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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Aguia Solitária / Danielle Stell
Aguia Solitária / Danielle Stell

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

 Aguia Solitária

 

Dezembro, 1974      

       O telefonema surgiu quando ela menos esperava, numa tarde de dezembro cheia de neve, quase trinta e quatro anos depois de se terem conhecido. Trinta e quatro anos extraordinários. Passara exatamente dois terços da sua vida com ele. Kate tinha cinqüenta e um e Joe sessenta e três. E apesar de tudo o que conseguira, Joe ainda lhe parecia um jovem. Havia nele uma energia, uma força impulsionadora. Parecia uma estrela cadente, encurralada no corpo e na alma de um homem, sempre a querer seguir para frente, a voar disparada rumo a objetivos invisíveis. Ela percebera isso assim que o conhecera. Sempre o soubera. Nem sempre compreendera, mas desde o início, mesmo sem saber quem ele era, percebera que era diferente, importante e especial, e muito, muito invulgar.

       Kate sentira-o dentro de si. Ao longo dos anos ele tornara-se parte da sua alma. Nem sempre fora a parte mais agradável dela, nem dele, mas era uma grande parte dela, e fora-o durante bastante tempo.

       Houvera choques ao longo dos anos, e explosões, altos e baixos, cumes de montanhas, nasceres e pores do Sol, e momentos de paz. Ele fora o seu Everest. O derradeiro. O local que ela sempre quisera alcançar. Desde o primeiro momento ele fora o seu sonho. Fora o Céu e o Inferno, e de vez em quando o purgatório algures no meio. Era um gênio, um homem de extremos.

       Davam sentido à vida um do outro, e cor e profundidade, e por vezes tinham-se assustado muito. A paz e a aceitação haviam surgido com a idade e com o tempo. As lições que tinham aprendido haviam sido difíceis e bem merecidas.

       Haviam sido o seu maior desafio, encarnado os maiores medos. E no fim, tinham-se sarado. Com o tempo, encaixaram como duas peças de um puzzle, sem arestas aguçadas e sem costuras.

       Nos trinta e quatro anos que haviam partilhado tinham encontrado algo que poucas pessoas encontram. Fora uma vida tumultuosa e excitante, e o barulho fora por vezes ensurdecedor, mas ambos sabiam que era infinitamente raro. Fora uma dança mágica durante trinta e quatro anos, cujos passos ambos tinham aprendido com dificuldade

       Joe era diferente das outras pessoas, via o que os outros eram incapazes de ver, e tinha pouca necessidade de viver entre as pessoas. De fato, era mais feliz quando estava sozinho E à sua volta criara um mundo extraordinário. Era um visionário que criara uma indústria, um império. Expandira o mundo E ao fazê-lo, alargara os horizontes mais do que qualquer um poderia imaginar. Era impelido a construir, a ultrapassar barreiras, a ir constantemente mais além

       Joe estava na Califórnia quando o telefonema surgiu naquela noite, e já lá estava havia semanas. Deveria voltar dentro de dois dias. Kate não estava preocupada com ele, já se deixara disso. Ele partia e regressava Como as estações ou o Sol. Onde quer que se encontrasse, ela sabia que nunca estava muito longe dela. A única coisa importante para Joe, para além de Kate, eram os seus aviões. Sempre haviam sido uma parte integrante dele. Joe precisava deles, e do seu significado, de certa forma mais do que precisava dela. Kate sabia-o e aceitava-o Tal como a sua alma ou os seus olhos, começara a amar os aviões como se fossem parte dele. Tudo fazia parte do mosaico miraculoso que era Joe

       Estava a escrever no diário naquele dia, satisfeita no silêncio da casa tranqüila, enquanto o mundo lá fora se cobria de neve. Já era de noite quando o telefone tocou às seis horas, e ela ficou sobressaltada ao ver que era tão tarde. Quando olhou para o relógio, soube que devia ser Joe. Kate tinha o mesmo aspecto de sempre quando afastou um caracol de cabelo acobreado-escuro e estendeu a mão para o telefone. Sabia que do outro lado da linha estaria a familiar voz grave e aveludada ansiosa por lhe falar do seu dia

       - Estou sim? - disse Kate, antecipando a voz dele. Reparou que ainda nevava lá fora. Era uma magnífica paisagem de inverno e tornaria maravilhoso o Natal quando os filhos viessem a casa. Os dois tinham empregos e vidas e pessoas de quem gostavam. O mundo dela girava agora quase exclusivamente em redor de Joe. Era Joe que vivia no centro da sua alma.

       - Mistress Allbright? - A voz não era de Joe. Ficou desapontada por momentos, mas só porque contava ouvi-lo. O marido acabaria por telefonar. Acabava sempre por fazê-lo. Houve uma pausa estranha e longa como se a voz vagamente familiar do outro lado da linha esperasse que ela adivinhasse o motivo do telefonema. Era um assistente novo, mas Kate já falara com ele antes. - Estou a ligar do gabinete de Mister Allbright - disse ele, tornando a calar-se e, sem saber por que, achou estranho que o marido quisesse que o homem lhe telefonasse. Era quase como se conseguisse sentir a presença de Joe ao seu lado ali na sala, e contudo não foi capaz de imaginar por que motivo Joe haveria de querer que fosse o outro a ligar e não ele. - Eu... peço desculpa. Houve um acidente.

       Ao ouvir aquelas palavras o corpo dela gelou, como se tivesse sido atirada nua para o meio da neve.

       Adivinhou antes de ele falar. Um acidente... houve um acidente... um acidente... era uma litania de que ela passara a vida à espera, e depois esquecera, porque Joe tinha tantas vidas. Era indestrutível, infalível, invencível, imortal. Contara-lhe quando a conhecera que tinha cem vidas, e só usara noventa e nove. Parecia sempre haver mais uma.

       Ele voou para Albuquerque esta tarde disse a voz, e, subitamente, a única coisa que Kate conseguia ouvir na sala era o tique-taque do relógio. Constatou ofegante que era o mesmo som que ouvira há mais de quarenta anos quando a mãe lhe fora dizer do pai. Era o som do tempo a esgotar-se, a sensação de cair num abismo sem fundo, e Kate soube que não podia permitir-se voltar a esse lugar. Joe não deixaria que isso lhe acontecesse. Estava a testar um novo modelo.

       A voz continuou, soando subitamente a Kate como a de um rapaz. Porque não estava Joe ao telefone? Pela primeira vez em muitos anos sentiu as garras do terror à sua volta.

       - Houve uma explosão - disse ele numa voz tão suave que Kate não conseguiu suportá-la. A palavra atingiu-a como uma bomba.

       - Não... eu... não pode ter havido... não pode ser... - Engasgou-se com as palavras e ficou imóvel. Adivinhou o resto antes que ele lho dissesse. A voz não tinha de dizer mais nada. Kate soube o que acontecera e sentiu os muros do seu mundo seguro e protegido começarem a desmoronar. - Não me diga. - Ficaram imóveis durante um longo momento, calados, enquanto as lágrimas enchiam os olhos dela. Ele oferecera-se para lhe ligar. Mais ninguém tivera coragem de pegar no telefone. Caíram no deserto disse simplesmente, e Kate fechou os olhos, à escuta. Não estava a acontecer. Joe seria incapaz de lhe fazer aquilo. E no entanto ela sempre soubera que poderia acontecer. Mas nenhum deles acreditara realmente nisso. Ele era demasiado jovem para que algo assim lhe acontecesse. E ela era demasiado nova para ser sua viúva. Houvera tantas outras como ela, mulheres de pilotos, que haviam perdido os maridos nos testes de aviões. Joe fora sempre visitá-las. E agora aquele rapaz estava a ligar-lhe. Como podia ele saber quem Joe era? Conhecia apenas o homem que construíra o império. A lenda que havia sido. Havia muito mais em Joe que ele nunca saberia. Kate passara metade da vida a aprender quem Joe era.

       - Alguém verificou os destroços? - perguntou em voz trêmula. Se o tivessem feito encontrá-lo-iam a rir-se para eles, a sacudir o pó da roupa, e telefonar a Kate para contar o que acontecera. Nunca nada podia afetar Joe.

       O jovem ao telefone não quis dizer-lhe que houvera uma explosão no ar que iluminara o céu como um vulcão. Outro piloto que voava mais acima dissera-lhe que parecera Hiroshima. Nada restava de Joe a não ser o seu nome

       - Temos a certeza, Mistress Allbright. Lamento muito. Posso fazer alguma coisa por si? Tem alguém consigo?

       Ela não respondeu logo, incapaz de encontrar palavras. Só lhe apetecia dizer que Joe estava ali consigo, e que sempre estaria. Sabia que nada nem ninguém poderia roubar-lho.

       Alguém do escritório irá ligar-lhe mais tarde por causa dos... hum… preparativos disse a voz pouco à vontade, e tudo o que Kate conseguiu fazer foi assentir. E, sem mais uma palavra, desligou. Não havia mais nada a dizer-lhe, não conseguia nem tinha mais a dizer. Olhou para a neve, vendo Joe. Era como se ele estivesse mesmo à sua frente, como sempre estivera. Ainda conseguia vê-lo como na noite em que se haviam conhecido, havia tanto tempo.

       Sentiu o pânico a invadi-la, e soube que naquele momento tinha de ser forte por ele, que tinha de ser a pessoa em que se tornara por sua causa. Joe esperaria isso de si. Não podia permitir-se voltar a mergulhar na escuridão, ou ceder ao terror que o amor por ele fizera desaparecer. Fechou os olhos e disse o nome dele em voz alta na sala que haviam partilhado.

       - Joe... não vás... preciso de ti... - murmurou com as lágrimas a rolarem-lhe pela cara.

       - Estou aqui, Kate. Não vou a parte alguma. Sabes isso. - A voz era forte e calma e tão real que ela soube que a ouvira. Joe não iria abandoná-la. Fazia o que tinha a fazer, onde era necessário, onde queria, algures nos seus céus. Como estava destinado a fazer. Tal como acontecera durante todos os anos em que ela o amara. Poderoso. Invencível. E livre.

       Naquele momento nada poderia alterar isso. Nenhuma explosão podia roubar-lho. Ele era maior que isso. Demasiado grande para morrer. Ela tinha de libertá-lo mais uma vez para que ele pudesse fazer aquilo a que estava destinado. Tinha de ser o seu último ato de coragem, e o dele.

       Uma vida sem Joe era inimaginável, impensável. Quando ela olhou para a noite viu-o afastar-se lentamente. E então ele virou-se para lhe sorrir. Era o mesmo homem que sempre havia sido. O mesmo homem que ela amara durante tanto tempo. Tal como ele era.

       A casa encheu-se de um silêncio incomensurável e Kate ficou sentada durante bastante tempo a pensar nele. Lá fora, a neve continuava a cair e ela recordou a noite em que se haviam conhecido. Ela tinha dezessete anos, e ele era jovem, poderoso e deslumbrante. Fora um momento inesquecível que mudara a sua vida, quando olhara para ele e o baile começara.

       Kate Jamison viu Joe pela primeira vez num baile de debutantes em dezembro de 1940, três dias antes do Natal. Ela e os pais tinham ido de Boston a Nova Iorque passar uma semana para fazer algumas compras de Natal, visitar amigos e ir ao baile. Kate era amiga da irmã mais nova da debutante. Não era normal as raparigas de dezessete anos irem a esses bailes, mas Kate surpreendera tanta gente e tinha tanta maturidade para a sua idade que para os anfitriões foi fácil incluí-la.

       A amiga de Kate sentira-se radiante, tal como ela. Era a festa mais bonita a que alguma vez tinha ido, e o salão onde ela entrou pelo braço do pai encontrava-se cheio de pessoas extraordinárias. Chefes de Estado, importantes figuras políticas, viúvas ricas e mães de família, e muitos jovens bonitos. Todos os nomes importantes da sociedade de Nova Iorque estavam presentes, e vários de Filadélfia e Boston. Setecentas pessoas conversavam nas elegantes salas e no lindíssimo salão de baile espelhado, e nos jardins havia uma tenda. Havia centenas de criados de libré a servi-los, uma orquestra no salão e outra na tenda. Havia mulheres bonitas e homens bem-parecidos, jóias e vestidos extraordinários e os cavalheiros envergavam casacos brancos. A convidada de honra era uma rapariga bonita, pequena e loura, com um vestido feito de encomenda a Schiaparelli. Aquele era o momento por que esperara toda a vida; estava a ser oficialmente apresentada à sociedade. Parecia uma boneca de porcelana ali com os pais a receber os convidados, e um criado anunciava o nome de cada um à medida que entravam com suas roupas de noite.

       Quando os Jamison entraram, Kate beijou a amiga e agradeceu-lhe tê-la convidado. Era o primeiro baile do gênero a que ia, e por momentos as duas raparigas fizeram lembrar o quadro de Degas com as duas bailarinas, ambas muito contrastantes. A debutante era pequena e loura, com um corpo suavemente torneado, ao passo que Kate dava mais nas vistas. Era alta e magra, com cabelo acobreado-escuro que lhe dava pelos ombros. Tinha uma tez leitosa, enormes olhos azul-escuros e uma silhueta perfeita. E enquanto a debutante era contida e calma, de Kate parecia emanar eletricidade e energia. Quando era apresentada aos convidados pelos pais, olhava as pessoas nos olhos e deslumbrava-as com o seu sorriso. Havia algo no seu aspecto, e mesmo no formato da sua boca, que sugeria que estava prestes a dizer algo engraçado, importante, algo que os outros queriam ouvir e recordar. Tudo em Kate prometia excitação, como se a sua juventude fosse tão exuberante que ela tinha de partilhá-la.

       Era cativante, sempre fora, como se viesse de um local diferente e estivesse destinada a grandes feitos. Nada nela era vulgar, destacava-se em todas as multidões, não só pela sua beleza, mas também pela sua argúcia e encanto. Em casa, andava sempre cheia de idéias travessas e planos loucos, e enquanto filha única divertira e entretera os pais. Nascera quando eles tinham alguma idade, após vinte anos de casamento, e, quando era bebê, o pai costumava dizer que valera a pena esperar por ela, e a mãe concordava prontamente. Adoravam-na. Nos seus primeiros anos ela fora o centro do mundo deles.

       Os primeiros anos de Kate haviam sido fáceis e despreocupados. Nascida numa família abastada, em criança conhecera apenas conforto e facilidades. O pai, John Barrett, descendia de uma ilustre família de Boston, e casara com Elizabeth Palmer, cuja fortuna era ainda maior do que a dele. As famílias tinham ficado muito satisfeitas com o casamento. O pai de Kate era conhecido no meio financeiro pela sua sensatez e bons investimentos. E depois viera o colapso da Bolsa em 1929, arrastando o pai de Kate e milhares como ele num maremoto de destruição, desespero e perda. Felizmente, a família de Elizabeth achara má idéia permitir que o casal unisse as suas fortunas. Durante muito tempo não haviam tido filhos e a família de Elizabeth continuou a ocupar-se da maior parte das finanças dela. Miraculosamente, ela quase não foi afetada pelo colapso financeiro

       John Barrett perdeu toda a sua fortuna, e apenas uma pequena parte da da mulher. Elizabeth fizera tudo o que podia para tranqüilizá-lo e ajudá-lo a pôr-se novamente de pé. Mas o desgosto acabou por destruí-lo. Três dos seus clientes mais importantes e amigos suicidaram-se meses após terem perdido as suas fortunas, e dois anos depois John acabou também por ceder ao desespero. Kate mal o viu durante esses dois anos. Ele fechara-se num quarto do primeiro andar, raramente recebia alguém, e pouco saía. O banco que a sua família abrira, e que ele dirigira durante quase vinte anos, fechara dois meses após o colapso financeiro. John tornou-se inacessível, distante, solitário, e a única coisa que o animava era ver Kate, que na altura tinha apenas seis anos, a vaguear pelos seus aposentos, a trazer-lhe um doce ou um desenho que fizera. Como se pressentisse o labirinto em que o pai estava, ela tentava instintivamente tirá-lo de lá, mas em vão. Até que um dia encontrou a porta dele trancada e passado algum tempo a mãe proibiu-a de ir lá acima. Elizabeth não queria que ela visse o pai bêbado, em desalinho, com a barba por fazer, muitas vezes a dormir dias inteiros. Era uma visão que a teria assustado e destroçou o coração da mãe.

       John Barrett matou-se quase dois anos após o colapso financeiro, em setembro de 1931. Era o único sobrevivente da sua família e deixou para trás a viúva e a filha. A fortuna de Elizabeth continuava intacta, e ela era uma das poucas felizardas do seu mundo cuja vida não fora muito afetada, até perder John.

       Kate ainda se lembrava do preciso momento em que a mãe lhe contara. Estava sentada no seu quarto a beber uma caneca de chocolate quente, agarrada à sua boneca preferida, e quando viu a mãe entrar percebeu que algo de terrível tinha acontecido. A única coisa que conseguia ver eram os olhos da mãe e a única coisa que conseguia ouvir era o tique-taque demasiado ruidoso do relógio do quarto. A mãe não chorou quando lhe contou, disse-lhe com toda a calma e simplicidade que o pai fora viver para o Céu com Deus. Disse que ele tinha andado muito triste nos últimos dois anos e que agora seria feliz com Deus. Assim que a mãe pronunciou aquelas palavras, Kate teve a sensação de que todo o seu mundo lhe desabava em cima. Mal conseguia respirar, o cacau escorregou-lhe das mãos e deixou cair a boneca. Soube que a partir desse momento a sua vida nunca mais seria a mesma.

       Kate assistiu muito solene ao funeral do pai, e nada ouviu. A única coisa de que conseguia recordar-se era que o pai as abandonara porque se sentira muito triste. As palavras das outras pessoas rodopiaram à sua volta depois. de coração destroçado... nunca se recompôs., matou-se com um tiro., perdeu várias fortunas... ainda bem que não movimentara também o dinheiro de Elizabeth.. Exteriormente, nada mudou para elas depois disso, viveram na mesma casa, viram as mesmas pessoas. Kate continuou a freqüentar a mesma escola e, poucos dias depois da morte do pai, iniciou a terceira classe

       Teve a sensação de estar em transe durante vários meses. O homem em quem tanto confiara, que tanto amara, que tanto admirara, e que tanto gostara de si, abandonara-as, sem aviso, explicação ou uma razão que Kate pudesse perceber. Sabia e entendia apenas que ele desaparecera e que a sua vida se alterara profundamente. Uma peça fundamental do seu mundo desaparecera. E a mãe andou tão perturbada durante os primeiros meses que praticamente saíra da vida de Kate. Esta teve a sensação de ter perdido os dois pais

       Elizabeth tratou do que restava dos bens de John com o amigo e banqueiro Clarke Jamison. Tal como Elizabeth, a fortuna e os investimentos dele haviam resistido ao colapso financeiro. Ele era um homem calmo, bondoso e um porto de abrigo. A esposa morrera havia alguns anos devido a tuberculose, não tinha filhos e nunca voltara a casar. Mas passados nove meses da morte de John Barrett, ele pediu a mão de Elizabeth. Casaram catorze meses após o funeral, com uma cerimônia simples que, para além dos noivos, contava apenas com a presença do sacerdote e de Kate, que assistiu a tudo de olhos muito abertos e expressão solene. Na altura tinha nove anos.

       Com o passar do tempo, aquela decisão veio a revelar-se acertada. Embora tivesse sido incapaz de o admitir publicamente, por respeito ao falecido marido, Elizabeth era ainda mais feliz com Clarke do que havia sido com John. Combinavam bem um com o outro, tinham interesses semelhantes e Clarke era não só um excelente marido mas também um pai maravilhoso para Kate. Clarke adorava Kate, e esta adorava-o. Idolatrava-a, protegia-a e, embora nunca falassem dele, Clarke passou os anos seguintes a tentar compensá-la da perda do pai. Era um homem tranqüilo e carinhoso e foi com grande regozijo que viu a alegria e as travessuras voltarem a surgir em Kate. E depois de discutir o assunto com Elizabeth e Kate, adotou esta aos dez anos. A princípio, Kate teve receio de que isso fosse uma falta de respeito para com o pai, mas confessou a Clarke na manhã da adoção que era a coisa que mais desejava no mundo. O pai desaparecera silenciosamente da sua vida assim que os problemas haviam começado, tinha ela seis anos. Clarke proporcionou-lhe toda a estabilidade emocional de que ela precisou depois da morte dele. Não lhe negava nada e estava sempre presente.

       Todos os amigos de Kate acabaram por esquecer que ele não era o pai dela, e o mesmo se passou com Kate. Pensava no pai em alguns momentos raros e solenes, mas ele parecia já tão distante que ela mal conseguia recordá-lo. Da única coisa que se lembrava, quando a tal se permitia, era do terror e do abandono que sentira quando ele morrera. Mas raramente o fazia. A porta que dava para essa parte de si estava fechada, e ela preferia assim.

       Não fazia parte da natureza de Kate viver no passado ou agarrada à tristeza. Era o tipo de pessoa que parecia sempre impelida para a alegria, e proporcionava-a aos outros onde quer que fosse. O som das suas gargalhadas e o brilho do seu olhar criavam uma aura de alegria à sua volta, para gáudio de Clarke. Nunca falavam de ele a ter adotado. Era um capítulo encerrado na vida de Kate, e ela teria ficado chocada se alguém lho mencionasse. A paternidade de Clarke ao longo dos últimos nove anos tornara-se uma parte tão integrante de si que Kate já nem pensava nela. Ele era agora realmente o seu pai de corpo e alma, e Clarke pensava da mesma maneira. Há muito que ela se tornara sua filha.

       Clarke Jamison era um banqueiro muito admirado em Boston. Vinha de uma família respeitável, freqüentara Harvard, e estava mais do que feliz com a sua vida. Nunca se arrependera de ter casado com Elizabeth e adotado Kate. Nos aspectos mais importantes, considerava a sua vida um êxito. E o mundo era da mesma opinião. Elizabeth era uma mulher feliz. Tinha tudo aquilo que desejava, um marido que amava, uma filha que adorava. Kate aparecera na vida dos pais pouco depois do quadragésimo aniversário de Elizabeth. Fora a maior alegria da sua vida. Todas as suas esperanças estavam depositadas em Kate, queria para ela toda a felicidade E apesar da energia e da personalidade exuberante de Kate, Elizabeth certificara-se de que ela adquiria modos impecáveis e uma postura irrepreensível. E depois de ter casado com Clarke, após o trauma do suicídio de John, Elizabeth e Clarke trataram Kate como uma pequena adulta. Partilhavam as suas vidas com ela e viajavam muito para o estrangeiro. Levavam-na sempre.

       Aos dezessete anos, Kate fora à Europa com eles e no ano anterior tinha ido a Singapura e Hong Kong. Vira mais do que a maior parte das raparigas da sua idade e, quando deslizava por entre os convidados parecendo mais uma adulta do que uma jovem, tinha um ar de maturidade. Era algo em que todos reparavam. Percebia-se imediatamente que Kate não só era muito feliz, como também se sentia perfeitamente à vontade na sua pele. Conseguia falar com toda a gente, ir a todo o lado, fazer quase tudo. Nada intimidava ou assustava Kate. Estava excitada com a vida, e isso percebia-se.

       O vestido que ela usava no baile de debutantes em Nova Iorque fora encomendado em Paris na primavera anterior. Era completamente diferente dos vestidos que as outras raparigas levavam. A maior parte deles era em tons pastel ou cores fortes. Mais ninguém usara branco, claro, por deferência para com a convidada de honra. E todas estavam encantadoras. Mas Kate estava mais do que isso, estava elegante e vistosa. Mesmo com dezessete anos tudo nela indicava que já era uma mulher e não uma adolescente. Não de maneira ofensiva, mas ela parecia exsudar uma espécie de sofisticação discreta. Não havia folhos, nenhuma saia comprida, nada de rendas ou debruns. O vestido de cetim azul-gelo era cortado no viés e parecia cobri-la como água, semelhante a uma segunda pele; as alças eram pouco mais fortes que fios. Realçava o seu corpo perfeito e os brincos de água-marinha e diamante que levava pertenciam à mãe e já haviam pertencido à avó. Brilhavam sempre que eram postos à vista pelo seu longo cabelo vermelho-escuro. Não se maquiara, tendo posto apenas um pouco de pó-de-arroz. O vestido era da cor de um céu de inverno gelado e a sua pele tinha a tonalidade e a macieza da rosa mais pálida. Os seus lábios eram vermelho-vivos e chamavam a atenção, pois ela estava constantemente a rir e a sorrir.

       O pai estava a gracejar com ela quando se afastaram dos anfitriões e ela ria com ele, tendo pousado uma mão graciosamente enluvada de branco no seu braço. A mãe seguia atrás e parecia deter-se de cinco em cinco segundos para conversar com amigos. Pouco depois Kate avistara a irmã da debutante que a convidara para a festa no meio de um grupo de gente nova e abandonou o pai para ir ao encontro dela. Prometeram encontrar-se novamente no salão de baile e Clarke Jamison observou a filha com orgulho quando ela se aproximou do grupo de gente jovem e bonita e, sem que desse por isso, todas as cabeças se voltaram na sua direção. Era uma rapariga estonteante. Passados alguns segundos, viu que estavam todos a rir e a tagarelar e que os rapazes a haviam rodeado. Estivesse ela onde estivesse, fizesse o que fizesse, ele nunca se preocupava com Kate. Todos gostavam dela e eram imediatamente atraídos na sua direção. O que Elizabeth desejava era que Kate encontrasse um bom partido e casasse dentro de poucos anos.

       Elizabeth era feliz com Clarke já há quase dez anos e desejava o mesmo para a filha. Mas Clarke fora persistente. Queria que Kate estudasse primeiro e fora fácil convencê-la. Era uma rapariga demasiado inteligente para não aproveitar isso, embora o pai não esperasse que ela trabalhasse depois de concluir os estudos. No entanto, era de opinião que ela devia usufruir do maior número de coisas possível e estava certo de que iria aproveitá-las bem. Kate candidatara-se a todos os colégios nesse inverno e no ano seguinte entraria num, com dezoito anos. Andava muito animada com o assunto e concorrera a Wellesley, Radcliffe, Vassar, Barnard e a uma mão-cheia de outros que não lhe interessavam tanto. E devido à história do pai em Harvard, Radcliffe fora a sua primeira escolha. Clarke estava muitíssimo orgulhoso dela.

       Kate saiu com os outros da sala da recepção e dirigiu-se ao salão de baile. Conversou com as raparigas que conhecia e foi apresentada a dezenas de rapazes. Parecia perfeitamente à vontade a conversar com mulheres ou com homens, e dava a impressão que estes cada vez a seguiam em maior número. Achavam as suas histórias divertidas, o seu estilo excitante, e quando o baile começou ela era constantemente arrebatada das mãos do par por admiradores sucessivos. Parecia nunca terminar uma dança com o mesmo homem com quem a começara. Foi uma noite glamourosa e ela estava a divertir-se imenso E, como sempre, as atenções não lhe subiram à cabeça. Gostava delas, mas sabia controlar-se.

       Kate estava junto ao bufê a conversar com uma rapariga que entrara em Wellesley nesse ano e lhe contava todos os pormenores quando o viu pela primeira vez. Estava bastante atenta à conversa quando levantara o olhar e dera de caras com ele. Não percebeu por que, mas havia algo hipnotizante. Era bastante alto, de ombros largos, cabelo louro e um rosto cinzelado. E era consideravelmente mais velho do que os rapazes com quem tinha dançado. Calculou que devesse ter perto de trinta anos quando deixou de ouvir completamente a rapariga de Wellesley e observou fascinada Joe Allbright a colocar duas costeletas de borrego no prato. Usava casaco branco como os outros homens, mas parecia ligeiramente desconfortável e dava a impressão que teria preferido estar noutro local. Joe continuou a avançar junto à mesa pouco à vontade, parecendo um pássaro gigantesco cujas asas tivessem sido inesperadamente cortadas e a quem só apetecia voar dali para fora

       Por fim ele ficou apenas a centímetros de Kate, com o prato meio cheio na mão, e sentiu o olhar dela pousado em si. Baixou os olhos na sua direção, com uma expressão séria, e o olhar de ambos cruzou-se. Ficou imóvel durante um minuto, a observá-la, e quando ela lhe sorriu ele quase se esqueceu que tinha um prato na mão. Nunca vira ninguém como ela, tão belo ou cheio de vida. Havia naquela rapariga qualquer coisa de fascinante, e parecia que estava perto de algo cheio de luz ou olhava para uma luz muito intensa. Passados alguns segundos teve de desviar o olhar. Baixou os olhos, mas não se afastou dela. Percebeu que não conseguia mover-se, que estava preso ao chão, e pouco depois voltou a olhar para ela.

       - Não me parece que isso seja comida que chegue para um homem do seu tamanho - disse Kate com um sorriso.

       Não era tímida e isso agradou a Joe. Tinha dificuldade em falar às pessoas desde que era rapaz. E, enquanto adulto, era um homem de poucas palavras.

       - Jantei antes de vir - explicou ele.

       Não se aproximara da mesa do caviar, evitara a grande variedade de ostras que haviam sido compradas para a ocasião e contentara-se com duas costeletas de borrego, um pãozinho com manteiga e alguns camarões. Chegava para si. Kate reparou que ele era bastante magro. A roupa não lhe assentava muito bem e calculou que ele a tivesse pedido emprestada para a ocasião. Era uma indumentária de que ele nunca precisava e não contava voltar a vesti-la. Pedira-a emprestada a um amigo. Tentara não ir à festa dizendo que não tinha roupa adequada. E depois fora obrigado a ir quando o amigo lha arranjara. Com exceção do seu breve encontro com Kate, teria dado quase tudo para não estar ali.

       - Não parece muito contente por estar aqui - disse, baixando a voz para que só ele conseguisse ouvi-la, com um sorriso e uma expressão de compreensão, e ele sorriu, admirando-a.

       - Como adivinhou?

       - Tinha ar de querer esconder o prato e fugir. Detesta festas? - perguntou. A rapariga de Wellesley afastara-se e ela podia conversar com ele mais à vontade. Pareciam estar sozinhos no meio de centenas de pessoas a rodopiar à volta deles, e não prestavam atenção a mais ninguém.

       - Sim, detesto. Ou pelo menos julgo que detesto. Nunca vi nada como isto. Tinha de admitir que estava impressionado.

       - Eu também não - retorquiu com toda a franqueza, embora no seu caso não fosse por uma questão de preferência ou de falta de oportunidade, mas sim por uma questão de idade. Contudo, Joe não podia saber. Ela parecia tão descontraída e tão cheia de maturidade que, se alguém lhe tivesse perguntado, ele teria dito que ela devia ter vinte e poucos anos, ou até quase a sua idade.

       - É bonito, não é? - perguntou ela, olhando em volta e depois para ele. E Joe sorriu. Sim, era bonito, embora não tivesse pensado na festa nesses termos. Desde que chegara só pensara no elevado número de pessoas que ali se encontrava, no calor que fazia, nos apertos e nas muitas outras coisas que preferia estar a fazer. E naquele momento, olhando para ela, já não sabia se a festa fora uma perda de tempo tão grande como inicialmente supusera.

       - É bonito - respondeu ele, e Kate reparou na cor dos seus olhos. Tinham a mesma cor dos seus, azul-escuro, quase safira. - E você também é - acrescentou inesperadamente

       Fora tão direto naquele elogio e na sua expressão que as suas palavras significaram muito mais para ela do que todas as que já ouvira dos rapazes que a cortejavam. E embora fossem dez anos mais novos, estavam muito mais à vontade em sociedade do que ele.

       - Tem uns olhos lindíssimos - disse Joe, fascinado. Eram tão claros, francos, vivos e corajosos. Ela parecia não ter medo de nada. Tinham isso em comum, mas de formas distintas. Quando muito, aquela noite fora uma das poucas coisas que o assustara. Teria preferido arriscar a vida, o que fazia com freqüência, do que misturar-se a um grupo de pessoas como aquele. Chegara havia menos de uma hora quando a encontrara, e já estava farto e desejoso de partir. Esperava apenas que o amigo lhe dissesse que podiam ir-se embora.

       - Obrigada. Chamo-me Kate Jamison - apresentou-se ela, enquanto ele mudava o prato para a outra mão e lhe estendia a direita.

       - Joe Allbright. Quer comer alguma coisa? - Era direto e objetivo, e parco de palavras. Dizia apenas aquilo que achava necessário. Nunca tivera jeito para floreados. E ela ainda não pegara sequer num prato. Quando Kate assentiu, ele estendeu-lhe um. Kate serviu-se de muito pouco: alguns legumes e um pedaço de frango. Não tinha fome, sentia-se demasiado excitada para comer. Sem dizer uma palavra, ele carregou-lhe o prato e dirigiram-se para uma das mesas. Sentaram-se em silêncio e, quando Joe pegou no garfo, olhou para ela, perguntando a si mesmo por que motivo ela teria escolhido a sua companhia. Fosse qual fosse a razão, essa escolha melhorara consideravelmente a sua noite. E a dela.

       - Conhece muita gente aqui? - perguntou Joe sem olhar para mais ninguém, apenas para ela.

       Kate debicava a comida e sorriu-lhe.

       - Algumas pessoas. Os meus pais conhecem mais do que eu - explicou ela, admirada por se sentir tão pouco à vontade. Não era normal isso acontecer-lhe, mas tinha a sensação de que todas as suas palavras contavam e que ele escutava todas as inflexões da sua voz. Não sentia com ele a mesma ligeireza que sentia quando estava com outros homens. Havia em Joe algo de incrivelmente intenso. Com ele, era como se todos os floreados e subterfúgios tivessem desaparecido.

       - Os seus pais estão aqui? - perguntou com ar interessado enquanto comia outro camarão.

       - Sim. Algures. Há horas que não os vejo. - E sabia que não voltaria a ver durante muitas mais. A mãe tinha o hábito de se instalar aos cantos com alguns amigos chegados e de assim passar a noite, sem sequer dançar. O pai de Kate ficava sempre perto da mulher. - Viemos de Boston para a festa - acrescentou ela para fazer conversa, e Joe assentiu.

       - Mora lá? - Observava-a com atenção. Havia algo nela que o cativava. Não sabia se era a forma como ela falava ou olhava para si. Parecia calma, inteligente e interessada naquilo que ele dizia. Joe não se sentia à vontade com pessoas que lhe prestavam tanta atenção. E para além da evidente inteligência, ela era linda. Adorava olhar para ela.

       - Sim. Você é de Nova Iorque? - perguntou ela, desistindo do frango. Não tinha fome, a noite estava a ser demasiado animada para perder tempo com comida. Preferia falar com ele.

       - Não. Nasci no Minnesota. Vivo aqui há um ano. Mas já vivi em muitos sítios. New Jersey, Chicago. Passei dois anos na Alemanha. Vou até à Califórnia no início do ano. Vou para onde houver pistas de aviação. Parecia esperar que ela compreendesse isso, e Kate fitou-o com um interesse renovado.

       - Voa?

       Pela primeira vez, ele pareceu genuinamente divertido com a pergunta e descontraiu-se ao responder-lhe.

       - Acho que pode dizer isso. Já alguma vez esteve num avião, Kate? - Era a primeira vez que dizia o nome dela, e ela gostou do som. Fazia-o parecer mais pessoal, e ficou satisfeita por ele não o ter esquecido. Parecia o tipo de homem capaz de esquecer nomes sem grande custo e tudo o mais que não lhe despertasse a atenção. Mas estava fascinado com ela e reparara em todos os pormenores mesmo antes de a conhecer.

       - Voamos até à Califórnia no ano passado, para apanhar o barco para Hong Kong. Normalmente viajamos de comboio ou de barco.

       - Parece que já viajou bastante. O que a levou a Hong Kong?

       - Fui com os meus pais. Visitamos Hong Kong e Singapura, mas até essa altura só tínhamos ido à Europa. - A mãe quisera que ela aprendesse italiano e francês, e um pouco de alemão. Os pais pensavam que poderia ser-lhe útil um dia. Clarke imaginava-a casada com um diplomata. Ela teria sido a esposa perfeita de um embaixador e, inconscientemente, ele educava-a para isso. - Você é piloto? - perguntou ela de olhos muito abertos, traindo assim a sua juventude.

       Ele tornou a sorrir

       - Sou, sim.

       - Em que companhia aérea? - Achava-o simultaneamente misterioso e interessante e viu-o descruzar as longas pernas e recostar-se na cadeira por breves momentos. Não se assemelhava a ninguém que ela conhecia e queria saber mais coisas a seu respeito. Não possuía o verniz dos rapazes seus amigos, mas ao mesmo tempo parecia bastante cosmopolita E, apesar da timidez, ela adivinhou nele uma grande confiança, como se soubesse que seria capaz de olhar por si em qualquer parte, momento ou circunstância. Havia nele uma sofisticação inata, e Kate imaginou-o facilmente a pilotar um avião. Para ela era uma coisa romântica e poderosa.

       - Não vôo para companhias aéreas - explicou ele. - Testo aviões e desenho-os, para atingirem grandes velocidades e serem resistentes. - Era mais complicado do que isso, mas era apenas o que precisava de dizer-lhe.

       - Conhece o Charles Lindbergh? - perguntou ela com interesse. Joe não lhe disse que a roupa que tinha vestida era dele e que viera com ele à festa, embora o seu mentor também tivesse estado relutante em ir. Anne ficara em casa, a cuidar do filho doente. Joe perdera Charles na multidão no início da festa. Desconfiava que ele se tinha ido esconder algures. Charles detestava festas e multidões, mas prometera a Anne que iria. E na ausência dela convidara Joe para apoio moral.

       - Conheço. Trabalhamos juntos. Voamos os dois na Alemanha quando estive lá. Era por causa dele que Joe se encontrava naquele momento em Nova Iorque e fora ele quem lhe arranjara trabalho na Califórnia. Charles Lindbergh era seu mentor e amigo. Haviam-se conhecido numa pista de aviação em Illinois há vários anos, no auge da fama de Lindbergh, e na altura Joe era apenas um rapaz. Mas nos círculos da aviação, Joe era agora já quase tão conhecido como Charles. Só não era tão conhecido do público nem tão aclamado. Joe quebrara vários recordes nos últimos anos e algumas pessoas consideravam-no melhor piloto que o amigo. O próprio Lindbergh dissera-o uma vez, fora o momento alto da vida de Joe até esse momento, e mesmo desde essa altura. Os dois homens tinham uma grande admiração um pelo outro e eram bons amigos.

       - Ele deve ser um homem bastante interessante... e ouvi dizer que ela também é muito simpática. O que aconteceu ao bebê deles foi terrível!

       - Eles têm mais filhos - retorquiu Joe, querendo afastar a potencial emoção do momento, mas Kate ficou perplexa com o comentário. Ela achava que isso não faria a mínima diferença. Custava-lhe imaginar o terror por que a família devia ter passado. Tinha nove anos quando aquilo acontecera e ainda se lembrava de ver a mãe a chorar quando ouvia as notícias e de lhe explicar o que estava a suceder. Para Kate soara como uma experiência aterradora, e ainda soava, e tinha muita pena daquela família. A agonia parecia até suplantar os feitos de Lindbergh, e intrigava-a o fato de aquele homem os conhecer realmente.

       - Ele deve ser um homem extraordinário - comentou Kate com simplicidade, e Joe assentiu. Nada mais podia acrescentar à adulação que o mundo tinha para com Lindbergh e, na sua opinião, ele merecia-a. - O que acha da guerra na Europa? - perguntou então Kate, e Joe ficou pensativo. Sabiam que a mobilização fora votada no congresso havia quase dois meses e as implicações disso não podiam ser ignoradas.

       - Perigosa. Acho que poderá ficar descontrolada se não tiver um fim rápido. E creio que vamos entrar nela não tarda nada. - Os ataques haviam começado em agosto com bombardeamentos noturnos a Inglaterra. A RAF estava a bombardear a Alemanha desde julho. Ele fora a Inglaterra dar o seu parecer sobre a velocidade e a eficácia dos aviões ingleses e sabia que a força aérea seria fundamental para a sobrevivência daquele povo. Milhares de civis já tinham morrido. Mas Kate discordou rapidamente dele, o que o deixou intrigado. Ela era realmente uma mulher com opiniões formadas e um espírito voluntarioso.

       - O presidente Roosevelt diz que não vamos envolver-nos - disse ela com firmeza. Acreditava nele, tal como os pais.

       - Com a mobilização já a decorrer, ainda acredita nisso? Não acredite em tudo o que lê. Não me parece que tenhamos alternativa. - Pensara em oferecer-se como voluntário para a RAF, mas o trabalho que estava a desenvolver com Charles era mais importante para o futuro da aviação norte-americana, especialmente se os Estados Unidos iam entrar na guerra. Acreditava ser da máxima importância estar em casa naquela altura, e Charles concordara com ele quando haviam discutido o assunto. Era por esse motivo que Joe ia para a Califórnia. Lindbergh tinha medo de que a Inglaterra não conseguisse agüentar a pressão dos Alemães e ele e Joe queriam fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para prepararem os Estados Unidos para a guerra, embora Lindbergh se opusesse violentamente a isso.

       - Espero que esteja enganado - disse ela baixinho. Se não estivesse, isso significava que todos os rapazes bonitos presentes naquela sala correriam um grande risco. O mundo inteiro, tal como o conheciam, iria ser profundamente alterado. - Acha mesmo que vamos entrar na guerra? - perguntou ela preocupada, esquecendo-se por instantes de onde estava e pensando em assuntos mais sérios. A guerra já se espalhara pela Europa a um ritmo assustador.

       - Acho sim, Kate.

       Ela adorava a forma como ele a olhava quando dizia o seu nome. Havia nele muitas coisas de que gostava.

       - Espero que esteja errado - redargüiu ela.

       - Eu também.

       E, por se sentir à vontade com ele, nesse momento Kate fez algo que nunca fizera.

       - Gostaria de ir até ao salão dançar um pouco? - Tinha a sensação de ter encontrado um amigo, mas Joe pareceu pouco à vontade com a sugestão e baixou o olhar para o prato antes de tornar a fitá-la. Não se sentia no seu elemento.

       - Não sei dançar - respondeu ele ligeiramente atrapalhado e, para seu alívio, ela não se riu, arvorando antes uma expressão surpreendida.

       - Não sabe? Eu ensino-lhe. É muito fácil, basta mexer-se um pouco e pôr um ar de quem está a divertir-se.

       A parte de dançar com ela seria simples, mas não o resto.

       - Acho que é melhor não. Só iria pisá-la. - Olhou para baixo e viu que ela calçava uns delicados sapatos de cetim azul. - Talvez seja boa idéia voltar para junto dos seus amigos. - Há muito que não conversava com alguém durante tanto tempo, e muito menos com uma rapariga da idade dela, embora ele ainda não soubesse que ela tinha apenas dezessete anos.

       - Estou a aborrecê-lo? - perguntou Kate abruptamente, com uma expressão preocupada. Sentiu que ele estava a mandá-la embora, e perguntou a si mesma se o teria ofendido ao convidá-lo para dançar.

       - Bolas, não! - exclamou ele com uma gargalhada, e ficou ainda mais embaraçado. Estava muito mais habituado a hangares do que a salões de baile, mas, bem vistas as coisas, até estava a divertir-se. - Você é tudo menos aborrecida. Pensei apenas que preferiria dançar com alguém que o soubesse fazer. - Ele e Charles também tinham isso em comum. Charles não sabia dançar.

       - Já dancei muito esta noite. - Era quase meia-noite, e só nessa altura é que ela fora comer qualquer coisa. - O que é que gosta de fazer no seu tempo livre?

       - Voar, respondeu ele com um sorriso tímido. Era fácil estar com ela e ele só sabia falar de aviões. - E você?

       - Gosto de ler, de viajar e de jogar tênis. E no inverno faço esqui. Jogo golfe com o meu pai, mas não sou grande jogadora. - Adorava patinar quando era criança. - Teria adorado jogar hóquei, mas a minha mãe teve um chilique e proibiu-me.

       - Foi inteligente da parte dela, pois você teria ficado sem dentes! - Vendo o sorriso deslumbrante de Kate era fácil perceber que ela nunca jogara hóquei. - Sabe guiar? - perguntou, recostando-se na cadeira. Ocorreu-lhe perguntar se ela gostaria de aprender a voar.

       Kate sorriu.

       - Tirei a carta quando fiz dezesseis anos, mas o meu pai não gosta que eu conduza. Ensinou-me em Cape Cod no verão. Lá não há trânsito e é fácil aprender.

       Joe assentiu, mas ficou perplexo com o que ela acabara de dizer.

       - Que idade tem? - Tinha a certeza de que ela devia rondar os vinte e cinco anos. Parecia bastante adulta e tinha uma conversa agradável.

       - Dezessete. Faço dezoito daqui a uns meses. Que idade julgava que eu tinha? - Ficou lisonjeada com o espanto dele.

       - Não sei... talvez vinte e três... vinte e cinco. Não deviam permitir que uma rapariga da sua idade envergasse vestidos como esse. Assim só confunde os velhos como eu.

       Kate não o achava velho, especialmente quando ele punha aquele ar desajeitado e arrapazado. De vez em quando, parecia pouco à vontade e desviava o olhar; depois recompunha-se e voltava a olhá-la nos olhos. Kate gostava da timidez dele. Fazia um contraste interessante com a sua experiência de vôo, e sugeria humildade.

       - Que idade tem, Joe?

       - Vinte e nove. Quase trinta. Vôo desde os dezesseis. Ia perguntar-lhe se gostaria de voar comigo um dia destes. Mas calculo que a idéia não agrade aos seus pais.

       - Não agradaria à minha mãe. Mas o meu pai acharia divertido. Passa a vida a falar do Lindbergh.

       - Talvez um dia eu possa ensiná-la a voar. - Ao dizer aquelas palavras, os seus olhos adquiriram uma expressão sonhadora. Nunca ensinara uma rapariga a voar, embora conhecesse muitos pilotos mulheres; fora bastante amigo de Amélia Earhart até ela desaparecer havia três anos, e voara com a amiga de Charles, Edna Gardner Whyte, que considerava tão espantosa como ele. Ela vencera a primeira corrida a solo havia sete anos e treinava pilotos militares. Gostava bastante de Joe.

       - Costuma ir a Boston? - perguntou Kate esperançada, parecendo subitamente muito jovem.

       Joe sorriu. Havia naquela rapariga algo excitante, feminino e juvenil mas, ao mesmo tempo, era bastante adulta.

       - De vez em quando. Tenho amigos em Cape. Fiquei em casa deles o ano passado. Mas durante os próximos meses vou estar na Califórnia. Posso telefonar-lhe quando regressar. Talvez o seu pai queira vir também conosco.

       - Ele iria adorar - aquiesceu ela. Achava uma ótima idéia. Agora só lhe faltava arranjar maneira de convencer a mãe. Mas quem sabe se Joe iria telefonar-lhe? Provavelmente não.

       - Anda a estudar? - perguntou ele com uma expressão curiosa, e Kate assentiu. Joe deixara de estudar aos vinte, e depois disso só estudara aviões, depois de Lindbergh o ter tomado à sua guarda.

       - Vou para o colégio no outono - respondeu Kate.

       - Sabe para qual?

       - Ainda não. Quero ir para Radcliffe, o meu pai estudou em Harvard. Gostaria de ir para lá, se pudesse. Mas Radcliffe é relativamente perto. A minha mãe quer que eu vá para Vassar, onde ela estudou. Também me candidatei lá. Mas não me agrada tanto. Acho que preferia ficar em Boston. Ou talvez vir para o Barnard aqui em Nova Iorque. Também gosto de Nova Iorque. E você? Tinha os olhos muito abertos ao fazer-lhe a pergunta, e ele ficou sensibilizado.

       - Não sei. Prefiro as cidades mais pequenas.

       Ela não era da mesma opinião. As raízes de Joe podiam estar nas cidades pequenas, mas algo nele sugeria que essa preferência fora preterida, embora de forma inconsciente. Joe tornara-se parte de um mundo muito maior, embora ainda não se tivesse apercebido disso. Kate apercebera-se.

       Continuavam a falar das virtudes de Boston e de Nova Iorque quando o pai de Kate se aproximou e ela o apresentou a Joe.

       - Peço desculpa por ter estado a monopolizar a sua filha - disse Joe com uma expressão ansiosa. Receava que Clarke Jamison fosse aborrecer-se com ele por causa da idade da filha, mas fora tão agradável conversar com ela. Tinham estado juntos quase duas horas.

       - Olhe que não o culpo - retorquiu o pai de forma agradável. - Ela é uma excelente companhia. Já me tinha perguntado onde se encontraria, mas vejo que esteve em boas mãos. - Achou que Joe parecia inteligente e educado, e quando ouviu o seu nome ficou bastante surpreendido. Clarke sabia pelo que lera acerca dele nos jornais que Joe era um aviador de renome e perguntou de si para si como teria ele acabado a falar com Kate e se ela saberia quem ele era. Ao lado de Lindbergh, ele era um dos melhores, embora ligeiramente menos famoso. Clarke sabia que ele vencera corridas de aviões no país a bordo do famoso Mustang P-5 de Dutch Kindelberger.

       - O Joe ofereceu-se para nos levar a voar um dia destes. Achas que a mãe teria um ataque?

       - Acho que sim - respondeu o pai com uma gargalhada, - mas talvez eu consiga convencê-la. É muito simpático da sua parte, Mister Allbright. Sou um grande admirador seu, e aquele recorde que bateu há pouco foi assombroso.

       Joe ficou atrapalhado com os elogios de Clarke Jamison, mas satisfeito por ele saber. Ao contrário de Charles, Joe conseguia evitar atrair as atenções, mas isso começava a tornar-se cada vez mais difícil após os seus recentes feitos.

       - Foi um vôo excelente. Tentei convencer o Charles a ir comigo, mas ele estava muito ocupado em Washington com a Comissão Conselheira Nacional de Aeronáutica.

       Clarke assentiu, impressionado, e seguiu-se uma animada conversa sobre os avanços da guerra na Europa. A mãe de Kate juntou-se-lhes. Disse que estava a fazer-se tarde e que queria ir para casa. Clarke apresentou Joe à mulher. Ele pareceu tímido, mas muito educado. E era evidente que estavam todos prontos para se irem embora. Sem hesitar, enquanto se dirigiam para a porta, Clarke entregou o seu cartão-de-visita a Joe.

       - Ligue-nos se alguma vez for a Boston - convidou num tom hospitaleiro, e Joe agradeceu-lhe. - Vamos ver se podemos aceitar a sua oferta. Eu estou com vontade de o fazer! - Piscou o olho a Joe e este soltou uma gargalhada. Kate sorriu. O pai parecia simpatizar bastante com Joe. Pouco depois, os dois homens apertaram as mãos e Joe disse que ia ver se encontrava Charles. Sabia que o seu mentor gostava tanto de festas como ele e que devia estar escondido algures, pelo que seria difícil de descobrir no meio da multidão. Ainda estavam pelo menos quinhentas pessoas presentes, vagueando entre a casa e a tenda aquecida no jardim. Então, depois de se ter despedido da mãe dela, Joe virou-se para Kate.

       - Gostei de jantar consigo - disse ele fitando-a com uma expressão intensa. Os seus olhos pareciam carvões azuis a luzir. - Espero tornar a vê-la. - Parecia falar a sério, e ela sorriu. De todas as pessoas com quem estivera naquela noite, ele fora o único que a impressionara. Havia nele algo de muito raro e extraordinário e no fim da noite ela percebeu que conhecera um homem espantoso.

       - Boa sorte na Califórnia - murmurou, perguntando a si mesma se os caminhos de ambos voltariam a encontrar-se. Não sabia se ele lhe telefonaria. Não aparentava ser esse gênero de homem. Tinha o seu próprio mundo, a sua paixão, um êxito considerável na sua área e era pouco provável que fosse atrás de uma rapariga de dezessete anos. Aliás, ao falar com ele Kate ficara quase com a certeza de que não telefonaria.

       - Obrigado, Kate - respondeu Joe. Espero que consiga entrar em Radcliffe. Tenho a certeza de que vai conseguir. O colégio terá muita sorte em tê-la como aluna, independentemente de o seu pai ter estudado em Harvard. - Apertou-lhe a mão, e desta vez foi Kate que baixou os olhos ante a intensidade do seu olhar. Parecia que ele a observava pormenorizadamente, como se para gravar a sua imagem na memória. Foi uma sensação estranha, mas Kate sentiu-se atraída para ele por uma força a que era impossível resistir.

       - Obrigada, - murmurou.

       Então, com uma ligeira vênia na sua direção, Joe voltou-se e desapareceu na multidão para ir à procura de Charles

       - Que homem extraordinário! - comentou Clarke enquanto avançavam lentamente para a saída e iam buscar os casacos ao bengaleiro. - Sabem por acaso quem ele é? E contou a Kate e à mãe os feitos extraordinários de Joe e os recordes que ele batera nos últimos anos. Clarke parecia sabê-los todos.

       Quando entraram no carro, Kate olhou pela janela, pensando nos momentos que passara a falar com ele. Os recordes que Joe batera nada significavam para si, embora o admirasse por isso e percebesse que ele era importante e bem sucedido na atmosfera rarefeita em que vivia. Mas era a essência do homem que a atraía. O seu poder, a sua força, a sua ternura, até o seu ar acabrunhado tinham-na tocado como nunca nada a tocara. Soube naquele momento, sem a menor dúvida, que ele levara consigo uma parte de si própria e o que mais a perturbava era não saber se algum dia voltaria a vê-lo.

       Depois do magnífico baile de debutantes no Natal, e tal como desconfiara, Kate não teve notícias de Joe Allbright. Apesar do cartão-de-visita que o pai lhe dera, não telefonou. Ela leu artigos sobre ele e fez questão de procurar todas as notícias a seu respeito; viu o seu nome nos jornais e até nos documentários noticiosos passados no cinema quando ele ganhava alguma corrida. Batera vários recordes na Califórnia, fora elogiado pelo último avião que desenhara com a ajuda de Dutch Kindelberger e John Leland Atwood. Kate sabia agora que os vôos de Joe eram lendários, mas ele encontrava-se no seu próprio mundo, distante do dela, e sem dúvida havia-a esquecido.

       Parecia pertencer completamente a outra vida, a anos-luz da dela. E Kate estava certa de que nunca mais voltaria a vê-lo. Iria ler artigos acerca dele durante o resto da sua vida e recordar-se das horas que haviam passado a conversar uma noite, quando ela ainda era uma jovem.

       Em abril foi aceita em Radcliffe e os pais ficaram radiantes, tal como ela. A guerra não corria bem na Europa e falavam disso constantemente. O pai continuava a insistir que Roosevelt não iria permitir o envolvimento dos Estados Unidos, mas mesmo assim, os relatos do que ocorria na Europa eram perturbantes e dois rapazes que ela conhecia tinham ido para Inglaterra juntar-se à RAF. O Eixo começara uma contra-ofensiva no Norte de África, e o general Rommel ganhava sucessivas batalhas com o Afrikakorps. Na Europa, a Alemanha invadira a Iugoslávia e a Grécia, e a Itália declarara guerra a Iugoslávia. E em Londres, duas mil pessoas eram mortas por dia nos ataques da Luftwaffe.

       Devido à guerra, já não podiam ir à Europa no verão pelo que, pela segunda vez, passaram esse período em Cape Cod. Tinham lá uma casa e Kate sempre gostara de lá ir. Estava especialmente animada naquele verão, uma vez que iria para o colégio no outono. A mãe ficara satisfeita por ela não ter de ir para muito longe. Cambridge ficava apenas do outro lado do rio e Kate e a mãe trataram de todos os preparativos antes de irem para Cape, onde tencionavam ficar até ao Dia do Trabalho, a primeira segunda-feira de setembro. Clarke visitá-las-ia aos fins-de-semana, como habitualmente.

       Foi um verão de tênis e de festas e de longos passeios na praia com os amigos. Kate nadava no mar todos os dias, e conheceu um rapaz muito simpático que ia para Dartmouth no outono, e outro que entraria no segundo ano em Yale. Eram todos jovens abastados, inteligentes e com sólidos valores morais. Um grande grupo deles jogava a tudo na praia, desde o golfe ao croquet, passando pelo badminton, e muitas vezes os rapazes jogavam futebol enquanto as raparigas assistiam. Foi um verão longo e despreocupado e as únicas sombras chegavam na forma das notícias vindas da Europa, que a cada dia que passava eram mais preocupantes.

       Os Alemães haviam tomado Creta, e havia confrontos ferozes no Norte de África e no Médio Oriente. Os Britânicos e os Italianos travavam combates aéreos sobre Malta. E no final de junho, os Alemães tinham invadido a Rússia e apanhado os Russos completamente desprevenidos. Um mês mais tarde, o Japão entrara na Indochina. Foi um verão de batalhas ferozes e de más notícias vindas de todo o mundo.

       Quando Kate não estava a pensar na guerra, pensava na sua ida para Radcliffe. Faltavam apenas alguns dias, e ela estava muito mais animada do que deixava transparecer. Muitos dos seus amigos do liceu tinham optado por não continuar os estudos. Ela era mais a exceção do que a regra. Duas das amigas tinham-se casado após o fim do liceu e outras três haviam anunciado os seus noivados nesse verão. Com dezoito anos, Kate sentia-se já uma solteirona. Dentro de um ano, a maior parte teria filhos e ainda mais amigos seus ter-se-iam casado. Mas ela concordava com o pai, queria ir para o colégio, embora ainda não soubesse o que iria estudar.

       Se o mundo fosse diferente, teria gostado de estudar Direito. Mas era um sacrifício demasiado grande. Sabia que se escolhesse a carreira de advogada talvez nunca pudesse casar. Era uma decisão que tinha de ser tomada, e o Direito como carreira não era um mundo para as mulheres. Iria estudar algo como Literatura ou História, com a vertente de Italiano ou Francês. Se não pudesse fazer mais nada, talvez um dia desse aulas. Mas, para além do Direito, mais nenhuma carreira a fascinava. E os pais partiam do princípio de que ela se casaria quando terminasse os estudos. O curso seria uma ocupação interessante enquanto esperava pelo homem certo.

       O nome de Joe surgiu depois de ela o ter conhecido, uma ou duas vezes nos meses seguintes, não ligado diretamente a ela mas a algo novo ou importante que ele conseguira. O pai mostrava-se ainda mais interessado nele depois de o ter conhecido e mencionou-o a Kate mais do que uma vez. Mas ela não precisava de ser incitada, não o esquecera, embora não tivesse voltado a ter notícias suas. Era apenas uma pessoa muito interessante que ela conhecera e o seu fascínio acabou por esmorecer. Os seus outros interesses, como o colégio e os amigos, eram bastante mais reais.

       Era o último fim-de-semana do verão, o fim-de-semana do Dia do Trabalho, quando ela e os pais foram a uma festa a que costumavam ir todos os anos, normalmente depois de regressarem da viagem de verão. A festa era um churrasco dado pelos seus vizinhos em Cape Cod. Toda a gente da zona ia, havia crianças e pessoas de idade, e famílias, e os anfitriões faziam uma enorme fogueira na praia. Kate estava com um grupo de amigos a assar marshmallows e salsichas quando recuou um passo e esbarrou em alguém que não tinha visto. Voltou-se para pedir desculpa por ter-lhe dado uma pisadela, embora soubesse que não devia ter doído muito. Estava descalça, em calções. E ao levantar os olhos para a cara da vítima, descobriu espantada que se tratava de Joe Allbright. Assim que o viu, ficou especada, incapaz de falar, a segurar o espeto com o marshmallow a arder. Joe sorriu.

       - É melhor olhar para isso antes que pegue fogo a alguém.

       - O que está aqui a fazer?

       - À espera de um marshmallow, - respondeu ele, - os seus parecem demasiado passados. Estavam a transformar-se em cinzas no espeto; ela continuava a fitá-lo, incapaz de acreditar que ele estava realmente ali. Ele parecia feliz por vê-la e, de calças caqui e camisola, tinha o ar de um miúdo. Também estava descalço.

       - Quando é que regressou da Califórnia? - perguntou ela, sentindo novamente a velha empatia. Sentiam-se como velhos amigos e pareciam ter esquecido toda a gente em volta. Ela estivera com um grupo de rapazes e raparigas da mesma idade e ele fora de carro a Cape com um amigo.

       - Não regressei da Califórnia, - respondeu ele com um sorriso, feliz por tê-la encontrado. - Ainda lá estou e estarei pelo menos até ao final do ano. Só cá vim passar uns dias. Ia ligar ao seu pai na terça-feira e renovar o meu convite. Já começou as aulas?

       - Começo na próxima semana. - Era incapaz de se concentrar. Joe estava bronzeado e muito bonito, o cabelo mais louro e ela reparou como os seus ombros eram largos e musculados sob a camisola e não sob o casaco emprestado que levara à festa. Era ainda mais bonito do que ela recordava e Kate perdeu subitamente a fala, o que era uma coisa pouco vulgar nela. Joe continuava a parecer-lhe uma ave gigantesca amarrada à terra, com os seus braços compridos, os movimentos nervosos das pernas e dos pés. Mas ele agora aparentava sentir-se mais à vontade com Kate. Pensara nela muitas vezes e sentia-se mais familiarizado com a situação. Kate continuava a segurar no espeto queimado com os marshmallows, que não só estavam esturricados como também gelados. Com um gesto meigo, ele tirou-lho das mãos e atirou-o para o lume.

       - Já comeu? - perguntou ele, tomando o controle da situação

       - Só marshmallows - respondeu ela com um sorriso tímido. Joe estava muito perto dela e, sem querer, a mão dele tocou na sua.

       - Antes de jantar? Sua marota. Que tal uma salsicha? - Kate assentiu. Ele pegou um espeto, tirou duas salsichas de um tabuleiro, espetou-as e aproximou-as do lume. - Então o que tem feito desde o Natal? - perguntou com interesse.

       - Acabei o liceu. Entrei em Radcliffe. E é tudo. - Sabia tudo o que ele fizera, ou pelo menos os recordes que batera. Lera nos jornais e o pai falava dele constantemente.

       - Muito bem. Sabia que entraria em Radcliffe. Estou orgulhoso de si disse, - e ela corou. Felizmente, a noite já caíra, e ali estavam ambos na praia, com a fina areia branca fresca sob os pés.

       Joe parecia mais confiante do que oito meses antes. Ou talvez fosse apenas por já se conhecerem. O que Kate desconhecia era que ele havia pensado tantas vezes nela que, na sua mente, já eram como velhos amigos. Tinha o hábito de rever cenas, situações e pessoas na mente, como se estivesse a ver um filme, até se tornarem familiares.

       - Tem conduzido? - perguntou com um sorriso travesso.

       O meu pai diz que sou uma péssima condutora, mas acho que até sou bastante boa. Pelo menos melhor que a minha mãe. Ela anda sempre a bater com o carro - respondeu Kate, retribuindo o sorriso.

       - Então talvez já esteja apta a ter lições de vôo. Havemos de tratar disso quando eu voltar cá. Vou regressar a New Jersey no final do ano, para ser consultor num projeto com o Charles Lindbergh. Mas primeiro tenho de acabar umas coisas na Califórnia.

       Kate não sabia por que, mas ficara radiante por saber que ele ia regressar para a costa este. E tinha consciência de que era uma parvoíce, porque não havia razões para pensar que ele quereria vê-la. Era um homem de trinta anos, muito bem sucedido na sua área. Ela era apenas uma estudante universitária, ou nem sequer isso. Sabendo quem ele era, Kate sentiu-se ainda mais impressionada que da primeira vez. E era por isso que se mostrava tímida. Joe estava muito mais à vontade do que na festa.

       - Quando começa as aulas, Kate? - perguntou ele, quase como se ela fosse a sua irmã mais nova, embora, tal como Kate, ele fosse filho único. Tinham isso em comum. Os pais haviam morrido quando ele era bebê e fora criado por primos da mãe, de quem ele admitia prontamente não ter gostado e que também não haviam gostado dele.

       - Esta semana. Tenho de me mudar na terça - respondeu ela.

       - Que grande excitação! - comentou ele, entregando-lhe uma salsicha.

       - Não tão excitante como o que você tem andado a fazer. Tenho seguido os seus passos pelos jornais. - Ele sorriu ao ouvir aquilo, lisonjeado por se ter lembrado dele. Haviam pensado muito um no outro, mas seria embaraçoso admiti-lo. O meu pai é o seu maior admirador. Joe ainda se recordava de como ele se mostrara interessado em si e do quanto sabia a seu respeito. Ao contrário de Kate, que apenas o considerara um tipo simpático e não fizera idéia de que estivera perante um herói.

       Terminaram as salsichas e sentaram-se num tronco a beber café e a comer gelado. Era servido em cones de baunilha e o de Kate já começara a pingar por todos os lados. Joe observava-a enquanto bebia o café. Adorava olhar para ela, era tão bonita e jovem, cheia de energia e de vida. Assemelhava-se a um jovem puro-sangue, a escoicear e aos saltos, lançando a crina de cabelo vermelho-escuro para trás dos ombros. Nunca na sua vida ele pensara que encontraria alguém como ela. As mulheres que conhecera ao longo dos anos haviam sido muito mais simples e apagadas. Kate parecia uma estrela a brilhar nos céus e Joe era incapaz de tirar os olhos dela, com medo de a perder.

       - Quer ir dar um passeio, - perguntou por fim, depois de ela ter limpado os pingos de gelado.

       Ela assentiu com um sorriso.

       Caminharam pela praia com a lua quase cheia a brilhar sobre a água. Conseguiam ver tudo na praia e seguiram lado a lado, muito próximos, calados durante algum tempo.

       Momentos depois, ele olhou para o céu e depois para Kate e sorriu.

       - Adoro voar em noites como esta. Acho que você também iria gostar. Parece que estamos próximos de Deus durante algum tempo, é tão calmo. - Partilhava com Kate o que para si era mais importante. Pensara nela uma ou duas vezes quando fizera vôos noturnos e desejara que ela tivesse estado com ele. Depois dissera a si próprio que era maluco. Ela era apenas uma criança e, se voltasse a vê-la, já deveria tê-lo esquecido. Mas não esquecera, e sentiam-se como velhos amigos. Parecia uma dádiva do destino o fato de terem voltado a encontrar-se. Apesar do que lhe dissera, ele ainda não tivera coragem de telefonar ao pai dela. Encontrá-la no churrasco resolvera-lhe o problema.

       - O que o levou a apaixonar-se por voar? - perguntou ela quando começaram a andar mais devagar. Estava uma noite agradável e muito bonita e a areia parecia cetim sob os pés.

       - Não sei... sempre gostei de aviões, mesmo quando ainda era miúdo. Talvez quisesse fugir... ou subir tão acima do mundo que ninguém pudesse tocar-me.

       - Do que é que andava a fugir?

       - Das pessoas. De coisas más que tinham acontecido, e de me sentir mal por causa delas. - Nunca conhecera os pais e os primos que o tinham criado haviam sido cruéis. Não houvera amor entre eles. Haviam-no sempre feito sentir-se um intruso. E aos dezesseis anos, Joe deixara-os. Tê-los-ia deixado antes se tivesse podido. - Sempre gostei de estar sozinho. E gosto de máquinas. E das pecinhas que as fazem funcionar e dos pormenores de engenharia. Voar é como magia, junta todas aquelas coisas e, quando damos por nós, estamos no céu!

       - Faz com que isso pareça maravilhoso!

       Pararam e sentaram-se na areia. Tinham percorrido uma distância considerável e estavam cansados.

       - É maravilhoso, Kate. É tudo aquilo que eu quis ser e fazer quando crescesse. Custa-me a crer que agora me paguem para o fazer.

       - Isso é porque você é muito bom no que faz.

       Ele baixou a cabeça por momentos, com humildade, e Kate ficou sensibilizada com o que viu e pressentiu nele.

       - Um dia, gostaria que voasse comigo. Não vou assustá-la, prometo.

       - Você não me assusta - retorquiu ela muito calma. Estavam sentados muito juntos, e aquilo assustava mais Joe do que Kate. O que o assustava ainda mais eram os seus sentimentos. Estava intrigado. E encontrar-se sentado ao seu lado atraía-o como a um ímã. Era doze anos mais velho que ela. Kate vinha de uma família rica, uma família relativamente importante, e iria freqüentar Radcliffe.

       Joe não pertencia àquele mundo e sabia-o. Mas não era o seu mundo que o atraía, era ela própria e o fato de se sentir bem ao seu lado. Nunca conhecera uma mulher assim. Nem sequer as da sua idade. Namorara com várias, na sua maior parte mulheres que rondavam as pistas de aviação ou raparigas que conhecia por intermédio dos outros pilotos, normalmente irmãs. Mas nunca tivera muito em comum com qualquer delas. Só gostara realmente de uma e ela casara com outro, pois dissera que estava sempre sozinha, que ele não tinha tempo para si. Não conseguia imaginar Kate a sentir-se sozinha, era muito cheia de vida e demasiado independente, e era isso que o atraía. Mesmo com dezoito anos já era uma pessoa completa. Por aquilo que ele podia ver, não havia necessidades que ele tivesse de colmatar e não pudesse, nenhuma expectativa ou admoestação. Era apenas quem era e seguia o seu próprio caminho, como um cometa, e Joe só queria apanhá-la quando ela passasse por perto

       Kate contou-lhe então que gostaria de estudar Direito mas que seria melhor desistir, porque não era uma carreira indicada para uma mulher

       - Isso é um disparate - comentou ele. - Se é isso que deseja, porque não vai para a frente?

       - Os meus pais não querem. Querem que eu tire o curso, mas desejam que me case. - Ela parecia desiludida. Achava aquilo tão aborrecido

       - Porque não pode fazer as duas coisas? Ser advogada e casar. - Parecia-lhe uma coisa razoável, mas ela limitou-se a abanar a cabeça. O seu cabelo agitou-se como uma cortina vermelho-escura. Contribuía para lhe dar um ar ainda mais sensual e há já algum tempo que ele tentava resistir a essa sensualidade. Fora bem sucedido, ela nem pressentira que ele se sentia atraído por si. Achava que estava apenas a ser simpático e meigo

       - Consegue imaginar um homem que deixe a mulher exercer direito? Qualquer homem com quem eu casasse haveria de querer que eu ficasse em casa e tivesse filhos. - As coisas eram mesmo assim, e ambos sabiam-no.

       - Há alguém com quem queira casar, Kate? - perguntou bastante interessado. Talvez ela tivesse conhecido alguém desde o Natal, ou já conhecesse antes. Joe não sabia assim tanto a respeito dela.

       - Não, - respondeu, - não há.

       - Então por que preocupar-se com isso? Por que não faz o que quer até encontrar o homem certo? É como preocupar-se com um trabalho que ainda não tem. Talvez conheça um rapaz simpático em Radcliffe. - E depois voltou-se para ela com uma pergunta. As pernas de ambos quase se tocavam, esticadas na areia, mas ele não tentou pegar-lhe na mão ou pôr-lhe um braço sobre os ombros. - Casar é assim tão importante? Ele, com trinta, ainda não estivera perto de o fazer. E Kate tinha apenas dezoito anos. Parecia ter diante de si uma vida inteira para poder casar-se e ter filhos. Era estranho ouvi-la falar daquilo, como se fosse uma carreira escolhida e não o resultado natural de algo que sentisse por alguém. Joe perguntou a si mesmo se os pais dela pensariam assim. Não seria de estranhar. Mas ao contrário da maior parte das mulheres, que eram mais reservadas, ela foi completamente franca.

       - Acho que o casamento é importante, toda a gente diz que é. E creio que um dia também o será para mim. Só não consigo imaginá-lo neste momento. Não tenho pressa. Ainda bem que vou estudar primeiro. - Era um adiamento para os planos que a mãe tinha para si. - Nem sequer vou ter de pensar no assunto durante quatro anos, e nessa altura sabe-se lá o que vai acontecer.

       Podia fugir e juntar-se a um circo disse ele, fingindo querer ajudar, e ela soltou uma gargalhada, deitando-se na areia e pousando a cabeça no braço. Nunca vira ninguém tão belo, pensou ele ao contemplá-la ao luar. Teve de recordar-se da idade que tinha e de que ela não passava de uma criança. Mas, ali deitada, Kate não parecia uma criança; era já muito mulher. Joe desviou o olhar por momentos, para se recompor. Kate não fazia idéia do que lhe ia na alma.

       - Acho que gostaria de trabalhar num circo - disse ela para a nuca dele. Joe observava as estrelas. - Quando era criança achava as roupas o máximo. E os cavalos. Sempre adorei os cavalos. Os leões e os tigres assustam-me.

       - A mim também. Fui uma vez ao circo, em Minneapolis. Achei-o muito barulhento. E detestei os palhaços, não lhes achei graça nenhuma. - Aquilo era tão típico dele que ela sorriu. Imaginava-o um rapazinho muito sisudo, deslumbrado com a ação. E os palhaços também lhe haviam parecido sempre demasiado óbvios. Preferia coisas mais sutis, tal como ele. Por muito diferentes que fossem, tinham bastantes coisas em comum. E sempre, logo abaixo da superfície, aquela atração irresistível.

       - Nunca gostei dos cheiros do circo, mas acho que seria divertido viver com todas aquelas pessoas. Teria sempre alguém com quem falar.

       Riu-se quando ela disse aquilo e virou-se. Do pouco que sabia a respeito de Kate, parecia-lhe típico ela gostar das pessoas. Fora uma das coisas que o cativara, o seu à-vontade Nunca tivera esse dom, e admirava-o. Mas para Kate era natural e instintivo, uma parte integrante de si.

       - Não consigo imaginar nada pior. É por isso que vôo tanto. Não tenho de falar com ninguém desde que fique lá em cima. No chão há sempre alguém que me quer dizer qualquer coisa, ou eu tenho de dizer qualquer coisa. É muito cansativo. - O seu olhar tinha uma expressão de dor. Havia alturas em que manter uma conversa lhe era bastante penoso. Perguntava-se se isso seria típico dos pilotos. Fizera vários vôos longos com Charles em que não disseram nada um ao outro, e haviam-se sentido muito bem. Falavam só depois de aterrarem e de abrirem a porta do cockpit. Eram vôos perfeitos. Mas Joe não conseguia imaginar Kate sentada em silêncio durante oito horas. Acho as pessoas muito cansativas. - Esperam tanto de nós. Interpretam mal o que dizemos, pegam nas nossas palavras e distorcem-nas. Complicam sempre tudo.

       Aquele aspecto dele era interessante.

       - É assim que gosta das coisas, Joe? - perguntou ela suavemente. - Calmas e simples?

       Ele assentiu. Detestava complicações E sabia que a maior parte das pessoas as adorava.

       - Eu também gosto de coisas simples - disse Kate, ponderando no que ele acabara de lhe dizer. - Quanto às calmas, não sei. Gosto de falar, gosto de pessoas, de música... e às vezes de barulho. Detestava a casa dos meus pais quando era criança porque era sempre muito silenciosa. Eles eram mais velhos e muito calados e eu não tinha com quem falar. Era como se esperassem que eu me comportasse como uma adulta, só que mais pequena. Eu queria ser criança, sujar-me, fazer barulho, partir coisas e despentear-me. Nunca havia nada desarrumado em nossa casa. Era sempre tudo tão perfeito. Não foi fácil.

       Ele era incapaz de imaginar uma coisa assim. Vivera no meio do caos em casa dos primos, onde tudo estava sempre desarrumado, a casa sempre suja, as crianças com um ar desmazelado. Quando eram pequenas choravam sem parar, e depois de crescerem discutiam constantemente em voz muito alta. Ele só fora feliz depois de ter saído de lá. Perguntavam-lhe sempre o que é que ele tinha de errado, queixavam-se sempre do trabalho que ele dava e ameaçavam mandá-lo para casa de outros primos. Ele não se afeiçoara a ninguém, sempre com receio de que acabassem por mandá-lo embora, pelo que não valeria a pena gostar deles. E fora assim desde essa altura, com outros homens e até com mulheres, especialmente com mulheres. Era mais feliz quando se mantinha reservado.

       - Você tem a vida que toda a gente gostaria de ter, Kate. O problema é que essas pessoas não imaginam como seria se a tivessem. De certa forma calculo que seja opressivo. - Ela pintara um retrato de rigidez e perfeição. No entanto, era também um ambiente seguro providenciado pelas pessoas que a amavam, e ela sabia-o. Mas ansiava ir para o colégio e afastar-se deles. Estava pronta. - O que faria se tivesse filhos? O que mudaria?

       Era uma pergunta interessante, e fê-la meditar.

       - Acho que os amaria muito e que os deixaria ser quem fossem, não quem eu queria que eles fossem. Não havia de querer que eles fossem eu, mas eles próprios. E deixá-los-ia fazer mais coisas que eles gostassem. Como você. Se quisessem voar, eu deixaria. Não me preocuparia com o perigo, com o fato de ser uma loucura, nem lhes diria que não é próprio e que teriam de fazer o que eu esperava. Acho que os pais não têm o direito de fazer isso, obrigar as pessoas a meterem-se em moldes porque foi isso que eles fizeram. - Era evidente que ansiava por liberdade. Era também o que ele sempre quisera. Não havia grilhetas suficientemente fortes para o manietar. Ele não só queria, como também precisava da sua liberdade, para conseguir sobreviver. Teria quebrado qualquer corrente, qualquer cadeia, qualquer coisa que o prendesse. Era algo de que nunca desistiria por ninguém, por nada

       - Talvez tenha sido mais fácil para mim, porque não tive pais. - Joe contou-lhe que os pais tinham morrido num acidente de viação quando ele tinha seis meses e que fora morar com uns primos.

       - Eles foram bons para si? - perguntou com pena. Não parecia ter sido uma história feliz.

       - Nem por isso. Usaram-me para fazer os recados e tomar conta dos filhos deles. Eu era apenas outra boca para alimentar. E quando veio a Depressão ficaram contentes por ver-me partir. Facilitou-lhes as coisas. Nunca tiveram dinheiro.

       E Kate conhecera apenas o luxo, a segurança e o conforto. A Depressão não afetara a família financeiramente, ou pelo menos a da mãe. Kate só conhecera uma existência segura, completamente protegida. Custava-lhe até imaginar como teria sido a vida de Joe. Para ele, voar significava liberdade. Ela nunca tivera isso, nem ansiara por tal. Queria apenas um pouco mais de liberdade do que a que tinha. A sua necessidade era inferior à dele.

       - Um dia quer ter filhos? - Kate perguntava-se como iriam eles encaixar-se na sua vida, ou se seriam importantes. Ele tinha idade suficiente para pelo menos ter pensado no assunto.

       - Não sei. Nunca pensei muito nisso. Talvez não. Acho que não seria um grande pai. Nunca estaria presente, andaria sempre a voar. E as crianças precisam de um pai. Provavelmente seria mais feliz se não tivesse filhos. Se tivesse, se calhar andaria sempre a pensar naquilo que não fiz por eles e sentia-me mal.

       - Quer casar-se?

       Kate estava fascinada, nunca conhecera ninguém assim, ninguém tão sincero. Tinham isso em comum. Diziam o que lhes ia na alma, sem medo do que os outros pudessem pensar deles. Era raro Joe abrir-se daquela forma, mas nada tinha a esconder nem nada de que se desculpar. Não deixara detritos no seu rasto, e nunca magoara outra pessoa, pelo menos que soubesse. Até a rapariga de quem gostara, que o deixara, não o fizera zangada. Fora-se embora quando percebera que ele não podia estar presente. Outras coisas eram mais importantes para Joe, mas ele nunca o escondera.

       - Nunca conheci uma mulher capaz de se encaixar na minha vida sem ficar infeliz. Acho que voar é uma vida solitária para a maior parte das pessoas. Não sei como é que o Charles consegue ser casado, pois não passa muito tempo em casa. Acho que a Anne se mantém ocupada com os filhos. É uma mulher extraordinária. - E sofrera muito. Kate tinha imensa pena dela. - Talvez encontre alguém como ela... - Joe sorriu a Kate, agora já eram amigos, embora isso seja pouco provável. - Há poucas mulheres assim. Não sei, acho que sempre pensei que não era talhado para o casamento. Devemos fazer na vida aquilo que queremos, e ser quem queremos. Não podemos obrigar-nos a ser algo que não somos. Não funciona. É aí que as pessoas se magoam. Muito. Não quero fazer isso a ninguém nem a mim próprio. Preciso de fazer o que faço e de ser quem sou.

       Ao ouvi-lo Kate pensou que devia estudar Direito. Mas sabia que os pais iriam ficar tristes. Joe estava sozinho no mundo, e sempre estivera. Não tinha de responder perante ninguém, nem de agradar aos outros, apenas a si próprio. A vida dela era completamente diferente. Carregava aos ombros o fardo das esperanças e dos sonhos dos pais, e seria incapaz de fazer algo para os magoar ou desiludir. Não podia fazer isso. Especialmente depois daquilo por que o pai as obrigara a passar.

       Ficaram sentados em silêncio durante mais algum tempo, descontraídos e a gozar a companhia um do outro, a pensar nas palavras que haviam trocado. Tudo tão sincero, tão aberto. Não havia artifícios nem fingimentos, e por muito diferentes que fossem, e que as suas vidas tivessem sido, sentiam-se fortemente atraídos um pelo outro. Eram como duas faces da mesma moeda.

       Joe foi o primeiro a falar, virando-se para a olhar de novo e vendo-a deitada tranqüilamente na areia a contemplar a Lua. Não ousara deitar-se ao seu lado, com receio do que pudesse vir a sentir. Seria melhor manterem uma certa distância. Era a primeira vez que sentia tal coisa, mas o magnetismo dela era forte como as marés.

       - Acho que devíamos voltar. Não quero que os seus pais fiquem preocupados ou que mandem a polícia à minha procura. Já devem pensar que você foi raptada.

       Ela assentiu e endireitou-se devagar. Não dissera a ninguém onde ia, nem com quem, mas calculava que várias pessoas a tivessem visto afastar-se. Não sabia se tinham reconhecido Joe, mas também não dera explicações nem se dera ao trabalho de ir procurar os pais para lhes dizer. Receara que o pai quisesse ir com eles, não por desconfiar de Joe, mas por gostar tanto dele.

       Joe deu-lhe a mão, ajudando-a levantar-se e regressaram devagar na direção da fogueira que ainda conseguiam ver, lá bem ao fundo na praia. Kate ficou admirada ao reparar na distância que haviam percorrido, mas nem dera por isso ao lado de Joe. E a meio do caminho, enfiou a mão no braço dele, e ele encostou o braço ao tronco, sorrindo. Ela teria dado uma excelente amiga, só que, para seu grande desgosto, ele queria mais do que amizade. Mas não iria permitir que isso acontecesse e ceder aos seus sentimentos. Não estava em posição de o fazer. Na sua opinião, Kate merecia mais do que ele tinha para dar. Com todo aquele à-vontade e beleza, parecia longe do seu alcance.

       Levaram meia hora a chegar junto dos outros e ficaram ambos surpreendidos ao ver que ninguém dera pela falta deles, ou sequer reparara que se tinham afastado.

       - Acho que podíamos ter ficado lá mais tempo - disse Kate sorrindo para Joe quando este lhe entregou uma caneca de café e se serviu de um copo de vinho. Raramente bebia, porque andava sempre a voar. Mas nessa noite não iria pilotar nenhum avião.

       Joe sabia que não podia ter ficado afastado da festa durante muito mais tempo com Kate. Não confiava nas suas ações perto dela. O que sentia era demasiado poderoso e confuso e quase ficou aliviado quando os pais vieram à sua procura porque se iam embora. Clarke Jamison mostrou-se encantado por vê-lo.

       - Que agradável surpresa, Mister Allbright. Quando é que regressou da Califórnia?

       - Ontem - respondeu Joe com um sorriso, depois de ter apertado a mão aos pais de Kate. - Só cá vim passar uns dias. Tencionava ligar-lhe.

       - Quem me dera que o fizesse. Ainda estou à espera de apanhar boleia sua um dia destes. Talvez da próxima vez que cá vier.

       - Está prometido - asseverou Joe. Considerava-os pessoas muito simpáticas. Deixaram Kate sozinha com ele durante alguns minutos para irem despedir-se e agradecer aos anfitriões, de quem eram velhos amigos. Então Joe virou-se para ela com uma expressão estranha. Queria perguntar-lhe uma coisa, pensara nisso toda a noite. Não sabia se era apropriado, ou se ela teria tempo depois de começar as aulas. Mas decidiu fazer a pergunta na mesma e já dissera a si próprio que não havia qualquer risco para ambos, o que era um pouco errôneo. Mas, acima de tudo, não queria induzi-la em erro ou tentar-se mais do que o suportável. Sentia-se grato pela distância entre ambos, pelo menos física.

       - Kate, - começou ele, parecendo de novo tímido, e ela reparou. - O que acharia de escrever-me de vez em quando? Adoraria ter notícias suas.

       - Sério? - perguntou Kate surpreendida. Depois de tudo o que dissera a respeito de não se casar e de não ter filhos, ela sabia que não andava atrás de si. Tinha quase a certeza de que ele só queria a sua amizade. De certa forma, isso parecia-lhe uma coisa segura, mas também um desapontamento. Sentia-se muito atraída por Joe. E ele não dera a entender que o sentimento era recíproco. Pelo pouco que haviam falado, apercebera-se de que ele era exímio a esconder o que sentia.

       - Gostaria de saber o que você anda a fazer - disse Joe num tom benigno que servia apenas para ocultar o seu pouco à-vontade. Sabia o suficiente para não o revelar, pelo menos. - Eu falo-lhe dos meus vôos de ensaio na Califórnia, se não achar o assunto muito enfadonho.

       - Gostaria muito! E, em princípio, poderia passar ao pai as cartas. Ele também gostaria de as ler.

       Joe escreveu o endereço num papel e entregou-lho

       - Não sou um grande escritor, mas vou fazer o melhor possível. Gostaria que ficássemos em contato e de saber como é que as aulas lhe correm. - Joe esperava parecer um velho amigo, ou um tio, nunca um pretendente ou um potencial marido. Kate pensava que fora extremamente sincero consigo, mas havia coisas que lhe omitira, como por exemplo sentir-se muito atraído por ela, e temer isso. Se se permitisse, poderia entregar-se-lhe totalmente e, se tinha a certeza de alguma coisa era de que nunca iria permitir que isso acontecesse. Se pudesse canalizar os seus sentimentos para a amizade, não haveria riscos ou perigos para ambas as partes. Mas independentemente do que acontecesse, não queria perdê-la. Daquela vez, queria manter-se em contato com ela.

       - Tem o cartão do meu pai com o nosso endereço. E assim que a souber, mando-lhe o meu endereço de Radcliffe.

       - Escreva-me assim que a tiver. - Isso significava que teria notícias assim que chegasse à Califórnia, tal como desejava. Ainda não saíra de perto dela e já estava com saudades. Era uma situação terrível, mas não podia evitá-la. Era impelido para Kate como se para uma luz na escuridão, um local acolhedor do qual desejava estar perto.

       - Faça uma boa viagem de regresso - disse ela, hesitando por um instante quando o olhar dos dois se cruzou e muito foi dito sem palavras, tal como Joe pretendia. Nunca era capaz de encontrar as palavras certas.

       Pouco depois, Kate encaminhou-se para as dunas a fim de encontrar os pais e desapareceu. Joe ficara a observá-la. Ela parara no cimo, acenara-lhe e ele retribuíra o aceno. A última imagem que Kate reteve dele foi a de um homem alto, com os olhos postos em si e uma expressão séria. E depois de ela se ter ido embora voltou a caminhar pela praia sozinho.

       As primeiras semanas de aulas foram muito agitadas para Kate. Tinha de comprar livros, de assistir a aulas, de se encontrar com professores, um conselheiro que a ajudaria na escolha do horário, e uma casa cheia de raparigas a conhecer. Nem se deu ao trabalho de ir a casa nos fins-de-semana, para grande tristeza da mãe. Mas pelo menos fazia o esforço de telefonar de vez em quando.

       Já estava em Radcliffe havia três semanas quando escreveu a Joe. Não que não tivesse tido tempo antes disso, mas quisera esperar até ter alguma coisa interessante para lhe dizer E quando se sentou à secretária numa tarde de domingo, tinha muitas histórias acerca do colégio. Falou-lhe das outras raparigas, dos professores, das aulas, da comida. Nunca fora tão feliz como ali em Radcliffe. Era a primeira vez que provava a liberdade, e estava a adorar.

       Não lhe falou dos rapazes de Harvard que conhecera na semana anterior, porque não achara apropriado e não era algo que quisesse partilhar com ele. Havia um do segundo ano, Andy Scott, com quem simpatizara bastante, mas ele era insignificante quando comparado com Joe, que se tornara o paradigma do homem ideal. Mais ninguém era tão alto ou tão atraente, ou tão bem sucedido, ou excitante. Era um pouco injusto compará-lo a alguém, e Andy parecia água perto de vinho quando ela o comparava a Joe Allbright. Mas era uma companhia divertida e capitão da equipa de natação de Harvard, o que impressionava as outras calouras.

       Em vez disso, Kate contou a Joe tudo o que andava a fazer e como se sentia feliz por ali estar. A sua carta, quando ele a recebeu, era animada, exuberante e entusiasta, todas as coisas que ele mais gostava nela. E sentou-se assim que recebeu a carta para lhe responder, falando-lhe dos últimos desenhos, da sua última vitória sobre um problema previamente insolúvel. Falou-lhe dos seus vôos de ensaio mais recentes, mas preferiu não lhe falar acerca de um rapaz que morrera no dia anterior, num vôo de ensaio sobre o Nevada. Ele era para ter feito esse vôo, mas atribuíra-o a outro para poder assistir a uma reunião. Fora Joe que tivera de telefonar à mulher do rapaz e ainda se sentia um pouco deprimido por causa disso. Mas esforçou-se por escrever uma carta ligeira, cheia de novidades e animação E quando a concluiu, sentia-se frustrado. A sua carta parecia tão aborrecida quando comparada com a dela, pois o seu domínio das palavras era muito inferior. No entanto, meteu-a no correio e perguntou a si mesmo quanto tempo Kate levaria a responder-lhe.

       Ela recebeu a carta de Joe exatamente dez dias depois de ter enviado a sua, e sentou-se para lhe escrever durante o fim-de-semana. Recusou uma saída com Andy Scott para poder ficar no quarto e escrever a Joe uma longa carta cheia de novidades, e as outras raparigas que viviam com ela chamaram-lhe maluca. Mas o coração de Kate já fora entregue ao aviador da Califórnia. Não lhes disse quem ele era nem lhes contou muito a respeito dele. Disse apenas que era um amigo e desculpou-se a Andy dizendo que tinha uma dor de cabeça. E nada na carta indicava que sentisse por Joe outra coisa que não uma grande amizade. Nada escrevera que a pudesse trair, e pintou-lhe uma série de retratos divertidos com uma sábia escolha de palavras. Ele riu-se a bandeiras despregadas quando leu a carta dela sentado à secretária. A descrição que ela fazia da vida estudantil era hilariante. Tinha um jeito enorme para ver e descrever os elementos mais escandalosos de quase todas as situações E ele adorava receber notícias suas.

       A correspondência entre ambos continuou a fazer-se ao longo do outono e tornou-se mais séria com o agravar da guerra na Europa. Trocaram opiniões e preocupações e ela respeitava os pareceres dele. Joe continuava a acreditar que a América iria entrar na guerra em qualquer momento e tencionava voltar a Inglaterra, trabalhar como consultor para a RAF. Contou-lhe que Charles fora a Washington para se encontrar com Henry Ford, que partilhava a sua opinião a respeito da guerra. E depois tentou, pelo menos, diverti-la tanto como ela o divertia. Começava a passar os dias animado e ansioso com a perspectiva da chegada das cartas dela.

       Dois meses mais tarde, na terça-feira que antecedeu o fim-de-semana de Ação de Graças, ela recebeu um telefonema na casa onde vivia no complexo universitário, e partiu do princípio que eram os pais. Iria para casa no dia seguinte e a mãe devia querer saber a que horas tencionava chegar. Bebera um café com Andy no dia anterior e ele dissera-lhe que ia a casa, em Nova Iorque, passar o fim-de-semana e que lhe ligaria de lá. Jantara com ele uma ou duas vezes durante os últimos dois meses, mas a coisa não fora a lado nenhum. Andava demasiado intrigada com a sua correspondência com Joe para se interessar por um estudante do segundo ano. Joe era mais excitante do que qualquer outro homem que ela já conhecera.

       - Sim? - disse para o auscultador à espera de ouvir a mãe e ficou perplexa ao ouvir Joe numa ligação extraordinariamente nítida da Califórnia. A rapariga que atendera o telefone falara com a telefonista, mas não se dera ao trabalho de dizer a Kate que era um telefonema interurbano e que não era a mãe. Era a primeira vez que ele lhe telefonava. - Que surpresa! - exclamou, corando muito, mas felizmente ele não pôde ver. - Um feliz Dia de Ação de Graças, Joe!

       - Para você também, Kate. Como vão as coisas aí pelo colégio? - Fez um comentário acerca de uma história hilariante que ela contara e riram-se muito.

       Kate ficou admirada com o seu nervosismo a falar com Joe. Alguma coisa nas cartas de ambos tornara-os mais vulneráveis e mais francos, e agora era estranho estar a falar com ele.

       - Está tudo bem. Vou amanhã para casa. Por acaso, até pensava que era a minha mãe a ligar-me. Vou estar em casa no fim-de-semana. Já lho havia dito numa carta, mas era algo bom para se dizer no silêncio que se havia feito.

       - Eu sei. - Do outro lado ele estava tão nervoso como ela. Sentia-se de novo um miúdo, apesar de todos os esforços para soar confiante. - Estava a ligar-lhe para saber se gostaria de jantar comigo. - Susteve a respiração enquanto esperava pela resposta.

       - Jantar? - Kate fora apanhada desprevenida. - Onde... quando?... vem até cá? - perguntou sem fôlego.

       - Por acaso já cá estou. Esta viagem surgiu à última hora. O Charles está em Nova Iorque e eu precisava de lhe pedir uma opinião. Vou jantar com ele hoje e podia ir ter consigo durante o fim-de-semana.

       Na verdade, podia ter esperado pela opinião do seu mentor, mas quisera uma desculpa para ir a Nova Iorque e fora fácil arranjá-la. Disse a si mesmo que aquilo nada significava. que ia apenas visitar uma amiga e que se ela estivesse muito ocupada, regressaria à Califórnia. Mas não lhe referira o assunto antes de fazer a viagem porque achou que seria mais eficaz se a convidasse depois de já lá estar. Fora um plano engenhoso e eficaz, embora tivesse sido desnecessário. Ela teria ficado encantada por voltar a vê-lo, e tentou manter a voz firme e um tom desprendido quando respondeu. - Quando quer ir? Adoraria vê-lo. - Era a voz de uma amiga, não de uma mulher apaixonada. Representavam ambos muito bem os seus papéis, embora o desafio fosse grande. Tudo aquilo era novidade para Joe, e para Kate também. Nunca tivera um pretendente adulto e ele nunca tivera aqueles sentimentos assustadoramente desconhecidos por outra pessoa.

       - Posso ir quando você quiser - respondeu num tom despreocupado.

       Ela pensou um pouco. Não sabia se seria o mais correto, ou qual era a opinião da mãe, mas achou que o pai ficaria satisfeito, por isso decidiu arriscar.

       - Gostaria de se juntar a nós no Dia de Ação de Graças? - Não respirou até ouvir a resposta, e do outro lado da linha houve uma ligeira pausa. Parecia tão admirado com o convite como ela ficara ao ouvi-lo ao telefone.

       - Tem a certeza de que os seus pais não iriam importar-se? - Não queria intrometer-se nem arranjar problemas. Mas também não combinara nada com os Lindbergh nem com mais ninguém. Estava habituado a passar sozinho aquela quadra festiva.

       - Tenho a certeza - respondeu cheia de coragem, rezando para que a mãe não ficasse muito zangada. Mas tinham também outros convidados, e embora Joe fosse tímido, seria uma adição interessante para a mesa. - Está bem para si assim?

       - Está ótimo. Posso apanhar um avião na quinta de manhã. A que horas jantam?

       Ela sabia que os outros convidados iriam chegar às cinco e que o jantar seria servido às sete.

       - Os outros convidados chegam às cinco, mas você pode chegar antes se precisar. Não queria que ele tivesse de fazer tempo no aeroporto.

       - Às cinco está ótimo - respondeu com serenidade. Teria ido às seis da manhã se ela lho pedisse. Não sabia por que, mas estava ansioso por vê-la. Após anos de solidão emocional, estava cego, surdo e mudo em relação aos seus próprios sentimentos. - É muito formal? - perguntou de repente com nervosismo. Não queria aparecer de terno se todos os outros estivessem de smoking. E se precisasse de um, teria de o pedir emprestado a Charles e depois de o devolver.

       - Não, o meu pai costuma vestir um terno escuro, mas ele é bastante formal. Vista o que lhe der mais jeito.

       - Ótimo, levo o meu macacão de aviador - brincou ele. Ela riu-se.

       - Gostaria de ver isso.

       - Talvez possamos combinar um vôo pequeno este fim-de-semana, para si e para o seu pai.

       - Mas não diga nada à minha mãe. Ela ainda se engasgava com o peru e obrigava-o a ir-se embora a meio do jantar.

       - Não vou dizer nada. Então até quinta.

       Despediram-se com muita descontração, mas ao pousarem o auscultador repararam ambos que tinham a palma das mãos transpirada. Kate ainda tinha de dizer à mãe que ele iria lá jantar.

       Aflorou o assunto na tarde seguinte quando chegou a casa e encontrou a mãe a verificar a porcelana na cozinha. Era conhecida pelo seu magnífico serviço e pelos elaborados arranjos florais. E estava meio ausente quando Kate entrou na cozinha, tentando perceber a disposição dela.

       - Olá mãe! Precisas de ajuda? - A mãe olhou surpreendida por cima do ombro. Kate era sempre a primeira a fugir quando percebia que era precisa ajuda na cozinha. Dizia sempre que as tarefas domésticas a aborreciam e eram aviltantes.

       - Foste expulsa do colégio? - perguntou a mãe com uma expressão divertida. - Deves ter feito uma coisa muito má, uma vez que te ofereceste para me ajudar a contar a louça. É muito grave?

       - Não poderá ser por já ter amadurecido um pouco, agora que estou no colégio? - retorquiu Kate com uma expressão arrogante, e a mãe fingiu pensar no assunto por uns instantes.

       - É possível, mas pouco provável. Só lá estás há três meses, Kate. Acho que a maturidade começa a acontecer no segundo ano, e só surge completamente quando estiveres no último.

       - Ótimo. Estás a dizer-me que depois de me licenciar vou querer mesmo contar a louça.

       - Absolutamente! Em especial se o fizeres para o teu marido - respondeu a mãe com firmeza.

       - Mãe, está bem, está bem. Fiz uma coisa no espírito do Dia de Ação de Graças que sempre me ensinaste. - Kate enfrentou a mãe com uma expressão inocente

       - Mataste um peru?

       - Não, convidei uma pessoa amiga sem casa para jantar. Não sem casa, mas sem família. - Parecia uma introdução razoável.

       - Isso é muito querido da tua parte. Uma das raparigas da tua casa em Radcliffe?

       - Uma pessoa amiga da Califórnia - explicou ela, tentando preparar a mãe antes de lhe dizer.

       - É perfeitamente compreensível que ela não possa ir a casa. Claro que podes convidá-la. Vêm cá jantar dezoito pessoas, e há muito espaço na mesa.

       - Obrigada, mãe. - Kate pareceu aliviada, pelo menos tinham espaço para ele. - A propósito, não é uma rapariga. - Kate susteve a respiração e aguardou.

       - É um rapaz? - perguntou a mãe espantada.

       - Mais ou menos.

       - De Harvard? - A mãe parecia satisfeita. Adoraria que a filha namorasse com alguém de Harvard, e era a primeira vez que a ouvia falar no assunto. E só três meses passados desde o início do ano letivo.

       - Ele não é de Harvard. - Kate mergulhou na água gelada, - é o Joe Allbright.

       Houve uma longa pausa durante a qual a mãe a fitou com um olhar cheio de perguntas.

       - O piloto? Como é que tiveste notícias dele?

       - Telefonou-me na terça-feira. Vem visitar os Lindbergh e não tem nada para fazer no Dia de Ação de Graças.

       - Não é um pouco estranho ele telefonar-te? - A mãe parecia desconfiada.

       - Talvez. Não lhe falou das cartas, pois já era difícil explicar por que motivo o convidara. E agora tinha de arranjar uma razão plausível para explicar.

       - Já te tinha telefonado antes?

       - Não, não tinha, - respondeu. A mãe não lhe perguntou se ele lhe tinha escrito. - Acho que ele simpatiza muito com o pai e talvez se sinta sozinho. Não me parece que tenha família. Não sei por que é que telefonou, mas quando me disse que não tinha planos para este fim-de-semana, tive pena dele. Achei que tu e o pai não iriam importar-se. É o espírito do Dia de Ação de Graças - disse jovialmente, tirando uma cenoura do frigorífico.

       A mãe não ficara muito convencida, conhecia bem a filha e nunca a vira assim. Mas com cinqüenta e oito anos ainda não se esquecera do que se sentia quando se era admirada por um homem mais velho, ou do que era estar enamorada. No entanto, algo em Joe Allbright a preocupava. Era tão calado e distante, e ao mesmo tempo tão ardente. Era o tipo de homem que, se virasse a sua atenção para nós, podia ser arrebatador. E mesmo que Kate não entendesse isso, por não ter experiência, a mãe entendia e era isso que a preocupava.

       - Não me importo que ele venha jantar - disse Elizabeth Jamison, - mas importo-me se ele andar atrás de ti, Kate. É muito mais velho que tu, e não me parece que seja o tipo de homem por quem devas apaixonar-te.

       Como é que se decidiam aquelas coisas, como é que decidíamos por quem nos apaixonar ou não? E como se podia controlar isso? Mas Kate limitou-se a assentir.

       - Não estou apaixonada, mãe. Ele só cá vem comer peru.

       - Às vezes é assim que essas coisas começam, pela amizade e pela familiaridade - avisou a mãe.

       - Ele mora na Califórnia - retorquiu abruptamente Kate.

       - Admito que isso me faz sentir melhor. Está bem, vou falar com o teu pai. E, detesto dizer isto, mas ele vai ficar encantado. No entanto, juro que se ele se oferecer para levar o teu pai num avião perigoso ponho arsênico no recheio dele. E podes contar-lhe o que eu disse.

       - Obrigada, mãe - agradeceu Kate com ar radiante, saindo da cozinha.

       - Pensei que ias ajudar-me! - exclamou a mãe antes de a porta da cozinha se fechar.

       - Tenho de entregar um trabalho na segunda, é melhor despachar-me! - gritou Kate.

       A mãe não se deixou enganar. A expressão no olhar de Kate depois de ela lhe ter dito que Joe podia ir jantar deixava-a apavorada. Ela própria tivera aquela expressão uma vez, quando um amigo do pai a cortejara secretamente e lhe destroçara o coração. Mas felizmente os pais tinham descoberto e intervido antes de algo horrível ter acontecido. E ela conhecera o pai de Kate algumas semanas logo a seguir. Mas agora estava preocupada com Kate e Joe Allbright. Nessa noite, falou no assunto ao marido, quando já estavam no quarto. Contudo, ele não partilhava os seus receios.

       - Ele só vem jantar, Elizabeth. É um homem interessante. Não é idiota ao ponto de andar atrás de uma garota de dezoito anos. É um tipo atraente, pode ter todas as mulheres que quiser.

       - Acho que estás a ser ingênuo - comentou ela. - A Kate é muito bonita e acho que está fascinada. O Joe é uma figura muito romântica. Metade das mulheres deste país adoraria correr atrás do Charles Lindbergh, e tenho a certeza de que algumas delas tentaram. O Joe tem o mesmo tipo de mística e de encanto. Todo aquele distanciamento e o fato de ser aviador tornam-no uma figura romântica para uma adolescente.

       - Estás com medo que a Kate ande atrás dele? - O pai parecia sobressaltado. A filha era bastante ajuizada, mas a mulher ainda a considerava uma criança.

       - Possivelmente. Por acaso, preocupa-me mais que ele ande atrás dela. Porque lhe ligou para o colégio, e não para ti?

       - Está bem. Admito que ela é muito mais bonita do que eu. Mas é muito sensata e ele parece ser um cavalheiro.

       - E se se apaixonarem um pelo outro?

       - Podiam acontecer coisas piores. Ele não é casado. É respeitável. De fato, até bastante. Tem trabalho. E não, não é um banqueiro de Boston. Mas isso podia acontecer, sabes? Ela pode conhecer um homem que não seja médico, advogado ou banqueiro. Pode conhecer um oriental ou um príncipe indiano, ou até um francês, ou, pior ainda, um alemão, em Harvard, e pode acabar do outro lado do mundo. Mas não podemos mantê-la trancada em casa para sempre. E se o Joe Allbright for o tal, se ele a fizer feliz e for bom para ela, consigo viver com isso. Ele é um bom homem, Elizabeth, e sinceramente não creio que isso vá acontecer.

       - E se ele morrer com a queda de um avião e a deixar viúva com uma casa cheia de bebês? - perguntou a mãe, parecendo em pânico.

       Clarke sorriu.

       - E se ela casar com um rapaz que trabalha num banco e ele for atropelado por um elétrico... pior ainda, se a tratar mal ou se ela se casar com ele só para nos fazer a vontade? Prefiro que ela case com alguém que realmente a ame afirmou num tom calmo, mas Elizabeth parecia cada vez mais aflita.

       - Achas que ele está apaixonado por ela? - sussurrou.

       - Não. Acho que ele deve ser um tipo solitário sem nenhum local para ir no Dia de Ação de Graças e, conhecendo a nossa filha, ela sentiu pena dele. Acho que nenhum deles está apaixonado pelo outro.

       - Foi isso que a Kate - disse, que tinha pena dele.

       - Estás a ver? Não te esqueças do que te disse, estás a preocupar-te por nada - retorquiu, abraçando-a. - Ela é uma boa rapariga, com um coração sensível, tal como a mãe.

       Elizabeth suspirou e tentou convencer-se de que Clarke estava certo, mas no dia seguinte, quando Joe apareceu, Kate não parecia ter pena dele. Parecia animada, bela e radiante por vê-lo. E Joe tinha um ar atordoado quando seguiu Kate até à sala de jantar e se sentou ao seu lado E quando Clarke o incitou durante o jantar a falar dos seus aviões, Kate olhou-o com uma expressão de adoração. Elizabeth não ficou minimamente tranqüila ao ver o à-vontade e a admiração que transparecia entre os dois, e ficou com a sensação de que eles se conheciam melhor do que diziam. Pareciam muito descontraídos a tagarelar um com o outro

       As cartas tinham criado uma aura de descontração entre eles que era impossível ocultar dos pais, e Kate nem o tentou. Era evidente que ela e Joe eram amigos e que se sentiam atraídos um pelo outro. Elizabeth também teve de admitir, pelo menos para si própria, que ele era inteligente, educado e encantador e que tratava Kate com ternura e respeito. Havia no entanto outra coisa que a assustava. Joe parecia um pouco frio, retraído e quase assustado, como se tivesse sido magoado a certa altura da vida. Por muito simpático que parecesse, parecia estar sempre inalcançável.

       E quando Joe falou dos aviões, fê-lo com tamanha paixão que Elizabeth não pôde impedir-se de perguntar a si mesma se uma mulher poderia competir com a sua paixão pelos vôos. Estava disposta a acreditar que ele era um bom homem, mas não necessariamente o mais indicado para Kate. Liz não achava que Joe tivesse o necessário para ser um bom marido. A sua vida estava cheia de perigos e de riscos, e não era isso que desejava para Kate. Queria que ela tivesse uma vida confortável, feliz, com um homem que não quisesse fazer nada mais perigoso do que sair de casa para apanhar do chão o jornal da manhã. Durante toda a vida Elizabeth protegera Kate do perigo, da doença, da dor, mas receava que não seria capaz de a proteger de um coração destroçado. Kate tivera mais do que a sua conta disso quando o pai morrera E Elizabeth sabia que se Joe e Kate se apaixonassem não haveria maneira de proteger a filha. Ele era demasiado cativante e demasiado excitante. Até o seu ar reservado era apelativo, fazia uma pessoa querer tocar-lhe e ajudá-lo a saltar os muros que ele construíra à sua volta. E viu Kate fazer isso ao jantar. Ela esforçava-se por pô-lo à vontade e fazê-lo falar.

       Kate desejava descontraí-lo e ajudá-lo a sentir-se em casa. Nem se apercebia do que estava a fazer. E quando os observou, Elizabeth soube que o pior acontecera. Embora Kate ainda o desconhecesse, Liz adivinhou que a filha o amava. Não conseguia perceber era o que Joe sentia por ela. Atração com certeza, e dificuldade em resistir ao seu magnetismo, mas, para além disso, ninguém sabia, nem sequer o próprio Joe. Elizabeth teve a certeza de que ele tentava resistir ao que sentia por Kate, embora sem êxito.

       - Estás a ver? Eles são apenas amigos... eu bem te disse - murmurou Clarke pondo-lhe um braço sobre os ombros quando saíram da mesa do jantar. Era evidente que não via o mesmo que ela.

       - O que te leva a pensar isso? - perguntou ela com ar triste.

       - Olha para eles, falam como dois velhos amigos. Ele trata-a como uma criança durante a maior parte do tempo. Trata-a como uma irmã mais nova.

       - Acho que estão apaixonados um pelo outro - disse Elizabeth, deixando-se ficar momentaneamente para trás. Haviam tido um grupo simpático ao jantar, e Joe fora uma adição valiosa. Não era a conversa dele à mesa que a preocupava, mas sim as suas intenções para com Kate.

       - És uma romântica incurável, minha querida - disse Clarke, beijando-a.

       - Não, infelizmente não sou. Acho que estou a ser cínica, ou talvez apenas realista. Não quero que ele a magoe, e ele pode fazê-lo. E muito. Não quero que isso lhe aconteça.

       - Eu também não. O Joe não faria isso. É um cavalheiro.

       - Não tenho assim tanta certeza disso e, de qualquer forma, ele é um homem. E uma figura romântica. Acho que se sente tão intrigado como ela com ele, mas parece um homem magoado. Não gosta de falar da família e os pais morreram quando ele era bebê. Só Deus sabe o que lhe aconteceu na infância e que cicatrizes ficaram. E por que motivo é que ele ainda não casou?

       Eram perguntas normais para uma mãe, mas Clarke continuava a achar que ela estava desnecessariamente preocupada.

       - Tem andado muito ocupado - respondeu ele enquanto se dirigiam à sala de estar para junto dos convidados.

       Kate e Joe estavam sentados a um canto, embrenhados numa conversa e, ao observá-los, todas as dúvidas se desvaneceram na mente de Elizabeth. Nenhum deles reparava nas outras pessoas presentes e Joe tinha o ar de quem estaria disposto a morrer por ela, e ela por ele. Era demasiado tarde. Agora só restava a Elizabeth rezar.

       Na sexta-feira, depois do Dia de Ação de Graças, Joe fora buscar Kate a casa e passara a tarde com ela. Tinham ido dar um passeio no jardim de Boston e depois foram tomar chá ao Ritz. Kate manteve-o divertido durante todo o tempo com histórias sobre a viagem a Singapura e a Hong Kong e depois com as suas aventuras na Europa. As pessoas que já tinham voado com ele não o teriam reconhecido. Estava mais falador com ela do que alguma vez estivera na vida, e passaram a tarde inteira a rir

       Ele levou-a a jantar e depois foram ao cinema. Viram O Mundo a Seus Pés e adoraram. Era quase meia-noite quando a deixou em casa e Kate bocejou ao despedir-se.

       - Diverti-me muito - disse ela com um sorriso. Joe fitou-a com uma expressão radiante.

       - Eu também. - Kate pareceu querer dizer-lhe mais qualquer coisa, mas arrependeu-se.

       Pouco depois ela entrou em casa e encontrou a mãe no cimo das escadas. Tinha ido à cozinha verificar qualquer coisa.

       - Divertiste-te? - perguntou a mãe, tentando não parecer preocupada. Queria perguntar-lhe o que Joe havia dito, e feito, se a tinha beijado ou feito algo que não devia. Mas decidira seguir os conselhos do marido e não pressionar Kate

       - Diverti-me muito, mãe - respondeu Kate com um ar tranqüilo. Adorava estar com Joe, e nunca pensara ser possível gostar tanto de estar com alguém. Custava-lhe acreditar que era apenas a quarta vez que o via. Mas a troca de correspondência durante os últimos três meses havia-os aproximado muito. Sentiam-se velhos amigos e Kate nem dava pelos anos que os separavam. Ele costumava parecer-se mais com um miúdo que com um adulto.

       - E vais vê-lo amanhã? - Kate podia ter-lhe mentido, mas não quis, e assentiu. - Ele não vai levar-te a voar, pois não?

       - Claro que não - respondeu Kate. Ele não falara nisso durante todo o dia. E regressaria à Califórnia no domingo.

       A mãe deu-lhe as boas-noites e Kate dirigiu-se ao quarto com uma expressão pensativa. Tinha muito em que pensar, em especial para tentar perceber aquilo que sentia por Joe Ou talvez isso não fosse importante uma vez que ele nunca dera a entender que sentia por ela outra coisa que não amizade. Não houvera a mínima sugestão de romantismo, apenas a enorme atração que sentiam um pelo outro. Apesar disso, Kate estava convencida de que ele queria apenas ser seu amigo

       Na manhã seguinte Kate ia a caminho da cozinha para comer qualquer coisa quando ouviu o telefone tocar no vestíbulo. Era cedo, os pais ainda se encontravam a dormir, e estava uma manhã linda de outono. Pouco passava das oito e ela não imaginava quem estaria a telefonar àquela hora. Para sua surpresa, ouviu a voz de Joe do outro lado da linha,

       - Acordei-a? - perguntou preocupado e um pouco atrapalhado. Receara que fosse a mãe de Kate a atender o telefone e ficara aliviado por ter sido Kate

       - Não, já estava levantada. Ia comer qualquer coisa - disse ela. Tinha o roupão vestido. Tencionavam almoçar nesse dia, e ela julgava que Joe estava a ligar-lhe para lhe dizer a que horas iria buscá-la. No entanto, era um bocado cedo para ligar e ficou satisfeita por ter sido ela a atender o telefone. A mãe teria ficado bastante aborrecida.

       - Está um dia lindo, não está, - perguntou, parecendo estar a pensar noutra coisa. - Eu... eu tenho uma espécie de surpresa planejada para si... Acho que irá gostar muito ou pelo menos assim o espero. - Parecia um rapaz com uma bicicleta nova, e ela sorriu ao ouvi-lo.

       - Vai trazer-me a surpresa quando vier buscar-me? - Não fazia idéia do que era, mas pelo que dissera parecia uma coisa excitante.

       Joe hesitou antes de responder.

       - Estava a pensar em levá-la até à surpresa. É difícil levá-la até si. Parece-lhe bem, Kate? - Só queria que ela dissesse que sim. Significaria tudo para ele. Era um presente que queria imenso dar-lhe. O melhor e único presente de que dispunha. O pai dela talvez desconfiasse do que era, mas Kate não fazia a mínima idéia

       - Parece intrigante - comentou Kate com um grande sorriso, passando a mão pelo cabelo comprido vermelho-escuro. - Quando poderei vê-la? - Começava a pensar que talvez fosse um carro novo, mas não fazia sentido Joe comprar um carro na costa este se ainda vivia na Califórnia. No entanto, ouvia na voz dele o tipo de animação que os homens normalmente reservavam para as máquinas e os carros exóticos.

       - E se eu for buscá-la dentro de uma hora? - perguntou ofegante. - Consegue estar pronta?

       - Claro. - Não sabia se os pais já estariam levantados, mas podia deixar-lhes um bilhete, dizendo-lhes que saíra antes do previsto. A mãe já sabia que ela ia almoçar com Joe.

       - Vou buscá-la às nove... e Kate... vista roupa quente. - Ela perguntou a si mesma se iriam dar um passeio, mas, fosse o que fosse, garantiu-lhe que levaria um casaco forte.

       Uma hora mais tarde, aguardava à porta de casa com um casaco de lã e um cachecol quando Joe apareceu num táxi.

       - Está muito bonita - comentou com um sorriso. Ela calçara sapatos rasos e meias de lã, vestira uma saia de lã e uma camisola de caxemira que já tinha havia anos. E claro, um colar de pérolas. Era o tipo de roupa que costumava levar para as aulas.

       - Está suficientemente quente? - perguntou com uma expressão preocupada.

       Ela assentiu com uma gargalhada. Será que iriam patinar no gelo? Ouviu-o dizer ao motorista que os levasse a um subúrbio da cidade.

       - O que há lá? - perguntou com uma expressão de surpresa.

       - Já vai ver.

       Então, instintivamente, ela soube. Nem sequer lhe havia ocorrido que ele a fosse levar a ver o seu avião.

       Kate não fez perguntas e tagarelaram durante o caminho. Ele disse-lhe que gostara muito dos dois últimos dias e que queria fazer algo de especial por ela. E Kate percebeu que, Para ele, mostrar-lhe o avião era a melhor coisa que podia fazer. Já sabia pelas cartas que Joe tinha muito orgulho naquela máquina, que a desenhara ele próprio e que Charles Lindbergh o ajudara a construí-la. Só tinha pena que o pai não tivesse vindo também. E nem a mãe podia objetar a que fossem ver um avião. Pouco depois chegaram ao Aeródromo Hanscom, um pequeno aeroporto particular nos arredores de Boston. Havia vários hangares pequenos e uma pista estreita e comprida. Quando saíram do táxi, um pequeno Lockheed Vega vermelho ia a levantar vôo.

       Joe pagou ao motorista e fez lembrar um miúdo no Natal quando agarrou na mão de Kate e a conduziu para o hangar mais próximo. Entraram por uma porta lateral e ela ficou de boca aberta ao ver o pequeno avião a que ele dava palmadinhas com ar carinhoso e ao qual abriu a porta do cockpit

       Joe, é lindo. Kate não percebia nada de aviões e só andara nos aviões comerciais com os pais. Mas pela primeira vez sentiu um arrepio ao olhar para um avião por saber que Joe o tinha desenhado. Era uma bela máquina

       Ele ajudou-a a subir para o cockpit e passou meia hora a mostrar-lhe tudo e a explicar-lhe como funcionava. Nunca partilhara nada daquilo com uma neófita, e ficou surpreendido ao ver como ela apanhava rapidamente as coisas e como se mostrava entusiasmada. Kate ouvia avidamente todas as palavras e fixou quase tudo. Só confundiu dois mostradores, mas era um erro que muitos jovens pilotos cometiam quando andavam a aprender. Joe teve a sensação de que à sua volta se abriam portas e janelas quando falava com ela e pôde mostrar-lhe novas perspectivas de um mundo com que ela nunca sonhara. Partilhar tudo com Kate foi ainda mais excitante para Joe do que para ela. Adorou e o seu coração quase rebentava de alegria ao ver o olhar atento dela enquanto devorava todas as suas palavras e os pormenores mais ínfimos

       Passara uma hora quando se voltou para ela e lhe perguntou se gostaria de subir com ele uns minutos, para ver como é que o avião reagia fora do solo. Não tencionara levá-la a voar, mas ao reparar no seu interesse sentiu-se tentado e Kate não hesitou.

       - Agora. - Parecia tão perplexa e animada como ele. Era de fato a melhor prenda que Joe podia dar-lhe. Gostava de estar com ele junto ao pequeno avião. Apesar da sua timidez e do seu pouco à-vontade quando estava no solo, ao aproximar-se de um avião Joe parecia ser capaz de abrir as asas e voar. - Gostava muito, Joe podemos?

       Todos os avisos e admoestações da mãe foram prontamente esquecidos. Joe foi informar alguém do que tencionavam fazer e regressou com uma expressão satisfeita e um enorme sorriso.

       Tecnicamente, era um avião pequeno, mas mesmo assim tinha um tamanho respeitável e graças a alguns ajustamentos que Lindbergh o ajudara a fazer podia percorrer distâncias consideráveis. Ligou o motor à primeira e rolaram devagar até à abertura do hangar. Minutos depois avançavam pela pista, após Joe ter feito as verificações rotineiras e de lhas explicar à medida que as ia fazendo. Ia levá-la lá acima durante cinco minutos para ela experimentar e, quando levantaram vôo, lembrou-se de uma coisa.

       - Não costuma enjoar nos aviões, pois não, Kate? - Ela riu-se e abanou a cabeça. Joe não ficou admirado.

       Desconfiara que não era o tipo de rapariga que enjoava com facilidade, e ficou radiante. Se ela enjoasse o passeio ficaria estragado.

       - Nunca. Vai pôr-nos de cabeça para baixo? - perguntou ela com ar esperançado.

       Joe soltou uma gargalhada. Nunca se sentira tão próximo de alguém como naquele momento, a voar com ela. Parecia um sonho.

       - Espero que não. Acho que vamos guardar isso para a próxima, - respondeu enquanto ganhavam altitude.

       Joe e Kate tagarelaram durante os primeiros minutos, ignorando o som do motor, e depois instalou-se um silêncio agradável enquanto ela olhava em redor boquiaberta e o observava em silêncio. Joe era tudo o que ela sabia que ele ia ser, orgulhoso, calmo, forte, infinitamente capaz, com controle total da máquina que construíra e senhor dos céus em seu redor. Nunca na sua vida Kate conhecera alguém que parecesse tão poderoso, ou tão mágico. Parecia que ele nascera para fazer aquilo e estava certa de que nenhum outro homem vivo o poderia fazer melhor do que ele, nem sequer Charles Lindbergh. Se antes se sentira atraída por Joe, a partir do momento em que o viu voar tornou-se irresistível. Teria sido impossível não sentir aquilo. Ele era tudo o que sempre sonhara e admirara e personificava tudo o que a mãe não queria que ela visse nele. Era poder e força, liberdade e alegria. Assemelhava-se a uma ave orgulhosa a pairar sobre o campo, e quando aterraram uma hora mais tarde Kate só queria voltar a subir com ele. Nunca fora tão feliz em toda a sua vida, nem se divertira tanto, nem gostara tanto de alguém. Era como se tivessem estado destinados a passar juntos aquele preciso momento e ele criara instantaneamente um elo entre ambos.

       - Meu Deus, Joe, foi perfeito obrigada, - disse Kate quando ele parou o avião e desligou o motor.

       Voar era o que Joe sabia fazer de melhor e fora para isso que nascera. E partilhara-o com ela. Fora quase uma experiência religiosa profunda para ambos. Ele fitou-a com uma expressão tranqüila e ficou em silêncio durante um momento

       - Ainda bem que gostou, Kate, - disse, sabendo que teria ficado desiludido se ela não tivesse gostado. Mas gostara. E naquele momento ele sentiu desfazerem-se todas as barreiras entre os dois. Nunca estivera tão próximo de outro ser humano na vida.

       - Não gostei, Joe. Adorei, - retorquiu ela com solenidade. Estar no ar não só a fizera sentir-se mais próxima de Joe, como também de Deus.

       - Esperava que gostasse, Kate. Gostaria de aprender a voar?

       - Adoraria - respondeu com um brilho nos olhos. Só lhe apetecia voltar a voar com ele. - Muito obrigada... - Lembrou-se de algo. - Faça o que fizer, não conte à minha mãe. Ela matava-me... ou matava-o a si... ou provavelmente aos dois. Eu prometi-lhe que não voaria.

       No entanto, fora incapaz de se conter e também não o desejara. Havia sido uma experiência tocante, não só o vôo, mas também ver Joe no seu habitat natural. Percebeu naquele instante que ele era o homem mais excitante que ela iria conhecer. Não havia mais ninguém no mundo assim. A sua habilidade distanciava-o de todos os outros e o seu estilo tornava-o ainda mais atraente aos seus olhos. O que acabara de ver fora precisamente o que impressionara Charles Lindbergh I quando conhecera Joe ainda ele era um rapaz. Voar estava-lhe na alma. Nenhum dos dois ficara desapontado com aquela manhã, antes pelo contrário. Depois de ter desligado o motor, Joe virou-se e olhou para ela com orgulho.

       - É uma excelente co-piloto, Kate - elogiou. Ela soubera instintivamente o que perguntar, o que dizer e quando ficar em silêncio e saborear a alegria e a beleza do céu com ele. - Um destes dias, quando tivermos tempo, vou ensinar-lhe a voar. - Não só fazia com que pilotar parecesse uma coisa muito simples devido ao seu jeito inato, como também sabia explicar os rudimentos de uma forma que Kate compreendera. E ficara particularmente impressionado com o talento dela.

       - Quem dera podermos passar aqui o dia - observou quando ele a ajudou a descer, deixando Joe satisfeito.

       - Pois é. Mas a sua mãe exigiria a minha cabeça se desconfiasse que eu voei consigo durante uma hora. É mais seguro que conduzir um carro, mas creio que ela não concordaria.

       Sabiam ambos que assim era.

       Regressaram à cidade em silêncio e foram almoçar ao Union Oyster House. Assim que se sentaram, Kate não conseguiu falar noutra coisa que não no breve vôo, na perícia impressionante de Joe e na beleza do avião. Fora a maneira perfeita de ficar a conhecê-lo melhor. E assim que se viu no restaurante, Joe voltou a ser um homem calado e reservado. Era de fato como uma ave, num minuto a pairar sem esforço no céu, no outro a andar desajeitadamente no solo. Fora do avião parecia um homem diferente. Mas continuava a ser um piloto nato e o homem de enorme perícia que ela pressentira desde o início e que a atraía.

       Enquanto comiam, Kate contou-lhe histórias de Radcliffe e ele começou a descontrair-se. Kate tinha um jeito especial para o deixar à vontade e ele sentia-se ainda melhor agora que ela o vira no seu mundo. Fora o que sempre lhe quisera mostrar desde o início e agora pressentia que ela percebia não o quanto voar significava para si, mas quem ele era.

       E à medida que ela continuava a falar, Joe foi-se descontraindo e tornou a baixar as defesas. Era uma das muitas coisas que gostava nela; mesmo quando não era capaz, ela ajudava-o a abrir-se, por muito tímido que se sentisse. Era como baixar a ponte sobre o fosso e aceder ao castelo. Kate facilitava o processo, e Joe adorava.

       Havia tantas coisas de que gostava nela que por vezes se sentia assustado. Não sabia o que fazer a esse respeito. Kate era demasiado nova para se envolver com ele, e a família um pouco assustadora. Kate tinha pais razoáveis e atentos que não iriam permitir que algo lhe acontecesse nem tencionavam deixá-la ter demasiada liberdade. Joe não queria tirar nada a Kate. Só queria estar com ela e gozar da luz que irradiava e do calor que exsudava. Às vezes, sentado ao pé dela, sentia-se como um lagarto numa rocha, a absorver o sol. Fazia-o sentir-se feliz, quente e confortável. Mas mesmo esses sentimentos pareciam-lhe por vezes perigosos. Não queria tornar-se vulnerável. Depois seria muito fácil magoar-se. Não fazia uma análise fria da situação, mas no seu íntimo sabia que seria assim. Disse a si mesmo que se ela fosse mais velha as coisas poderiam ser diferentes. No entanto, Kate não era mais velha; tinha dezoito anos, ele trinta, e por muito que tivesse gostado de andar de avião com ela, aquilo não iria resultar. Apesar de toda a sua resistência, e dos muros que construíra em seu redor ao longo dos anos, os minutos que haviam passado a bordo do avião naquela manhã tinham sido mágicos para ambos.

       O último dia que estiveram juntos passou demasiado depressa. Regressaram a casa de Kate e jogaram às cartas na biblioteca. Joe ensinou-a a jogar aos dados. Ela revelou-se uma excelente jogadora e ganhou-lhe duas vezes, tendo ficado encantada. Bateu palmas e parecia uma criança a rir-se. E nessa noite ele levou-a a jantar fora. Haviam tido um fim-de-semana bastante agradável, e quando Joe se despediu, não fazia idéia de quando voltaria a vê-la. Tencionava regressar a Nova Iorque pelo Natal, mas ele e Charles Lindbergh tinham muito trabalho em mãos, estavam a desenhar um novo avião. Joe sabia que iria ser difícil roubar muito tempo a Charles. O seu mentor andava bastante ocupado a fazer discursos em manifestações do movimento América Primeiro. O próprio Joe também mal tinha tempo para se coçar. Pelo menos durante os dois ou três meses seguintes duvidava ter tempo de ir a Boston. E hesitou em pedir-lhe que o fosse visitar. Pedir-lhe isso seria já um pouco avançado e duvidava que os pais dela consentissem.

       Ela parecia mais calada do que habitualmente quando ele se despediu. Encontravam-se nos degraus no exterior da casa e, pela primeira vez em três dias, Joe parecia estranhamente pouco à vontade.

       - Cuide de si, Kate - disse a olhar para os sapatos. Kate sorriu. Queria tocar-lhe no queixo e obrigá-lo a olhar para si, mas não o fez. Sabia que se esperasse o tempo suficiente, ele voltaria a fitá-la. E foi o que aconteceu pouco depois.

       - Obrigada por me ter levado a voar - murmurou Kate. Era um segredo que partilhavam agora. - Faça boa viagem para a Califórnia. Quanto tempo irá demorar?

       - Cerca de dezoito horas, dependendo do tempo. Há uma tempestade sobre o Midwest, por isso posso ter de desviar para sul e sobrevoar o Texas. Ligo-lhe quando chegar.

       - Gostaria muito - sussurrou. O seu olhar estava repleto das coisas que não haviam dito um ao outro, coisas que ela ainda não sabia se entendia, e do elo que se formara entre ambos a bordo do avião. Kate continuava sem saber o que ele sentia por si, se é que sentia alguma coisa que não afeto fraternal. Tinha quase a certeza de que aquilo que o trouxera a Boston fora amizade. Ele não dera a entender mais nada, nem dava a entender naquele momento. Às vezes tratava-a como um pai. E, contudo, havia sempre uma contracorrente de algo mais sério e misterioso entre os dois. Kate não sabia se seria fruto da sua imaginação, ou se haveria mesmo algo mais que temiam. - Eu escrevo-lhe prometeu.

       Joe sabia que ela cumpriria a promessa. Adorava receber as suas cartas. A sua complexidade e a facilidade com que ela escrevia espantavam-no. Quase pareciam contos, e frequentemente comoviam-no ou faziam-no rir.

       - Vou tentar vê-la pelo Natal, mas eu e o Charles andamos muito ocupados - disse Joe e ela pensou que gostaria de se oferecer para ir ter com ele, embora não tenha ousado dizê-lo. Sabia que os pais ficariam muito aborrecidos. A mãe já andava preocupada por passar tanto tempo com ele no fim-de-semana de Ação de Graças, e até Joe já o pressentira.

       - Cuide de si, Joe. Voe com cuidado - disse Kate num tom de preocupação que o sensibilizou. Ela estava tão encantadora.

       - Você faça o mesmo e veja se não chumba! - brincou, e ela riu-se. E depois, dando-lhe uma palmadinha no ombro, abriu a porta de casa com a chave dela, desceu rapidamente os degraus e acenou-lhe do passeio. Parecia que queria fugir antes que fizesse algo que não devia. Ela sorriu ao entrar em casa e fechou a porta sem fazer barulho.

       Tinha passado três agradáveis dias com ele repletos de momentos de ternura, de à-vontade e de amizade E a experiência de voar com ele. Disse a si mesma, enquanto subia as escadas para o primeiro andar, que estava contente por tê-lo conhecido. Um dia contaria aos filhos essa experiência E não duvidava que os filhos não seriam dele. A vida de Joe já estava preenchida com aviões, vôos, vôos de ensaio e motores.! Nela não havia espaço para uma mulher, ou o que havia era muito pequeno, e certamente não para uma mulher e para filhos. Ele próprio lho havia dito em Cape Cod no final do verão, e repetira-o naquele fim-de-semana. As pessoas eram um sacrifício que ele estava disposto a fazer, para bem da sua paixão pelos aviões. Dispunha de pouco tempo para outra pessoa, dissera várias vezes, e ela constatara-o Mas, ao mesmo tempo, parte de si não aceitava isso nem acreditava. Como poderia ele estar disposto a desistir de uma família por causa dos aviões? Contudo, não lhe competia discutir isso, e sabia-o. Tinha de aceitar o que ele lhe dizia E disse a si mesma que independentemente do que sentia, ou daquilo que imaginava que ele sentia por si, tudo não passava de uma ilusão. Nada mais que um sonho. No domingo, antes de Kate regressar ao colégio, a mãe não disse nada a respeito de Joe. Decidira seguir o conselho do marido e esperar para ver o que acontecia. Talvez ele tivesse razão e Joe não voltasse a procurá-la. Talvez fosse apenas uma estranha amizade entre um homem adulto e uma jovem. Elizabeth assim o esperava. Mas por muito que tentasse acreditar no que Clarke dissera, não estava convencida. Depois de ter regressado ao colégio, Kate sentiu-se inquieta, embora não percebesse por que. As colegas foram chegando uma a uma e contaram o que haviam feito durante o fim-de-semana. Algumas tinham ido para casa de amigos, outras para junto da família. Kate conversou com as amigas, mas não falou a nenhuma da visita de Joe. Era muito difícil de explicar e ninguém acreditaria que não estava apaixonada. Ela própria não o poderia afirmar com convicção. Sally Tuttle foi quem por fim lhe perguntou quem era o homem que lhe ligara da Califórnia.

       - Ele estuda lá? É um antigo namorado? - Tinha curiosidade, mas Kate respondeu num tom neutro evitando o olhar dela.

       - Não, é só um amigo. Trabalha lá.

       Tinha uma voz agradável. Isso era dizer pouco, mas Kate limitou-se a assentir.

       - Eu apresento-te se ele vier a Boston - gracejou Kate, e em seguida foram preparar-se para as aulas do dia seguinte.

       Uma das raparigas regressou do fim-de-semana que passara com a família no Connecticut e anunciou que ficara noiva. Aquilo fez com que tudo o que Kate sentia, e insistia que não sentia, parecesse ainda mais estranho. Tinha um fraco por um homem doze anos mais velho que insistia que nunca se casaria. E nem sabia que Kate tinha um fraco por si. Era de fato ridículo. Quando se foi deitar nessa noite, Kate convencera-se de que estava a ser incrivelmente estúpida e, se não tivesse cuidado, aborrecê-lo-ia e perderia a sua amizade, e nunca mais a levaria a voar. E não queria que isso acontecesse. Ainda tinha esperança de que um dia ele a ensinasse a voar.

       Para sua surpresa, Joe telefonou no dia seguinte.

       Disse que tinha acabado de aterrar no aeroporto. O vôo fora difícil, tivera de parar três vezes para meter combustível, e atravessara duas tempestades de neve. Estivera retido no solo durante algum tempo, devido a granizo em Waynoka, Oklahoma. Kate achou que ele soava exausto, e a viagem levara-lhe vinte e duas horas.

       - Foi muito simpático da sua parte telefonar-me - disse, surpreendida e feliz. Não esperara voltar a ter notícias suas e ficou um pouco confusa, mas desconfiava que ele estava apenas a ser simpático. O que ele disse a seguir confirmou-o.

       - Não queria que você se preocupasse - retorquiu Joe num tom neutro e ligeiramente distante. - Como vai isso por aí?

       - Bem. - Na realidade, sentia-se triste desde que ele partira, e estava chateada consigo própria por causa disso. Não havia motivo para se sentir ligada a ele. Joe não a encorajara e nada fizera para a iludir. Mas tinha saudades suas à mesma, embora soubesse que não devia. Aos seus olhos, era como ter um fraco pelo governador, ou pelo presidente, ou por qualquer outra pessoa importante que estaria sempre longe do seu alcance. A única diferença era que ela e Joe eram amigos, e gostava tanto da sua companhia que era difícil não se deixar levar pelo prazer de estar com ele. Para além do mais, vira um lado seu que poucas pessoas viam, lá em cima no céu. Não fazia idéia da importância que isso também tivera para ele.

       - Mal posso esperar pelas férias do Natal, - exclamou, fingindo que a sua animação era devida às férias e não ao fato de ele se mudar de novo para este, a fim de trabalhar com Charles Lindbergh. Agradava-lhe saber que estaria mais próximo. Perguntou a si mesma se os pais a deixariam ir a Nova Iorque vê-lo, talvez acompanhada por uma das suas amigas. Mas não comentou isso com Joe. Sabia instintivamente que, se o tivesse feito, ele teria ficado assustado.

       - Telefono-lhe daqui a uns dias - disse ele com uma voz cansada. Estava desejoso de se meter na cama depois do vôo de vinte e duas horas que atravessara o país.

       - Isso não fica muito caro? Talvez devêssemos cingir-nos às cartas.

       - Eu ligo-lhe de vez em quando - retorquiu ele com cautela, - a menos que você prefira que eu não o faça. - Parecia prestes a distanciar-se, não tão descontraído como estivera no fim-de-semana. O seu acanhamento parecia mais pronunciado ao telefone. Ligar-lhe era um grande passo para ele.

       - Não, claro que quero que me ligue! - exclamou Kate muito depressa. - Só não quero que gaste muito dinheiro por minha causa.

       - Não se preocupe com isso. - Os telefonemas eram, afinal de contas, mais baratos do que os jantares. Levara-a a bons restaurantes, o que para ele era raro. Raríssimo. Poupava todos os cêntimos que ganhava para o desenvolvimento de novos motores e de novos aviões. Mas quisera fazer algo de especial por Kate. Ela merecia-o. - Kate? - perguntou com voz rouca.

       Ela esperou, mas Joe nada mais disse até ela responder. Parecia que queria ter a certeza de que ela ainda ali estava antes de se aventurar.

       - Sim? - Disse por fim, ligeiramente ofegante, sem saber o que esperar.

       - Vai continuar a escrever-me? Adoro as suas cartas.

       Ela sorriu, sem saber se devia sentir-se desiludida ou aliviada. Ele parecera tão sério ao dizer o nome dela que, por momentos, ficara preocupada. Dava a sensação de que quisera dizer-lhe algo muito importante. E para ele era, embora não fosse o que Kate esperara ou desejara.

       - Claro que sim - respondeu. - Mas na semana que vem tenho exames.

       - Eu também - retorquiu ele com uma gargalhada. Tinha vôos de ensaio marcados para toda a semana. Alguns iriam ser bastante perigosos, mas queria fazê-los antes de se ir embora da Califórnia, embora não o revelasse a Kate. - Vou andar muito ocupado durante as próximas semanas, mas ligo-lhe quando puder.

       Pouco depois desligou e Kate regressou ao quarto para estudar, tentando não pensar muito nele.

       Durante todo o fim-de-semana uma coisa não lhe saíra da cabeça. Não dissera nada a Joe, mas os pais andavam a planejar uma grande festa no Copley Plaza para ela antes do Natal. Kate iria ser apresentada no baile das debutantes e a sua própria festa seria linda, embora não tão deslumbrante como aquela em que conhecera Joe. Não ousara aflorar ainda o assunto, mas tencionava perguntar aos pais se podia convidá-lo. Não sabia se ele iria, mas pelo menos queria convidá-lo. Sabia que se divertiria muito mais com ele por perto, no entanto a mãe mostrara-se tão nervosa a respeito de Joe que Kate não queria insistir. Ainda havia tempo. A festa teria lugar apenas dali a três semanas e Joe ainda estava na Califórnia.

       Kate tinha a certeza de que quando ele regressasse a sua agenda social ainda não estaria preenchida.

       Passados oito dias, estava Kate a falar ao telefone com a mãe à hora de almoço acerca do baile e de algumas dúvidas, quando uma das suas colegas apareceu no corredor a chorar. Kate teve a certeza de que lhe acontecera qualquer coisa terrível, talvez más notícias de casa, se calhar a morte de um dos pais. Como continuava a ouvir a mãe, Kate não percebeu o que a colega disse. Liz tinha uma longa lista de perguntas sobre bolos e entradas e sobre a dimensão exata da pista de dança. O vestido de Kate estava pronto desde outubro. Tinha um corpete simples de cetim e uma saia de tule. Sobre os ombros haveria mais tule branco, através do qual se veria o corpete brilhante. Iria usar o cabelo apanhado como as bailarinas dos quadros de Degas. Como dissera a costureira, ao admirar Kate, só lhe faltavam os sapatos de ballet. A sua cabeça estava cheia de pormenores fúteis quando começou a ouvir pessoas aos gritos. Um grupo de raparigas preparara-se para ir almoçar fora quando a inexplicável gritaria começara

       - O que é que disseste, mãe, - perguntou Kate. Havia tanto barulho à sua volta que ela não conseguira ouvir.

       - Disse... oh, meu Deus... o quê?... tens a certeza, Clarke?...

       Ouviu a mãe começar a chorar e não percebeu o que tinha acontecido

       - Aconteceu alguma coisa ao pai? Mãe, o que é que se passa. - O seu coração começou a bater muito depressa. Olhou em volta e reparou que várias raparigas choravam também. Percebeu então que não fora nada com o pai, mas que algo de terrível acontecera. - Mãe, o que é que se passa?

       - Sabes. O teu pai estava a ouvir rádio. - Clarke encontrava-se de pé na cozinha com ar descrente e contava-lhe uma coisa incrível. O país inteiro estava tão chocado como eles. - Pearl Harbor foi bombardeado pelos japoneses há meia hora. Vários navios foram afundados e muitos homens foram mortos e feridos. Meu Deus, isto é horrível!

       Quando Kate olhou do corredor para os outros quartos, notou que toda a casa estava num caos. Ouviu rádios em todas as assoalhadas e o som contínuo de choro. Muitas raparigas perceberam que os seus pais, irmãos, noivos e namorados estavam subitamente em perigo. Não havia qualquer possibilidade de a América continuar fora da guerra. Os Japoneses haviam-na trazido até à sua porta e, apesar de todas as suas promessas anteriores, o presidente Roosevelt iria ter de tomar uma medida drástica. Kate desligou rapidamente o telefone e regressou ao quarto para ouvir o que diziam as colegas sobre as notícias.

       Estavam todas sentadas em silêncio, as lágrimas a correrem-lhes pela cara enquanto escutavam as notícias na rádio. Uma das raparigas era do Havaí, e Kate sabia que havia duas japonesas no andar de cima. Nem sequer conseguia imaginar o que elas deveriam estar a sentir, encurraladas num país estrangeiro, tão longe de casa

       Já era noite quando voltou a telefonar à mãe e tinham todos passado o dia a ouvir rádio. Era fácil de acreditar que dali a muito pouco tempo os jovens da nação seriam enviados para longe, para muito longe, a fim de combater esta guerra. E só Deus sabia quantos deles iriam sobreviver.

       A primeira coisa que ocorreu aos Jamison quando ouviram as notícias foi que, felizmente, não tinham um filho. Nas cidades e vilas e aldeias, por toda a parte os rapazes começavam a dar-se conta de que teriam de abandonar as famílias para defender o seu país. Todos temiam que os Japoneses voltassem a atacar. Receavam que o ataque seguinte fosse na Califórnia e nessa zona começava a espalhar-se o medo.

       O major-general Joseph Stilwell entrara rapidamente em ação e estava a fazer-se tudo o que era possível para proteger as cidades da costa oeste. Foram construídos abrigos antiaéreos, e o pessoal médico começava a ser organizado. Reinava um estado geral de pânico controlado. Até em Boston as pessoas estavam assustadas. Os pais de Kate pediram-lhe que fosse para casa, e ela respondeu-lhes que iria no dia seguinte, mas preferia esperar para saber o que lhes diriam no colégio. Não queria ir-se embora sem mais nem menos

       Afinal, as aulas foram canceladas e as raparigas mandadas para casa até depois das férias de Natal. Todos estavam desesperados para regressarem ao local onde viviam e estar com as famílias E quando Kate estava a fazer a mala na manhã a seguir ao ataque, Joe telefonou-lhe. Levara várias horas a conseguir a ligação, porque todas as linhas estavam ocupadas. Todas as raparigas haviam querido telefonar para casa. Nessa altura os Estados Unidos já tinham declarado guerra ao Japão. O Japão tinha declarado guerra dos Estados Unidos e à Grã-Bretanha, que, por sua vez, declarara guerra ao Japão

       - Não são notícias muito boas, pois não, Kate? - perguntou Joe com uma voz surpreendentemente calma. Não queria alarmá-la mais do que ela já estava

       - São horríveis. O que está a acontecer aí? - Joe encontrava-se bastante mais perto do Havaí

       - Aquilo a que alguém chamou pânico discreto. Ninguém quer admitir abertamente que está aterrado, mas estão-no todos, e talvez com razão. Fala-se em mandar para campos os japoneses dos estados ocidentais. Nem imagino o que irão fazer na Califórnia. Essas pessoas tinham empregos, vidas e casas. Não podiam abandoná-los sem mais nem menos

       - E você, Joe? - perguntou Kate preocupada. Ele já fora várias vezes a Inglaterra aconselhar a RAF durante os últimos dois anos, e era fácil imaginar o que iria suceder em seguida. Com a América a entrar igualmente na guerra na Europa, o mais provável era que o enviassem para lá E se não, ver-se-ia envolvido na guerra contra o Japão. De uma forma ou de outra, seria enviado algures para pilotar aviões. Era exatamente o tipo de homem que eles desejavam e não era difícil de localizar.

       - Amanhã vou para este. Não posso concluir o meu trabalho aqui. Querem-me em Washington o mais depressa possível. Só depois me darão as minhas ordens. - Recebera um telefonema do Ministério de Guerra e Kate tinha razão, ele iria partir rapidamente. - Não sei quanto tempo vou lá estar. Se puder, vou tentar ir a Boston para vê-la antes de partir, se me derem tempo. Se não… - Calou-se. Tudo ficava no ar. Não só para eles, mas também para todo o país. Uma nação de homens estava prestes a ser enviada para a guerra.

       - Eu podia encontrar-me consigo em Washington para me despedir - sugeriu ela, percebendo que já não lhe importava o que os pais poderiam pensar. Se ia partir, ela queria vê-lo. Não pensava em mais nada enquanto o escutava, e tentou controlar o pânico. Imaginá-lo na guerra enchia-a de temor.

       - Não faça nada até eu lhe ligar. Podem mandar-me para Nova Iorque durante uns dias. Depende se quiserem que eu treine lá antes de partir ou que parta para Inglaterra logo de Washington e treine lá. - Já desconfiava que iria para lá. A única dúvida era quando. - Prefiro ir para a Inglaterra do que para o Japão. - Tinham falado com ele acerca disso nessa manhã pelo telefone e ele dissera que iria para onde fosse mandado.

       - Quem dera que não tivesse de partir - disse ela com tristeza.

       Pensou em todos os rapazes que conhecia, aqueles com quem crescera e andara na escola, e nas raparigas que eram suas irmãs, namoradas e mulheres. Era devastador para toda a gente, e várias amigas de Kate já tinham casado e começado a criar as famílias. A vida de muita gente seria dilacerada, não só a dela, a de Joe e das pessoas que conheciam, mas a vida de toda a gente do país. Não podiam fingir não pensar que muitos deles não voltariam a casa. Parecia que uma mortalha cobria tudo naquele momento. As pessoas falavam, murmuravam e choravam, e todos temiam o que iria acontecer em seguida. Falava-se que todas as cidades da costa este iriam ser atacadas por submarinos alemães. Ninguém no país se sentia em segurança depois de terem ouvido as notícias sobre o ataque ao Havaí.

       - Não entre em pânico, Kate. Vai ficar no colégio ou regressar a casa dos seus pais? - Queria saber onde poderia encontrá-la. Talvez lhe restassem apenas algumas horas até Partir. Se assim fosse, queria saber onde ela iria estar para o caso de poder vê-la. Podia igualmente não dispor de tempo, mas esperava poder estar pelo menos uns minutos com ela.

       - Vou para casa dos meus pais esta tarde. Estamos dispensadas das aulas até depois das férias do Natal. - Um Natal que iria ser bastante triste.

       - Vou arrancar para este dentro de umas horas, para o caso de apanhar muito mau tempo. Tenho de estar em Washington amanhã. Detesto ser obrigado a deixar as coisas aqui a meio. - Mas não dispunha de alternativa. Era o que o país inteiro estava a fazer. Por toda a parte os homens largavam tudo e partiam para a guerra

       - O tempo está bom para você partir? - Ela soava ainda mais preocupada.

       Ele queria prometer-lhe que tudo iria correr bem, mas não pôde. No entanto, falar com Joe fê-la sentir-se melhor! Era um homem sólido, razoável e calmo. Parecia não ter sido contagiado pela histeria dos outros. Assemelhava-se a uma ilha de acalmia num mar tormentoso.

       - O tempo aqui está ótimo - respondeu ele. - Não sei é como estará à medida que nos dirigirmos para este. - Iria levar dois outros homens a bordo. - Agora tenho de ir para casa fazer as malas, Kate. Partimos daqui a duas horas. Telefono-lhe quando puder.

       - Vou estar em casa à espera. - Não valia a pena continuar com joguinhos. Todos os seus esforços e sentidos estavam determinados a voltar a vê-lo antes de ele ser mandado para longe. Chegara a altura de deixar de fingir que não se importava. Importava-se e muito.

       As raparigas despediram-se banhadas em lágrimas e partiram uma a uma rumo às suas casas, algumas bastante longe. A rapariga do Havaí iria para casa de uma amiga na Califórnia, mas os pais não queriam que ela regressasse a Honolulu, não fossem os Japoneses voltar a atacar. Milhares de homens tinham morrido ou ficado feridos em Pearl Harbor, juntamente com muitos civis.

       As raparigas do Japão tiveram de se apresentar no consulado japonês em Boston. Estavam ainda mais assustadas que as outras e não faziam idéia do que poderia acontecer-lhes. Não tinham maneira de contatar os pais e não sabiam nem quando nem como conseguiriam regressar a casa.

       Kate chegou a casa ao fim da tarde e os pais já a aguardavam. Pareciam assustados e tensos. O rádio continuava ligado e toda a gente sabia que era apenas uma questão de horas ou dias até as tropas americanas começarem a combater.

       - Tiveste notícias do Joe? - perguntou o pai quando ela pousou a mala no chão do vestíbulo. Mandara um motorista ajudá-la com as bagagens. Não quisera deixar a mulher. Elizabeth estava muito pálida e nervosa. Clarke ficou impressionado com a compostura de Kate. Parecia surpreendentemente calma.

       - Ele chega amanhã a Washington. Ainda não sabe para onde vão mandá-lo. - O pai assentiu e a mãe fitou-a com uma expressão preocupada, mas não fez comentários. Kate e Joe pareciam comunicar com uma freqüência alarmante, mas tinha de admitir que aquelas circunstâncias não eram normais. Liz não pôde deixar de perguntar a si mesma quantas vezes teria ele telefonado antes à filha.

       Jantaram na cozinha com o rádio ligado e ninguém disse uma palavra. A comida arrefeceu nos pratos e Kate acabou por ajudar a mãe a levantar a mesa e a limpar os pratos ainda cheios para o caixote do lixo.

       Foi uma longa noite para Kate, deitada na cama, a pensar em Joe e a perguntar-se até onde já teria ele chegado e se conseguiria vê-lo antes de o mandarem embora.

       - Era quase meio-dia quando ele lhe telefonou. - Acabara de aterrar em Washington, no Aeroporto Boiling Field.

       - Só queria que soubesse que cheguei bem. - Kate ficou aliviada ao ouvi-lo, mas nenhum deles foi capaz de explicar por que motivo sentira ele necessidade de lhe telefonar. Aquilo era definitivamente mais do que amizade, mas nem um nem outro queriam falar disso. Não tiveram de o fazer, nem de o admitir. Era evidente que ele se sentia ligado a ela de uma forma silenciosa e secreta que nenhum estava na disposição de reconhecer com palavras. - Agora vou para o Ministério de Guerra. Ligo-lhe mais tarde, Kate.

       - Aqui estarei. - Joe mantinha-a a par de todos os seus movimentos. O telefone tocou quatro horas mais tarde. Ele estivera em reunião toda a tarde e já sabia qual seria a sua missão. Fora feito capitão da Força Aérea e voaria em bombardeiros com a RAF. Dali a dois dias partiria para Londres de Nova Iorque. Faria o treino em Inglaterra, onde aprenderia a voar em formação. Já o havia feito em festivais aéreos e era bastante bom nisso. Nessa tarde o presidente Roosevelt anunciou à nação que a América entrara oficialmente na guerra da Europa.

       - É isso, miúda. Vou-me embora daqui a dois dias, mas vou para um sítio bastante razoável.

       Iria para East Anglia e já lá estivera antes a visitar a RAF. Dali a duas semanas esperavam que ele executasse missões com outros pilotos. Pensar nisso apavorava Kate, especialmente depois de ter percebido que assim que os Alemães soubessem que ele se juntara ao esforço de guerra dos Aliados andariam atrás dele. Com a sua reputação de ás dos ares era o tipo de piloto que eles haveriam de querer eliminar e ela sabia que eles fariam tudo para o abater. Corria bastante mais perigo que os outros e saber isso revolvia-lhe o estômago. Era insuportável pensar nele ausente durante sabia Deus quanto tempo e em constante perigo. Nem conseguia imaginar como iria conseguir viver sabendo isso, sem ter notícias dele. Iria ser impossível que Joe lhe telefonasse. Mas ainda tinham dois dias, ou pelo menos as horas que pudesse estar com ela. Já haviam decidido que Joe passaria com Kate o máximo de tempo possível até ir para a Europa. Dali a algumas horas, tudo entre ambos se teria alterado. A pretensa amizade já começara a desaparecer e a relação principiara a evoluir para outra coisa.

       Joe tinha ainda de ir buscar fardas e mais papelada e só no dia seguinte conseguiria sair de Washington. Partiria dali a dois dias às seis da manhã Para ter a certeza de que não perdia o vôo, era necessário estar em Nova Iorque à meia-noite. Eram dez da manhã quando ele pilotou o avião de Washington para Boston e aterrou à uma da tarde. O seu vôo para Nova Iorque era às dez da noite. Dispunham exatamente de nove horas para estarem juntos. Jovens casais por todo o país enfrentavam o mesmo dilema. Alguns casaram-se durante o pouco tempo que lhes restava, outros rumaram a hotéis para procurarem uns nos outros todo o consolo possível. Outros ficaram sentados nas estações de comboio, ou nos cafés, ou em bancos de jardim ao frio. Queriam apenas partilhar os últimos momentos de liberdade e de paz e abraçar-se. E ao pensar neles, a mãe de Kate sentiu ainda mais pena das mães que se despediam dos filhos. Não imaginava nada pior.

       Kate estava à espera de Joe quando este aterrou no Aeroporto Este de Boston. Saiu do avião com um ar sério e muito aprumado na farda nova que lhe assentava como uma luva. Estava ainda mais bonito do que no fim-de-semana de Ação de Graças E sorriu quando atravessou a pista na direção dela. Parecia despreocupado e, quando se aproximou, pôs-lhe um braço sobre os ombros.

       - Está tudo bem, Kate. Descontraia-se. Vai correr tudo bem. - Percebeu de imediato que ela estava apavorada por sua causa. - Serei um dos tipos que sabe o que está a fazer lá. Voar é voar.

       Kate lembrou-se do extraordinário à-vontade e da perícia que ele demonstrara a pilotar havia duas semanas. No entanto, sabiam que normalmente, quando ele voava, não havia ninguém a tentar alvejá-lo. Apesar do que ele dizia para a acalmar, as coisas iriam ser muito diferentes.

       - O que vamos fazer hoje? - perguntou Joe como se fosse um dia normal e não tivessem de se despedir dali a menos de nove horas. Por todo o país, inúmeros casais também passavam juntos as últimas horas.

       - Quer ir até minha casa? - perguntou com uma expressão vaga. Era difícil concentrar-se e fingir que não ouvia o tique-taque do relógio. Os minutos escoavam-se e, quase antes de ter começado, o último dia que tinham para estar juntos chegaria ao fim e Joe partiria. Kate sentiu um arrepio de medo ao pensar nisso. Não tinha consciência de tal, mas nunca se sentira tão assustada desde que o pai morrera.

       - Porque não vamos almoçar fora? Podemos ir depois para casa. Quero despedir-me dos seus pais.

       Kate achou que era uma atitude muito respeitosa. E até a sua mãe deixara de se preocupar com as intenções dele. Fosse qual fosse a sua opinião acerca de Joe, guardava-a para si, e Kate estava-lhe grata. Todos tinham pena dele e de milhões de outros jovens como ele

       Joe levou-a a almoçar ao Locke-Ober mas, apesar da sala elegante e da excelente comida, Kate não conseguiu comer. Os seus pensamentos não estavam no presente, mas sim dali a algumas horas, no momento da partida. O esforço para terem uma refeição civilizada foi desperdiçado nela. Foram para casa dos pais às três da tarde. A mãe encontrava-se sentada na sala de estar a ouvir rádio, como era seu hábito nos últimos dias, e o pai ainda não regressara do trabalho

       Sentaram-se e conversaram com ela durante algum tempo, ouviram as notícias e, às quatro horas, o pai de Kate chegou e apertou a mão a Joe enquanto lhe dava palmadinhas no ombro com ar paternal. Os seus olhos pareciam dizer tudo e nenhum dos dois encontrou palavras para exprimir os sentimentos. Pouco depois, Clarke levou Elizabeth para o primeiro andar, a fim de deixar os jovens sozinhos. Clarke sentia que tinham os dois muito em que pensar sem terem de se incomodar a fazer sala com eles. Kate e Joe ficaram-lhes gratos por poderem estar sozinhos. Estava fora de questão levá-lo para o seu quarto só para ficarem à vontade e conversarem. Por muito bem que se comportassem, a mãe teria ficado chocada, pelo que Kate nem tentou sugeri-lo. Assim, ficaram calmamente sentados no sofá da sala de estar a conversar e a tentarem não pensar nos minutos que voavam.

       - Eu escrevo-lhe, Kate. Todos os dias, se puder - prometeu Joe. Havia uma miríade de coisas no seu olhar e ele parecia perturbado. Mas não quis revelar os seus pensamentos e ela teve receio de fazer perguntas. Ainda não sabia o que ele sentia a seu respeito, se tinham apenas ficado bons amigos ou se havia mais qualquer coisa. Percebia muito melhor o que sentia por ele. Concluiu que estava apaixonada havia meses, mas não ousou dizer-lho. Acontecera algures durante a troca de correspondência após setembro e, vê-lo no fim-de-semana de Ação de Graças viera confirmá-lo. Desde essa altura que tentava combater o sentimento. Não fazia idéia se Joe sentia a mesma coisa e teria sido incorreto perguntar-lho. Nem ela, com toda a sua coragem, ousara fazer isso. Tinha de continuar com base no que sabia e sentia e dar-se por contente por ele, fosse qual fosse o motivo, ter querido passar aquelas últimas horas consigo. Contudo, lembrou-se de que ele não tinha mais ninguém Para além dos primos que já não via há anos, não tinha mais familiares, nem uma namorada. A única pessoa que parecia ser importante para ele era Charles Lindbergh. De resto, estava sozinho no mundo. E quisera estar com ela.

       Ocorreu-lhe que ele não precisara de vir a Boston. Só o fizera porque quisera vê-la e contatara-a amiúde desde o ataque a Pearl Harbor.

       Kate contou-lhe que os pais tinham cancelado a festa que tencionavam dar. Ainda não lhe havia falado nela, mas tencionara fazê-lo. Não quisera parecer demasiado ansiosa, mas isso era irrelevante naquele momento. Os três Jamison haviam concordado que teria sido uma enorme falta de gosto dar uma grande festa, e provavelmente haveria muito poucos rapazes presentes. O pai prometera dar a festa depois da guerra.

       - Agora já não importa - disse Kate, e Joe assentiu.

       - Iria ser como a festa em que nos conhecemos o ano passado? - perguntou ele com interesse. Era um bom tópico para distraí-la. Kate estava tão triste que ele se comoveu. Concluiu que tivera uma sorte enorme ao conhecê-la. Estivera quase para não ir ao baile com Charles Lindbergh, mas estava predestinado a conhecer Kate.

       Esta sorriu ao ouvir a pergunta.

       - Nada tão elegante. - Teria lugar no Copley e contaria com cerca de duzentos convidados. No baile em que se haviam conhecido tinham estado setecentas pessoas, com caviar e champanhe suficientes para alimentar uma aldeia durante um ano. Ainda bem que os meus pais a cancelaram. A única coisa em que conseguia pensar era na partida de Joe para Inglaterra, onde arriscaria a vida todos os dias. Ela já se oferecera como voluntária para a Cruz Vermelha, para o que fosse necessário fazer nas semanas seguintes. Elizabeth fizera o mesmo.

       - Vai voltar às aulas, não vai? - perguntou Joe, e ela assentiu.

       Ficaram sentados durante horas a conversar e, passado algum tempo, a mãe levou-lhes dois pratos com comida. Não pediu aos jovens para lhes fazerem companhia na cozinha. Clarke achava que eles deviam ficar sozinhos e, ainda que contrariada, Elizabeth acabou por concordar. Queria facilitar ao máximo as coisas para os jovens. Já havia angústia suficiente nas suas vidas sem terem de suportar mais fardos sociais. Joe levantou-se e agradeceu-lhe a comida. No entanto, mal tocaram nos pratos e, por fim, ele virou-se para Kate, pousou os pratos na mesa e pegou-lhe na mão. Os olhos dela encheram-se de lágrimas.

       - Não chore, Kate, - murmurou. Sempre tivera dificuldade em lidar com as lágrimas femininas, mas naquela situação não a censurava. Havia lágrimas a serem derramadas em salas por toda a América. - Eu fico bem. Tenho nove vidas, desde que esteja num avião. - Escapara por um triz a acidentes incríveis nos últimos anos

       - E se precisar de dez? - perguntou, as lágrimas a rolarem-lhe pela cara. Quisera mostrar-se muito corajosa, mas não fora capaz. Não suportava pensar que algo poderia acontecer a Joe. Elizabeth não se enganara. Kate estava apaixonada por ele

       - Terei vinte vidas se precisar delas. Pode contar com isso - tranqüilizou ele, embora ambos tivessem consciência de que era uma promessa que poderia não ser capaz de cumprir. Fora por isso que não fizera nenhuma idiotice com ela antes de se ir embora.

       Joe não tencionava deixar uma viúva de dezoito anos. Ela merecia sorte melhor e, se ele não pudesse dar-lha, alguém o faria. queria deixá-la a sentir-se livre para fazer o que quisesse na sua ausência. Mas Kate só conseguia pensar em Joe. Era demasiado tarde para se salvar. Estava mais ligada a ele do que qualquer um dos dois planejara. Então, com o braço de Joe sobre os ombros, Kate virou-se para ele e disse-lhe que o amava. Fitou-a em silêncio, cheio de sofrimento. Havia tanta dor nos olhos dela. Não fazia idéia do que sofrera em criança. Kate nunca falara a ninguém do suicídio do pai e, tanto quanto Joe sabia, o único pai que Kate tivera era Clarke. A perda que estava prestes a sentir avivou as mágoas do passado e dificultou a Kate a tarefa de suportar a partida de Joe para a guerra.

       - Não queria que dissesse isso, Kate - respondeu Joe com ar infeliz. Tentara tanto reprimir o amor dela e o seu. Não queria dizer-lhe isso. - Não quero que se sinta presa se alguma coisa acontecer. A Kate significa muito para mim desde o dia em que a conheci. Nunca tinha conhecido uma pessoa assim. Mas não seria justo obrigá-la a fazer-me uma promessa, esperar alguma coisa de si ou pedir-lhe que espere por mim. Há sempre a possibilidade de eu não regressar e não quero que sinta que me deve algo. Não me deve nada. Quero que se sinta livre para fazer o que quiser na minha ausência. O que sentimos um pelo outro, com ou sem palavras, foi muito importante para mim e levarei essa recordação comigo. - Puxou-a para si e apertou-a com tanta força que ela sentiu o coração dele bater, mas não a beijou. Kate ficou ligeiramente desapontada. Queria que ele dissesse que a amava. Aquela podia ser a última oportunidade para ambos, pelo menos durante bastante tempo, ou pior ainda, a única que alguma vez teriam.

       - Amo-o mesmo, - disse ela de forma clara e simples. Quero que o saiba para que o possa levar consigo. Não quero que tenha dúvidas acerca disso quando estiver sentado lá nas trincheiras.

       Ele ergueu uma sobrancelha.

       - Trincheiras? Isso é para a infantaria. Eu andarei a voar bem alto e a disparar contra os Alemães. E à noite dormirei na minha cama quente. Não vai ser tão mau como você julga, Kate. Sê-lo-á para algumas pessoas, mas não para mim. Os pilotos dos caças são um grupo de elite, - tranqüilizou ele. E para além de Lindbergh, Joe era o máximo da elite, o que pelo menos para ele era um alívio.

       O tempo passou rapidamente e, quando deram por isso, eram horas de ir para o aeroporto. Estava uma noite fria e sem nuvens e Joe levou Kate no táxi até ao aeroporto. O pai dela oferecera-se para os levar, mas Joe preferira apanhar um táxi E Kate queria estar sozinha com ele.

       Havia muita gente junto ao aeroporto e inúmeros rapazes fardados. Até Kate os achava com cara de bebês. Eram rapazes de dezoito e dezenove anos e mal pareciam ter idade para abandonar as mães. Alguns deles nunca regressariam a casa.

       Os últimos minutos que passaram juntos foram dolorosos. Kate tentava conter as lágrimas sem êxito e até Joe parecia tenso. Era uma situação de grande emotividade. Não sabiam se voltariam a ver-se, ou quanto A guerra poderia durar anos, e Kate só poderia ter esperança de que isso não acontecesse. Foi um alívio quando o chamaram para o avião. Nada mais tinham a dizer e ela começava a agarrá-lo desesperada. Não queria que ele partisse, não queria que nada lhe acontecesse, não queria perder o único homem que amara.

       - Amo-o, - sussurrou Kate de novo

       Joe pareceu constrangido. Não era aquilo que tinha em mente quando quisera ir passar o dia com ela. Julgara que havia um pato silencioso para não dizerem um ao outro aquelas coisas, mas ela não estava a cumpri-lo. Não era capaz. Não podia deixá-lo partir sem lhe dizer que o amava. Na sua opinião, tinha direito a saber. Não percebia era que para ele as coisas tinham ficado muito mais difíceis depois de o dizer. Até essa altura, fossem quais fossem os sentimentos dele, ou quão intensa a atração, conseguira iludir-se dizendo a si mesmo que eram apenas amigos. Mas agora não podia ignorar que eram mais do que isso, por muito que tentasse fingir o contrário.

       As palavras dela foram a sua última dádiva, a única coisa que podia dar-lhe com valor. E trouxe-os à realidade. Por segundos, ele pressentiu a sua própria vulnerabilidade e ocorreu-lhe que poderia nunca mais voltar ali. Ao olhar para ela sentiu-se grato por todos os momentos que haviam partilhado. Sabia que nunca conheceria outra mulher como ela, com tanta vida, alegria e excitação, e fosse para onde fosse, ou qual o seu destino, iria sempre recordá-la. A única coisa que lhes restava antes de se afastarem era aquele último momento

       E quando chamaram pela última vez os passageiros para o seu vôo, Joe inclinou-se e beijou-a, abraçando-a. Era demasiado tarde para parar a corrente. Andara a iludir-se, sabia-o, ao pensar que poderia parar a corrente ou invertê-la. O que sentiam um pelo outro era tão inevitável como a passagem do tempo. Acontecera-lhes algo e sabiam, sem promessas ou palavras, que era algo muito raro e que não teriam sido capazes de mudar nem voltariam a encontrar.

       - Toma cuidado contigo - murmurou ele com voz rouca - Amo-te, tornou ela a dizer, olhando-o nos olhos, e ele assentiu, incapaz de dizer as palavras, apesar do que sentia por ela. Havia trinta anos que fugia das palavras que descreviam os sentimentos

       Abraçou-a e tornou a beijá-la e depois soube que era necessário partir. Tinha de embarcar. Reuniu todas as suas forças e afastou-se de Kate, detendo-se por um instante junto à porta de embarque. Ela continuava a olhar para ele e as lágrimas corriam-lhe pela cara. Começou a voltar-se e tornou a deter-se, e olhou para ela uma última vez. E então, antes que fosse demasiado tarde, gritou:

       - Amo-te, Kate!

       Ela ouviu-o e viu-o acenar. Riu-se por entre as lágrimas e nesse momento ele desapareceu.

      

       Nesse ano o Natal foi triste para toda a gente. Duas semanas e meia após Pearl Harbor o mundo ainda reverberava com o choque. Os filhos da América tinham começado a partir para a guerra, e estavam a ser enviados para a Europa e para o Pacífico. Nomes de locais que nunca ninguém tinha ouvido falar estavam de repente na boca de toda a gente, e a Kate serviu de pouco consolo saber que Joe se encontrava em Inglaterra. Pela única carta que recebera dele até à data, a sua vida parecia bastante civilizada.

       Encontrava-se colocado em Swmderby. Contou-lhe apenas aquilo que os censores permitiam. A maior parte da carta expressava preocupação com ela e falava-lhe das pessoas que conhecera. Descrevia o campo e a forma calorosa com que os Ingleses os tratavam. Mas não lhe disse que a amava. Dissera-o uma vez, mas não se sentiria bem a escrevê-lo.

       Os pais já se tinham apercebido de quão apaixonada Kate estava por Joe, e o seu único consolo era sentirem que ele também a amava. Mas nos seus momentos a sós, Elizabeth Jamison continuava a expressar as suas preocupações ao marido. Essas preocupações eram agora maiores, porque se alguma coisa acontecesse a Joe, Elizabeth temia que Kate iria chorá-lo para sempre. Seria um homem difícil de esquecer.

       - Deus me perdoe por dizer isto - afirmou Clarke, mas se alguma coisa lhe acontecer, ela irá conseguir ultrapassar, Liz. Já aconteceu a outras mulheres antes dela. Só espero que nada aconteça.

       Não era apenas a guerra que preocupava Elizabeth, era algo mais profundo que ela pressentia em Joe desde o momento em que o conhecera, e nunca seria capaz de o expressar por palavras a Clarke. Achava que Joe era incapaz de deixar alguém aproximar-se, de amar e de se entregar completamente. Ele retraía-se sempre. E a sua paixão pelos aviões que desenhava e pilotava, e o mundo que se abria para ele, era a maneira que tinha de fugir à vida. Duvidava que fizesse Kate feliz mesmo que sobrevivesse à guerra. Outra coisa que também pressentia era o elo de ligação entre eles, e o fascínio que sentiam um pelo outro. Eram completamente opostos. Pressentia igualmente que eram perigosos um para o outro. Não sabia por que motivo temia tanto que Kate o amasse, mas temia.

       A data da festa de debutante cancelada chegou e passou, e Kate não lamentou que ela não se tivesse realizado. Não estava muito voltada para festas, mas sentia que teria de se esforçar para isso por causa dos pais. E nessa noite, sentada em casa a ler um livro para as aulas, ficou surpreendida ao receber um telefonema de Andy Scott. Quase todos os rapazes que ela conhecia estavam a ser mobilizados e alguns já se encontravam prestes a partir. No entanto Andy já lhe explicara havia muitas semanas que tinha um sopro no coração desde criança. Não o incapacitava de forma alguma, mas mesmo em tempo de guerra fazia-o passar à reserva. Ele ficara bastante aborrecido e tentara convencer os militares a aceitarem-no, mas estes haviam-no recusado categoricamente. Contou a Kate que lhe apetecia andar com um cartaz a explicar às pessoas por que motivo não andava fardado ou por que razão continuava em casa. Sentia-se um traidor por continuar na pátria com as mulheres. Estava muito incomodado com essa situação quando ligou a Kate e conversaram durante um bocado. Ele queria convidá-la para jantar, mas ela não se sentia à vontade para ir. Parecia injusto, dado o que sentia por Joe e ao fato de ele se encontrar em Inglaterra. Explicou a Andy o motivo e disse-lhe que não podia. Mesmo assim ele tentou convencê-la a ir ao cinema. Ela não estava com disposição. Nunca tinham sido mais que colegas, mas sabia por intermédio de amigas que ele era louco por si. E tentara dizer-lhe algo desde que ela chegara a Radcliffe no outono.

       - Acho que devias sair - declarou a mãe com firmeza, depois de perguntar a Kate o que quisera Andy. - Não podes ficar em casa para sempre. A guerra talvez continue durante muito tempo. - E nada fora tratado com Joe. Ele não a pedira em casamento, não estavam noivos nem haviam feito qualquer promessa. Amavam-se apenas. E a mãe teria ficado muito mais satisfeita se a visse sair com Andy Scott.

       - Não me parece correto - retorquiu Kate, regressando ao quarto com o livro. Sabia que a guerra iria ser muito longa se fosse ficar em casa indefinidamente com os pais, mas não se importava.

       - Ela não pode ficar ali dia após dia e noite após noite! - queixou-se mais tarde Liz ao marido. - Não há qualquer compromisso entre eles. Não estão noivos nem comprometidos. - A mãe queria que ela tivesse tudo a que tinha direito.

       - É um compromisso do coração, pelo que me deu a perceber, - redargüiu calmamente Clarke. Andava preocupado com Joe e entendia a filha. Não partilhava das suspeitas da mulher acerca do aviador. - Achava-o um excelente homem.

       - Não sei se o Joe irá para além do compromisso - insistiu Liz, preocupada.

       - Acho que ele está a ser bastante responsável e não quer torná-la numa jovem viúva. Parece-me que tomou a decisão acertada.

       - Não creio que homens como ele cheguem a comprometer-se verdadeiramente - continuou Liz. - Ele está demasiado apaixonado pelos aviões. Tudo o resto na sua vida virá depois disso. Nunca dará à Kate aquilo de que ela precisar. O seu primeiro amor será sempre pilotar, - predisse com ar soturno, e Clarke sorriu.

       - Isso não é necessariamente verdade. Olha para o Lindbergh. É casado e tem filhos.

       - Quem sabe se a mulher é feliz? - retorquiu ela com cepticismo.

       Mas independentemente da opinião dos pais, Kate continuou a agir como até ali. Ficou em casa com eles durante as férias e quando regressou às aulas em janeiro, as colegas pareciam tão infelizes como ela. Cinco delas tinham-se casado antes de os namorados embarcarem, pelo menos dez haviam ficado noivas e as restantes pareciam estar envolvidas com rapazes que iriam para o outro lado do oceano muito em breve. A vida delas parecia girar à volta de fotografias e de cartas, o que recordou a Kate que não possuía uma única fotografia de Joe. No entanto, tinha um saco cada vez maior com cartas dele.

       Dedicou-se aos estudos e viu Andy de vez em quando. Continuava a recusar-se a sair à noite, mas eram amigos e ele ia muitas vezes visitá-la a Radcliffe. Davam longos passeios pelo complexo universitário e depois paravam na cafeteria, e ele provocava-a com a elegância das refeições partilhadas por ambos. No entanto, desde que a única coisa que fizessem fosse comer no complexo universitário Kate achava que não contava como uma verdadeira saída e que dessa forma não traía Joe. Andy era de opinião que ela estava a ser tonta e tentou convencê-la a saírem.

       - Porque não me deixas levar-te a um sítio decente? - queixou-se na mesa preta da cafetaria enquanto comiam rolo de carne seco e um pedaço de frango quase incomestível. O local era famoso pela péssima qualidade da comida.

       - Acho que não seria correto. E isto serve - insistiu ela.

       - Serve? Achas que isto serve? - Enterrou o garfo no purê de batata que parecia argamassa e o frango estava tão duro que ela não conseguiu mastigá-lo. - A dor de estômago com que fico cada vez que jantamos leva-me dois dias a passar. - No entanto, Kate só conseguia pensar nas rações que Joe estava a receber em Inglaterra. Sentir-se-ia mal se fosse a restaurantes caros com Andy. Se ele queria estar com ela só lhe restava comer na cafetaria do colégio.

       Embora Kate recusasse sair, Andy tinha uma vida social bastante ativa. Era alto, moreno e bem-parecido, um dos poucos rapazes disponíveis do complexo universitário e que ainda por cima não ia para a guerra. As raparigas quase faziam fila para sair com ele, e Andy podia ter qualquer uma menos a que realmente desejava. Desejava Kate.

       Andy continuou a visitá-la e ao longo dos meses foi-se formando entre os dois um forte laço de amizade. Ela gostava muito dele, mas não sentia nenhuma das coisas que sentia por Joe. Aquilo que sentia por Andy era sólido, calmo e confortável, não tinha o fogo e a paixão e a atração irresistível da sua relação com Joe. Andy parecia mais um irmão. Jogavam tênis várias vezes por semana e por fim, perto da Páscoa, ela deixou-se levar ao cinema, embora se tenha sentido culpada. Foram ver A Família Miniver com Greer Garson e Kate chorou do princípio ao fim.

       Recebia cartas de Joe várias vezes por semana, e calculava que ele andava a pilotar Spitfires nas missões com a RAF. No entanto, desde que as cartas continuassem a chegar, ela saberia que ele estava vivo e de saúde. Vivia no pânico constante de um dia ler no jornal que o avião dele fora abatido, e as suas mãos tremiam ao abri-lo todas as manhãs. Sabia que, por ele ser tão conhecido e pela sua associação a Charles Lindbergh, leria a notícia no jornal antes de alguém ter tido oportunidade de avisá-la. No entanto, até à data, ele parecia bastante animado nas cartas. Queixara-se amargamente do frio e da fraca comida durante todo o inverno. E em maio, contou-lhe como a primavera era bonita, que havia flores em todo o lado e que até as pessoas mais pobres tinham jardins encantadores. Mas não lhe dissera que a amava desde que se fora embora.

       No fim de maio, a RAF enviou mil bombardeiros num ataque sobre Colônia. Joe nunca falou nisso, mas quando Kate leu a notícia, teve a certeza de que Joe estivera presente. Em junho, Andy formou-se em Harvard ao fim de três anos num programa acelerado e iria para a Faculdade de Direito no outono. Kate terminou o primeiro ano, foi à festa de Andy no final do ano letivo e durante todo o verão trabalhou a tempo inteiro na Cruz Vermelha. Enrolava ligaduras e dobrava roupas quentes que seriam enviadas para o outro lado do Atlântico. Expediam embrulhos, forneciam medicamentos e passavam uma grande parte do tempo a fazer pequenas coisas úteis. Não era um trabalho excitante, mas parecia o mínimo que ela podia fazer pelo esforço de guerra. Mesmo no seu pequeno círculo de amigas já houvera tragédias. Duas das raparigas tinham perdido os irmãos em navios torpedeados pelos Alemães e outra perdera dois. Uma das suas colegas de quarto voltara para casa, a fim de ajudar o pai a dirigir o negócio da família. Vários noivos haviam sido mortos e das cinco raparigas que se casaram no Natal, uma já perdera o marido e voltara para casa. Era difícil não pensar nisso ao olhar constantemente para os olhos tristes e rostos preocupados. A possibilidade de receber um telegrama do Departamento de Guerra deixava toda a gente gelada.

       Andy ia trabalhar como voluntário num hospital militar durante o verão. Quisera fazer alguma coisa para compensar o fato de não ter podido ir para a guerra com os outros homens. E quando telefonava a Kate, falava-lhe dos feridos que via e das experiências que eles partilhavam consigo. Não o admitiria a ninguém, exceto a Kate, mas ao ouvir as histórias dos feridos havia momentos em que se sentia feliz por não ter podido ir para a guerra. A maior parte dos homens que via tinha estado na Europa; os que haviam sido feridos no Pacífico iam recuperar em hospitais da costa oeste. Quase todos tinham perdido membros, pisado minas ou estavam cheios de estilhaços. E Andy contou-lhe que havia uma enfermaria cheia de homens que enlouqueceram por causa do trauma da guerra. Ficavam os dois horrorizados só de pensar nisso E sabiam que durante os meses seguintes as coisas só iriam piorar

       Depois de trabalhar na Cruz Vermelha dois meses e meio, Kate foi para Cape Cod passar as duas últimas semanas do verão com os pais. Era um dos poucos lugares em que as coisas pareciam iguais ao que sempre haviam sido. A comunidade era pequena e formada essencialmente por pessoas de idade, pelo que a maior parte dos rostos que ela se habituara a ver continuava lá. Mas os netos não foram visitá-los nesse ano, e muitos dos rapazes com que Kate crescera estavam ausentes. No entanto, muitas das raparigas que conhecia estavam lá e, no Dia do Trabalho, os vizinhos fizeram o habitual churrasco. Kate foi a casa deles com os pais. Durante uma semana não teve notícias de Joe. As cartas que recebia haviam sido escritas semanas antes e por vezes recebia mais do que uma ao mesmo tempo. Ele podia ter morrido havia semanas e ela continuaria a receber as suas cartas. Ficava sempre apavorada quando isso lhe ocorria.

       Há nove meses que não via Joe e esse tempo começava a parecer infindável. Falara algumas vezes com Andy desde que chegara a Cape. Ele estava a passar a última semana de férias com os avós no Maine, depois de ter trabalhado no hospital durante três meses. Pelas conversas do amigo percebeu que ele amadurecera bastante no verão. Concluíra os estudos em três anos em vez de quatro. Uma vez que não podia ir para a guerra, estava ansioso por começar a trabalhar. Parecia ser a decisão acertada, uma vez que o pai era sócio majoritário da mais prestigiada firma de advogados em Nova Iorque. Ele era aí esperado de braços abertos.

       Ali no churrasco, a torrar marshmallows, era difícil para Kate não pensar em Joe. Fora ali que começara o romance de ambos. Tinham iniciado a troca de correspondência pouco depois e em seguida ela convidara-o para o jantar do Dia de Ação de Graças. Lembrava-se de todas as palavras que ele dissera na noite em que tinham passeado pela praia. Estava mergulhada em pensamentos quando alguém atrás de si falou.

       - Porque é que deixas sempre isso queimar? - perguntou a voz.

       Ela sobressaltou-se e voltou-se rapidamente. Era Joe, ali parado atrás dela, muito alto, magro e pálido, e um pouco mais velho. Sorria e, em menos de nada, Kate atirou o espeto para a areia e correra a abraçá-lo. Era a melhor coisa que lhe podia ter acontecido naquele momento.

       - Oh, meu Deus., oh, meu Deus. - Não podia ser, mas era. O que estaria ele ali a fazer? Recuou para o observar melhor, com uma expressão preocupada, e viu que ele estava inteiro. - O que estás aqui a fazer?

       - Tenho duas semanas de licença. Na próxima terça-feira terei de me apresentar no Ministério de Guerra. Acho que devo ter abatido a minha quota de Alemães, por isso mandaram-me para casa ver como estavas. Pareces muito bem. Como estás, minha querida?

       Kate estava muito melhor agora que o vira. Podia considerar-se uma felizarda. Joe parecia tão contente como ela. Não conseguia largá-la; afagou-lhe o cabelo e manteve-a bem junto a si. De vez em quando beijava-a. Não se importavam que os vissem. Kate sentia-se radiante por ele estar vivo.

       Clarke viu-os pouco depois. A princípio, não percebeu quem era o homem louro junto a Kate, mas quando o viu beijá-la percebeu que era Joe e correu para eles.

       Deu um grande abraço a Joe e olhou-o com ar feliz dando-lhe palmadinhas no ombro.

       - Que bom vê-lo, Joe. Estávamos muito preocupados consigo.

       - Estou bem. O senhor devia era estar preocupado com os Alemães. Temos andado a limpar-lhes o sebo.

       - Bem o merecem - retorquiu o pai de Kate com um sorriso. Já quase que considerava Joe um filho

       - Só o fiz para poder voltar para casa - disse Joe radiante. Era um homem feliz, e Kate uma mulher excepcionalmente feliz. Mal conseguia acreditar no que lhe acontecera. Era um milagre após os longos meses de sofrimento à espera dele e a rezar pela sua segurança. Duas semanas pareciam um milagre a ambos. Só queria olhá-lo e abraçá-lo. Ele ainda não se afastara um centímetro. Queria estar o mais próximo possível dela e sentir o seu cheiro

       - Como vão as coisas por lá, filho, - perguntou Clarke num tom sério

       Kate largou Joe o tempo suficiente para ir procurar a mãe e dizer-lhe que ele estava ali

       - Os Britânicos estão a passar um mau bocado - respondeu Joe. - Os Alemães bombardearam todas as cidades. A vida lá não é fácil. Acho que acabaremos por derrotá-los, mas não vai ser já.

       Nos últimos dois meses as notícias vindas da Europa eram desencorajadoras. A Alemanha dominava Sebastopol e lançara um ataque feroz e implacável sobre Estalinegrado. Rommel ceifava os Ingleses no Norte de África E os Australianos combatiam os Japoneses na Nova Guiné.

       - Fico contente por estar bem, filho - disse Clarke. Já sentia que ele fazia parte da família, embora ainda não tivesse sido feita qualquer promessa. E Elizabeth parecia menos renitente ao aproximar-se dele com Kate. Abraçou-o e beijou-o e disse-lhe que estava feliz por se encontrar bem. E estava, por causa da filha

       - Perdeu algum peso, Joe - comentou Elizabeth com ar preocupado. Ele voava muitas horas e comia pouco. As rações que recebiam eram horríveis, como Kate sabia pelas cartas. - Está tudo bem consigo? - Fitou-o nos olhos

       Ele assentiu

       - Sim, agora que vou poder cá passar duas semanas. Amanhã tenho de ir a Washington, mas volto na quinta. Depois tenho mais dez dias. - Estava com esperanças de ir a Boston Por razões óbvias.

       Kate estava radiante

       - Gostaríamos muito que nos visitasse - interveio Clarke rapidamente olhando para a mulher, e nem ela pôde resistir à expressão de felicidade da filha.

       - Gostaria de ficar em nossa casa? - perguntou Elizabeth. Kate agradeceu à mãe quase a chorar de felicidade. Até Elizabeth sabia que não se pode ir sempre contra a maré E se alguma coisa acontecesse a Joe, não queria que Kate sentisse que os pais tinham feito tudo para os manter afastados. Parecia melhor agir com magnanimidade, desde que Kate não fizesse um disparate. A mãe tencionava falar com ela acerca disso depois de os ter visto juntos. Afinal de contas, Joe tinha trinta e um anos, e necessidades e desejos pouco convenientes para Kate naquele momento. Desde que eles se portassem bem, Elizabeth estava na disposição de o deixar ficar em sua casa. Cabia à filha zelar pelo bom comportamento de ambos.

       O resto da noite pareceu passar muito depressa. Joe foi-se embora bastante depois da meia-noite para estar em Washington na manhã seguinte. Tinha de ir de carro até Boston e depois apanhar um comboio. Não havia aviões disponíveis para ele. Quando deixou Kate, beijou-a com força durante bastante tempo e prometeu vê-la em Boston dali a três dias. Ela detestava o fato de ter de voltar para o colégio enquanto ele lá estava, mas os pais insistiram para que ela não atrasasse o regresso às aulas. Kate teria de aproveitar ao máximo o tempo de que dispunham. A única concessão que fizeram foi deixá-la ir dormir a casa enquanto Joe lá estivesse, desde que fosse às aulas todos os dias.

       - Eu próprio a levo lá e certificar-me-ei de que ela não se balda - prometeu Joe. Kate teve a sensação de ter dois pais em vez de um. Havia em Joe algo muito paternal e protetor, e isso contribuía para que Kate se sentisse tão à vontade com ele. Antes de a deixar nessa noite, Joe apertou-a nos braços durante muito tempo e disse-lhe que tivera muitas saudades e que a amava muito. Kate olhou para ele e bebeu aquelas palavras. Há muito que não as ouvia

       - Também te amo, Joe. Tenho estado tão preocupada contigo! - Muito mais do que admitiria na presença dele

       - Havemos de ultrapassar isto, querida. Prometo. E quando acabar tudo, havemos de nos divertir muito.

       Não era o tipo de promessa que a mãe de Kate esperava, mas ela não se importou. Estar com ele bastava.

       Joe regressou de Washington mais cedo que o previsto, ao fim de dois dias, e foi lá para casa. Era cortês, atencioso, educado, bem comportado e respeitava muito Kate, o que agradava aos seus pais. Até Elizabeth ficou impressionada com a conduta dele. A única coisa que ele ainda não fizera e que lhes teria agradado ainda mais fora pedi-la em casamento.

       O pai aflorou o assunto delicadamente uma tarde ao chegar a casa do trabalho, encontrando Joe na cozinha a fazer esboços para um novo avião. Naquela altura era impossível mandar construí-lo, mas depois de a guerra terminar seria o avião dos seus sonhos. Já enchera vários blocos de apontamentos com pormenores minuciosos.

       Aquilo levou a uma breve discussão sobre Charles Lindbergh, que estava a ajudar Henry Ford a organizar a produção de bombardeiros. Lindbergh quisera alistar-se, mas Roosevelt recusara. O que ele estava a fazer com Ford tinha muita importância para o esforço de guerra. No entanto, o público e a imprensa continuava a criticá-lo devido às posições políticas que defendera antes da guerra. Como o resto do país, Clarke ficara desiludido com os seus discursos a favor da América. Primeiro. Tinham-no feito parecer simpatizante dos Alemães. E como muitos outros, Clarke perdera algum do respeito que sentia por ele. Sempre considerara Lindbergh um patriota e parecera-lhe uma grande ingenuidade e uma falta de caráter da parte do piloto ter-se deixado impressionar pelos Alemães antes da guerra. Contudo, recentemente ele redimira-se aos olhos de Clarke ao contribuir para o esforço de guerra de todas as formas ao seu alcance.

       A conversa passou de Lindbergh a Kate e Clarke não perguntou diretamente, mas deu a entender a Joe que estava curioso, se não mesmo preocupado, a respeito das intenções dele para com a filha. Joe não hesitou a dizer que a amava. Foi sincero e frontal, e embora parecesse pouco à vontade a falar no assunto, não esteve com rodeios. Olhou para as mãos durante um longo momento e depois para Clarke. Este gostou do que viu no olhar de Joe, sempre gostara. Até ali o rapaz nunca o desapontara. Avançava apenas um pouco devagar demasiado para o gosto de Elizabeth, mas Kate parecia não se importar e Clarke tinha de respeitar isso. Fosse o que fosse que sentiam um pelo outro, pareciam avançar na direção que desejavam. Eram inseparáveis quando ele se encontrava em casa e estavam visivelmente apaixonados.

       - Não vou casar com ela agora - respondeu Joe abruptamente, agitando-se um pouco na estreita cadeira da cozinha, como uma ave grande num poleiro com as asas dobradas. - Não estaria certo. Se alguma coisa me acontecer ela ficaria viúva.

       Clarke não precisou de lhe dizer que, casada ou não, ela ficaria devastada. Era muito jovem. E aos dezenove anos, era o primeiro homem que ela amava, e talvez o último, se a mãe conseguisse obter dele aquilo que desejava. Dissera a Clarke na noite anterior que achava que eles deviam ficar noivos. Isso pelo menos clarificaria as intenções dele e demonstraria algum respeito por Kate.

       - Não precisamos de ser casados. Amamo-nos. Não há mais ninguém na minha vida. Não ando a sair com ninguém, nem sairei - explicou Joe a Clarke. Não o havia dito a Kate, mas ela sabia-o por instinto. Confiava nele totalmente, e entregara-lhe o coração. Não tinha defesas nem um muro protetor à sua volta, não ocultara nada dele, e era precisamente isso que preocupava Elizabeth. Não sabia se Joe tinha feito o mesmo, mas desconfiava que não. Ele tinha idade e cautela suficientes para guardar algo para si. Quanto era, precisamente, a questão. Kate era muito mais nova, e mais ingênua, mais vulnerável e inocente, embora também tivesse podido magoá-lo. Contudo seria incapaz de tal coisa. Disso não havia dúvidas.

       - Imagina-se a assentar um dia? - perguntou Clarke. Tinha naquele momento a oportunidade de saber o que Joe queria da vida. Nunca haviam podido conversar antes da guerra.

       - Acho que sim. Desde que possa continuar a voar e a construir aviões. Sei que terei de fazer isso. Desde que o resto se encaixe, acho que poderia assentar. Nunca pensei muito no assunto. Não era bem uma declaração de amor, nem um pedido de casamento. Era apenas talvez. Joe levara muito tempo a crescer e não tinha a necessidade emocional de outra pessoa na sua vida. Como dissera a Kate, nunca se importara com o fato de vir a ter filhos ou não. Precisava era de ter aviões. - É bastante difícil pensar no futuro quando colocamos a nossa vida em risco todos os dias, várias vezes ao dia. Quando fazemos isso, nada mais importa.

       Chegava a efetuar três missões por dia e quando descolava não sabia se iria regressar. Era difícil pensar para além disso. Na verdade, nem o queria fazer. Restava-lhe concentrar-se no trabalho e na importância de abater o inimigo. O resto era secundário. Nesses momentos até Kate o era. Era um luxo que ele podia permitir-se depois de as coisas importantes terem sido feitas. Ela teria de esperar até ele ter concluído os seus negócios. E naquele momento, a guerra era o negócio dele.

       - Amo a Kate, Mister Jamison - disse Joe a Clarke, pegando no copo de bourbon que Clarke lhe estendia e bebendo um gole. - Acha que ela seria feliz com um homem como eu? Alguém seria? Voar está para mim em primeiro lugar. Sempre estará. Ela tem de saber isso.

       À sua maneira, Joe era um gênio, tinha idéias brilhantes sobre engenharia aeronáutica e conhecia pormenorizadamente as mais ínfimas peças dos seus aviões. Era capaz de voar em qualquer condição imaginável. Sabia tudo o que havia a saber sobre aerodinâmica. Percebia muito menos de mulheres, sabia-o, e Clarke começava a compreender isso. A mãe de Kate pressentira-o de imediato.

       - Acho que ela seria feliz se você lhe proporcionasse uma vida estável e gostasse dela. Acho que ela vai querer aquilo que todas as mulheres acabam por querer, um homem em quem confiar, uma boa casa, filhos. É bastante básico. - Os luxos poderiam os pais dar-lhe, e dariam com a herança, mas a estabilidade emocional, a segurança teriam de vir dele.

       - Acho que isso não é assim tão complicado - respondeu Joe corajosamente, bebendo um longo gole de bourbon.

       - Às vezes é mais complicado do que parece. As mulheres aborrecem-se com as coisas mais estranhas. Não podemos atirá-las para o porta-bagagens de um carro como a uma mala. Se lhes amarrotarmos as penas, ou não as apoiarmos, não só a nível emocional, as coisas não correm muito bem. - Era um bom conselho, mas Clarke não sabia se Joe já estaria preparado para ouvi-lo.

       - Acho que tem razão. Nunca pensei no assunto. Nunca tive de o fazer. - Tornou a agitar-se na cadeira e baixou o olhar. Fitava a bebida e não Clarke quando prosseguiu um minuto depois. - Não me parece que consiga pensar nisso tudo agora. Por um motivo: é demasiado cedo. A Kate e eu mal nos conhecemos e, por outro lado, neste momento só consigo pensar em matar alemães. Depois, quando a guerra terminar, podemos decidir a cor do linóleo, ou se vamos precisar de cortinas. Neste momento, nem sequer temos uma casa. Creio que nenhum de nós está preparado para tomar grandes decisões.

       Era uma coisa razoável para dizer naquelas circunstâncias, e verdadeira também, mas Clarke ficou um pouco desapontado. Esperava que Joe lhe fosse pedir a mão de Kate em casamento. Ele não dissera que não o faria, mas admitira que não estava pronto. Talvez fosse melhor ele ser sincero a esse respeito. Clarke achava que, se Joe estivesse preparado para fazer o pedido, Kate teria ficado encantada. Com dezenove anos ela estava mais pronta a assentar, pelo menos com Joe, do que ele, já com trinta e um

       Até ali a sua vida fora bastante diferente. Andara a flutuar à volta do mundo, a transitar entre pistas de aterragem, a concentrar-se em voar e no futuro da aviação. Tinha sonhos sobre aviões, e poucos a respeito da vida diária. O que ele precisava de fazer depois da guerra, na opinião de Clarke, era concentrar-se mais naquilo que acontecia no solo em vez de estar sempre a olhar para o céu. De certa forma, Joe Allbright era um sonhador. Os seus sonhos incluiriam Kate?

       - O que disse ele? - perguntou nessa noite Elizabeth ao marido, depois de terem dado as boas-noites a Joe e a Kate e fechado a porta do quarto. Pedira-lhe que falasse com Joe se tivesse oportunidade. E para lhe agradar, ele chegara a casa mais cedo a fim de ter uma conversa com o rapaz, antes de Kate regressar das aulas.

       - Resumidamente. Que não está preparado. ”Não estão preparados”, foi o que ele disse. - Clarke tentou não mostrar-se muito desiludido para não apoquentar a mulher.

       - Acho que a Kate estaria pronta se ele estivesse - retorquiu Liz com tristeza.

       - Eu também. Mas não podemos forçar as coisas. Ele está na guerra e arrisca a vida todos os dias. É um bocadinho difícil convencê-lo de que precisa de ficar noivo.

       Uma vez que Kate o amava tanto, tinham concordado em fazer os possíveis por ajudá-la. Teriam gostado de clarificar as coisas antes de ele partir de novo. Fora uma bênção ele ter podido vir aos Estados Unidos durante duas semanas, mas Clarke já se apercebera que durante aquele período não haveria noivado. Talvez mais tarde.

       - Não me parece que ele seja o tipo de homem que assenta, mas acho que poderia mudar por amor a Kate. Não tenho a menor dúvida de que ele a ama muito, ele próprio mo disse. Acredito nele. Não esteve com rodeios. É louco por ela. Mas também é louco pelos seus aviões.

       Fora precisamente aquilo que Elizabeth temera nele desde o início.

       - E o que acontece se ela ficar a guerra toda à espera dele e ele decidir nessa altura que não quer assentar? A nossa filha desperdiça vários anos e ele destroça-lhe o coração.

       Não queria isso para a filha e não havia forma de garantir que tal não iria suceder. Mesmo que se casassem ele podia morrer e ela ficaria viúva. No entanto, nesse caso talvez ela já tivesse um filho. Pelo menos seria alguma coisa. Contudo, não fora aquilo que tinham sonhado para ela. Queriam que tivesse um marido que a amasse, que quisesse estar com ela e tivesse uma vida estável. Clarke começava a achar que Joe seria sempre um pouco excêntrico. O fato de ser brilhante desculpava a sua peculiaridade. Clarke não sabia se isso era mau, mas dificultava tudo. Concluiu que teriam de ser pacientes e disse-o a Liz.

       - Achas que ele estava a dizer-te que nunca irá casar-se? - perguntou Liz em pânico.

       - Não. E creio que acabará por casar com ela. Conheci outros tipos como ele. Levam mais algum tempo a entrar no estábulo; nem todos os cavalos são dóceis - explicou com um sorriso. - E este é um cavalo selvagem. Tem paciência. Pelo menos a Kate não parece incomodada.

       - É isso que me preocupa. Ela era capaz de ir para a Lua com ele. Está completamente apaixonada e concordaria com tudo o que ele quisesse. Não a quero ver a viver numa tenda ao pé de um aeroporto.

       - Acho que as coisas nunca chegarão a esse ponto. Podemos comprar-lhes uma casa se for necessário.

       - Não é com a casa que estou preocupada É com quem vai viver nela e com quem não vai.

       - Ele há-de lá ir - tranqüilizou Clarke.

       - Espero ainda estar viva para o presenciar retorquiu ela pesarosa.

       O marido beijou-a.

       - Ainda não és assim tão velha, minha querida.

       No entanto, ela andava a sentir-se cansada, e também deprimida por estar quase a fazer sessenta anos e querer ver Kate instalada e feliz. O problema é que estavam na altura errada. Havia uma guerra a decorrer.

       Kate não estava infeliz de momento, excetuando com o fato de Joe ir partir novamente para Inglaterra. Contudo, a mãe achava que o futuro dela não estava assegurado. Joe era uma ave selvagem e orgulhosa e um espírito totalmente livre. No que dizia respeito a Liz, não havia forma de saber o que ele faria quando voltasse. Não estava tão certa como o marido de que ele casaria com Kate, mas pelo menos tinham tentado.

       Nessa noite Joe contou a Kate a conversa e ela ficou furiosa.

       - Isso é detestável - disse ela com ar ofendido. Achava que os pais estavam a obrigá-lo a casar consigo e não queria isso. Só o desejava se ele a desejasse, e se ele quisesse casar. - Porque é que o meu pai faz isso. Parece que quer obrigar-te a casar comigo

       - Estão preocupados contigo - respondeu ele. Compreendia a situação, mas também se sentia pouco à vontade. Nunca tivera de se justificar daquela forma, de explicar o que queria, onde iria e o que faria. - Eles estão bem intencionados, Kate. Querem o melhor para ti, e talvez também para mim. Por acaso, sinto-me lisonjeado. Não me mandaram embora da sua casa nem me disseram que eu não era suficientemente bom para a filha, e podiam tê-lo feito. Querem saber se eu tenciono manter-me por perto e se te amo. E para que saibas, disse ao teu pai que sim. Só temos de decidir o resto quando eu regressar de Inglaterra, Deus sabe quando.

       Aquilo também não agradou a Kate. Ele fora sempre empurrado pelo vento para a pista de aviação mais apelativa. No entanto, não quis fazer-lhe perguntas a respeito disso. O pai já o interrogara o suficiente para uma tarde e ela estava mesmo aborrecida, apesar da boa disposição de Joe. Ficou satisfeita por ele não ter ficado ofendido. Sabia que as palavras que ele dissera ao pai voltariam para a atormentar, mas naquele momento não quis preocupar-se com isso.

       O tempo que passaram juntos em setembro de 1942 foi mágico. Ela ia às aulas todos os dias e Joe ia lá ter depois. Passavam horas a falar e a passear, sentados sob as árvores a falar da vida e de todas as coisas que eram importantes para eles. No caso de Joe, eram quase sempre aviões. Havia também outras coisas, pessoas e lugares e coisas que ele queria fazer. Enfrentar a morte todos os dias tornava a vida mais valiosa. Passavam tardes preguiçosas de mãos dadas e aos beijos, e já tinham combinado que não dormiriam um com o outro. À medida que os dias foram passando, isso foi-se tornando um desafio cada vez maior, mas comportaram-se de forma admirável. Tal como não queria deixá-la viúva se morresse, também não queria deixá-la grávida quando voltasse para a Europa. E se um dia casassem, queria que fosse porque ambos o desejavam, não porque tinha de ser. E ela concordara, embora parte de si quase desejasse que, se algo acontecesse a Joe, ela tivesse no ventre o seu filho. Naquele momento restava-lhes apenas confiar no futuro. Não havia promessas, garantias ou coisas certas, apenas as esperanças, os sonhos e o tempo que tinham passado juntos. O resto era completamente desconhecido.

       Quando ele finalmente a deixou, estavam mais apaixonados que nunca e sabiam tudo um do outro. Pareciam complementar-se e encaixar na perfeição. Eram diferentes, mas combinavam tão bem que Kate estava convencida de que tinham nascido um para o outro e Joe não discordou. Ainda se sentia por vezes acabrunhado, era tímido e reservado de vez em quando, perdido nos seus pensamentos, mas ela era capaz de compreender isso e achava as suas pequenas singularidades e maneirismos deliciosos. E quando ele se foi embora havia nos seus olhos lágrimas ao beijá-la e ao dizer-lhe que a amava. Prometeu escrever assim que chegasse a Inglaterra. Foi a única promessa que lhe fez antes de partir. E para Kate, foi o suficiente.

       A guerra aqueceu em outubro desse ano, e algumas notícias eram mais encorajadoras do que haviam sido até ali. Os Australianos e seus aliados andavam a expulsar os Japoneses da Nova Guiné, e estes pareciam estar a enfraquecer em Guadalcanal. Os Britânicos começavam finalmente a cansar as forças alemãs no Norte de África. E Estalinegrado resistia ainda aos Alemães, se bem que a muito custo.

       Joe efetuava missões constantes e aquela em que sobrevoou Gibraltar entrou para a história. Ele e três outros pilotos de Spitfires abateram doze caças de mergulho Stuka numa missão de reconhecimento anterior à grande campanha de invasão dos Aliados conhecida como Operação Archote. A missão fora um grande êxito.

       Joe foi condecorado na Grã-Bretanha, e regressou a Washington para receber outra medalha das mãos do presidente. Daquela vez Kate soube da sua vinda com bastante antecedência. Apanhou o comboio de Boston para Washington para se encontrar com ele três dias antes do Natal. Dispunham de quarenta e oito horas antes de ele regressar a Inglaterra. Foi uma dádiva inesperada para os dois. O Departamento de Guerra instalou-o num hotel e Kate alojou-se num pequeno quarto no mesmo andar. Foi à cerimônia na Casa Branca com ele, o presidente apertou-lhe a mão e ela e Joe pousaram para uma fotografia com ele. Tudo aquilo fazia lembrar a Kate um filme.

       Joe levou-a a jantar depois. Ela sorriu-lhe após terem feito o pedido. Ele ainda tinha a medalha ao peito. Estava mais bonito que nunca.

       - Ainda mal acredito que estejas aqui - disse ela, radiante.

       Joe era um verdadeiro herói. A cerimônia fora uma estranha mistura de felicidade e de tristeza para Kate ao aperceber-se de que ele podia ter sido facilmente morto. A vida naquela época parecia agridoce. Todos os dias em que ele sobrevivia eram uma dádiva, e quase todos os dias ela ouvia notícias de rapazes que tinham morrido na Europa ou no Pacífico. As suas antigas colegas já tinham perdido muitos entes queridos. Até ali, ela tivera muita sorte. Rezava todos os dias por Joe

       - Nem eu acredito que estou aqui - respondeu Joe bebendo um gole de vinho. - E num abrir e fechar de olhos estarei de novo a congelar em Inglaterra

       Ali, como a guerra não estava tão próxima, as coisas pareciam mais festivas. Havia árvores de Natal por todo o lado, cantores de Natal, e crianças sorridentes à espera do Pai Natal. Havia ainda rostos felizes, em contraste com os rostos de sofrimento, famintos e assustados de Inglaterra. Mesmo as crianças de lá pareciam exaustas, todos estavam demasiado cansados das bombas e dos ataques aéreos. As casas desapareciam num abrir e fechar de olhos, perdiam-se os amigos, as crianças eram mortas Em Inglaterra, parecia quase impossível ser-se feliz naquela altura E no entanto, as pessoas que Joe conhecia lá eram bastante corajosas

       Washington parecia a ambos tirada de um conto de fadas. Depois de jantar, regressaram a pé ao hotel e ficaram a conversar na sala de estar junto à recepção. Demoraram-se ali várias horas porque não queriam afastar-se e regressar aos quartos. À medida que a noite foi passando, as correntes de ar aumentaram na sala, mas Kate achava pouco próprio irem sentar-se num dos quartos. Os pais tinham querido vir a Washington com ela, não só para a guardar, mas também para festejar com Joe. Acabaram por não poder ir. Clientes importantes de Clarke vinham visitá-lo de Chicago e Elizabeth tinha de o acompanhar. Permitiram a Kate ir sozinha e sabiam que Joe era um homem responsável. Por fim, sentiam-se ambos tão gelados na sala que ele sugeriu irem até ao seu quarto

       Subiram a escada estreita. Era um hotel pequeno com uma diária muito barata para os militares, e fora por isso que o haviam alojado ali. O quarto de Kate era ligeiramente mais caro. Os quartos eram pequenos e tinham uma decoração simples, mas serviam perfeitamente por dois dias. A única coisa que lhes importava era estarem um com o outro. Vê-lo era a prenda de Natal que Kate desejara e não esperara recebê-la.

       Desde setembro que morria de saudades dele. Quase sentia remorsos por vê-lo. Conhecia mulheres que não viam os irmãos e os noivos desde Pearl Harbor. Ela já vira Joe duas vezes nos últimos quatro meses.

       Como os quartos eram mais pequenos, ficaram mais quentes ali do que na sala junto à recepção. Havia em cada um uma cama, uma cadeira, uma cômoda e um lavatório, e havia um chuveiro e uma sanita no que já devia ter sido um quarto de vestir. O único sítio onde podia pendurar-se a roupa era atrás da porta, mas Kate preferia ter uma casa de banho só para si.

       Assim que chegaram ao quarto, Joe sentou-se na cama e ela na cadeira. Ele abriu uma pequena garrafa de champanhe que comprara quando chegara a Washington. Era para comemorar a condecoração que ainda trazia ao peito.

       Kate estava radiante por terem ido à Casa Branca. Mrs Roosevelt fora muito simpática para ela, e era exatamente como Kate imaginara. Sem saber por que motivo, reparara que a primeira dama tinha umas mãos muito bonitas e não parara de as olhar. Kate sabia que iria recordar-se para sempre daquela tarde. Joe parecia muito mais desprendido, mas era natural porque ao longo dos anos já estivera em sítios bastante interessantes com Charles, e havia coisas que o impressionavam mais. Coisas como grandes feitos aeronáuticos ou pessoas como pilotos. Mas não deixava de se sentir satisfeito com a condecoração, embora lamentasse os homens que haviam morrido durante as missões em que pilotara. Teria preferido não receber a medalha e tê-los feito aterrar sãos e salvos. Isso dificultava as suas comemorações e impedia que ficasse genuinamente excitado com a medalha. Já perdera tantos amigos. Conversavam acerca disso quando ele lhe entregou o copo de champanhe.

       A cadeira em que Kate estava sentada era tão desconfortável que ele a convidou a sentar-se na cama ao seu lado. Ela sabia que estavam a tentar o destino, mas sabia também que podiam confiar um no outro. Não iam fazer nenhuma idiotice só por se encontrarem sentados na cama de um hotel. Sem hesitar, ela foi sentar-se ao seu lado e continuaram a conversar. Bebera apenas meio copo de champanhe, e Joe dois. Nenhum deles bebia muito e passado algum tempo Kate disse que era melhor regressar ao seu quarto.

       Antes de ela se levantar, ele beijou-a. Foi um longo beijo cheio de tristeza e de saudade, mas também cheio de alegria pelo reencontro. Quando Joe acabou de a beijar Kate estava ofegante, e ele também. Tinham a sensação de estar famintos. Parecia que todas as privações do ano anterior se faziam finalmente sentir e que não conseguiam saciar-se um do outro. Kate nunca desejara tanto Joe, nem ele a ela. Ele nem pensou no que estava a fazer quando a deitou na cama e a beijou, pondo-se suavemente em cima dela. Para seu próprio espanto, Kate não o deteve. Tinham de recuperar o fôlego e de parar antes de avançarem mais, ou seria demasiado tarde, como sabiam. Ele murmurava em voz rouca dizendo que a amava muito. Nunca a amara tanto.

       - Eu também te amo sussurrou ela sem fôlego. - Só queria beijá-lo, abraçá-lo e senti-lo em cima de si e, sem pensar, começou a desabotoar-lhe o casaco. Queria sentir a sua pele, e aninhar-se nele. Não conseguia saciar-se e Joe sabia que não seria capaz de conter-se durante muito mais tempo.

       - O que estás a fazer? - perguntou Joe quando ela lhe abriu o casaco. Começou a desabotoar a camisa dela. Segundos depois tinha nas mãos os seus seios e baixou-se para os beijar. Kate gemeu quando ele lhe tirou a camisa e o sutiã. Nessa altura já tirara o casaco a Joe e ele já despira a T-shirt e encontrava-se em tronco nu. Sentirem a carne um do outro era maravilhoso. - Querida... queres parar? - perguntou ele. Tentava controlar a situação, mas começava a perder todo o controle. Só de olhar para ela e senti-la assim tão perto impossibilitava-o de pensar.

       - Sei que devíamos parar - murmurou ela entre os beijos. Contudo, não queria parar. Não podia. Ele era tudo o que queria. Tinham-se contido durante tanto tempo e naquele momento só queria estar com ele. Quando começou a entregar-se-lhe, Joe afastou-a e olhou para ela, fazendo um enorme esforço para se conter. Amava-a tanto!

       - Kate, escuta, não temos de fazer isto se não quiseres... - Era o seu último esforço para salvá-la, mas daquela vez ela não queria ser salva. Só queria amá-lo e ser amada

       - Amo-te tanto... quero-te, Joe... - Queria fazer amor antes de ele partir. Depois da cerimônia daquele dia, percebera quão efêmera e fugaz era a vida. Ele poderia nunca mais regressar.

       Ele tornou a beijá-la em resposta ao que ela dissera e tirou-lhe suavemente o resto das roupas. Despiu-se também e ficaram nus, as roupas amontoadas no chão. Joe percorreu o corpo perfeito de Kate com os dedos e beijou-a em todo o lado, saboreando o momento, e saboreando Kate enquanto ela gemia sob os seus lábios e dedos. Ela estava a beijá-lo quando ele a penetrou, e a dor foi apenas momentânea. Segundos depois abandonara-se-lhe completamente. Estavam ambos dominados pela paixão e ele nunca amara ninguém como ela. Entregou-se totalmente e assustou-o sentir que quase desaparecia dentro dela, as suas almas unas. Fizeram amor durante bastante tempo, e quando terminaram estavam demasiado cansados para se mover ou falar. Foi Joe quem se mexeu primeiro, deitando-se de lado e olhando para ela com uma ternura infinita. Kate abrira nele portas que ele julgara nem existirem.

       - Amo-te, Kate - murmurou para o cabelo dela, percorrendo o seu tronco com um dedo preguiçoso e tapando-a suavemente com o cobertor. Ela estava já meio a dormir, mas ainda lhe sorriu. Não se sentia envergonhada, nem arrependida, nem dorida. Nunca fora tão feliz em toda a sua vida. Finalmente era dele.

       Não voltou para o quarto nessa noite, ficou com ele. Joe aconchegou-lhe a roupa e depois deitou-se ao seu lado. Queria voltar a fazer amor com ela, mas tinha medo de a magoar. No entanto, de manhã foi Kate quem o procurou e, momentos depois, encontraram-se e vogaram de novo até novos cumes. Na vida de ambos tinham-se aberto novos locais e nascido novos sentimentos. E quando Kate se levantou e olhou para ele, percebeu que um elo ainda mais forte se formara entre ambos. Não importava onde ele havia estado, nem para onde iria, sabia instintivamente que durante o resto da vida seria sua. Não saberia como dizer-lhe aquilo, mas soube, quando se meteu na ducha com ele, que lhe pertencia. A sua alma era dele.

       Deixar Joe em Washington foi ainda mais difícil desta vez do que fora deixá-lo em Boston em setembro. Ele era agora parte de si e tratou-a ainda com mais ternura. Parecia pressentir que ela era de fato sua e só queria protegê-la. Avisou-a mil vezes para ter cuidado no caminho de regresso a casa, para ter cuidado consigo e não fazer nenhuma parvoíce. Desejou poder ficar com ela, mas tinha de regressar a Inglaterra para as suas missões

       O momento da separação foi agonizante para os dois. Pela primeira vez na vida, Joe entregara-se completamente. Fora vulnerável e forte ao mesmo tempo e, tal como ela, rendera-se-lhe. Não porque dormira com ela, mas porque se responsabilizara por ela. E separarem-se não foi fácil

       - Escreve-me todos os dias Kate, amo-te - disse Joe antes de partir. E quando a levou a Union Station, ela julgou que o seu coração iria despedaçar-se no momento em que o comboio arrancou da estação. Ele correu ao lado da carruagem enquanto pôde e depois ficou na plataforma a acenar-lhe. Kate acenou-lhe da janela com as lágrimas a correrem-lhe pela cara. Já não podia imaginar a vida sem ele e naquele momento acreditou que se ele morresse não suportaria o desgosto. Não queria viver uma hora mais que ele. Isso fê-la recordar a dor de ter perdido o pai. Joe despertava nela sentimentos de amor que nunca conhecera. Deixá-lo fê-la de novo sentir a perda que passara metade da vida a tentar esquecer

       Fez a maior parte da viagem de olhos fechados. Era véspera de Natal e Joe estaria num avião rumo a Inglaterra antes de ela chegar a casa. Só ao fim da noite estaria em Boston e sabia que os pais se encontrariam à sua espera. Quando desceu do comboio e chamou um táxi mal conseguia articular uma palavra devido ao sofrimento. Não imaginava sobreviver sem Joe. Aquilo que ele lhe dera e que ela o deixara dar-lhe era a cola que cimentaria a união de ambos para sempre. Fora a última peça do quebra-cabeças. Ele não a pedira em casamento, mas não fora necessário. Kate pressentira, tal como ele, que as suas almas se haviam tornado unas

       E quando entrou na sala e a mãe viu a cara dela, Kate percebeu que Elizabeth devia ter pensado que alguma coisa terrível acontecera. Contudo, a única coisa que acontecera fora que Kate tinha tantas saudades de Joe que não suportava ter de esperar meses ou anos até voltar a vê-lo ou, pior ainda, pensar na hipótese de ele morrer. Tudo ficara subitamente diferente. Os muros haviam sido derrubados.

       - Aconteceu alguma coisa? - perguntou a mãe com uma expressão de pânico.

       Kate abanou a cabeça, e compreendeu nesse instante que a sua liberdade desaparecera. Deixara de ser uma rapariga apaixonada por um homem. Fazia parte de um todo e achava que não seria capaz de funcionar sem Joe. Os últimos dois dias haviam alterado tudo.

       - Não, - respondeu Kate, mas não foi convincente.

       - Tens a certeza? Vocês discutiram antes de ele partir? - Isso às vezes acontecia devido à tensão.

       - Não, ele foi maravilhoso. - E ao dizer isto, Kate desatou a chorar e lançou-se nos braços da mãe. O pai observava-as, preocupado. - E se ele morre, mãe?... E se ele nunca mais volta? - Toda a paixão, todo o medo, todo o desejo, todos os sonhos e necessidades e excitação e desilusão fundiram-se numa explosão gigante, semelhante a uma bomba que lhe caíra em cima por causa de ele se ter ido embora para Inglaterra. Kate não suportaria perder de novo alguém que amava. Temê-lo fê-la sentir-se uma criança.

       - Só podemos rezar para que ele volte, querida. Não podemos fazer mais nada. Se o destino assim o quiser, ele voltará. Agora tens de ser corajosa - disse a mãe com ternura, olhando para o marido com uma enorme tristeza e arrependimento.

       - Não quero ser corajosa - disse Kate a soluçar. - Quero que ele volte para casa... que a guerra acabe. - Parecia uma criança, e os pais ficaram cheios de pena. Era terrível, mas meio mundo enfrentava a mesma agonia. Kate não estava sozinha na sua dor. Aliás, tinha mais sorte que a maioria. Outras mulheres já haviam perdido os homens que amavam, os filhos, os irmãos e os maridos. E Kate ainda tinha Joe. Por enquanto.

       Sentou-se no sofá ao pé dos pais e recompôs-se. A mãe estendeu-lhe um lenço e o pai abraçou-a. Tinham muita pena dela E nessa noite, depois de Elizabeth lhe ter ido aconchegar a roupa à cama, como fizera quando ela era pequena, regressou ao quarto com o marido. Fechou a porta com um suspiro e sentou-se diante do toucador

       - Era precisamente isto que eu não queria para ela - comentou Liz com tristeza. - Não queria que ela o amasse tanto. Agora é demasiado tarde. Não estão noivos, não estão casados. Ele não lhe prometeu nada. Não têm nada. Só o amor que nutrem um pelo outro

       - E isso é muito, Liz. Talvez seja tudo o que precisam. Estar casado não o ajudaria a manter-se vivo. Está tudo nas mãos de Deus. Pelo menos eles amam-se

       - Se alguma coisa lhe acontecer agora, Clarke, ela nunca recuperará. - Não comentou nada com o marido, mas ao ver Kate chorar nessa noite recordou-lhe como a filha ficara abalada com a morte do pai.

       - Ela está no mesmo barco que metade das mulheres deste país. Se alguma coisa acontecer, ela terá de recuperar. É jovem. Não será difícil

       - Espero que ela nunca tenha de passar por isso - disse a mãe com fervor

       Na manhã seguinte, dia de Natal, Kate continuava triste. A mãe dera-lhe um lindo colar de safiras com brincos a condizer, e o pai oferecera-se para lhe comprar um carro com dois anos que vira, em perfeito estado, se a condução dela melhorasse. Mas com o racionamento da gasolina tinha poucas oportunidades para praticar, e Elizabeth não achava que fosse boa idéia. Kate também comprara prendas aos pais. No entanto, sentada à mesa diante do jantar de Natal só conseguia pensar em Joe e foi incapaz de dizer uma palavra. Sabia que ele já estava de volta a Inglaterra, a pilotar os bombardeiros

       Durante as semanas seguintes, não conseguiu animar-se. A mãe andava muito preocupada com ela e chegou a pensar em levá-la ao médico. Kate estava pálida e cansada sempre que vinha a casa aos fins-de-semana. Parecia já não ter vida social e Andy ligara-lhe para casa várias vezes, queixando-se de que não a via há muito. As únicas coisas que Kate parecia querer fazer eram dormir e reler as cartas de Joe. Nelas ele parecia igualmente deprimido. Não fora fácil regressar a Inglaterra e o tempo mantinha-se péssimo. Fora necessário cancelar várias missões e os homens andavam inquietos e aborrecidos.

       Foi no Dia dos Namorados que Elizabeth começou a ficar em pânico por causa da filha. Vira Kate na noite anterior quando viera jantar a casa. Mal tocara na comida, estava pálida e com ar cansado, e chorava de cada vez que falava em Joe. Depois de ela se ter ido embora, Elizabeth disse a Clarke que queria levar Kate ao médico.

       - Ela sente-se apenas sozinha - retorquiu ele. - Está frio e escuro e ela anda a trabalhar muito na escola. Vai ficar boa, Liz. Dá-lhe só algum tempo. E talvez ele tenha outra licença em breve.

       Mas em fevereiro de 1943 ele voava mais do que nunca

       Joe participara no ataque noturno a Wilhemshaven. Fazia essencialmente vôos diurnos, uma vez que os Britânicos preferiam encarregar-se dos noturnos. No entanto, foi convidado a voar com eles no bombardeamento de Nuremberg.

       Foi mais para o fim de fevereiro que a própria Kate começou a entrar em pânico. Estivera com Joe havia oito semanas, e o que a princípio fora apenas uma suspeita, transformara-se numa certeza havia um mês. Estava grávida. Não sabia o que fazer e não queria contar aos pais. Arranjara o nome de um médico em Mattapan por intermédio de uma colega, fingindo que era para uma amiga, mas não tivera coragem para lhe ligar. Sabia que daria cabo de tudo ter um bebê naquela altura. Teria de abandonar os estudos, toda a gente ficaria escandalizada, e mesmo que o quisessem, ela e Joe não podiam casar-se. Ele escrevera-lhe havia pouco a dizer que não tinha esperança de poder vir a casa em breve, e ela não lhe contara por que motivo lho perguntara. Dissera apenas que tinha saudades dele. Nunca havia de querer forçá-lo a casar. Sabia igualmente que se fizesse um aborto e algo acontecesse a Joe nunca se perdoaria. Casada ou não, queria o bebê. Em vez de tomar uma decisão acerca do assunto, deixou o tempo passar até ser tarde de mais para abortar. Ainda não sabia o que iria dizer aos pais, nem imaginava a sua vergonha quando tivesse de informar o colégio.

       Andy foi visitá-la uma noite e perguntou-lhe se estava com gripe. Toda a gente em Harvard fora contagiada e ele achou-a com um ar adoentado. Ela andava enjoada desde o princípio de janeiro, e estavam quase em março. Kate já havia decidido levar a gravidez a bom termo, sabia que não tinha alternativa, e queria mesmo o bebê. Era o bebê de Joe. Esperaria para contar aos pais até não ter alternativa. Também calculou que se a barriga já se notasse na Páscoa, teria de abandonar o colégio. Teria gostado de esperar até junho e terminar o segundo ano e de regressar depois no outono, após o nascimento do bebê. Mas em junho, quando começassem as férias, já estaria grávida de seis meses, e não haveria forma de ocultar a barriga. Mais tarde ou mais cedo teria de enfrentar a realidade. O que a espantava era a mãe ainda não ter desconfiado de nada. Quando isso acontecesse, teria de penar muito e sabia que os pais não perdoariam facilmente Joe

       Ainda não lhe contara nada, embora lhe escrevesse todos os dias. Pensara no assunto, mas não queria perturbá-lo ou irritá-lo. Ele precisava de estar concentrado nas suas missões. Por isso suportava tudo sozinha, vomitando na casa de banho todas as manhãs e arrastando-se para as aulas. Até as colegas notaram que ela passava o tempo todo a dormir e a governanta perguntou-lhe se ela precisava de ir ao médico. Kate insistiu que estava bem, apenas um pouco cansada por estudar muito, mas as suas notas começavam a descer e todos os professores haviam reparado nisso. A sua vida começava rapidamente a transformar-se num pesadelo, e ela andava apavorada com a eventual reação dos pais quando lhes contasse que iria ser mãe solteira em setembro. Receava que o pai tentasse obrigar Joe a casar-se quando regressasse, mas não iria permitir que ele o fizesse. Sabia que Joe era um espírito livre e fora bastante claro quando lhe dissera que nunca quisera ter filhos. Poderia adaptar-se um dia e apaixonar-se pelo bebê, mas ela não iria deixar que lhe apontassem uma arma para o forçar a casar. As únicas coisas de que tinha a certeza no meio de todas as suas preocupações era de que o amava muito e que queria ter aquele filho. Tomou a decisão no início de março e ficou bastante animada. Era o seu segredo. Não dissera a ninguém.

       - Então o que é que te tem acontecido? - perguntou-lhe Andy certa tarde quando a foi visitar. A sua primeira semana na Faculdade de Direito enchera-o de trabalho. Caminhavam os dois devagar pelo Harvard Yard e a beleza de Andy despertava a atenção de todas as raparigas. Elas começavam a desesperar.

       - Estás muito mimado - gracejou Kate, e ele sorriu. Tinha um sorriso lindo e grandes olhos escuros cheios de ternura e bondade.

       - Ora, alguém tem de cuidar destas raparigas até ao regresso dos nossos rapazes fardados. Não é fácil, mas alguém tem de fazer isso. - Sabia-lhe bem ter ficado em casa, e já ultrapassara o embaraço de ser um 4-F. Explicara o motivo tantas vezes que já não se sentia incomodado.

       - És nojento, Andy Scott - asseverou Kate. Gostava da companhia dele e nos últimos dois anos tinham-se tornado bons amigos.

       Ele iria voltar a trabalhar no hospital nesse verão. Ela hesitara em procurar um trabalho de verão porque sabia que a barriga já iria notar-se e, enquanto mãe solteira, ninguém haveria de querer contratá-la. Estava a pensar ficar na casa de Cape Cod até ter o bebê. E dali a algumas semanas iria ter de informar Radcliffe que estaria ausente uns meses a seguir à Páscoa. Isso significava que não concluiria o colégio com a sua turma, mas, com sorte, só ficaria para trás um semestre. Sentir-se-ia recompensada se a aceitassem de volta. Teria de explicar por que motivo se iria ausentar. Não era a primeira mulher a quem isso acontecia, e já tomara a sua decisão. Perguntou a si mesma o que pensaria Joe quando descobrisse. Não iria dizer-lhe até ele regressar, mesmo que isso significasse ter o bebê sem ele saber. Teve pena de não poder partilhar a notícia com o seu amigo Andy, mas sabia que não o Poderia fazer. E ele deveria ficar chocado. Era um preço que ela estava disposta a pagar.

       - Então o que vais fazer este verão, Kate? Trabalhar outra vez para a Cruz Vermelha?

       - Provavelmente - respondeu ela com ar distante, embora ele não tenha reparado. Kate estava com melhor cara do que em fevereiro e ele tentava convencê-la a ir ao cinema. Ela aceitava os seus convites de vez em quando, especialmente depois de ele ter desistido de a engatar e a aceitara como amiga. Mas Kate tinha de entregar um trabalho no dia seguinte e respondeu que daquela vez não podia aceitar.

       - És uma seca. Bem, pelo menos andas com melhor aspecto. Da última vez que te vi estavas com cara de moribunda. - Os enjôos começavam a desaparecer, estava quase no terceiro mês de gravidez e praticamente a terminar o primeiro trimestre. Andava muito excitada com o bebê e esperava que fosse um rapaz e se parecesse com Joe

       - Estive com gripe - desculpou-se, e ele acreditou. Não tinha motivo para duvidar ou suspeitar que estava grávida. Tal nem lhe passava pela cabeça.

       - Ainda bem que estás melhor. Faz lá o trabalho para podermos ir ao cinema para a semana - disse ele subindo para a bicicleta. Acenou-lhe quando se afastou, o seu cabelo escuro agitado pelo vento, os olhos azuis sorridentes. Andy era um bom rapaz e Kate gostava muito dele.

       Às vezes perguntava a si mesma se as coisas entre ambos teriam sido diferentes se Joe não tivesse existido. Era difícil dizer. Sentia um grande afeto por Andy, mas não se imaginava a sentir por ele o que sentia por Joe. Andy era meigo, carinhoso e terno, mas não provocava a excitação e a paixão que ela sentia por Joe. No entanto, sabia que ele daria um ótimo marido. Era responsável, honrado e meigo, todas as coisas que as mulheres procuravam num homem. Ao contrário de Joe, que era acabrunhado, distante mas brilhante, totalmente obcecado pelos seus aviões e sem o mínimo desejo de assentar. Nunca esperara apaixonar-se por um homem como Joe Allbright, e muito menos ter um filho seu sem estar casada. A sua vida tomara um rumo surpreendente nos últimos tempos. No entanto, com o bebê dele a crescer dentro de si, Kate sentia-se ainda mais apaixonada por Joe

       Nesse fim-de-semana sentia-se muito bem, menos cansada. Concluíra o trabalho e recebera três cartas de Joe no mesmo dia. Às vezes chegavam assim, por causa da forma como os censores as enviavam, depois de as terem lido para se certificarem de que não revelavam segredos militares. As cartas de Joe nunca tinham esse problema. Ele escrevia-lhe sobre pessoas, sobre o campo e os seus sentimentos por ela, tudo assuntos inofensivos.

       Kate tinha planejado ir a casa naquele fim-de-semana, mas mudou de idéias no último minuto. Foi ao cinema com um grupo de amigos e viu Andy lá com uma rapariga que já conhecia de uma das cadeiras. Era uma loura alta do Midwest, com um sorriso bonito e pernas fabulosas, e fora recentemente transferida de Wellesley. Kate sorriu a Andy quando a rapariga se virou para vestir o casaco e ele fez-lhe uma careta. Depois Kate regressou com as colegas de bicicleta. Era a melhor forma de viajar pelo complexo universitário e por Cambridge. Estavam quase em casa quando um rapaz de bicicleta apareceu vindo de nenhures, atravessou o grupo e bateu em Kate com tanta força que ela voou pelo ar, caiu no chão e ficou momentaneamente inconsciente. Quando as outras desmontaram das bicicletas ela já tinha recuperado os sentidos, mas continuava um pouco tonta. O rapaz que a atingira estava parado ao pé dela com ar de pânico e desorientação. Encontrava-se visivelmente embriagado.

       - És maluco? - gritou-lhe uma das raparigas enquanto duas outras ajudavam Kate a levantar-se. Ela magoara o braço e a anca, caíra de rabo, mas não parecia ter fraturado nenhum osso. Ao coxear até casa só conseguia pensar no bebê. Não disse nada a ninguém, mas foi logo para a cama assim que entrou em casa e uma das colegas levou-lhe sacos de gelo para o braço e para a anca.

       - Estás bem? - perguntou Diana com o seu sotaque arrastado do Sul. - Estes rapazes nortenhos não têm maneiras!

       Kate sorriu-lhe e agradeceu os sacos de gelo, mas não era o braço nem a anca que a preocupavam. Doía-lhe a barriga há vários minutos e não sabia o que fazer a respeito disso. Ainda pensou em ir à enfermaria, mas era demasiado longe Para ir a pé e tinha medo de piorar ainda mais as coisas. Pensou que se ficasse na cama melhoraria. O bebê devia ter levado uma sacudidela forte. Mas talvez não fosse nada.

       - Se precisares de alguma coisa chama-me - disse Diana ao sair do quarto de Kate. Desceu as escadas e foi fumar um cigarro com um rapaz do MIT que tinha ido visitá-las. Quando foi ver Kate uma hora mais tarde, esta adormecera. Às quatro da manhã, Kate acordou. Estava cheia de dores e quando mudou de posição na cama para ficar mais confortável, reparou que deitava sangue. Tentou não fazer barulho, apesar das dores, para não acordar as raparigas que dormiam no mesmo quarto. Dirigiu-se à casa de banho quase dobrada ao meio. Não reparou, mas deixou um rasto de sangue ao caminhar. O braço e a anca doíam-lhe também, mas não tanto como a barriga. Mal se agüentava de pé.

       Fechou a porta da casa de banho tentando não fazer barulho e quando se olhou ao espelho reparou que da cintura para baixo estava coberta de sangue. Tinha uma hemorragia. Iria perder o bebê de Joe. Teve medo de chamar alguém, podia ser expulsa do colégio ou podiam mandar chamar os pais. Não sabia quais seriam as conseqüências se a administração soubesse que ela estava grávida. Calculava que lhe pediriam que se fosse embora.

       Não era assim que queria que as coisas acontecessem. Não sabia o que fazer, quem chamar, ou o que iria suceder. Não teve tempo de pensar nisso, porque as dores que a tinham acordado eram tão fortes que ela mal conseguia respirar. Tinha contrações após contrações. Estava de gatas, a tentar respirar, com sangue por todo o lado, quando Diana, a rapariga do Sul, entrou para ir beber água e deparou com ela.

       - Oh meu Deus... Kate... o que aconteceu? - Parecia ter sido atingida com um machado, e Diana só pensou em chamar um médico, uma ambulância, alguém. Disse-o a Kate, mas ela implorou-lhe que não o fizesse.

       - Não... por favor... não posso... Diana... - Não foi capaz de terminar a frase, mas a rapariga de Nova Orleães calculou o que acontecera.

       - Estás grávida? Diz-me a verdade, Kate. - Queria ajudá-la, mas tinha de saber a causa da hemorragia. A mãe era enfermeira e o pai médico, pelo que ela percebia de primeiros socorros. Nunca vira tanto sangue. Tinha medo que Kate morresse se não chamassem alguém para a ajudar. Era um grande risco não levarem Kate para o hospital.

       - Estou sim - admitiu Kate a custo enquanto Diana a ajudava a deitar-se sobre um monte de toalhas. Kate chorava com dores e mordia uma toalha para não fazer barulho. Quase de três meses...

       - Merda. Eu abortei uma vez. O meu pai quase me matou. Eu tinha dezessete anos e tive medo de lhe contar... por isso procurei alguém fora da cidade... fiquei quase tão mal como tu... - disse, colocando um pano úmido sobre a testa de Kate e segurando-lhe a mão a cada contração. Trancara a porta para ninguém poder entrar, mas o que mais temia era que Kate perdesse a vida se ela não fosse procurar ajuda. A hemorragia era muito forte. No entanto, pareceu abrandar à medida que as contrações se intensificavam. Nenhuma delas sabia ao certo o que estava a acontecer, mas era fácil perceber que Kate iria expulsar o bebê. Era impossível ele não morrer com aquela hemorragia.

       Passou-se mais uma hora até o corpo de Kate se contorcer de dores e, segundos depois, o bebê ser expulso. Ela perdeu mais sangue, mas assim que o feto saiu, o sangue abrandou. Diana limpava o que podia com toalhas, embrulhara o feto numa e colocara-o onde Kate não o visse. Esta estava demasiado fraca para entrar em histeria e quando tentou sentar-se quase desmaiou. Diana teve de voltar a deitá-la.

       Eram quase sete horas, e estavam na casa de banho havia três, quando Diana ajudou Kate a ir para a cama. Tudo fora limpo e assim que deitou Kate, Diana correu para a sala do lixo, a fim de se livrar da toalha com o feto.

       A hemorragia diminuíra e as dores já eram suportáveis. Diana explicou-lhe que era o útero a contrair-se para deter a hemorragia, o que era bom. As dores anteriores haviam sido para expelir o bebê. E se ela não sangrasse muito mais, ficaria bem. Era o que Diana esperava. Já dissera a Kate que se ela piorasse chamaria uma ambulância e a mandaria para o hospital, por muito que ela objetasse. E Kate concordara, estava apavorada e demasiado cansada para discutir, e em choque devido à perda de sangue. Tremia violentamente e Diana cobriu-a com mais três cobertores. As outras raparigas começaram a acordar.

       - Estás bem? - perguntou uma ao levantar-se. Tinham aulas nessa manhã. - Estás um bocado pálida. Deves ter ficado com uma concussão quando aquele tipo te fez cair da bicicleta - comentou ela ao dirigir-se a bocejar à casa de banho.

       Kate disse que lhe doía muito a cabeça e continuava a tremer na cama

       Diana manteve-se perto dela e uma rapariga de outro quarto entrou para pedir umas toalhas emprestadas. Ficou muito preocupada ao ver os lábios acinzentados de Kate e o seu rosto branco.

       - O que te aconteceu ontem à noite? - perguntou ela, aproximando-se para tomar o pulso de Kate.

       - Caiu da bicicleta e bateu com a cabeça - encobriu Diana, mas a outra não se deixou enganar. Tal como Diana, vinha de uma família de médicos de Nova Iorque, e sabia o suficiente para perceber que Kate tinha mais do que uma dor de cabeça ou uma concussão. Estava tão cinzenta que parecia ter perdido muito sangue, e encontrava-se possivelmente em choque.

       Aproximou devagar a cara do ouvido de Kate e tocou-lhe ao de leve no ombro

       - Kate... diz-me a verdade... estás a sangrar? - Kate limitou-se a assentir e a continuar a tremer. Batia tanto os dentes que mal conseguia falar. - Acho que estás em choque... Fizeste um aborto? -           murmurou.

       Kate sempre gostara dela e decidiu contar-lhe a verdade. Sabia que estava em apuros. Sentia-se tonta e o seu corpo fora tão traumatizado que ela gelara e não conseguia deixar de tremer apesar da pilha de cobertores com que Diana a cobrira. As duas raparigas encontravam-se junto à cama muito aflitas

       - Não, - sussurrou Kate à rapariga que se chamava Beverly. - Perdi o bebê.

       - Estás com hemorragias?

       Kate achava que não, pois sentia a cama seca. Tinha medo de olhar.

       - Creio que não.

       - Hoje não vou às aulas e fico aqui contigo. Não deves ficar sozinha. Queres ir ao hospital?

       Kate abanou a cabeça. Era a última coisa que queria.

       - Eu também fico, - ofereceu-se Diana, indo buscar uma xícara de chá. Meia hora depois, as outras já tinham ido para as aulas, e as duas vigilantes ocupavam os seus postos uma de cada lado da cama de Kate. Esta estava muito desperta e chorava. A experiência assustara-a e deprimira-a.

       - Vais ficar bem, Kate - disse Beverly. - Eu fiz um aborto o ano passado. Foi horrível. Tenta dormir, daqui a um dia ou dois já te sentes melhor. Vais ficar admirada com a rapidez da recuperação. - Depois lembrou-se de algo. - Queres que eu telefone a alguém? - Havia outra pessoa envolvida e Beverly desconhecia a situação de Kate. Esta abanou a cabeça.

       - Ele está em Inglaterra - murmurou a custo. Nunca se sentira tão mal na vida, a perda de sangue abalara-a muito.

       - Ele sabe? - perguntou Diana, fazendo uma festa no ombro de Kate.

       Kate olhou-a com gratidão. Não teria sobrevivido sem a ajuda dela. E assim, ninguém iria saber, nem Radcliffe, nem os pais. Nem Joe.

       - Não lhe contei. Tencionava ter o bebê.

       - Podes ter outro quando ele voltar para casa. - Beverly não acrescentou ”se ele sobreviver”. Mas Kate e Diana adivinharam e Kate começou de novo a chorar. Aquele foi um dia muito longo para ela e só quarenta e oito horas depois começou a sentir-se melhor.

       Diana e Beverly regressaram às aulas no dia seguinte e Kate ficou na cama a chorar. Saiu da cama na quarta e, quando o fez, parecia um fantasma e tinha perdido quatro quilos. Não comia desde domingo, mas a hemorragia parara quase por completo. Tinha um ar péssimo que condizia com o seu estado de espírito e estava com olheiras, mas as amigas concordaram que ela já não corria perigo. Kate tentou agradecer-lhes o que tinham feito por si, mas de cada vez começava a chorar.

       - Vai ser assim durante uns tempos, - preveniu Beverly. - Eu chorei durante um mês. É uma coisa hormonal. - Mas não eram apenas hormônios, era o bebê de ambos. Ela Perdera uma parte de Joe.

       Ninguém sabia o que lhe tinha acontecido e toda a gente lá em casa pensava que ela ficara na cama por causa do acidente de domingo à noite. Nunca desmentiu essa versão. Tinha a sensação de ter vivido noutro planeta durante vários dias. Tudo parecia irreal e diferente e a única coisa que a animava eram as cartas de Joe. Mas chorou de novo ao aperceber-se de que nem a ele podia contar o que acontecera e o que haviam perdido.

       Passou o fim-de-semana seguinte na cama, a estudar. Continuava muito pálida e calada quando Andy a foi visitar no sábado à tarde. Passara-se uma semana desde o aborto e ela tinha má cara. Descera as escadas muito devagar para ir ao encontro dele. Beverly e Diana tinham-lhe levado comida da cafeteria durante toda a semana E a primeira vez que ela saiu do quarto foi para ver Andy, que a aguardava na sala de estar

       - Credo, Kate, estás com cara de defunta. O que é que te aconteceu? - Achou-a tão frágil e magra que temeu pela vida dela.

       - Fui atingida por uma bicicleta no domingo à noite. Acho que fiz uma concussão.

       - Foste ao hospital mandar examinar isso?

       - Não, já estou bem - respondeu, sentando-se numa cadeira ao lado dele.

       Andy continuava muito preocupado.

       - Acho que devias ir ao médico. Talvez tenhas tido uma paragem cerebral - acrescentou com um sorriso

       - Muito engraçado. Já me sinto melhor.

       - Não me agradaria nada ter-te visto na segunda.

       - Imagino. - Vê-lo fez com que regressasse ao mundo e se sentisse menos deprimida ao voltar para o quarto, embora continuasse cansada. Diana dissera-lhe que andaria anêmica durante uns tempos e mandou-a comer muito fígado.

       Na semana seguinte, melhorara o suficiente para regressar às aulas. Ninguém fazia idéia do que lhe acontecera e, à medida que as semanas foram passando, ela esqueceu o assunto. Não contou a Joe. Durante o resto do segundo ano Kate andou muito atarefada. Recebia constantemente cartas de Joe, mas não se perspectivavam nenhuns dias de licença. Estava-se na primavera de 1943 e Kate ia ao cinema ver as notícias, na esperança de avistar Joe no ecrã.

       A RAF continuava a bombardear Berlim, Hamburgo e outras cidades. Tunis fora tomada pelos Britânicos e os Americanos haviam recuperado Bizerte, no Norte de África. Na frente oriental, os Alemães e os Russos tinham chegado a um impasse, enterrados na lama até aos joelhos com o degelo da primavera.

       Kate via frequentemente os pais aos fins-de-semana, escrevia a Joe e de vez em quando ia jantar com Andy ou iam ao cinema. Ele tinha uma nova namorada em Wellesley e por isso passava lá muito tempo, vendo Kate com menor freqüência. Ela não se importava. Tinha ficado muito amiga de Diana e Beverly. Nesse verão iria tornar a trabalhar para a Cruz Vermelha.

       Foram para Cape Cod no fim de agosto, mas desta vez Joe não apareceu para a surpreender no churrasco. Fazia oito meses que não vinha a casa, desde o Natal anterior, quando se tinham encontrado em Washington. E ao dar passeios solitários pela praia, Kate não conseguia deixar de pensar que, se não tivesse perdido o bebê, estaria grávida de oito meses. Os pais nunca descobriram o que acontecera. E a mãe continuava a falar do fato de Joe nunca ter feito promessas acerca de um futuro com ela. Recordava constantemente a Kate que ela estava à espera de um homem que não lhe prometera nada. Nem casamento, nem anel, nem futuro. Contava apenas que ela esperasse por ele e que vissem o que acontecia quando ele regressasse. Kate tinha vinte anos, ele trinta e dois, idade suficiente para saber o que queria fazer quando regressasse.

       A mãe recordava-lhe isso sempre que ia a casa, e continuou a fazê-lo já as folhas tinham começado a cair. No final de outubro Kate estava a estudar para os exames, era o seu penúltimo ano, e a governanta da casa onde ela vivia veio dizer-lhe que tinha uma visita. Sem fazer perguntas, Kate calculou que fosse Andy. Ele já andava no segundo ano da Faculdade de Direito e trabalhava que nem um escravo.

       Kate correu rapidamente escadas abaixo, com um livro ainda na mão e uma camisola azul-pálida sobre os ombros. Vestia uma saia cinzenta e sapatos pretos e brancos, e assim que o seu pé desceu o último degrau, viu-o. Era Joe, muito alto e incrivelmente atraente no seu uniforme. Tinha um ar muito sério e Kate ficou sem fôlego ao vê-lo. Ele pareceu retrair-se um instante e, sem dizer uma palavra, Kate lançou-se-lhe nos braços e ele apertou-a com força. Pressentiu que Joe passara um mau bocado. Parecia incapaz de falar, mas percebeu que precisava tanto dela como ela dele. A guerra começava a pesar em toda a gente, incluindo Joe.

       - Estou tão feliz por te ver - disse ela de olhos fechados ainda nos seus braços. Haviam sido dez meses de agonia, sempre preocupada, perdendo o seu filho, desconhecendo o seu paradeiro

       - Eu também - respondeu ele, afastando-a por fim e olhando-a nos olhos. Estava cansado. Tinha a sensação de estar constantemente a voar, e um número devastador de aviões fora abatido. Os Alemães começavam a ficar desesperados e atacavam em força. Joe fitou-a com ar sério e Kate percebeu que ele se sentia de novo acabrunhado junto de si. Às vezes levava algum tempo a abrir-se e a reajustar-se. As suas cartas eram tão agradáveis e tão cândidas que por vezes se esquecia de como ele era tímido. - Só tenho vinte e quatro horas, Kate. Amanhã à tarde tenho de estar em Washington e regresso à Europa à noite. - Encontrava-se nos Estados Unidos para reuniões acerca de uma missão ultra-secreta, e o seu vôo não fora fácil. No entanto, não podia partilhar nada daquilo, nem ela fez perguntas. Algo na sua expressão lhe indicou que ele pouco podia dizer. E era ainda mais estranho perceber que se não tivesse perdido o bebê em março ele teria regressado e encontrado uma criança de um mês. Claro que Joe o desconhecia por completo. - Podes sair da escola por algum tempo?

       Eram quase horas de jantar e ela não tinha planos. Também os teria cancelado.

       - Claro. Queres ir a minha casa? - Seria agradável ter alguma privacidade, e se ficassem na sala das visitas do colégio teriam de cumprir todas as regras de visita. Ao fim de dez meses ambos queriam mais liberdade

       - Podemos ficar sozinhos algures. - Ele só queria descontrair-se e estar com ela. Mesmo após todo aquele tempo não lhe apetecia falar. Queria olhá-la e senti-la perto de si. Estava demasiado cansado para encontrar as palavras certas. Kate pressentiu o desalento dele

       - Queres ir para um hotel? - perguntou em voz baixa de forma a que ninguém ouvisse. Havia outras pessoas por perto

       Ele olhou-a com alívio e assentiu. Apetecia-lhe deitar-se ao lado dela durante algum tempo. A mente de Kate fervilhava enquanto fazia planos.

       - Porque não ligas para Palmer House da cabina lá fora? Ou para o Statler? Eu volto daqui a uns minutos

       Foi à recepção assinar a sua saída e telefonou à mãe do telefone no corredor do primeiro andar a informá-la de que iria passar a noite em casa de uma amiga, para que pudessem estudar em conjunto para os exames, pois não queria que a mãe se preocupasse em caso de ligar. A mãe respondeu que era muito simpático da parte dela e agradeceu o telefonema. Kate sabia que nunca ocorreria à mãe que a história era mentira.

       Cinco minutos depois, Kate estava novamente na recepção e Joe aguardava-a lá fora. Levava algumas coisas numa malinha, entre elas um diafragma. Beverly dera-lhe o nome de um médico e Kate fora a uma consulta e dissera que estava noiva. Depois do que acontecera da última vez, queria estar preparada para quando Joe voltasse

       Tinham um quarto no Statler disse com nervosismo. Sentiam-se um pouco acabrunhados por irem diretamente para um hotel, mas dispunham de muito pouco tempo e queriam estar sozinhos. Ele pedira um carro emprestado e conversaram a caminho do hotel. Kate não conseguia tirar os olhos dele. Estava bonito como sempre, embora muito mais magro. E parecia mais velho do que no ano anterior, ou talvez mais amadurecido. Havia tantas coisas que queria dizer-lhe, coisas que nunca quisera escrever nas cartas, e ele queria também fazer-lhe muitas perguntas.

       Começaram a descontrair-se a caminho do hotel. Parecia que ainda na véspera se tinham visto, mas, por outro lado, parecia também que ela não o via há anos. O mais estranho era que depois de ter dormido com ele e de ter perdido o bebê se sentia quase como sua esposa. Não precisava de um papel passado, de uma cerimônia ou de uma aliança Independentemente das burocracias, ela pertencia-lhe.

       Joe tirou uma mala pequena do porta-bagagens quando chegaram ao hotel e depois estacionou o carro na garagem. Juntou-se a Kate no vestíbulo e deram entrada. Ficaram registrados como Major e Mrs. Allbright e foram tratados com respeito. O recepcionista reconheceu-o. E um paquete ofereceu-se para lhe levar a mala.

       - Não é preciso, obrigado - agradeceu Joe com um sorriso quando o recepcionista lhe deu a chave

       Joe e Kate subiram no elevador sem dizer uma palavra e, quando ele abriu a porta, ela ficou aliviada ao ver que o quarto era bonito. Esperara uma coisa deprimente e pequena e, embora isso não lhes importasse, havia algo de indecoroso em registrar-se num hotel com um homem. Nunca fizera nada semelhante e achava uma coisa bastante ousada. Contudo, não ia perder a oportunidade de passar a noite com ele, especialmente se era a única noite que ele tinha de folga. Tal como toda a gente nas mesmas circunstâncias, viviam cada dia como se fosse o último, e podia muito bem sê-lo

       Houve um certo constrangimento quando se viram no quarto, mas quando Joe se sentou no sofá e deu uma palmada no assento ao seu lado, ela sorriu e obedeceu.

       - Nem acredito que estás aqui - disse ela com uma expressão que dava a entender as saudades que tivera.

       - Nem eu, - respondeu Joe.

       Ainda dois dias antes estivera num caça a escoltar bombardeiros sobre Berlim. Haviam perdido quatro aviões E agora via-se sentado num quarto de hotel em Boston, com ela. Achou-a mais bonita que nunca. Parecia tão jovem, fresca e tão distante da vida que ele levava havia quase dois anos. Tinham-no avisado duas horas antes do vôo e era uma sorte que o tivessem deixado ir de licença, ainda que por pouco tempo. Durante o vôo, Joe receara não conseguir vê-la. A noite no Statler era uma dádiva inesperada. E para Joe, pelo menos, parecia surrealista. Pareciam pombos que regressavam sempre para junto um do outro, por muito longe que tenham estado. Encontravam-se sempre, quer em Cape Cod quer em Washington, ou ali, e retomariam a relação onde a haviam deixado. Por muito tempo que tivesse passado, o mesmo fogo e a mesma magia estavam sempre presentes.

       Ele beijou-a então, sem dizer mais nada. Parecia precisar dela para se confortar, para sarar as feridas da sua alma. Precisava apenas de beber da fonte pacífica que ela lhe oferecia. Kate pareceu compreender aquilo de que ele precisava. E sempre que estava com ele, ainda que por pouco tempo, sabia o quanto era amada. Era uma simbiose perfeita.

       Minutos depois, ele dirigiu-se à cama com ela. Joe sentiu-se um pouco culpado quando se despiram. Tencionara levá-la a jantar fora e conversar um pouco antes de fazer amor com ela, mas nenhum tinha vontade de estar com pessoas ou num restaurante. Desejavam estar apenas um com o outro e com os seus sentimentos. Nem precisavam de palavras.

       Ele beijou-a com ternura e paixão quando se deitaram e, ao despi-la, reparou o quanto havia estado faminto dela. Para sua surpresa, não houvera mais ninguém. Nos dez meses que haviam estado separados, ele só a quisera a ela. E Kate só o quisera a ele.

       Ela ficou um pouco atrapalhada quando o deixou para ir à casa de banho durante uns minutos e ele só lhe fez perguntas muito depois de terem acabado de fazer amor e estarem deitados nos braços um do outro, saciados e tranqüilos, a pairar no seu pequeno mundo isolado e seguro. Ligeiramente envergonhada, ela falou-lhe no diafragma e ele pareceu aliviado.

       - Preocupei-me com isso durante vários meses depois da última vez - admitiu. - Perguntava a mim mesmo o que faríamos se engravidasses. Nem podia regressar para casar contigo, - disse e ela ficou comovida com as suas palavras. Era bom saber que ele pensava assim e que se preocupara com ela. Não fizera idéia de como ele reagiria e sentiu naquele momento que podia contar-lhe o que acontecera

       - Eu engravidei da última vez, Joe - disse ela baixinho. Tinha a cabeça pousada no ombro dele e o seu cabelo tocava-lhe na cara.

       Ele virou a cabeça para a fitar.

       - Estás a falar a sério? E o que fizeste? - Parecia que um raio o atingira. O assunto há muito que deixara de o preocupar, ela nunca lhe dissera nada, e nunca supusera que ela pudesse ter engravidado. - Ou.. nós... tu...

       Ela sorriu ao ver a expressão dele. Era mais de espanto do que de medo. E queria saber por que motivo ela nunca lhe contara. Kate cresceu imensamente aos seus olhos quando Joe percebeu que, independentemente do que tinha acontecido, ela resolvera o assunto sozinha

       - Perdi-o em março. Não sabia o que fazer, mas sabia que se alguma coisa te acontecesse nunca me perdoaria se tivesse decidido agir. Tinha de o ter, se era isso que estava destinado. Estava quase no terceiro mês de gravidez quando o perdi - disse ela de lágrimas nos olhos.

       Joe apertou-a com mais força.

       - Os teus pais sabem? - Imaginava-os furiosos consigo, e com razão. Sentiu-se cheio de remorsos ao pensar naquilo por que ela devia ter passado.

       - Não, não sabem - tranquilizou-o, aconchegando-se mais a ele. O consolo que ele não pudera dar-lhe antes dava-o agora. Tencionava abandonar a escola em abril e contar-lhes. Não podia fazer mais nada. Fui atingida por um miúdo a andar de bicicleta e acho que foi isso que provocou o aborto. Ele bateu-me com bastante força e desmaiei. Perdi o bebê nessa noite

       - Estiveste internada? - perguntou horrorizado. Aquilo nunca lhe acontecera antes, embora tivesse acontecido a muitos dos seus amigos. No entanto, ele nunca pusera uma rapariga em apuros, fora sempre cuidadoso, exceto com Kate,

       - Estava no colégio, mas duas das raparigas da minha casa tomaram conta de mim - contou discretamente, poupando-o aos pormenores. Sabia que ele teria ficado ainda mais perturbado se tivesse visto o estado em que ela ficara. Kate levara meses a sentir-se normal. Perdera tanto sangue que só muito depois recuperara totalmente as forças. Naquele momento estava já recuperada.

       Joe pensou que se a gravidez tivesse sido levada a bom termo naquela altura teriam um bebê de um mês. Era uma coisa estranha.

       - Sabes, é engraçado. Pensei nisso durante muito tempo. Sempre achei que me irias dizer que isso acontecera. Não sei por que, mas quando regressei a Inglaterra não pensava noutra coisa, estava absolutamente certo de que tinhas ficado grávida. Mas nunca disseste nada e eu não quis perguntar. Não sei se alguém lê a tua correspondência. E depois acho que esqueci o assunto. Mas durante uns meses tive uma sensação estranha. Porque não me contaste, Kate? - Sentia-se triste por ela não o ter feito, mas compreendia. E admirou-a por isso mais do que ela podia imaginar. Kate resolvera o assunto sozinha, recuperara, aparentemente sem lhe guardar rancor. Ficou comovido com isso e com a coragem dela. Adivinhou, pela maneira como ela falava, que não devia ter sido um momento fácil.

       - Achei que já tinhas muito com que te preocupar e não quis sobrecarregar-te.

       Ele assentiu e apertou-a ainda com mais força.

       - Também era o meu bebê.

       - Teria sido, - e ela ficou novamente cheia de pena. Nada mais queria do que estar com ele e ter o seu filho, mas o destino assim não o quisera, pelo menos por enquanto. E dado o que estava a acontecer na vida de ambos, o que acontecera fora pelo melhor.

       - Ainda bem que agora estás a tomar precauções. - Também tinha trazido preservativos. Não queria ser irresponsável com ela e arriscar-se. A última coisa de que precisavam era de uma criança para complicar as suas vidas.

       Falaram algum tempo sobre a guerra e Kate perguntou-lhe quanto tempo mais pensava ele que ela iria durar. Joe suspirou.

       - É difícil calcular. Quem me dera poder dizer que vai acabar depressa. Não sei, Kate. Se bombardearmos os boches, talvez um ano.

       Era em parte por isso que ia a Washington, para ver se podia acelerar o bombardeamento com alguns aviões novos extraordinários. Até ali fora desencorajante, os Alemães continuavam a vir implacavelmente em vagas. Por muitos alemães que os Aliados matassem, ou por muitas cidades e fábricas e depósitos de armamento que destruíssem, eles pareciam sempre ter mais. Aparentavam ser uma máquina de guerra indestrutível

       E a guerra no Pacífico também não correra bem. Combatiam um povo com uma cultura e num terreno que lhes eram completamente estranhos. Aviões kamikaze bombardeavam porta-aviões, navios eram afundados, aviões eram abatidos E no outono de 1943, o moral dos Aliados estava bastante em baixo

       Kate tinha a sensação de que um número incrível de pessoas suas conhecidas morrera. Era devastador. Vários rapazes que ela conhecera em Harvard e no MIT nos últimos dois anos haviam falecido. Dava graças por nada ter acontecido a Joe

       Falaram muito durante essa noite, o que era pouco habitual nele, mas dispunham de pouco tempo. Não podiam descontrair-se calmamente. Tinham apenas de estar ali, de ser tudo o que podiam no pouco tempo de que dispunham E durante o resto da noite tentaram não pensar na guerra

       Fizeram de novo amor e não saíram do quarto. Pediram o jantar e, quando o criado lhes perguntou se estavam em lua-de-mel, riram-se. Não falaram do futuro nem fizeram planos. Ela só queria que ele permanecesse vivo. Não era capaz de pensar no que desejava para si própria, só queria estar com ele, quando e onde pudesse, sempre que pudesse. Mais do que isso seria como pedir um milagre, um sonho infantil. Sabia que a mãe não aprovaria aquela situação, mas a mãe não compreendia. Um anel de noivado não teria alterado nada, nem o manteria vivo. Joe também não lhe pediu nada, a não ser o que ela quisesse dar-lhe espontaneamente, e, na medida das suas capacidades, ela deu-lhe tudo

       Dormiram profundamente nessa noite, primeiro abraçados e depois afastados. Acordaram sobressaltados quando se aperceberam de que não era um sonho e de que estavam realmente juntos.

       - Olá - disse ela ensonada, sorrindo-lhe e abrindo os olhos na manhã seguinte. Sentira o calor dele durante toda a noite e as suas pernas fortes ao seu lado ao espreguiçar-se. Ele beijou-a. A noite que acabara de passar fora bastante diferente daquelas a que estava habituado nos últimos tempos.

       - Dormiste bem? - perguntou Joe, puxando-a para si. Estavam de barriga para o ar, a sussurrar. Ela adorou acordar ao seu lado.

       - Senti-te ao meu lado durante toda a noite e achei que estava a sonhar.

       Nenhum dos dois estava habituado a dormir com alguém ao lado e haviam estranhado, embora se sentissem felizes por estarem juntos.

       - Eu também, - disse ele com um sorriso, pensando no que haviam feito. Queria saborear todos os momentos que passava com ela e levar essa recordação.

       - A que horas tens de te ir embora? - perguntou Kate um pouco tensa. Era impossível esquecer que aquelas horas haviam sido um milagre.

       - Tenho de embarcar no avião para Washington à uma da tarde. É melhor deixar-te no colégio pelas onze e meia.

       Ela faltaria às aulas nessa manhã e não se importava com as conseqüências, nada a faria deixá-lo mais cedo do que o necessário.

       - Queres o pequeno-almoço?

       Kate tinha apenas fome dele. Beijaram-se, as suas mãos começaram a vaguear e, pouco depois, encontraram-se de novo.

       Às nove horas levantaram-se e pediram o pequeno-almoço. Quando o criado apareceu, já tinham tomado ducha separadamente e envergavam os roupões do hotel. Comeram torradas, sumo de laranja, fiambre e ovos e partilharam um bule de café. Aquilo era um festim para Joe, que sobrevivia há tanto tempo com rações militares que já havia esquecido o que era a verdadeira comida. Para Kate, o pequeno-almoço era relativamente normal, mas não o fato de ter Joe à sua frente do outro lado da mesa. Achou lindo o rosto sério e cinzelado dele. Joe bebia calmamente o café e lia o jornal. Depois os seus olhos encontraram os dela e sorriu.

       - Tal como a vida real, não é? Quem haveria de dizer que estamos em guerra?

       Mas o jornal não falava noutra coisa e as perspectivas não eram boas. Pousou o jornal e sorriu a Kate. Haviam partilhado uma noite maravilhosa e, sempre que estava com ela, era como encontrar uma parte desaparecida de si. Havia nele um vazio de que nunca se apercebera até a ver. Durante o resto do tempo, outras coisas pareciam preenchê-lo. Não necessitava de muita gente. Mas aquela mulher tocara-o como poucas. Nunca conhecera ninguém como ela, pensou ao contemplá-la. O seu olhar era tão intenso, os seus modos diretos, francos, destemidos. Parecia uma jovem corça a farejar o ar e a gostar da sensação. Amava a vida e tinha sempre uma gargalhada pronta, e naquela manhã não foi diferente.

       Kate pousou a xícara e sorriu-lhe

       - Porque estás a sorrir? - perguntou Joe com ar divertido. O bom humor dela era contagiante. A sua natureza era bem menos alegre que a dela. Não que fosse infeliz, era apenas sério e calado, e ela gostava disso.

       - Estava a pensar na cara que a minha mãe faria se nos visse.

       - Não penses nisso. Fico cheio de remorsos. O teu pai matava-me e eu não o culparia. - Em especial depois do que ela lhe contara acerca da gravidez e do aborto. Sabia que os Jamison teriam ficado horrorizados, e com razão. - Não sei se conseguirei voltar a enfrentá-los.

       - Bom, podes vir a ser obrigado a fazê-lo, por isso é melhor ultrapassares isso.

       Tal como ela ultrapassara. Em especial agora que vira Joe. Quase sentia pena de ter colocado o diafragma, queria mesmo ter um filho dele. Desejava-o mais até do que casar. Como Joe nunca falava em casamento, ela começava a pensar que só as pessoas de idade se preocupavam com isso, e as suas amigas que se haviam casado pareciam crianças tolas. Disse a Joe que elas só se preocupavam com os presentes de casamento e com as damas de honra, e depois queixavam-se que os maridos passavam demasiado tempo com os amigos, ou que bebiam muito, ou que eram maus para elas. Pareciam crianças a fingir ser adultas. Ter o filho dele seria um elo como nenhum outro, real e importante e que nada tinha a ver com as outras pessoas. Mesmo sabendo os problemas que teria de enfrentar, Kate adorara estar grávida dele. Sabia que teria para sempre uma parte dele consigo, e provavelmente a melhor parte. Rezara para que fosse um rapaz e tencionara ensinar-lhe tudo sobre aviões. Ultimamente Kate andava sempre com medo de perder Joe na guerra e um bebê seria uma parte dele que teria sempre.

       Joe apercebeu-se de que ela devia estar a pensar coisas boas a seu respeito e pegou-lhe na mão, levando-a aos lábios.

       - Não fiques tão triste, Kate. Eu volto. Esta história ainda não acabou. Nunca acabará. - Não sabia que as suas palavras eram proféticas.

       Ela sentia-se como ele.

       - Tem cuidado contigo, Joe. Só isso importa.

       Estava tudo nas mãos do destino. Ele iria para o outro lado do mundo arriscar a vida todos os dias, e só Deus sabia quem iria sobreviver ou não. Tudo o resto lhes parecia pouco importante.

       Depois do pequeno-almoço vestiram-se e quase não saíam do quarto a tempo. Ele beijava-a e abraçava-a e mal conseguiam tirar as mãos um do outro. No entanto, ele tinha de a deixar no colégio e de chegar a horas ao aeroporto. Não podia entrar atrasado na reunião de Washington ou, pior ainda, perder o avião. O que o trouxera ali era um assunto muito sério e importante para o desfecho da guerra na Europa. Amava Kate, mas cada coisa no seu devido lugar. Tinha coisas importantes a fazer que não a incluíam.

       Fizeram a viagem em silêncio. Kate olhava para ele de vez em quando. Queria recordar o seu rosto naquele momento para poder consolar-se nos dias vindouros. Achava que estavam a fazer tudo em câmara lenta. Chegaram demasiado cedo ao complexo de Radcliffe. Saíram do carro e ela fitou-o de lágrimas nos olhos. Não suportava ter de o deixar de novo, mas sabia que tinha de ser corajosa. A noite que tinham acabado de passar juntos fora uma dádiva inesperada.

       - Mantém-te em segurança - murmurou Kate quando Joe a abraçou. “Mantém-te vivo” era o que tinha querido dizer. - Amo-te, Joe - disse com um nó na garganta. Não queria dificultar ainda mais a despedida.

       - Eu também te amo... e da próxima vez que alguma coisa importante te acontecer quero que me contes. - Havia sempre a possibilidade de ela tornar a engravidar, apesar do diafragma. Ele ficara grato por ela não ter querido sobrecarregá-lo com aquele fardo e amava-a ainda mais por isso. - Fica bem. E dá cumprimentos aos teus pais, se lhes disseres que me viste.

       Ela não tencionava fazê-lo. Não queria que eles desconfiassem que fora para um hotel com ele. Rezou para que ninguém a tivesse visto entrar e sair de lá.

       Ficaram abraçados durante um longo momento, a rezar para que os deuses fossem benévolos para com eles, e depois Kate ficou a vê-lo afastar-se no carro com as lágrimas a correrem-lhe pela cara. Era uma cena familiar naqueles dias. Havia soldados feridos em todas as cidades e vilas, soldados que tinham voltado para casa feridos ou mutilados. Havia bandeirinhas nas janelas em homenagem aos familiares que combatiam algures. Havia soldados e raparigas a despedirem-se lavados em lágrimas e gritos de alegria no regresso. Havia crianças junto aos túmulos dos pais. Kate e Joe não eram diferentes dos outros, e tinham mais sorte que muitos. Era um período sério para toda a gente e um período de tragédia para alguns. Kate tinha apenas a certeza de que era uma sortuda por ter Joe.

       Passou o resto do dia no quarto e não foi às aulas da tarde. Também não foi jantar para o caso de ele lhe telefonar E ele telefonou, às oito da noite, depois da reunião Estava prestes a ir para o aeroporto, mas não pôde dizer-lhe como correra a reunião, a que horas era o vôo nem qual o destino, eram informações secretas. Ela desejou-lhe boa viagem, disse-lhe que o amava muito, e ele respondeu o mesmo. Kate regressou ao quarto e deitou-se a pensar nele. Custava a crer que já se conheciam há quase três anos e que tanta coisa acontecera desde que se haviam cruzado naquele salão de baile em Nova Iorque, ele com o smoking emprestado e ela com o vestido de noite. Na altura tinha apenas dezessete anos, uma criança. Com vinte sentia-se muito mais mulher. E melhor ainda, era dele.

       Foi passar o fim-de-semana a casa, a fim de estudar para os exames e de se afastar das outras raparigas da sua casa. Não queria ver ninguém; andava pensativa e muito calada desde a partida de Joe. A mãe reparou no seu silêncio ao jantar. Perguntou-lhe se estava tudo bem e se tivera notícias de Joe. Kate insistiu que estava bem, mas os pais não acreditaram. Ela parecia envelhecer e amadurecer a cada dia que passava. O colégio contribuíra para isso, mas a sua relação com Joe catapultara-a para a vida adulta num abrir e fechar de olhos. E o fato de andar sempre preocupada com ele fazia-a parecer e sentir-se ainda mais velha. Naquele tempo toda a gente crescia da noite para o dia.

       Os pais falaram disso nessa noite, a sós no quarto, e concordaram que ela não devia ser a única rapariga preocupada com o namorado. A maior parte das raparigas e das mulheres do país andava preocupada com alguém, irmãos, namorados, maridos, pais, amigos. Quase todos os homens que conheciam tinham ido para a guerra.

       - Foi uma pena ela não se ter apaixonado pelo Andy - comentou a mãe com um ar triste. - Ele seria perfeito e nem sequer está no exército. - Mas talvez ele tivesse sido uma escolha demasiado óbvia, ou fosse demasiado monótono. Apesar de toda a sua bondade e excelente educação, Andy não podia comparar-se a Joe. Tudo em Joe era ofuscante e estonteante. Era a personificação do herói.

       Durante as quatro semanas seguintes Kate andou muito atarefada. Saiu-se bem nos exames, apesar de andar com a cabeça no ar. Recebia regularmente cartas de Joe e ficou simultaneamente aliviada e desapontada ao descobrir três semanas depois de ele ter partido que não estava grávida. Sabia que era melhor assim. Para além da agonia de andar sempre preocupada com ele, não precisava dos problemas que uma gravidez lhe traria.

       Quando foi a casa passar o fim-de-semana de Ação de Graças, os pais acharam-na com melhor cara e mais tranqüila. Falou sobre Joe ao jantar com os amigos e surpreendeu todos com os seus conhecimentos sobre o que estava a acontecer na Europa Compreensivelmente, tinha uma opinião muito desfavorável sobre os Alemães e não lhes poupou críticas

       Afinal, acabou por ser um fim-de-semana agradável E ela foi para a cama nessa noite grata por ter visto Joe ainda no mês anterior. Não fazia idéia de quando ele voltaria aos Estados Unidos, mas sabia que a proximidade que haviam partilhado a ajudaria a suportar o tempo necessário. Era difícil acreditar que ele já partira há dois anos

       Dormiu mal nessa noite, e teve sonhos estranhos que a acordaram várias vezes. Falou nisso à mãe na manhã seguinte e ela brincou com Kate dizendo que provavelmente comera demasiado recheio de castanha

       - Eu adorava castanhas quando era criança - disse Elizabeth enquanto preparava o pequeno-almoço para o marido - e a minha avó dizia sempre que elas me provocavam indigestão. Ainda provocam, mas gosto delas à mesma.

       Kate sentiu-se melhor nessa manhã. Foi às compras com uma amiga da parte da tarde e tomaram chá no Statler, o que a fez pensar em Joe e na noite que ali haviam passado. Quando voltou a casa estava bem humorada. Mesmo assim, tinha sempre um ar sério. Parecia mais sensata e menos travessa do que antes de ir para o colégio. Parecia que conhecer Joe, ou talvez o fato de temer constantemente pela vida dele, a tinham tornado mais introvertida. Estava mais reservada do que nunca

       Voltou para Radcliffe no domingo à noite e teve de novo pesadelos. Quando acordou sobressaltada ainda se lembrava de ver aviões a cair à sua volta. O sonho quase parecera real. Ficou tão assustada que se levantou e se vestiu muito antes das colegas, foi para a sala de jantar onde tomou o pequeno-almoço bastante cedo e ficou ali sentada sozinha.

       Não sabia por que, mas teve pesadelos toda a semana e mal conseguiu dormir. Estava exausta quando o pai lhe telefonou na quinta-feira à tarde, e ficou sobressaltada ao ouvir a voz dele. Clarke nunca lhe ligava para ali. Ele perguntou-lhe se ela gostaria de ir jantar a casa nessa noite e Kate respondeu que tinha trabalhos para fazer, mas quanto mais ela tentava esquivar-se, mais insistente ele se tornava, até que por fim ela cedeu. Achou aquilo um pouco estranho e ficou ligeiramente preocupada. Perguntou a si mesma se um deles estaria doente e quereria dizer-lhe. Esperava que não

       Assim que Kate entrou em casa percebeu que alguma coisa acontecera. Os pais aguardavam-na na sala de estar e a mãe voltara-se de costas para que Kate não a visse chorar. Estava devastada por ela

       Foi o pai que lhe deu a notícia. Achou-se com mais coragem que a mulher. Assim que Kate se sentou, olhou-a nos olhos e contou-lhe que tinha recebido um telegrama nessa manhã e que ligara para Washington para tentar descobrir o máximo possível.

       - Não tenho boas notícias - começou ele. Kate arregalou os olhos. Aquilo não era por causa dos pais, percebeu ela, era por sua causa, e sentiu o coração bater com mais força. Não queria ouvir o que ele tinha para lhe dizer, mas era preciso. Não emitiu um único som. - O Joe deu o teu nome como familiar mais chegada, juntamente com uns primos que ele já não vê há anos. - A mãe de Kate recebera o temido telegrama e ligara para o escritório de Clarke depois de o abrir. Clarke telefonara imediatamente para um conhecido seu no Departamento de Guerra, a fim de tentar saber mais pormenores, nenhum dos quais bons. Nessa altura não desperdiçou mais tempo. Kate quase não respirava. - Ele foi abatido sobre a Alemanha na sexta-feira de manhã. - Passara uma semana, e na noite de quinta ela começara a ter aqueles sonhos horríveis com aviões a caírem do céu. Era sexta de manhã na Europa. - Viram o avião dele perder altitude, e têm uma idéia do local onde ele aterrou. O Joe saltou de pára-quedas no último minuto e pode ter sido morto durante a descida, ou pode ter sido capturado. No entanto, não tiveram notícias dele desde essa altura. Ele não consta das listas de oficiais capturados. Voa com uma identidade falsa, mas nem essa nem o seu verdadeiro nome apareceram. Pensa-se que ele pode estar a ser mantido preso secretamente, ou que os Alemães o mataram. Creio que ele pode ter informações confidenciais que o tornarão de interesse considerável para os Alemães se estes descobrirem quem ele é. O Joe é um troféu por causa da sua própria história, a presa perfeita por ser herói nacional

       Kate olhava para o pai com o rosto inexpressivo, tentando assimilar o que ele lhe dizia e, por momentos, não reagiu.

       - Kate... os Serviços Secretos dos Aliados acham que ele não se safou - resumiu ele. - E mesmo que tenha conseguido, os Alemães não o deixarão viver muito tempo. Provavelmente já está morto, senão os Americanos ou os Britânicos já teriam tido notícias dele.

       Ela continuou apática e a mãe aproximou-se e pôs-lhe um braço sobre os ombros.

       - Mãe... ele está morto? - perguntou ela com a voz de uma criança perdida tentando compreender aquilo que alguém acabara de lhe contar numa língua estranha. Não era capaz de o assimilar. O seu coração recusava-se a saber. Parecia o eco terrível do dia em que a mãe lhe dissera que o pai morrera. E, de certa forma, aquilo era pior. Ela amava muito Joe.

       - Eles acham que sim, querida - respondeu a mãe baixinho, sofrendo por ela. Kate estava muito pálida e em choque. Quis levantar-se, mas voltou a sentar-se, e o pai olhou-a cheio de compreensão e pesar.

       - Lamento, Kate - disse ele.

       Viu lágrimas nos olhos dele, não só por Joe, mas também por si.

       - Não lamentes - retorquiu Kate, levantando-se. Não ia deixar que aquilo lhe acontecesse. Não podia. Nem que aquilo acontecesse a Joe. Não acreditava nem acreditaria até haver uma certeza. - Ele ainda não morreu. Se tivesse morrido, alguém já saberia - insistiu enquanto os pais trocavam um olhar infeliz. Não era a reação que eles esperavam, nem ela a planejara. Recusava-se apenas a aceitar a notícia. - Temos de saber apenas que o Joe vai ficar bem, mãe., pai... é isso que ele esperaria de nós

       - Kate, - ele aterrou na Alemanha, rodeado por alemães que andavam à sua procura. É um piloto famoso. Não vão deixá-lo escapar com vida. Tens de enfrentar isso. - A voz do pai era firme. Não queria que ela se iludisse.

       - Não tenho de enfrentar nada! - gritou, saindo da sala a correr, subindo as escadas e batendo com a porta do quarto.

       Os pais viram-na fugir atordoados, e não souberam o que lhe dizer mais. Esperavam que ela ficasse desolada, mas em vez disso mostrara-se revoltada com eles e com o resto do mundo. No entanto, assim que se viu no quarto com a porta firmemente fechada, Kate atirou-se para a cama e começou a chorar. Ficou ali durante horas, a pensar em Joe e em como ele era maravilhoso. Não suportava imaginar o que lhe acontecera, não era possível, não era justo, só se lembrava dos seus sonhos durante a última semana e no que ele devia ter sentido ao ser abatido. Ele prometera-lhe que tinha cem vidas

       Era bastante tarde quando a mãe finalmente ousou entrar no seu quarto. Quando Kate se virou, a mãe viu os seus olhos vermelhos e inchados. Sentou-se ao seu lado na cama e Kate soluçou nos seus braços.

       - Não quero que ele esteja morto, mãe... - disse, chorando como uma criança.

       Elizabeth chorava também pela filha.

       - Eu também não quero - respondeu. Apesar das suas reservas acerca de Joe, ele era um homem às direitas e não merecia morrer com trinta e três anos. Nem Kate merecia ficar com o coração destroçado. Nada daquilo era justo. Nada havia sido justo nos últimos dois anos. Só nos resta rezar para que ele esteja bem. Não queria continuar a insistir com Kate que ele provavelmente estava morto. Isso viria com o tempo. Já era difícil aceitar que ele fora abatido. E se acabassem por não o encontrar, Kate teria de aceitar o seu desaparecimento. Não tinha de o enfrentar naquele momento, pois a dor era demasiado intensa

       A mãe ficou com Kate até bastante tarde e afagou-lhe o cabelo ternamente até ela adormecer ainda a soluçar. Elizabeth estava de rastos.

       - Quem me dera que ela não amasse tanto aquele homem - disse a Clarke quando por fim se foi deitar. Ele estava tão preocupado com Kate que esperara acordado pela mulher. - Há algo entre eles que me assusta. - Vira-o no ano anterior nos olhos de Joe, e vira-o havia pouco nos de Kate. Desafiava a razão, o tempo e as palavras, era um elo entre as suas almas que nem eles próprios compreendiam. E o que assustava a mãe de Kate naquele momento era desconfiar que o elo se manteria indestrutível mesmo depois da morte. Seria um destino terrível para Kate.

       Esta estava muito calada e taciturna no dia seguinte ao pequeno-almoço, e ignorou todas as tentativas para lhe extorquirem uma palavra. Não disse nada aos pais, bebeu apenas um chá e voltou a subir as escadas como um fantasma. Durante o resto do fim-de-semana não saiu do quarto. Felizmente, faltava apenas uma semana para as férias do Natal

       No domingo à noite, Kate vestiu-se e regressou a Radcliffe e nem se despediu dos pais. Parecia uma alma penada. Não dirigiu a palavra às colegas, e quando Beverly a foi cumprimentar e lhe perguntou se ela tinha estado doente durante o fim-de-semana, Kate não lhe contou que o avião de Joe tinha sido abatido. Não tinha coragem de dizer aquelas palavras e adormecia todas as noites a chorar.

       Toda a gente na sua casa sabia que algo lhe acontecera, e só vários dias mais tarde alguém leu um pequeno artigo no jornal a dizer que ele fora abatido. Os Serviços Secretos militares tentavam ser o mais discretos possível para não desmoralizarem os americanos que tinham ficado na pátria. Disseram que ele desaparecera em combate e a notícia era bastante vaga. Mas dissera-lhes tudo o que precisavam de saber. Todas as raparigas da casa sabiam que Joe Allbright visitara Kate.

       - Lamento... - murmuraram algumas ao passar por ela no corredor. Ela limitava-se a assentir e a desviar o olhar. Andava com um aspecto terrível, perdera peso e tinha um ar doente quando foi para casa nas férias do Natal. Os esforços da mãe para a confortar foram em vão. Kate só queria ficar sozinha enquanto esperava por notícias de Joe.

       Pediu ao pai que ligasse novamente ao seu contato em Washington antes das férias, mas não havia mais novidades. Não houvera sinal de Joe nem chegara qualquer informação através de fontes clandestinas. Os Alemães não se vangloriavam de o ter capturado e, aliás, negaram-no quando isso lhes foi perguntado. Ninguém identificado pelo nome nos documentos dele aparecera. E se soubessem que tinham capturado Joe Allbright, tê-lo-iam dito e considerado uma verdadeira vitória contra os Aliados. Também ninguém o vira fugir nem o encontrara desde a queda do avião. Não havia sinal dele em parte alguma.

       Nesse ano não houve Natal para nenhum deles. Kate mal foi às compras, não quis prendas dos pais, levou uma eternidade a abrir as que recebera e passou a maior parte do tempo no quarto. Só conseguia pensar nele, em que local estaria, no que lhe teria acontecido, se ainda estaria vivo, e se voltaria a vê-lo. Pensava constantemente nos momentos que haviam passado juntos e arrependeu-se ainda mais amargamente de ter perdido o bebê que haviam concebido no ano anterior. Andava inconsolável e inalcançável, mal dormia e emagrecera bastante.

       Devorara os jornais à procura de uma palavra acerca dele, mas o pai já lhe garantira que lhe telefonariam antes de mais alguma coisa aparecer na imprensa. Ele desconfiava que esse telefonema nunca chegaria. Joe já devia estar morto havia semanas e jazer algures numa campa rasa. Pensar nisso quase levou Kate à loucura. Parecia que uma parte de si fora arrancada, que algum órgão interno que desconhecia fora removido. À noite, ou se deitava na cama a olhar para a parede, ou andava de um lado para o outro no quarto, com a sensação de estar prestes a explodir, e nada a ajudava. Até se embebedou uma noite e os pais não lhe disseram nada no dia seguinte. Estavam desesperados, nunca tinham visto ninguém tão abalado pela dor. Ela sentia a falta de Joe e nada a ajudaria a não ser o tempo.

       Quando regressou às aulas, chumbou pela primeira vez num exame. A psicóloga chamou-a e perguntou se alguma coisa acontecera durante as férias. Kate tinha péssima cara e, em voz embargada, contou-lhe que um amigo chegado fora abatido numa missão sobre a Alemanha. Pelo menos isso explicava as suas notas. A mulher deu-lhe os sentimentos e disse que esperava que Kate se sentisse melhor em breve. Foi muito simpática e muito meiga; perdera também o filho em Salerno no ano anterior. No entanto, nada do que as pessoas diziam confortava Kate. Quando não se sentia triste, sentia-se Zangada.. zangada com os Alemães, com o destino, com o homem que alvejara o avião de Joe, com ele por ter permitido que tal lhe acontecesse, consigo por amá-lo tanto. Queria libertar-se de tudo aquilo, mas sabia que nunca nada a libertaria dele. Era demasiado tarde.

       Quando Andy voltou a vê-la depois do Natal, a princípio ficou cheio de pena, mas depois repreendeu-a. Disse-lhe que ela estava cheia de pena de si própria, que sempre soubera que algo podia acontecer a Joe. E no caso de Joe podia ter acontecido em qualquer altura, algures, enquanto fazia acrobacias que desafiavam a morte nos aviões. Ela e Joe não eram casados, não tinham filhos, nem sequer estavam noivos. Contudo, o que Andy lhe disse só a enfureceu

       - Isso é para eu me sentir melhor? Já pareces a minha mãe! Achas que um anel no dedo faria alguma diferença para mim? Não significaria nada, Andy Scott, nem mudaria o que lhe aconteceu. Porque é que toda a agente anda obcecada com rituais sociais? Quem se importa com eles? Ele deve estar num campo de prisioneiros a ser torturado por causa do que sabe. Achas que um anel no meu dedo faria alguma diferença para eles? Claro que não. Nem faria para o Joe. Não teria feito com que ele me amasse mais, nem que eu o amasse mais. Estou-me nas tintas para o anel - disse, começando a soluçar, - só quero que ele volte para casa.

       Lançou-se nos braços de Andy como uma boneca desconjuntada.

       - Ele não vai voltar - retorquiu Andy, abraçando-a. A probabilidade de isso acontecer é uma num milhão.

       - Podia acontecer, talvez ele fuja. - Ela recusava-se a deixar morrer a esperança..

       - Talvez ele tenha morrido - disse Andy, tentando obrigá-la a enfrentar a verdade. O mais provável era Joe estar morto. Kate também o sabia, mas não queria ouvir tal coisa de ninguém. Ainda não se sentia com forças para enfrentar isso. - Kate, imagino que deva ser muito difícil, mas tens de ultrapassar esta crise. Não podes permitir que te destrua.

       O pior de tudo era que ela não dispunha de uma alternativa. Fazia o melhor que podia, mas afogava-se no medo que sentia por Joe, na sua sensação de pânico e perda. Não fazia idéia de como iria existir sem ele. E contudo, mesmo nos piores momentos, tinha a inexplicável sensação de que ele se encontrava vivo. Parecia que uma parte de si ainda não desistira dele, e Kate perguntou-se se alguma vez desistiria. Sentia-se unida a ele até ao fim da sua vida.

       Ela e Andy foram jantar à cafeteria e ele obrigou-a a comer. Nesse fim-de-semana insistiu para que ela o fosse ver a competir em natação com o MIT. Kate acabou por passar um bom bocado e durante algum tempo esqueceu a sua tristeza. Toda a gente ficou radiante quando Harvard venceu.

       Esperou por ele depois e foram jantar fora. Em seguida levou-a a casa. Ela parecia estar com melhor cara e Andy teve pena quando ela lhe contou que sonhara com Joe. Continuava convencida de que ele estava vivo, e Andy tinha a certeza de que a mente dela lhe andava a pregar partidas. Kate não estava disposta a aceitar a possibilidade de ele ter morrido quando o avião fora abatido.

       Por fim, o assunto tornou-se penoso sempre que era abordado pela família ou pelos amigos. As pessoas diziam-lhe o quanto lamentavam o que acontecera a Joe e ela respondia-lhes que ele devia encontrar-se algures num campo de prisioneiros alemão. Com o tempo, as pessoas deixaram de lhe falar no assunto.

       Quando chegou o verão, Joe já tinha desaparecido havia sete meses. As suas últimas cartas haviam chegado um mês depois da queda do avião e ela leu-as à noite, e ficou deitada na cama a pensar nele. Todos diziam que devia esquecê-lo, que ele morrera, mas o seu coração recusava-se a libertá-lo como se liberta um pássaro de uma gaiola. Manteve-o bem dentro de si, num local secreto do seu coração. Sabia que era um local onde nunca ninguém voltaria a ir e tinha consciência de que as pessoas que lhe diziam que devia ultrapassar a tragédia estavam certas, mas não sabia como fazê-lo. Ele era como uma cor que Kate tivesse adquirido, uma visão que tivera, um sonho, e não havia forma de a separar dele.

       Os pais incitaram-na a fazer uma viagem nesse verão e, depois de muitas discussões, Kate concordou finalmente. Foi visitar a avó em Chicago e dali voou até à Califórnia para ver uma amiga que freqüentava Stanford. Foi uma viagem interessante e divertiu-se, mas sentiu que se limitava a fazer os gestos e não a viver realmente a vida. Foi um alívio regressar a casa de comboio. Teve três dias para ficar a olhar para a janela a pensar em Joe, em tudo o que ele fora, e que talvez continuasse a ser. No entanto, até ela própria já começava a pensar que ele não estava vivo. Quando regressou a Boston no final de agosto, ele já desaparecera havia nove meses. Ninguém soubera nada dele nem o vira em nenhum dos campos de prisioneiros de guerra. Tanto Washington como a RAF concordaram por fim que ele morrera.

       Kate não foi a Cape Cod nesse verão. O local trazia-lhe demasiadas recordações, embora só o tivesse ali visto duas vezes. Regressou da Califórnia mesmo a tempo de iniciar o seu último ano em RadclifFe. Iria especializar-se em História de Arte e não tinha idéia do que faria com isso. Ensinar não lhe agradava e não havia outra carreira que a atraísse particularmente.

       Encontrou Andy algumas semanas depois de ter regressado, ele iniciara o terceiro ano na Faculdade de Direito e mal tinha tempo para ver os amigos. Adorava o curso e andava cheio de trabalho. Várias das amigas de Kate não regressaram nesse outono, duas tinham-se casado durante o verão e outra mudara-se para a costa oeste. Outra começara a trabalhar para sustentar a mãe, pois o pai e os irmãos tinham morrido no Pacífico no ano anterior. Parecia um mundo sustentado e dirigido por mulheres, motoristas de autocarros, mulheres carteiros, todos os trabalhos que anteriormente haviam sido feitos por homens eram executados por mulheres. Todos se haviam habituado à situação e Kate brincava com os pais dizendo que queria ser motorista de autocarro quando fosse grande. Infelizmente, não havia nada que preferisse fazer

       Tinha vinte e um anos e rapidamente acabou o curso em Radcliffe. Era inteligente, bonita, interessante, divertida e estava bem informada. A mãe dizia que se o mundo não se encontrasse em guerra ela já estaria casada e teria filhos, se não com Joe, pelo menos com outra pessoa. No entanto, ela nem voltara a sair com outros rapazes. Tinha sido convidada por vários rapazes de Harvard, por dois excessivamente inteligentes do MIT, e até por um rapaz simpático do Boston College, mas recusara sempre. Não se interessava por ninguém e continuava à espera de um telefonema de Washington a dizer-lhe que Joe continuava vivo, ou que ele aparecesse na sala de visitas da sua casa. Esperava vê-lo quando entrava nos autocarros, dobrava esquinas ou atravessava ruas. Era impossível ajustar-se à idéia de que desaparecera, de que deixara de existir no planeta e que por muito que ela o amasse, nunca mais voltaria para si. O conceito de morte era incompreensível.

       As férias significaram muito pouco nesse ano, embora tivessem sido menos dolorosas que as do ano anterior. Estava muito mais calma e foi meiga e carinhosa para com os pais, mas quando a mãe a incitava a sair ela mudava de assunto ou saía da sala. Os pais começavam a perder a esperança e Liz confiara ao marido que temia que Kate ficasse para tia.

       - Custa-me a crer - respondeu ele com uma gargalhada. - Ela só tem vinte e um anos e estamos em guerra, por amor de Deus! Espera só que os rapazes regressem

       - E quando será isso? - perguntou Elizabeth com um olhar pesaroso

       - Em breve, espero

       Mas ainda não havia sinal de que isso fosse acontecer. Paris fora finalmente libertada em agosto. A Rússia tinha vencido os Alemães e as tropas russas haviam avançado até à Polônia. Contudo, os Alemães haviam aumentado os bombardeamentos a Inglaterra em setembro. E a sua ofensiva na floresta das Ardenas corria mal para os Aliados. A batalha de Bulge no Natal custara muitas vidas e desencorajara todos na frente.

       No último dia das férias do Natal, Andy Scott passou lá por casa com um grupo de amigos e convenceu Kate a ir patinar. Iam de carro até um lago próximo e a mãe ficou aliviada ao vê-la sair. Ainda tinha esperanças que Kate um dia desse mais atenção a Andy, embora ela insistisse que ele era apenas um bom amigo. No entanto, haviam-se aproximado bastante ao longo dos anos e Elizabeth não perdera ainda a esperança. Achava que ele teria sido o marido ideal para Kate, e Clarke não discordava, embora achasse que essa decisão cabia à filha.

       Passaram uma tarde magnífica a patinar no lago, a cair, a Patinar às arrecuas, a empurrarem-se uns aos outros. Os rapazes organizaram uma partida de hóquei a fingir e Kate patinou em círculos graciosos no meio do lago. Em criança adorara dança no gelo, e era relativamente boa nisso. Depois foram todos beber toddies quentes e dar um longo passeio ao frio. Kate deixou-se ficar para trás passado algum tempo e Andy fez-lhe companhia. Estava satisfeito por vê-la com melhor cara e finalmente a divertir-se. Ela disse que as férias de Natal tinham sido agradáveis, embora admitisse que não tinha feito muita coisa, e ele reparou que daquela vez ela não referia Joe. Esperou que isso fosse um ponto de viragem para ela.

       - O que vais fazer no próximo verão? - perguntou ele, colocando a mão enluvada dela no seu braço. Tinha cabelo escuro brilhante e olhos castanhos pensativos, e trazia protetores nas orelhas e um cachecol quente.

       - Não sei, ainda não pensei nisso - respondeu ela com ar vago. A condensação das suas respirações rodopiava em redor deles.

       - Eu tive uma idéia engraçada - disse ele enquanto seguiam os outros. - Vamos acabar os estudos em junho. - Ela em Radcliffe e ele na Faculdade de Direito. - O meu pai disse-me que só tenho de começar a trabalhar na firma em setembro. Pensei que talvez fosse giro ir em lua-de-mel.

       Ela assentia ao ouvi-lo e naquele momento fitou-o de sobrolho franzido.

       - Com quem? - Ficou momentaneamente sem fôlego. Havia uma expressão estranha no olhar dele. Pararam de andar e ele fitou-a.

       - Estava a pensar em ti - respondeu ele baixinho e Kate suspirou. Julgara que aquele assunto tinha ficado resolvido. Havia anos que o tratava como a um irmão. Mas Andy sempre tivera um fraco por si. E tal como os pais dela e os dele, Andy também achava boa idéia casarem-se.

       - Estás a brincar? - perguntou, esperançada, mas ele abanou a cabeça e Kate encostou a sua ao peito dele.

       - Não posso fazer isso, Andy, sabe-o bem. Amo-te como a um irmão. - Levantou a cabeça e sorriu-lhe com tristeza. - Seria incesto casar contigo.

       - Sei que estiveste apaixonada pelo Joe - retorquiu Andy, mas ele morreu. E eu sempre te amei. Acho que conseguiria fazer-te feliz, Kate.

       Mas não como Joe fizera. Joe fora paixão, excitação, perigo. Andy era chocolate quente e patins. Os dois eram importantes para ela, mas de maneiras diferentes e tinha a certeza de que nunca iria sentir por Andy o que sentira por Joe. Tinham parado de andar e os outros já iam muito mais à frente, sem fazer idéia do que acontecia atrás deles.

       - Acho que não seria correto para ti - disse ela com sinceridade, aproximando-se dele quando recomeçaram a andar. Ele quisera perguntar-lhe aquilo todo o dia e não tivera oportunidade junto ao lago. Estivera muito ocupado a jogar hóquei com os amigos. E ela andara a patinar sozinha. Tornara-se uma rapariga muito solitária. Ainda me custa a crer que ele partiu e não vai voltar. No entanto, há pouco tempo começara a tentar habituar-se à idéia, embora lhe custasse e provavelmente lhe fosse custar sempre.

       - Não estavas noiva dele, Kate. Muitas pessoas têm romances com outras antes de se casarem. Algumas até rompem noivados quando conhecem outras pessoas - disse ele com ar muito sério. - Vai haver muitas mulheres na tua posição depois da guerra. Há viúvas ainda mais novas que tu, e algumas delas têm filhos. Não podem trancar-se em casa durante o resto da vida. Vão ter de viver de novo, e tu também Não podes esconder-te para sempre, Kate.

       - Posso sim. - Ela começara a achar que o que tivera com Joe fora tão invulgar e especial que se alimentaria disso durante o resto da vida e não existiria para si outro homem

       - Não é bom para ti. Precisas de um marido, de filhos, de uma vida boa e de alguém que te ame e que olhe por ti. - O que ele dizia teria sido música para os ouvidos da mãe de Kate, mas não para ela. Não estava pronta para pensar noutra pessoa. Continuava apaixonada por Joe.

       - Mereces melhor do que uma mulher que está apaixonada por um fantasma. - Era a primeira vez que Kate admitia a alguém que Joe poderia estar morto, e Andy achou isso um primeiro passo.

       - Talvez haja espaço na nossa vida para um fantasma. - Andy tinha a certeza de que um dia Kate esqueceria Joe.

       - Não sei - respondeu ela num tom vago. Contudo, até àquele momento não dissera claramente que não.

       - Não temos de nos casar no próximo verão, Kate. Só disse isto para ver a tua reação. Podemos levar o tempo que quiseres. Talvez pudéssemos apenas sair durante algum tempo.

       - Como as pessoas normais? - perguntou, fitando-o e não se imaginando capaz de o amar. Apesar de ter apenas vinte e três anos, achava Andy um miúdo. Joe era dez anos mais velho que ele. E eram homens diferentes. Kate sentira-se atraída por Joe desde que o vira, ele assemelhara-se a uma explosão de luz no seu coração. Andy sempre fora um rapaz simpático e um bom amigo. A mãe dizia que um marido devia ser assim.

       - Então o que achas? - perguntou ele esperançado.

       Ela soltou uma gargalhada. Era como ter um rapaz a convidar-nos para irmos conhecer a sua casa na árvore ou para sair com ele pela primeira vez. Não conseguia levá-lo a sério.

       - Acho que és louco por me quereres - respondeu ela.

       - E tu?

       - Não sei. Nem imagino como seria namorar contigo. Deixa-me pensar no assunto. - Nos últimos três anos e meio tentara acasalá-lo com algumas raparigas da sua casa, no entanto Andy sempre se mostrara mais interessado nela. - Parece-me uma idéia maluca - disse Kate, mas Andy não ficou desencorajado. As coisas tinham corrido melhor que o previsto e ele estava satisfeito. Havia meses que andava a reunir coragem para lhe dizer aquilo, e receara que fosse demasiado cedo. No entanto, já há mais de um ano que Joe desaparecera.

       - Talvez não seja tão maluca como julgas. Porque não vemos como correm as coisas durante os próximos meses? - sugeriu Andy.

       Kate assentiu. Sempre gostara dele, e talvez a mãe tivesse razão.

       Contudo, nessa noite, depois de ele a ter deixado em casa dos pais, ficou deprimida ao pensar nisso. Deixar Andy falar no assunto parecia uma traição para com Joe, e pensar nele fazia-a ainda sentir mais a falta de Joe. Não só eram diferentes como existiam em mundos diferentes. Tudo em Joe era excitante, fascinante. Ela sempre ficara maravilhada com as suas histórias de aviões e voar com ele fora um dos momentos altos da sua vida. Para além do que Joe lhe dissera e do que haviam feito juntos. Houvera sempre entre os dois uma atração poderosa, quase irresistível. Era o tipo de química que nenhum deles conseguia explicar. E essa química não existia com Andy Scott. Em vez de uma luz brilhante a refulgir algures dentro dela, tudo o que Andy representava na sua mente era um local quente e confortável. E quando tornou a vê-lo alguns dias mais tarde, disse-lho.

       - Chiu! - fez ele, encostando um dedo aos lábios dela. - Já sei o que vais dizer. Esquece. Não quero ouvir nada. Estás apenas assustada.

       Mas o problema era que não estava apaixonada por ele. Não contou aos pais o que ele lhe dissera. Não queria aumentar as esperanças da mãe nem entusiasmá-la. Ela própria ainda não estava convencida. Antes pelo contrário, só a idéia de sair com ele lhe metia medo. Sentia-se uma tonta.

       - Dá-me só uma oportunidade - continuou ele. Que tal irmos jantar na sexta-feira? E podíamos ir ao cinema no sábado.

       Kate teve a sensação de que uma criança a pedia em namoro. Ele era inteligente e meigo, simpático e de confiança, mas como ficara em casa quando todos os outros tinham ido para a guerra, parecia menos maduro aos olhos de Kate.

       Mesmo assim Kate arranjou-se para ir jantar com ele na sexta-feira. Levou o vestido preto que a mãe lhe dera no Natal, sapatos de salto alto, uma jaqueta de pele e um colar de pérolas. Estava muito bonita com o seu cabelo castanho-avermelhado quando ele a foi buscar, de terno escuro. Parecia O sonho de todas as raparigas. Mas não o dela.

       Tiveram um jantar muito agradável num restaurante italiano de North End e depois ele levou-a a dançar. No entanto, Kate tinha a sensação de que aquilo era uma piada. Preferia ter ido comer à cafetaria, como habitualmente. Mas não lho disse.

       Andy foi muito circunspecto quando a levou a casa e não a beijou. Não queria afugentá-la e compreendia que ela achasse que era demasiado cedo. Na noite seguinte levou-a de novo a ver o filme Casablanca, e foi uma saída mais descontraída. A seguir foram comer um hambúrguer. Kate ficou espantada por se ter divertido. Era agradável sair com um rapaz e ele era uma ótima companhia, embora continuasse a achar que estar com ele não era excitante nem romântico. Andy era apenas um amigo e não se imaginava, pelo menos por enquanto, a sentir por ele mais do que amizade. No entanto, achava que devia esforçar-se por dar-lhe uma oportunidade

       Ele tentou finalmente beijá-la no Dia dos Namorados. Joe desaparecera havia quinze meses, mas foi só nele que ela conseguiu pensar ao sentir os lábios de Andy nos seus. Ele era bonito, sensual e jovem, mas ela achava que devia haver qualquer coisa de errado em si. Parecia que tudo dentro dela, no seu coração, na sua cabeça, na sua alma, estava adormecido. Quando a luz de Joe se apagara dentro dela, tudo escurecera. O seu coração ainda não o abandonara.

       Andy pareceu não reparar e durante os meses seguintes saíram uma vez por semana e ele beijava-a quando a deixava em casa. Nunca tentou ir mais longe, e ela sentiu-se aliviada. Sabia que Andy não havia de querer que ela arruinasse a sua reputação e desconfiava que ele não fazia idéia de que ela fizera amor com Joe Dizia-lhe constantemente que a amava e, à sua maneira, ela também o amava. Os pais andavam radiantes por ela sair com ele, mas Kate fartava-se de insistir que a coisa não era séria E quando o pai a olhou nos olhos, ficou com o coração destroçado. Percebeu facilmente o que lá estava e o que lá não estava. Viu apenas uma dor incomensurável. Era o mesmo que olhar para um poço de dor sem fundo. O fato de ela conversar e sorrir e ter recomeçado a rir não o enganou.

       Certo dia ao jantar, quando a mulher começou a falar sobre Andy, Clarke tentou desencorajá-la. Achava que o que ela andava a fazer era perigoso para Kate

       - Não os forces, Liz. Deixa-os encontrar o seu caminho.

       - Eles parecem-me bem. Tenho a certeza de que vão ficar noivos.

       - Mas o que significava isso?, - perguntou Clarke a si mesmo. Que ela estivera profundamente apaixonada por um homem e tinha de casar com outro para o substituir, quer o amasse quer não? Clarke achava isso um erro abismal. Ele e Liz estavam casados havia treze anos e ele continuava apaixonado como de início. Não queria menos para a filha.

       - Acho que ela não devia casar com ele - disse Clarke.

       - Porque não, - retorquiu Liz, furiosa. Não queria que o marido estragasse aquilo.

       - Ela não o ama, Liz. Olha para ela. Continua apaixonada pelo Joe

       - Ele nunca foi o homem certo para ela e está morto, pelo amor de Deus!

       - Isso não altera o que ela sentiu por ele. Talvez leve alguns anos a ultrapassar isso.

       Começava a temer que Kate nunca ultrapassasse. E casar com Andy só pioraria as coisas, especialmente se ela o fizesse para lhes agradar. Podia enchê-la de desespero. Nesse caso, seria melhor ficar sozinha, por muito simpático que Andy fosse.

       - Deixa-os em paz e deixa-os decidir - pediu ele, mas Liz abanou a cabeça.

       - Ela precisa de se casar e de ter filhos, Clarke. O que esperas que ela faça quando acabar os estudos em junho. - Fazia com que o casamento e os filhos parecessem uma terapia ocupacional, e isso começava a irritá-lo.

       - Prefiro que ela arranje um emprego a casar-se com o homem errado - respondeu ele com firmeza.

       - Não há nada de “errado” com o Andy Scott. - As idéias esquisitas do marido começavam a intrigá-la. Talvez ele também tivesse ficado um pouco deslumbrado com Joe Allbright. Mas por muito deslumbrante que ele tivesse sido, morrera. E Kate tinha de continuar com a sua vida.

       Apesar dos argumentos e das preocupações dos pais, Kate continuou a sair com Andy aos fins-de-semana e a esforçar-se por sentir por ele mais do que amizade, mas não conseguiu. E na primavera, todas as atenções estavam voltadas para Inglaterra, França e Alemanha. A maré começava a mudar.

       As tropas americanas venceram a Batalha do Ruhr em março e tinham tomado Iro Jima no Pacífico. Nuremberg caíra nas mãos dos Aliados em abril, na mesma altura em que os Russos chegaram aos subúrbios de Berlim. Mussolini e os membros do seu gabinete foram executados no fim de abril e os exércitos alemães em Itália renderam-se no dia seguinte, duas semanas depois da morte do presidente Roosevelt. Harry Truman foi eleito presidente. A Alemanha rendeu-se a 7 de maio e o presidente Truman declarou o dia 8 de maio dia da vitória.

       Kate e Andy seguiam as notícias com avidez e discutiam sobre o que liam. A guerra significava mais para ela do que para a maior parte das raparigas da sua idade, porque lhe havia custado muito. E outras rezavam constantemente para que os seus homens regressassem a casa. Já haviam passado quase dois anos desde que Joe fora abatido e até Kate perdera a esperança de voltar a vê-lo no final da guerra. Ele desaparecera havia dezessete meses e todos tinham concluído que ele morrera, ela própria também. Os projetos dele foram encerrados, embora os seus recordes se mantivessem e se fossem manter durante muito tempo.

       Kate estava nas aulas no dia da vitória quando ouviu as notícias. A porta foi aberta e entrou uma professora a chorar. Perdera o marido em França havia três anos. As raparigas levantaram-se, deram vivas e abraçaram-se. A guerra acabara finalmente. os rapazes podiam voltar para casa. Só precisavam agora de uma vitória no Japão, mas todos tinham a certeza de que ela estaria para breve.

       Kate foi ver os pais nessa tarde e o pai estava radiante. Conversaram os dois durante bastante tempo e ele reparou no olhar de profunda tristeza da filha. Era fácil adivinhar os seus pensamentos e quando o fitou ela tinha lágrimas nos olhos. Ele tocou-lhe na mão.

       - Lamento que ele não tenha conseguido, Kate.

       Ela assentiu.

       - Eu também, - disse, limpando as lágrimas da cara. Regressou a casa e deitou-se na cama a pensar de novo em Joe. Ele estava sempre ali, algures, perto de si. Nunca se afastava muito. E quando uma das raparigas veio dizer-lhe que Andy se encontrava ao telefone, Kate pediu-lhe que dissesse que tinha saído. Não era capaz de falar com ele. A sua mente e o seu coração estavam demasiado preenchidos com Joe.

       O fim do curso foi anticlimático após a vitória na Europa, e Kate estava muito bonita com a batina e o chapéu pretos. Os pais inchavam de orgulho, e Andy assistiu igualmente à cerimônia. Falara-lhe em anunciarem o noivado nessa semana, mas ela pedira-lhe que esperasse mais um pouco. Ele iria viajar pelo Noroeste nesse verão e começaria a trabalhar com o pai no outono.

       Assistiu à cerimônia dele depois da sua. Estava feliz por ele. Convencera-o a esperar até ao verão para voltarem a falar em casamento.

       Mas assim que ele partiu de viagem em junho, Kate constatou que sentia mais saudades dele do que esperara, e ficou aliviada ao perceber que sentia algo por ele. Não sabia exatamente o quê, por causa de Joe As suas emoções pareciam um pouco fracas, como se algo nela tivesse sido desligado. No entanto, voltava lentamente ao normal E estava grata pela bondade e pela paciência de Andy. Sabia que o fizera passar um mau bocado e, no fim de junho, estava desejosa de que ele regressasse. Andy ligava-lhe sempre que podia e enviava-lhe postais de todo o lado. Dirigia-se para a zona do parque nacional de Grand Teton e depois para o lago Louise. Tinha amigos no estado de Washington e, no regresso, passaria por São Francisco. Por aquilo que ele dizia, estava a divertir-se imenso, mas tinha muitas saudades dela E Kate ficou admirada ao ver que também tinha saudades. Já considerava seriamente a hipótese de ficar noiva no outono e talvez casar-se em junho. Sabia que, pelo menos, precisava de mais um ano. E voltara a trabalhar a tempo inteiro para a Cruz Vermelha.

       Todos os dias chegavam da Europa hordas de jovens e navios com feridos. Ela fora destacada para o porto, a fim de ajudar os médicos e enfermeiros na triagem dos homens que desembarcavam e a enviá-los para hospitais onde passariam os meses seguintes, ou os anos. Kate nunca vira pessoas tão contentes por regressarem a casa, independentemente dos ferimentos. Ajoelhavam-se e beijavam o solo, beijavam-na e a toda a gente que estivesse por perto, caso as mães e as namoradas não se encontrassem presentes Embora fosse um trabalho exaustivo, era de certa forma feliz. Muitos tinham ferimentos horríveis e um ar muito jovem até se verem os seus olhos. Tinham visto demasiado. Mas estavam radiantes por regressar. Vê-los coxear dos navios para o cais ou abraçar os familiares fazia sempre Kate chorar.

       Ela passava horas com eles, a segurar-lhes nas mãos, a fazer-lhes festas na cabeça, a tomar notas para os homens que haviam ficado cegos. Metia-os em ambulâncias ou em caminhões militares. Chegava a casa todas as noites suja e cansada, mas pelo menos sentia que empregava o tempo de forma útil.

       Uma noite chegou a casa bastante tarde, depois de ter passado o dia a trabalhar numa enfermaria sobrelotada. Como era muito tarde, calculava que os pais deviam estar preocupados. Mas assim que entrou em casa e viu a cara do pai, soube que algo terrível acontecera. A mãe estava sentada no sofá ao seu lado, a limpar os olhos com um lenço. Kate desconfiou imediatamente que alguém morrera. Sentiu um arrepio.

       - O que foi, pai? - perguntou calmamente enquanto avançava para eles.

       - Nada, Kate. Vem sentar-te aqui.

       Ela obedeceu e alisou o uniforme. Estava cheio de nódoas e o bivaque encontrava-se de lado. Fora um dia muito longo e ela tinha calor e sentia-se exausta.

       - Estás bem, mãe? - perguntou. A mãe assentiu, mas ficou calada. - O que aconteceu? - Olhava para um e para outro, expectante. Não tinha avós vivos, nem tios, por isso sabia que tinha de ser um amigo, ou talvez o filho de um amigo. Alguns dos feridos não tinham sobrevivido à viagem de regresso.

       - Recebi um telefonema de Washington hoje - disse o pai.

       Kate ficou na mesma. Todas as más notícias para si já haviam chegado. Isso permitia-lhe sentir uma grande compaixão no seu trabalho. Sabia o que era perder a pessoa que mais se amava. Fitou os olhos do pai para ver se descobria neles alguma pista quanto ao que tanto os perturbara, e ele prosseguiu após uma hesitação. - Encontraram o Joe, Kate. Ele está vivo.

       Ela ficou tão atordoada com aquelas palavras que foi incapaz de dizer fosse o que fosse.

       - O quê? - conseguiu por fim perguntar, muito pálida. - Não compreendo. - Tinha a sensação de estar a entrar em choque. Recordou-lhe a noite em que havia perdido o bebê. O que queres dizer, pai? Mesmo depois de ter mantido a esperança durante tanto tempo aquilo já não lhe parecia possível. Kate começara finalmente a acreditar que Joe morrera. E agora, ao escutar as palavras que já perdera a esperança de voltar a ouvir, sentiu-se muito confusa.

       - Ele foi abatido a oeste de Berlim - disse o pai a chorar. Teve um problema com o pára-quedas e ficou muito mal das pernas. Foi escondido por um agricultor e depois tentou chegar à fronteira, mas foi preso e enviado para Colditz, junto a Leipzig. Não tinha forma de contatar ninguém e, por aquilo que o Ministério de Guerra já nos tinha dito, sabemos que ele levava documentos falsos. Tiveram medo de o deixar sobrevoar a Alemanha com documentação verdadeira, porque isso o colocaria ainda mais em perigo - disse o pai enquanto limpava as lágrimas.

       Kate olhava para ele embasbacada. Tinha dificuldade em perceber e tentou concentrar-se. Achava que também ela própria regressava do mundo dos mortos e não apenas Joe.

       - Ele foi mantido na solitária e, por qualquer razão, os Alemães não o fizeram constar da lista de prisioneiros. Ninguém sabe por que, podem ter suspeitado que o nome que ele utilizava era falso e torturaram-no para lhe sacar informações. Ele esteve em Colditz durante sete meses até que por fim conseguiu fugir. Já há quase um ano que estava na Alemanha. Desta vez, chegou à Suécia e tentava embarcar num cargueiro quando foi novamente apanhado. Foi alvejado e ficou gravemente ferido. Acharam que ele esteve a delirar ou consciente durante vários meses, e que depois foi de novo enviado para Colditz. Levava documentos suecos falsos e foi por isso que voltou a não constar da lista de prisioneiros. Não sei se eles sabiam quem era. Encontraram-no na solitária em Colditz há umas semanas, mas só ontem é que ele conseguiu contar-lhes tudo. Neste momento encontra-se num hospital militar em Berlim. E Kate... - o pai tentou controlar a emoção, - parece que ele está muito mal. Disseram que estava quase morto quando o encontraram. Mas, Deus o abençoe, ele lá conseguiu agüentar-se. Acham que vai safar-se, a menos que surjam complicações. Manteve-se vivo e incógnito durante todo este tempo. As pernas ainda estão em mau estado, foram novamente partidas. Ainda tem ferimentos de balas nas pernas e nos braços. Esteve no inferno durante todo este tempo. E se conseguirem que ele melhore o suficiente para viajar, metem-no num navio dentro de duas semanas. Deve chegar lá para julho.

       Kate ainda não dissera uma palavra e, tal como o pai, só era capaz de chorar. A mãe olhava-a desesperada. Sabia, sem que ninguém lho dissesse, que a vida de Kate iria alterar-se radicalmente. Andy Scott e tudo o que ele tinha para lhe oferecer acabavam de desaparecer numa nuvem de fumo E por muito que Kate amasse Joe, ele iria destruir a sua vida. No entanto, sabiam o quanto ele significava para ela, fora impossível não reparar nisso nos últimos dois anos. O pai só desejava a sua felicidade, custasse o que custasse. Sempre nutrira um grande respeito por Joe.

       - Posso telefonar-lhe? - perguntou ela finalmente, a voz pouco mais que um grasnido, mas o pai duvidava que isso fosse possível. Escrevera num papel o nome do hospital, mas as comunicações com Alemanha eram muito más.

       Ela tentou ligar-lhe mais tarde, mas a telefonista disse que era impossível estabelecer a ligação. Ficou sentada no quarto, a olhar para o luar e a pensar nele. Só conseguia lembrar-se da certeza que tivera durante tanto tempo de que ele estava vivo. Só nos últimos meses é que começara a acreditar que ele morrera.

       Durante as semanas seguintes teve a sensação de se mover debaixo de água. Ia trabalhar no porto todos os dias, e nas instalações da Cruz Vermelha entre os navios Ia visitar homens aos hospitais, escrevia-lhes cartas, ajudava-os a comer, a sentarem-se e a beber. Ouviu mil histórias de sofrimento E quando Andy telefonou, ela foi muito vaga. Não queria contar-lhe ao telefone que Joe estava vivo e não sabia o que dizer. Tentara tanto convencer-se a amá-lo, e talvez um dia o tivesse conseguido, mas perante a chegada iminente de Joe, mal conseguiu falar com Andy. No entanto, não achou justo estragar-lhe a viagem com uma notícia daquelas.

       Foi trabalhar às cinco da manhã no dia em que estava prevista a chegada do barco de Joe. Sabia que o esperavam às seis da manhã, com a maré. Tinham ancorado junto à costa e contatado o porto via rádio. Kate envergava um uniforme lavado e o bivaque, e as mãos tremiam-lhe quando o prendera com ganchos. Não se imaginava a voltar a vê-lo. Começava tudo a parecer um sonho estranho.

       Apanhou o elétrico até ao porto, apresentou-se à supervisora e foi verificar os mantimentos. Havia setecentos feridos a bordo e o navio era um dos primeiros a vir da Alemanha. Os outros tinham vindo de Inglaterra e de França. Havia ambulâncias e veículos de transporte militar alinhados no cais que depois levariam os homens para hospitais militares num raio de várias centenas de quilômetros. Não fazia idéia do local para onde Joe seria enviado. Mas fosse para onde fosse, tencionava estar com ele o máximo de tempo que pudesse. Nunca conseguira contatá-lo pelo telefone nas últimas semanas, e tinham-lhe dito que nem uma carta chegaria a tempo. Não contatavam desde outubro, quase dois anos antes.

       O navio aproximou-se devagar e os conveses estavam cheios de homens com muletas, ligaduras; ouviam-se os seus gritos e assobios e viam-se os seus acenos antes de o navio atracar. Era uma cena que ela já vira várias vezes naquela altura, e fazia-a sempre chorar. Desta vez, ficou parada a observá-los, de olhos semicerrados, à procura de Joe nos conveses, embora duvidasse que ele se encontrasse em condições de estar de pé. Devia ser um dos homens deitados nas macas. Kate já pedira autorização à supervisora para subir a bordo.

       - Alguém conhecido?

       Normalmente, as voluntárias esperavam que os homens desembarcassem, só de vez em quando embarcavam para dar uma ajuda. A enfermeira aposentada encarregue das voluntárias apercebeu-se da ansiedade de Kate. Com o cabelo vermelho-escuro a emoldurar-lhe o rosto, nunca vira ninguém tão pálido a agüentar-se em pé.

       - Eu..., o meu... o meu noivo vem a bordo - respondeu ela por fim. Era demasiado complicado explicar o que ele significava para si e onde estivera nos últimos dois anos. O mais fácil era empregar uma mentira diplomática.

       - Há quanto tempo não o vê? - perguntou ela a Kate, enquanto viam o barco aproximar-se.

       - Vinte e um meses. - A enfermeira olhou para a jovem com os seus enormes olhos azul-escuros. Até há três semanas pensávamos que ele tinha morrido.

       A supervisora imaginou o que aquilo devia ter sido para ela. Também já sofrera muito; era viúva e perdera três filhos.

       - Onde é que o encontraram? - perguntou para distrair Kate. A pobre rapariga parecia prestes a soçobrar.

       - Na Alemanha. Na prisão - respondeu. - Foi abatido durante um bombardeamento. Ainda não fazia idéia dos ferimentos que ele tinha. Sentia-se apenas grata por estar vivo.

       Levaram quase uma hora a manobrar o navio e depois os homens começaram a desembarcar. Havia pessoas a gritar vivas e a chorar e no cais viram-se muitas lágrimas. Daquela vez, Kate não chorava por eles, chorava por Joe. Só duas horas depois conseguiu subir a bordo. Já estavam a desembarcar as macas e ela acompanhou um grupo de auxiliares que ia para essa tarefa. Teve de controlar-se para não os desviar da sua frente. Não fazia idéia de onde encontrar Joe naquele navio imenso. Apercebeu-se de que os auxiliares e a tripulação traziam as macas para o convés superior. Foi andando com cuidado pelas filas de feridos e moribundos. Havia no ar um cheiro a doença e a corpos suados, e ela teve de suster a respiração.

       Alguns dos homens estenderam os braços na sua direção, tentaram agarrar-lhe as mãos e tocar-lhe nas pernas. Ela tinha de parar de vez em quando para falar com eles. Apesar do que sentia, não podia limitar-se a passar. Avançava com cuidado para não pisar ninguém, e parou pela centésima vez quando um homem sem pernas lhe pegou na mão. Perdera metade da cara e pela forma como inclinava a cabeça, ela percebeu que o olho que lhe restara não via. O homem queria apenas falar-lhe e dizer-lhe como estava feliz por se encontrar em casa. Tinha o sotaque do Sul. Ainda estava inclinada a falar com ele quando uma mão por trás lhe tocou suavemente no braço. Acabou de falar com o homem do Sul e depois virou-se para ver o que podia fazer por aquele que lhe tocara... e ali estava ele, fitando-a com um sorriso rasgado. Tinha o rosto magro e pálido e com pequenas cicatrizes das tareias que levara dos Alemães, mas apesar disso Kate soube quem ele era. Ajoelhou-se ao lado de Joe e ele sentou-se, tomando-a nos braços. As lágrimas dele misturaram-se com as suas.

       - Oh, meu Deus...

       - Olá, Kate - disse ele numa voz trêmula mas ainda assim familiar. - Eu disse-te que tinha cem vidas.

       Ela chorava tanto que foi incapaz de falar, e ele limpou-lhe delicadamente as lágrimas com uma mão áspera. Perdera muito peso e, quando se endireitou, Kate viu que ele trazia as pernas engessadas; tinham-no operado na Alemanha, mas os médicos ainda não sabiam se ele voltaria a andar. Os captores tinham-nas partido durante os interrogatórios e haviam-no alvejado ali quando ele tentara fugir. Joe estivera preso à vida por um fio, e regressara para Kate. Esta nem imaginava aquilo por que ele passara, custava-lhe a crer que ele estivera pior do que estava naquele momento, mas sabia que assim fora.

       - Pensei que nunca te veria disse - ele baixinho enquanto os auxiliares transportavam a sua maca para o cais e Kate caminhava ao seu lado segurando-lhe uma mão; Joe usava a outra para limpar as lágrimas.

       - Nem eu, - disse ela.

       A supervisora aproximou-se. Chorara ao vê-los desembarcar. Era uma cena que já todas haviam visto milhares de vezes, mas aquela tocou-a particularmente, pois gostava muito de Kate. Alguém merecia ganhar no meio de tudo aquilo, pensou. Já houvera tragédia suficiente nos últimos quatro anos.

       - Estou a ver que encontrou o seu homem. Bem-vindo a casa, filho - disse a mulher, dando-lhe uma palmadinha no braço. Ele não largava a mão de Kate. - Quer ir na ambulância com ele, Kate? - Iam enviá-lo para um hospital de veteranos perto de Boston, e seria fácil ela depois ir visitá-lo. A sua sorte começara finalmente a mudar. Kate sabia que, independentemente do que lhes viesse ainda a acontecer, ficaria sempre grata pela dádiva da vida de Joe. Subiu para a ambulância e sentou-se no chão ao lado dele. Trouxera-lhe uma tablete de chocolate na mala e deu-lha quando a ambulância arrancou. Viajavam com eles mais três homens e Kate dividiu outra tablete entre eles. Um começou a chorar. Tinham estado todos na Alemanha, dois em campos de prisioneiros de guerra, e o quarto havia sido apanhado ao tentar entrar na Suíça. Fora torturado durante quatro meses e depois abandonado à morte. Tinham sido bastante maltratados nas mãos dos Alemães, mas foram todos salvos por civis com exceção de Joe, que a princípio fora escondido por um agricultor e depois tivera de sobreviver na prisão até ser encontrado. - Estás bem? - Joe observava-a como uma mãe galinha. Nunca vira nada tão bonito como o cabelo dela, a sua pele e os seus olhos, e os outros homens também não eram capazes de desviar o olhar. Iam deitados nas macas a contemplá-la, enquanto Joe lhe agarrava na mão. - Estou. - Sempre achei que estavas vivo - murmurou. - Sabia que não tinhas morrido, apesar do que toda a gente dizia .

       - Espero que ainda não tenhas casado - disse ele com uma gargalhada, e Kate abanou a cabeça. Se ele tivesse demorado mais tempo a aparecer, ela talvez já estivesse casada.

       - Terminaste o colégio? - queria saber tudo. Pensara nela um milhão de vezes e adormecia a pensar nela e a perguntar-se se voltaria a vê-la. Por causa dela, recusara-se a morrer .

       - Terminei em junho - respondeu. Havia muita coisa a dizer. Dezoito meses para pôr em dia, e isso levaria tempo .

       - Trabalho como voluntária para a Cruz Vermelha.

       - Não me digas - retorquiu ele com um sorriso nos lábios dolorosamente gretados que Kate já beijara muitas vezes. Tinha a certeza de que não havia nada mais doce na vida que os beijos dela. - Pensei que eras apenas uma enfermeira simpática. - Mal pudera acreditar quando a vira ao seu lado no navio. Não conseguira contatá-la antes de embarcar. Ainda bem que o tinham mandado para Boston e não para Nova Iorque. Assim ela poderia visitá-lo todos os dias.

       Acompanhou-o enquanto ele dava entrada no hospital, mas depois teve de regressar ao porto com a ambulância e terminar o trabalho.

       - Volto logo à noite prometeu.

       Quando chegou a casa dos pais e lhes pediu o carro emprestado, já passava das seis. Eram quase sete quando chegou ao hospital. Ele já tinha sido lavado e dormia profundamente. Kate sentou-se ao lado da cama, e ficou admirada quando, duas horas mais tarde, ele se mexeu. Virou-se com um esgar de dor e, pressentindo a presença dela, abriu os olhos.

       - Estarei a sonhar? Ou estarei no Céu? - perguntou com um sorriso ensonado. - Não podes ser tu aí sentada, Kate... Nunca fiz nada na vida para merecer isto.

       - Fizeste sim. - Ela beijou-o no rosto e depois nos lábios. - Eu é que sou a sortuda. A minha mãe tinha medo que eu ficasse para tia.

       - Pensei que tinhas casado com o tal Andy, aquele que dizias ser só um amigo. Rapazes como ele dão sempre a volta à rapariga quando o herói morre.

       - Mas o herói não morreu.

       - Pois não - disse Joe, mudando de posição com um suspiro. As pernas continuavam engessadas. - Nunca pensei que voltaria a sair daquela prisão. Todos os dias julgava que iam matar-me. Acho que estavam a divertir-se demasiado para me deixarem morrer. - Tinham-no torturado impiedosamente. Ela não era capaz de imaginar os dezoito meses de suplício que ele tivera, nem como tinha conseguido sobreviver.

       Ficou com ele até depois das dez horas e foi para casa, porque o viu muito cansado e não porque lhe apetecesse ir-se embora. Iam medicá-lo. Joe adormeceu novamente antes de Kate partir e ela ficou um minuto a olhar para aquele rosto forte e característico com o qual sonhara um milhão de vezes.

       Quando chegou a casa, o pai aguardava-a.

       - Como está ele, Kate? - perguntou preocupado. Ainda se encontrava no escritório quando ela fora buscar o carro.

       - Está vivo, - respondeu ela radiante, e em melhor forma do que seria de esperar. Tem as pernas engessadas e o rosto cheio de cicatrizes. O cabelo estivera muito comprido, mas haviam-no cortado no hospital. Joe dissera que nessa altura tinha muito pior aspecto. - É um verdadeiro milagre ele estar conosco, pai.

       Ele sorriu ao ver a sua expressão feliz. Há anos que não a via daquela maneira.

       - Se bem o conheço, não tarda nada está de novo a pilotar aviões disse Clarke.

       - Receio que tenhas razão. - Ainda tinham de ver como é que as pernas dele recuperavam, talvez tivessem de voltar a operá-lo, e havia a possibilidade de ele ficar a coxear Mas havia destinos piores. Ele regressara dos mortos e o que restasse dele bastava a Kate.

       - O Andy telefonou enquanto estavas fora - disse o pai com uma expressão séria. - O que lhe vais dizer, Kate.

       - Nada até ele regressar. - Viera a pensar nisso no caminho para casa, e estava cheia de pena dele. Era azar, e esperava que ele compreendesse. - Vou contar-lhe a verdade. Assim que lhe disser que o Joe voltou, ele saberá. Não sei se teria sido capaz de casar com ele, pai. Ele sabia que eu ainda amava o Joe.

       - Também eu e a tua mãe. Esperávamos que ultrapassasses isso, para teu bem, se o Joe tivesse morrido Não queríamos que o chorasses durante o resto da vida. Vocês vão casar agora? - perguntou. Parecia-lhe uma coisa evidente, depois de tudo aquilo por que haviam passado. Já se apercebera de que eles estavam unidos para toda a vida.

       - Não falamos disso. Ele ainda está muito doente, pai. Não creio que seja um assunto importante neste momento.

       Quando Clarke Jamison foi visitar Joe no dia seguinte, percebeu por que. Ficou chocado com o aspecto terrível de Joe, pior ainda do que imaginara. Kate já vira tantos homens feridos que não ficara muito sobressaltada. Até pensara que ele viesse com pior aspecto.

       Joe mostrou-se encantado ao vê-lo e conversaram durante bastante tempo. Clarke não lhe fez perguntas acerca da sua experiência na Alemanha, achou melhor não falar no assunto, mas Joe acabou por lhe contar como havia sido e como fora a queda do avião. Era uma história incrível, mas mesmo assim Joe parecia animado. Os seus olhos brilharam quando viu Kate. Ela fora visitá-lo enquanto o pai ainda ali estava. Clarke foi-se embora pouco depois e Kate perguntou a Joe como estavam as pernas. Os médicos tinham-no examinado e pareciam esperançados. A operação na Alemanha havia sido bem feita.

       Durante o mês seguinte, Kate visitou-o todas as noites depois do trabalho, passava com ele os fins-de-semana e levava-o a passear no jardim com a cadeira de rodas. Ele chamava-lhe o seu anjo. E quando ninguém os via, beijavam-se e davam as mãos. Duas semanas depois de ter regressado, ele ameaçava sair do hospital e levá-la para o hotel.

       Ela riu-se

       - Não te safavas com isso - disse, apontando para o gesso. Mas estava tão ansiosa por isso como ele. Por enquanto tinham de contentar-se com beijos clandestinos. Ele ainda não estava em condições de ir a parte alguma, mas melhorava a cada dia que passava e já conseguia mexer as pernas, apesar do gesso. E quando o tiraram quatro semanas depois de ele ter regressado, para espanto de todos, começou a andar. A princípio, conseguia apenas dar alguns passos com a ajuda de muletas, mas o prognóstico era bom.

       Os pais dela já tinham ido visitá-lo nessa altura, e Liz levara-lhe livros e flores. Ficou satisfeita por vê-lo, mas no dia seguinte encurralou Kate na cozinha com uma expressão séria.

       - Tu e o Joe já falaram em casamento? - perguntou.

       Kate suspirou irritada

       - Mãe, já viste o estado em que ele se encontra? Porque não o deixamos começar primeiro a andar.

       - Choraste por ele durante dois anos, Kate. E conhece-lo há quase cinco. Há algum motivo para vocês não fazerem planos? Alguma coisa que eu desconheça? Ele é casado.

       - Claro que não. O Joe não vai a lado nenhum. Só acho que isso não é importante. Ele está vivo, é tudo o que eu quero, mãe.

       - Isso não é normal. E o Andy?

       Kate sentou-se com uma expressão séria para responder à pergunta.

       - Ele volta esta semana, digo-lhe nessa altura.

       - Dizes-lhe o quê? Acho que não há nada a dizer-lhe. Talvez seja melhor pensares bem antes de decidires não voltar a vê-lo. Kate, fixa o que eu te digo, assim que o Joe começar a andar, não vai levar-te ao altar, vai mas é direitinho à pista mais próxima. Ontem só falou de aviões. Está muito mais excitado com a perspectiva de voltar a voar do que com o fato de estar ao pé de ti. Talvez seja melhor admitires isso antes que seja tarde de mais.

       - É disso que ele gosta, mãe.

       Mas Liz tinha razão. Ele passava o tempo todo a falar de voar. Estava mortinho por subir a bordo de um avião, tal como estava por levá-la para a cama, mas Kate não podia dizer isso à mãe.

       - E ele ama-te? Acho que é uma pergunta muito mais relevante.

       - Não pode gostar das duas coisas? Tem de optar?

       - Não sei, Kate. Pode gostar das duas? Não tenho assim tanta certeza. Uma pode excluir a outra.

       - Isso é uma loucura. Não estou à espera que ele desista de voar. É a vida dele. Sempre foi.

       - Ele tem trinta e cinco anos e acabou de passar dois à beira da morte. Se quer assentar, casar e ter uma família, acho que está na altura.

       Kate não discordava, mas não queria pressioná-lo. Ainda não tinham falado no assunto. Calculava que isso acontecesse em breve. Não estava preocupada. Sentia-se casada com ele. Joe não se interessava por outras mulheres, apenas pelos seus aviões

       Andy foi visitar Kate assim que regressou. Acabara de descer do comboio vindo de Chicago, depois de ter passado as últimas semanas de férias em São Francisco. Ficou um pouco desapontado ao ver que ela não o fora esperar à estação, mas sabia que ela trabalhava muito. O dia tinha sido quente, e ela parecia muito cansada ao chegar a casa. Tinham recebido dois navios nesse dia. Andy ficou encantado ao vê-la, mais do que ela. Percebeu imediatamente que alguma coisa acontecera.

       - Estás bem? - perguntou quando os pais dela os deixaram sozinhos. Liz foi para o quarto e chorou ao pensar no que Kate ia dizer. Sabia que ele iria ficar destroçado, mas a filha tinha de ser sincera. Ela só tinha olhos para Joe.

       - Sim, mas muito cansada - respondeu, afastando o cabelo. Ele tentara beijá-la quando os pais dela tinham saído da sala, e ela parecera pouco à vontade. Sabia que não podia esperar mais tempo. - Não, acho que não estou bem... ou melhor, estou... mas não estamos.

       - O que quer isso dizer? - perguntou ele preocupado, pressentindo já o que aí vinha.

       Kate sabia que a notícia do regresso de Joe o iria deixar atordoado, tal como ela ficara.

       Fitou-o com uma expressão corajosa. Odiava magoá-lo, mas não tinha alternativa. O destino pregara-lhes uma partida com o regresso de Joe. Parecia que ela não estava destinada a ficar com Andy. Tinham ambos de aceitar isso, embora para ela fosse mais fácil. Todos os seus sonhos se tinham tornado realidade e os de Andy estavam prestes a terminar. E quando ele a fitou, soube, ainda antes de ouvir as palavras.

       - O que aconteceu ao certo enquanto eu estive ausente, Kate? - perguntou a custo.

       - O Joe voltou para casa - respondeu ela simplesmente. Isso dizia tudo. A relação deles chegara ao fim. Andy nunca se iludira quanto aos sentimentos dela.

       - Está vivo? Como é que conseguiu isso? Esteve preso num campo de guerra? - Parecia impossível o Ministério de Guerra ter pensado que ele havia estado morto durante dois anos e ter regressado agora.

       - Esteve preso, com um nome falso, fugiu e foi apanhado novamente. Nunca souberam quem ele era. É um milagre ter sobrevivido, embora esteja muito ferido.

       Tudo o que Andy via nos olhos dela era o seu amor por Joe. Não havia nada para si.

       - E onde é que isso nos deixa, Kate? Ou será que preciso mesmo de perguntar? - O amor nos olhos dela quando falava de Joe dizia-lhe tudo. - Acho que não preciso, pois não? Ele teve sorte. Nunca deixaste de o amar enquanto esteve ausente. Eu sempre o soube. Achei que um dia haverias de o esquecer. Nunca me passou pela cabeça que podias ter razão e ele estivesse vivo. Achei que não querias enfrentar a sua morte. Espero que ele saiba o quanto o amas.

       - Acho que ele me ama o mesmo - respondeu baixinho. Odiava o sofrimento que via nos olhos de Andy. Ele reagira como um cavalheiro, mas estava destroçado.

       - Vão casar? - quis saber Andy, desejando que ela lhe tivesse contado antes do seu regresso, embora compreendesse por que motivo não o fizera. Teria sido um choque ainda maior ouvi-lo pelo telefone. Passara o verão inteiro a pensar nela, a planejar o noivado e o casamento. Tencionara ir comprar-lhe o anel assim que chegasse a Boston.

       - Por enquanto não. Mas penso que um dia. Não estou muito preocupada com isso.

       - Desejo-te sorte, Kate - disse Andy, - desejo a ambos. Dá ao Joe os meus parabéns.

       Hesitou um momento e ela estendeu-lhe a mão, mas ele não a apertou. Saiu em silêncio, meteu-se no carro e arrancou.

       Joe saiu do hospital dois meses depois de ter chegado com o auxílio de bengalas, mas as pernas estavam a recuperar bem. Os médicos achavam que pelo Natal voltaria a andar normalmente. Ninguém podia acreditar na sua recuperação, muito menos Kate. Ainda lhe parecia um milagre ele ter voltado.

       Dois dias depois, Joe recebeu os papéis da sua desmobilização. Nessa altura já tinham passado uma tarde no Hotel Copley Plaza. Kate não podia ausentar-se durante uma noite agora que estava a viver com os pais. Ele aceitara o convite deles para ficar lá em casa, mas sabia que não poderia permanecer ali para sempre e queria privacidade com Kate.

       Joe telefonara a Charles Lindbergh muito antes de sair do hospital e tencionava ir a Nova Iorque visitá-lo. O seu mentor tinha umas idéias interessantes que queria discutir consigo, e havia algumas pessoas que Joe queria ver. Iria ficar vários dias em Nova Iorque e depois regressaria a Boston.

       Kate levou-o ao comboio antes de ir trabalhar uma semana após ele ter tido alta. Estavam no fim de setembro e a guerra terminara. A vitória sobre o Japão surgira em agosto. O pesadelo terminara finalmente.

       - Diverte-te em Nova Iorque - disse ela beijando-o antes de ele sair do carro. Arranjara maneira de se esgueirar até ao seu quarto à noite sem acordar os pais. Era demasiado difícil para ele chegar até ela. Sentiam-se duas crianças travessas a murmurar na cama dele todas as noites.

       - Volto daqui a uns dias. Eu telefono. Não engates nenhum soldado enquanto eu estiver fora, por favor.

       - Então não te demores muito - preveniu, e ele ameaçou-a com um dedo. Kate ainda tinha dificuldade em acreditar na sua sorte, na sorte de ambos. Ele fora maravilhoso. Até Liz cedera finalmente. Apesar de adorar voar, Joe era um bom homem, responsável e era notório que a amava muito. Os pais esperavam que eles ficassem noivos rapidamente.

       Não tivera notícias de Andy desde que lhe dissera que Joe tinha regressado. Sabia que ele já estava em Nova Iorque a trabalhar para o pai. Esperava que já se sentisse melhor e que um dia lhe perdoasse. Sentia a falta da presença dele na sua vida. Perdera o seu melhor amigo. Mas continuava convencida de que a amizade não teria sido suficiente para a fazer amá-lo como marido. As coisas tinham corrido como deviam.

       Acenou a Joe enquanto ele coxeava para o comboio. Já se movimentava surpreendentemente bem e era bastante independente. Kate seguiu para o trabalho no carro a pensar nele e, durante o resto do dia, a sua mente esteve ocupada com os homens que era necessário ajudar.

       Esperava que ele lhe ligasse nessa noite, mas isso não aconteceu. Em vez disso, ligou-lhe na manhã seguinte muito cedo.

       - Que tal vai isso? - perguntou Kate.

       - É tudo muito interessante - respondeu Joe enigmaticamente. - Conto-te quando regressar. - Ia ter uma reunião a seguir e ela tinha de ir trabalhar. - Telefono-te logo à noite. Prometo

       E daquela vez cumpriu. Passara o dia em reuniões com homens que Charles Lindbergh lhe apresentara. E, para alegria de Kate, regressou a Boston no fim-de-semana. Ela ficou abismada com o que ele lhe contou.

       Os homens que Charles lhe apresentara queriam fundar uma empresa com ele, para desenhar e construir os aviões mais avançados. Tinham andado a comprar terrenos desde o início da guerra, haviam remodelado uma velha fábrica e até possuíam uma pista de aviação própria. Iriam instalar-se em New Jersey e não só queriam que Joe dirigisse a empresa, como também que desenhasse e testasse os aviões. No princípio ele teria várias funções, mas quando as coisas assentassem, dirigiria toda a operação. Os homens investiriam o dinheiro. Joe seria o cérebro.

       - É a combinação perfeita, Kate - disse ele com um sorriso rasgado que iluminou o seu rosto esculpido. Nada o fazia mais feliz que os aviões. Até ela teve de admitir que aquilo parecia perfeito. - Fico com cinqüenta por cento da propriedade, e se tivermos cotação na bolsa, recebo metade das ações. É um bom negócio, pelo menos para mim.

       - E também muito trabalho - acrescentou ela.

       O projeto parecia ter sido feito de encomenda para Joe. Ele contou os pormenores a Clarke nessa noite e este ficou bastante impressionado. Já conhecia de nome os investidores e pareciam ser de confiança. Era uma oportunidade única.

       - Quando é que começa? - perguntou interessado.

       - Tenho de estar em New Jersey de segunda a oito. Não é um local desagradável. Fica a menos de uma hora de Nova Iorque. No início não devo sair muito da fábrica, e temos de fazer algumas alterações à pista. - Joe já só conseguia pensar nas coisas que teria de fazer. A sua experiência iria ajudar bastante, e Clarke concordou com Kate que era uma combinação perfeita.

       Quando Clarke estava a felicitá-lo, a mãe de Kate falou inesperadamente, surpreendendo-os a todos.

       - Isso significa que vocês os dois vão casar-se em breve? - Joe olhou para Kate e fez-se silêncio na sala.

       - Não sei, mãe - respondeu Kate corada, tentando aligeirar a coisa, mas a mãe já se cansara de esperar que Joe fizesse a sugestão. No que lhe dizia respeito, chegara a altura de lhe perguntar diretamente quais as suas intenções para com Kate.

       Joe parecia bastante atrapalhado sem saber o que dizer.

       - Porque não deixas o Joe responder? Parece que você vai ter uma excelente oportunidade com este emprego, não só temporariamente, mas também para o futuro. Quais são os seus planos para a Kate?

       Ela esperara dois anos por ele e já o amava havia quatro. Tinham-se conhecido há cinco anos, tempo suficiente, na opinião de Liz, não só para que descobrisse as suas intenções, mas também para se declarar.

       - Não sei, Mistress Jamison. A Kate e eu ainda não falamos disso - respondeu Joe, evitando olhar para ela e para Kate. Sentia-se encurralado apesar do que sentia por ela. Liz tratara-o como uma criança irresponsável, não como um homem merecedor de respeito.

       - Sugiro que pense no assunto. A Kate quase morreu de desgosto quando o seu avião foi abatido. Acho que ela merece um pouco de reconhecimento pela sua lealdade e coragem. Esperou muito tempo por si, Joe.

       Ouvir Elizabeth Jamison era como estar a ser repreendido por uma travessura. Sentiu-se irritado e culpado e com vontade de fugir.

       - Eu sei - retorquiu Joe calmamente. - Não me tinha apercebido de que o casamento era assim tão importante para ela.

       Kate nunca lhe falara nisso, e estavam a divertir-se imenso a esgueirar-se para o quarto um do outro durante a noite. O peso da culpa com que Liz o sobrecarregara era imenso, mas ele não deu a entender nada.

       - Como se o casamento não fosse importante para ela. - exclamou Liz enquanto o marido a fitava perplexo. Ela fora bastante frontal, mas Clarke não discordava. Fora uma abordagem mais direta do que a que ele teria empregue, se decidisse falar do assunto com Joe. - E se não é, Joe, devia ser E talvez seja o momento de lhes recordarmos isso. Parece-me uma boa altura para anunciarem o noivado.

       Ele nem sequer a pedira em casamento e não pareceu muito satisfeito com o fato de estar a ser pressionado pela mãe dela, mas compreendia-a. Não tinha dúvidas de que a amava, mas talvez os pais dela precisassem de saber isso. Contudo, ainda não se sentia preparado para dar esse passo. Estava disposto a prescindir da sua liberdade, mas não a permitir que lha roubassem E ainda era senhor das suas ações.

       - Se não se importa, Mistress Jamison, preferia esperar até me enturmar no trabalho e ter o projeto já um pouco avançado. Isso vai levar algum tempo, mas nessa altura poderei oferecer alguma coisa à sua filha. Tinha pensado que nessa altura poderíamos viver em Nova Iorque e eu iria todos os dias de comboio até New Jersey.

       Já fizera planos, mas ainda não começara a trabalhar. Nem estava pronto para casar. Kate sabia isso e vira a expressão de pânico nos seus olhos. O que a mãe acabara de dizer só o fazia querer fugir. Joe não era homem para se deixar encurralar.

       - Isso parece razoável - interveio Clarke. Aquilo começava a parecer a Inquisição Espanhola e ele fez sinal à mulher para que mudasse de tema. Toda a gente percebera E o que Joe dissera fazia sentido. Não havia muita pressa, e ele precisava de se estabelecer. Tinha diante de si uma tarefa monumental.

       O serão chegou ao fim pouco depois e, mais tarde, quando foi ter ao quarto de Joe, Kate estava furiosa.

       - Não acredito na forma como a minha mãe se comportou ao jantar! Peço desculpa. O meu pai devia tê-la feito calar-se. Acho que ela foi bastante rude para contigo.

       Kate estava danada com a mãe, o que permitiu a Joe mostrar-se magnânimo.

       - Não faz mal, querida. Eles preocupam-se contigo e querem ter a certeza de que te vou fazer feliz e de que sou um homem sério. Eu teria feito o mesmo se fosses minha filha. Só não me tinha apercebido de que isto era uma preocupação para eles, pelo menos agora. Tens pensado nisso? - perguntou, abraçando-a e beijando-a. Não parecia tão nervoso como na sala, sob a pressão de Liz.

       - Não, não tenho pensado nisso. E estás a ser muito generoso. Ela foi horrível. Lamento imenso. - Kate parecia bastante agastada, o que para ele foi um alívio.

       - Não lamentes. As minhas intenções são honradas, Miss Jamison, prometo. Embora, se não te importas, no entretanto gostasse de abusar de ti.

       Quando Joe lhe despiu o roupão, ela riu-se. A última coisa em que pensava nesse momento era no casamento. Sentia-se divinamente feliz por estar com ele. Queria apenas o seu amor, não a sua rédea.

       A cena no quarto dos pais dela era um pouco menos romântica. Clarke repreendia Liz por ela ter tomado o touro pelos chifres.

       - Não percebo por que motivo estás tão incomodado. Alguém tinha de lhe perguntar, e tu não querias.

       Clarke já aprendera a não reagir àquele tom acusador.

       - O pobre rapaz acabou de regressar do meio dos mortos. Deixa-o ao menos voltar a organizar a vida, Liz. Não é justo estar já a pressioná-lo.

       No entanto, Liz discordava dele. Era uma mulher determinada a cumprir a sua missão e não se deixava distrair.

       - Ele não é um rapaz, Clarke É um homem de trinta e quatro anos, regressou há dois meses e viu-a todos os dias. Teve mais do que tempo de a pedir em casamento e não o fez. - Isso dizia-lhe muito a respeito do caráter dele

       - Ele quer resolver primeiro a vida profissional. Isso é perfeitamente razoável e respeitável, e eu aprovo.

       - Quem me dera ter tanta certeza de que ele vai fazer o correto. Acho que assim que voltar a entrar num avião se vai esquecer de casar com ela. Está obcecado pelos aviões e nada interessado no casamento. Não quero que ela fique para sempre à espera dele.

       - Aposto contigo que eles estarão casados dentro de um ano, ou talvez menos - disse Clarke cheio de confiança. A mulher lançou-lhe um olhar irado como se a culpa fosse sua. Mas ele já estava habituado.

       - Olha que não me importarei de perder essa aposta - retorquiu Liz, e o marido sorriu-lhe. Parecia uma leoa a defender a cria, e ele admirava-a por isso, mas parecia-lhe que Kate e Joe não tinham achado muita graça. Joe aparentava estar especialmente pouco à vontade sob o ataque e Clarke nunca o vira assim. Sentira pena dele.

       - Porque não confias nele, Liz? - perguntou Clarke quando se deitaram. Sabia que ela não confiava, ela não o escondia, embora admitisse que gostava dele, mas não necessariamente para a filha. Liz teria ficado muito mais satisfeita se Kate tivesse casado com Andy. A seus olhos, ele teria sido um marido muito melhor que Joe.

       - Acho que os homens como o Joe não casam - explicou ela. - E se casam, estragam tudo. Não sabem realmente o que é o casamento. É algo com que se ocupam durante os tempos livres quando não estão entretidos com os brinquedos ou com os amigos. Não são maus tipos, mas as mulheres das suas vidas são menos importantes para eles. Gosto muito do Joe, ele é um homem honrado e sei que a ama, mas não sei se lhe prestará atenção. Vai passar o resto da vida a brincar com os aviões e ainda por cima a ser pago por isso E se a coisa correr bem, nunca casará com ela.

       - Acho que casará - retorquiu o marido com firmeza. - E pelo menos conseguirá sustentá-la. Aliás, penso até que será capaz de ganhar bastante dinheiro por aquilo que ele disse. Não tens razão, Liz. Creio que ele conseguirá gerir a carreira e a mulher. É um tipo inteligente. Às vezes penso até que é brilhante. É um gênio com os aviões e pilota-os como ninguém. Só tem de vir de vez em quando a terra para a fazer feliz. Eles amam-se, isso deve bastar.

       - Por vezes não basta - disse ela triste. Mas espero que baste para bem deles. Atravessaram um período terrível, agora merecem um pouco de felicidade. Só quero ver a Kate instalada com um homem que a ame numa boa casa, com alguns filhos.

       - Ele há-de lá chegar. É louco por ela.

       - Espero que sim - disse Liz com um suspiro, metendo-se na cama e aninhando-se junto do marido. Queria que Kate fosse tão feliz como ela, e isso seria pedir muito. Homens como Clarke Jamison eram raros.

       No quarto de Joe, Kate encontrava-se nos braços dele feliz e saciada e prestes a adormecer.

       - Amo-te - murmurou ela. Ele sorriu ensonado.

       - Eu também te amo, querida... até amo a tua mãe.

       Ela soltou uma risada e momentos depois estavam a dormir, tal como Liz e Clarke. Um casal de amantes, o outro casado. Era difícil dizer qual dos dois era mais feliz nessa noite.

      

       

       Quando Joe foi para New Jersey prometeu a Kate convidá-la a passar um fim-de-semana assim que se instalasse. Julgou que isso levaria duas semanas, mas só ao fim de um mês é que encontrou um apartamento. Havia um hotel perto onde ela podia ficar, o hotel onde ele vivera durante o último mês Mas a verdade era que ele não dispunha de tempo para estar com ela. Trabalhava noite e dia e ficava no escritório até muito depois da meia-noite E também trabalhava aos fins-de-semana. Às vezes até dormia no sofá do gabinete.

       Joe estava a contratar pessoal, a montar a fábrica e a redesenhar a pista de aviação. Parecia não ter tempo para respirar, mas a indústria aeronáutica começava a interessar-se pelo que ele estava a fazer. A fábrica seria totalmente inovadora e tinham sido publicados vários artigos sobre ela em revistas e jornais. Por vezes nem conseguia telefonar a Kate à noite, e tinham passado seis semanas desde que saíra de Boston. Quando finalmente a convidou a ir passar um fim-de-semana a New Jersey Estava exausto quando ela chegou E quando lhe contou o que tinha andado a fazer, ela ficou muito impressionada. Era uma operação fantástica, e Joe adorou o fato de ela compreender tudo quando lho explicou.

       Passaram dois dias maravilhosos. Ficaram a maior parte do tempo na fábrica e voaram num avião novo em folha que ele desenhara. Quando ela voltou para casa, contou tudo ao pai. Este também estava ansioso por ir a New Jersey. As pessoas do mundo dos negócios começavam a aperceber-se que Joe estava a fazer história com as suas idéias

       Duas semanas depois, Joe foi passar o Dia de Ação de Graças com eles. No entanto, estava a ter problemas na fábrica e foi obrigado a regressar na sexta-feira de manhã. Nunca tivera antes tantas responsabilidades e o peso de toda uma indústria recaía nos seus ombros. Às vezes parecia até que era o mundo inteiro. Joe lidava bem com isso, mas ficara sem tempo livre para se distrair e por vezes até para telefonar a Kate. E no Natal, apesar do seu entusiasmo com o trabalho, ela começou a queixar-se. Vira-o duas vezes em três meses e sentia-se sozinha em Boston sem ele. Ele ficava cheio de remorsos, mas nada podia fazer.

       Kate começava a pensar que a mãe tinha razão e que deviam casar. Pelo menos assim estariam juntos, em vez de a quilômetros de distância. Disse-o a Joe quando ele foi passar o Natal lá a casa, e ele ficou admirado

       - Agora? Passo cinco horas por noite em casa, Kate Não iria ser muito divertido. E ainda não posso mudar-me para Nova Iorque. - Continuava a achar que o casamento não fazia sentido.

       - Então vamos viver em New Jersey. Pelo menos estaríamos juntos - argumentou Kate

       Estava farta de viver com os pais e não queria comprar um apartamento em Boston, uma vez que ia casar. Tinha a sensação de que a sua vida parara enquanto esperava que ele se estabelecesse e tivesse tempo para viver. No entanto, isso não era fácil para ele. Metera-se num projeto gigantesco e só naquela altura começara a aperceber-se do tempo e do trabalho que teria para fazer bem as coisas. Em três meses, mal passara da superfície. Trabalhava cento e vinte horas por semana, ou mais.

       - Acho que é uma parvoíce casarmo-nos agora - explicou-lhe ele na véspera de Natal, depois de se ter esgueirado para o quarto dela.

       Kate começara a achar que a vida assim era uma loucura, e simultaneamente frustrante. Sentia-se uma criança ainda a viver com os pais. A maior parte das suas amigas já tinha casado. As que não o haviam feito antes da guerra, ou durante, casavam-se naquela altura e tinham bebês. Ela estava ansiosa por começar, ou pelo menos por viver com ele.

       - Dá-me só mais algum tempo para pôr isto a andar, e depois procuramos um apartamento em Nova Iorque e casamos. Prometo

       Um ano antes estivera numa prisão na Alemanha a ser torturado. E agora dirigia um império monumental. Era necessário um enorme esforço de adaptação. Não queria casar-se até dispor de tempo para Kate. Achava que de outra forma não seria justo. Contudo, aquilo também não o era.

       Passou um Natal maravilhoso com a família dela e conseguiu estar três dias em Boston. Foram voar de novo, e até passaram um dia inteiro na cama de um hotel. Quando Joe se foi embora, Kate sentia-se melhor. Ele tinha razão. Fazia mais sentido esperarem até ele dominar o negócio. Kate compreendia isso. A Cruz Vermelha começava a ter menos trabalho, pelo que ela decidiu procurar emprego. E logo a seguir ao Ano Novo encontrou uma coisa de que gostava. Passara o ano em New Jersey com Joe, e percebeu novamente o quanto tinham sorte. Ainda há um ano estivera a chorá-lo, julgando-o morto. Teria dado tudo por aquilo que tinha agora, embora o visse poucas vezes. Pelo menos tinham a vida inteira pela frente, e um futuro rosado assim que se casassem.

       Janeiro foi um mês difícil para ambos. Ela estava a adaptar-se ao trabalho numa galeria de arte e ele travou uma luta terrível com os sindicatos. O mês foi um pesadelo, e fevereiro ainda pior. Não conseguiu ir visitá-la no Dia dos Namorados, aliás até se esqueceu dele. Não tinham conseguido obter a última autorização para a pista de aviação. Isso era uma coisa crucial, e Joe teve de passar três dias a engraxar políticos e a exercer pressão sobre alguns funcionários. Só se recordou do Dia dos Namorados quando ela lhe ligou dois dias depois a chorar. Já não se viam há seis semanas. Ele prometeu compensá-la e sugeriu que ela fosse passar o fim-de-semana a New Jersey.

       Divertiram-se bastante. Ela ajudou-o a organizar o escritório e conseguiram ir jantar fora uma noite. Joe ficou no hotel com Kate, e ela regressou a Boston no domingo à noite sorridente e feliz. Gostara tanto que sugeriu ir passar todos os fins-de-semana com ele, o que pareceu boa idéia. Joe sentia-se sozinho e tinha imensas saudades dela, mas também sabia que era obrigado a trabalhar dezoito horas por dia, e até fins-de-semana. Sentia pena de Kate, contudo de momento nada podia fazer. Parecia-lhe viver num carrossel, encurralado entre os seus remorsos por causa de Kate e a obrigação de gerir um negócio que lhe devorava todas as horas. E quanto mais remorsos tinha, de menos tempo parecia dispor. Aquilo nem para ele fazia sentido. Por fim, desesperado, convidou-a a ir lá passar uma semana para poderem estar juntos. E ficou admirado ao ver como as coisas corriam bem com ela a ajudá-lo no escritório. Via-a de fugida durante o dia, mas ela parecia radiante. E podiam dormir juntos à noite e tomar o pequeno-almoço no café. Durante o resto do dia ele comia a andar de um lado para o outro ou sentado à secretária. A única vez que se sentara num restaurante fora quando ela o visitara em New Jersey, e na altura arrependera-se do tempo que isso o fizera perder. Sentia que o puxavam de dez mil direções distintas.

       As coisas só começaram a ficar melhor em maio. Ela largou o emprego e foi trabalhar com ele durante o verão. Funcionou às mil maravilhas, e embora ela mantivesse um quarto no hotel por causa das aparências, ficou no apartamento dele. Nunca fora tão feliz e ele teve de admitir que aquilo também lhe agradava. Kate já não se queixava de que não o via. Parecia a combinação perfeita para eles, mas não para os pais. Não gostavam que ela fosse visitar Joe a New Jersey, mas ela tinha vinte e três anos e dizia-lhes que dormia no hotel. Mantinha lá o quarto para o caso de eles telefonarem.

       Joe já regressara aos Estados Unidos havia um ano, e nunca falaram do noivado. Andavam demasiado ocupados a pensar no trabalho dele. Só quando tiraram uma semana de férias e foram ter com os pais dela a Cape é que Clarke o chamou à parte e teve com ele uma conversa séria. Passara quase um ano desde a explosão de Liz, e ela andava furiosa com Joe e Kate. Começara a desconfiar do esquema do hotel e desaprovava-o com veemência. E se Kate engravidasse? Ele casaria com ela nessa altura? Deitava fumo de cada vez que via Joe e fazia-o sentir-se uma criança travessa. Sempre que a via ele tinha vontade de fugir. Era como uma máquina de culpa, a cuspir na direção dele, mesmo que não dissesse uma palavra. Também já não precisava de dizer. E Kate sentia-se dividida entre os pais e Joe.

       Nessa altura, Clarke também já não estava satisfeito, a situação arrastava-se há demasiado tempo, e ele disse-o a Joe quando deram um passeio pela praia de Cape Cod. Joe fora até lá a bordo de um avião com umas linhas bastante atraentes que a sua empresa estava a fabricar. Começavam a ganhar muito dinheiro. A vida de Joe modificara-se bastante desde que o haviam tirado daquele navio em Boston. Tornara-se um homem muito rico, mas mal tinha tempo de respirar. Clarke andava preocupado com eles. Gostava de Joe.

       Joe levou Clarke no seu novo avião e concordaram não contar a Liz, que estava ainda mais furiosa agora que sabia que Kate voava muitas vezes com Joe. Apesar da fama dele como piloto e dos seus anos como herói de guerra, ela continuava convencida de que um dia ele iria despenhar-se e morreriam ambos. Ficara fora de si ao descobrir que Joe dava aulas de pilotagem a Kate. Esta distraíra-se e contara-lhe sem querer. Mas Joe tinha confiança nas capacidades de Kate. Ensinara-a bem, embora ela ainda não tivesse tido tempo para voar as horas exigidas para poder tirar o brevet. Andava demasiado atarefada a trabalhar para ele.

       Clarke ficou bastante impressionado com o fabuloso avião novo de Joe, e depois no caminho de regresso a casa pararam numa estalagem para beber umas cervejas. Fazia imenso calor, e Joe sentia-se feliz com o seu avião. Clarke tinha várias coisas em mente: a felicidade da filha, a sanidade da mulher, e desejava dar a Joe alguns conselhos de pai. Fora por esse motivo que quisera andar com ele de avião, embora tivesse adorado voar.

       - Anda a trabalhar demasiado, filho - começou ele. - Assim vai passar ao lado da vida e, à velocidade a que se desloca, pode cometer uns erros importantes que lhe sairão caros a longo prazo.

       Joe percebeu imediatamente que ele estava a falar de Kate, mas também sabia que tudo estava bem entre si e ela. Era a mãe que andava sempre agitada com o assunto.

       - As coisas vão acalmar daqui a algum tempo, Clarke, a empresa é bastante jovem disse num tom cheio de confiança.

       - Você também, mas por pouco tempo. Devia saborear a vida agora.

       - E estou a saborear. Adoro o que faço. - Era verdade e via-se. Mas também adorava Kate, e Clarke sabia-o. Adorava-a o suficiente para ele se sentir justificado ao violar a promessa que fizera a Liz de não falar sobre o suicídio do marido a pessoas que não os conheciam na altura, nem de dizer que não era pai de Kate. Quando Clarke adotara Kate, Liz dissera-lhe que não queria que o suicídio de John Barrett pairasse sobre a vida de Kate como uma nuvem negra. Contudo, Clarke sabia melhor do que Liz que fora isso que acabara por acontecer. E achava que Joe devia sabê-lo. Era uma parte importante do todo que era Kate e não podia ser ignorada. Não era justo para ela nem para Joe. E Clarke achou que podia abrir os olhos e o coração de Joe, se ele soubesse.

       - Há uma coisa que diz respeito à Kate que você devia saber - disse Clarke depois de terem bebido a segunda rodada de cerveja e de terem passado para o gim. Sabia que Liz não ficaria satisfeita se eles chegassem a casa embriagados, mas de momento isso não o preocupava. Decidira contar aquilo a Joe e precisava de alguma coragem para o fazer.

       - Isso parece misterioso - retorquiu Joe com um sorriso. Gostava de Clarke, e durante toda a vida sempre se sentira mais à vontade com homens. Kate era a única mulher com quem se abrira e sentira totalmente descontraído, mas mesmo ela o assustava algumas vezes. Especialmente quando se enfurecia com qualquer coisa, o que, felizmente, era raro. Quando isso acontecia, a menor crítica afastava-o. Nunca lho explicou. Dizer-lhe que ela por vezes o assustava torná-lo-ia ainda mais vulnerável. Depois de ter passado os primeiros anos de vida com os primos sempre a dizerem-lhe que ele não valia nada, qualquer alusão posterior a isso fazia-o ter vontade de fugir. Era o botão que a mãe de Kate pressionava nele, sempre com maus resultados.

       - E é misterioso - confirmou Clarke. - Mas mais tenebroso que misterioso. E não quero que a Liz ou a Kate saibam que falamos disto. A sério, Joe - disse cheio de fervor após o segundo gim. Clarke começava a sentir-se embriagado, e Joe sorria muito. Ficava expansivo sempre que bebia. Atenuava alguma da pressão.

       - Então qual é o mistério tenebroso? - perguntou Joe com um sorriso infantil. Cada vez gostava mais de Clarke. Considerava-o um bom homem. Respeitavam-se desde o início.

       - Eu não sou o pai dela, Joe - disse Clarke baixinho, subitamente sóbrio. Em treze anos nunca dissera aquelas palavras.

       O sorriso de Joe desapareceu quando os seus olhares se cruzaram

       - O que quer isso dizer? Não faz sentido. - Parecia preocupado. Pressentia problemas.

       - A Liz foi casada antes. Durante muito tempo. Quase trinta anos. Só estamos casados há catorze. Às vezes parece uma eternidade - comentou ele com um sorriso, e Joe riu-se. Contudo, sabia quanto Clarke amava Liz. Tinha de amar, para poder aturá-la. - O marido dela era meu amigo, um bom homem, meigo, carinhoso, oriundo de uma boa família. Andei na escola com o irmão dele, e foi assim que conheci o John. Ele perdeu tudo no colapso financeiro de mil novecentos e vinte e nove, não só o seu dinheiro e o da família, mas também o dinheiro das pessoas cujos investimentos ele geria, e alguma da fortuna da Liz também. Felizmente, a família dela tinha continuado a gerir o seu dinheiro, e tiveram mais sorte do que o John. A maior parte do dinheiro dela não foi afetado pelo colapso financeiro. Mas John perdeu tudo. - Era uma história que Clarke não queria contar, e Joe sentiu medo de ouvir mais. - Ele quase morreu na altura. Era o homem mais honrado que conheci, e aquilo destruiu-o. Levou dois anos, fechado num quarto do primeiro andar, sentado no escuro. Tentou beber até morrer, mas não resultou. Suicidou-se em trinta e um. Kate tinha oito anos quando ele morreu.

       - Ela estava lá? Viu-o matar-se? - perguntou Joe horrorizado com a história, mas Clarke abanou a cabeça.

       - Não, graças a Deus. Foi a Liz quem o encontrou. Acho que a Kate estava na escola. Quando ela chegou a casa já tudo tinha terminado. Mas ela soube como ele morrera. Eu conhecia a Liz, o John e a Kate há muitos, muitos anos. Fiz o que pude por elas depois, apenas com o intuito de ser prestável. A Liz ficou em estado de choque. Eu perdera a minha mulher alguns anos antes. As coisas começaram a evoluir entre a Liz e eu, mas acho que me apaixonei pela Kate antes de me apaixonar pela Liz. Ela estava apavorada, era uma criança destroçada pela morte do pai. Achei que ela nunca mais recuperaria. Tinha oito anos na altura. Casei com a Liz um ano mais tarde, e adotei a Kate no ano seguinte, quando ela fez dez anos. Levei mais dois anos a fazê-la sair da “gruta” onde se escondera desde o suicídio do pai. Acho que durante anos ela não confiou em mim, nem em ninguém, especialmente nos homens. A Liz adorava-a, mas não sei se saberia comunicar com ela, ficara demasiado chocada com a morte do marido. Houve uma época terrível logo após o nosso casamento: a Liz adoeceu. Foi apenas uma gripe. Mas vi a Kate entrar em pânico. Estava apavorada com a possibilidade de perder a mãe. Não sei se a Liz chegou a aperceber-se. A Kate levou a vida inteira a tornar-se a mulher que é hoje. Forte, confiante, feliz, divertida, capaz. A mulher que você ama foi durante muito tempo uma criança aterrorizada, destroçada. Acho que durante anos teve receio de que eu também a abandonasse, como o pai. Coitado, ele não pôde evitá-lo. Faltou-lhe a energia para sobreviver ao que lhe tinha acontecido, por muito dinheiro que a Liz tivesse. Aquilo destruiu o amor próprio dele, a sua virilidade, o seu orgulho. Mas quando se matou quase destruiu Kate.

       - Porque está a contar-me isso? - perguntou Joe desconfiado, ainda chocado com o que acabara de ouvir.

       - Porque é uma parte importante da Kate. Ela amava o pai e ele adorava-a. E depois começou a amar-me. E agora ama-o a si. Você foi para a guerra e durante dois anos ela pensou que estava morto. Teria sido uma tragédia para qualquer rapariga, mas foi-o ainda mais para ela. Reabriu-lhe as velhas feridas, vi-o todos os dias nos seus olhos. Foi o tipo de perda que podia tê-la destruído se ela não fosse tão forte. E depois, miraculosamente, você regressou do mundo dos mortos. A vida foi boa para ela. Mas há uma peça partida cuja existência você tem de saber, se a ama. De cada vez que você a deixa, ou a rejeita, ou a faz sentir-se abandonada, recorda-lhe tudo o que ela perdeu. É como uma corça ferida, é preciso sermos meigos e darmos-lhe um abrigo. Se for bom, ela será boa para si sempre, Joe. Mas tem de saber a existência dessa peça. A Kate é como um pássaro com uma asa partida, embora você pense que ela sabe voar muito bem. Tem de ser meigo para com aquela asa... Ela é a ave mais bonita que eu já vi, e voará mais longe do que qualquer outra por si Mas peço-lhe que não a assuste e julgo que isso não acontecerá se souber aquilo por que passou.

       Joe ficou em silêncio durante bastante tempo, a pensar nas palavras de Clarke. Era uma dose de realidade bastante forte para ser partilhada num dia de verão com uns gins. Mas ele tinha razão, era uma parte importante de Kate, e explicava muita coisa. Ela parecia sempre em pânico quando ele estava longe. Nunca o dissera abertamente, mas sempre que ele a deixava para ir a algum lado, via-o nos seus olhos. E aquela expressão de terror assustara-o algumas vezes. Era como a sombra da trela de que fugira toda a vida.

       - O que é que está a tentar dizer-me, Clarke? - inquiriu Joe, perguntando a si mesmo qual seria o motivo daquela conversa.

       - Acho que devia casar com ela, Joe. Não pelas razões que a Liz quer: uma festa com pompa e circunstância e respeitabilidade, uma grande festa e um vestido branco. Quero saber que ela tem um lar feliz. Merece-o, Joe, mais do que muitas. O pai levou com ele uma parte dela que nenhum de nós poderá restituir-lhe. Mas você pode fazê-lo em parte. Quero que ela se sinta em segurança sabendo que você vai ficar por perto.

       Joe teve vontade de perguntar: “Então e eu?” O casamento era precisamente aquilo que ele mais temia. Uma trela. Uma jaula. Uma armadilha. Por muito que a amasse, o casamento em si era uma enorme ameaça. Maior do que Clarke conseguiria imaginar.

       - Não sei se serei capaz - respondeu Joe com sinceridade, sorrindo um pouco.

       - Porque não.

       - Parece uma armadilha ou uma corda à volta do meu pescoço. Os meus pais abandonaram-me de outra forma. Morreram e deixaram-me com pessoas que me odiavam. Trataram-me muito mal, e sempre que penso em casamento, ou em famílias, ou em assentar, tenho vontade de fugir.

       - Ela será boa para si, Joe. Conheço-a bem. É boa rapariga, e ama-o mais do que à vida-

       - Isso também me assusta - admitiu ele. - Não quero ser tão amado. - Clarke viu o medo nos olhos dele, medo como nunca tinha visto antes. - Não sei se sou capaz de dar-lhe o amor de que ela precisa. Não quero desiludi-la, Clarke. Não suportaria os remorsos de falhar. Amo-a demasiado para lhe fazer isso.

       - Todos nós falhamos, e aprendemos com isso. Ela é boa para si. Aprenderão um com o outro, mesmo que às vezes isso custe. O amor sara muitas feridas. A Liz sarou muitas das minhas. - Era um lado dela que Joe nunca teria imaginado, mas estava disposto a acreditar em Clarke. Era evidente que Liz passara por muito. - Um dia será um homem solitário se não deixar que alguém o ame, Joe É um preço muito alto a pagar.

       - Talvez - respondeu Joe, olhando para o copo.

       - Vocês precisam um do outro, Joe. Ela precisa da sua força, e de saber que não a vai abandonar, que a ama o suficiente para casar com ela. E você também precisa da força dela, e da sua ternura. Não é fácil estar sozinho. Sofri muito quando a minha mulher morreu. A solidão é triste. Uma rapariga como a Kate não o fará triste, se você a deixar entrar na sua vida. Às vezes irá enfurecê-lo, mas não o deixará destroçado, pois você é mais forte do que julga. Já não é uma criança, ninguém pode voltar a fazer-lhe aquilo que os seus primos lhe fizeram. Agora é um homem, Joe, eles partiram. Não passam de fantasmas. Não os deixe dominar-lhe a vida.

       - Porque não? Resultou até aqui, não resultou. Acho que tenho uma vida bastante boa - disse Joe com um sorriso cínico-

       - É precisamente aí que quero chegar. Terá uma vida melhor se a partilhar com ela. Será um homem triste se um dia perder a Kate. E isso pode acontecer. As mulheres são engraçadas nisso, deixam-nos quando menos esperamos. Se nos esforçarmos, somos capazes de perder uma pessoa. No entanto ela não o abandonará, a menos que você a obrigue. Ama-o demasiado. Agarre-a enquanto pode. Para bem de ambos. Quero isto para vocês os dois. Confie em mim, filho. Fará bem a ambos. Se lhe der espaço para crescer, terá uma boa mulher perto de si. Acho que ela tem medo que mais tarde ou mais cedo você a abandone.

       - E poderei abandonar - retorquiu Joe, olhando Clarke nos olhos.

       - Espero que não o faça. Mas se o fizer, espero que seja homem suficiente para voltar atrás e dar-lhe outra oportunidade. É raro ver aquilo que vocês os dois têm. Já não podem fugir, por muito que façam, ou por muito que tentem. Vejo-o nos seus olhos e nos dela. Perderão ambos se fugirem. O tipo de amor que vocês partilham é para toda a vida, Joe. Quer estejam juntos quer não.

       Era uma espécie de prisão perpétua para Joe mas, apesar de todos os seus receios, ele pressentiu que Clarke tinha razão e que aquilo que ele dizia era verdade.

       - Vou pensar nisso - respondeu ele.

       Clarke assentiu. Não podia dizer mais nada. Falara com o coração nas mãos, por amor a Kate e a Joe.

       - Ela ainda precisa de crescer um pouco. Dê-lhe uma oportunidade, Joe. E não lhe diga que lhe falei do pai. Acho que ela tem vergonha disso. Um dia contar-lhe-á.

       - Folgo em saber. - Na verdade aquilo dificultava-lhe ainda mais as coisas. Saber aquilo que ela sentia a respeito do suicídio do pai e do fato de ele a ter abandonado tornava o fardo de Joe ainda mais pesado. Não parecia justo. Ele tinha os seus próprios problemas com o passado. Contudo, uma coisa que Clarke dissera era verdade. Joe nunca amara tanto ninguém na sua vida, nem Kate. E acreditava que aquilo que partilhavam era único. Mas o mais irônico de tudo era que ele tinha necessidade de fugir, de ser livre, e ela tinha de se agarrar a alguém para poder viver. Parecia uma luta para ver quem conseguia ganhar. No entanto, ele sentia que se fossem capazes de se descontrair, a relação poderia funcionar. Sabendo o que sabia agora, Joe perguntava a si mesmo se ela seria capaz de o fazer. E ele? Quando muito, aprenderem a dançar um com o outro levaria tempo. Clarke também o sabia Mas tinham muito tempo. Eram novos. A única dúvida de Clarke era se os dois seriam suficientemente sensatos para manterem o compromisso até que as coisas funcionassem. Podia apenas rezar para que fossem. Caso contrário, teriam demasiado a perder.

       Joe levou Clarke no carro, embora já tivesse bebido bastante, e Clarke confessou que também já estava embriagado. Liz reparou nisso assim que eles entraram, mas não disse nada. Clarke aproximou-se dela e abraçou-a. Joe ficou aliviado ao ver que ela não os repreendera e se limitara a rir e a oferecer-lhes xícaras de café, enquanto Clarke aceitava a sua e dizia que lamentava estragar uma boa bebedeira, piscando o olho a Joe. Formara-se entre ambos uma verdadeira amizade nessa tarde, e Joe sabia que, independentemente do que acontecesse entre si e Kate, nunca deixaria de gostar de Clarke. Nessa noite, depois do jantar, Joe e Kate foram dar um passeio pela praia. Iam regressar a New Jersey no dia seguinte. E Joe surpreendeu-a quando a abraçou e a beijou com uma expressão terna nos olhos. O que Clarke lhe contara nessa tarde alterara tudo de forma subtil. Joe continuava a ter medo de se sentir sufocar comprometendo-se com ela, mas ao mesmo tempo desejava protegê-la não só do mundo, mas de si própria. Ainda conseguia pressentir nela a criança solitária cujo pai se suicidara. Apesar da sua aparência forte, ele agora conseguia ver nela a ave com a asa partida que ela fora em criança. E isso fê-lo amá-la ainda mais. Ela tornara-se uma mulher forte e voltara a ser capaz de voar, pelo menos aos olhos do mundo, mas no seu íntimo continuava a ser uma criança assustada. Tal como ele antes fora um rapaz solitário. Tinham-se encontrado por acaso, tinham-se sentido atraídos um pelo outro porque o destino assim o fadara. Ele haveria sempre de recordar a forma como ela o deslumbrara a primeira vez que a vira. Talvez aquilo estivesse mesmo destinado.

       - Conseguiste mesmo embebedar o meu pai hoje! - exclamou ela com uma gargalhada, enquanto caminhavam pela praia de mão dada.

       - Passamos um bom bocado.

       - Ainda bem. - Ao ouvi-la, Joe perguntou a si mesmo se um dia ela seria como a mãe. E se fosse, como se sentiria ele? Contudo, apesar dos seus receios, era difícil ignorar a sensatez das palavras de Clarke. Muito do que ele dissera tocara-o.

       - Acho que devíamos casar um dia destes - disse Joe num tom casual.

       Kate estacou e fitou-o surpreendida.

       - Ainda estás bêbado? - perguntou, sem saber se ele estava a falar a sério.

       - Provavelmente. Mas porque não, Kate? Podia resultar lindamente. - Não parecia muito convencido, mas pela primeira vez em trinta e cinco anos estava disposto a tentar.

       - O que te fez decidir isso? O meu pai fez-te um ultimato?

       - Não Ele disse-me que um dia destes eu poderia perder-te se não abrisse os olhos E talvez tenha razão.

       - Não vais perder-me, Joe - disse ela baixinho quando se sentara na areia. Ele puxou-a para junto de si. - Amo-te demasiado. Não tens de casar comigo. - Quase tinha pena dele. Compreendia o quanto a liberdade significava para si.

       - Talvez eu queira casar contigo. O que achas?

       - Acho maravilhoso - respondeu ela sorrindo, e Joe nunca a amou tanto como naquele momento. - Muito, muito maravilhoso. Tens a certeza? - Estava atordoada. Ele declarara-se finalmente.

       - Tenho alguma certeza - respondeu ele com sinceridade. As palavras de Clarke tinham feito bastante sentido. Clarke via neles algo que Joe também via quando tinha a coragem de olhar. Um amor poderoso e infinitamente raro. - Acho que não devemos apressar-nos - continuou com cautela. - Talvez seja melhor esperar seis meses ou um ano. Preciso de tempo para me habituar à idéia. Que tal guardarmos segredo?

       - Parece-me bem - respondeu ela. Ficaram sentados em silêncio durante mais algum tempo, e depois regressaram a casa de mão dada.

      

      

       Voltaram para New Jersey, para o trabalho, e as coisas alteraram-se subtilmente entre eles assim que decidiram casar. Kate parecia sentir-se mais confiante e mais segura, e durante algum tempo a idéia agradou a Joe. Falaram dos planos que fariam, da casa que iriam comprar, do local para aonde iriam na lua-de-mel. Mas após várias conversas, Joe começou a ficar irritado de cada vez que ela falava no assunto. Era uma boa idéia, mas falar demasiado de uma coisa punha-o nervoso.

       Não tinha tempo para pensar em casar-se. Começava a falar-se na construção de uma segunda fábrica, e o negócio expandia-se a todos os níveis e crescia de dia para dia. No outono, o casamento era a última coisa na sua mente.

       Nunca tinham tido tanto trabalho, e nem foram a Boston passar o Dia de Ação de Graças, mas conseguiram passar uma semana com os pais dela entre o Natal e o Ano Novo. Nessa altura Liz já estava tão aborrecida com o fato de eles não estarem noivos que ninguém ousou falar em casamento. Tornara-se um tema muito delicado. Kate começava a aperceber-se de que enquanto vivesse com Joe não havia pressa em casarem-se. Ele tinha tantas coisas entre mãos que ela não queria pressioná-lo com os seus planos. Ele andava demasiado ocupado. E demasiado assustado com o compromisso. Ela pressentia-o: ele começara a afastar-se assim que a pedira em casamento.

       Kate não tocou no assunto até à primavera. Estavam em 1947 e ela começava a ter dúvidas de que ele quisesse realmente casar-se. Falou no assunto uma ou duas vezes e ele estava sempre demasiado preocupado para ouvi-la. Kate acabara de fazer vinte e quatro anos, e Joe tinha trinta e seis. Era o homem mais importante da aviação. A empresa que ele ajudara a fundar havia ano e meio transformara-se numa mina de ouro. Ele levou Clarke a voar num dos aviões mais recentes quando este os foi visitar. Kate continuava a dizer que dormia num hotel e o pai foi suficientemente discreto para não os pressionar, embora estivesse preocupado com ela. Joe parecia passar o tempo em reuniões ou a voar. Dera a Kate um trabalho a sério, de relações públicas, e ela ganhava bem. Mas não era de dinheiro que precisava, os Jamison tinham mais do que suficiente. Achavam que ela precisava era de um marido. Clarke já se convencera de que Joe fizera ouvidos de mercador ao que ele lhe dissera no verão anterior e Liz começara a pressionar Kate para regressar a Boston e ir viver com eles. No verão, Joe ainda não voltara a falar em casamento.

       Já há dois anos que regressara a casa e há um que falara em casamento. Um dia, Kate obrigou-o a sentar-se e fez-lhe uma pergunta direta. Queria saber os planos dele.

       - Alguma vez iremos casar-nos, Joe? Ou decidiste que não?

       Ele teve de admitir que andara a fugir ao assunto. Gostara da idéia quando falara dela com Clarke, achara que seria bom para Kate por causa do seu passado, mas para si parecia uma coisa desnecessária. E a verdade era que não queria filhos, admitiu. Pensara nisso várias vezes, e decidiu que não fora talhado para ser pai. As únicas coisas que lhe interessavam eram a empresa e os aviões, e regressar para junto de Kate à noite. Não queria filhos nem precisava do casamento. Não desejava sentir-se preso. Aquilo que fazia era demasiado excitante. A perspectiva de ter bebês a chorar em casa e fraldas horrorizava-o. Odiara a sua infância e não lhe apetecia partilhar a de outrem, nem de ser responsável por ela.

       - Estás a dizer-me que se casarmos não queres filhos? - Era a primeira vez que ele lho dizia preto no branco. Ela sabia que ele nunca se mostrara muito entusiasmado com a idéia, mas nunca lhe passara pela cabeça que Joe já tomara uma decisão. Nunca lho tinha dito. Achara melhor não. Ela ajudara-o tanto a montar o negócio que ele não queria ter de prescindir dela por causa de um bebê chorão. O casamento já lhe parecia uma coisa pavorosa sem crianças.

       - Acho que é isso que estou a dizer - respondeu ele. Nunca lhe mentira, só não queria falar no assunto. - Aliás, tenho a certeza. Não quero filhos.

       Essa decisão fizera-o questionar o porquê do casamento, apesar de tudo o que Clarke lhe dissera um ano antes!

       - Uau! - fez ela, encostando-se na cadeira da casa dele. Não tinha uma casa sua, apenas aquele apartamento parcamente mobiliado, o quarto de hotel e a casa dos pais em Boston. Parecia que lhe tinham dado uma bofetada. - Eu sempre quis ter filhos. - Era um grande sacrifício que teria de fazer por ele, mas sabia o quanto o amava e não desejava perdê-lo. Não depois de o ter perdido durante quase dois anos durante a guerra. Sabia o que sentira. Perguntou a si mesma se ele mudaria de opinião a respeito de ter filhos assim que casassem. Era um risco que ela corria, mas ele também não falara em casamento. As conversas haviam terminado há meses. - O que achas, Joe?

       - A respeito do quê? - Ele parecia pouco à vontade. Sentia-se encurralado com as perguntas dela.

       - A respeito do casamento. Também já puseste de parte essa possibilidade? - Estava incomodada por ele não lhe ter dito que decidira não ter filhos. Parecia injusto nem sequer o ter referido, mas ele andava muito ocupado e tinha muitas preocupações. Passava a vida a pensar no seu crescente império.

       - Não sei - respondeu ele. - Precisamos mesmo de casar? Se não vamos ter filhos, para quê casar?

       Ele voltara a erigir os muros à sua volta e havia uma expressão de pânico no olhar de Kate.

       - Estás a falar a sério? - Olhava-o como se ele fosse um desconhecido, e começava a pensar que ele se tornara um. Não sabia era quando. Mas tudo voltara a mudar. Perguntou a si mesma se um ano atrás ele lhe pedira para não dizer a ninguém que tinham decidido casar-se para poder ter liberdade para mudar de idéias. E, aparentemente, mudara mesmo.

       - Temos de falar sobre isto agora? Tenho uma reunião amanhã muito cedo. - Ele parecia aborrecido e queria que a conversa chegasse ao fim. Sentia-se encurralado, mas também culpado por não querer casar com ela. E a culpa era uma coisa que Joe não conseguia suportar. Aterrorizava-o, e era uma dor mais forte do que qualquer outra. Recordava-lhe todos os pesadelos do seu passado, especialmente as vozes dos primos que lhe haviam repetido inúmeras vezes o quanto ele era ”mau”.

       - Estamos a falar da nossa vida, do nosso futuro - insistiu Kate. - Acho que pode ser importante. - O tom da voz dela fez-lhe lembrar unhas a arranhar um quadro de lousa, e o tom de voz de Liz.

       - Temos de tomar uma decisão esta noite?

       Estava irritado, mas ela ainda mais. Sentia-o retrair-se, o que a fazia querer agarrá-lo, mas isso afastava-o cada vez mais. Estavam encurralados numa dança mortal. Kate sentia-se abandonada por ele, e Joe, ao pressentir isso e o pânico que causava, tinha vontade de fugir. Queria sair dali, esconder-se algures para lamber as feridas, mas Kate não era suficientemente sensata para o deixar sozinho. O pânico era uma força poderosa que ela não conseguia controlar.

       - Talvez não tenhamos de tomar nenhuma decisão - disse ela com ar infeliz, e ele sentiu-se ainda mais culpado e com vontade de fugir. A culpa parecia um soco que ela acabara de lhe desferir. Talvez tu tenhas acabado de a tomar. - Estás a dizer-me que não queres ter filhos e que não vês motivo para casarmos. Isso é uma grande mudança, não é?

       As decisões dele afetavam o seu futuro e Kate sentia-se em pânico. Durante dois anos aguardara pacientemente que chegasse o momento certo para ele E compreendera de súbito que esse momento nunca chegaria. O casamento deixara de ser uma opção para ele. E consequentemente para ela.

       - Tenho uma empresa para dirigir, Kate. Não sei se terei energia para uma mulher e filhos. Provavelmente não.

       Tentava refugiar-se, estava tão assustado como Kate, mas o seu pânico deixava-o distante e frio, o que a assustava tanto quanto os seus avanços o assustavam a ele.

       - O que é que estás a dizer? - perguntou ela com os olhos marejados de lágrimas. Ele acabara de destruir os seus sonhos. Só fora para New Jersey a fim de estarem mais próximos, para facilitar as coisas quando se casassem. Mas ele estava apaixonado pelo trabalho. E pelos aviões. Sempre os aviões. Não havia outras mulheres na sua vida. Os aviões eram as suas amantes, os seus filhos, as suas esposas.

       - Acho que estou a dizer que acabou - respondeu ele finalmente, uma vez que ela estava a pressioná-lo. - Melhor é impossível, pelo menos para mim. Não preciso do resto. Não preciso do casamento, Kate. Não sou capaz. Não o quero. Tenho de ser livre. Temo-nos um ao outro. Que diferença faz se tivermos um papel passado? O que significa isso? - Para ele nada significava, mas para ela significava muito.

       - Significa que me amas e que confias em mim, que te preocupas comigo e que queres ficar comigo para sempre, Joe. - “Para sempre” era uma expressão que ele temia. - Significa que te levantas e dizes que acreditas em mim, e eu acredito em ti. Significa que temos orgulho um no outro. Acho que por esta altura devemos isso um ao outro.

       Ele detestou ouvir aquilo. Parecia-lhe doloroso. Parecia que ela tentava pregá-lo ao chão. Ou à cruz. Sentiu-se engolido e confundido por aquilo que ela precisava dele, e estava determinado a proteger-se a todo o custo. Mesmo que isso significasse perdê-la.

       - Não devemos nada um ao outro, a não ser estar aqui se nos apetecer, dia após dia. E se já não nos apetecer, fazemos outra coisa. Não há garantias.

       Joe estava aos gritos com Kate, o que a ofendeu e assustou. Era a maneira de ele tentar mantê-la a uma distância segura. Estava a fugir. O que Kate viu, e sentiu, foi que Joe estava a abandoná-la, tal como o pai fizera, e deu-lhe alento para continuar a insistir.

       - Quando é que isto aconteceu? - perguntou ela, elevando a voz mais do que quisera, mas ele provocara-a. Sentia-se a cair em espiral num abismo. Estava desesperada, assustada e descontrolada. - Quando decidiste não te casar? Quando é que tudo mudou? E por que motivo não percebi que estavas a pensar nisso? Porque não me disseste, Joe? - Começava a soluçar e tinha dificuldade em respirar. - Porque estás a fazer-me isto?

       Ele retraiu-se ao ouvi-la e sentiu as suas palavras ferirem-no como navalhas.

       - Porque não deixas as coisas estarem como estão? - implorou ele.

       - Porque te amo - respondeu ela, infeliz.

       Ele já não tinha a certeza de amá-la. Nem se podia fazer o suficiente para compensar o suicídio do pai dela. Estava tão desesperado como Kate. Tão desesperado como ela estava para evitar que ele a abandonasse. E foi ela que fez com que ele fugisse.

       - Podemos ir deitar-nos, Kate? Estou cansado. - Parecia estar a afogar-se. Pareciam-no ambos. Eram como duas crianças aterrorizadas a arranharem-se, e nenhum conseguia ser suficientemente adulto para parar. Tinham ambos demasiado medo, ela do abandono e ele de ser devorado.

       - Eu também estou cansada - disse ela num tom cheio de desespero. Nunca se sentira tão sozinha. Foi tomar uma ducha e ficou na casa de banho muito tempo. Sentia-se muito abalada e mal amada e chorou. Quando se deitou ele já estava a dormir. Fitou-o durante muito tempo, perguntando a si mesma quem seria ele. Afagou-lhe o cabelo com cautela, como se ele pudesse voltar a atacá-la, e ele murmurou no sono e voltou-se. Kate sabia que apesar do que ele dissera a amava, e ela amava-o talvez o suficiente para desistir de todos os seus sonhos. Mas não via mais nenhuma saída. Ele tinha medo de a amar. Sentia-se mais seguro fugindo. E ela queria estar perto dele.

       Tomara uma decisão na ducha nessa noite. Sabia que tinha de partir antes que se destruíssem um ao outro. Ele nunca casaria consigo. Chegara a altura de se ir embora. A mãe sempre tivera razão.

       Comunicou a decisão a Joe de manhã, durante o pequeno-almoço de forma calma, razoável e sucinta

       - Vou-me embora, Joe.

       Olharam um para o outro e ele pareceu confuso. Ainda sentia o sofrimento que lhe havia provocado na noite anterior.

       - Por que, Kate, - perguntou chocado, mas não lhe disse que não se fosse embora.

       - Depois do que disseste ontem à noite, não posso ficar mais tempo. Amo-te de todo o coração. Esperei dois anos por ti, incapaz de acreditar que estavas morto. Não pensei que pudesse amar alguém depois de ti, e continuo a pensar. Não como te amo. Nunca conseguirei. Mas quero um marido, filhos e uma vida verdadeira. Tu não queres as mesmas coisas que eu. - Kate tinha lágrimas nos olhos, mas tentou manter-se calma, apesar do pânico que sentia e do aperto no coração. Queria que Joe voltasse atrás em tudo o que dissera na noite anterior, mas ele ficou calado.

       Joe terminou o pequeno-almoço em silêncio e depois olhou para ela. Era um daqueles momentos horríveis da vida que recordamos para sempre, visualmente e palavra por palavra.

       - Amo-te, Kate. Mas tenho de ser sincero contigo. Acho que nunca hei-de querer casar. Agora não quero. Não quero casar com ninguém a não ser com os meus aviões. Não quero sentir-me amarrado. Não quero pertencer a ninguém. Aqui há espaço para ti, se quiseres partilhar o meu trabalho. Mas é tudo o que posso dar-te. E tudo o que tenho para dar. Eu e os meus aviões. Provavelmente amo-os tanto como te amo a ti. Talvez mais, de certa forma. Não posso amar-te mais que isso, Kate, tenho demasiado medo. Sou assim e nada mais tenho para dar. Não quero filhos. Nunca. Não tenho espaço para eles na minha vida. Não preciso deles. E não os quero.

       Joe apercebeu-se com pesar que naquele momento também não queria Kate. Ela representava uma ameaça demasiado grande. Ele queria o seu trabalho e os seus aviões, e só depois a queria a ela. No entanto, Kate tinha vinte e quatro anos e queria filhos, um marido e uma vida, não apenas a oportunidade de trabalhar para ele. Aquilo que Joe acabara de lhe dizer atingiu-a como um soco e confirmou os seus piores receios.

       - Não quero um trabalho, Joe. Quero filhos. Quero-te a ti. Amo-te, mas vou para casa. Acho que devia ter feito estas perguntas há muito tempo. - Sentia-se uma idiota. E sentia-se como se sentira no dia em que o pai morrera. Dominada por uma perda incomensurável.

       - Acho que não sabia o que sentia quando começamos a trabalhar. Agora sei. Faz o que tens a fazer, Kate.

       - Vou deixar-te - disse ela, olhando-o nos olhos.

       - Vale a pena deixares a empresa? - Não a imaginava a fazer isso. Ela seria louca se o fizesse. Será que não compreendia o que ele estava ali a fazer? Era algo que nunca fizera antes, e queria partilhá-lo com ela. Era o melhor que podia dar. Mas naquele momento ela estava-se nas tintas.

       - A empresa não é minha, Joe, é tua.

       Ele não pensara nisso. Assim as coisas ficavam mais claras, ou pelo menos foi o que ele pensou.

       - Queres ações? - Ela sorriu.

       - Não. Quero um marido. Acho que a minha mãe tinha razão. Ao fim de algum tempo, acaba por importar. Pelo menos para mim.

       - Compreendo - retorquiu ele, e acreditava que sim. Queria compreender, mas ainda tinham ambos muito para aprender. Joe pegou na pasta e fitou-a. - Lamento, Kate. - Depois de tudo o que tinham sido um para o outro durante sete anos, tinha de a deixar partir. Não estava disposto a ser obrigado a casar com ela. Tinha demasiadas coisas em que pensar. Para o exterior, sabia que se tornara um homem importante, mas no seu íntimo, por muito importante que fosse, continuava a ser um rapazinho assustado

       - Também lamento, Joe - murmurou Kate. Parecia uma cena de morte. A relação de ambos estava a morrer. Ele matara-a. Tomara decisões desastrosas para a vida dos dois sem sequer a consultar. Mas achava que não tinha alternativa

       Não a beijou. Não disse nada. Nem ela. Joe limitou-se a dirigir-se à porta com a pasta na mão, sem olhar para trás, e Kate viu-o partir.

      

       

       Os pais de Kate sabiam que ela tinha voltado definitivamente, mas não sabiam por quê. Ela não lhes explicou, nunca lhes falou de Joe nem do que acontecera em New Jersey. Estava demasiado magoada para falar no assunto com eles. E ficou destroçada por Joe não lhe telefonar. Esperava que ele abrisse os olhos e sentisse imenso a sua falta e telefonasse a dizer que afinal queria casar com ela e ter filhos.

       Mas ele falara a sério. Mandou-lhe uma pequena caixa com roupa algumas semanas mais tarde, coisas de que ela se esquecera no apartamento, e na caixa não vinha qualquer bilhete. Os pais apercebiam-se do seu sofrimento, mas não a pressionaram, embora a mãe desconfiasse do que acontecera. Kate passou três meses no inverno em Boston a dar longos passeios e a chorar. Foi um Natal doloroso. Pensou em telefonar a Joe mil vezes, e desejava desesperadamente fazê-lo, mas não estava disposta a viver com ele como amante. Um dia acabaria por se sentir uma pária. Foi esquiar durante alguns dias após o Natal e regressou a casa para passar o ano com os pais. Não entrou em contato com Joe e ele não lhe telefonou. Kate tinha a impressão de que uma parte de si morrera quando o deixara, e não fora capaz de imaginar a vida sem ele. Mas agora tinha de o fazer. Tomara uma decisão corajosa e tinha de viver com ela o melhor possível. Não lhe restava alternativa.

       Fez um esforço para tornar a ver os velhos amigos, mas já não parecia ter nada em comum com eles. A sua vida estivera ligada à de Joe durante demasiados anos. Sem saber o que mais fazer e determinada a voltar a viver, decidiu mudar-se para Nova Iorque em janeiro e trabalhar no Museu Metropolitano, como assistente do conservador da ala egípcia. Pelo menos assim aplicava aquilo que aprendera sobre história em Radcliffe, embora soubesse muito mais a respeito de aviões. A princípio não estava muito entusiasmada, mas ficou surpreendida ao descobrir, assim que lá chegou, que adorava o trabalho. E em fevereiro encontrara um apartamento. Agora só lhe restava continuar a viver. A perspectiva parecia triste, infinita, deprimente e incrivelmente vazia sem Joe. Noite e dia, sentia saudades de tudo. Mesmo quando estava a trabalhar só pensava em Joe. Lia constantemente artigos sobre ele nos jornais. Sete anos antes ele fora notícia por bater recordes de vôo, e agora o mundo inteiro falava na construção dos seus fantásticos aviões. E quando não estava a trabalhar neles, andava a pilotá-los.

       Kate viu num jornal em junho que ele ganhara um prêmio no Festival Aéreo de Paris. Ficou feliz por ele. E sentiu-se infeliz e solitária. Tinha vinte e cinco anos, era linda, e a sua vida era mais monótona que a da mãe.

       Nunca saiu com rapazes, e quando as pessoas a convidavam respondia-lhes que estava ocupada. Era como quando o avião de Joe fora abatido, chorava-o e sentia a falta dele. Nem foi a Cape Cod nesse verão porque sabia que a faria recordá-lo. Tudo a fazia recordá-lo. Falar, viver, mover-se, respirar Até ir a restaurantes. Cozinhar. Era absurdo e ela sabia-o, mas ele tornara-se parte da sua essência. Estava convencida de que só lhe restava esperar toda a vida para conseguir esquecê-lo. Podia ser feito, disse a si mesma, só não sabia se seria capaz. Acordava todas as manhãs com a sensação de que alguém morrera, e depois lembrava-se. Fora ela que morrera.

       Estava em Nova Iorque havia quase um ano quando certo dia foi à mercearia comprar comida para cães. Comprara uma cadelinha para lhe fazer companhia, e até se riu de si e admitiu que era patética. Estava a olhar para as diferentes latas quando levantou a cabeça e ficou admirada por ver Andy. Não o via há mais de três anos e ele estava muito bonito e com um ar adulto num terno escuro e numa gabardina Burberry. Regressava a casa do trabalho e ia comprar comida para o jantar. Ela calculava que ele já tivesse casado, embora não o soubesse ao certo.

       - Como estás, Kate? - perguntou ele com um grande sorriso. Há muito que recuperara do golpe que ela lhe desferira, embora durante muito tempo lhe tivesse custado pensar nela e tivesse deitado fora todas as suas fotografias.

       - Estou bem, e tu? - Não lhe disse que sentira a sua falta. Era difícil encontrar um bom amigo e já há muito que Kate não tinha ninguém com quem falar.

       - Muito ocupado. O que fazes aqui? Parecia feliz por vê-la.

       - Vivo cá. Trabalho no Museu Metropolitano. É divertido.

       - Que bom. Tenho lido muitas coisas sobre o Joe. Que grande império o dele! Vocês já têm filhos?

       Ela riu-se ao ouvir a pergunta. Partia de uma suposição não só incorreta, como também já obsoleta.

       - Não. Tenho uma cadelinha. Apontou para as latas de comida para cão e decidiu contar-lhe a verdade. Não sou casada.

       Ele pareceu atordoado.

       - Tu e o Joe não se casaram?

       - Não. Ele casou com os aviões dele. Tomou a decisão que mais lhe convinha.

       - E tu? - perguntou ele. Sempre haviam sido frontais um com o outro, e isso era uma das coisas que Kate gostava nele. - Como foi para ti a decisão dele, quero eu dizer?

       - Não muito boa. Vim-me embora. Estou a habituar-me. Já passou um ano. - Tinha passado um ano, duas semanas e três dias, mas ela achou melhor poupar-lhe os pormenores. - E tu? Casaste? Tens filhos?

       - Amigas. Muitas. É mais seguro. Assim não fico com o coração destroçado.

       Andy não mudara nada, e ela riu-se ao ouvir a resposta dele.

       - Ainda bem para ti. Vou ver se consigo arranjar-te mais algumas. Há muitas miúdas giras a trabalhar no museu.

       - E tu és uma delas. Estás com um ótimo aspecto, Kate!

       Usava o cabelo mais curto, para variar. A sua grande alegria nos últimos tempos eram as manicuras, os cabeleireiros e o cão.

       - Obrigada. - Há já tanto tempo que não falava com um rapaz da sua idade durante mais de cinco minutos que não soube o que mais dizer.

       - Que tal irmos ao cinema um dia destes?

        - Gostaria muito - respondeu ela enquanto se dirigiam lentamente para a caixa. Ele comprara cornflakes e soda, notou ela. E trazia na mão uma garrafa de uísque que comprara numa loja de bebidas. - Não devias levar também umas tostas ou leite. Ou limitas-te a pôr o uísque nos cornflakes? Hei-de experimentar um dia.

       - Bebo-o puro.

       - O que fazes com a soda?

       - Uso-a para limpar os tapetes.

       Estavam a gostar da conversa que lhes fazia recordar os bons velhos tempos da escola, e ele insistiu em pagar a comida de cão. Sempre fora generoso para com ela, cavalheiro e meigo.

       - Continuas a trabalhar para o teu pai? - perguntou ela quando saíram da loja.

       - Sim, e a coisa tem resultado. Ele dá-me todos os casos de divórcio, detesta-os.

       - Que animador. Bem, pelo menos fui poupada a isso.

       - Talvez tenhas sido poupada a mais do que isso, Kate. Os homens como ele nunca são fáceis. Demasiado brilhantes, criativos e difíceis. Estavas tão apaixonada por ele que acho que nem reparaste.

       Ela reparara e adorara. Por muito que tivesse gostado de Andy como amigo, ele nunca lhe parecera suficientemente excitante. Joe era como uma estrela, inalcançável, e sempre o que ela desejara, talvez mesmo por causa disso.

       - Estás a sugerir que eu procure um idiota? - perguntou ela divertida com a sugestão dele.

       - Talvez apenas alguém mais humano - respondeu Andy com um ar sério. - Ele era um homem difícil. Mereces melhor.

       Kate sentiu-se grata pelas palavras reconfortantes do amigo. Era um homem tão maravilhoso e meigo que a surpreendia não ter-se casado.

       - Eu telefono-te - disse ele antes de seguirem cada um para seu lado. - Como é que te encontro?

       - Venho na lista telefônica, mas podes ligar também para o museu.

       Ele telefonou-lhe duas semanas mais tarde e levou-a ao cinema. Depois foram patinar no Centro Rockefeller E a seguir jantar. Quando, três semanas depois, ela foi a casa passar o Natal, tinha estado quase sempre com ele nos tempos livres. Não contou aos pais que o reencontrara, pois não queria que a mãe alimentasse falsas esperanças. Ele ligou-lhe no dia de Natal e ela ficou feliz por ouvi-lo. Era quase como nos bons velhos tempos, só que agora ela gostava mais dele. Era agradável, bem-disposto e meigo. Não possuía o brilho de Joe, mas preocupava-se com ela. Tal como ela nunca esquecera Joe, ele também nunca esquecera Kate.

       - Tenho saudades tuas - disse ele quando ela atendeu. - Quando é que voltas?

       - Daqui a uns dias. - Ficou triste por não receber um telefonema de Joe. Era o mínimo que ele podia fazer. Parecia que a esquecera completamente, como se ela nunca tivesse existido. Kate ainda pensou em telefonar-lhe, mas decidiu não o fazer. Ficaria deprimida e recordaria tudo o que haviam tido e perdido.

       - Quando é que começaste a sair com o Andy outra vez? - perguntou a mãe com interesse quando ela desligou o telefone.

       - Encontrei-o há umas semanas, na mercearia.

       - É casado?

       - Sim. E tem oito filhos - brincou ela.

       - Sempre achei que ele seria bom para ti.

       - Eu sei, mãe. Somos só amigos. É melhor assim. Sofremos menos.

       Kate magoara-o muito havia três anos, e ela própria continuava magoada. Desconfiava que continuaria assim ainda durante muito tempo. Talvez para sempre. Era impossível esquecer Joe. Tinham partilhado muito e ele representava um terço da sua vida.

       Regressou a Nova Iorque dois dias depois e ficou feliz por voltar a ver a cadelinha. Deixara-a com uma vizinha. Andy ligou-lhe assim que ela entrou em casa.

       - O que é que tu tens? Um radar?

       - Mandei seguir-te. - Convidou-a a ir ao cinema nessa noite, e ela aceitou. E passaram juntos o ano, a beber champanhe no El Morocco. Kate achava aquilo tudo muito elegante e muito adulto e disse-o a Andy.

       - Eu sou adulto - respondeu ele divertido. Tornara-se um homem sofisticado, e Kate foi incapaz de não o comparar a Joe. Joe que era invulgar, belo e por vezes desajeitado. Mas ela adorara isso nele. Andy era mais descontraído

       - Eu saltei a idade adulta - confidenciou Kate depois do terceiro copo de champanhe. - Fui diretamente para a terceira idade. Às vezes sinto-me mais velha que a minha mãe

       - Vais ficar melhor. O tempo cura tudo - disse ele.

       - Quanto tempo demoraste a esquecer-me? - perguntou ela sentindo-se ligeiramente tonta.

       Ele parecia não reparar.

       - Cerca de dez minutos. - Levara dois anos, mas não o disse. E ainda não a esquecera totalmente, sendo por isso que passava com ela o ano. Meia dúzia de mulheres com quem ele costumava sair tinham ficado furiosas. - Devia ter levado mais tempo?

       - Provavelmente não - respondeu ela com tristeza. - Não o mereci. Fui muito má para ti. - Começava a ficar ligeiramente tonta por causa do champanhe. E, sem querer, foi incapaz de não perguntar a si mesma onde estaria Joe, o que estaria a fazer e com quem.

       - Não pudeste evitar, Kate. Ele era um grande amor, estavas apaixonada, e ele regressara do mundo dos mortos. É difícil superar isso. Ainda bem que não tínhamos casado.

       - Isso teria sido horrível, retorquiu ela horrorizada.

       - É verdade. Por isso acho que tivemos sorte. E precisavas de o esquecer de uma vez por todas

       - Será que alguma vez o conseguirei? - perguntou ela com ar infeliz

       Andy soltou uma gargalhada

       - Claro que sim. Mas não se te tornares uma alcoólica. Estás bêbada, Kate.

       - Não estou, - exclamou ela, parecendo furiosa e um pouco vaga.

       - Estás, mas ficas muito bonita assim. Talvez devêssemos dançar antes de desmaiares ou de te embebedares ainda mais.

       Passaram uma noite muito agradável. Ela acordou no dia seguinte com uma tremenda dor de cabeça, mas ele levou-lhe croissants, aspirinas e sumo de laranja a casa. Kate preparou o pequeno-almoço de óculos escuros.

       - Porque não trouxeste o uísque e os cornflakes. Teria sabido melhor - disse ela com ar pesaroso.

       - Estás a tornar-te uma alcoólica - disse ele com um sorriso, enquanto brincava com a cadelinha.

       - Os desgostos de amor fazem isso. - Deixou queimar os croissants, entornou o sumo de laranja e rompeu as gemas quando lhe fez ovos estrelados, mas Andy comeu tudo e agradeceu-lhe no fim. - Sou uma péssima cozinheira - confessou ela.

       - Foi por isso que ele te deixou? - Era a primeira vez que lhe perguntava.

       - Fui eu que o deixei - corrigiu ela, escondendo-se por detrás dos óculos escuros. - Ele não queria casar nem ter filhos. Eu disse-te, o Joe está casado com os aviões.

       - Agora é um homem muito rico - comentou Andy num tom de admiração. Havia muitas coisas a admirar em Joe, a sua perícia, o seu gênio, o seu talento, mas não a forma como tratava as mulheres. Andy achava que ele era um idiota por não casar com Kate, mas alegrava-se que isso não tivesse acontecido.

       - Porque é que não casaste? - perguntou Kate, estendendo-se no sofá e tirando por fim os óculos escuros.

       - Não sei. Tive medo, era novo, estava demasiado ocupado. Não conheci ninguém espetacular depois de ti. Passei um mau bocado, e depois comecei a divertir-me. Tenho tempo. Tu também. Não te apresses. Já vi demasiados divórcios na firma de advogados.

       - Segundo a minha mãe, parece que não tenho muito tempo. Ela está em pânico.

       - No lugar dela eu também estaria. Não é fácil uma pessoa ver-se livre de ti. Mas não cozinhes para eles. Deixa-os descobrir mais tarde. Já me tinha esquecido de que és uma péssima cozinheira, senão teria eu mesmo feito o pequeno-almoço.

       - Pára com os queixumes. Comeste tudo.

       - Para a próxima é uísque e cornflakes.

       Foram dar um passeio nessa tarde pelo Central Park.

       O dia estava frio, havia uma fina camada de neve no chão, e Kate sentia-se melhor quando regressaram ao apartamento. Tinham levado a cadela com eles. Parecia tudo tão confortável e normal. Sabia bem estar com ele. Tal como nos velhos tempos. E nessa noite foram ao cinema. Andavam a passar muito tempo juntos. E ela sentia-se menos sozinha. Não era um romance mas sim uma amizade escaldante.

       Durante as seis semanas seguintes, viram-se várias vezes. Jantares, cinema, festas, amigos. Ele ia almoçar com ela ao museu. Aos sábados iam juntos às compras e ele acompanhava-a para todo o lado. Era agradável ter alguém com quem fazer as coisas. Kate apercebeu-se de que durante todo o tempo que passara com Joe ele nunca tivera tempo para isso. Andava demasiado ocupado a construir a empresa, embora ela tivesse adorado construí-la com ele. No entanto, era divertido estar com Andy. Ele tinha mais tempo para Kate e gostava de o partilhar com ela.

       No Dia dos Namorados, ele apareceu no apartamento dela com duas dúzias de rosas vermelhas e uma caixa de chocolates em forma de coração.

       - Meu Deus, o que fiz para merecer tudo isto? - perguntou ela com um sorriso rasgado. Sentira a falta de Joe todo o dia e decidira que tinha de o esquecer de uma vez por todas. Mesmo depois de todo aquele tempo isso ainda lhe parecia um desafio insuperável. Achava incrível alguém que ela tinha amado tanto e durante tanto tempo ser perfeitamente capaz de viver sem ela. Parecia errado, depois de tudo por que tinham passado, não terem sido capazes de resolver os problemas e acabar juntos. Tinham ficado demasiado enredados nos seus próprios receios. Era deprimente constatar que os contos de fadas não tinham finais felizes, mas sim tristes. A vida não devia ser assim.

       - Porque estás tão triste. - Andy vira a tristeza nos olhos de Kate. Ela não conseguia esconder-lhe nada.

       - Estou outra vez com pena de mim própria

       - Que aborrecido. Come um chocolate. Come as flores, o que preferires. Veste-te. Vou levar-te a jantar.

       - E as outras tuas amigas? - Ela sentia remorsos por monopolizá-lo. Continuava apaixonada por Joe, e não era justo para Andy. Contudo, gostava da companhia dele, mais do que admitia. Ultimamente não se sentira tão triste. Ele fazia-lhe bem.

       - As minhas outras amigas vão fazer-nos companhia ao jantar. Vais gostar de todas elas. São catorze.

       - Onde me vais levar?

       - Já vais ver. É surpresa. Veste uma coisa elegante. E tenta não te embebedares desta vez.

       - Isso foi no fim do ano, seu paspalho. E para além do mais, tenho todo o direito a embebedar-me.

       - Não tens, não. O teu tempo está a acabar-se. E ele gosta mais dos aviões que de ti. Lembra-te disso.

       - Bem tento.

       Ultimamente, nem isso lhe importava. Pensava demasiado em Joe e perguntava a si mesma se teria tomado a decisão mais correta. Talvez não importasse que ele não casasse com ela ou que não tivessem filhos. Talvez valesse a pena o sacrifício só para estar com ele. Mas não disse nada daquilo a Andy, pois nem ela própria tinha a certeza.

       Ele esperou que ela se vestisse, e quando desceram havia uma carruagem à espera deles. Ela ficou extasiada. Parecia incrivelmente romântico. E o cavalo avançou a passo na direção do restaurante enquanto os transeuntes e os taxistas lhes sorriam. Ela sentia-se confortável e quente debaixo do cobertor, na carruagem fechada.

       Esta virou para a Rua 52 e deixou-os à porta do Clube 21. Kate sorriu a Andy.

       - Estragas-me com mimos.

       - Tu mereces - disse, enquanto entravam no restaurante. Kate ficou surpreendida ao ver várias cabeças virarem-se na direção deles. Faziam um casal muito bonito. Minutos depois foram encaminhados para uma mesa no primeiro andar.

       A refeição foi deliciosa e estavam a falar baixinho quando veio a sobremesa. Ele pedira um minúsculo bolo em forma de coração para Kate, e quando ela o cortou a faca bateu em algo duro. Kate afastou o bolo com o garfo e viu a caixa de uma joalharia.

       - O que é isto? - perguntou, intrigada.

       - É melhor abrires e veres. Talvez lá dentro haja alguma coisa boa. Isso parece-me bastante bom.

       Kate sentia o coração bater muito depressa. Quando olhou para Andy, ele sorria e falava baixinho

       - Está tudo bem, Kate, não tenhas medo vai correr tudo bem, verás.

       - E se não correr? - Sabia o que ele estava a fazer e tinha medo. Joe magoara-a muito e ela magoara Andy. Não queria voltar a fazê-lo, nem cometer um erro de que ambos se arrependeriam.

       - Vai correr. Cabe-nos a nós fazer por isso, as coisas não acontecem sem mais nem menos.

       Era tudo o que ela queria, só não a pessoa que queria. Mas talvez as coisas funcionassem assim, concedem-nos apenas meio desejo na vida, não o desejo inteiro. Kate já não acreditava em finais felizes. E a versão de Andy era mais feliz do que muitas.

       Ela abriu a caixa com muito cuidado, lambendo o bolo que tinha nos dedos, e deparou com um anel de diamantes a sorrir-lhe. Era um anel de noivado da Tiffany, e Andy enfiou-lho no dedo.

       - Casas comigo, Kate? Desta vez não vou deixar-te fugir. Acho que é o melhor para ambos, e, a propósito, amo-te.

       - A propósito, - perguntou ela. - Que raio de declaração é essa?

       - Uma verdadeira. Vamos fazê-lo. Sei que seremos felizes.

       - A minha mãe sempre disse que eras o tal.

       - A minha mãe disse que foste um estupor ao abandonares-me - retorquiu ele com uma gargalhada e beijando-a. Beijá-lo era mais agradável do que se lembrava. E ao ponderar no assunto, apercebeu-se de que o amava. Não como amara Joe. Nunca voltaria a ter isso. Isto era diferente. Era agradável, fácil e divertido. Seriam bons companheiros para a vida. Talvez nunca se consiga ter tudo. Um grande amor. E paixão. E sonhos. Talvez no fim se fique melhor com um pequeno amor e sem sonhos. Pelo menos foi o que ela disse a si própria quando o beijou.

       - A tua mãe tinha razão a meu respeito. Fui horrível para ti e lamento imenso - disse Kate depois de Andy a ter beijado.

       - É melhor que lamentes. Vou obrigar-te a pagar isso durante o resto da vida. Tens uma grande dívida para comigo.

       - Prometo. Porei uísque nos teus cornflakes para sempre. Todas as manhãs.

       - Vou precisar, se fores tu a preparar o pequeno-almoço. Isso significa que casas comigo? - Ele parecia esperançado e feliz.

       - Tenho de casar. Gosto do anel. Acho que é a única maneira de me deixares ficar com ele. - Pusera-o no dedo e ele ficava-lhe muito bem.

       Andy sorriu e beijou-a.

       - Amo-te, Kate. Detesto dizê-lo, mas fico contente pelo fato de as coisas não terem resultado com o Joe - admitiu ele.

       Kate sentiu um aperto no coração. Não ficara contente, mas aprendera a viver com isso e talvez Andy pudesse ajudá-la. Pelo menos ela assim o esperava.

       - Eu também te amo - murmurou. Olhou para ele com um sorriso. - Quando é que casamos?

       - Em junho - respondeu ele com ar decidido. Kate riu-se e abraçou-o. Estava feliz e sabia que tomara a decisão correta. Ou melhor, que ele tomara.

       - Espera só até eu contar à minha mãe! - exclamou ela, rindo.

       - E espera até eu contar à minha! - respondeu Andy revirando os olhos.

      

      

       Kate telefonou a contar a novidade aos pais no dia a seguir ao pedido de Andy e, como seria de esperar, eles ficaram encantados. A mãe estava radiante e perguntou-lhe quais eram os planos. Ficou ainda mais satisfeita quando Kate lhe respondeu que iriam casar em junho. Aquilo era mesmo a sério. Finalmente.

       Durante os quatro meses seguintes, Kate e a mãe andaram muito ocupadas a preparar o casamento. Kate queria apenas três damas de honra, Beverly e Diana de Radcliffe, e uma antiga amiga da escola. Escolheu vestidos de organza azul-claros muito bonitos e a mãe foi a Nova Iorque ajudá-la a escolher o vestido de casamento. Era elegante e simples e Kate ficava linda nele. A mãe chorou durante a primeira prova, e o pai também, quando a levou pela nave da igreja até ao altar.

       Tinham sido quatro meses de festas dadas essencialmente por amigos dos pais de Andy em Nova Iorque, e de outras tantas em Boston no mês de maio. Houve muitos almoços e jantares. Kate nunca tivera tanta excitação na sua vida. E tinham decidido ir a Paris e a Veneza na lua-de-mel. Era tudo incrivelmente romântico, e ela estava constantemente a dizer a si própria que era uma sortuda.

       Uma parte secreta de si esperava receber notícias de Joe depois de o noivado ser anunciado, como se ele pressentisse o que ela estava prestes a fazer e regressasse para a impedir e para a recuperar. Mas Kate sabia que isso não passava de uma fantasia. Também achava que era o melhor. Voltar a ouvir a voz dele tê-la-ia deixado destroçada. Tentava não pensar muitas vezes nele, mas à noite ele invadia-lhe os pensamentos, bem como de manhã, naqueles minutos agradáveis de preguiça depois do acordar. Fora a altura preferida de ambos. Ele estava sempre lá, na margem da sua vida, e Kate sentia um aperto no coração sempre que pensava nele. Continuava a duvidar se teria tomado a decisão acertada, se não deveria ter sacrificado o casamento e os filhos para estar com ele-

       Continuava a amá-lo como dantes, e isso era o mais difícil, mas dizia a si mesma que tomara a decisão acertada. Ele só se interessava pelos aviões. Mas claro que nunca contou a Andy que pensava em Joe inúmeras vezes.

       O casamento foi perfeito e ela estava linda. O longo vestido de cetim fazia-a parecer-se com Rita Hayworth, e tinha uma cauda enorme. Ela levava véu, e quando chegou ao altar e Andy a olhou nos olhos viu algo terno e triste que o tocou profundamente.

       - Vai correr tudo bem, Kate... amo-te... - murmurou ele quando duas lágrimas saíram dos olhos dela.

       Kate sabia que não podia contar a ninguém, pois não seria correto, mas durante toda a manhã estivera a pensar em Joe. Tinha a sensação que estava a abandoná-lo de novo. Mas sabia que teria uma boa vida com Andy, ele era um homem bom, e amavam-se. Sem paixão, mas com ternura e compreensão. Independentemente do que ainda sentia por Joe Allbright, Kate sabia que tomara a decisão acertada com Andy e esforçar-se-ia por fazer com que o casamento resultasse para ambos.

       O copo-d’água teve lugar no Plaza, e os noivos passaram a noite numa suíte fabulosa com vista para o Central Park. Era encantadora e romântica, e estavam ambos exaustos depois do casamento. Só fizeram amor na manhã seguinte. Andy não queria apressá-la, tinham o resto das suas vidas. Nunca tinham feito amor antes do casamento, e ele não quisera perguntar-lhe se ela ainda era virgem. Nunca quisera saber os pormenores da sua longa relação com Joe, e continuava a não querer saber. Ela também não lhos contou. Não era o tipo de coisa que achava dever dizer ao marido, e ele não tinha a certeza se o assunto não a faria sofrer, mas gostaram de fazer amor. Ela parecia inocente e tímida e um pouco cautelosa, e Andy calculou que fosse falta de experiência da parte dela. Na verdade, Kate achava estranho estar na cama com ele. Tinham sido sempre amigos. Mas com um pouco de tempo e de esforço, ela descobriu surpreendida que se sentia muito à vontade com ele. Era meigo e brincalhão e estava desesperadamente apaixonado por si. E quando arrancaram para o aeroporto, pareciam mais velhos amigos do que jovens amantes. Para Kate era muito importante estar à vontade com ele. Aquilo que partilhavam não tinha nenhuma da paixão ou do fogo que ela sentira com Joe. Era fácil, ligeiro e divertido, mas ela confiava totalmente em Andy e o seu coração corria menos riscos com ele do que correra com Joe.

       A mãe desconfiara que Kate não estava loucamente apaixonada por Andy quando aceitara casar com ele, e isso não a preocupava. Comentara o assunto com a filha durante uma das provas do vestido e disse-lhe que o tipo de paixão que ela partilhara com Joe era uma coisa perigosa. Se uma pessoa deixasse, ela dominava-nos por completo. Kate estaria melhor assim, tranqüilizou Liz, casada com o melhor amigo.

       A lua-de-mel foi tudo o que devia ser. Tiveram jantares românticos no Maxim’s e refeições ligeiras na Ríve Gaúche, exploraram o Louvre, fizeram imensas compras e deram longos passeios na margem do Sena. Foi a altura perfeita, a estação perfeita, o tempo estava soalheiro e quente e Kate apercebeu-se de que nunca fora tão feliz. Andy provara ser um amante meigo e habilidoso. Quando chegaram a Veneza ela já tinha a sensação de que estavam casados há muitos anos. Ele desconfiava de que ela não fora virgem para o casamento, mas nunca lhe fez perguntas. Preferia não saber e não gostava de lhe colocar perguntas sobre coisas que a faziam lembrar-se de Joe. Pressentia que ainda era um tema difícil, e desconfiava que o seria por muito tempo. Mas agora Kate era sua, não de Joe.

       Veneza foi ainda mais romântica que Paris, se é que tal era possível. Comeram coisas deliciosas, andaram de gôndola a admirar as vistas e beijaram-se quando passaram sob a Ponte dos Suspiros.

       Regressaram a Paris por uma noite e depois voaram para Nova Iorque. Tinham estado ausentes durante três semanas e fora a lua-de-mel perfeita. Voltaram para casa radiantes, descontraídos e unidos E ansiavam por uma vida longa e feliz.

       Andy voltou ao trabalho no dia seguinte e Kate levantou-se para lhe fazer o pequeno-almoço. Ele tomou banho, fez a barba e vestiu-se, e quando entrou na cozinha ela pusera na mesa uma tigela com cornflakes e uma garrafa de uísque.

       - Querida, lembraste-te, - exclamou ele, abraçando-a ao estilo das estrelas de cinema, e em seguida meteu uma colherada de cornflakes na boca e empurrou-a com um trago de uísque. Era um homem alegre e bondoso, e tinha um excelente sentido de humor. E o melhor de tudo era que estava louco por ela. - O meu pai vai pensar que me transformaste num alcoólico se eu chegar ao escritório a cheirar a uísque. Temos reuniões o dia inteiro.

       Ele saiu e ela ficou a arrumar a casa. Despedira-se do emprego no museu um mês antes de casar. Andy não queria que ela trabalhasse, e na altura ela tivera muito que fazer. Mas agora nada tinha para a ocupar até ele regressar a casa ao fim da tarde. Quando Andy chegou, ela estava tão aborrecida que o arrastou para a cama e depois sugeriu que fossem jantar fora, embora Andy estivesse cansado. Kate aborrecera-se de morte durante o dia. Comentou com ele que gostaria de voltar a trabalhar, pois não fazia idéia do que podia fazer para estar ocupada. A vida de casada deixava-a com imenso tempo livre.

       - Vai às compras, vai a museus, diverte-te, almoça com as tuas amigas - respondeu ele, mas as amigas de Kate ou estavam todas a trabalhar ou viviam nos subúrbios com os filhos. Ela sentia-se à parte.

       Tinham falado em comprar um apartamento maior, mas gostavam ambos do de Andy e por enquanto servia perfeitamente. Tinha dois quartos, por isso, mesmo que tivessem um bebê, haveria espaço para todos.

       Três semanas depois de regressarem da Europa, Kate sorriu-lhe timidamente ao jantar e disse-lhe que tinha novidades. Ele imaginou que ela tinha feito algo divertido durante o dia, ou falado com a mãe ou com as amigas. Ficou admirado quando em vez disso Kate lhe disse ter a certeza de que estava grávida. Só estavam casados há seis semanas, e ela achava que devia ter acontecido no dia a seguir ao casamento, da primeira vez que tinham feito amor.

       - Foste ao médico? - perguntou ele encantado e preocupado. Levantou a mesa, insistiu para que ela não fizesse esforços e perguntou-lhe se se sentia enjoada e queria deitar-se.

       Kate deu uma gargalhada.

       - Não, ainda não fui ao médico, mas tenho a certeza. - Já se sentira antes assim, cinco anos antes, com o bebê de Joe, mas não podia contar isso a Andy. - E não é uma doença terminal, por amor de Deus! Eu estou bem.

       Ele foi muito meigo nessa noite quando fizeram amor, com receio de que alguma coisa pudesse magoá-la a ela ou ao bebê, insistiu que ela fosse ao médico assim que conseguisse marcar uma consulta e ficou desapontado quando ela não o deixou contar a novidade aos pais.

       - Porque não, Kate? - Queria contar a toda a gente e Kate ficou muito sensibilizada. Andy estava ainda mais animado do que ela e isso agradava-lhe. Queria um bebê, afinal de contas fora uma das razões porque abandonara Joe, e a criança ligá-la-ia ainda mais a Andy. Era aquilo que ela queria, uma vida de casada E contudo, apesar de toda a felicidade e do amor que sentia por Andy, havia sempre um vazio que ela não conseguia preencher por muito que se esforçasse. Kate sabia o que era, mas não como curá-lo. Era Joe. Só esperava que o bebê preenchesse o enorme vazio que Joe deixara nela.

       - E se o perco? - retorquiu ela. Seria horrível se toda a gente já soubesse.

       - Porque haverias de o perder? - contrapôs ele intrigado. - Achas que há algum problema? A possibilidade nunca lhe ocorrera.

       - Claro que não - respondeu ela com um ar feliz. - Só quero ter a certeza de que está tudo bem. Dizem que há sempre o risco de se abortar durante os primeiros três meses. - Especialmente quando se era atingida por um rapaz de bicicleta. Andy nunca ouvira dizer que os primeiros três meses eram um período crítico.

       Kate foi ao médico uns dias depois e ele disse-lhe que estava tudo bem. Ela contou-lhe que abortara cinco anos antes, e ele ficou preocupado por ela não ter sido vista por um médico na altura, mas achava que fora um incidente isolado, não devido a uma fraqueza da parte dela, mas porque fora atingida pela bicicleta. Disse-lhe para ter calma, descansar, comer bem e não fazer nada idiota como andar a cavalo ou saltar à corda, o que a fez rir. Mandou-a para casa com vitaminas e com algumas instruções para partilhar com o marido, e pediu-lhe que fosse vê-lo daí a um mês. O bebê deveria nascer no início de março.

       A caminho de casa, Kate concluiu que era uma mulher de sorte ao passar junto ao Central Park. Era feliz, amada, casada, tinha um marido ótimo e estava grávida. Todos os seus sonhos se tinham tornado realidade e soube finalmente que tomara a decisão acertada quando casara com Andy. Iriam ter uma vida ótima.

       Contaram finalmente aos pais dela quando foram passar com eles uma semana no fim de agosto a Cape Cod. A mãe ficou radiante, tal como o pai.

       - Eu disse-te que ele seria perfeito para ela - disse Elizabeth muito feliz ao marido depois de Kate e Andy terem voltado para Nova Iorque.

       - Por quê? Porque a engravidou? - brincou Clarke. Gostara bastante de Joe, mas concordava com ela: Andy era o marido certo para Kate e estava feliz pelos dois.

       - Não, porque ele é um bom homem. E o bebê vai fazer muito bem à Kate. Ficará com os pés mais assentes na terra, acalmará e sentir-se-á mais próxima do Andy.

       - E vai também dar-lhe muito trabalho! - exclamou Clarke com uma gargalhada.

       No entanto, Kate nada mais tinha para fazer. Estava pronta para constituir família. Tinha vinte e seis anos, idade suficiente, e era mais velha do que as amigas quando estas tinham engravidado. A maior parte das suas colegas já dera à luz dois ou três filhos. Muitos jovens haviam-se casado logo a seguir à guerra, e tinham um filho cada ano para compensar o tempo perdido. Comparada com elas e com as que tinham casado antes da guerra, Kate começara tarde.

       Ela sentiu-se bem durante toda a gravidez. Pelo Natal, Andy disse-lhe que ela parecia um balão. Estava quase grávida de sete meses e ela própria achava-se grande. Parecia não ter engordado em mais lado nenhum, a não ser na barriga. Dava todos os dias grandes passeios, dormia muito, comia bem e era a imagem da boa saúde. O único pequeno susto foi na noite de fim de ano. Foram dançar com uns amigos ao El Morocco, pois tinham uma vida social bastante ativa, especialmente com os amigos de Andy ou com pessoas que ele conhecia através do trabalho, e quando chegaram a casa às duas da manhã ela começou a ter contrações. Kate sentiu-se culpada porque tinha dançado muito e bebido vários copos de champanhe. Andy telefonou ao médico e este mandou-os ir imediatamente ao hospital. Depois de a ter observado, disse-lhe que queria que ela passasse o resto da noite no hospital, para ter a certeza de que não entrava em trabalho de parto. Kate ficou assustada, mas Andy disse que passaria a noite com ela, e uma das enfermeiras instalou um divã ao lado da cama.

       - Como é que te sentes, Kate? - perguntou ele quando já estavam deitados, ela na confortável cama do hospital, ele no divã estreito.

       - Assustada - respondeu. - E se o bebê é prematuro?

       - Não vai ser, acho só que exageraste um bocadinho. Deve ter sido do último mambo que dançaste. - Ela soltou uma gargalhada e ele sorriu.

       - Isso foi divertido.

       - Parece que o bebê não é da mesma opinião. Ou talvez seja.

       - E se acontece alguma coisa e perdemos o bebê? - perguntou ela deitando-se de lado.

       Ele pegou-lhe na mão.

       - E se parasses de te preocupar por alguns minutos. Que tal? - E a seguir fez-lhe uma pergunta para a qual ela não estava preparada. Já há algum tempo que andava a pensar naquilo. - Porque te preocupas tanto com a possibilidade de perderes o bebê? - perguntou olhando-a nos olhos. Os seus eram da cor de chocolate derretido, tinha o cabelo escuro despenteado e estava muito bonito ali no divã a olhar para ela.

       - Acho que toda a gente se preocupa com isso - respondeu ela desviando o olhar

       - Kate?

       Houve uma longa pausa.

       - Sim?

       - Já estiveste grávida antes?

       Era uma pergunta à qual ela não queria responder, mas também não queria mentir-lhe

       A pausa desta vez foi ainda mais longa.

       - Sim - respondeu por fim Kate, olhando-o com tristeza. Não queria magoá-lo, mas temia tê-lo feito.

       - Foi o que pensei. - Ele não pareceu muito abalado. - O que aconteceu?

       - Fui atingida por uma bicicleta em Radcliffe, - respondeu ela.

       - Lembro-me desse incidente com a bicicleta. Tiveste uma concussão. Estavas grávida de quantos meses?

       - Dois meses e meio. E tinha decidido dar à luz o bebê. Não contei ao Joe enquanto estava grávida, nem nunca contei aos meus pais. O Joe só soube muito mais tarde, quando veio a casa de licença.

       - Os teus pais haviam de ter ficado muito satisfeitos - comentou ele, olhando-a. Aquilo não importava, mas ele tinha pena do sofrimento por que ela passara. Contudo, agora Kate era sua, e ali deitados no hospital Andy sorriu ao olhar para a enorme barriga dela. - Desta vez vai tudo correr bem, Kate. Vais ver. Vamos ter um bebê maravilhoso. - Ele inclinou-se e beijou-a, e ela pensou de novo que era uma sortuda por tê-lo como marido. Não se permitiu pensar em Joe. Talvez agora conseguisse finalmente esquecê-lo, talvez finalmente se libertasse dele.

       Saíram do hospital na manhã seguinte, de mão dada, e ela passou o resto da semana a descansar. Depois disso tudo correu bem, não houve mais contrações, até certo domingo de manhã, quando ela o acordou. Kate estivera deitada durante duas horas a contar o tempo entre as contrações, enquanto Andy dormia. Por fim, acordou-o.

       - Hum... sim? Está na hora dos cornflakes com uísque?

       - Melhor do que isso - retorquiu ela com um sorriso, sentindo-se extraordinariamente calma. - Está na altura do bebê.

       - Agora? - Ele sentou-se de repente, em pânico, e ela riu-se. - Será que devo vestir-me?

       - Acho que farias figura de tonto no hospital nesses preparos. Mas de um tonto giro. - Ele estava nu.

       - Está bem, está bem. Vou-me despachar. Telefonaste ao médico?

       - Ainda não. - Ela sorriu enquanto ele se apressava de um lado para o outro, pegando em roupa e voltando a largá-la. Kate parecia a Mona Lisa. Andy estava bastante nervoso e parecia incapaz de se organizar, mas tinha um ar muito doce.

       Meia hora depois, ela já tomara uma ducha, vestira-se e penteara-se. As roupas de Andy estavam um pouco em desalinho. Saíram de casa, ele com um braço sobre os ombros de Kate e com a mala dela na mão. Quando chegaram ao hospital, a enfermeira disse que estava tudo a correr bem, e mandou Andy para a sala de espera, onde ele ficou a fumar com os outros pais.

       - Quanto tempo vai demorar? - perguntou ele com nervosismo ao sair de perto de Kate.

       Algum tempo, Mister Scott respondeu ela fechando a porta com firmeza e regressando para junto da doente

       Kate começava a sentir muitas dores e queria Andy perto, mas era contra a política do hospital ele estar ali. E, pela primeira vez, ela sentiu medo.

       Três horas depois, ela continuava em trabalho de parto, mas a coisa parecia demorada e Andy já estava com os nervos em franja. Tinha chegado ao hospital às nove, e ao meio-dia ainda não havia novidades. Sempre que ia perguntar, mandavam-no embora. O bebê parecia estar a levar uma eternidade para nascer.

       Eram quatro da tarde quando a levaram para a sala de partos, perfeitamente a tempo, na opinião da equipa médica, mas nessa altura Kate já não agüentava as dores e chorava. Só queria Andy perto de si. Ele não comera nada durante todo o dia e vira outros pais irem e virem, e alguns esperavam há mais tempo do que ele. Parecia um processo sem fim, e só queria estar junto dela. Esperava que tudo corresse bem e que Kate não sofresse muito. Na verdade, sofria, o bebê era muito grande e o parto estava a levar muito tempo. Parecia-lhes interminável.

       Às sete da noite os médicos começaram a pensar na hipótese de uma cesariana, mas acabaram por decidir deixar Kate continuar normalmente durante mais algum tempo. Finalmente, duas horas mais tarde, Reed Clarke Scott nasceu. Pesava quase quatro quilos e meio e tinha cabelo escuro como o pai, mas Andy achou-o parecido com Kate. Nunca tinha visto ninguém tão bonito como ela, deitada na cama, com o cabelo penteado, num casaquinho cor-de-rosa, com o filho adormecido nos braços.

       - Ele é tão perfeito - murmurou Andy. As doze horas que passara na sala de espera, raladíssimo, quase o tinham enlouquecido.

       Kate estava muito calma e feliz, embora cansada, e agarrara na mão de Andy. Os seus sonhos tinham-se finalmente tornado realidade. A mãe tivera razão. Tomara a decisão acertada, e naquele momento ficou com a certeza disso.

       Kate e o bebê ficaram no hospital durante cinco dias, e depois Andy levou-os para casa com uma enfermeira que haviam contratado para quatro semanas. Comprara flores para ela e espalhara-as pela casa, e segurou o bebê enquanto ela se deitava no quarto. O médico queria que ela repousasse três semanas na cama, mas isso era normal nas mulheres que tinham o primeiro filho. Tinham colocado um berço ao lado da cama para o bebê dormir, e sempre que ele acordava, Kate dava-lhe peito. Andy observava-os fascinado.

       - Estás linda, Kate. - Achava que tinha valido a pena esperar por eles. Normalmente valia a pena esperar pelas coisas boas. E o bebê encantava-o. Era rosado, redondo e perfeito.

       Kate tinha vinte e sete anos quando Reed nasceu. Era muito mais velha do que as suas amigas quando deu à luz pela primeira vez, mas estava pronta para o bebê. Era uma mulher calma e madura, tinha muito jeito para tratar dele e adorava dar-lhe peito. Esperara toda a vida por aquele momento e decidiu saboreá-lo, e saborear a companhia do marido. Nunca tinham sido tão felizes.

      

      

       Reed fizera dois meses e meio em maio quando Andy chegou a casa certa noite, muito animado. Fora nomeado para uma comissão que iria à Alemanha ouvir os depoimentos nos julgamentos de guerra que ali decorriam já há algum tempo. Advogados de diversas especialidades estavam a ser recrutados para períodos de vários meses. Andy adquirira bastante experiência na firma do pai e ser convidado para participar nos julgamentos dos crimes de guerra era uma honra enorme para ele

       - Posso ir contigo, - perguntou Kate muito animada, aquilo parecia um desafio interessante e ela desejava vê-lo a trabalhar

       - Não me parece, querida. Vamos ficar aquartelados em casernas. O alojamento não é bom, mas o trabalho vai ser maravilhoso. - Estava encantado com a perspectiva da viagem, embora detestasse ter de deixar Kate e Reed

       - Quanto tempo vais lá ficar? - Aquilo não lhe soava a uma viagem de dois dias, nem sequer de duas semanas.

       - Essa é a parte mais difícil - disse ele. Pensara muito no assunto antes de aceitar. Tinham-lhe pedido uma resposta imediata, mas ele tinha a certeza de que Kate haveria de querer que ele participasse em algo tão excepcional. Era uma oportunidade que ele ambicionara, mas que nunca esperara.

       - Tenho de ficar lá três ou quatro meses - respondeu com ar infeliz

       Kate ficou espantada

       - Uau! Isso é muito tempo. - Andy Iria perder tanto do crescimento do bebê.

       - Perguntei se seria possível termos uns dias de férias, talvez no meio, mas disseram-me que era impossível. Vou ficar ali retido, e nenhum dos homens leva a mulher. - Durante três ou quatro meses seria como estar na tropa, mas como ele não fizera o serviço militar nem estivera na guerra, achava que era uma boa oportunidade para servir o seu país.

       - Lamento, querida. Fazemos alguma coisa gira depois, tiramos umas férias. - Queria levá-la à Califórnia, pois adorara lá estar.

       - Está bem, acho que vou ter de me manter atarefada.

       - O jovem príncipe encarregar-se-á disso por ti. - Kate passava o tempo quase todo a tratar dele e a dar-lhe peito. Pelo menos tinha um filho, senão sentir-se-ia muito sozinha na ausência de Andy. - Queres ir para casa dos teus pais?

       Kate abanou a cabeça.

       - A minha mãe adoraria ter lá o Reed, mas eu daria em doida. Vamos ficar aqui à tua espera. Não te esqueças de levar uísque para os teus cornflakes.

       - Obrigado por aceitares, Kate - disse, beijando-a.

       - Tinha alternativa? Posso fazer birra? - perguntou, sorrindo. Sabia que iria ter saudades de Andy, mas estava satisfeita por ele. O convite era uma honra.

       - Podias fazer birra, mas ainda bem que não fazes. Eu quero mesmo ir. É um trabalho muito importante. - Kate aceitara muito bem e ele amava-a ainda mais por isso.

       - Eu sei que é. - Respeitava-o muito, e não teria feito nada para o deter. - Quando é que vais?

       - Dentro de quatro semanas - respondeu ele com uma careta, e ela atirou-lhe uma almofada.

       - Seu patife! Vais estar fora todo o verão. - E ainda mais algum tempo depois disso. Partiria a 1 de julho e fora informado de que não contasse regressar até ao fim de outubro. Viriam advogados de vários pontos do país e partiriam para a Alemanha num avião militar.

       Enquanto Kate ajudava Andy a organizar os papéis e a fazer a mala durante as semanas seguintes, começou a aperceber-se de como iria sentir-se sozinha no apartamento só com o bebê. Durante aquele primeiro ano de casamento habituara-se à companhia de Andy e não se imaginava sem ele. Quatro meses iriam parecer intermináveis para ambos.

       Dois dias mais tarde, no primeiro aniversário do casamento, ele deu-lhe uma magnífica pulseira de diamantes Cartier. Kate ficou maravilhada. Tinha-lhe comprado um relógio na Tiffany, mas o relógio não era tão impressionante como a pulseira.

       - Andy! Estragas-me com mimos! - exclamou encantada, e Andy ficou satisfeito. Era bom para ela, gostava de o ser, sentia-se feliz na sua companhia, mais até do que esperara. Kate era uma boa mulher, uma excelente mãe e uma ótima companhia. Adorava estar com ela, fazer amor com ela, rir-se com ela. Eram mesmo bons amigos.

       - Isso foi por teres aceitado muito bem as notícias.

       - Talvez devas ir para fora mais vezes - brincou ela. Passaram uma noite magnífica no Clube Stork.

       E quando ele partiu no dia 1 de julho, ficaram ambos tristes. Ela levou o bebê quando o acompanhou ao aeroporto. De Nova Iorque iriam partir cinco advogados num vôo militar. Os outros vinham de outras cidades. Andy beijou-a e abraçou-a durante bastante tempo. Disse que tentaria ligar-lhe, mas que não pensava poder fazê-lo muitas vezes.

       - Eu escrevo-te - prometeu ele, mas Kate desconfiava que ele não teria muito tempo para o fazer. Iriam ser quatro longos meses solitários sem ele. Embora tivesse hesitado em casar com Andy, agora não se imaginava a passar um dia sem ele. Andy beijou o bebê, beijou-a de novo e correu para o avião. Era o mais novo do grupo, e as mulheres dos outros advogados sorriram a Kate quando saíram do aeroporto. Reed tinha três meses e meio e quando Andy voltasse a vê-lo já teria aprendido muitas coisas. Kate prometera tirar-lhe bastantes fotografias.

       Ela passou o 4 de julho em Nova Iorque e fez um calor abrasador. Mal saía de casa com o bebê, pois tinham ar condicionado; o resto do mês foi igualmente quente. Ela levava o filho a passear ao parque de manhã e tentava chegar a casa pelas onze, ficavam lá toda a tarde e saíam ao fim do dia para apanhar ar quando as ruas começavam a arrefecer. Mas apesar do bebê e do esforço que fazia para se manter ocupada, Kate sentia-se surpreendentemente sozinha sem Andy. Tinha muitas saudades dele.

       Certa tarde, depois de ter ido ao jardim zoológico com Reed, Kate descia a Quinta Avenida a olhar para as montras e a empurrar o carrinho do bebê. Tinha começado a atravessar a rua quando alguém apareceu disparado e chocou com ela. Kate sobressaltou-se e espreitou de imediato o filho, para ver como ele estava. Quando levantou a cabeça, deparou com os olhos de Joe Allbright. Ficou embasbacada a olhar para ele. Pensara nele muitas vezes e pensara que só voltaria a vê-lo nos jornais.

       - Olá, Kate. - Parecia que se tinham visto nessa manhã. Nada mudara. Ele estava na mesma, só que não havia a aspereza que Kate vira no último dia, nem as palavras cruéis, ou a desilusão. Só aquele rosto incrível e aqueles olhos azuis que a perfuravam, parecendo que Joe estivera à sua espera, embora ela soubesse que isso não passava de uma ilusão. Podia ter-lhe telefonado e nunca o fizera. Havia alturas em que Joe, apesar da sua timidez, podia ser encantador. E naquele momento era-o. Como se tivesse esperado por ela três anos.

       Continuavam no meio da rua, e os carros começaram a apitar quando o semáforo ficou verde. Joe agarrou nela por um braço e acompanhou-a até à esquina, ajudando-a a levantar o carrinho para o passeio, e sorriu ao ver o bebê.

       - Quem é este menino? - perguntou ele divertido, quando o bebê começou a palrar como se estivesse satisfeito por ver Joe.

       - É o meu filho Reed - respondeu Kate orgulhosa. - Tem três meses.

       - É um rapaz bonito - retorquiu Joe pensativo, sorrindo em seguida para Kate, - muito parecido contigo. Não sabia que tinhas casado. Casaste?

       A pergunta teria sido insultuosa vinda de outra pessoa, mas Joe era mesmo assim. Para ele, ter um bebê não significava automaticamente que a pessoa era casada. Às vezes parecia ser muito avançado para a sua época, outras vezes não.

       - Casei há um ano.

       - Não perdeste tempo em ter o bebê - disse ele, embora isso não o surpreendesse. Sabia que era isso que queria. Deixara-o bem claro quando se fora embora. Não a via há três anos, mas achou-a na mesma. Quando muito, estava mais bonita, e ele também. Tinha trinta e nove anos, mas ninguém teria sido capaz de adivinhar a sua idade. Possuía um ar eternamente arrapazado, em especial com o cabelo louro a tombar-lhe para os olhos. Afastou-o com um gesto que Kate sempre achara enternecedor. Pensara nisso mil vezes à noite, quando chorara por causa de Joe. E agora tinha-o ali à frente, e era uma sensação estranha, triste e vazia. Teria gostado de poder dizer que não se importava, que ele não a afetava, mas tinha a mesma sensação estranha na boca do estômago, como se uma pedra estivesse a girar lentamente. Sempre julgara que o amor era isso. Mas nunca sentira a pedra com Andy. Com ele, sempre se sentira em paz. E agora, com Joe apenas a alguns centímetros, estava muito nervosa. Ele era apenas um pedaço do seu passado, disse a si própria. Mas um pedaço muito grande. Havia a mesma eletricidade entre ambos quando ele a olhou nos olhos. Ela perguntou a si mesma se aqueles sentimentos alguma vez desapareceriam.

       - Quem é o sortudo? - perguntou ele num tom casual. Parecia não querer deixá-la.

       - O Andy Scott, o meu velho amigo de Harvard.

       - A tua mãe sempre disse que devias casar com ele. Deve estar muito feliz. - Havia uma certa tensão na sua voz. Sabia que a mãe dela o detestara.

       - E está - respondeu Kate, atordoada. Parecia que ele exsudava um aroma estranho que a hipnotizava. Já conseguia senti-lo e disse a si mesma que tinha de se ir embora. Mas estava paralisada, e embalada pela voz dele, e não se mexeu. - Ela adora o bebê.

       - É um miúdo giro. O negócio está a correr bem, a propósito.

       Ela sorriu ante tanta modéstia. Era uma das empresas mais importantes do país e Andy dissera-lhe várias vezes que Joe faturava milhões. A última coisa que lera a respeito dele era que ia fundar uma companhia aérea chamada AllWorld.

       - Leio muitas coisas a teu respeito, Joe. Continuas a voar muito?

       - O máximo que posso. Não tenho tempo suficiente. Continuo a testar os meus modelos, mas isso é um tipo de vôo diferente. Agora estamos a desenvolver aviões comerciais, capazes de vôos transoceânicos. O Charles e eu fomos a Paris há algumas semanas. Mas a maior parte do tempo estou preso na sala de reuniões ou no meu gabinete. Tenho uma casa aqui na cidade disse ele.

       Pareciam dois velhos amigos a pôr a conversa em dia, parados numa esquina, só que não eram. Havia correntes perigosas nas águas onde estavam a meter-se. Kate tentou dizer a si própria que não era verdade, mas instintivamente sabia que era.

       - Temos um prédio de escritórios aqui, outro em Chicago, e outro em Los Angeles. Vou muitas vezes à costa oeste, mas passo mais tempo em Nova Iorque do que noutro lado - disse. Tinha acabado de sair do escritório quando a encontrara na Rua 57.

       - És um homem importante, Joe. - Recordava-se de quando ele nada tinha e de como o amara na altura. De certa forma, ele estava diferente. Tinha a aura de um homem com poder, mas quando olhava para ela continuava o mesmo, acabrunhado, tímido, num minuto com receio de a olhar, no outro fitando-a diretamente nos olhos, como se contemplasse a alma dela e soubesse aquilo que estava a pensar. Kate era incapaz de evitar o poder daqueles olhos.

       - Queres boleia para algum lado, Kate? Está muito calor para andares na rua com o bebê.

       - Estávamos só a apanhar ar. Moro a poucos quarteirões. Não me importo de andar.

       - Anda - disse, pegando-lhe no braço, sem esperar pela reação dela. Havia um carro no outro lado da rua à espera dele e como se fosse arrastado pela corrente de um rio, ele empurrou o carrinho de bebê nessa direção enquanto Kate os seguia e, antes de dar por isso, estava sentada no banco de trás do carro dele, com o bebê ao colo. O motorista pusera o carrinho no porta-bagagens e Joe sentara-se ao lado dela. - Onde é que moras? - Kate deu-lhe o endereço, Joe deu-a ao motorista, e ela reclinou-se no banco. - Moro apenas a alguns quarteirões de ti. Num apartamento de cobertura, pois assim tenho a sensação de que estou a voar. E tu, o que vais fazer este verão?

       - Não sei... nós... eu... - Começava a sentir-se dominada por Joe, ele era tão forte e tão poderoso que arrastava todos atrás de si, como uma contracorrente. Kate tinha a sensação de descer as cataratas do Niagara num barril. Ele sempre tivera aquele efeito em si. Nunca conseguira resistir-lhe, ou à eletricidade que sentia quando estava perto dele. Era de uma intensidade que a deixava sem fôlego. E para seu espanto, mesmo ao fim de três anos, parecia nada ter mudado. Era a forma como lhe reagia, e a maneira como ele lidava com as pessoas, especialmente agora que era tão bem sucedido. Estava habituado a conseguir tudo o que queria. Não sei quais são os nossos planos respondeu ela num tom vago, tentando ordenar as idéias e não sentir o efeito de Joe. Estar com ele era como uma droga, e ali sentada no carro sentiu o apelo do seu velho vício. Sabia que tinha de resistir. Era uma mulher casada.

       - Eu ia para a Europa na próxima semana - comentou ele enquanto seguiam viagem, mas cancelei. Tenho demasiado trabalho aqui com a companhia de aviação. Estamos a ter os mesmos problemas com o sindicato que tivemos no começo em New Jersey. - Joe puxou-a imediatamente para o seu círculo de familiaridade, falando sobre coisas que ela conhecia e em que participara. Era uma forma inteligente de a recordar que fora dele antes de ser de Andy. E sentado ao lado dela, Joe fitou-a com o sorriso que a cativara desde o primeiro momento em que se haviam conhecido. Ele não sabia o que estava a fazer, era instintivo, tal como a atração que sentia por Kate. Pareciam dois animais a farejarem o ar e a andarem um à volta do outro. - Tu e o Andy deviam ir voar um dia destes comigo. Achas que ele gostaria? - Provavelmente. Com qualquer pessoa que não Joe. O assunto era delicado para ele, e com razão. Mais do que qualquer outro sabia o que Joe significara para ela. Kate fora sincera e contara-lhe o que lhe custara tê-lo deixado. Também sabia que se ela não o tivesse feito, não se teriam casado. Andy nunca conseguiria competir com o encanto de Joe Allbright nem com a magia que Kate sentia por ele.

       Ela não sabia o que dizer, por isso disse a verdade. Em poucos minutos, ele já a derrotara. E assim que falou, arrependeu-se. Não era inteligente dar a Joe tantas informações. Ele poderia utilizá-las.

       - Ele está na Alemanha. É um dos advogados nos julgamentos de guerra.

       - Impressionante. Deve ser um bom advogado - comentou, mas os olhos dele nunca abandonaram os de Kate, e faziam outras perguntas para as quais ela não tinha resposta, e mesmo que tivesse não a daria a Joe.

       - E é, - respondeu orgulhosa.

       O carro parou à porta de Kate e ela saiu o mais depressa possível. O motorista tirou o carrinho do porta-bagagens e ela deitou Reed nele, enquanto Joe a observava. Estava sempre a observar. Via tudo, sempre vira, mesmo quando ela não quisera que ele visse. Ela também o conhecia muito bem. Eram como o interior um do outro, duas metades formando um todo, unidas por uma força magnética tão forte que eles não conseguiam resistir-lhe. E nunca haviam resistido. Mas ela tencionava resistir desta vez. Joe estava fora da sua vida e iria continuar assim. Para bem dela e de Andy. Kate estendeu-lhe a mão e agradeceu-lhe a boleia. Mostrou-se subitamente mais distante e fria. Não era justo, realmente, estava zangada por causa do que sentia e do que sentira por ele. Não tinha culpa da atração que a dominava. Era mesmo assim. Mas disse a si mesma que aquilo nada significava para si.

       - Sabes onde encontrar-me - disse ele com uma certa arrogância. Meio mundo também o sabia. - Liga-me um dia destes. Havemos de ir voar.

       - Obrigada, Joe - respondeu Kate sentindo-se de novo uma adolescente. Envergava uma saia, blusa e sandálias e Joe reparou que mesmo depois do bebê o corpo dela continuava perfeito. Lembrava-se dele claramente. Três anos não haviam diminuído as recordações, nem os sentimentos. - Mais uma vez, obrigada pela boleia disse ela.

       Joe ficou a vê-la entrar no prédio. Ela não se virou para olhar para ele, nem para lhe acenar. E esperava que os caminhos de ambos não voltassem a cruzar-se. Estava sem fôlego quando entrou em casa com o filho. A experiência de o ver deixara-a pouco à vontade. Queria contar a alguém, agarrar-se a algo sólido, explicar que não sentira nada por ele, que o esquecera e que estava feliz por ter casado com Andy e por ter Reed. Parecia que tinha de se desculpar, ou justificar o que acontecera. Queria convencer alguém de que ele nada significava para si. Mas se o fizesse estaria a mentir. Era o mesmo que sempre fora durante dez anos.

      

      

       Kate acordou na manhã a seguir a ter encontrado Joe, sentindo-se pesada. Tivera pesadelos toda a noite, e quando o bebê chorou acordou com uma sensação desagradável, como se tivesse traído Andy. E enquanto bebia um café, depois de ter posto Reed a dormir, disse a si própria que não fizera nada de errado. Portara-se bem, não se mostrara interessada nele, não o encorajara, não dissera que lhe telefonaria. Mas sem saber por que, sentia-se culpada por tê-lo visto, como se tivesse sido responsável por aquele encontro fortuito. Era uma sensação desagradável que não a largou durante o resto do dia. E nessa noite, depois de ter escrito a Andy e de ter metido algumas fotografias de Reed no envelope, o telefone tocou. Devia ser a mãe, calculou Kate ao pegar no auscultador. Mas a voz do outro lado quase lhe arrancou o coração. Era o mesmo trovão aveludado que sempre a arrepiara e por que ansiara durante muitos, muitos anos.

       - Olá, Kate. - Ele parecia cansado e descontraído. Era tarde. Ainda estava no escritório

       - Olá, Joe - Kate não disse mais nada. Aguardou. Não fazia idéia por que motivo ele estava a ligar-lhe.

       - Pensei que talvez estivesses aborrecida sem o Andy.

       Era uma escolha de palavras inteligente. Dissera ”aborrecida” em vez de ”sozinha”. Na verdade, ela sentia-se ambas as coisas, mas não tencionava admiti-lo perante ele. - Gostavas de ir almoçar comigo, em memória dos bons velhos tempos?

       Ele soava meigo e jovem, e quase humilde. E certinho, o que era enganador. Mesmo que pretendesse sê-lo, não era, nem nunca seria.

       - Não me parece. - Não era uma boa idéia, e ela sabia-o.

       - Sempre quis que visses o nosso edifício aqui na cidade. É incrível. Um dos mais bonitos do país. Estiveste comigo no início, achei que gostarias de ver onde a empresa foi depois... depois de tu...

       - Gostava muito, mas acho que não devemos.

       - Porque não? - Ele parecia desiludido, e aquilo sensibilizou-a. Perigo! Perigo! Parecia uma luz a piscar. Ela preferiu ignorá-la.

       - Não sei, Joe - respondeu com um suspiro. Estava cansada. E ele era-lhe tão familiar. Sabia bem falar com ele e Kate desejou poder fazer recuar o tempo. Recordou-se dos dois anos de agonia quando toda a gente pensava que ele tinha morrido, e de o ter visto no navio pela primeira vez quando regressara da Alemanha. Havia tantas recordações desses dias a aquecer-lhe o coração, embora não fossem suficientes só por si. Já passou muita água debaixo da ponte desde que saí de New Jersey.

       - É precisamente essa a questão. Quero que vejas qual é o aspecto da barragem. É uma beleza.

       - És incorrigível! - exclamou ela com uma gargalhada. Sentia-se já um pouco mais à vontade com ele.

       - Serei? Porque não podemos ser amigos, Kate? - “Porque eu ainda te amo”, quis ela responder-lhe. Mas amaria? Talvez fosse apenas a recordação do amor, e não o amor em si. Talvez tivesse sido tudo uma ilusão. O que ela tinha com Andy era amor verdadeiro. Kate tinha a certeza. Joe era outra coisa, uma ilusão, um sonho, uma esperança que se recusava a morrer, um conto de fadas para o qual ela sempre quisera um final feliz e não conseguia. Joe era um desastre à espera de acontecer, e ela sabia-o. Sabiam-no ambos.

       - Almoça comigo... por favor... eu porto-me bem. Prometo.

       - Tenho a certeza de que nos portaríamos ambos bem - retorquiu ela com firmeza, - mas por que sujeitarmo-nos a isso?

       - Porque gostamos da companhia um do outro, sempre gostamos. Estás preocupada com quê? És casada, tens um filho, uma vida. Eu só tenho aviões. - Ele tentou soar infeliz, e ela riu-se.

       - Não me venhas com isso, Joe Allbright! Foi sempre o que quiseste! Mais do que me querias a mim, aliás. Foi por isso que te deixei.

       - Podíamos ter tido ambas as coisas - retorquiu ele com tristeza, e daquela vez parecia estar a falar a sério.

       Ela detestou-o por ele dizer aquilo naquele momento. Era demasiado tarde.

       - Tentei dizer-te isso, mas tu não ouviste.

       - Fui incrivelmente estúpido e tive medo de me prender. Agora sou mais esperto e mais corajoso. Sou mais velho. E sei o que perdi quando me deixaste. Fui demasiado orgulhoso para admitir o quanto significavas para mim. A minha vida não tem tido significado sem ti, Kate.

       Joe soava tal e qual como quando ela o amara mais, e aquelas palavras eram o que ela sempre quisera ouvir. Era uma partida cruel do destino ouvi-las naquele momento. Demasiado tarde.

       - Sou casada, Joe - disse ela baixinho.

       - Eu sei. Não estou a pedir que mudes isso. Compreendo que construíste uma vida. Eu só quero almoçar. Uma sandes, uma hora. Podes dar-me isso. Só quero mostrar-te aquilo que fiz. - Parecia tão orgulhoso e sem ninguém com quem partilhar esse sentimento. Mas a culpa era sua. Ela tinha de acreditar que houvera outras mulheres depois da sua partida, mas conhecendo-o talvez não, ou talvez ninguém importante. Ele vivia para os seus aviões e para a sua empresa. E há muito que era considerado o desenhador de aviões mais importante do mundo. Era um gênio. - Aceitas, Kate. Bolas, não deves ter muito mais coisas para fazer com o Andy fora. Arranja uma ama e vem almoçar comigo, ou traz o bebê.

       Kate não o levaria. Já usara várias amas quando saíra com Andy à noite, e tinha o contato de algumas. Não levaria Reed para um edifício de escritórios, não fosse ele perturbar as pessoas que aí trabalhavam.

       - Está bem, está bem - assentiu ela com um suspiro. Parecia que estava a discutir com uma criança. Ele era tão persuasivo! - Eu vou.

       - És maravilhosa, Kate. Obrigado

       Que diferença fazia?, perguntou Kate a si própria. Porque haveria de querer que ela visse o seu gabinete? Tinha de recordar-se constantemente que estava casada com Andy

       - Que tal amanhã?

       Ela pensou durante um longo momento e acabou por aceder.

       - Está bem.

       Queria resolver aquele assunto e provar que era capaz de almoçar com ele sem voltar a apaixonar-se, sem o desejar e sem se sentir atraída por ele. Tinha de ser possível. Parecia um ex-alcoólico a tentar provar que era capaz de passar à porta de um bar sem beber. E ela sabia que seria capaz de o fazer, por muito atraente que ele fosse.

       - Queres que te vá buscar? - perguntou.

       Ela declinou, dizendo que iria ter ao restaurante. Ele sugeriu o Giovanni e Kate disse que estaria lá ao meio-dia e meia.

       Chegou ao restaurante no dia seguinte à hora combinada, envergando um terno de linho, o cabelo apanhado e um grande chapéu de palha que comprara no Bonwit Teller. Estava muito elegante, e Joe já se encontrava à espera. Cumprimentou-a com um beijo na cara e várias pessoas olharam para eles. Joe tinha uma figura muito distinta e facilmente reconhecível depois de toda a cobertura de imprensa que tivera, e ela era uma mulher bonita com um chapéu deslumbrante. Mas ninguém sabia quem era.

       - Sempre me fizeste parecer bem - disse ele quando se sentaram numa mesa de canto que lhes permitia ter alguma privacidade.

       - Safas-te bem sozinho - retorquiu ela com um sorriso. Era divertido sair para almoçar e Kate ficou admirada ao constatar que não o fazia desde que o bebê nascera. Com Andy fora, nada mais tinha para fazer do que cuidar de Reed, e sabia bem regressar ao mundo como adulta. Amava Reed, mas não tinha com quem falar. As amigas de infância estavam todas em Boston e ela perdera o contato da maior parte durante os anos que passara com Joe. A sua paixão por ele e o tempo que passara a ajudá-lo a montar o negócio tinham-na isolado de todas as pessoas conhecidas. E depois dessa altura andara envolvida na vida de casada. Não dispusera de tempo ou de desejo para fazer novos amigos.

       Ela e Joe falaram de mil coisas ao almoço, sobre a empresa dele, os desenhos, os problemas, o último avião. E depois passaram uma hora a falar da sua companhia aérea. Joe estava envolvido em muitos projetos interessantes. A sua vida era muito diferente da dela. Kate tinha uma vida calma e feliz com o marido e o filho.

       - Vais arranjar emprego agora, Kate? - perguntou ele. Portara-se como um verdadeiro cavalheiro durante o almoço e Kate ficou admirada por se sentir tão bem na sua companhia

       - Não me parece. Quero estar em casa com o bebê. - Mas tinha pensado nisso. Andy não queria que ela trabalhasse e por enquanto ela concordara. Tinha gostado do trabalho no Museu Metropolitano, mas não ansiava muito por uma carreira.

       - Ele é um miúdo giro, mas deve ser bastante aborrecido - comentou Joe

       Kate riu-se

       - Às vezes é. Mas também é divertido

       - Ainda bem que estás feliz, Kate - disse ele observando-a.

       Kate assentiu. Não queria falar do assunto com ele. Abria demasiadas portas para o passado e não lhe parecia correto que falassem sobre Andy, achava uma falta de respeito. Sabia que o marido não teria gostado que ela almoçasse com Joe, mas sentia que tinha de o fazer para provar algo a si mesma. E fora inofensivo. Tinham-se limitado a falar de aviões. Continuava a ser o tema preferido de Joe e Kate sabia muitas coisas a esse respeito, ou costumava saber. Ele sempre dera valor aos seus conselhos e gostara de a ter a trabalhar consigo logo no início. Era por esse motivo que ela percebia tanto do que ele fazia. Contudo, a empresa crescera exponencialmente desde essa altura E Kate nada sabia sobre a companhia aérea, exceto o que lera nos jornais.

       Entraram no carro dele quando saíram do restaurante e ela ficou muito impressionada quando viu o edifício. Era um arranha-céus repleto de funcionários dele, tanto da empresa de design como da companhia aérea.

       - Meu Deus, Joe, quem haveria de ter pensado que isto iria crescer desta maneira. - Em cinco anos ele construíra um império.

       - É espantoso quando pensamos que em miúdo comecei por parar perto das pistas de aviação. Este país é isso mesmo, Kate. Estou muito orgulhoso. - Parecia humilde, e ela ficou sensibilizada.

       - Tens motivos para isso. - Ela assobiou ao ver o gabinete dele, no último andar, com vista sobre a cidade. Parecia mesmo que se estava a voar. O escritório tinha painéis de madeira na parede, bonitas antiguidades inglesas e quadros que ela reconheceu. Joe era um colecionador de arte e tinha muito bom gosto. Era um homem extraordinário e não tardaria a tornar-se um dos homens mais ricos do mundo. Mas, recordou a si própria, podia ter partilhado tudo aquilo com Joe nos termos dele: sem casamento e sem filhos. Independentemente do que ele alcançara ou adquirira, continuava a não ser a vida que ela quisera, por muito que o tivesse amado. Talvez mais ainda porque o amara. Preferia o que tinha com Andy, e o bebê. Para Kate, aquilo nunca fora uma questão de dinheiro. Fora uma questão de amor, de empenhamento e de filhos, que ela alcançara agora. Mas não com Joe. Há muito que se conformara com o fato de não poder ter tudo o que desejava.

       Entrou na sala de reuniões com ele e foi apresentada a várias pessoas, incluindo à secretária, que estava com Joe desde o início e ficou encantada ao tornar a ver Kate. Chamava-se Hazel e era uma mulher muito doce.

       - Estou tão feliz por voltar a vê-la! O Joe disse-me que você acabou de ter um bebê. Não parece nada! - Kate agradeceu-lhe e depois voltou com Joe para o gabinete dele, onde se sentaram mais alguns minutos. Ela tinha de regressar para junto do filho em breve. Dissera à ama que estaria de volta pelas três e meia e essa hora estava a aproximar-se. E tinha de dar mama.

       - Obrigado por teres almoçado comigo - disse quando ela começou a preparar-se para partir.

       - Acho que quis provar a mim mesma, e a ti, que podemos ser amigos. - Fora um desafio extraordinário, mas ela enfrentara-o bem.

       - E será que passei o teste? Podemos ser amigos? - Tinha um ar inocente e esperançado, e ela sorriu.

       - Não precisavas de passar o teste - admitiu ela, - eu precisava.

       - Acho que passamos com distinção. - Ele parecia satisfeito.

       - Espero que sim - disse Kate, mais bonita do que nunca sob o grande chapéu de palha. Joe achou que os olhos dela brilhavam. Tudo nela sempre o havia fascinado. Era tão cheia de vida, tão jovem e bonita. Tudo o que sempre quisera numa mulher. Mas ela quisera mais dele do que aquilo que ele pudera dar-lhe, ou dar a qualquer mulher. Quisera demasiado.

       Kate levantou-se e beijou-o na cara, e ele fechou os olhos e inspirou o seu perfume. Era-lhe dolorosamente familiar, tal como era para Kate sentir a pele dele e a forma como ele a agarrava. Havia muitas coisas, talvez demasiadas, que ambos recordavam. As memórias estavam à flor da pele e nos seus corações.

       - Vamos almoçar outra vez um dia destes - disse ele quando a acompanhou até ao carro. O motorista iria levá-la a casa.

       - Gostava muito - respondeu ela.

       Joe fechou a porta da limusine e ela acenou-lhe quando se afastou. Ele ficou imóvel por uns momentos e depois regressou ao gabinete, começando de imediato a desenhar aviões.

       Uma semana mais tarde, numa noite quente, Kate estava a ver televisão com o ar condicionado ligado. O bebê dormia quando o telefone tocou. Era Joe, e Kate ficou admirada ao ouvi-lo. Sentira-se aliviada com a forma como o almoço decorrera e orgulhava-se do seu comportamento. Fora uma situação agridoce, algo divertida, mas não de sofrimento. E depois soubera-lhe bem regressar para junto do bebê e de uma carta de Andy acabada de chegar. Joe pertencia ao passado

       - O que estás a fazer? - perguntou ele, parecendo descontraído. Estava em casa a pensar nela.

       - A ver televisão - respondeu, admirada por voltar a ouvi-lo.

       - Queres ir comer um hambúrguer? Estou aborrecido, - confessou.

       Ela soltou uma gargalhada.

       - Gostava muito, mas não consigo arranjar uma ama.

       - Traz o bebê

       - Não posso, Joe. Ele está a dormir E se o acordo vai ficar a chorar durante várias horas. Acredita, não irias gostar.

       - Tens razão Não ia. Já comeste?

       - Mais ou menos. Comi um gelado esta tarde. Não tenho muita fome. Está imenso calor.

       - E se eu te levar aí um hambúrguer - sugeriu ele

       - Aqui?

       - Bem, sim. Para onde mais haveria de levá-lo? - Parecia estranho recebê-lo no apartamento que partilhava com o marido mas, por outro lado, estavam ambos sozinhos sem nada para fazer, e eram amigos. Ela podia fazer aquilo, provara-o na semana anterior.

       - Tens a certeza de que queres fazer isso, - perguntou Kate

       - Porque não? Temos ambos de comer. - Parecia razoável, e por fim ela concordou. Ele sabia o endereço e disse-lhe que estaria lá dentro de meia hora.

       Chegou quinze minutos depois, com dois grandes cheeseburgers num saco de papel a escorrer gordura, tal como ambos gostavam. Kate não comia um assim havia anos, e enquanto os hambúrgueres pingavam gordura e ketchup por todo o lado, eles lamberam os dedos e riram-se sentados à mesa da cozinha.

       - Estás toda besuntada - disse. Ela riu-se, parecia ter de novo dezessete anos.

       - Eu sei E adoro. - Estendeu-lhe guardanapos de papel e limparam depois o chiqueiro.

       Kate ofereceu-lhe gelado. Aquilo fazia lembrar os velhos tempos, quando ele dormia em casa dos pais dela em Boston, e depois a época de New Jersey. Kate sentira falta disso, embora se divertisse bastante com Andy. Joe era como um pássaro gigante que descia em vôo picado, depois deixava-se ficar no chão durante algum tempo e em seguida tornava a levantar vôo e desaparecia. Apesar disso, Kate gostara de encontrá-lo. Esquecera-se de como ele era uma companhia agradável e do quanto gostavam um do outro. Joe adorava as histórias dela, e ela fê-lo rir-se de coisas disparatadas. Fazia-lhe bem, sempre fizera. Ele, há muito tempo, também fora bom para Kate, mas ela esforçara-se por esquecer isso. Demorara anos. Depois de comer viram televisão. Ela tinha sandálias e descalçou-as, e Joe descalçou também os sapatos. Kate gozou com ele quando viu as suas meias esburacadas.

       - És demasiado bem sucedido para usar meias assim.

       - Não tenho quem me compre umas novas - respondeu ele, tentando fazê-la ficar cheia de pena. - Mas é assim que tu gostas, lembras-te?

       - Pede à Hazel que tas compre. - A secretária dele tinha outras coisas para fazer, por isso ele continuava sem meias novas.

       - Não gosto, só não quero casar-me para poder ter meias decentes. Isso é um preço demasiado elevado para pagar por meias sem buracos - retorquiu ele. Estavam sentados no sofá a conversar com a televisão como barulho de fundo.

       - Ai, é? Por quê?

       - Não sei. Tu conheces-me. Tenho medo de me sentir preso. Tenho medo de ir perder alguma coisa, ou de que alguém exija demasiado de mim. Que exija uma parte de mim que eu não quero dar. - Sempre tivera medo disso. Fora por essa razão que não casara com Kate. Mas agora já não tinha medo dela. Por uma razão desconhecida, finalmente confiava nela. Demorara muito, muito tempo.

       - Ninguém pode tirar-te o que não queres dar - observou Kate.

       - Podem tentar. Acho que tenho medo de me perder no processo. - Isso quase acontecera com Kate. Ela levara um grande pedaço dele consigo, embora ele suspeitasse que ela o desconhecesse. E naquele momento ele queria reclamá-lo, e a ela.

       - És demasiado grande para te perderes, Joe. Acho que não tens idéia do teu tamanho. És enorme. - Era o maior homem que ela já conhecera. Tinha um espírito enorme e uma mente brilhante.

       - Penso sempre que sou invisível, ou que quero ser - confessou Joe, parecendo uma criança.

       - Acho que ninguém consegue ver-se como realmente é. No teu caso, tens muitos motivos de orgulho. - Era estranho estar ali sentada com ele. Se alguém lhe tivesse dito no mês anterior que isso iria acontecer, ela não teria acreditado, mas estava a gostar da companhia dele e eram de novo amigos. Isso era bastante reconfortante. Para ambos.

       - Há muita coisa de que não me orgulho, Kate - confessou ele. Ela sentiu-se sensibilizada. Sempre adorara aquela metade dele, e sabia que sempre adoraria, embora odiasse a outra metade, a que a fizera sofrer tanto quando partira. - Não me orgulho da forma como te tratei - continuou, e ela ficou surpreendida ao ouvir aquilo. - Fui péssimo para ti antes de te ires embora. Obriguei-te a trabalhar muito, usei-te, não pensei em ti, apenas em mim. Mas tu assustaste-me imenso. Amavas-me tanto que me senti pouco merecedor e culpado. Encurralado, acho. Só queria fugir e esconder-me. Fizeste bem em vir-te embora, Kate. Quase morri quando vieste, mas não te culpo. Foi por isso que nunca te telefonei, por muito que o tivesse querido fazer. Foi bom vires-te embora. Ali não havia nada para ti. Não podia dar-te aquilo de que precisavas. Não compreendi a sorte que tinha. Levei algum tempo a acalmar e a perceber isso. - E nessa altura havia muito que ela partira.

       - É simpático da tua parte dizeres isso - comentou Kate com generosidade, mas a relação nunca teria resultado. - Agora compreendo isso.

       - Porque não? - perguntou Joe franzindo o sobrolho. Nada o animava mais do que um desafio.

       - Porque era isto que eu queria - disse ela abarcando com um gesto o apartamento e o quarto do filho. - Um marido, um filho, uma vida normal. Tu precisavas de muito mais, precisavas de poder e de êxito, de excitação e de aviões, e estás disposto a sacrificar tudo por isso, até pessoas. Eu não. Era isto que eu queria.

       - Podíamos ter tido isso, e mais, se tivesses esperado.

       - Não foi isso que disseste na altura.

       - Era o momento errado para mim, Kate. Estava a montar um negócio. Não conseguia pensar em mais nada. - Era verdade, mas ela sabia que a aversão dele ao casamento, às crianças e à responsabilidade era mais intensa do que admitia. Kate vira isso. Conhecia-o melhor do que ele se conhecia a si próprio. Joe sentira-se demasiado aterrorizado para deixá-la entrar.

       - E agora? - perguntou ela com cepticismo. - Estás desejoso de ter uma mulher e uma mão-cheia de filhos. - Sorriu. - Não me parece. Acho que tinhas razão. Irias detestar. - Kate estava convicta do que dizia

       - Depende de quem for a mulher. Mas não, não ando à procura. Encontrei a mulher certa há muito tempo, e fui suficientemente idiota para a perder. - Eram palavras simpáticas, mas deixaram Kate pouco à vontade. Não valia a pena falar daquilo agora, nem ela queria. Mas ele continuou determinado. - Estou a falar a sério, Kate Fui um idiota, e quero que saibas isso.

       - Oh, eu sabia! - respondeu ela com uma gargalhada - Só não pensei que tu sabias. - Depois ficou mais séria - Agradeço que me tenhas contado o que sentiste, Joe. As coisas seguem o rumo que têm de seguir.

       - Isso é uma treta, - exclamou. - Seguem um certo rumo porque nós estragamos tudo, ou temos medo, ou somos estúpidos, ou simplesmente cegos. É preciso muita inteligência e muita coragem para fazer as coisas certas, Kate, e nem toda a gente o consegue. Às vezes levamos algum tempo a perceber e então é tarde de mais. Mas temos de remediar a situação se pudermos. Não podemos ficar parados e deixar as coisas estragadas, e dizer que seguiram o rumo que tinham de seguir. Só os idiotas fazem isso. - E sabiam ambos que ele não era idiota.

       - Não se podem mudar algumas coisas - respondeu ela calmamente. Compreendia o que ele dizia, mas não sabia se lhe agradava. Não valia a pena falarem do passado.

       - Não me deste tempo suficiente - queixou-se ele, olhando para os olhos de Kate que eram da cor dos dele. Pareciam a imagem no espelho um do outro. Kate e Joe eram tão parecidos numas coisas, e tão diametralmente opostos noutras. E era tudo tão perfeito quando funcionava.

       - Depois de te deixar, esperei dois anos para casar - afirmou ela. - Tiveste todo o tempo do mundo para mudar de opinião e vir buscar-me. E não o fizeste.

       - Estava furioso. Tinha medo. Andava muito atarefado. Ainda não tinha percebido. Mas agora já percebi - declarou, e ela sentiu o coração dar um salto quando viu a expressão dos olhos dele. Joe queria aquilo que haviam tido antes, mas que agora pertencia a outra pessoa. Era-lhe difícil aceitar isso. Queria sempre aquilo que não podia ter. - Olha, Kate, eu percebi. Tenho uma vida excelente, construí uma empresa sólida, mas nada disso tem significado para mim sem ti.

       - Joe, é melhor não falarmos mais disto. Não vale a pena.

       - Vale sim, Kate - disse ele, olhando-a nos olhos. - Amo-te. - E antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, ele beijou-a e abraçou-a. Kate sentiu que vogava para outro mundo com ele, que pairava no espaço, e momentos depois aterrou abruptamente quando o repeliu.

       - Joe, tens de te ir embora.

       - Não vou até me convenceres. Ainda me amas? Tinha de saber.

       - Amo o meu marido - respondeu ela, desviando a cara para ele não poder ver-lhe os olhos.

       - Não foi isso que te perguntei - insistiu, olhando-a finalmente nos olhos. - Perguntei se ainda me amavas.

       - Sempre te amei - respondeu com sinceridade. - Mas não está certo. E agora é impossível. Estou casada com outra pessoa. - Parecia estar a sofrer enquanto falava com ele. Não quisera que aquilo acontecesse. Convencera-se de que podiam ser amigos.

       - Como é que podes amar-me e estar casada com o Andy? - perguntou Joe, bastante perturbado.

       - Porque não pensei que me amasses, não querias casar... - pensara no assunto cem, mil um milhão de vezes. E era tarde demais.

       - Então casaste com o primeiro tipo que apareceu?

       - É cruel da tua parte dizeres isso. Esperei dois anos.

       Bom, eu levei mais do que isso a perceber. - Parecia uma criança, mas independentemente do que dissesse, não importava. O que importava era o que ela sentira quando ele a beijara, o que vira nos olhos dele quando ele a olhara, e o que ela sentira no seu íntimo. Continuava apaixonada por ele e continuaria para sempre. Parecia que tinha sido condenada a prisão perpétua, e não havia nada que pudesse fazer.

       - Não posso fazer isto ao Andy. Ele é o meu marido. Temos um filho. - Levantou-se com uma expressão infeliz

       - Já não importa o que aconteceu, o que dissemos ou fizemos e por que. Fizemo-lo, dissemo-lo. Eu fui-me embora e tu quiseste que eu fosse. Se não quisesses, tinhas-me impedido, tinhas-me implorado para regressar. Foi a única coisa que quis durante dois longos anos, que tu me quisesses de volta. Andavas demasiado ocupado com os teus aviões para te preocupares com isso. E eu tinha demasiado medo para arriscar ser engolida. E a verdade é que ainda te amo. Sempre amarei. Mas é demasiado tarde para nós. Sou casada com outra pessoa. Tenho de respeitar isso, mesmo que tu não respeites.

       Olhou-o com uma expressão infeliz e levantou-se. - Tens de te ir embora. Não posso fazer isto a mim própria nem ao Andy. Ele não o merece e eu também não.

       - Estás a castigar-me porque não quis casar contigo - disse ele levantando-se, e olhando-a arrependido.

       - Estou a castigar-me porque sou casada com um homem que merece uma mulher verdadeira, não alguém que sempre esteve apaixonada por outro. Isso não está certo, Joe. Temos de nos esquecer. Não sei como o fazer, e Deus sabe o quanto tentei. Mas juro que o farei, nem que isso me mate. Não posso estar casada com ele e apaixonada por ti o resto da minha vida.

       - Então deixa-o.

       - Amo-o, não faria uma coisa dessas. Acabamos de ter um filho.

       - Quero-te de volta, Kate. - Disse-o como um homem habituado a conseguir o que queria, sem se contentar com menos.

       - Por quê? Porque sou casada com outro? Por que agora? Não sou um brinquedo, ou um avião, ou uma empresa que te pertença ou que queiras comprar. Esperei dois malditos anos enquanto todos diziam que estavas morto algures na Alemanha. Estive sempre à tua espera. Não passava de uma miúda e não fui capaz de olhar para mais ninguém. E sofri durante um ano há três anos depois de me teres dito que nunca irias querer casar. Por que agora? - perguntou Kate a chorar

       - Não sei. Só sei que fazes parte de mim. Não quero viver o resto da minha vida sem ti, Kate. Chegamos longe de mais. Conhecemo-nos há dez anos e estamos apaixonados há nove.

       - E depois? Devias ter pensado nisso antes. É demasiado tarde.

       - Isso é ridículo. Não o amas. É isso que queres para o resto da tua vida?

       - Sim! - exclamou ela com firmeza, quando o bebê começou a chorar. - Tens de te ir embora, Joe implorou ela a chorar. Tenho de dar de mamar ao bebê.

       - Não tens de estar calma para o fazer?

       - Sim, mas é um pouco tarde para isso. - Ele aproximou-se dela e limpou-lhe as lágrimas. Não faças isso... por favor... - pediu ela chorando ainda mais. Joe abraçou-a. Ela só queria estar com ele e não podia. Era uma partida cruel do destino ele querê-la de volta. Não podia abandonar Andy e levar o filho, por muito que amasse Joe. Também amava Andy, mas de maneira diferente.

       - Desculpa... não devia ter cá vindo esta noite. - Sentia-se cheio de remorsos por tê-la posto naquele estado.

       - A culpa não é tua - admitiu ela, limpando os olhos. - Eu também queria ver-te. Foi tão bom ter-te encontrado no outro dia, e ter estado contigo... Oh, Joe... o que vamos fazer? - perguntou ela abraçando-o. - Estavam perdidos, e muito apaixonados.

       - Não sei, havemos de pensar em alguma coisa - disse ele, abraçando-a e beijando-a. Kate só queria estar com ele. Afastou-o então para ir buscar o bebê e deitou-o no sofá entre ambos. Era um bebê bonito e Joe olhou para ele em silêncio e depois para Kate. - Vai correr tudo bem, Kate. Talvez possamos ver-nos de vez em quando.

       - E depois? Vamos sempre desejar estar juntos. Isso não é vida.

       - É tudo o que temos por agora. Talvez seja suficiente.

       Mas Kate sabia que não o seria por muito tempo. Haviam sempre de querer mais do que momentos roubados e de saber que se amavam e não podiam estar juntos. Parecia a Kate uma vida de tortura. Joe olhou então para ela. Viu-a atormentada e infeliz.

       - Queres que me vá embora ou que espere até lhe teres dado de mamar?

       Ela sabia que ele devia ir-se embora, mas não queria que partisse. Não sabia quando nem se voltaria a vê-lo.

       - Se quiseres podes esperar.

       Foi para o outro quarto enquanto ele ficava a ver televisão, e quando voltou Joe tinha adormecido no sofá. Tivera um dia longo e a noite fora bastante emotiva para ambos. Kate estava mais calma depois de ter dado peito a Reed, e este dormia profundamente no berço.

       Kate sentou-se e observou Joe durante algum tempo, tocou-lhe no cabelo e afagou-lhe a cara. Era tudo tão familiar. Ele pertencera-lhe durante tantos anos, e ela a ele. Tinham tanta história em comum; isso era um elo muito forte. Ficou em silêncio a observá-lo durante bastante tempo até que ele acordou.

       - Amo-te, Kate - murmurou ele, e ela sorriu.

       - Não amas, não. Eu não deixo - respondeu ela também num murmúrio, e ele beijou-a. Deitaram-se no sofá e beijaram-se durante muito tempo. Era uma situação impossível com um homem impossível. - Tens de te ir embora - sussurrou ela. Ele assentiu, mas não se mexeu dali, e beijou-a uma e outra vez. Passado algum tempo, ela já não queria saber se ele se ia embora ou não, queria que ele ficasse. Desejou não o ter abandonado, não queria magoar Andy nem o filho... não queria que nada daquilo acontecesse, mas a força que os unia era mais forte do que eles. Joe pegou-a ao colo e deitou-a na cama. Sabia que devia dizer-lhe para se ir embora, mas não foi capaz. Em vez disso, deixou-o despi-la tal como fizera muitas vezes. Joe despiu-se também. Fizeram amor com todo o desejo que os atormentara durante três anos e depois caíram num sono profundo e tranqüilo nos braços um do outro.

      

      

       Quando Kate acordou na manhã seguinte sorriu ao sentir Andy ao seu lado e virou-se para ele. Quando o fez viu Joe. Não fora um sonho nem um pesadelo. Fora o culminar de todos os anos que ela o amara, e dos três anos em que haviam estado separados. Kate não sabia o que fazer a seguir. Tinham de se esquecer um ao outro, disse a si mesma, enquanto o via começar a mexer-se. O bebê continuava a dormir.

       Joe acordou pouco depois, e quando a viu, sorriu.

       - Estarei a sonhar? Ou terei morrido e ido para o céu a noite passada? - Tudo era simples para ele. Não era casado e não corria o risco de destruir a vida de outra pessoa, exceto a dela e a sua. Isso bastava.

       - Pareces horrivelmente feliz - acusou ela, aninhando-se junto dele. Os momentos que passavam na cama de manhã, aninhados um no outro a falar, fora sempre a sua parte preferida do dia. Não deves ter um pingo de consciência.

       - Pois não - confirmou ele. Sorriu e beijou-lhe a nuca. Há muito que não era tão feliz; naquele momento tudo estava bem no mundo. - O bebê está bem? Ainda deve estar a dormir?

       - Ele está ótimo. Costuma dormir até tarde - disse ela, sensibilizada com a preocupação dele.

       Joe começou a beijá-la de novo e aproveitaram o fato de Reed continuar a dormir para tornarem a fazer amor. Parecia tudo um sonho. Era como se ele nunca se tivesse afastado, só que tinham ambos amadurecido nos últimos três anos e ela era casada e tinha um filho. Mas aquilo que partilhara na cama com Joe, e em toda a parte, nunca partilhara com nenhum outro homem. Os sentimentos que nutriam um pelo outro eram demasiado fortes para poderem ser compreendidos. Pareciam uma espécie de atração primitiva. Tinham de estar juntos. Eram tão diferentes, tão distintos, cada um tão único e, contudo, também eram um só. Não eram necessárias explicações, e apenas poucas palavras. Durante a maior parte do tempo, nem uma palavra era necessária. As palavras eram apenas a desculpa externa daquilo que sentiam. As desculpas que pediam. As promessas que já não conseguiam manter. As palavras não importavam minimamente. Era o resto que os unia à alma um do outro.

       O bebê acordou finalmente com um grito saudável. Kate deu-lhe de mamar enquanto Joe tomava uma ducha, e depois preparou o pequeno-almoço para ambos. Ele queria demorar-se a tomá-lo com ela, e riu-se quando o bebê lhe sorriu da sua cadeirinha. Por fim, Joe disse que infelizmente tinha uma reunião nessa manhã e que precisava de ir andando. Teria adorado passar o dia com eles.

       - Podes almoçar? - perguntou ele a Kate quando se levantou e vestiu o casaco.

       - O que vamos fazer, Joe? - retorquiu ela com uma expressão preocupada. Ainda estavam a tempo de parar. Podia ser uma vez, um momento por que ela podia penar durante o resto da vida. Ainda era suficientemente cedo para poderem parar antes de destruírem tudo e toda a gente. Kate tinha muito mais a perder do que ele. Cabia-lhe a ela parar, sabia-o, mas não suportava perdê-lo de novo. No seu íntimo sabia que era tarde demais.

       - Acho que estamos a fazer o melhor que sabemos, Kate. Nada mais podemos fazer. Com o tempo há-de ocorrer-nos alguma coisa. - Possuía um jeito especial de não ver os abismos que tinha pela frente, exceto quando construía aviões.

       - Isso é perigoso - disse ela enquanto ajeitava as lapelas do casaco de Joe. Adorara o aspecto dele, a sua altura, o seu rosto cinzelado, a covinha no queixo, os ombros largos muito masculinos, os olhos que a seguiam por todo o lado, as pernas compridas. Estava embriagada com ele. Joe era o seu sonho, sempre fora, desde os seus dezessete anos. Era uma força demasiado grande para poder ser combatida. Para Joe era a mesma coisa. Ficara hipnotizado com ela desde a primeira vez que a vira, e pairara na sua direção como uma traça para a luz.

       - A vida é perigosa, Kate - disse ele calmamente, sorrindo-lhe e beijando-a. Não conseguia saciar-se dela, nem ela dele. Talvez não valha a pena se assim não for. É preciso pagar um preço elevado pelas coisas que valem a pena. Nunca tive medo de pagar por aquilo que desejo, ou em que acredito. No entanto, daquela vez estavam a pagar também com as vidas de outras pessoas. - Queres encontrar-te comigo ao almoço?

       Ela hesitou e depois assentiu. Queria estar com ele o máximo de tempo possível. Sabia que não tinha alternativa.

       - Eu arranjo uma ama. Onde queres encontrar-te comigo?

       Ele sugeriu o Lê Pavilion, que fora sempre um dos locais preferidos dela, e combinaram encontrar-se ao meio-dia. Depois de ele se ter ido embora, Kate deu novamente de mamar ao bebê e sentou-se em silêncio no sofá. Havia fotografias dela e de Andy por toda a sala, e uma fotografia grande tirada no casamento. Estar com Joe novamente fazia Andy parecer um sonho distante. Sabia que o amava, recordou a si mesma, ele era seu marido. Mas Andy sempre parecera um rapaz quando comparado com o homem que Joe já era. Havia algo em Joe que a inebriava de cada vez que o via. Ele tinha razão, era perigoso, mas nesse preciso momento Kate soube que era demasiado tarde para voltar atrás e os riscos mereciam ser corridos pela felicidade que partilhavam.

       Deitou o bebê no berço e telefonou à ama. Ao meio-dia, encontrou-se com Joe no Le Pavilion. Levava um vestido de seda verde-pálido, com um alfinete de peito de esmeraldas que a mãe lhe dera havia alguns anos. Estava linda e com um ar delicado e o vestido contrastava espetacularmente com o seu cabelo vermelho-escuro. Joe estava sentado a olhar para ela, tal como estivera dez anos antes. Havia um certo perigo em exporem-se tanto em público, mas tinham falado do assunto e decidido que almoçar abertamente pareceria menos suspeito se alguém os visse do que se parecessem estar a esconder-se.

       - Não és o Joe Allbright? - murmurou ela sentando-se ao lado dele.

       Joe sorriu. Adorava o aspecto dela, a forma como se movia, o seu cheiro, a forma como atravessava uma sala, totalmente inconsciente da sua beleza. Juntos formavam um casal extraordinário. Contrastavam bastante, mas ficavam muito bem juntos, sempre tinham ficado. Fazia parte da magia que exsudavam e partilhavam

       - Queres ir voar este fim-de-semana, - perguntou ele ao almoço. Kate sempre adorara os aviões dele, e havia três anos que não voava. Ele disse-lhe que tinha um modelo pequeno muito engraçado que lhe fora entregue no dia anterior. - Vais adorar, Kate - disse Joe com um sorriso, parecendo mais do que nunca um rapaz bonito

       - Claro. - Kate não tinha mais nada para fazer. Estava livre durante os três meses e meio seguintes e, independentemente do que acontecesse a seguir, apercebeu-se de que aquele tempo lhes pertencia. Não valia a pena lutar. Abandonara-se ao destino. Os laços que os uniam não podiam ser cortados. Pelo menos ainda não.

       Demoraram-se bastante tempo ao almoço, tendo sido muito circunspectos, e em seguida ele regressou ao trabalho e ela a casa. Iria levar Reed ao parque e encontrou uma carta de Andy quando chegou a casa. Era divertida e terna, e ele sentia tantas saudades que lhe despedaçou o coração. Ficou sentada durante bastante tempo com a carta na mão, a chorar. Nunca se sentira tão culpada e sabia que o que estava a fazer era errado, mas não podia parar. Por muito que gostasse de Andy, precisava de estar com Joe

       Estava muito calada nessa noite quando Joe voltou. Ele tivera um dia muito ocupado no escritório e sentia-se exausto. Ela preparou-lhe um uísque com soda e depois serviu-se de um copo de vinho. O bebê já estava a dormir.

       - Hoje recebi uma carta do Andy. Sinto-me péssima, Joe. Se ele descobrir, vai ficar destroçado. Provavelmente divorcia-se de mim - disse ela, deprimida.

       - Ótimo. Nessa altura eu caso contigo. - Pensara nisso durante todo o dia e estava quase decidido. Mas quisera ponderar um pouco mais no assunto antes de falar com ela.

       - Estás a dizer isso só porque eu sou casada com outro. Se eu fosse livre, fugias a sete pés - comentou ela com um sorriso

       - Experimenta.

       - Não posso.

       - Não falemos disso. Vamos é aproveitar o tempo que temos - respondeu ele calmamente.

       E foi precisamente isso que fizeram.

       Durante o mês seguinte almoçaram várias vezes por semana, jantaram juntos todas as noites, em casa e fora, foram voar aos fins-de-semana, foram ao cinema, conversaram, fizeram amor, riram-se e isolaram-se no seu pequeno mundo. Joe até brincava com o bebê quando chegava a casa e ficou animadíssimo quando descobriu o primeiro dente de Reed. Pareciam uma família perfeita e que Andy não existia. As visitas semanais da sogra, às terças, eram a única coisa que faziam Kate lembrar-se dele, mas ela tinha o cuidado de ocultar todos os vestígios da presença de Joe lá em casa. E sempre que saíam, eram suficientemente discretos, de forma a que quem os visse julgasse que eram amigos e não namorados. Mas sentiam-se como marido e mulher. Eram um casal inseparável.

       Ela escrevia a Andy quase todos os dias, mas as cartas eram estranhas. Só esperava que ele não reparasse. Essencialmente falavam de Reed, e diziam pouco a seu respeito. Parecia o melhor. E o que ele lhe contara sobre os julgamentos era fascinante. Mas também lhe dissera que tinha muitas saudades dela, que a amava e que estava ansioso por voltar para junto de Reed e dela. Cada carta era como uma punhalada no coração de Kate. Não tinha idéia do que fazer, e ela e Joe combinaram não decidir nada até ao outono.

       Em agosto prometera aos pais passar uma semana com eles em Cape Cod, mas detestava ser obrigada a abandonar Joe. Tinham tão pouco tempo. Já estavam a meio dos quatro meses de ausência de Andy. No entanto, Kate sabia que se não fosse para Cape com o bebê os pais saberiam que algo estava mal e podiam ir a Nova Iorque, descobrindo Joe a viver com ela. Ele mudara-se no final de julho. Por isso decidira que era melhor ir. Joe disse que andaria muito ocupado enquanto estivesse fora, e combinaram que ela lhe telefonaria. A mãe de Kate reconheceria a voz de Joe se ele ligasse. Era estranho estarem com tantos subterfúgios e não se orgulhavam disso, mas não lhes restava alternativa. Se aquilo era o que queriam, o que achavam que deviam ter, tinham de seguir as regras possíveis.

       Estava em Cape há cinco dias, e chegara a noite do churrasco anual. Kate deixou Reed com uma ama e foi a casa dos vizinhos com os pais. Estava animada, faltavam apenas dois dias para voltar a ver Joe. Sentia-se impaciente.

       Estava a beber um copo no terraço sobre as dunas quando se virou e o viu entrar. Felizmente, fez um ar adequadamente surpreendido. Aliás, ficou perplexa. Joe quisera surpreendê-la e fora visitar os amigos, pelo que ia ao churrasco com eles. Os anfitriões ficaram satisfeitos por voltarem a vê-lo. Joe Allbright não era um homem fácil de esquecer. Joe avançava lentamente pelo terraço, dando apertos de mão e cumprimentando pessoas, quando a mãe de Kate o viu.

       - O que está ele aqui a fazer? - perguntou a Kate.

       - Não faço idéia - respondeu Kate, virando-se para que a mãe não lhe visse o rosto. Achava que Joe fora imprudente ao ter vindo. Era tentar o destino e não sabia se se sairiam bem.

       - Sabias que ele vinha? - A inquisição começara.

       Clarke atravessou o terraço para apertar a mão a Joe. Estava feliz por vê-lo, apesar do que acontecera entre ele e Kate. Aquilo já ficara para trás, ela casara com outro. O passado era o passado, pensava Clarke.

       - Porque é que eu havia de saber que ele vinha, mãe? Ele tem amigos cá. Já cá esteve antes.

       - Mas acho estranho. Já cá não vem há três anos. Talvez quisesse ver-te.

       - Duvido. - Kate estava de costas para ele mas quase o sentia aproximar-se, e pressentia a mãe a observá-los. Só esperava que não se traíssem, embora não confiasse especialmente no seu comportamento. A mãe conhecia-a demasiado bem

       Joe chegou finalmente junto dela, e cumprimentou educadamente Liz, que lhe apertou a mão com relutância e lhe lançou um olhar gelado.

       - Olá, Joe - cumprimentou com frieza.

       - Olá, Mistress Jamison. Muito prazer em vê-la. - Ela não respondeu e ele virou-se então para Kate. Os seus olhares cruzaram-se e Kate manteve uma rédea de ferro em si enquanto o cumprimentava. - Que bom voltar a ver-te, Kate. Ouvi dizer que tens um bebê. Parabéns.

       - Obrigada - respondeu ela calmamente e afastou-se para falar com outra pessoa. Sabia que a mãe ficaria aliviada e, com esperança, não pressentiria nada. Kate murmurou isso a Joe quando ficou ao lado dele na praia, mais tarde. Encontravam-se a assar salsichas e as dela já estavam queimadas. Só estava interessada em falar com ele. - Foi uma loucura teres vindo até aqui. Se eles descobrirem, dá-lhes um chilique.

       - Tive saudades tuas. Quis ver-te - disse, parecendo sincero e arrapazado.

       - Volto para casa daqui a dois dias - sussurrou, com vontade de o beijar e abraçar, e de sentir os braços dele à sua volta. Mas não ousou sequer olhar para ele.

       - A tua salsicha está a transformar-se em cinza - murmurou. Ela riu-se, e os seus olhares cruzaram-se por um instante. E quando ela se virou viu a mãe a observá-los.

       - Ela odeia-me - comentou Joe, enquanto dava um prato a Kate. Não era totalmente descabido que falassem um com o outro, mas era evidente que a mãe dela não aprovava. Parecia que o queria ver morto, ou pelo menos afastado de Kate o mais possível.

       No fim, os pais dela foram-se embora cedo porque Liz estava com dores de cabeça, e ela e Joe foram dar uma volta pela praia, como tinham feito anos antes. Tinham história entre eles, muita. Dez anos era muito tempo, e contava bastante. Para eles, pelo menos. Como nunca se tinham casado, para Liz o que sentiam um pelo outro não tivera importância. Na sua opinião, tinham sido anos desperdiçados, e dissera-o várias vezes a Kate. Esta não era da mesma opinião. Tinham sido os melhores anos da sua vida.

       Era agradável afastarem-se e caminharem na areia ao luar. Deitaram-se lado a lado na praia, lá bem longe, beijaram-se e regressaram de mãos dadas. Largaram-se muito antes de chegarem à casa e em seguida foram bastante circunspectos. Kate saiu da festa antes dele. Quando chegou a casa, os pais já estavam na cama e Reed dormia profundamente. Kate deitou-se e ficou a pensar em Joe. Divertiam-se tanto juntos e tinham uma boa vida. Cada uma das coisas que haviam desejado acontecera, o bebê dela, o êxito dele, mas parecia não haver forma de unirem as suas vidas, e se o tentassem fazer alguém sairia magoado. Parecia um quebra-cabeças chinês, ou um labirinto, embora naquele caso Kate soubesse que não havia saída

       Levantou-se cedo com o bebê. A mãe já estava na cozinha quando Kate desceu as escadas tentando não fazer barulho, o que era difícil com Reed. Ele arrulhava, palrava, ria-se e guinchava, e ela fechou a porta da cozinha silenciosamente, viu então a mãe sentada à mesa da cozinha, a ler o jornal local e a beber uma xícara de chá.

       Liz não levantou os olhos ao dirigir-lhe a palavra enquanto Kate sentava o bebê na cadeirinha.

       - Sabias que ele vinha ontem à noite, não sabias? - perguntou num tom de acusação, olhando finalmente para ela

       - Não, não sabia - respondeu Kate com sinceridade. - Não fazia a mínima idéia.

       - Há qualquer coisa entre vocês dois, Kate, sinto-o. Nunca vi duas pessoas tão atraídas uma pela outra. Pressente-se isso mesmo quando vocês estão do outro lado de uma sala. - Fora por isso que Kate nunca conseguira esquecê-lo, nem ele a ela. - Parece quase um fascínio animal. Vocês não conseguem largar-se.

       - Mal falei com ele ontem à noite - respondeu Kate dando um pedaço de banana ao filho, que a colocou na boca.

       - Não precisas de falar com ele, Kate. Ele sente-te, tal como tu o sentes. Ele é um homem perigoso. Não o deixes aproximar de ti. Destruirá a tua vida. - Mas já era demasiado tarde. - Foi grosseiro da parte dele ter cá vindo. Fê-lo porque sabia que cá estavas. Admira-me que tenha tido a lata embora já nada me surpreenda - disse ela irritada. Continuava a achar que Joe era uma ameaça, especialmente com Andy fora. E tinha razão.

       - A mim também não, - disse Clarke alegremente ao entrar na cozinha. Beijou o bebê e olhou para a mulher. Percebeu que ela e Kate tinham estado a discutir, mas não fazia idéia sobre o quê, nem tentou adivinhar. Preferia manter-se fora das discussões delas. - Foi agradável ver o Joe ontem à noite. Tenho lido umas coisas sobre a companhia aérea dele, vai ser um enorme êxito, aliás, já o é. Ele diz que vão abrir escritórios na Europa. Quem teria pensado há cinco anos que isto iria acontecer? - perguntou ele impressionado, enquanto a mulher punha a xícara no lava-louça.

       - Foi grosseiro da parte dele ter vindo - comentou ela, e Clarke ficou surpreendido.

       - Por quê?

       - Sabia que ia ver a Kate. Ela é uma mulher casada, Clarke. Ele não devia vir atrás dela até Cape Cod, nem até qualquer outro lado. - Nem devia estar a viver consigo, pensou Kate. A mãe teria mandado interná-la se soubesse. Talvez devesse fazê-lo. - Ele sabe isso. Só o fez para a obrigar a suportá-lo.

       - Não sejas tola, Liz. Águas passadas não movem moinhos. Isso foi há anos. A Kate está casada e ele deve ter alguém. O Joe é casado, Kate?

       - Acho que não, pai. Não sei mesmo.

       - Vi-o falar contigo na praia - acusou a mãe.

       - Não há mal nenhum nisso - interveio Clarke. - Ele é um bom homem.

       - Se fosse, teria casado com a tua filha em vez de a ter feito esperar dois anos por ele durante a guerra e de a ter usado durante outros dois depois de ter voltado - ripostou ela. - Graças a Deus a Kate ganhou juízo e casou com outra pessoa. É uma pena o Andy não ter cá estado ontem à noite.

       - Pois é - disse Kate baixinho, mas a mãe viu algo nos olhos dela de que não gostou. Havia ali algo reservado e escondido, como se ela ocultasse um grande segredo, e tudo indicava que era sobre Joe.

       - És uma idiota se tiveres alguma coisa com o Joe, Kate. Ele vai voltar a usar-te e tu vais destroçar o coração do Andy. O Joe nunca irá casar-se. Fixa as minhas palavras. - Já o tinha dito anteriormente, e até ali tivera razão. Mas Kate também sabia que Joe queria casar consigo agora, pelo menos era o que ele dizia, embora fosse mais fácil dizê-lo agora que ela era casada com outro. Passado algum tempo, Kate pegou no bebê e foi sentar-se no alpendre ao sol. Quando levantou a cabeça, viu um avião fazer loopings no céu. Era fácil adivinhar quem era. Joe era criançola, mas fazia-a sorrir.

       O pai saiu de casa para ver a causa do barulho, e sorriu.

       - É um aviãozinho bonito - comentou, ainda a olhar para o céu

       - É o último projeto dele - disse Kate antes de conseguir conter-se, e o pai olhou para ela.

       - Como é que sabes, Kate? - No seu tom não havia acusação, apenas preocupação.

       - Ele disse-me ontem à noite

       Clarke sentou-se ao lado dela e fez-lhe uma festa na mão.

       - Lamento que as coisas não tenham resultado, Kate. Às vezes acontece. - Sabia o quanto ela o amara e o que sofrera quando tinham rompido. - Mas a tua mãe tem razão. Não seria correto se voltasses a envolver-te com ele. Estava preocupado com ela; Kate parecia tão triste.

       - Não me vou envolver, pai. - Detestava mentir-lhe, mas não tinha alternativa. Sabia que o que ela e Joe andavam a fazer era errado, mas parecia impossível deixá-lo escapar. Não havia outro homem no mundo que a fizesse sentir aquilo, na cama e fora dela. Parecia que ele a completava, tal como ela o completava. Cada um dispunha das peças que faltavam ao outro para ficar completo. Não tinha idéia do que iria fazer quando Andy voltasse para casa, mas pelo menos ainda faltavam dois meses. Ela e Joe tinham tempo para pensar no que iriam fazer nessa altura.

       Joe continuava a voar, a fazer loopings e rotações, e fez uma redução de velocidade assustadora que levou Kate a tapar a boca com a mão. Tinha a certeza de que ele iria despenhar-se. O pai observava-a. A coisa era pior do que ele julgara e começou a pensar se Liz não teria razão e de fato se passava algo. Mas não quis perguntar nada a Kate. Ela era adulta e ele achou que não devia bisbilhotar.

       Kate regressou a Nova Iorque no dia seguinte e Joe telefonou-lhe assim que ela chegou a casa. Ela repreendeu-o pela redução de velocidade que a aterrorizara e ele riu-se. Sabia que não correra perigo. Nunca corria.

       - É mais perigoso atravessar a rua em Nova Iorque, Kate. Sabes isso. - Achava graça ela ter ficado preocupada. - Os teus pais fizeram-te passar um mau bocado? - Calculava que sim, depois de o terem visto no churrasco, e tinha razão.

       - Só a minha mãe. Acha que se passa qualquer coisa.

       - Muito perspicaz - comentou ele, admirado. - Disseste-lhes alguma coisa?

       - Claro que não. Eles ficariam horrorizados. E quando penso nisso, acho que também eu estou horrorizada. - Meditara no assunto durante a viagem. Joe não gostou do tom dela. Kate sentia-se cheia de remorsos, Andy estava tão inocente naquilo tudo. Não fazia idéia do que acontecia naquele momento em sua casa. Joe sentia que tinha direito a fazê-lo, porque a conhecia há mais tempo. Mas fora Andy quem casara com ela no ano anterior, e lhe dera um filho. E era Joe quem tinha o coração dela, que sempre tivera.

       - Ainda posso voltar para casa esta noite, Kate? - perguntou ele com tanta humildade que ela ficou sensibilizada. Por muitos remorsos que sentisse, não conseguia dizer-lhe que não.

       Joe chegou hora e meia mais tarde e, como sempre, correram para a cama. O desejo que tinham um pelo outro era como uma onda gigante, varria tudo ao passar e deixava-os ofegantes. Uma semana sem se verem fora demasiado tempo.

       Setembro passou a correr após o Dia do Trabalho. Joe teve de ir à Califórnia durante uns dias e em seguida foi ao Nevada para um vôo de ensaio. Convidou Kate a acompanhá-lo, mas ela achou que não devia aceitar. Não poderia explicá-lo a Andy se ele telefonasse. Ele ligara apenas uma ou duas vezes durante aqueles dois primeiros meses, não pudera ligar mais vezes, mas escrevia-lhe todos os dias.

       No fim de setembro, Kate e Joe já viviam juntos há dois meses. Começava a parecer uma situação normal e agradável, como se fossem casados. Ele estava tão descontraído uma noite, quando a mãe dela telefonou, que quase atendeu o telefone. Kate arrancou-lhe o auscultador antes que ele tivesse tempo de falar, e ficaram ambos perplexos quando perceberam o que ele quase fizera.

       Ela ia voar com ele quase todos os fins-de-semana, acompanhava-o à fábrica, ele pedia-lhe a opinião e ela dava-lhe conselhos. Os colegas de Joe haviam começado a considerá-la esposa dele. Mas, extraordinariamente, nunca tinham encontrado ninguém conhecido nos restaurantes, no cinema nem na rua. Grande parte dessa boa sorte devia-se ao fato de a maior parte das pessoas que ela conhecia saírem de Nova Iorque durante o verão. Mesmo depois do Dia do Trabalho não houvera encontros com pessoas que poderiam suspeitar que ela e Joe tinham um caso. Haviam encontrado um ritmo fácil que resultava para ambos. E então, em meados de outubro, Kate ficou de rastos quando Andy telefonou a dizer que ia voltar para casa. Ele disse a Kate que estava muito grato por ela ter aceitado a ausência dele sem queixas. As cartas de Kate haviam sido maravilhosas e ele estava desejoso de a voltar a ver e a Reed. As fotografias que ela enviara eram adoráveis e Andy disse que o bebê se parecia ainda mais com Kate do que antes, excetuando a cor do cabelo. Contou a Kate que os julgamentos em que participara tinham corrido bem, mas que estava ansioso por terminar o trabalho nas duas semanas seguintes e voltar para casa.

       Na noite em que ele telefonou Kate e Joe sentaram-se na cozinha durante horas a falar no assunto.

       - O que vamos fazer? - perguntou ela muito triste. Agora que tinha de enfrentar a realidade sentia-se atormentada. Alguém iria sair magoado, possivelmente todos eles, talvez até Reed. Não havia alternativa. Era necessário tomarem decisões e ela e Joe tinham chegado a uma espécie de acordo em poucos dias.

       - Quero casar contigo, Kate - disse ele. - Quero que te divorcies. Podes ir para Reno e ficar lá seis semanas. Poderíamos casar no fim do ano. - Kate não desejava mais nada dele. Mas para fazer isso agora, teria de destruir a vida de Andy. Parecia um golpe demasiado cruel, e injusto. Andy nada fizera para merecer aquele destino, e não tinha culpa que ela tivesse voltado a sucumbir aos encantos de Joe.

       - Nem sequer sei o que lhe dizer - observou, olhando para Joe, angustiada. Os pais dele iriam ficar muito abalados, e os seus também. Mas para Andy seria ainda pior. E ele nem sequer desconfiava do que estava prestes a acontecer.

       - Diz-lhe a verdade - retorquiu Joe muito prático. Era fácil para ele ser o vencedor. Só tinha de recuar e deixar que Kate desse o golpe fatal. - Que alternativa temos, Kate. Afastarmo-nos de novo? É isso que queres fazer? - Era a única opção que lhes restava, para além de continuarem com um romance clandestino, e Kate sabia que a pressão e a mentira a levariam à loucura, e Joe concordou. Queria viver e casar com ela, até queria estar com Reed, e se fossem casados estaria. - Tenho pena do Andy, mas acho que ele tem o direito de saber.

       - Estás a falar a sério quanto a casarmos, Joe? - Ainda se recordava das palavras da mãe e conhecia-o bastante bem. Joe amava a sua liberdade e os seus aviões. Mas também a amava. E tinha quase quarenta anos. Ela acreditava que ele estava finalmente disposto a assentar e a comprometer-se com ela. Kate só queria ter a certeza disso antes de pedir o divórcio a Andy. Para além de ficar devastado por perdê-la, sabia que ele ficaria destroçado por não viver com o filho.

       - Estou a falar a sério - respondeu Joe. - Está na altura, Kate.

       Para ela, teria sido há três ou quatro anos. Ou até cinco. Ele levara bastante tempo a chegar lá. E os pais dela teriam ficado mais satisfeitos se se tivessem casado antes ou durante a guerra. Mas independentemente do caminho que tivessem tomado para ali chegar, estava lá e queria que ela fizesse o que tinha a fazer. O destino estava nas suas mãos. Ele podia apenas convencê-la de que estava a falar a sério e que queria casar.

       - Digo-lhe assim que ele chegar a casa - retorquiu. Não ansiava por isso, mas tinham concordado que era algo que precisava de ser feito.

       Kate contratou uma ama e passaram um fim-de-semana numa acolhedora estalagem do Connecticut situada num local recatado. Joe já lá estivera hospedado antes e ninguém o incomodara. Parecia o esconderijo perfeito para eles. Muitas vezes, as pessoas reconheciam-nos nos locais onde iam e, aos desconhecidos, ele apresentava-a como esposa. Kate não respondeu a princípio quando a mulher da estalagem a tratou pelo nome de Joe. Apercebeu-se de que iria ser estranho desistir do nome de Andy. Há mais de um ano que se chamava Kate Scott. Já fora difícil habituar-se a não ser Jamison ao fim de vinte e seis anos. E agora iria ter outro nome. Parecia que andava num carrossel. Era ali que queria estar há muito tempo, mas agora que as coisas aconteciam pareciam estranhas.

       Joe tirou as coisas lá de casa na noite anterior à chegada de Andy, mas dormiu com ela à mesma. Os dentes do bebê estavam a nascer e ele chorou toda a noite, Kate tinha os nervos em franja e, de manhã, até Joe parecia tenso. Ela só queria pôr fim àquela situação. Iria falar com Andy nessa noite e já se convencera de que iria ser uma cena desagradável.

       Tinha a sensação de ter vivido isolada com Joe durante quatro meses. Evitara as pessoas conhecidas para poder guardar aquele segredo, e não estivera com nenhum dos novos amigos. Até ali, ninguém parecia ter descoberto o que acontecera, mas nas semanas seguintes todos iriam saber. Depois de falar com Andy, Kate ia falar com os pais e sabia que também não seria uma conversa agradável. Já ensaiara tudo mentalmente, e com Joe também. O destino deles era estarem juntos. Sempre fora. Kate só lamentava ir causar tanto sofrimento a Andy. Nunca devia ter casado com ele, pensou. Não fora justo. Mas não esperara que Joe voltasse a entrar na sua vida. Se isso não tivesse acontecido, talvez o casamento dela com Andy tivesse continuado a ser feliz. Nunca saberiam. E pelo menos assim ela tivera Reed. Embora Joe tivesse a certeza de querer Kate e Reed, não sabia se queria ter filhos seus. Haviam falado disso várias vezes e ele não estava convencido de que ter filhos melhoraria a qualidade de vida de ambos. Mas por enquanto ele bastava a Kate

       Joe saiu para o trabalho às nove da manhã e Kate iria buscar Andy ao aeroporto ao meio-dia. Disse a Joe que lhe ligaria assim que pudesse, mas não sabia se o conseguiria fazer nessa noite. Por respeito ao marido, tinha de esperar para ver como as coisas corriam. Contudo, prometeu ligar-lhe o mais tardar no dia seguinte.

       Fizeram amor nessa manhã antes de Joe se ir embora, ele beijou-a uma última vez e lançou um beijo a Reed.

       - Tenta não te afligires, querida. Sei que farás o melhor possível. É preferível agora, ao fim de um ano, do que daqui a cinco anos. É um favor que lhe fazes ao acabar com tudo já. Ele vai voltar a casar e a ter uma vida boa.

       Irritava-a o fato de Joe ser tão prático. Era fácil ser-se o vencedor. Kate tinha a certeza de que as coisas não pareceriam tão simples a Andy quando ele ouvisse a novidade.

       Kate apanhou um táxi para Idlewild às onze horas. Levava Reed consigo e envergava um vestido preto simples e um chapéu preto. Apercebeu-se de que tinha um ar um pouco fúnebre, mas achou apropriado. Não iria ser um dia muito feliz.

       Consultou o placar das chegadas ao entrar no aeroporto e viu que o vôo dele vinha a horas. Foi para junto da porta de desembarque esperar com o filho.

       Andy foi um dos primeiros passageiros a desembarcar. Parecia cansado após o vôo e quatro meses de trabalho árduo, mas sorriu assim que viu a mulher e o filho e beijou-a com tanta força que lhe fez cair o chapéu.

       - Tive tantas saudades tuas, Kate! - Tirou-lhe o filho dos braços, mal podendo acreditar no quanto ele crescera. Reed já estava prestes a fazer oito meses. Tinha oito dentes e quase conseguia agüentar-se de pé sozinho. Quando Andy o abraçou, ele estendeu os braços na direção da mãe e começou a chorar.

       - Ele já nem sequer sabe quem eu sou - observou Andy muito triste enquanto saíam do aeroporto, pondo-lhe um braço por cima dos ombros. Parecia-lhe que estivera ausente vários anos. Não só achou que o bebê não sabia quem ele era, como também que Kate parecia estranha. Ela disse que estava feliz por vê-lo, mas parecia estar de luto. Perguntou-lhe como tinham corrido as coisas na Alemanha e os julgamentos, mas quando ele tentou pegar-lhe na mão, ela afastou-a, a fim de procurar algo na mala. Não queria induzi-lo em erro.

       Foi preparar o almoço assim que chegaram a casa e depois deitou Reed. Só queria pôr fim àquela situação. Mal podia esperar. Não lhe apetecia continuar mais tempo com aquela farsa. Andy merecia-lhe mais respeito.

       - Kate, estás bem? - perguntou ele depois de ela ter deitado o filho.

       Ela tinha um ar mais velho e mais sério no vestido preto. Andy não sabia o que acontecera durante a sua ausência, mas estava certo de que fora algo grave. A atmosfera que os rodeava parecia incrivelmente tensa e Kate evitava o toque dele, os seus braços, os seus olhos.

       - Podemos sentar-nos e conversar? - perguntou ela quando entraram na sala, sentando-se no sofá. Andy ficou de frente para ela e Kate foi apenas capaz de pensar em Joe ao olhar para ele.

       Aquilo era a pior coisa que já fizera na vida a alguém. Quando deixara Joe três anos antes não fora o mesmo que deixar um homem que a amava e levar o filho dele consigo. Mas agora não havia fuga possível. Tinham de enfrentar a verdade. Fora uma idiota ao ter casado com ele e ao pensar que o amor entre ambos poderia crescer, mas as suas intenções haviam sido boas. Estava muito ligada a Andy e tinham partilhado muitos momentos felizes. Contudo, nada daquilo tinha importância sem Joe.

       - O que se passa, Kate? - perguntou Andy. Parecia perturbado, mas controlava-se muito bem. Amadurecera nos últimos quatro meses. Vira e ouvira falar de atrocidades que lhe tinham gelado o sangue. Fora impossível não amadurecer com a responsabilidade que lhe havia sido atribuída. E agora voltara a casa para algo ainda pior. Via-o nos olhos dela.

       - Andy, cometi um erro terrível - começou ela, sentada bem longe dele. Não queria aproximar-se nem pegar-lhe na mão. Desejava pôr cobro àquela situação o mais rapidamente possível, para bem de ambos.

       - Acho que não precisamos de falar disto - interrompeu ele, e Kate ficou surpreendida.

       - Precisamos sim - continuou. - Temos de falar disto. Aconteceu uma coisa enquanto estiveste fora. - Tencionava dizer-lhe que voltara a encontrar Joe e que, consequentemente, tudo se alterara. Mas Andy levantara uma mão para a calar e ela viu nos seus olhos algo que nunca vira. Era uma espécie de força e de dignidade de que o julgara incapaz, e ele arrancou-lhe das mãos o controle da situação.

       - Não preciso de saber o que aconteceu. Aliás, não quero saber. Não vais dizer-me. Não é importante. Nós é que somos importantes, e o nosso filho. Não me digas o que tens para dizer. Não vou ouvir. Vamos fechar a porta atrás de nós e continuar.

       Kate ficou tão atordoada que por momentos foi incapaz de falar.

       - Mas Andy, não podemos... - Sentia os olhos encherem-se de lágrimas. Ele tinha de a ouvir. Ela iria divorciar-se dele e casar com Joe. Não queria continuar casada com Andy. E Joe desejava desposá-la. Não tencionava perdê-lo agora, ao fim de tantos anos. Contudo, Andy também tinha uma palavra a dizer e ela só poderia divorciar-se se ele concordasse. Era evidente que ele adivinhara o que acontecera, ou que pelo menos suspeitava que o casamento estava em risco, mas não iria permitir que ela o enxovalhasse. Já tomara uma decisão. No que lhe dizia respeito, o assunto estava encerrado.

       - Sim, Kate, podemos - disse ele num tom que a assustou. - E conseguiremos. Vais ter de guardar para ti aquilo que me querias dizer. Somos casados. Temos um filho. Em breve teremos mais filhos, espero. E isso é tudo o que me vais dizer. Entendido? Provavelmente não devia ter ficado fora tanto tempo, mas acho que fizemos uma coisa importante na Alemanha e orgulho-me de ter participado nela. E agora vais ser a minha mulher, Kate, e continuaremos a partir daqui.

       Kate ficou atordoada com a força das palavras dele e a expressão dura do seu olhar. Não pareciam nada típicos dele.

       - Mas Andy, por favor - implorou ela com as lágrimas a correrem-lhe pela cara. - Não posso fazer isto... não posso... - soluçou. Estava apaixonada por Joe, não por ele. Nunca se sentira tão encurralada na sua vida como naquele momento. Sabia que Andy não iria deixá-la afastar-se, independentemente do que ela dissesse. A sua única opção era fugir com Joe e viver com ele. Não podia levar Reed consigo se não fosse divorciada e tivesse a custódia dele. Parecia que Andy a enfiara numa prisão. E sabiam os dois que fora isso que acontecera. Kate ainda não consultara um advogado, quisera falar com Andy primeiro, mas sabia que não poderia divorciar-se sem um motivo. E não dispunha de um contra ele. Estava de mãos atadas, a menos que ele concordasse. - Tens de me ouvir implorou. Não me queres assim. - Soluçava, mas a expressão dele era dura.

       - Somos casados, Kate. Ponto final. Daqui a pouco já te sentes melhor e um dia hás-de agradecer-me. Estavas prestes a cometer um erro terrível e não vou permitir que isso nos aconteça. Agora vou tomar uma ducha e passar pelas brasas. Queres ir jantar fora comigo esta noite?

       Quando olhou para Andy, os olhos de Kate estavam inexpressivos. Não queria ir a lado algum com ele. Não queria estar casada com ele. Era sua prisioneira, não sua mulher.

       Não chegou a responder-lhe acerca do jantar, nem ele esperou pela resposta dela. Saiu da sala e fechou a porta da casa de banho. Estava a tremer, mas Kate não deu por nada. Pela primeira vez desde que o conhecia, odiava-o. Só queria estar com Joe, mas não podia abandonar o filho. Andy sabia que a tinha presa. Ela nunca deixaria Reed. E se Andy não concordasse com o divórcio, ela estava encurralada.

       Quando o ouviu abrir a torneira telefonou a Joe. Ele estava numa reunião mas pedira a Hazel que o interrompesse e, momentos depois veio ao telefone.

       - O que se passa? Foi muito mau? - perguntou ele preocupado. Pensara nela durante todo o dia, perguntando-se o que aconteceria quando ela dissesse a Andy que queria o divórcio.

       - Pior do que isso. Ele nem me quis ouvir. Não me dá o divórcio. E se não der, não posso levar o Reed.

       - Ele está só a blefar, Kate. Está assustado. Agüenta-te firme.

       - Não percebes. Nunca o vi assim. Diz que o assunto está encerrado. Nem me deixou falar. - Kate nem sequer tivera oportunidade de lhe falar de Joe, o que talvez o convencesse. Mas Andy não a deixou falar e Kate teve a sensação de estar rodeada por um muro de pedra.

       - Então pega no bebê e sai daí - disse Joe muito sério. Ela sentia-se encurralada entre os dois homens, como se fosse um peão. - Ele não pode obrigar-te a ficar aí.

       - Pode obrigar-me a voltar com o Reed se me levar a tribunal. - Parecia assustada, e estava-o. Pela forma como o marido olhara para ela, sabia que tinha motivos para isso. Andy não tencionava largá-la, nem ao filho.

       - Ele não o vai fazer. Vocês dois podem ficar comigo. - Se ela o fizesse o escândalo seria ainda maior. Kate tinha de convencer Andy a concordar com ela para poder sair. Era a única forma.

       - Eu falo com ele logo à noite - disse ela.

       Joe regressou à reunião e Kate desligou quando Andy saiu da ducha. Telefonou a uma ama e concordou em ir jantar fora com ele nessa noite, mas durante o jantar a atmosfera esteve bastante tensa. Ele tratou-a com frieza e aspereza. Queria que ela soubesse que falara a sério. Ela esperava convencê-lo durante o jantar, mas não foi capaz.

       - Andy, por favor, escuta-me... não sou capaz de fazer isto. Não queres estar casado comigo assim - implorou ela. E para conseguir convencê-lo, apercebeu-se de que não era o momento apropriado para lhe falar de Joe.

       - Kate, quando me fui embora estava tudo bem. Tudo estava ótimo. E vai voltar a ficar ótimo. Confia em mim. Estás histérica, não sabes o que fazes e não vou permitir que destruas a tua vida. - Falou com frieza e firmeza e ela teve a sensação de que ele lhe apertava a garganta. Mal era capaz de falar.

       - As coisas mudaram. Estiveste fora quatro meses - disse ela desesperada. Pressentia que ele sabia o que acontecera e com quem. Mas parecia não se importar. Independentemente do que Kate dissesse ou fizesse, Andy não a deixaria partir. Não queria saber quem nem por que. Não queria ouvir nada e não trocaram palavra quando regressaram a casa no táxi. Kate teve a impressão que perdera as forças para se mexer ou andar ou falar com ele.

       No dia seguinte arranjou uma ama e foi ao escritório de Joe. Estava em pânico e Joe ficou bastante abalado. Mas ela precisava do apoio dele e dos seus conselhos. Parecia que na Alemanha Andy se transformara numa pessoa que ela não conhecia. Inamovível e invencível. Conversou com Joe lavada em lágrimas.

       - Ele não pode manter-te lá, Kate. Não és uma criança, por amor de Deus! Faz as malas e vem-te embora.

       - E abandono o meu filho?

       - Podes voltar para o buscar mais tarde. Leva o Andy a tribunal, bolas!

       - E digo o quê? Que o enganei? Não tenho motivos para o divórcio. E ele dirá que eu abandonei o meu filho. Nunca mais recuperarei o Reed. Dirão que não sou uma boa mãe por ter tido um caso contigo e abandonado o meu filho. Não posso vir-me embora. A menos que Andy concordasse.

       - Estás a dizer-me que vais continuar casada com ele?

       - O que mais posso fazer? - Os olhos dela pareciam dois lagos azul-escuros cheios de dor. - Não tenho alternativa. Pelo menos por agora. Talvez ele acabe por ceder, mas neste momento recusa-se a ser razoável. Nem sequer me deixa falar no assunto.

       - Kate, isto é uma loucura.

       Ela sabia que era. Mas Andy fora bastante inteligente e lutava como um tigre para a manter perto dele, quer ela quisesse quer não. Tinha de admirá-lo por isso. Mas por muito que admirasse Andy, era Joe que ela amava. Ele contornou a secretária e abraçou-a enquanto ela chorava descontroladamente.

       - Nunca devia ter-te deixado há três anos! - exclamou ela. Agora estava encurralada e sabia que Andy nunca a deixaria partir. Perdera a sua oportunidade de estar com Joe. E não iria abandonar o filho, nem sequer por ele.

       - Não te dei alternativa. Fui um idiota por te ter deixado partir há três anos e por te ter dito que nunca foste tão importante como os meus aviões. - Ainda se lembrava do que dissera. Três anos depois, sabia que errara, mas naquele momento parecia tarde demais. - Queres que eu fale com ele, Kate? Isso talvez o assuste. E que tal suborná-lo? - Era uma idéia estúpida, mas Joe estava disposto a fazer qualquer coisa.

       Kate abanou a cabeça.

       - Ele não precisa do teu dinheiro, Joe. É rico. Isto não é por causa de dinheiro. É por causa do amor.

       - Possuir uma pessoa não é amor, Kate. É só isso que ele tem. Possui-te agora por causa do teu filho. É a única coisa que te prende a ele. - Contudo, era uma coisa poderosa. Ele consultara um advogado nesse dia. Se ela abandonasse o filho corria o risco de perdê-lo. E se o levasse, Andy poderia obrigá-la a trazê-lo de volta, a menos que ela o raptasse e desaparecesse. E isso era impossível para ambos. Kate não poderia esconder-se como mulher de Joe.

       - Estou encurralada, Joe. Não posso sair - disse ela muito infeliz. Tivera tanta pena de Andy durante os últimos quatro meses, e agora ele pressionava-os daquela maneira. Tinha o futuro deles nas mãos e estava a transformá-lo em pó.

       - Espera só um pouco. Não podes viver assim para sempre. És demasiado nova, e ele também. Há-de acabar por ceder. Há-de querer mais do que isto da vida. - Andy lutava pela família, pela mulher e pelo filho, e não estava disposto a ficar sem eles.

       Joe beijou-a antes de ela partir e voltar para casa. Quando Andy regressou nessa noite, ela tentou voltar a falar com ele, mas escusadamente. Daquela vez Andy perdeu a paciência e atirou um prato de porcelana à parede. Fora prenda de casamento de uma das amigas de Kate e partiu-se em mil bocados enquanto ela chorava. Esperava que Andy ficasse magoado mas que se mostrasse razoável. Não contara que ele fizesse nada daquilo. Não havia saída.

       - Porque estás a fazer-me isto? - perguntou ela a soluçar quando ele se sentou com um ar desesperado.

       - Para proteger a nossa família, uma vez que tu não o fazes - disse ele, furioso. - Daqui a uns anos vais agradecer-me. - Mas entretanto ela passava um mau bocado.

       E o que Kate não sabia, nem suspeitava, era que Andy concluíra de imediato que se tratava de Joe. Estava escrito no rosto dela. Recordava-se perfeitamente dos tempos de colégio, quando ela estivera loucamente apaixonada por Joe e esperava pelas cartas dele. Era o mesmo olhar que vira nos olhos de Kate quando ela lhe dissera que Joe não estava morto e pusera fim à relação de ambos. Ele conhecia bem esse olhar. Havia apenas um único homem no mundo capaz de fazer com que Kate se sentisse assim e tivesse aquele ar. Andy reconhecera-o e soubera de imediato quem voltara a entrar na vida dela. Não precisava de ouvir as palavras.

       Tinha tanta certeza que nem se deu ao trabalho de telefonar a Joe. Limitou-se a aparecer no escritório dele um dia depois de Kate lá ter estado, desesperada. Andy entrou no edifício com ar determinado e pediu à secretária de Joe que o anunciasse. Ela ficou um pouco atordoada quando lhe perguntou se ele tinha reunião marcada e ele respondeu que não, garantindo-lhe no entanto que Joe o receberia, e sentando-se.

       Tinha razão. Menos de dois minutos mais tarde, a secretária conduziu-o a um escritório imponente cheio de objetos de arte, de tesouros e de recordações que Joe colecionava desde o advento do seu êxito. Joe não se levantou para o cumprimentar, observando-o da cadeira como um animal encurralado. Só se tinham visto uma vez havia vários anos. Mas sabiam quem o outro era e por que motivo Andy ali estava.

       - Olá, Joe - saudou este calmamente. A sua frieza era a melhor jogada de pôquer da sua vida. Joe era mais alto, mais velho, mais inteligente, mais bem sucedido e Kate estivera apaixonada por ele durante a maior parte da sua vida adulta. Joe teria sido um adversário de respeito para qualquer homem. Mas Andy tinha a carta vencedora: o seu filho e de Kate.

       - Isto é uma jogada interessante, Andy - disse Joe com um sorriso preguiçoso. Nenhum deles demonstrava o que sentia. Estavam ambos zangados, sentiam-se usados e desleais. Teriam gostado de matar o outro, mas em vez disso Joe indicou a Andy uma cadeira. - Posso oferecer-lhe uma bebida? - Andy hesitou uma fração de segundos e depois pediu um uísque. Raramente bebia antes de jantar, mas sabia que o álcool talvez o ajudasse a dominar os nervos. Joe serviu-lho com gelo e voltou a sentar-se. - Preciso de lhe perguntar o que o traz aqui?

       - Calculo que não. Sabemo-lo ambos. Não foi uma jogada muito elegante da sua parte, devo acrescentar - disse Andy cheio de coragem, tentando fingir que não se sentia como uma criança no gabinete de Joe. Noutras circunstâncias teria gostado de olhar para as coisas que ali se encontravam. E a vista era extraordinária, abarcando Nova Iorque inteira, com os dois rios e o Central Park. - Ela agora é casada, Joe. Temos um filho. Desta vez não vai a lado algum.

       - Não é assim que vai conquistá-la, Andy. Não pode obrigar uma mulher a amá-lo mantendo-a como refém. Já agora, porque não a amarra à parede? Não é tão sutil, mas funciona igualmente bem. - Joe não tinha medo dele, nem sequer o odiava. Era um homem importante e sabia que nada tinha a temer. Podia ter comprado e vendido Andy mil vezes, e para Joe isso significava muito. Era algo que outrora teria sido incapaz de julgar possível. Mas esses tempos tinham chegado e partido. Joe dominava o mundo e Kate era sua, quer Andy tivesse a chave da cela dela quer não. Nunca fora dono do coração dela como Joe era. Kate e Andy nunca tinham partilhado aquilo que Kate e ele tinham, nem nunca partilhariam. Quando olhou para Andy, sentiu pena dele. – Por que veio até aqui, Andy? Vamos diretos ao assunto. O que deseja? - Estava convencido de que com a pressão suficiente da parte de Kate e dele, Andy acabaria por ceder. Contudo, desconhecia completamente, tal como Kate até ali, quão implacável e determinado ele era capaz de ser. Daquela vez Andy não tencionava perder, custasse o que custasse.

       - Quero que compreenda quem ela é e aquilo que persegue com tanta paixão. Acho que desconhece aquilo por que tanto anseia, Joe.

       Este ficou divertido com a escolha de palavras e sorriu. Andy bebeu outro gole de uísque.

       - Acha que não a conheço ao fim de dez anos? Não quero chocá-lo, mas tenho a certeza de que a Kate lhe contou que vivemos juntos dois anos.

       - Por acaso disse, embora seja um pouco indelicado da sua parte apresentar as coisas nesses termos. Creio que na altura ela vivia num hotel.

       - Se foi isso que ela lhe disse - respondeu Joe num tom neutro. - Contudo, Kate contara a verdade a Andy. Ele não gostou foi de a ter ouvido da boca de Joe.

       - E quais foram as suas conclusões depois de ter ”vivido” com ela? Presumo que não tenha tido muita vontade de a desposar na altura. Então por que agora?

       - Porque fui um idiota, tal como os três bem sabemos. Estava a construir a minha empresa, tinha muito em que pensar. Não me sentia pronto para casar. Isso foi há três anos. Na altura não tinha tempo para ela. Agora tenho.

       - Foi essa a única razão por que não casou com ela? Ou havia nela coisas que o preocupavam, Joe? Ela precisava de demasiadas coisas, exigia muito, e você sentiu-se encurralado? Teve vontade de fugir? - Kate contara-lhe tudo quando haviam voltado a encontrar-se, mas Joe desconhecia isso. Lembrava-se vagamente de como as coisas haviam sido na altura, e a recordação não era agradável. Sentira tudo aquilo que Andy estava a dizer. Não era aquela Kate que ele queria, era aquela em que ela se transformara agora. A que parecia compreender o que correra mal. - Ela é a mesma mulher, Joe. Parece em pânico de cada vez que eu saio de casa. Telefona-me para todo o lado onde vou. Se saio para almoçar, pede à minha secretária que me localize. Quando estava grávida, quase me levou à loucura. Tinha de ir a casa vê-la a meio do dia. É isso que quer? Tem disponível todo esse tempo, Joe? Deve ser um homem muito bem sucedido se dispõe de todo esse tempo. Tem de estar com ela noite e dia. Como poderá levá-la consigo quando for viajar? Ela não larga o Reed. Quer engravidar outra vez. Quer mais filhos. E vai consegui-los, recorra a que artimanhas recorrer. Conheço a Kate. Ela fê-lo comigo em relação ao Reed. Não me importei. Mas você vai importar-se. - Eram mentiras, todas elas, mas Kate há muito que lhe contara todos os erros de Joe e Andy tencionava explorá-los a todos. E estava a vencer. Podia ver isso nos olhos de Joe, embora ele se sentisse na obrigação de defender Kate. Mas estava assustado. Andy pressentia o seu pânico.

       - Ela não está apaixonada por si respondeu Joe com firmeza. Há-de ser diferente quando estiver comigo. - Não pareceu muito convencido do que disse.

       - Ai, sim? - perguntou Andy acabando o uísque. - Ela foi muito diferente em New Jersey? - Sabia tudo sobre as discussões que os haviam separado, sobre o medo que ela tinha de ser abandonada, do receio dele de ser engolido. Kate explicara-lhe tudo e Andy usava agora toda essa informação. Por uma boa causa, pensava ele.

       - Isso foi há três anos. Na altura ela era uma miúda. - Mas Joe já não parecia tão seguro. Seria incapaz de o admitir, mas começava a perguntar-se se Andy não teria razão. Começava a ficar aterrorizado. Andy pintara-lhe uma imagem de tudo o que ele não queria, por muito que estivesse apaixonado por Kate.

       - Ela ainda é uma miúda - disse Andy com ar presumido, com vontade de beber outro uísque, mas sem coragem para pedi-lo. O que acabara de beber servira para lhe dar coragem, mas não convinha começar a ficar tonto. Podia ver a preocupação nos olhos de Joe. Os demônios dele tinham renascido. - Ela será sempre uma miúda, Joe. Sabe o que lhe aconteceu em criança. Eu também.

       Daquela vez Joe pareceu admirado. Era o melhor lutador dos dois, mas Andy encostara-o à parede. Era o diabinho rápido que ia derrotar o campeão, e já sentia o gosto da vitória. Não lhe interessava o que tinha de fazer para ficar com Kate, mas não tencionava perdê-la para Joe daquela vez. Custasse o que custasse. E sabia que se fizesse bem a jogada, Joe nunca lhe contaria que ele tinha estado ali. Era o crime perfeito e a única forma de não a perder. Tinha de obrigar Joe a fugir.

       - Ela falou-lhe do pai? - perguntou Joe. Havia uma certa mágoa na sua voz. Kate nunca lho admitira em dez anos. Ele sabia apenas o que Clarke lhe contara naquele dia em Cape Cod. Mas mais uma vez Andy não hesitou em mentir-lhe. Kate também não lhe contara nada, ele soubera-o por Clarke pouco antes do casamento.

       - Disse-me quando andávamos a estudar. Sempre soube. Éramos bons amigos. - Joe assentiu, mas ficou calado. - Imagina o que ela deve ter sentido? O medo que ela tem de perder as pessoas que ama? Não seria capaz de sobreviver sem nós. Não seria capaz de viver um dia sozinha. Ela é a mulher mais dependente que conheço, e você também sabe isso. Sabe que me escrevia duas vezes por dia quando eu estive na Europa? - Até isso era mentira. Ela escrevera-lhe pequenas cartas que apenas falavam do filho. Andy desconfiara que alguma coisa se passava, mas nada podia fazer da Alemanha. Tivera de esperar até regressar a casa. - Faz idéia de quão desesperadamente insegura ela é? De quão receosa? De quão desequilibrada? Calculo que ela não lhe tenha contado que tentou suicidar-se depois de se ter vindo embora de New Jersey. - Ao acabar de dizer aquilo, Andy soube que acertara em cheio. Kate contara-lhe que Joe se sentira cheio de remorsos, como aquilo fora doloroso para ele. ”Intolerável” fora a palavra que ela usara. E Joe parecia ter caído de joelhos no chão ao ouvir o que Andy dissera.

       - Ela o quê? - perguntou ele atordoado.

       - Calculei que ela não lhe tivesse contado. Creio que foi no Natal. Ainda não nos tínhamos voltado a encontrar. Ela esteve internada durante bastante tempo. - Andy não tinha vergonha na cara, mas era um homem desesperado E estava convencido de que se conseguisse afastar Kate de Joe daquela vez ela seria sua para sempre. Mas não conhecia a mulher. A única forma de o fazer seria matá-la, ou matar Joe. Nada menor que isso resultaria. Ela amava muito Joe.

       - Não posso acreditar nisso - disse Joe abalado, e Andy exibiu uma expressão de tristeza. - Num hospital psiquiátrico? - Andy assentiu, incapaz de falar devido ao constrangimento. Mas o dardo envenenado que lançara a Joe estava a fazer efeito. O veneno corria pelas veias dele. Era-lhe insuportável pensar que ela tentara suicidar-se por sua causa. Apavorava-o e tê-lo-ia transformado não apenas no mau rapaz que o haviam acusado de ser na infância como também num homem malévolo. E uma frágil parte de si não podia permitir que ele se arriscasse a isso, tal como Andy esperara.

       - O que vai fazer a respeito do desejo que a Kate tem de engravidar novamente? Ela disse-me ontem que queria mais dois filhos. - Andy continuava a desferir golpe após golpe.

       - Ontem? perguntou Joe chocado. - Creio que deve ter percebido mal. Eu fui muito claro a esse respeito.

       - A Kate também. É muito parecida com a mãe, embora de forma sutil. - Andy também sabia o quanto Joe detestava Liz. - E ainda não falamos do assunto mais importante para mim, o meu filho. Está realmente preparado para educá-lo, para jogar basebol com ele, para se levantar à noite quando ele tiver uma otite, um pesadelo ou vomitar. Não sei por que, mas não o vejo a fazer isso.

       Andy deixou que as suas palavras assentassem, e Joe começava a ficar visivelmente aflito. Ele e Kate não haviam falado de nenhuma daquelas coisas. Ou melhor, ele achava que sim. Kate dissera que ficaria contente só com um filho e que arranjaria uma ama para poder viajar com Joe de vez em quando. Contudo, Andy pintava-lhe uma imagem completamente diferente dela. Saber que tentara suicidar-se quando se sentira abandonada por ele deixava-o como louco. Era a culpa na sua forma mais pura, e para ele bastante tóxica.

       - Então em que ficamos, Joe? Não quero perder a minha mulher, a mãe do meu filho. Não quero que ela se sinta abandonada quando você viajar, e que tente fazer novamente algum disparate. A Kate é muito frágil, muito mais do que parece. É de família. Afinal de contas, o pai suicidou-se. Ela pode facilmente seguir-lhe o exemplo um dia destes. - Era uma partida cruel para Kate. Ela não tinha idéia do que Andy estava a fazer-lhe aos olhos de Joe, nem tão pouco do que ele estava a fazer a Joe. Andy tocava nos medos de Joe como se estes fossem teclas de um piano, e Joe estava tão ansioso que mal podia falar. Só lhe apetecia fugir e só conseguia recordar-se de Clarke a descrevê-la como uma ave com uma asa partida. Joe não tinha maneira de saber que Kate nunca pensara em suicidar-se, e por muito infeliz que tivesse sido por causa dele, tal coisa nunca lhe passara pela cabeça. No entanto, o ardil de Andy alcançara o seu objetivo. Por muito que Joe amasse Kate, percebia que casar com ela era uma responsabilidade que não podia assumir. Já o soubera antes. E Andy convencera-o facilmente de que tivera razão.

       - Então em que ficamos? - insistiu Andy inocentemente. O que acabara de fazer não era digno de um homem. Joe nunca o teria feito a Kate nem a ninguém, mas os seus medos estavam tão arraigados que fora incapaz de perceber o ardil de Andy por aquilo que ele era: o ato de um homem desesperado. Julgou-o verdade. E, sentado à secretária, sentiu vontade de chorar.

       - Acho que tem razão. Creio que por muito que tente, a forma como vivo a minha vida por causa do meu trabalho causaria danos irreparáveis a Kate. Imagine que ela se matava enquanto eu estivesse numa viagem. - Só de pensar naquilo ficava doente.

       - Creio que poderia acontecer - respondeu Andy com ar pensativo, como se sopesasse aquela possibilidade, olhando para Joe. A única coisa que viu nos seus olhos foi medo.

       - Não lhe posso fazer isso. Pelo menos você está de olho nela. Não teve medo de partir durante quatro meses para a Alemanha? - perguntou momentaneamente intrigado, mas Andy foi rápido a explicar.

       - Os meus pais prometeram olhar pela Kate, bem como os dela. E além disso ela vai a um psiquiatra duas vezes por semana.

       - Psiquiatra? Joe ficou de novo chocado. - Ela vai a um psiquiatra?

       Andy assentiu.

       - Calculo que ela também não lhe tenha contado isso. É um daqueles segredos sombrios que ela guarda.

       - Pelos vistos guarda bastantes. - Mas percebia por que. Não era algo de que alguém devesse orgulhar-se, nem o fora o suicídio do pai. O secretismo de Kate a respeito disso permitira que Andy dissesse tudo o que quisesse. Kate nunca fora a um psiquiatra em toda a sua vida, como ele bem sabia, nem tentara suicidar-se, nem tão pouco o perseguira quando ele saíra para trabalhar. Ele também nunca fora ter com ela a meio do dia. Eram tudo mentiras, mas tinham resultado. - Não sei o que dizer à Kate - comentou Joe com ar desesperado. Amava-a, e ela amava-o, mas acreditava agora que tentar partilhar a sua vida com ela acabaria por destruí-la ou até matá-la. Era um risco que não estava disposto a correr, uma culpa que não poderia carregar.

       Joe só queria mandar Andy embora e ficar sozinho. Nunca se sentira tão infeliz, nem quando Kate se fora embora de New Jersey. Aquilo era muito, muito pior. Tivera a certeza de que iria casar com Kate e que com o tempo Andy acabaria por afastar-se. Mas percebia agora que seria melhor para ela ficar com Andy. Mais seguro e melhor para a criança. Não havia realmente alternativa. E para indicar que a batalha terminara, levantou-se e apertou a mão de Andy com uma expressão severa.

       - Obrigado por ter vindo disse, acho que acabou de fazer o melhor para a Kate. - Amava-a demasiado para a colocar em perigo, e o medo de ela poder suicidar-se era um grande risco, já para não falar nos medos que Andy também despertara nele.

       - Você também acabou de o fazer - respondeu Andy, enquanto Joe o acompanhava à porta do gabinete.

       Quando a porta se fechou, Joe foi sentar-se de novo à secretária a olhar para a vista. Só conseguia pensar em Kate enquanto as lágrimas lhe corriam pela cara. Perdera-a novamente.

       Kate não soube o que aconteceu naquele dia entre Joe e Andy. Não chegou sequer a saber que eles se tinham encontrado. Andy voltou para casa nessa tarde e não lhe disse nada, mas tinha um ar vitorioso que a enojou. O seu carcereiro, que outrora fora seu marido, estava satisfeito consigo próprio. E ela odiou-o ainda mais. O amor que havia entre eles desaparecera.

       Dois dias mais tarde, Joe convidou-a para almoçar. Encontraram-se num pequeno restaurante sombrio onde já tinham ido, e nenhum deles tocou na comida. Ele disse-lhe apenas que pensara no assunto e que sabia que não podia arrancá-la do casamento com o risco de ela perder o filho. Era algo que não poderia fazer. Ao ouvir Joe, Kate viu a culpa nos olhos dele. Sofria. Muito mais do que ela supunha. Desde que estivera com Andy, Joe só conseguira pensar na tentativa de suicídio dela três anos antes, e por sua culpa. Por isso decidira deixá-la. Foi uma hora de almoço cheia de sofrimento para ambos, e Kate chorou no táxi a caminho de casa. Joe dissera-lhe que tinham de se afastar, de se esquecer um ao outro. A dor tinha de terminar para ambos. Ele tivera medo de lhe dizer muito mais com receio de que ela se suicidasse.

       E deitada na cama a chorar depois de ter chegado a casa, Kate julgou que nunca mais veria Joe. Desejou estar morta, mas não o suficiente para pôr fim à vida. Tal nunca lhe passara pela cabeça.

       E Joe fez o que melhor sabia fazer. Fugiu. Voou para a Califórnia nessa noite. E quando Andy chegou a casa e a viu, soube que isso acontecera. Vencera, independentemente do preço.

      

      

       A atmosfera entre Andy e Kate foi tensa durante meses. Mal se falavam, ela andava muito deprimida e perdeu imenso peso. Não faziam amor desde que ele regressara aos Estados Unidos. Kate mantinha-se o mais possível longe dele. Falava com Joe de vez em quando. Mas tal como ele sabia que iria acontecer, o tempo e a distância entre eles começou a afastá-los, por muito que ainda se amassem. Andy executara o seu plano de forma brilhante. O golpe fatal fora desferido. No entanto, Kate sabia que por muito que ele a mantivesse prisioneira, nunca seria capaz de mudar o que ela sentia. Perdera-a para sempre no momento em que a obrigara a ficar com ele e a chantageara com o filho. Kate deixara de sentir algo por ele, até simpatia. A partir daquele momento, tudo acabara para ela. Odiava-o, e odiá-lo-ia ainda mais se soubesse o que ele dissera a Joe.

       As coisas melhoraram ligeiramente depois do primeiro aniversário de Reed, em março. Andy regressara da Alemanha havia oito meses, e haviam sido uns meses difíceis.

       Os pais dela comentavam o assunto, mas nenhum deles ousou perguntar o que se passava. Era evidente que o que acontecera os afetara bastante.

       Foram para Cape Cod no verão, como sempre, e daquela vez Kate e Andy dormiram em quartos separados. Andy podia obrigar Kate a continuar casada, mas não podia obrigá-la a fazer amor. A vida de ambos tornara-se um pesadelo, o casamento uma concha vazia. E Kate parecia um fantasma a deambular pela casa.

       Nesse ano Kate não foi ao churrasco, e quando chegou a casa, o pai comentou que Joe Allbright não fora lá nesse ano. Quando acabou de falar, Andy olhou para Kate e o ódio entre ambos foi tão visível que Clarke ficou atordoado Quando Kate e Andy voltaram para casa, os pais dela sentiram-se desesperados com o que tinham visto.

       Reed já andava nessa altura. Quando chegaram a casa, Kate telefonou a Joe, como fazia de vez em quando, para saber como é que ele estava. Hazel informou-a de que ele se encontrava na Califórnia, em vôos de ensaio, e Kate pediu que lhe mandasse um abraço. Apenas recebia dele postais lacônicos de vez em quando. Há muito que não conversavam. Aproximava-se o Dia de Ação de Graças quando Andy olhou para ela certa noite. O pesadelo em que o casamento de ambos se tornara durava há um ano.

       - Há alguma possibilidade de voltarmos a ser amigos? Sinto saudades de falar contigo, Kate. - Tinham perdido tudo o que havia entre ambos quando ele se recusara a deixá-la partir. A sua vitória fora oca, de Kate só restava o invólucro. - Porque não tentamos ao menos ser amigos? - Ao acabar de falar, viu nos olhos dela que não havia a menor esperança. Ela partira. Ele fora seu inimigo durante demasiado tempo.

       - Não sei - respondeu ela. Durante o último ano nada sentira por ele. O único homem que amava era Joe, e ele saíra da vida dela para voltar à sua, e ao seu outro amor. Os aviões tinham tornado a ser a paixão dele, haviam-no sido sempre. Só durante um breve espaço de tempo é que ele percebera que podia ter ambos. E agora que ela se fora embora, os aviões eram tudo o que ele queria, tudo o que tinha. Não houvera outra mulher na sua vida.

       Foram passar o Dia de Ação de Graças a casa dos pais de Andy e depois disso, devido a sentir-se sozinha, Kate começou de novo a falar com ele. Mas nada mais. Há dezoito meses que não dormia com ele nem faziam amor. Ela mudara-se para o outro quarto com o filho. Passaram o fim do ano com amigos, chegaram mesmo a dançar e Kate bebeu uma enorme quantidade de champanhe. Ele ouviu-a rir nessa noite, e Kate estava tão bêbada que namoricou com ele a caminho de casa. Há ano e meio que Andy não se divertia tanto, e recordou-se dos bons velhos tempos. Ajudou-a a despir o casaco quando chegaram a casa, e a alça do vestido escorregou do ombro, revelando partes dela que Andy não via há muito. Ele próprio também bebera bastante e de repente deu consigo a beijá-la e a acariciá-la e ficou espantado quando ela correspondeu.

       - Kate?... Não queria aproveitar-se dela durante a embriaguez, mas a tentação era demasiado grande para ambos.

       Viviam uma vida de celibato apesar de serem casados. Kate tinha vinte e oito anos e ele fizera trinta nesse mês e haviam acabado de viver o ano mais solitário das suas vidas.

       Ela seguiu-o até ao quarto que já não partilhavam. Continuava a dormir no quarto ao lado do dele, e Reed dormia no berço. Tinha vinte e um meses e dormia profundamente quando a ama foi para casa nessa noite.

       - Gostavas de dormir comigo esta noite, Kate? - perguntou Andy e, sem dizer uma palavra, ela despiu o vestido e enfiou-se na cama dele. Andy não se iludiu; ela não o amava. Eram dois náufragos num mar agitado, a tentarem agarrar-se a tudo para sobreviver. Até um ao outro, se tudo o resto falhasse.

       Depois disso, ela mal se lembrava de ter feito amor com ele nessa noite. Sabia apenas que acordara na cama dele e que voltara logo para a sua. Quando ele acordou no dia de Ano Novo ela não estava na sua cama.

       Tinham ambos ressacas monumentais e conversaram muito pouco nesse dia. Kate estava profundamente aborrecida com o que acontecera na noite anterior. Jurara a si mesma catorze meses antes que não voltaria a dormir com Andy. E cumprira, até à véspera. Mas estava muito sozinha e o champanhe libertara uma torrente de desejo que não fora saciada durante muito tempo.

       Não falaram mais no assunto e regressaram à sua solidão e só no fim de janeiro é que ela lhe contou a novidade. Ficara devastada ao descobrir. Era mais um elo a prendê-la a Andy, mas há muito que desistira de poder libertar-se. Andy deixara-o bastante claro. Ela pertencia-lhe até ao fim da vida. E agora esperava outro filho.

       Andy contava que isso voltasse a aproximá-los, mas afastou-os ainda mais. Kate andava constantemente enjoada, dia e noite. Passou a primavera na cama e só se levantava um pouco à tarde para levar Reed ao parque. A sua doença era mais uma forma de afastar Andy.

       Jantavam em silêncio à noite e os únicos sons no apartamento depois de Andy chegar a casa era o papaguear de Reed. Andy e Kate já mal se falavam. E em junho Kate viu nos jornais que Joe ficara noivo. Telefonou para o felicitar e descobriu que ele estava em Paris. Ele deixara de lhe telefonar. Com vinte e nove anos, Kate tinha a sensação de que a sua vida chegara ao fim. Estava casada com um homem por quem nada sentia, ia ter um filho que não desejava e perdera o homem que sempre amara. O bebê deveria nascer em setembro e Kate parecia não se importar. As únicas alegrias da sua vida eram o filho e as recordações de Joe.

       Foi Andy que acabou por ir ter com ela pouco antes do nascimento do segundo filho. Kate estava deitada na cama a ler, e Reed dormia ao lado dela. Fizera dois anos em março e era uma criança encantadora e meiga. Ela levantou os olhos do livro quando Andy entrou no quarto. Olhar para ele era o mesmo que olhar para um desconhecido. Era difícil imaginar que já haviam sido chegados, que haviam estado apaixonados, que haviam sido amigos.

       - Como é que te sentes? - perguntou ele sentando-se na cama. Durante oito meses nunca haviam estado tão próximos. E há quase dois anos que era assim. Os únicos momentos bons que tinham partilhado haviam sido durante o primeiro ano de casamento, antes de ele ter ido para a Alemanha e de Joe ter aparecido.

       - Sinto-me grande - respondeu ela com um sorriso. Falar com ele era como falar com um homem quase estranho, alguém que se conhecera anos antes e não se via há muito.

       - Achei que gostarias de saber. Vou sair de casa depois de o bebê nascer. - Tomara a decisão semanas antes e alugara um apartamento nessa tarde. Não podia viver mais assim. Tudo o que haviam partilhado ou sonhado há muito que morrera. E sabia que não podia continuar a mantê-la como uma ave numa gaiola. Há muito que o espírito de Kate voara dali. A vitória que ele obtivera sobre Joe não tivera o mínimo significado, Andy sabia-o agora. Kate nunca lhe pertencera. Sempre havia sido de Joe.

       - Porque é que te vais embora? - perguntou ela pousando o livro.

       - Porque hei-de ficar? Tinhas razão. Foi um erro. Lamento ter-te engravidado na noite de fim de ano. Isto veio complicar as coisas para o teu lado.

       - Acho que é o destino. - Novamente, essa palavra. Era ele que fazia as pessoas irem e virem, ou ficarem, ou desejarem poder ficar, e não tomarem a decisão certa quando deviam. Acaso. - O bebê vai fazer bem ao Reed. Para onde é que vais. - Parecia estar a falar com alguém que encontrara no comboio, não com o homem que outrora amara. Já não tinha a certeza de tê-lo amado. Provavelmente não. Tinham funcionado melhor como amigos. Ela ficara destroçada depois de ter deixado Joe. Tinham pago ambos um preço demasiado elevado pelas suas ações.

       - Devia ter-te dado ouvidos há dois anos - disse ele. Kate assentiu, mas não disse nada. Os dois anos que ele levara a concordar em dar-lhe o divórcio haviam-lhe custado Joe. Perguntou a si mesma se ele já teria casado. Os jornais não haviam dito mais nada, apenas que ele ficara noivo vários meses antes. E agora ela tinha de respeitar isso. Era demasiado tarde para ambos. E certamente para si. Andy desperdiçara a vida dela e destruíra-lhe os sonhos. Estes pertenciam agora à mulher que ia casar com Joe. Kate não tinha nenhuns.

       - Provavelmente tinhas razão em querer tentar - disse ela a Andy, tentando ser justa. Estivera muito apaixonada por Joe para sequer considerar isso. O casamento com Andy terminara no momento em que ela voltara a ver Joe.

       - Volta para ele, Kate - disse, parecendo o amigo que havia sido antes. - Nunca compreendi aquilo que vocês os dois tinham, nem por que, mas seja o que for, é demasiado poderoso, mereces tê-lo se o desejas assim tanto. - Kate quase morrera quando Joe partira. Não restava nada. Sentia-se morta por dentro. - Diz-lhe que estás livre. Ele tem o direito de saber. - Andy passara dois anos cheio de remorsos pelo que havia dito a Joe, especialmente depois de ter visto Kate fechar-lhe todas as portas. Mas não tinha idéia de como desfazer o mal que lhe fizera aos olhos de Joe. E não tinha coragem de contar a Kate. No entanto, por muito que ela e Joe se amassem, ou tivessem amado, Andy desconfiava que Joe lhe perdoaria tudo.

       - Ele está noivo - respondeu ela com ar sombrio.

       - E depois, - retorquiu Andy com um sorriso. - Estávamos casados quando ele voltou a aparecer. Se te ama, há-de querer-te agora.

       - É assim que as coisas funcionam? - perguntou, sorrindo pela primeira vez a Andy após vários meses. Durante dois anos ele fora o seu carcereiro, nada mais. Talvez agora, ao libertá-la, pudessem voltar a ser amigos. Era o que ele esperara quando decidira deixá-la partir. Até ele queria mais. É demasiado tarde para nós. Andy sabia que ela estava a falar de Joe. - Ele está noivo.

       - Lembro-me de quando todos pensavam que ele tinha morrido e tu continuavas a acreditar que ele estava vivo. Estás morta há dois anos, Kate. Precisas de voltar a ter uma vida. Sempre quiseste estar com ele.

       - Eu sei. É uma loucura, não é? Sempre quis. Desde a primeira vez que o vi que fiquei presa a ele. Foi muito estranho. Parecia que tinha um anzol gigante a prender-me. Nunca fui capaz de o arrancar.

       - Então não o faças agora. Nada para junto dele. Faz o que tiveres de fazer, mas segue o teu sonho. - Ele fizera-o, mas o sonho que seguira pertencera a outra pessoa, sempre pertenceria. Ela fora sempre de Joe, nunca sua.

       - Obrigada - disse, e Andy inclinou-se para lhe dar um beijo na cara.

       - Vê se dormes - disse ele, saindo do quarto.

       Ela ficou na cama a pensar em Andy depois de ele se ter ido embora. Era estranho sentir tão pouco, nem tristeza nem alívio. Não sentia nada, não sentira durante dois anos. Estivera adormecida. Pensou no que ele lhe dissera a respeito de Joe e perguntou a si mesma se ainda seria possível. Segue o teu sonho... nada... voa... vai ter com ele... Sorriu ao virar-se de lado e adormeceu. Era difícil acreditar que o sonho alguma vez seria seu. Sempre estivera fora do seu alcance. E estava-o novamente. Joe ficara noivo e talvez já tivesse casado. Kate achava que não lhe cabia intrometer-se na vida dele. Joe tinha direito àquilo que conseguira. E era estranho chegar à conclusão que acabara por perder ambos, Andy e Joe. Independentemente daquilo que Andy lhe dissera, era demasiado tarde para telefonar a Joe. O melhor que lhe podia fazer era deixá-lo partir.

       Andy levou-a ao hospital quando chegou a altura. Daquela vez tiveram uma menina, a quem puseram o nome de Stephanie. Duas semanas mais tarde, Andy saiu de casa. Foi um momento surpreendentemente pouco emotivo. Tudo o que havia entre eles morrera há tanto que sentiram apenas alívio.

       Kate foi para Reno com os filhos e uma ama quando Stephanie fez um mês. Ficou lá seis semanas e regressou de comboio, divorciada, a 15 de dezembro. Estivera legalmente casada com Andy durante três anos e meio, e na realidade apenas um. Soube por um amigo que Andy andava a sair com uma pessoa e que, aparentemente, estava apaixonado. Ela desejou que assim fosse. Tinham estado sozinhos durante demasiado tempo. Queria que ele casasse e tivesse mais filhos. Merecia muito mais do que aquilo que ela lhe dera, embora amassem ambos Stephanie e Reed. Ele visitava os filhos nas tardes de quarta-feira e em fins-de-semana alternados. Correra tudo de forma tão discreta que parecia não ter acontecido de todo. Agora que terminara, parecia um sonho. Os pais de Kate lamentaram o divórcio muito mais que ela ou Andy. Nunca aceitaram nem compreenderam por que motivo o casamento chegara ao fim.

       Uma semana depois de terem regressado de Reno, Kate foi com Reed comprar uma árvore de Natal e sentiu-se ela própria pela primeira vez em anos. Entoaram cânticos de Natal enquanto caminhavam e quando chegaram ao terreno onde eram vendidas as árvores, Reed escolheu um pinheiro enorme. Ela estava a indicar aos homens onde deveriam entregá-lo, enquanto Reed saltitava e batia palmas, quando viu alguém sair de um carro de cabeça baixa por causa do frio. Começara a nevar. Ele tinha um chapéu e um casaco escuro e ela conheceu-o ainda antes de ele se virar. Nesse momento ele viu-a. Era Joe. Ele estacou e sorriu. Não falavam há meses nem se viam há dois anos.

       Quando ele avançou na sua direção ela não conseguiu deixar de sorrir. Destino. Ali estava Joe. Vê-lo fê-la recordar a magia que sempre haviam partilhado. Os seus caminhos haviam-se cruzado e afastado, mas ele aparecia sempre outra vez. No churrasco, no navio, no baile quando ela tinha dezessete anos. Tinham passado doze anos. Vê-lo trouxe de volta o sonho.

       - Olá, Kate. - Ele viera comprar um pinheiro. Kate já nem sabia onde ele vivia. Califórnia, Nova Iorque. Noutro lado. Ela não lhe telefonara nem lhe escrevera. Haviam sofrido demasiado dois anos antes. Estava feito, pensou Kate. Pelo menos, devia a Joe uma certa paz. Mas um poder ou uma força desconhecidos interviera e fizera com que os caminhos de ambos se cruzassem mais uma vez.

       - Olá, Joe - respondeu ela com um sorriso. Era bom voltar a vê-lo apesar de tudo. Estava na mesma. Kate sentiu um aperto no coração.

       - Como vai a tua vida? - Ele queria saber muita coisa, mas parecia pouco apropriado fazer perguntas a Kate com uma multidão à volta e com Reed ao lado dela. Já tinha idade suficiente para compreender o que eles diziam.

       Kate riu-se, lembrando-se das palavras de Andy antes de ele se ir embora. Diz-lhe. Telefona-lhe. Joe encontrara-a. Ela decidiu arriscar.

       - Estou divorciada.

       - Quando é que isso aconteceu? - Ele pareceu surpreendido, mas satisfeito.

       - Regressamos de Reno a semana passada. Levei as crianças comigo.

       - Crianças? - perguntou ele admirado.

       - A Stephanie. Tem três meses. Embebedei-me na última passagem de ano. - Era bastante informação para partilharem durante a compra de uma árvore de Natal, ao fim de dois anos, e Joe pareceu divertido. - E tu?

       - Também me embebedei na passagem do ano, mas não posso mostrar-te nada. Fiquei noivo em junho. As coisas não correm lá muito bem agora. Ela detesta os meus aviões.

       - Então não vai resultar - comentou Kate. Estava radiante por voltar a vê-lo. Sabiam ambos que nada mudara. A chama continuava a existir, tal como desde o início. O que haviam partilhado fora único, e continuava a ser.

       - As coisas entre nós resultarão, Kate? - perguntou ele aproximando-se. Já tinham sofrido muito. Talvez fosse demasiado tarde, havia sempre essa possibilidade. Ou talvez tivessem sorte desta vez, se tentassem, se ousassem. Talvez um dia tivessem de ter a coragem de tentar, e de fazer com que as coisas funcionassem. E quando Joe olhou para ela, todas as coisas horríveis que Andy dissera a seu respeito havia dois anos deixaram de importar.

       - Não sei. O que achas? - Ela estava disposta a tudo, mas não queria dizer-lho.

       Correra tanta água debaixo da ponte, oceanos. Guerras, e o império que ele construíra, o casamento dela, o romance que haviam tido dois anos antes, e agora o divórcio. Tinham-se juntado e separado tantas vezes, de tantas formas,- mas o elo de ligação continuava lá, a magia, a chama. Podiam senti-la naquele momento, ao olharem um para o outro na neve.

       - Vamos para casa, mamã - pediu Reed puxando-lhe o braço. Começava a ficar impaciente por estar ali à espera e não sabia quem era aquele homem.

       - Vamos já, querido - respondeu Kate, fazendo uma festa no rosto da criança.

       - O que achas? - perguntou Joe, olhando-a intensamente com os seus olhos azuis enquanto o seu chapéu se cobria lentamente de neve.

       - Agora? Queres saber agora? - perguntou ela, olhando incrédula para Joe.

       - Esperamos doze anos, Kate respondeu ele calmamente. Parecia-lhe tempo suficiente.

       - Pois esperamos. Se for obrigada a dar-te uma resposta já, diria para tentarmos. - Quando acabou de falar, Kate susteve o fôlego, sem saber o que iria ele pensar ou dizer, ou se a sua resposta o assustaria e o levaria a fugir. Mas daquela vez ele não ia a lado algum. Olhou para ela e manteve-se imóvel.

       - Acho que tens razão. Devemos ser loucos. Só Deus sabe se isto irá resultar. Temos andado desencontrados, mas talvez tenha chegado a nossa altura. - Nunca chegara antes. Queriam sempre uma coisa diferente do outro, algo impossível. Parecia que o destino conspirara para os manter afastados E agora subitamente ali estavam. E, com sorte, talvez tivesse chegado o momento certo para os dois.

       - E a tua noiva? - perguntou Kate com ar preocupado. Andy pusera fim à relação de ambos dois anos antes, e talvez agora fosse Kate a fazê-lo a outros.

       - Dá-me uma hora. Vou dizer-lhe que o projeto foi cancelado, que ela falhou o vôo de ensaio - respondeu ele com um sorriso.

       - E quanto a crianças? - Tinha curiosidade a esse respeito, não fosse um dia querer ter mais filhos. Era uma conversa de loucos, mas típica deles. Pareciam relâmpagos a brilhar no céu, iluminando o mundo um do outro.

       - Tu tens dois filhos, creio. Temos de decidir tudo neste momento. Eu nem fazia idéia de que iria encontrar-te. Há alguma possibilidade de voltar a ver-te para que possamos discutir o resto? - perguntou ele com uma gargalhada.

       Kate viu no seu olhar que ele estava feliz e já não tinha medo. Pelo menos naquela altura.

       - Creio que sim - respondeu ela a sorrir. A vida por vezes toma rumos inesperados.

       - Tens o mesmo endereço? Ela assentiu. Ligo-te logo à noite. Mas por favor não te cases, não voltes para o Andy nem fujas. Fica sentadinha umas horas e tenta não te meteres em sarilhos, está bem? - pediu ele.

       - Vou tentar. - Ela era incapaz de parar de sorrir.

       - Muito bem. - Ele aproximou-se e abraçou-a. Reed observava-os, intrigado com o homem. - Bem-vinda, Kate.

       A vida dela fora um deserto desde que se haviam separado e a dele fora preenchida por trabalho e aviões e recentemente por uma mulher que enjoava a andar de elevador e detestava andar de avião com ele, ao contrário de Kate. As suas vidas tinham dado muitas voltas, e algumas delas inesperadas. Os quase dois anos que ele passara na Alemanha, o casamento dela com Andy, os dois últimos anos de solidão até ele finalmente a libertar. Custava a crer que chegara o momento certo para ambos. Nenhum deles tinha a certeza disso, mas era o que parecia E de repente não havia um minuto a perder. Joe não tencionava esperar mais doze anos para descobrir. Não iria deixá-la partir desta vez, nem iria fugir.

       - Ligo-te daqui a duas horas e passo em tua casa à noite. Tenho de fazer uma coisa primeiro.

       Kate já calculava o que era. Joe tinha de romper um noivado. E, daquela vez, não se importou com o que ele teria de sacrificar para voltar para junto de si. Queria-o, simplesmente. Tinham subido o Evereste e haviam-se encontrado lá em cima, e Kate não tencionava partilhar o prêmio com ninguém. Joe era seu. Conquistara o direito de estar com ele.

       Joe telefonou-lhe duas horas mais tarde e apareceu lá em casa às oito, depois de as crianças se encontrarem a dormir. Estavam tão famintos um do outro que não perderam tempo com palavras. Fecharam a porta do quarto e quase se devoraram. Pareciam duas pessoas esfomeadas, e tinham realmente passado fome durante muito tempo. Haviam levado uma eternidade a chegar ali, mas finalmente estavam em segurança, ou pelo menos esperavam estar. Era impossível saber. Tinham de tentar. Não havia garantias, apenas sonhos, e nessa noite, quando adormeceram nos braços um do outro, sabiam que estavam onde sempre haviam querido estar.

       Joe brincou com Reed na manhã seguinte enquanto ela dava de mamar a Stephanie, e depois enfeitaram a árvore. Passou o Natal com eles e, dois dias depois, ele e Kate dirigiram-se à Câmara Municipal. Foram sozinhos, de mão dada, sem amigos ou testemunhas, sem falsas esperanças. Telefonaram aos pais dela quando chegaram a casa. A imprevisibilidade da notícia chocou-os, mas não os surpreendeu. Liz recordou Clarke que finalmente perdera a aposta que fizera, a respeito de Joe casar com Kate. Acreditara que ele nunca o faria.

       - Nunca pensei ver este dia - disse Liz espantada quando desligou o telefone.

       Kate e Joe também não. Haviam levado muito tempo, numa estrada infinita cheia de curvas.

       - Estás feliz? - perguntou Joe quando ela se enroscou na cama ao seu lado nessa noite.

       - Muito feliz - respondeu ela com um sorriso rasgado. Finalmente era Mrs. Joe Allbright.

       Ele observou-a durante muito tempo depois de ela ter adormecido. Tudo nela o fascinava, e Kate era finalmente sua. Não via como as coisas poderiam correr mal. Parecia ser a combinação perfeita. Ele sempre fora a paixão dela, e ela o seu sonho. O final feliz dela surgira. O de ambos.

      

      

       Os primeiros dias do casamento de Joe e Kate foram muito felizes e exatamente aquilo que tinham esperado. Andavam felizes e atarefados. Ela contratou uma ama para a ajudar a cuidar dos filhos, a fim de poder ter tempo livre para Joe. Ia vê-lo ao escritório, aconselhava-o relativamente a alguns projetos. Voavam juntos ao fim-de-semana e quando Joe voltava para casa à noite brincava com as crianças. Em janeiro foi para a Califórnia com ele e ficou impressionada com o que ele tinha lá. Até o acompanhou ao Nevada e viu-o fazer os vôos de ensaio. Depois ele levou-a num avião e fizeram um parafuso. Ela adorava todas as loucuras dele. E o melhor de tudo era que Joe lhe pertencia.

       - Ainda bem que não casei com a Mary - disse ele com um sorriso após um vôo particularmente ousado sobre o deserto. Espantara Kate com uma série de loopings e rotações. Ela sempre adorara fazer aquilo com ele. Dizia que era melhor do que a montanha-russa, e nada do que ele fazia, por muito assustador que fosse, a punha enjoada. Adorava voar com ele, fizesse ele o que fizesse, embora ela própria já não pilotasse. Passara demasiado tempo.

       - Provavelmente ela cozinha melhor do que eu - respondeu Kate alegremente ao sair do cockpit.

       - Lá isso é verdade. Mas ter-me-ia vomitado todo depois deste vôo.

       Mary recusara-se terminantemente a subir a bordo de um avião com ele e nem sequer gostava de o ouvir contar o que fizera. Joe percebera já na altura que ficar noivo dela fora uma grande asneira, mas sentira-se aborrecido e sozinho quando Kate ficara com Andy e quisera provar a si mesmo que era capaz de viver com outra pessoa. No entanto, a única mulher que ele realmente amava era Kate.

       Na opinião dele, Kate salvara-o de um destino pior do que a morte se tivesse decidido casar-se, mas duvidava que tivesse chegado a tanto. Kate era perfeita para ele em todos os aspectos. Adorava voar, amava-o, adorava os aviões dele.

       E acrescentava algo à sua vida que, sem ela, não existia. Era uma mulher travessa com um espírito infantil e divertido. Confiava nele e amava-o. Ficava séria quando ele queria que ela ficasse, era mais inteligente do que qualquer outra mulher que ele conhecera, e até do que muitos homens. Amava-o mais do que à própria vida, e ele amava-a. Tinham tudo. E formavam um casal tão atraente que onde quer que fossem as pessoas paravam para os contemplar. Todos sabiam quem ele era, e o seu estilo calmo e poderoso combinava na perfeição com a perspicácia, o encanto e a postura dela.

       Kate e os filhos mudaram-se para o apartamento de Joe um mês depois do casamento, juntamente com a cadelinha. Havia espaço para todos, até para a ama das crianças. E, aos poucos, ela foi acrescentando coisas bonitas ao apartamento, toques femininos que tornaram o espaço mais acolhedor. Até já falavam em comprar uma vivenda.

       Falavam sobre muitas coisas. Nada era tabu para ambos. Ele até trouxe à baila a “tentativa de suicídio” dela. Isso atormentava-o desde que Andy lho contara havia dois anos. Joe disse-lhe que lamentava muito. Kate escutava-o com perplexidade.

       - Do que é que estás a falar? - perguntou, intrigada.

       - Está tudo bem, Kate, eu sei - respondeu Joe. Mas não lhe disse como soubera. Nunca lhe contara que Andy o fora visitar naquele dia. Achava que ela não precisava de saber.

       - Sabes o quê? - insistiu Kate ainda confusa, e Joe achou que ela estava a ser reservada.

       - Que tentaste matar-te depois de nos termos afastado da última vez. Quase perdoara isso a si próprio, mas continuava a tentar compensar Kate. Sentira-se cheio de remorsos durante os últimos dois anos.

       - Estás maluco? Eu era louca por ti, mas não a esse ponto. O que raio te fez pensar que eu tentei matar-me? - A expressão dela fê-lo estacar.

       - Estás a dizer-me que nunca tentaste suicidar-te, Kate. - Ela não sabia se ele estava irritado ou aliviado, nem ele próprio sabia

       - É precisamente isso que estou a dizer. É a coisa mais nojenta que já ouvi. Como é que podes pensar que eu era capaz de fazer algo assim? Amo-te, Joe, mas nunca perdi o juízo. Isso é um ato terrível. - Ela sabia-o bem. Joe tinha uma expressão assustadora.

       - Alguma vez foste a um psiquiatra?

       - Não - respondeu ela. - Achas que devia.

       - Aquele filho da mãe! - exclamou ele levantando-se furioso da cadeira e começando a andar de um lado para o outro.

       - Do que é que estás para aí a falar? - O que ele dissera não fazia sentido para Kate, mas tudo fazia sentido para Joe agora.

       - Estou a falar daquele estuporzinho nojento com quem estiveste casada. Nem sei como hei-de contar-te o que ele fez, nem como fui um idiota. - Sentia ainda mais remorsos naquele momento por ter acreditado em Andy, embora compreendesse perfeitamente o que ele fizera e o motivo. Aproveitara-se de todos os velhos medos de Joe e este ficou doente só de pensar com que facilidade mordera o isco e puxara a linha. Isso custara-lhe, e a Kate, mais dois anos.

       - Estás a dizer que o Andy te contou que eu tentei matar-me? - perguntou ela, olhando para Joe com incredulidade. - E acreditaste nele? Estava espantada e magoada.

       - Acho que na altura estávamos um pouco loucos. Foi logo a seguir a teres-lhe dito que querias o divórcio e a ele recusar deixar-te partir. Foste ao meu escritório dizer-me que ele não te dava o divórcio e no dia seguinte ele apareceu. Detesto admitir isto, mas ele manipulou-me na perfeição. Disse-me que estavas desesperada e insegura, que eras muito instável, que tinhas tentado matar-te depois de termos rompido e meteu-me tanto medo que receei empurrar-te de novo para o suicídio se cometesse algum erro ou voltasse a magoar-te. Disse-me que andavas a consultar um psiquiatra várias vezes por semana e eu comecei a pensar que se voltasses a sentir-te abandonada podias tentar o mesmo. Não quis correr esse risco. E também sentia medo de tudo o que Andy lhe contara, incluindo o pânico que ela tinha de ser abandonada, e o fato de querer ter mais filhos.

       - Porque não me perguntaste, - retorquiu ela espantada.

       - Não queria perturbar-te mais do que já estavas e levar-te a fazer algo que não devias. Mas agora percebo o que ele fez, o estupor! Manipulou-me na perfeição. Sabia os remorsos que eu iria sentir ao pensar que tinhas tentado matar-te por minha causa e o meu medo de que tornasses a fazê-lo.

       Kate também percebia e isso fê-la odiar Andy mais do que nunca. Ele usara tudo o que ela lhe contara para manipular Joe. Fora um gesto muito cruel, embora ela soubesse que na altura Andy lutara pela sua vida e tentara não perder a família. Mas fora Andy quem afastara Joe. Era um milagre terem voltado a encontrar-se.

       - Ele fez com que tudo parecesse tão real! Fiquei demasiado abalado na altura para questionar o que ele dissera, ou para desconfiar dele. O Andy descreveu-me algo que eu sabia ser incapaz de suportar. Senti-me culpado durante vários meses só de pensar nisso.

       - Como é que ele foi capaz de fazer uma coisa dessas! Ocorreu a Kate que ele devia ter-lhe contado mais qualquer coisa, algo que tivesse dado credibilidade às mentiras. Havia uma coisa que ela nunca contara a Joe, e perguntou a si mesma naquele momento se ele saberia. Olhou para ele muito quieta e só viu amor nos olhos dele. - Ele também te falou do meu pai? Detestava falar daquele assunto, e nunca o fizera antes. Contudo, não existia nada que não pudesse contar a Joe. Sabia que com ele estava em segurança

       - O Clarke contou-me antes de eu te pedir em casamento em Cape Cod. Achou que eu devia saber - respondeu Joe com meiguice, pegando-lhe na mão e puxando-a para si. - Desculpa, Kate. Deve ter sido terrível para ti.

       - E foi, - disse ela com lágrimas nos olhos. - Lembro-me tão bem desse dia... lembro-me de tudo. O mais engraçado é que me lembro pouco dele. Devia lembrar-me, mas não lembro. Tinha oito anos quando morreu, mas ele afastara-se de todos dois anos antes - continuou com uma expressão triste. Fora o maior trauma da sua vida, para além de ter perdido Joe. - Também deve ter sido horrível para a minha mãe, embora ela nunca fale do assunto. Devia ter falado. Sei pouco a respeito dele, apenas o que Clarke conta: que ele era um bom homem.

       - Era com certeza. - Joe percebeu o quanto aquele assunto ainda era delicado para Kate. Era a raiz e o centro de todos os medos dela, o medo da perda, da dor e do abandono. Inadvertidamente, o pai causara-lhe isso tudo. Mas agora Kate estava feliz e em paz com Joe. Encontrara finalmente um bom porto de abrigo.

       - Ainda bem que sabes - disse ela baixinho. Fora o único segredo que guardara dele.

       E nessa noite, quando foram para a cama, falaram novamente da traição de Andy. Kate ficara horrorizada, e mais ainda com o fato de Joe ter acreditado no que ele dissera; ao aproveitar-se da culpa e da fragilidade de Joe de forma tão brilhante, Andy conseguira afastá-lo. Concordavam que era um gesto desprezível, mas engenhoso. Kate não o julgara capaz de algo tão mesquinho, e isso dizia-lhe muito a respeito do caráter dele. Queria pensar um pouco mais no assunto e sabia que um dia o confrontaria. No fim, depois de ter usado todos os truques que sabia, Andy acabara por perdê-la na mesma. E ela voltara a encontrar o caminho de regresso até Joe e sentia-se diariamente grata pela bondade do destino.

       Durante a primavera, Joe começou a passar mais tempo na Califórnia. Precisava aí de uma base maior para a sua companhia de aviação. No verão, passava metade dos meses em Los Angeles e quis que Kate estivesse lá também. Ela levou os filhos e a ama e instalaram-se no Hotel Beverly Hills. No início ela gostou bastante, foi às compras, brincou com os filhos e observou as estrelas de cinema junto à piscina. Joe estava constantemente no escritório, regressava ao hotel quase sempre depois da meia-noite e saía às seis da manhã. Estava a tentar estender a operação até ao Pacífico e queria estabelecer novas rotas onde nunca haviam existido. Era uma tarefa monstruosa estabelecer numerosas bases além-mar e planejar a logística de uma companhia de aviação que começara a tornar-se uma das mais importantes do mundo.

       Em setembro, Joe passou muito tempo em Hong Kong e no Japão. Concordaram que era demasiado distante para Kate o visitar, e ela detestava ter de abandonar os filhos durante várias semanas. Também não fazia sentido ficar em Los Angeles no hotel à espera que ele voltasse. Por isso foi para Nova Iorque. Ele ligava todas as noites, estivesse onde estivesse, e contava-lhe o que estava a passar-se. E tanto quanto ela se apercebia, Joe fazia milhentas coisas ao mesmo tempo. Dirigia Nova Iorque, estendia-se para o Oriente, desenhava aviões, dirigia uma companhia de aviação e fazia vôos de ensaio sempre que podia. Claro que andava frenético, e mesmo quando ligava a Kate soava tenso. Apesar das pessoas competentes que tinha a trabalhar consigo, agia como se estivesse sozinho. E queixava-se constantemente de que não tinha tempo para pilotar os seus aviões, nem para ver a mulher. Quando voltou para casa em outubro tinha estado ausente quatro semanas e Kate comentou que já quase nunca o via.

       - O que queres que eu faça, Kate? Não posso estar em quatro sítios ao mesmo tempo. - Estivera em Tóquio duas semanas, a fechar negócios e a estabelecer rotas, uma semana em Hong Kong, a batalhar com os Britânicos, e cinco dias em Los Angeles. E um dos seus melhores pilotos despenhara-se pouco antes, sem razão aparente, num avião que Joe tinha verificado pessoalmente pouco antes. Joe fora a Reno uma noite inspecionar os destroços e visitar a viúva, e quando chegou a Nova Iorque estava meio morto.

       - Porque não tentas dirigir as coisas a partir daqui? - perguntou Kate.

       Era complicado.

       - Como posso fazer isso? - perguntou ele exasperado. Andava com pouca paciência. Sentia-se cansado, andava sempre a correr, sempre a bordo de um avião a caminho de algures. Kate sentia-se aborrecida em casa e ansiosa sempre que ele estava fora. As prolongadas ausências de Joe começavam a fazer-se sentir nela. Sabia que o marido a amava, mas sentia-se muito sozinha quando ele estava fora. Como é que queres que eu fique sentado aqui num gabinete quando tenho funcionários por todo o mundo? Porque não fazes algo para te manteres ocupada? Volta a trabalhar para a Cruz Vermelha, ou algo parecido. Brinca com os miúdos. Andava demasiado cansado para enfrentar o assunto e a maior parte das vezes rejeitava-o. Quando andava a viajar, estava sempre irritado e com pouca paciência. Kate, com trinta anos, estava casada com um homem que amava e passava a maior parte do tempo sozinha.

       Ia a festas sem ele, passava fins-de-semana fora com os filhos, deitava-se sozinha à noite e tinha de explicar às pessoas que os queriam ver que o marido não estaria presente. Nova Iorque inteira desejava convidar os Allbright; Joe tornara-se um dos homens mais importantes da aviação em apenas oito anos e só tinha quarenta e dois de idade. Conseguira obter tudo sozinho e era não só admirado pelas suas qualidades como piloto, mas também pelo seu jeito para o negócio. Tudo aquilo em que Joe tocava se transformava em ouro. Mas o dinheiro que ele ganhava não aquecia Kate à noite. Ela sentia saudades de Joe, mais saudades do que nunca. E as ausências dele faziam surgir velhos fantasmas. Mas Joe não se apercebia disso. Só reparava que ela se queixava das suas ausências assim que ele chegava a casa, o que o fazia retrair-se, e deixava Kate ainda mais nervosa. Ela precisava dele e tinha dificuldade em encontrá-lo.

       - Porque não vens comigo? - sugeriu ele. Ias adorar. Há anos que ela não ia a Tóquio; estivera lá em criança com os pais. Joe levara-a a Hong Kong. - Podes ir às compras, a museus ou templos, ou a algo parecido disse ele, tentando criar um compromisso que funcionasse para ambos. No entanto, sabiam que mesmo que ela fosse não o veria muito. Ele trabalhava constantemente quando estava fora, tal como em casa.

       - Não posso deixar as crianças durante semanas a fio, Joe. Ainda são pequenas.

       - Trá-las - respondeu ele.

       - Para Tóquio? - perguntou, horrorizada.

       - Há crianças no Japão, Kate. Juro. Vi uma, uma vez. Confia em mim.

       Mas era muito distante. E se os filhos adoecessem enquanto lá estivessem? Não podia falar com o médico. E de que valeria estarem todos no hotel à espera que Joe aparecesse? Fazia mais sentido esperar por ele em casa.

       Por altura do Dia de Ação de Graças, Joe encontrava-se na Europa e Kate foi para casa dos pais com os filhos. Ele telefonou-lhe de Londres e falou com Clarke e Liz. O pai dela queria saber tudo o que ele andava a fazer. E Liz fez um comentário sobre ele nessa noite que enervou Kate mais do que ela gostaria de admitir.

       - Ele alguma vez está em casa, Kate?

       Nem agora Liz aprovava aquele casamento. Sempre desconfiara que Joe destruíra o casamento de Kate com Andy e culpava-o por isso, mais ainda do que à filha. Na sua opinião, fora um ato terrível E embora tivesse casado com ela, Joe nunca andava por perto

       - Ele passa pouco tempo em casa, mãe. Mas está a construir algo extraordinário. Dentro de um ou dois anos irá assentar. - Kate tinha a certeza disso

       - Como é que sabes. Dantes eram os aviões. Agora é a empresa e os aviões. Quando é que ele está contigo? - Nas horas e nos dias entre viagens, pensou Kate em silêncio, quando ele estava cansado até para conversar, ou exausto para dormir, por isso ia até ao escritório às quatro da manhã. Naquela altura já não faziam amor há cerca de dois meses, ele andava muito cansado para pensar nisso durante os poucos dias em que dormia em casa. Queria fazer amor, queria tudo, queria estar com ela, ter noites sensuais e manhãs sonolentas, mas já não havia tempo. Havia mil forças a puxá-lo. - É melhor olhares bem para aquilo que tens, Kate. Um marido que nunca vai estar presente, aconteça o que acontecer. Não consegue. E o que achas tu que ele faz naquelas viagens? Deve ter uma mulher algures, é um homem.

       Kate sofria só de pensar nisso, e sempre disse a si própria que tal não era verdade. Isso já lhe ocorrera, mas ela decidira rejeitar a idéia. Era impelido pela sua paixão pelos aviões e a sua obsessão pelo trabalho. Estava a construir uma fortuna e um império, o que para ele era tão viciante como uma droga. Tinha quase a certeza que durante aquele ano de casamento ele nunca a traíra E ela seria incapaz de o fazer

       Mas o que a mãe lhe disse deixou as suas marcas. Ele nunca estava por perto. Fossem quais fossem as razões, boas ou não, nunca se encontrava em casa. Quando lá ia, havia papéis e problemas e ameaças dos sindicatos. Passava o tempo ao telefone com a Califórnia, com a Europa, com Tóquio, com a Casa Branca ou com Charles Lindbergh. Era sempre alguém ou algo que lhe consumia o tempo e parecia ser mais importante do que Kate. Ela tinha de ficar na fila como toda a gente e, na maior parte das vezes, ficava para último. Era assim que as coisas funcionavam. E se ela queria ter uma vida com ele, e disso não havia dúvidas, não conseguira obter mais nada. Ele não podia dividir-se mais e esperava que ela compreendesse. E na maior parte das vezes Kate compreendia. Amava-o e admirava o seu êxito. Mas mesmo assim sentia-se magoada. Joe não compreendia a solidão dela. E embora Kate tentasse relativizar as coisas, por vezes sentia-se abandonada quando ele partia.

       Tentou explicar-lhe tudo isso calmamente numa tarde em que ele estava em casa. Foi na semana a seguir ao Dia de Ação de Graças e Joe assistia a um jogo de futebol na televisão. Chegara a casa de manhã e não pregara olho durante a noite. Estava a olhar para a televisão, a beber uma cerveja e a descontrair, o que raramente podia fazer.

       - Por amor de Deus, Kate, não comeces outra vez com isso. Acabei de chegar a casa. Sei que estive fora três semanas e não fui a casa dos teus pais, mas os Britânicos estavam quase a cancelar-me as rotas! - Parecia arrasado e tinha uma enorme necessidade de se descontrair sem pressões da parte dela.

       - Não pode ser outra pessoa a negociar com eles de vez em quando?

       Joe começava a tornar-se egocêntrico, tinha de fazer tudo ele próprio. A verdade era que construíra aquele império e fazia-o melhor do que ninguém. Quando tomava as coisas nas mãos, elas corriam bem. Não tinha vontade de correr o risco que alguém destruísse o que ele construíra.

       - Kate, eu sou assim. Se queres alguém que passe o tempo sentado aos teus pés, compra outro cão. - Bateu com a cerveja na mesa, entornando-a para o chão.

       Kate não fez menção de a limpar. Estava à beira das lágrimas. Queria que ele compreendesse o que estava a dizer-lhe, mas ele não queria ouvir.

       - Não entendes, Joe? Quero estar contigo. Amo-te. Eu percebo. Sei aquilo que tens de fazer, mas isto é difícil para mim. - Mais difícil do que ele pensava. Mas quanto mais ela tentava aproximar-se, mais ele se afastava. Kate fazia-o sentir-se de novo culpado. Era o nemesis dele. A única coisa que não podia tolerar a ninguém.

       - Por quê? Por que não aceitas o fato de eu estar a fazer algo importante pela minha vida? Não o faço só por mim, faço-o também por ti. Adoro aquilo que estou a construir. O mundo precisa disso. - Tinha razão, mas Kate também precisava dele. - Não quero chegar a casa e ter-te sempre a massacrar-me. Não é justo. Devias aproveitar os momentos em que estou em casa.

       À sua maneira, Joe pedia-lhe que não o repreendesse. Isso doía muito. Contudo, Kate não conseguia compreender isso tal como ele não compreendia o quanto ela se sentia abandonada. O círculo vicioso de há alguns anos recomeçara.

       Não valia a pena discutir com ele, nem havia forma de equilibrar o êxito profissional e as pressões com o que ela queria do marido. Um deles tinha de ceder, e Kate sabia que teria de ser ela. As coisas eram mesmo assim, mas sofria muito, especialmente quando pensava que ele estava a afastar-se de si. Isso deixava-a em pânico.

       Em dezembro ele passou ainda menos tempo em casa. Regressara a Hong Kong para se encontrar com os banqueiros, e eles não estavam a facilitar-lhe as coisas. Depois disso tinha ainda de passar pela Califórnia, havia problemas na fábrica e o motor de um dos últimos modelos dele falhara. Morrera outro piloto e Joe culpava-se por isso. Estava certo de que daquela vez fora um erro de designe. Jurara a Kate que, custasse o que custasse, passaria o Natal em casa. Ela esperava-o. Joe até lhe dissera que se fosse necessário não iria à Califórnia e que regressaria lá depois das festividades. Prometera-lhe que na véspera de Natal estaria em casa.

       O telefone tocou nessa manhã enquanto ela estava a decorar a árvore com Reed. O menino guinchava de excitação e Kate cantarolava. Falara com Hazel, a secretária de Joe, depois do pequeno-almoço, e embora não tivesse obtido confirmação, tinha a certeza de que ele vinha no vôo de regresso. Joe dissera-lhe na véspera que era isso que tencionava fazer.

       Kate foi atender e era Joe. Percebeu de imediato que era uma chamada interurbana. A telefonista estabeleceu a ligação e Kate mal o ouvia. Ele gritava para o bucal.

       - O quê? Onde estás? - perguntou ela também aos gritos.

       - Continuo no Japão.

       Kate sentiu um aperto no coração.

       - Por quê?

       - Perdi o avião. - Havia estática e interferências na linha, mas se tentasse não chorar, Kate conseguia ouvi-lo melhor. - Reuniões... tive de ir a mais reuniões... a situação está bastante difícil. - Kate tinha lágrimas nos olhos e sabia que devia dizer qualquer coisa, mas não foi capaz. - Desculpa, querida... volto para casa daqui a uns dias... Kate?... Kate?... Estás aí? Consegues ouvir-me?

       - Consigo - respondeu ela, limpando os olhos. - Tenho saudades tuas... quando voltas?

       - Talvez dentro de dois dias. - O que provavelmente significava três, quatro ou cinco. Levava sempre mais tempo do que o planejado, embora a culpa não fosse dele. Tentava fazer tudo ao mesmo tempo.

       - Vejo-te quando regressares - disse ela, tentando não soar aborrecida. Sabia o quanto ele detestava isso. E àquela distância, não valia a pena discutir. Não mudaria nada. Kate não tinha vontade de o repreender nem de o afastar ainda mais. Desejava muito ser uma boa mulher para Joe, custasse o que custasse.

       - Feliz Natal... dá um beijo aos miúdos. - A voz dele ouvia-se cada vez pior.

       - Amo-te! - gritou ela, esperando que ele conseguisse ouvi-la. - Feliz Natal!... Amo-te, Joe! - Mas a chamada caíra. E enquanto Reed a observava perto da árvore de Natal, ela sentou-se numa cadeira e começou a chorar.

       - Não fiques triste, mamã! - pediu ele aproximando-se e sentando-se ao colo dela. Kate abraçou-o. Não estava zangada, apenas muito decepcionada. Sabia que a culpa não devia ser de Joe, mas custava à mesma. Ele não estaria em casa no Natal e ela obrigou-se a recordar o que sentira quando o avião dele fora abatido durante a guerra. Julgara-o morto.

       Agora pelo menos sabia que ele regressaria. Pousou Reed no chão e foi assoar-se. Nada podia fazer para alterar aquela situação. Tinham de tirar o maior partido dela e comemorar o Natal com Joe quando ele regressasse a casa. Kate estava decidida a não deixar que ele percebesse o quanto ficara aborrecida.

       O Natal foi tranqüilo sem Joe. Ela e os filhos abriram os presentes. Os pais tinham-lhe mandado o seu e havia alguns de amigos. Ela calculou acertadamente que Joe não tivera tempo para ir às compras. Mas não importava. O único presente que queria era Joe.

       Andy foi buscar Reed no dia de Natal para passar com ele algumas horas e estava com uma cara muito séria. Kate acabara de saber que ele ia casar e ficara feliz por ele. Esperava que daquela vez ele fizesse a escolha certa. Ela não a fora para ele. E embora as coisas não fossem fáceis com Joe, achava melhor estar casada com uma pessoa que realmente amava, independentemente dos problemas.

       - Olá, Kate - cumprimentou Andy da porta, um pouco atrapalhado. Tratavam-se com cortesia desde o divórcio, mas não haviam voltado a aproximar-se. Kate confrontara-o finalmente com as mentiras que ele contara a Joe a seu respeito, e Andy pedira desculpa e admitira que fora um gesto cruel. Ficara bastante atrapalhado.

       Kate sabia que ele ainda visitava os seus pais sempre que ia a Boston, mas não se importava. Afinal de contas, era o pai dos seus filhos e Liz e Clarke sempre haviam gostado dele. Haviam lamentado o divórcio. Fora Liz que dissera a Kate que Andy ia casar-se. Namorava uma rapariga há um ano, o que Kate achava razoável.

       - Feliz Natal - disse Kate, convidando-o a entrar. Quando ele recusou, ela acrescentou: - Não há problema. O Joe não está cá. Está fora.

       - No Natal? - perguntou Andy chocado, entrando para o vestíbulo do apartamento que fora de Joe já antes de ele casar com Kate. - Lamento, Kate. Deve ser difícil para ti.

       - Não é fantástico, mas ele não pôde evitá-lo. - Ficou retido no Japão. - Tentou aligeirar as coisas.

       - Ele é um homem muito ocupado - observou Andy.

       Nesse momento, Reed apareceu, deu um gritinho e Stephanie seguia-o a gatinhar. Ela iria ficar em casa com a mãe.

       - Ouvi dizer que vais casar - disse ela quando Reed foi buscar o casaco. Não sabia se Andy já comentara isso com o filho, pois este não lhe havia dito nada.

       - Só em junho. Não tenho pressa. - Sorriram. Ele não quis acrescentar “Para não cometer outro erro”, mas Kate adivinhou o que lhe ia na mente.

       - Espero que sejas feliz. Merece-o - disse quando Reed reapareceu com o casaco e o gorro vestidos, as luvas calçadas, e pegou na mão do pai.

       - Tu também. Feliz Natal, Kate - disse Andy, indo-se embora. Traria Reed de volta às oito da noite. Ela foi brincar com Stephanie.

       Fora um dia de grande solidão para Kate. Tentou ligar para o hotel de Joe mas não conseguiu. E provavelmente ele teve o mesmo problema ou passou o tempo todo em reuniões porque não lhe telefonou. Restava-lhe apenas dizer a si própria que não tinha importância. Teriam o Natal do ano seguinte. Às vezes as coisas eram assim, e Kate sabia que tinha de reagir como uma adulta. Contudo, quase chorou quando os pais telefonaram e lhes assegurou que estava bem.

       Só dois dias depois teve notícias de Joe. Ele ligou-lhe a dizer que iria sair de Tóquio no dia seguinte e que pararia em Los Angeles.

       - Pensei que tinhas dito que irias lá depois - observou, tentando manter um tom neutro, mas não conseguindo. Joe estava sempre a mudar de idéias e a desiludi-la. O tom de Kate não o enganou.

       - Não posso. Tenho de ir agora. Os sindicatos estão a intervir. Para além disso, não é correto, Kate. Há uma viúva que perdeu o marido por causa de um dos meus aviões. Acho que lhe devo uma visita de cortesia. É o mínimo que posso fazer. Kate não discordou, ele tinha sempre bons motivos, mas teve de conter-se para não gritar: “Então e eu?” Parecia sempre ser a última prioridade na lista dele, embora compreendesse o quanto ele tinha para fazer. No entanto, Joe acabara de estar ausente no Natal e ela queria-o de regresso a casa.

       - Quando é que voltas, - perguntou com voz cansada.

       - Na véspera de Ano Novo. - Talvez. Se em Los Angeles não acontecesse nada que o retivesse. Kate já não contava com ele. Tinham combinado ir jantar e dançar com uns amigos na passagem do ano e ela estava desejosa de que chegasse essa noite. Mas se Joe não regressasse a tempo, ela teria de ficar em casa com os filhos. Não queria estar sozinha na companhia de outros casais.

       Ele regressou no dia 31 e começou a nevar em Nova Iorque antes de ele partir de Los Angeles. O tempo foi piorando e o avião chegou atrasado. Joe entrou em casa às nove da noite, exausto. Pilotara ele próprio o avião da companhia. Não confiava em mais ninguém com o tempo assim. Kate já despira o vestido e aguardava-o na cama, com um livro. Não o ouviu entrar e, de súbito, ali estava ele ao pé da cama, a olhá-la envergonhado. Mas a expressão dos seus olhos fê-la derreter-se. Joe era irresistível para ela, sempre fora.

       - Ainda moro aqui, Kate? - Joe sabia que as últimas semanas tinham sido muito difíceis para ela.

       - Acho que sim - respondeu, sorrindo-lhe quando ele se sentou ao seu lado. - Estás com ótimo aspecto

       - Desculpa, querida. Estraguei-te esta quadra festiva. Queria mesmo voltar para casa. Lamento ser tão idiota. Queres ir sair? - Ela teve uma idéia melhor, e levantou-se para fechar a porta do quarto. Joe despira o casaco e estava a tirar a gravata quando ela se aproximou e começou a desabotoar-lhe a camisa. - Queres que me vista? Estava disposto a fazer tudo o que ela quisesse para a compensar.

       - Não - respondeu Kate, abrindo-lhe a braguilha das calças.

       Joe sorriu.

       - Isto parece sério - disse ele, beijando-a.

       - E é.. é o preço que vais ter de pagar por me teres deixado ficar sozinha no Natal - brincou enquanto o beijava. Apesar de Joe estar exausto, conseguiu excitá-lo imediatamente.

       - Se me tivesses falado disto eu tinha voltado para casa muito mais cedo - murmurou, metendo-se na cama com ela.

       - Está sempre aqui à tua disposição, Joe - disse Kate beijando-o nos sítios que ele mais gostava.

       Joe gemeu.

       - Para a próxima, lembra-me - disse ele e abandonaram-se nos braços um do outro. Foi a passagem do ano perfeita.

      

      

       Quando Kate e Joe fizeram um ano de casados, no início de 1954, ele passava a maior parte do tempo ausente enquanto ela ficava em casa com os filhos. Começou a dedicar-se à caridade para se manter ocupada enquanto ele estava fora. E Joe arranjou outro projeto para ela nessa primavera. Queria comprar uma casa na Califórnia. Ele passava lá tanto tempo que fazia sentido, e achou que seria boa idéia mantê-la ocupada com a decoração.

       Descobriram uma bela mansão antiga em Bel Air, contrataram um decorador e assim que Kate meteu mãos à obra, Joe começou a passar mais tempo na Europa. Andava a estabelecer novas rotas para Itália e Espanha, e quando não estava em Roma ou em Madrid, estava em Paris ou em Londres. Ainda tinha de ir a Los Angeles todos os meses, mas já não passava tanto tempo na Ásia. E Kate começava a achar que ele se encontrava sempre no extremo oposto do mundo em relação a si. Por muito que tentassem, ela raramente o via.

       Foi ter com ele a Londres uma ou duas vezes, depois a Madrid e a Roma, e passaram uma semana fabulosa em Paris. No entanto, sempre que fazia estas viagens, Kate sentia remorsos por deixar os filhos em casa. A vida de Joe era uma corrida constante, sempre a voar de um lado para o outro, e a dela dividia-se entre correr para Joe e regressar aos filhos. Pelo menos naquele momento andava muito divertida a decorar a casa na Califórnia. E surgira uma situação caricata: sempre que ela ia para lá, ele partia para a Europa. E quando ele estava em Los Angeles, ela encontrava-se em Nova Iorque com os filhos.

       A casa ficou finalmente pronta em finais de setembro, e Joe adorava-a. Era confortável e quente, elegante, um lar para quando ele se encontrasse na Califórnia. Disse a toda a gente que Kate fizera um excelente trabalho. Até a encorajou a decorar a casa de alguns amigos nas horas vagas, mas ela não queria meter-se em novos projetos. Queria estar livre para poder ir ter com ele sempre que possível. Joe estava tantas vezes ausente que ela queria fazer o impossível para manter o casamento intacto.

       Ele passou em casa a maior parte do mês de outubro, o que não era normal. Mas daquela vez não havia fogos para apagar, as coisas estavam calmas e ele teve várias reuniões importantes em Nova Iorque e em New Jersey. Kate adorava tê-lo em casa todas as noites, embora detestasse ter de admitir que percebia que Joe começava a ficar impaciente. Ele voava bastante aos fins-de-semana e, num dos domingos, voaram até Boston para visitar os pais dela. No caminho de regresso ele deixou-a pilotar durante algum tempo, o que foi divertido.

       Já estavam quase a chegar a casa e Joe pegara de novo nos comandos quando ela abordou um assunto que já há bastante tempo queria abordar. Por norma, ele não estava em casa o tempo suficiente para falarem sobre assuntos delicados, mas naquele momento ele parecia tão bem-disposto, e tão feliz com o avião, que Kate decidiu falar nele. Queria outro filho. O filho dele.

       - Agora? - perguntou, horrorizado.

       - Bem, não faças com que o avião caia enquanto falamos do assunto.

       - Já tens dois filhos, Kate. E muito que fazer. - Stephanie fizera dois anos e Reed quatro. Andy casara em junho e a mulher dele já estava grávida. Reed não ficara nada contente.

       - Estamos casados há ano e meio, Joe. Seria agradável termos um filho nosso, não achas? A expressão dele dava a entender precisamente o contrário. Joe nunca se mostrara entusiasmado com crianças, excetuando Reed e Stevie. Reed idolatrava Joe, e este adorava a criança.

       - Não precisamos de mais filhos, Kate. Já temos preocupações suficientes.

       - Tu nunca tiveste um filho - implorou ela. Há mais de dez anos que queria o filho dele. Tinham passado onze anos e meio desde que o perdera em Radcliffe.

       - Não preciso de um filho. Tenho o Reed e a Stevie.

       - Não é a mesma coisa - retorquiu ela com tristeza. Joe não parecia estar minimamente receptivo.

       - Para mim é, Kate. Não gostaria mais deles se fossem meus filhos. - Tratara-os sempre muito bem, e fora sempre por isso que Kate achara que ele seria um ótimo pai. Ela queria mais um filho. Parecia ser uma conseqüência natural do amor que nutria pelo marido. - Para além do mais, já sou velho para ter filhos. Tenho quarenta e três anos. Quando eles forem para a faculdade já eu tenho sessenta

       - O meu pai era mais velho do que tu quando eu nasci. O Clarke tem mais de sessenta anos e continua cheio de gênica.

       - Nunca teve uma vida tão atarefada como a minha. Os meus filhos nem iriam saber quem eu sou. - Era uma das raras vezes que admitia que quase nunca estava em casa. - Porque não arranjas outra coisa que te ocupe? Era mais do que uma maneira de se manter ocupada, Kate queria mesmo aquele filho. Mas Joe não gostara sequer que ela falasse no assunto, tal como não gostou de a ver triste. - Tens sempre qualquer coisa - queixou-se quando se aproximaram do aeroporto. - Ou te queixas da minha ausência, ou queres um filho. Não podes ser feliz com o que tens? Porque é que precisas sempre de mais, Kate? Qual é o teu problema?

       Kate não quis discutir com Joe enquanto ele fazia a manobra de aterragem, mas não gostou da forma como ele se lhe dirigira. Tinha sempre de se encaixar e adaptar às necessidades dele, o contrário raramente acontecia. Aquilo que ela queria parecia não importar. Ele habituara-se mal ao longo dos anos e a culpa era parcialmente dela. Joe estava tão pouco em casa que tudo girava à volta dele nessas ocasiões. Entre a adulação pública por causa dos seus recordes de vôo, o seu heroísmo durante a guerra e o seu enorme êxito empresarial, Joe sabia apenas que era um homem extraordinário e a voz de Kate era apenas mais uma no meio da multidão.

       Ela permaneceu calada no carro a caminho de casa. Joe sabia por que e recusou-se a continuar o assunto. Dissera-lhe sempre que não queria filhos. Já havia crianças suficientes no mundo, a explosão demográfica repovoara o planeta e ele achava que não devia contribuir para isso. Quando Reed lançou os braços ao pescoço de Joe depois de chegarem a casa, ele olhou para Kate como que para provar que estava certo. Tinham dois filhos, não precisavam de mais. No que lhe dizia respeito, a conversa chegara ao fim. O assunto não voltou a ser abordado e ele fez questão de estar em casa nos dias festivos. Kate nunca o deixara esquecer que perdera o Dia de Ação de Graças e o Natal no ano anterior, pelo que ele planejou o seu calendário em função dela e acabou por gostar bastante. Foram a festas de Natal e a um baile de debutantes, levaram as crianças a patinar e fizeram juntos bonecos de neve no Central Park. E ele ofereceu a Kate um magnífico colar de diamantes com brincos a condizer. Estavam casados há dois anos e nunca tinham sido tão felizes. E quando dançaram na passagem do ano e ele a beijou, Kate soube que nunca fora tão feliz.

       No dia seguinte, Joe estava a assistir a um jogo de futebol da televisão enquanto ela guardava os enfeites da árvore de Natal. As crianças dormiam a sesta e apesar da ligeira ressaca da noite anterior, Joe estava bem humorado. A quadra festiva fora perfeita. Dali a dois dias partiria para uma viagem de quatro semanas pela Europa e em fevereiro regressaria à Ásia, mas Kate já se conformara e iria encontrar-se com ele na Califórnia.

       Ela levou-lhe uma sandes enquanto ele assistia ao jogo e estava a rir-se com qualquer coisa que ele dissera quando, de súbito, Joe notou a sua expressão estranha e a sua palidez. Ficou em pânico. Nunca a vira assim.

       - Estás bem?

       Kate parecia nauseada.

       - Estou. - Sentou-se no sofá ao lado dele, tentando recompor-se. Tivera uma intoxicação alimentar uns dias antes e pensava que a má disposição devia ser por causa disso. O seu estômago continuava sensível.

       - Senta-te um bocado. Tens andado a correr de um lado para o outro toda a manhã. Ela subira e descera o escadote uma dezena de vezes para tirar a decoração do pinheiro, e correra atrás dos filhos. A ama tinha folga aos domingos e feriados.

       - Estou bem, a sério - insistiu pouco depois, levantando-se. Tinha muita coisa para fazer e não queria perder tempo. Assim que se levantou, Joe virou-se para a observar; ela revirou os olhos e caiu no chão. Desmaiara.

       Ele ajoelhou-se imediatamente ao lado dela, verificando-lhe o pulso e confirmando que continuava a respirar. O seu rosto estava próximo do de Kate quando ela abriu os olhos devagar e gemeu. Não fazia idéia do que acontecera. Num minuto estava a olhar para ele, no outro estava estatelada no chão. Joe parecia em pânico.

       - O que aconteceu, Kate? O que é que sentes. - Ela tinha trinta e um anos e parecia estar a morrer.

       - Não sei - respondeu, assustada. Senti-me tonta. A mulher de um dos pilotos de Joe morrera com um tumor no cérebro e ele só conseguia pensar nisso enquanto a ajudava a levantar.

       - Vou levar-te ao hospital e é já - disse Joe, deitando-a no sofá

       Ela não tentou levantar-se, sabia-lhe bem estar deitada, embora já se sentisse um pouco melhor.

       - Tenho a certeza de que não é nada. E não podemos deixar as crianças sozinhas. Vou telefonar ao médico.

       - Fica quieta.

       Ela obedeceu e pouco depois adormecera. Joe observava-a. Não queria dizer nada, mas estava raladíssimo. Já a conhecia há muito tempo e nunca a vira desmaiar. Continuava sentado ao lado de Kate no sofá quando ela acordou. Parecia bastante melhor. Apesar dos protestos dele, ela levantou-se para fazer o jantar, embora depois tivesse comido muito pouco. Joe fê-la prometer que iria ao médico de manhã e já estava a planejar ligar ao diretor do Hospital Columbia-Presbyterian. O médico era um velho amigo e um fanático por aviões e Joe queria obter o nome dos melhores médicos de Nova Iorque, para o caso de o assunto ser sério. No entanto, Kate parecia muito mais descontraída que ele. Joe estava tão preocupado quando se foram deitar nessa noite que ela não teve coragem de lhe esconder a novidade durante mais tempo. Virou-se para o marido quando ele ia a apagar a luz e beijou-o. Ele julgava-a às portas da morte e teve de reprimir as lágrimas enquanto a abraçava

       - Querido, não te preocupes, eu estou bem. Não queria que ficasses zangado comigo. Especialmente durante a quadra natalícia. - Preferia esperar pelo menos até janeiro, mas agora era impossível. Não parecia justo preocupá-lo.

       - -Porque é que havia de ficar zangado contigo? Não tens culpa de estar doente, Kate, - disse com meiguice.

       Ela recostou-se na almofada.

       - Não estou doente... estou grávida. - Se o tivesse agredido com um tijolo, o efeito teria sido menor.

       - Estás o quê? - perguntou ele boquiaberto.

       - Vamos ter um bebê. - Ela parecia muito calma e Joe percebeu que ela estava feliz, embora apreensiva quanto à sua reação.

       - Há quanto tempo é que sabes? - Joe sentia-se um pateta. Ela ocultara-lhe aquilo.

       - Desde antes do Natal. O bebê deve nascer em agosto. - Ficara grávida pouco antes do Dia de Ação de Graças.

       - Enganaste-me! - exclamou ele, saltando da cama furioso. Kate nunca o vira tão zangado e ficou imóvel enquanto ele andava de um lado para o outro no quarto, a atirar coisas ao chão. Era a reação que ela temia, e não a que queria ver.

       - Não te enganei - respondeu baixinho.

       - Uma ova! - Disseste que tinhas tomado precauções. Há anos que usava o diafragma, desde o aborto em Radcliffe, embora durante o casamento com Andy tivesse parado.

       - E tomei, mas o diafragma deve ter escorregado. Acontece, Joe.

       - Por que agora? Aqui há uns meses eu disse-te que não queria filhos. Quando chegaste a casa nessa noite deves ter atirado o diafragma para a sanita. Não te interessa o que eu quero? - perguntou furioso. Kate estava quase a chorar. As necessidades de Joe eram distintas das suas.

       - Claro que interessa, foi um acidente, Joe. Não pude evitá-lo. Acontecem coisas piores. - Mas não para Joe. Ela não lhe dera ouvidos e ele sentia-se encurralado.

       - Nem por isso. Bolas, Kate! Livra-te dele. Não o quero.

       - Joe, não podes estar a falar a sério! - exclamou, chocada.

       - Estou. Não vou ter um filho na minha idade. Faz um aborto. - Deitou-se finalmente e olhou-a furioso. Ela estava horrorizada com as palavras dele.

       - Joe, somos casados... é o nosso filho... não vai alterar nada nas nossas vidas. Arranjamos uma ama e vou continuar a poder viajar contigo.

       - Não me interessa, não o quero. - Parecia uma criança de cinco anos a governar o mundo.

       - Não vou fazer um aborto - retorquiu ela cheia de calma. Já uma vez perdi um filho teu. Não vou matar outro. Isso acontecera havia onze anos, mas ela ainda se lembrava de todos os segundos de sofrimento e de tristeza. Levara meses a recuperar.

       - Vais matar-me se tiveres este filho, Kate. E colocar em perigo o nosso casamento. Já estamos sob demasiada pressão, passas a vida a dizer que nunca estou em casa. E depois vais queixar-te de que nunca estou em casa com o bebê. Caramba, se era isto que querias devias ter-te casado com outro, ou ter continuado casada com o Andy. Ele parece ter um filho de cada vez que olha para uma mulher.

       Kate ficou magoada com o comentário de Joe

       - Quero estar casada contigo, Joe. Sempre quis. Isto não é justo. A culpa não é minha. - Queria mesmo ter aquele filho. Contudo, Joe estava convencido de que Kate engravidara propositadamente e nada do que ela pudesse dizer o faria mudar de idéias.

       Pouco depois ele apagou a luz e virou-lhe as costas. Quando ela acordou de manhã ele já se tinha ido embora. A reação dele preocupava-a bastante, e especialmente o fato de lhe ter dito para fazer um aborto. E parece que Joe estava mesmo decidido, porque nessa noite voltou a falar-lhe no assunto. Estava feliz por ela não ter uma doença terminal como a princípio pensara quando a vira desmaiar, mas na sua opinião, aquela gravidez era quase tão má como isso.

       - Pensei naquilo que disseste ontem à noite, Kate, acerca. sabes, da gravidez... - Até tinha dificuldade em chamar-lhe bebê. Olhava para o prato enquanto falava. Parecia que nem queria vê-la, mas, por um minuto, Kate julgou que ele iria ceder. - Quanto mais pensei no assunto, mais fiquei com a certeza de que é a opção errada para nós. Sei que isto te incomoda, Kate, mas acho mesmo que devias pôr fim a essa gravidez. É o melhor para nós dois e para os teus filhos. Já vão ficar perturbados quando o Andy e a mulher tiverem um filho, e se ainda por cima nós tivermos outro vão achar que já ninguém os ama e acabar por tornarem-se invejosos e neuróticos. - Fora o melhor argumento que conseguira arranjar, e Kate ter-se-ia rido na cara dele se não tivesse ficado tão perturbada com as suas palavras.

       - As outras crianças parecem conseguir sobreviver com irmãos - contrapôs. Não iria permitir que ele a pressionasse, mas também não queria colocar o casamento em risco. Nunca vira Joe tão perturbado como na noite anterior. Agora já estava mais calmo, mas igualmente descontente com a notícia.

       - Não têm pais divorciados, Kate.

       - Joe... não vou fazer um aborto - afirmou. - Não vou. Amo-te e quero ter um filho nosso.

       Ele ficou calado e permaneceu no escritório até se ir deitar. No dia seguinte partiu para uma viagem de quatro semanas pela Europa. Nem sequer se despediu dela. Saiu de rompante de casa.

       Passou-se uma semana até Joe telefonar a Kate, o que não era normal. Estivera a remoer a idéia e ela podia apenas deixá-lo em paz. Joe ligou-lhe de Madrid e o seu tom foi um pouco frio. Perguntou-lhe como estava, como estavam as crianças e depois contou-lhe o que andava a fazer. Em seguida disse que em breve voltaria a ligar. Acabou por lhe telefonar três a quatro vezes por semana. Quando regressasse iria ficar em Nova Iorque apenas dois dias antes de ir para Hong Kong e para o Japão, e só regressaria ao fim de três semanas. Voltara de novo ao corropio.

       Chegou a Nova Iorque no dia 1 de fevereiro e as crianças já se encontravam na cama quando ele entrou em casa. Kate estava na sala a ver televisão e ficou sobressaltada quando o ouviu entrar. Ele levou alguns minutos a aparecer na sala e aproximou-se dela devagar. Nem lhe telefonara a dizer quando iria chegar.

       - Como é que estás, Kate? - Era um cumprimento frio após quatro semanas de ausência, e ela calculou que ele ainda estivesse zangado. Aquilo começava a parecer-se com a atmosfera gelada entre ela e Andy depois de ele se ter recusado a dar-lhe o divórcio, e Kate receou que Joe pusesse fim ao casamento por causa daquela gravidez. Começava a duvidar se ele alguma vez lhe perdoaria, apesar de a culpa não ter sido dela.

       - Estou bem, e tu? - perguntou ela quando ele se sentou numa cadeira à sua frente.

       - Cansado. - O vôo fora longo.

       - Correu tudo bem? - Há uma semana que não falava com ele e estava feliz por tê-lo de novo em casa. Teria gostado de o abraçar, mas não ousou fazê-lo.

       - Mais ou menos. Então e contigo? - Olhou-a com ar inquiridor e ela suspirou. Era fácil adivinhar o que ele queria saber.

       - Não fiz um aborto, se é a isso que te referes - respondeu ela, desviando o olhar. Era uma guerra de vontades por causa de uma pequena vida. Kate achava aquilo muito triste. - Disse-te que não o faria.

       - Eu sei - respondeu ele, levantando-se e indo sentar-se ao pé dela. Pôs-lhe um braço sobre os ombros e puxou-a para si. - Não sei por que motivo queres ter este filho, Kate. - Parecia exausto e triste, mas menos zangado.

       Kate ficou aliviada.

       - Porque te amo, tontinho - disse ela com um soluço, aninhando-se junto de Joe. Tivera muitas saudades dele e preocupara-a o fato de ele ter partido zangado.

       - Eu também te amo. Acho que não devíamos ter um filho, mas se é isso que queres, tenho de aceitar. Mas não esperes que eu mude fraldas ou que me levante de noite quando a criança chorar. Sou um velho, Kate, preciso do meu sono - disse Joe com um sorriso.

       Ela fitou-o incrédula. Joe reagira de forma violenta inicialmente, mas acabara por tomar a decisão correta.

       - Não és um velho, Joe.

       - Sou sim. - Não lhe contou, mas estivera sentado numa igreja em Roma a meditar no assunto. Não era religioso, mas quando saíra de lá decidira deixá-la ter o filho, se isso significava assim tanto para ela. - Mas não voltes a desmaiar à minha frente. Quase me provocaste um ataque cardíaco. Tens-te sentido bem? - perguntou, preocupado.

       - Estou ótima. - Ficou tão aliviada que não teve coragem de lhe contar que o médico era de opinião que, como a sua barriga estava a crescer demasiado depressa, iria ter gêmeos. Joe demorara a aceitar a idéia de um filho; sabe-se lá qual seria a sua reação ao saber que teria dois.

       Foram até à cozinha depois disso e ela contou-lhe muito animada tudo o que tinha feito, quem vira, onde estivera. Ele adorava ouvi-la, mesmo quando estava cansado. Amava a energia dela, a expressão dos seus olhos, a sua beleza e, acima de tudo, aquilo que ela o fazia sentir. Mesmo quando o cansaço o dominava, Kate conseguia trazer animação à sua vida. Fora isso que o atraíra desde a primeira vez que a vira, e o que o mantivera cativado.

       Ficaram sentados à mesa da cozinha durante bastante tempo a conversar e quando foram para a cama tinham feito as pazes. Haviam sentido muito a falta um do outro. Joe não era capaz de imaginar o que era ter um filho, mas já que ia ter um, mais valia que fosse com Kate.

       Antes de adormecerem, ele pôs os braços à volta dela. Adorava sentir aquela pele sedosa encostada à sua. E quando as suas mãos afagaram ao de leve o ventre dela, Joe ficou espantado por sentir um pequeno alto arredondado. Kate estava de costas, pelo que não viu o rosto dele, mas Joe sorria quando adormeceu.

      

      

       Joe passou a maior parte do mês de fevereiro no Oriente e na Califórnia e Kate foi de avião ter com ele a Los Angeles no final do mês. Ele estava muito animado quando chegou, a viagem correra bem e alcançara muitos dos seus objetivos. Quando viu Kate ficou admirado ao reparar que ela ganhara peso.

       - Engordaste brincou ele.

       - Muito obrigada! - Estava feliz por voltar a vê-lo, tudo corria bem. Continuou sem dizer a Joe que o médico achava que iriam ser gêmeos.

       Joe nunca a vira durante as gravidezes e por vezes sentia-se pouco à vontade junto dela. Tinha medo que ela voltasse a desmaiar, que não se sentisse bem ou que se magoasse. Também se sentia pouco à vontade ao fazer amor. Kate ria-se.

       - Não há problema, Joe, eu estou bem. - Ele não queria que ela conduzisse, repreendia-a quando ela dançava e achava que também não devia nadar. - Não vou passar os próximos seis meses na cama.

       - Vais sim, se eu te mandar. - Mas apesar dos receios dele, fizeram amor mais vezes do que o costume. A viagem a Los Angeles foi uma espécie de lua-de-mel. Apesar do bebê, ou talvez por causa dele, Joe sentia-se estranhamente próximo de Kate.

       Ele ficou duas semanas em Nova Iorque quando regressaram e em seguida voltou a partir. Kate começava a habituar-se às ausências dele, mantinha-se ocupada com os filhos e visitava amigas. A gravidez animara-a. Ansiava pelo nascimento do bebê, que estava previsto para o fim de agosto, ou talvez mais cedo, se fossem gêmeos. O médico prevenira-a de que talvez tivesse de passar os últimos dois meses na cama. Mas até agora, apesar do tamanho dela, ele não ouvira dois corações, apenas um.

       O filho de Andy nasceu em março. Kate mandou-lhes uma lembrança com um bilhete, desejando-lhes as maiores felicidades. Ele tinha um ar feliz de cada vez que ia buscar os filhos. Parecia que o tempo que tinham vivido juntos nunca existira. Era como se Andy fosse uma pessoa que ela conhecera há muito tempo. As melhores recordações eram da altura em que haviam sido amigos. O casamento fora uma experiência dolorosa para ambos.

       Joe encontrava-se em Paris quando Andy telefonou a Kate no final de uma sexta-feira de abril. Tinha ficado de ir buscar Reed e levá-lo durante o fim-de-semana para a casa no Connecticut, mas estava com bastante trabalho. A mulher e o bebê encontravam-se um pouco adoentados, pelo que ela também não podia ir buscar Reed.

       - Talvez possas metê-lo no comboio, Kate. A Julie pode ir buscá-lo a Greenwich. Não vou chegar muito tarde a casa.

       Ela não achava que isso fosse boa idéia, e Reed ficou triste por não ir. Adorava ir a Greenwich visitá-los. Kate telefonou a Andy depois de ter falado com o filho e ofereceu-se para o levar até lá de carro. A viagem levava apenas uma hora para cada lado, o tempo estava bom e, com Joe fora, ela não tinha mais nada para fazer.

       - Tens a certeza? Não me agrada nada que faças isso. - Kate estava grávida de cinco meses.

       - Vai ser divertido. Assim mantenho-me ocupada. - Reed ficou muito animado quando ela lhe contou. Deixaram Stephanie com a ama, pois Kate regressaria bastante tarde para o horário da filha, e arrancaram às seis horas. Disse à ama que estaria de volta pelas oito. Era meia-noite em Paris e Joe já telefonara.

       Apanharam um pouco de trânsito à saída, mas nada de especial, e chegaram a casa de Andy às sete e um quarto. Julie tinha o bebê ao colo, tinham-se constipado os dois e ela estava com cólicas. O bebê era a cara de Andy e dava uns ares a Reed. Kate despediu-se do filho e deixou-o com a madrasta. Julie perguntou-lhe se desejava comer alguma coisa, mas ela queria voltar para casa. Riram-se ambas e concordaram que ela estava enorme. Kate tinha cada vez mais a certeza de que iria ter gêmeos.

       - Talvez seja um bebê elefante - disse ela com uma gargalhada, metendo-se no carro. Abriu a janela e ligou o rádio. A noite estava agradável e ela gostava de conduzir. Arrancou às oito menos um quarto. Mas à meia-noite, a ama ligou para Greenwich. Kate ainda não chegara

       Foi Julie que atendeu o telefone. A ama estava preocupada; a princípio pensara que Kate parara em casa de alguns amigos, mas quando chegou a meia-noite começou a pensar que acontecera algo de grave. Decidira ligar para os Scott a perguntar se Kate estava a dormir lá. Achava que isso era pouco provável, mas pareceu-lhe melhor telefonar. Julie ficou admirada ao saber que Kate ainda não estava em casa. Não fazia idéia de quais eram os seus planos. Ela demorara-se em sua casa apenas alguns minutos. Julie virou-se para Andy, que estava meio a dormir, e perguntou-lhe se Kate lhe tinha dito alguma coisa. Ele abanou a cabeça e abriu os olhos.

       - Deve ter ido jantar com uns amigos em Nova Iorque. Disse-me que o Joe estava fora. - Sabia que ela passava a maior parte do tempo sozinha.

       - Ela não vinha vestida para ir jantar fora - observou Julie. Kate levara uma saia de algodão e uma blusa larga, prendera o cabelo num rabo-de-cavalo e calçara sandálias.

       - Talvez tenha ido ao cinema - respondeu Andy, voltando a adormecer.

       Julie pediu à ama que voltasse a telefonar-lhe se entretanto Kate não chegasse. Sempre simpatizara com ela. Sabia que Kate magoara Andy quando se envolvera novamente com Joe, mas o marido perdoara-lhe isso agora que voltara a casar. E Julie estava grata a Kate por esta tê-lo deixado. Era muito feliz com ele.

       A ama voltou a ligar às sete da manhã, e desta vez Andy ficou muito preocupado.

       - Isso não é nada típico dela - disse ele a Julie ao desligar o telefone. Reed estava a tomar o pequeno-almoço lá em baixo, e ele não queria que o filho soubesse que algo acontecera. - Vou ligar para a brigada de trânsito, e perguntar se houve algum acidente ontem à noite. Kate era boa condutora e não havia motivos para ter tido um acidente, mas nunca se sabia.

       Esperou uma eternidade até a brigada atender o seu telefonema e descreveu Kate e o carro que ela conduzia, uma carrinha Chevrolet. O agente pediu-lhe que esperasse. Passado bastante tempo tornou a aparecer em linha.

       - Houve uma colisão frontal em Norwalk, às oito e um quarto. Uma carrinha Chevrolet e um Buick de três volumes. O condutor do Buick morreu, a condutora do Chevy estava inconsciente quando a tiraram do carro. Tem trinta e dois anos, e não tenho aqui uma descrição dela. Deu entrada no hospital às dez horas. Levaram duas horas para conseguir tirá-la do carro.

       O agente não sabia mais nada. Andy contou a Julie o que o homem lhe dissera e em seguida ligou para o número do hospital que ele lhe dera. As mãos tremiam-lhe enquanto aguardava que alguém atendesse o telefone.

       A enfermeira das urgências disse-lhe o que sabia. Kate estava lá, ainda inconsciente, e em estado crítico. Tinham ligado para casa dela depois da meia-noite, mas ninguém atendera. A ama devia estar a dormir. Andy olhou para Julie muito aflito quando desligou.

       - Ela encontra-se em estado crítico. Tem uma concussão na cabeça e uma perna partida.

       - E o bebê? - sussurrou a mulher, cheia de pena.

       - Não sei, não disseram. - Vestiu-se e disse a Julie que iria ver Kate ao hospital.

       - Não achas boa idéia ligar ao Joe?

       - Deixa-me ver primeiro como é que ela está.

       Andy levou meia hora a chegar ao hospital e, quando entrou no quarto dela, ficou horrorizado. Kate tinha a cabeça ligada, a perna engessada e reparou de imediato que, debaixo do lençol, o ventre dela estava liso. Kate ainda não sabia, mas perdera o bebê no acidente. Andy aproximou-se dela com lágrimas nos olhos e pegou-lhe na mão. Vê-la trouxe-lhe muitas recordações. No princípio tinha havido muitos momentos felizes, e o primeiro ano em que estivera casado com ela fora uma das épocas mais felizes da sua vida.

       Ela continuava em coma quando ele saiu do quarto. Andy foi falar com o médico e este disse-lhe que ainda não sabia se ela iria sobreviver. Demorariam algum tempo a ter a certeza.

       Andy ficou na sala de espera durante horas e isso fê-lo recordar-se do nascimento de Reed; também passara um dia na sala de espera. Tinha telefonado para a ama assim que saíra do quarto e pedira-lhe que entrasse em contato com Joe.

       - Não sei como, Mister Scott - respondeu ela desatando a chorar. Temera que alguma coisa tivesse acontecido a Kate, e os seus temores haviam-se confirmado. Tivera um pressentimento quando ela não chegara à hora prevista e quando o telefone tocara de madrugada ela não o ouvira. - Mistress Allbright tem o nome do hotel, julgo eu, mas não sei onde é. Normalmente é o marido que lhe telefona. É mais simples.

       - Sabe em que cidade ele está? Que vida tão solitária tinha Kate, - pensou Andy, com o marido sempre a viajar. Mas sabia que ela estava disposta a tudo para continuar casada com Joe.

       - Não, não sei - respondeu a ama, continuando a chorar. - Em Paris, acho. Creio que foi isso que ela disse. Ele telefonou ontem.

       - Acha que vai ligar hoje?

       - Talvez. Não liga todos os dias.

       Andy odiou Joe naquele momento por tudo o que ele não fazia por Kate. Ela merecia ter alguém por perto que cuidasse dela, não um caixeiro viajante que corria mundo a vender a sua companhia de aviação e os seus aviões.

       Andy disse à ama o que dizer a Joe se este telefonasse, o estado de Kate e o nome do hospital em que ela se encontrava. E disse-lhe que não deveria sair de perto do telefone a nenhuma hora do dia ou da noite. Andy não podia telefonar para o escritório de Joe porque era fim-de-semana. Se não tivessem notícias dele em breve, Kate talvez estivesse morta quando ele voltasse a telefonar. Não teria podido fazer nada por ela, mas seria bom tê-lo ali a apoiar Kate.

       - O bebê... o bebê está bem? - perguntou a ama receosa.

       Fez-se um longo silêncio.

       - Não sei - respondeu finalmente Andy. Achou que não devia ser ele a dizer-lhe que o bebê morrera. Era melhor Joe saber primeiro.

       Depois de desligar, Andy telefonou aos pais de Kate, que ficaram em pânico ao saber do acidente. Andy disse-lhes que os manteria informados e eles responderam que iam para lá o mais depressa possível. Em seguida telefonou a Julie e pediu-lhe que fosse a Nova Iorque com os filhos buscar Stephanie, mas que deixasse a ama na cidade para o caso de Joe telefonar.

       - Como é que ela está? - perguntou Julie, cheia de pena de Kate.

       - Muito mal - respondeu Andy, voltando em seguida para o quarto de Kate. Ficou lá até depois das seis. Ligou então para Nova Iorque e Joe ainda não ligara para casa.

       Ele e Julie revezaram-se no hospital durante a noite e não disseram nada às crianças. Reed pressentiu que acontecera qualquer coisa, mas contentara-se em brincar na rua toda a tarde e o pai disse-lhe que a mãe fora passar o fim-de-semana fora. Andy combinara com Julie que Reed ficaria em Greenwich com eles durante a semana e não iria à escola.

       Kate não recobrou os sentidos durante o fim-de-semana e Joe não telefonou. Os pais dela estavam no hospital, arrasados. A situação de Kate não se agravou nem melhorou; ela pairava entre a vida e a morte. Por aquilo que viu quando regressou ao hospital no domingo à tarde, Andy depreendeu que a vida de Kate estava presa por um fio. E continuava a não haver sinal de Joe. Liz chorava de cada vez que alguém falava nele.

       Andy não foi trabalhar na segunda e ligou para o gabinete de Joe logo de manhã. Hazel, a secretária de Joe, informou-o que Mr. Allbright estava em trânsito entre a França e a Espanha e que teria notícias dele mais tarde. Andy explicou-lhe qual era a situação e ela ficou muito abalada. Prometeu tentar encontrar Joe durante as próximas horas.

       Andy só voltou a ter notícias dela às cinco da tarde. Joe mudara de idéias e deixara recado em Madrid. Ninguém conseguira contatá-lo e ela perdera-o por pouco em Paris. Disse que achava que ele fora para Londres, mas não tinha a certeza. Deixou-lhe recados em todos os hotéis da Europa onde ele costumava ficar.

       Era terça-feira à tarde quando finalmente tiveram notícias de Joe. Ele disse a Hazel que passara o fim-de-semana num barco no Sul da França. Optara por não ir a Espanha e tirara um dia de folga, o que era raro. Fora-lhe impossível telefonar a Kate. Chegara a Londres à meia-noite de terça-feira e encontrara o recado de Hazel no hotel.

       - O que se passa. - Não fazia idéia de que todos tinham tentado localizá-lo nem do que acontecera à mulher. Achava que Hazel estava preocupada com qualquer coisa de trabalho e não tivera pressa em telefonar-lhe. Sentia-se descontraído e feliz depois do fim-de-semana de três dias no barco e detestava estragar essa boa disposição.

       - É a sua mulher - respondeu Hazel indo direta ao assunto, contando-lhe em seguida o acidente. Explicou-lhe que Kate se encontrava em estado crítico num hospital do Connecticut e que Andy Scott telefonara

       - O que estava ela a fazer no Connecticut? - Ainda não digerira o que Hazel lhe dissera, por isso fizera uma pergunta absurda.

       - Acho que foi levar o Reed na sexta à noite. O acidente deu-se no caminho de regresso

       Joe começou finalmente a perceber a gravidade da situação

       - Tenho de voltar - disse instantaneamente, mas sabiam ambos que àquela hora era demasiado tarde para apanhar um avião, e ele não tinha à disposição nenhum dos seus. Fizera aquela viagem em vôos comerciais, o que não era vulgar. - Vou fazer o que puder. Creio que não consigo estar de volta antes de amanhã à tarde. Tem o número de telefone do hospital?

       Hazel deu-lho e, assim que desligou, Joe ligou para lá. Quando pousou o auscultador ficou a olhar para o teto. Não acreditava no que lhe tinham dito. A vida de Kate estava por um fio, e ela perdera os bebês, explicara a enfermeira. Dissera-lhe que Kate estava grávida de gêmeos. Mas ali sentado na beira da cama, no Hotel Claridge’s, Joe só pensava no que iria fazer se Kate morresse.

      

      

       Joe entrou no Hospital Greenwich às seis da tarde de quarta-feira. Tinham passado cinco dias desde o acidente. Kate estava ligada a uma máquina e entubada. Ainda não saíra do coma, embora julgassem que a concussão na cabeça melhorara. O inchaço diminuíra, o que era bom sinal. Os pais dela tinham regressado ao motel para descansar. Andy Scott encontrava-se ao pé da cama quando Joe entrou no quarto. Os dois homens entreolharam-se longamente e Joe leu no olhar de Andy tudo o que ele pensava a seu respeito.

       - Como é que ela está? - perguntou Joe, tocando na mão de Kate. Achou-a muito pálida, parecendo quase morta, mas Andy julgara notar uma certa melhoria nessa tarde. Não fora trabalhar durante toda a semana. Não lhe parecera bem deixar Kate sozinha, e Julie tinha muito que fazer com as crianças. A ama viera de Nova Iorque para a ajudar assim que tivera notícias de Joe.

       - Mais ou menos na mesma - respondeu Andy.

       Joe reparou de imediato no ventre liso de Kate, e comoveu-se, sabendo o que isso significaria para ela. Ele próprio andara animado com a perspectiva de ir ser pai de um bebê, ou melhor, de dois bebês, mas agora isso deixara de ter importância. A sua única preocupação era Kate.

       - Obrigado por ter estado com ela - agradeceu Joe educadamente quando Andy pegou no casaco e se preparou para sair. Havia uma enfermeira sentada ao lado da cama, a observar os dois homens. Ela não sabia qual a relação deles com Kate, mas era evidente que antipatizavam um com o outro.

       Andy parou junto à porta e falou em voz baixa.

       - Onde é que raio você esteve, homem? Ninguém soube de si durante quatro dias! Tinha responsabilidades: uma mulher grávida e dois enteados. - Andy era incapaz de conceber que alguém pudesse desaparecer durante dias daquela maneira. Perguntou de si para si se ele não andaria a trair Kate, mas não o conhecia. Joe era mesmo assim. Kate habituara-se, mas ainda havia vezes em que não era fácil. Joe aproximava-se quando estava pronto, e por vezes não telefonava durante dias. Andy achava inconcebível ninguém saber onde Joe estava. Aquilo exemplificava bem por que motivo ele não podia desaparecer. Andy não se imaginava a fazer aquilo à mulher e aos filhos.

       - Estive num barco - respondeu Joe com frieza. Parecia-lhe uma explicação razoável. - Vim assim que soube. - No entanto, sentia-se pouco à vontade por ela ter estado cinco dias no hospital sem ele. Não queria era admiti-lo diante de Andy Scott. Este nada tinha a ver com o assunto, Kate era apenas a mãe dos seus filhos. Mas para Andy isso era suficiente. - Os pais dela já sabem? - perguntou Joe de repente. Nem se lembrara de perguntar isso a Hazel quando ela lhe ligara.

       - Estão cá - respondeu Andy. - Encontram-se instalados num motel.

       - Obrigado pela sua ajuda - disse Joe, mandando-o embora.

       - Telefone se pudermos fazer alguma coisa. - Dizendo isto, Andy saiu do quarto e fechou a porta.

       Joe sentou-se ao lado de Kate. A enfermeira afastou-se e ocupou-se com qualquer coisa no lavatório junto à porta para que Joe pudesse ficar sozinho com a mulher. Joe fitou-a com uma expressão aflita. Não se imaginava a perder Kate.

       Por muito estranha que a relação de ambos parecesse aos outros, ele amava-a profundamente há quinze anos. Ela era a sua melhor amiga, o seu consolo, a sua mentora, o seu riso, a sua alegria, por vezes a sua consciência e fora sempre o amor da sua vida, a única mulher que realmente amara.

       - Kate, não me abandones... - murmurou ele quando a enfermeira saiu. - Por favor, querida... volta... - Ficou ali sentado durante as horas seguintes, agarrando-lhe na mão, as lágrimas a correrem-lhe pela cara.

       Um médico veio inspecionar as ligaduras e, à meia-noite, trouxeram um divã a Joe. Ele decidira passar lá a noite. Não queria estar longe se ela morresse. Passou a noite acordado, e de vez em quando espreitava para ver como ela estava. Miraculosamente, às quatro da manhã Kate mexeu-se.

       Joe estava quase a adormecer, mas assim que a ouviu gemer sentou-se. A enfermeira observava os olhos de Kate.

       - O que se passa? - perguntou ele enquanto a mulher procedia ao exame. Ela tinha um estetoscópio nos ouvidos e não ouviu o que ele disse. Kate gemeu novamente e, de olhos ainda fechados, virou a cabeça para Joe. Era como se até nas grutas negras da inconsciência soubesse que ele ali estava. - Querida, sou eu... estou aqui... abre os olhos. - No entanto, Kate não emitiu mais nenhum som e ele voltou a deitar-se. Tinha a estranha sensação de que alguém no quarto o observava. Sentia-o na pele, e estava apavorado com a possibilidade de ela morrer. Isso fê-lo perceber o quanto a amava e sempre soubera que ela o amava muito. Só não queriam sempre as mesmas coisas. Kate queria estar com Joe e ele precisava de vogar pelo mundo com os seus aviões. Mas não a amava menos por causa disso, só que para ele havia outras prioridades e julgava que ela aceitara isso. Não sabia por que, mas sentia-se culpado por causa do acidente. Seria incapaz de o admitir perante alguém, mas achava que devia ter estado presente. Não fizera idéia de que algo acontecera a Kate, passara três dias maravilhosos no barco do amigo inglês, com quem voara durante a guerra. Até pensara bastante em Kate e no bebê que iriam ter. Custava-lhe imaginar o que seria ter gêmeos. Mas isso agora não importava.

       Joe não pregou olho nessa noite e às seis da manhã levantou-se, lavou os dentes e a cara. Tinha acabado de voltar para junto da cama quando Kate se mexeu e abriu os olhos. Fitou Joe e este ficou sem fôlego com a surpresa.

       - Assim é melhor - disse ele com um sorriso, sentindo-se invadir por um enorme alívio. - Bem-vinda. - Ela suspirou e fechou de novo os olhos. Joe estava impaciente para que a enfermeira regressasse, para poder dizer-lhe que Kate acordara. Antes de isso acontecer, Kate olhou de novo para ele e fez um esforço enorme para falar. Não parecia admirada por vê-lo ali.

       - O que aconteceu... - A voz dela era tão tênue que Joe mal conseguia ouvi-la, por isso inclinara-se e aproximara o ouvido da boca dela.

       - Tiveste um acidente - murmurou ele, sem saber por que não falara em voz alta. Não queria assustá-la falando demasiado alto

       - O Reed está bem? - Kate lembrava-se de ir no carro com ele, mas não do que acontecera no regresso

       - Está ótimo. - Joe rezou para que ela não fizesse ainda perguntas sobre o bebê. Não queria que ela soubesse que ele morrera, nem que eram gêmeos. - Acalma-te, querida. Estou aqui contigo. Vais ficar boa. Rezava para que assim fosse.

       Ela franziu o sobrolho como se tentasse compreender o que ele dissera.

       - Porque estás aqui?... Andavas a viajar...

       - Mas já não ando. Estou aqui. Voltei.

       - Por quê? - Kate não fazia idéia da gravidade dos seus ferimentos, e ainda bem. E então, instintivamente, a mão dela moveu-se na direção da barriga, e Joe tentou detê-la, mas em vão. Os olhos de Kate arregalaram-se e ela olhou para Joe; antes que ele pudesse falar, as lágrimas correram-lhe pela cara.

       - Kate, não. - Não foi capaz de dizer mais nada e encostou a mão dela à sua boca, beijando-a. - Por favor, querida.

       - Onde está o nosso bebê? - perguntou ela a custo, emitindo depois um som animal, como um uivo de dor, e agarrando-se a Joe. Este tomou-a nos braços com cuidado, para não lhe magoar a cabeça. Kate soubera instintivamente o que acontecera e ele nada podia fazer para confortá-la. Sentia-se feliz por ela estar viva.

       A enfermeira regressou com o médico e ficaram satisfeitos por ela ter recobrado os sentidos, mas o médico disse a Joe que o perigo ainda não passara. Kate tivera uma concussão grave e estivera em coma cinco dias. Tinha uma fratura séria na perna e perdera muito sangue quando abortara os filhos. A convalescença deveria levar uns meses. Havia a possibilidade de ela poder não vir a ter mais filhos. Os danos provocados pelo acidente haviam sido consideráveis. Mas Joe achava que isso era o menos; estava muito mais preocupado com ela. Não queria ter mais filhos, especialmente se a gravidez pusesse Kate em risco.

       Ela ficou tão perturbada ao perceber que abortara que tiveram de lhe dar um sedativo e Joe aproveitou para ir a Nova Iorque. Queria passar pelo escritório e ir a casa buscar roupa para os dois. Regressou a Greenwich às cinco da tarde. Os pais dela estavam de saída e Elizabeth Jamison recusou-se a falar com ele. Havia lágrimas nos olhos de Clarke quando se virou para Joe.

       - Devia ter cá estado, Joe - limitou-se a dizer, partindo em seguida.

       Joe ficou calado. As palavras de Clarke tinham-no ferido como um punhal. Compreendia o que eles estavam a sentir, embora lhe parecesse pouco razoável. Fora um mero acaso ela ter tido um acidente e perdido os filhos. Afinal de contas ele tinha o direito de fazer viagens de negócios, embora talvez não o de desaparecer num barco durante três dias com a mulher grávida em casa. Mas julgara que ela estava bem. E a sua presença nada teria alterado, a não ser o fato de não a ter deixado conduzir até ao Connecticut. No entanto, não podia protegê-la vinte e quatro horas por dia. O condutor que batera no carro dela ia bêbado, como havia comprovado a autópsia. Podia ter acontecido noutro lado, em qualquer altura, e até se fosse ele a conduzir. Joe achava que estava a servir de bode expiatório por ter estado ausente Mas nada daquilo fora por sua culpa. Ele era marido de Kate, não era Deus.

       No final da semana Joe conseguira que Kate fosse transferida para um hospital em Nova Iorque. Era mais fácil visitá-la ali e ele achou que a visita das amigas poderia animá-la, mas Kate estava tão deprimida que se recusou a ver toda a gente. Disse-lhe que queria morrer.

       Ele passou o fim-de-semana no hospital com ela e falaram com Reed pelo telefone, mas depois ela só quis chorar. Estava muito mal. Joe ficou aliviado quando partiu para Los Angeles na semana seguinte, por três dias, embora não o tivesse admitido a ninguém. Sentia-se incapaz de ajudar Kate. Ligou-lhe várias vezes por dia.

       Ela teve alta no final de abril. Ainda tinha algum gesso na perna e andava com a ajuda de muletas, mas a cabeça já estava boa. Só tinha dores de vez em quando. O gesso foi tirado no início de maio. Kate voltara a parecer a mesma e perdera bastante peso. Mas a mulher para quem Joe voltava à noite não era a mesma com quem ele casara. Parecia que a luz que ele sempre vira brilhar nela se extinguira. Estava cansada e deprimida durante a maior parte do tempo e recusava-se a sair de casa. Passava os dias a chorar. Joe não sabia o que fazer, ela mal falava com ele, aliás, raramente abria a boca, não se interessava por nada do que ele dizia. Vê-la naquele estado estava a deixá-lo louco.

       Em junho, as crianças foram passar quatro semanas a casa de Andy e Julie e ao saber que ela estava novamente grávida Kate ficou ainda pior. Já lhe tinham confirmado que abortara gêmeos no acidente e passava o tempo a lamentar os filhos perdidos.

       - Talvez seja melhor assim, somos velhos para ter mais filhos - disse Joe timidamente, sem saber o que dizer. Mas as suas palavras só serviram para irritar Kate ainda mais. Vamos ter mais tempo um para o outro, e podes viajar mais comigo. Mas ela não queria ir a parte nenhuma com ele. Joe ofereceu-se para a levar à Europa ou à costa oeste, mas ela quis ficar em casa.

       Durante dois meses Joe tentou tudo o que sabia para a animar, e em seguida fez o que melhor fazia. Fugiu. Era demasiado difícil estar com ela. Estava constantemente irritada e deprimida. Parecia que o culpava, tal como toda a gente, por não ter estado presente, pelo acidente, pelos filhos mortos. Joe não conseguia agüentar mais. O velho demônio da culpa roía-lhe de novo os calcanhares. Fez todas as viagens que pôde, e bem que precisava, pois estivera em casa com ela durante bastante tempo e o seu império começava a dar sinais de tensão. Quando Joe voltou à estrada tinha os nervos em franja. E de cada vez que telefonava para casa discutia com Kate. Parecia um pesadelo sem fim. Ele não queria que as coisas fossem assim, mas já não sabia o que fazer nem como encontrar Kate. Ela perdera-se algures e a mulher em que se transformara afastava-o.

       Joe viajou constantemente durante três meses e no final do verão pareciam dois estranhos de cada vez que ele ia a casa. Ela foi para Cape Cod com os pais e os filhos e desta vez Joe não os acompanhou. Ficou em Los Angeles. Tinha a certeza de que Elizabeth iria tecer inúmeros comentários, mas já não se ralava. Há anos que ela o detestava e Joe era de opinião que não tinha de lhe provar nada, nem a Kate. Voltara para casa, estivera presente, fizera tudo o que pudera e ainda assim continuava a não ser o suficiente!

       Em setembro esteve em casa duas semanas e esperava que nessa altura ela se encontrasse mais animada, mas quando lhe disse que tinha de ir ao Japão, Kate teve um chilique.

       - Outra vez? Quando é que paras em casa? - Começara a transformar-se numa megera. Joe lamentou ter ido a casa.

       - Estarei quando precisares de mim, Kate. Fiquei em casa durante o máximo de tempo possível. Tenho de gerir uma empresa. Tenho muito gosto em que vás comigo se quiseres. - A sua voz soava fria e retraída.

       - Não quero. - Ela sentia-se inquieta, infeliz e discutia por tudo e por nada, o que só piorava as coisas entre ambos. - Quando é que voltas para casa? - perguntou e pela primeira vez na vida Joe imaginou-se a odiá-la. Não queria, mas ela não lhe dava alternativa. A Kate de antigamente parecia ter desaparecido. Ele sabia que ela ficara perturbada por causa dos gêmeos, mas com aquele comportamento dava cabo dele e começava ela própria a parecer uma morta-viva. O pior de tudo era que Kate desejava Joe desesperadamente, precisava dele para se animar, mas estava tão perdida na sua autocomiseração que não sabia como cativá-lo. De cada vez que tentava, o desespero e a ira interpunham-se e afastavam Joe. Eram incapazes de se encontrar e a única coisa que ela queria era estar com ele. Nunca deixara de o amar; a pessoa que detestava era ela própria. Reviu mentalmente os acontecimentos milhares de vezes, conduzir o carro, perder os gêmeos, perguntando a si mesma por que motivo se teria oferecido para levar Reed a Greenwich nessa noite. Se não o tivesse feito, os gêmeos já teriam nascido. Agora nunca mais teria filhos de Joe. Ele mostrara-se bastante firme quando lhe dissera que não queria voltar a tentar. Ela detestava-o também por isso, e quando foi incapaz de encontrar palavras para expressar a sua dor, virou a sua ira contra ele. A única coisa que Joe sabia era que perdera a mulher. Eram desconhecidos e inimigos a viver sob o mesmo teto. E ele raramente estava em casa.

       Em outubro passou apenas quatro dias em Nova Iorque E quanto mais tempo lá estava, pior Kate ficava. As ausências dele faziam-na sentir-se abandonada, desesperada e traída e isso só alimentava a sua fúria. A mãe a acicatá-la também não ajudava. Liz dizia que Joe estava a usar Kate, que queria apenas exibi-la. Kate começara a pensar que ele já não a amava e em vez de lhe demonstrar o seu amor para o trazer de volta, batia-lhe com a porta na cara. Passado algum tempo, ele deixou de tentar aproximar-se. Não faziam amor desde o acidente, há quase seis meses e Joe estava farto

       - Kate, assim dás cabo de mim - tentou ele explicar o mais calmamente possível. Fora passar o fim-de-semana a casa e ela pressentia que ele passava o tempo a fugir. Era incapaz de suportar a ira, as acusações e a culpa. - Não posso voltar para casa e deparar sempre com isto. Tens de ultrapassar o que aconteceu. Sei que é doloroso para ti e que foi horrível teres perdido os gêmeos, mas não quero perder aquilo que tivemos. - Há meses que não via a mulher que amava. Ela tornara-se um fantasma irado. - Tens dois filhos extraordinários, porque não te contentas com eles? Porque não vens comigo para Los Angeles? Não sais de casa há meses. - Tentava fazer tudo para animá-la

       - Não quero ir a lado nenhum - ripostou ela, e desta vez ele deu-lhe troco. - Tentara mostrar-se paciente, mas isso só servira para o magoar.

       - Não queres, pois não, Kate? Só queres ficar aqui sentada cheia de pena de ti própria. Bem, por amor de Deus, Kate, vê se cresces. Não posso passar o tempo todo aqui a pegar-te na mão. Não posso trazer aqueles bebês de volta e, quem sabe, talvez tenha sido pelo melhor, talvez o destino não quisesse que tivéssemos mais filhos. A decisão não foi nossa, foi de Deus.

       - E era isso mesmo que querias, não era? Que eu fizesse um aborto para não teres de passar em casa mais do que dez minutos por mês. Não me digas o quanto fizeste por mim, nem que tenho muita sorte, nem que foi Deus que quis que os meus bebês morressem... não me digas nada, Joe, porque nunca cá estás. Levaste cinco dias a voltar para casa quando todos julgavam que eu ia morrer. Quem te dá o direito de me dizeres para crescer? Estás fora a pilotar os teus malditos aviões e a divertires-te pelo mundo enquanto eu fico aqui sentada com os meus filhos. Talvez sejas tu que precisas de crescer!

       Joe não respondeu. Saiu de casa batendo com a porta e foi dormir ao Plaza. Ela passou a noite a chorar. Dissera tudo o que não quisera dizer, mas sentia-se infeliz, magoada e sozinha. E só conseguira afastá-lo ainda mais. Desejava-o mais do que nunca, queria que ele solucionasse todos os seus problemas e enfurecia-se por ele não ser capaz. Joe não podia trazer os gêmeos de volta, não podia ficar em casa com ela, não podia fazer recuar o tempo. Kate estava certa de que com aquele comportamento afastava Joe cada vez mais, mas não sabia por que motivo agia daquela forma. Não podia desabafar com ninguém. Parecia que seis meses antes caíra num buraco negro e era incapaz de sair dele. Ninguém podia salvá-la. Sabia que tinha de salvar-se sozinha, mas não fazia idéia como.

       Ele regressou a casa no dia seguinte, mas apenas o tempo suficiente para fazer a mala, e arrancou para Los Angeles. Kate ficou em pânico. Joe mostrou-se muito distante e calmo.

       - Eu telefono-te, Kate disse. - Não sabia o que mais lhe dizer. Julgava que ela o odiava. E Kate não sabia como dizer-lhe que se odiava a si própria. Apesar de todos os seus ataques a Joe, ele continuava a ser o amor da sua vida, mas teria sido difícil convencê-lo disso. Kate dissera-lhe coisas tão terríveis e tratara-o com tanto ódio que pela primeira vez ele se interrogava se algum dia conseguiriam ser capazes de voltar a encontrar-se. A culpa que ela o fazia sentir levava-o a fugir. Joe nunca estivera tão sozinho nem tão infeliz.

       Ficou um mês em Los Angeles e dirigiu a empresa a partir de lá. Até obrigou Hazel a ir para lá só para não ser obrigado a regressar a Nova Iorque. O Dia de Ação de Graças estava próximo quando ele finalmente voltou para casa. Abriu a porta devagar e ficou admirado quando Reed se atirou para os seus braços.

       - Joe! Voltaste!

       Joe também estava feliz por ver o rapaz. Naquela altura, as crianças eram quase o único motivo por que voltava.

       - Tive saudades tuas, valente - disse Joe com um sorriso. Também tivera saudades de Kate, mais até do que esperara. - Onde está a mamã?

       - Saiu. Foi ao cinema com umas amigas. Costuma ir muitas vezes.

       Reed tinha cinco anos e achava Joe o máximo. Detestava quando ele partia e a mãe passava o tempo a chorar. Ela chorara durante bastante tempo. Stevie tinha três anos e estava a dormir naquele momento.

       Quando Kate regressou do cinema ficou admirada por ver Joe. Parecia mais calma do que quando ele se fora embora, e Joe tomou-a nos braços com um certo receio. Nunca sabia quando ela iria atacá-lo. Já mal se falavam ao telefone quando ele viajava.

       - Tive saudades tuas disse ele.

       - Eu também - respondeu Kate, abraçando-o e começando a chorar. Parecia estar melhor, como se tivesse sido finalmente capaz de regressar do local horrível onde estivera.

       - Também tive saudades tuas antes de partir... - Ela percebeu onde ele queria chegar.

       - Não sei o que me deu... Devo ter batido com a cabeça com mais força do que julguei. - Passara momentos terríveis. O acidente, o aborto, tudo parecia demasiado. E a mãe estava constantemente a espicaçá-la. Joe desejava que Kate deixasse de falar com ela, mas sabia que nunca lhe poderia pedir uma coisa dessas.

       Ela estava bastante melhor desta vez e começaram finalmente a descontrair-se. Concordaram em ficar em casa na quadra festiva e não ir passar o Dia de Ação de Graças a casa dos pais dela. Joe achava que não conseguiria suportar a presença dos sogros, mas claro que não fez comentários. Limitou-se a dizer que seria bom para ambos ficarem em casa e ela concordou, o que o deixou imensamente aliviado. Por azar, três dias antes do Dia de Ação de Graças ele recebeu um telegrama do Japão. A situação era grave e a sua presença era necessária. Joe não tinha a mínima vontade de ir, mas para garantir o futuro da relação comercial, tinha de o fazer. Não sabia como dar a notícia a Kate.

       Quando lhe contou, ela ficou chocada.

       - Não podes dizer-lhes que estamos numa quadra festiva? Isto é importante, Joe - disse ela à beira das lágrimas. Tentavam não discutir, pois as coisas tinham melhorado.

       - A minha empresa também é importante, Kate - disse ele com muita calma.

       - Preciso que estejas em casa este ano, Joe. Isto é difícil para mim. - Ainda não ultrapassara o trauma, embora já estivesse melhor. - Não me deixes sozinha. - Era a súplica de uma criança angustiada, de uma criança cujo pai se suicidara, de uma mulher que perdera recentemente não um, mas dois filhos que tanto desejara. Joe sabia que não podia alterar nada e esperava que Kate se comportasse como uma adulta.

       - Queres vir comigo? - Não lhe ocorreu perguntar mais nada.

       Ela abanou a cabeça.

       - Não posso deixar os miúdos numa altura destas, Joe. O que iriam pensar?