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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Acidente / Danielle Stel
Acidente / Danielle Stel

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Acidente

 

          

 

A tarde de sábado estava deliciosa, a suave brisa acariciava a pele com o leve toque da seda, e a temperatura desse mês de Abril era de tal forma amena que apetecia ficar para sempre ao ar livre. O dia tinha sido longo e soalheiro, e Page, ao conduzir a sua espaçosa carrinha pela Ponte Golden Gate às cinco da tarde, em direcção a Marin, maravilhava-se com a formidável vista sobre a água.

Olhou então para o filho sentado a seu lado, uma pequena réplica loura de si própria, diferenciando-se apenas pelo cabelo despenteado, amassado no sítio onde antes havia pousado o boné de basebol, e pela cara suja de terra. Andrew Patterson Clarke tinha completado sete anos na terça-feira anterior, e vendo-o ali sentado a recuperar da emoção do jogo, era fácil sentir a força da ligação existente entre mãe e lho. Page Clarke era uma boa mãe, uma boa esposa e pertencia àquele tipo de pessoas que todos desejariam ter como amigas. Agia sempre com amor e carinho, empenhava-se no que quer que levasse a cabo, estava sempre disponível para as pessoas de quem realmente gostava, possuía um sentido artístico que provocava a admiração de todos os seus amigos e era despretensiosamente bonita e divertida.

— Jogaste muito bem esta tarde — observou ela com um sorriso, afastando por breves instantes uma mão do volante para revolver ainda mais o cabelo do filho. Andy tinha o cabelo forte e louro como o da mãe, os mesmos olhos vivos e azuis, e a mesma pele leitosa, embora no seu caso estivesse coberta de sardas. — Foi incrível como conseguiste apanhar aquela bola fora de campo. A mim pareceu-me quase um home-run1. — Ela ia praticamente a todos os jogos do filho, às representações na escola, e às excursões com os colegas e amigos. Fazia-o por duas razões: porque gostava de o fazer e porque o seu amor pelo filho era muito grande. Quando Andy olhava para a mãe, era evidente que tinha plena consciência desse amor.

— Eu também acho que foi um homer — Ele sorriu, mostrando as gengivas no lugar onde be recentemente haviam existido dentes. — Tive quase a certeza que o Benjie conseguia chegar à base... — E no fim da ponte acrescentou com uma gargalhada maliciosa: — Mas não conseguiu!

Page riu juntamente com o filho. Fora uma tarde bem passada. Teve pena de que Brad não tivesse podido estar presente, mas aos sábados à tarde ele costumava jogar golfe com os colegas, aproveitando a ocasião para descontrair e pôr a conversa em dia. Há já muito tempo que ele não passava uma tarde de sábado com ela, e quando isso de facto acontecia, era porque tinham algum sítio onde ir ou alguma coisa para fazer: ou por causa das provas de natação em que Allyson participava, sempre num local desconhecido e de difícil acesso, ou então porque o cão tinha ferido a pata, o telhado da casa gotejava, um cano rebentara ou qualquer outra emergência de menor importância precisava de ser resolvida. Um sábado de lazer era algo que já não sucedia há muitos anos, facto esse a que Page já se habituara. Ela e Brad aproveitavam todas as ocasiões que podiam para estar juntos, quer fosse enquanto os filhos dormiam, nos intervalos das viagens de negócio ou nos poucos fins-de-semana que passavam fora. Com as vidas ocupadas que tinham, arranjar tempo para os dois era uma tarefa complicada que, apesar de tudo, eles conseguiam levar a cabo. Depois de um casamento de dezasseis anos e do nascimento de dois filhos, Page era ainda louca por ele. Tinha tudo aquilo que sempre desejara: um marido que adorava e que a amava, uma vida confortável e dois filhos encantadores. A sua casa, em Ross, não era muito sofisticada, mas não deixava por isso de ser bonita e acolhedora. Estava situada numa zona bastante agradável e, com o seu constante desvelo e habilidade Page melhorara consideravelmente o aspecto inicial da casa. Os anos que passara como estudante de Belas-Artes e desenhadora de cenários em Nova Iorque não lhe haviam sido de muito uso, mas nos últimos anos Page tinha vindo a utilizar o seu talento para pintar lindos murais, tanto para ela como para os amigos. Um exemplo desse seu talento estava numa das paredes da escola             | primária de Ross, onde Page elaborara uma pintura soberba. A ela se devia a transformação da sua casa num local verdadeiramente aprazível, pois os seus murais e as suas pinturas,combinados com a sensibilidade artística que possuía, fizeram de uma típica pequena casa americana um verdadeiro     exemplo da ideia de lar, que todos admiravam e invejavam. O mérito pertencia exclusivamente a Page, o que se tornava evidente a quem quer que visitasse a sua casa.

No quarto de Andy, Page pintara uma cena de um jogo de basebol, plena de movimento, e oferecera-a ao filho como presente de Natal no ano anterior, para alegria daquele. No ano em que Allyson se maravilhava por tudo o que fosse de origem francesa, a mãe pintou-lhe no quarto uma rua de Paris; depois, substituiu essa pintura por uma fila de bailarinas, inspirada em Degas, e mais recentemente ainda, com o seu toque mágico, conseguira dar ao quarto da filha a aparência de uma verdadeira piscina; pintara até a mobília do quarto com tinta de água, para condizer. Como recompensa, Allyson e os amigos referiam-se ao aspecto do quarto como sendo «espectacular», já que Page era «impecável... superfixe... o máximo», termos estes que, vindos de um grupo de jovens de quinze anos, equivalem ao maior dos elogios.

Allyson frequentava o terceiro ano do liceu. Ao contemplar a lha e os seus amigos Page sentia sempre pena por não possuir uma família mais numerosa. Essa tinha sempre sido a sua vontade, mas Brad insistira em ter apenas «um ou dois filhos», dando ênfase especial ao número um. Com o nascimento de Allyson, o pai apaixonara-se pela «sua menina», e não conseguia entender o desejo que Page manifestava de ter outros filhos. Haviam sido necessários sete anos para o convencer a ter outro filho, o que ocorreu quando o casal mudou de cidade e veio viver para a casa de Ross. Foi nessa altura que Andy nasceu. O «bebé milagre», como a mãe lhe chamava, tinha nascido prematuro, dois meses e meio antes de tempo, depois de Page ter caído de um escadote enquanto pintava um mural na parede do seu quarto. Levaram-na de imediato para o hospital com uma perna partida e já em trabalho de parto. O bebé ficara numa incubadora durante dois meses, mas no fim desse prazo era já totalmente perfeito.


Quando se lembrava desse período Page esboçava sempre um sorriso, recordando o tamanho mínimo do bebé e o medo que tiveram de o perder. Não era fácil imaginar como teria resistido a uma perda dessas, embora soubesse que, de alguma forma, o teria conseguido... por Allyson e por Brad. Mas a sua vida nunca teria sido a mesma sem aquele filho.

— Gostavas de ir comer um gelado? — perguntou ela a Andy, ao virar no desvio de Sir Francis Drake.

— Gostava muito! —• Andy presenteou-a com outro dos seus sorrisos desdentados, o que fez com que ambos se rissem com vontade.

— Quando é que pensas voltar a ter alguns dentes, Andrew Clarke? Talvez seja melhor comprarmos-te uma dentadura...

— Na... — Ele mostrou as gengivas de novo, e recomeçaram os dois a rir.

Gostava de estar sozinha com ele, já que depois dos jogos de basebol era costume trazerem o carro cheio de miúdos. Habitualmente, era Page quem os ia levar a casa, mas nesse dia uma outra mãe ficara com essa incumbência. Mesmo assim, ela não desistira de acompanhar o seu filho, pois já o havia prometido anteriormente. Allyson tinha passado a tarde na companhia de amigos, Brad estava a jogar golfe e Page continuava empenhada em todos os seus projectos: planeava uma outra pintura para a escola e prometera a uns amigos dar-lhes algumas ideias sobre a nova decoração da sala deles; mas nada que não pudesse esperar.

Andy decidiu-se por duas enormes bolas de gelado com pedaços de chocolate e Page preferiu uma só com sabor a café e com poucas calorias, para que não se sentisse culpada de nenhum excesso. Sentaram-se na esplanada para comer os gelados, o que não impediu Andy de sujar a cara e pingar o fato de treino com gelado. Page tranquilizou-o, argumentando que não tinha importância, já que aquela roupa teria que ser toda lavada. Gozando a temperatura tépida do fim de tarde, observaram as pessoas que passavam, até Page sugerir que seria uma boa ideia fazer um piquenique no domingo.

— Isso era muita bom. — A sua expressão de contentamento fez com que Page sentisse o coração a transbordar de amor pelo filho, vendo o enorme gelado cobrir-lhe a ponta do nariz e escorrer até ao queixo.

— Tu és um rapazinho muito giro, sabias? Eu sei que não te devia dizer estas coisas, mas acho que és um espanto, Andrew Clarke! Além de seres um grande jogador de basebol... O que é que eu fiz para merecer um filho assim?

Ele sorriu de novo, desta vez mostrando ainda mais as gengivas. O gelado ia ganhando terreno, deixando marcas até no nariz de Page, quando ela o tentou beijar.

— És muito querido.

— Tu também és... — Antes de lhe fazer uma pergunta, ele desapareceu novamente atrás do gelado: — Mãe...?

— Sim...? — O gelado dela estava quase no fim, mas quanto ao de Andy dir-se-ia que ia continuar a derreter, verter e gotejar ainda por muito mais tempo. Os gelados aumentam misteriosamente nas mãos das crianças...

— Achas que ainda vamos ter outro bebé? Page foi tomada de surpresa, pois não era bem aquele o tipo de perguntas que os rapazes costumavam fazer. AUyson já lhe colocara essa mesma pergunta várias vezes antes, mas agora, com trinta e nove anos, não lhe parecia uma hipótese muito provável. Não que se sentisse com muita idade para ter outro filho, pois de facto não a tinha, levando em conta a idade com que actualmente as mulheres decidiam engravidar, mas ela sabia que nunca conseguiria voltar a convencer o marido. Brad costumava dizer que isso já não era para ele.

— Não me parece, lhote. Mas porque é que perguntaste isso? — Ela não conseguia perceber se o lho estava realmente preocupado ou apenas curioso.

— Na semana passada, a mãe do Tommy Silverberg teve gémeos e eu vi-os quando lá fui a casa. São giros... e são iguazinhos! — explicou ele, bastante impressionado. — Pesam mais de três quilos cada, muito mais do que eu pesava!

— Lá isso pesam... — Ele nascera com pouco mais de um quilo, devido ao parto prematuro. — Os irmãos do Tommy devem ser muito bonitos, mas não me parece que venhamos a ter gémeos na nossa família... ou mesmo um só bebé... — Por estranho que fosse, sentiu tristeza ao afirmá-lo. Sempre concordara com o marido, talvez por lealdade para com ele, que dois filhos lhes bastavam, mas mesmo assim havia momentos em que, sem nenhuma razão especial, dava por si imaginando-se com outro bebé no colo. — E se falasses ao teu pai nisso? — brincou ela.

— Sobre os gémeos? — perguntou ele, sem perceber.

— Sobre termos outro bebé.

— Ia ser divertido... acho eu... mas dão muito trabalho. Na casa do Tommy estava tudo uma balbúrdia, as coisas dos bebés estavam espalhadas pela casa toda... os berços, as fraldas, os brinquedos... e havia dois de cada... a avó dele estava lá a ajudar, mas deixou queimar o jantar. O pai dele gritou que se fartou!

— Não acho que isso seja assim muito divertido. — Page sorriu, imaginando a cena de caos total numa casa que já antes de acolher dois gémeos recém-nascidos não primava pela organização e na qual já existiam duas crianças. — Mas no princípio é assim, até se apanhar o jeito.

— Quando eu nasci também ficou tudo assim numa balbúrdia? — Com esta pergunta, ele acabou finalmente de comer o gelado, limpando a boca à manga da camisola e as mãos às calças de basebol, perante o sorriso da mãe.

— Não, agora a balbúrdia é muito maior, meu menino. O melhor é irmos andando para casa e tratarmos de mudar essa roupa...!

Entraram na carrinha e percorreram o caminho até casa conversando sobre outros temas, embora as perguntas de Andy sobre um outro filho continuassem na sua lembrança. Por alguns breves instantes, chegou mesmo a sentir uma velha e familiar sensação de angústia por algo muito desejado que nunca chegaria a acontecer. Atribuiu de imediato essa sensação ao dia quente e soalheiro que havia feito e à Primavera, mas logo voltou a sentir um enorme desejo de ter mais filhos, de fazer românticas viagens a dois, de poder passar mais tempo com Brad... aquelas tardes de sábado passadas na cama, longas e preguiçosas, sem nenhum sítio onde ir e nada para fazer, a não ser fazer amor com ele. Por muito que gostasse da sua vida actual, havia alturas em que ela desejava muito poder voltar atrás no tempo. No momento presente, a sua vida estava de tal forma ocupada com o círculo de amigos, com a ajuda que dava nos trabalhos de casa dos filhos e com as associações de pais, que ela e o marido só se encontravam ocasionalmente, quase sempre no fim de um dia exaustivo. O que, apesar de tudo, não impedia que existisse ainda amor e desejo... só não existia tempo para os cultivar. Era só isso que eles nunca conseguiam ter em quantidade suficiente: tempo.

Não tardaram a chegar a casa, e enquanto Andy reunia as suas coisas Page viu que o carro de Brad estava já estacionado à porta. Olhou o filho com orgulho maternal, e, debaixo do calor tépido do fim de tarde, com o coração repleto de todo o amor que sentia por ele, disse-lhe:

— Gostei muito desta tarde. — Chegava ao fim um daqueles dias especiais em que nos apercebemos com maior clareza da sorte com que fomos contemplados, e nos sentimos especialmente gratos por cada instante de felicidade.

— Eu também. Obrigado por teres ido comigo, mamã. — Ele sabia que ela não precisava de o ter feito, mas gostava que a mãe o acompanhasse; era muito boa para ele, e ele tinha consciência disso. Mas como era um bom menino, merecia-o.

— Sempre às ordens Mister Clarke. Agora vai depressa contar ao teu pai como apanhaste aquela bola! Vais ficar famoso na história do basebol...! — Ele riu e apressou-se a correr para casa, enquanto Page levantava a bicicleta de Allyson, que estava tombada no jardim. Os patins da filha encontravam-se encostados à porta da garagem e a sua raqueta de ténis tinha ficado abandonada em cima duma cadeira ao pé da porta da cozinha, em conjunto com uma caixa de bolas de ténis que ela tinha pedido «emprestadas» ao pai. Eram os indícios necessários para concluir que Allyson tivera um dia atarefado. Assim que Page entrou em casa, viu a filha de costas para a porta conversando ao telefone da cozinha, vestida ainda com a roupa com que estivera a jogar ténis e tendo o cabelo preso numa longa trança loura. Depois de combinar os últimos pormenores de alguma saída para breve, desligou o telefone e voltou-se para a mãe. A beleza de Allyson era suficiente para, por vezes, ainda conseguir surpreender a própria Page, já que ela tinha a aparência de uma mulher adulta extremamente atraente. Apesar do seu corpo de mulher, possuía uma mentalidade de adolescente, sempre em movimento, sempre em acção, com algum projecto sempre por concluir. Nunca deixava de ter alguma coisa para dizer, para acrescentar ou para perguntar, algum sítio onde ir, ou algum encontro marcado, quer fosse nesse exacto instante, ou há duas horas atrás... Era essa expressão de impaciência que a mãe detectava agora no seu rosto. Page observou a filha. Allyson era muito mais intensa que Andy, assemelhava-se a Brad, sempre em actividade, arquitectando um projecto antes mesmo de concluir um anterior, delineando sempre o que tinha de efectuar em seguida, onde tinha de ir e o que era importante para ela. O seu carácter era muito mais vivo e obstinado do que o de Page, mas não tão dócil e gentil como o de Andy viria a ser um dia. No entanto, Allyson era inteligente e sadia, cheia de boas ideias e boas intenções, embora por vezes, como todos os adolescentes, perdesse o bom senso. Nessas alturas, ela e a mãe envolviam-se numa discussão sobre algum engano típico da sua idade, mas, ao fim de algum tempo, Allyson acalmava e, regra geral, acabava por dar razão aos pais.

Com apenas quinze anos, nenhuma dessas suas atitudes era de estranhar, pois aquela era a idade própria para uma rapariga começar a testar os seus limites, a formar as suas opiniões e a questionar-se sobre que tipo de pessoa viria a ser; não queria ser a réplica da mãe ou do pai, e sim ela própria. Apesar das suas parecenças com os pais, Allyson era dotada de um carácter totalmente distinto; desejava formar a sua própria individualidade, ao contrário do irmão, cujo único desejo era vir a ser como o pai, mas que afinal era muito mais parecido com a mãe. Aos olhos de Allyson, o irmão continuava ainda a ser um bebé. O nascimento de Andy proporcionara a Ailie, na altura apenas com oito anos, contacto com a criatura mais linda e mais pequena que ela conhecera até então. Tal como os pais, ela temera que o irmão não resistisse, e quando finalmente ele pôde vir para casa, não havia ninguém mais feliz e orgulhoso do que Allyson. Percorrera toda a casa com ele nos seus braços, e com o correr do tempo, sempre que Page não encontrava o lho, já sabia que o ia encontrar no quarto de Allyson, aninhado na sua cama, como se fosse um dos seus bonecos. Durante anos, Allyson não escondera a paixão pelo irmão, e mesmo agora não deixava de lhe fazer secretamente todas as vontades, comprando-lhe doces e cromos de basebol e até, às vezes, dispondo-se a ir aos jogos dele, apesar de detestar basebol. Na maioria das vezes, Allyson nem se importava de admitir que adorava o irmão.

— Como é que te saíste hoje, baixote? — Ela gostava de provocar Andy por ele ter nascido tão pequeno, mas agora o irmão já estava bastante alto para a idade, mais alto até do que a maioria dos seus colegas de turma.

— Bem — respondeu ele, modestamente.

— O teu irmão foi a estrela do jogo! — esclareceu Page. Andy corou e foi em busca do pai, enquanto Page lançava um tímido «Boa tarde» em direcção ao quarto de casal, pois queria adiantar o jantar antes de ir ao encontro do marido. — O teu dia correu bem? — perguntou ela à filha, enquanto abria a porta do frigorífico. Não haviam feito quaisquer planos para sair à noite e o dia tinha estado tão quente que ela pensou em servir o jantar no jardim, ou em pedir ao marido para fazer um churrasco. — Com quem é que estiveste a jogar ténis?

— Com a Chioe e alguns outros amigos que estavam hoje no clube; uns eram de Branson e outros da Academia de Marin. Primeiro jogámos a pares e depois joguei só eu e a Chioe. A seguir fomos nadar — respondeu ela num tom de desinteresse. Vivia uma vida sem problemas, tipicamente californiana, o que para ela já não era nenhuma surpresa, visto ser natural daquela região. Tanto para Brad, que era de um estado central do Oeste, como para Page, natural de Nova Iorque, o clima e as facilidades ainda eram encarados como dois privilégios maravilhosos, ao passo que para os seus filhos estes eram apenas factores naturais que faziam já parte do seu modo de vida. Por vezes Page invejava os despreocupados inícios de vida dos filhos, mas sentia-se simultaneamente feliz por eles, pois era esse o tipo de vida que gostava de lhes proporcionar: fácil, segura, saudável, confortável, protegida de tudo aquilo que os pudesse entristecer ou endurecer. Fizera tudo o que estava ao seu alcance para lhes garantir isso e era com imenso prazer que os via crescer e desenvolverem-se nesse ambiente.

— Deve ter sido divertido. Planeaste alguma coisa para hoje à noite? — Se ela respondesse que não, ou dissesse que Chioe viria passar o serão com ela, talvez pudesse ir com o marido ao cinema, ficando Allyson com o irmão. De qualquer forma, se tivessem de car em casa, isso não teria a mínima importância. Era sempre uma boa perspectiva, com uma noite tão quente, poder passar algumas horas a conversar com o marido no jardim. — O que é que pensaste fazer? — acrescentou.

Antes de responder, Allyson voltou-se para a mãe com uma expressão ansiosa, que deixava adivinhar o seguinte pensamento: «Se não me deixares fazer o que eu tenho planeado, vais arruinar a minha vida.» Porém, disse-o de uma outra forma:

— O pai da Chioe ofereceu-se para nos levar a jantar fora e ao cinema.

— Está bem, queria apenas saber. — A expressão de Allyson relaxou de imediato, o que fez com que Page sorrisse, pensando que, por vezes, os filhos eram muito previsíveis. Crescer ainda continuava a ser um processo doloroso, pois mesmo inseridos numa família normal e feliz ainda viviam cada momento e cada plano com uma grande dose de angústia. De facto, não era nada fácil!

— Que filme é que vão ver? — perguntou ela, enquanto descongelava carne no microndas. Tinha acabado por se decidir por uma refeição bastante simples.

— Ainda não sei. Mas há três lmes que eu gostava de ver... e ainda não vi o Woodstock, que está a passar no Festival. Só sei que o pai da Chioe nos vai levar a jantar ao Luigi's.

— Que bom! É muito simpático da parte dele. — Page foi buscar um pacote de batatas fritas e, ao começar a fazer a salada, olhou uma vez mais para a filha. Empoleirada num dos bancos do balcão da cozinha, a sua beleza parecia a de uma top-moel; tinha os olhos castanhos e amendoados do pai, o cabelo louro da mãe e uma cor de pele que ao mínimo raio de sol se tornava dourada. As suas pernas eram longas e bem torneadas e a sua cintura estreita. Não admirava que as pessoas na rua parassem para a admirar, especialmente as do sexo masculino. Page costumava comentar com Brad que era pena que não lhe pudessem colocar na testa um letreiro com a idade. Até mesmo homens na casa dos trinta paravam para a contemplar, já que era fácil toma-la por uma rapariga de dezoito ou vinte anos. — Mister Thorensen é muito simpático em passar com vocês a noite de sábado.

— Ele não tem mais nada que fazer... — retorquiu Allyson, de acordo com os seus quinze anos, fazendo rir a mãe. Era espantoso como os adolescentes conseguiam trazer os adultos de volta à realidade, referindo com tanta clareza os fracassos e infortúnios alheios.

— Como é que sabes? — A mulher dele deixara-o no ano anterior e logo após o divórcio aceitara um emprego proposto por um agente de espectáculos em Inglaterra. Oferecera-se para levar consigo os três filhos do casal e inscrevê-los em colégios internos, pois apesar de ser de naturalidade americana, era da opino que o sistema educativo inglês era bastante superior; todavia, Trygve Thorensen não tinha a menor intenção de abdicar dos seus filhos e recusara-se a deixá-los ir. Lamentavelmente, depois de vinte anos passados num subúrbio, a sua mulher sentia-se demasiado cansada de ser motorista, empregada e educadora dos filhos, e por isso decidiu abandonar tudo: Trygve, os filhos e toda a sua vida em Ross, a qual ela detestava. Para Dana Thorensen chegara a sua vez. Tinha, anteriormente, tentado avisar o marido, mas este nunca a ouvira; Trygve desejava tão intensamente que o seu casamento resultasse que se recusava a reconhecer a revolta e a frustração da mulher. Todos tinham ficado bastante abalados com a partida de Dana, incluindo a própria Page, que não conseguira deixar de ficar chocada por ela ter abandonado os filhos. No entanto, já há muito tempo que se sabia que aquela era uma carga demasiado pesada para uma pessoa como Dana; além disso, toda a população de Ross se espantava com a forma exemplar como Trygve lidava com os seus filhos, não havendo nada que não fizesse por eles. Era analista político em regime de free-lance, o que significava que não tinha de sair de casa para trabalhar. Para Trygve, essa era a situação ideal, pois ao contrário da mulher, nunca dava ostras de estar cansado das suas obrigações e responsabilidades paternas. Aceitava-as de born grado, corn o bom humor e a afabilidade que o caracterizavam. Por vezes admitia que não era uma tarefa fácil, mas acrescentava de imediato que estava tudo a correr bem e que os filhos aparentavam um contentamento que não tinham há anos. Só quando os filhos estavam na escola, ou depois de estes já terem ido dormir, é que ele se dedicava ao trabalho, o que contribuía para a sua acentuada popularidade dentro do círculo de amigos dos filhos. Daí que não constituísse nenhuma surpresa para Page o facto de ele se dispor a levar um grupo de miúdos ao cinema e a jantar no Luigi's.

Os dois filhos de Trygvejá tinham idade para frequentar a universidade e Chioe tinha a mesma idade de Allyson, tendo completado quinze anos no último Natal. A filha de Trygve era tão bonita quanto a de Page, apesar de possuírem tipos físicos completamente diferentes: Chioe era baixa, tinha o cabelo escuro da mãe, a pele clara, e os olhos nórdicos do pai, grandes e azuis. Os pais de Trygve eram ambos noruegueses e este tinha vivido na Noruega até completar doze anos. Actualmente, era tão americano quanto a Estátua da Liberdade, embora os amigos, por brincadeira, lhe chamassem «viquingue».

Era, sem dúvida, um homem atraente, e depois do seu divórcio não tinham sido poucas as mulheres divorciadas de Ross a ter esperança num possível envolvimento com Trygve. No entanto, essa esperança depressa esmoreceu, já que ele ocupava todo o seu tempo com os filhos e com o trabalho. Page suspeitava que, da parte de Trygve, não se tratava de uma questão de falta de tempo, mas sim de uma ausência de interesse e de motivação.

A intensa paixão que dedicara à mulher tinha sido visível aos olhos de todos, tal como as frequentes ligações amorosas que Dana, no seu desespero, mantivera nos dois anos anteriores à sua partida. Esta última tornara-se uma revoltada, para quem o casamento e a monogamia eram exigências demasiado pesadas. Trygve fizera tudo o que estivera ao seu alcance, pedindo conselhos e tentando mesmo duas separações a título experimental; mas o que ele queria era muito mais do que Dana lhe podia oferecer: ele queria uma mulher de verdade ao seu lado, meia dúzia de filhos e uma vida sem complicações, que, se possível, incluísse umas férias ao ar livre, a acampar. Ela queria Nova Iorque, Paris, Hollywood ou Londres...

Dana Thorensen era exactamente o oposto de Trygve. Tinham-se conhecido em Hollywood, numa idade que ainda nem se podia considerar adulta. Nessa altura, ele começara a escrever guiões, com o curso liceal recentemente concluído, e ela era uma actriz principiante. O seu gosto por aquilo que fazia era tanto, que quando ele lhe pediu para ir viver para São Francisco, ela reagiu com verdadeiro horror. Todavia, amava-o o suficiente para não deixar de o acompanhar, e, já em São Francisco, tentou fazer algumas substituições e actuou ainda em pequenas companhias teatrais de repertório xo. Mas em nenhuma dessas experiências iniciais foi bem sucedida, e sentia cada vez mais a falta dos amigos, da agitação de Los Angeles e de Hollywood, e até de trabalhar como actriz substituta. Ao engravidar inesperadamente, Trygve surpreendeu-a com um pedido de casamento, o qual, depois de consumado, veio a piorar ainda mais a situação. E foi assim que ela se viu a desempenhar na vida real um papel que nunca tinha desejado para si. Quando Bjom, o seu segundo filho, nasceu com sintomas de mongolismo, o fardo tornou-se ainda mais pesado, e Dana começou a culpar o marido pela sua situação. A única certeza que tinha era não querer ser mãe de novo, mas nem sequer sabia se de facto desejava estar casada. Assim, quando Chioe nasceu, a vida de Dana precipitou-se para o descalabro. Daí por diante, e aos seus próprios olhos, a vida tornou-se um autêntico pesadelo. Trygve tentava fazer tudo aquilo que podia, já que os seus artigos publicados no New York Time, em várias revistas e em jornais estrangeiros rendiam bem, pelo menos o suficiente para lhes proporcionar a todos uma vida confortável. Mas aquilo que Dana realmente desejava era sair daquele local, conquistar a sua liberdade. Durante mais de metade dos anos em que foram casados, ela nem sequer conseguira manter um relacionamento civilizado com o marido. Só desejava ser livre. E tudo o que Trygve queria era que o casamento fosse feliz. Aquilo que mais irritava Dana era o marido corresponder à imagem do pai ideal. O sonho impossível estava casado com a mulher errada.

Trygve era paciente, simpático e estava sempre disposto a incluir os amigos dos filhos nos seus planos. Levava grupos de crianças para acampar, ensinava-as a pescar e era o principal impulsionador das Olimpíadas Especiais, nas quais Bjorn era sempre campeão. O excelente desempenho deste último surpreendia e encantava toda a gente, menos Dana, que não conseguia relacionar-se com nenhum dos filhos, mesmo quando tentava. Bjorn era para ela o máximo da vergonha e do desapontamento. Como resultado Dana era uma mulher de quem ninguém realmente gostava, uma revoltada contra um destino que, afinal, nem era assim tão mau: possuía três filhos encantadores, incluindo Bjorn, cujo carácter era especialmente carinhoso, e um marido que muitas mulheres invejavam. No entanto, as suas frequentes aventuras não foram surpresa para ninguém. De facto Dana nem sequer se preocupara em mante-las secretas, nem mesmo perante Trygve, pois o que na verdade lhe interessava era que ele se aborrecesse.

Quando Dana finalmente abandonou o marido, foi um alívio para todos, menos para o próprio, que desde há vários anos se vinha a enganar, tentando confiar numa aparência ilusória. As suas inúmeras desculpas só conseguiam enganá-lo a ele próprio: «Ela vai acabar por se habituar... foi muito difícil para Dana abdicar da sua carreira... abandonar Hollywood não foi fácil para uma mulher como ela... o casamento é mais duro para ela do que para a maioria das pessoas, devido à sua sensibilidade artística... e, é claro, a doença de Bjorn foi um choque terrível para Dana.» Durante vinte anos, ele elaborara todas as desculpas possíveis e imaginárias para o comportamento da mulher, e quase não pôde acreditar na sua partida. Contudo, e para sua própria surpresa, foi como o fim de uma dor ininterrupta; mais surpreendido cou ainda ao reconhecer que não tinha a mínima vontade de tentar iniciar outro relacionamento, envolvendo o mesmo risco de fracasso. Só nessa altura se apercebeu de quão horrível tinha sido o seu casamento, e era por isso que não conseguia pensar em casar novamente ou até mesmo em manter um relacionamento de carácter mais sério. Nos primeiros tempos, nem sequer admitia a hipótese de sair com alguma outra mulher, já que todas aquelas que conhecia lhe pareciam autênticas caçadoras, ávidas de uma nova presa; e ele não tinha a menor intenção de se transformar na sua próxima vítima, pois de momento sentia-se muito feliz a viver sozinho com os filhos.

— Desde que a mãe da Chioe se foi embora, há já mais de um ano, que ele não teve nenhuma namorada. Passa o dia todo com os filhos, e à noite trabalha. A Chioe diz que ele está a escrever um livro... Mas ele gosta mesmo de sair connosco, mãe; pelo menos, é o que diz.

— Sorte a vossa. Pode ser é que um destes dias ele procure um outro tipo de companhia... uma amiga um bocadinho mais madura... — Page sorriu e Allyson encolheu os ombros. Não conseguia imaginar Trygve a escolher outra companhia, já que, durante toda a sua vida o tinha conhecido sempre disponível para os lhos e para os amigos dos filhos. Nunca lhe ocorreu que esse comportamento se devia não apenas ao gosto sincero que Trygve sentia em estar coiïi eles mas também a uma espécie de fuga ao vazio de um casamento falhado.

— Além disso, ele gosta de acompanhar o Bjorn... agora anda a ensiná-lo a guiar.

— É um bom homem — concluiu Page, acabando de lavar as folhas de alface e colocando-as numa saladeira enquanto Allyson ia comendo batatas fritas. — A propósito, como é que está o Bjorn? — Há já muito tempo que não o via. Apesar de não ser dos casos mais afectados pelo mongolismo, tinha ainda bastantes limitações.

— Está óptimo. Todos os sábados joga basebol e agora anda doido por bowling. — Era espantoso. Como é que alguém aprenderia a lidar com uma situação dessas? De certa forma, ela conseguia compreender que Dana Thorensen tivesse fraquejado, embora não entendesse o seu comportamento posterior. Apesar de não serem amigos íntimos, ela conhecia Trygve Thorensen há muitos anos e simpatizava de todo o coração com ele, julgando-o merecedor de uma vida bem menos complicada e infeliz; na verdade, ninguém merecia uma vida com tantos problemas, e por aquilo que ela podia ver, ele era de facto um excelente pai.

— Vais dormir em casa da Chloe? — perguntou Page à filha, enquanto enxugava as mãos, depois de ter acabado de colocar todas as folhas de alface na saladeira. Desde que chegara a casa ainda não tinha ido cumprimentar o marido, e, além disso, queria também ver o que é que Andy estaria a fazer.

— Não — respondeu Allyson abanando a cabeça e trocando o pacote de batatas fritas, que deixou em cima do balcão, por uma maçã. O seu corpo era alto, de linhas esbeltas, e ela atirou a trança loura para trás dos ombros. — Depois do cinema eles vêm pôr-me a casa. A Chloe vai participar numa prova de corrida e saltos amanhã de manhã cedo.

—A um domingo...? — comentou Page com alguma admiração, enquanto saíam da cozinha.

— Sim... não tenho bem a certeza... acho que é um treino, ou alguma coisa do género.

— A que horas é que sais?

— Fiquei de ir ter com a Chloe por volta das sete. — Houve uma grande pausa até que os enormes olhos castanhos fitaram os da sua mãe. Por um breve instante, Page detectou neles algo que não conseguiu decifrar: algum segredo, um pensamento mais íntimo que Allyson não quis partilhar com a mãe. — Podes emprestar-me a tua camisola preta, me?

—A de caxemira com pérolas...? — Tinha sido o presente de Natal do marido e era demasiado quente, demasiado sofisticada e demasiado cara para uma jovem de quinze anos. Quando Allyson respondeu afirmativamente Page não achou a mínima graça ao pedido despropositado da filha.

— Não me parece; não é muito apropriada para sítios como o Luigi's e o Festival, não achas?

—Sim... tens razão... então e a camisola cor-de-rosa?

— Essa é bastante mais apropriada.

— Emprestas-me essa, então?

— Empresto. — Page suspirou, e abanou a cabeça, esboçando um sorriso triste enquanto ia em busca do marido e Allyson seguia para o seu quarto. Havia alturas em que Page sentia que entre ela e Brad existiam várias barreiras e obstáculos. Era como se ambos fossem obrigados a participar numa maratona diária para depois terem direito a alguns momentos de privacidade; as exigências eram sempre as mesmas:

«Leva-me a tal sítio, deixa-me não sei onde, vai buscar-me a tal parte, vem ajudar-me, posso fazer isto, onde está o meu casaco, como é que se faz isto, vem ver aquilo...» Nesse instante, ao virar no fim do corredor Page viu-o dentro do quarto e constatou, mais uma vez, que era difícil não o achar extremamente atraente. Brad Clarke era o exemplo típico do ideal de beleza masculina: alto, moreno e interessante; media mais de um metro e oitenta, tinha o cabelo escuro e bastante curto, uns grandes olhos castanhos e ombros largos; os seus lábios eram finos, as pernas longas, e o sorriso dele ainda fazia com que as pernas de Page fraquejassem. Estava debruçado sobre uma mala de viagem aberta em cima da cama, mas ao vê-la entrar no quarto endireitou-se de imediato, dedicando-lhe um longo sorriso.

— Então, que tal correu o jogo? — indagou ele, com um sorriso triste. Devido às suas constantes ocupações, já há bastante tempo que deixara de assistir aos jogos do filho. Por vezes, com a sua agenda superlotada e com os horários dos filhos Brad tinha a impressão de que nem sequer viviam debaixo do mesmo tecto.

— Correu muito bem. O teu filho portou-se como um verdadeiro campeão — respondeu ela com um sorriso, colocando-se nas pontas dos pés para o poder beijar.

— Foi o que ele me contou — confirmou ele, enquanto deslizava suavemente a sua mão para a cintura da mulher, de forma a puxá-la para junto de si. — Senti a tua falta — acrescentou.

— Eu também... — Por alguns instantes, Page deixou-se ficar encostada contra o peito dele; depois, atravessou o quarto e deixou-se cair numa poltrona, enquanto ele voltava a fazer a mala. Era já um hábito de fím-de-semana, apesar de suceder geralmente nas tardes de domingo; era sempre nesse dia à noite que Brad partia nas suas inúmeras viagens de negócios. Apesar disso, quando tinha mais algum tempo disponível, antecipava essa tarefa para a véspera, de forma a que no dia seguinte pudessem dispor de mais algum tempo juntos. — E que tal se fizéssemos um churrasco para o jantar? Acabei de descongelar a carne e como está uma tarde tão bonita... Somos só nós os dois e o Andy, porque a Allyson vai jantar fora com a Chioe.

— Era uma boa ideia, mas... — Brad aproximava-se da mulher com uma expressão de desalento no rosto — no consegui arranjar lugar no voo de amanhã à noite para Cleveland, por isso vou ter de apanhar o avião de hoje à noite... e tenho que sair jor volta das sete. — O desapontamento com que Page recebeu esta notícia tornava-se evidente aos olhos do marido. Tinha passado toda a tarde antecipando um serão a dois, talvez até no jardim ao luar... — Querida, lamento muito.

— Sim... eu também... — respondeu ela, esboçando um ténue sorriso e acrescentando em seguida, acentuando ainda mais a sua decepção: — Andei o dia todo a pensar em ti. — Ele sentou-se no braço da poltrona sem proferir uma palavra. Page sabia que devia estar já mais habituada às viagens do marido e desejava conseguir encará-las de outra forma, mas, independentemente da sua vontade, acabava sempre por sofrer com a ausência dele. — Passar o domingo em Cleveland não deve ser uma perspectiva muito aliciante para ti — prosseguiu ela, tentando confortá-lo. A agenda onde Brad trabalhava exigia muito dele, o que até certo ponto era natural, pois ele funcionava como o seu grande trunfo, capaz de atrair multidões. Até já se contavam histórias a seu respeito, pela habilidade natural com que aliciava novos clientes e pela ainda mais rara facilidade com que os conseguia manter.

— Como vou ter mesmo que ficar em Cleveland, lembrei-me de telefonar ao presidente da empresa com quem vou falar, e combinámos uma partida de golfe para amanhã de manhã. Assim pelo menos já não será uma perda total de tempo — afirmou ele, beijando os lábios da mulher, gesto suficiente para que esta voltasse a sentir aquela familiar sensação de desejo a percorrer-lhe todo o corpo. — Mas é claro que preferia poder ficar aqui contigo e com os miúdos — concluiu ele num tom mais grave, enquanto a envolvia nos seus braços.

—Esquece os miúdos... — pediu ela com a voz levemente enrouquecida. Ele soltou uma gargalhada bem-disposta.

— Essa ideia agrada-me bastante! Vamos guardá-la para terça-feira à noite... depois do jantar já conto estar de volta.

— Então eu encarrego-me de te lembrar... — murmurou ela antes de um novo beijo, altura exacta em que Andy decidiu entrar de rompante no quarto dos pais.

— A Ailie deixou um pacote de batatas fritas aberto e agora a Lizzie está a comê-las! Ela vai vomitar o chão todo! — Lizzie era a cadela da família, uma labrador de pêlo dourado, dona de um apetite devorador e de um estômago proporcionalmente delicado. — Anda depressa, mãe! Se a deixares comer mais batatas, ela vai ficar doente!

—Está bem, vou já... — acedeu ela, sorrindo pesarosamente para o marido, que se apressou a colocar a mão no ombro dela, numa tentativa de a animar. Page seguiu o lho até à cozinha, onde Lizzie devorava alegremente os restos das batatas fritas espalhadas pelo chão. — És uma selvagem, Lizzie — exclamou Page num tom cansado, enquanto começava a limpar o chão, desejando que Brad não tivesse que viajar para Cleveland; logo nessa noite, que ela tanto desejara estar com ele! Era como se a vida de ambos pertencesse a toda a gente, menos a eles. Foi então que se lembrou de fazer uma pergunta a Andrew, enquanto Lizzie se esforçava por lamber as últimas migalhas: — Queres ir jantar fora com a tua mãe? O pai vai para Cleveland e, se quiseres, nós dois podemos ir comer uma piza a algum lado. — É claro que também podiam comer uma piza em casa, ou jantar os bifes que ela havia descongelado antes, mas Page não sentia a mínima vontade de car em casa sem a presença do marido. Além disso, era mais divertido programar uma saída a sós com Andy. — O que é que dizes?

— Vamos, vamos! — No seu contentamento, Andy deixou a cozinha na companhia de Lizie, e Page aproveitou para guardar a salada e os bifes no frigorífico. Só depois voltou para junto do marido, dando-se conta de que eram já seis e meia. Entretanto, Brad tinha acabado de fazer a mala e estava quase pronto para sair; escolhera um blazer azul-escuro assertoado, umas calças de cor creme e uma camisa azul, cujo colarinho não tinha abotoado. A sua aparência era de tal forma jovem e atraente que, ao vê-lo Page sentiu-se subitamente cansada e envelhecida. Afinal, ele estava sempre em actividade, criava o seu próprio estilo de vida, conquistava novos clientes, realizava óptimos negócios e passava o seu tempo na companhia de adultos, enquanto ela ficava em casa a engomar as camisas dele e a vigiar as crianças. Enquanto passava um pouco de água pelo rosto e penteava o cabelo, Page tentou traduzir o seu desânimo em palavras, mas Brad limitou-se a rir das suas queixas.

— Claro, tens toda a razão... é óbvio que tu não fazes rigorosamente nada... só tomas conta de tudo aqui em casa! Tratas dos miúdos melhor do que ninguém e no teu «muito» tempo livre ainda pintas murais para a escola e para os teus amigos, ajudas os meus clientes a fazerem uma nova decoração nos escritórios, encarregas-te da decoração das casas dos nossos amigos e depois, de vez em quando, ainda pintas umas gravuras. Realmente, nunca tens nada que fazer, Page! — Brad estava apenas a brincar com ela, mas tudo o que o marido dissera correspondia à verdade e Page tinha consciência disso. Só que às vezes todas essas tarefas de que ela se ocupava lhe pareciam tão insignicantes que chegava a admitir que, de facto, «não fazia nada». Talvez essa sensação fosse ocasionada pelo facto de o seu trabalho de pintura e decoração não ser remunerado, pois, na maioria dos casos, ela costumava oferecê-lo aos amigos ou utilizava-o para retribuir um favor a alguém dos seus conhecimentos. O seu trabalho só tinha sido remunerado nos anos em que efectuara o estágio na Broadway, logo após ter concluído o curso de Belas-Artes. Esse período da sua vida parecia-lhe já muito distante, apesar de lhe trazer apenas óptimas recordações: todo o seu tempo era ocupado a pintar e a desenhar cenários, o que fazia com a máxima dedicação, e uma vez tinham-na até consultado acerca do vestuário para uma produção qffBroadway1. Agora, o máximo que fazia era vestir os filhos para a Noite das Bruxas... pelo menos, era isso que sentia.

Este termo refere-se a todas as produções cénicas realizadas fora do espaço da Broadway. (N. da T.)

— Acredita — continuou Brad, pousando a mala no corredor e abraçando-a novamente — que preferia fazer o que tu fazes a passar o sábado à noite dentro de um avião a viajar para Cleveland.

— Eu sei. — Graças ao marido, a sua vida era muito mais facilitada do que a dele e Page sabia-o bem. Brad trabalhara muito para os poder sustentar e tinha sido bem sucedido; os pais dela sempre haviam tido o suficiente para viverem desafogadamente, mas os dele pouco tinham conseguido até à data da sua morte. Como tal, tudo quanto Brad havia obtido devia-se apenas ao seu próprio mérito. O seu sucesso fora alcançado passo a passo, à custa de muito trabalho e empenho, o que tornava possível que no futuro viesse a gerir a agência onde actualmente trabalhava, ou uma outra qualquer. Apesar da muita dedicação que a sua posição lhe exigia, esta conferira-lhe um estatuto privilegiado, já que a agência mobilizava todos os esforços para lhe agradar. Nessa noite, por exemplo, viajaria em primeira classe e caria hospedado no Tower City Plaza, em Cleveland, para evitar que houvesse qualquer possibilidade de se cansar do trabalho excessivo ou de encontrar uma oferta melhor.

—Na terça-feira já estarei de volta... Telefono-te mais tarde — finalizou ele, encaminhando-se para os quartos dos filhos. Despediu-se de Allyson que, graças à camisola de lá rosa da mãe e a um leve toque de pintura, adquirira um aspecto bastante mais adulto. A camisola, de decote redondo e mangas curtas, fazia conjunto com uma mini-saia branca e o cabelo caía-lhe solto pêlos ombros, alcançando a cintura numa leve ondulação e formando uma espécie de auréola à volta do seu rosto. — Uau! Quem é o feliz contemplado com tamanha elegância? — Era de facto impossível não se reparar numa beleza tão marcante.

— O pai da Chloe — esclareceu ela sorrindo.

— Espero que ele não seja daquele tipo de homens que conquistam rapariguinhas, senão vou ter que vigiar essas saídas!... Tu estás um espanto, princesa!

— Oh, pai..; — Ela revirou os olhos com visível embaraço, apesar de gostar bastante que o pai a achasse bonita. E o pai era pródigo em elogios, quer fossem dedicados a ele, à mãe ou ao irmão. — Ele já é velho!

— Muito obrigado, filha! Parece-me que Trygve Thorensen é ainda dois anos mais novo do que eu. — Brad tinha quarenta e quatro anos, apesar de aparentar muito menos idade.

— Oh, tu sabes o que eu quero dizer...

— Pois... infelizmente sei... Bem, princesa, vê se és uma boa companhia para a tua mãe durante esta semana. Eu volto na terça-feira à noite.

— Até terça, pai. Diverte-te.

— Sim, sim... vou divertir-me imenso em Cleveland! Além disso, como é que eu me poderia divertir sem vocês?

— Vais-te já embora, papá? — perguntou Andy, surgindo inesperadamente debaixo do braço do pai e aproximando-se muito dele. Andy adorava estar perto do pai.

— Vou. E tu vais ficar encarregue de tomar conta da tua mãe e da tua irmã. Na terça-feira à noite contas-me se as senhoras obedeceram às tuas ordens, está bem, filho? — Andy respondeu com um largo sorriso desdentado; adorava que o pai lhe deixasse as rédeas da casa, sentia-se mais crescido e importante.

— Vou levar a mãe a jantar fora — anunciou ele com voz grave. — Vamos comer uma piza.

— Vê lá se não a deixas comer de mais... senão, pode ficar mal-disposta — murmurou Brad ao seu pequeno ajudante, em tom de grande conspiração. — Como a Lizie quando come de mais...

— leec...!! — A careta de Andy fez com que todos se rissem. Em seguida, Andy acompanhou os pais até à porta, Brad retirou o carro da garagem e guardou a mala no porta-bagagens. Por fim, abraçou Page e Andy.

— Vou sentir a vossa falta. Portem-se bem sem mim — pediu ele, ao entrar no carro.

— Fica descansado — respondeu Page com um sorriso. Já devia estar mais habituada às ausências do marido, mas todas lhe pareciam tão penosas como a primeira. Era mais fácil quando ele viajava ao domingo à noite; assim, sentia-se traída pelo carácter inesperado da partida dele. Tanto desejara poder estar mais tempo com ele que acabara por não poder passar nenhum. Além disso, por muito frequentes que fossem as viagens dele, era impossível não se preocupar com os possíveis perigos que as mesmas implicavam. E se algum dia lhe acontecesse alguma coisa? E se...? Page sentia que nunca sobreviveria a tal facto. — Tem cuidado contigo... — murmurou ela, inclinando-se sobre a janela do carro para o beijar. Lembrou-se de que se devia ter oferecido para o levar ao aeroporto, mas sabia que o marido gostava de ter o carro dele à espera quando chegava, além de que seria bastante difícil ir buscá-lo numa terça-feira à noite. Era mais simples assim. — Amo-te — disse-lhe Page em forma de despedida.

— Eu também te amo — respondeu ele com suavidade, acenando ao filho. Depois, mãe e filho afastaram-se e Brad arrancou quando faltavam exactamente cinco minutos para as sete horas da tarde.

Page e Andy voltaram então para casa de mãos dadas. Ela não conseguia evitar sentir-se de novo só, embora soubesse que tal sentimento era absolutamente disparatado; era uma mulher adulta, que de forma alguma precisava de ser tão dependente do marido. E afinal Brad estaria de volta              ' dentro de três dias... a julgar pela forma como ela se sentia, parecia que ele se iria demorar um mês inteiro!

Entretanto, Allyson já estava pronta para sair. Pintara as pestanas com uma leve passagem de rímel, e os seus lábios exibiam um brilho cor-de-rosa quase imperceptível. Estava realmente encantadora, um exemplo claro da beleza fresca e saudável da juventude. Tinha a mesma idade dos modelos publicitários que apareciam nas capas da Vogue e, nalguns aspectos, Page considerava a beleza de Allyson ainda mais cativante.

— Espero que te divirtas, fílhota. Não te esqueças que tens de estar em casa às onze. — Essa era a norma vigente, a qual Page fazia questão de não quebrar.

— Oh, mãe...

— Não se fala mais nisso. Sabes que tens muito tempo para te divertires. — Allyson tinha completado os seus quinze anos muito recentemente, razão pela qual Page não via necessidade de alargar a hora de chegada a casa.

— Então e se o filme acabar mais tarde?

— Nesse caso, tens mais meia hora. Se acabar mais tarde do que as onze e meia, o melhor é desistires do cinema.

— Muito obrigada...!

— Não tens de quê. Queres uma boleia até à casa da Chioe?

— Não é preciso, obrigada, eu vou a pé. Até logo! — Allyson saiu, e Page foi até ao seu quarto buscar um casaco e a mala de mão. Foi nesse exacto instante que o telefone tocou; era a sua mãe, de Nova Iorque. Page explicou-lhe que ia sair para jantar fora com Andy e prometeu ligar-lhe no dia seguinte. Quando Page e Andy entraram na carrinha, Allyson já havia tido tempo suficiente para chegar a casa da amiga.

— Então, meu menino, onde é que vamos? Ao Domino's ou ao Shakey's?

— Ao Domino's. Da última vez fomos ao Shakey's.

— Aí está uma boa solução! — exclamou Page, enquanto ligava o rádio do carro. Andy procurou a estação de rock and roll que sabia que a irmã gostava. Era devido à sua influência que ele possuía um gosto musical um tanto ou quanto precoce para uma criança de sete anos.

Quando chegaram ao restaurante, cinco minutos depois, o estado de espírito de Page já havia melhorado bastante; os seus momentos de melancolia tinham desaparecido e ela e o filho acabaram por passar uma hora muito agradável; aliás, o tempo que passavam juntos era sempre agradável. Ele falou-lhe dos seus amigos e das suas actividades escolares e contou-lhe que já tinha decidido que queria ser professor quando fosse crescido. Quando a mãe lhe perguntou porquê, explicou-lhe que gostava de tomar conta dos mais pequeninos e que também gostava de poder ter umas férias de Verão mais compridas.

— Ou então vou ser um campeão de basebol e jogar nos Giants ou nos Mets!

Page sorriu, pensando que Andy era sempre uma companhia divertida e agradável.

— Isso também seria engraçado.

—Mãe...?

—Sim?

— Tu és uma artista?

— Mais ou menos. Costumava ser, mas agora já não levo isso muito a sério; aliás, já há muito tempo que não levo.

Ele mostrou-se pensativo e depois observou:

— Gosto muito daquela pintura que fizeste na escola.

— Ainda bem. Também é das minhas preferidas. Sabes uma coisa? Gostei tanto de a pintar que estou até a pensar em fazer outra. — Ele ficou contente com a notícia. Quando acabaram de comer a piza, foi Andy quem pagou o jantar, deixando na mesa a gorjeta que a mãe aconselhou. Depois, pôs o seu pequenino braço à volta da cintura de Page e dirigiu-se para a carrinha.

Dez minutos depois já estavam em casa; Andy tomou banho, vestiu o pijama e foi deitar-se na cama da mãe, onde os dois ficaram a ver televisão. Era um hábito ocasional, que Page gostava de manter sempre que se proporcionava. Enquanto aconchegava o filho entre os lençóis e lhe dava o habitual beijo de boas-noites, pensava que, apesar do seu tamanho, ainda era o seu menino e sempre o seria. De uma outra forma, Allyson também era ainda a sua menina; provavelmente, todos os filhos o são, não importa que idade tenham. Sorriu             ! ao rever mentalmente a imagem da filha antes de sair para o

jantar com o pai de Chioe, tão favorecida pela cor rosa da              :

sua camisola.

Em seguida, pensou também no marido e resolveu ir verificar se alguém havia deixado alguma mensagem no atendedor de chamadas telefónicas. De facto, ele tinha telefonado do aeroporto só para dizer que a amava, embora calculasse que não estivesse ninguém em casa a essa hora.

Page sentia-se cansada e apetecia-lhe ir dormir, mas como queria esperar por Allyson, resolveu assistir a um lme na televisão. Ainda não conseguia dormir descansada sem ter a certeza absoluta de que a filha já tinha chegado a casa.

Às onze horas ouviu o noticiário. Nada de extraordinário se havia passado, e Page vericou com alívio que não haviam noticiado nenhum desastre aéreo. Sempre que Brad viajava, ela não conseguia deixar de se sentir apreensiva; felizmente, tudo tinha corrido bem. Havia notícia das habituais contendas em Oakland, das guerrilhas entre os gangs, dos insultos que os políticos dedicavam uns aos outros e de um problema sem muita importância numa estação de tratamento de águas. Além disso, noticiaram também que tinham procedido ao encerramento da Ponte Golden Gate, devido a u acidente que ocorrera alguns minutos antes. Mas, quanto a isso, Page não tinha que se preocupar, já que Brad estava a bordo do avião para Cleveland e Allyson ficara em Marin com o pai de Chioe. E quanto a Andy, esse dormia na sua cama, o que significava que, graças a Deus, todos os seus entes queridos estavam a salvo. Sentiu-se imensamente grata por isso. Depois, olhou para o relógio e constatou que passavam já vinte minutos das onze horas. Conhecendo bem a filha, Page esperava que ela chegasse exactamente às onze e vinte e nove, com os olhos brilhantes, o cabelo esvoaçando e a animação habitual com que regressava das suas saídas... e, provavelmente, com uma grande nódoa de molho de tomate na camisola de caxemira cor-de-rosa! Essa possibilidade fez com que Page esboçasse um sorriso, enquanto se aconchegava entre os lençóis para ouvir o boletim meteorológico.

Allyson percorreu a rua a passos largos, pois já estava cinco minutos atrasada para o seu encontro com Chioe. A sua casa cava a três quarteirões da casa da amiga, mas desta vez ela nem teria que andar tanto, já que Allyson e Chioe tinham combinado encontrar-se na esquina da Shady Lane com a Lagunitas, a meio caminho entre as duas casas.

Chioe já estava de facto à sua espera quando Allyson chegou ao local combinado, corn a respiração alterada pela caminhada apressada e com as faces um pouco coradas, devido ao calor que a camisola de lã lhe provocava.

— Uau! Fica-te mesmo bem! — exclamou Chioe entusiasmada. — É da tua mãe? — Ela já não possuía o vasto guarda-roupa da mãe e, por isso, vira-se obrigada a pedir emprestada a uma colega do liceu a camisola que trazia vestida. Para melhor precisar, a camisola pertencia à irmã mais velha da colega de Chioe, que a tinha feito jurar que no domingo de manhã sem falta a dita peça de roupa regressaria ao armário da irmã. Era uma camisola de malha preta com gola tipo pólo, a qual ela usava em conjunto com uma mini-saia de cabedal da mesma cor, que também lhe tinha sido emprestada por uma outra amiga. Apenas os collants que Chioe usava pertenciam à mãe, que quando viajara para Inglaterra os tinha deixado esquecidos no fundo de uma gaveta.

— Estás óptima — assegurou Allyson à amiga, visivelmente impressionada com o seu aspecto sofisticado. De súbito, começou a recear que, junto de Chioe, ela parecesse uma personagem de filmes infantis. A camisola e a saia pretas realçavam o intenso brilho do cabelo preto da amiga, o qual formava um bonito contraste com a sua pele branca e macia. Mas, fosse como fosse, ela não tinha que se preocupar, pois eram ambas muitíssimo bonitas, apesar de serem muito diferentes. Chioe, que nessa noite tirara especial partido da sua beleza, não parava de saltitar ao lado de Allyson, como se fosse uma bailarina nervosa. Frequentara aulas de ballet durante onze anos, facto esse que influenciava cada um dos seus movimentos. Esperava até ser transferida no Outono para a Escola de Bailado de São Francisco, a qual havia aceitado a sua candidatura após uma série de extenuantes provas. Allyson fítava-a com algum desconforto, enquanto Chioe, consultando o relógio de minuto a minuto, não parava de olhar para o início da rua com visível inquietação.

— Pára com isso! Estás a deixar-me ainda mais nervosa! Se calhar, não devíamos ter combinado nada!... — exclamou Allyson com voz de choro, subitamente arrependida.

— Como é que podes dizer uma coisa dessas? — perguntou Chioe em pânico. — Eles são os dois rapazes mais giros do liceu! E, ainda por cima, o Phillip Chapman é nalista. .. — Phillip era o par de Allyson e Jamie Applegate era a paixão de Chioe desde o seu primeiro ano de liceu. Frequentava o penúltimo ano e ambos os rapazes faziam parte da equipa de natação.

Tinha sido Jamie quem sugerira aquele encontro e Chioe encarregara-se de combinar os pormenores. Falara imediatamente com Allyson, que logo a avisara que a mãe nunca a deixaria sair com um finalista do liceu. Até à data, ela saíra pouquíssimas vezes sozinha; umas vezes fora ao cinema com rapazes que conhecia desde que nascera, outras fora acompanhada por um grupo de amigos, mas em qualquer dos casos os pais tinham-na sempre ido pôr e buscar de carro. Nenhum dos seus amigos possuía carta de condução, o que justificava as preocupações dos pais com o transporte da filha. É claro que tinham existido antes alguns namoros, mas o mais longo durara desde algumas semanas antes do Natal até à altura do Ano Novo. Até essa noite, nunca existira uma saída «a sério» com um rapaz, que a viesse buscar num carro «a sério» e que a convidasse para um jantar «a sério». Era por isso que tudo aquilo lhe parecia algo assustador, talvez até um pouco «sério» de mais.

Depois de uma série de longas conversas com Allyson e outras amigas, Chioe chegara também à conclusão de que o pai nunca iria consentir que ela saísse com Jamie Appiegate, pelo menos não no carro dele e com ele próprio a conduzir. Tinha a certeza que o pai argumentaria de imediato que ela mal o conhecia e só mudaria de opinião caso Jamie passasse a visitá-los com alguma assiduidade, e fosse jantar com eles uma ou duas vezes. Mas essa solução não lhe permitiria aproveitar aquela oportunidade única, que poderia nunca vir a repetir-se e pela qual ela ansiava há já muito. Carpe diem. Aproveita as oportunidades; era esse lema que ela tencionava seguir. Assim, convencera Allyson de que a única solução era mentirem aos seus pais. Só daquela vez, é claro. E uma só vez não iria prejudicar ninguém... Caso viessem a gostar dos rapazes depois daquela saída e quisessem voltar a repeti-la, então nessa altura contariam toda a verdade aos pais; era apenas uma experiência.

De início, Allyson relutara em aceitar a ideia, mas quando pensou em Phillip Chapman, tão atraente, tão seguro de si próprio e da sua maturidade, não conseguiu resistir à ideia de sair «a sério» com ele. Afinal, Chioe até tinha razão. E foi assim que, após longas horas passadas ao telefone, e muitos segredos trocados no liceu, ambas aceitaram o convite e combinaram encontrar-se com os seus dois acompanhantes perto da casa de Chioe.

— Não estás autorizada a sair com rapazes, não é? — troçou Jamie quando ela lhe deu a morada do sítio onde elas os esperariam.

— É claro que estou. Só não quero que os meus irmãos mais velhos te dêem uma tareia, caso não lhes agrades — explicou ela, tentando elaborar uma desculpa convincente. Apercebeu-se depois que a sua tentativa falhara, vendo o ar despreocupado com que ele anotava a morada por ela indicada e lhe prometia avisar Phillip Chapman. Era no carro deste que iriam jantar ao Luigi's.

— Cada um paga a sua parte? — perguntou Chioe com nervosismo e embaraço. Tinha já gasto toda a sua mesada num par de sapatos que nesse mês já não devia ter comprado, além de ter também emprestado algum dinheiro a uma amiga Penny Morris. A vida aos quinze anos de idade podia tornar-se de súbito terrivelmente complicada... A sua pergunta, no entanto, fez Jamie sorrir. Ele tinha o cabelo ruivo e brilhante e um sorriso verdadeiramente incrível; a bem da verdade, não havia nada naquele rapaz de que Chioe não gostasse.

— Não digas disparates. Fomos nós que vos convidámos, não fomos? — Ela concluiu que era mesmo a sério: uma verdadeira saída com dois rapazes mais velhos, qualquer deles lindo de morrer. Era uma perspectiva tão aliciante, que durante uma semana inteira as duas amigas não falaram noutro assunto, mal podendo esperar que chegasse o grande dia. Que agora tinha finalmente chegado... Mas os rapazes estavam atrasados e Allyson receava que tivesse sido tudo uma grande partida.

— Talvez eles nem venham — admitiu ela com ansiedade, meio aterrorizada e meio aliviada. — Se calhar, estavam só a gozar connosco. Porque é que o Phillip Chapman ia querer sair comigo? Ele tem dezassete anos, está quase a fazer dezoito e daqui a dois meses acaba o liceu. Além disso, é o capitão da equipa de natação.

— E depois? — perguntou Chioe, que embora não o quisesse admitir estava tão preocupada quanto a amiga com a possibilidade de eles não aparecerem. — Tu és muito bonita, Ailie; ele tem muita sorte em sair contigo — acrescentou, gentilmente.

— Mas talvez ele não seja dessa opinião — argumentou Allyson com modéstia. Ainda não tinha ela acabado de proferir estas palavras, já um velho Mercedes cinzento virara na esquina e parara exactamente à frente das duas raparigas. Era Phillip quem o conduzia, com Jamie sentado a seu lado no banco da frente. Ambos usavam blazers, calças de fazenda, e gravata e pareceram incrivelmente atraentes aos olhos das duas amigas.

Com bastante calma, Phillip olhou em volta, lançando um sorriso na direcção de Allyson.

— Olá. Desculpem o atraso, mas tive que parar para meter combustível e não conseguia encontrar uma estação que vendesse gasóleo.

Entretanto, Jamie auxiliava Chioe a entrar para o banco de trás, visivelmente impressionado com o seu cabelo lustroso, com os seus grandes olhos azuis e com a saia de cabedal preta. Enquanto AUyson entrava no carro, ele aproveitou para dizer a Chioe que ela estava muito bonita, depois de Phillip a ter cumprimentado. Foi só então que arrancaram em direcção ao Luigi's, os quatro formando um grupo de jovens bastante interessante, no qual todos os membros aparentavam ter mais de dezoito anos.

— Ponham os cintos de segurança, por favor — pediu Phillip com.voz grave, salientando a sua muita maturidade e fazendo com que todos eles se sentissem extremamente adultos. Em seguida, olhou para AUyson e dirigiu-se a ela com suavidade, enquanto os outros dois conversavam alegremente no banco de trás, como se aquela fosse a milésima vez em que saíam juntos e nunca tivesse existido antes um só instante de nervosismo.

— Estás muito bonita — elogiou Phillip, admirando-a. — Estou muito contente por teres conseguido vir.

— Também eu estou. — Allyson sorriu, sentindo-se corar e desejando intensamente não estar tão nervosa.

— Há algum problema com os vossos pais por vocês virem sair connosco ou por nós virmos a guiar? — perguntou ele com honestidade. Por breves instantes, Allyson sentiu-se tentada a fingir que nenhuma dessas realidades constituía um problema, mas depois encolheu os ombros e decidiu-se pela verdade. Talvez até nem fizesse mal em ser franca com ele;

Phillip parecia ser um bom rapaz e ela simpatizava sinceramente com ele.

— Deve haver, mas eu não lhes perguntei; eles não querem que eu saia com amigos meus a conduzir. Eu sei que parece estúpido, mas é assim que eles pensam...

— Talvez tenham razão. Mas eu garanto que sou um condutor muito cuidadoso; o meu pai ensinou-me a guiar quando eu tinha nove anos. — Fez uma curta pausa para a tar com um sorriso. — Pode ser que eu um dia os possa ir conhecer. Isso talvez ajudasse. — Ou não, pensou ela, dependia do que os pais achassem das suas saídas com um rapaz quase três anos mais velho do que ela. Era difícil adivinhar... Até podia ser que os pais simpatizassem com ele; afinal, Phillip Chapman não era nenhum delinquente, era até um rapaz muito delicado, simpático e responsável.

— Eu gostava muito — murmurou ela, como uma espécie de agradecimento à tentativa dele para a fazer sentir mais à vontade e em paz com os pais.

— Eu também.

Continuaram a conversar ao som das gargalhadas nervosas de Chioe até chegarem ao Luigi's. Jamie procedeu então ao relato dos fantásticos episódios ocorridos na equipa de natação, a maioria dos quais Phillip afirmava ser mentira. Ele era muito mais sério do que Jamie, mas era uma companhia agradável. Quando encomendaram o jantar, Allyson já tivera tempo suficiente para chegar à conclusão de que gostava realmente dele.

No entanto, ficou surpreendida quando Phillip mandou vir dois copos de vinho, um para ele e outro para o amigo, oferecendo-o também a elas. Tinham trazido bilhetes de identidade falsos, mas o empregado nem sequer lhes perguntou as idades, limitando-se a encher os copos dos dois rapazes com vinho tinto da casa e virando discretamente as costas quando elas o provaram dos copos deles. Phillip, contudo, nem esvaziou o copo, e durante a sobremesa, Allyson reparou que ele bebera dois cafés fortes.

— Costumas beber sempre vinho às refeições? — perguntou ela, não resistindo a essa indiscrição. Os seus hábitos alcoólicos resumiam-se a uma taça de champanhe no Natal, bebida com a aprovação dos pais, e apesar de já ter bebido cerveja uma ou duas vezes, nada a conseguia fazer gostar dessa bebida. Quanto ao vinho tinto dessa noite, não lhe parecia que viesse também a fazer parte das suas bebidas favoritas, apesar de ter que admitir que gostara bastante de o experimentar.

— Gosto de beber um copo de vinho quando me estou a divertir — respondeu Phillip. — Também costumo beber em casa com os meus pais, e quando jantamos ou almoçamos fora, eles não se importam que eu beba também. — O que ele preferiu não dizer foi que os seus pais decerto se importariam, e muito, se soubessem que o filho tinha pedido vinho na posse de um bilhete de identidade falso, além de o ter oferecido a uma outra menor de idade, e fazendo tenções de conduzir em seguida. Phillip tinha plena consciência disso, mas tentava impressionar as duas bonitas raparigas, dando uma aparência de independência e maturidade.

— E o vinho não te afecta a condução? — perguntou ela preocupada, insistindo no assunto.

— Não, não me afecta nada — afirmou ele com convicção. — Nunca bebo mais de um copo. E além disso, hoje bebi dois cafés.

— Eu reparei — confirmou Allyson sorrindo. — E achei muito bem! — Estava a ser franca com ele. Achava-o muito atraente e bastante adulto, mas chegara à conclusão que podia ser muito sincera com Phillip, e que ele até dava mostras de apreciar a sua honestidade.

— Estavas preocupada?

— Um bocadinho...

— Não estejas — pediu ele sorrindo, enquanto pousava a sua mão sobre a de Allyson. Por alguns instantes os dois fitaram-se de olhos nos olhos, o que para Allyson foi motivo suficiente para se sentir de novo muito atrapalhada. Ambos desviaram o olhar para Jamie e Chioe, que discutiam animadamente a transferência desta última para a Escola de Bailado de São Francisco; Jamie contava-lhe como tinha ficado impressionado com a actuação dela num bailado a que a irmã o tinha obrigado a assistir.

— Obrigada — agradeceu ela, encantada. Além de se achar completamente apaixonada por ele, Chioe adorava receber um elogio. — Gostaste do bailado?

— Não muito — respondeu ele sorrindo. — Para dizer a verdade, detestei! Mas gostei muito de te ver dançar e lembro-me que a minha irmã também gostou.

— A tua irmã costumava fazer ballet comigo, mas depois desistiu das aulas.

— Eu sei. Ela não dançava nada bem, mas dizia sempre que tu eras uma óptima bailarina.

— Talvez seja, não sei... Às vezes acho que dá muito trabalho, mas há outras vezes em que adoro dançar.

— É exactamente isso que eu sinto em relação à natação! Phillip sorriu, achando graça à observação do amigo;

depois sugeriu que fossem até ao centro da cidade tomar

um café.

— E se fôssemos até à Union Street? Podíamos passear um bocado e depois escolhíamos um sítio para tomar café. O que acham?

— Acho uma boa ideia — concordou Jamie.

— Eu também — secundou Chioe. Por alguns instantes, Allyson sentiu-se um pouco ansiosa com a ideia de irem até à cidade, já que não tinham avisado ninguém que o tencionavam fazer; mas, pensando bem, que mal é que tinha? Union Street era uma zona perfeitamente inofensiva e irem tomar um café não era propriamente aquilo a que se poderia chamar um programa perigoso.

— Por mim tudo bem, desde que eu esteja em casa às onze e meia — acabou ela por afirmar, tentando não se preocupar mais.

— Então vamos.

Antes de sair, Phillip fez questão de deixar uma gorjeta generosa, e só depois disso é que todos se dirigiram para o carro, que tinha ficado estacionado à frente do restaurante. O carro pertencia à mãe de Phillip, segundo ele próprio explicou. Por hábito, os pais deixavam-no conduzir uma carrinha velha, mas esta estava em tão mau estado que ele decidira trazer o Mercedes da mãe, aproveitando o facto de os pais estarem a passar um fim-de-semana em Carmel.

Passaram pela Ponte Golden Gate, pagaram a portagem, atravessaram Lombard Street e continuaram por Filimore, na direcção sul, até chegarem a Union Street; aí, depois de uma longa busca, encontraram finalmente um lugar para estacionar o carro. Começaram então a passear pela rua cheia de montras e restaurantes. A noite estava quente, e a agitação própria de um sábado tomava o passeio ainda mais agradável. Phillip caminhava com o seu braço à volta dos ombros de Allyson, o que fazia com que ela se sentisse terrivelmente adulta.

Ele era bonito, alto e acabava de lhe contar todos os seus planos para a faculdade. Estava excitadíssimo com o facto de o terem aceite na UCLA, onde ingressaria no mês de Setembro. Tinha pensado em concorrer para Yale, mas os seus pais não tinham concordado com a ideia de ele se mudar para tão longe, visto não serem muito jovens e terem-no a ele como filho único; mas Phillip não se importara com isso, pois até gostava mais da UCLA. E, de qualquer forma, talvez assim Allyson pudesse fazer-lhe uma visita em Setembro... Mas só o facto de o ouvir pronunciar tal ideia era o suficiente para a atrapalhar, pois nem sequer se conseguia imaginar a pedir tal coisa aos pais! Acabou por dar uma gargalhada e ele compreendeu.

— Talvez seja ainda muito cedo para esses planos, não? E que tal irmos tomar um café? — Afinal, ele dava mostras de entender uma série de coisas. Quando acabaram de tomar os seus cappuccinos, eram quase onze horas e Allyson gostava cada vez mais dele. Houve até uma altura em que ele se debruçou sob a mesa para lhe contar uma coisa e quase roçou os seus lábios nos dela. Quanto a Chioe e ajamie, estes pareciam nem se encontrar presentes, de tal forma estavam embrenhados na sua conversa.

Ninguém pediu bebidas alcoólicas no café. Às cinco para as onze preparam-se para abandonar a mesa e dirigiram-se a passos lentos para o carro, calculando que teriam tempo de sobra para chegar a Ross e cumprir o horário de Allyson.

— Foi uma noite óptima — comunicou Allyson a Phillip com timidez, enquanto apertava o cinto de segurança.

— Concordo — assegurou ele com um sorriso. Allyson, no entanto, achou-o tão crescido que chegou a duvidar que ele alguma vez fizesse tenções de a voltar a convidar para sair. Provavelmente, ele estaria apenas a proporcionar-lhe uma noite agradável... era ainda muito cedo para concluir alguma coisa, mas sabia que gostaria de ter oportunidade de o conhecer melhor.

Phillip conduziu vagarosamente por Lombard Street, e depois atravessou a Ponte Golden Gate. A noite estava de facto maravilhosa: o céu tinha mais estrelas do que nunca, a água brilhava com o reflexo do luar e as luzes à volta da baía tomavam o cenário ainda mais encantador. Corria uma suave brisa temperada, raríssima no clima de São Francisco, e não existia o típico nevoeiro nocturno. Era a noite mais romântica que Allyson alguma vez vira.

— Que noite linda — murmurou ela para si própria enquanto atravessavam a ponte. Do banco de trás responderam-lhe com uma série de risinhos entrecortados.

— Apertaram os cintos? — voltou Phillip a perguntar com voz grave. Jamie deu uma gargalhada e respondeu:

— Mete-te na tua vida Chapman.

— Se não os apertarem, vou ter de encostar quando chegar ao fim da ponte. Ponham os cintos, por favor. — Mas lá de trás não se ouvia nenhum som que confirmasse que haviam acedido ao pedido dele. Na verdade, houve até um grande silêncio, durante o qual Allyson fez questão de não olhar para o banco de trás. Assim, acabou por fitar Phillip com um sorriso envergonhado.

— O que é que vais fazer amanhã à noite, Allyson? — perguntou ele.

— Amanhã... não sei... é que eu não estou autorizada a sair aos domingos à noite. — Chegara a hora de ser totalmente franca com ele: ela tinha apenas quinze anos, nem sequer acabara o liceu e vivia de acordo com as regras que os pais estabeleciam, independentemente de gostar ou não de Phillip; tinha sido uma noite muito boa, mas sentia-se culpada por fazer às escondidas algo que sabia que não devia fazer. É claro que lhe agradava muito a ideia de Phillip se dispor a conhecer os pais dela, mas não queria voltar a sair com ele às escondidas, nem mesmo se Chioe tivesse decidido exactamente o contrário em relação a Jamie.

Contudo, para sua surpresa, Phillip não se mostrou nem um pouco abalado. Apesar dos seus quinze anos, ele achava-

-a bastante adulta, além de ser uma rapariga linda; gostara muito da companhia dela e estava mesmo disposto a obedecer às tais regras, se isso fosse necessário para aprofundar a amizade dos dois.

— Amanhã à tarde vou ter um treino, mas depois talvez possa passar por tua casa. Só para falarmos um bocado... e para eu conhecer os teus pais. O que é te parece?

— Uma óptima ideia! — exclamou Allyson encantada.

— Tens a certeza que não te importas de fazer isso? — Phillip abanou a cabeça e olhou-a de uma forma tão especial que ela julgou que o seu coração fosse derreter. — Eu julgava que... quer dizer, eu pensava que tu... não ias querer fazer isso, pelo menos, para já.

— Mas quando te convidei para sair, sabia o que devia esperar; até fiquei espantado por não me teres pedido antes para ir conhecer os teus pais. Depois calculei que não lhes tivesses dito a verdade... mas não podemos voltar a fazer isso.

— Não, não podemos — confirmou ela, bastante aliviada com a atitude dele. — Pelo menos, eu não posso... se os meus pais soubessem, matavam-me!

— A minha mãe também me matava, se descobrisse que eu saí no carro dela! — brincou ele, parecendo de repente um miúdo pequeno. Começaram os dois a rir, dispostos a concluir que apesar de não terem procedido muito correctamente, eram ambos boas pessoas e não tinham agido com má intenção; tinha sido tudo por uma boa causa, e, afinal, não haviam feito nada de verdadeiramente condenável.

Por essa altura, já o automóvel deles percorrera metade do comprimento da ponte. Do banco de trás, vinham apenas alguns sussurros, intervalados por alguns curtos silêncios comprometedores. Phillip tentara puxar Allyson para perto dele, mas o cinto de segurança dela impedia que os dois se juntassem; ela dispôs-se a retirá-lo, mas ele não deixou que ela o fizesse, permitindo apenas que Allyson desse ao cinto uma boa folga. Por um breve instante, Phillip retirou o olhar da estrada e fixou os seus olhos nos dela com muita intensidade. Foi quando voltou a olhar para a frente que ele o viu, mas era já demasiado tarde. Na direcção deles, projectava-se uma intensa luminosidade que os atingia directamente no rosto. Allyson olhava para Phillip quando o choque ocorreu e no banco de trás nem sequer o chegaram a ver. Foi um raio de luz, um estrondo tremendo, uma montanha de aço e uma explosão de vidro que se precipitou sobre eles. Em escassos segundos dava-se o mais terrível acidente: os dois carros colidiam e esmagavam-se em fúria como dois touros selvagens, enquanto à volta deles todos os outros veículos guinavam na direcção oposta; o barulho intenso das buzinas sobrepunha-se aos gritos de pânico, que depressa cederam a um longo silêncio.

Os estilhaços de vidro e os pedaços de ferro entrelaçado com aço espalhavam-se por todo o lado. O silêncio da noite foi então quebrado por um grito longo, que ecoou em conjunto com o som de algumas buzinas distantes. Por fim, ouviu-se distintamente o sinistro som de uma sirena;

foi então que começou o lento movimento de pessoas que saíam dos carros para se precipitarem sobre o enorme aglomerado de metal formado pêlos dois automóveis. De súbito, o movimento aumentou e havia pessoas que corriam para ajudar, à medida que o som da sirena se tornava cada vez mais próximo. A enorme massa de aço jazia inerte e disforme... Era quase impossível admitir que alguém tivesse sobrevivido.

 

Foram dois homens os primeiros a aproximarem-se do que restava do velho Mercedes cinzento. Nessa altura já se conseguia perceber que o outro carro envolvido no acidente era um Lincoln preto. O choque tinha ocorrido de frente, de forma que os motores estavam completamente esmagados e os dois carros pareciam fundidos num só; se não fosse devido ao pormenor da cor, teria sido impossível distingui-los. Uma mulher vagueava ali perto, chorando e murmurando algo que só ela conseguia ouvir. Enquanto os dois motoristas corriam para o Mercedes, outros dois apressaram-se a socorrê-la, mas ela não havia sofrido quaisquer ferimentos. Um dos homens vinha vestido com roupas grosseiras e trazia na mão uma lanterna eléctrica, enquanto que o outro, de calças de ganga, se apresentava como médico.

— Vê alguma coisa? — perguntou o homem que segurava a lanterna, apontando-a para o interior do Mercedes com a mão trémula. Já assistira a alguns acidentes antes, mas nada que se comparasse com aquele. Quase chocara com outro carro ao tentar não bater também no Mercedes Havia automóveis parados em todas as faixas de rodagem, e sobre a ponte o trânsito já nem sequer circulava.

Apesar de a ponte ser bem iluminada, à primeira vista era difícil divisar o que quer que fosse no interior do carro, já que deste apenas restava um bloco condensado de metal esmagado. Mas passados alguns minutos, eles descobriram-no: tinha o rosto coberto de sangue e o corpo comprimido num espaço mínimo; a parte de trás da sua cabeça estava encostada à porta e o pescoço torcido num ângulo estranho. Foi fácil concluir que aquele jovem estava morto, apesar de o médico ainda ter procurado em vão sentir a sua pulsação.

— O condutor está morto — comunicou calmamente o médico ao outro homem, que apontava a lanterna para o banco de trás. De súbito viu os olhos de um outro jovem, este ainda consciente e alerta, mas incapaz de produzir uma palavra.

— Está bem? — perguntou o homem a Jamie Appieton, que lhe respondeu com um sinal afirmativo de cabeça. Tinha um corte sobre um dos olhos e batera violentamente com a testa em alguma coisa, possivelmente no corpo de Phillip. Parecia estar completamente atordoado, mas não dava mostras de ter sofrido quaisquer outras lesões, o que era no mínimo espantoso.

O homem que segurava a lanterna tentou abrir a porta para tirar Jamie, mas esta estava tão amassada que era de todo impossível movê-la.                    /

— A brigada de trânsito já deve estar a chegar — tranquilizou ele, obtendo de Jamie um outro sinal com a cabeça. Ele parecia não conseguir falar e era muito provável que estivesse em estado de choque, pois limitava-se a olhar fixamente para os dois homens. Aquele que trazia a lanterna depressa chegou à conclusão que o jovem devia certamente ter sofrido um traumatismo.

O médico apressou-se a ir até junto de Jamie, oferecendo-lhe toda a assistência que podia através da abertura da janela;

foi então que ouviram um longo gemido vindo do banco de trás, perto de Jamie, seguido de um choro estridente que depressa se converteu num grito. Era Chioe. Jamie voltou a cabeça, fitando-a sem conseguir transmitir nenhuma emoção; parecia nem sequer entender como é que ela tinha ido ali parar.

O médico deu a volta ao carro o mais depressa que pôde e quando o outro homem apontou a lanterna para o lado de Jamie, eles viram-na exactamente em simultâneo. Aperceberam-se então de que a rapariga ficara presa entre o banco da frente e o de trás. Com a força do embate contra a dianteira do Lincoln, o banco da frente tinha sido arrastado para trás, ficando preso sobre o colo de Chioe e ocultando-lhe as pernas. Chioe começou então a gritar em histeria, queixando-se que não podia mexer-se e que tinha muitas dores. Eles tentavam acalmá-la, enquanto Jamie insistia em fitá-la com a mesma expressão vaga e confusa, e de seguida murmurou algumas palavras para Phillip.

— Aguentem só mais um bocadinho — pedia o homem da lanterna aos dois jovens. —Já vem aí ajuda. — O som da sirena tornava-se cada vez mais nítido, ebora os gritos de Chioe fossem ainda mais agudos.

—Não posso mexer-me... não consigo... não consigo respirar... — gritava ela, arquejante e totalmente em pânico, tentando obter oxigénio a todo o custo. O jovem médico tentava acalmá-la, dizendo-lhe suave e firmemente:

— Calma... está tudo bem... vamos tirar-te daqui não tarda nada. Agora, tenta respirar devagar... vá, dá-me a tua mão. — Ele conseguiu agarrar a mão dela, notando imediatamente que estava manchada de sangue nos locais onde estivera em contacto com as pernas. Apesar da lanterna, ele não conseguia ver o estado em que ela de facto se encontrava, mas, contudo, sentia-se aliviado por ela estar consciente e conseguir falar. Afinal, mesmo ignorando as condições em que as suas pernas se encontravam, a jovem estava viva e havia todos os motivos para admitir que iria resistir.

Entretanto, o homem da lanterna deixou-os por uns segundos; acabara de ver no banco da frente aquilo que lhe pareceu ser o corpo de uma rapariga inanimada. De início, ela estivera praticamente invisível, pois encontrava-se caída abaixo do nível normal do assento, comprimida entre várias formas metálicas. Mas agora, enquanto davam atenção a Chioe, conseguiram distinguir mais à frente um rosto e alguns cabelos louros. O médico continuou junto de Chioe fazendo todos os esforços para a acalmar, enquanto o outro homem tentava em vão abrir a porta da frente para libertar a rapariga que continuava caída ao nível do guarda-lamas. Mas a porta estava de tal forma amigada que era impossível abri-la. Tentando alcançá-la através do vidro partido da janela da frente, o homem constatou que não se movia e disse qualquer coisa em voz baixa ao médico. Este último, lançando um olhar para onde ela se encontrava, armou ter sérias dúvidas que ainda esúvesse com vida. Os dois homens trocaram então de posições, ficando um a falar com Chioe, para que o médico pudesse confirmar as suas suspeitas. No entanto, ao tocar o pescoço'da rapariga, ele verificou que o coração dela ainda batia, apesar de estar muito lento; a respiração dela resumia-se a um leve sopro e toda a sua cabeça e rosto estavam banhados em sangue; o cabelo colava-se emaranhado às suas faces molhadas, e a suave cor rosa da camisola que trazia vestida transformara-se em vermelho-vivo; sofrera inúmeros golpes, e era quase certo que a colisão lhe provocara também um traumatismo craniano muito grave. A vida dela estava presa por um fio e o médico temia sinceramente que a ajuda que estava a caminho já nãeviesse a tempo de salvá-la. Não havia forma alguma de a poder auxiliar, e mesmo se a respiração ou a pulsação dela parassem, ele não lhe poderia fazer quaisquer manobras de reanimação, já que a posição e as lesões dela não o permitiam. Tudo o que ele podia fazer era deixar-se car por perto, vigiando-a e sentindo-se perfeitamente inútil. Por aquilo que lhe era dado ver, as vidas dos dois jovens sentados nos bancos dianteros estavam perdidas;

quanto aos outros dois jovens sentados atrás, esses haviam tido imensa sorte.

— Meu Deus, estão a levar tanto tempo a cá chegar! — exclamou o homem da lanterna em voz baixa, analisando o impressionante estado em que o carro ficara. Iluminando o chão com a lanterna, viu a imensa quantidade de sangue derramado por baixo do veículo; não era de estranhar, já que as duas raparigas o vertiam abundantemente.

— A nós parece-nos muito tempo, mas eles vêm o mais depressa possível... — respondeu calmamente o médico. Quando cumprira o seu estágio num hospital de Nova Iorque, há dez anos atrás, ficara durante uns tempos encarregue de conduzir uma ambulância. Durante esse período de tempo, tinham sido muitas as cenas dramáticas a que assistira, ocorridas nas auto-estradas, nas ruas da cidade e nos guetos;

assistira também alguns partos em condições precárias, e tinha já presenciado, certamente, mais acidentes como o dessa noite, alguns até sem registo de nenhum sobrevivente. — Eles já devem estar a chegar — acrescentou ele.

O seu prestável acompanhante suava abundantemente e estava cada vez mais enervado com os gritos de Chioe. Além disso, não queria olhar para o rosto de Allyson, que parecia encontrar-se num estado deplorável; receava mesmo que ela nem sequer tivesse conservado o rosto intacto.

Foi então que a tão esperada ajuda chegou ao local do acidente: dois carros de bombeiros, uma ambulância e três carros-patrulha. Felizmente, muitos daqueles que ali se encontravam possuíam telefone nos seus automóveis, o que permitira que o acidente tivesse sido imediatamente comunicado;

muitos tinham descrito à unidade de urgência a gravidade do acidente e outros haviam-na informado que existiam quatro passageiros no carro mais pequeno, dois deles gravemente feridos. A condutora do outro carro envolvido na colisão tinha ficado miraculosamente imune, com excepção de algumas escoriações e nódoas negras; apesar disso, soluçava copiosamente nos braços de um estranho que a consolava na berma da faixa de rodagem.

Três bombeiros e dois agentes da brigada de trânsito aproximaram-se do carro ao mesmo tempo, acompanhados pela equipa médica. Os outros agentes encarregaram-se de imediato da árdua tarefa de ordenar o trânsito, encaminhando-o lentamente à volta dos dois carros e tornando viável uma das faixas de rodagem. Os seus próprios veículos tinham vindo aumentar a confusão do bloqueio, e a fila única que começava a circular na direcção norte mal tinha espaço para contornar o local do acidente; além disso, ao verem a massa dilacerada que os dois veículos formavam, os condutores, horrorizados, não podiam deixar de abrandar a marcha.

— Então, o que é que temos aqui? — perguntou um dos agentes olhando em volta e abanando a cabeça ao reparar em Phillip.

— Está morto — apressou-se o jovem médico a informar, o que, logo de seguida, foi confirmado por um dos enfermeiros recém-chegados ao local. «Morto». Uma vida que já não existia, acabada num só minuto. Não importava que idade ele tinha, quão inteligente ou bondoso havia sido ou quanto os seus pais o amavam. Estava morto, sem nenhum motivo, nenhuma justificação, nenhum propósito. Phillip Chapman morrera aos dezassete anos numa calma e aprazível noite de Abril.

— Não conseguimos abrir nenhuma das portas — explicou o médico. — Há uma rapariga presa no banco de trás e julgo que deve ter graves ferimentos nas pernas. Aquele rapaz não tem nada de grave — continuou ele, apontando para Jamie, que o fitava em total perplexidade —, mas está em estado de choque e precisa de ser levado imediatamente para o hospital. Deve ser observado o mais depressa possível, porque pode ter sofrido um traumatismo. Mas parece-me que tem grandes hipóteses de não ter sofrido nenhuma lesão mais séria.

Entretanto, a equipa dsocorro já tinha detectado a presença de Allyson e de imediato um dos bombeiros correu para o carro a requerer a presença de mais cinco homens equipados com ferramentas próprias para aqueles casos.

— E o que é que pensa do estado da rapariga que está no banco da frente, doutor?

— Não me parece que ela consiga resistir. — Continuava a sentir o pulso de Allyson, que se tornava cada vez mais fraco. Enquanto a segunda equipa de salvamento não chegasse, não poderiam fazer nada para a tirar dali. Os enfermeiros canalizavam todos os seus esforços para lhe conseguirem injectar soro e um deles colocara gentilmente um volume debaixo da cabeça dela, impedindo assim que os seus ferimentos se agravassem ainda mais. — Ela sofreu um traumatismo craniano muito grave — afirmou o médico. — E só Deus sabe o que mais poderá ter sofrido. — Allyson encontrava-se completamente submersa no amontoado de aço, o que impedia que a equipa médica a pudesse assistir. Todo o seu corpo poderia estar partido, dada a posição em que ficara presa. Mais do que nunca, era altamente provável que não sobrevivesse.

Por essa altura, Chioe redobrara a intensidade dos seus gritos, mas ninguém podia adivinhar se ela o fazia porque tinha ouvido o que acabara de ser dito acerca dos seus amigos, ou porque sentia mais dores. Era praticamente impossível falar com ela, já que na maior parte do tempo parecia nem ter consciência do local onde se encontrava; limitava-se a balbuciar umas frases desconexas acerca da dor que sentia nas pernas e nas costas. Por mais horrível que pudesse parecer, a equipa médica considerava o seu estado bastante animador, devido ao facto de ela manifestar que ainda possuía a capacidade de ter sensações. Nos muitos acidentes a que já haviam prestado auxílio, era comum encontrarem pessoas que não sentiam nenhuma dor, quase sempre por terem sofrido lesões na coluna vertebral.

— Então, minha menina, vamos tirá-la daí não tarda nada. Aguente só mais um bocadinho. Daqui a pouco já está em casa — asseguravam os bombeiros a Chioe, enquanto o resto da brigada arrancava a porta da frente com uma alavanca e retirava os vidros da janela com a ajuda de uma anta. De seguida, retiraram do veículo o corpo de Phillip, e, auxiliados por um dos bombeiros, colocaram-no numa maca, cobriram-no de imediato com um lençol e levaram-no para o interior da ambulância. À volta, alguns condutores horrorizados fitavam a cena, enquanto outros choravam ao aperceberem-se de que ele perdera a vida no acidente de viação. Eram lágrimas de horror e compaixão por Phillip, um estranho de dezassete anos que acabara de morrer sem que ninguém pudesse fazer nada.

Com a porta aberta, o jovem médico que desde o início os assistira pôde entrar no carro com o intuito de melhorar as condições em que Allyson se encontrava, embora não houvesse muito a fazer. A respiração dela tornara-se ainda mais irregular, e os enfermeiros apressaram-se a colocar-lhe um tubo na boca, ao qual, por sua vez, ligaram outro tubo de oxigénio. O médico sabia que era apenas uma tentativa para a fazer respirar melhor, pois apesar das dificuldades que tinham em alcançá-la, o soro e o oxigénio eram os únicos meios de a ajudar. Os braços da jovem estavam demasiado feridos para permitir que se efectuasse uma análise da sua pressão arterial, mas o médico nem sequer necessitava desse dado para ter consciência do seu estado: Allyson morria nas suas mãos, e caso não a libertassem depressa, em escassos segundos ela partiria, tal como Phillip. Mesmo coberta de sangue, ele conseguia constatar que se tratava de uma adolescente e apesar de as suas hipóteses serem mínimas, queria muito poder auxiliá-la.

— Vá lá, rapariguinha, aguenta... não desistas agora... — As suas palavras eram proferidas quase como uma oração. De súbito, ele pediu a um dos enfermeiros: — Depressa, mais oxigénio! — Fez-se um silêncio generalizado, enquanto todos observavam com ansiedade o redobrar dos esforços médicos: aumentaram a dose de oxigénio e acrescentaram à dose de soro uma outra substância. No entanto, a situação pouco ou nada lhes permitia fazer e todos eles tinham plena consciência desse facto. Se não a levassem rapidamente para o hospital, seria impossível salvá-la.

Foi então que a segunda equipa de salvamento chegou finalmete ao local. Em milésimos de segundo, os cinco homens que a formavam tomaram as rédeas da situação, não sem antes consultarem algumas das pessoas ali presentes acerca dos pormenores do acidente.

Chioe começava nesse instante a perder os sentidos e um dos bombeiros administrava-lhe oxigénio através da abertura da janela. Era Allyson quem tinha de ser socorrida primeiro, era a sua vida que corria perigo; caso não a retirassem dali dentro de alguns minutos, ou mesmo dentro de alguns segundos, já não haveria esperança para ela. Fosse qual fosse a situação em que Chioe se encontrava, ela teria que esperar, já que felizmente não se encontrava em perigo de vida. E de qualquer das formas, não a poderiam retirar dali sem primeiramente retirarem o banco dianteiro e tirarem Allyson do carro.

Um dos homens estabilizou o veículo com cunhas e calços, de forma a que nada mais se pudesse deslocar, enquanto um outro membro da segunda equipa procedia ao esvaziamento dos pneus e outros dois retiravam os restantes pedaços de vidro das janelas com incrível rapidez. Um quinto homem, depois de consultar a equipa médica e os bombeiros ali presentes, apressou-se a retirar o vidro de trás do automóvel. Todos os seus jovens ocupantes tinham sido cuidadosamente protegidos por uma forte cobertura, para que nenhum pedaço do vidro partido os pudesse atingir. Para retirarem o pára-brisas foram precisos dois homens, um deles utilizando um malho. Quando finalmente o acabaram de retirar, dobraram-no como se fosse um cobertor e fizeram-no deslizar para debaixo do carro com mãos hábeis, agindo com a sintoma própria de um conjunto de bailarinos. Entretanto, o vidro da retaguarda já havia sido totalmente retirado. Tinham chegado há pouco mais de um minuto quando o médico se deu conta que, caso Allyson se salvasse, isso dever-se-ia certamente àqueles homens e à rapidez com que executavam as suas manobras e as suas delicadas operações, de carácter quase cirúrgico.

Permanecendo Allyson ainda abrigada pela cobertura, um dos homens entrou no carro, retirou as chaves e cortou os cintos de segurança. Seguidamente, em trabalho de equipa, começaram a retirar o tejadilho, utilizando uma serra hidráulica e vários serrotes manuais, próprios para cortar metal. O barulho que essa operação provocava era de tal forma intenso que Jamie chorava baixinho, enquanto Chioe, novamente em pânico, recomeçava a gritar. Apenas Allyson não registava qualquer reacção. Os enfermeiros continuavam, no entanto, a assisti-la, administrando-lhe oxigénio através do tubo.

Em apenas alguns segundos, o tejadilho foi removido e a porta perfurada, para que nela se pudesse encaixar uma máquina especial, própria para a abrir. Como essa máquina pesava cinquenta quilos, foram precisos dois homens para a segurar; o barulho foi tão forte como se tivesse sido provocado por uma perfuradora pneumática. Jamie, entretanto, já soluçava, mas o barulho continuava de tal forma intenso que abafava até os gritos de Chioe. Um dos enfermeiros permanecia deitado no banco ao lado de Allyson, assegurando-se de que a administração de soro e de oxigénio não era interrompida, ao mesmo tempo que lhe ia controlando a respiração; ela, no entanto, mantinha-se alheia a tudo o que se passava à sua volta, mas ia continuando a respirar, embora de forma cada vez mais débil.

A porta foi então finalmente tirada, após o que eles se apressaram a remover também o tablier e o volante. Utilizaram umas correntes de ferro muito largas e pesadas e um gancho gigante, mas ainda antes de terem terminado, já a equipa médica havia colocado junto de Allyson uma tábua de suporte, de forma a protegê-la e imobilizá-la.

Logo de imediato o carro ficou inteiramente a descoberto, já sem a parte da frente, sem tejadilho e sem portas, o que signicava que Allyson poderia ser imediatamente retirada. Ao inclinarem-se sobre ela, tanto os bombeiros como os enfermeiros puderam então observar a gravidade dos seus ferimentos: a sua cabeça apresentava tantos golpes na parte frontal e lateral que facilmente se concluía que, na altura do embate, tinha rolado quase como uma bola. Além disso, trazia o cinto de segurança tão folgado que era quase como se não o tivesse apertado.

Por último, concentraram todos os seus esforços em retirá-la do carro e deitá-la, o mais suavemente possível, numa maca. Sendo a rapidez um factor crucial, cada um dos movimentos desses homens tinha de ser cuidadosamente planeado e infinitamente delicado, de forma a não lesionar a coluna cervical da doente. Quando o encarregado da equipa médica gritou «Levem-na!», eles transportaram a maca para a ambulância, o mais rápida e cuidadosamente possível. A vida de Allyson estava presa apenas por um fio. Tinham chegado mais duas ambulâncias ao local e a equipa médica concentrava agora a sua atenção em Jamie e em Chloe. Era exactamente meia-noite quando a ambulância que transportava Allyson e o corpo de Phillip partiu para o hospital. O jovem médico manifestara a intensão de seguir com Allyson, incapaz de a deixar somente aos cuidados da equipa de pronto-socorro, embora tivesse consciência que pouco mais poderia fazer por ela. Como tal, um dos agentes da brigada de trânsito prometera-lhe que mais tarde levaria o carro do médico para o Hospital Marin General, permitindo-lhe assim cumprir o seu desejo. Allyson necessitava urgentemente da assistência de um neurocirurgião, mas enquanto este último não actuasse, ele queria estar presente. Ainda não acreditava que ela pudesse resistir, mas caso isso acontecesse, ele queria poder ajudar em tudo o que estivesse ao seu alcance.

Enquanto isso, tinham chegado mais dois carros-patrulha, uma quarta ambulância e dois carros de bombeiros. A ponte continuava a funcionar apenas com uma faixa em direcção a Marin, permanecendo ainda encerrada a via no sentido de São Francisco. Dada a quantidade de automóveis parados, ainda seriam precisas mais algumas horas até a situação se normalizar.

— Como é que ela está? — perguntou um bombeiro a um dos enfermeiros referindo-se a Chloe, enquanto esperavam poder libertá-la. Continuava a sangrar com abundância de ambas as pernas e os seus gritos tornavam-se cada vez mais agudos. Tinham-lhe administrado já uma dose de soro, mas todas as vezes que a haviam tentado mover, ela perdera os sentidos.

— Ela está temporariamente consciente e depois volta a desmaiar — explicou um dos enfermeiros, acrescentando:

— Vamos já tirá-la daqui. — Para o conseguirem fazer, viram-

-se forçados a destruir o banco, pois fosse qual fosse a direcção em que o puxavam, ele oferecia resistência. Contudo, utilizando máquinas, em poucos segundos o assento ficou literalmente reduzido a alguns farrapos, que acabaram por cair no pavimento. Decorridos mais alguns minutos, as pernas de Chioe ficaram nalmente a descoberto: tinham sofrido inúmeros ferimentos, estavam partidas em mais de um sítio e apresentavam fracturas expostas. Quando finalmente a levantaram, também ela protegida por uma tábua de suporte, Chioe tinha perdido os sentidos.

E assim partia a segunda ambulância o mais rapidamente possível, enquanto os bombeiros auxiliavam Jamie a sair daquilo que restava do carro. Quando o retiraram, soluçava agarrado a um dos bombeiros, como uma criança pequena em pânico.

—Já passou, meu filho... já passou... — consolava-o o bombeiro. Jamie assistira a tudo aquilo e estava ainda confuso e aturdido; não conseguira assimilar o que de facto sucedera. Transportaram-no cuidadosamente para a ambulância e foi levado para o Marin General como os amigos, exactamente na altura em que chegavam ao local os outros carros. Vinham um pouco atrasados, o que se justificava pela dificuldade de circulação na ponte.

— Meu Deus, odeio noites como esta! — afirmou um bombeiro a um colega. — São estas coisas que nos dão vontade de nunca mais deixar os nossos filhos sair de casa...! — Ambos abanaram a cabeça, observando os esforços para separar o amontoado de massa metálica, pelo menos o suficiente para rebocarem os dois veículos danificados. As câmaras de televisão ali presentes filmavam o ocorrido.

Todos se espantavam com o mau estado em que o Mercedes ficara, mas justificavam-no pelo facto de ser um carro já velho e de ter tido o azar de colidir com um Lincoln num ângulo tão perigoso. Mesmo assim, se o automóvel não fosse de facto um Mercedes, antigo ou não, todos os seus ocupantes, e não apenas um, teriam perdido a vida.

A condutora do outro automóvel continuava apoiada a um estranho na beira da faixa de rodagem, ainda bastante aturdida. Usava um vestido preto e um casaco branco, e embora estivesse um pouco desalinhada, não havia quaisquer manchas de sangue na sua roupa. Até mesmo o casaco branco continuava limpo, o que não deixava de ser espantoso, dadas as condições em que haviam ficado os quatro jovens ocupantes do Mercedes.

— Ela também vai ser levada para o hospital? — perguntou um dos bombeiros a um polícia de trânsito.

— Ela diz que não tem nada. Pelo menos, não se feriu... teve muita sorte! Mas está bastante abalada; diz que se sente culpada pela morte do rapaz. Daqui a uns minutos vamos levá-la para casa. — O bombeiro abanava a cabeça, observando-a de longe. Era uma mulher de boa aparência, atraente e bem vestida, que devia ter pouco mais de quarenta anos; ao seu lado, estavam duas mulheres e alguém lhe tinha trazido uma garrafa de água. Com o rosto oculto num lenço, abanava a cabeça e chorava baixinho, ainda incapaz de acreditar no que ali acabara de se passar.

— Tem ideia do que poderá ter causado o acidente? — perguntou um jornalista ao bombeiro que, como resposta, se limitou a encolher os ombros. Não nutria nenhum apreço especial pêlos repórteres, nem apreciava o seu sádico interesse pela desgraça alheia. Além disso, era óbvio o que ali se tinha passado: perdera-se uma vida, talvez até duas, caso Allyson não resistisse. Que mais queriam eles saber? O porquê? O como? O que é que isso agora interessava? As consequências já não podiam alterar-se, fosse de quem fosse a culpa.

— Ainda não temos a certeza — respondeu ele vagamente à pergunta do jornalista, comentando logo depois com um colega: — É provável que os dois condutores se tenham desviado do traço que separa as duas faixas; talvez não muito, mas o suficiente para provocar o desastre. — Um dos polícias de trânsito assegurara-lhe: «Basta desviar a atenção da estrada por um segundo, e...» A dona do Lincoln parecia ter estado mais afastada do traço contínuo do que o outro carro, mas afirmava exactamente o contrário e, anal, não havia razões para duvidar dela.

— Ela é Laura Hutchinson — afirmou o agente impressionado, enquanto o bombeiro levantava uma sobrancelha em sinal de admiração.

— A mulher do senador John Hutchinson?

— Isso mesmo.

—Bolas! Imagina só se a mulher tivesse morrido... — Mas isso não seria mais grave do que a morte de um dos jovens. — Achas que os miúdos do outro carro estavam bêbados ou drogados?

— Sabe-se lá... Mas no hospital eles encarregam-se de verificar isso. Até pode ser que estivessem... Ou então, é mais um daqueles acasos em que nunca ninguém consegue descobrir quem é que teve a culpa. Pela posição dos carros, não se podem tirar muitas conclusões, e pouco mais resta para se concluir alguma coisa... — O que de facto havia estava naquele momento a ser comprimido e feito em pedaços, para que pudesse ser removido; estavam também a lavar o pavimento com mangueiras, limpando dessa forma o óleo derramado, os pedaços de borracha e de carroçaria e as várias poças de sangue que manchavam aquela faixa da ponte.

Seria preciso deixar passar mais uma ou duas horas até que o trânsito da ponte regressasse à sua normalidade, e mesmo assim, até de manhã haveria apenas uma faixa aberta em ambas as direcções, para que o resto dos destroços pudesse ser totalmente retirado para análises posteriores.

As equipas televisivas, entretanto, preparavam-se para abandonar o local. Já pouco mais havia a registar e a mulher do senador recusara-se a prestar quaisquer declarações sobre a morte do outro condutor; a brigada de trânsito protegera-a discretamente dos assédios jornalísticos.

Era meia-noite e meia quando finalmente a levaram para a sua casa, situada em Clay Street, São Francisco. O senador estava em Washington, e ela saíra para ir a uma festa em Belvedere. Quando chegaram, os seus filhos estavam já deitados há muito tempo e foi a governanta quem lhes abriu a porta; ao ver o aspecto desalinhado de Mrs. Hutchinson e ao ouvir o relato do que sucedera, começou de imediato a chorar.

Laura Hutchinson agradeceu aos agentes por a terem ido levar a casa e reafirmou que não precisava de ir para o hospital; caso sentisse necessidade, na manhã seguinte visitaria o seu médico. Fê-los prometer, no entanto, que não se esqueceriam de lhe telefonar para a informarem acerca do estado dos outros três jovens.

Ela já sabia que o condutor tinha morrido, mas os agentes da brigada ainda não lhe tinham dito que o estado de Allyson era crítico e que provavelmente ela não viveria até à manhã seguinte. Viam-na tão perturbada, tão assustada e tão receosa que sentiam pena e tentavam poupá-la de mais uma notícia desagradável. Quando vira o corpo de Phillip ser coberto por um lençol, rompera num pranto convulsivo; ela própria tinha três filhos, e mal podia suportar a ideia da morte para alguém que vivera tão pouco.

O agente que a tinha levado a casa sugeriu-lhe que tomasse um calmante antes de dormir ou então que bebesse algo forte, caso não tivesse nenhum calmante em casa. De facto, ela parecia necessitar muitíssimo de uma dessas coisas, e o agente da brigada de trânsito pensou que, decerto, o senador concordaria com a sugestão dele.

— Eu não bebi nada durante toda a noite — afirmou ela, nervosa, acrescentando a seguinte explicação: — Nunca costumo beber quando saio sem o meu marido.

— Eu acho que lhe ia fazer bem, minha senhora. Se quiser, vou buscar alguma coisa para a senhora beber.

Ela mostrou alguma hesitação, mas ele apressou-se a ir até ao bar da casa dela e aproveitou para beber também alguma coisa. Trouxe-lhe então um cálice de brande, bem forte. Ela bebeu-o com uma careta, mas quando chegou ao fim, agradeceu-lhe com um sorriso. Tinham sido extremamente atenciosos para com ela, e Laura Hutchinson assegurou ao agente que o senador caria muito grato quando tomasse conhecimento da forma como a haviam tratado.

— Não tem nada que agradecer — afirmou ele antes de sair. Ao chegar perto do colega que o esperava à porta da casa do senador, este último perguntou-lhe se não lhe tinha ocorrido levarem-na ao hospital para que lá lhe efectuassem um teste ao grau de álcool no sangue; só assim poderiam ter a certeza de que ela não estava sob os efeitos de nenhuma bebida.

— Pelo amor de Deus, Tom! A mulher é casada com o senador e está num estado de nervos lastimável desde que aquilo aconteceu! Praticamente assistiu à morte do miúdo... além disso, foi ela mesma quem me disse que não tinha bebido nada esta noite. Para mim, são motivos suficientes para não a incomodar mais. — O outro agente encolheu os ombros; o seu colega estaria provavelmente certo... não seria com certeza a mulher do senador que às onze da noite, embriagada, iria chocar contra um carro cheio de miúdos. Ninguém faria isso, nem mesmo um idiota total... e ela, afinal, até parecia boa pessoa.

— De qualquer forma, acabei de lhe servir um brande; se querias que eu voltasse lá dentro para a ir buscar, agora já é tarde de mais. É que a mulher estava mesmo a precisar de uma bebida forte...! Agora já deve ter acalmado.

— Talvez eu precise de uma bebida também — gracejou o outro agente, sorrindo. — Não te lembraste de me trazer uma?

— Cala-te, pá. Era só o que me faltava... fazer-lhe um teste de alcoolemia...! — E acrescentou, rindo: — Querias que eu lhe tirasse também as impressões digitais?

— Claro. Porque não? O senador devia gostar que o zéssemos... se calhar, até nos promovia! — Os dois homens riram e abandonaram aquela rua. Apesar de ser apenas uma e meia da madrugada, para eles a noite tinha sido já demasiado longa.

 

Passavam já quinze minutos das onze da noite e Page assistia a um filme antigo na televisão; quando faltavam dez minutos para a meia-noite, Allyson estava então vinte minutos atrasada e a mãe começava já a enervar-se; à meia-noite, ainda mais enervada estava, graças ao atraso da filha.

Andy dormia tranquilamente ao lado dela e Lizzie tinha adormecido em cima do tapete, aos pés da cama. Estava tudo calmo e sereno dentro de casa, exceptuando Page, que a cada minuto que passava ficava mais irritada. Allyson prometera estar em casa às onze e meia, hora essa que já incluía mais meia hora além do que a mãe lhe pedira; não havia quaisquer desculpas para ela violar essa regra.

Page lembrou-se então de telefonar para casa dos Thorensen, mas depois achou que não ia adiantar nada, porque se estivessem ainda no cinema ou a comer um gelado em qualquer sítio, não estaria ninguém em casa para atender a sua chamada. Calculou que tivessem decidido ir comer alguma coisa depois do cinema, e se assim fosse, tinha a certeza que Allyson não informara o pai de Chioe que deveria chegar a casa às onze e meia.

À meia-noite e meia Page estava furiosa, e à uma da manhã começava já a ficar muito preocupada. Tinha acabado de decidir que poria de lado todas as suas reticências e telefonaria para casa de Trygve Thorensen, quando o telefone tocou. Passavam apenas cinco minutos da uma da madrugada. Page calculou que fosse Allyson, pedindo-lhe permissão para passar a noite em casa da amiga. Irritadíssima, Page atendeu o telefone, sentindo uma enorme vontade de castigar a filha.

— Não, não podes! — Foi a primeira frase que ela articulou ao telefone.

— Está? — A voz do lado de lá da linha não percebia o que se passava e Page ainda menos. Afinal, em vez de Allyson, era um desconhecido quem telefonava para a sua casa àquela hora. Só podia ser engano ou então uma daquelas chamadas obscenas, raciocinou ela.

— É da casa de Mister e Mistress Clarke?

— É, sim. Quem fala? — Um súbito frémito de terror percorreu-lhe todo o corpo, mas ela tentou ignorá-lo.

— Fala da brigada de trânsito Mistress Clarke. É a própria, não é?

— É — respondeu Page num murmúrio, sentindo um pânico súbito a prender-lhe a voz.

— Lamento informá-la, mas a sua filha acabou de sofrer um acidente.

— Ai, meu Deus... — Todo o seu corpo tremia em absoluto pânico. — Ela está... viva?

— Está. Neste momento está a ser levada para o Hospital Marin General, inanimada. Encontra-se gravemente ferida.

«Meu Deus... meu Deus... que querem essas palavras dizer? Será muito grave? Ela estará bem? Correrá risco de vida? Em que estado está a minha filha?», interrogava-se Page, aterrada.

— O que é que aconteceu? — sussurrou ela, com voz trémula.

— Uma colisão frontal na Ponte Golden Gate. Eles vinham para Marin quando colidiram com outro carro que se dirigia para São Francisco.

— Vinham para Marin? De onde? Isso não pode ser. — Ela parecia disposta a discutir o local onde a filha estivera, segura de que, caso ganhasse a discussão, isso signicaria que Allyson nunca aí tinha estado e que, por isso, nada lhe tinha acontecido.

— Mas foi o que aconteceu, minha senhora. Ela agora está no Marin General. Aconselho-a a ir para lá o mais depressa possível.

— Meu Deus... obrigada... — Desligou sem proferir mais nenhuma palavra e marcou freneticamente o número das informações. Deram-lhe o número de telefone do hospital e ela telefonou logo de seguida para o serviço de urgências, de onde lhe confirmaram que Allyson Clarke acabara de dar entrada. Estava viva, sim, mas não lhe poderiam dar mais nenhuma informação acerca do seu estado. Os médicos estavam já a assisti-la, razão pela qual não podiam, nesse momento, falar com Page. Acrescentaram apenas que Allyson Clarke tinha dado entrada nas urgências em estado crítico.

As lágrimas brotavam-lhe dos olhos e quando telefonou para a vizinha notou que as suas mãos tremiam exageradamente. Precisava de deixar Andy acompanhado... tinha de chamar alguém... tinha de se vestir... tinha de ir já para o hospital... Enquanto esperava que alguém atendesse Page soluçava silenciosamente, rezando para que Allyson ainda estivesse viva quando ela lá chegasse. Depois do telefone tocar quatro vezes, a sua amiga atendeu:

— Estou? — perguntou uma voz ensonada.

—Jane? Podes vir para cá? — Page parecia não ter fôlego suficiente para falar, sentia que lhe faltava o ar. «E se ela piorar? E se... não, Deus, não... por favor, isso não...», pedia ela.

— O que é que aconteceu? — Jane Gilson conhecia bem a sua amiga, e nunca vira Page entrar em pânico antes. — Passa-se alguma coisa? Estás doente? Está aí alguém? — Seria um intruso?

— Não. — A voz de Page assemelhava-se a um sopro, trémulo e desafinado. — É a AUie. Sofreu um acidente... bateram de frente com outro carro... ela está no Marin General em condições críticas... O Brad viajou... e eu tenho que deixar o Andy com alguém...

— Meu Deus... Vou já para aí. —Jane Gilson desligou e Page correu para o armário, vestindo umas calças de ganga e a primeira camisola que encontrou, uma azul que ela costumava usar quando fazia trabalhos de jardinagem. Estava já bastante velha, tinha vários buracos e algumas nódoas, mas ela nem se apercebeu disso. Depois calçou apressadamente uns mocassins e sem sequer se lembrar de pentear o cabelo, correu para o escritório. Sabia que Brad, antes de viajar, apontava sempre num bloco o nome e o número do hotel onde ia ficar hospedado; tinha a certeza que iria encontrar essa informação no bloco do escritório. Pensou que, antes de o avisar, seria melhor ver a filha, para o caso de o estado dela ser menos grave do que supunha; mas telefonar-lhe-ia do hospital, depois de a ver. Só que, ao ver o dito bloco de notas, Page constatou que dessa vez não havia nada escrito nele. Nem um número de telefone, nem o nome do hotel:

rigorosamente nada. Apenas uma folha em branco. Pela primeira vez em dezasseis anos, ele esquecera-se de deixar essa informação. Era como se o destino tivesse decidido pregar-lhes uma partida de mau gosto, embora de momento Page não tivesse muito tempo para se preocupar com isso. Mais tarde, telefonaria para a agência onde ele trabalhava e pediria o número, mas nesse momento tinha que ir rapidamente para o hospital e ver a sua menina.

Quando a campainha da porta tocou, Page agarrou na mala de mão e correu ao encontro de Jane Gilson. Esta, assim que a viu, abraçou-a. Conhecia a família desde a altura em que se tinham mudado para aquela zona, ainda antes de Andy nascer, e conhecia Allyson desde os seus sete anos.

— Ela vai ficar bem, acredita... Page, tens de te acalmar. Vais ver que a situação é menos grave do que parece. Tem calma... — Jane gostaria de a poder levar até ao hospital, mas o marido estava fora, tinha ido acampar com os filhos, que tinham vindo da universidade em férias da Páscoa. E, além disso, não havia mais ninguém para ficar com Andy. Este dormia a sono solto na cama da mãe, completamente alheio a tudo o que se passava à sua volta. — O que é que queres que eu diga ao Andy quando ele acordar, se ainda não tiveres chegado? — perguntou Jane.

— Dize-lhe só que a Allyson adoeceu e que eu fui com ela para o hospital. Telefono-te assim que puder. Se o Brad ligar, pelo amor de Deus, Jane, pede-lhe o número do hotel...

—Fica descansada. Agora vai-te embora... e guia com cuidado!

Page correu para o carro com o cabelo a esvoaçar e a mala debaixo do braço. Um segundo depois, já estava dentro do carro a caminho do hospital. Foi falando durante todo o percurso, pedindo a si própria para ter calma, para respirar fundo, e afirmando que Allyson estava bem, rezando a Deus para que isso fosse de facto verdade. Ainda não conseguia acreditar no que tinha acontecido.

Levou cerca de oito minutos para chegar ao hospital, e estacionou a carrinha no primeiro lugar vago que encontrou; na sua pressa, saiu a correr para o edifício e acabou por se esquecer das chaves dentro do carro. A unidade das urgências destacava-se de todas as outras: era a mais iluminada, os enfermeiros corriam nos seus enormes corredores, entrando e saindo das salas, enquanto nos bancos algumas pessoas esperavam ser atendidas. Uma mulher em trabalho de parto caminhava desajeitadamente, apoiada no marido. Mas Page só se preocupava em ver a sua filha, a sua menina... reparou então na presença de dois jornalistas que tomavam nota do depoimento de um agente da brigada de trânsito.

Correu até à recepção e perguntou a uma das enfermeiras onde é que a filha se encontrava. Ao levantar os olhos para a ver, a expressão da enfermeira modificou-se por completo. Page estava extremamente pálida e trémula, e a enfermeira sentiu-se invadir por uma onda de compaixão. Tinha um rosto bonito e os seus olhos revelavam simpatia.

— A senhora é a mãe dela? Page fez que sim com a cabeça, sentindo todo o corpo ainda mais trémulo.

— Ela está... está...

— Está viva, sim. — Page sentiu as pernas a fraquejar e a enfermeira deixou de imediato a secretária, amparando-a com firmeza. — Mas a sua filha está muito, muito ferida, Mistress Clarke, e sofreu um traumatismo craniano muito grave. A nossa equipa de neurocirurgiões está a examiná-la neste momento, e estamos também à espera do chefe de equipa. Assim que ele chegar, já lhe poderemos dar mais algumas informações. Mas ela está a resistir. — A enfermeira conduziu Page a uma cadeira e ajudou-a a sentar-se. Para esta última, era como se num só instante o mundo inteiro tivesse sido virado do avesso. — Quer que eu lhe vá buscar um café? — indagou a enfermeira, compadecida. Page abanou a cabeça tentando não chorar, mas era impossível evitá-lo. As lágrimas rolavam-lhe pelas faces enquanto se esforçava para tentar assimilar aquilo que a enfermeira lhe dissera. Neurocirurgiões... «uma equipa de neurocirurgiões... ela está muito, muito ferida...» Mas como? Porquê? O que é que tinha acontecido? — A senhora está bem? — indagou a enfermeira, utilizando uma mera interrogação retórica. Era óbvio que ela não estava bem, apesar de Page responder que sim, acenando com a cabeça ao mesmo tempo que assoava o nariz. O seu maior desejo, naquele momento, era poder voltar atrás no tempo. E pensar que estivera tão zangada com a filha por ela não ter chegado à hora combinada... mal podia pensar nisso, agora. A altura em que dera largas à sua irritação coincidia exactamente com a altura em que a filha sofrera aquele terrível acidente... era impossível suportar essa ideia.

— Mais alguém cou ferido? — conseguiu Page perguntar de forma quase imperceptível; a enfermeira acenou com a cabeça com uma expressão grave, esclarecendo logo de seguida:

— O condutor morreu e uma outra rapariga nova ficou gravemente ferida.

«Oh, meu Deus... "Morreu"?... Trygve Thorensen está morto? Mas como, meu Deus, como é isso possível?» No exacto instante em que Page tentava assimilar tudo isto, viu um homem sair da sala de urgências que se parecia espantosamente com Trygve. Ele deu mais alguns passos na sua direcção e tou-a bastante tempo com uma expressão ausente, demasiado atordoado para reparar nela. Foi Page quem subitamente se apercebeu que aquele homem era, de facto, Trygve. Mas como seria isso possível? A enfermeira garantira que ele tinha morrido; seria tudo aquilo uma mentira? Alguma brincadeira de mau gosto? Um pesadelo? Estaria ela louca ou a sonhar? No entanto, ao olhar para Trygve, Page apercebeu-se que o pesadelo era demasiado real. A enfermeira afastou-se discretamente e Trygve continuou a fitar Page, sem notar que as lágrimas lhe caíam pelas faces.

— Page, lamento muito o que se passou... — afirmou ele segurando a mão dela entre as dele. — Eu devia ter calculado... era fácil adivinhar, mas eu não prestei a atenção que devia... não sei como é que consegui ser tão irresponsável. — Ela fitava-o, verdadeiramente horrorizada. Ele dizia que «não tinha prestado a atenção que devia» e as suas filhas tinham ficado naquele estado...? Como é que ele arranjara coragem para lhe dar tal justificação? E porque é que a enfermeira lhe comunicara que o condutor havia morrido?

— Não estou a perceber — respondeu ela ainda a fitá-lo angustiada, enquanto ele se sentava ao seu lado e abanava a cabeça, incapaz de aceitar o que se passara.

— Eu também só agora é que começo a perceber. Mas devia ter calculado quando a vi sair com aquela roupa... ela levava uma saia de cabedal preta que pediu emprestada a alguém e uns collants de nylon pretos que deviam ter sido da Dana. Fui um autêntico idiota! Quando ela saiu, eu estava a acabar um trabalho com o Bjorn e acabei por não lhe dar muita importância. Ela disse-me que ia jantar fora consigo, e eu achei que não fazia mal... Agora dava tudo para a ter impedido!

—Jantar fora comigo...? Quer dizer que... você não ia a conduzir? — Quando finalmente percebeu que elas nem sequer tinham saído com Trygve, Page sentiu-se invadir por uma sensação de pânico. Afinal, com quem tinham elas saído e quem era o condutor?

— Não, não ia — respondeu ele à anterior pergunta de Page.

— A Allyson disse-me que ia levá-las a jantar ao Luigi's e que depois iam ao cinema. Nunca me ocorreu que isso não fosse verdade... — Mas ao relembrar as circunstâncias daquela noite, as peças do puzle começaram rapidamente a encaixar-se. Page depressa se apercebeu dos pequenos pormenores que até essa altura lhe tinham passado despercebidos: a camisola de lã emprestada, a saia branca, o facto de a filha se ter ido encontrar com Chioe sem querer que ela a fosse levar de carro. — Como é que eu pude ser tão idiota?

— Parece-me que ambos o fomos... — Ele olhou-a através das lágrimas e Page recomeçou a chorar. Trygve continuou: — Devia ter visto o estado de Chioe quando aqui chegou... tem várias fracturas expostas em ambas as pernas, uma anca deslocada, o osso da bacia partido e várias lesões internas. Agora estão a retirar-lhe o baço... a vida dela pode ter ficado estragada para sempre... Os médicos vão tentar endireitar-lhe a anca e vão consertar-lhe o osso da bacia com parafusos... ela pode nunca voltar a andar, Page... — As lágrimas rolavam-lhe pela cara sem que ele o notasse. — E o maior desejo dela era entrar para a escola de bailado...! Oh meu Deus... Como é que isto foi acontecer?

Page abanava a cabeça, demasiado impressionada com o que acabara de ouvir: Chioe incapaz de voltar a andar... e Allyson com um grave traumatismo craniano. Olhou para Trygve, mas desta vez já incapaz de o culpar.

— Viu a Allyson? — Ver a filha era o que ela mais desejava e, no entanto, aquilo que mais temia; mas tinham-lhe dito que teria de aguardar até que os neurocirurgiões finalizassem o seu exame. Mas, e se Allyson entretanto não resistisse, e se Page não estivesse presente... e se... e se...

— Não, não pude — respondeu Trygve enxugando as lágrimas. — Pedi para a ver, mas não me deixaram. Acabaram de levar a Chioe para a sala de operações e disseram-me que a operação pode demorar entre seis a oito horas, talvez mais. Vai ser uma noite muito comprida. — Ou talvez não, o que seria ainda mais grave para Page, pois para Allyson tudo podia terminar muito rapidamente. — Informaram-me que a Allyson tinha sofrido um traumatismo craniano muito grave, mas não me disseram mais nada — acrescentou ele com suavidade.

— A mim também não me disseram mais nada. Nem tenho a certeza do que isso realmente significa. Ela terá o cérebro também afectado...? Corre risco de vida...? Será que pode voltar a ficar bem...? — Os olhos de Page iam-se enchendo de água à medida que ela falava e ele a ouvia em silêncio. — Agora está a ser examinada pela equipa de neurocirurgiões.

— Tem de acreditar que ela vai ficar boa. Por agora, não podemos fazer mais nada.

— Mas e se ela não ficar? — Page sentia-se muito grata por ter ali alguém com quem falar. Ele sentia tudo aquilo que ela estava a sentir; a única diferença entre os dois era o facto de a filha dele não correr risco de vida, pois por mais grave que fosse o estado de Chioe, ele tinha a certeza que ela iria sobreviver.

— Faça um esforço para não pensar em todas essas hipóteses futuras — aconselhou ele. — Eu também dou comigo a questionar-me sobre tudo o que pode acontecer... se ela vai voltar a andar, se vai ficar paralítica... se alguma vez poderá andar, correr, dançar... ou até se poderá ter filhos. Há minutos atrás, dei comigo a planear quais os melhores sítios lá de casa para fazer rampas para a cadeira de rodas. Temos que nos dominar para não termos estes pensamentos, porque, por enquanto, ainda não podemos saber nada. O melhor que temos a fazer é não pensar em mais nada senão no momento presente. — Page concordou, percebendo o que ele queria dizer. Uns segundos antes, tinha pensado no que diria a Brad caso Allyson não resistisse, para logo a seguir se recusar a acreditar em tal hipótese.

— Sabe quem é que ia a conduzir? — perguntou Page num tom de voz grave e melancólico, relembrando que a enfermeira lhe dissera que ele havia morrido, quando ela ainda imaginava que se tratava de Trygve.

— Só sei que era um rapaz chamado Phillip Chapman e que tinha dezassete anos. Não sei mais nada. E a Chioe não se encontrava em condições de responder a nenhuma pergunta.

— Esse nome não me é estranho... Talvez até conheça os pais dele. Como é que acha que elas o conheceram?

— Sabe-se lá... talvez na escola... numa das equipas de jogos, ou no clube de ténis... elas estão a crescer, como bem sabe. Nunca passei por nada disto com nenhum dos meus outros filhos; pelo menos, não com o Nick. — Era evidente que, com Bjorn, os pontos de comparação eram diferentes. — Estou a ver que as raparigas dão bastante mais trabalho do que os rapazes... pelo menos as nossas dão! — Ele esforçava-se por fazê-la sorrir, mas a sua tentativa estava destinada ao fracasso. Page não conseguia parar de pensar na filha: E se ela nunca chegasse a crescer? Nunca pudesse sair, ter um namorado, um marido ou um filho? E se fosse o m da vida dela? Quinze breves anos e nada mais. Só essa hipótese chegava para inundar-lhe os olhos. Trygve, ao vê-la chorar de novo, pegou-lhe na mão e conservou-a entre as suas, pedindo-lhe:

— Page, não se entregue agora... tente não pensar no pior.

— Mas como é que posso não pensar? Como é que me pode pedir uma coisa dessas? — Retirou a mão e deu livre curso às lágrimas. — Ela pode não resistir, pode ter o mesmo fim que teve o rapaz que ia a conduzir... — Trygve abanava tristemente a cabeça, e ela assoou o nariz, assustada e cheia de edo. Depois levantou os olhos para Trygve e perguntou-lhe: — Eles tinha bebido? — Fora aquele o seu primeiro pensamento quando soubera da ocorrência e do facto de o condutor ter apenas dezassete anos.

— Não faço ideia — respondeu ele com honestidade. — A enfermeira disse-me que iam fazer análises a todos eles, para poderem verificar a quantidade de álcool no sangue. Mas eu suponho que é bem possível que sim... — concluiu num tom pouco firme, enquanto um jornalista se encaminhava para junto deles. Já os observava há algum tempo e Trygve vira-o a interrogar a enfermeira que estava na recepção, depois de ter acabado de falar com o agente da brigada de trânsito.

Page estava ainda a chorar quando ele se aproximou. Vestia calças de ganga e uma camisa de xadrez, onde baloiçava um cartão plastificado da sala de imprensa. Calçava sapatos de ténis e trazia um pequeno gravador e um bloco de apontamentos.

— Mistress Clarke? — perguntou ele sem rodeios, colocando-se muito próximo dela para observar melhor as suas reacções.

— Sim? — No seu nervosismo Page não se apercebeu logo de quem se dirigia a ela, e, por alguns instantes, julgou até que podia ser um médico. Levantou os olhos para ele com uma expressão aterrorizada, enquanto Trygve o fitava com desconfiança.

— Como está a Allyson a reagir? — perguntou o jornalista como se a conhecesse há muito. Tinha conseguido o nome dela através da enfermeira.

—Não sei... Mas julguei que o senhor soubesse... — Trygve limitava-se a abanar a cabeça, notando que o cartão dele trazia uma fotografia, o seu nome e a estação de televisão para onde trabalhava. — O que é que quer saber? — Page parecia confusa e assustada por aquela repentina intromissão.

— Só queria saber como é que a senhora está... e como é que a Ailie está. Ela conhecia o Phillip Chapman muito bem? Que tipo de rapaz era ele? Era do tipo irresponsável, ou pensa que... — Pressionou o mais que pôde até Trygve o interroper abruptamente.

—Não me parece que esta seja a altura adequada... — Trygve deu um passo na direcção dele, mas o jovem repórter não se deixou impressionar.

—Já sabe que quem conduzia o outro carro era a mulher do senador Hutchinson? Ela não sofreu nem um arranhão — comentou ele, provocador. — Como é que se sente perante esse facto Mistress Clarke? Muito revoltada, calculo. — Ao ouvi-lo Page não conseguiu esconder a sua irritação. O que é que ele pretendia? Deixá-la ainda mais angustiada? Que diferença fazia saber quem era o outro condutor? Seria ele tão louco como insensível? Olhou para Trygve em busca de auxílio e constatou que ele não podia estar mais furioso com a atitude do jornalista. — Acha que os quatro jovens tinham bebido Mistress Clarke? Phillip Chapman era o namorado da sua filha?

— O que é que julga que está a fazer? — Levantou-se e enfrentou-o, indignada. — A minha filha pode estar a morrer, e não tem nada que saber se ela conhecia bem aquele rapaz, ou quem era o outro condutor, ou o que eu penso acerca disso!... — O pranto de Page impedia que as palavras fossem proferidas de forma clara. — Deixe-nos em paz! — Ela sentou-se, cobrindo o rosto com as mãos, e Trygve colocou-se entre ela e o jornalista, ordenando:

— Faça o favor de se retirar. — Trygve permanecia tão imóvel como uma parede entre os dois. — Saia daqui. Nada lhe dá o direito de agir assim — afirmou ele num tom que pretendia que fosse ameaçador, mas tal como Page, a voz dele tremia.

— Eu tenho todos os direitos, sim, porque as pessoas também têm o direito de ser informadas sobre uma coisa destas. E se eles não tiverem bebido nada? Se for a mulher do senador quem tiver bebido?

— E o que é que isso vai adiantar? — argumentou Trygve irritado. O que é que fazia ali um jornalista? Aquilo nada tinha a ver com o domínio público, com os direitos sobre a verdade ou sobre quem tinha a culpa do acidente. Era antes uma intromissão de muito mau gosto, que magoava profundamente quem já estava angustiado.

— A senhora exigiu que fosse feito um teste de alcoolemia à mulher do senador? — O jornalista tentava de novo falar com Page, enquanto esta fitava vaga e difusamente os dois homens ali especados. Estava a chegar ao limite das suas forças e tudo o que realmente lhe importava era Ailie.

— Tenho a certeza de que a Polícia fez tudo aquilo que tinha de ser feito. Porque é que insiste em causar ainda mais problemas? Não percebe que só nos está a fazer mal? — indagou ela, exausta.

O jornalista parecia resolvido a não sair dali.

— Eu estou apenas a procurar a verdade, só isso. Espero que a sua filha recupere rapidamente — acrescentou ele sem emoção, afastando-se por fim para ir interrogar mais alguém. Ele e o cameraman que o acompanhava permaneceram na sala de espera por mais uma hora, mas não voltaram a incomodar Page. Contudo, Trygve continuava indignado com o atrevimento do jornalista em vir incomodar Page numa altura como aquela; perturbara-o o seu estilo grosseiro e as insinuações que fizera, destinadas a enraivecê-los. Era demasiado revoltante.

De tal forma ficaram abalados com a presença do jornalista que, de início, nem repararam num rapaz ruivo que meia hora depois se aproximou deles. Page nunca o vira antes, mas Trygve constatou que a sua fisionomia lhe era vagamente familiar.

— Mister Thorensen? — perguntou ele, nervoso. Estava muito pálido e parecia ainda um pouco aturdido, mas olhava directamente para o pai de Chioe.

— Sim? — Trygve olhou para ele sem o reconhecer, pensando que aquela não era uma boa noite para quem desejasse vir conversar com ele. Tudo aquilo que realmente lhe interessava era esperar que Chioe saísse da cirurgia, rezando para que a vida dela não ficasse destruída. — O que é que deseja?

— O meu nome é Jamie Appiegate e eu... estava com a Chioe quando se deu... o acidente... — Ao pronunciar estas palavras, os lábios dele tremeram. Trygve levantou os olhos para ele, chocado.

— Mas quem é você? — perguntou ele, erguendo-se da cadeira; ao encarar o rapaz, notou que ele parecia doente e que levara alguns pontos sobre a sobrancelha, mas que, fora isso, parecia livre do horror que marcara para sempre as vidas dos outros três jovens.

— Eu sou um amigo de Chioe, Mister Thorensen. Eu... nós... convidámo-la para jantar fora.

— Vocês estavam bêbados? — perguntou-lhe Trygve crua e directamente. Jamie, no entanto, abanou a cabeça. Tinham acabado de fazer um teste ao sangue que provava que tanto ele como Phillip não estavam sob o efeito do álcool.

— Não, senhor, não estávamos. Fomos jantar ao Luigi's, em Marin, e eu bebi um copo de vinho, porque não ia conduzir; o Phillip bebeu ainda menos que isso, talvez meio copo, se tanto. A seguir fomos tomar um cappuccino a um café da Union Street e depois viemos para casa.

— Vocês eram todos menores — afirmou Trygve calma mas firmemente. — Nenhum de vocês devia ter bebido, nem mesmo meio copo de vinho. —Jamie sabia que ele tinha razão, mas continuou a explicar o que tinha sucedido:

— Eu sei que tem toda a razão, mas nenhum de nós estava afectado. Não sei como aquilo aconteceu, nunca cheguei a ver o outro carro. Nós íamos a conversar no banco de trás... e depois só me lembro de estar aqui no hospital. A única coisa de que me lembro é de um agente me dizer que alguém veio na nossa direcção ou que nós tínhamos batido em alguém. Sinceramente não sei... mas o Phillip conduzia muito bem... ele obrigou-nos a todos a apertar os cintos de segurança e estava perfeitamente sóbrio. — Ao dizer isto, Jamie começou a chorar. Afinal, o seu amigo tinha morrido e ele continuava vivo.

— Achas que foi o outro condutor quem teve a culpa? — indagou Trygve calmamente. Estava tocado por aquilo que Jamie havia dito e tornava-se por de mais evidente que o rapaz estava ainda muito abalado.

— Não sei... eu não sei de nada, a não ser que... a Chioe e a AUyson... e o Phillip... — Ele soluçava, pensando nos amigos. Trygve, sem hesitar, colocou o braço à volta dos ombros dele. — Tenho muita pena... tenho muita pena...

—Também nós temos... acalma-te, rapaz. Acalma-te... tiveste muita sorte esta noite... o destino é assi mesmo. — Num ápice, escolhe uma vítima, destrói uma vida e depois parte apressado, tal como um relâmpago.

— Mas não é justo... porque é que eu não sofri nada e eles...

— Por vezes é mesmo assim; tens que ficar grato por isso. — Mas tudo o que Jamie Appiegate conseguia sentir era culpa. Ele não queria que Phillip tivesse morrido... nem que Chioe ou Allyson estivessem num estado tão grave... e porque é que ele tinha cado apenas com uns golpes na testa? Porque é que, em vez de Phillip, não tinha sido ele o escolhido?

— Tens alguém que te leve a casa? — perguntou Trygve amavelmente, já incapaz de estar zangado com o rapaz, perante tudo o que acontecera.

— O meu pai deve estar a chegar. Mas eu vi-vos aqui sentados e quis vir explicar-vos que... quis vir dizer-vos que... — Olhou para Trygve e para Page e recomeçou instantaneamente a chorar.

— Nós entendemos — disse Page, apertando-lhe a mão com carinho. Ele inclinou-se para a abraçar, e Page deu consigo a soluçar nos braços do rapaz.

Pouco depois, o pai dele chegou ao hospital e entre os dois existiram alguns minutos de discussão, de lágrimas e de reprovação. O pai de Jamie, Bill Appiegate, estava compreensivelmente aborrecido com tudo o que se passara, mas simultaneamente aliviado pelo facto de o lho ter sobrevivido ao acidente. Chorara quando fora informado da morte de Phillip Chapman, sentindo-se profundamente grato por não ter sido o seu filho. Era um homem respeitado por toda a comunidade, e Trygve já o vira em algumas reuniões escolares e em alguns acontecimentos desportivos.

Conversou durante algum tempo com Page e co Trygve, colhendo informações sobre a forma como tudo ocorrera e pedindo desculpas em nome de Jamie pela mentira. Mas todos eles sabiam que era já demasiado tarde para desculpas;

era demasiado tarde para o que quer que fosse, excepto para as operações, para um milagre capaz de os salvar a todos, e para as preces. Todos tinham plena consciência desse facto.

Bill Applegate prometeu manter-se em contacto com eles, a fim de se manter a par do estado de Chioe e de Allyson e, antes de saírem, voltou a perguntar ao filho se estavam embriagados. Este último insistiu que não, e por alguma razão, nenhum deles duvidou que ele estivesse a dizer a verdade.

Após Bill Applegate ter saído com o filho, Trygve olhou para Page e confessou, abanando a cabeça:

— O rapaz fez-me pena... mas sinto-me ainda um pouco irritado. — Estava, de facto, zangado com todos eles:

com Phillip por os ter envolvido no acidente, com Chioe por lhe ter mentido e com a condutora do outro carro, caso fosse culpa dela. Mas quem podia saber com exactidão o que se passara? Quem podia ter a certeza? O chefe da brigada de trânsito explicara-lhe, alguns minutos antes, que a colisão das duas viaturas tinha sido de tal forma violenta, que se tornava praticamente impossível determinar quem havia sido o culpado e que a posição dos automóveis não lhes permitia ter a certeza de quem pisara o traço contínuo e por que motivo o fizera. As recolhas de sangue revelavam a existência de álcool no sangue de Phillip, embora não em quantidade suficiente para o considerar embriagado. E como a mulher do senador lhes parecera totalmente sóbria, os agentes nem sequer haviam colocado essa hipótese. Tudo o que porventura poderiam concluir era que Phillip se havia distraído, provavelmente por causa de Allyson, e que, assim, talvez fosse ele realmente o culpado pelo acidente. Todavia, nenhuma suposição podia ser considerada conclusiva.

Page continuava obcecada por ver a filha e ansiosa por saber mais alguma informação sobre o estado dela. Passou-se mais uma hora até a enfermeira lhe vir comunicar que os neurocirurgiôes haviam finalmente terminado o seu exame e que estavam agora prontos para a receber.

— Posso ver a minha filha?

— Depois, Mistress Clarke. Os médicos gostariam de vê-la primeiro, para poderem explicar em que condições é que ela se encontra. — Pelo menos, existia ainda algo para explicar. Quando Page se levantou, Trygve encarou-a com uma expressão preocupada. Era um bom amigo... antes, tinham-se encontrado inúmeras vezes e reuniões escolares, nos jogos dos filhos, num ou noutro piquenique ocasional, e apesar de nunca terem sido amigos íntimos Page sempre simpatizara com ele. Além do mais, as suas filhas eram muito amigas desde que a família Clarke viera morar para Marin.

— Quer que eu vá consigo? — perguntou ele. Page hesitou um pouco, mas depois respondeu afirmativamente. Sentia-se apavorada por aquilo que iria ouvir, e ainda mais aterrorizada se sentia ante a possibilidade de ver a filha. Era tudo o que ela mais queria, mas não conseguia deixar de recear profundamente aquilo com que se defrontaria quando a visse.

— Não se importa? — murmurou Page desculpando-se, enquanto percorriam a passos largos o corredor que os levaria até ao local onde a equipa médica os aguardava.

— Não diga disparates — respondeu ele, antes de iniciarem ambos uma corrida pelo corredor. Pareciam dois irmãos com o mesmo passo, ambos de um louro tão intenso e com um ar tão escandinavo! Trygve era um homem muito bondoso e gentil, possuidor de uma aparência saudável e interessante. Era muito fácil lidar com ele e Page nunca se sentira tão à vontade com ninguém como agora se sentia com Trygve. Eram companheiros na desgraça.

A porta da sala de reuniões pareceu-lhes demasiado imponente, e ao entrarem depararam-se-lhes três médicos vestidos com batas e com toucas nas cabeças, sentados à volta de uma mesa oval. Traziam as máscaras caídas à volta do pescoço e Page reparou que um deles tinha ainda uma marca de sangue na bata. Com um arrepio, fez votos para que aquele não fosse o sangue da sua filha.

— Como é que ela está? — Page não conseguiu calar a sua ansiedade por mais tempo, aquilo era tudo o que ela queria saber. Mas a resposta não era de forma alguma tão simples como a pergunta.

— Viva, Mistress Clarke. A Allyson é uma rapariga muito forte; sofreu uma pancada muito violenta, da qual resultou um ferimento muito grave. São poucos os casos como este em que o paciente resiste até esta altura. Mas a sua lha resistiu, e nós queremos acreditar que esse é um bom indício. Mas temos ainda um longo caminho pela frente.

«Essencialmente, ela sofreu dois tipos de lesões, cada um acarretando as suas próprias consequências: a primeira lesão ocorreu no momento do impacte, quando o cérebro foi pressionado contra a caixa craniana. Para simplificar, diríamos que, no embate, a massa encefálica foi muito agitada. Pode até ter sofrido um movimento de rotação, e nesse processo, as fibras nervosas teriam sido forçadas, e as artérias e as veias laceradas. Isto pode ocasionar outras complicações.

«A segunda lesão tem talvez uma aparência mais assustadora do que a primeira, mas isso pode até não corresponder à verdade. Ela tem uma ferida aberta na zona onde o crânio foi perfurado e o osso partido. A massa encefálica está exposta nessa área da caixa craniana, que provavelmente foi atingida por alguma peça aguçada de metal, logo após o embate.

Horrorizada com o prognóstico, Page emitiu um leve gemido e apertou a mão de Trygve, sem sequer se aperceber desse seu gesto. Sentia-se indisposta com a descrição médica, mas esforçava-se para não desmaiar ou para não ceder às náuseas. Sabia que teria que assimilar tudo o que lhe dissessem.

— Há, no entanto, uma forte possibilidade... — prosseguiu o chefe da equipa dos neurocirurgiões, implacável. Tinha consciência do quão desagradável isso era para o casal, mas também sabia que era seu dever explicar-lhes tudo; afinal, eles tinham o direito de ser informados sobre o estado da filha. O médico partia assim do princípio que Trygve era o pai de Allyson. — Há uma forte possibilidade de que a área inatingida por esse ferimento aberto esteja, de facto, ilesa. Não é muito comum estes ferimentos causarem deficiências muito graves, apesar de se verificarem geralmente algumas incapacidades menores. Essa lesão é a nossa primeira preocupação; e, é claro, preocupamo-nos igualmente com as complicações que possam advir de ambas as situações. Ela perdeu muito sangue, mas, de qualquer forma, a pressão sanguínea teria baixado sempre muito devido ao traumatismo.

Ela está profundamente enfraquecida pela perda de sangue. Alé disso, verificou-se também uma perda de oxigénio no cérebro. Não sabemos até que ponto a situação possa vir a ser francamente desesperante, ou venha a acarretar apenas ligeiras consequências. Por enquanto, ainda não temos elementos suficientes para concluir nada. Tudo o que podemos fazer agora para a ajudar é operá-la. Precisamos de levantar o osso que foi comprimido na fractura, de forma a aliviar parte da pressão e vamos também tratar a zona do ferimento; temos igualmente mais algum exercício de reparação para efectuar à volta das órbitas oculares, pois o choque que ela sofreu foi tão violento que a poderia vir a cegar.

«Existem igualmente outras possibilidades capazes de gerar complicações: a infecção, como é natural nestes casos, pois ela demonstra já alguma dificuldade em respirar. Isso era de esperar, mas caso ocorra uma infecção, volto a repetir que esse facto acarretaria sérias consequências. Mantivemos o tubo de oxigénio na traqueia, conforme os enfermeiros da ambulância o haviam deixado e colocámos-lhe uma máscara de oxigénio desde que deu entrada aqui no hospital. Também já lhe efectuámos uma TAC cranioencefálica, e posso armar que esse exame nos deu informações que podem vir a ser cruciais. — Fixou o olhar em Page que o tava desde que ele iniciara o seu longo discurso, e por alguns instantes teve sérias dúvidas de que ela o estivesse a entender. Parecia totalmente alheada, e o pai da rapariga não dava mostras de estar em muito melhores condições. O médico decidiu então dirigir-se a ele, já que Page parecia não conseguir absorver todas as informações.

— Fui sucientemente claro, Mister Clarke? — indagou ele esperançoso, com um tom de voz assustadoramente calmo e que quase não registava a mínima emoção.

— Eu não sou Mister Clarke — murmurou Trygve, tão acabrunhado quanto Page por tudo o que acabara de ouvir. — Sou apenas um amigo.

— Ah... — O cirurgião ficou desapontado. — Compreendo. Mistress Clarke? Entendeu o que acabei de lhe dizer?

— Não tenho bem a certeza. Disse-me que a minha filha sofreu dois traumatismos, que são basicamente uma pancada muito forte no cérebro e uma ferida aberta que resulta de uma fractura no crânio. E como consequência disso, ela pode morrer, ou pode ficar com o cérebro permanentemente afectado... pode também cegar... foi isto que disse? — perguntou ela com lágrimas a acumularem-se nos olhos. — Eu percebi bem?

— Digamos que a senhora percebeu o essencial. Depois da cirurgia, toda a nossa atenção vai ser focada numa hipótese a que damos o nome de «terceiras lesões». Podiam ter ocorrido igualmente segundas lesões, mas ela evitou-as por ter usado cinto de segurança. Nas terceiras lesões, o que nós tentamos detectar é um grande inchaço do cérebro, a formação de coágulos sanguíneos e de equimoses. Estes podem tornar-se num problema sério. Não é provável que aconteçam até terem decorrido pelo menos vinte e quatro horas desde o acidente, por isso torna-se difícil prever o que quer que seja neste momento.

Foi então que Page arranjou coragem para perguntar a única coisa que queria realmente saber, mas cuja resposta receava ainda mais do que a pergunta:

—Existe alguma hipótese de ela voltar a estar bem...? Quer dizer, voltar a ficar... normal? Isso é possível, depois de tudo o que lhe aconteceu?

— Possível é, desde que consideremos que o termo «normal» inclui na sua definição vários graus. As capacidades motoras podem ficar afectadas por um tempo, ou mesmo indefinidamente. Podem estar afectadas num grau menor ou maior, depende. Os mecanismos racionais podem ficar afectados e a personalidade dela pode vir a alterar-se. Mas na generalidade, sim, se ela tiver muita, muita sorte e for privilegiada por uma espécie de pequeno milagre, pode mesmo recuperar a normalidade.

Mas Page pôde perceber que o médico não julgava que essa possibilidade fosse muito provável.

— E o senhor doutor considera essa hipótese viável? — Estava a pressioná-lo, mas precisava de obter uma resposta clara.

— Não, não considero. Acho muito pouco provável que após ter sofrido um traumatismo tão grave não se registem efeitos secundários a longo prazo. Mas também sou da opinião que, se tudo correr bem, essas consequências podem ser relativamente menores... mas isto só na melhor das hipóteses. Não lhe faço nenhuma promessa, Mistress Clarke. Neste momento, a sua filha passa por sérias dificuldades e não podemos ignorar esse facto. A senhora perguntou-me se podia vir a ocorrer o melhor e eu respondo-lhe que isso é possível, mas pode não ser essa necessariamente a hipótese mais viável.

—E na pior das hipóteses...?

— Ela pode não resistir... ou, caso resista, pode ficar seriamente afectada.

— E que quer isso dizer?

— Que pode permanecer em estado de coma para sempre, ou, caso volte a car consciente, pode ficar com o cérebro gravemente danificado, perder as capacidades motoras e a capacidade de raciocínio. Resumindo, ela corre o risco de ficar com o cérebro profundamente afectado, caso o choque que suportou tenha sido demasiado forte e causado demasiadas lesões, e caso nós não consigamos tratá-las. O inchaço posterior do cérebro vai ter também muita importância na recuperação, bem como a nossa capacidade de o enfrentar. Vamos necessitar de toda a nossa habilidade Mistress Clarke, e de muita sorte... e a sua filha também. Gostaríamos de iniciar imediatamente a cirurgia, caso nos dê a sua permissão.

— Ainda não consegui contactar com o pai dela. — Page sentiu um enorme nó na garganta. — E talvez não consiga encontrá-lo até amanhã... ou seja, hoje... — A voz soava tão trémula quanto ela de facto estava. Trygve observava a sua angústia sem poder fazer nada para a ajudar, mas desejando profundamente que isso fosse de alguma forma possível.

— A Allyson não pode esperar, Mistress Clarke... até os minutos contam no caso dela. Já lhe efectuámos uma TAC, como referi, e tirámos-lhe vários raios X ao crânio. Se a quisermos salvar, ou se quisermos manter nem que seja uma das suas funções mentais normais, temos que iniciar a cirurgia o mais depressa possível.

— E se esperarmos? — Ela sentia que deveria consultar o marido, porque Allyson era também sua filha. Não era justo decidir sem ele.

Ele fitou-a durante bastante tempo, e afirmou:

— Não julgo possível que ela resista mais de duas horas no estado em que está Mistress Clarke. E caso viesse a resistir, sou da opinião que a sua filha não conservaria intactas nenhuma das funções mentais e, provavelmente, perderia também a visão.

E se o médico estivesse enganado? Não era costume ter direito a uma segunda opinião médica? O problema era que não havia tempo para isso; aliás, mal tinha havido tempo para uma só opinião médica, já que ele acabara de afirmar que Allyson não resistiria mais de duas horas sem ser submetida a uma neurocirurgia. Que outra escolha poderia haver?

— Não tenho muitas alternativas, senhor doutor — comentou Page tristemente, agarrada à mão de Trygve, que apertava a sua.

— Não há, de facto, mais nenhuma alternativa Mistress Clarke. Estou certo de que quando conseguir falar com o seu marido, ele compreenderá isso perfeitamente. Gostaríamos de poder fazer tudo o que estiver ao nosso alcance. — Ela acenava com a cabeça enquanto o ouvia, ainda sem saber se podia conar totalmente nele. Mas, de momento, não tinha outra opção senão confiar; a vida de Allyson dependia das capacidades médicas daqueles homens, bem como das suas decisões. E se ela resistisse, mas ficasse com o cérebro completamente afectado, como eles haviam avisado, ou ficasse em estado de coma para o resto da vida? Que tipo de vitória seria essa? — Deseja assinar já a autorização para a cirurgia? — indagou entretanto o médico com bastante suavidade. Depois de um momento de hesitação, Page concordou.

— Quando é que pensam iniciar a cirurgia? — perguntou ela com a voz pouco clara.

— Dentro de meia hora — esclareceu o médico calmamente.

— Até lá posso car com ela? — Page sentia-se completamente dominada pela ansiedade: E se eles não a deixassem voltar a ver a lha? E se aquela fosse a última vez que a via?

Porque é que não a tinha abraçado mais tempo antes de ela sair na noite anterior? Por que motivo não lhe tinha dito tudo aquilo que fizera tenções de lhe dizer ao longo do seu curto período de vida? O médico inclinou-se para Page e pousou uma mão no ombro dela, pois, sem dar por isso, Page tinha recomeçado a chorar.

— Vamos fazer tudo o que pudermos por ela Mistress Clarke. Dou-lhe a minha palavra. — Olhou em volta para o seus dois colegas, que quase não haviam pronunciado uma palavra na última meia hora, e armou com firmeza: — A sua filha está entregue a uma das melhores equipas de neurocirurgia do país. Confie em nós.

Page limitou-se a fazer um sinal afirmativo, pois já não possuía forças para dizer mais nada. O médico levantou-se da cadeira e ofereceu-se para conduzi-la até junto da filha.

— Ela está inconsciente Mistress Clarke, e sofreu também alguns ferimentos menores. Nalguns aspectos, a aparência dela pode parecer mais grave do que de facto é. Muito daquilo que irá ver agora cicatrizará dentro de pouco tempo. Só em relação ao cérebro é que já não é bem assim...

Mas nada do que ouvira a tinha preparado para o que ia ver. Allyson estava numa das salas da unidade de cuidados intensivos, assistida por um médico estagiário e por duas enfermeiras especializadas; tinha um tubo na garganta, para lhe facilitar a respiração, outro tubo no nariz, uma transfusão num braço, soro na perna e aparelhos e monitores cercando-a por todo o lado. No meio de todo aquele aparato médico estava a sua filha deitada, com o rosto tão maltratado que a mãe quase não a reconheceu, e com a cabeça tapada por várias camadas de gaze esterilizada; era aí que estava preso o seu lindo cabelo, que dentro em pouco seria cortado.

Se não se tratasse da sua filha, a qual Page teria identificado e descoberto em qualquer lugar e no meio de quaisquer circunstâncias, seria quase impossível reconhecê-la. Mas uma mãe reconhecia os lhos através do coração e não dos olhos. Page aproximou-se então dela e deixou-se ficar a seu lado.

— Minha querida, a mãe está aqui... — Inclinou-se, falando suavemente ao ouvido da filha, rezando para que, no seu íntimo, ela a pudesse ouvir. — A mãe ama-te muito... vai ficar tudo bem, fílhinha... vais ver que vais ficar boa depressa... eu gosto muito de ti, Ailie... todos nós te amamos... todos te amamos muito... — Page soluçava, repetindo as mesmas frases. Enquanto falava, segurava o braço e a mão de Allyson e acariciava-lhe a face que não fora ferida. Estava tão pálida que, se não fossem os registos dos monitores, por mais de uma vez Page teria sido levada a acreditar que ela deixara de respirar. Sentia o coração dorido só de contemplar a filha, incapaz de aceitar o que lhe acontecera. — Meu amor, todos nós te amamos... tens que ficar boa. Por todos nós... por mim... pelo pai... e pelo Andy.

Page continuou ao lado da cama da filha até lhe pedirem que se retirasse, para poderem preparar Allyson para a cirurgia. Ela pediu para car, mas as enfermeiras insistiram que seria melhor ela sair; ainda não satisfeita, Page perguntou em que consistiam os preparativos para a neurocirurgia e informaram-na de que iriam começar a dar-lhe uns novos medicamentos, teriam que lhe rapar a cabeça e colocar-lhe-iam também uma sonda. Havia ainda muito a fazer, embora Allyson não fosse sentir nada; de qualquer forma, seria bastante aflitivo para a mãe assistir a tudo aquilo.

— Será que eu podia ficar com... com... — Teve que se esforçar para conseguir pronunciar a palavra — uma madeixa do cabelo dela...? — Esse pedido parecia-lhe um pouco mórbido, mas o seu desejo sobrepunha-se a tudo o mais.

— Claro que sim — respondeu gentilmente uma das enfermeiras. — Prometo-lhe que vamos tratar bem dela Mistress Clarke. — Page acenou com a cabeça e voltou-se uma vez mais para Allyson, inclinando-se sobre ela, e beijando-lhe a face com muita suavidade.

— A mãe vai amar-te sempre muito, minha querida. sempre... — Repetia a frase que costumava dizer à filha quando esta era mais pequena, na esperança que ela, bem no seu íntimo, ainda a reconhecesse.

Page teve que reunir todas as suas forças para abandonar a sala onde a lha estava, e ao sair as suas lágrimas eram tantas que lhe ofuscavam a visão. Era incrivelmente doloroso saber que aquela poderia ter sido a última vez que vira a filha com vida, embora se esforçasse para recordar que não havia outra alternativa possível. Se houvesse ainda qualquer esperança de a salvar, Allyson teria que ser operada sem demora.

Trygve estava à sua espera no corredor, e mal a viu, sentiu o coração apertado pelo terrível estado em que vinha. Tudo aquilo por que passara na última hora estava escrito no seu rosto. Quando Page entrara na sala, Trygve tivera oportunidade de ver Allyson de longe, e só esse breve vislumbre fora o suciente para o impressionar. Chioe já estava suficientemente maltratada, mas isto era ainda muito mais grave. Além do que, ouvindo a explicação médica, ele chegara secretamente à triste conclusão que era muito provável que ela não resistisse à operação.

— Lamento muito, Page... — murmurou ele, abraçando-a e deixando que ela chorasse livremente no seu ombro por um longo período de tempo. Chorar era ainda o único alívio que ela poderia buscar. Trygve não tinha a menor dúvida de que aquela seria a mais longa noite das suas vidas, um autêntico pesadelo que ainda estava bem longe do fim. Acabara de receber por uma enfermeira a informação de que a operação de Chioe estava a correr bem, mas que só terminaria dentro de mais algumas horas.

A enfermeira que estava na recepção trouxe os formulários para Page assinar, após o que Trygve sugeriu que fossem até ao bar do hospital tomar um café.

— Acho que não ia conseguir beber café...

— Beba água, então. Precisa de mudar um pouco de ambiente, Page. Ainda temos muito pela frente. — Eram já quatro da madrugada, e o médico cirurgião informara-os de que a neurocirurgia demoraria doze a catorze horas. — Talvez devesse ir descansar algumas horas a casa — aconselhou, preocupado com o estado dela. Aquelas últimas horas tinham servido para os aproximar mais do que os últimos oito anos, e Page sentia-se grata por ele estar ali com ela. Sabia que teria sido muito mais duro enfrentar tudo aquilo sozinha.

— Eu não saio daqui — afirmou Page com determinação. Trygve entendeu-a perfeitamente, porque também ele não conseguia pensar em deixar Chloe. Mas no seu caso, o lho ais velho Nick, estava em casa a tomar conta de Bjorn. Antes de sair de casa, Trygve informara-o do pouco que sabia e desde então telefonava para casa sempre que podia. Contudo, no caso de Page, existia Andy, que estaria provavelmente em pânico sem a mãe nem a irmã em casa.

— Com quem é que deixou o Andy? — quis ele saber, enquanto bebiam um café de muito fraca qualidade no bar. Ambas as raparigas estavam a ser operadas, e Page acabara por concordar em o acompanhar até ali.

— Deixei-o com a nossa vizinha, Jane Gilson. O Andy gosta muito dela e não vai ficar assustado quando acordar. Agora não me posso ir embora daqui. Mas vou ter que fazer qualquer coisa para encontrar o Brad nas próximas horas. Pela primeira vez em dezasseis anos, ele viajou sem me deixar o número de telefone de onde estava.

— É sempre assim — comentou Trygve com pesar sincero. — A Dana foi esquiar uma vez com uns amigos e esqueceu-se também de me deixar o telefone. É claro que foi nesse mesmo fim-de-semana que o Bjorn se perdeu, o Nick partiu uma perna e a Chloe adoeceu com pneumonia. Como pode calcular, passei um óptimo fim-de-semana!

Page sorriu ao pensar nisso. Ele era uma pessoa tão válida e tinha-a ajudado tanto nessa noite! Mas era ainda difícil assimilar o que se havia passado.

— Ainda não sei o que é que vou dizer ao Brad. Ele é tão apegado à Ailie... vai ser terrível para ele.

— E um pesadelo para todos nós... e o pobre rapaz que ia a conduzir... imagine como se devem sentir os pais dele.

Às seis da manhã, altura em que os pais de Phillip Chapman chegaram ao Marin General, tiveram ambos oportunidade de constatar como eles de facto se sentiam. Era um casal de boa aparência, ambos perto dos sessenta anos. A mãe de Phillip tinha o cabelo branco e bem arranjado e o pai tinha a aparência de um bancário. Foi Page quem os viu dirigirem-se à recepção, ambos exaustos e desgostosos. Mal foram avisados, tinham partido de Carmel no seu carro, incapazes de acreditarem no que sucedera. Phillip era o filho único do casal, tinha nascido um pouco tarde e depois dele já não fora possível terem outro. Ele era tudo para eles, razão essa que os levara a não concordar com a ideia de ele ir estudar para uma universidade de outro estado. Não aceitaram a ideia de terem o filho tão afastado deles, e agora, sem que ninguém o pudesse impedir, ele estava ainda mais distante. Afastado das suas vidas para todo o sempre.

Mrs. Chapman permanecia de pé com a cabeça baixa, chorando silenciosamente enquanto ouvia o médico; o marido colocara o braço à volta dos ombros dela e chorou copiosamente quando o médico os informou de que Phillip sofrera um traumatismo craniano e partira o pescoço, o que de imediato causara a sua morte, por rotura da secção medular e lesão do tronco cerebral. A partir do momento do embate, deixara de haver qualquer esperança de sobrevivência para Phillip.

O médico informou-os também de que haviam detectado uma pequena quantidade de álcool no sangue dele, embora não a suficiente para o poderem considerar legalmente embriagado; mas o que ele bebera talvez fosse o suficiente para afectar levemente um rapaz da sua idade. O médico não afirmou que o acidente se devera ao estado de Phillip, era ainda pouco claro quem tinha colidido com quem, mas os Chapman perceberam a implicação e ficaram muitíssimo chocados. O médico da sala de observações dissera-lhes que o outro condutor era a mulher do senador Hutchinson e que ela tinha ficado muito abalada com o que acontecera, mas isso não contribuíra para modificar em nada o que sentiam. Phillip estava morto, fosse quem fosse o outro condutor. Ao ouvir o médico sugerir subtilmente que o seu filho tinha estado a beber, a mágoa de Mrs. Chapman transformou-se inesperadamente em revolta. Quis saber se o condutor do outro carro também tinha sido examinado, mas responderam-lhe que o agente da brigada de trânsito havia ficado com a certeza de que ela estava sóbria, sem que tivesse motivos para suspeitar do contrário. Ao ouvir esta explicação, Tom Chapman ficou visivelmente indignado. O pai de Phillip era um conhecido advogado, que de forma alguma aceitava a ideia de que o filho tivesse sido submetido a um teste e a sua reputação levemente manchada, enquanto que a mulher do senador estava acima de qualquer suspeita. Essa desigualdade parecia-lhe uma tremenda injustiça, e ele recusava-se a aceitá-la.

— O que é que está a querer insinuar? Que porque o meu filho tinha dezassete anos, beber meio copo de vinho ou nem tanto, o torna o pretenso culpado deste acidente? E uma mulher adulta que poderia muito bem ter bebido muito mais do que ele, e ficado possivelmente muito afectada, está acima da própria lei apenas por ser casada com um senador? — Tom Chapman tremia de fúria e de desgosto enquanto punha estas questões ao jovem médico que acabara de o informar que Laura Hutchinson não tinha sido submetida a nenhum teste de alcoolemia, apenas porque o agente da brigada de trânsito a tinha «julgado» acima de qualquer suspeita.

— Não se atreva a insinuar que o meu filho estava sob o efeito do álcool! — exclamou Tom Chapman, enquanto a mulher recomeçava a chorar ao seu lado. A revolta que sentiam servia para amortecer o desgosto inconsolável de ambos. — Isso é uma difamação! A amostra de sangue demonstra que nunca poderiam considerar Phillip embriagado ou mesmo bastante alcoolizado. Eu conheço o meu filho. Ele não costuma beber, mas se o faz é ocasionalmente e muito pouco, em especial se depois tenciona conduzir. — Mas Phillip já não ia poder fazer mais nada, e a fúria de Tom Chapman começou a ceder à medida que se apercebia disso. Queria poder culpar alguém, magoá-lo tão profundamente quanto ele mesmo estava magoado; queria provar que o outro condutor era o único culpado, e não o seu filho... mas acima de tudo, queria que aquilo nunca tivesse acontecido. Porque tinham eles ido para Carmel? Por que motivo o tinham deixado sozinho, confiando totalmente nele? Afinal, era apenas um adolescente, uma criança... e agora, era este o resultado. Os seus olhos encheram-se novamente de lágrimas e ele lançou à mulher um olhar desesperado. Por momentos, a breve explosão de raiva tinha ajudado a atenuar a dor, mas agora esta voltava a atingi-lo em pleno. Quando se abraçaram na sala de urgências, os pais de Phillip choravam abertamente porque para eles a questão da culpa já não era o mais importante.

Um fotógrafo tirou-lhe uma fotografia quando se sentaram a um canto da sala de urgências. A luz intensa confundiu-os, mas depois de tudo por que havia passado, ambos julgaram que se tratava apenas de mais um dos muitos factos incompreensíveis daquela noite. Assim que se aperceberam de que a imprensa os tinha fotografado, sentiram-se chocados por aquela intromissão. No meio de toda a mágoa que sentiam, eram ainda sujeitos a afrontas como essa, e Tom Chapman parecia capaz de agredir fisicamente o autor da fotograa; mas é claro que não o fez, pois apesar do seu sofrimento era uma pessoa sensata. Foi só então que compreenderam que a sua dor ia ser tornada pública, por causa do estatuto social do outro condutor. Ia ser uma notícia controversa, algo que seria utilizado para mobilizar as pessoas. Seria a mulher do senador a culpada, ou apenas uma vítima inocente protegida pela sorte? Teria o acidente sido culpa de Phillip Chapman? Estaria o rapaz alcoolizado? Seria ele um irresponsável ou apenas demasiado jovem? Poder-se-ia considerar ilegal a conduta de Laura Hutchinson? Estaria um ou mais dos envolvidos no acidente sob o efeito de drogas? O facto de um rapaz de dezassete anos ter perdido a vida, de os seus pais terem sofrido o maior desgosto de sempre, de uma jovem ter ficado mutilada e de uma outra ter ficado em perigo de vida servia ainda para tornar a notícia mais sensacionalista.

Ao saírem do hospital, os Chapman estavam arrasados, mas mais ainda por terem visto Phillip. Mary Chapman sabia que nunca conseguiria esquecer o horror daquele momento em que vira o filho tão ferido e tão pálido, morbidamente imóvel quando os dois se inclinaram sobre o corpo dele para o beijar. Tom soluçava, e Mary, inclinada sobre o filho, tocou-lhe na face com toda a sua suavidade, beijando-o em seguida. No seu pensamento revia a primeira vez que o vira, há dezassete anos atrás, e o segurara nos braços, comovida com a intensa alegria de ser mãe. Ela sabia que sempre o seria, que o tempo nunca poderia modificar isso, mas agora a morte levara-lhe o filho. Nunca mais o iria ver a rir, a correr pelo relvado da casa, a bater com a porta da entrada, ou a contar uma anedota; nunca mais a surpreenderia com uma das suas inofensivas diabruras ou com uma das suas doces surpresas; nunca mais lhe ofereceria flores; e ela nunca chegaria a vê-lo crescer; iria vê-lo para sempre como estava naquele momento, horrivelmente parado, com a alma já noutro sítio. Apesar de todo o amor que os pais tinham por ele, e ele pêlos pais, num só breve e inesperado instante Phillip deixara-os.

Ver o lho fez com que o último ataque fotográfico, na altura em que saíam, fosse ainda mais inoportuno. Mas confrontado com o que sucedera, Tom Chapman jurou que faria tudo o que fosse preciso para que o filho não fosse culpado pelo desastre. Se necessário fosse, encarregar-se-ia de limpar o seu nome; não permitia que a memória do filho fosse caluniada por uma insinuação, ou utilizada para proteger a mulher do senador, ou o cargo que este tencionava ocupar nas próximas eleições. Tom Chapman tinha total certeza de que o filho não era culpado, e não permitiria que alguém insinuasse o contrário. A caminho de casa, repetiu tudo isto à mulher, mas esta não parecia escutá-lo. A mãe de Phillip só conseguia pensar no rosto do filho quando o beijara pela última vez.

Era uma noite interminável para todos eles. Page e Trygve continuavam a sua vigília, enquanto as duas raparigas estavam na sala de operações. Aos pais parecia que elas já lá estavam há uma eternidade.

— Não paro de pensar no que pode acontecer... — disse Page pausadamente. O Sol despontava sobre Marin, e ela tentou encarar o final da noite como um bom presságio. Estava outro dia de Primavera maravilhoso, mas desta vez Page já não se sentia entusiasmada com o tempo quente. No seu coração, o Inverno havia-se instalado com muito gelo e muita neve, e toda a desolação que o caracteriza. — Só me lembro do que disse o doutor Hammerman... que ela pode car com o cérebro afectado, ou gravemente incapacitada, física ou mentalmente. Como é que vou começar a lidar com isso? Como é que se consegue conviver com uma deficiência dessas? — perguntou ela distraidamente falando mais consigo própria do que com Trygve. De súbito, lembrou-se de Bjorn e arrependeu-se logo do que dissera: — Desculpe, Trygve... não reparei no que disse.

— Não se preocupe, compreendo o que está a sentir. Pelo menos, posso imaginar como deve estar. Também me senti um pouco assim quando me informaram do estado da Chioe, e lembro-me perfeitamente do que senti quando me disseram que o Bjorn sofria de mongolismo. — Estava a ser franco com ela, pois ambos procuravam entender que tipo de ajustamentos seriam obrigados a fazer num futuro próximo.

Page olhou-o e só então reparou que o cabelo dele estava tão despenteado como o seu; ele usava umas calças de ganga desbotadas, uma velha camisa aos quadrados e calçava uns ténis velhos sem meias. Olhou então para a camisola que costumava usar para trabalhar no jardim e lembrou-se de que nem sequer se penteara. Na verdade, isso agora não a preocupava muito, mas pensar no aspecto dos dois fê-la sorrir.

— Fazemos um bonito par, nós os dois — comentou ela enquanto sorria. — Mas você ainda consegue estar um bocadinho mais apresentável do que eu. Saí de casa tão depressa que não me espantava se me tivesse esquecido de vestir!

Trygve sorriu pela primeira vez desde há várias horas, o que o fez parecer mais novo e ainda mais nórdico, com os seus olhos muito azuis e as pestanas muito louras.

— Estas calças de ganga são do Nick, e esta camisa é do Bjorn. Os sapatos não faço ideia de quem sejam... encontrei-os na garagem, quando me preparava para conduzir descalço.

Ela entendeu perfeitamente aquela pressa, recordando-se do que sentira quando lhe haviam telefonado. Nem gostava de se lembrar disso e muito menos de que ainda teria que contar ao marido, o que era um outro pesadelo. Se ela ao menos lhe pudesse dizer que Allyson ainda estava viva e que havia alguma esperança... mas não era provável que já se soubesse alguma coisa na altura em que ela pensava conseguir contactá-lo.

— Estava a pensar no Bjorn — comentou Trygve pensativo, recostando-se na cadeira com um olhar vago. — Foi horrível quando soubemos. A Dana odiava tudo e todos, e a mim em especial, porque já não tinha mais ninguém a quem odiar. E no princípio detestava o Bjorn também. Não era capaz de aceitar que não tínhamos um filho saudável e normal. Dizia que ele ia ser uma espécie de vegetal e pintava um quadro muito negro acerca do nosso futuro. Queria interná-lo numa instituição para dementes.

— E porque é que não o fez? — Page queria conhecê-lo melhor e agora sentia que lhe poderia perguntar quase tudo o que desejasse. Pensou que Brad também hesitaria muito em aceitar uma criança que não fosse normal.

— Não acredito que seja essa a solução. Talvez seja por causa da minha educação norueguesa, ou então é mesmo próprio da minha personalidade. Mas não creio que se deva fugir das dificuldades; eu, pelo menos, nunca fugi das minhas. — Trygve sorriu com tristeza, pensando nos vinte anos em que vivera um casamento fracassado. — Embora houvesse ocasiões em que talvez o devesse ter feito... mas sempre pensei que as crianças, as pessoas idosas, as doentes e as deficientes também fazem parte da vida. Este mundo não é perfeito e por isso não é justo exigirmos dele a perfeição. Quando o Bjorn nasceu deciente, eu pensei que deveríamos dar o nosso melhor a esse lho, mas a Dana comunicou-me logo que não contasse com ela. Então encarreguei-me de cumprir essa missão sozinho e de ajudá-lo em tudo aquilo que estivesse ao meu alcance. E na verdade tivemos muita sorte, porque ele não é tão afectado pela doença como os outros. Tem algumas limitações, é certo, mas também tem muitas capacidades: tem muita habilidade para trabalhos de carpintaria e um sentido artístico muito bom, embora um pouco infantil; adora as pessoas, é muitíssimo afectuoso, é muito leal, é um bom cozinheiro, tem bastante sentido de humor e até certo ponto é um rapaz responsável; agora está até a aprender a conduzir... mas eu sei que ele nunca chegará a ser como o Nick, ou como eu, ou como você. O Bjorn nunca poderá ir para a faculdade, nem nunca chegará a ser gerente de um banco ou um médico. Mas não deixa por isso de ser o Bjorn, e é muito bom naquilo que faz. Adora desporto, adora crianças e dá-se bem com toda a gente... e apesar das suas limitações, talvez tenha uma vida muito feliz. Pelo menos, espero ter contribuído para isso.

— Deu-lhe muito — afirmou Page docemente. — Ele é um rapaz de sorte.

Ouvindo-a referir-se nesses moldes ao filho, Trygve quis responder-lhe que achava Brad igualmente um homem de sorte. Por aquilo que pudera ver nessa noite, considerava-a uma mulher notável. Page havia sofrido um golpe que derrubaria a maior parte das pessoas, mas mesmo assim mantivera-se de pé, ainda com forças para o ajudar e para não deixar de se preocupar com todos os outros: com o marido, com o filho e até mesmo com os pais de Phillip.

— Ele merece, Page. O Bjorn é um bom rapaz. Não sei como teria sido a vida dele se tivesse sido internado numa instituição para deficientes... não sei se teria ou não chegado a ser como é hoje. Lá em casa, é ele quem faz as compras e orgulha-se muito disso. Por vezes, sinto que posso confiar mais nele do que na Chioe! — Ambos sorriram, forçados a concordar que as adolescentes também tinham as suas limitações...

— E às vezes não o entristece pensar que ele poderia ter alcançado muito mais?

— Ele nunca poderia ser doutra forma Page. Este é o seu máximo e talvez assim seja mais fácil para mim aceitar e ter orgulho nele. — Ambos sabiam que o caso seria muito diferente se Allyson ficasse incapacitada depois de tudo o que ela já tinha sido.

— Mas continuo sem saber como é que alguém se consegue habituar a um caso desses. Talvez seja preciso esquecer todas as referências anteriores e começar tudo de novo, com gratidão por cada passo em frente, por cada palavra nova e por cada migalha de crescimento e de progresso... mas como é que se esquece? Como é que vou conseguir esquecer-me do que ela foi e aprender a aceitar tão pouco?

— Não sei — respondeu ele com tristeza sincera, sem poder sequer imaginar o que isso significaria. — Talvez tenha que começar por sentir gratidão pelo simples facto de ela estar viva — concluiu ele. Page concordou, pensando na gratidão que de facto sentiria caso Allyson sobrevivesse.

— Mas, por enquanto, nem mesmo disso posso ter a certeza...

Entretanto, eram quase oito da manhã e Page decidiu então telefonar a um colega de Brad, pedindo-lhe que tentasse localizar o marido em Cleveland.

Com muitas desculpas, acordou Dan Ballantine e a sua mulher e explicou resumidamente a este o que se tinha passado. Informou-o de que Brad estava em Cleveland e que nessa manhã tencionava ir jogar golfe com o presidente da empresa; sugeriu-lhe que, caso ele não tivesse a mais pequena ideia do nome do hotel onde Brad estaria hospedado, talvez pudesse fazer o favor de telefonar para o presidente da dita empresa para que este, por sua vez, comunicasse mais tarde a Brad que ela precisava urgentemente de falar com ele. Era uma forma muito pouco directa de o contactar, mas foi a única de que ela se conseguiu lembrar. Dan prometeu-lhe telefonar imediatamente ao presidente da companhia e deixar a este o número do hospital, assegurando-lhe que contariam a Brad apenas o essencial, de forma a não o alarmarem. Por último, Dan lamentou o ocorrido e fez votos de que Ailie recuperasse depressa.

— Deus permita — respondeu Page com sinceridade, agradecendo-lhe novamente a ajuda. Menos de uma hora depois, Dan telefonou para o hospital e pediu para falar com ela, comunicando-lhe que o presidente da companhia de Cleveland afirmara que tinha marcado um encontro com Brad apenas para o dia seguinte. Segundo o mesmo, eles nunca tinham planeado encontrar-se no domingo de manhã para jogar golfe ou para qualquer outro fim.

— Que estranho... o Brad disse-me que... mas isso agora não importa, talvez eu tenha percebido mal. Só me resta esperar até que ele telefone para casa — concluiu ela, desanimada. Estava demasiado cansada para se preocupar com o facto de ele não estar onde tinha dito que estaria, e supôs então que o jogo talvez tivesse sido cancelado e que Dan tivesse percebido mal. Pelo menos fizera os possíveis para avisar o marido, conforme mais tarde ele poderia confirmar. E, talvez nessa altura, as notícias já fossem menos angustiantes...

— Não o conseguiram localizar — explicou ela a Trygve enquanto se sentava de novo ao pé dele numa cadeira muito pouco confortável. Depois de tantas horas, a barba de Trygve, apesar de ser muito clara, já se tornava visível no seu rosto. Ele parecia tão fatigado e tão abatido quanto Page. — O Brad há-de acabar por telefonar, e a Jane depois pede-lhe para ele ligar para aqui. Coitado... fco doente só de pensar em lhe dizer.

— Eu sei como se sente. Quando estava ao telefone, resolvi telefonar para Londres, para avisar também a Dana. Ela tinha acabado de chegar de um fim-de-semana em Veneza e ficou horrorizada. Deitou-me as culpas, como já é hábito... a culpa é toda minha, porque não devia ter deixado a Chioe sair de casa e porque me devia ter informado sobre as companhias dela. Perguntou-me onde é que eu estava com a cabeça para não suspeitar logo de que havia alguma coisa errada. Talvez ela até tenha razão... fui incrivelmente crédulo, mas de vez em quando é preciso confiar neles, fazer-lhes alguma vontade... Não posso passar a vida armado em detective, e para dizer a verdade, na maioria das vezes o comportamento da Chioe é até muito bom. Mas é claro que não é sempre exemplar...

— A Ailie também é assim. Só muito raramente é que se porta mal ou desobedece a alguma regra. Estavam as duas a experimentar as asas, o que não deixa de ser normal nesta idade... se não fosse este horror ter acontecido exactamente nesse instante...

— Pois seja como for, a Dana insiste que a culpa é toda minha.

— E acredita nisso? — perguntou-lhe Page calmamente.

— Não muito; mas fica sempre uma dúvida dentro de mim. A Dana até pode estar certa, embora eu não goste muito de pensar isso.

— Ela não tem razão e você bem o sabe. Não tem culpa absolutamente nenhuma, Trygve. Foi um acaso horrível do qual ninguém tem culpa, a não ser provavelmente a condutora do outro carro. — Era mais fácil para os dois atribuírem a culpa do acidente a Laura Hutchinson do que a Phillip Chapman. Era até mais fácil suportar a ideia de que o acidente ocorrera apenas por um terrível golpe do destino e não por culpa de Phillip. Ou talvez agora isso não fizesse muita diferença...

Mas antes de poderem chegar a alguma conclusão a esse respeito, o cirurgião ortopedista veio comunicar-lhes que a operação de Chioe tinha corrido bem. Ela perdera muito sangue e era natural que continuasse a sentir algum desconforto, mas tudo levava a crer que, com o tempo, poderia voltar a andar. O osso da bacia fora ajustado, a anca fora consertada, e nas duas pernas haviam sido colocadas placas e parafusos de aço, que seriam tirados dentro de um ou dois anos. Chioe não poderia voltar ao ballet, mas com alguma sorte poderia voltar a andar e até talvez a dançar... e um dia, talvez pudesse vir a ser mãe. Muito iria depender do andamento das próximas semanas, mas o cirurgião manifestava-se já muito contente com a forma como a operação decorrera e com o estado de Chioe. Trygve chorou de alívio ao ouvir a notícia.

Chioe estava ainda na sala de recuperação, onde o médico afirmava que ela iria permanecer até por volta do meio-dia, senão mais tarde. Só depois a transfeririam para a unidade de cuidados intensivos, onde ficaria durante mais ou menos uma semana. Findo esse prazo, poderia ocupar um quarto particular. O médico comunicou-lhe também que no m do dia gostaria de lhe efectuar uma transfusão, e perguntou se ele ou algum dos seus lhos possuíam o mesmo tipo de sangue. Trygve respondeu-lhe que não apenas um, mas todos eles tinham o mesmo tipo sanguíneo, o que decerto agradou bastante ao médico.

— Agora o senhor devia pensar em ir descansar algumas horas a casa. Pode voltar cá ao fim da tarde, quando nós transferirmos a sua filha para os cuidados intensivos. Vai ser um longo percurso, este nosso. No mínimo, a Chioe vai permanecer um mês internada, senão mais. Não há vantagem nenhuma em esgotar todas as suas energias na primeira fase do campeonato. — O uso daquela metáfora fê-lo sorrir, constatando que, de facto, se sentia atraído pela ideia de algumas horas de descanso. Mas detestaria ter de deixar Page ali sozinha com a lha ainda na sala de operações. Assim, acabou por car mais umas horas, substituindo a cama pelo sofá da sala de espera. Afinal, sabia que Page teria feito o mesmo por ele, e sentia-se quase na obrigação de lhe fazer companhia.

Só pelas duas horas da tarde é que procederam finalmente à transferência de Chioe para a enfermaria da unidade de cuidados intensivos. Estava ainda sob o efeito da anestesia, mas mesmo assim reconheceu o pai, o que era de facto espantoso, considerando tudo o que lhe haviam feito e dada a enorme quantidade de aparelhos ligados ao seu corpo. Trygve ficou deveras aliviado pelo contentamento e optimismo que os médicos demonstravam sentir.

— Como é que ela está? — perguntou imediatamente Page a Trygve. Acabara de telefonar para Jane e falara com Andy, que estava preocupado com a ausência da mãe, mas ainda mais com a da irmã. Page procurara contornar a questão com muito cuidado, pois era ainda demasiado cedo para lhe explicar o que quer que fosse e, além do mais, ainda nem tinha contado nada ao marido. Este último ainda não havia telefonado, mas Jane garantiu que assim que ele o fizesse ela lhe daria o recado.

— Está ainda sob o efeito da anestesia — explicou Trygve, sorrindo. — Mas não está muito mal, se não olharmos para todos os tubos e aparelhos estranhos a que se encontra ligada. Tem uma série de tubos e de ferros presos à anca e ainda mais placas e mais parafusos nas pernas. Daqui a um tempo, será engessada, mas por enquanto ainda é muito cedo para isso. Enfim, está toda partida, mas acho que depois de tudo tenho que car grato por ela estar bem.

— Isso sempre me impressionou — comentou Page, corn um ar exausto. — Em situações como esta, toda a gente nos aconselha a ficarmos gratos. Mas se pensarmos bem, ontem por esta hora a Alhe era uma adolescente perfeitamente normal e saudável, cuja maior preocupação era conseguir convencer a mãe a emprestar-lhe uma camisola corde-rosa. Agora, está numa sala de operações a lutar pela sobrevivência e eu devo ficar grata por ela ainda estar viva. E estou grata... mas comparado com o dia de ontem, este é bem pior. Percebe o que quero dizer?

Ele riu da perversidade da comparação dela, que não deixava de ser verdadeira. Também lhe costumavam dizer que ele devia estar grato pelo facto de Bjorn não ser mais atrasado. Mas por que motivo é que o filho tinha de ser deficiente, e por que razão isso lhe devia provocar gratidão? Talvez devesse senti-la, sim, se considerasse que a sua situação tinha estado muito perto de alcançar um resultado ainda pior.

Às três da tarde, Trygve decidiu ir finalmente a casa para tomar banho, mudar de roupa e tranquilizar os filhos. Tencionava trazê-los no nal da tarde para verem a irmã. Nick avisara-o de que Bjorn estava muito preocupado com ela e muito agitado, o que levara Trygve a pensar que talvez ele serenasse se a visse. Bjorn preocupava-se muito com o facto de as pessoas morrerem, preocupação essa que era típica das crianças; e no seu caso, o facto de já ter dezoito anos em nada contribuía para modificar isso.

Antes de sair, Trygve fez com que Page prometesse que lhe telefonaria, caso viesse a precisar de alguma coisa. E assim, Page continuou a sua longa vigília sozinha; de início, pensou em avisar a mãe, mas achou melhor não o fazer. Além de que, não tendo ainda avisado Brad, não lhe parecia justo que ele não fosse o primeiro a saber. Ficou mais uma hora à espera, rezando para que ele não demorasse a telefonar.

Desde as quatro horas, altura em que fora avisada de que Allyson estava a suportar bem a cirurgia e que o seu estado era tão estável quanto possível, que não tinha mais nenhuma informação sobre o estado da filha. Ela ia necessitar também de algumas transfusões e Page ficou mais tranquila ao tomar conhecimento de que ela e a lha tinham o mesmo tipo sanguíneo. Foi só depois de ter dado já algum sangue para as posteriores transfusões que Brad finalmente telefonou, e apesar de ter ligado para o número geral do hospital, Page pôde atender a chamada numa sala à parte.

— Meu Deus, Page, onde é que estás? —Jane dissera-lhe apenas para ligar para o número de telefone do local onde ela se encontrava. — Pareceu-me ter ouvido que era do Hospital Marin General.

— Ouviste bem. — Page lutava contra o crescente cansaço que sentia, esforçando-se sem muito êxito para empregar as palavras certas. — Brad... querido... — Mas as lágrimas voltaram a dominá-la, impedindo-a de acabar a frase.

— Estás bem? Aconteceu-te alguma coisa? — Por um breve momento, Brad começou a pensar que ela estivesse grávida e não lho tivesse dito, ou que tivesse caído novamente de um escadote. Que mais poderia ser? Brad nem conseguia imaginar uma outra situação que explicasse a presença da sua mulher num hospital.

— Querido... a Ailie sofreu um acidente. — Page fez uma pausa para respirar fundo, e ele perguntou-lhe imediatamente:

— Ela está bem?

Page abanava a cabeça, enquanto as lágrimas rolavam pelas suas faces.

—Não... não está... ela teve um acidente de carro, ontem à noite. Gostava de não ter que te dar a notícia desta forma... Fiz tudo o que pude para te conseguir contactar mais cedo, mas tu não foste jogar golfe esta manhã.

— Eu... ah, sim. O presidente não pôde. Telefonaste a quem?

— Ao Dan Ballantine. Ele telefonou para Cleveland e deixou-te lá um recado. Tu não me deixaste o nome nem o número de telefone do hotel.

— Esqueci-me. — Ele parecia-lhe distante e irritado, como se tivesse reagido com aborrecimento ao facto de ela ter pedido a Dan para o tentar contactar em Cleveland. — Mas como é que ela está? E como é que aconteceu esse desastre de automóvel? Ela não tinha ido jantar com o Trygve Thorensen?

— Não, não tinha. Isso foi o que ela nos disse, mas afinal a Allyson saiu com um grupo de amigos. Depois chocaram de frente com outro carro, e... — Ficava angustiada por ter de lhe contar, mas sabia que tinha de o fazer. — Ela sofreu um traumatismo craniano muito grave, Brad... neste momento está a ser operada, e corre perigo de vida.

— E tu deste autorização para operar sem me consultares primeiro?! Por amor de Deus, Page, como é que pudeste fazer uma coisa dessas?

— Não tive outra alternativa Brad. O médico operador disse-me que ela não resistiria até às seis da manhã.

— Isso é a opinião dele, mas tinhas o direito de ouvir um

outro médico! Devias isso a mim e à Ailie. — O raciocínio dele não era lógico, mas Page sabia que aquela era apenas uma reacção de defesa; afinal, fora um choque demasiado grande para não o afectar.

— Mas não havia tempo, Brad, não tivemos tempo para mais nada. — Excepto para rezar por um milagre; agora estava tudo nas mãos de Deus e dos operadores.

— E como é que ela está agora?

— Está ainda na sala de operações, já lá vão mais de doze horas.

— Meu Deus... — Houve uma longa pausa e Page suspeitou que Brad estivesse a chorar. — O que é que causou o acidente? Quem é que ia a conduzir?

— Um rapaz chamado Phillip Chapman.

— Desgraçado! Estava bêbado, não? A minha vontade era dar-lhe uma tareia... — armava ele com a voz trémula. Todavia, Page comunicou-lhe, entristecida:

— Ele morreu Brad. Dos outros três, um tem apenas uns golpes na testa e a Chioe ficou muito ferida, apesar de não correr risco de vida. Quanto à Ailie... ela pode não sobreviver, Brad... e se resistir... tens que voltar depressa, meu amor. Precisamos de ti aqui.

— Daqui a uma hora estou aí. — Isso era impossível, como ambos sabiam, mas se ele conseguisse regressar no próximo avião, dentro de seis horas já estaria perto dela. Page tinha a certeza que o marido conseguiria lugar no próximo voo, nem que para tal fosse obrigado a fazer um pedido especial, alegando uma emergência. Sentia-se muito aliviada por Brad ter finalmente telefonado, pois sabia que naquela hora precisava desesperadamente dele. Apesar de Trygve lhe ter prestado um grande auxílio, Brad era o seu marido.

— Vou para aí o mais depressa possível — confirmou ele, com inquietação.

— Amo-te — armou ela melancolicamente. — Estou muito feliz por poderes vir já para cá.

— Também eu — respondeu ele, antes de desligar. Uma hora depois, vieram informá-la de que a operação tinha corrido bem e que Allyson estava o melhor possível. Contudo, avisaram-na de que os dias seguintes seriam decisivos. O estado dela era de tal forma grave que não deixaria de correr risco de vida durante algu tempo, além de não existir nenhuma forma de prever o desenrolar da recuperação. Tudo o que lhe podiam assegurar era que Allyson, naquele preciso momento, estava viva e que, considerando o seu caso, esse facto já constituía um motivo de grande satisfação. Foi então que, para grande espanto de Page, Brad chegou ao hospital, exactamente uma hora depois de ter falado com ela.

Apesar de não conseguir entender como é que ele havia demorado tão pouco tempo a regressar de Cleveland, Page sentiu-se feliz por lhe poder dar uma boa notícia a respeito da cirurgia.

Brad quis de imediato falar com os neurocirurgiões e interrogar toda a equipa, mas não o deixaram ainda ver a filha. Allyson iria permanecer na sala de recuperação até à manhã seguinte.

— Como é que conseguiste isto? — perguntou-lhe Page calmamente, enquanto bebiam um café na sala de espera. Esse era o único alimento que Page conseguira tomar durante todo o dia, exceptuando uma ou duas bolachas que nessa manhã Trygve a obrigara a comer. — Como é que chegaste aqui tão depressa? — repetiu ela. Brad encolheu os ombros e bebeu mais um pouco daquele insípido café do hospital. O olhar dele nunca havia cruzado o dela e até àquele momento só tinha falado a respeito de Allyson. Subitamente, Page sentiu-se invadida por um estranho pressentimeno.

— Brad, onde é que tu estavas? — Só agora tomava consciência de que teria sido completamente impossível regressar de Cleveland a São Francisco, directamente do hotel para o hospital, num tão curto espaço de tempo; e ambos o sabiam.

— Isso agora não tem importância — respondeu ele tranquilamente. — Só ternos que nos preocupar com a Ailie.

— Não é bem assim... — defendeu Page, esforçando-

se em vão para detectar alguma pista no olhar do marido.

— O que se passa connosco também tem importância. Onde é que estavas? — De súbito, a voz dela adquirira um tom estridente, causado pela onda de pânico que a invadia. Tinha passado toda a noite dominada pelo medo e agora não estava preparada para enfrentar nenhuma outra inquietação. — Eu fiz-te ua pergunta Brad.

Ele respondeu-lhe com uma expressão no olhar que Page nunca havia detectado anteriormente:

— E eu prefiro não responder a essa pergunta. Não é já suficiente eu ter chegado aqui o mais depressa possível? Vim assim que soube, Page... fiz o melhor que podia.

Ela sentiu o coração apertado por uma certeza gélida. Não era possível... não podia acreditar que fosse possível perdê-los aos dois num só dia.

— Brad, tu não estavas em Cleveland, pois não? Mas ele desviou o olhar e não respondeu.

 

Brad conseguira entretanto falar com o chefe da equipa de neurocirurgia, que mais uma vez lhe confirmou que Allyson não podia ainda receber visitas. Assim, chegando à conclusão de que não podia fazer mais nada por Alhe no hospital, Brad informou Page de que ia para junto de Andy e que esperaria por ela em casa.

Page, antes de deixar o hospital, ainda se encontrou de novo com Trygve, que desta vez vinha acompanhado pêlos seus dois filhos. Ela explicou-lhe que Brad tinha regressado de Cleveland, mas não mencionou nada do que se tinha passado entre os dois. No entanto, ao vê-la cumprimentar os seus lhos e agradecer-lhe toda a sua ajuda, Trygve achou-a ausente e distraída. Em seguida, ela comunicou-lhe que ia para casa, uma vez que AUyson continuava na sala de recuperação pós-operatória, mas que fazia tenções de regressar ainda durante aquela noite.

— Tente descansar um pouco, Page. Parece estar muito cansada.

— Tentarei, sim — tranquilizou ela com um sorriso, apesar de não conseguir disfarçar a sua tristeza. Ao notar a mágoa e a angústia que os olhos dela revelavam, Trygve pensou que nem mesmo nessa noite a vira tão abatida.

— Vá com cuidado — recomendou ele atenciosamente, antes de ela abandonar o hospital.

Ao chegar a casa Page encontrou Brad a explicar a Andy o que sucedera à sua irmã. Dizia-lhe ele que Allyson tinha batido com a cabeça com muita força e que ficara bastante ferida, mas que os médicos a tinham já operado e que ela ia ficar bem depressa. Por essa altura, já Jane Gilson tinha voltado para sua casa e Brad conversava a sós com o filho. Mas Page não gostou da forma como o marido contara a Andy o que se passara com Alhe, e assim que teve oportunidade fez questão de lho comunicar.

Observando o filho através da janela da sala Page constatou que ele demonstrava, de facto, alguma apreensão, mas nada que não dominasse. Andy brincava com a cadela no relvado em frente de casa, pois a zona onde moravam não era perigosa e toda a vizinhança era conhecida.

— Não lhe devias ter dito aquilo, Brad — comentou ela, permanecendo de costas voltadas para o marido. Tinha muitas perguntas para lhe colocar, mas tencionava esperar até que Andy estivesse já a dormir.

— Aquilo o quê? — perguntou Brad, tenso. Também ele tinha vários motivos para estar inquieto. Além do que sucedera a Allyson, sabia tão bem quanto Page que aquele acidente viera despoletar uma séria crise no casamento deles.

— Que ela vai ficar bem — respondeu Page voltando-se para ele. — Nós ainda não podemos ter a certeza disso.

— É claro que podemos. O doutor Hammerman disse que ela tem bastantes hipóteses de resistir.

—Em que estado? Em coma, a vegetar...? «Seriamente incapacitada», como ele disse, ou cega? Não vês o que pode acontecer, Brad? Não tinhas o direito de deixar o Andy tão cheio de esperanças.

— Preferias que eu lhe tivesse mostrado as radiografias dela? Por amor de Deus, Page, ele é apenas uma criança! Não o podemos assustar, tu bem sabes como ele adora a irmã.

— Eu também adoro a Ailie. E o Andy... e a ti... mas não acho justo dar falsas esperanças a ninguém. E se ela morrer esta noite, se não conseguir aguentar a fase pós-operatória? O que é que tencionas dizer ao Andy, então? — Havia lágrimas nos olhos dela e também nos de Brad.

— Nessa altura se verá.

— E quanto a nós? — indagou ela inesperadamente, constatando que Andy parecia determinado a continuar a brincar com Lizzie lá fora. Brad ficou surpreendido pela mudança brusca no rumo da conversa, mas ela insistiu: — Quando é que chega «a altura» para conversarmos? Não tencionas dizer-me o que se passa, afinal?

— Foi uma pena as coisas terem-se complicado tanto — respondeu ele com calma. — Se a Ailie não tivesse sofrido um acidente, tu nunca chegarias a saber. E não devias ter pedido ao Dan para telefonar para Cleveland!

— E porque não? — indagou ela, revoltada. Afinal, a filha deles tinha quase morrido nu desastre e ele insinuava que ela não devia ter feito nada para avisá-lo?

— Porque a minha vida não lhe diz respeito e agora já deve ter percebido tudo!

— E eu, o que é que devo perceber Brad? Até que ponto é que fui idiota? Quantas vezes fizeste isto antes? — Ela não sabia ao certo onde ele havia estado, mas era evidente que não fora em Cleveland.

— Isso não vem a propósito. — Brad estava novamente aborrecido; detestava ter que admitir as suas faltas perante a mulher, mas sabia que, desta vez, não tinha outra opção.

— Vem, sim, e muito! Neste fim-de-semana foste apanhado numa mentira, o que me dá todo o direito de saber onde é que estavas e com quem. Não vês que é também a minha vida que está em jogo? Ou decidiste que a tua única obrigação é vires de vez em quando cá a casa, quando não tens mais nada combinado ou nenhum jogo de golfe marcado? Eu não sou um brinquedo, e nada disto é uma brincadeira. E agora Brad? Vais ou não contar-me o que é que se passa? — Page tremia de fúria, mas a irritação de Brad era ainda superior ao seu sentimento de culpa.

—Já percebeste o que se passa, não percebeste? Ou precisas que eu te conte todos os pormenores? — Ao ouvi-lo responder daquela forma, Page sentiu-se destroçada. Era incrível como um só fim-de-semana podia trazer tanta dor... secretamente, ela desejava que ele tivesse negado todas as suas insinuações, que lhe assegurasse que tudo não passava de um engano. Mas agora era tudo demasiado real para não ser enfrentado.

— Esse teu caso é recente? — insistiu ela.

Mas Brad não fazia tenções de lhe contar mais nada:

— Não vou discutir esse assunto contigo, Page.

— Aconselho-te a fazê-lo, Brad. Não estou disposta a alimentar esse tipo de fingimentos. Essa mulher é importante para ti?

— Por amor de Deus, Page, vamos ter que discutir isso agora?

— Não podemos adiar mais. Tu é que começaste, e eu agora preciso de saber como tudo se passou. Já dura há muito tempo? É sério...? Isto aconteceu mais vezes antes e porquê? — Encarava-o com um desgosto profundo no olhar, e com a voz trémula e baixa. — Como é que isto nos aconteceu e como é que eu não desconfiei de nada... ? — Estaria ela cega? Teria ele dado mostras de alguma coisa? Olhando para trás, mesmo agora que já sabia tudo Page não conseguia detectar nenhum sinal.

Brad sentou-se bastante descontente, e encarou a mulher, detestando cada minuto daquela conversa. Nunca gostara de se confrontar com ela, mas agora tinha total consciência de que essa conversa não podia ser adiada. Talvez até fosse melhor dessa forma; mais tarde ou mais cedo, ela teria que vir a saber.

— Eu sei que já te devia ter contado antes, mas pensei que... pensei que este caso fosse acabar, e que já não fosse preciso contar-te nada.

— É sério? — Depois de um longo silêncio, os olhos dele cruzaram-se com os dela, paralisando-a e permitindo-lhe que pressentisse de imediato tudo aquilo que de facto se passava: não era apenas uma aventura, um caso, e sim um relacionamento muito sério. Atemorizada, Page indagava a si mesma se o seu casamento teria chegado ao fim, sem que ela antes houvesse tido a mais leve suspeita. — Não me respondes? — Reparou que a sua voz estava demasiado alterada, mas isso não a impediu de, mais uma vez, o tentar forçar a responder. — É sério, Brad?

— Pode vir a ser — respondeu ele, confuso — Não sei, Page. Foi por isso que não te contei nada — concluiu, desanimado.

— E dura há quanto tempo? — Por quanto tempo tinha ela sido incrivelmente tola, cega e idiota? Enquanto esperava pela resposta dele Page lutava contra as lágrimas.

— Há cerca de oito meses. Começou numa viagem de negócios. Ela trabalha no departamento de criativos e nós fomos juntos a Nova Iorque fazer uma apresentação a um novo cliente.

— Como é que ela é? — Colocar essa pergunta ao marido era-lhe extremamente desagradável, mas Page necessitava desesperadamente de saber tudo... Oito meses... «oito meses»? Como é que ela pudera ser tão idiota?

— A Stephanie é muito diferente... de ti, quero eu dizer... não sei bem explicar... é muito independente, preza muito a sua liberdade e a sua individualidade. É natural de Los Angeles, veio para cá para estudar em Stanford e acabou por ficar. Tem vinte e seis anos, e é... enfim... nós conversamos muito e temos muitos interesses em comum. Eu tentei acabar antes, mas nunca consegui. — Ele fitava-a, desalentado e infeliz. Se Page não se sentisse tão magoada com cada uma das palavras que ouvia, era natural que sentisse pena dele. Tinha ainda vontade de lhe perguntar se ela era bonita, se era uma boa amante, e se ele de facto a amava. Mas o que mais podia ela perguntar e o que mais suportaria ouvir?

— O que é que tencionavas fazer a esse respeito Brad? Ias deixar-me?

— Sinceramente, não sei. Só sabia que não podia continuar assim, mas tenho estado demasiado confuso para decidir alguma coisa. — Passou a mão pela cabeça, olhou para ela e concluiu por fim: — Tenho andado completamente desvairado...

— E eu? Como é que não vi o que se estava a passar durante este tempo todo? — Page fixava o seu olhar no marido, na esperança de encontrar alguma explicação. Ainda não conseguia acreditar no que ouvira, parecia-lhe tudo horrível de mais para ser verdade. Era como se os seus piores pesadelos se tivessem tornado realidade de um dia para o outro:

Allyson em perigo de vida e Brad apaixonado por outra mulher. — O que é que nos aconteceu, Brad? Porque é que nos deixámos envolver demasiado pelas nossas actividades? Tu andavas sempre a viajar ou então a jogar golfe, enquanto eu ia buscar ou levar os miúdos ou algum dos vizinhos... Será que nos distanciámos um do outro e eu não prestei atenção? Será que foi isso que aconteceu? — Page precisava muito de entender o que sucedera ao seu casamento, mas de momento isso era-lhe totalmente impossível. Era uma carga demasiado pesada para um só fim-de-semana.

— A culpa não foi tua — afirmou ele, galantemente, mas depois abanando a cabeça, confuso, acrescentou: — Ou talvez até tenha sido... talvez sejamos os dois culpados. Talvez tenhaos permitido que acontecesse algo que nunca deveria ter sucedido, ou então talvez nos tenhamos envolvido demasiado em afazeres sem importância. Gostava de poder chegar a uma conclusão, mas não encontro a resposta certa. — E não encontrava essa mesma resposta há oito meses, motivo esse que o levara a nunca ter contado a Page ou a nunca se ter separado dela.

— Eras capaz de a deixar? — perguntou Page sem rodeios. Ele hesitou durante bastante tempo e Page sentiu que o ar lhe começava a faltar; então Brad abanou lentamente a cabeça e Page, furiosa com aquela resposta silenciosa, gritou:

— E o que é que queres que eu faça? Que olhe para outro lado, enquanto tu vais para a cama com «a menina dos criativos»? — Page sentia-se tão chocada, tão irritada e tão magoada que se deixou dominar por um desejo incontrolável de o agredir, se não física, pelo menos verbalmente. Brad parecia aceitar a atitude dela, pois não tinham sido poucas as vezes em que, nos últimos oito meses, se recriminara pela sua atitude desonesta para com a mulher. Todas as vezes em que esta se mostrara carinhosa para com ele, ou lhe zera alguma amabilidade, ou lhe dera a entender o seu desejo de fazer amor com ele Brad ficara dominado pêlos remorsos. Na verdade, durante todo o tempo que passara na sua companhia, nos últimos oito meses, sentira-se insuportavelmente culpado, mas isso não tinha sido o suficiente para que conseguisse abdicar do seu relacionamento com Stephanie. De facto, não estava preparado para abdicar de nenhuma das duas. Tentava convencer-se de que estava apaixonado por ambas, mas no seu íntimo sabia que isso não era verdade. Ainda amava a mulher, mas já não estava apaixonado por ela; sabia que a paixão terminara há muito, mas não conseguia entender o motivo. Amava-a, respeitava-a, e tinha plena consciência de que Page era uma óptima mãe para os seus filhos e também uma óptima mulher para ele. Era uma grande amiga, uma pessoa maravilhosa, e tudo aquilo que um homem desejaria encontrar numa mulher, mas no entanto... mesmo que ela se esforçasse, nunca conseguiria deixá-lo da forma como Stephanie o deixava: completamente enfeitiçado...

— Talvez agora eu devesse desaparecer por uns tempos, para vos facilitar mais a vida... — Page sentiu-se de novo em pânico ao imaginar que ele desejava que ela saísse de casa, ou que ele mesmo o tencionava fazer, agora que ela já estava a par de tudo. E Andy? Page não conseguiu deixar de chorar ao pensar no filho, em tudo o que estava ainda por acontecer e principalmente no estado em que Ailie se encontrava. Angustiada, perguntou com a voz tão abalada quanto o seu ânimo: — O que é que queres que eu faça?

Brad gostava de a poder confortar, mas era incapaz.

— Não quero que faças nada, Page. Agora temos apenas que nos preocupar com a Ailie e concentrar todos os nossos esforços em ajudá-la. Porque é que não tentamos resolver esta situação noutra altura? Não vamos conseguir lidar com tudo isto ao mesmo tempo. — Era uma sugestão lógica, mas Page estava demasiado enervada para agir com racionalidade e ele entendia.

— E depois? Sais de casa quando a Ailie melhorar... ou a seguir ao funeral? — Sentia-se novamente amarga e assustada, a um passo de um ataque de nervos. Mas mesmo perante tamanha perturbação, Brad não era capaz de um só gesto de consolo. Ele próprio sentia-se demasiado abalado e sabia também que o que quer que tentasse fazer não iria contribuir para melhorar em nada a situação. Agora que Page já sabia da existência de Stephanie, Brad sentia-se no dever de manter uma certa distância.

— Não sei o que fazer Page. Há meses que tento descobrir a solução para este caso, mas ainda não cheguei a nenhuma conclusão. Talvez tu encontres uma... — Brad não se sentia preparado para o divórcio e também não sabia que rumo dar à sua ligação com Stephanie. Esta última não o forçava a nada e estava mesmo disposta a esperar que ele resolvesse a sua vida primeiro. Mas a paixão que ele sentia por ela impelia-o cada vez mais para a necessidade de encontrar uma solução. Além disso, Brad não fazia tenções de viver constantemente uma situação dúbia ou de ser permanentemente subjugado pêlos remorsos que sentia em relação a Page, especialmente agora que ela já sabia de tudo.

As únicas certezas que tinha era de que amava aquelas duas ulheres, embora de formas completamente distintas, e que tinha deixado que aquela situação se prolongasse tempo de mais; agora que Page estava já a par de tudo, e reagira com tanta indignação, a resolução afigurava-se-lhe ainda mais complicada. Pelo menos Page não sofrera durante os últimos oito meses, nunca suspeitara de nada quando ele lhe comunicara que ia para fora em viagens de negócios. E é claro que nalgumas ocasiões isso tinha, de facto, correspondido à verdade, embora na maioria das vezes fosse apenas uma desculpa. Ele sabia que era o principal culpado pela sua actual situação, e sentia-se como se tivesse construído para si próprio um beco sem saída; tinha consciência de que todos os que estavam envolvidos naquela situação (Page, ele próprio, Stephanie e os seus filhos) corriam o sério risco de serem muito magoados pelo seu desfecho, fosse ele qual fosse.

—Julgo que neste momento não estamos em condições de chegar a nenhuma conclusão Page. O melhor que temos a fazer é esperar até que a Allyson melhore, ou, pelo menos, até ela deixar de correr risco de vida.

— E depois disso, fazemos o quê? — Ela insistia em obter respostas que ele não lhe podia dar, mas dadas as circunstâncias, Brad não a podia culpar por isso.

— Não sei ainda, Page... não faço a mais pequena ideia.

— Então avisa-me quando chegares a alguma conclusão. — Page olhou-o nos olhos, fazendo tenções de terminar a discussão, e subitamente teve plena consciência de que, na sua frente, estava um estranho. O homem que ela amava há tanto tempo, com quem dormia e em quem depositara toda a sua confiança, enganava-a há já quase um ano. Em parte, ela sentia que o odiava, mas simultaneamente apercebia-se que a ideia de o perder a aterrorizava.

— Não faz muito sentido eu pedir-te desculpa... — afirmou Brad rapidamente. Sabia que lhe devia muito mais do que um mero pedido de desculpas, mas de momento não tinha mais nada para lhe oferecer.

— Eu diria que pedires-me desculpas, nesta altura, é no mínimo bastante despropositado... Não achas que me deves muito mais do que um simples pedido de desculpas, Brad? — Os olhos de Page brilhavam, húmidos, ao fitar o marido na outra extremidade da sala. Ao encará-la Brad viu nos olhos dela a revolta, a raiva e a imensa dor que a afligiam.

— Sempre pensei que fosses reagir doutra forma Page. És uma pessoa tão forte e estás sempre tão ocupada, que julguei que nem sequer fosses sentir a minha falta. — Teria ela criado alguma distância entre os dois? Seria a culpa dela, ou dele? Teria ela deixado de lhe dar atenção? Ao ouvir as justificações de Brad, Page acusava-se a si própria, a ele, a tudo e a todos.

— Talvez sejamos dois idiotas — respondeu ela, com sarcasmo. — Eu, pelo menos, sei que o fui.

— Tu mereces muito mais do que isto — afirmou Brad com sinceridade, pensando que ele próprio também merecia estar onde, de facto, desejasse estar, e não ali, desculpando-se e humilhando-se perante Page. E, no entanto, sabia que lhe devia essa explicação; mas não deixava de ser um momento terrível nas vidas de ambos. Aquela discussão e o acidente de Allyson formavam uma realidade que facilmente poderia vir a destruí-los.

— Todos nós merecemos mais do que isto — respondeu Page firmemente, antes de sair para ir ter com Andy.

Enquanto preparava o jantar do filho na cozinha, Page sentia que cada movimento que fazia era automático, semelhante ao de um robô. Colocou uma pizza no forno microndas e cinco minutos depois chamou Andy, ainda trémula e indisposta. Todas as vezes que o telefone tocava, o seu coração acelerava, temendo que fosse alguma notícia do hospital sobre Allyson. O pensamento de Page dividia-se entre a ansiedade pelo estado da filha e o choque que a discussão com Brad lhe causara.

— Como é que vai isso, campeão? — perguntou ela ao lho, incapaz de transmitir o mínimo entusiasmo, enquanto lhe colocava o prato com o jantar em cima do balcão da cozinha. Brad continuava na sala e Page teve a sensação de que a sua vida tinha acabado.

— Vai bem — assegurou Andy, comentando em seguida: — Pareces cansada, mamã. — Ele nunca deixava de ser espontaneamente terno, atencioso e gentil. Page costuava atribuir essa característica do filho a uma parecença com o carácter do pai, mas na última hora deparara-se-lhe uma faceta de Brad que até então desconhecera por completo e que desejaria nunca ter conhecido. Ao ponderar nisso, não pôde deixar de se interrogar sobre o que aconteceria daí em diante.

— E sinto-me cansada, meu filho. A Ailie não está nada bem.

— Já sei. Mas o pai diz que ela vai ficar boa... — E o que o pai dizia era para ele lei. E se desta vez estivesse enganado? Se isso acontecesse, encarariam esse facto mais tarde, tal como teriam de encarar todas as outras situações difíceis da vida deles.

— Espero que sim.

Andy, estranhando a resposta da mãe, perguntou-lhe:

—Esperas...? Não tens a certeza disso... de que ela vai ficar boa?

Mas «espero que sim» era a única resposta que ela lhe podia dar. Depois de Andy terminar a pizza Page sentou-o ao seu colo e abraçou-o. O tamanho dele ainda lhe permitia fazê-lo, e ela sentia-se grata por isso, pois sabia que era uma espécie de conforto para os dois. Mais do que nunca, sentia que necessitava desesperadamente do filho.

— Eu gosto muito de ti, mamã. — A sinceridade e a franqueza dele confortavam-na.

— Eu também gosto muito de ti, meu amor. — Ao pronunciar distraidamente essas palavras, os seus olhos encheram-se de lágrimas, pois poderiam aplicar-se também a Ailie e a Brad.

Depois de o ajudar a vestir o pijama e de o deitar na sua cama, Page leu-lhe uma história e deitou-se ao lado do filho para descansar apenas alguns minutos. Fechou os olhos e tentou adormecer, mas o seu pensamento permanecia demasiado activo, revendo tudo o que de horrível se passara, todo o sofrimento, toda a angústia, todas as dúvidas: AUyson... Brad... o seu casamento... a vida, a morte e o significado global de todas as coisas. Após alguns minutos Page ouviu um ruído, abriu os olhos e viu que Brad estava parado à porta do quarto.

— Precisas de alguma coisa? — Não sabia o que mais lhe dizer, depois de tudo o que se passara. O que tinham dito e revelado impedia que pudessem voltar a ser como eram um para o outro. Entristecia-o pensar nisso, mas era impossível ngir que nada acontecera. — Já comeste?

— Não quero nada, obrigada. — Compreensivelmente, Page não sentia o mais leve apetite.

— Queres que te traga alguma coisa da cozinha? Ela abanou a cabeça, tentando não pensar naquilo que ele havia dito anteriormente, embora o seu pensamento persistisse em se fixar na mulher da agência e nos oito meses que Brad passara com ela. E antes disso, teria existido mais alguém na vida dele? Há quanto tempo a vinha ele a enganar? Teriam existido outras mulheres? Será que ela já não o atraía, ou seria a sua companhia aborrecida?

Só então se apercebeu de que ainda trazia vestidas a mesma camisola velha da noite anterior e as calças de ganga mais antigas que possuía, além de que tinha o cabelo num estado lastimável, devido às muitas horas que passara no hospital. Assim, de forma alguma poderia competir com uma rapariga de vinte e seis anos licenciada em Stanford, que não deveria ter muitas responsabilidades a seu cargo, nem muitas obrigações. Sentiu então uma curiosidade súbita por saber o que tinham eles feito durante o fim-de-semana.

— Onde é que foste com ela? — interrogou Page antes de ele sair do quarto, continuando a pressioná-lo.

— Que diferença é que isso faz? — A insistência dela irritava-o e constatar isso provocava em Page uma revolta ainda maior.

— Estava só a pensar onde é que estarias quando precisei tanto de te encontrar. — Que locais é que ele visitaria com ela? Page sentia-se completamente excluída da vida do marido, como se ele se tivesse tornado num desconhecido.

— Fomos até ao John Gardiner.

Page ficou surpreendida. John Gardiner era um campo de ténis que ficava perto de Carmel Valley. Ela fez um sinal afirmativo com a cabeça, mostrando que sabia de que local se tratava. Todavia, ele telefonara-lhe do apartamento de Stephanie, em São Francisco, motivo esse que lhe permitira chegar tão rapidamente ao hospital. Depois de falar com ela, esperara o máximo que pudera, para que Page não suspeitasse de nada, mas depois de meia hora não conseguira esperar mais e dirigira-se para o hospital.

— Devias tentar comer qualquer coisa — afirmou ele, esforçando-se por mudar de assunto. Queria evitar falar-lhe da sua vida com Stephanie, mas Page insistia em querer saber todos os pormenores, como se isso a fosse ajudar a descobrir o motivo que o levara a agir daquela forma.

— Vou tomar um duche e depois volto para o hospital — anunciou ela rapidamente. Não tinha mais nada que fazer em casa. Andy encontrava-se já a dormir e ela queria estar perto de Ailie.

— Mas disseram-nos que não a podíamos ver — argumentou Brad.

— Não me importo. Quero estar perto dela. Ele entendeu, mas lembrou-se do seguinte:

— E o Andy? Voltas antes de amanhecer? Ela abanou a cabeça e respondeu:

— Podes levá-lo à escola amanhã. Não precisas de mim para o ajudares a vestir e a tomar o pequeno-almoço. — Ou será que precisava? Seria essa a única utilidade que ela tinha para o marido, tomar conta dos seus filhos?

— Não, não preciso — concordou ele, acrescentando logo de seguida num tom melancólico: — Mas preciso de ti para outras coisas.

— Ah, sim? — Page fitava-o com distanciamento. — Para quê, por exemplo? Não me lembro de nada.

— Page... eu amo-te... — Subitamente, aquelas palavras perderam todo o seu significado.

— Amas, Brad? — indagou ela do mais fundo da sua tristeza. — Na minha opinião, julgo que me andei a enganar durante muito tempo e talvez tu tenhas feito o mesmo... se calhar até foi bom termos descoberto isso já. — Contudo, não se sentia minimamente aliviada com essa descoberta, mas sim desiludida e muito magoada.

— Tenho muita pena... — murmurou ele, não fazendo um só movimento para se aproximar dela. Esse gesto dizia tudo: havia um muro a separá-los.

— Também eu tenho — respondeu Page, levantando-se e dirigindo-se para a casa de banho sem pronunciar mais uma palavra. Em seguida, fechou a porta, abriu a torneira da banheira e, ao pensar na filha e no marido, deixou que a água lavasse todas as lágrimas que corriam pelo seu rosto. Lembrou-se então de que agora, em vez de uma, tinha duas pessoas por quem chorar; de facto, aquele tinha sido um fím-de-semana inesquecível.

 

Page passou a noite de domingo enroscada nua cadeira do hospital. Tão preocupada estava com AUie que mal dormiu e nem sequer reparou como aquela cadeira era desconfortável. Os ruídos e o cheiro intenso do hospital mantinham-na acordada, bem como o medo que sentia de, a qualquer momento, poder perder a filha. Foi um alívio quando finalmente, às seis da manhã, a pôde ver.

Uma enfermeira muito jovem levou-a até à sala de recuperação pós-operatória, comentando amavelmente como a sua filha era bonita e que lindo cabelo ela tivera. Enquanto percorria os intermináveis corredores Page procurava prestar atenção aos elogios da enfermeira, mas não conseguia impedir que o seu pensamento vagueasse; estava demasiado perturbada para se concentrar no que quer que fosse, mas sentia-se simultaneamente agradecida pela atenção da enfermeira, que se esforçava por tentar confortá-la um pouco. Contudo, não fazia a mais pequena ideia de como é que alguém conseguiria vislumbrar a beleza de Allyson, agora que ela se encontrava tão desfigurada e com os olhos vendados, depois de terem sido devidamente tratados de forma a prevenir uma possível perda de visão.

À medida que avançavam, iam-se abrindo algumas portas eléctricas. O pensamento de Page fugia para tudo o que se passara com Brad, mas ela esforçava-se para manter toda a sua atenção focada em Allyson. No entanto, o que viu ao aproximar-se da cama da filha estava longe de ser encorajador.

Não restavam dúvidas de que o estado de Allyson parecia ainda mais grave do que antes da cirurgia. Tinha a cabeça rapada e ligada, a sua palidez era assustadora e à sua volta havia várias máquinas e monitores. No seu coma, Allyson parecia estar a milhares de quilómetros de distância.

A enfermeira que assistira à operação guardara, tal como prometera a Page, uma madeixa do sedoso cabelo louro de Ailie que a enfermeira ali presente na sala de cuidados pós-operatórios se apressou a entregar-lhe. Ao tocar numa das faces da filha, segurando a adeixa de cabelo com a outra mão Page sentiu os olhos humedecidos pela emoção.

Deixou-se ficar ao lado da cama da filha por muito tempo, acariciando-lhe com suavidade a mão e pensando como tudo era diferente há dois dias atrás. Não lhe parecia possível que em tão pouco tempo tivesse tudo corrido tão mal... tornava-se muito difícil voltar a confiar em algo ou em alguém, e certamente ainda menos fácil seria depositar conança na sorte ou no destino que haviam sido tão cruéis... tal como Brad o havia sido. Pensando nisso, Page não suportava imaginar o que sentiria se viesse a perder a filha. Fazia-a recordar o período em que Andy nascera e em que haviam julgado que o iriam perder. Nessa fase, ela costumava passar horas em frente da incubadora onde, no meio de uma imensidão de tubos, aquele pequenino corpo se esforçava por sobreviver; lembrava-se de lhe pedir que não desistisse de lutar, o que, milagrosamente, nunca deixou de acontecer.

Page sentou-se então num pequeno banco ao lado da cama e, rezando para que a filha a pudesse ouvir, falou com suavidade junto do ouvido de Allyson, coberto por uma ligadura:

—Não vou deixar que desistas, meu amor... não vou deixar... nós precisamos de ti... a mãe ama-te demasiado... tens de ser uma menina forte e tens de lutar... Luta, minha querida! Tens todo o meu amor para te ajudar... aconteça o que acontecer, tu serás sempre a minha menina. — Da sua cama vinha um intenso cheiro a medicamentos e as máquinas à sua volta apitavam de vez em quando, mas não havia mais nenhuma reacção; Page necessitava de falar com ela, de estar próximo dela, apesar de saber que não poderia haver nem um som, nem um gesto ou um sinal de reconhecimento.

As enfermeiras deixaram-na ficar com Allyson ainda mais algum tempo, até que, finalmente, quando o turno mudou, às sete da manhã, lhe sugeriram que fosse até ao bar tomar um café. Page preferiu ir de novo para a sala de espera, onde se sentou atordoada, pensando na filha, em como ela havia sido e em corno ela agora estava. Não ouviu ninguém a aproximar-se, e só quando lhe tocaram no braço é que ela deu pela presença de Trygve. Possuía o aspecto fresco de quem havia dormido pelo menos umas horas, a sua barba tinha acabado de ser feita e usava uma camisa de um branco intenso e calças de ganga; o seu forte cabelo louro apresentava-se bem domado, e Trygve, de um modo geral, parecia estar em forma e repousado. Contudo, ao ver a aparência de Page, não disfarçou a sua preocupação. Era já domingo de manhã, e aquele fim-de-semana representara, decerto, um grande abalo para Page.

— Passou a noite aqui no hospital?

Ela fez-lhe sinal que sim. Estava com um aspecto péssimo, muito pior ainda do que no dia anterior. Mas Trygve compreendia muito bem a vontade incontrolável de Page em estar próximo da filha.

— Dormi na sala de espera — esclareceu ela tentando sorrir, mas sem conseguir disfarçar a sua fadiga e aflição.

— E conseguiu dormir? — Aquela interrogação assemelhava-se a uma repreensão paternal.

—Não muito, mas... o suficiente — finalizou ela com um sorriso. — Esta manhã deixaram-me ver a Alhe na unidade de cuidados pós-operatórios.

— Como é que ela está?

— Mais ou menos como ontem. Mas foi bom poder estar com ela. — Pelo menos nessa altura, Allyson ainda se encontrava ali junto deles, ao alcance da mão de Page. Era impossível recordar o estado da filha sem sentir um enorme desejo de regressar de imediato para a sala de recuperação e dizer-lhe que não estava sozinha e que a amava muito. — E a Chioe?

— Acabei de a ver e estava a dormir; os médicos estão a mante-la quase anestesiada, para que ela não sinta muitas dores e eu acho que talvez seja a melhor solução.

Ela concordou e Trygve sentou-se na cadeira ao lado.

— Os seus filhos estão a reagir bem?

— Mais ou menos. O Bjorn ficou muito abatido quando a viu. Antes de o trazer aqui ao hospital, perguntei ao médico dele se concordava que eu o trouxesse e ele disse-me que ia ser uma experiência muito importante para o Bjorn, porque por vezes ele não consegue entender aquilo que não vê. Mas foi muito duro para ele; passou a noite a chorar e teve muitos pesadelos.

— Pobre Bjorn... — Page sentia pena do rapaz. A vida, por vezes, era de uma dureza e de uma injustiça muito difíceis de aceitar.

— E o Andy, como é que está?

— Assustado. O Brad disse-lhe que a Ailie ia ficar bem, mas eu não me mostrei assim tão certa. Não acho justo enganá-lo.

— Eu concordo consigo, mas talvez o Brad tenha dificuldade em aceitar a gravidade da situação. Há alturas em que negar a evidência é mais fácil do que aceitá-la.

— Sim, talvez seja isso... — A entoação de Page revelava o desencanto e a desilusão que caracterizavam o seu estado de espírito.

— Eu sei que é idiota perguntar-lhe isto, mas... você está bem? — indagou Trygve. — Quero dizer... dentro dos possíveis. É que me parece muito abatida.

—E estou... Talvez aos poucos me habitue à ideia... espero...

— Quando foi a última vez que comeu?

— Não sei bem... foi na noite passada... ontem. Aqueci uma pizza para o jantar do Andy e pareceu-me que comi metade de uma fatia.

— Não pode continuar assim, Page, tem que se alimentar. Adoecer agora não vai ajudar nada. Vamos — ordenou ele com firmeza, pondo-se de pé —, levante-se. Vou levá-la a tornar o pequeno-almoço.

Ela ficou enternecida com o cuidado dele, mas não sentia a mínima vontade de comer. Apetecia-lhe deixar-se ficar a um canto e esquecer tudo à sua volta, ou até talvez desistir de viver, caso Allyson também desistisse. Sentia que estava já de luto; o seu luto era por tudo aquilo que a filha tinha sido e que poderia nunca mais vir a ser... era também por tudo aquilo que ela tivera com Brad e nunca mais viria a ter. Resumindo, estava de luto por uma série de coisas: por ela, pela filha, pelo seu casamento, e por uma vida que daí por diante e até ao final seria muito diferente.

— Obrigada, Trygve, mas não consigo comer.

— Então vai ter que se esforçar — respondeu ele, suave mas firmemente. — Não me vou embora enquanto não vier comer. Se não quiser vir, eu chamo um médico e, se preferir, é alimentada a soro... Vamos, ande daí! — insistiu ele, puxando-a pela mão. — Deixe de ser preguiçosa e venha tomar o pequeno-almoço.

— Está bem, está bem, eu vou...! — concordou ela por fim com relutância, sorrindo enquanto seguia a seu lado pelo corredor que conduzia ao bar do hospital. O cheiro a medicamentos impregnava o ar.

— Não sei bem se esta comida é muito boa, mas não temos outra alternativa — desculpou-se ele, colocando-lhe à frente uma bandeja contendo um prato com flocos de aveia, outro com ovos mexidos e bacon e ainda várias torradas, geleia e café.

— Se julga que sou capaz de comer isto tudo, está muito enganado.

— Se comer metade, já fica muito melhor. Quando eu era miúdo, na Noruega, aprendi que há duas ocasiões em que não se pode deixar de comer: no tempo frio, e nos momentos de tensão. Quando eu e a Dana nos separámos, passei por uma fase em que perdi completamente o apetite, mas nunca deixei de me alimentar por isso. E de todas as vezes que me esforçava por comer alguma coisa, sentia-me sempre melhor.

— Mas comer no meio da desgraça parece quase uma incoerência.

— Tudo adquire um aspecto mais assustador quando se tem falta de alimento ou de sono. Vai ter de se lembrar disso, Page. Porque é que hoje não vai a casa e dorme algumas horas? O Brad talvez possa ficar aqui no hospital, enquanto você estiver em casa.

— O Brad deve ter de ir trabalhar. Mas talvez eu possa fazer uma pausa para ir buscar o Andy à escola. Vai ser difícil conjugar as horas dele com as minhas, ainda nem pensei em quem é que o vai poder ir buscar, levar e acompanhar aos treinos de basebol.

— Eu posso ajudar. As férias estão a acabar e o Nick volta em breve para a universidade, o Bjorn passa todo o dia na escola e a Chioe ainda vai ficar aqui internada durante algu tempo. Sempre que tiver necessidade, posso perfeitamente levar o Andy onde ele tiver de ir — concluiu Trygve com um grande sorriso, contente por poder ajudar. Anal, ele sempre simpatizara muito com Page.

— Está a ser muito gentil.

— Não me custa nada, Page. E além disso, tenho tempo, porque escrevo sempre de noite. Nunca consigo acabar um trabalho durante o dia.

Continuaram a conversar, enquanto Page se esforçava para comer os flocos de aveia e os ovos mexidos, o que, após alguma luta, acabou por conseguir. Ele fez tudo o que podia para a manter distraída, falando-lhe dos seus artigos, dos seus familiares noruegueses e interrogando-a acerca da sua pintura. Por fim, revelou-lhe o quanto admirava o mural que ela pintara para a escola e Page agradeceu-lhe. Sentia-se muito mais confortada com o apoio que ele lhe dava e a sua presença diminuía o aspecto intimidante do hospital, mas apesar disso o seu pensamento continuava a fugir para Allyson e para Brad, e Trygve apercebeu-se de que ela tinha de se esforçar para lhe prestar atenção.

Explicou-lhe então que nesse dia teria de levar Bjorn a uma nova escola para ser avaliado, e ela prometeurlhe vigiar Chioe. E foi o que tentou fazer, apesar de ela passar a maior parte do tempo a dormir. Sempre que a anestesia passava, mexia-se, impaciente e com dores, mas então a enfermeira aplicava-lhe mais uma injecção e ela sossegava. Nem sequer chegou a notar a presença de Page a seu lado.

Ao meio-dia transferiram Ailie para a unidade de cuidados intensivos, o que permitiu a Page vigiar as duas raparigas ao mesmo tempo. Brad apareceu durante a sua hora de almoço e chorou ao ver a filha. Depois de abandonar a enfermaria, parou para falar com Page, mas sentia-se pouco à vontade perante a mulher, agora que ela já sabia de tudo e ficara tão abalada.

— Desculpa, Page. Desculpa ter-te feito passar por tudo isto numa fase como esta. — Ele parecia agastado, assim como Page.

— Mais tarde ou mais cedo eu tinha que saber, não tinha? — retorquiu ela friamente, acrescentando para si própria que, no entanto, aquela tinha sido a altura menos indicada.

— Lamento que tudo se tenha passado desta forma. Já é suficientemente mau termos a Ailie neste estado. — Ela concordou, mas sabia que, uma vez que Brad havia sido apanhado numa mentira, era inevitável que toda a história viesse a claro; Page tentou convencer-se de que era melhor saber a verdade do que continuar a iludir-se acerca do seu casamento. O facto de ter acreditado que estava tudo bem constituía para ela um dos aspectos mais difíceis de compreender e mais dolorosos. Interrogava-se acerca de Stephanie, gostaria de saber se esta já tomara conhecimento de que ela estava a par de tudo e se estaria contente por isso ter acontecido;

Page interrogava-se também acerca deles, acerca de si própria, acerca do seu casamento não ter bastado ao marido. Mas sabia que dificilmente poderia obter as respostas para todas essas questões.

— Gostava de entender a causa de tudo isto — desabafou ela. O movimentado corredor onde se encontravam dificilmente poderia ser considerado o local indicado para uma conversa mais íntima, mas era a única opção que tinham. A sala de espera estava repleta de rostos ansiosos e assustados, gente que esperava notícias do estado de saúde dos seus familiares ou amigos hospitalizados na unidade de cuidados intensivos. Apesar da agitação, o corredor parecia mais arejado e, afinal, era um sítio tão bom para conversar como qualquer outro. Provavelmente, não importava saber a causa do fracasso daquele casamento, mas apenas que esse fracasso era um facto. Page encarou-o e perguntou-lhe sem rodeios: — Será que vocês os dois pensavam que eu era a idiota no meio disto tudo? A parva que ficava em casa a tomar conta dos filhos e a fazer o jantar, enquanto vocês se divertiam?

Brad referira-se a Stephanie como sendo esta muito diferente de Page, muito independente e individualista. E o que é que a impedia de ser? Não tinha filhos, não era casada e não devia nada a ninguém. Estava absolutamente livre para se divertir com Brad, enquanto ela ficava e casa, encarregando-se de levar a cabo todas as suas tarefas. Só essa ideia bastava para a deixar gelada.

— Nunca ninguém pensou que tu eras ua idiota, Page — respondeu ele, baixando o to de voz enquanto u grupo de estagiários passava por eles. — Apercebi-e perfeitamente da injustiça da situação, mas não pude modificá-la. Podes ter a certeza de que nunca ninguém te menosprezou. Se alguém é a vítima nesta situação, esse alguém és tu, Page, sem dúvida.

— Pelo menos concordamos nalguma coisa — comentou ela, sem ânimo.

— Resta saber o que vamos nós fazer, agora — disse ele, tenso e nervoso.

— Achas? A mim parece-me bastante evidente. — Ela tentava ironizar, mas o seu olhar traía a desilusão, a mágoa e o desespero que sentia.

— Nada é evidente, pelo menos, para mim. — E apressou-se a acrescentar, visivelmente preocupado: — Estás a considerar a hipótese de me deixar? — Brad parecia surpreendido com essa possibilidade, o que fez com que ela sorrisse amargurada. Ele, de facto, não deixava de a surpreender.

— Estás a falar a sério...? O que é que queres insinuar? Que irias ficar surpreendido, que eu não deveria fazer isso, ou que nem sequer pensaste em me deixar?

— Nunca te disse que tencionava sair de casa — afirmou ele teimosamente. — Eu não disse isso; apenas disse que não tinha decidido ainda o que iria fazer.

— E isso não quer dizer o mesmo? Pois bem, eu também não sei ainda o que fazer, mas, dadas as circunstâncias, parece-me que um de nós vai ter de sair de casa. Só não percebo o que te leva a hesitar... Afinal, o que é que estás a tentar dizer-me Brad? Que queres continuar casado comigo, que não tens ainda a certeza do que sentes por essa rapariga, ou que tens medo de assumir o que realmente queres fazer? Qual das opções é a verdade, Brad? — Começava já a elevar a voz, e ele olhava com inquietação para o fundo do corredor.

— Fala mais baixo. Nem todo o hospital tem de ficar a par da nossa vida.

— Porque não, se já toda a gente deve saber o que se passa? Nesta altura, já os teus colegas devem saber desse teu caso e devem achar que tu és o cúmulo do charme! E quando estavas com ela, de certeza que deves ter encontrado alguns conhecidos nossos. Como é costume dizer-se nestas alturas, eu devo ter sido a última a saber.

—Gostava que nunca o tivesses sabido... pelo men, não desta forma.

— Mas poderia ter acontecido em qualquer outra altura. Alguém poderia ter vindo contar-me, ou em vez da Ailie, poderia ter sucedido alguma coisa ao Andy ou a mim, enquanto tu estavas supostamente «a viajar». Ou então, podíamos ter-nos encontrado na rua...! O que é que estás a querer dizer-me, agora? Que afinal é apenas uma aventura sem importância? Na noite passada, deste-me a entender que era um relacionamento bastante sério e que não fazias tenções de o terminar. Será que ouvi mal ou estou a car louca?

Page gostaria de acreditar que tinha, de facto, interpretado mal a explicação do marido, mas no seu íntimo teve a inesperada certeza de que nunca voltaria a sentir por ele o que sempre sentira. Sabia que, com o tempo, a revolta desvanecer-se-ia, mas seria impossível voltar a depositar nele a sua confiança. Provavelmente, depois de tudo estar já resolvido, ela chegaria à conclusão de que o seu amor por ele terminara. Todavia, nesse momento, era difícil ter alguma certeza, e por isso Page apenas se interrogava sobre as intenções de Brad.

— Não ouviste mal — respondeu ele, novamente aborrecido. — Eu não disse que era minha intenção terminar nada, mas julgo que é ainda cedo de mais para tomares uma decisão sobre nós. Estamos a passar um momento muito difícil com a AUie neste estado.

— Ah, já percebi! — Era impossível disfarçar a indignação que sentia, mas desta vez Page conseguiu não elevar o tom de voz. — Não queres deixar de ver a tua nova amiguinha, mas como estamos a passar um momento difícil, também não queres que eu te peça para saíres de casa, ou que eu mesma decida sair. Desculpa não ter percebido antes, Brad; mas não te preocupes, podes ficar o tempo que entenderes. Só te peço que não te esqueças de me mandar um convite para o casamento...! — Apesar da dureza das suas palavras Page tinha os olhos banhados de lágrimas; e ambos sabiam que dificilmente resolveriam aquele delicado assunto no corredor do hospital, enquanto Allyson permanecia em coma na unidade de cuidados intensivos. Havia muito mais em jogo naquele momento do que uma mera discussão conjugal, o que aumentava bastante a gravidade daquela conversa.

— Penso que o melhor é deixar passar um tempo, e vermos como é que a Ailie reage — sugeriu ele, pausadamente. Era uma hipótese razoável, mas Page estava ainda demasiado furiosa para ver com clareza a situação. — Além disso, poderia ser demasiado duro para o Andy decidir ago muit drástico. — Era a sua primeira sugestão sensata, e Page viu-se forçada a concordar com ele.

— Sim, parece-me que tens razão — afirmou ela, lançando-lhe um olhar interrogador e desesperado. — Então, quer dier que vais continuar a... a ver essa mulher... e nós resolvemos o que fazer mais tarde, não é isso?

— Mais ou menos — confirmou ele, embaraçado perante o olhar dela. Sabia que estava a exigir demasiado da mulher e que, na situação dela, nunca poderia aceitar uma sugestão dessas, mas mesmo assim esperava que Page o fizesse.

— Parece-te muito fácil aceitar esta situação, não é? O que é que queres que eu faça, entretanto...? Que desvie o olhar, para não te incomodar? — perguntou Page, sem entender como é que Brad lhe podia exigir semelhante coisa.

— Não vejo outra solução, Page. Vais ter de tentar conviver com isto durante um tempo — respondeu ele quase com dureza. Não estava disposto a arriscar a sua relação com Stephanie, mas ao mesmo tempo não queria desistir já do seu casamento, pelo menos enquanto não decidisse exactamente aquilo que queria.

Page sentia-se furiosa por ter que concordar com uma situação tão fácil para ele e tão penosa para ela, mas sabia que naquele momento não tinha outra opção. Não poderia lidar com uma separação, com o estado grave da lha e com a forma como Andy reagiria a tudo isso, já para não mencionar que não sabia como ela própria resistiria e reagiria. Contudo, fosse qual fosse a sua decisão, Page nunca deixaria de se preocupar com o futuro, que nesse momento lhe parecia muito pouco risonho.

— Se estás a pedir-me autorização, podes ficar a saber que não tenciono dar-ta — preveniu ela, friamente. — Não tens o direito de exigir isso de mim. Não esperaste pela minha permissão para fazeres o que fizeste, e por isso não é agora que vou dizer-te que está tudo bem para mim, porque não está. Além disso, mais tarde ou mais cedo vais ter de arcar com as consequências dos teus actos. — De certa forma, o facto de terem outras prioridades naquele momento facilitava a situação de Brad, pois impedia-o de se aperceber claramente da crise que despoletara no seu casamento. Mas daí a um tempo, quer Allyson melhorasse quer não, ele teria de lidar com aquela situação, e ambos tinham consciência disso. Era essa certeza que, enquanto decorria aquela conversa no movimentado corredor do Hospital Marin General, assustava Brad e deprimia Page.

Brad fitou a mulher durante bastante tempo sem saber o que dizer, e depois consultou o seu relógio. Sentia que necessitava de uma pausa com urgência. Tudo aquilo era demasiado para ele, havia várias emoções em jogo, e a realidade era extremamente aterradora. As suas vidas haviam sido transformadas de um momento para o outro, e Brad ainda não tivera tempo para se adaptar.

— Podemos continuar esta conversa depois? Agora preciso de voltar para a agência.

— Onde é que vais estar, caso eu precise de te encontrar? — indagou ela com frieza. Brad afastava-se cada vez mais dela, de Allyson, e do hospital, que era tão deprimente para os dois, e fugia da necessidade de a enfrentar, agora que ela já estava a par da ligação dele. Era mais fácil afastar-se e procurar refúgio no trabalho... ou em casa de Stephanie. Mais uma vez, Page interrogou-se sobre a aparência e o carácter dessa mulher.

— Porque é que perguntas onde vou estar? — questionou ele rispidamente. — Acabei agora mesmo de te dizer que vou trabalhar.

— Perguntei apenas no caso de teres mais algum sítio onde ir... — A insinuação de Page fê-lo corar, mas Brad esforçou-se para combater a onda de vergonha e de fúria que o dominou. — Se tiveres de te ausentar da agência, deixa na recepção desta unidade do hospital o número do local onde te encontrares.

— Obviamente — respondeu ele, gélido.

Page fazia tenção de perguntar a Brad se iria estar em casa nessa noite, mas subitamente descobriu que não desejava perguntar-lhe mais nada. Não queria ouvir mais mentiras, não desejava ter outra discussão com ele, insultá-lo de novo ou voltar a aperceber-se do desprezo e da autojustificação dos argumentos dele. Aquela discussão consumira todas as forças que ainda lhe restavam.

— Eu depois telefono — informou ele, voltando-lhe as costas e percorrendo o corredor a passos largos. Ao vê-lo afastar-se Page sentiu-se dominada por uma estranha onda de emoções desordenadas: revolta, tristeza, confusão, mágoa, traição, raiva... raiva, medo... e, principalmente, solidão.

Voltou então novamente para junto de Allyson, e perto das três da tarde foi buscar Andy à escola primária de Ross. Era um alívio tornar a seguir a sua rotina habitual, voltar a estar com o filho, ser-lhe útil e levá-lo a todos os lugares que ambos percorriam há anos. Page passou toda a tarde com Andy e em seguida deixou-o novamente em casa de Jane Gilson para jantar. Quando regressasse do emprego, Brad iria buscá-lo e levá-lo-ia consigo para casa.

— Vemo-nos amanhã de manhã — comunicou ela ao filho, despedindo-se dele com um beijo. Era uma felicidade para Page sentir de novo a suavidade do cabelo do filho, o seu aroma perfumado de criança e os seus dois pequeninos braços em redor do pescoço. — Gosto muito de ti — afirmou ela.

— Eu também gosto muito de ti, mamã. Dá um beijinho meu à Ailie.

— Dou, sim, meu amor.

Page agradeceu de novo a ajuda de Jane Gilson, que mais uma vez a aconselhou, tal como Trygve, a descansar um pouco.

— O que é que queres que eu faça? — respondeu Page, um pouco irritada. — Que fique em casa a ver televisão? Onde queres que eu esteja, com a Ailie naquele estado?

— Eu sei que tens de lá estar, mas por favor, tenta não exagerar. Não esgotes já todas as tuas forças Page. — Todavia, era já tarde de mais para esse conselho. As forças de Page estavam já esgotadas, mas ela não tinha escolha, tinha de estar perto da filha.

Quinze minutos depois das sete, Page estava de volta ao hospital. Permaneceu junto de Allyson até a mandarem embora e depois decidiu sentar-se numa desconfortável cadeira do corredor, encostando a cabeça à parede de olhos fechados. Ficou muito tempo naquela posição, esperando que a voltassem a chamar para junto da filha. Não era possível permanecer muito tempo na enfermaria da unidade de cuidados intensivos, pois os enfermeiros tinham sempre muito que fazer e a maioria dos pacientes estava demasiado doente para apreciar visitas.

— Essa cadeira não me parece muito confortável — murmurou Trygve a meia voz. Page, apercebendo-se da presença dele, abriu os olhos e sorriu; sentia-se exausta, o dia tinha sido muito longo e Allyson não registara ainda nenhuma melhoria nem voltara a estar consciente. De facto, os médicos não esperavam que ela voltasse a está-lo nos tempos mais próximos, ms permaneciam atentos a outros indícios que pudessem indicar o surgimento de outras complicações no cérebro dela. Apesar de estar em coma, era examinada de minuto a minuto e até àquele momento o seu quadro clínico não registara nenhum avanço. — Como correu o seu dia? — perguntou Trygve a Page, sentando-se numa cadeira a seu lado. O dia dele não havia sido melhor do que o de Page, já que Chioe sofria dores constantes, apesar de estar muito medicada.

— Não correu muito bem... — E acrescentou de seguida, lembrando-se da quantidade de mensagens que haviam ficado registadas no atendedor de chamadas: — Recebeu tantos telefonemas de colegas delas quanto eu? — A cassete havia sido totalmente preenchida.

— É provável — confirmou ele, sorrindo. — Ao fim da tarde, apareceu aqui um grupo de miúdos, mas não os deixaram entrar na sala dos cuidados intensivos. Queriam ver a Allyson também, mas é claro que as enfermeiras não os autorizaram.

— Talvez lhes faça bem ver os amigos... quando estiverem melhores... quando a Allyson ficar melhor... se é que ela um dia vai melhorar... Nesta altura, já a escola inteira deve saber do acidente. — E todos estavam chocados com a morte de Phillip Chapman.

— Um dos miúdos contou-me que os jornalistas foram até ao liceu perguntar aos colegas do Phillip que género de rapaz era ele. Não sei se sabe, mas ele era a atracção principal da equipa de natação, tinha notas óptimas, e muitas outras qualidades; era uma espécie de rapaz ideal, o que faz desta história a notícia perfeita. — Trygve abanou a cabeça, e, tal como Page, pensou que só por um acaso tinha sido ele a vítima, e não qualquer uma das duas raparigas.

Nesse dia, havia sido publicado no jornal uma grande reportagem sobre o acidente, acrescida de fotografias e dados sobre cada um dos quatro jovens. Mas é óbvio que o seu principal destaque havia sido o desgosto de Laura Hutchinson pela morte de Phillip Chapman. Ela recusara-se a prestar quaisquer declarações, mas nesse artigo vinha uma enorme fotografia sua e vários comentários dos assistentes do senador. Estes últimos explicavam que Mrs. Hutchinson havia ficado tão abalada com o sucedido que não se encontrava ainda em condições de fazer um comentário oficial. Também ela era mãe, o que lhe permitia compreender perfeitamente a dor dos pais de Phillip e a ansiedade dos pais das outras duas jovens. Basicamente, a nalidade daquele artigo era limpar o nome da mulher do senador, pois de uma forma indirecta e subtil, o artigo insinuava nas entrelinhas que apesar de o condutor do Mercedes não ter sido considerado legalmente embriagado, todo o grupo de jovens havia bebido. Depois de ler aquela notícia, era fácil o leitor concluir que o acidente havia sido causado por Phillip, apesar de o seu autor nunca assumir claramente essa posição.

— É um artigo muito bem elaborado — comentou Trygve. — Nunca chegam a acusá-lo directamente de estar sob o efeito da bebida, mas é essa a impressão que conseguem transmitir, salientando o carácter irrepreensível de Mistress Hutchinson, o facto de ela ser uma mãe dedicada e uma cidadã exemplar. Depois desta descrição, como é que alguém consegue responsabilizá-la pela morte de um rapaz de dezassete anos e por ter colocado em risco outras três vidas?

— Da forma como fala, vê-se bem que não acredita na inocência dela. — Page não sabia no que acreditar e isso preocupava-a. No hospital haviam declarado que Phillip não estava embriagado, mas o acidente tinha de ter uma causa. No entanto, descobrir essa causa talvez-não fosse relevante, pois a descoberta não iria retirar Allyson dos cuidados intensivos nem reparar as pernas de Chioe, como por magia. Tudo permaneceria inalterado, com excepção dos possíveis processos judiciais que Page ainda nem tivera ocasião nem vontade de considerar. Mover um processo contra alguém não traria nenhum efeito benéfico para o grupo de jovens, nem devolveria a vida a Phillip. A ideia de um possível litígio legal desagradava-lhe e parecia-lhe demasiadamente confuso.

— Não é que eu não acredite — esclareceu Trygve —, mas conheço a forma indirecta e traiçoeira com que os repórteres noticiam um facto. Desenvolvem toda uma notícia de forma a que no final coincida em cada ponto com as suas opiniões preconcebidas. Os repórteres da edição política fazem exactamente o mesmo; noticiam apenas aquilo que estiver de acordo com a sua tendência e ponto de vista, ou com a posição política do jornal. É por isso que aquilo que escrevem nunca corresponde à verdade, porque foi elaborado para encaixar num cenário já estabelecido à partida. E talvez seja isso que está a passar-se com esta notícia. Até os assessores do senador ajudaram a criar uma óptima imagem para a sua mulher! Talvez a culpa não seja dela, mas podia ser, e por isso mesmo eles tiveram de assegurar-se que o seu nome era referido como o de uma santa, a esposa e a mãe ideal!

— Pensa que a culpa pode ter sido dela?

— Talvez sim e talvez não. Mas é tão provável que a culpa seja dela como de Phillip. Voltei a conversar com o agente da brigada de trânsito, e ele confirmou-me que as provas são inconclusivas. Ambos os condutores podem ter sido negligentes, a única diferença é que Phillip era um miúdo e por isso ainda não tinha os anos de experiência de condução que ela tinha. É comum dizer-se que os adolescentes são muito agressivos e irresponsáveis ao volante, mas isso não é uma regra. E se há alguma conclusão a tirar das declarações dos outros colegas, é que Phillip era, de facto, um rapaz muito responsável. Jamie Appiegate afirmou que ele tinha bebido meio copo de vinho e duas chávenas de café puro. Eu próprio já conduzi depois de ter bebido muito mais do que meio copo de vinho, embora admita que talvez não o devesse ter feito. Mas Phillip Chapman era um rapaz bem constituído e não era meio copo de vinho que ia deixá-lo embriagado, especialmente se fosse seguido por dois cafés e mais tarde um cappuccino No entanto Mistress Hutchinson afirma não ter bebido nem uma só gota de álcool durante toda a noite. Como tal, ela é a mais sóbria, a mais velha, a mais conhecida e a mais respeitada, o que, na ausência de outras provas, faz com que todas as suspeitas recaiam sobre Phillip. E isso não me parece muito justo... aliás, é isso que me incomoda: os mais jovens acabam sempre por receber um castigo mais severo, mesmo que não o mereçam. Deve ser particularmente duro para a família do Phillip aceitar que ele seja o principal culpado, se ninguém pode saber ao certo o que esteve na origem do acidente.

«Hoje conversei com o Jamie, que me jurou que nenhum deles estava minimamente embriagado e que o Phillip ia atento à condução. Logo no início, confesso que senti vontade de o culpar... queria descarregar a minha fúria em alguém, e obviamente, ele era o meu principal alvo. Mas agora já não tenho tanta certeza de que seja ele o culpado. E devo também admitir que, no princípio, tive vontade de matar o Jamie Appiegate por ele ter sido cúmplice na mentira da Chioe e por ser um dos responsáveis por ela ter entrado naquele carro! Mas ele parece-me um bom rapaz, e já por duas vezes falei com o pai dele ao telefone, que me confirmou que o Jamie está completamente arrasado com o que sucedeu. Insiste em vir visitar a Chioe, mas, por enquanto, julgo que ainda é demasiado cedo. Aconselhei-o a esperar mais uns dias e depois então veremos o que fazer a esse respeito.

— Não se vai opor a que ele a veja? — Page ficou impressionada com o sentido de justiça de Trygve e intrigada com as suspeitas que ele admitia ter a respeito de Laura Hutchinson. Provavelmente, a verdade correspondia àquilo que parecia ter acontecido: uma fatalidade, da qual ninguém teria culpa, mas que já causara muita dor e muito sofrimento. Por causa de uma distracção momentânea, de um olhar desviado da estrada por uma fracção de segundo e de um leve toque no volante para a direcção errada, sucedera uma tragédia. E Page não se sentia revoltada contra ninguém, apenas desejava que a filha sobrevivesse.

Trygve confirmou a dúvida de Page a respeito da visita de Jamie a Chioe:

— Não, provavelmente não me vou opor, desde que ela também não se oponha. Deixo isso a cargo da Chioe, quando ela estiver em condições de o decidir. Até pode dar-se o caso de ela não o desejar ver novamente, mas ele está tão apoquentado com tudo isto que talvez o ajudasse bastante poder vê-la, quando ela estiver melhor. O pai do Jamie disse-me que ele está convencido que todos eles... — Antes de prosseguir, Trygve notou a dureza das palavras que tencionava dizer e preferiu não a abalar ainda mais. — Tem receio que ninguém sobreviva e sente-se culpado por ter ficado ileso. Ele mesmo mo conrmou, insistindo em repetir que devia estar no lugar do Phillip, da Chioe e da Ailie. Parece que ele e o Phillip eram amigos de infância e o rapaz está muitíssimo abalado. — Trygve voltou-se então para Page e colocou-lhe a seguinte questão: — Tenciona ir amanhã ao funeral do Phillip Chapman? — Não era nada fácil para Trygve abordar este tema.

Page fez um sinal afirmativo com a cabeça. Até essa altura não tinha decidido ainda o que fazer, mas agora chegara à conclusão que devia fazê-lo pêlos pais do rapaz. Afinal, eles haviam perdido um filho e ela quase perdera Allie. Mas esse «quase» tornava as duas situações bem distintas, e ela sentiu o coração despedaçado ao imaginar a dor que esse casal deveria sentir.

— Devem estar desfeitos... — comentou ela tristemente, enquanto Trygve abanava a cabeça.

— O Brad vai consigo, ou quer que eu a leve? Julgo que é de tarde, e assim talvez os miúdos também possam ir comigo. Sempre é melhor ir acompanhado... — comentou suspirando. Também ele temia esse terrível momento de dor e de mágoa. Quanto a Page, o que mais desejava era nunca ter de passar pelo mesmo em relação a Ailie...

— Não sei se o Brad tenciona ir, mas duvido. — Page sabia que o marido detestava funerais e, ao contrário de Trygve, não escondia as suas suspeitas sobre o estado de Phillip. Page tinha quase a certeza de que ele não a acompanharia, ainda mais com a situação tão tensa entre ambos. — Não faço ideia de como é que se consegue ultrapassar um desgosto desses... — murmurou ela, tentando afastar esse pensamento. Seguidamente, fitou Trygve com uma expressão amargurada e acrescentou: — Nem sequer tenho a certeza de que alguma vez se supere uma dor to profunda. Só passaram dois dias, e eu começo já a sentir que a minha vida está a perder todo o sentido. Como é que se consegue...? Como é que se consegue passar por uma coisa destas e não deitar tudo a perder? — À medida que falava, os olhos de Page enchiam-se de lágrimas. Desabafar com Trygve era o mesmo que procurar consolo junto de um velho amigo ou de um irmão mais velho.                             *

— Talvez não seja possível impedir que algumas coisas se percam... mas talvez mais tarde se consiga reunir aquilo que restou.

— Talvez... — admitiu ela, pensando em Brad. Corn a pergunta seguinte, Trygve pareceu ler o seu pensamento:

— Como é que o Brad está a reagir? Deve ter ficado muito chocado, quando soube do acidente em Cleveland.

Page sentiu-se tentada a contar-lhe que o marido nunca havia estado em Cleveland, mas, pensando melhor, não lhe pareceu uma atitude muito sensata. Limitou-se assim a abanar a cabeça, quebrando depois de uma longa pausa o seu silêncio:

— 0 Brad não está a reagir nada bem. Anda muito perturbado, nervoso e zangado, e culpa o Phillip pelo acidente. De certa forma, julgo mesmo que ele me culpa também, por eu não saber ao certo o que a Allyson tencionava fazer. Ele não mo disse directamente, mas chegou a insinuá-lo. — Culpar Page era igualmente uma forma de Brad fugir à sua própria culpa, uma forma de aliviar os seus remorsos tendo um motivo para acusar a mulher. — Mas o pior — continuou Page com os olhos inundados de lágrimas — é que eu começo a pensar que ele tem razão. Se calhar, a culpa é minha... talvez se eu tivesse estado mais atenta, se tivesse suspeitado de alguma coisa de anormal, teria interrogado a Ailie e chegado à conclusão que ela estva a mentir... e nada disto teria acontecido! — Page, demasiadamente fatigada e enervada, deixou-se dominar pela emoção e começou a soluçar. Trygve colocou um braço em redor dos ombros dela e tentou confortá-la, aconselhando:

— Não se pode deixar dominar por esses pensamentos, Page. Nós não tínhamos motivo para suspeitar das nossas filhas, elas nunca haviam feito nada disto antes e não íamos vigiá-las sem termos uma suspeita. Limitámo-nos a confiar nelas, o que não é crime. Além disso, a mentira delas não foi assim tão grave... muitas outras raparigas já utilizaram antes uma desculpa parecida. Quem é que podia adivinhar que desta vez ia resultar numa fatalidade?

— O Brad pensa que eu devia ter adivinhado.

— A Dana também pensa o mesmo a meu respeito, mas isso são apenas suposições. Eles sentem necessidade de acusar alguém, é só isso... não deve levá-los a sério. O Brad está apenas enervado, provavelmente nem sabe ao certo o que pensar nem quem deve acusar.

— Sim, talvez tenha razão... — murmurou ela, permanecendo bastante tempo em silêncio, recordando as inúmeras estatísticas de casamentos destruídos após um acidente ou a morte de um filho. Caso já existisse uma falha algures no casamento, uma experiência grave como aquela decerto a traria à luz. E no seu caso, a falha que existia no casamento com Brad era maior do que o Grand Canyon... — A verdade é que — prosseguiu ela, surpreendendo-o com a seguinte declaração — o meu casamento com o Brad não vai nada bem. — Page não tinha bem a certeza do motivo que a levava a dar essa explicação a Trygve, mas afinal sentia necessidade de contar a alguém o que se passava. Nunca se sentira tão infeliz e tão sozinha antes, e não tinha mais ninguém com quem falar. Sabia que não poderia demorar muito mais a contar à mãe o que sucedera a Ailie, mas por enquanto ainda não tinha força suficiente para o fazer. Necessitava de mais algum tempo para se ajustar às modificações, antes de ir inquietar a mãe, em Nova Iorque. De momento, não podia encarregar-se de mais nada, a não ser de ficar ali no hospital todo o tempo que pudesse, na enfermaria com Allyson ou conversando com Trygve. — O Brad e eu... — Ela tentou finalizar a frase, mas não conseguiu.

— Não tem de me explicar nada Page — facilitou Trygve. — Ninguém sabe lidar com uma circunstância destas. Ainda há pouco me ocorreu que eu e a Dana nunca teríamos superado uma fase assim. — Na realidade, Trygve ainda não conseguira aceitar o facto de a ex-mulher não ter decidido vir ver a filha, depois de ter sido informada do seu estado. Apressara-se a acusá-lo de ser um pai demasiado condescendente, mas não sentira necessidade de apanhar o avião seguinte para São Francisco e vir ver a filha. Apenas comentara que, nas próximas férias de Verão, esperava que Chioe já estivesse em condições de a ir visitar à Europa. Trygve chegara à conclusão que Dana não era uma boa mãe, e como tal, nem sequer era digna da sua admiração. Só não entendia ainda como é que passara vinte anos da sua vida casado com uma mulher assim... por vezes, ao pensar nisso, sentia-se um completo idiota, mas sabia que se preferira não romper mais cedo o seu casamento tinha sido por receio de perturbar ainda mais a estabilidade emocional dos filhos.

Page tentou então explicar melhor o que de facto se passava entre ela e o marido.

— O nosso problema não tem nada a ver com o acidente. Acontece que surgiu no meio disto tudo... — Ela não revelava toda a verdade, mas não era difícil perceber que estava muito abalada por algo que o marido fizera. Trygve concluiu que talvez se tratasse de uma aventura extraconjugal, pois sabia, por experiência própria, como o surgimento de uma terceira pessoa podia afectar um casamento. Todavia, tinha ainda bastantes dúvidas, pois Brad nunca lhe parecera um marido infiel.

— Não pode concluir nada no meio de uma crise.

— E porque não? E se a realidade for esta e não aquela que eu pensei existir durante tantos anos? E se tudo não tiver passado de uma mentira?

— Se esse for o caso, mais tarde saberá. Mas não tire ainda conclusões; nenhum de vocês está em condições de raciocinar claramente.

— Como é que pode ter tanta certeza? — perguntou ela, ansiosamente. Como tinha muito que resolver, aproveitava o tempo que passava no hospital para pensar.

— Eu possuo uma larga experiência de relacionamentos difíceis e sei que as aparências podem iludir; mas sei também que numa crise como esta por que estamos a passar tudo se altera. Acredite que sei do que estou a falar! Não se pode esquecer de que todas as vossas reacções estão alteradas e tudo o que dizem ou fazem pode ser fruto da ocasião. Veja bem o seu estado: está exausta, há dois dias que não come nem dorme praticamente nada. A sua filha quase morreu, é natural que esteja ainda traumatizada. E quem, na sua situação, não o estaria? Eu também estou... o Brad também está e os nossos outros filhos também estão. Como é que pode confiar nas suas reacções? Eu até tenho medo de ir às compras... para o cão era perfeitamente capaz de trazer alpista, e para os miúdos, trazia comida para cães...! Siga o meu conselho Page: tenha um pouco de paciência consigo própria e, por enquanto, procure não pensar em mais nada. Preocupe-se apenas com a Ailie.

— Não me tinha dito que era conselheiro matrimonial... — gracejou ela, fazendo-o sorrir.

— Só posso dar conselhos baseados na minha experiência pessoal. E por isso que se precisar de algum conselho numa fase boa, não mo venha pedir...

— Quer dizer que nunca viveu uma fase boa no seu casamento...? Foi assim tão mau? — Ambos se sentiam como se fossem já velhos amigos e Trygve tinha ainda o seu braço em redor dos ombros de Page.

— Péssimo. — Apesar da confirmação, ele sorria. — Penso que devemos ter tido um dos piores casamentos da história. Talvez agora eu tenha finalmente recuperado, mas pode ter a certeza que fiquei com muito medo de tentar outra vez! — Page recordou a sua conversa com Allyson na tarde de sábado; a filha armara que ele nunca voltara a sair com outra mulher e Page manifestara a sua admiração por ele. Trygve era, sem dúvida, um homem interessante, inteligente e bondoso.

— Talvez precise de mais algum tempo... — Page procurava apenas ser solidária, mas ele não se coibiu de reagir ao seu comentário com uma gargalhada sonora.

— Sim, talvez mais uns quarenta ou cinquenta anos...! Não tenho pressa nenhuma de repetir os mesmos erros, e de voltar a criar um ambiente infeliz para mim e para os meus filhos. Prefiro agir com muita calma. Eles merecem muito mais do que aquilo que eu e a mãe lhes proporcionámos e, para ser franco, também eu o mereço. Mas o que nós merecemos não é nada fácil de encontrar...

— Vai ver que quando perder esse receio, encontrará muito mais depressa aquilo que pretende — assegurou ela, gentilmente.

— Talvez tenha razão, mas não tenho pressa. Sou feliz conforme estou e os meus filhos também o são, o que para mim tem muita importância Page. É muito melhor estar sozinho do que acompanhado pela mulher errada.

— Quanto a isso, não faço a mais pequena ideia. Estou casada com o mesmo homem desde que fiz vinte e três anos. Sempre pensei que o nosso casamento era perfeito e agora, de repente, ficou tudo destruído. Não sei mais o que pensar, nem tenho a certeza de saber com que espécie de homem estou casada. Tudo se tornou muito confuso. — E apenas num abrir e fechar de olhos...

— Lembre-se daquilo que eu lhe disse — voltou ele a avisar. — Não tire conclusões no meio de uma crise.

— Não me vou esquecer — anuiu ela, surpreendendo-se por ter desabafado tão livremente com ele. Todavia, sabia que precisava de falar com alguém, pois aquilo que descobrira acerca de Brad afectara-a muito. Além do mais Page confiava instintivamente em Trygve, eso sem saber ao certo porquê. Nas últimas vinte e quatro horas ele tinha-a apoiado como nenhum outro amigo apoiaria; até mesmo Brad a abandonara naquela hora. Apenas Trygve estivera sempre a seu lado, e com crise ou sem crise, ela sabia que nunca esqueceria o seu gesto.

Entretanto, era quase meia-noite. Page e Trygve interrompiam de vez em quando a sua longa conversa para se certificarem de que Chioe e Allyson estavam bem. De facto, Chioe continuava a dormir e Allyson permanecia inconsciente. Foi apenas quando Trygve considerou a hipótese de ir para casa, que um médico veio ao encontro de Page para lhe comunicar que tinham surgido mais algumas complicações no estado de Allyson. Tal como os médicos temiam, a massa encefálica começara a inchar e, consequentemente, estava a ser comprimida. Era esta a «terceira lesão», a respeito da qual os médicos já a haviam prevenido; o médico explicou-lhe que temiam igualmente a possível formação de coágulos sanguíneos.

Trygve ofereceu-se de imediato para ficar com Page no hospital, e o médico-chefe da equipa de neurocirurgia veio informar que a situação piorara ainda mais. Mostrando-se bastante preocupado com aquele quadro, o médico explicou que, devido ao inchaço, a pressão sanguínea de Allyson aumentara e o ritmo cardíaco diminuíra. Uma hora mais tarde, os médicos começavam a duvidar que Allyson pudesse resistir muito mais. Page mal podia acreditar naquela brusca modificação do estado da filha quando apenas há uma hora atrás estava estabilizado. Todavia, sabia que esse motivo não era válido, tendo em conta que dois dias antes Allyson gozava de perfeita saúde. A vida efectuava mudanças de cento e oitenta graus, sem ao menos um aviso prévio...

Antes da equipa cirúrgica se reunir, Page tentara localizar Brad várias vezes, mas a única resposta que obtinha vinha da gravação do atendedor de chamadas. Finalmente, em desespero absoluto Page pediu a Trygve para telefonar a Jane Gilson, para que esta fizesse o favor de ir até sua casa acordar Brad. Andy poderia car com Jane, para que Brad pudesse vir ao encontro deles. Porém, Trygve comunicou-lhe aquilo que Jane lhe dissera: que Brad nem sequer tinha ido buscar o filho a sua casa. Andy dormia a sono solto na cama de Jane, e esta não fazia a mais pequena ideia do seu paradeiro, pois ele nunca lhe telefonara.

— Não chegou a telefonar? — indagou Page, pasmada. Como é que Brad podia agir daquela forma, numa altura tão delicada e depois de tudo quanto prometera? Afinal, ele preocupava-se mais com a sua vida amorosa, ou com a sua filha?

— A Jane disse que não sabe nada dele. Lamento muito, Page. — Trygve segurou a mão de Page entre as suas, e pensou que provavelmente as suas suspeitas estariam certas. Brad Clarke estava envolvido numa aventura extraconjugal, ou então preferia afogar as suas mágoas na bebida, de forma a não sentir a pressão do momento. Uma coisa era certa: fosse qual fosse a sua opção, ele decerto havia escolhido uma péssima altura. Trygve sentia muita pena de.Page, que, sozinha, carregava toda a responsabilidade nos seus ombros. Mas já nada o surpreendia; ele vivera e assistira a tudo aquilo com Dana. — Não se apoquente com isso — tranquilizou ele, enquanto esperavam que os médicos acabassem de examinar Allyson. — Ele vai acabar por aparecer. Além disso, não podia fazer nada, nenhum de nós pode. — Mas podia estar presente, tal como ela estava e assim como Trygve estava por Chloe. — Nem todos sabem lidar com uma situação destas Page. Eu costumava sentir-me mal só de pensar em entrar num hospital!

— E o que é que o fez mudar?

— Os meus filhos. Tive de ser eu a trazê-los ao hospital, porque a Dana se recusava. O Brad tem-na a si, sabe que a AUie está em boas mãos. — Gentilmente e com um sorriso, Trygve esforçava-se por desculpar Brad perante Page, mas ela sabia que o marido não merecia tais esforços. AUie tinha a mãe por perto, mas quem é que ela teria a seu lado no caso de Trygve não estar ali presente? Page partia do princípio que Brad estaria com a amante, mas mesmo assim não sabia como localizá-lo.

Os médicos regressaram e voltaram a informá-los sobre o estado de Allyson, que entretanto havia estabilizado, mas ainda não o suficiente para que ela deixasse de correr um sério perigo de vida. O inchaço do cérebro não era um bom sinal, e podia ser um indício de futuras complicações, ou apenas um efeito da cirurgia de domingo.

Era difícil distinguir os dois casos, e os médicos não desejavam alimentar falsas esperanças. Por fim, admitiram que era possível que Allyson não resistisse muito mais tempo.

— Isso significa que... que ela pode morrer a qualquer momento? — questionou Page, aterrorizada. — Pode não aguentar mais esta noite? — Era isso que tentavam dizer-lhe? Que a filha estava a morrer? «Não, por favor Deus, isso não...» Assim que permitiram a sua entrada na enfermaria, Page correu para junto da filha e sentou-se silenciosamente a seu lado, deixando que as lágrimas lhe corressem pelas faces. Segurava a mão de Allyson com firmeza, como se esse gesto pudesse impedir a filha de sucumbir e de a deixar, depois de tudo quanto se passara.

Os médicos permitiram que ela passasse a noite com Allyson e Page nunca se ausentou dali, contemplando a face da filha e segurando-lhe a mão.

— A mãe ama-te muito — murmurava ela, de tempos a tempos. Repetia aquela frase com toda a determinação, como se a filha a pudesse ouvir. Quando por fim o Sol nasceu, o inchaço do cérebro de Ailie não tinha aumentado e a sua respiração mantinha-se inalterada. Não havia melhorias, mas Allyson continuava viva. Apesar disso, todo o quadro se poderia alterar novamente numa questão de segundos, razão pela qual os médicos sugeriram que, caso Page fosse para casa, se mantivesse sempre em contacto com o hospital. Todavia, de momento podiam assegurar que Allyson já não corria perigo imediato de vida, pois haviam aumentado a dose de medicação de forma a combater os efeitos pós-operatórios.

Eram seis e meia da manhã quando Page saiu finalmente da enfermaria de cuidados intensivos. Beijou com todo o cuidado a filha e dirigiu-se para a saída, caminhando com dificuldade, devido ao cansaço e ao peso que sentia nas pernas. Foi com grande surpresa que se lhe deparou Trygve, dormindo numa das cadeiras do corredor. Ele tinha decidido ficar, receando deixar Page sozinha, caso o pior acontecesse. Interiormente, Trygve censurava Brad por não ter aparecido e por se manter afastado, mas nunca o admitiria perante Page. A sua alegria foi sincera quando esta lhe comunicou que Ale escapara mais uma vez ao perigo.

— Vamos, eu levo-a para casa. Pode deixar o seu carro aqui, eu trago-a mais tarde.

— Ou posso apanhar um táxi, se houver necessidade disso — concordou ela, apreensiva. A sua fadiga era tanta que admitiu que, se caminhar era para ela uma tarefa árdua, conduzir seria ainda muito mais dicil. Lentamente, Page seguiu Trygve até ao parque de estacionamento, aliviada por Allyson ter resistido mais uma noite. Sentada no banco da frente, Page desejou apenas que a filha sobrevivesse; se ao menos alguém a pudesse influenciar a não desistir...

— Teve muita coragem — afirmou Trygve, beijando-lhe a face e apoiando a sua mão nos ombros dela.

—Tive tanto medo, Trygve... apetecia-me fugir e ficar escondida de todos — admitiu ela, enquanto Trygve lhe acariciava a mão. Ela passava por algo que nunca imaginara possível, a concretização dos seus mais profundos e inconfessados receios.

— Mas não o fez Page, e a Aie sobreviveu. Pense apenas nisso — aconselhou ele, enquanto conduzia para casa. Ao chegarem, Trygve constatou que Page adormecera profundamente ao seu lado. Detestava ter que a acordar, mas tocou-lhe com suavidade e ela olhou-o ensonada, dirigindo-lhe um sorriso ténue.

—Obrigada, Trygve... por ser tão bom amigo.

— Preferia que nos tivéssemos tornado bons amigos de uma outra forma — comentou ele, pesaroso. — Na equipa de natação, ou na elaboração dos seus murais... — E acrescentou de seguida, cautelosamente: — Ainda tenciona ir hoje ao funeral do Phillip?

Page respondeu que sim, embora estivesse já certa de que Brad não a acompanharia.

— Então u venho buscá-la às duas e quinze. Até lá, tente descansar Page. Precisa muito de dormir.

— Vou tentar. — Antes de sair do carro, Page tocou-lhe na mão em sinal de agradecimento. Trygve esperou até ela entrar em casa, que às sete da manhã estava ainda vazia.

Seguidamente, acenou a Page e arrancou, enquanto ela fechava lentamente a porta de casa, imaginando o que diria a Brad quando o encontrasse. Tinha a sensação de que não havia nada mais a dizer entre os dois, a não ser «adeus». Ou será que até isso já havia ficado subentendido?

 

Às sete da manhã Page, sozinha no eio da sala, debatia-se entre a ideia de ir buscar Andy a casa de Jane, ou ir finalmente recuperar algumas horas de sono. Sentia-se extremamente fatigada e a sonolência limitava-lhe os movimentos, mas sabia que naquela fase o filho precisava muito dela, o que a levou a decidir-se pela primeira alternativa. Antes de sair, molhou o rosto com água fria, penteou o cabelo e ouviu todas as mensagens gravadas no atendedor de chamadas, na esperança de haver alguma notícia de Brad. Mas a sua revolta aumentou ao constatar que este nem sequer havia telefonado para explicar a sua ausência. Como é que ele tinha coragem de agir daquele modo, com a filha a correr perigo de vida? E porque é que Stephanie não lhe chamaria a atenção para a irresponsabilidade desse acto?

Page dirigiu-se então para a casa ao lado, onde encontrou Andy a tomar o pequeno-almoço com Jane. A televisão estava ligada e Jane cantarolava enquanto fazia waffles para Andy.

— Que sorte a tua! — disse ela para o filho, beijando-lhe a cabeça e lançando um sorriso à amiga, que rapidamente constatou que as sombras escuras à volta dos olhos de Page tinham aumentado bastante.

— Como é que está a Allie? — perguntou Andy de imediato, fazendo Page hesitar na resposta. Tentava reprimir a vontade de chorar, mas as suas forças já não eram suficientes para dominar totalmente as emoções. Como é que poderia contar-lhe que a irmã só por um milagre não havia morrido nessa noite? Jane reparou na perturbação da amiga e depressa lhe ofereceu uma chávena de café, pousando afectuosamente a mão no seu ombro.

— A Allie está bem — conseguiu ela responder a Andy, que se servia de mais waffles; baixando um pouco a voz, explicou então a Jane o que realmente se passara: — Surgiram mais complicações durante esta noite. O cérebro dela inchou depois da operação e ela teve diculdades respiratórias.

— Ela vai morrer? — perguntou Andy inesperadamente, abrindo muito os olhos. Page abanou a cabeça, pensando que, se pelo menos até àquela data isso não acontecera, tal vez fosse possível não vir a acontecer nunca.

— Espero que não.

Andy não disse nada, tentando entender bem a breve explicação da mãe. Passados uns segundos, decidiu então colocar-lhe outra difícil questão:

— Onde está o papá? Ontem à noite não me veio buscar.

— Deve ter tido muito trabalho e quando chegou a casa já tu estavas a dormir. Como era muito tarde, não deve ter querido acordar-te.

— Ah. — Andy respirou fundo, aliviado. Pressentira que houvera uma discussão entre os pais na noite anterior e ficara muito preocupado. O acidente da irmã tinha alterado todo o seu ambiente: de um moento para o outro, nada mais lhe oferecia segurança, e as pessoas de quem ele dependia mostravam-se receosas, perturbadas e zangadas. — Hoje já posso ver a Alhe?

— Ainda não, meu querido. — De forma alguma Page permitiria que ele a visse. Era um quadro aterrador para todos, especialmente para uma criança de sete anos: Allyson tinha em redor da cabeça ligaduras em vez de cabelo e os seus olhos estavam tapados com compressas; encontrava-se ligada a uma centena de tubos e fios, rodeada de máquinas e monitores e no ar pairava indefinido o cheiro da doença e da morte. — Quando ela estiver melhor... quando acordar... — prometeu Page, voltando as costas ao filho para que ele não visse as suas lágrimas. Jane abraçou-a, colocando um braço à volta dos seus ombros.

— Page, precisas muito de descansar. Se quiseres eu levo o Andy à escola para te ires deitar. — Andy, porém, ouvindo esta sugestão, não escondeu a sua desilusão. Não fazia a mais pequena ideia de como Page estava cansada, ou de como era desgastante o ambiente no hospital e, mais do que tudo, desejava ter a mãe perto dele.

— Eu estou bem — assegurou Page co um longo suspiro e bebendo em seguida um gole de café. — Daqui a dez minutos já estou de volta e depois então vou-me deitar.

— Page já tinha decidido que iria dormir até Try g vê a vir buscar para o funeral, pois, em caso de necessidade, no hospital sabiam onde a encontrar. Precisava desesperadamente de umas horas de descanso, sentia que não tinha forças para dar nem mais um passo. No caminho para a escola do filho, teve que lutar para não adormecer ao volante e, de regresso a casa, sentiu os olhos a fecharem-se. Antes de se deitar, no entanto, ainda voltou a confirmar se naquela sua curta ausência Brad havia deixado algum recado, mas não havia nada no atendedor de chamadas e era ainda demasiado cedo para ligar para o seu local de trabalho.

Era-lhe ainda particularmente difícil aceitar que o marido tivesse passado toda a noite fora, sem sequer telefonar para justificar a sua ausência. Mas, pensando melhor, que tipo de justificação poderia ele ter dado? «Desculpa, mas vou passar a noite com a minha nova namorada»? Ainda não conseguia compreender a súbita modificação que o seu mundo sofrera; quer a sua vida de casada, quer o seu relacionamento com o marido tinham ficado subitamente reduzidos a uma ilusão.

Às oito e quinze Page estava finalmente deitada. Estranhando um pouco a intensa claridade, a princípio teve dificuldade em sossegar, pensando em Allyson e no terrível susto dessa noite; mas quinze minutos mais tarde, o cansaço sobrepôs-se a tudo o mais e Page adormeceu profundamente em cima da cama, ainda vestida com a roupa que levara ao hospital. Dormiu até ao meio-dia, hora em que acordou sobressaltada pelo insistente toque do telefone. Saltou da cama o mais depressa que pôde, temendo que a chamada viesse do hospital.

— Estou...? — Com a voz ainda trémula, Page respirou de alívio ao verificar que era a mãe quem lhe telefonava.

— Santo Deus, o que é que tens? Estás doente?

— Não, mãe... eu... eu estava a dormir... — Havia tanto que contar e era tão difícil comunicar com a mãe.

— Ao meio-dia? Que estranho! Estarás grávida... ?

— Não, não estou grávida, mãe. Estive acordada toda a noite... — «com a sua neta, que quase morreu», continuou ela em pensamento. Subitamente, Page sentiu remorsos por não ter contado ainda nada à mãe.

— Não me telefonaste durante o fim-de-semana, confore tinhas prometido. — A mãe adorava ter motivos para se queixar e gostava ainda mais de desempenhar o papel de vítima. Costumava acusar Page por não lhe dar muita atenção, mas a verdade é que ela era muito mais chegada à sua outra filha, Alexis. A irmã mais velha de Page vivia em Nova Iorque e passava a maior parte do tempo com a mãe.

— Tenho estado muito ocupada, mãe. — Como é que se comunicava uma fatalidade daquelas? Fechou os olhos, esforçando-se por dominar a emoção. — A Allyson sofreu um acidente na noite de sábado.

— Como é que ela está? — A mãe de Page ficou aterrada. Nem mesmo ela conseguia fugir do peso dessas palavras. Apesar de ser uma mulher inteligente, esforçava-se por não viver de acordo com a realidade e sim num mundo de fantasia que sabia não existir.

— Está em coma. Sofreu um grande traumatismo craniano e foi sujeita a uma neurocirurgia no domingo, mas ainda não sabemos como é que ela vai ficar. Desculpe não a ter informado antes, mãe, mas não sabia o que lhe contar. Estava à espera de ter alguma certeza sobre o estado dela.

— Como está o Brad? Page estranhou a pergunta.

— O Brad? Bem. Ele não esteve envolvido no acidente. Ela encontrava-se acompanhada por um grupo de amigos.

— Deve ter sido um golpe muito duro para ele. — Era, sem dúvida, uma atitude típica da mãe; concentrava a sua atenção não na lha, nem no facto de AUie correr risco de vida, mas sim no genro. Se Page não conhecesse tão bem a mãe teria julgado que não tinha percebido o que ela dissera.

— É difícil para todos nós: para o Brad, para mim, para o Andy e para a Ailie...

— E ela vai ficar bem?

— Ainda não sabemos.

— Tenho a certeza que sim. A princípio pode parecer que não, mas há cada vez mais pessoas que sobrevivem a acidentes. — «Deus meu... só mesmo a minha mãe poderia dizer isto... insiste em fugir da realidade a qualquer custo. Não mudou nada. Mas talvez seja difícil entender o estado em que ela está, sem antes a ver.» — Tenho lido relatos espantosos sobre indivíduos que sofreram traumatismos cranianos, estiveram em coma e que depois regressaram ao seu estado normal. Ela é muito jovem... vai ficar bem. — A sua mãe parecia tão segura... Page gostaria de poder sentir a mesma certeza.

— Espero que sim... — respondeu com voz débil, fixando o seu olhar no tapete e pensando como seria possível alguém comunicar com a mãe. Desde que completara catorze anos nada havia mudado. A mãe continuava a ouvir e a acreditar apenas naquilo que queria, e em nada mais, mesmo que aquilo que se lhe tentasse comunicar fosse de facto relevante.

— Eu vou dando notícias.

— Dize-lhe que a avó não se esquece dela — pediu Maribelle Addison com determinação. — Dizem que as pessoas em coma ouvem tudo. Tu costumas falar com ela Page?

As lágrimas corriam pelo rosto dela. É claro que falava com a filha... repetia-lhe o quanto a amava e implorava-lhe que não desistisse de lutar, que não os deixasse...

— Costumo — confirmou ela, em voz baixa e rouca.

— Ainda bem. No te esqueças então de lhe dizer que a avó e a tia Alexis gostam muito dela. — E acrescentou:

— Preferias que estivéssemos aí contigo...? — Elas iam a quase todo o lado juntas. Page apressou-se a responder, certa de que a presença da mãe e da irmã em nada ajudaria.

—Não...! Caso haja necessidade, eu telefono.

— Está bem, querida, se precisares de nós avisa. Eu volto a falar contigo amanhã. — Dir-se-ia que estavam a marcar a data de um simples jogo de brídege. Era de facto espantoso! Ela estava completamente segura e confiante de que AUyson iria melhorar, e nem por um só momento receara uma outra possibilidade. Como era hábito, não proferia uma palavra de consolo e de apoio à sua filha mais nova.

— Obrigada, mãe. Se acontecer alguma coisa eu aviso-a.

— Está bem, filha. Amanhã, eu e a Alexis vamos às compras, por isso é melhor eu telefonar-te quando chegar a casa. Dá um abraço meu ao Brad e ao Andy.

— Dou, sim. — Depois de desligar Page ficou durante muito tempo de olhos fitos no chão, tentando afastar da sua memória o período em que vivera com a mãe e com a irmã. .. e em que fora forçada a conviver com todas as mentiras e com a espantosa capacidade que estas possuíam para fugir da realidade. Alexis fazia-o sem uma só falha, seguindo todos os passos da mãe. Para elas, estava sempre tudo bem, nunca ninguém tinha um procedimento incorrecto, e caso tivesse, isso nunca era mencionado; para elas, a superfície nunca apresentava nenhuma mancha, as águas eram sempre tranquilas, mas no fundo, nada era limpo, nem calmo. Page quase se afogara nessas águas. Mal tinha poddo esperar para deixar aquele ambiente. Saíra de casa assim que iniciara o seu curso de Belas-Artes. A família opusera-se e recusara pagar-

-lhe os estudos, mas ela decidira trabalhar como free-lancer e empregara-se temporariamente num restaurante no turno da noite, de forma a poder custear o seu curso. Faria tudo o que estivesse ao seu alcance para sair daquela casa, pos sabia que a sua sobrevivência dependia disso.

Estava de tal forma embrenhada nos seus pensamentos que nem o ouviu entrar, tal como ele não se apercebeu da sua presença. Quando Page se levantou, deparou-se-lhe Brad de pé no meio do quarto e ambos tremeram de susto ao verem-se frente a frente.

— Por amor de Deus, Page...! — exclamou ele, fitando-

-a. — Porque é que não disseste nada?

— Não te vi entrar. Resolveste vir almoçar a casa... ? — ironizou ela, friamente. Estava ainda sentada em cima da cama, com a roupa amarrotada com que se deitara, e o cabelo por pentear. Apesar disso, o seu aspecto fatigado melhorara consideravelmente.

— Vim só mudar de roupa — esclareceu ele, enquanto se dirigia à casa de banho para depositar uma camisa no cesto da roupa para lavar.

— Vieste a casa pôr a lavar a roupa que usaste ontem, foi? Quando é que a desejas passada a ferro? Ou vieste apenas buscar uma camisa lavada para poderes novamente passar esta noite fora? — indagou Page, utilizando um tom extremamente irónico e agressivo. — Não te passou sequer pela cabeça telefonares? Ou desististe completamente de fazer parte da nossa família?

— Não vejo com que objectivo telefonaria, se tu não estavas e casa... — A dureza do raciocínio dele fez com que Page sentisse vontade de o esbofetear.

— É claro que não te ocorreu telefonar para o hospital ou para casa da Jane... Coo não foste buscar o Andy, ele julgou que tivesses sofrido também um acidente! Ou já não te preocupas com ele? A Ailie quase morreu ontem à noite, sabias?! — Page não fazia tenções de o poupar, e ele deu mostras de ter ficado bastante atingido.

— Mas ela está bem... ?

— Está a resistir, mas com grandes dificuldades. Brad fitou-a, amargurado. Desejara esquecer tudo e tinha sido um alívio estar longe do hospital, afastado de Page e até mesmo de Andy, pelo menos por uma noite.

— Não me lembrei que podia telefonar para outro sítio... —justificou ele, consciente de que utilizava uma péssima desculpa.

— Também eu gostava de poder dar-me ao luxo de esquecer. Tens mais sorte do que eu — retorquiu Page com frieza. Mas ela não podia nem conseguira afastar-se. E três dias antes, não se afastaria igualmente do marido, embora agora tudo tivesse mudado. — Não podes «esquecer» o que se está a passar Brad. Quer queiras, quer não, esta agora é a nossa realidade e vais ter de a encarar. Já pensaste o que é que sentirias se a tua filha tivesse morrido ontem à noite?

— Como é que julgas que eu me sentiria? — perguntou ele, rudemente.

— O Andy também precisa muito de ti. E talvez precises também de estar com a Allyson. Se alguma coisa lhe acontecer... — Ela não poderia estar senão ao lado da filha; mas Brad não estava de acordo:

— A minha presença não vai modificar nada — disse ele, autojustifícando-se. — Ficar ao lado dela não vai determinar que ela viva ou deixe de viver, só vai aumentar ainda mais o meu desânimo. E não penso que a melhor atitude seja tentar que ela sobreviva a qualquer custo.

— O que é que estás a dizer?! — As palavras dele horrorizavam-na. — Que nós devíamos deixá-la morrer...? — Só de se ouvir a pronunciar essa hipótese, ela sentia vontade de gritar. O que é que se passava com ele? Quais eram as suas intenções?

— Eu quero a Ailie de volta. A Ailie! Tal como ela era e viria a ser, se nada disto lhe tivesse acontecido: bonita, saudável, inteligente, capaz de realizar tudo aquilo que desejava. Tens a certeza que queres que ela viva se não voltar a ficar como era? Queres ocupar-te de uma filha deficiente para o resto da vida? É esse o destino que lhe queres oferecer? Se pensas assim, eu não penso. Prefiro perdê-la agora, se é esse o futuro que se adivinha para ela. E ficar sentado ao seu lado, a ver o cérebro dela inchar e uma máquina a respirar por ela, não vai fazer a mais pequena diferença! Já fizemos tudo quanto podíamos ter feito; agora só nos resta esperar. E esperar aqui ou esperar no hospital é exactamente a mesma coisa. — E se não fosse a mesma coisa? E se ela tivesse consciência de quem estava ao seu lado?

Page não podia esconder o seu desagrado.

— O Andy precisa tanto de ti como ela. Ou também achas que isso é secundário? — Estava decidida a não lhe dar tréguas, mas nesse instante, vendo-o agir daquela forma, sabia que ele não mereceria a sua condescendência. Brad abandonara-a, e aos filhos, por motivos puramente egoístas.

—Já te ocorreu que talvez eu não consiga lidar com esta situação? — argumentou ele, dando outro passo na sua direcção. Detestava ter de a confrontar; dir-se-ia que de cada encontro resultava mais uma discussão e mais uma série de reprovações e acusações.

— Só me ocorreu que estás apenas a tentar fugir de algo que é desagradável para todos nós e a tomar péssimas decisões. O tempo não pára porque tu assim o desejas Brad. Não podes fazer «um intervalo» para decidires a tua vida amorosa. A Ailie precisa de ti, independentemente da tua opinião acerca do futuro dela. Precisa ainda mais de ti por causa da incerteza desse futuro! E o Andy também precisa do pai. Como é que achas que ele se sente ao ver a família ruir diante dos seus olhos? Ele está cheio de medo e muito assustado... sabe que a irmã pode morrer, não faz ideia de onde o pai esteja e de repente está a viver por favor em casa dos vizinhos!

— Talvez assim seja a forma de te convenceres que deves passar a noite em casa — afirmou Brad, para logo depois se sobressaltar ao ver Page levantar-se da cama e dar resolutamente vários passos na sua direcção.

— Deixa-me dizer-te aquilo que penso, Brad: até que a Ailie acorde ou até que a Ailie morra, eu só a vou deixar quando for absolutamente necessário. E se ela morrer... — os olhos de Page encheram-se de lágrimas, mas a sua voz não perdeu a firmeza — quero estar com ela nesse momento, dando-lhe a minha mão e mostrando-lhe que estamos juntas, tal como estávamos quando ela nasceu. Garanto-te que não vou estar aqui ao teu lado nesse momento, a não ser que estejas comigo no hospital, nem sequer tenciono ficar a fazer companhia ao Andy. Mas podes ter a certeza absoluta de que não vou estar a passear com o meu amante, fingindo que nada disto aconteceu! — Quando acabou de proferir estas palavras Page voltou-lhe as costas. Não podia suportar por mais tempo o olhar distante do marido, que a fazia aperceber-se de que ele já os havia deixado.

— Page... — Ela voltou a encará-lo, surpreendida por o ouvir chorar. Ele deixou-se cair numa poltrona e cobriu o rosto com as mãos. — Eu não suporto ver a Ailie naquele estado. É como se ela já tivesse deixado de viver... é de mais para as minhas forças. — Page não conseguia entender o que o levava a admitir que tinha qualquer outra opção. Ela própria também não suportava ver a filha assim, mas sabia que precisava de o fazer, pela própria AUie.

— Mas ela não deixou de viver — afirmou Page com firmeza, tentando consolá-lo, mas receosa de se aproximar mais do marido. Entre os dois existiam agora muitas barreiras, muita dor, muito sofrimento, muita desilusão. Page já não confiava nem acreditava em Brad e até já punha em causa se de facto o conheceria. — Ainda há uma esperança para ela, Brad. Se ela ainda não perdeu essa esperança, não podes ser tu a fazê-lo.

— Tudo é melhor do que viver artificialmente Page.

— Não digas isso! — pediu ela com veemência. Page nunca antes havia desistido facilmente e não conseguia entender a atitude dele. Brad dava prioridade à solução mais cómoda, até mesmo para Ailie, sem se importar que essa mesma solução os fizesse perder ou desistir da filha. E com essa desistência Page nunca poderia concordar.

—Não sei, mas... — prosseguiu ele, sentindo-se culpado pêlos seus sentimentos, mas não os conseguindo evitar. — Quando a vi, não consegui imaginar que ela viesse a recuperar, e não quero que ela vegete para o resto da vida. E tudo aquilo que os médicos prevêem... o estado de coma... a paralisia cerebral... a perda das capacidades motoras... o inchaço da massa encefálica... Como é que, depois de tudo isto, se pode admitir que ela volte a ser normal?

— Porque ainda há uma esperança. Talvez no seja fácil. .. talvez ela não recupere totalmente... talvez até nem sobreviva. ..! Mas se ela sobreviver... — os olhos dela voltaram a encher-se de lágrimas — se a Ailie não morrer, nós temos que a ajudar.

Brad fitava-a, transtornado, chorando silenciosamente.

—Eu não posso... não consigo encarar isto Page. — Vendo-o tão amedrontado, ela, aproximando-se dele, abraçou-o, permitindo que ele encostasse a cabeça ao seu peito. Afagava-lhe suavemente o cabelo, desejando que nenhum dos dois tivesse chegado a um nível tão elevado de desespero e autodestruição. No entanto, era tarde de mais para o evitar, tal como não se podiam evitar as consequências do desastre de Allyson. — Tenho tanto medo... — murmurou ele, encostando ainda mais a cabeça contra o peito de Page. — Não quero que ela morra... mas também não quero que ela fique assim Page... não consigo vê-la naquele estado... desculpa o que eu fiz ontem à noite... mas não tive coragem para enfrentar mais nada. — Ela mostrava-se compreensiva, mas sabia que a atitude dele apenas dificultava ainda mais a sua posição. Brad queria fugir de tudo aquilo, tal como havia feito na noite anterior; e para o realizar, não se importava de a abandonar, obrigando-a a enfrentar sozinha o horror por que a lha passava. — E se ela morrer... ? — perguntou ele, lançando-lhe um olhar angustiado.

Antes de responder, ela fez uma pausa e respirou fundo.

— Não sei — começou ela. — Ontem à noite pensei que ela fosse morrer... mas ela resistiu. E hoje sabemos que tem mais um dia... mais uma hora... só nos resta rezar. — Ele acenava afirmativamente com a cabeça, desejando possuir a força e a coragem de Page. Continuava a sentir vontade de fugir daquele pesadelo, e a existência de Stephanie facilitava-lhe muito o cumprimento desse desejo. Esta última sentia pena de Brad e gostava de o poupar de todo o sofrimento que ele sentia ao ver a filha; assim, deixava-o pensar que a sua presença em nada contribuiria para ajudar Allyson e convencia-o de que Page sabia muito bem como tomar conta de tudo, insistindo para que ele deixasse a mulher. Contudo, Brad, ao notar a luta que Page travava contra o desânimo e a dor, sentia-se dominado pêlos remorsos e pela culpa, consciente de que a sua atitude estava errada e revelava fraqueza.

Inesperadamente, encostado ao corpo de Page, Brad sentiu um desejo incontrolável de estar ainda mais próximo dela, de a sentir mais perto de si. Enlaçando-a com os braços, fê-la sentar-se ao seu colo para que a pudesse beijar. Page, porém, ofereceu imediatamente resistência e fitou-o, chocada.

— Como é que podes pensar nisso?! — Depois de tudo o que o acidente revelara acerca dele Page não conseguia admitir que voltassem a estar fisicamente próximos. Pelo menos, não no momento presente, e ela admitia que provavelmente nunca mais.

— Eu preciso de ti, Page.

— A tua atitude repugna-me! — exclamou ela. Afinal, ele tinha outra mulher. Que mais ainda poderia desejar? Um harém? Antes de ela estar a par da existência de Stephanie, não sentia dessa forma, mas agora, era-lhe impossível adoptar uma outra atitude. Todavia, ele levou a cabo a sua intenção e beijou-a com um desespero que intensificava o desejo que naquele momento sentia. Mas Page não modificou em nada a sua posição, apenas aumentou o seu distanciamento. Subitamente, ele tomará-se um desconhecido, que pertencia agora a uma outra mulher e não mais a ela.

Por m Page conseguiu libertar-se e afastou-se resolutamente, deixando-o ainda sem fôlego.

— Lamento — justificou ela, deixando-o sozinho, irritado e humilhado. Brad tinha consciência de que a sua atitude não era correcta, que estava a magoar profundamente a mulher e que não deveria preteri-la em favor de Stephanie, mas tal como Page tão bem definira, no momento presente ele só tomava «péssimas decisões».

Após alguns minutos Brad foi encontrá-la a fazer café na cozinha. Ela ouviu-o entrar, mas continuou de costas voltadas para a porta.

— Peco-te que me desculpes. Deixei-me levar pela emoção. Depois de tudo o que tem acontecido, sei que a minha atitude foi bastante imprópria. — Page tinha de se esforçar por acreditar que há uma semana atrás havia feito amor com ele, desconhecendo por completo a existência de algum problema no seu casamento ou de uma outra mulher na vida dele. Mas agora nada era como antes; e dada a seriedade do relacionamento dele com Stephanie, Page não conseguia admitir a ideia de Brad a tocar. Talvez a sua atitude não tivesse sido tão rígida se ele houvesse manifestado arrependimento e lhe tivesse prometido pôr um fim àquela aventura; mas em vez dessa promessa, existia apenas a hipótese do m do seu casamento, visto que até esse momento ele não dera mostras de desejar alguma outra possibilidade. Agora, tudo se tornara muito claro: Brad preferira abandoná-los a todos na noite anterior, mesmo sabendo da possibilidade de surgi uma emergência, e numa altura em que a família necessitadele como nunca antes havia necessitado. Isso provava qi Stephanie ocupava o primeiro lugar na vida dele e era essa conclusão a que Page não podia deixar de chegar, e que tor nava ainda mais pesado o fardo que carregava.

— Eu preferia que me desses o número de telefone dela. Se acontecer alguma coisa, assim já sei onde te encontrar. — Como ela permanecia de costas, Brad não se apercebeu de que Page tinha os olhos cheios de lágrimas.

— Eu... isto não vai voltar a acontecer. Esta noite fico em casa com o Andy.

— Não interessa. — Antes de prosseguir, ela decidiu nalmente encará-lo e Brad não pôde deixar de ficar intimidado pela sua expressão: a mágoa, a ira e a determinação eram evidentes. Se por breves instantes tinha existido alguma hipótese de reaproximação, essa hipótese desaparecera. — Vai voltar a acontecer e eu quero ficar com o número.

— Está bem. Eu deixo-o anotado no escritório.

Page concordou e bebeu em seguida um trago de café.

— Onde é que vais estar hoje? — Brad partia do princípio que ela regressaria para o hospital, mas Page surpreendeu-o.

— Vou ao funeral do filho dos Chapman. Queres vir comigo?

— Não faço questão. Esse tipo quase matou a minha rilha. Como é que podes ir a esse funeral? — perguntou ele num tom agressivo. Page fitava-o, mal podendo disfarçar o seu desacordo e o seu desdém.

— Os Chapman perderam o seu único filho. E não há provas de que tenha sido o rapaz o causador do acidente. Como é que podes deixar de ir?

— Não lhes devo nada — respondeu ele, friamente. — E os testes do hospital provam que ele tinha bebido.

— Mas muito pouco. E quanto ao outro condutor? Não pode ser ele o culpado? — Tal como Page, Trygve igualmente admitira essa hipótese, mas Brad não. Para ele, era muito mais fácil responsabilizar Phillip Chapman pelo ocorrido.

— Laura Hutchinson é casada com o senador e é mãe de ïres filhos. Não se trata de nenhuma irresponsável que cosume conduzir alcoolizada e fazer manobras perigosas. — ËTe mostrava-se absolutamente certo.

— Como é que podes ter tanta certeza? — Page já não estava certa de mais nada, nem da conduta da mulher do senador, e muito menos do comportamento do seu marido. — Como é que não tens dúvidas de que ela possa ter causado o acidente?

— É simples: tenho tanta certeza como a Polícia. Se não a obrigaram a fazer uma análise ao sangue, é porque tinham a certeza de que não havia necessidade que ela a fizesse. Caso contrário, tê-la-iam obrigado a verificar a existência de álcool no sangue e tê-la-iam incriminado. — A posição dele era óbvia.

— É possível que tenham ficado intimidados com a posição social dela. — Ultimamente, discutiam por tudo e por nada e Page sentia-se aliviada pelo facto de Andy não os poder ouvr. — Seja como for, eu vou ao funeral. O Tryg ,cos dias. Era quase impossível aceitar esse facto.

Referiu-se a Phillip como um jovem muitíssimo valoroso, a quem todos admiravam e a quem associavam um futuro promissor. Page, soluçando, mal podia ouvir as suas tocantes palavras, tentando não pensar naquilo que seria dito no serviço religioso do funeral de Allyson. O discurso seria praticamente idêntico, pois também ela merecia a amizade e a admiração de todos. A dor causada pela sua perda seria certamente insuportável.

O pranto de Mrs. Chapman acompanhou toda a cerimónia e no fim o coro do liceu entoou alguns cânticos. Depois disso, todos os presentes foram convidados a dirigir-se ao altar, para que, num momento de prece, fosse prestada a última homenagem a Phillip. Foram principalmente os seus colegas e amigos que se apressaram a obedecer a esse convite, dirigindo-se ao altar em grupos ou individualmente, chorando e dando as mãos, enquanto colocavam flores junto ao caixão. Nessa altura, não havia ninguém que não chorasse na igreja, e ao contemplar o desgosto que aqueles muitos rostos jovens deixavam transparecer, a tristeza de Page aumentava. Foi então que avistou Laura Hutchinson, chorando silenciosamente num dos bancos de trás. Não estava acompanhada e mostrava-se tão comovida quanto todos os de mais. Page fitou-a durante bastante tempo, mas tudo quanto pôde observar foi mais uma profunda manifestação de mágoa pela morte daquele jovem. Todos se mostravam demasiado abalados para poderem proferir alguma palavra; a dor sobrepunha-se a tudo mais.

Ao saírem da igreja, Page e Trygve repararam então na presença dos jornalistas, que seguiram Laura Hutchinson até esta entrar na sua limusina sem lhes dirigir a palavra. Em seguida, tiraram fotograas a alguns dos jovens que à saída da igreja permaneciam em grupos, chorosos. O pai de Phillip, porém, enfureceu-se com mais essa intromissão da imprensa e chamou aos jornalistas exploradores insensíveis, enquanto alguns amigos o tentavam poupar, afastando-o dali. Mas mesmo depois disso, os jornalistas não se retiraram, permanecendo apenas um pouco afastados. Anal, aquela continuava a ser uma das notícias mais polémicas do momento.

Depois do serviço religioso, havia uma recepção no auditório do liceu e a seguir os Chapman convidaram alguns amigos a acompanhá-los a casa, mas Page não se sentia com coragem para comparecer em nenhum desses sítios. Tudo o que desejava era poder estar sozinha, de forma a poder recuperar do terrível desgaste emocional provocado pela tocante cerimónia. Voltou-se então para Trygve, que permanecia em silêncio ao seu lado e constatou que ele havia chorado tanto quanto ela.

— Está bem? — perguntou-lhe ele gentilmente, ao que Page respondeu com um sinal afirmativo, mas recomeçando de seguida a chorar. — Sim, eu sei... Vamos, eu levo-a a casa. — Ela seguiu-o até ao carro, onde ambos permaneceram durante algum tempo em silêncio. Como não tivera ânimo para falar aos pais de Phillip, Page deixara o seu nome anotado nas folhas de presença à entrada da igreja. Mais tarde, constava nos jornais que mais de quinhentas pessoas haviam assistido àquele serviço.

— Não foi nada fácil... — comentou então ela finalmente, tentando recuperar o fôlego. Trygve contemplou-a, sentindo-se esgotado pelo choque emocional.

— É horrível. Não há nada pior do que isto. Espero sinceramente nunca viver o suficiente para assistir à morte de um dos meus filhos. — Contudo, Trygve sentiu-se imediatamente arrependido por ter deixado escapar aquele desabafo, recordando-se de que Allyson não estava ainda fora de perigo. Mas Page entendeu, já que sentia exactamente o mesmo que Trygve.

— A mulher do senador teve uma atitude bastante corajosa em ter vindo. Os pais do Phillip poderiam ter ficado incomodados com a presença dela.

— Sim, mas a imprensa vai ficar muito impressionada com a atitude dela, salientando a sua presença e a sua humanidade. Foi uma medida bastante inteligente — finalizou ele, ncom desagrado.

— Não está a ser demasiado cínico? — indagou ela, sem rodeios. — Talvez ela aja com sinceridade.

— Duvido... eu sei como são os políticos e tenho a certeza de que foi o marido quem a aconselhou a vir. Talvez o acidente nem tenha sido causado por ela, talvez não tenha a mínima responsabilidade, mas enquanto isso não for prova do, a vinda dela ao funeral de Phillip só a pode beneficiar.

— Então acha que foi esse o motivo da sua vinda? — perguntou Page, desapontada.

— Não posso ter a certeza, mas é muito possível que sim. Embora não saiba explicar bem porquê, tenho a sensação de que foi ela a responsável e que o miúdo não teve culpa nenhuma, mas se calhar desejo tanto acreditar nisso que tiro conclusões erradas.

O mesmo sentiam os pais de Phillip. Trygve ligou então finalmente o motor e seguiu uma fila de carros que se dirigia ao liceu, tencionando ir até casa de Page. Foi só a meio do caminho que ela se lembrou que precisava de regressar ao hospital para ir buscar o seu carro. Além disso, depois daquele momento, desejava muito poder estar com Ailie, poder confirmar que a filha ainda estava com eles, com vida, depois da dor que o funeral de Phillip expusera e que ela partilhara.

— Importa-se de me deixar no hospital? — pediu ela, esboçando um sorriso ténue e triste. Tinha sido uma tarde muito difícil para os dois. Page contactara com o hospital várias vezes ao longo do dia, mas o estado de Allyson continuava inalterado.

— Claro que não, eu também preciso de ir ver a Chioe. Depois disto, o simples facto de elas estarem vivas já é uma felicidade...

Page concordou, recordando as palavras de Brad na última discussão, acerca de não aceitar Ailie caso esta não recuperasse por inteiro a saúde, palavras essas que tinham sido proferidas com firme convicção.

— Eu prero ter a Allyson em qualquer estado a perdê-

-la. Talvez até não esteja certa, mas é isso que sinto... o Brad diz que prefere perdê-la a vê-la de alguma forma diminuída.

— Desculpe, mas para ser sincero, essa opinião parece-

-me demasiado elitista e terrivelmente pretensiosa. Eu concordo consigo, prefiro ter aquilo que se me oferece a não ter nada.

Page concordava com Trygve, mas abria uma excepção para o seu casamento. Nesse campo, estava muito menos disposta a transigir, pois, a seu ver, esse era um caso totalmente distinto.

— Ele parece não conseguir aceitar o que aconteceu e está a tentar fugir da realidade — afirmou ela pausadamente, tentando não se dexar dominar de novo pela revolta que sentia pelo desaparecimento do marido na noite anterior.

— Há pessoas que não conseguem enfrentar uma fatalidade.

— Sim, pessoas como a Dana... e o Brad; então porque é que nós as enfrentamos? Será uma questão de coragem ou apenas de estupidez? — indagou ela, sorrindo.

— Talvez ambas as coisas sejam verdadeiras a nosso respeito — respondeu ele, também com um sorriso. — Julgo que é apenas uma questão de não termos outra escolha. Quando não há mais ninguém, faz-se aquilo que tem de ser feito. — Ele contemplou-a, tencionando colocar-lhe uma pergunta directa. Tinha passado tempo suficiente com Page para poder usar agora de total franqueza com ela. — E isso não a incomoda? — Trygve estava intrigado com a atitude dela, com a sua aparente aceitação daquilo que era, obviamente, um casamento não muito feliz. Desde a noite do acidente que a presença de Brad tinha sido meramente ocasional.

— Para ser franca, incomoda-me e muito! — admitiu ela, com um sorriso. — À hora do almoço, tivemos uma enorme discussão exactamente sobre esse assunto.

— Bom, pelo menos, vejo que também é de carne e osso. Se a Dana não estava presente quando eu ou os miúdos precisávamos dela, eu ficava muitíssimo zangado!

— Mas, no meu caso, existem outros problemas. Trygve tentou manter-se discretamente em silêncio, mas

ao fim de algum tempo o seu autodomínio cedeu e ele não

resistiu a fazer-lhe a seguinte pergunta:

— Problemas sérios?

— Creio que sim — admitiu ela, honestamente. — O suciente para porem tudo o mais em risco.

— Então surgiram de forma inesperada? — perguntou ele, com delicadeza e cautela.

— Sim, na verdade foram de todo inesperados. Estou casada há dezasseis anos e até há três dias estava convencida de que tinha o casamento perfeito — explicou ela, à medida que o carro se ia aproximando do hospital. — Tudo indica que acreditei numa grande mentira.

— Talvez não seja bem esse o caso, Page. Todos os casamentos atravessam momentos de crise, de vez em quando. Page abanou a cabeça, pensativa.

— Havia muitas coisas das quais eu não tinha conhecimento. Durante muito tempo, estive a enganar-me a mim própria sem o saber, mas agora que sei, é muito difícil fingir que não está a passar-se nada. É praticamente impossível! E a altura para isto acontecer não podia ter sido menos indicada. — A voz de Page revelava firmeza e determinação.

— Volto a repetir que há pessoas que reagem de forma muito estranha a determinados problemas.

— Acontece que o Brad já há muito tempo anda a reagir de uma forma estranha, mas só agora é que foi apanhado com a boca na botija... — Ela sorriu e Trygve riu da sua expressão e da forma irónica como Page lhe explicara o que acontecera.

— Pior para ele — comentou, sorrindo.

Page espantava-se pela facilidade com que conseguia comunicar com Trygve. Era como se lhe pudesse contar tudo, até aquilo que não conseguia desabafar com a irmã ou até com Jane Gilson, que era uma velha amiga, mas não uma verdadeira confidente. Depois dos rigores da sua vida de solteira, Page nunca se havia tornado íntima de ninguém, com excepção de Brad, o que tornava a traição deste ainda mais dolorosa. E agora, para sua surpresa, sentia que podia contar a Trygve até aquilo que hesitaria em desabafar com Brad antes de tudo aquilo acontecer.

Entretanto, já haviam chegado ao hospital e dirigiam-se à unidade de cuidados intensivos, ambos ainda dominados pelas impressões do funeral. Foi um alívio estarem com as filhas. Chioe, embora um pouco agitada, estava a reagir bem e Ailie continuava como antes. De momento, o seu estado era considerado estável.

Dessa vez, Page partiu antes de Trygve. Saiu por volta das cinco horas para ir buscar Andy a casa de Jane. Os pais de uns colegas haviam-no levado ao treino de basebol, as por essa altura, eleja devia estar de volta. Já perto da casa de Jane, Page mal podia esperar para ver o filho.

Havia sido uma tarde muito dura, e a sua mágoa regressava todas as vezes que se lembrava das lágrimas que os amigos de Phillip haviam chorado ou da dor que o rosto dos seus pais revelava. Ao abandonarem a igreja, todos haviam observado como era profunda a mágoa dos pais de Phillip e Page sentira-se próxima do seu desgosto e solidária com a sua dor. Quando tocou à campainha da porta da amiga, ainda podia ouvir os cânticos do coro do liceu.

— Olá! Como é que estás? — Jane olhava a amiga com insistência e ansiedade, e ao vê-la entrar, franziu o sobrolho e acrescentou: — Ou será que não devia ter perguntado? — Talvez o estado de Ailie tivesse piorado, a julgar pela aparência pálida, abatida e extremamente infeliz de Page.

— Eu estou bem — assegurou ela, calmamente. — Fui hoje ao funeral do Phillip Chapman.

— Que tal correu? — perguntou Jane, enquanto Page se sentava no sofá, exausta.

— Como seria de esperar. Estavam pelo menos quatrocentos colegas do liceu, e cerca de metade iam acompanhados pêlos pais.

— Era mesmo o que tu precisavas num momento destes. O Brad foi contigo?

Page abanou a cabeça.

— Fui com o Trygve Thorensen. Vimos a mulher do senador, que se mostrou convenientemente abalada e muito digna. Francamente, pensei que era preciso muita coragem para ela comparecer ao funeral do Phillip, mas o Trygve julga que ela foi apenas por uma questão de relações públicas;

como uma representação para os jornalistas, de forma a assegurar que a sua inocência se torne pública.

— E ela está, de facto, inocente? — perguntou Jane, sem que realmente o soubesse.

— Começo a achar que nunca o saberemos. Provavelmente, nunca ninguém poderá vir a ser responsabilizado pelo acidente... julgo que acabará por ser considerado apenas uma questão de pouca sorte.

—É possível... Estiveram lá jornalistas?

— Estiveram, sim, com mais algumas câmaras de televisão e fotógrafos de jornais. Tudo porque Mistress Hutchinson esteve envolvida neste acidente... Nem imaginas o quanto custa assistir ao sofrimento de todos aqueles miúdos amigos do Phillip. — Já para não referir o dos seus pais.

— O artigo que li ontem no jornal insinuava, indirectamente, que o Phillip Chapman tinha sido o responsável pelo acidente. São apenas boatos ou isso corresponde, de facto, à verdade? Ele tinha realmente bebido?

— Sim, mas não em quantidade suficiente para justificar qualquer efeito secundário. Dizem que Mister Chapman tenciona processar esse jornal, para limpar o nome do filho. Como já te disse, não existe nada que prove a culpa de nenhum dos condutores. Não se prova a culpa de Phillip, nem a de Mistress Hutchinson, embora ele fosse apenas um miúdo e tivesse bebido meio copo de vinho... e dois cafés a seguir. — Page e Trygve haviam discutido esse assunto até esgotarem todas as possibilidades, mas a versão oficial mantinha-se idêntica à inicial: fora um infortúnio, um acaso infeliz, pelo qual ninguém poderia ser responsabilizado. Contudo, Page não podia culpar os pais de Phillip por fazerem questão de clarificar as dúvidas que pairavam em relação ao procedimento do filho, já que este fora um jovem excepcional, que merecia morrer com a mesma reputação que sempre tivera em vida; mesmo que agora a reputação de Phillip só importasse verdadeiramente aos seus pais.

Nessa altura, já Andy havia detectado a presença da mãe e corria ao encontro dela, vestido ainda com o fato de treino. Ao ver o filho, tão saudável, tão bonito e tão activo, Page precisou, mais uma vez, de empregar todo o seu autodomínio para não chorar; recordou a última ocasião em que o levara ao jogo de basebol, alguns dias antes, e pôde então avaliar como nessa altura tudo era bem mais simples. Ailie não estava em coma e Brad ainda não lhe tinha confessado que a enganava.

— Como correu o seu dia Mister Andrew Clarke? — brincou ela sorrindo, enquanto o lho se atirava para o seu colo e a abraçava.

— Correu muita bem! Marquei um home-run — Andy estava orgulhoso de si próprio e a mãe alegrava-se com o seu contentamento.

— Vais ser um grande jogador de basebol! Andy também se mostrava muito feli por estar com ela,

mas de repente a sua expressão mudou e ele ftou-a com

preocupação:

— Vais voltar já para o hospital? Eu vou ficar outra vez aqui? — perguntou ele.

— Não, tu vens comigo para casa. — Page decidira passar essa noite em casa, pensando no bem-estar do filho. Calculava o quanto ele necessitaria de regressar ao seu ambiente normal e desejava poder proporcionar-lhe alguns momentos na sua companhia, o que era possível, visto o estado de Ailie não ter sofrido nenhuma alteração. Iria cozinhar-lhe um jantar um pouco mas completo do que apenas uma pizza congelada e queria poder ter a oportunidade de conversar calmamente com Andy, para que ele no se sentisse tão abandonado.

— O pai pode fazer um churrasco? — Page não sabia se Brad viria para casa ou se passaria outra noite fora, por isso nada poda prometer ao lho; mas este não se mostrou muito decepcionado com a resposta negativa dela: — Não faz al. Vamos poder jantar os três. — Andy mostrava-se deliciado com tal perspectiva, e passados alguns minutos mãe e filho regressaram a casa.

Page grelhou hamburgers, assou batatas e fez uma grande salada onde misturou abacate e tomate. Quando se preparavam para começar a jantar Page, surpreendida, ouviu Brad abrir a porta de casa. Não o esperava, mas mesmo assim, tinha feito comida para três, no caso de ele se decidir a vir pa-

ra casa.

— Pai! — gritou Andy, entusiasmado. Pela sua expressão de ansiedade, Page apercebeu-se do quanto o filho necessitava de estar com os pais.

— Mas que surpresa...! — exclamou ela, enquanto o marido lhe lançava um olhar de desaprovação, perante a sua ironia.

— É melhor não começarmos outra vez Page! — respondeu ele, visivelmente irritado. O seu dia também não tinha sido fácil, mas Brad fizera questão de vir jantar a casa, apenas por causa de Andy. — Há jantar para mim? — perguntou ele concisamente, observando a esa com dois lugares e o jantar que ela servia a Andy.

— Claro que sim — afirmou Page, oferecendo-lhe logo a seguir um prato já servido. Andy contou ao pai todos os pormenores do jogo, descrevendo o seu home-run no quarto inning. Em seguida, mudou de tema e falou dos colegas de turma, absorvendo avidamente todos os breves momentos que os pais lhe podiam oferecer, quando não ocupavam o seu tempo com a irmã, gravemente ferida. Page observava o procedimento do filho e apercebia-se cada vez mais do quanto ele precisava da companhia dos pais e de como se encontrava assustado; a seu modo, estava tão apavorado quanto ela própria. E, de certa forma, era ainda mais difícil para Andy, já que nunca lhe tinha sido permitido visitar a irmã.

— Este fim-de-semana posso ir ao hospital visitar a Allie? — pediu ele, enquanto terminava o jantar. Page alegrou-se ao verificar que ele tinha comido tudo e que parecia um pouco menos ansioso do que no início do jantar. Todavia, ainda não o julgava preparado para ver a irmã, pois o aspecto desta era demasiado assustador e o perigo ainda não desaparecera. Mas principalmente, caso AUyson não resistisse, Page não desejava que aquela visita se tornasse a última recordação que Andy guardaria da irmã.

— Ainda não, filho. Temos de esperar até que ela melhore mais um pouco. — Apesar de não ser permitida a entrada a menores de onze anos na unidade de cuidados intensivos, o médico havia-lhe prometido abrir uma excepção no caso de Andy.

— E se ela demorar muito a melhorar? Eu quero ver a Ailie... — Andy começou então a choramingar e Page lançou um olhar a Brad, em busca de auxílio, mas este não estava atento a nada do que se passava à sua volta. Folheava um jornal, de sobrolho franzido e com uma expressão carregada e infeliz. Stephanie ficara furiosa quando ele lhe comunicara que tencionava ir jantar a casa; Brad começava já a habituar-se a ter constantemente alguém a seu lado que lhe cobrava alguma coisa.

— Logo se vê... — respondeu Page a Andy acerca da visita ao hospital, enquanto ia levantando a mesa. Coo sobremesa, serviu aos dois gelado com molho de chocolate, e para ela encheu apenas mais uma chávena de café, pois apesar de o filho e do marido não terem reparado Page praticamente não jantara. Após alguns segundos, dirigiu-se a Brad:

— Porque é que não lês o jornal depois de jantar? — Page detestava que ele lesse durante as refeições, e Brad sabia-o muito bem.

— Porquê? Tens alguma coisa para me dizer? — argumentou ele bruscamente. Page cerrou os lábios, irritada, enquanto Andy observava os pais com ansiedade e preocupação. Nunca os vira falar desse modo anteriormente, e nos últimos dias parecia que não faziam nada mais senão discutir. Andy estava bastante assustado.

Depois do jantar Brad sentou-se à secretária para procurr um papel, e Andy dirigiu-se para o seu quarto, cabisbaixo, seguido por Liie.

Page acabou de arrumar a cozinha, pôs a mesa para o pequeno-almoço e ouviu de seguida a gravação do atendedor de chamadas. Havia pelo menos uma dúzia de mensagens, algumas deixadas pêlos jovens que haviam comparecido ao funeral de Phillip, querendo saber se poderiam visitar Ailie. Contudo, os médicos continuavam a proibir as visitas e todos os ramos de flores que chegavam para AUie eram enviados para a enfermaria das crianças, pois não eram permitidas flores na unidade de cuidados intensivos. Page sentia-se aliviada por não ter de encontrar os amigos e colegas da filha, porque tinha consciência de que não seria capaz de lidar também com a ansiedde destes. A última mensagem era de um jornalista, pedindo permissão para lhe colocar algumas questões, mas Page nem sequer se incomodou em anotar o seu nome.

Fez alguns telefonemas para aqueles amigos de Allyson que haviam pedido informações sobre o seu estado, mas, como sempre, era-lhe extremamente difícil referir-se ao assunto e explicar em pormenor o que se passara, quer fosse aos amigos da filha, quer aos pais destes. Lembrou-se de gravar uma mensagem especial no atendedor de chamadas, explicando o estado de Allyson, mas as notícias eram tão pouco animadoras e a esperança era ainda tão ténue, que acabou por não ter coragem para pôr em prática a sua ideia.

Por fim, foi até ao quarto em busca de Andy e encontrou-o sentado em cima da cama a falar com Lizie. Ele explicava à cadela o acidente de Allyson, mas assegurava-lhe que ela ia ficar bem, apesar de ter os olhos vendados e a cabeça muito inchada. Fazia uma espécie de resumo dos acontecimentos, embora não muito exacto, e Lizzie abanava a cauda ao ouvir a voz do mais novo dos seus donos.

— Então, meu amor? — disse ela ao filho, sentando-se ao seu lado na cama. Sentia-se extremamente agradecida pelo tempo que podia passar com Andy em casa, mas não podia deixar de notar a perturbação dele, e de se preocupar ainda mais por saber que pouco ou nada poderia fazer quanto a isso. Sabia que tinha procedido bem ao decidir passar essa noite em casa com ele, pois Andy necessitava muito de ambos os pais; era por isso que, apesar da aparente má disposição de Brad, Page não podia deixar de se sentir aliviada com a presença do marido, que sabia ter também muita importância para o filho.

— Porque é que tu e o pai agora discutem tanto? — perguntou ele, sério. — Dantes, não era assim.

— Estamos preocupados... com a Ailie. Sabes, às vezes os adultos, quando estão tristes ou arreliados, não sabem como reagir e então resolvem zangar-se uns com os outros. Desculpa, filho. Nós não te queremos preocupar. — Page acariciava-lhe o cabelo, numa tentativa de o tranquilizar.

— Ficas tão má quando falas com ele... — Como é que ela lhe poderia explicar que o pai a traía com outra mulher e que o casamento deles havia sido destruído? Não podia nem o tencionava fazer.

— É muito difícil para mim estar com a AUie no hospital.

— Porquê? Ela não está sempre a dormir? — Nenhuma das explicações que ouvia fazia sentido para Andy. Era tudo muito difícil, muito complicado e os adultos que ele amava agiam de uma forma demasiado estranha.

— Mas a mãe preocupa-se muito com ela, assim como se preocupa muito contigo — explicou Page, sorrindo.

Andy voltou a franzir o sobrolho e perguntou:

— E com o pai? Também te preocupas com ele?

— Claro que me preocupo. O meu trabalho é preocupar-me com vocês todos, não é? — Depois de o ajudar a vestir o pijama, Page leu-lhe ainda uma história. Antes de dormir, Andy foi dar as boas-noites ao pa, mas este estava a falar ao telefone e limitou-se a acenar-lhe de longe, apressada e bruscamente. Brad continuava nervoso e irritado, não apenas na forma como se dirigia à mulher, mas também no seu comportamento para com o filho. O facto de ter vindo jantar a casa não tinha sido uma decisão fácil para ele, mas mesmo depois de a ter colocado em prática Brad não estava inteiramente satisfeito. Sabia que teria que enfrentar uma outra discussão quando voltasse a estar com Stephanie, a qual, desde a hora em que tomara conhecimento de que Page já estava a par da sua existência, se tinha mostrado muito menos disposta a ser paciente.

Page deitou Andy e aconchegou-o entre os lençóis, mas antes de sair o filho pediu-lhe que deixasse a luz do corredor acesa, pedido esse que ele muito raramente fazia; apenas quando estava muito assustado, com medo ou bastante doente. Page lembrou-se então de que era natural que Andy desejasse a luz acesa, já que, naquela fase, todos eles se sentiam um pouco assim.

— Está bem, filhote. Dorme bem. — Ela beijou-o de novo e enquanto voltava para a cozinha agradeceu silenciosamente a Deus a existência do filho na sua vida.

Quando passou pela sala, reparou que Brad estava sentado no sofá, mas não parou para falar com ele. Sentia que pouco mais havia cado por dizer entre eles e calculou que estivesse a falar com Stephanie ao telefone quando Andy o interrompera.

Já na cozinha, retirou da máquina a loiça que tinha deixado a lavar, acabou de arrumá-la e voltou a beber outra chávena de café.

Eram exactamente dez horas quando Brad entrou na cozinha, visivelmente irritado e descontente. Os acontecimentos do dia não tinham sido fáceis para nenhum dos dois: a discussão à hora de almoço, o funeral de Phillip e o clima tenso do jantar. Page dedicava-se nessa altura a ler a correspondência recebida nos últimos dias, tarefa que deixara pendente desde o acidente.

— Parece que a nossa situação continua muito difícil — observou ele, cabisbaixo. Page ergueu os olhos na sua direcção e ao vê-lo ali na sua frente, de T-shirt e de calças de ganga, relembrou por breves instantes tudo aquilo que durante tantos anos sentira por ele e admitiu que, ao longo de todo esse tempo, Brad não passara de um desconhecido. Tinham dois filhos e dezasseis anos de vida em comum, mas subitamente ele transformara-se em alguém diferente do homem com quem ela julgava viver.

— Bem o podes dizer — respondeu ela ao comentário do marido, enchendo novamente a chávena com o resto do café. O seu sistema nervoso havia sido tão afectado que a cafeína já não exercia qualquer efeito. Em seguida acrescentou: —Julgo que o Andy se começa a aperceber disso. — E quem não se aperceberia? À volta deles, o desapontamento, a frustração e a mágoa eram, de facto, palpáveis.

— Tem sido uma semana terrível.

— Sim. Uma autêntica espada de dois gumes.

— Que quer isso dizer? — indagou Brad, confundido pela expressão que ela utilizara.

— Refiro-me à Ailie e ao nosso casamento.

— Pode ser que tudo se resuma a uma só preocupação;

quando a AUie melhorar, talvez sejamos capazes de ultrapassar tudo isto. — Page estranhou a resposta de Brad, especialmente por ele se ter mostrado tão decidido a manter a sua relação com Stephanie. Que quereria aquilo dizer? Que havia ainda esperança para eles? Teria Brad mudado de opinião, ou teria sucedido algo de novo? Page já não conseguia entender as intenções do marido, nem sequer tinha a certeza se de facto ainda o desejava fazer. — Talvez ainda estejamos a tempo de resolver a nossa situação — reafirmou ele, embora com pouca convicção. — Se quisermos.

— Quem, Brad? Nós e a Stephanie? — O tom da sua voz revelava a sua amargura e o seu cansaço. — Por favor, não vamos recomeçar esta discussão, nem nos vamos enganar com falsas esperanças. Por enquanto, temos de nos preocupar só com a AUie; quando ela estiver fora de perigo, poderemos pensar numa solução para o nosso caso. Agora, para ser franca, não tenho força nem paciência para o fazer.

Ele acedeu. Era-lhe impossível não concordar com Page, e além do mais, ultimamente, era Stephanie quem o pressionava. Esta última agia como se se sentisse preterida em favor de Allyson, fazendo-lhe exigências que até à data Brad nunca se vira forçado a discutir. Queria que ele passasse mais tempo com ela, se possível todo o tempo, e desejava igualmente que Brad não dormisse em casa, mesmo sabendo que ele deveria fazê-lo. A sua intenção era clara: demonstrar que agora Brad era dela e já não de Page, embora esquecendo que se ambas continuassem a exercer tamanha pressão sobre ele isso seria o suficiente para o esgotar.

Porém, antes que Brad pudesse pensar em alguma resposta para dar a Page, um grito agudo veio do quarto de Andy. Page e Brad correram para o filho e foi ele quem o alcançou primeiro. Andy, ainda não muito bem acordado, estava praticamente histérico, pois acabara de ter um horrível pesadelo.

—Já passou... está tudo bem, campeão... já passou. Foi só um pesadelo. — Mas nenhum dos dois o conseguia acalmar. Andy explicou que no seu sonho toda a família tinha sofrido um acidente e todos haviam morrido, exceptuando ele próprio e Lizzie. Acrescentou que havia sangue no chão e vidros partidos... e que o acidente tinha acontecido porque a mãe e o pai estavam a discutir. Sentindo-se imediatamente culpados Brad e Page entreolharam-se, e por fim, conseguiram que o lho acalmasse. Logo depois Page descobriu que a cama de Andy estava molhada e, ao mudar os lençóis, lembrou-se que isso já não acontecia desde que ele fizera quatro anos, o que a deixou ainda mais preocupada. A perturbação dele era tanta que atingia o próprio nível do subconsciente.

— Não é preciso ser psicólogo para decifrar este sonho... — comentou Brad a meia voz, quando já estavam no quarto de casal.

— O Andy tem andado muito preocupado com a AUie.

Toda esta situação lhe causa muito medo; ele ouve-nos dizer que o estado dela é muito sério e como ainda não a pôde ver, para ele é como se ela já tivesse morrido.

— Sabes muito bem que não é só a Ailie que o está a preocupar — armou Brad.

— Sim, eu sei — admitiu ela, calmamente. — Temos de ser mais cuidadosos. — Era óbvio que Andy os ouvira discutir.

— Custa-me muito ter de dizer isto — começou ele, contrariado —, mas talvez fosse melhor eu sair de casa durante alguns dias, até nos acalmarmos o suficiente para sabermos lidar com esta situação.

Page, chocada com tal sugestão, perguntou-lhe de imediato:

— Eras capaz de ir viver com ela? — Ambos sabiam a quem Page se estava a referir, mas ele não lhe deu nenhuma resposta directa.

— Posso ficar num hotel, ou posso alugar um apartamento mobilado no centro da cidade. — No entanto Page tinha consciência de que aquela seria uma óptima oportunidade para ele passar mais tempo com Stephanie, sem ter de enfrentar as insinuações e as acusações da mulher. Dadas as circunstâncias, Page não estava muito certa de o poder culpar, apesar de ter consciência das diculdades que enfrentaria ao tentar explicar a Andy a ausência do pai.

— Não sei o que dizer — respondeu ela por fim, fitando-o entristecida por tal sugestão. Num tão curto espaço de tempo, tinham chegado a um ponto que ela nunca julgara possível alcançar. Contudo, enquanto o fitava pensativamente, o telefone tocou e ambos correram para o atender, receando alguma notícia sobre Alhe. A chamada era, de facto, do hospital. O cérebro de Alhe começara a inchar novamente e a pressão que tal ocorrência causava era demasiado perigosa para o estado dela. Se o inchaço não cedesse, os médicos pediam permissão para operá-la novamente na manhã seguinte, para o que era necessário que a mãe ou o pai assinassem uma autorização. A equipa neurocirúrgica garantia que o risco de esperar mais uma noite não era signicativo, a não ser que surgisse alguma complicação, mas que estavam já em condições de assegurar que a cirurgia seria certamente necessária. Em quatro dias, seria a segunda vez que Allyson sofreria uma intervenção cirúrgica, mas o doutor Hammerman assegurou que não existia outra alternativa, pois tal como da primeira vez, se não a operassem, o risco aumentaria e ela poderia não resistir.

—Vão operá-la outra vez...? — indagou Brad, fitando Page fixa e seriamente, ao que ela respondeu apenas com um sinal afirmativo. — E depois...? Outra vez e ainda outra vez... quantas vezes mais, meu Deus?

— As que forem necessárias para a salvar... para ela melhorar e o cérebro dela poder voltar à normalidade.

— E se isso nunca acontecer? — Brad repetia os seus receios, mas Page não desejava voltar a ouvi-los, pois a opinião dele já não alteraria nada do que sentia.

— Se não acontecer, mesmo assim ela continuará a ser a nossa filha. Eu vou assinar os papéis Brad. A Allie tem direito a experimentar tudo aquilo que os médicos puderem fazer por ela. — Se ele a tentasse dissuadir Page lutaria com todas as suas forças, mas apesar de tudo, Brad era um homem sensato que desejava o melhor para a filha. Page encarava-o enfurecida, mas ao ver a expressão dele, toda a sua irritação cedeu.

— Faze o que achares melhor, Page. — Ele regressou para o quarto e deitou-se em cima da cama, pensando em Allyson e em como ela sempre fora, tão bonita e tão decidida. Tornava-se difícil recordá-lo agora, depois de a saber adormecida na enfermaria do hospital, ferida até mais não. — Vais dormir noutro quarto? — perguntou ele quando Page entrou para ir buscar uma camisa de dormir.

— Tinha pensado em ir dormir com o Andy — respondeu ela, olhando-o nos olhos.

— Podes dormir aqui — afirmou ele com um sorriso hesitante. — Prometo que me porto bem; ainda me sei controlar. — Esta promessa fez com que ambos trocassem um raro sorriso. O percurso das suas vidas havia chegado a uma verdadeira encruzilhada onde as escolhas já não eram claras, principalmente no que dizia respeito a decidir onde dormir e se ele deveria ou não permanecer naquela casa. Mais uma vez, Page sentiu que estava a viver um pesadelo.

Nessa noite, dormiu abraçada ao lho na sua cama estreita, deixando que as lágrimas lhe corressem livremente pelo pescoço até encharcarem a almofada. Chorou pelo muito que até então julgara possuir e que via agora reduzido apenas a uma série de ilusões.

Ao acordar, Andy ficou surpreendido por ver que a mãe dormira com ele, mas não fez nenhuma pergunta a esse respeito. Levantou-se e vestiu-se como de costume, enquanto a mãe fazia o pequeno-almoço para os três. Não voltou a mencionar o pesadelo daquela noite e quando Page o deixou na escola, Andy dava mostras de estar já mais tranquilo. Entretanto, Brad prometera encontrar-se com Page mais tarde no hospital, já que ela tinha de lá estar às oito e meia para assinar a autorização. A operação começaria às dez, e desta vez Brad prometera estar presente.

 

Já no hospital Page conversou com o neuro cirurgião, no corredor da unidade de cuidados intensivos. Ele comunico u-lhe que não se haviam registado quaisquer melhorias desde a noite anterior, e ela assinou a autorização e foi ver a filha. Allyson encontrava-se profundamente adormecida, e todos os aparelhos e monitores à sua volta estavam ligados, mas apesar disso Page conseguiu passar alguns instantes tranquilos junto dela. A essa hora, não eram permitidas visitas nos cuidados intensivos e as enfermeiras preferiram deixá-la a sós com a filha, pois poderiam observar Allyson através dos seus computadores e monitores. Page sentou-se então perto de Ailie, tomou-lhe a mão e falou com ela, acariciando-lhe de vez em quando a face. Por fim, beijou-a cuidadosamente antes de a levarem, perto das nove e meia.

Seguiu-se então um período de espera longo e difícil para Page, enquanto Allyson estava a ser preparada para a cirurgia; sabia que, caso a intervenção cirúrgica não fosse bem sucedida, Allyson não resistiria. A pressão exercida pelo inchaço do seu cérebro ocasionaria ainda mais lesões, e impediria que as fracturas e os ferimentos sarassem.

O doutor Hammerman informara-a então de que a operação demoraria entre oito a dez horas e que seria mais uma vez levada a cabo pela mesma equipa médica. Embora parecesse já uma rotina, não chegava a sê-lo, pois era preciso muito esforço da sua parte para não pensar nos possíveis resultados. Page não podia entregar-se a conjecturas sobre o que estaria a passar-se na sala de operações, ou sobre como reagiria se lhe viessem comunicar que a lha morrera; era doloroso de mais abrigar esse tipo de pensamentos.

Quando Brad finalmente chegou, Page estava ainda mais pálida e mais ansiosa do que no início da operação. Apesar de vir com meia hora de atraso, ele cumprira o que lhe prometera.

— Alguma novidade? — indagou, igualmente ansioso.

— Não, nada de novo — respondeu ela em voz baixa, acrescentando: — Antes de a levarem, quando a vi deitada naquela cama, achei-a tão calma, tão tranquila... tive a sensação que podia acordá-la a qualquer momento, mas ela continuou sempre a dormir... — Ao sentir os olhos cheios de lágrimas Page desviou imediatamente o olhar, pois já não desejava sobrecarregá-lo com os seus sentimentos. Perdera toda a confiança que depositara no marido e juntamente com essa última, toda a franqueza e sinceridade que sempre havia existido entre eles. Para Page, Brad era agora um outro homem. Era estranho pensar em como podia perder-se alguém com tanta facilidade, em como tudo podia mudar numa questão de segundos, mas ela esforçava-se por não se entregar também a esses pensamentos.

Foi um dia longo, passado entre um grupo de estranhos que, tal como eles, utilizavam as desconfortáveis cadeiras da sala de espera. Tanto Page como Brad raramente falaram; além de o achar muito calado, Page notou que ele estava também invulgarmente amável para com ela, como se tivesse obrigação de a tratar com deferência. Ocasionalmente, referiam-se a Ailie e recordavam algum acontecimento passado, mas todas as recordações lhes eram demasiado dolorosas. Assim, passaram a maior parte do tempo sentados em silêncio, perdidos nos seus próprios pensamentos, sem sentirem necessidade de se dirigir um ao outro.

Às quatro da tarde, quando finalmente decidiram ir buscar algumas sandes ao bar, ainda não tinham nenhuma notícia. Antes de saírem, informaram a enfermeira do local para onde tencionavam dirigir-se e, já no corredor, encontraram Trygve, que lhes desejou boa sorte. Este, em seguida, foi visitar a filha e depois desse breve encontro não se tornaram a ver. O casal continuou na sala de espera de olhos fitos no relógio, aguardando alguma notícia da parte do cirurgião.

Este último apareceu finalmente, às seis e quinze, quando ambos pareciam prestes a ser vencidos pela tensão de mais um dia de ansiedade.

— Como é que ela está? — Brad ergueu-se imediatamente e posicionou-se em frente do médico, tando-o. O médico sorriu, satisfeito, e respondeu:

— Está bem melhor do que seria de esperar.

— O que é que isso significa? — desafiou Brad de imediato, enquanto Page continuava sentada, ouvindo atentaente a explicação médica. Sentia que, caso tentasse levantar-se dali, decerto desfaleceria, por isso decidiu permanecer sentada.

— Significa que ela resistiu e que os seus índices vitais são bons. Pregou-nos um pequeno susto logo no início, mas depois recobrou as forças. Fizemos o possível para aliviar o máximo da pressão, que era ainda maior do que nós suspeitávamos. Apesar disso, existem todos os motivos para acreditar na possibilidade de uma recuperação total, ou quase total. Temos apenas que esperar para ver como ela reage, e, é claro, para ver quanto tempo mais vai permanecer em coma. Na realidade, neste momento queremo-la o mais calma possível, razão pela qual a mantemos bastante anestesiada. Ela precisa de repouso e imobilidade para que o cérebro possa recuperar, mas dentro de algumas semanas já poderemos voltar a analisar o quadro clínico da sua filha.

— Dentro de algumas semanas?! — repetiu Brad, verdadeiramente horrorizado. — Ela pode ficar em coma por mais algumas semanas?

— É possível que sim... e altamente provável. Na verdade, um prazo menor do que esse não traria um bom resultado, Mister Clarke. A recuperação deste tipo de lesão requer muita paciência. — Brad mostrou na sua expressão o seu desagrado, ao que o médico reagiu com um sorriso, dirigindo-se de seguida a Page: — A Allyson reagiu muito bem Mistress Clarke — assegurou ele novamente, com gentileza. — Ainda não está fora de perigo, mas avançámos mais um passo, ganhámos outro dia e a sua filha resistiu a mais um enorme trauma. É um sinal muito encorajador. É certo que ainda temos de esperar para sabermos o grau da recuperação, e para sabermos igualmente se este novo traumatismo causou algum outro efeito. Mas ainda falta bastante para podermos saber isso. — Ainda era preciso esperar para ter a certeza de que ela sobreviveria, pois todos eles sabiam que Allyson poderia morrer a qualquer instante. — Ela vai permanecer nos cuidados pós-operatórios até amanhã. Os senhores podem ir para casa e nós avisaremos caso surja algum problema.

— E o senhor doutor admite essa possibilidade? — perguntou Page, com a voz embargada.

O cirurgião hesitou alguns segundos antes de responder.

— É pouco provável, mas temos de ser realistas. Esta é a segunda neurodrurgia a que a sua filha é submetida num espaço de quatro dias; suportou muitos traumatismos, advindos quer do acidente, quer das cirurgias, o que, até o estado dela estabilizar, aumenta o risco. A Allyson, conforme já afirmei, está a reagir muito bem, mas continuamos a vigiá-la atentamente.

— Mais atentaente do que depois da primeira operação? — inquiriu Page, ao que o médico acedeu.

— Ela está ainda mais fraca, apesar de nós alimentarmos esperanças quanto ao resultado nal.

—Esperanças... — Depois daqueles dias de ansiedade, Page odiava essa palavra. Entendera perfeitamente aquilo que o médico lhe quisera transmitir: Ailie estava a reagir bem, mas o impacte da segunda operação poderia ter sido demasiado profundo para o estado dela; a sua filha poderia morrer a qualquer momento.

Depois de o cirurgião os deixar a sós, Brad voltou a sentar-se, e com um suspiro olhou para Page. Passado aquele dia, ambos se sentiam como dois náufragos que, depois de quase terem morrido afogados, descansavam agora em terra firme, porém ainda sem fôlego.

— Esta espera foi terrível... sinto-me como se tivesse escalado o monte Evereste, e tudo o que fiz foi ficar aqui sentado o dia todo — comentou Brad, pesaroso.

— Eu até preferia escalar o Evereste... — respondeu ela melancolicamente.

Brad esboçou um leve sorriso.

— Também eu. Mas a Ailie resistiu e por enquanto isso é tudo o que podemos pedir. — Brad pensou naquilo que havia dito antes acerca de não querer que a filha sobrevivesse, caso ficasse mentalmente incapacitada, e apercebeu-se de que isso já não fazia sentido. O seu único desejo era que Ailie vivesse mais uma hora ainda, mais um dia, e conseguisse sair do coma, se a sorte os favorecesse. — Queres vir para casa? — perguntou ele à mulher.

Page abanou a cabeça e respondeu:

— Eu vou ficar aqui.

— Porquê? O médico disse que ela não podia receber visitas e que nos telefonava se surgisse algum problema.

Embora Page não o conseguisse exprimir por palavras, sabia que a sua presença era necessária. Sentira o mesmo quando Andy estivera na incubadora, nos muitos momentos em que tivera a certeza de que precisava de estar junto dele, e agora era exactamente isso que voltava a sentir com relação a Allie. Quer a deixassem ficar ao seu lado na sala de recuperação ou não Page queria permanecer ali no hospital, perto da filha.

— O melhor é ires ter com o Andy a casa. Ele já deve estar preocupado. — Depois do pesadelo que o filho tivera na noite anterior, a preocupação de ambos com Andy aumentara bastante. Nessa tarde, Page resolvera mesmo telefonar ao pediatra do filho, que lhe assegurara que o estado de ansiedade em que ele se encontrava e o facto de ter pesadelos era uma reacção normal, dadas as circunstâncias. Ele explicara-lhe que o acidente que Ailie sofrera era tão traumático para Andy quanto para os pais, até talvez mais, e por fim lamentara o estado em que Ailie se encontrava.

— Tens a certeza de que não preferes que eu fique aqui a fazer-te companhia? — indagou Brad cautelosamente antes de sair, mas ela agradeceu-lhe e garantiu-lhe que não. Havia sido muito difícil para Page passar todo aquele dia na companhia do marido, pois eram ainda muitas as dúvidas que ela teria gostado de esclarecer: «Há quanto tempo procedes deste modo? Porque me mentiste? Porque é que eu não fui o suficiente para ti? Afinal não me amavas?» Todavia, Page sabia bem que era inútil colocar-lhe todas essas questões, e por isso decidira manter-se em silêncio, à custa, no entanto, de muito esforço. Brad continuava tão atraente como sempre fora, a única diferença era que agora ele pertencia a uma outra mulher e já não a ela. Era por isso que, sempre que o encarava, Page via diante de si a imagem de um estranho. No decorrer do dia, tinham sido delicados um para o outro, mas já nem se atreviam a mencionar o mais importante, pois já não era possível estabelecer um diálogo sobre os temas que realmente lhes interessavam.

— Dize ao Andy que eu fico a pensar nele — pediu Page ao marido que, depois de lhe prometer que telefonaria na manhã seguinte, foi para casa. Page continuou a sua longa vigília na sala de espera, que por essa altura estava já bem mais tranquila. Só então se deu conta de que o marido, ao despedir-se dela, nem por uma só vez lhe havia tocado, nem a beijara. A forte ligação que existira entre os dois havia sido irremediavelmente quebrada.

Mais tarde, Trygve, acompanhado por Bjorn, esteve algum tempo a conversar com Page na sala de espera, mas depressa se apercebeu de que ela estava triste e preocupada, sem a mínima vontade de conversar. Bjorn quis saber onde estava a filha de Page e se as pernas dela se encontravam tão feridas como as de Chioe, mas Page explicou-lhe que AUie ferira a cabeça e não as pernas. Bjom respondeu então que também já lhe doera a cabeça algumas vezes e que tinha muita pena que Ailie não estivesse bem.

Antes de se despedirem, Trygve pousou a mão no ombro de Page. Deixara-lhe também algumas sandes. Ela parecia-lhe mais fatigada e mais franzina do que nunca.

— Tenha coragem — pediu ele. Os olhos de Page encheram-se de água, mas ela fez ainda um sinal afirmativo antes de ficar novamente só. Dessa vez, sentiu-se aliviada pela solidão, concluindo que, por vezes, a solidariedade alheia ainda piorava mais o seu estado de espírito. Todas as vezes que alguém lhe dizia o quanto lamentava o estado em que a lha se encontrava, ela não conseguia deixar de chorar.

Page passou a noite deitada no sofá da sala de espera, dispondo de muito mais tempo para pensar do que até então tivera. Pensou em Brad e em como havia sido feliz a seu lado;

pensou no nascimento de AUie e na alegria que então senüra. Fechou os olhos e viu-se novamente na casa que antes habitavam, no centro da cidade. Quando a compraram, o seu estado deixava muito a desejar, mas na altura em que a venderam, depois dos arranjos e da decoração de Page, a casa estava encantadora.

Pensou de seguida na casa de Marin, que agora habitava, e recordou o nascimento de Andy e o tamanho assustadoramente pequeno do filho recém-nascido. Mas, uma vez mais, o seu pensamento deteve-se na filha; era como se Allyson, mais pequena, estivesse ali com a mãe na sala. Todas as opiniões da filha, a imagem que Page guardava dela, regressavam de novo e acompanhavam-na como uma experiência real. Envolvida nessa sensação, Page não ficou minimamente surpreendida quando a enfermeira veio ao seu encontro, pouco passava da meia-noite. No seu íntimo Page já o esperava. Sentira a presença de Allyson ali bem perto dela, e quando a enfermeira abriu a porta, ela estava já de pé, pronta para a acompanhar.

— Mistress Clarke?

— Sim... ? — Page quase não conseguia acreditar no que estava a suceder, tudo aquilo lhe parecia um sonho; mas apesar dessa sua impressão, não podia negar a realidade.

— O estado da Allyson agravou-se desde que foi submetida à segunda neuro cirurgia.

—Já chamaram o médico que a operou? — interrogou Page, muito pálida.

— Sim, ele já vem a caminho. A sua filha continua nos cuidados pós-operatórios, mas se a senhora desejar vê-la, eu posso levá-la agora mesmo até lá.

— Sim, se puder ser... — E acrescentou em seguida, xando o olhar da enfermeira: — Ela está... ela está a morrer...?

Após um breve instante de hesitação, a enfermeira respondeu:

— Ela está a ficar cada vez mais debilitada... a sua filha não se encontra nada bem, Mistress Clarke... é muito provável que esteja realmente a morrer. — Era essa também a opinião das enfermeiras que a assistiam na sala de recuperação, as quais tinham requerido imediatamente a presença do cirurgião, apesar de julgarem difícil que este chegasse a tempo.

— Acha que tenho tempo de avisar o meu marido? — Ao ouvir o som da sua voz, Page não pôde deixar de ficar surpreendida. Sentia-se estranhamente calma, como se por fim soubesse o que esperar; de facto, sem que antes tivesse tomado consciência disso, Page estava já à espera do que iria acontecer. Ela estivera presente quando Allyson viera a este mundo e agora iria estar também presente quando a filha o abandonasse. Assim, apesar de ter os olhos banhados de lágrimas, sentiu uma grande tranquilidade ao acompanhar a enfereira até ao elevador.

—Julgo que seria mais aconselhável a senhora ir de imediato para perto da sua filha. Nós temos o número de telefone de sua casa e encarregamo-nos de avisar o seu marido. — Page gostaria que o marido fosse avisado por ela e não por uma das enfermeiras, mas não podia perder nem mais um minuto. Aquele era um momento único que não podia ser desperdiçado e Page desejava muito ter a oportunidade de se despedir da filha. Interiormente, adquirira já total certeza de que Allyson a podia ouvir, apesar da aparência em contrário.

À entrada da sala de cuidados pós-operatórios, entregaram-lhe uma bata e uma máscara, e depois de as colocar Page seguiu outra das enfermeiras até perto da cama onde Allyson se encontrava, rodeada de aparelhos e com a cabeça envolta em ligaduras. Exteriormente, não se registava nenhuma alteração na sua aparência, mas Page apercebeu-se de que, inexplicavelmente, a filha aparentava uma paz e uma calma que até então nunca detectara.

— Então, minha querida...? — murmurou Page, aproximando-se da filha. Apesar das lágrimas que lhe molhavam o rosto, ao invés de tristeza, Page sentia agora felicidade em estar de novo perto de Allyson. — Eu e o teu pai amamos-te muito... quero que tenhas a certeza disso. E o Andy também... ele sente muito a tua falta, assim como eu sinto... todos nós temos saudades tuas... mas sei que estás sempre connosco. — Uma das enfermeiras trouxe-lhe então um banco, e depois de se sentar Page tomou uma das mãos de Ailie e cobriu-a com as suas. A mão da filha pareceu-lhe mais frágil do que nunca, os seus dedos mais rígidos e os braços menos flexíveis, o que fazia parte da reacção do seu organismo ao inchaço do cérebro. Era um dos motivos por que Page não queria que Andy visitasse a irmã, já que as consequências do acidente eram demasiado nítidas e perturbadoras.

— Acabámos de contactar o seu marido — segredou uma das enfermeiras ao ouvido de Page, enquanto esta continuava a acariciar a mão da filha.

— Ele vem? — indagou ela, calmamente. Já não se sentia assustada, pelo contrário, sentia-se muito tranquila e e paz, mais próxima de Ailie do que nunca. Estavam juntas, mãe e lha, unidas para sempre num momento que a seu modo era tão significativo quanto o nascimento de Allyson. E, de alguma forma, não havia muita diferença entre essas duas ocasiões: a primeira correspondia a um início, e a última prenunciava um fim. O círculo acabava de se completar, mais cedo do que o previsto, é certo, mas o forte laço que as unia permanecia intacto.

— O seu marido disse que não podia deixar o filho sozinho. — Page sabia que se Brad quisesse, podia ter pedido a Jane para ficar com Andy, e que apenas o medo o havia impedido de vir. Contudo, ela entendeu perfeitamente a atitude dele e aceitou o facto de o marido não querer enfrentar aquele momento. A enfermeira pousou a mão no ombro de Page, solidária com ela. Já não era a primeira vez que assistia a um caso assim, e sabia o quão difícil era enfrentar aquele momento, especialmente quando se tratava de um filho.

— Allie... ? — sussurrava Page. — Querida, a mãe está aqui... não tenhas medo... sempre que precisares, eu vou estar aqui para te ajudar. — Page sentia que lhe devia transmitir essa certeza. Allyson sempre mostrara alguma relutância em admitir uma mudança, e agora que a filha enfrentaria a maior mudança de todas Page não a podia acompanhar. Porém, em pensamento, ela nunca deixaria de ir com a filha, tal como Allie, também em pensamento, caria para sempre junto da mãe.

— Mistress Clarke? — Quem se dirigia agora a Page era o doutor Hammerman, que ela nem sequer ouvira entrar. —Já não podemos fazer mais nada pela Allie... — informou ele, pesarosamente.

— Eu sei. — As lágrimas corriam pela face de Page, sem que esta se apercebesse disso.

Ao vê-l sorrir por entre tantas lágrimas, o médico não pôde deixar de se sentir comovido.

— Fizemos tudo o que podíamos, mas a lesão é muito profunda. Sempre admiti que ainda fosse possível urna recuperação, mas... lamento muito... — O médico deixou-se car por perto, inspeccionando os registos dos monitores, mas preferindo manter alguma distância, de forma a não se intrometer. Confirmou várias vezes a pulsação de Ailie, consultando em seguida as curvas que os monitores registavam e pedindo informações às enfermeiras ali presentes. Na sua opinião, Ailie não resistiria mais do que alguns minutos e ele sentia uma profunda compaixão pela mãe. Por fim, voltou a dirigir-se a Page: — Mistress Clarke? Há alguma coisa que eu possa fazer por si? Deseja que chamemos um padre?

— Não, obrigada, está tudo bem — respondeu Page, recordando a primeira vez em que vira a filha: Ailie nascera uma menina perfeita, uma linda recém-nascida de formas arredondadas e robustas, de faces muito rosadas e com a cabeça enfeitada por uma penugem loira. Mesmo após um trabalho de parto muito difícil Page sorrira ao ver a filha, estendendo de imediato os braços para a receber. Relembrar aquele momento fê-la sorrir de novo, e Page apressou-se a repetir aquela breve história a Ailie, tal como fizera tantas vezes antes. As duas enfermeiras que a ouviam resolveram então ir atender outro doente, depois de limparem algumas lágrimas.

O cirurgião continuava por perto, sempre atento, e uma hora após a sua chegada, verificou de novo os monitores e constatou que não havia alterações. De facto, Allyson não registava nenhuma melhoria, mas o seu estado também não havia piorado. Algures no seu íntimo, Ailie lutava pela vida.

Page permanecia sentada a seu lado, acariciando-lhe a mão e conversando serenamente com ela. Dentro de si já não existia nenhuma resistência: ela abrira mentalmente as portas do seu coração e deixara a filha livre para seguir o seu curso. Sabia que não tinha qualquer direito de a manter presa ali, caso tivesse chegado a sua hora. Sentia a presença de Ailie tão leve como a de um anjo, e o simples facto de estar próximo dela era o suficiente para a fazer feliz.

— Podes sempre contar com o meu amor, minha filha. .. — Page nunca se fartava de repetir à filha o quanto a amava. Antes que AUie os deixasse, Page desejava confirmar-lhe o seu amor o maior número de vezes possível. — A mãe ama-te muito, minha querida. — Uma parte do seu coração ainda esperava que a filha abrisse os olhos, sorrisse para ela e respondesse «eu também gosto muito de ti, mamã», embora soubesse que isso era totalmente impossível.

O doutor Hammerman manteve-se vigilante por mais algum tempo, verificando-lhe periodicamente a pulsação, ajustando o funcionamento de um dos muitos aparelhos e controlando o ventilador. Page ficou com a filha por mais duas horas, sentindo pena que Brad não tivesse estado presente, pois sabia que também ele deveria despedir-se de Allie. Quando o doutor Hammerman se aproximou, o coração de Page bateu mais depressa.

— Vê aquele aparelho? — murmurou ele, apontando para um dos monitores. Page respondeu com um sinal afirmativo. — A pulsação dela está de novo mais forte. A sua filha pregou-nos um grande susto, mas penso que está outra vez a reagir. — Os olhos de Page voltaram a encher-se de lágrimas, e tudo o que lhe ocorreu foi a lembrança de uma ocasião em que Allyson caíra numa piscina e quase se afogara. Quando a mãe a conseguira por fim alcançar, o seu único desejo era bater-lhe, em nome do terrível susto que ela lhe pregara. Page contemplou então a filha mais uma vez, sorrindo por entre as suas lágrimas, desejando muito que Ailie estivesse agora, tal como nessa altura, em condições de apanhar ou de ouvir uma repreensão, de ser beijada, abraçada ou acarinhada.

—Tem a certeza...?

— Vamos continuar a observá-la.

Page permaneceu sentada perto da cama de Ailie, conversando com ela e referindo a sua queda na piscina e o susto por que todos tinham passado. Nessa altura, Ailie tinha apenas quatro ou cinco anos. Page passara, contudo, por outro susto com a filha, quando estava grávida de Andy: Allyson resolvera conduzir a sua bicicleta através do trânsito de Ross. Page mencionou também essa ocasião à filha e assegurou-lhe, vezes sem conta, o quanto a amava.

E assim, quando o Sol despontou sobre as montanhas de Marin, dir-se-ia que Allyson, aliviada, podia por fim entregar-se a um sono tranquilo. Era como se após uma longa ausência, acabasse agora de regressar, sentindo-se muito cansada. Page podia quase descrever a mudança por que a filha passava e já não sentia mais aquela efémera sensação de transição e de partida. Ailie estava de volta, decidida a não os abandonar.

— Os milagres são próprios da minha profissão... — afirmou o doutor Hammerman, sorrindo satisfeito, enquanto as enfermeiras se mantinham por perto, comentando entre elas o sucedido e vigiando a doente.

Toda a equipa médica tivera a certeza de que Allyson não sobreviveria até àquela manhã.

— Esta sua menina é determinada! Não desiste com facilidade... e eu também não tenciono desistir de a salvar.

— Obrigada... — murmurou Page, dominada por uma onda de emoção. Aquela havia sido a mais extraordinária noite da sua vida. Tinha sentido o peso e a importância daquela ocasião, mas nem por um só momento sentira medo;

tivera consciência de que Ailie ia partir, mas apesar disso sentira-se feliz e aliviada pela filha, mesmo que tal partida implicasse um terrível sofrimento para aqueles que tanto a amavam. Page quase sentira Ailie partir e depois sentira-a novamente regressar. E agora, enquanto a fitava, segurando a frágil mão da lha, teve a certeza de que nada mais a assustaria. Sentia uma paz que há muitos anos não experimentava e sabia que todos eles haviam sido abençoados. Já a caminho de casa, Page meditava na maravilha dessa bênção: sentira a mão de Deus repousando sobre elas durante toda a noite, e essa presença transmitira-lhe uma sensação de segurança de tal forma intensa que não podia deixar de acreditar que Ailie estava para sempre a salvo.

A gratidão de Page não tinha limite, e ao chegar por fim a casa, sob a pálida luminosidade do amanhecer, sentia-se perfeitamente em paz.

 

Durante o resto do dia Page sentiu que a sua vida havia sofrido uma modificação; nunca antes se sentira tão leve, tão feliz... era um sentimento impossível de explicar ou de definir, embora conseguisse ter a certeza de que nunca mais voltaria a ter medo ou a deixar-se dominar de novo pela tristeza. Os problemas à sua volta já não a assustavam, pois a segurança que sentia fazia-a estar em paz com ela e com o mundo.

Até mesmo Brad pôde observar que algo mudara nela. Page já não lhe parecia tão fatigada e tão aflita, e enquanto ela preparava o pequeno-almoço, ele reparou que apesar de ter estado a pé durante toda a noite, dir-se-ia que Page se encontrava mais leve e até mesmo revigorada.

Brad cara imensamente aliviado por Ailie ter resistido àquela prova, além de ter ficado igualmente comovido com o relato de Page. Foi ele quem levou o filho à escola, assegurando a Page que viria jantar a casa. Quando ficou sozinha, Page telefonou à mãe com o fim de a informar sobre o estado da neta. A mãe de Page ofereceu-se novamente para lhe fazer companhia, e embora ao longo da conversa Page tivesse tido a certeza de que mais uma vez a mãe não tomara plena consciência do que sucedera, desta feita isso não a incomodou. A calma e a paz que sentia mantiveram-se até ao momento de desligar o telefone, depois de prometer à mãe que lhe telefonaria de novo dentro de alguns dias. Nunca antes se sentira tão próxima da filha, e a sua certeza de que Allyson estava nas mãos de Deus era inabalável. Pela primeira vez desde o acidente, Page não sentia necessidade de estar no hospital. De seguida, tomou um duche, deitou-se e adormeceu profundamente, acordando a tempo de ainda passar pelo hospital antes de ir buscar o filho à escola. Allyson tinha já sido novamente transferida para os cuidados intensivos, e ao ver a filha Page teve a sensação de que na noite anterior haviam ambas empreendido uma longa viagem. Sentou-se então perto de Ailie, tomou-lhe a mão e falou-lhe carinhosa e calmamente.

— Olá, minha pequenina. Bem-vinda! — Page tinha a certeza de que, no ais íntio do seu ser, Allie a poderia entender, com o seu coração, a sua alma ou o que quer que fosse que lhes havia permitido estarem tão unidas. — Eu gosto muito, muito de ti...! Enganaste-me na noite passada, mas ainda bem que o fizeste... — Pelo calor que sentiu no coração Page julgou então possível sentir que a lha lhe sorria. Era como se agora pudesse entendê-la melhor, como se fosse possível comunicar com Allie através de sentimentos e não de palavras. — Eu preciso muito de te ter aqui, Allie... todos nós precisamos de ti... tens de melhorar depressa. Sentimos a tua falta! — Page continuou a conversar com a filha durante mais algum tempo, e quando a deixou, sentia-se ainda perfeitamente calma e tranquila.

À saída do hospital Page encontrou então Trygve que vinha a chegar nesse exacto instante. Também este facilmente se apercebeu da modificação que o seu estado de espírito sofrera: havia uma nova vitalidade no andar dela, o seu cabelo estava solto e penteado e ela sorria, pela primeira vez desde há muitos dias, de uma forma aberta e contagiante.

— Santo Deus, o que é que lhe aconteceu Page?

— Eu depois conto-lhe.

— Como é que ela está? — indagou ele, preocupado.

— Talvez melhor, ou na mesma. Ontem foi operada, como sabe, e depois de um susto na noite passada, os médicos dizem que o estado dela estabilizou, o que já é alguma coisa. — Todavia, havia muito mais a contar, mas Page não o queria fazer de uma forma apressada ali no corredor do hospital. — A propósito, acabei de deixar a Chioe. Ela adormeceu agora mesmo, mas quando entrei queixava-se muito, o que deve ser um bom sinal. Achei-a com melhor aparência.

— Graças a Deus. Já não volta hoje ao hospital? — perguntou ele, manifestando-se interessado. Page abanou a cabeça.

— Não creio. Agora vou buscar o Andy à escola e depois tenciono ir levá-lo ao treino de basebol. Hoje vou tentar jantar em casa, a não ser que Miss Allyson reclame outra vez a minha presença... — Mas Page estava certa de que Allie não o faria. Independentemente do que viesse a acontecer, ela tinha a certeza que um momento como o da note anterior não se repetiria. Só uma vez na vida sucedia algo assim.

— Então vemo-nos amanhã — afirmou Trygve, desapontado. Quando estavam os dois no hospital, a espera tornava-se bem menos difícil e os maus momentos eram mais fáceis de suportar.

— Eu volto amanhã de manhã, depois de deixar o Andy na escola. — Page afastou-se então com um sorriso, e foi buscar o filho.

Mãe e filho passaram uma tarde agradável e Andy jogou bastante bem, embora não tão bem como de costume. Ainda estava preocupado, mas a calma e a placidez da mãe tranquilizavam-no. Já na carrinha de Page, a caminho de casa, Andy aninhou-se contra ela, enquanto saboreava um gelado, e Page relembrou de imediato o último sábado. Era difícil admitir que apenas há alguns dias atrás as suas vidas se processavam com a maior das naturalidades. Tinham passado só cinco dias desde o desastre e quatro desde que descobrira a verdade acerca de Brad, e no entanto, aqueles dias pareciam-lhe uma eternidade.

Brad não foi jantar a casa nessa noite, mas dessa vez telefonara antes a avisar. Desculpara-se com o excesso de trabalho, afirmando que «seria mais fácil» jantar no centro da cidade. Page sabia bem o que isso significava, mas reparando que o marido se dera ao trabalho de telefonar, não se incomodou mais com o assunto, pois assim poderia arquitectar alguma desculpa para dar ao lho. Ficou, no entanto, surpreendida pela calma com que enfrentou mais uma ausência de Brad. Sentia-se contente por estar em casa com o filho e aliviada pelo facto de o estado de Allie não ter voltado a agravar-se.

Depois de deitar Andy, telefonou então a Jane, que lhe transmitiu uma notícia pouco tranquilizadora. Esta última almoçara no centro da cidade com uma amiga, a qual conhecia Laura Hutchinson há muitos anos. Essa amiga dissera-lhe que a mulher do senador lidava com um problema de alcoolismo desde os seus tempos de adolescência. Submetera-se, alguns anos antes, a um tratamento, e segundo as inforações que essa amiga de Jane possuía, não voltara a beber desde então.

— E se mudou alguma coisa? — perguntara Jane preocupada. — E se ela voltou a beber, ou se bebeu naquela noite?

Contudo, isso era já impossível de saber. Page ouviu o relato de Jane. Tudo o que ela lhe dizia não passavam de simples boatos, meras conjecturas arquitectadas por quem se preocupava somente em arranjar um culpado pelo acidente;

contudo, nada disso poderia agora modificar o passado.

— Ela já não deve beber — armou Page, tentando ser imparcial.

— Se não for esse o caso, depressa vamos saber pêlos jornais — respondeu Jane. — Quando aquilo aconteceu, a imprensa demonstrou muito interesse por ela.

— No seu próprio interesse, espero que não seja esse o caso — contrapôs Page, calmamente. — Espero que esteja tudo bem com ela e não creio que esses boatos sejam muito positivos.

— Eu só te contei porque pensei que talvez estivesses interessada em saber isto — respondeu Jane, que se sentira muito entusiasmada com a nova informação sobre a mulher do senador. E se fosse aquela mulher adulta a responsável pelo terrível acidente, em vez de Phillip?

— Não acho muito justo julgá-la por um problema que aconteceu há tantos anos — explicou Page à amiga, acrescentando: — Seja como for, obrigada pela informação.

— Se descobrir mais alguma coisa, depois digo-te. — E a seguir, as duas falaram como habitualmente sobre a saúde de Allyson, tema que, nos últimos tempos, parecia ser o único importante. Depois de desligar Page passou alguns cheques e abriu a correspondência. Aquela era a primeira vez em toda a semana que ela tinha tempo para se dedicar a essas tarefas rotineiras, que agora lhe causavam até alguma satisfação.

Na manhã seguinte Page levou Andy até à escola e, seguidamente, dirigiu-se ao hospital para ver Ailie. Nos dois últimos dias, parecia que tinha conseguido alcançar dois importantes objectivos: passara mais tempo com Andy, algo por que este tanto ansiava, e substituíra a sua perturbação inicial por um estado de espírito muito mais calmo e tranquilo. Sabia agora que se aquela ia ser uma prova longa e difícil, era então preciso manter todas as suas forças e utilizar todas as suas capacidades.

Quando Page chegou ao hospital, pouco antes das nove, informaram-na de que o estado de Allyson permanecia inalterado. Ao vê-la, todas as enfermeiras lhe dirigiram um sorriso, pois sabiam que Allyson estivera às portas da morte na noite posterior à segunda cirurgia, o que transformava cada momento e cada dia da sua vida numa dádiva cada vez mais valiosa.

— Como é que ela está? — indagou Page, hesitantemente. Na noite anterior, contactara várias vezes o hospital, e em todas essas ocasiões a haviam informado de que não se registava nenhuma alteração no estado da filha, que continuava, portanto, estabilizado.

— Praticamente como antes. — A enfermeira sorriu para Page. Era uma mulher com a mesma idade que ela, objectiva, possuidora de um carácter bondoso e de um grande sentido de humor. Chamava-se Francês. — O doutor Hammerman esteve a examiná-la há cerca de uma hora, e ficou bastante satisfeito com os progressos.

— O inchaço diminuiu? — Com a cabeça de Allyson envolta em espessas ligaduras, era impossível Page ter alguma ideia do volume da dilatação. Todavia, Alhe parecia mais tranquila e a sua palidez já não era tão acentuada.

— Sim, diminuiu um pouco. A cirurgia aliviou grande parte da pressão. — Page sentou-se então perto de Alhe, repetiu mais uma vez o gesto de tomar entre as suas a mão da filha, e começou a conversar baixinho com ela. Aparentemente, não havia qualquer modificação desde o dia anterior, mas, no seu íntimo Page encarava tudo de uma forma muito mais positiva: era-lhe agora mais fácil aceitar o que sucedera, e a atitude de Brad já não lhe causava tanta mágoa e irritação. Embora não conseguindo detectar o porquê, Page sabia que algo nela sofrera uma modificação completa desde a experiência da noite anterior com Alhe.

Trygve chegou ao hospital às dez horas, trazendo um saco de croissants para Page, dando mais uma vez conta da modificação desta última.

— Em toda a semana, esta é a primeira vez que a vejo assim tão bem — observou ele, sorrindo de contentamento. — Fico feliz por ver que já está melhor. — A capacidade humana de adaptação e de ajustamento às modicações era de facto espantosa. Ele próprio também se sentia melhor, depois das várias visitas que fizera à filha. Nessa mesma tarde, Chioe ia ser transferida para um quarto particular, e daí a algumas semanas já poderia regressar a casa. Afinal, apesar do horror inicial daquela semana, todos eles haviam sobrevivido...

Após mais alguns minutos Page abandonou a enfermaria de cuidados intensivos, e mais tarde, antes de deixar o hospital, foi visitar Chioe ao quarto. Ela estava já menos anestesiada, mas ainda tinha muitas dores. Em contrapartida, o seu quarto encontrava-se repleto de flores e alguns dos seus amigos mais íntimos tinham vindo visitá-la. Trygve estava de pé à porta do quarto, aproveitando para fazer um breve intervalo e deixando a filha a sós com os amigos. Desdeque se dera o acidente, aquela era a primeira vez que Chioe recebia os amigos, pois até então apenas recebera a visita do pai e dos irmãos. Jamie Appiegate manifestara novamente o desejo de visitar Chioe, mas Trygve pedira-lhe que esperasse mais um dia até ao fím-de-semana. Jamie tinha sido muito correcto e muito delicado com Trygve, apesar de se mostrar muito ansioso por ver Chioe. O maior ramo de flores que enfeitava o quarto de Chioe, o qual chegara mal ela dera entrada no quarto, vinha da parte de Jamie e dos seus pais.

— As coisas estão a começar a melhorar — disse Page a Trygve, com um sorriso esperançado. Também ela estava contente por o ver menos ansioso e mais animado.

— Não tenho assim tanta certeza... — comentou ele, desmentindo o que armara com um sorriso. — Esta segunda fase não é nada fácil: a Chioe quer ver os amigos, quer ouvir música no quarto e insiste em ir para casa na semana que vem, o que é completamente impossível! Além disso, quer que seja eu a lavar-lhe o cabelo... — Apesar de tudo, tanto Trygve quanto Page sabiam que ele estava encantado por ter de enfrentar essas diculdades e já não eram as primeiras relacionadas com a sobrevivência da filha.

— Tem muita sorte — afirmou Page co um sorriso meigo, considerando que também ela gostria que fossem esses os seus problemas.

— Sim, eu sei — concordou ele, acrescentando: — Já sei que na noite da operação a Ailie esteve em sério risco de vida. — Uma das enfermeiras tinha-lhe relatado toda a história.

Page confirmou com um leve acenar de cabeça, sem saber ao certo como explicar a Trygve o que se passara e não parecer totalmente disparatada.

— Foi a experiência mais estranha que alguma vez me aconteceu. Antes de me avisarem, eu já sabia o que se estava a passar. Tanto eu como as enfermeiras e os médicos tínhamos a certeza de que ela estava a morrer, e mesmo assim... nunca me senti tão próxima da Ailie. Revivi cada dia, cada hora, cada minuto passado com ela, e recordei-me de acontecimentos muitos antigos, dos quais eu já nem sequer me lembrava. E depois, de repente, senti uma mudança... pude sentir a Allyson regressar de um sítio muito distante. E foi a sensação mais intensa e mais tranquilizante que alguma vez experimentei. Foi inacreditável...!

Trygve podia observar nos olhos de Page que ela estava ainda dominada pela intensidade dessa maravilhosa sensação.

— De vez em quando, ouve-se falar dessas experiências... Ainda bem que a Ailie não partiu! — comentou Trygve, de olhos fitos nos dela, desejando ter podido estar presente nessa hora. A enfermeira informara-o também de que Brad havia sido avisado, mas que não pudera vir.

— Ela surpreendeu-nos a todos — observou Page, com uma expressão doce e feliz.

— Espero que o continue a fazer.

— Também eu.

— Como é que o Andy tem reagido?

— Não muito bem. Tem tido muitos pesadelos. — Ela baixou a voz para não comprometer o lho, pois mesmo não estando ele ali Page tinha a certeza de que Andy odiaria que alguém o soubesse. — E chegou até a molhar os lençóis da cama. Sei que tudo isto o perturbou muito, mas continuo a achar que, por enquanto, é mais prudente que o Andy não veja a irmã.

— Tem toda a razão. — O aspecto de Ailie ainda era muito pouco animador, e apesar do seu quadro clínico ter estabilizado após a segunda cirurgia, não deixava de ser uma visão bastante deprimente para qualquer visita. Ao ver Ailie depois do acidente, a própria Chioe tinha ficado muito chocada, chegando mesmo a chorar ao aperceber-se de quem se tratava. Inicialmente, não percebera que era a sua amiga quem se encontrava inconsciente naquela cama, com a cabeça ligada e os olhos vendados. — Seria demasiado traumático para o Andy — concluiu Trygve.

— Para ser franca, o nosso problema também não o tem ajudado nada. — Page fez uma longa pausa e manteve o olhar fixo no fundo do corredor; por m, voltou-se para Trygve e afirmou: — A minha situação com o Brad não está nada boa, e o Andy apercebe-se muito bem disso. O Brad já não vem muito a casa, ele... bem, na verdade... ele até j á admite a hipótese de sair de casa. — Houve um ligeiro tremor na sua voz, mas Page ficou surpreendida pela facilidade com que pronunciou aquelas palavras. Após dezasseis anos, Brad abandonava-a; de facto, para todos os efeitos, já o fizera. Nessa mesma manhã, o marido telefonara a avisá-la de que não passaria o fim-de-semana em casa.

— Enfrentar tantos problemas numa semana é o suficiente para esgotar qualquer um — comentou Trygve.

— E eu ainda não lhe contei nada... mas o Andy apercebe-se que está a passar-se alguma coisa, e tem andado muito agitado.

— Eu não me estava a referir ao Andy, mas a si. A Page é que tem todos os motivos para andar esgotada. No início, parecia que a atitude do Brad era apenas uma reacção ao que se passou com a Ailie, mas agora vejo que a situação é bastante mais complicada — concluiu ele, com pena de chegar a semelhante conclusão.

— A situação é realmente mais complicada do que parecia, Trygve. Há oito meses que o Brad tem um relacionamento com outra mulher. Parece que está apaixonado por ela e, inexplicavelmente, eu nunca notei nada. Se calhar, estava demasiado atarefada a ir buscar os miúdos ou a pintar murais para a escola... — Tentava dar ao assunto um carácter mais ligeiro, mas Try g vê não se deixou convencer, observando de perto as reacções de Page.

— Eu sei o que é que deve estar a sentir e sei também que não é nada fácil passar por isso — comentou ele.

Page encolheu os ombros, numa segunda tentativa falhada de não dar muita importância a esse tema.

— Eu nem sequer suspeitei de nada... consegue imaginar uma coisa dessas? Sinto-me tão idiota... — Além de se sentir também magoada, traída, confusa... e, principalmente, só.

— Não há ninguém que, pelo menos uma vez na vida, não se tenha sentido idiota. É muito duro enfrentar uma situação dessas Page. Toda a população de Marin sabia dos casos que a Dana mantinha e eu ainda tentava fingir que o nosso casamento era perfeitamente normal.

— Sim... entendo isso muito bem... — Os olhos de Page estavam húmidos quando encontraram os dele, o que fez com que Trygve sentisse vontade de a abraçar; mas, de alguma forma, a situação mudava quando o tema da conversa era o marido e não a filha de Page. — É estranho como tudo parece ter acontecido ao mesmo tempo: a Allie, o Brad... foram dois grandes choques; e o pobre do Andy a ter que lidar com tudo isto! Ele e eu, é claro, apesar de ser já adulta e de o Andy não passar de uma criança.

— Finja que não é adulta, e se sentir muita vontade, dê-lhe uma canelada...!

Page riu-se de semelhante ideia, visualizando a imagem.

— Acho que já tivemos a nossa conta, por esta semana. Mal posso ainda acreditar no horror que foi, mas de repente, quando a Allie quase morreu, adquiri uma nova perspectiva. Já não me parece uma catástrofe tão assustadora... a atitude do Brad, quero eu dizer. É apenas um assunto por resolver. E quanto ao acidente, isso é um facto que vou ter de enfrentar; mas sinto-me com mais força agora, embora não saiba bem porquê.

— Nota-se. A nossa mente é, de facto, uma coisa extraordinária: proporciona-nos sempre as capacidades de que necessitamos.

Page concordou, sentindo que entre os dois existia cumplicidade e entendimento. Try g vê fez-lhe então uma pergunta, fitando-a timidamente:

— O que é que você e o Andy vão fazer amanhã à tarde?

— Não sei ainda. O Andy amanhã não tem treino de basebol, por isso pensei deixá-lo com a Jane. O Brad não vai estar em casa, e eu ainda não disse nada ao Andy, mas também não quero deixar a Ailie sozinha todo o dia. Honestamente, ainda não cheguei a nenhuma conclusão. Porquê? Tem alguma sugestão?

— Pensei em convidar-vos para almoçar... O Bjorn adora miúdos com a idade do Andy, por isso é muito provável que os dois se dêem bem. Se isso acontecer, pode deixar o Andy lá em casa quando vier ao hospital, e depois ir buscá-lo a seguir ao jantar, ou até pode chegar a tempo de jantar connosco. — Era um convite tentador, e Page cou tocada com o cuidado de Trygve.

— Tem a certeza que isso não vai dar-vos muito trabalho? E o que é que resolve sobre a Chioe?

— Prometi ao Bjorn que viríamos visitá-la amanhã de manhã, e que depois iríamos para casa jogar. Há duas amigas dela que ficaram de a visitar amanhã e o Jamie também prometeu vir vê-la, por isso pensei só em voltar ao fim da tarde.

— Vai ter um dia bastante cheio. — Page hesitava em aceitar o convite de Trygve, mas os olhos dele brilhavam, insistentes. Ele gostava da companhia de Page, simpatizava com o filho dela e sabia que ambos precisavam de se ausentar um pouco do ambiente deprimente do hospital. Tinham passado por uma dura prova, e Trygve estava certo de que Page necessitava tanto de uma pausa quanto ele próprio.

— Sinceramente, Page, íamos gostar muito de vos ter connosco... e também pode ser bom para o Andy. — Passar a tarde com Bjorn poderia contribuir para o fazer esquecer a ausência do pai.

—Eu também gosto muito da vossa companhia... Está bem, aceito o convite. Obrigada, Trygve.

As duas amigas de Chioe saíram do quarto, o que significava que Trygve deveria voltar para junto da filha. Antes de entrar, no entanto, pediu a Page que estivesse em sua casa, no dia seguinte, por volta do meio-dia.

— Diga ao Andy que traga a luva de basebol. O Bjorn adora jogar!

— Eu digo-lhe. — Page afastou-se, acenando, e foi para casa contar a Andy o que abos fariam no dia seguinte, visto que o pai passaria o fím-de-semana a trabalhar.

— O pai vai trabalhar no sábado e no domingo — perguntou ele, surpreendido. Todavia, não voltou a insistir no assunto.

Page tentou então explicar-lhe a doença de Bjorn, ao que Andy reagiu com curiosidade e não com receio. Já conhecia Bjorn, mas nunca jogara com ele antes. Andy contou então à mãe que na sua escola havia um rapaz como o Bjorn, mas frequentava uma turma especial.

No entanto, a forma harmoniosa como se passou o dia seguinte superou as expectativas tanto de Page como de Andy. Enquanto Trygve preparava cachorros e fazia uma salada de tomate, Bjorn dispôs-se a grelhar hamburgers e a fritar batatas. Nick, entretanto, tinha regressado à universidade, e Bjorn afirmou que o irmão preparava os melhores cachorros do mundo, muito melhores do que os do pai. Comunicou este facto com grande seriedade, o que fez com que Andy lhe dirigisse um dos seus sorrisos desdentados, servindo-se em seguida de um cachorro quente.

— O que é que aconteceu aos teus dentes? — indagou então Bjorn, intrigado.

— Caíram — explicou Andy, espantado com a pergunta de Bjorn. Agora começava a perceber melhor o que se passava com ele, e já não o confundia o facto de Bjorn sofrer de mongolismo. Mas ainda lhe causava alguma estranheza que Bjorn tivesse já dezoito anos, pois Andy nunca brincara antes com uma criança tão crescida.

— O dentista não te pode pôr uma dentadura? — insistiu Bjom, cada vez mais interessado. — No ano passado, eu parti um dente e o dentista arranjou-o. — Bjorn mostrou então a Andy de que dente se tratava, e este observou com atenção, chegando à conclusão que, afinal, não havia nenhuma diferença entre Bjorn e os seus amigos.

— Os meus dentes vão voltar a nascer. Os teus também nasceram, quando tinhas a minha idade, mas se calhar já não te lembras.

— Se calhar não reparei. — Page e Trygve observavam-nos com atenção. Era óbvio que os dois simpatizavam um com o outro, conversando animadamente como dois velhos amigos, enquanto apanhavam sol, sentados nas cadeiras de jardim. — Sabes jogar basebol? — perguntou Bjorn a Andy.

— Sei! — respondeu Andy satisfeito, servindo-se desta vez de um hamburger.

— Eu também sei. Também gosto muito de jogar bowling. Tu gostas de bowlin

— Nunca joguei — confessou Andy. — A minha mãe diz que ainda sou muito pequeno e que as bolas são pesadas de mais para mim.

Bjorn fez que sim com a cabeça, percebendo perfeitamente o que Andy lhe dizia.

— As bolas também são pesadas para mim, mas o meu pai leva-me a jogar... ou então, leva-me o Nick ou a Chioe. A Chioe está doente; partiu a perna na semana passada. Mas já está quase a voltar para casa.

— Sim — confirmou Andy, muito sério. — A minha irmã também está doente. Bateu com a cabeça num desastre de carro.

— E partiu a cabeça? — Bjorn sentia pena do seu novo amigo, porque sabia que não era bom ter uma irmã doente. Da primeira vez que vira a irmã no hospital tinha chorado muito.

— Acho que sim. Eu ainda não a vi, porque ela está muito mal-disposta.

— Ah. — Bjom estava satisfeito por terem algo em comum:

ambos jogavam basebol e tinham uma irmã doente. — Eu participo nas Olimpíadas Especiais e o meu pai ajuda-me.

— Que giro! O que é que fazes? — Bjom explicou-lhe que jogava basquetebol e praticava salto em comprimento, enquanto Trygve e Page se afastavam, atravessando o jardim.

— Parece que este encontro foi um êxito! — comentou Trygve, sorrindo. — O Andy tem a idade certa para o Bjorn, que mentalmente está entre os dez e os doze, mas adora ter amigos mais novos. O Andy é um bom miúdo. — Trygve ficara tocado pela forma respeitadora e carinhosa com que o filho de Page conversara com Bjorn, e era evidente que nutria uma especial simpatia por ele. — Você tem muita sorte — concluiu ele.

— Temos os dois. Todos eles são bons miúdos. Só gostava que aquelas duas meninas não se tivessem lembrado de mentir no sábado passado e não tivessem com isso arranjado um problema tão sério — desabafou Page, enquanto observava os irmãos de Allyson e de Chloe. Era ainda difícil acreditar que passara apenas uma semana desde o dia em que o destino decidira baralhar por completo as suas vidas, para depois os reunir naquela ocasião. Durante a semana Page tinha exposto todos os seus sentimentos àquele homem, sem prestar a mínima atenção ao seu aspecto físico; só agora se apercebia de como Trygve era atraente.

— Às vezes gostaria de poder voltar atrás no tempo — comentou ele, pausadamente, olhando em seguida para Page, que estava recostada numa cadeira de lona, com o cabelo solto sobre os ombros e com o rosto voltado na direcção do Sol, saboreando de uma forma especial aquele momento.

— Não tenho muito bem a certeza se voltar atrás no tempo seria a melhor solução... talvez, neste caso, fosse melhor avançar no tempo, mas muito rapidamente, para podermos fugir aos maus momentos — comentou ela, sorrindo.

— Os maus momentos duram mais do que os bons, não lhe parece? — Ambos riram, sabendo por experiência própria como era verdadeira essa afirmação.

— Não me importava de avançar até à altura em que a Ailie melhorasse — disse Page, co um suspiro.

— Ela vai melhorar — encorajou Trygve. Allyson resistira toda aquela semana e os médicos afirmavam que esse era um bom sinal. — Mas sabe que pode demorar ainda algum tempo, não sabe?

— Infelizmente, é daquelas coisas de que eu não me posso esquecer. O médico disse-me que poderiam passar anos até ela car «normal», seja isso o que for.

— E é verdade. Eu não tenho um grande conhecimento desses casos, mas sei como fo com o Bjorn. Ele usou fraldas até aos seis anos, e aos onze ainda tropeçava e deixava cair tudo. Quando andava na rua, eu passava todo o tempo preocupado com o trânsito; quando tinha doze anos, quis fazer um bolo e queimou-se no forno. Demorou muito, muito tempo até ele ser como hoje é, e foi precisa muita paciência e muita dedicação, tanto da parte dele, como da minha, apesar de havermos tido, de vez em quando, a ajuda de alguns bons amigos. Talvez também venha a precisar do mesmo Page, pois pode ser que tenha de começar do zero com a sua filha. — Apesar de não o ter dito, ambos sabiam que era possível que Allyson nunca voltasse a ser normal; se recuperasse, poderia ficar ainda mais incapacitada do que Bjorn.

— E horrível pensar nisso, mas eu prefiro ter a Ailie comigo nesse estado a não a ter de forma nenhuma.

— Eu sei, e percebo perfeitamente.

Poder conversar com alguém que a entendia era um grande conforto para Page. Mesmo sem muita vontade de regressar ao hospital Page não queria deixar a filha mais tempo sozinha, além de que prometera levar a Chioe algumas revistas, um pacote de bolachas e o seu estojo de maquilhagem. O estado dela havia melhorado tanto que ela até já se queixava da comida do hospital.

Quando a carrinha de Page arrancou, os rapazes jogavam basebol no relvado e Trygve acenava-lhe de longe. Desde há muito tempo que ela não se sentia tão feliz. Por mais desanimadora que fosse a sua situação actual, pelo menos agora tinha a certeza de que Trygve a apoiava, e que podia contar com a sua amizade. Ele tornara-se um bom amigo, e o tempo passado na sua companhia era um refrigério no meio da tempestade.

No hospital, o ambiente estava mais calmo do que era costume. Ailie permanecia inconsciente, o ventilador continuava a respirar por ela e o seu estado mantinha-se critico, apesar de estabilizado. Page sentou-se junto dela, como era seu hábito, falando-lhe com meiguice e repetindo-lhe, pela centésima vez, o quanto a amavam. Foi então até ao quarto de Chioe e encontrou Jamie Applegate a conversar com ela. Ele emprestara-lhe o seu leitor de CDs, trouxera-lhe vários discos para ela ouvir e oferecera-lhe mais um ramo de flores. Jamie foi extremamente delicado com Page, perguntando-

-lhe quando poderia visitar Ailie.

— Ainda vai demorar algum tempo — explicou ela. Era demasiado cedo para que Ailie pudesse receber visitas, e seria também muito duro para ele vê-la naquele estado. Como mãe, Page apercebia-se bem disso, pelo que prometeu avisá-

-lo assim que fossem permitidas visitas e dexou os dois jovens a sós a ouvir música.

Ao fim da tarde, Page foi buscar Andy a casa de Trygve e encontrou-o a jogar às cartas com Bjorn. Estavam os dois a faer batota, perdidos de riso, enquanto Trygve preparava o jantar.

— Decidi fazer o meu famoso guisado norueguês, e vou cozer massa para acompanhar as almôndegas.

— As almôndegas que o meu pai faz são muito boas — assegurou Bjorn, passando rapidamente pela cozinha na companhia de Andy, antes de subirem as escadas com a intenção de assistir a um filme.

— Não creio que o Andy se queira ir já embora... Vão ter de jantar connosco! — comentou Trygve bem-humorado, fazendo-a rir. Page ofereceu-se então para o ajudar:

pôs a mesa, acrescentou à massa alguns cogumelos e vigiou a cozedura. Não pôde deixar de notar que, de facto, o guisado de Trygve cheirava muito bem, e depois, ele fê-

-la experimentar uma almôndega. Bjorn tinha razão: as almôndegas eram deliciosas! Além de ser um bom amigo e uma companhia divertida, Trygve era também um óptimo cozinheiro.

— Como é que estava a Chioe? — inquiriu ele enquanto vigiava a panela do guisado.

— Bem. O Jamie estava a fazer-lhe companhia; pareceu-

-me muito nervoso e ainda um pouco culpado... mas parece ser um bom rapaz. Levou-lhe uma pilha de CDs e quando me vim embora, ficaram os dois a ouvir música. — A expressão de Page modificou-se nesse momento, tornando-se de súbito mais séria. — Fez-me sentir ainda mais tristeza pela Ailie. Há apenas uma semana, faz hoje exactamente oito dias, estava de volta de mim a pedir-me que lhe emprestasse a minha camisola preferida. — Como seria de esperar, a camisola rosa ficara totalmente desfeita, tendo sido cortada às tiras no hospital. Era a primeira vez que Page se apercebia disso, concluindo que apesar de ter perdido a camisola, já se daria por muito feliz em ter apenas a sua filha de volta.

— Gostava muito de a poder ajudar — afirmou Trygve, enquanto se sentavam à mesa da cozinha saboreando um pouco de vinho e esperando que o guisado ficasse pronto.

— Tem-me ajudado muito, Trygve. Mas não creio que, durante os próximos tempos, a minha vida seja muito fácil. Da forma como está o ambiente em minha casa, mais tarde ou mais cedo o Brad vai acabar por se mudar e isso irá trazer problemas... principalmente para o Andy... e para mim, também; e seja o que for que aconteça à Ailie, vai ser sempre muito duro. — Page tinha plena consciência de que as perspectivas futuras poderiam ser horríveis, ou na melhor das hipóteses, caso a filha resistisse, a recuperação poderia ser muito lenta, com alguns períodos dolorosos. Contudo, por vezes, a vida era assim, e ela estava disposta a aceitar esse facto. A semana anterior havia-lhe ensinado muitas lições, entre elas a da paciência e da aceitação.

— Qual será a reacção do Andy, se o Brad sair de casa?

—Julgo que ele não vai reagir nada bem. Mas como as coisas estão, não é «se» o Brad sair, e sim «quando» ele sair!

— As crianças, por vezes, surpreendem-nos. Muito. Na maioria dos casos, já sabem o que se passa antes de lhes contarmos.

— É possível. — Nessa altura, os dois rapazes passaram de novo pela cozinha, visivelmente bem-dispostos. Cinco minutos depois, Trygve chamou-os para jantar.

—As almôndegas esperam-vos, rapazes...! — anunciou ele, obrigando-os a lavar as mãos antes de se sentarem à mesa. Antes de começarem a comer, Trygve agradeceu a Deus por aquela refeição, o que surpreendeu positivamente Page. De certa forma, ela sentiu-se bem ao ouvir aquela pequena oração, inserida num ambiente tão distinto daquele que tinhã conhecido durante toda a sua infância. Em sua casa, não era costume darem as boas graças antes das refeições, e só frequentavam a igreja em ocasiões de maior importância. O facto de Trygve ser religioso era para ela uma novidade.

— Vou sempre à igreja aos domingos com o meu pai — explicou Bjorn ao seu novo amigo. — Lá, falam-me de Deus. Acho que Ele é bom amigo, ias gostar de O conhecer. — Page reprimiu um sorriso, observando que, do outro lado da mesa, Trygve também sorria.

Os dois rapazes continuaram a conversar, e depois de jantar, Page e Trygve foram até ao jardim. Arrumar a cozinha era tarefa de Bjorn, e Andy ficou a ajudá-lo.

— É um miúdo muito querido — comentou ela, referindo-se a Bjorn, quando os dois se sentavam nas cadeiras do relvado. Estava um fim de tarde lindo, e ambos permaneceram bastante tempo em silêncio, admirando o Sol alaranjado que descia sobre as montanhas de Marin.

— É, sim — admitiu Trygve. — Felizmente, o Nick e a Chioe têm a mesma opinião. Um dia, serão eles a tomar conta do irmão, quando eu já não o puder fazer. Já pensei em habituá-lo a morar num apartamento, mas penso que, por enquanto, ele ainda não está preparado para isso.

Essa era uma preocupação que agora Page também teria de considerar. Se Ailie não fosse capaz de tomar conta de si própria, um dia seria Andy o responsável pela irmã. Tal problema nunca lhe tinha ocorrido, mas ela sabia agora que as crianças diferentes tinham problemas diferentes e, subitamente, deparava-se-lhe uma perspectiva futura completamente inesperada.

— Goste muto de vos ter connosco hoje Page — confessou ele, sorrindo. — Gostei mesmo muito.

— Também nós — murmurou ela. — Com a nossa vida tão confusa e tão atribulada, deu-nos uma oportunidade de passar um dia muito agradável, Trygve.

— É apenas uma fase Page — observou ele com base na sua experiência, tentando prestar-lhe algum auxílio.

— A mim parece-me que esta fase vai durar para sempre. Nem sequer sei que direcção tomar! Está tudo a acontecer tão depressa, que nem tenho tepo para pensar. Aquilo que, na semana passada, era o mais importante para mim, agora já nem faz parte da minha vida... É muito difícil saber o que fazer — desabafou ela, enquanto Trygve lhe pegava na mão. Não a desejava assustar, e sabia que aquele não era o momento indicado, mas havia algo nela que incentivava a sua faceta protectora.

— Está a conseguir fazer tudo bem, Page, mas não pode resolver tudo de repente. Os problemas têm de ser resolvidos devagar.

Ouvindo o conselho de Trygve, Page desatou a rir e respondeu:

— Neste momento, com a minha vida a modificar-se tão rapidamente, pedir-me para resolver devagar os problemas é uma contradição! À minha volta, está tudo a ruir tão depressa que nem sequer tenho tempo para verificar o que fica de pé...

Desta vez, foi ele quem riu com a ironia dela, enquanto juntos admiravam o entardecer.

— Às vezes, a vida parece tão simples... mas a realidade é sempre mais complicada do que a aparência, não é? — observou Trygve, quando o Sol desapareceu entre as montanhas. — Imaginamos que está tudo bem, e num ápice, quando menos esperamos, toda a nossa vida cai por terra. O único motivo para ainda ter esperança é saber que, quando voltamos a construí-la, o resultado é quase sempre melhor do que o anterior.

— Gostava de poder acreditar nisso — comentou Page, fitando-o com agrado e tomando consciência de que Trygve era, de facto, um homem honesto, inteligente e verdadeiramente válido.

— Hoje em dia sou muito mais feliz do que era antes — admitiu ele com total franqueza. — Nunca pensei que isso fosse possível, mas agora sei que sim. Gostava muto de me voltar a casar, até gostava de poder ter mais filhos, mas já não perco tempo a pensar se isso alguma vez me vai suceder. E sabe uma coisa? Mesmo que a mulher certa para mim nunca venha ao meu encontro, já posso dar-me por muito contente com a minha vida actual, pois sinto-me perfeitamente realizado com o meu trabalho e com o meu papel de pai. Antigamente, passava todo o tempo a tentar resolver os problemas que surgiam com a Dana, sem nunca o conseguir. Ela sempre agiu de uma forma que tornava inúteis todos os meus esforços, e, no fim, eu acabava sempre por me culpar. Actualmente, já não sofro nem metade do que sofria nessa altura! Gosto muito da vida que levo e sinto-me em paz comigo mesmo e com os meus filhos. Vai ver que daqui a pouco tempo também vai sentir-se assim. Tem uns filhos muito bons, um talento muito valioso, e é uma óptima pessoa. Merece ser feliz Page, e um destes dias, com ou sem um homem ao seu lado, vai sê-lo.

— Era capaz de me sentir mais segura disso se o Trygve me prometesse que as coisas iriam ser assim...

— Bem gostava... mas vai ver que tudo se irá compor.

— Mal posso esperar por esse dia — respondeu Page, reparando que Trygve mantinha o olhar fixo nela durante muito tempo. Subitamente, ele inclinou-se sobre a sua cadeira e Page teve a nítida impressão que a tencionava beijar. Contudo, nesse exacto instante, os dois rapazes apareceram junto deles e pediram para jogar basebol.

— Nada feito, meus meninos — respondeu Trygve firmemente. Assim, aquele momento passou, e Page duvidou se não teria sido apenas fruto da sua imaginação. — É muito tarde para jogar basebol, Bjorn. O melhor é ires para casa ver televisão, porque daqui a pouco são horas de deitar — declarou Trygve, dirigindo-se em seguida a Page:

— Se quiser, o Andy pode dormir aqui. Vai voltar para o hospital?

— Tinha pensado em ir para casa. O Brad disse-me que talvez fosse buscar o Andy amanhã, o que me dava mais tempo para ficar com a Alhe. Ainda volta hoje ao hospital? — Todo o tempo que tinham disponível era passado no hospital, e para ambos era quase um quebra-cabeças conjugar todas as tarefas de forma a não esquecer as necessidades de ninguém.

— Sim, vou para lá daqui a pouco.

— Eu tenho de ir para casa — disse Page sem vontade de o fazer, deixando-se ficar ali sentada mais um pouco, saboreando o ar fresco do início da noite e a companhia de Trygve. Este não voltou a tentar aproximar-se dela, e no caminho para casa Page chegou à conclusão que tudo não havia passado de um delírio seu. Afinal, Trygve prezava muito a sua independência, tinha uma vida já estabelecida, e tal como Ailie comentara na semana anterior, não parecia sentir a falta de uma presença feminina na sua vida, tendo em conta o muito que a ex-mulher o tinha magoado.

Contudo, agora também Page sentia que fora magoada por Brad; mas era ainda muito estranho e difícil admitir que sentia uma forte atracção por Trygve. Até esse momento, nunca se tinha apercebido desse seu sentimento, mas depois de uma semana de estreita convivência Page era forçada a admitir que não só o achava muito interessante, como também muito atraente. Assim, sem se dar conta, Page pensava nele com um sorriso nos lábios, quando Andy interrompeu abruptamente os seus pensamentos com uma estranha questão:

— Mãe, quem é a Stephanie?

— A Stephanie... ? — repetiu ela, nervosa, sem saber o que responder.

— Eu ouvi que tu e o pai estavam a discutir por causa dela. E depois ouvi o pai falar com ela ao telefone.

— Acho que é uma colega do teu pai — respondeu Page, sem dar a mínima entoação à sua voz. Afinal, Trygve estava certo: as crianças apercebiam-se de tudo o que se passava à sua volta. Page temia que Andy tivesse ouvido mais alguma parte da discussão que ela e o marido haviam tido na noite em que tivera o pesadelo.

— Ela é simpática? — insistiu ele.

— Não a conheço. — A voz de Page mantinha-se inexpressiva.

— Então porque é que gritaste com o pai por causa dela? — Andy pressionava a mãe, e Page começava já a enervar-se.

— Eu não estava a gritar com o teu pai, e não quero falar mais nesse assunto.

— Porquê? A Stephanie foi muito simpática quando falou comigo ao telefone.

— Quando? — perguntou muito abalada. Mesmo sabendo da existência dessa mulher na vida do marido, era ainda muito duro para ela ouvir o filho referir-se a Stephanie.

— Ontem, quando tu estavas no hospital; pediu para eu dizer ao pai que ela tinha telefonado.

— E disseste?

— Esqueci-me. Espero que o pai não fique zangado comigo.

— Não, o pai não vai zangar-se contigo por causa disso. — Page esforçou-se por tranquilizar o filho, mas ao chegar a casa, o seu rosto denunciava a sua perturbação.

— Estás zangada comigo? — perguntou-lhe Andy, inquieto, enquanto a mãe o ajudava a vestir o pijama. Page respirou fundo e fitou o filho, dando-se conta de que não era justo culpar Andy pelo procedimento do pai.

— Não, querido, a mãe não está zangada contigo; está apenas cansada.

— Agora estás sempre cansada, mamã... desde o dia do acidente.

— Têm sido uns dias muito difíceis para todos nós. E para ti também, como bem sabes, Andy.

— Estás zangada com o pai?

— Às vezes estou, mas na maior parte do tempo estamos só preocupados com a Ailie. Não estamos zangados contigo, filho, e tu não tens nada a ver com o que está a passar-se.

— E não estás zangada com a Stephanie? — Andy tentava apenas perceber o que se passava em sua casa. As suas perguntas demonstravam a sua esperteza, pois aproximava-se muito mais da verdade do que ele próprio suspeitava. Page suspirou, e em seguida respondeu, desanimada:

— Eu nem sequer a conheço, Andy. — Afinal, era essa a verdade; era com Brad que Page se devia revoltar, pois somente o marido a havia traído, mentido e magoado. A culpa era apenas dele e não da mulher com quem preferia agora passar as suas noites. — A mãe não está zangada com ninguém, filho, nem mesmo com o pai.

— Ainda bem — respondeu Andy, sorrindo aliviado. Page dava-se conta de que não poderiam esperar muito mais para explicar a actual situação ao filho, especialmente se Brad tencionava sair de casa dentro em breve.

— Eu gostei do Bjom — comentou Andy.

— Eu também. É um bom menino.

— É o amigo mais velho que eu tenho; ele tem dezoito anos... e é especial.

— O Bjom é especial, mas tu também és — respondeu Page com um sorriso terno. — A mãe gosta muito de ti, filhote. — Deitou-o com um beijo, e depois, já na cama, meditou no quanto a sua vida mudara apenas no espaço de uma semana. Como tudo era menos complicado há oito dias atrás, quando Page julgava que Ailie tinha ido jantar com Trygve e com Chioe, e que o marido estava em Cleveland! Nessa altura, as coisas eram bem mais simples... mas agora tudo se havia modificado. Uma única mentira de adolescentes destruíra uma série de vidas.

 

Page passou a maior parte do domingo no hospital, depois de ter deixado Andy em casa de amigos. Brad telefonara nessa manhã, avisando que, afinal, não tinha tempo para ir buscar o filho, mas Andy, apesar de ter ficado inicialmente desiludido com mais uma ausência do pai, acolheu de boa vontade a ideia de passar o dia em casa do amigo.

Trygve esteve alguns minutos com Page na sala de espera da unidade de cuidados intensivos; levou-lhe umas sandes e um pacote de bolachas e depois regressou à companhia da filha, que recebia visitas constantes. Chioe alegrava-se com a presença dos seus amigos, e melhorava de dia para dia.

— A propósito, o Bjorn adorou o dia de ontem — comentou Trygve quando estava ainda no corredor a conversar com Page, partilhando com ela uma sandes. Parecia feliz por a ver de novo, mas Page estava convencida de que imaginara algo que, na realidade, ele nunca tencionara levar a cabo, pois tal como de todas as outras vezes Trygve tratava-a com amizade e atenção, mas não com romantismo.

— O Andy também gostou muito de estar com o Bjorn. Aliás, se ele não tivesse ido para casa de um amigo, hoje teria convidado o Bjorn para passar o dia com ele. É que afinal o Brad telefonou a dizer que não o podia vir buscar.

— Bem, seja como for, o Bjom hoje também tinha de fazer os trabalhos de casa. Como é que o Andy reagiu ao telefonema do pai?

— Ficou desiludido, mas acabou por se conformar. Page e Trygve continuaram a conversa até este ter de voltar para o quarto de Chioe. No final da tarde, quando Page saiu do hospital para ir buscar Andy, resolveu parar para comer um gelado com o filho. Com um cenário em mudança permanente, os pequenos hábitos tornavam-se reconfortantes para os dois.

Mais tarde, ficaram ambos surpreendidos com a presença de Brad, que chegou a casa alguns minutos depois deles e anunciou que ficava para jantar. Quando perguntou pela filha Page disse-lhe a verdade: estava viva, mas nas mesmas condições.

Jantaram os três na cozinha quase em silêncio e, em seguida, Page fcou espantada por ver o marido encher uma mala de roupa.

— Vais sair de casa? — indagou ela, como se já o esperasse, o que trouxe a ambos algum embaraço. Em poucos dias, o casamento deles resumia-se àquilo.

— Vou passar uns dias a Chicago, em trabalho. — Mas Brad não lhe contou que ia acompanhado por Stephanie, que, dessa vez, tinha feito questão de viajar com ele.

— Quando é que vais? — perguntou Page co muita calma, pronta para todas as eventualidades.

— Esta noite. Reservei um lugar no voo nocturno.

— E a Alie? — O que é que sucederia se ele faltasse mais uma vez com a sua presença? Como é que Brad poderia suportar viver depois com a sua consciência? Contudo, Page já imaginava qual a resposta do marido.

— Não posso deixar de ir. Vou concluir um negócio da máxima importância — respondeu Brad imperturbável. Page não se conteve e perguntou-lhe então:

— Um negócio...? Como aquele que ias fazer a Cleveland?

— Não vamos começar Page — retorquiu ele, friamente. — Não quero voltar a ter esse tipo de conversas.

— Nem eu. — Page já não depositava nele a mínima confiança, mas, para ela, isso agora já não era o mais importante.

— Continuo a ter de trabalhar, sabias? Antes ou depois do acidente, as minhas responsabilidades são as mesmas, e incluem, como bem sabes, ter de fazer algumas deslocações.

— Sim, bem sei — respondeu ela, saindo do quarto. Brad despediu-se do filho antes de sair e, desta vez, deixouo seu contacto anotado num bloco da cozinha. O marido ia estar três dias ausente, mas Page já não se importava; de certa forma, a ausência dele até contribuiria para aliviar um pouco a tensão que agora existia entre ambos.

— Na quarta-feira estou de volta — anunciou ele, batendo com a porta e percorrendo a passos largos o caminho até ao carro. Já estava um pouco atrasado, pois tinha ainda que ir buscar Stephanie no caminho para o aeroporto. Ouvindo os passos de Brad na calçada, Page constatou que a única frase que ele pronunciara antes de sair tinha sido aquela; já não havia a necessidade de lhe dizer «adeus» e muito menos «amo-te».

— Estás zangada com o pai? — perguntou Andy, inquieto. Ouvira o tom agressivo com que os pais tinham conversado, e sentia-se de novo assustado. Ainda há minutos, no seu quarto, Andy tapara os ouvidos com a almofada para não ouvir os gritos dos pais, no caso de estes voltarem a discutir.

— Não, não estou — respondeu Page, apesar de a sua expressão dizer exactamente o contrário.

Depois da saída de Brad, Page resolvera ler um pouco, tentando não pensar em tudo quanto havia mudado. Mas havia tanto em que pensar! Resolveu então telefonar de novo para o hospital, para depois poder ir deitar-se.

Na manhã seguinte, depois de deixar Andy na escola, Page preparou-se para passar mais um dia na enfermaria da unidade de cuidados intensivos, perto da filha. Frances, a enfermeira-chefe, já a conhecia tão bem que a deixva passar horas e horas à cabeceira da filha. A presença de Page começava já a tornar-se uma espécie de rotina. Naqueles dias, a sua vida resumia-se a correr da cabeceira da filha para a escola de Andy; não tinha qualquer outra ocupação, qualquer outra preocupação, a não ser discutir com o marido nas poucas ocasiões em que o encontrava. No momento presente, sentia que a sua vida não podia ser mais desgastante.

Enquanto decorria a sua vigília no hospital, Page sentia todo o corpo dormente, observando o ritmo monótono do ventilador que ajudava Allie a respirar. As compressas que lhe cobriam os olhos já haviam sido retiradas e houve um momento em que Page julgou ter detectado um leve movimento numa das pálpebras de Allie. No entanto, depois de vários minutos de observação atenta, foi obrigada a concluir que tudo não passara de imaginação sua. Por vezes, a intensidade de um desejo é tanta que nos leva a ver algo que na realidade não existe.

Page fechou então os olhos e recostou-se na sua desconfortável cadeira. Nesse instante Francês veio ao seu encontro, para anunciar que os terapeutas que vinham diariamente movimentar as pernas e os braços de AUie deviam estar a chegar. Era uma visita muito importante, que permitia que os músculos dos membros de Ailie não atrofiassem e que as suas articulações não perdessem a flexibilidade. Mesmo com um doente em estado de coma havia sempre muito a fazer.

— Mistress Clarke? — Page abriu os olhos, sobressaltada.

—Sim?

— Tem uma chamada à sua espera. Pode atender lá fora.

— Obrigada. — Devia ser Brad, de Chicago, querendo saber notícias de Aiïie, pois era a única pessoa que saba onde ela se encontrava, exceptuando Jane, que não tinha qualquer motivo para lhe telefonar, e Andy, que estava na escola. Contudo, a chamada não era da parte de Brad e sim da escola primária de Ross, onde Andy estava matriculado. Pedindo desculpas pelo incómodo, explicaram-lhe então que se tratava de uma emergência, pois Andy acabva de sofrer um acidente.

— Um acidente com o meu filho... ? — repetiu ela mecanicamente, como se não se lembrasse de ter algum filho. Todo o seu corpo parecia ter recebido um choque eléctrico. — O que é que aconteceu? — inquiriu ela então, sentindo que uma onda de pânico a dominava.

— Lamento muito Mistress Clarke, mas houve um acidente na aula de Educação Física... — Era a secretária da escola, que Page mal conhecia. — O seu filho caiu do espaldar do ginásio. — «Meu Deus... Ele morreu, partiu a cabeça, fez também um traumatismo craniano», pensou Page, começando instantaneamente a chorar. Será que ninguém se apercebia que ela já não tinha forças para passar de novo por tudo aquilo?

— Como é que ele está? — perguntou Page num leve murmúrio, enquanto à sua volta as enfermeiras começavam a notar que ela estava cada vez mais pálida.

— É possível que tenha partido a omoplata. Vai agora a caminho do hospital onde a senhora se encontra. Se descer até às urgências, depressa o encontrará.

— Está bem. — Page desligou o telefone sem sequer se despedir e, olhando à sua volta, anunciou, dominada pelo medo e pelo nervosismo: — Foi o meu filho... o meu pequenino... sofreu um acidente na escola.

— Tenha calma. Não deve ser nada de grave. — Francês entrou imediatamente em cena e obrigou Page a sentar-se e a beber um copo de água. — Procure acalmar-se, Page. O seu filho não deve ter sofrido nada de grave. Para onde é que o vão levar?

— Ele vem para este hospital, para o serviço de urgências.

— Eu levo-a até lá — prometeu calmamente a enfermeira-chefe, dando ordens para a substituírem durante alguns minutos, de forma a poder acompanhar Page até ao andar de baixo. Esta última encontrava-se muitíssimo nervosa, tremendo de ansiedade. Contudo, quando chegaram às urgências, Andy ainda não havia dado entrada.

Francês deixou Page entregue aos cuidados de uma outra enfermeira desse piso, e retirou-se. Logo depois Page fugiu até ao telefone mais próximo, sentindo-se um pouco culpada por essa sua atitude tão pouco ponderada, mas admitindo que, pelo menos uma vez na vida, era forçada a reconhecer que não se sentia com forças para suportar aquela prova sozinha; tinha que lhe telefonar.

Ele atendeu após o segundo toque, com uma voz ausente e distraída. Page concluiu que devia estar a escrever quando o telefone o interrompeu, pois sabia que ele tinha de entregar um artigo para o jornal The New Republic.

— Estou? — disse Trygve.

— Desculpe, mas eu tinha de lhe telefonar... houve um acidente na escola... •— De início, ele não reconheceu a voz de Page e julgou que fosse alguém a avisá-lo de um acidente ocorrido com Bjorn. Mas logo depois apercebeu-se que era a voz de Page.

— Page... ? Está bem? Aconteceu alguma coisa? — A voz dela estava muito alterada.

— Não sei ainda... — Ela chorava copiosamente, e as suas explicações eram muito pouco esclarecedoras. — Foi o Andy... telefonaram-me agora da escola a dizer que ele partiu alguma coisa... caiu do espaldar... — Page recomeçou a soluçar ao telefone, e Trygve levantou-se de imediato, comunicando:

— Eu vou já para aí. Onde é que está?

— Estou no serviço de urgências do Marin General. Trygve dirigiu-se o mais depressa que pôde para esse local, que entretanto já se tomara familiar para os dois. Chegou exactamente na altura em que Andy estava a ser retirado de um carro por um dos seus professores e apressou-se a ir ao encontro dele. Andy estava muito pálido e assustado, mas não havia a menor dúvida que estava perfeitamente consciente e fora de perigo.

— O que é que estás a fazer aqui, Andy? Este sítio é para pessoas doentes e tenho a impressão de que não estás nada doente! — Enquanto brincava com ele, Trygve aproveitava para o examinar atentamente.

— Parti um braço... e doem-me as costas... caí do espaldar — explicou Andy com a voz trémula, enquanto Trygve abria a porta para o professor passar com o aluno nos braços. A sua aparência permitia concluir que se tratava do professor de Educação Física, pois usava um fato de treino, calçava ténis e trazia um apito à volta do pescoço; parecia preocupado com Andy.

— A tua mãe está lá dentro à tua espera — comunicou Trygve a Andy. Assim que entraram, Trygve detectou-a de imediato: estava nervosa e assustada, e parecia não conseguir parar de tremer. Page começou a chorar assim que o viu, consciente de que toda a força que precisara de ter em relação a Ailie se tinha esgotado. Trygve abraçou-a e puxou-a para junto de si, de forma a fazê-la parar de tremer, e o professor levou Andy para ser examinado; lá dentro, estava já uma enfermeira à espera dele, alegre e simpática, que logo o observou, verificando a extensão dos ferimentos. Começou a examiná-lo através do tacto, detectando assim que Andy partira o braço e deslocara o ombro, mas de seguida projectou nos olhos dele uma luz, de forma a concluir sobre a possível existência de um traumatismo craniano.

— Então, Andy? Parece-me bem que estás a querer imitar a Chloe... Ela não pode andar e agora tu resolves partir um braço! Acho que vou ter que deixar o Bjorn tomar conta de vocês os dois...! — brincou Trygve.

Andy esboçou um ténue sorriso, mas o braço doía-lhe muito. Deitaram-no de seguida numa maca e levaram-no a tirar uma radiografia, enquanto Trygve ficou a fazer companhia a Page.

— Ele vai car bem, Page. Não é preciso ter medo — assegurou ele, enquanto tiravam a radiografia ao ombro de Andy.

— Não sei como é que isto foi acontecer... — confessou ela, ainda bastante trémula e muito pálida. — Quando soube, perdi completamente o controlo. Desculpe tê-lo feito vir até aqui... — Mas o seu primeiro impulso tinha sido correr a avisá-lo; Page necessitava de o ter ali ao seu lado, tal como tivera naqueles primeiros dias após o desastre e desde então. Embora surpreendida, dava-se conta de que era da presença de Trygve que sentia necessidade, e não da de Brad. Page tinha agora a certeza de que poderia sempre contar com ele e Trygve estava feliz por lhe poder ser útil.

— Não tem de me pedir desculpa de nada. Só lamento que isto tenha acontecido. Mas verá que o Andy vai voltar a car bom num instante! — Entretanto, o professor voltara para a escola, de forma que foi Trygve quem segurou a mão de Andy quando lhe endireitaram o ombro, e ele gemeu de dores. Seguidamente, engessaram-lhe o braço e deram-lhe um analgésico, recomendando-lhe descanso para aquele e para os próximos dias. Passado algum tempo, Andy voltaria ao seu estado normal, apesar de o aparelho de gesso não poder ser retirado até daí a seis semanas. A fractura tinha sido violenta, mas dada a idade de Andy, o médico assegurou que não se previa qualquer tipo de consequências.

— Eu levo-vos para casa — afirmou Trygve com determinação. Dado o estado de nervos de Page, não se atreveria a colocar nas mãos dela um simples triciclo, quanto mais um carro!

Ela acedeu, mas foi primeiro à unidade de cuidados intensivos buscar a sua carteira e avisar as enfermeiras que iria para casa. Trygve aproveitou também para passar pelo quarto de Chloe e prometeu à filha que viria visitá-la mais tarde. Contou-lhe o que acabara de suceder, e ela mandou um beijinho para Andy, comentando que o azar parecia persegui-los nos últimos dias.

— Dize-lhe que assim que o vir quero assinar o meu nome no gesso do braço dele.

— Está bem... Até logo. — Trygve dirigiu-se apressadamente para o piso das urgências e levou Andy ao colo até ao carro. Este último estava já meio adormecido com a anestesia, e Page levava consigo uma embalagem de analgésicos. Tinham-na avisado de que Andy passaria todo o dia a dormir, pois o sono era a melhor cura para o desgaste nervoso que sofrera.

Page manteve as portas abertas para dar passagem a Trygve, até este deitar Andy na sua cama; depois, Trygve ajudou Page a despir Andy, que abriu uma ou duas vezes os olhos, mas não acordou. Contudo, não era com Andy que Trygve estava preocupado; era com Page.

— Devia ir deitar-se um pouco Page. Não a acho nada bem.

— Apanhei um grande susto, foi só isso... não sabia o que esperar... pensei que...

— Imagino quais foram os seus pensamentos. — Era fácil deduzi-los, a julgar pela palidez de Page. — Vá, vamos... onde é o seu quarto?

Ela foi à frente a indicar o caminho e Trygve esperou até que Page se deitasse em cima da cama, vestida.

— Não é preciso estar tão preocupado, Trygve. Eu já estou bem.

— Não me convence. Quer beber um cálice de brande? Era capaz de lhe fazer bem. — Page abanou a cabeça, sentou-se na cama e, com um sorriso, olhou o homem que tinha abandonado tudo o que estava a fazer para correr ao seu encontro.

— Obrigada por toda a ajuda que me tem dado, Trygve. Eu nem sequer pensei antes de lhe telefonar! Só sabia que precisava da sua presença.

Trygve sentou-se numa poltrona que ficava ao lado da cama e fitou-a com ternura.

— Fico feliz por me ter telefonado e por ter podido ajudá-la. Já teve problemas que cheguem! — De súbito, ocorreu-lhe um pensamento que o fez estranhar mais ainda o facto de Page não ter telefonado de imediato ao marido: — Não quer avisar o Brad?

Page não mostrou a mínima hesitação:

— Telefonolhe mais tarde. Ele está em Chicago. — E acrescentou: — Quando me telefonaram da escola, nem sequer me lembrei de lhe telefonar. — Page queria que Trygve o soubesse: — Só me ocorreu telefonar-lhe a si... foi quase uma acção reflexa.

— Foi um reflexo muito bom, aliás — brincou ele, aproximando-se mais de Page. Trygve estava a sentir aquilo que há anos já não sentia, mas as suas novas emoções perturbavam-no e confundiam-no. — Page... eu não quero fazer nada que a Page também não queira... — murmurou ele, numa última tentativa de se manter afastado dela. Sentia-se atraído por Page e ela apercebeu-se de que, afinal, aquele momento no jardim na noite anterior tinha sido algo mais do que apenas a sua imaginação. Trygve tentara, de facto, beijá-la, tal como tentava nesse exacto instante e tal como tantas vezes o desejara fazer, durante os terríveis dias e noites que passara a seu lado no hospital.

— Não sei bem aquilo que quero — confessou ela com honestidade, erguendo para ele os seus bonitos olhos azuis. — Há dez dias atrás pensava que tinha um casamento perfeito; depois descubro que tudo não passou de uma mentira, e que o meu casamento talvez tenha chegado ao fim. E no meio de tudo isto, aqui está você... há muitos anos que eu não desabafava assim com ninguém... é a única pessoa com quem conto verdadeiramente, o único amigo que entende aquilo que estou a sentir... e o único homem com quem quero estar — confessou ela a meia voz, enquanto ele se aproximava cada vez mais. — Não tenho a certeza do que aconteceu nem daquilo que pode vir a acontecer... não tenho a certeza de nada, a não ser que... não sei... — A voz dela ia-se tornando cada vez mais fraca, mas apesar das suas incertezas, Page não fazia nenhum gesto para o tentar afastar.

— Chiu... não tem de explicar mais nada — murmurou Trygve, sentando-se ao lado dela na cama e envolvendo-a por fim nos seus braços. Tudo aquilo que desejava nesse momento era abraçá-la e beijá-la, como há muitos anos não sentia vontade de beijar ninguém. Assim, pressionou com suavidade os seus lábios contra os dela e depois beijou-a com maior intensidade, à medida que Page sentia a respiração presa e o seu corpo cada vez mais próximo do de Trygve. Sentia-se estupefacta com a intensidade daquela emoção que tomava conta de todo o seu ser, mas que, simultaneamente, lhe causava muito medo. Tinha de reconhecer que o seu desejo era sincero, e que não se tratava apenas de um jogo de vingança contra Brad... tratava-se sim de alguém que estivera sempre a seu lado durante a fase mais difícil de toda a sua vida, alguém que não a havia abandonado nem por um minuto, e por quem se sentia, inegavelmente, muitíssimo atraída.

— O que é que vamos fazer agora? — perguntou ela, afogueada. Trygve afastou-se então, ficando a admirar o tom alourado do cabelo de Page e as suas feições harmoniosas.

— Não nos vamos preocupar com isso, por enquanto. Pelo menos, agora já sei o que fazer para ficares menos pálida! Estás com muito melhor aspecto — comentou ele, sorrindo de contentamento.

— Oh, pára com isso...! — pediu Page, batendo-lhe no peito com suavidade. Trygve, porém, envolveu-a de novo nos braços, e desta vez beijou-a com mais sofreguidão. Há muitos anos que não sentia tamanha emoção, talvez nem nunca a tivesse de facto sentido, nem mesmo antes de ser casado com Dana.

— Não, não paro! Nem quero parar nunca — declarou ele. — Já me tinha esquecido que podia ser assim...

— Também eu — admitiu ela, com honesdade. Só agora se apercebia que Brad estivera sempre demasiado preocupado com a sua satisfação pessoal, dando-lhe a ela muito menos do que o devido, quer a nível emocional, quer a nível físico. E de novo Trygve a tomou a beijar, deixando-a uma vez mais sem fôlego; ela ria, nervosa e feliz ao mesmo tempo. Sentia-se aliviada pelo facto de Andy estar a dormir sob o efeito dos sedativos, mas também sabia que nenhum deles estava ainda preparado para um envolvimento mais sério. Antes de iniciar uma relação com Trygve, ela teria ainda de definir a sua situação com Brad, apesar daquela inesperada circunstância vir alterar um pouco os seus sentimentos.

— O que é que vou fazer agora? — indagou ela, levantando-se com agilidade e fítando-o com o olhar inocente de uma criança; também Page não se lembrava da última vez em que sentira tamanho contentamento.

— Daqui a um tempo já saberás responder a essa pergunta. Os acontecimentos falam por si... e eu quero que saibas que a minha intenção não é apressar-te. — Depois de se ter esforçado por manter alguma seriedade, Trygve acabou por desistir e acrescentou, bem-humorado: — Mas devo informar-te de que não tenciono largar-te nem por um segundo até que chegues à conclusão que não podes viver sem mim...! — Tanto Trygve como Page sabiam que o que acabava de acontecer era mais do que um simples beijo.

Page sorriu maliciosamente e desta vez foi ela quem o beijou. Tudo o que estava a passar-se entre eles era, de facto, espantoso.

— Como é que isto aconteceu? — questionou Page quando nalmente se afastaram.

— Não tenho bem a certeza, mas talvez fosse ocasionado pelo ar que corre na unidade de cuidados intensivos... — Ou pelo trauma, pela dor, pelo medo ou ainda pela companhia que tinham feito um ao outro. Trygve fora uma presença muito marcante para Page e, de certa forma, ela tabém fora um apoio para ele. Tinham acabado de passar pelo pior que a vida podia oferecer, e juntos haviam sobrevivido, com muito pouca ajuda da parte de mais alguém, particularmente da parte de Brad, cujos únicos esforços tinham sido apenas no sentido de magoar ainda mais profundamente a mulher.

— A vida é incrível, não é? — observou Page, expressando a sua admiração pelo ocorrido. — Bem, acho que vamos ter de agir com muita calma. O Brad ainda não chegou à conclusão do que deseja fazer.

— E muito provável que ele já saiba o que fazer, só não teve ainda coragem para to comunicar. O que interessa saber é o que desejas realmente. Já sabes se queres divorciar-te? — Desejaria ela que Brad saísse de casa? Page admitiria o divórcio, ou preferiria apenas mais tempo para pensar? Trygve não conseguia perceber ao certo o que Page desejava, nem tinha a certeza se, de facto, ela própria saberia definir as suas intenções. O fracasso do seu casamento era muito recente, e Page não estava ainda preparada para tomar nenhuma decisão.

— Todas as vezes que estou com o Brad chego à conclusão que o nosso casamento acabou. Ele está praticamente a viver com aquela mulher, mas eu ainda sou casada com ele e é muito difícil acabar um casamento de repente.

— Ninguém te está a pedir isso Page — afirmou ele, com delicadeza. Trygve entendia perfeitamente aquilo por que Page estava a passar, pois ele mesmo vivera uma experiência idêntica. Por consequência, estava disposto a esperar pacientemente até ela chegar a alguma conclusão, já que nunca conhecera uma mulher assim.

O telefone interrompeu então a conversa, e Page correu para a sala, certa de que seria do hospital. Sabia que nesse dia não iria suportar mais más notícias, por isso fechou os olhos quando atendeu. Trygve segurava-lhe firmemente a mão, pronto a dar-lhe toda a força de que ela, porventura, viesse a necessitar.

— Estou? — perguntou ela cautelosamente, receando ouvir a voz do outro lado da linha. Mas logo de seguida abriu os olhos e abanou a cabeça. Não era do hospital, mas sim a sua mãe. Contudo, as notícias também não eram as mais animadoras, já que a mãe e a irmã, depois de muito terem ponderado, tinham decidido vir ao seu encontro. Sabiam que Page certamente estaria a precisar de ajuda, apesar de esta se apressar a assegurar exactamente o contrário.

— Está tudo bem, mãe, a sério — insistia ela. — De momento, tenho tudo controlado e o quadro clínico da Alhe está estabilizado.

— Bem sabes que o estado da Alhe pode mudar de um momento para o outro. E, de qualquer forma, a Alexis precisa de falar contigo; o David indicou-lhe o nome de um cirurgião plástico muito bom, para quando precisares.

— Mais tarde Page necessitaria certamente de encontrar um cirurgião plástico para a filha, mas de todas essa era agora a sua menor preocupação. Primeiramente, era preciso que Allie saísse de coma e que o seu cérebro retomasse alguma das suas funções normais; no entanto, para Alexis, só existia uma prioridade: que a sobrinha mantivesse a sua boa aparência, para que, exteriormente, nada de anormal houvesse a registar.

— Mãe, continuo a pensar que não é realmente necessário que venham — afirmou Page, tentando aparentar uma calma que não sentia. A última coisa que ela precisava naquela altura era da presença da mãe e muito menos ainda da da irmã.

— Não discutas comigo — ordenou a mãe, com rmeza. — No domingo já estamos aí contigo.

— Mas, mãe... não pode ser... eu não tenho tempo para vos dar atenção. Preciso de assistir a Ailie e o Andy acabou de sofrer um pequeno acidente.

— O quê?! — Pela primeira vez na vida Page reparou que a mãe dava mostras de ter cado realmente abalada.

— Não foi nada grave, partiu um braço no ginásio da escola; mas neste momento, todo o meu tempo é para os meus filhos.

— É exactamente por esse motivo que decidimos ir para aí, querida. Queremos dar-te a nossa ajuda.

Page suspirou, ouvindo os argumentos da mãe, sem saber mais o que responder.

— Continuo a achar que é totalmente desnecessário, mãe.

— Chegamos no próximo domingo, às duas da tarde. A Alexis vai pedir ao David que mande um fax ao Brad com todos os pormenores. Até domingo! — E antes que Page pudesse pronunciar uma só palavra, a mãe desligou, deixando-a completamente desorientada.

— Não vais acreditar no que aconteceu — disse ela a Trygve, num tom de desânimo.

— Deixa-me tentar adivinhar: a tua mãe decidiu vir visitar-te e achas que isso vai complicar ainda mais a tua vida.

— Complicar... ? Esse é um termo muito suave! Deixa-me dar-te alguns exemplos bíblicos: achas que Dalila foi só uma pequena complicação para Sansão? Julgas que David se limitou a complicar a vida de Golias, ou a serpente a vida de Cleopatra...? Como vês, «complicar» é um verbo muito pouco apropriado... Durante toda a semana, tentei convencer a minha mãe de que não era preciso vir, e agora, para cúmulo, além de ter decidido vir, resolveu ainda trazer a minha irmã!

—De quem tu não gostas...? — indagou ele, tentando perceber todo o passado familiar numa só breve lição.

— Que não gosta de num... apesar de a Alexis não ter muitas energias para detestar alguém, porque as gasta todas consigo própria; é completamente narcisista. A minha irmã é casada com um cirurgião plástico de Nova Iorque e nunca teve filhos. Aos quarenta e dois anos já fez duas operações plásticas aos olhos, três ao nariz e uma ao peito! Além disso, fez lipoaspiração em todo o corpo e um lifting ao rosto, para atenuar as rugas. Tudo na aparência dela é perfeito: as unhas, a cara, o cabelo, as roupas, o corpo; gasta cada minuto do dia a cuidar do físico, e até hoje nunca dedicou o seu tempo a mais ninguém, a não ser a ela própria, tal como a minha mãe. Sabes qual é o verdadeiro motivo desta visita? A minha mãe e a minha irmã querem apenas que eu me dedique a tornar esta estada o mais agradável possível, e que lhes assegure que está tudo bem com a Ailie. E mesmo que não seja esse o caso, querem ter a certeza de que esse incómodo não as vai poder afectar ou perturbar em nada.

— Não te referes à tua mãe e à tua irmã de uma forma muito lisonjeira... — observou Trygve, beijando-lhe a ponta do nariz, divertido com a descrição dela. A relação dele com os pais era óptima e logo após o acidente eles tinham-se oferecido de imediato para vir ajudar o filho, mas Trygve queria poupá-los à longa viagem que teriam de fazer desde a Noruega. Todavia, observando a expressão de desânimo no rosto de Page, deu-se conta de que ela estava, de facto, a falar a sério.

— Nem o poderia fazer nunca... — respondeu ela, erguendo-se da cadeira onde estava sentada e fazendo tenções de se afastar dali.

— Onde é que julgas que vais? — perguntou Trygve, puxando-a para si e envolvendo-a novamente nos seus braços.

— Deitar fogo à casa! — respondeu ela, irónica e ordaz. Todavia, um minuto depois Page beijava Trygve mais uma vez, esquecendo-se de imediato do tema da conversa anterior.

— Tenho uma ideia melhor — sugeriu ele com a voz já um pouco enrouquecida pelo desejo com que a beijava. Page fechou então os olhos, saboreando aquele momento, enquanto ele lhe beijava sofregamente o pescoço. Como era aquilo possível? Num período de dez dias, Page perdera o único homem que amara até então, e agora encontrava-se de súbito nos braços de um outro; um que a. tratava com toda a amizade e consideração, e que a desejava tanto quanto ela o desejava a ele. Apesar de não fazer muito sentido, não deixava de ser uma surpresa bastante agradável...

— Ainda é muito cedo para nos envolvermos de mais... — murmurou ela, quando Trygve a beijou de novo.

Ele olhou-a com um sorriso nos lábios e respondeu:

— Eu sei, minha tontinha... Não sou assim tão idiota! Temos todo o tempo à nossa frente e não quero pressionar-te a fazer nada.

— E porque não? — desafiou Page, fingindo-se ofendida. Ele, porém, encarou-a com seriedade e respondeu, usando de total franqueza:

— Porque, se chegares à conclusão que realmente desejas fazer parte da minha vida, não tenciono nunca deixar-te partir. Não quero perder-te Page. — Trygve beijou-a mais uma vez, e só daí a muito tempo é que se afastou dela, depois de Page lembrar que talvez fosse melhor que Trygve se retirasse, se não queriam que Andy acordasse e os visse abraçados aos beijos.

Ele concordou e prometeu ir visitá-los durante a tarde, talvez na companhia de Bjorn, para confirmar se estava tudo bem com Andy e co ela; prometeu igualmente passar pela unidade de cuidados intensivos para recolher informações sobre o estado de Allie. Page não queria deixar Andy sozinho, e assim Trygve encarregou-se de tomar conta de tudo, e até talvez de trazer o jantar.

— Há mais alguma coisa que queiras que eu faça? — gritou ele de dentro do carro, quando se preparava para arrancar.

— Há — respondeu Page, da porta de casa.

— O quê? — Trygve desligou o motor do carro para ouvir melhor a resposta de Page.

— Aniquilar a minha mãe!

Voltou a ligar o carro e afastou-se, rindo como um adolescente.

 

Brad ficou muito preocupado quando Page lhe contou o que se passara com Andy, mas ela teve a impressão de que o marido a culpava pelo facto de o filho ter partido o braço, apesar de ele não o ter admitido.

— Tens a certeza que eleja está bem? Foi o braço direito, não foi?

— Foi. Mas o médico disse que o osso iria solidicar rapidamente. Só vai ter de tomar algumas precauções com o ombro: durante este ano não vai poder fazer ginástica, e talvez não possa jogar basebol até ao ano que vem.

— Merda! — respondeu Brad, dando mostras de ter ficado tão perturbado quanto ficara com a notícia do desastre da filha. Porém, Page sabia que as reacções deles já não eram as mais indicadas às situações, pois ainda estavam ambos dominados pelo receio e pelo susto, e por isso entendeu perfeitamente a reacção exagerada do marido.

— Lamento muito que isto tenha acontecido. Brad.

— Sim... — respondeu ele, mergulhado nos seus próprios pensamentos. De súbito, lembrou-se de perguntar o que até então não lhe ocorrera; de facto, era para ele um alívio poder estar afastado. — Como é que está a Aie?

— Continua na mesma. Não a vejo desde esta manhã, porque fiquei em casa com o Andy. — Contudo, Page omitia que, na noite anterior, Trygve e Bjorn tinham vindo jantar com eles, e inexplicavelmente, também Andy nada contara ao pai. Page não lhe pedira que não o fizesse, pois seria incapaz de colocar o filho numa posição difícil como essa, mas a intuição de Andy levara-o a concluir que já existiam demasiados problemas entre os pais.

Durante o jantar, Page e Trygve tinham-se comportado com muita seriedade e discrição, mas entre os dois algo mudara, existindo agora um clima de ternura e cumplicidade. A manhã em que Andy partira o braço alterara por completo aquela amizade, e tornava-se agora muito difícil para os dois esconder aquilo que sentiam.

Na noite anterior Page e Trygve haviam tido oportuniade para conversar a sós durante muito tempo, enquanto os rapazes brincavam com a cadela no quarto de Andy. Bjorn ficara entusiasmadíssimo com a colecção de cromos de basebol e com a caderneta de cantores de rock que Andy possuía. Bjorn insistira com o amigo para jogar às cartas, mas Andy estava demasiado abatido para jogar.

Mãe e filho despediram-se de Trygve e de Bjom com pena de os ver partir, e nessa noite, Page deixou que Andy dormisse no seu quarto, notando com satisfação que pela primeira vez desde que ouvira a discussão dos pais, ele não molhava os lençóis. De facto, Andy aparentava uma calma que já não tinha desde o acidente da irmã, e os analgésicos que tomara antes de se deitar permitiram que dormisse um sono tranquilo até de manha. Enquanto o lho dormia, Page mantinha-se acordada ao seu lado, acariciando-lhe o cabelo macio e meditando nos últimos acontecimentos: a queda de Andy, a ausência de Brad... e Trygve. Page não sabia o que fazer em relação a esse assunto; Trygve revelara-se um bom amigo e ela sentia uma forte atracção por ele, mas Brad era o seu marido há já dezasseis anos. Era-lhe ainda difícil aceitar que o podia perder, e no entanto, apercebia-se cada vez mais de que essa perda já tinha sucedido. Porém, Page nunca o enganara antes, e apesar da atracção que sentia por Trygve e da diculdade de toda aquela situação, não queria fazer nada de que mais tarde se pudesse vir a arrepender, nem desejava iniciar aquele relacionamento de um forma nociva para o desenvolvimento do mesmo.

Contudo, quando Brad regressou de Chicago, quarta-feira à noite, tratou a mulher com frieza e distanciamento, agindo como se não a conhecesse. Passou a noite de quinta-feira fora sem nunca telefonar para casa, e na noite seguinte, quando apareceu, estava ainda mais frio do que antes; começava a tornar-se cada vez mais difícil fingir que o casamento deles ainda existia. As marcas de Stephanie eram bem visíveis:

usava gravatas diferentes das que usara até então, comprara fatos novos e mudara até o corte de cabelo. Mas por pior que fosse a atitude de Brad, Page não queria utilizar Trygve como uma espécie de retaliação para o marido; desejava, acima de tudo, resolver primeiro a sua situação com Brad e chegar a uma conclusão quanto ao que ele queria fazer, apesar de Brad não desejar sequer conversar com ela sobre esse assunto. O único tema que ele parecia disposto a discutir com Page era a visita da sua mãe, que Brad não queria que se realizasse.

— Como é que a podes deixar vir aqui para casa no meio de toda esta situação? Ainda por cima, a tua irm também vem! Vais contratar um cabeleireiro durante o tempo que ela aqui estiver, ou vamos ter de telefonar para o cento e quinze sempre que a Alexis precisar de arranjar o cabelo?

— Também não estou satisfeita com esta visita Brad. — Aquela discussão acontecia numa sexta-feira à noite, antes de Brad sair para jantar, supostamente, com uns clientes. — Mas como é que posso convencê-las a não vir? A Ailie está em coma e é natural que a queiram ver. — Parecia uma atitude razoável, mas Page também tinha consciência de que a mãe e a irmã não podiam ser consideradas pessoas razoáveis. Brad nunca simpatizara com elas, assim como elas nunca haviam gostado dele, apesar da mãe insistir em fingir o oposto. Brad sabia de mais sobre o passado da família, e a sua mãe sempre se opusera a que Page o pusesse ao corrente de factos antigos. — Fiz todo o possível para as dissuadir, mas a minha mãe limitou-se a anunciar que vinham.

— Sendo assim, agora limitas-te a anunciar que elas não podem ficar aqui em casa. — Page apercebeu-se, pela expressão dele, que Brad estava realmente a falar a sério.

— Não posso fazer isso Brad. Trata-se da minha família... — afirmou ela, descontente. Tinha conseguido afastar-se delas, mas não podia deixar de as ver de vez em quando, nem podia mante-las permanentemente afastadas.

— Bolas, Page, sabes bem que podes fazer aquilo que quiseres!

Page começou então a irritar-se. O marido não dava um passo para a ajudar mas ainda assim atrevia-se a lançar-lhe ultimatos.

— Só se seguir o teu exemplo, Brad! Estás com medo que elas interfiram na tua vida social, agora que já não tens nada a esconder? — Desde que ele viajara para Chicago que o ambiente estava calmo, mas agora a guerra voltava a estourar.

— Tenho tido muito trabalho.

— Não mintas! Aposto que também estiveste muito ocupado em Chicago! — Mas ele voltou-se para ela, avisando com uma expressão furiosa que Page não deveria voltar a nsistir nesse assunto. O seu procedimento era incorrecto, mas, apesar disso Brad não podia suportar mais nenhuma pressão; sabia que a sua atitude era igualmente injusta, mas de momento nada podia fazer para a modificar.

— Não tens nada com isso — afirmou ele, com a voz tensa.

— Ah, não?

— Está tudo a acontecer demasiado depressa para roim. — Com Page, passava-se exactamente o mesmo; tudo acontecera a um ritmo vertiginoso nas duas últimas semanas, mas a culpa não era sua. — Prefiro esperar um tempo até tomar alguma decisão definitiva. — Seguidamente, Brad, fitando-a, fez uma declaração que de imediato a surpreendeu: — Cheguei à conclusão de que ainda não estou preparado para sair de casa. — Page limitou-se a observá-lo em silêncio, conjecturando se ele teria mudado subitamente de opinião, se teria discutido com Stephanie ou se estava apenas receoso, perante tantas modificações.

— Essa decisão tem alguma coisa a ver connosco ou é apenas uma questão de conveniência? — indagou Page, com o coração acelerado e confusa. Apesar da forma como Brad havia procedido para com ela nas duas últimas semanas, continuava a ser o seu marido e talvez o seu amor por ele não tivesse terminado.

— Não sei... — respondeu Brad com um ar infeliz, mas sem dar um passo na direcção dela. — Sair de casa é uma decisão demasiado séria, que anda me assusta muito. Talvez me tenha enganado... honestamente, ainda não consigo perceber. Só sei que também não conseguiria voltar a adaptar-me à nossa antiga forma de vida. — Os dois sabiam muito bem que nada voltaria a ser como dantes; Page nunca voltaria a confiar no marido, e ambos tinham a certeza de que Brad não estaria disposto a romper a sua ligação com Stephanie. Essa constituía a maior preocupação dele, mas, por outro lado, deixar Page significava igualmente abandonar o filho. Durante a última semana, Brad ponderara sobre essa possibilidade, mas a dor que sentira ao constatar esse facto fora o suficiente para o fazer desistir. Stephanie não se mostrara muito compreensiva, argumentando que Andy poderia vir visitá-los a qualquer hora. Brad, no entanto, tinha consciência de que o seu relacionamento com o filho mudaria por completo, caso saísse de casa. — Não consigo chegar a nenhuma conclusão... — repetiu ele, fitando-a com a mesma expressão de desamparo. — Não sei que rumo tomar na minha vida... — acrescentou, sentando-se na cama e passando a mão pela cabeça, enquanto a mulher o observava em silêncio. Depois de Brad lhe ter causado tanto sofrimento, e de ainda continuar a fazê-lo, Page já não conseguia encará-lo sem alguma desconfiança.

— Se calhar, é melhor deixar passar um tempo, antes de tomar alguma decisão. — Talvez grande parte dos acontecimentos tivesse sido uma consequência do acidente, apesar de Page ter quase a certeza do contrário. — Queres consultar um conselheiro matrimonial? — sugeriu ela, hesitante, sem sequer saber se ela própria o desejaria fazer. Brad, porém, apressou-se a dissipar todas as suas dúvidas a esse respeito:

— Não. — Não estava disposto a correr o risco de ser obrigado a romper com Stephanie, pois não se sentia ainda preparado para abdicar desse relacionamento. Apesar disso, não desejava abandonar a mulher, mesmo admitindo que Stephanie era mais importante para ele. Ela personificava tudo aquilo de que Brad, nesse momento, sentia falta: a juventude e a esperança no futuro, qualidades essas que o faziam recordar a filha. No entanto, tinha consciência de que a sua vida se tornara desequilibrada, e assim, qualquer que fosse a decisão que tomasse, nem por isso deixaria de se sentir confuso.

— Não sei o que sugerir mais; a não ser, talvez, um advogado.

— Eu também não sei — admitiu ele, encarando-a com honestidade. — Podes tolerar esta situação durante mais algum tempo, ou está a tornar-se demasiado difícil para ti?

— Não tenho a certeza. Só sei que não posso viver assim durante muito mais tempo.

—Nem eu... — confessou Brad, fatigado. Stephanie continuava a pressioná-lo para que deixasse Page e se casasse com ela, e, por conseguinte, Brad sabia que teria de tomar uma decisão.

De certa forma, tudo aquilo que partilhara com a mulher estava a ser destruído: o casamento, os filhos, e o clima de amizade e de confiança que sempre existira entre eles. Por mais estranho que parecesse Page representava para ele o passado, e Stephanie o futuro. Contudo, nessa noite, deitado na mesma cama que Page, o passado voltou a ressurgir com a mesma intensidade de sempre.

Andy estava a dormir, e a porta do quarto de casal encontrava-se fechada; Page, deitada na cama, lia um livro, ignorando a presença do marido a seu lado. Subitamente, Brad aproximou-se dela e beijou-a com uma paixão e uma intensidade de que ela já não se recordava. De início, tentou resistir, mas o desejo e a insistência de Brad eram de tal forma intensos, que sem que Page se apercebesse, o corpo dele pressionou o seu, depois de lhe ter levantado a camisa de dormir. E mesmo que, conscientemente, Page não desejasse fazer amor com Brad, a sua resistência inicial acabou por ceder; afinal, ele ainda era o homem por quem há duas semanas julgava sentir o maior amor.

Foi então que, lentamente, Brad a penetrou e ao fazê-lo a sua paixão desapareceu, juntamente com a erecção. Tentou disfarçar esse facto e esforçou-se por reavivar o desejo, mas tornava-se inegável que a confusão e a ansiedade que o afligiam tinham afectado algo mais do que apenas o seu casamento.

—Desculpa... — murmurou ele, deitado ao lado de Page, envergonhado pelo que sucedera. Page estava ainda sem fôlego, muitíssimo aborrecida por ter cedido ao marido. Considerando a situação actual em que viviam, dormir com ele parecia-lhe uma atitude condenável e despropositada, mesmo sendo ainda casados. Além disso, não tinha a mínima intenção de se tornar na segunda mulher com quem ele dormia, nem de se arriscar mais uma vez a ser magoada por Brad.

— Não podes negar as reacções do teu corpo, Brad — afirmou ela, desanimada. — Talvez seja essa a resposta que tanto procuras.

— Sinto-me um autêntico idiota... — confessou Brad, irritado, caminhando pelo quarto e exibindo o seu corpo, mais atraente e masculino do que nunca. Porém, Page sabia que tinha de encarar a realidade, pois por maior que tivesse sido o seu amor pelo marido, estava tudo terminado entre eles; pelo menos, no momento presente, senão para todo o sempre.

— Talvez seja melhor tomares uma decisão, antes de a nossa situação se tornar mais complicada — aconselhou Page racionalmente, e ele assentiu. O que se passara fora ridículo e não era bom para nenhum dos dois. Brad espantava-se agora com a extrema facilidade com que, durante o último ano, alternara a cama de Stephanie co a de Page, sem nunca ter existido o mínimo problema. No entanto, agora que Page já estava a par de tudo, a situação mudara; se não fosse por necessitar muito da liberdade que agora possuía Brad quase lamentava ter confessado tudo à mulher. Sabia que devia igualmente essa atitude a Stephanie, pois também não estava a agir da melhor forma com ela. Brad não podia deixar de ficar surpreendido ao constatar o quanto começava a gostar de viver com ela. Dada a facilidade com que se entendiam, Stephanie insistia para que vivessem juntos e, recentemente, chegara mesmo a ameaçar deixá-lo, caszo ele não se decidisse. Mas, para Brad, a solução ideal seria poder colocar Page de lado nos próximos tempos, fechada num armário ou congelada num frigorífico para que, durante um ano, pudesse viver com Stephanie; passado esse prazo, poderia então regressar e encontrar tudo exactamente como estava antes da sua partida. Decerto seria essa a resposta mais fácil para todos os seus problemas.

— Talvez eu deva sair de casa — admitiu Brad, desalentado, sentando-se ao lado de Page na cama. De súbito, o que mais desejava era poder estar com Stephanie de novo e provar que não era impotente. Aquele pequeno episódio com Page assustara-o bastante.

— Não quero pressionar-te a tomar nenhuma atitude — respondeu Page, tranquilamente. A leve camisa de dormir evidenciava o seu corpo esbelto e esguio, mas Brad não estava a olhar para ela. Page sentia-se culpada por ter deixado que Brad fizesse amor com ela e, subitamente, deu consigo a pensar em Trygve.

— No entanto, julgo que, seja qual for a decisão que tomarmos, não podemos esperar muito mais tempo. Não posso suportar esta situação indefinidamente... e o mesmo se passa com o Andy. As tuas idas e vindas estão a tornar-se demasiado cansativas — concluiu Page, desanimada.

— Eu sei. — Nas duas últimas semanas, nada se passara normalmente. A seu modo Brad estava tão traumatizado quanto Page ou Andy, o que justificava a sua incapacidade para tomar decisões. — Vamos esperar só mais um pouco.

Page concordou e decidiu ir tomar um banho, tentando não pensar em Trygve. Não queria que o seu relacionamento com ele fosse apenas uma consequência da rejeição do marido, ou somente um efeito do trauma causado pelo acidente. Se algo de maior importância viesse a acontecer entre eles Page desejava acima de tudo que isso fosse baseado no simples facto de ambos terem algo de bom para partilhar;

poderia ainda acontecer porque existia uma forte possibilidade de ambos viverem uma relação feliz e harmoniosa, de passarem momentos agradáveis ou ainda porque estariam destinados a viver juntos. Page desejava muito que essa relação fosse baseada logo de início num motivo correcto, para que o seu desfecho em nada se assemelhasse ao desfecho do seu relacionamento com Brad. Todavia, tinha consciência de que seria sempre muito difícil confiar de novo em alguém, mesmo que esse alguém se tratasse de Trygve.

Quando Page se deitou Brad estava a dormir, e quando ela acordou, ele tinha já saído. Deixara um bilhete, informando-a de que fora jogar golfe e que não viria jantar a casa. Nesse mesmo bilhete não constava, porém, o local onde Brad tencionava jogar, nem com quem o faria e, como tal, Page apercebeu-se de imediato que aquele bilhete não passava de mais uma mentira. Brad tinha decerto partido ao encontro de Stephanie, pois o que se passara na noite anterior pusera em causa a sua masculinidade e agora ele desejava tranquilizar-se. Chegando a essa conclusão Page suspirou e amachucou o pedaço de papel, ouvindo de seguida o telefone tocar.

— Page? Então, está tudo bem? — Era Trygve que telefonava para ter notícias de Andy. Sabendo que este não poderia jogar basebol com um braço ao peito, Trygve sugeriu que quando Page fosse para o hospital deixasse o filho em sua casa com Bjorn. A não ser, é claro, que Andy ficasse com o pai, o que Trygve julgava, com toda a razão, muito pouco provável.

— Hoje a empregada vem fazer a limpeza, por isso eles não vão ficar sozinhos. Também quero passar mais algum tempo com a Chloe — explicou Trygve.

— Tenho a certeza de que o Andy vai gostar da ideia — respondeu Page, grata pelo auxílio que Trygve mais uma vez lhe prestava. Independentemente do que acontecesse, ela nunca poderia esquecer-se de todo o apoio e amizade que Trygve lhe havia dado naquele período. — A que horas é que posso deixá-lo em tua casa? — Eram dez horas naquele momento, e Page gostaria de chegar ao hospital por volta das onze.

— Podes deixá-lo aqui quando fores para o hospital. Entretanto aviso o Bjorn, que vai ficar entusiasmadíssimo! Ele estava já a resmungar por eu não o levar a ver a irmã, mas com ele no hospital não me posso demorar nada; passado pouco tempo, começa logo a ficar impaciente, mexe em tudo e não dá descanso às enfermeiras. — Page riu ao imaginar a cena. Conhecendo Bjorn, a imagem tornava-se cómica, mas simultaneamente terna e comovente, e em nada ridícula.

Andy ficou, de facto, encantado com o convite, e a empregada que limpava a casa de Trygve uma vez por semana prometeu tomar conta dos dois rapazes. Page simpatizou bastante com ela, e ficou mais descansada ao abandonar Andy, que foi imediatamente jogar para o quarto de Bjorn, Trygve e Page foram, então, para o hospital na carrinha desta última.

— Como vão as coisas com o Brad? — indagou Trygve no caminho, acrescentando de imediato: — Ou será que não devia meter-me na tua vida? — Contudo, depois do que acontecera, a vida dela também lhe dizia agora .respeito e aquele assunto tornara-se igualmente do seu interesse. Apesar disso Page não lhe parecia muito bem, e Trygve não desejava, de forma alguma, exercer sobre ela qualquer tipo de pressão. Page ainda sentia dificuldade em entender o que sucedera na noite anterior entre ela e o marido; de certa forma, preferia que nada daquilo tivesse acontecido, pois sentia-se levemente culpada em relação a Trygve.

— O ambiente lá em casa não está nada bom. Penso que chegámos à etapa final, mas parece que o Brad tem medo de o admitir.

— E quanto a ti, Page? Achas que estás preparada para iniciar uma outra etapa? — Trygve também fazia parte da sua vida, e era natural que se preocupasse em entender os seus sentimentos.

Page olhou-o de relance, enquanto conduzia; desejava ser franca e honesta com Trygve, pois gostava demasiado dele para não o ser.

— Não quero avançar depressa de mais, nem quero tomar nenhuma atitude precipitada... não quero que... — Ela tentava encontrar as palavras certas para definir aquilo que sentia, mas Trygve já lhe tinha demonstrado que a entendia e que aceitava as suas condições. Na realidade, nunca esperara que ela agisse de maneira diferente. Finalmente, Page concluiu a sua frase: — Não desejo fazer nada por vingança ou retaliação, nem tomar nenhuma atitude de que mais tarde nos venhamos a arrepender.

— Tal como eu — respondeu Trygve, calmamente, inclinando-se de forma a poder beijar a face de Page. — Quero que saibas que não vou pressionar-te, nem vou obrigar-te a tomar nenhuma atitude precipitada. Dou-te todo o tempo de que precisares, Page; e, se chegares à conclusão de que o teu casamento não chegou ainda ao fim, vou ter muita pena, mas vou ficar também muito feliz por vocês os dois. O vosso casamento é o mais importante... depois de o resolveres, se precisares de mim, vou estar à tua espera, pronto para te ajudar.

Page arrumou a carrinha no parque de estacionamento do hospital, e depois voltou-se para Trygve, extremamente grata por todas as suas palavras. O que mais a surpreendia era que, apesar da intensidade daquilo que sentira por Brad, Trygve correspondia exactamente a tudo aquilo que ela alguma vez desejara encontrar num homem.

— Que sorte a minha em encontrar alguém como tu...

—Não sei se será bem esse o caso... — argumentou Trygve, com um sorriso amargo. — Pagámos muito caro por isto Page: ambos passámos por um casamento falhado, talvez o meu tenha sido ainda pior que o teu, mas o certo é que, ultimamente, a tua situação familiar também não tem sido nada fácil; depois do choque emocional do acidente... das nossas filhas à beira da morte... merecemos um pouco de felicidade, Page, não é só uma questão de sorte. — Ela foi obrigada a concordar; tudo aquilo era verdade. O acidente viera alterar o resto, mas talvez acabasse por lhes trazer igualmente algo benéfico. No entanto, era ainda demasiado cedo para o poder afirmar. — Amo-te, Page — murmurou ele então, beijando-a e puxando-a para junto de si. Os dois ficaram abraçados por muito tempo dentro da carrinha sob o sol tépido de Maio, saboreando aquele momento de paz e tranquilidade. Era ainda difícil acreditar que o acidente se havia dado exactamente há duas semanas.

Por fim Page e Trygve decidiram-se a entrar para ir ver as filhas. Page manteve-se toda a manhã nos cuidados intensivos, conversando por vezes com as enfermeiras. À hora do almoço, Trygve veio trazer-lhe algo para comer; encaminhou-a primeiro para a sala de espera e depois ofereceu-lhe uma sandes de peru e uma chávena de café. Contou-lhe então todos os pormenores do seu último artigo, terminado na noite anterior, e Page mostrou-se interessada e admirada com alguns dos seus pontos de vista; mas mais admirada estava ainda com o facto de Trygve tomar tão bem conta dela, pensando nos mais pequenos pormenores, encarregando-se de pensar nas necessidades de Andy e não deixando por isso de dar toda a atenção à sua própria família. Aliás, Trygve parecia conseguir dar carinho e atenção a todos aqueles de quem gostava. Eram qualidades de que Page necessitava mais do que nunca.

— Como é que a Ailie está hoje?

A única resposta de Page foi encolher os ombros, com uma expressão de desânimo no rosto. Ela e os terapeutas do hospital tinham massajado os membros da filha por mais de uma hora, mas era evidente que Ailie estava a perder peso e o seu quadro não registava qualquer indício de melhorias.

—Não sei... só passaram ainda duas semanas, mas a mim parece-me uma eternidade. Nesta altura, esperava que se desse algum milagre, mesmo que fosse apenas um pequeno sinal de recuperação... — Tinham decorrido dez dias desde que Ailie fora submetida pela segunda vez a uma neurocirurgia, o seu estado clínico havia estabilizado e a pressão exercida no cérebro diminuíra consideravelmente, mas apesar disso continuava em coma profundo.

— Page, os médicos avisaram-te de que a situação poderia demorar meses a mudar. Ainda é muito cedo para desanimar — afirmou Trygve, carinhosamente. Era muito mais fácil para ele enfrentar a situação da filha, pois Chioe, apesar de estar muito ferida, encontrava-se inegavelmente fora de perigo e muito viva. Era provável que, no futuro, viesse a necessitar de ser submetida a mais operações, e teria também de aprender a caminhar de novo, mas perigo real já não existia. Agora, Chioe teria apenas de suportar a dura prova da sua recuperação, além de ter de enfrentar o facto de que os seus sonhos de um dia vir a ser bailarina se tinham tornado apenas sonhos e nada mais. Não era uma perspectiva fácil de encarar, mas era decerto muito menos difícil do que a de Allyson, que poderia perder a vida a qualquer instante. Para Trygve, a possibilidade de Ailie poder viver mais semanas e mais meses mergulhada no seu estado de coma, e depois poder vir a morrer, era cruel de mais; era mais do que qualquer pai poderia suportar, e ele detestava que Page tivesse de enfrentar essa tragédia.

— Não vou desanimar — respondeu Page, pegando na sandes que ele lhe trouxera. Trygve sabia que se ele ali não estivesse, Page não a teria comido, e por isso ficara com ela. Mas esse não era o único motivo para lhe fazer companhia. Trygve desejava muito poder estar com Page, apesar de afirmar que precisara de se ausentar um pouco do quarto de Chioe; esta continuava a receber constantemente a visita dos amigos e não restavam dúvidas de que a boa disposição que a caracterizava estava já a regressar. — Sinto-me tão impotente perante o estado da Allie... — desabafou Page, cabisbaixa.

— Pois sentes; mas estás a dar o teu melhor, Page, tal como os médicos. Tens de ter paciência e deixar os dias passarem. A Allie pode ficar muito tempo assim, e um dia, quando menos esperares, ela pode acordar e ficar relativamente bem.

— Os médicos disseram-me que se não houver nenhum sinal de recuperação depois de seis semanas ela pode ficar para sempre em coma.

— Mas pode também dar-se o caso de ela vir a acordar do coma depois desse prazo. Já não é a primeira vez que isso acontece com jovens da idade dela... daqui a três meses, até, quem sabe...? — Trygve tentava encorajá-la, mas Page abanou a cabeça, enquanto os seus olhos se humedeciam. Havia momentos em que se sentia oprimida pelo peso de toda aquela situação; havia tanto que enfrentar, tanto ainda a suportar. ..

— Oh, Trygve, como é que vou conseguir aguentar tudo isto? — Page encostou a cabeça ao peito dele e chorou. Era mais fácil fugir à realidade presente se pensasse em Trygve, se discutisse com Brad ou se cuidasse do braço de Andy; mas aquilo que de mais importante se passava, aquilo que nenhum deles parecia poder ainda admitir, era o facto de Allie poder perder a vida a qualquer momento.

— Estás a ser muito corajosa, Page, e vais continuar a sê-lo, tenho a certeza — confortou ele, abraçando-a. — Não há mais nada que possas fazer além disso. O resto está nas mãos de Deus.

Page afastou-se um pouco, de forma a poder encará-lo, e ele estendeu-lhe um lenço de papel. Ela disse então:

— Gostava que Ele pudesse ser um bocadinho mais rápido a resolver esta situação... Trygve sorriu e respondeu:

— Vais ver que Ele se vai apressar, dá-Lhe só mais algum tempo.

—Já Lhe dei duas semanas, e, enquanto isso, a inha vida está cada vez mais complicada.

— Não percas a fé Page. Tens tido muita força. — Se existia algo de que ela tinha a certeza era de que nunca poderia ter aguentado tudo aquilo sem a ajuda de Trygve. Brad estava «não se sabia onde», a fazer «não se sabia o quê». Tinha vindo visitar a filha pelo menos uma vez em cada dois dias, mas Page sabia que o marido era incapaz de suportar a ansiedade de permanecer à cabeceira dela nos cuidados intensivos por mais do que alguns minutos. Ele ainda não o podia enfrentar; não podia enfrentar a monotonia, a passividade dos aparelhos e dos monitores, e a possibilidade sempre presente de perderem a filha, e por isso deixava que Page enfrentasse tudo isso sozinha. Quando se tratara do difícil nascimento de Andy, o procedimento de Brad fora muito menos frio, mas nessa altura eram ambos mais jovens, e Andy, apesar da sua fragilidade, era encantador. E, afinal, a incubadora tinha sido um indício de vida, enquanto que a cama de Allyson, na enfermaria dos cuidados intensivos, era já um prenúncio de morte.

Page e Trygve continuaram mais algum tempo a conversar, e ele, tentando desviar-se do tema anterior, aproveitou a oportunidade para brincar com ela, afirmando que Page estava apenas aborrecida com a chegada da mãe no dia seguinte; no entanto, para sua surpresa Page não desmentiu esse facto.

— Porque é que não gostas da tua mãe? — indagou ele, curioso. Aquela atitude não lhe parecia própria da personalidade dela.

— Velhas histórias. A minha infância não foi das melhores.

— Tal como a maioria das infâncias. O meu pai, como bom norueguês que é, julgava que uma tareia era indispensável para uma boa educação. Ainda hoje tenho uma cicatriz de uma das mais animadas sessões de tareia!

— Que horror! — exclamou ela, chocada.

— Naquele tempo, era assim que se pensava. Mas tenho a certeza de que ele voltaria a fazer o mesmo se ainda tivesse filhos pequenos. Até hoje, nunca entendeu a educação mais aberta que dou aos meus filhos; aliás, penso que ele e a minha mãe estão muito mais felizes desde que regressaram à Noruega.

— Admites a possibilidade de voltar para lá algum dia? — perguntou Page, tentando focar a sua atenção num outro assunto que não o da filha. Trygve estava certo: não havia nada mais a fazer, a não ser esperar, ter paciência e rezar; e depois, enfrentar o resultado.

— Não, não penso em voltar — respondeu Trygve. — É muito difícil admitir isso, depois de ter vivido aqui uns anos. Na Noruega, os Invernos são intermináveis e os dias muito escuros; é uma espécie de clima primitivo. Acho que não conseguia viver em mais nenhum sítio senão na Califórnia.

— Eu também. — A simples ideia de regressar a Nova Iorque era o suficiente para a assustar, apesar de Page ver com agrado a possibilidade de continuar lá o seu trabalho artístico. Todavia, poderia continuá-lo ali, na Califórnia, apenas nunca se tinha esforçado por isso. Brad transmitira-lhe sempre a noção errada de que ela poderia continuar a carreira trabalhando para o seu círculo de amigos, ou em casa, mas não como um trabalho real. Por alguma razão Brad via o talento da mulher como uma coisa de menor importância. Page lembrou-se então de que prometera pintar outro mural para a escola, o que agora se tornara impossível, já que passava todo o seu tempo livre no hospital.

— Devias pintar alguma coisa aqui para o hospital — comentou Trygve, inspeccionando a sala. De facto, a sala de espera era um local desolador, e o corredor era ainda mais lúgubre. — E um sítio tão deprimente... Se pintasses aqui um dos teus murais, darias a quem aqui estivesse um motivo mais animado em que pensar. As tuas pinturas provocam alegria a quem as admira! — afirmou ele, lisonjeado r.

— Obrigada, Trygve. — Page olhou em volta, meditando naquilo que poderia pintar, mas acalentando simultaneamente a esperança de não permanecer ali tempo suficiente para o poder realizar.

— Será que vou ter a oportunidade de conhecer a tua mãe? — perguntou então Trygve, ao que Page respondeu com uma careta de desagrado; ele riu e afirmou: — Ela não pode ser assim tão má pessoa!

— Mas é! Pode até parecer muito simpática, porque, quando quer, sabe ser muito subtil. O grande problema é que se recusa a enfrentar ou a discutir tudo o que seja desagradável. É por isso que esta estada representa um grande desao para a minha mãe.

— Pelo menos, ela parece uma pessoa animada... e a tua irmã, que tipo de pessoa é?

Page sorriu antes de responder.

— É uma pessoa muito especial, tal como a minha mãe. Nos primeiros anos em que vim viver para aqui, nunca as vi; mas quando o meu pai morreu, senti pena da minha mãe e resolvi convidá-la para me vir visitar, o que nunca deveria ter feito, porque ela e o Brad passaram todo o tempo a discutir; não eram discussões abertas, mas sim agressões muito subtis e passivas, as quais eu não consigo suportar. E, além do mais, a minha mãe condenava o tipo de educação que eu dava à Allyson.

— Pelo menos agora a tua mãe não vai poder dar esse tipo de opiniões... — comentou ele, tentando encorajá-la.

— Pois não, mas vai de certeza implicar com qualquer outro aspecto da minha vida; vai pensar que o médico da Allyson não é um bom profissional, e que o David, o meu cunhado, já ouviu dizer que não passa de um charlatão e que vai ser julgado pelo Conselho de Medicina; vai achar que o hospital é horrível, já para não falar do mais importante, que os cabeleireiros do centro de São Francisco são péssimos.

— Não acredito que não estejas a exagerar.

— Garanto-te que não. — Mas apesar da forma humorística como Page descrevia a sua família, Trygve apercebia-se de que algo de maior gravidade se passara. Page era já uma mulher feita, demasiado franca para nutrir uma antipatia injusticada. Contudo, era evidente que não lhe desejava comunicar a justicação daquele antagonismo, e Trygve preferia não insistir, pois sabia que Page tinha todo o direito de manter os seus segredos.

Daí a pouco, cada um regressou para a cabeceira da respectiva filha, e às cinco horas Page foi visitar Chioe, sentando-se no quarto desta a conversar. Tinha ainda muitas dores, e a sua aparência inspirava ainda bastantes cuidados, a julgar pelo gesso e pêlos dispositivos metálicos que a envolviam. Todavia, Chioe tinha recuperado o ânimo e mostrava-se feliz por ter sobrevivido ao acidente; a sua maior preocupação, no entanto, era o estado de Ailie, pois o pai informara-a, com total franqueza, que a sua amiga corria ainda risco de vida. Jamie fora visitar Chioe nessa tarde, e assim que avistou Page, procurou saber se o estado de Allyson se modificara.

— Como é que ela está? — indagou Chioe, mal Page entrou no seu quarto.

— Continua conforme estava. Então e tu, Chioe, continuas a passar o tempo da mesma maneira...? A irritar as enfermeiras, a namoriscar os estagiários e a encomendar pizzas durante toda a noite? — brincou Page sorrindo, fazendo com que Chioe se risse de bom grado de semelhante descrição.

— Ela porta-se ainda pior... — comentou Trygve, satisfeito por ver o contentamento da filha. Chioe era uma verdadeira adolescente, e a sua espontaneidade, tão natural dessa idade, alegrava o seu pai e Page.

— Ainda bem! — respondeu esta, desejando que Allyson pudesse ter o mesmo comportamento adolescente da amiga. Tal como os Chapman deveriam desejar que o seu ilho pudesse ter ainda semelhantes atitudes; Page mal podia imaginar o que aquele casal sentiria, passadas apenas duas semanas desde o acidente que vitimara Phillip, pois de todas as vezes que se lembrava deles, sentia um aperto no coração. Por mais grave que se apresentasse o quadro de Allyson, para ela ainda existia uma possibilidade de recuperação, enquanto que para os Chapman já não existia a mínima esperança.

Jamie comentou depois que os encontrara recentemente, e que a mãe de Phillip estava ainda muito abada. Mr. Chapman comunicara-lhe que fazia tenções de processar o jornal que publicara a notícia sobre o acidente de uma forma tão manifestamente injusta para Phillip. Jamie contou também que tinha sido entrevistado por mais um jornalista, interessado em lhe perguntar o que sentia por ser o único dos jovens que nada de grave tinha sofrido. Mas, apesar disso, o interesse da imprensa no assunto era já praticamente nulo.

Page e Trygve deixaram Chioe por volta das seis da tarde, altur em que vieram entregar a piza que ela pedira ao pai para encomendar. Jamie cou para partilhr o jantar de Chioe, e Trygve ofereceu-se para conduzi a carrinha de Page.

— Queres jantar connosco? — convidou ele, esperan çado.

— Gostava muito de poder ficar, mas o Brad talvez pa reça em casa. Não estou à espera dele, mas o Andy ia ficar decepcionado se o pai fosse a casa e ele não o visse.

Trygve achou melhor não insistir, e apesar dos protestos de Andy e de Bjorn, Page seguiu com Andy para casa. No entanto, Brd só regressou a casa na manhã seguinte, e nessa altura, apesar de todas as promessas que Page fizera a si própria, não pôde evitar mais uma discussão.

— Que conversa foi aquela outro dia acerca de não esares ainda preparado para sair de casa, e de não teres a certeza daquilo que queres? Quem é que pensas que estás a enganar com um argumento desses? — Page estava furiosa; já não aguentava viver daquela forma, enquanto o marido prosse guia o seu romance com outra mulher.

— Desculpa. Eu devia ter telefonado, mas não sei o que aconteceu... esqueci-me de te avisar que não vinha jantar. — É claro que Brad sabia perfeitamente o que tinha acontecido apenas não o desejava relatar à mulher. Tinha ido passar a noite fora com Stephanie, e não tivera forma de lhe telefonar do quarto de hotel, já que Stephanie não o tinha deixdo a sós nem por um segundo; além disso, ficara extremmente irritada quando Brad insistira em regressar logo na manhã seguinte, apesar de a sua irritação ser quase insignificante, quando comparada com a fúria de Page ao ver o marido entrar em casa ao meio-dia, sem antes lhe ter telefonado uma só vez. — Page, já te pedi desculpas... — repetiu Brad, abatido, sentindo-se um verdadeiro idiota. No momento presente, lmitava-se a dividir o seu tempo entre duas mulheres e dois tipos de vida completamente opostos, e não lhe parecia que estivesse a ser muito bem sucedido.

— Porque é que não me perguntas se a tua lha ainda não morreu? — perguntou Page, cruelmente. Não fazia parte do seu feitio agir com tamanha rudeza, mas estava a atingir o imite da paciência em relação ao marido.

—Oh, meu Deus... ela morreu...? Page, a Ailie morreu...? — Page observava friamente os olhos de Brad, cada vez mais húmidos e mais brilhantes.

— Não, mas podia ter morrido. E onde é que tu estavas se isso tivesse acontecido Brad? Como sempre, nem sequer te deste ao trabalho de telefonar para casa!

— Ordinária! — insultou Brad, fechando violentamente a porta do quarto, enquanto Andy começava a chorar, assustado com mais uma das discussões dos pais.

— Desculpa, querido — murmurou Page, inclinando-se para abraçar Andy. Brad no voltou a sair do quarto e Page não o voltou a procurar antes de sair para ir buscar a mãe e a irmã; durante todo o caminho para o aeroporto, Andy manteve-se silencioso, tal como Page, que relembrava a aparência do marido ao entrar em casa nessa manhã. Brad tinha um ar mais jovem, mais descontraído e mais feli, mas assim que viu a mulher, voltou ao seu estado normal e perdeu toda essa jovialidade. Todavia, nesse momento, Page estava mais preocupada com o filho que, sentado em silêncio a seu lado, fixava o olhar na janela, triste e abatido.

A mãe e a irmã de Page encontravam-se entre os primeiros passageiros a abandonar o avião. Como sempre, Page constatou que a mãe mantinha a sua boa forma, conservando o bonito cabelo branco muito bem penteado e realçando a sua figura esbelta com um fato azul-escuro. Alexis, vistosa e elegante, envergava um conjunto Chanel rosa-pálido e trazia o cabelo louro simetricamente distribuído e domado; quanto ao seu rosto, de feições perfeitas e artificiais, dirse-ia ter sido maquilhado com a mesma precisão que o rosto de uma top moel. Trazia na mão uma carteira de pele de crocodilo Hermes, e caminhou afectada e lentamente até chegar próximo da irmã, beijar o ar que rodeava as suas fas e dirigir um tímido «Ola» a Andy.

— Estás óptima, querida — comentou a sua mãe, olhando a volta, tentando detectar mais alguém. — O Brad não veio?
— Ele pede desculpa, mas não pôde vir comigo; deve estar em casa à vossa espera. — Page não fazia a mais pequena ideia se, de facto, o marido tencionava esperar a mãe e a irmã dela em casa, pois no momento presente não havia forma de poder prever o comportamento de Brad; não ia ser fácil disfarçar as ausências do marido à mãe, mas Page não tinha a menor intenção de discutir com ela a sua situação matrimonial, tal como a mãe, certamente, preferiria não ouvir tal explicação.

Esperaram então que o tapete rolante lhes trouxesse o resto da bagagem, e felizmente todas as malas chegaram intactas. O carregador a quem pediram depois para as levar até ao carro cambaleava à frente das três mulheres, vencido pelo peso exagerado do conjunto de malas Gucci de Alexis.

— Como está a Allyson? — indagou Alexis cautelosamente, já no caminho para casa. Page iniciou então a descrição do quadro clínico da filha, mencionando o seu estado de coma profundo, mas a mãe apressou-se a interrompê-la, comentando como estava bonito o tempo em Nova Iorque e descrevendo a remodelação recente que o apartamento de Alexis sofrera.

— Que bom — respondeu Page pensativa; afinal, nada mudara, pois a mãe e a irmã continuavam tal como sempre as conhecera. O único mistério era o motivo por que sempre esperara de ambas, duas pessoas completamente diferentes. Durante toda a sua vida Page alimentara esperança de que a mãe se tornasse num outro tipo de pessoa, de carácter mais meigo e despretensioso, tal como sempre esperara que Alexis correspondesse ao seu ideal de irmã: em vez de tanta elegância e requinte, poderia até ter tranças e sardas, mas teria também um coraço verdadeiro; mas nem a mãe, nem a irmã eram capazes de mudar. A primeira continuava a falar apenas de assuntos agradáveis, enquanto que Alíxis, demasiado ocupada em ser bonita e impecável, mal tinha tempo para conversar. Page nunca entendera que tipo de conversas a irmã poderia ter com David, se é que, de facto, os dois podiam estabelecer algum tipo de conversação. Ele era bastante mais velho do que Alexis e encontrava-se sempre muito ocupado com as cirurgias plásticas que efectuava, especialmente com as da mulher, que, por serem em número tão elevado, lhe deviam deixar pouco tempo disponível para atender mais alguma cliente.

— Como é que tem estado o tempo por aqui? — inquiriu a mãe, enquanto passavam pela ponte em que a vida de Allyson quase tinha sido destruída. Depois do acidente, sempre que tinha que atravessar a Ponte Golden Gate, Page' não podia evitar sentir um grande mal-estar.

— O tempo? — repetiu ela, mecanicamente. Como é que ela o poderia saber, uma vez que todos os seus dias eram passados no hospital, ou em casa a discutir com Brad? Naquela fase da sua vida, que importância tinha o tempo? — Penso que o tempo tem estado bom, mas não tenho prestado muita atenção.

— E o teu braço, Andy, está melhor? Que grande disparate o teu... quem é que se ia lembrar de partir o braço? — gracejou a avó de Andy, enquanto este lhe mostrava todas as assinaturas que tinha no gesso. Havia também um desenho de um cão, feito por Bjom, do qual Andy troçara, afirmando que parecia um rato. Mas ele adorava Bjom, e era com muito orgulho que contava aos seus colegas que tinha um amigo com dezoito anos; e, é claro, nenhum deles acreditava.

Foi com bastante surpresa que Page constatou que Brad estava ainda em casa, à espera de as receber. Dirigiu-se à sogra e à cunhada com toda a cordialidade, carregou as suas inúmeras malas para dentro de casa e transportou a bagagem da sogra para o quarto de hóspedes. A mãe de Page dormiria na cama de casal desse quarto, a qual, normalmente, partilharia com Alexis. No entanto, dessa vez, esta última perguntou se poderia car instalada no quarto de Allyson. Por sua vontade, Page não teria acedido a esse pedido da irmã, pois o quarto da filha era agora para ela um local muito especial; desde a noite em que Allyson saíra para jantar com Chioe que nada havia sido alterado no seu quarto.

Contudo, Brad concordou, e Page viu-se assim forçada a vencer todas as suas reservas. Sabia que não fazia muito sentido a mãe e a irmã partilharem a mesma cama, havendo um outro quarto disponível na casa, mas por outro lado, er o quarto da filha ocupado por outra pessoa realçava ainda ais a sua ausência. Page não via com bons olhos a ideia de ter o espaço de Ailie ocupado por mais alguém que não ela, mas uma vez que essa intromssão se tornara nevitável, sabia que teria de se esforçar para ultrapassar a sua relutância,

Alexis confessou depois que tinha sede e pediu um copo de água mineral gelada, de preferência sem gelo; por sua vez, a mãe de Page, enquanto retirava das malas toda a roupa que trouxera, expressou também o desejo de tomar um café e comer uma pequena sandes. Esses pedidos faziam parte da experiência de Page com a sua família, e como tal, dirigiu-se para a cozinha sem pronunciar uma só palavra, disposta a preparar tudo quanto a mãe e a irmã haviam pedido.

Eram já quatro e meia, e Page estava ansiosa por ir ver a filha ao hospital. Ainda não a visitara nesse dia e tinha a certeza de que a mãe e a irmã desejariam igualmente vê-la. Assim, quando ambas desceram finalmente para a sala de estar, Page referiu-lhes esse seu desejo, mas a mãe limitou-se a tecer elogios ao novo sofá da sala, aos quadros das paredes e aos cortinados.

— Fazes uns trabalhos encantadores, querida — elogiou ela, referindo-se às pinturas da filha. Tal como Brad, também a mãe de Page se referia ao trabalho artístico da lha como um mero hobby. Sempre odiara as curtas experiências de Page como desenhadora de cenários de peças teatrais, e encarara com alívio o facto de a filha nunca ter repetido essas experiências ali na Califórnia.

Page consultou o relógio com ansiedade, verificando que já passava das quatro e meia.

— Pensei em irmos agora para o hospital... tenho a certeza que devem querer visitar a Allie. — Mas as duas mulheres cruzaram de imediato o olhar, e Page apercebeu-se então de que, mais uma vez, tinha alimentado esperanças infundadas, pois o hospital não fazia parte dos seus planos para aquele dia.

— A viagem foi tão cansativa... — respondeu Maribelle Addison, recostando-se no sofá. — E a Alexis deve estar exausta; está ainda a convalescer de uma constipação tervel —justificou a mãe de Page, enquanto Alexis o confirmava. — Não achas que talvez seja mais aconselhável irmos ao hospital amanhã? — sugeriu ela, fitando Page co os olhos muito abertos, enquanto esta se esforçava por encontrar uma resposta convincente.

— Bem, eu... sim... é claro, se vocês preferirem... Só pensei que... — Como tinha sido ingénua ao acreditar que elas queriam visitar a filha! Provavelmente, encontravam-se ambas assustadíssimas ante a perspectiva de visitarem Allyson no dia seguinte. Então por que motivo tnham elas insistido em vir? Talvez por essa viagem constituir uma variante nas suas vidas, e também pelo facto de as ajudar a acreditar que estavam a prestar um grande auxílio a Page, o que não correspondia nem um pouco à realidade; foi essa a única explicação que Page conseguiu encontrar.

— Penso que é melhor irmos amanhã, querida. Não concordas, Brad? — perguntou a mãe de Page, ao ver o genro entrar na sala com uma expressão confusa e distante. Stephanie acabara de lhe telefonar para casa a meio do dia, lançando-lhe mais um ultimato e insistindo que ele a levasse a jantar fora nessa noite para discutirem o assunto.

—Eu... bem, sim, julgo que tem razão, Maribelle. Vocês devem estar cansadas da viagem e ver a Aie não deixa ninguém bem disposto.

Page não pôde deixar de ficar irritada com aquela observação do marido, por isso limitou-se a ir buscar a sua carteira sem tecer mais nenhum comentário, avisando-os antes de sair que contava estar de volta a casa às seis da tarde, para ter tempo de preparar o jantar.

— Podes ficar aqui a tomar conta do Andy? — perguntou ela a Brad, antes de sair, ao que ele acedeu.

— Mas quando chegares preciso de sair, está bem?

— Não tenho outra escolha, pois não? — respondeu Page em voz baixa.

— Preciso muito de ir buscar uns papéis ao escritório. Page ngiu acreditar na justificação de Brad e despediu-

-se a seguir da mãe. Alexis estava a descansar no quarto de

Allyson.

Até chegar ao hospital Page deu largas à sua irritação, insultando-se a si própria por ter concordado que a mãe e a irmã a viessem visitar. Mas passada a fúria inicial, e perante o quadro confuso que lhe era apresentado Page não pôde deixar de rir da gravidade da situação em que vivia: Allyson continuava no hospital em estado de coma Brad mantinha um romance com outra mulher, Andy tinha um braço ao peito e, para cúmulo, a mãe e a irmã estavam hospedadas em sua casa; para Page, aquela era a definição exacta do mais horrível pesadelo.

Ao chegar ao hospital, avistou Trygve, que se preparava para sair, mas que se deteve mais um pouco para conversar com ela. Contou-lhe que se tinha dirigido à unidade de cuidados intensivos, mas não a vendo, deduzira que ela já tinha ido para casa.

— Como está a mamã? — questionou ele, ironicamente. O brilho dos seus olhos denunciava o contentamento que sentia por ver Page.

Ela riu, subitamente divertida pelo carácter absurdo de toda aquela situação.

— A minha mãe continua tão igual ao que sempre foi que a única reacção que eu posso ter é rir! Se as conhecesses, verias que não é mentira.

— Onde é que as deixaste? — Trygve estava surpreendido por não as ver ali.

— A minha mãe ficou a admirar o sofá novo da sala e a minha irmã ficou a descansar. Não me surpreende nada que a Alexis precise de descanso, ela está tão magra que parece sofrer de anorexia! Chegou vestida com um modelo Chanel, e trouxe para condizer uma carteira de pele de crocodilo.

— Mas que mulher elegante deve ser a tua irmã! E porque é que não quiseram vir contigo?

— Estavam muito cansadas — explicou Page. — A Alexis está ainda a recuperar de uma constipação, e o Brad concordou logo que era melhor ficarem em casa a descansar, porque podam ficar muito abaladas com o estado de AUie!

—Oh, meu Deus...

— Eu digo o mesmo! Talvez seja amanhã o grande dia, a não ser que Alexis tenha de ir pintar as unhas.

— Page, como foi possível teres escapado? Porque é que também não passas todos os dias no cabeleireiro, em vez de ocupares o teu tempo a pintar e a tratar dos teus filhos?

— Por mera estupidez minha; talve nunca tenha sido capaz de seguir os bons exemplos.

— Se calhar seguiste o exemplo do teu pai — respondeu ele, pensando ter encontrado uma justificação para a personalidade de Page. Todavia, ela abanou a cabeça e esclareceu:

— Nem por isso. — E depois acrescentou, fixando o olhar dele: — Eu devo ser mesmo a aberração da família. A única explicação era eu ter sido adoptada; aliás, era isso que a minha irmã me costumava dizer, mas, infelizmente, não passava de uma mentira. Esse era o único facto capaz de facilitar um pouco esta minha complicada situação familiar. — Trygve esboçou um sorriso perante a forma depreciativa com que Page se referia à mãe e à irmã.

— O Nick também costumava dizer à Chioe que ela tinha sido adoptada. Os miúdos adoram torturar os irmãos com esse tipo de disparates.

— No meu caso, esse «disparate» teria sido uma verdadeira bênção! — Page consultou rapidamente o relógio de pulso e vericou que era já tarde, pois ainda teria de ir preparar o jantar. — Vou ter de ir ver a Ailie.

— Quando lá entrei, os terapeutas estavam com ela. De resto, parecia tudo normal.

— Obrigada por teres ido ver como ela estava. — Page hesitava, não sabendo ao certo como proceder para se despedir de Trygve. Ao vê-lo inclinar-se para a poder beijar não se desviou, permitindo que os seus lábios se tocassem e os seus olhares se fixassem. — Estou muito contente por te ter encontrado — murmurou Page, antes de entrar.

— Eu também — respondeu Trygve, vendo-a afastar-se. Page encontrou Allyson e toda a enfermaria exactamente nas mesmas condições. Ficou com a filha durante uma hora e conversou mais uma vez com ela, informando-a de que a avó e a tia Alexis a tinham vindo visitar; relatou-lhe em seguida as últimas opiniões de Andy e lembrou-lhe, repetidamente, o quanto a amavam. Partilhava com a filha todos os seus pensamentos, excluindo aqueles que diziam respeito ao colapso do seu casamento e ao romance de Brad.

Antes de sair, Page beijou a testa da filha com muito cuidado, e observou depois durante bastante tempo todas as ligaduras e compressas que a envolviam. De facto Brad estava certo; aquele não era um quadro nada animador, ela própria é que já não era capaz de se aperceber desse facto.

No caminho para casa Page sentiu-se extremamente abatida, e ao chegar a casa, estava exausta. Da porta de casa, pôde ouvir a voz da mãe, e ao entrar, constatou que a irmã estava ao telefone com o marido, queixando-se do serviço da companhia de aviação. Com excepção de Andy, que enquanto ela preparava o jantar lhe perguntou como estava a irmã, ninguém mais se referiu a Ailie.

— Tens a certeza que ela vai ficar boa? — insistiu Andy preocupado e ansioso; nesse dia em especial, ele insistia em pressionar a mãe.

Page parou o que estava a fazer, e fitando-o gravemente, puxou-o para perto de si, de forma a poder abraçá-lo.

— Não... eu não posso ter essa certeza, mas espero que a Ailie fique bem depressa. Por enquanto, a mãe ainda não pode garantir-te nada, querido... a Ailie pode mesmo vir a... — Era-lhe extremamente difícil explicar tal possibilidade ao filho, mas sabia que o devia fazer. — Ela ainda pode morrer, Andy... mas isso pode não acontecer, nós ainda não sabemos. Quando acordar, a Ailie pode ficar bem ou pode ficar como o Bjorn. Ainda não há a certeza de nada.

— Como o Bjorn...? — Andy cou confuso; ele nunca entendera completamente o que se passava de errado com o amigo.

— Mais ou menos. — Mas Page sabia que existiam também outras possibilidades: Ailie poderia passar o resto da sua vida numa cadeira de rodas, poderia perder a visão, e poderia mesmo nunca vir a ser como Bjorn, pois corria o risco de perder todas as suas capacidades mentais.

— De que é que vocês os dois estão a falar? — perguntou a mãe de Page ao entrar na cozinha interrompendo a conversa da filha.

— Estávamos a conversar sobre a Allyson.

— Ainda há pouco estive a dizer ao Andy que ela vai ficar boa num instante! — comentou ela com um sorriso, enquanto Page sentia vontade de a poder insultar. Não era justo enganar dessa forma uma criança, e Page não admitiria nunca essa falsidade.

— Nós esperamos que ela fique bem, mãe, mas não podemos ter a certeza que seja isso que vai acontecer. Tudo depende de quando e como ela sair do coma.

— «Coma» é igual a dormir, avó, só que não se acorda logo; fica-se a dormir muito, muito tempo — explicou Andy à avó, quando Brad se juntava a eles na cozinha. Page reparou que ele vestira um fato completo, e ao vê-lo teve de se esforçar para não comentar a sua aparência cuidada.

— Não me demoro — anunciou ele a Page, num tom baixo e calmo, enquanto ela levantava uma sobrancelha, em sinal de admiração.

— Ah, não? Mesmo assim, não tenciono ficar a pé à tua espera.

— Até logo — respondeu ele, passando a mão pela cabeça do filho antes de sair. — Boa noite, Maribelle.

— Boa noite, meu lho — respondeu a mãe de Page, acrescentando o seguinte comentário, depois da saída de Brad: — Ele continua a ser um homem de muito boa aparência. Tens muita sorte em ter um marido como o Brad, Page. — A filha quis dizer-lhe que há duas semanas atrás também assim o imaginava, mas naquele momento já não lhe restavam ilusões; no entanto, limitou-se a continuar o que estava a fazer, sem pronunciar uma só palavra.

Como seria de esperar, o jantar foi uma ocasião bastante difícil. Alexis serviu-se de uma pequena fatia de carne e enfeitou o seu prato com salada, mas não comeu praticamente nada. Conversou tão pouco quanto comeu, deixando a cargo da mãe a tarefa de arranjar um tema de conversa. Esta última referiu o seu círculo de amigos, descreveu as mudanças do seu apartamento, e comentou o fabuloso jardim que Alexis possuía em East Hampton. O jardim era tratado por três jardineiros japoneses, e a sua dona referia-se ao mesmo com muito menos entusiasmo do que a mãe. Na verdade, Alexis raramente se entusiasmava com algo, a não ser com a nova colecção de algum costureiro famoso. Ninguém se referiu a AUyson durante o jantar.

Ambas se recolheram à mesma hora que Andy se deitava, explicando que ainda estavam reguladas pelo horário de Nova Iorque. Page, ouvindo os ruídos que vinham do quarto da filha, fechou a porta do seu quarto, incomodada por aquela intromissão que mais lhe parecia um sacrilégio.

Ficou acordada ainda por muito tempo, meditando na sua família e em como sofrera durante os anos que vivera em casa dos pais. Até sair de casa, ninguém se esforçara por mudar o péssimo ambiente em que viviam, e voltar a ver a mãe e a irmã trazia-lhe sempre más recordações. Revivendo esse tempo, as lágrimas rolaram-lhe pelas faces até que Page se decidiu a pensar somente no momento presente.

Quando Brad chegou a casa passava da meia-noite. Page estava ainda acordada, mas as luzes do quartja tinham sido apagadas e ela já se encontrava deitada; ao ouvi-lo entrar, Page voltou-se e observou-o, constatanto com algum espanto que ele parecia fatigado e infeliz.

— Correu tudo bem? — perguntou Page. Ambos sabiam onde Brad tinha passado o serão. Havia muito a aceitar e ela esforçava-se para começar a fazê-lo; mas, a julgar pela expressão do marido, também este teria muito a que se adaptar, o que lhe exigiria, igualmente, bastante esforço. Brad contemplou-a por muito tempo antes de responder, ponderando na sua realidade presente: encontrava-se dividido entre dois mundos, e ambos lhe causavam sofrimento.

— Nem por isso. A minha situação não é tão fácil quanto pensas...

— Parece que não é fácil para nenhum de nós.

— Sei que deve ser muito difícil para ti viver assim... — admitiu ele, humildemente. Por breves instantes, Page teve a impressão de que na sua frente estava o mesmo Brad de há quinze dias atrás. No entanto, ele não fez a menor tentativa de se aproximar dela. — Talvez tivesse sido melhor eu não te ter dito a verdade... mas, por outro lado, tinhas de acabar por saber. Não poderíamos continuar a viver assim para sempre. — Contudo, para a mulher, o mais difícil era reconhecer que, caso ele não a tivesse colocado a par do que se passava, ela teria prolongado indefinidamente aquela situação, pois nunca alimentara a mínima suspeita acerca da traição do marido.

— Estou a tentar tomar as atituties mais correctas para todos nós, só não tenho ainda bem a certeza de quais serão essas atitudes.

Page acreditou, mas tinha dificuldade em encontrar algo mais para lhe dizer. Ambas as suas vidas se encontravam à espera de uma resolução.

— Talvez seja melhor preocupares-te só com a Allyson e esquecer o resto por uns tempos; este não é o momento mais adequado para tomar uma decisão.

— Sim, eu sei. — Contudo, Stephanie sentia-se preterida e exigia que ele lhe provasse os seus sentimentos. Brad sabia que a atitude de Stephanie não era a mais correcta, mas essa tinha sido a sua reacção àquela fase e, acima de tudo Brad não a queria perder. Stephanie nunca chegara a conhecer Page, nem Allyson, por isso estas pouco ou nada significavam para ela; a única pessoa que verdadeiramente lhe interessava era Brad, e não estava disposta a suportar mais nenhuma indecisão da parte dele. Durante mais de um ano, Stephanie contentara-se com as poucas noites que Brad pudera passar com ela, com as viagens ocasionais de negócios em que o acompanhara, e ainda com algum raro fim-de-semana passado a dois. Mas ela tinha vinte e seis anos, achara que havia atingido a idade certa para casar e ter filhos e Brad Clarke era o único homem com quem Stephanie tencionava realizar esse plano.

Page continuou acordada até Brad se deitar, mas desta vez ele manteve-se bem afastado dela. Não desejava passar por mais outra humilhação com a mulher, apesar de tudo ter corrido bem com Stephanie.

Quando Page nalmente adormeceu, já passava das três da manhã, por isso, ao levantar-se às sete para fazer o pequeno-almoço e ir levar o filho à escola, a sua disposição não era das melhores. Andy arrastara Lizzie para a sua cama. Brad já se havia levantado e estava quase pronto, saindo de casa mesmo antes de tomar o pequeno-almoço. Justificou a sua pressa, alegando que tinha combinado ir tomar o pequeno-almoço com um cliente, e Page, mais uma vez, fingiu acreditar. Já se dava por contente pelo simples facto de o marido ter passado toda a noite em casa, poupando-a a ter de encontrar alguma explicação falsa para dar à mãe, apesar de ser bastante provável que a mãe e a irmã nem sequer notassem a ausência de Brad.

Depois de ter deixado Andy na escola Page voltou a casa para buscar a sua mãe e a irmã. Verificando que elas não estavam ainda prontas para sair Page aproveitou para pôr em dia algumas tarefas domésticas atrasadas e pagar algumas contas, mas, às onze horas, elas ainda não haviam descido. Alexis tinha de terminar os seus exercícios matinais e precisava ainda de retirar os rolos do cabelo; é certo que já tomara banho e se maquilhara, mas perante esta explicação, Page calculou que só conseguiria sair de casa dali a uma hora.

— Mãe! — exclamou Page, ansiosa. — Eu não queria chegar muito tarde ao hospital.

— Claro que não Page, mas primeiro vamos ter de tomar o pequeno-almoço. Não seria melhor ires preparando alguma coisa para nós comermos? — Page sabia que ia ser obrigada a esperar, e provavelmente, com tamanha demora, já nem valeria a pena ir. Afinal, elas tinham vindo para ver Allyson e não para ir conhecer os restaurantes da moda ou para enlouquecer lentamente a dona da casa. Tudo estava a acontecer conforme o previsto e Page não estava disposta a continuar aquela farsa por muito mais tempo.

— Podemos comer no bar do hospital, mãe.

— Sabes bem como é a comida de hospital Page... e a tua irmã tem muita propensão para as indigestões.

— Quanto a isso, não há nada que eu possa fazer. — Page consultou mais uma vez o relógio, inquieta. Faltavam apenas cinco minutos para o meio-dia, e Andy terminava as aulas às três e meia. — Não seria melhor vocês irem lá ter de táxi, ou irem depois com o Brad ao fim da tarde...?

— Claro que não, nós queremos ir contigo. — E assim, depois de uma breve reunião de meia hora no quarto de Allyson, as duas visitantes de Nova Iorque declararam que estavam finalmente prontas para sair de casa.

Alexis saiu elegantíssima do quarto, envergando um saia-e-casaco Chanel de seda branca, sapatos e mala de verniz preto e um chapéu de palha, perfeitamente despropositado para a ocasião, mas muito bonito. A mãe de Page escolhera, por sua vez, um vestido de seda encarnada. O aspecto de ambas levava a crer que se haviam vestido para ir almoçar no Lê Cirque, em Nova Iorque, e não para uma visita à unidade de cuidados intensivos no Hospital Marin General.

— Estão as duas muito bonitas — comentou Page, amavelmente, antes de ligar o motor da carrinha. Ela usava as mesmas calças de ganga e os mesmos sapatos de há duas semanas; tirava-os apenas o tempo suficiente para lavar as calças e já usara todas as camisolas mais antigas. Escolhia-as por serem as mais quentes e as mais confortáveis para enfrentar as correntes de ar dos corredores do hospital, e além disso, havia duas semanas que não se importava minimamente com a sua aparência. Assim, ver a mãe e a irmã tão bem vestidas era para ela uma espécie de diversão, apesar de isso já não constituir nenhuma surpresa.

Durante o caminho, a sua mãe fez algumas observações sobre o clima primaveril daqueles dias e quis saber onde Page e Brad iriam passar as próximas férias. Sugeriu então que fossem passá-las a Nova Inglaterra, pois seria maravilhoso se decidissem alugar uma das bonitas casas de Long Island.

Page estacionou a carrinha no parque do hospital e indicou-lhes o caminho, desejando que elas tivessem permanecido em Nova Iorque, pois, de certa forma, a presença da mãe e da irmã ali assemelhava-se a uma intromissão. Allyson era neta e sobrinha das suas visitantes, mas apesar desse facto, Page sentia uma possessividade inexplicável em relação à filha, como se naquelas condições Ailie pertencesse exclusivamente aos seus pais e a ninguém mais. Page tinha consciência que esse sentimento não era muito correcto, mas Alexis e a mãe não mereciam ver a sua filha. Ao entrarem, as enfermeiras dos cuidados intensivos cumprimentaram-nas e Page conduziu-as em silêncio até junto da cama de Allyson. Observou então que a mãe, levemente trémula, se apoiava à estrutura metálica da cama, enquanto as suas faces se tornavam cada vez mais pálidas. Page apressou-se a ir buscar uma cadeira para a mãe, limitando-se a abanar a cabeça em silêncio, e em seguida, sentindo genuína compaixão por ela, colocou os seus braços ao redor dos seus ombros.

Quanto a Alexis, esta nem se atrevera a aproximar-se da cama da sobrinha, detendo-se à porta da enfermaria, de onde observava a cena.

Durante os dez minutos que a avó de Allyson passou à sua cabeceira, me e filha não pronunciaram uma só palavra, mas findo esse tempo, Maribelle consultou o relógio e observou com preocupação a filha mais velha, que, por baixo da maquilhagem, perdera toda a sua cor natural.

— A tua irmã não pode ficar muito mais tempo aqui — murmurou então. Page, ouvindo essa opinião da mãe, sentiu um enorme desejo de lhe responder que pensava o mesmo em relação à sua filha, mas manteve-se em silêncio. Por que motivo a mãe e a irmã só manifestavam preocupação e cuidado uma com a outra e com mais ninguém? Porque é que não conseguiriam sentir ou expressar um sentimento real e verdadeiro? Por um breve instante, a mãe tinha partilhado a sua dor, tinha-se apercebido do verdadeiro estado de Ailie, mas agora voltara a fugir da realidade, procurando refúgio em Alexis; fora sempre assim. A mãe nunca estivera disposta a compartilhar o seu sofrimento, apenas se interessara em salvar Alexis, sem sequer se aperceber de que Alexis sempre estivera perdida. Não existia ninguém a habitar aquele corpo tão bem cuidado; Alexis era apenas uma boneca de plástico, vestida com roupas caras e maquilhada com esmero absoluto.

Voltaram então para o corredor, e Maribelle colocou um braço à volta dos ombros da filha mais velha e não, como seria natural, dos de Page.

— Eu já não reparo na aparência dela... — comentou Page, desculpando-se. — É que passo tanto tempo com a Allie... não é que já esteja completamente habituada, mas pelo menos já não me surpreendo. Há dias, uma das professoras dela veio visitá-la, e também ficou muito impressionada. Desculpem. — Page observava a mãe e a irmã, sentindo-se mais uma vez desiludida com as suas atitudes, mas usando da mais absoluta sinceridade com elas.

— Na verdade, a Allyson pareceu-me muito bem — argumentou a sua mãe, ainda bastante pálida. — Dir-se-ia que vai acordar de um momento para o outro. — Na realidade, a julgar pela aparência de Allyson, dir-se-ia que ela estava já morta; a respiração artificial tornava o quadro ainda mais medonho, e era essa uma das razões por que Page ainda não permitira que Andy visitasse a irmã.

— Isso não é verdade — contrapôs Page com firmeza. — A aparência da AUie não podia ser pior e não precisamos de disfarçar esse facto. — Page não fazia tenções de continuar aquele jogo, mas a mãe limitou-se a tocar-lhe no braço com descontracção, afirmando:

— Vais ver que ela vai car bem. Tenho a certeza! Muito bem, agora... — Maribelle fez então uma pausa e fitou as suas filhas com um sorriso nos lábios, tentando apagar da mente a triste cena que se lhe deparara, e por fim, perguntou: — Onde é que vamos almoçar?

— Eu não tenciono sair daqui — respondeu Page com determinação, encarando-as com visível aborrecimento. Ela não estava ali apenas de passagem, nem tencionava passar o resto da semana a tomar chá e a jogar brídege com a mãe e a irmã. Se estas tinham vindo com o fim de visitar a sua lha, teriam que se responsabilizar pêlos seus actos. — Se quiserem, eu posso chamar um táxi, e vocês podem ir almoçar;

mas eu co.

— Ia ser bom para ti se saísses daqui um pouco Page. O Brad não passa todos os dias aqui, pois não?

— Não, mas passo eu. — Os lábios de Page comprimiam-se, denunciando o seu desagrado, mas nenhuma delas o notava.

— E quanto ao almoço em São Francisco? — perguntou a mãe, tentando-a, ao que Page respondeu apenas com um sinal negativo. Estava firmemente decidida a não as acompanhar.

— Vou chamar um táxi — anunciou Page, determinada.

— A que horas pensas estar de volta a casa?

— Primeiro ainda vou buscar o Andy e levá-lo depois a ver o treino de basebol, por isso devo chegar a casa por volta das cinco.

— Então vemo-nos a essa hora. — Antes de se ausentarem, Page entregou-lhes uma cópia da chave de casa, para o caso de as suas visitantes chegarem antecipadamente, emborã duvidasse muito de tal possibilidade. Tinha quase a certeza de que depois de almoço a mãe e Alexis certamente desejariam ir às compras.

Page dirigiu-se de novo para junto da filha e, durante a tarde, Trygve foi visitá-la. Ao vê-la sozinha, olhou em volta, tentando avistar a sua mãe e a sua irmã, pois julgara que iria finalmente ter a oportunidade de as conhecer.

— Onde estão elas? — indagou Trygve, confundido, enquanto Page abanava a cabeça, um pouco revoltada.

— A bela Alexis e sua mãe decidiram ir almoçar à baixa, e depois fazer umas comprazinhas...!

— Chegaram a ver a Allyson? — Trygve não escondia o seu espanto.

— Estiveram aqui durante dez minutos, até a minha mãe perder a cor e a minha irmã ficar maldisposta, e depois resolveram ir almoçar à cidade para esquecerem mais depressa o assunto. — Page estava ainda mal-humorada, apesar de ter plena consciência de que essa atitude fazia parte do comportamento habitual da sua família. Trygve não as conhecia, por isso era natural que não entendesse.

— Tenta não as julgar com tanta dureza. Sabes perfeitamente que não é nada fácil enfrentar um situação destas.

— Também não é fácil para mim, Trygve, e eu ainda aqui estou, apesar de me terem convidado para ir almoçar com elas.

— Talvez te fizesse bem — defendeu ele gentilmente. Page encolheu os ombros, certa de que, não as conhecendo, era impossível para Trygve entender o que se passava.

Após mais alguns minutos de conversa, Page foi buscar Andy à escola, levou-o ao treino de basebol e por fim regressou a casa. E tal como imaginara, Alexis e a mãe chegaram a casa às seis da tarde, carregadas com inúmeros sacos de compras, nos quais se incluíam um perfume para Page, uma camisola de marca francesa para Andy e um roupão rendado cor-de-rosa para Allyson; era evidente que na sua presente condição esta última não o poderia usar, mas nem a avó nem a tia compreenderiam esse facto.

— É muito bonito, mãe, obrigada — agradeceu Page, desistindo da ideia de explicar à mãe a total impossibilidade de Ailie usar aquela peça de roupa. Maribelle estava radiante:

haviam descoberto bons saldos na loja de um costureiro famoso num dos centros comerciais mais conhecidos da cidade.

— É incrível o que se consegue encontrar nesta cidade — comentou ela, completamente alheia à expressão de Page.

— É verdade — respondeu esta, fria e mecanicamente. Era como se o verdadeiro motivo que as levara a fazer aquela viagem tivesse sido esquecido.

Nessa noite Page voltou a preparar o jantar para todos eles, com excepção de Brad, que não foi a casa, nem telefonou. Page arquitectou uma desculpa para explicar a ausência do marido, mas mais tarde encontrou Andy sozinho no seu quarto, extremamente abatido. Sentou-se a seu lado em cima da cama, notando, agora que estava a sós com o filho, que a presença da mãe agravava ainda mais o seu próprio estado de nervos.

— Tu e o pai estão outra vez zangados, não é?

— Não, Andy — mentiu ela chegando à conclusão que enquanto o estado de Ailie não se alterasse, ela não poderia, de forma alguma, contar ao lho toda a verdade. Para Andy, entender o que se passava com a irmã já era o suficiente numa fase como aquela. — O teu pai está a trabalhar.

— Não, não é isso. Eu ouvi-te outra vez a gritar com ele... e ele também gritou contigo...

— É natural que, às vezes, as mães e os pais também se zanguem, lhote — respondeu Page, abraçando-o e beijando-lhe o cabelo, enquanto lutava contra as lágrimas.

— Mas dantes vocês nunca se zangavam. — E acrescentou em seguida: — O Bjorn disse-me que a mãe e o pai dele costumavam discutir muito, e que depois a mãe dele se foi embora. Ela foi viver para Inglaterra, e agora o Bjorn quase nunca a vê.

— O caso deles é diferente do nosso. — Mas Page já não tinha a certeza dessa diferença, pois na verdade os dois casos não eram assim tão distintos. — O Bjorn sente muito a falta da mãe? — indagou ela, com pena do filho de Trygve. Entender a ausência da mãe devia ser particularmente difícil para uma criança como Bjorn, cuja capacidade mental era limitada.

— Não — respondeu Andy, sem rodeios. — Ele diz que a ãe era má para ele; o Bjorn gosta mais do pai. Eu também gosto do pai dele — comentou Andy, acrescentando:

— É muito simpático. — Page concordou, mas quando Andy a fitou com os olhos cheios de lágrimas, ela sentiu-se estremecer. — O pai também vai para Inglaterra, mãe...?

— Claro que não! — respondeu Page, aliviada por Andy não lhe ter pedido a sua opinião sobfe Trygve. — Por que motivo iria o teu pai para Inglaterra?

— Não sei, mas é o que o Bjorn diz que a mãe dele fez. Achas que o pai nos vai deixar? — Page sentiu vontade de poder explicar tudo ao filho, mas ainda não o podia fazer. De momento, tudo aquilo era já demasiado para Andy, demasiado para todos eles, aliás.

— Não, filhote, não vai. — Aquela era a primeira vez que Page lhe mentia, mas as circunstâncias forçavam-na a fazê-lo.

Depois de Andy adormecer, Maribelle perguntou a Page se esta se importaria de fazer um chá de menta para ela e se poderia também levar a Alexis um chá de camomila e uma garrafa de água mineral.

— Claro que não me importo — respondeu Page, disfarçando um sorriso. Eram ambas tão previsíveis: a cópia fiel da pérfida madrasta e da irmã da Cinderela! E esse último papel, é claro, era ela própria quem o desempenhava...

 

Os restantes dias da semana decorreram de forma idêntica aos anteriores: durante as aulas de Andy, Page ficava no hospital, enquanto a mãe e a irmã continuavam a percorrer as principais lojas e centros comerciais de São Francisco. Visitaram as boutiques de Hermes, Chanel, Tiffany, Carrier, Saks e I. Magnin; frequentaram o salão de cabeleireiro de Mr. Lee, e costumavam almoçar no Trader Vic's, no Postrio, ou noutro restaurante do centro. E de dois em dois dias conseguiam iniciar os seus preenchidos planos diários com uma visita de dez minutos ao hospital.

Após a primeira visita, Alexis queixou-se de que os sintomas iniciais da sua constipação ameaçavam voltar a incomodá-la, e, por isso, alegando não querer complicar ainda mais o estado de Allyson, decidiu permanecer no corredor durante o período das visitas. No entanto, a mãe de Page continuou a frequentar corajosamente a secção de cuidados intesivos, onde conversava alegremente com Page durante quatro ou cinco minutos. Na maioria das vezes, referia o plano que tinham efectuado para aquele dia e tentava convencer Page a acompanhá-las. No fim da semana, exprimiu então o desejo de convidar Page e o marido para jantar fora.

Page tentou comunicar esse convite a Brad numa das raras ocasiões em que o encontrou durante a semana, numa sexta-feira à tarde. Começava já a interrogar-se sobre a possível data em que as duas visitantes decidiriam regressar a Nova Iorque, pois a presença destas últimas em sua casa era muito desgastante para ela. Além disso, Brad utilizava a visita da mãe e da irmã de Page como pretexto para estar cada vez mais ausente. Durante toda a semana, não fora jantar a casa, regressando sempre depois da meia-noite e saindo quando todos ainda dormiam. Numa dessas noites, sem mesmo ter avisado, nem sequer viera dormir a casa.

— A minha mãe quer levar-nos a jantar fora — explicou Page a Brad, esforçando-se para não perder a calma, e para não referir as ausências cada vez mais frequentes do marido.

— Para ser franca, não tenho a certeza se vou ser capaz de suportar um jantar nestas condições.

— Desta vez, a tua mãe pareceu-me mais razoável.

— Ah, sim? — retorquiu ela, ironizando. — E quando é que chegaste a essa conclusão? Nos quatro minutos em que carregaste a bagagem dela para o quarto...? Como é que tiveste tempo para observar a mudança no temperamento da minha mãe, Brad? Não sei se reparaste, mas eu própria já não te via desde domingo.

—Por favor, Page... não recomeces! Como é que querias que eu agisse? Que não saísse de perto da tua mãe? Ela veio para ver a Ailie, não foi? — Esse era um dos aspectos que ele próprio começava também a descurar, desculpando-

-se com o facto de ter muito trabalho.

— Não, Brad, ela não veio para ver a Allie — respondeu Page, num tom de voz bastante amargo. — Veio para ver as novas colecções da Chanel, da Hermes e da Cartier; e até agora, tem passado uns dias muito agradáveis em São Francisco.

— Talvez também as devesses ter acompanhado — desafiou ele.— Estarias certamente mais bem disposta; e até talvez, quem sabe, começasses a adquirir algumas semelhanças físicas com a tua irmã... — Ao nalizar esta frase, Brad sentiu-se imediatamente arrependido de a ter pronunciado, mas era já tarde de mais para se desdizer.

Page emitiu uma gargalhada sarcástica e respondeu:

— No corpo da minha irmã não resta nem uma parte que não seja de plástico, e se é isso que tanto te seduz então, por mim, podes apreciar à vontade essa nulidade artificial. — A resposta fora bem aplicada, mas nem por isso Page se sentia menos magoada pelo comentário do marido. Ela passara cerca de três semanas à cabeceira da filha, e apesar de ter consciência do seu aspecto físico pouco cuidado, Page não tinha tempo, energia, nem vontade de aparentar algo que não sentia. A sua aparência física, de momento, era aquilo que menos a preocupava, pois tudo o que de facto desejava era que Allie acordasse do seu sono prolongado.

Por fim, Brad acabou por concordar em jantar nesse sábado com a família de Page, como de facto veio a suceder. Decidiram ir ao Fairmont, que ficava no centro da cidade, mais precisamente no bairro de Mason. Page prendeu o seu espesso cabelo louro, escolheu um vestido preto muito simples, e, apesar do comentário de Brad, decidiu não usar nem sequer a mais leve pintura. A sua aparência revelava exactamente aquilo que sentia: desinteresse e tristeza. Alexis, por sua vez, usava um vestido de seda branca assinado por Givenchy que evidenciava a sua silhueta elegante e cujo generoso decote revelava os seus mais recentes implantes.

— Estás linda! — elogiou Brad amavelmente, ao que Alexis respondeu com um largo sorriso. Todavia, era fácil verificar que da parte dela não existia o mais pequeno indício de sedução ou de interesse, pois preocupava-se apenas com a sua aparência; manter uma boa forma e vestir roupas bonitas eram as suas duas únicas motivações, as quais o seu marido aceitava e compreendia. Quem ocupava aquele vestido branco não era uma mulher, mas somente um corpo cuidad), e um rosto de feições harmoniosas, perfeitamente maquilhadas.

Durante o jantar, Alexis e a mãe admitiram a hipótese de prolongar a sua estada por mais uma semana, o que foi o bastante para inquietar ainda mais o espírito atribulado de Page. Durante sete dias, ela aceitara e cumprira todos os seus desejos: levara-lhes chá de camomila, chá de menta, água mineral e gelo; preparara-lhes diariamente o pequeno-almoço, o almoço, o jantar, trouxera-lhes sempre que pediram lençóis lavados ou mais almofadas, e chegara mesmo a sair de propósito para comprar um cobertor eléctrico para a mãe. Nenhuma das visitantes se levantara para atender o telefone, nem sequer para se servirem de um copo de água, e nenhuma conseguia entender o funcionamento dos aparelhos de televisão dos seus quartos; além do mais, nenhuma estabelecera um contacto mais íntimo com Andy. Resumindo, eram ambas totalmente dependentes e inúteis.

Além do mais, ao longo de toda a semana tinham visitado Allyson num total de três vezes, visitas essas que, no seu conjunto, se reduziriam a menos do que quinze minutos. Tudo acontecera precisamente conforme Page previra.

—Julgo que seria melhor regressarem depois do fim-de-semana — afirmou Page co determinação. Contudo, a mãe mostrou-se horrorizada com semelhante ideia e contrapôs imediatamente:

— De forma alguma te iríamos deixar sozinha com a Allyson no hospital. — Tal resposta deixou Page sem palavras.

A atitude de Brad para com a mãe e a irmã de Page foi particularmente agradável nessa noite, em especial para Alexis, que pouco ou nada comentou. Já de regresso a casa, quando mais ninguém os ouvia Brad comunicou então à mulher que iria sair.

— Às onze da noite...? — Page ficou abismada, mas sabia que já o deveria admitir com facilidade. Brad estivera ausente toda a semana, e daí se poderia concluir que essa se havia tornado a sua conduta habitual. Nos últimos quinze dias, toda a estrutura do seu casamento se havia desmoronado de uma forma tão óbvia que Page se limitava agora a fitá-lo em silêncio.

— Tenho muita pena, Page — tentou ele explicar. — Mas sinto-me como se estivesse entre a espada e a parede.

— E natural — concordou ela, não deixando porém de acrescentar: — Tal como a AUie.

— Isto não tem nada a ver com a Allie. — Mas ambos sabiam que toda aquela situação estava relacionada com a presente condição da filha. O acidente levantara um muro entre os dois, e tornava-se cada vez mais óbvio que esse obstáculo não iria ceder.

Page encaminhou-se então para a casa de banho, e quando saiu Brad já não estava em casa. Decidiu deitar-se, mas ficou acordada durante muito tempo, pois ultimamente tinha cada vez mais dificuldade em adormecer. Pensou em telefonar a Trygve, mas não lhe pareceu uma atitude muito correcta, já que continuava a defender que não deveria recorrer a este como último recurso.

Na manhã seguinte, enquanto tomavam o pequeno-almoço, Maribelle felicitou a filha pelo óptimo marido que escolhera, mas esta nada disse e limitou-se a beber o café. A mãe afirmou ainda que Brad se havia tornado um homem muito bonito e um bom marido.

Page partiu para o hospital sozinha, apesar dos protestos de ambas. Temiam que surgisse algum problema na ausência de Page, e que não o soubessem ultrapassar.

— E se o Andy precisar de ir à casa de banho? — indagou a mãe de Page em pânico. Era difícil acreditar que Maribelle havia sido casada com um médico, criara duas filhas e, apesar disso, continuava ainda tão pouco habituada a lidar com crianças.

— Mãe, o Andy já tem sete anos, pode perfeitamente ir sozinho à casa de banho. Se quiserem, ele pode até ajudar-vos a preparar o almoço. — O facto de o seu filho de sete anos ser possuidor de um comportamento muito mais adulto do que a sua mãe e a sua irmã não podia deixar de diverti-la.

Nessa tarde Page conversou bastante tempo com Trygve, e admitiu que se sentia muito farta daquela situação e também muito desanimada. Ele pôde facilmente concluir que a visita da mãe estava a agravar ainda mais o desalento de Page.

— O que é que se passa em relação à tua mãe, que tanto te incomoda? — indagou Trygve, confundido pelas formas distintas com que Page se referia à mãe e à irmã: umas vezes com humor e ironia, outras com profundo desânimo e cansaço.

— Tudo nelas me incomoda: aquilo que são e o que não são, aquilo que fazem e o que deixam de fazer. Não são pessoas válidas, nem humanas, e detesto ser obrigada a recebê-las em minha casa, tê-las perto de mini ou dos meus lhos.

— Estás a exagerar Page. — Trygve espantava-se pela firmeza e determinação com que Page afirmava a sua opinião sobre a mãe e a irmã, e supôs assim que algum acontecimento passado a deveria ter levado a formar uma opinião tão negativa a respeito delas.

— Foi para me afastar de todos eles que decidi vir viver para a Califórnia. Bem, na verdade, o principal motivo que me levou a vir foi o Brad, mas tenho a certeza de que, mais tarde ou mais cedo, teria abandonado Nova Iorque. Não queria continuar a viver perto deles, e ter a oportunidade de vir morar para aqui foi a solução ideal. — Tinha sido esse um dos motivos por que havia aceitado o pedido de casamento de Brad, o que, na altura, lhe parecera uma opção perfeitamente acertada, apesar da sua presente e inesperada situação familiar. — Mas agora o Brad está a agir de forma cada vez pior, e eu sinto que o meu cansaço vai aumentando. O comportamento dele ainda me abala muito e perturba o equilíbrio do Andy, o que é muito injusto.

— Eu sei — respondeu ele, pausadamente. — O Andy desabafou com o Bjorn da última vez que esteve lá em casa. Comentou que desde o acidente vocês os dois discutem muito, e disse também que suspeita que a irmã esteja mais doente do que tu queres fazer parecer.

— A minha mãe tem vindo a dizer-lhe que a Alhe vai recuperar depressa e isso deixa-me doente!

Observando-a, Trygve concluiu que Page estava, de facto, muito fatigada, perto mesmo da exaustão. Três semanas a viver aquela ansiedade e agonia era demasiado tempo para as forças de qualquer um, e agora tornava-se evidente que era demasiado para a resistência de Page.

— Talvez fosse bom a tua mãe e a tua irmã regressarem a casa. — Tudo tinha limites, especialmente se era aquele o eferto que a presença delas produzia em Page, mas Trygve não estava na posição mais indicada para a auxiliar. De forma alguma poderia tentar influenciar a família dela a partir, pois não passava de um amigo invisível, de cuja existência a mãe e a irmã de Page nem sequer suspeitavam.

— Foi o que eu lhes disse ontem à noite, mas a minha mãe respondeu que de forma alguma me poderia deixar sozinha. — Perante o absurdo daquela afirmação, Page não pôde deixar de emitir uma gargalhada, enquanto Trygve colocava o braço em redor dos seus ombros, para a beijar em seguida.

— Lamento muito que tenhas de passar por tudo isto. A situação de Alhe já era suficiente sem mais nenhuma complicação...

— Não sei, mas começo a pensar que precisava de passar por uma prova como esta... no entanto, sinto que estou a falhar — confessou Page com lágrimas nos olhos. Trygve puxou-a suavemente para si e beijou-a de novo, ali num dos cantos da sala de espera da unidade de cuidados intensivos, onde ninguém os poderia ver.

— Pois pens  que estás a conseguir um resultado muito bom nesta prova, melhor do que um «Excelente»!

— Vê-se bem que não tens assistido à maior parte das discussões lá em casa... — respondeu ela, assoando o nariz. Depois, encostou a cabeça ao peito de Trygve e fechou os olhos, desejando que a sua situação se modicasse dentro em breve. — Sinto-me tão cansada... Trygve, quando será que esta fase vai acabar? — De momento, não poderia prever-se um final rápido para os problemas de Page, e ambos tinham plena consciência desse facto.

— Daqui a um ano vais poder relembrar tudo isto e pensar como é que conseguiste sobreviver.

— Será que as minhas forças vão ser suficientes para chegar até lá? — perguntou Page, grata por se poder apoiar em Trygve. Então, com uma voz firme e suave, ele apertou-a mais nos seus braços e afirmou:

— Estou a contar com isso, Page... e tal como eu, outras pessoas também estão. — Ela preferiu não dizer mais nada e caram os dois abraçados em silêncio, até Page ter de voltar para perto de Ailie.

Quando regressou a casa, a meio da tarde Page recebeu o telefonema de uma amiga que vivia no centro de São Francisco, com quem já não falava há vários meses. Há dois anos atrás, Ally son e a lha dessa amiga tinham frequentado juntas aulas de dança, e embora as suas filhas não se tivessem tornado amigas íntimas, simpatizavam muito uma com a outra. Como tal, a mãe da amiga de Allyson, sabendo do que se passara, vinha oferecer-se para ajudar naquilo que fosse necessário, apesar de Page lhe garantir que não havia nada que ela pudesse fazer.

— Promete-me que se precisares de algum tipo de ajuda me avisas — insistiu ela, denunciando em seguida uma leve hesitação na voz. — A propósito, o que é que se passa entre t e o Brad? Vocês estão a pensar em... divorciar-se?

Page não pôde deixar de ficar chocada com semelhante pergunta.

— Não. Porque é que perguntas? — Todavia, Page pressentiu com ansiedade que a mulher estava a par do que se passava. Era evidente, a julgar pela forma como a interrogara acerca do seu casamento.

—Talvez eu não te devesse contar nada... mas vejo-o aqui quase todos os dias acompanhado por uma rapariga muito nova... ela deve ter pouco mais de vinte anos. A primeira vez que a vi, julguei que fosse alguma amiga da Allyson, mas depois apercebi-me de que era um pouco mais velha. Ela vive no prédio ao lado do meu, e cheguei a pensar que o Brad se tinha mudado para cá. Esta manhã, vi-os a fazer jogging antes do pequeno-almoço. — Que vida agradável o seu marido levava E que agradável era para ela ver-se confrontada com tais perguntas indiscretas! Aquela comunidade não era muito grande, e agora os vizinhos começavam a vê-lo na companhia dessa rapariga... da idade de Ailie? Não podia ser! Ao explicar à sua pretensa amiga que essa rapariga se tratava apenas de uma boa amiga, com a qual o marido elaborava vários projectos profissionais, muitas vezes fora do horário de expediente Page sentiu-se envelhecer dez anos.

Possuía plena consciência de que não tinha conseguido convencer a mãe da amiga de Allyson, mas não estava disposta a admitir perante ninguém que o marido andava, de facto, envolvido com outra pessoa. No entanto, não pôde reprimir a fúria que sentiu ao desligar o telefone; essa mulher não podia ter-lhe telefonado para lhe relatar as suspeitas que alimentava em relação ao seu marido! Era uma atitude muito baixa e devia ter suspeitado com que intenção ela telefonara, mal lhe perguntara se não estava a pensar divorciar-se.

— Como estava a Allyson? — indagou Maribelle, ao entrar na cozinha.

— Como sempre — respondeu Page, ainda ausente. — Como é que correu a tarde com o Andy? Indicou-lhe a casa de banho? — perguntou ela sorrindo, fazendo a mãe rir.

— Ele sabia onde era. É um rapaz muito bem educado. Até nos serviu o almoço no jardim! — É claro que a mãe e a irmã não podiam levar a cabo uma só tarefa doméstica, mesmo que fosse em proveito próprio.

Page encontrou Andy a brincar sozinho no seu quarto, mas assim que avistou a mãe, parou o que estava a fazer. Ao detectar nos olhos do filho a tristeza e a ansiedade que o afligiam, Page sentiu mais uma vez um aperto no coração. As suas vidas tinham sofrido uma tremenda modificação no espaço de três semanas, e nenhum deles tivera ainda tempo para se adaptar a essa mudança repentina. Todos eles se comportavam como náufragos no meio de um mar de problemas. Page sentou-se então em cima da cama de Andy e, estendendo uma mão para o filho, perguntou-lhe:

— Como é que a avó se comportou?

—Ela é engraçada... — respondeu ele, sorrindo. Vendo-o sorrir de novo Page sentiu uma vontade enorme de o abraçar e de o proteger. — A avó não sabe fazer nada. E a tia Alexis também não pode, porque tem as unhas muito compridas;

nem consegue abrir uma garrafa de água! A avó até me pediu para dar corda ao relógio dela, porque não via bem e não conseguia encontrar os óculos. — Page concluiu que Andy já as conhecia bem. Seguidamente, fitou a mãe com uma expressão de ansiedade no olhar e indagou: — Onde está o papá?

— Está a trabalhar — mentiu Page.

— Mas hoje é domingo. — Andy era inteligente e apercebia-se de que a mãe lhe escondia algo.

— O teu pai trabalha muito. — «De que maneira», pensou Page, tentando disfarçar a revolta que sentia.

— Ele vem jantar a casa?

— Não sei — respondeu ela com honestidade. Andy resolveu então sentar-se ao colo da mãe,  que proporcionou a esta a oportunidade de o abraçar. Sentia um enorme desejo de armar ao filho que o seu amor por ele nunca se alteraria, acontecesse o que acontecesse com o seu pai, mas sabia que não podia ir tão longe, por isso limitou-se a assegurar a Andy que o amava muito.

Page decidiu então adiantar o jantar, e passados alguns minutos, Brad chegou inesperadamente a casa, proporcionando um ambiente muito agradável. Ofereceu-se para preparar um churrasco para o jantar, e mostrou-se calmo e gentil. Sempre que podia, evitava cruzar o seu olhar com o de Page, mas em contrapartida, esforçou-se para ser amável com a mãe desta e pediu a Andy que o ajudasse a grelhar os hamburers, os bifes e o frango. Alexis informou-os de que nesse dia não poderia comer carne, e pediu a Andy que lhe abrisse outra garrafa de água mineral.

Foi apenas quando Page se encontrou a sós com o marido que teve finalmente oportunidade de lhe relatar o telefonema que recebera nessa mesma tarde.

— Ouvi dizer que esta manhã, antes do pequeno-almoço, foste fazer jogging. — De início Brad manteve-se em silêncio, limitando-se a fitá-la, perplexo, pois nunca lhe ocorrera que alguém a informasse das suas actividades.

— Quem é que te contou isso? — perguntou então ele, furioso, sentindo-se extremamente culpado.

— O que é que isso importa Brad?

— Importa muito, porque não tens nada a ver com aquilo que eu faço ou deixo de fazer, percebes? — respondeu ele, fora de si.

— Não te esqueças de que não é apenas a tua vida que está em jogo... estão também as vidas dos nossos filhos e a minha! Julgas que o Andy não sabe o que está a passar-se? Olha bem para ele e repara se eleja não sabe toda a verdade! É claro que sabe! Todos nós sabemos...!

— O que é que foste fazer Page? Contaste-lhe o que se passa, foi? Isso não te posso perdoar! — Brad largou violentamente os utensílios com que grelhava a carne, e correu para casa, enquanto Page tentava recolher o que ele deixara cair no chão. Encontrava-se de tal forma perturbada, que acabou por queimar a mão no grelhador, e Andy, vendo que a mãe se magoara, correu então a chamar o pai. Ele chorava copiosamente, de novo assustado com mais uma discussão dos pais, que dessa vez ocasionara uma queimadura na mão da mãe. Andy não queria que a mãe se magoasse, nem desejava que os pais continuassem zangados, e além do mais, ouvira-os mencionar o seu nome durante a discussão. Talvez os pais üvessem discutido por sua culpa... talvez o pai esüvesse zangado por ser Ailie quem estava no hospital e não ele. Alimentando este tipo de pensamentos, quando o pai recomeçou a grelhar a carne e puderam finalmente iniciar o jantar, Andy continuava triste e confuso. Sentados à mesa, tanto os donos da casa, quanto o seu filho se encontrava extremamente silenciosos e cabisbaixos, mas, como de costume, Maribelle e Alexis pareciam alheias a esse facto.

— És um especialista em grelhados, Brad! — elogiou Maribelle. A carne estava, de facto, deliciosa, mas o ambiente daquela refeição não podia ser menos agradável. — Devias experimentar estes bifes, Alexis... Estão uma autêntica maravilha! — Alexis, no entanto, limitou-se a abanar a sua cabeleira loura, plenamente satisfeita com uma ou duas folhas de alface, enquanto Page e Andy terminavam com dificuldade a carne que tinham nos pratos. Esta última tinha ainda um cubo de gelo em tomo dos dedos que queimara no grelhador, nos quais se formara já uma enorme bolha.

— Dói-te a mão, mãe? — perguntou Andy, preocupado.

— Não, querido, está tudo bem. — Durante o jantar, Brad não abriu a boca, nem encarou uma só vez a mulher. Estava convencido de que Page contara a Andy que ele mantinha um caso com outra mulher, e a sua fúria era tanta que sentia vontade de a esbofetear. Enquanto arrumavam a louça, Brad não se conteve, e acusou novamente Page de ter colocado Andy a par do que se passava; mas nenhum dos dois reparou que Andy se encontrava também na cozinha, oculto na outra extremidade do balcão.

— Contaste-lhe, não foi? Não tinhas o direito de fazer isso, Page!

— Eu não lhe contei nada! — retorquiu Page, também ela elevando o tom da sua voz. — Não seria capaz de o afligir dessa maneira! Mas talvez tu próprio lhe devesses contar... O que é que queres que ele pense das tuas ausências? E já pensaste que alguém lhe pode contar, assim como me contaram a mim...?

— Ele também não tem nada a ver com isso!!! — gritou Brad, batendo violentamente com a porta da cozinha e deixando-a lavada em lágrimas. Page tentou então continuar a guardar os pratos do jantar, enquanto Brad regressava ao jardim para arrumar o grelhador, e Maribelle se decidia a vir ao encontro de Page.

— O jantar não podia ter sido melhor, querida. Estes últimos dias têm sido maravilhosos. — Page ficou paralisada a olhar para a mãe, sem saber ao certo o que poderia responder a uma afirmação daquelas. Embora ainda se espantasse com as atitudes da mãe, sabia perfeitamente que a sua família sempre fora caracterizada por um grande surrealismo.

— Ainda bem que gostaram do jantar; o Brad tem muita habilidade para cozinhar. — Talvez até fosse possível que, no futuro, quando Brad já estivesse casado com Stephanie, ele pudesse voltar para lhes proporcionar um jantar como o dessa noite.

—Vocês dois formam um casal maravilhoso...! — comentou Maribelle, encantada, sorrindo para a filha, que finalmente se decidiu a pousar a pilha de pratos em cima da mesa para encarar de frente a mãe.

— Para ser sincera, mãe, o nosso casamento não vai nada bem. Como aliás vocês já devem ter reparado.

— Não demos por nada. É claro que se nota que vocês estão os dois preocupados com a Allyson, mas isso é perfeitamente natural. Tenho a certeza de que dentro de umas semanas tudo vai voltar a ser como era antes. — Admitir algo que fugisse à norma já era uma atitude extraordinária para a mãe de Page.

— Eu não estaria tão segura. — Subitamente, Page decidiu contar à mãe toda a verdade. Que teria ela a perder? Se a mãe não gostasse de a ouvir, decerto fingiria que não tinha entendido bem. — O Brad está envolvido com uma outra mulher, e neste momento estamos a passar por uma fase muito difícil.

Contudo, a sua mãe limitou-se a abanar a cabeça, recusando-se a acreditar em semelhante blasfémia.

— Tenho a certeza de que estás enganada a esse respeito, querida. O teu marido nunca seria capaz de agir desse modo, nem de pôr em risco o vosso casamento.

— Não estou enganada, mãe — assegurou Page tenazmente, empenhada em fazê-la acreditar.

— Todas as mulheres passam por isso, mas, no teu caso, é muitíssimo natural que acredites, porque estás bastante preocupada com o problema da Allyson. — «Qual "problema"...? O "problema" da minha filha estar há três semanas em coma profundo e em permanente risco de vida? Ah, sim, esse "problema"...» — Sabes que eu e o teu pai também tivemos algumas discussões, embora nunca fosse nada de grave. Tens de tentar ser um pouco mais condescendente Page. — Esta fitava a mãe, verdadeiramente perplexa, sem poder acreditar naquilo que ouvia. Tinha concordado em não discutir aquilo que sucedera na sua família, mas não estava disposta a fingir que nada de grave se passara.

— Não posso acreditar no que está a dizer, mãe — respondeu Page, co a voz rouca.

— Mas é verdade. Por mais incrível que pareça, eu e o teu pai passámos por alguns momentos difíceis.

— Mãe, é comigo que está a falar... com a sua filha Page... não se lembra daquilo por que passámos?

— Não sei do que estás a falar — afirmou Maribelle, voltando-lhe as costas e preparando-se para sair da cozinha.

— Não faça isso! — pediu Page, chorando enquanto tava a mãe. — Não se atreva a fazer-me uma coisa dessas, depois de todos estes anos! Pare de contar essas mentiras piedosas, que não enganam ninguém a não ser vocês as duas! «Algumas discussões...» Lembra-se do homem com quem casou? Como é que me pode dizer uma coisa dessas...? Olhe para mim, mãe!!!

A sua mãe voltou-se vagarosamente e tou Page co uma expressão ausente, como se fosse incapaz de entender a revolta que de súbito dominara a lha. Entretanto, Brad entrou na cozinha, e apercebeu-se do que ali se passava, ao ver a expressão perturbada de Page.

— Talvez fosse melhor discutirem isso noutra altura — aconselhou ele calmamente.

Page encarou-o, furiosa, e exclamou:

— Não te atrevas, tu também, a vir dar-me conselhos sobre o que eu devo ou não fazer! Além de ter de suportar o facto de não conseguires conter os teus instintos sexuais, mesmo estando casado comigo, ainda queres que suporte mais isto...? Não vou permitir que ela me volte a enganar desta forma! — Page voltou-se novamente para a mãe e continuou: — Não volte a usar estas mentiras comigo... a mãe permitia que ele zesse o que queria e ainda o ajudava...!

Deixava-o entrar no meu quarto, fechava a porta e dizia-me que eu «tinha que fazer o papá feliz»...! Eu tinha só treze anos, mãe! Treze anos...! E a mãe obrigava-me a dormir com o meu pai...! A Alexis também nunca me ajudou, apesar de ele fazer o mesmo com ela desde os doze anos... mas cou demasiado aliviada por ver que ele me preferia a mim e a deixava a ela em paz! Como é que tem coragem de fingir que isto nunca aconteceu? Dê-se por muito contente por eu ainda a querer ver e não me importar de a receber em minha casa...!

Maribelle continua a fitar a filha, muitíssimo pálida. Brad observou então que a sogra tremia. Por fim, esta murmurou:

— Estás a fazer acusações muito graves Page. Sabes bem que tudo isso é mentira. O teu pai nunca agiria desse modo.

— Mas tanto ele como a mãe agiram exactamente desse modo — respondeu Page, voltando as costas a ambos e soluçando apoiada no balcão da cozinha. Brad manteve-se parado no mesmo sítio, sem coragem de se aproximar da mulher. Então, esta voltou-se de novo para a mãe, e num ímpeto de coragem, afirmou: — Foram precisos muitos anos para que eu recuperasse de tudo aquilo que vocês me fizeram... e até poderia aceitar tudo de outro modo, se a mãe alguma vez me tivesse pedido desculpas ou tivesse tentado falar comigo sobre esse assunto... Mas como é que pode tentar fingir que nada nunca aconteceu...?

Alexis apareceu então à porta da cozinha, sem se aperceber da tremenda discussão que ali se passava. Tinha estado no quarto a falar ao telefone com o marido.

— Page, importavas-te de me fazer um chá de camomila? — pediu ela docemente à irmã, que se encostou ao balcão e emitiu um gemido de incredibilidade.

— Vocês são as duas inacreditáveis! Passaram tantos anos a tentar fugir da realidade, que agora já não são capazes de a enfrentar. Vocês são tão inúteis que nem sequer uma garrafa de água conseguem abrir! Como é que se conformam a viver assim?!

Alexis, subitamente aterrorizada, olhou para cada um dos presentes e murmurou:

— Desculpem... eu só queria... não tem importância...

— Toma! — exclamou Page, projectando uma garrafa de água na sua direcção. — A mãe acabou de me assegurar que o pai nunca se meteu nas nossas camas quando éramos pequenas. Lembras-te, Alex? Ou será que também ficaste amnésica? Lembras-te de quando me empurraste para ele, para que o pai te deixasse finalmente em paz? Lembras-te...? — Page fez uma breve pausa e fixou alternadamente o olhar da mãe e da irmã. — Ele continuou até eu ter dezasseis anos e ameaçar que chamava a Polícia, algo que nenhuma de vocês duas teria a coragem de fazer. Como é que puderam fechar os olhos a uma coisa dessas? Como é que tiveram coragem de o ajudar? — Nessa altura Page já não era capaz de conter os soluços. — Nunca consegui entender essa vossa atitude. — Agora que era mãe, ainda se tornara mais difícil entender essa forma de agir. Quanto a Brad, este não podia deixar de se sentir horrorizado com o desabafo da mulher; sempre conhecera a verdade sobre a infância de Page, mas nunca a ouvira discutir esse facto com a mãe, nem sequer a ouvira referir-se ao tema com tanta clareza.

— Como é que tens coragem de acusar o pai de uma atitude dessas? — indagou então Alexis, chocada. — O pai era médico!

— Pois era — respondeu Page, chorando. — Eu também costumava pensar que isso teria alguma importância, mas afinal não teve nenhuma... Depois do que aconteceu, levei muitos anos para conseguir entrar num consultório médico. Tinha medo que pudesse voltar a ser molestada ou violada...! Nem mesmo quando estive grávida consegui ir regularmente ao médico. Tinha sempre receio que acontecesse alguma coisa! Mas não há dúvida de que o nosso pai era uma óptima pessoa: um homem maravilhoso e um médico de muita qualidade!

— Ele era um santo — afirmou Maribelle Addison, defendendo aquele que havia sido seu marido. — E vocês sabem disso. — Entretanto, Alexis aproximara-se instintivamente da mãe, e as duas mulheres estavam já enlaçadas. Tornava-se cada vez mais evidente que nunca estariam dispostas a admitir o que sucedera.

— Sabem o que mais me entristece? — questionou Page, encarando-as. — É que, depois do que se passou, tu desapa receste, Alex. Casaste com o David quando tinhas dezoito anos, e para não teres que continuar a ser a mesma mulher, resolveste adquirir outra identidade: um rosto novo, um peito novo, uns olhos diferentes, enfim, tudo diferente...! Assim, podias ser uma outra pessoa e era mais fácil fingir que aquilo nunca tinha acontecido. — Alexis não emitiu um som. O discurso da irmã representava uma grande ameaça para ela.

— Page... — chamou Brad com suavidade, lamentando aquela discussão; ultimamente Page passara por provas demasiado duras. — Não te martirizes mais.

— E porque não? — retorquiu ela, voltando-se para o marido. — Eu não consigo fingir que nada daquilo aconteceu, como elas fazem; mas talvez devesse ter essa mesma atitude em relação a ti... fingia que estava tudo bem entre nós e não reparava que todas as noites tens frequentado outra cama! Que vida tão facilitada nós teríamos! Mas sabes bem que eu preferiria desistir de viver a desempenhar esse papel, Brad! Não vivi todos os anos da minha vida, nem sofri o que sofri, para agora fazer de conta que acredito numa série de mentiras mal forjadas...!

— Tens de saber aceitar que existem pessoas que não sabem ser tão sinceras como tu — disse Brad, melancólico.

— Infelizmente, é exactamente isso o que eu tenho vindo a fazer.

— Essas pessoas necessitam de se refugiar nas suas fantasias.

— Mas eu não sei viver desse modo Brad.

— Eu sei — respondeu ele, devagar, acrescentando: — Foi um dos motivos por que me apaixonei por ti. — Todavia, apesar da sinceridade, ele referia-se ao passado, e Page tinha consciência desse facto.

A sua mãe e irmã tinham, entretanto, conseguido escapar da cozinha. Brad observava a mulher, que entretanto se tentava acalmar.

— Sentes-te bem? — Ele estava sinceramente preocupado com Page, mas tinha consciência de que não lhe podia oferecer aquilo de que ela necessitava; era isso que sentia, e pelo menos dessa vez estava a agir de acordo com os seus sentimentos.

— Não sei ainda — respondeu ela. — Julgo que estou mais aliviada, agora que já disse tudo o que sinto. Nunca percebi se a minha mãe prefere negar a verdade e fingir que acredita em todas aquelas mentiras, ou se mente apenas para defender o meu pai, tal como fazia no passado.

— Neste momento, descobrir isso já não vai adiantar nada. Sabes que a tua mãe nunca vai ser capaz de admitir a verdade, Page, e o mesmo sucede com a tua irmã. Por isso, não vale a pena esperar que isso algum dia venha a acontecer. — Page concordou. Apesar de ter sido um fim de tarde horrível, aquela discusso tinha de alguma forma contribuído para a libertar de um grande peso. Decidiu então ir sentar-se um pouco no jardim, sozinha, e daí a pouco resolveu ir ver a filha ao hospital; sabia que já era um pouco tarde, mas sentia um desejo súbto de estar com Allyson. Comunicou a sua resolução ao marido, e passado pouco tempo já se encontrava na unidade de cuidados intensivos, sentada junto da cama da filha. Desta vez, manteve-se em silêncio a seu lado, recordando tudo aquilo que Allyson fora antes do acidente que ocorrera havia cerca de três semanas. Page sentia já a falta da lha.

— Mistress Clarke, a senhora sente-se bem? — perguntou uma das enfermeiras do turno da noite. Page revelava uma palidez e um abatimento invulgares, sentando-se imóvel de olhar fixo na filha. Depois de tranquilizar a enfermeira, Page permaneceu ali sentada até Trygve vir ter com ela, cerca de meia hora mais tarde.

— Vim ver se estavas aqui — informou ele, num tom de voz suficientemente elevado para se sobrepor a todos os monótonos ruídos dos aparelhos ali presentes. — Não sei porquê, mas calculei que te encontrasses aqui; tenho estado a pensar em ti — concluiu ele, sorrindo. Só então reparou que os olhos dela estavam muito inchados; de facto Page aparentava um cansaço muito grande e dava mostras de ter estado a chorar. — Estás bem?

— Nem por isso... — respondeu ela, encolhendo os ombros e esboçando um ténue sorriso. — Hoje à noite disse tudo o que estava a sentir.

— E sentes-te melhor?

— Não tenho bem a certeza, mas parece-me que não. Sei que não adiantou nada, mas, pelo menos, desabafei.

— Então talvez tenha valido a pena.

— Sim, talvez... — No entanto, não parecia muito segura, e Trygve voltou a notar que, de facto, a aparência de Page não podia ser mais esclarecedora: ela tinha atingido o limite das suas forças. Como Allyson permanecia nas mesmas condições, Trygve concluiu então que devia haver outra justificação para o estado de desânimo de Page.

— Vamos tomar um café? — Page encolheu novamente os ombros, mas seguiu-o. A enfermeira-chefe observava a cena, sentindo uma imensa compaixão por Page; passar por aquilo era uma provação terrível para uma mãe, e até àquele momento não existia o mais pequeno indício de que Allyson pudesse vir a recuperar. Ela detestava assistir a casos como aquele, tão penosos para todos, especialmente se os doentes eram crianças. Por vezes, em silêncio consigo mesma, a enfermeira chegava a admitir que, para um pai, seria preferível perder o filho a passar por todo aquele sofrimento escusado;

mas é claro que nunca admitiria isso perante nenhum pai naquelas circunstâncias.

Trygve ofereceu-lhe uma chávena de café, que acabara de retirar da máquina, e depois sentaram-se ambos na sala de espera da unidade de cuidados intensivos. Page mantinha-se em silêncio, o que aumentava ainda mais a preocupação de Trygve. Observando-a, reparou que os olhos dela pareciam agora maiores e mais azuis do que nunca.

— O que é que se passa? — indagou ele, suave e carinhosamente, enquanto Page tomava o primeiro gole de café.

— Não sei bem... talvez tenha atingido o meu limite: a AUie neste estado, o Brad... a minha mãe...

— Aconteceu alguma coisa? — Trygve pretendia apenas encontrar uma justificação para tamanho abatimento, mas Page não lhe fornecia muitas pistas. Apesar disso, queria muito poder ajudá-la.

— Nada que já não tenha acontecido antes. A minha ãe resolveu jogar mais uma vez às escondidas, tal como sempre faz, mas desta vez não me controlei e disse tudo o que pensava. — Page esboçou um sorriso, ligeiramente envergonhada. — Talvez não tenha procedido da melhor forma, mas não tive alternativa. Contei-lhe que eu e o Brad estávamos a passar por um problema grave, o que foi perfeitamente escusado, e ela então resolveu dar o exemplo do meu pai. — Page não sabia como contar a verdade a Trygve, e este receava fazer mais perguntas. — O meu pai e eu... — começou ela para logo de seguida fazer uma pausa com o fim de beber mais um pouco de café. — Nós... bem... tínhamos um relacionamento muito estranho. — Page cerrou as pálpebras, e começou a chorar. Na realidade, não tinha querido contar nada a Trygve, mas subitamente sentiu que o desejava fazer; queria usar da máxima sinceridade com ele, e tinha a certeza de que podia confiar a Trygve o maior dos segredos.

— Está tudo bem, Page. — Ele apercebia-se da gravidade da situação. — Não precisas de me contar mais nada.

— Não, mas eu quero contar-te — afirmou ela, fitando-o através de uma cortina de lágrimas. — Não tenho medo de te contar... — Respirou fundo e continuou: — Nós... ele... ele... o meu pai começou a assediar-me quando eu tinha treze anos... deitava-se comigo e... obrigava-me a ter relações sexuais com ele. Começou quando eu tinha treze anos e continuou durante muito tempo... até eu fazer dezasseis; e a minha mãe sabia de tudo. — Ao chegar a esse ponto, a voz de Page tornou-se ainda mais trémula. — Na verdade, ela obrigava-me a dormir com ele. Antes de mim, já tinha feito o mesmo à Alexis durante quatro anos, e a minha mãe tinha medo dele. Ele era uma pessoa doente, e costumava bater-lhe, por isso é que a minha mãe permitia que aquilo acontecesse; para ele não ser violento connosco, ela dizia que nós tínhamos que «fazer o nosso pai feliz»... costumava trazê-lo ao meu quarto e depois fechava a porta à chave... — Quando Trygve a tomou nos braços, Page soluçava.

—Meu Deus, Page... isso é horrível... é doentio. — Trygve teria morto quem quer que violentasse dessa forma sua filha.

— Eu sei. Foram precisos muitos anos para eu recuperar do trauma. Saí de casa quando tinha dezassete anos e trabalhei num restaurante para poder pagar a renda de urn apartamento. Na altura, a minha mãe acusou-me de estar a cometer um erro muito grave; disse que eu estava a trair a família, que lhe tinha causado um desgosto muito grande, que... Quando o meu pai morreu, cheguei mesmo a pensar que tivesse sido por minha culpa.

«Mais tarde, conheci o Brad em Nova Iorque, casámos e viemos morar para aqui. Comecei então a frequentar um bom psicólogo e consegui superar e ultrapassar esse trauma. Mas a minha mãe ainda finge que nada daquilo aconteceu... foi isso que ainda há pouco me fez perder o controlo; não consigo compreender essa reacção... aliás, nunca consegui entender... Como é que, sabendo tudo o que ele nos fazia, a minha mãe conseguia tratá-lo como se ele fosse uma pessoa normal? Hoje mesmo referiu-se ao meu pai como «um santo»! E isso é o que mais me revolta!

— Não admira que tenhas perdido o autodomínio — afirmou Trygve, grave e sério, que durante todo o discurso de Page lhe acariciou o cabelo e lhe segurou a mão, tal como ela costumava fazer com Allie. — Até me espanta que ainda te relaciones com a tua mãe e com a tua irmã.

— Durante muito tempo consegui manter-me afastada, mas agora, com o acidente da Allie, era muito difícil negar-lhes o direito de a verem. Eu sabia que não devia ter concordado com a vinda delas, mas penso sempre que vou conseguir utilizar o mesmo método que elas usam comigo; o grande problema é que nunca consigo! Todas as vezes que revejo a minha mãe, lembro-me sempre do ano em que fiz treze anos... ela não mudou nada... e a Alexis também não.

— Como é que ela conseguiu escapar?

— Quando o nosso pai me começou a procurar, deixou-a finalmente em paz. — Page suspirou e encostou a cabeça no peito dele, sabendo-se em segurança. — A Alexis casou com dezoito anos, tinha eu apenas quinze. Refugiou-se nos braços de um homem de quarenta anos, com o qual ainda hoje é casada e que nunca lhe exigiu nada em troca. Eu sempre desconfiei que o David é homossexual e que mantém o mesmo amante há anos; para a minha irmã, ele é apenas um pai. A reacção da Alexis foi transformar-se numa outra pessoa, com um novo nome e um rosto e um corpo diferentes. O David está sempre a operá-la e ela adora que ele o faça. Ela alia-se à minha mãe, tem o mesmo tipo de comportamento e também não se importa de fingir que nada daquilo aconteceu.

— A tua irmã alguma vez consultou um psicólogo? — Trygve estava intrigado; mesmo com a ajuda de um psicólogo, era surpreendente que Page tivesse resistido e ultrapassado uma adolescência tão traumatizante.

—Julgo que não. Se o tivesse feito, certamente não se importaria de mo comunicar; mas penso que se a Alexis tivesse feito psicanálise já seria capaz de admitir a verdade. Dessa forma, seríamos ambas sobreviventes do nosso pequeno holocausto... mas a minha irmã ainda permite que o antigo comportamento dos meus pais a domine. Eu penso que pouco ou nada restou dela: sofre de anorexia, bulimia e nunca foi mãe; quase nunca fala e limita-se a ser uma amostra do trabalho cirúrgico do marido, a causar boa impressão como sua mulher e a vestir roupas caras e bonitas. O David despende muito do seu dinheiro com ela, e isso é o bastante para a fazer feliz. — Page sorriu e concluiu depois: — Somos as duas muito diferentes.

— Também me parece; embora tu também causes muito boa impressão.

— Mas não como a Alexis. A maior preocupação dela é manter o rosto e o corpo impecáveis. Só come verduras, passa imensa fome, e está constantemente obcecada com a higiene e com a elegância.

— Se é assim, a tua irmã nunca superou o que se passou.

— É verdade — respondeu Page, melancolicamente. Sentia-se um pouco mais animada, agora que relatara a Trygve o seu segredo.

— Eu sabia que tinha de existir uma razão para não gostares da tua mãe e da tua irmã, se é que de facto não gostavás. É que eu não conseguia perceber se quando te referias a elas não estavas simplesmente a ironizar.

— Como já percebeste, estava a falar muito a sério, Trygve. Para mim, relacionar-me com a minha mãe e com a Alexis foi sempre um dilema: ou as via e me recusava a fugir da realidade de forma a preservar a minha sanidade mental, ou me conservava afastada delas. É mais fácil conservar-me afastada, mas nem sempre o consigo fazer. — Trygve abanava a cabeça, absorvido pela gravidade da situação, quando uma das enfermeiras veio pedir a Page para atender uma chamada. Era muito provável que fosse da parte da sua mãe, admitiu Page; decerto, esta desejaria que Page lhe zesse algum favor, mas nunca referiria a conversa dessa noite. Quanto  isso Page não possuía a menor dúvida; no entanto, não foi a voz da sua mãe que ela ouviu ao atender o telefone, e sim a de Brad, que por sinal se encontrava bastante alterada.

— Page...? — Brad estava agitadíssimo. — Foi o Andy...

— Ele feriu-se? — Sentiu-se novamente dominada por uma onda de pânico. Naquela fase, tudo lhe parecia demasiadamente perigoso e fatal. Era como se estivesse sempre à espera de mais más notícias, ou de que algum desastre voltasse a vitimar mais algum dos seus entes queridos. — O que é que aconteceu?

— O Andy desapareceu.

— Desapareceu... ? Já o procuraste no quarto? — Aquela notícia era ridícula; como é que o filho poderia ter desaparecido? Andy estaria certamente a dormir no seu quarto acompanhado por Lizzie, e Brad não tinha procurado bem.

— É claro que o procurei no quarto! — gritou Brad. — O Andy deixou um bilhete e fugiu de casa.

— O que é que diz o bilhete? — perguntou Page, lançando um olhar angustiado a Trygve e estendendo-lhe uma mão; ele agarrou de imediato a mão de Page e apertou-a entre as suas.

— Não consegui perceber muito bem... a letra é muito incerta. Mas ele diz que sabe que a culpa é dele... o Andy julga que é o culpado pelas nossas discussões, e fugiu porque quer que nós voltemos a ser felizes. — A voz de Brad denunciava o seu estado de emoção; Page tinha a certeza de que o arido estava a chorar. — Acabei de chamar a Polícia, por isso é melhor voltares para casa. Eles prometeram não demorar. O Andy deve ter ouvido a nossa discussão... Por favor, Page, dize-me onde é que pensas que ele possa estar...

— Não faço a menor ideia — respondeu ela, sentindo-se assustada e impotente. — Já o procuraste lá fora? Ele pode estar escondido no jardim.

— Antes de chamar a Polícia, procurei-o em todos os lugares possíveis e imaginários. Aqui perto, ele não está.

— A minha mãe já sabe? — Page sabia, no entanto, que da mãe não se poderia esperar muito auxílio e Brad reagiu à sua pergunta com alguma irritação.

— Sabe. Ela acha que ele deve estar em casa de algum amigo, mas às dez da noite, na idade dele, não acho isso muito provável.

— Nem eu. Mas deixa-me adivinhar: a minha mãe e a Alexis foram-se já deitar, mas antes a minha mãe afirmou que tinha a certeza que de manhã já estaria tudo bem.

Apesar do seu estado de nervos, Brad riu e comentou:

— Pelo menos com a tua mãe nunca há surpresas.

— Há certas pessoas que nunca mudam.

— Podes vir já para casa?

— Vou imediatamente para aí. — Page desligou e explicou a Trygve o que se passava: — O Andy fugiu de casa... deixou um bilhete a dizer que se ia embora, porque não queria que eu e o Brad discutíssemos mais; julga que todas as nossas discussões são por causa dele. — Os olhos de Page encheram-se de lágrimas e Trygve abraçou-a. — E se lhe acontecer alguma coisa? Hoje em dia há tantas crianças que são raptadas... — Se tal acontecesse, Page não seria capaz de suportar mais nenhuma desgraça. O medo que nesse momento sentia, desconhecendo o paradeiro do filho, era já o bastante para consumir todas as suas resistências.

— A Polida vai encontrá-lo, Page. Queres que eu te acompanhe? — Page abanou a cabeça e respondeu:

—Julgo que não seria muito aconselhável. Não há nada que possas fazer, e além disso, a tua presença só ia complicar ainda mais a situação. — Ele concordou, e e seguida acopanhou Page até ao parque de estacionamento do hospital. Antes de ela arrancar, Trygve beijou-a e apertou-lhe a mão com carinho.

— Vai correr tudo bem, Page; eles vão encontrá-lo.

— Espero que sim.

— Vais ver que sim. — Trygve acenou e Page arrancou na sua carrinha; a noite começara de uma forma bastante atribulada.

Ao chegar a casa Page constatou que a Polícia já se encontrava no local. Os agentes anotaram todas as informações que lhes pudessem vir a ser úteis, tais como o nome dos colegas de Andy, a hora de início das aulas e a roupa que ele levava vestida; seguidamente, vasculharam o jardim, iluminando todos os cantos escuros com as suas lanternas, mas não o encontraram. Page deu-lhes duas fotografias do filho, e enquanto isso, como seria de esperar, Maribelle e Alexis não abandonaram os seus quartos. O segredo das suas condutas tão serenas era simplesmente nunca admitirem ou enfrentarem alguma circunstância desagradável, algo que ambas realizavam na perfeição. Assim, apesar da imensa agitação dentro de casa, e da luz intensa no jardim, não se ouvia o mínimo som vindo dos seus quartos.

Entretanto, o carro da Polícia percorreu toda a vizinhança, regressando em seguida para ver se Andy já teria voltado a casa; como isso não se havia verificado, decidiram partir novamente em busca dele e foi nesse preciso momento que Trygve telefonou.

— O Andy está aqui — comunicou ele a Page, com muita calma. — O Bjorn estava a escondê-lo no quarto. Falei depois com ele e disse-lhe que era errado proceder desse modo, mas o Bjorn explicou que o Andy não queria voltar, porque se sentia muito triste em casa. — Ao ouvir essa explicação, Page quase começou a chorar, enquanto fazia sinal a Brad para este se aproximar.

— Ele está em casa do Trygve — explicou ela ao marido.

— Em casa do Trygve? O que é que ele foi lá fazer? — indagou Brad, surpreendido. Ele sabia que Allie era a melhor amiga de Chioe, mas naquela casa não havia nenhuma criança da idade de Andy.

— 0 Andy e o Bjorn são amigos. EJe explicou ao Bjorn que foi para casa do Trygve porque se sentia muito triste aqui. — Trocaram um longo e melancólico olhar, após o que Page comunicou a Trygve: — Eu vou já aí buscá-lo. — Sentia-se extremamente grata e aliviada por terem encontrado o filho.

Ao senti-la por fim em paz, Trygve emitiu um leve suspiro de alívio, embora se sentisse simultaneamente embaraçado pelo que tinha de comunicar a Page:

— O Andy afirma que não quer voltar para casa. Page mal podia crer no que ouvira.

— Não quer voltar... ? Mas porquê?

— Diz que sabe que o pai preferia que, em vez da Ailie, tivesse sido ele a sofrer um acidente. Diz também que vos ouviu discutir ontem à noite acerca dele e que o Brad estava muito zangado.

— Mas estava zangado comigo, e não com o Andy. O Brad julgou que eu tinha contado ao Andy acerca da sua namorada, mas não fiz nada disso.

— O Andy interpretou mal. O Bjorn contou-me que ele está convencido de que vocês lhe estão a mentir sobre a Allyson; arma ter a certeza de que ela morreu. Desculpa Page, mas penso que é melhor saberes o que ele está a pensar.

— Eu devia ter permitido que ele visse a irmã.

— Não é uma decisão nada fácil de tomar, Page. No teu lugar, eu teria feito o mesmo. Com o Bjorn, não tive esse problema, porque as nossas filhas não se encontram nas mesmas condições e além disso o Bjorn é mais velho do que o Andy, e o caso dele é diferente.

— Nós vamos já aí buscar o Andy.

— Importas-te que eu e o Bjorn o levemos a vossa casa? E que, neste momento, ele está a beber uma chávena de chocolate quente; eu levo-o aí, assim que ele acabar.

— Obrigada, Trygve — agradeceu ela com sinceridade, explicando em seguida ao marido o que se passara.

— Depois disto, vamos ter de lhe explicar o que está a passar-se connosco — concluiu Brad melancolicamente, depois de ter ouvido o que Page lhe contara.

— Mas antes disso, temos de resolver a nossa situação. Não podemos continuar a viver desta forma — afirmou Page, suspirando. — Além disso, julgo que chegou a altura de o levar a ver a Allie. — Seguidamente, Page contactou os polícias que estavam em busca de Andy, para os informar de que o filho se encontrava em casa de um amigo, ao que estes reagiram com satisfação.

Cerca de meia hora mais tarde, Trygve e Bjorn vieram trazer Andy a casa dos pais. Ele entrou em casa com uma expressão muito triste e com o rosto muito pálido, e ao vê-lo daquela forma, a mãe rompeu em lágrimas. Abraçando o filho nos seus braços Page garantiu-lhe que ela e Brad haviam ficado muitíssimo preocupados com o procedimento dele, porque o amavam muito.

— Por favor, não voltes a fazer isso nunca. Poderia ter acontecido uma desgraça.

— Eu julgava que vocês estavam zangados comigo — murmurou ele, chorando, e lançando um olhar ao pai. Brad esforçava-se por combater as lágrimas, enquanto Trygve e Bjorn assistiam à cena da porta da cozinha.

— Eu não estava zangada contigo — explicou Page ao filho. — Nem o pai estava. E a tua irmã não morreu, Andy;

ela está apenas muito, muito doente, tal como eu sempre te expliquei.

— Então porque é que não a posso ver? — perguntou ele, desconfiado. Mas desta vez, a mãe surpreendeu-o.

— Vais poder vê-la amanhã.

— Vou? A sério? — Andy sorriu de orelha a orelha, feliz por poder realizar nalmente o seu maior desejo. Ainda não se apercebia do quadro que se lhe depararia, nem de que Allie não poderia falar com ele; ela nem sequer se assemelharia à irmã de que ele se lembrava e a quem tanto amava, mas a mãe tinha chegado à conclusão que provavelmente Andy necessitaria de enfrentar a realidade, tal como ela sempre havia necessitado.

— Ele pensava que a Allie tinha morrido — explicou Bjorn.

— Já sei — respondeu Page, agradecendo-lhe em seguida o facto de ter tomado conta de Andy.

— Nós somos amigos — afirmou Bjorn, orgulhoso. Page decidiu então levar Andy até ao quarto, e Bjorn ajudou-a a deitar o filho. Depois de Bjorn voltar para a cozinha, para junto do seu pai Page beijou o filho e aconchegou-o entre os lençóis.

— O papá vai-se embora? — perguntou Andy quando a sua mãe fechou a luz, novamente preocupado.

— Não sei. — Page realmente não sabia o que responder a Andy. — Mas assim que chegarmos a alguma conclusão, eu prometo que te conto, está bem? Seja o que for que aconteça, não tem nada a ver contigo, filhote, e ninguém está zangado contigo. Este assunto só diz respeito a mim e ao pai.

— Então a culpa é da Allie? — Andy insistia em encontrar um culpado para as zangas dos pais, mas infelizmente não existia ninguém a quem culpar.

— Ninguém tem culpa — explicou Page, concluindo:

— Mas às vezes há certos acontecimentos que não se podem evitar.

— Como o acidente? — relacionou ele.

— Sim. Infelizmente, o acidente também foi inevitável.

— Dizias que tu e o pai se zangavam só porque estavam cansados.

— E estávamos cansados, apesar de haver ainda outras razões. Mas nada têm a ver contigo! São apenas razões de adultos. Tens de acreditar em mim. — E Andy assim o fez. Não era uma explicação muito animadora, mas era mais fácil enfrentar a verdade do que imaginar o pior; e até esse momento, ele estivera plenamente convencido de que tudo tinha acontecido por sua culpa. — Eu e o pai gostamos muito, muito de ti...

Andy abanou a cabeça, colocou os seus braços em redor do pescoço da mãe, beijou-a e respondeu em seguida:

— Eu também gosto muito de vocês. Prometes que amanhã me levas a ver a Allie?

— Prometo. — Page voltou a beijar o lho, que lhe pediu depois que chamasse o pai. Assim, quando Brad veio dar as boas-noites a Andy, Page aproveitou para se despedir de Trygve e de Bjom; acompanhou-os até à porta e tornou a agradecer a Trygve toda a sua ajuda, ao que ele respondeu com um grande sorriso de contentamento.

— Boa noite, Page — despediu-se ele, com a sua voz calma.

Ela sentiu então que o laço que a unia a Trygve se tinha estreitado, visto não existir nenhum segredo do qual ele já não tivesse conhecimento. Além disso, as famílias de ambos vinham, lentamente, a tomar-se mais e mais chegadas. O próprio Brad se apercebeu dessa aproximação; assim que regressou à cozinha, lançou um olhar desconfiado a Page e questionou abruptamente:

— Passa-se alguma coisa entre vocês os dois?

— Não; mas isso não está em 'causa.

— Eu sei, só perguntei por curiosidade. Eu gosto dele, e julguei que tu também pudesses gostar; o Trygve é um bom homem.

— Nas últimas semanas temos passado muito tempo juntos no hospital. Ele é um bom pai e um óptimo amigo. Brad fitava-a na outra extremidade da cozinha.

— Sei que não te tenho prestado muito auxílio... — Os olhos dele humedeceram-se e Brad desviou então o olhar. — Mas não consigo vê-la assim, tão magoada, tão diferente... ela nem sequer se parece com a nossa filha...

— Sim, eu sei. Tento não pensar nisso e concentrar-me apenas naquilo que tem que ser feito por ela. — Brad entendia e admirava a atitude de Page, embora não pudesse proceder do mesmo modo.

— O que é que vamos resolver a nosso respeito? — indagou então ele, abrindo a porta que dava para o jardim. — E se conversarmos ali fora, onde ninguém nos oiça?

Page seguiu Brad e ambos se sentaram nas cadeiras do jardim.

— Esta nossa situação não vai levar a lugar nenhum, pois não? De início, ainda julguei que fosse possível aguentar mais uns tempos assim, até eu chegar a alguma conclusão. Mas, na prática, nunca estou em casa, tu estás sempre irritada, e sinto-me pressionado em duas direcções opostas. Todos os dias, quando chego a casa, vejo o Andy a olhar fixamente para mim, sou confrontado com o teu olhar de repreensão e chego sempre à conclusão de que já não tenho forças suficientes para ir visitar a Ailie ao hospital... — Além disso, Stephanie continuava a insistir para que Brad se mudasse para o seu apartamento, e ele continuava inseguro, receando assumir um compromisso demasiado sério. — Talvez eu deva sair de casa. Por um lado, gostaria de poder continuar aqui, mas, por outro, sinto que esta situação nos está a prejudicar a todos. — Page ponderou no que Brad acabara de afirmar. De início, também ela julgara melhor que o marido continuasse a viver com eles, mas no momento presente já não mantinha essa opinião. A situação tornara-se cada vez mais incontrolável e mais conflituosa, e ambos sabiam que tinha chegado a altura de a enfrentarem e de a resolverem; aproximava-se o final.

Page respirou fundo antes de pronunciar aquelas palavras, que, uma vez ditas, a surpreenderam a ela própria. Se, há um mês atrás, alguém lhe tivesse comunicado aquele desfecho, ela nunca teria acreditado.

—Julgo que é melhor saíres de casa — afirmou então ela, num leve sussurro.

—Julgas? — interrogou Brad, fitando-a surpreendido;

mas, de certa forma, era para ele um alívio saber que Page chegara a essa conclusão.

—Julgo — confirmou ela. — Chegou a altura Brad. Até agora, temos vindo a enganar-nos. Penso mesmo que o nosso casanmento já tinha chegado ao m muito antes de eu me aperceber disso. Tu nunca admitirias que tinhas uma vida paralela se não te sentisses já preparado para abandonar a nossa vida em comum. O que aconteceu foi que quando me contaste a verdade, era ainda muito cedo para eu me aperceber desse facto.

— Talvez tenhas razão — admitiu Brad, cabisbaixo.

— Provavelmente, era melhor que eu não te tivesse contado nada. — Contudo, ele não podia retirar o que dissera, assim como também não podia mudar o seu procediment passado; e na verdade, não era isso que desejava fazer.

— Gostava de poder encontrar uma explicação para tudo isto Page.

— Eu também. — Ela encarou-o, interrogando-se ainda sobre como tinham podido chegar àquele ponto. Seria possível que toda aquela tempestade houvesse sido ocasionada pelo acidente, ou teria este apenas agravado a situação? Se o seu casamento não possuísse anteriormente uma base muito frágil, nada do que sucedera teria sido possível. — Sempre pensei que a nossa vida fosse perfeita — afirmou Page, recordando o passado. — Mesmo agora, não consigo perceber onde foi que errámos, o que foi que fizemos mal ou que deixámos de fazer...

— O erro não foi teu Page — respondeu Brad, com honestidade. — Fui eu que errei, e durante muito tempo; tu apenas não tomaste conhecimento.

— Parece que não — admitiu ela, subitamente grata por não ter descoberto a verdade mais cedo. Dessa forma, haviam vivido juntos dezasseis anos que ela podia agora recordar com alegria, apesar de ainda ser difícil acreditar que estava tudo terminado entre eles. — Como é que vamos explicar ao Andy? — indagou então Page, preocupada. Era de facto espantoso: ela e Brad, sentados lado a lado no jardim, discutindo aquele assunto como se se tratasse de uma festa ou de uma viagem a planear, ou até de um funeral. Page odiava cada momento daquela conversa, mas sabia que ela se havia tornado inevitável, e que tinha de enfrentar aquele momento. — Vamos ter de lhe explicar o que se passa.

— Eu sei. O melhor é contar-lhe a verdade: que o pai dele é um perfeito idiota...

Page não pôde deixar de sorrir. De facto, o pai do seu lho agia por vezes como um idiota, mas não era por isso que ela deixava de sentir carinho por ele. Page gostaria ainda de poder reviver os anos em que fora feliz ao lado de Brad, mas sabia agora que isso era de todo impossível. Mesmo passando apenas por um período de destruição de três semanas, a situação adquirira um carácter demasiado grave. A base em que assentava o seu casamento encontra-' vá-se debilitada haja muito tempo e agora, finalmente, toda a estrutura cedera. Na realidade, aquele era apenas o efeito de um processo de destruição muito longo, e o facto de Page nunca se ter apercebido dessa ameaça não diminuiu em nada a intensidade da queda final. Tudo em redor de ambos fracassara.

—Já decidiste aquilo que vais fazer? — interrogou Page, tranquilamente. — Vais viver com ela? — A julgar pelo que a mãe da amiga de Allyson lhe contara, era como se isso já tivesse sucedido, pelo menos em regime de part-time.                  

— Ainda não me resolvi, mas é isso que ela quer que eu faça. Penso que seria melhor passar uns tempos sozinho, parã poder assentar ideias. — A situação de Stephanie e Brad não ia ser resolvida facilmente. O relacionamento de am-            E bos havia sido baseado em mentiras, em traições e numa mera atracção física. Era muito difícil construir algo sólido tendo por base apenas esses elementos, e Brad começava já a aperceber-se desse facto. — Quando é que preferes que eu saia?

Por breves instantes Page desejou ardentemente que Brad fosse ainda o homem que ela sempre julgara conhecer, mas agora sabia que não era.

— Antes que magoemos ainda mais o Andy e a nós próprios — respondeu ela, aparentando uma calma maior do que aquela que de facto sentia. — O ambiente entre nós tem-se deteriorado muito depressa.

— Tu tens andado muito irritada comigo, mas tenho de reconhecer que tens todos os motivos para reagires desse modo — disse Brad. Este era o diálogo mais calmo e mais proveitoso que tinham desde o acidente. Todavia, o facto de ambos só conseguirem recuperar a calma já perto do fim do percurso não deixava de ser muito lamentável. — Vou tentar resolver tudo o mais depressa possível. Parto para Nova Iorque amanhã, mas na quinta-feirajá estou de regresso. Talvez no próximo fim-de-semana já consiga apresentar-te alguma solução. Quanto tempo mais pensas que a tua mãe se vai demorar aqui? — Era bastante difícil terminar o seu casamento e sair de casa, se a sogra estivesse ali a assistir a tudo. No entanto, a resposta de Page tomou-o de surpresa.

— Amanhã de manhã vou pedir-lhes que regressem a casa. Não tenciono continuar a alojá-las aqui; não é bom para mim nem é bom para o Andy. — Page iniciara um processo de limpeza na sua vida: primeiro terminara com Brad, agora tencionava ser franca com a mãe e com Alexis. De formas diferentes, todos eles a estavam a usar e a magoar, e Page apercebera-se claramente desse facto enquanto conversara nessa noite com Trygve; depois disso, com a fuga de Andy, chegara à conclusão que a situação tinha ido longe de mais, e que estava nas suas mãos pôr um fim a tudo aquilo.

— Respeito-te muito, sabes? — disse Brad com suavidade. — E nunca deixei de te respeitar. Não sei o que é que desencadeou tudo isto, mas julgo que não estava ainda preparado para tudo quanto tinhas para me oferecer. — Quando casaram Brad tinha vinte e oito anos, mas nunca conseguira pôr inteiramente de parte a ideia de que era livre para fazer o que queria da sua vida; só agora descobrira que havia um preço muito elevado a pagar por essa ideia. — Vais sentir-te melhor depois de eu sair daqui — afirmou ele, tristemente. — Vais poder prosseguir com a tua vida.

— Mas também me vou sentir muito sozinha. Uma separação nunca é fácil — respondeu Page, fitando-o no escuro da noite. — O que é que vamos resolver a respeito da situação da Ailie?

— Não podemos resolver nada, e é isso que me põe fora de mim! Não sei ficar ali parado sem fazer nada, noites e dias a fio... se o fizesse, enlouqueceria!

— Eu não me importo de ficar com a Alhe; mas e se ela nunca recuperar? — sussurrou ela.

— Não sei; tento não pensar muito nisso. E se ela recuperar e não voltar a ser o que era? Se ficar como aquele miúdo, o Bjorn... eu nunca o suportaria, depois de conhecer o que ela já foi. Mas parece-me que vamos ter de aceitar o que acontecer. No princípio, ainda julguei que existissem outras opções, mas agora vejo que estava enganado. A única opção que tivemos foi não a sujeitar às operações, mas se o tivéssemos feito, era o mesmo que matá-la. Parece-me que tomámos as decisões acertadas, mas, apesar disso, nada mudou. No entanto, duma coisa estou certo: se ela continuar indefinidamente em coma, não podes continuar à cabeceira dela durante anos e anos, ou vais acabar por te destruíres.

Mais tarde ou mais cedo, vais ter de encontrar uma outra solução. — Todavia, era ainda muito cedo para chegar a esse ponto. O acidente ocorrera há pouco mais de três semanas e existia ainda uma forte possibilidade de Allyson vir a recuperar. — Não permitas que a tua vida siga esse rumo, Page... — pediu Brad. — Mereces muito mais do que isso... mais do que aquilo que eu te ofereci...

Page compreendeu e levantou-se, tentando não imaginar como seria a sua vida depois de Brad já ali não estar. Olhou então para o céu, observou as inúmeras estrelas, e questionou mais uma vez o porquê daquele desfecho; como haviam chegado àquele ponto e como algo assim lhes pudera suceder... a eles e a Ailie.

 

Page esperou calmamente que a mãe e a irmã se levantassem para depois lhes servir o pequeno-almoço na cozinha. Foi então que lhes comunicou resumidamente que teriam de regressar mais cedo do que o previsto a Nova Iorque, e que uma semana já havia bastado, visto aquela não ser a altura mais indicada para ela as receber. Não fez qualquer alusão à discussão da noite anterior, nem apresentou nenhuma desculpa, pelo que ambas devem ter concluído que Page estava, de facto, decidida a terminar aquela estada. Assim, nem a mãe nem Alexis se atreveram a contestar a resolução de Page, e Maribelle apressou-se a afirmar que essa seria, de facto, a decisão mais acertada, porque além de David sentir muito a falta de Alexis, ela própria precisava de regressar para proceder à remodelação e pintura do seu apartamento.

Apesar de a mãe ter utilizado os argumentos mais convenientes para justificar a rapidez daquela viagem, Page não lhes deu a mínima atenção. Tudo o que lhe interessava era não ter de as abrigar ali nessa noite, e para tal, havia já reservado dois lugares em primeira classe no voo das quatro da tarde, para grande espanto da sua mãe. Page havia-se encarregado igualmente do transporte que as levaria até ao aeroporto, e assegurou-lhes assim que às duas horas um táxi viria buscá-las a casa, dando-lhes o tempo necessário para chegarem ao aeroporto com toda a calma. Ainda sobrava tempo suficiente para almoçarem antes de sair de casa e até para visitarem Allyson uma última vez, caso o desejassem fazer.

— Bem, na realidade — desculpou-se a mãe —, ainda vou demorar muito tempo a fazer as inalas; e a Alexis queixou-se há pouco que acordou com uma das suas enxaquecas. Mas, se fizeres muita questão que visitemos a Allyson, então podemos viajar para Nova Iorque amanhã. — Contudo, essa não era a solução que Page delineara e estava decidida a fazer cumprir. Não tencionava deixá-las ficar nem mais um minuto, pois estava resolvida a dirigir novamente o rumo da sua

vida. Por mais penoso que tivesse sido, havia pedido a Brad que saísse de casa e agora o segundo passo era mandar a mãe e a irmã de volta ao ambiente onde pertenciam.                   

— Penso que a Allyson não se vai importar... — respondeu Page, ironizando. No entanto, Maribelle e Alexis não reconheceram que se tratara apenas de uma afirmação irónica e pediram com toda a seriedade que Page lhes prometesse          ! que se encarregaria de explicar a Allyson o sucedido.

Page ficou em casa até as duas visitantes partirem para o aeroporto, e em seguida aproveitou para mudar os lençóis das camas, lavar duas máquinas de roupa e aspirar a casa toda. Sentia que estava finalmente a assumir o controlo dos acontecimentos e a tentar tudo o que estivesse ao seu alcance para reordenar a sua vida. A partida da mãe e da irmã havia-se processado sem a menor emotividade, pois após a tempestade verbal da última noite nada mais havia a dizer.

Alexis partira usando um chapéu novo e a mãe decidira viajar com um dos vestidos que comprara durante essa semana; tinham-se despedido beijando ao de leve o ar em redor das faces de Page, e em seguida entraram no táxi que as levaria até ao aeroporto, enquanto Page as observava da porta. Ao aspirar a casa, esta última não podia deixar de se sentir extremamente aliviada ao verificar que a mãe e a irmã já tinham partido. Foi particularmente agradável limpar o           quarto de Allyson, e voltar a deixar tudo como era antes de a irmã ali se hospedar. Houve, porém, uma descoberta que a inquietou: Alexis havia-se esquecido de uma enorme quantidade de laxativos no quarto da filha. Page já sabia que a irmã era uma mulher muito doente, mas chegou também à conclusão que só ela se apercebera desse facto, ou que mais ninguém lhe atribuía a gravidade que de facto merecia. Ao empenhar-se por eliminar tudo quanto lhe sucedera durante a infância, a irmã de Page tentava igualmente anular-se a si mesma, embora o fizesse da pior forma possível. A seu modo, Alexis desejava voltar a ser a criança que fora antes do pai a violar.                                                       

Às quatro da tarde Page foi buscar Andy à escola, constatando que há muito tempo não se sentia tão liberta, pelo menos desde a data do acidente. No caminho para o hospital, Andy perguntou à mãe se podiam parar para ele comprar um ramo de rosas para levar à irmã, mas Page sugeriu que ele as oferecesse a Chioe, já que na unidade de cuidados intensivos, onde Ailie se encontrava, não eram permitidas flores. Andy concordou com a sugestão de Page, e falou da irmã até chegarem ao hospital, muitíssimo entusiasmado por poder finalmente visitá-la. Antes de chegarem Page recordou-o das condições em que AUie se encontrava.

— Eu já sei — respondeu ele, sem dar muita importância ao assunto. — É como se ela estivesse a dormir.

— Não é só isso — explicou Page. — A Ailie está mudada. Tem a cabeça ligada, tem os braços e as pernas muito mais magros, e na garganta tem um tubo por onde passa o ar, que por sua vez está ligado a uma máquina muito grande que respira por ela. Tens de estar preparado para a ver assim, porque como é a primeira vez que a visitas, podes ficar muito impressionado. Se quiseres, podes falar com a Ailie, mas deves lembrar-te de que ela não vai poder responder-te, está bem?

— Sim, eu sei. Ela está a dormir.

Andy sentia-se muito importante por visitar a irmã no hospital, e nesse dia, na escola, não tinha falado de outro assunto. Ao chegarem ao hospital, Andy mal podia esperar por sair do carro, e depois, já no corredor, segurava a mão da mãe com ansiedade e apressava o seu pequeno passo.

Tinham comprado um ramo de rosas cor-de-rosa para oferecer a Chioe, e uma linda gardenia para Ailie.

— Ela vai adorar! — comentou Andy, orgulhoso, fazendo questão de ser ele próprio a levar a flor. No entanto, e apesar de toda a sua anterior mentalizaçâo, Page pôde constatar que o filho cou estupefacto ao encontrar a irmã naquelas terríveis condições. Além do mais, nesse dia em especial, o estado de Allyson parecia mais grave do que anteriormente: a sua palidez era mais acentuada do que de costume, e a ligadura que envolvia a sua cabeça havia sido substituída, parecendo maior e mais branca do que a anterior. Notava-se que a sua cabeça havia sido rapada e, inexplicavelmente, dir-se-ia que em seu redor aumentara o número de máquinas e monitores. Page sabia bem que essa ideia era apenas uma sugestão, mas enquanto observava o filho, que lançava à irmã um olhar absorto, essa sugestão assumia proporções cada vez mais reais. Andy decidiu então aproximar-se lentamente de Allie e pousar a flor que trazia na almofada da irmã.

— Ola, Allie — murmurou ele, de olhos muito abertos, acariciando a mão da irmã, enquanto Page começava a chorar. — Não te preocupes... eu já sei que estás a dormir... a mãe avisou-me. — Ele continuou a fitar a irmã durante muito tempo, segurando-lhe a mão, e depois, finalmente, inclinou-se de forma a poder beijá-la. Tudo à volta de Allyson exalava o aroma característico do hospital, exceptuando a gardenia que o irmão lhe oferecera.

— O pai vai hoje para Nova Iorque — comunicou ele a Allie. — E a mãe disse que eu podia vir ver-te mais vezes. Desculpa eu ter demorado tanto. — Allie permanecia imóvel e em seu redor não se registava o mínimo ruído, com excepção dos sons de todos os aparelhos ali presentes. Page continuava a chorar em silêncio, enquanto as enfermeiras observavam a cena. — Eu gosto muito de ti, Allie... e não gosto de estar em casa sem ti. — Andy gostaria de poder contar à irmã que os pais agora discutiam diariamente, mas sabia que isso iria magoar a mãe. Queria também pedir a Allie que voltasse depressa para casa, pois sentia muitas saudades dela. — Ah, é verdade! Eu tenho um amigo novo, chamado Bjorn. Tu sabes quem é, o irmão da Chioe... Ele tem dezoito anos, mas não parece nada. — Andy sorriu e voltou-se em seguida para a mãe, mas ficou muito surpreendido por a ver a chorar. — O que foi, mãe?

— Nada, filho, está tudo bem — respondeu Page, sorrindo para Andy através da névoa que lhe toldava a visão. Sentia-se feliz por ter permitido que o filho visse a irmã, e estava igualmente orgulhosa do seu comportamento. Apesar de o amar muito, até esse momento não se apercebera do quanto ele de facto necessitava de ver Allie. Chegara agora à conclusão que, mesmo que perdessem Allyson, Andy sentiria que tinha estado perto da irmã e que se tinha despedido dela; depois de a ver, Andy poderia entender melhor que Allie não havia fugido de repente para longe do seu alcance.

Continuou a conversar com a irmã durante mais algum tempo, e em seguida comunicou à mãe que estava pronto para ir visitar Chioe. Antes de sair, tornou a observar a irmã demoradamente e depois colocou-se em bicos de pés para se despedir dela.

—Eu depois volto, Ailie... está bem? Tenta acordar depressa; nós temos muitas saudades tuas... e eu gosto muito de ti, Allie — afirmou ele, segurando na mão da mãe e dirigindo-se para o quarto de Chioe com o ramo de rosas na mão.

Page levou alguns minutos para recuperar da emoção que a dominara, mas assim que se sentiu mais calma, comunicou a Andy que estava muito orgulhosa dele e beijou-o com muita ternura.

— És um menino muito querido, sabias?

— Achas que ela me ouviu, mãe? — indagou ele, preocupado.

— Tenho a certeza que sim, querido.

— Eu gostava muito que ela me ouvisse... — comentou ele, entristecido. Quando entraram no quarto de Chioe, Andy ainda se encontrava um pouco abalado, mas, apesar disso, Page não esperava que a reacção do filho fosse tão positiva. Ao ver a irmã, Andy não tinha chorado, nem ficara muito assustado, como ela receara antes. Visitando a amiga da irmã, o seu estado de ânimo foi ainda melhor, pois Bjorn também estava presente e os dois rapazes acabaram por se divertir com as suas brincadeiras infantis, correndo e rindo pêlos corredores do hospital, e jogando às escondidas em redor das enfermeiras.

— Era melhor levá-los daqui para fora, antes que as enfermeiras os expulsem do hospital! — constatou Trygve, rindo. Em seguida, fitou Page co mais seriedade e indagou: — Como é que ele se portou na unidade de cuidados intensivos? Reagiu bem?

— Reagiu muito melhor do que eu esperava; foi muito corajoso e muito meigo com a Allie. Antes de sair, deixou uma flor na almofada da irmã.

— O Andy é um miúdo muito temo. Ele hoje está mais contente, não está?

— Parece que sim. Eu e o Brad tivemos uma longa conversa ontem à noite e chegámos à conclusão que era melhor que ele saísse de casa, mas antes vamos ter de explicar o que se passa ao Andy.

— Não é nada fácil, pois não? — Trygve segurou na mão de Page e, seguidamente, foram ambos reunir os filhos. Trygve convidou então Page e Andy para irem comer uma pizza com eles, mas antes perguntou a Page: — Não tens de ir jantar com a tua mãe e com a tua irmã?

— Não — respondeu ela, sorrindo de contentamento. — Elas já se foram embora. Reservei-lhes dois lugares no voo das quatro da tarde para Nova Iorque — informou Page, não escondendo a sua satisfação.

— A tia Alexis é tão esquisita...! — comentou então Andy, ouvindo a conversa da mãe. — Ela passa muito tempo na casa de banho.

Contrariamente à noite anterior, Page e o filho passaram um serão muito agradável na companhia de Trygve e de Bjom. Os rapazes brincaram e conversaram enquanto devoravam duas enormes pizzas, oferecendo aos pais a oportunidade de saborearem um jantar informal, longe do ambiente do hospital. Page pôde também conversar com Trygve acerca do seu trabalho. Comentou que estava a considerar a hipótese de adquirir um atelier quando Ailie abandonasse a unidade de cuidados intensivos, ou depois de se terem adaptado a uma rotina permanente. O mais importante era continuar o seu trabalho de uma forma mais estável e até, se possível, torná-lo rentável.

— Seria muito bom para ti — comentou Trygve. — Já devias ter pensado nisso há muitos anos. As tuas pinturas são sensacionais. — E ela também o era, pensava Trygve. Todas as vezes que encontrava Page gostava cada vez mais dela. Depois do jantar, Trygve levou-os a casa, e retirou-se em seguida com alguma relutância, apesar de saber que Bjom tinha de se deitar. Chioe regressaria a casa dentro de uma ou duas semanas, o que decerto ocuparia grande parte do seu tempo. No entanto, Trygve tencionava continuar a dar atenção a Page, desejando mesmo acompanhá-la ao hospital sempre que ela o necessitasse. Queria igualmente poder dedicar algum tempo a Andy, pois apercebia-se de que agora que Brad se preparava para os deixar, a sua ajuda a Page e ao lho iria ser necessária. Trygve desejava poder auxiliá-la a reorganizar a sua vida, e fazia votos para que nada de grave acontecesse a Allyson. Todos eles haviam passado por momentos demasiado difíceis, e considerando tudo o que nessa fase se alterara na sua vida, Trygve duvidava que Page pudesse suportar a perda da filha.

 

Brad regressou de Nova Iorque na tarde de quinta-feira, mas nesse dia Page não o viu, pois o marido não chegara a ir a casa. No dia seguinte, Brad foi visitar Ailie ao hospital durante a hora de almoço, mas nessa altura Page não se encontrava presente. Mais tarde, as enfermeiras informaram-na que Brad estivera no hospital por volta do meio-dia, mas só nessa noite, depois de ter ido buscar Andy a casa de Jane, é que Page encontrou o marido em casa. A porta do quarto de            casal estava fechada, mas Page vericou que o carro de Brad se encontrava estacionado na garagem, enquanto corria para casa ao encontro do pai. Ao entrar no quarto, Andy constatou então que o pai estava a guardar toda a sua roupa e ficou muito confuso. Havia duas enormes malas de viagem no chão, mais outra aberta em cima da cama, e roupas espalhadas por todo o lado. Quando Page entrou e viu o que se passava, sentiu um aperto no peito.                                    

— O que é que estás a fazer, pai? — perguntou Andy, admirado. Não era assim que Page desejava que o lho descobrisse. Brad olhou em redor e fitou-a com um olhar de cumplicidade, mas ambos sabiam que não havia outra alternativa. — Vais outra ve viajar? — Andy encontrava-se visivelmente ansioso e preocupado.

— Mais ou menos, campeão — respondeu Brad, sentando-se na cama e puxando o filho para o seu colo. Page observava-os com um nó na garganta, ponderando que naquela fase da sua vida era raro o dia em que não fosse confrontada com uma despedida ou com uma modificação. — Vou viver para São Francisco.

— E eu também vou? — indagou ele, perplexo. Ninguém o havia informado daquela mudança.             

— Não, tu vais continuar a viver aqui com a mãe. — Brad estava prestes a concluir a sua frase, acrescentando «e com a Ailie», mas conteve-se a tempo. Quem lhes poderia garantir que ela voltava para casa?

— Vocês vão-se divorciar...? — indagou Andy, já com lágrimas nos olhos. Brad abraçou-o e explicou-lhe:                   

— É possível, filho, mas por enquanto ainda não teos a certeza. A tua mãe e eu pensámos muito e chegámos à conclusão que, por enquanto, era melhor eu ir morar para outro sítio.

— Estás zangado por eu ter fugido naquela noite, pai? É por isso que te vais embora?

— Claro que não. Esta é uma decisão que eu desejava tomar há já bastante tempo. E, ultimamente, a nossa convivência não tem sido fácil... às vezes, a vida é mesmo assim, Andy.

— Então é por causa do acidente? — Andy necessitava desesperadamente de um motivo para aquela separação; mas talvez não existisse nenhum.

— Pode até ser, mas não creio. Por vezes, os casamentos chegam a este ponto, filho... mas isso não significa que eu deixe de gostar de ti. O amor que eu e a tua mãe temos por ti não vai mudar. Vamos continuar a ser os teus pais e a dar-te todo o nosso apoio, e depois vais poder visitar-me aos fins-de-semana. — Ouvindo a explicação do marido Page apercebeu-se então de que iriam necessitar de planear os dias de visitas e de contratar advogados. Adivinhava-se pela frente um processo muito complicado e demasiado burocrático. Page detestava que tudo isso fosse necessário, mas sabia que não tinham outra alternativa. Teriam igualmente de proceder à partilha de todos os seus bens, do mobiliário, daquilo que depois de dezasseis anos restava dos presentes de casamento, dos atoalhados e dos lençóis de linho, dos talheres de prata, etc., etc. Com que rapidez haviam destruído uma vida tão bonita...!

— Para onde é que vais viver, pai? Tens outra casa?

— Vou viver para um apartamento. Quando tiver um número de telefone, vais poder telefonar-me todos os dias; e também me podes telefonar para a agência. — Mas esse era um fraco consolo para Andy, que rompeu num choro convulsivo, enquanto Brad o abraçava.

— Eu não quero que te vás embora... — repetiu ele por entre soluços. Confrontada com o inegável dramatismo da cena Page não pôde evitar as lágrimas que rolavam pelas suas faces.

— Eu também não queria ir, filho, mas tem de ser assim.

— Porquê? — Andy não conseguia perceber o motivo daquela separação, e observando o lho aninhado no colo do pai nem para Page era fácil compreender esse motivo.               

—É difícil explicar... a situação complicou-se muito.             

— E não pode voltar a ser tudo como era antes? — Era uma pergunta lógica, que fez com que Brad lançasse um sorriso triste a Page, também ele comovido.

— Gostava que isso fosse possível — respondeu Brad. Mas, na verdade, esse desejo não era absolutamente sincero, pois Brad sentia-se aliviado por poder sair de casa. Queria voltar a ser dono da sua vida e do seu apartamento, se possível, compartilhando ambos com Stephanie, e não podia deixar de se sentir igualmente entusiasmado com o facto de ir morar sozinho. Stephanie manifestara o desejo de se mudar de imediato para o apartamento de Brad, mas este era da opinião que deveriam esperar mais um ou dois meses.

Foi somente nessa noite, ao verificar a dor que a sua partida causaria, que Brad se deu conta que também para ele era extremamente penoso deixá-los. Todavia, conhecia-se suficientemente bem para reconhecer que, se mudasse de ideias, bastariam alguns dias para adoptar de novo o seu comportamento habitual, voltando assim a fugir de casa sempre que o pudesse fazer. A verdade era que, apesar do seu próprio sófrimento e do seu amor pelo filho Brad se sentia preparado para partir.

—Não vás, papá... — implorava Andy, intensificando ainda mais a angústia da mãe.

— Filho, vais ter de aceitar a nossa decisão. Tenho a certeza absoluta de que é a melhor solução para todos nós.

— O que é que a AUie vai pensar quando voltar para casa? — Os pais apercebiam-se facilmente de que Andy tentava todos os recursos ao seu alcance para convencer Brad a mudar de ideias.

— Quando isso acontecer, nós vamos ter de lhe explicar o que aconteceu. — Andy, soluçando, correu então para a mãe, que o acolheu nos seus braços.

Aquela noite foi horrível para todos eles.

Brad decidiu partir apenas no dia seguinte, e passou toda a noite a rever papéis de trabalho atrasados. Na manhã seguinte, o ambiente que reinava naquela casa era de luto.

Para o pequeno-almoço Page decidiu fazer panquecas e salsichas, que normalmente o filho e o marido adoravam, mas nesse dia comeram ambos muito pouco. Andy tinha um jogo de basebol marcado para essa tarde, mas com o braço ao peito, não poderia comparecer. Por esse motivo, pediu ao pai que ficasse a jogar com ele, mas antes do almoço Brad declarou que necessitava de ir à agência; Stephanie estava já à sua espera.

— Quando' é que eu te vejo, pai? — perguntou Andy quase em pânico, ao ver o pai colocar todas as malas no porta-bagagens do seu carro, pronto para os deixar.

— No próximo sábado, filho, prometo. Faze de conta que o pai vai fazer uma viagem. Se quiseres, podes telefonar-me todos os dias para o trabalho. — Contudo, nada era suficiente para conolar Andy, que, tal como a mãe, chorava convulsivamente, permanecendo à porta de casa até ver o carro do pai arrancar. Page concluiu então que, exceptuando a data do acidente da. lha, aquele era o dia mais difícil de toda a sua vida. Tudo , que antes possuíam estava agora destruído para sempre: toda a esperança inicial, os anos de vida em comum, o casamento feliz que haviam usufruído e a família que tinham construído.

Andy ficou durante muito tempo a chorar nos braços da mãe, até esta decidir levá-lo para dentro de casa e fazê-lo sentar a seu lado na sala. Dir-se-ia que choravam a morte de um ente querido; e de facto, ambos sentiam que haviam perdido duas pessoas a quem muito amavam. Como tal Page mal pôde acreditar quando a mãe lhe telefonou de Nova Iorque à hora de almoço para lhe agradecer a estada em sua casa.

— Foram uns dias muito agradáveis! E gostei muito de ver a Allyson. Tenho a certeza de que ela já deve estar muito melhor. — A fluência do discurso deixou Page sem saber o que responder. Prometeu então telefonar mais tarde e desligou o telefone, voltando em seguida para perto do filho, que continuava deitado em cima da cama, a chorar. Era evidente que a separação dos pais estava a ser extremamente dolorosa para Andy, e Page tinha de admitir que ela própria também estava a sofrer. Assistir à partida de Brad intensificara a dor da separação, que subitamente se tornara uma realidade inevitável.

— Eu sei que estás a sofrer, meu amor. Mas vamos ter de nos habituar... — afirmou Page, também ela chorando. Andy voltou-se então para a mãe e perguntou:

— Tu querias que o pai se fosse embora? — De quem era a culpa? Seria da mãe? Dele próprio? Da irmã? Andy não conseguia entender.

— Não, eu não queria que o teu pai nos deixasse. Mas sabia que ele tinha de o fazer... A nossa vida estava cada vez mais complicada.

— Porquê? Porque é que vocês se zangavam tanto?

— Para ser sincera, Andy, não sei bem. — Era muito dicil explicar aquela situação ao filho; se nem ela própria sãbia definir o que se passara, como é que o poderia explica a uma criança de sete anos?                                            

Trygve telefonou ao m da tarde para os convidar a provar um dos seus cozinhados, e Page contou-lhe então o sucedido. Andy, no entanto, mostrou alguma relutância em sair de casa, não se animando nem com a possibilidade de estar com Bjom. Por fim, acabou por ceder e entrou na carrinha de Page contrafeito, levando consigo o urso de pelúcia que todas as noites lhe fazia companhia.

— O Bjorn também tem um — explicou ele a Page. — O dele chama-se Charlie.

Quando Page e o filho chegaram ao destino, Bjorn pôde constatar de imediato que o amigo estava muito triste. Sentaram-se os dois no jardim e Andy contou-lhe então o que sucedera.

— Como é que ele está? — perguntou Trygve, referindo-se a Andy, mas preocupado também com Page.                

— Ficou muito abalado. Quando chegou a altura, foi muito pior do que eu imaginava... foi um horror!

— Lembro-me muito bem do dia em que a Dana partiu. — Recordar essa ocasião ainda o entristecia. Nesse dia, todos eles tinham chorado horas a fio, inclusive a própria Dana. — Meu Deus, vocês devem ter sofrido muito...

— Nestes últimos dias, qual de nós não sofreu? — indagou Page, novaente exausta. — Como está a Chioe?

— Demasiado animada para permanecer no hospital... as enfermeiras mal podem esperar que ela venha para casa! Para a semana já deve ter alta, se eu até lá conseguir montar as rampas para a cadeira de rodas. Ela vai ficar a dormir no rés-do-chão no quarto do Nick. — Ao ouvi-lo Page ponderou na imensa alegria que Trygve sentiria por poder acolher novamente a filha em casa. Em quatro semanas, não tinha havido a menor alteração no quadro clínico de Allyson. Ainda existia uma esperança, mas se dentro em breve não se registassem quaisquer alterações na saúde da lha, ela depressa deixaria de existir.

Nessa noite o jantar decorreu normal e harmoniosamente. Conversaram sobre a ementa do churrasco que Trygve iria fazer no Memorial Day e em seguida ofereceu a Page uma cópia do último artigo que escrevera para o New York Times. Foi um serão muito ameno, e Trygve fez questão de não exercer a mínima pressão sobre Page, pois sabendo que ela estava ainda a sofrer com a separação, não desejava, de forma alguma, aumentar a sua ansiedade.

— Não esperava ter sentido tanto a partida do Brad — confessou Page depois do jantar, quando estavam os dois sentados nas cadeiras do jardim, enxotando os mosquitos que esvoaçavam em redor.

— Mas é perfeitamente compreensível Page. Terias de ser muito insensível para que o fim de um casamento de dezasseis anos não te abalasse. Quando a Dana nos abandonou, eu sentia-me já bastante distanciado, mas mesmo assim a partida dela ainda me custou muito. Levei muito tempo a recuperar, por isso é possível que te aconteça o mesmo.

—Já nem sequer consigo denir aquilo que sinto. A minha vida está cada vez mais complicada!

— Enganas-te; mas é natural que te sintas desanimada, depois de tantos problemas difíceis. A propósito, como está a Aie? Falaste com o doutor Hammerman?

— Ele está convencido que a recuperação ainda é possível, mas se ela não sair do coma dentro de u ou dois meses, vai deixar de existir alguma esperança. Começo a ter medo de que a Ailie não recupere, Trygve.

Este demorou bastante a responder, e Page contemplou as estrelas em silêncio.

— Espero que isso não aconteça. — Ele recordou então algo que tinha para relatar a Page. — Na semana passada, contaram-me um facto muito interessante. Ainda não te contei porque estavas muito ocupada e não te quis perturbar ainda mais.

— O que foi?

— Alguém viu a Laura Hutchinson numa festa, completamente embriagada. Aliás, «embriagada» é um termo suave de mais para o estado em que ela se encontrava! Contaram-me que estava completamente bêbada e que teve de ser levada para casa o mais depressa e o mais discretamente possível. Isso fez-me pensar se o mesmo não teria já sucedido antes, até talvez na noite do acidente. Se algum de nós beber demasiado é provável que faça figuras ridículas e troque o passo, o que prova que raramente bebemos; mas se se tratar de alguém com um problema de alcoolismo, o efeito já é completamente diferente... além do mais, numa situação delicada e sendo ela uma figura pública, temos de concordar que o assunto seria encarado de uma outra forma. Tentar-se-ia abafar ao máximo um possível escândalo, para que ninguém descobrisse a verdade.

«Sempre desconfiei que, naquela noite, Laura Hutchinson pudesse estar embriagada. Por aquilo que sei, ela mostrou-se muito abalada, muito humilde, pediu muitas desculpas, e foi o mais amável possível para os pais do Phillip... — Era do conhecimento geral que a mulher do senador havia doado uma elevada quantia à Escola Secundária Redwood, em homenagem a Phillip. — Sempre pensei que ela agira dessa forma porque se sentia responsável.

— É possível. Ou então lamentou sinceramente a morte do Phillip, quer tenha sido ou não culpada pelo acidente. Ela escreveu-me uma carta, lamentando o estado em que a Ailie ficou — respondeu Page, sem alimentar qualquer suspeita.

De início, também ela tinha sentido imensa vontade de culpar Laura Hutchinson, mas naquele momento já ultrapassara esse desejo.

— Ela também me escreveu, mas nunca respondi. O que é que eu podia dizer? «Não se preocupe, está tudo ultrapassado. A senhora quase matou a minha filha, e talvez a tenha condenado a passar a vida numa cadeira de rodas, mas nós estamos agradecidos pela sua atenção.» — Trygve ironizava, bastante irritado, mas depois fez uma pausa e fitou Page pensativamente. — Sabes...? Há dias, tive uma ideia muito estranha. Não sei bem aquilo que procuro, mas lembrei-me que tenho um velho amigo que é jornalista e trabalha como investigador para uma dessas revistas muito populares, que exploram todos os podres das figuras públicas. Ele pode ter fontes de informação bastante úteis.

— O que é que pretendias? — indagou Page, interessada.

— Não tenho bem a certeza. Procuro alguma pista... Sei que podemos estar à procura de uma agulha num palheiro, mas olhando para trás tenho cada vez mais a certeza de que se passou algo de estranho naquela noite. Talvez assim pudéssemos descobrir a verdade. Talvez a mulher do senador ainda seja alcoólica, e se assim for, temos todo o direito de o saber.

— Porque é que não falas com esse teu amigo? — sugeriu Page calmamente. Trygve concordou e esboçou um sorriso. — Os pais do Phiip também devem ter todo o interesse em obter essa informação. — Mr. Chapman tinha acabado de processar os dois jornais locais que anunciaram o acidente.

—Não passamos de dois agitadores... — respondeu Trygve.

— Talvez Laura Hutchinson não mereça o nosso silêncio — murmurou Page, tristemente. Trygve concordou.

 

As duas semanas seguintes passara muito depressa, e foram caracterizadas por alguns momentos dolorosos e por outros bastante agradáveis. A semana que se seguiu à partida de Brad foi muitíssimo penosa para Page. Andy chorava todas as noites, e ela foi obrigada a ir buscá-lo duas vezes à escola, depois de a professora a ter informado do comportamento irregular e agitado do filho; houve até um dia em que Page temeu que ele tivesse tentado fugir novamente de casa, mas após uma breve busca encontrou-o sentado a um canto do jardim, agarrado ao seu urso de pelúcia. Era extremamente duro para Page lidar com aquela situação, já que Andy lhe exigia, inconscientemente, algo que ela não lhe podia continuar a oferecer: um pai.

Brad cumpriu o prometido e levou Andy a passear no sábado seguinte à sua mudança, mas o regresso a casa não foi fácil. O pai levara-o a visitar um aquário, mas já em casa, Andy implorou-lhe que ficasse. Brad armou que não o podia fazer, e teria de bom grado levado Andy consigo se não julgasse ainda um pouco precipitado apresentá-lo a Stephanie. Esta passava a maior parte do tempo no seu apartamento, e, por isso, Brad queria evitar que o filho associasse a presença de Stephanie à dor da separação.

A segunda semana decorreu de uma forma um pouco mais amena. Page levou Andy de novo ao hospital para visitar a irmã e Trygve convidou-os para jantar em sua casa várias vezes. No sábado, Andy voltou a sair com o pai, e no dia seguinte, Chioe regressou a casa, decorridas seis semanas após o acidente que por pouco não a vitimou. Foi Trygve quem a trouxe, enquanto Bjorn esperava a irmã em casa, decorada com enormes letreiros de boas-vindas e com vários ramos de flores que ele próprio colhera do jardim. Ele e o pai tinham feito um bolo na noite anterior, mas nesse dia, Bjorn preparou alguns dos pratos preferidos de Chioe sem a ajuda de ninguém. Até mesmo Nick decidira vir passar o fim-de-semana a casa, cedendo o seu quarto à irmã. Todos fizeram os possíveis para que Chioe fosse recebida de uma forma muito calorosa.

Depois de Chioe se ter instalado Page e Andy vieram fazer-lhe uma visita. Ela estava deitada no sofá da sala, numa posição menos confortável do que na cama do hospital, mas aparentando um contentamento muito maior. Ainda sentia bastantes dores nas pernas, mas esforçava-se por diminuir a dose de analgésicos, pois temia car viciada nesse tipo de medicamentos. Assim, tentava esquecer a dor entretendo-se com os meios que tinha à sua disposição.

Jamie Appiegate viera também visitá-la nessa tarde, mas ao vê-la, a sua reacção foi algo estranha. Estava muito habituado a visitá-la no hospital, mas entrar em casa de Chioe recordava-o do procedimento desonesto que haviam tido na noite que deixara marcadas as vidas de Chioe e de Allyson, e em que Phillip perdera a sua. O ambiente doméstico relembrava a todos os presentes essa circunstância, e Jamie falou com Chioe sobre o assunto, enquanto Bjorn, Trygve, Page e Andy conversavam na cozinha.

Foi um dia agradável. De momento, o pior já havia passado; apesar de os médicos os terem avisado de que seria provável que Chioe tivesse de ser submetida a uma segunda cirurgia, ela nunca mais voltaria a correr risco de vida, nem sentiria tantas dores, nem voltaria a estar tão incapacitada como ainda estava naquele momento. Agora, era somente uma questão de sarar da melhor forma possível as fracturas das suas pernas, e já não de sobrevivência. Deitada no sofá da sala e coberta por uma manta de caxemira rosa que Page lhe oferecera, Chioe continuava tão jovem e tão bonita quanto sempre fora. Enquanto conversava com Jamie acerca de Phillip e de Allyson, passava os dedos pela manta, sentindo a extrema suavidade e macieza da lã.

— É estranho, não é? — indagou, fitando-o com um olhar triste. — Eu não posso telefonar à AUie... e tu não podes telefonar ao Phillip. Às vezes, isso faz-me sentir tão sozinha... — desabafou, continuando a fitá-lo com o seus bonitos olhos azuis toldados pela tristeza. Durante todo aquele tempo, Chioe havia prestado uma grande ajuda a Jamie, pois referia-se ao acidente e àquilo que ambos sentiam de uma forma muito simples e directa, como ele nunca teria tido coragem para fazer. Sendo ela uma rapariga, era mais fácil para Chioe referir-se desse modo ao assunto, o que oferecia ajamie a oportunidade de desabafar sobre a forma como se havia sentido culpado por ter sido o único a escapar ileso do acidente, e pela angústia que sentira ao verificar que a sua vida havia sido a única que permanecera inalterada. Jamie ainda não estava totalmente liberto desse sentimento inevitável de culpa, e de vez em quando consultava um psicoterapeuta para o ajudar a ultrapassar isso. Chegara mesmo a frequentar uma sessão de terapia em grupo, onde se reuniam vários sobreviventes de desastres aéreos, incêndios e acidentes de viação, que, tal como Jamie, haviam perdido os seus familiares e amigos. Para Jamie, conversar com essas pessoas representara um grande passo em frente, como mais tarde ele admitiu perante Chioe.

— Então, o que é que vamos fazer hoje? — perguntou Jamie. Em seis semanas, Chioe e Jamie tinham aprofundado muito a amizade que os unia, o que levava este último a supor que já sabia tudo sobre a sua amiga: o tipo de música que ela gostava de ouvir, os seus actores e actrizes de cinema favoritos, os amigos que ela preferia, as pessoas de quem não gostava, o tipo de casa onde gostaria de viver em adulta, quantos filhos desejava ter e a universidade que gostaria de frequentar. Os dois jovens conversavam sobre todos os temas, desde os mais profundos aos triviais.

— Não decidi ainda — respondeu Chioe, brincando —, mas tinha pensado em ir dançar. O que é que achas? — Apesar de tudo por que passara, não perdera o seu sentido de humor.

Jamie fitou-a então muito sério e tomou uma das suas mãos.

— Prometo-te que um dia o faremos. Alugamos uma limusina como se fôssemos para um baile de gala, e depois vamos a um sítio muito elegante e dançamos toda a noite — declarou ele. Jamie estava realmente a falar a sério, e Chioe não pôde deixar de se senür comovida pela determinação com que ele o prometera. Nas últimas semanas, Jamie tornara-se para ela um amigo muito especial, de quem gostava muito.

De certa forma, a amizade de Jaime ocupava agora na vida de Chioe o lugar que anteriormente era ocupado pela aizade de Ailie. Se alguém agora perguntasse a Chioe quem era o seu melhor amigo, ela responderia que era Jamie, apesar de ambos terem consciência de que, em parte, o que existia entre eles era mais do que uma simples amizade. Nenhum dos dois se atrevera ainda a admitir isso, mas tinham aprendido a contar um com o outro sem quaisquer reservas, tal como sucedera, inadvertidamente, com Page e com Trygve.

— O que é que estão a fazer? — indagou Trygve ao entrar na sala um pouco mais tarde, com o propósito de verificar se a filha desejava beber alguma coisa, ou se estava demasiado cansada e precisaria assim de se deitar. Todavia, Chioe dava mostras de estar muito bem disposta, conversando animadamente com Jamie, enquanto repousava no sofá da sala.

— Estávamos só a conversar — respondeu Jamie com bastante descontracção. Significava muito para ele o facto de Trygve o deixar passar bastante tempo com Chioe depois do acidente, dando-lhe a oportunidade de a conhecer melhor. Inicialmente, admitira que isso só se verificaria enquanto Chioe estivesse internada no hospital, e que, mais tarde, quando esta regressasse a casa, Trygve não permitiria que ele a visitasse; mas isso não se havia verificado, de forma que Jamie se sentiu aliviado por ser bem recebido nessa tarde em casa de Chioe e por poder partilhar com a amiga a alegria do regresso. — O que é que eu posso fazer para ajudar? — perguntou ele a Trygve, ansioso por ser útil.

O pai de Chioe limitou-se a pedir-lhe que continuasse a fazer companhia à filha, e que estivesse atento a uma possível queda do sofá; pediu também que o chamasse quando Chioe necessitasse de ir à casa de banho.

Posteriormente, quando Jamie chamou Trygve exactamente para esse fim, Chioe foi transportada até à casa de banho com a ajuda do pai e de Page, mas depois de entrar, não necessitou de mais auxílio. No entanto, era óbvio que Chioe iria precisar de muita ajuda para se poder movimentar pela casa, e até para executar as mais insignificantes tarefas. O regresso a casa não representava o fim dos desafios, mas sim o princípio.

Page comentou esse facto com Trygve, quando ambos regressaram à cozinha para beberem mais um café.

— Sim, eu sei — respondeu Trygve com seriedade. Já ponderara esse facto diversas vezes e chegara à conclusão que o regresso a casa seria um passo muito difícil e muito imitador para a filha. Agora que Chioe abandonara o hospital, era natural que esperasse voltar a usufruir da mesma liberdade de movimentos que sempre a caracterizara dentro de casa; contudo, o regresso a casa não era miraculoso. Iria ser necessário muito esforço e muita paciência até Chioe reconquistar a vida livre e facilitada que conhecera antes do acidente. — Já contratei uma enfermeira para tratar da Chioe algumas horas por dia, quando eu precisar de sair ou de trabalhar. O Bjorn também vai ajudar-me muito, mas mesmo assim, os primeiros tempos não vão ser nada fáceis. Já sabia que iria ser desta forma, mas não sei se a Chioe se apercebeu disso antes de sair do hospital. — Sorriu para Page e ela deu-se conta, mais uma vez, de quanto o admirava; ele era um homem extremamente bondoso, com quem todos eles contavam, até mesmo Page.

No fim da tarde, Page e Andy regressaram a casa, onde passaram um serão muito calmo e tranquilo. Page preparou para Andy o seu prato preferido, depois assistiram a um filme de vídeo enquanto comiam pipocas, e por fim adormeceram os dois na mesma cama.

O dia seguinte era o Memorial Day, data que Trygve estabelecera para organizar um churrasco em sua casa. Convidou quatro ou cinco amigos de Chioe, incluindo com naturalidade Jamie Appiegate nesse grupo e convidou também Page e Andy, como seria de esperar.

— São bons miúdos — comentou Trygve para Page, referindo-se aos amigos da filha. Ele sentou-se então ao lado de Page, co um copo de vinho na mão e ainda com um avental. Parecia cansado. Passara a maior parte da noite a pé, assistindo a filha.

— Tenho a certeza que sim; e parecem muito felizes pelo regresso da Chioe — respondeu Page com um sorriso nos lábios, imaginando como seria maravilhoso se Ailie estivesse ali presente com todos eles. Encontrar Chioe era sempre difídl para Page, carregada de recordações e de expectativas, conforme Trygve tão bem entendia.

— Este acidente foi uma experiência tão marcante para todos nós — afirmou Trygve, suspirando. — Por vezes tenho a sensação de que nunca poderemos voltar a ser o que éramos. Todos os que sofreram os seus efeitos viram as suas vidas transformadas. — Essas palavras aplicavam-se particularmente às vidas de Alhe e de Phillip. — Então e tu, Page? — Trygve fitou-a com um olhar carinhoso. — Como é que tens passado? — Desde que Brad saíra de casa, Trygve passara muito menos tempo com Page. Sentira muito a sua falta, mas apercebera-se de que a separação havia sido muito traumática para Page, e preferira proporcionar-lhe o tempo necessário para ela se adaptar à sua nova vida. Page apercebera-se igualmente da intenção de Trygve e sentia-se grata pelo seu cuidado, apesar de sentir também muito a falta da sua amizade e das suas palavras românticas. Trygve adivinhava as suas necessidades mesmo antes de ela as poder denir a si própria.

— Tenho passado bem — respondeu Page, a meia voz. Fora mais difícil do que ela esperava.

— Sinto muito a tua falta — afirmou ele, fixando os seus olhos nos dela.

— Eu também — secundou ela, suavemente. — Nunca pensei que fosse tão difícil. Por um lado, uma separação é uma experiência muito triste, que nos faz sentir muito sós, mas por outro, chega a ser alívio, porque nos últimos tempos o sofrimento foi constante. Agora já não, mas continua a ser muito doloroso. Há momentos em que me sinto cheia de coragem e de força, mas há outros em que me sinto tão... — ela fez uma pausa, procurando encontrar o termo mais adequado — desprotegida — concluiu, por fim. Depois de tantos anos de casada, era perfeitamente natural que Page encontrasse sérias dificuldades em se adaptar a viver sozinha.

— Não estás desprotegida Page. Afinal, continuas a gozar da mesma protecção que sempre tiveste. Já reparaste que foste sempre tu e não o Brad quem se encarregou de tomar conta de todos? — Apesar de saber que isso correspondia em absoluto à verdade, só agora Page começava a poder compreender esse facto. Além do mais, nas últimas duas semanas Brad efectuara apenas uma ou duas visitas a AUie, apesar de não deixar de passar algum tempo com Andy.

—Julgo que só agora me começo a aperceber disso. Mas mesmo assim, não deixa de ser estranho que depois de dezasseis anos eu esteja de volta à minha situação inicial. A única diferença é que fiquei sem alguns atoalhados, sem um serviço de prata e sem a minha melhor torradeira! — concluiu Page, sorrindo. É claro que não eram apenas essas as suas preocupações, mas por qualquer motivo sentira-se irritada por tudo aquilo que Brad decidira levar.

— É terrível, não é? — comentou Trygve, também a rir. — A Dana levou exactamente metade de tudo aquilo que possuíamos: metade de todas as lâmpadas, metade das cadeiras da cozinha, metade das panelas e das frigideiras e metade dos faqueiros de prata. Resultado: nada daquilo com que fiquei tem um par, e por isso, ainda hoje, sempre que resolvo receber visitas ou fazer uma simples omeleta, passo a maior parte do tempo a refilar... é que o par que eu nessas alturas procuro foi levado para Inglaterra!

Page sorriu, pouco animada.

— Eu entendo o que deves sentir. No princípio, o Brad afirmou que não queria levar nada, mas depois deve ter reparado que a Stephanie não estava tão bem equipada como ele julgava. Agora é raro o dia em que eu chegue a casa e não dê por falta de alguma coisa; geralmente, ele costuma deixar um bilhete a dizer que levou isto ou aquilo «para descontar depois na sua parte». Não faço ideia das horas a que ele vai lá a casa, só sei que nunca o encontrei nessas alturas. Ontem, por exemplo, o Brad levou metade do faqueiro de prata que a minha mãe me deu.

—Tens de ter mais atenção... isso pode ser perigoso!

— Sim, eu sei. Mas é muito estranho aquilo com que no m nos importamos, não é? Umas pegas de cozinha, algumas panelas, uma torradeira... Coisas tão insignificantes... Parece que, no fim, tudo se resume a uma venda de emoções em segunda mão!

A comparação de Page fez Trygve sorrir, mas era uma comparação verdadeira. Em seguida, fez-lhe uma pergunta que até esse instante não se atrevera ainda a colocar:

— Onde é que tu e o Andy vão passar as férias?

— Férias...? Meu Deus, é verdade! Esta semana já entramos em Junho... Não faço ideia, Trygve; mas julgo que não vou poder deixar a Ailie.

— E se até lá não houver nenhuma alteração no estado dela? Não admites a hipótese de te ausentares por alguns dias, para qualquer sítio que não fosse muito distante? — Trygve questionava-a com uma expressão animada e esperançosa. Ele recordara-a de algo que até então nunca lhe ocorrera; e se realmente não se registasse nenhuma mudança no quadro de Alhe? Sentir-se-ia Page com coragem suficiente para se afastar? Será que deveria começar a viver partindo do princípio de que Ailie poderia car para todo o sempre em estado de coma?

— O que é que tinhas pensado? — indagou ela cautelosamente, ainda meditando nas questões anteriores.

— Em passar duas semanas no lago Tahoe; é lá que nós costumamos passar as férias. O Bjom gostaria muito de poder levar o Andy... — Trygve fez uma curta pausa, olhou noutra direcção e depois voltou a fitá-la, acrescentando: — E eu adoraria poder levar-te comigo.

— Eu também gostaria muito de poder ir — respondeu Page, docemente. — Mas tudo depende do estado da Alhe. Quando é que vocês partem?

— Em Agosto.

— Ainda faltam dois meses. E nesse período de tempo, tudo se pode modificar. — Para Alhe, só existiam duas hipóteses: ou surgiriam alguns progressos, ou ela estaria condenada a permanecer para sempre em coma.

— Só gostava que desses um pouco de atenção a essa ideia — confessou ele. O brilho intenso dos olhos de Trygve denunciava a emoção que o movera a convidá-la.

— Prometo que vou pensar — respondeu Page. Quando as mãos de ambos se tocaram, voltaram a sentir a forte atracção que já haviam reconhecido, durante alguns breves instantes. Trygve afastara-se após a separação de Page, receando confundi-la ou apressá-la, mas não unha deixado de sentir a sua falta.

Page regressou mais tarde do que era costume a casa, e Andy adormeceu no carro. Tinham passado um bom fim-de-semana.

Quando Andy já estava a dormir na cama de Page, e esta se encontrava deitada, sentindo-se de novo só, Trygve telefonou-lhe.

— Sinto muito a tua falta — afirmou ele. Page sorriu. Agora que Chioe abandonara o hospital, ela e Trygve encontrar-se-iam muito menos, a não ser que ele se deslocasse até ao hospital com o único propósito de a ver, uma vez que já conhecia a rotina diária de Page. — Aliás, eu sinto sempre a tua falta — reafirmou ele, com uma voz grave e sensual. Na maioria das vezes Page esforçava-se por não pensar em Trygve, pois desejara conceder a si própria algum tempo para se adaptar à ausência de Brad e para relembrar o seu casamento. Todavia, também ela sentira a falta de Trygve, pois considerava-o um grande amigo, um homem muito atraente e uma boa companhia. — Quando é que posso voltar a ver-

-te? — indagou ele. — Não creio que possamos continuar a encontrar-nos toda a vida na sala de espera da unidade de cuidados intensivos! — Ambos tinham ainda bem presentes as horas intermináveis aí passadas, e os recentes beijos e abraços que aí haviam trocado.

— Espero que em breve nos possamos encontrar noutro local — respondeu ela, melancolicamente.

— Também eu. Mas até esse dia chegar, aceitas um convite para sair uma destas noites? Tenho algumas condições:

tem de ser sem os nossos filhos, sem a presença das enfermeiras e sem ser para jantar uma piza, mas sim comida de gente crescida! — Page reagiu com um sorriso a esse convite inesperado, que de imediato lhe agradou. Há anos que ninguém a convidava para sair, e essa ocorrência fazia-a sentir-

-se mais jovem e mais atraente.

— Acho uma óptima ideia! — Desde a data do acidente, há seis semanas atrás Page apenas saíra uma vez, na ocasião em que a mãe os convidara para jantar; mas agora sentia-se já preparada para aceitar o convite de Trygve. — Quer dizer que não vou ter de cozinhar?

— De forma alguma! — respondeu Trygve, enfaticamente. — E não vais ter de comer o meu guisado norueguês nem almôndegas suecas; também não vais comer hamburgers, prometo. Nessa noite, só é permitida boa comida, própria para

adultos. E que tal se formos jantar ao Silver Dove na próxima quinta-feira? — Era um dos restaurantes mais românticos de Marin, e situava-se relativamente perto, o que lhes permitiria regressar com facilidade, caso algo acontecesse.

— Magnífico! — aceitou Page, sentindo uma alegria que já não sentia há muito tempo. Mesmo vestida com a sua camisola de jardinagem e calçada com os seus sapatos mais velhos, Trygve arranjava sempre uma forma de a fazer sentir-se uma mulher bonita e especial.

— Então vou aí buscar-te às sete e meia.

— Óptimo. — Nessa noite, teria de deixar Andy em casa de Jane, ou então poderia contratar uma baby-sitter. De súbito, Page recordou algo que a fez soltar uma gargalhada.

— Porque é que estás a rir?

— Lembrei-me que, em dezassete anos, este é o primeiro convite ocial que aceito. Já nem tenho a certeza se ainda sei como comportar-me!

— Não te preocupes; eu encarrego-me de te mostrar. — Começaram os dois a rir ao mesmo tempo, sentindo-se ambos como dois adolescentes. Continuaram a conversar por mais algum tempo, referindo outros temas que não os seus lhos, como era hábito. Falaram a respeito do último artigo que Trygve elaborara, dos planos que Page tinha para o novo mural da escola e da casa de Trygve em Tahoe. Ele contou a Page, no decorrer da conversa, que havia já contactado o seu amigo jornalista, o qual iniciara as investigações acerca de Laura Hutchinson e do seu problema com a bebida. Provavelmente, no se chegaria a nenhuma conclusão definitiva, e seria sempre difícil provar alguma responsabilidade no acidente, mas, apesar disso, Trygve continuava a guiar-se pelas suas suspeitas.

— Até amanhã — despediu-se ele por fim, com a voz novamente velada e sensual. Page não entendeu o motivo que o levara a despedir-se dela desse modo, até o ver aparecer no dia seguinte no hospital, com um ramo de flores numa mão e com um cesto de piquenique na outra.

Page estivera até então a auxiliar os terapeutas a exercitar os músculos de AUie. As suas pernas começavam já a perder toda a flexibilidade, os seus pés encontravam-se hirtos, os cotovelos flectidos, os braços pesados e as mãos firmemente fechadas. Eram necessários inúmeros exercícios para conseguir mover, dobrar ou esticar os seus membros, e tal como a sua mente, também o corpo de Ailie parecia não ter já nenhuma reacção. Era extremamente deprimente trabalhar com os terapeutas, de forma que, ao ver Trygve, a alegria de Page não podia ser maior.

— Vamos até lá fora. — Trygve notou de imediato que Page se encontrava especialmente fatigada e deprimida. — Está um dia magnífico. — De facto, o dia estava lindo: o céu encontrava-se muito azul e a temperatura amena, tal como seria de esperar de um dia de Junho típico da Califórnia. No exacto instante em que Page respirou o ar límpido do parque do hospital, a sua disposição melhorou.

Tal como algumas enfermeiras, estudantes de Medicina e estagiários, também Trygve e Page resolveram sentar-se no enorme relvado que existia em frente ao hospital. Dir-se-ia que a única ocupação de todos os que ali se encontravam era gozar tranquila e indolentemente a companhia do seu par.

— São os efeitos da Primavera — comentou Trygve, deitado de costas no relvado, enquanto Page, a seu lado, aspirava o aroma perfumado das flores que ele lhe oferecera. Sem dar por isso, Page passou suavemente as pontas dos dedos pelas faces de Trygve, e este lançou-lhe um olhar de uma intensidade que ela há muito não reconhecia nos olhos de um homem; de súbito, duvidou se alguém, alguma vez, a contemplara com semelhante expressão e apercebeu-se então daquilo que até então estivera a perder. — Tu és muito bonita... és mesmo muito, muito bonita. Na verdade — acrescentou Trygve, com um largo sorriso —, és tão bonita que até pareces norueguesa!

— Mas não sou — respondeu Page sorrindo e sentindo-se, tal como Trygve, subitamente jovem e descontraída. — O meu apelido, Addison, é inglês.

— Para mim, a tua beleza é típica de uma perfeita escandinava! — Ele fitou-a então com uma expressão mais séria. — Já pensaste nos filhos adoráveis que podíamos ter? Não gostavas de ser mãe outra vez? — indagou ele, curioso. Desejava descobrir tudo acerca de Page, não apenas a sua faceta de boa mãe, as suas reacções ao estado de saúde de Ailie, ou a sua coragem para enfrentar as dificuldades. Trygve desejava conhecer tudo o mais sobre Page, tudo aquilo que ainda não havam tido tempo para descobrir por estarem demasiado absorvidos e preocupados com a saúde das suas filhas.

— Eu sempre quis ter mais filhos — respondeu Page. — Mas talvez agora já seja um pouco tarde de mais... tenho trinta e nove anos e, de momento, a Ailie e o Andy dão-me trabalho suficiente.

— Mas não vai ser sempre assim, e seja como for, vais conseguir ocupar-te da Ailie seguindo uma rotina diária. — Page sabia que precisava de seguir essa rotina, até por uma questão de mera sobrevivência. — Eu tenho quarenta e dois anos, mas não me sinto velho de mais para ser pai outra vez. Adorava ter mais dois filhos, e com trinta e nove anos, podes ter mais uma dúzia!

— Que ideia a tua! — Page riu, mas depois pensou no assunto. — O Andy ia adorar ter um irmão. Conversámos sobre isso quando eu fui buscá-lo ao jogo de basebol e, exactamente nessa noite, a Ailie sofreu o acidente... mudou tudo desde esse dia, não foi? — Trygve concordou. Seis semanas e meia depois Page já não vivia com o marido e Chioe já não era uma bailarina com um futuro promissor, já para não mencionar Phillip, que perdera a vida, ou Ailie, cujo futuro permanecia incerto. — Seja como for, eu gostava de ter mais filhos. Pelo menos, um filho, apesar de ter de ponderar bem a minha vida antes de engravidar. Além disso, gostava igualmente de poder continuar o meu trabalho de pintura. Queres saber uma novidade? Fiquei a pensar naquilo que me disseste no outro dia acerca de pintar um mural na sala de espera dos cuidados intensivos e já falei com a Francês a esse respeito. — Essa era a enfermeira que preferia. — Ela prometeu que iria falar com alguém sobre o assunto.

— Também tenho uma proposta para te fazer, Page. Gostava muito que considerasses a hipótese de pintar um dos teus murais em minha casa. Então, aceitas-me como teu cliente? Estabelecendo um preço, é claro!

— Com todo o gosto!

— Fico muito contente. E que tal ires até minha casa amanhã à noite, depois de jantar, para estudares bem oassunto e veres que tipo de pintura se adequa? Podias levar o Andy.

— Não te vais cansar de mim, se me voltares a ver na quinta-feira? — indagou ela, sinceramente preocupada. Trygve soltou uma gargalhada e respondeu:

— Page, não creio que me pudesse cansar da tua presença, mesmo que te tivesse todos os dias e todas as noites ao meu lado. Aliás, essa é uma ideia que ainda não desisti de pôr em prática. — Ao ouvir aquela confissão, Page corou e ele puxou-a para os seus braços e beijou-a. — Estou apaixonado por ti, Page — murmurou ele. — Muito, muito, muito apaixonado! E nunca me vou cansar de ti, percebes? Nós dois vamos ter mais dez filhos e vamos viver felizes para sempre! — Trygve ria de contentamento e continuava a beijá-la, e Page, estendida no relvado nos braços dele, sentia-se de novo uma adolescente. Era quase bom de mais para ser verdade, e o seu maior desejo era que aquela sensação de felicidade durasse e que Trygve estivesse, de facto, a ser totalmente sincero.

Por fim Page e Trygve acabaram por se levantar, e embora a ideia de regressar para a unidade de cuidados intensivos a deixasse novamente sem forças, Page sabia que não deveria demorar-se mais. Por vezes era muito difícil enfrentar de novo aquele ambiente: os exercícios e os movimentos diários, as visitas dos terapeutas, o ventilador, o silêncio da enfermaria, a apatia total e a profundidade do estado de coma em que a filha se encontrava mergulhada. Contudo, Page nunca deixava de ir, nunca faltava com a sua presença. Era tão pontual e tão certa que as enfermeiras podiam até acertar os relógios pela sua hora de chegada; ela costumava também regressar à noite e sentar-se à cabeceira da filha durante horas a fio, segurando-lhe a mão, acariciando-lhe a face e falando-lhe com todo o carinho.

— Eu vou contigo — anunciou Trygve, colocando o braço em redor dos ombros de Page. Dirigiram-se então os dois para o piso onde Ailie se encontrava, sorrindo, abraçados. Page levava o cesto de piquenique e o ramo de flores na mão, bastante menos tensa e angustiada do que estivera antes da chegada dele.

— O almoço foi bom? — indagou uma das enfermeiras quando Page passou por ela, já na enfermaria. Todos os ruídos, os sons, os odores e a iluminação da unidade de cuidados intensivos eram já familiares para Page.

— Foi óptimo, obrigada — respondeu Page, sorrindo para Trygve. Em seguida, regressou ao seu local de vigília habitual e continuou a observar Allie. Page era incansável, a mãe mais devotada que Trygve já conhecera: todos os dias insistia em conversar com a filha, exercitava os seus braços, as suas pernas e estendia os dedos fechados das suas mãos, sempre com uma palavra carinhosa e com um sorriso nos lábios, contando-lhe pequenas histórias que nem sequer sabia se Allie ouviria. Nesse momento, Page relatava à filha o seu almoço no parque e informava-a do dia maravilhoso que estava, quando subitamente Allyson deixou escapar um suave murmúrio e moveu lentamente a cabeça na direcção da sua mãe. Page parou imediatamente de falar e fixou os olhos na lha, incrédula e emocionada. Mas Allie continuou tão imóvel como sempre estivera, e os ruídos monótonos e ritmados dos