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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ALEM DA GRANDE MURALHA / Muriel Romana
ALEM DA GRANDE MURALHA / Muriel Romana

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

MARCO POLO - ALEM DA GRANDE MURALHA

 

A Ásia no Tempo de Marco Polo

Encontra-se sozinho. Rodeia-o o nevoeiro opaco. Nuvens de sombras brancas flutuam como fantasmas na noite. Crispa-se, as veias pulsam-lhe nas têmporas. A bruma adensou-se tão rapidamente que tudo desapareceu à sua volta. Franze os olhos, mas não distingue nada. Os eflúvios de jasmim acometem-no a ponto de lhe causarem vertigens. O ar húmido aperta-lhe a garganta. Revolve-se-lhe o estômago. Gostaria de saber chamar, mas, desde o dia em que nasceu, nenhum som lhe sai da boca.

 

Então, fecha os olhos para não ver o escuro. Tranquilizado, ouve o ruído dos passos do homem coxo, irregulares, pesados. O chicote aflora os caules delgados, obrigando-os a estremecer desde a raiz. Ergue os olhos e distingue algumas pequenas manchas brancas disseminadas pela penumbra. Desajeitadamente, tapa o pescoço com a gola e avança antes que o chicote o atinja. Estende as mãos, tacteando, adivinha a corola fresca da flor e, delicadamente, corta-a do caule e deposita-a no cesto de bambu que traz a tiracolo. Finalmente, a bruma vai-se dissipando aos poucos. Surge o céu na sua pureza escura, negro e iluminado por milhares de minúsculos lucíolos. Feixes de luz cintilam no firmamento, mergulhando no horizonte. Como todas as noites, a criança pergunta-se para onde vão as estrelas cadentes.

 

Com os olhos cheios de centelhas, adivinha os pequenos flocos pousados nos altos ramos que lhe chegam ao peito. Esgueira-se
pelo meio das plantas, passando de uma para outra com rapidez e agilidade. Agora, começa a sentir-se mais quente. O dia ainda vem longe, mas tem de se apressar. O contramestre agita-se. O rapaz estuga o passo. A correia do cesto fere-lhe o ombro. É em plena noite que a flor de jasmim melhor liberta o seu aroma. O calor do dia é-lhe nefasto. O cesto enche-se de branco. A criança imagina que transporta castelos de nuvens. Vê-se voando pelo céu, colhendo nuvens densas. Tosse contra a manga, tão silenciosamente quanto possível. O contramestre pode recear que as flores murchem. O rapaz avança depressa, mais depressa, mas nunca é suficiente. Deixa pairar o espírito, mesmo contra a sua vontade. Desta vez, sonha com a mulher que se inebriará com o perfume exalado por todas estas flores que terá colhido. A mãe. Bonita, com um sorriso aberto de pérola. Estreitá-lo-á nos braços e ele sentirá o odor intenso que lhe causa vertigens. Um dia, sabe-o bem, voltará a encontrá-la. Uma pancada desperta-o bruscamente dos seus devaneios.

 

- Anda, Dão Zhiyou, não adormeças! Senão, vem aí o Grão Cão e manda-te para o hospício.

 

Trémulo, o rapazinho retoma o trabalho. Ouve falar muito do Grão Cão, como de um ogre devorador de crianças, e, mesmo sendo curioso, o que lhe dizem dele basta para destruir a vontade que tem de o ver. Também não sabe o que é o hospício. Mas imagina um local bem pior do que o campo de jasmins, uma vez que é para lá que o Grão Cão o quer enviar. Surpreende o olhar cúmplice de Tchang, mais velho e mais forte do que ele, e sobretudo mais veloz.

 

Quanto tempo ainda, antes da aurora? Dão espera todos os dias, com uma impaciência cada vez mais intensa, que o sol anuncie a hora do repouso, quando os seus raios perfuram como setas os malditos jasmins.

 

- Acabou-se, meninos - ordena o contramestre.

 

Com um imenso cansaço, os pequenos seres saem do campo. Terminou o trabalho, mas ainda lhes falta caminhar até à quinta, onde as flores serão dispostas com a mesma delicadeza com que foram colhidas. Só então poderão dormir descansados. Há dias, um médico itinerante veio visitar um garoto doente que, segundo Dão ouviu dizer, sofria de uma gangrena. O médico disse ao amo que as crianças muito pequenas não deviam receber maus tratos. Desde aí, sempre que está cansado ou não sente vontade de trabalhar, Dão gostaria de poder dizer que é muito pequeno. Mas as palavras nunca lhe saem da boca.

 

No caminho do regresso, Dão arrasta os pés. Dói-lhe o ombro mas não se atreve a queixar-se. Tchang dirige-lhe sorrisos de encorajamento. Tem nove anos, mas aparenta apenas seis. A fraca estatura permite-lhe ter direito a uma refeição suplementar, à tarde, em cima dos teares. As suas mãos parecem as de um velho, enrugadas como um figo seco. Conta que, quando for grande, regressará a casa. O pai vendeu-o quando ele tinha cinco anos. Tchang esqueceu-se de tudo, do nome da aldeia natal e da voz da mãe.

 

Dão desequilibra-se. Cai estendido no chão. De súbito, sente-se perfeitamente à vontade nesta posição. Fecha os olhos e começa a dormir. Não se importa com as flores, nem com o chicote.

 

- De pé, Dão. Não vou levar-te ao colo. Estamos quase a chegar. Anda, apanha tudo - ordena o contramestre.

 

De joelhos, Dão colhe de novo as flores que atapetam o caminho. Sobem-lhe as lágrimas aos olhos, quando as vê cobertas de pó e pensa que terá de as lavar uma a uma antes de poder dormir. Tchang agachou-se para o ajudar.

 

- Eu levo-o - declara ele, orgulhoso. Dão ergue-se com dificuldade.

 

- Está bem, mas, se não conseguires, és tu que serás castigado. Tchang puxa Dão pelos braços, põe o cesto do amigo a tiracolo

 

e carrega com o garoto às costas. De início, avança num passo ligeiro. Porém, começa rapidamente a arquejar. Dão Zhiyou bate levemente no ombro de Tchang, aconselhando-o a repousar. Tchang cai de joelhos.

 

- Estás a ver, não consegues - observa o contramestre. Tchang, esgotado, levanta os olhos e fixa-os nos do homem.

 

- E se, por uma vez, o senhor o levasse? - pergunta ele, descarado.

 

- Não é para isso que aqui estou. Não tenho culpa de que os vossos pais vos tenham vendido.

 

- Dão não foi vendido! - exclama Tchang, irado. O contramestre ri às gargalhadas.

 

- Olha para ele. Não presta para nada. Evidentemente, é um bastardo.


Dão não sabe muito bem o que aquilo significa, mas basta-lhe o tom de desprezo para desencadear uma raiva irreprimível. O garoto avança para o contramestre e morde-lhe a perna válida com toda a força. O homem grita de dor, enquanto o sova.

 

- Larga-me, malvado!

 

Tchang acorre em auxílio de Dão e aplica violentos pontapés no contramestre. Este consegue que Dão o largue, derrubando-o. Atordoado, Dão ergue-se. O contramestre descarrega a raiva sobre Tchang. Estende-o no chão com o joelho e espanca-o com toda a força que lhe resta. Dão fica petrificado. O chicote abate-se milhares de vezes sobre o amigo, que grita, tentando proteger-se. As outras crianças amparam-se umas às outras, aterrorizadas. Pouco depois, só se ouve o silvo do chicote. O corpo de Tchang soergue-se sobressaltado sob a violência dos golpes. O coração de Dão palpita-lhe descompassadamente no peito. O contramestre, ofegante, modera o seu esforço. Volve para Dão um olhar de louco.

 

Num movimento instintivo, o garoto foge pelo campo de jasmins. Põe-se a correr, rastejando um pouco abaixo da altura das flores. O perfume envolve-o num manto de acidez. O seu sopro rouco abafa o rangido das folhas que calca aos pés. Não se volta. As lágrimas escorrem-lhe pelas faces, inundando-lhe o rosto. Nem se lembra de o limpar. Atrás de si, ouve os soluços dos outros garotos e a voz do contramestre, que o chama.

 

Este aproxima-se, ameaçador...

 

Dão tem as pernas muito curtas.

 

”Despacha-te a crescer!”, repetia-lhe constantemente Tchang.


 AS CAÇADAS DO GRÃO CÃO

Verão de 1278

Algures no Império Mongol

Desdobra-se com uma estranha lentidão e deixa-se pairar contra o vento que a empurra para trás. Sem lutar, abandona-se à força invisível que a guia sobre os cumes. Como uma folha morta, voa ao sabor das correntes ascendentes, agitada por um ligeiro frémito. O sol brilha nos reflexos prateados das suas penas, que se movem como vagas rastejando sobre o mar. Arrebatada por uma súbita ventania, perde momentaneamente o equilíbrio. Num gesto imperceptível - uma vírgula com a ponta da asa -, retoma a posição anterior. Animada de carne e osso, parece hesitar. Por fim, imóvel, suspensa do ar, deixa-se cair como uma pedra. A presa não tem nenhuma possibilidade de escapar. A águia real atingi-la-á ainda antes de se aperceber da sua presença.

 

Em terra, entre o grupo dos cortesãos, salienta-se um homem. A cabeleira e a pele claras contrastam com a multidão de cabelo escuro. Dos olhos azuis emana um brilho insólito nestas paragens em que os homens se declinam em preto e branco. Marco Polo é um estrangeiro que ostenta de modo altivo a sua diferença e o seu olhar de além-mar. Aos vinte e quatro anos, a força dos músculos, esculpidos por quatro anos de odisseia entre Veneza e Khanbalik, destaca-se da sua silhueta esbelta. Do chapéu de feltro escapam-se madeixas aneladas, de um tom de ouro carregado. Com a mão cuidada, cofia a barba e o bigode que ele próprio apara, duas vezes por dia com o desvelo que um tapeceiro nutre pela sua obra. Afastou-se dos cortesãos para seguir os passarinheiros. No céu, a águia retoma o voo, apertando a presa nas garras. Marco enterra os tacões das botas nos flancos da montada, seguindo com o olhar a corrida da ave de rapina. Inebriado, galopa, evitando à justa outros cavalos que avançam a passo. Por fim, a águia abranda a velocidade. Em voo planado, oscila suavemente em direcção ao solo.

 

Larga a presa aos pés de um cavalo ajaezado de couro. Depois, a águia desdobra as asas num êxtase majestoso e é com uma delicada brutalidade que pousa no punho do dono. No seu bico ainda brilham pérolas de cor grená, do sangue da vítima. Marco Polo, impressionado, aproxima a montada do jovem de crânio completamente rapado, contrariando a moda na corte. A sua pele morena e os olhos pouco amendoados destoam entre os cortesãos.

 

- O teu animal demonstra uma destreza espectacular. O jovem saúda Marco com um aceno de cabeça.

 

- És chinês? - pergunta o veneziano, respondendo ao cumprimento.

 

O jovem olha-o de alto a baixo num jeito estranho.

 

- Não. Porquê, procura algum?

 

- Há três anos que aqui estou e nunca me cruzei com nenhum. O outro pôs-se a rir.

 

- Eu também não, e já lá vão quinze anos! Estamos na corte do Grão Cão, é tudo, Senhor Marco Polo. É a primeira vez que o vejo numa caçada imperial - acrescenta ele.

 

- Na última vez, o meu pai representava a nossa casa e...

 

Interrompe-se, pouco à vontade. A que título daria uma justificação a um perfeito desconhecido? Como sempre, desde a sua chegada ao Império Mongol, Marco sente-se transparente como água límpida, tão vulnerável como um jovem grumete frente à primeira tempestade. Não consegue habituar-se ao desagradável sentimento de ser reconhecido sem saber por quem. Até agora, nunca se afastara do pai, Niccolo, e era ele que despertava todas as atenções. Sentiria com certeza a sua falta.

 

Um homem a galope aproxima-se deles. Detém-se, ignorando a presença de Marco. Já de idade avançada, também ele de crânio rapado, enverga um traje de seda preciosa e usa um chapéu de alto dignitário.

 

- Sanga, perdeste o juízo? Lançar a águia sem minha licença... Era a única que andava pelo ar.

 

- E o imperador...? - pergunta aquele a quem o velho chamara Sanga.

 

- Felizmente, estava ocupado e não viu nada.

 

A decepção de Sanga é visível, mas, encarando Marco com curiosidade, o velho acrescenta:

 

- O nosso imperial amo e senhor inquietou-se por diversas vezes quanto à sua presença.

 

Depois, volta-se para Sanga, seco:

 

- Vai depressa para junto dos outros passarinheiros. Dócil, Sanga saúda-o humildemente.

 

- Muito bem, Venerável P’ag-pa.

 

Portanto, este velho ainda cheio de vivacidade é o venerável lama, muito influente junto do Grão Cão. Marco segue-o com o olhar, enquanto ele se afasta.

 

Depois, fixa novamente a atenção na ave de rapina.

 

- A tua águia é magnífica, Sanga. Levas à caça sempre a mesma?

 

- Com certeza, veja, cada ave tem na pata uma ficha de metal na qual está inscrito o nome do dono.

 

- Um pouco como os homens, afinal.

 

Sanga fita-o, de sobrolho carregado, bruscamente na defensiva. Marco arrepende-se de imediato do que disse. Ainda tem dificuldade em avaliar a sensibilidade dos interlocutores. É tudo tão diferente, aqui...

 

Sanga enterra os tacões das botas nos flancos da montada. No momento em que o cavalo começa a avançar a passo, a ave de rapina desdobra as enormes asas, como se comandasse o andamento. Marco segue-o, invejando a tranquila segurança que a companhia da águia confere a Sanga.

 

Com o olhar, Marco procura o estandarte do imperador.

 

Cublai, neto de Gengiscão, herdeiro do Império Mongol que se estende das planícies do Danúbio às costas coreanas, esforça-se por conquistar o Sul da Ásia. As planícies do Norte da China foram invadidas pelos exércitos mongóis, mas o Sul ainda resiste. O Grão Cão Cublai procura manter o equilíbrio entre as suas próprias tradições e os costumes da civilização chinesa. Passa a estação quente no palácio de Verão, no meio de uma floresta onde organiza gigantescas caçadas.

 

Há dois dias que a batida começou, ainda se avista entre os cumes das árvores o cimo do palácio de Verão do soberano. Em recordação da sua vida de nómada nas estepes mongóis, o imperador manda montar todos os anos uma simples tenda. Mas esta é tão faustosa, coberta de peles de tigre, forrada a seda dourada, que rivaliza com qualquer palácio de cortesão de Khanbalik.

 

Os gritos dos batedores ecoam como o murmúrio de uma torrente. O roçagar da folhagem pisada apura o ouvido de Marco. Por vezes, um rugido brutal trai a presença de um animal selvagem. Uma sombra escapa-se para onde os caçadores a queiram conduzir.

 

O grupo que caminhava em filas cerradas desde o palácio de Verão do Grão Cão, agora dispersas, alastra pela planície ligeiramente ondulada, entrecortada por moitas de arvoredo e por florestas. A multidão de milhares de cortesãos estende-se por vários lis, cada um deles fazendo-se acompanhar pela sua gente e pelas damas do Grão Cão, num luxuoso aparato. Os cães de caça são divididos em duas colunas, que partem em sentidos opostos. Reunir-se-ão antes do dia seguinte, formando um amplo círculo no qual ficará presa a caça. Depois, hora após hora, a corte aproximar-se-á do centro para caçar os animais selvagens. Os enormes cães correm e ladram, forçando veados, ursos, lobos a refluir para o centro. A multidão avança lentamente, inexoravelmente. O cheiro do suor dos homens satura a brisa quente do Verão. Os passarinheiros largam as aves à sua conta sobre pequenas presas. As águias e os gerifaltes planam ao sabor do vento. As aves entregam-se a um bailado ritmado pelos gritos das vítimas. Os seus movimentos desenham traços de caligrafia no céu azul. Gerifaltes, açores, falcões-peregrinos ou sagrados rivalizam em rapidez. Os passarinheiros avançam, cada um com o seu animal no braço, como se fizesse parte do seu corpo. Estes homens alados, de cabeça coberta por peles de animais, ostentam o aspecto fantástico de seres imaginários.

 

Marco avista finalmente a carruagem imperial.

 

O Grão Cão vem instalado num palanquim de madeira a vários pés do solo, sustido por quatro elefantes magnificamente ajaezados. Os paquidermes imobilizaram-se a um sinal dirigido pelo amo a um escravo.

 

Ao abrigo dos olhares, sob o dossel de pele de leão forrado a tecido dourado, Cublai recriou uma intimidade que o isola do resto da caçada.

 

- Minha flor de lótus amarela, vem atiçar a minha haste de jade. Sinto-a reclamar-te.

 

A concubina que o Grão Cão escolheu ajoelha-se e desvela-se com um sorriso humilde.

 

O imperador afasta levemente as cortinas de seda. Alguém se encarregou já de avançar a gaiola onde esvoaçam os grous, ansiosos por voar, ignorando o destino que os espera. O chefe dos passarinheiros aguarda ordens. Cublai levanta o braço. As gaiolas abrem-se imediatamente, soltando as aves que começam a voar, gloterando. Depois, é a vez dos gerifaltes. Cublai segue com o olhar as rapaces, que se precipitam num imenso impulso de asas até então cativas. Desaparecem no cimo das árvores, perseguindo os grous, que ultrapassam em velocidade. Em poucos instantes, a nuvem de voláteis escureceu o céu.

 

Marco esperou, em vão, por um aceno do imperador.

 

Como se aproximasse o crepúsculo, os criados, com calma e método, montaram as numerosas tendas que, orientadas para sul, deverão albergar toda a corte. No centro do acampamento, acendem-se fogueiras.

 

Tendo descido do palanquim, o Grão Cão convida os conselheiros e cortesãos mais próximos a partilhar com ele a refeição servida na ampla tenda de campanha. Instalado à maneira mongol, de frente para todos os convidados, as mulheres à esquerda, os homens à direita, por ordem de deferência, Cublai não perde nada do que é dito ou feito na sua presença. Todos procuram mostrar-se sob o melhor ângulo. É servido kumis, leite de égua fermentado, a bebida favorita dos Mongóis. A corte bebe depois do Grão Cão, segundo os costumes. Em seguida, as travessas são colocadas no meio dos convivas, que se servem com as mãos. A refeição é generosamente regada com vinho de arroz e especiarias. É num instante que a maioria dos convidados se mostra perfeitamente embriagada. Esquecendo o protocolo, começam a falar alto, a rir às gargalhadas, a cuspir ou a arrotar sem esperar que o Grão Cão os preceda.

 

Por fim, Marco Polo, por ordem do imperador, ajoelha-se a alguns passos do trono. É sempre com a mesma emoção que se aproxima do maior imperador do mundo conhecido.

 

- Marco Polo, continua a relatar as tuas viagens. Onde ias?

 

- Onde lhe seja dado recordar-se, Grão Senhor.

 

- A tua partida de Veneza?

 

- O meu pai fora buscar-me a fim de o acompanhar à vossa presença, Grão Senhor. Sabia-me indispensável ao bom andamento da caravana.

 

Cublai franze as altas sobrancelhas negras. Na última vez em que Marco lhe contara a história, o pai Niccolo não o queria presente.

 

- Reaviva a minha memória enfraquecida. Conhecias melhor do que ele a estrada que já tantas vezes percorrera?

 

- Com certeza que não - admite Marco. - Mas podia fornecer-lhe um olhar novo e atento sobre todas essas coisas que ele conhecia tão bem que nem chegava a vê-las.

 

- Como eu em relação às minhas concubinas - ri-se o Grão Cão.

 

- Perfeitamente, Grão Senhor - aprova Marco. - Decerto estará recordado de ter confiado uma missão a meu pai. A de trazer algumas gotas de óleo do Santo Sepulcro...

 

- ... e cem monges a fim de organizar um debate teológico. O meu irmão mais velho Mongka, quando era imperador antes de mim, organizara um do qual todos se lembram. Encontrava-se presente um membro de cada culto, um muçulmano, um monge budista e um monge cristão da tua terra, um certo Guilherme de Bouruck.

 

- Rubrouck, irmão Guilherme de Rubrouck - corrige Marco, rindo.

 

- Talvez. E tu foste a única coisa que o teu pai foi capaz de me trazer!

 

- E o óleo do Santo Sepulcro! - insurge-se Marco.

 

- É verdade. Conservo-o preciosamente na minha colecção de relíquias. Mas por que foi tão longa a vossa viagem? Em geral, os meus enviados demoram um pouco menos de um ano a alcançar o mundo latino.

 

- Em viagens como estas, não se pode generalizar, Grão Senhor. Atravessa-se o inferno várias vezes. O dos elementos e o dos homens.

 

A aceitação de Marco crescia à medida que ia variando a sua história, mil vezes contada, mil vezes reinventada. Acrescenta um pormenor, refere um odor a cravo-da-índia e a gengibre, desenvolve a fisionomia de bazares e mercados persas, demora-se na organização das tribos do Cafiristão, explica os costumes dos Mongóis da Horda de Ouro, inventaria o armamento do inimigo Caidu.

 

Momento de cumplicidade intensa entre aquele que sabe e aquele que sente vontade de saber. Então, a corte apaga-se, a diferença de línguas e origens esbate-se, o velho e o jovem desafiam o tempo, o imperador e o mercador tornam-se homens simples que partilham a mesma paixão pelo conhecimento.

 

Marco lança-se num relato inflamado em que as mãos falam tanto quanto os lábios. Inútil, o intérprete chinês do Grão Cão tenta intervir, em certas ocasiões, para precisar um gesto. Nem as imprecisões nem o sotaque estrangeiro do veneziano conseguem esgotar a paciência de Cublai, que avança várias proposições para especificar uma palavra ou uma ideia. Acontece que o intérprete, cansado e irritado, se apodere de uma expressão do imperador com um zelo que põe toda a gente de acordo. Então, o veneziano retoma a narrativa com um entusiasmo que arrebata todo o auditório, e mesmo os que se limitam a seguir os seus gestos amplos. Marco, que agora se veste à moda mongol, não se cansa de utilizar abundantemente o estilo impulsivo característico desta região do mundo conhecido. Se o veneziano parece hesitar, o Grão Cão aperta-o contra o peito com uma brutalidade perfeitamente bárbara, chamando-lhe filho, como devia ser seu hábito encorajar os filhos nas primeiras lições de cavalgar, de lutar ou de atirar com arco. Parecem sozinhos no mundo, e os cortesãos sentem-se excluídos deste contacto, apesar de público.

 

- Observei que falhaste muitos dos teus alvos, Marco Polo diz Cublai. - Terá sido a impaciência que te toldou o espírito?

 

Marco surpreende-se ao verificar que o imperador seguira os seus feitos e gestos, quando ele se julgara ignorado.

 

- Pelo contrário, Grão Senhor. A minha viagem ensinou-me a dominar o tempo.

 

- O tempo de encontrar uma concubina à tua altura, por exemplo?

 

- Grão Senhor, todas as que têm sido postas à minha disposição são de primeira qualidade.

 

- De segunda, quando muito - corrige o Grão Cão. - Ainda tens muito a aprender com as mulheres, Marco Polo.

 

- Na verdade, Grão Senhor? Peço perdão pela minha surpresa...

 

- Fica sabendo que, por mim, não tenho melhor conselheira do que Chabi, a minha segunda mulher.

 

- Trata-se de uma pessoa excepcional, Grão Senhor.

 

- É o que também faz falta a teu pai: saber ouvi-las. Se conhecesse mais mulheres como Chabi, acabaria por pensar que as mulheres são superiores aos homens.

 

O imperador ordena que lhe sirvam de beber. Terminou a audiência. Marco levanta-se, saúda o Grão Cão e retoma o seu lugar, impante de orgulho.

 

Um jovem, vestido de rica seda, aproxima-se do imperador.

 

O leopardo de Cublai ruge, sempre alerta, firmemente preso pela mão do Grão Cão.

 

O cortesão detém-se. O seu rosto magro crispa-se.

 

Cublai puxa umas tantas vezes pela corrente do animal. Este volta a sentar-se aos pés do dono, numa almofada de seda colorida e estampada de motivos que se harmonizam com a sua pelagem lustrosa.

 

- Zhenjin, meu filho, aproxima-te.

 

O filho de Cublai, que usa o título de ”presumível herdeiro” do trono, senta-se, como de costume, atrás do pai.

 

- Vês, Zhenjin, os Chineses são parecidos com este felino. Parecem domados, mas, na primeira oportunidade, saltam-nos à garganta. Mas eu domesticá-los-ei, como domestiquei esta fera. Portanto, podemos prosseguir.

 

Zhenjin murmura-lhe ao ouvido:

 

- Grão Senhor, de momento, o general Bayan deixou de nos enviar notícias da frente.

 

- E julgas que não estou informado? Ele avança para sul. Mas os diabos dos Chineses resistem ainda mais valentemente do que no nosso pior pesadelo. Há quase dez anos que tentamos esmagá-los.

 

O Grão Cão solta um suspiro.

 

- Verás, Zhenjin, conseguirei terminar a obra do meu glorioso antepassado, o Grande Gengiscão, pai do meu pai. Um dia serei dono da China.

 

Zhenjin aclara a voz:

 

- Que tenciona fazer a este estrangeiro, Marco Polo, Grão Senhor?

 

- Aproxima-te, Zhenjin. Vou confiar-te um segredo.

 

O jovem, lisonjeado, debruça-se sobre o pai e senhor, numa reverência deferente.

 

- Sou o maior imperador que o mundo alguma vez conheceu. A sua presença prova-o. Sofrendo provações inumanas, desafiando povos e perigos que ultrapassam o entendimento, veio de terras de cuja existência nunca desconfiaste para me prestar homenagem.

 

Zhenjin sorri. O orgulho do pai incha como um fruto demasiado maduro, prestes a rebentar.

 

- Não gosto de o ver na corte. Mantém-nos o espírito ocupado enquanto o pai e o tio conspiram longe de nós.

 

O Grão Cão solta uma sonora e grave gargalhada.

 

- Não me parece que o temas. Creio que o invejas. Zhenjin apruma-se, subitamente irritado.

 

- Não, Grão Senhor! Ele nem sequer é mongol - frisa o filho, veemente. - Estou a pensar na segurança do império e da vossa pessoa, sua encarnação.

 

- Deverias pensar mais em divertir-te e menos em mim e no império.

 

O imperador ordena que lhe sirvam de novo vinho de arroz.

 

Zhenjin, cabisbaixo, faz uma profunda vénia diante do pai antes de se misturar com os cortesãos. No meio da multidão, distingue-se um crânio rapado. Zhenjin aproxima-se do lama P’ag-pa, vestido à maneira mongol, a despeito do seu estado, o que os seus detractores criticam frequentemente.

 

- Venerável P’ag-pa, o Grão Cão acaba de te nomear ministro do culto budista. É uma grande honra - diz Zhenjin.

 

- É um grande encargo, jovem príncipe - recorda o lama, inclinando-se diante do filho do seu amo e senhor.

 

Ao longe, P’ag-pa observa que a segunda mulher não se cansa de olhar para eles. Como a mãe de Cublai antes dela, lança sobre o filho o olhar protector de uma loba.

 

- Acompanho de perto as honras concedidas aos cortesãos pelo nosso grande imperador... - declara Zhenjin.

 

- Como as daquele estrangeiro de pele tão clara quanto escura é a sua alma...

 

- Exactamente, Venerável P’ag-pa. Há três anos que chegou a Khanbalik, ronda pelas proximidades do imperador...

 

- ...e vai-se aproximando descrevendo círculos concêntricos. É porque lisonjeia o coração conquistador do Grão Cão.

 

- Venerável P’ag-pa, estou a ver que se as nossas opiniões diferem, por vezes, as nossas convicções conjugam-se... Chegará a hora em que ele deixará de ter lugar na corte.

 

A segunda mulher de Cublai e mãe de Zhenjin avança, por sua vez, em direcção ao filho. É a única mulher autorizada a falar aos homens. Apesar da idade, a sua pele morena é lisa. Só algumas rugas em redor da boca e nas comissuras dos olhos testemunham a sua natural alegria.

 

- Que dizes tu, Zhenjin?

 

O jovem saúda a mãe com respeito. O lama imita-o, antes de se retirar.

 

- Minha mãe, temos de apoiar o nosso imperador. Ele está a envelhecer.

 

- Não tanto como pensas, acredita em mim, Zhenjin - responde Chabi com um sorriso.

 

- A política que pratica inquieta-me. Repara como despreza os nossos súbditos chineses.

 

- Aprende com o teu pai. É um homem sensato e avisado. Não confia neste povo que temos levado tanto tempo a subjugar. Os Chineses são falsos. E ele tem razão em confiar unicamente nos nossos amigos estrangeiros.

 

- Mesmo naquele ? - indaga Zhenjin com desprezo, apontando com o queixo para Marco Polo.

 

- Com certeza, mesmo naquele. Em três anos, mostrou saber dar ouvidos ao imperador. E Cublai Cão gosta de o escutar, pois ele fala com os olhos.

 

- Todavia, ainda desconfio mais dele do que de P’ag-pa. É um bárbaro. Não consigo compreender o que veio fazer o pai dele.

 

- Lembra-te de que este estrangeiro salvou o teu irmão Namo. Para um pai, um filho não tem preço.

 

Mais tarde, na tenda, Marco medita por alguns momentos, junto da concubina mongol, sobre as últimas palavras de Cublai. Inveja-o secretamente por ter sabido encontrar uma mulher da qualidade de Chabi.

 

A batida prossegue desde a aurora. Está um calor ainda mais abafado do que na véspera. O céu apresenta-se branco, opaco, sufocante. O pêlo suado dos animais perseguidos fustiga a folhagem. Ouvem-se os grunhidos de medo repercutidos por cima das árvores.

 

Algumas carroças cuidadosamente cobertas são acompanhadas por domadores armados de uma pesada lança prolongada por um chicote.

 

Marco, curioso, levanta cautelosamente uma das coberturas. Um rugido feroz obriga-o a recuar imediatamente.

 

- Estes leões listados são maiores do que os da Babilónia! exclama o veneziano, impressionado.

 

Em jaulas solidamente entrançadas, enormes feras raiadas de negro, amarelo e branco, de pelagem densa e sedosa, açoitam as grades com a cauda. Seguem-se lobos domados, que parecem bem menos temíveis do que os felinos.

 

Um domador, brandindo um chicote, abre cuidadosamente a porta de uma das jaulas. Grunhindo de satisfação, a fera lança-se sobre o arvoredo soltando rugidos que fazem estremecer o solo. À sua frente, tremendo de pânico, um javali foge, rastejando pelo chão. Num ritmo certo e rápido, o tigre ganha terreno. Os ramos parecem afastar-se à sua passagem, enquanto ele ganha velocidade.

 

Bruscamente, forma um salto e, numa descontracção súbita, lança-se sobre a presa. Imobilizado no solo, o javali solta grunhidos agudos. O felino crava os dentes no pescoço encharcado da vítima. Cerra as mandíbulas. Aos gritos de agonia do javali sucedem-se os guinchos de prazer do felino. Ergue-se nas patas e, dócil e orgulhoso, vai depositar a presa aos pés do dono, que lhe agradece com uma franca carícia, no pêlo. Depois, o domador retira do saco um pedaço de carne sangrenta e arremessa-o ao animal, que se delicia, lambendo os beiços.

 

De repente, um cavaleiro a galope embate contra Marco. O choque brutal destabiliza-o. Enquanto tenta recuperar o equilíbrio, apercebe-se de que o homem lhe arrancou o sabre. Sem hesitar, corre em sua perseguição. Mas o atacante é um cavaleiro mongol muito hábil. Consegue despistar a vítima mudando frequentemente de direcção e de velocidade. Ofegante, furioso, Marco abranda, consciente da sua impotência. Volta atrás. Subitamente, a cem passos de distância, avista o estandarte do guardião dos objectos encontrados. Aperta as coxas contra os flancos do cavalo. Em poucas passadas, o animal alcança o sítio da bandeira, que flutua aos quatro ventos. Estranho... Marco vê imediatamente a lança espetada no chão. Em toda a volta, nem rasto do homem. Atrás dele, deixaram de se ouvir os ruídos da caçada. Um odor ácido aumenta o seu mal-estar. Apeia-se com todo o cuidado. Marcas de passos precipitados convergem para a lança. Homem ou animal? Nervoso, o cavalo relincha. Por cima da sua cabeça, o estandarte vibra como um chicote. Mais adiante, as águias rapaces planam em busca de presas. O cavalo empina-se. Esquecendo-se de que se encontra desarmado, Marco esboça um gesto para desembainhar o sabre. Enfia a mão no vazio. Ouve aproximar-se o barulho de um animal a galope, decuplicado pela calma envolvente. Sem hesitar, Marco apodera-se da lança espetada no chão e brande-a à sua frente, voltando as costas à montada. Surge um cavaleiro, com um chapéu mongol, de cor viva, na cabeça. O guardião dos objectos encontrados.

 

Marco solta um suspiro de alívio.

 

- Chama-se Marco Polo? O veneziano baixa a lança.

 

- Sim, sou eu.

 

- Perdeu o seu sabre?

 

Humilhado por a notícia já se ter espalhado, Marco limita-se a acenar com a cabeça.

 

- Sei onde encontrá-lo. Siga-me. A pé.

 

Intrigado pelo tom imperioso do homem, Marco espeta a lança na terra, precisamente no sítio onde a encontrou. Penetra no arvoredo, atrás do homem. Este emite um assobio característico. Marco vê-se imediatamente enquadrado por dois alanos, membros da tribo do Cáucaso escolhida por Cublai para formar a sua guarda reforçada. Ao veneziano, surpreendido, não resta outra hipótese que não seja continuar a avançar.

 

A escassas centenas de passos, no meio de uma pequena clareira atravessada pelos raios do sol, ergue-se uma tenda mongol, sóbria e de dimensões modestas. O guardião dos objectos encontrados entra na tenda, advertindo Marco de que o espere. Passado um momento, o veneziano ouve uma voz grave de timbre familiar, abafada pelo feltro que a envolve:

 

- Que entre.

 

O guardião volta a sair da tenda e, acenando com a cabeça, convida Marco a entrar.

 

No interior da tenda, sentado num banco de peles, rodeado por concubinas ocupadas a satisfazê-lo, sob o olhar indiferente de Chabi, a segunda mulher, encontra-se Cublai, a braços com uma impaciência divertida.

 

- Então, Marco Polo, esta arma é mesmo tua?

 

Aos seus pés, o sabre de punho ornamentado a damasco de seda índigo. O veneziano não responde, inclinando-se três vezes aos pés do Grão Cão, segundo os usos.

 

O imperador ri-se, imitado pelas mulheres.

 

- Descobri esta maneira deveras divertida de te convocar para uma audiência secreta. Agrada-te?

 

- Perfeitamente, Grão Senhor, aprecio tanto mais as vossas brincadeiras quanto me proporcionam uma ocasião de vos obedecer e de vos servir - responde Marco, num tom um tudo-nada frio.

 

Com um gesto seco, o imperador ordena às concubinas e aos criados que saiam. Só Chabi permanece a seu lado.

 

- O meu avô, Gengiscão, quando me sentava ao colo, dizia-me sempre que o meu caminho me levaria longe. É verdade, e, no entanto, viajei menos do que tu.

 

- Quem não está sentado no trono não reina, Grão Senhor disse Marco.

 

- O meu filho Zhenjin pensa que fui sempre velho e gordo. Mas, antes de me ver obrigado a fazer-me transportar por quatro infelizes elefantes, era o melhor cavaleiro de todas as estepes, não é verdade, Chabi?

 

Chabi troca com o marido um olhar cúmplice, testemunha dos combates partilhados.

 

- Muitos dos meus conselheiros desconfiam de ti, Marco Polo. É por isso que vamos fingir satisfazê-los. Vou afastar-te da corte.

 

Chabi estende um rolo de pergaminho ao marido. Cublai desdobra-o à sua frente.

 

- Aproxima-te, Marco Polo.

 

Marco vê um mapa quadriculado no qual estão escritos diferentes nomes de cidades em caracteres mongóis.

 

- Este mapa inspira-se nos trabalhos secretos de Pei Xin. Conheces Pei Xin, Marco Polo? Era o ministro das Obras Públicas do primeiro rei da dinastia Jin. Foi ele que elaborou os mapas de escala graduada, utilizando os triângulos rectângulos para medir as montanhas, os lagos e os mares. O resultado está diante dos teus olhos. A quadrícula permite indicar com precisão a posição desta ou daquela cidade, ou de uma estrada. Pormenorizando melhor, poderíamos mesmo representar cada ponte do império. E, como vês, é inútil desenhar as formas dos territórios.

 

O pergaminho que Marco tem à sua frente não se assemelha em nada a um mapa. Não estão indicados nenhum contorno, nenhum rio, apenas nomes escritos na quadrícula cuidadosamente traçada.

 

- Só um olhar treinado como o teu é capaz de o ler - prossegue Cublai. - Tanto mais que dei ordens para que não figurasse a escala de valores. Vou indicar-te o ponto de partida, que guardarás na memória. E repara bem, há duas caligrafias: uma vermelha e uma preta. Só a preta está correcta.

 

Cublai engole uma ameixa vermelha.

 

- Grão Senhor, se me mostra esse mapa, é com certeza apenas para me levar a partilhar as descobertas dos vossos cartógrafos... ?

 

O imperador ri-se. O seu ventre enorme é abalado por estremecimentos.

 

- O que aprecio em ti, Marco Polo, é a vivacidade do teu espírito. Os cartógrafos são letrados que nunca se afastaram da mesa de trabalho. Preciso de um homem de terreno para me certificar da veracidade dos seus ditos. Quero que sejas esse homem. Muita gente pretende que nunca viste tudo o que afirmas. Quando me relatas as tuas viagens, nunca sei se estás a inventar ou a dizer a verdade - troveja a voz do imperador. - Pensando bem, forneces tantos pormenores que não poderias tê-los inventado.

 

Marco baixa de tom.

 

- Que te importa, Grão Senhor, se eu me disponho a fazer-te crer nas minhas histórias e o teu espírito está preparado para as ouvir?

 

Cublai ergue lentamente as pesadas pálpebras em direcção ao impertinente. Marco nem sequer se arrepende da audácia demonstrada, reprimindo a humilhação da convocação imperial.

 

- Agradece ao Céu e à Terra por teres um bom karma, Marco Polo. De contrário, serias reencarnado em cão.

 

Não se tendo convertido oficialmente ao budismo, a fim de preservar as tradições xamânicas dos seus, Cublai não perde uma ocasião de afirmar as suas preferências.

 

- Em tigre, para continuar a servir o imperador. Já atravessei muitas vidas numa só. Fui ignorante, habitante de uma cidade que todos se esforçavam por abandonar, um grande viajante, montado num camelo ou num iaque. E aqui, na corte do maior imperador que o mundo alguma vez conheceu...

 

- ...e conhecerá - completa Cublai. - Qual será a tua próxima vida?

 

- Só Deus sabe, Grão Senhor - responde Marco, esperançado.

 

- Sou o Filho do Céu - diz Cublai, convicto. - Vou guiar-te. Aproxima-te.

 

Marco debruça-se sobre o imperador. Chega-lhe às narinas o odor salgado do suor imperial.

 

- Serás um enviado secreto do império - murmura Cublai, sibilino. - Funcionário encarregado de cobrar impostos, partirás em busca de informações sobre o avanço das tropas do meu fiel general Bayan, irmão de guerra e amigo do peito.

 

Marco engole em seco, com o coração a pulsar de excitação.

 

- Grão Senhor, quanta honra!

 

À chegada à corte do imperador mongol, o veneziano deixara-se invadir pelos novos prazeres que ia descobrindo. Após quase quatro anos de uma viagem esgotante, onde conhecera o amor e a traição, a coragem e o desespero, Marco Polo sentia-se mais forte do que o comum dos mortais. O que lhe conferia uma audácia tranquila, reflectida pelo seu olhar penetrante. Era um dos traços da sua personalidade que o Grão Cão mais apreciava.

 

- Gostava de poder afastar-me de Khanbalik, de ver o meu império de mais longe. Mas não posso. Aceita ser os meus olhos e os meus ouvidos, Marco Polo. E confia apenas em mim. Os meus astrólogos garantiram-me que tens interesse em sair de Khanbalik.

 

Marco encara-o com um ar interrogador.

 

- Astrólogos muito próximos do trono... Cublai ignora a alusão a Zhenjin.

 

- Aproxima-te, Marco Polo. Há quase um ano que aguardo o regresso do meu amigo Bayan, general em chefe das minhas tropas para a conquista da China. Até agora, as notícias eram boas, mas há três meses que não recebo nenhum mensageiro. Passo as noites angustiado. Perdi o sono, talvez um amigo, e acima de tudo a vitória...

 

- Viajarei pelo império!

 

- A coberto de uma expedição de funcionário imperial. Terás direito a uma escolta, a tabuinhas de ouro para te abrir passagem.

 

Cublai esboça um ligeiro movimento em direcção ao veneziano.

 

- Eu também sou um pouco adivinho - conclui o Grão Cão com um sorriso. - O que me preocupa é unir todos os súbditos do meu império, que são de algum modo meus filhos.

 

Marco, impaciente por voltar à estrada em nome do imperador, saúda o Grão Cão, prestes a abandonar a tenda.

 

- Espera... Não te esqueças do sabre - diz o imperador com um sorriso.

 

Marco apodera-se da arma.

 

- Estás a ouvir? - murmura Cublai, esboçando um gesto. Todos se calam, atentos aos uivos que se repercutem em eco pela floresta.

 

- ...São lobos. É de bom augúrio, o ano será fértil e próspero.

 

No dia seguinte, antes do alvorecer, são dadas ordens de levantar o acampamento. É o momento do rito mongol destinado a assegurar os benefícios do ano em curso. Enquanto todos se preparam, desmontando as tendas, enrolando as mantas, transportando os baús para as carroças, mungem-se as melhores éguas da manada imperial. São tão deslumbrantes na sua pelagem de um branco imaculado que a sua simples visão lava o olhar. No preciso momento que antecede a partida da corte, o leite é derramado pela planície, iluminando-a por um instante com a sua preciosa pureza efémera. Os xamãs celebram encantamentos e invocam a protecção das divindades do Céu e da Terra para o imperador e para os súbditos.

 

Quando o cortejo imperial se faz à estrada, já o sol nasceu. O cortejo é formado por milhares de cortesãos. Cada uma das quatro mulheres de Cublai vai acompanhada por metade do seu séquito, ou seja, cinco mil pessoas. As jaulas dos animais avançam à frente do cortejo. Na outra extremidade, a fim de que os felinos não se sintam excitados pelo odor, segue a carne de caça, amontoada em grandes pedaços, depenada, esquartejada, amanhada, ainda a escorrer sangue fresco. O imenso grupo progride a passo lento, sob o calor opressivo. Os habitantes afastam-se à sua passagem, tanto por medo quanto por respeito. Ao longe, a grande muralha percorre a crista da montanha. Emocionado pelo surpreendente espectáculo, Marco solta as rédeas do cavalo engalanado. Consta que cada polegada de muralha custou a vida a um homem. Os operários eram na sua maioria condenados, executados se deixassem passar o sopro de uma brisa entre dois blocos de pedra. Há histórias que contam que os soldados de sentinela nos confins do império enlouqueciam de solidão. As paredes são de terra batida reforçada por armações vegetais. A argamassa, extremamente sólida, é constituída por farinha de arroz, cal e argila. Mas estas orgulhosas defesas foram perfeitamente impotentes para repelir os ataques de Gengiscão e dos seus descendentes.

 

Ao cabo de vários dias, o cortejo imperial alcança finalmente Khanbalik, a capital imperial, de seu nome chinês Tatu. Um dos primeiros actos políticos de Cublai imperador consistiu em ordenar a construção de uma nova capital, recusando-se a integrar uma antiga capital do império chinês. Escolhe um local nas planícies do Norte, perto da Mongólia, berço da sua civilização, e na região mais povoada e mais próspera da China. Em 1266, inicia-se a sua construção, sob a supervisão de um arquitecto muçulmano, Yh-hei-tieh-erh. Nem por isso deixou de ser concebida à maneira chinesa. Rectangular, cercada por muralhas de taipa guarnecidas de ameias e rasgadas por doze portas encimadas por torres de observação, apresenta um plano geométrico, reflexo do universo. Foi construído um santuário em honra de Confúcio, gesto simbólico destinado a conquistar a confiança dos letrados chineses. Cublai não deixou de salientar que tinham a mesma data de nascimento. Em 1274, apenas um ano antes da chegada de Marco Polo à corte, Cublai deu a primeira audiência no seu palácio.

 

A leste, ergue-se o observatório construído pelos astrónomos vindos da Pérsia. A ideia de um local reservado às estrelas foi do imperador Mongka, irmão mais velho de Cublai, morto antes de ter podido realizar este prodigioso desígnio. As ruas são tão rectilíneas que Marco consegue ver a porta que se opõe àquela pela qual entra, na outra extremidade da cidade. As avenidas são tão largas que nelas podem galopar nove cavaleiros formando uma frente. As tropas ultrapassam a muralha antes do sinal de recolher. De facto, a partir do entardecer, só são autorizadas a circular as mulheres grávidas ou as pessoas doentes, e unicamente se levarem com elas uma lanterna. Embora se aproxime a hora do pôr-do-sol, o calor tornou-se mais insuportável desde que penetraram na cidade.

 

O imenso cortejo transpõe as primeiras muralhas da Cidade Imperial, verdadeira cidade no coração da cidade, cujo acesso é interdito ao povo. Aliviados por reencontrarem a frescura dos vastos parques, os cortesãos recolhem a casa, os monteiros encarregam-se da caça, os palafreneiros tomam conta dos cavalos. Marco dirige-se para o seu pavilhão, no bairro dos emissários estrangeiros. Percorre uma pequena rua cujas paredes se encontram ornadas de motivos envernizados: dragões, fénix e aves. Em frente de um alpendre em forma de dragão furioso, apeia-se do cavalo e bate à porta. O criado chinês abre-a imediatamente, saudando-o de mãos juntas. Seguindo pelo corredor, Marco contorna a parede que oculta a verdadeira porta de entrada aos génios malignos. Nenhuma janela abre para as ruas, mas o interior da casa dá para um pequeno jardim onde são cuidadosamente cultivados jasmins e orquídeas. Devido a uma sábia construção, os raios de sol que se reflectem no reservatório de água espalham-se pelos compartimentos adjacentes numa claridade difusa. Esgotado pela viagem, Marco pede que lhe sirvam vinho de arroz na sala, em frente de uma braseira que mal chega para aquecer a ampla divisão, decorada com caligrafias e estampas representando cenas de batalhas mongóis. O seu escravo sírio, Shayabami, um colosso, ajoelha-se em frente do amo.

 

- Meu caro Shayabami, vou abandonar a corte...

 

- Que me diz, Senhor Marco! - exclama o criado, permitindo-se a ousadia de interromper o amo.

 

Marco não se escandaliza com a fuga às regras. Durante vinte anos, Shayabami acompanhou Niccolo Polo em todas as viagens, incluindo o primeiro périplo pelo Império Mongol. Marco conheceu-o quando ele acompanhou o pai a Khanbalik. Três anos depois da sua chegada ao Catai, Niccolo abandonou a capital para se instalar no sul do Manzi. Cedeu então Shayabami a Marco, entregando o seu único filho aos cuidados do sírio. Embora lhe brilhem alguns fios de prata no cabelo, mantém um vigor e uma resistência excepcionais.

 

- Não te preocupes - diz Marco, numa voz tranquilizadora.

- Tu vais comigo. Partiremos depois do jantar no palácio. Organiza a intendência da casa durante a minha ausência.

 

- Justamente, Senhor Marco, temos de contratar uma lavadeira nova.

 

- O que aconteceu à velha que nos servia?

 

Notas: - Catai - China do Norte.

 

Manzi - China do Sul.

 

- Já não consegue trabalhar. Precisamos de braços novos e vigorosos. Quer ver as mulheres que seleccionei?

 

- Não, não tenho tempo. Confio em ti.

 

Para terminar a noite, Marco manda vir a concubina mongol que vive em sua casa. Discreta e dócil, foi-lhe oferecida pelo Grão Cão. Marco satisfaz os desejos carnais, esquecendo os do coração.

 

No dia seguinte, Marco enverga os seus mais belos trajes mongóis, ajusta o manto, põe na cabeça um chapéu pontiagudo, de seda.

 

Entre o ruído produzido pelos cascos na calçada, sai do palácio, montado num belo alazão. Ainda não nasceu o sol. Preguiçosamente, começa a tingir o horizonte de tons pálidos, do azul cobalto ao rosa pétala.

 

A Cidade Imperial está construída segundo um eixo norte-sul, de acordo com as crenças dos Mongóis, que orientam as tendas sempre para sul. Parques cuidadosamente desenhados, iluminados por lagos e árvores em flor, estendem-se por vários lis. Falsas perspectivas criam uma ilusão de imensidade. Pedras de calçada azuis e verdes guiam os passos do viajante até ao centro da Cidade. O parque encontra-se repleto de tendas mongóis montadas aqui e ali.

 

Terminado há apenas três anos, o palácio imperial resplandece de soberba e eternidade. Encontra-se cercado por uma muralha quadrada de quatro milhas de comprimento, aproximadamente, com uma altura de dez passos bem medidos e recortada por ameias. Em cada esquina vê-se uma torre, onde se guardam os arreios do Grão Cão, arcos tártaros, selas e freios, cordas de arco. Cada torre é dedicada à conservação de uma única espécie destes objectos. Uma vez transposta esta muralha, Marco encontra-se diante de outra muralha, que protege o grande palácio onde reside Cublai, construído num único piso. O telhado é coberto de ouro, prata e tinta envernizada. As vigas são vermelhas, matizadas de amarelo, verde e azul. O verniz brilha como cristal. Na cidade, vê-se cintilar ao longe o palácio, no meio do aveludado dos seus parques, como uma jóia engastada num estojo de muralhas. Nos jardins luxuriantes, veados, gamos, cabras, corças e cabritos monteses almiscareiros circulam livremente. Um rio alimenta um lago onde nadam numerosas espécies de peixes, escolhidas pelo Grão Cão. Os peixes não podem trocar o lago pelo rio, pois o imperador mandou construir vedações de arame. A norte, perto do palácio, ao alcance de uma flecha arremessada por um arco, encontra-se uma colina artificial coberta de árvores, que algumas pessoas consideram enormes, e que foram outrora transportadas por elefantes, com raízes e terra de origem. Todas elas conservam a folhagem durante o Inverno. O Grão Cão também mandou cobrir a terra de ferrugem de lazulite que atapeta a colina com uma bonita cor esmeralda. Por isso lhe chamaram Monte Verde. E foi aí que o Grão Cão mandou construir um palácio da mesma cor, tanto por fora como por dentro.

 

Marco dá uma volta pela colina antes de alcançar o edifício principal, impregnando-se dos odores de pinheiros de todas as variedades.

 

Uma barreira de archeiros acolhe os cortesãos. A guarda de Cublai conta doze mil soldados, organizados em quatro grupos de três mil soldados cada um. Marco entrega o cavalo aos palafreneiros. Numa primeira antecâmara, aguardam alguns cortesãos, conversando animadamente. Antes de penetrarem mais além no palácio, todos têm de entregar as armas, cuidadosamente identificadas para depois poderem ser recuperadas pelos proprietários.

 

Marco atravessa as galerias até às antecâmaras. Detém-se, maravilhado como sempre lhe acontece, em frente das paredes revestidas a ouro e prata, pintadas com cenas variadas representando dragões, animais, cavaleiros. Todos os pormenores foram minucioSamente pensados para ocupar o seu lugar natural no conjunto, passam criados, carregando nos braços açafates de cravo-da-índia que os cortesãos que vão ter a honra de ser recebidos em audiência pelo Grão Cão mascam demoradamente, a fim de se apresentarem em frente do imperador com um hálito digno da sua categoria.

 

Por fim, um gongo anuncia o início da audiência.

 

A sala foi feita à medida do império e do seu senhor: ampla e ostensiva.

 

O imperador está sentado no trono, tendo a seu lado a segunda mulher, Chabi. Desde que Marco o conhece, parece ter engordado ainda mais. A cor da pele tornou-se pálida. Contudo, nos seus olhos cintila o mesmo brilho juvenil que transmite confiança a Marco. No dossel real encontram-se tigres autómatos. Deitados, parecem verdadeiros. A cada apresentação de um recém-chegado, Cublai diverte-se a animá-los graças a um mecanismo secreto.

 

O veneziano, como os outros cortesãos, faz a vénia ritual diante do maior imperador do mundo: três genuflexões e prosternações, até tocar com a testa no chão.

 

Vestido de tecido profusamente dourado, Cublai preside à assembleia no seu trono elevado acima da multidão, do qual pode ver cada um dos convivas. Calça sapatos de pele de camelo bordados a fio de prata. Os convidados, envergando túnicas de seda apertadas na cinta com um cordão de ouro, decoradas a pedrarias e a pérolas valiosas, dispõem-se segundo a qualidade e a nascença. Os cortesãos da primeira fila usam trajes forrados a pele de zibelina, arminho, esquilo veiro ou raposa. As damas arvoram tons de verde, vermelho e turquesa nos vestidos de seda, enfeitados a bordados finos. Só Chabi está sentada à mesma altura do Grão Cão, à sua esquerda. Marco não consegue deixar de pensar num teatro romano em que o principal espectador contemplasse o quadro de seis mil pessoas dispostas à sua frente. Subitamente, um rugido sobressalta-o. Os convivas afastam-se soltando gritos de surpresa para dar passagem a um leão em liberdade, rosnando, inquieto, prestes a saltar. O animal avança, sob o efeito do chicote do domador, até aos pés do Grão Cão. Ali, como por encanto, a fera deita-se, de cabeça baixa, diante do imperador, em sinal de reconhecimento do seu poder.

 

No centro da sala encontra-se a fonte que dá de beber ao Grão Cão, uma enorme tina cheia de vinho de especiarias finas. Uma mecânica bem elaborada permite que a beberragem escorra para recipientes de menores dimensões. Os convidados servem-se mergulhando na tina uma taça de ouro fino suficientemente grande para lhes matar a sede durante toda a tarde e toda a noite. Os criados de origem nobre, que servem as iguarias e as bebidas ao Grão Cão, usam véus de ouro e seda no nariz e na boca, pois o seu hálito ou o seu odor não podem conspurcar a carne e o vinho do imperador. Quando este se prepara para beber, ressoam todos os instrumentos de música. Os convivas ajoelham-se em sinal de humildade. Depois, bebem por sua vez. Os pratos sucedem-se, qual deles o mais abundante. A refeição começa por aves assadas. Depois, os criados servem corça com molho e javali grelhado. Por fim, vêm os ursos e os tigres, cozinhados numa fogueira de lenha. Aos pés do Grão Cão, o leão não se mexeu, engolindo de uma vez os restos que o dono lhe lança.

 

Marco admira a porcelana em que é servido o chá. A magnífica taça azul e branca é tão transparente que se adivinha a cor dourada do líquido no seu interior. O vizinho do lado explica-lhe que o Grão Cão mandou vir da Pérsia e das índias o azul de cobalto que permite aos operários realizar um vidrado especial, muito fino, muito delicado. Todos os embaixadores invejam aquela porcelana. Ele próprio está encarregado de desenvolver a sua venda nos países estrangeiros.

 

O vinho corre em profusão. Antes de escurecer, já quase todos os convivas estão embriagados a ponto de não serem capazes de se levantarem sozinhos do assento. Os músicos tocam notas cristalinas e agudas, melodias que o veneziano começa a apreciar.

 

No fim, depois de todos terminarem, e tendo-se Marco antecipado, tão grande é a sua impaciência em viajar pelas estradas do império, levantam-se e retiram-se as mesas para dar lugar aos prestidigitadores, contorcionistas e dançarinos. Duas raparigas muito jovens efectuam acrobacias inimagináveis. São capazes de se contorcer em todos os sentidos, dobrando o corpo até meterem a cabeça entre as pernas, de trás para a frente. Parecem feitas de borracha e não de ossos. Confundem-se e entrelaçam-se como fitas, sempre com um sorriso. Todavia, as gotas de suor que lhes cobrem a pele lisa deixa adivinhar o esforço a que se submetem. Vendo as frágeis raparigas dobrar-se para trás até agarrarem os tornozelos com as mãos, o veneziano sente-se à beira da apoplexia. Quando metem a cabeça entre as pernas, quase se levanta. Mas a última coxa de tigre parece ter-lhe ficado atravessada no estômago. A exibição dos magos proporcionar-lhe-á uma ocasião de a digerir.

 

Enquanto um exército de criados acompanha os convidados até às carruagens, Cublai convoca Marco Polo para o presentear com uma magnífica carteira de pele de leão, cheia de notas de papel feitas de folhas de amoreira, dinheiro que vigora em todo o império.

 

No dia seguinte, à hora de prima, Shayabami tem de levantar o amo da cama com uma firmeza pouco digna de um criado. Enfartado depois daquela refeição, Marco advertiu a escolta de que adiaria a partida por um dia. Veste-se rapidamente, apara a barba com a mão segura e, instalado diante da chaminé da copa, devora um copioso pequeno-almoço, composto por um guisado de carneiro com arroz. A força do hábito leva-o a fazer o inventário da bagagem, que exigiu tão sumária quanto possível: um traje de cerimónia, duas indumentárias para o frio e duas mais leves, dois pares de botas, um chapéu de peles e outro de palha, o sabre, um punhal e um arco. Shayabami explica a Marco a composição da embaixada. Enquanto o ouve, trincando a carne suculenta, Marco felicita-se por poder confiar no escravo, sentindo-se quase capaz de agradecer ao pai.

 

A um gesto seu, aproxima-se um criado com uma bacia de água límpida na qual Marco lava as mãos. Depois de as limpar nas bragas, desdobra o mapa do Grão Cão como se se tratasse de um manuscrito da Bíblia. Observa-o demoradamente. Ansioso, esforça-se por escolher a estrada que vai tomar. Depois, dobra o papel com igual cuidado. Tem dificuldade em acalmar a excitação. Aos vinte e quatro anos, a ideia de uma nova viagem inebria-o como se fosse a primeira. Sente-se tanto mais feliz por partir à descoberta do império do Grão Cão quanto sabe que desconhece uma grande parte. De facto, teve de se submeter às leis imperiais que proíbem os Mongóis de aprender a língua dos Chineses, e vice-versa. Também não são autorizados casamentos entre Mongóis e Chineses. Na realidade, a corte do Grão Cão é essencialmente composta por mongóis e estrangeiros ao serviço do imperador. Depois de lhe ter conhecido o coração, resta a Marco descobrir a verdadeira carnação do império...

 

Dão Zhiyou desliza pelo pequeno pátio. Há alguns instantes que reparou no magnífico frango capaz de o alimentar durante vários dias. De penas fulvas, peito carnudo, patas grossas, está l mesmo a pedir que o devorem. Dão ansiava roubar dois, mas desiste ao avistar um cão três vezes maior do que ele. Afinal, bastar-lhe-á apanhar um. O animal de cauda cortada deixa-o passar, preferindo continuar a saborear os restos que o dono lhe arremessou. Diz-se, no campo, que quando um cão se enrosca para dormir, a cauda lhe tapa os olhos, convidando-o a um sono profundo e protegendo-o do vento e do frio. Se lhe cortarem a cauda, as correntes de ar fustigam-lhe o focinho e só o deixam dormir com um olho aberto, transformando-o num excelente cão de guarda. Para Dão, chegou o momento de verificar se a lenda tem fundamento. Enquanto observa, vai esgravatando a terra com as unhas cortadas. Escava até já não sentir os dedos, abrindo uma passagem por baixo da vedação, como uma raposa. Fechando os olhos, convoca a protecção daquele astuto animal predador. Sustendo a respiração, deita-se de barriga para baixo, contorce-se e rasteja até se intrometer no exíguo espaço entre o chão de terra batida e a vedação de madeira. Esfola os joelhos, mas tem tanta fome que só presta atenção aos frangos, que olham para ele com o conhecido ar estúpido que os caracteriza. Esforçando-se numa derradeira contorção e, sem pensar no regresso, atravessa a vedação. Rasteja até à capoeira, esconde-se no escuro. O cão continua entretido com os ossos, que estalam a cada dentada. Mais calmo, o garoto dá um salto e introduz-se no meio das presas emplumadas. Os frangos fogem, cacarejando de forma incoerente, a despeito das injunções de Dão, que lhes ordena silêncio. Sente um animal contra o peito, fecha os braços para o prender. Aperta-o com todas as suas forças, na esperança de o asfixiar, o que lhe evitaria ter de o degolar, tanto mais que se interroga sobre a maneira de lhe cortar o pescoço, sem uma faca. Mal tem tempo de se preocupar, pois começa a ouvir latidos furiosos. Dominado pelo pânico, quase larga a presa. Tenta em vão agarrar o frango pelas patas, mas este arranha-o. Crispa as mãos na ave, que se debate freneticamente. Sem nenhum dos cuidados que tomara alguns minutos antes, o garoto sai da capoeira, correndo a bom correr. Escorrega no saibro, cai desamparado, de borco, o que, pelo menos, produz o efeito de atordoar o frango. Com o corpo todo esfolado, ergue-se como pode e corre sempre em frente, esquecendo-se da passagem que tão pacientemente escavara. Esbarra contra a vedação de madeira, demasiado alta para ele. Num sobressalto desesperado, lança-se contra o obstáculo. Ao cabo de muitas e esforçadas pancadas, a barreira acaba por ceder, abrindo-lhe passagem. Atrás de si, continua a ouvir os latidos, como outras tantas mandíbulas prestes a enterrar-se na sua magra carcaça. Os latidos, no entanto, parecem-lhe longínquos. Intrigado, Dão volta-se e, surpreendido, vê o cão de cauda cortada em perseguição de uma raposa que transporta na boca um frango ensanguentado. Petrificado, Dão acompanha o animal com o olhar, que foge precisamente pela passagem que ele escavou. Pela primeira vez nas últimas horas, retoma o fôlego.

 

NAS ROTAS DA CHINA

Outono de 1278

Não muito longe de Khanhalik

A multidão comprime-se na ponte. A todo o comprimento do parapeito pode ver-se uma fila de leões esculpidos, oferecendo cada um deles uma expressão diferente. O calor exacerba os humores. A brisa que sopra nas ramagens à beira do rio não basta para apaziguar os espíritos. Toda a gente se acotovela, grita, discute. Mercadores transportando uma banca de uma cidade para a outra, camponeses vergados sob o peso de uma carga excessiva, animais de toda a espécie, vagabundos ou ladrões, reina na ponte a animação de uma rua. A proximidade de Khanbalik, a capital do império, atrai uma população satisfeita por lidar com o conquistador.

 

No meio da multidão, distingue-se, pelo aspecto temível, um grupo de cavaleiros. Ajaezados de couro tanado, os cavalos avançam com a mesma segurança dos donos, protegidos por sólidas armaduras. Com o suor a brilhar-lhes no rosto, os soldados trazem na cabeça capacetes pontiagudos ornamentados com caudas de animais. O chefe transporta uma águia no punho, como um ceptro. O mínimo estremecimento da rapace provoca tanta inquietação quanto as variações de humor do capitão dos mongóis. São poucos os camponeses e os mercadores que se apercebem da presença do cavaleiro de vinte e quatro anos de pele clara, olhos azuis e aspecto exótico. Mas, para os que o distinguiram dos outros, ele torna-se o principal motivo de atracção. De boca em boca, a notícia propaga-se. Discretamente, apontam-lhe o dedo. Ainda não chegaram à extremidade da ponte e já Marco Polo sabe que a sua passagem é espiada. Adivinha que os presentes se surpreendem por o verem vestido à maneira mongol, arvorando as armas do Grão Cão. Em três anos de permanência na corte, foi-se habituando a esta curiosidade que o diverte e o irrita. Para já, o veneziano admira com orgulho o séquito de várias dezenas de cavaleiros mongóis. Em todo o grupo, só o fiel Shayabami destoa. Demasiado velho e apegado às leis cristãs, não consegue aceitar com a mesma serenidade de Marco os costumes dos Mongóis. Mas o veneziano nunca dispensaria esta testemunha da sua viagem, embora nunca evoquem, quando estão juntos, as recordações que os unem.

 

Desde que saiu de Khanbalik, o séquito, em todas as cidades e nos campos que atravessa, abre caminho como um furacão na floresta. A população deve-lhes respeito e obediência, cedendo-lhes as melhores iguarias e as mais bonitas mulheres. Sanga, o intérprete de Marco, diz-lhe que os habitantes do Catai se recusam a partilhar as mulheres com os conquistadores, limitando-se a ceder-lhes as cortesãs, a quem chamam flores de lua. Este guia não tem o ar arrogante dos Mongóis a que Marco se habituou. O veneziano surpreende-se por ver este papel desempenhado pelo passarinheiro com quem se cruzara na caçada. Instintivamente, sente-se próximo dele. Marco tentara conhecê-lo melhor desde o primeiro dia, considerando-o quase um familiar. Desde então, Sanga começou a prestar-se de boa vontade a uma troca de palavras:

 

- Ignorava que fosses um intérprete imperial. Quando te encontrei na caçada e travei conhecimento com o lama P’ag-pa, tomei-te por um passarinheiro.

 

- O lama P’ag-pa - corrigira Sanga, proferindo o nome com a pronúncia correcta. - É uma honra para mim acompanhá-lo, Senhor Marco.

 

- O capitão disse-me que falas várias línguas. Deves ter viajado muito. Que conheces tu do império? - perguntara o veneziano, curioso.

 

- Nada, nunca saí de Khanbalik - respondera Sanga com um sorriso. - Aqui, aprende-se muito na universidade.

 

- Então, se nunca saíste de Khanbalik, como é possível que tenhas sido escolhido para me acompanhar? Quem tomou essa decisão?

 

Sanga tardara a responder, bruscamente ocupado a regular os estribos do cavalo.

 

- É uma longa história.

 

- Quero conhecê-la.

 

- Teremos tempo durante a viagem.

 

Marco calara-se, depois de se interrogar sobre os reais conhecimentos de Sanga. De facto, como é possível dominar uma língua sem a falar? Estava quase tentado a ignorar a interdição do Grão Cão e a aprender chinês. Mas a traição em relação àquele que já considera o seu amo e senhor seria tão grande que a sua consciência não lhe permite fazê-lo.

 

Esporeia o cavalo e trota até se encontrar ao lado de Sanga. O crânio rapado do intérprete reluz de transpiração.

 

- Sanga, és mongol?

 

O intérprete, surpreendido, volta a cabeça para Marco, que não sentira aproximar-se.

 

- Evidentemente! - responde ele.

 

- Os Mongóis não estão autorizados a aprender chinês.

 

- E, no entanto, temos de os compreender, os Chineses.

 

- Os intérpretes da corte pertencem a outros povos.

 

- Não sou como eles. Não me venha dizer que sou parecido com eles! - exclama Sanga, escandalizado.

 

- O assunto irrita-te.

 

Subitamente, Marco apercebe-se da sombra de um braço que se ergue. Instintivamente, deita-se sobre o pescoço da montada. Uma pedra rasa-lhe o cimo do crânio.

 

- Ovelha ronhosa, morrerás! - grita o capitão, soltando a águia.

 

Desembainha a espada e revira-a de braço erguido, avançando para o culpado. Mas a multidão concentra-se, formando uma barreira intransponível. O mongol vocifera, furioso.

 

- Deitem-nos à água um a um, até que o criminoso se denuncie.

 

- Não aconselho tal procedimento - intervém Marco.

 

- E quem me impedirá?

 

- Eles - declara Marco, esboçando um gesto amplo. - São demasiado numerosos.

 

- Que importa? Se for preciso, lançarei à água todos os Chineses.

 

- As águas já transportaram muito sangue - murmura Sanga, numa voz quase inaudível.

 

- Preciso de uma cabeça - obstina-se o capitão.

 

- Escolha uma ao acaso, resolve perfeitamente o assunto graceja Marco.

 

Tomando o conselho à letra, o soldado corta a cabeça do primeiro homem ao seu alcance. Pegando-lhe pelos cabelos, o mongol brande o troféu, de braço esticado. O corpo permanece de pé por alguns instantes, com o sangue a jorrar às golfadas, antes de cair no chão produzindo um ruído de carne mole. Bastou esta horrível visão para lhes dar passagem, apesar dos murmúrios de raiva.

 

O capitão volta a cabeça para a multidão, antes de fustigar a montada de Marco, petrificado de terror. Os cavalos aceleram num ribombar de trovão. Durante muito tempo, o estrondo inebria o veneziano, que, mais adiante, conquistado pelas vibrações da corrida, sente desfazer-se o gosto amargo que lhe enchia a boca.

 

Ao longe, avistam uma fila de árvores perfeitamente alinhadas. Os calcanhares dos homens enterram-se nos flancos dos animais, as coxas relaxam-se e os melhores cavalos tomam a dianteira. A estrada, cuja terra foi recentemente batida, forma uma elevação que a preserva das inundações. As árvores oscilam suavemente, saudando a passagem dos viajantes. Lanternas vermelhas oscilam ao sabor do vento quente, na esperança de que as venham acender antes de anoitecer. As espigas de trigo, saturadas de sol, flamejam como labaredas. Marco deixa-se alcançar por Sanga.

 

- Estás a par do objectivo da nossa viagem, Sanga, não é verdade? - interroga Marco, que tenciona prosseguir a conversa brutalmente interrompida.

 

O intérprete volta-se para o estrangeiro. De mãos juntas, inclina a cabeça, numa saudação à maneira chinesa.

 

- Vem mandatado pelo Grão Cão, Senhor Marco.

 

- Muito bem. E sabes porquê?

 

- Não me foi confiado o segredo.

 

- Não troces de mim. As tuas relações com o lama P’ag-pa dizem-me que sabes muito.

 

Sanga hesita por uns momentos.

 

- Pois bem, julgo ter ouvido dizer que o Grão Cão ignora a posição do general Bayan.

 

- Viste esse general?

 

- Senhor Marco, o general Bayan é um homem de nobres e elevadas virtudes.

 

- Explica-te.

 

- É um homem impiedoso e um guerreiro invencível.

 

- É um mongol - observa Marco.

 

- Não faz parte daqueles que apetece conhecer.

 

- E tu, conhece-lo?

 

Sanga deixa-se distanciar pelo grupo.

 

- Aqueles que o viram de perto já cá não estão para falar confessa o guia num murmúrio, mergulhando Marco num silêncio pensativo.

 

Ao fim do dia, penetram num burgo. O calor é temperado por um vento de Outono de odor a pinheiro.

 

- É Taianfu. As minas de ferro permitiram que o Grão Cão aqui instalasse forjas onde se fabricam as armas dos soldados imperiais.

 

Nas ruas ressoam as pancadas dos ferreiros que batem o ferro. Das oficinas emergem feixes de centelhas e suor. À passagem do séquito, as pessoas prosseguem o seu caminho, inclinando-se de mãos juntas. O capitão mongol avista uma hospedaria.

 

- Senhor Polo, paramos aqui para passar a noite?

 

Está tão pouco habituado a obedecer às ordens de um estrangeiro que as suas sugestões parecem sempre injunções. O capitão dos mongóis participou em várias campanhas militares contra os Song. Um ferimento grave afastou-o dos campos de batalha e das fileiras do general Bayan. Tem a certeza de que o Grão Cão o escolheu com conhecimento de causa para escoltar o estrangeiro, e é com uma certa impaciência que conduz o agrupamento até junto daquele às ordens de quem deveria servir.

 

Os soldados penetram no pátio coberto. Apeiam-se das montadas e entregam os animais aos cuidados dos palafreneiros. Num ápice, enchem a taberna. Esgotam os tonéis de vinho de arroz, molestam as criadas. Sentados às outras mesas, os chineses continuam a comer, gratificando-os com sorrisos afáveis. Nenhuma mulher entre estes viajantes, que protegem as esposas da cobiça dos conquistadores fechando-as em casa.

 

Extenuado, Marco Polo deixa-se cair num banco de bambu. Shayabami apressa-se a aliviá-lo da capa que ostenta as cores do Grão Cão. Ajoelha-se para descalçar as botas ao amo.

 

- Traz-me qualquer coisa que me restaure as forças, e para ti também. Por esta ordem - acrescenta Marco, que conhece o apetite do criado.

 

Uma jovem escrava de pálpebras pesadas serve-lhes um cântaro de vinho de arroz. Marco aprecia a silhueta delgada da rapariga através do tecido que a cobre. Felicita-se antecipadamente por ter feito escala naquela hospedaria.

 

Ao abrigo dos olhares, pega na carteira de pele de leão oferecida pelo Grão Cão. Desfaz o nó e abre-a nas folhas de casca de amoreira, finas e brancas, dobradas ao meio. Marco começa a alisá-las com a palma da mão, fazendo cálculos. Escolhe umas tantas, de tamanhos diferentes, e entrega-as ao taberneiro. Há três anos que chegou à China, ainda mal sabe distinguir as dezoito notas diferentes que constituem a moeda do Grão Cão. São tão leves e fáceis de transportar que a nota que vale dez besantes de ouro não chega a ter o peso de um.

 

Já se apercebeu de que Sanga não tira os olhos da espada que usa à cinta desde o início da viagem. A arma não se assemelha em nada às que se vêem na China. Este magnífico sabre curvo, de punho simplesmente ornado a damasco de seda índigo, foi um presente de Guilherme de Rubrouck, monge que fizera a viagem até à terra dos Mongóis quinze anos antes. Embaixador secreto do rei São Luís, o religioso acalentara a esperança de converter o Grão Cão ao cristianismo, mas não alcançara os seus intuitos. Em Jerusalém, Rubrouck confiara ao jovem Marco Polo que gostaria de ter ficado a viver no Império Mongol, mas que o Grão Cão não o autorizara. O veneziano, que Cublai convidara a servir na corte até à morte, pensa muitas vezes no monge. Aquela lâmina salvou-lhe a vida mais do que uma vez.

 

- O metal é tão puro que parece que nenhum sangue o poderá alguma vez manchar - encanta-se Sanga.

 

Marco nem responde, atento à criada que se afadiga à volta deles. A jovem deve contribuir largamente para o sucesso do albergue, sob o olhar atento do patrão - talvez o pai. Este aproxima-se, exibindo um sorriso servil. De mãos juntas em frente do estrangeiro, saúda-o antes de se apoderar das notas.

 

- Ele diz que o dinheiro não chega - traduz Sanga.

 

- Foi o que ela me pediu - replica Marco, apontando para a criada.

 

- Ela não está incluída no preço. É preciso acrescentar a sua parte.

 

Marco sorri, abrindo de novo a carteira. O hospedeiro inclina-se numa reverência ainda mais profunda. Sanga dirige-se-lhe brevemente em chinês.

 

Marco observa-o pelo canto do olho. Sanga enfia a cara na tigela, aspirando conscienciosamente toda a massa contida na sopa. Depois, engole o caldo em grandes tragos. O criado de Sanga serve-lhe um naco de pão ainda antes de terminar o seu e volta a encher-lhe o copo de vinho de arroz logo que o vê vazio. Trocam algumas palavras na língua que é a deles. Ouvindo-os, Marco apercebe-se de que o compreende perfeitamente, como o compreendera na ponte quando evocara as águas transportando sangue. Subitamente, apercebe-se da razão: Sanga não falou chinês, mas uigure, língua do Noroeste do império que Marco aprendeu durante a viagem para a China. Aproxima-se, brutalmente intrigado.

 

- O teu criado serve-te com muita deferência, Sanga. Como se fosses um verdadeiro mandarim.

 

- Alguma vez conheceu um mandarim, Senhor Marco? Marco solta um suspiro tão exasperado quanto divertido.

 

- A tua impertinência merecia um castigo.

 

- Fui eu que o tirei da sarjeta - explica Sanga.

 

Pede outra tigela de sopa e começa a engolir a massa com voracidade.

 

Entretanto, o taberneiro pega numa pequena pá que mergulha num balde, do qual retira pedras totalmente negras. Lança-as para a lareira e inflama-as. O fogo aviva-se suavemente, libertando um calor constante. Marco não tira os olhos da fogueira, fascinado. A lareira, produz brasas cintilantes sem formar chamas. Apesar disso, um doce calor invade progressivamente a sala.

 

- Estas pedras de lume são extraordinárias. Se pudéssemos vendê-las em Veneza... Preciso de falar urgentemente com o meu pai, Shayabami. O Grão Cão tem de desenvolver a sua produção. Por que não se aquece ele por este meio?

 

- Talvez por ainda não lhe ter falado do assunto, Senhor Marco. O veneziano encolhe os ombros.

 

- Amanhã, ainda estarão quentes! - insiste Sanga. - E são mais baratas do que as achas habituais. Aquilo chama-se carvão.

 

Marco sente pena de Shayabami, que boceja de boca muito aberta. Dirige-se para o quarto, acompanhado pela criada. Shayabami segue-o e, ainda antes do amo fechar a porta, já ele se deitou atravessado no chão e começou a ressonar de tal maneira que faz vibrar as tábuas do chão. Em vez de se sentir incomodado, depois de satisfazer rapidamente o seu desejo e de ter despedido a criada, Marco deixa-se embalar por aquela serena tempestade e soçobra num sono profundo, agitado pela aparição brutal do misterioso general que transporta o destino do império na ponta da espada.

 

A viagem prossegue durante cinco longos dias. O ar torna-se cada vez menos pesado. Atingem Akbaligh, onde Sanga solicitou uma paragem particular. Abandonando os soldados ao vinho de arroz num albergue, afasta-se com o criado. Marco segue-o discretamente, contrariando os protestos de Shayabami. Nos meandros de um bosque de cedros, descobre um imenso mosteiro budista. O maior dos templos ergue-se no cimo de altas colunas pintadas de vermelho, encimado por um telhado amarelo da cor do ouro. A entrada encontra-se guardada. É inútil tentar penetrar no seu interior, ser-lhe-ia tão difícil quanto, para um mongol armado, transpor o limiar do Palazzo Ducale em Veneza.

 

De regresso ao albergue, Marco pede a Shayabami que o acorde no dia seguinte antes do alvorecer.

 

Ainda é noite escura quando o sírio vem abanar Marco, na cama. O veneziano põe-se de pé, com o coração a pulsar violentamente. Apazigua-se ao reconhecer o fiel servidor. Faz-lhe um sinal para que se cale e, vestindo-se à pressa, sai do quarto. Nas pontas dos pés, avança até ao quarto de Sanga. Apura o ouvido. Ouve-o recitar salmos. Pelos interstícios da porta, vê-o sentado numa almofada, orando e meditando, diante de uma pequena imagem budista.

 

”Sanga é um mongol cujo xamanismo é muito curioso...”, pensa ele, sonhador.

 

Prosseguem a viagem através de Shanxi, onde saboreiam um vinho famoso fabricado a partir de videiras que crescem agarradas a amoreiras cujas folhas alimentam bichos-da-seda. O vale desenrola-se, revelando uma paisagem sem árvores, retalhado por culturas em terraços que declinam todos os tons do amarelo ao ocre e do pálido ao garrido.

 

- Não estamos longe do palácio do rei de Ouro, um dos imperadores da dinastia Jin. Conta-se que só tinha mulheres ao seu serviço, e que até se servia delas para puxar a carruagem.

 

- Excelente ideia! - exclama Marco.

 

- Receio que essa espécie de amazonas tenha desaparecido.

 

- Basta adestrá-las nesse sentido - graceja o veneziano. - Decididamente, este país agrada-me. Julguei que fôssemos ao encontro de um dos filhos de Cublai, Mangalay, governador de Shanxi.

 

- Ele é, de facto, governador de Shaanxi, mas nós encontramo-nos em Shanxi.

 

Marco obriga Sanga a repetir a mesma frase várias vezes antes de compreender a subtileza da língua. Põe-se a rir, nervoso.

 

- Afinal, talvez Cublai proíba os Mongóis de aprender chinês por não serem capazes!

 

Avançam pela planície até avistarem um rio gigantesco. Este desenvolve os seus meandros fervilhantes da mesma cor ocre sanguínea que a terra, envolvendo florestas de bambus gigantes, alguns dos quais são mais altos do que dez homens. Nuvens de pássaros batem as asas e fogem dos seus abrigos ao longo das margens pantanosas.

 

- É o Karamoran, o rio Negro - explica Sanga. - Os Chineses chamam-lhe Huang-Ho. É tão largo que nenhuma ponte o pode atravessar, e a corrente tão forte que arrastaria qualquer uma.

 

O eco das águas é ensurdecedor e eles sentem-se obrigados a elevar a voz para se fazerem ouvir. Para atravessar, têm de procurar um barco à vela. Quando os barqueiros se apercebem das armas do Grão Cão, precipitam-se para negociar. A discussão entre Sanga e o barqueiro prolonga-se. Marco sabe que faz parte dos costumes do país, mas acaba por se impacientar, de rosto transido pelo vento frio que sopra da água.

 

- Vamos, Sanga, dá-lhe o que ele exige e acabemos com isto. Sanga obedece. O barqueiro faz-lhe um sinal para que avance.

 

Marco põe um pé no barco, que começa a balançar assustadoramente. O homem pega-lhe no braço e puxa-o para dentro, praguejando em chinês. O barco mais parece uma jangada, o que não tranquiliza Marco. Pergunta-se se não teria sido preferível trazerem canoas de couro de camelo, mais pequenas, mas com certeza mais seguras. Com os olhos vendados por precaução, os cavalos avançam, medrosos, puxados pelos donos. Os mongóis estão particularmente nervosos, iludindo a angústia com zombarias de humor duvidoso. Por fim, soltam-se as amarras. O barco começa imediatamente a girar sobre si próprio. Ouvem-se gritos entre os passageiros. Em mongol, em chinês, o medo grita da mesma maneira. Marco agarra-se ao cavalo, que relincha. Os barqueiros não se mostram preocupados. O veneziano avalia a corrente do rio e conclui que, entre o pânico dos homens e dos animais, se a embarcação se voltasse, teria poucas possibilidades de se salvar. Um navio exalando odor a jasmim barra-lhes a passagem. Marco apercebe-se dos enormes volumes que constituem o seu carregamento e consegue mesmo distinguir as pequenas flores brancas que se escapam de um fardo e esvoaçam ao sabor do vento.

 

Por fim, a margem, quase ao alcance da mão. Formando um salto ágil, o barqueiro pisa terra firme, apressando-se a prender a embarcação ao caule grosso de um bambu. Os mongóis descem numa grande desordem, apressados, aliviados. Marco prepara-se para, por sua vez, saltar para a margem. Mas, bruscamente, Sanga esboça um movimento de recuo. Marco perde o equilíbrio.

 

- Signore Marco! - exclama Shayabami, horrorizado.

 

Marco ainda tem tempo de ouvir o grito abafado do escravo antes de se afundar. Perturbado pela espada, enrolado na pesada capa, sente-se atraído para o fundo, tragado pela forte e retumbante corrente do rio. Num esforço de vontade, emerge a cabeça da água. Tenta referenciar-se, procura com os olhos os companheiros de viagem. Sente a energia necessária para ganhar forças e começa a nadar penosamente em direcção à margem. Um braço à frente do outro, os pés enrolam-se-lhe no vestuário. Lutando contra as vagas, ameaçado pelas outras embarcações, prisioneiro dos trajes imperiais, não tarda a aperceber-se de que o turbilhão o arrasta na sua dança infernal. Os músculos extenuam-se, a respiração abranda. A tranquila laguna de Veneza que ele tão bem conhece parece-lhe a milénios de distância, e como preferia tê-la por mortalha!

 

Desiste.

 

Implacável, a tempestade aspira-o para o fundo. O silêncio acolhe-o na sua intimidade. Arregala os olhos, mas o turbilhão de areia turva-lhe a visão. Subitamente, apercebe-se de que a agitação amaina. Recomeça de imediato a nadar, sempre em frente, tentando em vão libertar-se da capa que se lhe cola à pele. Prestes a soçobrar, tenta um impulso enraivecido com o pé para remontar à superfície. Necessita de um segundo esforço para emergir ao ar livre. A corrente toma imediatamente conta dele, arrebatando-o ao longo da costa. Decide deixar-se transportar pelas vagas. Absorvido pela orientação da deriva, avista um amontoado de plantas. Um golpe de rins e agarra-o com a ponta dos dedos. Rápido, não deixa escapar a presa. Sem retomar a respiração, aproveita esta breve pausa para se içar até à margem. Escorrega, mergulha a cabeça no limo, com o peito a arquejar como um enorme fole, abalado por violentos acessos de tosse.

 

Shayabami, que o seguia como podia, acorre, ofegando, com o cavalo pela rédea.

 

- Signore Marco Polo! Vá bene?

 

Marco limita-se a um vago aceno de mão. Sem dificuldade, Shayabami soergue o amo, ajuda-o a montar na sela e guia-o até ao resto do grupo.

 

Dirigem-se para uma casa de camponeses, ali muito perto. Bastou este trajecto para que Marco recobrasse as forças. Entra na casa, encharcado, cambaleando, entre o ruído produzido pelas botas cheias de água.

 

Passa a capa para as mãos de Shayabami. Em seguida, interpela o intérprete, contendo a raiva.

 

- Sanga, vem descalçar-me as botas.

 

Puxa por uma cadeira e senta-se, procurando equilibrar-se com os calcanhares pousados no rebordo da mesa. Shayabami apressa-se a servir-lhe uma tigela de chá bem quente.

 

- Para tarefas como esta, dispõe de um criado - replica Sanga.

 

- Shayabami magoou-se nas costas, o pobre infeliz. Gostaria de o poupar um pouco.

 

Sanga faz estalar os dedos.

 

- Muito bem, o meu criado substitui-lo-á.

 

Marco ingere de um trago a beberragem fumegante e esboça um esgar. O seu rosto torna-se escarlate. Bate com o punho na mesa.

 

- Não! Exijo que sejas tu. Poderia mandar-te executar imediatamente pelo crime que cometeste!

 

Crava os olhos bem no fundo das pupilas de Sanga, como se assim pudesse adivinhar a luz do seu segredo. Sanga sustenta o olhar de Marco sem pestanejar. Só um ligeiro estremecimento do queixo trai a agitação que lhe vai na alma. Instala-se o silêncio à volta deles. Os dois homens enfrentam-se por um longo momento. Todos os olhos convergem para a arena onde se trava o mudo combate. Marco bate com o tacão da bota na esquina da mesa, a escassas polegadas de Sanga. Quebrando o peso do silêncio, o criado de Sanga começa a falar muito depressa na sua língua. O intérprete responde-lhe com uma inflexão de fúria contida. Acaba por ceder, baixando os olhos. Com uma infinita lassidão, Sanga levanta as mãos aproximando-as da bota do veneziano.

 

Mas, no derradeiro momento, Marco deixa descair a perna para o chão. Surpreendido, Sanga volta para ele um rosto interrogador.

 

- Vem - ordena Marco em uigure.

 

Retira dos braços de Shayabami a roupa seca que o escravo lhe preparara, arrasta Sanga para o compartimento adjacente, sob o olhar estupefacto dos proprietários, e bate violentamente a porta atrás dele. Encontram-se num quarto onde foi instalada uma enxerga no chão. Duas crianças muito pequenas dormem de corpos entrelaçados. Acordam bruscamente, assustadas. Uma delas começa a chorar. Marco, com as poucas palavras em chinês que conhece, ordena à outra criança que lhe vá buscar uma garrafa de vinho de arroz. O rapaz mais velho arrasta apressadamente o irmão atrás de si.

 

Os dois homens encontram-se de novo frente a frente. Desta vez, Sanga mantém os olhos baixos. Marco começa a despir-se sem deixar de fitar o intérprete.

 

- Mentiste-me - lança-lhe Marco em uigure.

 

Fala numa voz tão cortante como o gume da sua espada.

 

- Não quero saber qual a razão. Quero que me digas a verdade.

 

- Sou o seu intérprete - responde Sanga em mongol. Incapaz de se conter por mais tempo, Marco agarra Sanga pela gola da capa, que ele não chegou a despir, e empurra-o violentamente contra a parede. Num gesto brusco, desembainha a arma. Nos músculos dos braços vêem-se as veias salientes.

 

- Sanga, deixa de troçar de mim. Estás a ver esta arma? Admirava-la tanto, louvavas a pureza deste metal que nenhum sangue deveria manchar. Como és capaz de proferir tal afirmação? Não me conheces. Quem já viu a minha espada manchada de sangue não pode achar-lhe beleza.

 

Sanga sustenta o olhar de Marco.

 

- Sou um antigo príncipe, de sangue uigure.

 

A porta abre-se subitamente, deixando passar o rapaz que regressa, apertando nos braços uma garrafa quase tão grande quanto ele. Crispa-se, ao ver os dois homens.

 

Marco baixa a arma.

 

O garoto pousa o vinho no chão e sai imediatamente.

 

O veneziano despe as calças, atento a todas as palavras de Sanga.

 

- Continua.

 

- Já ouviu falar de Caidu?

 

Ao ouvir este nome, o sangue de Marco gela-lhe nas veias. Como poderia tê-lo esquecido? Caidu, príncipe mongol rebelde à autoridade de Cublai, cuja legitimidade contesta. Caidu apostou na derrota do primo, Cublai, e conseguiu manter-se à frente de um vasto território a oeste de Khanbalik. Introduzira um traidor na caravana dos Polo a fim de que a sua missão junto de Cublai fracassasse, e esteve na origem da morte do seu primeiro amor, Noor-Zade. Manteve-a mesmo como refém durante quase um ano, em condições extremas.

 

- Sim, conheço Caidu.

 

- Caidu apoderou-se do meu país - prossegue Sanga. - Investiu na morte de todos os herdeiros do meu sangue. Desde os treze anos de idade que vivo escondido na corte e tornei-me monge budista, sob a protecção do ministro do nosso culto, P’ag-pa.

 

Marco larga a espada e pousa-a no chão. Cambaleia e, trémulo, quase desfalece. Sanga ajoelha-se para o ajudar a descalçar as botas, encharcadas.

 

- Desconfiavas de mim? - pergunta o veneziano.

 

- E ainda desconfio. Suponho que nem sequer saiba o que é um Uigure.

 

Marco ingere um trago de vinho de arroz pelo gargalo da garrafa. O calor do álcool provoca-lhe arrepios.

 

- Enganas-te. Outrora, tive uma escrava uigure.

 

Sanga irrita-se bruscamente, empurrando Marco e entornando a garrafa no chão de terra batida.

 

- Deve tratar-se de um cúmplice de Caidu, para assim falar! Nós não somos um povo servil!

 

- No entanto, encontras-te ao serviço dos Mongóis. Sanga acalma-se.

 

- Estes bárbaros apoderaram-se das nossas terras e até mesmo do nosso alfabeto. Quem disse que me encontro ao seu serviço?

 

Sanga afasta-se de Marco.

 

- A sua escrava devia ser uma cativa. Quando se apoderou das nossas terras, Caidu massacrou todos os homens e levou as mulheres e as crianças para as vender.

 

Dão Zhiyou lamentou durante muito tempo não ter comido as penas do frango. Após vários dias de chuva em que pôde saborear toda a espécie de grandes lesmas douradas, teve de se contentar com raízes meio podres. Devorou punhados de bagas verMmelhas muito apetitosas que acabaram por o deixar doente. Está sempre a pensar em Tchang. Em vez de o socorrer, fugiu como um coelho. Tchang, esse, não teria desistido. Foi por sua culpa que Tchang morreu. Em certos momentos, basta este pensamento para lhe arrancar profundos soluços desesperados. A fome que o atenaza tortura-o menos do que o remorso.

 

Sempre que surge um aguaceiro, abre muito a boca, voltada para o céu, para beber a água que não é capaz de recolher. Com a garganta irritada pela sede, decidido a descobrir uma cidade em que possa mendigar, acabou por deter uma carroça puxada por um velho macho. Embora se tivesse contentado com um punhado de arroz, os camponeses tiveram a caridade de o tomar ao seu serviço.

 

Vivem numa pequena quinta no meio dos campos de amoreiras, perto de um bosque.

 

Lavaram-no e vestiram-lhe roupa que pertencera aos filhos. Usada mas limpa, pareceu-lhe nova. Em seguida, para evitar a presença de piolhos, raparam-lhe o cabelo, que crescera muito. Só a mulher mais velha da família trabalha exclusivamente em casa. Dão Zhiyou gosta muito dela, porque ela também não fala. Quando a viu pela primeira vez, Dão surpreendeu-se por a ver enfeitada com estranhos colares pendurados ao pescoço. Perante a sua expressão de espanto, o pai explicou-lhe que eram ovos dos bichos-da-seda. Como era velha e de boa índole, o seu corpo tinha a temperatura ideal para que pudessem crescer tranquilamente e eclodir.

 

- Os bichos-da-seda precisam de amor e de calor - acrescentou o pai, emocionado.

 

Pela primeira vez na vida, Dão Zhiyou desejou que o seu próximo renascimento ocorresse no invólucro de uma daquelas lagartas.

 

Nos campos, os mais velhos afadigam-se nas colheitas, com a ajuda de uma faca, enchendo grandes cestos de vime. Ao sol, as crianças puxam uma carroça de folhas de amoreira. Pelo caminho de terra, as rodas avançam aos soluços.

 

Uma vez dentro de casa, os mais novos limpam cuidadosamente as ramadas, galho a galho. Depois, os pais dispõem pacientemente as folhas nas tábuas pelas quais caminham as grandes lagartas brancas e felpudas. Metade da casa é ocupada pelos bichos-da-seda, enquanto a família se concentra em dois compartimentos.

 

- É preciso espalhar as folhas - explica o irmão mais velho a Dão -, de contrário, as lagartas que se encontram por baixo não comerão o suficiente. E então, sabes o que acontece?

 

Como Dão Zhiyou não responde, ele conclui:

 

- ...as que estão por cima tornam-se monstros enormes que não hesitarão em te devorar para matar a fome.

 

Ignorando os olhos apavorados do rapazinho, prossegue:

 

- Não te esqueças de que as lagartas tomam três refeições por dia. Para a primeira, sou eu quem te virá acordar.

 

Durante a viagem, os mongóis acabam por exigir uma tenda para dormir, retomando o seu instinto de nómadas, tanto [mais que o tempo arrefeceu claramente. Sanga submete-se de má vontade, habituado ao aconchego dos leitos dos palácios de KhanIbalik. Percorrem vinhas férteis, orgulhosamente retorcidas nos grossos pés. Quando o agrupamento de Marco Polo atinge a capital do Shaanxi, Changan, Sanga experimenta um imenso alívio.

 - O Shaanxi é tão importante para o Grão Cão que este nomeou governador um dos seus filhos, Mangalay. Seremos seus hóspedes - acrescenta Sanga.

 

Desde que Sanga se confiou a Marco, instalou-se entre os dois lum clima de relativa confiança, sustentado pela cumplicidade da língua.

 

- É a província mais importante para o comércio da seda e é famosa pela tecelagem a ouro.

 

- Nesse caso, devemos poder fazer bons negócios.

- É o senhor o mercador.

 

- Finalmente obteremos informações sobre o general Bayan - declarou Marco, confiante.

 

Logo que a sua chegada se torna conhecida, surgem mensageiros que os convidam a visitar o palácio do governador. Rodeado por altas muralhas de mármore, o palácio resplandece no meio de uma planície onde cintilam lagos e rios. As salas são decoradas a folha de ouro, pinturas de lápis-lazúli. Os tectos em cúpula, representando o céu, são sustentados por numerosas colunas de mármore. O camareiro convida Marco a segui-lo, sozinho. A sala de audiências onde o veneziano é introduzido, adornada segundo uma ordem geométrica perfeita, apresenta dimensões modestas. O príncipe mongol enverga, como o pai, uma túnica de seda de mangas largas, à maneira chinesa. Usa o cabelo preto atado no cimo do crânio. Saúda Marco Polo de mãos juntas.

 

- Seja bem-vindo ao meu modesto palácio.

 

Cublai mandou educar os filhos, que destinava ao desempenho de elevadas funções, por letrados chineses, ensinando-lhes igualmente as boas maneiras de que tanto carecem os Mongóis. Mangalay tem cerca de quarenta anos de idade. Levando o seu papel muito a sério, dá audiência como um verdadeiro Cão. Examina Marco, vinte anos mais novo, de alto a baixo, com uma expressão que não exclui o respeito devido à sua qualidade de enviado do Grão Cão.

 

- O Grão Cão não lhe poupa elogios, nas mensagens que nos envia - acrescenta Mangalay, com uma pontinha de inveja.

 

- Nobre príncipe, agradeço o acolhimento que me é dispensado e presto homenagem ao amo e senhor de todos nós, o Grão Cão, que me proporcionou a oportunidade de ser vosso hóspede.

 

O príncipe mongol ordena que sirvam kumis e chá.

 

- O meu pai é um grande estratego e um grande conquistador, um digno herdeiro de Gengiscão. Mas goza de um apetite insaciável. Julgo saber que engordou ainda mais nestes últimos cinco anos em que não o vi. Que costuma fazer, Senhor Marco, quando percebe que teve os olhos maiores do que a barriga?

 

- Pois bem, não termino a refeição - responde o veneziano, divertido.

 

- Mas ele termina. Dilata o ventre para engolir tudo. Marco inclina-se diante do governador.

 

- Nobre príncipe, o vosso pai, nosso amo e senhor, não tem recebido notícias do general Bayan, o que muito o preocupa.

 

O príncipe sobressalta-se, surpreendido.

 

- Como é possível? Eu próprio dotei o último dos seus mensageiros de um cavalo, há apenas dois meses.

 

Sem saber porquê, Marco sente um nó na garganta.

 

- Esse homem nunca chegou a Khanbalik. Ele sabia alguma coisa?

 

O príncipe fita Marco como se este lhe tivesse pedido para se baptizar diante do pai, da mãe e de toda a corte imperial reunida.

 

- Surpreende-me que me interrogue, Senhor Marco. As mensagens de Bayan são dirigidas exclusivamente ao Grão Cão. Prossiga o seu inquérito. Se o general Bayan enviou uma mensagem a meu pai, é porque combate ainda mais a sul. Aí, terá de enfrentar densas florestas, conhecidas por serem tão inextricáveis quanto a descendência de Gengiscão.

 

Ri-se sozinho.

 

- É no Sul que os Chineses são mais coriáceos - prossegue ele. - Quanto a saber se o general conseguiu vencer a sua resistência... Enfim! Ele é tão fiel ao amo que nunca se permitiria morrer sem antes o advertir - acrescenta ele, num sorriso.

 

Mangalay desvia-se ligeiramente, dando por terminada a audiência.

 

Marco encontra Sanga e Shayabami nos jardins do palácio. Sanga passeia-se de um lado para o outro, apertando a capa contra o corpo. Não faz nenhuma pergunta, mas o veneziano adivinha pela sua expressão que morre de vontade de saber como decorreu a audiência.

 

- A resistência chinesa elimina os mensageiros de Bayan.

 

- E os do Grão Cão? - pergunta Shayabami, inquieto.

 

À medida que avançam para sul, o relevo torna-se mais acidentado. Parcelas de arrozais cobrem a encosta da montanha. Os camponeses e os aldeões mostram-se mais reservados no acolhimento que lhes dispensam. A conquista é recente. Os Mongóis abalaram a organização administrativa e universitária chinesa, pondo em causa o destino de cada habitante. Os Chineses encaram-nos essencialmente como bárbaros e invasores, tanto mais que o império dos Song do Sul ainda não capitulou. O exército chinês recua a sul, em zonas mais hostis. Os soldados mongóis nem por isso deixam de avançar, inexoravelmente. Subitamente, na curva de uma colina, surge um braço de mar, com milhares de reflexos.

 

- O Yangzijiang! - exclama Sanga.

 

O rio serpenteia, como um imenso dragão de escamas palpitantes. Os numerosos cavalos e peões que se dirigem para a cidade abrandam a marcha da expedição. Penetram, por fim, na cidade, aproximando-se da ponte que atravessa o rio, dividindo a cidade ao meio. A ponte tem oito passos de largura e é inteiramente coberta por um tecto de madeira decorado com ricas pinturas envernizadas. Apertadas umas contra as outras, pequenas lojas de madeira. Algumas delas são desmontadas ao fim do dia. Sob o olhar severo de dezenas de guardas, uma multidão aguarda o momento de atravessar.

 

O rio atinge com certeza meia milha de largura. As próprias vagas parecem animadas por uma agitação semelhante à de uma colmeia. Centenas de embarcações de todos os tamanhos percorrem o Yangzijiang, evitando os confrontos por meio de manobras ousadas. Alguns navios são tão grandes que parece impossível poderem navegar fora do oceano.

 

A corrente é forte e muitos barcos precisam de ser sirgados para remontar o curso do rio. Mulheres, curvadas pelo esforço, puxam por enormes cordas de bambu entrançado. Na água, nadadores, muitas vezes crianças, libertam os cabos entalados nas rochas. Maquinalmente, como se tal atitude tivesse sentido, Marco procura reconhecer um daqueles rostos.

 

À entrada da ponte, uma portagem mandada construir pelo Grão Cão ergue uma fachada impressionante. O veneziano apresenta-se ao guarda, que saúda respeitosamente o emissário do imperador. Em conversa com ele, Marco fica a saber que recebe um milhar de moedas de ouro por dia, para além das notas. Os mercadores e os carregadores aguardam, proferindo injúrias. A fila é longa e compacta. A multidão comprime-se, ruidosa e nervosa. Vendedores ambulantes apregoam guloseimas, circulando entre as pessoas que os numerosos guardas se esforçam por conter. A espera torna-se ainda mais demorada por todos os presentes pararem em frente das lojas da ponte para fazer compras ou trocar as últimas notícias trazidas de uma margem para a outra da cidade. A ponte é atravessada por grandes carroças transportando uma carga pesada. Os condutores soltam gritos estridentes para que a multidão se afaste. Por fim, surge a expedição chefiada por Marco. A passagem à entrada da ponte é estreita, e os homens são obrigados a apresentar-se um a um na porta que comanda o acesso.

 

- Depois de atravessarmos a ponte, saímos do Catai e entramos em Manzi - comenta Marco para consigo mesmo.

 

Sanga aproxima-se de Marco.

 

- Senhor Marco, não reparou que os habitantes são todos muito parecidos?

 

- É verdade, o meu olhar de estrangeiro ainda não se habituou a, distingui-los.

 

- Talvez, mas deixe-me dizer-lhe uma coisa: aquilo a que chama Catai e Manzi formam, na realidade, uma única e mesma terra.

 

Marco apeia-se do cavalo e detém-se diante da loja de um mercador de incenso. Desdobra o mapa que o Grão Cão lhe deu.

 

- Vem ver, Sanga.

 

Estudam por um momento a quadrícula, antes de adivinharem, com uma margem de erro de algumas centenas de lis, onde se encontram.

 

- Se bem entendo o que dizes - surpreende-se Marco -, o mar deveria estender-se mais a sul?

 

- Sim, mas o mapa não o mostra, como é evidente. Não há rio, nem montanha, nem oceano. É verdade, porém, que chegaríamos ao oceano, se continuássemos em direcção ao Sul.

 

Marco enrola o mapa, sonhador, com o olhar brilhante de excitação.

 

- Os mercadores persas conhecem os portos de Manzi. Os mercadores indianos conhecem as planícies do Catai. Se nunca nenhum deles estabeleceu a ligação entre as duas terras, se nenhum compreendeu que as costas eram as de um só continente, nem que estas montanhas desciam até ao mar... - prossegue ele, exaltado pela descoberta. - Então isso significa que o império do Grão Cão é ainda mais vasto do que nós somos capazes de imaginar!

 

- Nós, quem?

 

- Nós, Veneza, o Papa! Em tua opinião, estamos longe do mar?

 

A meio da noite, Dão Zhiyou sente-se brutalmente agitado. Instintivamente, ergue os braços para proteger a cabeça. Enrosca-se, encostando o queixo ao peito. Sentira muitas vezes vontade de adormecer para sempre, para não ter de baixar os olhos penosamente abertos em frente dos esbirros do contramestre. Mas, aqui, nem perfume de jasmim, nem espancamentos ao acordar.

 

Levanta-se, desvairado e, depois de se vestir, dirige-se para o grande compartimento onde o aguardam os bichos-da-seda, enquanto o irmão mais velho da família começa a preparar o trabalho dos mais novos. Num gesto repetitivo, Dão Zhiyou espalha as folhas com todo o cuidado. As lagartas esfomeadas precipitam-se avidamente para os ramos, rastejando, e dão início à refeição. Dão Zhiyou ouve os ruídos produzidos pelo seu próprio estômago. Terá de aguardar várias horas pelo fim da refeição das lagartas para finalmente engolir a tigela de massa que a velha ainda nem cozinhou. De resto, não lhe apetece abandonar as lagartas, observa-as atentamente, certifica-se de que nenhuma delas cresce mais do que as outras. Aos poucos, começa a ouvir-se um rumorejar, como o de uma tempestade que se aproxima, uniformemente. São os vermes devorando as folhas. Este barulho sobrepõe-se rapidamente aos apelos do estômago de Dão. Fascinado, conserva o olhar bem fixo nos milhares de lagartas muito brancas. Sente frequentemente vontade de lhes tocar, ou mesmo de as comer. Por vezes, quando a fome aperta, depois de verificar que está realmente sozinho, escolhe uma das maiores e mete-a na boca. Conserva-a momentaneamente viva, permitindo que as pequenas patas da lagarta lhe arranhem a língua. O verme acaba por se enrolar sobre si próprio, e Dão trinca-lhe a carne tenra e levemente estaladiça. Tem um sabor suave e adocicado. Este procedimento tem a vantagem de o certificar de que, dos dois, é ele que come o outro. Dão deixa-se penetrar por aquele trovejar, recuperando as folhas que escorregam antes de caírem no chão. Os vermes só as comem se estiverem limpas, secas e frescas. Dão Zhiyou tem o privilégio de se ocupar deles por se manter sempre muito atento. Foi assim que aprendeu que os vermes temem o barulho, as vibrações, as correntes de ar e os odores intensos. A entrada naquele compartimento está proibida aos adultos e às crianças a partir da adolescência. Só os pais ali penetram diariamente para poderem ter a certeza de que o crescimento dos vermes se processa harmoniosamente. Depois de ver as lagartas satisfeitas, Dão recolhe os pés da folhagem num cesto. Sai para o pátio, onde as cabras roem os restos recusados pelos bichos-da-seda.

 

Certa noite, quando Dão se prepara para lhes servir o seu pitéu quotidiano, apercebe-se de que começam a formar-se os casulos. Dão Zhiyou não consegue evitar um aperto no coração. Acabara por se afeiçoar aos vermes e estes preparam-se para se esconder num ninho aconchegado. A ideia de não voltar a vê-los mergulha-o numa imensa desorientação. Além disso, está a chegar ao fim o trabalho na quinta...

 

Os mais velhos mostram-lhe como pousar os vermes em tábuas cobertas por longas hastes de palha. Fascinado, Dão vê-os tecer o casulo com uma paciência infinita, sem descanso, puxando pelo famoso fio de seda tão brilhante e desmedidamente longo, sem nunca o romper. Os casulos estão finalmente concluídos. Os pais pegam nos montículos de palha guarnecidos de pequenas bolas brancas e levam-nos para o pátio, para que sequem ao sol e morra o verme, interrompendo assim a formação da crisálida. Com o coração a palpitar intensamente, Dão subtiliza um casulo, que esconde na manga da camisa. Os flocos brilham, cintilantes, acariciados pelo sol sufocante.

 

A criança assiste, impotente, à execução das lagartas que durante tanto tempo o alimentaram. Coincidirá o fim da estação com o dobrar dos sinos pelo seu futuro? Os adultos colhem casulos como quem colhe frutos. Com toda a frieza., mergulham-nos numa grande marmita de água a ferver. Logo a seguir, a mãe remexe os casulos com uma espécie de varinhas, reunindo vários fios de seda, que enrola numa grande roda de madeira até formar um único fio. A velha, sentada no chão, acciona a roda segurando o fio de seda entre os dedos secos. Os novelos brancos crescem a olho nu. Depois, estes novelos de seda crua são guardados em casa. O pai prepara-se com solenidade. Irá vendê-los à cidade, acompanhado pelos filhos.

 

Naquela noite, Dão não consegue conciliar o sono. No meio da escuridão, acaricia o casulo na palma da mão. Encosta-o ao ouvido, tentando compreender o mistério que ali se esconde. Mas o que ouve são os sussurros que atravessam a parede de barro. Acaba por se levantar e desliza pelo meio dos novelos de seda para ouvir melhor. A mãe e o pai conversam. Dão compreende que é dele que falam. Aumentam loucamente as pulsações do seu coração. A mãe propõe que o conservem junto deles, mas o pai não quer ter de alimentar mais uma boca, argumentando que o garoto come demasiado para o seu tamanho e que é muito pequeno para os trabalhos que exigem força.

 

- Não te lembras de que afogámos o último que nasceu? recorda o pai.

 

- Cala-te, dá azar! Silêncio.

 

- E se o confiássemos ao hospício? - sugere a mãe.

 

Ao ouvir aquela palavra, o sangue de Dão Zhiyou arrefece-lhe imediatamente nas veias. Com um nó no ventre, precipita-se para fora do quarto, rastejando até à porta. Atravessa a cozinha, engolindo as lágrimas. Subitamente, avista uma silhueta sentada no chão, muito direita. Ouve-a respirar. A sombra acena-lhe para que se aproxime. Hesitante, aguarda. A mão ergue-se de novo. Numa atitude defensiva, Dão aproxima-se. É a velha. O medo seca a garganta do garoto. A velha levanta-se e vai buscar um objecto envolto num pano, que estende a Dão. Este permanece imóvel. Então, em gestos lentos, ela abre o pano e desvenda um frango recentemente degolado. Os olhos de Dão enchem-se de lágrimas. Veloz, apodera-se do embrulho e foge, correndo, para fora de casa.

 

Corre até perder o fôlego pelos campos mergulhados na escuridão, calcando galhos secos do Verão que está a chegar ao fim. Só Quando a dificuldade de respirar o deixa prostrado, de nariz entre o musgo, pergunta a si mesmo se não deveria ter dito alguma coisa à velha.

 

DEBAIXO DA CHUVA TEMPESTUOSA DAS PRIMEIRAS NUVENS

A expedição chefiada por Marco Polo aproxima-se das altas montanhas do Oeste. Decorridos mais de vinte anos, o país ainda sofre os esforços de conquista de Mongka, irmão mais velho e predecessor de Cublai no trono do Império Mongol. Muitas aldeias expõem aos olhares a nudez desolada das suas ruínas, desgastadas pelos ventos e tempestades de neve. Os sobreviventes deram lugar aos animais selvagens, tigres, ursos e outras feras. Dos raros albergues que o grupo encontra à sua passagem, não restam mais do que traves abandonadas, testemunhando um tempo passado em que o viajante era bem-vindo. Rugidos ameaçadores enervam os componentes do grupo. As montadas desviam-se do caminho e os cavaleiros, se bem que habituados a toda a espécie de perigos, estremecem em cima das selas.

 

Uma rajada de vento glacial petrifica Marco. Açodem-lhe à memória os temores de Shayabami. Se a resistência chinesa elimina os mensageiros do general Bayan, é muito provável que também procure aniquilar os do Grão Cão.

 

Ao cair da noite, depois de terem procurado, em vão, um abrigo, Marco decide-se a mandar montar o acampamento ao longo de uma torrente. O veneziano ordena que todos verifiquem o estado das suas armas. Tanto para tranquilizar os homens como para se Protegerem dos animais selvagens e do frio, manda cortar grandes canas de bambu e acender uma fogueira. Ainda estão verdes, mas ele espera que bastem para atear a fogueira. Marco estuda o mapa do Grão Cão, corrigindo-o e acrescentando-lhe elevações que este não continha.

 

Um soldado lança para o fogo as canas ainda verdes. Atingida pelas chamas, a casca destaca-se, o lenho fende-se. Subitamente, são sobressaltados por um tumulto terrível. Os mongóis pegam nos arcos e nas espadas, numa grande expectativa.

 

- É o lume! - exclama Marco. - Vai explodir!

 

Afastam-se, assustados. O bambu começa a estalar, produzindo um ribombar de tempestade. Os cavalos relincham, aterrorizados.

 

- Dominem os animais! - ordena o capitão.

 

Mas os soldados, apavorados, mostram-se impotentes. Os animais fogem, como perseguidos por uma rajada de trovões. Os homens recuam ainda mais, incapazes de cessar de tiritar, de medo e de frio. Para se protegerem do barulho infernal, tapam a cabeça com pesadas mantas. Quando, finalmente, o terrível estalejar se acalma, ninguém exige que se acenda de novo a fogueira. Todos se agasalham como podem. A noite, gelada, extingue-se no meio da angústia. Os olhares cruzam-se, inquietos. Incapazes de trocar uma palavra, os homens agitam-se sem conciliar o sono.

 

De madrugada, extenuados, procedem ao inventário dos seus bens. Marco abençoa o Grão Cão por ter instaurado o papel-moeda, o que lhe permite trazer consigo toda a sua fortuna. Agora isolado, o bando limita-se a contabilizar o desastre: com as montadas, perderam os víveres, as tendas e o vestuário. O capitão ameaça os seus homens com os piores castigos para os punir da sua indigna cobardia. Marco, realista, pressiona-o a antecipar a partida, a fim de encontrarem novos cavalos antes do anoitecer. Depois de carregados com as mantas e os víveres que restaram, fazem-se à estrada. A menos de um li, descobrem o cadáver meio devorado de um dos seus cavalos. Shayabami e os soldados mongóis recuperam as mercadorias que ele transportava. Caminham durante vinte dias sem encontrar vivalma, nem uma única casa, economizando víveres, carne e peixe seco.

 

Penetram mais profundamente na província. Gente envolvida em trapos pára à sua passagem e observa-os demoradamente. Cães enormes, apesar da magreza, rosnam, mostrando os beiços vermelhos da cor do sangue.

 

Cruzam-se pelo caminho com uma coluna de mercadores de pele escura. A estrada é tão estreita que os homens de Marco têm de esperar e deixá-los passar. Levam os animais carregados de pesados sacos.

 

- Diz-lhes que queremos comprar-lhes montadas e víveres. Sanga conversa com eles por uns momentos, antes de voltar para junto de Marco.

 

- Não compreendo o que dizem. Não estou certo de que falem chinês muito bem.

 

Marco dirige-se-lhes em persa. O mais alto de todos eles anima-se imediatamente, deleitado. São indianos que regressam à sua terra, depois de concluírem trocas comerciais e auferirem lucros. Marco convence-os a falar e eles, satisfeitos por poderem conversar numa língua que conhecem, não se fazem rogados. Foram trocar coral por almíscar, palhetas de ouro pescadas nos lagos, mas também gengibre, canela e cravo-da-índia.

 

- A região é farta em cabritos almiscareiros.

 

- Almiscareiros? - surpreende-se Sanga com discrição.

 

- Os machos têm por baixo do ventre uma bolsa cheia de almíscar - explica Marco.

 

Os mercadores recusam-se, com todo o respeito devido à categoria de Marco, a ceder-lhes o que quer que seja, mas aconselham-no, com um sorriso entendido, a pararem numa certa aldeia mais adiante onde serão particularmente bem recebidos. Seguindo os conselhos dos mercadores, avançam três ou quatro lis pela estrada, até avistarem, aliviados, as primeiras casas.

 

Estátuas budistas parecem acolhê-los, cobertas de colares de coral. Marco aproxima-se, curioso. Acaricia delicadamente as pedras cor-de-rosa vivo das estátuas.

 

- É coral proveniente das índias - reconhece.

 

Em escassos instantes, encontram-se rodeados por uma multidão de crianças sorridentes, cada vez em maior número.

 

À entrada da aldeia, todos os habitantes, interrompendo as suas actividades, se reuniram para desejar as boas-vindas aos viajantes.

 

À passagem de Marco, exibem as armas do Grão Cão, prosternam-se ao comprido, como exigem os costumes. Acotovelam-se para verem os estrangeiros e, como sempre, sobretudo um que é diferente dos outros. Um homem um pouco mais velho e mais bem alimentado avança para eles num passo seguro. Gratifica-os com um sorriso.

 

O chefe da aldeia condu-los ao templo budista ricamente decorado de pinturas a vermelho e ouro, contrastando com o despojamento dos habitantes da aldeia. Sanga felicita-o pela homenagem que prestam aos deuses.

 

- Diz-lhe que temos pressa de ir descansar - sugere Marco. O chefe da aldeia convida-os imediatamente a partilhar uma refeição com ele. Precede-os na entrada para a pequena cabana onde são obrigados a sentar-se no chão, apertados uns contra os outros. A mulher do chefe, num estado avançado de gravidez, afadiga-se como uma abelha, apesar do andar oscilante. O chefe apresenta-lhes os quatro filhos e as três filhas.

 

- Não vi nenhum cavalo ao atravessar a aldeia - declara Marco. Julga compreender que, naquela família, não há lugar para a criança que se prepara para vir a este mundo.

 

- Ele afirma que o povo adora o Grão Cão. Os filhos frequentam a escola que o imperador mandou construir na aldeia... Enfim, quando não têm trabalho, evidentemente.

 

- Sanga, pergunta-lhes o que possuem como animais - insiste Marco.

 

Servida a refeição, os soldados lançam-se sobre o vinho de arroz. Até mesmo Shayabami se abandona aos seus modos rudes.

 

Enquanto Sanga conversa com o pai, Marco admira o aspecto de uma das jovens que servem a refeição. Mais bem vestida do que as outras, caminha a passos curtos mas rápidos. Arvorando o tom crestado das camponesas, parece ter sido designada para servir o estrangeiro. Mantém-se ajoelhada a seu lado, ligeiramente retraída, preparada para corresponder às mínimas exigências. Com uma falta de pudor que surpreende Marco, não hesita em aflorar com as costas da mão o seu gibão de seda. Ruborescida, ergue para o veneziano um rosto franco e sorridente. Tem o cabelo apanhado na nuca. O seu encanto é simples e discreto. As sobrancelhas fartas encimando uns olhos escuros finamente alongados, a boca meio aberta como as pétalas de uma rosa numa manhã de Primavera, todo o seu rosto e os seus modos deixam transparecer as marcas da infância, numa impaciência de se tornar mulher. Não cessa de o observar insistentemente. O pai chama-a à ordem, adivinha Marco, pois a rapariga baixa imediatamente os olhos, mas deixa pairar um sorriso atrevido nos lábios. Ao longo de toda a refeição, essencialmente constituída por arroz tostado, cozido e pegajoso, dirige um sem número de carícias ao estrangeiro, servindo-o enquanto abafa o riso por detrás dos dedos que lhe tapam a boca. Tem as mãos tisnadas pelo sol e secas pelo trabalho. Todavia, serve-se delas com a graciosidade de uma dançarina sagrada, fazendo-as rodopiar para se apoderar de um cântaro ou para servir um prato. Quando sorri, os seus olhos cintilam de curiosidade e esperança. Com uma ingénua audácia, lança a Marco olhares despudorados. Marco sente-se divertido.

 

A rapariga começa a falar com a irmã sem que alguém, aparentemente, a consiga deter.

 

- O chefe da aldeia pode ceder três cavalos e mulas. Mas não responde pelo seu estado - anuncia Sanga.

 

- Shayabami tratará do assunto. Diz-me, de que fala a rapariga?

 

- Gostaria de que o senhor lhe ensinasse mongol - traduz Sanga.

 

A jovem e a irmã riem-se, tapando a boca com as mãos.

 

- Que dizem elas? - pergunta Marco.

 

- Admiram os seus olhos de porcelana azul.

 

- Aposto que nunca viu porcelana! - exclama Marco.

 

- Se a autorizar a fazê-lo, gostaria de tocar no seu gibão.

 

- Só se ela me permitir que lhe acaricie o vestido - replica Marco, que começa a entrar no jogo.

 

- Ela nunca viu seda - explica Sanga, prosseguindo a tradução. - E sonha visitar a corte imperial.

 

Marco solta uma gargalhada.

 

A jovem volta-se humildemente para Sanga.

 

- Ela não quer que eu traduza a conversa com a irmã.

 

- É esse o teu trabalho.

 

- Foi o que lhe respondi - declara Sanga.

 

O chefe da aldeia entra acaloradamente na discussão. Fala demoradamente com o intérprete.

 

- A rapariga agrada-lhe? Ele oferece-lha para passar a noite explica Sanga.

 

- É uma garota.

 

Sanga encolhe os ombros.

 

Marco abre a carteira de couro de leão e retira algumas notas, que se prepara para dar ao chefe. Mas este recusa, com um gesto enérgico. Aponta para um pequeno saco que traz à cintura e desata os nós que o apertam. Com todo o cuidado, exibe pequenos lingotes brancos.

 

- Parecem... - diz Marco, aproximando-se.

 

- ...sal enformado - termina Sanga. - É a moeda que usam. Não sabem o que fazer do papel.

 

- Quanto quer ele pela filha?

 

- Nada. Mostrou-lhe o dinheiro que tem por ser diferente do vosso, mais nada.

 

Marco permanece interdito por alguns momentos.

 

- Insisto em pagar. A miséria desta gente dá-me voltas ao estômago - explica-se Marco.

 

- O senhor é hóspede deles. É um emissário do imperador. Não o obrigue a perder a face. Guarde as notas.

 

Resignado, o veneziano dobra cuidadosamente as folhas de papel.

 

- Aparentemente, é para ele uma grande honra que a filha seja desflorada por um enviado do Grão Cão - prossegue Sanga, muito compenetrado.

 

- Devia enviar-lhe uma caravana de venezianos - comenta Marco, deliciado.

 

Interrompe-se e fixa a jovem.

 

Sob a imensa luz azul do seu olhar, a rapariga baixa pela primeira vez os olhos diante dele.

 

- Se recusar, é uma humilhação.

 

- Para ele... ou para ela?

 

- Para ele, evidentemente! - exclama Sanga, indignado.

 

- Ninguém poderá dizer que infligirei tal ofensa a um homem que nos recebeu tão bem e a um pai que tão generosamente oferece a filha.

 

Sanga transmite ao pai a decisão de Marco, antes de se voltar de novo para o veneziano:

 

- Depois, deverá oferecer-lhe um presente - acrescenta ele.

 

- À medida do prazer experimentado?

 

- Não, seria a sua vez de perder a face. Ainda lhe falta aprender a compreender os costumes e as maneiras desta gente.

 

- Tens de admitir que não é assim tão simples! Como se chama ela?

 

Sanga interroga o pai, mas, antes que este responda, a filha declara, numa voz forte de tom grave que contrasta com a sua silhueta esbelta:

 

- Xiu Lan.

 

Naquele instante, ainda eles não acabaram de beber o vinho de airoz, a mãe sente as primeiras dores. Agarrada ao ventre, levanta-se da mesa e afasta-se, sozinha. Xiu Lan precipita-se para o poço com uma das irmãs e enche uma selha de água.

 

- É para o recém-nascido, se for uma rapariga - explica Sanga a Marco, num tom frio.

 

De longe, Marco apercebe-se de que as mulheres se despedem de Xiu Lan. A jovem regressa para junto dele, no seu passo curto e rápido. Dirige um sorriso a Marco. Atrás dela, os gemidos da mãe provocam-lhe arrepios na nuca.

 

O pai lança-se então num longo discurso, que ela ouve atentamente, meneando levemente o queixo. Depois, ergue-se na ponta dos pés minúsculos e saúda Marco, de rosto iluminado por um belo sorriso nos lábios frescos e brilhantes como uma cereja ainda verde.

 

Marco levanta-se e segue-a. A rapariga avança, saltitando como um passarinho. Pára para se voltar, aproxima docemente os dedos das faces do estrangeiro e pousa um de cada lado da boca. Ele restitui-lhe o sorriso. Ela solta uma gargalhada, quando os seus dedos formam duas covinhas nas faces de Marco. À entrada de uma sala adjacente, uma mulher, um figo velho e engelhado, faz uma profunda vénia diante do estrangeiro, mantendo a cortina aberta. No momento de atravessar o limiar da porta, Xiu Lan marca uma pausa e olha-o descaradamente. Desliza para o interior e a cortina desce atrás de Marco.

 

O mobiliário do quarto é composto por uma espessa manta de pêlos de iaque lançada sobre o leito construído em tijolo e por baixo do qual ardem brasas. Numa bacia de água límpida flutua um grande ramo de ervas odoríferas. Uma garrafa de vinho de arroz ainda fechada e a taça em que deverá ser bebido estão pousadas no chão de terra batida. Uma lamparina de sebo destila um odor mais intenso do que a luz que fornece. Esta decoração modesta, avivada pelos parcos objectos de conforto de que dispõem os aldeões, confirma a estranha impressão que Marco sente de que aquela oferenda foi premeditada logo que a sua passagem pela região foi assinalada. Pela janela estreita, o papel engordurado deixa penetrar uma corrente de ar frio. Xiu Lan acende um pau de incenso. Agita a varinha incandescente com gestos de fada. Um odor quente invade o quarto.

 

Marco, meio embriagado, deixa-se cair na enxerga.

 

- Vem animar-me um pouco - pede ele, ciente de que a rapariga não o compreende.

 

A mãe solta um grito de dor que a rapariga ouve, sobressaltando-se. De costas voltadas para Marco, Xiu Lan imobilizou-se.

 

- Não me obrigues a levantar-me, vem cá! - clama Marco numa voz mais firme.

 

A jovem chinesa enterra o pau de incenso no chão com gestos de uma extrema lentidão. Por fim, volta-se e estende a mão para a garrafa de vinho de arroz. Com mão de ferro, Marco imobiliza-lhe o gesto.

 

- Não precisamos disso.

 

A jovem empalideceu. Tremem-lhe os lábios, pela primeira vez.

 

- Tens medo? - pergunta ele docemente.

 

Sem tirar os olhos da rapariga, Marco despe o gibão e utiliza-o para tapar a janela. O tempo de um suspiro, e a penumbra instala-se no quarto. A silhueta esbelta da jovem chinesa forma uma espécie de longa caligrafia, com os seus grossos e finos.

 

O choro estridente do recém-nascido enche o silêncio. Com uma infinita delicadeza, Marco enlaça ternamente Xiu Lan. Insubmissa, receosa, a jovem entrega-se aos poucos a esta poderosa união. Fecha os olhos, enroscando-se no seu calor. Marco sente o coração de Xiu Lan palpitar-lhe no peito. Estreita-a ainda mais, a fim de saborear a firmeza dos seus seios. Decorre um longo momento durante o qual se espalha pelo quarto uma ternura infinita. O silêncio da noite envolve-os numa protecção inefável.

 

A respiração dos dois amantes obedece ao mesmo compasso. Xiu Lan parece tão frágil nos braços do veneziano que este sente, pela primeira vez desde há muito tempo, uma estranha sensação. Uma vontade de conceder protecção. De conservar a rapariga junto de si. Muito suavemente, soergue Xiu Lan. Mal a deita na enxerga, vislumbra nos seus olhos um clarão de medo eivado de impaciência. O peito da jovem arfa como o de um pássaro amedrontado. Marco experimenta uma perturbação violenta. É o Vesúvio que arde dentro do seu corpo. Deita-se sobre a rapariga, petrificada. As mãos de Marco, quentes, percorrem o drapeado que aprisiona a pele fremente da chinesa. As dobras do lençol enrolam-se-lhe nos seios, alisam-se sobre as ancas salientes, apertam-se no pulso. A rapariga é tão magra que os dedos de Marco sentem as suas costelas. Dissimulada por detrás das pálpebras semicerradas, Xiu Lan espia todos os gestos do estrangeiro. Com a mesma firme e terna delicadeza, as mãos dele exploram o corpo da jovem chinesa, território desconhecido. Os dedos fazem-se leves, como se tocassem um instrumento em que cada afloramento provoca uma vibração. Quando a mão acaricia o pescoço da rapariga, esta volta a cabeça, mas permanece imóvel. A palma da mão desce pelos ombros, envolve-lhe a cintura, alonga-se pelas coxas, acaricia-lhe o joelho, alcança o tornozelo por debaixo da roupa, procurando despi-la. Marco surpreende-se por lhe ver os pés enfaixados. Num movimento brusco, ela levanta a perna, esquivando-se ao gesto de Marco. Desta vez, respeitará o pudor do tabu respeitante ao pé. Prossegue, todavia, a sua exploração. A pele de Xiu Lan é mais fina e suave do que a seda de Gella. Marco debruça-se sobre a chinesa e pousa os lábios no seu tornozelo. Percorre-a um longo frémito incontrolável que a agita até à ponta dos cabelos. Com uma urgência inquieta, agarra-se aos ombros de Marco e procura atraí-lo. Mas o veneziano está disposto a prosseguir a sua obra de tecedura sensual e resiste a esta falsa incitação. Progride com uma lentidão aplicada ao longo daquelas pernas de músculos extremamente retesados pela carícia insistente, pelo acesso de um novo calor. Fascinado pelos minúsculos pés da rapariga, Marco esboça mais uma tentativa. Mas, num gesto firme, ela detém-no. Ele remonta pelo corpo acima. Quando aflora delicadamente o bico dos seios, a jovem crispa-se, soçobrando à carícia do homem, resistindo ao prazer subitamente descoberto. Com uma brutalidade despudorada. Marco deita-se sobre ela. Com o joelho, afasta as coxas insubmissas. Xiu Lan pousa as mãos geladas no torso musculado de Marco, como para o repelir.

 

Ao lado, deixaram de se ouvir os gritos do recém-nascido.

 

- Bnyao - diz ela.

 

- Espera - responde Marco em veneziano.

 

Marco pega na mão de Xiu Lan e pousa-a na arma prestes a conquistar a fortaleza. Ela retira o braço num gesto de esquiva. Num derradeiro sobressalto, tenta debater-se, precipitando os movimentos de Marco. O veneziano imobiliza os braços da jovem acima da cabeça. Imperioso, penetra suavemente no coração da flor secreta. Xiu Lan morde os lábios, num estremecimento de surpresa.

 

- Em breve, tudo estará terminado - sussurra ele.

 

O sol vai alto no céu quando Marco abre os olhos. Sente a cabeça pesada, a nuca rígida. No chão, uma garrafa vazia. Promete nunca mais beber tanto. A opacidade da janela filtra os raios cintilantes do astro solar. A seu lado, as dobras dos lençóis ainda desenham os contornos dos corpos enlaçados.

 

Sozinho.

 

Ergue-se penosamente, chama.

 

Xiu Lan acorre, radiosa. Na claridade crua da manhã, parece quase uma menina. Inclina-se, de mãos juntas. Depois de dizer duas palavras em chinês, sai e regressa logo a seguir com uma tigela de chá fumegante e uma bacia de água quente.

 

- Pousa isso no chão - pede ele por meio de um gesto. Xiu Lan obedece e ajoelha-se.

 

Marco levanta-se e chama por Shayabami. O sírio aparece, obsequioso, carregando uma tina cheia de água.

 

- Onde está Sanga?

 

Marco debruça-se sobre o recipiente de barro, desprezando o outro, que ainda fumega. O líquido gelado fustiga-lhe o rosto. Ergue a cabeça entre salpicos de água. As madeixas escuras de cabelo escorrem para o torso.

 

O escravo regressa alguns instantes depois, seguido de Sanga.

 

- O que se passa com os cavalos? - indaga Marco, aparando a barba.

 

- O pai da rapariga quer receber-te em audiência.

 

- Já vou!

 

Shayabami acaba de vestir ao amo o traje de embaixador do Grão Cão. Marco sai da cabana sem olhar para Xiu Lan. Quando a jovem se levanta para pegar na tigela de chá, vê, brilhando no chão, uma medalha em forma de estrela de seis pontas. Apodera-se dela e precipita-se para o exterior.

 

Marco atravessa a aldeia, atrás de Sanga. Um pouco afastado, um dos rapazes amontoa torrões de terra recentemente revolvidos.

 

Na sala em que jantaram na véspera, o pai inclina-se de mãos juntas, numa reverência profunda e humilde.

 

- Ele pergunta se a filha te satisfez plenamente e convida-te a tomar chá - traduz Sanga.

 

Sentam-se de pernas cruzadas.

 

- Certo. E ele, reuniu os animais existentes na aldeia? quantos encontrou? por que preço os quer vender?

 

Sanga vai traduzindo.

 

A mãe surge com o chá e pãezinhos de mel.

 

- Ele agradece o favor que lhe prestaste, bem como à família. Diz que preparou a filha desde a infância para se tornar concubina.

 

Marco compreende subitamente por que tinha a rapariga os pés enfaixados.

 

Xiu Lan aparece à entrada da porta, trazendo na mão aberta a medalha que Marco perdeu. Dando mostras de compaixão, aproxima-se da mãe.

 

- Se ficaste contente com ela, o pai está pronto para ta ceder Por bom preço.

 

- Não - replica Marco. - Só queremos os três cavalos e as mulas.

 

Pega na carteira e estende as notas ao homem.

 

- Ele diz que é um preço aceitável para a filha.

 

Entra o filho que estava a trabalhar a terra, de ar carrancudo, trazendo na mão a pesada pá. Troca um olhar com a mãe. De olhos Pisados, esta enche as taças de chá, com gestos contidos, apertando os cotovelos contra o corpo. Conserva os lábios cerrados sobre um desgosto que não confessará. Marco compreende bruscamente - o quadrado de terra recentemente revolvida era uma cova. Pousa o bolo que está a comer, com o estômago subitamente revolvido.

 

- Mas eu não a quero. Está fora de questão levar comigo uma garota incapaz de caminhar mais de um quarto de li! - exclama o veneziano.

 

- Deves-lhe um presente, não te esqueças, Senhor Marco.

 

- Pois com certeza. Procura qualquer coisa que não nos venha a fazer falta entre a nossa mercadoria. Agradece-lhe calorosamente o acolhimento que nos dispensou. Insiste bem no facto de lhe estarmos muito reconhecidos por nos ceder os animais. Diz-lhe que é um preço muito aceitável para os cavalos e as mulas. Vamos, Sanga, despachemo-nos, tenho pressa de me fazer à estrada.

 

Marco faz uma breve pausa à saída da porta. Lê nos olhos de Xiu Lan uma expressão de raiva e desafio que lhe recorda a escrava Noor-Zade, morta no decurso da viagem. Como poderia desejar passar de novo por tal provação? Volta-se e afasta-se a passos largos.

 

Enquanto Sanga traduz o que Marco disse diante do pai, Xiu Lan aperta a medalha no punho fechado, enterrando as unhas na palma da mão até sangrar.

 

A MARCA DO PASSADO

Desde que se meteram a caminho, Marco mostra-se cada vez mais taciturno. Os animais que compraram não estão habituados a viagens e a caravana avança com lentidão, tanto mais que só levam três cavalos que mal merecem o nome. Os soldados e os criados têm de se contentar com as mulas extenuadas. Depois de deixarem para trás as montanhas geladas do Oeste, alcançam uma região quente dominada pela monção. Quando entram na província de Caindu, a oeste do império, Marco mal aprecia as pérolas que os homens extraem do grande lago. Os habitantes são extremamente acolhedores e disputam a honra de receber o emissário do imperador. Os pescadores representam a elite da população; beneficiam de uma autorização para exercer o ofício, concedida pelo Grão Cão com parcimónia. É assim que mantêm o preço das pérolas a um nível suficientemente elevado para o império e para os súbditos. O mesmo acontece com uma espécie de pedra que Marco nunca vira antes de ali chegar, de cor azul, e à qual chamam turquesa. E quando o anfitrião, depois de instalar o estrangeiro, o convida a dispor da mulher e das filhas à sua vontade, pois ele só voltará depois de saber o hóspede satisfeito, é com um ardor moderado que Marco encara esta fantasia, a qual lhe recorda demasiado a sua aventura nas montanhas. Por outro lado, bebe muito dos excelentes vinhos de frumento, de arroz e de especiarias. Compra gengibre, canela de boa qualidade e cravo-da-índia, cuja flor pequena e branca aprecia.

 

O grupo entra na província de Karajan. O capitão mongol tece elogios à população, que inclui excelentes criadores de cavalos. Renovam as montadas, cedendo por uma módica quantia os animais desgastados. Sanga mostra a Marco muitos templos budistas de rara beleza. Também se encontram com maometanos e nestorianos. A moeda do Grão Cão não é cotada naquelas paragens. Para negociar, servem-se de búzios brancos que parecem de porcelana.

 

São convidados pelo governador da província a sentar-se à sua mesa. Este ordena que lhes seja servido fígado cru cortado em pedacinhos e regados com molho de água quente temperada com alho. E diz-lhes que os soldados de Bayan teriam sido vistos mais a sul, nas montanhas cobertas de florestas.

 

Preocupado, o veneziano mal toca na refeição.

 

Abandonam a província e penetram num território em que a vegetação não deixa lugar ao homem. Folhas tão largas quanto um lutador mongol recolhem a água das chuvas na cavidade formada pelas nervuras. Mosquitos que devoram homens. Cobertos de armaduras inúteis, os soldados amaldiçoam aquele peso que se lhes tornou insuportável. As pesadas espadas já só servem para cortar as ramagens entrelaçadas. As montanhas escarpadas obrigam os homens a apear-se das montadas. Shayabami serve-se de uma das enormes folhas como leque para abanar o amo, banhado em suor. O calor sufocante e húmido parece respirar água. Abrandam a marcha. A região afigura-se tão hostil que Marco decide, depois de muito hesitar, contratar um guia local. Deixa-se convencer por um camponês zarolho que afirma ser capaz de os advertir de qualquer perigo por possuir o dom de ver a dobrar, depois de ter perdido o olho.

 

Previne-os da presença de uma espécie de dragões particularmente aterrorizadores. Escondidos atrás de um bambu gigante, agachados, os viajantes observam um dos tais dragões, à beira de um rio de águas pantanosas. Marco tarda a vislumbrar o que o guia lhe mostra: um animal que vive sob uma camada de lodo. Tem dez passos de comprimento e a grossura de um tonel de dez palmos de perímetro. A cabeça é enorme e os olhos brilham como berlindes de âmbar. A boca é tão grande que bem pode engolir um homem inteiro. Num sussurro, Sanga traduz as explicações do guia.

 

- Confunde-se com um tronco de árvore, se não nos acautelarmos. De dia, permanece debaixo de terra, fugindo ao calor intenso. Só sai de noite, para se saciar de todos os animais que consiga alcançar. Quando se desloca, a sua cauda gigantesca escava uma vala tão grande que poderia conter uma barrica cheia.

 

- Dir-se-ia uma enorme serpente com patas - exclama Marco numa voz rouca.

 

- Chama-se àquilo um crocodilo.

 

Mais atento aos troncos de árvores, o grupo prossegue a expedição. Os soldados libertaram-se das armaduras, demasiado quentes. Os cavalos, habituados, como os donos, a atmosferas mais frias, esforçam-se penosamente.

 

Anoitece num abrir e fechar de olhos. Os mongóis montam o acampamento tão rapidamente quanto a fadiga lhes permite. O capitão encarrega-se de organizar a guarda por turnos. Os soldados adormecem mal se deitam, ébrios de vinho de arroz e de esgotamento. Marco estuda o caminho com o guia, e depois dedica-se a completar o mapa, antes de, também ele, soçobrar no sono. Sanga não adormece, apercebendo-se de que o mongol que está de guarda abre mais uma garrafa. Os ruídos da floresta intensificam-se durante a noite. Por cima deles, ouvem ulular. Ao longe, soa um rugido. Estalidos no arvoredo, ali perto... O soldado dormita, apoiado na espada. Quando ressona, ouve-se estremecer um feixe de canas debaixo dos seus pés. Sanga levanta-se e procura acordá-lo. Mas o guarda, prostrado pelo álcool, continua a dormir o sono dos justos. Um novo estalido sobressalta Sanga. Este afasta-se dos companheiros e penetra na floresta, em direcção ao rio. Vira-se para trás, distinguindo entre os fetos as brasas da fogueira. Na margem, a folhagem arrancada, calcada, parece ter sido fustigada por uma tempestade. Não se vislumbram pegadas em toda a volta. O crepitar do lume ficou para trás dele, apagado. Um odor ácido penetra-lhe nas narinas. Prudentemente, ajoelha-se na penumbra. A lua, reduzida a metade, brilha no firmamento, iluminando a noite. Sanga distingue rastos de sangue, semelhantes a pequenos feixes de erva escarlates. Chegam-lhe aos ouvidos sons pouco perceptíveis, vindos do outro lado da barreira formada pela vegetação. Algures, um animal delicia-se num festim sangrento. Instintivamente, Sanga leva a mão ao punhal que traz à cinta. O medo seca-lhe bruscamente a garganta.

 

Prepara-se para desembainhar a arma, quando ouve quebrarem-se as primeiras canas.

 

Longe, muito acima dele, a montanha parece crescer. O declive torna-se cada vez mais íngreme. Marco é obrigado a rastejar para continuar a trepar. A rocha é friável. As mãos escorregam-lhe na poeira, os dedos enterram-se-lhe na areia. A terra escorre-lhe pelos braços. As areias movediças da montanha deslocam-se como numa gigantesca ampulheta. Em baixo, silhuetas envolvidas em tecido índigo afastam-se num passo apressado, correndo pela crista do passado. Entre elas, parece-lhe reconhecer... Gostaria de gritar, tanto para a chamar como para pedir ajuda, mas não lhe sai nenhum som da garganta. Estão todos tão longe, agora, que nunca o poderiam ver. E a montanha continua a crescer em direcção ao céu.

 

Num instante, encontra-se lá em baixo, a escassos passos deles. Começa a correr. Naquele momento, está convicto de que reconheceu os traços fisionómicos de uma mulher. Com uma longa trança negra que lhe fustiga as ancas. À medida que se aproxima, outras pessoas sobrepõem-se à silhueta, encobrindo-a cada vez mais por serem em grande número. Marco acelera, mas não consegue alterar nada. Doem-lhe as pernas. Sente uma pontada no ventre. Num supremo esforço, corre mais depressa, mais veloz. Numa passada, alcança a mulher. Agarra-a pelo ombro, volta-a para si.

 

- Noor-Zade! É impossível!

 

A jovem uigure ostenta um sorriso doce e afável, mas todo o seu rosto é lívido. Já não usa os ouropéis de uma escrava, antes veste sedas de princesa.

 

- Onde está o meu filho, Marco? - pergunta ela calmamente.

 

Os seus olhos marejam-se de lágrimas e todo o seu rosto se conturba, como o reflexo da água límpida açoitada por uma brisa súbita.

 

Marco quer estreitá-la nos braços, mas, quando se prepara para a enlaçar, o corpo dela esboroa-se em poeira de cinzas.

 

É acordado pelo seu próprio grito, quando ainda nem nasceu o sol.

 

Shayabami acorre. Marco, banhado em suor, tranquiliza-o.

 

- Tutto vá bene, Shayabami.

 

O veneziano levanta-se, sentindo na cabeça o peso de um calor já sufocante. O guarda mongol aproxima-se, esfregando os olhos. Marco redescobre, aliviado, o cheiro nauseabundo no qual se mistura o leite de égua azedo, o hálito a vinho e o suor de muitos dias, que se lhe tornou familiar desde que partiu de Veneza. Quase agradece a este povo nómada por não se lavar, proporcionando-lhe a ocasião de encontrar um odor tão tranquilizador como o do estrume. De facto, os Mongóis consideram a água sagrada, e não querem de modo algum conspurcá-la.

 

- Adormeci, Senhor Marco - declara o soldado, embaraçado. Marco suspira.

 

- Considera-te feliz por ainda estarmos vivos.

 

- Será punido! - exclama atrás dele a voz cavernosa do capitão.

 

Espreguiça-se, de mãos apoiadas na cintura, esboçando um horrível esgar.

 

- Onde está Sanga? - indaga Marco. Todos olham em volta, sem grande convicção.

 

- Desapareceu - admite o guarda.

 

- Fugiu! - reforça o capitão.

 

Acabrunhado pelo calor, Marco veste, contrariado, a camisa que Shayabami lhe apresenta.

 

- Por que haveria de fugir? Vamos à sua procura. O capitão resmunga.

 

- Encontraremos outro homem, Senhor Marco.

 

- Capitão, sei que o valor de uma pessoa não tem o mesmo sentido para si e para mim. Por outro lado, sei que temos o mesmo sentido do dever e de obediência ao nosso amo e senhor, o Grão Cão.

 

O capitão empertigara-se, de mão pousada na espada.

 

- Ordeno que partam à procura de Sanga - intima Marco numa voz firme.

 

O capitão suspira e inclina-se num gesto abatido.

 

- Espero-os no acampamento com os meus homens. Dispenso quatro deles para participarem nas buscas.

 

Depois de ingerir uma tigela de chá escaldante e algumas postas de peixe seco, Marco penetra na densa floresta acompanhado por um soldado, enquanto dois outros grupos partem em direcções diferentes. O mongol avança, armado com a espada, cortando as lianas que se lhe atravessam no caminho. A vegetação é tão cerrada que, momentaneamente, duvidam de que já tenha nascido o sol. O soldado arqueja como um animal, sufocado pelo calor já saturado de humidade. Marco aproveita para desapertar a camisa. Desde que abandonaram as montanhas do Oeste, apoderou-se dele uma sensação de vazio. Leva a mão ao pescoço - a medalha! Começa a procurar à sua volta quando, subitamente, mesmo em frente deles, meio imersa na água, avista uma forma. Marco precipita-se.

 

- Está morto - declara o mongol, num tom de indiferença.

- Regressemos ao acampamento.

 

O veneziano ajoelha-se sobre o corpo escarlate de Sanga. Sai-lhe do peito uma respiração débil, irregular. Coberto de sangue, o vestuário encobre os ferimentos.

 

- Ajuda-me. Vamos transportá-lo. Depressa!

 

O mongol pega no intérprete pelas pernas, sem nenhuma delicadeza. Marco ergue-o pelos braços. A camisa desliza, desnudando o ombro do ferido. Ao olhar para a tatuagem agora a descoberto, o veneziano crispa-se.

 

Não é possível!

 

Dão Zhiyou reflecte sobre o seu destino. De início, dirige-se para o local onde vê cair as estrelas cadentes. Mas começa a duvidar de que seja capaz de caminhar durante tanto tempo. Como ainda é muito novo, as recordações são escassas. Só se lembra de um sítio ao qual não quer regressar: o campo de jasmins. Por outro lado, não consegue descobrir onde gostaria de ir. Segue o curso de um rio onde pode matar a sede. Ao ver que os animais de caça correm à sua frente com toda a desfaçatez, lamenta amargamente não saber caçar. De vez em quando, um coelho detém-se para o observar, como se troçasse dele. Preferia vê-lo fugir, ao aproximar-se. Ignora há quantos dias partiu, mas sabe que passou mais dias sem comer do que de barriga cheia. O frango durou menos do que previra, incapaz como é de se controlar. Um dia, chegou a comer três vezes! Ainda se lembra dos ossos, se bem que cuidadosamente roídos, que abandonou aos gatos selvagens, como um tolo. Ainda continua a meditar por longos momentos, enquanto caminha pela estrada. Decidido a afastar-se o mais possível dos bichos-da-seda, decide prosseguir caminho em sentido inverso. Embora ignore para onde vai, acabará com certeza por chegar a algum sítio.

 

Penetra numa pequena aldeia de algumas cabanas e consegue, com o aspecto que tem, que lhe ofereçam meia tigela de arroz, que partilha em família. Explicam-lhe que não há trabalho para ele nos campos. Dão não consegue deixar de detestar o olhar piedoso que inspira à mãe. Sozinho, regressa à estrada. Pega frequentemente no casulo que leva no bolso para o ouvir.

 

Mais cinco lis antes de anoitecer, e Dão deixa-se cair à beira da estrada, a observar os próprios pés. Em sangue, estão cobertos por uma camada de pele branca, que rebentou de onde em onde. Depois de se sentar, a dor queima-o com uma súbita brutalidade. O sonho de Dão é mergulhá-los numa bacia de água gelada. Não podendo fazê-lo, contenta-se em limpá-los delicadamente com folhas. Enroscado sobre si próprio, esfregando as mãos uma na outra, esconde-se no meio de uma mata, à espera da aurora. Os ruídos da noite não tardam a aterrorizá-lo. Lenha quebrada, estalidos dos ramos, o assobio do vento, gritos de animais nocturnos. Se fosse devorado por um dragão enviado pelo Grão Cão, ninguém o choraria. Os pais devem esperá-lo algures, mas onde? Nunca lhe disseram onde foi encontrado. É a este sentimento de solidão que vai buscar a coragem e a raiva suficientes para sentir vontade de lutar pela sobrevivência. Se bem que trema de medo, o esgotamento é tal que acaba por se deixar dominar por um sono agitado.

 

Durante toda a noite, sonhou que estava a contar a história da sua família a uma colónia de bichos-da-seda dotados do dom da palavra. Abandonando com pena as lagartas gigantes e outros dragões que conseguia vencer chamando-os pelo nome, sente dificuldade em regressar à realidade.

 

Tem os pés tão doridos e inchados que é com a maior dificuldade do mundo que consegue levantar-se. Para cúmulo do infortúnio, começa a chover a cântaros. Dão Zhiyou prossegue o seu caminho debaixo do aguaceiro, transido de frio, com as vestes esfarrapadas coladas ao corpo. Escorrem-lhe lágrimas pelo rosto, confundindo-se com as gotas de água. Pensa nos bichos-da-seda. Imagina-se no lugar deles, bem aquecidos ao abrigo de uma densa camada de folhas de amoreira. Assim, a sua vida seria breve, mas feliz. Mataria a fome antes de se envolver tranquilamente no casulo, até ser escaldado. Morte violenta, sem dúvida, mas rápida e segura, com a serena certeza de renascer num novelo de seda. Agora, ali onde se encontra, está prestes a morrer de fome e de frio, perdido, esquecido de todos e sem a consolação de poder pensar que tudo aquilo serviu para alguma coisa. Preparado para perecer à beira da estrada, anseia por descobrir um recanto confortável onde passar o tempo que lhe resta. Num campo deserto, prossegue a caminhada, nada convencido de que seja aquele o melhor lugar para morrer. À sua frente avista uma colina capaz de proporcionar a visão de um vasto panorama. Alegrado pela perspectiva, sobe a colina num passo regular. Ofegante, suado, atinge o cume. O espectáculo que se lhe depara corta-lhe a respiração. O seu olhar, até então circunscrito aos pés doridos, alarga-se livremente até aos confins do horizonte. O coração dilata-se-lhe no peito, ao mesmo tempo que arregala os olhos.

 

O rio cuja margem Dão percorria serpenteia suavemente em redor da colina à qual acaba de trepar. Os meandros levam-no a olhar para os telhados arqueados e as pontes que se estendem até aos limites azulados do horizonte. As casas são tão numerosas que se colam umas às outras. Dão nunca viu tantas casas juntas. Algumas empilham-se a vários níveis, crescendo em direcção ao céu. Outras dispõem-se em volta de pátios quadrados cercados por lampiões. O rio desdobra-se em canais que inundam as ruas da cidade. Os barcos alinhados ao longo das margens entrechocam os mastros, emaranham o cordame, como árvores de uma floresta ao sabor do vento. Pelos caminhos lajeados, palanquins acompanhados por ricas escoltas avançam num passo incerto, como enormes animais. Pequenas carroças deslocam-se aos solavancos. Desta cidade, ergue-se o rumor da multidão, de passos apressados, de transeuntes que se cumprimentam, de vida palpitante. Mais adiante, um lago reflecte o brilho de mil luzes, como jóias. Cintilando sob os raios de sol, enquadrado por colinas arborizadas que descem num declive suave até às margens, a extensão de água é entrecortada por diques nos quais passeiam silhuetas muito pequenas. Parecem formigas. O lago está constelado de embarcações de todos os tamanhos, deslizando pela superfície lisa, ritmados pelo esforço braçal dos remadores. Farrapos de bruma pairam sobre o horizonte, conferindo um aspecto irreal à paisagem.

 

É então assim, uma cidade.

 

Dão Zhiyou imobilizou-se, fascinado. Retira da manga o casulo cuidadosamente conservado. Nos últimos tempos, não lhe chega nenhum som do seu interior. A crisálida está formada. Dão pousa-a nas mãos abertas e aguarda. O insecto perfura pacientemente o casulo para poder sair. Revela-se aos olhos de Dão, da cor da areia e do ouro, desdobra as asas para voar. Profundamente emocionado, Dão segue a curva descrita pela borboleta tão longe quanto lhe é permitido. Depois, com uma determinação que o leva a ignorar os pés doridos, começa a descer.

 

Marco isola-se dos mongóis para reflectir. Liquefeito pelo calor, esfrega constantemente os olhos. Sente o coração pulsar-lhe nas têmporas. O suor escorre-lhe pela barba e pela camisa. Privada de intérprete, a expedição adquire aspectos críticos. Ninguém é capaz de compreender o guia zarolho, a despeito da sua manifesta boa vontade. Para cúmulo da desgraça, Marco não encontrou a medalha, oferecida por Michele, o seu companheiro de Veneza, com quem atravessou um sem número de perigos. Recorda-se do seu rosto macilento, minado pela doença, do olhar baço, dos membros entorpecidos, da mão crispada no braço do amigo. Da respiração ofegante quando lhe suplica que fique com a medalha em forma de estrela de seis pontas que traz ao pescoço. Devolver-ma-ás quando eu estiver curado. Até agora, nunca saíra do peito do veneziano, batendo ao ritmo do seu coração, que conservava, como um diamante polido pelo tempo, a lembrança daquele amigo tão precioso. Mau presságio... Ajoelha-se e, em voz baixa, reza uma oração à Madona.

 

O capitão interrompe-o, sugerindo, ante os ferimentos de Sanga, que façam a caridade de lhe acabar com a vida. O veneziano benze-se. Recusa a proposta do capitão e toma a decisão de prosseguir caminho até ao pressuposto itinerário do general Bayan. A presença do ferido abranda menos o andamento do que a região, montanhosa e terrivelmente quente. O criado de Sanga lavou-lhe e enfaixou-lhe as feridas. Marco despede o guia, que, no entanto, lhes pede o favor de os acompanhar até à próxima aldeia. Desde que o encontrou à beira do rio, Marco não consegue deixar de fitar Sanga, arrastado numa maca atrelada a um cavalo de carga. Sanga, porém, não parece em estado de o ver.

 

Como por acaso, encontram um jovem caçador que fala mongol e lhes oferece os seus préstimos na qualidade de guia. O zarolho conversa demoradamente com ele, como se alguma vez se tivessem conhecido. Se bem que intrigado, Marco aceita contratar o novo guia, que parece enviado pela Providência. Ao ver o ferido, o guia insiste em procurar um médico.

 

Cruzam-se com uma tribo de montanheses, que arvora escudos de bambu e dardos e confraterniza de imediato com os mongóis. Estes admiram a sua balestra, tão potente que são precisos três soldados para distender a corda. Marco surpreende-se ao verificar que cavalgam como franceses, servindo-se de longas rédeas. Confrontam os seus costumes guerreiros com gestos largos suficientemente explícitos para os mongóis. O capitão explica a Marco que eles envenenam as flechas.

 

- Verdadeiros bárbaros, que bem precisam de conhecer a civilização do Grão Cão.

 

- Está a falar da civilização chinesa ou da civilização mongol ?

- pergunta Marco.

 

- Primeiro ouça-me; eles praticavam um costume deveras divertido: matavam o viajante estrangeiro por acreditarem que o seu bom aspecto, a sua elegância e bom senso passavam para a casa onde fosse morto.

 

- Que maravilha!

 

- Tinha a certeza de que ia gostar, Senhor Marco.

 

Na noite seguinte, Sanga foi acometido de arrepios que alternavam com acessos de um calor sufocante. De manhã, começou a delirar. Marco é chamado à sua cabeceira. Os ferimentos voltam a sangrar. O seu rosto está lívido, como se a vida se preparasse para o abandonar. O corpo supliciado do doente é abalado por espasmos violentos, como para expulsar o terrível sofrimento. Tem os olhos tão raiados de sangue que nem se lhes vê a cor, reflectindo apenas a dor.

 

O criado esforça-se por se mostrar tranquilo, mas Marco permanece céptico. À entrada da cabana, o veneziano cruza-se com o guia que insiste, por seu lado, em mandar tratar o ferido. Marco penetra na cabana que partilha com o capitão. Aproxima-se de Shayabami, entretido a remendar os estribos do amo, e agacha-se.

 

- Precisamos de descobrir um médico. Consta que os Chineses têm excelentes médicos.

 

- Também têm muitos charlatães, Senhor Marco.

 

- Será sempre preferível a um criado que receia mandar tratar o amo.

 

O guia que os seguira diz a Marco que, ali perto, há um médico famoso. Convence Marco a acompanhá-lo, sozinho, a despeito dos protestos do capitão.

 

O veneziano segue-o através da floresta, debaixo de um calor escaldante. Alcançam uma aldeia que conta apenas algumas cabanas. Mal chegam, Marco começa a procurar o chefe. Este avança para ele, entre o respeito e o medo, emudecido diante das insígnias do Grão Cão exibidas por Marco.

 

- Procuramos um médico - declara o veneziano em mongol. O chefe olha-o sem compreender. Uma gota de suor perla-lhe a testa.

 

Este homem tem medo de mim.

 

Sem mais demoras, o guia aponta para uma direcção. Impaciente, Marco segue-o, rodeado de crianças cheias de curiosidade. Quando se dirige a uma cabana de bambu, o veneziano sente a estranha impressão de que o guia sabe exactamente onde o leva. O guia afasta a miudagem, convidando Marco a penetrar na cabana.

 

Prudentemente, o veneziano avança para a entrada. O interior da cabana está mergulhado na escuridão. Adivinha uma silhueta deitada. Aproxima-se.

 

Distingue, então, finas agulhetas de prata, tão finas quanto as cordas de uma cítara, espetadas em certas partes do corpo.

 

Contendo a respiração, desembainha lentamente o sabre. Ouve o rangido do metal.

 

- Esse homem está doente - diz uma voz atrás dele, em mongol.

 

O veneziano volta-se bruscamente, com o sangue a pulsar-lhe nas têmporas, de arma desembainhada.

 

Agachado no chão, um chinês magro observa-o calmamente.

 

- Quem és tu ? - pergunta Marco, ameaçador. O outro nem estremece.

 

- Eu sou aquele que cura.

 

No seu rosto vêem-se marcas de um passado que não é o de um médico. Rasgado por profundas cicatrizes, sulcos bem delineados que atraem o olhar, de ruga em ruga, até convergirem nos olhos cor de lama luzidia. Tem as mãos escondidas, dissimuladas nas mangas da camisa. O nariz parece ter sido esmagado. Usa o cabelo atado na nuca, num rolo meio desfeito. Um chapéu de palha de abas largas cobre-lhe a cabeça. Está sentado ao de leve sobre os calcanhares, como prestes a saltar.

 

- Tratas dele perfurando-o! - exclama Marco, horrorizado. O chinês sorri.

 

- Influindo sobre os seus meridianos para restabelecer o seu qi protector.

 

Marco aproxima-se, desta feita intrigado.

 

- Tem ar de quem sofre? - pergunta o chinês.

 Marco fixa com atenção o rosto apaziguado, de olhos fechados.

 

- Não - admite.

 

- O senhor também necessita dos meus cuidados.

Marco solta uma gargalhada.

 

- Obimé! De modo nenhum.

 

- Nesse caso, o que faz aqui? Deixe-me dedicar ao meu trabalho.

 

- Ignoras com quem estás a falar!

 

- Nós não precisamos de saber com quem estamos a falar.

 

Instala-se entre os dois um pesado silêncio. Os mosquitos zumbem. Do exterior chegam risos infantis. Marco julga ver brilhar uma lâmina na mão do chinês. Exibe as tabuinhas de ouro do imperador.

 

- Tens à tua frente o emissário do Grão Cão. Estas tabuinhas conferem-me os mesmos direitos que o imperador detém sobre as suas terras.

 

- Não sei ler mongol - declara o outro sem olhar para o que Marco lhe pretende mostrar.

 

Este prossegue:

 

- Está aqui escrito: ”Quem transporta consigo estas tabuinhas de mandamentos deve ser obedecido e tratado como de mim próprio se tratasse”.

 

Os músculos do chinês retesam-se, brilhantes de suor.

 

- Os mensageiros habituais do Grão Cão não trazem este tipo de tabuinha.

 

- Eu não sou um mensageiro habitual. Mas tu - observa Marco, franzindo o sobrolho -, tu pareces conhecer bem os tipos de tábuas de mandamentos do Grão Cão.

 

O chinês descontrai-se bruscamente, revelando um sorriso franco e desdentado.

 

- Viajo muito. O que procura? Talvez possa ser-lhe útil.

 

- Procuro um médico.

 

- Já me encontrou.

 

Marco observa-o, pouco tranquilo.

 

- De onde és tu? Falas mongol, mesmo não lendo.

 

- Sou um súbdito do Império Chinês.

 

- O Império Chinês em breve deixará de existir.

 

”’ - O Império Chinês existe há milénios. Renascerá sempre.

 

Sou médico itinerante, vivo na estrada, como o senhor.

 

- Que sabes tu da minha vida?

 

- Traz a casa às costas. Tem o olhar de um homem que já viu muito. É assim que sei que não precisa de uma semana para reunir a sua bagagem e que ainda não encontrou a concubina que o encerrará entre as quatro paredes de um quarto.

 

Marco sorri. Baixa o sabre.

 

- O meu nome é Marco Polo - diz ele, fazendo uma saudação à maneira chinesa.

 

- Ai Xue - responde-lhe o médico, do mesmo modo.

 

- Um dos meus companheiros está ferido...

 

- Onde está ele?

 

O homem levanta-se e pega na cabaça. Os seus dedos enormes parecem ter sido esmagados. As unhas crescem, retorcidas, perfurando a pele dura como corno. O que mais intriga Marco é a visão furtiva de um afiado alfange que ele dissimulava na mão fechada.

 

- Isto significa: ”cura rápida e certa” - traduz Ai Xue numa voz premente, apontando para a bonita caligrafia a tinta preta traçada na cabaça que traz consigo.

 

Antes de sair da cabana, acompanhado por Marco, retira com gestos rápidos as agulhas espetadas no doente. O guia mostra uma expressão de surpresa ao médico, que lhe dirige um aceno discreto e tranquilizador.

 

- Para já, preciso dele, - pensa Marco, numa atitude defensiva.

 

Regressam apressadamente à aldeia, tão velozes quanto a vegetação lhes permite. O chinês parece treinado naquele exercício, saltando com segurança por cima dos troncos nodosos, deslizando agilmente entre as lianas.

 

Os mongóis aguardam o veneziano, abanando-se com grandes folhas, como se fossem leques, enquanto esvaziam conscienciosamente garrafas de vinho de arroz. As moscas zumbem em volta do intérprete prostrado. Com um gesto, Marco convida Ai Xue a examinar Sanga.

 

O médico debruça-se sobre o ferido. Espreita-lhe para dentro da pálpebra inferior, abre-lhe a boca, tocando-lhe na língua tumefacta.

 

- O doente pediu para beber ou comer?

 

- Não.

 

- O que lhe têm dado?

 

- Caldo e vinho de arroz.

 

O médico, imobilizado por uns momentos, pousa três dedos no pulso direito do ferido, e depois no pulso esquerdo.

 

- Felizmente, os órgãos principais não foram atingidos. Mataram o crocodilo?

 

Marco meneia a cabeça.

 

- Encontrámo-lo no estado em que o vês, abandonado à beira do rio.

 

- É pena: retira-se o fel do ventre dos crocodilos e fabrica-se um grande remédio contra a raiva ou a esterilidade.

 

Marco cerra os dentes.

 

- Ele deve ter perturbado o animal no final de uma refeição prossegue Ai Xue.

 

- Como é que sabes?

 

- Se assim não fosse, tê-lo-ia devorado sem condescendência.

 

- Duvido de que Sanga tenha querido partilhar a ração do monstro.

 

- É possível, mas o crocodilo ignorava-o. Os animais selvagens detestam ser perturbados durante as refeições. Não lhe acontece o mesmo, Marco Polo? - perguntou ele, voltando-se para o estrangeiro.

 

- Serias o primeiro a considerar-me mais selvagem do que bárbaro - responde o veneziano, sorrindo.

 

O médico abre a cabaça. Marco detém-no com um gesto.

 

- Espera, primeiro explica-me.

 

- Não confia na minha sabedoria e nas minhas drogas? Todavia, desviou-se do seu caminho para vir à minha procura. Encontrar-me era o seu karma, embora o ignorasse.

 

Marco retira a mão.

 

- Faz o que te peço.

 

- O medo fez descer o seu qi, que está muito agitado. A recepção do qi do pulmão está alterada, o que explica que respire com dificuldade. A comunicação entre o coração e os rins está enfraquecida, e é por isso que ele delira no meio de um sono atormentado. O seu ferimento foi agravado por uma congestão do peito devida ao arrefecimento que experimentou durante a noite. O prognóstico é reservado.

 

- A mim, parece-me que ele tem o rosto da cor do leite de iaque - murmura Shayabami, dirigindo-se a Marco.

 

- A minha sabedoria é transmitida de pai para filho. Não posso explicar em poucas palavras as ligações do homem com o céu, a terra e as estrelas. É preciso deixar passar uma geração para ser bom médico.

 

- Já atingiste o auge da tua aprendizagem? - pergunta Marco, com uma leve ironia.

 

Ai Xue, sem se ofender, retira da cabaça pequenas saquetas contendo plantas secas e diversos pós. Escolhe várias doses que assa nas brasas.

 

- Por que cozinhas os teus remédios?

 

- O lume, ao enegrecê-los, confere-lhes o poder de estancar a perda de sangue. Depois, administrar-lhe-ei as três doses amarelas, Para impedir que a chaga alastre. É preciso dar-lhe carne a todas as refeições para que os ferimentos sarem rapidamente.

 

Marco observa-o, meio convencido.

 

- Ficarás connosco até que ele se cure. Serás amplamente recompensado. De contrário, mandar-te-ei executar.

 

Ai Xue sorriu, perante esta ameaça.

 

- Cumpri a minha tarefa, os meus remédios cumprirão a deles.

 

- Do mesmo modo que o acaso me fez cair nas tuas mãos ?

 

- O sage diz: ”O acaso é muitas vezes mais forte do que tu, porque ele sabe.”

 

Retomam o caminho em direcção a sudeste, cavalgando durante vários dias, atravessando a província do Zardandan, a sul de Karajan. Marco colocou Ai Xue sob a vigilância discreta dos soldados mongóis, insistindo no respeito devido à sua qualidade. O médico dispensa cuidados diários a Sanga. Aplica-lhe cataplasmas que muda duas vezes por dia.

 

A vegetação é de tal modo densa que Marco quase se convence de que as árvores crescem à medida que eles avançam para lhes atrasar a marcha. Embora a folhagem encubra o sol, o calor é tão opressivo como se caminhassem em pleno deserto. O ar é tão húmido que o suor dos homens se confunde com as invisíveis gotas de água que os rodeiam. Levam a roupa colada à pele. Os soldados mongóis, congestionados, arquejam, meio alquebrados. Com o capitão tão extenuado quanto eles, obtêm autorização para se libertarem do vestuário, por baixo das armaduras. A despeito dos cuidados de Ai Xue, Sanga continua muito fraco. Tem acessos de febre cada vez mais difíceis de acalmar. A humidade torna a cícatrização das feridas mais lenta. Marco já não consegue situar-se no mapa. Perdem a noção do tempo e quando, por fim, se apercebem dos casebres de madeira, compreendem que percorreram milhares de lis.

 

Entram na aldeia mantendo-se na defensiva. A população vive quase nua, e Marco inveja-os enormemente. Visivelmente, os indígenas troçam das vestes dos estrangeiros. Rindo, os homens descobrem os dentes totalmente cobertos de placas de ouro. Fascinado, Marco não consegue desviar o olhar daquele estranho sorriso. Os homens observam-no com a mesma curiosidade, e ele também acaba por se rir. Só as mulheres exibem uma dentição natural. Todos arvoram decorações pintadas por todo o corpo, incluindo o rosto, representando leões, dragões e aves fantásticas.

 

Perante o carácter pacífico da tribo, Marco ordena que façam uma paragem a fim de que recobrem as forças. Os mongóis apeiam-se dos cavalos para fazerem as suas necessidades atrás da farta folhagem das árvores. O capitão autoriza os homens a vestirem-se como entenderem. Recomenda-lhes, porém, que desconfiem das bebidas alcoólicas que os indígenas lhes possam oferecer.

 

Estes prestam-se de boa vontade à curiosidade dos estrangeiros, convidando-os para uma sessão de desenhos feitos com agulhas. O paciente permanece deitado enquanto lhe enterram na pele a ponta de uma agulha pintada com um pigmento. O sangue escapa-se pelos contornos. Os motivos nunca mais se poderão apagar. Os habitantes da aldeia enfeitados com mais desenhos são considerados os mais bonitos e mais elegantes.

 

- Agulhas! Trata-se de algo que conheces bem, Ai Xue - graceja Marco.

 

- As nossas não fazem escorrer sangue, Senhor Polo.

 

Troca algumas palavras com os indígenas, que propõem ao estrangeiro a escolha da sua ornamentação. Um pouco assustado, o veneziano presta-se ao jogo, por desafio. Ai Xue desdobra uma folha coberta de caligrafia. Marco aceita que lhe tatuem um ideograma na parte interior do pulso.

 

- O que significa?

 

- Tens os braços todos vermelhos! - exclama Ai Xue.

 

- São os mosquitos. Para eles, devo ser uma iguaria. O médico retira da cabaça um pequeno saco de pele.

 

- Aqui tens um pó para queimar. O fumo afastá-los-á.

 

De dentes cerrados, Marco observa atentamente o trabalho de precisão do artista, concentrado na sua obra.

 

- Per baccol Ai Xue, explicas-me qual o significado?

 

- O sage disse: ”Se contratares um homem, não deves desconfiar dele; se duvidares dele, deves despedi-lo.”

 

Marco volta-se, embaraçado.

 

Durante a paragem de alguns dias, uma mulher dá à luz uma criança. Mal o filho acaba de nascer, ela levanta-se para o agasalhar, limpar a cabana e preparar a refeição do marido. Este, para grande surpresa de Marco, ocupa o lugar da mulher na cama, com o filho nos braços, e recebe os cumprimentos de toda a aldeia. Assim mandam os costumes, a fim de que o homem recobre as forças que perdeu ao conceber a progenitura. O repouso prolonga-se por mais de um mês, durante o qual toda a aldeia vem felicitá-lo e oferecer-lhe toda a espécie de presentes, enquanto a jovem mãe o serve e amamenta o bebé.

 

A fim de abreviar o sofrimento de Sanga, vão orar ao decano da aldeia, pois, não tendo ídolos nem igreja, adoram os antigos, dos quais descendem.

 

Fazendo os preparativos para a viagem, Marco negoceia com as mulheres da aldeia para adquirir víveres, carne e arroz. São elas que se encarregam do comércio, enquanto os homens são essencialmente caçadores e guerreiros. Continua a não poder pagar com o papel-moeda, que não tem cotação nestas paragens distantes do império do Grão Cão. Nas trocas, utiliza-se ouro ou defesas de javali. Marco oferece ouro, pois é do que dispõe. Ai Xue discute com o feiticeiro da aldeia segredos de curandeiros que ajudam o corpo a expulsar a doença.

 

Aproveitando o descanso que aquela paragem lhe proporciona, a saúde de Sanga melhora. A febre acaba finalmente por descer. Se bem que muito fraco, insiste em caminhar e em comer. Ai Xue manda preparar ementas especiais, adequadas ao estado dele. Convida Marco a visitar o paciente.

 

- A tua ciência é tão venerável quanto tu, Ai Xue.

 

Marco pega na carteira e começa a desatar os nós de couro. Ai Xue interrompe-o no seu gesto.

 

- Aqui, as pessoas ricas como o senhor só pagam ao médico quando o doente recupera a saúde.

 

- Aceita o meu dinheiro, é um costume da minha terra.

 Ai Xue não hesita e pega nas notas.

 

- Vou dizer-te uma coisa a milhares de lis de tua casa... prossegue Marco. - És livre de partir.

 

- A minha casa é onde estiverem os doentes.

 

- Então, se quiseres, junta-te a nós. Poderemos precisar de povo das tuas luzes.

 

- O sage disse: ”Não é o sol que envia a luz, são os olhos que se abrem para a receber” - responde o médico, antes de sair da cabana.

 

O veneziano avança para Sanga, que acaba de abrir os olhos pela primeira vez há vários dias.

 

O intérprete sente dificuldade em falar, tão seca tem a boca. Marco aproxima-se dele com vinho de arroz, que lhe escorre pela garganta. Sanga quase sufoca, tosse até dar cabo dos pulmões. O seu rosto adquire a cor do tijolo.

 

- Tens bom aspecto, em todo o caso!

 

- Tenho a impressão de ter sido engolido e depois cuspido por um crocodilo que me considerou indigesto.

 

- Foi mais ou menos assim, com a diferença de ter chegado a mastigar um pouco da tua pessoa.

 

Sanga consegue esboçar um sorriso.

 

- Não nos atrasemos, Marco, quanto mais depressa encontrarmos Bayan, mais depressa regressaremos a Khanbalik.

 

Bruscamente, o intérprete começa a soluçar como uma criança.

 

Marco aproxima-se dele, delicadamente. Sanga despiu a camisa ensopada em suor. O veneziano não consegue desviar o olhar do ombro do intérprete.

 

- Peço perdão, Senhor Marco, estou a comportar-me como uma mulher. Por vezes, chego a invejá-las por poderem mostrar as suas fraquezas.

 

O veneziano meneia a cabeça, impotente perante uma dor que não entende.

 

- Sou o príncipe Sanga, cheguei à corte do Grão Cão há quinze anos. Toda a minha família foi massacrada por Caidu e essa fera jurou conseguir a minha perdição. Na sua companhia, perdido entre o Catai e o Manzi, pensei que ele perdera o meu rasto! - exclama o intérprete com uma perceptível angústia.

 

- Sanga, não houve nenhuma interferência de Caidu. Foste atacado por um crocodilo.

 

- Como sabe que foi um desses monstros? - pergunta ele, irado. - Estava presente para me socorrer?

 

O veneziano solta um suspiro.

 

- Nunca mais terei descanso, Caidu nunca cessará de me perseguir! A não ser que me torne poderoso. Serei inatingível.

 

- Quem o é, para além do Grão Cão? - interroga-se Marco. Sanga ergue-se, o brilho de uma imensa raiva cintila como a lâmina de um punhal nas suas pupilas húmidas.

 

- O senhor pode ajudar-me, Senhor Marco Polo. Era esse o plano de P’ag-pa quando me ordenou que o acompanhasse pelos caminhos da China. Ele quer favorecer o clã dos budistas na corte. Sabe-se doente, e trabalha para que seja eu o seu sucessor.

 

- Por que me dizes isso agora? - pergunta Marco, franzindo o sobrolho.

 

De lábios cerrados, Sanga parece arrependido de ter falado de mais. Entre os dois, instala-se um silêncio opressivo.

 

- Sanga, mostra-me a tua tatuagem. O intérprete, surpreendido, fita Marco.

 

- Vi-a quando te socorri à beira do rio, tinhas a roupa em farrapos.

 

Aliviado por mudar de conversa, Sanga mostra o braço.

 

Por a ter admirado, durante muito tempo, numa pele mais delicada, Marco reconheceu imediatamente o desenho, meio-tigre meio-dragão, que Sanga exibe no ombro. Um travo amargo enche-lhe a boca. Resiste ao desejo de acariciar aquele motivo, como se lhe fosse possível reencontrar o acetinado da pele que o trazia gravado. Subir pelo braço até ao ombro... Marco ainda sente na mão o veludo almiscarado do colo, a seda dos seios cor de canela. A recordação daquela pele de odor a mel provoca-lhe um frémito.

 

Sanga retrai o braço. O focinho do dragão estremece sob os músculos agitados do ferido.

 

- Conheci uma jovem chamada Noor-Zade que tinha a mesma tatuagem.

 

Altivo, Sanga rasga o ar com um gesto da mão.

 

- É impossível! Só os membros do meu clã... E não conheço nenhuma Noor-Zade. A única rapariga que usava este símbolo era a minha irmã, e ela chamava-se Alva.

 

Marco sente um nó na garganta.

 

- O que aconteceu à tua irmã?

 

- Foi assassinada por ocasião das violentas incursões de Caidu, como aconteceu a toda a gente.

 

Marco sustém a respiração.

 

- Tens a certeza?

 

- Por que havemos de remexer no passado?

 

- Viste-a morrer? - insiste Marco.

 

- Com certeza que não, encontrava-me na corte, em Khanbalik. O meu pai enviou-me para a corte por eu ser o filho mais velho. Foi o que me salvou. Dos meus, não restou nenhum sobrevivente.

 

- E não poderás, por acaso, indicar-me um sinal distintivo da tua irmã?

 

Sanga meneou a cabeça, incrédulo...

 

- Não sei... ainda era uma criança. Não me recordo... Ela prometia ser bonita.

 

O veneziano impacienta-se.

 

- Procura nos recônditos da tua memória - repete ele, febril.

- É importante.

 

Sanga solta um profundo suspiro. Marco fecha a mão, impaciente.

 

- Ela sabia ler e escrever. O nosso pai quis ensinar todos os filhos a ler e a escrever. Ela era a melhor aluna.

 

Marco entusiasma-se.

 

- É ela! Usava a mesma tatuagem que tu! No interior do braço, onde a pele é muito fina... como uma jóia gravada na carne repete ele, apontando para a tatuagem.

 

O príncipe uigure soergue-se, apoiado nos cotovelos, com os olhos a lançar chispas.

 

- No sítio que dizes... No braço! Fala-me dela, por tua vez!

- ordena Sanga, subitamente imperioso.

 

- Foi levada pelo meu pai para Veneza, de onde venho. Aí, foi vendida a uma senhora dos meus conhecimentos.

 

- Vendida? - murmura Sanga. - Por um mercador como o senhor?

 

Marco meneia lentamente a cabeça - como confessar que fora ele próprio quem a vendera num leilão do Rialto?

 

- Essa senhora, mais tarde, ofereceu-ma.

 

- Então, a sua escrava uigure era a minha irmã - admite Sanga, atingido pela evidência.

 

- Jurei trazê-la de volta à sua terra.

 

O ferido levanta-se, servindo-se das forças emanadas da dor de alma. Treme-lhe o punho fechado, como se estivesse prestes a atacar.

 

- O que fez dela? Onde está? Voltou a vendê-la a um dos vossos ? Já não o satisfazia, é isso ?

 

Procura lançar-se sobre Marco.

 

- Sanga! Acalma-te! Ignorava que ela era do teu sangue!

 

- Malvado! Era minha irmã! Foi violentada!

 

O veneziano não tem dificuldade em dominar Sanga, ainda enfraquecido.

 

- Nunca a violentei, eu amava-a! - confessa Marco.

 

- Onde está ela? - indaga de novo Sanga. - Julgava-a morta. É a única pessoa que me resta. Caidu massacrou todos os meus.

 

Marco solta Sanga.

 

- Infelizmente, Sanga... Chegou o momento de chorares realmente a sua sorte. Exalou o último suspiro nos meus braços. Confiei os seus restos mortais a monges idólatras, que a cremaram segundo os teus costumes.

 

- Devia estar-lhe agradecido!

 

- Não.

 

- Só me restava ela... - repete Sanga, consternado. - O senhor teve a crueldade de me dar esperanças para depois cortar cerce! Sou, então, o último.

 

Marco hesita momentaneamente.

 

- Não será tanto assim... enfim, talvez não. Há uma coisa que não te posso esconder.

 

Sanga ergue os olhos para Marco, cheio de vida.

 

- Durante a viagem, ela deu à luz um filho - revela Marco.

 

- O senhor fez-lhe um bastardo! - exclama Sanga, de lágrimas nos olhos.

 

- Não te preocupes com isso. A criança foi raptada por um carrasco de Caidu. Neste momento, já deve ter morrido.

 

Sanga franze o sobrolho.

 

- Como julgava que tivesse acontecido à minha irmã antes de o encontrar...

 

E se fosse verdade, se a criança estivesse viva, algures? Marco cala-se, de olhos fechados, com o coração apertado por uma emoção insuspeitada, esquecida. Recorda mais uma vez as faces descarnadas de Noor-Zade.

 

”A minha vida chega hoje ao fim e foi consigo que vivi os melhores momentos, os mais bonitos”, dissera ela docemente. ”Não Lbandone o meu filho, suplico-lhe...”

 

Como Marco tivesse permanecido em silêncio, ela acrescentara:

 

”Estão unidos um ao outro. É o seu karma, Senhor Marco.” O veneziano levara a mão ao coração e jurara, num tom grave: ”Prometo-te que encontrarei o teu filho, Noor-Zade.” Desde que chegara ao Catai, que fizera ele para honrar a palavra dada?

 

- Sanga, eras meu amigo, doravante poderei considerar-te quase como um irmão...

 

- Continua a falar-me dela - pede Sanga, com um nó na garganta.

 

Pelas ruas estreitas, fervilhantes de gente, onde importa evitar os riquexós que avançam às cegas, Dão Zhiyou vagueia. A multidão é compacta e, no entanto, ninguém parece conhecer-se. As pessoas não se cumprimentam, antes se empurram. Dão Zhiyou sente-se desamparado e ao mesmo tempo excitado. As portas das casas abrem-se sobre minúsculas oficinas e lojas onde laboram crianças. Pára para as observar. Agachados, amontoados no meio de canas de bambu, sob a vigilância de um adulto armado de um bastão, confeccionam sem descanso cestos e chapéus. Só alguns raios de sol conseguem infiltrar-se pelas estreitas tábuas que servem de tecto. O ambiente, porém, parece ser descontraído. O ritmo de trabalho não é constante. Os garotos interrompem-se muitas vezes para gracejar. Trocam sorrisos, mostrando os dentes de leite espaçados. Um deles abandona a obra. Penetra na escuridão da loja para se estirar numa estreita enxerga, desaparecendo por detrás de um recanto. Dão Zhiyou imagina que o rapaz adormeceu de imediato, com o corpo moído, pois não o vê mexer-se. Ao fundo, a loja prolonga-se por um pátio sombrio do qual se escapa uma rede de ruelas sem saída.

 

A presença de Dão não passa despercebida. As crianças sussurram entre si, apontando-o a dedo. Sente-se corar. As pernas tremem-lhe. Dão hesita, tentado a pedir trabalho ao patrão. Ignora como procedem os garotos para manejar os caules de bambu com tanta destreza, mas julga-se capaz de aprender. Aceitaria o patrão que ele começasse por praticar? Reembolsá-lo-ia aos poucos...

 

Dão avança insensivelmente quando o patrão, apercebendo-se da agitação dos jovens operários, volta a sua atenção para fora da loja. Contorna os garotos, erguendo o bastão. Obedecendo ao instinto, Dão Zhiyou esboça um movimento de recuo.

 

- Eh, miúdo, o que queres tu?

 

O tom não é ameaçador, e o homem encostou o bastão às pernas, mas é tarde de mais, Dão Zhiyou já largara a correr, derrubando um homem que transporta um malho e suscitando uma catadupa de insultos. Parece-lhe que corre horas a fio antes de encontrar um recanto numa ruela tão escura que parece de noite em pleno dia. Agacha-se, sozinho no mundo, deixando correr lágrimas silenciosas que lhe estrangulam a garganta.

 

O raiar da aurora. Dão Zhiyou levanta-se rapidamente e caminha para não dar tempo aos pés de se aperceberem do frio. Com o nascer do dia, a rua animou-se. Chegam-lhe às narinas odores a pão e a mel quente. Pela primeira vez na vida, Dão Zhiyou resolveu-se a passar pela vergonha de mendigar. Garotos, enroscados no chão, de mão estendida para o vazio, despertam na posição em que adormeceram. Sujos, cheios de piolhos que lhes pululam nos cabelos, olham uns para os outros. Contam-se, fixam os que sobreviveram a mais uma noite. Riem-se por tudo e por nada. Coçam-se constantemente, enxotando com a mão que não mendiga as moscas que esvoaçam à sua volta num zumbido irritante. Negoceiam por um dia o bebé de uma rapariga muito jovem, a fim de enternecer os transeuntes. A mãe sente relutância em se separar dele, mesmo sabendo que, se o alugar, duplica o que ganha ao fim do dia.

 

As raparigas não permanecem por muito tempo de mão estendida. Há sempre uma alma caridosa que lhes encontra uma boa casa onde alguém se ocupará delas enquanto elas se ocupam dos clientes.

 

Dão Zhiyou encolhe-se a um canto, à espreita do menor perigo. Ignora que ninguém se surpreende com a sua presença naquela rua, naquela imundície. Um pouco mais adiante, resplandece um Magnífico palanquim totalmente novo. É-lhe impossível isolar-se no meio daquela multidão em que todos se confundem, como se julgar-se diferente constituísse uma insustentável falta de pudor. No fundo, sonha ser como os outros, sem saber muito bem se esses outros são os que cintilam nos palanquins ou os que renunciaram a ser como eles. Seja como for, por tantas vezes ter sido apontado a dedo por causa da sua mistura de sangues, Dão Zhiyou orgulha-se do mistério das suas origens.

 

- Que fazes tu aí, no nosso domínio? De onde vens, bastardo imundo?

 

Um garoto, uma cabeça mais alto do que ele, empurra-o violentamente. Ripostando com um murro, Dão Zhiyou deita-o ao chão. Num ápice, vê-se rodeado por um bando de garotos sebentos e piolhosos, mas determinados. O mais velho de todos começa a aplicar-lhe pontapés, aos quais Dão Zhiyou responde com todas as forças.

 

- És persistente, tu! Não sabes que este local é privado? Se te instalares, terás de pagar. E, para ti, será mais caro. Então, perdeste a língua? Não se fala, na tua terra?

 

Os murros recomeçam a chover. Dão Zhiyou, submerso pelo número de rapazes, enrosca-se, tentando proteger-se como pode.

 

- Parem, ele é mudo!

 

Um dos mais novos, que dormira com Dão, intervém bruscamente. O bando acalma-se aos poucos.

 

- O que dizes tu, Xighang? Ele é mudo?

 

- Nunca o ouvi falar.

 

- Ah sim? Mudo, é como se fosse surdo, não serve para nada. É pena que não seja cego ou estropiado. Repara... que é uma coisa que se pode arranjar...

 

O chefe avança, ameaçador.

 

Dão levantou-se, de pernas trémulas, punhos erguidos, olhos semicerrados numa estreita fenda escura, preparado para se defender com a raiva de um animal ferido.

 

O pequeno Xighang retém o chefe pelo braço.

 

- Espera um segundo... Se é mudo, isso significa que não fala.

 

- Parabéns! Não esperávamos que chegasses a essa conclusão.

 

- Se não fala, significa que não é capaz de denunciar nomes...

 

A MORTE DO IMPERADOR

No dia seguinte, à hora da partida, os aldeões aconselharam-nos a atravessar a floresta montados em elefantes. Se bem que reticente ao aspecto destes monstros, Marco acabou por se deixar persuadir. Foi em vão que tentou vender-lhes os cavalos que tinha, mas conseguiu que o ajudassem a escolher e comprar elefantes. Despede o guia que falava mongol e que, a partir dali, já não conhece a região, e convence o velho da aldeia a fazer-se acompanhar de um rapaz que lhes possa servir de cicerone nos caminhos mais perigosos. Sanga, que sofre de vertigens, queixa-se de má disposição. Ai Xue fornece-lhe remédios que o aliviem. Empoleirado num enorme paquiderme, Marco, de início pouco à vontade, descontrai-se e dispõe-se a apreciar o panorama por cima da copa das árvores. Atravessam florestas imensas sem encontrar vivalma. Avistam rinocerontes, que Marco tomou, à primeira vista, por ”unicórnios” fantásticos, semelhantes a enormes bois de pele grossa e cinzenta. As aves ou insectos que se lhes empoleiram no dorso não parecem incomodar os rinocerontes. Os soldados mongóis sofrem terrivelmente com o calor, recordando o vento das estepes que assobia contra as tendas no Inverno, a neve que mata os rebanhos e que é preciso escavar. Presentemente, encontram-se no Império da Birmânia, a sul de Mandalai, que ainda não obedece ao Grão Cão. O mapa, que Marco já não consegue decifrar, não alcanÇa este território desconhecido. O terreno torna-se cada vez mais impraticável. Os caminhos são muito estreitos, apertados entre enormes troncos de árvores afogados no meio de lianas enroladas e de trepadeiras que imitam o inquietante aspecto de répteis monstruosos. A caravana avança cautelosamente, receando ser tragada por um fosso armado sob a folhagem. Certo dia, chegam à beira de um vale, rasgado como uma chaga em consequência de um tremor de terra. Ao fundo, o ribombar de uma torrente repercute-se em eco por toda a floresta. A montante, uma cascata transborda em vagas de espuma. Uma nuvem quase opaca de gotas de água banha a copa das árvores num halo em que os cumes se confundem com o céu. Por cima do precipício, uma ponte suspensa, de bambu, oscila ao sabor do terrível estrondo da corrente. O guia apeia-se do elefante e, sem mais hesitações, condu-lo para a ponte. Limita-se a acenar para assinalar aos outros que passarão um a um. Ao mesmo passo, o homem e o animal transpõem o obstáculo sem óbices. Todos os membros da caravana soltam um suspiro de alívio. Marco oferece-se para ser o segundo. Desde que partiu de Veneza, aprendeu a contrabalançar a ansiedade com a acção. Do outro lado do abismo, o guia dirige-lhe um sorriso de encorajamento. É a vez do veneziano. Mal pousa o pé na ponte, esta começa a oscilar como uma barcaça. Lá em baixo, a torrente parece muito distante. Sente-se mais alto do que um campanário de Veneza. No peito de Marco, o coração pulsa a um ritmo inquietante. Ergue a cabeça, olha em frente e ensaia um segundo passo. O elefante, dócil, segue-o. Em frente, o guia adverte-o de que deve ver onde põe os pés. Obedecendo, Marco concentra-se nas cordas entrançadas de bambu, contando os nós. Quando o paquiderme se volta, a meio da ponte, balançam como um barco em plena tempestade. Marco agarra-se à corda, congratulando-se pela sua costela de marinheiro. Gostaria de avançar mais depressa, mas os movimentos da ponte não lho permitem. Os últimos passos parecem-lhe os mais longos. Quando assenta o pé em terra firme, as pernas mal o sustentam. Senta-se no chão, extenuado, apercebendo-se de que está banhado em suor. Assistir à travessia dos companheiros não é tarefa menos penosa. É longa a expectativa até se encontrarem todos do lado de cá. Esta paragem forçada exige uma rodada de vinho, a fim de que os soldados consigam prosseguir caminho. Marco não consegue habituar-se ao espectáculo da embriaguez dos mongóis, sobretudo com o calor que se faz sentir. Maquinalmente, ainda de mãos trémulas, Marco acaricia o mapa do Grão Cão, como para se apaziguar.

 

No dia seguinte, alcançam uma região ainda marcada por batalhas recentes. Os camponeses informam-nos de que o exército Mongol derrotou o do rei de Pagan, a capital do Império da Birmânia. Os elefantes de guerra birmaneses avançaram em filas cerradas, verdadeira muralha tão intransponível quanto uma fortaleza. Os paquidermes, de tão impressionantes que eram, encontraram-se paralisados pelos disparos das setas desferidas pelos soldados mongóis. Crivados, não obstante a armadura de couro, ficaram caídos no chão ou bateram em retirada, em pânico. A batalha terminou com a derrota das tropas birmanesas.

 

A caravana de Marco escala montanhas cobertas por florestas densas. Os homens vêem-se obrigados a apear-se das montadas. Atacados pelos mosquitos, mantêm os olhos fixos ora nos pés, à espreita de uma dessas aranhas peludas, do tamanho de uma mão, que se escondem por detrás de um rochedo coberto de musgo, ora nos enormes troncos de árvores, atentos a alguma liana prestes a ganhar vida sob a forma de uma enorme serpente de vários palmos de comprimento. Marco presta atenção a Ai Xue, que caminha alguns passos à sua frente. Através da camisa banhada em suor do chinês, adivinha-se uma musculatura que Marco nunca teria imaginado na esbelta silhueta do médico.

 

Interrompem a progressão para sul e curvam para leste, em direcção ao Reino Khmer. Descobrem uma região rica em algodão, em galanga, em gengibre e em açúcar. Cruzam-se com mercadores indianos que vieram comprar escravos, homens e mulheres, prisioneiros de guerra que depois venderão no mundo inteiro. Seguem os exércitos mongóis em busca das futuras presas. Marco passeia o olhar pelos escravos acorrentados, descalços, cobertos de farrapos.

 

- Está interessado em algum dos nossos súbditos? - pergunta em língua persa um dos mercadores, cheirando-lhe a um bom negócio.

 

- Não, obrigado, estou servido - responde Marco, apontando para Shayabami.

 

- Sem dúvida - reconhece o mercador com uma expressão de admiração pelo robusto sírio. - Uma mulher, talvez?

 

- Não, antes um garoto.

 

- Ah! Não os trazemos connosco para estas florestas insalubres, não sobrevivem.

 

No coração de Marco, o alívio segue-se à decepção.

 

- Cruzaram-se com as tropas mongóis do general Bayan? pergunta ele, cheio de esperança.

 

- Com certeza que não. Os seus soldados não se encontram equipados para estas regiões. Sabemos que chegaram a ganhar uma batalha contra o rei de Pagan. Mas não conseguiram manter a posição conquistada, devido ao clima, que lhes era nefasto.

 

- Está a falar a sério? - exclama Marco, incrédulo. - Não posso acreditar que o primeiro exército do mundo conhecido...

 

- Por que se surpreende? O senhor gostaria de conquistar esta terra para nela se instalar?

 

O mercador arvora uma expressão eloquente. Conversam por mais uns momentos, trocam produtos alimentícios antes de se separarem.

 

O grupo chefiado por Marco prossegue em direcção a Toloman, na fronteira entre o sul do império e o Reino de Anão. Trocam os elefantes por algumas pilecas e mulas de carga. Marco reencontra o odor ácido do estrume com uma felicidade que nunca teria imaginado. Alcançam finalmente caminhos de pedra. As enormes lajes mal talhadas nas quais os cavalos por vezes torcem as patas nunca pareceram tão bonitas aos olhos de Marco. O clima parece menos hostil. Talvez Marco tenha esta impressão devido à melhoria do estado de saúde de Sanga. Ai Xue, porém, diagnostica-lhe uma febre maligna que talvez nunca mais o abandone. Mas Sanga sente-se tão feliz por estar vivo que presta pouca atenção ao sombrio prognóstico do médico.

 

Aproximam-se do rio Mekong e atravessam um mercado onde se troca ouro por mercadorias a preços excelentes. Marco aproveita para reabastecer a caravana. Acompanha Sanga a um pagode coberto por uma espessa folha de ouro, depois a outro, revestido de prata. Todas as cúpulas se erguem a trinta pés de altura. São cercadas por uma coroa de sinos de ouro e prata que badalam ao sabor do vento. O veneziano sente-se subitamente apaziguado por esta delicada melodia tocada pelos elementos. Para agradecer a sua salvação aos deuses, Sanga arruína-se em oferendas de toda a ordem, passando longos momentos em oração. Contrariado, cedendo aos argumentos de Marco que lhe recorda a urgência da missão a cumprir, Sanga abandona o mosteiro onde, enquanto meditara, se reencontrara consigo mesmo.

 

Atingem o Reino de Anão, escoltados ao longo de todo o caminho por elefantes pacíficos que exigem guloseimas. Marco, no entanto, sente-se preocupado: os guias locais escolhidos por Ai Xue, mais à vontade do que Sanga, parecem afastá-los das tropas de Bayan. Mas, como dispensar os seus serviços neste emaranhado de florestas e pântanos? A despeito das dúvidas que o assaltam, vê-se obrigado a confiar neles.

 

São magnificamente recebidos pelo rei de Anão que, orgulhoso, lhes apresenta as suas trezentas mulheres. Sanga apercebe-se, inquieto, de que não compreende a língua que ali se fala. Ai Xue oferece os seus préstimos. Marco hesita.

 

- Quase tantas mulheres quantas tem o Grão Cão! - exclama o rei, cheio de orgulho.

 

Ai Xue traduz, dirigindo-se ao veneziano.

 

- O nosso amo e senhor possui cerca de três mil - corrige Marco.

 

Os cortesãos vivem seminus, rivalizando em elegância com os desenhos tatuados por todo o corpo.

 

- Procuramos o general Bayan, Majestade. Vimos do Império da Birmânia. Traduz, Ai Xue.

 

O médico cumpre a ordem.

 

O rei ouve atentamente antes de agitar a mão.

 

- Ignoro onde se encontra o vosso general, talvez o marajá de Tchampa o saiba.

 

Marco agarra Ai Xue pelo braço.

 

- O exército mongol passou necessariamente por aqui a caminho do império - murmura ele. - Pede-lhe que responda à minha pergunta e deixe de troçar de mim.

 

- O senhor não conhece a susceptibilidade destes povos. Confie em mim.

 

Ai Xue embrenha-se num discurso extremamente longo que parece deleitar o rei de Anão. Este responde com três palavras.

 

- O rei declara-se muito feliz por ter a honra de receber o emissário do Grão Cão.

 

- Ai Xue!

 

- Calma, Senhor Polo. Pense na terra em que se encontra, é muito diferente da sua.

 

- Pois sim, mas peço-te que consigas o que pretendo; de contrário, far-me-ei compreender por mim próprio.

 

Ai Xue traduz de novo, fazendo-se acompanhar por gestos que suscitam sentimentos de alegria no rei. Este responde em duas palavras.

 

- Então ? - interroga Marco.

 

- Diz que o marajá de Tchampa, seu vizinho, se sentirá igualmente muito feliz se tiver a honra de receber a visita do enviado do Grão Cão.

 

Marco bate com o pé no chão, deixando transparecer a raiva. Sanga interpõe-se, dirigindo-se a Marco em uigure:

 

- Paz, Senhor Marco, tu és antes de tudo um mercador, não um diplomata. Não estamos a negociar. Aqui, tens de adivinhar as palavras ocultas por detrás das palavras.

 

- As palavras ocultas por detrás das palavras que eu, seja como for, não entendo.

 

- É por isso que me encontro aqui contigo. Permite que te explique: impõe-se uma visita diplomática ao marajá de Tchampa. O Grão Cão não deixará de te ficar reconhecido por ires até aos confins do seu império.

 

- Sanga, não te peço que imagines quais poderão ser os sentimentos do Grão Cão quando regressarmos à corte...

 

- Se regressarmos vivos, tens razão.

 

- Sempre regressei vivo. Alcançar o Tchampa representa uma viagem de várias centenas de léguas.

 

- De léguas?

 

- De lis.

 

O rei intervém na discussão.

 

- Sua Majestade considera que um estrangeiro como tu, vindo de tão longe, deve sentir-se deleitado por ser convidado a visitar o Reino de Tchampa, país eminentemente rico e próspero - traduz Ai Xue.

 

- Na verdade, se ouvi bem o que não posso compreender, o nosso anfitrião impele-nos a convidar o Grão Cão a invadir o seu vizinho, muito mais rico, e não o seu próprio país. Está de acordo com as leis da guerra. Pois bem, sigamos o seu conselho e alcancemos Tchampa rapidamente. Quanto mais depressa regressarmos ao império do Grão Cão, melhor me sentirei, e os meus homens também.

 

Munida de víveres e de bestas de carga revigoradas, a embaixada do imperador mongol Cublai atravessa o Mekong a fim de conhecer o próspero Reino de Tchampa. A sua chegada foi anunciada, os seus membros são escoltados até à corte do rei. As mulheres usam nos braços e nas pernas pulseiras de ouro e prata, e os homens exibem ornamentos ainda mais requintados e mais ricos. É um país de criadores de cavalos e de búfalos que são vendidos aos Indianos. O rei recebe Marco Polo com o fausto devido à sua categoria. O veneziano obtém finalmente a informação que pretende: o general Bayan estaria mais a norte, a braços com a guarda do imperador da China, que permaneceu fiel ao seu soberano. Sem mais demoras, Marco ordena que retomem o caminho.

 

Atravessam de novo montanhas onde reina uma floresta densa e luxuriante. Shayabami esforça-se por enxotar os insectos que esvoaçam em redor do amo. Marco apercebe-se de que se encontram de novo no império quando os habitantes aceitam o papel-moeda do Grão Cão. É com um certo alívio que embolsa as moedas de ouro, que se tornaram inúteis.

 

Marco é familiarmente interpelado por mercadores.

 

- Eles afirmam conhecer-te - surpreende-se Sanga. - Não se esqueceram dos teus olhos.

 

- Para eles, os estrangeiros são todos parecidos. Pede-lhes que nos levem à terra onde já me viram.

 

Seguem a direcção indicada durante vários lis. Pelo caminho, alguns camponeses saúdam Marco respeitosamente, com a mesma familiaridade.

 

De longe em longe, avistam leões que parecem espiá-los. Mercadores oferecem-lhes cães ferozes pretensamente capazes de os assustar. Se bem que céptico, Marco aceita adquirir dois, na esperança de animar os seus homens, sobretudo Sanga, que se atemoriza ainda mais do que os outros.

 

Enquanto prosseguem o seu caminho, Marco sente dificuldade em conter a impaciência. Fora das florestas densas, o veneziano usa um grande chapéu redondo, em forma de cone, para se proteger do sol.

 

Penetram na província de Xantungue, onde Sanga mostra a Marco o rochedo dos mil budas. As estátuas foram talhadas na montanha, como por uma mão divina. Embora se debata com o desagradável sentimento de se encontrar perdido nos confins do império, Marco deixa-se subjugar pela beleza da obra.

 

Guiados por uma chusma de garotos a quem fornecem alimentos, cavalgam a passo lento durante várias dezenas de lis. Na paisagem desenham-se faixas de arrozais onde trabalham, curvadas, mulheres e crianças que trazem na cabeça chapéus de aba larga. Saúdam a passagem da caravana acenando com as mãos. A escolta dos garotos pára em frente da muralha de um palácio sumptuoso

- o do outro estrangeiro. Marco lança umas tantas moedas à miudagem, que se mostra encantada.

 

O edifício encontra-se cercado por uma grande muralha colorida. Uma alameda de jasmins amarelos e brancos exala aromas primaveris. Cerejeiras em flor curvam os ramos cobertos por uma nuvem de brancura. Algures, uma nascente canta baixinho. O veneziano ordena aos seus homens que o esperem no pátio. Ai Xue insiste em acompanhá-lo, mas Marco acaba por levar consigo apenas Sanga.

 

À entrada da porta, Marco é recebido por um criado em traje de cerimónia. Ainda Marco não proferiu nenhuma palavra e já o homem se dirige para um gongo suspenso de uma moldura, que faz ouvir o seu som, ressoando por todo o palácio. Fazendo profundas vénias, o criado convida Marco a acompanhá-lo até à sala de audiências. Esta encontra-se luxuosamente decorada. As mais finas porcelanas resplandecem no seu brilho majestoso. As estátuas de pedra indianas minuciosamente trabalhadas despertam a atenção de Marco. Há, porém, alguns elementos que não parecem ter lugar naquele palácio digno de um mandarim. O tapete de caligrafias persas, os recipientes dos quais transbordam frutos de vidro colorido e transparente, um espelho finamente perlado cujo reflexo penetra no fundo da alma com o brilho de um metal vindo não se sabe de onde.

 

- Marco!

 

Niccolo é sempre o mesmo. Envergando uma túnica de seda cujo azul brilhante rivaliza com o oceano, rodeado por três anafadas concubinas de diversas origens que o seguem em fila cerrada, agita o ar quente com as amplas mangas. Nem sequer se mostra surpreendido por ver entrar o filho de forma tão abrupta.

 

- Há dez anos que não te via! Filho ingrato!

 

- Apenas três, meu pai. Sempre exagerado!

 

- São as contas que o coração faz - comenta Matteo, que entrara atrás dele sem ser visto. - Que boa surpresa! Mas, que fazes aqui?

 

O irmão de Niccolo curvou-se ligeiramente, mostrando o cabelo cada vez mais ralo. Com o tempo, perde em esplendor o que ganha o irmão mais velho. As madeixas prateadas de Niccolo conferem-lhe dignidade e sedução. Os seus olhos cintilam como os de um homem que viveu muito mas ainda não se sente saciado.

 

- Ele tem a arte de multiplicar o tempo - acrescenta Matteo.

 

- Ou de o dividir...

 

Niccolo repara enfim em Shayabami, retirado, por detrás do seu jovem amo.

 

- Per baccol Shayabami, estás a chorar!

 

- Perdão, Excelência - desculpa-se o escravo, limpando as faces -, é por não o ver há muito tempo, as lágrimas escorrem-me pelo rosto como contas.

 

Niccolo abraça-o efusivamente.

 

- Posso ficar a pensar que o meu filho te maltrata.

 

- OJi não, Excelência! É o melhor dos amos!

 

- Melhor do que eu! - ribomba a voz de buffio basso de Niccolo.

 

- Não! Não! - balbucia Shayabami. - Eu...

 

Niccolo solta uma sonora gargalhada que lhe agita os ombros e a pança de viajante experimentado.

 

- Shayabami gostaria que eu gozasse a minha reforma na corte - explica Marco.

 

- Seria preferível para a saúde, Senhor Marco.

 

- Para a tua, não é certo. Tornar-te-ias gordo como um porco e azedo como a centésima concubina do Grão Cão - adverte Marco.

 

- E por que não lhe dás ouvidos? - sugere Matteo.

 

- Meu pai, diga-me primeiro que diacho faz o senhor aqui? Julgava-o no Karajan.

 

- Essa é a melhor de todas! Mas tu estás no Karajan, meu filho!

 

Sanga, que não compreende nada do que dizem, volve para Marco dois olhos interrogadores. Marco confirma o equívoco geográfico. Niccolo interrompe-o:

 

- Não, Marco, estás precisamente no Guangxi! - declara ele, num riso franco. - O que mais me diverte é que, se os Chineses fossem à nossa terra, provavelmente não distinguiriam Veneza de Génova!

 

E, sem dar ao filho uma oportunidade de esclarecer Sanga, Niccolo prossegue:

 

- Espera, Marco, vê esta descoberta.

 

Pega num instrumento formado por duas lentes encaixadas numa moldura de ferro. Põe-o à frente dos olhos, encavalitado no nariz.

 

- Matteo, dá-me qualquer coisa para ler, vail - ordena ele com um gesto nervoso.

 

Matteo remexe nas algibeiras e encontra um pequeno maço de folhas meio amarfanhadas.

 

- É tudo o que tenho.

 

Niccolo pega nos papéis e começa a decifrar, franzindo o sobrolho.

 

- ”...Matteo, a nossa última noite foi extraordinária...” Não, estou a brincar - acrescenta ele, rindo -, quis ver corar o teu tio. Aqui está: ”duas jarras de laca negra, cinquenta ding”.

 

- Consegue ler, agora?

 

- É verdade! E isto são óculos! Vê com os teus olhos, parece magia, e vero.

 

Marco decifra, por sua vez, através das lupas. Afasta-as e aproxima-as dos olhos por diversas vezes.

 

- Com efeito, é surpreendente, as letras aumentam de tamanho. Distinguem-se os pormenores.

 

- Não sei muito bem que falta te fazia uma coisa dessas - diz Matteo a Niccolo, num tom de mofa.

 

- Evidentemente, não te interessas por mim!

 

Num gesto seco, Matteo volta a pegar nos seus apontamentos e afasta-se, agastado, escondendo as mãos dentro das largas mangas, à maneira chinesa.

 

- Então, Marco, cansaste-te da vida na corte? - interroga-o Niccolo. - Não me surpreende. Nada se compara à vida no campo, onde imperamos. Não precisamos de nos acautelar contra as intrigas dos cortesãos, que te detestam, mesmo quando ignoras a sua existência. Os teus informadores trazem-te as notícias que te interessa receber. Mas, sinto-me feliz por não me teres esquecido: reservei alguns aposentos para ti, aqui no palácio. Vai mostrar-lhos

 

- ordena ele a uma das jovens presentes, esboçando um sinal eloquente.

 

Marco suspira.

 

- Meu pai, peço-lhe encarecidamente que me deixe falar!

 

- Como de costume, és tu que não me ouves. Matteo, juro-te que adoro o meu filho, mas há espaços vazios nas prateleiras do seu espírito.

 

- Venho em cumprimento de uma missão particular do Grão Cão.

 

- Ah sim? - indaga Matteo, interessado.

 

- E nem sequer te desviaste do teu caminho para me visitares

 

- prossegue Niccolo.

 

- Mas eu estou aqui!

 

- Ohimél E gostarias que te ficasse eternamente reconhecido, suponho. Vai! Conta com ele, meu filho. E agora, passemos ao vinho de arroz. Verás que, aqui, é perfeito. E também tenho algum vinho de uvas que não te desagradaria. É um pouco diferente dos nossos, mas não se sai mal da comparação.

 

Niccolo, num gesto largo, enlaça o filho pelos ombros e arrasta-o consigo.

 

- Não te vejo há tanto tempo que quero conversar contigo em privado.

 

- É uma maneira de sugerires que me retire? - sugere Matteo.

 

- Não, caro Matteo - retorque Niccolo, envolvendo-o por sua vez num abraço apertado. - Bem sabes que não contas, tu!

 

Num passo de conquistador, Niccolo entra no salão decorado com as suas recordações de viagem, tão sobrecarregado que o olhar se cansa antes de saber onde pousar.

 

Sanga, que ficou sozinho, sai do palácio, para grande alívio de Shayabami.

 

Os três Polo sentam-se no chão, em redor de uma mesa baixa de recortes entalhados. Niccolo senta-se com toda a naturalidade, de pernas cruzadas, enquanto Matteo se curva com dificuldade. Uma criada enche os copos de vinho de arroz.

 

- Sabes, Marco, se quiseres instalar-te...

 

- Que me diz, meu pai? Eu sou como o senhor, não consigo passar duas noites seguidas sob o mesmo tecto.

 

- Enfim! Não há homem mais caseiro do que eu. Tudo aquilo a que aspiro é à paz de um lar. Sem o Grão Cão, teria ficado em Veneza. Bem sabes que, para mim, a família conta. E é meu dever fazer fortuna para garantir o teu regresso à pátria..

 

- Não estou certo de querer regressar a Veneza. Agrada-me a vida no Império. Deixe-me contar-lhe...

 

- Vá bene. Mas aqui, com que mulher poderias casar? Pensa no meu exemplo. Casa na tua terra e, depois, poderás partir para tratar de negócios.

 

Marco sente dificuldade em conter a exasperação.

 

- Mais uma vez, meu pai, está a falar para si.

 

- Procura duas ou três concubinas e faz-lhes bastardos robustos capazes de cuidar de ti nos teus últimos dias - apressa-se a dizer Matteo.

 

Ingere de um trago o vinho de arroz e é imediatamente abalado por um violento acesso de tosse. Niccolo e Marco observam-no, surpreendidos.

 

- Diz-me, pequeno... enfim, Marco, és então bem aceite na corte?

 

- Certo, meu pai! De resto, por ocasião da minha última audiência com o Grão Cão...

 

- Muito bem. Nesse caso, terás de fazer alguma coisa pelo teu pobre pai, aqui perdido, nos confins do Império... - atreve-se Niccolo, muito commediante.

 

- Justamente, decerto gostará de saber quais os motivos da minha viagem...

 

- Meu pequeno Marco, compreendo que ardas de impaciência, sem saber o que nos tem acontecido. Portanto, deixa-me falar, não te farei esperar mais.

 

Niccolo levanta-se e começa a deambular de um lado para o outro, de taça na mão. Uma das raparigas enche-a imediatamente. Resignado, Marco recosta-se nas convidativas almofadas. Olhando para o pai, sente a desagradável impressão de se rever nele.

 

- Não me surpreende que, na corte do Grão Cão, a nossa reputação tenha sobrevivido ao tempo... - declara Niccolo com ênfase.

 

- A importância dos acompanhantes do nosso filho prova-o largamente - acrescenta Matteo.

 

- Tudo depende de que reputação pretende que falemos murmura Marco para consigo.

 

Niccolo dirige-lhe um olhar irado.

 

- Eu e Matteo acalentamos o projecto de desenvolver os nossos negócios a uma escala... como dizer?... imperial!

 

Matteo procura um bolinho de mel para manter as mãos ocupadas, no que é muito bem sucedido: enrolam-se-lhe nos dedos longos fios dourados, como uma teia de aranha da qual não consegue livrar-se.

 

- Ah, julguei que se tivessem instalado para usufruir dos vossos bens - surpreende-se Marco.

 

Niccolo baixa de tom.

 

- Decidimos proporcionar ao Grão Cão a possibilidade de beneficiar dos nossos conhecimentos preciosos e únicos.

 

Marco, que conhece o pai, mesmo sem ter convivido intimamente com ele, aguarda sem pestanejar, aconchegado nas almofadas persas.

 

Niccolo volta a sentar-se ao lado do filho:

 

- Reparaste com certeza, observador como és, que, neste país, o comércio do sal anseia por se desenvolver. Eu e Matteo possuímos todos os atributos, como bons venezianos que somos, para ser úteis a esta nobre causa...

 

- A exploração do sal?

 

- Simplesmente, para isso, precisamos de obter o monopólio. Receberás uma parte dos lucros, naturalmente.

 

- Se estás nas boas graças do Grão Cão, ser-te-á fácil obtê-lo

- reforça Matteo, que dobra e desdobra os joelhos em cima do tapete.

 

Marco encara as expressões impacientes do pai e do tio. Nunca os viu tão atentos às suas palavras.

 

- Meu pai, a missão que me trouxe até aqui não suscita em si nenhuma curiosidade?

 

Niccolo pestaneja e encolhe imperceptivelmente o busto.

 

- Sim, com certeza...

 

- Só a discrição determinou o nosso silêncio - apressa-se a acrescentar Matteo, a fim de livrar o irmão de embaraços.

 

- Vá bene - consente Marco, esboçando um gesto largo. Chegou a minha vez de fazer uma proposta. Preciso de uma informação. Se conseguirem obtê-la, defenderei a vossa causa junto do Grão Cão.

 

- A nossa causa - corrige Niccolo.

 

- Então, o que queres saber? - pergunta Matteo, impaciente.

 

No dia seguinte, Marco despede-se do pai, aliviado. Niccolo, agora, irrita-o mais do que o impressiona, e algumas horas na sua companhia são mais do que suficientes. Prosseguem caminho para sul conforme as informações dispensadas pelos Polo. O calor torna-se cada vez mais opressivo. Embrenham-se de novo na densa floresta, o que os impede de ver o sol. Marco mal consegue distinguir o que vai escrevendo com a pena no mapa do Grão Cão.

 

Após duas escassas semanas de marcha forçada, Marco apercebe-se de que o pai não se enganou. As tropas do general Bayan estão à vista. A poucos lis de Cantão, Marco ordena que façam uma paragem para vestir o pesado manto de armas do império e arvorar as tabuinhas do Grão Cão. Ai Xue aproxima-se do veneziano.

 

- Senhor Polo, peço-lhe uma audiência em privado. Intrigado, Marco leva-o para trás de uma árvore de folhas gigantescas. Observa a cabaça e a bagagem do médico.

 

- Então, Ai Xue, que se passa?

 

- Como vê, Senhor Polo, estou de partida.

 

- Não podes abandonar-me assim - objecta Marco.

 

- O senhor encontrou o general, já não precisa de mim. Acompanhei-o durante a parte final da viagem. Cavalguei ao lado de soldados mongóis. Zelei pela sua saúde e pela dos seus companheiros. Agora, juntou-se ao exército mongol, que deve contar com bons médicos. Portanto, já não precisa dos meus métodos. Vou oferecer a minha ciência àqueles que dela tanto necessitam.

 

Marco observa atentamente o médico. Este mantém-se hirto como um fuso, apenas um leve estremecimento lhe agita uma pálpebra.

 

- O meu objectivo é regressar a Khanbalik. Não queres que te apresente ao imperador? - sugere o veneziano, a fim de o cativar.

 

- Senhor Polo, só reconheço um imperador. Cublai não passa de um impostor mongol.

 

- Tens consciência do que estás a dizer? Corres o risco de ser morto, se te denunciar ao general Bayan!

 

Ai Xue suspira. Ergue a cabeça e fixa Marco nos olhos.

 

- Ouça, Senhor Polo, é preferível para ambos que o general Bayan não tome conhecimento da minha presença.

 

Marco não consegue dissimular a surpresa.

 

- E porquê? Conhece-lo?

 

- O senhor faz muitas perguntas...

 

- Se não fosses tão misterioso...

 

- O sage disse: ”A palavra é a espuma da água, a acção é uma pérola de ouro.”

 

Marco lança um olhar por cima do ombro de Ai Xue, através da folhagem.

 

- Os meus homens não se cansam de olhar para nós, bastar-me-ia um sinal...

 

- Senhor Polo, alguma vez admirou pinturas chinesas? Reparou que as flores que pintamos não têm raízes? Desde que os Mongois se apoderaram da nossa terra...

 

- Quem és tu?

 

- Calcorreio os caminhos da China, dispensando os meus tratamentos, e todos conhecem o perfume da minha flor.

 

- Não entendo nada - declara Marco, franzindo o sobrolho.

- É tão obscuro como a tatuagem cujo significado nunca me explicaste.

 

- Esta marca pertence-me, protege-o, é uma espécie de talismã. Porque, tal como o senhor, sei que as tatuagens contam uma história.

 

- Irás explicar-te diante do general Bayan - diz Marco, profundamente perturbado.

 

- Não seria do seu interesse, Senhor Polo. Arriscar-se-ia a perder a face e... a confiança do general... Adeus.

 

Dá meia-volta e desaparece na floresta a passos largos.

 

- Voltaremos a ver-nos! - exclama Marco.

 

19 de Março de 1279 Baía de Cantão

 

Antes do fim do dia, o grupo junta-se à retaguarda do exército mongol. Suando por baixo das armaduras, os soldados do general Bayan nem por isso deixam de dar provas de uma disciplina que traduz a autoridade do chefe. As tendas foram recentemente montadas. Espirais de fumo branco soltam-se das fogueiras ainda quentes. Circulando pelo acampamento, cacarejam galinhas. Todavia, a atmosfera é febril, traindo a tensão da expectativa. Os homens afiam as armas, engraxam as botas, certificam-se da solidez dos escudos.

 

O aparato da embaixada não passa despercebido. O enviado do imperador é recebido com as rituais prosternações.

 

Marco surpreende-se com a presença de um batalhão chinês entre as forças do general mongol. Batalhão é um termo demasiado honroso para estes homens vestidos de seda esfarrapada por cima das armaduras, bebendo como Mongóis e cuspindo como ChineIses.

 

Marco fica a saber, da boca de um lugar-tenente de Bayan, que se trata de homens de Zhu Jing e Zhang Xuan, dois piratas chineses que sabem tirar bom proveito do augusto favor com que Cublai os honra. Embora estejam mais habituados a batalhas marítimas do que terrestres, o general elogia os feitos dos homens e a sua bravura.

 

Em nome do Grão Cão, com o coração a pulsar contra a tabuinha de ouro como se lhe queimasse o peito, Marco faz-se escoltar, sozinho e a pé, até ao quartel-general. Uma tenda como as outras, pouco maior do que as habituais, alberga o general e os seus lugar-tenentes. No interior, Marco reconhece a disposição das tendas mongóis, o leito voltado para sul, o kumis seco que ferve na água ”no centro da tenda. Traçado no chão, um esquema porventura semelhante a um plano de batalha. Um homem apaga-o com o pé logo que Marco penetra na tenda. Também aqui, sentem-se os nervos à flor da pele e as espadas preparadas para rasgar carne ao vivo. O general Bayan, que saúda o estrangeiro como se este fosse o Grão Cão em pessoa, parece muito mais velho do que Marco imaginara. Aquele a quem Cublai chama o seu mais antigo amigo travou com certeza muitos combates a seu lado. Agora que o neto de Gengiscão subiu ao trono, compete ao seu companheiro de guerra prosseguir nos campos de batalha a obra iniciada. Talvez a barba branca não traduza tantos anos quantos se possa supor. O veneziano, porém, adivinha que o general, homem taciturno, não aprecia ser incomodado no seu trabalho. Resta-lhe pouco tempo para conversas fúteis.

 

- Seja bem-vindo, Senhor Marco Polo. O meu coração enche-se de alegria ao vê-lo.

 

A fórmula é correcta, mas o tom não.

 

- Chega precisamente a tempo de assistir à nossa vitória. Preparava-me para ordenar o assalto final.

 

- O Grão Cão sente-se preocupado quanto ao seu destino e ao dos seus homens, general.

 

- E foi a si que mandatou? - interroga Bayan, examinando Marco Polo, trinta anos mais novo do que ele, com um olhar céptico. - A sua impaciência é assim tão grande?... No entanto, tenho enviado regularmente mensagens para a corte.

 

- O nosso Imperador não recebeu nenhuma.

 

- Diabo! Foi por milagre que conseguiu passar. A resistência chinesa está muito bem organizada. As sociedades secretas possuem agentes por todo o lado. Ainda hoje de manhã prendemos um membro da seita do Lotus Branco, uma das mais activas. Mas desconfio de que possa ter-se tratado de um logro. Mesmo submetido à tortura do aríete, não nos disse nada que não soubéssemos já. E, entretanto, outro dos seus homens conseguiu atravessar as nossas linhas, e o imperador chinês conseguiu embarcar no seu junco quando nos preparávamos para o deter. Urge alcançar o barco do fugitivo antes que consiga escapar-se.

 

Um dos lugar-tenentes dirige um gesto discreto a Bayan, que lhe responde com um aceno da cabeça, cofiando a barba branca.

 

- Mas tudo estará acabado em breve. Venha, Senhor Marco.

 

Com os punhos sulcados de rugas agarrando firmemente a espada, o general lança uma ordem numa voz forte e grave, que se repercute pelos lugar-tenentes.

 

Os soldados mongóis, perfeitamente decididos a travar o último combate, embarcam rapidamente em barcos de guerra atracados no porto. Correm em filas cerradas ao longo das margens, trepando para os navios em passo de corrida. As velas, já içadas, enfunam-se, assobiando ao vento. Os remadores dão início a uma cadência infernal.

 

O general, escoltado pelos lugar-tenentes, arrasta Marco para a margem. A vista da baía de Cantão é magnífica. Sob a abóbada celeste, o mar cor de turquesa enfeita-se de velas douradas pelo sol, que rasga as nuvens azuladas com os seus raios. A paisagem, de uma beleza surpreendente, apresenta um terrível contraste com as horas sangrentas que se prefiguram. Dezenas de corvos-marinhos pairam tranquilamente ao sabor do vento, mergulhando sobre as presas. No entanto, o céu mantém-se enevoado, matizado como uma estola cinzento-pérola.

 

O general salta para o navio almirante, seguido de Marco. Os marinheiros começam a remar com força, arquejando sob o esforço.

 

O marulho das vagas contra o casco ecoa, surdo. Os archeiros preparam as suas armas, os soldados as espadas. O entrechocar do metal dilacera os ouvidos.

 

- Mais um dia e será o fim do Império da China - grita Bayan, para se fazer ouvir. - Hoje é um dia favorável para o ataque. Consultei os astros.

 

- Os astros? - surpreende-se Marco.

 

- E então? Os nossos xamãs têm muito a aprender com os astrólogos chineses. Mas tranquilize-se, pois também tive o cuidado de examinar omoplatas de carneiro carbonizadas.

 

Marco recorda-se de ter visto o próprio ilcão da Pérsia entregar-se a esta prática de magia, herdada dos mais antigos costumes mongóis.

 

- Os Chineses esperam conquistar uma ilha ao largo do continente - explica o general -, mas, antes disso, afundá-los-emos.

 

Os navios, movidos pela força dos robustos remadores, deslizam pela água a uma velocidade vertiginosa. As vagas, num bailado tortuoso, ocultam intermitentemente os barcos por detrás de uma cortina de espuma. Nos juncos chineses, a defesa organiza-se. Flechas incendiárias iluminam as pontes, prestes a saltar pelos ares. Os remadores aceleram ainda mais o ritmo. Os mongóis preparam a abordagem com determinação. No entanto, estes homens preparam-se para combater na água pela primeira vez. Impressionados, esgotados, os chineses defendem-se obstinadamente. O ranger das espadas corta a claridade da manhã. Ressoam gritos por cima da espuma. Gritos de guerra, gritos de morte.

 

Um a um, os juncos chineses que protegem o navio imperial são postos fora de combate.

 

- Veja, Senhor Marco Polo, tudo o que resta da resistência chinesa.

 

E o general Bayan varre com um gesto largo uma armada salpicada de juncos que flutuam como cascas de noz na baía.

 

Um navio majestosamente decorado continua a avançar, agora isolado, em direcção ao largo.

 

O desfecho da batalha não dá lugar à mínima dúvida. Mas, decididos a não se render, os chineses lançam-se sobre as espadas inimigas invocando o imperador. O eco dos gritos repercute-se, amplificado, sob o firmamento cinzento. Os mongóis, mais numerosos do que a guarda avançada do imperador chinês, tomam rapidamente a dianteira, e os navios aproximam-se perigosamente da nave imperial.

 

Subitamente, um homem envergando um magnífico manto de seda bordada a ouro sobe à ponte, brandindo um rapazinho que solta uivos de horror.

 

- Não chegarão a ver o imperador vivo! - grita ele.

 

O homem salta para a água, levando consigo o último dos Song. Trava-se uma luta, breve e inútil. Por testemunha, apenas um leve remoinho. Decorrido um instante, ambos se afundaram, arrastados para o mistério dos abismos.

 

- E assim se desfez a derradeira esperança dos Chineses. Uma pena imensa! O Grão Cão cuidaria convenientemente daquela criança na corte. Enfim! Desapareceu o último dos Song. Senhor Marco Polo, regozijemo-nos: a China pertence-nos.

 

Marco fecha os olhos, incapaz de partilhar a alegria do general. Os salpicos salgados do mar da China deixam-lhe um gosto amargo na boca.

 

Em guisa de brincadeira, Dão Zhiyou começa a rastejar pelo chão sujo da loja. Consegue mesmo introduzir-se entre as pernas dos clientes e o balcão. O vendedor nem sente a sua presença. Avista o colar a poucos palmos de distância. Estende o braço, trémulo, aflora a jóia. Passa a mão húmida pelo metal. Limpa-a na túnica de cânhamo esburacada. Fecha o punho sobre o colar cinzelado, esconde-o contra o ventre. O colar emite um tinido audível, como se Dão o tivesse acariciado; vai ser difícil dissimulá-lo, lá fora. Para já, precisa de sair dali. O suor segregado pelo medo ensopa-lhe a roupa. Sabe que, se for descoberto, poderá ser imediatamente morto sem que alguém venha um dia reclamar o corpo. De resto, ninguém se preocupa com ele. Neste momento, a única pessoa que se interessa por ele é o chefe do bando que o espera a uma distância de dez quarteirões, e não mais de uma hora. Lentamente, recua para o exterior. Vislumbra a luz da rua, sinal de esperança. Limpa as lágrimas que lhe escorrem dos olhos. O metal penetra-lhe na carne. Cerra os dentes, tem a impressão de que arqueja como um búfalo. Acima dele, cala-se o rumor das vozes. Sustém a respiração. Decidido a continuar, aperta ainda mais na mão o grande colar que desliza entre os seus dedos, demasiado pequenos. Quase, está quase! Recua, acotovela as pessoas, com as coxas magoadas pelas arestas da jóia, e não se importa com o rasto de sangue que deixa no chão da loja, coberto de lixo. Mais umas tantas cotoveladas. Como um afogado em busca de ar, ergue-se, mete o pé por um

 

rasgão das calças, espalha-se ao comprido. Alguém sai da loja, inquieto com o sucedido.

 

- Então, pequeno, magoaste-te?

 

Dão não olha para o homem, limita-se a abanar a cabeça, ao rubro e, no entanto, sem pinga de sangue. Ergue-se lentamente. O colar continua a tilintar alegremente, como uma fonte, mas ele ouve-o como o toque de um sino, acusador. O vendedor encara-o com uma expressão de surpresa. O garoto não lhe dá tempo para compreender, larga a correr a toda a brida, tão veloz quanto lho permite o objecto roubado.

 

- Eh, ladrão! Agarrem que é ladrão!

 

A PRENDA DE CUBLAI

Ladeando as encostas, o vitorioso exército do general Bayan retoma o caminho que conduz à capital. A sua passagem provoca a fuga dos habitantes. Mas as ordens imperiais são estritas e respeitadas: nem pilhagens nem exacções. Os homens de Marco misturaram-se com os soldados do general. O veneziano cavalga à frente, com Sanga e Shayabami, logo a seguir aos lugar-tenentes de Bayan. A marcha do comboio é particularmente lenta. Por mais de uma vez, Marco tentou convencer o general a tomar a dianteira, mas o velho militar recusou sempre, arguindo que as estradas são pouco seguras e que o desejo do imperador era vê-los regressar juntos à corte para lhe anunciarem o sucesso das suas tropas.

 

Depois do longo périplo através do império, Marco sente-se feliz por reencontrar os intensos aromas de Khanbalik, uma mistura de estrume húmido, de peixe seco e de raiz de gengibre. Aqui, os ruídos parecem multiplicados por dez, grita-se mais alto, os ataques são mais frontais, as gargalhadas mais sonoras. As partidas de go terminam em discussão, as belezas pudicas dissimulam-se por detrás da cortina dos palanquins ornamentados com uma extravagância frívola. Aqui, ninguém se volta para Marco Polo, feliz por se encontrar no meio desta multidão em que se cruzam inúmeros estrangeiros, persas, indianos ou uigures. O general Bayan, mal transpõem as primeiras muralhas, abandona o veneziano para assumir o comando junto dos seus homens. Marco dirige-se de imediato a casa, na Cidade Imperial, bem no centro dos bairros reservados aos estrangeiros.

 

Marco penetra no seu palácio. Atravessa o primeiro pátio, onde o palafreneiro pega no cavalo a fim de o levar para a estrebaria. Passa pelo terraço onde jasmins e laranjeiras recentemente plantadas o envolvem num perfume adocicado. Uma pequena lavadeira, que na sua ausência entrou na adolescência, precede-o e abre-lhe a porta do edifício principal, encimada por colunas. A rapariga ajoelha-se para limpar o chão que ele pisou. Marco, que a observa pela primeira vez, felicita-se pela escolha de Shayabami.

 

- Espera, Shayabami, vou directamente aos banhos. No regresso, quero ver a casa aberta.

 

Uma vez dadas as instruções, Marco propõe a Sanga que o acompanhe. Começam a caminhar pelo parque imperial.

 

- Obrigado, Senhor Marco. Agora, tenho de regressar para junto dos meus. Ver-nos-emos no encontro com o imperador declara Sanga.

 

Despede-se do veneziano antes de se dirigir para o bairro dos monges budistas da Cidade Imperial. Ao vê-lo juntar-se aos seus correligionários, envergando o traje vermelho e amarelo, Marco compreende que Sanga é ele próprio um monge.

 

Agachado à entrada dos banhos, um vendedor de água quente lança o seu pregão. Lá dentro, deitado em lajes de argila escaldante, Marco deixa-se lavar cuidadosamente, enquanto ouve com atenção as últimas notícias da capital. Cublai adquiriu mais uma dúzia de concubinas. O seu filho Zhenjin, ”presumível herdeiro” do trono, multiplica-se em discussões com os ministros do pai, sob o olhar benevolente de Cublai, enquanto Chabi tenta interceder, com a firme doçura que o marido tanto aprecia. O preço do sal aumentou, e quem aproveitou para se abastecer felicita-se pelos lucros obtidos. Cublai elaborou uma lista das sociedades secretas que tolera, em sinal de apaziguamento. Correm rumores segundo os  quais as vitórias alcançadas pelo imperador na China não o satisfazem.

 

Na companhia de um mercador persa, Marco partilha os favores de três ou quatro cortesãs de pele escura. Estas começam por lhe oferecer a especialidade da casa, um chá de cinco flores misturadas, servido com guloseimas feitas de mel. À superfície do líquido, da cor do âmbar, flutuam as folhas escuras do chá, formando volutas onduladas. Refastelado nos tapetes entrançados, acariciando o cabelo da flor de lua aninhada entre as suas pernas, Marco abandona-se demoradamente às suas fantasias, antes de regressar a casa.

 

Antes de amanhecer, Shayabami entra no quarto do amo. Acorda a jovem serva seminua encarregada de despertar Marco enquanto Shayabami atiça as brasas. O veneziano, depois de recobrar as ideias, despede a rapariga, que se veste rapidamente antes de se eclipsar pela cozinha. Marco, durante a copiosa refeição, dá ordens a Shayabami para que os presentes sejam entregues ao Grão Cão nesse mesmo dia. O sírio é o primeiro a sair do palácio, escoltando a carroça carregada de diversos objectos preciosos.

 

No dia da vigésima oitava lua do nono mês do ano do Tigre comemora-se o aniversário do Grão Cão. A festa que se anuncia promete prolongar-se por vários dias.

 

Khanbalik rejubila. Uma multidão colorida de mercadores e carregadores, de mandarins e de estudantes, comprime-se em redor da Cidade Imperial. Nas ruas, os mercadores apressam-se a acabar de montar as bancas.

 

Um exército de soldados a cavalo avança para a Cidade num passo cadenciado. Até então, os gritos da multidão cobriram gongos e tambores. As filas dos cavaleiros engrossam à medida que eles avançam. Chegam mesmo das ruelas mais estreitas. Vêm a trote, leves, como guizos de mil cores, de peito aberto, altivos nas suas armaduras resplandecentes. Um sol prometedor começa a atravessar as nuvens de um branco leitoso. Os elefantes e os camelos imperiais, cobertos de tecidos bordados, desfilam pela cidade, provocando o deslumbramento da população.

 

Ao longo da estrada que conduz à Cidade Imperial, queima-se um pó que tem a particularidade de explodir no ar formando figuras magníficas.

 

- Dir-se-ia... um tigre de boca aberta! - extasia-se Marco entusiasmado.

 

Sucedem-se os séquitos a caminho do palácio imperial, carregados de presentes que rivalizam em magnificência, ouro, prata pérolas, pedras e muitos tecidos preciosos.

 

Marco segue a passo pela larga avenida que limita as altas muralhas do palácio imperial. Chegado o momento de transpor as muralhas, como o acesso ao recinto é proibido ao cidadão comum, Marco é obrigado a mostrar as tabuinhas de ouro. No outro extremo do império, bastava arvorar as cores do Grão Cão para inspirar temor e respeito. Aqui, no coração do poder, precisa de provar que tem o direito de as usar.

 

À entrada da grande porta imperial, após uma última verificação da categoria que lhe é conferida, Marco é autorizado a entrar no palácio. Os archeiros formam uma barreira para receber as visitas. Um exército de criados ocupa-se das montadas dos convivas. Na primeira antecâmara, comprimem-se muitos cortesãos, carregados de presentes para o Grão Cão, na esperança de serem convidados para a festa. Quando, por fim, chega a vez de Marco, aliviam-no do peso da arma. Num rápido traço de pena, o criado escreve o seu nome em caligrafia mongol num pedaço de papel de seda. Em seguida, rasga o papel ao meio e dá-lhe a primeira metade, guardando a segunda na bainha da arma.

 

Marco atravessa um corredor. O eco das botas recentemente engraxadas ecoa repetidamente, atingindo o tecto, tão alto que se torna difícil distinguir os ornamentos que o cobrem. Na antecâmara, ouvem-se conversas que se sobrepõem à multidão que se comprime na expectativa da audiência imperial. O rumor é de tal ordem que é preciso elevar a voz para se fazer ouvir.

 

O general Bayan já ali se encontra. Como um tigre das estepes preso numa jaula, palmilha a sala de um extremo ao outro, olhando para as paredes daquele palácio demasiado requintado para ele.

 

Sanga cumprimenta Marco com um movimento do queixo. Trava uma conversa animada com o lama P’ag-pa, que combina harmoniosamente trajes chineses e mongóis.

 

O veneziano aproxima-se de Bayan, surpreendido.

 

- General, sinto uma imensa alegria por o voltar a ver neste palácio, e a grande honra de me prosternar a seu lado diante do imperador.

 

O velho general acena com a mão.

 

- A honra é também minha, como ambos sabemos. Sou um mongol, e não um chinês, Senhor Marco - recorda ele, para cortar cerce as fórmulas do veneziano.

 

O velho começa a afastar-se.

 

- General! Gostaria de lhe falar. Bayan volta-se para Marco.

 

- Sou todo ouvidos.

 

O veneziano aproxima-se imperceptivelmente dele, segredando numa voz tão baixa quanto lho permite o tumulto.

 

- Vou direito ao assunto, general. Falou-me da seita do Lotus Branco. Sei que, doravante, será tolerada pelo imperador. Preciso que me ajude a encontrar os seus membros - pede Marco, dando mostras de descaramento.

 

Bayan fixa-o, impassível.

 

- E por que haveria de o fazer?

 

Marco prepara-se para responder, mas, aproveitando um movimento da multidão, o general escapa-se à sua companhia.

 

Marco mal tem tempo de o ver desaparecer. A curiosidade depressa suplanta, se bem que provisoriamente, o despeito. É a primeira vez que o convidam para o aniversário do imperador. Sente-se ainda mais emocionado do que se assistisse à coroação do doge em Veneza.

 

Todos os convidados desfilam com as ofertas que levaram, ou com uma lista, se aquelas não tiverem sido autorizadas a ser apresentadas ao imperador: animais ou escravos.

 

Chega a vez de Marco oferecer os presentes a Cublai: cornos de rinoceronte de Bengala, marfim da índia e de África, coral,

 

ágata, pérolas, cristais, madeiras preciosas como sândalo e aloés,

 

incenso, cânfora, cravo-da-índia, cardamomo. Chabi agradece a Marco com um discreto aceno de cabeça.

 

Cublai convidou sages mágicos e astrólogos do Tibete e de Caxemira para que exibam os seus prodígios. Estão ricamente paramentados de amarelo, barbeados e de cabeça rapada. O imperador senta-se em frente de uma mesa, que se encontra a dez passos de distância, na qual se encontram taças de vinho e de uma beberragem de especiarias.

 

- Sirvam-me de beber - ordena o imperador.

 

A mando dos mágicos, as taças erguem-se no ar e deslocam-se até à mão de Cublai, encantado como uma criança. Depois de assistir a diversos passes deste género, o Grão Cão dispõe-se a ouvir as suas queixas. Aproxima-se a festa de um ídolo feminino nefasto, que provoca mau tempo e causa danos a todas as coisas quando não recebe oferendas. Pedem, então, que lhes seja dado um certo número de carneiros de cabeça preta, de incenso e de aloés, a fim de que possam honrar os seus ídolos com grandes sacrifícios, para serem poupados, eles próprios e todos os seus bens.

 

Depois do festim e da audiência pública, ainda a luz do dia mal ilumina as nuvens negras com uma luz frouxa, Cublai convida a embaixada de Marco, incluindo Sanga e Bayan, para uma audiência restrita. Despede as mulheres e as filhas, mas ordena a presença, ao lado de alguns dos seus filhos, de Chabi, que todos consideram a sua melhor conselheira. O presumível herdeiro do trono, Zhenjin, parece mais chinês do que mongol. Usa o traje e o penteado mongol. A decoração desta sala inspira-se nas origens de Cublai. As paredes são forradas a arminho, bem como os biombos. Se bem que restrita, a audiência conta com os principais ministros de Cublai, Ahmad, primeiro-ministro, e o venerável P’ag-pa, ministro do culto budista.

 

Com um gesto, o imperador autoriza Bayan a falar.

 

- Grão Senhor, sinto-me feliz por ter a honra de te anunciar que, doravante, a China pertence, na sua totalidade, ao império. Assisti com os meus olhos à morte do rei menino. O Senhor Polo poderá testemunhar.

 

Imperceptivelmente, a expressão de Cublai reflecte um verdadeiro alívio, eivado de um orgulho sem limites. Troca breves palavras com Chabi.

 

- Meu caro general, fiel amigo, não me decepcionaste, mais uma vez, e cumpriste o teu dever com ousadia e pugnacidade doravante, teremos as mãos livres para prosseguir o nosso grande desígnio - acrescenta ele, fervoroso.

 

Cala-se por um longo momento, saboreando a esperança de um destino imperial só por ele conhecido. Volta-se, então, para o veneziano.

 

- Marco Polo, escolhi a palavra Yuan para designar a dinastia que fundei, como Filho do Céu. Sabes o que significa?

 

- Não.

 

- Yuan significa ”começo”. Estou na origem de um mundo. Neste momento, abre-se uma nova era aos Chineses - declara Cublai com uma segurança tranquila.

 

Contra todas as regras de cortesia, o general Bayan toma a palavra sem autorização do seu amo e senhor, o único a ter esse privilégio.

 

- Grão Senhor, como tu, também eu tenho pressa de reunir sob o mesmo trono todas as terras que vivem debaixo do firmamento. Todavia, é meu dever dizer-te que importa consolidar o nosso poder antes de sonhar com outras conquistas.

 

- Explica-te - ordena Cublai, esmagando uma noz com uma mão enorme.

 

- Grão Senhor, os meus homens encontram-se extenuados e, para só citar esse território, se conseguimos vencer os elefantes de guerra birmaneses, não estou certo de que os nossos soldados possam permanecer senhores do país por muito tempo.

 

- Que queres tu dizer?

 

- O Senhor Marco Polo explicar-se-á melhor do que eu.

 

- Deixa-me prometer-te que os teus homens serão recompensados como merecem. Todos receberão ouro, mulheres e cavalos.

 

O general Bayan faz uma profunda vénia antes de recuar para trás do veneziano.

 

Cublai convida-o a aproximar-se. Ao saudar o imperador, com o estômago completamente dobrado ao meio, Marco comete a indelicadeza de arrotar.

 

- Marco Polo, estás diferente. Tens qualquer coisa de mongol. Pareces mais velho - observa ele, sorrindo. - Então, fala-me das minhas províncias.

 

- Grão Senhor, são profundamente dedicadas e submissas.

 

- Isso interessa-me, sem dúvida, mas fala-me do que preocupa o meu amigo Bayan.

 

- Completei o mapa que me foi confiado e remeto-o aos cuidados dos cartógrafos, pedindo-lhes que me perdoem se encontrarem algum erro - declara. Marco, retirando do gibão o pergaminho mil vezes desdobrado. - Perto do império birmanês encontram-se três reinos: o reino de Tchampa, o reino de Anão e o reino Khmer. São países muito ricos em ouro e pedras. É minha opinião que se preparam para reconhecer a soberania do império, mas sem pagar tributo.

 

- E o seus exércitos?

 

- Pareceram-me insignificantes.

 

- Nesse caso, se vencemos os elefantes birmaneses, por que não haveríamos de permanecer senhores da região?

 

- Na verdade, a sua melhor muralha é constituída por uma floresta como nunca se viu, tão densa que parece de noite em pleno dia. O calor que reina naquelas paragens é tão intenso que lembra o inferno.

 

- E essa gente consegue viver dessa maneira?

 

- Estão habituados, Grão Senhor, e sendo assim, vivem nus sem pudor.

 

- Enviaremos tropas para substituir os soldados de Bayan duas vezes por ano. Se não recuámos perante elefantes, não recuaremos perante uma barreira de folhagem.

 

Pela primeira vez, o general Bayan e Marco Polo trocam o olhar cúmplice daqueles que passaram pelas mesmas provações.

 

Chabi segreda algumas palavras ao ouvido do seu augusto esposo. Cublai aprova agitando o triplo queixo.

 

- Marco Polo, produziram-se acontecimentos da maior importância na tua ausência.

 

Sem saber porquê, Marco sente um nó na garganta.

 

- De bom augúrio e de mau augúrio. A boa notícia é que posso finalmente apresentar-te o meu quarto filho, Namo.

 

Um homem aproximadamente da mesma idade de Marco avança para o estrangeiro e saúda-o calorosamente. Ostenta com orgulho a musculatura de um guerreiro, exibindo o traje mongol, ao contrário da maior parte dos cortesãos, que envergam, à maneira chinesa, mantos de seda, qual deles o mais bonito.

 

- Marco Polo, agradeço-te, em nome do meu pai, por me teres salvo a vida.

 

Quatro anos antes, em 1275, quando a caravana de Marco caiu nas mãos de Caidu, inimigo do Grão Cão, Namo fora enviado contra o traidor. Mas, traído pelos seus próprios homens, foi, por sua vez, feito prisioneiro. Marco recorda a entrevista com Caidu durante a qual conseguira convencê-lo a poupar a vida ao príncipe mongol. O general Bayan tentara, em vão, libertá-lo.

 

- O meu coração transborda de alegria por ter a honra de te encontrar, Namo - responde Marco, devolvendo a saudação.

 

- Namo foi-me devolvido há um ano. Não és capaz de imaginar a alegria que um pai sente ao reencontrar um filho desaparecido

- desabafa Cublai, abrindo-se num sorriso franco.

 

- Não, não sou, Grão Senhor - repete Marco, com o coração apertado por pensar no seu próprio filho.

 

- A má notícia - prossegue Cublai - é que esse danado Caidu invadiu a Mongólia, depois de se ter apossado da Uigúria. Teve a audácia de tomar Caracórum, berço da minha raça e do meu ilustre antepassado, Gengiscão. É tanto mais grave quanto os meus exércitos se abastecem em cavalos nas terras das estepes. Não posso tolerar que, de uma ou de outra maneira, se aproveite desta vantagem. General, mais uma tarefa que te é destinada. Tu és o único capaz de reconquistar a nossa terra a Caidu.

 

O primeiro-ministro Ahmad intervém.

 

- Grão Senhor, como poderemos pagar tal campanha? O tesouro real já não dispõe de meios.

 

Cublai sorri, como se acabasse de receber uma boa notícia.

 

- Marco Polo, é precisamente por isso que precisamos de ti e dos teus dons. Os nossos desígnios são à medida do nosso grande império. Um império é como um homem, tem uma história e um destino. Compete-me escrever uma e cumprir o outro. Assim, devo permanecer no meu trono, donde posso ver muito para trás e olhar em frente para além do horizonte. Tu, tu és o meu olhar que desce do trono. Vês aquilo que, da minha altura, não consigo alcançar. Foi por esta razão que tomámos a decisão de te atribuir um título de nobreza, Senhor Marco Polo, e de te confiar o governo de Yangchou.

 

Surpreendido, Marco sente-se impado de um orgulho sem limites. Exageradamente lisonjeado pela distinção do Cão, sente despontar, ao mesmo tempo, uma imensa apreensão por se ver propulsado para semelhante cargo num país que ainda conhece tão mal, cuja língua não fala, perguntando-se se será capaz de se mostrar à altura.

 

- Grão Senhor, quanta honra para um vosso criado!

 

- Como é evidente, terás de te conformar às leis do império, e nunca te será permitido aprender a língua chinesa.

 

Marco tem conhecimento do edicto, o qual, em troca, proíbe os Chineses de aprender mongol. Considera-o tão absurdo que se pergunta se não resultará de pressões da casta dos intérpretes.

 

- Fala-me do teu pai e do teu tio. Continuam satisfeitos na província remota em que se encontram?

 

- Assim é, na verdade, Grão Senhor, preferem o ar quente do Sul ao ar frio da nossa querida capital. E dedicam-se a uma actividade que os mantém muito ocupados. Lançaram-se na exploração do sal. Devido aos conhecimentos que possuem do assunto, propõem-se mesmo comercializá-lo em nome do império.

 

Cublai arvora uma expressão de entendido.

 

- É próprio de Niccolo Polo. E o que pretendem eles?

 

- O monopólio do sal, sabendo que metade dos lucros cabe aos cofres do império.

 

- Disseste-me que a riqueza de Veneza foi construída a partir do sal, não é verdade?

 

Marco aquiesce, meneando a cabeça.

 

- Com efeito, Grão Senhor. Muito me honra saber que a história de Veneza que contei ainda é recordada.

 

- E o que pensas desse comércio do sal na China?

 

- Merece ser desenvolvido. Nas minhas viagens, saboreei um sal de primeira qualidade, tão fino e branco que pode ser confundido com farinha.

 

- Confio-te a empresa do sal. Associa-te a eles e vem dar-me conta dos acontecimentos.

 

- Possa este vosso humilde criado mostrar-se digno da insigne honra que lhe é concedida, Grão Senhor - responde Marco, numa reverência.

 

Cublai bate as palmas das mãos. Aproxima-se um criado, trazendo um livro precioso, encadernado a couro e seda.

 

- Olha para este livro, Marco. É uma ópera. Existe graças a mim. Vendeu-se mesmo nas índias. Ofereço-to.

 

Confundido e feliz, Marco prosterna-se em sinal de humildade e agradecimento, momentaneamente incapaz de encontrar palavras.

 

Cublai volta-se então para Sanga, que, durante a audiência, permanecera imóvel como uma esteia na estepe.

 

- Sanga, P’ag-pa falou-me de ti. Eclodiu uma revolta no Tibete. Aquela gente recusa-se a reconhecer a nossa autoridade. Encarrego-te de a chamar à ordem. Dispões de todos os poderes para o cumprimento da missão. Professando a mesma religião que eles, ser-te-á fácil comunicar com esses povos que dizem ser rústicos. Já sofreram tanto com as tropas do meu irmão Mongka que não gostaria de enviar os meus soldados contra eles.

 

Marco, envaidecido pela audiência com o Grão Cão, encontra Shayabami nos jardins do palácio e encarrega-o de ir entregar uma mensagem destinada ao pai. O sol desenha veios rosados nas nuvens azul-marinho semelhantes a manchas de tinta. Estes raios de luz deslocam-se, caprichosos, com o aproximar da aurora. Sanga abeira-se do veneziano. Despedem-se num abraço caloroso.

 

- Doravante, como poderei fazer-me entender, sem ti?

 

- Um verdadeiro intérprete ser-te-á mais útil do que eu tenho sido.

 

- Não estou muito certo disso.

 

Um cavaleiro detém-se perto deles e apeia-se para se inclinar diante de Marco.

 

- Senhor Marco Polo?

 

- Sou eu.

 

- O general Bayan encarregou-me de lhe falar em privado.

 

- Algum contratempo? - pergunta Sanga, preocupado. Marco abana a cabeça.

 

- Adeus, Sanga, voltaremos a ver-nos - diz ele. Acompanha o mensageiro até uma moita de jasmins. O perfume inebria-o imediatamente.

 

- Fala - ordena Marco, impaciente.

 

- Sou portador de duas mensagens, Senhor Marco Polo. A primeira é a seguinte: o general concede-lhe o favor de aceder ao seu pedido em nome da acção empreendida para salvar o príncipe Namo Cão, que considera como seu próprio filho.

 

Marco solta um suspiro de alívio.

 

- E a segunda mensagem?

 

O cavaleiro retira da manga um sobrescrito lacrado.

 

O SEGREDO DE AI XUE

Envoltas em amplos mantos, duas sombras deslizam em passos silenciosos para fora do palácio. Aproxima-se a hora de recolher. As duas sombras estacam bruscamente: surgiram duas silhuetas no cruzamento da Via Imperial e da Alameda do Pelicano. A noite deposita Khanbalik nas mãos dos que não conhecem nenhuma lei para além da sua. As silhuetas prosseguem caminho. E as duas sombras também retomam o seu ao longo das largas avenidas da cidade. Enveredam pelo dédalo de ruelas escuras, antes de penetrarem no labirinto deserto das traseiras das casas. Por fim, imobilizam-se diante de uma habitação de paredes escalavradas, acariciada pela luminosidade quente de um crepúsculo de Outono. A mais pequena das duas sombras ergue a cabeça. Na esquina, a única janela iluminada da rua reflecte o seu olhar azul. No coração de um bairro pobre da cidade, pelo qual nenhum estrangeiro ousa aventurar-se, Marco Polo, a despeito das precauções, arrisca-se a ser visto pelos raros transeuntes. Aplica uma pancada forte numa porta. Pela ruela repercute-se um eco. Do outro lado da porta, sussurros.

 

Decorrido um momento, a chave range na lingueta da fechadura e abre-se o batente. A luz poeirenta de uma candeia banha por instantes as lajes escuras. Uma corrente de ar apaga a candeia quase de imediato. Lá dentro, a escuridão é tão grande que se torna impossível distinguir quem recebe os dois homens. Marco dá um passo em frente. O misterioso hospedeiro desliza atrás dele e fecha a porta na cara de Shayabami.

 

- Espere, não vim sozinho! - protesta o veneziano.

 

- Eu sei, Senhor Polo - responde Ai Xue, cuja voz Marco reconhece. - Mas nós queremo-lo sozinho. Avance, por favor.

 

Os dois homens cumprimentam-se à maneira chinesa, de mãos juntas debaixo do queixo. Depois, com o coração alvoroçado, Marco obedece, seguindo por um longo corredor escuro. Cada passo que dá provoca um estalido, como se os seus pés pisassem folhas secas.

 

- Baratas gigantes - comenta calmamente o médico chinês, adivinhando as interrogações do veneziano.

 

Marco não consegue reprimir um arrepio.

 

Por fim, penetra num pequeno compartimento, no qual brilha um lampião de papel. Não consegue deixar de se voltar e descobre um tapete de folhas secas. Não se enganara. Ai Xue ri-se da sua própria ironia.

 

- Peço desculpa, Senhor Polo, não me contive.

 

- Se bem compreendo, a porta é o único acesso. Estes estalidos peculiares dariam o alerta se um indesejável chegasse até aqui, ou os guardas imperiais...

 

Sem se dignar responder, o médico chinês instala-se no chão, num tapete entrançado, e convida Marco a imitá-lo. Uma mesa de motivos sobriamente esculpidos oferece uma chaleira fumegante enquadrada por pequenas taças de terracota. Ai Xue enche pessoalmente - discrição total - as duas taças e apresenta uma a Marco.

 

- Não, obrigado. Onde estou eu exactamente, Ai Xue?

 

- Uma taça de chá não se recusa, Senhor Polo - insiste Ai Xue numa voz tranquila.

 

Marco, irritado, pega na taça de chá e molha os lábios. Abafa uma exclamação. A beberragem escalda.

 

- Em minha casa, Senhor Polo.

 

- Não sabia que moravas em Khanbalik.

 

- Nunca mo perguntou.

 

- Julguei-te médico itinerante.

 

- E sou, mas há casas que me recebem onde quer que vá.

 

- Não cometas o erro de confundir um bárbaro com um tolo, Ai Xue. Este local assemelha-se em tudo a um refúgio de malfeitores.

 

 - Deixa-me contar-te o que soube antes de aqui chegar: esta casa pertence à sociedade secreta do Lotus Branco. E fica sabendo que a polícia do imperador está empenhada na eliminação dos mensageiros do general Bayan e do Grão Cão durante a campanha chinesa. Ai Xue crispa-se bruscamente.

 

- No entanto, o senhor está bem vivo - observa ele.

 

- Justamente, não acredito no acaso...

 

- É verdade, se o Lotus Branco não tivesse decidido poupá-lo

- declara Ai Xue apontando para o pulso de Marco -, o senhor já não faria parte deste mundo.

 

- Assim se explica o mistério da tatuagem... Era isso! Por que me protegeram?

 

- Eu precisava de atravessar as linhas de Bayan. O senhor proporcionou-me a escolta que me faltava.

 

Num gesto de raiva, Marco desembainha o sabre e lança-se sobre Ai Xue. O chinês esquiva-se habilmente e, aplicando uma pancada no punho do veneziano, faz cair a arma. Os dois homens enfrentam-se, prestes a usar as mãos.

 

- Serviste-te de mim - murmura Marco, cerrando os dentes.

 - Do emissário do Grão Cão, sim, de Marco Polo, não.

- Marco Polo encontra-se ao serviço do Grão Cão.

 - No entanto, o senhor não veio acompanhado pela guarda Imperial.

 - Prefiro saldar as minhas contas sozinho.

 

- Fique sabendo que o talismã que mandei gravar na sua carne não significa que está protegido pelo Lotus Branco, mas simplesmente que sou eu o único a ter o direito de o executar - esclareceu Ai Xue numa voz calma.

 

- Viverei enquanto precisares de mim, não é verdade?

 

- Perfeitamente. Mas o senhor também precisa de mim. Posso ajudá-lo a encontrar quem procura, pois procura alguém, não é verdade? E terá do seu lado todo o poder do Lotus Branco.

 

Marco franze o sobrolho.

 

- O sage disse: ”Quem quiser deslocar uma montanha terá de começar por retirar as pequenas pedras” - prossegue Ai Xue. Sente-se, Marco Polo, o chá vai arrefecer.

 

O veneziano pega no sabre, embainha-o e depois instala-se no chão, sentado sobre os calcanhares, preparado para atacar de novo.

 

O médico cala-se por longos momentos, antes de sentenciar:

 

- Lao Tzu disse: ”É preferível que os peixes permaneçam em águas profundas e as armas de um Estado na sombra”.

 

- A que Estado te referes ? A China pertence aos Mongóis.

 

- ”O dia mais longínquo existe, mas o que nunca chegará não existe”, disse Confúcio. Cublai tolera-nos.

 

- Deixaria de tolerar se eu lhe contasse que está em formação uma conspiração para o derrubar.

 

Ai Xue saboreia tranquilamente um gole de chá.

 

- O que está o senhor a imaginar?

 

- Pouco importa o que eu imagino. Mas peço-te que me acompanhes na minha próxima missão. Preciso de um intérprete. Tu sabes muitas línguas e dialectos do império.

 

- Nesse caso, voltemos aos factos. Que me oferece em troca?

 

- Pois bem, ofereço-te a vida e a liberdade - conclui calmamente Marco.

 

Os dois homens soltam uma gargalhada ao mesmo tempo.

 

Um manto de neve cobre as planícies do Norte. Mais uma vez, Marco retoma a estrada, escoltado unicamente por Shayabami e Ai Xue. O veneziano deixou a casa de Khanbalik e enviou todos os seus haveres para Yangchou, que deverão chegar uma ou duas semanas depois dele. O chinês mantém-se afastado, carrancudo. Obedecendo a Marco, Shayabami ocupa-se do médico, que parece indiferente às atenções recebidas. Certo dia, ao entardecer, tendo decidido pernoitar num albergue, Marco enrosca-se numa pelica junto à lareira, saboreando um chá escaldante. Ai Xue olha, fascinado, para as brasas incandescentes da fogueira, espectáculo pontuado por estalidos calorosos.

 

- Ai Xue, que escondes na tua cabaça?

 

- Nós, os médicos, não temos nada a esconder.

 

- Então, mostra-me o que lá tens - insiste Marco. O chinês retira da cabaça vários potes de terracota.

 

- Corno de rinoceronte, jade e pérolas pulverizadas, veneno de sapo, minhocas, aranhas, centopeias cozidas e reduzidas a pó, pele de cobra. Estás satisfeito?

 

- Nada que seja apetitoso.

 

- São remédios, Senhor Polo, não são os pratos servidos no palácio imperial.

 

O veneziano vislumbra outros instrumentos que Ai Xue não retirou da cabaça.

 

- E aquilo, o que é?

 

Ai Xue encara o estrangeiro sem uma palavra.

 

- Nada de importante.

 

Marco não insiste, mas também não desiste de vir a satisfazer a sua curiosidade.

 

A cavalgada prossegue, interrompida por paragens nas postas mongóis, onde mudam de cavalos.

 

Após várias semanas, o pequeno grupo alcança Yangchou. Marco ainda não penetrou na cidade há uma hora e já um mensageiro se precipita a seus pés. Condu-lo ao palácio do governador, onde o veneziano é recebido como um príncipe, com todas as honras devidas à sua nova categoria.

 

- Senhor, os altos conselheiros pediram-nos para serem advertidos logo que a vossa chegada fosse anunciada.

 

- Onde estão eles?

 

Marco acompanha o criado através de corredores magnificamente decorados de motivos florais até um salão cintilante de laca e de madeiras em tons de índigo e ouro.

 

Os ”altos conselheiros” estão de costas voltadas, mas Marco não precisa que eles se movam para reconhecer a sólida envergadura de um e o aspecto enfermiço do outro.

 

- Meu pai, meu tio!

 

Os irmãos Polo avançam juntos a fim de receberem Marco.

 

- Então, Marco?

 

- Venho extenuado, estas estradas mongóis...

 

- ...são excelentes - terminaNiccolo.

 

- Justamente! Cavalgamos muito. Não sentimos passar o tempo, nem mesmo o destinado ao descanso.

 

- Meu caro sobrinho, parece-me que se adaptou bem à linguagem deles... - observa Matteo, perplexo.

 

Niccolo aproxima-se e segreda ao ouvido do filho:

 

- Quem é este homenzinho ?

 

Marco dá meia-volta para lançar um breve olhar a Ai Xue, que deambula pelo palácio, curioso e encantado.

 

- O meu intérprete e médico.

 

- Preferia o outro.

 

- Não era médico.

 

- Pouco importa. Este não me inspira nenhuma confiança. Não estou certo de que tenhas escolhido bem.

 

Matteo dá uma cotovelada ao irmão.

 

- Nicco! Per baccol Falas assim por o homem ser chinês. Niccolo encolhe os ombros.

 

- Nunca soube estabelecer a diferença.

 

- Desengane-se, meu pai, Ai Xue é exactamente o homem que me convém - afirma Marco, misterioso.

 

- Esperemos, e veremos qual de nós tem razão. Matteo intervém entre o pai e o filho.

 

- Marco, viemos logo que recebemos a tua mensagem. Bravíssimo pela tua nomeação. Em nome da República e da Casa Polo, apresento-te as minhas mais oficiais felicitações.

 

Marco esboça uma reverência, em guisa de agradecimento.

 

- Não tens nenhuma notícia a transmitir-me? - interroga-o Niccolo, impaciente.

 

- Com certeza, meu pai - responde Marco, dirigindo um sorriso cúmplice ao tio.

 

Matteo oferece-lhe vinho de arroz com especiarias, levando-o a visitar o salão decorado à veneziana.

 

- Permitimo-nos algumas liberdades, na tua ausência - explica Niccolo -, cientes de que não te agastarias.

 

Marco finge não ouvir a observação do pai. Convertido aos costumes locais, senta-se no chão, num tapete persa. Assume uma pose muito solene.

 

- Para além do governo de Yangchou, o Grão Cão confiou-me o monopólio da exploração do sal.’

 

- Marco, meu filho!

 

Niccolo estreita-o nos braços num gesto de entusiasmo e de afecto que não lhe é habitual. Levanta-se, esfrega as mãos.

 

- Vamos celebrar. Organizei um banquete para o teu regresso, será um festim!

 

Marco esquiva-se, suspirando.

 

- Um banho, uma cama, um jantar, é tudo o que peço...

 

- E uma mulher, já agora! - exclama Niccolo, erguendo uma sobrancelha.

 

- Por que não, mas só depois... - replica Marco, muito sério.

 

- Vai, vai lavar-te, mas depressa! - diz Niccolo, batendo-lhe nas costas com tanta força que se desequilibra.

 

Depois de dar uma volta pelo palácio, Marco descontrai-se demoradamente num banho de aromas.

 

Depois, junta-se ao pai e ao tio que o esperam para a refeição, servida por duas chinesas muito risonhas. Marco começa por se deixar tentar pelos ninhos de andorinha com licor de rosa. Jovens músicas e dançarinas de aspecto atraente animam a refeição. Marco não consegue deixar de olhar para as chinesas, graciosamente vestidas com trajes orientais e venezianos, uma mistura insólita de culturas das quais ignoram tudo. Saboreiam uma especialidade da região, terminando com um vinho de uvas que Niccolo mandou vir expressamente numa caravana do outro lado das montanhas. Deliciam-se com um jogo de go, durante o qual, pretextando não compreender nada, Niccolo faz imensa batota.

 

Marco, entorpecido pela refeição demasiado suculenta, vai apanhar um pouco de ar perto das cerejeiras em flor do jardim que separa o pavilhão de recepção da casa principal. Na penumbra de uma lanterna, mal adivinha a magnífica decoração da sua nova residência.

 

Lentamente, escavando degraus na encosta, o tibetano desce até Marco, junto do pinheiro. A neve está manchada de sangue, o do cavalo ou o do homem. O animal jaz, esventrado, à distância do lançamento de uma pedra. As suas entranhas ainda palpitam, fumegantes. Marco, protegido pela montada, está deitado numa posição curiosa, como desarticulado. O guia agacha-se junto dele. A cabeça ensanguentada encobre-lhe o rosto. O joelho tinto de sangue está dobrado numa posição inacreditável. O tibetano limpa o rosto do jovem, pousa a mão no seu coração.

 

- Está vivo, Senhor Niccolo - diz ele, sorrindo ao mercador que se junta a ele, segurando o cavalo pelas rédeas.

 

Matteo solta um suspiro de alívio.

 

- Abate o cavalo - ordena Niccolo.

 

O guia persa, Kunze, que os acompanha praticamente desde Veneza, olha para Marco antes de se afastar em direcção à montada.

 

- É um milagre, ele só tem o joelho fracturado - observa o tibetano.

 

- Sabes tratar dele? - pergunta Niccolo, embaraçado.

 

A pouca distância deles, Kunze corta friamente a carótida do cavalo.

 

- Teremos de o levar a pé, pelo menos até ao sopé da colina. Em cima de um animal, seria perigoso. Eu encarrego-me do caso.

 

Noor-Zade vai buscar um pedaço de madeira suficientemente comprido e sólido. Com os seus dedos ágeis, confecciona uma corda de pêlos de iaque. Darmala aprova-a com o olhar.

 

- Vou endireitar-lhe a perna aqui mesmo - anuncia o tibetano -, antes que recobre os sentidos.

 

Pede a Niccolo que o ajude, segurando firmemente no filho. Noor-Zade concentra-se na sua tarefa. Os olhos de Matteo e de Kunze não se cansam de fixar o rosto de Marco.

 

O tibetano, num gesto seco e brusco, coloca o joelho na posição normal.

 

Marco acorda aos gritos, de olhos febris. Instintivamente, leva a mão à perna. Dói-lhe tanto que ainda lhe parece estar a sonhar. Shayabami acorre, meio barbeado.

 

Marco, incapaz de falar, tranquiliza-o com um gesto.

 

Shayabami desloca brutalmente o biombo que encobre a pequena janela para deixar entrar a luz do sol.

 

Marco protege os olhos com os dois braços.

 

- Creio que tive dificuldade em digerir os ninhos de andorinha, nada mais.

 

Shayabami fixa-o por uns momentos:

 

- Vou chamar o médico!

 

- Não te mexas! - proíbe-o Marco. Mas o escravo já saiu do pavilhão.

 

Com muita dificuldade, o veneziano consegue sentar-se. Tem a nuca rígida, dói-lhe terrivelmente a cabeça. Mal consegue dobrar o joelho. Aperta as têmporas entre as mãos. Talvez uma malga de chá lhe faça bem.

 

Shayabami regressa, acompanhado por Ai Xue.

 

- Deixa-nos, Shayabami - ordena o chinês. - O teu amo chamar-te-á, se precisar de ti.

 

O sírio encara o médico, surpreendido pela sua audácia. Marco faz um sinal ao escravo.

 

- Faz o que ele te disse.

 

Marco volta a deitar-se, lentamente.

 

- É a tua prática que te confere os direitos de um amo, Ai Xue?

 

- O sage disse: ”O homem senhor de si não precisa de outro senhor.”

 

Marco massaja o joelho dorido, recordação da violenta queda que deu quando terminava a travessia do Himalaia. À vista de Kashgar, impaciente por chegar, abrandara a vigilância e não conseguira evitar que a montada se desequilibrasse e fosse esmagar-se contra um pinheiro.

 

Marco fracturara o joelho e permanecera inconsciente durante vários dias. Em seguida, andara de muletas várias semanas. Desde então, picadas lancinantes vinham por vezes avivar-lhe a memória. Ai Xue aproxima-se de Marco, examinando-o atentamente. O veneziano, pouco à vontade, volta-se.

 

- O senhor tem falta de energia. Até uma criança se aperceberia.

 

- Deixa-me em paz.

 

- Bem gostaria, mas arrisca-se a ser um mau governador. E sabe quanto me preocupa o destino dos Chineses, não é verdade?

 

O veneziano, ligeiramente agastado, ergue os olhos para o guia.

 

- Já me sinto muito melhor. Bastou a tua visita.

 

- O senhor tem as pálpebras pisadas e os olhos vermelhos, o que significa que tem falta de yin nos rins. A sua cor esverdeada prova que o fígado foi atingido. Subiu-lhe a raiva à cabeça - concluiu Ai Xue.

 

Marco sorriu, incrédulo.

 

- Por vezes, quando te ouço falar assim, pergunto-me se os Chineses serão feitos da mesma matéria que nós.

 

- Respondo já a essa interrogação: tenho a certeza que não. Ai Xue sustenta, divertido, o olhar do paciente.

 

- Muito bem, o que trazes, nos teus remédios, contra o meu mal?

 

- As agulhas - soletra calmamente o médico.

 

Marco suspira. Não se esqueceu da primeira visão da prática de Ai Xue. O horror que lhe aperta o coração ante a ideia desta estranha medicina concorre com o fascínio, com o desejo de vencer o desafio.

 

- Então aplica-as.

 Estende-se na cama, tenso.

 

Delicadamente, Ai Xue despe a camisa a Marco. Este examina com atenção cada gesto do chinês. Ai Xue afasta as abas do casaco, revelando uma faixa larga e achatada enrolada à volta da cintura. Desaperta-a. Por dentro, uma fiada de agulhas apertadas umas contra as outras.

 

- Não é doloroso. Quase nem sentirá a picada. Além disso, será para o seu bem.

 

- Não tenho medo - declara Marco, incapaz de impedir que os seus músculos tremam ligeiramente.

 

Num gesto seguro e preciso, Ai Xue espeta as agulhas nas mãos de Marco, nos pulsos, nos tornozelos, nos pés. O veneziano sobressalta-se sempre que é picado, tenso como uma balestra.

 

- Vai sentir-se descontraído. Não se mexa. Esteja calmo. Céptico, mas curioso, Marco entrega-se nas mãos do médico.

 

Pela primeira vez, apercebe-se do poder de Ai Xue, como um vulcão adormecido. O chinês faz menção de se afastar.

 

- Onde vais? - grita Marco, com uma intonação inquieta na voz.

 

- A parte nenhuma. Fico ao pé de si.

 

Ai Xue senta-se de pernas cruzadas e começa a entrar em meditação.

 

Os olhos de Marco não o largam. O médico permanece perfeitamente imóvel. Mesmo as pálpebras repousam tranquilamente. Só o peito arfa com uma serena regularidade. Marco estuda as suas estranhas feições, as mãos torturadas tão delicadas, testemunhas de um passado secreto. Como hipnotizado, Marco sente-se dominado por aquela surpreendente quietude. Atinge uma descontracção do espírito e do corpo como nunca sentiu. Deixa de pensar no filho desaparecido, no pai distante, no Grão Cão omnisciente. Sente-se tão leve quanto uma brisa que vai e vem na areia ao ritmo regular da respiração. Mergulha no infinito do espaço, abandonando-se ao silêncio da sua imensidade.

 

Subitamente, recobra a consciência. Num gesto seco, Ai Xue retira as agulhas uma a uma. Marco experimenta um estranho sentimento de libertação.

 

- Adormeceste-me - disse ele, numa voz pastosa. - Que magia é esta?

 

- Tu adormeceste. Eu limitei-me a ajudar o teu qi a circular melhor ao longo dos meridianos. Não penses que se trata de uma magia. É um conhecimento ancestral que nós temos da natureza e dos astros e das suas ligações com os homens. Fiz o que está dentro dos meus poderes. O resto do mal vem de ti. Contra isso, nada posso fazer... além de te ouvir.

 

Ai Xue retira a última agulha. Sem saber como, Marco experimenta um profundo alívio. Durante alguns instantes, não pertenceu a si mesmo, simples paciente na expectativa dos actos de Ai Xue.

 

- Não tenho nada a dizer-te.

 

- Nesse caso, permita-me que fale.

 

- Boa ideia. Por que não o fizeste há mais tempo?

 

- Nunca me interrogou.

 

Marco sorri - sempre a mesma resposta.

 

- Ouvi a conversa com Sanga, enquanto me ocupava do seu ferimento.

 

- Conheces a língua uigure? - exclama Marco, inquieto.

 

- Não, mas conheço a alma dos homens, é o meu ofício. Vi o desenho que ele tem no ombro.

 

- E então? - interroga Marco, cujo coração começa a pulsar violentamente sem que compreenda qual a razão.

 

- Assisti sobretudo ao efeito que aquela visão produziu em si, Senhor Polo.

 

- Aquele desenho suscitou-me recordações, é tudo. O veneziano levanta-se, subitamente em grande forma.

 

Ai Xue, cuidadosamente e em silêncio, arruma as agulhas na faixa que usa à cintura. Em seguida, endireita-se e compõe o cinto.

 

Marco dirige-se ao espelho que Shayabami instalou para que o possa barbear. Pega numa grande tesoura e começa ele próprio a aparar a barba.

 

A criança parecer-se-á comigo? Seria capaz de...?

 

Marco solta um profundo suspiro.

 

- Procuro uma criança, de sangue mestiço. Procuro-a por todo o império, sem saber a que casa, a que porta bater, sem saber sequer se a reconhecerei! - exclama Marco, cada vez mais empolgado.

 

- Por que procura essa criança?

 

- Sou... pai dela! - desabafa Marco, hesitante.

 

Ai Xue sorri.

 

- Não parece muito seguro de si.

 

Marco pousa a tesoura, furioso. É-lhe impossível esquecer a promessa feita a Noor-Zade à sua cabeceira, antes de a ver morrer.

 

- Fiz um juramento perante a mãe.

 

- Que idade tem a criança?

 Marco reflectiu longamente.

 

- Seis ou sete anos, suponho... Talvez já tenha morrido há muito, neste momento. E tu, tens filhos?

 

- Como se sente? A sua dor de cabeça? Marco começa a vestir-se.

 

- És exímio na arte de fugir às minhas perguntas.

 

- De que lhe serviriam as respostas?

 

- Talvez comece a interessar-me por ti.

 

- Porquê? Se a morte me afastar de si, é preferível que saiba o menos possível. Pense no que sente quando perde um cão encontrado pelo caminho.

 

- Nunca tive nenhum cão. Estou a pensar numa criança que ignora tudo sobre as suas origens, que não conhece o pai. Como eu.

 

Ai Xue franze o sobrolho, surpreendido. - Niccolo, o nosso anfitrião, não é seu pai? - É, mas conheci-o tão mal...

 - Mas, pelo menos, sabia que ele existia, algures. - Só isso.

 

- E por que deseja que não aconteça o mesmo ao seu filho?

- Meu filho.

 

- Talvez por o merecer. Mereço dar-lhe o que me faltou. Sabes, Ai Xue, por vezes, penso que o reconheceria à primeira vista, se o encontrasse. Mas, se não sentisse esse impulso?

 

- Terá de o construir para não se esbater. Venha, vou fazer-lhe uma confidência.

 

Instintivamente, Marco aproxima-se, atento, intrigado pelas últimas palavras do chinês.

 

Ai Xue abre a cabaça e retira os instrumentos que já anteriormente haviam suscitado o interesse de Marco: material de escrita um estojo de pincéis, uma pequena placa de ferro fundido e um bastonete de tinta com um dragão esculpido a decorá-lo. Instala este conjunto em cima da mesa na qual Marco estava a barbear-se, afastando a pequena bacia de terracota. Asperge a pequena placa de ferro com algumas gotas de água, passa-lhe o bastonete de tinta por cima a fim de a diluir e obter uma pequena mancha de uma negrura cintilante. Escolhe um pincel muito fino e, segurando-o pela extremidade com a ponta dos dedos, mergulha a ponta do pincel na tinta.

 

- Dê-me o seu braço. Marco obedece, sem hesitar.

 

Com gestos firmes e a precisão de uma bordadeira, Ai Xue traça no interior do antebraço de Marco um primeiro cursivo. O traço sobe até ao cotovelo, antes de voltar a descer numa flecha grossa, salpicada de pequenos ornamentos em forma de chama. Ai Xue prossegue o traçado ao longo das veias salientes. A carícia dos pêlos do pincel humedecidos de negro exala uma sensualidade fresca e delicada na pele do veneziano. O médico levanta o pincel.

 

- O que escreveste?

 

- Feche a mão - ordena Ai Xue.

 

Marco obedece prontamente. O desenho parece ganhar vida, o animal, meio-tigre meio-dragão, abre as goelas, prestes a rugir.

 

O coração de Marco começa a pulsar ao ritmo louco de quem viu um fantasma. Retira imediatamente o braço, como se quisesse livrar-se dele.

 

- Era mais ou menos assim, não era?

 

- Tens uma boa memória - confirma Marco, ainda ofegante.

 

- O garoto tem o mesmo desenho, precisamente onde o desenhei.

 

Marco fica suspenso das palavras de Ai Xue.

 

- Tratei um dos seus companheiros, atacado de gangrena, mas não era ele - prossegue o chinês. - Recordo-me de que a tatuagem me intrigou, tanto mais que o garoto procurava ocultá-la.

 

Subitamente, a esperança que Marco se esforçava por reprimir explodiu no seu peito com a força de um sentimento durante muito tempo recalcado. Poderá finalmente honrar a sua palavra, deixar de se amaldiçoar. Marco pode finalmente acreditar que o filho terá um dia a oportunidade de se tornar um homem. E, se está vivo, Marco nunca mais poderá olhar para um garoto sem pensar que é o filho, sem a esperança de vislumbrar nele o brilho do amor perdido, Noor-Zade.

 

- Dio! - exclama Marco. - Afirmas que viste um garoto com esta tatuagem?

 

- É verdade, foi a norte de Hangchou, numa quinta onde trabalhavam outras crianças.

 

- Como se chama ele? Com quem... se parece?

 

- Ignoro o seu nome. Em todo o caso, tenho a certeza de que não era chinês. Os seus olhos pareciam grãos de arroz preto. O cabelo curto não o impedia de ter piolhos. E sarna. Era franzino, parecia mal alimentado. Não falou comigo. Mas, no seu olhar, vislumbrei o brilho furtivo de uma estrela cadente.

 

À medida que Ai Xue avançava na descrição, Marco empalidecia.

 

- Cala-te, Ai Xue.

 

- Foi o senhor que insistiu.

 

- Como queres que ouça o que me dizes, se não posso fazer nada por ele?

 

- Talvez pudesse ter feito, em determinado momento, e não fez nada...

 

Marco tentou aplicar-lhe um murro. Ai Xue esquivou-se, vacilando um pouco, sem deixar de cravar no veneziano os seus olhos vivos.

 

- O sage disse: ”É mais fácil desviar o curso de um rio do que alterar o carácter de um homem” - conclui ele calmamente.

 

Os dois homens trocaram um longo olhar.

 

- Perdoa-me - murmura Marco, num sussurro. - Leva-me até ele, por favor.

 

Esforçando-se por se concentrar, Marco passa longos dias na companhia do tio Matteo. Se bem que pouco habituado a esta espécie de exercício, tenta compreender a organização administrativa do império. Este divide-se em trinta e quatro províncias, regidas por doze governos. O governador não exerce nenhum poder judiciário, que é confiado a um juiz por cada província, assistido por secretários. Os governadores chineses permanecem sob a autoridade dos governadores mongóis, os quais, a despeito da excelente rede de comunicação, adquiriram uma real independência face ao poder central. Marco estuda os processos, concede autorizações de exploração, legisla sobre as taxas dos produtos importados, isenta as vendas ao estrangeiro, desenvolve a indústria do sal e da porcelana.

 

Fechado no gabinete de trabalho com Matteo, há já algumas semanas que Marco não vê o pai. Niccolo trata da rede comercial do sal, correndo de mercado em mercado. Marco convoca-o mas, quando Niccolo penetra no gabinete, reencontra o rapazinho de sete anos que viu partir o pai para uma viagem porventura sem retorno e que continha as lágrimas para se mostrar forte.

 

Niccolo senta-se sem quaisquer cuidados numa poltrona antiga da dinastia Jin. Aproxima-a da lareira onde se extinguem algumas brasas incandescentes até uma distância de escassas polegadas. O calor deve sufocá-lo, pensa Marco. A mão pende-lhe do braço da poltrona, abandonada, brilhando à luz das chamas como a de uma figura de cera. Tira o chapéu, passa a mão pelo cabelo com o mesmo gesto maquinal do irmão Matteo - perco cada vez mais cabelo.. - lamenta-se - e volta a cobrir a cabeça.

 

- Então, meu querido Marco! A que devo esta convocação oficial ?

 

- A um favor, meu pai, para o qual peço a sua benevolência.

 

- Queres partilhar comigo uma das minhas concubinas? Niccolo solta uma gargalhada, como se tal perspectiva o encantasse realmente.

 

Marco suspira.

 

- Preciso de me ausentar de Yangchou.

 

- Já? Mal acabaste de chegar! És pior do que eu! Mas o pai fala como se proferisse um cumprimento.

 

- Tenho um dever a cumprir.

 

- Pois tens, o de governador do Grão Cão - declara Niccolo de perfeita má vontade.

 

Marco levanta-se e começa a deambular pela sala para iludir o nervosismo. Porquê, afinal? Ele também é um homem. Aproxima-se do pai, que o fita com uma descontracção quase insultuosa.

 

- Descobri uma pista para reencontrar o filho de Noor-Zade.

 

- Noor-Zade... Noor-Zade... Aquela escrava que vendi em Veneza e que tu me fizeste a afronta de transportar na minha caravana?

 

- Exactamente - replica Marco numa voz firme.

 

- Se me pusesse à procura de todos os filhos que semeei, não faria mais nada! - exclama Niccolo.

 

- Talvez devesse fazê-lo - insiste Marco, verdadeiramente rancoroso. - Lembra-se de ter deixado dois em Veneza, há oito anos?

 

- Os filhos da linda Fiordalisa?

 

- Sim, os filhos que lhe fez.

 

- Lembras-te dos seus nomes?

 

- Um chama-se Stefano e o outro ainda não tinha nascido quando o senhor partiu.

 

- Pois, é verdade - aprova Niccolo, sonhador. - Já serão crescidos quando regressarmos a Veneza! Mas por que te preocupas com esse pobre bastardo? Nem sequer sabes onde encontrá-lo.

 

- Talvez tenha uma ideia.

 

- Já pensaste nos solai que terás de gastar? Por que te sobrecarregas com uma boca para alimentar?

 

Marco interrompe as idas e vindas pela sala. Mortificado, encara o pai.

 

- Não me julga capaz de nenhuma espécie de generosidade, não é verdade? Não lhe ocorre que possa dedicar algum afecto a essa criança? Não imagina que possa preocupar-me com o garoto ou, pior ainda, que deseje transmitir-lhe o que me pertence? É essa a ideia que tem de mim... ou será de si?

 

Marco fala numa voz trémula, mas o seu olhar continua penetrante.

 

Niccolo dá um salto da cadeira, como se fosse, lançar-se à fogueira para aí consumir a sua fúria.

 

- Marco Polo! Não se permita insultar-me!

 

- Está disposto a assumir o governo de Yangchou durante a minha ausência? - pergunta Marco numa voz perfeitamente calma.

 

- Estás louco? Também tenho os meus negócios! Não posso esperar-te aã vitam xternam sentado nas poltronas, de resto muito confortáveis, deste palácio.

 

Marco tem uns momentos de hesitação, surpreendido pela viva reacção do pai.

 

- Meu pai, esperava...

 

- Pois bem, enganaste-te!

 

Marco crispa-se. Avança para o pai, dominando-o do alto da sua estatura.

 

- Julguei não ter de lhe recordar que obtive do Grão Cão o que o senhor desejava!

 

- Ora bem, devo-te alguma coisa, como é evidente! - indigna-se Niccolo, gesticulando a ponto de quase queimar as mangas.

 

Marco contorna a secretária e vai ocupar o seu lugar na sua cadeira de governador.

 

- Não me deve nada, mas posso retirar-lhe o comércio do sal a qualquer momento.

 

- Vou discutir o caso com Matteo. Acatarei a sua decisão. Não é de bom augúrio, pois Niccolo manipula o irmão desde a mais tenra infância.

 

- Só terá de despachar os assuntos correntes sob a vigilância do meu secretário.

 

Shayabami vem interrompê-los, acenando discretamente ao amo. Niccolo, esquecendo-se de que cedeu o escravo ao filho, prepara-se para responder. Marco e Shayabami olham um para o outro, incrédulos. Niccolo volta-se, vexado.

 

- Senhor Marco, a bagagem está pronta, como me ordenou.

 

Marco fixa o pai, de costas voltadas, entretido a esmagar as brasas incandescentes com a bota, deixando apenas cinzas tépidas na lareira.

 

- Partirei dentro de uma hora.

 Nesta nova viagem, Ai Xue não é apenas intérprete, é também guia. Conhecendo bem a região, escolhe as estradas a percorrer. Consegue convencer Marco a fazer uma paragem na montanha sagrada Tai Shan. O espectáculo é de cortar a respiração. O monte parece suspenso no ar, sustentado pelos planaltos envoltos em bruma cujas colunas seriam os pinheiros plantados em socalcos, como num jardim em miniatura.

 

Ai Xue conta a Marco a história deste monte. Domina o local do nascimento de Confúcio. A mãe teria subido ao monte para exprimir o voto de ter um filho. Desde então, as mulheres imitam-na para formular o mesmo desejo.

 

O médico procura desencorajar o veneziano de o seguir. Os seis mil quatrocentos e vinte e quatro degraus, associados às vertigens, constituem uma provação que os estrangeiros não conseguem suportar.

 

- Se não conseguir, volto para trás.

 

- Não, quem inicia a ascensão deve prossegui-la. E eu não o ajudarei.

 

- Nem eu permitiria que me ajudasses.

 

Shayabami, vendo o amo preparado para subir, aproxima-se dele, timidamente.

 

- Senhor Marco, acompanhá-lo-ia de boa vontade, mas os cavalos precisam de mim.

 

Sem uma palavra, dão início à ascensão. Marco detém-se para admirar a paisagem que se estende em todo o seu esplendor à medida que progridem. Mas os que o seguem são obrigados a parar, por sua vez. Por vezes, a escada é tão estreita que dois homens não conseguem cruzar-se, mesmo de lado. Até ao cimo da montanha, vêem-se textos sagrados gravados na pedra. Marco, com a garganta seca, concentra-se cada vez mais nos pés ágeis de Ai Xue, que o precede. Quanto mais se esforça, maior é a sensação de descobrir um novo fôlego dentro de si. A vertigem apodera-se dele, acompanhada por uma certa euforia. Compreende que a meditação começa

no primeiro degrau. A regularidade do movimento das pernas ajuda o espírito a elevar-se com o corpo.

 

Chegado ao cume, Ai Xue volta-se para Marco:

 

- Não se esqueceu de fazer um voto aos seus deuses, antes de subir?

 

- Pedi para encontrar o meu filho - consegue exalar Marco, num murmúrio.

 

Ai Xue parece no seu elemento, cativando a admiração do veneziano. Retomam a respiração, instalados em esteias, descobrindo um espectáculo irreal, cumes cobertos de pinheiros afogados em vapores de bruma.

 

- Afinal, Ai Xue, quem és tu?

 

- Sou doutor em Letras. Obtive o primeiro lugar no concurso do palácio imperial. Nada disto tem significado para si, Senhor Polo, mas, para nós, é a maior das honras.

 

- Ora! Bastou a tua família ter dinheiro.

 

- De modo nenhum! - insurge-se Ai Xue. - O nosso sistema é muito seguro. Escrevemos o nosso nome e depois encobrimo-lo para que o corrector não reconheça o aluno. São efectuadas três correcções sucessivas para evitar erros de apreciação.

 

- Tenho dificuldade em acreditar. E depois, que fizeste?

 

- Fui prefeito da província de Hangchou, donde era originária a minha família. Hangchou ainda há três anos era a capital imperial. Era aí que se encontrava a faustosa corte do último dos Song.

 

- És, então, um grande mandarim? - pergunta Marco, incrédulo.

 

Ai Xue baixa a cabeça.

 

- Era. Agora, sou um simples médico.

 

- Não será uma ideia do Lotus Branco, um meio de passar despercebido em toda a parte? A verdade é que ninguém pode dispensar um médico.

 

Ai Xue sorri, divertido com a ideia.

 

- Pois não, hoje em dia é mais rentável, nada mais.

 

- E a tua família ? Continua em Hangchou ?

 

- Não - responde simplesmente Ai Xue, voltando-se. - Venha, vamos descer.

 

Para Marco, a descida afigura-se bem mais perigosa. Por mais de uma vez tem de se amparar na encosta da montanha.

 

- Depois de nos elevarmos, torna-se difícil descer à terra...

 

Prosseguem a caminhada, atravessando aldeias e campos. Certa manhã, Marco acompanha Ai Xue ao mercado, enquanto Shayabami toma conta dos cavalos. Espalhados pelo chão, em cestos de vime, especiarias e víveres de todas as cores e feitios. Marco reconhece gengibre e figos secos enfiados em forma de colar. Um vendedor saúda respeitosamente Ai Xue. Depois, leva-os a uma banca em frente da qual se encontra um homem que examina a mercadoria sem comprar nada. Ai Xue entabula uma longa conversa com ele. O médico escolhe uma grande estrela-do-mar e uma serpente enroscada, ambas secas. Depois, Ai Xue dá tudo ao homem, que revela ser coxo.

 

O homem conduz Marco e Ai Xue através do mercado. O veneziano dirige olhares interrogadores ao chinês, que se limita a sorrir, confiante. Uma construção de bambu atrai muitos basbaques. Aproximando-se, Marco vê barbatanas de tubarão, frescas, suspensas dos longos caules cilíndricos.

 

Por fim, à saída do mercado, dirigem-se para a carroça do homem coxo, guardada por um garoto de cerca de dez anos. Shayabami e os cavalos aproximam-se e fazem-se todos à estrada, atrás do coxo. O garoto não se cansa de olhar para eles.

 

Ao chegarem a uma quinta, o coxo arrecada imediatamente a mercadoria comprada por Ai Xue.

 

- Foi aqui que encontrei o garoto - explica o médico a Marco. - A nossa sociedade viu o coxo no mercado.

 

No peito de Marco, aceleram-se as pulsações do coração.

 

- Julgas-te capaz de reconhecer o garoto ? Ai Xue meneia a cabeça, dubitativo.

 

Volta-se para o contramestre e começa a interrogá-lo, antes de traduzir para Marco.

 

- Foi há muito tempo! - exclama o coxo. - Desde então, renovei metade dos meus operários. Uma vez terminado o trabalho sazonal, só conservo os mais robustos para o trabalho na quinta.

 

- O garoto de que falo é de sangue mestiço. Traduz, por favor, Ai Xue.

 

O homem abana a cabeça.

 

 - Tinha uma tatuagem muito peculiar no braço. Neste sítio - mostra Marco, cheio de esperança.

 

No braço, ainda é visível a pintura feita a tinta.

 

- Nunca o vi.

 

Marco começa a impacientar-se.

 

- Ai Xue, podes fazer-lhe o desenho? Assim, verá melhor.

 

O chinês retira da cabaça um grande pincel e desenha as figuras na areia com uma mão ágil. O contramestre faz de novo um sinal negativo.

 

- É importante - insiste Marco, indo buscar à carteira de pele de leão um maço de argumentos irresistíveis.

 

Naquele sítio, o enviado do Grão Cão não passa de um simples mercador estrangeiro.

 

O homem embolsa as notas antes de propor:

 

- Veja na granja, meu Senhor. É ali que todos dormem. Ainda Ai Xue não acabara de traduzir a frase e já Marco se dirigia para o anexo de terra batida, ao lado do edifício principal. Com o coração aos pulos, detém-se em frente da porta. O contramestre vem logo atrás.

 

- Não os acorde, meu Senhor. Ainda terão de trabalhar, logo à noite.

 

Os gonzos da porta de madeira rangem e a luz do dia banha os pequenos corpos amontoados pela desordem do sono. Alguns mexem-se, gemendo. Marco avança em silêncio pelo meio dos garotos. Têm rostos tranquilos, por vezes marcados por arranhões ou cicatrizes de golpes. Delicadamente, o veneziano ergue o braço mais próximo. Nada. Salta por cima dos corpos, vira suavemente um garoto que resiste. Talvez seja ele! Mas o seu braço nada revela. Prossegue a busca, cada vez com menos cuidado. Alguns acordam e resmungam, contrariados. Marco chega a examinar as meninas - e se a memória o traísse? À medida que prossegue as buscas, começa a interrogar-se: por que razão procurar um rapaz em particular? Por que não adoptar uma destas crianças abandonadas? Não devem ser muito diferentes, e todas necessitam de um pai que se ocupe delas.

 

Os pequenos corpos começam a levantar-se, rostos amarfanhados à luz do dia.

 

- O senhor acordou-os! Saia, por favor! Ele já cá não está!

 

Marco terminou a inspecção. Sem dirigir uma palavra às crianças, tão grande é a opressão que sente no peito, quase foge da granja, perseguido por gritos de raiva.

 

Subitamente, Marco volta atrás, agarrando o contramestre pelo pescoço.

 

- Como sabes que ele já cá não está? Fala ou empalo-te!

 

O coxo, trémulo ante a fúria do estrangeiro, começa a balbuciar. Ai Xue apressa-se a traduzir.

 

- Houve um que fugiu, mas foi há muito tempo!

 

- Aquele que eu procuro, não é verdade?

 

- Fugiu através dos campos em direcção à estrada de Hangchou.

 

Marco largou a presa, o contramestre caiu de joelhos.

 

- Há poucas possibilidades de ainda estar vivo, Senhor Marco

- diz Ai Xue delicadamente.

 

- Eu sei - responde Marco, contristado.

 

Mas se Deus lhe deu forças para o procurar, também terá dado ao garoto coragem para sobreviver.

 

- Como se chama ele? - pergunta ao contramestre, entre dentes.

 

Fascinado, Dão Zhiyou não tira os olhos das cortesãs, que mal o vêem. Os lampiões de papel de seda difundem uma luz suave. O chão está coberto de almofadas bordadas. Na vasta sala, os biombos desenham a construção de um labirinto seguindo um percurso sabiamente estudado. Todos eles exibem estampas deveras sugestivas de situações ousadas. O sol vai alto no céu, e as raparigas dispõem de tempo para se preparar. Sem maquilhagem, usam trajes simples e pudicos. Dão Zhiyou e Xighang, o rapaz que o defendeu, estão sentados no chão, com os cotovelos apoiados nos joelhos e o queixo entre as mãos. Se Xighang é todo sorrisos, Dão Zhiyou, intimidado, olha de soslaio para as raparigas.

 

Ajoelhada, uma delas penteia com desvelo a cabeleira que lhe acaricia os rins. Volta-se para uma das companheiras:

 

- Fan-Fi, já estou pronta.

 

Fan-Fi avança, bamboleando-se de forma exagerada, lançando um breve olhar aos garotos.

 

- Acho-lhe graça, ao mais novito - declara ela, sorrindo.

 

A outra rapariga levanta-se, alongando a silhueta esbelta e elegante num movimento gracioso.

 

- Mantém-te direita - ordena-lhe Fan-Fi.

 

A companheira volta-se de costas. Fan-Fi pega na tesoura, segura as madeixas entre os dedos e, com precisão e rapidez, corta-as uma a uma. Os cabelos espalham-se como pássaros de asas abertas pelo tapete de seda pesada.

 

- Que cabelo tão macio.’ - exclama Fan-Fi. - Conheces algum segredo!

 

A outra ri-se, lisonjeada.

 

- Ouço os conselhos da patroa, devias fazer o mesmo.

 

- Não tenciono acabar como ela - resmunga Fan-Fi.

 

- Evidentemente, trata-se de começar ainda melhor!

 

A rapariga sacode a pesada cortina escura formada pela cabeleira para deixar cair os últimos cabelos cortados.

 

- Tu, o mais novo, vens ajudar-me? - pergunta ela a Dão Zhiyou.

 

O rapaz levanta-se imediatamente, prestável. Quando se aproxima da cortesã, penetra-lhe pelas narinas um eflúvio de perfume. Pela primeira vez, desde há muito tempo, Dão Zhiyou sente o odor acetinado do jasmim. O ventre revolve-se-lhe numa náusea. Afasta-se, fugindo daquele perfume como do chicote do contramestre e das suas correias.

 

A jovem olha para ele, surpreendida.

 

- Ele é um pouco selvagem - explica Xighang. - E, além disso, é mudo.

 

- Deita os cabelos para a fogueira - pede ela a Xighang -, ou darão azar.

 

Enquanto o rapaz se apressa a cumprir a tarefa, a jovem avança em direcção a Dão Zhiyou, curiosa.

 

- Espera, mostra-me o que tens aí. Dir-se-ia uma tatuagem... O garoto retira rapidamente o braço, escondendo-o atrás das costas. Deixa-se ficar junto à lareira, respirando o odor do cabelo queimado. O seu mal-estar dissipa-se aos poucos.

 

- Mas, se ele não fala, o que poderá fazer por nós? - pergunta Fan-Fi.

 

- Protege-me - responde Xighang. As raparigas riem-se.

 

- É verdade! - prossegue o garoto. - Às vezes, preciso de insistir para vos trazer clientes. As pessoas, na rua, nem sempre têm tempo para estas coisas. Então, argumento, o tipo que abordei repele-me, eu insisto, ele esbofeteia-me. E, nesse momento, surpresa! O meu companheiro é muito forte, ninguém imagina, mas juro que as suas mãos são capazes de magoar.

 

Dão Zhiyou pensa muitas vezes em Tchang, o seu primeiro amigo que abandonou no campo de jasmins. Desde então, espera resgatar a sua falta ajudando os mais pequenos do que ele.

 

- Pois sim, mas nem por isso te pagaremos a dobrar!

 

- Não, está bem assim - responde Xighang com altivez, um verdadeiro chefe de grupo.

 

- Enfim, Fan-Fi, dá-lhes aquilo a que têm direito.

 

Fan-Fi retira de um pequeno cofre de laca preta várias notas que entrega a Xighang. O rapaz conta-as lentamente.

 

Dão Zhiyou troca um longo olhar com a cortesã, que começa a enrolar a cabeleira no alto da cabeça. A rapariga parece-lhe pouco mais alta do que ele.

 

- Ainda precisamos de nos preparar. Mexam-se, desapareçam, temos trabalho! - ordena Fan-Fi, empurrando-os para a porta.

 

A CORTESÃ

As últimas planícies que Marco, Ai Xue e Shayabami atravessam estão repletas de arrozais onde trabalham camponeses, ’’de cabeça coberta por grandes chapéus de palha.

 

Ao longe, a tranquila imobilidade de um lago azul apazigua o olhar. O telhado dourado dos pagodes reflecte o brilho da luz irisada do poente. A planície é ondulada por colinas que envolvem a cidade num resguardo verdejante. Desdobram-se à sua volta, deseInhando um vasto jardim. Do outro lado, corre tranquilamente um pio, alargando-se num estuário até ao mar. A cidade é cercada por pmuralhas que formam um grande rectângulo. Estas muralhas, com uma altura de cinco homens, são feitas de pedras empilhadas, cobertas de tijolos e depois caiadas.

 

Vista de longe, parece a maior cidade do mundo, com os seus numerosos bairros extramuros, espalhados pela planície; alguns deles são maiores do que Veneza. É possível caminhar seis ou sete dias sem sair da cidade.

 

- O lago é artificial - explica Ai Xue. - Há centenas de anos, construíram um dique que retém as águas das montanhas mais próximas.

 

- Como sabes tudo isso?

 

- Nasci aqui, em Hangchou - recorda o médico, abrindo-se num sorriso franco. - Estou no meu elemento. As muralhas são atravessadas por treze portas monumentais que servem as grandes avenidas da cidade e por cinco portas que dão passagem aos canais.

 

- Aos canais? - pergunta Marco, intrigado. - Hangchou tem canais ?

 

- Mais do que alguma vez viste!

 

Marco sorri ante a ideia de descobrir, a milhares de léguas de Veneza, uma cidade gémea. Impaciente, chicoteia o cavalo.

 

Penetram na cidade pelo lado oeste, passando por baixo de arcos encimados por pavilhões. A leste, mais vulnerável, as portas são enquadradas por obras de defesa avançadas. A entrada na cidade é dificultada pelo número de carroças, de cavalos, de burros e de carregadores que ultrapassam a capacidade das portas. Demoram uma boa hora a transpor a muralha, depois de terem ouvido injúrias e ameaças dos mais apressados.

 

Começam por percorrer as margens do rio, muito bem calcetadas por grandes lajes.

 

- Estas lajes são suficientes para lutar contra a corrente e as marés que dantes inundavam as margens.

 

A limpidez da água surpreende Marco. Ai Xue explica-lhe que as imundícies são arrastadas para o oceano por canais mais estreitos.

 

Homens de pé na popa de uma embarcação manobram com a ajuda de uma vara ou de um remo, como os gondoleiros de Veneza. Os cais são protegidos por muros baixos rasgados por uma porta em cada embarcadouro.

 

Barcos monumentais transbordam de madeira, carvão, tijolos, telhas, sacos de sal. Navios providos de múltiplas rodas de pás accionadas por um cabrestante de cilindro circulam pelos canais, cruzam-se, carregados de toda a espécie de mercadorias. Alguns deles servem de domicílio a famílias inteiras. São os marinheiros que cozinham - acredita-se que os homens transmitem melhor energia aos alimentos.

 

- Que quantidade de arroz!

 

- Aqui, há arroz para todos os gostos. Arroz temporão, arroz serôdio, arroz pelado de Inverno, arroz de espiga amarela, de caule longo e curto, arroz glutinoso, arroz vermelho...

 

- Holàl Mesmo na corte, nunca vi tantas variedades. Que diferença fazem umas das outras? Não é simplesmente arroz?

 

- Verás por ti mesmo. A tua insaciável curiosidade será satisfeita.

 

Passam mais barcos, carregados de passageiros que conversam alto e bom som. Uma mulher estende a roupa que acabou de lavar no canal. Uma enfiada de crianças esfarrapadas brincam na ponte do barco rindo e fazendo uma roda em volta do avô, sentado numa velha esteira como um monte de roupa ali abandonado. À passagem de Marco, os garotos interrompem a brincadeira e observam-no atentamente, numa mistura de medo e fascínio. Trocam segredos; os mais pequenos escondem-se atrás dos mais crescidos mas, ainda mais curiosos do que eles, metem a cabeça pelo meio das pernas dos mais velhos para poderem espreitar o estrangeiro.

 

- Lembra-te de que os Mongóis só conquistaram a cidade há três anos. Não te surpreendas por não seres calorosamente recebido - adverte Ai Xue. - Hangchou é a antiga Cidade Imperial!

 

Chegam à Via Imperial, larga avenida cortada em ângulo recto por ruas mais modestas. Os cascos dos cavalos ressoam nas lajes de pedra e tijolo. Ao meio, a via é coberta por saibro.

 

- Por baixo dos pés dos transeuntes, um canal subterrâneo evacua as águas da chuva, a fim de que as ruas nunca se encontrem inundadas e se lavem por si próprias.

 

- Muito engenhoso. Hangchou não se assemelha a nenhuma outra cidade.

 

- É verdade - admite Ai Xue, vaidoso. - O seu traçado forma uma quadrícula, como um tabuleiro do jogo de go.

 

Ai Xue conduz Marco através das ruelas animadas da cidade. As pessoas, mulheres, crianças e velhos, acotovelam-se sem distinção de classe ou de idade. Os cotovelos são uma arma de combate. Alguns habitantes chegam ao ponto de ensinar os burros a distribuir patadas em momentos oportunos.

 

- Na cidade, habitam cento e noventa mil famílias.

 

Deslumbrado, Marco descobre uma cidade inteiramente edificada, onde as casas têm pelo menos cinco andares. Surpreende-o que sejam feitas unicamente de madeira e bambu. Nenhum vestígio de terreno descampado, horta ou jardim. As habitações estão pegadas umas às outras como numa colmeia, unidas entre si pelo telhado. Nos bairros ricos do sul, imperam quiosques no meio de magníficos parques.

 

Pelo entrelaçado de canais, Hangchou recorda Veneza, na opinião de Marco. Mas é uma cidade à imagem da China: desmedida. Os cursos de água são tão largos e as pontes tão altas que os verdadeiros navios de alto mar podem penetrar na cidade. Ao contrário de Veneza, as ruas são pavimentadas, apresentando declives de escoamento para os dias de chuva. De coração oprimido, Marco deixa-se dominar por recordações nostálgicas.

 

- Encontramo-nos na Cidade do Céu - sussurra Ai Xue, orgulhoso.

 

Marco descobre-lhe no olhar um brilho que nunca lhe vira.

 

- Eu diria antes na Cidade da Água.

 

- Espere pela chegada ao Paraíso e não quererá sair de lá. O antigo palácio imperial encontra-se no sul da cidade. É também aí que se situam os bairros ricos, do lado da colina dos Dez Mil Pinheiros. Ainda mais a sul, em direcção ao monte dos Fénix, instalaram-se ricos mercadores, em particular os que negoceiam por mar. Em suma, gente como o senhor, de algum modo.

 

Marco, habituado aos vastos espaços das estepes e planícies do império, reencontra com surpreendente familiaridade a penumbra das ruas estreitas de Hangchou. O céu, ainda há pouco uma imensa extensão de um lado ao outro do horizonte, recorta-se agora em estreitas faixas por cima das suas cabeças, entalado entre duas filas de telhados, tão próximas que parecem querer fundir-se numa única.

 

Os carregadores transportam as mercadorias às costas, vergados sob o seu peso. Manejam o chicote com grande habilidade, fazendo rodopiar o longo caule de bambu quando precisam de abordar um trajecto delicado. Os fardos são de vime ou constituídos por um simples pedaço de tecido atado nas pontas. Os artífices afadigam-se, barbeiros, astrólogos, vendedores de arroz ou de água quente. Os curiosos param para melhor observar o trabalho minucioso de um barbeiro que corta o cabelo dos clientes com uma habilidade surpreendente. Um artesão repara marmitas.

 

- A norte, por detrás da Via Imperial, encontram-se os bairros pobres.

 

Todas as casas ostentam na fachada exterior tabuletas onde se encontram gravados os nomes dos ocupantes.

 

- Como vê, os habitantes respeitaram cabalmente o edicto do Grão Cão - observa Ai Xue, apontando para as famosas tabuletas, afixadas nas paredes por cima de cada porta. - Quando pretende começar?

 

- Imediatamente.

 

As casas, muito diferentes das amplas residências dos ricos, apresentam fachadas muito estreitas voltadas para a rua, mas prolongam-se por pátios exíguos. O rés-do-chão é geralmente ocupado por lojas de artífices ou comerciantes. Os vendedores de massas estendem exageradamente a sua mercadoria, verdadeiras teias de aranha. Vêem-se operários que, por encomenda, engorduram papel destinado às janelas. As lojas de incenso, de velas e de óleo de soja espalham os respectivos aromas pelas ruelas mais estreitas. Criadores de peças literárias, copistas, ”conhecedores de livros” debruçam-se sobre o trabalho.

 

Ai Xue aproxima-se mais uma vez da lista de nomes por cima da porta e, após uma leitura atenta, abana a cabeça.

 

- Nenhum Dão Zhiyou.

 

Decorridas várias horas, Ai Xue mostra-se cansado, Shayabami suspira, Marco impacienta-se.

 

- Como lhe disse, Senhor Polo, os proprietários podem não ter inscrito o nome do rapaz.

 

Animadores de rua reúnem uma multidão de curiosos que

 

atravancam ainda mais uma passagem. Um malabarista encontra-se mesmo ao lado de um manipulador de fantoches, não muito longe de um espectáculo de sombras chinesas em frente do qual Marco se detém, fascinado pela habilidade do artista.

 

O homem, deleitado, recolhe muito dinheiro, para além das aclamações da multidão. Algumas pessoas dão-lhe mesmo rolos de sapecas, antiga moeda anterior à conquista mongol. As moedas furadas são enfiadas num cordel, formando um verdadeiro colar. Orgulhoso, o artista pendura-o ao pescoço e agradece à multidão com um grande sorriso, curvado pelo peso das moedas.

 

Um dos animadores aproximou-se de Ai Xue, a quem faz uma vénia. Conversam em voz baixa e depois o homem afasta-se.

 

- Os nossos homens não descobriram nada - diz Ai Xue a Marco. - Sugerem-nos os hospícios que recolhem as crianças abandonadas.

 

No dia seguinte, o veneziano, numa demonstração de piedade pelo velho escravo, deixa-o no albergue. Aí Xue e Marco visitam sozinhos os três hospícios da cidade, onde são acolhidas as crianças encontradas na rua. Poeirentos, os corredores sombrios abrem para um pátio interior onde brincam crianças de todas as idades, com a brutalidade habitual na idade da inocência. Quando vêem surgir Marco à entrada da porta, todas se imobilizam, estupefactas tanto pela sua amabilidade quanto pela sua fisionomia.

 

Obedecendo ao director do hospício, exibem, por vezes timidamente, o antebraço. Marco examina-os com atenção. Meneia a cabeça, decepcionado.

 

- Pode levar quem quiser, meu senhor, são todos bons trabalhadores e gozam de boa saúde.

 

Mas, ainda Ai Xue não acabou de traduzir e já Marco se despede do interlocutor, abandonando o pátio. O médico chinês junta-se ao veneziano, já na rua.

 

- Ai Xue, começo a pensar que nunca o encontraremos.

 

- Não desespere, a cidade é muito grande.

 

- O império também. Porquê aqui e não em qualquer outro sítio?

 

- Foi o que os astros revelaram na montanha do Tian Shan.

 

- E por que lhes hei-de atribuir mais credibilidade do que à Madona?

 

- O senhor rezou à sua deusa? Marco solta uma gargalhada.

 

- Pois com certeza! À minha deusa.’

 

- Nesse caso, não deve preocupar-se. Encontrá-lo-emos.

 

Em frente do hospício, instalou-se um velho que cozinha num fogareiro legumes e pedaços de carne. O odor chega-lhes às narinas.

 

- Senhor Polo, o meu estômago pede clemência. Não comemos nada, depois da pasta desta manhã.

 

- Tens razão.

 

- Então venha, conheço um albergue onde seremos servidos como mandarins.

 

Passam diante de um pagode em cuja tabuleta se desenha uma grande concha de sopa. Ai Xue desaconselha o albergue a Marco, explicando-lhe que não serão bem servidos. Chegam, por fim, à porta principal do Tigre Flamejante. Por baixo da arcada, metade de um porco assa num espeto. Impaciente, Marco penetra imediatamente no estabelecimento. Ai Xue avança, por sua vez.

 

- Confie em mim - diz ele.

 

A vasta sala está ricamente decorada de cores vivas, vermelho e verde, rodeada de gabinetes íntimos. O patrão lança-lhes um olhar entendido e propõe-se isolá-los. Mas Marco prefere permanecer no meio dos outros clientes. Escolhe uma mesa do fundo que lhe permite uma visão de conjunto sobre a sala. Cada cliente tem direito a um papel enrolado enfeitado com bonitas iluminuras. Marco limita-se a examinar atentamente os caracteres caligráficos.

 

- É a lista dos pratos.

 

- Estás a dizer-me que podemos escolher? - pergunta Marco, espantado.

 

Ai Xue sorri.

 

- Estamos em Hangchou!

 

- Decide por mim.

 

- Proponho que comecemos por pasta de casulos de bicho-da-seda e por pasta de camarão - sugere Ai Xue. - Em seguida, peixe com gengibre almiscarado e porco com rebentos de bambu silvestre. Terminaremos com frutos secos, laranja e tangerina cristalizadas.

 

O dono do albergue aproxima-se, deferente. Ai Xue explica-lhe:

 

- O peixe, cru e gelado. O porco, assado mas não queimado. E as pastas, ao natural para mim e com molho para este senhor. Traga-nos também arroz dourado, arroz velho e arroz com sementes de lótus vermelho.

 

O homem toma nota da encomenda de outra mesa e, depois, dirige-se para a cozinha, onde repete, cantando, a lista dos pratos.

 

Um mensageiro mongol entra no restaurante. Examina os numerosos clientes e, depois, precipita-se e ajoelha-se diante de Marco.

 

- É o Senhor Marco Polo?

 

- Sou.

 

- Uma mensagem de Yangchou, Senhor Polo.

 

Marco abre o sobrescrito, pensando que lhe é impossível passar despercebido. Reconhece imediatamente o sinete do pai. Níccolo por preguiça mas com certeza também por apreciar o luxo, mandou confeccionar um sinete com o seu número, à moda mongol De facto, os Mongóis, na sua maioria analfabetos, ditam as mensagens e descobriram esta maneira prática de as assinar.

 

Marco percorre rapidamente a carta.

 

- Ele dá-me a honra de aceitar o cargo de governador de Yangchou durante a minha ausência. Grande tratante! Evidentemente! Não estava em condições de recusar.

 

- São um pai e um filho muito complicados.

 

- Digamos que carecemos os dois de prática...

 

O estalajadeiro vem falar-lhes, todo mesuras. Dirige-se a Ai Xue com entusiasmo.

 

- O patrão convida-nos a tomar chá numa casa que ele conhece bem e onde encontraremos uma especialidade de Hangchou que lhe pode interessar e ajudá-lo a libertar as energias.

 

Marco ri-se, nervoso, pensando numa brincadeira.

 

- Meu caro Ai Xue, receio que não me baste um chá ou, então, será necessário acrescentar-lhe qualquer outra beberragem!

 

Ai Xue sorri, misterioso.

 

- O senhor conhece o chá, eu sei. Mas conhecerá as casas de chá?

 

- Lamento que não possas trabalhar connosco. Para os garotos como eu e tu, é o que há de mais rentável.

 

No bairro da Doce Harmonia, Dão Zhiyou e Xighang, já na rua, continuam encostados à porta encimada por um lampião colorido envolto em bambu. Brilha como um sol na noite.

 

- Então, esperas-me aqui?

 

Dão Zhiyou aquiesce, acenando com a cabeça. Esconde-se atrás de uma coluna de cestos.

 

Xighang acena-lhe em jeito de despedida e começa a deambular pelo meio da rua como se esperasse alguém. Passa um grupo de cinco homens, iluminados por uma lanterna empunhada por um Ideies. O garoto precipita-se, sorrindo abertamente. Saltitando a seu liado, recita-lhes a ladainha com um entusiasmo ditado pelo estômago vazio. Quando os vê parar, conversar, sente que está ganha a partida. Resta encaminhá-los. De facto, eles seguem o garoto e desaparecem debaixo de um alpendre.

 

Dão espera muito tempo pelo companheiro. Este acaba por aparecer, com o rosto iluminado por um grande sorriso. Sempre a saltitar, aproxima-se de Dão, que sai do esconderijo.

 

- Subiram todos, olha!

 

Deleitado, Xighang entreabre a camisa e mostra as notas que embolsou. Dão sorri, partilhando a alegria do amigo.

 

- Espera! Olha para aqueles dois, vou falar com eles!

 

 No sossego da noite, dois homens cavalgando pelo meio da rua despertam todas as atenções. Um deles, chinês, tem o rosto desfigurado e as mãos deformadas de todos os que foram torturados pelos Mongóis. O seu sorriso, quase inacreditável, suscita o fascínio e ao mesmo tempo a repulsa. Mais estranho ainda é o outro cavaleiro. Dão Zhiyou nunca viu nada semelhante. Tem os olhos surpreendentemente redondos e claros. O cabelo, apanhado na nuca, enrola-se como os caules de jasmim. Tem um grande nariz e a pele da cor do giz, o que lhe confere o aspecto de um doente. Usa uma barba curta mas farta e um bigode de pêlos rijos. Apesar do traje, Dão tem a certeza de que o homem não é mongol. Sem saber porquê, o coração começou a pulsar-lhe violentamente no peito. Domina-o uma sensação de familiaridade. Subitamente, recorda-se e reconhece o médico itinerante, o que curou a gangrena. Foi numa outra vida.

 

Procura reter o amigo. Mas este já foi no encalço das próximas presas. Dão regressa ao esconderijo. Enrosca-se como se quisesse desaparecer no fundo da terra.

 

- Não te canses, rapaz - diz Ai Xue.

 

- Eu só quero conduzi-los ao Paraíso, meu Senhor!- prossegue o garoto.

 

- Sabemos para onde vamos!

 

Marco e Ai Xue apeiam-se das montadas, que confiam ao criado postado em frente da casa.

 

- Mas era para aí que eu os queria levar! - exclama o rapaz, ultrajado e tão decepcionado que sente as lágrimas a arder nos olhos.

 

- Como vês, não precisámos de ti.

 

- Deixem-me acompanhá-los, por favor! Rodopia em volta dos dois homens, febril.

 

- Quem te paga, os clientes ou a casa?

 

- A casa.

 

- Não te preocupes, diremos que foste tu que nos indicaste o caminho - disse Ai Xue, dirigindo um aceno amigável ao rapaz.

 

Quando os dois homens desapareceram debaixo do alpendre, Xighang correu para junto de Dão, abanando a cabeça.

 

- Não ganhei nada, o que não me surpreende, era um membro do Lotus Branco. Lembras-te, os homens que vieram há dias?

 

Sem responder, Dão aperta com força o pulso do companheiro e torce-lhe o braço nas costas. O rapaz abafa um grito e ajoelha-se, gemendo.

 

- Está quieto! Por que procedes assim?!

 

Dão Zhiyou apalpa o companheiro e encontra uma valiosa carteira de pele de leão. Vira-a e revira-a, examinando-a de perto. Dentro da carteira, muitas notas perfeitamente novas.

 

- Juro-te que não ia guardá-la só para mim.

 

Dão Zhiyou dá uma palmadinha amigável e protectora nas costas do amigo. Partilha o espólio e guarda a carteira.

 

Ai Xue precede Marco na porta estreita e suja. Percorrem um corredor malcheiroso que desemboca num pátio. Por detrás da lama, o veneziano julga adivinhar o paraíso escondido. O pátio quadrado comunica com galerias cobertas. Árvores anãs formam um jardim harmonioso de pinheiros e ciprestes. Os varandins são pintados de púrpura e verde, encimados por persianas nos mesmos tons. Das balaustradas descem cascatas coloridas de cachos de flores. O pátio é iluminado por lampiões de papel de arroz vermelhos e dourados. Debaixo das colunas, um entrelaçado de canas de bambu sustenta poleiros onde imperam papagaios de diferentes cores. Dentro de gaiolas, cantam passarinhos, acolhendo os visitantes.

 

Pelas galerias, deslizam silhuetas, de pernas moldadas pelas longas saias justas. As cabeleiras penteadas ao alto revelam nucas graciosas. Os cabelos são ornamentados de pérolas e pedras cintilantes. Os vestidos de seda cingem os corpos deixando ver, a cada passo, os pés minúsculos, enfaixados por baixo das meias e prolongando-se em pernas finas.

 

- Parecem... fadas - murmura Marco, deliciado.

 

- Aproxime-se e verá que são mesmo de carne e osso.

 

Cativantes sorrisos convidam os recém-chegados a entrar. Atravessam o limiar da porta e sentem-se logo envolvidos pelo rumor das conversas e pelo canto das raparigas que tocam instrumentos de música para distrair os homens. As recepcionistas escoltam-nos, enquanto falam com eles.

 

- Estão a oferecer-lhe uma bebida. Não aceite nada sem falar comigo - adverte Ai Xue.

 

Lá dentro, os olhos de Marco não são suficientemente grandes para absorver tudo o que descobre. As flores magníficas, orquídeas, flores de lótus, rosas, emolduram perfeitamente as pinturas e caligrafias em papel de arroz que ornamentam as paredes, desvendando segredos que o veneziano não compreende. Jovens de sorrisos avermelhados por uma camada de laca balançam-se em banquinhos redondos de pés em forma de vírgula. No meio das salas, encontram-se dispostas escalfetas transportáveis, cheias de brasas e carvão, como as fogueiras das tendas mongóis.

 

- Em Hangchou, pode encontrar raparigas como nunca imaginou. Em qualquer outro sítio, pousar os olhos nelas seria um crime. Mas, aqui, trata-se de uma indústria que outrora foi organizada pelo Estado. Ainda há três anos, antes dos Mongóis, no tempo da dinastia dos Song do Sul, este bordel pertencia ao Estado.

 

- As raparigas entregavam os lucros ao Império? Ai Xue arrota discretamente.

 

- Era uma boa fonte de rendimentos. Como o monopólio do sal, do álcool, do chá e do incenso. Mas não sei muito bem o que tencionam fazer os Mongóis.

 

- Estás a tentar sondar-me? Ai Xue limita-se a sorrir.

 

- Há tantas raparigas que não podem concentrá-las num só bairro. Estão espalhadas por toda a cidade. São dotadas de grande talento e sabem adivinhar os gostos dos clientes, tanto dos chineses como dos estrangeiros. Não têm nenhuma preferência. São elas que ensinam os homens que passam por Hangchou a dizer que visitaram a Cidade do Céu e que só aspiram a regressar. Um conselho, porém: nunca as olhe nos olhos. São verdadeiras feiticeiras. Deixá-lo-iam subjugado.

 

Proferiu estas últimas palavras com frieza.

 

Cadeiras de bambu oferecem os seus braços confortáveis. Marco deixa-se conduzir por uma jovem beldade sorridente. Ai Xue escolhe uma cadeira de pernas cruzadas em X.

 

- Sabe como chamam, aqui, a estas cadeiras? - pergunta ele a Marco, rejubilando de riso. - Cadeiras ”bárbaras”.

 

Ai Xue não precisa de assinalar a sua presença. Aproxima-se imediatamente uma criada, trazendo nos braços um tabuleiro de laca. Debruça-se para oferecer fritos doces. É no momento em que se apodera de uma guloseima que Marco se apercebe de que a rapariga traz os seios destapados. Surpreendido e perturbado, deixa cair a doçaria no tabuleiro. A rapariga abafa uma gargalhada com a mão.

 

- Aqui, serve-se o melhor chá da cidade - vangloria-se Ai Xue. - Chá dos tesouros, chá da floresta dos perfumes ou chá das nuvens brancas. Não se deixe tentar pelo chá do dragão preto, não é para os estrangeiros. E, aqui, temos a certeza de que utilizam a melhor água, a do orvalho dos campos.

 

Marco vislumbra os pequenos rolos de chá, manchas escuras nos tabuleiros de laca vermelha.

 

- Se preferir, a casa fabrica uma aguardente de flores de ameixeira que é uma delícia. Ponha-se à vontade, está um dia muito quente. E não se preocupe se sentir alguma indisposição, eu estarei presente.

 

Numa primeira fase, Marco opta por um chá de citrinos e violeta. Ai Xue prefere uma aguardente de medronho, servida numa taça de prata. Quatro jovens envergando vestidos compridos de seda com rachas laterais que sobem até às coxas acorrem transportando uma mesinha baixa, cujas pernas finas e bem torneadas parecem tão elegantes quanto as das raparigas que a instalam. As jovens ajoelham-se. Uma delas vigia a água que aquece na chaleira, em cima de um fogareiro a carvão que ela atiça com um abanador. Entretanto, uma companheira destaca algumas folhas de chá de um rolinho e malaxa-as nas palmas das mãos. Em seguida, a terceira rapariga passa-as por um crivo antes de as lançar na chaleira, na qual verte água quente. A quarta estende a taça vazia enquanto a terceira serve o chá com a ajuda de uma concha de sopa. É a última que oferece a Marco, num pires, a taça sem asa e coberta por uma pequena tampa. De joelhos, aguarda que ele se apodere da taça. Ai Xue segreda ao ouvido de Marco:

 

- Habitualmente, estes preparativos são feitos na cozinha. Mas desta vez, em sua honra, prestam-se ao espectáculo. É assim que se serve o chá em Hangchou. Uma delas ficará a seu lado enquanto não beber o chá.

 

- E suponho que, como é costume, é de bom-tom que vá para ela a minha preferência. Sendo todas igualmente bonitas, posso deixar-me seduzir.

 

Ai Xue meneia a cabeça.

 

- Não, aguarde um pouco antes de escolher, Senhor Polo.

 

Confie em mim...

 

Enquanto espera, Marco aprecia a qualidade da porcelana, fina, transparente. Observa com uma certa admiração que o desenvolvimento da produção, orquestrado pelo Grão Cão, dá frutos mesmo em Hangchou. Saboreia vários ovos de codorniz conservados no fumeiro com um delicado aroma de plantas.

 

Se bem que fale mongol, Ai Xue sussurra de modo a ser ouvido unicamente por Marco:

 

- Permita que seja eu a falar de dinheiro com elas. De contrário, pagará a dobrar.

 

Em seguida, Ai Xue volta-se e diz à patroa:

 

- Trata-o bem, é um emissário do Grão Cão. Tarifa especial!

- exige ele, cuspindo para o chão.

 

Uma jovem chinesa passa por eles, coxeando. Tem um dos pés muito pequeno, envolto em faixas como o das companheiras, mas o outro desenvolveu-se normalmente.

 

- Os banhos situam-se nas traseiras. Nós estamos habituados à água fria. Mas também os há de água quente, para os estrangeiros.

 

- Para os maometanos?

 

- Sim. E também para estrangeiros como o senhor. Para todos os que desejem ser massajados por uma serva jovem e bonita enquanto bebem uma taça de chá. Mas hoje é o dia do rato. Não é bom para o banho.

 

- É uma pena - lamenta Marco, lançando olhares a uma flor da casa.

 

A patroa aproxima-se deles e fala em chinês a Ai Xue. Este aquiesce com a cabeça, antes de se debruçar sobre Marco:

 

- Olhe para aquela, como lhe parece?

 

Marco segue o gesto do chinês. A sua atenção prende-se imediatamente numa mulher esbelta e elegante. Moldada por um vestido de seda de um vermelho laçado, a sua silhueta é desenhada por um único traço, dos pés minúsculos até ao penteado, esticado e bem apertado na nuca. Fascinado pela cintura fina, pelo cabelo preto enrolado e ornado de pérolas e flores, o olhar de Marco desliza ao longo das pernas da jovem. No tornozelo, usa uma pulseira de ouro que salienta o tamanho do pé, tão deformado que quase perdeu a primitiva forma. Ao lado do biombo bordado, a cortesã, de mão assente na anca, não tira os olhos de Marco. Procura adivinhar-lhe as feições, dissimuladas pela sombra de um lampião.

 

- É uma perita em longevidade, Senhor Polo - comenta Ai Xue. - E penso que está dentro das suas possibilidades...

 

A patroa chama a rapariga em chinês. Ela, num gesto gracioso, abre o leque de seda. Por detrás do leque, decorado com flores de lótus, só se vêem os olhos, realçados por um traço negro. Bate as pálpebras com uma borboleta nocturna. A forma dos dedos compridos e finos, o arco desenhado pelas sobrancelhas cuidadosamente pintadas, a moldura do cabelo cor de ébano parecem ter sido concebidos para estabelecer uma harmonia perfeita com o leque.

 

O veneziano contém o desejo de lho arrancar e descobrir finalmente o rosto da rapariga cujo corpo tanto promete.

 

Da subida ao andar de cima, Marco recorda o bambolear das ancas. A cortesã condu-lo a um quarto de luxuoso encanto. Biombos de papel de arroz decorados com requintadas cenas eróticas retalham o espaço do quarto numa geometria celeste. O perfume almiscarado do incenso mergulha a atmosfera numa intensa doçura. A cama de lençóis de seda é discretamente iluminada pela luz ténue de lampiões. Marco instala-se em almofadas, ao lado de uma mesa alta sobre a qual se encontra vinho de arroz e chá fumegante.

 

Acena à rapariga para que se aproxime. Ela tem o rosto tão maquilhado que parece usar uma máscara de alabastro. As sobrancelhas, totalmente depiladas, são traçadas a pincel, negras como ébano. A boca é desenhada a vermelho, redonda como um coração. E, embora sorria muito levemente, uma aliciante expressão de alegria ilumina os seus olhos brilhantes como tinta.

 

Marco sente uma vaga impressão de que aquele rosto não lhe é totalmente desconhecido.

 

A rapariga volta uma ampulheta bojuda pousada numa consola. A areia cor de ouro rosado começa a deslizar inexoravelmente.

 

- Como te chamas, minha linda?

 

- Sei o nome do meu hóspede, Senhor Polo - declara ela, naliciosa. - O senhor é uma personagem muito importante.

 

Como é hábito, a rapariga serve-lhe chá e depois aguardente de arroz.

 

- És uma feiticeira?

 

- Sim, todas as mulheres o são, de algum modo. Mas desde o início da noite que sei que a passaria na sua companhia. Fui prevenidda.

 

- Eu próprio ignorava que aqui viria.

 

Num passo oscilante, como uma orquídea no cimo do caule, avança para Marco. Ajoelha-se à frente dele, num movimento felio.

 

- Tenho uma prenda para lhe oferecer. É o meu segredo. Retira da manga um lenço de seda cuidadosamente dobrado

 

Marco abre-o delicadamente, intrigado. No meio do lenço brila uma jóia que Marco reconhece imediatamente: a medalha de Michele. Sente-se tão emocionado que lhe acodem as lágrimas aos olhos.

 

- Como é possível? - pergunta Marco, encarando atentamente a jovem.

 

- Nas montanhas do Oeste, o senhor não deixou apenas esta medalha... - declara ela como única resposta.

 

- Xiu Lan. Entrei muitas vezes no templo para queimar incenso e fazer votos de voltar a vê-la. As minhas preces foram ouvidas.

 

Xiu Lan perdeu a doçura infantil e ganhou em sensualidade sedutora. O seu tom de pele aclarou. Aprendeu a erguer o queixo com uma altivez de Amazona prestes a tornar-se senhora do seu destino. Parece muito longe da camponesa desajeitada que Marco conheceu quase três anos antes. Agora, as suas mãos bem cuidadas parecem mais finas, de unhas compridas e envernizadas. Dominado por uma intensa emoção, pendura a medalha ao pescoço e estende a mão à rapariga. Pergunta-se se Ai Xue...

 

- Permita-me que lhe leia as linhas na palma da mão, Senhor Polo.

 

Pega-lhe na mão, examina-a demoradamente, vira-a e revira-a.

 

- Esta mão conheceu muitas mulheres. Deixaram-lhe marcas impressas na pele.

 

Marco debruça-se para comprovar a sentença. De rosto impassível, a rapariga aperta a mão do estrangeiro contra si. Pousa os lábios na palma da mão, sobe ao longo do pulso, segue as veias salientes do braço até à prega do cotovelo. Marco é percorrido por um arrepio.

 

- Os teus lábios são excelentes leitores - murmura ele, de olhos semicerrados. - Como vieste aqui parar?

 

- O meu pai vendeu-me a um mercador que se dedicava ao tráfico de mulheres. Tinha eu seis anos quando esse homem foi à nossa aldeia, onde predisse que eu poderia tornar-me concubina. O meu pai gostaria de que eu fosse sua concubina, Senhor Marco. Depois da sua passagem pela nossa aldeia, vendeu-me a esse mercador por um preço elevado. Desde então, tenho alimentado a esperança de voltar a vê-lo. Acariciava a jóia que o senhor perdeu. Nunca me furtei aos meus deveres e, à aprendizagem do meu ofício, seguiu-se a paixão de um dia lhe poder agradar. Era sempre eu a mais decidida quando surgia uma exigência especial, aqui em casa. De tal modo que me tornei perita na arte dos jogos das nuvens e da chuva. E, se bem que um vento primaveril, ardente, tenha soprado durante muito tempo no céu das minhas noites, as nuvens nunca me trouxeram chuva. Agora que o vejo à minha frente, o meu coração pulsa dentro do meu peito como um passarinho prestes a lançar-se no primeiro voo. Se falhasse, cairia aos pés da árvore e seria devorado, longe do ninho, por uma raposa sempre à espreita. É por isso que vou adiando o momento em que o pássaro ainda tem a esperança de poder voar como um magnífico flamingo, desdobrando as asas com majestade, dominando o vento e abraçando o ar.

 

- Não me recordava de tamanha eloquência!

 

- Eu não sabia mongol, e ignorava a arte de fazer poemas. E nada conhecia dos outros jogos.

 

- Vem - ordena Marco.

 

Preferindo esquivar-se, a rapariga levanta-se e dirige-se para uma caixa da qual retira um baralho de cartas que oferece a Marco. As cartas representam cenas sugestivas deveras eloquentes. O veneziano, cioso, examina-as uma a uma. Todas exibem uma legenda, como ”o caule de jade bate à porta”, ”forjar a espada na bainha escarlate”, ”o ceptro de jade entre as cordas do alaúde” ou ainda ”o salto do tigre branco”.

 

- Está escrito em mongol - surpreende-se Marco.

 

- Também existe em chinês - explica ela. - Escolha uma carta ao acaso, Senhor Polo.

 

A rapariga tira-lhe as cartas da mão e baralha-as com perícia. Depois, espalha-as à frente dele. Marco hesita por uns momentos, mergulhando o olhar no da jovem. Impassível esta aguarda, sorrindo. Marco decide-se e retira a carta denominada ”a borboleta suga o néctar da flor”.

 

- Instale-se, Senhor Polo - murmura ela numa voz lasciva. Abandonando-se aos vapores da aguardente de arroz, Marco delicia-se perante o espectáculo da cortesã, moldada pelo vestido de seda que lhe desenha as pernas bem torneadas, da caligrafia da sua silhueta, cheia de grossos e finos. O vestido abre-se numa racha impudica, revelando as longas e elegantes coxas que apelam ao ultraje. Xiu Lan desaperta o vestido. É um mundo novo que se abre diante de Marco. Parece-lhe mesmo que a rapariga cresceu. Os seios arredondaram-se. A mais bela das jóias resplandece, finalmente liberta dos tecidos que a envolviam. Com a força de uma arte experimentada, Xiu Lan entrega-se a uma desnudação sabiamente doseada entre pudor e indecência. Deixa deslizar a estola ao longo do braço, acaba de desapertar os laços do vestido que lhe cai aos pés. Conserva apenas as meias de seda bordada, presas a meio da barriga da perna por uma fita e que se dobram até deixar apenas a descoberto a ponta dos pés. Por fim, oferece-se, orquídea longilínea de coração rosa-chá e pétalas de uma brancura e de uma transparência magníficas.

 

Impaciente, Marco levanta-se, de olhos brilhantes. Pega nos pulsos da rapariga e aperta-a contra si. Debruça-se sobre ela e, brutal, beija-lhe os seios, de mamilos pintados de vermelho.

 

- Espere - diz ela, repelindo-o suavemente.

 

Xiu Lan liberta-se do amplexo. Graciosa, baralha de novo as cartas.

 

- Na última vez, Senhor Polo, esqueceu-se do meu presente, como estava combinado.

 

- Deixei-te um cuja recordação conservaste na carne - disse ele, numa voz rouca.

 

Marco avança para ela, pronto para a estreitar nos braços. A rapariga esconde-se atrás das cartas, abrindo-as em leque. Suspirando, Marco recua e decide-se a tirar mais uma.

 

- Agora, é demasiado tarde, Senhor Polo. O presente que me deres terá de ser entregue à patroa. Se fosse livre, seria diferente...

 

- E que terás de fazer para seres livre? - pergunta Marco, que não se deixa enganar.

 

- Se tivesse uma casa onde pudesse recebê-lo e servi-lo, Senhor Polo...

 

Impaciente, Marco aperta a cabeça da rapariga nas mãos cruzadas em volta do seu cabelo preto e comprime a boca contra a dela. Com a língua força-lhe os lábios aveludados, afasta-lhe os dentes brilhantes, incha-lhe as faces. Atordoada, Xiu Lan mal consegue respirar.

 

Subitamente, batem à porta. Marco volta a cabeça. Por detrás do papel de arroz, surge uma silhueta em contraluz. Uma rapariguinha muito jovem empurra a porta e espreita pela abertura. Xiu Lan afasta-se e esconde-se atrás de um biombo decorado com fénix.

 

- Senhor Polo, um mensageiro à sua procura...

 

A serva volta-se para trás e acena com a mão. Ouve-se um passo pesado nos degraus da escada. O mensageiro bate à porta, aguarda a resposta de Marco e depois penetra no quarto.

 

Ajoelha-se para lhe entregar uma mensagem lacrada. O veneziano desdobra a carta.

 

Meu pequeno Marco,

 

Cuhlai Cão felicita-te pela acção desenvolvida em Yangchou. Agora, chama-te à corte sem mais demoras. Conheces a impaciência do imperador. Apressa-te, por favor, a louvar o nome daquele que será sempre teu pai, com muita honra,

 

Niccolo Polo

 

Marco imagina o orgulho do pai por ter escrito pelo seu punho a mensagem, graças aos óculos.

 

Nasce o dia na casa de chá agora deserta. As criadas já lavaram os banhos, a esta hora reservados às cortesãs. Após uma noite de trabalho, todas cuidam de si. O eco das suas animadas conversas repercute-se pelos ladrilhos das salas. Ouvem-se risos pelos cantos, algumas lágrimas, por vezes.

 

Xiu Lan retira uma após outra as jóias que traz e guarda-as numa caixa de madeira lacada, que uma criada vem depois recolher para a depositar, juntamente com as outras, num quarto fechado à chave; restituí-las-á à noite.

 

Xiu Lan liberta a cabeleira de travessas e ganchos e desenrola as longas madeixas pretas. Fan-Fi verte na palma da mão um pouco do óleo contido num frasco de porcelana e espalha-o pelo cabelo da companheira, madeixa após madeixa, a fim de lhe reavivar o brilho.

 

- Por vezes, pergunto-me que sensação terá uma esposa, pertença de um só homem - murmura Fan-Fi. - Chego a invejá-las, mesmo às concubinas. Deve ser repousante, partilhar um homem com outras mulheres.

 

- Sim, mas serias escrava de um só amo - observa Xiu Lan, elevando a voz para dominar o burburinho.

 

- E assim sou-o de vários! - exclama ela. - Os erros da nossa vida passada valeram-nos renascer mulheres e sermos condenadas a esta vida de reclusão perpétua.

 

- Ainda assim, és mais livre do que se fosses mulher de um mercador ou de um funcionário que te confiasse as suas concubinas cuja fidelidade terias de vigiar, bem como o enfaixamento dos pés. E que te sovaria até à morte, se lhe desse prazer, sem incorrer na mínima sanção. Nós, pelo menos, sabemos que, se formos assassinadas, o culpado será punido.

 

Xiu Lan retira a maquilhagem servindo-se de uma grande quantidade de água. Chegou o momento de passar ao resto do corpo. Esfrega suavemente cada parcela de pele. Pode finalmente despir-se, pela primeira vez em toda a noite, apagar a camada de pó e de pinturas que a protegem para que a mácula do corpo a corpo, que nunca conseguiu suportar, escorra sobre ela sem deixar rasto.

 

Xiu Lan pega num espelho de metal polido e observa o rosto nu. Furtivamente, reencontra os traços da criança que foi. Mas, à noite, o seu rosto volta a assemelhar-se ao de Fan-Fi. É a tradição da casa de chá. De facto, a patroa exige que todas as raparigas se maquilhem de forma semelhante, exibindo o mesmo aspecto afável e sofisticado diante de todos os clientes. Com grande atenção, certifica-se de que as sobrancelhas estão bem depiladas.

 

Fan-Fi esmaga cuidadosamente uma mistura de alume e de folhas de balsamina vermelha. Em seguida, esfrega as unhas já cor-de-rosa escuro. Todas as semanas aplica o mesmo tratamento à cor das unhas.

 

- Agradaste ao estrangeiro. Foi o teu único cliente da noite.

 

- Se quisesse, poderia ter partido com ele. Tornar-me-ia sua concubina.

 

Terminado o banho, Xiu Lan recomeça a enfaixar os pés. São tão pequenos que constituem uma das melhores atracções da casa. Esforça-se por que não beneficiem por longos períodos deste alívio. Aperta a seda branca de tal modo que as biqueiras pareçam afiadas como os crescentes da lua.

 

- E o que te impediu? - pergunta Fan-Fi, com uma ponta de inveja.

 

- Tenho ideias melhores, tanto para ele como para mim.

 

A meia voz, prossegue:

 

- Sempre disse que não ficaria aqui. Mantenho a minha palavra.

 

- Por quem te tomas? Devias sentir-te honrada por trabalhares numa casa da antiga Cidade Imperial.

 

- O império mudou de campo. O que eu quero é aproximar-me do Grão Cão - insiste Xiu Lan, determinada.

 

- Um mongol!

 

- É o imperador...

 

Uma criada corre para Xiu Lan:

 

- A patroa chama-a! Depressa!

 

Ajudada por Fan-Fi, Xiu Lan acaba de se vestir, pendurando os brincos de vidro nas orelhas enquanto caminha.

 

De sorriso nos lábios, dirige-se apressadamente ao gabinete particular, com certeza para receber felicitações da patroa. Xiu Lan penetra no antro mergulhado na escuridão. As cortinas de papel de arroz estão sempre corridas. Ao fundo do quarto, recorta-se a silhueta de um homem.

 

- Entra e fecha a porta - ordena a voz. A rapariga obedece.

 

- Aproxima-te.

 

Xiu Lan avança a passos curtos, de olhos arregalados na penumbra. Encontra-se a escassas polegadas do homem quando este a chicoteia no rosto. Cai no chão, surpreendida e atordoada pela violência da pancada.

 

- O estrangeiro! O emissário do Grão Cão! Por que não lhe falaste do garoto? Não foi o que a patroa te ordenou?

 

A fúria do desconhecido é tão grande que a rapariga permanece muda de estupefacção.

 

- Devia ter-me ocupado pessoalmente de ti! Se ao menos tivesse podido deixá-lo sozinho...

 

Apesar da escuridão, Xiu Lan adivinha o rosto terrivelmente desfigurado do homem.

 

Lembra-se perfeitamente de que a patroa lhe dissera para falar de um garoto de braço tatuado que pertencia ao bando encarregado de lhes angariar clientes.

 

- Por que razão devia ter falado do garoto? - indaga ela. Que importância tem?

 

- Isso não te diz respeito. Quando vires o rapaz, não o deixes escapar. E que não te passe pela cabeça desobedecer, senão... Queres reviver a primeira noite que passaste nesta casa?

 

É uma recordação que arrepia Xiu Lan.

 

Brutalmente desperto do seu torpor por leves pontapés, Dão Zhiyou levanta-se, de punho erguido, preparado para atacar.

 

- Calma, não sabia se estavas a dormir ou se...

 

O homem olha-o com uma combinação de dó e receio. Dão recua, sempre na defensiva.

 

- Vem, levo-te ao hospício.

 

Dão olha em redor, à procura dos companheiros. Já foram levados, ou terão conseguido fugir? Nunca ninguém vira regressar os que eram levados para o hospício. Devia ser um local onde tinham de trabalhar até ao esgotamento, para depois serem devorados.

 

- Nenhum garoto pode dormir na rua. Ordens do Grão Cão

- prossegue o homem, aproximando-se do rapaz.

 

Ao ouvir aquele nome, Dão larga a correr como um coelho. Precipita-se para o dédalo de ruelas que conhece como as suas mãos. Esgueira-se por baixo das bancas dos mercadores de arroz, passa entre as pernas dos vendedores de água quente, mas depara com outro homem, enorme, que pega nele como quem apanha um simples rato. Dão Zhiyou debate-se, suspenso pela gola, agitando em vão as pernas no ar.

 

- Não tenhas medo. No hospício, comerás até à saciedade, mesmo não sabendo o que isso significa.

 

SONHO IMPERIAL

Depois de percorrer durante duas semanas as postas mongóis situadas ao longo das estradas recentemente construídas, Marco transpõe as primeiras portas de Khanbalik. Tendo sido roubado na casa de chá de Hangchou, sofreu a humilhação de ter de pedir dinheiro emprestado a Ai Xue. Não saiu da cidade sem deixar instruções precisas a Shayabami, enquanto Ai Xue lhe pagava as dívidas. Deu ao escravo o nome e a morada de Xiu Lan, e ordenou-lhe que lhe encontrasse uma casa. Bonita, sofisticada, dotada de jardins secretos e portas ocultas - à sua imagem, numa palavra. Quero que a compres e a instales nessa casa, dizendo-lhe que é a prenda que lhe fiquei a dever. Depois, vai encontrar-te comigo em Khanbalik.

 

Marco chega à Cidade Imperial, onde, depois de se apresentar, lhe é destinada uma residência no bairro dos dignitários e governadores do imperador. Tanto a casa como o serviço apresentam o luxo de um palácio. Ai Xue separa-se dele para se juntar aos seus. Depois de uma passagem pelos banhos, Marco regressa a casa, onde, na ausência de Shayabami, manda chamar o alfaiate. Na verdade, embora o veneziano disponha de meios para adquirir um rico guarda-roupa, mantém-se apegado a certos trajes como se fossem uma segunda pele que continua a usar em viagem. Mas, para comparecer diante do Grão Cão, prefere vestuário totalmente novo.

 

Por fim, bem barbeado, com um gorro de pele na cabeça, envergando uma túnica de seda púrpura debaixo da capa, apresenta-se na Cidade Imperial. Pelos jardins cobertos por uma camada de geada, soldados mongóis passam de mão em mão garrafas de vinho de arroz. Mantêm-se afastados dos cortesãos vestidos à chinesa. Um dos guerreiros fixa Marco com atenção. O veneziano reconhece no homem traços que lhe são familiares, sem conseguir identificá-lo. Saúda-o discretamente. O outro, considerando o gesto um incentivo, aproxima-se a passos largos.

 

- Senhor Marco, sinto-me verdadeiramente feliz por te voltar a ver vivo, mas ficarei ainda mais feliz depois da entrevista com o meu pai.

 

Marco saúda então Namo Cão, que reconheceu ao ouvir as suas palavras.

 

- Partilho a tua alegria, príncipe Namo, mas o meu domínio da língua mongol não é perfeito e receio não compreender o sentido das tuas palavras.

 

Namo aproxima-se ainda mais de Marco e pega-lhe no braço com os seus modos rudes de guerreiro das estepes. Perpassa-lhe pelos olhos uma centelha implacável.

 

- Marco Polo, tens de recusar a nova missão do Grão Cão. O meu irmão mais velho Zhenjin, desde que se tornou o presumível herdeiro do nosso pai, procura reconstituir a corte a seu gosto. Foi informado de que tens ao teu serviço um médico pouco recomendável, o que te torna suspeito aos seus olhos. E sabe que Cublai presta ouvidos à nossa mãe. Exerce sobre ela um domínio suficiente para lhe ditar os conselhos que quer ver transmitidos ao Grão Cão.

 

- Peço-te que me desculpes, príncipe Namo, mas o que sei da imperatriz Chabi prova-me que tem discernimento bastante para distinguir os bons dos maus conselhos de quem a rodeia. Zhenjin não é o único a querer usar a sua influência junto do nosso amo e senhor.

 

- Sem dúvida, mas Zhenjin é o filho mais velho da minha mãe...

 

Namo proferiu esta última frase com uma emoção que traiu os seus próprios sentimentos.

 

- Durante os anos de cativeiro no canato da Horda de Ouro, tive tempo para reflectir. Compreendi por que razão os meus primos se opõem ao Grão Cão. Cublai não é o lobo das estepes que era Gengiscão.

 

Marco descobre uma ponta de nostalgia na voz de Namo.

 

- Pareces lamentar tal facto. O teu pai é um grande imperador. Deu corpo e vida ao sonho de Gengiscão. Como testemunha a extensão do seu império.

 

- Sem dúvida, mas olha bem para ele, engordou e envelheceu, e receio que morra na cama.

 

Marco não consegue evitar um sorriso.

 

- Nem por isso será uma morte menos digna.

 

- Devia preocupar-se mais com os nossos irmãos mongóis, e um pouco menos com os nossos súbditos chineses.

 

O veneziano saltita, procurando aquecer-se.

 

- Por que me contas tudo isso?

 

- Ele não me ouve. E eu não sou como Zhenjin, não cresci entre as sedas dos palácios nem aprendi essa língua complicada. Que ironia! Nós, filhos do Cão, somos os únicos mongóis autorizados a aprendê-la! Na corte, não me conhecem. O meu pai educou-me como um soldado. Agora, sei lutar melhor do que ele. Quanto a montar, não existe provavelmente nenhum cavalo em todo o império que seja capaz de suportar o seu peso. Talvez não saiba nada de política, mas conheço as nossas províncias. Zhenjin nunca saiu de Khanbalik, que teima em chamar Tatu. Bem pode falar chinês, envergar mantos de seda, que será sempre um Mongol. Se aprendi alguma coisa com os Chineses, foi que ”um dragão gera um dragão e uma fénix gera uma fénix”.

 

Marco, pouco à vontade, começa a apressar-se em direcção à entrada do palácio.

 

- Príncipe Namo, está na hora de comparecer diante do Grão Cão - conclui ele, despedindo-se de Namo.

 

Mas o príncipe, num gesto demasiado brusco, retém-no intempestivamente. Confuso, procura conter-se.

 

- Marco Polo, não me esqueço de que te devo a vida. Portanto, ouve o que te digo. Recusa a nova missão do Grão Cão. Foi Zhenjin que te condenou.

 

 

Enquanto Marco cumpre o cerimonial da prosternação diante do Grão Cão, curvando três vezes o corpo até se deitar ao comprido, de rosto contra o chão, os ecos da advertência de Namo ressoam, ameaçadores, no seu espírito.

 

Chabi encontra-se ao lado do marido. Como de costume, evita pousar os olhos no estrangeiro, mas Marco sabe que ela não perderá nenhum pormenor da audiência. Zhenjin assiste à cerimónia, arvorando o ar orgulhoso de um futuro imperador.

 

Cublai enverga uma luxuosa túnica de seda bordada, coberta por um rico manto de pele de arminho. Numa mão gorda sulcada de rugas revolve um pêssego aveludado.

 

- Repara neste fruto, Marco Polo. Vem do interior do meu império. De uma região que não conheço. No entanto, os seus habitantes temem-me e respeitam-me. Pagam-me tributo. Dei-lhes escolas, celeiros para conservarem os cereais nos Invernos rudes. Construí estradas. Dotei-os da melhor polícia e da melhor justiça que alguma vez conheceram. Sabias que os Chineses chegam mesmo a queixar-se dos meus tribunais, que consideram laxistas? Eu respondo-lhes: porquê matar criminosos, quando podemos empregá-los com proveito em trabalhos colectivos ?

 

Cublai acaricia o pêssego, roda-o na palma da mão.

 

- Mas voltemos a este fruto. Foi colhido esta manhã. Sucederam-se onze mensageiros para mo trazerem antes de anoitecer, como eu pedira, quando teriam sido precisos dez dias a um mercador que viajasse sozinho. Tudo isto graças às minhas estradas e às minhas postas, invejadas por todo o mundo. Submeti este país, mas faço-te uma confidência: ele também me cativou. Julgo que não poderei regressar às estepes dos meus antepassados. Este fruto pertence-me, o que me autoriza a comê-lo. E o mesmo acontecerá a todos os frutos que eu cobiçar.

 

Cublai trinca a polpa sumarenta. O prazer sentido leva-o a fechar os olhos. O sumo escorre-lhe pelos pêlos da barba.

 

- Estou velho, Marco. Mas o entusiasmo anima-me o coração. Relincha como um potro, inflama-me as entranhas. Mas não sei o que fazer dele. Enquanto tu...

 

Marco aproxima-se, comovido pelas confidências do velho.

 

- Sabes que te trato como se fosses meu filho. Zhenjin quase sufoca. Cublai ignora-o.

 

- Vou finalmente confiar-te o segredo que me levou a encarregar-te de várias missões desde que te encontras junto de mim. Aproxima-te mais.

 

Marco, intrigado, avança, enquanto Cublai ordena a um criado que lhe traga um objecto que se encontra dissimulado por um pano de seda. De olhos brilhantes de malícia, o imperador desvenda então uma enorme esfera de madeira de sândalo incrustada de ornamentos rebuscados.

 

- Observa-a de perto, Marco. Reconhece-la?

 

O veneziano debruça-se, a fim de escrutar atentamente as formas que se assemelham às tatuagens que viu nos habitantes de Tchampa.

 

- Podes tocá-la - insiste Cublai.

 

O veneziano passa os dedos pela superfície de madeira, gravada de finos sulcos.

 

- Então? - insiste o imperador, como faria uma criança.

 

- É uma peça muito bonita, Grão Senhor, nunca vi nenhuma parecida.

 

O imperador solta uma gargalhada.

 

- E, no entanto, convives com ela todos os dias da tua vida, e assim será até morreres, quando fores enterrado segundo os ritos da tua fé. A Terra!

 

Marco, siderado, encara Cublai sem compreender.

 

- É um globo terrestre - explica Cublai. - Extraordinário, não é? Foi... há quanto tempo?

 

- Uma dezena de anos, Grão Senhor - conclui Zhenjin.

 

- Há uma dezena de anos, convidei para a minha corte um persa chamado Jamal al-Din. Alguma vez te cruzaste com ele?

 

Marco já reparou que, sempre que narra as suas viagens e cita um dos territórios e reinos que atravessou, lhe perguntam se encontrou este ou aquele visitante, se conhece determinado templo ou aldeia, como se, para os que não saem das suas terras, a Pérsia ou o Egipto se resumissem unicamente ao nome de uma personagem ou de um lugar. Nem o imperador escapava a esta regra..

 

- Não, Grão Senhor, não o conheço.

 

- Enfim, presenteou-me com relógios de sol, um astrolábio, um globo celeste e este globo terrestre.

 

- Mas, Grão Senhor, trata-se de uma visão do espírito, a Terra é plana.

 

- Tens a certeza, Marco? És um grande viajante, porém, devias saber.

 

- Na minha terra, diz-se que, no fim do mundo, as terras são povoadas de bárbaros.

 

Cublai sorri, malicioso.

 

- Esqueces-te de que, aqui, és tu o bárbaro.

 

E o imperador ri a bandeiras despregadas, agitando o ventre ao ritmo da respiração arquejante.

 

- Com certeza, Grão Senhor - concorda Marco, rindo por sua vez, divertido por ter caído na armadilha do discurso do imperador. - No entanto, cavalguei semanas, meses, anos inteiros, e a Terra era sempre plana, mesmo vista do cume das mais altas montanhas.

 

Cublai solta um murmúrio de desagrado.

 

- Não me perguntes que cálculos prodigiosos os Persas mandaram fazer aos astros para conseguirem construir este globo. Afirmam que, se pudéssemos subir muito alto no céu, veríamos a Terra exactamente assim.

 

A ingenuidade de Cublai provoca o sorriso de Marco - como se as estrelas fossem capazes de pensar por si mesmas e de obedecer aos homens. Ainda estupefacto pela revelação do globo, deixa-se absorver demoradamente pela sua contemplação. Milhares de pensamentos afluem ao seu espírito, entrechocando-se.

 

- Grão Senhor, se o que eles dizem é verdade, quereria dizer que, cavalgando ou navegando sempre na mesma direcção...

 

- ...voltaríamos ao ponto de partida - conclui Cublai, entusiasmado.

 

Marco sorri, sonhador.

 

- Para um viajante como tu, trata-se de uma ideia divertida. Nós, Mongóis, permanecemos nos nossos territórios, enquanto tu não hesitas em te separar daqueles que conheces.

 

- Lembre-se, Grão Senhor, de que também abandonou as terras dos seus antepassados...

 

- É verdade. Mas, agora, este território pertence-me.

 

Dá uma volta ao globo e pousa o dedo num ponto da sua superfície.

 

- Eu e tu estamos aqui. Vês como o meu império parece ainda mais vasto neste pequeno globo? E aqui, que vês tu?

 

- O oceano, ilhas.

 

- Ilhas, sem dúvida, mas que constituem um único reino. Já ouviste falar do Japão?

 

- Consta que é uma ilha enormíssima perto do reino de Koryo.

 

- Tenho todo o Oriente aos meus pés, a Pérsia, até ao Tigre. O Japão é a última jóia que escapa ao meu domínio. O seu rei desafia-me. No ano do Galo, enviei uma primeira frota que devia ancorar no Japão. Os meus homens estavam mal preparados, os Mongóis conhecem melhor as estepes do que os mares ou os seus litorais, e tiveram de regressar a Koryo. Desde então, concedi ao soberano do Japão a honra de lhe enviar numerosos presentes que ele teve sempre a ousadia de recusar!

 

Ofegante, dirige um sinal a Zhenjin. O herdeiro chama por sua vez um criado, que traz um rolo de metal quase tão alto como um homem, e muito largo. Zhenjin apresenta o rolo a Marco.

 

- Desde então, reforcei a minha aliança com Koryo. A minha filha Hu-tu-lu casou com o príncipe herdeiro. Marco Polo, quero que entregues esta mensagem ao rei do Japão. Contém uma nova proposta de aliança. Quero que me tragas uma resposta.

 

Cublai acalma-se, suspirando.

 

- Foi o suficiente, muitas vezes. O meu filho Zhenjin pensou que serias tu o melhor embaixador. Oficialmente, vais visitar, em meu nome, a minha filha Hu-tu-lu. Trata de regressar vivo, Marco Polo, para me contares tudo!

 

O veneziano faz uma profunda reverência diante do soberano.

 

- Cumprirei as ordens recebidas - afirma ele para se tranquilizar, pensando mais uma vez na advertência de Namo.

 

Sentado num tigre de boca aberta, Ai Xue espera-o, aparentemente insensível ao frio. Surpreendido por o encontrar tão cedo Marco aproxima-se dele a passos largos. O médico levanta-se.

 

- Ai Xue, os nossos caminhos vão separar-se. A audiência imperial assim o determinou. Fui enviado para um país cuja língua ignoras.

 

- Qual é ele? - pergunta Ai Xue, audacioso.

 

- Trata-se de um segredo que não me pertence. Obrigado pela ajuda, embora não tenha alcançado o que esperava.

 

Marco volta as costas e começa a afastar-se. Ai Xue segue-o.

 

- Espere, Senhor Polo! Ainda pode precisar de mim! O veneziano detém-se, enfrenta o médico.

 

- Não te quero mal, fizeste o que pudeste. Esta viagem para longe do império ajudar-me-á a esquecer a louca esperança que alimentava de encontrar o meu filho.

 

- Não a perca, Senhor Polo, acredite que não o forço a alimentá-la em vão.

 

- Enfim - declara Marco, esboçando um gesto bem-humorado -, mesmo com o poder da tua sociedade, não conseguiste nada.

 

- O sage disse: ”Se tiveres de percorrer dez lis, lembra-te de que o nono marcará metade do caminho.” Estou certo de que a criança se encontra em Hangchou. Foi vista, mas escapou-nos.

 

- Que estás tu a dizer? - pergunta Marco, interessado.

 

- O sage disse: ”O momento proporcionado pelo acaso vale mais do que o momento escolhido.”

 

- Não respondeste à minha pergunta - declara Marco, irritado.

 

- Confie em mim, Senhor Polo - respondeu o homem, pousando a mão no braço do veneziano. - Neste momento, a minha gente trabalha em Hangchou, para o servir.

 

- E se eu aceitasse confiar em ti ?

 

- Prometa-me que me autoriza a acompanhá-lo para onde quer que vá como emissário do Grão Cão.

 

Xiu Lan penetra na antecâmara da patroa - que todas as raparigas têm a obrigação de tratar como mãe. Faz uma pausa à entrada, o suficiente para que as outras interrompam as conversas. Todos os olhares convergem para ela. A jovem ergue o queixo. Seja qual for a razão pela qual a patroa a mandou chamar, Xiu Lan está disposta a enfrentar o desprezo invejoso das companheiras. Fan-Li dirige-lhe um olhar caloroso. Aperta o braço de Xiu Lan.

 

- Também já me aconteceu, trata-se apenas de um mau momento - murmura ela.

 

Sem mais demoras, Xiu Lan atravessa o compartimento e penetra no silêncio do gabinete privado da patroa. Mas aí, não consegue reprimir um movimento de recuo. A patroa crispa-se, sentada na poltrona de imitação bárbara. Usa um penteado complicado, realçado por jóias, que não se coaduna com a sua idade, sendo apenas o reflexo do esplendor perdido. As paredes lacadas escurecem os traços do rosto da patroa, enquadrados pelas pérolas escuras. O forte odor a incenso mergulha o quarto num pesado perfume almiscarado.

 

As pernas de Xiu Lan tremem ligeiramente. A rapariga junta as mãos numa saudação humilde.

 

- Senta-te, minha filha. Não me agrada ter de levantar os olhos para te ver.

 

Xiu Lan dobra os joelhos para se sentar sobre os calcanhares. Esconde as mãos nas mangas largas, enterrando as unhas nos pulsos.

 

- Chegaram-me vozes, minha filha, que não gostei de ouvir. Gostaria, portanto, que o vento as levasse para longe.

 

Xiu Lan engole com dificuldade.

 

- Por ocasião de uma das tuas idas ao mar, terias regressado com o barco cheio!

 

Xiu Lan deixa-se descair, como para se enterrar no chão. De repente, sente o corpo gelado. Se, um dia, atingir a sua venerável idade, serei como ela, pensa Xiu Lan, contristada. Os olhos que as pálpebras pesadas e semicerradas dissimulam podiam ser seus. As faces que descaem de cada lado do queixo acentuam as comissuras dos lábios fechados. A velhice, uma caricatura que a juventude gostaria de ignorar em toda a impunidade. A velha chinesa move uma só vez as pestanas demasiado maquilhadas - patas de aranha. No seu rosto abre-se uma chaga vermelho-vivo. Um sorriso?

 

- Minha mãe, procuro um porto onde me acolher.

 

- E onde descarregar a mercadoria? Também sei que deixaste escapar outra, muito mais preciosa, que terás de reencontrar para te resgatares.

 

Xiu Lan acena com a cabeça.

 

- Pobre pequena, soube, desde que te vi, que aspiravas a navegar no mar alto. Sinto-me feliz por verificar que estás preparada para escolher o casco e a enxárcia necessários. Sinto-me tanto mais feliz quanto paguei muito caro por ti e, numa situação diferente, levarias muito mais tempo a reembolsar-me. O teu encanto ainda perdurará por muitos anos. De futuro, procuraremos evitar estes retornos imprevistos ao porto, não é verdade, minha filha?

 

- Sim, minha mãe - aquiesce Xiu Lan, com um nó na garganta e as mãos apertadas contra o ventre.

 

À medida que a expedição de Marco progride pelo reino de Koryo, o frio apodera-se dos viajantes até aos ossos, a despeito das pesadas pelicas. O veneziano pergunta-se se será o frio ou a desolação das paisagens que atravessam que o gela mais. Descobrem um país faminto, onde nada cresce nos campos, onde nenhum caminho é atravessado por um rato, um gato ou um cão. À beira das estradas, mendigam bandos de crianças. Os caminhos cobertos de uma neve antiga são tão lamacentos que as montadas se enterram até aos jarretes. Os arrozais e os campos parecem abandonados. Se bem que o grupo seja pouco numeroso, cruzam-se com muito poucos habitantes, pois estes refugiaram-se nas montanhas ou esconderam-se nas ilhas próximas dos soldados mongóis.

 

Entram em Gaegyong, capital do reino de Koryo. A cidade é uma verdadeira guarnição onde reina a maior desordem. Jovens coreanos recrutados para o exército imperial erram pelas ruas em pequenos grupos. Até mesmo o palácio regurgita de soldados mongóis e de cavalos de guerra. O corpo principal, bem como os templos e as habitações foram transformados em casernas, e onde se encontravam poços foram construídas cavalariças. Ai Xue assiste a este espectáculo com um aperto no coração.

 

Marco é recebido, logo à chegada, pela princesa Hu-tu-lu. Para o veneziano, uma oportunidade de reconhecer a confiança que os Mongóis depositam nas mulheres e a que um pai tem pela filha. Com cerca de vinte anos de idade, a jovem é de uma grande beleza. Em honra de Marco, ostenta um luxo imperial, a despeito do estado do país. As mesas estão cobertas de flores exóticas. Nas paredes, foram penduraradas caligrafias de cores vivas. A princesa Hu-tu-lu mandou enfeitar o palácio com lanternas empilhadas em pirâmides que produzem o melhor efeito. Apresenta-lhe a filha, de dois anos, muito intrigada com a fisionomia de Marco. O príncipe de Koryo mantém-se afastado e Marco mal ouve a sua voz. Como a presença de Ai Xue na corte não é necessária, pois todas as conversas se processam em mongol, o médico é relegado com Shayabami para o meio da criadagem, para grande alegria do escravo. De facto, desde que cumpriu com sucesso a missão de alojar Xiu Lan em Hangchou, o sírio sente-se investido, junto do amo, do novo papel de confidente, que disputa com Ai Xue. Ao longo de toda a refeição, a música acaricia os ouvidos dos convivas. Da corte de Khanbalik, a princesa mandou vir um tigre da mesma ninhada que o do pai. No fim do banquete, convida Marco a subir ao miradouro, a fim de admirar a fera em liberdade no parque do palácio.

 

Aproveitando a distracção da mulher, entretida a extasiar-se diante da agilidade do felino, o príncipe chama Marco à parte:

 

- Senhor Polo, soubemos que teve a honra de ser recebido em audiência privada pelo imperador.

 

Marco esboça um trejeito de humildade.

 

- Alteza, sinto de facto a alegria de, por vezes, cair nas graças do Grão Cão.

 

- Senhor Polo, tenho um favor a pedir-lhe.

 

- Alteza, seja ele de que natureza for, seria para mim um grande orgulho poder satisfazê-lo.

 

Sem mais formalidades, o príncipe senta-se, convidando Marco a imitá-lo.

 

- Senhor Polo, o Grão Cão espera novos esforços de guerra do nosso reino. Mas o nosso país está de rastos. Tenciono enviar-lhe presentes para obter a sua indulgência. Se quisesse proporcionar-me o prazer de aceitar, saiba que gostaria de lhe confiar uma carta. Entregue aos seus bons ofícios, não duvido de que o imperador lhe dedique uma leitura atenta. Dá-me a honra de me permitir que a leia?

 

- Com certeza, Alteza.

 

O príncipe estende um rolo de papel de arroz e aclara a voz.

 

Grão Senhor, queira perdoar-me o atraso no envio deste tributo. Um temor respeitoso apodera-se de mim ao pensar que contrario a vontade imperial. Infelizmente, lamento ter de anunciar que não dispomos de madeira para construir novos barcos para o exército imperial...

 

Ainda o príncipe não teve tempo de terminar a leitura e já a princesa se aproxima, seguida pelos cortesãos. O príncipe levanta-se, enrolando a mensagem, sob o olhar aparentemente indiferente de Hu-tu-lu.

 

- Meu marido, importa-se de me confiar o Senhor Polo? Preciso de conversar com ele.

 

O príncipe inclina-se, em sinal de assentimento.

 

Movendo levemente o queixo, Hu-tu-lu convida Marco a segui-la. O veneziano acompanha-a aos seus aposentos, onde se vêem numerosos tesouros mongóis, recordações da juventude passada na corte do Grão Cão. Cofres bem recheados ocupam as paredes a todo o comprimento, certamente repletos de vestuário. A princesa senta-se num deles, ao lado de uma bandeja de laca pousada num tripé de madeira trabalhada.

 

- Instale-se, Senhor Polo, vou mandar servir um chá bem quente.

 

Bate as palmas. Criados afadigam-se à volta da princesa. Marco, pouco habituado a mulheres reinantes, dificilmente dissimula a sua impaciência. Agita-se no assento, sob o olhar inquisidor da princesa. Esta encara-o com uma doçura só igualada pela perspicácia. Quando, por fim, é servido o chá, Hu-tu-lu pega na chávena com as duas mãos, num gesto gracioso e infantil.

 

- Como tem passado o meu pai?

 

- Como o mais robusto dos carvalhos, capaz de resistir a todas as tempestades.

 

A princesa sorri, perpassa-lhe pelo olhar uma sombra de nostalgia.

 

- Notícias da corte?

 - O seu irmão Zhenjin...

 

- Zhenjin não é meu irmão!

 

- Peço perdão... Zhenjin leva o papel de ”presumível herdeiro” muito a peito, estuda aplicadamente as artes do poder.

 

A princesa esboça um breve riso nervoso.

 

- Que pretendia de si o meu marido? - pergunta a jovem, dando mostras de segurança.

 

Surpreendido por a ver abordar tão rapidamente o assunto, Marco debruça-se, a fim de pegar na chávena.

 

- O príncipe pediu-me que levasse uma mensagem ao Grão Cão - disse ele, decorrido um momento.

 

- O que o senhor não fará - ordena ela claramente. - O príncipe não está a par do objecto da sua missão como eu estou. Regressar à corte com uma mensagem do nosso reino depois de efectuar esta viagem, seja qual for o resultado, seria uma inconsciência. O meu pai correria o risco de se imiscuir em desagradáveis querelas com o Japão, o Reino de Koryo, e mesmo com o senhor, quem sabe.

 

- Alteza, conheço os meus deveres para com o senhor seu pai

- explicita Marco, levemente irritado.

 

- O Reino de Koryo é o território mais próximo do Japão. Foi por isso que o meu pai me escolheu como soberana. O meu pai teme que os Coreanos, em vez de aderirem à nossa causa, se recusem a servir de retaguarda. Receia que a vizinhança com o Japão favoreça os laços entre os dois países. É conhecer mal o Japão. Sente-se invencível, na sua ilha.

 

- Alteza, os esforços que envida para se interessar pelos assuntos imperiais é louvável numa mulher, no entanto...

 - O senhor é que devia esforçar-se por me ouvir! - exclama a princesa, irada.

 

Surpreendido, Marco deixa-a prosseguir.

 

- Desde que aqui cheguei, já tive tempo de trabalhar para () meu pai... e para si. O Grão Cão remeteu-lhe uma mensagem destinada ao rei do Japão, não é verdade?

 

- Com efeito, Alteza.

 

- Não há nenhum rei do Japão - declara ela, frisando bem as palavras para avaliar o efeito produzido.

 

Marco cala-se, de sobrolho carregado.

 

- O soberano, a quem chamam imperador, é com certeza a mais preciosa das suas peças de cerâmica.

 

A brutalidade da afirmação, na boca de uma mulher tão jovem deixa Marco estupefacto.

 

- O Japão possui um governo militar cujo chefe é o xógum. É com ele que deverá encontrar-se.

 

- O senhor seu pai possui essa informação?

 

- Ainda não. Os Japoneses são adeptos de Buda há menos de uma centena de anos, mas de uma maneira muito diferente dos Chineses. Adaptaram-no à sua doutrina zen.

 

- Vejo que está muito bem informada.

 

- Consultaremos os oráculos antes de determinar o dia da sua partida. Enfim, saiba que o meu pai insiste em que a sua missão seja cumprida, contra ventos e marés - acrescenta ela, sorrindo discretamente.

 

Marco constata que a eficácia dos mensageiros mongóis excede a lenda. A princesa fingira querer saber notícias da corte, quando já as conhecia, e em pormenor.

 

Uma semana mais tarde, os oráculos reúnem-se em conselho restrito. Decidem interrogar os céus, e convidam Marco a estar presente. O veneziano dificilmente dissimula a sua impaciência. Contém-se para não se opor a estas superstições que não são as suas. Ao nascer do sol, toda a corte sobe ao cimo de uma falésia. Ao abrigo de ouvidos profanos, os oráculos elaboram a interrogação.

 

- Teremos de esperar por uma boa lunação - confia Hu-tu-lu. - Os dias do rato e da lebre eram de mau augúrio para a partida.

 

Os oráculos lançam um papagaio de papel do alto da falésia. As vagas, embatendo contra os rochedos, produzem o estrondo de um trovão. Marco sente-se fascinado pela sua força. Depois, escruta o papagaio de papel, que descreve volutas em volta das nuvens, como um fio que se enovela.

 

Ai Xue aproxima-se de Marco, caminhando como um caranguejo.

 

- Senhor Polo, julgo que o senhor estima Shayabami. O veneziano volta-se para o médico, alarmado.

 

- Tranquilize-se, não é a sua saúde que me preocupa, pelo menos enquanto estivermos no continente.

 

- Receias que os Japoneses comam os Sírios? - ironiza ele.

 - Refiro-me aos embaixadores. Os Japoneses cortaram a cabeça aos precedentes enviados de Cublai.

 

Um arrepio percorre a espinha de Marco até à ponta dos cabellos. Vem-lhe brutalmente à memória a advertência de Namo Cão. Contrariado, sente o coração prestes a saltar-lhe do peito. Cublai ”nunca o enviaria propositadamente ao encontro da morte...

 - Como soubeste tudo isso?

 

- Os Coreanos detestam os Mongóis, tal como nós. Vejam o que fizeram do seu país. Foi fácil obter confidências. Pensei que lhe pudessem interessar.

 

- Ouviste mais alguma coisa?

 

- Nada que lhe diga directamente respeito.

 

- Ai Xue, assim falando, estás a pôr rudemente à prova a minha confiança.

 

- Sempre disse que o senhor devia desconfiar de todos aqueles que não são do seu sangue.

 

Marco esboça um gesto largo em direcção à montanha.

 

- Nesse caso, devia desconfiar de toda a gente.

 

- Toda a gente desconfia de si. Aqui, o senhor é o estrangeiro. Talvez devesse pensar em regressar ao seu país, à terra donde veio.

 

Marco começa a deambular de um lado para o outro, impetuoso, esforçando-se por dissimular o nervosismo.

 

- Não te mantenho ao meu serviço para ouvir elucubrações ou ameaças!

 

- Nesse caso, esqueça o que eu disse.

 

Marco segue com os olhos o trajecto do papagaio de papel Volta-se para Ai Xue:

 

- Se assim é, por que insistes em me acompanhar?

 

O chinês arvora uma expressão enigmática que, para um cristão, poderia comparar-se a um sorriso.

 

- O sage disse: ”Interrogarmo-nos vale mais do que interrogar os outros.”

 

- O sage tem resposta para tudo - suspira Marco, retomando a contemplação do papagaio de papel.

 

Este descreve uma inexorável curva descendente. O veneziano leva a mão aos olhos. Subitamente, distingue o papagaio de papel em pormenor.

 

- Mas, está ali um homem, lá em cima! - exclama ele, assustado.

 

Aproxima-se dele um oráculo.

 

- Foi condenado a morrer preso a um papagaio de papel destinado a cair com a sua carga a uma velocidade determinada pelo vento. Num dia de tempestade, aconteceu que um condenado pousasse suavemente. Foi perdoado. Aquele, se cair demasiado depressa, indicar-nos-á que este não é um bom momento para partir; pelo contrário, se conseguir voar por muito tempo, é sinal de que chegou a hora.

 

Desde que deu entrada no hospício, Dão Zhiyou treme como varas verdes. No entanto, está menos frio do que na rua, e não apanha chuva. Mas a ideia de ser devorado pelo Grão Cão aterroriza-o de tal maneira que não precisa de se esforçar para recusar os alimentos que lhe servem para engordar. De resto, há dias que sofre de diarreia. Mestiço, incapaz de falar, está isolado dos companheiros de infortúnio, que o temem como se fosse um animal selvagem. Pelo menos, não se aproximam demasiado dele. As noites são particularmente penosas. Amontoados em enxergas estendidas no chão, os garotos aproveitam a promiscuidade para roubar os escassos haveres uns aos outros, um par de sapatos ou uma pelica comida pela traça. Dão dorme com um olho aberto, ainda mais inseguro quanto ao dia seguinte do que quando pernoitava na rua. Já pensou em se evadir, mas os garotos estão bem guardados e, entre um tecto e a aventura na rua, a escolha é óbvia.

 

Naquele dia, acordado antes da aurora, sem se mexer, enroscado no seu próprio calor, observa os pequenos corpos que, durante a noite, se aproximaram uns dos outros. Aos poucos, vai nascendo o dia, deixando penetrar os raios de luz através do papel engordurado das janelas. Nas paredes, desenham-se formas em tons ocre, excessivamente grandes. Dão julga distinguir a silhueta de uma mulher que corre. É bonita e estende-lhe os braços, com um sorriso deslumbrante.

 

Subitamente, o garoto sobressalta-se, como apanhado em flagrante delito. Os outros acordaram e avançam para ele, a passos curtos.

 

- Anda, mostra o teu segredo.

 

Dão Zhiyou levanta-se e afasta-se, encolhendo os ombros.

 

- Anda, malandro!

 

A um sinal do chefe do bando, os garotos lançam-se sobre Dão, que se defende. Não obstante a força e a raiva de que dá provas, é dominado pelos outros, em maior número, que o imobilizam, deitado no chão. O chefe, num movimento brusco, rasga-lhe a manga, desvendando aos olhos de todos uma tatuagem meio-tigre, meio-dragão no antebraço do rapaz, de punho cerrado.

 

- Um verdadeiro selvagem! Nem sequer tem língua. E, além disso, está marcado como os canibais!

 

O rapazinho debate-se como um diabo. Consegue morder um dos adversários, que solta um grito, largando-o. Dão aproveita para distribuir pontapés à sua volta. Acabam por o libertar. Antes de fugir, Dão, encolerizado, ainda aplica alguns murros.

 

Se ao menos soubesse em nome de que força ou de que divindade carrega aquela marca!

 

A ILHA DO SOL NASCENTE

Uma brisa glacial dispersou as nuvens que haviam coberto durante a noite a capital coreana, Gaegyong, proporcionando um céu excepcionalmente límpido. A expedição de Marco Polo, composta por uma vintena de homens, dois deles coreanos - o intérprete Kim Yi e um pescador bom conhecedor das costas coreanas e japonesas -, abandonou a cidade antes da aurora. Todas as despesas estão a cargo do Reino de Koryo, em nome da lealdade e da obediência ao Império. Marco impõe um leve galope aos companheiros, a fim de os levar a esquecer o frio que os trespassa, a despeito das capas de peles. Sem dificuldade alcançam Happo, na extremidade do Reino de Koryo. Por sorte, o tempo favorável permite-lhes embarcar imediatamente num pequeno junco. Empurrados por um vento constante, pisam terra firme na ilha de Tsushima três meses depois de terem partido de Gaegyong. Mas, aí, desencadeia-se uma violenta tempestade. Impaciente, Marco persuade o capitão a lançar-se no meio da borrasca, mas as vagas são tão altas que se torna impossível comandar o barco, e o veneziano consente em regressar ao porto, onde se vêem obrigados a permanecer durante várias semanas. Os mongóis aproveitam para se entregar à bebida, o que tem por efeito aquecê-los.

 

De dia, fascinado, Marco não se cansa do espectáculo da pesca de algas e conchas à mão. Mulheres, envergando longas camisas que lhes chegam aos tornozelos e usando na cabeça um lenço que lhes tapa a boca, lançam-se ao encontro das vagas. Levam, atado à cinta por um simples cordel, um cesto que flutua à tona da água. Marco não consegue resistir à tentação de acompanhar as mulheres nos seus mergulhos. O fundo do mar, denso, opaco, é muito diferente da laguna de Veneza. Os nadadores oscilam ao sabor da corrente, muito forte. A água é glacial mas, após alguns instantes, Marco deixa de sentir a impressão dolorosa do frio que penetra através da roupa. Recolhe algumas algas e conchas, que exibe, exultando. As pescadoras limpam-nas da areia para melhor as examinarem. Cuspindo densas nuvens de espuma branca, troçam dele e voltam a lançá-las ao mar. As conchas de Marco não são comestíveis!

 

Na semana seguinte, o veneziano organiza um torneio de tiro com arco e de luta para entreter os seus homens. Ele, por seu lado, concentra-se na leitura da ópera que Cublai lhe ofereceu, imaginando notas de música veneziana. Para sua grande surpresa, Ai Xue ganha o torneio de luta. Marco espanta-se ainda mais por saber que o chinês tem as mãos extremamente deformadas. Já reparara que o médico conserva a agilidade dos dedos para espetar as agulhas, mas nunca pensou que também dessem provas de força.

 

- Devia ter assistido, Senhor Polo! - exclama o intérprete coreano Kim Yi. - O seu médico é um lutador espantoso.

 

Marco põe de parte o que está a fazer para felicitar Ai Xue.

 

- Ignorava que possuísses tais qualidades, Ai Xue.

 

Um tudo-nada ofegante, Ai Xue muda de indumentária na tenda destinada aos lutadores.

 

- Também sou um excelente cozinheiro.

 

A fim de iludir a ansiedade, Ai Xue passa os dias a confeccionar pratos que os mongóis ingerem sem contemplações.

 

Os soldados já foram deitar-se. O chinês e o veneziano encontram-se sozinhos à mesa, na sala do albergue.

 

Ai Xue sorve pequenos goles de sopa, enquanto Marco saboreia soja crua com a ponta dos pauzinhos.

 

- Não sei por que te dedicas, Ai Xue, a uma actividade tão trivial. É indigno da tua categoria!

 

Ai Xue interrompe-se e volta-se para Marco.

 

- Nós, Chineses, podemos afirmar que a cozinha não tem nada de trivial. A medicina também passa pelo estômago. Portanto, está em perfeita harmonia com a minha categoria, ao contrário do que pensa. Eu explico-me. Trata-se de um jogo no qual importa descobrir a harmonia entre os cinco sabores. Conhece-os?

 

- Doce, salgado... Por que insistes tanto em me acompanhar ao Japão?

 

- Acre, ácido e amargo. Os cinco sabores combinam-se de seis maneiras diferentes para formar as oito espécies de preparações culinárias da nossa cozinha. Procuramos a harmonia entre o prato servido e aquele que o saboreia.

 

Marco pega com os dedos num frito enrolado muito gorduroso. Trinca-o. Mastiga-o enquanto reflecte.

 

- Esperas obter apoio para o Lotus Branco...

 

- E o que comemos está de acordo com o que hoje somos. É esta a aliança que importa, de facto. Uma opção não exclui as outras. A cozinha chinesa está em harmonia com a energia humana, repito-lhe, e deve adaptar-se-lhe. Lembre-se, Senhor Polo, de que pode mostrar-se sucessivamente generoso, tirânico, tolerante e arbitrário.

 

Marco engole um pedaço que lhe fica atravessado na garganta.

 

- É tudo? - pergunta ele, tossindo.

 

- É só um esboço. Este prato só é cozinhado nos territórios do Norte, próximos dos bárbaros. Nada a ver com a cozinha mais contrastada do Sul. Essa, para ser apreciada, exige toda uma aprendizagem.

 

- Compreendo. Creio que fui demasiado generoso para contigo.

 

- Não, acabo de o provar - insiste Ai Xue com um sorriso desarmante. - Os bárbaros como o senhor nunca serão capazes de nos compreender.

 

Em momentos como aquele, Marco pergunta-se se o chinês não terá razão.

 

Por fim, no dia seguinte, sobrevêm uma acalmia, que os oráculos predizem ser duradoura, e o capitão decide mandar aparelhar o barco.

 

Xiu Lan e Fan-Fi avançam pelas galerias. Nestas ocasiões, vestem-se de maneira sóbria e elegante. Não podendo honrar os antepassados dos maridos que não têm, as cortesãs consagram uma parte do tempo e do dinheiro de que dispõem às obras de beneficência. Mas para Xiu Lan, estas visitas aos doentes e moribundos representam bem mais do que uma simples boa acção. Penetram no pátio do orfanato onde crianças brincam na neve, descalças, entrecortando com gargalhadas cristalinas o ar carregado de vapor. Subitamente, o monge que vigia os garotos bate as palmas. As brincadeiras cessam, aos poucos.

 

As crianças aglomeram-se em cachos e admiram as duas mulheres, maravilhados. Arvoram um sorriso radioso. Xiu Lan retribui com expressões afectuosas e emocionadas.

 

- Que bonitos! Deve ser agradável tratar destes garotos.

 

O monge esboça um sorriso de circunstância. Nas suas costas, os garotos fazem caretas horríveis.

 

- Oh, aquele ali, que encantador! - exclama Fan-Fi.

 

Passa a mão pelo cabelo do rapazinho. Apercebe-se demasiado tarde de que nem precisa de lhe tocar nos cabelos para que estes se movam. Enojada, limpa imediatamente as mãos.

 

- Estás tão sujo!...

 

O garoto tosse. Coça-se constantemente. Tem as pernas cobertas de crostas purulentas.

 

- Nunca os lava? - pergunta Fan-Fi ao monge, esfregando as mãos uma na outra.

 

- Não serve de nada. Os piolhos voltam a aparecer, logo que chega uma nova criança.

 

- Pelo menos, podia cortar-lhes o cabelo.

 

- Não temos tempo - defende-se o monge. - Já lhes oferecemos um tecto e arroz.

 

Escondido atrás das colunas, um garoto fixa Xiu Lan com os olhos amendoados, negros como os lagos da montanha. Com o coração aos pulos, Dão Zhiyou hesita em se precipitar ao encontro das duas mulheres, que reconheceu de imediato.

 

- Ainda há mais ? Pretendo levar um para manter ao meu serviço.

 

Subitamente, Xiu Lan identifica Dão. Solta um suspiro de alívio.

 

- Aquele, por exemplo, ali adiante - diz ela, apontando na direcção de Dão.

 

- Oh, minha senhora, aquele é um selvagem. Não fala. Pensamos que deverá ter oito anos. É difícil de dizer, parecem sempre mais novos do que são. Foi apanhado na rua, de pés gelados.

 

Xiu Lan retira um maço de notas da bolsa de seda.

 

- Obrigado, minha senhora - diz o monge, apoderando-se do dinheiro e vergando-se numa profunda reverência. - Todos nós vos desejamos boa saúde, uma vida feliz, a riqueza dos vossos protectores e a concretização dos vossos desejos. E que possam renascer numa terra pura rodeada dos Budas dos três tempos e das dez direcções.

 

De longe, o garoto não se cansa de olhar para ela. O monge arrasta-o pelo braço para junto das mulheres.

 

- É robusto, durará muito tempo - gaba-o ele.

 

- Mostre-me o que ele tem no braço.

 

- Uma tatuagem. Como sabe, não sabemos donde vêm estas pobres crianças...

 

O junco saiu finalmente de Tsushima, dirigindo-se a Dazaifu. A travessia dura várias semanas. Marco sente-se impaciente por alcançar as costas japonesas e ao mesmo tempo inquieto por ir a caminho de um país hostil sem poder voltar atrás. As fronteiras do Japão são as mais intransponíveis que um reino possa pensar. Quando se encontrarem na ilha, é certo e sabido que se sentirão tão prisioneiros como se estivessem nas masmorras do Grão Cão.

 

A bruma que paira sobre a água esbate o limite entre a superfície do mar e o céu. O oceano ergue-se em sobressaltos tempestuosos. A maior parte dos mongóis recolheu ao fundo da cabina, vomitando as tripas. Só Ai Xue e Marco Polo permanecem na ponte, tentando decifrar o litoral que se recorta, indeciso, na paisagem enevoada do oceano. Marco nunca pensara ir tão longe, em direcção ao Levante. Uma surda angústia revolve-lhe o ventre, à medida que penetra na opacidade branca, como se o próprio mundo se preparasse para ser engolido. Durante a infância, ouvia dizer que, na extremidade da Terra, os navios atingiam o porto do Inferno, povoado por demónios e súcubos. Um arrepio percorre-lhe a espinha. Superou o isolamento dos cumes do Tibete, as alucinações do deserto do Takla-Makan, a desolação do deserto de Gobi, o cativeiro no acampamento de Caidu. Todavia, aqui, neste mar que o balança, experimenta um sentimento de extrema solidão. Observa Ai Xue, de olhos postos na espuma das vagas que saltam como felinos. Subitamente, sente-se um estrangeiro. Tem as mãos húmidas de medo. E se nunca mais regressasse, perdido, desaparecido naquele mar de brumas, condenado a errar? Revê a infância passada em Veneza, sonhando com os mundos ignorados que haviam levado o pai para longe dele. A mãe, que queria dissuadi-lo de partir, alimentava, porém, a recordação do pai ausente, de quem apenas sabiam que desaparecera às portas da Horda de Ouro. Ansiava por o encontrar, por se juntar a ele, abandonando aqueles canais apertados, aqueles ambiciosos de vistas curtas que procuravam esmagar os outros em vez de contar as suas histórias. Imaginava o reencontro com o pai. Os serões em Veneza seriam iluminados por relatos de viagens dignos de Homero. Pai e filho recuperariam o tempo perdido, passado longe um do outro, um a envelhecer, o outro a crescer. Mas a desilusão foi completa, quando regressou aquele pai que todos julgavam morto. Aquele pai que deixara uma criança e reencontrara um homem. E, enquanto o filho sonhava com um Alexandre, aventureiro feliz por partilhar as suas experiências, deparara com um desconhecido, cioso do seu tempo e do seu saber, e ávido de prazeres efémeros. Só a paixão de partir cada vez mais longe os unia. Finalmente, tinham acordado em empreender aquela viagem louca - atravessar o mundo ao encontro do maior dos imperadores. Marco admirava o pai pela capacidade de atravessar os países, interessando-se unicamente por si próprio. E ele, Marco, poderia fazer melhor?

 

Muito naturalmente, começa a pensar em Noor-Zade e no filho. Por que se sentia unido a uma escrava por um juramento? Este pensamento provocou-lhe um aperto no peito. Quereria encontrar aquele filho para lhe dar o pai que sonhara ter? Ou para ter a oportunidade de ser esse pai?

 

Quando, por fim, a costa se recorta no horizonte, Marco sente o coração pulsar a uma velocidade louca. A advertência de Namo Cão nunca deixou de o perseguir. Agora, é-lhe impossível voltar atrás. Ordena aos homens que juntem os seus haveres e se preparem para desembarcar. Repete pela última vez as instruções a traduzir diante dos Japoneses.

 

Onde esperava encontrar as tão elogiadas extensões de areia branca, Marco descobre, estupefacto, muralhas fortificadas suficientes para repelir uma invasão marítima. No cimo de uma das torres, distingue uma silhueta armada com uma lança que desaparece mal os avista. Mais adiante, ao longo das margens, tapetes de pinheiros verde-escuro estendem-se pela encosta das montanhas. As vagas despedaçam-se com estrondo contra as altas muralhas. O vento assobia em silvos estridentes, como se propagasse a má notícia por todo um povo.

 

Percorrem um troço de costa antes de poderem atracar numa língua de praia. O junco atraca na areia, após uma manobra ousada. Sem mais demoras, os mongóis saltam da embarcação, demasiado felizes por pisarem terra firme, mesmo não sendo a deles. Superando a fadiga, o veneziano ordena que se metam imediatamente a caminho. Os mongóis tresandam a fundo de porão e a excrementos a cem passos de distância. Marco tem esperanças que o ar do mar consiga dissipar os vapores nauseabundos. Em silêncio, percorrem demoradamente as muralhas, antes de encontrarem uma passagem escarpada, que escalam uns atrás dos outros.

 

Depois da desolação do Reino de Koryo, a paisagem que se oferece a Marco afigura-se-lhe feérica. O céu adquiriu tons de pastel, esbatido do azul para o cor-de-rosa, apresentando infinitos matizes. Ao longe, na encosta das colinas, pequenas casas de telhados desconjuntados sucedem-se como construções de crianças, numa harmonia de tons que parece ter sido imaginada pela suavidade do crepúsculo. A floresta desdobra-se em tonalidades coloridas que vão dos verdes mais azuis aos reflexos avermelhados mais intensos. O musgo atapeta os rochedos até ao rio, deixando correr à tona da água longos rastos flamejantes cintilando à luz do sol. Cascatas melodiosas que se tornam tonitruantes acompanham o seu trajecto. Começam a avistar habitações, inteiramente construídas em madeira, sem decorações ostensivas. Atravessam pontes de pinho lacado de vermelho, formando um arco perfeito sobre numerosos rios. Em pequenas parcelas de arrozais, homens, mulheres e crianças, dobrados ao meio, extenuam-se repicando o arroz.

 

Atravessam uma alameda de bambus que parecem atingir a abóbada celeste, só perceptível através da folhagem.

 

Instintivamente, Marco compreende a ambição do Grão Cão. Esta ilha encerra tesouros ocultos que procura conservar ciosamente. A beleza do país deleita-o no limite da dificuldade que se adivinha no cumprimento da sua missão.

 

O grupo penetra na floresta. Os cavaleiros avançam através da densa folhagem húmida. Encontram uma passagem. Enveredam por um caminho que corre pelo meio da montanha.

 

Subitamente, surgem cavaleiros munidos de armaduras, cercando-os em silêncio. Usam um capacete que lhes desce até aos ombros, terminando em dois piques de ferro encurvados. Penduradas à cinta, longas espadas. Têm os olhos amendoados como os dos Chineses, mas Marco julga distinguir uma subtil diferença na carnação e nas feições. O olhar destes homens é tão penetrante quanto acutilantes parecem ser as suas espadas. Os soldados mongóis levam por sua vez as mãos às armas.

 

Marco detém-nos.

 

- Não façam isso, vimos numa embaixada.

 

- São samurais! - exclama Kim Yi, levemente inquieto.

 

- Meu caro Kim Yi, chegou o momento de me provares que te recordas bem do que temos repetido nas últimas semanas - declarou Marco, confiante.

 

O coreano aquiesce com um sinal de cabeça e dirige-se aos cavaleiros em japonês. Os samurais não tiram os olhos de Marco. O veneziano, embora não perceba uma palavra do discurso do intérprete, fica suspenso dos seus lábios, como para lhe transmitir os seus próprios pensamentos. Subitamente, pelo canto do olho, parece-lhe vislumbrar que um dos samurais leva lentamente a mão ao sabre, preparando-se para o desembainhar. Marco lança um olhar furtivo a Ai Xue. O chinês permanece impassível, atento ao discurso de Kim Yi. Se o samurai os atacar, vindo eles em cumprimento de uma missão de negociação, será mais um crime a imputar ao rei do Japão. Mas, que importância terá a sua morte? Marco não pode ordenar aos mongóis que se defendam antes de serem atacados. Seria um sinal de agressão inaceitável, quando foram mandatados pelo Grão Cão com toda a confiança. E se Kim Yi não tivesse compreendido bem o sentido da mensagem? E se não conseguisse traduzi-la? E se os samurais fossem demasiado belicosos para quererem ouvir?... O espírito de Marco é assaltado por dúvidas e interrogações.

 

De repente, à velocidade de um raio, Ai Xue dá um salto e, num ápice, aplica um pontapé logo seguido de um segundo no braço do samurai, precisamente quando este se preparava para desembainhar a catam. O ataque é tão rápido que o japonês, surpreendido, não consegue desviar o cavalo e desequilibra-se. Soltando um grito agudo, Ai Xue aproveita para saltar de novo e atinge-o no peito, desarmando o adversário. Sobrecarregado com a armadura, o samurai levanta-se com dificuldade. Ai Xue, à velocidade de um raio, apanha do chão um grande ramo de árvore. Sem nunca tocar no chão senão por alguns instantes, Ai Xue salta pelos ares, mantendo à distância o samurai, que manobra o sabre com uma rapidez fulgurante. O chinês sublinha cada salto com um grito breve. Encadeando movimentos prolongados e bem elaborados, Ai Xue esquiva os golpes de lâmina e de estoque do japonês. Este consegue encostar Ai Xue a uma árvore. O chinês trepa pelo tronco como se caminhasse na perpendicular e salta para as costas do samurai, antes de cair a seus pés, de pernas flectidas, preparado para um novo assalto.

 

A lâmina da arma do samurai rasga o ar, produzindo um silvo lúgubre. A arma rodopia num turbilhão a tamanha velocidade que se torna invisível aos olhares dos presentes, falhando de novo o alvo e indo enterrar-se no tronco de uma resinosa.

 

Marco assiste fascinado, impotente, a este estranho bailado. O samurai executa movimentos de sabre complexos, breves ataques velozes como um raio, seguidos de longos momentos de expectativa perfeitamente imóveis. Quando recomeça a luta, os combatentes deslocam-se tão depressa que Marco mal chega a ver a lâmina fender o ar entre sinistros rangidos. O sopro gelado da morte rasa-o por diversas vezes. O samurai agacha-se, de busto bem hirto, antes de lançar o sabre para a frente. Ai Xue, de braços e pernas completamente tensos, nunca permanece por muito tempo no mesmo sítio, alternando reviravoltas e amplos movimentos circulares.

 

Ai Xue dá um salto que o propulsa para a frente literalmente à altura do lançamento de um punhado de favas; aplica então um e depois dois pontapés no rosto do samurai, antes de retomar contacto com o chão. Sem dar ao samurai tempo de recobrar os sentidos, Ai Xue forma um salto, estende a perna e atinge-o com o lado exterior do pé.

 

Abalado, inseguro quanto ao desfecho do combate, Marco aproxima-se do intérprete coreano que, como ele, permanece apavorado pela impressionante ameaça dos samurais. Ai Xue rodopia sem descanso, servindo-se do pé como ponto de apoio, evitando os golpes de espada do samurai, cada vez mais destro. A curta distância, o grupo de samurais observa, considerando que o companheiro não necessita da sua intervenção.

 

- Kim Yi, diz-lhe que não vimos com intuitos bélicos! Faz qualquer coisa! Se assim não for, acabaremos varados pela lâmina do seu sabre!

 

O coreano dirige-se energicamente ao grupo de guerreiros. O chefe ouve-o, sem deixar de seguir o combate. O seu olhar cruza-se com o de Marco. Cravam os olhos um no outro. Exprime-se na sua língua com intonações brutais. O samurai e Ai Xue imobilizam-se, ofegantes.

 

- Como tiveram a ousadia de desembarcar na nossa ilha? traduz o intérprete coreano.

 

- Diz-lhe que temos a honra de vir mandatados pelo Grão Cão para podermos conhecer a alegria de transmitir uma mensagem ao rei do Japão.

 

Depois de ter ouvido Kim Yi, o japonês dá uma ordem ao companheiro. Então, com uma lentidão infinita, este baixa gradualmente a guarda. Por detrás do capacete, as gotas de suor obrigam-no a piscar os olhos.

 

- Senhor Polo, eles oferecem-se para nos acompanhar até ao seu amo e senhor.

 

Guiados por uma escolta da qual não tardam a sentir-se prisioneiros, os homens de Marco avançam em marcha forçada pelo meio das florestas de plantas espinhosas de tons escuros e aveludados.

 

Os samurais conduzem-nos até uma aldeia a um dia de marcha da margem. Os habitantes olham-nos, assombrados. Depois de atravessarem o lugarejo, entram num edifício fortificado. São encaminhados até uma casa de paredes de papel. Para os vigiar, é destacado um samurai que dá pelo nome de Hakuka. Precisamente o homem que os recebeu à chegada à ilha com a já citada profusão de demonstrações. Obriga-os a descalçarem-se. O mobiliário é austero: um simples tapete entrançado cobre o chão guarnecido de mantas enroladas. Partilham todos um único quarto. Marco sente dificuldade em suportar a proximidade dos mongóis, cujo fedor é tanto mais intenso quanto se encontram fechados. Ai Xue queima paus de incenso ao longo de várias sessões de meditação, sentado de pernas cruzadas. A presença do guarda inibe as conversas. Só têm direito a uma refeição diária., frugal. Método clássico que permite enfraquecer fisicamente o adversário. Marco já passou pela mesma experiência quando esteve refém de Caidu. Esforça-se por ignorar a fome que o atenaza e concentra-se na missão de que foi incumbido. Hakuka não desvia os olhos deles, sentado sobre os calcanhares, à entrada da porta. Marco não consegue deixar de pensar no tabu mongol que considera o limiar da entrada de uma casa um local sagrado. O japonês, na sua imobilidade total, assemelha-se a uma estátua. O veneziano lamenta não poder comunicar com ele. A força de carácter que o homem manifesta impressiona-o grandemente, e gostaria de retirar daí alguns ensinamentos. Lá fora, começou a chover. As gotas tamborilam violentamente contra as paredes de papel. Enroscado sobre si mesmo, Marco acaba por soçobrar num sono em que sofre ataques de um samurai sem conseguir esquivar-se.

 

Quando, finalmente, os vêm buscar, Marco sente-se imbuído de uma nova combatividade. À luz do dia, Marco observa que Ai Xue emagreceu, mas que os seus olhos cintilam de impaciência. Hakuka condu-los através de um jardim minuciosamente ordenado. Grandes lajes de pedra pousadas na areia. De onde em onde, em cima de rochedos que chegam ao ombro de um homem, vêem-se árvores de tronco bem desenvolvido e folhagem minúscula, plantadas em grandes vasos de barro. Marco julga reconhecer pinheiros e cedros, cujos ramos se desdobram em grandes corolas intervaladas. Depois de percorrerem caminhos através de rochas que imitam montanhas anãs, penetram numa antecâmara de grande sobriedade. Sem uma palavra, são guiados até uma sala de audiências na qual impera uma personagem corpulenta rodeada por uma guarda pessoal constituída por lindas raparigas. Mal entrou na sala, as raparigas começaram a andar à volta dele, sempre a rir. A túnica do homem deixa adivinhar uma musculatura que os anos ainda não cobriram de uma espessa camada de gordura. Arvora arrogância e segurança quando fala, numa voz firme e entrecortada. O intérprete coreano traduz em atenção a Marco.

 

- Pergunta quem somos e qual a razão da nossa presença na ilha.

 

- Diz-lhe que pretendemos intimar o seu soberano a submeter-se ao maior imperador do mundo.

 

- Não podemos dizer tal coisa, Marco - intervém Ai Xue discretamente.

 

O veneziano volta-se então para Kim Yi.

 

- Evidentemente! Então experimenta o seguinte: prosternamo-nos a seus pés, venerável governador, e imploramos à sua benevolência que se honre levar-nos à presença do seu soberano, em nome de Cublai Cão.

 

- Permita que proceda à minha maneira.

 

Ai Xue lança-se numa longa tirada em chinês que o intérprete coreano parece ouvir distraidamente. Marco procura fazer boa figura. Por que falou Ai Xue em chinês a Kim Yi? O intérprete traduz para o governador, que começa, também ele, a impacientar-se com estes intermináveis discursos. Por fim, o japonês responde, agitando os braços, sem deixar de fixar Marco. Este esforça-se por permanecer impassível enquanto o coreano e depois Ai Xue traduzem.

 

- Ele aceita conceder-nos a insigne honra de nos encontrarmos com o xógum de Kamakura, mas exige que a escolta fique aqui.

 

- Quer que eu vá sozinho?

 

- Quer.

 

- Recuso. Aconteça o que acontecer, não devemos separar-nos. Seja como for, necessito pelo menos do intérprete. De contrário, como poderei fazer-me entender?

 

O japonês suspira ruidosamente.

 

- Está a perder a paciência. Que decide, Senhor Polo? - pergunta Ai Xue.

 

- O que te disse. Ou vamos todos, ou não vai ninguém.

 

- Não podemos responder-lhe assim.

 

- Tu nem sequer sabes o que o coreano traduz - objecta Marco.

 

- O senhor também não.

 

Marco meneia a cabeça.

 

As discussões prosseguem em vão ao longo de várias horas, e os homens acabam por ser levados para as celas sem lhes ser fixado um destino.

 

Nas noites que se seguem, Marco não consegue conciliar o sono. Duvida do sucesso da sua missão, receando que sejam todos simplesmente lançados ao mar, antes de poderem penetrar mais no interior do território japonês. Admitindo que chegam à presença do xógum, tudo ficará ainda por fazer. No escuro, adivinha a silhueta cambaleante de Hakuka, recortada na claridade do frio luar da Primavera. Os pálidos raios difundem-se pelo quarto através dos painéis de papel. À medida que o astro sobe no céu, os feixes lunares traspassam a noite como flechas de luz tão branca quanto a tez de uma mulher. Pelas janelas pequenas, as flores das cerejeiras esvoaçam ao sabor do vento, como uma chuva de flocos de neve.

 

A vida quotidiana melhora. Servem-lhes pratos de peixe cru cortado em lamelas finas. Kim Yi explica aos mongóis enojados que é assim que os Japoneses consomem tudo o que vem do mar. Marco deixa-se seduzir pelas cores esbatidas, do rosa coral ao branco leitoso, que decoram o prato de grés. Com a ponta dos lábios, mastiga um pedaço de peixe quase em sangue, e surpreende-se porque, afinal, aprecia. As doses são modestas, mas o sabor requintado exige uma degustação lenta. Depois de ter ingerido, no primeiro dia, esta única refeição, como os mongóis, Marco aprende com Ai Xue a prolongar este momento de prazer e alívio.

 

- Imagine que deseja uma mulher bonita. Muitas vezes, os melhores momentos antecedem os da posse. Do mesmo modo, se souber esperar, a lagarta transformar-se-á em borboleta.

 

- Os que não esperaram inventaram a seda...

 

Os dois homens trocam um sorriso. À custa de supremos esforços, Marco consegue esquecer as exigências do seu ventre faminto, na expectativa de uma fruição sublimada dos pitéus que já devorou com os olhos.

 

No dia seguinte, servem-lhes pratos de peixe e mariscos, moluscos e crustáceos, acompanhados por uma tigela de arroz.

 

Numa nova audiência, tomam conhecimento da decisão do governador. Condescende no pedido feito, desde que sejam escoltados pelos seus samurais.

 

Ainda têm de esperar vários dias antes de poderem sair de Dazaifu. De manhã, servem-lhes uma refeição copiosa, como nunca comeram antes de chegarem ao Japão. Ai Xue sorve ruidosamente a tigela de sopa ainda fumegante. Os mongóis, enojados, engolem o peixe, que acompanham com um grande pedaço de arroz amassado. Marco saboreia tranquilamente o chá verde que o aquece até aos ossos. A espuma cremosa à superfície da água quente deixa-lhe um sabor amargo na língua. Só lamenta não ter sido autorizado a lavar-se, pois começa a cheirar a mongol a dez passos.

 

Kim Yi conta-lhes que o chá só é vendido no Japão há cinquenta anos, por seu intermédio. Especifica com uma certa admiração as técnicas de cultura do chazeiro, a selecção das plantas, a maneira de cobrir os arbustos por ocasião dos grandes calores, a fim de que as folhas conservem a frescura. Pela primeira vez, Marco apercebe-se de que os Coreanos sentem mais afinidades com os Japoneses, povo pescador e montanhês, do que com os Chineses, mundo de letrados das planícies, ou com os Mongóis, evidentemente, rudes guerreiros das estepes.

 

Os samurais não perfazem mais do que uma dezena, mas o seu aspecto é deveras dissuasivo. Os capacetes que usam mais parecem máscaras num trejeito de fúria. Nunca se mostram sem a sofisticada armadura, que lhes reveste as articulações. A sua atitude é perfeitamente rígida. Quando Marco ouve dizer que Hakuka foi designado para assumir o comando do grupo, sente-se quase tranquilo.

 

O samurai desenha no chão uma grelha de nove letras com um dragão ao centro.

 

- É uma prática do budismo zen - explica Kim Yi - que esconjura a má sorte e apela a bons presságios para a nossa viagem.

 

Dão Zhiyou não consegue descontrair-se. Está sempre a olhar para todos os lados, como um animal desconfiado. Xiu Lan, por seu lado, passeia pelo mercado de Hangchou com um prazer que lhe sabe a liberdade. O canto dos pássaros mistura-se com o dos grilos, cristalinos como as gotas de água de uma chuva de Verão. Deixa-se seduzir por um mercador de horóscopos, e depois passeia-se demoradamente diante de uma banca de unguentos e perfumes. Dão Zhiyou afasta-se, incapaz de se quedar. Nervoso, esconde-se atrás de uma banca de guloseimas. Xiu Lan vê-o. Aproxima-se dele.

 

- Queres uma?

 

Aponta para os pequenos bonecos de açúcar, mandarins e concubinas incrustados em estojos dourados de raios de mel. Animais selvagens ou míticos convivem com aves de plumagem reluzente. Dão Zhiyou observa, fascinado, o trabalho minucioso dos doceiros. Encantado, esboça um sorriso diante de um pequeno dragão moldado em açúcar de soja.

 

- Também tenho de cevada ou sésamo - esclarece o vendedor.

 

Mudo, Dão Zhiyou fixa em Xiu Lan um olhar de eloquente intensidade.

 

- Ele quer aquele - disse ela, estendendo uma nota ao homem. - E dê-me também uma cana-de-açúcar.

 

Delicadamente, como quando colhia as flores de jasmim, Dão Zhiyou apodera-se do pequeno dragão. Esconde-o na manga, onde o deixa bem guardado, como um tesouro. Xiu Lan chupa a cana-de-açúcar, gulosa.

 

- Então, não comes?

 

Preocupado, Dão Zhiyou assume um ar culpado. Xiu Lan acaricia-lhe o cabelo com ternura. Volta atrás, até ao vendedor de guloseimas.

 

- Dê-mas todas - diz ela.

 

Xiu Lan dá-se ao luxo de pagar um palanquim para regressar a casa. Dão agarra-se aos varões de madeira. Detêm-se diante de uma porta ricamente esculpida. Penetram num primeiro jardim orlado de árvores, atravessam uma ponte em arco de círculo, prosseguem o seu caminho até à moradia, sumptuosa. Dão sente-se maravilhado.

 

Antes de ir buscar o garoto para a servir, Xiu Lan cuidou da propriedade, que escolheu com Shayabami, segundo as regras ancestrais do Feng Shui. Agora que recuperou a criança, a casa de chá já não lhe impõe uma presença assídua. Está mesmo autorizada a receber os clientes em casa. A sua reputação começa a florescer em Hangchou.

 

Já dentro de casa, Xiu Lan presenteia Dão, deslumbrado, com três camisas de tecido de algodão e um par de sapatos muito pouco usados.

 

Depois, manda lavar o garoto. Dão é mergulhado num banho gelado. O sangue contrai-se-lhe dentro das veias, como uma dor brutal. Sujeita-se à risota das criadas. Aos poucos, o corpo habitua-se. Sobe para o banco imerso e agarra-se.

 

Xiu Lan dirige um sinal à criada. Esta lança para dentro de água peças de metal e pedras escaldantes. Em contacto com a água, crepitam por instantes, libertando um fumo pálido. O perfume do sabão exala uma mistura de pez e ervas. A criada pega no frasco pousado no rebordo da banheira de faiança e entorna-o na palma da mão. O líquido escorre-lhe pelos dedos.

 

Dão Zhiyou deixa-se esfregar pela criada, todo ele encolhido. Trata-se de uma experiência nova para ele. Transpira, envolto numa vaga de calor. A criada afasta-se para ir buscar uma toalha de linho.

 

Num gesto brusco, Dão entorna uma parte do conteúdo do frasco na palma da mão. Abre a boca e, fazendo uma careta, esfrega a língua com toda a força, como se este gesto pudesse restituir-lhe a palavra.

 

Ao sair do banho, cataplasmas à base de alho e espargos aguardam Dão. Xiu Lan leva-o para um quarto pequeno, fazendo um sinal à criada. O garoto recua, na defensiva.

 

- Deixa-nos sozinhos - ordena a cortesã.

 

A criada sai depois de fazer uma profunda reverência.

 

Xiu Lan senta-se nos calcanhares para se situar à altura da criança. Os seus olhares cruzam-se. Xiu Lan está serena, impassível, perguntando-se por que terá aquele miúdo da rua tanta importância para o Lotus Branco e para Marco Polo. Dão Zhiyou devora-a com os olhos, como se receasse vê-la desaparecer. Procura resistir, mas acaba por se coçar. Escorrem-lhe lágrimas das pálpebras fechadas.

 

- Tens uma doença de pele. Estes remédios vão aliviar-te. Limitar-me-ei a aplicar estas cataplasmas nas feridas. Se quiseres, fá-lo-ei todos os dias, até que te cures.

 

Dão fita-a com um olhar desconfiado.

 

Com gestos lentos, Xiu Lan apodera-se dos panos embebidos. Aproxima-se do garoto. Este não deixa de a fitar, de dentes cerrados, e, trémulo, entrega-se nas suas mãos. El