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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ÁGUIA QUE VOA ALTO / Stephanie Grace Whitson
ÁGUIA QUE VOA ALTO / Stephanie Grace Whitson

 

 

                                                                                                                                   

 

 

 

 

Livro 02 / ÁGUIA QUE VOA ALTO

 

   O campo de batalha estava silencioso. Apenas um tiro ocasional era dado em alguma parte entre as árvores, a cerca de um quilômetro abaixo, no vale. Ali, prevalecia um silêncio lúgubre, quebrado apenas uma vez ou outra, por uma cantiga baixa de vitória, enquanto os guerreiros coletavam lembranças dos mortos.

   Águia que Voa Alto, em pé, examinava o campo de batalha. Aos seus pés estava o corpo de um dos soldados. O mau cheiro de morte enchia o ar. Águia que Voa Alto fechou os olhos e inalou profundamente, permitindo a si mesmo lembrar-se da vitória.

   Levantando sua vaca, ele se agachou e agarrou o cabelo grosso e preto do soldado em uma mão. O brilho do ouro estancou a faca no meio do movimento. Águia que Voa Alto arrebentou o pedaço de ouro do pescoço do soldado, examinando a peça cuidadosamente. Quando virou, a peça se abriu, revelando o retrato de uma jovem mulher. Águia que Voa Alto prendeu a respiração e olhou, admirado, não a jovem mulher, mas a outra – aquela cujos olhos fixos o fitavam firmemente, por trás da jovem.

   Ela estava mais velha e a boca desenhava uma linha séria, reta. Águia que Voa Alto lembrou-se. O cabelo estava preso atrás, do jeito dos brancos, mas ondas e cachos que não podiam ser presos ainda emolduravam a sua face. Águia que Voa Alto lembrou-se. Olhando dentro dos olhos, ele sabia. Ali estava Caminhando nas Chamas... sua mãe.

   Ele tinha quebrado o medalhão ao puxá-lo do pescoço do soldado. Então pegou um tendão de búfalo em seu bolso lateral. Fechado o medalhão, amarrou-o com o tendão, dando um nó forte, e colocou-o no pescoço. Enquanto puxava para baixo, seus dedos passaram por outro pedaço de ouro que estava pendurado em seu pescoço há muitos anos... e nunca fora tirado... guardado com carinho com a última reminiscência de sua mãe. O grito de outro guerreiro que subia a encosta interrompeu suas memórias. Águia que Voa Alto levantou-se e recolocou a faca em sua bainha, levantando a mão, para mais uma vez sentir o contorno da cruz dependurada em seu pescoço. Então, tocando o medalhão para ter certeza de que estava seguro, subiu no pônei e correu de volta para a aldeia. O campo de batalha estava quieto. Tiros distantes eram tudo o que lembrava o encontro. Cabelo Longo e seus homens estavam mortos. Levaria dez dias para esta notícia chegar a Lincoln, Nebraska, onde Caminhando nas Chamas a ouviria e temeria pela vida de seu novo genro, e ficaria imaginando o destino de seu filho adotivo. Demoraria mais ainda até que a verdade fosse descoberta.     O genro, Mackenzie Baird, estava morto no Pequeno Grande Chifre, enquanto o filho adotivo, um bravo lakota, cavalgava, levando um medalhão no lugar de um escalpo.

 

 

 

 

"Os nossos perseguidores foram mais ligeiros do que as aves dos céus; sobre os montes nos perseguiram, no deserto nos armaram ciladas." Lamentações 4:19

 

"Estão todos mortos?", Búfalo Sentado perguntou.

Águia que Voa Alto apeou e aproximou-se do chefe. "Wicunkasotapelo! (Nós matamos todos eles!)"

Búfalo Sentado balançou a cabeça e virou-se. "Então vamos voltar ao acampamento."

Águia que Voa Alto refreou seu pônei, que se mexia como se estivesse dançando, e seguiu Búfalo Sentado até o lugar onde as mulheres, agitadas, tratavam de seus feridos e levantavam tablados para colocar seus mortos.

Ouviu-se um pequeno grito vindo do meio de um grupo de mulheres enquanto Águia que Voa Alto cavalgava entre elas. Uma índia, ainda jovem, correu até seu pônei. "Você está ferido", ela disse, estendendo o corpo para tocar o fluxo de sangue fresco em seu braço.

Águia que Voa Alto rispidamente desviou-se do toque dela. Mas sua voz ainda foi gentil ao responder: "Não é nada".

A índia deu um suspiro profundo e fez uma careta. "É possível sentir a morte no ar aqui."

Águia que Voa Alto balançou a cabeça concordando e virou-se para trás, olhando para a colina pintada com corpos vestidos de azul. "Nós teremos de mudar o acampamento." Ele impeliu seu pônei a andar para frente. A jovem índia aproximou-se de novo. Dessa vez colocou a mão no joelho dele e sussurrou: "Vou cozinhar hoje à noite, Águia que Voa Alto. Você não gostaria de vir até a fogueira de meu pai, para compartilhar a história dessa grande vitória?". Seus olhos brilhavam ao olharem para ele. "Você ganhou muitas penas hoje. Ouvi o Urso Andante e Lobo Solitário conversando sobre você. Disseram que você golpeou o inimigo, pelo menos umas quatro vezes!"

Ele queria terminar a conversa abruptamente, mas sabia que o grupo de jovens mulheres, com quem Winona conversava antes, estava observando. Águia que Voa Alto sorriu graciosamente enquanto procurava uma resposta. Quando a encontrou, não era o que a jovem queria ouvir. "Não vou compartilhar canções sobre vitória hoje." Tiros a distância deram a ele uma desculpa. "Ainda há soldados lá em cima da ribanceira. Quero dar uns tiros neles." Águia que Voa Alto virou o pônei rapidamente e saiu depressa, deixando Winona em pé na poeira.

"Ele vai vir até a sua fogueira hoje à noite?", perguntou, insolentemente, uma das índias jovens. "Ele tem um pedaço de ouro dos soldados. Não ofereceu a você!?", falou, escarnecendo de Winona. "De qualquer modo ele é muito velho para alguém da sua idade. Você deveria procurar um homem mais novo."

O escárnio teve o efeito desejado. Winona apressou-se até o grupo de mulheres e respondeu de volta: "Águia que Voa Alto é o melhor caçador do nosso bando. É o guerreiro mais bravo - e não há homem na aldeia que ousaria apostar uma corrida com seus pôneis!". Enquanto Winona listava às amigas as virtudes de Águia que Voa Alto, uma mulher de meia-idade aproximou-se do grupo.

Flor do Campo repreendeu às jovens mulheres: "Céus, fofocas agora! Isso são horas de ficar contando historinhas bobas de garotas!? Há muito trabalho para fazer por aqui!". Ela enxotou o grupo e, colocando o braço ao redor dos ombros de Winona, chamou -a em particular.

"Você sabe que elas dizem todas essas coisas para irritá-la, não é?"

Winona chutou a poeira. "Elas são tão crianças!"

Flor do Campo sorriu e afagou o braço da jovem garota. "Eu acho que elas são da sua idade." Fazendo uma pausa por um momento, disse em voz meiga: "Águia que Voa Alto é um homem bom. Mas é muito velho para você".

Winona retirou o braço de Flor do Campo, empurrando-o para longe de seus ombros, e respondeu desafiadoramente: "Os bravos da minha idade são tolos. Guerreiam para provar sua bravura. Guerreiam para trazer honra a suas famílias. Guerreiam para ganhar cavalos. Guerreiam para ganhar corações. Quero ir para onde não haja mais guerras".

Flor do Campo considerou o desabafo antes de replicar suavemente: "Eu não acho que tal lugar exista. Nós estamos nos tornando como o outeiro da terra que se levanta das águas da Concha da Lua. O homem branco nos rodeia, pegando mais e mais de tudo o que está à nossa volta, no pequeno outeiro da terra onde vivemos".

Tiros estouraram ao longe. O pequeno grupo de soldados tinha encontrado abrigo em uma das ribanceiras altas. A distância, as mulheres podiam ver os pôneis dos guerreiros disparando de volta e em direção dos pés da ribanceira.

Flor do Campo murmurou: "Eu os ouvi dizer que deixariam um caminho aberto ao leste no caso de os soldados desejarem fugir".

"Bom", veio a resposta, "espero que eles fujam. Espero que nos deixem sozinhos!" O rosto de Winona brilhava. "Talvez Águia que Voa Alto venha à fogueira de meu pai."

 

Flor do Campo a interrompeu: "Talvez ele a embrulhe em sua pele de búfalo!?".

Winona sorriu enquanto Flor do Campo a abraçava e então a empurrou para a tenda de seu pai. "Vá! Há muito trabalho para ser feito. Águia que Voa Alto disse que teríamos de mudar o acampamento, e eu acho que ele está certo. Sua mãe deve estar esperando você para ajudá-la." As duas mulheres dispararam e aprontaram tudo para a mudança, em meio aos sons distantes de escaramuças.

Durante todo aquele dia e mesmo à noite, ouviram-se tiros. Búfalo Sentado, Águia que Voa Alto, e muitos outros atacavam de lá para cá, desafiando as balas que vinham dos soldados da ribanceira, enquanto se escutava o som assustador de canções matutinas e gritos de desgosto no acampamento, vindo daqueles que haviam perdido queridos na batalha. Os soldados na ribanceira estavam amedrontados achando que aqueles sons fossem de danças de vitória. Mas os índios Sioux não se regozijavam. Haviam perdido muitos naquele dia.

Quando Búfalo Sentado retornou ao acampamento, chamou seus jovens guerreiros e viu, com satisfação, que haviam obedecido à sua advertência. Ele tinha tido.-a visão de uma grande vitória a menos de duas semanas antes de acamparem ali na Grama Lisa. Quando compartilhou sua visão, advertiu o povo: "A vitória será um presente de Wakan Tanka. Matem os soldados, mas não peguem os despojos. Se vocês colocarem o coração nas coisas do homem branco, uma maldição cairá sobre a nação".

Búfalo Sentado olhou fixamente para seus jovens seguidores sentados ao redor da fogueira, e ficou satisfeito. "Vocês agiram bem. Mas meu coração está cheio de tristeza pelo que vi ao nosso redor. Armas, cavalos do exército e roupas de homens brancos estão em todo o lugar." Búfalo Sentado apontou o dedo acusando Águia que Voa Alto, que tinha acabado de aproximar-se do grupo. O medalhão de ouro brilhava com a luz da fogueira. "Você pegou dos despojos. Agora estará à mercê do homem branco. Passará fome nas mãos deles. E soldados irão esmagá-lo."

Águia que Voa Alto respondeu rudemente: "Eu acreditei em seu conselho, Búfalo Sentado. Pareceu-me certo. Peguei isso porque era algo muito querido para mim. O soldado que o usava parecia muito próximo a mim, agora sinto muito por sua morte". Ao falar, Águia que Voa Alto mexia no medalhão para abri-lo. Enquanto o manuseava desajeitadamente, dois dos outros bravos jovens se cutucavam.

Finalmente Águia que Voa Alto abriu o medalhão. "Não sei o que isto significa, mas esta é aquela que chamávamos de Caminhando nas Chamas e que viveu entre nós. Já se passaram muitas luas desde que esteve conosco, mas eu a chamava Ina, naquele tempo. Acho que esta outra deve ser a irmã, sobre quem Flor do Campo me contou, quando voltou do forte."

Águia que Voa Alto fez uma pausa. Ficou silencioso ao redor do fogo. Todos os olhos estavam fitos nele, enquanto estendia o medalhão para Búfalo Sentado. O chefe pegou o medalhão e o examinou cuidadosamente, virando-o de todos os lados na palma da mão. Ele alternou olhares dos rostos na fotografia para Águia que Voa Alto muitas vezes. Por fim, Búfalo Sentado agarrou o medalhão fechado e o devolveu a Águia que Voa Alto. "Talvez Wakan Tanka considere isso verdade e o salve da punição que virá sobre nosso povo."

Depois do rápido conselho ao redor da fogueira, os lakotas se apressaram a enterrar os seus. Na manhã seguinte, os guerreiros recentemente armados juntaram-se e fizeram o último ataque contra os sobreviventes da batalha entrincheirados. Com muitas armas novas e munição recolhida dos mortos, eles cultivaram fome de mais sangue. Mas as mulheres da aldeia desmontavam as últimas tendas, e Búfalo Sentado já estava a caminho. Dando ordens aos jovens guerreiros na fila, para baixo e para cima, ele gritou: "Já é o suficiente! Eles vieram contra nós. Nós matamos a maioria deles. Se os matarmos todos, eles enviarão um exército maior ainda para nos punir".

Águia que Voa Alto refreou seu pônei e seguiu Búfalo Sentado de volta à aldeia. Flor do Campo já tinha desmontado a tenda e só esperava pelo filho adotivo antes de seguir em direção às Grandes Montanhas de Chifre. Quando Águia que Voa Alto passou por ela e tomou seu lugar habitual na frente da longa procissão, ela gritou, encorajando-o: "Foi uma grande batalha, meu filho. Nesta noite teremos uma dança de vitória". Winona caminhava ao seu lado e, quando Águia que Voa Alto olhou para o lado delas, sua face brilhou com um sorriso esperançoso.

Mas Águia que Voa Alto não se juntou à dança de vitória naquela noite. Enquanto seus amigos se regozijavam, ele se retirou para a tenda que uma vez dividiu com Caminhando nas Chamas, sua mãe, viúva; Velha, sua avó; e Flor do Campo, a melhor amiga deles. Sua mãe havia sido seqüestrada pelo Lobo Uivante muitas luas atrás. Lobo Uivante havia morrido na mesma nevasca que eliminou qualquer esperança de encontrar Caminhando nas Chamas. Velha foi para a outra vida não muito tempo depois disso. Agora havia somente Águia que Voa Alto e Flor do Campo. Flor do Campo havia se juntado ao Círculo de mulheres, dançando ao redor do fogo.

Enquanto as sombras dos dançarinos se projetavam nas peles das tendas da aldeia, Águia que Voa Alto ficou sentado sozinho, olhando fixamente os rostos do medalhão.

 

"Ó meu Deus, sinto abatida dentro em mim a minha alma." Salmo 42:6

 

O quarto da mamãe estava escuro. Seu acolchoado preferido ainda cobria a cama, e sobre uma pequena mesa de madeira de pinheiro ao lado da cama ainda estava sua Bíblia. A cômoda quase desbotada estava do mesmo jeito, exceto pela foto de casamento de MacKenzie Baird e sua nova noiva LisBeth. Sob a luz fosca, LisBeth moveu-se através do quarto e pegou a foto. Lágrimas jorraram de seus olhos enquanto ela embalava a foto em uma mão, acompanhando os desenhos de rosas que contornavam a moldura enfeitada. LisBeth andou até a janela e abriu as cortinas pesadas. A luz da tarde inundou o quarto.

Ouviram-se passos no corredor. Joseph parou na porta, com um saco de viagem gasto nas mãos. LisBeth virou-se rapidamente e sorriu entre as lágrimas. Olhando para a foto em suas mãos, não encontrou palavras para dizer. Joseph colocou o saco de viagem no chão, do lado de dentro da porta, e retirou-se para o corredor, voltando poucos minutos depois com o resto da bagagem de Lisbeth.

LisBeth olhava fixamente para fora da janela do quarto de mamãe e falou, meio cochichando: "Obrigada, Joseph. Você tem sido um grande amigo".

Joseph deu um passo para a porta. "Você precisa de mais alguma coisa agora, LisBeth?"

Ela negou, balançando a cabeça. O silêncio enchia o quarto, pressionando os dois amigos e criando uma brecha estranha

entre eles. LisBeth tentou fechá-la. "Eu quase não sei o que dizer. Joseph ... " Sua voz sumiu, e ela suspirou profundamente antes de continuar: "Não consegui pensar em nada mais além de ir embora para o Hathaway House Hotel. Mamãe estaria trabalhando, e ela me traria aqui para seu quarto, e..." LisBeth mal controlava seus soluços.

A voz de Joseph, normalmente ressoante, estava delicada e baixa, enquanto tentava suavizar a dor de sua amiga. "Está tudo bem, LisBeth. Está tudo bem. Você não precisa dizer ou fazer nada agora. Só desfazer as malas e descansar. Eu ainda estarei perto de você. Ali na cocheira. E Augusta - ela não é sua mãe, LisBeth, mas ama você como se você fosse sua própria filha. Há muito tempo para pensar em tudo isso. O Senhor ajudará você."

LisBeth deu uma olhada na Bíblia de sua mãe. Ela respondeu miseravelmente: "Ó Joseph, quero acreditar em você. Realmente, eu quero. Mas parece haver um espaço tão grande entre Deus e mim. Não sei como passar por isso. Quando era pequena e tinha problemas, mamãe sempre pegava aquele livro, sempre sabia o que ler, precisamente o que dizer. Quando me disseram que Mac estava morto, tudo em que eu podia pensar era: Irei para casa agora, e mamãe saberá o que dizer, ela saberá o que fazer. Então saí daquele trem, e ela não estava lá. Você me trouxe para casa, e tia Augusta me disse que mamãe morreu na semana passada... " LisBeth parou e mordeu os lábios. Ela olhou para Joseph. "É muito difícil, Joseph", ela sussurrou, "é realmente difícil".

Enquanto falava, suas mãos apertavam as pontas do porta-retrato. Apertavam cada vez mais, até que todo o seu corpo estivesse tremendo de esforço para controlar as emoções. Bem no momento em que Joseph se preparava para correr em sua direção, Augusta entrou no quarto.

Augusta Hathaway descrevia a si própria como "uma mulher cheia de espinhos e pontas". Mas a mulher que rapidamente atravessou o quarto para confortar a filha de Jesse King não demonstrou nada daquilo. Augusta tomou o porta-retrato das mãos trêmulas de LisBeth e o pôs sobre a cômoda. Colocando LisBeth na beira da cama, Augusta disse gentilmente: "Agora, querida, fique sentadinha aí enquanto pego um copo de água para você. Então a ajudarei a desmanchar o penteado para poder descansar".

Cheia de gratidão, LisBeth deixou-se ser cuidada como por uma mãe. Obedientemente, bebeu a água e sentou-se, enquanto Augusta desprendia e escovava seu farto cabelo preto. Ela assistiu, como que adormecida, a Augusta desfazer suas malas e arrumar o conteúdo nas gavetas vazias da cômoda.

Onde estão as coisas de mamãe?, LisBeth pensou. Mas estava muito cansada para perguntar. Augusta colocou a camisola de Lisbeth sobre a cama e afagou a mão dela enquanto disse: "Agora, querida, sei que você é uma mulher crescida, Não ficarei mandando, em você como se fosse uma criança. Mas o que você precisa neste neste momento é descansar. Teve um terrível choque, eu sei. Agora vai descansar e, quando estiver pronta, Joseph e eu estaremos aqui para lhe contar tudo o que aconteceu".

Enquanto falava, Augusta desamarrou os sapatos de LisBeth, colocou-os lado a lado perto da cadeira de balanço, e dirigiu-se para a porta. Joseph já tinha desaparecido há tempo. "Agora descanse um pouco e, quando acordar, teremos uma longa, longa conversa." Os olhos azuis de Augusta brilharam com amor quando deu a LisBeth um último sorriso encorajador. Antes de fechar a porta, Augusta acrescentou: "LisBeth, querida, se você ao menos pudesse ter visto o rosto de sua mãe quando nós a encontramos... Não sei o que foi que a levou ao céu, mas certamente foi algo que a fez feliz. Eu nunca vi tal aparência de paz e amor no rosto de uma mulher".

Os passos firmes de Augusta soaram pelo corredor abaixo em direção à cozinha. LisBeth ficou sentada na beira da cama por um longo tempo, passando os dedos em seus cabelos pretos, tentando entender os acontecimentos. Eu fiz toda esta viagem... Eu só sabia que Mamãe poderia me ajudar a descobrir o que fazer. Levantando seus olhos para sua foto de casamento, LisBeth cedeu à dor. Enterrou o rosto no travesseiro e chorou amargamente.

"O Senhor é o meu pastor; nada me faltará." As palavras ecoavam em sua mente, e era a voz de sua mamãe dizendo. Mamãe havia lido aquelas palavras várias vezes. Sempre que elas enfrentavam um problema, mamãe lia e recitava aquelas palavras. Mas agora elas traziam pouco conforto a LisBeth. Mas Mamãe ... Estou sentindo falta de tantas coisas, ela pensou tristemente. Quero meu marido de volta ... Quero a vida que estávamos planejando ... e quero você! Lágrimas de raiva molhavam o travesseiro enquanto LisBeth extravasava toda a emoção que tinha guardado durante a longa viagem de trem do oeste.

Quando as lágrimas terminaram, algo tomou o lugar delas.

Ela não percebeu, mas, rejeitando as palavras que sempre conforrtaram sua mãe, LisBeth abriu caminho para uma pequenina raiz de amargura em sua vida tão jovem.

 

Assim como tu não sabes qual o caminho do vento ... assim também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas. Eclesiastes 11:5

 

LisBeth acordou fatigada de sua tarde de descanso. Arrastando-se para fora da cama, sentou-se na cadeira de balanço ao lado da janela e fixou o olhar através do vidro, pensando no vazio da vasta planície para onde ela e sua mãe tinham vindo poucos anos antes. Naqueles dias Lincoln, Nebraska, não tinha muito além de umas poucas cabanas e pirogas, entre eles uma pequena hospedaria dirigida por Augusta Hathaway. Augusta recebera Jesse King e sua filha, LisBeth, passara a amá-Ias como sua própria família, e as incluíra em seus planos de prosperidade para a hospedaria. Agora, a Centennial Opera House estava quase pronta. Além da Centennial, algumas casas novas salpicavam a paisagem. Uma cerca de estacas brancas saltava na campina, protegendo uma residência de dois andares da vida selvagem. Eu me lembro quando Mamãe não me deixava andar até a escola da senhorita Griswall sozinha, com medo de que um coiote cruzasse meu caminho. Ela sorriu rapidamente com a memória, mas a dor recente a trouxe de volta à realidade e ela se levantou abruptamente, fechando a janela com as cortinas, para barrar a visão da cidade crescente.

Lisbeth terminou de desfazer uma grande valise que Augusta não havia tocado. Sons familiares vinham através do curto corredor. O jantar estava sendo preparado para os hóspedes do hotel. Respirando fundo, LisBeth abriu a porta e caminhou em direção à cozinha. Ela hesitou na porta, observando Sarah Biddle, de 15 anos, e eu irmão, Tom, de 9, movendo-se. Eles trabalhavam como uma equipe. Tom mancava ao lado de Sarah, quase sempre sabendo o que ela queria sem que fosse necessária sequer uma palavra.

Sarah e Tom olharam por cima do forno aberto e rapidamente colocaram de lado as assadeiras com biscoitos quentinhos. Sarah tomou a iniciativa. Limpando as mãos no avental de musselina, atravessou rapidamente a cozinha e estendeu a mão a LisBeth.

"Sinto demais pelo seu marido, senhora Baird. E por sua mãe também."

Tom acrescentou. "Eu também sinto muito, senhora Baird."

LisBeth já tivera compaixão demais naquele dia. Controlando a vontade de chorar, pegou na mão oferecida e apertou-a momentaneamente antes de dizer: "Sim. Obrigada". Houve um silêncio embaraçoso até Augusta entrar. Pegando LisBeth pela mão, levou-a para a mesa, onde a edição do Nebraska State Journal de 12 de julho estava aberta.

"Achei que fosse gostar de ver isso, LisBeth", Augusta disse. LisBeth leu:

Passou para o mundo espiritual, no dia 10 de julho, domingo, no Hathaway House Hotel em Lincoln, a senhora Jesse King, depois de uma jornada de 54 anos nesta terra.

Ela nasceu para a vida terrestre em St. Clair County, Illinois, em 1822; casou-se em 1841 com Homer King, que morreu antes dela; teve uma filha, LisBeth, a quem criou até tornar-se mulher, e um filho, Jacob, que, ainda bebê passou para a outra vida, onde agora ela o encontrou.

A senhora King foi uma cristã autêntica, batizada quando jovem, e membro fiel da igreja Congregacional até ser convocada pelo Anjo da Morte para entrar no gozo da vida futura.

A senhora King cultivou uma vida cheia de bondade e beleza, oferecendo à sua filha e amigos um exemplo valioso para ser imitado. Sustentada por sua confiança no amor de Deus e pela esperança de uma vida feliz por vir, ela calmamente adormeceu para acordar naquele Lar onde não há mais separações.

Na terça-feira seu corpo foi enterrado, após um culto conduzido pelo reverendo W. E. Copeland.

Enquanto Lisbeth lia, Sarah e Tom retornaram ao trabalho. Joseph entrou com outro feixe de lenha para o fogão. Trocando uma expressão inquieta com Augusta, ele se serviu de uma xícara de chá e levou um tempo excessivo para empilhar a lenha. Quando uma tora caiu da pilha e bateu no chão, LisBeth pulou. Enxugou as lágrimas, assoou o nariz e olhou para Augusta. Todo mundo na cozinha parecia estar trabalhando furiosamente. Na realidade, eles não estavam fazendo nada, mas esperavam LisBeth terminar a leitura do obituário da mãe.

"Quero ir à Wyuka, Augusta." LisBeth respirou profundamente. "Eu me lembro todo o alvoroço quando eles escolheram aquelas colinas onduladas tão longe da cidade. Achei que era tudo tão bobo, preocupar-se com um cemitério... Mas até então eu não havia pensado em alguém que eu amasse sendo enterrado lá. Espero que Mac tenha um lugar como aquele - ou quase."

Joseph tentou livrar LisBeth de um novo acesso de lágrimas. "É: só me falar quando, LisBeth. Eu arrumarei a carruagem e levarei você lá a qualquer hora que quiser."

 

Augusta murmurou algo sobre haver tempo suficiente para isso mas LisBeth levantou-se e disse: "Acho que gostaria de ir agora, Joseph. Talvez", sua garganta apertou, "talvez isto possa me ajudar".

Joseph já estava para fora da porta.

LisBeth retirou-se para o quarto de Jesse. Enquanto colocava o chapéu preto, estudou seu reflexo no espelho da cômoda. Seus olhos escuros estavam vermelhos e inchados, e linhas finas haviam ,aparecido nos cantos de cada olho. Antes de um moreno dourado e quente, sua pele agora parecia quase amarelada. Ela havia perdido peso, as maçãs de seu rosto estavam mais salientes, e a covinha leve de suas bochechas parecia mais pronunciada.

LisBeth se lembrou de uma noite há menos de um ano quando sua mãe Jesse disse tristonhamente: "Você tem as covinhas de seu pai, Cavalga o Vento, LisBeth. Ele era um lindo valente, pelo menos eu sempre achei". Então Jesse colocou sua própria mão clara próxima à de LisBeth. "O fato é este, LisBeth, você se parece muito com seu pai. A pele é a mesma dele". Ela suspirou e acrescentou suavemente: "Eu realmente gostaria que você o tivesse conhecido, LisBeth".

LisBeth havia-se aproximado para colocar a mão de sua mãe entre as próprias mãos. "A senhora gostaria que nós ainda vivêsssemos entre os lakotas, mamãe?"

Jesse havia pensado cuidadosamente antes de responder: "Não, LisBeth. O Senhor nos trouxe aqui. Pelo menos é assim que eu passei a enxergar isso. Com seu pai morto, teria sido mais difícil para nós. Eu era Caminhando nas Chamas para os lakotas, mas não era realmente uma lakota. Exceto por Flor do Campo, não tive muitos amigos". Sorrindo novamente, Jesse disse: "Nós estamos no lugar ao qual pertencemos agora. Eu ainda desejo às vezes que você conheça Águia que Voa Alto. Deixarei isso nas mãos de Deus. Ele sempre faz o que é o melhor. Se tiver de ser, será".

A memória de Jesse desapareceu e foi substituída por um sentimento de solidão tão grande que causou profunda dor física por dentro de LisBeth. Um toque suave soou na porta. Sarah estava em pé na entrada da porta, as mãos apertadas firmemente, e seus olhos azuis sérios piscavam rapidamente.

"Senhora Baird, sinto-me tão mal por tudo o que aconteceu com a senhora. A senhora não me conhece, madame, mas sua mãe..."

Ansiosa por acabar com as memórias doloridas, LisBeth suplicou: "Por favor, Sarah, entre. Sente-se aqui, na cadeira de balanço da mamãe".

 

Sarah sentou-se nervosamente na beirada da cadeira enquanto LisBeth falava: "Mamãe escreveu tudo sobre você e Tom, Sarah. Ela falava e falava sobre como você trabalhava pesado e sobre quão esperto o Tom é. Ela tinha grandes planos para o Tom".

"Sim, madame, o Tom sempre foi esperto", Sarah disse orgulhosamente, mas então voltou a seu assunto. "O que quero dizer, senhora Baird, é que eu sinto um bocado mal de estar no seu quarto, agora que a senhora está de volta e tudo mais. Não tenho de ficar tão perto dos alojamentos. Talvez a senhora Hathaway pudesse nos dar outro quarto ... "

LisBeth interrompeu: "Não seja boba, Sarah". Suas próximas palavras ganharam a devoção de Sarah e algo que se aproximava de amor. LisBeth chegou mais perto e tomou as duas mãos de Sarah. "Mamãe amava você e o Tom, Sarah. Sempre quis ter uma irmã. Já perdi dois irmãos na minha vida. O pequeno Jacob morreu antes que eu nascesse, quando era apenas um bebê, e o meu outro irmão - bem, as circunstâncias simplesmente nos separaram. Eu nunca o conheci ... " LisBeth parou um pouco. "Por favor, Sarah, vamos ser amigas. E não pense sobre o quarto por mais nem um segundo. Não é mais meu quarto, Sarah. É o quarto de vocês."

Sarah apertou as mãos de LisBeth, com gratidão brilhando em seus olhos. Um ano de convivência com Augusta Hathaway e Jesse King havia preparado Sarah para abrir a porta da amizade quando esta surgisse. Agora, ela rapidamente virou os punhos e foi abrindo-o à medida que começava a compartilhar um pouco de si mesma. "LisBeth, sei o que está sentindo - as pessoas que a gente ama, serem levadas... Sei que é horrível para a senhora neste momento. Mas tudo ficará melhor. A senhora vai se recuperar."

Alguma coisa fez LisBeth deixá-Ia falar. "Tive uma irmã. O nome dela era Emma." Sarah retirou suas mãos das de LisBeth e torceu a beirada do seu avental. Olhava para o chão enquanto continuava. "Mamãe ficou doente e o papai não chamou o médico. Ele só disse: 'Nós não temos dinheiro para pagar um médico'. Bem, um dia, eu estava embalando Emma, tentando acalmá-Ia perto do chão. Então papai trouxe uma senhora. Disse que ela poderia "ajudar a pequena Emma. Disse que ela conseguiria um pouco de leite e que o Tom e eu poderíamos vê-Ia quando quiséssemos. Disse que quando mamãe ficasse melhor, Emma poderia voltar para casa."

Sarah olhou desesperadamente para os olhos de LisBeth.

"Então deixei aquela mulher levá-la. Ela disse que poderíamos tê-la de volta assim que mamãe ficasse melhor. Mas mamãe não melhorou, LisBeth. Mamãe morreu no dia seguinte. Então papai levou a Tom e a mim para o Lar dos Sem-amigos. Ele disse que voltaria para nós. Mas nunca voltou."

 

Sarah deu um suspiro profundo antes de concluir: "Mas o pior, LisBeth, foi que nossa pequena Emma tinha ido embora. Uma pessoa rica levou-a".

LisBeth ouviu, respirando o mais silenciosamente possível, na esperança de que Sarah parasse, mas sabendo que ela precisava continuar.

Sarah deu um sorriso apertado e amargo. "É claro que ninguém jamais quis ao Tom ou a mim. Eu ficava pensando que tinha deixado a pequena Emma ir, e eles a levaram. Nunca deixarei o Tom ir embora. Muitas pessoas quiseram me empregar. Mas não queriam ficar com o Tom. Então nós ficamos juntos no Lar dos Sem amigos. Daí nos colocaram naquele trem. Ninguém nos queria então, em nenhuma cidade em que parávamos. Eles olhavam para a perna manca de Tom e apenas davam as costas. Nós voltávamos para o trem e Íamos para a próxima estação. Tom e eu finalmente fugimos. Imaginei que poderíamos nos sair melhor sozinhos. Ninguém nos quis até sua mãe nos encontrar e ficar conosco."

Sarah parou de repente. Levantou-se embaraçada. "Meu Deus ... eu tagarelei e tagarelei. Como se você não tivesse problemas suficientes." Sarah estava atrapalhada. "O que eu queria dizer é que sei o quanto dói. Mas melhora. Melhora sim. A senhora vai ficar bem. A senhora tem o Joseph. A senhora tem a tia Augusta. Tem o amor de sua mãe dentro da senhora - e o amor do senhor Baird também. E, se quiser, tem a mim como amiga. Sarah abaixou a voz delicadamente quando pronunciou a palavra amiga. Ela ficou surpresa em perceber que compartilhar seu passado com LisBeth tinha sido tão fácil. Sentiu-se estranhamente revigorada, como se falar sobre sua dor tivesse limpado o último resto de amargura que se havia criado.

Impulsivamente, LisBeth aproximou-se e deu um passo através da porta de amizade que Sarah abrira tão voluntariamente. Enquanto abraçava Sarah, os olhos de LisBeth se encheram de lágrimas. A voz de Augusta veio do corredor. "LisBeth! Joseph já aprontou a carruagem ... "

 

Joseph tinha esperado pacientemente com sua mais fina parelha de cavalos e carruagem por alguns minutos quando LisBeth finalmente saiu do hotel e subiu depois dele. Assim que ele impeliu os cavalos para um trote ligeiro, o vento apareceu. Era um vento quente e seco e, antes de terem andado um quilômetro, LisBeth sentiu o suor escorrer em suas costas e desejou ter prestado atenção à sugestão de Augusta para fazer a viagem na próxima manhã cedinho, antes que o sol da tarde iniciasse sua agressão.

 

Protegendo os olhos com uma das mãos, LisBeth apertava o lado do assento da carruagem e olhava fixamente para o nordeste, em direção às barreiras de Salt Creek. Umas poucas moitas de olmos e choupos floresciam ao longo dos canteiros de Creek, mas não havia nenhuma sombra para dar descanso aos dois viajantes que saíam da Rua O e se dirigiam para o "lugar de descanso" escolhido pela legislatura.

"Por que será que escolheram um lugar tão longe?" LisBeth se perguntava em voz alta.

"Há um ar ruim em volta do cemitério, LisBeth. Pelo menos os povos brancos pensam que há", Joseph disse. "Eles queriam o cemitério longe da cidade."

"Bem, eles certamente concluíram isso", LisBeth disse bruscamente.

"Você quer voltar? Podemos fazer isso de manhã quando está mais fresco."

LisBeth balançou a cabeça. "Não, Joseph. Preciso fazer isso agora. Tenho temido isso como algo horrível. Só preciso enfrentá-lo" LisBeth interrompeu a si mesma. "Pare, Joseph. Só um minutinho - está vendo aquelas flores? Mamãe as amava. Espere um minutinho." Ela já estava pulando da carruagem e apressando-se até a moita de arbustos coberta de brilhantes flores laranjadas. LisBeth espantou algumas borboletas e juntou um enorme buquê antes de voltar ao lado de Joseph.

"Eu lembro que sua mãe gostava delas ... "

Lembra-se de quando aqueles homens vieram de Omaha, e Augusta estava preocupada em impressioná-los em sua passagem por Lincoln - e mamãe terminou cozinhando uma refeição toda, com ingredientes silvestres?"

Joseph sorriu com a lembrança. "E então os senhores de Omaha ficaram surpresos. Sua mãe se divertiu também, provocando-os ao dizer que estavam comendo cozido de carne de cachorro."

LisBeth deu uma risadinha rápida antes de lastimar: "Nós fizemos sopa da raiz dessa planta e... ". A garganta dela apertou. Ela parou no meio da frase. Tinham chegado à entrada do cemitério.

Joseph suavizou o momento, dizendo: "Eles vão fazer umas ruazinhas tortuosas aqui, como naqueles parques de cidades grandes. Há muitos planos para plantarem árvores e flores também. Vão fazer daqui um lugar agradável onde enterrar pessoas, LisBeth. É um bom lugar para descansar".

LisBeth olhou ao redor e perguntou: "Onde?".

 

Joseph não precisou responder. Eles haviam virado à esquerda e caminharam ao redor da base de uma colina baixa. Poucas e pequenas pedras, que cobriam as sepulturas, brilhavam com o sol da tarde, e havia um túmulo novo. LisBeth teve de proteger os olhos do branco brilhante para encontrar o nome. Estava gravado abaixo de um desenho simples de copa de palma:

 

           Jesse King

           Nascida em 26 de janeiro de 1822

           Morta em 10 de julho de 1876

           54 anos, 5 meses e 14 dias de idade

           Voltou para a casa

 

Joseph ajudou LisBeth a descer e então guiou a parelha para um pequeno riacho que corria ao longo de um dos cantos do terreno do cemitério. LisBeth ficou em pé, olhando fixamente para a lápide por um longo tempo antes de assentar-se para colocar o buquê em seu lugar.

"Você só tinha 54 anos, mamãe", LisBeth sussurrou. "Pensei que fosse ter você para sempre. Pensei que você sempre estaria aqui." A jovem voz tremeu, e LisBeth chorou livremente antes de prosseguir. "Mac também se foi, mamãe. Meu querido, meu lindo Mac se foi. Como você conseguiu isso, mamãe? Como você suportou quando o papai morreu?", LisBeth fungou alto e assoou o nariz. Então sentou-se na campina e passou os dedos pela grama grosseira e seca. Olhou ao seu redor para as colinas áridas.

"Eu me pergunto todo dia como deve ter sido para você, mamãe. Você amava um homem lakota, e então ele morreu. Você cuidou de seu filho até ele crescer, e então foi forçada a deixá-lo para trás. Você sentiu tanta dor. Mas quando lembro, lembro de você sorrindo. Como você conseguiu isso, mamãe?"

"Vou plantar uma árvore aqui para você, mamãe. Sabe qual? Um pinheiro. Lembro que você me contou que o papai uma vez

derrubou a mais alta tora de pinheiro que você já viu, só para que você pudesse ter a tenda mais alta da aldeia. Bem, agora você poderá descansar à sombra de um pinheiro novamente, mamãe."

Em apenas poucos momentos ao sol, o buquê já tinha começado a murchar. "Sinto sua falta, mamãe. Sem você e Mac, não sei onde me encaixo neste mundo. Quando era a filha de Jesse King e mulher de MacKenzie Baird, não importava muito que eu fosse metade lakota e metade branca. Mas agora estou totalmente sozinha. Não tenho certeza de como ou quem devo ser." LisBeth levantou-se com fraqueza e limpou a saia preta. O vento puxava suas roupas. LisBeth sussurrou ao endireitar seu chapéu: "Há coisas que não entendo, mamãe. Queria que você ainda estivesse aqui. Você saberia o que eu deveria fazer com... tudo isso.

Olhando fixamente para o novo túmulo, LisBeth esperou por um longo momento antes de se virar abruptamente e sair correndo. No caminho de volta a Lincoln, LisBeth e Joseph fizeram várias tentativas para conversar, todas frustradas. Finalmente, eles foram ouvindo o assobio quente e seco do vento através da campina aberta.

Quando chegaram à porta da cozinha, LisBeth desceu da carruagem antes que Joseph pudesse dar a volta para ajudá-Ia. Seus olhos agradeceram, mas ela não conseguiu dizer nada. Ela entrou, cruzou a cozinha sem dizer nada a Sarah ou Augusta e retirou-se para o quarto de sua mãe, onde se deitou olhando fixamente para o teto sem mais lágrimas para chorar e uma sede insaciável de conforto.

Quando finalmente adormeceu, guerreiros lakotas e o exército dos Estados Unidos encheram a sala escura. Eles se engajaram em um combate mortal até que sobraram somente um soldado e um bravo. Quando os dois ficaram face a face, LisBeth percebeu que o guerreiro lakota se parecia com ela.

LisBeth acordou do sonho e se sentou. Balançando-se, saiu da cama e foi para o lavatório mergulhar o rosto na água. Quando voltou para a cama, virou-se de costas para aquilo que lhe poderia dar maior conforto que os braços amorosos de Mac ou de sua mãe. Na pequena mesa ao lado da cama, num lugar de fácil alcance, estava a Bíblia de Jesse, e nela todas as palavras que Jesse teria compartilhado se pudesse encontrar-se com sua jovem filha sofredora na estação de trem, Mas a Bíblia permaneceu fechada, e o jovem coração sofredor continuou sem conforto.

 

"Não há parte sã em minha carne... não há saúde em meus ossos, por causa do meu pecado. Pois já se elevam acima de minha cabeça as minhas iniquidades;

como fardos pesados excedem as minhas forças. Sinto-me encurvado e sobremodo abatido, ando de luto o dia todo." Salmo 38:3-4,6

 

No fim, foram as crianças que fizeram isso. Não foi o caminhar quilômetros num calor de 50 graus , que o deixou assim. Não foi o mourejar, metro após metro, atolado até os joelhos, que o deixou assim. Mesmo quando sua montaria preferida morreu e foi abatida e servida como refeição, ele não desistiu. Outros homens se sentaram no esterco e choraram como bebês. Mas não Jim. O cabo James Callaway não se dobrava. Ele nunca desistia. Ele nasceu para a vida de soldado, e essa era a vida que ele amava. Faria tudo o que lhe pedissem, incluindo aprender o idioma do inimigo. Até o momento em que viu as crianças.

Ele fora escolhido para negociar a rendição dos guerreiros indígenas. Segurando firmemente sua pistola, ele escorregou na ravina e ficou pasmado quando uma mulher trêmula e molhada o agarrou, gritando histericamente, implorando pela própria vida. Com a mão livre, Jim agarrou-a e empurrou-a para o lado. Como ele não atirou, outras mulheres vieram impacientemente, segurando a mão de Jim, implorando proteção. Uma trazia, agarrada ao peito, uma criança sem vida, e gritava: "Nós não somos guerreiros. Não temos armas. Por que estão nos matando?".

Então vieram as crianças, Elas encheram a ravina, assentaram-se na poeira e esperaram. Algumas tinham ferimentos horríveis. Elas olhavam fixamente para os homens brancos, Para Jim, parecia que todas o encaravam. Os seus olhos traziam perguntas a que Jim não podia responder. O tempo todo elas sangravam, e parecia que ninguém se preocupava com aquilo, ninguém se mexia para ajudá-las.

Um soldado raso pegou uma faca e agarrou um índio. Uma criança, de uns 4 anos de idade, gritou e correu para o seu lado, puxando a mão do soldado, implorando. Foi isso que o deixou assim. Foi isso que derrubou Jim Callaway, que o transportou do limite da sanidade para um mundo árido no qual não havia respostas razoáveis.

 

De repente, os guerreiros, que haviam dito para suas mulheres se renderem e suplicarem por misericórdia, saíram da ravina, atacando. Em grande quantidade, eles gritavam duas canções de morte e davam passos para a eternidade. Na confusão, Jim escorregou para dentro da ravina. Seguindo as curvas e os volteios para o sul, fugiu correndo. Rapidamente perguntava a si mesmo se estaria sendo seguido ou não, mas uma olhadela para trás o convenceu de que provavelmente seria dado como capturado pelas mãos do inimigo.

Jim Callaway tinha, na realidade, caído nas mãos do inimigo. Com espírito quebrado, ultrajado pelas coisas que havia sido ordenado a fazer, Jim caiu nas mãos do escuro inimigo, dentro de si mesmo. Cambaleou por quilômetros. A batalha parecia distante, mas a visão das crianças não. Na sua mente, as crianças rodopiavam e dançavam, entorpecendo seus pensamentos até que ele apertasse a cabeça com as mãos e gritasse para elas pararem. Então, soluçando, ele implorou alto: "Eu não sabia... pensei que estava lutando com homens grandes. Não sabia que eram mulheres - mães - a mãe de vocês. Eu não sabia".

Jim Callaway tinha nascido para a vida militar; havia crescido no Forte Kearny, Nebraska, vendo seu pai ser promovido, crescendo orgulhoso a cada dia que passava, ansioso por servir a seu país. Quando Jim era apenas uma criança, dois prisioneiros lakotas foram mandados para o forte. Ao invés de serem trancados, eles ficaram livres no forte. Às vezes eles até mesmo saíam em expedições de exploração com os soldados. Eventualmente lhes era dado a guarda do forte e Jim ainda podia lembrar-se de lutar com eles. Jim tinha descoberto que havia lakota bom e lakota mau, assim como havia homem bom e mau entre os soldados.

Ele tinha sido recrutado tão cedo fora possível e começara uma carreira que lhe dera intensa satisfação. O mundo de botinas polidas e desfiles, uma montaria fina, e defender seu país era tudo o que ele queria. Tinha sido glorioso - por alguns anos.

Mas então, o "problema indígena" tornou-se uma realidade diária. O pai de Jim se aposentou e se fixou próximo a Kearny, Nebraska. Jim foi transferido para o norte, para Dakota. Os colonizadores começaram a abusar das terras que sempre foram dos índios. Quando o ouro foi descoberto nas Colinas Pretas, Jim pressentiu o começo do fim dos lakotas.

Com a chegada dos colonizadores em Dakota, o papel do militarismo tomou uma direção que Jim não gostou. No forte Kearny, ele se tornou amigo dos emigrantes que estavam de “passagem”, ajudando-os a encontrar caminhos seguros, provendo abrigo onde os cansados viajantes pudessem erguer os seus olhos para ver a bandeira tremulando e sentir-se confortados. Mas colonizar o país ao norte - isso significava conflito inevitável!

 

Jim permaneceu leal ao juramento que fez quando tinha apenas 18 anos. Por seis anos ele andou pela corda bamba da consciência, vendo fazendeiros e lakotas igualmente sérios em combates; e Jim sabia que isso acabaria mal para os lakotas. Ele continuou a obedecer às ordens, mesmo quando odiava o que lhe mandavam fazer.

Mas ele não havia contado com matar mulheres e crianças. Sentando-se na ravina, viajando mais e mais nas imagens do seu passado, Jim tentou organizar as coisas, mas percebeu que não podia. Piscou os olhos com as últimas lágrimas e levantou-se abruptamente.

Puxou os cinco botões de cobre, no formato de águias, presos à frente da sua camisa escura de lã, juntou-os e jogou-os o mais longe que pôde. Arrancou as insígnias de seu chapéu e a tirou-as na poeira, afundando o chapéu até acima dos olhos. Ele queria livrar-se de todo vestígio de militarismo, mas tinha de preservar o revólver Colt. Poderia precisar dele para caçar algum alimento. Tomando o cinturão ao redor da cintura, contou vinte e quatro cartuchos não-gastos. Se sua sorte continuasse, poderia comer uma vez por dia por aproximadamente um mês até... até o quê?

Jim sorriu amargamente. Ninguém viria atrás dele. Todos estariam ocupados demais cuidando dos seus novos prisioneiros e dos corpos mortos, para se preocuparem com um soldado de infantaria perdido. Se Charlie Blake ainda estivesse vivo, Jim poderia ter algo com que se preocupar. Charlie tinha sido um amigo, mas morrera dois dias antes em uma discussão sem sentido sobre alimento. Jim havia-se retraído da companhia dos outros, há algumas semanas. Preso num combate consigo mesmo, com relação a tal missão e à sua parte na guerra contra os índios, ele se tornou cada vez mais rabugento e introvertido. Alguns homens que haviam tentado obter informações dele finalmente desistiram e permitiram que ele se voltasse cada vez mais para dentro de si mesmo.

Provavelmente seria considerado perdido, mas ninguém se preocuparia muito com o que poderia ter acontecido a ele. Assim, para seus companheiros, seria melhor achar que ele havia morrido cumprindo seu "dever". A palavra trouxe um gosto amargo à sua boca. Ele cambaleou na direção sul até o anoitecer, caindo num sono exausto e atormentado na vasta campina.

Dias se passaram antes de Jim perceber que os parafusos que juntavam a parte de cima e o solado de suas botas tinham quebrado e seus pés começavam a aparecer. Ele examinou as bolhas com desinteresse, chutando finalmente o resto de suas botas de cavalaria e continuando a cambalear, agora descalço. Suas calças se rasgaram no joelho quando ele se ajoelhou para beber água em um riacho lamacento, certo dia. Seu cabelo avermelhado desbotou com o sol, e sua barba tornou-se de um branco puro.

As caçadas com o revólver foram infrutíferas. Finalmente, a fome o levou a roer cascas de árvores e todas as frutinhas que encontrava só para permanecer vivo. Por fim seu corpo desistiu. Ele resmungava consigo mesmo, tentando fazer com que a face das crianças desaparecessem, mas elas não iam embora. Encaravam-no, dia e noite. Não importava se ele corresse. Não importava o quão alto gritasse com elas, nem o quanto chorasse e implorasse para que o perdoassem. Elas ainda assim o encaravam.

Finalmente, com um pequeno sorriso, Jim Callaway decidiu morrer. Deitou-se de lado, apertando os joelhos ao queixo. Esperou um longo tempo, até que os olhos escuros das crianças finalmente se dissiparam. Na sua loucura, Jim achou que elas tivessem aceitado sua morte como suficiente. Foram embora, salvo uma. Era bom que tivessem ido. Com apenas uma para observar, ele morreria.

Mas a que ficou para assistir, conversou com ele, tocou seu corpo, balançou-o grosseiramente. Jim empurrou a mão. Virou o rosto para a terra. A mão o atirou para a direita.

Arrancado de seu delírio, Jim viu que as crianças do sonho tinham ido embora. No lugar delas, índios adultos e vivos apareceram. Mas eles não estavam sujos ou derrotados como os das Colinas Esguias. Esses eram guerreiros dos melhores. E sentavam-se com uma perna de cada lado de seus pôneis, como senhores das planícies que acreditavam ser. Eles discutiram sobre o achado, em tom baixo, e não se indignaram ao olharem para Jim, inconscientes de ele entendia seus murmúrios.

Jim ouviu insensivelmente. Estava certo de que iriam matá-lo, vagarosamente. A possibilidade importunou-o, mas não excessivamente. Ele queria morrer. Merecia morrer pelos pecados que havia cometido em nome do dever.

"Este homem tem uma blusa azul", Águia que Voa Alto comentou, “a arma e o cinto são de soldado. Até que não saibamos mais, é melhor não matá-lo. Seus amigos devem estar à sua procura".

"Deixem-nos vir!", Trovão gritou. "Nós lutaremos com eles! Com todos eles! Não estamos usando os tesouros dos homens brancos mesmo agora? Até você, Águia que Voa Alto - você tem ouro ao redor do pescoço, conseguido na nossa última vitória.”

Águia que Voa Alto deu uma olhada para Jim. "Esse aí não possui nada. Não há honra em matar dessa maneira. Digo que devemos levá-lo de volta ao acampamento. Alimentá-lo. Deixá-lo beber. Deixá-lo descansar. Deixá-lo contar o que puder.” Então, Águia que Voa Alto saltou sobre seu cavalo, "poderemos matá-lo".

 

Os guerreiros concordaram relutantemente. Sabiam que Búfalo Sentado queria uma chance de aprender diretamente de um soldado. Haveria tempo suficiente para matar.

"Ele não consegue andar", zombou um dos bravos. "Eu não estragaria meu melhor pônei de guerra arrastando um soldado quase morto."

Águia que Voa Alto desceu do cavalo mais uma vez. Amarrando os pulsos e tornozelos juntos, ele jogou o soldado sobre o lombo de seu pônei como a carcaça de um veado, e pulou na frente dele. "Os pôneis de meu pai são fortes. Não ficarão prejudicados por levarem uma carcaça e mais o amigo deles, Águia que Voa Alto." Dando uma longa olhada para aquele que discordava, Águia que Voa Alto apressou seu pônei para um galope macio e liderou o grupo de guerreiros às colinas distantes onde o acampamento de Búfalo Sentado estava aninhado em um desfiladeiro.

CAPÍTULO 5

 

Dá instrução ao sábio, e ele se fará mais sábio ainda; ensina ao justo e ele crescerá em prudência. Provérbios 9:9

 

Quando Águia que Voa Alto entrou no acampamento com Jim Callaway na garupa, um grande grupo de lakotas se reuniu, encarando curiosamente o homem branco com aparência de selvagem. Quando Águia que Voa Alto desamarrou o prisioneiro e jogou água em seu rosto, Jim recobrou a consciência, cuspindo e tossindo. Olhou ao redor e só viu rostos de lakotas. Então, sem querer, fez a coisa certa. Levantando-se ereto, encarou Águia que Voa Alto firmemente e esperou para ser morto.

Se tivesse se agachado na poeira, Jim Callaway sem dúvida teria apanhado até a morte. A aldeia inteira teria colocado para fora toda sua raiva pelos brancos. Mas, quando ele ficou em pé e bravamente encarou Águia que Voa Alto com um olhar frio, eles hesitaram. Isso salvou a vida de Jim, pois deu tempo suficiente para Águia Que Voa Alto arrastar o prisioneiro poucos metros até a tenda do Conselho. Uma vez que Búfalo Sentado tinha chegado e expressado seu prazer na perspectiva de entrevistar um soldado cativo, ninguém ousou matar o prisioneiro.

Jim tentou continuar em pé diante de Búfalo Sentado, mas seu corpo fraco não agüentou. Caiu como uma árvore cortada, no meio do conselho, e não pôde ser reanimado. Águia que Voa Alto arrastou o prisioneiro para sua própria tenda.

Flor do Campo fez o que pôde para reanimar fisicamente o homem branco, mas foi incapaz de curar sua mente. A doença que estava lá tornou-se evidente quando escureceu, e ele acordou a aldeia inteira gritando palavras sem significado para as imagens desconhecidas em seus sonhos.

Com desgosto, Águia que Voa Alto deu uns tapas no rosto do homem e gritou: "Silêncio! Não vamos machucar você; só queremos saber para onde os soldados vão agora!". Mesmo Águia que Voa Alto maldizendo a si próprio pela inutilidade de falar a língua lakota com um homem branco, pôde ouvir uma resposta. Veio como um gemido: "Quero que você me mate. Mate-me e me deixe passar para onde deve haver alguma paz".

Águia que Voa Alto segurou o cabelo vermelho com uma das mãos e forçou o prisioneiro a se sentar. Empurrando a cabeça para trás, Águia que Voa Alto olhou para dentro dos olhos verde-acinzentados. Os dois homens se encararam por um momento antes que Águia que Voa Alto sibilasse: "Você fala lakota, então sabe o que nós queremos. Queremos saber onde os soldados estão. Amanhã você nos dirá. Então Búfalo Sentado disse que vamos deixá-lo partir".

Jim deu um sorriso feio. "Não sei nada sobre os soldados. Não tenho para onde ir."

Águia que Voa Alto sentou-se novamente no chão para questionar o prisioneiro. Jim balançou a cabeça para acordar completamente e se sentou, encarando Águia que Voa Alto.

"Por que você deixou os soldados?"

Jim balançou sua cabeça e não respondeu.

Águia que Voa Alto empurrou o ombro de Jim e perguntou novamente: "Por que você os deixou?".

Na luz oscilante da fogueira, um brilho de ouro no pescoço do índio chamou a atenção de Jim. Viu que era uma cruz e se admirou. A testa larga do bravo e o maxilar bem definido, um queixo levemente rachado e uma boca inclinada nas beiradas, tudo compunha um rosto bonito. Uma longa cicatriz formava uma meia-lua que começava abaixo de um olho e se curvava pela bochecha e para baixo do lado do rosto. Quantos anos você tem, Jim tentou calcular, e quanto pavor homens como eu impuseram à sua família? Jim fez caretas com o pensamento.

O bravo estava ficando impaciente. "Por que você os deixou'?

Mas Jim não respondeu logo. Considerou a pergunta. Então, em algum lugar do acampamento um cachorro latiu. Percebeu que não importava o que dissesse. Eles iriam sem dúvida matá-lo assim tivessem o que queriam. Focalizou a cruz de ouro e, numa chuva de palavras, apressou-se a dar a confissão.

“Eu era um bom guerreiro. Quero dizer, para proteger meu povo. Então meu povo começou a me pedir para fazer coisas que eu não queria fazer. Vi-os tomando a terra que prometeram deixar para os lakotas. Ainda assim não disse nada. Continuei a brigar. Eu era um bom guerreiro. Mas ... " Jim estremeceu de repente, curvou a cabeça e murmurou: "Matei mulheres e crianças... " Colocando as mãos na cabeça, Jim gemeu: "Matei mulheres e crianças. Eu não sabia que elas estavam naquela ravina quando me mandaram atirar. Achei que estivesse lutando com guerreiros. Mas então elas começaram a gritar. E eu vi o que havia feito".

Jim parou de falar. O cachorro lá fora havia parado de latir. Águia que Voa Alto ficou sentado ouvindo. Com um suspiro profundo, olhou para Águia que Voa Alto. A face bonita não tinha nenhum traço de emoção, mas o furor tinha abandonado seus olhos. Jim terminou a confissão. "Não estou matando mais. Parei de matar. Não me importo mais. Não me importo. Posso contar o que quiserem saber. Mas não sei onde os soldados estão. Passei os últimos dias fugindo. Eu estava só esperando morrer quando vocês me encontraram.”

Quando parecia que Jim havia terminado, Águia que Voa Alto levantou-se e voltou para sua própria pele de búfalo para meditar sobre as revelações do prisioneiro branco. No silêncio, ele ouviu o homem respirando profundamente e sabia que estava dormindo. Seus murmúrios continuaram, mas já não eram mais gritos.

Quando o sol nasceu, Jim percebeu que tinha sido desamarrado e estava livre para se mover pela tenda. A mulher chamada Flor do Campo serviu-lhe um mingau ralo para aliviar a fome. Enquanto comia, eles se observavam curiosamente. A mulher aparentava ser de meia-idade. Uma cicatriz defeituosa à altura do cavalete do nariz desfigurava o que sem dúvida tinha sido um rosto bonito. Docilidade brilhava em seus olhos e soava em sua voz quando falava. "Há água não muito longe daqui. Eu lhe mostrarei."

Jim concordou e seguiu a mulher até um riacho que fluía vagarosamente. Apesar da idade avançada, ela caminhava graciosa e rapidamente. Jim afundou-se na água e tentou tirar o encardido das mãos. Empurrando para cima as mangas esfarrapadas, esfregou os braços e também o rosto. Ele ainda estava agachado no meio do riacho raso quando Águia que Voa Alto se aproximou. Juntos eles caminharam para o centro do acampamento onde Búfalo Sentado esperava para conversar.

Quando Jim entrou no círculo do conselho e foi empurrado para o centro, cambaleou e caiu de rosto em terra. Sua roupa molhada ficou empastada de lama. Houve chacotas dos bravos mais novos, mas Búfalo Sentado rapidamente os ordenou que calassem. Jim olhou para cima e ficou surpreso ao perceber algo, que parecia ser docilidade, no rosto do chefe. Ele não estava pintado. Suas tranças grossas quase alcançavam a parte da frente de sua cintura. Uma única pena de águia adornava a mecha cabeluda atrás.

Jim afastou-se e sentou-se com as pernas cruzadas de frente para o chefe, esperando. Búfalo Sentado observou cuidadosamente o cativo antes de falar. Quando finalmente falou, não fez perguntas a Jim.

"Nunca pensei que eu fosse contra o homem branco", ele disse. "Todo homem branco que vem à minha terra para negociar é bem-vindo. Não gosto de começar uma briga, mas os brancos têm vindo ao He Sapa. Os soldados construíram seus fortes onde os tratados dizem que não deveriam construir. Tudo o que quero saber como e onde posso encontrar carne para meu povo. Ainda assim os soldados se enfileiram para nos matar."

Búfalo Sentado parou abruptamente. "Diga-me, soldado, como eles te chamam?"

"Jim Callaway."

 

"Jim Callaway. Vê esta terra?" O chefe gesticulou dramaticamente para o horizonte. "Antes de seu povo chegar, eu cavalgava com meu pônei mais veloz por uma semana e ainda não alcançava o fim da terra onde meu povo podia caçar e viver. Agora homens brancos querem que eu vá à agência para falar com o Grande Pai quando tiver fome."

Rumores de raiva soaram da garganta dos homens ao redor. Búfalo Sentado continuou: "Quando os brancos vieram pela primeira vez ao nosso meio, queriam um lugar para construir suas tendas. Agora, nada é suficiente. Eles querem tudo de nossas terras de caça, do nascer ao pôr-do-sol. Querem matar nossos guerreiros. Querem até mesmo matar nossas mulheres e crianças. Não nos deixarão em paz. Por isso pegamos nossas armas. Meus guerreiros são bravos, mas os homens brancos são muitos para nós. Eles construíram uma teia de aranha ao nosso redor, e não podemos escapar. Ainda assim, não morreremos sem lutar. Então, Jim Callaway, você deve me contar. Onde os soldados irão atacar novamente? Quero encontrar com eles".

Durante todo o discurso, Jim observou o rosto de Búfalo Sentado animar-se com a convicção do que estava dizendo. Quando ele fez a pergunta inevitável, Jim relutantemente balançou a cabeça. ‘Não posso dizer a vocês onde os soldados estão. Seus homens me encontraram assim", Jim mostrava suas roupas rasgadas esperando para morrer. O sol nasceu e pousou muitas vezes desde que vi algum soldado."

“Bem, nós teremos de matá-lo se você não contar o que precisamos saber." As palavras vieram de trás de Jim, e ele reconheceu a voz de Águia que Voa Alto.

Jim respondeu sucintamente, sem olhar ao redor: "Disse a vocês, noite passada que rompi com os soldados. Não tenho mais nada a ver com eles. Matem-me. Não sei de nada que possa ajudá-los" .

Búfalo Sentado e Águia que Voa Alto conversaram entre si , como se Jim não estivesse presente. Águia que Voa Alto relatou grosseiramente a conversa noturna deles. Os outros bravos trocaram impressões. Os jovens estavam ansiosos para matar o intruso branco.

Depois de considerar a informação de Águia que Voa Alto, Búfalo Sentado simplesmente concluiu o conselho. "Ele não tem nada pelo que compense ser morto - nem cavalo, nem rifle. Ele deixará nossa terra. Nós o deixaremos ir, mas primeiro...", Búfalo Sentado sugeriu, mostrando sua lendária generosidade, " ... nós o alimentaremos e daremos um cavalo a ele."

Águia que Voa Alto tinha arrastado Jim Callaway para o acampamento como um prisioneiro, mas a decisão de Búfalo Sentado o transformou de prisioneiro em um estranho com necessidade de ajuda. Águia que Voa Alto agarrou a chance de mostrar sua hospitalidade. "Flor do Campo fez um cozido. Nós iremos alimentá-lo. Quando estiver pronto para viajar, darei a ele um de meus pôneis."

Búfalo Sentado concordou com satisfação. "Muito bem. Você será um grande líder um dia, Águia que Voa Alto."

Nenhum dos bravos mais novos murmurou contra Búfalo Sentado. Eles sabiam que sua hospitalidade significava força, e não fraqueza. Muitos deles se arrependeram por não se terem adiantado a Águia que Voa Alto e exibido bondade pessoal.

Águia que Voa Alto surpreendeu-se ao sentir alívio por não ter matado Jim Callaway. Matar animais feridos nunca lhe deram prazer.

Quando Águia que Voa Alto trouxe Jim Callaway de volta à tenda, como convidado e não prisioneiro, Flor do Campo recebeu o estranho calorosamente e começou a conversar alegremente.

"Eu sabia que eles não iriam matá-lo", assegurou a Jim. "Ele esconde isso muito bem, mas dentro de seu coração, Águia que Voa Alto é um homem amável." Ser deixado vivo pelo próprio povo que ele mesmo perseguira trouxe a Jim certa medida de paz. Ouviu com interesse enquanto Flor do Campo se gabava do comportamento de Águia que Voa Alto.

"Seu filho salvou minha vida", disse Jim finalmente. Não expressava grande gratidão. Só havia dito isso, esperando que a mulher continuasse a falar.

"Filho?", Flor do Campo assustou-se. "Não, ele não é meu filho. Sua primeira mãe morreu. Então houve outra mãe que veio do seu povo." A voz de Flor do Campo suavizou-se enquanto continuou: "Ela era minha amiga. Você a conheceu? Você conheceu alguma mulher chamada Jess-e-King?".

O nome trouxe algo familiar do passado, mas Jim balançou a cabeça não querendo lembrar.

“Era uma boa mulher", continuou Flor do Campo, mal tomando conhecimento da presença de Jim. "Ela veio para nosso meio e adotou Águia que Voa Alto em seu coração quando ele ainda era um bebê. Ficou em nosso meio por muitos anos. Depois foi levada de nós, e Águia que Voa Alto se tornou como meu filho. Mas ele ainda carrega Caminhando nas Chamas com ele, próximo ao coração.”

Em pé, do lado de fora da tenda, Águia que Voa Alto ouvia propositadamente, zangando-se com a fácil aceitação e com o compartilhar tão natural de seu passado com um estranho. Entrou subitamente e gritou com Flor do Campo. "Nós não iremos matá-lo, mas não seremos amigos dele. Alimente-o e o apronte para a viagem. É só."

 

A dor brilhou no rosto dócil e cicatrizado. A voz de Águia que Voa Alto suavizou-se com arrependimento. "Eles não são todos como Caminhando nas Chamas, Unci."

Era a vez de Flor do Campo ficar brava. "E você acha que eu não sei disso? Eu estava com você quando fomos ao acampamento dos soldados. Ajudei a pegar os corpos! Ajudei a encontrar cabanas para deixar os órfãos." À medida que falava, ficava mais animada que finalmente postou-se em pé diante de Águia que Voa Alto, balançando o dedo em sua face. "Eu sei que eles não são como Caminhando nas Chamas! Mas este aqui", Flor do apontou o dedo em direção a Jim, "este aqui ficou louco de dor pelo que fez. Você disse que o encontrou esperando a morte. Eu digo que ele já sofreu o suficiente. Digo que aqui está um homem que merece viver. E se ele for viver na minha tenda, conversarei com ele como eu quiser!".

Flor do Campo virou o odre dependurado no mastro e balançou-o mostrando para Águia que Voa Alto. "Vou buscar água", anunciou furiosamente, "e, quando voltar, se Jim Callaway quiser saber algo sobre os lakotas, eu contarei a ele!".

Flor do Campo saiu da tenda feito uma tempestade. Depois disso, Águia que Voa Alto permaneceu em pé por um momento, então agachou-se perto do fogo e, sem olhar para Jim, disse com naturalidade: "Vocês são um povo difícil de entender, Jim Callaway".

"Vocês são um povo difícil de entender, Águia que Voa Alto”, veio o eco.

Pela primeira vez, os dois se olharam como homens.

 

Eu é que sei que pensamentos tenho a vosso respeito, diz o Senhor; pensamentos de paz, e não de mal, para vos dar o fim que desejais. Jeremias 29:11

 

Havia apenas dois deles, Ele havia tropeçado neles, no escuro, e sentido seu caminho ao longo das beiradas geladas das pedras, chacoalhando e retirando as mãos. Agora, com a luz do dia, inspecionou-os mais de perto. A grama havia crescido ao redor dos túmulos. Ao inclinar-se sobre as lápides, a atenção de Jim foi desviada para uma enorme aranha preta e amarela que havia trançado uma rede entre elas. Balançando com a brisa a aranha esperava pela refeição a ser capturada em sua teia. Jim observou por um longo momento, estudando a teia. Estendeu a mão impulsivamente para tirá-la dali, mas parou-a no ar, no meio do movimento, e controlou o impulso.

As pedras eram um pouco maiores que rochas vermelhas grandes e, provavelmente, rebocadas de um dos campos que cercavam a casa da fazenda. Suas inscrições apenas diziam "Ma" e “Pa”, com as palavras entalhadas grosseiramente no centro de cada rocha. "Ma" aparentemente morreu antes de ''Pa'', pois a árvore de cedro plantada atrás da pedra era mais alta que a de ''Pa'' cerca de trinta centímetros.

Jim ficou em pé e caminhou até o poço. Desembaraçando e emendando a corda em alguns lugares, ele a deixou comprida o suficiente para alcançar a água lá embaixo. No celeiro encontrou um balde. Desceu, encheu-o e colocou bastante água entre as duas árvores. Gotas espirraram do balde na teia da aranha, e a criatura procurou refúgio na grama alta que crescia ao redor dos túmulos.

Depois de aguar as árvores,Jim começou a trabalhar arrancando o limo que havia crescido ao redor dos túmulos. Depois de somente umas duas horas de trabalho, o terreno parecia bem cuidado. Jim ficou em pé novamente e resmungou satisfeito.

Voltou sua atenção à casa e ao celeiro. Por que um negócio tão bom foi abandonado?, pensou, admirado. A casa era modesta, mas parecia bem construída. No lado norte, uma varanda baixa protegia a porta da frente. Dando volta até um lado, a varanda também cobria outra entrada no fundo da casa. Essa porta era virada para o leste e para o celeiro. A porta de frente para o celeiro havia-se soltado e estava pendurada em suas dobradiças. O lugar estava obviamente vazio há algum tempo. O teto parecia firme e a parede estava no lugar, mas a pintura já tinha desbotado há muito, mostrando na madeira exposta embaixo da varanda algumas manchas descoloridas.

 

Jim inspecionou o celeiro. O dono tinha tido grandes planos, certamente. Do lado de dentro havia oito baias e, na parede oposta a elas estavam pendurados arreios elaborados, cobertos de poeira e teias de aranha. Depois das baias havia mais duas cocheiras grandes o suficiente para abrigar várias ovelhas e cabras. Na parede mais longe, uma escada dava acesso ao palheiro na parte de cima.

Jim subiu, Em um canto do palheiro um garfo de ferro saía do feno, como se o seu dono tivesse acabado de ouvir o sino chamando para a refeição e abandonado o trabalho. Jim passou a mão áspera ao longo das guarnições e vigas do celeiro, admirando o acabamento. O que quer que tenha acontecido, o homem que construiu esse celeiro planejara ficar ali por um longo tempo.

Um rato deslizou pelo chão, e Jim saltou de lado quando surgiu um gato amarelo numa perseguição cerrada. Em um instante, o gato reapareceu no topo da enorme pilha de feno, com o prêmio dependurado na boca. Jim virou as costas para a cena e desceu a escada. Caminhou até o lado extremo do celeiro novamente, para o lado de fora e ao redor do fundo, pisando sobre a guarnição de uma cerca caída e entrando no curral. Deliberadamente abriu todas as portas do celeiro, deixando a luz se espalhar sobre as cocheiras.

Precisavam ser limpas do esterco. Jim pegou o garfo de ferro do palheiro e começou a limpar cada cocheira. Num canto do celeiro encontrou uma caixa dependurada, apodrecendo meio escondida debaixo de um pelego de sela. Dentro havia uma coleção de ferramentas que tinham sido obviamente manejadas por mãos carinhosas. Pegando o martelo, Jim arrancou uns pregos e a cerca do curral.

Não havia razão para fazer o trabalho, mas restaurar as coisas quebradas dessa fazenda abandonada trouxe-lhe uma paz sem igual. Jim havia capinado o terreno do cemitério e limpado o celeiro. A noite aproximava-se rapidamente. Com ela veio a fome avassaladora. Não seria a primeira noite em que Jim Callaway dormiria sem comer. Tirando um balde de água limpa do poço, Jim bebeu, subiu a escada para o palheiro, e caiu no sono.

 

Jim desceu de manhãzinha e sentou-se, percebendo de repente que esta noite, pela primeira vez desde aquela nas Colinas Esguias, os olhos das crianças indígenas não tinham vindo assustar seu sono. Ele tinha dormido inteira e profundamente, e os primeiros momentos do seu acordar tinham sido curiosamente de paz. Alguma coisa neste lugar parecia dar-lhe as boas-vindas. Ele não teve pressa em se mover. Mas as pontadas de fome na barriga lembraram que ele tinha de fazer alguma coisa para comer, e logo.

Do lado de fora, o som de um carroção sacudindo quintal a dentro interrompeu seu plano de pescar no riacho do fundo. Deitando de bruços, Jim deslizou para o canto do sótão e observou fora do palheiro o intruso que havia descido do carroção e permanecia ao lado das sepulturas, coçando a cabeça com espanto.

O intruso olhou ao redor, mãos nos quadris, e começou a falar para o céu. “Minha nossa! Vejam só isso aqui! Mas quem é que veio aqui e limpou as sepulturas?" Joseph correu os olhos pelo quintal da fazenda tentando encontrar algum sinal de vida. Somente a porta aberta do celeiro deu a ele uma dica de que havia algum ser humano ali.

Jim estava quase acreditando que escaparia de ser descoberto quando um pequeno cachorro cinza correu de debaixo do assento do carroção para dentro do celeiro, e para a escada, latindo furiosamente. O homem enterrou seu chapéu de volta na cabeça, sacou um rifle de debaixo do assento do carroção, e seguiu o cachorro até a escada.

"Seja quem for que estiver aí, é melhor descer agora mesmo desse sótão", ressoou uma voz profunda.

Jim Callaway ficou em pé e limpou o feno de suas roupa, , Exclamou lá de cima: "Acalme-se, senhor. Quero dizer, não me machuque. Vim para o quintal da fazenda já tarde e apenas dormi aqui no sótão, só isso!".

"Se você não tem nada que esconder, então saia do sótão," Joseph silenciou o pequeno cachorro e cuidadosamente mirou o rifle nas costas largas que vinham descendo a escada. Enquanto o jovem se virava, Joseph percebeu suas roupas rasgadas, a barba sem cuidar, o cabelo comprido. Admirou-se com a brancura da barba e o vermelho do cabelo. Já havia visto aquilo acontecer antes - uma vez. Joseph tinha sido chamado para ajudar a examinar os sobreviventes de um incêndio. Uma jovem mulher e seus dois filhos tinham morrido por tragédia, e seu jovem marido permanecera em pé, incapaz de ajudar a família. Sua barba também se tornou branca, mesmo o cabelo tendo ficado preto como carvão. Esse garoto deve ter passado por algo muito horrível. Mesmo com os broches militares removidos, Joseph reconheceu o uniforme do exército. Olhou com os olhos semicerrados para ele e murmurou: "Que tal você me contar o que tem feito aqui na propriedade dos Bairds? Se eu acreditar na sua história, talvez abaixe esse rifle e poderemos conversar mais".

Jim Callaway encontrou o olhar fixo de Joseph Freeman calmamente. Permaneceu em pé e respondeu honestamente: "Estou vagando por um bom tempo, senhor. Só encontrei o quintal da fazenda ontem à noite. Tudo estava escuro. Achei que os habitantes estavam dormindo e não se importariam se eu dormisse no sótão, Planejei me oferecer para trabalhar e pagar a hospedagem desta noite logo de manhã". Jim deu uma olhada para as sepulturas, "Mas parece que não há ninguém por aqui."

"Por que você tem vagado?", veio a pergunta.

Jim olhou para fora e piscou muitas vezes. Com dificuldade para engolir, disse silenciosamente: "Olhe, senhor, contaria ao senhor se pudesse. O fato é que não posso lhe contar... Não sou um criminoso ou qualquer coisa assim ... Só não posso...".

"Você é um militar." Joseph afirmou já como um fato, e Jim encolheu-se e engoliu com dificuldade. Seus olhos verde-acinzentados encontraram o fixo olhar marrom-escuro, e desviaram. Mas, antes que ele desviasse o olhar, Joseph percebeu. Ele conhecia aquele olhar porque já o tinha visto dezenas de vezes antes. Todo escravo que ele já conhecera, que estava fugindo do passado, tinha aquele olhar igual ao dele. Esse garoto - e para Joseph ele era apenas um garoto - estava fugindo de um passado terrível demais para conversar a respeito. Algo nos ombros estreitos, no queixo quadrado, a tentativa de resposta honesta, toca Joseph. O olhar dizia: "Tenho uma história para contar, mas não me pergunte porque está enterrada bem profundamente. Tenho tentado ser um homem honesto. Estou procurando um novo começo. Só não me pergunte a respeito daquilo em meu passado e eu estarei bem.”

“Já vou embora, se você abaixar esse rifle." Jim falou, o mais calmamente que pôde, mas seus olhos clamavam por bondade.

Lentamente o rifle foi sendo abaixado. "Por que você consertou aqueles túmulos?"

Os ombros largos menearam. "Simplesmente me pareceu que precisava ser feito."

“Por que você limpou as cocheiras - consertou a cerca?"

Com o olhar de surpresa no rosto de Jim, Joseph disse: "É, conheço cada canto e cada rocha neste lugar. Tenho cuidado disso aqui por anos. Então, por que limpar as cocheiras, consertar aquela cerca?”

Jim repetiu: "Realmente não sei. Simplesmente parecia que precisava ser feito".

O silêncio que cresceu entre os dois homens foi quebrado por um ronco forte do estômago de Jim, há tanto tempo negligenciado. Joseph Freeman de repente começou a rir, uma profunda e marcada risada encheu todo o canto do celeiro.

“Bem, enquanto eu descubro que tipo de verme você é, seria melhor que viesse aqui e comesse alguns dos biscoitos da senhora Hathaway. Não quero um verme morto em minhas mãos!"

Jim se sentou à sombra do carroção de Joseph e devorou os enormes biscoitos antes de Joseph questioná-lo novamente: "Agora, ouça aqui, jovem, você não precisa contar a história da sua vida se não quiser, mas tem de contar algumas coisas. Está magro como um palito e precisa de umas boas roupas. Você está fugindo da lei?", Joseph olhou dentro dos olhos verde-acinzentados e ordenou: "E também não minta para mim. Se estiver fugindo da lei isso é problema seu, e eu deixarei você fugir. Mas quero saber verdade".

Jim olhou fixamente a face amável. "Não, senhor, não sou um fora-da-lei."

"De onde você veio?"

Jim refletiu antes de responder: "Não sei senhor. De algum lugar onde estava antes".

"Você está longe o suficiente de onde estava para parar de fugir?"

Jim considerou a pergunta antes de balançar a cabeça vagarosamente e arriscar: "Acho que sim".

Joseph ficou em pé e colocou o rifle de volta, embaixo do assento do carroção. "Então suba aqui e voltaremos para a cidade. A senhora Hathaway abastecerá você com mais do que apenas biscoitos, nós conseguiremos roupas novas... "

Com a menção da palavra "cidade", Jim saltou e saiu do carroção. "Não!", quase gritou. Então, embaraçado, disse com mais firmeza: "Não, senhor, obrigado, mas não tenho necessidade de ir a Cidade. Eu - eu só quero ficar sozinho, senhor, gaguejou e agarrou o lado do carroção para firmar as pernas bambas.

Compaixão tomou conta da voz de Joseph. Ele recorreu ao tom suave que sempre usava para aquietar um potro nervoso. "Agora, assente, filho. Ninguém vai levá-lo à cidade contra a sua vontade. Você quer ficar sozinho, tudo bem. Todo homem precisa de tempo e... " Uma idéia surgiu e Joseph soltou-a antes de ter realmente tempo de considerá-la. "Você estava certo sobre este lugar. As pessoas que aqui trabalhavam já se foram. O filho deles me pediu para dar uma olhada. Tenho cuidado disso aqui já por dois anos. O filho não quis o lugar. Agora ele também já se foi, Deus deu descanso à sua alma. Sua esposa não se importa com o que acontece no lugar. Portanto as coisas ficam como estão, caindo aos pedaços.” Joseph gesticulou. "E é realmente uma pena. Poderia ser um lugar bom.”

Enquanto Joseph falava, Jim parou de tremer. Joseph falou até que o garoto estivesse visivelmente calmo e acrescentou: “Gostei da maneira como limpou os túmulos. Mostra respeito. Você também limpou bem o celeiro. Por que não fica aqui enquanto vou à cidade, pego algumas roupas e alguma comida para você?”.

Jim considerou com suspeita a oferta do estranho. "Não tenho dinheiro para pagar roupas novas e comida, senhor."

 

Joseph apontou para as sepulturas e para o celeiro. "Parece que você já ganhou algo pelo seu trabalho aqui."

Joseph tentou pousar uma mão larga sobre o ombro do rapaz, mas Jim recuou e moveu-se para o lado, encarando Joseph e fechando os olhos contra a luz solar.

Joseph esticou a mão aberta: "Pode confiar em mim, filho. Trarei a você algumas roupas limpas e comida. Fique aqui o tempo suficiente para comer uma refeição decente. Então, o que você fará é por sua conta. Dê-me um aperto de mão".

Jim olhou para a mão aberta. Limpando a palma da mão encardida na perna da calça, aproximou-se para apertar a mão de Joseph. Joseph sentiu o aperto de mão forte com satisfação.

O estranho era jovem e assustado, mas tinha uma mão forte e um olhar fixo. Enquanto subia no carroção e falava com sua parelha, Joseph sorriu. Gritou por cima dos ombros: "A porta do lado da casa está dependurada nas dobradiças. Você encontrará um jeito de consertá-la, tenho certeza!"

O carroção sacudiu estrada abaixo e Jim saiu do sol quente, entrando no celeiro. Olhou sobre os ombros para a casa. Em vez de cuidar da porta pendida, puxou para baixo um arreio. A caixa de ferramentas tinha tudo o que era necessário. Jim passou a tarde limpando e lubrificando o arreio até que ele estivesse brilhando.

Um vento suave soprou, entrando dentro pela porta do celeiro e através das cocheiras e misturando o aroma fraco de feno e cavalos. Jim ficou sentado, absorto no trabalho, até o sol começar a se pôr, lançando raios de luz cor-de-rosa na porta do celeiro. Com um sobressalto, Jim ouviu o sacudir do carroção que retornava. Joseph saltou e entrou no celeiro, encostando-se na porta e observando como Jim havia arrumado o arreio em pinos.

Jim sorriu timidamente. "Não cheguei à porta." Joseph deu de ombros. "Não faz mal. Você pode fazer isso amanhã - uh, antes de ir embora. Tenho de voltar agora mesmo Aqui estão algumas roupas novas para você. E um pouco de comida." Joseph voltou para o carroção e pegou alguma coisa embaixo do assento. "Acho que pode precisar disso também." Deu a Jim uma caixa de balas para sua pistola, não se importando com os protestos do jovem.

Jim agarrou a mão do homem, com gratidão. "Não sei como dizer obrigado, senhor."

Joseph sorriu calorosamente. "Conserte a porta antes de parir amanhã cedo, e será o suficiente. Adeus." Subiu de volta ao assento de seu carroção antes de acrescentar: "Vou orar por você, jovem"

Jim deu uma balançada de cabeça e levantou a mão enquanto o carroção ia embora.

 

"Não perguntei seu nome, LisBeth", Joseph falou baixo, "mas sei que ele seria bom para você e MacKenzie se dessem a ele a chance na propriedade rural. Você tinha de ver a maneira como ele limpou o lugar. E só para pagar por uma noite no palheiro!"

LisBeth franziu a testa. "Você nem sabe o nome dele, e ainda quer que eu concorde em dar-lhe trabalho lá?"

Joseph respondeu afirmativamente, balançando a cabeça, acrescentou a única coisa que garantiria o lugar para o "jovem homem" na fazenda - se ele quisesse: "Sei que é uma esmola fora do comum, LisBeth, mas o fato é que os anos estão me consumindo... e não tenho mais a energia de antes, e simplesmente penso que... "

A testa franzida de LisBeth foi substituída por um olhar de consideração: “Oh Joseph! Sinto muito. Eu simplesmente não pensei em tudo o que você tem feito! Tenho pedido demais a você. Não tive tempo de fazer os arranjos necessários, antes de Mac partir com o regimento”, e então, LisBeth gesticulou, "voltei sozinha. Só não pensei em tudo o que você tem feito, Joseph, desculpe-me. Claro que, se você precisa de ajuda, peça a esse rapaz para ficar. Apenas peça para ele vir amanhã à cidade para nós conversarmos um pouco".

Joseph negociou: "Ele tem de vir à cidade, LisBeth? Uma ida ao local vai fazê-la sentir-se melhor e eu vou ficar contente em levá-la até lá no domingo".

Lisbeth encolheu-se. "Ó, não, Joseph! Não quero ir à fazenda, ainda não."

Joseph apressou-se em desculpá-la: "Tudo bem, LisBeth... Eu entendo. Algumas coisas são muito difíceis logo após uma perda. Não há necessidade de você ir lá. Eu cuido de tudo".

Lisbeth ficou visivelmente aliviada. "Obrigada, Joseph. Não sei o que fazer a respeito da propriedade, mas até que decida, não há razão para ela cair aos pedaços."

Joseph retirou-se rapidamente antes que LisBeth repetisse o pedido para que o rapaz viesse até Lincoln. Subiu em seu carroção, contente consigo mesmo, e tomou caminho para o sul novamente, em direção à propriedade dos Bairds. No carroção havia provisões para pelo menos uma semana, e Joseph esperava convencer o jovem a ficar.

 

Quando Joseph retirou a toalha que escondia as provisões, Jim deu um sorriso largo e concordou em ficar. "Mas só por essa semana. Consertarei as coisas e então estarei pronto para ir."

 

Joseph concordou que uma semana seria mais que suficiente. Mas de alguma maneira, a semana seguinte chegou, e havia mais serviço que precisava ser feito, e o reumatismo de Joseph estava aumentando. Jim concordou em ficar outra semana. No sétimo dia, o carroção de Joseph retornou ao lugar com um cavalo baio castrado, na traseira do carroção.

"Só me deu problemas, desde que o comprei", Joseph falou cuidadosamente. "Morde tudo o que ponho na cocheira dele, e não consigo montar. É claro que fui enganado quando aquele negociante veio à cidade na semana passada. Então, achei que, se eu o trouxesse aqui, onde pode ficar sozinho, talvez pudesse amansá-lo para mim. "Simplesmente odeio pensar em perder meu investimento."

Quando Jim começou a protestar, Joseph segurou sua mão e disse: "Sei que você estava planejando partir amanhã. Mas preciso de uma ajuda a mais com este animal, e então você poderá seguir seu caminho... Ele não precisa de nenhum domador grandioso. Só precisa de alguém com tempo para conversar com ele e acalmá-lo um pouco. O que você acha?".

"Jim" foi a resposta.

Joseph estava desamarrando o animal, perfeitamente treinado, enquanto ele falava. Quando o jovem pronunciou seu nome, ficou em pé e olhou em assombro.

"Jim, este é meu nome, senhor. Jim Callaway. E eu o ajudo com o cavalo. Sou muito bom com cavalos. Não levarei muito tempo para resolver esses problemas" um sorriso vagaroso se formou sobre sua face queimada, "já que vejo que ele é perfeitamente bem treinado".

A risada barulhenta de Joseph preencheu o ar, e ele bateu no pescoço do animal. "Você me pegou, hein!? "Bem, só achei que precisava de companhia aqui e, se realmente decidir partir, terá ganhado uma maneira melhor de viajar que esses dois pés. Então, Jim Callaway, vai ficar aqui? Trouxe a você um cavalo para o qual não preciso de ajuda, mas o fato é que a senhora Baird realmente necessita de auxílio neste lugar aqui até decidir se irá mantê-lo ou vendê-lo. Seu marido morreu no Pequeno Grande Chifre e ela não superou isso ainda. Veio para casa para descobrir que perdeu sua mãe também. Ela disse que gostaria que você ficasse e cuidasse do lugar, se quiser o emprego."

"Ela não precisará me pagar", veio a resposta curta. "É apenas um lugar para ficar, algo para fazer. E isso vale muito - trazer um lugar de volta à vida. Adorarei isso." Deu um suspiro profundo seus olhos encontraram os de Joseph. "Eu serei grato à senhora Baird se me deixar ficar aqui e trazer vida de volta a este lugar. " Talvez isso possa ajudar..." Jim bateu na porta do seu passado, fechando-a antes de terminar a frase.

Joseph ficou satisfeito. Fez um movimento com a mão e falou “Eu sei, filho. Eu sei. Já passei pelo que você deve estar passando. Só não fique amargurado, Jim. A amargura vai matar seu espírito mais rápido que qualquer outra coisa. Apenas deixe passar. Confie em Deus e siga em frente, Jim".

Mais uma vez o animal trouxe Jim de volta à realidade. O animal tinha parado de se esfregar e esticou a cabeça grande até Jim, empurrando-o até quase derrubá-lo. Joseph riu e Jim sorriu vagarosamente. "U m cavalo intratável mesmo. Não sei como irei acalmá-lo, mas farei tudo o que puder."

Joseph escorregou para dentro do carroção de novo, rindo sem parar. “Obrigado, Jim. Eu vou gostar muito disso. Agora, vou ficar lá novamente por uns dois dias, então me faça uma lista das coisas que vai precisar para deixar a fazenda funcionando de novo. A senhora Baird ficará contente em saber que o lar de seu marido está sendo cuidado.”

 

Antes sedes uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus em Cristo vos perdoou. Efésios 4:32

 

Poucos dias mais tarde, LisBeth fez sua peregrinação à propriedade de Mac. Pensando no apelo de Jim para "ficar sozinho", Joseph protestou brandamente, mas no final Lisbeth conseguiu. Regozijando-se secretamente com um dia de liberdade, fora do alcance dos olhos compassivos, LisBeth sentou-se ao lado de Joseph e preparou os suprimentos para o "Lugar do Mac".

"Nunca estive no lugar, Joseph", LisBeth o lembrou, "Acho que eu deveria pelo menos vê-lo antes de decidir o que fazer, Ninguém duvida de que não sou talhada para fazendeira", falou com uma voz mais suave, "Mas não há sepultura para visitar, e gosto da idéia de poder visitar o lugar onde Mac passou a infância." LisBeth virou a cabeça para a frente, endireitando os ombros e levantando o queixo.

"Eu me lembro como sua mãe costumava fazer isso quando estava determinada a executar uma tarefa", Joseph disse.

"Fazer o quê?"

"Costumava empurrar os ombros para trás, levantar a cabeça e encarar as coisas de frente.”

"Foi isso o que ela fez aquela noite em que topamos com sua fogueira do lado de fora do forte Kearny?"

Joseph sorriu com a recordação. "Bem, na verdade, estava extremamente escuro naquela noite. Mas com certeza lembro que ela encarou o dia seguinte de cabeça erguida." Joseph começou a dar risadinhas. "Você era uma menininha muito viva, Lisbeth."

LisBeth sorriu, lamentando. "Espero que ainda seja, Joseph. " A vida não tem sido muito boa ultimamente, mas irei superar, o que quer que seja. Mamãe sempre dizia para apenas confiarmos no Senhor e seguirmos em frente. Bem, estou tentando seguir em frente."

"Não se esqueça da outra parte", Joseph exclamou. "A parte de confiar no Senhor."

Lisbeth mudou de assunto. "Posso dirigir a parelha, Joseph?"

Joseph balançou a cabeça. "Essa parelha precisa do toque masculino, LisBeth."

 

Lisbeth insistiu. "Por favor, Joseph. Vai ser divertido!" Fez um rosto tão patético que Joseph rachou de dar risada.

"LisBeth, LisBeth! Está parecendo aquele dia em que você insistiu com sua mãe para sentar-se ao meu lado na carruagem. E eu um estranho e tudo! Que vergonha, garotinha; você sabe como conseguir o que quer!"

Joseph passou os arreios a LisBeth, mantendo o pé próximo ao freio do carroção e mantendo a voz suave e gentil, enquanto instruía a nova motorista. Os cavalos mexeram as orelhas, suspeitando de alguma coisa. A voz era a mesma, mas havia mãos novas no cabresto. LisBeth precisou usar toda sua força para controlá-los. Ela aceitou o desafio. Depois dos primeiros quilômetros, relaxou um pouco e começou a desviar o olhar, das orelhas da parelha para a paisagem ao seu redor.

Havia girassóis por toda parte. Eles cresciam ao longo da estrada, abrindo caminho aqui e ali para os emaranhamentos de rosas silvestres em crescimento, e para as asclépias. De um lado da estrada, uma moita de cerejas silvestres atraíra várias calhandras. Elas voavam entre as pequenas árvores, sugando forte e graciosamente os frutos vermelhos e então passando ao galhos mais altos da árvore para preencher o ar com suas canções. Com teimosia jovial, LisBeth recusou as recordações que tentavam crescer dentro dela. Não, ela pensou, o dia está lindo e vou apreciar o sol.

Estudou cada detalhe do cenário enquanto a parelha galopava em frente. Joseph apontou para o ponto onde o caminho da propriedade se encontrava com a estrada principal, e Lisbeth forçou a parelha a galopar mais levemente. A voz de Joseph perdeu o tom gentil quando forçou Lisbeth a diminuir a velocidade. Eles chegaram fazendo muito barulho no quintal da fazenda, e Lisbeth viu-se em pé e puxando as rédeas para trás com toda a força para parar a parelha e prevenir que atravessassem o celeiro até o campo do outro lado.

Enquanto se agitavam para parar, Jim Callaway contornava a quina do celeiro. LisBeth estava sem respiração, e seu cabelo tinha desmanchado de um lado, com a sacudida no último pedacinho da estrada. Por um momento, ela foi LisBeth King de novo – verdadeira e natural, aproveitando um dia adorável no campo, sem pensamentos a respeito das tragédias de sua vida. O sol brilhava em seus olhos escuros, e ela olhou com os olhos semi-abertos para o celeiro com um sorriso nos lábios. Viu só!?, pensou. Consegui. E Joseph achava que eu não conseguiria, mas consegui.

Jim só conseguiu ver LisBeth por uma fração de segundo. Mesmo quando Joseph gritou "oi" e a apresentou, as pálpebras de Lisbeth se fecharam, cobrindo os olhos castanhos e brilhantes. Ela se assentou e apressadamente puxou o cabelo para trás, fazendo um coque firme atrás da cabeça. Descendo empinadamente, Lisbeth tornou-se a viúva LisBeth.

Aceitando a mão de Jim para descer do carroção, Lisbeth explicou: "Joseph não queria que eu viesse, mas achei que deveria. Trouxemos seus mantimentos". Virou-se para olhar ao redor da fazenda. A casa pintada ainda fresca brilhava no sol. "Você tem trabalhado pesado."

“Sim, madame. Meus colegas sempre diziam: 'Se um homem supera a dificuldade de pintar uma casa e um celeiro, então ele tem uma boa colheita e sucesso no caminho'. Acho que, se for vender a propriedade, conseguirá um preço melhor dessa maneira.”

“Sim, muito bom." LisBeth ficou em pé meio em dúvida, então caminhou até o fundo do carroção e ajudou Joseph a puxar o tecido que cobria o suprimento. "Realmente não dei chance para Joseph conferir os mantimentos antes de partirmos. Espero que tenhamos trazido tudo de que precisa."

"Tenho certeza de que tudo está certo, madame", disse Jim girando embaraçosamente o chapéu em suas mãos.

Joseph o salvou. "Trarei água para a parelha, Jim. Vá em frente e descarregue os mantimentos."

Jim virou-se para LisBeth. "Na varanda está sombra. Posso... Jim limpou nervosamente a garganta. "Posso trazer-lhe água?"

"Não, obrigada” LisBeth rapidamente cruzou o quintal da fazenda e se abrigou no canto da varanda. Sentou-se à sombra e observou o ruivo alto e quieto carregar pacote após pacote para dentro da casa. Alguma coisa no jeito dele se mover e se portar parecia-lhe peculiarmente familiar.

Finalmente, ela saiu ao sol. "Isso é ridículo. Posso ajudá-lo com isso.

“Oh, não, madame", Jim protestou. "Estou quase terminando, Só falta carregar mais aquele barril de farinha e pronto.” Ele se apressou em levantar o barril nos ombros.

LisBeth sentou-se de novo. Aquela voz também parecia familiar. Quando Jim saiu da casa, checou os arreios. LisBeth o observava cuidadosamente. Colocando-se ao redor da parelha ele meticulosamente procurou pedras nas ferraduras da parelha. Finalmente, ele se voltou a LisBeth. "Obrigado por trazer o mantimento. Não quero causar nenhum problema."

"Oh, não é problema”, LisBeth respondeu. "Gostei de sair da cidade. Ela suspirou. "As vezes em Lincoln, onde todos me conhecem e todos conheciam Mac, sabe, às vezes é difícil. Foi bom para mim sair de lá."

A parelha havia tomado água e Joseph checava os arreios enquanto LisBeth subia para o assento do carroção. Um pequeno pacote chamou sua atenção. "Isso deve ser seu, senhor...” LisBeth sorriu. "Só agora percebi que Joseph nunca me disse seu nome inteiro. Fez uma pausa, esperando resposta. Mas Jim não respondeu. Tentou alcançar o pacote e, ao fazer isso, o pacote desmanchou-se e caiu no chão. Tinha uma plantinha, já bem sofrida com a longa jornada.

Ao inclinar-se para pegá-la, ele sorriu timidamente. "Minha mãe tinha uma dessas crescendo ao lado da varanda. Pensei em construir uma treliça de madeira e ver se consigo cultivá-la aqui. São lindas demais quando florescem.

"Que flor é essa?

“Rosa – mas não do tipo que cresce ao longo da estrada. Vi uma dessas na cidade semana passada." Ele se apressou em explicar: "Joseph e eu fomos caçar e estava muito tarde para voltar, então fui para cidade com Joseph e me hospedei na cocheira até o sol nascer. Então vi esta rosa justamente da cor que minha mãe adorava". Ele estava embaraçado, e seu rosto ficou vermelho. “Aposto que Joseph pediu uma muda.”

Lisbeth olhou para a raiz esquelética. "Espero que ela cresça”, disse suavemente: "Mac adoraria ver esse lugar de volta à vida. Tenho certeza de que ele se alegraria com isso.

Jim colocou seu futuro arbusto de rosa na sombra da varanda, “Ah, ela vai crescer, madame. Sou bom em fazer as coisas crescerem," Ele se estendeu para coçar a parte de trás do pescoço. "Não muito bom em nenhuma outra coisa - mas posso fazer coisas crescerem."

Joseph observou os dois cuidadosamente. Subiu ao lado de Lisbeth e pegou as rédeas enquanto os apresentava. "LisBeth, parece que esqueci os meus modos. Esqueci de apresentar vocês dois. Esse aqui é meu amigo Jim Callaway. Jim, esta é a LisBeth Baird. Já sabe, ela é sua patroa agora, Jim."

Jim Callaway! O nome pairou no ar enquanto LisBeth olhava fixamente, sem acreditar. Não podia ser! Não, o Jimmy Callaway do Forte Kearny. Jimmy Callaway era um pirralhinho gordo que tornava a vida de Lisbeth miserável, puxando suas tranças, gabando-se do seu futuro como soldado, e constantemente lembrando que seu pai era um oficial enquanto ela nem pai tinha. Uma vez, Jimmy Callaway tinha até mesmo a chamado por um nome terrível. A palavra a tinha feito chorar, mas ela fugiu rapidamente, antes que ele pudesse ver o efeito da zombaria.

Lisbeth encarou Jim com incredulidade. Ele havia tirado o chapéu para exibir um grosso emaranhado de cabelo ruivo e rebelde. Mesmo queimado pelo sol, seu cabelo vermelho continu¬ava a contrastar com a barba branca como a neve. Os olhos eram solenes e pareciam segurar uma pergunta. Eles olhavam diretamente para você, mas nunca descansavam muito tempo em uma coisa, não querendo ser invadido por muito tempo. Com certeza, esse não podia ser aquele Jim Callaway. Não, aquele Jimmy Callaway não poderia ter crescido para tornar-se tão distante!

Jim balançou a cabeça e disse mecanicamente: "Prazer em conhecê-la, madame". Ele fez uma pausa, procurando mais palavras. "E... e obrigado por me empregar."

"Prazer em conhecer o senhor, Sr. Callaway." O humor da coincidência venceu as dores da infância, e LisBeth acrescentou com um sorriso malicioso: "Joseph omitiu parte do meu nome, senhor Callaway. Eu sou LisBeth Kíng Baird. Acredito que já nos conhecemos antes - no forte Kearny?". Ela observou cuidadosamente a reação do rapaz. Quando ela veio, não era o que realmente esperava. Jim franziu levemente a testa e deu um passo para trás do carroção. Olhou rapidamente ao redor do quintal da fazenda e limpou a garganta, mas não disse nada.

Finalmente, Jim quase sussurrou: "Sua mãe era a senhora King, Jesse King? Joseph disse que ela acabou de falecer, madame. Realmente sinto muito". Olhou para LisBeth e deixou os olhos, semicerrados. "Lembro-me dela. Era sempre amável comigo", a voz de Jim gaguejou, "mesmo quando eu não merecia bondade alguma." Ele fez uma pausa novamente e LisBeth começou a arrepender-se de ter mencionado o assunto. Parecia estar-lhe causando tanta dificuldade...

LisBeth apressou-se a quebrar o silêncio. Com um risinho forçado, ela tentou dar um brilho à discussão. "Lembro-me de você como um gordinho, filho de um oficial ruivo, que me perseguia impiedosamente."

O homem em pé diante dela tinha pouca semelhança com o Jimmy Callaway que a havia atormentado quando criança. Jim Callaway, o adulto, arrastava os pés pesadamente na poeira e olhava por sobre a cabeça dela para os campos, enquanto dizia fracamente: "Sinto muito por aquilo, senhora Baird. Realmente sinto muito. Eu era uma pequena praga". LisBeth estava começando a se sentir embaraçada pelo tom sério na voz dele. "Por favor, madame - nunca quis causar nenhum dano. Acredite que eu nunca pensava no quanto devia doer ser motivo de gozações. Espero realmente que não tenha guardado isso contra mim."

LisBeth levantou uma mão e o interrompeu: "Céus, não, senhor Callaway. Só estava divertindo-me atormentando-lhe um pouquinho, só isso. Por favor, pare com isso. Achei simplesmente incrível encontrar alguém do forte Kearny depois de todo esse tempo... Sempre achei que você seria um militar também. Naquele tempo você estava certo disso, pelo que me lembro".

 

Jim olhou para Joseph e fez um apelo sem palavras. Joseph respondeu ao apelo, interrompendo a conversa. "Bem, já está passando da hora de voltarmos à cidade - sinto cheiro de chuva no ar. Volto na semana que vem, com algumas sementes de jardim, Jim." Joseph acrescentou rapidamente: "Você pode tentar cultivar aquela trepadeira de que estava falando".

Com alívio Jim acenou e voltou para o celeiro, enquanto Joseph puxava a parelha para fora do pátio da fazenda. Lisbeth ficou quieta, diferente do habitual, durante vários quilômetros da viagem. Por fim, perguntou a Joseph: "O que acha dele, Joseph, é claro que não queria falar muito sobre o seu passado, e quando mencionei o exército... ".

Joseph balançou a cabeça. "Não sei, LisBeth. Mas tenho certeza de que não há nada com que nos preocuparmos. Aquele rapaz já teve muitas chances de roubar o que quisesse e fugir, desde que chegou. É honesto e trabalhador árduo. Acho que estou contente em deixá-lo sozinho com as coisas, mas ele não nos quer invadindo sua privacidade."

O comentário de Joseph interrompeu qualquer outra especulação de LisBeth. Os dois cavalgaram de volta a Lincoln em completo silêncio. Lisbeth querendo saber mais sobre Jim Callawav e Joseph querendo desculpar o rapaz por qualquer coisa horrível que ele tivesse enfrentado no exército.

Uma coisa é certa, ponderou Joseph, o que quer que seja, ainda está com ele. Ele precisa deixar isso para trás e continuar a vida. Os rostos de sua própria família perdida interromperam suas considerações. Joseph começou a cantar tão abruptamente que LisBeth se assustou. Juntos eles seguiram pela estrada até Lincoln, cantando palavras que carregavam os dois de volta às suas próprias dores.

 

“Nós nos encontraremos novamente" - que doce palavra! Que suave som!

Como músicas ouvidas ao longe em alguma terra encantada.

Nós nos encontraremos novamente. Nós nos encontraremos na terra sempre verde

Nós nos encontraremos novamente, sim, nos encontraremos para nunca mais

Nos separarmos.

 

Uma voz das vozes entregou-se às palavras e encontrou cura na antecipação de um encontro com uma esposa e duas crianças perdidas. Mas a voz mais jovem tremia com incerteza, e encontrou na música pouco conforto para perguntas que afogavam a mensagem de esperança.

 

...e de público a louvarão as suas obras. Provérbios 31.31

 

No momento em que Jacob Winslow deixou a sala de jantar da Hathaway House e caminhou escada acima para o quarto "com janelas para o norte, por favor, sempre dormi melhor com a cabeça apontando para o norte”. Augusta debruçou-se sobre a mesa para encher a sua bandeja com toda a louça. Equilibrou a carga cuidadosamente, mal chegando até a pia, e depois de LisBeth salvar um copo que estava caindo de um dos cantos da bandeja.

“Obrigada, querida!", Augusta sorriu.

Lisbeth caçoou: "Tia Augusta! 'Faça duas viagens se necessário, querida. Mas nós não podemos comprar porcelana nova toda semana!’”

Augusta sorriu novamente. "Minha nossa! Eu fazia esse discurso, desse jeito!?"

Sarah gritou: "A senhora ainda faz, madame".

Apossando-se do jornal da tarde, Augusta assentou em sua cadeira de balanço. "Que vergonha, vocês duas, garotinhas, conspirando contra mim desse jeito! Tudo bem, tudo bem – eu confesso. Quebrei minhas próprias regras. Mas ouçam isso, senhoritas:

Para bilhetes para o Centenário, escreva ou telefone para R. P. Miller, à rua O no Bloco da União, na placa com a cabeça de Búfalo, e pegue um Guia Centenário pronto para distribuição gratuita, com mapa e relatório detalhado sobre as rotas, taxas etc. para a Grande Exibição Centenária. Tendo em mente que, por essa rota, você chegará a Filadélfia horas antes do que por qual¬quer outra linha, e que há só ,uma troca de carros a partir de Lincoln, feita na Estação União em St. Louis, onde você simples¬mente anda de um trem para o outro...

Augusta parou, abruptamente, de ler. "LisBeth, nós simplesmente temos de ir. John Cadman colocou esse anúncio enorme no jornal - aqui está - três colunas largas completas. Tudo o que diz é: 'John Cadman foi ao Centenário. Retomará dia primeiro de setembro'. Típico de homem mesmo - ele precisa fazer o mundo inteiro saber que ele é rico o suficiente para passar o verão na Filadélfia. E ele é tão seguro a respeito de seu hotel que pode deixá-lo funcionar sozinho mesmo. Só me amarga pensar que ele está lá vendo todas as novas invenções. Porque, quem sabe quais idéias ele trará de lá, para implantar na Casa Cadman? Além disso", Augusta chacoalhou o jornal para enfatizar, "se Lincoll crescerá no século vinte... ", Augusta interrompeu a si mesma, Oh, eu sei, eu sei, provavelmente não verei o século vinte, mas você verá", Augusta gritou sobre seus ombros, "e você também, Sarah Biddle. Temos de conhecer as idéias mais novas e melhores ao nosso redor. Não há lugar melhor para conhecer isso do que Filadélfia! O que você diz LisBeth - você vai comigo?" Então, no seu estilo característico, Augusta continuou conversando sem dar chance de LisBeth responder.

"Oh, sou velha como companheira de viagem..."

Sem dúvida vou ter problemas para suportá-la, LisBeth pensou.

"...e Filadélfia é um longo caminho..."

Gostaria de sair daqui, LisBeth pensou.

"... e é claro que seria mais trabalho para Sarah..."

Ela já sabe mais sobre cuidar de um hotel do que eu jamais saberei...

"... mas sinto, pelas minhas obrigações civis, que devo continuar as coisas,"

Finalmente, Augusta fez uma pausa suficiente para LisBeth falar: "Eu adoraria ir, tia Augusta".

Augusta não ouviu na primeira vez e continuou: "Com certeza, não vai doer examinar acomodações, então, se nós não pudermos sair, nós apenas...". Augusta olhou para LisBeth.

"Você disse algo, querida?"

Lisbeth deu um sorriso largo. "Adoraria ir."

“Você gostaria?"

“Gostaria."

“Mas o hotel..."

“Sarah poderá administrar este hotel sem nenhuma de nós, e a senhora sabe bem disso, tia Augusta."

Sarah virou-se para olhar LisBeth com um sorriso grato, e Lisbeth piscou para ela. "O que acha, Sarah. Você pode tocar sem nós?”

“Peço para a Alma Dodge vir ficar aqui. As duas irmãs acabaram de terminar o curso na escola e estão procurando trabalho extra. Se Joseph não me deixar faltar lenha, posso lidar com a cosinha."

“Augusta ficou em dúvida. "Você não gostaria de ver a Exposição?”

“Não, madame!", Sarah deixou escapar um segredo. "Já vi todas as grandes cidades que quis ver na vida. Vão vocês, e tenham um ótimo tempo. Gosto de cidade calma, como Lincoln."

“Bem, nós iremos então", Augusta disse. "Mas só se você prometer que vai tirar férias quando voltarmos."

Sarah protestou: "Não tenho nenhum lugar para ir, tia Augusta. Não preciso de férias."

Assim, apenas duas viajantes representaram o Hotel Hathaway no Centenário da Filadélfia, na Pensilvânia.

 

“Olha aqui, jovem", Augusta anunciou alto_ "Não sei que tipo de estabelecimento você está dirigindo aqui, mas um hotel não falha em acomodar pessoas com reservas..."

“Mas Madame, as senhoras se atrasaram."

“O trem estava atrasado, jovem. Não poderiam esperar que eu controlasse aquilo, poderiam? Pagamos por dois quartos juntos e espero consegui-los." Augusta enfatizou o pedido batendo a ponta de sua sombrinha no piso muitíssimo polido do elegante hotel em Filadélfia.

O balconista maneou a cabeça, compassivo, e ficou vermelho.

"Sim, madame, eu entendo, mas o senhor Braddock, ele mesmo pediu esses quartos, madame, e,como as senhoras não vieram..."

Augusta o interrompeu. "Mas quem é o senhor Braddoc que pensa ser tão importante a ponto de atirar duas mulheres que viajam sozinhas, na rua, pelo seu próprio conforto?"

O balconista olhou para além da cabeça de Augusta e corou ainda mais. Sua cabeça balançou para cima e para baixo rapidamente, quando uma bela voz bradou: "Eu sou o senhor Braddoc madame". Augusta se virou para encarar o adversário enquanto ele acrescentava suavemente: "E a senhora pode ter certeza de que o meu hotel não irá jogá-las na rua".

Mesmo com o chapéu de topo de seda retirado, o senbor Braddock estava mais alto que Augusta e LisBeth, que tinha feito de tudo para se tornar parte do papel de parede, durante a explosão de Augusta. O estranho homem alto continuou falando com Augusta, mas só olhava para LisBeth.

"Hanley", ele começou, enquanto o balconista se abriu em atenções e falou com voz fraca: "Sim, senhor!".

"Hanley, houve um mal-entendido aqui. Por favor, mande um recado para minha mãe." Seus olhos não deixaram os de LisBeth. "Diga a ela que eu ficarei em casa. Mande o Thompson retirar minhas coisas daqueles quartos que pedi, e... ", finalmente virou seu olhar para Augusta e ofereceu um sorriso vencedor, "envie flores naturais para nossas hóspedes, com um pedido de desculpas de David Braddock, por falhar em cumprir seu dever para com o nome da nossa 'cidade de amor fraternal'”

David Braddock tirou o chapéu, inclinou-se graciosamente para as duas mulheres, e partiu antes que Augusta pudesse soltar um "obrigada". LisBeth deu um suspiro profundo e observou os ombros largos sair do saguão do hotel e subir para dentro da carruagem do lado de fora. Ela foi trazida de volta pela voz de satisfação de Augusta: "Viu, LisBeth, entende o que eu digo, não é? E só me deixar liderar as conversas que iremos muito bem. Quero dizer, vamos cuidar para ter um momento adorável na Exposição!”

As duas mulheres foram conduzidas à larga escada principal que levava os hóspedes do saguão ao quartos de cima. Logo que chegaram aos quartos, Thompson saiu carregando coisas de um cavalheiro, e outra pessoa entrou com um buquê enorme de flores naturais.

LisBeth deu uma olhadinha para dentro do próprio quarto e respirou fundo. Era um quarto pequeno mas elegantemente mobiliado com uma cama de nogueira esculpida, combinando com um lavatório de superfície de mármore e com a cômoda. Em uma parede, num vão entre as janelas, havia uma escrivaninha. O sol fluía pelas janelas e refletia-se nas cortinas de seda e na colcha da cama, banhando o quarto com sua luz rósea. O dia estava agradável, e uma brisa fresca entrou pela trave na parte de cima de cada janela.

"Eu sei por que o senhor Braddock queria esses quartos para ele“, Augusta gritou do outro quarto. "Eles estão voltados para a direção certa, para pegar a brisa fresca."

 

Augusta estava no meio de uma crítica construtiva sobre a refeição quando percebeu que LisBeth ficara ruborizada e desenvolvera um interesse anormal pelos detalhes do modelo de porcelana usados pelo hotel.

“O que é, querida?"

“Perdão, madame", interrompeu uma voz familiar. David Braddock inclinou-se e apresentou-se. "Por favor perdoem por me adiantar, mas, na falta de um conhecido mútuo, elegi a mim mesmo para me apresentar. Sou David Braddock, o dono deste estabelecimento. Arrependo-me sinceramente pela maneira em que nos conhecemos. Posso indagar se suas acomodações estão satisfatórias?”

Augusta tomou seu chá vagarosamente antes de responder: "As acomodações estão bastante satisfatórias, obrigada", disse friamente.

Lisbeth sentiu o rosto ficar vermelho. Finalmente, não agüentou mais e falou: "Tia Augusta! Isso não é do seu feitio". Olhando para Braddock, disse calmamente: "Tia Augusta é toda ferrões e espinhos - segundo ela mesma, senhor Braddock. Mas na verdade, é inofensiva. Os quartos são adoráveis, obrigada. Espero não termos sido inconvenientes ao senhor".

Braddock interrompeu-a: "De jeito nenhum, senhorita... ?",

Augusta respondeu por LisBeth: "Senhora LisBeth King Baird, senhor Braddock".

LisBeth se levantou da mesa e ofereceu a mão, repetindo: "Obrigada, senhor Braddock, por nos ceder seus quartos".

"Posso assegurar, senhora Baird, que foi um prazer." Com uma inclinação de mestre, David Braddock acalmou os ferrões e espinhos de Augusta curvando-se baixo para roçar levemente a mão oferecida por LisBeth com um beijo continental. Augusta ficou em pé, alcançou LisBeth e literalmente a arrebatou da sala de jantar. Braddock sorriu para si mesmo e retornou à própria mesa, devorando um frango assado inteiro enquanto completava detalhes de seus planos para saber mais sobre a senhora Hathaway e a senhora Baird - com ênfase na senhora Baird.

LisBeth e Augusta estavam acordadas bem cedo no dia seguinte, lendo seus livretos Guia Centenário e planejando como melhor explorar a enorme Exposição. Enquanto planejavam, um pequeno envelope foi colocado sob a porta. LisBeth se levantou para pegar o envelope e leu a nota com prazer evidente. Augusta sorriu também e agradeceu a si mesma por ter inventado a viagem. Era bom ver LisBeth feliz e sorridente; sua mente se distraía dos problemas.

LisBeth leu: "O senhor Braddock pede a honra de suprir uma carruagem para transportar as senhoras de Nebraska para a Exposição. Respondam a Hanley no balcão".

Augusta se eriçou. "Parece-me que o senhor Braddock tem feito mais do que o suficiente pelas senhoras de Nebraska. E tem bisbilhotado sobre nós, ou como saberia que somos de Nebraska? Podemos pegar um carro na rua, logo na esquina, e fazer a corrida em menos de uma hora, com dezoito centavos. Embora... uma carruagem fosse mais confortável."

"O senhor Braddock pareceu bastante inofensivo, tia Augusta.

"O senhor Braddock está muito interessado em você, senhora Baird."

LisBeth protestou. "Não tem sentido! Ele é um homem cavalheiro, só isso!"

“Com ênfase na parte homem, LisBeth. E, como qualquer outro homem, está esperando que nos desmanchemos em agradecimentos por ele ajudar a nós, pobres criaturas indefesas, e enquanto estamos fazendo isso, ele estará chegando mais perto de sua afeição e... "

“Tia Augusta!", LisBeth estava brava. Seus olhos inflamaram-se. “Para que a senhora me trouxe? Meu marido morreu a menos de um mês." Seus olhos se encheram de lágrimas, e tia Augusta retratou-se, frustrada.

“Oh, minha querida. Sinto muito. Não quis dizer que você faria alguma coisa para macular a memória do seu querido Mackenzie só acho que não deveríamos...”

Lisbeth respondeu bruscamente: "Então diga a Hanley que usaremos a carruagem, e acabe com isso". Entregou o recado a Augusta e dirigiu-se rapidamente ao seu quarto, fechando a porta atrás dela com exagerada firmeza.

Augusta rabiscou uma resposta. Uma batida suave soou na porta e quando a abriu, ficou pasmada em ver o mensageiro esperando pacientemente no corredor. Ele inclinou o chapéu respeitosamente antes de perguntar: "Há alguma resposta, madame?”

“Meu Deus! Você esteve esperando todo esse tempo?"

“O senhor Braddock deu ordens para esperar por uma resposta, madame." 1

Augusta deu a ele o recado e fechou a porta abruptamente, desejando saber quanto da conversa com LisBeth o mensageiro havia ouvido e quanto seria repetido palavra por palavra ao senhor Braddock.

 

Quando LisBeth saiu de seu quarto alguns momentos mais tarde, seus esforços não foram gastos com Augusta. Ela vestia seu vestido mais simples de luto e tinha prendido o cabelo atrás em um coque apertado, que não deixava nenhum cacho de cabelo escapar para suavizar seu perfil. Nenhuma jóia enfeitava o vestido, e seu rosto refletia o fato de que a angústia crescera novamente para dominar sua vida.

Augusta aproximou-se dela, implorando: "LisBeth, por favor me perdoe. Não quis dizer que... ".

LisBeth balançou a cabeça. "Eu sei. Acho que eu estava me sentindo culpada. Acho que flertei um pouco com o senhor Braddock." Sentou-se antes de continuar. "Estava realmente amedrontada com o meu comportamento de ontem. Acho aquele homem atraente." Olhou seriamente para Augusta. "E quando notei, senti-me culpada - como se eu tivesse traído Mac de algum modo." Lágrimas correram de seus olhos novamente, e ela desviou o olhar para fora.

Augusta interrompeu: "Vamos, vamos, LisBeth. Você é uma jovem muito normal. Sei que amava MacKenzie Baird tanto quanto tenho certeza de que estamos na Filadélfia neste momento".

LisBeth engoliu seco antes de responder: "Às vezes quase não consigo lembrar-me do rosto do Mac". Olhou para fora da janela antes de continuar. "Só faz poucas semanas, e eu o estou perdendo". Seus ombros caíram enquanto ela acrescentava miseravelmente: "Como posso me esquecer tão rapidamente?".

Augusta sentou-se ao lado de LisBeth e segurou sua mão. "Isso acontece com todo mundo, LisBeth. Nossos amados escorregam para longe de nós, mas isso não quer dizer que os amamos menos. E humano esquecer. E é parte da maneira como Deus ajuda a curar nossas dores."

"Mas não quero esquecer. Não quero esquecer nada. Não até...”

"Até o quê, querida?"

"Até que eu possa entender, encontrar meu caminho, o lugar ao qual pertença agora, o que devo fazer."

Augusta bateu levemente no braço de LisBeth. "Leva tempo, querida. Você deve dar um tempo. Sei que todo mundo tem dito isso, e que você deve estar cansada de ouvir, mas é verdade. Em breve você será capaz de lidar com as memórias. Encontrará as que confortam você e deve mantê-las próximas. Outras irão desaparecendo."

Augusta ficou em pé e puxou LisBeth para seu lado, brincando gentilmente. "Agora, como que para perdoar, espero que nunca esqueça como é um homem atraente, querida. E, se você não tivesse notado que o senhor Braddock era um homem atraente eu teria chamado o médico para examiná-la! Sou uma senhora de idade, Lisbeth, mas não estou morta. Eu notei." Quando LisBeth abriu a boca para protestar, Augusta a interrompeu. "Sim, você também é uma mulher muito jovem, com uma vida pela frente. Não precisa sentir nem um pouco de culpa. Mackenzie Baird era um homem fino. Mas ele se foi, e ele gostaria que você preenchesse sua vida com outro marido algum dia."

Lisbeth sobressaltou-se. "Eu nunca terei..."

"Oh, sim, você terá, querida, sim você terá." Augusta insistiu. Mas ainda não. É muito cedo. Dê um tempo e mantenha-se ocupada. Agora vamos indo! Há uma vida inteira de valoroso progresso para olharmos naquela Exposição e,quanto a mim, esperar para vê-la."

Lisbeth ajeitou o chapéu, e Augusta se precipitou para fora tagarelando: “Você acredita nisso? Eles realmente encontraram uma mulher que fizesse funcionar uma máquina a vapor. Tiveram de ir até o Canadá para encontrá-la, mas não há nem um homem no Pavilhão das Mulheres!”

Elas se apressaram pelo saguão, contornaram a esquina, chegando exatamente na hora de pegar um bonde. Quando cruzaram a ponte da rua Girard, as duas mulheres tiveram a primeira visão das torres gêmeas do maior edifício no mundo, o prédio principal da Exibição. O bonde continuou da Girard, passando pela Elm em direção à Belmont, onde atravessaram filas e mais filas de construções que surgiram para servir unicamente ao enorme número de pessoas que visitavam a Exposição. Havia hotéis e restaurantes, salões e cervejarias ao ar livre.

“Nossa, é demais!", foi tudo que Augusta pôde dizer quando viu o prédio principal. Era uma montanha de vidro, ferro e madeira pintada de vermelha que se estendia por quase um quilômetro ao longo da rua Elm. Do lado de dentro, pilhas e mais pilhas de madeira de nogueira elaborada e vitrinas propagavam a engenhosidade e o sucesso dos Estados Unidos da América.

“Levar água fresca para Lincoln não será problema, se nós tivermos uma coisa dessas em nossas instalações de distribuição de água!”, exclamou Augusta. Ela estava em pé diante da grandiosa máquina de Corllis, no Salão das Máquinas. Lincoln era vítima de um infortúnio com relação à água, devido ao conteúdo salino de muitas de suas fontes. A máquina Corliss se elevava acima delas produzindo força suficiente para operar treze acres de máquinas que desempenhavam dezenas de façanhas, desde bombear água até serrar lenha.

Augusta cutucou LisBeth. O engenheiro que operava o "monstro imenso" tinha abaixado o jornal e subido com dificuldade a escada para colocar óleo num mecanismo. Trabalho feito, retornou à sua cadeira e continuou lendo. "Típico de um homem. Eles sempre acham uma maneira de tornar as coisas mais rápidas e melhores - para eles mesmos. Por que eles nunca tentam utilizar aquela força para facilitar o trabalho de uma mulher? Eu gostaria de saber! LisBeth, pense bem nisso. Um homem, assistido por uma máquina, fazendo o trabalho de oitocentos homens! Nós estamos à beira de uma nova era na América; posso sentir isso a cada passo que dou nesse salão de exposição."

Lisbeth respondeu com um "um-hum" não comprometedor e sussurrou: "Tia Augusta, aquele não é o senhor Braddock?” indicando uma figura alta bem distante dali, examinando atentamente um objeto exposto na mostra.

 

"Bem, hoje meus olhos já não são como eram. Não posso dizer com certeza." Augusta abriu o seu livro-guia da Exibição. "Venha comigo, querida. Temos quilômetros para andar antes do fim do dia".

     Augusta agiu como um trator durante a manhã toda, empurrando e abrindo caminho em direção ao prédio principal e ao Sal de Máquinas, passando depois pelo Salão Agrícola e Horticultural para procurar os vinte e quatro prédios do Estado, disposto ao longo de uma faixa chamada Avenida do Estado. Perto do meio-dia, Augusta quase teve um colapso em um banco numa sombra e anunciou: "Meu Deus, LisBeth. Estou completamente entregue! E nós ainda nem começamos a ver os prédios do Estado".

"Nós podemos pegar o tour na Estação Oeste final, LisBeth replicou com a cabeça na lua. Mais uma vez, ela havia visto um chapéu com o topo de seda cinza, agora familiar à distância. É minha imaginação, ela indagou, ou ele tem nos seguido a manhã toda?

“Nunca", veio a resposta. "Não me importo se eles colocaram sinaleiros escondidos. Aquele trem está sendo conduzido rápido demais, saindo em disparada em lugares onde há tantas pessoas. Típico de homem - tudo pela velocidade e nenhuma consideração com a segurança de mulheres e crianças.

“Mas tia Augusta", LisBeth atiçou. "Pensei que quisesse ver todas as coisas que pudessem trazer progresso para o nosso lugar... Por que não experimentar? Deve ser o precursor de um sistema de bonde automático para Lincoln!" Me admiraria muito um desses chegar até nós!

O desafio foi demais para Augusta. "Você está certa, Lisbeth. Vamos experimentá-lo!" Segurando-se como se sua vida pudesse ser tirada no próximo cruzamento, Augusta subiu na estação de trem, elas foram balançadas sobre o chão com a alarmante velocidade de doze quilômetros por hora. LisBeth observou cuidadosamente quando o chapéu de seda cinza entrou no trem, no segundo vagão atrás do delas, e seguiu-as a uma distância respeitável enquanto as duas mulheres seguiram para o Pavilhão das Mulheres.

O chapéu de superfície de seda cinza não estava à vista quando Augusta e LisBeth passaram pela porta com a inscrição: “Louvem-na nas portas as suas obras". LisBeth se sentiu um pouco desaponta, mas então seu interesse acendeu-se no Salão de Exibição. Decorado em luzes de um azul suave, o salão tinha sido construído na forma de uma cruz. No centro, uma fonte jorrava jatos de água em direção ao candelabro pendurado na cúpula. As paredes eram forradas com pinturas, madeira esculpida e todo tipo de trabalho procedente de mãos femininas.

“Ah, lá está a mulher que quero conhecer", exc1amou Augusta, enquanto se aproximavam da máquina que fazia funcionar todas as máquinas no pavilhão.

 

“Senhorita Allison, se é que eu posso perguntar", Augusta começou, "você controla esta máquina sozinha?"

A senhora em questão se virou para Augusta com um sorriso cordial. “Tudo! Desde acender o fogo de manhã até apagar o vapor ao fechar.”

LisBeth notou que o chapéu de seda cinza observava um busto de mármore, do outro lado do salão. O dono do chapéu tinha acabado de ser cumprimentado por alguém mais e, quando se virou para responder, olhou fixamente na direção dela. Era David Braddock. Deu um sorriso para LisBeth e se apressou, atravessando o salão, para se juntar a ela e ao pequeno grupo que se reunira para ouvir o que a senhorita Allison estava falando.

Outro cavalheiro robusto ao lado de Augusta soltou uma enorme baforada de charuto antes de perguntar alguma coisa ceticamente: "Parece um trabalho pesado demais para uma mulher franzina, se não se importa que eu diga isso".

"Ah, não, senhor, não me importo com o que diz. Diga-me senhor...", perguntou a senhorita Allison, "...O senhor tem a alegria de filhos em casa?"

A senhora de braço dado com o cavalheiro sorriu: "Pois, sim, senhorita Allison. Temos cinco pequenos preciosos".

A senhorita Allison olhou diretamente para o rosto do homem e disse docilmente: "Pois então senhor, sua mulher poderia certamente operar esta máquina ela mesma. Não há nada tão exaustivo quanto cuidar de um fogão, e está muito longe da dificuldade de educar filhos!".

A esposa em questão sorriu apreciando, e o cavalheiro aproveitou a oportunidade para dar mais baforadas de seu charuto e se livrar da conversa.

Um risinho soou atrás de LisBeth, e David Braddock disse, "Senhoras, vejo que nos encontramos novamente. Posso convidá-las para o almoço?".

 

“...mas há amigo mais chegado que um irmão.” Provérbios 18:24

 

Dois dias depois da partida de LisBeth e Augusta para Filadélfia, Jim Callaway começou sua jornada de volta. Estivera quase insano. Semanas na fazenda tinham começado a curar a escuridão por dentro, mas ainda havia noites de lutas violentas quando o inimigo interior ameaçava realizar uma vitória final. A vitória da guerra interna de Jim começou quando Joseph Freeman quase perdeu a vida.

Enquanto Jim estava no celeiro escovando o cavalo baio, ouviu o carroção aproximando-se. O som era muito estridente, o passo tão rápido, que Jim se apressou para fora bem na hora em que a parelha espumante fez uma parada barulhenta no pátio. Joseph não estava no assento do carroção, que tinha quebrado e o arremessado para frente, no meio dos cavalos. Embora entrelaçado nas rédeas, ele conseguiu, de alguma maneira, travar seus antebraços fortes ao redor do varal do carroção que separava a parelha. Eles o haviam meio que espremido, e pedaços de suas roupas foram rasgados primeiro e em seguida pedaços de sua pele.

Bright, o cavalo de confiança, permaneceu imóvel, tremendo, respirando com dificuldade enquanto Jim se aproximava. Mas o companheiro usual de Brighty tinha sido substituído por um castanho de pernas longas. Com a aproximação de Jim o castanho empertigou a cabeça, virou os olhos e bufou, espirrando espuma sobre Jim, e dando coices no corpo inconsciente terrivelmente entrelaçado entre os dois cavalos.

Jim segurou o cabresto do castanho e balançou-o firmemente. "Acalme-se!", ele ordenou. "Acalme-se!" O cavalo virou os olhos novamente, mas reconheceu autoridade na voz e começou a se aquietar. Mais rápido que pôde, Jim desarreou o castanho e levou-o para dentro do celeiro, trancando-o em um estábulo. Então começou a soltar Joseph.

"Joseph, não posso cortar para libertar você. Preciso do arreio para levá-lo ao médico. Suporte isso por um minuto, Joseph. Enquanto falava, Jim soltou o corpo quebrado da teia de couro e o libertou no chão. "Sua perna está quebrada, Joseph, tenho certeza disso." Ao deitar o corpo quieto na poeira, ficou enjoado ao ver o recorte do formato de uma ferradura do lado esquerdo da cabeça de Joseph.

"Você foi duramente escoiceado. Mas ainda está respirando. Já é alguma coisa." Jim continuava a falar, para acalmar a si próprio e na esperança de que Joseph fizesse um esforço para ouvi-lo e não morresse.

 

"Estou colocando você na carruagem agora, Joseph. Apenas fique deitado, tranqüilo. Vou pegar um cobertor da casa, já volto" Jim correu para a casa e voltou com suas cobertas esfarrapadas. Uma ele enrolou sob a cabeça de Joseph e a outra usou para cobri-lo.

"Estou pegando Buck agora, Joseph. Aquele castanho parou por hoje. O Buck sabe como puxar? Se não, aposto que vai aprender." Jim correu para o celeiro para arrear o cavalo. "Bem, Buck, você sabe puxar? Vamos ver como se sai."

O animal balançou docilmente a cabeça e seguiu Jim até o carroção. Pacientemente deixou-se ser arreado no lugar, mas, quando Jim pegou as rédeas, ficou claro que Buck nunca tinha puxado um carroção antes. "Vamos lá, garoto, você é um bom cavalo. Apenas deixe Brighty liderar, e você segue. Temos que chegar a Lincoln - rápido!" Jim puxou para o lado de Bright ordenou "Vamos!" e ficou grandemente aliviado ao ver Buck seguindo a liderança de Brighty, se não suavemente, pelo menos com boa vontade.

"Graças a Deus, você é um querido menino dócil, de bom coração", Jim disse alto. Esforçou-se para tirar os cavalos para fora do pátio da fazenda, dando a Buck chance de sentir os arreios.

Um gemido vindo de trás acabou com a iniciação de Buck. “Segure-se, Joseph, nós estamos a caminho para receber ajuda. Fique firme.” Jim apressou os cavalos para um trote. Buck moveu-se aos trancos e chocou-se com Brighty, mas Brighty sentiu isso como um progresso e logo os dois cavalos estavam trabalhando juntos. “Brighty, sinto muito. Sei que está cansado. Mas tem de continuar”, Jim apressou. Brighty parecia tomar seu segundo fôlego. Ele pegou o ritmo, e Jim falou com Joseph pelo resto da viagem dizendo "agüente firme", prometendo "estamos quase lá”, e “chegaremos ao médico já, já, Joseph". Manteve o nível de sua voz, mas seu coração acelerava e, quando bateu na porta da cozinha do hotel, Sarah Biddle viu desespero em seu rosto.

“Médico!" gritou. "Joseph está machucado! Onde o médico mora?”

“O Doutor Bain é o mais perto, na rua O abaixo, a segunda à esquerda, no andar de cima."

Jim estava no assento do carroção e partiu antes que Sara pudesse voltar para dentro para colocar seu chapéu. Quase sem fôlego, ela gritou por Tom. "Tom! Tom! É o Joseph. Ele está muito ferido. Estou indo ao dr. Bain para vê-lo." Saiu a tempo de ver o carroção desaparecer, virando a esquina, duas quadras à frente.

Jim já tinha chegado ao consultório do médico quando Sarah o alcançou. Subindo no carroção e ajoelhando-se ao lado de Joseph, fez o melhor que pôde para proteger o rosto de Joseph do sol enquanto esperava o médico sair. Passaram-se alguns minutos, e Sarah finalmente subiu as escadas que levavam pacientes da calçada ao segundo andar no consultório médico. Ouviu uma voz aumentar, furiosa.

“O que você quer dizer com não tratá-lo?"

"Essas pessoas têm seus próprios curandeiros."

“Não há tempo para procurar outra pessoa para o Joseph” Pela janela da porta, Sarah pôde ver Jim apertar com uma mão enorme o ombro do médico.

“Você cuidará dele. Agora."

O médico estremeceu por causa do aperto forte em seu ombro, mas ainda resistiu: "Não cuido dessas pessoas!".

Jim depositou com força uma moeda sobre a escrivaninha. "Vá lá embaixo e cuide dele."

O médico olhou para a moeda. O apertão em seu ombro tornou-se mais forte. Tentou livrar-se da mão pesada, mas Jim não largou. Finalmente, o médico sussurrou: "Tudo bem. Tudo bem. Deixe-me ir. Verei o que posso fazer".

Os dois homens passaram por Sarah e desceram até o carroção. O médico puxou a coberta que cobria Joseph e franziu os lábios, sentiu o lado do pescoço de Joseph e disse meio espantado: "Está pulsando. Ele está vivo".

"Graças a Deus", disse Sarah. O médico olhou para ela. "Conhece este homem?"

"Se o conheço?", Sarah respondeu. "Ele é Joseph Freeman, Dono da cocheira, perto do Hotel de Augusta Hathaway. É um dos primeiros colonos de Lincoln." Sarah pensou rapidamente e planejou dizer a coisa certa. Acrescentando isso à presença ameaçadora de Jim, ela asseguraria que Joseph recebesse o melhor cuidado de Bain - ainda que relutante. "Joseph é um dos amigos mais queridos de tia Augusta. Ela está fora, mas sei que ficaria extremamente grata ao senhor se pudesse ajudar o Joseph."

Cornelius Bain era novo em Lincoln, Nebraska. Sua prática não se provava tão bem-sucedida quanto ele gostaria, e a boa vontade de uma cidadã proeminente. como Augusta Hathaway seria de grande ajuda. "Vamos levá-lo para cima. Tenha cuidado ao levantá-lo. Ele perdeu muito sangue. Vou manter sua perna parada. Você", acrescentou acenando para Sarah, "segure a porta. Então precisarei de água. Muita água."

Jim e o dr. Bain carregaram Joseph para cima. Assim que ele foi colocado na mesa dura de exame, começou a mover, incontrolavelmente.

O dr. Bain disse sem sentimento: "Acesso mental. Causado pela fratura no crânio. Terei de tratar disso primeiro, ou, certamente morrerá". O médico levantou os olhos em direção a Sarah. "Você tem estômago fraco, garota? Eu poderia usá-la para alguma ajuda, mas não será útil se ficar desmaiando no meio do procedimento." '

O rosto de Sarah ficou vermelho. “Não sou fraca senhor. Diga-me o que fazer e eu farei. E não haverá desmaios. A menos que seja dele!” Sarah apontou para Jim.

“Eu fico”, Jim disse simplesmente, e o médico não contestou. Já estava trabalhando, raspando a cabeça de Joseph.

“Aqui”, finalmente disse, passando a navalha a Sarah. "Termine isso enquanto me lavo e pego instrumentos cirúrgicos. E você”, disse virando-se para Jim. "você o segure para baixo se ele começar a mover-se novamente. Se ele prejudicar ainda mais essa perna, provavelmente vai perdê-la. Mas tenho de cuidar da cabeça primeiro".

O médico saiu só por alguns momentos. Jim observou Sara raspando o resto do cabelo grisalho, preocupando-se por Joseph ter ficado parado demais. Sua respiração parecia tornar-se mais e mais fraca.

Quando o médico retornou, tinha uma pequena bandeja de instrumentos sinistros, que passou para Sarah. Depois de uma pequena penetração ao longo do couro cabeludo de Joseph, ele começou a remover fragmentos de crânio. O medico usou um de seus instrumentos para levantar o recorte no crânio. Miraculosamente, a cabeça de Joseph ganhou sua forma normal. Sarah deixou de olhar para as mãos do médico apenas uma vez, para encarar Jim com olhos arregalados. Ele olhou de volta para ela, momentaneamente, então ambos voltaram a observar o médico.

Cortando fora uma perna da calça, o médico ordenou bruscamente: “Lave a perna dele". Sarah obedeceu, pressionando gentilmente uma atadura limpa de musselina sobre as piores feridas. O médico juntou o osso quebrado e o atou entre duas tábuas. Jim acompanhou cada movimento que o médico fez como se a vida de Joseph dependesse de sua vigilância.

Quando finalmente todas as feridas tinham sido limpas, o médico checou o pulso de Joseph. "Bem, ele ainda está vivo.” O médico arqueou as costas e esticou-se fracamente. "Ele precisa de cuidado tempo todo. E não pode ficar aqui."

Jim respondeu: "Não se preocupe, doutor. Eu não deixaria nem mesmo um cavalo que odiasse com você mais tempo que o necessário. Posso movê-lo agora?"

"Tenho uma maca no quarto dos fundos."

"Vou chamar o Asa Green lá na cocheira. Nós mesmos o levaremos." Jim se virou para Sarah. "Você pode ficar com ele até que eu volte?”

"Claro", Sarah respondeu. Ela pulou para a cadeira do médico próxima a Joseph e sentou-se colocando sua pequena mão sobre a de Joseph.

Quando Jim retornou, um amedrontado Asa Green estava ao seu lado, exclamando nervosamente: "Olhem para ele. Parece morto".

 

"Oh! Fique quieto, Asa!" Sarah ordenou. "Joseph vai ficar bom. Ele precisa de descanso e muito cuidado. E nós vamos dar ambos a ele. Agora vamos levá-lo daqui." Jim e Asa seguraram a maca enquanto o médico e Sarah moviam Joseph o mais Sutilmente possível.

Quando atravessavam a porta e as escadas em direção ao andar térreo, o médico viu que uma pequena multidão de pessoas da cidade havia-se juntado. Ele aproveitou a oportunidade para proclamar, gritando para baixo: "Se tiver alguma pergunta sobre os cuidados dele, simplesmente me chamem. Dia ou noite. Estou sempre disponível para ajudar em qualquer emergência".

Jim respondeu severamente: "Uma coisa é certa, doutor. Nós todos sabemos o quão pronto o senhor é para ajudar". Seus olhos encontraram com os de Sarah e nenhum deles sorriu.

"Vamos levá-lo andando para casa." Jim sugeriu. "Não acho que empurrá-lo mais uma vez naquele carroção seria uma boa idéia."

Jim e Asa carregaram Joseph para seu pequeno quarto atrás da cocheira. Sarah enrolou seu travesseiro e amaciou seus lençóis. Depois de o corpo quieto ter sido ajeitado e de uma vela acesa, o trio ficou do lado de fora da porta, conversando em voz baixa.

Asa se apressou: “Melhor telegrafar para a senhora Hathaway para ela vir para casa".

Sarah balançou a cabeça. "Não, Asa. Joseph nunca nos perdoaria por arruinar as férias dela e de LisBeth. Quando elas chegarem, nós veremos se Joseph...” Sua voz tremeu um pouco. “Saberemos. De qualquer maneira, a volta delas para casa não fará nenhuma diferença."

Jim concordou. "Você pode cuidar da cocheira, Asa?"

Asa sorriu confidentemente. "Joseph tem me ensinado tudo o que ele sabe sobre cavalos e tudo mais. Posso fazer qualquer coisa”.

“Cuidarei de Joseph”, disse Jim.

Sarah olhou para ele, com admiração. "Você é o homem a respeito de quem Joseph nos falou. Você é o Jim Callaway. Joseph disse que você estava fazendo coisas maravilhosas na fazenda. Ele gosta muito de você, você sabe."

Jim estava desconfortável. Limpou a garganta e dirigiu-se a Asa novamente. "Asa, você poderia ir até a fazenda e trazer aquele Castanho de volta para a cidade?"

“Aquele troço selvagem?", Asa resmungou. "Joseph pode dominar qualquer coisa com quatro pernas, Mas aquele castanho... ele tem sido problema desde o primeiro dia. Não vale a pena trazê-lo de volta."

 

“Talvez não, mas ele pertence a Joseph, e nós temos de cuidar dele até que Joseph possa tomar uma decisão a respeito."

Asa balançou a cabeça, concordando. "Eu vou trazê-lo para cá.”

“Ele deve estar louco de sede. Não fiz nada a não ser colocá-lo no estábulo, arquejando e bufando."

Asa tranqüilizou Jim. "Tomarei conta disso, senhor Callaway”.

Jim meneou sua cabeça de lado a lado. "Nada disso, Asa. Sou simplesmente Jim Callaway. Apenas Jim,"

Sarah deu uma espiada em Joseph. "Trarei água para você, e em breve uma refeição. Logo estarei de volta." Ela se apressou para fora da porta da cocheira e atravessou o quintal até a cozinha. A preocupação com Joseph Freeman e o preparo do jantar para os hóspedes do hotel mantiveram sua jovem mente e suas mãos ocupadas pelas próximas horas. Mas quando terminou de lavar a última travessa do jantar e enviou Tom, pelos fundos do quintal, com uma cama portátil para Jim, sentou-se na cadeira de balanço de Augusta com os olhos meio fechados, pensando em Jim – “Simplesmente, Jim Callaway".

Jim passou a noite ouvindo a respiração de Joseph. Só depois da meia-noite, ela se tornou um som instável. Jim moveu-se rapidamente e no mesmo instante estava ao lado da cama acendendo uma lamparina e olhando com atenção para o rosto do amigo.

“Você está vivo, Joseph Freeman”, Jim sussurrou seriamente. “Você me ouve? Você está vivo. Joseph obedeceu. Sua respiração ganhou seu último ritmo, e Jim voltou para a cama, sem perceber ainda que naquele momento ele tinha dado o primeiro passo de volta para a humanidade. Joseph Freeman tinha chegado através da escuridão do passado de Jim e o puxara de volta para a vida.

 

Se alguém tem sede, venha a mim e beba. João 7:3:

 

Winona sentou-se na tenda de Flor do Campo, lágrimas corriam por suas bochechas. “Diga-me o que fazer, Flor do Campo", implorava a jovem garota. “Não quero ir para a Terra da Avó. Quero estar com Águia que Voa Alto. Sempre quis estar com ele. Limpou as lágrimas e continuou: “Mas meu pai e minha mãe dizem que irão com Búfalo Sentado. Águia que Voa Alto não diz nada. Ele caça e cuida de seus pôneis. Caminha pelo acampamento como um sonâmbulo. Winona balançou a cabeça e abraçou os joelhos. “Nem mesmo olha para mim”.

Flor do Campo sentou-se do outro lado da jovem e ouviu compreensivamente. Aproximou-se e cobriu as mãos de Winona com as suas, enrugadas. “Você é uma boa menina. Qualquer um dos bravos encontraria uma boa esposa em você. Mas,” Flor do Campo acenou novamente “tenho medo de que isso não aconteça.”

Flor do Campo continuou: “Não é você, Winona. É ele. Águia que Voa Alto sabe que,por causa do que aconteceu no Campo Liso, os brancos nunca descansarão até que estejamos todos na agência. Eles querem o que chamam de Montes Negros. Nunca descansarão até que o consigam. Aquele Jim Callaway disse que há tantos soldados, não podemos enfrentar numa luta. Disse que há soldados suficientes para matar a todos nós. Disse que não irão parar até que eles tenham o que querem”. A voz de Flor do Campo ficou mais triste enquanto falava. Parou por um momento para formular seus pensamentos, mas continuou segurando as mãos de Winona.

Por fim, continuou: “Winona, você deve ir com seus pais para a Terra da Avó".

Winona interrompeu-a desafiadoramente: "Quero estar onde Águia que Voa Alto está! Quero ir com ele. Cozinharei para ele, cuidarei de sua tenda - e de você. E quando ele morrer, morrerei com ele!".

Foi um impetuoso discurso de juventude, mas Flor do Campo considerou as palavras como se viessem de uma mulher sábia da aldeia. Vagarosamente replicou: "Winona, não acho que você queira ver alguém que você ama morrer".

Winona começou a chorar novamente. "Melhor que não vê-lo nunca mais!"

Só naquele momento, Águia que Voa Alto entrou na tenda. Pela maneira em que olhou de mulher para mulher, era evidente que ele tinha ouvido toda a conversa. Ele se assentou na tenda ao lado de Winona e colocou sua mão na dela. Seu jovem coração bateu rapidamente.

"Winona", ele começou. "Minha irmã, você deve ir para o Norte com Búfalo Sentado. Talvez encontre paz lá."

Winona tentou interrompê-lo, mas ele segurou sua mão alto para silenciá-la. "Escute-me agora. De todas as jovens desta aldeia, se eu tivesse de escolher uma para enrolar no meu roupão de búfalo, seria você." Winona prendeu a respiração, guardando todas as palavras.

"Mas esta não é a época para começar uma família. Este é o tempo de morrermos pelo nosso povo. Houve uma dança da vitória depois do Campo Liso, mas cada dançarino sabia, lá dentro, que a vitória era pequena. Jim Callaway disse que a vitória em Campo Liso era nossa destruição. Odiei ouvir aquelas palavras mas acredito que ele estava certo. Winona", Águia que Voa Alto falou amargamente, "vejo uma linda jovem diante de mim, mas em meu coração eu me pergunto quando os soldados virão e a levarão para eles. Vejo crianças brincando na aldeia, mas em meu coração me pergunto quando os soldados virão para matá-las. Vejo o búfalo na campina, e me pergunto quando os caçadores conseguirão matá-los todos, de maneira que passemos fome."

Ele tomou um fôlego profundo e continuou: "Nossos caminhos estão terminando. Não fugirei da morte quando ela vier ao meu encontro." E ele olhou bem no fundo dos olhos cheios de lágrimas, “eu não levarei você comigo para encontrar a morte" Águia que Voa Alto ficou em pé e saiu abruptamente. Ficou fora da tenda até tarde aquela noite. Quando finalmente voltou, Flor do Campo estava sentada sozinha perto da fogueira. Ajuntou-se a ela e olhou para cima sorrindo docemente. Pegou uma vareta e mexeu o fogo. "Alguns dos outros estarão partindo para o sul amanhã. Irei com eles." Como se fosse uma reflexão íntima, acrescentou: "Você tem sido uma mãe para mim, Flor do Campo. Mas não levaria Winona comigo, e não pedirei para você vir se desejar encontrar a paz na Terra da Avó".

Flor do Campo estendeu as mãos para o fogo. "Estas mãos o embalaram em pele limpa e macia quando você era um bebê." Ela apontou para sua cicatriz na bochecha. "Estas mãos limparam essa ferida. Estas mãos bordaram seus mocassins com contas. Elas ajudaram a enterrar seu pai. Estas mãos assinaram 'amor' a Caminhando nas Chamas uma noite em que ela me deu a cruz que você está usando. Quando chegar a hora, estas mãos irão embrulhar seu corpo em seu coro de búfalo e levantá-lo em seu tablado." Flor do Campo dobrou os dedos e passou as mãos em seu colo. Então disse com simplicidade: “Traga o pônei pardo para mim de manhã. Desmontarei a tenda".

Na manhã seguinte, o bando cada vez menor de Búfalo Sentado partiu em direção ao norte para a Estrada do Remédio à procura de Paz. Enquanto caminhavam, Búfalo Sentado cantava o que dizia ter aprendido com um lobo:

 

Sou um lobo solitário, vagando muito pelo mundo todo.

hei, hei, hei!

Qual é o problema? Tenho passado por tempos difíceis, Amigo.

Isso é o que digo a você: você deveria fazer também.

Tudo o que quero, sempre consigo.

Seu nome será grande, como o meu é grande. Hiu! Hiu! Hiu!

 

Enquanto o bando enfrentava uma subida, Winona virou-se para trás. Era tarde demais. Águia que Voa Alto e os outros já tinham desaparecido atrás de uma cordilheira, rumo ao sudeste.

Para sua surpresa, Águia que Voa Alto não encontrou os soldados. Seu pequeno bando vagou pela vasta campina por semanas, vivendo como antigamente, desfrutando paz. Ninguém mencionou o fato de que parecia estarem chegando cada vez mais perto das agências. A caça escasseava-se, e a chegada do inverno estava, de uma forma agourenta, cada vez mais próxima. Seria outro período de fome.

Levantando cedo certa manhã, Águia que Voa Alto caminhou sozinho para buscar a direção dos espíritos. Tinha andado apenas uma pequena distância quando a visão de uma fina nuvem de fumaça enrolando-se no céu da manhã despertou sua curiosidade. Apressou seu cavalo para um galope macio, cobrindo rapidamente os poucos quilômetros entre ele e o lado do acampamento. Ao pé do último monte, desmontou e engatinhou cuidadosamente para cima, para dar uma olhada por sobre o topo. Adiante dele estava uma cabana solitária feita de peles velhas firmemente presas a pequenos postes. Dezenas de tiras de carne penduravam-se em armações secas ao redor da fogueira.

Montando novamente em seu pônei, cavalgou para frente com precaução. Quando o dono da cabana acenou cumprimentando-o amigavelmente, Águia que Voa Alto relaxou.

O estranho gritou alto: "Bem-vindo, meu irmão. Venha e coma. A caça foi boa".

Águia que Voa Alto apeou do cavalo e replicou: "Os brancos estragaram a terra para caça. Em minha aldeia não há toda essa carne. Que espíritos o ajudaram a encontrar tanta carne assim?”

O estranho era alto e magro. Era índio, mas seu cabelo estava cortado curto. Com a pergunta de Águia que Voa Alto, ele sentou-se no chão, fazendo sinal para que Águia que Voa Alto se juntasse a ele. Os dois atacaram a panela de cozido borbulhante antes de o estranho responder.

"Sou chamado por João Nuvem de Trovão. Há apenas um Espírito, meu amigo. Ele é o Espírito do Único que fez tudo o que vemos ao nosso redor." Nuvem de Trovão lambeu os dedos antes de continuar: "É verdade que há muito menos caça agora. Estou triste por ver as coisas mudarem. Deus me fez ligeiro como o veado. Fez-me bom com uma espingarda. Uma vez peguei doze patos com apenas três tiros".

Águia que Voa Alto olhou duvidando, mas não quis insultar seu hospedeiro. O cozido estava muito bom. Meu pai era um ótimo caçador”, ele se aventurou, balançando a cabeça em direção ao rifle apoiado contra a cabana, "mas nunca teve uma daquelas varas para ajudá-lo.

Nuvem de Trovão sorriu. "Aquilo é uma das boas coisas que chegaram com os homens brancos."

Águia que Voa Alto bateu palmas furiosamente. "O preço que pagamos para caça fácil é muito alto."

Nuvem de Trovão deu com os ombros. "Você é um dos lakotas selvagens. Conte-me como é sua vida."

Entre mordidas, Águia que Voa Alto descreveu a infrutífera caça por comida e a falta de prontidão de seu bando para o inverno, concluindo. "Será mais um período de fome".

“Não precisa ser desse jeito", o estranho disse silenciosamente. “Venha comigo. Você terá comida."

“Ir com você para alguma agência?", Aguia que Voa Alto balançou a cabeça. "Desistir de meus pôneis? Tenho um bonito rebanho. Pertenciam a meu pai, que amansou seu garanhão quando éramos homens livres."

Nuvem de Trovão mudou de assunto. "Qual o significado disso?”, perguntou apontando para o medalhão e a cruz de ouro. “São de brancos.”

Águia que Voa Alto respondeu simplesmente. "Esse" tocou a cruz, “foi usado por minha mãe". Abriu o medalhão, mostrando a semelhança de Jesse. "Ela foi levada de nós. Acho que esta outra é minha irmã. Nasceu depois que minha mãe nos deixou. Elas andam com os brancos agora.”

João Nuvem de Trovão não perguntou mais nada. Na realidade, começou a conversar suavemente. "Meu irmão, ouço ternura e ódio em sua voz. Um homem não pode viver muito com tais sentimentos. Eu lhe disse que um Espírito me ajudou a caçar essa carne. Você me diz que seu povo está faminto. Quero dar a você essa carne. Quando você for, vamos empacotar isso nas costas daquele pônei escuro ali. Este será meu presente, de forma que você não terá um período de fome no inverno.”

Águia que Voa Alto olhou para ele com desconfiança. "Não tenho nada para lhe dar em troca."

"Dê-me seus ouvidos enquanto lhe conto a respeito do Espírito que o conduziu a mim hoje." Nuvem de Trovão sorriu. "Mas, primeiro, vamos caçar juntos."

Eles terminaram o cozido, e Nuvem de Trovão espreguiçou-se. Desaparecendo dentro da cabana, surgiu com um arco velho e flechas nas mãos. "Acho que gostaria de caçar do jeito antigo, hoje”

Quando retomaram da caça, tinham um pônei carregado de carne fresca. Foi necessário boa parte do dia para tirar a pele e limpar a carcaça. Outra armação teve de ser feita para secar a carne e pelo entardecer os dois estavam sentados diante de uma fogueira que se apagava, e Águia que Voa Alto se viu contando a Nuvem de Trovão histórias de sua própria juventude. Revivendo o passado, Aguia que Voa Alto relaxou. As linhas de amargura ao redor de sua boca sumiram. Seus olhos suavizaram enquanto falava sobre seus pais sentados ao redor da fogueira lendo o livro que chamavam de "Livro de Deus". Os olhos de Nuvem de Trovão brilharam com interesse. Ele interrompeu Aguia que Voa Alto. "E o que você pensava quando eles liam aquele livro?"

Águia que Voa Alto deu com os ombros. "Gostava de ouvir as histórias." E suspirou com saudade. "Aqueles foram dias bons. Agora, acabaram."

"Isso era tudo o que significavam para você, histórias sobre um povo estranho?"

Águia que Voa Alto ponderou sua resposta. A pergunta permaneceu no ar entre eles, e Nuvem de Trovão esperou pacientemente. Finalmente, Aguia que Voa Alto disse: "Ainda tenho o livro que eles liam. Às vezes desejo que alguém leia as histórias para mim novamente. Agora que sou um homem, talvez pudesse entender por que ele significava tanto para Cavalga o Vento e Caminhando nas Chamas".

João Nuvem de Trovão continuou a conversa: "Meu irmão, hoje bem cedo eu disse que você poderia me pagar pela carne se me desse os ouvidos para ouvir. Não fui sempre chamado de Nuvem de Trovão. Nos dias da minha mocidade, eu era Mata Dois. Matei os dois primeiros brancos que vi. Odiei-os pelo que vi fazerem ao meu povo."

“E agora você vive onde eles dizem para você viver e come o que dão a você."

Nuvem de Trovão ignorou o sarcasmo na voz. "Agora vivo na Agência Santee. Tenho oito alqueires, e estou aprendendo a cultivar, de forma que posso me alimentar de uma maneira sem guerra. Quero viver em paz. Quero envelhecer com minha esposa e ver os filhos de meus filhos. Na agência, há uma missão com uma escola e uma igreja. Sou o que chamam de pastor da igreja. Isso quer dizer que ensino sobre Deus àqueles que se aproximam." Enquanto falava, observava Águia que Voa Alto cuidadosamente.

“Meu irmão, não posso libertá-lo para caçar nas colinas como fizemos em nossa juventude. Não posso pagar para ter de volta a terra que os brancos roubaram. Mas posso falar a você sobre Alguém que me libertou para conhecer a paz, mesmo tendo acontecido essas coisas."

Águia que Voa Alto bateu na poeira. "Você foi enganado por algum homem branco para acreditar no deus dele."

João Nuvem de Trovão não se deixou insultar. "Eu pensei como você uma vez, meu irmão. Mas aprendi que esse Deus não é somente dos brancos. Ele viveu como nós vivemos – debaixo do céu, cozinhando Sua comida em um fogo aberto - viajando com um pequeno bando de amigos. E ele não era branco quando caminhou na terra. Ele era escuro - mais lakota que branco." Águia que Voa Alto fez um som baixo de escárnio. "Mesmo os lakotas sabem que o Grande Mistério que criou todas as coisas não é um homem."

“Você está certo, meu irmão. O Deus que nos fez não é um homem. E Ele é santo. Nós não somos. Não podemos ser o povo dEle quando estamos cobertos pelas coisas erradas que fazemos. Por isso Seu filho se tornou um de nós. Caminhou na terra. Não cometeu erro algum. Então morreu para pagar os erros dos outros.”

“Gastamos a nossa vida tentando viver em harmonia com os Espíritos, tentando fazer mais bem que mal, de forma que Deus se agrade de nós. Mas não podemos agradar a Deus porque Ele diz que devemos ser santos, e não podemos ser santos. O Filho de Deus fez por nós o que não podemos fazer. Ele era santo. Então pagou por nossos erros. Não temos de pagar por eles."

Os olhos de Nuvem de Trovão brilharam de contentamento. "Quando ouvi isso pela primeira vez, meu coração se encheu de alegria. Pedi para que o Filho de Deus levasse meu pecado. Quando fiz isso, um grande peso foi tirado de mim." Ele parou por um momento e então continuou. "Os tempos são ruins para nosso povo. Meu coração se quebra pelos erros cometidos. Mas meu coração se alegra quando penso que vivo em paz. O que quer que aconteça, estou em paz com Deus. Essa paz está aqui dentro”, Nuvem de Trovão apontou seu peito com o polegar, "e está sempre aqui, não importa o que homens façam a mim."

Finalmente, Nuvem de Trovão concluiu: "Desde o dia em que encontrei a paz com Deus, tenho tentado falar àqueles com quem encontro sobre Ele. Por isso não me chamo mais Mata Dois. A pessoas me chamam de João Nuvem de Trovão, como um homem na Bíblia. Ele tinha um irmão chamado Tiago. Juntos foram chamados 'Filhos do Trovão'. Alguém achou que eu era como eles. Então sou chamado João Nuvem de Trovão. Vivo no Santee, na Grande Lama".

Águia que Voa Alto disse: "Eles querem que Búfalo Sentado vá para o lugar chamado por eles de Agência Rocha Firme. Conheço aquele lugar".

"Santee é para o lado do nascer-do-sol e além da Grande Lama. Se seu povo vier comigo, terá comida. Temos uma escola para ensinar as crianças. Temos um lugar onde aprendemos sobre Deus. Você poderia aprender a ler o livro que seus pais liam.

"Estou fora de lá há várias semanas: Meu povo me enviou para um descanso. Acho que o Espírito do Deus Vivo me enviou para falar a você a respeito dEle. Se você vier comigo, posso ensinar as palavras no livro de sua mãe. Então você poderá decidir a respeito de Deus por si mesmo."

Águia que Voa Alto balançou a cabeça e se levantou. "Quando eu era jovem, o interior era bonito. Quando caçava, podia ver trilha de muitos tipos de animais. Mas agora a terra está mudada e triste. As criaturas viventes se foram. Vejo a terra desolada. Vejo meu povo morrendo. Vejo-os fugindo dos soldados. Queria que o povo branco nunca tivesse vindo para o interior."

João Nuvem de Trovão ponderou o discurso de Águia que Voa Alto antes de dizer: "Há bons e maus brancos, Águia que Voa Alto, assim como há lakota bom e lakota mau. Os bons brancos querem nos ajudar. Não podem mudar o mal que está feito. Eles vieram para nos ensinar uma nova maneira de viver".

Águia que Voa Alto encarou a fogueira que começava a apagar. A solidão o pressionava. "Não quero uma nova maneira. Quero as velhas."

Quando o sol nasceu na manhã seguinte, Nuvem de Trovão insistiu que Águia que Voa Alto levasse toda a carne que estava pendurada nas armações de secar. "Mas serão necessários dois de seus pôneis para carregar toda essa carne - e você só tem três”, Águia que Voa Alto protestou.

Nuvem de Trovão insistiu. "Deus nos aproximou, meu irmão. Você me deu o presente de ouvir, de forma que pude compartilhar a verdade do amor dEle com você. Agora dou a você a carne como presente. Estou feliz de dar esses velhos pôneis a alguém que cuidará deles. Quando estiverem muito velhos para ajudá-lo, liberte-os para vagar pela campina."

Quando o acampamento estava desmontado e a última fatia de carne foi amarrada seguramente no último pônei, Nuvem de Trovão apertou o braço de Águia que Voa Alto em sinal de amizade. "Quando estiver pronto, meu irmão, venha à Missão Santee e pergunte por João Nuvem de Trovão. Estarei orando por você. Orarei para que Deus o ajude a ver o caminho dEle para você. Somente quando estiver no caminho dEle, é que o buraco em seu coração será preenchido."

Quando Águia que Voa Alto se virou para ir, Nuvem de Trovão gritou: "Hancan kin nicipi un nunwe (O Senhor esteja com você)”. Enquanto Águia que Voa Alto liderava sua caravana empacotada para o oeste, João Nuvem de Trovão permaneceu observando e orando.

 

O coração do homem traça o seu caminho, mas o senhor lhe dirige os passos. Provérbios 16:9

 

Augusta tinha quase recusado o convite de David Braddock para almoçar. Mas quando ele apresentou um recado elegante, escrito por sua mãe, augusta abrandou-se e aceitou seu braço. “afinal de contas”, ela sussurrou a LisBeth, “foi a mãe dele quem enviou o convite. Qualquer rapaz que leve duas novas amizades para conhecer sua mãe não pode ser um vilão”.

David conduziu as mulheres através do labirinto de prédios da exposição para sua carruagem. Um chofer uniformizado retirou o boné e ajudou as duas senhoras a subir na carruagem.

Do assento de frente, David Braddock sorriu-lhe educadamente. “Posso lhe perguntar, senhora Hathaway, o que mais lhe interessou na exposição até aqui?"

Era tudo o que Augusta Hathaway precisava. O restante do caminho até a casa de Abigail Braddock foi preenchido pelo solilóquio de Augusta sobre o progresso e as invenções necessárias à prosperidade do oeste. "Agora, preste atenção, senhor Braddock. Sei o que vocês, moradores do leste, pensam. Pensam que aquilo é um vasto deserto. Mas dêem-nos alguns poucos anos. Estou convencida de que Nebraska será um dia uma rica terra de fazendas. Apenas precisamos de uma maneira eficiente de drenar o suprimento de água e irrigar a terra. Guarde minhas palavras, senhor Braddock. Um dia Nebraska ajudará a alimentar o mundo.”

Lisbeth esperava que David Braddock desse um sorriso sensato, batesse nos ombros de Augusta e a apaziguasse. Na realidade, ele parecia genuinamente interessado nas idéias dela. Ouviu cuidadosamente tudo o que ela dizia e, quando perguntava, apontava para o Oeste.

"Eu mesmo nunca estive no oeste, senhora Hathaway. Mas”, olhou para LisBeth, "há sempre uma primeira vez para tudo.”

Se Lisbeth e Augusta soubessem antes o quão concorrido era um convite para os almoços de Abigail Braddock entre os residentes de Filadélfia em 1876, teriam subido as escadas daquela mansão com os joelhos tremendo. Mas as duas senhoras ignoravam solenemente o fato de que estavam prestes a serem recebidas pela nobre imperatriz da sociedade de Filadélfia. Na realidade, precedendo Augusta Hathaway e LisBeth King Baird como convidados para almoços na mansão, estiveram ninguém mais que o imperador Dom Pedro do Brasil; o Príncipe das Casas dos Conservadores, Bragança e Hapsburg e sua esposa, a Imperatriz Teresa.

A mansão Braddock ficava no final da rua, no meio de um parque de árvores altas. Uma larga varanda rodeava completamente a casa, terminando no pórtico onde a carruagem parava para que os convidados descessem. Entrando na mansão, Augusta e LisBeth ficaram boquiabertas diante da grandeza do que viram. Duas grandes escadas serpenteavam para cima, a partir dos lados da entrada, encontrando-se no topo e formando um balcão. Abigail Braddock estava em pé no balcão, sorrindo calorosamente antes de descer escada abaixo para conhecer as convidadas.

"Bem-vindas!" sua voz era alegre e sincera. "Bem-vinda, à Filadélfia. Espero que estejam tratando bem de vocês. As coisas têm andado um pouco confusas desde a abertura do Centenário. As pessoas nem sempre agem como deveriam..."

Abigail apertou a mão de Augusta seriamente e então virou- se para Lisbeth. "Lisbeth King Baird. Tenho ouvido sobre você”, Lisbeth corou, "e vejo que é verdade". A mulher era amigável, sem ser arrogante. "Venham, vamos nos refrescar na varanda."

Lisbeth e Augusta seguiram Abigail até a entrada em arco embaixo do balcão, e para dentro de uma sala de estar que brilhava completamente com uma luz dourada. As cadeiras eram cobertas por um tecido damasco dourado, e um tapete floral acentuava os tons com um azul profundo. No fim da sala havia uma harpa e um piano. Acima do piano estava um grande retrato de uma jovem mãe e dois filhos. Era sem dúvida Abigail. Vestida em seda preta rebordada enfeitada com pérolas, a mulher mantinha sua cabeça aristocrática sobre um pescoço longo e magro. Seu cabelo deslizava e estava presa por dois pentes de jóias. De um lado, assentada, uma criança com olhos castanhos e arregalados, e cabelo empomado, vestia uma longa bata elaboradamente enfeitada com um laço elegante.

“Aquela é a senhora, Sra. Braddock?", Lisbeth perguntou acenando a cabeça para o retrato.

Abigail sorriu. "Sim, senhora Baird, sou eu. David tinha seis meses de idade ali", o sorriso se apagou um pouco, “e o pai dele tinha morrido fazia apenas quatro meses. O retrato foi começado logo após o nascimento de David, mas então seu pai ficou doente e eu não agüentava me sentar para o artista. Dai colocamos isto no depósito. Uma das últimas coisas que o pai de David pediu a nós foi que prometêssemos terminar o retrato. Isto seria a coroação, a última coisa para terminar a casa que ele havia construído para nós”. Abigail suspirou. "Infelizmente ele não viveu para vê-lo terminado.”

“Sinto muito, Sra. Braddock", LisBeth se desculpou, mas Abigail sorriu docemente.

“Não precisa se desculpar, querida. O tempo cura a amargura das feridas. E hoje, gosto de me lembrar. William e eu tivemos poucos e maravilhosos anos juntos, e gosto de falar sobre ele.”

Lisbeth percebeu que tinha acabado de ouvir repetidas as mesmas palavras de Augusta, do dia anterior. Ficou quieta, observando suas luvas.

Abigail se aproximou e tomou as mãos de LisBeth nas delas.

“Perdoe-me, minha querida, por ir tão longe, mas, já que conhece minha história, talvez me permita aventurar-me para além de nossa pequena relação. David me informou sobre a trágica perda de seu marido no Pequeno Grande Chifre. Estendo meus pêsames.” A idosa senhora apertou as mãos de LisBeth. "Sei que não ajuda muito querida, mas receba a palavra de uma mulher que já esteve no lugar onde você está agora. A dor vai melhorar. Não vai acabar completamente, mas você será capaz de suportar, com o tempo."

Lisbeth fixou os olhos secos em Abigail por um momento. Levantou o queixo e pressionou os lábios firmemente. Então o lábio inferior começou a tremer e seus olhos se encheram lágrimas. Embaraçada, ela tentou se contrair, mas Abigail não a deixaria se afastar. Impulsivamente puxou LisBeth para seus braços, “Aqui, aqui, querida. Não fique embaraçada. Todo esse nonsense vitoriano de esconder os verdadeiros sentimentos de alguém é uma inconveniência maldita."

Quando David se juntou a elas, Lisbeth estava limpando os olhos com o lenço de bicos de renda da mãe dele, e Augusta sorria para ambas, em aprovação. Foi Augusta quem quebrou o silêncio "David Braddock, muito obrigada por nos trazer aqui. Sua mãe é uma senhora charmosa e, se metade da Filadélfia for boa como ela é, então com certeza apreciaremos o restante de nossa estadia aqui."

“Talvez consigamos persuadir vocês a estender a visita...” David insinuou esperançosamente.

Augusta retrucou: "Por nada nesta vida, meu jovem! Tenho um programa para cumprir e um hotel para dirigir. Lisbeth tem uma vida para continuar - em nebraska"

Lisbeth acrescentou: "E Nebraska não duraria muito sem tia Augusta".

Abigail mostrou a elas um canto da varanda sombreado pelas vinhas dulcamaras (é esse nome mesmo!). Acenou para uma jovem serva que entrou na varanda. "Não se preocupe, Betsy. Eu mesma posso servir." Betsy fez uma cortesia e saiu apressadamente. Abigail serviu a limonada enquanto conversavam, então as guiou a uma pequena sala de jantar do lado oposto da casa, onde seria servido um elegante almoço.

Assentando-se em seu lugar à mesa, Lisbeth observou arranjo das porcelanas chinesas, cristal e prataria. Finalmente inclinou-se para dizer a Augusta num sussurro: "Boa coisa a senhora me ter feito trabalhar na sala de jantar, tia Augusta. Arrumei mesas o suficiente para saber para que serve cada talher!"

Abigail Braddock apreciou o comentário e prosseguiu com uma anedota de seu primeiro encontro com uma mesa propriamente disposta. "o pai de David me levou para conhecer os pais dele. Achei que fosse morrer quando vi toda a porcelana para uma refeição. Não me lembro de uma coisa sequer falada durante aquela provação inteira, de duas horas. Passei o tempo todo observando cada movimento que a mãe de William fazia. Ela pegava um garfo; eu pegava um garfo. Ela pegava uma bebida; eu pegava uma bebida. Pensava: Mesmo se ela fizer algo errado, fará isso com classe, e eu estarei salva! Abigail riu com a lembrança. "Fui educada do outro lado da cidade, e não tive meu próprio garfo até completar dois anos de idade! Tenho certeza de que a mãe de William ficou horrorizada. Como ele a convenceu para que eu entrasse na família, jamais saberei!"

Foi um almoço caloroso e alegre e, quando a carruagem chegou para levar Lisbeth e Augusta ao hotel todas as suspeitas de Augusta sobre David Braddock tinham sido enterradas. Enquanto ela e Lisbeth se assentavam na carruagem dos Braddocks, Augusta informou Lisbeth de que David e Abigail eram obviamente pessoas honestas e tementes a Deus, e que fora uma bênção elas quase terem sido expulsas dos quartos do hotel, já que isso significava ter conhecido os Braddocks. Lisbeth estava inclinada em concordar.

Assim que a carruagem partiu, David pediu a opinião de sua mãe sobre as duas mulheres de Nebraska. Abigail respondeu sem hesitação. "Gostei de ambas, David. Augusta - como ela insistiu para chamá-la - é rude, mas tem um coração de ouro. Qualquer um pode ver isso. E Lisbeth é adorável. Ela está profundamente abalada com a perda do marido e da mãe, mas é jovem. Ela ficará bem.” Abigail aproximou-se para bater nas costas da mão de seu filho. "Estou contente por você trazê-las em casa para o almoço, David.”

David Braddock torceu os lábios e acenou à mãe. "Estou feliz que aprove, mãe. Pois aquela", disse apontando com a cabeça para a carruagem, "é a mulher com quem vou me casar.”

 

Chegai-vos a Deus e ele se chegará a vós outros... Humilhai-vos na presença do Senhor e ele vos exaltará. Tiago 4:8,10

 

Joseph iria viver. Quando o dr. Bain chamou, no dia seguinte ao do acidente, Jim o dispensou com um breve: “Consegui que o dr. Gilbert venha agora. Quero ter certeza de que Joseph receba os melhores cuidados". O dr. Bain corou de raiva por ser dispensado rudemente, mas Jim não se importou.

Aproximadamente três dias depois do acidente, tarde da noite, Joseph gemeu. Foi quase inaudível, mas Jim, que permanecia em vigia constante, estava ao seu lado imediatamente, falando em tom baixo. "É isso aí, joseph. Você só precisa ficar calmo. Um médico virá pela manhã. Descanse até lá." Jim encheu um copo de água e gentilmente levantou Joseph do travesseiro. "aqui, tome um gole disso." quando seu paciente obedeceu, Jim sorriu com satisfação. Outro gemido baixo trouxe mais conversa. "você está de volta para sua casa, no seu quarto, atrás do estábulo. Estou aqui, e não vou embora, portanto se precisar de algo é só dizer. Asa está cuidando dos cavalos e dos negócios. Não há nada com o que se preocupar por aqui. Tente descansar, agora, Joseph". Não havia mais sons no corpo quieto, e Jim logo retornou à sua cama.

Quando amanheceu, Jim mandou Asa até o médico. Enquanto esperava, ouviu Joseph respirar profundamente. Houve uma pausa, e então ele respirou profundamente e emitiu um som, não um gemido, mas um resmungo que terminou alto, como se quisesse fazer uma pergunta. Jim pegou uma cadeira e se sentou perto da cama. Finalmente, sem abrir os olhos, Joseph murmurou "ouu" e se mexeu, tentando alcançar o lado esquerdo da cabeça.

Jim respondeu à pergunta não feita: "Está tudo bem, Joseph. O dr. Bain consertou-a".

Houve um longo silêncio antes que Joseph soltasse outro som. Então falou melancolicamente: "Não me lembro de mais nada depois daquele cavalo dar um coice na minha cabeça".

"A parelha levou você até a fazenda", Jim explicou. "Eu trouxe para a cidade. Fiz com que fosse costurado."

 

Um olho se abriu, e Joseph procurou pela voz. Quando focalizou o rosto de Jim, esboçou um meio-sorriso, então fechou o olho novamente. "Há quanto tempo está aqui, filho?"

"Desde o acidente há três dias."

Joseph suspirou. "Obrigado. Estou terrivelmente cansado, Caiu no sono. Quando o médico chegou, examinou Joseph meticulosamente e trocou as ataduras.

"Nenhuma mudança no que você tem que fazer, filho", o velho médico disse, batendo no ombro de Jim. "Só mantenha as feridas limpas e espere. Se ele acordar novamente, ofereça sopa. Vou parar na próxima porta e pedir para a senhorita Biddle preparar um caldo de galinha."

"Doutor", Jim trouxe o assunto à baila desajeitadamente. "Dei ao dr. Bain todo o dinheiro que tinha. Não sei da situação de Joseph Mas vou encontrar trabalho e pagar o senhor."

O dI. Gilbert bateu na maleta médica fechada e disse energicamente: "Meu jovem, conheço Joseph Freeman desde a primeira vez que vim a Lincoln. Quantas noites ele não saiu de sua cama quentinha, e arreou um cavalo descansado para eu fazer um viagem louca, à casa de algum fazendeiro, quando minha própria égua estava exausta ou tinha perdido uma ferradura? E isso", dr. Gilbert disse com ênfase, "é tudo o que devo dizer sobre meu preço!"

Horas mais tarde, Joseph abriu os dois olhos e esboçou Um sorriso fraco quando Jim o ajudou a tomar outro copo de água. "Ooii!", exclamou, "Aquele cavalo tem uma força em sua pata traseira!" Vagarosamente, Joseph levantou a mão para tentar pegar o copo que Jim segurava, mas quase não conseguiu fazê-lo.

"Não se esforce, Joseph", Jim censurou. "Você esteve inconsciente por três dias. Não apresse as coisas."

“Joseph mexeu um dedo para trás e para frente e murmurou: “você está me servindo, filho?".

“Estou lhe servindo até que você possa se servir sozinho, Joseph."

Joseph sorriu vagarosamente. "Lembro-me do medico dizendo que pediria para a senhorita Biddle acender o fogão e preparar uma sopa. Você acha que já está pronta?" .

Jim saiu e voltou quase imediatamente, com uma tigela de sopa. Joseph tentou engolir várias colheradas antes de cair no sono novamente. Jim se assentou de volta com satisfação ao observar Joseph dormir.

 

Vários dias se passaram com Joseph não fazendo nada mais do que levantar-se, tomar um pouco de sopa e dormir. Mas pouco a pouco sua horas acordadas foram-se estendendo, até ele ficar irrequieto e começar a fazer perguntas sobre Asa, a cocheira, o hotel, a fazenda. “Pare de se preocupar, Joseph", Jim censurou. "Asa está fazendo um bom trabalho. Sarah Biddle parece estar indo bem com o hotel também! Pelo menos as coisas parecem estar calmas na cozinha. Saí enquanto você estava dormindo e rachei lenha. Não tenho muita coisa para fazer na fazenda antes do inverno. O jardim de outono não é importante, portanto não há necessidade de você me enxotar." Jim se sentou e inclinou sua cadeira na parede, estendendo as longas pernas diante dele. "Você só precisa descansar melhor. A senhora Baird e a senhora Hathaway estarão em casa em breve."

Houve uma grande pausa antes de Jim acrescentar: "Há uma coisa que estou esperando para perguntar a você, Joseph."

O paciente olhou entusiasticamente para Jim e esperou.

'Você disse que a senhora Baird queria vender a propriedade. Você acha que há alguma chance de vender para mim?". Jim prosseguiu rapidamente: "Oh, eu sei, não tenho dinheiro. Mas trabalharia no lugar, pagaria como pudesse". Sua voz insinuou dúvida: "É claro, levaria tempo". A cadeira que ele estava inclinando caiu com os pés de volta ao chão. Jim respondeu à sua própria pergunta: "Ela provavelmente não gostaria de esperar pelo meu pagamento; levaria muito tempo. Esqueça, Joseph. Foi uma idéia boba".

"Agora continue, Jim. Não deixe de falar se é isso o que quer. Não sei o que ela dirá, mas você deve perguntar a ela, se é o que quer.”

Jim olhou para suas botinas gastas enquanto falava. "Não sei realmente o que eu quero, Joseph. Mas na verdade gosto da ideia de fazer coisas crescerem. Aquela rosa que você me levou já começou a crescer ao lado da varanda. Aqueles campos só estão esperando por um arado. Gostaria de arar a terra, plantar e ter uma colheita bem farta. Talvez eu pudesse reconstruir minha vida lá."

Joseph o interrompeu: "Estou contente em ouvir você falar sobre construir uma vida para si mesmo"

Jim olhou para cima e deu um sorriso largo e pesaroso: "Acha que existe uma chance?".

" acho que sim. Estou contente em ouvir você falando em ficar por aqui. Você é um bom homem, Jim Callaway."

Jim se levantou abruptamente. "Não, não sou, Joseph. Definitivamente não sou um bom homem."

"Tudo o que sei é que você trabalha arduamente. É honesto. Salvou minha vida. Isso é tudo o que preciso saber. Passado é passado. Quando um homem prova seu valor como você, em tudo o que ficou para trás é perdoado... esqueça o passado."

Jim pegou o copo e a jarra de água de Joseph e se moveu em direção à porta. "Algumas coisas não devem ser perdoadas."

"Se o Senhor pôde perdoar àqueles que o mataram, então quem disse que não podemos ser todos perdoados?"

"Não é do perdão de Deus que estou falando, Joseph." Jim disse calmamente. "É do meu. Por algumas coisas um homem não pode se perdoar." Jim saiu antes que Joseph pudesse responder.

Joseph tinha tirado um cochilo e estava sentado, inclinado para trás sobre o travesseiro bem cheio, pensativo, quando Jim retornou com o jantar. Os dois homens comeram em silêncio, mas assim que Jim retirou a bandeja de seu colo Joseph mexeu por baixo de seu travesseiro e pegou um livro.

"Pedi para Asa tirar isso do baú ali ao pé da minha cama, enquanto você saiu, Jim. Não sei ler, mas comprei esse livro de um mascate que veio para a cidade uma vez. Achei que você poderia ler para mim."

Jim pegou o livro. Era uma Bíblia. Abrindo-a, Jim perguntou:

“Está pretendendo me converter, Joseph? Já tive uma boa educação religiosa. Ia à igreja todos os domingos com meus pais".

"Não sou um homem instruído", veio a resposta, "mas vou lhe dizer algo. Ir à igreja aos domingos e ter uma dose de religião não é o mesmo que conhecer ao Senhor. Você precisa conhecer o senhor para entender o que quero dizer".

"Bem, suponha que eu tente conhecer ao Senhor e descubra que o senhor não quer me conhecer.. .", Jim indagou.

Joseph balançou a cabeça de um lado para o outro. "Não existe uma coisa dessa, como um homem que o Senhor não queira conhecer.

"Tem certeza disso?"

"Bem, é isso o que diz o livro que você tem nas mãos. Não posso ler eu mesmo ou lhe mostrar, mas reconheço que está aí.” Joseph sorriu. "Suponha que você só comece a ler para mim, e então podemos ver se diz· isso ou não."

"Você ganhou, Joseph", Jim respondeu. "Você venceu." Abrindo o livro, Jim perguntou: "Então, por onde devo começar?".

"qualquer lugar que queira."

Jim virou algumas páginas até chegar ao título Nomes e Ordens dos Livros do Velho e do Novo Testamento. Ele correu os olhos na página e deu um sorriso largo. "Ei, Joseph, há um livro aqui chamado thiago. *

 

* O nome james em inglês é traduzido como tiago. Jim é a forma diminutiva de James.

 

“Bem, leia esse então, James Callaway. Você não precisa crer, mas eu creio e com certeza me trará conforto ouvi-lo." Joseph se assentou de volta confortavelmente enquanto Jim procurou o livro de tiago na bíblia e começou a ler. Não tinha ido muito longe quando parou abruptamente.

"Você lê muito bem", Joseph disse.

"Estava pensando... Eu poderia ensiná-lo a ler sozinho," Joseph olhou com suspeita. "Você está partindo para algum lugar?"

"Não, não quis dizer isso. Só que você vai ficar de cama por algum tempo. E não está acostumado com isso. Preciso ficar pensando em coisas para mantê-lo calmo de modo que você se cure. Você não gostaria de ler por si mesmo?"

Joseph considerou. "Agora sou muito velho. Você não pode ensinar um cachorro velho como eu."

"Você não é tão velho assim" Jim tentou persuadi-lo. "Se você quer aprender, eu posso ensinar."

Uma suave batida na porta fez com que Jim fechasse a Bíblia abruptamente. Tom Biddle abriu a porta e disse em tom de cochicho: "O Joseph está bem? Ele está dormindo?".

Joseph gritou: "Estou indo bem, Tom. Entre aqui!".

Tom empurrou a porta aberta e mancou até Jim. "Sarah disse para trazer isso para você, senhor Jim. Disse que saberia o que fazer. O telegrama era um reflexo perfeito de Augusta Hathaway - seco e direto. Tudo o que dizia era: Chegando na sexta-feira meio-dia. Joseph, por favor, espere na estação.

Jim leu em voz alta. "Imaginem, elas terão de me suportar no seu lugar."

Joseph estava em dúvida. "Você não gosta de multidão, Jim. Asa pode ir até o trem."

"Estarão todas surpresas quando você não estiver lá e ouvirem o porquê, Joseph. Posso esclarecer rapidamente, fazendo com que saibam que você está bem. Asa é ótimo com os cavalos, mas ... " Jim hesitou.

Joseph completou a frase com sorriso largo: "Com pessoas não é tão bom. Você está certo. Só não quero que vá se isso o perturba. Lembro-me de que a primeira vez que mencionei a palavra cidade ... " Ele não terminou.

"Ainda não estou interessado em nenhuma reunião social da igreja", Jim disse, "mas posso ir à estação e fazer com que a senhora Hathaway e a senhora Baird saibam que você está bem". Então foi assim que Jim esperou em pé na estação de trem enquanto o trem passava. Ele se encostou no canto da estação, longe da multidão, com o chapéu enterrado sobre os olhos, pensando no que iria dizer. Os pés de LisBeth tinham apenas tocado a plataforma, e ele já estava ao seu lado, chapéu na mão, soltando seu discurso ensaiado. Augusta não havia escutado e, quando desceu do trem, ele finalmente se apresentou e repetiu o discurso.

“Joseph não está aqui porque está de cama. Ele ficará bem, mas o médico diz que levará algum tempo. Asa está cuidando da cocheira, eu estou cuidando de Joseph até ele melhorar." Jim colocou o chapéu de volta na cabeça. "O carroção está bem ali." Ele apontou na direção do carroção e foi para o vagão de bagagens. “Uhh, esqueci de perguntar. Quantas malas?" Ficou parado na plataforma, incerto. Outros passageiros se juntaram ali e olhavam curiosamente para o estranho homem que tinha vindo encontrar Augusta Hathaway e LisBeth King Baird. Um passageiro esgueirou-se para Augusta. Era Agnes Bond.

“Augusta! LisBeth! Bem-vindas ao lar! Como foi o Centenário? Charity e eu acabamos de voltar de uma visita à mãe Bond em Omaha. Agora, quem é este estranho atraente?" Jim corou e parecia desconfortável. LisBeth o salvou. Pegando no braço que ele não havia oferecido, disse alegremente: "Augusta, você espera no carroção. Vou mostrar as malas ao senhor Callaway. Vamos direto. E Agnes", LisBeth acrescentou, "diga olá às mulheres do círculo social de costura por mim. Mal posso esperar para contar a elas sobre nossa viagem!" Ela literalmente empurrou Jim para o carro de bagagem antes que Agnes falasse mais alguma coisa.

Eles caminharam juntos pela plataforma até LisBeth apontar uma das malas e soltar o braço de Jim. No momento em que Jim levantava a mala em seu ombro, LisBeth apontou para outra. “Aquela uma, a preta que tem as iniciais de Augusta." Jim balançou a cabeça e caminhou vigorosamente em direção ao carroção, onde augusta esperava, tentando livrar-se de Agnes Bond, que estava ao lado do carroção, conversando sobre nada, tentando saber alguma coisa sobre Jim Callaway.

Jim carregou uma mala e foi buscar a outra. Para evitar aglomeração entre o físico amplo de Augusta e Jim Callaway, Lisbeth subiu no carroção e sentou-se sobre a sua mala. Não conseguindo nada de augusta, Agnes voltou-se a lisbeth, “E quem é o estranho atraente?”.

“Jim Callaway. Eu o empreguei para cuidar da fazenda até que possa vendê-la na primavera."

"Ele é de algum lugar por aqui?"

"Você teria de perguntar a Joseph sobre isso, senhora Bond" LisBeth respondeu. "Ele contratou o senhor Callaway para mim, graças a Deus. Ele tem feito maravilhas pelo lugar."

Só então Jim retomou com a mala de Augusta. Ignorando Agnes Bond, subiu no carroção, sentando-se ao lado de Augusta. Jim bateu na parelha um pouco forte demais e eles partiram quase jogando LisBeth de cima de sua mala e deixando Agnes Bond em pé em uma nuvem de poeira, com uma ruga no rosto e uma determinação de saber mais sobre Jim Callaway, bem antes do círculo de costura.

 

o outono veio e se foi, e o corpo de Joseph se curou. Finalmente ele foi capaz de ficar em pé sobre a perna restabelecida, e de andar por ali com a ajuda de uma bengala. Sua primeira refeição à mesa da cozinha do hotel foi uma celebração. Os olhos de LisBeth brilhavam calorosamente enquanto ela oferecia uma cadeira para Joseph. Eles o colocaram sentado à ponta da mesa para aquela refeição.

"Lembro como sua mãe costumava se assentar aqui", Joseph disse enquanto puxava a cadeira à mesa.

O sorriso de LisBeth tremulou e ela disse seriamente: "Joseph eu estou muito contente porque você vai ficar bom. Não creio que nenhum de nós poderia ter nenhuma outra perda. Seria demais".

Houve um silêncio embaraçoso, até Sarah colocar uma enorme travessa de purê de batatas sobre a mesa. Augusta disse entusiasticamente: "Bem, louvado seja o Senhor, e me passem as batatas! Estamos todos aqui e saudáveis. Comam!".

Jim sentou-se à mesa e, de fato, estava fora do círculo de amigos que riam e relembravam. Quando a refeição terminou e todos se colocaram de volta à rotina de limpeza, Jim se levantou e disse calmamente: "Vou limpar aquele arreio que você quer agora, Joseph”. e saiu antes que Sarah pudesse oferecer-lhe um segundo pedaço de torta que havia guardado especialmente para ele

As mulheres discutiram a respeito dele meticulosamente, enquanto Joseph escutava. Finalmente, Augusta se voltou para Joseph. "Ele parece muito bom. O Senhor sabe que cuida de você como um cachorro pastor fiel. Há só alguma coisa ... "

Joseph a interrompeu: "Algo está faltando. Eu sei, senhora Hathaway. O que quer que tenha feito a barba do garoto ficar branca - ele carrega isso com ele. Isso o amargura pesadamente. Ele sobreviveu, mas isso ainda o domina". Joseph suspirou. “Ele está melhor do que quando o encontrei, mas ainda não está vivendo a vida. está apenas suportando-a,"

Lisbeth disse suavemente: "Acho que sei como ele se sente”. Ela estava sentada à mesa, com a cabeça curvada. Olhava sua aliança, girando-a ao redor, e então parou abruptamente. "Prometi ir ao círculo de costura amanhã - o Senhor sabe por quê – portanto, é melhor eu ir." Afastou a cadeira e levou sua xícara de café vazia para a pia para enxaguá-la. Então, ela cruzou impulsivamente a sala onde Joseph estava sentado e jogou os braços ao redor do pescoço dele, ele ficou tão surpreso que emudeceu enquanto ela disse, em um suspiro sufocado: "Não ouse tentar domar nenhum cavalo selvagem, Joseph Freeman. Preciso de você!". Embaraçada por sua demonstração de emoção, LisBeth fugiu para o quarto, deixando Joseph e Augusta tagarelando sobre como ajudar aqueles jovens que pareciam estar quase se afogando em dores do passado.

Joseph mancou vagarosamente de volta para seu quarto até a cocheira, onde Jim lia a Bíblia com mais interesse que o normal.

Augusta Hathaway se retirou para o quarto com o coração pesado. suas orações aquela noite foram particularmente sérias. “Senhor, sei que sabes o que estás fazendo. Sei que Tu és Deus, mas me perdoe. Senhor - tens certeza de que não colocou uma carga muito pesada sobre esses dois filhos?"

 

Era já inverno avançado quando o perdão fluiu na vida de Jim Callaway. A neve cobria polegadas lá fora, e o cheiro de esterco e de cavalos permeava a cocheira firmemente fechada. a noite estava calma, e o querosene queimava com bastante brilho. Jim já tinha terminado há tempo de ler o livro da Bíblia que trazia seu nome, e Joseph vinha progredindo constantemente na leitura. Mas ainda insistia em que Jim lesse em voz alta toda noite. Não tendo familiaridade com a Bíblia, Jim simplesmente continuava a ler o que quer que viesse depois de Tiago.

Eles haviam progredido através dos livros de Pedro. Estavam prontos para ler aquele chamado A Primeira Epístola de João. Jim leu seriamente o começo do capítulo 1: "O que era desde o princípio... Ora, a mensagem que da parte dele temos ouvido e anunciamos, é esta: que Deus é luz e não há nele treva nenhuma. Se dissermos que mantemos comunhão com ele, e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade".

A voz de Jim tremeu. Ele parou de ler.

"Há alguma coisa errada, Jim?", Joseph perguntou gentilmente.

Jim limpou a garganta. "Nada."

"Nada não faz um homem parar de ler."

Jim escorregou a cadeira para trás contra a parede e ficou irrequieto. "Se estou entendendo bem, Joseph, isso diz que todos os homens que andam nas trevas não têm relacionamento com Deus".

“É o que estou ouvindo também, filho."

Jim tomou um fôlego profundo. "Sempre achei que eu fosse filho de Deus. Mas andei no meio de muitas trevas - fiz um monte de coisas escuras."

Joseph o apressou. "Continue lendo, garoto." Relutantemente, Jim obedeceu. "Se, porém, andarmos na luz como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado."

Limpo do pecado. É isso aí, Jim pensou. É isso o que eu quero. Quero ser limpo do que eu fiz. A insinuação de que isso poderia ser possível, fez Jim tremer.

Joseph o apressou novamente: "Continue lendo."

"Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos enganamos, e a verdade não está em nós."

Então leu isso. Eram meras palavras numa página, mas vivas. Elas fluíram como uma onda, e ele foi fisicamente balançado. "Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda a injustiça... Se, todavia, alguém pecar, temos um Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo; e ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro."

A voz de Jim tremeu e ele limpou a garganta. Tentou continuar, mas não podia. Ao contrário, ele se sentou, com a cabeça inclinada, as mãos balançando como se tivesse absorvido as palavras da página. Repetidamente ele as leu, enquanto Joseph esperava.

“Joseph”, Jim finalmente levantou sua cabeça. "Estou entendendo isso direito? Quer dizer que um homem pode ser perdoado? Sem importar o que ele tenha feito, ele é perdoado?" Os olhos verde-acinzentados estavam famintos.

“É assim que eu entendo."

Jim refutou: "É muito fácil. Não pode ser". Ele jogou o livro para o lado e enterrou o rosto em suas mãos. Enquanto Joseph esperava calmamente, um gemido soou do jovem que estava agonizando. "Não pode ser tão fácil assim, Joseph."

“Isso não foi nada fácil", Joseph disse. "Lembro que custou um preço terrível para Jesus."

Jim ouviu a voz calma e suave de Joseph. Então, antes que pudesse detê-las, as palavras transbordaram. Jim Voltou às Colinas Esguias e reviveu o pesadelo. Joseph ouvia enquanto Jim contava em voz sofrida todos os detalhes que quase quebraram o coração de Joseph. Ele queria aproximar-se para confortar o garoto, mas temia interromper a história agonizante do passado de Jim. Quando Jim finalmente terminou, sua camisa de trabalho estava molhada de suor; ele se sentou e, com a cabeça inclinada, sussurrou amargamente: "Queria que Deus me perdoasse por aquilo. Desejaria ser perdoado por Deus!".

Joseph aproximou-se e colocou a mão sobre os ombros de Jim. “por que você não experimenta pedir a Ele para perdoá-lo? Parecia tão simples. Jim balançou a cabeça. "Ele não perdoaria. Algumas coisas não devem ser perdoadas."

"Eu acho que você precisa tentar, garoto." Joseph apressou-se. "Você tem de tentar, ou essa coisa destruirá sua vida."

Outro gemido, e Jim agarrou a mão de Joseph. Ele a apertou firmemente e esperou. Não sabia realmente por que esperava, mas alguma coisa aconteceu. As palavras que tinha lido pareciam saltar da página para dentro de sua vida. Ele não pronunciou palavras inteligíveis, mas jogou seu passado para os céus, desejando que Deus o perdoasse até mesmo daquilo. Ele soltou a mão de Joseph e agarrou a Bíblia novamente. Releu Primeiro João, desesperado por conforto. Vagarosamente a mensagem inundou seu coração. tornou-se parte dele. Então isso aconteceu. "Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda a injustiça". Ele podia ser perdoado! Até mesmo o episódio de Colinas Esguias podia ser perdoado!

Jim leu ansiosamente, embevecendo-se com as palavras. ''Todo aquele que crê que Jesus o Cristo é nascido de Deus". Parecia tão simples, e a promessa ainda estava lá. "Essas coisas tenho escrito para que vocês acreditem no nome do Filho de Deus; que podemos saber que teremos Vida eterna, e que podemos crer no nome do Filho de Deus."

Quando terminou de ler, fechou o livro amavelmente e olhou para Joseph com os olhos brilhando. "Joseph, preciso dar uma volta."

Saiu para o estábulo. O feno tinha um aroma mais doce do que jamais sentira. A luz clara da lua penetrava através das fendas das paredes, formando manchas no chão do estábulo. Bruck ouviu e relinchou baixinho. Jim atravessou o estábulo e esfregou as orelhas do cavalo. Quando retomou a sua cama, Joseph tinha apagado a luz e caído no sono. Jim pegou a Bíblia. Queria ler novamente, para ter certeza de que não havia entendido errado. "Essas coisas tenho escrito para vocês, para que sua alegria seja completa ... "

Talvez seja isso, Jim pensou. Talvez seja alegria. Fosse o que fosse, alguma coisa tinha substituído a agonia da culpa que carregara por tanto tempo. Mesmo que procurasse, não encontraria culpa para trazê-la à tona de novo.

 

Quem confia nas suas riquezas cairá, mas os justos reverdecerão como a folhagem.

Provérbios 11:28

 

Foi um inverno pesado, de neve intensa e frio cruel. Poucos viajantes se aventuravam a sair nos piores meses, e o hotel deu menos trabalho que o usual. As mulheres costuravam, liam umas para as outras, e ajudavam Tom com suas tarefas escolares. A amizade de LisBeth e Sarah se aprofundou, e Augusta sorria com satisfação quando observava as duas inclinando-se sobre o jovem Tom para ajudá-lo em suas lições ou diverti-lo com jogos.

Uma noite, as mulheres desceram do sótão a colcha inacabada de Jesse. O lençol de proteção que estava por cima da superfície foi tirado, revelando um bordado muito elaborado, verde e vermelho. Os olhos de LisBeth ficaram melancólicos. "É da mesma cor que a Princesa Penas que mamãe fez para mim."

Augusta impediu algumas lágrimas e limpou a garganta : "Ela chamava isso de Rosa do Parlamento, LisBeth". Olhando da colcha para Sarah, que passava a mão carinhosamente sobre sua superfície, Augusta acrescentou: "Jesse disse que seria para o enxoval de Sarah".

Sarah arregalou os olhos. Então encostou o queixo em sua colcha e disse com espanto: "Para mim? Ó, nunca sonhei... ".

Lisbeth impediu que o momento se tornasse muito sentimental, dando uma risadinha rápida: "Mamãe! Como se ela precisasse de uma desculpa para fazer colchas!". Então, alisando a superfície da colcha, acrescentou: "Mamãe disse que fazer colchas sempre a ajudou a pensar sobre muitas coisas. Disse que costurar lhe trazia conforto”. Olhando para Sarah, decidiu rapidamente. "Nós devemos terminá-la, Sarah."

Augusta concordou. “Isso deixaria Jesse feliz, meninas. Com certeza! Embora os céus saibam que não ficará tão bonita como se fosse costurado por ela mesma!”

“Uma coisa é certa”, Lisbeth disse. “Mamãe preferiria muito mais que nós a terminássemos do que a levássemos para as mulheres da igreja e a entregássemos à Agnes Bond.”

Com isso, as três riram e começaram um mutirão de costura noturno. Elas costuraram por todo o inverno, preenchendo todos os lugares abertos da Rosa do Parlamento com penas e plumas. Lisbeth costurava esperançosamente, ansiando pelo conforto que sua mãe tinha experimentado. No primeiro dia do ano, quando tiraram a colcha da moldura, LisBeth percebeu que o conforto que esperava não veio. Levou apenas uma noite para terminar a montagem da colcha. Na noite seguinte, Jim Callaway bateu na porta da cozinha e ergueu uma maleta enorme que Augusta havia escolhido na loja do Miller. A colcha foi cuidadosamente dobrada e colocada no fundo da mala com reverência quase religiosa.

Sarah fechou a tampa cuidadosamente e olhou em direção a LisBeth, com seus olhos brilhando de alegria. "Nunca tive esperança por nenhum futuro antes de chegar aqui. Agora tenho uma mala de enxoval e um sonho." Ela corou e parou de falar, mas seus olhos procuraram a figura recuada de Jim Callaway.

 

Cremos que o país inteiro está à beira de uma explosão de desenvolvimento, do qual os Braddocks gostariam de participar. Para esse fim, mamãe e eu planejamos uma viagem ao Oeste à procura de oportunidade de investimentos, em particular, a aquisição de terra que irá, sem dúvida, valorizar nas próximas décadas, Esperamos contar com a hospitalidade da Casa Hathaway durante o mês de abril, Quartos conjugados seriam perfeitos. Ansiamos por sua resposta e por visitar sua linda cidade.

Lembranças amáveis à senhora e à senhora Baird.

Seu servo, David Braddock

Augusta leu a carta entusiásticamente na mesma noite em que chegou e imediatamente começou a fazer planos. “Finalmente, garotas”, ela gritou para Lisbeth e Sarah, que estavam atarefadíssimas, lavando a louça. “Alguém influente está enxergando como isso aqui é promissor. Abigail Braddock e eu temos nos correspondido durante todo o inverno, e finalmente, encontrei alguém para nos ouvir! Os Braddocks acreditam no futuro de Lincoln. acreditam que estamos à beira de um desenvolvimento – e eles estão certos!”

Sarah e Lisbeth se entreolharam com sorrisos conhecidos e esperaram pelo que ainda viria, em alguns segundos.

“Na realidade, acho que precisamos ir em frente com meus planos de reformar a casa Hathaway. Garotas, construiremos uma ala nova – e não será revestida de madeira também. Irei para Yankee Hill amanhã e farei meu pedido de tijolos! Quando abigail e seu filho chegarem, verão o progresso em ação!”

No dia seguinte, Augusta pediu que Jim a transportasse até Yankee Hill, onde ela negociou para receber as primeiras pequenas remessas de tijolos na primavera. Quando pararam na porta da cocheira, Augusta desceu normalmente e andou rapidamente através do estábulo para ver Joseph. Ele estava sentado sobre um barril invertido na cocheira, lubrificando um arreio; e sua muleta permanecia apoiada contra a porta de um estábulo. Quando Augusta disparou seus novos planos de expansão nos estábulos da cocheira, ele se inclinou para esfregar a perna e começou a balançar a cabeça de um lado para o outro.

“O que foi, Joseph? Augusta perguntou. “O que está errado com meu plano?”

“Não há nada de errado com seu plano, senhora Hathaway – só há algo errado com o homem, só isso. Minha perna não está melhorando tão rápido quanto deveria, e de jeito nenhum serei capaz de lidar com os cavalos de montaria de que a senhora precisará para servir esses novos quartos cheios de hóspedes.”

Augusta bufou: “Não tem sentido, Joseph! você vai estar em perfeita forma na primavera”

Enquanto conversavam, Jim conduziu a parelha e começou a limpá-la. A respiração dos cavalos enchia os estábulos com nuvens de vapor, e eles balançavam a cabeça e bufavam, apreciando enquanto Jim lhes oferecia baldes de ração de farelo ensopado e melaço quente.

Augusta acrescentou: "Que tal Jim Callaway? Você disse que ele é um bom trabalhador. Pegue-o como parceiro".

"Com todo o devido respeito, madame", Jim interrompeu pendurando uma almofada em um prego e fechando a porta do estábulo atrás dela, "não sirvo para ser parceiro em negócio.” Empurrou o chapéu de volta na cabeça. "Pelo menos não na cidade. Estou por aqui até que Joseph fique bom, mas, assim que estiver em forma, vou mudar."

Augusta se virou: "Não há necessidade de se mudar. Lincoln é uma boa cidade para começar a vida, e com meu hotel sustentando o negócio dessa cocheira, será fácil...".

Jim interrompeu: "Desculpe-me, senhora Hathaway, mas não estarei saindo da cidade. O fato é", ele disse, olhando seriamente para Augusta, "tenho procurado coragem para pedir à senhora Baird se ela venderia a fazenda dela para mim. Vou ter de trabalhar para isso, é claro. Não tenho dinheiro. Mas poderei pagá-la pouco de cada vez".

Augusta se opôs: "Trabalhar em fazenda não é a maneira de construir um caminho no mundo, Jim Callaway. A cidade é onde um homem, que quer fazer um nome para si mesmo, deve estar”. Mas Jim respondeu calmamente: "Não ligo muito em fazer 'nome para mim mesmo, madame. Mas gostaria de dirigir aquela propriedade".

"Isso não é um sonho - trabalhar e suar todos os dias, depender da misericórdia do tempo! É uma vida dura. merece coisa melhor."

Jim olhou para Augusta soberbamente. "Houve um tempo em que eu achava que não merecia viver, senhora. Imagine percorrer um longo caminho para ter algum sonho. É um Sonho pequeno, mas do meu tamanho." Ele fez uma pausa por momento antes de acrescentar: "A senhora acha que a sra. Baird venderia?".

Augusta não hesitou. "Venderia, tudo bem. Quando li para ela a carta de David Braddock, ela mencionou isso logo em seguida. – vender a propriedade."

Jim franziu a testa. "David Braddock?"

“O hoteleiro que conhecemos no Centenário. Ele e sua mãe estão vindo para Lincoln, procurando por investimentos em propriedades''.

“Ela já resolveu vender para Braddock então?"

Augusta estremeceu. "Minha nossa, não, meu jovem! Ela não decidiu nada! Só mencionou, e é tudo. Se você quer o local, apenas expresse seu pensamento. Estou morrendo congelada aqui fora. Vocês dois vêm para o jantar ou não?"

Ela saiu apressada, murmurando consigo mesma: "Típico de um homem – Não consegue formular seu pensamento e, quando o faz, não consegue falar". Da porta ela quase gritou para Jim: "Bom, está vindo ou não? É melhor conseguir que a LisBeth o escute hoje, antes que ela venda a propriedade, debaixo de seu nariz, meu jovem!".

E fechou a porta firmemente. Enquanto o barulho de seus passos eram ouvidos ao longo da beirada da calçada, Joseph deu uma risadinha: "Pensa sobre o que ela disse, Jim Callaway! formule seu pensamento, ou perca o seu sonho'"

Jim deu um sorriso calmo. "Andei debaixo de uma névoa por um longo tempo, Joseph. Eu mesmo fiquei meio surpreso por conversar com ela daquele jeito, sobre comprar a propriedade. Ele tomou um fôlego profundo e assobiou baixinho: "Mas tenho esperado por isso faz tempo. Tenho orado a respeito disso já faz bastante tempo também. Conversei com algumas pessoas. Fiz alguns planos. Imagino que está na hora de checar se meu sonho e o plano de Deus para minha vida estão de acordo".

 

Lisbeth encarou Jim com espanto e gaguejou: "Nossa, é claro, sr. Callaway, ficaria feliz em ter sua companhia até o círculo de costura". Ela se afastou da mesa e acrescentou: "Preciso pegar minha capa".

Augusta sorriu para Joseph e balançou a cabeça sabiamente enquanto Jim oferecia o braço a LisBeth e a dirigia até a porta e rua acima em direção à igreja. Nem Augusta nem Joseph notaram Sarah franzir a testa e demonstrar um interesse frenético em limpar a mesa.

Jim caminhou ao lado de LisBeth, sem problemas. Parecia relaxado, mas não disse nada nos primeiros momentos da caminhada. LisBeth segurou seu braço levemente e orou para que Agnes Bond não a visse. Era muito cedo para uma viúva ser escoltada por um homem, mesmo a caminho do círculo de costura.

Finalmente Jim começou: "Sei que sou um estranho, senhora" Baird".

LisBeth interrompeu-o: "Dificilmente um estranho, senhor Callaway. Tem sido como nosso convidado para as refeições por semanas, e por favor me chame de LisBeth. Toda vez que ouço alguém dizer 'senhora Baird', sinto-me como se devesse procurar uma bengala!". LisBeth sorriu vivamente e olhou para os olhos verdes-acinzentados de Jim.

"Então me chame de Jim."

"Está bem, Jim."

Estavam quase nas escadas da igreja, mas Jim viu que não conseguia criar coragem para falar sobre seu desejo. Subiram estreitos degraus e ele se aproximou para ajudar LisBeth a tirar a capa antes de começar seu discurso cuidadosamente preparado. "Senhora Baird - uh - LisBeth". Ela se virou e olhou para ele.

"Sim, Jim?"

Jim hesitou. "Gostaria de comprar a fazenda. Em prestações. Não tenho nenhum dinheiro, mas trabalho bastante e cuidarei do lugar. O solo é rico. Dará uma boa colheita. Poderia fazer o primeiro pagamento assim que a colheita viesse. Os equipamentos já estão lá. Joseph disse que me emprestaria uma boa parelha, se amansasse alguns animais novos para ele. Só preciso do necessário para viver - e de sementes. Conversei com o senhor Miller no armazém a semana passada. Ele não quer garantir muito crédito, mas, quando me ofereci para pintar a loja dele na primavera disse que seria uma boa troca - sementes pelo trabalho de pintura. Por quinze dólares um alqueire, imagino que conseguirei pagá-la em poucos anos. Se a senhora pudesse esperar para ver... Eu farei o melhor pela senhora."

Jim tinha passado semanas orando pela vontade do Senhor, mas, ali, em pé, compartilhando seu sonho com a mulher que poderia torná-lo realidade ou matá-lo, não conseguia parar de apertar as mãos nervosamente enquanto esperava pela resposta. Lisbeth perguntou inocentemente: "Quinze dólares um alqueire. Isso é um bom preço?"

Jim olhou confuso. "Conversei com o corretor de terras, madame. Ele disse... "

Lisbeth o interrompeu. "Ele disse que na propriedade o alqueire vale apenas dez dólares. Você não é o único que tem conversado com os corretores de terra,"

Jim sentiu a nuca esquentar. Com desânimo, sentiu que estava corando. Olhou para suas botas desconfortavelmente. "Bem, madame - acho que vale mais para alguém como eu."

Lisbeth colocou a mão no braço dele impulsivamente e perguntou: “O que alguém como você vê em uma propriedade abandonada que faz você sentir o desejo de pagar 50% mais que o seu valor?".

Jim ordenou seus pensamentos e olhou honestamente. "Bem, madame, é assim. Houve um tempo em que eu achava que a vida não tinha nada para me oferecer. Mas então comecei a trabalhar no lugar, consertando coisas. Joseph me ensinou algumas coisas. Ele me mostrou como o Senhor nos ama, mesmo quando achamos que não merecemos ser amados." Jim ouviu a si mesmo falando, desabafando-se com LisBeth, e sentiu sua nuca esquentar novamente. Ela deve estar me achando um idiota, pensou, tagarelando sobre a importância daquele lugar para mim.

Mas LisBeth não demonstrou estar achando Jim um idiota. Ela ficou em pé no vestíbulo da igreja e ouviu atentamente a toda palavra que ele dizia, enquanto seus olhos escuros suavizavam, com entendimento e amizade. Jim notou que pela primeira vez uma mulher extremamente atraente. Então limpou a garganta e continuou falando, repentinamente ciente da mão de Lisbeth em seu braço.

“Então, madame, gostaria de ficar na propriedade, se puder vendê-la para mim. Posso fazer alguma coisa com ela. Fazer coisas crescerem. Ela ficará mais valiosa do que eu possa imaginar, madame."

Lisbeth ouviu atentamente à voz séria e, quando ele terminou, ela não hesitou nenhum instante. Sorrindo, removeu a mão da manga dele enquanto dizia as palavras que entregavam a Jim Callaway seu sonho: "Jim, não posso pensar em mais ninguém para cuidar da propriedade de Mac que Você”. Ela abaixou a voz e acrescentou: "A propriedade tem visto muitas tristezas. Possui memórias amargas para mim. Crie algumas novas memórias lá. Faça dela um lugar feliz".

Ela deu um passo para trás e balançou seu dedo, quebrando a seriedade do momento com uma risada. "E você não me pagará um centavo a mais que dez dólares o alqueire. Agora vamos firmar isso”.

LisBeth estendeu a mão com luva, e Jim a apertou enquanto agradecia. Só então a porta se abriu e Agnes Bond entrou. Lisbeth afastou-se de Jim dizendo calmamente: "Não agradeça a mim. Você tirou um grande peso de meus ombros. Estava esperando conversar com o senhor Braddock sobre o lugar. Estou feliz em não ficar esperado dois meses para resolver o problema".

Jim Callaway mal balançou a cabeça a Agnes Bond antes de sair. Ele desceu as escadas da igreja e correu ao Miller onde pediu semente em crédito e combinou de pintar a loja assim que Joseph melhorasse. LisBeth seguiu Agnes até o círculo de costura, onde se colocou no lugar habitual diante da moldura de colchas com um estado mental não-habitual.

Agnes Bond estava pronta. Pegou agulha e fio de linha e posicionou diretamente de frente à LisBeth. Então manipulou cuidadosamente a conversa do pequeno grupo de mulheres de modo que pudesse perguntar inocentemente: "Agora conte-nos tudo sobre o rapaz bonito que a acompanhou até o círculo hoje, LisBeth. Não é aquele errante que estava cuidando do querido Joseph desde aquele terrível acidente?".

LisBeth estudou sua colcha e levou um longo tempo para formular a resposta às mulheres que levantavam as sobrancelhas e trocavam olhadelas.

Charity Bond não era tão discreta quanto sua mãe. "Lisbeth” ela exclamou. "Você já desistiu do luto?"

LisBeth olhou por cima de sua colcha com olhos inflamados. Ela silenciou Charity com um olhar e então levantou o queixo e endireitou os ombros enquanto observava cada par de olhos que a cercavam. Ignorou o comentário de Charity na sua resposta rude. “O senhor James Callaway é o homem que Joseph contratou para cuidar da propriedade de Mac. Quando Joseph foi esmagado e quase morreu, o senhor Callaway se mostrou um verdadeiro e fiel amigo. Desistiu de seus próprios interesses para cuidar de Joseph, nos assegurou que continuaria a pôr seus interesses de lado até que Joseph fosse capaz de reassumir o trabalho. Contudo, o senhor Callaway pediu para conversar comigo sobre negócios. Para esse fim, eu o convidei a caminhar comigo até o círculo de costura. O senhor Callaway sugeriu em termos generosos comprar a propriedade de meu marido. Estou muito grata a ele por tirar o fardo da propriedade de minha mente.

“Não tenho nada mais para contar a vocês, pois não tenho sido grosseira perguntando-lhe coisas de natureza pessoal à mesa de jantar no hotel, que é a única oportunidade que tenho tido de vê-lo. Ele é muito devoto a Joseph e passa quase todo o tempo em que está acordado atendendo às tarefas requeridas para manter o estábulo funcionando. Não tenho nenhuma razão para pensar nada mais a não ser o bem dele. Na realidade, estou orgulhosa de chamá-lo de amigo. Só hoje - como tenho certeza de que você ouviu, Agnes - começamos a chamar um ao outro pelo primeiro nome. Estou certa de que manterei vocês informadas de todos os detalhes sobre a vida de Jim que eu for capaz de arrancar dele agora que ganhei sua confiança."

A frase final de LisBeth gotejou sarcasmo e não apenas silenciou Agnes Bond, mas também a preveniu da próxima “pescaria”. Agnes tentaria descobrir a identidade de Braddock que Lisbeth havia mencionado na conversa com Jim.

A resposta aguda de LisBeth abafou a conversa pelo resto da tarde. Todas as mulheres desejavam, de coração, que LisBeth tivesse ficado zangada o suficiente para ir embora mais cedo. Assim elas poderiam conversar sobre o assunto. Como ela não saiu, Charity pegou uma cópia do Grandes Esperanças do senhor Dickens e leu em voz alta, enquanto as mulheres costuravam. Lisbeth prestou pouca atenção ao livro e, enquanto Pip se divertia como um cavalheiro, LisBeth se perguntava por que posições sociais não tinham valor para Jim Callaway.

 

Os meus dias foram mais velozes do que um corredor; fugiram e não viram a felicidade. Passaram como barcos de junco; como a águia que se lança sobre a presa. Jó 9:25-26.

Águia que voa alto estava errado sobre o inverno de 1876. Não foi um período de fome para seu pequeno bando. Embora o inverno tivesse sido pesado, com mais neve que o habitual e muitos dias de frio intenso, graças à generosidade de João Nuvem de Trovão, eles tinham o que comer. Inclinados em suas fogueiras, eles se perguntavam o que a primavera iria trazer. Uma família de cada vez dirigiu-se a Águia que Voa Alto, desanimada mas firme na resolução de mudar para a agência. elas foram indo, pouco a pouco, até restar apenas uma tenda solitária, montada por uma mulher velha e um pequeno grupo de pôneis bons, mantidos por um jovem confuso e amargo

Enquanto assistia ao último de seu bando partir, Águia que Voa Alto se virou para Flor do Campo. "Se você quiser ir com eles, eu entenderei."

Ela colocou a mão enrugada sobre o ombro dele e balançou a cabeça firmemente. "Irei para onde você for, Águia que Voa Alto.”

Quando os ventos uivaram ao redor da tenda, eles ficaram do lado de dentro, inclinando-se perto de uma pequena fogueira. Águia que Voa Alto contou novamente a história do estranho encontro com João Nuvem de Trovão, até Flor do Campo memorizá-la. Eles discutiram sobre ir à Agência Santee, mas não fizeram nada. vagaram pela campina indecisos, suportando o inverno e contando histórias do passado.

Os anos tinham sido amáveis com Flor do Campo. Ela tinha envelhecido graciosamente e permanecido saudável, mas durante o inverno uma tosse persistente piorou gradativamente até ela começar a perder a força. Ela resmungava contra isso mas teve de começar a descansar toda tarde.

Águia que voa Alto procurou frutos e folhas de árvores de cedro, ferveu-os e deu a ela o líquido.

o líquido. O remédio tradicional não ajudou muito. Flor do Campo continuou a tossir e a perder a força até que Aguia que Voa Alto passou a cuidar dela por tempo integral. Ela tentava sentar e comer com grande esforço, até que finalmente perdeu o apetite.

"Você tem de lutar", Águia que Voa Alto ordenou. "A primavera virá em breve. Pense como a terra viverá então! O sol aquecerá seus ossos, eu a colocarei em meu melhor pônei, e encontraremos um novo bando e retornaremos aos caminhos antigos."

Com as mãos tremendo, Flor do Campo apontou para a cruz e a corrente que lhe havia dado anos atrás. Ela pressionou sua mão e disse: "Vá. Lembre-se de que você conheceu um bom branco. Lembre-se de que lhe amei como um filho. Deixe-me. Estou velha. Tive uma boa vida. Vá. Eu morrerei aqui e estarei em paz sabendo que você se foi para encontrar o amanhã como o bravo que você é''

Aguia que Voa Alto insistiu: "Eu a levarei comigo, minha mãe."

"Não estou forte o suficiente para fazer uma viagem", Flor do Campo respondeu suavemente. "Não sou forte o suficiente para aprender novos caminhos. Sou parte dos velhos caminhos. Sou parte do que você deve deixar para trás para construir uma nova vida."

Os olhos de Flor do Campo se encheram de lágrimas. "Há um novo inimigo em nossa terra, Águia que Voa Alto. Mas este inimigo não pode ser rechaçado. O homem branco está aqui, e aqui ficará. Ele é muito poderoso para lutarmos contra se quisermos viver. Haverá muitos dentre nosso povo que não serão capazes de se levantar contra o que está acontecendo, mas haverá alguns que correrão bravamente de encontro a esse novo inimigo – assim como nossos mais bravos guerreiros sempre correram para serem os primeiros a encontrar o inimigo nas batalhas antigas." Ela bateu na mão de Aguia que Voa Alto. "Quero que seja um dos que correm para encontrar esse novo inimigo."

“Há muitos deles, Flor do Campo."

“Há muitas maneiras de ter vitórias, meu filho. Talvez você tenha vitória fazendo esse novo inimigo tornar-se seu amigo. Talvez você tenha vitória aprendendo sobre ele e construindo uma vida melhor para você mesmo no novo mundo."

Águia que Voa Alto protestou. "Os brancos oferecem para nós o mundo deles. Querem que os lakotas cultivem a terra. O Grande Espírito não nos instruiu a cultivarmos o solo. Ele nos deu as colinas e as cobriu com búfalos. Ele nos criou para caçar e pescar. Não quero nada com um povo que diz para um guerreiro indígena carregar água nos ombros e pôr as mãos na terra como uma mulher!

Flor do Campo estava ficando cada vez mais fraca, mas forçou a si própria para argumentar com Águia que Voa Alto. "Aguia Que Voa Alto, houve um tempo em que nosso povo não tinha cavalos. Quando os cavalos vieram, alguns tinham medo deles. Outros os adoraram. Mas os mais sábios entre nosso povo pegaram os cavalos e os domaram. E com os cavalos conquistaram esta terra. agora o homem branco chegou. Alguns lakotas estão com medo deles. Mas o mais sábio encontrará uma maneira de ter vitória. Não sei o que o novo mundo tem para você, mas quero que vá em frente para encontrá-lo. Não seja como os outros, sempre lutando para manter os caminhos antigos. Nuvem de Trovão lhe contou de brancos que querem ajudar nosso povo. Se permanecermos nos caminhos antigos, seremos abatidos e os brancos maus terão vitória. Quero que vá em frente, Águia que Voa Alto. Encontre este homem que quer ajudá-lo. Aprenda os novos caminhos. Mostre a eles todos que os lakotas são homens de verdade!

O discurso longo a deixou exausta. Flor do Campo deitou-se de volta no seu couro de búfalo, e seus olhos brilhavam com o desafio que lançara a Águia que Voa Alto. Vendo a fatiga dela, ele se levantou abruptamente. "Vou checar os pôneis." Quando alcançou a abertura da cabana, ele se virou para trás e disse gentilmente: “Você falou com grande sabedoria, minha mãe. Descanse. depois conversaremos mais." Colocou um couro fino de búfalo sobre seus ombros e saiu para checar o pequeno rebanho.

Quando voltou, viu que Flor do Campo havia-se enrolado e caído no sono. Antes de dormir, conseguiu abrir uma frágil bolsa de couro, que ela tinha mantido desde os dias antigos. Seus braços estavam embrulhados em um cobertor branco que pertencera a Caminhando nas Chamas. Flor do Campo o manteve a salvo por anos, embrulhando-se nele somente em ocasiões especiais.

Aguia que Voa Alto ficou em pé, acima de Flor do Campo, e olhando para ela, disse calmamente: " Muitos invernos atrás voltei de uma caça e soube que Caminhando nas Chamas tinha sido levada de nós. Foi um tempo escuro". Ele se agachou ao lado de Flor do Campo e puxou o couro de búfalo ao redor de seus ombros. "Foi você quem trouxe luz de volta a mim. Em todo inverno, desde aquela época, tenho tido uma tenda onde chegar, aquecida e limpa e cheia de amor materno."

Enquanto a cobria com um couro de búfalo, Águia que voa Alto percebeu que aquele corpo não estava mais respirando. Seu grito de dor rompeu a noite.

 

Águia que Voa Alto sentou-se ao lado do corpo de Flor do Campo durante as próximas poucas horas de escuridão, esperando do pela manhã, quando poderia prepará-la para descansar. 11

Pintando o rosto dela de vermelho, ele a vestiu com seu vestido branco de casamento. Ela o havia guardado na bolsa, junto de um par de mocassins muito bordados, feitos anos atrás por Caminhando nas Chamas. Pressionando a tesoura e a caixa de costura de Flor do Campo nas mãos dela, ele amarrou o corpo nos couros de búfalo presos com tiras de couro cru. Assim que o corpo foi preparado, ele saiu e caminhou a beira do riacho que corria ao lado de seu acampamento; ali encontrou uma árvore com quatro galhos fortes. Então carregou o corpo para fora e o colocou no alto da árvore. Sentando-se na base da árvore, Águia que Voa Alto cruzou as pernas e se inclinou contra o tronco, suando e cantando uma canção de morte:

 

       Flor do Campo, você me viu e teve pena de mim.

       Desejou que eu sobrevivesse no meio do povo.

       Grande Mistério, ajude-me, sim, ajude- me!

       Amo tanto meu país;

       Está sendo difícil para mim esta perda.

 

Águia que Voa Alto permaneceu acampado próximo à árvore por quatro dias de agonizante autoprocura e dor. Na manhã do quinto dia , reuniu seus pôneis e levou-os à base da árvore onde o corpo de Flor do Campo jazia. Batendo em suas traseiras e passando as mãos sobre seus pelos grossos, ele disse: "vocês tem sido meus amigos. Preciso correr para encontrar-me com o futuro. Se levá-los lá, os soldados irão tirá-los de mim. Mas estou libertando vocês para irem à terra próxima. Encontrem meu pai, Cavalga o Vento. Ele receberá vocês em seu rebanho e os conduzirá à grama verde e à água fresca. Digam-lhe que o filho dele, Águia que Voa Alto, foi-se encontrar com o inimigo. Digam-lhe que Águia que Voa Alto não ficará parado para ser derrotado. Ele encontrará um caminho para ser um homem no novo mundo.” Vagarosamente, deliberadamente, Águia que Voa Alto matou cada animal até que houvesse um círculo de pôneis ao pé da árvore." Voltando à cabana, ele retirou a frágil bolsa que carregava recordações do passado e a amarrou no pônei mais velho, o qual havia poupado para a caminhada. Então juntou lenha para construir uma enorme fogueira ao redor da tenda.

Acendeu o fogo e montou em seu pônei. Indo na direção sudeste para o velho acampamento. Estava consumido em chamas. Olhando para cima ao céu, ele murmurou: "Descanse Flor do Campo. Estou fazendo o que você pediu. Estou indo me encontrar com o futuro. Procurarei aqueles homens que querem nos ajudar. Aprenderei os novos caminhos. Mostrarei a eles que os lakotas são homens!".

 

O sol nasceu e se pôs sete vezes antes que Águia que Voa Alto subisse em uma colina e visse embaixo um pequeno grupo de construções que formavam a Missão Santee, fundada por Alfred e Mary Riggis há sete anos. O que tinha começado como uma cabana de tronco rude e poucas tendas era agora um grupo de construções. Vendo um fio de fumaça saindo de uma pilha de pedras que subia da construção, Águia que Voa Alto circulou-a, com dúvida, até que encontrou a porta e esperou incerto, ponderando em seu coração.

Por trás dele ouviu a aproximação de um cavalo e, virando seu pônei, viu um índio e uma índia dakota vindo da estrada. Eles se aproximaram cautelosamente. Quando estavam a apenas alguns metros de distância, o homem acenou "paz”. Águia que Voa Alto retornou o cumprimento amigável, e o estranho apeou de seu pônei, passou as rédeas para a mulher e aproximou-se a pé.

"Você vem em paz. Você é bem-vindo aqui. De que lugar distante você vem?"

“Sete nasceres-do-sol – dali. Águia que voa alto apontou o Oeste antes de acrescentar "Conheci um homem chamado João Nuvem de Trovão. EIe me disse para vir às construções dos brancos feitas de árvores na Grande Lama. Disse que eu seria bem-vindo aqui. " Águia que Voa Alto permaneceu em cima de seu pônei. Ele estava tenso e o pônei dançava nervosamente enquanto ele falava. O homem olhou ao redor e perguntou: Onde está seu povo?

“Vim sozinho”

"Meu nome é Tiago Asa Vermelha ", o estranho disse. balançando a cabeça em direção à mulher, acrescentou: “Esta é minha esposa Marta. Nós ajudamos a ensinar aqui. Esta é a sala das garotas. Chamamos de Ninho dos Pássaros. João Nuvem de Trovão vem para nos ajudar a adorar a Deus.” Tiago Asa Vermelha apontou o lado extremo das construções, uma pequena construção com uma cruz no topo. “João Nuvem de Trovão vai ali nos ajudar a adorar a Deus. A casa dele é lá, não muito longe.” Tiago Asa Vermelha apontou para uma fileira de árvores ao sul. “Você está com fome?”

Águia que Voa Alto confirmou.

“Então venha comigo para comer. Depois iremos até João Nuvem de Trovão.

Olhando de Tiago Asa Vermelha, para sua esposa, Marta, e de volta, Águia que Voa Alto viu bondade. Ele relaxou imperceptivelmente. Meses vagando, dias de luto por Flor do Campo, e uma semana viajando para o desconhecido lhe tinham custado muito. No momento seu desejo de lutar havia acabado. Fracamente, Águia que Voa Alto apeou do pônei. Aproximou-se para apertar a mão amiga que Tiago Asa Vermelha havia oferecido.

“Por favor, venha conosco. O senhor Riggs irá ajudá-lo. Ele é um dos que construíram esse lugar de aprendizado. Ele cuida de nosso povo." Enquanto Tiago Asa Vermelha conversava com Águia que Voa Alto, uma porta abriu-se silenciosamente. Águia que Voa Alto se virou para ver dois enormes olhos azuis no rosto de uma criança, espiando curiosamente. A porta abriu-se por inteiro. Por trás da criança havia uma roda de garotas indígenas sussurrantes e uma mulher branca.

Parecia que a criança branca não se importava com o fato de ele ser um dos Sioux selvagens temidos por todo mundo. Encontrando o olhar pétreo de Águia que Voa Alto com olhos azuis igualmente gelados, sem piscar, ela marchou atravessando a porta da casa, para alcançar a medalha dourada dependurada no pescoço dele e perguntar: "Posso ver isso?".

A mulher parada atrás do grupo abriu a boca, assombrada.

Águia que Voa Alto abaixou-se para deixar seus olhos no nível dos da criança. Ela tinha o cabelo igual ao de Caminhando nas Chamas. Seus olhos brilhavam com uma cor igual à dos olhos de sua mãe, de quem sentia saudades. A lembrança de Caminhando nas Chamas abrandou seus traços. Ele não sorriu, mas pegou e abriu a medalha para mostrar à criança o que havia dentro.

"é uma mulher bonita, mamãe. E a outra mulher também. Venha ver, mamãe!", ela falou meio cantando, meio sorrindo. Ainda estava apontando para os rostos na medalha quando sua mãe a agarrou e a puxou para longe do índio selvagem. Enquanto ela quase arrastava a criança, resmungava: "Carrie Brown! O que você pensa que está fazendo?” Enquanto a mulher escondeu-se a salvo na casa, Águia que Voa Alto viu que um lado de sua boca era baixado. Os ossos ao redor do olho daquele lado eram deformados. Sua expressão era a de olhos sempre semicerrados e sobrancelha franzida.

Tiago Asa Vermelha falou: "Tudo bem, dona Brown. Ele parece assustador, mas disse que veio em paz. Ele conhece o pastor João Nuvem de Trovão, por isso acredito nele. Eu já vou levá-lo para o reverendo Riggis. Depois vamos até o Nuvem de Trovão".

Com a ajuda de Marta Asa Vermelha, RacheI Brown espantou as meninas e fechou a porta com bastante força. Águia Que Voa Alto e Tiago Asa Vermelha viraram-se e caminharam até a cabana dos Riggs. Enquanto andavam, Águia que Voa Alto virou-se para olhar para o Ninho dos Pássaros. Dois olhos brilhantes fitavam-no de uma janela fronteira.

 

“Mas Ele os salvou por amor do seu nome.” Salmo 106:8

Águia que Voa Alto se inclinou contra a parede da igreja. Cruzando as pernas, sentou-se para ouvir os sons que fluíam através da janela até ele. Havia-se tornado uma rotina familiar nas poucas semanas que estava naquela agência. A cada sétimo nascer-do-sol, Tiago e Marta Asa Vermelha convidavam Águia que Voa Alto para acompanhá-los até ao culto na igreja. A cada sétimo nascer-do-sol, Águia que Voa Alto recusava. Então, quando o carroção de Asa Vermelha desaparecia de vista, ele corria a pé os seis quilômetros até a igreja. Sempre chegava assim que o coral de índios estava terminando de cantar, e ouvia com desgosto as vozes quentes que se misturavam, não em uma cadência familiar de canções lakotas, mas em harmonias estrangeiras e palavras estranhas.

 

Jesus Cristo nitowashte kin

Woptecashni mayaqu -

(Jesus Cristo, Sua bondade amorosa e infinita, deste a mim)

 

Ele não entendia todas as palavras. Mesmo assim, algo o mantinha sentado lá na poeira, ouvindo o culto. Algo o fazia esforçar-se para ouvir as palavras pronunciadas por João Nuvem de Trovão.

Nuvem de Trovão pregava num dialeto diferente do que Águia que Voa Alto falava. Mas Águia que Voa Alto estava estudando ambos, o novo dialeto e a língua dos homens, por semanas. Diferentemente de muitos brancos, o reverendo Alfred Riggs acreditava que mesmo os índios selvagens eram inteligentes e podiam ler. Ele oferecia instrução para crianças e adultos. Águia que Voa Alto não quis cortar seu cabelo. E não quis abandonar sua roupa nativa. Mesmo assim, aparecia cada dia para abrir as cartilhas simples e aprender as palavras ensinadas.

A língua dos brancos era peculiarmente familiar. Águia que Voa Alto às vezes achava que não estava aprendendo, mas apenas relembrando. Ele não lembrava conscientemente que Caminhando nas Chamas falava com ele nessa língua quando ele ainda nem andava direito pelo acampamento, na época em que não era fluente em lakota. Não se lembrava de que tinha, por um período, pronunciado palavras em lakota com seu pai e em inglês com sua mãe adotiva. Tinha esquecido as palavras há muito tempo. Mesmo assim, os modelos persistiam e auxiliavam seu aprendizado.

Quando Nuvem de Trovão pregou, Águia que Voa Alto se esforçou para ouvir cada som. Ocasionalmente ele ouvia uma palavra ou frase familiar. Sentou-se, ouvindo cuidadosamente, sem se mover, até que a distração habitual veio para tirar sua atenção do sermão sem sentido.

Só quando a mente de Águia que Voa Alto ficou cansada do esforço em ouvir as palavras familiares, Carrie Brown deu uma espiada do canto do prédio da igreja. Assim como fazia todo domingo desde que chegara à missão, Águia que Voa Alto fingiu não tê-la visto. Assim como fazia todo domingo desde que chegara à missão, Carrie caminhou até onde ele se sentava e esperou impaciente que ele olhasse para cima. Quando ele a olhou, apontou para o medalhão e se acomodou na poeira ao seu lado, esperando com expectativa. Águia que Voa Alto retirou o medalhão e o abriu, e a criança repetiu a suave cadência: "Uma mulher muito bonita."

Ele não entendeu o que ela disse, mas a docilidade em sua voz o tocou e ele começou a gostar de sua companhia. Nessa manhã de domingo em particular, Carrie carregava uma boneca de espiga de milho presa nas costas. Fechando o medalhão, ela ficou em pé e impulsivamente colocou o cordão sobre a cabeça de Águia que Voa Alto. Então puxou uma de suas tranças para chamar a atenção e, apontando para a boneca, disse orgulhosamente: "Bebê índio".

Águia que Voa Alto sorriu. Carrie não viu isso, pois ele escondeu o sorriso em seu íntimo. O que Carrie viu foi um movimento relutante com a cabeça dizendo que a havia entendido. Ela sentiu uma alegria infantil por ter, finalmente conseguido arrancar uma reação do estóico índio selvagem. Ela decidiu tentar uma nova conquista. Apontando para si mesma disse: "Carrie".

Águia que Voa Alto olhou para os grandes olhos azuis e repetiu calmamente: “Carrie”.

Os olhos azuis se arregalaram e um sorriso radiante revelou a falta de dois dentes da frente. Um dedo longo e magro cutucou seu peito e uma pergunta surgiu nos olhos azuis. Águia que Voa Alto tomou um fôlego profundo e disse seu nome vagarosamente.

Carrie exultou. Batendo palmas com prazer, ela triunfantemente repetiu seu nome e, quando ele balançou a cabeça, ela se curvou e sussurrou: “Somos amigos agora”.

Águia que Voa Alto balançou a cabeça para mostrar que não havia entendido. O culto na igreja estava terminando. Ele reconheceu o som da oração final. Embora não tivesse idéia do que a mudança de tom significava, sabia que indicava que as pessoas de dentro iriam em breve sair, e isso significava que ele devia partir. Ficando em pé abruptamente, deu umas batidinhas na cabeça de Carrie e saiu, disparando para trás da primeira colina, antes que Tiago e Marta Asa Vermelha surgissem, saindo do culto.

Marta olhou Carrie com expectativa e ficou agradecida em ver que ela balançava a cabeça em resposta à pergunta não feita. Então Marta inclinou-se ao marido. “Ele veio novamente hoje, Tiago. Você acha que ele irá algum dia entrar e realmente ouvir?”

Tiago balançou a cabeça. "Difícil dizer, Marta.”

A conversa deles foi interrompida pela chegada do pastor Nuvem de Trovão. “Vocês estão falando sobre nosso irmão Águia que Voa Alto?” Quando Tiago e Marta afirmaram que sim, o pastor suspirou.

Tiago propôs: “Ele se recusa a aprender a cuidar da terra, mas trabalha pesado nos idiomas a cada dia. Cuida do gado. Está espantado com os cavalos. Mas nunca conversa. Só observa tudo cuidadosamente. Tem feito tudo o que pedimos, exceto trabalhar no campo. Quando mencionamos qualquer coisa relacionada a jardinagem e cultivo, ele só olha pra nós e balança a cabeça de um lado para o outro. Então vai caçar.”

“Acho que ele é solitário”, sugeriu uma voz de criança. Carrie Brown saltou da varanda parando abruptamente para resgatar seu bebê de espiga de milho que caiu do pedaço de pano rasgado usado para amarrá-lo em suas costas.

Marta Asa Vermelha estremeceu. “Bem, solitário ou não, gostaria que ele tivesse pelo menos tentado conversar conosco. Quando olha para mim, pergunto se está tentando aprender ou se está tentando algo.”

Rachel Brown se juntou ao grupo. “Quando ele chegou até aqui e Carrie caminhou até ele, fiquei assombrada. Mas então o observei. Concluí que ele estava tão assombrado quanto eu, só que não demonstrou. Deve sentir-se desesperadamente solitário. Acho que está tentando se agarrar a alguma maneira de continuar a viver.” Raquel acariciou seu queixo torto e olhou amavelmente para Carrie. “Ele deve estar mesmo procurando alguma razão para continuar a viver.”

Houve um silêncio embaraçoso antes de Carrie falar em voz alta: “Bem, se ele é solitário, ele pode vir nos visitar a qualquer hora. Disse a ele que somos amigos agora”, sua testa franziu, “só não sei se ele entendeu”.

O pastor Nuvem de Trovão sorriu para Carrie. “Na próxima vez que vir Águia que Voa Alto, Carrie, faça isso”. Manteve a mão direita à sua frente, a palma para fora, o primeiro e o segundo dedos estendidos. Carrie passou sua boneca de espiga da mão direita para a esquerda e com muita dificuldade imitou o sinal.

“É isso aí. Agora levante sua mão até que as pontas dos dedos estejam na altura de sua cabeça. Aí. Bem assim. Isso significa ‘amigo’ em uma língua que Águia que Voa Alto entenderá”.

Carrie buscou aprovação no rosto da mãe e viu que ela também estava praticando o sinal. Rachel disse suavemente: “Carrie e eu viemos à missão para servir de ajuda. Águia que Voa Alto parece estar sendo cativado por Carrie. As Escrituras dizem que uma pequena criança pode guiar-nos. Talvez o Senhor use Carrie para salvar mais uma ovelha perdida”.

Mais breve do que esperavam, parte da profecia de Rachel Brown foi cumprida. O Senhor realmente usou Carrie na vida de Águia que Voa Alto, mas Carrie foi a ovelha que quase se perdeu, e Águia que Voa Alto foi quem a salvou.

No domingo seguinte, quando Águia que Voa Alto deixou o prédio da igreja, andou por horas antes de caminhar para a ravina sombrosa que marcava a metade do caminho entre a escola e a agência. Num país onde o vento normalmente sopra poeira e areia, às vezes por vários dias, um lugar como este era o preferido. Choupos grandes acompanhavam as margens do riacho que corria forte e claro. Diferentemente da maioria dos riachos na região, este tinha um fundo arenoso branco.

Águia que Voa Alto deslizou para dentro da ravina e assentou-se em uma rocha plana, pretendendo ficar até o sol se pôr por trás dos choupos. Havia chegado lá há poucos momentos quando o intenso murmúrio de uma voz melodiosa e familiar o fez agachar-se e ouvir cuidadosamente.

“Carrie, fique quieta. Simplesmente bem quietinha. Ela provavelmente irá embora se você não assustá-la”.

“Mas, mamãe, ela está levantando sua cabeça para mim. Não gosto dela, mamãe. Estou assustada, mamãe...” A jovem voz estava fazendo todo o esforço para ficar quieta, mas o terror tomou conta das últimas palavras.

“Carrie, você deve ficar quieta. Agora, vou orar com você, e pedirei para Deus fazê-la ir embora. Se você ficar bem quietinha, ela irá embora. Agora, ore comigo. Vamos fazê-lo em dakota. Isso fará que pensemos com mais ardor e nos manterá calmas”.

A voz de Rachel começou: “ Wonmakiye cin Jehowa hee: Takudan imakakije kte sni.”

Como Carrie não se juntou a ela, Rachel perguntou calmamente: “O que vem depois, Carrie? Você se lembra do que vem depois?”.

Um momento e um choro, e Águia que Voa Alto escutou Carrie começar a recitar: “Peji Toto en iwanke maye kta; Wicoozi mini kin icahada yhus amaye kta”.

“Está certo. Agora o que a cobra está fazendo, Carrie?”.

“Ela abaixou a cabeça, mamãe, mas não está-se movendo. Não está indo embora”.

“Vamos continuar com nossa oração. ‘Minagi yuccetu kte Woowotanna canku kin ohna amay kta; Iye caje kin on’.”

Rachel apressou Carrie novamente: “Está funcionando, Carrie. A cobra dormirá e então poderemos ir. Diga o próximo versículo. Sente-se com muito calma e diga o próximo versículo”.

Assim que a voz da criança começou a recitar, Águia que Voa Alto secretamente arrastou-se ao longo do leito do riacho e olhou com atenção através de um espesso matagal. Acima dele, sobre uma colcha, estava sentada Rachel Brown, com os pés descalços dentro da água. Ao seu lado estava Carrie; mas as duas estavam sentadas rigidamente, sem sequer pensar em se mover. A menos de um metro de Carrie, uma enorme cascavel havia emergido de debaixo de uma rocha e observava as duas suspeitosamente, movendo a cabeça para frente e para trás.

Rachel segurava firmemente a mão esquerda de Carrie, tentando permanecer calma enquanto recitavam. Haviam terminado a versão dakota do Salmo 23 e começado em inglês quando Rachel viu um movimento através do riacho. Águia que Voa Alto levantou um dedo aos lábios enquanto se curvava para pegar uma enorme pedra com a mão direita. Então, antes que Rachel pudesse dizer uma palavra a Carrie, ele arremessou a pedra com uma força tão poderosa que esmagou a cabeça da cobra e a fez contorcer em dores mortais.

Carrie deu um berro e pulou. Rachel se sentou tremendo; seu rosto estava branco. Quando Carrie viu quem havia jogado a pedra, correu pelo riacho e lançou os braços ao redor da cintura de Águia que Voa Alto. Rachel soltou lágrimas de alívio e rapidamente cobriu os pés descalços debaixo das saias assim que se levantou , com os joelhos fracos, e tentou agradecer a Águia que Voa Alto.

Finalmente, Carrie se recuperou o suficiente para lembrar a lição do pastor Nuvem de Trovão. Puxando uma das tranças de Águia que Voa Alto para chamar sua atenção, ela cuidadosamente fechou a mão, estendeu dois dedos e fez o sinal de “amigo”. Águia que Voa Alto sorriu, e dessa vez deixou Carrie Brown ver seu sorriso.

“Obrigada, obrigada, Águia que Voa Alto”, Carrie celebrava alegremente, abraçando-o novamente.

Águia que Voa Alto olhou do riacho para Rachel e viu com espanto que ela também estava fazendo sinal de “amigo”. Um lado de sua boca estava virado para cima em uma tentativa de sorrir. Pesarosamente ela esfregou a parte da boca que não queria sorrir.

Águia que Voa Alto alisou o longo cabelo vermelho de Carrie e, apontando para ela, disse: “Carrie, Pássaro Vermelho.” Então olhando para Rachel disse firmemente: “Pássaro Bom”. Rachel corou e se inclinou para pegar a colcha sobre a qual estavam sentadas.

“Obrigada, senhor Águia que Voa Alto. Não sei o quanto pode entender disso, mas obrigada.”

Águia que Voa Alto assentiu com a cabeça antes de se virar. Rapidamente ele subiu o lado da ladeira da ravina e sumiu de vista, antes que Rachel pudesse fazer qualquer tentativa a mais de comunicação. Enquanto Rachel e sua filha caminhavam cuidadosamente pela trilha que as levava do riacho para onde os cavalos estavam amarrados, Rachel começou a tremer novamente com a percepção do perigo em que estiveram e com o exótico salvador que Deus havia enviado em resposta às suas orações por ajuda.

 

Amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus. I João 4:7

 

     Ele decidiu entrar. Nuvem de Trovão levantou os olhos do texto de seu sermão com surpresa e sorriu para ele. Os dois olhos azuis perscrutaram ao redor do banco gasto, na frente da igreja. Antes que sua mãe pudesse detê-la, Carrie Brown correu pelo corredor, pegou na mão de Águia que Voa Alto, e o conduziu à frente.

Rachel Brown deu um sorriso e escorregou no banco, para o lado da janela aberta, dando lugar ao convidado de Carrie.

   Águia que Voa Alto havia se vestido para a ocasião, envolvendo suas grossas tranças em fitas de tecido colorido, usando sua camisa de couro cerimonial e polainas altas e enfeitadas, e adornando seu tufo de cabelo no alto da cabeça com cinco penas de águia que tinha ganhado na batalha. A congregação de homens e mulheres dakotas tentou não encarar com falta de educação, mas a visão de um índio Sioux selvagem cheio de regalias de batalha caminhando no corredor da igreja deles quase causava um reboliço.

   João Nuvem de Trovão acenou com a cabeça a Águia que Voa Alto e retornou ao sermão. Falava em inglês. Águia que Voa Alto ficou feliz em ver que a maior parte do que Nuvem de Trovão disse fazia sentido – linguisticamente.

   O pastor Nuvem de Trovão havia intitulado seu sermão daquele dia de ‘O Morrer que Nos dá Vida’. Águia que Voa Alto entendeu as palavras. Ouviu o pastor ler o texto de II Coríntios.

 

“Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos.”

 

     Águia que Voa Alto se admirava com a habilidade de Nuvem de Trovão ler aquelas palavras e aplicá-las pessoalmente. Pensou como seria bom dizer aquelas palavras e exprimi-las. Eram palavras de um homem que havia lutado uma grande batalha e recusou ser derrotado. Mas como um homem que tinha sido levado de seu próprio país e depois preso podia falar aquelas coisas? Águia que Voa Alto começou a ficar bravo enquanto o pastor falava sobre a mor e perdão. Decidiu não ouvir mais. Mas assim mesmo que estava pronto para se levantar e sair em desgosto, a pequena mão branca de Carrie encontrou o caminho para abrigar-se dentro da pesada mão de batalha do guerreiro lakota.

   Águia que Voa Alto olhou para Carrie. A criança estava radiante de satisfação. Ele não conseguia entender. Sorriu de volta.

   João Nuvem de Trovão fez um sermão que desafiou a congregação naquele dia. Águia que Voa Alto não estava pronto para ouvir aquelas palavras. Mesmo assim, Deus usou a criança para transmitir o sermão que Águia que Voa Alto precisava ouvir. Não requeria palavras, mas tinha um título. Carrie colocou sua mão na de águia que Voa Alto e com isso proferiu o sermão chamado “Amor”.

 

   No dia seguinte ao primeiro verdadeiro comparecimento de Águia que Voa Alto à igreja de Santee, Rachel Brown saiu de sua porta da frente e quase tropeçou em pedaço de casca com uma enorme truta fresca. No dia seguinte havia uma galinha da campina. Mary Riggs comunicou a chegada de uma caça misteriosa no degrau de sua porta certa manhã – bem como o fez Marta Asa Vermelha e Amanhecer Cinzento, a esposa de João Nuvem de Trovão.

   Quando Carrie saiu correndo para fora da porta da escola para o recreio daquela manhã, notou que Águia que Voa Alto caminhava ao lado de Tiago Asa Vermelha enquanto este incitava dois bois brancos da missão a subir uma ladeira íngreme, puxando o carroção de água. O carroção tinha feito sua viagem diária ao rio mais próximo e, quando se aproximou da choupana de Riggs, Águia que Voa Alto levantou um barril para fora da traseira do carroção e carregou para dentro.

   Quando a aula acabou naquele dia, carrie pilou para o local do prédio de uma oficina que em breve seria aberta. Águia que Voa Alto estava ajudando Tiago Asa Vermelha a tirar casca de um tronco cortado. Todo dia a partir de então, Carrie via Águia que Voa Alto ajudando nas tarefas e tomando parte da vida da missão. Ele ainda estava muito quieto, mas trabalhava diligentemente ao alado dos outros homens.

   No próximo domingo, quando Rachel e Carrie entraram na pequenina igreja, Águia que Voa Alto já estava lá, sentado no banco de trás, esperando pelo início do culto. Carrie olhou pra ele sorrateiramente pelos cantos dos olhos enquanto passava por ele e sorriu. Águia que Voa Alto fingiu não vê-la. Mesmo assim, virou uma palma da mão para cima e apertou suas duas mãos juntas. Carrie entendeu. Ele estava agradecendo pelo domingo passado.

   Depois do sermão, Carrir apressou-se para fora para procurar Águia que Voa Alto. “Seu amigo foi caçar Carrie”. Tiago Asa Vermelha disse.

   Carrie enrugou os lábios com desapontamento. Depois de engolir às pressas o almoço, correu para fora para brincar, vagando por perto do arvoredo de choupos do riacho onde ela e sua mãe haviam feito piquenique na última vez. Com cuidadoso olhar ao redor e debaixo de cada saliência rochosa, ela se assentou na margem do riacho e colocou os pés descalços na água clara, cantando suavemente para Ida May, a boneca de espiga de milho. Uma sombra caiu sobre a água e, antes que tivesse chance de olhar, Águia que Voa Alto tinha assentado ao seu lado.

   “Posso ver as lindas mulheres aí dentro novamente?” Carrie disse apontando para o medalhão.

     Águia que Voa Alto tirou o medalhão e entregou-o a ela. Enquanto olhava às mulheres, Águia que Voa Alto apontou para Caminhando nas Chamas. “Minha mãe”. Antes que Carrie pudesse fazer a pergunta, ele explicou a presença dela no meio de sua tribo, terminando com: “Ela tinha o cabelo como o pôr-do-sol, a cor do cabelo de Pássaro Vermelho”.

       Carrie sorriu com prazer antes de perguntar, “Quem é a outra?”

     “Acho que é minha irmã. Ela nasceu depois que Caminhando nas Chamas foi levada da minha aldeia.” Águia que Voa Alto mudou de assunto. Apontou para o horizonte e disse: “Meu pai caçava búfalos lá”.

       Carrie olhou para o rosto triste. Apontando para a cicatriz em sua bochecha esquerda, perguntou sobre isso, e Águia que Voa Alto contou-lhe a história de como ganhara seu nome. Carrie perguntou, cortando a respiração: “Você subiu em um penhasco? Como aquele lá?”, apontou para o topo da ravina. Ele olhou para cima e balançou a cabeça. “Não, muito mais alto”.

     “Acho que tinha um anjo cuidando de você!”

       Águia que Voa Alto franziu a testa. “Anjo. O que é anjo?”

     “Você sabe, um anjo, com asas! Deus diz que existem anjos cuidando de nós.”

       Águia que Voa Alto riu. “Não acho que seu Deus enviaria anjos para ajudar um garoto lakota assombrado tantos anos atrás.”

       “Ele enviaria sim! Ele cuida de todo mundo. Minha mãe disse.”

         Águia que Voa Alto acatou. “Se Pássaro Bom ensinou isso, então você deve acreditar.”

       “Você acreditava no que sua mãe lhe ensinava?”

         Águia que Voa Alto balançou a cabeça. “Ela acreditava.” A memória da velha bíblia embrulhada cuidadosamente em sua bolsa de couro começou a acusá-lo. “Mesmo que eu não acreditasse, ainda lembro.”

         A tarde passou com Carrie fazendo perguntas e mais perguntas. Cada uma delas levava Águia que Voa Alto ao seu povo – de volta à sua infância - e de volta a um tempo em que os lakotas eram os caçadores, não caçados.

   “Por que você é tão triste, seu Águia que Voa Alto?”

     “Não sou triste, Pássaro Vermelho. Os lakotas aprendem a silenciar para se esconder dos inimigos e para pegar a melhor caça. Aprendemos a esperar de maneira que não entremos em batalha insensatamente.”

     “Como você pode ser tão forte?”

     “Um homem entre o meu povo deve ser capaz de ficar sem comer ou beber por dois ou três dias sem reclamar. Deve ser capaz de correr um dia e uma noite sem descansar.”

     “Foi assim que você correu tão longe para conseguir ajuda quando seu pai estava machucado no penhasco?”

     “Foi assim que corri tão rápido.”

     “O que aquelas penas significam?”

     “Elas significam que eu ‘enumerei’ golpes cinco vezes sobre o meu inimigo com nossas mãos ou com uma cara, sem matá-lo. Correr para um homem que atira contra você com espingardas e derrubá-lo com a mão vazia é algo corajoso. Quando meus amigos viram o que eu tinha feito, disseram isso pelo acampamento e permitiram que eu usasse uma pena para cada golpe.”

   “Então você deve se corajoso de verdade!”

     Águia que Voa Alto sorriu. “Há muitos dentre o meu povo que têm mais que cinco penas, menininha. Cinco não é muito.”

     “Você gostaria de encontrar sua irmã?”

       Águia que Voa Alto pensou por um momento. Então deu com os ombros. “Minha irmã não ficaria feliz em encontrar seu irmão.”

     “Por que não? Se eu tivesse um irmão corajoso, eu gostaria de conhecê-lo

     “Porque, pequena”, Águia que Voa Alto se levantou, “acho que matei o marido dela”

       Carrie tentou absorver o significado das palavras, mas Águia que Voa Alto não deu tempo para mais perguntas. “O sol está abaixando no céu. Você de retornar ao Ninho dos Pássaros. Pássaro Bom pensará que um espírito mal veio levá-la embora.”

       Carrie escalou o lado íngreme da ravina. Por trás dela, uma coruja piou. Ela virou de volta no topo da colina e olhou pra trás. A coruja piou novamente. Era Águia que Voa Alto.

     “Faça de novo! Faça de novo!

       Águia que Voa Alto obedeceu, gritando: “Isso é Hinkaya. Como você chama esse pássaro?”

     “Coruja”, Carrie respondeu.

     “A coruja diz que você deve se apresar para ir para casa agora, pequena. Vou segui-la para protegê-la da noite.”

 

Ele disse: Farei isso: Destruirei os meus celeiros, reconstruí-los-ei maiores e aí recolherei todo o meu produto e todos os meus bens. Lucas 12:18

 

   “David, seja razoável. Estamos viajando por trinta e cinco horas inteiras; não tivemos uma refeição decente desde que deixamos Chicago”, Abigail Braddock espiou para fora da porta da estação de trem em Lincoln e exclamou, “e desembarcamos no meio de um lago, pelo amor de Deus! Estaremos em Lincoln por um mês, querido, você não precisa alugar uma carruagem essa tarde e debater-se pela lama. Vamos encontrar a Casa Hathaway, cumprimentar Augusta e a senhora Baird, e ficar lá por uma noite lendo jornal e nos familiarizando novamente com nossas amigas.”

   David Braddock andou para cima e para baixo na plataforma da estação de trem, murmurando pelo clima tempestuoso. Parecia realmente que a estação havia sido construída em uma ilha. A água rodeava a estação e separava os passageiros, das calçadas da cidade de Lincoln.

   “Imaginei algo um pouco mais...”

   Abigail levantou as sobrancelhas e terminou a frase do filho: “Cosmopolita? Isto só existe há dez anos querido”. Abigail espiou, com os olhos semi fechados, por sobre o lago, a cidade ainda nova. “Diria que tiveram um bom começo. E além disso, você não disse que queria chegar antes dos outros investidores? Se todo mundo lá em Filadélfia estivesse de olhos em Lincoln, Nebraska, você jamais encontraria alguma barganha. Não deixe uma chuvinha desencorajá-lo. Onde está seu espírito pioneiro?”

   David se inclinou e pegou a bolsa de sua mãe enquanto dizia: “Qualquer um de nossos amigos daria uma olhada nesse brejo e pegaria o trem de volta pra casa”.

   Abigail sorriu sabiamente e tirou suas luvas. “Até concordo que você está certo.” Ela deu uns tapinhas nas costas dele e provocou: “Mas eles não estão encontrando com uma adorável viúva que neste momento está vindo em nossa direção, em um carroção.”

 David ficou em pé abruptamente e olhou através do brejo. Na realidade, lá estava Lisbeth, sentada perto de um homem incomodavelmente atraente que apressava uma parelha de cavalos a dar passos largos enquanto patinava em direção à estação de trem.

   Abigail e David caminharam para a beirada da plataforma e Lisbeth fez um sinal para o motorista. O carroção encostou e Lisbeth saltou, desculpando-se por estar atrasada, pedindo para o homem, Jim, que ajudasse David com a bagagem, e explicando por que Augusta não viera pessoalmente, tudo de uma vez. “Disse a ela que vocês entenderiam.” Estendendo a mão ela concluiu: “Bem vinda a Lincoln, senhora Braddock.”

   Abigail sorriu calorosamente. Indicando o carroção, Lisbeth se desculpo novamente. “Sinto muito, mas isto foi o melhor que pudemos fazer. É um absurdo, e tia Augusta quase teve um ataque de apoplexia quando Joseph lhe disse essa manhã que a roda da carruagem tinha quebrado justamente hoje.” Olhando para o fino vestido de seda de Abigail e para o rústico carroção, Lisbeth de repente franziu a testa. “Acho que tia Augusta tinha razão. É um absurdo mesmo.”

   Abigail balançou a cabeça: “Não se preocupe, senhora Baird. Lembre-se, sou dinheiro novo, como dizem. Lembro-me de andar em um desses quando o senhor Braddock estava só começando, aqui na minha barriga.” Com um passo rápido, Abigail segurou no assento do carroção e se ergueu . riu um pouquinho e arrumou as saias meticulosamente. Olhando para Lisbeth, abriu um sorriso largo. “Estou velha, mas continuo ágil!” Ela levantou sua sombrinha com um estalo no momento em que David e Jim surgiram da estação de trem puxando duas enormes malas.

   “Eu vou aqui atrás na volta, Lisbeth” Jim ofereceu. “O cavalheiro pode dirigir, se gostar. Se a senhora Braddock não se importar em ficar apertada, vocês três cabem no assento do carroção. Não é tão longe até o hotel.” Sem esperar por uma resposta, Jim segurou no lado do carroção e se inclinou para o fundo.

   David disse: “É um belo par de cavalos , senhor...”

   “Callaway. Jim Callaway, senhor Braddock.”

   Lisbeth subiu ao lado de Abigail , e David lidou bastante com a lama para subir a bordo e pegar as rédeas. Assim que se colocou no assento do carroção, sentiu umidade entrando por debaixo de suas botas novas. Olhando pra baixo, notou com desânimo que estava coberto de lama até quase o tornozelo. Abigail olhou para a bagunça e abafou um sorriso: “Bem- vindo à fronteira, filho”, sussurrou jubilosamente. “Acho que será um ótimo período pra nós dois.”

 

   Em Lincoln, Nebraska, 1877, era costume do jornal diário listar quem estava registrado em qual hotel. Augusta Hathaway e John Cadman, dono do Hotel Cadman, mantinham notas cuidadosas respeitando a lista de hóspedes de seus concorrentes e travando uma guerra amigável para fechar cada ano com um total maior que o do vizinho. Os corretores de terra Walsh & Putman e A. J. Crospsey tomavam nota dos novos visitantes e eram cuidadosos para ‘dar um pulinho’ até a sala de jantar do hotel a fim de convidar prováveis clientes para visitar seus respectivos escritórios. Agnes Bond lia a lista religiosamente – com motivação nada religiosa. Na manhã seguinte que David e Abigail Braddock se registraram na casa Hathaway, Agnes Bond leu a lista e dirigiu-se apressadamente para a horta delas, onde Charity trablhava.

   “David Braddock , Charity, onde ouvi este nome antes?”

   Charity endireitou-se e inclinou-se contra o cabo de sua enxada antes de responder: Não posso dizer que me lembro, mãe.”

   “Bem, pense, garota! David e Abigail Braddock estão na lista aqui como registrados no Hotel Casa Hathaway ontem. Olhe, escute isso” Agnes leu: Entendemos que há vários capitalistas na cidade, entre eles o senhor David e a senhora Braddock da Filadélfia. O boato é que, se as coisas saírem bem, eles investirão grandemente em Nebraska bens reais. Espero que se agradem com aquilo que vêem.

   “Agora”, continuou Agnes, “sei onde ouvi...” Agnes parou no meio da frase. “Achei! Lembro agora. No outono passado, quando ouvi Lisbeth ...” Charity sorriu astuciosamente e o sorriso dela trouxe Agnes rapidamente de volta.

   “Quero dizer, no outono passado quando entrei na igreja e ouvi acidentalmente que Lisbeth planejava vender a propriedade de Mackenzie para aquece tal Callaway, Lisbeth disse: - ‘Estava pensando em conversar com David Braddock sobre o local’. Agora David Braddock apareceu em Lincoln. Aposto que ela o conehceu no Centenário. Agora a pergunta é: quem é Abigail? Sua esposa ou sua mãe?”

   “Mãe!” Charity não estava com paciência em ouvir a fofoca da mãe. Censurou: “Tenho de cavar essa horta e plantar as cenouras antes que chova novamente. Se quer saber quem é David Braddock, por que não chama a senhora Hathaway e pergunta a ela?”.

   “Charity!” Agnes insistiu. “Nunca poderia fazer isso! Não seria educado!”

       Charity arrumou o chapéu e voltou ao trabalho. “Então pense em uma maneira educada de descobrir o que a senhora quer saber.” Querendo brincar ela acrescentou: “Convide-os para a igreja. Seria bastante inocente.”

   Agnes se encheu de prazer. “Perfeito, Charity! Perfeito. Vou convidá-los para a igreja.” Agnes já estava dobrando o jornal e entrando na casa para cumprir sua tarefa cristã. Charity percebeu com um ligeiro toque de amargura que mais uma vez desempenharia sozinha as tarefas domésticas, enquanto sua mãe rapidamente iria descobrir uma nova fofoca. Suspirando, Charity fez uma rápida oração pedindo paciência, principalmente contra os ataques severos das imaginárias ervas daninhas.

   Abigail Braddock estava saboreando seu café da manhã quando sobre os ombros de David, viu que Lisbeth tinha sido encurralada por uma enorme mulher usando um antiquado chapéu enfeitado com longas e ridículas penas de avestruz. A todo movimento de sua cabeça, as penas giravam e balançavam. Os olhos de Abigail brilharam entretidos enquanto observavam a mulher. O entretenimento sumiu quando ela percebeu que o rosto de Lisbeth estava corado e ela balançava clamorosamente a cabeça de um lado para o outro, tentando levar a mulher para fora da sala de jantar o mais discretamente possível. Mas a mulher não estava disposta a ser guiada. Retirando, com força, seu cotovelo da mão de Lisbeth, ela virou a cabeça em direção à mesa dos Braddocks e disse, alto o suficiente para ser ouvida: “Mas é claro que eles devem ser apropriadamente recebidos em Lincoln, Lisbeth. Quero simplesmente convidá-los para nossa noite social de sábado na igreja. Certamente não fará mal nenhum.”

   Agnes dirigiu-se rapidamente à mesa e muito desconfortavelmente Lisbeth a seguiu. Agnes andou pela sala de jantar fazendo barulho esbarrando e derrubando o jornal aberto sobre o qual David passava os olhos. Ele olhou surpreso para cima e então se levantou rapidamente para cumprimentar Lisbeth com um sorriso caloroso.

   Agnes estendeu a mão e Lisbeth rendeu-se: “Senhor Braddock, senhora Braddock, essa é a senhora Agnes Bond. Poucas pessoas que vêm a Lincoln escapam da civilidade desta senhora, e aqueles que a conhecem, jamais se esquecem.” Virando-se para Agnes, Lisbeth disse: “ Senhora Bond, permita-me apresentar-lhe o Senhor Braddock e sua mãe, senhora Abigail Braddock, de Filadélfia.”

   “Senhor Braddock, senhora Braddock”, as plumas de avestruz balançaram para cima e para baixo energicamente. “Bem - vindos a Lincoln!” David permaneceu em pé e balançou a cabeça.

   Abigail colocou sobre a mesa sua xícara de café e replicou remotamente: “Obrigada, senhora Bond. Nós tivemos uma boa recepção de Lisbeth e Augusta.”

   Ah, eles se tratam pelos primeiros nomes. “Lisbeth nos contou sobre sua viagem a Filadélfia.”

   “Verdade.” Abigail se virou a David. “David, querido, não queremos atrapalhar seus negócios. Sei que você tem um compromisso com o senhor Gere para ver o escritório do jornal. Por favor, querido, vá.”

   David acenou com a cabeça e deixou a sala de jantar sem uma palavra.

   Agnes percebeu: Ele não disse uma palavra para Lisbeth. “Jovens!”, ela exclamou. “Eles sempre têm negócios importantes e urgentes.”

   Abigail mudou de assinto. “Obrigada pelo trabalho de vir nos ver, senhora Bond. Tenho certeza de que nos encontraremos novamente.” Ela ficou em pé.

   “Vim para convidar a senhora e seu filho para nossa noite social na igreja neste sábado. É uma igreja pequena, com certeza nada comparada àquelas com as quais a senhora está acostumada em Filadélfia”. Eles vão à igreja? Agnes observava Abigail para uma dica, mas os olhos da mulher mais velha estavam sombrios e ela não deu nenhuma resposta a não ser dizer graciosamente: “Obrigada, senhora Bond. Com certeza farei com que David saiba de seu amável convite. É claro, nós acabamos de chegar á cidade e, como ainda é cedo e é o nosso primeiro dia aqui, não tivemos tempo de discutir nosso programa. Agora, se me der licença...”. Abigail passou por Agnes e subiu para o seu quarto.

   Agnes se virou para observá-la, balançando sua cabeça incertamente e voltando sua atenção a Lisbeth. “Que mulher adorável!” disse docemente. “Certamente da classe alta em Filadélfia. Você pode me contar agora mesmo.”

   Lisbeth começou a limpar a messa, juntando a louça com muito barulho enquanto dizia entre dentes cerrados: “A Casa Hathaway se orgulha em servir as refeições de seus hóspedes em privacidade Agnes.” Levantando uma bandeja cheia de louça, Lisbeth se dirigiu à cozinha. Assim que Agnes se virou para ir, percebeu que David Brraddock havia deixado o jornal que estava lendo enrolado em sua cadeira. Ela se dobrou para pegá-lo e o carregou para casa, onde se deleitou em descobrir que os braddocks da Filadélfia tinham realmente vindo a Lincoln procurando terras, pois lá estavam os anúncios da A. J. Crospsey’s e de J. P. Lantz’s.

   “Sinto muito, David”, Lisbeth disse enquanto forrava a útima mesa de jantar com uma toalha de linho limpa. “Não posso amanhã. Lavamos roupa na parte da manhã e a tarde tenho meu círculo de costura.”

   “O dia seguinte, então?” David pegou um monte de guardanapos e começou a ajudar Lisbeth a pôr a mesa.

   “Pare com isso!”, ela exclamou, tomando os guardanapos dele. “Augusta nunca me perdoaria em deixar um hóspede pôr sua própria mesa!”

   David olhou para Lisbeth seriamente. “Suspeito que Augusta e minha mãe estão em uma profunda discussão e não ouviremos nada de nenhuma delas novamente essa noite. E” acrescentou com ênfase, “tenho a impressão de que Augusta entenderia meu desejo de estar aqui – e o meu desejo de não me assentar preguiçosamente enquanto você trabalha.”

   Lisbeth colocou o último dos guardanapos e começou com os talheres. David tentou novamente. “Bem, então, que tal quarta-feira?”

   “Não, não daria também. Na manhã de quarta-feira passamos os linhos, e então é dia de reunião da Sociedade Missionária de Senhoras.”

   “Quinta-feira”

   “Tenho de preparar para lecionar na Escola Dominical.”

   David colocou ambas as mãos sobre a mesa diante dele e disse vagarosamente: “Senhora Baird, mamãe e eu estamos em Lincoln por quase duas semanas, e, exceto nos momentos em que sou servido pela senhora nesta sala de jantar, não fui bem sucedido em passar um único momento com a senhora. Tenho a distinta impressão de que está tentando me evitar.”

   Lisbeth corou. “Não! Só estou ocupada, só isso.”

   “Você não estava ocupada para sair com Jim Callaway na segunda.”

   Ela estava de costas, mas ele viu seus ombros cair levemente ante que respondesse. “Jim me levou ao túmulo de minha mãe. Dificilmente seria uma tarde social.”

   “Sinto muito, Lisbeth não sabia.”

   “Pensei que tivesse vindo a Lincoln para investir em propriedades.”

   “Eu – nós viemos. Mas”, era a vez de David ficar intranqüilo. “Perdoe-me a ousadia, mas há muitas cidades no oeste onde os investimentos seriam até mesmo mais promissores que em Lincoln, Nebraska. No entanto, há só uma cidade no oeste onde reside certa viúva adorável.”

   Cuidadosamente, Lisbeth terminou de pôr a mesa e se virou para encarar David. Seus olhos estavam grandes e solenes. “David, você é realmente um homem muito amável e atraente. Tenho começado a amar sua mãe – sinceramente, tenho. Mas”, o queixo de Lisbeth tremeu, e ela apertou os lábios firmemente e limpou a garganta antes de continuar, “nesta época no ano passado, eu estava recém casada.” Ela teve de parar novamente. Uma mão subiu até a garganta. Seus olhos se encheram de lágrimas.

   “Sinto muito.” David se aproximou para pegar a mão dela, mas ela balançou a cabeça e se afastou. Batendo o pé ela recuperou o controle. “É estranho, mas às vezes fico tão zangada com tudo isso que poderia até berrar. Não é justo. Eu amava tanto o Mackenzie... Fico zangada com o General Custer por tê-lo conduzido à morte e zangada com os índios Sioux que o mataram, e então fico zangada comigo mesma por odiá-los quando eles estavam apenas tentando defender o que era deles. Por fim fico zangada com Deus, porque Ele poderia ter evitado toda essa confusão, e não o fez. E quando fico zangada com Deus, não consigo orar, o que minha mãe me diria para fazer.”

   Ela sorriu pesarosamente enquanto enxugava lágrimas errantes. “E então fico realmente louca porque fico zangada com minha mãe por ela não estar aqui para me ajudar.”

   David se apressou em desviar o assunto de Mackenzie: “Augusta e Sarah Biddle só têm palavras carinhosas a respeito de sua mãe. Ela deve ter sido uma mulher surpreendente.”

   Lisbeth olhou para o teto e piscou os olhos antes de suspirar e dizer fracamente: “Não, não havia nada particularmente excepcional sobre mamãe. Você poderia caminhar bem ao lado dela na rua e nunca notá-la. Ela cozinhava e limpava e então levantava para fazer tudo isso novamente. Além de suas colchas e seu bom obituário no papel, não há nada deixado para até mesmo marcar que ela viveu.”

   “Tenho que discordar disso, Lisbeth. Há você.”

   “Sim há a minha pessoa.” E há um bravo lakota em algum lugar – se ele ainda não tiver sido morto, Lisbeth pensou, mas não mencionou Águia Que Voa Alto. “Acho que ainda resta ver o que será feito de mim.”

   “Eu esperarei.” David disse em voz baixa.

   Uma brisa noturna balançou as cortinas de musselina, e Lisbeth espantou seu humor negro e sorriu. “Bem, estou me mantendo ocupada. Augusta sempre diz ‘O tempo sempre cura todas as feridas’. Espero que ela esteja certa.” Estava séria novamente. “David, gosto da sua amizade. Mas não tenho certeza se serviria para ser uma boa amiga agora.”

   David a interrompeu: “Bem, falando como amigo, posso levá-la para um passeio de carruagem no sábado? Convidarei Augusta e minha mãe também. Augusta tem um conhecimento tremendo da área, e estou interessado em adquirir mais terras.”

   “Mais terras?”

   David sorriu. “Bom, é. Assinei papéis essa manhã na imobiliária do Cropsey por alguns quarteirões na cidade.”

   “Alguns quarteirões na cidade?”

   “Só alguns. Agora quero acrescentar alguns alqueires agrícolas na minha pasta. Você conhece alguns bons fazendeiros que querem dinheiro rápido?”

 

   Era tarde de sábado, e Lisbeth e David, Augusta e Abigail dirigiam-se ao sul na rua 9, do outro lado da velha Quadra do mercado, no escritório J. P. Lantz, onde David fora buscar informações sobre algumas fazendas disponíveis.

   “Cinqüenta milhas de qualquer lugar”, bufou Augusta. “É isso que costumam dizer sobre nós. ‘Na beira do Grande Deserto Americano. Sem rio navegável. Esquecido por todos os primeiros exploradores. Evitado pelas grandes trilhas para o oeste. Nada além de girassóis e sal.’ O sal foi o que trouxe as primeiras pessoas aqui. Apesar disso, eles fizeram uma grande indústria. Não que eu queira culpá-los, mas não funcionou. Tudo bem. Nós estagnamos. Agora que conseguimos a estrada de ferro, estamos crescendo rapidamente. Um dia qualquer, vou dar um grande jantar na Casa Hathaway e convidar aqueles arrogantes e dizer que eles nunca fariam isso. Servirei a eles uma refeição grátis – com corvo como prato principal!”

   Augusta deu uma risadinha quando Lisbeth interrompeu: “Seria melhor fazer algumas perguntas logo, senhor Braddock, ou terá de ouvir o monólogo inteiro de tia Augusta.”

   A carruagem parou rispidamente na porta 1.110 da rua O. uma frente falsa dava ao prédio aparência muito mais imponente de um prédio de dois andares. Acima da porta, o endereço estava pintado em uma placa. Letras douradas na janela anunciavam a Imobiliária de J. P. Lantz. David saltou da carruagem e entrou, voltando em poucos minutos com várias folhas de papel que entregou à Augusta.

   “Posso abusar da senhora, pedindo para olhar e me dizer o que acha? Se houver algo que valha a pena, talvez pudéssemos dar uma passada perto da propriedade.” Enquanto falava, David conduziu os cavalos para leste rua O abaixo. Chegando á rua 17, ele virou rispidamente à direita e passou pelo prédio do Capitólio do estado, à direita e a mansão do pertencente ao ex-Secretário de Estado Thomas Kennard. Ele puxou os cavalos e gesticulou preguiçosamente para o sul. “Aquele é um dos terrenos que adquirimos, mamãe.”

   Augusta interpôs: “perto do Capitólio, David boa idéia. Em pouco tempo, terá um bom retorno no seu investimento aqui. Na realidade, conheço alguém que poderá estar interessado nele em meses.”

   “Oh, não vender esta propriedade, senhora Hathaway. Vou melhorá-la primeiro.”

   Abigail aproveitou a brecha e disse: “Bem, Augusta, faz algum tempo que tenho desejado um projeto mais pessoal; agora David e eu decidimos que haveremos de gozar de umas pequenas férias em nossa própria casa no ‘oeste selvagem’. Estamos pensando em construir na propriedade – se você puder nos suportar por perto agora e depois.”

   Augusta disse em voz alta: “Suportar vocês? Estou encantada! Lincoln será honrada por ter pessoas tão finas incluídas ao diretório de nossa cidade, não é Lisbeth?”.

   Sentada perto a David, Lisbeth balançou a cabeça e virou-se para Abigail. “Senhora Braddock, seria maravilhoso tê-los aqui.”

   O rosto de David corou com prazer, enquanto Abigail explicou feliz: “Vamos voltar para casa no final da próxima semana para encontrar um arquiteto, móveis e jardineiro.”

   David acrescentou: “E uma governanta.”

   “Não, David, já encontrei a governanta ideal, isto é, se eu puder convencê-la a isso. Mas primeiro preciso ter certeza de que não estarei perdendo uma amiga se a contratar. Augusta”, Abigail virou o rosto para sua amiga, “você ficaria muito ofendida se eu pedisse para Sarah Biddle ser nossa governanta?” Abigail se apressou em explicar: “Sei que ela é dedicada a vocês. Nem sonharia em convidá-la se você achar que isso seria de algum modo, negativo. Não sei quais são seus planos para o futuro dela. Mas se ela ficasse conosco, cuidaria para que tivesse todas as vantagens. Assim como Tom; concordo com você que aquele garoto tem grande potencial. Gostaria de vê-lo continuar estudando e talvez freqüentando a universidade algum dia. Poderia ajudar com isso, mas somente se eu não estiver ultrapassando meus limites. Se você tiver alguma objeção, por favor diga, e procurarei uma governanta em outro lugar.”

   Augusta permaneceu calada por um longo tempo, examinando o lugar que achava ótimo para uma bela mansão. Finalmente, disse com bastante calma: “Odeio admitir, Abigail , mas não posso oferecer a Sarah mais que um trabalho fixo. Não sou pobre, mas não sou rica também, e prometi a Jesse King anos atrás que, o que quer que eu tivesse nesse mundo um dia pertenceria a Lisbeth.”

   Embaraçada, Lisbeth interrompeu: “Tia Augusta por favor!”.

   “Agora não me venha com ‘Tia Augusta’, Lisbeth. Não tenho muito. Mas o hotel eu tenho. Você tem trabalhado tão arduamente todos esses anos; estou contente por ter tido ajuda nos últimos meses. Significa menos trabalho para você. Mas de alguma forma significa trabalho mais difícil para Sarah. Ela tem supervisionado tudo pra mim esses dias. É uma benção, não reclama nem um pouco. Mas sei que é difícil pra ela. Uma jovem como aquela deve ter sonhos – e uma maneira de torná-los realidade. Ser governanta de uma senhora rica é um bom passo a mais do que trabalhar na cozinha do Hotel e Casa Hathaway. O que é justo é justo, e eu não pensaria em atrapalhar o futuro de Sarah. E, Abigail”, Augusta se aproximou para bater na mão de Abigail, “Deus a abençoe por entender que, onde quer que Sarah vá, Tom irá também. Meu coração ficará partido por perde-los, mas ele cola de novo. Pergunte a Sarah. Vou conversar com ela pra que não fique com nenhuma lealdade tola a mim. Ela vai dizer que sim. E será a melhor governanta que você já teve.”

   Augusta piscou rapidamente e farfalhou os papéis em sua mão, lendo-os rapidamente e gritando, até alto demais: “Aqui, David, Aqui! Essa uma é bem ao sul da cidade, a poucos quilômetros da propriedade do Mackenzie, quero dizer da Lisbeth.”

   Lisbeth interrompeu: “É a fazenda do Jim Callaway agora, tia Augusta. Assinamos todos os papéis há dois dias. Ele me pagará dez dólares por alqueire durante dez anos.”

   David franziu a testa. “Termos muito generosos, Lisbeth. Muita coisa pode acontecer em dez anos.”

   “Não vendi o local para conseguir dinheiro. Vendi porque Mackenzie não gostaria de vê-lo estragando, e Jim Callaway parece ter um amor sincero por aquela terra.”

   Lisbeth virou para olhar atrás a Abigail e Augusta. “Ele até mesmo plantou um caramanchão de rosas perto da casa. Disse que sua mãe sempre teve rosas. Os pais de Mac estão enterrados lá, e ele limpou os túmulos deles e também plantou rosas lá.”

   Abigail entendeu. Gentilmente, ela disse: “Acho que Mackenzie se orgulharia do local, Lisbeth. Tenho certeza de que ele aprovaria sua venda a Jim Callaway.”

   David estava quieto, e Augusta continuou a história da área.

   Enquanto se distanciavam de Lincoln e se aproximavam de Roca, o vento começou a soprar mais quente. Abigail e Augusta abriram seus guarda-sóis, mas Lisbeth jogou a cabeça atrás e inspirou o ar quente, festejando o brilho do sol. As mulheres idosas passaram a falar dos planos para Sarah e Tom, e Abigail começou a descrever a Augusta sua visão para a casa nova.

   David falava ocasionalmente com a parelha, mas, fora isso, parecia perdido em seus pensamentos. Lisbeth ouvia as calhandras e notava o esverdeado dos campos com prazer. Finalmente, Augusta gritou: “Aqui, David, vire a oeste aqui. O velho lugar dos Ellis deve ser logo acima desta colina - se as direções da imobiliária estiverem certas.”

   Eles atravessaram um caminho bem sinuoso até dentro do pátio da fazenda. Lisbeth saltou enquanto David ajudava sua mãe e Augusta a descer da carruagem. Um choupo enorme, elevando-se acima de uma pequenina casa de pedra abandonada, era a única sombra à vista.

   “Não parece muito promissor, não é?”, David murmurou a Lisbeth. Mas Lisbeth estava entusiasmada.

   “Acho maravilhoso!”, ela exclamou. “Vamos entrar.”

   “Vocês vão na frente, crianças”, Abigail gritou. “Nós pegaremos os sanduíches e forraremos uma toalha debaixo dessa árvore. Estou faminta!” Ao ver a principal anfitriã da Filadélfia preparando um piquenique na campina de Nebraska, David sorriu.

   “Lembra-se de ter perguntado onde estava o meu ‘espírito de pioneiro’, mãe? Acho que sei – ele está inteirinho na senhora.”

   Seguiu Lisbeth para dentro da pequenina casa. Havia panos velhos e louça quebrada espalhados pelo chão. Uma cadeira quebrada estava apoiada contra a parede.

   “Olhe David”, Lisbeth gritou. Na parede da esquerda da sala havia uma armação com um pedaço de bordado pendurado. O vidro estava quebrado, e um vazamento no telhado acima tinha manchado as linhas. Mesmo assim as palavras “Lembre-se de mim” permaneciam em um bordado rosa escuro e azul. Lisbeth tremeu e olhou o chão sujo ao seu redor.  

   David murmurou: “Pergunto-me o que fizeram deixar tudo assim. É como se uma tempestade tivesse vindo e sacudido tudo isso, formando uma pilha”.

   “Houve uma tempestade”, Lisbeth explicou: “Gafanhotos. Eles vieram muitas vezes. Lembro-me dos rostos das pessoas que vagavam para dentro da cidade naquele verão. Assombrados. Tudo perdido.” Lisbeth olhou ao redor e acrescentou: “Foi assim que conheci Mac. Os gafanhotos levaram seu pai a – a tirar sua própria vida. Mac não podia mais ficar então. Ele teve de sair, foi para Lincoln .” Repentinamente Lisbeth fugiu para fora, livrando-se das memórias, apressando-se para o lugar que Augusta e Abigail haviam preparado para o almoço.

   Augusta apontou para o reservatório de água. “Há água aqui. É bom sinal. Eles encontraram água não muito longe. Você deveria pedir para Jim Callaway olhar a terra toda. Lisbeth diz que ele tem ótimo tino para reconhecer uma boa terra de fazenda.”

   David foi rápido em replicar. “Já decidi comprar este lugar. Não precisarei da ajuda do senhor Callaway.”

   O tom brusco não passou despercebido à Augusta, mas Lisbeth não estava tão atenta. Ela sugeriu: “No caminho de volta a Lincoln devíamos parar para vê-lo.”

   “Devemos voltar. Quero assinar os papéis.” (nota de quem está digitando... arrrg!!! Que cara mais chato esse David!!! Filhinho da mamãe! Aff!)

   Lisbeth acrescentou: “E eu adoraria que vocês vissem a propriedade de Mac.”

   “É claro..., posso assinar papéis amanhã logo cedo.” David mudou de idéia no meio da frase. Em pouco tempo eles haviam almoçado, subido de novo na carruagem e iniciado um pequeno passeio à fazenda de Mac. Quando viraram já em direção à casa, Lisbeth balançou a cabeça com satisfação, pois uma fila de choupos tinha sido plantada de cada lado. Um dia haveria um caminho à sombra de um arco para receber os visitantes no local.

   Assim que a carruagem parou no pátio da fazenda, Jim Callaway saiu do celeiro, de rosto carrancudo. Vendo Lisbeth e Augusta, ele sorriu e acenou. David desceu e os dois homens trocaram apertos de mão.

   “David está comprando o velho local dos Ellis, Jim”, Lisbeth explicou. “Vocês serão vizinhos.”

   Jim forçou outro sorriso e disse serenamente: “Não sabia que você tinha interesse em fazendas, senhor Braddock”.

   “Não tenho, só uma terra boa. Comprei o local como investimento.”

   Os dois homens não tinham mais o que dizer um para o outro. Jim se virou abruptamente para as mulheres na carruagem e tirou o chapéu. “Perdoem minhas maneiras, senhoras. Posso lhes oferecer um copo d’ água?

   Abigail respondeu: “oh, muito obrigada, senhor Callaway. Nós precisamos voltar para Lincoln. Só pensamos em dar uma paradinha e dizer olá. Lisbeth nos contou sobre o trabalho maravilhoso que o senhor tem feito com a propriedade do marido dela”. Abigail olhou ao redor, apreciando. “E ela estava obviamente certa. Posso ver que ela se alegou em vender para o senhor.”

   Jim sorriu calorosamente. “Obrigado, madame.”

   Eles se despediram e David subiu de volta à carruagem. Enquanto a carruagem virava, Lisbeth gritou: “David, espere. O quê? Alguém pôs mais um...”

   Jim, que estava voltando ao celeiro, virou-se e percebeu para o que Lisbeth estava olhando. Ele andou rapidamente para a carruagem e olhou para ela. “Espero que não se importe Lisbeth. Lembrei-me do que você disse – sobre não ter um túmulo. Espero não ter ido longe demais.”

   Lisbeth segurou as lágrimas e sorriu calorosamente para Jim. “Oh, Jim... é ... estou tão...” ela olhou pra baixo para suas mãos e disse tranquilamente: “Obrigada.”

   “Queria ter a cerca pronta antes de mostrar para a senhora. Pensei que uma cerca de balaústre ficaria bem, então mais flores.”

   Augusta interrompeu: “Jim Callaway, Joseph Freeman disse no primeiro dia que lhe conheceu que sabia que você era um homem bom. Nunca duvidei disso, mas, se um dia duvidasse, isto mudaria tudo.”

   Todos olhavam para a pequena área de sepulturas. Ao lado das duas grandes pedras que diziam “Ma” e “Pa”, Jim havia colocado uma terceira que dizia “Mac”.

   “Desculpe-me por ser amador, Lisbeth. Queria que trouxesse o nome dele todo e as datas.”

   Lisbeth aproximou-se do canto aberto da carruagem e colocou a maõ sobre o ombro de Jim . “Está perfeito. Eu não faria isso de nenhum outro modo.” Ela olhou pra ele, com olhos brilhantes. “Eu poderia, vir plantar as flores com você?”

   “Quando quiser. Terei a cerca pronta em uma semana.”

   Enquanto a carruagem desceu a estrada, Abigail Braddock comentou: “Que coisa mais amável para fazer.” Ela se virou para Lisbeth. “Obrigada por insistir em darmos uma paradinha, Lisbeth. Você nos permitiu conhecer a parte mais linda de Nebraska – seu povo.”

 

   Digo a Deus, minha rocha: Por que te olvidaste de mim? Por que hei de andar eu lamentando sob a opressão de meus inimigos? Salmo 42:9

 

   “Agora, Asa, pare de preocupar-se com ninharias e atrele a carruagem para mim. Joseph me ensinou a dirigir muitas vezes, e quero sair da cidade cedo, antes que alguém se convide pra ir junto.”

   Enquanto Lisbeth falava, Asa Green tirou as mãos do bolso, conduziu um dos cavalos mais velhos para fora do estábulo e começou a arreia-lo na carruagem. Ele balançou sua cabeça de um lado para o outro. “Agora o que é que eu vou dizer a Joseph quando ele voltar da pescaria e descobrir que a deixei sair sozinha?”

   “Só diga que coloquei isso na cabeça e não havia como mudar”, Lisbeth falou enquanto subia na carruagem e pegava as rédeas. “Ele saberá que você não teve escolha, Asa, e não terá nenhuma razão para ficar bravo com você.”

   “Para onde vai, no caso de alguém perguntar?”

   “Para fora da cidade, Asa. Fora e longe. Preciso de algumas horas para pensar. Preciso ficar só por um instante. Diga a Joseph que eu precisava de algumas horas sozinha. Ele entenderá.”

   “Quando você volta, no caso de dona Augusta perguntar?”

   “Quando eu resolver o que preciso resolver.” Lisbeth deu um golpe com as rédeas e partiu, deixando Asa em pé na porta da cocheira. Enquanto seguia para o oeste na rua Q em direção ao depósito Burlington, Lisbeth escutou Asa gritando atrás dela, mas ela fingiu não ouvir, apressando a égua para um trote.

   O ar estava fresco e limpo, e por um tempo nenhum vento soprou para levantar a poeira da estrada. Depois de jogar uma rápida e fria neve sobre Lincoln, a natureza tinha trazido exuberantemente a primavera para a terra, espalhando verde-brilhante sobre a campina dormente. Nos últimos dias, milhares de pássaros migrantes tinham sobrevoado a cidade, fazendo tanto barulho que Lisbeth e Sarah se viram correndo várias vezes para fora para observar os grandes bandos se dirigindo para o norte.

   Lisbeth sentiu como se estivesse dirigindo só há poucos momentos, mas ela já tinha alcançado a curva que levava à propriedade. Enquanto guiava a carruagem por entre as filas de arbustos de choupos, sorriu, imaginando que a estrada com sombra um dia receberia visitas à casa branca da fazenda.

   Não havia sinal de vida na fazenda. Lisbeth olhou nervosamente. O cachorro de que Jim havia se tornado amigo na cidade não estava em nenhum lugar que pudesse ser visto. Estranho, Lisbeth pensou, Jack normalmente salto do celeiro pra dizer olá. De repente o cachorro rompeu pelo lado do celeiro, com certo ar de urgência, latindo para Lisbeth, correndo e virando no celeiro, então de volta à carruagem.

   Lisbeth desceu da carruagem e correu atrás de Jack. Ele a levou ao longo de um solitário córrego que ia do canto do curral para uma pequena subida ao leste.

   “Jim!” Lisbeth gritou, “Jim Callaway! Você está bem?” Nenhuma resposta veio e, quando ela chegou no topo da colina, Lisbeth viu por quê. Ele estava deitado inconsciente no chão, com um filete de sangue vertendo se sua têmpora esquerda e correndo em direção ao cabelo ruivo.

   Ajoelhando-se ao seu lado, Lisbeth colocou a mão sobre a testa dele. Ao toque fresco de sua mão Jim murmurou.

   “Jim não se mexa. É Lisbeth. Já estarei de volta.” Lisbeth estava de pé novamente, apressando-se para o celeiro, gritando pelos ombros: “Não se mexa!”.

   Mas Jim se mexeu. Durante o tempo em que Lisbeth tentou carregar um balde de água do reservatório, correr até a casa para encontrar um pano, e voltar pelo campo, Jim sentou-se, com os cotovelos sobre os joelhos dobrados e a cabeça em suas mãos.

   Enquanto Lisbeth lutava contra o mato alto da campina, a água do balde espirrava sobre suas saias. Jim gritou: “Não se preocupe, Lizzie, não é tão mal”. Não estou morrendo. E agora você me faz isso, Jim pensou. Não está certo chamá-la de Lizzie na frente dela – ainda não.

Lisbeth se apressou de qualquer forma, sentou-se ao lado dele torcendo o pano enquanto zombava: “Sei que não está morrendo, Jim Callaway, mas sua mente está confusa. Quem quer que você conheça chamada Lizzie, não sou eu”. Aproximando-se para tocar o pano molhado na têmpora de Jim, ela acrescentou: “Você recebeu um belo golpe na cabeça! Terá um pouco de dor de cabeça e talvez um olho preto pra valer”.

   Jim inclinou a cabeça para longe de Lisbeth e pegou o pano de sua mão. “Ficarei bem, Liz... er... Lisbeth. Devo ter batido em algum toco.” Ele sorriu timidamente e balançou sua cabeça. “Desculpe por aquele negócio de Lizzie. Acho que aquele arado me golpeou mais forte do que pensei. Parece que soldados não são fazendeiros por natureza.” Ele parou abruptamente, esfregando cuidadosamente sua têmpora. “Agora você vai ficar pensando que vendeu a propriedade para o homem errado, para algum idiota que nem mesmo sabe como arar.” Com um resmungo, Jim ficou em pé, firmando as pernas trêmulas, colocando um braço através das costas fortes de Buck.

   “Soldado? Então, você foi um soldado.” Lisbeth também se levantou, tirando a poeira da saia.

   Jim suspirou. Fechou os olhos brevemente e puxou com força a barba. “Não gosto de lembrar. Melhor não falar sobre isso.”

   Colocando-se ao lado dele, apoiou a mão levemente em seu braço e perguntou: “Você consegue voltar pra casa? Você precisa descansar, você sabe. Talvez eu devesse levá-lo até a cidade para que o dr. Gilbert desse uma olhada”.

   “Não preciso ir até Lincoln, Lisbeth. Posso ser novo em cultivar a terra, mas sou velho em levar pancadas na cabeça. Tem se ser mais que um golpe de arado para causar dano. Mas fiquei feliz por você ter vindo. As moscas iam circular por um bom tempo! O Senhor certamente cuida de seus bens.”

   “Quanto tempo ficou lá?”, Lisbeth perguntou.

   Jim se protegeu do sol. “Não tenho certeza – um tempão.”

   “Parece que o Senhor poderia ter enviado alguém um pouco mais cedo.”

   Enquanto conversavam, Jim atrelava o seu cavalo. Colocou Buck dentro do curral e deu água para a pequena égua que trouxe Lisbeth para a fazenda. Então eles caminharam para o lado da varanda e se sentaram nos degraus. Lisbeth começou a apresentar sua idéia. Ele ouviu atenciosamente. Ela terminou com: “Então pensei, David não quer morar na propriedade. Só quer ser dono dela. E ele vai procurar alguém para arrendar, para melhorá-la. Sei que você tem bastante coisa com que lidar, além de cultivar a terra aqui. Mas o que acha de supervisionar aquele lugar? Verificar se o caseiro, seja lá quem for que seja contratado para isso, faz um bom trabalho, é honesto com respito à produção, esse tipo de coisa... sei que David pagaria bem à pessoa certa para cuidar das coisas dele. Ele deve lhe pagar bem também, e então você poderia ter esse local livre e limpo – mais rápido". E poderia casar-se com Sarah, pensou.

   Enquanto Lisbeth falava seus animados olhos escuros resplandeciam, mostrando interesse em seus planos para a prosperidade de Jim - e de Sarah. O sol da manhã deixava reflexos vermelhos em seu cabelo, e Jim de repente percebeu que Lisbeth tinha parado de falar. Aparentemente tinha feito uma pergunta, que ela repetiu: “Bem, o que você acha?”

   Jim a encarou em branco. “Sobre o quê?”

       “Sobre supervisionar a fazenda de David Braddock. O que você acha?”

   “Não estou interessado.”

   “Mas, Jim...”

   “Não estou interessado.” Jim apontou para a pequena planta ao lado da varanda. “Minha rosa está nascendo, Lisbeth. Aposto que conseguirei alguns botões esse ano.”

   Lisbeth piscou várias vezes antes de perguntar novamente: “Só isso? Não? Só isso? Não quer nem mesmo pensar no assunto?”

   “Não.”

   “Mas...”

   “Lisbeth”, Jim disse com um suspiro. “Você precisa do dinheiro dessa propriedade agora?”

   Lisbeth balançou a cabeça. “Não, não é isso.”

   “Tem certeza?”

   “Tenho certeza. Só queria ajudar.”

   “Obrigado.”

   “Mas não entendo por que você não gostaria de aproveitar a oportunidade...”

   Jim puxou sua barba. “Lisbeth. Disse a você que não gosto de lembrar isso, mas vou dizer tudo. Gastei a maior parte da minha vida adulta recebendo ordens.” Ele abaixou sua cabeça e esfregou sua nuca. “E recebendo ordens, acabei fazendo algumas... coisas terríveis.” As palavras se enroscaram em sua garganta.

   “Já tenho tudo isso acertado com o Senhor. Mas não quero receber ordens de ninguém mais a não ser de Deus. Nem se eu puder ajudar. “Jim olhou para Lisbeth soberbamente. “Não conheço David Braddock. Não tenho nenhuma razão para pensar que ele seja desonesto. Mas não quero me colocar em uma posição na qual tenha de receber ordens novamente. Há bastante gente na cidade que poderia cuidar do local para Braddock se ele o arrendar. Só que eu não posso fazer isso. Obrigado, mas não posso.”

   Olhando para o pequeno arbusto de rosas, Lisbeth perguntou suavemente: “Você se importa se eu perguntar algo/”.

   “Qualquer coisa que queira.”

   “Disse que tem coisas acertadas com Deus”, olhou para ele. “Como fez isso? Acertar as coisas?”

   “Bem, só pedi a Ele, eu acho. Joseph me disse para apenas pedir que Ele me ajudasse a acertar as coisas. Parece louco, penso eu, mas eu fiz. Só pedi a Ele.”

   “E ai?”

“Bem, só pedi e, de alguma forma, soube que as coisas estavam bem entre nó. Li isso na Bíblia de Joseph, em Primeira João.”

   “Só isso?”, Lisbeth perguntou.

   “Não, não foi tão simples. Levou algum tempo.” Jim se corrigiu. “Levou bastante tempo, leitura e oração também.” Jim se virou para Lisbeth. “Ele cuidará de você, Lisbeth. Só peça a Ele e confie. Dê um tempo.”

   “Você parece a minha mãe. Ela sempre dizia quase exatamente essas palavras.”

   “Bem, ela as dizia porque são verdadeiras.”

   Lisbeth suspirou. “Elas eram verdadeiras – para ela. Ela amava a Deus e Ele cuidou dela.” A voz de Lisbeth ficou melancólica quando acrescentou com fraqueza: “O problema é que eu não O amo – não depois do que Ele permitiu que acontecesse a mim e ao Mac. Não posso mais amá-Lo. E se eu não O amo, não há muita razão para Ele cuidar de mim, há?”.

   Sem saber o que dizer, Jim fez a coisa certa. Ele ouviu. Lisbeth desabafou um pouco da amargura que guardava dentro de si e então se levantou abruptamente. “É melhor eu voltar para a cidade. Augusta e Joseph devem estar preocupados. Deixei Sarah precisando de ajuda também.”

   “Ela consegue lidar com isso.”

   “Realmente ela consegue. Aquela jovem será uma boa esposa para qualquer homem.” Lisbeth observou Jim cuidadosamente enquanto falava. Como ele não reagiu, ela acrescentou: “Bem, tome conta desta sua cabeça dura, Jim Callaway. Espero ver as plantações crescendo nos campos na próxima vez em que vier aqui.”

   Os olhos verdes - acinzentados cintilaram enquanto Jim respondia: “Na próxima vez em que vier, terei a cerca ao redor das sepulturas pronta. Poderemos plantar flores se você quiser. E mostrarei a você a fazenda toda e direi tudo sobre como ela ficará um dia. Vai ser ponto turístico na região de Lancaster. Você vai ver.”

 

   Achou – o numa terra deserta, e num ermo solitário povoado de uivos; rodeou – o e cuidou dele, guardou – o como menina dos seus olhos. Como águia desperta a sua ninhada e voeja sobre seus filhotes, estende as suas asas, e, tomando – os, os leva sobre elas. Deuteronômio 32:10-11

 

     “Não sei o que fazer”, disse o agente Janson, “afinal de contas, o índio por nascimento e por disposição natural, não tem afinidade com as instituições americanas.” O agente havia chegado até Santee para sua reunião semanal com o diretor da escola. Como de costume, os dois se envolveram em uma discussão sobre o que Janson chamava de “o problema indígena”.

   O reverendo Alfred Riggs sorriu carrancudamente: “Suspeito que qualquer grupo de pessoas que tenha sido desapossado da maneira violenta usada por nosso governo não teria ‘afinidades’, como você tão discretamente colocou”.

   Janson encostou em sua cadeira. “Mas eles deviam ser civilizados, e eu não sei mais o que fazer para que isso aconteça. Só na semana passada, distribuímos um pouco do dinheiro que eles iriam receber pela terra deles, e um grupo de jovens e mulheres foi visto rio abaixo, fazendo as moedas de ouro saltar através da água como pedrs! Agora, pessoas civilizadas têm de saber como usar o dinheiro. Mas o que fazer se tudo o que fazem é pegá-los e usá-lo como brinquedo? Nunca vão aprender, e não sei como lidar com isso!”

   Alfred replicou: “Você sabe, Thomas, o “problema indígena” sobre o qual você está falando, alguns pastores nativos daqui chamam de “problema do homem”. Descobri que, se demonstrar um espírito fraterno, em vez de agir como se eu fosse o mestre e eles os servos, levará um longo tempo para alcançarmos o coração deles”.

   Vendo o maxilar de Janson se endurecer de raiva, Alfred se apressou em terminar seu argumento. “O índio tem um espírito dominador e orgulhoso, assim como a maioria dos homens de qualquer raça. Podemos forçar um menino a lavar seu rosto e vir à escola, mas, se não alcançarmos seu coração, no momento em que sair da escola e retornar á sua casa, ainda será um índio selvagem. Aqui na escola, descobrimos que muito é superado pelo tratamento amável e simpático.”

   Janson falou sem pensar: “É difícil ser simpático com um bando de vagabundos preguiçosos”.

   Era a vez de Alfred ficar zangado. Suas mãos apertavam os braços da cadeira enquanto respondia: “Oh, sim, esqueci-me, os índios são preguiçosos e os brancos são trabalhadores, tão trabalhadores que estão enchendo penitenciárias e favelas em todo lugar! Há gente preguiçosa em toda comunidade, Thomas. E me maravilharia se, sob as mesmas condições criadas nas agências, os brancos não se comportassem como nossos índios. O homem tende a não valorizar o que lhe é dado de graça. Creio que a intenção do nosso sistema é benéfica, mas ao dar aos índios tudo o que precisam para viver, removemos uma coisa que motiva a masculinidade e o caráter: orgulho de realização, o saber que está sustentando uma família e que está fazendo bem. É por isso que esperamos que nossas crianças trabalhem e que seus pais contribuam de alguma forma com a manutenção da escola”.

   “Posso perguntar que bem isso está fazendo?”, Janson questionou. “Eles são mais civilizados este ano do que eram quando você voltou em 1870?”

   “Mantenha a mente aberta, Thomas. Não acredite em tudo o que lhe contaram. Os índios Sioux não são selvagens sem sentimentos. Já os vi quase entrar em colapso de tanto rir quando um dentre eles faz uma brincadeira” – Alfred parou abruptamente, lembrando que tinha sido sobre Janson o arremedo recente que tanto divertiu os dakotas.

   Janson se acalmou um pouco. “Tudo bem, Alfred, tudo bem. Concordo com você que tenho muito a aprender. Concordo que os índios são humanos. Vi que são capazes de aprender, apesar do que me contaram alguns fanáticos do leste do interior. Mas você está tendo algum resultado em mudar a vida deles para melhor? Não vi isso acontecendo na agência. Não os amo como você os ama, mas gostaria de fazer um trabalho decente e vê-los ter uma vida mais útil. Seria melhor pra todo mundo.”

   Alfred avaliou as perguntas. “Bem, Thomas, nossas conversações crescem e diminuem assim como aconteceria em qualquer congregação. Eles se firmam rápido ou vão embora; eles amadurecem ou permanecem estagnados, assim como cristãos em todo lugar. Não tivemos ainda muitos graduados, mas recebi uma carta de um graduado que refez seu caminho à Montana para servir. Ele escreveu para dizer: ‘A Escola Normal de Treinamento de Santee semeia boa semente. Que seus feitos brilhem como estrelas’. Entre todas as falhas que tivemos, e houve muitas, um sucesso como este faz o trabalho valer a pena.”

   “E que tal esse índio selvagem que apareceu em sua porta? Ele virá no sábado para pegar provisões? Ele tem que se registrar, você sabe.”

   Alfred respondeu ceticamente. “Acha que poderia esperar no regulamento sobre registros, Thomas? Ele ficou conosco, mas por trás da cooperação dele ainda há um espírito rebelde.”

   “Não precisamos de mais agitadores. Se ele for causar problemas, terei de enviá-lo à Rocha Firme. De qualquer modo, lá é o lugar dos lakotas.”

   Alfred respondeu rapidamente. “Ó, não, não é nada disso. Não acho que ele causará problemas; ele só é lento para se ajustar. Mas conheceu o pastor Nuvem de Trovão quando o enviamos de férias no outono passado, e Jonh acha que ele irá ceder. Águia que Voa Alto é um trabalhador muito disposto, e tem se esforçado também no estudo de línguas.”

   Janson cedeu. “Tudo bem, Alfred. Você é o esperto em índios, como você mesmo me lembrou. Não farei nada a respeito disso por enquanto. Só assegure-se de mantê-lo ocupado. Dê a ele um nome civilizado também. E mantenha-o aqui se for possível. Não é preciso que a agência toda fique agitada por causa da chegada de um lakota selvagem.”

   Quando Tiago e Marta Asa Vermelha convidaram Águia que voa alto a acompanhá-los até a agência para a distribuição anual, Águia que Voa Alto perguntou: “O que é ‘distribuição’?”.

   “Distribuição é quando recebemos coisas do governo. Coisas que eles nos dão para nos ajudar a sobreviver. Coisas que não podemos cultivar. Coisas que usamos para negociar. É um dia de celebração. Pegamos nossos cavalos mais rápidos e temos corridas. Haverá visitas e festas, como nos dias antigos, quando os negociantes vinham.”

   Águia que Voa Alto ajudou Tiago a tirar seu pônei mais rápido do curral e amarrá-lo atrás do carroção antes de responder. “Sei o que é isso. Não sabia que chamavam de ‘distribuição’. O governo sempre dá coisas para o nosso povo quando nos encontramos para confraternizar. Então eles pegam o que querem de nós.”

   Tiago se opôs. “Não, eles não estarão tirando nada de nós dessa vez, Águia que Voa Alto. Tenho minha terra de oito alqueires. É minha. Tenho um papel assinado que diz que pertence a mim. Mas há coisas de que precisamos para conseguir começar. Então eles nos dão essas coisas.”

     Águia que Voa Alto saltou para dentro da traseira do carroção e sentou-se com as costas no assento. Enquanto Tiago dava umas palmadas em sua parelha e o carroção partia, Águia que Voa Alto disse a ninguém em particular: “Dar as coisas tornará algumas pessoas preguiçosas. Quando eu era jovem, havia um bravo preguiçoso em nossa aldeia. Os que tentavam ajudá-lo dando coisas só o faziam piorar. Ele parou de tentar caçar. Começou a causar problemas para todo mundo. É isso que vai acontecer com a reserva se tudo for dado para os índios.”

   Tiago olhou para Marta e sorriu. “Acho que ele tem ouvido o reverendo Riggs.”

   Águia que Voa Alto escutou e disse soberbamente: “Se o reverendo Riggs disse isso, ele está certo”.

   Enquanto se moviam em solavancos ao longo do caminho, Tiago aproveitou a oportunidade para compartilhar sua própria história com Águia que Voa Alto. “Meu irmão, em tempos passados eu andava em estradas escuras. Odiava a todos os brancos e lutava com eles quando podia. Estava em miséria, mergulhado em muitos medos. Meu povo estava morrendo, e não havia homem no mundo para me salvar, então eu lutava. Mas os soldados vieram e fui levado para longe de casa e me colocaram em uma prisão num lugar chamado Davenport. Alfred Riggs foi a esse lugar e me falou a respeito do Bom Pastor, Aquele que nunca se cansa, que caminha bravamente em lugares de dificuldades e em desertos, sempre procurando o perdido. O Bom Pastor, Cristo, o Filho de Deus, libertou-me do vale da morte e do lugar de tormento. Ele me fez viver. É o salvador da alma e do corpo. É Ele que acrescenta noites e dias a minha vida. Vou pegar as coisas na agência, mas não creio que o governo me faça viver. Trabalharei em minha terra e confiarei em Cristo. Só obedeço à Sua Palavra. Estou tentando viver a vida com Ele, e sou grato a deus pelo seu servo Alfred Riggs. Aceitarei a ajuda dele, aceitarei a ajuda do governo e viverei para Cristo.”

   Tiago Asa Vermelha falou calmamente, mas havia uma paixão em sua voz que Águia que Voa Alto nunca tinha ouvido antes. Quando chegaram a agencia, Águia que Voa Alto saltou do carroção e ajudou Tiago a descarregar uma grande caixa de madeira trazida para as provisões do governo.

   Dúzias de famílias tinham vindo a agência. Enquanto o carroção dos Asas Vermelhas rolou e parou na fila, dezenas de olhos viram um novo rosto guiando o carroção. Dezenas de vozes cochicharam. Tiago e Marta cumprimentaram os amigos e apresentaram Águia que Voa Alto, que balançava a cabeça solenemente para cada novo conhecido. Quando começou a ficar cansado de apresentações, refugiou-se na traseira do carroção e fingiu não ver nem ouvir ninguém ao seu redor.

   Na varanda da agência estava sentado um balconista, lendo nomes de uma lista. Águia que Voa Alto ouviu o nome de Tiago Asa Vermelha e observou quando Tiago deu um passo à frente para que seu bilhete de comida fosse carimbado. A caixa do carroção foi arrastada para cima da varanda. Então, o agente Janson leu uma lista enquanto um assistente jogava coisas para dentro da caixa: cobertores, flanelas, metros de tecido, roupas... Tiago e Marta saíram da varanda carregando a caixa deles. Águia que Voa Alto observava sem poder acreditar. Quando carregaram o carroção com a caixa, Águia que Voa Alto franziu a testa. “Isso é pra doze luas? Apontava para a chita. “Isso não durará doze luas. Você precisava de peles.”

   Tiago sorriu pacientemente. As peles fizeram boas roupas nos velhos tempos. Agora Mary faz nossas roupas desse tecido.”

   Tiago apontou a leste da construção da agência para um curral cheio de criação. Agora teremos divertimento. Alguns bravos tinham pintado o rosto e circulavam o curral, levantando suas armas no ar. Mais uma vez o nome de uma família foi chamado. Dessa vez, um boi do curral foi trazido rampa abaixo e solto. Imediatamente um dos bravos sob um cavalo o perseguiu através da campina. O animal urrou e se assentou momentaneamente antes de morrer nas mãos do índio que o caçou. A tarde passou nessa atividade e, com cada família ocupada abatendo sua própria carne, já era tarde quando as corridas prometidas puderam começar.

   Tiago se levantou rigidamente de cortar o último pedaço grande de carne da carcaça e apontou para Águia que Voa Alto. “Você deve correr com Estrela Pequena.”

   Águia que Voa Alto balançou a cabeça. “Ela é sua égua.”

   “Mas você é melhor corredor que eu. E gostaria de provar que ela é a égua mais rápida. Quero constituir um bom rebanho de pôneis. Se os outros souberem que Estrela Pequena é rápida, vão querer o sangue dela na veia de seus próprios pôneis.” Tiago puxou Águia que Voa Alto para a traseira do carroção. “Olhe.” Apontou para uma enorme árvore de choupo distante. “É só até aquela árvore, então em direção do sol para o riacho, então de volta novamente. Você pode vencer facilmente, darei a você a irmã de Estrela Pequena.

   Os outros homens já se enfileiravam para a corrida. Gritos amigáveis soaram, apostas foram feitas, e os pôneis bufavam e davam coices. Águia que Voa Alto olhou para todos eles e sabia que Estrela Pequena podia vencer facilmente. A tentação era muito grande. Tirando sua camisa e o restante da roupa, ficando somente com uma tanga, pulou nas costas do pônei e se apressou para a fila, bem na hora que alguém deu um tiro de pistola. A fila de pôneis estirou-se pelo pequeno curso, as patas batendo com força na poeira e levantando uma nuvem de pó. Aproximando-se do choupo, Águia que Voa Alto deslizou para o lado de fora de Estrela Pequena e fez uma curva tão brusca que a traseira dela quase destruiu o casco da árvore. Tiago deixou escapulir um grito de alegria. Estrela Pequena rompeu em direção ao riacho e, quando se aproximou da árvore pela segunda vez, Águia que Voa Alto mais uma vez deslizou ao seu lado. Ela venceu facilmente.

   “Que corrida, Tiago!”, gritou um de seus rivais. “Aquele seu amigo selvagem sabe como cavalgar! Estarei lá amanhã para conversar com você sobre cruzá-la com meu garanhão. Teremos bons cavalos desses dois!”

   Águia que Voa Alto cavalgou com Estrela Pequena, sorrindo com prazer por causa da corrida e não por ele mesmo. Vendo que era o centro das atenções, imediatamente pulou ao chão, jogou as rédeas para Tiago e retornou à carroça, onde vestiu suas roupas. Sentou-se na traseira do carroção tomando fôlego. Tiago veio, conduzindo Estrela Pequena e dando um tapinha nas costas de Águia que Voa Alto. “Obrigado, meu irmão! Já tive a promessa de um bom garanhão para Estrela Pequena.”

   Águia que Voa Alto olhou para cima soberbamente. “Eu que lhe agradeço, Tiago. Hoje, quando Estrela Pequena e eu corremos pela campina, houve alegria aqui. É bom saber que meu coração lembra o que é felicidade. Estava começando a achar que a dor seria para sempre.”

 

   Atende ao bom andamento da sua casa e não come o pão da preguiça. Provérbios 31:27

 

     Sarah Biddle suspirou enquanto olhava através da janela de seu pequeno quarto no andar de cima da mansão dos Braddocks em Filadélfia. O quarto de Sarah era construído debaixo do beiral, no fundo da mansão e, embora fosse pequenino, com um teto inclinado e somente uma janela, Sarah podia ver o jardim, o que era um ponto de vantagem. Rosas floresciam em abundância, e além daquele brilho havia uma mistura de cores de dezenas de outras flores. Sarah observava o jardineiro inclinando-se sobre suas rosas, podando e deixando uma bagunça ao longo da última fileira, juntando uma cesta cheia de botões que Sarah sabia que iriam enfeitar a mesa aquela noite.

   Por trás dela, Tom disse: “Não consigo agüentar isso, Sarah. Estou com saudade de casa. A senhora Braddock é muito boa, e David também, mas quero ir para casa.

   Os pequeninos lábios de Sarah deram um sorriso melancólico enquanto ela se virava e dizia suavemente: “Eu também, Tom. Quero ir pra casa, mas nossa nova casa ainda não está pronta, e temos de esperar só mais um pouquinho.”

   “De qualquer maneira, por que precisamos de uma casa nova, Sarah? Gosto de tia Augusta, ela é muito boa. E só sei que não vou gostar de viver em nenhuma casa grande e luxuosa! Não gosto muito daqui.”

   “Ó, será diferente em Lincoln”, Sarah assegurou.

   “Como você sabe?”

   “Bem, quando chegarmos a Lincoln, você vai voltar à escola da senhorita Griswall, e todos os seus amigos estarão lá. Ficarão todos impressionados em ouvir sobre sua viagem a Filadélfia. Além disso, em Lincoln, estarei encarregada da casa.”

   Sarah piscou para Tom, que subiu em sua cama e esfregou a perna antes de dizer: “Graças a Deus! Sem jardineiros ranzinzas. Sem governantas altivas e poderosas balançando seus dedos em meu rosto.”

   “Agora, Tom”, Sarah protestou gentilmente. “A senhora Titus é uma boa governanta. Não realmente altiva e poderosa, não da maneira que quer dizer. Ela apenas...”

   “...quer ter certeza de que as coisas estão do jeito que a dona Braddock gosta”, Tom terminou a frase de Sarah. “Sei que a senhora Titus não é ruim. Só estou muito cansado de cidades grandes e de gente grande.”

   Sarah estava inclinada a concordar com Tom, embora não dissesse em voz alta. As duas semanas anteriores tinham sido repletas de limpar, cozinhar e cuidar do jardim. A mente de Sarah estava girando com miríade de coisas que ela esperava aprender.

   Durante duas semanas, Sarah foi inundada com soluções e rotinas de limpeza. Ela seguiu a rotina da senhora Titus e escreveu e tomou notas até que sua cabeça começou a doer. “Vou falar a verdade Tom”, disse fracamente certa noite, “estou começando a pensar que não tenho condições suficientes nem mesmo para limpar a casa da senhora Braddock, muito menos para controlar o lugar todo.”

   “Ah, Sarah, você pode fazer isso sim. Você praticamente dirigia os bastidores do hotel em Lincoln.”

   Sarah suspirou: “Estou com medo de que os critérios de nossos hóspedes do hotel não sejam o que são aqui em Filadélfia. Não posso acreditar no que a senhora Titus faz todos os dias. Acende o fogo, prepara café da manhã, tira cinzas, lava o fogão, esquenta água para a louça e a lava, então está lá em cima para arejar e arrumar as camas, esvaziar as comadres, limpar o quarto, limpar e encher os lampiões, ataviar as mechas. Sarah arcou as costas e se esticou, virando a cabeça de lado a lado e resmungando. “No hotel temos ajuda. Nos Braddocks vai depender de mim ver se tudo está feito.”

   “Não será tão ruim. É só a senhora Braddock e o senhor Braddock. Eles não podem ser tão bagunceiros.”

   Sarah riu. “Provavelmente você está certo. E é uma boa oportunidade.”

   Só quando Sarah achou que tinha começado a entender como governar uma casa, a senhora Braddock a chamou na biblioteca e acrescentou outro pedido: aulas de gramática com tutor particular.

   Sarah torceu o nariz. “Desde quando uma governanta precisa de gramática elegante, senhora Bradock? Não fui bem na escola, mas serei uma excelente cozinheira.”

   Abigail sorriu sabiamente: “Sarah você estará recebendo meus convidados, e não quero que pensem que você é uma caipira grosseira. Quero que eles se espantem com a garota adorável e graciosa que você é. Nunca sabemos que oportunidades devem passar na porta da frente de uma jovem adorável e com dicção própria!” Abigail piscou brincando e Sarah corou.

   “Ah, senhora Braddock, sei no que a senhora está pensando. Não tenho interesse em me casar com algum homem rico. Não saberia como agir.”

   “Mas saberá como agir quando a Senhora Titus e o tutor terminarem com você, Sarah; como eu disse, nunca se sabe.”

   Sarah olhou para fora e imaginou Jim Callaway cavalgando até a porta dos Braddocks. “O único homem que talvez pudesse atrair viria pela porta de trás, senhora Braddock. Sem querer ofender, mas só isso seria bom pra mim.”

   Abigail provocou: Parece que você já tem alguém em mente. Será que estou pedindo para a senhora Titus ensiná-la só para lhe perder?”

   Sarah corou: “Não senhora. Ninguém mostrou interesse em mim”.

   Bem, se não aceitar a ajuda por si mesma, então vou apelar pelo amor de Tom. Como sabe, Augusta e eu temos grandes esperanças para Tom. Ele é brilhante.”

   Sarah balançou a cabeça energicamente. “Sim, senhora. Tom é realmente esperto. Ele vai longe. Agora que conseguimos uma boa casa, e a oportunidade de ir para a escola e tudo mais, ele vai ser alguém. Estou economizando para que ele possa ir à Universidade.”

     Abigail tentou argumentar. “Bem, então, nós concordamos nisso. E tom precisa de sua irmã dando um bom exemplo. Então, por que não assiste às aulas de gramática com Tom, como um bom exemplo? Ele melhorará rápido, eu sei, e quando voltar para a escola da senhorita Griswall no outono, ela ficará pasmada.”

   Sarah deu uma risadinha. “A senhora não aceita um não como resposta quando já tem sua mente feita, não é?”

   Abigail balançou a cabeça: “Não Sarah, não aceito. Sou uma velha senhora rica e mimada, acostumada a conseguir o que quer. Vai se adaptar a mim?”

   “Quando a senhora coloca dessa maneira, não posso dizer não novamente. Vou ter aulas de gramática.” E provou rapidamente que Tom não era o único bom aluno. Agora quando conversavam usavam uma gramática quase impecável.

  

   “Acho que aprendi quase tudo o que a senhora Titus pode me ensinar, Tom. Minha cabeça está tão cheia que parece que vai estourar. Talvez a senhora Braddock nos deixe voltar a Lincoln antes que a casa fique pronta...”

   Tom pulou da cama. “Você acha que ela deixaria, Sarah, realmente? Mal posso esperar...”

   Sarah riu. “Acalme-se, Tom, eu disse que talvez. Vou perguntar a senhora Braddock amanhã. O fato é que poderei ter mais utilidade lá. A senhora Braddock disse que a casa ficará pronta em breve, e poderei estar lá quando a mobília começar a chegar, para desempacotar e arrumar as coisas para quando os Braddocks chegaram no outono.”

   Tom foi até a porta. “Vou para cama cedo. Então o amanhã virá mais rápido e você poderá pedir para voltarmos para casa.” Tom fechou a porta firmemente, e Sarah sentou-se para escrever para casa.

  

     Querida tia Augusta e Lisbeth,

   Já faz oito semanas agora, e Tom e eu estamos com mais saudades que nunca. Nem Tom nem eu nos importamos muito com a grande Filadélfia. Aos sábados o senhor Braddock tem sido amável o suficiente para nos levar a passeios pela cidade. Mostrou-nos onde foi o Centenário no ano passado.

   Mas sinto falta de Lincoln: Joseph, Asa, e mesmo Jim Callaway. Vocês o têm visto muito recentemente? Aposto que ele tem estado ocupado na propriedade, e espero que faça tudo certo por você, Lisbeth. A senhora Braddock insistiu que Tom e eu tivéssemos aulas de dicção enquanto estávamos aqui. Descobri que uma senhora fina precisa mesmo de uma empregada que saiba falar legal. Ah, isso não faz parte de uma gramática apropriada, não é? Por favor não me censurem!

   De qualquer modo, vou perguntar amanhã se podemos voltar para casa. Aprendi tudo o que uma garota poderia saber sobre limpeza e cozinha.

Com carinho, Sarah Biddle  

 

   Quando Augusta leu a carta de Sarah, não pôde evitar o comentário: “Parece que todas as cartas que recebemos falaram alguma coisa sobre Jim Callaway”.

   Lisbeth, mais uma vez com os cotovelos na pia, deu uma risidinha. “Acho que ela depositou suas esperanças em Jim.”

   Augusta olhou com surpresa. “Bobagem! Ele é muito velho para Sarah. Ela está garantindo a si mesma uma posição maravilhosa, uma carreira fina. Não há necessidade de amarrar-se a um fazendeiro pobre e sujo.”

   Lisbeth repreendeu. “Tia Augusta, Jim Callaway é um homem fino, você mesma disse isso. E sobre sua ocupação, ele me garantiu que na primavera aquele lugar será o ponto turístico dessa região, e acredito que fará isso.”

   Augusta não estava disposta a ser dissuadida. “Sim, fará isso sem dúvida, depois de anos de lutas e muito suor e humilhação. E quem quer que se junte a ele ficará velha antes de seu tempo.”

   Lisbeth discordou. “Oh, não sei se seria assim tão horrível.”

   “Lisbeth Baird! Ouvi você contar sobre o destruidor de campos que veio para o Oeste. Você viu seu companheiro de sonhos quebrados vir à porta deste hotel e pedir um quarto.”

   “É verdade, mas há algo sobre o sonho de Jim...” Lisbeth levantou o forno holandês que estava esfregando sobre o balcão para secar e se virou para encarar Augusta, enquanto secava as mãos. “Jim tem paixão pela terra. Da última vez que Joseph e eu fomos visitá-lo, Jim levou-nos para um passeio. Ele plantou quase cem macieiras naquele campo bem ao oeste da casa. Fala sobre seus planos, e não posso deixar de enxergar isso, a maneira com que planeja: pomares maduros, campos carregados de grãos amadurecidos, um celeiro cheio de provisões...”

   Augusta Pompeu a ilusão. “Besteira Lisbeth. Castelos no ar. Dois verões de seca e ele afundará.”

   “Não acho,” Lisbeth discordou gentilmente. “Alguma coisa sobre Jim Callaway me faz pensar que ele ficará. Mesmo nas horas mais difíceis. Acho que só vai cavar e ficar.”

   Augusta levou um momento para considerar, e então mudou de conduta. “Bem, se a nossa Sarah estiver com ele, se o amar,” Augusta olhou para Lisbeth, “ele certamente poderia fazer valer a pena!”

   Lisbeth deu uma risadinha. “Sim, poderia, tia Augusta, valer muito, muito a pena. Mas minha nossa! Sarah nem começou a trabalhar para os Braddocks, e nós já estamos planejando sua partida! Seria melhor não deixar Abigail e David saber disso!”

   “Bem, espero que Sarah fale com Abigail para deixá-la vir embora. Parece estar bem cansada de Filadélfia.”

   “Ah, está mesmo.” Lisbeth sorriu. “fico curiosa para saber se ela ainda carrega aquela bolsinha com ela.”

   “Que bolsinha?”, Augusta quis saber.

   “Ó, quando ela estava arrumando as malas para ir, tinha uma pequena bolsinha amarrada ao redor do pescoço. Quando perguntei o que era, disse: ‘Tenho passagem de trem para mim e Tom. Qualquer coisa que aconteça, sempre saberei que podemos voltar para Lincoln’.”

   Augusta riu: “Essa garota! Jamais alguém será mais esperta que ela”. Ficou séria de repente. “Estou feliz em saber que ela finalmente sente que tem um lar. Houve um tempo em que achei que Sarah e Tom não confiariam em mais ninguém novamente.”

   “Você tem feito maravilhas por eles”, Lisbeth disse.

   Augusta juntou o jornal e reusou o elogio. Eu?! De jeito nenhum, não fui eu quem os tirou da rua e os fez ficar até que se apaixonassem. Foi sua mãe, Lisbeth.”

   Lisbeth sorriu calorosamente. “E outra gentileza feita por Jesse King surge para louvar sua memória.” Lisbeth se levantou abruptamente. “O que me lembra que Jim Callaway prometeu ajudar-me a plantar outro cedro no túmulo de mamãe amanhã. A tempestade da semana passada destruiu a copa daquele que coloquei na primavera passada.”

   Lisbeth se recolheu em seu quarto. Acendendo uma lamparina no escuro, derrubou acidentalmente a Bíblia de Jesse no chão. Assim que pegou, notou que as páginas abertas estavam cheias de anotações e destaques. Sem curiosidade, Lisbeth se assentou na cadeira de balanço com a colcha gasta de Jesse sobre os joelhos. Quando começou a ler, seus olhos se voltaram para os versículos grifados por sua mãe, mas seu coração começava a se voltar para o autor do livro.

 

   ...seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar. Tiago 1:19

 

   “Águia que Voa Alto agora você fala muito bem inglês e dakota. Mas, para poder progredir na sociedade, você precisa realmente aprender outras coisas. Por favor. Pegue este livro de história e apenas leia em voz alta.” Os dois homens estavam sentados à mesa da cozinha da casa dos Asas Vermelhas, com uma lâmpada de querosene e uma pilha de livros entre eles. Tiago inclinava-se para frente seriamente, enquanto Águia que Voa Alto encostava-se em sua cadeira, com sua mandíbula congelada.

   Tiago tentou outra estratégia. “Todos os garotos começaram a admirá-lo. Eles vêem que você corre na corrida da agência e ganha. Observam como você ajuda a construir as oficinas e a desviar água. Você é muito forte, e eles apreciam isso. Mas também vêem quando você se recusa a aprender algo que o reverendo Riggs inclui na escola. Vêem quando você cruza os braços na igreja. Vêem que você não ora agradecendo a Deus por suas refeições. Agora, sobre a questão de religião, não posso pedir para você fingir crer naquilo em que não crê. Mas posso pedir que estude história e geografia como todos os outros alunos adultos. Os garotos irão se esforçar se souberem que você também está estudando essas coisas.”

   Águia que Voa Alto se esticou pela mesa e pegou o livro de cima. Abrindo-o, apontou para o primeiro desenho no texto. Um fazendeiro estava em pé em uma enorme rocha no centro do desenho, com uma bolsa de semente ao seu lado e os braços estendidos para os céus. Abaixo dele corria um enorme rio e no lado oposto uma vilazinha. O sol apareça a distância, no horizonte.

   “Essa”, Águia que Voa Alto disse amargamente, “não e uma história sobre a qual quero aprender. O homem branco se coloca lá em cima, estira seus braços e diz: ‘Tudo que vejo é meu’. Então ele toma tudo.

   Tiago tentou interromper, mas Águia que Voa Alto levantou a mão para silenciá-lo e deu uma batinha com o dedo no livro aberto enquanto continuava: “O homem branco vê o sol nesse desenho, e diz que ele se levanta para brilhar sobre a aldeia e sobre tudo o que possui. Mas o lakota vê esse desenho e sabe que o sol está afundando por trás das colinas, e que tudo o que era lakota não será mais.” Fechou o livro cuidadosamente e o colocou de volta à mesa. “Por que eu deveria aprender mais disso?”

   Tiago concordou: “O que você disse aconteceu. Está acontecendo. Não posso parar isso. Você não pode parar. Mas pode recusar ser derrotado pelas mudanças que estão vindo. Pode aprender. Pode ensinar os garotos aqui e viver no mundo transformado. Sei que é difícil desistir dos caminhos antigos, quando uma homem tinha somente de caçar bem e lutar bem para sobreviver. Agora um homem tem de fazer mais. Um homem tem de aprender mais.” Tiago fez uma pausa antes de continuar: “Você sabia, Águia que Voa Alto, que há muitos brancos que pensam que o índio é incapaz de aprender?”.

   Águia que Voa Alto replicou: “Aprendemos da mesma forma que os brancos. Temos músculos, mente, e olhos, assim como os brancos. Se cultivarmos nossa mente, músculos e olhos, somos capazes de fazer o mesmo que eles.”.

   “Claro que isso é verdade”, Tiago disse. “É por causa disso que o reverendo Riggs começou a edição em inglês do nosso jornal – dessa forma os cristãos brancos que enviam dinheiro para a escola verão que os índios são capazes de aprender. O reverendo Riggs entende melhor que qualquer outro branco que não é que não somos incapazes de ler, só é difícil para nós mudarmos. Aqui temos escolas e professores. Temos fazendeiros e ferreiros pra nos ensinar a viajar no caminho do milho. Se os garotos em nossa escola missionária podem aprender e ajudar seus irmãos a prender, se podem aprender a viver e trabalhar no mundo dos brancos, então terão feito algo tão importante quanto seu pai fez quando o ensinou a caçar. Teremos dado a eles uma vida, Águia que Voa Alto. Quando tudo o que conheciam está morrendo, podemos ajudá-los a ter uma vida.”

     “Gostaria que o homem branco nunca tivesse vindo para esse país.”

   “Não olhe para trás, Águia que Voa Alto. A estrada em que nossos pais caminharam acabou. Este foi uma vez nosso país. Nossos irmãos cara-pálida nos fizeram mudar um pouco mais longe, e um pouco mais. Agora o povo branco está por toda parte. Não há utilidade para o índio pensar da maneira antiga. Deve agora trabalhar como o branco trabalha.

   “Aqui na missão temos tudo para aprender o caminho do homem branco. Temos de aprender a viver pelo cultivo da terra em vez de caçar e fazer trocas. Temos de prender a cortar nosso cabelo curto e a usar roupas justas e a viver em casas. Temos de aprender a arrear um cavalo de trabalho e fazer regos no campo e cortar e armazenar feno.”

   Tiago deu um suspiro profundo e terminou: “O governo tem dado a cada família nesta reserva oito alqueires. Este é o último chão que pisamos. O único meio para conseguirmos isso é nos tornando instruídos. Nossa única chance é nos tornarmos como o homem branco. Temos de tornar-nos civilizados.”

   “Tornar-nos civilizados significa ‘ser como o homem branco’”, Águia que Voa Alto disse. Quando Tiago balançou a cabeça em acordo, ele acrescentou: “E se os garotos nessa escola se tornarem como os homens brancos, você acha que terão uma vida melhor?”.

   Tiago balançou a cabeça.

   Águia que Voa Alto inclinou-se para frente novamente. “Quando eu era jovem, não era hostil com os brancos. Uma mulher branca cuidou de mim nos dias em que estive abrigado em um berço. Quando me lembro dos caminhos antigos, vejo uma mulher branca cozinhando para mim. Uma mulher branca gritou quando ganhei minhas penas de águia. Uma mulher branca ficou de luto quando meu pai morreu. Tínhamos búfalo para comer e suas peles para vestir-nos e para nossas cabanas. Tudo o que queríamos era paz e ficar sozinhos. Era uma vida boa.”

   Águia que Voa Alto fez uma pausa e olhou firmemente para o seu amigo antes de prosseguir: “Então um dia viemos através do Desfiladeiro do Búfalo e havia homens brancos procurando por ouro em nossas colinas sagradas. Dissemos que deviam sair, mas eles não saíram. O governo prometeu que eles sairiam, mas então os soldados foram enviados no inverno e destruíram nossas aldeias. Então Cabelo Cumprido chegou. Dizem que nós o massacramos, mas teriam feito o mesmo conosco se não tivéssemos nos defendido e lutado até o fim. Depois disso, subi para as Montanhas Brilhantes com Búfalo Sentado. Quando ele foi para a Terra da Avó, eu não queria sair da terra. Muitos do meu povo foram para a agência, mas eu não queria uma vida de ociosidade na reserva. Foi quando encontrei João Nuvem de Trovão. Cacei e acampei durante o inverno. Quando o último do meu povo se foi, cheguei aqui”.

   Marta entrou na sala, mas nenhum dos dois homens percebeu. Sem fazer barulho, ela se sentou e ouviu a voz angustiada de Águia que Voa Alto que quebrava o longo silêncio ao seu redor.

   “Às vezes acho difícil acreditar que já vivi da maneira antiga. Fui à escola de homem branco. Li livros. Não vivo mais em uma cabana. Moro em uma casa com chaminés. Estou ensinando os garotos a seguir o caminho dos brancos. Mas não posso esquecer os caminhos antigos. Normalmente quando o sol se põe, vou ao Big Muddy e observo enquanto as sombras vêm sobre a água. Nas sombras pareço ver novamente minha aldeia, com círculos de fumaça acima das cabanas. No barulho do mar, ouço a voz do meu pai. Ouço a risada de minha mãe como se ela pedisse para voltar para lá. É um sonho. Vejo somente sombras. Ouço somente o barulho do rio, e lágrimas correm dos meus olhos.”

   Águia que Voa Alto engoliu com dificuldade e limpou a garganta. Deu uma olhada para Marta, que estava enxugando lágrimas sobre as bochechas. Fatigadamente ele se levantou e andou até a porta da pequena casa. Estendeu uma mão sobre a moldura da porta, onde se inclinou por um momento com os ombros abaixados. Então jogou os ombros para trás e se virou. Readquirindo sua postura orgulhosa, disse seriamente para Tiago: “Posso aprender a cultivar trigo e milho. Posso aprender a seguir o que você chama de caminho do milho. Posso aprender a história do homem branco e geografia. Farei essas coisas. Ajudarei os garotos jovens da missão a aprender essas coisas. Mas não acredito que os caminhos do índio estejam errados. Você não pode fazer de mim um homem branco. Essa é uma coisa que você não pode fazer.”

  

   Águia que Voa Alto estava certo em suas palavras. Ele manteve suas longas tranças e seu vestido lakota, mas por todo aquele verão, estudou história e geografia e todas as outras matérias pedidas pelo reverendo Riggs. Mesmo quando a escola estava fechada pra as férias ele estudou. Completou os cursos elementares, começou o trabalho do curso colegial; por isso quando os garotos voltaram no outono, o ídolo deles os havia ultrapassado e desafiado a recuperar o atraso.

   Quando não estava estudando, Águia que Voa Alto trabalhava. Sua habilidade natural com cavalos tinha feito dele a escolha lógica para cuidar da criação na missão. Quando o trabalho na missão estava pronto ele retornava à casa dos Asas Vermelhas, onde ajudava Tiago e Marta.

   Arar representava um desafio do qual teria alegremente se privado, mas ele estava determinado a aprender tudo, e aprendeu, mesmo as coisas que o faziam reclamar sob sua respiração ofegante.

   Esfregando o chão áspero da igreja certo dia, Águia que Voa Alto gritou a Tiago: “As mulheres brancas aqui deveriam ser muito felizes. Elas nunca iriam agüentar o trabalho em uma aldeia lakota. Este seria um trabalho feminino lá”

   A voz de Rachel Brown disse da porta: “E me diga, senhor Águia que Voa Alto, quais cabanas em sua aldeia tinham chãos de madeira?”.

   Águia que Voa Alto se virou para esconder seu sorriso embaraçoso, enquanto Rachel percorria o caminho com um balde d’ água. Atrás de Rachel veio Carrie, saltando com uma cesta cheia de flores e colocando o buquê na frente do altar. Quando Rachel saiu, Carrie ficou para trás, disparando na direção de um banco e observando o trabalho de Águia que Voa Alto.

   “Vi abelhas, Águia que Voa Alto, muitas delas.”

   Tiago olhou para cima. “Poderia ser um enxame que saiu de uma das colméias ontem. Onde você as viu?”

   “Na árvore perto da ravina, onde Águia que Voa Alto matou a cobra.”

   Águia que Voa Alto deixou sua escova e olhou para Carrie. “Pode nos mostrar?”

   Carrie segurou a mão de Águia que Voa Alto. Tiago pegou uma colméia vazia e um serrote. Juntos, os três caminharam em direção à ravina. Parando abruptamente, Carrie apontou para um choupo alto. A ponta de galho estava inteira coberta por enxames de abelhas.

   Águia que Voa Alto se inclinou e disse para Carrie: “Pássaro Vermelho, você deve voltar agora. Pegaremos as abelhas para viverem novamente em nossa colméia. Então teremos mel quando quiser. Mas não quero que seja ferroada. Volte à igreja”.

   Águia que Voa Alto tomou o serrote, amarrou-o à cintura, e começou a escalar a árvore. Quando alcançou o galho onde as abelhas estavam, sentou-se com suas costas para o tronco da árvore e escarrapachou-se pelo galho. Então alcançou o mais longe que pode para amarrar uma tira ao redor do galho e então começou a serrar. O galho começou a se inclinar em direção ao chão. Carrie correu para trás de uma outra árvore para assistir.

   “Fique preparado!”, Águia que Voa Alto gritou para Tiago, que esperava abaixo com a colméia na mão.

   Alguns golpes a mais com o serrote, e o galho estava cortado. Águia que Voa Alto o abaixou vagarosamente e o tombou ao chão exatamente quando Tiago apertou a caixa sobre o enxame. Os dois começaram a bater na caixa para atrair as abelhas para dentro da colméia.

   Bem, quando Tiago se inclinou para ter certeza de que todas as abelhas haviam seguido a rainha para dentro da colméia, Carrie soltou um grito. Águia que Voa Alto gritou seu nome e correu para onde ela estava, batendo no ar com os braços, tentando repelir as abelhas que se enxameavam furiosamente sobre sua cabeça.

   Rapidamente, ele a carregou e a mergulhou no riacho mais próximo. Seu corpo inteiro, exceto o rosto, estava submerso. Águia que Voa Alto curvou-se sobre seu corpo que estava de bruços, levando as ferroadas. Quando afinal as abelhas se foram, Águia que Voa Alto apanhou Carrie e, com um gemido, saiu cambaleante para fora do riacho, em direção à missão. Carrie soluçava e chamava por sua mãe. Ouvindo-a, Rachel veio correndo da igreja. Ao ver a filha totalmente molhada com várias manchas de ferroadas pelo corpo, Rachel enfureceu-se e olhou com raiva para Águia que Voa Alto. “O que você fez?”.

   Com lágrimas nos olhos, Carrie protestou, mas Rachel nem a ouviu. Zangada, repreendeu Águia que Voa Alto, que ficou em pé parado, pingando, até Rachel arrastar Carrie para dentro, para tratar das picadas.

   Tiago subiu rapidamente a estrada que saía da ravina, carregando em suas mãos a colméia cheia, chegando bem a tempo de ver Águia que Voa Alto sair correndo.

   Quando finalmente Carrie trocou de roupa e explicou o que tinha acontecido, Rachel ficou arrasada. Encontrou Águia que Voa Alto na igreja, esfregando o chão solenemente. Uma camisa solta cobria suas costas e ele se mexia com muito cuidado.

   Quando Rachel se aproximou, ele olhou e disse: “Eu jamais machucaria Pássaro Vermelho”.

   “Eu sei disso, Águia que Voa Alto. Como posso expressar a você o quanto estou arrependida?”

   Rachel sentou-se em um banco, com o rosto deformado transtornado. “Venha comigo até o Ninho dos Pássaros. Podemos colocar alguma coisa nas picadas de abelha.”

   “Vai ficar bom”, Águia que Voa Alto dobrou-se recomeçando o seu trabalho.

   Quando uma Rachel deprimida levantou-se para sair, Águia que Voa Alto pegou o medalhão de seu pescoço e deu para ela. “Diga a Pássaro Vermelho que eu sinto muito pelo o que aconteceu com as abelhas. Diga que ela pode ficar com meu medalhão até melhorar. Talvez isso ajude a esquecer as abelhas enquanto lhe conta a história a respeito das fotografias aí dentro.”

   Rachel virou-se para sair, então voltou-se para Águia que Voa Alto e desculpou-se novamente: “Sr. Águia que Voa Alto, a Bíblia nos ensina que os cristãos devem ser rápidos para ouvir, demorados pra falar e demorados para se irarem. Eu fui demorada para ouvir, rápida para falar e rápida para me irar. Você, ao contrário, comportou-se como um cristão cavalheiro. Espero que me perdoe”.

   Águia que Voa Alto lembrou-se de Efésios: “Sede uns para com outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros”. Enquanto a mandíbula deformada de Rachel se abria com surpresa, ele acrescentou: “Eu não sou cristão, Rachel Brown, mas não sou um índio selvagem como dizem os brancos. Eu escuto o que o pastor Nuvem de Trovão fala e vejo muita sabedoria no que ele ensina. Eu perdôo você”.

 

   Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações. Mateus 28.19

 

“Lisbeth!”, Augusta chamou do quarto de Sarah, “alguém está batendo na porta como se estivesse pegando fogo no celeiro. Você pode ver quem é? Estou tentando arrumar a cama da Sarah.”

   Lisbeth espiou pela janela. “Tudo bem. É apenas a Agnes Bond. Pode deixar que eu cuido dela.” Com um suspiro, Lisbeth dirigiu-se à porta. No momento em que a fechadura girou, Agnes atirou-se pra dentro da sala, com o chapéu torto para um lado e um jornal enrolado na mão.

   “Foi você que fez a cabeça dela pra isso, Lisbeth?”, ela perguntou, balançando-se para frente e para trás. Sem esperar resposta, Agnes acrescentou: “Eu garanto, vou cortar a cabeça do responsável por esta besteira! Onde está Augusta?”, deu uma olhada para trás da porta onde Lisbeth estava parada. “Que idéia! Charity, ser de todo o mundo!”, e olhou pela sala inteira de novo.

   Lisbeth interrompeu-a: “Vou chamar tia Augusta, senhora Bond. Por favor, sente-se”. Lisbeth escapou do hall e chamou Augusta: “Ela está num estado! É melhor a senhora vir rápido”.

   Augusta continuou a alisar os lençóis da cama de Sarah. “Agnes está sempre em um estado de nervos por alguma coisa, Lisbeth. Eu só vou terminar a cama e...”

   Agnes ficou parada na porta, com olhos faiscando e batendo o jornal enrolado na palma da mão. “Pode até ser Augusta. Acho que devo ser aquele tipo de pessoa que sente as coisas mais do que outras. Mas isto – isto – esta idéia ultrajante da Charity. Bom, alguém vai ter que conversar com ela sobre esta besteira. Ela não vai ouvir uma palavra do que eu disser.” Agnes olhou para Lisbeth. “Alguém colocou isso na cabeça dela e alguém vai ter de tirar da cabeça dela ou vamos ter sérios problemas por aqui!”

   Augusta alisou a colcha na cama de Sarah e pegou no braço de Agnes, levando-a até o hall. “Agora, Agnes, sente-se em minha cadeira de balanço e tome uma xícara de chá, e me conte que confusão é esta que está acontecendo por aqui.”

   Agnes sentou-se na ponta da cadeira. “Chá não obrigada, Augusta. Não estou aqui para relaxar. Estou aqui para dar um basta em tudo isso!”

   “Dar um basta em quê, senhora Bond?, Lisbeth quis saber.

   “Esta idéia de Charity tornar-se missionária – entre os índios, essas coisas!”

   Lisbeth e Augusta sentaram-se num baque, encarando uma a outra, sem dizer nada. A voz de Agnes perdeu seu tom acusatório. “Então vocês também não sabiam?”

   Lisbeth disse: “Não, senhora Bond. Charity nunca disse nada sobre isso. Ela parece diferente ultimamente, mas eu não imaginava...”.

   O queixo de Agnes começou a tremer, e uma lágrima escorreu pela face e pingou de seu queixo largo. “Aqui está, está tudo aqui neste horrível jornal. Charity diz que vai. Ela não pode ir. Eu não vou deixar.”

   Agnes passou o jornal para Lisbeth e começou a procurar um lenço. Para acompanhar seu fungar, Lisbeth abriu o jornal e leu para augusta:

  

           Deixei meu lugar em Santee só por um tempo, mas agora preciso permanecer aqui na Missão Oahe, e ninguém ofereceu-se lá para o trabalho. O que vou fazer? Nenhuma pessoa pode trabalhar em dois lugares ao mesmo tempo. Na verdade deve haver alguém, em algum lugar, que seria uma verdadeira mãe para aquelas meninas, que queira permanecer lá com elas, ano após ano.

         Os deveres da supervisora do campo incluem:

             - cuidar da casa: limpeza, ventilação, aquecimento, cuidar das mobílias,

             - preparar e servir refeições,

             - remendar

             - lavar roupas

             - cuidar da decoração da casa, plantio de flores e grama

             - cuidar dos animais domésticos e tirar o leite necessário, fazer manteiga e serviços de apicultura

             - cuidar dos doentes

             - organizar jogos e esportes para as crianças

             - dar aulas nas reuniões da Sociedade Cristã de Trabalho aos domingos e na Escola Dominical, quando necessário

             - guiar as crianças sob seu cuidado a um processo religioso

      

         Os alunos devem ajudar a supervisora. Considera-se necessário pelo menos oito horas por dia, durante cinco dias da semana, para executar-se os trabalhos requeridos.

 

   Augusta prendeu uma risadinha quando Lisbeth terminou de ler.

   Agnes soluçou: “Ó, não é engraçado! Charity pensando em cada um dos deveres do jornal dessa missão. Agora ela está insistindo que vai preencher esta posição, não é possível! Ela não me escuta. Alguém precisa falar com ela!”. Virando-se para Lisbeth, Agnes suplicou: “Lisbeth, você tem de tirar isso da cabeça dela. É ridículo. Afinal, a Charity não sabe nada sobre trabalho missionário”.

   “Não parece ser necessário treinamento especial, senhora Bond. A Charity tem feito todo o trabalho de sua casa”, Agnes apertou os lábios e arregalou os olhos para Lisbeth. “Com certeza a senhora a treinou bem para os serviços domésticos. Assim, acredito que ela poderia fazer o trabalho.”

   “É claro que ela poderia fazer o trabalho, Lisbeth. A questão não é essa.” Agnes começou a chorar de novo. “Eu não consigo imaginar como alguma pessoa pode querer ir para aquele lugar!”

   Augusta perguntou: “Sei que você não pode imaginar, Agnes. Não estamos falando de você. O que Charity diz sobre isso?”.

   Agnes fungou de novo antes de despejar: “Ela tem estado no mundo da lua há mais ou menos umas quatro semanas. Desde que o reverendo Oakley falou sobre re- avivamento no ano passado, ela tem andado diferente”.

   Enquanto Agnes Bond descrevia a mudança que acontecera na filha, Lisbeth começou a lembrar algumas coisas que já tinha notado na garota. Primeiramente, um abandono às fofocas que aconteciam no cículo de costura. Então Charity tomara um novo interesse pela sociedade missionária, voluntariando-se como secretária e correspondente regular com missionários. Finalmente, Charity recomendara a Sociedade Misionária de Senhoras como responsável por duas crianças dakotas da Escola Normal de Treinamento Santee, assinando o Word Carrier, o jornal da missão, com seu próprio dinheiro e relatando suas reportagens a cada reunião. Lisbeth tinha tido ciúmes do novo zelo descoberto por Charity, especialmente quando ele se dirigia aos Sioux.

   Agnes estava terminando: “Eu disse que ela não precisa jogar sua vida fora assim. Disse que algum homem apareceria para casar-se com ela e dar-lhe uma família”.

   Augusta repetiu a pergunta: “E o que Charity fala sobre isso?”.

   Agnes torceu o nariz: “Ela disse que não se importa com isso, que Deus a chamou para servi-lo e que ela iria para onde Ele a chamasse”. Agnes virou-se para Augusta. “Agora pergunto a você, Augusta: de onde ela tirou essa idéia? Desde quando Deus precisa que meninas bonitas desperdicem a vida desse jeito? E, diga-me, o que eu farei sem a Charity por perto? Com a perda do Sr. Bond, agora vou ficar sozinha.”

   Agnes implorou: “Por favor, Lisbeth. Você tem de conversar com ela. Sei que não sou realmente a pessoa preferida por você. Tenho sido... difícil algumas vezes, mas você certamente deve ter algum apreço pela Charity. Por favor, Lisbeth, converse com ela. Quem sabe ela ouça...”.

   Lisbeth olhou de Agnes para Augusta, e a última balançou a cabeça encorajando-a e levantou as sobrancelhas com simpatia.

   Agnes levantou-se da cadeira. “Vou mandá-la aqui agora mesmo!” Quando Agnes saiu feito uma tempestade pela porta, Lisbeth gritou: “Sra. Bond, o jornal que a senhora trouxe”.

   “Queime essa coisa!” Agnes gritou de volta sobre os ombros enquanto se apressava para sair.

   Em apenas alguns minutos ouviu-se uma batida delicada na porta da cozinha. Charity entrou em silêncio e retirou o chapéu, tentando forçar de volta ao lugar seus cachos rebeldes enquanto esperava Lisbeth ou Augusta falar. Como nenhuma das duas disse nada, Charity começou: “Bom minha mãe mandou-me vir aqui conversar para ver se vocês põem algum juízo em minha cabeça. Acho que deveria preveni-las de que estou, creio eu, completamente ajuizada – talvez pela primeira vez em toda a minha vida”. Ela sorriu confiantemente para as duas e sentou-se na mesma cadeira que sua mãe havia ocupado há pouco.

   O jornal estava aberto na mesa e Lisbeth pegou-o e leu o anúncio de novo. “Charity, este artigo descreve uma quantidade incrível de serviços. Você tem certeza de que sabe com o que está se comprometendo?”

   “Eu não tenho medo de trabalho pesado, Lisbeth”, Charity respondeu confiante. “Quando meu pai morreu, minha mãe passou para mim grande parte do serviço da casa. Eu tinha 12 anos. Mas hoje tenho 23. Tive bastante tempo para aperfeiçoar o serviço da casa. Acho que sei o que isso envolve – portanto,” riu baixo mas satisfeita, “as vinte crianças sem dúvida vão trazer-me desafios interessantes”.

   Augusta entrou na discussão. “O que você sabe sobre a Escola Normal de Treinamento Santee, Charity?”

   “Tenho lido todos os jornais Word Carrier nos últimos meses. Conversei com a senhorita Abbott, que foi missionária supervisora lá.”

   “E por que ela abandonou o serviço?”

   “A saúde dela não estava boa. Realmente, é muito serviço. Mas tenho saúde de ferro. Isso não será problema para mim.”

   “O que você sabe sobre os índios Sioux, Charity?”

   “Na verdade, nada. Exceto pelo que aprendi no jornal.”

   Augusta ficou parada, com um olhar de dúvida em sua face. Charity continuou: “Mas o que Paulo sabia sobre os etíopes, quando compartilhou com o eunuco etíope, senhora Hathaway? O que ele sabia sobre os macedônios, antes de Deus chamá-lo para a Macedônia? Não acho que isso seja um problema”.

   “Continue”, Augusta falou.

   Charity alisou o macio cabelo castanho com uma mão trêmula e olhou corajosamente nos olhos de Augusta. “Durante toda a minha vida tenho sido uma moça egoísta, pecadora. Quando o Dr. Oakley pregou ano passado, só fui porque pensei que o Jim Callaaway iria aparecer por lá e eu queria – bem – eu queria flertar com ele.” Virando –se para Lisbeth, despejou: “Lisbeth, tenho tido um tremendo sentimento de culpa pela forma como tratei você na social da igreja aquela vez – com o Mackenzie. Fui extremamente grosseira com vocês dois. Tenho vergonha de mim mesma”. Os olhos de Charity ficaram úmidos enquanto ela honestamente pediu: “Espero que me perdoe. Sinto muito pelo meu comportamento”.

   Lisbeth piscou várias vezes antes de responder mecanicamente: “É claro Charity que perdôo, foi há tanto tempo”.

   Charity continuou: “Quando penso na forma como me comportei... eu tinha tanta raiva e então aquilo que aconteceu mais tarde... eu queria vir aqui oferecer minhas condolências, Lisbeth. Realmente, eu – eu tinha vergonha de mim mesma. E, sabe”, Cahrity abaixou sua voz, “tenho sido tão insincera durante minha vida toda, fazendo o que se espera, programando o que deve acontecer comigo. Então, quando senti empatia honesta, não achei que você acreditaria em mim. Não achei que você iria aceitar-me.”

   Você está certa, Lisbeth pensou. Eu não a teria aceitado aqui. Mas, mesmo enquato pensava isso, Charity continuou: “Bem, lá estava eu, no re–avivamento, e Jim Callaway não foi. Então fiquei emburrada. Graças a Deus por isso. Eu tinha sentado na frente de todo mundo para que todos vissem meu penteado e chapéu novo. Mas uma coisa engraçada aconteceu naquela noite. Simplesmente parecia que o Dr. Oakley falava diretamente para mim. Parecia que ele sabia tudo sobre minhas idéias e não consigo explicar exatamente, mas alguma coisa mudou dentro de mim. Decidi que queria ser diferente. Mas sabia que não conseguiria isso por mim mesma. Então pedi para Deus me ajudar a mudar”.

   Charity sentou-se de volta na cadeira de balanço e suspirou. “E Ele mudou. Não tudo de uma vez, é claro. Pouco a pouco. Comecei a sentir-me envergonhada das fofocas no círculo de costura. Então tentei parar. Depois comecei a me preocupar com outras pessoas – pessoas distantes, que não tem todos os privilégios que eu tenho. Quando comecei a ler o Word Carrier, lembrei-me de como sua mãe”, Charity virou-se para olhar para Lisbeth, “Costumava ficar doida quando as pessoas falavam sobre os ‘selvagens’. Comecei a ler a Bíblia e isso mudou minha forma de sentir as coisas. Tenho tentado mudar”.

   Lisbeth falou primeiro: “Você está mudando, Charity. E sempre mudanças boas. O que espera fazer na missão?”

   “Quero fazer alguma diferença. Trabalhar lá poderá ser uma chance de fazer diferença. Orei para ter uma fé de fogo, Lisbeth. Não estou apenas vivendo um entusiasmo de jovem. Quando conversei com a senhorita Abboutt, ela tirou de mim qualquer romantismo que u pudesse ter. disse-me tudo sobre porões cheios de água, percevejos, ratos que sobem nas beiradas das latas de nata, ratos nas tulhas, alunas preguiçosas que não querem trabalhar nem aprender. Ela fez tudo isso soar bem horrível mesmo.”

   “E o que você achou de tudo isso, Charity?”, Augusta perguntou.

   “Achei”, Charity falou firmemente, “que, se o Senhor Jesus pôde sofrer a morte por mim, então eu posso sofrer alguns ratos e percevejos por Ele.”

   Augusta e Lisbeth caminharam até a casa de Charity naquela noite. Quando Agnes abriu a porta, Charity beijou cada uma delas na face e entrou. Agnes deu um passo para dentro do hall e Augusta disse: “Agnes, sua filha foi chamada por Deus para servi-Lo. Os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis. Meu conselho é que você aceite o chamado e faça o melhor por isso. Charity não será dissuadida e, se você lutar contra ela, poderá causar um dano irreparável em seu relacionamento futuro. Além disso, se lutar contra ela, estará lutando contra Deus e esta é uma posição que humano nenhum deveria desejar”.

   “Beleza!”, Agnes bufou. “Que boas amigas vocês se tornaram. Ficarei grata se vocês ficarem longe da Charity. Eu cuidarei disso sozinha. Ela não irá para Santee.”

     Duas semanas mais tarde, na última sessão da cozinha da Casa Hathaway, uma notícia sobressaía no Daily State Journal:  

  

           A senhorita Charity Bond partiu hoje para servir na Escola Normal de Treinamento Santee, na região norte do estado, onde exercerá a função de supervisora no Ninho dos Pássaros, uma residência de meninas Sioux dakotas. Aqueles que desejarem corresponder-se com a senhorita Bond podem escrever para ela aos cuidados da Escola Normal de Treinamento, Santee, Nebraska. A pedido da senhorita Bond, lembramos nossos leitores que a sociedade Missionária de Senhoras estará aceitando doações de roupas a serem distribuídas na escola. As doações podem ser entregues no Hotel Casa Hathaway, onde a senhora Lisbeth Baird cuidará da lavagem apropriada e dos concertos de itens usados. Casacos e sapatos são especialmente necessários. Encorajamos as senhoras a participar da Sociedade nas quartas-feiras à tarde. Elas estarão tricotando echarpes para serem doadas às vinte meninas da casa da senhorita Bond. Doações de lã também são bem recebidas.

 

   Não tenha o teu coração inveja dos pecadores; antes no temor do Senhor perseverarás todo dia. Provérbios 23:17

  

   Sarah Biddle sentou-se ao lado de Jim Callaway e fixou os olhos arregalados na mansão dos Braddock com surpresa. Atrás deles no carroção, havia caixas cheias de roupas de cama, mesa e banho e coisas de cozinha que tinham chegado no dia anterior na estação Burlington.

   Sarah e Tom Biddle tinham partido antes do retorno dos Braddocks para Lincoln. Abigail havia incumbido Sarah de cuidar de todos os detalhes da mudança, limpeza e arrumação da mansão – com muitíssimas instruções enviadas para Augusta no cas0 de a tarefa ser demais para Sarah.

   Jim olhou com olhos arregalados para a mansão e assobiou baixinho. “Eu sabia que os Braddocks tinham dinheiro, mas jamais pensei que era tanto assim.”

   Sarah simplesmente sentou-se, com o coração batendo rapidamente, os olhos azuis piscando, sem acreditar. “Desde que cheguei, não tinha vindo aqui. O construtor insistiu para eu esperar até que ele tivesse acabado. Augusta e Lisbeth nunca disseram uma palavra. Certamente eu não estava preparada para isso.”

   A mansão Braddock era imensa, vistosa com varandas nos três andares e cumeeiras, vitrais coloridos, bordaduras entalhadas, cercada por pilares com luzes no topo. Com as mãos tremendo, Sarah alcançou sua bolsinha e retirou uma chave enorme. “Aqui está a chave do portão”, falou um pouco gaguejante. Jim pegou-a, destrancou o portão, abriu-o bem, então entrou com a parelha no pátio de chão de tijolos.

   Sarah desceu do carroção e arrumou seu vestido cinza-claro. Andou até o canto da casa para uma inspeção geral. Cada aspecto do lugar tinha um projeto impecável, desde um pequeno gazebo, sob o que seria uma vinha, até os canteiros tortuosos de flores dispostos ao longo da cerca. Atrás da garagem de carruagem, uma porção de terra permanecia sem plantas.

   “Aquela será a minha horta”, explicou Sarah.

   Jim brincou: “Sua horta é? Acho que já se sente em casa hein, senhorita Biddle?”.

   Sarah corou e virou-se para olhar a parte de trás da casa. “Ó não. Eu jamais me sentiria em casa em um lugar tão grande assim. Tudo o que eu quero para minha casa é um lugar pequeno fora da cidade.”

   “Bom, acho melhor colocar essas coisas para dentro.” Jim dirigiu a parelha um pouco para frente para um melhor acesso à porta da cozinha.

   Sarah estava confusa com o monte de chaves que o construtor lhe tinha dado naquela manhã. “vou demorar um pouco”. Ela estava indo para os fundos quando Jim falou: “Por que você não entra pela porta principal? Volte e deixe-me entrar”. Com o olhar duvidoso de Sarah, Jim a apressou: - “Vá pela porta principal, Sarah. Eu não sou especialista em mulheres, mas sei que vocês gostam de coisas enfeitadas. Não vá me dizer que não gostaria de que tudo isso pertencesse a você, pelo menos uma vez”.

   Sarah olhou com desejo para trás, em direção à grande porta de carvalho. “Vá em frente”, Jim incentivou-a. “A senhora Braddock confiou em você para arrumar tudo para ela. Você não está fazendo nada errado.”

   “Você entra comigo?”, perguntou.

   Balançando os ombros, Jim respondeu: “É claro, por que não?”

   Finalmente Sarah colocou a chave na enorme porta. Jim girou, abriu e eles entraram... “A mobília chegará logo. Agora vou mexer na cozinha. Depois nos quartos e então vou me mudar para cá.” A voz de Sarah tremeu um pouco enquanto os dois caminharam pela varanda até o grande hall da entrada principal. Uma escada larga subia, em forma de caracol, a perder de vista. Havia um aconchegante lugarzinho de descanso, todo envidraçado, do lado de fora ficaria o jardim das rosas, para o qual as janelas de sacadas se abriam.

   Quando finalmente chegaram à cozinha Sarah ficou transtornada. Ao olhar o enorme forno, a imensa ilha para preparo de alimentos, o piso com cerâmica impecavelmente branca, ela só conseguiu dizer “Ó minha nossa!” e sentar-se bruscamente.

   Jim olhava admirado o cômodo, apreciando tudo. “Bem, Sarah, parece que você deu uma subida daquelas na vida...”

   Sarah olhou a sua volta com cara de boba. “O que eu vou fazer com todo este espaço?”

   Jim dirigiu-se à porta do fundo e virou-se rapidamente para dizer: “Lisbeth vai anotar tudo quando vir isto daqui e fará algumas sugestões para a sra. Hathaway.

   “Elas já tiveram uma dessas reuniões.”

   Jim levantou uma sobrancelha. “É mesmo?”

   Quando voltaram do centenário, Augusta estava super empolgada com tudo o que tinham visto. Ela tem desenhado e feito plantas, e tem conversado com construtores a meses. Acho que está desistindo da idéia de reformar decidiu mesmo construir um novo hotel, mais perto da estação de trem. O sr. Braddock vai investir no projeto.”

   Jim estremeceu. “Aquele senhor Braddock com certeza está rondando, não é?”

   Sarah ignorou o tom da voz de Jim. “É, ele tem sido muito útil. Ajudou Augusta com os planos e avaliou o quarteirão em que ela deveria construir. Acho que ele gosta da Lisbeth. Parece que tudo o que ela está interessada ele tenta.”

   “Acho que é melhor eu começar a descarregar. “Jim dobrou-se para prender a porta aberta e desceu batendo os pés, agarrando um caixote e transportando-o para dentro. No momento exato em que ele tinha descarregado o último caixote, uma carruagem entrou, chacoalhando, no quintal.

   “Ih, quem será? Eu deveria ter trancado o portão”, Sarah resmungou enquanto se apressou para fora e deu uma volta na casa. Lisbeth e Augusta estavam descendo da carruagem. Tom já tinha saltado e corria pelo quintal, gritando e exclamando: “Ual, tia Augusta. Olha o quintal” olha aquela varanda!”. Ele parou nos degraus sob o pórtico. “Ó, onde será o meu quarto? Este lugar é tão grande!”

   Sarah riu. “Tom acalme-se. Você terá tempo suficiente para explorar o lugar. “Virando-se para Augusta e Lisbeth, acrescentou: “Bem, com certeza vocês guardaram segredo. Não me disseram que os Braddocks estavam construindo uma casa deste tamanho em Lincoln!” De repente ficou séria. “Não sei se serei capaz de tomar conta de um lugar fantástico como este.”

   “Olhe Sarah”, Augusta falou, “não pense pequeno sobre si mesma. Você dirigiu um hotel sozinha, quando Lisbeth e eu viajamos. E aprendeu muito com aquela senhora Titus na Filadélfia. Abigail só elogiava você em suas cartas. Você vai fazer isso muito bem. Vai ver só”.

   Sarah não estava tão certa assim. “Quem já ouviu falar de uma menina de 16 anos responsável por uma casa dessa?”

   Jim interferiu: “Não deixe ninguém desprezar sua juventude, Sarah. Isto está na Bíblia. Não interessa se você tem 16...17 anos. Você vai se sair bem.”

   O rosto de Sarah brilhou de prazer com o elogio de Jim.

   Lisbeth concordou. “Você não pode falar de um livro pela sua capa.” Rindo maliciosamente, ela continuou: “Oras, dê uma olhada no Jim Callaway, aqui. Olhando para ele, você pensa que é um idoso homem da montanha, com essa barba e tudo”. Ela olhou para Jim, que começou de propósito a puxar a barba. “quem diria que o Jim só está começando agora a ser fazendeiro? Abigail Braddock tem você em alto conceito, Sarah. Ela ficou muito impressionada com seu trabalho em Filadélfia. Até David disse isso nas cartas.

   Com a menção de David, Jim pulou de trás do carroção onde havia se sentado para olhar Lisbeth. “É melhor eu levar estes cavalos de volta para o estábulo. Tenho de conduzir algumas éguas para a fazenda antes do pôr-do-sol, prometi ao Joseph amansá-las durante o inverno e desmamar suas crias.” Pôs o chapéu de volta e subiu no carroção, dirigindo devagar a parelha, ao redor do quintal que circulava uma estátua enorme.

   Dando ordens para Tom não ‘aprontar’, Augusta e Lisbeth se apressaram para conhecer a mansão e ficar estupefatas com as vigas e o chão polido, os tapetes persas e as cortinas drapeadas.

   No caminho de volta para a cocheira, Jim Calaway deu uma paradinha na farmácia do Tingley. A parada extra o fez atrasar-se e já foi bem depois do escurecer que ele retornou com os cavalos de Joseph e pegou os seus. Ainda assim, acendeu uma lamparina na cozinha. Semicerrando os olhos ao olhar para o espelho embaçado, dependurado na porta dos fundos, barbeou-se cuidadosamente retirando a barba branca.

 

   ...porque o Senhor não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração. I Samuel 16: 7

     

   Na terceira coluna do Daily State Journal do dia 12 de agosto de 1877, apareceu um anúncio simples:

  

   O sr. David Braddock e a sra. Abigail Braddock retornarão à nossa agradável e promissora cidade para fixar residência em sua linda casa, dentro de uma semana. Outros artigos serão reportados após a recepção oferecida pelos Braddocks nesta sexta-feira.

 

   Para Augusta, Lisbeth, Sarah e Tom, estas simples linhas representavam uma grande chance de mudança de vida. Augusta percebeu que tinha chegado a hora e ficava imaginando como ela e Lisbeth viveriam sem Sarah e Tom. Lisbeth leu o anúncio e pensou em como sentiria saudade do jeitinho delicado de Sarah. Sarah leu e saiu repentinamente da cozinha, em lágrimas. Tom parou de fazer suas contas, tarefas dadas pela senhorita Griswall, e ficou pensando alto se o sr. David iria trazer a nova bola de beisebol e o bastão que havia prometido.

   Augusta e Lisbeth já tinham empregado uma nova cozinheira para poder ajudar Sarah e Tom a mudar para a nova mansão. Todos os dias, Sarah orientava na colocação da mobília, desempacotava coisas vindas de Filadélfia, varria e limpava como se os Braddocks já estivessem morando ali. Em muitas tardes ela recebia ajuda de Lisbeth ou Augusta. Geralmente Sarah e Tom jantavam na Casa Hathaway, retornando à cozinha familiar; ajudavam Lisbeth a lavar a louça, treinando a nova ajudante de cozinha e depois eram levados de volta para casa por Joseph, quando o sol se punha.

   Finalmente o telegrama chegou. Os Braddocks estavam realmente vindo. Sarah e Tom passaram a última noite na Casa Hathaway. Quando chegou a hora de partir, Augusta segurou Tom bem perto e insistiu para ler só mais uma história de seu livro preferido. Enquanto Augusta lia, Sarah foi até seu primerio quarto.

   Lisbeth a seguiu pelo corredor. Encostada no batente da porta, ela soltou os braços e disse: “Vou sentir sua falta Sarah. Vou ficar chateada de não ter você trabalhando comigo, e vai ser chato não ter ninguém para fazer gozações com a tia Augusta, quando ela começar a discutir política, ao ler o jornal”.

   Sarah sorriu tristonha. “Naquela noite em que Joseph encontrou o Tom – e eu – lá em cima na cocheira, se você me dissesse que eu seria empregada de uma senhora boa em uma mansão, que eu teria meu quarto e um bom salário...” Seu queixo começou a tremer. Abaixou a voz e cochichou: “Às vezes fico assustada ao pensar em como Deus tem sido bom pra mim”. Levantando os olhos para Lisbeth, acrescentou: “Não consigo entender o porquê”.

   Lisbeth levantou e abaixou os ombros. “Não posso responder a isso. Tenho lido a Bíblia da mamãe, tentando entender como Deus trabalha e por que Ele faz as coisas que faz. Mas por enquanto ainda não encontrei nenhuma resposta.”

     Lisbeth suspirou e olhou em volta, no quarto. “É difícil imaginar este lugar sendo derrubado e substituído por um novo hotel. Tia Augusta falando em construir uma nova casa. O centenário realmente a fez ir para frente. E David incentiva cada um dos seus planos. Os dois decidiram que, se a tia Augusta incluir serviços de buscar e levar de volta a bagagem, de graça, atrairá mais gente. Ele acha que ela pode cobrar três dólares por dia se fizer algumas melhorias. É delicado da parte dele ter tanto interesse em vê-la prosperar.”

   Sarah sorriu suavemente. “Acho que o sr. Braddock está interessado em ver Augusta e você prosperar, Lisbeth.”

   “É ele tem sido muito delicado”, Lisbeth falou na defensiva.

   Sarah deu uma olhada no quarto novamente antes de passar pela porta. “Acho que é melhor eu ir pedir para Joseph levar-nos de volta à mansão.” De repente Sarah colocou a mão no braço de Lisbeth e pediu: “Ore por mim amanhã, trabalhei bastante e acho que as coisas estão todas certas, mas estou terrivelmente nervosa. A sr. Braddock convidou algumas pessoas importantes para a recepção dela”.

   Lisbeth deu uns tapinhas na mão de Sarah. “Você vai fazer tudo direitinho, Sarah. Você é uma cozinheira maravilhosa e uma governanta, e Abigail gosta mesmo de você. Não tem nada com o que se preocupar.”

   “Espero que você esteja certa.”

   “Sei que estou”, Lisbeth insistiu.

 

   “Uau!” Augusta exclamou, jogando-se em sua cadeira de balanço e desamarrando os sapatos. “Abigail Braddock certamente sabe conduzir uma noite agradável. Mas estou contente de estar em casa!”, Augusta deu uma risadinha satisfeita. “Fiquei tão orgulhosa da Sarah que achei que fosse estourar. Ela não fez um trabalho incrível? Aqueles sanduíches requintados – todos os docinhos – ela disse que trabalhou mais do que jamais trabalhou no hotel. Mas estava resplandecente de orgulho. E o Tom, assentado no alto das escadas, espiando pelo corrimão. Só que eu contei, ele comeu uns trinta e cinco bombons!”

   Lisbeth despejou o chá e sentou-se próximo à Augusta.

   “Tenho uma coisa para perguntar à senhora.” Lisbeth olhou para baixo e estudou o piso enquanto Augusta esperava. Tomando um fôlego profundo, Lisbeth entrou no assunto. “As senhoras da sociedade acabaram de tricotar. Temos uma echarpe, um gorro e uma luva para cada uma das vinte meninas da casa da Charity, na missão. Quando eu pregar a última fileira de botões naquele casaco velho que Agnes trouxe no domingo, os remendos estarão prontos e teremos quatro malões cheios e prontos para a missão. Tenho recebido regularmente notícias sobre Charity e eu – é – eu gostaria de levar as coisas para a missão, pessoalmente.

   Augusta interrompeu. “Acho que o David Braddock ficaria bem desapontado por ter feito toda essa viagem, e você sair daqui.”

   Lisbeth arrumou-se desconfortavelmente em sua cadeira. “Isso quer dizer que a senhora não quer que eu vá? Posso entender se achar que não dá pra se virar, sem mim,”

   “Não é isso, de jeito nenhum, Lisbeth. As duas meninas qur responderam ao anúncio ontem, enquanto você estava na escola dominical, podem começar imediatamente. Não há razão para sentir-se presa ao hotel. É só que...”

   “Eu não posso ficar aqui, Augusta. David...” Lisbeth arrumou-se de novo. Depois de um longo silêncio entre as duas, ela cochichou: “Eu ainda amo o Mac. Não posso ficar aqui, enquanto o David não me escuta...”.

   Os olhos de Augusta flamejaram de raiva. “O quê, ele...”

   Lisbeth apressou-se em responder. “Ele tem sido um perfeito cavalheiro. É só que ele sempre está ali, esperando. Eu não quero que ele fique esperando. Não quero ninguém esperando. Por que ele não pode ser como o Jim Callaway? Tenho certeza de que está caidinho pela Sarah, mas está esperando e deixando as coisas acontecer, ela mesma se virar, por um tempo. Ele nem mesmo voltou à cidade, desde o dia em que a ajudou a descarregar.”

   Finalmente Augusta disse: “Eu não aprovo sua fuga, Lisbeth. Sempre fui uma pessoa que encara as coisas de frente”.

   “Eu não estaria fugindo – exatamente. Estou mais interessada no trabalho da missão. Charity Bond parece estar feliz, em suas cartas. Ela tem mudado tanto! Eu gostaria...” Lisbeth parou de repente. “Gostaria de saber o que a deixa tão contente.”

   Lisbeth olhou honestamente para Augusta. “Não tenho falado muito sobre isso, Tia Augusta, mas penso muito sobre muitas coisas – sobre mamãe e papai e na forma como as coisas estão transcorrendo para os Sioux. Fico pensando em Águia que Voa Alto e na Flor do Campo – onde estarão eles, se estão a salvo, se estão em uma reserva em algum lugar. Sei que não posso fazer nada para ajudá-los, mas me faz bem ajudar as crianças dakotas na missão Santee. Gostaria de ir e ver tudo isso por mim mesma. Gostaria de ver se consigo entender tudo o que aconteceu.

   “Mamãe guardou segredo sobre eu ser lakota. Sei que fez isso pois achava que seria melhor. Mas às vezes fico pensando se eu poderia – lidar com isso.” Lisbeth parou abruptamente. “Mac sabia não se importava. Fico imaginando o que David Braddock pensaria ou faria.”

   Augusta interrompeu-a. “Lisbeth, sempre acreditei que há apenas uma cor com valor. A vermelha. O sangue do nosso querido Salvador. Sua mãe sentia isso também. Nem todos sentem o mesmo, eu sei. Desejaria poder aconselhá-la.” Augusta suspirou. “O fato é que não tenho certeza do que você deve fazer. Simplesmente ore por isso. Deus lhe dirá o que é melhor.”

   Lisbeth inspirou forte antes de responder: “Sabe o que fico pensando às vezes? Justamente na hora que eles saíram – Mac abaixou para me beijar, despedindo-se de mim, e eu tirei o medalhão que mamãe tinha me dado, aquele com a nossa foto. Tirei do meu pescoço e coloquei no dele”. Tomando um fôlego profundo, ela continuou: “Às vezes estou deitada à noite, ainda acordada, e enxergo a batalha em minha mente, e vejo o Mac morrendo e...”.

   “Não querida, não se coloque nessa situação!”, Augusta falou firme. Mas Lisbeth continuou falando.

   “Vejo o Mac e ele está morto e lembro-me do que o jornal falou sobre como estavam as coisas. Fico pensando se em algum lugar, exatamente agora, algum bravo Sioux está usando meu medalhão.” Lisbeth olhou para Augusta com os olhos bem abertos. “Eles fazem isso, a senhora sabe. São troféus. Às vezes fico acordada à noite e vejo um bravo Sioux – como papai – cavalgando pela campina, e ele está adornado com seus melhores enfeites, como a mamãe falou que o papai estava quando se casaram, e ele usa aquele medalhão.” Lisbeth estudou o piso e disse quase num cochicho: “Isto quer dizer que, em algum lugar, parte de mim está lá – com o lakota”.

   Olhando para cima bruscamente, Lisbeth mudou de assunto. “De qualquer forma, eu gostaria de ir até a escola para visitar a Charity e ver como são as coisas lá.” Acrescentou séria: “A Charity disse que eles têm um pastor cristão Sioux lá. Então talvez eu possa saber um pouco mais sobre como o papai era. Talvez eu entenda e saiba o que devo fazer comigo.”

   Augusta disse em dúvida: “Se sente que deve fazer esta viagem, não vou ficar no seu caminho, Lisbeth. Quando pretende ir?”.

   Precisa ser antes do inverno. Gostaria de sair tão logo receba uma resposta de Charity e tenha certeza de que não haverá problema com minha ida. A senhora iria também?”

   “minha nossa, não, criança. E se o clima estiver muito ruim, é melhor você nem ir. Você terá de convidar Agnes.” Augusta viu a reação de Lisbeth. “Você vai visitar a filha dela Lisbeth. Precisa pelo menos perguntar a ela. Joseph está ficando muito velho para carregar malões pesados. Vou ver se o Jim Callaway pode acompanhá-la até a Missão. Jim Callaway e um homem bom e cuidará para que você chegue lá e volte para casa, em segurança. Antecipando um protesto, Augusta levantou a mão. “Ele pode trazer aquelas éguas e sua parelha para o Asa Verde. O resto das coisas da fazenda pode ficar fechado por um tempo. Se eu pedir, ele vai aceitar.”

   “E você não precisa correr do David. Isso cortaria o coração de Abigail. Ela tem, bem nós duas temos colocado nosso coração em vocês dois.” Vendo a reação de Lisbeth, augusta continuou: “Agora, escute aqui, Lisbeth. Nenhuma de nós, velhas senhoras, vai falar ou fazer qualquer coisa para empurrar você para lago que não queira. Simplesmente não sou do tipo de guardar segredos você sabe disso. Então. Mas, enquanto isto, precisa dar ao David uma chance de tornar-se seu amigo”.

   Lisbeth apertou a cabeça contra o encosto da cadeira de balanço e refletiu sobre o pedido de Augusta. As duas mulheres balançaram-se na cadeira, enchendo a sala quieta com um dueto de sons. Então Lisbeth disse: “Fico pensando se David ainda gostaria de ser meu amigo se ele soubesse...”.

   Ela deixou o pensamento suspenso no ar e retornou ao assunto da viagem. “A senhora está certa com relação a Agnes” Lisbeth concordou, “embora eu tenha de admitir que sinceramente oro para que ela diga não”.

   “E o David?”, Augusta quis saber.

   “Vou conversar com ele. Vou fazê-lo entender.”

   E assim fez.

    

   “Eu entendo Lisbeth”, David falou zangado. “Eu entendo que você está saindo para uma viagem de duas semanas com o Jim Callaway e nem mesmo irá jantar no Rialto comigo.” Eles estavam na biblioteca da mansão, e David virou-se de costas para Lisbeth. Andou até a estante, onde ficou esfregando a beirada de um livro e usou toda a sua força de vontade para não atirar um livro em um dos vitrais que dava para a varanda.

   Da cozinha Sarah ouviu a raiva em sua voz e retirou-se apressadamente para o quarto de Tom, onde se assentou e começou a averiguar rapidamente as meias que precisavam ser cerzidas.

   De sua sala de estar partículas, Abigail ouviu a raiva na voz do filho e falou consigo mesma: “Ó David. Tenha paciência, David”.

   Lisbeth sentiu-se estranhamente calma e respondeu: “Quero fazer esta viagem, David. Quero ver pessoalmente o trabalho que Charity está fazendo. Isto é importante para mim”

   Ele continuou de costas para Lisbeth enquanto retrucava: “E você é importante para mim”. (Afff!)*

   “Então você deveria entender e deixar-me ir.” (???)*

   Ele andou em círculo. “Eu vou levá-la.”

   “Não!”

   “Por que não?”

   “Você não entenderia.”

   “Eu quero entender, Lisbeth. Você não pode explicar para que eu possa entender?” Seus olhos castanhos suavizaram enquanto ele implorava. Não havia mais raiva em sua voz, e Lisbeth começou a respirar fundo e relaxou.

   “Acho que não consigo explicar. Nem eu mesma sei se entendo. Simplesmente preciso ver a missão e o trabalho lá. Tenho ficado profundamente preocupada com esse trabalho. Eu mesma quero ver.”

   David pegou as mãos de Lisbeth. “tenho me preocupado com você. Eu mesmo gostaria de levá-la até lá”

   “Você não deve ir, por diversas razões. Vou porque estou genuinamente interessada no trabalho e porque preciso encontrar meu lugar no esquema das coisas. Meu marido está morto, minha mãe está morta, e de alguma forma acho que visitar a missão me ajudará a encontrar-me.”

   “Mas como uma visita a uma missão indígena possivelmente a ajudaria nisso?”

   “Ajudando-me a entender melhor o meu passado, David. Talvez se eu fizer isso, conseguirei enfrentar o meu futuro.”

   “Ainda não consigo entender. Como uma visita a uma missão indígena pode ajudar você a entender o seu passado?”

   “Porque David, meu pai era um Sioux. Porque tenho um meio-irmão que nunca encontrei – em algum lugar – entre o povo lakota.”

   David piscou várias vezes e deixou cair a mão dela.

   “Quero saber como eles são. Quero entender o que segurou o amor de minha mãe até o dia em que ela morreu. Quero saber o que é que mantém Charity Bond na missão. É um espaço em branco sobre meu passado que eu quero preencher, David. Então, é por isso que quero ir para a missão.”

   Lisbeth pegou o seu chapéu, que havia colocado na cadeira. Enquanto prendeu no pescoço e deu uns passos em direção à porta, ela olhou de volta para David e disse muito calmamente: “E preciso ir sem você, David, porque, neste instante, quando lhe contei que sou meio - Sioux, você soltou da minha mão”.

   Lisbeth saiu da biblioteca rapidamente e depois da casa, pela porta lateral. Andou o quilômetro até a Casa Hathaway e parou no estábulo de Joseph. Ela caminhava de lá para cá, no corredor das cocheiras, apertando as orelhas de seus cavalos preferidos e cantando suavemente para si mesma, quando Jim Callaway entrou no estábulo; de olhar baixo, ele leu a mensagem que Augusta tinha mandado à fazenda pelo Asa Verde. Ele chamou Joseph e olhou para cima, enxergando Lisbeth.

   O velho hábito de puxar a barba ainda não tinha desaparecido. Ele pegou no queixo e sorriu para Lisbeth. Referindo-se ao recado em sua mão, falou: “Aqui diz que a srta. Lisbeth King Baird precisa de um acompanhante para uma viagem ao norte”.

 

*(comentário meu... pra que? pedir ‘permissão’ pro mimado do David? Aff! Cara mais chato! Os dois nem eram namorados nada... = s)

 

   Grande paz têm os que amam a sua lei; para eles não há tropeço. Salmo 119:165

 

   “Eu não agüento a Agnes Bond nem por dois minutos, Augusta. Como poderei agüentá-la por duas semanas? Lisbeth resmungou.

   Augusta lembrou-a: “Agnes tem tido dificuldade em aceitar a decisão da Charity. Talvez a viagem possa ajudá-la. E a presença de Agnes como acompanhante tornará possível sua viagem. Simplesmente mantenha isso em seus pensamentos, então ore por paciência!”

   Relutantemente, Lisbeth concordou com Augusta. Relutantemente, ela cruzou a cidade para fazer o convite e miseravelmente andou de volta para informar a Augusta que Agnes tinha aceitado ir. “Ela ficou preocupadíssima e nervosa com relação à viagem, mas no fundo acho que ficou contente por tê-la convidado.”

   “A Charirty é sua filha única Lisbeth, e Agnes sente uma saudade terrível dela. Você está fazendo uma caridade imensa de levá-la.”

   “Talvez, Lisbeth replicou, “mas fico imaginando se estarei fazendo uma coisa boa para Charity – e coitado do Jim Callaway. Aposto que a Agnes consegue tirar do sério até Jim, com seu jeito calmo e imperturbável.”

   O trio saiu da cidade na segunda-feira. Agnes resmungou e reclamou, enervou-se e enfureceu-se, mas Jim não se abalou. Quando Agnes reclamou que o sol estava quente, ele pulou para trás e arrumou sua sombrinha. Quando Agnes lamuriou por causa da sede e do vento, ele fez um desvio para encontrar água fresca e arrumou um lugar protegido para ela no corpo do carroção. Quando Agnes anunciou que não havia dormido um segundo, Jim deu-lhe seus próprios lençóis e dormiu no chão, com a cabeça apoiada em um rolo de roupa.

   Agnes tinha medo de cobras; Jim assegurava que ele tinha um olho de águia e era do tipo “um único tiro”. Agnes tinha medo de que os cavalos disparassem; Jim explicava que Joseph insistira para levarem sua melhor parelha na viagem. Finalmente Agnes começou a compartilhar sua dor de coração pela perda da única filha para a missão.

   Jim ofereceu: “Quando me preocupo com alguma coisa, sra Bond, há um salmo que sempre vem à minha mente e é realmente consolador: ‘Nos muitos cuidados que dentro em mim se multiplicam, as Tuas consolações me alegram a alma.’ Agora, não quero parecer do tipo sabe-tudo mas realmente há coisas confortantes na palavra de Deus, madame”. Eles estavam sentados ao redor da fogueira, e Jim pegou seu saco de dormir e tirou a Bíblia de dentro. Passou-a para a sra. Bond. “Não se incomode com os grifos nela. Gosto de sublinhar os versículos, pois assim posso encontrá-los mais tarde, quando preciso deles.”

   Agnes abriu o livro e apertou os lábios. “Nossa, há muitos grifados aqui.”

   Jim sorriu gentilmente. “Bom, madame, foram muitas as vezes em que precisei de conforto.”

   Agnes levantou os olhos com curiosidade: “E então, com o que um homem bonito e saudável como você se preocupa? Tem uma fazendo boa e um futuro brilhante, eu diria. É claro precisamos de uma boa esposa”. Olhou para Lisbeth, que estava observando os menores detalhes de sujeira em seus pés, enquanto os dois conversavam.

   Jim falou: “Não se preocupe, sra Bond. A senhora já tem uma filha com que se preocupar. Não precisa preocupar-se comigo”. Escorregou o chapéu cobrindo os olhos e encostou-se no saco de dormir, dando fim à conversa.

   Agnes virou as páginas da Bíblia e Lisbeth levantou-se para caminhar. De trás de seu chapéu, Jim preveniu-a: “Não vá muito longe Lisbeth. Cascavéis e lobos não distribuem cartões de visitas.

   “Por que você não vem caminhar comigo?”, Lisbeth convidou.

   Jim pulou como uma mola e ajeitou o chapéu. Então, solicitamente perguntou: “Sra. Bond, a senhora ficará bem se a Lisbeth e eu sairmos para uma caminhada?”.

   Para surpresa de Lisbeth, Agnes sorriu com bondade e, ao invés de queixar-se, deu permissão de bom coração. “Vão em frente filhos. Ficarei bem. Parece que o Senhor vai nos dar um lindo pôr-do-sol.”

   Lisbeth olhou para Jim com surpresa e pegou seu xale no carroção. Os dois andaram sem conversar por um tempo. Quando Jim quebrou o silêncio, foi para um cumprimento à Lisbeth. “Você fez uma coisa boa, Lisbeth.”

   “Espero que as crianças usem tudo isso que está sendo enviado.”

   “Não, não estou falando das roupas. Estou falando de ter convidado a sra. Bond para vir.

   Lisbeth respondeu honestamente: “Não me cumprimente por isso. Era necessário uma acompanhante. Mas lá no fundo, esperneei e berrei por todo o caminho até a casa de Agnes, quando fui convidá-la. Eu não achava que poderia aquentá-la durante todo este percurso”. Levantou o olhar para Jim. “Você facilitou isso, no entanto. Como você pode ser tão paciente com ela?”

   “Ah! Não precisei de muita paciência, na verdade. Quando você olha para trás, percebe que ela é apenas mais uma filha de Deus cuja vida não foi aquela sonhada. Ela está amedrontada que o futuro pode trazer e tenta ignorar isto intrometendo-se na vida de todo mundo, assim não precisa pensar sobre si mesma.”

   Lisbeth perguntou: “E, você pode me explicar como consegue pensar em tudo isso?”

   “bom, quando a sra. Hathaway pediu-me para trazer você, eu disse que sim na mesma hora. Então fiquei sabendo sobre a sra. Bond e não gostei muito da idéia.”

   Lisbeth riu. “Acho que você resumiu bem.”

   “Mas”, Jim continuou, “eu só orei sobre isso e finalmente senti-me em paz. Li aquele versículo que diz ‘O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa vem dos lábios do Senhor’. Achei que Deus tinha uma razão para enviar Agnes Bond conosco e decidi que seria melhor eu cooperar com Seus planos. As coisas sempre funcionam melhor quando coopero com os planos de Deus e não me apresso para fazer minha vontade.”

   “Como você sabe quais são Seus planos?” Lisbeth quis saber.

   “Às vezes não tenho certeza. Apenas tento continuar lendo Sua palavra, pedindo que ele me transforme, e então espero que o meu desejo esteja alinhado com os Seus planos. Simplesmente sigo em frente e continuo a orar o tempo todo, pedindo que, se não for Seu plano, que Ele feche alguma porta.”

   “Eu gostaria de poder confiar em alguém assim.”

   “Lisbeth, o único que merece essa confiança é Deus.”

   Lisbeth fez uma cara feia. “Pensei, certo tempo, que poderia confiar Nele. Quando eu era pequena, confiávamos em Deus em todas as coisas, desde roupas até lugar para morar. Tentei continuar a confiar. Depois cresci. Não consegui.”

   “Lisbeth, posso lhe perguntar uma coisa mais pessoal?”

   Eles tinham parado de andar e estavam em uma leve elevação, quando o sol se pôs, manchando a campina, com seu último brilho dourado. Lisbeth abraçou a si mesma, em defesa. Olhou para os sérios olhos verdes - acinzentados, concentrados de Jim, e meneou os ombros. Jim continuou.

   “Quando você fala sobre amar a Deus e confiar em Deus, é sempre o quanto sua mãe O amava, o quanto sua mãe confiava Nele. Fico pensando, Lisbeth, você tem tentado viver na fé de sua mãe? Você mesma tem alguma fé?” Ele se apressou a explicar: “Veja bem, isso foi o que aconteceu comigo. Cresci indo à igreja e dizendo todas as coisas certas. Então, certo dia, quando algo... terrível aconteceu, descobri uma coisa. Eu não tinha nenhuma fé em que me apoiar. Havia apenas um abismo terrível e escuro. E caí dentro dele. Foi só quando encontrei Joseph e li aquele livro que dei para Agnes que finalmente encontrei minha própria fé”.

   “Diga-me uma coisa, Jim: foi isso que fez a diferença para você?” Lisbeth puxou o xale que escorregava de um ombro. Jim olhou surpreso. “Diferença?”

“É, quando você veio para Lincoln, estava distante. Frio. Quieto. Como se estivesse se guardando, afastado de todo mundo. Joseph disse que você não estava vivendo a vida. Estava apenas suportando-a. mas aconteceu alguma coisa que o transformou. Naquele dia em que me pediu para vender a fazenda, percebi isso. Havia algo novo em você, uma coisa nova em seus olhos”. Lisbeth corou. “Não sei – era como uma luz que entrou em você”

   Jim sorriu. “É isso aí, Lisbeth. Uma luz entrou. Deus me deu uma fé, minha fé, e ela começou a curar as feridas dentro de mim.”

   “Mas e se alguma coisa horrível acontecer de novo? Se você não souber e tudo o que você quiser para sua vida não acontecer? E se as coisas simplesmente se partirem – você perder a fazenda ou ficar doente – e daí?”

   A resposta foi confiante: “Tenho um lugar onde cair ao invés de num abismo escuro.”

   “E o que é?”

   “‘O Deus esterno é a tua habitação, e por baixo de ti estende os braços eternos’. Eu simplesmente cairei, nos ‘braços eternos’ e O deixarei me carregar.”

   “Eu jamais poderia fazer isso.”

   “Por que não?”

   “Pedi para Ele guardar o Mac. O Mac morreu. Pedi pra Ele me ajudar a acertar as coisas até poder chegar em casa e encontrar mamãe. Mamãe morreu. Não peço mais na para Ele. Ele não me ouve.”

   “Talvez Ele a tenha ouvido e dito ‘não’. Talvez tenha um plano para sua vida e você terá de passar por esses tempos difíceis.”

   Lisbeth rejeitou a idéia com amargura. “Eu não acho que quero saber de um plano para minha vida que envolva tanta dor.”

   Limpando a garganta, Jim tentou responder: “Não tenho todas as respostas para você. Só posso falar das coisas que me têm ajudado”. O sol escondeu-se por trás de uma colina e Jim tomou o braço de Lisbeth. “Está ficando tarde. É melhor voltar para o acampamento.”

   Os dois andaram de volta pela campina e fizeram os arranjos para a última noite deles acampando. Agnes só reclamou de uma coisa, de o fogo não estar tão vigoroso para poder fazer um café realmente forte.

   A fogueira estava baixa e Agnes roncava baixinho no carroção, quando Lisbeth desistiu de tentar dormir e sentou-se. Embrulhada em uma colcha de retalhos, pegou um graveto e começou a riscar o pó enquanto sua mente girava entre a raiva por Jim ter uma resposta para cada uma de suas dúvidas e a admiração por ele ter abandonado a própria escuridão e estar de bem com a vida.

   Ela pulou com o som da voz dele dizendo baixinho: “Não se atormente, Lisbeth. Deus ama você”.

   Jim resistiu ao impulso de dizer “e eu também”. Ao contrário levantou-se e colocou a caneca com água para fazer café no carvão incandescente. “Vou fazer um pouco de café.”

   “Fala-me sobre isso, Jim,” Lisbeth disse bruscamente. Ela olhou para ele com seus olhos pretos implorando: “Conte-me sobre o abismo escuro em que você caiu. Diga-me como foi que subiu para sair dele”.

   “Eu não subi para sair. Fui puxado para fora pelo bom Senhor.”

   “Eu gostaria que Ele me puxasse para fora do meu abismo.”

   Ele falou com voz macia: “Eu acho que Ele a puxará, Lisbeth. Acho que puxará”.

   Agnes roncou alto e os dois se assustaram com o barulho, riram um para o outro e sufocaram a gargalhada.

   Jim despejou café nas duas xícaras. “Se você acha que isso a ajudará... vou contar-lhe sobre o abismo escuro e sobre como Deus me puxou para fora dele. Joseph é a única alma vivente a quem eu achei que seria capaz de contar isso, mas, se você acha que pode ajudar, vou contar.” Assentando-se perto de Lisbeth ele começou. “Eu jamais desejei outra coisa da vida a não ser militar, como meu pai. Tinha grandes planos para chegar a ser brigadeiro algum dia e deixar minha família orgulhosa.” Contou sua história o mais rápido que pôde. Quando descreveu as Colinas Esguias, Lisbeth soltou um “Ó” e agarrou as mãos dele impulsivamente. Sua voz tremeu momentaneamente, mas ele continuou falando até o momento em que chegou à casa de Mac e a noite em que encontrou o perdão de Deus.

   “Não posso explicar a paz que me inundou, Lisbeth. Sinto que uma pessoa não pode entender até experimentar por si mesma. Mas é real e não vai embora – pelo menos não foi embora de mim. E desde aquela noite no quarto de Joseph, senti um desejo de conhecer mais a Deus. Acho que a melhor forma para conhecê-lo é lendo o livro que Ele escreveu. Então continuei lendo.”

   Jim tirou a bíblia do lugar onde Agnes havia colocado, antes de se retirar. “É verdade que há algumas coisas aqui das quais não gosto muito. Mas acho que são verdade e assim eu as aceito.

   “Mas, Jim”, Lisbeth protestou, focalizando novamente em si mesma. “Deus não me puxou para fora da escuridão para mostrar que me amava. Ele fez isso por você e fico contente por isso. Mas Ele permitiu que coisas horríveis acontecessem comigo e então simplesmente me abandonou para resolver como lidar com tudo isso.”

   “Você quer dizer que se sente como Jó.”

   Lisbeth lembrou-se do nome. “Não é o homem que era muito rico e depois perdeu toda a sua família?”

   “É. Jô perdeu tudo e ainda assim louvou ao Senhor Deus. Mas ele também tinha muitas perguntas a respeito do porquê de Deus deixar tudo aquilo acontecer. O interessante é que Deus disse amava Jó, mas não respondeu às perguntas dele. Parece que só há realmente uma resposta quando perguntamos a Deus por quê. Não é fácil, mas é sempre a mesma: Confie e Obedeça.

   “Isso não é resposta.”

   “É toda a resposta que Deus deu. Há perguntas sobre a vida para as quais jamais obteremos respostas. Deus tem me dado fé para aceitar as coisas secretas que pertencem somente ao Senhor nosso Deus.”

   Jim despejou mais café. “Posso perguntar uma coisa?”

   Lisbeth concordou com a cabeça e aspirou o café. Esperando Jim tocar no assunto de religião, ficou totalmente desprotegida quando a pergunta chegou. “Você vai se casar com o David Braddock?” Jim apressou-se em explicar: “Não tenho o direito de perguntar, sei disso – é que - bem, depois de tudo o que conversamos hoje à noite, eu não gostaria que você...” ele começou e parou várias vezes antes de finalmente terminar a pergunta.

“Seria melhor se você resolvesse primeiro essa coisa sobre Deus antes de tomar qualquer decisão de mudança de vida.”

   Lisbeth respondeu honestamente: “Jim, eu não vou me casar com nenhum homem no futuro próximo. Nem sei se me casarei algum dia de novo. É cedo demais e estou muito confusa sobre quem eu sou – onde é que me ajusto, o que quero fazer com minha vida. Está tudo muito tumultuado. Tia Augusta carregou-me para o centenário. Depois, quando voltamos para casa, envolvi-me em um monte de reuniões na igreja e outras coisas. Então os Braddocks chegaram e Sarah partiu com eles. E nós nos envolvemos na construção da mansão. Honestamente, aprontar as coisas para a missão foi a primeira coisa que fiz por mim mesma. E isso realmente trouxe alegria de volta à minha vida. Agora, estou tentando organizar as coisas”. Lisbeth abaixou a xícara de café e acrescentou: “Além disso, não acho que David Braddock esteja interessado em mim.”

   “Ele está interessado”, Jim falou abruptamente que Lisbeth olhou surpresa.

   “O que o faz pensar assim?”

     Ele tomou um gole de café. “Eu o tenho observado, observar você. Ele está interessado.

   “Estava antes.”

   “Antes do quê?”

   “Antes de eu contar que meu pai era um lakota Sioux. Ele não recebeu a novidade muito bem.” Lisbeth encarou-o cuidadosamente. “Você não parece tão surpreso quanto David.”

   Jim limpou a garganta. “Eu já sabia.”

   “E como você poderia saber disso?”

   “Joseph e eu somos muito íntimos, Lisbeth. Ele está preocupado com você. E fala muito de você.”

   Lisbeth levantou uma sobrancelha. “E o que você decidiu que eu deveria fazer?”

   Jim olhou para ela com carinho. “Lisbeth, não tenho direito de dizer o que você deve fazer. Tudo o que sei é que Deus ama você, e estarei orando para você encontrar as respostas para suas questões. Você não pode mais viver na fé de sua mãe, Lisbeth. Era real, era a fé dela, e ela agora está com o Senhor.”

   Lisbeth queria prolongar a conversa, mas Jim terminou abruptamente dizendo: “Vou continuar orando por você. Talvez você encontre algumas respostas na missão”. Ele despejou o restante do café, puxou o chapéu sobre os olhos e adormeceu em segundos. Lisbeth ficou sentada por um longo tempo, pensando em tudo o que tinha sido dito nas últimas horas. Quando finalmente dormiu, foi para sonhar com um bravo lakota cavalgando na campina com o medalhão dela no pescoço.

 

   Não há nenhum homem que tenha domínio sobre o vento para reter; nem tão pouco tem ele poder sobre o dia da morte. Eclesiastes 8.8

    

     O término do outono na Escola Santee foi desafiador. Os alunos retornaram da temporada de verão em suas casas, enchendo as entradas das residências. As supervisoras ficaram sobrecarregadas com a quantidade de serviço. Charity preencheu seu primeiro gráfico de tarefas com a ajuda de Rachel Browm, a quem ela tinha de ajudar. Organizou e limpou, remendou e cozinhou. Tirou leite das vacas e cuidou das abelhas, ensinou hinos às meninas e estudou Dakota. Mas, acima de tudo, Charity amou. No momento em que ela chegou à Missão Santee, seu coração se sentiu em casa.

   As cartas de Charity sempre eram repletas de esperança e alegria. E também se enchiam com as necessidades impostas diariamente àqueles que trabalhavam na escola. Lendo as cartas, Lisbeth sentiu-se inclinada a ter ciúmes desse novo propósito de vida de Charity. Agora, balançando-se de Lincoln para o norte a fim de entregar o carregamento de roupas doadas, Lisbeth relembrava as cartas de Charity, imaginando se sua visita à escola ajudaria de alguma forma, a entender a paz emocional da amiga.

   Agnes Bond também havia recebido correspondências. Ao ler as cartas de sua filha, Agnes bufava impacientemente com o romantismo da menina. Agora, balançando-se para o norte, Agnes esperava que a visita à escola lhe desse a oportunidade de apontar essa fraqueza e convencer Charity a voltar para casa.

   Jim Callaway não tinha recebido cartas. Ele soubera de umas poucas notícias de Charity por intermédio de Lisbeth. Também ouviu o desejo por trás da admiração de Lisbeth, de possuir um sentido similar de propósito de vida. Agora, balançando-se de Lincoln para o norte, Jim orava para que Lisbeth encontrasse o que ela tão desesperadamente procurava. Ajude-a, Senhor, a beber se Sua fonte de águas vivas. Ajude-a, Senhor, a conhecer Seu amor e a paz que transcende todo entendimento. Ele não colocou em palavras o restante de sua oração, mas a esperança estava lá, de qualquer maneira – a esperança de que, ao encontrar paz de espírito e coração, Lisbeth pudesse encontrar a habilidade de amar novamente e, talvez, abrir seu coração para um simples fazendeiro que morava em uma pequena fazenda ao sul de Lincoln.

 

   Ela não queria, mas Rachel Browm finalmente teve de admitir que estava enfraquecendo. Antes cheia de energia e ativa, começara agora a arrastar-se para fora da cama a cada manhã e a caminhar pesadamente durante o dia todo, caindo num sono profundo e exausto. Sempre cansada, progrediu de um pequeno mal-estar para condição que afetava todas as partes de seu trabalho, como supervisora do campo. Quando Mary Riggs, pela primeira vez tocou no assunto de ela parar por um tempo, Rachel rejeitou totalmente a idéia. Mas, nas poucas semanas, desde que Charity Bond tinha chegado à missão, Rachel tinha se tornado mais e mais fraca e, quando Mary pediu que Charity mencionasse o assunto, Rachel começou a ficar mais receptiva à idéia.

   Certa manhã, quando as duas mulheres lutavam para retirar a roupa lavada que dançava no varal, Rachel tentou alcançar um lençol e, quando ele balançou para cima e para baixo, fora de seu alcance, ela caiu no chão, resfolegando: “Eu amo as minhas meninas Charity, e odeio a idéia de deixá-las”.

   Charity recolheu o lençol antes de sentar-se ao lado de Rachel e tomar sua mão. “Sei que você odeia. Desde que cheguei aqui, estou admirada com seu cuidado e paciência para com as meninas.” Charity ordenou seus pensamentos antes de acrescentar: “Mas, Rachel, até mesmo o próprio Senhor reservou um tempo longe de todos, para descansar e orar. Você não fará algum bem para a missão se ficar trabalhando até morrer”.

   Rachel retirou a mão da de Charity e esfregou a mandíbula, ponderando pensativamente. “Na verdade, nunca mais fui forte realmente, desde que isso aconteceu.” Rachel esticou sua mão à frente e flexionou os dedos tortos.

   “Aqui.” Charity levantou-se e empurrou um cesto de roupas vazio em direção à Rachel. “Eu recolho e você dobra. Fica mais fácil.”

   Rachel suspirou. Então começou a falar sobre o passado. “Não faz parte de mim desistir. Eu nunca desisti. Quando me machuquei, eles pensaram que eu ia morrer. Estávamos apressados para chegar a uma nova agência para o Dia de Ação de Graças. Meu marido seria o agente da Reserva Yakton. Eu não quis deixar toda a minha mobília de casamento... e assim meu marido conseguiu arrumá-la no carroção. Então o carroção atingiu um buraco fundo, escondido pela grama alta, e tudo acabou virando – carroção, mobília e família. Todos nos fomos rolando e caindo em um barranco. Ele morreu instantaneamente. Alguns dakotas encontraram a Carrie vagando e chorando”. Rachel sorriu deploravelmente. “Encontram-me embaixo da minha querida mobília de casamento. O espelho de uma penteadeira de minha mãe quebrou-se e cortou meu rosto – minha mandíbula e minha mão foram amassadas. Dentro de mim as coisas ainda parecem retorcidas. Não pensaram que eu fosse viver. Mas vivi.” Não havia amargura na voz de Rachel enquanto falava. Ela contou sobre o acidente que a deformou como algo comum, enquanto dobrava a roupa lavada.

   Charity disse baixinho: “Ai Rachel, sinto muito.”

   Rachel respondeu: “Demorou algum tempo para eu aceitar tudo isso. Quase tudo o tinha valor para mim foi levado naquele acidente – meu marido, minhas posses, minha beleza física. Mas eu ainda tinha Carrie. E Deus me trouxe aqui para a missão. Eventualmente aprendi que eu tinha ganhado mais do que perdido. Aqui encontrei uma nova razão para viver. Um propósito”.

   Rachel suspirou e levantou-se. Com muito esforço tentou carregar o cesto cheio de roupa. Quando não conseguiu, esticou-se vagarosamente e massageou a mão deformada. “Tenho medo, porém, de que a Mary e o reverendo Riggs estejam certos. Terei pouca utilidade se me forçar a ficar. E preciso pensar em Carrie também. Acho que devemos ir para casa, para um pequeno descanso.”

   No dia seguinte, Charity entrou na cozinha do Ninho dos Pássaros, espreitando e chamando Rachel. “O reverendo Riggs ficou contente de finalmente você ter reconhecido a necessidade de um descanso. Teremos de confirmar isso, é claro, mas o plano é seguir com Lisbeth até Lincoln e lá pegar o trem para St. Louis. Está tudo acertado.”

   Da mesa uma vozinha falou abruptamente: “Ah, não, não está tudo certo!” Carrie estava trabahando em uma bonequinha. Ela se sentou com a agulha e a linha parada no ar, ouvindo Charity falar. Então fincou a agulha com força na boneca e murmurou: “Não está tudo certo, e eu não vou!”.

   Charity tentou acalmá-la. “Mas a mamãe precisa descansar, Carrie. É por pouco tempo. Vocês duas podem ir para St. Louis e ver o vovô e a vovó no Natal. Então o ano novo vai chegar e sua mãe estará descansada para voltar.” Charity andou até a mesa e sentou-se perto de Carrie, acrescentando persuasivamente: “As meninas e eu vamos planejar uma festa para receber vocês!”.

   Carrie não se mexeu. Balançava a cabeça de um lado para o outro até Rachel acrescentar cansada: “Infelizmente nós temos que ir Carrie”.

   “Mas mamãe”, Carrie protestou, “eu prometi para o Seu Águia que Voa Alto que eu ia mostrar-lhe tudo sobre o Natal.” Ela olhou para a mãe, com os olhos brilhando. “ele nunca teve Natal, mamãe. Se ele vir o Natal, então terá de amar Jesus. Ele ainda não entende. Falei para ele que, se ficasse aqui no Natal, ia entender.”

   “E o que ele falou?”

   Carrie respondeu: “Bom, na verdade ele não disse nada. Mas posso apostar que ele está pensando”. Carrie olhou de um rosto para o outro. “Tenho certeza de que ele está pensando nisso. E eu preciso estar aqui; assim quando ele vier para o Natal, poderei explicar tudo para ele.”

   Charity deu uns tapinhas na mão de Carrie e assegurou-lhe: “Carrie, se você for com sua mãe para St. Louis, prometo que quando o sr. Águia que Voa Alto vier para a nossa comemoração, haverá alguém para explicar a ele”.

   Carrie pensou. Olhando para o rosto cansado da mãe, ela acalmou-se. “mas tenho que dizer adeus para ele e explicar que ele precisa procurar a Srta. Bond na comemoração. Tenho de fazê-lo prometer que vai vir.” Seu rosto brilhou.

   “Quando eu voltar na primavera, ele já será de Jesus e podemos fazer uma festa!”

 

       Não muito tempo depois do acordo entre Rachel e Carrie, a congregação de João Nuvem de Trovão mais uma vez insistiu em que o pastor tão trabalhador tivesse duas semanas de descanso.

   Quando João resistiu à idéia, Tiago Asa Vermelha insistiu: “É para o seu bem. Você vai voltar pronto para continuar a batalha. Vá caçar João”. Tiago parou um momento e acrescentou aquilo que sabia que convenceria João a ir. “Leve o Águia que Voa Alto com você. Ele não tem tido descanso. Seu próprio povo estaria na caçada de búfalo.”

   “Não tenho notado nenhuma mudança no Águia que Voa Alto.”

   “Eu o vi ontem”, Tiago respondeu, “parado lá na colina, atrás da Casa Dakota, olhando para o oeste. Quando Carrie falou para ele que algumas visitas estavam chegando à missão, ele resmungou alguma coisa sobre mais brancos. Carrie ficou bem chateada. Mais tarde ele pediu desculpas a ela”. Tiago concluiu: “Caçar agora seria muito bom para você, João. E também para o Águia que Voa Alto”.

   Enquanto os dois homens conversavam, Águia que Voa Alto apareceu. João falou: “Minha igreja disse que preciso sair para caçar de novo, Águia que Voa Alto. Quer ir comigo?”.

   Um brilho de antecipação fulgurou nos olhos pretos e Águia que Voa Alto assentiu com a cabeça.

 

   Sem lenha, o fogo se apaga; e, não havendo maldizente, cessa a contenda. Provérbios 26:20

 

   Charity Bond dissera que queria tornar-se missionária para “fazer diferença”. No dia em que Jim Callaway finalmente dirigiu o carroção até a porta da Casa Dakota, Charity estava tentando fazer uma diferença no grupo de galinhas da missão. Tinha decidido cozinhar um galo velho para o jantar. No entanto, o galo recusava-se a cooperar. As duas crianças designadas para apanhar a criatura indefesa tinham pedido ajuda de Charity. Enquanto o carroção entrava sacolejando, os três humanos estavam em uma perseguição quente. O galo disparou pelo quintal e para debaixo do depósito de gelo. Charity e suas duas ajudantes riram e gargalharam quando a ave disparou num ziguezague e fugiu atravessando o quintal para baixo da entrada da igreja.

   Quando Charity e as duas ajudantes se chocaram numa pilha em frente à entrada da igreja, Jim estava puxando o carroção em uma subida e Lisbeth pulou para fora. O galo saiu debaixo da entrada e se enroscou nos saiotes de Lisbeth. Ela se dobrou para pegar a ave.

   “Não é bem isso o que eu imaginava para a vida de uma missionária”, Lisbeth riu.

   Charity respondeu: “Ah, eu sei, Lisbeth. Acham que temos que ser empertigadas e certinhas e extremamente sérias”. Enquanto a ave se esperneava e se debatia, Charity desapareceu dando a volta na quina da casa e gritando para trás: “Já volto para um cumprimento apropriado.”

   Jim ajudou Agnes a descer do carroção, e elas esperaram na entrada até que Charity reapareceu. Ela tinha colocado um avental limpo e estava prendendo o cabelo atrás enquanto caminhava rapidamente até a entrada e dizia alegremente: “Bem- vindos à Escola Normal de Treinamento Santee!”.

   Cumprimentou Jim com um aperto de mão, beijou Lisbeth na face e então deu um abraço e um beijo tão sincero em Agnes, que tinha decidido que odiaria a escola e atuaria como uma miserável viu- se sorrindo e apertando Charity enquanto chorava lágrimas sinceras de alegria.

   Charity envolveu os braços de Agnes no seu e falou, apontando: “Aquele lá é o Ninho dos Pássaros. A asa pequena ao sul é dos quartos. Rachel Brown e eu dividimos o apartamento. As mulheres vão ficar conosco”. Virando-se para Jim, acrescentou: “Sr. Callaway, o senhor faria a bondade de levar o carroção até lá, para ajeitarmos a Lisbeth e a mamãe? O reverendo Riggs e sua esposa, a Mary, pediram para que o senhor fique com eles”.

   Jim abriu uma colcha embaixo de uma árvore e encorajou Agnes a descansar enquanto ele buscava numa fonte um pouco de água para ela. Agnes tagarelou: “Este menino tem sido tão bondoso comigo. Não sei o que a Lisbeth e eu faríamos...”.

   Jim interrompeu. “Obrigado, sra. Bond. É melhor descarregar o carroção agora.” Seguindo as indicações de Charity, Jim descarregou e levou os malões para dentro. “A mamãe ficará no meu quarto”, Charity explicou. “Lisbeth, já que a sra. Brown já tem a filha Carrie com ela no quarto, achamos que você não se importaria de dormir em cima, com algumas meninas. Os malões das roupas doadas podem ser descarregados na igreja. Teremos um grupo de mulheres hoje à noite separando as coisas por tamanho. Amanha poderemos entregar.” Charity ficou séria de repente. “Você nunca poderá imaginar como está ajudando, Lisbeth. O que o governo dá não é suficiente.”

   Lisbeth corou autoconsciente. “Não é nada, Charity. Realmente. Estou feliz em poder ajudar.”

   Agnes brincou: “Você não pode imaginar como ela foi persuasiva, Charity, insistindo que cada menina precisava ter uma echarpe e um gorro e luvas. Isso manteve nossas agulhas de tricô voando!”.

   As duas horas que se seguiram foram preenchidas com apresentações e cumprimentos, caminhadas pelo lugar e explicações sobre o funcionamento da escola. “Temos um programa preparado para vocês amanhã à noite”, Charity explicou. “Acho que vão gostar.”

   Agnes foi para o seu quarto repousar e Jim levou a parelha para beber água e descansa. Lisbeth seguiu Charity durante o programa normal da tarde, depenando o galo e descascando batatas, varrendo a cozinha e arrumando a mesa.

   Lisbeth estava cheia de perguntas e Charity respondeu a todas alegremente. Agnes acordou de seu desanso e juntou-se a elas na cozinha para encontrar Charity contando a história de uma menina recentemente convertida.

   O rosto de Charity brilhou com alegria. “Eu pensava que casar-se com o homem mais bonito e mais rico de Omaha seria a melhor coisa para eu fazer”, Charity compartilhou timidamente, “mas Lisbeth, quando Maria Nuvem Branca falou que queria seguir a Jesus, pensei que meu coração fosse estourar de alegria. Estar aqui significa uma carga imensa de serviço, é verdade. Em algumas noites, estou tão cansada que acho que serei incapaz de ficar em pé no outro dia. Ainda assim, no meu coração sei que, enquanto Deus me usar aqui, trabalharei e serei feliz fazendo isto.”

   Agnes juntou-se as duas e Charity mudou de assunto abruptamente. “O que me traz outro assunto: Rachel Brown. Ela está decaindo já há algum tempo e estamos todos preocupados. Finalmente consegui convencê-la a dar uma saída. Mas estamos preocupados com ela viajando sozinha. Ao longo do rio, ela estaria suscetível à malária. Será que ela e a filha poderiam voltar com vocês até Lincoln, Lisbeth? Lá elas poderiam pegar o trem e ir diretamente para St. Louis. Onde os pais da Rachel a encontrariam.”

   Lisbeth não hesitou. “É claro que elas podem voltar conosco até Lincoln.”

   Rachel e Carrie entraram carregando uma cesta cheia de hortaliças colhidas do campo ali perto. Rachel sorriu levemente e estendeu a mão deformada. “Você deve ser Lisbeth. E esta é minha filha, Carrie.”

   Rachel virou-se para Carrie, que ainda estava em pé, com os olhos arregalados em Lisbeth atônita.

     “Carrie”, falou Rachel gentilmente, “venha cumprimentar a sra. Baird, amiga da Charity”.

   Carrie deu uns passos para frente mecanicamente e sacudiu a mão estendida de Lisbeth. Então olhou para sua e ‘desembuchou’: “Mamãe – eu já a vi antes. Lembra-se mamãe? Ela é a moça bonita da fotografia. Aquela no medalhão com que seu Águia que Voa Alto me deixou brincar”.

   No início, a mente de Lisbeth não conseguiu entender completamente o que tinha ouvido. Foi o nome de Águia que Voa Alto que lhe abriu o entendimento e resultou num calafrio por todo o corpo. Um arrepio passou por sua pele. No silêncio que se seguiu ao anúncio de Carrie, Lisbeth prendeu a respiração. Quando finalmente respirou de novo, ela o fez profundamente e sentou-se de repente à mesa da cozinha. Charity e Rachel se entreolharam, sem saber o que dizer ou fazer. Carrie atravessou a cozinha e pôs a mão no braço de Lisbeth.

   “O sr. Águia que Voa Alto disse que uma mulher era sua mãe e que a outra – que é a senhora – ele achava que era sua irmã. Disse, porém, que a senhora não ia querer encontrar-se com ele.”

   Lisbeth ouviu as palavras, mas a compreensão veio em alguns minutos. Ela não conseguia coordenar as palavras. Elas chegavam como tiros de um rifle, em pequenos disparos. “A mãe dele” Lisbeth tentou entender a idéia de que talvez o filho perdido de Jesse tivesse sido encontrado. “A irmã dele”. Agora todos saberiam que Lisbeth era meio- índia.

   Lisbeth pôs a cabeça entre as mãos e tentou fazer força o bastante enquanto considerava a revelação.

   Com a reação de Lisbeth, Carrie ficou imediatamente preocupada. Olhando para Rachel, perguntou, com voz meio tremendo: “Mamãe, eu fiz alguma coisa errada? Eu não queria fazer nada errado”. Seus cílios piscaram enquanto pensava no medalhão e em Águia que Voa Alto. Rachel começou a responder à sua filha, mas Lisbeth falou com o rosto aindanas mãos. “Não, Carrie”. Então baixou as mãos e olhou para a criança com um sorriso vago. “Você não fez nada errado. Eu só preciso pensa no que vou falar, é só isso.”

   Olhando para as duas mulheres que ainda estavam perto dela, Lisbeth disse baixinho: “Eu... sabia que tinha um meio- irmão... em algum lugar. Achava que ele poderia estar morto”. Lágrimas escorriam por sua face enquanto ela acrescentou mansamente: “Mac usava o medalhão na batalha. Não sei por que fiz isso. Ele se dobrou pra me beijar e eu simplesmente peguei meu medalhão e coloquei no pescoço dele”. Lisbeth chacoalhou a cabeça, incrédula. “Tenho tido pesadelos sobre algum índio em algum lugar usando aquele medalhão. Sei que eles pegam coisas... desnudam corpos.”

   Ela começou a tremer, e Charity foi para o seu lado. Envolvendo-a com seus braços, abraçou-a fortemente. “Não, Lisbeth”, Charity ordenou. “Não. Isso não vai ajudar. Não pense nessas coisas e olhou dentro dos olhos dela enquanto falou: “Pense no fato de ter tido a oportunidade de encontrar seu irmão, você tem um irmão, não está sozinha neste mundo, como pensava.”

   Lisbeth ainda tremia. “Um irmão. É eu tenho um irmão. E parece que meu irmão... pode ter matado... meu marido.”

   Jim Callaway tinha acabado de alimentar a parelha e voltou para a casa. Entrou na cozinha no momento em que a cena se desenrolava. Lisbeth estava caída nos braços de Charity e começava a chorar baixinho. “Meu irmão... Águi que Voa Alto... meu irmão...” Jim atravessou o cômodo e ajudou Charity a levá-la para cima, onde ela caiu num sono entrecortado.

 

   Agnes Bond tinha ouvido tudo. Cada palavra. Testemunhara a melhor fofoca que já passara por seu caminho. Entrou nervosa no quarto de Charity, tentando pensar em todos os detalhes da inacreditável história. Agnes antecipou o próximo círculo de costura, quando poderia reportar todos os detalhes.

   Uma batida na porta. Fingindo estar dormindo, Agnes sentou-se na cama e empurrou as cobertas antes de oferecer um trêmulo: “Sim?”.

   Charity entrou no quarto e não esbanjou palavras. “Mãe, tenho uma coisa para dizer para a senhora.” Charity ficou em pé em frente a mãe e olhou-a com expressão dura. “Se a senhora soltar apenas uma palavra disso tudo para qualquer alma vivente, a senhora nunca – está me ouvindo, mãe? –nunca mais vai ouvir falar de mim novamente. Lisbeth acabou de receber um choque terrível. Não sei como ela vai lidar com isso. Mas seja o que for que decidir, ela não pode viver com medo se ser assunto de fofocas.”

   “Charity! Tenho de protestar!” Agnes começou. Charity interrompeu.

   “A senhora é minha mãe, e vou honrá-la. Mas a senhora é pura fofoca. Que Deus me perdoe, eu sei por que já participei disso. Mas é passado. Deus me perdoou. Ele a perdoará se a senhora pedir perdão a Ele. Mas não estou falando disso agora. Estou falando de Lisbeth. A senhora precisa conversar com ela e prometer que pela primeira vez na sua vida vai manter um segredo. precisa convencê-la de que pode confiar na senhora. Como a senhora vai fazer isso, eu não sei. Mas precisa pensar em um jeito.”

   As palavras de Charity foram sérias, atiradas firmemente de modo que não deixou chance de Agnes se defender. Agnes abriu a boca várias vezes para protestar. Mas, quando Charity acabou de falar, Agnes permaneceu com a mandíbula fechada e começou a tremer.

   “Sem lágrimas, mãe. Só uma promessa. A senhora procurará Lisbeth e prometerá discrição.”

   Agnes levantou-se. “É claro, querida.”

   “Promete?”

   “Eu prometo, querida.”

   “Entende que se quebrar a promessa, vai perder sua filha?” Os olhos azuis de Charity estavam frios. Agnes estremeceu e assentiu com a cabeça, e a carreira da fofoqueira mais bem- informada de Lincoln chegou ao fim.

 

Enquanto Lisbeth dormia, Charity, Rachel e Jim discutiam a situação. Carrie tinha prometido guardar segredo e fora brincar.

   “Agora lembre-se Carrie, nem uma palavra sobre isso com ninguém. Precisamos decidir o que é melhor para Lisbeth.”

   Carrie tinha acrescentado: “E para o seu Águia que Voa Alto”.

   Carrie explicou: “Uma vez perguntei a ele por que não procurava sua irmã e sua mãe. Ele parece solitário. Ele respondeu que provavelmente sua mãe estaria morta. E que sua irmã não iria aceitá-lo. Ficou terrivelmente triste quando falou isso”. Carrie se agitou. “Fico feliz por saber quem é minha família. O seu Águia que Voa Alto não tem ninguém.”

   Rachel sorriu para a filha. “É verdade, Carrie, você está certa. Precisamos tênar entender o que é melhor para o Águia que Voa Alto também. Então você pode ir brincar e guardar segredo certo?”

   Na cozinha, cada um dos amigos de Lisbeth contribuiu com o pouco que sabiam sobre ela e Águia que Voa Alto. Mas até então ninguém tinha a menor idéia do que deveria ser feito para melhorar o choque ou a dor.

   Finalmente, quando terminaram de compartilhar tudo o que sabiam e sentiam-se ainda incapazes de ajudar, fizeram a melhor coisa. Seguindo o conselho de Jim, oraram.

 

   Bendize, ó minha alma ao Senhor... quem da cova redime a tua vida e te coroa de graça e misericórdia. Salmos 103: 2,4

 

   Lisbeth acordou entorpecida. Então lembrou-se do que havia acontecido e tentou encontrar sentido para tudo. Mas não conseguia. Os sons das risadas das crianças chamavam sua atenção. Esfregou o rosto rapidamente e arrumou o cabelo, então saiu cuidadosamente do dormitório e foi para o Ninho dos Pássaros. O jantar estava em andamento e vinte meninas dakotas comiam, passavam a comida e conversavam. Lisbeth ficou pensando em qual prato estaria o galo teimoso. Charity assentava-se em uma ponta da mesa, Rachel na outra. Jim havia sido convidado a juntar-se a elas e conseguiu encaixar suas pernas compridas sob a mesa, à direita de Charity.

   Conversavam numa mistura de inglês e Dakota. Hesitando à porta, Lisbeth percebeu surpresa que Jim conversava em ambos os idiomas com facilidade. No momento em que se estendeu para servir mais pão de milho para as crianças próximas, Jim viu Lisbeth. Ficou em pé imediatamente, pegou em seu braço e levou-a até a mesa.

   O grupo à mesa fez um silêncio incômodo por um breve momento, então Jim começou a contar uma história e o jantar continuou em seu tumulto usual. As meninas dakotas lançavam olhares curiosos à Lisbeth e ela respondia com um sorriso mecânico. Ela conseguiu dar duas mordidas no pão de milho antes que seu estômago a avisasse que mais agressões seriam recusadas. Ela passou ao café e bebeu três xícaras, apreciando tanto o calor como o estímulo que a cafeína lhe trouxe aos seus sentidos.

   Quando o jantar terminou, as meninas dividiram-se em grupos e limparam a mesa, rasparam os pratos e lavaram a louça. Uma das meninas mais velhas encorajou educadamente, Charity e Rachel a entreter suas visitas e deixar as meninas terminarem sozinhas as tarefas. Charity e Rachel aceitaram a oferta com alívio e viraram-se para Lisbeth. Outro silêncio incômodo seguiu-se.

   Agnes Bond falou primeiro. “Lisbeth querida”, Agnes disse nervosa, apertando o guardanapo no lábio superior. “Charity e eu conversamos e senti que era necessário assegurar a você que eu – um...”, Agnes limpou a garganta nervosa. “Bem, querida, ambas sabemos que todos dizem que sou...” Agnes parou novamente. “O que quero dizer é que, Lisbeth, todas as revelações sobre seu passado, feitas aqui em Santee, permanecerão em Santee. Apenas as coisas que você mesma decidir contar aos outros sairão dos limites da missão.” Agnes piscou os olhos rapidamente e olhou para Charity, que sorriu e balançou a cabeça, satisfeita. “E agora se me dão licença, prometi à Carrie que a ajudaria a limpar as ervas daninhas.” E saiu rapidamente.

   Lisbeth pôs o cotovelo na mesa e descansou a cabeça na palma da mão. Ficou olhando para a mesa riscada e disse a Jim, sem levantar os olhos: “Eu não sabia que você falava dakota, Jim”.

   Jim esperou um minuto antes de responder cuidadosamente: “Você não sabe um monte de coisas sobre mim, Lisbeth”.

   Charity interrompeu: “Lisbeth, nós precisamos...”.

   Lisbeth levantou a mão e clamou: “Não. Não consigo conversar ainda. Tenho de acertar as coisas, pensar primeiro”. Jim aproximou-se. Pegou nas mãos dela delicadamente, puxou-a para que ficasse em pé, colocou a mão dela em seu braço e a cobriu com a própria mão.

   “Posso ter a honra de sua presença em uma caminhada noturna, sra. Baird?”

   Aliviada, Lisbeth balançou a cabeça em acordo, deixou-se ser levada pela porta da cozinha e ao longo da estrada que conduzia a uma suave elevação. Jim conservou sua mão na de Lisbeth e não disse uma palavra enquanto andaram. Finalmente, Lisbeth repetiu: “Eu não sabia que você falava dakota”.

   “Acho que ressuscitei esse meu lado ontem à noite. Era parte de meu dever no exército. Falo lakota também, que é a língua que você deve aprender se quiser saber a respeito do seu povo. Aprenda a língua, e terá caminhado uma longa distância em direção à compreensão – não apenas do que eles dizem, mas da forma como dizem. Mesmo as coisas para as quais eles não têm palavras.”

   Mais uma vez, ficaram em silêncio até Lisbeth perguntar: “Pode me falar sobre isso? Sobre como aprendeu?”.

   Jim respirou profundamente e parou de andar. Ficou observando o pó e então levantou os olhos para Lisbeth. Por trás do verde- acinzentado, uma luz brilhava. Eles tinham andado pela rua e encontrado um caminho íngreme que levava ao riacho. Jim guiou Lisbeth pelo caminho e eles se sentaram à beira do riacho. “Depois das Colinas Esguias, fiquei tão amargurado e cego de ódio – pela vida, pelo Deus que permitira tais coisas acontecerem, pelos homens que faziam tais coisas – e isso incluía a mim mesmo. Andei às cegas por quilômetros e decidi morrer, quando um bando de lakotas me encontrou. Já contei tudo isso para você.”

   Jim abaixou os olhos para Lisbeth. Ela ouvia, fascinada. “Mas não lhe contei os detalhes de quando estava na aldeia. Um dos índios se chamava Águia que Voa Alto. Ele usava um medalhão e uma cruz pendurados numa corrente em seu pescoço. Disse-me que tinha uma mãe branca e uma irmã em algum lugar.”

   Lisbeth deu um grito sufocado e apertou o braço dele. Jim respondeu. “Só Deus sabe como ele andou este caminho para o leste. Ele salvou minha vida – até mesmo me deu um cavalo de sua própria manada. Cavalguei para o sul até o animal não agüentar mais. Então andei a pé até me deparar com a fazenda no cair da noite. O resto você já sabe. Joseph me encontrou e cuidou de todas as coisas que me obcecavam, recebi uma vida nova.”

   Lisbeth falou baixinho: “Como eu queria encontrar meu caminho no meio dessa desordem, Jim. Gostaria que houvesse alguém para me mostrar o caminho.”

   “Ele está aqui, Lisbeth”. Jim falou confiantemente. “Ele está aqui. Você só precisa pedir.”

   “Esta – situação”, Lisbeth falou. “o que devo fazer? Qual é o meu lugar? Todo mundo vai saber...”

   “Você quer se encontrar com Águia que Voa Alto?”  

   Lisbeth estremeceu. “Não sei.”

   “Se não quer, podemos ir embora agora. Esta noite. Eu a levarei para casa.”

   “Não podemos fazer isso. Agnes nem teve ainda chance de estar co Charity. Rachel precisa de tempo para arrumar as coisas, para deixar as crianças. Prometemos distribuir as roupas pessoalmente.”

   “Então eu o encontrarei e o manterei longe.”

   “Você acha que ele quer me encontrar?”

   “Posso perguntar a ele.”

   Lisbeth considerou a idéia. “Você acha que ele matou mesmo o Mac?”

   “E se matou?”

   Lisbeth balançou a cabeça de um lado para o outro, desnorteada. “Quase nem posso pensar nisso. É bizarro demais para acreditar.”

   “A não ser que haja uma força sobrenatural a serviço.”

   “O que você quer dizer?”

   “Quero dizer que, talvez Deus esteja trabalhando na vida de vocês dois. Talvez ele esteja usando toda essa loucura para executar algum plano para o seu bem.”

   Lisbeth suspirou. “Estou cansada demais para uma discussão teológica. Não sei o que sinto em relação a isso. Gostaria de ser como você – superar –continuar com essas coisas.”

   “Eu tive ajuda sobrenatural.” Jim pôs sua mão no ombro dela. “Lisbeth, você tem um vazio no coração. Só deus pode preenchê-lo. Vou sempre voltar a isso até você perceber que apenas Deus tem as respostas para suas questões.”

   Lisbeth evitou a direção espiritual na conversa. “Não acho que agüentarei vê-lo. Tenho sempre sonhado com um bravo índio a cavalo, batendo com força em mim, usando aquele medalhão.” Lisbeth estremeceu. “Acho que não agüentarei vê-lo, mesmo sendo meu irmão.” Lisbeth estremeceu de novo e eles se levantaram para voltar. Tinham dado só alguns passos quando ela parou abruptamente e o encarou. “Faz diferença para você eu ser meio- lakota?”

   “Achei que tivéssemos acertado isso. Porque você pergunta?

   “Bom, parece que David Braddock ficou bastante incomodado quando contei a ele.”

   Alguma coisa brilhou nos olhos verdes- acinzentados. Havia raiva em sua voz quando falou: “O que ele disse? Fez algo que a machucou?”

   Lisbeth balançou a cabeça, negativamente e Jim relaxou. Respirou fundo e disse firmemente: “É uma grande responsabilidade saber das dores mais íntimas de uma pessoa, Lisbeth. Sei um pouco das suas porque elas ficaram quase públicas, quisesse você ou não que isso acontecesse. Esse tipo de conhecimento forma um laço entre as pessoas, mas compartilhar as dores escondidas forma um laço ainda mais forte. Fiz voto de que nunca deixaria ninguém saber sobre as minhas feridas interiores. Mas descobri que posso confiar em algumas pessoas”.

   “Então quando conto para você estas coisas escondidas, você tem que perceber que estou dizendo alguma coisa poderosa sobre como me sinto em relação às coisas.” Seus olhos brilharam quando olhou pra ela. “Tenho compartilhado com você e agora você possui um pedaço de mim que nenhuma outra mulher no mundo possui. E dei isso para você, com plena consciência de quem é seu irmão.” Jim mudou de assunto repentinamente. “É melhor nós irmos embora.”

   Os dois andaram de volta para o Ninho dos Pássaros e Agnes e Carrie esperavam ansiosamente. Lisbeth despediu-se de Jim e entrou para encará-las.

 

   Águia que Voa Alto estava cuidando da égua de Tiago Asa Vermelha quando um estranho entrou no terreno dirigindo um carroção e parou perto do curral. Descendo, o estranho andou vagarosamente em direção ao curral e apoiou-se devagar na cerca e ficou assistindo Águia que Voa Alto ensinar a égua preta a mudar de direção no meio do ar. A égua era esperta e ligeira, mas também inteligente. No momento em que entendeu o que se esperava dela, começou a fazer uma série de mudanças de direção no ar fascinantes. Puxando-a para parar, Águia que Voa Alto apeou e deu tapinhas em seu pescoço, louvando-a e assistindo contente a égua tentando ignorá-lo.

   “Você pensa que eu acredito que você é má. Mas vejo suas orelhas viradas para mim. Você não quer admitir, mas gosta de fazer o que me agrada.”

   O estranho gritou. “Talvez ela também seja uma das pessoas estranhas Águia que Voa Alto.”

   Águia que Voa Alto encarou cuidadosamente o estranho. Jim tirou o chapéu e sorriu. Vagarosamente, o reconhecimento brilhou nos olhos de Águia que Voa Alto. Ele sorriu. “Ela está entre pessoas estranhas, Jim Callaway. Como poderia agir de outra forma?” Águia que Voa Alto fez a égua desenfrear e sair trotando, cheirando e corcoveando alegre. Ele caminhou até Jim e apertou sua mão amigavelmente.

   “Estou feliz em ver que encontrou seu caminho de volta para a vida.”

   Jim concordou, balançando a cabeça. “Eu também estou feliz em ver que você encontrou um caminho para viver.”

   Águia que Voa Alto balançou a cabeça. “Ainda não estou vivendo meu amigo. Estou olhando este povo para ver se eles podem me mostrar o caminho para viver. É uma coisa difícil.”

   Jim apontou para o medalhão. “Você ainda usa os troféus de guerra.”

   “Eles se tornaram parte de mim.”

   Jim encostou-se na cerca e coçou a parte de trás do pescoço. Águia que Voa Alto o pressionou: “Você precisa dizer o que quer que seja que faz sua mão tremer, Jim Callaway”.

   Jim deu um sorriso tímido e apontou para o medalhão. “Uma das mulheres que você carrega aí dentro do seu medalhão está aqui. Eu a trouxe para cá. Sua irmã.”

   “Como você sabe que é minha irmã?”

   “Carrie Brown nos contou. No momento em que viu Lisbeth, seus olhos ficaram arregalados e ela simplesmente contou tudo. Disse que era a moça bonita do medalhão do sr. Águia que Voa Alto.”

   Águia que Voa Alto ponderou a revelação. Tirou o medalhão do pescoço e deu-o a Jim. “Olhe você.”

   Jim obedeceu. Olhando do medalhão para Águia que Voa Alto, balançou a cabeça, confirmando. “É ela. Lisbeth King Baird. Ela foi casada com um soldado. Mackenzie Baird. E disse que ele foi morto no Pequeno Grande Chifre – A Grama Gorda. Ela contou que ele carregava este medalhão.”

   “Ela falou isso para você?”

   Jim concordou.

   Águia que Voa Alto disse tristemente: “Sinto tanto por ter trazido dor para minha irmã”.

   “O povo dela também trouxe muita dor para você.”

   Águia que Voa Alto olhou para Jim. “Eu os teria matado todos, se pudesse. Agora procuro um caminho melhor para a vitória. Eles queriam manter todos nós na reserva. Eu vou aprender com eles. Então vou deixar a reserva e mostrar que os lakotas são homens.” Águia que Voa Alto abaixou-se sobre a cerca e soltou os braços. “Eu gostaria de conhecer minha irmã.”

   “Ela está muito confusa com estas coisas agora.”

   Águia que Voa Alto olhou para Jim. “Diga para minha irmã que eu não a farei olhar para o meu rosto.” Jim balançou a cabeça em sinal de acordo e então Águia que Voa Alto continuou: “Espere”. Correu até o celeiro e voltou carregando uma colcha de retalhos amarela. “Diga-lhe que eu ofereço isto para dizer que sinto por aquilo que lhe causou dor.”

   Jim perguntou: “É aquilo que o povo dela – o meu povo – fez para você?”.

   Águia que Voa Alto olhou para Jim e disse devagar: “Em minha aldeia havia lakotas ruins. Eles fizeram coisas más. Aqui tenho aprendido que há aldeias onde existem brancos bons. Pessoas querendo ajudar. O que está acontecendo com meu povo é ruim, mas nem todos os bancos são ruins. Quando der isto à minha irmã, precisa dizer-lhe que o que foi feito para o marido dela foi uma coisa ruim. Mas nem todos os lakotas são ruins. O pai dela, Cavalga o Vento, era um bom lakota. Fala para ela que o irmão dela, está tentando ser um bom lakota”. Águia que Voa Alto passou a mão pela a=superfície da colcha.

   “Isto foi feito por Caminhando nas Chamas. Jesse King. A história que foi contada sobre esta colcha é que, quando ela foi trazida para nosso acampamento, Flor do Campo, a miga de Jesse King, tornou-se dona desta colcha. Flor do Campo guardou mesmo depois de levarem Jesse King do nosso povo. Isto ficou conosco e nos lembrávamos de que nem todos os brancos eram ruins. Agora entregue isto à minha irmã e diga que lhe desejo paz. Espero que ela viva em paz.”

   Águia que Voa Alto andou de volta para o curral e assobiou baixo. A égua preta veio trotando. Águia que Voa Alto virou-se para Jim. “Quando esta égua era selvagem, ela me escoiceava. Então mostrei a ela que eu era bom, e agora ela quer ficar perto de mim. Quando eu era selvagem, escoiceava e lutava com o homem branco. Mas tenho visto que o homem branco pode ser bom. E assim estou ficando entre eles, desejando aprender seus caminhos. É melhor do que matar.”

   Jim balançou a cabeça, concordando, e então sorriu quando Águia que Voa Alto acrescentou com um meneio nos ombros: “Há muitos deles. Não podemos matar a todos”.

   “Você se arrependeu disso?”

     Águia que Voa Alto sorriu pesarosamente. “Gastei muito tempo desejando que as coisas fossem diferentes. Isso só trouxe infelicidade. Agora estou tentando aprender a viver as coisas que são diferentes.”

   “E isso tem lhe trazido felicidade?”

   Ele ponderou a perguntar antes de responder. “Isso faz meu coração doer menos para deixar de odiar. Às vezes acho que nunca serei o que você chama de feliz. Isso se foi para sempre. Mas estou aprendendo a viver. Não peço para ser feliz. Sou dos velhos dias. Os jovens que vão para a missão – se eles aprendem novos caminhos, então terão felicidade. É bom ver isso. E eu posso conviver com o vazio em meu coração.”

   Águia que Voa Alto fez um sinal para Jim. “Volte para minha irmã. Fale para ela que estou indo caçar amanhã com o João Nuvem de Trovão. Eu lhe dou este presente e peço para lembrar-se de mim sem raiva.”

   Jim dirigiu sozinho o carroção de volta à missão, com uma colcha de retalhos cuidadosamente dobrada ao seu lado no assento do carroção.

 

   Pois dessedentou a alma sequiosa, e fartou de bens a alma faminta. Salmos 107:9

 

   Carrie Brown sentou-se ao lado de Águia que Voa Alto e balançou os pés na água fresca do riacho. Seu lábio inferior tremia e de vez em quando uma lágrima escorria em sua bochecha. Águia que Voa Alto envolveu seus ombros magros com os braços, e ela encostou-se nele e chorou. Depois de um tempinho, ela empurrou o medalhão e olhou para ele. “Mamãe está doente, por isso sei que precisamos ir embora. Mas não quero ir.”

   “Você disse que vai ver sua avó e seu avô. Será um tempo feliz, pequeno Pássaro Vermelho. Quando sua mãe estiver descansada, vocês voltarão para os amigos. Então porque está chorando?”

   Carrie fungou baixinho. “Vou perder o Natal”.

   “Eles não têm Natal em St. Louis?”

   “É claro que têm. Mamãe disse que vamos enfeitar uma árvore e ganhar presentes e tudo.” Carrie reprimiu um soluço. “Mas os meus amigos não vão estar lá. Você não vai estar lá.” A voz dela tremeu de novo. “Prometi que ia contar tudo sobre o Natal para você.”

   Águia que Voa Alto sorriu bondosamente e deu uns tapinhas na mão de Carrie. “Você precisa ir com sua mãe, Carrie.”

   “Você não entende.” Carrie respirou fundo e pôs para fora a tristeza de seu coraçãozinho. “Prometi a você que ia contar tudo sobre Jesus. No Natal você vai entender – então vai amá-lo também. Você prometeu que ia ficar e participar do Natal. Mas, se eu for embora, então você não vai precisar vir para o Natal. Pode correr. Ouvi o Pastor Nuvem de Trovão e o Tiago Asa Vermelha. Disseram que talvez você vá embora. Mas você não pode ir embora ainda, tem de saber de Jesus primeiro.”

   Seu jovem coração estava cheio de amor e preocupação, e Carrie começou a soluçar de novo.

   Águia que Voa alto olhou para ela sem entender. “Você está chorando por causa disso?” as tranças vermelhas balançaram quando Carrie levantou e abaixou a cabeça vigorosamente, dizendo que sim. “Pássaro Vermelho”, Águia que Voa Alto falou gentilmente, “eu vou ficar na missão. Vou caçar com Nuvem de Trovão e então voltarei. Quando você estiver em St. Louis e estiver comemorando o Natal, eu irei para o culto. Não vou fugir.”

     Carrie sorriu entre as lágrimas mas ainda estava em dúvida. “Você promete?”

   Vendo as lágrimas parar tão de repente e o rostinho querido brilhar, Águia que Voa Alto tirou a cruz e acorrente que usava no pescoço. “Isto pertencia à minha mãe. Uso para me lembrar dela. “Enquanto colocava a corrente no pescoço de Carrie, ele disse: “Agora você usa isso para mim. Com este presente, prometo que não vou fugir enquanto você não voltar. Virei para o Natal e escutarei. Vou estar aqui para receber você quando voltar.”

   Carrie segurou a cruz dourada nos dedos e então solenemente colocou-a dentro do bolso de seu aventalzinho, onde ficaria escondida. “Aqui”, falou solenemente, “está mais perto do meu coração”. Levantando-se de repente, limpou-se do pó. “Espere aqui!” ela saiu correndo e subiu pelo caminho. Parando bem no topo ela gritou: “Volto logo!”.

   Quando Carrie voltou correndo, Águia que Voa Alto ainda estava lá esperando, e Carrie enfiou Ida May nas mãos dele. “Não tenho mais nada para dar a você, mas fique com a Ida May aqui – então saberá que eu voltarei. Eu não troco nada por ela. Quando eu voltar, na primavera, devolvo o colar de sua mãe e você me devolve ida May.”

   Águia que Voa Alto segurou a boneca desajeitadamente. Ao ver a boneca nas mãos dele, Carrie ficou embaraçada. Balançando a cabeça ela resmungou: “Não faz mal, é só uma boneca velha e muda.”

   Mas Águia que Voa Alto a interrompeu. Ajoelhando-se para olhar no rosto dela, ele sorriu gentilmente e disse: “Estou honrado por você confiar sua Ida May a mim, Carrie. Você lembra quando contei que cada lakota tem uma caixa feita de couro, onde guarda as coisas de maior valor?”.

   Carrie balançou a cabeça, confirmando.

   “Quando deixei meu povo, deixei tudo para trás, exeto minha caixa. Ida May vai dormir nela enquanto você estiver fora. E quando retornar na primavera, Ida May estará aqui para receber você.”

   “E você?”, Carrie insistiu.

   “Eu também estarei aqui para dar boas-vindas.” Águia que Voa Alto inclinou a cabeça e disse: “Você precisa ir. Ouvi a Rachel Brown chamando. Com relutância, Carrie trotou subindo a ladeira para cima da ravina. Ela se voltou e rapidamente fez o sinal de ‘amigo’. Águia que Voa Alto retornou o sinal. Quando Carrie o viu pela última vez ele estava em pé, à beira do riacho, olhando Ida May, a boneca de espiga de milho.

 

   Rachel Brown estava ficando mais fraca com o passar dos dias e quando Lisbeth expressou sua preocupação para Jim e Agnes, eles concordaram que a viagem para Lincoln precisava ser mais rápido possível.

   “Precisamos levá-la de volta à sua família, Jim. Seria terrível se ela...”

   Os olhos de Agnes se arregalaram quando considerou a importância da preocupação de Lisbeth. “Não fique parando para descansar meus velhos ossos pelo caminho”, Agnes solicitou com instância. “Não tenho mais nada para fazer quando chegar àquela minha casa vazia a não ser descansar.”

   Assim, a distribuição de roupas foi apressada e as coisas das Brown foram arrumadas o mais rápido possível. Em poucos dias, o pequeno grupo estava pronto para dirigir-se para Lincoln. Lisbeth estivera tão ocupada naqueles poucos dias que quase conseguira parar de pensar em Águia que Voa Alto por alguns momentos. Mesmo assim, ela se percebia olhando nervosa cada pessoa ao longe e dando um suspiro quando os estranhos não eram bravos Sioux.

   Jim assegurou: “Relaxe, Lisbeth. Ele prometeu que não viria a não ser que você o quisesse. Para os padrões missionários ele pode ser um selvagem, mas é um homem de palavra”.

   Lisbeth tentava acalmar-se e continuar seu serviço de arrumar as malas de Rachel e Carrie. Este foi um serviço simples, já que elas tinham poucas posses terrenas.

   Quando o carroção se afastava do Ninho dos Pássaros, Carrie tentava segurar as lágrimas. Rachel puxou-a e abraçou-a. “Vamos voltar antes que você se dê conta Carrie. Você vai adorar a casa do vovô e da vovó. St. Louis é onde eu cresci. Vou mostrar-lhe muitas coisas e você vai ver a escola onde estudei. Talvez até você decida estudar lá também.”

   Carrie livrou-se de sua mãe e balançou a cabeça com teimosia. “Não. Eu quero voltar. Prometi.”

   Rachel suspirou pesadamente. “Talvez os planos do Senhor para nós sejam diferentes dos nossos.”

   Carrie sorriu com esperteza. “Tenho certeza de que o Senhor gosta dos meus planos.”

   Rachel e Lisbeth riram com indulgência e Lisbeth perguntou: “Como pode ter tanta certeza?”

   “Porque são planos bons. Vou voltar e ter certeza de que o seu Águia que Voa Alto aprendeu a amar Jesus. Nós prometemos um ao outro. Vamos ser amigos para sempre. Olhe!” Carrie pegou a corrente e a cruz de dentro do bolso do avental e puxou. “O seu Águia que Voa Alto disse que eu deveria usar isso até voltar. Então poderei devolver!”

   Rachel deu um grito sufocado: “Carrie! Nunca deveria ter aceitado isso”.

   “Ah, tudo bem mamãe. Nós fizemos um trato. Eu dei a Ida May pra ele. Ele vai cuidar dela para mim e eu cuidarei da cruz para ele. Disse que era da mãe dele.”

   Lisbeth ouviu com dúvida e observou o horizonte deliberadamente. Deu uma olhada disfarçada na cruz de ouro, sorrindo lamentavelmente com a conclusão de que, mesmo fugindo do irmão vivo, sua presença a seguia na forma de uma colcha de retalhos branca e suja, escondida no fundo de um malão, e de uma cruz de ouro exibida orgulhosamente, por uma criança.  

 

     Águia que voa alto e João Nuvem de Trovão estavam fora da missão há duas semanas. As éguas estavam cheias de carne e, enquanto João apertava uma tira, sorria. “As crianças terão uma festa quando chegarmos.”

   Águia que Voa Alto concordou, balançando a cabeça, e guiou as éguas ao longo de um caminho por entre as colinas. Em pouco tempo os dois homens estavam sentados ao redor de uma fogueira, assando duas galinhas da campina.

   João quebrou o silêncio entre eles: “Você está quieto há dias”.

   Águia que Voa Alto deu uma mordida na galinha antes de responder, com a boca meio cheia. “Tudo ao nosso redor é terra aberta. Vazio.” Esticou a mão e moveu-a ao horizonte. “Achei que quando viéssemos para cá a escuridão aqui de dentro fosse acabar. Achei que caçar do jeito antigo traria de volta a luz. Mas estas colinas estão vazias. Meus irmão não estão lá”, ele apontou com a cabeça uma cadeia de montanhas, “desossando as suas próprias caças. Hoje á noite não haverá celebração. Ninguém estará me esperando para ouvir sobre a caçada.”

   Nuvem de trovão o interrompeu: “Há todas as pessoas na missão”.

   Águia que Voa Alto balançou a cabeça. “As pessoas da missão são boas pessoas. Sei disso.” Ele se esforçou para encontrar as palavras. “Mas não são o meu povo. Entre o meu povo, para ser um homem tínhamos de ser bons guerreiros e bons caçadores. Eu era um homem.” Ele apontou o leste com a cabeça. “Tenho observado em Santee. Vocês são como os nossos santos homens. Tiago está tentando ser o que eles chamam de fazendeiro.”

   Águia que Voa Alto atirou o osso de galinha no fogo e limpou as mãos antes de continuar. “Mas eu não aprendi a ser um homem lá”.

   Com uma oração por sabedoria, João disse: “Tiago e eu descobrimos nosso caminho em um novo mundo, pedindo a Deus que nos mostrasse o que fazer”.

   Águia que Voa Alto considerou e desafiou: “A que deus um lakota faz pedidos?”

   “Um lakota deve chamar o Deus que responde – o Deus que diz neste livro: ‘Pois são meus todos os animais do bosque, e as alimárias aos milharais sobre a montanha... e são meus todos os animais que pulam no campo... pois o mundo é meu, e quanto nele se contém’”

   “E este deus que você afirma ser o dono do mundo, como você sabe que ele me responde?”

   João replicou seriamente: “Porque Ele prometeu responder. Ele diz: ‘Invoca-me e te responderei, anunciar-te-ei coisas grandes e ocultas que não sabes’, Ele diz: ‘Se o buscares, Ele deixará achar-se por ti’”

   Mais uma vez a amargura do passado cresceu para bloquear a visão de Águia que Voa Alto em relação a Deus. “Se este seu deus possui todas as coisas, então por que não cuida delas? Por que as deixa ser machucadas? Por que permite que os homens matem uns aos outros?”

   Dobrando-se para frente, João respondeu: “Tenho ponderado sobre estas perguntas por longas horas durante a noite. Todos os homens perguntam por que Deus permite o mal. No final, não recebemos nenhuma resposta. Apenas devemos confiar em Deus e servi-lo. Ele promete que Seus propósitos serão realizados até mesmo através das ações dos homens maus. Ele promete que no final julgará todas as coisas más”.

   Sentindo a rejeição de Águia que Voa Alto pela sua mensagem, João levantou a mão e implorou: “Escute, Águia que Voa Alto, escute-me até o final”. Águia que Voa Alto aquietou-se novamente ao redor da fogueira, cruzando os braços para mostrar seu desacordo.

   Nuvem de Trovão continuou: “Pra mim parece que sua própria vida, Águia que Voa Alto, prova que Deus usa o mal dos homens para realizar o que Ele deseja. Está errado quando o governo quebra se trato com os lakotas. Está errado quando os soldados matam mulheres e crianças. Mas Deus não usou todas essas coisas erradas para trazer você até nós? Aqui você tem ouvido mais e mais vezes que Deus o ama e enviou seu filho Jesus para morrer por você. Se você vier a crer nisso, terá a vida eterna. Os soldados podem vir e matar seu corpo, mas você estará com Deus. O governo pode quebrar seus tratos e tomar sua terra, mas você ainda terá sua casa nos céus. Isso é liberdade, Águia que Voa Alto. Saber que nada que os homens possam fazer para você mudará seu futuro com Deus. ‘Se pois o filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres’. Jesus Cristo morreu para deixá-lo livre. Ele pode ajudá-lo a viver de um modo certo diante de Deus. Ele pode ajudá-lo a viver como um homem de verdade onde quer que você esteja.”

   João parou por um momento para permitir que Águia que Voa Alto refletisse sobre as palavras. Quando nenhuma pergunta foi feita, João acrescentou: “Ainda estou tentando aprender sobre Deus. Por muitos anos tenho lido este livro. Por muitos anos tenho tentado viver para Ele. Ainda não posso responder a todas as suas perguntas. Se eu pudesse saber tudo sobre Deus, Ele não seria Deus. Você disse que tem um buraco no coração. Disse que a escuridão cobre sua vida. Eu sou apenas um homem. Não posso responder a todas as suas perguntas sobre Deus. Abra seu coração para Ele. Ele vai preencher o vazio no seu coração. Ele vai cortar sua escuridão com luz. Posso prometer a você, porque Ele fez isso por mim. E pelo Tiago. Você vê muitos dakotas indo para a igreja aos domingos. As casas deles foram tomadas, como as dos lakotas. Foram mortos, machucados e passaram fome por causa dos soldados. Ainda assim não vivem na escuridão. Não é que sejam melhores homens que você, Águia que Voa Alto. É só que o coração deles pertence a Deus agora. Peça a Deus para mostrar o que você precisa fazer. Ele responderá”.

   “Isto quer dizer que devo desistir dos dias antigos?”

   “Acho que isso quer dizer que você precisa parar de se agarrar às coisas do passado e abraçar o que está aqui agora – o que sabe que é verdade.”

   O coração de João Nuvem de Trovão batia rapidamente ao antecipar mais uma conversação entre seu povo. Mas ele ficou muito desapontado. Águia que Voa Alto murmurou coisas imperceptíveis e levantou-se para chegar as éguas.

 

   ... o amor cobre todas as transgressões. Provérbios 10:12

 

   Quando o carroção chegou em Lincoln, Rachel Brown estava tão fraca que Jim teve de carregá-la para dentro do hotel. Augusta conduziu-o pelo hall ao velho quarto de Sarah Biddle. Rachel sorriu fracamente e desculpou-se por perturbar a todos.

   “Não seja boba, sra. Brown, Augusta protestou alto, “simplesmente descanse e vamos colocá-la no trem para ir para casa logo. Vou telegrafar para que seus pais saibam que vocês vão ficar aqui mais alguns dias. Não se preocupe. Vou explicar tudo direitinho para que eles não fiquem chateados. Carrie vai dormir na cama de campanha, assim vocês ficam pertinho.” Augusta ainda falava enquanto saía do quarto e passava pelo hall, em direção do carroção que estava sendo descarregado.

   Lisbeth apoiou-se no batente da porta e deu um sorriso de satisfação. “Tentei contar para a senhora sobre tia Augusta, mas às vezes só dá para entender ficando perto dela mesmo.”

   Rachel suspirou: “Bom, se uma pessoa pode ser sugestionada para ter saúde boa, então logo estarei no caminho de casa.”

   Carrie entrou puxando seu pequeno malão atrás. Olhou para a mãe e seu rosto anuviou-se com preocupação. “Você vai ficar boa, mamãe?

   Rachel forçou um sorriso vivo. “É claro querida.”

   Jim carregou outro malão para dentro. “Sra. Brown, com sua permissão, vou levar a Carrie comigo para deixar a sr. Bond na casa dela. Então ela poderá ajudar-me a escovar a parelha quando voltarmos. Vou apresentá-la ao Joseph lá na cocheira, e ela poderá explorar os estábulos.” Jim virou-se para Carrie e piscou. “Há um grande celeiro para ser explorado, e é incrível quando a gente acha um ninho de gatinhos recém-nascidos enfiados em algum canto lá em cima.”

   Com a permissão aliviada de Rachel, Carrie saiu com Jim. Lisbeth virou-se para falar alguma coisa mas rache já tinha caído no sono, com seu chapéu de viagem ainda na cabeça. Não tivera nem forças para tirar as luvas.

   Lá na cozinha, Lisbeth encontrou o serviço das duas novas cozinheiras, que, desde que ela partira, tinham reorganizado todas as coisas e colocado as cadeiras de balanço de Augusta e Lisbeth em um canto escuro. Ao ver Lisbeth franzir a testa, Augusta aproximou-se e disse: “Tenho lido meu jornal da noite em minha própria sala, querida. Acho que é melhor mudarmos nossas atividades aqui. O hotel tem estado mais ocupado nestes dias e Cora e Odessa provaram ser ótimas cozinheiras e organizadoras. Elas não falam o inglês muito bem, mas acho que vão trabalhar maravilhosamente. São irmãs. Responderam ao meu anúncio no dia em que desembarcaram do trem. Não têm família em Lincoln e estou surpresa com a boa vontade delas para trabalhar. Não quero perdê-las”.

   Quando Augusta terminou de falar, Cora e Odessa entraram pela porta posterior juntas. A mais gorda, que seria a Cora, meneou a cabeça e piscou para Lisbeth através dos grossos óculos, enquanto se adiantou com uma mão corajosamente estendida. Sorriu e disse com os dentes tortos: “Cora Schlegelmilch”, inclinando-se numa corte desajeitada enquanto falava. Odessa, a magra riu nervosamente e corou, seguindo o exemplo da irmã. Odessa, no entanto sofria de uma timidez dolorosa que mal pôde mover os lábios para formar seu nome. Só saiu um pequeno som. Lisbeth alcançou sua mão estendida e balançou-a formalmente. As irmãs ficaram olhando Lisbeth, desajeitadamente. Olharam os sapatos, então a bainha do vestido dela, depois o camafeu e, por último, os olhos. Quando Lisbeth sorriu, as meninas se entreolharam, deram uma risadinha nervosa de novo e, agarrando os aventais, apressaram-se ao trabalho.

   “Espere até experimentar as coxinhas que elas fazem”, Augusta cochichou.” A noite passada David Braddock trouxe o John Cadman para jantar e o velho rabugento pediu três porções de comida.” Augusta deu uma risadinha. “Hoje, quando eu tinha saído, ele veio até a porta do fundo e ofereceu às meninas o dobro do que eu estou pagando, se elas fossem cozinhar para a Casa Cadman!”

   “O dobro?” Lisbeth ficou incrédula. “Então por que...?”

   “Por que ainda estão aqui?”, Augusta perguntou enquanto Lisbeth assentia com a cabeça. “Cora só piscou para o Cadman e falou ‘Casa Hathaway contratar nós. Pagamento ser bom. Nós gostar da senhora Hatahway. Nós ficar.’”

   Augusta sorriu. “É claro, tão logo voltei, Cora me contou tudo e pediu um aumento, que eu dei, muito contente. Logo teremos de cobrar cinqüenta centavos por refeição, só para cobrir as despesas, se a guerra de salários continuar. Acredito que os cidadãos de Lincoln pagarão o dobro do preço se a Cora e a Odessa estiverem cozinhando. Até David Braddock tem vindo aqui, e ele tem a Sarah cozinhando na mansão. É claro” Augusta acrescentou, “acho que o interesse dele na Casa Hathaway está conectado a algo mais pessoal que comida.”

   Lisbeth corou. “Não sabia que ele e a senhora Braddock iam ficar aqui mais tempo.”

   “Você só esteve fora duas semanas, Lisbeth.”

   “Parece uma vida inteira. Só uma viagem curta ao norte, realmente, uma vida.”

   Augusta virou-se para falar com as empregadas novas. “cora, vamos fazer bolo de limão de sobremesa para a noite, e vocês podem fazer um pouco daqueles pãezinhos de jantar que serviram na terça-feira?” Cora balançou fortemente a cabeça, concordando.

   Augusta guiou Lisbeth para fora da cozinha em direção à sua sala particular, onde se sentaram para conversar. “Conte-me, Lisbeth.”

   Lisbeth contou tudo sobre a viagem, exceto a coisa talvez mais importante. Não mencionou Águia que Voa Alto. Descreveu a escola e o trabalho de Charity em termos brilhantes, expressando grande admiração pela dedicação dos trabalhos e pelo progresso dos alunos. Falou de novo sobre a lamúria de Agnes e sobre a paciência de Jim e de cada detalhe da viagem que podia lembrar; concluiu com a pergunta sobre a opinião de Augusta a respeito da saúde de Rachel e sobre o que poderia ser feito para que ela chegasse em casa, em St. Louis.

   “A primeira coisa que vou fazer amanhã cedo é trazer o dr. Gilbert para examiná-la.” Augusta ofereceu. “Tudo o que pudermos fazer, faremos. Se estiver dentro do nosso poder, ela chegará em sua casa para o Natal.”

   Augusta tinha acabado de ler o jornal da noite quando o sino da frente tocou, provavelmente por novos hóspedes. Era David Braddock.

   “Vi o Jim Callaway lá na cocheira”, David explicou. “Espero que tudo tenha corrido bem com Lisbeth.”

   Por trás de Augusta, Lisbeth falou: “Tudo correu bem David, obrigada”. Lisbeth saiu da sala e encostou-se na entrada.

   David limpou a garganta nervosamente. “Minha mãe e eu gostaríamos de convidá-la para o jantar, Lisbeth. Hoje à noite.” Virou-se para Augusta. “E ficaremos muito gratos se vier também, sra. Hathaway.”

   Augusta rejeitou. “Desculpe-me, sr. Braddok. Mas tenho uma hóspede doente para cuidar. Lisbeth trouxe a sra. Rachel Brown e sua filha Carrie. Elas estão a caminho de casa, em St. Louis, para o inverno. Ela está bastante doente, coitada. Estou determinada a fazê-la ficar em pé e tomar o trem para casa o mais rápido possível. Lisbeth é claro está livre para aceitar seu convite.”

   A porta atrás de David abriu-se e Jim Callaway entrou no hotel, acompanhado por Carrie. Ela estava cheia de entusiasmo por ter descoberto um ninho de gatinhos no celeiro e pela promessa antecipada até a fazenda de Jim.

   Jim interrompeu a falação de Carrie. “Espero não ter falado nada errado. Só achei que Carrie adoraria isso”, abaixou a voz enquanto Carrie escapou pela sala de jantar e desapareceu na cozinha para ver Rachel acordada. “Isso poderá distraí-la e fazê-la parar de pensar na mãe.”

 Os olhos de Lisbeth brilharam. “É uma idéia maravilhosa. Obrigada.”

   Jim rapidamente retirou o chapéu. “É claro que ela se divertiria mais se você viesse também.” Olhou para Augusta e acrescentou apressadamente: “A não ser é claro, que a sra. Hathaway precise de você.”

   “Eu adoraria ir também, Jim.” Lisbeth falou, olhando friamente para David. “Vou preparar um piquenique para o almoço.”

   Com um brilho fraco nos olhos, Lisbeth chamou Carrie – “Carrie, querida, venha mostrar para a sra. Hatahway o lindo presente que o Águia que Voa Alto deu a você antes de sairmos da missão.” Com a menção do nome, Augusta resmungou surpresa. Lisbeth apressou-se a explicar: “Parece, Augusta, que por algum milagre, meu irmão Águia que Voa Alto agora reside na Missão Santee. Não o encontrei, na verdade, mas ele deu este colar a Carrie. Você acredita nisso, Augusta? Lembro-me da mamãe contar sobre esta correntinha e esta cruz, que por causa delas Cavalga o Vento a levou para a tribo, foi quando a deu para Flor do Campo. Flor do Campo deve tê-la entregado a Águia que Voa Alto. E agora, aqui está, um testemunho vivo do amor que pode existir entre as nações”. Cada palavra dita por Lisbeth foi cuidadosamente endereçada a David, e todas alcançaram o alvo. Ele ficou branco e observando o piso enquanto Lisbeth falava. Ela acabou com um grand finale. “Não tive coragem de encontrá-lo. Mas vou voltar na primavera e se, ele concordar, vou encontrá-lo. Acho que os parentes precisam dar apoio uns aos outros, não concorda David?

   David ficou vermelho e não respondeu. Lisbeth foi mais adiante. “Obrigada pelo seu convite para o jantar hoje à noite, mas estarei ocupada preparando o piquenique para o nosso almoço de amanhã. Quero fazer tudo para a Carrie passar um tempo bem gostoso. E você, Jim Callaway”, Lisbeth falou, dando tapinhas no braço dele com bastante familiaridade, “ficará surpreso em ver que sou capaz de fazer algumas coisas, além de sentir pena de mim mesma.”

   “Carrie, vamos ver o que podemos fazer de gostoso para a mamãe ficar com vontade de comer até quase estourar!”, Lisbeth, piscou para Jim e desapareceu na cozinha com Carrie.

   Jim Callaway e David Braddock ficaram desconfortavelmente em silêncio por alguns segundos antes de Jim despedir-se de Augusta. David virou-se para sair, mas Augusta o deteve. “Não sei o que está acontecendo entre vocês dois, sr. Braddock, mas o aconselho a ter paciência com Lisbeth, se realmente se preocupa com ela.”

   David pôs o chapéu de seda na cabeça e, com o cabelo perfeitamente penteado, respondeu vagarosamente: “Recebi esta afronta, sra. Hatahway. Tenho sido um tolo. Só espero, pelos céus, que isto não me custe a mulher com quem desejo me casar”. Levantando o chapéu para Augusta, David deixou o hotel e andou rapidamente até a carruagem.

   À porta da cocheira, por baixo da aba do chapéu que ele tinha enterrado até os olhos, numa pose de desinteresse, Jim Callaway assistiu o Braddock subir em sua carruagem. Tão logo a carruagem saiu de vista, Jim tirou o chapéu atirou-o no ar, liberando um grito de alegria que ecoou no estábulo e pular um rato bem no momento que a mãe dos novos gatinhos ia dar o bote.

 

   Rosas. Ele mandou rosas. Lisbeth arregalou os olhos com descrédito e ficou pensando como David tinha conseguido um feito desses nesta época do ano. O cartão dizia simplesmente: “Perdoe-me. D.”. Lisbeth deixou de lado o cartão para ir ver Rachel e ficou contente por encontrá-la na cozinha, ouvindo Carrie tagarelar sobre o dia no campo.

   “Ele tem um cachorro também, mamãe. O nome dele é Jack, e ele é grande e parece bravo, mas é bem amigo. Não morde de jeito nenhum. Fizemos uma caminhada na beira do riacho e fizemos nosso piquenique embaixo de um choupo enorme. Vimos o campo do sr. Callaway pronto para receber as sementes na próxima primavera e ele falou para a sra. Baird – ela disse para chamá-la de Lisbeth – ele falou para a Lisbeth tudo sobre o que vai plantar e tudo mais. Quando saímos, ele arrancou os últimos botões do pé de rosas e deu para Lisbeth e para mim. Veja...” Carrie levantou uma flor quase murcha.

   Rachel olhou para cima quando Lisbeth entrou na cozinha e viu a rosa pregada em seu corpete. Nesse exato momento soou uma batida na porta do fundo. Lisbeth abriu e viu i menino que trabalhava para o sr. Miller segurando um buquê de margaridas. Mais uma vez o cartão dizia: “Perdoe-me. D”

   Quando chegou a hora do jantar, Rachel protestava contra a insistência de Augusta para que ela descansasse, e implorava para ajudar em alguma coisa na cozinha. “Absolutamente!”, Augusta ordenou. “Seu único serviço, jovem senhora, é ficar boa para logo pegar o trem para St. Louis. Se souber que você levantou um dedo” Augusta balançou seu pano de prato na frente do rosto de Rachel, “vou trancá-la no quarto. Agora vá!” Rachel cedeu e, com uma cópia do último conto do sr. Dickens na mão, retirou-se para seu quarto, onde caiu no sono antes de completar a primeira página do livro.

   Lisbeth estava ajudando a arrumar a mesa na sala de jantar quando outro mensageiro apareceu com uma caixa de doces e um bilhete pedindo perdão. Finalmente, David Braddock apareceu no hotel. Ele chegou pela porta do fundo, causando agitação nas irmãs Schlegelmilch.

   “O que fazer esse rico cavalheiro vindo porta do fundo hotel, eu querer saber?” Cora cochichou.

   Odessa cochichou de volta: “Ele perguntar dona Baird, engraçado”. Dando uma risadinha, acrescentou: “Bonito homem, Cora!”.

   As duas irmãs pararam de conversar e começaram a servir bolo de limão com energia revigorada. David Braddock ficou olhando o chão, enquanto esperava Lisbeth aparecer. Finalmente ela surgiu na frente da sala de jantar, balançando uma bandeja cheia de louça suja em uma mão e carregando uma jarra cheia de água na outra. David apressou-se para pegar a bandeja com louça e passou-a para Cora.

   “Lisbeth, por favor, perdoe-me.”

   Lisbeth estava fria. “Você já disse isso, David. Três vezes. Duas com flores. Obrigada. Elas são bonitas. Coloquei um buquê no quaro da sra. Brown e outro na sala de jantar. Uma vez com doces. Obrigada. Carrie vai adorar, tenho certeza. Agora, se você me desculpa, temos mais gente que o de costume.” Lisbeth virou-se para Cora e Odessa e disse com um sorriso: “Acho que estão espalhando para a cidade que temos as melhores cozinheiras de Lincoln”.

     Cora e Odessa levantaram os olhos rapidamente do serviço e balançaram a cabeça, em apreciação.

   David persistiu: “Lisbeth, por favor. Diga que virá para o jantar. Diga que me perdoa. Fui um tolo e estou arrependido. O que mais posso dizer? O que mais posso fazer?” David estava perturbado. Lisbeth achou isso nada atraente.

   Uma voz da sala de jantar chamou pelo serviço e Lisbeth virou-se para ir. “Não sei, David. Não posso falar agora. Volte mais tarde. Não, volte amanhã. Depois do almoço. Você pode acompanhar-me até o círculo de costura.”

   David respondeu humildemente: “Estarei aqui amanhã. Por favor, não saia sem mim”

   Quando se encontraram no dia seguinte, os ressentimentos de Lisbeth tinham sido curados pelos indulgentes chocolates, ela pôde dar uma atenção civilizada a David. Ele se desculpou com tanta profusão que Lisbeth finalmente deu uns tapinhas em seu braço e falou abruptamente: “Que é isso, David? Não seja tão dramático. Você feriu meus sentimentos. De uma certa forma estou contente por isso ter acontecido. Agora tudo está aberto entre nós. Agora podemos ser amigos sem nenhuma pretensão. Na verdade não faz tanto tempo que sei sobre minha herança Sioux. Minha mãe só me contou um ano antes de morrer.”

   David compadeceu-se: “Que choque deve ter sido!”.

   “Sim, um choque. Foi mesmo. Havia tanta coisa que eu queria saber. Ainda tenho de acertar muitas coisas em relação a isso.” Eles tinham chegado à escada da entrada da igreja e Lisbeth começou a subir. Parou no segundo degrau, com os olhos no nível dos de David. “Fui uma covarde não encarando Águia que Voa Alto em Santee. Jim ajudou-me a enxergar isso. Ele não me chamou exatamente de covarde, mas sei que ele pensa que eu deveria pelo menos ter encontrado meu irmão. Então poderia julgar por mim mesma de que tipo de povo eu vim. Jim acha que isso poderia facilitar as coisas para mim. Tenho fugido do meu passado desde que Mac morreu. Simplesmente não consigo encará-lo.

   David respondeu com dúvida: “Certas coisas é melhor esquecer Lisbeth”.

   “É, algumas coisas. Mas não isso. Para mim, não. Provavelmente vai levar todo o inverno, mas de alguma forma criarei coragem e voltarei para encará-lo. Talvez quando Rachel e Carrie voltarem, irei com elas.” Os olhos de Lisbeth ficaram pensativos. “Fico pensando como ele deve ser.”

   “Você tem certeza que quer saber? Os jornais estão cheios de notícias não muito lisonjeiras sobre os Sioux.”

   Os olhos de Lisbeth se apertaram. “Sabe, antes eu tinha uma noção clara sobre pessoas ricas. Achava que todas eram terrivelmente egoístas e presunçosas. Então conheci você e sua mãe. Vocês mudaram essa idéia. Jim disse que Águia que Voa Alto salvou a vida dele. Disse que ele era respeitado e admirado pelos outros de sua tribo. Carrie diz que ele é gentil e bom. Acho que vou esperar até o momento de encontrá-lo para só então culpá-lo por alguma selvageria provavelmente exagerada pelos repórteres. Espero que ele tenha a mesma atitude cortês para comigo.”

   David sorriu compreensivo. “Bom, isso pode esperar até a primavera. Quais são seus planos até lá?”

   Lisbeth deu mais alguns passos em direção à porta da igreja. “Continuar o trabalho na Sociedade Missionária de Senhora. Vamos nos responsabilizar por mais duas crianças da escola Santee e concordei em encabeçar o comitê para levantar fundos adicionais. E vou trabalhar no hotel o quanto Augusta me permitir.”

   David a interrompeu: “E você vai para Filadélfia no Natal?”. Como Lisbeth não respondeu, David continuou: “Minha mãe vai pedir para Sarah fechar a casa em breve. Vamos voltar para Filadélfia. Tom também. Estamos contratando um tutor particular para ele. Sarah está se saindo bem, mas mamãe quer que ela ainda continue sob a supervisão da sra. Titu por mais um tempo. Acho que a verdadeira razão é que minha mãe gosta tanto de Sarah e Tom que não quer ficar longe deles. Quando viermos para Lincoln de novo, será primavera. Não quero ficar longe de você todo esse tempo. Você quer passar o Natal conosco?”.

   “David, não posso ficar vagando pelo país. Tenho responsabilidades. Augusta precisa de mim no hotel.”

   “Augusta anseia ver você em algo mais além do trabalho do hotel. Se esse é o problema, eu mesmo contratarei uma pessoa para substituí-la. Também financiarei a passagem para a Filadélfia.”

   “Isso não seria apropriado. As pessoas vão falar.”

   “Não se você for minha noiva.”

   Lisbeth chegou ao último degrau e abriu a porta. “Até mais, David.”

 

   Por isso o Senhor espera, para ter misericórdia de vós, e se detém para se compadecer de vós, porque o Senhor é Deus de justiça; bem-aventurados todos os que Nele esperam. Isaías 30:18  

 

   O outono derrubava todas as folhas em Lincoln e as levantava até as janelas. A cada dia que passava, Rachel parecia mais fraca. O dr. Gilbert a viu e prescreveu remédios e dietas, mas nada parecia ajudar. Enquanto Rachel enfraquecia, Carrie ficava cada vez mais amedrontada.

   Finalmente, Rachel parou de sair do quarto. O dr. Gilbert balançou a cabeça quando Augusta e Lisbeth perguntaram-lhe o que podia ser feito. Carrie foi ficando mais quieta e desesperada, recusando as tentações de Jim para passeios no carroção até a fazenda, e passava horas ao lado da cama da mãe, lendo para ela e trabalhando em ma nova boneca para substituir Ida May.

   Na semana em que David e Abigail fecharam a mansão e partiram para Filadélfia, Sarah e Tom foram ao hotel para um jantar de despedida.

   Augusta ficou radiante de orgulho ao dizer: “Não se esqueçam de nós aqui em Lincoln”.

   “Ah, tia Augusta”, Sarah falou docilmente, “não fale uma coisa desta. Nós vamos sentir muitas saudades de vocês. De vocês duas”. Sarah olhou para Lisbeth. “Espero que aceite o convite do sr. David, Lisbeth. Ele disse que está esperando você e tia Augusta em Filadélfia para o Natal. Por favor, não deixem de ir.”

   Augusta virou-se para Lisbeth. “O que é isso? Você não me disse nem uma palavra.”

   “Eu não posso ir para Filadélfia, Augusta. É uma idéia ridícula. Precisam de mim aqui.”

   Augusta protestou: “Lisbeth Baird, não vou deixá-la usar a mim e a este hotel como desculpa para rejeitar um convite adorável. É claro que você irá para a Filadélfia no Natal. Nós duas iremos”. Virando-se para Sarah, falou com entusiasmo: “Diga ao David e a Abigail Braddock que ficarei feliz em acompanhar Lisbeth a Filadélfia”.

   No outro dia, bem cedo, David bateu com força na porta da cozinha, acordando Lisbeth e insistindo, com a respiração ofegante, em que ela fosse para Filadélfia. “Sarah disse que Augusta ficou contente com a idéia. Quero ouvir de você dizer isto, Lisbeth. Por favor. Diga que irá. Não vou pressioná-la com – nada. Simplesmente vá para o Natal.”

   “Tudo bem. Nós iremos. Mas lembre-se, você prometeu. Não vai me pressionar com – nada”.

   A alegria no rosto dele lembrou a Lisbeth uma criança mimada que recebe o que quer. Mais uma vez, alguma coisa dentro dela provocou uma leve repulsa. Mesmo assim, ela esperou ansiosamente pelo Natal em Filadélfia.

 

   “Quero ir para casa, Lisbeth”, Rachel falou febrilmente. “Quero desesperadamente ir para casa.” Ela segurava a carta mais recente dos pais e chorava livremente. Lisbeth assegurou-lhe que ela ficaria forte logo e em condições de ir para casa.

   Rachel esfregou a mandíbula defeituosa e virou a mão torta. Vagarosamente e deliberadamente ela se esforçou para sentar ereta e olhou diretamente para Lisbeth enquanto falou: “Estou morrendo”. Lisbeth começou a protestar, mas Rachel levantou sua mão. “Por favor, não tente me enganar. É tarde demais. Ambas sabemos disso. O dr. Gilbert não conseguiu ajudar. As coisas aqui dentro de mim estão – torcidas – para funcionar por mais tempo.” Ela sorriu tristemente enquanto acrescentou: “Porém estou contente porque me consumi assim para Deus”.

   “Eu desejo muito que a Carrie possa conhecer sua avó e avô antes...” ela suspirou e acrescentou baixinho: “E eu gostaria de morrer em casa. O túmulo da família fica em um antigo e grande cemitério com muita sombra de árvores. É confortante, de certo modo”.

     Lisbeth virou-se abruptamente: “Rachel, vou levá-la para casa”.

   Rachel olhou para ela com olhos arregalados. “Mas como? Não sou forte o suficiente.”

   “Você está mais forte do que estará na próxima semana ou no próximo mês. Vou levá-la para casa. Sairemos amanhã.”

   Os olhos de Rachel ganharam um brilho excitado. “Vai mesmo? Acho que eu conseguiria andar no trem. Não precisaremos trocar de trem de novo, e mamãe e papai nos encontrariam lá.”

   “Nós vamos”, disse Lisbeth firmemente. “Vou falar com tia Augusta e arrumaremos as coisas hoje. O trem sai bem cedo. Se houver três passagens disponíveis, iremos.”

   Havia três passagens e então a manhã da quinta-feira encontrou Lisbeth ajudando Rachel em um carro Pullman para a viagem de volta para casa. Augusta gritou, acenou e lutou contra as lágrimas enquanto o trem deixava a estação. Carrie dobrou-se para fora da janela, e suas tranças vermelhas balançavam enquanto o trem ganhava velocidade. A última lembrança que Augusta guardou delas foi o meio-sorriso torto de Rachel e de Carrie mandando beijos. O rosto preocupado de Lisbeth apareceu, e ela juntava as mãos e olhava para o céu, implorando que Augusta orasse por todas. Augusta balançou a cabeça e saudou-a, lutando contra as lágrimas até o trem sair de vista.

   As irmãs Schlegelmilch falaram baixinho, palavras imperceptíveis de simpatia e presentearam Augusta com uma xícara de chá de camomila e um pedaço de torta de batata doce. “Quando senhora ficar preocupada, pouco de chá e pouco de açúcar, então muita oração. Isso ajudar”, disse Cora enquanto servia Augusta. “Aquela Lisbeth, ela estar bem. Aquela Carrie menina, ela ficar com vovô e vovó dela. Ela estar bem. E aquela Rachel mulher, ela ficar com Deus. Ela mais bem que todas.”

   Lisbeth ficou em St. Louis mais tempo do que todas haviam imaginado. Ao escrever para Charity sobre a doença de Rachel, compartilhou o seguinte:

 

   Não sei realmente por que fiquei aqui; talvez por Rachel parecer confortada pela minha presença e Carrie gostar de lembrar-se da missão com alguém que já tenha estado aí e visto as coisas das quais fala. Enquanto eu puder ser um conforto, ficarei. Diariamente fico encantada com a fé de Rachel em Deus e a habilidade dela em aceitar esta horrível doença que a abateu. Parece que ela confia totalmente em Deus. Isso me envergonha Charity. Tenho sido tão revoltada com Deus por ter tirado as coisas de mim. Estou começando a ver, através dos olhos de Rachel, que Deus talvez permita que coisas aconteçam para que aprendamos a depender Dele. É isso o que Rachel diz e, quando fala, posso ver no rosto dela que verdadeiramente aceita esta doença como vinda de Deus para um propósito maior. Ela não sabe o que é, mas repetidamente cita Romanos 8:28 para mim. Você já leu? Estando diante dela, saudável, eu jamais pensaria em citar este texto, mas quando Rachel cita para mim. Ele assume um sentido e beleza que não posso explicar... “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a deus, daqueles que são chamados segundo o Seu propósito”. Imagine só, Charity, ela está encarando a morte e sabe que não verá Carrie transformar-se em uma mulher, e mesmo assim entrega tudo isso para Deus, e sem amargura alguma diz docemente: “O Deus eterno é a tua habitação, e por baixo de ti estende os braços eternos...” Ah! Uma fé como essa!

   Conte sobre a condição da pobre Rachel para as crianças e faça-as orar por ela. Talvez deus faça mesmo um milagre.

   E se Águia Que Voa Alto ainda estiver aí – e oro para que esteja – por favor, diga como está sendo importante para Carrie ter o presente dele com ela. Diga que sua irmã lhe manda saudações e também agradece pelo presente da colcha e lhe deseja paz.

   Rachel Brown morreu não muito depois que Lisbeth escreveu a Charity, e foi enterrada no jazigo da família, em um cemitério cheio de árvores em St. Louis, do modo como desejava. Ela viveu o suficiente para ver Carrie criar um forte laço com seus pais e o suficiente para compartilhar sua forte fé em Deus com Lisbeth.  

 

Querido Jim,

   A pobre Rachel Brown foi levada ao descanso hoje. Carrie está sofrendo profundamente, mas encontrará conforto em seus queridos avós, que verdadeiramente a querem bem e darão a ela um lar amoroso.

   Não há mais nada que eu possa fazer aqui e assim logo voltarei para casa. Rachel deu-me sua Bíblia. Posso ver você rindo com essa revelação, pensando se tendo recebido uma segunda cópia do grande livro finalmente irei lê-lo. A Bíblia de Rachel tem umas palavras bonitas na frente. Dizem: “Quero ser mestre neste livro de forma que o Mestre deste livro seja o meu Mestre”. Acho que é um sentimento bonito, e por isso vou ler a Bíblia de Rachel. Quando voltar a Lincoln, quero também pegar a Bíblia de mamãe mais uma vez e ler as passagens que ela destacou.

   Queria escrever para você, Jim, pois você demonstrou tanta preocupação para comigo – por nenhuma outra razão a não ser a preocupação por minha pessoa. Parece que você se interessa que eu encontre felicidade e paz, e aprecio isso mias do que posso falar. Ainda tenho um monte de perguntas, mas neste tempo em que fiquei com Rachel muito de minha amargura se foi. Neste último ano, vi que muitas outras pessoas sofreram tanto quanto eu sofri, se não mais.

   Talvez sem amargura no coração serei capaz de encontrar meu caminho para aquela paz que você possui – que você chama de “a paz além do entendimento”.

   Ore para que eu a encontre.

   Estarei em Lincoln por um breve período antes de viajar com Augusta para Filadélfia. Os Braddocks nos convidaram e Sarah e Tom insistiram tanto que se não formos, vão morrer de saudades. Passaremos o Natal lá.

   Por favor, cuide do Joseph enquanto estivermos fora, Jim. Tenho medo de ele estar envelhecendo muito rápido e sei que ele valoriza a amizade, como todos nós. Nós adoraríamos vê-lo se você puder levá-lo até a cidade antes de sairmos. Se não, entenderemos.

Sua amiga de sempre, Lisbeth King Baird

 

P.S Salmo 55:22. Estou tentando ver se ele funciona.

 

     Jim Callaway foi mais do que capaz de ir a Lincoln para ver Lisbeth e Augusta antes de partirem para Filadélfia. De fato, ele apeou na entrada do Hotel Casa Hathaway na primeira noite após a chegada de Lisbeth. Achou útil permanecer na cidade por vários dias, juntando-se a Joseph para as refeições na cozinha do Hotel e insistindo em ajudar as irmãs Schlegelmilch a lavar a louça.

   “Você não pôr suas mãos na minha louça, eh?”, Cora ralhou.

   “Estou ajudando a lavar a louça, Cora. É isso. É o mínimo que posso fazer depois de você me ter dado um segundo pedaço de torta de batata doce.

   Cora tagarelou e fez um estardalhaço. “Vocês solteiros – vocês não saber nada louças. Você sair caminho meu, deixar eu trabalhar!”

   Jim piscou para Cora. “Vai olhar a minha cozinha a qualquer hora. Mais limpa que a sua!”

   Jim brincou e fez gozações até as irmãs Schlegelmilch finalmente aceitarem sua ajuda. E em troca recebeu muitos doces e chás especiais.

   Indo para a cozinha da sala de jantar, Lisbeth brincou: “É melhor tomar cuidado, Jim. Elas estão de olho em você e decidiram que é uma boa presa. Vão cevar você até prometer casar-se com uma delas, se não tomar cuidado!”.

   “Quem está prometendo casar-se?”, Augusta quis saber ao chegar pela porta do fundo.

   Augusta deixou-se cair em sua cadeira de balanço que ainda estava no canto da cozinha. Sem esperar por uma resposta à pergunta, ofereceu um sumário das últimas notícias financeiras e desgraças em Lincoln. “Puxei o N. C. Sweet de lado depois da reunião e contei para ele todos os meus planos sobre um novo hotel ao lado da estação de trem. Ele quase prometeu em empréstimo. Quando estivermos em Filadélfia, Lisbeth, vou visitar aquele arquiteto recomendado pelo David, para desenhar algumas plantas para mim. Quero uma construção muito bonita, uma que dure até o próximo século – algo para ser uma herança para você.”

   Jim perguntou abruptamente: “Quando vocês vão?”.

   “Temos passagem para domingo de manhã. Minha nossa”, Augusta pulou. “Preciso de um novo enfeite para o meu conjunto preto. Deixei com a Gladys da loja Oppenheimer’s, para colocar um laço novo bonito.”

   “Eu vou pegar o conjunto para a senhora, tia Augusta”, Lisbeth ofereceu-se.

   Jim pegou seu chapéu. “Vou com você, Lisbeth.” Augusta piscou para Lisbeth, e Jim apressou-se em dizer: “Preciso perguntar algumas coisas da fazenda para você. Quero ter certeza de que você aprova o que estou fazendo lá. Ainda é sua, afinal de contas, até eu pagar tudo”.

   Lisbeth e Jim andaram os quatro quarteirões até a Oppenheimer’s em silêncio; Lisbeth esperava que lhe contasse seus planos, e Jim preocupava-se como falar o que precisava. Lisbeth pegou o conjunto de Augusta. Quando saíam da loja, ela correu a mão sobre uma chita vermelha que estava no balcão.

   “Pois não, sra. Baird”, Gladys ofereceu, “posso guardar alguns metros para a senhora?”

   “Não obrigada, Gladys. Mas é lindo.”

   Quando saíram, Jim falou: “Acho que preto fica velho logo, não é?”

   Lisbeth concordou, balançando a cabeça. “Sinto-me culpada por querer vestir coisas da moda de novo, mas não posso fazer nada. As vezes penso que usar preto só prolonga a agonia do luto. Há momentos em que eu quase esqueço, em que a dor não está tão óbvia. Então vejo todo esse preto e me lembro.” Lisbeth suspirou e olhou para trás, na direção da loja. “Era um tecido bonito,” ela se iluminou. “Mas no futuro haverá muitos anos para as cores da moda. Augusta usa preto por opção. Talvez eu devesse fazer o mesmo e fingir que uso preto porque acho moderno.”

   Jim deu uma risadinha. “É bom ouvir você tentando encontrar um caminho positivo para trabalhar com aquilo de que você não gosta.”

   “Estou aprendendo.”

   Os dois já estavam perto do estábulo quando Jim falou de novo: “Você viu a mula nova que Joseph trouxe da fazenda?”.

   “Não. É a marrom avermelhada que você jurou ser inútil?”

   Jim balançou a cabeça confirmando. “É. E eu estava errado. Joseph estava certo. Ela vai parecer realmente ter estilo, puxando a carruagem antiga.”

   “Estamos quase de volta, Jim. O que você queria perguntar sobre a fazenda?”

   Jim limpou a garganta e começou com dificuldade: “Bom, Lisbeth. É”, impulsivamente agarrou a mão de Lisbeth e puxou-a para o estábulo. “É pessoal”, ficou vermelho, “não quero que ninguém ouça”.

   Lisbeth sentou-se em um feno dentro do estábulo e observou Jim andar em círculos. Muitas vezes ele parava na frente dela e abria a boca. Então fechava de novo e andava.

   “Céus, Jim. Qual é o problema? Você com certeza sabe que não vou criar nenhuma objeção a qualquer coisa que quiser fazer na fazenda.”

   “Não é o que eu quero fazer na fazenda, Lisbeth.” Ele sentou-se perto dela e abaixou a voz. “É com quem eu quero fazer.”

   Lisbeth ficou branca.

   “Você ora comigo?”

   Lisbeth concordou balançando a cabeça, mais confusa do que nunca.

   Jim orou e Lisbeth tentou ouvir cuidadosamente, mas sua mente vagueava tentando imaginar por que ele estava tão perturbado. No meio do pensamento, percebeu que Jim tinha parado de falar.

   “Lisbeth, você me escutou? Eu estou... estou pedindo para você ser minha mulher.”

   Ele a olhava intensamente, com os olhos verdes- acinzentados em chamas.

   “O quê? Desculpe-me, Jim. Eu não... ouvi você.”

   “Bom você vai para a Filadélfia e estou preocupado com o que acontecerá lá. Sei que vai mais pela Sarah e Tom. Mas David Braddock tem suas próprias idéias sobre o que vai acontecer no Natal, Lisbeth. Eu não queria falar nada até ter a fazenda livre e certa.” Ele pulou e começou a andar em círculos novamente. “Mas se eu não falar nada agora, com certeza vou perder você. Não que eu tenha você ainda, se você nem sabe o que eu sinto...”

   Lisbeth estava de olhos arregalados, fitava Jim, não acreditando. “Jim, eu não imaginava.”

   Jim se sentou ao lado dela. “Lisbeth, eu lhe disse no caminho para Santee que, quando eu compartilhei meu passado com você, você possuiu uma parte de mim mesmo que nenhuma outra mulher possui. Não quero pressionar você.” Ele riu nervosamente. “Acho que este é um modo pouco romântico de fazer isto, afinal de contas... Lisbeth, eu amo você. Nunca serei rico, como David Braddock. Nunca serei o tipo de homem com quem as pessoas da cidade buscam conselho.” Finalmente Jim conseguiu coragem para olhar para ela. “Lisbeth, tudo o que feito na fazenda – é para você. Ela nunca será sofisticada, mas será um lar. Poderemos ter nossa família – e servir a Deus lá – juntos.” Deu um suspiro fundo. “Quero segurá-la quando chorar e fazê-la esquecer todas as coisas terríveis que lhe aconteceram. Quero ser um esposo daqueles que você conversa quando está irada com Deus e quero estar junto para rir com você. Quero orar com você. Quero segurar seus bebês e saber que são meus. Quero ouvir meus filhos chamar você de mamãe e quero estar junto quando nossos filhos estiverem crescidos e seu cabelo ficar grisalho.” Jim parou de novo, percebendo que ele tinha posto para fora muito mais do que pretendia. Acabou delicadamente. “Você não precisa dizer nada agora. Não vou trazer isso à tona de novo. É que sabia que, se não falasse nada antes de você ir, talvez a perdesse por pura covardia.”

   Lisbeth olhou para ele admirada. “Você me pediu em casamento mesmo sabendo que irei para a Filadélfia?”

   Jim balançou a cabeça. Concordando. “Quero que você vá, Lisbeth.”

   “Não entendo.”

   “Quero que vá e fique com David Braddock e veja onde eles vivem. Quero que você passe um tempo maravilhoso lá.”

   “E se eu não voltar? David já me pediu em casamento.”

   Jim falou baixinho: “Pensei que ele iria pedir agora”. Olhou para Lisbeth com seriedade. “Mas você não aceitou ou não teria me deixado dizer todas estas coisas que acabei de dizer.”

   “Não. Não aceitei. Mas e se...”

   Ele a interrompeu. “E se você não voltar?”, sua vos tremeu de emoção. “Bom, Lisbeth é isso. Se você aceitasse se casar comigo, eu ainda lhe diria para ir para a Filadélfia.”

   Com o olhar confuso de Lisbeth, Jim tentou explicar. “A vida na fazenda é dura. Não quero viver com uma mulher que olha pela janela e deseja estar em outro lugar – com o sobrenome de Braddock. A casa que David construiu é linda. Se você a quiser, garanto que será sua.” Jim respirou profundamente. “Mas ele, nem com todos os milhões, seria capaz de dar a você uma gota do amor que eu posso lhe dar. Ele nunca ficará à janela daquela casa enorme e se arrebentará de alegria quando vir você chegando, como eu fico quando a vejo chegando na fazenda. Ele não tem orado por você – pedido a Deus por você – como eu tenho.”

   Jim respirou fundo novamente e terminou. “Lisbeth, vá para a Filadélfia. Veja tudo o que há para ser visto e gaste muito tempo com David Braddock. Eu estarei aqui. Creio que deus me deu o desejo de pedir-lhe em casamento. Acho que Ele honrará isso. Se Ele não nos quiser juntos, então terei de deixá-la ir. Estive em lugares onde Deus não esteve comigo. Jamais quero voltar a esses lugares.”

   Finalmente, Jim pegou na mão de Lisbeth. Ela a ofereceu com desejo e percebeu que estava tremendo quando ele beijou as costas de sua mão. “Que Deus a acompanhe, Lisbeth Baird.” Ele olhou para ela e disse seriamente. “Volte para mim.”

   Antes que Lisbeth pudesse dizer qualquer coisa, Jim Callaway pulou e quase correu para fora do estábulo. Ela se sentou no feno por um longo tempo ante de retornar à cozinha do hotel. Augusta olhou para ela e seus olhos se entrefecharam quando ela perguntou: “O que aconteceu com o Jim?”.

   A voz de Lisbeth tremeu ao responder: “Ele teve de voltar à fazenda. Acho. Disse que espera que aproveitemos nosso tempo na Filadélfia”. Lisbeth passou a tarde em seu quarto, folheando a Bíblia gasta de sua mãe, pensando no pedido estranho de Jim Callaway e faminta por encontrar a fé que o capacitava a confiar plenamente em Deus com relação ao futuro.

 

   ...como vos levei sobre asas de águias, e vos cheguei a mim. Êxodo 19:4

  

   Um relincho estridente encheu o ar e uma égua preta colocou a bela cabeça para fora da cocheira. Águia que Voa Alto olhou para a égua, surpreso.

   Tiago sorriu. “Essa égua preta é sua, Águia que Voa Alto. Quando ela der cria, na primavera, você terá o começo de um excelente rebanho de novo. Eu apenas espero que você não a use para nos deixar.”

   Passando os dedos pela crina comprida da égua, Águia que Voa Alto ponderou as palavras de Tiago. “Escute-me, Tiago Asa Vermelha, pois não é hora de falar mentira. Quando vim aqui pela primeira vez, odiava o homem branco por causa do que ele fez ao meu povo. Mas agora preciso começar a trilhar uma nova estrada. Não sei ainda aonde ele vai me levar. Mas sei que não posso retornar aos caminhos antigos. Não tenho mais ódio dos brancos no meu coração.” Virando - se para olhar o rosto de Tiago, Águia que Voa Alto falou solenemente: “Estou tentando aprender a ser um homem aqui. É um caminho diferente. Obrigado por me dar a égua preta. Agora você precisa me dizer o que devo fazer para ajudar vocês aqui na missão”.

   Águia que Voa Alto ficou na Escola Santee no outono. Através de Marta ficou sabendo que a doença de Rachel tinha piorado. Cada domingo que se sentava no banco da última fileira da igreja, dobrava os braços e desejava que os grandes olhos azuis de Carrie corressem pelo corredor e sorrissem para ele. Ele lutava com os meninos e assistia às aulas com os adultos. Seu inglês tornou-se cada vez mais fluente e quando o último inverno terrível impediu o trabalho de cultivo de terra, começou a aprender a datilografar na gráfica.

   Enquanto datilografava, lia os artigos do Word Carrier, formando sua opinião sobre os tópicos discutidos e desafiando Tiago e Nuvem de Trovão sobre várias questões.

   “Tome cuidado, meu amigo”, Nuvem de trovão o alertou, “se você começar a parecer muito capaz nestes assuntos, o reverendo Riggs pedirá para você ir para o leste com ele para convencer seus mantenedores a mandar mais dinheiro para nós.”

   Águia que Voa Alto bufou. “Eu não acho que o reverendo Riggs gostaria de viajar com um índio selvagem.” A perspectiva o fez rir alto.

   Tiago riu com ele, mas quando foi para casa conversou sobre o assunto com Marta. “A escola sempre precisa de dinheiro Marta. O quadro de Águia que Voa Alto – ‘o lakota selvagem’ – ‘domado’ e vivendo uma vida civilizada – faria muito por uma ajuda ao trabalho da escola. Você o ouviu contando histórias para as crianças. Ele segura a atenção delas, que ficam encantadas. Deus poderia usar um talento como esse para melhorar o trabalho aqui.”

   Marta balançou a cabeça. “Águia mudou muito desde que chegou aqui, mas não se converteu e talvez nunca o faça. Ele repele a noção de haver apenas um caminho para o céu e que este não é através de um lakota.”

   “Nós não temos de salvá-lo. Deus vai fazer isso.”

   Eles mudaram de assunto, mas cada um separadamente começou a orar mais seriamente pela alma de Águia que Voa Alto. O outono derreteu-se no inverno, e chegou a notícia de que Rachel estava enfraquecendo. Águia preocupa-se com as amigas e ansiava pela primavera. Quando estava perfeitamente capaz de escrever para Carrie, não o fez. De alguma forma, sentia que neste mundo novo tal comunicação seria inaceitável. Não havia comunicação real entre os dois, mas a amizade permaneceria forte. Águia que Voa Alto trazia sempre consigo pensamentos sobre Carrie, e Carrie orava constantemente pelo amigo.

   O dia de Natal chegou claro e frio. Antes do meio-dia já estava nevando, e as crianças começaram a temer que suas famílias não conseguissem chegar para participar da celebração. Quando as sombras da tarde foram estendendo-se e as famílias começaram a chegar, a neve ficou mais forte. Charity organizou outro comitê para reunir cobertores extras e lençóis para os que sem dúvida iriam passar a noite na missão. Quando chegou a hora do programa, um vento perigosamente frio chacoalhou as vidraças das janelas.

   “É claro que vamos ter Natal”, Charity replicou quando uma de suas meninas perguntou, com medo, sobre o programa. “Quase todo mundo já está aqui e a tempestade não vai durar tanto. Não é uma nevasca. É só neve.”

   Os Asas Vermelhas haviam passado o dia todo na escola, tendo confiado a alimentação dos animais a Águia que Voa Alto, que dissera que iria para o programa. “Prometi a Carrie Brown que não iria perder o Natal”, explicou com simplicidade.

   Longe dali, em St. Louis, naquele dia de Natal, Carrie assentou-se ao lado de seus avós na igreja, lutando para segurar as lágrimas da solidão. Ela aninhou-se no colo de sua avó e ficou pensando se Águia que Voa Alto algum dia aprenderia a amar Jesus. Ao pensar que poderia não aprender, chorou mais ainda e finalmente sucumbiu-se aos soluços de medo e tristeza enquanto sua avó a segurava bem juntinho de si e sussurrava palavras de conforto.

   Se estivesse em Santee, teria encontrado mais consolo, pois quando o programa de Natal estava começando uma figura solitária caminhava quieta através da porta da igreja. Não encontrando um lugar, ficou no fundo da igreja, com seus mocassins de pele cheios de gelo. Águia que Voa Alto podia ser um selvagem, mas era um homem de palavra. Ele tinha andado com muito custo pelo monte de neve que chegava à altura da cintura, para manter a promessa feita à Carrie. Águia que Voa Alto estava presente no culto de Natal em Santee.

   Quando João Nuvem de Trovão se preparou para iniciar o sermão, o ambiente ficou quieto que ele poderia ter cochichado e cada palavra seria ouvida com facilidade.

   “Estamos felizes por vocês terem vindo nesta noite para honrar e exaltar nosso Senhor Jesus Cristo. Pode parecer estranho, meus amigos, que seus jovens tenham cantando o hino conhecido entre nossas igrejas irmãs com ‘Rocha Eterna’. Na verdade, fui eu que pedi este hino, porque ele me lembra que enquanto celebramos o nascimento de Jesus, é sua morte que dá sentido a esse nascimento.

   “A mensagem do nascimento de Jesus Cristo difere totalmente da mensagem de qualquer outro nascimento. O apóstolo Paulo sumariza o propósito da vinda de Jesus Cristo. Ele diz: ‘Fiel é a palavra e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores...’ Este é um aspecto da celebração do nascimento de Cristo que não podemos menosprezar. Por que Jesus Cristo veio ao mundo? Deus diz que seu filho veio ao mundo com o propósito expresso de salvar pecadores.

   “Você e eu somos pecadores. Culpados e condenados diante de Deus. Este é o ponto de partida para a compreensão do significado do nascimento de Jesus Cristo.

   “A maioria das pessoas ficam ofendidas quando Deus diz: ‘Não há justo, nem sequer um... ...pois todos pecaram e carecem da glória de Deus.’ A maioria das pessoas ficam ofendidas quando Deus diz que nossa justiça é como trapo de imundícia – inaceitável. Ele diz que, pelo próprio esforço, nenhum ser humano se tornará justo à Sua vista.”

   “Muitas pessoas ficam ofendidas quando ouvem isso, porque elas estão certas de que, fazendo o melhor que podem, Deus as aceitará. Deus diz que não. A mensagem do Natal é que Deus diz não. Ele precisa intervir em nosso favor. Ele precisa prover o sacrifício que pode cuidar de nossos pecados.”

   “A mensagem do Natal não é completa a não ser que você entenda o passado. A humanidade caiu no pecado. Deus prometeu sair do trono de glória e tornar-se um homem na pessoa de Seu Filho para que Ele pudesse suportar em Seu corpo na cruz nosso pecado e então oferecer à humanidade caída o dom gratuito da vida eterna para os que nEle crêem.”

   O pastor Nuvem de Trovão parou um momento e olhou ao redor na sala cheia. Pegando sua bíblia, segurou-a em uma mão enquanto continuava: “Deixe-me ler de novo a afirmação do apóstolo Paulo. ‘Fiel é a palavra e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores...’ Veja bem, você precisa agarrar-se à realidade de que é um pecador condenado, vil, desprezível. E um Deus santo diz que você passará a eternidade no inferno, a não ser que receba o dom gratuito que Ele proveu através da morte de Seu Filho Jesus Cristo.”

   “A mensagem do Natal é de grande celebração, se você entender o que ela festeja. Deus está condenando o pecado. Ao mesmo tempo está provendo um caminho para o perdão do pecado.”

   “A questão é: O que o Natal significa para você? Você entende quem é Jesus Cristo? Você entende por que o Senhor da Glória, o Soberano, sairia da eternidade e entraria no tempo para nascer como ser humano e deixar-se ser crucificado na cruz? Ele fez isso porque não há esperança para você nem para mim, longe dEle. A mensagem do Natal é uma mensagem de esperança. Há u dom gratuito oferecido a todos os que se afastarem do pecado e crerem em Jesus Cristo como Salvador pessoal.”

   Fechando a bíblia e dando um passo para baixo da plataforma, o pastor Nuvem de Trovão abaixou a cabeça e concluiu sua mensagem com uma oração.

   Quando Nuvem de trovão começou a mensagem, Águia que Voa Alto ficou no fundo da igreja, com os braços cruzados, numa característica atitude de ‘estou-aqui-mas-não-concordo’. No entanto, à medida que as palavras se estendiam sobre a pequena congregação, algo sobrenatural aconteceu. João Nuvem de Trovão mais tarde diria que ele quase vira o coração de Águia que Voa Alto quebrar-se. João atirou flechas pintadas com o sangue da cruz e todas elas acertaram o alvo. Guiadas pelo Espírito Santo, as flechas atingiram a casca da amargura e as perguntas que rondavam o coração de Águia que Voa Alto.

   Na conclusão do culto, todos os presentes receberam lembranças feitas pelas meninas da escola. Águia que voa Alto ficou admirado quando Charity colocou em sua mão um pacotinho embrulhado em papel marrom. No tumulto dos gritos infantis de alegria, ela chegou bem perto para cochichar: “A Carrie disse que se você mantivesse sua promessa eu deveria dar-lhe este presente”. Águia que Voa Alto desembrulhou o pacote e encontrou uma pequena cruz de papel. Em um dos lados, Carrie havia escrito cuidadosamente “Jesus ama Águia que Voa Alto”.

   Ele saiu apressadamente. Pelo meio da neve alta, e voltou à cocheira de Tiago, onde fez um buraco e uma pequena fogueira. A égua preta estendeu a cabeça por cima da cerca da cocheira e relinchou baixinho. Águia deu uns tapinhas delicados no animal e subiu para o andar superior. Tirou uma trouxinha de pele branca de sua caixa de couro e cuidadosamente desenrolou a Bíblia, a qual tantas vezes fora lida ao redor da fogueira em sua juventude. Colocando a Bíblia de lado momentaneamente, usou as peles para embrulhar Ida May, a boneca de sabugo de milho. Pegou a Bíblia e desceu a escada, sentando-se em frente à fogueira.

   Virou vagarosamente as páginas, olhando as marcas de Caminhando nas Chamas. Ela tinha usado as tintas de Cavalga o Vento para riscar ao longo das margens de muitas páginas. Águia que Voa Alto começou a ler. Fascinado, ele continuou a pôr lenha na fogueira e a ler o livro. Folheou página por página, lendo o Caminhando nas Chamas tinha sublinhado. Finalmente ele chegou a um dos evangelhos e leu a história completa de Jesus, a quem Carrie insistira para que ele amasse. Ele havia ouvido muitas vezes a história na igreja da missão. Mas, nessa noite, sentado à fogueira, era como se nunca tivesse ouvido. Ficou perplexo com aqueles homens que odiavam a Jesus e que o mataram. Ele se alegrou quando Cristo foi encontrado vivo novamente. Águia que Voa Alto leu durante a noite toda.

   Tiago e Marta ficaram na missão, preocupados e imaginando por que Águia que Voa Alto havia saído, na esperança de que ele não tivesse ficado enfastiado com as cerimônias religiosas dos homens brancos e voltado para as montanhas.

   Mas Águia que Voa Alto nunca ficaria enfastiado com aquela fé, apresentada a ele pelos brancos. Enquanto lia e ponderava, acreditava. Ao acreditar, lia mais. De repente estava amanhecendo, e o fogo havia se apagado, enquanto a égua preta batia os cascos e relinchava, pedindo seu café da manhã.

   Águia que Voa Alto levantou-se rijamente para alimentar os animais. A neva estava de uma brancura mais brilhante do que ele jamais vira. O céu estava de um azul mais profundo do que jamais estivera. Enquanto caminhava para o lado do gado, Águia que Voa Alto começou a cantar uma música lakota. Ficou surpreso em perceber que isso não lhe trazia dor. Olhou para trás, paro o tempo de sua juventude, sem sentir amargura. Lembrou-se de Caminhando nas Chamas e de Cavalga o Vento com alegria.

   Algum tempo passaria até que Águia que Voa Alto pudesse articular o que tinha acontecido. Naquela noite, ele percebeu a verdade que Carrie Brown tinha escrito tão cuidadosamente na pequena cruz de papel: “Jesus ama Águia que Voa Alto”. Era uma mensagem simples, mas encheu o vazio no coração de Águia que Voa Alto e tirou-o da amargura do passado.

 

   Se as vossas riquezas prosperam não ponhais nelas o coração. Salmo 62:10

 

   No início de dezembro, Augusta e Lisbeth foram cumprimentadas na estação da Filadélfia por Sarah Biddle. A estação tinha sido decorada para o feriado, de uma forma bem moderna, com festões e folhagens verdes por todas as partes.

   Aos 17 anos, Sarah tinha uma maturidade própria de uma jovem mulher. Seus olhos azuis brilharam com prazer quando Augusta fez um comentário elogioso a seu corpete branco como a neve e à saia de lã e algodão. Saltando ao seu lado, o jovem Tom gritava de alegria e pegava em Lisbeth e Augusta com tal energia que, por alguns momentos, as duas mulheres foram o centro da atenção na estação ferroviária da Filadélfia.

   “Tom! Acalme-se”, Sarah implorava, mas seu sorriso o encorajava. “O que todas as pessoas vão pensar dessa algazarra?”

   Tom respondeu prontamente: “Vão pensar que realmente amamos tia Lisbeth e tia Augusta!”

   Sarah riu. “E vão estar certas.” Sarah surpreendeu a ambas, dando-lhes um abraço vergonhoso e dizendo honestamente: “Estou feliz demais por vocês terem vindo! O sr. Braddock não nos deu um minuto de paz aprontando a casa para vocês”.

   Elas andaram rapidamente pela estação e ficaram impressionadas com os quatro cavalos que puxavam uma elegante carruagem, exibindo um festão natalino na porta preta e reluzente.

   A chegada delas na mansão dos Braddocks causou imensa agitação. Enquanto Abigail ordenava habilmente que cada mala fosse levada ao seu destino – pelas escadas de trás – e acompanhava Augusta e Lisbeth até a sala, para um chá, Lisbeth olhava ao redor, admiradíssima. Ela só tinha visto a sala de música e a varanda, em sua primeira visita durante o Centenário. Agora foi introduzida ao resto da mansão, que era tão grande que a casa de Lincoln parecia uma cabana de verão. Quando finalmente foram acompanhadas escada acima, para relaxar, Lisbeth ficou contente ao ver que ela e Augusta teriam quartos adjacentes. Na verdade, elas tinham uma pequena ala da casa só para elas e compartilhavam uma elegante sala partículas. Só que no quarto de Lisbeth havia uma empregada de quarto.

   Quando Grace, a empregada, apresentou-se para ajudar Lisbeth a retirar as coisas da mala, Lisbeth correu para encontrar Abigail, que estava dando ordens à cozinheira, para o jantar.

   “O que é querida?”

   “Sra. Braddock, eu não... quer dizer...”, Lisbeth corou. “Eu não consigo ficar com a Grace, sra. Braddock. Simplesmente não estou acostumada com isso. Sei que quer meu bem e espero que me perdoe por ser tão simples, mas realmente eu mesma vou tirar as coisas da minha mala. Será que a Grace poderia retornar às tarefas que sempre faz, quando a senhora não tem convidados?” Lisbeth ficou mais vermelha, embaraçada.

   Abigail deu uma batidinha na mão dela. “Falei para o David que era uma idéia ridícula, querida. Mas às vezes ele não escuta. Ele simplesmente não entende que toda sua generosidade às vezes – é – fica mal colocada.”

   “Espero que ele não se ofenda.”

   “É claro que não.” Abigail sorriu. “Ele só vai ficar embaraçado quando eu lhe disser ‘Não falei para você’, e eu vou adorar.” Virando-se para a ajudante de cozinha, Abigail disse: “Jenson, por favor, informe a Grace que ela não será necessária para ajudar as convidadas. Diga que elas são do Oeste independente e estão acostumadas a fazer tudo sozinhas”.

   David tinha se comprometido previamente com uma reunião e por isso não jantou com elas. Lisbeth e Augusta trocaram informações com Abigail no seu papel de anfitriã-mor da Filadélfia e ficaram contentes em ver que a Abigail Braddock da Filadélfia não era diferente da Abigail de Lincoln. Ela manejava uma porção de empregados com facilidade e obviamente estava acostumada a três garfos e tantas colheres em cada refeição. Mesmo assim, era a mesma pessoa calorosa e querida que se hospedara na Casa Hathaway.

   Sarah se alternava com incrível facilidade entre os papéis de amiga das convidadas e governanta -em- treinamento. Ela expressava familiaridade quando possível e mantinha apropriada deferência na presença dos outros empregados.

   Na primeira noite, Augusta e Lisbeth retiraram-se cedo. Lisbeth ouviu o barulho de cascos de cavalo na rua embaixo e foi até a sala íntima, de onde pode olhar a rua da janela. Viu David saindo de uma fina carruagem.

   Com um clique, percebeu que Augusta estava observando-a a observar David. Sentando-se numa cadeira bem estofada, Augusta falou: “Tenho certeza de que ele ficará chateado por você já ter se recolhido, Lisbeth”.

   Lisbeth sentou-se e suspirou. “Estou contente por termos vindo cedo, Augusta. Tudo isso é um pouco grande – demais. Estou com saudades de casa. E tenho um nó em meu estômago só de pensar nos bailes e jantares que Abigail planejou. Eu não entendo nada sobre este estilo grandioso de vida.”

   “Simplesmente seja você mesma”, Augusta aconselhou. “Você cometerá alguns enganos, mas, se for honesta, aqueles que valem o ar que respiram a apreciarão. Aqueles que levantam as sobrancelhas e esnobam suas limitações – com eles não vale a pena se preocupar.

   “É que não quero fazer nada errado que possa embaraçar o David.”

   “David não ficará embaraçado por você, Lisbeth”, falou Augusta com convicção antes de acrescentar, “e eu estou feliz por ver que você está dando-se bem com sua vida novamente, querida”.

   Lisbeth suspirou: “Estou tentando, Augusta”.

   Ouviu-se uma batida suave na porta. Augusta respondeu e pegou um enorme buquê de rosas vermelhas. “Entregue por outro empregado. Não me lembro de ter visto esse um antes. Você imagina quantos eles tem?

   Lisbeth retirou o cartão das rosas e leu alto: “Sejam bem-vindas as senhoras de Lincoln. D.” Virando-se para Augusta, ela sorriu. “Acho que David tem o empregado dele também. Desde que mandei a minha embora, tive de iniciar essa tarefa abominável de virar-se na cama sozinha”. Ela riu e jogou o cartão em uma mesinha perto da porta.

 

   O tempo de Natal na Filadélfia foi uma profusão de visões, cheiros e sabores. A mansão estava enfeitada com esplendor. Festões de sempre- verdes e grandes laços de veludo vermelho foram amarrados ao corrimão da escada e salpicados em cada tecido da casa. Uns poucos dias antes do natal, um abeto de três metros e meio de altura foi tranportado para a sala. Lisbeth e Sarah juntaram-se a Abigail e Augusta, e as quatro mulheres gastaram o dia inteiro recortando papéis bem elaborados e fazendo laços, arrumando plumas e rosas secas, que foram todos colocados em cada galho do abeto.

   Tom presenteou-as com um enorme anjo de papel dourado laminado para o topo da árvore. “A asa está torta, mas mesmo assim ficará bom não é?” Tom perguntou com seriedade.

   David tinha acabado de chegar para admirar a árvore e ergueu Tom para colocar o anjo na pontinha da árvore. “Está mais do que certo, Tom”, ele insistiu. “é o melhor anjo que esta casa já teve. Espere até ver esta árvore na manhã de Natal”, David acrescentou. “Cada galho dela terá uma vela acesa.”

   “Nós vamos ganhar presentes também?”

   “Tom!” Sarah implorou embaraçada.

   David riu. “Você adivinhou; vocês vão ganhar presentes, Tom! Minha mãe e eu quase não agüentamos esperar o Natal este ano. Vai ser lindo!”

   Augusta e Lisbeth foram com os Braddocks a bailes e concertos, à ópera e à igreja. Toda manhã Lisbeth e Augusta dormiam até mais tarde, recuperando-se da noite anterior. Acordavam para tomar chá e café, servidos em bandejas de prta por Sarah, aquém elas sempre convenciam a sentar-se e comer com elas. A hora do café da manhã era seguida por momentos de leitura e tempo para escrever cartas. David, de alguma forma, providenciara para que o jornal de Lincoln chegasse para Augusta. O “menino querido”, dizia Augusta, enquanto mexia no jornal e se aborrecia com algum progresso nos negócios da Casa Cadman.

   Augusta passava muitos dias na biblioteca com David, planejando e re-planejando seu novo hotel. Enquanto conversavam, Lisbeth lia. Ela corria amorosamente as mãos nas prateleiras de livros com capas de couro e dispunha de tempo suficiente para aproveitá-los.

   David era charmoso e atencioso, sem ser exagerado. Fazia sugestões para o hotel com humildade honesta e respeito pela perspicácia de Augusta para negócios. Eles planejaram cada detalhe, incluindo o anúncio de inauguração a ser colocado no jornal.

   Augusta tinha planos para a cocheira do Joseph também. “É claro que vamos mudá-la. Eu o quero perto de mim, como sempre. Comprei terreno suficiente para isso. Quero oferecer aos meus hóspedes o melhor estábulo da cidade.” E assim foi preparada outra propaganda, que seria adornada com um desenho de um bonito cavalo.

   Lisbeth leu as propagandas e comentou: “O que é isso de o Joseph ser um comerciante de cavalos finos, Augusta? Ele não vai gostar nada. Promete algo que ele não tem.”

   David respondeu: “Bom, Lisbeth, parece que a Augusta tem interesse em levar alguns puros-sangues novos para Nebraska. Vamos trabalhar em um plano em que eu levarei meu garanhão na primavera. Vou deixá-lo no estábulo do Joseph e...” David corou com a conversa franca e não terminou a sentença.

   “Você terá de levar seu garanhão para a fazenda do Jim Callaway, Davis. O Joseph mantém suas melhores éguas lá. Ele está tentando melhorar a tropa com a ajuda do Jim.” Lisbeth sorriu orgulhosamente e desculpou-se: “Desculpe se o choquei com minha conversa aberta sobre assunto tão particular, sr. Braddock. O senhor deve perceber que nós, mulheres da fronteira, não temos as mesmas sensibilidades que as refinadas senhoras da cidade”.

   David riu gostoso e Lisbeth concluiu que gostava imensamente dele. Começou a esperar ansiosamente seu retorno dos almoços de negócios. Gostava especialmente das tardes na biblioteca, quando ele invariavelmente terminava discutindo negócios e política com Augusta.

   Numa tarde em que Augusta foi às compras com Abigail, David entrou na biblioteca e encontrou Lisbeth encolhida em uma cadeira lendo. Ele corou o rosto de prazer e imediatamente sentou-se à sua frente. “Espero que você se divirta no baile na casa dos Grants hoje à noite, Lisbeth.”

   Lisbeth colocou o livro de lado e olhou pela janela com um suspiro. “Tenho certeza de que será bom.”

   “Só bom? Você não aprecia a vida social noturna?”

   “Acho que estou com saudades de casa, é só isso.” Lisbeth animou-se. “Acho que devo parecer uma criança sem modos e ingrata, David. Desculpe-me. Temos tido um tempo gostoso nesta visita e agradeço-lhe por fazer um esforço sobre-humano para que ficássemos muito bem. É só que”, Lisbeth hesitou, “tudo é grandioso demais para mim – é só isso. Nós os colonizadores, realmente não nos encaixamos na grande sociedade da Filadélfia – Augusta com sua voz explosiva e suas opiniões”. Lisbeth deu uma risadinha e falou: “Pensei que a Rebecca Braxton fosse desmaiar a noite passada quando Augusta começou a falar com os homens sobre política. Tenho certeza de que isto não acontece aqui na Filadélfia”.

   David sorriu indulgente. “Talvez devesse acontecer.”

   Lisbeth sorriu de volta. “Talvez devesse. Mas não acho que Augusta será aquela a convencer seus amigos disso.” Ela se levantou e andou até a janela para olhar a rua escura.

   “E você? Alguém fez alguma coisa para sentir que não é bem- vinda?”

   Lisbeth balançou a cabeça. “Ah, não. Todos têm sido tão gentis, realmente.” Ela se virou de costas para a janela. “Tão logo ficaram sabendo que eu era viúva de um militar, quando souberam que o Mac esteve no Pequeno Grande Chifre”, Lisbeth sorriu triste, “bem isso romantiza qualquer vestido preto caipira”.

   “Você não é caipira, Lisbeth.”

   Lisbeth sorriu novamente. “Em comparação a Rebecca Braxton e todas as suas amigas elegantes, sou bem caipira, David. Se elas fossem viúvas, usariam vestidos de seda preta, na última moda, enfeitado com botões preto- azeviche e contas. Não estou dizendo que seriam insinceras. São apenas inteiramente – diferentes. Cresceram com pai e mãe, em contextos muito diferentes do meu. Isso é evidente. Não estou dizendo que são melhores do que nós, de Lincoln, mas, veja bem, eu não sou exatamente uma mulher da moda.”

   David chegou perto dela e falou: “Não me importo se você é ou não uma mulher da moda. Você é uma mulher fina. Passou por muitos maus pedaços e merece todas as coisas boas que passarem no seu caminho”.

   Lisbeth olhou pela janela e ficou quieta por um longo tempo. Quando David falou de novo, ela pulou. Ele a tocou virando o seu rosto na direção dele. “Onde você foi? O que está pensando?”

   “Só estava pensando sobre o que mamãe diria com relação a esta vida grandiosa que tenho vivido nestas últimas semanas. Ela estaria pensando o que todo esse povo faz para ser diferente, e você consegue imaginar o Jim Callaway em um dos seus jantares?”

   David tomou cuidado com o assunto. “Jim pode ficar deslocado aqui, mas ele é um homem bom. As pessoas eventualmente veriam além da aparência e gostariam dele.”

   “É gostariam”, Lisbeth concordou.

     Um empregado bateu fraquinho, abriu a porta e anunciou que o jantar estava servido. Depois do prato principal, Lisbeth levantou-se abruptamente e pediu licença. “Espero que não fique ofendida, sra. Bradock, mas não estou muito bem para uma noite social. Eu simplesmente gostaria de descansar, se não houver problemas.” Lisbeth subiu as escadas e vestiu a camisola. Apagou a luz a gás de seu quarto e sentou-se à janela.

 Era noite de Natal e Lisbeth encontrou-se saudosa as ruas estreitas de Lincoln. Ela sorriu ao lembrar-se da voz soprano de Agnes tentando fazer um descante, como em todos os outros cultos de Natal. Fechando os olhos, Lisbeth imaginou a igreja à luz de velas e o cheiro de sempre-verde. As pessoas enchendo os bancos e, se estivesse nevando, o aroma da sempre-verde seria logo substituído pelo cheiro de lã e couro molhados.

   O pastor Copeland subiria ao púlpito e repetiria a história dos pastores e dos anjos. E talvez um fazendeiro alto, de cabelos vermelhos, teria encontrado seu caminho na cidade para sentar-se no último banco.

 

   A manhã de Natal começou com uma voz alta de menino logo à porta do quarto de Lisbeth e um “Sshhhhh” que Lisbeth sabia que era Sarah. Lisbeth pulou da cama, enfiou seu penhoar e correu para a porta. Dando uma olhadinha no hall, ela cochichou para Sarah, que já estava vestida e movia-se com Tom para o quarto dela. Com os olhos brilhando, presenteou cada um com um pacotinho.

   “Isto é um segredo meu, para vocês. É uma coisa simples.”

   Tom já estava rasgando o papel e soltando exclamações sobre um monte de penas gigantes.

   “Jim garantiu que são penas de águia, verdadeiras, Tom.”

   Sarah já tinha aberto o seu pacote e estava tocando uma bolsinha bordada com contas. “As crianças da missão a fizeram, Sarah. Achei que você poderia usá-la em sua corrente da cintura.” Olhando na corrente enfeitada, presa à cintura de Sarah, Lisbeth falou meio em dúvida: “Não percebi que você estava vestida com tanta sofisticação. A sua é de prata”.

   “É linda, Lisbeth”, Sarah falou, tentando prender a bolsinha em um espaço da corrente de prata. “E o tamanho é perfeito para o meu dedal. Obrigada.”

   Sarah e Tom deram ao mesmo tempo um sorriso largo, e Tom perguntou: “Posso pegar aquilo agora, Sarah?”. Sarah concordou, balançando a cabeça, e Tom já estava fora da saleta. Quando voltou, carregava um pacote pequeno que trazia uma Bíblia nova. Lisbeth riu, enquanto folheava as páginas. “acho que alguém está tentando me dizer alguma coisa! Esta é a terceira Bíblia que ganho nestes últimos dois anos.” E olhando para Sarah e Tom, apressou-se em dizer: “Mas esta é a primeira que é só minha. Obrigada. E Feliz Natal!”

   A celebração particular acabou, e Sarah apressou-se escada abaixo e começou a preparar seu primeiro café da manhã especial para o Natal. Tom a seguiu para a cozinha. Na mesma hora, fez um chapéu de jornal, no qual fincou as penas de águia. Quando os Braddocks e suas convidadas desceram para o café, tom corria para cima e para baixo no caminho das carruagens, fingindo ser um índio.

   A entrada grandiosa na sala, após o café da manhã, apresentou uma visão de tirar o fôlego, com a árvore iluminada por velas, do jeito que David havia prometido. Na hora que se seguiu, presentes foram ofertados e recebidos, de uma forma contida, própria dos moradores da Filadélfia, até que Lisbeth abriu seu presente recebido de Abigail e David. Abigail deu o presente com um pedido de desculpa: “Espero que não pense que estamos sendo íntimos demais querida.” Sem saber o que dizer, sentou-se e ficou olhando Lisbeth desembrulhar o vestido preto com botões preto-azeviche mais elegante que ela já tinha visto. Ele tinha tudo: metros de seda, botões preto-azeviche, o bordado pesado de contas – tudo o que ela havia descrito para David naquele dia na biblioteca. Seus olhos brilharam de prazer e então, encheram-se de lágrimas ao lembrar a razão de ele ter se ser preto. Ainda assim, não havia amargura nas lágrimas, e Lisbeth percebeu naquele momento que o tempo de fato estava curando as feridas do passado.

   Todos os presentes tinham sido abertos e o café havia sido servido, quando o sino da porta soou. David tinha dado folga para o mordomo e ele mesmo atendeu à porta. Um menino de entregas, muito apressado, levantou o chapéu e voltou para a rua, sem esperar gorjeta.

   David levou o pacote para a mesa. “É para você Lisbeth.”

   Lisbeth viu o endereço do remetente e pediu licença, deixando todos na mesa surpresos. Retirando-se para a biblioteca, sentou-se e cuidadosamente abriu o pacote. Quando David abriu a porta para vê-la, ela olhava pela janela, absorta. No seu colo havia um montinho de chita. Chita vermelha. Apenas alguns metros.

 

   Mas o Senhor vosso Deus vos apegareis, como fizeste até o dia de hoje. Josué 23:8

 

   No dia de Natal, um fazendeiro meio congelado cavalgou até Lincoln e desceu meio duro de seu cavalo em frente da Cocheira de Joseph. Ele passou pela porta principal e sentiu-se em casa, tirando o arreio do cavalo e esfregando-o antes de caminhar até o fundo do estábulo e bater na porta. Quando não ouviu resposta, Jim Callaway entrou e colocou mais lenha no pequeno fogão no canto co cômodo. Tirando as botas, sentou-se na cadeira e esticou as pernas, mexendo os dedos e esperando que as meias secassem antes de calçar as botas de novo; depois disso, foi quebrar o gelo nos baldes de água dependurados em cada baia.

   Quando Jim chegou o último balde uma voz familiar o chamou da porta do fundo: “Você é o novo ajudante do estábulo?”.

   Jim virou-se e sorriu para Joseph. “Ei, Joseph, Feliz Natal.”

   Joseph estremeceu de frio. “Vi fumaça do fogão. Pensei que o Asa Verde tivesse ficado cansado de receber broncas da mãe e tivesse voltado para trabalhar. Dei folga para ele hoje e amanhã, pois não estou esperando muito serviço. As coisas estão devagar na cidade.”

   Jim pegou um garfo de ferro e começou a raspar o esterco para fora de uma baia vazia. “Só vim para ver se está tudo certo.” Deliberadamente virou as costas para Joseph e tentou perguntar desinteressadamente: “Algo novo na cidade?”

   “Ela não escreveu desde que partiu. Não ouvi nada, Jim. Acho que isso significa que não houve nenhum noivado – pelo menos por enquanto.”

   O nó no estômago de Jim relaxou um pouco e ele deu uma risadinha para Joseph. “Tudo bem, eu confesso, não dava para ficar na fazenda – sozinho – pensando...”

   “Confie no Senhor, Jim, confie no Senhor.”

   “Estou tentando. Sei os versículos certos para ler e tenho lido todos – em todas as horas da noite, já que não estou dormindo muito bem.” Jim respirou profundamente e mergulhou o pé na palha do chão. “É duro confiar no Senhor com relação a algumas coisas. Consigo confiar nEle em se tratando de sementes e animais e mesmo das finanças da fazenda. Mas confiar nEle para trazer Lisbeth de volta para mim depois de ter visto toda aquela vida enfeitada...” Jim balançou a cabeça. “Não á mulher viça que não quisesse uma vida daquelas.”

   “Não há mulher viva que não quisesse um homem fino como você, com quem compartilhar a vida filho”, Joseph assegurou: “Confia no Senhor de todo o teu coração, e não te estribes no teu próprio entendimento”.

   “Estou tentando, Joseph.”

   Joseph sorriu com sabedoria. “Sabe, a Bíblia diz que ‘o justo viverá pela fé’. O senhor só está dando a você a chance de viver pela fé, um pouco de crescimento enquanto espera.”

   “Então tenho umas dores poderosas crescendo. Não consegui tomar uma refeição descente desde o dia em que ela partiu. Fiz um ótimo discurso dizendo que eu queria que ela fosse como eu queria que ela não se arrependesse.”

   “E agora?”

   “Agora desejaria ter corrido para aquele trem, e implorado para ela ficar aqui, como um bobo.”

   Joseph riu: “Isso é mal, menino”.

   Jim sorriu. “Você está certo.”

   “Bem, volte aqui e vamos pegar o tabuleiro de xadrez. Você pode tagarelar sobre isso o quanto quiser – contanto que me deixe vencer algumas vezes.”

   Os dois homens retiraram-se para o quarto de Joseph, onde jogaram xadrez até ouvir os roncos de fome. Joseph arrumou as coisas para uma refeição fria de sanduíches de queijo e feijão. Quando os sinos da igreja tocaram anunciando o culto de Natal, Jim levantou os olhos e perguntou: “Você vai à igreja hoje à noite, Joseph?”

   “Estou pensando em ir.”

   Jim perguntou: “E importa se eu for também?”

   “Para a minha igreja? Por que você não vai para a Igreja Congregacional com os outros brancos?”

   “Quer dizer que você não me quer na sua igreja?”

   Joseph balançou a cabeça. “É claro que eu quero Jim. Só que não é comum, só isso. A verdade é que nunca um branco entrou lá, a não ser Joe Heiner, o agente funerário. Foi um rebuliço.

   Os dói riram antes de Jim ficar sério e dizer: “Bom, Joseph, é isso aí. Simplesmente acho que devo ir à igreja hoje à noite. E, se a Lizze e a dona Augusta estivessem aqui, eu estaria bem do lado delas lá na Igreja Congregacional. Mas eu vim para a cidade pra fugir da solidão”.

   “Então, vamos comigo, filho.” Joseph deu uma palmada nas costas de Jim e balançou a cabeça. “Vamos ter algumas cabeças virando na igreja. Mal posso esperar para ver a cara do reverendo Field!”

   O culto na Igreja Congregacional daquela noite foi exatamente como Lisbeth imaginara na Filadélfia. Havia velas iluminando, galhos de sempre-verde e o soprano incerto de Agnes Bond sobressaindo-se em um descanto sincero, mas decididamente desafinado. No entanto, sua visão de Jim sentando-se no último banco não se concretizou. Jim Callaway estava na Igreja A.M.E., alguns quarteirões distantes da outra, sentado em um banco com Joseph Freeman. Os membros do coral cantavam hinos conhecidos em ritmos desconhecidos. Jim assistia, fascinado. Num revezamento, eles olhavam o moço banco que estava sentado perto de Joseph tentando participar do culto com consciência. Quando o reverendo Field começou sua mensagem de Natal, convidou a congregação a levantar-se e juntar-se a ele em oração. Jim fechou os olhos e começou a orar pela sua Lizzie. Ao redor dele só se ouvia “Sim, Senhor” e “Amém”. Ele ouviu as vozes louvando a Deus e, em sua solidão, foi confortado.

   O Natal de 1877 foi especialmente significativo para três pessoas.

   Jim Callaway percebeu que a comunhão dos crentes poderia superar barreiras artificiais que a sociedade criara a acalmar a alma de um homem.

   Lisbeth King Baird percebeu que um pedaço de chita vermelha significava mais para ela do que um vestido de seda finamente costurado.

   E um lakota selvagem chamado Águia que Voa Alto percebeu que aquilo que Carrie Brown dissera era verdade – Jesus o amava.

 

   Ó Senhor, Tu és o meu Deus; exaltar-te-ei e louvarei o Teu nome, porque tens feito maravilhas, e tens executado os Teus conselhos antigos, fiéis e verdadeiros. Isaias 25:1  

   David Braddock manteve sua promessa. O tempo inteiro em que Lisbeth e Augusta foram suas convidadas na mansão Braddock em Filadélfia, ele não pressionou Lisbeth sobre casamento. Resistiu sabiamente à vontade de colocar uma preciosa alinça sob a árvore de Natal e esperou até que as malas das convidadas fossem transportadas para um carroção e depois até a estação.

   Só quando Sarah e Tom Biddle se despediram e caminharam até o portal para abraçar Augusta é que finalmente ele pegou Lisbeth pela mão e a levou até a biblioteca.

   Lisbeth estava usando a refinada bata preta que Abigail tinha mandado fazer para ela.

   “Você está bonita, Lisbeth. Vou sentir saudade.”

   “Obrigada, David.”

   “Você vai sentir saudades de mim?”

   “Abigail disse que vocês iriam logo no começo da primavera para abrir a casa de Lincoln.”

   “Você vai sentir saudades de mim?”

   “Espero que mantenha contato. Por favor, escreva.”

   “Não foi isso que perguntei Lisbeth. Você vai sentir saudades de mim?”

   Lisbeth olhou para baixo e sussurrou: “Vou. Vou sentir saudades de você”.

   Houve um alívio na voz dele. “Prometi não pressioná-la.”

   “É você prometeu. Por favor, mantenha sua promessa.”

   “Eu só queria assegurar-lhe que, se não falei nada. Foi por causa da promessa, não por ter mudado de idéia. Nada mudou Lisbeth. Eu ainda quero as mesmas coisas que mencionei anteriormente.”

   Lisbeth corou e respirou fundo enquanto David se apressava para terminar: “Posso dar-lhe um beijo de despedida?”.

   Lisbeth levantou os olhos para os de David e desejou que eles fossem verdes acinzentados. Rapidamente ela o beijou na face. “Até mais, David”, ela falou baixinho e escapou.

 

Augusta e Lisbeth tinham acertado tudo para ficarem alguns dias em St. Louis, antes de retornarem a Lincoln. David recomendara um arquiteto, especializado em plantas de hotel, e Lisbeth estava ansiosa para visitar Carrie Browm. As duas mulheres andaram pelo meio da confusão na estação Union e chegaram ao Hotel Choteau com tempo e energia para uma caminhada ao longo do rio que se estendia na frente do hotel.

   Augusta tinha marcado um encontro com Davisson Kennedy em seu escritório no dia seguinte. Apesar do frio, Lisbeth alugou uma carruagem aberta e admirou a catedral antiga e outros edifícios finos no caminho da casa de Carrie.

   Quando a porta da modesta casa dos Jennings se abriu, dois brilhantes olhos azuis espiaram por trás da saia da avó e sorriram dando boas vindas. Ao ver Lisbeth, Carrie estendeu a mão, seriamente: “Obrigada por vir, Lisbeth”. Carrie virou-se rapidamente para sua avó. “A sra. Baird me falou para chamá-la de Lisbeth há muito tempo, vó. Ainda posso chamar, não é?”

   Lucy Jennings abanou a cabeça. “É claro, Carrie.” Virando-se para Lisbeth acrescentou: “Obrigada por usar seu tempo para ver Carrie, sra. Baird. Ela não fala outra coisa desde que a senhora escreveu dizendo que viria.”

   Carrie não perdeu tempo. “Bom. É isso, Lisbeth. Deus chamou minha mamãe para o céu, assim não posso voltar para Santee agora. Tenho de terminar a escola primeiro. Então voltarei.” Carrie retirou a correntinha com a cruz de seu pescoço. Estendeu-a para Lisbeth. “Agora preciso crescer antes de voltar e prometi ao sr. Águia que Voa Alto que lhe devolveria na primavera. Já que não posso voltar agora, preciso de um adulto para levar isso para ele. Prometi. Mamãe disse que temos de cumprir nossas promessas”.

   Lisbeth mexeu na corrente e na cruz com os dedos e falou: “Sim, Carrie. Temos de cumprir nossas promessas”.

   “Agora o sr. Águia que Voa Alto está com a Ida May. Pode falar para ele guardá-la para mim. Ida May é uma velha boneca da campina e pode não gostar daqui de St. Luis. Acho que, se pedir para o sr. Águia que Voa Alto guardar a Ida até eu voltar, ele saberá que eu vou voltar. Mas sou só uma menina pequena. Eu não deveria ficar com essa corrente de ouro, não acha?”

   Lisbeth pensou por um momento. “Bem, Carrie, acho que, se você guardasse a corrente, Águia que Voa Alto entenderia. Mas se quiser, posso devolvê-la. Disse pra a senhorita Charity que eu voltaria com mais roupas para as crianças na primavera. Assim que o clima mudar, vou voltar.”

   “Vai ver o Águia que Voa Alto, então?”

   “Vou, Carrie, vou se ele quiser.”

   “Ele é mesmo o seu irmão, Lisbeth?”

   “É, acho que sim.” Então Lisbeth perguntou: “Você tem certeza de que é a minha fotografia naquele medalhão que ele usa?”

   “É claro que sim”.

   “Ele falou que foi ele mesmo que tirou do meu marido?”

   “É, disse que estava muito triste com isso.”

   Lisbeth respirou fundo; e olhou para Lucy Jennings, que inspecionava o forno na vã tentativa de esconder a surpresa com a conversa que estava ouvindo.

   “Como é o Águia que Voa Alto?”

   “Bom, no começo ele era intratável – não, não está certo – ele era apenas sério e quieto e todos os adultos achavam que era intratável. Mas eu sabia que não era.”

   “Como você sabia?”

   “Ah”, Carrie levantou os ombros não sei. Eu o vi olhando para mim e, quando me aproximei dele e disse ‘oi’, os olhos dele sorriram. Ele não riu por fora, mas eu podia ver que estava rindo por dentro. Sabia que ele não era intratável. Era apenas solitário. Às vezes quando as pessoas são quietas, outras ficam com medo. Principalmente quando são índios. O reverendo Riggs diz que as pessoas sempre pensam que os índios são selvagens enquanto se vestem como índios. É por isso que eles têm de cortar o cabelo e usar uniformes na escola – assim as pessoas vão prestar atenção ao que dizem e fazem e não pensarão mais que são selvagens. Bom, mas o Águia que Voa Alto é quieto e ainda se veste como índio. Mas ele é bonito, Lisbeth, como você. Ele tem; penas e contas – tem uma fileira inteira de arcos dependurados nas franjas da camisa. E tufos de cabelo. Mas disse que não são escalpos. Disse que são cabelos de pessoas que ama. E dos cavalos preferidos dele.”

   “O que mais ele contou para você?”

   “Ish! Tantas coisas. Você poderia ficar para o almoço?”

   Lisbeth hesitou, mas Lucy não perderia a história inacreditável desenrolando-se diante dela. “Por favor, sra. Baird, ficaremos felizes se almoçar conosco.”

   Carrie tagarelou à vontade durante a tarde, contando para Lisbeth tudo o que conseguiu lembras sobre Águia que Voa Alto. Lisbeth sorveu cada detalhe e fez perguntas até Carrie ficar cansada. Finalmente, já tarde, Lisbeth pegou na mão de Carrie e disse com emoção: “Carrie, sempre serei grata a você pelo presente que me deu hoje. Talvez não entenda isto agora, mas um dia entenderá. Minha mamãe morreu no ano passado e meu marido também. Pensei que estava sozinha no mundo. Sabia que tinha um irmão chamado Águia que Voa Alto em algum lugar, mas achei que seria impossível algum dia conhecê-lo. Lisbeth parou antes de perguntar: “Você acha que ele é como eu?”

   Carrie pensou muito. “Acho que ele está confuso com as coisas.” Seu rosto brilhou. “Mas ele vai estar bem na primavera. Tenho orado por ele e assim que conhecer Jesus; acho que estará bem. Então ele será como você. Conquanto que você conheça Jesus também.” Você já conhece Jesus, não é, Lisbeth?”

   Lucy a repreendeu: “Carrie – que pergunta!”.

   Carrie ficou imperturbável. “Bom, vovó, se ela não conhece Jesus, então precisa ir conosco ouvir o sr. Moody pregar. A senhora está convidando todo tipo de pessoas. Por que não convidar Lisbeth?”

   Lucy riu e balançou a cabeça, virando-se para Lisbeth para desculpar-se: “Walter e eu temos ajudado em uma das salas onde se fazem perguntas, nos cultos. Já ouviu o sr. Moody falar, sra. Baird?”.

   Quando Lisbeth disse que não, Lucy explicou rapidamente: “Ele é um grande evangelista e está aqui em St. Louis conduzindo os cultos há algumas semanas. Os resultados têm sido maravilhosos. Deus tem verdadeiramente abençoado. Walter e eu sempre nos arrependemos de não ter participado de missões em nossa juventude. Embora tenha nos surpreendido, o compromisso da Rachel foi sempre algo em que nos alegramos. Agora temos oportunidade de servir ao Senhor bem aqui em nossa cidade. Se você estiver interessada, ficaríamos honrados em tê-la conosco esta noite.”

   Lisbeth aceitou. “Eu adoraria ir, sra. Jennings. Muito obrigada pelo convite. Tenho certeza de que Augusta também vai querer ir. Ela nunca perde a oportunidade para uma nova experiência. Este é o mesmo sr. Moody que dirigiu cultos na Filadélfia antes do centenário? O cavalheiro a quem até o presidente e se gabinete pararam para ouvir?”

   “Ele mesmo. Ele dirige um culto majestoso. Tem havido resultados surpreendentes, mas ele não permite nada daquela histeria que às vezes acompanha cultos de avivamento. Ele é principalmente um pregador poderoso e muito eloqüente. E de fato, o tema – que é sempre o evangelho – quase encobre o pregador. Estou certa que você achará um dos cultos mais felizes de que já participou. Há calor e, bem um sentimento de luz do sol em cada culto. O sermão começa às oito horas. Passaremos para pegar vocês por volta das sete horas – todas as cadeiras ficam cheias às sete e meia.”

   Carrie interrompeu: “Você não vai se esquecer de entregar a corrente para o sr. Águia que Voa Alto, não é Lisbeth?”.

Lisbeth ajoelhou-se e apertou a corrente sobre o coração. “Não vou esquecer, Carrie. Prometo que se o Águia que Voa Alto me vir, a primeira coisa que farei será devolver-lhe esta corrente. E se ele não quiser me ver, deixo com a Charity”.

   “Ele vai querer ver você, Lisbeth”

   “Como pode ter tanta certeza?”

   Carrie olhou para Lisbeth como se fosse uma coisa óbvia. “Porque você é irmã dele. Vocês são uma família. Quando minha mãe me contou que eu iria viver com vovó e vovô, ela me explicou isso. As pessoas da família precisam ficar juntas.”

 

   Lisbeth e Augusta foram para o culto com os Jennings e ficaram atônitas com o número de pessoas. Augusta comentou: “Eu não tinha visto tanta gente assim em um mesmo lugar desde o centenário!”

   O culto acontecia em um armazém inacabado que, para Lisbeth, parecia maior que a Estação Union. Um coro enchia o ar com o som de hinos familiares, enquanto as pessoas ocupavam os lugares.

   Às oito horas em ponto, o sr. Moody foi à frente e, colocando as mãos no trilho ao longo da plataforma frontal, começou a falar. Ele tinha só um metro e setenta de altura, era forte e robusto, tinha uma barba preta e cheia e bastante cabelo. Augusta dobrou-se e cochichou: “Ele parece um homem de negócios – nem um pouco como eu imaginava”.

   “Amigos”, ele começou, “o título de minha mensagem para esta noite é simplesmente ‘O Evangelho’, lerei Primeira Coríntios, capítulo quinze, versículo um: ... ‘Venho lembrar-vos o evangelho que vos anunciei, o qual vós recebestes e no qual ainda perseverais’. Não acho que aja uma palavra tão pouco entendida quanto a palavra evangelho. Nós a ouvimos todos os dias, desde nossa infância, e há muitas pessoas, mesmo cristãs, que não sabem realmente o que ela significa. A palavra evangelho significa boas novas. Quando os anjos desceram para proclamar a novidade, o que disseram aos pastores nos campos de Belém? ‘Vejam, eu vos trago tristes novidades?’ Não! ‘Vejam, eu vos trago más notícias?’ Não! ‘Vejam, eu vos trago boas novas de grande alegria, que será para todo o povo.’”

   Moody falou com sinceridade e simplicidade. Lisbeth ouviu com saudade de alegria em seu coração.

   “Antes de eu me converter, eu costumava olhar a morte como um monstro terrível. Ela costumava atirar sua sombra escura no meu caminho.”

   Lisbeth lembrou-se de quando recebeu as notícias do Pequeno Grande Chifre e de quando desceu do trem para descobrir que sua mãe se fora. Sim, ela também olhara a morte como um terrível monstro.

   Moody continuou: “Sentia-me covarde. Pensava na mão fria da morte passando sobre os fios da vida. Mas agora isso mudou. A tumba perdeu seu terror”.

   Lisbeth ficou pensando e desejando que a tumba não mais trouxesse terror a ela.

   “Pois enquanto vou em direção ao céu posso gritar: ‘Ó morte! Onde está o teu aguilhão?’ Aquele último inimigo foi superado e posso olhar a morte como uma vítima massacrada. Tudo o que a morte pode pegar é este velho adão e não me importo por me livrar disto rápido. Eu terei um corpo glorificado, um corpo ressurreto, um corpo muito melhor que este. O evangelho fez de um inimigo um amigo. Que pensamento glorioso é este – saber que, quando você morre, afunda nos braços de Jesus, para nascer na terra do descanso eterno! ‘Morrer’, diz o apóstolo Paulo é ‘lucro’.”

   Enquanto escutava Moody descrever como sua visão da morte tinha mudado, Lisbeth lembrou-se da alegria que Augusta disse ter visto na face de Jesse, quando a encontrou, morta em sua cama. Augusta disse certa vez, que era o mesmo sorriso que ela via quando Jesse falava de Cavalga o Vento.

   Moody continuou: “Outro terrível inimigo era o pecado. O evangelho diz que meus pecados foram todos colocados em Cristo. Além de me amar, Ele levou todos os meus pecados e lançou-os para trás de Si.”

   Lisbeth pensou em Jim Callaway na alegria em seu rosto quando descreveu a noite em que percebeu que seu passado estava perdoado. Jim via Deus como amigo. Lisbeth teve vontade de conhecer a Deus como amigo. Será que havia pecado no meio do caminho? Tenho estado tão irada com Deus. Tão rebelde. Tão amarga. Lisbeth estava convencida de que talvez tivesse dado tanto espaço à amargura e à raiva que elas tinham, de fato, se tornado pecado.

   “Há um outro inimigo usado para me colocar em grande problema – o julgamento. Eu costumava olhar para a frente, para o grande dia em que seria convocado a estar diante de Deus. Não saberia dizer se ouviria a voz de Deus: ‘Apartai-vos de mim, malditos’ ou se seria ‘Entra no gozo do teu Senhor’. O evangelho me diz que isso já está estabelecido. ‘Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus’. Não vou entrar em julgamento pelo pecado. A palavra de Deus estabeleceu isto. Cristo foi julgado por mim e morreu em meu lugar e eu estou livre.”

   Moody falou com compaixão, e sua mensagem atingiu o coração de Lisbeth. Ela queria que seus inimigos íntimos fossem conquistados. Ela desejava a paz interior que tinha visto na vida de Jesse King e de Jim Callaway, o tipo de paz sobre o qual o sr. Moody falava. Ela queria saber que pertencia a Deus. E decidiu que isso significava desistir da amargura e da raiva.

   “Pecador, você estaria salvo hoje à noite? Estaria livre da condenação de seus pecados que são passados, do poder das tentações que virão? Então, apóie-se na Rocha Eterna. Deixe a morte, deixe a tumba, deixe o julgamento ir embora. A vitória é de Cristo e sua, através dEle.”

   Vitória. Lisbeth ponderou sobre a palavra e pensou: Sim Deus, eu quero vitória. Quero que a luta dentro de mim acabe. Preciso colaborar para passar por isso. Quero conhecer o Senhor. Quero saber que o Senhor me ajudará como ajudou mamãe e Jim. Desejosa do perdão divino, Lisbeth entregou sua raiva e sua amargura a Deus. Então colocou sua atenção no grande evangelista que oferecia a resposta de Deus para sua oração silenciosa.

   Enquanto o evangelista falava sobre o perdão de Jesus para com aqueles que o rejeitaram e o crucificaram, Lisbeth enxergou um amado soldado em seu passado e a batalha onde ele fora morto. A mensagem do perdão derramou-se sobre ela. Pela primeira vez, ela considerou o Cristo que havia sido mutilado com tanta maldade mesmo assim havia pedido para deus perdoar seus atormentadores. Lisbeth estava chorando quando o evangelista chegou ao final da mensagem. Augusta apertou a mão dela e sentiu-a tremer enquanto Moody encerrava o sermão.

   “Agradeço a Deus por poder pregar o evangelho. Agradeço a Deus pelo convite de Cristo. ‘Por que Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna’ e ‘quem quiser receba de graça da água da vida’.

   O último resquício de dúvida de Lisbeth caiu por terra. Os últimos pedaços de amargura e raiva foram varridos de sua vida. Foram substituídos por um fluir de paz e alegria. Finalmente, ela foi capaz de crer e provar a água da vida. Anos mais tarde, Lisbeth olharia de volta para este culto e diria: “Naquela noite, o Senhor satisfez minha alma sedenta e encheu-a com o que é bom”.

   Quando o culto acabou, Lisbeth e Augusta despediram-se dos Jennings e foram embora para o hotel em silêncio. Lisbeth olhou para o céu claro e repleto de estrelas e repentinamente encheu-se de tanta alegria que achou que seu coração fosse estourar. Tentou explicar para Augusta, mas achou que não conseguia.

   “Simplesmente estou tão feliz, Augusta. Não sinto amargura ou raiva. Acho que Deus será meu amigo agora e que bom estar viva. Mal posso esperar para chegar em casa e contar isso ao Jim.”

   No momento em que se ouviu falando o nome de Jim, parou abruptamente e olhou para Augusta com surpresa. “O que foi querida?”

   “acabei de perceber o que estava aqui o tempo todo, mas eu não queria ver.”

   “Hã?”

   “E acho que está tudo bem, Augusta. De alguma forma sei que está tudo bem com Mac.”

   “O que está tudo bem com o Mac, Lisbeth?”

   “Que eu amo Jim Callaway.” Lisbeth sorriu bastante e repetiu: “Eu amo Jim Callaway!”

 

   Na manhã seguinte a tal conversa, Lisbeth Baird telefonou para Lucy Jennings para perguntar o nome de uma boa costureira. Lucy deu-lhe o nome, e Lisbeth levou alguns metros de chita vermelha para seu ateliê e convenceu a jovem mulher a fazer uma exceção e terminar o vestido em poucos dias. Augusta e Lisbeth passaram alguns dias extras em St. Louis e Lisbeth enviou um telegrama para Joseph em Lincoln, Nebraska.

   Quando o trem parou em Lincoln, Lisbeth tentou não olhar. Tomou cuidado para arrumar as pregas da saia e bateu o pó que se tinha juntado na bainha do vestido de chita vermelho. Enquanto Augusta descia do vagão, atrás dela, Lisbeth abaixou-se para pegar sua bolsa. As pontas de duas botas riscadas apareceram. Elas estavam bem usadas e não tinham sido engraxadas.

   Lisbeth levantou-se de repente, seus olhos seguiram a linha das calças de brim amarrotadas, subiram para cada botão da camisa de flanela azul, depois para o queixo levemente separado, o nariz aristocrático e os olhos verdes- acinzentados. Ela esperou, mas Jim não falou. Seus olhos estavam sérios e frios e escondiam uma pergunta.

   Na ponta dos pés, Lisbeth aproximou-se do peito largo e cochichou: “Você pode não ser um homem rico e pode ser um simples fazendeiro, mas é o meu Jim. Você me ama e eu amo meu Senhor, e isso é tudo o que eu quero. Voltei para casa, Jim”. Para o choque dos que estavam passando, ela o beijou na face.

   Era tudo de que Jim precisava. A pergunta desapareceu de seus olhos verdes- acinzentados. Eles se encheram de calor quando ele se abaixou para cochichar alguma coisa de volta. O que ele disse foi apenas para o ouvido de Lisbeth. Mas ele a chamou de Lizzie, e ela adorou esse som.

 

   Converteste o meu pranto em folguedos; tiraste o meu pano de saco, e me cingiste de alegria. Salmo 30:11

 

   O Natal já tinha passado quando a notícia sobre a morte de Rachel chegou à Escola Santee. Charity contou a Tiago e Marta, que contaram a João Nuvem de Trovão, expressando séria preocupação por Águia que Voa Alto.

   “O que ele fará agora, João? Ele parece ter encontrado fé, mas essa é mais uma perda para ele. Nunca verá a pequena Carrie novamente. Sei que nosso Deus sabe o que é melhor, mas às vezes, em minha fraqueza humana, olho para as coisas como essa e me questiono. Parece que Deus poderia ter dado alguma felicidade à Águia que Voa Alto antes de provar sua fé.”

   “Posso tomar emprestado um de seus cavalos, Tiago?” João queria saber. “Vou encontrá-lo e contar a ele.”

   Tiago balançou a cabeça. “Ele foi para o norte ao longo do riacho.”

   “Ore por nós. Ore para que eu diga as palavras certas. João saltou sobre o cavalo emprestado e facilmente alcançou Águia que Voa Alto. Os dois cavalgaram lado a lado por um instante, até que Águia que Voa Alto dissesse: “Você deve dizer aquilo que veio dizer, João. Sei que tem péssimas notícias. Você tenta agir como se só tivesse em um passeio, mas o cavalo correu bastante, você segura as rédeas com muita força, e é o cavalo de Tiago.”

   Com uma oração silenciosa, João disse: “Rachel Brown morreu bem antes do Natal, Águia que Voa Alto”.

   Águia que Voa Alto parou sua égua preta abruptamente e perguntou com muita tristeza: “E o que vai ser do pequeno Pássaro Vermelho?”.

   “Ela ficará com os avós em St. Louis. Dizem que são boas pessoas e estão felizes em tê-la com eles. Ela terá um bom lar.”

   Águia que Voa Alto olhou para o horizonte e tomou outro fôlego profundo. João observava-o bem próximo e tentava oferecer conforto. “Rachel estava feliz por ter feito disso um lar, Águia que Voa Alto. Dizem que ela se foi como a neve derretendo na primavera. Sinto muito porque tive de trazer a você essa notícia. Sei que ela era uma boa amiga. Não sei por que Deus permite que essas coisas aconteçam. Às vezes parece não haver nenhuma resposta, exceto que Ele está planejando as coisas para o bem daqueles que o amam. Não sei se isso lhe traz algum conforto, mas sei que é verdade.”

   Os dois desmontaram e começaram a caminhar. A égua preta afocinhou os ombros de Águia que Voa Alto com afeto. Ele parou de passar suas mãos em sua crina e começou a conversar.

   “Quando eu era menino, meu pai morreu. Na tradição de meu povo, cortei meu cabelo e gemi de dor. Houve um vazio que ninguém pôde preencher.

   “Quando eu era jovem, Caminhando nas Chamas foi levada de nosso povo. Pensei que estivesse morta. Mais uma vez cortei meu cabelo em dor. Açoitei meus braços e o vazio no meu interior cresceu. Quando me tornei um homem, meu povo foi disperso. Não havia nada para ser feito a não ser vir até aqui. Preenchi meu vazio interior com amargura e fúria.”

   Águia que Voa Alto olhou para João e um sorriso fraco surgiu em seu rosto. “Eu estava cheio de amargura e fúria. Mas Carrie Brown colocou a mão delaa na minha e foi minha amiga. Rachel Brown disse que Deus me amava. Agora elas se foram. Vou lamentar e prantear. Mas não estou vazio.”

   Os olhos de Águia que Voa Alto encheram-se de lágrimas. “Você disse que Jesus promete que seus filhos verão novamente aqueles a quem amam. Verei Carrie e Rachel Brown novamente”.

   Nuvem de Trovão respondeu: “Vim até aqui cheio de conselhos para você, Águia que Voa Alto, pensando que teria de encorajá-lo a superar amargura e fúria com relação a Deus. A palavra de Deus diz que, ‘se alguém está em Cristo, é uma nova criatura; as coisas velhas se passaram; eis que se fizeram novas’. Quando olho para você, vejo uma nova criatura”.

   Águia que Voa Alto concordou: “Sim, é isso mesmo. É assim que me sinto. Há algo novo por dentro”. Montando em sua égua, Águia que Voa Alto desafiou: “Venha, vou apostar uma corrida com você até a casa de Asa Vermelha. Você verá o quanto essa pequena égua pode correr”. E disparou pela campina.

 

Lisbeth passou as duas primeiras semanas de janeiro escrevendo cartas. Enviou-as com muita oração e esperou muito nervosa pelas respostas.

 

15 de janeiro de 1878

Querido David,

   Duplicidade não é uma coisa da qual aprecio ser acusada, portanto farei desta uma carta muito sincera. Jim Callaway me pediu em casamento. Na realidade, ele fez sua proposta antes de Augusta e eu irmos para a Filadélfia nas férias. No entanto, proibiu-me de dar uma resposta antes de passar as férias com você e sua mãe. Queria que eu tivesse a oportunidade de experimentar todo o tipo de vida do qual desistiria se o aceitasse.

   David, por favor, acredite em mim quando lhe digo que não fui para Filadélfia sob pretexto. Não quis compará-lo a mais ninguém. Devo sempre pensar em você e em sua mãe com grande afeto.

   Sei que você não quer nenhuma explicação detalhada de como meu coração se aproximou de outro homem. Faria você sofrer e, por não ser uma mulher refinada, tenho medo de que meu poder de comunicação seja miseravelmente pequeno para expressar tudo precisamente.

   Foi depois de ouvir o famoso sr. Moody pregar em St. Louis que muitas coisas se encaixaram em minha mente.

   Espero que Deus o ajude a se regozijar por mim, David. Estou finalmente cheia de felicidade e depois de uma longa jornada de dor.

   Por favor, transmita minhas mais afetuosas lembranças a sua mãe. Talvez seja ingenuidade de minha parte, mas espero que tenhamos o prazer da companhia de ambos novamente quando estiverem em Lincoln.

   David; desejo a você a maior felicidade. Se essa carta lhe trouxer dor, por favor, saiba que escrevi com as melhores intenções. Creio verdadeiramente estar seguindo a vontade de Deus para a minha vida. Acreditando nisso, também acredito que não seria o melhor dEle para nenhum de nós se eu tivesse aceito sua proposta. Crendo nessas coisas, temos de concluir que Ele tem um plano melhor para você, David. Vou orar para que Ele se apresse em revelar o melhor caminho para você, e lhe garanta sabedoria e grande felicidade no futuro.

Sua amiga sincera e devota, Lisbeth King Baird

 

15 de janeiro de 1878

Querida Sarah,

   Esta é uma carta que me causa dor porque temo que lhe cause dor, mas vou orar para que Deus explique em seu coração aquilo que não sou capaz de explicar, e nos capacite a continuar vivendo como as irmãs devotas que nos tornamos.

   Sarah, você acima de todos, sabe quão confusa e perdida estive neste um ano e meio passado. A morte de Mackenzie e mamãe me deixaram sem rumo. Levou um ano e meio de amor daqueles que me rodeiam e do amor de Deus para que finalmente eu fosse ancorada na Rocha dos Tempos.

   Quando Augusta e eu paramos em Sr. Louis para visitar a Carrie, encontramos uma criança feliz que simplesmente confiava a Jesus o seu futuro. Aquilo fez parte do que estava para acontecer. Com os avós de Carrie, fomos a um culto com o evangelista D. L. Moody, e naquele culto todas as coisas que mamãe sempre me ensinou finalmente fizeram sentido para mim.

   Jim Callaway freqüentemente me falava que meus problemas estavam centralizados no fato de eu tentar viver com a fé de minha mãe. Disse que eu precisava de uma fé própria. Bem, graças à misericórdia de Deus, que operou através de D. L. Moody, tenho uma fé própria, e agora sei, realmente sei, sobre o que mamãe falava por todos esses anos. Minha fé própria é nova, e não tão grande quanto a dela, mas creio que é genuína e estou vendo diferenças todos os dias na maneira em que respondo a vida. Estou finalmente cheia de paz.

   Deus não me respondeu a todos os “porquês”, mas tem me dado a habilidade de aceitar que ‘todas as coisas cooperam para o bem’, mesmo que eu entenda os detalhes ou não. Jim diz que finalmente entendi o que ele queria dizer com “a paz que ultrapassa todo o entendimento”.

   Já falei duas vezes em minha carta sobre Jim Callaway, e agora tenho que citá-lo novamente, e faço isso com as mãos trêmulas. Sarah, realmente a amo como uma irmã, e oro para que acredite em mim quando eu disser que não queria lhe causar dor. Jim me pediu em casamento.

   Espero que, quando você chegar na primavera, permita que eu lhe conte tudo sobre isso. O papel e a caneta são um meio muito artificial de comunicar as maiores experiências da vida. Gostaria de lhe contar isso pessoalmente, mas estamos correndo para conseguir mais uma doação para a missão, e prometi a Charity que estaria lá assim que a neve derretesse e fosse possível viajar. Algumas crianças e famílias estão em circunstâncias desesperadoras.

   Sarah, você me perdoa? Sei que essa notícia lhe causa dor. Você se tornou uma mulher desde o primeiro momento em que viu Jim Callaway. Espero que aquilo que você sentiu por ele tenha sido o que chamamos de “paixão”. Também espero que Deus a capacite a sentir-se feliz por nós, e que essa notícia não nos separe. Por favor, Sarah, escreva para mim. Preciso de notícias suas.

Sua amada irmã, Lisbeth

 

19 de janeiro de 1878

Querida Charity,

   As senhoras e eu estamos trabalhando arduamente para arrecadar outro carroção cheio de roupas para suas crianças. Assim que o tempo melhorar, partiremos.

   Não vejo a hora de encontrá-la e contar tudo o que aconteceu desde que estivemos na missão no outono passado.

   A maior de todas as novidades é que finalmente alcancei um relacionamento mais pleno e pessoal com Deus. Contarei os detalhes quando chegar, mas agora entendo o que a motivou a trabalhar na missão. A mesma fé me trouxe conforto e me iniciou na estrada de uma vida melhor do que eu cria ser possível.

   A outra notícia é que Jim Callaway e eu vamos nos casar. Para contar sobre isso, é necessário conversar uma noite inteira. Confiei em sua mãe. Isso lhe surpreende? Realmente Charity, ela se tornou uma amiga muito querida. Quem imaginaria que um dia isso fosse possível? Louvado seja Deus por Seu trabalho em nossas vidas.

   Pó fim, estou escrevendo para pedir que você seja mediadora em algo que espero ser a maior notícia de alguma carta futura ou página de diário. Charity, você poderia perguntar a Águia que Voa Alto se ele quer conhecer a irmã na primavera? Não sei quais são os canais apropriados para tal encontro, ou como seria arranjado. Talvez o pastor Nuvem de Trovão pudesse nos aconselhar. Incluí nesta carta um bilhete para Águia que Voa Alto. Por favor, peça ao pastor Nuvem de Trovão que leia e, se ele achar apropriado, que entregue ao meu irmão como uma preparação para nosso encontro.

   Aguardo por sua resposta com o coração esperançoso, Charity.

No amor de Cristo, Lisbeth King Baird

 

19 de janeiro de 1878

Querido Águia que Voa Alto,

   Mal escrevi as primeiras palavras desta carta, e descobri que minha mão estava tremendo e que tenho de esperar e orar antes de continuar. Pensar que estou escrevendo uma carta para meu irmão lakota é quase inacreditável. É certamente um testemunho de que “Deus trabalha por caminhos misteriosos e executa suas maravilhas”.

   Estou escrevendo na esperança de que Deus execute outra maravilha, e que seja uma maravilha para nós dois. Irei para Santee assim que o tempo permitir a distribuição de mais roupas para as crianças da escola. É um esforço sincero, Águia que Voa Alto, mas há uma razão maior para minha ida. Espero que eu e você possamos finalmente nos conhecer. No último outono, quando eu estive na missão e soube de sua presença, simplesmente não pude lidar emocionalmente com a revelação. No meu egoísmo, não parei nem mesmo pra considerar o que a notícia de minha presença deve ter significado para você. Se perdoar meu egoísmo e minha fraqueza, confio em você e no pastor Nuvem de Trovão para arranjar a hora e o lugar apropriado para nós nos encontrarmos.

   Certamente estarei tremendo de medo e emoção nesse encontro, portanto escrevo para assegurar que minhas emoções não têm nenhum traço de ressentimento, Águia que Voa Alto. Deus me capacitou a esquecer as coisas que ficaram para trás. Estou tentando alcançar as coisas que estão à frente e gostaria de fazer isso com meu irmão ao lado. Se isso for possível, por favor, comunique-se através de Charity Bond.

   Se não quiser me ver, Águia que Voa Alto entenderei. Você não escolheu ser educado por uma mulher branca, e não escolheu a dor e confusão que sem dúvida sofreu. Se quiser deixar essas coisas para trás, eu aceito. Você não deve nada a mim. Vá em paz, sabendo que sua irmã sempre estará orando por você.

Sua irmã, Lisbeth King Baird

 

   Em poucos dias Lisbeth recebeu um telegrama de Charity Bond dizendo que Águia que Voa Alto e o pastor Nuvem de Trovão queriam encontrar-se com ela na primavera.

   Passaram–se poucas semanas antes de Lisbeth ouvir sobre Sarah. Quando a carta de Sarah finalmente chegou, Lisbeth foi para seu quarto e abriu com mãos trêmulas.

 

Minha querida Lisbeth,

   É claro que fiquei surpresa quando você me escreveu, e, sim, de alguma forma chocada com a revelação de seu noivado. Mas, Lisbeth, como pode pensar que sentiria qualquer coisa a não ser alegria? Admito ter sentido atração por Jim Callaway; ele é, afinal de contas, um homem muito atraente. Mas por trabalhar para os Braddocks e viver na Filadélfia tenho sido apresentada a novas possibilidades de vida. Acho que você está certa, tive uma paixão adolescente por Jim. Agora que amadureci posso agradecer a Deus, que tem dado felicidade às duas pessoas com as quais mais me preocupo na vida.

   Lisbeth, jamais coisa alguma estará entre você e mim, não se eu puder ajudar. Conheço pessoas que deixaram ciúmes bobos destruir suas amizades, mas por favor, pense bem sobre mim. Não desejo nada a você e a Jim que não o melhor. Estou extremamente feliz em saber que você está mais uma vez sorrindo e vivendo, em vez de apenas suportar a vida como Joseph costumava dizer de você e Jim.

   Presumo que tenha escrito para o sr. Braddock também, embora, é claro, ele nunca tenha falado sobre isso comigo. Ele tem estado muito distante ultimamente.

   A senhora Braddock só diz: “David teve uma decepção, Sarah. Temos de ser muito amáveis com ele. Estou certa de que ele voltará a ser ele mesmo no tempo devido”. Ela parece estar realmente feliz por você, Lisbeth. Está planejando voltar para Lincoln na primavera.

   Desculpe-me por ter demorado tanto para responder sua carta. Estou certa de que isso lhe causou alguma preocupação. Tive de pensar bastante para separar as coisas de maneira que pudesse escrever a você uma carta que fosse aberta e honesta e transmitisse o que realmente sinto.

   Esta carta reflete meu coração verdadeiro. Não há duplicidade em minhas palavras quando digo que serei uma das pessoas mais felizes na igreja quando você descer o corredor para se tornar a senhora James Callaway.

   A sra. Braddock disse que abriremos a casa em Lincoln no dia primeiro de abril. Ela quer estar aí a tempo de coordenar o plantio de mais flores e plantas no quintal, e sei que um convite de casamento seria bem-vindo. Ela é uma senhora muito amável para não desejar outra coisa a não ser o melhor para você, de quem ela gosta sinceramente.

Com lembranças amáveis, sua irmã de coração, Sarah Biddle

 

   Amanhã o Senhor fará maravilhas no meio de vós. Josué 3:5

 

   Era uma noite de primavera na Escola de Treinamento Normal em Santee. Lisbeth, acompanhada de Jim Callaway e Agnes Bond, tinha chegado à missão bem cedo naquela manhã. Enquanto o sol se punha, Agnes e Charity acendiam as lâmpadas e entraram no salão do Ninho dos Pássaros, levando com elas uma cesta de lavanderia cheia de consertos. Lisbeth sentou-se no pórtico da frente, batendo o dedo do pé nervosamente enquanto observava Jim cavalgar. Ele estava indo dizer a Águia que Voa Alto qua Lisbeth havia chegado. Charity já havia dito a Lisbeth que Águia que Voa Alto e o pastor Nuvem de Trovão combinaram vir até a igreja logo no início da manhã depois da chegada dos viajantes.

   Enquanto observava Jim ao longe, Lisbeth se sentou no canto do pórtico de madeira cortada rusticamente. Olhou para cada construção do campo e tentou imaginar Águia que Voa Alto participando das atividades. Ela relembrou cada história que sua mãe sempre contava a respeito da infância de Águia que Voa Alto. Finalmente, Lisbeth seguiu pelo caminho que levava ao ponto onde Águia que Voa Alto salvara Carrie e Rachel Brown de uma cascavel. Carrie havia contado a história a ela, e agora, enquanto Lisbeth se sentava sozinha na margem do riacho, tentava imaginar seu irmão em pé do outro lado. Tentava decidir o que diria, mas faltavam palavras, então ela se sentou silenciosamente, ouvindo a água batendo sobre as rochas e os pássaros gorjeando no arbusto baixo.

   Quando uma coruja cantou, Lisbeth levantou-se e caminhou de volta para o Ninho d