoas que decoravam o grosso tapete. Uma grande varanda dava para o oceano.

Vinny estava sentado na varanda, na sua cadeira-de-rodas, com uma televisão portátil empoleirada no seu colo e um sarnento gato cor de laranja enroscado junto aos pés.

Michael aproximou-se cautelosamente.

- Pai - disse, com a palavra quase a colar-se à sua garganta.

Vinny voltou a cabeça. Nem um lampejo de surpresa cruzou o seu rosto outrora atraente.

- Ouvi dizer que estavas na prisão - disse bruscamente.

Bonita recepção. Michael não esperara outra coisa.

- Não me surpreendeu - continuou Vinny. - A tua avó sempre disse que não ias ser boa peça. Tentei manter-te no bom caminho. O problema era que não davas ouvidos a ninguém.

- Vim cá para falar contigo.

- Acerca de quê?

Michael olhou para a mulher que vagueava junto à porta da varanda, desejosa de ouvir cada palavra.

- Isto é pessoal - disse ele. - Importa-se?

- Desaparece! - disse Vinny, acenando-lhe para que se afastasse. Ela marchou para o interior da casa.

- A tua, ah, amiga disse que ficaste falido recentemente.

- Não me digas que vieste cá à procura de dinheiro!

- Tu é que levaste todo o dinheiro e me deixaste com uma porcaria de trezentos dólares e estás surpreendido por eu me ter metido em sarilhos? - disse ele, calorosamente. Depois percebeu que se estava a afastar do seu caminho e não era essa a sua intenção. - Não - disse, decidido a esquecer ressentimentos antigos. Não é por isso que estou aqui.

- Então fala, filho.

Tacteou o bolso em busca de um cigarro e acendeu-o.

- Nunca me disseste exactamente o que se passou naquela noite.

- De que noite estás a falar? - perguntou Vinny, olhando-o de lado.

- A noite em que a mãe foi alvejada. Vinny mexeu na antena da televisão.

- Que é que falta dizer? - disse por fim.

- Muita coisa - disse Michael. - Preciso de saber os detalhes.

- Já te contei tudo.

- Não, não contaste. Eu perguntei- te e tu nunca quiseste falar no assunto. Nem a avó.

- Que há assim de tão importante que queiras saber agora?

- Tenho as minhas razões.

- Não sei por que hei-de voltar a isso outra vez - resmungou Vinny. - Não quero. Não tenho que o fazer.

Michael pousou o seu cigarro num velho cinzeiro de lata sobre uma frágil mesa, meteu a mão ao bolso e tirou-a com um maço de notas. Contou dez notas de cem dólares.

- Pega - disse, oferecendo o dinheiro a Vinny. - Talvez isto te ajude a recordar.

- Onde arranjaste tu tanto dinheiro? - perguntou Vinny, desconfiadamente.

- Assaltei um banco - disse Michael, fingindo seriedade. Uma pausa. - A sério, pai, é legal. Tive sorte na Bolsa.

- Que é que tu sabes dessas coisas?

- Bastante - disse Michael, ficando impaciente. - Queres o dinheiro ou não? Vinny não pôde resistir. Após uma hesitação momentânea, agarrou-o, enfiou-o no bolso das calças e começou a falar.

- Eu estava sozinho na loja quando entraram dois vadios que me começaram a empurrar. Um deles encostou uma arma à minha cabeça enquanto o outro tirava o dinheiro da caixa registadora.

- Continua - disse Michael, encorajando-o.

- Depois entrou Anna Maria - continuou Vinny. - Era suposto ela estar em casa. Estava a nevar, ela tinha flocos de neve no cabelo e no casaco. Seja como for, quando ela viu o que se estava a passar, atirou-se ao que tinha a arma. - Uma longa pausa enquanto evocava memórias daquele dia fatídico. - Gritei-lhe para que não o fizesse, mas ela fê-lo mesmo assim. - Outra longa pausa. - Depois, o sacana alvejou-a. - A sua voz começou a tremer. - Tentei salvá-la, era demasiado tarde. Eles dispararam também contra mim, pegaram no dinheiro e fugiram.

- Fala-me deles.

- Que é que têm?

- Eram altos? Baixos? Gordos? Magros?

- Um era mais baixo, o outro era um sacana alto. Vi-os suficientemente bem. Descrevi-os aos polícias. Nunca os apanharam.

- Qual deles tinha a arma?

- O alto e magricela com olhos de louco e uma longa e fina cicatriz na cara. Maldição! Vinny acabara de descrever Bone.

- Tens a certeza?

- Claro que tenho a certeza. Nunca esquecerei aquela noite.

Então, por uma vez, Mamie dissera a verdade. Era Bone o atirador. Era Bone o responsável pela morte da sua mãe e pelo facto de Vinny estar numa cadeira-de-rodas. Cristo! Matara o homem errado.

- Porquê tudo isto? - perguntou Vinny. - Por que é que estás a remexer em algo que eu tento esquecer?

- Lembras-te de Mamie, a tua antiga namorada?

- Quem?

- Mamie. Casou com Vito Giovanni. Apareceu no funeral da avó e chateou-te.

- Ah, sim -. disse Vinny, franzindo o sobrolho. - Aquela vadia.

- Ela estava com eles nessa noite. Um dos homens era o seu primo Roy.

- Estás a inventar isso - disse Vinny, empalidecendo.

- Não, não estou. É algo que descobri recentemente. Mamie estava à espera na rua. Foi ela que planeou tudo.

- Aquela puta miserável - gritou Vinny.

- Não te preocupes, estou a tratar do assunto.

- Como é que vais fazer isso?

- É preferível que nunca venhas a saber.

 

                   Dani: 1972

Vincent era uma criança séria e bonita, com as suas longas e sedosas pestanas pretas e os seus profundos olhos verdes. Era também esperto - com dois anos conseguia recitar o alfabeto e contar até cem em inglês e espanhol. Nando também era esperto. De resposta rápida e muito vivo, recusava-se a levar alguma coisa a sério. Gostava de explorar, experimentar e meter-se em sarilhos. Os dois juntos equilibravam-se mutuamente. Eram tão chegados como irmãos e, apesar de terem apenas sete anos, exibiam uma feroz lealdade mútua.

Na escola, Vincent distinguia-se, enquanto Nando ficava para trás. Por vezes, Dani receava que Nando pudesse ser uma má influência para o seu filho. Não fazia nada sobre isso: os rapazes eram tão chegados que seria injusto tentar separá-los.

Pouco tempo depois de se casar com Morgan, Gemini deixou o seu emprego no Hotel Magiriano. Dani ficou perturbada; sabia que ia sentir a falta de estar com a sua amiga todas as noites.

Continuaremos a encontrar-nos durante o dia, prometeu Gemini. Excepto quando estivermos a viajar. Morgan adora viajar e eu tenho de estar disponível para ir com ele. "

Fizeram um acordo segundo o qual, sempre que Gemini estivesse fora, Dani tomaria conta de Nando.

Sexta-feira de manhã, Gemini e Morgan partiram para um fim-de-semana prolongado em Chicago, deixando Nando com Dani a caminho do aeroporto.

Mais tarde, nesse dia, Dani levou os dois rapazes à área infantil do parque. Sentou-se no banco de jardim vendo Nando a exibir-se, tentando equilibrar-se sobre a cabeça no carrossel; algumas das crianças mais pequenas que brincavam na caixa de areia gritavam de alegria.

Os rapazes começavam a ficar demasiado crescidos para as actividades do parque: preferiam ir para o rancho onde podiam montar a cavalo e correr livremente.

Dani não se apercebeu do homem que se aproximava até que ele parou mesmo ao lado dela.

- Desculpe - disse ele, sobressaltando-a.

Ela olhou para cima. Era um homem elegante, bastante atractivo, vestido com jeans, um casaco desportivo azul e uma camisa branca aberta no pescoço. Tinha cabelo loiro-escuro que se encaracolava no pescoço, um queixo com barba e olhos turvos e vagamente raiados de sangue. Não parecia americano.

- Posso ajudá-lo? - perguntou ela.

- Você é Dani Castle, não é assim? - disse, num sotaque estrangeiro dificilmente detectável.

- Exacto - disse ela, pensando que ele devia reconhecê-la do espectáculo e lhe ia pedir um autógrafo.

- Você tem algo que me pertence - disse ele, fazendo estalar os nós dos dedos.

- Tenho? - disse ela, olhando em volta para ver se havia alguém que pudesse vir em seu auxílio se ele tivesse alguma reacção amalucada. Por vezes, isso acontecia com os admiradores, embora este homem não parecesse sê-lo. - E o que é?

- O meu filho - disse ele.

- O seu filho? - repetiu ela.

- Sou Moralis - disse ele, com o olhar percorrendo o parque infantil. Ex-marido de Gemini. Estou certo de que ela a informou acerca do sacana que eu sou.

Na realidade, Gemini dissera muito pouco acerca de Moralis, excepto que era o filho de um homem extremamente rico, que a maltratava moral e fisicamente, e que depois de concretizado o seu divórcio ambos tinham concordado em não se voltarem a ver. Agora ali estava ele.

Sem ser convidado, sentou-se ao lado dela e começou a contar-lhe como andara à procura do filho durante os últimos quatro anos e só recentemente, com a ajuda de um detective privado, descobrira que Nando estava em Las Vegas.

- Eu... eu pensei que você e Gemini tinham resolvido tudo - disse Dani, não querendo ser apanhada no meio daquela situação.

- Depois de eu lhe pagar uma fortuna, ela desapareceu com o meu filho - disse ele, amargamente. - Deixou o meu país sem me informar para onde ia. Demorei todo este tempo a encontrá-la. - Levantou-se. - Onde está Nando? Tenho de o ver.

- Terá de esperar que Gemini volte para casa daqui a dois dias.

- Não me parece - disse ele, violentamente. - Vim aqui para levar o meu filho e é isso que estou a fazer.

- Não pode - disse ela, rapidamente.

- Quem vai impedir-me?

- Eu vou.

- Ah, você vai - disse ele, quase se rindo na cara dela.

- Gemini tem a custódia de Nando - explicou ela, esperando que ele desse ouvidos à razão. - Se você quer partilhar essa custódia terá de o fazer através dos tribunais.

- Tenho ar de quem tem vontade para fazer isso? - disse ele, irritadamente.

- Deixe-me ver se consigo entrar em contacto com Gemini e perguntar-lhe a ela o que fazer.

- Não entende o que lhe estou a dizer? - disse ele, ficando encolerizado. Ela tirou-me o meu filho! No meu país isso não é legal. No meu país um homem tem direitos.

Havia algo de perturbador naquele homem e, até que tivesse autorização de Gemini, de maneira nenhuma ela ia permitir que ele levasse Nando.

- Talvez me possa dizer onde está alojado e eu entro em contacto consigo - disse ela.

- Eu quero o meu filho - respondeu ele, com um brilho de cólera nos olhos. - E quero-o agora.

- Isso não é possível. Nando está ao meu cuidado e não posso deixá-lo ir.

- Cabra! - disse ele, interrompendo- a subitamente. -As mulheres americanas são todas umas cabras. São tão más como as francesas.

Dani levantou-se. Era tão alta como ele e não tinha medo.

- Vai precisar de uma ordem do tribunal para levar Nando, por isso afaste-se! - disse, firmemente.

- Não, não me afasto - disse ele, olhando-a de alto a baixo.

Pelo canto do olho ela apercebeu-se de um carro da Polícia que passava.

- Se provocar mais problemas, faço sinal àquele carro da Polícia e você será preso.

- Está a ameaçar-me - disse ele, com a ira no seu olhar a tornar-se perigosa.

- Estou apenas a tentar fazer disto uma experiência agradável para todas as pessoas envolvidas. Não duvido de que queira ver o seu filho. No entanto, tem de compreender a minha posição.

- Compreendo uma merda! - disse ele, abruptamente. - Vou levar o meu filho. - E marchou em direcção aos rapazes que brincavam nos baloiços. - Nando! - chamou. - Nando, é o teu papá. Vim buscar-te.

Nando parou o que estava a fazer e voltou-se para ver quem o chamava. De imediato, Dani correu em direcção ao carro da Polícia e acenou para o fazer parar. Inclinou-se sobre o vidro e ficou feliz por reconhecer um dos polícias. O seu nome era Burt e assistia regularmente ao seu espectáculo.

- Ei, Dani, que tal vai isso? - perguntou Burt.

- Nada bem - respondeu ela. - Aquele homem ali é o ex-marido de Gemini. Está a tentar levar o filho. Não podem fazer alguma coisa?

- Claro - disse Burt. - Vamos dar- lhe uma palavrinha.

Burt e a sua companheira saíram do carro-patrulha e aproximaram-se de Moralis que, naquele momento, já tinha pegado em Nando e o baloiçava no ar. O rapazinho não parecia nada perturbado. Por outro lado, não reconhecia Moralis mas, ei, uma aventura era sempre divertida e Nando vivia para se divertir.

- Sou o teu papá - continuava Moralis a repetir. - Lembras-te de mim? O teu papá.

- Posso falar com o senhor? - disse Burt.

Moralis não estava bem disposto.

- Estou ocupado - disse.

- Ponha o rapaz no chão, aproxime-se e falaremos - interveio a mulher polícia, uma ruiva de ar duro.

- Vá-se foder! - disse Moralis bruscamente.

Vincent, que observara tudo aquilo, correu para Dani.

- Quem é aquele homem, mamã? - perguntou. Porque é que ele tem o Nando?

- Não é nada, filho - disse ela, agarrando-lhe rapidamente a mão.

- Por que é que Nando está com ele? - insistiu Vincent.

- Ele é um... parente. Temos de esperar que a tia Gem regresse, depois resolvemos tudo.

- Quero ir para o chão - gritou subitamente Nando a Moralis. - Deixe-me ir! - E deu-Lhe uma joelhada no estômago.

- Seu pedaço de merda! - berrou Moralis, prestes a dar uma bofetada no rapaz. Antes que o pudesse fazer, Burt agarrou-lhe o braço, Moralis perdeu o equilíbrio e seguiu-se uma briga.

Dani não esperou por perto. Aproximou-se correndo, agarrou em Nando e apressou os rapazes em direcção ao carro.

- Entrem, depressa! - ordenou. E, sem olhar para trás, levou-os para casa, onde a sua governanta a informou de que um Sr. Sanchez aparecera a fazer perguntas sobre o filho e que ela lhe indicara o parque.

- Nunca mais volte a fazer isso! - disse Dani. - Não diga a ninguém onde estou a menos que saiba de quem se trata.

Disse aos rapazes para subirem ao andar superior, correu para o telefone e ligou para Gemini e Morgan em Chicago. Não estavam no hotel. Depois ligou para Dean em Houston. Ele estava. Ela contou a história.

- Não entres em pânico - disse ele. - Leva os rapazes para o rancho e avisa a tua governanta para que não diga a ninguém onde estás. Entretanto, eu contacto Morgan. Ele saberá como tratar disto.

- Obrigado, Dean - disse ela reconhecidamente.

- O tipo não te ameaçou a ti, pois não?

- Não, mas havia algo de decididamente estranho nele.

- Não te preocupes, eu trato do assunto.

Era disso que ela gostava em Dean: estava sempre pronto para tratar de qualquer coisa que lhe pedisse, embora ela continuasse reticente em relação ao casamento.

Estamos noivos, dissera ela na última vez que ele falara no assunto. Vamos desfrutar disso durante algum tempo.

Que espécie de noivado é este, quando tu estás em Las Vegas e eu em Houston? dissera ele.

Tinha razão, mas ela não se conseguia convencer a dar o último passo. Não vou esperar para sempre, dissera-lhe ele.

Eu sei, Dean. Prometo; em breve.

E assim tinham ficado as coisas.

Quando Gemini regressou de Chicago avisou Dani para que não contasse a Morgan nada do que Moralis dissera, com excepção do seu pedido para levar Nando.

- Pensei que tinhas resolvido tudo com ele - disse Dani, durante o almoço no rancho.

- Não propriamente - respondeu Gemini.

- Segundo Moralis, partiste com Nando há quatro anos e ele tem-te procurado desde então.

- É uma longa história - disse Gemini, e bebeu um pouco de chá gelado. Deixei um rasto que terminava em Paris. Pensei que ele nos procuraria na Europa durante uns meses e depois nos esqueceria.

- Aparentemente, não esqueceu.

- Moralis está possesso - disse Gemini, com ar sério. - Olha para o que tu passaste com Sam.

- Isso é diferente - disse Dani. - Sam não é o verdadeiro pai de Vincent. Além de que Sam se revelou um bêbado; isso é completamente diferente de estar possesso.

- Tive de me afastar - explicou Gemini, com a expressão a ficar sombria. Ninguém faz ideia de como Moralis pode ser violento. Quando perde as estribeiras, não quer saber do que faz. Tens sorte em ele não te ter atacado.

- Tenho a sensação de que esteve prestes a fazê-lo. Felizmente, vi o carro da Polícia e fiz-lhes sinal para pararem.

- Achas que Nando se lembrou dele? - perguntou Gemini.

- Não me pareceu.

- Graças a Deus!

- Achas provável que ele volte?

Gemini abanou a cabeça.

- Com a Polícia envolvida, estou certa de que não se atreve.

- Achas sinceramente que um pequeno incidente com a Polícia o vai fazer afastar-se?

- Quando descobrir que não me pode tratar da maneira que fazia, ele irá embora. Agora tenho Morgan para me proteger.

Passou pela cabeça de Dani que talvez Gemini se tivesse casado com Morgan exactamente por esse motivo. Um homem mais velho, poderoso e rico que podia protegê-la. Apesar de ser íntima como era de Gemini, havia obviamente coisas que ela desconhecia.

- Se alguma vez quiseres falar do assunto, estou aqui - ofereceu- se.

- Obrigada, Dani, és uma boa amiga.

- Tento ser.

Várias semanas se passaram e Moralis não voltou a ser visto.

Gemini estava aliviada.

- Morgan diz que, se voltar, faz com que ele seja preso.

- Isso é possível?

- Tudo é possível - respondeu Gemini, confiante no seu casamento com um homem poderoso.

Dani não estava certa de que Moralis desistisse com tanta facilidade. Vira o olhar dele: era um homem determinado e também encolerizado.

Dean viajou de volta à cidade e começou novamente a pressioná-la. Como ela dormira com ele uma vez, ele esperava que o fizesse de novo. Ela criava obstáculos usando muitas desculpas diferentes.

- Dani - disse-lhe ele um dia -, vamos fazer isto ou não?

- Fazer o quê, Dean? - perguntou ela, embora soubesse exactamente de que se tratava.

- Casar - disse ele, categoricamente. - Porque se não...

- Sim?

- Se não o vamos fazer, tenho de seguir em frente.

Seguir em frente? De que estava ele a falar?

- Desculpa? - disse ela.

- Tenho necessidades, Dani, e tu não estás a dar-lhes resposta.

- Estás a pedir-me que te devolva o anel?

- Não.

- Então, o quê?

- Ama-me como eu te amo. Será pedir muito?

- Eu... eu não sei se consigo - disse ela, hesitantemente.

- Por que não? - perguntou ele.

- Preciso de tempo.

- Já tiveste temp o.

Sabia que tinha de tomar uma decisão. Se não se casasse em breve com Dean ele iria seguir por diante.

Falou com Gemini, que lhe contou que Morgan mencionara que Dean andava a encontrar-se com alguém em Houston. A notícia teve o efeito de uma bomba.

Dean era dela. Sempre presente. Sempre fiel.

Seria mesmo?

Esperou até à viagem seguinte dele e, durante um tranquilojantar depois do seu espectáculo, concordou que deviam marcar uma data. Depois passou a noite no hotel com ele a cimentar o acordo.

Pela manhã, ele estava extasiado.

- Nunca te vais arrepender! - disse.

- Vamos fazê-lo na próxima semana - disse ela, receosa de mudar de ideias. Ele ficou surpreendido.

- Não queres preparar um grande casamento com todos os detalhes?

- Não - disse ela. - Se Morgan e Gemini concordarem, fá-lo-emos no rancho.

- Tudo o que quiseres, minha querida. Sou todo teu.

No dia anterior ao casamento, Dani mudou-se para o rancho com Vincent para passar a noite. Nem podia acreditar que tudo se passara tão depressa. Um dia estava a dizer que sim e agora, seis dias depois, estava na véspera do seu casamento. Comprara um vestido, comunicara a sua saída no Magiriano, vendera o carro e alugara a sua casa a um jovem e simpático casal de Nova Orleães.

Em breve, ela e Vincent mudar-se- iam para Houston para viverem numa casa que ela ainda nem vira. Era uma loucura. Seria mesmo? Dean era gentil e atencioso, amava-a e ao Vincent genuinamente e, se tudo corresse bem, seriam extremamente felizes.

Vincent não estava contente por deixar Nando, o rancho, a sua escola e todos os seus outros amigos para ir viver em Houston. Dani assegurou-lhe que voltariam de visita frequentemente.

Morgan decidiu passar a noite na cidade com Dean.

- Vou deixar-vos sozinhas para conspirarem e planearem essas tortuosas coisas de mulheres - disse ele em voz alta. - Os casamentos são das coisas mais danadas que há. Uma pessoa tem de se preparar; especialmente as senhoras.

- Tu queres é uma noite de liberdade - provocou Gemini, sorrindo afectuosamente. - Lembra-te, podes olhar, mas não podes tocar.

Morgan ajustou o seu chapéu e mostrou um largo sorriso.

- Casei-me com uma mulher esperta que compreende os homens. Isso faz de mim um homem muito esperto.

Uma hora depois de ele sair, Moralis telefonou. Gemini atendeu a chamada, embora Dani a tivesse aconselhado a não o fazer.

- Ele já não me assusta - disse Gemini, erguendo determinadamente o queixo.

- Não há nada que ele me possa fazer.

- Devias descobrir onde ele está e pedir a Morgan que lhe telefonasse - sugeriu Dani.

- Não - disse Gemini, firmemente. - Tem que ouvir as coisas ditas por mim. Não pode levar Nando e pronto.

Dani encolheu os ombros, tinha os seus próprios problemas. Vincent recusava-se a experimentar o fato que ela lhe comprara para o casamento. Estava a portar-se como um fedelho e Nando encorajava-o. Talvez uma pausa na relação entre os dois fosse boa para ambos.

Gemini ficou ao telefone durante alguns minutos. Quando emergiu do quarto, a sua face estava sulcada de lágrimas.

- Que se passa? - perguntou Dani, compreensivamente.

- Nada - disse Gemini, prestes a chorar novamente. - É tudo tão difícil.

- Que disse ele?

- Está tudo bem - disse Gemini. - Ele concordou em ir-se embora.

- Então, por que estás tão perturbada?

- Bem, tu sabes, o passado e tudo isso. Ambos vivemos uma paixão que é muito difícil esquecer.

- Mamã! - gritou Vincent. -Anda ver o cão do Nando. Tem pulgas enormes. Podemos ter um cão, mamã? Nando diz que o cão dele come pulgas. Eu quero um cão que come pulgas.

Ela correu para dentro de casa para ver o cão pulguento que Nando salvara do canil.

O cão era enorme, com uma pelagem comprida e felpuda. Vincent estava instalado em cima do ofegante animal.

- Vai brincar com outra coisa - ordenou Dani. - O pobre cão não é um cavalo.

- Tu podes montá-lo, mamã - disse Vincent, encorajadoramente. - Eu monto.

- Vai-te. - repetiu Dani.

- Lixar! - riu-se Vincent.

- Que disseste tu? - perguntou Dani, bastante chocada.

- Vai-te lixar! - disse Nando, gritando às gargalhadas.

- Percebeste, mamã? - disse Vincent, rindo-se descontroladamente.

- Não, não percebi - disse ela, asperamente. - Essa linguagem não é bonita e espero não a ouvir de novo.

- Vai-te lixar! - guincharam ambos os rapazes em uníssono. - Vai-te lixar! Vai-te lixar! Vai-te lixar!

- Lá para dentro! Já!

Eles seguiram-na para dentro da casa.

A Sr Braxton, cozinheira de muitos anos de Morgan, estava ocupada na cozinha a preparar hamburguers e batatas fritas para os rapazes.

A manicura que Gemini arranjara estava na sala de jantar a preparar o seu equipamento. Gemini também marcara uma massagista para o corpo, outra facial e uma cabeleireira. Deveriam chegar a qualquer momento.

- É a noite anterior ao teu casamento - dissera Gemini. - Quero assegurar-me de que sejas meticulosamente mimada.

- Onde está Gemini? - perguntou Dani à Sr Braxton.

- Pediu-me que lhe dissesse que tinha de sair.

- Disse onde ia?

- Mencionou que regressaria depressa.

Dani não começou a preocupar-se até se passar uma hora. Depois duas, depois três. Por essa altura já estava seriamente preocupada. Todos os esteticistas tinham chegado e saído e eram quase onze horas.

Teria Gemini saído para se encontrar com Moralis? A que outro lugar poderia ter ido?

Dani pegou no telefone e ligou para Dean. Nem ele nem Morgan estavam no hotel, pelo que deixou uma mensagem para que lhe ligassem logo que chegassem.

Era suposto ser um momento feliz para ela e, no entanto, sentia-se exactamente como na noite em que Emily desaparecera. Mal disposta e apreensiva. Sentou-se na sala de entrada, com o olhar a saltar entre o relógio e a porta. A meia-noite chegou e foi-se. Tentou novamente apanhar Dean e Morgan no hotel. Continuava a não haver resposta de qualquer dos dois quartos. Andavam a festejar, enquanto Gemini estava...

Não sabia.

Sabia apenas que a má disposição que sentia no fundo do estômago lhe dizia que, mais uma vez, algo de mau tinha acontecido.

Algo de muito mau.

 

                   Michael: 1972

A notícia de que tinha provavelmente morto o homem errado não caiu bem a Michael. Embora, quando pensava melhor, conseguia aceitar, porque todos os três acabariam por ter que pagar o preço.

Matara um homem a sangue-frio. Não lhe parecia real e no entanto fizera-o. E fá-lo-ia de novo se tivesse que ser.

Pela sua mãe.

Pela mulher que nunca conhecera.

Pela sua honra.

Bone devia ter pensado que ao fazê-lo eliminar Roy, a verdade nunca viria ao de cima. O traste não contara com Mamie e a sua grande boca.

Outro pensamento. Como tinha Mamie ouvido que fora ele a matar Roy? Bone era um sacana perigoso e provavelmente tinha alguma outra coisa em mente. O problema era quem sabia que coisa seria essa?

Que deveria ele fazer agora? Trocar de lado e mudar-se para a familia Giovanni? Talvez. Vito Giovanni compreendera de que se tratava de uma vingança. Era quase meia-noite quando chegou a casa. Catherine estava sentada na sala da frente a tricotar uma camisola. Tal como a irmã, Catherine era bastante bonita e muito jovem, só que não tinha nenhum do fogo de Beth.

- Olá, Michael - disse ela, encostando um dedo aos lábios. - Chiu... Madison está a dormir.

- Onde está Beth? - perguntou ele, olhando em volta.

- Saiu com amigos.

- A que horas volta?

- Tu conheces Beth - disse Catherine, pousando a malha. - Não posso controlá-la e tu também não podes. Nenhum de nós devia tentar.

- Eu não o quero fazer - disse ele claramente.

- Queres, sim.

Por vezes, Catherine mexia-lhe com os nervos.

- Por acaso, ela disse-te que estivemos a falar acerca de nos casarmos? - disse ele, pensando que isso a calaria.

- Não, não falou nisso.

- Não falou nisso, é - disse ele, irritado. - Porra, deve ter ficado mesmo entusiasmada.

- Michael - disse Catherine, num desagradável tom santimonial -, Beth adora-te à sua maneira. Mas tens de compreender que, quando o nosso pai foi preso e levado para uma prisão política, isso pô-la de certa forma fora de controlo.

- Como foi isso?

- Ela sempre foi um pouco selvagem, mas depois disso... Bem, tu sabes que não foste o seu primeiro homem?

- Tens sorte de ela já me ter dito - disse ele, incisivamente -, porque se não o tivesse feito, estarias a ir bem longe de mais.

- Desculpa - disse Catherine, levantando-se rapidamente. - Devo dar o biberão a Madison quando ela acordar ou queres fazê-lo tu?

- O que eu quero é saber onde foi o raio da minha namorada. A mãe da minha filha - disse ele, cheio de frustração. - Quem são esses amigos com quem ela saiu?

- Pessoas do instituto de moda.

- Raparigas? Rapazes? 0 quê?

- De tudo.

- Se alguma vez a apanhar com outro homem - disse ele, ameaçadoramente - mato-a!

- Não digas coisas dessas, Michael.

- Podes ter a certeza.

- Seja como for - disse Catherine, secamente -, ela não está com outro homem, está apenas a divertir-se.

- A divertir-se, hem?

- Não é fácil para ela, Michael. Tem um bebé para cuidar, uma casa para governar e.

- Vá lá, Catherine - interrompeu ele. - Deixa-te de tretas. Tu é que fazes tudo aqui. A Beth arranja-se toda e sai para uma escola fina com o raio dos seus amigos finos e agora está fora toda a noite com eles.

- Desculpa ter-te dito.

- Sim, bem, eu precisava de saber a verdade.

- Como estava o teu pai?

- O mesmo derrotado de sempre - disse ele. - Olha, eu não vou ficar aqui sentado à espera; vou sair.

- Estou certa de que Beth chega cedo.

- Ei, ela quer fazer as coisas dela, tudo bem; eu faço as minhas.

Saiu de casa cheio de irritação, conduziu sem destino durante algum tempo e acabou por ir a um bar da vizinhança, onde uma atraente rapariga de enormes seios se sentou ao seu lado.

- Sou modelo de lingerie - disse-lhe ela com um sorriso convidativo. Tinha dentes branco-pérola, cabelo encaracolado castanho- aloirado e um nariz arrebitado.

- Que tal irmos até minha casa para um último copo? - sugeriu ela. - Prometo que não mordo. A menos que me peças!

O convite estava ali, diante da cara dele.

Simplesmente não estava interessado. Beth era a única mulher que ele queria. Depois de deitar abaixo mais um par de Jack Daniel s, foi para casa sozinho. Beth ainda não tinha chegado.

Deitou-se na cama, ligou a televisão, acendeu um cigarro e fumou. Acabou por cair num sono agitado.

De manhã, Beth estava a dormir ao seu lado, com os seus cabelos negros espalhados sobre os lençóis brancos, uma comprida perna esticada e exposta.

Estava irritado e excitado ao mesmo tempo. Sem dizer uma palavra, pôs-se em cima dela.

- Michael - murmurou ela, abrindo ligeiramente os olhos -, que tás a fazer?

- A foder-te - disse ele energicamente. - Pode ser?

- Não, não pode ser - disse ela, começando a debater-se. - Sai... de cima... de mim.

Ele não estava para isso. Segurando os braços dela, martelou-a até se vir. Depois, ficou arrependido. Acabara de cometer um acto puramente egoísta. Não era culpa dela que ele tivesse ciúmes.

Jesus Cristo! Ela tinha-o posto fora de controlo.

Ele passou o olhar por ela. Ela afastara-se e estava deitada de costas para ele.

- Vamos anunciar o nosso casamento esta semana - disse ele bruscamente. É assim que vai ser.

- Odeio-te! - disse ela, rolando o corpo até ficar de frente para ele, com os seus grandes olhos castanhos a faiscarem de raiva.

- Não, não odeias.

- Odeio, sim. Seu... seu violador!

- Desculpa, querida - murmurou ele. - Não sei o que é que me deu.

- Ah!

- Miami foi um nojo e quando voltei não estavas em casa - disse ele, tentando desculpar-se.

- Eu disse-te que ia sair.

- Eu sei disso.

Ela chegou-se um pouco mais para ele.

- Presumo que ver o teu pai te tenha perturbado?

- Não - mentiu ele.

- Perturbou, sim.

- Está bem - admitiu ele. - Deixou-me doido.

- Eu sabia! Eu disse-te que devia ter ido contigo.

- Tinhas razão. Tens sempre razão - disse ele, aconchegando-se a ela. Como é que tu, sendo tão nova, és esperta como um raio?

- Apenas sorte, acho eu.

- Desculpa se fui rude contigo. Não foi por mal. É... não sei... acho que tinha saudades tuas.

- Tinhas mesmo?

- Não achas que é qualquer coisa? Ela suspirou e enroscou-se mais nele.

- Adoro quando tens saudades minhas, Michael. Significa que te importas comigo. Ele sentou-se na cama e agarrou um cigarro.

- Nunca senti isto por ninguém antes, Beth. Nunca! Tu és a tal. Ela mostrou-lhe o seu sedutor sorriso.

- Óptimo.

- Podes acreditar - disse ele. E para a compensar do que tinha acontecido, começou a acariciar-lhe os seios da forma que sabia que ela gostava.

- Isso é bom - suspirou. - Hmm... muito bom.

Ele deslizou pela cama, abriu-lhe as pernas e começou a passar-lhe a língua da forma que ela frequentemente lhe pedia que fizesse, embora ele recusasse, porque fazer oral a uma mulher não parecia um acto muito masculino. E, no entanto... se se ama uma mulher e ela faz o mesmo por nós, por que não dar-lhe prazer?

A excitação dela e as suas macias e firmes coxas excitaram-no de novo. Resolveu parar com a mania dos ciúmes e começar a tratá-la melhor.

Algumas noites depois foi de carro até ao instituto de moda para lhe dar boleia de volta para casa. Planeara fazer-lhe uma surpresa, levá-la a jantar ao restaurante favorito de ambos e oferecer-lhe o anel que lhe comprara: um diamante de cinco quilates vindo directamente da Tiffany's através de um amigo de Warner no negócio da joalharia.

Beth surgiu pouco depois das cinco. A sua bela futura noiva-criança. Vinha de braço dado com um jovem, pouco mais velho do que ela. Vinham tão ocupados a conversar e a rir que ela nem o viu a esperar pacientemente no seu carro, com um ar de completo estúpido.

Beth. A sua Beth com outro homem.

Uma negra fúria apossou-se dele. Mal conseguia ver direito. Queria esmagar a cabeça ao cretino.

Em vez disso não fez nada. Observou-os a caminharem até os perder de vista e depois foi para casa.

Catherine fora passar o fim-de-semana com uma amiga, deixando Madison ao cuidado de uma baby-sitter. Logo que Michael chegou a casa, pagou à rapariga e disse-lhe que podia ir embora.

- Onde está a baby-sitter - perguntou Beth quando chegou a casa, duas horas depois, e encontrou Michael sentado na cozinha, embalando uma sorridente Madison sobre os joelhos.

- Mandei-a embora - respondeu ele. - Achei que não precisávamos dela.

- Tu sabes que preciso de ajuda quando Catherine está fora - queixou-se Beth, tirando o seu casaco curto e bordado.

- Tenho um palpite de que te aguentas por uma noite.

- Bolas, Michael - Abriu o frigorífico. - Preferia que não fizesses dessas coisas sem falar primeiro comigo.

- Que coisas?

- Mandar a baby-sitter para casa quando preciso dela.

- Por que é que precisas dela? - perguntou ele, mal podendo conter a sua ira.

- Porque estou cansada - disse ela, vertendo leite para um copo.

- Um dia duro na escola? - disse ele, examinando-lhe o rosto.

- Por acaso, sim.

- Por que é que chegaste tão tarde hoje?

- Temos os exames a chegar. Tenho de apresentar a minha primeira colecção no papel. - Os seus olhos castanhos brilharam. - É tão excitante. No próximo ano vou desenhar roupas a sério. - Tirou-lhe Madison dos braços e começou a enchê-la de beijos. - Que bebé tão gira! - disse ela, sorrindo. - Quem é a mais linda menina do mundo - Madison recompensou-a com um sorriso desdentado. Adivinha! - continuou Beth, abraçando a bebé. - O papá vai dar-te banho esta noite. Não vai ser divertido?

- Não posso - disse ele, abruptamente. - Tenho que sair.

- Estás a brincar?

- Não. Tenho que tratar de negócios - disse ele evasivamente.

- Tu sabes que detesto ficar aqui sozinha quando Catherine está fora.

- Esqueci-me.

- Isso não é justo.

- É assim que tem de ser, querida. - Uma pausa. - A propósito, que tal correu a escola hoje?

- Já me perguntaste isso. E, além do mais, não é escola, Michael - respondeu ela, sentando Madison na sua cadeira de baloiço -, é um instituto de moda.

- Aconteceu alguma coisa interessante?

- Sim - provocou ela. - Fiz um broche a três dos meus professores. Achas que é suficientemente interessante?

- Beth! - disse ele, bruscamente. - Tem cuidado com o que dizes. Ela riu-se.

- És mesmo um pudico!

Nunca ninguém lhe tinha chamado aquilo.

- Bem - disse ela -, acho que, já que me vais deixar sozinha, é melhor pôr este anjinho na cama.

- Faz isso - disse ele, remoendo acerca do comentário dela sobre os broches. Talvez fosse exactamente isso que ela tivesse feito com o cretino com quem a vira sair do instituto. A sua Beth com outro homem. Não conseguia suportar isso.

Ela olhou-o com curiosidade.

- Passa-se alguma coisa, Michael?

- Por que dizes isso? - disse ele, bruscamente.

- Pareces um bocado... chateado.

- Estive a pensar - disse ele, recuperando a compostura -, eu devia conhecer alguns dos teus amigos. Podíamos ir todos jantar uma noite destas.

- Não ias gostar deles - disse ela, rejeitando a ideia. - Não são o teu tipo de pessoa.

- Não são o meu tipo de pessoa, mas são o teu, não é? É isso que me estás a dizer?

- Não, simplesmente, eu tenho alguma coisa em comum com eles.

- E eu não tenho.

- Michael - disse ela, gozando. - Não sabia que tu também querias começar a desenhar roupas.

Ele detestava que ela o abordasse com aquele comportamento.

- Olha, Beth - disse ele, friamente -, tem uma boa noite. Depois vemo-nos.

- Porfavor não venhas tarde - disse ela, voltando a pegar em Madison. - Se tiveres muita sorte, espero por ti acordada.

- Não te incomodes - disse ele, e saiu de casa sem fazer ideia para onde ia: sabia apenas que tinha de sair antes que explodisse.

No dia seguinte confrontá-la-ia.

Essa noite ela podia sofrer; ia deixá-la pensar o que haveria de errado. Acabou por ir ao clube local, passar algum tempo com Gus.

Bone continuava desaparecido. Segundo Gus, não aparecia havia alguns dias.

- Provavelmente, anda nalgum serviço para Lucchese - disse Gus quando Michael lhe perguntou. - Porquê esse interesse?

- Estou tudo menos interessado! - respondeu Michael. - É um prazer não olhar para aquela cara feia.

- Sim - disse Gus, rindo-se. - Ele é um cabrão completo.

- Onde arranjou ele aquela cicatriz na cara?

- Disse-me que o pai o cortou quando era miúdo.

- Então, já a tem há muito tempo?

- Sim - disse Gus, ficando impaciente. - Vamos jogar póquer ou quê?

- Conta comigo.

Demasiadas doses de Jack Daniel s, perdera forte e feio no póquer e ainda por cima sentia-se como merda.

Quando chegasse a casa perguntaria a Beth que raio de jogo andava ela a fazer. Já estava farto. Se andava a gozar à custa dele era melhor que confessasse.

E depois?

Merda! Ficar apaixonado não era para os fracos.

Tudo o que ele queria verdadeiramente fazer era segurá-la entre os braços e ficar junto dela. Ela era parte da sua vida agora, com o seu sorriso sedutor e reacções espevitadas.

Tal como a pequena Madison. A sua própria filha. O seu próprio sangue. Deus! Como ele gostava de a ter. Nem o incomodava que Beth não tivesse tido um rapaz. Tinham muito tempo pela frente.

Jesus! Que se passava com ele? Se pensasse bem no assunto, sabia que Beth não gozaria à custa dele. Ela amava-o e estavam a planear o seu casamento.

Guiou devagar até casa, receoso de ser mandado parar pela Polícia. Eram duas da madrugada e a rua estava deserta. Desejou ter passado a noite em casa, em vez de ter perdido dinheiro e se ter metido nos copos.

Felizmente, havia um lugar de estacionamento vago em frente à sua porta. Enquanto subia os degraus da entrada, pareceu-lhe ouvir um ruído. Um gato passou a correr, sobressaltando-o.

No dia seguinte ia ter uma ressaca monstruosa.

A luz do alpendre estava apagada. Tinha de a consertar.

Vacilantemente, meteu a chave na fechadura, decidindo que ia acordar Beth e dizer-lhe o quanto a amava.

Ao entrar, algo ou alguém caiu-lhe em cima, apanhando-o completamente de surpresa.

Estava no chão, de mente entorpecida, com reacção lenta.

Depois ouviu-o. Um único tiro.

E tudo ficou escuro.

 

                   Terça feira, 10 de Julho de 2001

- Mantenham-se juntos, não entrem em pânico - disse Cole, com expressão carregada. - Todos vocês, lembrem- se de manter a cabeça baixa.

Os reféns que iam sair com os assaltantes estavam reunidos junto à saída traseira do restaurante, com panos sobre a cabeça e até abaixo da cintura. O cabecilha obrigara os homens a tirarem as gravatas no restaurante e depois atara os reféns uns aos outros, tornando impossível a qualquer deles fugir. Estavam nervosos e transpiravam enquanto ele os colocava em posição, em volta de si e dos seus dois comparsas, assegurando-se de que ficavam rodeados e não podiam ser abatidos por atiradores especiais.

- Tu guias - ordenou a Cole. - Todos os outros para a traseira.

- Para onde vamos? - perguntou Cole.

- Depois vês.

Madison desejou que Natalie não tivesse que ir com eles. Sentir-se-ia muito mais segura se pudesse ter deixado Natalie no restaurante com os outros.

- Quando eu disser para andar, mexam-se! - disse o cabecilha. - Se algum cabrão sair da sua posição, enfio-lhe uma bala.

Madison rezou para que a Polícia não tentasse fazer nenhuma loucura. Também esperou que tivessem mandado um furgão suficientemente grande. Que raio de anedota seria se não coubessem todos lá dentro?

Ao chegarem à porta traseira do restaurante, o chefe apercebeu-se de luzes fortes que brilhavam no exterior.

- Diz-lhes para desligarem a merda das luzes - gritou ele colericamente para Cole - ou não saímos.

- Desliguem as luzes! - berrou Cole, sabendo que a sua voz os faria pensar que se tratava de um dos bandidos.

Nada aconteceu.

- Desliguem as luzes ou não saímos - berrou Cole pela segunda vez.

Uma pausa de três segundos e as luzes foram desligadas. O estômago de Madison deu uma volta. Aquela era uma situação tão perigosa. E se as chaves não estivessem no furgão? E se o depósito de combustível não estivesse cheio? E se os atiradores especiais da Polícia começassem a disparar?

Tudo era possível. Lembrava-se de um assalto que ocorrera em Beverly Hills, alguns anos antes, numajoalharia da Rodeo Drive. Logo que os reféns saíram da loja e chegaram ao estacionamento, começou o tiroteio. Pelo menos, um dos reféns morrera.

O desordenado cortejo, parecendo uma tenda gigante em movimento, começou a descer a estreita rua em direcção ao furgão.

A meio da noite, Sofia acordou de um violento pesadelo. Sentou-se a tremer e assustada.

Gianni tentara insistir para que ela dormisse na cama e ele ficaria no sofá. Ela teimou com um firme não.

- Se eu ficar na sua cama, você vai para outro quarto logo que eu adormeça - disse ela, acusadoramente -, e isso não é fixe, porque eu não posso ficar sozinha esta noite.

- Muito bem - respondera pacientemente Gianni. - Eu fico na cama e você dorme no sofá.

Agora ali estava, escuridão total e ela assustada. Desde criança que tinha pesadelos. Tinha provavelmente a ver com o facto de a sua mãe estar sempre a trabalhar fora e Vincent nunca estar por perto por ser muito mais velho do que ela e estar ocupado com as suas coisas; o que significava que, durante a maior parte do tempo, era deixada sozinha com diversas baby-sitters. Nunca gostara de nenhuma delas: eram todas maldosas e desagradáveis. Havia uma que fora especialmente desagradável, mas ela não queria pensar nisso.

Levantou-se do sofá, vestida com uma grande t-shirt branca que Gianni lhe emprestara. Depois, tropeçando numa banqueta, dirigiu-se ao quarto.

Gianni dormia na cama, um livro pousado diante de si, os seus óculos de ler descaídos sobre o nariz.

Retirou-lhe o livro e os óculos. Ele nem se mexeu. Depois desligou o candeeiro da mesa-de-cabeceira e deitou-se na cama ao lado dele.

Por vezes, sentia-se dominada pela solidão. Era como se não houvesse ninguém no mundo que se preocupasse com ela. E, no entanto, apesar das suas diferenças, sabia que a sua mãe se preocupava, bem como Michael; à sua maneira. E Vincent, o irmão mais velho, que sempre fora muito protector com ela. Quando começara a sair com rapazes, na adolescência, ele praticamente matara um deles.

Tens treze anos, és demasiado nova para te encontrares com rapazes, avisara-a ele.

Não sou demasiado nova para coisa nenhuma", respondera ela, apercebendo-se de que era impossível levar uma vida normal com um irmão superprotector como Michael a vigiar-lhe todos os movimentos.

Na verdade, sempre se sentira atraída pelo melhor amigo de Vincent, Nando. Infelizmente, Nando nunca se dignara sequer a conceder-lhe um olhar: ela era demasiado nova para que ele se interessasse.

Chegou-se mais para Gianni. Ele não se aperceberia se ela se enroscasse nele, pois não?

E foi exactamente o que fez. Enroscou-se num homem que conhecera apenas poucas horas antes, encostou- se às suas costas e caiu num sono profundo.

Jolie tinha uma canção especial que punha sempre Nando na melhor disposição possível, uma combinação de soul com um toque de rap: era o Good ol ghetto, de Usher. O ritmo era perfeito - lento efunky. E a voz áspera e sexy de Usher dava-lhe a ela a melhor disposição para a diversão.

Foi ao seu armário e retirou o vestuário apropriado - um reduzido top em faixa cor-de-rosa e uma saia curta de látex preto. Por baixo vestiu uma tanga aberta, um soutien aberto de apertar à frente e meias rendadas compridas. Reluzentes botas de cabedal e uma moeda de ouro numa corrente em volta do pescoço completavam o visual.

Vivendo numa cidade pejada de casas de strip, dançarinas de colo, mulheres nuas e generosos espectáculos de nu, Jolie arranjara a solução perfeita para manter o seu homem feliz em casa, ou, pelo menos, tentar, porque Nando não era propriamente do género mais fiel.

Sacudiu os seus longos cabelos cor de corvo, borrifou-se com Angel da cabeça aos pés, ligou o leitor de CD Bose e entrou no quarto.

Nando estava deitado sobre a cama, de mãos atrás da cabeça e um sorriso de antecipação no rosto.

Ela avançava com imensa atitude, enquanto se balançava em direcção a ele, ondulando as ancas ao ritmo pulsante da música, passando as mãos para cima e para baixo sobre as coxas, fazendo movimentos com as ancas diante dele.

- Oh, Querida! - cantarolou ele. - Tira... tira.

Lentamente, ao ritmo da música, ela começou a tirar o top. Depois, inclinando-se sobre ele, encorajou-o a desapertar-lhe o soutien. Os seus seios soltaram-se.

- Belas tetas! - disse ele, olhando-a lubricamente, como se fosse a primeira vez que as estivesse a ver.

Estavam casados havia três anos. O sexo ainda queimava.

Ela roçou-lhe a boca com os mamilos, depois tirou a saia de látex e montou-o. Ele estava ainda completamente vestido, pelo que se roçou nele ao verdadeiro estilo de uma lap-dancer.

Ele adorou tudo, especialmente quando ela lhe abriu o fecho das calças e lhe fez uma masturbação memorável. Que mulher! Compreendia tudo. Compreendia especialmente que por vezes um homem se gostava de sentir como se tivesse novamente catorze anos.

Quando terminaram, ele abriu a gaveta da mesa-de-cabeceira e entregou-lhe mil dólares.

Ela aceitou-os.

- Barato, por este preço - disse ele, ainda sorrindo.

- Eu sei - disse ela, com um sorriso misterioso. - Estou a pensar em aumentar as minhas tarifas.

- Veste-te, vamos sair - disse ele.

- Onde?

- Vou levar-te a conhecer os meus futuros sócios.

- E Vincent?

- Que se foda!

- Surpresa! - disse Michael, recebendo o seu filho à porta.

- Jesus Cristo! - exclamou Vincent. - De onde saíste tu?

- Bela recepção.

- Por que não me disseste que vinhas?

- Uma história complicada.

- Onde está a mãe?

Dani emergiu do quarto. Vestira uma blusa azul-pálido e calças lisas pretas e prendera os seus longos cabelos loiros no topo da cabeça.

Vincent ficava sempre impressionado com a incandescente beleza da sua mãe. O tempo não obscurecera o seu brilho.

Frequentemente, pensava em como Michael era um tolo por não se ter casado com ela. Sempre que lhes perguntava o porquê de nunca se terem casado, ambos lhe davam as mesmas respostas evasivas.

Era estúpido, porque era extraordinariamente óbvio que pertenciam um ao outro. Dani, que normalmente controlava todos os acontecimentos, transformava-se em pó quando tinha Michael por perto. E ele tratava-a como se fossem casados havia anos.

- Aconteceu uma coisa não muito boa - disse Michael, pigarreando.

- O quê? - perguntou Vincent, pensando imediatamente que seria algo relacionado com Sofia.

- É uma coisa pesada.

- Então, diz-me o que é.

- O teu pai está a ser acusado de matar Stella e o namorado - deixou escapar Dani.

- Estás a gozar! - disse Vincent, incredulamente.

- Há um mandado para a minha captura - disse Michael. - Não deverá demorar muito até que comecem a farejar por aqui.

- Jesus Cristo! - repetiu Vincent. Como se aquela noite não tivesse sido suficientemente má, tinha agora que descobrir que o seu pai estava em fuga de uma acusação de homicídio.

- Não fui eu, caso estejas a pensar - disse Michael. - É uma cilada.

- Quem a preparou?

- Eu tenho inimigos; inimigos de longa data. Rancores muito antigos.

- Isto é uma loucura.

- Eu sei.

- E que devo eu fazer?

- Olha pela tua mãe. Contacta Madison e Sofia. Acho que deviam ambas vir para aqui durante algum tempo.

- Para fazerem o quê?

- Ficarem protegidas - disse Michael. - Podes tratar disso, não podes?

- Sim. Mas devo realçar que não faço ideia onde elas estão.

- Madison está em Nova Iorque - disse Michael, pegando no telefone. - Eu ligo-lhe agora.

- Achas que ela viajará para aqui?

- Se eu lhe disser que é importante, vem.

- E Sofia?

- Encontra-a. Se tu não o fizeres, alguém pode fazê-lo. E, Vincent, acredita, isso pode ser fatal.

Quando Jenna ouviu bater a porta da frente e percebeu que Vincent saíra, não pôde acreditar. Como se atrevia ele a censurá-la e a gritar-lhe, para depois a deixar sozinha no apartamento? Estava lívida de cólera.

Saiu do quarto e olhou em redor. Ele tinha decididamente saído. Rápida como um raio, correu para o telefone.

- A suite de Andy Dale - disse à telefonista.

- Um momento, por favor - respondeu a telefonista.

Anais atendeu o telefone; ou, pelo menos, parecia a voz dela.

- Andy ainda está por aí? Aqui é Jenna Castle.

- Olá, miúda - disse Anais, parecendo verdadeiramente amigável -, estamos a fazer as malas para sair desta lixeira. Queres falar com o homem?

- Sim, por favor.

- Claro, querida. Logo vens para a festa connosco?

- Talvez - disse Jenna, esperançosa.

Andy atendeu o telefone. Não parecia contente.

- Estou farto de ter o anormal do teu marido a perseguir-me aonde quer que vá - queixou-se.

- Liguei para pedir desculpa - disse Jenna. - Por vezes, Vincent fica com uma disposição maluca. Não é como se estivesse a acontecer alguma coisa entre nós.

- Não é como se eu não quisesse que aconteça algo entre nós - disse Andy, começando a aquecer.

- A sério?

- Não sentiste a vibração?

- Sim... senti - disse ela, excitadamente. - Onde vão vocês agora?

- Arranjei uma suite no Bellagio. Queres juntar-te a nós? Estamos prontos para a festa, só não tragas o teu homem. E não digas ao cretino onde vamos, está bem? Não me apetece outra merda.

Ela inspirou longa e profundamente. Andy Dale era uma grande estrela de cinema e esta era a sua grande oportunidade. Ia deixá-la passar apenas porque Vincent tinha ciúmes?

Nem pensar.

- Já vou aí ter - disse ela.

- Combinado, gatinha.

O cortejo seguiu pela rua estreita e escura em direcção ao grande furgão preto parado ao fundo. Madison tomou consciência de que aquele era provavelmente o momento mais perigoso.

Quando chegaram à viatura, ficou aliviada por ver que, provavelmente, era suficientemente grande. Esperançosamente, ter-lhe-iam colocado um dispositivo de localização.

Soou uma voz vinda de um megafone próximo.

- Porque não desistem agora? Deixem ir os reféns, pousem as armas e rendam-se. O cabecilha pressionou Madison nas costelas com a sua arma. Ela conseguia sentir o cheiro do seu suor e do seu medo. Podia mostrar- se duro, mas ela sabia que ele estava nervoso.

- Continuem a andar - resmungou ele.

Ela fez o que lhe mandavam, tal como todos os outros, perguntando a si mesma se iriam encontrar um bloqueio na estrada quando saíssem da rua.

Bruscamente, ele empurrou-a para dentro do furgão. Os restantes também se espremeram lá dentro.

Cole colocou-se ao volante, o chefe do bando sentou-se ao lado dele e Madison ao lado deste. Todos os outros estavam amontoados atrás.

Ocorreu-lhe que, se a Polícia começasse a disparar, ela e Cole eram os alvos principais. Especialmente Cole, porque estava no lugar do condutor.

Cole ligou o motor. O assaltante inclinou-se para a frente, verificando se o depósito estava cheio.

- Vamos embora - gritou ele. - Mexe- te!

- Para onde? - perguntou Cole.

- Vira para Beverly e dá gás a esta merda!

- Sim - disse Cole, fazendo o que lhe diziam. E partiram com um ronco do motor.

Silenciosamente, Madison começou a rezar, sabendo que nos minutos seguintes havia uma forte possibilidade de que todos morressem.

 

                   Michael: 1974

Era o terceiro aniversário de Madison. Estava sentada com mais uma dúzia de crianças nojardim da casa nova de Tina e Max, que era agora a sua casa, e observava fascinada um homem, vestido de palhaço, que enchia balões de diferentes cores e os torcia criando formas de animais. Susie, a filha de Tina e Max, sentada de pernas abertas na relva ao lado dela. Com sete anos, Susie era uma menina muito querida, com uma falha de dois dentes na frente e um doce sorriso. Harry, o seu irmão de oito anos, não era tão simpático. As suas ocupações favoritas eram puxar o cabelo de Susie, destruir-lhe as bonecas e arreliá-la até ela gritar.

Tina estava constantemente a ralhar-lhe para que se portasse bem. Max estava constantemente a dizer a Tina para se calar.

- Ele é um rapaz - dizia ele. - É isto que os rapazes fazem.

- Este rapaz não - retorquia Tina.

Michael chegou tarde e ficou à porta da cozinha observando a sua filha. Ela era linda. Tão cheia de vida, tão parecida com Beth. Dava graças a Deus por Max e Tina. Tinham estado presentes quando precisara deles; eram verdadeiros amigos, sempre a apoiá-lo. Ao contrário de Catherine, que o acusara de assassinar a irmã.

Os últimos dois anos tinham sido um verdadeiro pesadelo. Chegar a casa bêbado naquela noite, ser atingido na cabeça, e depois, ao recuperar a consciência, ter uma arma na mão - a sua arma. E a Polícia em redor de si.

Beth estava morta, com um tiro na nuca. Madison dormia no seu berço, os jornalistas estavam no exterior da casa e ele ouviu lerem-lhe os seus direitos e foi detido pelo homicídio de Beth.

Não era verdade. Não fora ele a fazê-lo. Mais uma vez, fora vítima de uma cilada e, mais uma vez, teria de batalhar para provar a sua inocência.

Desta vez, Vito Giovanni apoiou-o, contratando o melhor advogado de defesa criminal e pagando todas as despesas.

Vito era um homem sábio. Sabia que Mamie era, de alguma forma, responsável, e porque gostava genuinamente de Michael, tinha um sentimento de culpa.

Mamie negou ter alguma coisa a ver com o caso. Não que Michael se tivesse confrontado com ela, mas Vito fizera-o e ela jurara que não estava envolvida.

Ambos sabiam que estava a mentir.

- Os meus advogados põe-te cá fora - prometera Vito. E fizeram-no. Ainda tinha de passar pelo assédio da imprensa. Os jornais apontaram-no como o menino de olho azul de Vito Giovanni. Só que ele não tinha olhos azuis e não era menino de ninguém. Pelo que, não só teve de suportar a dor da morte de Beth, como também teve de aguentar a exposição constante que os jornais lhe concederam.

O dia em que foi detido era um dia de poucas notícias e o seu extremo bom aspecto pô-lo mesmo nas páginas principais.

Os cabeçalhos eram sinistros e sem mérito.

 

         MENINO BONITO MATADOR

         O HOMEM DO SORRISO DOURADO

 

A fama, ainda que transitória, era horrorosa. Mulheres começaram a escrever-lhe - milhares de cartas, com as quais enviavam retratos de si mesmas em trajes reduzidos - dizendo que queriam casar-se com ele, ter filhos dele, salvá-lo. Havia muita loucura por aí.

Ele suportou tudo - que mais podia fazer? Não tinha escolha.

Depois de passar vários meses na prisão veio o julgamento e ele acabou por ser absolvido.

Nunca esqueceria a cara de Catherine no dia em que subiu à barra das testemunhas afirmando que ele lhe dissera que, se Beth ousasse nem que fosse só olhar para outro homem, ele a mataria.

Claro que tinha dito isso, estava furioso nesse dia. Mas fora sem intenção. E Catherine sabia disso.

Outras testemunhas surgiram. Pessoas que ele não conhecia, pessoas que frequentavam o instituto de moda com Beth. Muitos afirmaram que ela dizia frequentemente que vivia com um homem loucamente ciumento. Conseguia perfeitamente imaginar Beth a dizer isso - era a sua maneira de chamar a atenção. Ela sempre adorara causar confusão.

O seu advogado destruiu as testemunhas uma por uma.

Tina e Max levaram Madison para sua casa, tratando-a como se fosse um dos seus próprios filhos. Nunca esqueceria a sua bondade.

Depois da morte de Beth, Catherine tentara obter a custódia de Madison. Não conseguira Não fazia ideia onde estava Catherine agora. Odiava-a. Ela acreditava verdadeiramente que ele tinha matado Beth - o amor da sua vida. Era impensável que ela pudesse acreditar numa coisa dessas.

Por vezes, quando revivia essa noite, o horror era demasiado para que o conseguisse suportar. E a tristeza...

Agora tinha passado algum tempo desde que fora absolvido e queria a sua filha de volta.

- Ela está melhor connosco - disse-lhe Tina.

- Não, não está - argumentou ele. - Ela devia estar comigo.

- Tu vives num hotel rasca qualquer - realçou Tina. - Quem é que vai olhar por ela?

- Arranjo um apartamento, contrato uma ama.

- É assim que queres a tua filha criada, por uma ama? Isso não é justo para Madison. Ela é feliz com Susie e Hany.

- Eu sei, Tina, e agradeço, só que preciso de reaver a minha vida; e Madison é a minha vida.

Depois da absolvição alterara legalmente o seu nome, de Castellino para Castelli. Rasgara todas as cartas e fotografias que recebera e tentara manter-se longe da ribalta. As pessoas tinham memória curta: era apenas uma questão de tempo até que esquecessem as manchetes duvidosas e ele pudesse regressar à obscuridade.

Bone deixara a cidade. Segundo Gus, tinha-se mudado para a costa oeste. Ele sabia sem margem para dúvida que Bone e Mamie eram responsáveis pela morte de Beth. Os dois em conjunto tinham maquinado algum tipo de plano diabólico. Mas porquê? Essa era a questão. Que mal lhes tinha feito Beth? Será que o odiavam tanto que tiveram de matar a única mulher que amava?

Vito Giovanni aconselhara-o.

- Vê as coisas desta forma - dissera Vito. - Tu despachaste Roy. Depois alguém te fez esta coisa infeliz. Agora tens que deixar ficar assim; estão quites.

Quites! Estaria Vito doido? Eles nunca estariam quites.

- Michael - disse Tina, interrompendo os seus pensamentos -, ajudas-me a tirar o bolo?

- Claro - disse ele.

- Estou ansiosa por ir a Las Vegas este fim-de-semana - disse ela, entusiasmadamente, enquanto ele a seguia para a cozinha. - Vai ser tão divertido!

Que é que ainda era divertido? Ele não sabia. Não queria saber. Prometera a Tina e a Max um fim-de-semana em Las Vegas para celebrar o seu aniversário de casamento, e ia tentar que fosse divertido para eles.

Todos cantaram o Parabéns a você enquanto Madison pulava, gritando de excitação. Harry fez uma tentativa frustrada de mergulhar a cara no bolo. Susie deu-lhe uma bofetada para o afastar. Tina começou a gritar com ambos. Havia crianças, brinquedos e balões por todo o lado.

- Adoro-te, papá - ceceou Madison, dando-lhe um grande e viscoso beijo na boca. - Adoro-te muito!

Ele pegou nela e apertou-a contra si.

- Tu és o meu mundo, filha - disse. - Sabias? És o meu mundo inteiro.

- Eu sou o mundo inteiro do meu papá - repetiu ela, orgulhosamente. - Adoro-te, papá.

- Sim, bichaninha - disse ele, pousando-a no chão. - É mesmo isso. Nunca superaria a morte de Beth, mas pelo menos tinha a sua preciosa filha. Era alguma coisa.

Regressar a Las Vegas com Max e Tina fez voltar um turbilhão de memórias. Felizmente, nenhuma delas era de Beth. Conseguira compartimentar a sua vida e Beth não fazia parte das suas memórias de Las Vegas.

Deixaram as crianças com os pais de Tina, pelo que se sentia seguro de que Madison estava em boas mãos.

No momento em que aterraram, Tina sentiu-se nas nuvens.

- Oh, meu Deus! Oh, meu Deus! - dizia, ofegante. - Podemos ir ver o Elvis?

- Nunca conseguiremos arranjar bilhetes - disse Max, sempre o pessimista.

- Eu posso arranjar - disse Michael. - Tenho conhecimentos aqui. - Estava a armar-se, mas por que não? Se Tina estava louca para ver Elvis, era exactamente isso que faria.

Perguntou a si mesmo se Manny Spiven ainda andaria por ali. Depois, por alguma razão desconhecida, começou a pensar na loira. Como se chamava ela? Dani. Sim. Dani.

Isso acontecera há muito tempo. Um conhecimento de uma só noite. Por que é que estava a pensar nela? Perguntou a si mesmo se ainda faria parte do corpo de baile do Estradido.

Não, provavelmente devia ter partido há muito tempo e estar casada e a viver em Omaha com três crianças e um marido gordo.

- Eu quero ver tudo - entusiasmou-se Tina, enquanto o táxi os levava para a cidade. - Quero ir a todos os hotéis, a todos os casinos. Quero andar para cima e para baixo na Strip. Isto é tão excitante! Vocês nem fazem ideia.

Vito Giovanni dera instruções para que eles ficassem em quartos de luxo no Hotel Estradido. Arranjara-lhes os melhores e por isso Michael estava-lhe agradecido. O facto de ter recomendado a Vito uma compra na Bolsa ajudara; umas acções que tinham duplicado o seu valor num período de três semanas.

- Onde é que soubeste desta merda? - perguntara Vito.

Ele encolheu os ombros.

- Foi apenas sorte, acho eu.

- Quero que me faças mais disto.

- Por mim tudo bem.

As escolltas de Karl Edgington estavam sempre correctas e ao longo dos últimos anos ele conseguira uma pequena fortuna. Já não tinha que trabalhar para ninguém, era o seu próprio patrão; com a ajuda de Karl, o qual, segundo Warner Carlysle, deveria ser libertado em breve.

- Tem um jacuzzi na sala de estar - riu-se Tina para Michael, quando se encontraram todos no átrio para uma bebida, depois de darem entrada nos quartos.

- Acreditas nisto? - disse ela, de olhos arregalados. - Na sala de estar! Max é o homem mais feliz do mundo!

- Sou? - disse Max, parecendo surpreendido.

- Sim - disse Tina -, porque podes tomar um banho e ver televisão ao mesmo tempo.

- Talvez tome um banho contigo - disse Max, atrevidamente.

- Não sejas nojento - disse ela bruscamente.

- Reparaste nos espelhos do tecto? - perguntou Max, dando uma rápida cotovelada a Michael.

- Deve-me ter escapado.

- Dá uma olhadela. Se queres saber, acho sexy.

Parecia que, ultimamente, Max achava tudo sexy. Estava decididamente a sentir a inquietação de homem casado.

- Amanhã arranjo bilhetes para o Elvis - disse Michael.

- Se me levares a ver o Elvis, adorar-te-ei para sempre! - derreteu- se Tina.

- Então e eu - perguntou Max.

- Ah, tu. Tu és o meu marido. Sempre te amarei.

- Para esta noite pensei emjantarmos no hotel - decidiu Michael. - Podemos ver o espectáculo, depois dar uma volta por aí.

- Não quero jantar aqui - disse Tina, petulantemente. - Não podemos ir ao Sands, ao Desert Inn ou ao Magiriano? A minha amiga ficou no Magiriano e ela diz que é o melhor. Aparentemente, tem um espectáculo fabuloso.

- O que tu quiseres. Eu trato disso.

Tina acenou entusiasticamente com a cabeça.

- Duas noites em Las Vegas e até vais gritar para voltar para casa - disse Michael, rindo-se com a genuína excitação de Tina.

- Desde que eu possa ir às mesas de jogo - disse Max.

- É melhor que te lembres do que aconteceu daúltimavez-recordou-lhe Michael.

- Isso foi há muito tempo - disse Max, pretensiosamente. - Agora sei o que estou a fazer.

- Ele tem cem dólares para jogar e é tudo - disse Tina, de forma verdadeiramente conjugal.

- Sim, querida - disse Max, com os quinhentos dólares que conseguira surripiar de casa desejosos de lhe saltarem do bolso.

Antes de descerem, Tina decidiu que iria jogar nas slot machines. Entrou numa onda de sorte e após quarenta e cinco minutos e dois jackpots, saiu com mil e quinhentos dólares.

- Oh. meu. Deus - exclamou ela. - Este é o lugar mais fabuloso do mundo! Quem me dera que pudéssemos vir todos os fins-de-semana.

- Pois, mas não podemos - disse Max, seguramente porque já tinha perdido cem dólares. - Empresta-me algum do teu dinheiro; eu quero jogar.

- Não, é meu. Tu vai jogar com os teus cem dólares.

- Egoísta - resmungou ele.

- Não, não sou - opôs-se ela. - Eu ganhei-o e vou gastá-lo com os miúdos.

- Pois, isso mesmo; estraga-os com mimo.

- Vocês vão discutir? - disse Michael. - Pensei que tínhamos vindo para descontrair.

- E viemos - disse Tina, lançando a Max um olhar sinistro.

- Está bem - disse Michael. - Então, vou fazer reservas para o jantar e o espectáculo do Magiriano. Teremos de sair daqui a uma hora. Talvez queiram ir ao quarto tomar um duche.

- Porquê? - brincou Max. - Cheiro mal?

- Mexe-te! - respondeu Michael.

Tina e Max apanharam o elevador para o seu quarto, ainda discutindo, enquanto Michael se dirigiu à sala de espectáculos principal. Não havia ninguém à vista, pelo que foi aos bastidores. O contra-regra informou-o de que as raparigas ainda não tinham chegado.

- Eu estava, hem... à procura de Dani. Ela ainda trabalha aqui?

- Não temos nenhuma Dani - disse o contra-regra.

- E uma Angela?

- Temos duas Angelas.

- A que horas costumam chegar?

- Você é parente?

- Sim.

- As raparigas estão aqui às cinco.

- Obrigado - disse ele, esperando que uma das Angelas lhe pudesse dar informações sobre Dani.

Por que estava ele à procura dela afinal?

Razão nenhuma. Qualquer coisa que ajudasse a passar o tempo.

Angela não era a Angela que ele pensava. Nem a segunda Angela - uma morena desbotada que tentou persuadi-lo a regressar depois do espectáculo, prometendo que lhe mostraria as vistas.

- Lamento - disse ele.

- Eu também! - disse ela, com um piscar de olhos bem disposto. Era só isso que as mulheres viam, o seu bom aspecto? Quando era mais novo e tinha vontade de dar uma queca de cinco em cinco minutos, isso funcionara para ele.

Agora, com quase trinta anos, com tudo o que já vivera, os conhecimentos de uma só noite eram uma coisa do passado. Suspirava por amor e companheirismo, uma mulher que o excitasse e o mantivesse vivo. Uma mulher como Beth.

O único problema era que mulheres como Beth não existiam.

Quando Tina desceu vinha toda arranjada, para a sua grande noite em Las Vegas. Vestido de cocktail preto e curto, saltos de dez centímetros, jóias de imitação de diamante e cabelo alisado.

- Que tal a minha mulher? - vangloriou-se Max. - Não é qualquer coisa?

- Podes ter a certeza - concordou Michael.

- E eu sou acompanhada pelos dois homens mais elegantes de Las Vegas - disse Tina, aperaltando-se enquanto atravessavam o casino em direcção à porta principal do hotel, onde apanharam um táxi para o Magiriano.

Tina adorou o Magiriano. Parou para admirar as fontes ornamentais e as catatuas engaioladas, enquanto Max tentava sentar-se numa das mesas de blackjack quando passavam pelo casino em direcção à Sala Krystle.

- Não! - disse Tina, arrastando-o da cadeira. - Depois do espectáculo, antes não.

Michael passou uma nota de vinte ao maitre para que lhes fosse assegurada uma mesa na frente.

- Estou tão feliz! - guinchou Tina. - Isto é o meu sonho.

Michael acenou com a cabeça. Era bom que alguém ainda tivesse sonhos.

 

                   Dani: 1974

- Raios partam! - gritou ajovem rapariga. -Algum estúpido pisou na merda da minha cauda!

A rapariga tinha dezanove anos, um metro e oitenta de altura e era espectacular. O seu nome era Penelope e falava de mais. Era a substituta de Gemini e trabalhava ao lado de Dani. O único problema era que ninguém podia substituir Gemini.

Dani tinha regressado ao trabalho havia um ano. Sentia necessidade de se manter ocupada e nada o fazia melhor do que dois espectáculos por noite no Magiriano, onde era considerada uma veterana.

Vinte e seis anos e era veterana. Las Vegas era assim. Sem história.

- Acalma-te, minha querida - disse Eric, o assistente de contra-regra. Era um gay simpático, que tomava sempre conta de Dani. - Estás a perturbar toda a gente com a tua linguagem bárbara.

- Bárbara? - exclamou Penelope. - Estás a ouvir o que dizes, maricão? Nunca deves ter ouvido palavras simples na tua vida.

Penelope era perfeitamente irritante. Comprometida com um jovem do género maGoso, achava que todos lhe deviam beijar o belo rabo de dezanove anos.

Dani tentara manter neutrais os sentimentos entre as duas. Simplesmente não era possível. Sentia a falta de Gemini. Pensava nela todos os dias. Na noite anterior ao seu casamento, Gemini fora mesmo visitar Moralis. Por que fizera isso, tendo em conta o historial da sua relação, ninguém conseguiu perceber bem. Ela fora ao quarto de hotel de Moralis, onde ele fora violento como era seu timbre, fechando-a no quarto, atacando-a, violando-a, e, finalmente, num ataque de fúria, atirando-lhe ácido à cara. Depois desse acto terrível, mantivera-a presa no quarto, com dores atrozes, durante três dias, até que uma empregada acabara por desconfiar e chamara a Polícia.

Quando a Polícia chegou era demasiado tarde. Gemini morreu a caminho do hospital. Morgan era um homem abatido. Culpou Dani por deixar Gemini sair do rancho naquela noite, apesar de claramente não ser culpa dela.

Moralis foi detido e preso numa cela durante a noite. De alguma forma conseguiu enforcar-se.

Ao longo dos meses seguintes, Dean tentou reconfortar Dani. Não adiantou, ela estava inconsolável.

Não posso casar contigo, Dean, acabou ela por lhe dizer. Trago azar às pessoas. Primeiro Emily. Agora Gemini. Não posso fazer o mesmo contigo. "

Ele ficou ao lado dela durante muito tempo, tentando desesperadamente persuadi-la a mudar de ideias. Não adiantou, ela foi inflexível. Acabou por lhe dizer que não podia voltar a vê-lo e ele regressou a Houston. Três meses depois, ouviu dizer que ele casara com outra mulher.

Não se importou. As relações íntimas não eram para ela. Nem sequer as amizades. Pelo que o facto de Penelope se comportar como uma verdadeira diva não a incomodava.

De vez em quando, Dean telefonava, apesar de ser agora um homem casado.

- Como vais? - perguntava.

- Bem - respondia ela.

- Seremos sempre amigos, não é, Dani?

- Desde que a tua mulher não se importe.

Estava contente por Dean ter encontrado uma mulher que parecia ser boa para ele; uma simpática rapariga do sul com fortuna própria.

Alguns dias depois de Moralis se matar, o seu pai milionário, Esai, viajou da Colômbia para recolher o seu neto e o levar para casa. Dani tentou persuadi-lo a deixar Nando ficar em Las Vegas.

- Sr. Sanchez - rogara ela -, Nando fica melhor connosco. Ele não o conhece. O meu filho adora-o como a um irmão; ele será muito feliz aqui.

- Não me parece - dissera Esai, frio como gelo. E essa foi a sua resposta final. Apartida de Nando perturbou profundamente Vincent. Sentia a falta do seu melhor amigo e, apesar de ter apenas nove anos de idade, escolheu ser um solitário, recusando-se a fazer mais amigos íntimos. Na escola distinguia-se, obtendo notas altas na maior parte das disciplinas. Também brilhava nos desportos. Dani e ele eram tão chegados quanto podem ser uma mãe e um filho. Iam juntos ao cinema, andavam de bicicleta e por vezes iam de barco para o lago Mead, enquanto outras vezes saíam de carro para o deserto e passavam o dia a passear.

- Olha só para a merda da minha cauda - gritou Penelope novamente. - Está destruída!

- Não está destruída, minha querida- disse Eric, remexendo na elaborada cauda.

- Está em perfeitas condições. Vai para o palco e faz um espectáculofantástico.

- Desaparece, panasca! - disse ela grosseiramente.

- Não fales assim com Eric - interveio Dani.

- Tu estás a dizer-me como me devo comportar? - perguntou Penelope, lançando-lhe um olhar imperioso.

Dani encolheu os ombros.

- Alguém devia fazê-lo.

- Quem raio pensas tu que és? - disse Penelope, teatralmente. - O meu namorado podia comprar este hotel se quisesse. Depois punha-te no olho da rua.

- Diverte-te - disse Dani. - Não quero saber.

- Cabra presumida! - cuspiu Penelope.

- Ela é que é a cabra - sussurrou Eric ao ouvido de Dani.

Por vezes, em palco, Penelope tentava sabotá-la. Era tudo muito subtil, mas Dani sabia exactamente o que Penelope estava a fazer. Depois de ser incomodada várias vezes, decidiu desafiar Penelope no seu próprio jogo. Uma noite levantou o braço para o lado e fez o toucado de Penelope voar. Na noite seguinte voltou a fazer a mesma coisa. A sabotagem depressa parou.

Penelope recebia muita atenção. Os homens adoravam-na, mas não tanto como a Dani. Esta tinha uma legião muito fiel de seguidores, especialmente quando havia convenções na cidade; os mesmos grupos de homens que vinham duas ou três vezes por ano e que apareciam sempre para vê-la no espectáculo.

Pouco tempo depois de ter regressado ao trabalho, o director da companhia chamara-a ao seu gabinete e dissera:

- Dani, chegou o momento de começares a fazer topless.

- Você sabe que não vou fazer isso - respondeu ela.

- Será com muito bom gosto - assegurou-lhe ele. - Usarás os mesmos trajes sumptuosos, farás as mesmas entradas extravagantes, só que mostrarás os seios. É assim uma maneira tão terrível de duplicares o teu salário?

- Eu... eu não sei - disse ela, hesitantemente.

- Que tens a perder, minha querida? Já assim és famosa em Las Vegas. És uma das mais belas raparigas a actuar na cidade. Portanto, aproveita e ganha bom dinheiro enquanto podes.

- Isso não é um bocado reles?

- Já não é. Todos os grandes hotéis estão a pôr as suas melhores raparigas a fazer topless. Nós somos umespectáculo caro e de classe. Temos que acompanhar a concorrência

- Vou pensar nisso - suspirou ela.

Pensou durante duas semanas e depois decidiu que não tinha nada a perder. Os fatos eram caros e deslumbrantes e ela sabia que a mostrariam com grande estilo. Além do mais, não tinha por perto homem que ficasse perturbado e ciumento e, como lhe assegurou o director da companhia, a nudez seria breve e de bom gosto.

O engodo de duplicar o seu salário finalmente convenceu-a. Estava a pôr de lado tudo o que ganhava para a educação de Vincent e o dinheiro extra seria uma enorme ajuda. Ser uma mãe solteira não era fácil, portanto... se mostrar os seios lhe dobrava as poupanças, por que não?

Quando informou o director da companhia de que a sua resposta era sim, ele ficou encantado.

- Vais dar cabo deles, Dani - disse. - Até vão fazer fila para te ver. E era verdade.

Os seus fãs leais também ficaram encantados, criaram mesmo um clube de fãs. Ela gostava das suas duas vidas separadas. Vida um: mãe de Vincent, ir às reuniões de pais, encontros de natação e campeonato infantil de basebol, sem maquilhagem, sem roupas elegantes, apenas mais uma mãe que fazia biscoitos no dia das famílias na escola. Vida dois: Dani Castle, famosa dançarina, encantadora, deslumbrante, um chamariz de homens, os quais rejeitava sem excepção.

Que vida preferia ela? Não havia outra escolha, optaria por ser mãe de Vincent em qualquer momento. Se não fosse pelo dinheiro, desistiria do encanto num segundo.

Anteriormente nessa noite, entre espectáculos, aparecera um homem no camarim que ela partilhava com Penelope e entregara-lhe o seu cartão. Era um representante da Playpen - uma revista ilustrada para homens.

- Ouvi muita coisa sobre si - dissera ele. - E gostaríamos de a fotografar para a nossa revista.

- Não estou interessada.

- Devia estar. Pagamos muito dinheiro e só trabalhamos com os melhores fotógrafos. Aquilo que mostra no palco, por que não mostrá-lo numa revista?

Ela ficara-lhe com o cartão e dissera-lhe que ia pensar no assunto. A sua resposta padrão.

Talvez fosse por isso que Penelope estava com tão má disposição, porque o homem não a abordara a ela.

Eric afadigava-se, tentando consertar a cauda de Penelope.

- Por amor de Deus - continuava Penelope a queixar-se. - És tão desastrado como um porco!

A sua música de entrada em cena começou e Eric recuou agradecidamente.

- Cabeças para cima, mamas para fora, tenham um bom espectáculo - disse.

- Não se tu tiveres alguma coisa a ver com o assunto - cortou Penelope, agarrando numa mão-cheia de gelo para avivar os seus mamilos.

E assim fizeram a sua entrada ao som de The Most Beautiful Girl in the World.

 

                    Michael e Dani: 1974

Michael encomendou uma garrafa de champanhe. Tinha toda a intenção de tornar aquela viagem especial para Tina e Max, uma vez que tinham feito tanto por ele, Antes, tinhajá passado cem dólares ao chefe dos paquetes do Estradido para que lhe arranjasse bilhetes para o Elvis na noite seguinte.

- Arranje-os e aparecerá mais de onde veio esse - prometera. Uma fotógrafa parou junto da mesa deles.

- Sim, por favor! - exclamou Tina, posicionando-se entre os dois homens, com um grande sorriso firmemente colocado.

Depois de um excelente jantar de bifes, lagosta e souflé de chocolate, começou o espectáculo. Primeiro um corpo de baile. Depois uma exibição de magia extremamente inteligente, seguida de um grupo de espantosos acrobatas chineses, que fizeram a audiência arfar de assombro.

Os olhos de Michael percorreram o corpo de baile - nunca se sabia. Max estava praticamente a espumar da boca, enquanto Tina emborcava champanhe como se estivesse quase a acabar a reserva.

Depois vieram as dançarinas, desfilando ao som de The Most Beautiful Girl in the World. Seis belezas altas, esculturais e em topless, vestidas de cetim e renda, com leves caudas de marabu em gaze e tiaras com imitações de diamante. Com saltos altos tinham todas um metro e oitenta de altura, movendo-se com pomposa graciosidade enquanto deslizavam pela magnífica escadaria dupla abaixo, fazendo pose.

Max soltou um assobio grave de apreciação. Tina acotovelou-o nas costelas.

Michael estava petrificado. A rapariga da esquerda era Dani. A rapariga do seu passado. O conhecimento de uma só noite que ele nunca esquecera. Estava um pouco mais velha, provavelmente muito mais sensata e resplandecente ao ponto de cortar a respiração.

Pela primeira vez desde o assassínio de Beth sentiu algo - uma atracção que era inegável. Deviam ter passado quase dez anos desde que tinham estado juntos - ela provavelmente esquecera-o ou não aceitaria falar com ele. Talvez estivesse comprometida. Ou casada.

Tinha que descobrir.

Mal o espectáculo terminou, levantou-se da cadeira.

- Qual é a tua pressa? - perguntou Tina. - Vamos acabar o champanhe. Não podemos desperdiçá-lo.

- Tenho que ir ver uma antiga amizade - disse ele. - Encontro-me convosco no casino.

- Que antiga amizade? - quis saber Max.

- No casino, onde? - perguntou Tina.

- Não se preocupem, eu encontro-vos.

- Michael...

Ele não a ouviu. Estava já a caminho dos bastidores.

Uma coisa estranha acontecera a Dani enquanto estava no palco. Parecera-lhe ver Michael Castellino.

Mantendo-se na sua posição, tentando ficar tão imóvel quanto possível, observava a audiência e naquela noite havia um homem numa das mesas da frente que se parecia extraordinariamente com ele. Ela não conseguia ver muito bem, com as luzes de palco e tudo isso, mas mesmo assim...

Não. Não podia ser. Passara demasiado tempo e ela não queria que ele voltasse a entrar na sua vida, descobrindo acerca de Vincent e tentando fazer valer os seus direitos.

Olhou noutra direeção, na esperança de que isso o fizesse desaparecer. Mas quando voltou a olhar, alguns minutos depois, ele continuava lá.

Só que não era ele. As brilhantes luzes estavam a criar-lhe ilusões visuais. Desfilou pelo palco, de cabeça bem erguida, movendo-se como uma rainha.

Quando desceu do palco e regressou ao camarim, ficou furiosa por encontrar Joey, o namorado de Penelope, estendido no sofá. Dissera a Penelope vezes sem conta que não o queria ali. Fazer topless no palco era uma coisa, mas regressar ao camarim e ter Joey de perto a comê-la com os olhos era inaceitável.

- Como se ele quisesse olhar para ti quando me tem a mim - argumentara Penelope. - Faz-te à puta da vida!

Dani percebeu que teria que levar o assunto ao director da companhia. Já era demasiado.

- Tá tudo bem, boneca? - disse Joey, erguendo-se de um salto e olhando-a lubricamente. Ele era todo cabelo negro oleoso e dentes brancos afiados.

- Nem por isso - respondeu ela, secamente. - Importas-te de esperar lá fora enquanto mudo de roupa?

- Não tens nada que eu não tenha visto milhares de vezes - disse Joey, de olhar fixo nos seus mamilos.

- Gostava de ter alguma privacidade.

- Não sejas assim, boneca - disse ele, aproximando-se. - Onde está a minha Penny?

- Vem a caminho, portanto, tira esses olhinhos porcos de cima de mim - disse ela, agarrando numa toalha para se cobrir.

- Jesus! Eu não ia propriamente tocar-lhes - disse ele, indignadamente.

- Rua! - gritou ela, perdendo subitamente a compostura.

Ele caminhou indolentemente até à porta e saiu para o corredor. Rapidamente, ela bateu a porta e trancou- a.

Não demorou até que Penelope começasse a bater na porta e a gritar do lado de fora. Dani levou o seu tempo até acabar de remover a sua pesada maquilhagem de palco e mudar para roupas de rua. Quando finalmente ficou pronta, destrancou a porta e uma furiosa Penelope irrompeu no camarim.

- Que merda... - começou Penelope, tremendo de fúria.

Ignorando-a, Dani dirigiu-se para a porta dos artistas.

- Cabra - gritou Penelope por trás dela.

A caminho da saída, Dani agarrou Eric.

- Ou ela vai para outro camarim, ou vou eu - disse ela. - Liguem-me quando estiver resolvido ou não volto.

Soube bem marcar uma posição. E por que não? Tinha um clube de fãs e revistas a persegui-la para obterem a sua fotografia. Já era altura de começar a desfrutar do seu sucesso.

Saiu para o exterior.

Lá fora, fumando um cigarro, estava Michael Castellino.

- Para onde foi Michael? - perguntou Tina, enquanto saíam da Sala Krystle juntamente com o resto da audiência.

- Não sei - respondeu Max, mais interessado em se sentar às mesas de black jack do que em qualquer outra coisa.

- Devemos esperar aqui?

- Não, Tina. Ele disse que nos encontrava.

- Então, que devemos fazer?

- Não sei o que tu vais fazer, mas eu vou até às mesas de jogo.

- Então, eu vou jogar nas slot machines.

- Diverte-te.

- Não percas o teu dinheiro.

- Eu nunca perco.

E, alegremente, seguiram caminhos separados.

Ela não recuou. Também não correu, embora lhe tivesse apetecido. Michael Castellino estava ali, tão descontraidamente como se se tivessem visto no dia anterior.

- Olá - disse ele, atirando o cigarro ao chão com um piparote. - Lembras-te de mim?

Lembrar-se dele. Ela nunca o tirara da cabeça. E agora, quase dez anos depois, ele estava de volta.

- Desculpe... - disse ela, fingindo.

- Michael - disse ele, aproximando-se. - Michael Castelli.

- Castellino - corrigiu ela. E desejou bater em si mesma por ter dito o nome dele.

- Então lembras-te - disse ele. - Isso é bom. Ah, já agora, mudei o meu nome para Castelli.

- Que fazes tu aqui? - perguntou ela, mantendo um tom frio e impessoal.

- Neste momento estou a pensar se te poderei oferecer uma bebida.

- Não me parece.

- Não te parece - disse ele, lançando-lhe um olhar curioso. - Bem, sempre é melhor do que um redondo não. Pelo menos, tenho uma hipótese de cinquenta por cento.

Ficaram ali parados. Dois estranhos que tinham concebido uma criança em conjunto. E, no entanto, ele não sabia. Não fazia ideia de que era o pai de um fantástico rapaz de nove anos.

Não fiques aí especada, começa a andar, dizia-lhe a sua voz interior. Não se conseguia mover. As suas pernas não a deixavam.

- Suponho que isto seja um pouco embaraçoso - disse ele. - Passámos uma grande noite juntos, depois nunca mais soubeste de mim.

- Acho que isso resume bem as coisas - disse ela friamente.

- Acredita - continuou ele -, ocorreram circunstâncias, coisas que me impediram de regressar.

Ela ficou silenciosa, recusando-se a ajudá-lo.

- Eh... estás casada ou algo parecido? - perguntou ele, sentindo-se incomodado; uma sensação nova para ele.

- Divorciada - respondeu ela serenamente. - E tu?

- Não. Nunca cheguei a casar.

- Estou a ver.

- Estás com óptimo aspecto.

Tu também, queria ela dizer, mas não o fez. Ele era tão desgraçadamente bonito.

- Uma bebida, Dani. Que dizes?

- Eu não bebo.

- Ofereço-te um batido.

Raios! Ele era atraente. Que mal faria tomar uma bebida com ele? Era apenas mais um homem e ela sabia exactamente como lidar com homens.

- Está bem - murmurou ela, submetendo-se ao pedido dele. - Um batido de chocolate. E depois tenho de ir para casa.

Uma hora depois estavam na cama do seu quarto de hotel no Estradido, fazendo amor de forma apaixonada e selvagem.

Ela nunca se sentira assim antes. Nunca! Sexo era uma coisa que as outras pessoas faziam. Ela não. Não estava interessada.

E no entanto, ali estava ela - com Michael. E era como se o mundo tivesse parado e ele fosse a única pessoa que importasse.

O toque dele fazia-a gemer e arrepiar-se de prazer. A forma como o corpo dele pousava sobre o dela. Os seus lábios, tão insistentes, cobrindo cada centímetro da sua pele.

Sentia-se transportada para outro tempo, para outro lugar. Estava verdadeiramente feliz.

Pela primeira vez desde a trágica morte de Beth, Michael conseguia sentir a dor a dissipar-se. Havia algo em Dani, algo quente e aconchegante. De repente, sentiu-se em paz. Parecia que os braços dela eram o lugar certo para estar.

O sexo também era incrível. Não se sentia como se estivesse a marcar pontos, mas antes como se estivesse a ligar-se a ela. Sabia que ela sentia o mesmo. Tinha de sentir.

Mais tarde, ficaram na cama, lado a lado, silenciosos, tranquilos e satisfeitos.

- Uau! - disse ele por fim. - Foi qualquer coisa.

- Sim, foi - concordou ela.

- Tu foste... és... sensacional!

- Não está na hora de te vestires e ires embora? - disse ela, decidindo que não podia permitir a si mesma continuar com aquilo.

- O quê?

- Tu sabes, repetir o teu acto. Vemo-nos daqui a dez anos.

- Ai! - disse ele, sentando-se. - Eu expliquei-te onde estive. Achei que não ias gostar de uma carta tipo: querida Dani, estou na prisão.

- Eu podia ter gostado de qualquer coisa.

- Sim - disse ele, agarrando um cigarro. - Eu sei. - Uma longa pausa. - Ei, não foi como se eu não tivesse pensado em ti.

- Isso é muito reconfortante.

- Dani - disse ele seriamente -, éramos ambos miúdos naquela altura.

- Sim - disse ela. - Eu tinha só dezasseis anos.

- Oquê?

Um ligeiro sorriso.

- Não te quis assustar.

- Jesus! - disse ele, abanando a cabeça. - Eu podia ter sido preso.

- E foste - disse ela, secamente.

- Sim, mas não por dormir com uma menor.

Ela debruçou-se sobre ele e tocou-lhe na cara. Os mesmos olhos, nariz e lábios do seu pequeno Vincent. Meu Deus, se ele alguma vez o visse, saberia de imediato. Tinha de se certificar de que isso nunca aconteceria.

- Foste espectacular no palco esta noite - disse ele, admirativamente. - Fiquei tão entusiasmado quando saíste.

- Ficaste?

- Sim. Tinha estado no Estradido a procurar-te. Depois calculei que te tivesses casado e partido há muito tempo. Podes imaginar a minha surpresa quando apareceste no palco. - Fitou-a intensamente. - É como o destino, não é?

- Mais ou menos - disse ela, hesitantemente.

- Sim - disse ele, acenando para si mesmo. - Estava destinado a acontecer.

- Sorriu para ela. - Dani Castle. É um belo nome. Estive a ler acerca de ti no programa do espectáculo.

- Arranjaste um programa?

- Agarrei num à saída. De onde te saiu a ideia do Castle?

- Vi-o numa revista e pareceu-me um bom nome.

- Dani Castle - repetiu ele.

- Michael - disse ela, pondo todas as suas inibições de parte. - Quer parecer-me que estás a falar demasiado.

Ele sorriu.

- Achas que sim?

- Sim, acho - disse ela suavemente, passando levemente os dedos pelo estômago dele.

- Bem... - disse ele, tocando-lhe nos seios. - Nesse caso...

A segunda vez foi ainda melhor. Dani tentou perceber o que era. Com Sam o sexo fora um desastre. E com Dean, embora ele tentasse ser um amante atencioso, ela ficava ali deitada como um tronco, completamente insensível aos seus cuidados.

Por que razão apenas Michael conseguia ser capaz de acender a sua chama?

Não sabia, nem queria saber. Simplesmente rendeu-se ao momento.

Tina conseguiu perder tudo o que tinha ganho anteriormente no espaço de duas horas. Quando olhou para o relógio ficou chocada ao descobrir quanto tempo tinha passado. Onde diabo estava o seu marido? Tinha estado tão absorvida a jogar nas slot machines que nem se apercebeu da falta dele. E por que não viera Michael procurá-los?

Levantou-se e começou a procurar por Max no casino, acabando por o encontrar numa das mesas de blackjack, onde estava a ganhar. Era uma inversão da sorte anteriormente, ela estivera por cima e ele em baixo. Agora era a vez dele.

- Querido - disse ela, surgindo- lhe por trás. - Estás a ganhar!

- Estou mesmo - disse ele, excitadamente. - Não fiques muito próxima; podes mudar-me a sorte.

- Muito obrigada - disse ela indignadamente, dando um passo atrás.

- Chiu... tenho de me concentrar.

- Dás-me algum dinheiro para jogar?

- Não - disse ele, protegendo a sua pilha de fichas com ambas as mãos.

- Que queres tu dizer com não?

- Tu disseste-me que não, por que hei-de eu dar-te dinheiro a ti?

- És tão egoísta - argumentou ela. - Eu estava a planear gastar o meu dinheiro com as crianças.

- Então faz isso.

- Não posso.

- Porquê?

- Perdi tudo.

- Jesus - disse Max. - Toma lá cem. Vai perdê-los.

- Oh, que generoso - disse ela, sarcasticamente. - Afinal, quanto estás a ganhar?

- Não sei. Sai daqui.

- Onde está Michael?

- Algures por aí.

- Está bem, vou levar estes cem e recuperar todo o meu dinheiro.

- Claro, filha, é esse o espírito.

Hmm, pensou ela. Max nas mesas de jogo fica um homem diferente. Assertivo, sexy, no comando. Gosto disso! " Ela ia ganhar o seu dinheiro de volta, depois arrastava-o para o quarto. Estavam casados havia já alguns anos e ele não era tão entusiástico na cama como costumava ser. Talvez essa noite ela acendesse algumas centelhas.

- Não encomendes nada ao serviço de quartos - disse Dani, sorrindo. Michael espreguiçou-se e mostrou-lhe um sorriso indolente.

- Achei que, tu sabes, talvez champanhe, caviar.

- Isso é uma mudança.

- Em relação a quê?

- Certamente que te lembras. Da última vez foi gelado e morangos.

Ele riu-se.

- Podes encomendar o que te apetecer.

- Posso?

- Claro.

- Camarão e batatas fritas. Gelado e morangos.

- Lindo - disse ele, rindo-se.

- Esta noite foi linda - murmurou ela. - Uma noite linda contigo e volto a ver-te daqui a dez anos.

- Então, Dani. - Ele lamentou-se. - Não continues a bater nessa tecla. Eu disse-te, estive preso durante cinco anos e quando saí achei que tinha passado demasiado tempo. - Fez uma longa pausa, escolhendo cuidadosamente as suas palavras seguintes. - Depois tive, uh... mais problemas.

- Que tipo de problemas?

- Por acaso não leste sobre mim há algum tempo?

- Se li sobre ti?

- Eu apareci em todos os jornais de Nova Iorque. Presumo que não tenha sido notícia a nível nacionál, graças a Deus.

- De que tratava?

- Algo de que fui acusado mas que não fiz.

- Foi por isso que mudaste de nome? - perguntouela, curiosamente.

- Precisava de começar de novo. As pessoas sabiam quem eu era. Olha, importas-te que não falemos no assunto agora?

- Não, não me importo.

- Obrigado.

- Quando regressas a Nova Iorque?

- Deveria partir depois de amanhã, mas estava a pensar que podia ficar mais alguns dias. Gostavas?

- Não sei, Michael - disse ela, inseguramente. - Isto não é uma coisa que devamos levar mais longe porque...

- Eu sei, eu sei - interrompeu ele. - Porque eu não sou de confiança. Certo?

- Não tens que ficar cá por minha causa - disse ela, serenamente. - Vim aqui esta noite por escolha própria.

- Estás a dizer que da última vez eu te forcei?

- Eu era virgem. Não fazia ideia do que havia de esperar.

- Ah, óptimo - disse ele, meio a brincar. - Isso mesmo, faz-me sentir culpado.

- Não foi essa a minha intenção.

- Ei, lembras-te do que me disseste?

- Não - disse ela, lembrando-se muito bem.

- Disseste que me amavas. Nunca esqueci isso.

- Vês que rapariguinha tola eu era? - disse ela, frivolamente. - Não eras tola, eras maravilhosa. Ainda és.

- É melhor ligar para casa.

- Quem tens à tua espera?

- Não te disse? Tenho uma criança.

- A sério? - disse ele, surpreendido. - Rapaz ou rapariga?

- Um rapazinho.

- Não me digas! Eu tenho uma filha; acabou de fazer três anos. Talvez os devêssemos apresentar.

- Pensei que tinhas dito que nunca chegaras a casar.

- Estive a viver com uma pessoa. Ela era muito jovem. Quando tivermos mais tempo conto-te tudo sobre isso.

- Onde está ela agora?

- Ela... eh... morreu.

- Lamento.

- Bem, a vida continua - disse ele, decidido a não a sobrecarregar com a sua dor. Além do mais, a história de amor entre ele e Beth era pessoal.

- Onde está a tua filha?

- Tem vivido com os meus amigos Max e Tina. Agora, estou a planear levá-la de novo para viver comigo.

- E devias mesmo, ela é tua filha.

- Madison é uma grande miúda.

- Madison. É um nome invulgar. É parecida contigo?

- Sim - disse ele, rindo-se. - Pobre criança.

- Tens uma fotografia? - perguntou ela, pensando se a filha dele teria parecenças com Vincent.

- Pareceria um pai babado se dissesse que sim?

- Não há nada de errado nisso.

Ele saiu da cama, atravessou o quarto e pegou na sua carteira que estava sobre a mesa.

Ela admirou o seu corpo enquanto ele caminhava em direcção a si. Era esguio e musculado, com ombros largos e abdominais duros. Era decididamente um homem muito bem- parecido.

Ela suspirou e desejou que aquela noite durasse para sempre.

Só que sabia que isso não ia acontecer. Ele partiria. E seria tudo. A menos que ela lhe dissesse.

Max tentava desesperadamente manter-se frio, enquanto ganhava mão após mão na mesa de blackjack. Mas manter-se frio era difícil quando tudo o que ele queria realmente fazer era levantar-se e gritar!

Continuava a fazer vinte-e-um. Era inacreditável.

- Carta? - perguntou o croupier Ele acenou afirmativamente. Merda! Outra vez vinte-e-um. Ele não conseguia falhar!

- Tenho que encontrar os meus amigos antes que eles estourem com a conta bancária - disse Michael, saltando da cama. - Vem comigo, gostava que os conhecesses.

- Tens a certeza?

- Se não tivesse, não convidava.

Vestiram-se e apanharam um táxi para o Magiriano, dando as mãos ao longo de todo o trajecto. Quando lá chegaram, foi mesmo a tempo de arrastar Max para longe da mesa de blackjack antes que ele estourasse os seus ganhos.

- Sê esperto - disse Michael, agarrando firmemente o braço de Max. - Tens que aprender quando se deve sair.

Por uma vez, Max escutou.

- Diz olá a Dani - disse Michael, logo que ficaram a uma distância segura da mesa de blackjack.

Max olhou para a bonita loira que segurava a mão de Michael. Reconheceu-a imediatamente. Era a deslumbrante mulher em topless do espectáculo que tinham visto pouco antes, a segunda a contar da esquerda. Como é que Michael tinha feito aquilo? Sacana sortudo.

- Olá, Dani - disse ele.

- Olá, Max - disse ela, lembrando-se dele, da sua noite de luxúria com Angela.

- Como é que vocês se conhecem?

- Parece que te esqueceste da tua despedida de solteiro - disse Michael, com um sorriso.

Max parecia confundido.

- o quê?

- Ela não se chamava Angela?

- Jesus! - disse Max, com os olhos a percorrerem nervosamente o casino. Por amor de Deus, não deixes que Tina te ouça.

- Se na altura não estivesses tão atestado, lembrar-te-ias que Dani era a companheira de quarto de Angela. Agora estás a perceber?

- Ah, sim, Dani. É a rapariga de que tu costumavas falar.

- Estás a ver? - disse Michael, sorrindo para ela. - Eu costumava estar sempre a falar de ti. Max pensava que eu estava maluco.

- Por que pensaste isso, Max? - perguntou ela.

- Porque, hem, enfim, ele falava de ti, mas tu não estavas lá. E eu achei que ele podia meter-se num avião e vir ver-te. Depois ele, uh, estava metido em outras coisas.

- Está tudo bem - disse Michael. - Ela sabe o que me aconteceu.

- Sabe?

- Sim, sei - disse Dani.

- Sabe também que deixei de me dedicar a esses negócios - disse Michael. E, a propósito, com esta coisa dos investimentos em que tenho estado envolvido, tu devias dar-me os teus quatro mil dólares, eu posso duplicá-los para ti.

- É melhor perguntar a Tina.

- Também precisas da autorização dela para mijar?

- Vai-te foder!

- Afinal, onde está Tina?

- A perder o meu dinheiro nas slot machines.

- Devíamos ir procurá-la.

Foram os três em busca de Tina e descobriram-na a jogar os seus últimos dez dólares.

- Perde isso e desiste - ordenou Michael. - Ah, Tina, apresento-te Dani. Vamos todos beber um copo.

- Quem é ela? - sussurrou Tina a Max, pouco entusiasmada por ver o seu aconchegante grupo de três passar a um grupo de quatro.

- Pertencia ao espectáculo - sussurrou-lhe Max de volta. - Mike conhece-a desde há anos.

Estavam sentados num dos salões, bebendo champanhe para celebrar os ganhos de quatro mil dólares de Max. Ele estava corado pelo seu sucesso, mas Tina estava lívida: não só perdera todo o seu dinheiro como também perdera os cem dólares que Max lhe dera para jogar.

Além do mais, sentia-se desconcertada. Ela era habitualmente a rapariga mais bonita em qualquer grupo. Agora aquela loira alta e bonita juntara-se a eles e todos olhavam para ela. Isso não entusiasmava Tina.

- Não gosto dela - sussurrou a Max.

- Não me parece que Michael se importe - retaliou Max.

- Que queres dizer com isso?

- Ele fode-a a ela, não a ti.

- Meu Deus! És tão vulgar. Que é que te faz pensar que ele durma com ela?

- Olha bem para os dois.

- Pensei que ele teria mais respeito pela memória de Beth.

- Beth foi-se há quase dois anos. Um homem tem que seguir em diante.

- Por vezes és tão nojento!

Entretanto, Dani decidiu que devia tentar conhecer melhor os amigos de Michael:

- Que fazes? - perguntou a Tina.

- Eu... eu, ah... olho pelos meus miúdos - disse Tina. - E ele dá uma trabalheira! - acrescentou, apontando com o polegar para Max. - Larga a roupa no chão, nunnca faz nada em casa, deixa as latas de cerveja vazias sobre a mesa...

- Espera um minuto - objectou Max. - É de mim que estás a falar. Levanto-me todos os dias de madrugada e vou trabalhar a vender carros para ganhar a vida.

- Talvez me possas aconselhar, Max - disse Dani. - Estou a pensar em comprar um carro novo.

- A sério? Que carro tens agora?

- Um Cadillac. Estava a pensar em algo mais desportivo. O meu filho está sempre a tentar convencer-me a comprar um Corvette.

- Ah, tens um filho? - disse Tina, fazendo uma tentativa para aquecer.

- Sim.

- Que idade tem?

- Nove. E os teus miúdos?

- Susie tem sete, Harry, o pequeno monstro, tem oito. Para que estou eu a dizer isto? Suponho que deves saber tudo sobre os rapazes.

- Na realidade, o meu é bastante estudioso.

- Sortuda!

Para alívio de Michael e Max as mulheres começaram subitamente a pisar terreno comum.

- Julguei que elas não se fossem dar bem - disse Michael a Max, em voz baixa. - Mas agora que Tina começou a queixar-se de ti, vai correr sobre rodas.

- Max mencionou que conheces Michael desde há muito tempo - disse Tina, ansiosa por saber mais. - Onde se conheceram?

- Onde foi que nos conhecemos, Michael? - questionou Dani, passando- lhe a bola.

- Ah... um amigo comum apresentou-nos.

- Podes dizer a verdade a Tina - disse Dani, rindo-se. - Eu tinha dezasseis anos e era virgem. Aí apareceu o vosso amigo Michael e abusou de mim.

Tina lançou a Michael um olhar rancoroso.

- Ah, sim, o nosso Michael gosta muito de virgens de dezasseis anos. Michael retribuiu o olhar com um dos seus que dizia: Vê se calas a boca! Tina percebeu a mensagem.

Mais tarde, por insistência de Michael, Dani ligou para a sua governanta e avisou que não iria para casa nessa noite.

Enquanto Dani estava ao telefone, Michael avisou Tina para que não falasse de Beth ou do que acontecera.

- Eu contarei a Dani quando achar que é o momento certo - disse. - Não posso arriscar assustá-la.

- Como queiras - disse Tina. - Mas acho que estás a cometer um erro.

- É o meu erro, portanto, eu cometo-o. Está bem?

Quando Dani regressou de fazer o telefonema, saíram para uma ronda por todos os grandes hotéis, chegando finalmente ao Estradido pelas três da madrugada.

- Isto foi tão divertido! - exclamou Tina, enquanto subiam no elevador. - Podemos repetir amanhã?

- Dormir, preciso de dormir! - resmungou Max. - Dêem-me uma cama!

- São um casal tão simpático - disse Dani, logo que chegaram ao quarto de Michael.

- Sim - concordou ele. - Max é um verdadeiro tipo às direitas, já passámos por muito juntos. E Tina é uma figurona. Passa a vida a chagar-lhe o juízo e ele diverte-se com isso.

Dani caminhou até à janela e contemplou as espectaculares vistas.

- Escuta, Michael - disse, serenamente. - Estive a pensar que devias voltar para Nova Iorque com eles. Se queres mesmo que aconteça algo entre nós, então, volta sozinho. Assim saberei que não sou apenas mais um conhecimento para uma só noite.

- Achas mesmo que és isso? - disse ele, bastante magoado.

- É só que...

- Eu não tenho que ir - interrompeu ele.

- Eu quero que vás.

- O que é isto? - disse ele, inquisitivamente. - Um teste?

- Acho que sim.

- Jesus, não confias...

Agora era a vez dela de o interromper.

- Faz o que te peço, Michael - disse suavemente. - Por favor.

- Como queiras - disse ele, envolvendo-a nos seus braços.

Isto é uma loucura, pensou ela. Estou a passar a noite com um homem que mal conheço. E estou mais feliz do que alguma vez estive.

No dia em que partiram, Dani alugou uma limusina, como presente seu, e foi com eles até ao aeroporto. Por essa altura já ela e Tina eram boas amigas. Tinham passado as últimas vinte e quatro horas juntas, passando uns momentos fantásticos, tendo o ponto alto sido a fantástica actuação de Elvis Presley no Hilton, onde arranjaram lugares laterais ao palco e Tina quase desmaiara de excitação.

- Tens de nos ir visitar a Nova Iorque - disse Tina. - Nem posso acreditar que nunca lá tenhas estado.

- Talvez vá - disse Dani, olhando timidamente para Michael.

- Sim, ela vai - disse Michael. - Isso se eu tiver alguma coisa a ver com o assunto.

- Óptimo - disse Tina. - Estou ansiosa por te mostrar a nossa cidade. No aeroporto, Tina e Max saíram da limusina e dirigiram-se para o telefone.

Dani e Michael também saíram e ficaram parados ao lado da limusina. Ele fê-la encostar-se à viatura, pressionando o corpo dela com o seu.

- Quanto a ti não sei, mas eu passei uns momentos óptimos - disse ele, passando-lhe os dedos pelo cabelo.

- Mais vinte e quatro horas do que na última vez - murmurou ela.

- Volto daqui a duas semanas.

- Tenta não ser preso.

- Já te disse - retorquiu ele. - Deixei de estar metido nesses negócios.

- Fico feliz por saber.

- Estive a pensar, talvez eu pudesse ficar em tua casa na próxima vez. Que dizes?

- Não, Michael, isso não é possível. Eu disse-te, tenho um filho.

- Pois - disse ele. - Um filho que não me deixas conhecer.

- Talvez quando voltares.

- Então, o que me estás a dizer é que não há homens a visitar-te? - disse ele, erguendo uma sobrancelha de incredulidade.

- Não há homens, ponto final.

- A sério?

- Não sou esse tipo de rapariga.

- Estrela de um espectáculo de Las Vegas com todos os homens da cidade atrás dela e não é esse tipo de rapariga - disse ele, abanando a cabeça. - Devo acreditar nisso?

- Acredita no que quiseres.

- O que eu quero é beijar-te.

- Vai em frente - disse ela, sem fôlego.

Ele fê-lo até que ela sentiu uma erecção a pressionar a sua coxa. Delicadamente empurrou-o.

- És insaciável - murmurou.

- És tu que me pões assim.

- Ainda bem - disse ela, sorrindo.

- Ei, Dani - disse ele, ficando subitamente sério. - Há coisas que tenho de te contar. Coisas em que não quero entrar agora.

- Eu não vou a nenhum lado.

- Eu ligo-te - disse ele, beijando-a de novo, sabendo que finalmente encontrara uma espécie de paz e que isso valia por tudo.

 

                   Terça feira, 10 de Julho de 2001

O furgão raspava pela ruela abaixo. Madison fixou o olhar em frente, através do pára-brisas, mantendo-se alerta, pronta a baixar-se se avistasse algo a bloquear-lhes o caminho. Um helicóptero pairava por cima. Era provavelmente de um canal de televisão. A Polícia não tinha hipóteses de controlar a comunicação social, eles faziam o seu próprio jogo.

- Vira à esquerda para Beverly no fim da rua - disse o cabecilha. - Se alguém se meter à nossa frente, passa por cima dos filhos da puta.

Madison voltou a cabeça para trás, para ver se Natalie estava bem. A mulher do golpe na têmpora soluçava baixinho.

Isto é uma loucura, pensou ela. Onde raio pensa ele que vamos? Qual é o plano dele? Fazia melhor em ter ficado no restaurante e se ter entregado.

Cole guinou em direcção a Beverly, batendo lateralmente num Jaguar.

- Se vires algum semáforo vermelho pela frente - gritou o cabecilha - passa-o. Nem penses duas vezes.

- Podemos morrer todos! - lamentou-se a mulher na traseira.

- Se eles não fizerem o que eu digo, morrem todos de qualquer maneira.

- Estás mesmo a pensar levar-me a uma reunião de negócios? - disse Jolie, satisfeita. Era a primeira vez e estava a gostar.

- Pois é, querida, achei que devias ver como as profissionais fazem - disse Nando.

Como as profissionais fazem o quê?

Vou levar-te a um clube de strip de que talvez compre uma parte.

- Vais levar-me a mim a um clube de strip - disse Jolie, erguendo fortemente uma sobrancelha.

- Tenho a sensação de que vais achar muito educativo - disse Nando.

- Estás a insinuar que preciso de lições?

- Isso é a última coisa de que tu precisas. Quero que conheças uns tipos a quem eu talvez me associe, a ver o que achas.

- E como é que Vincent está envolvido?

- Não está.

- Porquê?

- Porque Vincent vive no passado. Não percebe que Las Vegas está a mudar.

- E achas honestamente que está?

- Claro que está. Estamos a voltar ao básico: raparigas e sexo, é a próxima onda.

- Que aconteceu às famílias?

- Esse lado do negócio está acabado.

- Diz isso às brigadas papá-e-mamã.

- Olha, fofa - disse Nando, na sua voz mais persuasiva -, este sítio onde te vou levar é um pouco manhoso, mas se te conheço, vais ver o seu potencial. Com o teu olho para o estilo, vais imaginar o aspecto com que pode ficar quando o redecorares ou fizeres o que for preciso para o tornar um lugar de sucesso. Se isto funcionar, talvez até te dê uma parte no negócio.

- A sério?

- Sim - disse ele magnanimamente. - Por que não?

- Nunca te ouvi falar assim antes, Nando.

- É impressionante o que uma sessão no poste pode fazer, não é, fofa? riu-se. - Quando conheceres os dois tipos vais detestá-los logo à primeira vista. Mas lembra-te de que estão sentados sobre uma máquina de fazer dinheiro.

- Devo presumir que se Vincent entrasse no negócio, não precisarias de sócios? Compravas a parte deles, certo?

- E também é inteligente.

- Talvez eu devesse falar com Vincent - meditou ela.

- Tens alguma influência sobre o meu melhor amigo que eu não tenha?

- Sou uma mulher, Nando. Por vezes, isso faz muita diferença.

- Sim, fofa, realmente és uma mulher.

- Fala-me desses tipos com quem nos vamos encontrar.

- São dois gajos pretos com muito andamento. Até lhes vão cair os tomates com o teu encanto.

- Espero que não estejas a falar em sentido literal.

- Querida, se alguma vez olhares para outro homem, ele vai passar a usar os tomates no fundo da garganta.

- É bom saber que te importas, Nando.

- É, não é?

- Nunca usaste coca? - disse Andy Dale, parecendo tão surpreendido como se ela lhe tivesse dito que nunca bebera um copo de leite.

Jenna abanou a cabeça, com os cabelos loiros a baloiçarem sobre os ombros.

- Não, o meu marido não aprova o uso de drogas.

- Drogas, o caraças! - disse Andy. - A coca não é uma droga; é uma coisa recreativa, como o tabaco ou os copos. Se os médicos pudessem, receitavam-na. É tão simples como isso.

- Pensei que transformava as pessoas em viciados em drogas.

- Quem te disse isso? O teu homem?

- Vincent diz que as drogas destroem qualquer pessoa que as use.

- Isso são as drogas duras, fofura. Heroína e essas merdas. Eu digo-te o que acontece quando inalas coca. Descontrais, deitas-te, passas um bom bocado. E também fazes sexo desenfreado. Olha para Anais.

Ela olhou através do luxuoso quarto para Anais, que decidira tirar todas as suas roupas, excepto uma tanga e muitas cruzes de ouro pendentes de correntes em volta do seu pescoço.

- Achas que ela parece uma viciada?

- Não, Andy, não parece.

- Então dá uma snifada. És muito rígida. Anda, eu mostro-te como é.

- Só vim cá para pedir desculpas pelo comportamento de Vincent. Por vezes, ele não compreende que as pessoas do negócio dos filmes são diferentes.

- Tu compreendes, não compreendes? - disse Andy, agarrando-lhe a mão.

- Claro que sim. Afinal, és artístico, és um actor, um artista.

- Sim, é isso que eu sou - disse Andy, satisfeito com a descrição dela. - Um artista. Agora - acrescentou, levando-a em direcção ao bar, onde tinha preparado várias linhas de coca -, vou enrolar esta nota e tu vais encostá-la ao teu lindo narizinho e inspiras. Compreendes, snifas. Consegues fazer isso?

- Tens a certeza de que não me vai fazer mal? - perguntou ela, sentindo-se só um pouquinho insegura.

- Absoluta.

Ela pegou na nota, snifou cuidadosamente a cocaína e espirrou de imediato, espalhando algum do pó branco pelo chão.

- Jesus Cristo! - gritou Andy. - Que merda é que estás afazer?

- Desculpa - disse ela, sentindo- se humilhada por ter sido capaz de fazer tal coisa.

- Felizmente tenho muita - resmungou ele.

Anais aproximou-se.

- Põe alguma nas minhas mamas - ordenou, erguendo o seu peito nu para ele.

- Mais logo - disse ele, acenando-lhe para que se afastasse.

- Agora! - disse ela imperiosamente, uma mulher habituada a que as coisas fossem à sua maneira. - E alguma na minha rata, também.

- Falo já contigo - disse Andy, encolhendo os ombros. - Estou a tentar ensinar Jenna a snifar sem espalhar tudo pelo chão.

- Manda vir mais champanhe - disse Anais, não desistindo das suas exigências.

- Quero lavar o cabelo.

- Vais lavar o cabelo agora - disse ele, prestando finalmente atenção.

- Sim.

- Está bem.

Anais sorriu sonhadoramente.

- Se o meu namorado soubesse que estou aqui, não ficáva contente.

- Quem é o teu namorado? - perguntou Andy; não fazia ideia de que ela tinha um.

- É mega-rico - disse ela. - Mega, mega, mega-rico.

- Também eu sou - disse Andy, o que não era estritamente verdade, porque depois de pagar ao agente, ao publicista, ao estilista, ao empresário, ao motorista e ao gestor de negócios, não sobrava muito.

- Encomenda dez garrafas de champanhe - disse Anais, tocando distraidamente nos seus mamilos - para eu tomar banho nele.

- Talvez fosse melhor lavares só o cabelo - disse ele, voltando-se para Jenna, que, naquele momento, já se sentia de cabeça leve e aventurosa. - Pronta para tentar outra vez? - perguntou ele.

- Sim - disse ela, avidamente. - Estou pronta.

Michael tentou falar com Madison duas vezes. Não deixou mensagem no atendedor de chamadas porque não considerou seguro alertar alguém acerca da sua localização.

- Pelo menos, sabes onde está Madison - disse Dani. - Mas como vamos nós encontrar Sofia?

- Boa pergunta - respondeu Michael. - Quando foi a última vez que tiveste notícias dela?

- Há duas semanas atrás. Estava em Marbella, Espanha.

- Não entendo como autorizas que ela ande a viajar pelo mundo sozinha - resmungou Vincent. - Devias insistir para que ela voltasse para casa.

- Alguma vez tu tentaste dizer alguma coisa a Sofia? - respondeu Dani. Mesmo quando era muito nova não ouvia a voz da razão.

- A miúda provavehnente sai amim-disse Michael. -Faz as coisas à suamaneira.

- E olha aonde isso te levou - disse Dani.

- Ela deu-te algum número de telefone ou morada em Marbella? - pergúntou Michael, ignorando o comentário. - Algum sítio onde pudéssemos contactá-la?

- Disse que estava a trabalhar como fotógrafa numa discoteca.

- Como fotógrafa! - exclamou Vincent. - Que espécie de trabalho é esse?

- Mencionou qual era a discoteca? - disse Michael.

- Não disse - respondeu Dani. - Conheces Sofia; sempre que telefona, recusa-se a deixar um número.

- Vou pôr alguém a tratar disso - disse Vincent. - Vamos encontrá- la.

- Ei - disse Michael. - A pior coisa é que se nós não a encontrarmos, ninguém consegue.

- Achas que é assim tão sério? - disse Vincent.

- Sim, é sério.

- Qual é o teu próximo passo?

- Viajo para L. A. pela manhã. Tenho de me encontrar com uma pessoa.

- Quem?

- Ninguém que conheças - disse Michael, abruptamente. - Trata das coisas que te pedi; eu mantenho-me em contacto. Se alguém vier fazer perguntas, eu não estive aqui, e isso inclui a tua mulher.

- Eu sei disso - disse Vincent.

- Óptimo.

- Como está Jenna? - perguntou Dani.

- Está bem, mãe - disse Vincent, rapidamente. Ele sabia o que a sua mãe sentia pela sua mulher e recusava-se a dar-lhe a satisfação de lhe dizer que tinha razão. Resolveria as coisas com Jenna à sua maneira. E se isso implicasse um divórcio, paciência.

A meio da noite, Sofia acordou de novo. Estava junto a um homem, um estranho, e era bom senti-lo no seu pijama de seda. Encostou-se mais, passando as mãos pelo macio tecido, adorando o toque dele.

Já ninguém usava pijama. Por que não estava ele nu? Encostou-se ainda mais. Ele agitou-se sem acordar.

Ela moveu as mãos para baixo e sentiu que ele estava feliz por vê-la. Quando Gianni acordou completamente, ela estava a fazer amor com ele, montando-o de uma forma desenfreada.

- Meu Deus - arfou Gianni. - Que é que está a fazer?

- Não estou a jogar ténis - riu- se. - Cale-se e aproveite.

Ele pôs-lhe as mãos nos ombros, empurrando-a vigorosamente de cima de si.

- Está louco? - disse ela. - Estou a fazer amor consigo. Não é isso que você quer?

- Não, Sofia, não é - disse ele irritadamente, sentando-se na cama.

- Claro que é - disse ela, acusadoramente. - Você estava teso, estava pronto.

- Eu estava adormecido - disse ele, acendendo a luz.

- Oh, meu Deus, você é gay, não é? - arquejou ela.

- Não, Sofia - disse ele. - Não sou gay.

Gianni saiu da cama, marchou em direcção à casa de banho e bateu com a porta.

Uma verdadeira novidade. Um homem que não queria dar uma queca. Quando emergiu da casa de banho alguns minutos mais tarde, ele vestira um roupão sobre o pijama de seda e continuava irritado.

- Você faz sempre amor com homens completamente desconhecidos? - perguntou.

- Você não estava propriamente relutante.

- Já lhe disse, Sofia, eu estava adormecido, pensei que estava a sonhar.

- Que sonho fixe, não? - disse ela, começando a sentir-se um pouco tola.

- Eu não me envolvo em sexo casual. Especialmente com uma rapariga que está supostamente ao meu cuidado.

- Ao seu cuidado? - exclamou ela. - Deve estar a brincar comigo.

- Se fosse fazer sexo com uma mulher, quereria certamente saber muito mais sobre ela do que sei sobre si.

- Ah - disse ela, sentindo-se insultada. - Está perfeitamente seguro. Não tenho nenhuma doença sexualmente transmissível ou algo parecido.

- Comporta-se sempre assim com pessoas que não conhece?

- Nem sempre - disse ela, concluindo que o detestava e que estava feliz por não terem feito amor.

- Tem sorte por eu não ter abusado de si.

- Está a dizer-me que tenho sorte por você não se ter vindo dentro de mim?

- Tem uma forma extremamente vulgar de colocar as coisas.

- E suponho que a sua namorada, Anais, seja uma perfeita senhora.

- Anais não tem nada a ver consigo.

- Olhe, desculpe - disse ela, subitamente arrependida. - Achei que seria uma forma de pagamento agradável por você me deixar ficar aqui.

- Então agora é uma prostituta?

- Vá-sefoder! - gritou ela, saltando da cama. Como se atrevia ele a dizer-lhe uma coisa daquelas? Quem raio pensava ele que era?

Ele ficou silencioso.

- Olhe - disse ela por fim -, eu gosto de si. Gosto de estar aqui. Estava feliz por estar na cama consigo. Por que é que você é tão rígido?

- Tem que perceber que as coisas nem sempre são tão fáceis como pensa. Um agradecimento não é dormir com alguém. Eu não peço favores sexuais.

- Você é o quê? - disse ela, rudemente. - Fiel à sua namorada? Ele suspirou.

- Você não entende, pois não?

- A maioria dos homens ficaria feliz por dormir comigo.

- Não tenho dúvidas.

- Não me acha sexy?

- É muito sexy.

- Então é o quê?

Estou demasiado cansado para discutir, Sofia - disse ele, bocejando. - Fique na cama, eu vou para o sofá. Falamos acerca disto pela manhã.

- Como queira - disse ela, lançando-lhe um olhar furioso. - Fazemos à sua maneira. Suponho que todos o façam sempre.

- Liga para aqueles cabrões e diz-lhes para tirarem o helicóptero daqui ou atiro um de vocês para fora do carro.

- Não tenho telefone - disse Madison. - Você tirou-mo, lembra-se?

- Foda-se! Ace - disse ele, voltando-se para trás -, arranja-me um caralho de um telefone.

Finalmente, um nome. Ace. Provavelmente, uma alcunha.

Seria Ace o que tinha a cobra tatuada no pescoço? Não, Ace era o terceiro; o mais baixo, com o saco que continha o saque e um brinco no nariz.

Ace remexeu no saco de plástico preto que segurava entre os joelhos. Depressa encontrou um telemóvel, que passou para a frente.

O cabecilha pegou nele e deu-o a Madison.

- Liga-lhes. Rápido!

- Por favor, não nos magoe - gemeu a rapariga na traseira do furgão. - Por favor, porfavor por que não nos deixa ir embora?

- Cala a puta da boca! - disse ele, voltando-se novamente para Madison. Vamos, cabra! Faz a chamada.

- E a quem devo ligar? - perguntou ela. - Eles deram-lhe algum número?

- Não brinques comigo. Liga para as Emergências. Diz-lhes que, se o helicóptero não sair daqui em dois minutos, um de vocês vai ser atirado para fora do carro.

Ela pegou no telemóvel e digitou o 911 das Emergências. Um telefonista atendeu.

- Daqui fala Madison Castelli - disse ela, tão calmamente quanto lhe era possível. - Sou uma dos reféns do restaurante de Beverly Boulevard. Estamos no furgão. Por favor, ouça com atenção. Preciso que diga à Polícia que têm que afastar o helicóptero que anda por cima de nós. Se não o fizerem, eles vão atirar um dos reféns para fora do furgão.

O assaltante tirou-lhe o telefone e atirou-o para a traseira.

- É melhor rezarem para que eles obedeçam - disse. - Porque se não o fizerem, um de vocês vai parar ao passeio.

 

                   Michael 1975

Pela altura em que Karl Edgington foi solto da prisão, Michael já acumulara uma grande quantia em dinheiro seu. E dado que pagava impostos sobre a maior parte, era perfeitamente legal. Seguira instruções durante os últimos quatro anos e sempre que fazia um investimento com o dinheiro de Karl, também fazia um com o seu. Agora que Karl estava cá fora, perguntava a si mesmo o que iria acontecer a seguir.

Warner ligou e sugeriu que se encontrassem para jantar no 21.

- Pensei que Karl preferia que eu fosse ter com ele - disse ele.

- Não - respondeu Warner. - Karl acha que um encontro social é a melhor forma. Portanto, será um jantar.

- Se é assim que ele quer.

- É a forma mais segura - assegurou-lhe Warner.

- Michael nunca estivera no 21, embora tivesse perfeita noção de que era um restaurante muito famoso. Deslocou-se ao Saks e comprou um fato, uma camisa, uma gravata e uns sapatos propositadamente para a ocasião. Queria aparecer com o melhor aspecto possível. Queria também continuar a trabalhar com Karl.

Ao longo dos últimos meses muitas coisas tinham acontecido. Alugara um razoável apartamento de três quartos, contratara uma ama e levara Madison para viver consigo. Ela passava a maior parte dos fins-de-semana em casa de Tina e Max, mas também ele o fazia quando não andava a viajar de, e para, Las Vegas.

O seu caso com Dani corria bem. Com intervalos de algumas semanas, apanhava um avião e ia visitá-la. Ela ficava sempre feliz por o ver e passavam bons momentos apenas por estarem juntos. Ficava, sempre no hotel, embora Dani tivesse uma casa. Ela nunca pusera a hipótese de ficarem lá e, quando ele disse que gostaria de o fazer, ela explicou-lhe que era demasiado cedo para que ele conhecesse o seu filho.

- Demasiado cedo para quê? - perguntou ele, na última vez. - Andamos a encontrar-nos desde há três meses. Não achas que é altura de eu o conhecer?

- Talvez na tua próxima viagem - disse ela - Mas não podes ficar em minha casa.

- Por que não? - perguntou ele, perplexo.

- Vincent é muito pequeno. Não pareceria correcto.

- És mesmo uma rapariga à moda antiga, não és?

- Há algo de errado nisso?

Ele não se importava. Gostava disso em Dani. Não era uma vagabunda que já tivesse andado a rodar centenas de vezes.

Também não era como Beth. Mas Beth fora única. Andava a pensar seriamente em levar as coisas mais longe. Antes de fazer isso, precisava de ser apresentado ao filho dela e de o conhecer. Se as coisas funcionassem bem, esperava que Dani deixasse o seu trabalho e se mudasse para Nova Iorque, o que era a melhor opção, porque ele não apreciava vê-la a desfilar no palco com as mamas à mostra.

Recentemente, conseguira persuadi- la a pedir uma semana de folga para que pudesse ir visitá-lo a Nova Iorque. Agradava-lhe a ideia de estarem num ambiente diferente onde podiam discutir o seu futuro conjunto sem a distracção de ela ter que aparecer no seu espectáculo todas as noites.

Ela acabou por concordar. Ele estava ansioso pela sua visita. Ela nunca conhecera Madison e ele esperava que se apaixonasse pela sua adorável e inteligente menina. Se isso acontecesse e Madison gostasse dela, então, o casamento era decididamente uma hipótese.

- Estás a comportar-te como se a rainha viesse à cidade - queixou-se Tina, enquanto andavam de loja em loja a comprar novos lençóis, toalhas e pratos, preparando-se para a chegada de Dani.

- Só quero tornar as coisas agradáveis.

- Isto deve ser mesmo amor, não é? - disse Tina, enquanto vagueavam pela secção de roupa de cama do Bloomingdale's.

- Pode dizer-se que é sério.

- Fico feliz por ti - disse Tina, inspeccionando os lençóis. - Olha, Michael - disse, hesitantemente.

- Sim?

- Já lhe falaste acerca de Beth?

- Que tem a Beth?

- Tu sabes - disse Tina, de forma embaraçada. - Aquilo que aconteceu, o. ah... assassínio.

Era um assunto que ele nunca gostava de abordar. E, no entanto, sabia que Tina

tinha razão: tinha de revelar tudo a Dani.

- Vou contar-lhe este fim-de- semana - disse, abruptamente. - É uma coisa para a qual ainda não tive oportunidade.

- Tens de lhe dizer, Michael - disse Tina, com a sua bonita cara séria. - Foste acusado de matar Beth. Quero dizer, apareceste em todos os jornais daqui. Tens sorte de ninguém lhe ter falado no assunto.

- Tens razão - disse ele. Ele sabia o que tinha de fazer, não precisava do raio de um sermão.

- Todos sabemos que não o fizeste - continuou Tina.

- Obrigado - disse ele, secamente.

Mais tarde, nessa semana, jantou com Karl e Warner. Warner levou a sua amiga Stella, uma bonita jovem que podia ter servido de dupla a Marilyn Monroe, com o seu cabelo platinado pelos ombros, pele macia, lábios carnudos e corpo voluptuoso.

- Que fazes tu - perguntou ele, fazendo conversa.

- Sou modelo numa sala de exposições - disse ela, sorvendo um Martini, com os seus olhos cor de avelã a percorrerem a sala. - Desfilo roupas para compradores de fora quando vêm à cidade. Warner trabalhava comigo. Agora está a montar o seu próprio negócio de criação de jóias. Karl está a ajudá-la.

- Parece uma boa ideia.

- E é. Warner é uma excelente mulher de negócios. Sempre se interessou por criação.

Criação. A própria palavra fazia-lhe lembrar Beth.

Vou ser a maior criadora de moda do mundo", vangloriara-se Beth. Se tivesse sobrevivido, tê-lo-ia provavelmente conseguido. Beth conseguia alcançar tudo aquilo a que se propunha.

- Tu e Karl são velhos amigos? - perguntou Stella, brincando com o pé do seu copo de Martini.

- Por assim dizer - respondeu ele, regressando ao presente. - Tu és adorável, Stella, mas espero que compreendas que esta noite é puramente de negócios.

- Não pensei que fosse um encontro às cegas - disse ela, causticamente. Estou aqui para fazer um favor a Warner. - Sorveu o Martini. - Eu não iria a um encontro às cegas. Nunca o fiz e nunca o farei.

- Posso ver que não precisas.

Ela sorriu; um sorriso sonhador à Marilyn Monroe.

- Tens esse direito.

Quando as raparigas foram à casa de banho, Karl começou a falar.

- Estou satisfeito com a maneira como trataste das coisas, Michael - disse. Fizeste tudo o que te pedi e ainda mais. Espero que tenhas aproveitado para fazer bom dinheiro para ti mesmo.

- Não me saí mal.

- Então, não há razão para que não continuemos com a nossa combinação.

- Para que precisas de mim, agora que estás cá fora?

- É sempre bom dispersarmos o nosso património. Segue o meu conselho e faz a mesma coisa. Emprega os teus amigos e dá-lhes dez por cento. Ficarias surpreendido ao ver como isso funciona bem.

Homem interessante, este Karl Edgington.

Seguir em frente com a sua vida e ser um pai responsável para Madison significava pôr o passado para trás das costas e era precisamente isso que ele tentara fazer. Por muito que quisesse vingar-se da morte da sua mãe e decididamente ansiava fazê-lo pelo assassínio de Beth, decidira que o mais prudente era não fazer nada. Não podia correr o risco de ser novamente mandado para a cadeia. Madison era, agora, a sua prioridade: tinha de estar ali para ela.

Isso não significava que Mamie e Bone ficassem esquecidos. Alguma oportunidade acabaria por se apresentar e, se essa oportunidade fosse à prova de riscos, ele faria alguma coisa sobre o assunto.

Uma vez por outra encontrava-se com Vito Giovanni, que vivia agora com a sua stripper preferida, Western Pussy.

- Esta miúda é fabulosa - exultava Vito. - Vem vê-la uma destas noites. Vou fazer dela uma estrela.

- Uma estrela de quê? - perguntou Michael.

- De porno. Todo aquele furor. Esta miúda consegue fazer de tudo.

- Quer que a sua namorada seja uma estrela de porno?

- Por que não? Ela goza com isso. Para te dizer a verdade - disse Vito, com um piscar de olhos libidinoso -, eu também.

Gostos não se discutiam.

Na noite seguinte, Vito levou-o ao Gentlemen's Club, onde Western Pussy actuava. Michael não tinha vontade de ir, mas como era agora o responsável por todos os investimentos de Vito, parecia-lhe prudente mantê-lo feliz.

Quando Western Pussy subiu ao palco, a audiência masculina começou a gritar e a bradar com entusiástico deleite. Ela era uma daquelas strippers audazes e de presença forte, sendo as mamas o seu activo mais notável, um soutien 46, largo, bem erguido. Algo que Vito se esquecera de referir.

Enquanto ela rodopiava pelo palco, fazendo coisas que só uma contorcionista conseguia habitualmente fazer, Vito ria-se às gargalhadas.

- Não achas que ela é qualquer coisa? - disse, dando uma palmada nas costas de Michael. - A melhor miúda do mundo!

Miúda, não era propriamente a palavra adequada para descrever Western Pussy. Michael estava petrificado. Nunca vira ninguém como ela. Sempre lhe causara espanto o facto de os homens se excitarem com as strippers. Se não se pode tocar, qual é o interesse de ver?

Mais tarde, nessa noite, Vito convidou-o para se juntar a si e a Western para um jantar na sua churrascaria preferida. Embora Western se mantivesse colada a Vito, não resistiu a roçar a sua perna contra a coxa de Michael por baixo da mesa.

Jesus! Passar de Mamie para aquilo. Que viria a seguir?

Mal chegou a casa, telefonou a Dani. O filho dela atendeu a chamada.

- Olá - disse ele. - A tua mamã está por aí?

- Ainda não voltou - disse o rapaz.

- Daqui é o Michael.

Esperou que o rapaz dissesse algo como: Ah, sim, eu sei quem é, a mamã falou-me de si.

Nada.

- Michael, o amigo da tua mamã - disse. - Ela falou-te de mim?

- Não.

- Não falou? Está bem, pronto, tu e eu vamo-nos conhecer. De que é que gostas? Basebol, futebol ou basquetebol? Qual é o teu jogo?

- Gosto de todos.

- Na próxima vez que eu for aí, encontramo-nos.

- Adeus.

Michael pousou o auscultador. Por que não falara ela de si ao filho? Andavam juntos, por amor de Deus. Está bem, ele não vivia na mesma cidade, mas andavam juntos.

Deitou-se na cama, ligou a televisão e adormeceu enquanto via Johnny Carson no The Tonight Show. Sonhou com Beth. Ou, pelo menos, pensou que era Beth, podia ter sido Dani. Quando acordou não conseguia lembrar-se de qual delas fora. Seria isso um bom sinal?

Não sabia.

Em breve chegaria Dani e ele poderia começar a planear o futuro dos dois. Estava ansioso.

 

                   Dani: 1975

Sempre que Dean visitava Las Vegas, levava Dani ajantar.

- Que pensa a tua mulher de todas estas viagens? - perguntou ela. Pela parte que lhe tocava tinham criado a relação platónica perfeita, o que se ajustava aos seus desejos. Só que não estava segura quanto ao que a mulher dele, em Houston, sentiria por ele continuar a encontrar-se consigo.

- Eu tenho negócios aqui, Dani - explicou ele. - Morgan e eu gerimos uma empresa juntos.

- Não sabia disso.

- Eu contei-te - disse ele. - Obviamente, não estavas a escutar.

- Desculpa - murmurou ela.

- É um negócio que iniciámos há um ano atrás. Tem a ver com gado.

- Isso é interessante.

- Tão interessante que nem te lembras.

- Eu pedi desculpa.

- Mais importante - disse ele, inclinando-se para ela -, como estás tu?

- Muito bem - disse ela, beberricando o seu vinho.

- Estás com óptimo aspecto. De facto, estás resplandecente. - Hesitou por um momento, quase receoso de perguntar. - Não me vais partir o coração ao dizer-me que encontraste alguém?

- Na realidade - disse ela, abrindo um sorriso involuntário - encontrei.

Dean sentiu uma punhalada de ciúmes. Embora fosse casado com outra mulher, ainda sentia algo por Dani. Ela era a que lhe tinha escapado e amá-la-ia sempre.

- Quem é o homem misterioso? - perguntou ele, tentando manter a conversa elevada.

- Não é assim tão misterioso.

- Não? Então, por que é que nunca falaste dele?

- Não sei - disse ela, vagamente. - Acho que queria ter a certeza de que a relação ia avançar.

- E está a avançar?

Ela sorriu.

- Fica feliz por mim, Dean. Eu estou feliz por ti.

- Claro, Dani. Se encontraste o homem certo, isso é maravilhoso. Mas eu gostava de saber mais sobre ele.

- És o quê? Meu pai? - disse ela, rindo-se.

- Tomo conta de ti, Dani. Esta é uma cidade dura.

- A quem o dizes - disse ela, pousando o seu copo de vinho. - Tenho andado para te perguntar, Dean. Por que é que nunca trazes a tua mulher contigo? Estou certa de que ia gostar de a conhecer.

- Hás-de conhecê-la.

- Quando?

- Em breve - disse ele impacientemente, ansioso por voltar a conversar sobre o namorado de Dani.

- Podemos sair todos para jantar.

- Vi o espectáculo de ontem à noite - disse ele, descartando rapidamente o tema da sua mulher. - Estavas espectacular!

- A sério? Sabes, ultimamente tenho pensado em desistir.

- Que significa isso?

- Significa que o homem com quem eu ando quer que eu passe algum tempo em Nova Iorque.

- Ele pediu-te em casamento?

- Ainda não, mas provavelmente vai fazê-lo.

- Dani - disse Dean, severamente -, aceita o meu conselho: não desistas de nada até que ele te ponha uma aliança no dedo. Tens um filho, responsabilidades.

- Eu sei - disse ela, acenando com a cabeça. - Vou a Nova Iorque no próximo fim-de-semana. Tenho um pressentimento de que vamos discutir o nosso futuro.

- Bem - disse Dean -, nesse caso desejo-te a melhor das sortes.

- Eu sei que sim, Dean - disse ela, ternamente. - Tu e eu seremos sempre amigos, não é?

- Sim, Dani, seremos sempre - disse ele, tentando ocultar o seu desânimo por Dani, a sua Dani, estar envolvida com outro homem. - Então... ah... como se chama o homem misterioso?

- Michael.

- Michael quê?

- Por que é que fazes tantas perguntas?

- Não sabia que era segredo.

- Não é. O nome dele é Michael Castelli.

- Bonito nome italiano.

- Ele é um bonito rapaz italiano - disse ela, sorrindo ligeiramente.

- Rapaz? Que idade tem ele?

- Trinta.

- Está bem. Em que trabalha ele?

- Investimentos. Dean, eu sei que estás a tentar ser prestável, mas não aprecio este interrogatório.

- Então, eu paro.

- Óptimo.

Mal regressou ao seu quarto de hotel, Dean ligou para o seu escritório em Houston.

- Façam uma pesquisa sobre este nome - disse. - Michael Castelli. Descubram tudo o que conseguirem. É uma prioridade.

Se Dani estava a pensar casar com alguém, ele precisava de saber tudo sobre essa pessoa.

Vincent estava perturbado por a sua mãe ir viajar sem ele, apesar de gostar muito de Reggie, a governanta, uma alegre mulher jamaicana com filhos.

- E só por uma semana - assegurou- lhe Dani. - Podes passar bem sem mim durante uma semana.

- Não posso - disse Vincent, teimosamente.

- Podes, sim.

- Não posso!

- Podes!

- Não posso!

- Seu macaquinho impossível! - disse ela, derrubando-o no chão. Ele riu-se e começou a dar luta.

Ela concluíra que não era justo manter Vincent afastado do seu pai verdadeiro e biológico. Decidira que, quando chegasse a Nova Iorque, iria contar a verdade a Michael.

- Posso ir contigo, mamã? - pediu Vincent.

- Não, querido. Lamento mas não podes.

- Por que não?

- Porque não é uma viagem para meninos pequenos.

- Não sou um menino pequeno, sou um menino grande - disse ele, indignadamente.

- Tens quase dez anos, não és suficientemente grande.

- Quem me dera que Nando estivesse aqui - disse ele, pesarosamente.

- Eu sei, querido. Logo que regresse, ligo ao avô dele na Colômbia, a ver se consigo que ele possa vir visitar-nos.

- Nando é meu amigo. Os outros rapazes da escola são estúpidos.

- Por que é que são estúpidos? - perguntou ela, pacientemente.

- Porque me chamam nomes.

- E por que te chamam nomes?

- Por tua causa.

- Minha?

- Mark Timson diz que tu mostras as maminhas no palco.

Oh, Deus, era exactamente aquilo que ela esperara não ter de ouvir.

- Que disse ele? - perguntou ela.

- Disse a todos que os pais foram ver o teu espectáculo e que todos viram as tuas maminhas. Tu mostras, mamã?

- Não é assim, querido. Uso um fato bonito. É tudo muito fascinante e. deixa-me pôr as coisas assim, o que eu faço é trabalho. É assim que eu ganho dinheiro para que possamos viver nesta casa bonita e confortável e ter Reggie para cuidar de ti.

- Eu posso ir ver o teu espectáculo, mamã?

- Quando fores mais velho, claro que sim.

- Quando?

- Acabei de te dizer, quando fores mais velho.

- Está bem - disse ele, começando a ficar aborrecido. - Posso ir ver televisão agora?

- Não mais do que meia hora. Depois, são horas dos trabalhos de casa.

- Já os fiz, mamã.

Claro que já os tinha feito. Vincent adiantava-se sempre em relação a todos.

Agora tinha a nova preocupação de ele saber que ela aparecia em topless no palco. Sabia que teria de acabar por encarar essa situação, simplesmente não esperara que fosse tão cedo.

Decidiu discutir o assunto com Michael, ver como ele sugeria que ela o tratasse. Ultimamente, falava com ele sobre tudo. Tinha-lhe falado sobre a revista que a convidara para ser fotografada. Ele avisara-a para não aceitar.

Usarão as fotografias fora de contexto, disse ele. Não comeces a aparecer esse tipo de revistas, porque um dia acabas por te arrepender.

Ela seguira o seu conselho e recusara a oferta. Eles retaliaram, convidando Penelope para posar.

Suponho que tu não estiveste à altura, escarnecera Penelope. Ela ignorou-a.

Não fazia ideia acerca do que deveria meter na mala. Michael dissera-lhe que estava a chover em Nova Iorque e a última coisa que ela possuía eram roupas para a chuva. Não tinha sequer uma gabardina.

Era a primeira vez que ia entrar num avião e estava excitada. Michael oferecera-se para a ir buscar e fazer a viagem com ela.

Já sou uma menina crescida, posso fazer isto sozinha, assegurou-lhe ela.

Então, vou ter contigo ao aeroporto, disse ele.

Ela partia na manhã seguinte. O director da companhia dera-lhe generosamente uma semana de folga. Nessa noite, tinha mais um espectáculo a fazer antes de partir. Las Vegas estava em alta e ultimamente ela andava a receber ofertas de outros hotéis. Embora fosse tentada por mais dinheiro, sentia-se bem no Magiriano. De qualquer modo, quem sabia o que o futuro lhe reservava? Ela suspeitava de que Michael estaria a planear pedi-la em casamento. E se ele o fizesse? Bem, ela estava preparada para dizer sim.

Dean ligara a convidá-la para um jantar após o espectáculo.

Tenho que fazer as malas", dissera-lhe ela. Além do mais, jantámos juntos anteontem. "

Eu sei", disse ele. No entanto, tenho algo de importante para te dizer. Ela acabou por concordar, encontrando-se com ele no aconchegante restaurante do bar do hotel, todo decorado de vermelho, onde ela e Michael já tinham feito várias refeições juntos.

Dean parecia agitado. Ela perguntou a si mesma se teria acontecido algo com o casamento dele. Esperava que não, porque não sentia disposição para começar a dar conselhos.

- Não posso prolongar esta noite, Dean - avisou-o ela, logo que se sentaram.

- Parto de manhã cedo.

- É por isso que tinha de falar contigo esta noite - disse ele, pedindo seguidamente uma garrafa de vinho.

- Em relação a quê? - perguntou ela.

- Em relação ao teu novo amigo.

- Estás a falar de Michael?

- Sim.

Ela tamborilou com os dedos na mesa.

- Tu não conheces Michael.

- Conheço muita coisa sobre ele.

- Que queres dizer, Dean? - perguntou ela, suspirando.

- Dani - disse ele, tentando manter uma voz neutral -, que sabes tu do passado dele?

- Não me parece que isso seja da tua conta- disse ela, começando a ficar irritada.

- Tu és da minha conta, Dani - disse ele, com seriedade. - Somos amigos, lembras-te?

Ela suspirou de novo e tentou manter-se calma. Dean estava apenas a tentar fazer o que achava melhor para ela, o que não era uma coisa assim tão má, porqué pelo menos demonstrava preocupação genuína.

- Se estás a falar da temporada que ele passou na prisão por assaltar um camião, já sei de tudo - disse ela. - Michael contou-me tudo.

- Não estava a falar disso.

- Então, estavas a falar de quê?

- Ele tem uma filha, certo?

- Sim.

Dean aclarou a garganta.

- Sabes o que aconteceu à mãe da criança?

- Morreu.

- Sabes como morreu?

- Não, na verdade não sei, porque Michael não gosta de falar sobre isso. Presumo que tenha sido uma doença.

- Presumes?

Agora começava a ficar verdadeiramente impaciente.

- Que estás a tentar dizer-me exactamente, Dean?

- És uma mulher inteligente, Dani - disse ele, rapidamente. - Não obstante, como já te disse muitas vezes, tens que pensar no teu filho, bem como em ti mesma. Não te podes deixar apanhar numa situação que te coloca a ti e a Vincent em perigo.

- Perigo! Por que dizes uma coisa dessas?

- Não me odeies por te contar isto, Dani, mas existe uma forte possibilidade de que Michael Castelli, ou Castellino, como era anteriormente conhecido, tenha assassinado a namorada.

- O Quê?

- Com um tiro na nuca.

A cor esvaiu-se do rosto de Dani.

- Estás doido?

Dean pegou num grande envelope castanho.

- Está tudo aqui, preto no branco. Lê tu mesma.

- Eu... eu não compreendo o que estás a dizer.

- Vais compreender quando leres os recortes de jornais. Sim, ele foi absolvido, mas só porque tinha advogados de grande nível; pagos pelo seu poderoso patrão mafioso em Nova Iorque. - Uma pausa. - Lamento dizer isto, Dani, mas há hipóteses de que ele tenha sido culpado.

- Oh... meu... Deus! - disse ela, sentindo-se fraca.

- Se este homem tivesse sentimentos genuínos por ti, ter-te-ia contado tudo quando se começaram a encontrar.

- Eu... eu pensei que ele o tinha feito.

- Há quanto tempo andas com ele?

- Três meses.

- Três meses e ele não arranjou ocasião para te contar isto? Parece- me altamente suspeito, não achas?

- Tu... tu não o conheces. Ele...

- Ele o Quê, Dani? Segundo os jornais, ele é um assassino a soldo do crime organizado, que deu um tiro na nuca da namorada porque pensava que ela andava com outro homem. Esta mulher era a mãe da filha dele. É por um homem como este que vais largar a tua vida?

- Dá-me os recortes e deixa-me ir embora - disse ela, mal conseguindo respirar.

- Eu levo-te a casa.

- Não te incomodes - disse ela, levantando-se. - Eu apanho um táxi.

- Dani, eu só fiz esta pesquisa para o teu próprio bem.

- Achas que isto é para o meu próprio bem? - disse ela, de lágrimas a encherem-lhe os olhos. - Não compreendes? Eu amo-o.

- Deves fazer o que achas correcto - disse ele, seguindo-a para o exterior do restaurante. - Mas peço-te, pensa no teu filho. Ele deve vir em primeiro lugar. Vincent é a tua prioridade, Dani. Não o coloques a ele nem a ti em perigo.

 

                  Michael: 1982

- Onde está a tua mãe? - perguntou Jamie. Era uma menina de onze anos, gira, de cabelos cor de linho e com os dentes superiores salientes.

- A dormir - respondeu Madison. Tinha também onze anos, alta e esgalgada, com longos cabelos negros e uma expressão inquisitiva. - Ela dorme muito.

- Porquê?

- Não sei - respondeu vagamente Madison, pouco interessada.

- Estou esfomeada! - declarou Jamie.

- Anda - disse Madison. - Vamos à cozinha. Acho que o cozinheiro fez bolinhos.

- Hmm - disse Jamie. - Se eu dormir cá, deixam-nos ver Remington Steel?

- Podemos fazer o que quisermos - respondeu alegremente Madison. - O meu pai não está cá e a minha mãe não se importa com o que eu faço.

- És uma sortuda! - disse Jamie cheia de inveja.

- Sim, sou uma sortuda - concordou Madison, embora frequentemente desejasse uma mãe que lhe desse mais atenção.

- A minha mãe não me larga - disse Jamie, seguindo Madison até à cozinha.

- Quase nunca me deixa ver televisão.

- Isso é uma seca - disse Madison.

- Podes crer - disse Jamie. - A minha mãe acha que eu ainda devia brincar com Barbies. Não percebe que os rapazes são muito mais fixes.

- Excepto os rapazes da nossa escola - realçou Madison, fazendo uma careta. - Esses são uma seca.

- Quando vem o teu pai? - perguntou Jamie, servindo-se de um bolinho.

- Cedo, espero eu - disse Madison. - Ele traz-me sempre uma montanha de presentes.

- Eu bem te disse - comentou Jamie, cheia de inveja. - És a rapariga com mais sorte que eu conheço.

- Achas que sim? - disse Madison, mastigando um bolinho.

- Oh, sim - disse Jamie.

No decurso da tarde, Michael surpreendeu a sua filha chegando a casa mais cedo. Tal como ela se vangloriara perante Jamie, ele vinha carregado de presentes.

- Olá, meninas - disse, saudando também Jamie. - Que estão a fazer?

- Estamos à tua espera, papá - disse Madison, com os seus grandes olhos verdes fitando-o, plenos de amor.

- Óptimo. Porque te comprei muitas coisas.

- Que me trouxeste desta vez, papá?

- Bem... - disse ele, provocando-a -. Ia trazer-te um casaco de pele de lince ou um Cadillac. Depois achei que ias preferir este videogravador Sony e um computador a cores da Radio Shack.

- Papá! Isso é tão fixe! És o maior! - disse ela, abraçando-o.

- Há mais um monte de coisas no meu saco - disse ele. - Discos e livros. Dá uma olhadela.

- Oh, papá, estragas-me sempre com mimos - suspirou, lançando um olhar a Stella, que acabara de emergir do seu quarto.

Stella parou à porta, observou as duas raparigas, acenou a Michael e regressou ao quarto, murmurando que tinha uma dor de cabeça.

- A mamã tem outra dor de cabeça - anunciou Madison, para o caso de ele não ter ouvido.

- Sim? - disse Michael. - E qual é a novidade?

Madison riu-se. Michael sorriu à sua preciosa filha. Ela era esperta. Tão esperta como qualquer rapaz. Gostava de tudo nela.

- Vocês já jantaram? - perguntou. - Se não, levo-vos ao 21.

- Não me parece! - disse Madison, continuando a rir-se.

- Ei, um destes dias levo mesmo. Quando tiveres idade suficiente.

- Eu Quero ir ao 21, papá - pediu Madison. - Ouvi dizer que é o melhor restaurante da cidade.

- Está a ouvir bem o que diz, minha senhora? - disse ele, rindo-se da forma como ela colocara as coisas. Quantas crianças de onze anos se sairiam com uma frase daquelas?

- Consegues a melhor mesa, papá? Tratam-te como um rei?

- Claro que sim, doçura.

- O teu pai é tããooo giro - disse Jamie, admirativamente, quando chegaramì à privacidade do quarto de Madison, arrastando o saco atrás de si.

- Parece uma estrela de cinema, não é? - disse Madison, orgulhosamente.

Jamie acenou afirmativamente. Invejava tanto a sua melhor amiga, que conseguia fazer tudo o que ela não podia e que tinha um pai tão bonito.

- E também é fixe - acrescentou Madison.

- Do mais fixe que há - concordou Jamie.

Madison aproximou-se da sua colecção de discos e começou a remexer nela.

- Cindy Lauper ou as Go-Go's? - perguntou.

- As Go-Go's - gritaram ambas em uníssono, e caíram às gargalhadas no chão.

Michael entrou no quarto. Stella estava deitada sobre a cama, folheando a Harper Bazaar.

- Outra dor de cabeça? - disse ele.

- Uma enxaqueca - respondeu ela, pousando a revista.

- Devias ir a um médico por causa dessas tuas dores de cabeça.

- Hei-de ir - murmurou ela.

- Então - disse ele, sentando-se na borda da cama tamanho gigante -, passaste muito tempo com Madison enquanto estive fora?

- Claro - mentiu ela.

Na realidade, não passara tempo nenhum com Madison. Era por isso que se assegurava sempre de que tinha no apartamento uma governanta competente e um excelente cozinheiro. Empregados amigos de crianças eram absolutamente essenciais.

Stella não era amiga de crianças. E fimgir que era mãe de Madison durante todos aqueles anos estava a deitá-la abaixo. Materialmente, tinha tudo o que desejava, mas sabia que Michael punha Madison em primeiro lugar e isso deixava-a um pouco louca.

- Sabes, querido - disse ela -, Madison está a crescer muito depressa.

- Eu sei disso - disse ele, desapertando a gravata.

- Ela é tão inteligente - continuou Stella. - E, muito francamente, eu não acho que a escola que ela frequenta seja suficientemente boa para ela, por isso estive a ver outras possibilidades.

- Estiveste?

- Sim, e encontrei um internato de primeira qualidade para o qual acho que a devias mandar. Uma criança talentosa como Madison precisa de excelência académica.

- Um internato? - disse ele, inseguro. - Falaste com ela sobre isso?

- Ela é demasiado jovem para saber o que é melhor para ela. No entanto, discuti o assunto com alguns dos meus amigos e todos concordam que ela devia receber a melhor educação possível. O internato de que te falei é o melhor.

- Onde fica? - perguntou ele, pouco convencido de que fosse uma boa ideia.

- Connecticut.

- Então, ela poderia vir a casa todos os fins-de-semana?

- Se quiser.

- Não sei... ela não ia gostar de estar longe de Jamie.

- Jamie é uma tontinha, não achas? - disse Stella. - Madison tem muito mais maturidade para a idade.

Michael acenou afirmativamente. Confiava na opinião de Stella. Afinal, tinha-se casado com ela, não tinha?

Entrou para o seu quarto de vestir revestido a madeira e tirou o casaco. Michael Castelli, homem de negócios, investimentos, magnata do imobiliário. Meu Deus, como ele tinha subido na vida.

Depois de Dani o ter largado de uma forma tão impiedosa, ele voltara-se para a mulher mais próxima, que calhara ser Stella, a boa amiga de Warner.

Stella estivera lá para o ajudar. Dera-lhe toda a sua atenção, conforto e bastante sexo. Nada disso tinha grande significado, mas ele começara a vê-la como a mulher que podia ser uma grande mãe para a sua filha. Recusava-se a deixar que Madison crescesse sem uma mãe como acontecera com ele. A sua filha ia ter tudo; e isso incluía pais responsáveis.

Depois de dois meses de relacionamento, ele abordou o assunto com Stella. Ela fora bastante dócil quando ele lhe dissera o que tinha em mente.

O negócio é este, dissera ele. Se eu me casar contigo, então, Madison tem de crescer acreditando que tu és a sua mãe natural.

E a verdadeira mãe dela?

Beth foi-se. E eu não quero que Madison alguma vez descubra o que aconteceu. Tanto quanto lhe cabe saber, tu és a mãe dela. Na sua mente, ele decidira que Madison viria sempre em primeiro lugar. Não permitiria que nenhum meio-irmão ou meia- irmã competissem com ela. E, Stella, só mais uma coisa. acrescentou ele.

Sim?

Tens que me prometer que nunca terás filhos.

Ela concordou e casaram-se numa tarde de Primavera em Nova Iorque, com Karl e Warner como testemunhas.

Ele não a amava. Não estava preparado para amar novamente.

Stella não tinha a chama de Beth, nem a doçura de Dani. O que ela tinha era uma grande beleza. Do ponto de vista físico recordava-lhe, por vezes, Dani.

Ainda falam de ser deixado no altar. Dani não o tinha propriamente deixado no altar, masfoi deixado no aeroporto, esperando a chegada dela.

Ela nunca chegara e quando ele ligara para Las Vegas para descobrir onde ela estava, a sua governanta informara-o de que Dani e o filho tinham viajado e não regressariam em breve.

No dia seguinte recebera uma carta via FedEx.

Caro Michael:

As circunstâncias mudaram. Não posso voltar a ver-te. Porfavor não tentes contactar-me.

Ele não fazia ideia do que acontecera para ela se sentir assim, mas tinha o seu orgulho, e embora tivesse pensado em apanhar um avião para se confrontar com ela, acabara por não o fazer.

Quatro meses depois, casara com Stella.

Os últimos sete anos tinham sido bons para ele. A sua fortuna crescera e financeiramente tinha condições para fazer, mais ou menos, tudo o que queria.

Stella estava viciada no seu estilo de vida: um luxuoso apartamento na Park Avenue; férias nas Baamas; viagens para compras a Paris e Londres. A única coisa de que não gostava era de ter uma filha. Especialmente uma rapariga de onze anos extremamente inteligente a quem o seu marido adorava mais do que a ela. Era enfurecedor. No entanto, nunca transmitia a Michael o que sentia e sempre que ele estava por perto desempenhava o papel de mãe perfeita.

Ao fim de algum tempo, Tina e Max começaram a recusar-se a visitá- los. Queres que seja franca contigo, Michael? disse Tina. Stella é uma cabra sem coração. Ela não gosta de mim e eu não gosto dela. Portanto, não voltamos a sair juntos. Se nos quiseres ver, aparece lá em casa e leva Madison.

E assim ele fazia. Fim-de-semana sim, fim-de-semana não, ia a casa deles com Madison e passavam o diajuntos.

Depressa Stella começou a pressioná-lo e as suas visitas a Tina e a Max tornaram-se menos frequentes. Sentia-se culpado por não os ver tantas vezes como gostaria. Afinal, Max era o seu melhor amigo e, juntos, partilhavam uma longa história. No entanto, Stella era a sua mulher e mais do que tudo ele queria um casamento feliz para o bem de Madison.

Gradualmente, Stella começou a integrá-lo num círculo social completamente novo. Ela tinha muitos amigos na área das artes e rapidamente ele se viu a frequentar a ópera, o teatro e o bailado. Iam a inaugurações de exposições, festas e a todos os novos restaurantes da moda. Ao princípio, ele até gostava, embora não gostasse de bailado e ópera; considerava-os uma grande seca. No entanto, como Stella gostava muito, ele apanhava a boleia. E ela tinha sempre um ar deslumbrante, pendurada do seu braço, usando as roupas de estilista que ele pagava, os casacos de peles e as dispendiosas jóias. Decididamente, os diamantes eram os melhores amigos de Stella.

Por vezes, ele imaginava como teriam sido as coisas se Beth tivesse sobrevivido. Muito diferentes do seu estilo de vida corrente.

E o que teria acontecido se tivesse casado com Dani? Conseguia ver- se com ela, deitados na cama, mastigando hamburguers, vendo televisão, simplesmente estando juntos e divertindo-se. Apesar da sua fama e do seu encanto em Las Vegas, Dani era uma rapariga simples. Stella não. Os únicos momentos em que Stella se deixava estar deitada eram quando tinha uma dor de cabeça ou queria estudar as suas revistas, descobrindo o que havia de novo e excitante no mundo da beleza. Ela interessava-se muito pelos tratamentos de beleza mais recentes e pelos elevados cuidados com o aspecto. Manicuras, esteticistas e massagistas estavam sempre a entrar e a sair do apartamento, auxiliando-a em todas as suas necessidades. Ela tentara levá-lo a fazer o mesmo. Um pedicuro e ele fugira a gritar.

Os negócios tornaram-se o seu foco de interesse, ao construir um império financeiro. E era bom nisso, aprendera bem. Primeiro, a uma escala pequena, com a avó Lani. E depois os negócios a sério com Karl Edgington. O dinheiro era a sua paixão: tinha o jeito de um génio para os números.

Ao longo dos anos, ele e Karl tinham sido sócios em muitos empreendimentos. Possuíam edifícios, centros comerciais e propriedades. Também conservava a sua associação a Vito Giovanni. Cuidava dos investimentos de Vito. Este confiava nele e entregava-lhe bastante dinheiro. Ouvira dizer que Mamie abandonara o seu apartamento de Nova Iorque e se mudara para a Costa Oeste. Vito continuava a viver com Western Pussy - uma mulher quase quarenta anos mais nova do que ele.

Financeiramente, Michael podia fazer praticamente tudo o que quisesse. Tinha um escritório em Wall Street e empregava uma pequena equipa de pessoal competente, incluindo o seu velho amigo Charlie, que trabalhava agora para ele como contabilista. Alguns anos antes pagara-lhe um curso de Gestão e Charlie saíra-se optimamente. Agora fazia bastante dinheiro, tinha um emprego seguro e até se casara com uma bonita rapariga que trabalhava no escritório.

Michael gostava muito de Charlie, embora não convivessem. Stella não considerava prudente misturar os negócios com o prazer.

Basicamente, ele tinha tudo: uma mulher bonita, uma filha esperta e dinheiro suficiente para fazer o que quisesse. Então, por que não era feliz?

Não sabia.

Max, que tinha agora vários stands de automóveis, dissera-lhe um dia, enquanto almoçavam, que era porque vivia uma mentira.

Que raio de comentário de merda é esse? perguntara Michael. Stella é uma grande pretensiosa", dissera Max. Uma cabra da alta que se dá ares. "

Michael ficou tão ofendido com as críticas de Max que deixou de se encontrar com ele. O que era uma pena, porque, para além de Charlie, Max era o único verdadeiro amigo de Michael dos velhos tempos.

Tinha saudades dos velhos tempos. Tinha saudades de andar com Tina e Max fazendo patetices.

O trabalho compensava. Ele estava obcecado.

Stella decidiu que deveria ser ele a informar Madison de que a iam mandar para um internato. Quando ele disse à filha, ela rompeu em lágrimas.

- Eu não quero ir, papá - soluçou ela.

- É o melhor para ti, princesa.

- Não!

- Depressa te vais habituar!

- Não, não vou! - disse ela, inflexivelmente.

- Prometo que vais.

Ela fitou-o com os seus grandes olhos verdes; os olhos dele. Eram parecidos, embora a sua pele de intensa cor de azeitona e o lustroso cabelo negro sempre o fizessem recordar-se de Beth.

- Eu vou, papá - disse ela, por fim. - Mas prometo-te uma coisa, vais sentir muito a minha falta.

E sentiu, apesar dos esforços sociais de Stella, que pareceram sofrer uma escalada com a ausência de Madison.

Começou a fazer mais e mais viagens de negócios; inspeccionando um centro comercial aqui, uma propriedade acolá. E assim o seu império cresceu.

Michael Castelli era um homem de grande sucesso.

Michael Castellino era apenas uma recordação distante.

 

                   Dani: 1982

- Se tu não te casares comigo, há alguém que o vai fazer - ameaçou Dean.

- Desejo-lhe sorte - disse Dani, sorrindo.

- Sabes que vai acontecer algum dia. Por que insistes em esperar até que estejamos velhos e com cabelos brancos?

- Porque.

- Por que o quê?

- Porque - disse ela, pacientemente - primeiro tenho que te pagar o dinheiro que te devo.

- Ao ritmo a que tu vais, estaremos ambos mortos.

- Estão a discutir de novo? - perguntou Vincent, entrando na cozinha fortemente iluminada. - Da maneira como o fazem, mais valia estarem casados.

Com dezassete anos, Vincent era inegavelmente bonito. Era também uma cópia perfeita de Michael. Cabelo negro, áspero e comprido. Fisionomia perfeita. Um metro e oitenta de altura e um belo corpo. As raparigas eram loucas por ele, o que não lha adiantava muito porque ele estava mais interessado nos estudos e no desporto.

Dani, que entrara na casa dos trinta e continuava um espanto, nem podia acreditar que tinha um filho crescido. O rapaz precisava de um pai, e graças a Deus por Dean que, embora já não estivesse envolvido romanticamente com Dani, se chegara à frente e passava tanto tempo com Vincent quanto podia. O que não era fácil, considerando que ele ainda vivia em Houston.

O seu divórcio ajudara. Dani nunca lhe perguntara por que falhara o seu casamento, porque sabia a razão. Dean nunca conseguira superá-la. A sua paixão era para toda a vida. Mas embora ela o amasse à sua maneira, via-o mais como um irmão mais velho.

Ao longo dos últimos sete anos ela não fora propriamente celibatária. Embora não tivesse retomado o seu caso com Dean, tinham existido outros homens. Nenhum deles estivera à altura de maneira nenhuma e, presentemente, ela não andava com ninguém. De certa forma, sentia-se muito mais feliz sozinha.

Recentemente, Vincent recebera notícias de que o avô de Nando falecera e que Nando estava a planear uma visita. Vincent estava totalmente acelerado.

- Isto vai ser tão fixe, mãe - entusiasmou-se ele. - Nem posso esperar!

- Já não vês Nando há muito tempo - avisou Dani. - Não tenhas demasiadas expectativas; provavelmente, ele estará mudado.

- Nem pensar - escarneceu Vincent. - Nando e eu somos como irmãos. Ele vai estar exactamente igual.

Dani continuava a aparecer no espectáculo do Magiriano, só que agora era uma figura destacada. Fazia duas grandiosas aparições no decurso do espectáculo e o seu grupo de fãs continuava a expandir-se. Dani Castle, a bailarina estarrecedoramente bela, tornara-se uma verdadeira lenda em Las Vegas.

O facto de ela aparecer em topless no palco embaraçava terrivelmente Vincent.

- Quando é que vais deixar-te disso, mãe? - insistia ele em importuná-la. Estás demasiado velha para tirar a roupa.

- Não me venhas dizer o que devo fazer - disse ela. - O meu trabalho pôs-nos pão na mesa e a ti na melhor escola. O dia em que te formares será o dia em que eu saio.

- Então, ainda vais estar a fazer isso quando tiveres quarenta? - queixou-se ele. - Isso é ordinário.

- Obrigada, Vincent querido. Adoro quando me elogias.

- Então, mãe, simplesmente não é fixe. E não quero que Nando saiba de nada.

- Então, não o leves ao espectáculo.

- Acredita, não levo. Mas há fotografias tuas por todo o hotel.

- Então, não vás àquele hotel. Dean estava do lado de Vincent.

- Talvez devesses pensar em reformar-te - disse ele.

- Porquê? Achas que já não tenho bom aspecto?

- Tu estás sempre bonita - assegurou-lhe Dean.

- Então, por que havia de desistir? Não sei fazer outra coisa.

- Casa-te comigo - disse ele, sempre esperançoso- e não precisarás de fazer nada. Lá está ele outra vez, pensou ela. E, no entanto, não conseguia deixar de se sentir lisonjeada.

Vincent foi ao aeroporto buscar Nando. Estava excitado. Ansioso por ver o seu melhor amigo de infância. Depois começou a pensar se Nando teria mudado.

Quando Nando saiu do avião transportando um saco de viagem e um maço de revistas, não teve dúvidas de que era ele. Tinha aquele brilho de provocador nos olhos. O seu cabelo estava ainda mais comprido do que o de Vincent e vestia umasjeans esfarrapadas e extremamente justas e uma camisa negra. Só Nando aguentaria usar uma camisa negra no pino do Verão. Não sendo convencionalmente bonito, era atraente de uma forma subtil, invulgar e muito magro.

Vincent respirou fundo. Como se cumprimentavam os homens? Não sabia, nunca tivera um pai que lhe ensinasse.

Nando acenou, deixou cair metade das revistas, apanhou-as e correu em direcção a Vincent.

- Filho-da-mãe - exclamou. - Estás com melhor aspecto. Vai-te lixar, cretino!

- Vai-te lixar tu também - retorquiu Vincent.

Depois abraçaram-se.

- Lamento o que aconteceu ao teu avô - disse Vincent, enquanto saíam do aeroporto.

- Esquece - disse Nando. - Esai era um velho sacana miserável.

- Era?

Uma bonita rapariga passou e Nando fez ruídos de apreciação com os lábios. A rapariga ignorou-o.

- O lado bom é que, quando fizer vinte e um anos, herdo tudo. Agora sou um puto rico.

- Tu?

- Sim, eu - vangloriou-se Nando. - O dinheiro está num fundo, por isso não lhe posso pôr as mãos agora, mas quando puder, cuidado!

- Uau! - disse Vincent. - Fixe.

- Sim- disse Nando, piscando o olho a outra rapariga. -Vou comprar um Ferrari!

- Vermelho?

- Não. Preto. E tu vens comigo fazer uma viagem à volta do mundo.

- A sério?

- Podes crer.

- E a universidade?

- Quem é que quer perder tempo com a universidade?

- A minha mãe está a planear uma viagem ao Leste para dar uma olhadela às universidades de lá.

- A tua mãe continua gira?

- Ela, hem, está com bom aspecto.

- Grande brasa! - disse Nando.

- Não fales assim da minha mãe - disse Vincent, franzindo o sobrolho.

- Desculpa - disse Nando, assobiando à passagem de uma morena num vestido vermelho.

Vincent desejava fervorosamente que Nando não descobrisse acerca das aparições de Dani em topless no Magiriano. Já era suficientemente mau ter de aguentar tanta troça na escola. Se Nando a visse assim seria demasiado humilhante.

De regresso a casa, Dani recebeu os dois calorosamente.

- Tu estás mesmo crescido - disse ela, abraçando Nando.

- Sim, Sr. Robinson - respondeu ele, com um sorriso atrevido, mantendo o abraço por alguns segundos mais.

- Desculpa?

- Estava a brincar! - disse Nando, ainda sorrindo.

Vincent levou-o para o seu quarto.

- Tens um cigarro? - perguntou Nando, deambulando pelo quarto.

- Não fumo.

- E erva?

- Não uso drogas.

- Jesus! -exclamou Nando. - Dá graças poreu ter voltado para começares a viver!

- Nesta casa não - disse Vincent, rapidamente. - A minha mãe ia ter um ataque.

- Não me digas que ela fez de ti um menino da mamã?

- Ela trabalha muito, por isso tento não lhe criar problemas.

- Já deste alguma queca? - perguntou Nando, atirando-se para cima da cama.

- Passou-te alguma rata de primeira pela frente?

- Não ando mal - disse Vincent, evasivamente, embora a verdade fosse que não tinha dado nenhuma queca.

- Não andar mal não chega - disse Nando, bocejando. - Já percebi que tenho de te dar umas lições: E daquelas que não se dão na escola.

Dani não estava certa de que o regresso de Nando fosse uma coisa boa. Ela via que ele continuava destravado, só que agora já não era criança. Embora tivesse apenas dezassete anos, parecia mais velho. Ia ficar em casa dela durante um mês, o que significava que ela teria de olhar por ambos. Esperava que ele não fosse ser uma má influência para Vincent.

Dean regressava a Houston no dia seguinte, pelo que nessa noite fizeram o seu habitual jantar em conjunto após o espectáculo. Durante a sobremesa, ela confidenciou-lhe os seus receios.

- Vincent não se mete em sarilhos - assegurou-lhe Dean. - Ele é um miúdo decente.

- Achas que sim? - perguntou ela, ansiosamente.

- Sim, Dani, e tu és uma grande mulher.

- Não sei, Dean - preocupava-se ela. - Sinto que fiz o melhor que pude, criando-o sozinha. Depois ponho-me a pensar em erros que posso ter cometido.

- Que erros?

Ela pegou no seu copo de vinho e bebeu um pequeno trago.

- O que aconteceu com Michael.

- Estás a voltar ao assunto de Michael? - disse ele, sempre relutante em falar do homem que considerava o seu principal rival. - Mostrei-te os recortes e tu tomaste a tua própria decisão. Puseste o teu filho em primeiro lugar, o que foi a decisão mais correcta.

- Por vezes, não tenho a certeza...

- Alguma vez ele voltou para tentar fazer-te mudar de ideias? - perguntou Dean, energicamente.

- Não - murmurou ela.

- Então, por que te preocupas? Isso não te prova que não significavas nada para ele?

- Obrigada, Dean - disse ela, sarcasticamente. - Fazes-me sentir mesmo bem.

- Vou fazer-te sentir ainda melhor se te casares comigo e acabares com este disp arate.

- Qual disparate?

- Mulher independente, ainda a insistir em pagar-me, continua a ter que se despir num espectáculo.

- Eu não me dispo - disse ela, gelidamente. - Sou uma bailarina. Deslizo pelo palco em trajes deslumbrantes. Há alguma coisa de errado nisso?

- Vincent não gosta.

- Vincent devia perceber que o que eu faço nos dá o estilo de vida ao qual ele se habituou - disse ela bruscamente, farta de críticas.

- Sim, senhora.

- Quando voltas?

- Não sei bem - disse ele, hesitando por um momento. - Há uma mulher com quem me tenho encontrado.

- Vais casar-te novamente? - perguntou ela, distraidamente.

- Se tu não me quiseres, provavelmente.

- Hmm. então talvez agora te devesses lembrar de fazer um acordo pré-nupcial - provocou ela.

- Sim, querida. Sorriram um ao outro. Tinham uma amizade íntima. E com o tempo parecia ficar mais forte e melhor.

A visita de Nando transformou-se no pesadelo de Dani. Tal como ela vira, ele estava mais destravado do que nunca e constituía uma influência extremamente má sobre Vincent. Percorrer toda a cidade era a sua actividade preferida.

- És demasiado novo para jogar nos casinos - avisou-o ela.

- Não faria isso, Sr Castle - respondeu Nando, um verdadeiro pre cente, com o BI falso enfiado bem fundo no bolso das calças.

Ela não acreditava nele. E sabia que ele andava a fumar erva: o cheiro espalhava-se pela casa.

- Vincent - perguntou ela ao filho -, Nando usa drogas?

- Não, mãe.

- Sinto o cheiro de erva.

- Ah, sim - respondeu Vincent, vagamente. - São os cigarros especiais de Nando. Ele tem de os fumar por causa da sua, uh... garganta.

- De que é que tu estás afalar? - disse ela, franzindo o sobrolho. - Achas que sou uma idiota chapada?

- Não, mãe, a sério; são medicinais.

- Nesta casa, não. Diz a Nando que não pode fumar aqui, sejam medicinais ou não.

- Então, mãe. Vou parecer um idiota se lhe disser isso.

- Devo eu dizer-lhe, então?

- Nem pensar - disse Vincent, amuadamente. - Eu digo.

Nando gostava dos Rolling Stones. Punha a tocar a música deles, dia e noite, no máximo do volume. Os sons devassos do rock roll ressoavam pela casa, provocando a Dani uma dor de cabeça permanente.

Só Deus sabia o que eles fariam quando ela estava a trabalhar. Infelizmente, não podia vigiá-los vinte e quatro horas por dia.

Uma noite chegou e havia raparigas na casa. Não uma, nem duas, mas cinco, todas sentadas pela cozinha, fumando, bebendo vinho e divertindo- se. Estavam na casa dos vinte e tinham um ar suspeito de prostitutas nos seus trajes quase inexistentes.

- Vincent - disse ela, parada à porta da cozinha, sentindo-se como uma guarda prisional -, posso falar contigo por um minuto?

Ele apareceu, com passos inseguros.

- Sim, mãe?

- Estiveste a beber?

- Não.

- Que se passa aqui?

- O quê? - resmungou ele, notoriamente embriagado.

Ela estava furiosa.

- Quem são estas raparigas? - perguntou.

- Amigas de Nando - explicou ele, com um sorriso estúpido na sua bonita cara. - Eu disse que podiam ficar por aqui.

- Mas não podem.

- Quer dizer que não posso trazer amigas cá a casa? - disse ele, abrindo caminho para uma discussão.

- Não estou a dizer isso.

- Então, que estás a dizer?

Ela não queria fazer uma cena diante de outras pessoas; humilhá-lo, obviamente, não ajudaria em nada.

- Assegura-te de que elas ficam na cozinha - disse firmemente. - Não as leves lá para cima, para o teu quarto.

- Claro, mãe - resmungou ele, sarcasticamente. - Não iria fazer nada que te incomodasse.

Foi nesse preciso momento que lhe ocorreu que Vincent precisava decididamente de um homem forte para o controlar. Precisava de um pai.

A verdade era que ele tinha um pai. Michael Castelli. Um homem que ela afastara. Só que agora começava a arrepender-se. Oh, sim, ele tinha sido acusado de homicídio e Dean parecia pensar que ele o cometera. Mas, segundo os jornais, ele fora absolvido e ela nem lhe dera uma hipótese de explicar por que não lhe contara.

Começava a tomar consciência de que não era justo privar Vincent do seu verdadeiro pai.

Por vezes, quando pensava em Michael, sentia-se dominada por profundos sentimentos de arrependimento. Nunca deixara de estar apaixonada por ele e isso era algo que tinha de encarar.

Logo que Nando partisse, ela ia levar Vincent a Nova Iorque, onde iam visitar algumas universidades. Na sua mente, tomou uma grande decisão. Quando chegasse a Nova Iorque, contactaria Michael e contar-lhe-ia a verdade.

Vincent merecia saber quem era o seu verdadeiro pai. Já era tempo.

 

                   Terça feira, 10 de Julho de 2001

O furgão precipitou-se para Beverly Boulevard a grande velocidade. Madison receava, caso colidissem, ser projectada pelo pára-brisas. Desejou poder alcançar um cinto de segurança. Um pensamento algo estúpido em vista das circunstâncias.

Cole não dizia uma palavra: estava concentrado na sua condução, o que era bom. Infelizmente, o helicóptero continuava a pairar sobre eles, com as suas luzes a brilhar no céu negro.

- Tira a merda do helicóptero daqui - gritou o bandido.

- Não tenho controlo sobre ele - respondeu Madison.

- Puta de merda! - resmungou ele. - Achas que és muito esperta.

- Não posso fazer nada - disse ela, por entre dentes. - É a comunicação social; eles têm as suas próprias regras.

- É melhor que se ponham a andar daqui. Porque daqui a dois minutos salta um filho da puta do furgão.

A jovem mulher na traseira começou a gemer.

- Você não tem consciência? - perguntou Madison, fitando-o irritadamente.

- Já matou duas pessoas. Que tipo de animal é você?

- Eu não tenho nada a perder - escarneceu ele, com os seus pequenos olhos animalescos cheios de ódio. - Vocês é que se lixam. Não é culpa minha se não conseguem controlar as merdas.

O Manray era um estabelecimento extremamente espaçoso e ruidoso, com fotografias em grande plano de raparigas nuas no exterior e um homem na rua fazendo o seu melhor para atrair clientes para o interior.

Nando parou o seu Ferrari à porta e entregou vinte dólares ao empregado do estacionamento.

- Mantenha-se de olho neste carro e dou-lhe mais quando sair.

- Sim, senhor.

- Bem - disse Jolie, arrastadamente, avaliando o cenário -, parece ser um lugarzinho agradável.

- Lembra-te do que te disse - respondeu Nando, segurando-a pelo braço enquanto entravam. - Claro que é manhoso agora, mas a minha ideia é esta. Podemos transformá-lo no clube de strip mais bem sucedido da cidade. Um lugar onde os homens possam gastar o seu dinheiro sem se sentirem espoliados.

Jolie não estava propriamente preparada para a quantidade de nudez que a rodeou. Havia raparigas nuas por todo o lado. As empregadas de mesa não usavam qualquer roupa enquanto faziam o seu serviço, havia lap-dancers a toda a volta do palco e, sobre este, dez mulheres faziam o seu trabalho, totalmente nuas e desinibidas.

- Isto é uma pocilga! - disse Jolie, franzindo o nariz. - As raparigas nem sequer são bonitas.

- Que esperavas? As Folies de Paris?

- Que é que te faz pensar que os donos queiram fazer sociedade contigo?

- Porque todos sairemos a ganhar dinheiro. E eu consigo garantir para este sítio o triplo da receita que ele faz agora.

- Continuo a achar que devias incluir Vincent no negócio.

- Ah, sim, Vincent. O menino puro.

- Que fez ele que te incomodasse?

- Olha - explicou Nando -, eu cresci com Vin. Conheço-o melhor do que ninguém. Ele foi reprimido por aquela sua mãe.

- Não gostas de Dani?

- Não é má pessoa. O problema é que não o deixou sair da redoma.

- É por isso que achas que ele é rígido?

- Agora estás a perceber. Ele é rígido - disse Nando, conduzindo-a através da vasta sala. - Provavelmente, até fode com as luzes apagadas.

- Eles devem fazer uma fortuna - comentou Jolie. - Isto está a abarrotar.

- Sim, com clientes foleiros que não têm duas notas para esfregar uma na outra! Podemos fazer disto o clube de strip com mais classe da cidade. Criamos salas privadas, uma zona VIP, contratamos mulheres deslumbrantes. Digo-te, filha, isto é uma enorme máquina de fazer dinheiro.

- Não me sinto à vontade aqui, Nando - disse Jolie, enquanto passava por ela uma magra empregada negra com enormes mamas, equilibrando uma bandeja de bebidas.

- Não vamos ficar sentados a conversar - realçou Nando. - Tens de concordar, o espaço é inacreditável. Lembra-te do que sempre te disse...

- Já sei. - Jolie suspirou. - Localização, localização, localização.

- Aí vêm eles, Leroy e Darren. Sê simpática.

- Não sou sempre?

- Estou pedrada - riu-se Jenna, totalmente pedrada.

- Estás apenas bem disposta - disse Andy, acariciando-lhe o braço.

- Não, acho que estou pedrada - disse ela, começando a rir-se de novo. Sinto-me toda a palpitar e a vibrar.

- Isso é porque tens muita roupa vestida - disse Andy, puxando-lhe o vestido.

- Vem cá, deixa-me ajudar-te.

- Não é preciso - disse ela, recuando.

- Então, fofa, não sejas tímida.

- Não sou.

- Então, deixa-me ver essas maminhas que me tens apontado toda a noite.

- Não te tenho apontado coisa nenhuma.

- Anda lá - aliciou-a ele novamente. - Olha para Anais; ela não é tímida. Jenna olhou para a bela rapariga negra, que estava novamente estendida no sofá, de pernas abertas e reluzente pele de ébano.

- Sabias que Anais gosta de raparigas? - disse Andy, aproximando-se e mordendo-lhe a orelha.

- Também gosto de raparigas - disse Jenna. - Tenho montes de amigas.

- Não quis dizer nesse sentido - disse ele, puxando para trás uma madeixa do cabelo loiro-sujo que era sua imagem de marca. - Alguma vez o fizeste com uma rapariga?

- Que queres dizer? - disse ela, arregalando os olhos.

- Meu Deus! - disse Andy. - És mesmo nova, não és?

- Tenho vinte e dois - disse ela, objectivamente. - Que idade tens tu?

- A mesma - resmungou ele.

- Qual é o teu signo?

- Não interessa.

- Interessa, sim - disse Jenna com seriedade. - O signo de uma pessoa é a chave para a sua personalidade.

- Tira o vestido. Quero olhar para as tuas mamas.

- Não me parece...

- Já as vi uma vez, esta noite nojacuzzi, lembras-te? Qual é o mal de as mostrares outra vez?

- Está bem - disse ela aquiescentemente, começando a despir-se.

- Assim está melhor - disse Andy, esfregando as mãos de antecipação.

Dani entrou no quarto e deitou-se sobre a cama. Precisava de descansar, a sua cabeça zumbia. Havia tanta coisa a acontecer, com Michael a aparecer inesperadamente e a nova acusação contra ele; o que não deixava de a fazer recordar a última vez em que ele fora acusado.

Primeiro Beth.

Agora Stella.

Tinha a certeza de que ele estava inocente, mas era muito estranho que tivesse acontecido duas vezes.

Conseguia ouvir o murmúrio da conversa enquanto ele falava com Vincent na sala. Pai e filho a criarem laços. Ela adorava quando eles se juntavam.

Pegando no controlo remoto da televisão, ligou para o noticiário. Quase imediatamente ouviu mencionar o nome de Madison e a sua fotografia surgiu no ecrã.

- Michael! - chamou, sentando-se abruptamente. - Michael, Vincent; depressa, venham cá!

- Que foi? - disse Michael, entrando no quarto, com Vincent logo atrás.

A jornalista, uma loira com ar de estrela de cinema, transmitia os últimos desenvolvimentos.

- Uma perseguição a alta velocidade está neste momento a ocorrer em Hollywood. Ajornalista Madison Castelli é uma das pessoas retidas no furgão, juntamente com quatro outros reféns. Há três assaltantes envolvidos e aparentemente dois reféns foram já atingidos a tiro.

Michael fitou o ecrã e empalideceu.

- Jesus! - disse. - Devem tê-la alcançado antes de nós. Aqueles cabrões!

Sofia não conseguia dormir. Sentia-se embaraçada pelo que tinha acontecido e também não queria encarar Gianni pela manhã. Era a primeira vez que um homem a rejeitava e ela nem podia acreditar.

Furtivamente, saiu da cama, procurou as suas roupas e vestiu-se. Depois saiu da suite.

Na portaria pediu ao porteiro que lhe chamasse um táxi.

- Posso perguntar-lhe onde vai? - inquiriu o porteiro, um homem pretensioso e mal encarado.

- Pergunte à vontade - disse ela -, porque realmente não é da sua conta. O porteiro lançou-lhe um olhar superior e informou-a de que o táxi chegaria dentro de quinze minutos.

- Espero lá fora - disse ela.

Passou pela entrada do luxuoso hotel e sentou-se na berma da rua. Adeus, Gianni. Lamento que não tenha funcionado.

- Foda-se! - disse o bandido, enquanto o helicóptero continuava a seguir com os focos no meio do céu negro apontados para baixo. - Abre a porta do carro.

- O quê? - disse Ace, no banco traseiro.

- Abre a puta da porta e atira essa cabra chorosa lá para fora.

- Eu encosto - disse Cole, guinando com o furgão.

- Sim, se quiseres uma bala na cabeça.

- Não - A rapariga na traseira começou a gritar, enquanto os dois bandidos a agarravam.

- Não, não, não!

Era demasiado tarde.

Ace e o outro tipo abriram a porta lateral e atiraram-na do furgão em movimento como a um saco de lixo.

Os seus gritos frenéticos ficaram suspensos no ar.

 

                   Michael e Dani: 1982

Michael estava no seu escritório quando a sua assistente, Marcie, o informou de que havia uma mulher chamada Tina ao telefone. Ele percebeu que Marcie, que era muito protectora, não queria passar a chamada.

- Ela diz que é pessoal - disse Marcie, com um trejeito de incredulidade no lábio.

- Eu atendo - disse ele, pegando no auscultador.

- Michael? - disse uma voz feminina.

- Tina? - respondeu ele, genuinamente satisfeito por ouvir a sua velha amiga.

- Que tal vai isso?

- Bem, muito obrigada - respondeu Tina secamente, acrescentando um su cinto: - Não que tu te interesses, já que nunca te vemos.

- Isso não é verdade.

- É, sim, e Max está bom, caso estejas interessado.

A boa velha Tina, mal disposta como sempre.

- É óptimo ouvir a tua voz - disse ele.

- Surpreende-me que digas isso.

- Então, Tina - lamentou-se ele. - Não é culpa minha que não te dês bem com Stella.

- E de quem é a culpa de que nunca estejas com o teu melhor amigo Max? Imaginas como ele está magoado?

Aí vinha ele, o sermão. Tina era mestre em deitar abaixo um homem.

- Tu não ouviste o que ele disse acerca de Stella.

- Fosse o que fosse - argumentou ela -, tenho a certeza de que não foi suficientemente mau para acabar com uma amizade.

- Stella é minha mulher Tina. Tenho de mostrar respeito por ela. Traços de Vito Giovanni. O homem tinha tido assim tanta influência sobre ele? Sim.

E por vezes continuava a ter.

- Seja como for - continuou Tina -, não é essa a razão por que te estou a ligar.

- Qual é a razão?

- Alguém anda à tua procura.

- E quem é?

- Lembras-te de Dani?

Lembrava-se de Dani? Sim, certamente que se lembrava de Dani.

- Que tem ela? - perguntou, tentando parecer desinteressado.

- Está cá, em Nova Iorque, e ligou-me.

- Ah, ligou?

- Sim. Quer ver-te.

Ele inspirou profundamente, puxou um cigarro e acendeu-o.

- Dani quer ver-me?

- Sim. Eu prometi que te transmitia a mensagem. Caso estejas interessado, ela está alojada no Plaza.

- É simpático da tua parte dizeres-me, Tina. Mas não te estás a esquecer de que agora sou casado? Portanto, não me parece que lhe vá telefonar.

- Ela diz que tem algo para falar contigo.

Ele inspirou profundamente o fumo.

- Disse o que era?

- Não, mas pediu-me que te dissesse que é importante.

- Tu vais estar com ela?

- Talvez ela vá lá a casa com o filho.

- Pelo menos, tu ficas a conhecê-lo.

- Quer dizer que tu não o conheces?

- Não. Isso foi um dos pomos da discórdia entre nós. Ela não queria que eu o conhecesse - disse ele, pousando o cigarro num cinzeiro de mármore. - Suponho que seja uma das razões por que ela se afastou. Quem sabe? Ela pertence ao meu passado e não pretendo revisitá-lo.

- Nós também somos parte do teu passado, Michael? - perguntou Tina, parecendo subitamente carente.

- Não - disse ele, calorosamente. - Tu, Max e os miúdos estão sempre no meu coração.

- Isso é muito querido.

- Consigo ser um tipo simpático quando quero - brincou ele.

- Sabemos de ti através do Charlie. Agora és um manda-chuva.

- Deixa-te disso, Tina - disse ele, embaraçado.

- Como vai Madison?

- Está incrível - disse ele, pegando no cigarro e dando outra profunda passa.

- Com onze anos, e é a miúda mais esperta que já se viu.

- Stella é uma boa mãe para ela?

- Stella é uma mulher maravilhosa! - disse ele, expirando o fumo.

- Estou certa que sim - disse Tina, sarcasticamente. - Quando arranja tempo.

- Que quer isso dizer?

- Eu leio as colunas sociais, Michael. A tua mulher nunca está em casa; anda sempre por fora, em algum evento de caridade ou grande inauguração.

- Stella adora fazer boas acções.

- Claro.

- Seja como for, Tina, vamo-nos encontrar em breve. Prometo-te.

- Max adoraria ver-te. Mas não lhe digas que eu te disse, porque ele pretende fazer-te a vida difícil.

- Eu aguento.

- Eu sei.

Pensativamente, ele pousou o telefone. Dani Castle. Sete anos de silêncio e agora queria falar com ele. Que poderia ela querer?

Por um lado estava intrigado, por outro sabia que não devia aproximar-se dela porque não sabia o que aconteceria se o fizesse. Bastava olharem-se nos olhos e pronto. Química. Tinham-na às mãos-cheias.

Agora já não. Estava casado, era um caso completamente diferente. Stella era mãe de Madison e ele não queria atrapalhar isso.

Uma curta pausa e pegou no telefone.

- Arranje-me o número do Plaza - disse ele a Marcie.

Jesus Cristo! Nem vais pensar melhor no assunto?

Aparentemente, não.

Marcie deu-lhe o número. Ele escreveu-o num bloco e olhou para ele durante alguns minutos antes de ligar pela sua linha privada.

Quando a telefonista do hotel atendeu, ele pediu para falar com Dani Castle. Dizer simplesmente o nome dela trazia de volta uma torrente de memórias, na sua

maior parte boas.

- Neste momento não está ninguém no quarto - disse a telefonista. - Quer deixar mensagem?

- Eu volto a tentar mais tarde - disse ele, pousando o auscultador. Simples facto da vida. Ele queria vê-la. Tinha de saber por que o deixara ela. Não que ele se importasse.

Ou importava?

Nessa noite, ele e Stella deveriam assistir a outra maçadora ópera. Ele simplesmente já não desfrutava da cena social dela. Ao princípio fora entusiasmante, agora era apenas trabalho; além do mais, trabalho que ele não apreciava. Não gostava dos amigos dela. As mulheres eram tão magras que conseguiriam passar por uma fenda na parede. Além disso, eram maldosas; tudo o que faziam era mexericar sobre as outras e tentar superar as jóias da amiga mais próxima. Estava consciente que os homens o olhavam de cima a baixo, apesar do seu sucesso. Ele simplesmente não tinha a origem adequada.

Ligou para casa, para Stella, e informou-a de que não iria chegar a tempo da ópera.

- Tens que chegar! - disse ela, de voz gélida.

- Não, não tenho - respondeu ele em tom inexpressivo. - O que tenho que fazer é comparecer a uma reunião urgente.

- Oh, meu Deus, Michael, isto é tão desagradável - disse ela, parecendo incomodada. - Tu sabes que detesto ir a estas coisas sozinha.

- Leva o teu passeante - disse ele, referindo-se a um negociante de arte gay, que por vezes o substituía quando ele não podia acompanhá-la nas suas funções.

- Muito bem - disse Stella, numa voz formal. - Eu faço isso. Esperou uma hora antes de voltar a ligar para o Plaza. Continuava a não haver resposta do quarto.

Não tinha intenção de abandonar o escritório até conseguir falar com ela. Dani Castle. Nunca esperara voltar a ter notícias dela.

- Bem - disse Tina, abrindo a porta da sua casa -, só demoraste sete anos a chegar aqui.

Dani estava à porta, sorridente.

- Deparei com alguns problemas no caminho - disse ela, observando que Tina tinha ganho cerca de vinte quilos, embora continuasse bonita como sempre. Este é o meu filho Vincent - acrescentou, dando um ligeiro empurrão a Vincent.

Ele deu um passo em frente, apertando relutantemente a mão de Tina. Ultimamente, ele não andava a dar-se muito bem com a mãe, achando-a demasiado controladora. Fora necessária a visita de Nando para lhe abrir os olhos.

Mal Tina o viu, olhou segunda vez, surpreendida.

- Oh... meu... Deus! - arquejou ela, lançando um olhar rápido a Dani. Agora sei por que é que queres falar com Michael.

Dani franziu o sobrolho, para que ela se calasse. Tina percebeu.

- Que bonita casa! - disse Dani, entrando.

- Sim - disse Tina, orgulhosamente. - Max tem-se saído bem. Há pouco tempo comprou-me um Corvette novo. Acho que os miúdos já estão tão crescidos que, se não tiver um Corvette agora, nunca vou ter um. - Lançou outro longo olhar a Vincent. - Que idade tens tu, querido?

- Dezassete - respondeu ele, perguntando a si mesmo quem diabo era aquela mulher e por que razão tinham ido visitá-la.

- Tens que conhecer o meu filho Harry, ele tem dezasseis - disse Tina. Nem posso crer que sou mãe de um adolescente.

Entraram todos para a grande e confortável sala de estar. Havia cães, gatos, enormes sofás, livros e revistas por todo o lado. Era um verdadeiro lar.

- Fiz aquela chamada - disse Tina em voz baixa. - Aquela que me pediste para fazer.

- Obrigada - disse Dani, olhando para Vincent, que deambulava inquietamente pela sala.

- Então, hem, Vincent, é a primeira vez que vens a Nova Iorque? - perguntou Tina.

- Sim - disse ele. - É a primeira vez que saio de Las Vegas.

- Las Vegas é espectacular! - entusiasmou-se Tina. - A tua mãe alguma vez te falou da ocasião em que fomos ver o Elvis? Ainda me lembro dessa noite como a mais excitante da minha vida. E isso inclui a minha noite de núpcias!

Riram-se todos.

Harry entrou arrastadamente na sala. Com excesso de peso e abundância de sardas, tinha um permanente sorriso de escárnio e um sentido de humor diabólico.

- Diz olá a Vincent - disse Tina, alegremente. - Ele é de Las Vegas. E esta é a mãe dele. Dani.

- Olá - resmungou Harry.

- Podias levar o Vincent lá para cima e mostrar-lhe o teu quarto.

- O meu quarto - disse Harry, fazendo uma careta. - Não queres dizer a minha pocilga? É o que lhe costumas chamar.

- Harry - disse Tina, repreendendo-o. - Temos visitas.

- Está bem, mãe - disse Harry. - Anda - acrescentou ele, acenando a Vincent. Um relutante Vincent seguiu-o pelas escadas acima.

- Oh, meu Deus. - disse Tina, voltando-se para Dani. - Ele é filho de Michael, não é?

- É assim tão óbvio?

- Óbvio - disse Tina, de face corada. - Por amor de Deus! É a cara chapada!

- Suponho que seja.

- Como é que nunca disseste a Michael? - perguntou Tina, excitadamente. Ele não sabe, pois não?

- Não, não sabe - disse Dani, abanando a cabeça.

- E vais dizer-lhe agora?

- Decidi, finalmente, que é justo.

- Tu sabes que Michael está casado?

- Não, não sabia disso - disse ela, sentindo uma fina punhalada de arrependimento. - Também não faz diferença. Isto é só entre ele e Vincent.

- Partiste o coração de Michael quando o deixaste à espera no aeroporto - confidenciou-lhe Tina. - Posso perguntar o que aconteceu?

- Descobri acerca de Beth.

- Oh, meu Deus - exclamou Tina. - Eu avisei-o para que te contasse.

- Infelizmente, ele não o fez - suspirou Dani. - E, quando descobri, foi grande o choque.

- Não foi ele, sabes - disse Tina, rapidamente. - Foi uma cilada preparada por uns marginais com quem ele esteve envolvido. Sabes, a mãe de Michael foi morta a tiro num assalto antes de ele nascer, e o assassínio de Beth foi uma coisa relacionada com complicações de vinganças.

- Eu sabia acerca da mãe dele. Não sabia acerca de Beth.

- Devias ter-me ligado. Eu teria explicado tudo.

- Nem pensei em fazer isso.

- Sabes, Michael é um tipo impecável - disse Tina, seriamente. - Nunca faria mal a ninguém. Pergunta a Max, ele confirmar-te-á.

- Agora é demasiado tarde - disse Dani, contrariadamente.

- Seja como for - continuou Tina -, o problema é, como é que lhe vais dizer? Não podes aparecer com Vincent como fizeste aqui, ele perceberá imediatamente. E não me parece que a mulher dele fosse reagir muito bem.

- Como é a mulher dele? - perguntou Dani, não o conseguindo evitar.

- Uma cabra de primeira!

- É mesmo?

- Oh, sim. Ninguém consegue perceber por que casou com ela, excepto, suponho eu, por ser bonita. A questão é que ele queria uma mãe para Madison. e foi Stella. Michael adora a sua menina. Costumava trazê- la aqui muitas vezes, mas agora nunca os vemos.

- Como achas tu que eu deva tratar disto?

- Diz-lhe abertamente. Diz-lhe: Ouve, Michael, tens um filho com dezassete anos. " Não adianta estar a arrastar as coisas.

- Tens razão.

- Vincent já sabe?

- Ainda não arranjei ocasião para lhe dizer.

- Uau, Dani. Tens mesmo muitas explicações para dar.

- Eu sei - disse ela, percebendo até que ponto Tina tinha razão.

- Quem me dera poder ajudar.

- Não podes, mas agradeço a intenção.

Mais tarde, já no hotel, o telefone tocou. Dani pegou rapidamente no auscultador.

- Fala Michael. Tina disse-me que querias falar comigo.

- Ah, sim, quero - disse ela, olhando para Vincent, que estava ocupado a percorrer os canais de televisão com o comando remoto.

- Por isso liguei. O que é?

Ele parecia frio, distante e irritado. Ela não o culpava.

- Podemo-nos encontrar? - perguntou ela em voz baixa.

- É mesmo necessário?

- Na verdade, sim. Tenho algo importante para te dizer.

- E não me podes dizer pelo telefone? - disse ele, não facilitando as coisas.

- Não.

- Faltam dez para as nove - disse ele, abruptamente. - Posso estar no bar do teu hotel dentro de quinze minutos.

- Estava a pensar que podíamos jantar juntos amanhã.

- No bar dentro de quinze minutos ou, então, esquece - disse ele, bruscamente.

- Lá estarei - disse ela, compreendendo a raiva dele, mas ao mesmo tempo entristecida com tudo aquilo.

- Onde vais, mãe? - perguntou Vincent.

- Tenho de me encontrar com um velho amigo lá em baixo no bar - disse ela, tirando do armário o seu vestido azul favorito. Combinava com os seus olhos.

- Então, por que te estás a arranjar toda?

- Gostava que não fizesses tantas perguntas - disse ela, escolhendo um par de pequenos brincos de ouro e colocando-os nas orelhas. - Não me posso pôr bonita para me encontrar com um velho amigo?

- Sim, mas tu estás, bem, toda nervosa, a pôr perfume e essas merdas.

- Não uses linguagem dessa, Vincent - disse ela, severamente.

- Mãe - disse ele, lançando-lhe um olhar revoltado -, tenho dezassete anos. Se não posso usá-la em casa, onde vou usá-la? Na escola?

- Não é conveniente - disse ela, remexendo no cabelo.

- Nando diz que tu andas demasiado em cima de mim.

- Ah, Nando diz isso, é? - disse ela, irritada.

- Sim.

- Talvez seja porque Nando não tem uma mãe que ande em cima dele. Pode ser que tenha inveja, não achas?

- Nando? Inveja de mim? - disse Vincent, dando uma gargalhada. - Nem pensar.

- Seja como for, por que não vês televisão? Eu não demoro.

- Perfeito! Viajamos para Nova Iorque e eu tenho que ficar sentado num qu de hotel a ver televisão, enquanto tu vais sair.

- Eu volto depressa.

- Nando ofereceu-me uma viagem à Colômbia - disse ele, sabendo que ficaria chateada.

- O quê?

- Vai enviar-me um bilhete.

- Se achas que te vou deixar ir à Colômbia sozinho, podes tirar daí o sentido.

- Eu vou, mãe - disse ele, desafiando-a. - Não me podes impedir. Aquele não era o momento para uma discussão.

- Vê televisão - disse ela, pegando na sua carteira. - Não me ponhas maluca!

Vincent tinha razão. Por que estava ela a arranjar-se toda para se encontrar com um velho amigo? Só que Michael era mais do que um velho amigo; era o amor da sua vida e sempre o seria.

No entanto, tinha de se lembrar que ele era casado e ela respeitaria isso, apesar de Tina ter dito que a mulher dele era uma cabra.

Examinou a sua aparência ao espelho uma última vez. Tinha mudado assim tanto? Não, continuava com o mesmo aspecto.

- Pede o que quiseres ao serviço de quartos - disse ela, dirigindo-se para a porta.

- Puxa, obrigado, mãe - respondeu ele, sarcasticamente.

Michael apanhou um táxijunto ao seu escritório. Tinha mandado o seu motorista com o carro para casa, para que o homem pudesse transportar Stella e o seu acompanhante nessa noite. Não se importava de andar de táxi; de facto, até gostava. Ter um carro e um motorista não fora sua ideia, fora de Stella.

Estamos em Nova Iorque, realçara ela. É impossível arranjar estacionamento, portanto, precisamos de um motorista.

Por que não? Todos os amigos dela tinham.

Perguntava a si mesmo o que quereria Dani depois de todo aquele tempo. Por um lado estava excitado por ir encontrar-se com ela, por outro, teria ficado bastante feliz se nunca mais ouvisse falar dela.

Dani Castle. Uma visão do seu passado.

Quando Dani entrou no bar, os homens voltaram-se para a ver. Não era invulgar: ela tinha sempre esse efeito sobre o sexo masculino. Avistou uma mesa vaga no canto, aproximou-se e sentou-se. Após alguns minutos, surgiu o empregado para atender o seu pedido.

- Um copo de vinho branco - disse ela, apercebendo-se de que as suas mãos tremiam.

Michael estava atrasado. Iria mesmo aparecer? Ela não ficaria surpreendida se não o fizesse.

Um longo momento e um homem alto com barba aproximou-se da sua mesa.

- Posso oferecer uma bebida à linda senhora? - perguntou ele, desprendendo um intenso odor a after-shave.

- É muito generoso da sua parte - disse ela, friamente. - No entanto, julgo que o meu marido não ia gostar.

- Oh, desculpe - disse o homem, recuando rapidamente. Ela tamborilou com os dedos na mesa, agarrou numa mão-cheia de amendoins e começou a metê-los nervosamente na boca.

O empregado trouxe-lhe o vinho. Ela bebeu vários goles para ganhar coragem.

Aquela era uma situação impossível para se estar. Uma coisa era dizer a Michael que

tinha um filho, mas como ia ela dizer a Vincent? Ele estava convencido de que Sam

Froog era o seu pai, um pai que ele pouco vira: logo que Sam recebera o dinheiro do

acordo, desaparecera das suas vidas.

Levantou o olhar e lá estava ele. Michael Castelli. Entrando a passos largos no

bar, parecendo mais bonito do que nunca, com um fato escuro, camisa branca e

gravata cinzento-pérola.

Deus, ele tinha sempre um efeito incrível sobre ela. Bastava vê-lo para se sentir com calor.

Os olhos negros dele percorreram a sala até que a avistaram. Depois caminhou na sua direcção, abrindo caminho por entre as mesas até chegar junto a ela.

- Dani - disse, de pé diante da mesa.

- Olá, Michael - respondeu ela.

Nenhum contacto físico, nem sequer um aperto de mão.

Ele puxou uma cadeira e sentou-se.

- Que estás a beber?

- Vinho branco.

Ele estalou os dedos na direcção do empregado, que se apressou a aproximar-se.

- Jack Daniel com gelo - disse ele. - E outro copo de vinho para a senhora.

- Sim, senhor - respondeu o empregado, em reacção aos seus modos autoritários.

- Então, Dani - disse Michael, ligeiramente mais caloroso do que fora ao

telefone, mas ainda muito frio -, que te traz a Nova Iorque? - Vim com o meu filho - disse ela. - Estamos a visitar universidades.

- Como está o teu filho? - perguntou ele educadamente.

- Muito bem, obrigada. E Madison?

- Óptima.

- Deve estar crescida.

- Está com onze anos - disse ele, lançando um olhar ostensivo ao seu relógio;

que ela reparou ser um dispendioso Rolex de ouro. - Tenho quinze minutos - disse ele, com vivacidade. - Depois tenho de ir a outro sítio.

- Pensei que podíamos passar a noite juntos - disse ela, tentadoramente. Embora eu compreenda perfeitamente se não quiseres.

- Compreendes, é? - disse ele, num tom agressivo.

- Ouve, Michael - disse ela, falando depressa - eu sei que o que fiz foi imperdoável, mas devias ter sido honesto comigo.

- Acerca de quê?

- Beth.

- Ah - disse ele, subitamente mais acessível. - Como é que soubeste?

- Um amigo meu mostrou-me os recortes dos jornais.

- Belo amigo - murmurou ele entre dentes.

- Foi muito perturbador descobrir daquela maneira. Achei que éramos muito chegados e... e não fui capaz de arriscar viajar para Nova Iorque para estar com um homem que obviamente não conhecia.

- E claro que não podias discutir o assunto comigo, ligar-me e dizer: Olha, Michael, por que diabo não me contaste?

- Não estava certo, Michael. Estavas a guardar segredos.

- Presumo que te estivesses a borrifar para o facto de eu ter sido absolvido - disse ele, de expressão inflexível.

Ela suspirou. Obviamente, aquele encontro ia ser curto e não muito agradável.

- Já vi que não estás interessado em passar algum tempo comigo - disse ela.

- Não te culpo. Portanto, vou directa ao assunto de que te quero falar.

- Óptimo.

- Prepara-te - disse ela serenamente. - Vai ser um choque.

- Nada do que possas fazer ou dizer me vai chocar, Dani. Tu largaste-me, lembras-te? Devo admitir que isso até me chocou na altura, mas agora, faças o que fizeres, que se foda, não quero saber.

Ela detestou a fria indiferença dele. A situaçãojá era difícil sem ter que suportar as suas vibrações negativas.

- Provavelmente, perguntaste a ti mesmo por que nunca te apresentei o meu filho?

- Que é que isso tem a ver com o resto?

- Existe uma razão.

- Razão essa que é...

Ela fez uma longa pausa e depois disse-lhe, tal como Tina tinha aconselhado.

- Vincent é teu filho.

- Desculpa - disse ele, olhando-a como se ela fosse louca.

- Na primeira vez que dormimos juntos eu fiquei grávida - disse ela, com as palavras a atropelarem-se.

- Jesus Cristo!

- Eu tive um bebé, Vincent; é teu filho tanto como meu. Nunca te disse porque tu obviamente não te interessavas por mim. Depois regressaste mesmo, alguns anos mais tarde, e reencontrámo-nos, pensei dizer-te então. Ia dizer-te quando viesse a Nova Iorque. - Inspirou profundamente. - Oh, meu Deus, Michael, eu sei que devia ter-te dito. Sinto-me muito culpada agora, porque Vincent precisa verdadeiramente do pai. Lamento tanto.

- Não acredito nesta merda! - disse ele, abanando a cabeça.

- É verdade - disse ela, quase em lágrimas. - Nunca dormi com mais ninguém; tu foste o único.

- Tu casaste-te, não casaste? - disse ele, asperamente.

- Casei-me com Sam porque estava grávida - explicou ela. - Fi-lo acreditar que o bebé era dele.

- Ainda falas de eu ter segredos - disse Michael, fitando-a longa e duramente.

- Como consegues ser tão tortuosa?

- Não podes castigar Vincent por causa dos meus erros.

- Eu nem conheço Vincent.

- Mantive-vos afastados porque ele é muito parecido contigo. Quando o levei a casa de Tina hoje, ela ficou espantada.

- Tina já sabe e estás só agora a dizer-me? Isto é absolutamente irreal.

- Tenho que dizer a Vincent. Depois pensei que talvez amanhã os dois pudessem finalmente conhecer- se.

- Perdeste completamente ojuizo - disse ele, colericamente. - Estou casado, Dani. Casado. Tanto quanto Madison sabe, Stella é mãe dela. E acredita, quem quer que lhe diga o contrário vai arrepender-se seriamente.

- Eu compreendo - disse ela, submissamente.

- Óptimo. Porque acho o máximo que venhas ter comigo dezassete anos mais tarde para me dizeres que tenho um filho. Mas sabes uma coisa? É demasiado tarde. Não quero conhecê- lo. Não quero ter nada a ver contigo. E neste momento vou levantar-me e sair daqui para fora. Portanto... faz um grande favor aos dois e nunca mais me procures.

 

                   Michael e Dani 1982

- Eu disse para nos vires visitar, mas nunca pensei que o fizesses tão depressa

- disse Tina, parada à porta de sua casa.

- Preciso de falar com vocês - disse Michael, passando por ela.

- Pergunto-me porquê - disse Tina, seguindo-o. - Esta noite começámos a comer mais tarde e estamos a meio do jantar.

- Eu não quero jantar.

- Também não ofereci.

- Obrigado!

- É melhor cumprimentares Max, caso contrário ele vai pensar que se passa algo de estranho.

- Passa-se mesmo algo de estranho, Tina - disse ele, voltando-se para ela. Por que diabo não me avisaste?

- Presumo que isto signifique que Dani te contou.

- Podes ter a certeza.

- Que vais tu fazer?

- Por que hei-de eu fazer algo - respondeu Michael, com o seu bonito rosto carrancudo. - Ela criou um filho que eu desconhecia por completo. Agora devo acreditar que ele é meu. Que se foda essa merda!

- Ei - disse Max, emergindo da sala de jantar -, que se passa? Jesus! disse ele ao ver Michael. - Um fantasma do passado.

- Que saudação agradável - disse Michael.

- Que esperavas? Um abraço e um beijo? Olha para ti, todo elegante, o manda-chuva da cidade.

- Deixa-te de tretas - disse Michael. - Sei que já não nos víamos há algum tempo, mas estou aqui porque são meus amigos. E não preciso de ouvir essas merdas.

- Ah - disse Max. - Finalmente, ele descobriu que tem amigos.

Tina, que não tinha contado o que se passava ao marido, fê-lo calar-se rapidamente.

- Vamos para a sala de estar - disse ela, pegando no braço de Michael.

- Preciso de uma bebida - disse Michael.

- Então, prepara uma - disse Max, acrescentando um sarcástico: - Desculpa, mas o pessoal está todo de férias.

- Onde guardas as bebidas? - perguntou Michael, ignorando a provocação de Max.

- Naquele guarda-louça - disse Max. - Se quiseres gelo, tens na cozinha.

- Max - repreendeu-o Tina -, pára de te comportares como um cretino. Michael sofreu um grande choque esta noite.

- Que espécie de choque?

- A espécie de choque em que uma mulher regressa dezassete anos depois e lhe diz que ele tem um filho - disse Tina.

- O quê - disse Max, sentando-se.

- Ia contar-te mais tarde - disse Tina. - Esta é a versão mais curta. O filho de Dani, Vincent, é do Michael.

- Por que é que ela não me contou quando nos começámos a ver novamente? - disse Michael, concisamente.

- Deve ter tido as suas razões - disse Tina, encolhendo os ombros.

- Que vais fazer? - perguntou Max.

- Não é problema meu - disse Michael, preparando uma bebida forte. - O problema é dela.

- Ela disse que o rapaz precisa de um pai - observou Tina.

- Devia ter pensado nisso antes.

- Isso quer dizer que não vais conhecê-lo?

- Por que haveria de o fazer?

- Acho que devias - arriscou Tina. - Afinal, não é culpa dele.

- Tenho que resolver isto por mim mesmo - disse Michael.

- Isso é verdade - concordou Max.

- Olhem, peço desculpa por ter aparecido assim esta noite; não sabia de outro sítio aonde ir.

- Que tal para casa, para a tua mulher? - sugeriu Tina.

- Jesus! - disse Michael. - Se Stella descobrir vai ficar louca.

- Ah, sim, imagino que sim - disse Tina, apreciando bastante a ideia de Stella fora de controlo.

- Não vamos falar da minha mulher - disse Michael, laconicamente, Encontrar-nos-emos quando ela não estiver por perto, está bem?

- Sim, Michael - disse Tina. - E, se queres o meu conselho, o que não parece que queiras, devias conhecer o teu filho. É a atitude mais correcta.

Dani sentia-se uma falhada completa. Não só não conseguira comunicar com Michael, mas, quando dissera a verdade a Vincent, este gritara e saíra a correr do hotel. Não fazia ideia para onde fora ele.

Não sabia se havia de chamar a Polícia ou não. Em vez disso ligou para Tina.

- Não te preocupes - reconfortou-a Tina. - Ele volta.

- Como é que sabes?

- Ele sabe cuidar de si mesmo - disse Tina. - Não acredites em tudo o que lês acerca de Nova Iorque. Se ele não estiver de volta pela manhã, aí começa a preocupar-te.

- Desculpa incomodar-te a meio da noite.

- Não faz mal - disse Tina, acrescentando casualmente: - A propósito, Michael apareceu aqui.

- Como estava ele?

- Irritado e frustrado.

- Eu sei - disse Dani, tristemente. - Ele não recebeu bem a notícia.

- Dá-lhe tempo - disse Tina. - Eu conheço Michael, ele acaba por aceitar.

- Não tenho tanto tempo - disse Dani. - Só vamos cá ficar cinco dias.

- Michael é duro por fora, mas mole por dentro. Não vai virar as costas ao seu próprio filho.

- Espero que não - sussurrou Dani.

Vincent acabou por regressar ao hotel pelas três da madrugada. Dani estava acordada.

- Onde foste? - perguntou ela.

- Por que é que tu hás-de querer saber? - disse ele.

- Olha, eu sei que estás perturbado, mas tens de compreender que, tudo aquilo que fiz, foi com a melhor intenção.

- Jesus, mãe - disse ele, fitando-a -, deves ter sido uma verdadeira vadia. Um conhecimento de uma só noite e tu engravidas. Por que não fizeste um aborto?

Ela tentou manter-se calma.

- Se eu tivesse feito isso não estaríamos a ter esta conversa, pois não?

- Devias ter feito - resmungou ele.

- Não fiz um aborto porque queria ter-te. É uma razão suficientemente boa?

- E por que não lhe disseste?

- Não sabia como contactar Michael. Eu era muito jovem e estava assustada, por isso casei-me com Sam. Como havia eu de saber que ele se ia transformar num bêbado?

- Não há dúvida de que fizeste más escolhas - disse Vincent, saindo para o outro quarto.

Pela manhã, quando Dani acordou, ele saíra novamente. A fúria apossou-se dela. Como haveria de lidar com ele? A situação estava a tornar-se impossível.

Michael bebia café e olhava pela janela, quando Marcie bateu à porta e entrou no gabinete.

- Está aqui um jovem para o ver - anunciou ela.

- Quem?

- Disse que se chamava Vincent. Não me quis dizer o que pretende. – Ela olhou-o com curiosidade. - Tem algum parente com esse nome?

Ele suspirou.

- Por que pergunta, Marcie?

- Existe uma semelhança bastante grande.

- Mande-o entrar - disse Michael.

Agora os seus pensamentos estavam verdadeiramente a correr. O miúdo viera mesmo procurá-lo. Teria sido Dani a mandá-lo? Que quereriam eles? Dinheiro? Está bem, ele daria um cheque ao rapaz. Grande coisa.

Quando Vincent entrou no gabinete, Michael mal pôde acreditar. Todos tinham razão: era quase como olhar para um espelho vinte anos antes.

Olharam um para o outro. Era notório que Vincent estava igualmente estarrecido.

- Feche a porta, Marcie - disse Michael, bruscamente. - E não me passe chamadas.

- Sim, Sr. Castelli - disse Marcie, intrigada por este novo desenvolvimento na sua vida normalmente rotineira. Saiu do gabinete, fechando a porta atrás de si.

Michael apontou uma cadeira.

- Senta-te e relaxa - disse.

Vincent sentou-se. Olharam-se circunspectamente por um momento.

- Então... que posso fazer por ti? - disse Michael por fim.

- É só isso que tem para me dizer? - disse Vincent, mordendo o lábio inferior.

- Olha, a noite passada vi a tua mãe pela primeira vez desde que ela me largou - explicou Michael. - E sabes o que ela me disse? Há dezassete anos, quando estivemos

juntos apenas uma vez, fizemos um filho. - Fez uma pausa. - Oúnico problema

é que ela se esqueceu de me dizer, até à noite de ontem. E tu és esse filho, certo?

- Também a mim ela nunca tinha dito nada até ontem à noite - disse Vincent, com o seu olhar a percorrec o gabinete bem decorado. - Pensava que o meu pai era

um bêbado qualquer que tinha fugido com um monte de massa. Agora fico a saber que é você. Eu não sei quem você é, o que significa que não sei quem sou.

- Que é que queres de mim? - perguntou Michael, decidindo acabar com aquilo depressa. - Dinheiro?

- É por isso que pensa que vim cá? Por dinheiro? - disse Vincent, lançando-lhe um olhar frio. -A minha mãe trabalhou arduamente todos estes anos para se assegurar de que eu tinha tudo o que precisava. Presumo que ela nunca tenha recebido um dólar de si.

- Não ouviste o que eu disse? - perguntou Michael, exasperado. - Eu não sabia que tinha um filho, até ontem à noite.

- Como se isso fosse culpa minha - resmungou Vincent.

- O que eu vou fazer é passar-te um cheque e podes levá-lo à tua mãe e dizer-lhe que é o dinheiro que lhe devo por te ter criado. Agora, dado que não sei quem diabo és tu ou seja o que for sobre ti, isso será o fim das nossas obrigações mútuas.

- Seu sacana! - disse Vincent, erguendo-se de um salto.

- Por que é que eu é que sou sacana?

- Porque sou seu filho - disse Vincent. - Como acha que me sinto? Vim aqui na esperança de encontrar um pai, alguém que pudesse admirar e respeitar. E de certeza que não é você.

Uma imagem de Vinny sentado na sua cadeira-de-rodas e colado à televisão passou diante dos olhos de Michael. Recordava-se de o seu pai nunca lhe dar um momento de atenção, porque para Vinny a sua vida terminara quando a sua mulher fora morta e ele perdera o uso das pernas. Ia ele fazer o mesmo ao seu filho? Ignorá-lo. Mandá-lo embora. Não lhe dar nada senão dinheiro.

- Escuta... - começou ele.

- Não - interrompeu Vincent, irritadamente. - Não tenho que escutar. Você não está interessado em mim. Não quer assumir nenhuma responsabilidade. Por isso, vá-se foder.

- Isso não é...

- Não queremos a porcaria do seu dinheiro - gritou Vincent. - Vou voltar para a minha mãe; ao menos ela preocupa-se.

- Quantas vezes tenho que te dizer? - disse Michael, exasperado. - Eu não sabia que tu eras meu filho.

- Desculpe tê-lo incomodado - disse Vincent, dirigindo-se para a porta. Tive esperanças de que pudéssemos ter algum tipo de relacionamento. Agora percebo que vir aqui foi uma má ideia.

- Ei, espera um minuto - disse Michael, levantando-se e saindo de detrás da sua secretária. - Tens razão. Somos uma espécie de inocentes nisto. Dani devia ter contado a ambos mas não o fez. Por isso eu estou a culpar-te e tu a mim. E a verdade é que ambos estamos errados. - Fez uma pausa. - Dani sabe que estás aqui?

- Ficaria lixada se pensasse que eu vinha vê-lo.

- Fazemos assim, miúdo, vou levar-te a almoçar para ficarmos a conhecer-nos melhor. Que dizes?

Vincent hesitou por um momento.

- Eu gostava de o conhecer - disse.

- Então, fazemos isso?

- Desde que pare de me chamar miúdo.

- Negócio fechado.

- Devemos ligar à minha mãe? Ela deve estar preocupada a pensar onde estarei eu.

- Por que não? - disse Michael, pegando no telefone.

Dani atendeu imediatamente.

- Vincent, és tu?

- Não, sou eu, Michael.

- Ah.

- Vincent está aqui comigo. Estamos a criar laços familiares.

- Pensei que tu...

- Não te preocupes, Dani. Ele passa o dia comigo. Eu deixo-o no hotel por volta das seis.

- Mas, Michael...

- Eu disse para não te preocupares.

- Está bem - disse ela, pousando o telefone.

As coisas estavam a melhorar.

 

                    Michael e Dani 1982

Depois da sua noite na ópera, Stella decidiu que chegara o momento de passar alguns dias numa SPA. Fazia-o com regularidade, colocando os seus tratamentos de beleza acima de qualquer outra coisa.

Michael ficou aliviado. Agora que se habituara à ideia de ter Vincent por perto, o facto de Stella estar ausente era uma ajuda, e como Madison estava longe na sua escola, ele não tinha compromissos.

Tinha passado os últimos três dias com Vincent e descoberto que o filho que nunca soubera que tinha era um miúdo esperto, capaz de conversar sobre qualquer assunto e que fazia uma companhia interessante.

Vincent falou muito do seu amigo Nando, na Colômbia, e de como estavam a planear fazer coisas juntos.

- E Dani não está a contar que vás para a universidade? - perguntou Michael enquanto estavam numa loja de roupas para homem, a experimentar casacos.

- Tu andaste na universidade? - retorquiu Vincent.

- Não - disse Michael, rindo-se. -Abandonei a escola aos quinze para trabalhar na loja de conveniência da família. Hei-de falar-te da tua bisavó Lani; que figura!

- E o teu pai? - perguntou Vincent, pegando num blusão de motociclista de cabedal negro com aplicações metálicas. - Como era ele?

- Isso é outra história. Falaremos nisso um destes dias.

- Então como é? - disse Vincent, fazendo Michael recordar-se de si mesmo com aquela idade. - Por que é que eu tenho de ir para a universidade?

- Porque é o que a tua mãe quer - respondeu Michael, experimentando um casaco desportivo azul-escuro Armani que lhe assentava admiravelmente.

- Isso mesmo - disse Vincent, calorosamente. - É o que ela quer, não o que eu quero. Nando e eu vamos viajar à volta do mundo.

- Ah, vão?

- Hem, se não o fizermos agora, quando é que vou poder fazê-lo?

- E como é que te podes dar a esse luxo?

- Nando vai herdar uma pipa de massa quando fizer vinte e um anos - disse Vincent, entusiasticamente. - Ele acha que pode conseguir um adiantamento do banco.

- Estou a ver - disse Michael. - Então vais viajar à volta do mundo com o dinheiro de outra pessoa, é isso?

- Nando e eu somos como irmãos.

- Um conselho: nunca te aproveites de um cêntimo de um amigo.

- A universidade não é para mim - disse Vincent, despindo o casaco de cabedal.

- Eu sei o que quero fazer.

- Sim, o que é?

- Algo em Las Vegas com Nando. Temos falado sobre isso. Queremos abrir o nosso próprio negócio.

- Que tipo de negócio?

- Um bar ou um restaurante. Talvez mesmo um hotel.

- Estou a gostar - brincou Michael. - Ele pensa em pequena escala.

- Podemos fazer as coisas funcionar se eu não tiver que perder o meu tempo na universidade. Falas com a mãe por mim?

- Está bem, está bem.

- Falas mesmo?

Michael acenou afirmativamente com ar pensativo.

- Talvez devêssemos jantar os três esta noite - disse ele, pensando que não seria assim tão mau rever Dani.

- Isso seria óptimo - disse Vincent.

- Eu ligo-lhe mais tarde - disse Michael, pensando se estaria a dar um passo sensato ao convidar Dani parajantar. Ela aparecera tão bonita na outra noite. Tentaria não se deixar influenciar por isso; uma tarefa impossível. Mas agora, tendo passado algum tempo com Michael, habituara-se de certa forma à situação e tinha de admitir que Dani fizera um excelente trabalho na educação do rapaz, tendo feito tudo sozinha. Podiam ser amigos, não podiam?

Decidiu que lhe devia dar dinheiro; dinheiro que lhe teria mandado ao longo dos anos se soubesse que ela tinha uma criança.

O vendedor da loja aproximou-se, um homem gay emocionado por estar a atender dois clientes tão atraentes.

- Então? - questionou o jovem. - Já decidimos?

- O que o meu filho desejar - disse Michael. - Eu levo o Armani.

- Claro que leva - murmurou admirativamente o vendedor. - Fica-lhe tão bem!

Mais tarde, nesse dia, Michael sentou-se à sua secretária pensando em quanto deveria dar a Dani. Acabou por lhe passar um cheque de duzentos e cinquenta mil dólares. Se ela aceitaria ou não, era uma outra questão. Ele insistiria. Ela não iria dizer que não.

O seu problema seguinte era o sítio onde iriam jantar. Não seria sensato levá-los a qualquer lugar onde amigos de Stella os pudessem ver, pelo que ligou a Tina e pediu sugestões.

- Venham a nossa casa - disse ela. - Max está a preparar um churrasco. Será só familia e diversão; ou caos, depende.

- Tens a certeza?

- Por que não?

- Estaremos aí.

- Está tudo a correr bem?

- É uma situação estranha, mas tinhas razão, eu devo conhecer Vincent, portanto, é o que tenho andado a fazer.

Quando finalmente ligou a Dani, ela ficou inicialmente relutante. Mas depois de Vincent insistir, ela ligou para Michael e concordou em comparecer ao jantar.

Nessa noite ele recolheu-os, de táxi, no hotel. Como de costume, Dani estava estarrecedoramente bela, num conjunto de calça e casaco de seda branca, com os seus longos cabelos loiros presos no alto da cabeça e argolas de ouro pendentes das orelhas.

- Olá - disse ele, pensando nas boas recordações que tinham em comum.

- Olá, Michael - murmurou ela, perguntando-se por que tinha concordado em fazer aquilo, embora aliviada por ver que ele estava manifestamente mais bem disposto do que na outra noite.

Bem no fundo, Michael sabia que Dani teria sido uma mãe mais atenciosa para Madison. Mas não podia deixar que esses pensamentos lhe povoassem a mente. Stella era a mãe de Madison e era assim que as coisas tinham de se manter.

Na casa de Tina e Max estavam todos reunidos no pátio traseiro. Harry estava com um grupo de amigos a jogar argolas, enquanto Susie estava sentada com duas das suas amigas adolescentes, que deitaram um olhar a Vincent e imediatamente começaram a acotovelar-se uma à outra e a rir de forma embaraçada.

- Estou a ver que é a noite da família - disse Michael, desejando que Madison estivesse ali com ele, para que também pudesse divertir-se.

- Ei, Vinny - gritou Harry -, vem para aqui jogar.

- Nunca tinha ouvido chamarem-lhe Vinny - observou Dani, olhando para o seu filho enquanto ele se juntava a Harry e aos seus amigos.

- Sabias que era o nome do meu pai? - disse Michael, pensando se era a sua imaginação ou se os olhos dela estavam ainda mais espantosamente azuis do que ele se recordava.

- Não.

- E meu também - disse ele, prosseguindo com o assunto.

- O teu nome é Michael - afirmou ela.

- Vincenzio Michael Castellino - anunciou ele. - É o que está na minha certidão de nascimento.

- A sério?

- Chamaste-lhe Vincent e não sabias isso? - disse ele inquisitivamente, não acreditando nela nem por um segundo.

- Talvez soubesse - disse ela, desenvoltamente. - Acho que talvez me tenhas dito uma vez.

- Pois, mas Vincent não é um bocado formal?

- Ele não gosta quando as pessoas abreviam.

- Ora, ora, ora, isto é mesmo como nos velhos tempos - disse Max, aproximando-se. - Alguém quer uma cerveja?

- Boa ideia - disse Michael, enquanto Tina se juntava a eles.

- Por que não se sentam os dois aí? - disse Tina, apontando para uma grande mesa de piquenique montada junto às suas três roseiras premiadas e a um grande canteiro de relva.

Michael pegou no braço de Dani e guiou-a até à mesa. Sabia bem estar com ele, pensou ela, e no entanto sabia que aquilo não podia levar a lado nenhum.

- Ele é um grande miúdo, Dani! - disse Michael, sentando-se. - Fizeste um óptimo trabalho.

- Obrigada - respondeu ela, satisfeita, acrescentando rapidamente. - Já contaste à tua mulher?

- Não é uma boa ideia - disse ele. - É melhor que ela não descubra acerca de Vincent.

- Porquê?

- Sabes, Dani, eu quero tê-lo na minha vida, mas tenho que o manter separado daquilo que tenho aqui. Consegues compreender isso?

- Se Vincent compreende, então, acho que consigo.

- Vou estar presente para ele. Prometo-te.

- É decididamente o que ele precisa - disse ela, aliviada por ver que as coisas pareciam estar a funcionar.

- Não - disse Michael, firmemente. - O que ele precisa é de alguma liberdade.

- Desculpa?

- Ele disse-me que andas sempre em cima dele; a fazê-lo estudar e a trabalhar no duro.

- É isso que ele deve fazer, Michael.

- Esteve a falar-me do seu amigo Nando, aquele que ele quer visitar na Colômbia. Diz que tu és contra isso.

- E sou - disse ela, não gostando da direcção que a conversa estava a tomar.

- Porquê?

- Nando é uma má influência.

- O que é uma má influência? - disse ele, impacientemente. - O miúdo ainda nem deu uma queca.

- Michael!

- Ele tem dezassete anos. Tu e eu estivemos juntos quando tu tinhas dezasseis. Não faças dele um menino da mamã.

- Não estou a fazer - disse ela, teimosamente.

- Estás, sim.

- Tenho de protegê-lo.

- De quê?

- Da vida.

- Dani, não podes proteger ninguém de viver. Pensei que compreenderias isso melhor do que ninguém.

Ela olhou noutra direcção, pensando em tudo aquilo por que passara. Percebeu que ele tinha razão, claro, mas podia deixar Vincent partir tão facilmente?

- Seja como for - acrescentou ele, inclinando-se para ela -, desculpa ter tornado as coisas tão difíceis na outra noite. Não deve ter sido fácil para ti.

- Não foi.

- Então - disse ele, rindo-se subitamente -, aqui estamos nós, sentados como um casal casado há muito tempo, a discutir sobre o nosso filho. É qualquer coisa, não é?

- Tu é que és o casado há muito tempo - realçou ela. - Eu continuo solteira.

- Continuas, é?

- Sim - disse ela de forma casual, e atirou provocatoriamente: - Apesar de Dean estar sempre a pedir que me case com ele.

- Quem é Dean? - perguntou ele, franzindo ligeiramente o sobrolho.

- Ah, não te contei sobre ele? Dean é um amigo muito especial.

- Especial como?

- Conhecemo-nos há muito tempo.

- Dormes com ele?

- Realmente, não me parece que isso seja da tua conta.

- Foi ele que te contou acerca de Beth?

- Na verdade, sim. Como sabias isso?

- Apenas um palpite - disse Michael, decidindo que, fosse Dean quem fosse, era uma besta.

Max aproximou-se com várias garrafas de cerveja e largou-as sobre a mesa.

- Quem me ajuda com o churrasco? - perguntou.

Michael levantou-se.

- Eu ajudo.

- Espero que sejas bom, porque eu faço o melhor molho de churrasco que já se viu. Portanto, se estragares os bifes, estás em grandes sarilhos.

Depois do churrasco, Harry perguntou se podia levar Vincent a uma festa.

- Não me parece - disse Dani.

- A mim parece - disse Michael, pegando no braço de Dani e puxando-a para o lado. Olharam um para o outro e Michael rebentou a rir. - Disseste que querias que ele tivesse um pai na sua vida. Bem, aqui estou eu.

- Sim, mas...

- Deixa o miúdo ir a uma festa - interrompeu ele. - Quantas vezes vai ele estar em Nova Iorque?

- E como é que ele vai voltar para o hotel? - perguntou ela, sabendo que parecia uma mãe rígida e superprotectora, mas sem ser capaz de o evitar.

- Ele tem dezassete anos, por amor de Deus. Há-de arranjar a sua própria maneira.

- Só se estiver de volta até à meia-noite - disse ela, negociando. - Acho que concordámos em que ele deve ter uma hora de recolha, certo?

- Meia-noite, uma da manhã, que diferença faz isso?

- Faz diferença para mim.

- Olha - disse Michael -, sabes o que eu fazia quando tinha dezassete anos?

- Não duvido de que devias ser fresco.

- Tu não eras propriamente a mais bem comportada, se me lembro correcta mente.

- Tu abusaste de mim, Michael - disse ela, corando.

- Sim? - disse ele, cruzando o olhar com o dela.

Ela não pode evitar um sorriso.

- Bem... talvez eu te tenha encorajado.

- Tu eras uma menina muito marota - disse ele, rindo-se de novo.

- E tu encorajaste-me - contrapôs ela.

- Anda - disse ele, erguendo-se. - Eu levo-te ao hotel, enquanto o filho vai sair e passar um bom bocado.

Despediram-se de Tina e Max e, enquanto Dani agradecia a Tina, Michael deu a Vincent uma nota de cem e disse-lhe para se divertir.

Apanharam um táxi para o Plaza e quando encostaram à porta do hotel, Dany disse:

- Não precisas de sair.

- Preciso, sim - respondeu Michael, pagando ao taxista e acompanhando-a até ao vestíbulo.

- Bem... Michael - disse ela -, foi agradável.

- Vamos ao bar tomar uma bebida - sugeriu ele, pegando-lhe novamente no braço.

Ela deu por si a acenar afirmativamente, embora soubesse bem que deveria dizer não. Tomar uma bebida com Michael parecia levar sempre a outras coisas.

- Vincent gosta mesmo de ti - disse ela, ao sentarem-se à mesa.

- Eu também gosto mesmo dele - respondeu Michael, pedindo uma garrafa de champanhe.

- Então agi bem?

- Parece que sim.

- Fico feliz.

Ele meteu a mão no bolso, tirou um maço de Lucky Strikes e ofereceu- lhe um. Ela abanou a cabeça.

- Eis a minha ideia - disse ele, acendendo o seu cigarro. - Tens que dar ao miúdo a hipótese de ver o mundo antes de ir para a universidade. Eu financio a viagem, ele não deve ficar dependente de Nando. Ele tem que sair e experimentar as coisas por si próprio. Não podes reprimi-lo, Dani.

- Mandá-lo para a universidade é reprimi-lo? - disse ela, severamente.

- Ele não quer ir.

- Como sabes isso?

- Ele disse-me.

- É demasiado novo para tomar esse tipo de decisões.

- Não, não é. E agora que faço parte da vida de Vincent, acho que sabes que legalmente tenho uma palavra a dizer.

- O quê?

- Não queres que envolva o meu advogado nisto, pois não?

Ela olhou-o incredulamente.

- Não acredito que disseste isso.

- Então, não falemos mais no assunto. Fiquemos apenas aqui sentados a reviver os velhos tempos, porque estar contigo é muito especial.

- Não mudes de assunto.

- Quero que penses nisso. O miúdo tem os meus genes, quer descobrir as coisas por si mesmo. Tudo o que peço é que penses sobre o assunto.

- Está bem - disse ela relutantemente.

O empregado trouxe a garrafa de champanhe e abriu-a com gestos teatrais. Depois de ele encher ambos os copos, Michael fez um brinde.

- Aos velhos tempos e aos novos - disse.

- Como é a vida de casado? - disse ela abruptamente, trazendo-o de volta à realidade.

- É, uh... interessante - disse ele prudentemente.

- Estou certa de que és muito feliz.

- Não - disse ele, fitando-a nos olhos. - Devíamos ter sido nós, ambos sabemos disso.

- Talvez... - murmurou ela. Oh, Deus! Estava a cair de novo no feitiço dele e não podia deixar que isso acontecesse.

- Enfim, aqui estamos nós - disse ele, pegando-lhe na mão.

- Sim - respondeu ela, ternamente. - Aqui estamos nós.

- A propósito, isto é para ti - disse ele, metendo a mão ao bolso e entregando-lhe um envelope.

-O que é?

- Não abras já. Espera até regressares a Las Vegas.

- Está bem - disse ela, julgando que ele lhe tivesse escrito uma carta de desculpas, por a sua atitude estar tão diferente da da outra noite.

Dois copos de champanhe mais tarde, Dani sentia-se de cabeça leve. Michael continuava a exercer o velho e irresistível encanto, um encanto a que ela parecia não conseguir escapar. Depois pensou: Por que hei-de fazê-lo? Sou uma mulher crescida. Posso fazer o que quiser.

Por isso, quando ele sugeriu que subissem, ela não discutiu. Porquê combater uma batalha perdida?

- Espera aqui. Vou reservar uma suite - disse ele. - Assim podemos descontrair-nos e não ficas preocupada por Vincent nos poder surpreender.

- Não sei, Michael - disse ela, subitamente tomada por dúvidas. - És casado. Não está certo.

- Dani - disse ele, fitando-a com os seus incríveis olhos verdes -, tu fazias parte da minha vida muito antes de Stella. Quero estar contigo e não é apenas por uma noite.

Ela acenou silenciosamente com a cabeça, consciente de que dizer não a Michael era uma impossibilidade.

 

                   Terça feira, 10 de Julho de 2001

O furgão rolava pela auto-estrada, quase batendo em outras viaturas enquanto passava de uma faixa para outra. O assaltante inclinava-se repetidamente para fora dajanela, para ver se avistava o helicóptero. Quando finalmente percebeu que ele se afastara, riu-se alto.

- Filhos da puta! - escarneceu. - Tudo o que é preciso é agir.

- Você atirou uma rapariga do furgão abaixo - disse Madison, olhando para ele com repugnância. - Não tem nenhuma compaixão?

- Cala a puta da boca! - rosnou ele. - Falas de mais. Como é que tu a aguentas?

- perguntou a Cole, cujo olhar se mantinha fixo na estrada diante de si.

- Aquela pobre rapariga - continuou Madison, com a voz cheia de incredulidade. - Você atirou-a do furgão como a um animal morto.

- Pois - disse o assaltante, rindo como se fosse uma grande piada. - Podes crer. Animal morto na estrada! Grande curte!

- A sua mãe deve ter muito orgulho em si.

- A minha mãe não é para aqui chamada - rosnou ele.

- Espero conhecê-la um dia, para lhe dizer que belo filho ela criou.

- Continua a falar e vais a seguir, cabra! - ameaçou ele.

As suas palavras eram sinistras. Ela deitou um rápido olhar a Cole, que continuava concentrado na sua condução.

Lembrava-se de ter visto um filme onde acontecia uma situação com reféns.

Nunca entrar para uma viatura com um homem armado, porque o mais provável é acabar morto.

Um dos conselhos fora provocar um acidente com o carro, se se fosse apanhado numa situação tão desafortunada. Era isso que Cole devia fazer; bater com o furgão contra o separador central.

Claro que, estando numa autostrada, um acidente desses podia matá-los a todos. Mesmo assim, qualquer coisa seria melhor do que aquela viagem de morte certa.

Leroy Fortuno era um negro enorme, na casa dos trinta, vestido como um rupper enquanto Darren Simmons apresentava uma grande semelhança com Snoop Doggy Dogg*; alto, magro e de ar emaciado, com tranças nodosas e olhos encovados. Ambos usavam camisolas Sean John, sapatos de desporto Nike e grandes cruzes de diamantes penduradas do pescoço.

- Meu Deus - arquejou Jolie, ao vê-los aproximarem-se -, parecem um par de grandes traficantes de droga!

- Trabalham no negócio da música - explicou Nando. - Toda a gente tem aquele aspecto.

- Tens a certeza de que queres ser sócio destes tipos? - perguntou Jolie.

- Não tenho escolha. Se Vin recusar entrar comigo, não há hipótese de eu me poder lançar sozinho.

- Podes estar a cometer um grande erro.

- Fico lixado quando tu és negativa - disse ele, alvejando-a com o olhar. Estou a oferecer-te uma parte deste negócio, portanto, fica calma e mostra-te simpática.

- Helou. mano - disse Leroy, estendendo a mão a Nando, que retribuiu. - Vamos encostar ao balcão.

- Esta é a minha mulher. Jolie - disse Nando.

- lou, miúda - disse Darren, fazendo uma observação superficial da cabeça aos pés. - Bom aspecto.

Jolie sentiu um arrepio incomodativo a percorrer-lhe a espinha. Ela não era pretensiosa, mas aqueles dois eram do mais baixo que havia e não era preciso ser-se inteligente para perceber isso.

Nua, desinibida e espojando-se numa névoa induzida pela coca, com Andy a penetrá-la e Anais a sugar- lhe os mamilos, Jenna estava deitada de pernas abertas imaginando-se numa casa enorme de Bel Air, com muitos criados a servi-la e vários carros de luxo estacionados na garagem. Haveria, claro, uma corte de pessoas famosas todas desejando a sua amizade, por ela ser mulher de Andy Dale.

Essas fantasias esvoaçavam-lhe pela mente, enquanto murmurava automaticamente:

- Oooh, Andy, és um amante sensacional!

Mesmo enquanto o dizia, ela tinha consciência de que o não era. Andy Dale não era especialmente bem abonado, enquanto que Vincent Castle era.

No entanto, Andy Dale era uma estrela de cinema e isso compensava alguns centímetros a menos.

 

* Conhecido cantor de música rap nos EUA. (N. do E. )

 

- Tu também não és má, fofa - disse ele, penetrando-a com tanta delicadeza como um macaco hidráulico.

- Eu adorava... - arfou Jenna -... tirar uma fotografia contigo.

- Está bem. Por que não? - um longo e profundo ronco. - Abre as pernas querida. Estou a vir-me!

Vincent arranjou um avião privado para levar Michael a L. A. o mais depressa possível. Dani sugeriu que também devia ir, mas ele disse-lhe que em nenhumas circunstâncias.

- Como posso contactar-te? - quis ela saber.

Ele deu-lhe o número do seu telemóvel.

- Vincent - disse ele -, ficas responsável por manter a tua mãe a salvo, encontrar Sofia e trazê-la de volta.

- Já tenho gente a tratar disso - disse Vincent. - Tens a certeza de que não devo ir contigo?

- Se precisar de ti, terás notícias minhas.

Dani passou os bráços em volta do pescoço de Michael e beijou-o nos lábios.

- Tem cuidado - murmurou.

- Sabes que terei - disse ele. - Porque quando eu voltar, temos que falar de umas coisas.

- Que coisas?

Ele mostrou-lhe o seu sorriso mágico, aquele que o fazia parecer ter novamente trinta anos.

- Coisas boas - disse.

E ela sentiu mais amor por ele do que alguma vez sentira.

Eram oito da manhã de quarta-feira quando Sofia chegou à hospedariajunto ao mar, em Marbella, onde estava alojada. A dona, a Sra Flynn, uma flamejante mulher inglesa que bebia de mais, saudou-a na cozinha, vestida com um cafetã cor de laranja-brilhante.

- Esteve fora toda a noite, minha querida? - disse a Sr a Flynn com um piscar de olhos impertinente. - Passou um bom bocado, não foi?

- Passei um péssimo bocado.

- Ele era giro?

- Não - disse Sofia.

- Sabe que está uma semana atrasada na renda - lembrou-lhe a Sr Flynn. Amanhã vou precisar de alguma coisa.

- Importa-se que use o telefone? - perguntou Sofia. Estava a sentir subitamente um forte desejo de falar com a sua mãe. Talvez Gianni tivesse razão. Talvez fosse o momento de voltar para casa.

- À vontade, acrescento a despesa à sua renda - disse a Sra Flynn, amavelmente.

Aposto que sim, pensou Sofia. És uma velha vaca maldosa. Pegou no telefone e ligou para Las Vegas, embora fosse provavelmente meia-noite lá. Dani respondeu de imediato.

- Olá, mãe - disse Sofia, como se tivessem falado na véspera. - Espero não te ter acordado.

- Graças a Deus - exclamou Dani. - Temos andado a tentar encontrar-te.

- Temos. quem? - perguntou Sofia, enrolando o fio do telefone nos dedos.

- O teu pai e Vincent.

- Porquê?

- Há uma emergência relacionada com o teu pai. Tens de voltar para casa imediatamente.

- Não posso, estou lisa.

- Não tens dinheiro nenhum?

- Nada.

- Vai aos escritórios do American Express aí. Eu faço com que tenham um bilhete de avião para ti.

- Podes fazer isso?

- Claro que posso.

- O papá está bem?

- Não é uma coisa de que eu possa falar ao telefone.

- Parece sinistro - disse Sofia, acrescentando vagamente: - Na verdade; estava a pensar em passar por Roma.

- Ouve-me com atenção - disse Dani, severamente. - Eu sei que não gostas que te digam o que deves fazer, mas isto é importante. Vem para casa imediatamente. Podes estar em perigo.

- Uau! - disse Sofia, intrigada. - Fazes com que isto pareça um filme de James Bond.

- Vai buscar o bilhete, Sofia. Vou tratar disso já.

- Está bem, mãe, já vou a caminho.

- Vira na próxima saída - ordenou o assaltante.

Madison não fazia ideia onde estavam. Sabia que estavam em andamento há quase meia hora e que o helicóptero já não se mostrava havia uns bons vinte minutos. Isso não significava que não estivesse algures, seguindo-os sem luzes.

- Para onde vamos quando sairmos da auto-estrada? - perguntou Cole.

- Continua a guiar.

- Estás bem, Nat? - disse Madison, rodando a cabeça para olhar para trás.

- Vou estando - respondeu Natalie. - Vocês?

- Oh, nós estamos a divertir-nos imenso - disse Madison.

- Por acaso eu disse que podiam estar na puta da conversa? - disse o assaltante, ligando o rádio e carregando nos botões até que sintonizou uma estação de rap. Aumentou o volume e começou a bater com os dedos no painel. - Dá gás nesta merda! - gritou, quando Cole começou a abrandar. - Sair da auto-estrada não significa que tenhas de guiar como uma velha. Foda-se! - disse ele. - Sou o rei, o caralho do rei!

E riu-se. Uma risada louca e pedrada.

 

                   Michael e Madison: 1987

- Faz a mala, vamos passar o fim-de-semana a Miami.

- Estás a falar a sério - disse Madison, com os seus olhos cor verde-esmeralda a brilharem de excitação com a ideia.

- Claro - respondeu Michael, rindo-se para a sua filha de dezasseis anos e pernas altas, a quem raramente via. - Vamos fazê-lo.

- Uau Stella também vem?

- Stella não se sente muito bem - explicou Michael. - Fica em Nova Iorque.

- Uau - repetiu Madison. - Isso quer dizer que somos só nós?

- Tens alguma objecção?

- Nem pensar!

Madison ficou especialmente excitada porque estava a maior parte do tempo no internato e as férias grandes eram habitualmente passadas num acampamento de Verão. Michael passava a vida a viajar e a saúde de Stella era algo delicada; sofria de fortes enxaquecas, especialmente quando o seu marido estava fora.

Madison aprendera a sobreviver por si mesma. Anteriormente, percebera que as coisas eram mesmo assim. Stella tinha Michael. Michael tinha Stella. Ela só os tinha ocasionalmente. Era a miúda. A filha.

Não era que não a amassem, ela tinha a certeza de que sim, especialmente Michael, que era o melhor pai que uma rapariga podia ter. Ela adorava-o, daí que a ideia de passar o fim-de-semana com ele em Miami fosse entusiasmante.

Na semana anterior celebrara o seu décimo sexto aniversário. Nada de esfusiante. Stella tinha reservado uma mesa na Tavern on the Green. Madison fora com algumas das suas amigas. Depois de umjantar servido cedo, tinham ido ao teatro ver Star Express. Era tudo muito rotineiro. Michael estivera fora, numa viagem de negócios, o que a deixara desapontada porque teria adorado passar um dia tão especial com ele. Mandara-lhe um relógio de ouro da Tiffany's gravado com uma mensagem isenta de significado.

Agora aquela surpresa; um fim-de-semana em Miami com o seu pai. Não podia ser mais radical!

Michael ficou contente por ver a sua filha tão alegre. Embora Stella lhe assegurasse que Madison estava a dar-se bem na escola, ele notara que havia ocasiões em que ela parecia bastante melancólica, e, embora as suas notas fossem sempre altas, perguntava a si mesmo se ela seria realmente feliz estando afastada de casa.

Não sejas tolo, dissera-lhe Stella, quando ele lhe perguntara. Madison adora a escola. É uma jovem extremamente bem adaptada.

Michael viajava muito. Não tinha de o fazer, mas passar o tempo longe de casa tornara-se um hábito.

E depois havia o seu outro hábito: Dani e a sua segunda família. Reencontrar- se com Dani em 1982 e descobrir que tinha um filho tornara-se um dos pontos altos da sua vida. Adorava Vincent; via nele muito de si mesmo enquanto rapaz. Embora Vincent já não fosse um rapaz: era um atraente e inteligente jovem de vinte e dois anos, que sabia exactamente o que queria.

A opinião de Michael prevalecera perante Dani, pelo que, em vez de ir para a universidade, Vincent fizera uma viagem à volta do mundo com Nando. Quando regressaram os dois à América, imediatamente se lançaram ao trabalho, tentando criar algo juntos. Nando tinha a sua herança e Vincent estava a recuperar terreno depressa. Sem que Michael o soubesse, o seu filho era um jogador fenomenal, do tipo que os casinos acabam por impedir de jogar nas suas salas. Antes que isso tivesse acontecido, Vincent fizera uma fortuna. Tal como Michael, ele era um génio com os números. E, inteligentemente, investira os seus ganhos.

Com uma pequena ajuda financeira do seu pai, Vincent formara uma sociedade com Nando, que se mudara definitivamente para Las Vegas, e tinham aberto um restaurante -bar na Strip, chamado The Place. Era um grande sucesso perante a alta sociedade mais jovem.

Michael via frequentemente Dani. Com intervalos de poucas semanas viajava

para Las Vegas para estar com ela. Amava-a e ela a ele. Tinha também outra razão

para passar tanto tempo com ela. Seis semanas depois de se terem encontrado em Nova Iorque, Dani informara-o de que eles estavam grávidos.

Tu e a tua bala mágica", dissera ela, rindo-se. Que se passa connosco?

Hem? dissera ele, sem perceber bem onde queria ela chegar.

Estamos grávidos, Michael, dissera ela, irradiando alegria. E desta vez estamos juntos.

Em vez de reagir com choque e horror, ele ficara encantado, porque não só queria passar tempo com Dani e Vincent como decididamente pretendia ter também uma forte presença na vida da sua nova criança.

Dani deu à luz uma filha em 1983. Deram-lhe o nome de Sofia.

Dani compreendia que Michael não podia casar com ela. Ele explicara- lhe demoradamente que, de nenhuma maneira, iria alguma vez destruir a vida de Madison.

Quando ela já for crescida, deixarei Stella. Então, tu e eu poderemos ficar juntos, prometera.

Não tenho a certeza de ser isso que eu quero", dissera Dani com um sorriso indolente. Até gosto de ser a amante.

Gostas, é?

Sim, assim sou mais bem tratada. "

Ela deixara de trabalhar e Michael pagava tudo, incluindo uma nova e luxuosa casa num condomínio fechado e um reluzente Mercedes prateado.

Recentemente, preparara para ela e Sofia, que tinha agora quatro anos, uma semana de férias em Miami. Depois pensara em ir até lá com Madison.

Não que estivesse a planear fazer apresentações, mas pelo menos estaria perto delas.

Madison não podia ter ficado mais feliz. Era uma miúda estupenda, com muita inteligência e uma paixão pela escrita. Quando Michael pensava nas suas próprias origens humildes, ficava cheio de orgulho por ver como a sua descendência se estava a revelar. Vincent com o seu restaurante de sucesso e Madison a transbordar com tanta ambição. Dava-lhe uma sensação muito satisfatória de ter feito algo bem.

Jamie apareceu no apartamento com o único objectivo de ajudar Madison a fazer a mala. Era uma loira natural, alta e esbelta.

- Quem me dera ir contigo - suspirou com inveja, escolhendo de uma pilha de saias, jeans e shirts.

- Também eu gostava - disse Madison, de aspecto mais exótico, com a sua pele suave cor de azeitona, olhos verdes e cabelos longos e negros. - Como vão as coisas na escola?

- As mesmas tretas de sempre - disse Jamie. - Rapazes, rapazes e mais rapazes.

- Isso não pode ser só mau.

- Mas é! Eles são tão ordinários - disse Jamie, fazendo uma careta. - estúpidos. Eu curto homens mais velhos, não adolescentes burros.

- Eu sei - concordou Madison. - Eu também.

- Vais divertir-te muito com Michael - disse Jamie, melancolicamente. Quem me dera poder chamar o meu pai pelo primeiro nome.

- Tu tens sorte, tens uns pais espectaculares - disse Madison. - Nunca te mandaram para um internato.

- Concordo. Mas olha para a liberdade que tens. Eu não tenho nenhuma, tu podes fazer tudo o que queres.

- Acho que o meu pai também foi um bocado rebelde em miúdo - disse Madison, pensativamente -, por isso não acredita na disciplina.

- E a tua mãe?

- Stella não quer saber, desde que eu me mantenha fora do seu caminho. Está demasiado ocupada a depilar as pernas ou a púbis. Isso quando não está a receber injecções de silicone na cara.

- Parece doloroso!

- O nosso apartamento é mais parecido com um salão de beleza do que com uma casa. Até fico um bocado contente por nunca estar lá.

- É tão fixe a maneira como lhes podes chamar Michael e Stella.

- Isso foi ideia dela - disse Madison. - Acha que ser tratada por mãe a faz parecer velha.

- Mensagem para o ego dela - riu-se Jamie. - Ela é velha!

Madison concordou com a cabeça.

- Na casa dos trinta.

- E o teu pai, que idade tem?

- Quarenta e qualquer coisa.

- Idoso!

- Ah! - disse Madison. - Aposto que tu não lhe dizias que não.

- Isso é tão grosseiro - riu-se Jamie, corando.

- Sempre tiveste um fraquinho por ele. Confessa.

- Ele é teu pai, Maddy.

- Eu era capaz de alinhar com um homem mais velho.

- Quem, por exemplo?

- Michael Douglas, Kevin Costner.

- Uau! Fixe! São ambos tããão sexy.

- Até Clint Eastwood.

- Muito velho - disse Jamie, franzindo o nariz.

- Para mim não - disse Madison.

- Tinha tanta inveja de ti quando éramos pequenas - suspirou Jamie.

- Ainda tens - provocou Madison.

- Acho que sim - admitiu Jamie. - Tens de me contar tudo sobre Miami. Talvez dês uma queca.

- Oooh, excitante! - disse Madison. - Não me parece.

Madison falou sem parar durante o voo para Miami. Falou a Michael sobre os seus professores, a tese em que estava a trabalhar, um curso de Jornalismo que estava a planear tirar e como desejava chegar à universidade.

- Quero mesmo ser uma escritora, Michael - disse ela com seriedade. - Que é que tu achas?

- Acho que seria o pai mais orgulhoso do mundo - disse ele. - Não fazes ideia de onde eu venho, querida. Ter uma escritora na família, bom, seria mesmo algo de especial.

- Sim?

- Ah, sim.

- Vais ver, voufazer com que te orgulhes. É uma promessa.

- É mesmo?

- Sim, Michael - disse ela, determinadamente. - É mesmo. Ele pegou num exemplar da revista Time e começou a ler. Madison olhou pela janela, imaginando-se como uma autora publicada, na linha de Tom Wolfe ou Mario Puzo. Adorava os livros deles. O Padrinho era o seu preferido e acabara de ler A Fogueira das Vaidades que devorara em duas noites. Da mesma forma, não se importaria de ser jornalista, cobrindo guerras e acontecimentos mundiais.

Eu posso fazer tudo, disse a si mesma. Tudo aquilo em que me empenhar. " Michael ensinara-lhe isso. Michael instilara nela a convicção de que a realização começava na mente.

Ela adorava o seu pai. Ele era o maior.

 

                  Dani e Vincent: 1987

Pouco antes de Dani partir para Miami, Dean apareceu na sua casa.

- És louca, sabias disso? - disse ele, seguindo-a até à cozinha.

- Eu sou louca? - respondeu ela. - Tu é que te casaste duas vezes e segundo sei estás prestes a embarcar no teu segundo divórcio.

- Onde ouviste isso?

- Corre por aí, Dean - disse ela, servindo-lhe uma caneca de café.

- A razão por que te voltaste a juntar a Michael Castelli é um mistério para mim - resmungou ele, servindo-se das natas e do açúcar. - E depois ter outro bebé. Um já não era suficiente?

- Não preciso de um sermão - disse ela, dirigindo-se à sala de estar. - Estou extremamente feliz.

- Feliz por ele não se casar contigo? - disse Dean, seguindo-a.

- Não vás por aí, Dean - avisou ela. - Já te disse muitas vezes, não é da tua conta.

- Tu és da minha conta, Dani. E por muito que lutes contra isso, serás sempre.

- Porquê?

- Porque te amo - disse ele simplesmente. - E nada do que faças ou digas vai mudar isso.

Ele não precisava de lhe dizer, ela tinha perfeita consciênciadoquanto ele aamava. E, ao longo dos anos, tinha de admitir que era bastante reconfortante saber que ele estava sempre ali, promto para a apanhar se ela caísse. Dean era a sua rede de segurança e ambos o sabiam. Também Michael o sabia, embora os dois nunca se tivessem encontrado, e odiava Dean.

Aquele falhado só te quer levar para a cama", dizia-lhe frequentemente Michael. Por que é que continuas a vê-lo?

Ele não é um falhado. É meu amigo. "

Belo amigo murmurava habitualmente Michael. Nunca perdoara a Dean por ter mostrado a Dani os recortes dos jornais relativos à sua detenção pelo homicídio de Beth, separando-os assim durante sete longos anos.

Dean pousou a sua caneca de café e começou a caminhar de um lado para o outro na sala de estar.

- Estás a deitar fora a tua vida, Dani - disse.

- Porquê? - respondeu ela, asperamente. - Estou com um homem maravilhoso que me ama. Tenho duas crianças estupendas. Vivo numa bela casa. Por isso diz-me, exactamente, como é que estou a deitar a minha vida fora?

- Estás com um homem casado que só está contigo quando lhe dá jeito. Ele tem uma mulher e, penses o que pensares, vai colocá-la sempre em primeiro lugar.

- Não necessariamente - disse ela, com um trejeito defensivo no queixo.

- Ele usa-te. Certamente percebes isso.

- A nossa relação não é assim.

- Eu acho que é.

- Muito francamente, Dean, não quero saber o que tu achas. Estou feliz e é tudo. Portanto, se me dás licença, tenho de me preparar para a minha viagem.

Sofia entrou no quarto caminhando vacilantemente, toda cabelos encaracolados, bochechas sardentas e olhos enormes.

- Olá, tio Dean - disse a menina, namoriscando-o descaradamente.

- Olá, Biscoito - disse ele, usando a alcunha com que a baptizara.

- Quer brincar às bonecas?

- Agora não.

- Soprar bolas de sabão?

- Na próxima semana.

Sofia voltou a sair.

- As coisas não deviam ter acontecido assim - disse Dean. - Devíamos ter sido nós.

Onde ouvirajá ela aquilo De Michael. Só que Dean estava sempre a propor-llhe casamento e Michael não.

Ela compreendia. Michael explicara-lhe vezes suficientes. Fizera um pacto irrevogável consigo mesmo para ficar com Stella para bem de Madison, e não havia nada que ela pudesse fazer em relação a isso.

Fingia não se importar. Apenas às vezes, tarde na noite, quando já não o via havia algum tempo, chorava até adormecer, porque talvez Dean tivesse razão; talvez ele estivesse a usá-la.

Fosse como fosse, ele mantinha-as decididamente em grande estilo, nunca negando nada do que ela queria.

Não conseguia evitá-lo, amava-o com todo o seu ser. Que havia assim de tão mau nisso?

Mais tarde, Vincent apareceu para lhes desejar uma boa viagem até Miami.

Vincent. Tão alto, moreno e bonito, exactamente como Michael.

Pegou na sua irmã bebé e começou a atirá-la ao ar. Sofia guinchava de prazer.

- Cuidado! Vais deixá-la cair! - avisou Dani.

- Pois, pois, como se eu fosse deixá-la cair! - disse Vincent, atirando Sofia ainda mais alto.

- Já chega! - disse Dani.

- Mais! - pediu Sofia.

- Ficas para jantar? - perguntou Dani, esperando que a resposta dele fosse sim, porque não tinha passado tempo suficiente com o seu lindo filho.

- Não posso - disse ele, desculpando-se. - Tenho um encontro.

- Quem é ela desta vez?

Vincent sorriu; tinha o sorriso de Michael tal como tudo o resto.

- Tu sabes que não queres saber.

- Isso é verdade-suspirou. - Quem me dera que escolhesses uma rapariga simpática!

- Elas são suficientemente simpáticas comigo.

- Esse é o problema.

- Começas a parecer-te com uma mãe.

- Eu sou uma mãe.

- Tenho de ir - disse ele, fazendo cócegas a Sofia até que ela gritou por piedade.

- Uma boa viagem!

- Gostava que viesses connosco - disse Dani, melancolicamente.

- Demasiado ocupado.

- Eu sei.

Olhou pela janela enquanto Vincent saltava para o seu Corvette negro, um presente de vigésimo primeiro aniversário do seu pai, e arrancava com o motor a roncar.

Ele guiava demasiado depressa. Herdara essa capacidade específica de Nando, que gostava de carros de corrida e que frequentemente encorajava Vincent a juntar-se-lhe na pista de treinos.

Ela deixara de se preocupar com Vincent. Michael ensinara-lhe que a preocupação não trazia bem nenhum.

Vincent levava uma vida de solteiro de sonho e sabia disso. Raparigas, raparigas, raparigas. Loiras, morenas, ruivas. Podia escolher.

Ao contrário de Nando, ele não gostava de praticar sexo com uma rapariga diferente em cada noite. Tentava ter mais discernimento do que isso. Mas não era fácil: as raparigas que vinham ao seu restaurante estavam mesmo a pedir. Ele e Nando èram prémios: marcar pontos com um deles significava que se era uma brasa.

Vincent gostava de raparigas. De facto, adorava-as. Mas por vezes ansiava por uma rapariga que não fosse assim tão disponível.

Nando ria-se dele quando tentava falar no assunto.

- Aproveita sempre que podes! - Era a filosofia de Nando.

E assim fazia ele, embora não tanto quanto Nando, que parecia possuir uma libido alarmantemente activa. Duas ou três raparigas por noite não era invulgar.

Vincent gostava do negócio do restaurante: geria as coisas de perto enquanto Nando era a imagem do negócio, que atraía as pessoas para que frequentassem a casa. Vincent preferia ficar na sombra, embora de alguma forma acabasse por fazer todo o trabalho. Nando tratava da música, da decoração e dos detalhes menores, enquanto Vincent se assegurava de que o chefe de cozinha encomendava com bom senso, os empregados de bar não roubavam demasiado, os empregados de mesa mantinham um nível elevado e as contas eram pagas em devido tempo.

Ambos queriam mais. O seu sonho era construírem os seus próprios hotel e casino. E Vincent estava convencido de que um dia iam alcançar o seu sonho.

 

                   Michael e Madison: 1987

O hotel em Miami era grande e luxuoso. Michael tinha-lhes reservado uma suite. Naturalmente. Ele fazia sempre as coisas em grande estilo.

Logo que chegaram, Madison correu por todo o lado, inspeccionando tudo, desde as duas enormes casas de banho em mármore até aos espaçosos terraços decorados com palmeiras e voltados para o mar.

- Isto é tão louco! - exclamou ela. - Podemos ir à praia e passear junto à água?

- Que tem a praia de tão interessante? - perguntou Michael, desfrutando do seu entusiasmo.

- Eu nunca estive junto ao mar.

- Primeira vez?

- Sabes bem que é, Michael.

Era a segunda viagem dele a Miami. A primeira vez fora quando visitara Vinny. Não voltara a ver o seu pai, embora soubesse que Vinny continuava a viver no mesmo lugar. Mandava-lhe um cheque todos os meses, um cheque que era sempre descontado.

- Vai tu dar um passeio pela praia - disse ele. - Tenho que fazer umas chamadas.

- Oh, não! Negócios! - disse Madison, fazendo uma careta. - Prometeste que não ia haver trabalho.

- Só duas chamadas, querida, depois teremos um maravilhoso jantar os dois. Gostas de lagosta?

- Quem é que não gosta? - disse ela, já esfomeada.

- Então... aceitas sair comigo?

- Podes crer!

Logo que Madison saiu da suite, ele ligou para Dani.

- Que tal o voo? - perguntou.

- Normal - respondeu ela, sempre encantada por ouvir a voz dele.

- Assim é que é a minha menina.

- Quem? Eu ou Sofia?

Ele riu-se.

- Olha, depois de deitares Sofia esta noite, deixa-a com a baby- sitter e aparece no restaurante do meu hotel. Vou jantar com Madison. Eu ver-te-ei a passar, finjo que és uma velha amiga e convido-te para te juntares a nós. Que te parece?

- Não achas que Madison pode suspeitar de alguma coisa?

- Vai suspeitar de quê?

- Como hei-de eu saber? Ela é tua filha.

- Faz o que eu te digo - ordenou ele. - Não vou ficar aqui sem te ver.

- £ como é que te vais arranjar se Sofia te vir amanhã na praia e correr para ti a gritar: papá, papá!

Ele riu-se.

- Essa é a razão porque reservei os nossos quartos em hotéis diferentes.

- Esperto.

- Então... até logo?

- Como queiras.

- Michael? Michael Castelli?

Belissimamente executado. Ele próprio não teria feito melhor. Levantou-se da mesa.

- Dani Castle, que prazer ver-te de novo.

Madison ergueu os seus olhos verdes em alerta. Quem era esta bonita loira que estava a falar com o seu pai, interrompendo-os enquanto tentavam desfrutar de um tranquilo jantar para dois?

- Estás sozinha?

Cala-te, papá, não precisamos de companhia.

- Por acaso até estou - respondeu Dani. - Viagem de negócios, sabes.

- Então, por que não te sentas e nos fazes companhia? - disse Michael, fazendo parecer que a ideia acabara de lhe ocorrer. - Esta é a minha filha Madison. Diz olá à Sr. a Castle, querida.

Querida? Quando é que ele alguma vez lhe chamara querida? Raios! Esta mulher a aparecer de lado nenhum era uma seca de todo o tamanho.

- Bem... se tens a certeza de que não estou a incomodar-vos - disse Dani, sentando-se à mesa.

Merda! ", pensou Madison. Não posso crer que esta mulher tenha o descaramento de se sentar à nossa mesa, quando estou num jantar pessoal com o meu pai.

Michael não parecia nada incomodado. Madison alvejou-o com o olhar; só para que ele percebesse que ela estava.

- Dani é uma amiga minha de Las Vegas - explicou Michael. - Conhecemo-nos desde há anos.

- Ah! - disse Madison, totalmente desinteressada.

- Vim a Miami para a exposição de jóias - mencionou Dani.

- Onde está o seu marido? - perguntou Madison sem cerimónia. E por que diabo não está consigo?

- Ele, ah, não gosta de andar de avião.

- Estou a ver - disse Madison. Embora não estivesse a ver nada. O que andava esta mulher bastante encantadora a fazer, viajando sozinha, quando deveria estar em casa com o marido? Aquilo era uma chatice completa.

- Pedimos lagosta - disse Michael. - Também queres?

- Na verdade, ainda não jantei - disse Dani -, portanto, seria óptimo. Lagosta é o meu prato preferido.

Oh, bolas! Ela vai ficar para jantar.

- É amiga da minha mãe? - perguntou Madison rudemente, sentindo-se subitamente um pouco protectora de Stella.

- Não, na realidade nunca nos conhecemos.

- O marido de Dani é meu parceiro de negócios em Las Vegas - explicou Michael.

- Já alguma vez foste a Las Vegas? - perguntou Dani, toda doçura e grandes olhos azuis.

- Não - disse Madison, abanando a cabeça. - Nunca vou a lugar nenhum excepto à escola, aos acampamentos de Verão e a minha casa. O papá e eu viemos aqui para passar o fim-de-semana juntos, só os dois. Não foi, papá?

Michael ergueu o sobrolho. Madison nunca lhe chamava papá, era sempre Michael. Subitamente, passava a papá. Tinha a sensação de que ela estava a marcar o seu território.

- Tens razão, querida - disse ele. - Um destes dias levo-te a Las Vegas. É um lugar e pêras!

- Tenho de ir à casa de banho - anunciou Madison, levantando-se abruptamente. - Até já.

Logo que ela se afastou o suficiente, Dani disse:

- Acho que ela não gosta de mim.

- Que queres dizer com isso? - respondeu Michael. - Ela não te conhece. Se te conhecesse verdadeiramente, ia adorar- te.

- Não, quero dizer que acho que ela não gosta que eu esteja aqui - disse Dani, bebendo um pouco de vinho. - Este fim-de-semana não era para ser só tu e ela?

- E é só eu e ela. Estou a passar o fim-de-semana inteiro com ela. Posso ver- te uma vez, não posso?

- Esta é a única vez que eu vou poder ver-te? - perguntou ela, inclinando-se para a frente.

- Deus! Adoro estar contigo - disse ele, estudando-lhe o rosto. - Gostava que estivéssemos agora deitados na cama, a comer hamburguers, a fazer amor.

- Por essa ordem? - perguntou ela, sorcindo.

- Não - riu-se. - Primeiro fazíamos amor, depois pedíamos hamburguers.

- És engraçado, Michael - disse ela, ternamente. - Amo-te tanto.

- É o máximo quando estamos juntos - disse ele, com contentamento. - Não sinto nenhuma pressão. Quando estou com Stella há sempre pressão. Ela tem tanta coisa a rolar, com os seus acontecimentos sociais e todas aquelas merdas. Trabalha com cem agendas diferentes.

- Tu não tens de ficar com ela, Michael - recordou-lhe delicadamente Dani.

- Madison tem dezasseis anos.

- Não posso dizer a Madison a verdade - disse ele, endurecendo o tom. Isso não vai acontecer, Dani.

- Tudo bem - disse ela, recuando instantaneamente. - Não sou eu que te vou pressionar.

- Como vai Vincent?

- Rodeado de raparigas, como de costume. Não o deixam em paz.

- Isso é bom.

- Não, não é. Não quero que ele engravide alguma desmiolada.

- Eu engravidei-te a ti, não engravidei?

- Isso foi diferente.

- Sim, quando é comigo e contigo é sempre diferente. Certo?

Ela sorriu.

- Posso dar-te a mão por baixo da mesa, Michael? Isso é permitido?

- Desde que seja só a mão.

- Oooh, seu malandreco.

- Olha, talvez, quando Madison adormecer, eu saia e passe pelo teu hotel.

- Achas que sim?

- Sim. Decididamente, acho que sim.

Madison dirigiu-se à casa de banho, onde estudou o seu reflexo no espelho. Mulheres altas e loiras faziam-na sempre sentir-se inadequada. A sua mãe era alta e loira. Aliás, havia uma ligeira semelhança entre aquela Dani e a sua mãe. Só Stella tinha um ar mais distinto, não tão encantador como o de Dani Castle.

Madison sabia que era parecida com o seu pai, com a sua pele morena, olhos verdes e cabelos negros. Isso não a entusiasmava. Por que é que não podia ser como Jamie? Jamie era lindíssima: os rapazes reparavam sempre nela.

Madison nunca tivera muito sucesso com os rapazes. Era demasiado inteligente.

De resto, o internato que frequentava era só para raparigas. Tal como os acampamentos de Verão a que ia. Por isso, não sabia grande coisa sobre rapazes; ao contrário de

Jamie que, segundo as suas próprias palavras, estava constantemente a enxotá-los.

Tenho dezasseis anos", pensou ela. Já é altura de fazer algo de louco e excitante.

Sou uma mulher, devia andar a enxotar tipos bonitos. Ou a não os enxotar, dependendo de como me sentisse. Sou uma escritora, preciso da experiência.

Molhou a cara com água fria e aplicou um pouco de bâton de brilho.

Continuo com aspecto palerma e desajeitado", pensou. Parece que tenho catorze anos. Catorze anos e sou uma naba inexperiente.

Talvez devesse pôr o meu cabelo loiro, isso faria com que os rapazes reparassem em mim. "

Saiu da casa de banho e foi contra um homem de fato branco, um homem que se parecia muito com Michael Douglas. Infelizmente, não era Michael Douglas, a quem ela vira, havia pouco tempo, em Atracção Fatal, e por quem se apaixonara loucamente.

- Desculpe - resmungou ela.

- Não vê por onde anda, jovem? - disse o homem. Tinha cabelos cor de areia e um intenso bronzeado. Talvez tivesse um pouco de Robert Redford misturado com Michael Douglas.

- Estava distraída, ia a pensar.

- E em que estaria a pensar uma bonitajovem como você que a fizesse parecer tão séria?

Uau! Este homem mais velho está mesmo a atirar-se a mim? Este homem, que deve ter provavelmente a idade do meu pai. Uau!

- Ei... estava a pensar em como isto aqui é agradável e em como vou escrever sobre isso.

- É escritora?

- Sim - mentiu ela. - Escrevo por vezes para a Rolling Stone. Pequenos artigos, sabe.

- Estou impressionado.

Olharam um para o outro. Aquele homem mais velho e aquela jovem rapariga de ar exótico.

- É a sua primeira viagem a Miami?

- É sim, e estou a adorar; pelo menos o que vi até agora.

- Eu vivo no apartamento da cobertura - disse ele. - É a minha residência permanente.

- Fixe.

- Se lhe puder mostrar a cidade, diga-me. O meu nome é Frankie.

- Frankie - repetiu ela.

- Franckie Medina. E o seu?

- Madison Castelli.

- Bonito nome. Bonita rapariga.

- Alguma vez lhe disseram que você parece o Michael Douglas? - deixou ela escapar.

- Com melhor aspecto, espero eu - disse ele, sorrindo.

Tinha dentes bonitos, provavelmente com coroas, mas ainda assim bonitos.

- Claro - disse ela, rapidamente.

- Sim, já me disseram isso - disse ele, com um sorriso indolente. - Só que não ando à procura de uma atracção fatal.

Ela riu-se. Glenn Close era loira no filme. Decididamente, tinha de mudar a cor do cabelo.

- Se se sentir sozinha mais tarde - disse Frankie Medina -, ligue-me. - E deu-lhe um pequeno cartão dourado com o seu nome gravado a preto e um número de telefone.

- Talvez o faça - disse ela, ousadamente.

- Você é muito bonita - disse ele.

Oh, meu Deus! Ele está mesmo a atirar-se a mim. "

- Acabei de lavar o meu cabelo - disse ela. Mas que coisa tão estúpida para dizer.

- O que usou? Um champô mágico que a torna ainda mais bonita? - Ela riu-se. - Ligue-me - disse ele. - Levo- a a dar uma volta no meu Porsche.

Hmmm. Um apartamento de cobertura e um Porsche. Mas que sexy.

- Que faz você? - perguntou ela.

- O que faço? - repetiu ele, com um grande sorriso. - Sou um playboy, que haveria de fazer?

Naquele momento, uma bela loira emergiu da casa de banho - sim, outra loira e imediatamente se agarrou possessivamente ao braço dele.

- Até à vista - disse Madison, afastando-se rapidamente.

De volta à mesa, Michael e Dani Castle pareciam estar a ser mais do que amigáveis. Madison quase pôde senti-los a afastarem-se um do outro quando se aproximou.

- Onde estiveste? - perguntou Michael. - Já ia mandar uma equipa de busca.

- Adivinha? - disse ela. - Também dei de caras com um velho amigo.

- A sério? - disse Michael.

- Sim - disse ela, introduzindo sub-repticiamente o cartão de Frankie na sua bolsa.

Para aborrecimento de Madison, Dani Castle ficou durante todo o jantar. Comeu lagosta, bebeu vinho, falou com Michael. Paciência! O que poderia ter sido um maravilhoso jantar estava arruinado.

Mal terminaram, Madison pediu licença para se retirar.

- Estou um pouco cansada - disse. - Importam-se que eu suba?

- Tens a certeza, querida? - disse Michael.

- Tenho mesmo. Quero acordar cedo e ir à praia - disse ela, levantando-se da mesa. - Boa noite, Sra Castle.

- Boa noite, Madison - disse Dani, ternamente. - Foi um prazer conhecer-te. Sim, bem, pensou Madison, o prazer foi todo seu.

Afastou-se da mesa e saiu para o exterior. Não estava cansada de todo; estava apenas cansada de ver o seu pai enrolar-se com a loira alta.

A praia chamava por ela, por isso decidiu fazer uma longa caminhada, o que fez, desfrutando de cada segundo do mar bravo e da sensação da areia nos seus pés nus.

Quando regressou ao hotel, era já bastante tarde. Frankie Medina estava no vestíbulo, resplandecente no seu fato branco e intenso bronzeado.

- Olha, lá vem novamente aquela bonita rapariga - disse ele. - A do olhar solitário.

- Acha que tenho um olhar solitário?

- Sim.

Hmm... Também é poético. Um playboy poético. Mesmo o que me apetece.

- Que está a fazer? - perguntou ele.

- Fui dar um longo passeio pela praia. Foi óptimo.

- Costumava fazer isso quando me mudei para cá.

- E mudou-se de onde?

- Não queira saber.

- Quanto àquele Porsche de que me falou...

- Quer dar uma volta?

- Por que não?

Aquilo sim, era uma aventura.

O Porsche dele era baixo, negro e muito sexy. Tinha também uma óptima aparelhagem de som. Ele pôs a tocar In the Wee Small Hours de Frank Sinatra.

- Não tem Bon Jovi ou Janet Jackson? - perguntou ela, desapontada com a sua escolha musical.

- Oiça e aprenda. Sinatra é o maior.

Ele era bastante querido. Velho, mas querido.

Levou-a a percorrer a cidade no seu Porsche, mostrando-lhe as vistas, ao som de Sinatra.

- Você é um verdadeiro guia turístico - disse ela, desfrutando de cada momento.

- Que idade tem, Madison?

- Dezoito - mentiu ela, como o seu pai fizera outrora.

- É uma bebé.

- Não, não sou - disse ela, indignadamente. - Dezoito está longe de ser idade de bebé. Que idade tem você?

- Quarenta - mentiu ele, rapando cinco anos. - Quer subir e conhecer o meu apartamento?

- Preciso de autorização para isso?

- Basta que traga a sua voluptuosa pessoa.

Voluptuosa pessoa. Uau!

- Que aconteceu àquela loira com quem estava no início da noite? - perguntou ela.

- Elas vêm e vão - disse ele vagamente. - Miúdas loiras descartáveis; tenho uma dúzia delas.

- Ah, pois é, você é um playboy.

Ele riu-se.

- Sim, é exactamente isso que eu sou.

- Então, talvez eu devesse escrever sobre si - disse ela, maliciosamente. Perfil de um playboy. Que lhe parece?

- Parece-me que você é gira.

- Obrigada!

O apartamento dele era o mais bonito em que ela alguma vez estivera, muito mais agradável do que a sua casa em Nova Iorque, que ela achava excessivamente decorada e com demasiadas antiguidades, ao gosto de Stella. O apartamento tinha uma enorme sala de estar mobilada em estilo minimalista moderno branco, vastas janelas voltadas para o oceano e um quarto de fantasia com uma cama de água de tamanho gigante coberta de pétalas de rosa. Era o lugar mais encantador que ela já vira.

- Para que são as pétalas de rosa? - perguntou ela enquanto ele lhe mostrava o apartamento.

- São um afrodisíaco.

- Certo - disse ela, fazendo uma anotação mental para ver no dicionário o que significava afrodisíaco, embora tivesse uma vaga ideia de que tinha algo a ver com sexo.

Depois de beber um copo de champanhe gelado com pedaços de pêssego a flutuar, voltou-se para ele e disse:

- Quando é que vai atirar-se a mim?

- Dezoito anos é um pouco jovem de mais para mim - respondeu ele, ajustando o volume de som da aparelhagem com o controlo remoto.

- Oh, então. - desafiou ela. - Você é um playboy, com um Porsche e um apartamento de cobertura. Pode atirar-se a mim.

- Ia sentir-me como um velho obsceno.

- Tu és um velho obsceno - disse ela. E lançou os braços em volta do pescoço dele, começando a beijá- lo.

- Madison - disse ele, tentando afastar-se -, até eu tenho alguns princípios.

- Bem, esquece-os - disse ela. - Porque vim a Miami para me divertir.

- Então, a primeira coisa que deves fazer é aprender a beijar.

- Desculpa?

- Beijar, miúda. Trocar saliva. Vou dar-te uma lição que nunca vais esquecer.

O fim-de-semana passou demasiado depressa. Michael apercebeu-se de que Madison parecia estar extremamente bem disposta e, melhor do que isso, deixava-lhe muito tempo para si próprio.

- Pensei que querias que passássemos este fim-de-semana juntos - perguntou ele curiosamente, depois de ela faltar a mais um almoço.

- E estamos a passar - disse ela. - Só que encontrei um amigo da escola e estamos a divertir-nos tanto a explorar isto. Não te importas, pois não? - acrescentou ela, inocentemente. - É o que nós, escritores, gostamos de fazer.

Ele não se importava nada. A ausência de Madison permitia-lhe passar muito tempo com Dani e com a adorável Sofia, que se parecia com Madison quando esta tivera a mesma idade. Havia algo nos seus genes que gerava crianças parecidas.

Entretanto, Madison estava a viver uma experiência que só poderia ter imaginado nos seus sonhos mais loucos. Frankie Medina estava a ensinar-lhe tudo o que uma aspirante a escritora precisava de saber. E a sua instrução não estava a ter lugar no meio das páginas. Muito mais excitante; estava a ter lugar entre os lençóis.

Madison era verdadeiramente uma aluna muito dedicada.

De regresso a Nova Iorque, Marcie informou Michael de que Vito Giovanni precisava de vê-lo urgentemente.

Vito nunca mudava. Quando queria alguma coisa, queria-a de imediato. Não era um homem paciente.

Michael telefonou-lhe.

- Que se passa, Vito?

- Tenho de te ver, Michael - respondeu Vito, na sua familiar voz áspera. Aparece cá em casa.

- Que tal às seis, esta noite?

- Por mim pode ser.

Michael optou por não passar pela sua casa e mandou o motorista levá-lo directamente do escritório à mansão de grés avermelhado de Vito. Não o via desde há vários meses; não era necessário, já que tratavam da maior parte dos seus negócios pelo telefone.

Vito estava sentado na sua cadeira preferida, na sala de estar. Parecia ter encolhido, ou que a cadeira tinha aumentado de tamanho.

- Mike, entra - disse Vito, acenando-lhe para que se aproximasse. - Queres uma bebida? Jack Daniel s. Nunca esqueço a bebida preferida de um homem.

- Sim - disse Michael, sentindo-se como em casa. - Bebo um Jack.

- Bebia um contigo, mas os meus médicos dizem que não posso beber. Filhos da puta! - disse Vito, taciturnamente. - Sempre a falarem-me de merdas que não posso fazer.

Um capanga preparou uma bebida para Michael, enquanto Vito se entregava a um curto ataque de tosse.

- Sente-se bem, Vito? - perguntou Michael.

- Tenho alguns problemas de saúde. Nada de grave. Fiz uma cirurgia dentária no outro dia; é o que lhe chamam agora, quando nos arrancam a merda dos dentes: cirurgia dentária.

Michael tinha consciência de que, ao longo dos anos, Vito Giovanni subira até um ponto muito elevado na hierarquia do crime organizado. Estava satisfeito por ter conseguido vencer por si mesmo, sem nunca ter tido necessidade de pedir quaisquer favores a Vito; embora este tivesse sido sempre justo com ele e, em compensação, ele tivesse feito o velhote ganhar muito dinheiro em investimentos e na Bolsa. Dinheiro limpo.

- Como vão as coisas, Mike? - perguntou Vito. - Um miúdo da rua como tu, conseguiste sair-te bem.

- Deu muito trabalho.

- Sim e tiveste os teus problemas ao longo do caminho. Mas ainda bem que seguiste o meu conselho.

- Sobre quê?

- Sobre aquela tua rapariga que levou um tiro - disse Vito, ajeitando os seus enormes óculos de leitura. - Podias ter ido atrás de quem quer que achasses que era responsável. Não o fizeste e isso foi inteligente. Como te disse na altura, estavam quites.

Vito ainda não percebia. Não estavam quites. Nunca estariam quites. Por vezes, acordava a meio da noite e ali estava Beth, sentada ao fundo da cama a olhar para ele. Que estás a fazer para te vingares do meu assassínio? perguntava sempre ela, com uma expressão de vingança nos seus olhos negros. Tens de fazer alguma coisa; Michael. Um destes dias tens de fazer alguma coisa.

E um destes dias faria. Não sabia onde nem quando, sabia apenas que oportunidade se apresentaria.

Mamie mudara-se para Los Angeles, tal como Bone. Sempre que viajava para Las Vegas, Michael pensava em fazer um desvio por L. A. e estourar-lhes os miolos.

Não o fazia, porque tinha responsabilidades. Madison, Vincent e Sofia. As três maravilhosas crianças. E Dani, claro. Não podia arriscar deixar ficar mal qualquer deles.

Reunira informação tanto sobre Mamie como sobre Bone. Sabia exactamente onde estavam e o que faziam. Sete anos antes tinham-se casado; os seus arqui-inimigos. Ficava enojado só de os imaginar juntos. Não só se tinham casado, como tinham entrado no negócio dos filmes, associando-se a um rei da porno que fazia vídeos de sexo explícito para o Japão e a Europa. Aparentemente, era um negócio que se ajustava perfeitamente a Mamie. Bone cuidava da parte financeira. Mamie estava envolvida no lado criativo. Sim, podia perfeitamente imaginá-lo.

Como se isso não fosse suficiente, tinham também aberto uma cadeia de shops através do país.

Vito nunca falava de Mamie, pelo que Michael também não o fazia. Tanto quanto sabia, Vito considerava-a parte do passado.

- Tens de me fazer uma coisa na próxima semana - disse Vito.

- O que é? - perguntou Michael.

- Ser padrinho no meu casamento.

- O seu casamento - disse Michael, algo surpreendido. Vito tinha mais de setenta anos e isso via-se bem.

- Com quem se vai casar?

- Western, claro - disse Vito, rindo-se alegremente. - A gaja velha vai finalmente fazer de mim um homem honesto.

- Parabéns.

- Tu serás o meu padrinho - repetiu Vito.

Michael compreendeu que não era propriamente um convite, antes uma ordem. Não se importava, estava habituado à maneira de ser de Vito.

- Está a planear um grande casamento? - perguntou.

- Não, vai ser uma coisa íntima. Apenas alguns amigos. Nada de espalhafato.

- Terei muita honra em ser seu padrinho - disse Michael, perguntando a si mesmo se aquela seria a única razão porque Vito pedira a sua presença.

- Há outra coisa que tens de fazer por mim - disse Vito.

- Se puder.

- Vou mandar os rapazes porem duas malas fechadas no teu carro. Eu dou-te a combinação dos fechos.

- Que é que está lá dentro, Vito? - perguntou Michael, sentindo-se desconfortável com a ideia de andar a transportar duas malas de Vito, cheias sabia-se lá de quê.

- Dinheiro - disse Vito. - Dois milhões em notas. Vais branqueá-lo para mim.

- Espere um minuto - disse Michael. - Dois milhões em notas, quer dizer...

- Ficas com ele até eu te dar instruções - interrompeu Vito. - Confio em ti, Mike; confio em ti como se fosses meu filho.

- Jesus, Vito, não sei...

- Vais fazê-lo. Capisce?

Michael acenou afirmativamente com a cabeça. Sentia-se outra vez com dezassete anos. De resto, porquê discutir? Acabava sempre por fazer tudo o que Vito queria.

Era assim a dança deles. E nunca mudava.

 

                     Terça feira, 10 de Julho de 2001

Entalada no banco da frente do furgão, de mãos agarradas ao painel, prontas para o impacte, se batessem, Madison começou a rever a sua vida. Aquilo era tudo tão surrealista. Como é que acabara naquela situação?

Pura sorte suponho eu, pensou ela, dubiamente.

Fechou os olhos por um momento, tentando desesperadamente transportar-se para um outro lugar, tal como fazia em criança quando ia ao dentista. Fecha os olhos e tudo há-de desaparecer. Michael costumava dizer-me isso.

Aquele último ano fora uma grande confusão. Descobrir que Stella não era a sua verdadeira mãe e pouco depois disso o assassínio de Stella. E depois a sua torturante relação com Michael. Num momento adorava-o e confiava nele, no seguinte não sabia o que pensar por causa das histórias que ele inventara sobre o seu passado. Não era justo que ele o tivesse feito: não tinha o direito de fazer o que queria com a vida de uma pessoa. Ela podia ser sua filha, mas merecia conhecer a verdade.

Depois havia a sua relação com Jake. Um caso amoroso de altos e baixos, um homem extraordinariamente sexy e interessante. Agora, tanto quanto ela sabia, podia estar morto ou prisioneiro de traficantes de droga colombianos. Sentia saudades do seu apartamento em Nova Iorque. Do seu cão Slammer Dos seus amigos, do trabalho. Sentia saudades de tudo.

O furgão rolava a grande velocidade por escuras ruas secundárias. Não fazia ideia aonde estavam, embora o assaltante parecesse estar consciente do seu destino.

Quinze minutos depois de saírem da auto-estrada, ele ordenou a Cole que encostasse. Estavam numa zona industrial, numa mal iluminada rua interior, de armazéns enormes e desertos, algures na baixa.

- Quer dizer que paro? - perguntou Cole.

- Que caralho achas que quero dizer? - disse bruscamente o assaltante. A paciência de todos estava a acabar- se.

Madison sentia temor no fundo do seu estômago. Iria ele matá-los? Seria esse o seu plano?

Onde está a Polícia? Onde está a merda do helicóptero? Onde estão os negociadores?

Aquilo era uma anedota infeliz.

Estavam completamente por sua conta e não havia ninguém para ajudá- los.

Estavam sentados naquilo a que Leroy e Darren se referiam como o seu escritório, embora Jolie achasse que se parecia mais com uma pensão barata para drogados. Tentava fortemente não respirar, percebendo que, se inspirasse mais uma vez, ficaria tão pedrada como os restantes. O odor de marijuana pairava intensamente no ar. E Nando, sendo Nando, aceitara imediatamente um charro.

Isto não é maneira de fazer negócios, tentou ela avisá-lo. Se Vincent estivesse aqui, tu não te terias atrevido. "

A razão por que Vincent e Nando eram parceiros de negócios tão bons era que Vincent sabia manter o controlo sobre uma situação. Nando não sabia. O seu marido era um dos grandes aventureiros da vida. Quando via algo que queria, agarrava-o. Infelizmente, nunca aprendera a palavra não".

Agora queria transformar aquele pardieiro no clube de strip mais popular de Las Vegas. Porquê? Tinham o hotel e o casino. Vincent e ele estavam a sair-se muito bem. Pessoalmente, ela concordava com Vincent: porquê entrarem no lado rasca do negócio quando não precisavam?

Sabia também que, por muito que estivesse envolvida, não lhe agradaria a ideia de ver Nando a frequentar um clube de strip todas as noites, ainda que esse clube lhe pertencesse. Ela instalara um poste de stripper no seu quarto. Que mais teria de fazer para o manter em casa?

Darren continuava a lançar-lhe olhares de soslaio, como se estivesse a avaliar o potencial dela para ser uma das raparigas. Ele parecia um chulo. Portava-se como um chulo. Provavelmente, era um chulo.

Que diabo estavam ali a fazer?

E por que é que Nando também a tinha levado?

O telefone estava a tocar quando Vincent entrou no seu apartamento. Agarrou-o rapidamente antes que acordasse Jenna.

- Boas notícias - disse Dani.

- Que aconteceu?

- Sofia ligou. Disse-lhe que apanhasse o primeiro avião de volta.

- Isso são boas notícias - disse Vincent. - A propósito, mandei uma pessoa para ficar à entrada do teu apartamento. Não fiques assustada se o vires.

- Achas que isso é necessário?

- Se Michael diz que é, então é. Não podemos correr riscos.

- Acho isso excessivo - queixou- se ela.

- Olha, tu conhece-lo melhor do que ninguém.

- Isso é verdade - disse ela, pesarosamente.

- Então não discutas. Michael consegue o que quer, sempre foi assim.

- Ah, sim - concordou ela. - Isso é decididamente verdade.

- Já estou em casa, se precisares de me contactar. Fico aqui até ter notícias de Michael.

Pousou o telefone, foi até ao bar e preparou uma bebida.

Talvez tivesse sido muito duro com Jenna. Afinal, ela era apenas uma miúda. A verdade é que não sabia mais do que aquilo. Cristo! Tinha que lhe ensinar tanta coisa. Esse era o problema de casar com uma rapariga inocente que não compreendia as regras.

Entrou no quarto pronto para lhe perdoar.

A grande cama de casal estava vazia.

Abriu a porta que dava para a casa de banho. Ela não estava lá. Por um momento pensou desembestar do hotel, localizar Andy Dale e dar um enxerto de porrada naquele estúpido actorzeco.

Depois pensou melhor. Jenna tinha uma lição a aprender. E essa lição era: não gozar com a cara de Vincent Castle.

Sofia decidira que a única coisa razoável a fazer era dar o golpe à Sr Flynn, não pagando a última renda. Simplesmente, não tinha dinheiro nenhum. A ideia era sair casualmente como se fosse trabalhar e depois não voltar.

Recolheu algumas coisas preciosas que tinham significado para si, atestou a grande mochila com elas, depois gritou casualmente à Sra Flynn:

- Vou sair. Volto mais tarde com o dinheiro.

- Que bom, querida - gritou a Sr Flynn, a adorável e confiante velhinha no seu segundo copo de vinho.

Logo que saiu, Sofia apercebeu-se de que não fazia ideia aonde ficavam os escritórios do American Express. Raios! Devia ter feito um telefonema.

Depois, para sua surpresa, surgiu Gianni no seu reluzente Bentley guiado por um motorista.

O carro parou ao seu lado. Gianni baixou o vidro traseiro.

- Entre! - ordenou.

- Como? - disse ela.

- Entre. Vamos a caminho de Roma.

E pareceu uma tolice discutir porque, com Gianni ao seu lado, seria muito fácil regressar à América.

Que tinha ela a perder? Absolutamente nada.

- Acho que vou vomitar - queixou-se Jenna.

- Não, não vais - disse Andy Dale, movendo-se em cima dela.

- Sim... acho que vou.

- Então, não o faças para cima de mim.

Ela conseguiu afastá-lo para o lado e correu para a casa de banho, onde vomitou no lavatório. Teve vómitos durante vários minutos como se tivesse levado um coice de mula no estômago.

Quando terminou, ficou deitada no frio chão de mármore, enrolando-se sobre si mesma, numa bola apertada e nua. Ninguém foi ver se ela estava bem. Nem Andy, nem Anais.

Do quarto vinham sons de música, risos e gelo a tilintar nos copos. Nunca se sentira tão mal.

- Quero morrer! - gemeu ela.

Onde estava Vincent? Onde estava o seu marido quando precisava dele? Oh, Deus, não podia deixar que a visse naquele estado; mal disposta e tendo acabado de fazer amor com Andy Dale, se é que se podia usar a palavra amor relativamente à forma como Andy Dale a tratara.

Ele não era muito simpático. De facto, era um grande idiota. Enquanto tiveram relações, batera-lhe várias vezes, fortemente, no traseiro, com a palma da mão. Isso magoara-a.

Não gosto disso, queixara-se ela, com as palmadas a doerem-lhe. Gosto eu, dissera ele, com um riso abafado.

Pensou como poderia apanhar as suas roupas no quarto e fugir. Apercebendo-se da existência de um roupão de veludo branco por detrás da porta, levantou-se cuidadosamente e vestiu-o.

E agora? Não podia voltar ao quarto, era demasiado humilhante. Claro, podia sempre dizer a Vincent que Andy Dale a violara. Conhecendo Vincent, ele provavelmente deixaria Andy numa massa de sangue e ela não queria que as coisas fossem tão longe.

Mesmo assim... recusava-se a regressar ao quarto, o que significava que não havia forma de sair da suite a menos que Vincent viesse em seu auxílio.

Havia um telefone ao lado do lavatório. Pegou no auscultador.

Quando Vincent atendeu, ela começou a chorar.

- Ajuda-me - soluçou ela. - Por favor, vem buscar-me. Preciso de ajuda.

Sentado no avião que Vincent fretara para o levar a L. A. Michael estava completamente calmo por fora, mas em ebulição por dentro.

Mamie e Bone.

Devia ter acabado com eles havia anos, exactamente como mereciam. Eram escumalha. Dois velhos pedaços de merda que precisavam de ser eliminados.

E ia fazê-lo. Não havia ninguém que o impedisse.

Antes que a noite terminasse, Mamie e Bone passariam à história.

- Todos lá para fora - disse o assaltante. - E nada de espertezas. Todos se apressaram a sair do furgão. Madison colocou os braços em volta de Natalie e abraçou-a.

- Vai ficar tudo bem - sussurrou. - Prometo-te, vai ficar tudo bem. Natalie acenou com a cabeça. Estava arrepiada e tremia. Cole aproximou-se e abraçou as duas, apertando-as solidamente.

Madison olhou em volta: havia mais dois reféns, cinco ao todo, com eles incluídos. Enquanto todos pensavam no que iria acontecer a seguir, um velho Cadillac preto aproximou-se, descendo a rua, com o som de música rap a retumbar através das janelas.

- Tu - rosnou o assaltante a Madison -, para a traseira.

- De que é que está a falar? - disse ela, com o coração a palpitar.

- Depressa, cabra. Entra no caralho do carro.

E, agarrando-lhe o braço, torceu-lho para trás das costas e empurrou-a para o assento traseiro do Cadillac. Depois entrou atrás dela.

Não havia nada que ela pudesse fazer. Logo que entraram, o carro arrancou, rolando a grande velocidade através da noite.

 

                     Michael e Madison: 1995

- Quero que vejas isto - disse Madison, correndo pelo gabinete de Michael dentro e agitando uma revista diante da cara dele.

- O quê? - disse ele, sempre encantado por ver a sua filha.

- Lembras-te quando, há uns anos, estávamos em Miami e eu te disse que ia fazer com que ficasses orgulhoso de mim? - disse ela, empoleirando-se na borda da secretária.

- Sim?

- Bem, olha para isto - disse ela, estendendo-lhe triunfantemente uma revista chamada Manhattan Style. Na capa estava o seu cabeçalho,

 

         Perda do Poder por

         MADISON CASTELLI

 

- Jesus, miúda! - disse Michael, olhando para a revista. - Todos aqueles anos na universidade finalmente tiveram resultado.

- Tiveram mesmo - disse ela, excitadamente. - Adivinha quem constitui o meu primeiro tema?

- Quem?

- Acreditas que é Henry Kissinger?

- Cos diabos! - disse Michael. - Isto eu tenho que ler!

- E - disse ela - gostava que notasses que a minha fotografia está incluída nas primeiras páginas da revista.

Dois anos antes, acabada de sair da universidade, ela fora descoberta por Victor Simons, o editor da Manhattan Style. Ele vira um pequeno artigo que ela publicara na Es Quire acerca do ainda emergente tema das desigualdades entre homens e mulheres. Victor lera, gostara e levara-a a almoçar. Encorajara-a a ganhar mais experiência e depois voltar a procurá-lo.

Por que não me contrata agora? perguntara ela, ousadamente. Agarre-me enquanto pode.

Não, mas um destes dias fá-lo-ei", dissera ele.

E, fiel à sua palavra, fizera-o. Ela trabalhava, havia vários meses, na Manhattan Style, e esta era a sua primeira grande tarefa, com o seu próprio cabeçalho.

- Querida, isto está óptimo - disse Michael, estudando o artigo, com um grande sorriso estampado na cara. - Stellajá viu?

- Ainda não lhe mostrei.

- Telefona-lhe e diz-lhe. Vai ficar entusiasmada.

- Oh, deixa-te disso, Michael; quando é que já viste Stella entusiasmada? Stella e Madison não desfrutavam da terna e maravilhosa relação maternal por que Michael ansiara. Em vez disso, as coisas eram algo tensas entre elas.

- És filha dela, Madison - disse ele. - Digo-te, ela vai ficar muito feliz por ti.

- Mostra-lhe tu. Leva este exemplar para casa.

- Que tal se fôssemos jantar esta noite para celebrar?

- Não posso. Tenho planos com as raparigas.

- Que raparigas?

- Natalie veio de L. A. até cá e Jamie está a preparar qualquer coisa. Não posso deixá-las ficar mal.

- Onde vão?

- A uma discoteca. Porquê? Também queres vir?

- O meu tempo de discotecas já passou - disse ele, pesarosamente.

- A sério? Pois eu ainda acho que és o homem mais atraente que anda por aí. - Só mesmo na boca das minhas filhas...

- Seja como for - disse ela, alegremente -, não podia esperar para te mostrar.

- Obrigado, querida. Fico feliz por teres aparecido. Estou muito orgulhoso. Logo que Madison saiu do seu escritório, ele deu instruções a Marcie para que ligasse a Vito Giovanni.

- Deixei mensagens ao Sr. Giovanni três dias seguidos - afirmou ela.

- Eu sei disso, Marcie - disse ele, pacientemente. - É por isso que temos de continuar a tentar.

- Talvez ele esteja para fora.

- Quem é que atende?

- Um atendedor automático de chamadas - disse Marcie.

- Está bem, tente mais uma vez.

Precisava de falar com Vito acerca dos dois milhões de dólares que o velhote investira. Ao longo dos anos, o dinheiro quase duplicara e Vito não demonstrara nenhum interesse sobre a forma como devia recuperá- lo.

Michael não se sentia confortável com os investimentos em seu nome. Embora o tivesse ocultado e ninguém conseguisse relacionar o dinheiro com Vito, a verdade era que não deixava de ser dinheiro dele.

Marcie tentou novamente, voltando a receber resposta do atendedor de chamadas.

- Vou a casa dele - decidiu Michael, agarrando na Manhattan Style e dirigindo-se para a saída. - Ligue para o meu motorista. Ele que vá ter comigo lá fora.

Descendo no elevador, começou a ler o artigo de Madison sobre Henry Kissinger. Do caraças! A sua filha, uma escritora publicada; uma jornalista a entrevistar um importante político numa revista importante. Credo! Que emoção.

Logo que chegou à rua ligou para Dani em Las Vegas pelo seu telemóvel. Queria dizer-lhe que fosse comprar a revista.

Atendeu Sofia.

- Olá, papá.

- Olá, passarinho. A tua mãe está por aí?

- Saiu. Quando vens para casa, papá?

- Em breve.

A sua outra família. A sua família secreta. Stella e Madison não sabiam nada sobre a sua segunda vida em Las Vegas. E, por agora, era assim que tinha de ser.

Por vezes, apesar de ser casado com Stella, não sentia que a conhecesse verdadeiramente. Metade do tempo ela sofria de enxaquecas, a outra metade passava-a em eventos sociais e a comprar roupas e jóias a um ritmo alarmante. Raramente comunicavam entre si. Na realidade, já nem faziam amor. Ele vendera o apartamento de Nova Iorque e comprara uma casa em Connecticut para lhe agradar e talvez tentar aproximá-los. Não resultara.

Todos os meses arranjava como passar uma semana em Las Vegas. As coisas eram diferentes com Dani. Ele queria sempre fazer amor com Dani. Se não fosse por Madison, ter-se-ia mudado para Las Vegas há muito tempo. No entanto, Madison acreditava piamente que Stella era a sua mãe e, embora ele tivesse prometido a Dani que deixaria Stella quando chegasse o momento certo, achava impossível fazê-lo.

Imaginava frequentemente a reacção que Madison teria se alguma vez descobrisse que tinha um meio-irmão e uma meia-irmã. Tanto poderia ficar furiosa como encantada. Não havia meios-termos com a sua susceptível filha.

Ultimamente, apercebera-se de que Dani estava a ficar desapontada com a relação entre os dois.

Disseste-me que, quando Madison fosse para a universidade, deixarias Stella, dissera-lhe ela, na última vez que a vira. Depois disseste-me que o farias logo que ela acabasse a universidade. E agora Madison está formada, tem um emprego e tu ainda continuas com Stella. Não compreendo.

Não te consigo explicar, dissera ele, esforçando-se para usar as palavras certas. É... difícil.

Que há de tão difícil, Michael? perguntara ela, acaloradamente. Tenho esperado por ti todos estes anos. Criei a tua família. Nós devíamos estar juntos.

Porquê destruir algo tão bom, querida?

Ela alvejou-o com o olhar. Escolha errada de palavras.

A governanta na casa dos Giovanni informou-o de que o senhor e a Sr a Giovanni estavam de férias nas Baamas. Tinha de ter admiração pelo velhote; nada fazia abrandar Vito, estava sempre metido nalguma coisa.

Estava a tornar-se crescentemente óbvio que Vito não se importava com o seu dinheiro. Devia ser tão rico que não lhe fazia diferença.

- Diga ao Sr. G. quando regressar, para entrar em contacto comigo.

Madison encontrou-se com Jamie e com a sua outra grande amiga da universidade, Natalie, num bar da baixa. Jamie estava ainda mais bela do que nunca, num conjunto de linho branco e sapatos Manolo de tacão alto. Natalie, baixa, curvilínea e muito bonita, usava um vestido vermelho, enquanto Madison vestia umjusto conjunto bege de Ralph Loren, com ondas de cabelos negros a emoldurarem-lhe a face oval.

- Ei, olha só para ti - disse Natalie, quando Madison entrou. - Vestida para o sucesso.

- É este o meu jantar de comemoração? - perguntou Madison, sentando-se e sorrindo. - Porque agora sou oficialmente importante.

- Pois, pois - disse Jamie, indulgentemente. - És uma estrela.

- Viajei de propósito para esta noite - observou Natalie. - Portanto, é bom que seja uma comemoração!

Jamie organizara tudo com o seu estilo habitual. Estudava Decoração de Interiores e, com o seu pai a financiá-la, esperava acabar por abrir o seu próprio negócio. Ficara recentemente noiva de Peter, um atraente homem loiro. Todos se referiam a eles como o casal dourado.

Natalie vivia em L. A. com o seu irmão Cole, tentando arrancar com uma carreira de jornalista de televisão especializada em celebridades.

Madison era a primeira a realizar o seu sonho. Era uma escritora publicada numa revista muito prestigiada; uma revista que vendia bem mais do que a Esquire e a anity Faire.

- Então - perguntou Natalie, agarrando uma mão-cheia de batatas fritas - contaste a Michael?

- Mostrei-lhe o artigo.

- E? - perguntaram ambas.

- Ficou um bocado passado.

- Aposto que sim-disse Jamie, rindo-se. -Ele continuatão atraente como dantes?

- Hmm... - disse Madison, com um sorriso cúmplice. - Sempre tiveste um fraquinho por ele, não é?

- Sim - admitiu Jamie. - No entanto, agora que me vou casar, o meu fraquinho terá de ser uma coisa do passado.

- Vais convidá-lo para o teu casamento? - perguntou Madison. - Para que ele possa admirar a noiva?

- Claro - disse Jamie, recusando a deixar-se provocar. - Conheço os teus pais desde sempre.

- Como está a adorável Stella? - perguntou Natalie.

- Passa a maior parte do seu tempo em Connecticut - disse Madison. - E quando vem à cidade, ou anda nas compras ou está doente. Quase nunca a vejo.

- Então, suponho que as coisas continuem como sempre - disse Jamie.

- Adoro ouvir-vos, miúdas privilegiadas, a discutir merdas de família - disse Natalie. - Eu é que tive de batalhar durante o curso, a trabalhar como empregada de mesa e todas essas merdas.

- Tu nunca trabalhaste como empregada de mesa - disse Jamie na brincadeira.

- Passaste uma semana numa casa de hamburguers e fugiste a gritar para os montes quando partiste uma unha. Tinhas tantos namorados que não havia tempo para trabalhar.

- Agora estás a fazer com que eu pareça uma pega - objectou Natalie.

- Eles faziam fila à porta do dormitório - riu-se Jamie. - Sete pequenos tesões, todos numa fila.

- Sim e isso era para ti - disse Natalie, laconicamente.

Na universidade, as três tinham sido alcunhadas de Beleza (Jamie), Cérebro (Madison) e Bomba Sexual (Natalie). Eram inseparáveis.

Jamie pediu uma garrafa de Cristal. Logo que os copos ficaram cheios, ergueu o seu e fez um brinde a Madison.

- Qual é a sensação de ser famosa e ter sucesso? - perguntou, puxando uma madeixa de cabelo cor de trigo para trás da orelha.

- Do caraças! - disse Madison, usando uma das expressões favoritas do seu pai.

- Do caraças! - repetiu Natalie. - Menina! Gosto dessa!

- E como era o Dr. Henry Kissinger? - perguntou Jamie.

- Muito encantador. E extremamente inteligente.

- Podes entrevistar o Denzel Washington a seguir? - pediu Natalie. - Ou o Sidney Poitier, o meu herói?

- Demasiado velho - disse Jamie.

- Não queres dizer demasiado brasa - contradisse Natalie. - Aquele homem continua a ter tudo!

- Vou tentar - disse Madison, bebendo um pouco de champanhe. - Aparentemente, ele é difícil de apanhar, não gosta de dar entrevistas.

- Então, contento-me com Denzel - suspirou Natalie. - Esse homem é doce como mel.

Mais tarde, no seu apartamento, que Michael lhe oferecera quando ela acabara a universidade, Madison prendeu a revista ao espelho da casa de banho.

A vida não podia ser melhor.

 

                   Dani e Vincent: 1995

- Ficas óptima de capacete, mãe - disse Vincent, provocando-a moderadamente.

- Desculpa? - respondeu Dani.

- A sério - disse ele, agarrando-a pelo braço e fazendo-a contornar uma área vedada. - Fica-te a matar.

- Posso assegurar-te de que não vai fazer parte do meu vestuário do dia-a-dia. Só quando visitar a obra do meu filho.

- Consegues acreditar? - disse Vincent, abanando a cabeça como se ele próprio não pudesse acreditar. - O nosso próprio hotel.

- Devo dizer, por muito que desaprove Nando, que vocês merecem. Ambos trabalharam arduamente para alcançar isto.

- A quem o dizes - concordou Vincent. - Está a levar dois anos a construir e quando estiver terminado, porra, vai compensar todo o desgaste e todo o trabalho duro.

- Quanto tempo falta?

- Calculo que mais uns seis meses.

- Incrível - disse ela. - E sabes que estou pronta para ajudar no que quer que possa.

- Óptimo, mãe. Porque conto contigo para te sentares com o decorador de interiores, para garantir que ele não se deixa entusiasmar. Tu tens um gosto excelente.

- O segredo está nos toques finais - disse ela, modestamente. - Posso ajudar a escolher as cores das tintas e os tecidos. Quero que os quartos tenham estilo e sejam confortáveis.

Vincent acenou com a cabeça. Não estava verdadeiramente concentrado. Tinha demasiadas coisas na mente; tantos detalhes e tudo tinha de ficar perfeito: não podia haver erros. Nando e ele estavam a arriscar tudo no sucesso do seu hotel, o Nando sugerira generosamente que se deveria chamar Hotel e Casino Castle.

Esse nome tem um toque de sorte, dissera Nando, demonstrando uma refrescante ausência de egoísmo. Vincent sentia o mesmo.

Um grupo de investidores entrara com o dinheiro para a construção do hotel, incluindo Michael, que insistira em estar envolvido. Relutantemente, Vincent concordara com a participação do seu pai. Se o hotel fosse um fracasso, simplesmente matar-se-ia. Nem pensar em deixar Michael ficar mal.

- É excitante, não é? - disse ele, enquanto acompanhava Dani de volta ao seu carro.

- Seria ainda mais excitante se arranjasses uma rapariga simpática e assentasses - observou ela.

- Porquê essa insistência no assentar? - disse ele, sabendo que essa era precisamente a coisa que ele não tinha intenções de fazer. - Estou perfeitamente feliz assim.

- Eu sei que estás, Vincent - disse ela, desejando que ele a escutasse. - Mas não seria bom se tivesses um bebé?

- Oh, então, mãe - disse ele, rindo-se -, tu não tens estilo de avó.

- Seria uma baby-sitter sensacional.

Ele sorriu para a sua bonita mãe e perguntou a si mesmo como se tinha arranjado ela sozinha todos aqueles anos.

As visitas de Michael estavam a tornar-se menos frequentes e ele sabia que isso a preocupava. Sentia que agora era ele o homem da família, porque Michael tinha toda uma outra vida em Nova Iorque.

Era estranho saber que tinha uma meia-irmã algures, uma irmã que, se tudo acontecesse como Michael queria, ele nunca conheceria.

A sua outra irmã, Sofia, tinha doze anos. Gostava de Madonna, maquilhagem e montes de roupa de menina. Já parecia uma adolescente, pelo que Vincent estava consciente de que tinha de a manter bem debaixo de olho, especialmente porque Michael não estava ali para o fazer.

- Acabou a inspecção - disse Dani, retirando o capacete e entrando para o carro do filho. - Podemos ir almoçar agora?

- Gosto sempre de oferecer o almoço à minha mãe - disse Vincent, sentando-se ao volante. - Ela é o maior borracho da cidade.

- Quem dera - disse Dani, obliquamente.

- Lembro-me de quando era rapaz. Deus! Todos os meus colegas da escola tinham atracção por ti.

- Vincent!

- Tinham. Depois, uma noite, os pais de alguns viram-te no espectáculo. No dia seguinte senti-me tão embaraçado. Toda a escola sabia que a minha mãe tirava a roupa.

- Desculpa se te criei embaraços - disse ela, secamente. - Não te esqueças de que ao tirar a minha roupa paguei todas as nossas despesas.

- Escuta, mãe - disse ele, sinceramente -, eu sei, melhor do que ninguém, como trabalhaste arduamente e os sacrifícios que fizeste.

- Na altura não pareceu que estivesse a fazer sacrifícios.

- Por que é que nunca casaste com Dean? - perguntou curiosamente Vincent.

- Ele andava sempre por perto. Ainda anda.

- Porque não o amo - disse ela, pacientemente. - Amo Michael e sempre o amarei.

- Então, por que não se casaram, tu e Michael?

- Tu sabes porquê, Vincent. Não tenho que te explicar.

- Sim, sim, eu sei. Ele tem mulher e filha em Nova Iorque.

- Exactamente - disse Dani, relutante em falar no assunto.

- Então, por que diabo não se divorcia dela. - questionou Vincent.

- Eu não me queixo - disse ela, serenamente.

- Talvez se te queixasses ele o fizesse.

- Já não tenho a certeza de ser isso o que quero. Ultimamente, temo-nos vindo a afastar. Michael já não vem cá tanto como vinha. Gostava que ele estivesse mais

vezes com Sofia, mas que posso fazer? Não posso forçá-lo a passar tempo com ela.

- Não te preocupes com Sofia - disse Vincent. - Ela é um biscoitinho valente.

- Eu sei disso - disse Dani. - Tanto ela como tu têm muito do vosso pai.

- Não somos nada parecidos - disse Vincent, rapidamente. - Eu nunca iludiria uma mulher como ele fez contigo.

- Bem, são parecidos de aspecto. E devo realçar que Michael nunca me iludiu.

Temos uma combinação e estou perfeitamente feliz com a forma como as coisas estão.

- Sim?

- Sim, Vincent - disse ela, firmemente. - Nunca me faltou nada. Michael paga todas as minhas despesas, comprou-me uma linda casa, tenho um carro novo todos os anos. Que mais podia desejar uma mulher?

- Talvez um homem ao teu lado para te proteger? Tu mereces isso, mãe.

Ela voltou o rosto para o outro lado, para que ele não pudesse ver as lágrimas que subitamente lhe tinham aflorado aos olhos. A intenção de Vincent era boa, mas as suas palavras tinham-na perturbado.

- Estou muito entusiasmada com o teu hotel - disse ela, olhando através da janela do carro. - E tenho a certeza de que o teu pai também.

Na semana seguinte, Michael fez uma visita.

- Só posso ficar dois dias - foram as primeiras palavras a sair da sua boca.

- Então, é melhor passares o tempo todo com Sofia e Vincent - disse Dany. - Ambos sentem a tua falta.

- Eu também sinto a falta deles.

- Vincent está morto por te mostrar o seu hotel. Está quase terminado. Ele lançou-lhe um olhar inquisitivo.

- Estás a tentar fazer-me sentir culpado?

- Entende como quiseres - disse ela, atirando para trás os seus longos cabelos loiros.

Ele levou o reparo nitidamente a peito, porque passou todos os minutos com os seus dois filhos e, quando partiu, Dani notou que era a primeira vez que ele vinha a Las Vegas e não faziam amor.

Depois de ele partir ficou deprimida. Talvez Dean tivesse tido razão todos aqueles anos. Seria possível que Michael estivesse a usá-la?

Decidiu que era altura de fazer algumas mudanças. Sofia estava a crescer depressa, Vincent já tinha saído havia muito tempo da sua casa e vivia no seu próprio apartamento e era prudente começar a pensar no seu futuro. Precisava de ter uma carreira, algo com que passar o tempo. Não podia voltar a ser uma bailarina; tinha demasiada idade e, de resto, a ideia não a seduzia.

Vincent tinha-lhe pedido para ajudar na decoração do hotel e isso era interessante e divertido. Talvez quando essa tarefa terminasse, pudesse dedicar-se à parte de relações públicas. Sabia bastante acerca de publicidade e apresentação de coisas.

Sim, era isso. Decidiu que perguntaria a Vincent e Nando se podia ficar responsável pelos eventos especiais no hotel.

Isso, pelo menos, tiraria Michael do seu pensamento.

 

                     Michael e Madison: 2000

Um dia, Michael chegou a casa e descobriu que Stella tinha partido. Sem mais nem menos. A casa de Connecticut estava vazia. As roupas dela tinham desaparecido. Tirara as suas jóias do cofre. E era tudo. Nenhum bilhete. Nada.

Não ficou surpreendido, embora, quando descobriu que ela tinha fugido com um artista em ascensão de vinte e dois anos, o seu ego tenha ficado afectado. Apenas ligeiramente, porque o que o chateava verdadeiramente era o facto de ela estar obvia mente a marimbar-se para a reacção de Madison. O que significava que ela não se importava que Madison descobrisse a verdade.

Agora teria que dizer a Madison. Quer gostasse, quer não, tinha chegado o momento.

Primeiro, teria de reunir coragem e isso não ia ser fácil. Poderia levar algum tempo.

Alguns dias depois, sentado na velha mansão de grés avermelhado de Vito Giovanni, bebendo Jack Daniel com gelo, Michael sentia-se como se fosso novamente um miúdo. Sentia- se também melancólico, porque Vito estava em muito má forma. O velhote perdera cerca de vinte e três quilos e estava uma figura esquelética. Era perturbador vê-lo daquela maneira. O seu queixo parecia ter recolhido, os seus olhos estavam encovados e as suas mãos, brancas como papel, tremiam incontrolavelmente. Agora, a sua cadeira de braços favorita engolia-o completamente.

- Está com bom aspecto, Vito - mentiu Michael, sabendo como Vito era vaidoso.

- Sempre foste péssimo a mentir - respondeu Vito, desatando num vigoroso ataque de tosse. - Sou um velho doente. Não tenho muito mais tempo. Sofrera de cancro na próstata nos últimos três anos. A quimioterapia e os tratamentos com radiações tinham-no debilitado completamente, mas continuava a saber ser cabrão. E era-o; em relação aos seus tratamentos, aos seus médicos, aos hospitais e às enfermeiras. A única pessoa para quem tinha uma palavra boa era para a sua mulher, a antiga stripper Western Pussy, agora oficialmente Western Giovanni.

Western era uma alma alegre que o fazia visivelmente muito feliz. Ao contrário da antiga mulher de Vito, Mamie, Western não tinha uma ponta de amargura no corpo. Indiferente às críticas, navegava através da vida com as suas mamas 46 e o seu sorriso alegre.

- Como está o meu bebé? - disse ela, entrando de rompante pela sala, cheirando a perfume barato e a pizza. Western nunca tinha aprendido a gastar o dinheiro de Vito: continuava a preferir os pequenos prazeres da vida.

- Cumprimentaste Michael? - perguntou Vito, tossindo de novo.

- Eu cumprimento sempre o teu atraente amigo. Como vai isso, Michael?

- Estou bem, Western. E tu?

- Não posso queixar-me. - Voltou-se para o seu marido doente. - Olha o que eu te comprei nos saldos do Bloomingdale's, meu doce - disse ela, remexendo no seu saco de compras e extraindo uma muito desapropriada camisola cor-de-rosa de decote em V. Agitou-a à frente dele. - É de caxemira - disse, reverentemente. Tão macia e fofa.

- É bonita, miúda - disse Vito. - Agora vai-te embora. Eu e Michael temos de falar de negócios.

- Negócios na tua idade - repreendeu-o ela. - Tens de te deixar disso, Vito.

- Desaparece! - disse ele, afectuosamente.

Ela atirou-lhe um beijo e saiu da sala.

Vito voltou-se para a sua enfermeira que estava sentada a um canto.

- Espere lá fora - ordenou.

- Mas, Sr. Giovanni...

- Saia - A mulher saiu. - Tentam manter-me na cama - confidenciou Vito.

- Não vou aceitar essa merda. Não sou um raio de um inválido. Tenho cancro na próstata. Grande merda!

- Suponho que eles achem que você precisa de muito descanso-comentou Michael.

- Descanso para quê? - perguntou Vito. - Para a puta da campa?

- Olhe, Vito, ainda bem que me recebeu hoje. Temos de falar acerca do que quer que faça com o seu dinheiro.

- Ah, sim. O meu dinheiro - disse ele, vagamente. - Quanto é ele agora?

- Cerca de três vezes o valor do que me deu.

- Sempre foste bom a fazer massa. - Soltou uma gargalhada. Depois franziu o sobrolho. - O que eu não quero é que o fisco lhe ponha as mãos.

- Então o quê?

- Eis o que vais fazer. Western não sabe tratar de nada, portanto, não adianta dar-lho. Quando eu partir, fazes com que ela receba um rendimento mensal. Algo que vá directamente para a conta bancária dela.

- Está bem.

- Depois quero que pegues em dois milhões e os dês a Mamie. Disse-o tão casualmente que Michael, por um momento, não registou o que ele dissera. Quando entendeu, sentiu-se revoltado.

- Oquê?

- Mamie; lembras-te dela, a minha ex-mulher?

- Por que diabo quer fazer isso?

- Prometi-lhe que, quando eu me fosse, ela o receberia.

- Tanto quanto sei, ela tem-se saído bem com o seu império da pornografia.

- Ela esteve comigo muitos anos, Mike - disse Vito. - Acho que merece.

- Acha, é?

- Sim, acho - disse Vito, com a sua voz áspera a endurecer. - Portanto, Mike, posso confiar em ti, certo?

Michael acenou afirmativamente. Não tinha intenção de dar um cêntimo a Mamie Giovanni. Ao reter o dinheiro, podia finalmente reclamar uma muito pequena vingança.

E era exactamente isso que planeava fazer!

Acabada de chegar de L. A. e da excitante tarefa de entrevistar um poderoso agente especial, Madison almoçou com Jamie num restaurante de Manhattan.

Agora estava no topo da sua actividade. Perto do Poder por Madison Castelli era um grande negócio. Os publicistas clamavam para que ela se sentasse com os seus clientes. No mundo da edição de revistas ela era uma estrela.

Jamie inclinou-se sobre a mesa.

- Qual foi o melhor sexo que já tiveste?

- O quê? - disse Madison.

- Tu sabes - disse Jamie. - Sexo puro e duro, de ir aos píncaros. Do género em que nunca mais queres ver o tipo, mas no exacto momento em que o estás a fazer, vale tudo. E quero mesmo dizer tudo.

- Bem... - Madison perguntou a si mesma onde queria Jamie chegar com aquilo. - Miami - disse por fim. - Lembras-te daquele fim-de-semana que fui passar com o meu pai quando tinha dezasseis anos? Bem, conheci um tipo, um playboy na casa dos quarenta, com os brinquedos todos: apartamento de cobertura, Porsche e uma cama de água gigante coberta de pétalas de rosa. E também uma pausa para dar efeito -... uma língua extraordinariamente talentosa.

- Raios! - exclamou Jamie. - Nunca me contaste isso.

- Era o meu segredo - disse Madison, rindo-se. - O nome dele era Medina. Nunca o esquecerei.

- Sua manhosa - disse Jamie. - Não sabia que havia segredos entre nós!

- Apenas um.

- Seja como for, porquê toda esta conversa sobre sexo? - perguntou Madison.

- Acho que Peter talvez tenha um caso - deixou escapar Jamie, referindo-se ao seu marido.

- Só estás casada há poucos anos - observou Madison. - Dá ao tipo uma hipótese de se aborrecer.

- Muito obrigada - disse Jamie, irritadamente. - Que é que te faz pensar que ele alguma vez se fosse aborrecer?

- Seja como for, não me fales de homens infiéis - disse Madison. - São todos uns cães.

Recentemente, acabara tudo com o seu namorado, David, um produtor de televisão com quem partilhava casa havia dois anos. Suspeitava de que ele ficara incomodado ao descobrir que ela ganhava mais dinheiro. Um dia, ele dissera-lhe que ia sair para comprar cigarros e não voltara. Algumas semanas depois da sua abrupta partida, ouvira dizer que ele se casara com a sua namorada de infância, uma loira insípida, com mamas falsas e uns desagradáveis dentes salientes. E quanto a bom gosto estavam conversados.

David fora a sua relação mais prolongada; não andava à procura de outra, embora tivesse conhecido recentemente Jake Sica em L. A. e ele fosse muito atractivo. Infelizmente, estava ligado a outra pessoa.

- Desde que David se pisgou transformaste-te numa cínica - observou Jamie.

- Para tua informação, estou contente por ele se ter ido - disse Madison. Descobri que o trabalho é mais importante do que um homem, todos os dias.

Mais tarde, nessa noite, encontraram-se numa festa na casa de Anton Couch. Anton, um homem gay e extremamente social, era sócio de Jamie na sua empresa de design. Durante o jantar, Anton mencionou que a mãe de Madison lhe ligara.

- A minha mãe? - disse ela, surpreendida.

- Tu tens uma mãe, não tens? - disse Anton, asperamente. - Não apareceste das ruas de Nova Iorque com uma caneta na mão?

- Por que haveria ela de te ligar?

- Para indagar sobre uma ideia para o seu novo apartamento.

- Qual novo apartamento? - disse Madison, confundida. - Os meus pais agora vivem em Connecticut.

- Aparentemente, vão mudar-se novamente para a cidade.

Logo que chegou a casa ligou para Michael. Ele parecia meio adormecido. Ela não se importou.

- Não gosto de saber através de Anton Couch que vocês estão a comprar um apartamento em Nova Iorque - disse ela.

- Olá, querida- resmungou ele. -Estou a dormir. Podemos falar disto amanhã?

- Claro - disse ela, batendo com o telefone. Não suportava que Michael não lhe desse toda a sua atenção.

Na manhã seguinte ele ligou-lhe bem cedo.

- Se estiveres disponível eu vou até à cidade e tomamos um pequeno-almoço reforçado juntos.

- Tu e Stella? - disse ela, abafando um bocejo.

- Não - disse ele, concisamente. - Stella não pode.

Uma hora mais tarde, ele foi buscá-la a casa e seguiram para o Plaza onde, depois de falarem de muitas outras coisas, ele lhe disse finalmente que Stella o deixara por outro homem.

- O Quê? - disse ela, completamente chocada. - Tu e a mãe foram sempre tão chegados.

- Era o que eu pensava.

- Como aconteceu isso?

- Quem sabe? - disse ele, inexpressivamente. - Eu sou apenas o tipo que foi abandonado. Cheguei a casa um dia e ela tinha partido. Não voltei a falar com ela desde então.

- Então, é ela que está a comprar o apartamento?

- Presumo que sim.

Ficaram em silêncio durante alguns minutos, até que Madison subitamente deixou escapar:

- Como pudeste deixá-la fazer-me isto?

Ele riu-se secamente.

- Ninguém te está a fazer nada.

- São os meus pais - disse ela, acusadoramente, sabendo que estava a ser irracional, mas sem se poder conter. - Eu não quero pais divorciados.

- Que idade tens tu? Oito?

- Não - disse ela, acaloradamente. - Mas sempre vos vi a ambos como um exemplo.

- Nem sempre as coisas são o que parecem - disse ele, misteriosamente.

- Por que é que Stella não me ligou?

- Vocês nunca foram propriamente íntimas.

- Ela é minha mãe. Não achas que devia ter sabido através dela? Ele suspirou.

- A verdade é que nem sempre tiveste de nós a atenção que merecias e isso preocupa-me. - Fez uma longa pausa. Era este o momento de lhe dizer a verdade? Sim! Não podia protelar mais. - Ouve, querida - disse ele, hesitando ligeiramente -, há mais uma coisa que tenho de te dizer. Algo que talvez te faça perceber melhor as coisas.

Ela sentia-se enjoada. Que poderia ser pior do que o divórcio dos seus pais? Obviamente, era algo que ela não queria ouvir.

- É isto - disse ele, de olhos firmemente fixos nos dela. - Stella... Ela.. bem... não é a tua verdadeira mãe.

O seu mundo começou a girar descontroladamente. Stela não era a sua verdadeira mãe? Como podia isso ser? Não fazia sentido. De que diabo estava ele a falar?

Michael continuava a falar, contando-lhe uma longa e complicada história de quando era solteiro e uma namorada tivera um filho seu, depois a sua namorada levara um tiro porque homens de negócios com quem ele lidava decidiram que tinham de o punir.

Que espécie de história de loucos era aquela? Enquanto o ouvia a falar sentia-se como se estivesse no meio de uma telenovela maluca.

Quando ele finalmente terminou houve outro longo silêncio.

Subitamente, ela sentiu uma lancinante dor de cabeça. Por amor de Deus, isto era a vida dela? Tudo mudara subitamente. Já não era a pessoa que pensava ser.

- Eu... eu tenho de ir para casa e... digerir isto - conseguiu ela dizer, levantando-se.

- Não fujas de mim - implorou Michael, agarrando-lhe a mão. - Preciso de ti, querida. Sempre precisei de ti.

- Talvez sim - disse ela, sentindo uma dor aguda a queimá-la por dentro -, mas isto é um choque demasiado grande e tenho de o enfrentar sozinha. - Tirando a mão da dele, levantou-se e saiu apressadamente do restaurante.

Na rua, tudo lhe pareceu diferente. Sentia-se tonta e fraca e não sabia o que fazer ou para onde se voltar. Tudo o que queria verdadeiramente fazer era rebentar em lágrimas.

Por que queres chorar? ", perguntou a sua voz interior.

Porque deixei de saber quem sou.

Vendo a sua filha sair a correr do restaurante, Michael experimentou uma sensação de alívio; não por Madison se ter ido mas porque finalmente lhe contara a verdade. E, ao dizer-lhe, libertara-se a si mesmo da culpa com que tinha vivido todos aqueles anos.

Madison estava perturbada agora, mas era uma rapariga sensível, superaria aquilo. Especialmente quando ele lhe explicasse com mais detalhe. Era muita coisa para ela absorver numa só conversa. Demasiado.

Não podia esperar para telefonar a Dani, embora não estivesse preparado para lhe contar acerca de Stella. Reteria essa informação por mais algumas semanas.

Naquele momento não estava com disposição para tomar decisões que mudassem a sua vida.

Dani estaria sempre ali. Esperando. E um dia teria uma agradável surpresa.

 

                     Dani e Vincent: 2000

- Está tudo preparado, Sr Castle - disse o fornecedor de comida.

- Tem a certeza? Não quero nenhum erro - respondeu Dani.

- Sr. a Castle - reagiu o fornecedor -, eu nunca cometo erros. Ela acenou com a cabeça.

- Estava só a verificar. - Depois sorriu.

O homem sorriu-lhe de volta. Adorava lidar com aquela mulher bonita. Ela era uma criatura requintada. E no entanto, como todos os seus outros clientes, era extremamente exigente. E era assim que devia ser: era o casamento do seu filho e quem podia culpá-la?

Quando acabou de falar com o fornecedor de comida, Dani apanhou o elevador para a sua suite no Hotel Castle. Vincent ia finalmente casar-se e Michael estava atrasado. Embora, dado que estava fora do controlo dele, ela tivesse que o desculpar. Ligara para o aeroporto um par de vezes e descobrira que o voo dele se tinha atrasado na partida de Nova Iorque. O avião tinha finalmente levantado voo e deveria chegar a qualquer momento.

Ela dissera-lhe para se dirigir directamente ao hotel. Ela já não tinha uma casa: vendera-a e mudara-se para um elegante apartamento, pouco tempo depois de Sofia abandonar a escola aos quinze anos e partir para a Europa. Dani acusava Michael pela ausência de Sofia. Ele tinha tido uma enorme discussão com a filha, que o acusara de nunca poder contar com ele. Algumas semanas depois ela partira.

Dani ficara um farrapo com tudo aquilo, até que Sofia ligara de Inglaterra e dissera, atenciosamente: Não te preocupes comigo, mãe. Estou com amigos e darei notícias de vez em quando.

Dani apelara a Michael. Ele demonstrara a teimosia de sempre. Ela sabe olhar por si mesma", dissera ele. Sofia está bem, ela é tal e qual como eu.

A descrição favorita de Michael em relação aos seus filhos era que eram tal e qual como ele, quando na verdade a única semelhança era física.

Ele julgaria que era assim tão perfeito?

Ela tinha novidades para ele. Não era. Embora isso não a impedisse de o amar. Sempre o amaria. Michael Castelli era o seu vício incurável.

O Hotel e o Casino Castle revelaram-se um grande sucesso. Nando e Vincent tinham conseguido construir e gerir um pequeno hotel que agradava à clientela mais jovem. O hotel estava sempre completamente reservado e o casino sempre cheio. O negócio era excelente.

Hoje era um dia especial. Dia do casamento de Vincent. Ele casava- se com Jenna Crane, a filha de um advogado local, muito bonita e de cabelos cor de mel.

Naturalmente, Vincent deixara-se levar pelo aspecto. Jenna não era a rapariga que Dani teria escolhido para o seu filho. Sim, Jenna era muito bonita. Sim, parecia ser bastante inocente. No entanto, não parecia ser muito brilhante. Dani teria preferido ver Vincent casar-se com uma mulher mais inteligente.

Pelo menos, ia casar-se. Nando fizera o mesmo um ano antes. A sua mulher, Jolie, era deslumbrante. Antiga dançarina, Jolie era bonita e esperta. Uma combinação perfeita.

Ao vestir a sua roupa de mãe do noivo, ocorreu a Dani que aquela era a primeira vez que Michael se encontraria com Dean. Quando dissera a Michael que Dean estaria no casamento, ele ficara lívido.

Por que é que tenho de ficar a olhar para esse cretino? queixara- se ele. Ele não é um cretino, respondera ela, firmemente. De maneira nenhuma ela ia deixar de convidar Dean para o grande dia do seu filho, portanto, Michael teria simplesmente que superar isso.

Já te disse muitas vezes, Dean é o meu melhor amigo.

Que se foda essa besta! ", dissera Michael, aborrecido. Eu é que devia ser o teu melhor amigo.

Bem, não és. És meu amante.

As palavras dela tinham chateado Michael ainda mais.

Ela estava a dar os retoques finais no seu cabelo quando Michael chegou. Ele entrou na suite, abraçou-a por trás, roçou o seu nariz no pescoço dela e disse:

- Adivinha? Ela voltou-se.

- O quê?

- Contei a Madison.

- Acerca de nós?

- Não... Não, eu, uh, disse-lhe que Stella não é a sua verdadeira mãe.

- Oh, meu Deus! - arfou Dani, compreendendo como aquilo era importante para ele. - Disseste?

- Sim.

- Como reagiu ela?

- Fugiu de mim. Está zangada.

- Claro que está. Isso é compreensível.

- Sabes uma coisa, Dani? Estou feliz por o ter feito. Agora que lhe contei, dou-lhe um par de meses para ela digerir e depois, lentamente, falo-lhe de ti e dos miúdos.

- A sério?

- Está na hora.

- Óptimo.

- Eu amo-te, Dani - disse ele, roçando-lhe novamente o nariz no pescoço. Agora que falei com Madison, as coisas serão diferentes. Vais ver.

Em vez de o acalmar, Nando estava a deixar Vincent numa pilha de nervos. Na verdade, estava com uma ressaca infernal. Na noite anterior, Nando insistira em organizar-lhe uma despedida de solteiro. Acabara por se revelar a maior de todas as despedidas de solteiro. Strippers, contorcionistas, lutadoras na lama - todas nuas, todas mulheres e todas em cima dele.

A sua última lembrança era de tequilla a ser despejada na sua garganta às três da madrugada e de uma bonita rapariga euro-asiática a meter-lhe os seios na boca e a pedir-lhe que a fodesse; uma oferta que ele recusara. Gemeu com a recordação.

Dormira duas horas e agora sentia-se de rastos.

Nando sorria enquanto ambos se vestiam.

- Tem que se sair em estilo - explicou Nando. - É a única maneira.

- Obrigado - disse Vincent, aborrecido. - Duvido que a consiga pôr de pé esta noite. Arruinaste a minha noite de núpcias.

- Depois de te casares não precisas de a pôr de pé - disse Nando, sempre sorrindo. - O sexo ganha um significado completamente novo.

- Deus - exclamou Vincent. - Por que não ficas calado de vez em quando?

Vincent e Jenna casaram no recinto do hotel. As flores, a música, a comida - tudo estava perfeito.

No copo-d'água, Michael ficou ao lado de Dani, lançando olhares sinistros a Dean, que estava noutra mesa.

- Queres parar - disse Dani, apercebendo-se do que se passava.

- Quem, eu? Que é que eu fiz? - disse Michael, inocentemente. Anteriormente, quando ela os apresentara, Michael mal conseguira pronunciar um ríspido olá.

Odeio aquele cretino, resmungara ele. Foi aquela besta que nos separou durante sete anos.

Ele fez o que achou melhor para mim.

Não, Dani, corrigira-a Michael. Fez o que achou melhor para ele. " A noiva de Vincent estava resplandecente, num vestido de renda branca de era Wang. Estava rodeada de todas as suas amigas, vestidas de cor-de- rosa.

- Meu, se eu não fosse casado, fodia-as a todas! - confidenciou Nando a Vincent, acotovelando-o nas costelas.

- Grande novidade - disse Michael, abanando a cabeça.

Dani olhava para o seu filho com amor e orgulho. A sua única decepção era que Sofia não estivesse ali para partilhar aquele feliz dia de família. Era uma fonte de grande tristeza para Dani que a sua destravada filha andasse a vaguear algures pela Europa, quando deveria estar no casamento do irmão.

Observou Michael enquanto ele dançava com a noiva. Sempre tão alto, moreno e atraente. Um quebra-corações. O seu quebra-corações. Como ela o adorava.

Como teria sido a sua vida se nunca o tivesse conhecido?

Não tinha arrependimentos. Se não se tivessem conhecido, ela não teria Vincent e Sofia, portanto, de alguma forma, as coisas tinham corrido pelo melhor.

 

                   Terça feira, 10 de Julho de 2001

- Para onde vamos? - perguntou Madison.

- Cristo! - disse o assaltante. - Nunca te calas?

A música rap em alto volume ressoava e ela estava encurralada na traseira de um carro desconhecido com aquele cretino maníaco. Na frente havia mais dois homens. Estava demasiado escuro para conseguir vê-los bem.

Parecia-lhe estranho que a tivessem separado dos outros. Porquê? E de onde tinha surgido aquela viatura? Teria o assaltante estado em contacto por telemóvel com outras pessoas para que o viessem buscar?

E os outros dois assaltantes e os reféns? Algo de estranho se estava a passar e ela não conseguia perceber o quê.

- Que vai acontecer às pessoas que deixámos para trás? - perguntou.

- Isso não é da tua conta - disse ele, asperamente.

- Vão ser libertados?

- Por amor de Deus!

Tentou ver melhor os dois homens da frente. O condutor era um homem grand,

com a cabeça totalmente rapada. Os seus braços nus estavam adornados com intrincadas tatuagens.

O homem sentado ao lado tinha cabelo longo e oleoso e brincos no nariz e orelhas. Era tudo o que ela conseguia ver.

Não estou assustada, disse a si mesma. Não estou com medo. Sou filha da meu pai e ele esperaria que eu fosse forte. Portanto, eles que se fodam!

Mas por dentro estava cheia de receio.

Pela parte que tocava a Jolie, a situação ia de mal a pior. Não só tinha Darny de olhos arregalados para ela e com um trejeito lúbrico nos seus finos lábios à Doggy Dogg, como agora os dois homens tinham preparado várias linhas de droga sobre o tampo de vidro de uma mesa e um par de raparigas em topless tinha-se aproximado para se juntar à festa.

Jolie sentia-se ofendida. Não queria estar ali, aquilo não era a cena dela. Continuava a olhar para Nando para ver se ele entendia a mensagem de que se queria pôr dali para fora. Ele não reparava nela, estava demasiado ocupado a rir e a trocar disparates com os homens. Quando deu por isso, já ele estava a snifar uma dose de coca.

Determinada a agir com dignidade, ela levantou-se.

- Dão-me licença por um momento? - disse ela, de lábios apertados.

- Claro, miúda - respondeu Nando, lançando um olhar a uma das mulheres em topless.

- A mijadeira é à sua direita - disse Darren com um somso manhoso. - Quer que vá consigo?

- Certamente que a encontro - disse ela, gelidamente.

Saiu da sala e entrou novamente no clube, praticamente batendo contra um enorme segurança que estava em vias de arrastar um bêbado lastimável até à porta.

Agora estava mesmo furiosa. Como se atrevia Nando a levá-la para um lugar daqueles? Devia ter mais respeito por ela. Afinal, era sua mulher!

Olhou para o palco. Era uma verdadeira cidade com as pernas abertas, com as raparigas a abrirem-nas como se não existisse mais nada.

Abanando a cabeça, dirigiu-se à porta de saída. O empregado do parque que tomara conta do carro de Nando estava a fumar um cigarro.

Ela meteu a mão na bolsa e tirou dinheiro.

- Aqui estão os outros vinte que o meu marido lhe prometeu - disse ela, entregando-lhe uma nota de vinte dólares. - Fazia o favor de trazer o carro?

- Claro - disse o homem, concedendo-lhe um rápido olhar de apreciação. O Ferrari, certo?

Batendo impacientemente com o pé, ela observou um homem gordo a sair do clube, soltando gargalhadas de divertimento. Ia apoiado no seu amigo, que cambaleou até à borda do passeio e começou a vomitar.

Agradável. Muito, muito agradável.

O empregado trouxe o carro e ela entrou.

- Ah, a propósito, diga ao meu marido, quando ele sair, que pode apanhar um táxi.

E, antes que o empregado do parque pudesse dizer uma palavra, arrancou.

O avião fez uma suave aterragem. Michael desembarcou rapidamente. Mantivera-se sempre em contacto com Gus, o seu antigo companheiro da prisão e parceiro no crime. Gus mudara-se para L. A. havia quinze anos, para gerir as operações de Lucchese na Costa Oeste.

Gus estava lá para o receber. Cumprimentaram-se, saíram do aeroporto e entraram para uma limusina preta com vidros fumados que os aguardava junto ao passeio.

- É bom ver-te, Michael - disse Gus, com um aspecto muito L. A. numa shirt de seda sob um casaco ligeiro de cor creme.

- É uma pena que seja nestas circunstâncias - respondeu Michael.

- Não te preocupes - disse Gus. - Fiz aquilo que pediste. Está tudo preparado.

- Aqueles idiotas - disse Michael, com os olhos cheios de uma terrível ira.

- Acho que eles talvez tenham apanhado a minha filha.

- O quê? - disse Gus, olhando-o de soslaio.

- Tens seguido aquela situação dos reféns pela televisão?

- Estás a falar daquilo no restaurante de Beverly Boulevard?

- Sim.

- Que é que tem?

- Não é uma situação de reféns - disse Michael, sombriamente. - Acho que podem ter raptado Madison.

- Suponho - disse Sofia, sentada no jacto privado de Gianni e sorvendo chá gelado - que esteja à espera de uma explicação acerca da noite passada.

- Já esqueci a noite passada - disse Gianni.

- Não, a sério - insistiu ela. - Eu quero explicar.

- Não precisa.

- Por que é que não quer ouvir? - disse ela, agitando-se no seu assento.

- Não estou interessado. Estou preparado para esquecer que alguma vez aconteceu.

- Ah, isso é óptimo, não é? - disse ela, de modo mal humorado. - Fazer-me sentir como um monte de merda.

- Sofia, se um cavalheiro lhe dá a oportunidade de esquecer algo que é embaraçoso para si, então, deve agarrar essa oportunidade.

- Por que é que está sempre a dar- me sermões? - perguntou ela.

- Não estou a dar-lhe sermões. Estou meramente a tentar dizer-lhe que é prudente ouvir os bons conselhos.

- Você é muito arrogante, Gianni.

- Lamento que pense assim.

Ela inclinou-se para trás e espreguiçou-se.

- Liguei à minha mãe hoje de manhã.

- Ligou?

- Sim. Achei que, você sabe, ela gostaria de ter notícias minhas. Não lhe contei que tinha saltado para uma piscina de uma altura de oito andares.

- Não, tenho quase a certeza de que ela não teria gostado disso.

- Seja como for, ela quer que eu volte para casa.

- E você quer voltar?

- Bem, ela a modos que me disse que havia uma emergência com o meu pai.

- Ele está doente?

- Não, ela apenas disse que era, hum, uma situação.

- Que tipo de situação?

- Como hei-de eu saber? A minha mãe é misteriosa. Você provavelmente apaixonar-se-ia loucamente por ela. É uma loira deslumbrante.

- O que a faz pensar que eu me apaixonaria loucamente por uma loira deslumbrante?

- Os homens estão sempre a apaixonar-se por Dani - disse Sofia, mencionando um facto. - Ela foi bailarina em Las Vegas. Era um verdadeiro sucesso.

- A sua mãe?

- Sim. Ela só tem, tipo, você sabe, cinquenta e qualquer coisa.

- Quando chegarmos a Roma, você faz o teste fotográfico e depois disso arranjo-lhe um voo para casa. Pode ser assim?

- Sim, porque se as fotos correrem bem e você quiser que eu faça a campanha, posso sempre voltar.

- Excelente.

- Então, você compra-me um bilhete para casa e o meu pai paga-lhe. Ele é rico, sabe. Provavelmente, tão rico como você.

- Ele tem o seu próprio avião?

- Oh - disse ela, olhando-o de cima para baixo -, calculo que você seja mega-rico, não é?

- Que faz o seu pai?

- É uma boa pergunta - respondeu ela, vagamente. - Investimentos e tretas, propriedades, centros comerciais, coisas dessas.

- Ele é como Donald Trump?

Ela riu-se.

- Isso queria o Donald Trump.

Vincent saiu propositadamente para ir buscar a que fora sua mulher e talvez dar uma carga de porrada em Andy Dale. Ele avisara-o. Não teria o cretino percebido à primeira?

Provavelmente, não. Andy Dale era uma estrela de cinema. O mais estúpido dos estúpidos.

Já arrastara Jenna para casa uma vez naquela noite e agora tinha de o fazer uma segunda vez. Aquilo era ridículo. Ele não precisava daquelas dores de cabeça.

Ia salvá-la e pronto.

Depois daquela pequena experiência, Jenna ficaria por sua conta. Deixaria de o ter a protegê-la.

 

                   Michael e Madison 2001

Michael recebeu o telefonema a meio da noite. Estava a viver sozinho em Connecticut, desde que Stella se mudara para viver com o seu namorado. Não se importava. As coisas entre ele e Stella já tinham esfriado muito antes de ela partir. Um divórcio era inevitável.

Ele estava a tentar ordenar as coisas na sua própria cabeça antes de começar a pensar no futuro. Madison não falava com ele: continuava perturbada com as suas revelações relacionadas com Stella. Não telefonava a Dani havia algum tempo porque, muito francamente, não sabia que rumo queria dar àquela relação e logo que falasse da partida de Stella, seria decididamente o momento de tomar decisões. Sofia andava a vaguear algures pela Europa. Vincent era o único que estava óptimo. Tinha uma mulher nova, um hotel de sucesso e parecia ter tudo a rolar.

O telefonema informou-o de que Vito Giovanni tinha falecido. Michael ficou pesaroso ao saber a notícia. Não parecia possível que Vito tivesse partido, um homem que sempre tivera uma presença tão forte na sua vida.

Entrou para o carro, guiou até à cidade e arranjou quarto num hotel. Na manhã seguinte, levantou-se cedo e foi directamente à casa dos Giovanni.

Western recebeu-o de olhos vermelhos e inchados.

- Ele era um velhote tão querido - disse ela, desoladamente. - O meu Vito era mesmo bom para mim.

- Ele amava-te muito - assegurou-lhe Michael.

- Não sei o que fazer - preocupou- se ela, mexendo no seu anel de noivado de diamante. - A quem devo telefonar?

- Não te preocupes - disse Michael. - Eu tomo conta de tudo. E assim fez.

No dia do funeral apareceram dois convidados-surpresa. Mamie e Bone. Quase com setenta anos, Mamie continuava a tentar parecer uma adolescente. Usava um conjunto azul-brilhante com uma saia bem acima dos seus joelhos ossudos, o seu cabelo loiro descolorado estava emaranhado e quebradiço, a maquilhagem empastava-lhe toda a cara e estava toda ornamentada com jóias de diamantes.

O carrancudo Bone pintara o seu cabelo de preto-brilhante e penteara-o transversalmente para disfarçar a careca. Aplicara também algum tipo de bronzeado artificial, que dava à sua cara uma doentia cor alaranjada. Estava ridículo.

Os dois juntos constituíam uma visão bastante bizarra.

O acompanhamento do funeral foi enorme. Vito tivera uma corrente infindável de amigos, parceiros de negócios e conhecimentos, todos ansiosos por lhe prestarem a sua última homenagem.

Michael avistou imediatamente Mamie e Bone e fez o que pôde para os evitar. Mamie não estava disposta a aceitar isso: abordou-o à saída da igreja.

- Mikey - disse ela, de negras pestanas eriçadas a dominarem os olhos excessivamente pintados. - Meu pequeno Mikey.

Não se lembraria ela do passado? Teria esquecido que era directamente responsável pela morte da mãe dele e, só Deus sabia, provavelmente também de Beth?

Ele tentou seguir na direcção contrária.

Ela pousou a mão ossuda no seu braço. Dedos compridos, todos eles com anéis.

- Não me vires as costas quando estou a falar contigo.

- Que se passa? - disse ele, mantendo a voz baixa e regular porque não queria provocar uma cena.

- Viemos a Nova Iorque prestar homenagem ao meu ex-marido - disse ela.

- Vito teria querido isso. - Michael acenou em silêncio. - E também - disse ela, inclinando-se para ele em confidência -, para tratar de receber o dinheiro que ele me prometeu.

Agora era o seu momento de triunfo.

- Que dinheiro? - disse, inexpressivamente.

- O dinheiro de que tomaste conta para ele - disse ela, fitando-o com um olhar malévolo.

- Não faço ideia do que é que estás a falar.

- Não me fodas, Mikey! - disse ela, falando-lhe como se ele ainda fosse o adolescente que ela conhecera havia muito tempo.

Ele sacudiu-lhe a mão do seu braço e, numa voz muito baixa para que mais ninguém conseguisse ouvir, disse:

- Vai-te foder, Mamie!

Depois afastou-se.

Bone veio ter com ele na recepção.

- Soube que tu e Mamie estiveram a conversar - disse Bone sem rodeios, coçando a longa e fina cicatriz da sua face.

Michael olhou para ele sem dizer uma palavra. Como odiava o homem que matara a sua mãe. Uma mãe que nunca conhecera por causa de Bone.

- Toma isto como um aviso - disse Bone, com uma grande dose de rancor na voz. - Dá-lhe o dinheiro ou vais arrepender-te.

- Digo-te o mesmo que disse a Mamie - respondeu Michael, refreando a sua raiva. - Não sei do que estás a falar.

Bone abanou a cabeça de espanto.

- Continuas a ser o mesmo sacana estúpido. - A sua voz levantou- se. - Dá a Mamie o dinheiro ou vais ver o que acontece.

- Jesus - disse Michael, escarnecendo dele. - Ameaças. Que me vais fazer agora?

Os olhos de Bone eram frios e mortiços.

- Ficarias surpreendido - disse. - Ficarias muito surpreendido.

Mais uma vez, Michael afastou-se. Não havia nada que eles lhe pudessem fazer. Não tinham maneira de provar que Vito lhe confiara qualquer dinheiro. De resto, ele era agora um homem de negócios legítimos; estava bem longe do seu alcance.

Nos dias seguintes fez preparativos para que Western recebesse um principesco rendimento para o resto da sua vida. Não se sentiu mal por ficar com o resto do pé-de-meia secreto de Vito. Considerava isso o castigo de Bone e de Mamie, um castigo que nem de perto era suficientemente duro. Acabaria por dar cada dólar a alguma obra de caridade que o merecesse. Isso, sim, era justiça.

Com o passar dos anos ele começara a perceber que procurar uma vingança interminável podia envenenar a alma de uma pessoa. Outro pensamento: alguma vez a vingança seria satisfatória?

Desta vez em particular fora.

Mais tarde, nessa noite, falou com Warner Carlysle. Ela continuava a ser íntima de Stella e, com a sua ajuda, ele planeava seguir em diante.

- Quero o divórcio - disse-lhe. - Podes falar com Stella por mim?

- Não sei por que não falam um com o outro - resmungou Warner.

- Ela recusa-se a falar comigo - disse ele -, por isso agradecia- te que interviesses e lhe dissesses que ou ela avança com o divórcio ou avanço eu. Não quero entrar em litígio. Ela pode ficar com tudo o que quiser; incluindo a casa.

- Muito bem. - Warner suspirou, relutante em se envolver.

- Obrigado.

- Michael - acrescentou Warner, curiosamente -, não estás interessado em saber por que fugiu ela com outro homem?

- Não tenho o mínimo interesse.

- Bem - disse Warner -, tens de admitir que quase nunca estavas ao lado dela. E Stella sentia que ainda amavas Beth e que punhas sempre Madison à frente dela.

- Quem és tu, a psicanalista dela? - disse ele, friamente.

Já não tinha interesse em Stella. Ela deixara-o e a verdade era que se sentia aliviado. Desejou que ela o tivesse feito anos mais cedo.

- Eu falo com ela, Michael - prometeu Warner. - É melhor para os dois que acabe tudo.

Alguns dias depois, ele estava no seu escritório quando o telefone tocou. Era Warner.

- Tens novidades para mim? - perguntou ele.

A voz dela parecia cansada e tensa, ao contrário do seu habitual tom animado.

- Sim, Michael - disse ela devagar -, tenho.

- Então, diz-me, ela está disposta a iniciar os procedimentos do divórcio?

- Não será necessário - disse Warner, hesitantemente. - Stella e Lucien estão ambos mortos.

- O quê?

- Foram alvejados com um tiro na nuca, executados.

- Jesus! - disse ele, quase deixando cair o telefone.

- Michael, tenho de te perguntar isto. - Uma longa e silenciosa pausa. Foste tu?

- Estás completamente louca? - gritou ele.

E depois percebeu.

Bone e Mamie tinham atacado de novo.

Madison estava confusa, irritada e perturbada. Havia algum tempo que estava assim. E tudo por causa de Michael e das suas mentiras da treta.

Quando ele lhe revelara que Stella não era a sua mãe e depois inventara uma história acerca de a sua mãe ter sido alvejada, ela não acreditara nele. De alguma forma, a história dele não fazia sentido. Pelo que contratou uma detective privada para descobrir a verdade. A detective, Kimm Florian, descobrira bastante informação. Apresentara a Madison uma pilha de recortes de jornal acerca de um homem chamado Michael Castellino, o qual, claro, era Michael Castelli. Quase trinta anos antes, Michael Castellino fora acusado de matar a mulher com quem vivia e essa mulher era a mãe de Madison, Beth.

Segundo os jornais, ele fora absolvido.

E depois? Ela passára toda a sua vida a amar um estranho. Era manifestamente óbvio que não conhecia Michael de todo. E percebeu que era por isso que Stella sempre fora tão fria para com ela. Enquanto crescia, sempre pensara que era simplesmente a maneira de ser da sua mãe, mas, obviamente, Stella nunca a amara.

Isso punha-a tão triste. Sentia-se desorientada, como uma órfã sem lugar para onde ir.

E, então, como uma luz na escuridão, Jake Sica, o homem que conhecera em L. A. viera à cidade. E desta vez estava livre, sem compromissos sentimentais.

Tinham passado um incrível fim-de- semana enfiados no apartamento dele, até que ele teve de partir para um trabalho na Europa.

Estar envolvida com Jake fizera-a sentir-se bem novamente. Precisava de alguém que se preocupasse com ela, porque Michael de certeza que não o fazia.

Alguns dias após a partida de Jake, Michael telefonou-lhe. Ela não queria mesmo nada falar com ele. Ainda não. Tinha demasiada informação para processar.

- Tenho algo importante para te dizer - disse ele.

- O quê? - respondeu ela, friamente.

- Tem a ver com Stella - disse ele.

Como se ela se importasse com Stella, embora estivesse a planear ir visitá-la quando conseguisse reunir força mental para o fazer.

- Então fala - disse ela, enfadadamente.

- Stella morreu - disse Michael. Uma longa pausa. - O funeral é amanhã. Gostava que fosses.

O funeral de Stella foi uma coisa sombria. Jamie e Peter levaram Madison a Connecticut e ficaram do seu lado, cuidando dela.

Logo que chegou à casa, ela tentou reconfortar Michael - não que ele o merecesse -, mas sentiu que devia fazer um esforço, em vista das trágicas circunstâncias.

Ele parecia bastante calmo e contido, sem precisar minimamente do conforto dela. Na recepção, ela falou com a melhor amiga de Stella, Warner, uma mulher que conhecia desde criança. Quando contou a Warner que Michael lhe revelara a verdade acerca da sua relação com Stella, Warner ficou chocada.

- Nunca pensei que ele te contasse.

- Contou e eu tinha esperanças de que Stella me pudesse explicar. Só que agora ela partiu...

- É uma tragédia. - Warner suspirou, de lágrimas nos olhos. - Stella era a minha melhor amiga havia mais de trinta anos.

- Eu sei - disse Madison. - Posso telefonar-te? Tenho tantas perguntas sem resposta em relação às quais esperava que Stella me pudesse ajudar. Talvez me possas dar resposta a algumas.

Warner acenou afirmativamente.

- Liga-me quando quiseres.

De volta a Nova Iorque, Kimm Florian esperava-a com mais notícias. Informou a Madison que descobrira que a sua mãe verdadeira, Beth, tinha uma irmã gémea, Catherine. E conseguira encontrar Catherine em Miami.

Madison decidiu viajar para Miami e ver o que conseguia descobrir.

Os detectives que investigavam o homicídio de Stella e do seu namorado interrogaram Michael diversas vezes. Infelizmente, ele não tinha álibi para a noite em que os crimes tinham tido lugar. Estivera sozinho em casa.

Questionaram-no infindavelmente até que ele finalmente mandou chamar o seu advogado, coisa que percebeu que devia ter feito de imediato. Tinha uma sensação desconfortável em relação ao que se estava a passar; especialmente, quando descobriu que uma das suas armas tinha desaparecido.

Não tinha dúvidas de que os crimes eram obra de Bone e Mamie. Mas porquê? Se planeavam implicá-lo, por que não tinham montado uma armadilha como haviam feito quando tinham assassinado Beth?

Tinha de fazer algo em relação a Bone e Mamie. Chegara o momento. Ligou ao seu velho compincha Gus, em L. A. e começou a fazer planos. Olho por olho. Dente por dente.

Bala por bala.

Depois, alguns dias mais tarde, recebeu o telefonema de que estava à espera. Mamie. Encolerizada e vingativa.

- Mikey - disse ela, docemente -, sou eu, Mamie. Achei que devias saber que foi a tua arma que matou a tua mulher e o namorado. Não é interessante? Portanto, dá-me o meu dinheiro ou a Polícia recebe a tua arma. Rápido, Mikey, ou vais ver o resto da tua vida miserável por detrás das grades.

Michael soube antecipadamente da sua prisão iminente. Compensava ter amigos nos lugares certos.

Quando a Polícia chegou à sua casa, já ele tinha partido havia muito. Com destino a Los Angeles.

Mas primeiro tinha de fazer um desvio por Las Vegas. Dani era a sua principal prioridade. Ele negligenciara-a e agora precisava de estar com ela, nem que fosse apenas por algumas horas.

Sabia que ela deveria provavelmente estar danada com ele por andar desaparecido, mas muito em breve a iria compensar por tudo.

 

         Quarta feira, 11 de Julho de 2001, 1: 00 h.

- Têm alguma coisa para mim? - disse o assaltante, inclinando-se para a frente para falar com o homem que seguia como passageiro no banco da frente do Cadillac.

- Claro, meu - disse o homem, remexendo no bolso.

Madison manteve-se em silêncio enquanto o assaltante esticava o braço e agarrava uma mão-cheia de pastilhas, metendo-as na boca.

Bonito. Como se já não estivesse suficientemente pedrado, pensou ela.

- Isto é para pedir resgate? - perguntou ela, penosamente. - Porque, se for, a minha revista paga.

- De que é que está a falar? - disse bruscamente o assaltante.

- Vocês queriam-me a mim, não era? - disse ela, observando-o cuidadosamente, à espera de uma reacção. - Isto foi tudo por mim.

- Cala a boca, puta!

Ela sabia que estava certa. Aquilo não era nenhum assalto aleatório. Ela fora o alvo desde o primeiro momento.

Porquê? Teria a ver com algo que tivesse escrito?

Talvez tivesse a ver com a reportagem de choque que ela escrevera sobre as prostitutas de L. A. um artigo explosivo e duro que fora comprado por um produtor independente para servir de base a um filme.

Poderia ser isso? Improvável. Mas tudo era possível.

Ela inspirou longa, profunda e revigorantemente, tentando ignorar o facto de que estava cansada, esfomeada e sequiosa e de que a música rap, insuportavelmente alta, lhe violentava os ouvidos. Ficar alerta. Ficar viva.

Esperava que Cole, Natalie e os outros dois reféns estivessem bem.

O horror da noite começava a apossar-se dela. Três pessoas possivelmente tinham morrido.

Deus! Era mais do que um pesadelo, era devastador.

Ao longo dos anos Michael não esquecera os seus amigos. Gus era um deles. Ajudara Gus com os seus investimentos e, em retribuição, Gus estava preparado para fazer o que ele quisesse. A lealdade contava.

Colocou Gus ao corrente da situação. O próprio Gus tinha uma questão antiga por resolver com Bone; algo acerca de terem entrado no território um do outro.

- O sacana é um amador - disse Gus a Michael no carro, enquanto seguiam para sua casa. - Ele e o seu império porno de trazer por casa. Será um prazer para mim pôr um fim àquele cabrão estúpido.

- Já o devia ter feito há muito tempo - disse Michael, pensando que a surpresa estava do seu lado. Bone e Mamie nunca imaginariam que ele fosse viajar para L. A. Provavelmente, julgariam que ele estivesse escondido da Polícia em Nova Iorque, a tremer com as suas ameaças patéticas.

Gus tinha razão. Eles eram amadores. Achariam sinceramente que podiam safar-se com uma fotocópia do assassínio de Beth? Qualquer advogado competente seria capaz de provar que ele fora alvo de uma cilada, com ou sem arma.

- Quantos homens vamos usar? - perguntou.

- Os suficientes para cumprir a tarefa - respondeu Gus. - Mamie e Bone têm uma propriedade em Bel Air com uma segurança de merda. Nem vão saber o que os atingiu.

- Quero-os acordados - disse Michael, sinistramente. - Quero que eles saibam quando eu aparecer.

- Tudo o que quiseres, tens. Agora, que vamos fazer em relação à tua filha?

- Consegues descobrir o que se está a passar?

- É já - disse Gus. - Ligo ao meu contacto e ele põe-me ao corrente.

- Obrigado, Gus. Fico-te grato.

- Grande coisa. Fizeste-me ganhar uns milhares no ano passado. De alguma forma, sinto que estou em dívida para contigo.

Enquanto percorria a Strip ao volante do Ferrari de Nando, Jolie apercebeu-se de uma agitação de carros da Polícia que passavam a grande velocidade na direcção oposta. Passou-lhe pela ideia que poderiam estar a dirigir-se ao Manray. Depois pensou: Por que iriam eles para lá? " Os subornos eram frequentes na cidade. Tinha a certeza de que Darren e Leroy tinham as coisas sob controlo.

Continuava furiosa com Nando. Ele não devia tê-la exposto a um lugar como aquele. Vincent tinha razão, não era o tipo de negócio em que eles devessem sequer pensar em entrar. Tanto o Hotel como o Casino Castle estavam a facturar bem, o dinheiro era muito, pelo que saltar para o lado reles das coisas era simplesmente ser ganancioso.

Pensou em discutir o assunto com Vincent. Parecia uma boa ideia, porque, com Vincent a apoiá-la, talvez juntos conseguissem meter algum bom senso na cabeça de Nando.

Num impulso, inverteu a marcha do Ferrari e, em vez de se dirigir para casa, seguiu para o hotel.

Dani não conseguia dormir: a sua mente estava num turbilhão. Michael e os seus problemas. A história da vida dela.

E ela estava sempre ali, eternamente disponível, pronta para o confortar, aconselhar e apanhar os pedaços sempre que ele sentia vontade de a ver. Porque nunca havia nada planeado. Michael vinha e ia conforme lhe apetecesse.

A usá-la.

Palavras de Vincent.

O mais perturbante de tudo era que, quando Stella o deixara, ele nunca lhe dissera. Só descobrira depois do brutal assassínio de Stella.

Por que não lhe dissera ele?

Por que não a tinha ele pedido em casamento para que pudessem finalmente ficar juntos?

Raios! Ele fazia amor com ela e ela derretia-se. Seria essa a base para um futuro a dois?

Casa-te com Dean. " Palavras de Vincent.

Se se casasse com Dean, que a amava genuinamente, teria de estar livre de Michael, porque nunca enganaria um homem com quem estivesse casada.

Era uma decisão importante e uma que ela provavelmente não devia tomar enquanto Michael estivesse em sarilhos. Mas de que outra forma podia ela esperar ser feliz?

Sr. a Dean King. Era a única maneira de garantir um futuro sereno e feliz.

Falaria com Dean pela manhã.

Esperando impacientemente pelo seu carro à porta do hotel, Vincent ficou surpreendido por ver Jolie a chegar guiando o Ferrari de Nando.

- Que estás a fazer no carro do Nando? - perguntou ele. - Sabes bem que ele não deixa ninguém guiá-lo.

- Azar dele - disse ela, saindo do carro e atirando as chaves a um empregado: - Nem vais acreditar de onde eu venho.

- De onde?

- Do Mancay. Ele soube de imediato que não eram boas notícias.

- Explica-me isso?

- Vou falar. - Olhou em volta. - Onde está Jenna?

- No Mirage, encurralada numa suite com aquele cretino dos filmes.

- Referes-te a Andy Dale?

- Há mais algum cretino dos filmes em acção esta noite?

- Lamento muito - disse ela, pousando uma mão compreensiva no braço dele.

- Não lamentes - disse ele, nervosamente. - Cheguei recentemente à conclusão de que cometi um grande erro ao casar-me com Jenna.

- A sério?

- Ela é demasiado jovem.

- Nunca pensei dizer isto - arriscou Jenna -, mas tens razão. Jenna é muito imatura.

- Achas que não sei disso?

- Ouve - disse Jolie -, já percebi que estás chateado. Eu também estou. Por que não vamos até lá dentro e tomamos uma bebida no bar?

- Não sei - disse ele. - Jenna estava a chorar ao telefone. Tenho de a ir buscar.

- O que tens de fazer, Vincent - disse Jolie, firmemente -, é ensiná- la a não se comportar desta maneira. Se ela é suficientemente estúpida para ir à suite dele, então, deve estar preparada para aceitar as consequências.

- Já é a segunda vez esta noite - queixou-se ele. - Da primeira vez tive de a arrastar, seminua, para fora de umjacuzzi.

Jolie abanou a cabeça como se não pudesse acreditar no que estava a ouvir.

- Isso não é um bom comportamento.

- Eu sei - concordou ele, hipnotizado pelos felinos olhos cor de âmbar dela.

- Anda - disse ela com vivacidade. - Tu e eu vamos tomar uma bebida. Ambos precisamos.

Por que não se tinha ele casado com uma mulher como Jolie, em vez de uma miúda como Jenna? Ela era, sem dúvida, mais o seu estilo.

Madison apercebeu-se de que o Cadillac se estava a afastar da baixa e a dirigir-se novamente para Santa Mónica. Conseguia ver com alguma dificuldade os sinais de trânsito.

O assaltante, completamente sob o efeito de Ecstasy, cantava agora com Ja Rule. Parecia perfeitamente contente e feliz. Pedrado, claro. Não tão irritado como antes.

- Para quem trabalha você? - perguntou ela, tentando novamente obter algum tipo de informação.

- Raios - resmungou ele. - Vou ficar feliz quando me livrar do teu coiro.

- Então, você é o moço de recados? - disse ela, recusando-se a ficar calada.

- Alguém me queria raptar e usaram-no? Só que aposto que não estavam a contar que morressem pessoas pelo caminho.

- Olha, cabra, que é que te faz pensar que te queriam a ti - perguntou ele agressivamente.

- É óbvio - respondeu ela. - Porquê largar os outros reféns e trazer-me apenas a mim?

- Talvez porque eu estivesse a pensar em foder-te! - disse ele, com um olhar lúbrico.

O homem da frente, com os longos cabelos oleosos e o nariz afilado, rodou o pescoço para ver como ela reagia àquela informação.

Ela recompensou-o com um olhar duro.

- Digo-vos uma coisa - afirmou o assaltante na traseira, com uma risada -, a puta tem uns grandes tomates.

- Bem - disse ela, inexpressivamente -, isso já é mais do que eu posso dizer de si.

Gus vivia numa grande e moderna casa em Hollywood Hills. Era parecida com a casa que Mel Gibson conseguira destruir num dos filmes, Arma Mortífera. Muito sólida, muito branca, com grandes pinturas abstractas nas paredes. A vida de L. A. obviamente agradava a Gus.

Michael sentou-se num banco alto de bar, na cozinha toda em cromados e preto e ligou a televisão. A bonita repórter loira do Channel Two continuava a falar da situação dos reféns.

- Três dos reféns levados do Mario's foram há pouco encontrados à porta de um edifício abandonado, na zona industrial da baixa. A bem conhecida personalidade da rádio e da televisão, Natalie de Barge, era um deles. Os reféns conseguiram dar à Polícia uma descrição detalhada dos três assaltantes procurados.

Cristo! ", pensou Michael. Natalie também fazia parte dos reféns. Ele pegou no telefone e ligou para o número dela. Ela não atendeu, provavelmente, ainda estava com a Polícia. Deixou o seu número no gravador de mensagens.

A repórter continuava com o seu relato.

- Ajornalista Madison Castelli continua desaparecida. Lila Hartford, a jovem que foi atirada do furgão, em andamento, na auto-estrada, foi transportada de urgência para o hospital, e está neste momento a sofrer uma intervenção cirúrgica.

Há dois mortos, uma ferida grave e uma desaparecida. Os restantes reféns estão aparentemente a salvo.

Quando Gus regressou à cozinha com a mesma história, Michael disse rapidamente:

- Isto muda as coisas. Não termino com Bone enquanto não souber onde está Madison.

- Tens a certeza de que é ele o responsável? - perguntou Gus.

- Tenho a certeza - disse Michael, sombriamente.

- Está bem, então o que queres fazer?

- Prosseguir com o plano.

- É parajá - disse Gus. - Os homens estão prontos. Quando queres arrancar?

- Agora - disse Michael. - Vamos despachar isto.

 

         Quarta feira, 11 de Julho de 2001, 1 30 h.

Mamie e Bone tinham criado um monumento ao mau gosto a que chamavam casa. A casa era um desastre neoclássico, com excesso de construção e decoração nas colinas de Bel Air. Um império da pornografia traduzido em montanhas de dinheiro. Mamie tinha finalmente chegado onde queria. A outrora cabeleireira pobre de Queens considerava-se agora a senhora da herdade e, como tal, rodeara-se de quartos cheios de mobiliário ornamentado e dourado, elaborados candelabros, espelhos barrocos em todas as paredes, pinturas de nus de homens e mulheres e uma escultura de bronze, nua e em tamanho natural, de si própria, no grande vestíbulo. Considerava a sua casa como o seu palácio. Dois seguranças, trabalhando em turnos de oito horas, guardavam as instalações, juntamente com dois ferozes dobermans.

Apesar de todas as suas riquezas, Mamie ainda queria mais. Razão pela qual ficara tão irritada quando Michael se recusou a entregar-lhe o dinheiro que Vito lhe prometera quando morresse. Não que ela se preocupasse muito com o dinheiro - era mais rica do que alguma vez sonhara -, mas como se atrevia Michael a pensar que podia ficar com ele?

Mamie não gostava de ser enganada, especialmente por um merdas como o pequeno Michael Castellino. Ah, sim, ele podia pavonear-se chamando-se a si mesmo Michael Castelli, grande homem de negócios com os seus investimentos em propriedades e centros comerciais. Mas ela sabia a verdade acerca das suas origens humildes. E sabia também como castigá-lo.

Anos antes, ele escapara por pouco de ser condenado pelo homicídio daquela pega cubana. Vejamos se ele agora se consegue desembaraçar desta confusão. Era do conhecimento geral que a mulher dele o deixara por um homem mais jovem. Portanto, quem duvidaria que um homem com um passado tão sombrio fosse o responsável pelo assassínio da sua mulher e do seu jovem amante? Nem se poria a questão quando se soubesse que ambos tinham sido alvejados com a arma dele.

E desta vez não havia Vito com os seus poderosos contactos para o ajudar.

Mamie cacarejou só de pensar.

Além disso, só para o torturar um pouco mais, ela preparara o rapto da sua filha. Ele saberia que a sua preciosa Madison se fora, quando estivesse sentado na sua cela da prisão, e não haveria nada que ele pudesse fazer quanto a isso. Mamie tinha planos para Madison. Logo que Serge, o seu guarda, a alertasse de que Madison estava nas instalações, a rapariga seria drogada e no dia seguinte seria embarcada para um bordel no Paquistão. Lá pagavam bom dinheiro por raparigas brancas.

Finalmente, vingara-se de Michael por ter matado o seu querido primo Roy. E por ser o filho daquela puta italiana que Vinny escolhera em vez dela. O assassínio de Beth não fora punição suficiente. A vingança, com todos aqueles anos de atraso, era muito doce.

Para celebrar, Mamie encomendara duas requintadas prostitutas para a noite, pagando a cada uma três mil dólares pelo prazer da sua companhia.

Era uma das vantagens de viver em L. A. todos os anos uma nova fornada de jovens e ambiciosas candidatas a actrizes chegava à cidade; daí a existência de uma classe de prostitutas com melhor aspecto.

Mamie gostava de raparigas.

Bone gostava de ver.

O deles era um casamento perfeito.

As duas prostitutas, Heather e Tawny, começaram o seu trabalho com corpos tensos e vigorosos, dentes com coroas a condizer e sorrisos estudados. As suas actividades sexuais pareciam quase coreografadas.

Bone, sentado numa cadeira, de roupão vermelho de seda, com o seu bronzeado artificial e o cabelo pintado de preto, observava cada movimento como uma serpente prestes a atacar.

Mamie deambulou em volta das raparigas, com os seus seios realçados com silicone e o seu corpo suave e bronzeado aguardando uma oportunidade para se juntar a elas. Lipo-aspiração, massagens diárias, colagénio, Botox e irrigações do cólon uma vez por mês faziam com que ela não se desfizesse em pedaços, embora continuasse a ser uma visão bastante assustadora, com a sua pele engelhada, o olhar predador e o cabelo artificialmente loiro.

Tanto Mamie como Bone tomavam Viagra, afirmando que os mantinhajovens e cheios de vitalidade, em vez de meramente entesados e nojentos.

Sem esforço, Heather ergueu as suas longas e bronzeadas pernas acima dos ombros. A sua fina faixa de pêlos púbicos combinava com a sua cabeleira loira.

Era a deixa de Mamie para mergulhar. E ela mergulhou, sugando os fluidos de uma mulher que era pelo menos cinquenta anos mais nova do que ela, enquanto Bone continuava a olhar.

O Cadillac fez uma apertada curva para sair da auto-estrada de Santa Mónica e dirigiu-se para Sunset. Os três homens dentro do carro estavam felizes. Pedrados, na realidade. Já viam o fim do seu trabalho e o pagamento nos seus bolsos.

A mente de Madison corria a grande velocidade. Tinha de descortinar alguma forma de tentar a fuga. Mas qual? Saltar do carro e arriscar-se a morrer? Lutar com eles? Ou... tentar safar-se com conversa? Sempre fora boa nisso.

- Quanto é que vão receber por isto? - perguntou.

- Para matar pessoas? - disse o assaltante num tom monótono. - Fazemos isso de graça; é bom, sabes.

- Eu duplico o que quer que vos estejam a pagar se me deixarem ir.

- Por que faríamos isso?

- Por que é que fazem qualquer outra coisa? Por dinheiro, claro.

- Quanto dinheiro?

- Diga-me você.

- Cinquenta mil.

- Está bem.

- Onde vais arranjar tanto dinheiro?

- Deixem-me ir e eu arranjo-o.

- Meerda - escarneceu ele. - Achas que sou parvo?

- Não - disse ela, rapidamente. - Na verdade, acho que é bastante esperto.

- Esquece, dona. Estamos quase a chegar.

Serge Gorban olhou para o seu relógio. Era um relógio antigo que tinha comprado em Moscovo havia muitos anos e por vezes atrasava-se.

Não se atrasava tanto. O idiota do seu sobrinho devia ter chegado há horas. Dera-lhe uma simples tarefa para cumprir e, de alguma forma, Zaroff tinha conseguido estragar tudo, tal como conseguia estragar a maior parte das coisas.

Serge percebeu que nunca devia ter dado ouvidos à sua patética irmã, que lhe suplicara para que desse a Zaroff outra oportunidade, depois do último desastre do rapaz.

Mas tinha dado ouvidos e agora onde estava o estúpido?

Nunca mandar um rapaz fazer o trabalho de um homem. "

A qualquer momento, quando as prostitutas saíssem da propriedade, Bone ou Mamie chamá-lo-iam à casa da guarda, para se assegurarem de que tudo estava tratado:

Porque tinha ele confiado no incapaz do seu sobrinho? Aquele falhado desempregado não arranjava senão problemas.

Estavam no apartamento dele, ainda na sala de estar, mas em breve se dirigiá para o quarto. Jolie estava a atirar-se a ele com toda a força e Vincent não estava com disposição para resistir.

- Gosto de ti, Vincent, sempre gostei - murmurou ela.

Os problemas dele com Jenna naquela noite eram culpa de Nando: se Nando não tivesse insistido para que Andy Dale se juntasse a eles, nada daquilo teria acontecido. Agora, por cima de tudo isso, Nando encontrava-se com Leroy Fortuno e Darren Simmons nas suas costas. Sim, Nando fora decididamente longe de mais desta vez.

- Sempre senti que deveríamos ter sido nós - pronunciou Jolie, toda pele suave e brilhantes olhos felinos cor de âmbar.

- Nando é meu irmão - disse Vincent, com a sua determinação a enfraquecer lentamente. Resistir a Jolie tornava-se mais difícil a cada minuto. Ele sempre se sentira atraído por ela. Era suave, sexy e sofisticada. Além de que era uma mulher, ao contrário de Jenna, que ainda era uma rapariga.

- Eu sei - murmurou Jolie, ternamente. - Mas por vezes os irmãos têm de seguir caminhos opostos. E talvez tenha chegado o momento...

Ele continuava hipnotizado pelos seus lábios. Uns lábios tão macios, carnudos e convidativos.

Seria um beijo uma coisa assim tão má? Afinal, Jenna fugira dele e Nando estava ocupado a fazer negócios noutro lugar.

Um beijo...

O seu telemóvel tocou.

- Não atendas - disse Jolie, com a voz como um sussurro sedoso. - Temos coisas mais importantes para fazer.

A limusina preta de Gus, com os seus vidros fumados, seguida por um grande Suburban também preto, dirigiu-se para as colinas. Michael sentia-se como se fizesse parte de um cortejo funerário. E, de certa forma, era exactamente disso que se tratava. Bem-vindos ao funeral de Mamie e Bone. "

Gus não fazia as coisas em pequena dimensão. Ele pertencia à velha escola no que tocava à forma de cumprir os objectivos. Havia bastantes homens amontoados no Suburban. Homens prontos para enfrentar qualquer coisa ou qualquer pessoa que se lhes atravessasse no caminho. Entre eles havia um especialista em cães, que trataria dos dobermans.

A única preocupação de Michael era Madison. Sabia que Vincent era capaz de cuidar de Dani e de si mesmo. Sofia estava na Europa. Portanto, era apenas com Madison que ele se inquietava.

Madison. A sua bonita e inteligente filha, que mal lhe falava e ele não a culpava. Deixara que ela vivesse uma mentira e isso não era justo.

Fez um voto solene de que no futuro iria recompensá-la. E recompensaria Dany também, a mulher que estivera do seu lado através de tudo.

Mas primeiro tinha que tratar daquelas duas larvas. Porque se não o fizesse, as coisas tornar-se-iam feias.

O Cadillac saiu de Sunset e dirigiu-se a grande velocidade para Bel Air, com a estrada a subir em curvas e contracurvas até ao topo.

Madison não sabia o que pensar. Nunca lhe teria ocorrido que fossem parar a Bel Air. Que estavam a fazer ali?

Ia ver as horas no seu relógio, quando teve consciência de que lho tinham roubado, e tentou calcular que horas seriam. Uma da manhã? Duas? Não tinha qualquer pista.

Subitamente, o carro abrandou até parar em frente a um ornamentado portão em ferro forjado.

- Que faço? - perguntou o condutor.

- Toca a puta da campainha. Diz ao Serge que estamos aqui.

Estavam agora tão pedrados que ninguém parecia reparar que os nomes voavam. Madison fazia uma anotação mental de todos eles. Anteriormente, Ace. Agora, Serge. E, finalmente, um nome para o seu assaltante, o seu assassino psicopata. Zar; diminutivo de quê? Ela descobriria.

- Zarren? - disse-lhe, como se lhe fosse fazer uma pergunta.

- Zaroff - articulou ele.

- Carrega na puta da campainha! - disse o que estava sentado ao lado do condutor, inclinando-se sobre este para o fazer por ele.

Pensou se seria o momento de tentar fugir. O carro estava parado, a música demasiado alta para permitir que pensassem claramente. Além do mais, estavam os três tão passados que provavelmente nem iam notar.

Decidiu fazê-lo. Arriscar e fugir.

Lançou um olhar rápido a Zaroff. A Uzi estava no chão do carro, entre os seus pés. A sua outra arma estava enfiada no cinto das calças.

Adeus, palhaços. Estou no ir. "

E lançou-se para a porta, abriu- a violentamente, saltou para fora e começou a correr.

 

         Quarta Feira, 11 de Julho de 2001, 1: 45 h.

Dani continuava sem conseguir dormir. Agora que tomara uma decisão tão importante para o seu futuro, estava nervosa com a possibilidade de mudar de ideias.

Só havia uma maneira de resolver esse pequeno problema. Dean estava hospedado no Mirage.

Pegou no telefone e ligou-lhe.

A campainha do portão da frente tocou. Serge olhou para o monitor de segurança na casa da guarda. Ficou aliviado por ver o velho Cadillac que emprestara a Zaroff, parado à entrada.

Finalmente", pensou, carregando no botão que activava os pesados portões. Continuou a olhar para o monitor enquanto os portões se abriam. O Cadillac manteve-se imóvel.

- Vamos embora - resmungou Serge, baixinho. - abre, seu estúpido. Depois viu o idiota do seu sobrinho saltar do carro e começar a correr. Que se passava?

Serge não sabia, mas depressa descobriria. Certificando-se de que a sua arma estava no coldre do peito, saiu para investigar.

A limusina deslizou até parar a uma curta distância dos portões de entrada para a mansão de Bel Air.

- Que se passa? - perguntou Gus, inclinando-se para a frente para questionar o seu condutor.

- Estamos a verificar o que se passa - disse o condutor. - Parece que está um carro a bloquear o portão.

- A entrar ou a sair? - perguntou Gus.

- Parado.

Michael recuou no tempo muitos anos, até à noite em Central Park em que alvejara Roy. A espera era o pior. Não saber o que ia acontecer. Esperar que tudo corresse pelo melhor. Sem nunca ter a certeza.

Depois, o momento em que acontecia. O acto de vingança executado. Pum, pum. estás morto. Era quase como fazer um jogo.

Seria capaz de o fazer de novo?

Sim. Eles tinham sido capazes de assassinar Stella e o seu namorado a sangue-frio. Mamie e Bone mereciam o derradeiro castigo.

Madison sempre se considerara uma atleta. Na escola distinguira-se nos desportos e, vivendo em Nova Iorque, ia sempre ao ginásio pelo menos duas vezes por semana.

Graças a Deus! Porque estava agora numa situação de vida ou morte e só a sua velocidade e a sua agilidade a poderiam salvar.

Era mais rápida do que os seus perseguidores e muito mais inteligente. Se os conseguisse deixar para trás, então poderia possivelmente esconder-se na densa vegetação do topo de Bel Air até que fosse seguro sair.

A casa para onde a tinham tentado levar ficava isolada. Não havia casas vizinhas, apenas colinas íngremes, matagal e árvores. Não que ela conseguisse ver grande coisa, enquanto ia tropeçando nos arbustos. Estava escuro como breu. Nem sequer havia iluminação pública porque não estavam verdadeiramente numa rua.

O seu coração batia como um martelo. Sentia-se como ele lhe fosse saltar do peito e explodir. Conseguia ouvir os seus raptores algures atrás de si, praguejando e ameaçando enquanto a perseguiam colina acima.

Um ramo bateu-lhe na cara, quase a derrubando. Entontecida, continuou a correr, abrindo caminho com as mãos através dos densos arbustos.

Parou por um momento para recuperar o fôlego, dobrou-se, ergueu-se novamente e continuou. Trepando, trepando, um pé à frente do outro. Não olhes para trás, Continua. Não podes deixar-te enfraquecer.

E, então, subitamente, ao pôr o pé direito para a frente, perdeu o equilíbrio e começou a cair, rolando pela encosta de um precipício.

- Seu atrasado mental! - exclamou Serge, esbofeteando fortemente o seu sobrinho com as costas da mão. - As tuas merdas podem custar-me o emprego.

- Não sabia que ela ia fugir - disse Zaroff, taciturnamente, já não se mostrando tão forte agora que estava nas mãos do seu tio. Serge era conhecido na família. Um homem duro e mal encarado, com uma postura maldosa, que tinha chegado á Moscovo através da Suíça alguns anos antes. Dizia-se que estivera envolvido com a Mafia russa e que fora forçado a fugir devido a um mal entendido" acerca de um dinheiro desaparecido.

Rapidamente arranjara emprego, trabalhando como chefe de segurança para o Sr. e a Sr. a Porno - um título que Zaroff lhes atribuíra quando fizera algumas reparações na casa. Zaroff odiava a forma como o seu tio lhes beijava os grandes e gordos rabos americanos. Eram um par de anormais; especialmente a detestável mulher, que tentara atirar-se a ele.

- Chegas aqui com horas de atraso - repreendeu-o Serge - e sem rapariga. E trazes aqueles falhados contigo. Que diabo se passa contigo?

- Tive alguns problemas - resmungou Zaroff. - Precisei de ajuda.

- Precisaste de ajuda para trazer uma rapariga do aeroporto? - questionou Serge.

- Não consegui tratar do assunto lá - continuou Zaroff. - Tive de a seguir até um restaurante. Houve complicações...

- És uma merda - cuspiu Serge, desgostosamente. - Merda de cão. Nãodisse ele, mudando de ideias -, a merda de cão é melhor do que tu. És merda de porco, é isso que tu és. Agora pega na minha lanterna e nos idiotas dos teus amigos e vai encontrar a rapariga.

- Eu não alinho em sadomasoquismo - disse Tawny, toda dentes e mamas perfeitas.

- Eu também não - intrometeu-se Heather. Era relativamente nova no ramo e seguia tudo o que Tawny fazia e dizia.

- Pôr máscaras de borracha não é sadomasoquismo, suas vacas estúpidas! disse Bone, bruscamente. - Ponham as putas das máscaras e parem de se armar em putas.

- Eu estou no ir - disse Tawny, saindo da cama.

- Eu também - concordou Heather.

Mamie estava na casa de banho, caso contrário a discussão não teria acontecido. Gostava tanto de máscaras de borracha como ele, mas sabia que tinha de se contratar raparigas especiais para essas actividades e nessa noite pedira raparigas bonitas. As bonitas não eram baratas. E raramente aceitavam fazer alguma coisa fora do normal.

A fúria de Bone intensificou-se. Aqueles dois pedaços de escória estavam verdadeiramente a dizer-lhe não?

Levantou-se, fazendo o seu roupão vermelho de seda abrir-se e revelar um sexo diminuto.

Heather cometeu o imperdoável erro de se rir abafadamente. Bone moveu-se mais rapidamente do que um homem com metade da sua idade e deu- lhe uma pancada com tanta força que ela caiu como um tronco, batendo com a cabeça na mesinha-de-cabeceira.

Tawny começou a gritar. Mamie saiu a correr da casa de banho, vestida com um fato de homem e exibindo uma chibata.

- Que é que tu fizeste? - gritou para Bone.

- Putas - resmungou ele.

- Jesus - exclamou Mamie, voltando-se para Tawny que continuava a gritar.

- Cala a boca!

Tawny calou-se e começou a vestir- se febrilmente, enquanto Heather permanecia imóvel no chão.

Mamie avaliou a situação. Tinha tudo para custar dinheiro e, se havia uma coisa que Mamie detestava, era gastar dinheiro desnecessariamente.

- Vou chamar Serge - disse ela, ligando para a casa da guarda. - Ele trata disto.

Serge pôs-se ao volante do Cadillac e retirou-o para a berma da estrada, resmungando consigo mesmo o tempo todo. Enquanto o fazia, viu aproximar-se uma limusina preta.

Serge aproximou-se dela.

- Sim? - disse ao condutor, pensando que a limusina trazia provavelmente mais prostitutas. As duas pessoas para quem trabalhava eram insaciáveis. Festins de sexo duravam por vezes toda a noite.

- Convidados para a casa - disse o condutor.

Serge sentia o reconfortante chumaço da sua arma, convenientemente enfiada no coldre de ombro. Desejou ter a segurança do portão entre si e aquela limusina desconhecida, mas infelizmente fora apanhado desprevenido.

- Quem desejam ver? - perguntou.

Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, o Suburban rolou até parar por trás da limusina e dele saltaram dois homens com armas automáticas.

Serge não teve hipótese de sacar a sua arma. Foi forçado a deitar-se no chão e subjugado, enquanto a limusina subia o caminho de acesso à casa, logo seguida pelo Suburban.

Enquanto o carro se aproximava da casa, surgiram dois enormes dobermans a correr e a rosnar ferozmente. O especialista de cães saltou do Suburban agitando grandes e suculentos bifes crus bem à frente do nariz dos animais.

Logo que o problema com os cães ficou resolvido, vários outros homens entraram em acção, isolando os aposentos dos criados e certificando-se de que não havia mais ninguém por perto.

Logo que tudo ficou seguro, o condutor abriu a porta a Gus e Michael e eles saíram da limusina à porta da casa.

- Hora do espectáculo - disse Gus, calmamente. - Espero que te lembres da música. Já se passaram uns tempos, não é?

Michael acenou com a cabeça.

- Algumas coisas nunca se esquecem. - E entraram os dois na casa.

- Onde raios está Serge? - gritou Mamie. - Quando lhe ligo, é bom que ele atenda de imediato ou despeço-o!

- Provavelmente, está a mijar - resmungou Bone.

- Deus - disse Mamie.

Tawny estava agora vestida e sentada numa cadeira.

- Gostava de me ir embora - disse.

- Não duvido, querida - respondeu Mamie -, agora que lixaste a nossa noite.

- Que é que eu fiz? - perguntou Tawny.

- Vocês são prostitutas - recordou-lhe Mamie. - Não percebes que as prostitutas devem fazer tudo o que os clientes lhes pedem? E se o meu marido quer alguma coisa, não deves discutir. Isto é tudo culpa vossa.

- Não é nada - disse Tawny, pensando que era melhor não discutir mais. Aquele casal era obviamente louco. Não via a hora de falar com a sua patroa e queixar-se deles.

O preocupante era que Heather ainda não se tinha mexido. Continuava estendida no chão.

- Não acham que devíamos chamar um médico? - sugeriu Tawny.

- Ah, sim, e anunciar isto ao mundo - disse Mamie, sarcasticamente.

- Não podemos deixá-la ali caída.

- Por que é que achas que estou a tentar chamar o meu guarda? - disse Mamie.

- Ele leva-a ao hospital. Não tens que te preocupar com ela.

- Mas eu estou preocupada com ela.

- Não estejas, querida- disse Mamie, fitando-a com um sorriso cruel. -É do teu maior interesse que não te lembres de nada do que se passou esta noite. Compreendes?

- Tens a certeza? - disse Dean, com o telefone bem encostado ao ouvido.

- Certeza absoluta - respondeu Dani, determinada a ir com aquilo por diante.

- Que é que te fez mudar de ideias?

- Estive a pensar em como tu sempre me disseste que seríamos muito felizes juntos. E, Dean - acrescentou ela, ternamente -, percebi finalmente que tu és a única pessoa que se preocupa verdadeiramente comigo.

- Tu mereces - disse ele.

- Não esperemos mais - disse ela, rapidamente.

- Por mim tudo bem. Podemos fazê-lo esta noite, se quiseres. - Olhou para o relógio. - É de madrugada. Não é nada invulgar um casamento às três da manhã em Las Vegas. Posso apanhar-te daqui a meia hora.

- Esta noite é um pouco cedo de mais - disse ela, rindo-se nervosamente. Que tal amanhã ao meio-dia?

- Vais dizer a toda a gente?

- Talvez a Vincent.

- Dani, Michael esteve contigo esta noite?

- Por que me perguntas isso?

- Porque quando jantámos esta noite, não tinhas nenhum desses pensamentos na cabeça, portanto, algo deve ter acontecido.

- Sim - admitiu ela. - Ele esteve aqui e algo aconteceu. Estivemos algum tempo juntos e depois de ele sair eu percebi que és tu o homem com quem quero passar o resto da minha vida.

- Nunca te vais arrepender - disse Dean.

- Eu sei - sussurrou ela.

 

         Quarta feira, 11 de Julho de 2001, 2: 00 h.

Zaroff estava furioso. Durante toda a noite fora ele o homem no comando, o que demonstrara ter tomates. Agora o seu gordo tio vinha dizer-lhe o que devia fazer. Não perceberia ele que Zaroff era homem?

Invadira a merda do restaurante com a ajuda da Uzi do seu tio e mostrara quem mandava. Serge devia estar orgulhoso dele em vez de lhe chamar nomes.

Serge é que era merda de porco. Serge era um cabrão de um camponês russo. Serge não fazia ideia de como era excitante ter controlo total e matar pessoas.

Nessa noite todos tinham tido medo dele. Podia tê-los obrigado a fazer o que lhe apetecesse. Podia ter agarrado qualquer daquelas reféns para a foder até a rebentar. Agora estava naquela casa elegante das colinas e o seu tio estava a tratá-lo como se fosse lixo, como de costume.

Mafia russa o caraças! pensou Zaroff. Dava cabo dele na boa. " Os seus dois comparsas estavam ocupados a percorrer a encosta em busca da rapariga. Os seus amigos faziam sempre o que ele mandava. Desde que ele, uma noite, fizera parar um carro e matara o condutor só pelo gozo, que eles o temiam. Ele era homem. Sem dúvidas. Todos tinham medo dele. E ele gostava disso.

Agora, o seu gordo tio estava a desrespeitá-lo. O mesmo tio que corria de rabo entre as pernas para a sua mãe. E ela era uma cabra danada - acertava-lhe o passo a valer.

Um pensamento entrou na sua cabeça. Que aconteceria se, quando encontrassem a rapariga, ele ficasse com ela, a escondesse nalgum sítio e exigisse um resgate?

A cabra falara de cinquenta mil dólares. Cinquenta mil dólares! Se acabasse com Serge, ninguém iria saber que fora ele a fazê-lo. Zaroff começou a rir-se. Era tão inteligente. Acabara de idealizar o plano perfeito.

- Acreditas no raio desta casa? - disse Gus, enquanto ele e Michael subiam a ornamentada escada.

Michael abanou a cabeça. Tinha as palmas das mãos suadas e sentia o ar a faltar-lhe. Aquilo não era o tipo de coisa que ele ainda soubesse fazer. Ainda que sendo maus como eles eram, seria ele verdadeiramente capaz de pegar na sua arma e matar Mamie e Bone?

Gus dissera-lhe que, se ele quisesse, podia mandar outros fazê-lo. Conseguiria ele ficar ali a ver?

Seria ele o mesmo Michael Castellino que matara Roy no parque, havia muitos anos? Ou seria agora uma pessoa diferente?

Não sabia. Rapidamente iria descobrir.

Vincent e Jolie dirigiram-se ao quarto. Não havia hipótese de Jenna os surpreender. Estava encurralada no Mirage. Também não havia hipótese de Nando os encontrar, estava com os seus dois novos parceiros de negócios.

- Sempre me senti assim por ti - disse Jolie, pondo os braços em volta dele e beijando-o na boca com os seus suaves e provocantes lábios.

- Não devíamos estar a fazer isto.

- Pára com isso, Vincent - repreendeu-o ela, ternamente. - Já ultrapassámos ambos o ponto de dizer não. Isto tem andado a crescer entre nós desde há anos.

Ela tinha razão. Ele estava duro e ela estava pronta.

Então, por que estava ele a desenvolver subitamente um peso na consciência?

Merda de porco. Sim, era isso que o seu tio lhe tinha chamado. Ia mostrar-lhe quem era merda de porco.

Quantos homens tinha matado o tio Serge? Um? Dois? Nenhum? Que se fodesse! Estava na hora de Zaroff assumir o controlo da família Gorban.

Disse aos seus dois comparsas para continuarem a procurar a rapariga.

- Quando a encontrarem, amarrem- na e metam-na na mala do carro - disse ele. - Vamos levá-la.

- Para onde? - perguntou o condutor.

- Levamo-la para o armazém. Aquele onde vive Ace.

- E onde vais tu? - perguntaram.

- Vou receber o raio do dinheiro que Serge me deve. Depois vamos embora. Vão encontrar a rapariga - disse ele, metendo a mão ao bolso e tirando um pequeno frasco de vidro com coca. Ainda tinha alguma. Sacudiu o pó branco para as costas da mão e inalou-o. Jesus, já tinha metido muitas drogas naquela noite.

E depois? Ele aguentava. Aguentava com qualquer coisa e com qualquer pessoa! Correu em direcção à casa. Os grandes portões continuavam abertos, o Cadillac estava estacionado perto.

Sabia onde ficava a casa dos guardas devido às reparações que fizera na mansão, ajudando o tio Serge como um bom rapazinho, ganhando dez dólares por hora quando tinha sorte.

A casa dos guardas estava vazia. Ninguém por perto.

Enquanto subia o caminho de acesso à casa, um homem saiu do meio dos arbustos.

- Pare - disse o homem.

Zaroff levantou a Uzi e pulverizou-o.

Cristo! A sensação de poder que lhe percorria o corpo dava-lhe um enorme pedal. Ou seriam as drogas?

Continuou a andar. Havia dois cães deitados em frente à casa. Pareciam estar a dormir porque não se moviam. Sorte deles, porque também os teria alvejado.

A porta da frente estava aberta. Passou por ela e entrou para o vestíbulo.

Michael e Gus, seguidos por três dos homens de Gus, entraram no quarto principal. O espectáculo que os esperava não era bonito.

De pé, lá parado, no seu roupão vermelho de seda e com o sexo de fora, estava Bone. Mamie estava no lado oposto do quarto; uma visão deplorável, vestida com um fato de homem e com uma chibata na mão. Uma jovem loira estava sentada numa cadeira, completamente vestida, enquanto outra, completamente nua, jazia estendida no chão.

- Bonito - disse Michael.

O rosto de Mamie demonstrou puro choque.

- Como é que entraste na minha casa? - gritou. - Que fazes aqui, seu assassino? Tawny encolheu-se na sua cadeira.

- Vingança - disse Michael. - Não foi isso que o teu marido me ensinou? Não foi isso que tu sempre quiseste, Mamie? Vingança?

- É melhor que saias já daqui ou chamo a Polícia - ameaçou ela.

- As linhas estão cortadas. Mas vai em frente.

- Seu sacana imprestável de merda! - gritou ela, de rosto contorcido pela raiva. - És mesmo como o fedorento do teu pai, Vinny. Odeio-te.

Zaroff irrompeu pelo quarto, com a morte no seu olhar enlouquecido. Estava pedrado com coca, erva e Ecstasy. Sentia-se cheio de poder, seguro de que podia conquistar o mundo.

Que tipo de jogo estava ali a decorrer com o Sr. e a Sr. a Porno? Mal reparou em Michael e Gus, porque focou a sua atenção na rapariga nua que jazia no chão. E apesar da névoa mental induzida pelas drogas, sentiu-se ficar entesado. Não dava uma queca haviajá vinte e quatro horas e Zaroffprecisava de sexo. Precisava mais de sexo do que de comida e das sacanices da sua mãe e do seu tio a dizerem-lhe o que podia e não podia fazer.

Ele era O Homem. Podia fazer tudo o que quisesse.

Michael deu um passo atrás. O rapaz, que não podia ter mais de dezassete ou dezoito anos tinha uma Uzi e vestígios de pó branco por baixo do nariz. Não era uma combinação saudável. Ele era o elemento-surpresa com o qual ninguém tinha contado. Havia sempre um elemento-surpresa.

Mamie parou de gritar a Michael, voltando a sua atenção para o rapaz.

- Quem diabo... - começou ela a dizer.

- Filhos da puta - berrou Zaroff, erguendo a Uzi. - Filhos da puta ricos! E começou a pulverizar o quarto.

Depois disso, tudo pareceu acontecer em movimento lento, como uma espécie de complicada dança cuidadosamente coreografada. Zaroff a pulverizar o quarto. Dois dos homens de Gus a entrarem e a derrubarem-no. A Uzi a voar das suas mãos. Demasiado tarde para Mamie e Bone. Ambos tinham sido atingidos. Mamie na cara e no coração. Bone no estômago.

Era um fim apropriado para ambos. Michael virou costas e afastou- se.

Estava tudo terminado e ele nem tivera que fazer nada.

 

Zaroff foi detido por múltiplo homicídio, incluindo as mortes de Mamie e Bone. O seu tio Serge foi também detido por posse ilegal de arma - a Uzi. E por cumplicidade com um menor na execução de um rapto.

Zaroff não se conseguia lembrar de nada.

O advogado de Michael em Nova Iorque forneceu à Polícia provas suficientes para demonstrar que Michael não tivera nada a ver com o homicídio de Stella e do seu namorado. Uma das provas mais pertinentes era a gravação do telefonema de Mamie para Michael, no qual ela se vangloriava da forma como lhe armara uma cilada. Regra número um nos negócios: gravar sempre os telefonemas importantes. E Michael fazia-o.

Vincent, com a tentação diante dos seus olhos, resistira aos consideráveis encantos de Jolie e decidira dar a Jenna uma última hipótese.

Jenna, uma rapariga mais sensata, depois das suas experiências com Andy Dale, amadureceu da noite para o dia e transformou-se na nora que Dani sempre desejara.

Vincent decidiu que era melhor engravidá-la quanto antes, nem que fosse só para a manter afastada de sarilhos.

Sofia fez uma sessão fotográfica para Gianni em Roma. E depois, tal como prometido, ele comprou-lhe um bilhete para regressar à América.

Dois dias depois telefonou-lhe para a informar de que a máquina fotográfica a adorava e de que ela ia ser a nova modelo principal dos Gianni Jeans.

Sofia gostou bastante da ideia. Era, sem dúvida, melhor do que andar a vadiar pela Europa.

Jolie convenceu Nando a desistir do negócio dos clubes de strip. Isso foi depois de Nando se ver envolvido numa rusga motivada pela droga no Manray, juntamente com Darren Simmons e Leroy Fortuno. Depois de isso acontecer, esquecer toda essa ideia foi uma tarefa fácil.