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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ALVORADA / Sarah Beirão
ALVORADA / Sarah Beirão

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A L V O R A D A

 

Surgira-lhes o Amor!... Afagaram-no!... O menino deixou-se prender e demorou-se, sem mostrar enfado.

Pimpolho travesso, não gosta de contratempos; quer vida larga e sem arrelias, à solta, folgando e rindo sem que ninguém lhe vá à mão. Se o apertam... anseia por se escapar.

Mas Paulo e Madalena estavam em condições para sustentar o mimalho caprichoso.

Sorria-lhes a vida. Ambos ricos, filhos de famílias distintas, não podia haver mais auspicioso enlace.

Uniram-se pelo matrimónio!... E foi ao contento de todos aquela união.

Paulo Abrunhosa tinha um amigo íntimo, João Saavedra, com quem cursara a Universidade na mais completa camaradagem, como verdadeiro irmão. Por isso, quando Paulo resolveu casar, o que mais o impressionava era ter de abandonar um pouco o companheiro de sempre. Desejava que ele casasse também; mas João Saavedra possuía uma grande relutância pelo casamento. Não tinha feitio para conquistas. Sentia-se bem assim; -para que havia de meter-se em trabalhos?

Madalena estava também com o maior empenho de contribuir para a felicidade do amigo do marido. Lembrou-se de Marta, companheira da infância e inseparável no colégio onde ambas tinham sido educadas. Órfã desde os primeiros anos da vida, tinha uma grande fortuna e era uma bondade...

Sem nada comunicarem àqueles que desejariam ver enamorados, começaram um trabalho de cupido. Marta, a convite da antiga condiscípula, vinha passar épocas à Quinta da Abrigada e, por coincidência habilmente preparada pelo casal amigo, João aparecia, sempre, na mesma ocasião.

Nem uma palavra sobre o projecto de os unir. João Saavedra achava já tão natural o encontro de Marta na quinta dos amigos, que a considerava de família.

As coisas corriam maravilhosamente. Os dois riam-se ao ver o seu projecto encaminhar-se para a mais risonha realidade.

- Agora o essencial é fazer desembuchar o João - diziam entre si.

Arrancar-lhe o segredo que tão ciosamente guardava não era fácil, em vista do seu feitio reservado. Resolveram, por isso, aclarar situações. Um dia, como muitos em que João vinha à Abrigada, propositadamente afastaram Marta. E o visitante, quando chegou, passou a vista pelo aposento, surpreendido. Os dois observavam-no com a maior atenção. Quando se abria uma porta, ele voltava-se ansioso a ver se surgia quem esperava; o olhar amortecia, desolado, ao constatar que não era ela.

Os donos da casa não faziam a menor referência à ausência de Marta.

Nesse serão o Saavedra esteve menos falador, mais preocupado e sorumbático. Era a prova de que uma afeição sincera germinara naquele coração, que teimava em fechar as portas ao amor.

Os amigos estavam satisfeitíssimos. Faltava tirar a prova ao estado de espírito de Marta, o que não tardou nem foi difícil.

Na primeira oportunidade em que se encontraram sós, Madalena disse naturalmente:

- Sabes quem vai casar?

- Não, nem presumo...

- O João Saavedra.

Marta não respondeu uma palavra. Continuou a trabalhar com mais afã, como se nada a preocupasse além do bordado que tinha nas mãos. Madalena ergueu os olhos para ela e viu-a rubra... Sorriu-se, contente.

- Parece que não gostaste da novidade?

- Quero lá saber que o homenzinho case ou não... Não é meu parente...

- Mas podia ser teu marido...

Marta parou de trabalhar e fixou a amiga, surpreendida e severa.

- Estás a brincar comigo, Madalena! - Não; estou a falar muito a sério.

- Era caso para ficar zangada contigo... Madalena não pôde conter uma estridente gargalhada... Marta embatucou e corou ainda mais.

- São ambos solteiros... não vejo impedimento para que se realizasse tão esperançosa união.

- Mas que lembrança tão esquisita...

- Por quê?

- Por tudo; eu nunca tencionei casar, e ele, ao que dizes, já está comprometido...

- Veremos se a sua escolha é definitiva...

- Madalena, pelo amor de Deus, não te metas nisso...

- Não gostas do João?

- Que pergunta!... Sei lá... nunca pensei em tal...

- Mas embirras com ele?

- Nem embirro nem deixo de embirrar... É-me indiferente.

Madalena tomou-lhe as mãos.

- Ora olha bem para mim, muito séria e sem me desfitar, a ver se és capaz de sustentar essa mentirita.

Marta, sem poder furtar-se àquele rigoroso exame, sentiu que as lágrimas a iam trair.

- Não é preciso mais... já sei quanto desejava. Gostas dele, e só revelas nisso muito bom gosto. O João é um rapaz admirável. Não era possível escolheres melhor!... Tenho a certeza de que acertaste.

- Que ideia!... Podia lá passar-me isso pela cabeça...

- Que feio é não dizer a verdade, especialmente a uma amiga como eu, que apenas deseja a tua felicidade.

- Vê lá o que vais fazer, Madalena, não me comprometas...

- Descansa... Acima de tudo a honra do convento. Que o nosso sexo conserve sempre a linha de dignidade e impecável conduta que é imprescindível para nos impormos. Nunca te deixaria ficar mal; confia em mim.

- E ele?

- Faço-lhe o mesmo exame que fiz a ti, e cairá como um patinho... Não tarda a sair-se com uma declaração em forma. Verás.

No dia seguinte tudo foi preparado de maneira a Madalena ficar só com João. Paulo demorou-se por fora mais que o costume, para dar tempo às investigações da consorte.

Quando ele chegou encontrou-a a trabalhar, como de costume, mas só. Passou o olhar ansioso pelo aposento, a ver se encontrava vestígios de Marta ali ter estado... Mas nada!...

Madalena observava-o com curiosidade e viu-o

esmorecer... Começou a folhear revistas desinteressadamente...

- O Paulo demora-se... Pensei que já cá estava...

- Não pode tardar... O João fez bem em vir fazer-me companhia; sinto-me tão só...

Preparou-lhe o ensejo de perguntar por Marta e ele não desejava outra coisa.

- A sua amiga está doente?

- Não; mas agora, com aqueles afazeres, pôs-me um pouco de parte!... Afinal, meu amigo, só podemos contar connosco...

- Então ela já lhe não faz companhia?

- Desde que está para casar, tudo mudou...

João quase deu um pulo na cadeira e empalideceu de morte. Madalena espiava-lhe os movimentos e as atitudes.

- Marta vai casar?

- Vai. Parece que não é uma coisa natural, Surpreendeu-o tanto...

- Sim, acho um disparate. Madalena fitou-o com insistência.

- Por quê?

- Assim do pé para a mão...

- Quem lhe disse que não era um velho afecto?

- Claro que ninguém me disse, mas suponho. Deve ser casamento de conveniência, talvez aconselhado por si.

Madalena não pôde conter uma forte explosão de riso.

- Já não mereço no seu conceito outro papel que o de alcoviteira?... É muito lisonjeiro para mim... Sim senhor, bonita distribuição e... generosa.

- Lá está a exagerar... Mas a Marta, só por si, faço-lhe justiça, não se decidia...

- Ah!... Então a Marta não é mulher? Não tem coração nem o direito de amar?

- Quem lho contesta? Mas tem, além de tudo isso, um grande senso comum, uma grande ponderação e prudência que não a deixariam precipitar no abismo.

- Então o casamento é um abismo?... Toda a mulher que casa é insensata e imprudente? Muito bem, Sr. Dr. João Saavedra, fiquei sabendo quanto precisava para me orientar. Acha que é imprudente e insensato o rasgo de Marta... porque... porque o não escolheu a si!... E ando eu, há um ano, a aproximar estes dois pombinhos... para nada!... Se Marta lhe não era indiferente, como acabo de verificar, para que deixou passar tanto tempo neste ramerrão, sem atar nem desatar? O João é um indeciso... Tem a felicidade ao lado, mostram-lha, proporcionam-lhe todas as facilidades, e só quando a vê fugir acorda e vocifera contra o destino, possivelmente contra mim e contra tudo, sem se lembrar de acusar a sua inércia. Pois, meu amigo, a verdadeira arte consiste em saber aproveitar as oportunidades. A felicidade é como as perdizes: se estão perto, o tiro pode alcançá-las; se levantam voo... quantas canseiras para as avistar de novo.

- Podia ter-me prevenido das ideias de Marta...

- O que queria que eu fizesse mais? Achou pouco?

- Imbecil... Imbecil que eu fui!... Agora tudo está perdido.

João, sucumbido, sentou-se, apertando a cabeça entre as mãos.

Madalena, radiante, saboreava a sua obra; João, erguendo rapidamente a cabeça, surpreendeu-lhe a expressão risonha. Pelo olhar passou-lhe uma nuvem de indignação.

- Ainda por cima faz troça?... Ah! não lhe mereço essa atitude!

- Quer que chore?... Veja lá aonde pode levá-lo a sua exigência...

- Leva-me perto, apenas a pedir-lhe que não escarneça do meu sofrimento...

- Tenho muita pena de si, mas neste momento as lágrimas fugiram!... É que a culpa não foi toda sua; a mim não tem de que me arguir. Repito: fiz tudo para os aproximar...

- Madalena, peço-lhe por quanto na vida mais caro lhe é, que obste a que esse casamento se realize. Tenho a certeza que o forjaram quando viram a minha estúpida indecisão. Valha-me, Madalena, seja o meu anjo salvador.

Madalena, de pé, revelando na fisionomia completo triunfo, olhava-o com a maior atenção.

No limiar da porta apareceu, com ar de surpresa e espanto, a figura de Paulo. O amigo não o podia ver... Madalena sorriu-lhe. O quadro era estranho. Que queria dizer tudo aquilo? Não ousava aproximar-se e os olhos pareciam querer-lhe saltar das órbitas.

- Vem ajudar-me, Paulo, a construir a felicidade do teu amigo.

João Saavedra ergueu-se, perturbado.

- Perdoa-me... Perdi a cabeça... Não estou em mim... - e caiu, aniquilado, nos braços do marido de Madalena.

- De que se trata? Francamente, não percebo patavina da farsa que vocês estão a representar...

- A tua mulher...

- O João...

- Mas que significa isto?

- Significa, meu querido Paulo, que eu tinha um grande empenho em casar o teu amigo!... Como não havia quem lhe arrancasse uma declaração, resolvi armar-lhe uma cilada... e consegui o que queria... Estou satisfeita!... Ele agora que te conte os pormenores da cena, que eu vou buscar a outra vítima que vai ser imolada ao deus Cupido.

- Mas que comédia é esta?... Dás comigo em doido, mulher!... O João, de joelhos diante de ti!... Madalena desatou a rir.

- Ah! Esse é um dos episódios mais pitorescos da peça...

- Da comédia, da comédia...

- Classifiquem-na como quiserem... A autora conforma-se com tudo, contanto que os resultados lhe agradem.

- Que quer dizer tudo isto, João?

- Que a tua mulher se andou a divertir à minha custa e nada mais...

- A Madalena, tão séria, tão bondosa...

- Sim, tudo quanto quiseres, mas também muito trocista...

Em poucas palavras, Paulo ficou ao corrente do que se passava. Não tardou que Madalena aparecesse com a amiga.

- Aqui está a delinquente do grande crime de... amar o Sr. Dr. João Saavedra...

Paulo tomou o amigo pelo braço e, desembaraçadamente, como se tivesse previamente ensaiado o papel, disse:

- O João encarrega-me de pedir a mão de Marta, dando-lhe em troca o seu amor, a sua vida e a sua fortuna!... Claro que a Marta não pode recusar, nos tempos que vão correndo, tantos presentes de uma assentada.

- Paulo, veja no que se mete... Parecem-me todos empenhados em empurrar o Sr. Saavedra para um caminho que ele não escolheu...

- O que me parece é que vocês estão ambos com vontade de estragar a felicidade!... Pois não vai a época de molde para perderem tempo. Aproveitem-no, que já não precisam de licença para realizarem o simpático sacramento do matrimónio...

- Deixemo-nos de representações... Para que está a Marta a fingir?... Diga francamente que lhe agrada o noivo, que não dá prova de mau gosto!... Melhor que isto não há...

João estava um pouco atarantado. Sorria-lhe a ventura, mas tudo aquilo lhe parecia um sonho.

- Minha senhora, o que acaba de se passar é verdadeiramente inesperado para mim... Para que possa, porém, acreditar na evidência dos factos, preciso de ouvir uma palavra sua, Marta... E acredite que, se quiser ser a companheira da minha vida, considerar-me-ei o homem mais ditoso da terra.

Marta, um pouco perturbada, estendeu-lhe a mão.

- Porque havia de recusar, se também eu sinto que serei completamente feliz... passando o resto dos meus dias a seu lado?

João depôs um beijo na mão que se lhe estendia e estreitou-a com ardor.

- Farei tudo para que se não arrependa...

Paulo e Madalena estavam radiantes. O projecto que há muito acalentavam ia, finalmente, tornar-se em realidade.

- Agora não vale a pena grandes demoras... Trata-se de tudo quanto antes.

E como não tardaria a nascer o segundo filho ao casal Abrunhosa, se tudo corresse normalmente, o casamento realizar-se-ia no dia do baptizado e os noivos seriam os padrinhos do ente que iria entrar no mundo dentro em pouco.

Ficou logo tudo combinado.

Agora as duas amigas, mais que nunca inseparáveis, entregavam-se com o maior entusiasmo ao enxoval da criança que esperavam em breve. João, com rara habilidade para o desenho, fazia debuxos para a indumentária do futuro afilhado.

Não se sabia porquê, todos contavam com um rapaz. Falava-se nele com uma certeza, como se estivesse já ali o menino tão ansiosamente esperado. Havia de chamar-se Carlos, estava decidido.

O tempo corria vertiginosamente. Plena Primavera... O jardim coberto de rosas... Uma festa pagã na natureza! Zumbiam insectos pelo ar e bandos de pombas cortavam o azul, em todas as direcções, arrulhando, amorosas.

Foi num dia assim que o pequenito nasceu. Não se tinham enganado nos vaticínios. As roupitas azuis não tiveram de ser substituídas. Tudo revestiria, porém, um carácter muito íntimo e as duas cerimónias realizar-se-iam na capela da quinta.

Na Abrigada não se descansava e Paulo cuidava de arranjos como se esperasse grande número de convidados, quando, afinal, estes não existiam. Apenas os interessados e o Padre Anselmo, o grande amigo, que já os tinha casado e baptizara o primeiro filho. Marta e João não tinham família. Havia apenas os parentes de Madalena e de Paulo, quase todos afastados, não valendo a pena fazê-los deslocar dos seus lares. Depois, gostavam muito mais daquela serena intimidade.

Paulo tivera todo o empenho em que os filhos nascessem na casa dos seus antepassados. Madalena, lisboeta de gema, não se opôs ao desejo do marido, se bem que a falta de assistência médica a assustasse um pouco. Havia, porém, um clínico excelente na Cantarela e os recursos precisos para os primeiros socorros em caso de urgência. Estavam todos confiantes e em verdade tudo correu normalmente.

O facultativo, o Padre Anselmo, alguns funcionários da terra, vinham frequentemente à Quinta da Abrigada. A transformação que Paulo operara no palacete era o assombro de toda a vizinhança. Nada faltava ali!... Os velhos salões foram restaurados, água canalizada, instalações eléctricas, conforto e elegância. Ninguém, ao entrar na sumptuosa vivenda, julgaria encontrar-se no coração da Beira.

O aspecto da quinta era também de encantar! As vinhas bem cuidadas e os olivais, que encontrara decrépitos, estavam agora. florescentes e rejuvenescidos. Limpeza a tempo, um tratamento rigoroso e perseverante, fizeram do imenso olival da Abrigada o mais pomposo da região. Vinham de longe admirar aquele milagre e pedir esclarecimentos sobre tão brilhante realização. Mandara rasgar extensas ruas pelo meio, abrir poços, e regar as oliveiras em dias calmosos. Tinha o aspecto de um jardim bem cuidado.

Paulo começou por plantar, nos arruamentos, buxo, que, ainda baixinho, marcava já a escuro os longos arruamentos. Na Primavera, as "beladonas" pincelavam com a sua rósea frescura as tonalidades melancólicas do quadro. Ao longe, muito ao longe, para além dos extensos prados frescos e do verde tristonho dos pinheirais, a silhueta da Estrela, no Estio muito azul e no Inverno alvejando coberta de neve, dava à paisagem uma imponência magnífica.

A solidão era impressionante por vezes. Mas nem um nem outro davam por ela, sempre emaranhados na labuta quotidiana. Nunca se aborreciam... Paulo dava conta à mulher de todos os seus projectos, elaborando-os, a maior parte das vezes, ambos de comum acordo. Tinham a sua casa em Lisboa, mas entusiasmaram-se de tal sorte com a vida do campo, que ali passavam a maior parte do ano.

- Sabes o que mais admiro? - dizia frequentemente Paulo à mulher. - É como te adaptaste a este deserto... Realmente és bem extraordinária!...

Habituada à vida da cidade, ao grande convívio, a divertimentos...

- Todo o mundo para mim se resume em ti, meu adorado Paulo. Que me importam esses frívolos mundanismos, se a vida para mim é isto!... O nosso amor, esta serenidade, esta ventura absorvente e única, constituem toda a razão de ser da minha vida. Tudo o mais me é indiferente.

- Que grande dita encontrar-te, Madalena...

- Felicidade completa a minha, Paulo!... Só peço a Deus que me deixe morrer a teu lado, sem que esmoreça o carinho que une as nossas almas agora. Por mim, estou certa que esta afeição me há-de acompanhar até ao último instante da existência. Agora tu... és homem... e vocês têm, todos, a pecha de gostar de variar.

- Nem todos lêem pela mesma cartilha...

- Oxalá que o destino me fizesse deparar com uma excepção... Creio em ti como em mim própria. Se tu falhasses, Paulo; se a admiração que tenho pelas tuas acções e pelo teu carácter, tivessem de se alterar, tudo ruiria a meus olhos!... A vida não teria mais interesse para mim... É assim que eu te quero! Isto, é quase idolatria.

- Espero que nunca um gesto, uma palavra, façam tombar o ídolo do pedestal... Em ti, Madalena, creio eu mais que em mim... Quero-te cegamente...

As duas bocas uniram-se num beijo imenso a selar aquele pacto formal.

Sentiam-se completamente felizes.

Marta instalou-se na Abrigada. Ali fez o enxoval e ajudava a amiga.

João vinha aos sábados e partia às segundas.

Nas proximidades da Abrigada andava em venda uma quinta. Morrera a proprietária, uma senhora fidalga, viúva de um juiz da Relação, que não deixara descendência. Os herdeiros trataram de se desfazer de tudo.

Era uma estopada terem de pagar contribuições... O melhor, o mais simples, era portanto reduzirem a herança a patacos. O que rendesse podia transformar-se em deliciosas comodidades, em conforto, em divertimentos... Terras, terras sem fim e o enorme casarão, solar dos antepassados... Para que servia aquilo? Queriam lá saber dos que tinham morrido... O presente era tudo!... A vida era curta. precisavam pois de a aproveitar, de a viver. E daí resultou uma pressa, um frenesi doido de se desfazerem da Alameda.

Paulo informou-se e concluiu que era uma esplêndida ocasião para João adquirir uma bela propriedade. Os actuais donos nem a conheciam... Tudo se tratava com o velho feitor, a quem luzia o olho para ficar com os bens da fidalga. Em consequência desse apetite, não fazia senão apoucar as fazendas, apontando defeitos que não tinham, dizendo o pior possível das terras, para não incitar o apetite dos compradores, que começaram a rarear.

Paulo, disfarçadamente, foi sondando quanto ele pretendia dar por tudo e concluiu, também, que já fizera a sua oferta. No sábado que se seguiu a esta investigação, quando João chegou, pô-lo ao corrente do que se passava. Foram, como de costume, à caça e, naturalmente, meteram pela Alameda. Miraram e remiraram os campos.

João, por acaso, conhecia um dos herdeiros da finada e resolveu que, mal chegasse à capital, falaria com ele. Se viessem a um acordo, concluiria imediatamente a compra. Seria uma grande surpresa para as duas amigas. Era um sonho tornado realidade.

De facto, assim que se encontrou em Lisboa, não perdeu tempo. O conhecido recebeu-o com a maior afabilidade. O feitor era um maçador, contou.

- Calcula tu que a minha tia morreu há mais de um ano e ainda não conseguimos desfazer-nos daquela charneca. Não rende nada... Não há forma de vir dinheiro... e nós todos temos uma urgência enorme do vil metal... Primeiro, para pagar os direitos... Uma boa ladroeira esta coisa dos direitos!

Como se cada qual não pudesse dar a quem lhe apetecesse os seus haveres! Estamos todos mortos por liquidar esta trapalhada.

- Tens toda a razão... Isso compreende-se.

- As terras só servem para dar preocupações...

- Tenho um amigo que te compraria tudo aquilo, só para evitar má vizinhança... Se te convier vender...

- Se convém! Sendo a pronto, vem do céu...

- Sim, o pagamento é no acto da escritura...

- Belo, belo!...

- Tens já ofertas?

- O feitor da minha tia, o Zé Maria, deves conhecê-lo, tem andado a engenhar... Diz que não há ninguém que vá até aos cem contos... Eu acho uma miséria... Pouco fica dos encargos da transmissão. Não há o direito de andar a fingir que se lega uma fortuna e afinal... pespegar-nos um logro destes...

João Saavedra estava fazendo o seu juízo ao escutar o aranzel do herdeiro de D. Guiomar Salzeda... Que lição para os que não têm parentes próximos! Antes deixar a um asilo... Desde que chegara não ouvira senão recriminações a quem lhes havia deixado tudo o que tinha e se mais não legara fora por mais não ter... Causava espanto tanta ingratidão...

- bom, mas então vocês querem os cem contos?

- Sendo a pronto, talvez se abata qualquer coisa. Aquele animal do Zé Maria tinha falado num longo prazo para o pagamento e isso não nos convém. O que nós queremos é dinheiro. Um sarilho dos diabos!... Se tu me arranjas já os cobres, talvez consiga dos outros herdeiros um desconto de dez ou vinte contos... Isto é claro como água... Estamos todos a tinir... A vida elegante tem exigências, como sabes, e não é com letras que se satisfazem.

- Amanhã, o mais tardar, dou-te a resposta. João Saavedra estava radiante... Ia obter um abatimento com que não contava e sem o solicitar. Os herdeiros da Quinta da Alameda estavam todos com a mesma febre de se desfazerem das terras, lá nos confins da Beira, como eles diziam, aonde não iriam nunca. O que lhes convinha era dinheiro.

No dia seguinte, João esperou no café, como combinara, que o amigo lhe viesse trazer a decisão de todos. Este não se fez esperar. Trazia a expressão triunfante de quem alcançara o fim desejado.

- Boas novas, meu caro João! Todos estão de acordo em que há a maior vantagem em passarmos tudo aquilo o mais rapidamente possível- O feitor da tia Guiomar tem uma ronha... Estão contentes em poder pregar-lhe a partida. O dinheirito, nesta altura, não pode vir mais a tempo... Que, na verdade, metade desaparece para a patifaria dos direitos. Aquela minha tia era de uma imprevidência... Quem se lembraria de tal tolice! Impingir as quintarolas aos sobrinhos sem se lembrar de lhes deixar um centavo para os direitos!... Esta gente antiga era de uma força!...

João ria-se para dentro e, intimamente, estava satisfeitíssimo.

- Quando queres fazer a escritura?

- Quanto antes. Temos uma urgência enorme de liquidar este assunto. Nunca fui homem de hesitações. E, depois, acho absolutamente certo o velho adágio: mais vale um pássaro na mão que dois a voar...

- Combinarás com os teus parentes. Podemos ir já prevenir o notário e trata-se de tudo amanhã.

- Tens já o dinheiro?

- Claro. Em notas ou em cheques, tudo será arrumado.

Ficou para o dia seguinte a conclusão do negócio.

Marta continuava na Abrigada. No primeiro sábado, João partiu delirante para ali. Paulo já estava ao corrente de tudo. A grande surpresa seria para as duas amigas.

O jantar correu animado. Paulo encaminhou a conversa para o assunto do dia: a Quinta da Alameda.

- É uma lindíssima propriedade -disse Madalena. -Que saudades me faz a D. Guiomar!... Depois, ter quase a certeza de que vai ali instalar-se o José Maria com a sua caterva de meninos...

- Quem sabe?

- É infalível... Os sobrinhos da D- Guiomar nunca toleraram o campo... Pobre senhora! Morreu com a mágoa, bem justificada, de que o seu lindo solar iria parar às mãos de gente sem categoria... Afinal é uma fatalidade não haver descendentes directos.

- Ora!... Às vezes os filhos dão o mesmo resultado. É uma questão de sorte...

- A Madalena, sempre a falar-me nas belezas do velho solar, espicaça-me a curiosidade de o ver. Vamos lá amanhã?

- Porque não É tão perto... Que dizes, Marta?

- Bem sabes que estou sempre de acordo contigo. E para passeios no campo nem se fala...

- Não pareces uma alfacinha...

- Nasci com este jeito pacato... perturba-me o movimento... Adoro a tranquilidade...

- Nunca vi escolha mais acertada que a vossa... Se falhasse a harmonia no vosso lar, já não acreditaria que fosse possível a felicidade neste mundo.

Os noivos riam-se, confiantes. Ambos sentiam uma certeza recíproca e completa de que tinham encontrado o ideal... Era como se tivessem nas mãos a chave do destino.

No dia seguinte, à tarde, partiram para a Alameda. Como o trajecto era curto, foram a pé, e, pela estrada muito arborizada, não apanharam sol.

Os dois amigos estavam divertidíssimos com a surpresa que iam fazer ao Zé Maria. Era uma partida de truz...

- Vai dar por paus e por pedras - disse Paulo, de forma que as companheiras o não pudessem ouvir...

- Este tipo é de uma esperteza rara...

- Desta vez tanto quis comer... que ficou comido... Estou convencido de que ele não necessitava de pedir um real emprestado se quisesse pagar a Alameda a pronto... A D. Guiomar era uma santa... Este passarão encheu-se...

- Pois com os herdeiros dela muito melhor se arranjaria. São uns verdadeiros parvos alegres. Divertimentos e luxo, eis a sua preocupação... De forma que o Zé Maria estava nas suas sete quintas...

- Estou convencido que se havia de alambazar com tudo e ainda lhe haviam de ficar muito obrigados.

- Creio que ele tinha pago parte dos direitos... - Também me parece... Os herdeiros não têm um vintém... Andam sempre a tinir.

- Nos grandes centros é frequente gastar-se mais que o rendimento... Feitios...

- Educações... Do lar materno depende tudo... É na infância que se recebem os ensinamentos para toda a vida... A missão da mulher é realmente importante.

- E olha que a do homem não é menos...

- Mas diferente...

Estavam em frente do sumptuoso portão da Alameda.

- Faz-me uma impressão enorme entrar aqui depois da morte da D. Guiomar... Para quem irá isto tudo?...

- Para algum amigo muito querido... - disse Paulo.

- Não creias... Tenho a impressão de que o Zé Maria lhe espeta a garra adunca e nunca mais larga... Daqui a pouco, estas árvores seculares, a que a dona tanto queria, estão serradas em tábuas para darem dinheiro. O Zé Maria não atende a noções de estética. É o protótipo do avarento.

- Chama-lhe tolo...

- É com o vil metal que se compram, os melões que refrescam e tudo o mais que dá alegria e prazer...

- Ora... nem só de pão vive o homem...

- Pois minha amiga, cessa tudo quanto a antiga musa canta...

- Então ficamos aqui - interrogou Madalena. João apressou-se a puxar o cadeado da sineta.

Apareceu um rapazote a abrir o portão.

- O teu pai está?

- Está, sim, senhor; façam favor de entrar.

- Como isto é lindo!... -exclamava Marta, repousando a vista no imenso arvoredo secular... Como aqui se devia viver bem!...

Paulo trocou um olhar inteligente com João, o que não passou despercebido a Madalena e a deixou um pouco intrigada...

O filho do feitor, já industriado nas doutrinas do pai, meteu-se na conversa, respondendo a Marta.

- Se é bonita não sei, mas não presta para nada... Não tem água que chegue para os renovos...

- Nunca tinha dado por isso... Vejo tudo sempre tão viçoso...

- No Inverno... -respondeu o garoto, com toda a manha para afastar compradores, que transtornariam os planos do pai, encarecendo-lhe a mercadoria. - No Verão morre tudo à sede...

- Quando Deus quer, nem chega para tu lavares a cara... -disse Madalena, galhofeira.

O rapaz desatou a rir.

- Mas falta para o gado às vezes... A poça da lameira "não tem nem pinga...

- Parece-me que exageras... Estás a desfazer na quinta de grande... No tempo da Sr. a D. Guiomar, isto não era tão ruim...

Nova explosão de riso do pequeno.

- Grande maganão!... Andas no ar para ainda um dia vires a ser o dono disto...

- Se ninguém lhe pegar... e os fidalgos de Lisboa se chegarem à razão... quem a merca é o meu pai...

- Logo vi... Portanto, convém-te dizer que isto não vale nada, para arredar pretendentes... És um formidável melro...

Paulo e João tinham-se adiantado um pouco.

Iam visivelmente entusiasmados... Olhavam as árvores, os campos, com uma atenção de pessoas interessadas.

- Estas oliveiras precisam ser podadas; darão, depois, pela certa, o dobro do rendimento.

- Claro, uma reforma total transformaria a quinta num verdadeiro paraíso.

- Tu não ouves, Marta? A delinearem projectos como se fossem os donos...

O rapazito, perto delas, teve uma expressão manhosa como quem diz: -Espera por essa...

Os dois amigos tinham chegado a um vasto recinto circular, onde havia bancos e uma larga mesa. Pararam. João disse:

- Não te parece o local e o momento apropriados para dar a grande nova a Marta?

- Óptimo, óptimo. Deixa ver a escritura. Eu mesmo a vou ler solenemente.

Estavam ambos satisfeitíssimos. Estenderam o papel selado sobre a mesa com ares importantes.

- O que é isso? - interrogou Madalena, fixando o documento.

- Perfeitamente em ordem; sentem-se e escutem.

João sentou-se também. Paulo, com ares catedráticos, começou a leitura. As duas amigas, com os olhos arregalados, esperavam. Quando finalmente tiveram a certeza do que se tratava, Madalena, numa explosão de alegria, abraçou a amiga comovidamente.

- Ainda bem!... Era o meu sonho... Mas não ousava manifestar-me... O João adivinhou.

Marta olhava o noivo embevecida, enamorada.

Só o garoto, de boca aberta, sem poder acreditar no que lhe parecia ter ouvido, sem mais cerimónias, passado o primeiro instante de pasmo, abalou como uma seta, sem dar cavaco a ninguém. Badalava-lhe nos ouvidos, como dobre de finados, que a Alameda já tinha dono...

Que desgosto para o pai!

Tanto tempo naquela propaganda constante, a dizer mal da quinta, com o intuito de afugentar compradores, e afinal nada...

- O rapaz ficou desnorteado!...

- Estes campónios são de uma força...

- O que eles têm é manha... Nisso ninguém os iguala... Imaginem, de que arma se havia de servir para ficar só em campo.

Sentaram-se todos nos bancos próximos da mesa a comentar o caso. Aquela atitude do fedelho era o reflexo dos planos do pai.

- Que maganões!... E há quem cante a bondade do aldeão, a sua ternura, a sua afectividade e desinteresse... Como se a humanidade não sofresse do mesmo mal, tanto nos grandes centros como nos silenciosos burgos pobres. É a ambição que domina os povos, impelindo-os a tudo. São taras inatas que nenhuma influência modifica.

- A ganância é um mar em que muitos se afogam.

O José Maria apareceu ao fundo de uma álea, em mangas de camisa, visivelmente transtornado. O pequeno seguia-o com ar espantado, e com a curiosidade de quem quer averiguar em que param as modas.

- Tenham V. Ex. as muito boa tarde; passaram bem?

- Menos mal, Zé Maria; você e o seu ranchinho como vão?

- Na forma do costume, Sr. Dr. Paulo... Nunca o mal seja maior... Grande honra em ver V. Ex. as por aqui...

A escritura estava ainda desdobrada em cima da mesa, O Zé Maria não podia desfitar o maldito papel... Estava ali lavrada a sua sentença... E daí, podia ser que o cachopo não tivesse entendido bem...

- Pois, Zé Maria, vínhamos ver a quinta e a casa, que muito interessa este meu amigo.

O feitor de D. Guiomar alimentou uma vaga esperança. Talvez ainda não estivesse definitivamente feito o que receava.

- Isto, meu senhor, é bonito, mas... pouco rendoso. Tem este arvoredo farfalhudo, que não presta senão para lenha. Árvores de fruto há poucas, muito velhas e de má qualidade...

- com alguns cuidados, voltam. Concordo que o pomar precisa ser renovado, mas hoje as árvores crescem depressa, Zé Maria...

- Hum... nanja aqui... O torrão é de má qualidade... Não ajuda...

- Eu conheço-o; é como o meu...

- A D. Guiomar tinha aqui sempre afamada fruta e hortaliças como ninguém...

- Isso foi tempo...

- Olha que foi ela quem desenvolveu em mim o gosto pela agricultura... É feio confessá-lo, mas Sentia uma certa inveja... Na Abrigada via sempre tudo raquítico e aqui florescente e belo... Até as flores eram mais bonitas... Quando comunicava à D. Guiomar as minhas impressões, respondia invariavelmente: - Trata-as, trata-as, Paulo. Nada se consegue sem trabalho... Pensas que os frutos e as

flores medram sem o carinho do dono? Quero muito

a isto tudo; nem admira. Aqui nasci e aqui espero

morrer...

- É verdade, Sr. Dr. Paulo... Aqui se finou... Foi uma pena... Ainda podia viver muitos anos...

- Uma grande fatalidade e para nós uma saudade imensa... Fez-nos muita falta...

- E a mim, Sr. Dr. Paulo... Nem é bom falar... Era, a bem dizer, quem nos guiava em tudo. A minha mulher não dava um passo sem a consultar... Tudo acabou... Os sobrinhos não querem saber disto para nada...

- Não; e a prova é que não descansaram enquanto se não desfizeram de tudo...

- Pois eles já venderam? - interrogou o Zé Maria, desorientado.

- Já.

- E sem me consultarem... - bradou indignado, como se ele fosse o verdadeiro dono. - Vejam V. Ex. as se vale a pena uma pessoa sacrificar-se. Passar a vida inteira a zelar a fazenda alheia... para, no fim de contas, ter este pago... É de uma pessoa endoidecer...

Os quatro estavam pasmados perante aquele arrazoado do homem. Parecia que o tinham roubado...

- Ó Zé Maria, que diabo! Eles eram os donos... e oferecendo-se-lhes uma ocasião vantajosa...

- Qual ocasião, Sr. Dr. Paulo... Isto não são acções que se façam... Deviam ter uma atenção comigo... Um servidor de há tantos anos... Ah!... se a Sr. D. Guiomar fosse viva... Eu bem lhe dizia: V. Ex. a não deixe os bens a quem não tenha amor à terra... Ela não me quis ouvir.

- Também... a quem havia de deixar o que tinha? - perguntou Paulo, para ver até aonde chegava a cobiça do Zé Maria.

- Fosse a quem fosse, Sr. Dr. Paulo, menos àqueles valdevinos... Que lhe valeu deixar à família, se eles não descansaram sem passar tudo a patacos? Fora da família já está tudo, ao que me parece... Ah! que se a fidalga cá voltasse...

- Não ficaria muito descontente com o comprador.

- Foi V. Ex. a?

- Não; foi o meu amigo, o Sr. Dr. João Saavedra. Aqui tens o novo proprietário da Alameda...

- Muitos parabéns a V. Ex. a. Em boa hora fizesse a compra e Deus lha deixe gozar por muitos anos. Para rendimento não digo, mas para regalo, não há outra.

-Podemos ver a casa, Zé Maria? -Ora essa... V. Ex. as mandam... A quinta foi comprada com todo o recheio? -Todo, inclusive a criação...

- Ah!... também o gado... -respondeu o Zé Maria desapontado.

Colhido assim de improviso, era uma dos demónios!... Se a mulher ao menos tivesse tirado as roupas! Mas Vinham as duas amigas... e a Sr. a D. Madalena sabia bem o que havia na casa.

A vivenda da Alameda era imponente. O interior bem cuidado; D. Guiomar tinha amor ao seu ninho. Nada estava descurado. Os velhos móveis, bem tratados. Não havia um cortinado desbotado, um estore roto, um tapete coçado.

- Só o recheio vale o que deste por tudo - bichanava Paulo ao amigo.

João estava surpreendido; nunca julgara que houvesse tanta coisa no velho solar.

As duas amigas andavam de um lado para o outro, encantadas. Madalena mostrava tudo, entusiasmada. Conhecia melhor que ninguém aquele interior.

- As matas representam uma fortuna.

- A D. Guiomar tinha três faqueiros de prata, e serpentinas, cinco pares, se não estou em erro. Onde estão as pratas, Zé Maria?

- A Micaela arrecadou tudo num quarto, com medo da gatunagem... Podia haver o descuido de uma porta aberta... e era uma grande responsabilidade.

- Teve muito juízo a Micaela!... É assim mesmo que procedem as pessoas de bem...

- Deus me ajude com o que é meu... Nunca cobicei o alheio...

- Bem te entendo... - segredava Paulo ao amigo. - Se soubesses o que estava para te acontecer, tinhas dado uma volta a tudo que era uma beleza... Desta vez falharam-te os cálculos, Zé Maria. Que partidona!...

- Aqui tens a nova dona da Alameda - disse Madalena a Micaela quando esta apareceu.

- Ah! Benza-a Deus... por muitos anos e bons, minha senhora.

- Tens de entregar as chaves ao Sr. Dr. João Saavedra.

O Zé Maria correu a procurar as que tinha em seu poder.

- A Micaela que entregue a V. Ex. as as das miudezas.

- A Sr. a D. Guiomar tinha todas as chaves numa caixinha; conforme as deixou, assim estão.

Depôs nas mãos de Madalena um cofre contendo dúzias de chaves de todos os tamanhos.

- A quem deves entregar é ao Sr. Dr. João Saavedra.

João tomou-lhe das mãos o cofrezito e entregou-o a Marta.

- A verdadeira dona é esta senhora. Marta enterneceu-se. Era uma surpresa com que não contava.

- Obrigada, João; serei a sua fiel depositária e farei tudo por não desmerecer no seu conceito.

Apertaram-se as mãos, com uma ternura, com um afecto que só na morte terminaria.

Enquanto os dois amigos ficaram a conversar com o Zé Maria, a quem João Saavedra não queria destituir das suas funções de feitor da Alameda, Madalena foi com a amiga arrolar o precioso recheio daquela riquíssima moradia.

Micaela acompanhou-as, discretamente. Serviçal de D. Guiomar desde pequena, habituada a respeitá-la e um pouco a temê-la, parecia-lhe que a morta vigiava ainda, do Além, todos os seus passos. Apesar das insinuações do marido, um receio doentio inibia-a de abrir gavetas e de retirar delas fosse o que fosse. Intimamente alimentava a esperança de tudo aquilo vir a pertencer-lhe. Para que andar, portanto, a guardar ninharias, se podia e contava não ter de lhes tocar para lhes chamar suas?...

Tinha a certeza que os meninos de Lisboa nunca para ali viriam. Compradores para a quinta... também não apareciam, e... se algum surgisse... o trabalhinho do seu esperto Zé Maria os dissuadiria disso... Não havia que recear...

Por isso mesmo, aquela compra, assim de chofre, rebentou como uma bomba. Sentia-se aturdida e desolada... Quase não podia acreditar.

Madalena lia-lhe claro na alma e tinha uma vontade de rir que em vão tentava ocultar... O Zé Maria é que, mais que ninguém, estava desesperado. Como fora que o espertalhão deixara escapar o pássaro, que julgava tão seguro...

- Se tens que fazer, Micaela, não te incomodes connosco. Eu sei os cantos à casa e conheço o recheio, como tu...

Era um aviso delicado para que não se arriscasse a desviar qualquer coisa. Micaela entendeu-a muito bem. - Então, se V. Ex. as não precisam de mim, vou fazer umas voltas; não me demoro.

Ficaram sós. Não puderam calar a impressão que lhes fizera a atitude dos feitores de D. Guiomar. - Que te parece?

- Creio que se julgavam com o direito de herdar os bens da nobre senhora. Também julgo que não ficaram contentes com o rumo que as coisas tomaram... São de uma força!...

- Que dizes? Deixo-lhes as chaves, ou levo-as? -Nem lhas deixas nem as levas... Metes esse cofrezito dentro do segredo desta escrivaninha, que eu conheço muito bem, e levas a chave... A Micaela não sabe da sua existência; nunca descobriu onde a D. Guiomar guardava as jóias. O oiro é tentador... Talvez se aventurasse!... O que admiro é os sobrinhos não terem vindo, para ver o que herdaram... - São parvos... Tu sabes o que é um jogador?

- Se sei!... Também, desgraçadamente, na minha família houve disso... É uma fatalidade...

desaparece a noção de tudo. Honra e dignidade perdem todo o valor perante tais indivíduos. E o dinheiro, nas mãos de um infeliz desses, marcado com essa tara fatal... é manteiga em focinho de cão. Tinham a ânsia de realizar capitais!... O primeiro que chegasse com os cobres à vista, irresistivelmente tentadores, vencia fatalmente... E o João teve a sorte de chegar antes dos outros...

- Nem sempre os manhosos triunfam... Desta feita a astúcia do Zé Maria não lhe valeu de nada...

As duas desataram a rir da cara de pateta do feitor ao estalar-lhe a castanha na boca.

Depois de meterem as chaves no segredo, vieram para junto de Paulo e de João.

- Que tal? - interrogou este.

- Temos de repetir-lhe constantemente: parabéns!... Fez uma compra soberba!... Até as jóias da D. Guiomar estavam no seu lugar...

- É espantoso!...

- ó João, dá cá esses ossos. És o homem mais feliz da terra... Os sobrinhos da D. Guiomar deviam estar em Rilhafoles... Que idiotas!...

- Isto até me custa... Mas parece-me que não tenho a menor responsabilidade a pesar-me na consciência. Comprei, como sabes, sem ter entrado nesta casa...

- Disso sou eu testemunha, se alguém se lembrasse de te acusar.

- Não andava tanto às cegas o Zé Maria... -Sim... Mas perdeu a partida... -Quem tudo quer... - Para onde foi ele?

- Não sei...

- Não era mau irem dar uma vista de olhos ao celeiro e à adega... Bem sabes que foi magnífica a colheita e a D. Guiomar ainda não tinha vendido nada...

- Tens razão... vamos lá.

Os dois abalaram enquanto elas se ocupavam a examinar as preciosidades do salão.

Na parede principal, dois grandes retratos a óleo pintados por Columbano. Ela, em grande "toilette", estava linda e imponente. O marido era o protótipo do verdadeiro fidalgo.

- Uma grande dama em toda a acepção da palavra...

- Nunca perdeu a linha! Ultimamente usava um toucado de rendas pretas, com laços de veludo roxo, que lhe ia a matar. Uma cabeça de artista e de aristocrata... Lembrava madame de Sevigné na última fase... Tu não tiras os retratos dali, pois não?

- Deus me livre!... Além de ser uma obra-prima, não ousaria nem cometeria a irreverência de arredar do lugar de honra a ilustre dona deste solar.

- Esperava isso mesmo de ti, Marta. Agradeço-te do coração; fui uma amiga sincera da D. Guiomar. Respeitava-a, admirava-a e ouvia-lhe o parecer em tudo. Era muito inteligente e ponderada.

Também tu serás a nossa conselheira, Madalena... Tens uma cabeça privilegiada.

- Que gracinha!... A menina a fazer espírito com a amiga... Deixa-te de cumprimentos e ouve lá esta: cabeça como a tua é que eu ainda não encontrei!... És o senso e a ponderação personificada. Entendeste?

Marta caiu nos braços da amiga.

- És boa a valer!... Por mais que se diga, ninguém é capaz de avaliar a jóia de incalculável quilate que aí está.

- Muito bem!... Gosto de ouvir isso da tua boca. Ficam-te a matar essas ideias. E, para terminar este colóquio de ternuras, amabilidades e elogio mútuo, vais experimentar o esplêndido piano de D. Guiomar, que foi uma artista notável.

- -Também tocava?

-Maravilhosamente. Houve, aqui, concertos que marcaram. Recebeu nesta casa as maiores sumidades musicais, portuguesas e estrangeiras.

- Percebe-se por tudo que os moradores desta vivenda eram nobres e cultos.

- Era agradabilíssimo o seu convívio.

Marta sentou-se ao piano e tocou qualquer coisa de Chopin. Quando se voltou para dizer à amiga as suas impressões, tinha em volta um público com que não contava: o noivo, Paulo, o Zé Maria e a Micaela.

- Bravo, bravo!... Não te parece, Madalena, que até o retrato de D. Guiomar se animou? Que feliz ideia!...

- São muito amáveis!... A mim parece-me uma profanação tocar neste piano quando esta casa deve estar ainda de luto.

Não conheci a fidalga, mas, facto curioso, hoje, por várias vezes, tenho tido a sensação de ouvir passos subtis e que alguém vai entrar. Este ambiente está ainda impregnado da vida, da maneira de ser, da inteligência e arte da sua dona!... Vive aqui a saudade.

- Saudade que a família não sentiu... e ela merecia-a bem. Era um espírito superior, alma aberta a todos os gestos tendentes a minorar o sofrimento dos outros. Se a tivesses conhecido, ficarias, fatalmente, sua grande amiga. Que distinção, que sensibilidade, que bondade!...

- Bem se vê, pela disposição de tudo, a categoria de quem presidiu ao arranjo desta casa.

- Deixemos para outro dia o resto, ou vocês querem aqui ficar até à noite?

- Não, não; são mais que horas de jantar disse Madalena. - Adeus, Micaela, amanhã voltamos.

- Quanto gosto tive em a ver, Sr. a D. Madalena... Desde a morte da Sr. a D. Guiomar, nunca mais aqui voltou...

- É verdade. E agora custou-me muito... Tudo isto me fala da querida morta, das horas felizes que aqui passei a seu lado.

- Tudo acaba!... Despediram-se.

Pelo caminho ferveram os comentários à atitude do Zé Maria.

- Coitado... não contava com este amargo desengano...

- Pobre homem... já se julgava o dono da Alameda! Que atrevimento e que petulância!...

- Levava a coisa muito bem encaminhada...

- Desta vez errou os cálculos. Cavaqueando, chegaram à Abrigada sem darem pelo caminho, de tal sorte iam entretidos com as apreciações dos acontecimentos da tarde.

A criada passeava na quinta o pequeno António, que já tagarelava a valer e correu para os pais de bracitos abertos, mal os avistou.

- Que tal se portou o meu menino? - interrogou Madalena, beijando o filhito com o maior entusiasmo.

- Muito bem, mãe. Mas para que se demorou tanto?...

- Ai, minha senhora, esta criança não tem tido parança... Sempre a correr para o portão, a ver se avistava V. Ex. as.

- Tinhas saudades, filhinho?

António não respondeu; abraçou-se à mãe com uma ternura que bem traduzia o seu imenso bem-querer.

Paulo continuou o fio da conversa interrompida:

- Que tropa!... Roubaram a pobre D. Guiomar escandalosamente; não contentes com a safra, ainda queriam ser os herdeiros... Realmente é espantoso como se lhes meteu na cabeça imstalarem-se num palácio daqueles... e sem o pagarem...

- O camponês, em manha, é um catita.

- O Zé Maria tem já um bom pecúlio.

- Claro que lhe convinha negociar com as propriedades da D. Guiomar. Dava tuta-e-meia aos sobrinhos e depois o projecto dele era retalhar tudo... Fazia uma fortuna.

- Falharam-lhe os cálculos...

- A partida foi de truz... Estoirou-lhe como uma bomba...

- É capaz de ir à cama com o abalo.

- A Micaela é boa pessoa...

- Ora, ora... fez o que pôde... Tinha por trás o homem a atazaná-la...

- Parece-me que é tempo de se efectuar esse decantado casamento - disse uma tarde Paulo. Creio que vocês já não precisam de comprar a idade.

- A Marta manda-disse João, fixando a noiva.

- Olhem que atadinha!... Esta ficava toda a vida indecisa. Quem vai marcar a data sou eu!... Daqui a um mês certo, está bem?

- Têm tempo de ajeitar o palácio à vossa feição.

- Tens razão, Paulo, não vale a pena retardar a felicidade.

- Há tanto que a esperais...

- Não se deve perder uma hora de vida das que prometem ventura.

- Não, decerto...

- Por mim, aprovo e aceito a determinação da Sr. a D. Madalena.

- Então eu me encarregarei do resto. Marta deixava-se guiar pela amiga, índole doce, não ousava protestar nem tinha tal intenção. Sempre as assisadas determinações de Madalena lhe agradavam por completo.

Havia apenas uma pequena divergência entre ela e João. Madalena queria que o casamento se realizasse na Abrigada; João preferia que fosse na sua nova residência.

- Não, senhor; aqui a festa, depois o passeio nupcial para a vossa linda quinta, simulacro de viagem nupcial. Eu desempenho o papel importante de mãe. Os genros, pelo menos antes de casarem, não ousam armar em ditadores; também não há memória das noivas irem casar a casa dos noivos. Têm de obedecer e acatar a minha vontade.

Claro que não houve resistência e Madalena pôde elaborar à sua vontade o programa.

Queria arranjar a capela a primor. O Padre Anselmo, o grande amigo da casa, veio com o seu conselho inteligente, sempre escutado com o maior agrado e seguido com grande prazer, pois que era pessoa de requintado gosto e de ideias interessantes. Um auxiliar precioso para as duas amigas.

- Senhor Padre Anselmo, desejava deixar inteiramente a seu cargo a ornamentação da capela, confiando-a à sua arte.

- Que ideia, minha senhora!... Um velho aldeão encafuado há um ror de anos, numa toca, está de todo entontecido... nem sabe o que é mundo...

- Protestamos energicamente... A sua vivenda é um apetite e um ninho... Das coisas que mais me divertem, aqui, é uma tarde na sua casa. Cantam os pássaros, há pombas nos telhados, flores por toda a parte. Ah! não, a sua vivenda não é como as da maior parte dos seus colegas... sem arte, sem graça, sem alegria... Na sua sente-se que vive ali uma alma de eleição, um bom, um justo.

- Eia, o que aí vai! Um triste pecador que não pode remir as suas culpas praticando a caridade como era seu desejo, por não ter vintém!...

- Quantas obras generosas se praticam sem gastar dinheiro!... O amparo moral, quando uma dor profunda nos fere, vale mais que todos os tesoiros do universo...

- Não se mitiga um grande abalo moral no povo, quando esse povo se estorce com fome.

- Bem sei que é indispensável o alimento, mas nem só de pão vive o homem.

Neste palrar amigo iam alindando a capela. Velhas serpentinas de delicados lavores, tocheiros imponentes, lustres de cristal precioso, luziam, festivos, contentes, com os atavios da próxima festa. Pelas paredes, azulejos antiquíssimos de belíssimo desenho, assinados, mostravam a vida de Cristo. Era sem dúvida a parte de mais valor da casa, sob o ponto de vista artístico.

O coro, em pau-santo, era trabalhado a primor.

Havia cadeirões de espaldar alto, elegantíssimos, que pareciam ter sido feitos para se sentarem reis, tal a riqueza de ornatos, tal a perfeição do acabamento. Tinham também uma sacristiazinha, com os seus gavetões para guardar os riquíssimos paramentos; um Cristo de marfim, que atribuíam a um grande artista italiano, e uma pia de água benta, em loiça oriental, que era a tentação de quantos olhos conhecedores apareciam na Quinta da Abrigada.

Tudo quanto havia foi remexido na ânsia de adornarem, de enfeitarem tudo o melhor possível para o grande dia. Flores naturais por toda a parte, numa profusão enorme. Era o tempo das rosas. A Natureza parecia querer comparticipar da festa, preparando um ambiente estonteantemente belo.

João Saavedra acompanhava sempre as senhoras, auxiliando-as com o maior entusiasmo.

- Esplêndida quadra a do vosso noivado, João! Sabe que lhe admiro a paciência? Não o julgava capaz de aturar estas minudências... De quanto sois capazes neste período de amor... Mais tarde... tudo muda... Não tendes vontade de amparar uma jarra, nem de pegar numa flor!... Ai a vida... a vida, como ela é cheia de ilusões!...

- Sou bastante desastrado, Madalena, mas o que não sou é capaz de mudar...

- Homem de uma só fé, de um só parecer... antes quebrar que torcer!... Também tenho esperança de que seja uma excepção à regra geral.

- Apenas para confirmar a regra...

- Pressinto que vocês vão ser um exemplo para o mundo...

- Não te podemos exceder, Madalena. Prouvera ao céu que ao menos te pudéssemos imitar!... És um fenómeno raro...

Madalena desatou a rir.

- Oh! filha, já reparaste que estamos num engraçado torneio de elogio mútuo?...

- Tu mereces tudo, Madalena... A tua alma, o teu carácter, o teu...

- Basta, basta, que me fazes corar. Ao menos atira-me com esses madrigais quando estivermos sós.

Não quero que ninguém testemunhe estas cenas ridículas.

- O João bem sabe o que tu vales.

- Ah, sim! A minha única ambição é que o nosso lar venha a ter a beleza do seu.

- Espero que seja eu a invejar o vosso. Confesso-vos que nunca esperei que a saudosa D. Guiomar fosse tão bem substituída; e a alegria que sinto com isso não a posso descrever. Não contava que o destino me brindasse com este acontecimento, que tem para mim tão grande importância.

Acabada a tarefa, foram almoçar. Acompanhou-as o Padre Anselmo, para marcarem a hora da cerimónia.

- Almoça connosco; isso nem se discute.

- V. Ex. a manda. Estou habituado a obedecer... - disse, risonho.

Madalena explodiu num riso franco e comunicativo.

- Sr. Padre Anselmo, é inútil querer iludir-nos. Todos nós sabemos que faz sempre a sua vontade, que a sua humildade impera, que andamos às suas ordens, sem o sentirmos e com imenso prazer, creia.

- Oh! Sr. D. Madalena...

- E acrescentarei mesmo, desvanecida, como a mais modesta ovelha do seu rebanho - feliz o povo que tem à sua frente um pastor tão digno, que se imponha tão suavemente para conseguir a paz e a felicidade de todos.

- Como a Sr. D. Madalena é generosa nas suas apreciações...

O Padre Anselmo era um homem novo. Não tinha ainda quarenta anos. Filho único de lavradores modestos, honrados, bondosos e agradáveis, era o ídolo deles. Bem o merecia o simpático sacerdote, pois eram os pais a sua preocupação constante desde os mais verdes anos.

Ordenara-se para os tornar felizes. Grande vocação não sentia, mas viu que assim podia mais facilmente ampará-los e tê-los num relativo conforto. Não podia entregar-se à lavoura, aos trabalhos rudes do campo, por não sentir a robustez necessária para essa lida.

À mãe sorria a esperança de ver, um dia, os netos a piruetarem pela fazenda... mas, logo, outra visão desfazia a primeira, de fazer do seu Anselmo um evangelizador, um santo, a espalhar o bem, a consolar os infelizes com a sua fé ardente, a apontar-lhes o caminho luminoso da eternidade, a levar um raio de luz a tantos lares que se debatiam em densa escuridade.

Era um prodígio o seu adorado Anselmo. À noite vinha para a lareira e lia-lhes os jornais do dia, ou trechos de livros que os podiam interessar. Nunca a sua lúcida inteligência se sentiu vexada de tão simples ascendência. Ria muito e contava anedotas que os divertiam imenso.

- Que regalo ter um filho tão sábio, tão inteligente- pensava o pai, desvanecido.

- Que alegria vê-lo e ouvi-lo - contava a mãe às vizinhas, mordidas de inveja.

Mas uma lágrima furtiva aflorava-lhe aos olhos sem que a pudesse esconder. O seu Anselmo, tão perfeito, tão lindo... amortalhado naquele negrume das vestes sacerdotais...

A senhora Maria Rita, no fundo, sentia um grande pesar de o filho não ter constituído família. Teria naquela altura um rancho de pimpolhos a fazerem diabruras, a saltarem por todos os lados. Sim, com isso não se podia conformar.

O Sr. João de Campos considerava-se completamente feliz. Tinham todos saúde, era quanto bastava. Depois, os haveres também cresciam com a graça de Deus. Ainda o que mais o incomodava, era aquela pecha do filho, para dar, dar sem tom nem som, muitas vezes a quem o não merecia, nem agradecia.

Custara-lhes tanto a juntar o que tinham... E que de canseiras para granjear o pão!...

- Que trabalhem como eu... Malta de preguiçosos...

A única coisa em que estava em permanente desacordo com o filho era naquele esmolar constante.

- Olha que não temos para tantas grandezas, rapaz... Tem mão em ti... A gente vai só até onde pode e com cautela para não escorregar.

- É a minha única extravagância, pai... Perdoe. não jogo... não fumo... o meu luxo é esta negra sotaina... E podia ter casado e o pai tinha de sustentar um bando de netos.

- com muito gosto... Era o sangue do meu sangue, a vida da minha vida... Tu não quiseste... fez-se a tua vontade...

- Ainda não me arrependi.

- És um exemplo... Que orgulho para nós!... Todos te admiram, todos te querem e estimam como se foras da nobreza, todos te escutam como se tivesses a experiência de um velho.

- E eu revejo-me em ti... Como foi que Deus me concedeu tamanha graça?... Não me canso de Lhe agradecer.

- E eu quanto deverei por ter tão bons pais?... -Vamos à ceia, mulher... vão sendo horas... O teu abade não se alimenta só de hóstias... Eu é que hei-de morrer com este apetite que não me parece grande mercê com que o céu me brindou. Um rato endemoninhado que jura devorar-me as entranhas, se lhe não dou de comer à farta.

- A mania que se te meteu na cabeça de não merendares... Queres, à última hora, armar em peralvilho? Homem de Deus, não percebes que até a forja para forjar precisa de carvão? Todo o santo dia a labutar sem meteres uma migalha na boca... Não pode ser.

- Eu sempre vou petiscando o que topo por lá... Quando há fruta não tenhas pena de mim...

- Na tua idade, rabaceiro como os rapazes... Há-de fazer-te bom proveito ao estômago...

- Isto é rijo! -respondeu, batendo na barriga como no bojo de sólida vasilha... - Não há perigo!...

- Tantas vezes vai o cântaro à fonte...

A Sr. a Rita cirandava a pôr o conduto ao homem e àquele filho que era tudo para ela.

- Então, rapaz, ainda não contaste quando é o casório...

- Deve ser breve, pai.

- Boda de truz?...

- Não são pessoas para espalhafatos, mãe. Tudo em família e com a maior simplicidade possível.

- Pois quando aqueles não façam estadão, não sei quem o há-de fazer... Ricos como os que o são...

- Quanto mais ricos mais modestos, pai. Além disso, pessoas de linhagem... não precisam de pompas para luzir. Basta-lhes a ascendência e, mais que a ascendência, as suas acções. Gente de bem e de carácter...

- Lá isso... O que me espanta é a casa da Sr. a D. Guiomar ir parar a tão boas mãos. Quem ficou a chuchar no dedo foi o Zé Maria e a Micaela.

João de Campos não pôde conter uma gargalhada que lhe saiu do fundo da alma. Todo o seu ser estremeceu de gozo. Fez-se rubro de tanto rir e engasgou-se com um fio de berças que lhe entrou para o goto. Maria Rita correu a dar-lhe palmadinhas nas costas.

- Ó mulher, bonda de pancadaria!... Arranjaste bom pretexto para me zupar o pêlo...

Nova explosão de riso engasgou-o de novo.

- Credo!... Santíssimo Nome da Santíssima Trindade!... Sempre o diabo as urde...

- A partida do Sr. Dr. Saavedra encheu-me as medidas... O raio do Zé Maria já se julgava senhor e mandador da fortaleza... Que pardalão!... Foi muito bem feito... Palavra que fiquei consolado.

- Tem sido um grande trabalhador, mas querer assim alambazar-se com a quinta e haveres da senhora, por tuta-e-meia, também bradava aos céus...

- Ladroeira, mulher, ladroeira é que é o nome.

- Ó pai, não diga isso... O homem não roubou nada a ninguém.

- E achas tu que é honrado o que quer comprar por dez o que vale mil? - bom, mãe, mas não temos nada com a vida dos outros...

- Decerto... Olha que eu não hei-de ir apanhar-Lhe a maçã do chão.

- Caiu em boas mãos, é o que se quer.

- E que bom virem criaturas de bem morar para a nossa terra... Aquele casarão fechado era uma pena e metia terror...

- Qual fechado qual carapuça!... Os remelados dos filhos da Micaela estavam lá entrincheirados como em possessões suas... E atiravam-se como leões ensoberbecidos quando viam chegar alguém aos portões.

- Pelos modos não faziam senão piruetas em frente dos espelhos, a mirar os frangalhos. Ouvi que saltavam como macacos de cadeira para cadeira... Haviam de deixá-las em bom estado.

- Olhe que não está nada estragado, mãe... A Micaela devia ter receio...

- Ora, ora, ela já pensava que tudo aquilo era dela...

- Foi o homem que lhe meteu aquelas patranhas na cabeça...

- É atrevido como um raio, aquele joão-ninguém que não vale um pataco falso.

- Bem avisado andou quem lhe cortou as asas... - Ali devia andar o dedo do Sr. Dr. Paulo.

- Bem haja ele...

- A Sr. a D. Madalena, como amiga íntima da Sr. a D. Marta, havia de fazer todo o possível por trazê-la para perto de si.

- Pois Deus os fade bem, que o merecem...

- Já sabes quando é o casório?

- Por estes dias.

- A cerimónia é na Alameda?

- Não, minha mãe, é na Abrigada.

- Aquilo é que é um bem-querer... A Sr. a D. Madalena faz de mãe, ainda que andem pela mesma idade pouco mais ou menos. Deus os abençoe...

- E que lhes dê muitos meninos, que é o que faz falta nestas casas grandes. Ai... Deus me mate com gente moça... A mocidade é a alegria.

- Já se ouviu, homem... Sempre a matraquear na mesma cantiga... até enfada. Parece que querias que deitassem os velhos fora... Pois, amigo, deita as barbas de molho... que te podia acontecer o que apeteces aos outros.

- Pois sim, sim!... Eu cá me entendo. Ergueu-se da mesa para ir aquecer os pés à fogueira.

- Neste tempo, um frio assim... Aonde iremos parar?... O renovo não vinga... ninguém se aguenta... Bem fizeste tu, rapaz... Antes dizer missas que semear feijões. Aldemenos tu não te afrontas com a chuva nem com o calor... Tanto monta para ti que neve como que esteja nas canículas. Sempre me saíste com muito siso... Vem-te da mãe, que o pai é mais dado à folia.

- O meu pai é o melhor dos homens.

- A tua mãe que fale... Estou convencido que não é da tua opinião...

- Ah! lá isso... não tenho que dizer senão bem...

- Ó mulher, que estás a pecar nas bochechas do filho... Pois não te lembras das arrelias que te tenho causado?

- Águas passadas não movem moinhos!... Não posso lembrar-me senão da tua santa amizade de tantos anos. Esqueci alguma afronta, se a houve, que a mim não me lembra de nenhuma.

- Abençoado esquecimento...

Ficou-se uns minutos a ver crepitar o lume.

- Rapaz - disse para o moço da lavoura -, vai deitar a ceia aos bois.

Estes, como se ouvissem e entendessem a voz do dono, deram um urro no estábulo...

- Lá estão eles a chamar por ti...

- Ainda sais, filho?

- Prometi ir à Abrigada, mas não me demoro.

- Então vai com Deus, que vão sendo horas, para não vires muito tarde.

- Não venho, mãe...

- Em eles te apanhando lá, não te deixam vir sem o chá...

- Não costumo tomar nada.

- Vai, filho, faz-te bem distrair com pessoas que te entendam...

- A dizer a verdade, tu não podes sentir-te bem aqui... Eu não sei explicar-me, mas compreendo o que é o mundo. Tu estudaste, sabes falar como poucos, está bem de ver que as nossas tolices te hão-de enfadar...

- Oh mãe...

- Vai, olha que não há como as mães para compreenderem os filhos. Aqui falta-te muito conforto que eu não sei dar-te. Aproveita o melhor que puderes a companhia de quem te aprecia e estima. Deus vá contigo.

O bom João já cabeceava como um justo. Não ouviu a conversa na última fase.

A Sr. a Rita acompanhou o filho até à porta.

- A noite está fria, agasalha-te bem.

- Já não estamos em tempo de arreganhar, mãe... Até logo.

Fechou a porta quando viu desaparecer no escuro da noite o filho adorado, e voltou à lida doméstica, contente da vida, contente da sorte.

Na Abrigada ia uma faina extraordinária. Madalena queria que o casamento da amiga, sem pompa, tivesse, ao menos, o encanto das festas íntimas. Todos andavam entusiasmados. Aquela união tão igual, tão simpática, agradava ao público.

- Querida Marta, quero fazer-te uma confissão geral para aliviar a minha consciência. O Padre Anselmo é testemunha.

- O que irá sair daí! - disse Marta, risonha.

- Vai sair uma verdade enorme! Não sei se há verdades pequenas... Tu podes julgar que tudo o que faço neste momento por ti, que nada é, tem um impulso de bondade. Mea culpa, mea máxima culpa, Padre Anselmo... Tudo egoísmo... negro e feio egoísmo... Tenho em mira acorrentar-te à minha solidão, prender-te num ninho muito macio, para ter a tua companhia adorada, para nunca mais a perder, entendes-me, Marta?

- Ah!... Ah!... Ah!...

- Abençoado egoísmo, Sr. a D. Madalena...

- Alcançarei o perdão do Senhor Padre Anselmo?

- Prouvera a Deus que todos os pecadores do mundo incorressem em tão grave falta... Que bela e desempoeirada seria a via a percorrer...

- Se tudo isto é obra de um ente supremo, o que não posso compreender foi porque não fez todos bons, todos perfeitos. Seria tão fácil a vida assim...

- Deve ter sido para realçar a virtude que apontou o vício... Se não existisse o mal, não teria valor o bem.

- Não me convence, meu amigo. Eu creio que seria a felicidade plena, o ideal, cada um cumprir o seu dever, trabalhar, sorrir à paz, sorrir ao progresso, sempre em demanda de dias melhores, sempre em cata de suavizar a sorte do vizinho. Meu amigo, estas teorias devem parecer-lhe utópicas. Não se ria... esse estado de perfeição deslumbrou-me sempre.

- Minha querida sonhadora-obtemperou Paulo -, o mal é uma qualidade inata no homem. O menino, quando nasce, o seu primeiro gesto é bater, destruir. Se lhe não cortam as asas, é um tigre!...

- Eu creio no aperfeiçoamento da humanidade. com perseverança tudo se pode conseguir. A ideia da paz inoculada nos infantes, como a vacina contra a varíola, algum resultado pode dar. Experimentemos, Padre Anselmo.

- Ele não faz outra coisa que pregar o bem pela palavra e pelo exemplo.

- Que longe estou da aspiração que me domina!

- Você é um apóstolo, Padre Anselmo. Às vezes ponho-me a olhar para si, pasmado!... Não, não, você não é deste mundo, desta era, não pertence a esta raça de terríveis exterminadores. É um exemplo. Assim deviam ser todos. - com que bons olhos me vêem, meus queridos amigos... Realmente, minorar o sofrimento alheio é uma das minhas maiores consolações... Padre sem vocação, tanto podia enveredar para o bem como para o mal. A minha vida ordena-me guiar as almas pelo caminho direito. O que faço, porém, não é por obediência aos mandamentos da Igreja. Se fosse ferreiro, ou cavador, procederia da mesma forma.

- Isso compreende-se... Não altera a índole do indivíduo o modo de vida.

- Que importa a profissão? A religião não logrou jamais operar esse milagre. As taras inatas persistem sempre.

- Às vezes atenuam-se...

- Não, escondem-se o que é muito mais perigoso!

- Temos de concordar que a educação também tem sua influência.

- Naturalmente, o homem culto, claro que não pode dar largas à índole bravia, como qualquer lapuz.

- Mas se lhes dá para a maldade, amigo, são de uns requintes!...

- Como autênticos selvagens...

- Vamos ao que importa, Sr. Padre Anselmo. Fica então combinado que o casamento se realiza quinta-feira?

- V. Ex. as mandam.

- Ai que bom, poder a gente dar ordens e ver todos obedecer-nos. Confesso que é uma das minhas mais agradáveis regalias - mandar.

- Que graça!... Quem te ouvir, julgará que és uma déspota...

- Não sou... mas olha que gostava de governar o mundo a meu bel-prazer. Esta coisa sublime de se poder distribuir o papel que mais convém a cada um. A minha determinação de se fazer este casamento já, no meu entender, vai criar muita felicidade. A Marta, só, não podia viver muito alegre. O João... desaparceirado... andava no mundo por ver andar os outros... o que corresponde a andar às aranhas. Ora eu estou contente, porque de uma cajadada mato um bando de coelhos. Quem apanha maior talhada sou eu, que vou ter o regalo incomparável da Vossa esplêndida companhia. Que sorte...

- Então, fica combinado, quinta-feira, às onze horas, o casamento, o baptizado e depois o almoço. Uma festa, a mais simpática que tenho organizado na minha vida.

- Abençoada seja, Sr. a D. Madalena.

- Oh!... não me diga isso, que me envergonha... Pois não vê a dose de egoísmo que aqui vai?

Despediram-se.

O Padre Anselmo saiu. A noite estava amena, mas ainda fria. Pelo caminho, aquele homem de excepcionais virtudes ia pensando na sua vida. Também ele gostaria de casar, de ter o seu lar, a sua mulher e os seus filhos.

Tão felizes os senhores da Abrigada... nem uma nuvem em volta. Que serenidade... que paz!... E o novo lar que ia erguer-se... Como seria ditoso também!...

E ele só... eternamente só... Agora tinha os pais, tão amigos, tão dedicados, tão carinhosos para ele... Mas quando eles lhe faltassem... que solidão!... Como poderia viver? Fechou os olhos horrorizado, para não ver o desolador panorama do futuro. Que tristeza... Que seria dele na velhice? Apavorava-o a negra perspectiva que antevia.

Pareceu-lhe de repente que a noite se cerrava em mais densa escuridade. Via--se com uma criada, que tinha de ser velha para não dar que falar, mal se podendo arrastar... E ele, muito cheio de reumatismo, a caminho da igreja.

 

Estremeceu. Era triste envelhecer... Agora tinha

Os seus livros, a que tanto queria, as suas flores, as pombas que vinham comer-lhe à mão... os serões na Abrigada, a música que tanto o distraía. E, no regresso a casa, sempre a mãe sorridente à espera, por mais tarde que viesse; o pai bem-disposto, com aquela alegria comunicativa, que fazia dele o mais feliz dos homens.

Assim chegou à Eira. O Mondego latiu sonolento, afilou as orelhas e ergueu-se de um pulo a festejá-lo. Padre Anselmo acariciou-o e levou-o consigo. Era um dos mais apreciados mimos para o cão, o deixá-lo ir para o quarto. Enroscava-se no tapete depois de dar tantas voltas quantas o dono dava, com os olhos inteligentíssimos pregados nele como quem dizia: Conta comigo, aqui me tens, o mais fiel dos amigos e dos companheiros.

De manhã, velho costume que nunca perdera, a Sr. a Maria Rita vinha sempre abrir a janela ao filho, como em pequenino, e dar-lhe os bons-dias à cama. Queria lá saber que ele fosse padre e tivesse, havia muito, passado os trinta. Era o seu menino, o seu filho adorado, e isso bastava para fazer o que muito bem entendia, sem ninguém lhe ir à mão.

Ao dar com o Mondego refastelado no tapete, não se podia conter e ralhava, ralhava, sem grande vontade de cumprir as ameaças que fazia.

O Mondego, sem medo algum, primeiro fingia-se adormecido. Depois abria um olho a espreitar a atitude da dona. Se a via muito brava, resolvia não acordar; se notava que estava mais branda, saltava para cima da cama do Padre, sem a menor consideração pela imaculada alvura dos lençóis, e desatava a beijar simultaneamente mãe e filho, com uma impetuosidade a que os protestos de um e outro não logravam pôr cobro.

- Rua, seu marotão!... Isto são coisas que se façam?... Olhem esta roupa em que estado ficou!... E tu ris-te... Dá-lhe confiança que ele tem pouca...

- Ó mãe, deixe-o gozar...

- O gozo lhe dou eu com um cacete.

O cão, amimado, todo se saracoteava em volta da Sr. Maria Rita.

- Só lhe falta falar... o mafarrico do cão...

Então, filho, marcaram o dia?

- É na quinta-feira, mãe, não almoço cá. - Mal feito fora... depois de um acto daqueles e tratando-se de quem se trata...

A Sr. a Maria Rita era a bondade em pessoa. Não podia porém dominar a curiosidade, era o seu fraco. Gostava de saber tudo o que se passava. Não para o repetir, que tudo o que lhe contavam era como se caísse em poço fundo, mas para fazer as suas apreciações. Queria estar a par de tudo que acontecia na vizinhança.

Tinha um orgulho enorme em que o filho fosse recebido nas casas nobres e com um carinho, com uma afabilidade que a comoviam. Estimava as pessoas que consideravam o filho, com um entusiasmo, com um ardor, que não admitia que ninguém ousasse proferir uma palavra de menos respeito.

- Deus os faça felizes, que bem o merecem.

- Bons como o pão, mãe, oiro de lei e do mais fino quilate.

- Quanto nós devemos à Sr. a Madalena... Lembrar-me eu do que ela fez por ti, quando

tiveste o tifo. Que grande alma!... Nada lhe metia medo... As duas aqui à cabeceira da cama... Eu tremia como varas verdes... por causa do menino. Tinha um receio de se lhe pegar a doença e o inocente levar caminho... Eu morria de pena...

- Grandes amigos... não posso esquecer os favores sem conta que lhes devo.

- Aqueles, pelos modos, são da mesma força...

A Sr. a D. Marta tem por aí vestido a criançada toda... Louvado seja Deus, que criou tanta alma boa... Sempre que a vêem parece dia de festa para a canalha miúda... E não têm vergonha... correm atrás dela aos ranchos e não arredam, com os olhos pregados nela como numa santa!... Nunca vi nada assim.

- Gente de bem, minha mãe.

- Ai, filho, não me canso de rogar a Deus por eles...

- Ali não há que temer senão alguma inesperada doença... De resto, hão-de dar-se como Deus com os anjos. Educados, bondosos, tão serenos... Não pode haver desarmonia quando as pessoas se respeitam mutuamente como eles.

Assim o espero e creio.

- É mais uma família cá para o sítio. Todos nós lucramos com este casamento.

Foi numa quinta-feira risonha, inundada de sol, que Padre Anselmo uniu o ditoso casal. Os lilases estavam vistosamente floridos, perfumando deliciosamente o ambiente. As glicínias estendiam opulentamente mantos cetinosos de uma delicadeza de tons espantosa, formando aqui e além sanefas elegantíssimas, como se um divino artista tivesse presidido a tão requintada decoração.

Borboletas loucas, aos pares, bailavam, bailavam, beijando-se enamoradas a cada instante. A passarada pipilava apaixonadamente. Havia pelos ares aromas sadios. O arvoredo tinha ainda na folhagem a tonalidade mimosa da Primavera. Toda a natureza irradiava frescura, como se uma chuvada recente tivesse lavado tudo.

Os noivos sentiam aquela serenidade de quem não tem surpresas. Conheciam-se bem, caminhavam para o amanhã a passo firme. Sentiam uma estima calma, sem ímpetos fogosos, mas segura, que lhes garantia a paz futura.

Madalena era quem mais exuberantemente se expandia. Tinha enfim a amiga ali para sempre. Considerava-se completamente feliz.

O almoço correu animadíssimo naquela adorável intimidade. Paulo Abrunhosa estava mais espirituoso

que nunca.

- Queridos amigos, para que esta felicidade perdure, é necessário que de hoje a um ano se realize aqui outra festa.

- Ainda mais festas?

- Sim, outro baptizado. Todos riram; Marta corou.

- É preciso que venha ao mundo uma menina, para ser a noiva do nosso António.

- E já agora aparecer outra para o Carlos.

- Isso seria o ideal...

O dito fez sensação; todos riram satisfeitos.

- Meu caro João, a grande e insofismável verdade, que eu não pretendo de forma alguma ocultar-te, é que te armei uma formidável ratoeira. Caíste com a ingenuidade de um ratinho inexperiente. Prendi-te à terra-mãe, à terra fecunda, à terra sadia. Amarrei-te ao meu canto egoisticamente, ferozmente, para te ver a meu lado toda a vida. Oh! Padre Anselmo, foi um rasgo de esperteza, não lhe parece?

- De bondade, como todos os seus gestos, meu amigo.

- Não confunda; confesso-lhe, com toda a sinceridade da minha alma, que não foi virtude o que me levou a empurrar este celibatário impenitente para o casamento. Eterna aspiração de querer fazer disto um centro civilizado.

- Que diriam os melros e os pardais, se tal se desse?

- Que eu tinha razão... As pobres aves bem necessitam de quem as proteja.

- O João será o presidente de uma futura sociedade protectora dos animais que aqui se há-de fundar.

- com todo o gosto; tenho um grande prazer em cooperar contigo numa obra tão simpática. Podes dispor de mim. Tens-me servilmente às tuas ordens.

- É preciso que tua mulher esteja de acordo.

- A Marta aprova todos os gestos generosos.

- Tenho a certeza que vocês se ficam em projectos. Obras sérias, quem as vai realizar somos nós.

- É um desafio?

- Não, é um estímulo; vocês fundam uma sociedade e nós fundamos outra. A vossa para proteger os irracionais, e têm bem que fazer. Acabar com as aguilhadas e com a pedrada. É uma modificação importantíssima. Nós fundamos uma sociedade de protecção à mulher e à criança.

- É uma linda ideia. Uns e outros precisam absolutamente de amparo. As províncias têm de ser auxiliadas. As mulheres são as maiores vítimas da humanidade.

- Vítimas... Vivem quase sempre regaladas!... A guerra não quer nada com elas...

- Isso foi noutras eras! agora todos reclamam os seus serviços.

- Não reparas em que o nosso sexo é dotado de uma sensibilidade quase doentia? Não vão bater-se, mas levam-lhes os maridos e os filhos, abandonam-nas, torturadas de amargura, de saudade e de dor. Para elas é talvez mais doloroso de que se os acompanhassem na luta.

- É bem diferente, ainda assim.

- O sofrimento moral, a incerteza, a dúvida amargura-te, é o pior dos flagelos. O homem, em geral, não as compreende.

- A minha mulher saiu-me uma filósofa!... A argumentar, a discutir, ninguém lhe leva a palma... faz-nos meter a viola no saco... Não entravemos pois o progresso. Fundem quantas sociedades quiserem de auxílio mútuo. Nós também fundaremos uma de protecção ao homem, para nos defendermos de vós... Porque isto, meu caro João, vai tomando proporções assustadoras. Temos de estar alerta.

 

Todos riram. Marta e João trocaram olhares significativos, confiantes, expressivos, como quem mais uma vez jura, sem palavras inúteis, um amor certo, eterno. Amavam-se, entendiam-se.

As duas amigas em breve modificaram a situação económica e moral da região. Os projectos esboçados naquele dia festivo não ficaram apenas em palavras.

João fez importantes melhoramentos na quinta; a agricultura prendeu-o, encantou-o. Os camponeses das cercanias tinham sempre trabalho certo. Não faltava pão nos lares, dantes sempre famintos.

Fundaram uma espécie de creche onde as mães mais necessitadas vinham deixar os filhos quando iam para a lida quotidiana. As crianças eram ali lavadas, preparadas e alimentadas. Tinham fatos para os vestirem de lavado, roupas brancas em grande abundância. Os pequenitos choravam para irem para as senhoras e, para os arrancarem de lá, não era tarefa fácil.

Todos achavam aquela linda realização um benefício inapreciável. O Padre Anselmo era o grande auxiliar e o grande propagador desse rasgo benemérito. Interessara toda a gente da região. As senhoras que não podiam colaborar, por se encontrarem a grandes distâncias, mandavam roupas feitas, géneros e dinheiro.

Era curioso o aspecto das crianças. Estavam gordas, sadias, alegres. Caras lavadas, fatos limpos, cabelos cortados.

Nas imediações o exemplo frutificava; todos pensavam em imitar as senhoras da Abrigada e da Alameda. A vida sorria-lhes. Consideravam-se completamente felizes. Para isso concorria, especialmente, o terem o tempo totalmente preenchido. Não havia um momento para se aborrecerem. Eram adoradas pelo povo. As crianças, onde quer que as encontrassem, corriam para elas irresistivelmente.

- Nunca pensei que a vida na aldeia me absorvesse tão completamente, Paulo.

- Tudo é questão de hábito. A princípio julga-se que esta solidão nos vai oprimir e asfixiar... Depois acostumamo-nos ao convívio das árvores como de amigos certos, ao das flores como companheiras, ao dos animais nossos inseparáveis, ao dos vizinhos como de pessoas de família. O grande movimento da natureza, como o vaivém dos grandes centros, diverte, distrai.

- Habituei-me sem dificuldades, graças a ti, Paulo.

- Ora... diz antes graças à Marta, a companheira ideal que há muito esperavas em vão.

- Foi um brinde da Providência que eu não merecia.

- Qual não merecias!... Se a não merecesses, não a encontravas... O destino está, a maior parte das vezes, nas nossas mãos. Se não te tivesses mexido nesse sentido, certamente que não terias a felicidade a que aspiravas. Há muito terias encontrado esta ou outra Marta, se a tivesses procurado. No entanto foi muito a tempo.

- Nós é que lucrámos com a vossa preciosa companhia- dizia sempre João, eternamente grato ao amigo.

- Vá lá... não exageremos as amabilidades...

- De forma alguma. Não me faltaria mais nada, que estar a render madrigais.

- Tens, porém, de concordar que foi uma aquisição maravilhosa para nós. Precisávamos de vocês como do pão para a boca. Há por aí nas cercanias criaturas encantadoras, mas estão tão distantes, que é o mesmo que não existam, ou que estejam em Paris ou Roma. O Padre Anselmo é o único elemento com que podíamos contar com toda a assiduidade. Vocês vieram no momento oportuno. A D. Guiomar tinha-nos feito uma falta espantosa. Ficou admiravelmente substituída.

- Para nós é que vocês foram a graça de Deus. Eu não conheceria Marta e ficaria um celibatário impenitente...

Marta, passado algum tempo, começou a perder o apetite e as cores. João andava preocupadíssimo. Veio o médico e anunciou, com grande alegria para todos, que a doença terminaria dali a poucos meses.

- Ainda bem. Precisávamos de perpetuar esta amizade que continuará nos nossos filhos e por aí fora, de geração em geração indefinidamente. Os idílios hão-de repetir-se, e multiplicar-se. Constituir-se-á uma grande dinastia de que nós seremos os fundadores.

- Isto é terra de encantamento e de amores.

- Projectas então fundir numa as nossas famílias? Teremos o maior empenho nessa bela realização. Isso é realmente um lindo sonho... Duas meninas, duas meninas, é o que é preciso para ficar tudo em casa.

Toda a vida dos dois casais se concentrava nessa bela aspiração. Um filho, a continuação de duas vidas, fundindo-se por assim dizer numa só. Não se pensava noutra coisa na Alameda.

Marta, porém, continuava a passar horrivelmente. Não se alimentava e o enfraquecimento aumentava de uma forma alarmante. Madalena começava a andar preocupadíssima.

- Tive dois filhos e nunca sofri assim. Parece-me de mais. Está a definhar assustadoramente.

- Não deve ser nada de cuidado. Passada a crise, acaba o mal...

- Oxalá... Mas que inquietação...

João andava magro, quase esquelético, apreensivo, numa aflição constante. Desabafava com o amigo.

- Paulo, tenho um medo horrível... Madalena passou assim?

- Pouco mais ou menos... É a tortura das mulheres... São os períodos mais difíceis e angustiosos. Depois tudo passa e os dias retomam o seu ritmo normal.

- Deus te oiça... Mas confesso-te lealmente que trago comigo um peso, uma opressão inexplicável...

Chegou finalmente a hora decisiva.

A dúvida e a esperança liam-se nas fisionomias dos que rodeavam Marta, pálida, debilitadíssima, quase desfalecida. Num momento mais sereno e em que se encontravam sós, disse a Madalena:

- Não sei se me aguentarei; se o meu filho nascer, querida, ampara-o. Não creio que possa resistir a este lance... sinto que vou morrer.

O seu pressentimento trágico tornou-se na mais desoladora realidade. Às três da manhã nascia uma menina milagrosamente forte. Marta quis vê-la. Sorriu desvanecida. Fechou os olhos, uma lágrima rolou pelas faces desmaiadas e... adormeceu para sempre.

 

Foi um horror!... Não se descreve o pânico que se seguiu. João caiu num estado de prostração que se avizinhava de demência calma.

Paulo cuidou de tudo; Madalena encarregou-se da pequenita, que a adorada morta lhe confiara ao exalar o último suspiro.

O enterro foi qualquer coisa de importante e comovedor. Choravam as crianças, choravam as mães a perda da doce protectora, que Deus lhes levara tão inesperadamente, tão cruelmente.

Madalena foi incansável. Não chorava. Mas via-se que o seu sofrimento excedia tudo. E tinha de agir.

João esitava completamente aniquilado. Não falava, não comia e parecia mesmo não ouvir.

Madalena e Paulo tomaram sobre os ombros todos os encargos. O pobre viúvo nem se lembrava que a filha existia. Parecia estremecer de horror ao lembrar-se que um ente tão pequenino fora a causa do desaparecimento da idolatrada companheira.

A recém-nascida nada dizia à sua afectividade. Não lhe podia querer bem. Por enquanto era para ele uma adventícia que vinha instalar-se na vida confortavelmente, empurrando a mãe, sem cerimónia, para o outro mundo.

- Porque não morrera ela?

A saudade da morta era absorvente.

Madalena levou a pequerrucha para casa. Pela terceira vez era mãe. Paulo encarregou-se do amigo. Não o abandonou um instante.

O aspecto de João era confrangedor. Uma melancolia, um estado de espírito desolador. Tinha a ideia fixa de ir juntar-se à querida morta, e essa preocupação, esse desvario, era de temer. Nas horas em que Paulo tinha de sair, vinha o Padre Anselmo, com a sua calma, com a sua alegria, que não feria a susceptibilidade do doente moral.

A vida tornou-se complicadíssima para Paulo. Dividir o tempo pelas duas quintas, tornava-se maçador. Resolveu propor a João a estadia na Abrigada. Afastava-se, dessa forma, do cenário onde se desenrolara a horrível tragédia que o enlutara. Para isso, porém, precisava do auxílio do Padre Anselmo, pois João não oferecia resistência para nada, a não ser para se afastar do local onde morava a saudade.

- Homem, isto não é vida!... A morte é um fenómeno natural. Todos temos de seguir o mesmo rumo.

- Bem sei. Quem me dera que fosse já. Estou farto de viver!... Cheio de solidão... Quando me julgava completamente feliz... Desmoronou-se tudo! Não posso reagir... Não me interessa a vida.

- Tens uma grande e importante missão a desempenhar...

- Tudo acabou para mim...

- E a tua filha?

João estremeceu, como quem acorda de um pesadelo esmagador...

- A minha filha... Meu Deus... não posso querer bem a um ente que custou a vida à mãe...

Isto é uma anomalia, mas que queres? É a natureza a ditar.

- Tu não estás em ti!... Que culpa tem a criança de ter vindo ao mundo?

 

Depois de uma luta formidável, em que o Padre Anselmo e Paulo expuseram os maiores argumentos, conseguiram levar João para a Abrigada. Começaria a interessar-se pela filha e a distrair-se daquela ideia dominante e opressiva. O ambiente era outro e a dor, por muito intensa que seja, esbate-se e dilui-se com o tempo. Não há nada eterno.

A Isabelita desenvolvia-se de uma maneira admirável. Sem dar por isso, o rancor que a princípio o dominava foi desaparecendo, e a filha começou a ser a sua preocupação constante, a sua única razão de existir. Via-se já a traçar-lhe o futuro, a fazer projectos, a querer deixar-lhe uma grande fortuna.

Madalena e Paulo exultavam. Ainda bem que o amigo lhes parecia sair daquela neurastenia que o oprimia.

O trabalho começou a distraí-lo e a prendê-lo numa febre, num delírio. Queria esquecer, afogar as mágoas, esgotando-se fisicamente. A faina agrícola absorvia-o. Mas aquilo não era uma fonte segura. Quis uma colocação rendosa. Não tardou que a arranjasse. Dividiria o tempo.

Vinha a casa quase todos os dias. Quando ficava, era junto dos amigos, para desabafar e contar projectos que constantemente elaborava, tendentes a aumentar o pecúlio para deixar a filha rica.

As visitas ao jazigo da mulher eram frequentíssimas. A saudade vivia com ele de uma forma amargurante. Nunca falava na morta e todos viam, todos sentiam, que a tinha sempre no pensamento...

O tempo corria ligeiro. Os pequenos Abrunhosas, depois da instrução primária que o professor das proximidades lhes ministrara, foram internados num colégio. Era perto da cidade e vinham a casa de quinze em quinze dias.

O Padre Anselmo, que lhes queria como se fossem filhos, e que, portanto, se interessava imenso pelos seus progressos, fazia-lhes sempre um rigoroso exame quando chegavam. Também em instrução primária os auxiliara o mais possível. Os rapazitos eram inteligentes, vivos, muito meigos e cumpridores dos seus deveres.

A Isabelita era linda, mas caprichosa. Madalena tentava, por todas as formas, modificar-lhe a índole.

- Vês tu - desabafava com o marido. – Como a natureza é! Filha de pais tão bons, tão brandos, a pequena saiu arisca.

- Dás-lhe mimo de mais... És tu que a estragas.

- Dei-lhe o mesmo que aos nossos filhos... e que diferença... É um estudo curioso observar o género humano... Há características que não se modificam com a educação. Que contraste com os nossos... Em geral os rapazes costumam ser mais bravios... Pois, caso curioso, aqui dá-se precisamente o contrário...

- Ainda se modifica!... Uma criança de quatro anos não diz nada do que há-de ser no futuro.

- Os nossos nem nessa idade foram assim...

A criada de confiança de Madalena, Maria da Pena, mais que criada, uma amiga íntima, fazia-lhe por vezes sérias observações a propósito da garota.

Madalena escutava-a com toda a paciência, pois Maria ajudara-a a criar; a mãe mandara-a com ela, quando casara, para a auxiliar. Tinha sido a desvelada ama-seca dos filhos, a quem estimava com idolatria, e por isso Madalena suportava-lhe tudo, como se ela fosse pessoa de família.

- Esta menina é da pele do diabo - desabafava.

- Se daqui sai coisa de jeito... muito temos que contar...

- Olha que é linda!...

- Boniteza sem bondade... não vale nada... Nunca os nossos deram metade do trabalho!... Quando lhe não deixam ir a sua avante, até morde...

- Ora... não é possível!...

- Quer a menina ver a amostra das façanhas deste diabinho?

E apontava-lhe a orelha, onde os dentitos da pequena Isabel se tinham cravado.

A Maria da Pena nunca vira com muito bons olhos aquela intrusa. Achara sempre que ela vinha defraudar os seus ricos meninos nas carícias dos pais. Havia uma antipatia instintiva e recíproca da boa mulher e da pequenita.

- Os meus queridos meninos no colégio, tratados sabe Deus como, para este fedelho estar aqui regalado no lugar deles...

- ó Maria, crê que chegas a tornar-te antipática com tanto malquerer à pequena. Lembra-te que não tem mãe e que foi essa infeliz que ao morrer ma confiou. Tenho o dever de olhar por ela... E nisso não contrario o coração... Quero-lhe como se fosse realmente minha filha.

- Pois é isso mesmo que eu vejo e sinto. Vir esta garota tomar um lugar que lhe não pertence, até brada aos céus!

- Não estejas a fingir de má... Talvez tu ainda lhe tenhas mais amor que eu.

- Deus me defenda! Os meninos estão dentro do meu coração.

A Maria da Pena não perdia nunca a oportunidade de mostrar a sua má vontade contra a pequena. Madalena dava tratos à imaginação para descobrir a causa da antipatia da antiga criada. Às vezes confidenciava ao marido:

- Tem ciúmes pelos nossos filhos...

- Não é natural.

- O que me parece é que a Isabel lhe paga na mesma moeda. A sua mania é arreliar a pobre Maria...

Gritava-lhe aos ouvidos furiosamente, tirava-lhe o banco quando ela ia para se sentar, escondia-lhe os óculos com frequência e várias coisas mais, que enfureciam a boa mulher e lhe faziam dar um cavação.

- Este demonico não tem habilidade para outra coisa...

E assim foram passando os anos velozmente.

António e Carlos estavam já no Liceu. Estudantes exemplares. O mais velho, ponderado, sereno, inteligente, estudioso. O mais novo, ladino, alegre, género estoira-vergas, mas inteligente como o irmão. António dominava-o completamente e tanto assim que o trazia acorrentado a si, estudando as mesmas disciplinas, frequentando, portanto, as mesmas aulas.

Carlos, às vezes, tentava insubordinar-se. António não se exaltava nunca.

- Estudamos e depois vamos ambos girar.

- Tu és um maçador...

- Tens razão, mas não queiras separar-te de mim nos estudos. Começámos juntos, porque não havemos de acabar ao mesmo tempo?

Conseguido o que tinha em vista, fazer-lhe estudar as matérias urgentes, deixava-o à vontade.

- Tu não vens? - interrogava Carlos.

- Para passear, tens muito quem te acompanhe. Já não precisas de mim. Eu fico.

-Queres que te faça companhia?

- De forma alguma. Se tentasses fazê-lo, obrigavas-me a sair e nesta altura era-me desagradável. Vai, anda, diverte-te...

- Não venho tarde.

- Vem quando quiseres...

Carlos abalava, mas no fundo picava-o o remorso... Era ingrato para o irmão... Estava danado com o génio que tinha... António era realmente um santo. Não, não iria tarde, para o não desgostar. Lá fora, às vezes na maior das pândegas, se se lembrava do irmão, ninguém o retinha.

No dia seguinte, invariavelmente, a mesma cena recalcitrante.

- Não, não te posso aturar. Para o ano, vou dizer ao pai que não fico na mesma casa. Quero andar à minha vontade. Que estopada!... Todos os rapazes se divertem, só eu hei-de andar sempre amarrado a ti... Não pode ser...

António deixava-o falar, sem protestar. Era preciso que ele barafustasse. Quando acabava, dizia-lhe tranquilamente, com um tom de quem não duvida um momento de ser obedecido:

- Agora vamos estudar.

- Eu não quero ser sábio...

- Nem eu; mas desejo passar sem favor. Se levássemos uma raposa para casa, sabes de quem eu tinha medo?

- Sei lá... tu não tens medo de ninguém...

- Ah! isso tenho!... Da Maria da Pena.

Carlos desatava a rir.

- Calcula que devastação iria na capoeira... Vamos a isto.

Abancava, e Carlos, contrariado, tinha de o seguir, de o acompanhar na grande caminhada para o futuro.

Ao fim do ano, a preocupação de António era o irmão. Fazia-o estudar de forma que nunca perdia uma cadeira. Os mestres achavam aquilo um milagre. Como conseguia o estróina acompanhar o irmão, meticuloso, inteligentíssimo e perseverante?

O pai conhecia o segredo daquele êxito. Adorava os filhos, mas o António tinha para ele um valor que não podia deixar de merecer-lhe uma enorme admiração.

As férias eram sempre um período de folia.

Isabel estava já crescidita; era de uma beleza rara, mas fria e com um feitio nada atraente. Fazia queixa de todos, acusava sem cessar os que considerava irmãos, contava quanto via e ouvia.

Madalena desgostava-se.

- Como hei-de tirar esta mania à pequena? - Criancices... Isto passa-lhe...

- Mas os pequenos nunca assim foram.

- Parece-me que lhe deste mimo de mais.

- Exactamente como aos nossos... Temo que esta criança não venha a ser o que eu desejaria que fosse.

Era preciso pensar na sua educação. Conferenciaram com o pai para combinarem como haviam de resolver esse problema.

- Queres que se tragam professores, ou interna-se num colégio?

- Deponho esse assunto nas mãos de Madalena.

- Meu amigo, é difícil e espinhosa a missão de que me incumbe. A Isabel tem certas tendências que precisam ser corrigidas... Tenho receio que se agravem no convívio bom e mau de um colégio, onde há de tudo. Por outro lado talvez lhe fizesse bem. Em todo o caso, como ainda temos tempo para pensar e decidir, arranja-se uma inglesa para casa e o português e o piano eu mesma lhe vou ensinando.

Veio a mestra. Isabel observou-a sorrateiramente; não lhe agradou. Pareceu -lhe logo que devia ser intransigente. Não faria dela o que queria, como da Maria da Pena e das outras criadas. Já a não queria comparar com Paulo, porque exercia sobre ele um domínio absoluto.

Era pouco estudiosa. Gostava mais de falar do que de trabalhar. A inglesa era severa, ria raramente e os caracolinhos loiros da discípula não parecia exercerem grande influência nela. Isabel viu logo que não era o terreno que lhe convinha e começou a desgostá-la. Não estudava nada. Dizia a Madalena, com ar muito doce:

- Não a entendo, mamã. A inglesa é velha e feia. Não posso aprender com ela, que faz medo.

Madalena, apesar de todas as suas afirmações, estava longe de ter com ela a mesma severidade que tivera com os filhos. Achava-lhe graça e não sabia resistir aos seus pedidos, quando eram acompanhados daquelas carícias que ela sabia empregar sempre que queria conseguir os seus fins. A pequena habituou-se a vencer.

A inglesa pouco se demorou na Abrigada. A discípula não lhe interessava. Sentiu logo que nada podia fazer dela, porque notou em todos a propensão para atenderem os seus caprichos de menina mimenta. Não podia ensinar uma criança tão voluntariosa. Despediu-se.

Isabel ficou radiante. Pensou ingenuamente que o mundo se acabava na míss Brown. Terrível ilusão. O pai resolveu logo mandar outra. Era nova, activa e cheia de boa vontade. Recta como todos os da sua raça.

A pequena observou o inimigo que lhe impunham e cuidou astuciosamente de lhe descobrir as tendências, os gostos, o feitio em suma, para a poder arreliar mais rapidamente. Não foi difícil. Sujava com tinta os cadernos, os dedos e os vestidos. A inglesa, que costumava andar sempre de branco, irrepreensivelmente limpa, com aquela singeleza que caracteriza todas as filhas de Albion e as torna encantadoras, ao ver-se toda salpicada de tinta, com o fato estragado, dava uma sorte medonha.

Quis domar a ferazita, mas não foi possível. Paulo achava-a interessantíssima. Madalena não tinha coragem de admoestar a menina, que para ela tinha ternuras especiais. A Maria da Pena, ao ver aquele excesso de carícias, em quem era tão avaro delas, dizia a meia voz:

- Que peste!... Falsa como Judas... Que virá a sair daqui?

Era a única pessoa que a garota não lograva dominar. Também não podia dizer nada a Madalena, que via sempre com bons olhos tudo, menos que a tentassem indispor com a sua querida Maria. Isabel, finíssima, mudou de táctica. Quando se referia à antiga criada, dizia sempre - a Peninha. Ninguém lhe ensinara o diminutivo, por isso, mais espírito lhe encontrou.

Paulo tinha pela pequena uma ternura extraordinária. É que ela possuía a arte especial de se insinuar. Poucos lhe resistiam. Carlos não lhe tolerava

as impertinências. Parecia-lhe que ela abusava, irritava-se e só dizia as suas impressões à velha amiga Maria da Pena e ao irmão.

- A serigaita é intratável. Que antipática criatura. Se não fosse a mãe, não escapava sem meia dúzia de açoites.

António, sempre calmo e reflectido, deitava água na fervura. Fazia tudo para abrandar a índole impulsiva do irmão.

- Bem vês que é uma criança e não tem mãe...

- Que argumento tão pouco convincente para desculpar os caprichos desta malcriadita. Se não tem mãe, mais meiga, mais humilde devia ser. E mesmo, que obrigação temos nós de a aturar?

- Carlos, lembra-te que também podias ser órfão...

- Se o fosse, seria grato para todos que me tratassem bem.

Os dois filhos de Madalena estavam uns homenzitos. Começavam a ter a ponderação que os anos exigem. Até ali, à mesa, no jardim, em toda a parte, a camaradagem com Isabel fora sempre hostil.

- Hão-de terminar por se adorarem...

- O casamento com um dos nossos filhos era o ideal...

- Não lhes vejo muito esse jeito!... Só se for o António...

- Não me parece... Criados juntos...

- Tenho ainda uma grande esperança...

A formosa Isabel, de cabelos de oiro enrolados aos cachos, amimada, quase insolente, não perdia o seu tempo. Madalena, completamente fascinada, quase não dava pelos defeitos da pupila. Tudo eram gracinhas... muito naturais; tudo se explicava pelos poucos anos...

- Queriam talvez que a pequena fosse uma lesma morta... É vivíssima e inteligente...

- O que ela é, mãe, é uma grande preguiçosa...

- Carlos, porque será essa má vontade contra essa infeliz criança?

- Não é má vontade... A mãe é que está cega de tanto bem-querer. Verá, verá o resultado.

Madalena sorria.

- Querem ver que tens ciúmes do muito que estimamos a Isabelita? Tu não compreendes, meu adorado filho, que esta criança me foi entregue pela desventurada mãe à hora da morte? É minha filha pelo coração e pelo dever. Criei-a, tenho além disso a responsabilidade da sua educação física e moral. A minha obrigação é olhar por ela como se fosse minha filha também. A estima não se impõe nem o carinho. Em mim é tudo espontâneo.

- Perde o seu tempo, minha querida mãe. A viborazita há-de dar-lhe a picada fatal.

 

Madalena ficou um momento pensativa.

- Tenho esperança em que o feitio de Isabel se háde modificar e a vossa má impressão também.

- Hum... há-de refinar...

- Meu querido Carlos, porque não hás-de transigir?

- Oh! mãe, eu transijo sempre, mas a Isabel é implicativa, birrenta, teimosa e má.

- O que aí vai...

António não se pronunciava, mas via-se claramente que não morria de amores pela pupila dos pais.

A linda e vaporosa miss Gargan não se demorou, como a predecessora, na Abrigada. O trabalho de sapa da discípula cedo levou a cabo o empreendimento.

Despediu-se também, sem a menor explicação.

Madalena atribuía a fuga das mestras à solidão da quinta. Não gostavam do campo e arranjavam qualquer pretexto para se escaparem. Isabel tinha a seus olhos sempre desculpa.

O pai, quando vinha, encantado com tanta graça e beleza, nem atendia a mais nada... tudo lhe parecia bem. Isabel era para ele um ídolo. Ficava-se embevecido a contemplá-la, parecendo-lhe impossível que aquela obra-prima fosse sua filha. Para ela ambicionava todas as riquezas do universo... No entanto, era preciso educá-la, não podia ficar uma ignorante, e para isso é que Isabel tinha uma acentuada repugnância. Nada de estudar nada que a aborrecesse ou enfadasse.

João conferenciou com Madalena.

- Não há forma de as professoras se adaptarem ao meio. Já pensei em mandar a pequena para um colégio, se a Madalena estivesse de acordo.

- O João manda... Mas faz-me tantas saudades. Não sei como apartar-me dela...

- Não vejo outra forma de conseguirmos que aprenda, pelo menos o indispensável...

- É tão novita... depois no colégio a alimentação é deficiente.

A separação era um horror. Isabel conquistara-a de maneira tal que lhe não via os defeitos... O tempo deslizava a vapor... Era urgente tomar uma resolução.

João foi a Lisboa, onde tinha bons amigos, e informou-se da melhor casa de ensino.

- Trago a minha filha num belo colégio... Podes ali internar a tua... Virá passar os domingos connosco.

Ficou assente. João comunicou as informações obtidas a Madalena e a Paulo. Acolheram a nova com frieza, como era natural.

Não podia deixar de se tomar uma decisão. Isabel passava os dias em correrias pela quinta, atrás dos pássaros, dos cães, dos perus, acamaradando com os garotos dos caseiros, para lhes bater, para os trazer debaixo do pé, nunca com intenções generosas.

A Maria da Pena observava-a.

- Isto é uma pantera, não é uma menina. A quem demónio sai ela, assim arrebitada?

 

A maior parte das vezes desistia de contar a Madalena as proezas que notava. Encontrava-a sempre com tal tendência para a desculpar e acudir por ela, que lhe parecia inútil querer modificar o ambiente que Isabel preparara ardilosamente.

Estava enfim definitivamente resolvido que Isabel fosse para o colégio. Era preciso convencê-la com brandura, ver se conseguiam que ela concordasse com a necessidade imperiosa de se ilustrar. Um belo dia, Madalena, suavemente, começou:

- Meu amor, estás uma mulherzinha, temos de pensar a sério em te instruir.

- Para quê, mãe? Os pássaros também não vão

à aula e cantam bem e são felizes...

Madalena sorriu.

- É certo, minha filha, mas não têm de frequentar a sociedade; e tu, amanhã, tens de aparecer junto de outras meninas que sabem tocar, cantar, falar francês, inglês, alemão, e tu, se não soubesses nada, era uma vergonha...

- Eu não sou invejosa, mãe, não me importa que elas guardem a sabedoria toda para elas...

- Oh! filha, não pode ser...

Isabel estava inabalável... não queria sair da Abrigada... Foi uma luta tremenda. Chorou, fez tudo para se esquivar ao internato, que ela considerava uma prisão...

Paulo e Madalena acompanharam-na a Lisboa. Lá estiveram um mês, levando-a todos os dias ao colégio, para a familiarizarem com essa ideia. Cada hora que passava, mais crescia a aversão da garota por tudo que se relacionava com o internato. Detestava a directora, embirrava com todas as futuras condiscípulas que lhe iam apresentando. O pai estava decidido a não transigir...

- Querida Madalena, se a não levamos a bem, irá a mal. Não quero que a minha filha fique uma burra.

Madalena detestava violências.

- Levemo-la com brandura.

- Não há forma de a convencer a estudar. Está a perder um tempo precioso. Não pode ser.

Decidiram que entrasse na segunda-feira seguinte. A pequena protestou em vão. Madalena e Paulo estavam sempre prontos a apararem-lhe as lágrimas. O pai, pela primeira vez, mostrou-se inabalável.

No colégio estava tudo prevenido para tolerarem os primeiros caprichos a quem vinha cheia deles. Barafustou, gritou quando todos se foram embora. Como viu que desta vez não tinha enternecido ninguém, lançou mão de outra arma. Estudou o meio. Na primeira refeição deliberou não comer. Não gostava, declarou, definitivamente resolvida a fazer a greve da fome.

A Directora estava fula. Era um acto de indisciplina, de um efeito desgraçado perante as outras. Surgia um obstáculo imprevisto. À segunda refeição, a mesma teimosia. Podia mandar-lhe fazer qualquer acepipe especial, mas o exemplo para as outras era tremendo. Não podia ser.

Mandou uma professora distraí-la e, disfarçadamente, como coisa sua, levá-la ao refeitório a ver se conseguia que ela tomasse algum alimento. Nada!... Como era natural, vieram as dores de cabeça, mal-estar, provenientes da debilidade. A Directora, espertíssima, usou de um estratagema.

 

- Esta garota é terrível, não pode haver com ela meias medidas; a D. Ermelinda vá-lhe insinuando que já cá tivemos uma menina nas mesmas condições, sem querer comer, e que mandámos chamar o médico, que lhe deu injecções para a alimentar. Diga-lhe que aqui no colégio é assim que se faz. As que não comem... espetam-se com uma agulha.

Isabel ficou estupefacta. Não esperava tal. Pareceu-lhe que o melhor que havia a fazer era desistir do seu propósito. Tinha um medo horrível das injecções. Tudo que fosse sofrimento a aterrava. Era saudável, forte, tinha o instintivo pavor das doenças e de tudo que a incomodasse.

Não dera, pois, resultado o meio a que recorrera. A professora observava-a disfarçadamente. À tarde veio a directora vê-la, e já ao facto do que se passara, disse com a maior naturalidade:

- Coitadinha, a pequena não pode estar sem alimento, tem de vir o médico.

Isabel estava aterrada e furiosa. Quando a directora desapareceu, abriu os olhos e disse para a professora:

- Parece-me que já estou com algum apetite.

Dera um resultadão o estratagema. Levantou-se e, daí a pouco, no refeitório, comeu desesperadamente.

A Directora ficou radiante. A pinta da garota não a iludira. Devia estar a lançar mão de outro expediente. Que viria de novo?... O problema da alimentação é que estava resolvido.

Veio a família. Isabel sabia que a não demovia com pedidos. Não se queixou. Mostrou-se triste. Intimamente estava resolvida a tentar tudo para se escapar àquela insuportável clausura. Teve que ficar.

No jardim, olhava sem cessar os muros a ver se podia fugir. Todos estavam desconfiados daquela súbita calma. Era observada com o maior cuidado. Não passaram despercebidas às vigilantes atentas, as pesquisas de Isabel, que olhava para a rua, espreitando todas as vias de comunicação para fora do colégio. O porteiro estava avisado. A rapariga era travessa, pensavam todas, unanimemente. Era um perigo. Isabel falava pouco e não se expandia com ninguém.

Um dia, numa aula, pediu para sair. Eram dez horas. Foi atendida. Demorou, demorou... A professora, de repente, lembrou-se dela e mandou outra, a correr, procurá-la... Foi um alvoroço. A aula interrompeu-se, surgindo um belo pretexto para um alarido infernal. Cada uma se escondeu, como pôde, rindo e folgando com aquele episódio que as divertia imenso.

- Ela é doida!...

Algumas sumiram-se pelos corredores, a ver se passava a hora da lição. Ninguém a encontrava. Foram ao guarda do portão. Este declarou que uma menina abrira a porta, dizendo-lhe que ia sair, ao que ele respondera que não era costume as educandas irem para a rua sem mestra. Que ela voltara para dentro e não a vira mais.

A Directora estava desesperada e furiosa com a professora.

- Para que a deixou sair?

- Como o poderia evitar?

Por onde se escaparia a endiabrada rapariga?

Não havia vestígios de fuga. Deram parte à polícia. Foi um alarme geral.

Vieram agentes. Interrogaram o porteiro.

- Pela porta principal é que eu assevero que não saiu. Por outro lado não sei, não é da minha responsabilidade.

- Mas isto é de endoidecer.

O dia ia no fim sem terem conseguido descobrir o rumo de Isabel. Era uma vergonha telefonar à família. O que pensariam de uma casa de educação de onde deixavam escapar as alunas? Era um caso grave e um descrédito para o colégio.

Na vizinhança ninguém dava notícia de a ter visto fugir. O chefe da polícia, depois de conferenciar largamente com a Directora, propôs:

- Se V. Ex. a me dá licença, eu mesmo dou uma busca a toda a casa. A garota é azougada, com certeza está por aí metida em algum canto.

Postou polícia à porta. Os muros do jardim foram vigiados, e o chefe, com dois agentes, começou no andar superior a esquadrinhar tudo, sem escapar o mais pequeno recanto. Debaixo das camas, nos guardafatos, roupeiros, tudo vasculhado minuciosamente. Nada!... Passaram à cozinha. Faltavam as caves... A carvoeira. As salas grandes foram abertas.

O chefe transpirava. Na sua longa vida nunca lhe acontecera uma partida assim.

- Minha senhora, confesso-lhe que estou desanimado e desorientado. A rapariguinha é travessa. Vamos à carvoeira... certamente não teria o mau

gosto de lá se ir meter... Mas já agora... iremos até ao fim. Abra essa porta - disse, sem ligar grande importância e mais por descargo de consciência que por convicção de tirar algum resultado.

Era um compartimento absolutamente sem luz, a que a enorme ruma de carvão dava maior escuridade e aspecto sinistro de furna.

- Não se vê nada... Aqui com certeza não viria a cachopinha encafuar-se. Isto faz medo, meu comandante.

- com os demónios, a entrada para o inferno não deve ser pior...

- É necessário ver tudo bem. A menina não é um mosquito, para se sumir desta maneira...

- Mas não se enxerga nada.

- Vão buscar lâmpadas, se as não trouxeram... Pouco depois, dois enormes focos iluminavam o

antro como se fosse dia claro e o sol entrasse a jorros.

- Aqui, meu comandante, só ratos e aranhas!... Não é ninho para pássaros de estimação...

O colega manejava a lanterna para todos os lados...

- Oh!... que é aquilo?...

Do meio do monte de carvão emergia uma lindíssima cabeça doirada.

- Cá está... cá está!... Oh! minha linda menina, que bela cama arranjou...

O comissário abriu os olhos espantadíssimo. Depois desatou a rir, sem se poder conter...

Não foi tarefa fácil arrancarem-na do negro esconderijo.

- Isto é um caso único, comandante - disse a directora. - Não sei o que hei-de fazer a este exemplar.

Estava triste e alegre por ela ter aparecido.

- As feras também se domam. No meu tempo, minha senhora, casos destes castigavam-se com um bom par de açoites.

- Agora não está em moda bater...

- Pois a mim ainda me parece a maneira mais convincente para corrigir factos desta ordem.

O que não foi possível foi conter a algazarra das companheiras, ao verem Isabel completamente encarvoada.

- Estás linda!...

- Olhem que cara!...

- Mas que rico esconderijo!... -E cheirosa... Ah! Ah! Ah!...

Isabel estava encavacada.

A Directora deu ordem a uma professora para a acompanhar, a mudar de fato e a tomar banho. Estava desastradamente suja. A professora sentia uma vontade extraordinária de explodir em fúria contra aquele diabrete, que incomodava toda a gente, mas con teve-se.

Era um demónio que não servia senão para arreliar... Em poucos dias tinha feito o maior rebuliço que se podia imaginar. Ninguém conseguia que estudasse nem que se interessasse por coisa alguma.

A Directora, com as professoras mais categorizadas, elaboraram um plano, suave, a ver se transformavam aquela índole bravia. Não valia a pena alarmarem a família sem tentarem tudo.

- Tem de se usar de brandura e não aludir nunca às façanhas deste mafarrico. É preciso uma táctica especial.

As companheiras é que a flagelavam com ironias. Isabel não respondia nunca.

Não havia mimos que lhe não fizessem, a ver se a abrandavam, se a convenciam a estudar. Era necessário aprender, para se adiantar como as outras meninas, diziam-lhe as professoras. No dia seguinte a mesma coisa... não sabia nada.

- A Isabel não estudou a lição? - No livro não vinha isso.

- Não vinha? Deixe ver o seu compêndio.

De facto as páginas da lição haviam desaparecido, arrancadas cautelosamente por mão que parecia experimentada na manobra. A mestra, com quem se deu a primeira vez este caso, olhou-a de alto a baixo para ver se estava em proporção o tamanho da discípula com o das artimanhas engendradas para desgostar toda a gente que a rodeava, fugindo a todo o transe ao cumprimento dos deveres escolares.

Era de mais. Começaram a desanimar. Podiam castigá-la, mas a todas parecia o pior sistema. Tentariam tudo até ver. Não tinham contado à família as proezas da garota. O estado de adiantamento era exactamente como no dia em que chegara. Era um descrédito para o colégio. Nas primeiras férias a directora teve de contar tudo ao Dr. Saavedra.

- É a consequência de ter sido criada com excessivo mimo... Isabel é inteligente; com a idade tem de compreender que precisa de se instruir.

A Directora não disse uma palavra. João Saavedra compreendeu perfeitamente que ela duvidava do êxito.

- Talvez fosse melhor educá-la em casa... vejo-a renitente... Tenho tentado todos os meios a ver se a interesso, se a modifico, mas não é possível. Parece-me com a ideia fixa de ir para casa.

Isabel foi para férias radiante. Tinha a esperança de não voltar. Madalena recebeu-a de braços abertos. Adorava a pequena e achava uma graça infinita a tudo que ela fazia e dizia. Paulo encontrava em todos os ardis da fedelha um espírito inventivo digno de apreço. Tudo que fizera para se escapar do colégio, era fora do vulgar.

Continuava a vencer, a fazer exclusivamente o que lhe apetecia. Paulo tinha a paixão da agricultura, e ela acompanhava-o sempre. Aprendera a fazer enxertos, a conhecer todas as plantas e a forma de as tratar quando enfermas.

Paulo Abrunhosa era um higienista; quer chovesse, quer nevasse, saía depois de jantar a dar o seu passeio pela quinta. Madalena raramente ia com ele. Era Isabel a sua companheira inseparável.

Os dias corriam o mais agradavelmente possível. Não se pensou mais em mandar Isabel para o colégio e falar em professoras em casa era inútil.

- Para que há-de mortificar-se a pequena? dizia Paulo. - Não vale a pena escurecer esta mocidade

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luminosa. O que ela ama é a liberdade do campo, as flores, os pássaros.

Carlos, se ouvia por acaso estas apreciações, repontava logo:

- O que ela quer é pândega. É uma madraçona.

- Filho, porque será que estás sempre com vontade de repontar com a criança?...

- Criança? Ela está uma matulona.

- Oh! Que termos são esses para te referires à tua companheira de infância?...

- É que a mãe para nós foi sempre severa e a esta passa-lhe por tudo... faz o que quer e cresce-lhe tempo... E ainda por cima andam todos às ordens dela...

- Não tenhas Ciúmes do muito que lhe queremos. Bem sabes que o teu lugar ninguém to pode tirar!...

E afagava-o docemente como em menino.

- Meu amor, como desempenhas bem esse feio papel de mau.

- A mãe não me toma a sério...

- Se tomo!... Gosto imenso de te ouvir essas palavras ponderadas. Mas bem sabes que nesta altura não têm razão de ser...

- Bem, bem... deixemos a víbora à vontade. A mãe lhe sentirá a mordedura...

Numa tarde de Verão, chovia. Paulo, depois de jantar, saiu para o seu passeio favorito. Para auxiliar a digestão - explicava - era higiénico. Não podia sentar-se a trabalhar ou a ler logo após as refeições. Isabel aprontou-se logo para o acompanhar.

- Oh! filha, com este tempo não deves sair... Está uma tarde horrível.

- Isto até faz bem, mãe; eu gosto da chuva...

- e abalou de braço dado com Paulo.

A Maria da Pena andava para trás e para diante, sem fazer nada. Madalena já sabia que estava para rebentar tempestade.

- Que terá ela? - pensava.

Olhava-a, observava-a e via que a velha criada estava furiosa.

- Está um tempo medonho, Maria... Nem parece Verão!

- Muito lindo para passeios...

- Para fazer a digestão, é preciso... é indispensável...

- Então essas coisas são só para os outros?... A menina não precisa da tal higiene? Pois melhor fora que acompanhasse o seu marido... Não sei que me parece uma mulherona, como ela está, de braço dado com o senhor Paulo, sempre, sempre... Não compreendo como a menina não abre os olhos...

- Maria, tenho-te ouvido com a condescendência com que se escutam as pessoas a quem muito queremos. Mas não deves abusar... Sabes como eu estimo a Isabel; é a minha filha adoptiva, quero-lhe exactamente como aos meus...

- A menina não vê que aquilo não são propósitos de pessoa que queira dar-se ao respeito?... Se ela fosse sua filha... não seria assim, tenho a certeza. Veja os meus meninos... um regalo. E sabe que mais?... Que vá de braço dado com eles, que não são casados. e podem vir a casar com ela...

- . Maria... Não continues!... Bem sabes que me incomodas com essa maneira de te referires a Isabel.

- Pois que lhe aproveite, para que abra os olhos... Não repara que ela já fez quinze anos... Aquilo são propósitos? Abra os olhos, menina, abra os olhos.

E foi-se, rabina, com umas jarras nas mãos...

Madalena ficou só...

- Esta gente tem uma tendência irresistível para maus pensamentos, para mal interpretar os mais simples, Os mais naturais impulsos de ternura. Que ideia tétrica... sombria... aterradora!... Os raciocínios dos incultos fazem mal... São de uma maldade horripilante...

Afundou-se em profundo meditar... Ficou-se esquecida a olhar o campo pela janela, abstracta, sem ver... Sempre fora o seu mais querido sonho, casar Isabel com um dos filhos. Mas - que fatalidade! notava, desolada, uma relutância instintiva da parte deles e dela. Carlos não podia nem tentava ocultar a sua antipatia pela pequena. António não se manifestava, era concentrado, mas adivinhava-se facilmente que a não tolerava.

Pobre pequena!... Restava-lhe apenas a afeição dos pais adoptivos. E essa mesma começava a ser mal interpretada... Já era crueza do destino. Não bastava à pobrezinha ter perdido a mãe quando entrara no mundo, era mister ainda flagelá-la com um malquerer que não logravam disfarçar... Não consentiria a tal respeito nem uma palavra, fosse a quem fosse.

Apetecia-lhe desabafar com o Padre Anselmo, o grande amigo, a inteligência viva, a ponderação, o senso nunca desmentido em nenhum acto da vida.

Isabel estava realmente uma lindíssima rapariga. Mas ninguém esperasse dela esforços nem trabalhos. Rir, folgar, sempre ao ar livre, era o seu maior regalo. Desenvolvera-se de uma forma espantosa.

O Padre Anselmo vinha todas as quintas-feiras jantar à Abrigada. Aparecia à tarde e por lá se ficava até alta noite. Em geral, Paulo não estava em casa. Se o topava na quinta, ficava com ele a palestrar, e regressavam, depois, juntos. Se o não encontrava, vinha conversar com Madalena. Falavam sobre os casos do dia, às vezes discutiam política, mas o que em especial os preocupava era a situação económica dos camponeses, cada vez mais aflitiva.

 

Fora ele que baptizara Isabel e casara os pais. Gostava dela como se fora sua filha também. Tudo que ela fazia, a seus olhos generosos tinha desculpa. Ela, porém, não se preocupava com a conquista de simpatias. Sentia-se rica, admirada, e todos a achavam bela. Entendia que bastavam estes predicados para triunfar na vida. Seguia alegremente e sem cuidado de espécie alguma.

António e Carlos, que via hostis, não tinham importância para ela. Madalena do seu lado, era o bastante. Podia contar com a sua valiosa protecção, sempre pronta a perdoar-lhe todos os caprichos. De Paulo nem se falava... era o amigo, o camarada inseparável. com ele é que verdadeiramente se entendia. Madalena era uma segunda mãe... não conhecera outra. Paulo era Paulo e nada mais. Nunca o considerara pai, porque tinha o seu. Era portanto bem diferente a estima que dedicava aos dois cônjuges.

Ninguém a contrariava. Madalena, de quando em quando, tentava pregar-lhe um pouco de moral, falar-lhe de deveres. Não era tarefa fácil. Isabel arranjava pretexto para se escapar, e com dois repenicados beijos abalava, rindo...

- Logo continuamos o sermão, sim, mãe? Madalena não protestava e a vida continuava serenamente.

Os dois rapazes, agora, só pelas férias vinham à Abrigada. Isabel estava, portanto, senhora absoluta do terreno. Todos lhe obedeciam. Mandava despoticamente, sem que ninguém desse por isso. Fazia-se exclusivamente o que ela desejava. Só a Maria da Pena protestava:

- Credo!... Isto brada aos céus... e até parece mal... Para o que lhe havia de dar na cabeça!... ir à caça com o senhor Paulo. A menina não devia consentir em tal.

- Maria, não sejas má-língua... desconheço-te... nem pareces tu... Sempre te senti boa e generosa... foste a segunda mãe dos meus filhos... não o posso esquecer, por isso te tolero tantos abusos... E porque muito queres aos meus, não admites que eu possa estimar alguém que não sejam eles, querida amiga. Crê que no meu coração cabem todos à vontade, sem que se prejudiquem uns aos outros...

- Mas tudo tem termos... Pode querer-lhe bem sem a deixar à rédea solta como um homem. Por que não está ela ao pé da menina? Porque lhe dá na tineta de andar só atrás do senhor Paulo? Francamente, não tem jeito nenhum...

- Tu não percebes que uma rapariga não pode ter os teus gostos nem os meus? Outras idades, Maria, e outros tempos...

- E outra maneira de pensar! A menina, para se divertir, nunca foi à caça com os rapazes, nem andava todo o santo dia lá por fora... Não, não são propósitos de uma menina séria...

- Cala-te, cala-te, não sabes o que dizes.

À tarde, como de costume, apareceu o Padre Anselmo. Madalena começava a pensar a sério em reter um pouco Isabel em casa... Era com o velho amigo que desabafava.

- A pequena, senhor Padre Anselmo, continua muito acriançada.

- Sim, também me parece que já era tempo de começar a retrair-se um pouco. A Sr. a D. Madalena sabe muito melhor do que eu o que deve fazer. Não se trata já de menina mimenta e acarinhada por todos. É uma mulher por quem precisa velar. Não quis estudar; foi erro grave. Não se ajusta tal procedimento com o estado cultural da época. A mulher de hoje não é a de há cinquenta anos. Tem ambições, tem o seu lugar marcado e portanto uma necessidade imperiosa de se instruir. Bem se sabe que a Isabelinha tem todas as probabilidades de casar cedo e bem. A fortuna do pai é já importante e não se afadiga de a aumentar. Os dotes físicos são também um factor importante. Mas o dinheiro não é tudo para constituir família.

- Tenho-o pensado várias vezes, e vejo agora claramente que não fui uma educadora para esta criança. O carinho excessivo, o pesar de a ver sem mãe, sem essa mãe adorável que foi a minha maior amiga, muito contribuiu para isso. Depois, eu sentia-me responsável pela tragédia que desfez esse lar de sonho. Fui eu a bem dizer que contribuí para aquele casamento.

Tenho sempre presente o quadro esmagador da morte de Marta. As suas últimas palavras: - Entrego-te a minha filha, serás a sua mãe... Pela vida fora, quando a pequena emperrava, eu bem sabia que a devia castigar como castiguei sempre os meus filhos em idênticas circunstâncias, mas logo a visão de Marta me sustinha: - Perdoa-lhe... bem sabes que está sem mim e... é uma criança. - Faleciam-me todas as forças e quedava-me serena, sem dizer uma palavra... escutava ainda a voz do Além...

- A senhora D. Madalena é uma santa...

- Não diga isso, senhor Padre Anselmo... Sinto que errei... Foi Isabel a vítima da minha fraqueza, da minha enorme saudade. Se ela for infeliz na vida, a culpada sou eu.

- Não será... mas agora já ninguém a dobra... Achei um capricho descabido querer ter na Alameda pessoal como se lá estivesse... Faz do pai tudo quanto quer... Não sei o que a senhora D. Madalena pensou de tal gesto...

- Francamente, estou tão habituada às extravagâncias dela, que nem tinha pensado nisso.

- A mim pareceu-me uma medida preventiva. Como quem diz: Andem-me ao jeito, senão safo-me; tenho para onde ir, tenho onde estar...

- Tem razão, deve ser isso... mas é uma ingratidão.

Custa-me a conformar com essa ideia. Isabel deve considerar-me como mãe... Não conheceu outra... Creio que fiz sempre o possível para que lhe não sentisse a falta...

- A Isabelinha tem um feitio esquisito... Esse feitio foi agravado pela forma como todos a trataram sempre nesta casa.

- Todos, não, meu amigo. Isabel nunca conquistou os meus filhos, nem a Maria... Em pequeninos, era uma guerra aberta. A Maria, sempre a favor dos pequenos, já se vê, olhou a entrada da Isabel nesta casa como uma usurpação. Cedo tivemos de pôr de parte a ideia de a vermos casada com um dos nossos rapazes. O Carlos, abertamente hostil... o António, concentrado... mas de uma indiferença de gelar... Ferindo possivelmente mais que as censuras, as palavras agressivas e barulhentas do Carlos...

- É incompreensível como nenhum se impressionou com a beleza rara da pequena...

- É verdade... dava-me a impressão de que nem a viam...

- Que caso curioso...

- Que havemos de fazer agora?

- Ver se a convencemos a ser mais caseira, mais mulher...

- Não se faz nada dela... Depois o Paulo habituou-se à sua companhia... não se pode ver sem ela. É como se fosse filha.

O Padre Anselmo ficou silencioso... sentia-se que tinha vontade de dizer alguma coisa mais... mas não teve coragem. Madalena adivinhou-lhe a intenção.

- Não vá o Sr. Padre Anselmo pensar como a Maria da Pena... Coitada, não compreende a afeição de Paulo por Isabel, a sua ternura de pai... Vê apenas um homem e uma mulher... A gente do povo, por melhor que seja, tem sempre pensamentos reservados, interpretações cruéis, revoltantes.

- E no entanto o velho aforismo diz: a voz do povo é voz de Deus.

- Eu diria antes: é voz do Diabo...

- Em todo o caso, têm de se salvaguardar as aparências...

- Também lhe não parece bem que Paulo saia com Isabel? - disse, fixando-o com a maior curiosidade.

- Eu não tenho o direito de insinuar coisa alguma no espírito esclarecidíssimo de V. Ex. a. Ainda se fosse com algum dos pequenos... Era mais natural...

- Oh! meu amigo!... Pelo amor de Deus, não se faça eco da opinião da minha Pena. Bem sei que são todos muito meus amigos... Mas não exageremos...

- Uma admoestação a tempo... lembrar à Isabelinha que já vai ter dezoito anos... não teria inconveniente nenhum.

- Mas para que hei-de acordar numa alma um pensamento tétrico?...

O Padre Anselmo sentiu que era inútil insistir. Resolveu mudar de assunto.

A vida continuou como de costume. Isabel tratava Paulo por tu, beijava-o com a afabilidade de filha. Paulo estava, porém, ainda na força da vida. Era homem e o coração não se sentia amortecido. Não houvera nunca na sua vida conjugal um deslize, o seu amor por Madalena fora absorvente, sincero, único.

A mulher tinha nele tão absoluta confiança que nunca uma dúvida lhe perpassara pela mente a propósito da fidelidade do marido... Parecia-lhe um crime, só a ideia de suspeitar da sua adorada Isabel, a filha do seu coração, a sua pupila... Não, não diria nada a Paulo e havia de combater a Maria da Pena e o Padre Anselmo. Tinha a certeza que este era influenciado pela velha criada. Não podia ser...

Em férias, os filhos, ou estavam junto dela ou organizavam passeio com os amigos. Facto curioso... não acamaradavam com o pai nem com Isabel... Os dois continuavam a fazer vida à parte. Sempre na quinta... Agora as abelhas, logo os enxertos, as flores, tudo eram pretextos para abalarem de braço dado.

 

Madalena, sem querer, começou a achar excessivos aqueles constantes e intermináveis passeios solitários. Sentia, porém, um acanhamento espantoso em falar nisso a Paulo. Era uma ideia trágica que lhe ensombrava os dias, que mais lhe escurecia as noites. Não podia!... E a Isabel muito menos. A pequena não tinha outra amiga; sentia-o bem. O certo era também ser Paulo o seu confidente. O mais estranho a seus olhos era a indiferença dela perante todos os rapazes. Não lhe notara a mais ligeira inclinação ou mesmo simpatia por qualquer mancebo da mesma idade. Quando abordava este assunto, em confidências ao marido, encontrava-o sempre irritado, como se isso não fosse um facto constatado.

Estas e outras pequenas coincidências começaram a avolumar no espírito de Madalena, trazendo-a sucumbida. Só a Maria dava por isso, mas a essa não lhe tolerava observações. Os olhares, os gestos, eram mais expressivos que as palavras.

Quando Madalena ficava só, o que acontecia quase todos os dias, depois de ver sair o par, geralmente de braço dado, Maria da Pena entrava na sala onde se encontrava Madalena, dirigia-se à janela, levantava a cortina, detinha a vista no par que se afastava e voltava as costas furiosa, desaparecendo sem articular palavra. Não era necessário mais. Madalena entendia-a às mil maravilhas. A Maria ia danada. Quando não falava, era porque tinha receio de explodir.

O Padre Anselmo parecia triste e cismático. Encontrava-se numa situação difícil. Avisar Paulo, seria dar o sinal de alarme. Estava certo que nunca lhe perdoaria que duvidasse dele... Mas era homem e a carne é frágil... Os sentidos quantas vezes desvairam, mesmo quando a razão pretende impor-se... São eles sempre que mandam e dominam... A natureza tem caprichos que os mais sensatos dificilmente conseguem domar.

Paulo era afinal uma vítima. E ela sentia-se a única responsável pelo que estava sucedendo. Para que deixara a pequena tanto à vontade? Para que a abandonara aos cuidados do marido? Devia ter pensado que a humanidade é uma fera, sempre de dentuça arreganhada, pronta a abocanhar a reputação de cada um. Sentia um pesar imenso, por ter contribuído, ainda que de uma forma indirecta, para que alguém pudesse pensar alguma coisa desagradável da sua adorada pupila.

Os filhos cada vez mais intransigentes com a pequena. Carlos, quase em permanente fúria com ela, excedia-se por vezes, a ponto de ela ter de intervir. Aquela ressentia-se e choramingava mimenta:

- Não sei que mal fiz para me quererem tão mal!...

- Carlos - intervinha o pai -, a tua atitude é verdadeiramente antipática... Se outro motivo não houvesse mais imperioso, para que procedesses com a correcção que marca mais que coisa alguma a categoria de cada um, devias lembrar-te que Isabel é uma senhora... nossa hóspede e por assim dizer pessoa de família pelo coração.

- O pai tem coisas!... Uma hóspede, aos três dias enfada, e uma senhora - disse acentuando a palavra - não passa a vida a arreliar os hospedeiros.

- Hei-de ir-me embora, para vocês ficarem à vontade. Não vos posso suportar.

- Não faças caso, filha!... Amuos de meninos... Não lhes dês importância...

E as coisas retomavam o ritmo normal. Os trabalhadores da quinta começavam a repontar com o íntimo convívio de Paulo e Isabel.

- Aquilo, sim, é que é bem-querer... - Se fosse filha não a estimava mais...

 

- Ora adeus! Nem tanto ao mar nem tanto à terra... No lugar da Sr. a D. Madalena não a deixava andar sempre agarrada ao marido.

- Cala a buzina, meu lorpa... Dali nunca pode vir mal... É pai e filha...

-Então o pai não é o Sr. Dr. João Saavedra? - Não era filha minha que eu deixava andar assim sem rei nem roque.

Todos desataram a rir... alvarmente.

O Padre Anselmo surpreendia, às vezes, apreciações dos paroquianos em ironias mal disfarçadas. Era evidente que o público interpretava mal a intimidade de Paulo com Isabel. E esta não lograra, apesar da sua beleza, conquistar as simpatias dos campónios.

- Nunca mais se viu a Sr. a D. Madalena a passear com o marido, como noutros tempos...

- Tem quem a substitua... Isto, amigo, em uma pessoa começando a estar do meio-dia para a noite, as coisas mudam... Todos se voltam para o sol-nascente.

- Mas a Sr. a D. Madalena é ainda uma mulher bonita.

- Dali a velha ainda tem muito que andar...

- O Sr. Dr. Paulo está muito conservado...

parece um rapaz...

- A gente tem duas meninices, e na segunda dizem que se fazem desacatos mais graves...

- São de maior responsabilidade!... Aos moços perdoa-se tudo... Depois o caso muda de figura... O Padre Anselmo cada vez andava mais preocupado. Paulo não dava pelo que fazia... Parecia um menino. Perdera a noção dos anos e das circunstâncias. Tudo sorria à sua volta e a vida nunca lhe parecera tão bela. Uma aleluia triunfal nimbava a seus olhos a natureza de uma luz divina. Trazia a alma em festa sem saber explicar porquê!

Madalena observava-o e sentia-o mais rapaz que os filhos. Não lhe convinha de forma alguma despertá-lo daquele sonho que o alheara da realidade sem ele dar por isso.

Mas, porque Isabel não agradasse ao povo, passando sempre com aqueles ares superiores sem ligar importância a ninguém, ou porque Madalena era adorada por todos, ou ainda porque se tornassem excessivos os passeios solitários de Paulo com a filha do Saavedra, e aquelas efusões de que ela não se coibia em público em parte concorressem para acarretar sobre ela uma forte corrente de antipatia, começou a rosnar-se desagradavèlmente contra a sua reputação.

O Padre Anselmo, alarmado, tinha de cortar certas conversas em que os paroquianos já ousavam fazer as suas apreciações duras. "Aquilo não parece bem, Sr. Prior. A Isabelinha não vai pelo caminho direito. Vossa Reverendíssima é que podia pôr cobro a certas coisas. "

O sacerdote, intimamente, absolutamente de acordo com as teorias expostas, não o confessava a ninguém, antes as rebatia...

- Homem, estou pasmado!... Como a humanidade é inclinada ao mal... Que ideias tétricas ensombram o pensamento de alguns mortais! Não concebem a amizade paternal de quem viu nascer e criou aquela menina... Tudo entenebrecem e estragam...

 

- Oh! Senhor Padre Anselmo, pelo amor de Deus! Olhe que não sou só eu a pensar assim... Cá nas redondezas são todos da mesma opinião. O povo não fala noutra coisa...

- E você faz-se eco dos parvos, dos maus, dos que não têm no seu activo nem uma acção boa a registar?

- Bem, bem... A minha intenção era avisar V. Reverendíssima!... Como ainda se volta contra mim, dou o dito por não dito... e cada qual que se arranje. Não tenho nada com a vida dos outros...

O caso começava a tomar proporções desagradáveis. Falar nisso a Madalena era ir alarmá-la e ela já não andava muito tranquila. Tinha de se calar, era o mais prudente. Tocar no assunto a Paulo, parecia-lhe um erro. Nem ele dava pela triste figura que andava a fazer. Continuava feliz, achando o seu procedimento o mais natural possível.

O certo era que não podia estar um momento sem Isabel. Era nele espontânea aquela atitude. Prendera-se insensivelmente. A filha de João Saavedra era uma parte integrante do seu "eu".

Madalena andava apreensiva, preocupada. Notava-se nela um mal-estar cada vez mais acentuado. No sacerdote e em Maria da Pena, a mesma coisa. Agora, porém, já ninguém desabafava, e calados sofriam mais.

João Saavedra passava largas temporadas em Lisboa, no desempenho do seu novo cargo; ali conservava a sua residência. Escrevia quase todos os dias e, sempre que vinha, avisava com antecedência. Nunca consentiam que ele fosse para a Alameda, apesar de lá ter tudo a postos. Ia depois lá com a filha, e muitas vezes com Paulo, ver se tinham cumprido as ordens e verificar os melhoramentos que mandara fazer. Mas voltavam, invariavelmente, para a Abrigada.

Passavam serões deliciosos. João contava as novidades de sensação da capital. Como passava o tempo, como se aborrecia no meio de tanta gente indiferente, como lhe pareciam longos os dias que decorriam longe da filha e dos amigos. Paulo narrava episódios campestres. A ronceirice dos trabalhadores rurais, a rotina de que era difícil desviá-los, sem quererem compreender processos novos.

Os poucos dias que João se demorava tinha de os aproveitar na direcção agrícola da Alameda, cada vez mais florescente. A casa estava um primor de luxo e gosto.

- É pena estar desabitada -dizia Madalena.

- A culpa é sua, minha amiga... Porque me não deixa ir para lá?

- Não faltaria mais nada... Não se sente bem connosco?

- Isso nem se pergunta... Não tenho mais ninguém no mundo. A minha filha e vós, que sois tudo para ela e para mim.

- Aí temos nós um torneio gentilíssimo... Tu és da família, João, e não é costume estranhar-se o afecto entre os seus membros... É natural... É o que deve ser.

Uma tarde de Outubro luminosa e doce, Madalena estava na sua saleta predilecta a arranjar nas jarras as últimas rosas. Maria da Pena auxiliava-a e ia pairando.

 

Sem se esperar tão rápida transmutação, viram acastelar-se nuvens sombrias no espaço. O Sol desapareceu. Começou a soprar um vento rijo, impertinente. Umas pingas de chuva, ralas mas grossas, caíam aqui e além.

- Credo, menina!... Como tudo se toldou tão rapidamente... Que negrume, santo nome de Deus!

E num gesto de contrariedade:

- Há gostos para tudo!... Não sei como certas pessoas se não recolhem.

- Tens uma rara tendência para a crítica... Erraram-te a vocação. Se tu mesmo acabas de observar que tudo se toldou num instante, como podes estranhar que não se recolhesse toda a gente, se não houve tempo para mais?...

- Hum!... Não recolhem, não... Precisam de refrescar o miolo.

Madalena fingiu que não ouvira. Era o melhor sistema e o que ela adoptava com frequência.

O aposento em que se encontravam dava para uma vasta varanda envidraçada de onde se passava para o jardim. Ouviu-se a sineta. Madalena pôs-se de ouvido à escuta. com tão mau tempo e àquela hora, quem seria? Eram raros os visitantes na Abrigada. A Maria foi espreitar da janela.

- É um senhor... Vem com pressa... Como traz o guarda-chuva aberto, não posso distinguir quem é, mas deve ser pessoa conhecida porque se dirige com desembaraço para aqui.

Quem era entrou sem bater. Daí a nada Madalena soltava um ah!... de surpresa.

- O João por cá... e sem prevenir?

- Não tive tempo... foi uma resolução precipitada.

- Mas que tem? Você está doente?

- Não... sinto-me bem. Onde está Isabel?

- Na quinta, como sempre!... Aquela menina não tem medo à chuva nem ao vento... - respondeu Maria, como se fosse a interpelada.

Madalena deitou-lhe um olhar intimidador.

- E Paulo?

- Não sei - disse Madalena, com indiferença...

- Na quinta, que está um tempo de apetite...

- continuou ainda a velha criada, como se a conversa fosse com ela.

- Madalena fixou João.

- Vem fatigado da viagem?... Está transtornado?... Que sente? - perguntou solícita.

- Nada, absolutamente nada!

-Vai tomar qualquer coisa quente... -Não, não!... Muito obrigado!... Se me dá licença, vou ver a minha filha.

- Vá, vá, e venha com ela para tomarmos juntos o chá.

João desceu precipitadamente as escadas do jardim, por onde tinha entrado.

A Maria da Pena, mal o viu pelas costas, voltou-se meia assarapantada para a ama:

- Abrenúncio!... Parece que viu lobo!... Arrenego-o eu!... O demo da criatura traz o diabo no corpo...

- Maria, tu abusas da minha amizade!... Não gosto que fales assim dos nossos amigos...

- A menina bem sabe que tenho razão... Falo sempre verdade...

- Nem todas as verdades se dizem. Além disso as aparências iludem muitas vezes! Sabes o que era bom?... Que fosses tratar do chá...

- Pois vou, vou, que já vão sendo horas. Madalena ficou só. As suas mãos de artista tinham disposto as flores com aquela graça que sabia imprimir a tudo em que tocava... Um ambiente delicioso... Como todo aquele encanto contrastava com a tristeza da sua alma desolada! Sentia-se deprimida, amargurada... sem saber porquê.

Sentou-se numa poltrona e perdeu-se em divagações. Estava profundamente triste. A vida há muito mudara para ela. Fazia uma rigorosa auto-observação a ver se encontrava falta que justificasse aquele abandono, aquela solidão... A consciência respondia-lhe: - Não; tens sido boa e generosa... o destino é que por vezes é injusto, cruel mesmo... e, numa cegueira lamentável, erra o alvo. O que devia ir para uns, vai para outros... Parece gostar de torturar os que deviam ser galardoados com prémio correspondente às suas acções. Aos egoístas, atira-Lhes prodigamente com as maiores regalias deste mundo. Injustiça, sempre a flagrante injustiça da sorte.

Estava perdida em conjecturas, quando a porta da varanda se abriu impetuosamente e Isabel surgiu. Vinha rubra e sobressaltada, o olhar espantado...

- Ah!... a mãe está aqui?...

- Não é o caso para te surpreenderes... É o meu lugar predilecto, como o teu é na quinta...

- Gosto de ar livre...

- Viste teu pai?

- Vi - respondeu distraída, sem a fixar e sem entusiasmo.

- Pareceu-me adoentado... Já mandei preparar o chá.

- Julguei que ele fosse para a Alameda. A mãe sabia que ele vinha?

- Tanto como tu... Foi uma surpresa agradabilíssima.

- Podia ter prevenido...

- Foi mais engraçado assim!... Se prevenisse não seria surpresa.

- Não acho espírito nenhum a estas coisas inesperadas.

- Oh! filha... não digas isso... Então não gostaste de ver teu pai sem contares com essa alegria?

- Podia ter dito que vinha, para o irmos esperar... Assim foi uma sensaboria.

Isabel saiu e Madalena continuou pensativa e absorta.

- Que estranha rapariga esta!... Que temperamento... Como é diferente da mãe!

João, ao sair de junto de Madalena, encaminhou-se para a quinta. Encontrou servos e trabalhadores, mas a ninguém pediu esclarecimentos.

Vinha fora de si. Uma vilíssima carta anónima

contava-lhe em termos duros que Paulo, velho Fauno lhe chamava, se enamorara de Isabel. Era um absurdo de tal natureza que o desorientara. Apesar do anonimato nunca merecer crédito, resolvera vir, sem que ninguém o esperasse, certificar-se por seus próprios olhos. Dizia mais a carta que Madalena fora posta de parte e os dois pombinhos arrulhavam todo o dia na quinta, à sombra das velhas acácias, que anos e anos tinham acarinhado idílio bem mais simpático, o de Paulo e da esposa.

João vinha, portanto, em brasas. A sua pobre cabeça, alucinada, não podia nem o deixava pensar. Não, não era possível acreditar uma tal monstruosidade. No entanto, o que era mister era levar dali a filha... Mas como, sem dar nas vistas, sem fazer sentir aos amigos o horror daquela tremenda acusação?

Quando chegou, desnorteado, fez um esforço enorme para se dominar, mas sentiu que o terreno lhe faltava para se suster de pé. O não encontrar a filha junto de Madalena, foi para ele um choque medonho e de mau agoiro. As palavras da Maria da Pena entraram-lhe nos ouvidos e no peito como setas envenenadas. Qualquer coisa de verdade havia naquela carta maldita, mandada por alguém que estava mais ou menos ao facto do que se passava na Abrigada. Seria até escrita por algum criado? Que vergonha!... com estes pensamentos a bailarem-lhe na mente como labaredas, meteu pelas áleas ensombradas da quinta, como um ladrão. Ia levemente, para que os passos o não denunciassem. Enfiava olhares perscrutadores para os mais pitorescos recantos, tão seus conhecidos, onde outrora passara as horas mais felizes da sua vida.

Evocava o passado. A morte da mulher voltava a avivar-se-lhe, a surgir de novo como uma catástrofe irremediável. Fora uma infelicidade sem igual. Ficara a filha... Lembrava-se como a recebera mal ao saber que custara a vida à mãe... Mil vezes ela tivesse morrido nessa altura. Não lhe podia querer bem... a esse tempo... Era um ente desconhecido que aparecia e desaparecia sem deixar vestígios. Luz que se apagava sem ter projectado a menor claridade. Não podia deixar saudades...

Lembrava-se do trabalho de Madalena para o afeiçoar à pequena... E como agora lhe queria!... Por ela e para ela vivia. Era capaz de todos os sacrifícios... Iria até ao crime para evitar uma contrariedade à sua adorada Isabel. Ia desvairado mas subtil.

A certa altura pareceu-lhe ouvir o ciciar de vozes. Eram eles. Mais se acautelou, e em vez de seguir em linha recta, pela rua que conduzia ao caramanchão onde se encontravam Paulo e a filha, seguiu pela terra emaranhada e postouse atrás de uma sebe de espesso buxo. Ouvia tudo; separava-o deles apenas a trincheira de verdura. Estavam sentados, de costas.

- Que pena, Isabel, não teres vindo ao mundo vinte anos mais cedo... Serias tu a companheira ideal dos meus dias...

- Não há idades quando as almas se compreendem, Paulo.

- Não, não; separa-nos o abismo do tempo e dos acontecimentos...

- Nada no mundo é insuperável quando um bem-querer bastante forte dá coragem para a luta que leva à vitória.

João não quis escutar mais... Ouviu-se um grito estridente: - Isabel!...

Não se sabe como, de um salto espantoso apareceu junto dos dois, que se ergueram espantados como se tivessem ante os olhos a visão diabólica e acusadora do dever. Paulo ficou aterrado...

Os dois homens estavam um em frente do outro, como dois fantasmas. Paulo, alheio, como se o que se estivesse passando fosse num mundo diferente e os personagens em cena completamente desconhecidos.

 

Isabel, surpreendida em flagrante, ficou desconcertada e, com a súbita consciência da sua falta, que bem podia considerar-se nefando crime, escapou-se sorrateiramente para não assistir ao que iria seguir-se e que presumia ser terrível. Foi quando Madalena a viu entrar como uma rajada.

- Paulo, eu podia saber que a humanidade em peso fosse maldosa, abjecta, repugnante, mas ainda quando essa certeza me avassalasse o espírito sem me restar a mais pequena dúvida, tu serias para mim a única excepção... Canalha!... Não tens perdão... Entreguei-te a minha filha, confiando em ti como em mim... considerando-te por assim dizer seu segundo pai. Foi assim que correspondeste ao meu gesto? Bandido!... Não te estrangulo, porque tens que reparar a tua falta, custe o que custar. Tens ainda dois caminhos a seguir. Concedo-te, generosamente, a regalia de escolheres. Vês este revólver?...

Tirou do bolso a arma que pôs em cima da mesa de pedra, onde marcou a mancha negra, sinistra, trágica, de uma ameaça terrível.

- Juro-te aqui, solenemente - e estendeu a mão firme e pálida sobre o revólver-, que a honra da minha filha vai ser reabilitada ou a tua vida chegou ao fim. Escolhe. Quando saí de Lisboa tinha formado

O meu plano: divorcias-te! Esta resolução é inabalável e sem apelação nem agravo, e casas com a minha filha ou mato-te... Entendes-me? Ouves-me?

E aproximava-se-lhe do rosto numa atitude de louco, os cabelos em desordem, os olhos fora das órbitas, absolutamente transtornado.

- Escuta-me, por Deus...

- Não te expliques, covarde... Quis certificar-me por meus olhos do que havia de verdade nessa horripilante carta anónima, que, pondo-me ao facto do que se passava na tua casa, me despedaçou a alma para sempre... As suas palavras, ao passo que me elucidavam, cravaram-se-me no coração como ferros em brasa... Nunca pensei que descesses a tanto, velho Fauno repugnante e hediondo. Não sabias que tinhas responsabilidades graves perante a tua família e muito especialmente perante mim, que te confiei o maior tesouro que possuía? Não, não hesitarei um instante: ou casas, ou morres! O divórcio fez-se para ensinar os canalhas a cumprirem o seu dever. Arranja-te como quiseres... Faz a mala e vamos... Anão ser que prefiras que te amarre como um cão tinhoso...

- João, escuta-me...

- Nem uma palavra, monstro... Sabes como eu sou de boa-fé, sabes de mais como eu sempre fui leal. Mas se me traem... também não ignoras o vigor destes músculos de aço, nem desta têmpera indomável.

Estava alucinado... Era uma fera capaz de tudo, se interpusessem aos seus desígnios algum argumento, fosse ele qual fosse.

Paulo resolveu calar-se. Estava aniquilado. Nunca pensara que os seus passeios com Isabel, aquela camaradagem alegre, que parecia insuflar-lhe juventude, fosse interpretada daquela forma. Tinha de convencer João que nada havia entre ele e a filha, além daquele convívio contínuo, tão íntimo como se fossem dois irmãos. Da parte dele a atracção da mocidade risonha e prazenteira, como a aragem da Primavera a suavizar as calmarias monótonas de um Verão a pender para o Outono, e nada mais!...

Como fazer acreditar ao amigo a verdade dos factos? Como tirar-lhe da cabeça aquela ideia fixa e terrível?... Sim, como? Desfazer o seu lar? E porquê? com que pretexto? E Madalena?

Volvia então um olhar retrospectivo e reparava como ela nos últimos tempos passara insensivelmente a um plano secundário. Como a esquecia para tudo... Como Isabel se apoderava dele, como o dominava, como a vontade dela era uma ordem, acatada por si sem discussão e quase sem dar por isso... E Madalena, a mulher inteligentíssima, que certamente tinha compreendido tudo, nunca se queixara... Aguentara o temporal sem um reparo, sem uma admoestação.

Divorciar-se? Era uma monstruosidade para que não sentia coragem. Era mister acalmar os nervos do amigo e naquele estado de espírito não podia dizer-lhe uma palavra. Deixaria passar a borrasca sem o contrariar.

Vieram para casa. Um silêncio penoso cavara entre ambos um abismo. Caminhavam lado a lado como se estivessem vinte léguas afastados.

Madalena estava ainda na saleta quando entraram.

- Esperava-os para mandar servir o chá...

- Obrigado, Madalena; se me dá licença, não tomo nada. Vim inesperadamente apenas por umas horas. Tenho de resolver o assunto na Alameda e preciso da comparência de Paulo. Não há tempo a perder... Penso em regressar a Lisboa no comboio da noite.

- Isso é espantoso, João!... Não posso consentir que parta sem tomar qualquer coisa.

- A Madalena compreende que, se não fosse um caso urgente, não viria agora... Daqui a alguns dias voltarei com demora.

Ninguém o demoveu...

- Isabel vai connosco... Como passo aqui pouco tempo, quero aproveitar a sua companhia...

Madalena foi chamá-la...

João passeava agitado. Paulo estava num estado de perplexidade indescritível. A transpiração orvalhava-lhe a fronte, passava instantaneamente do rubro ao pálido, em sucessivas e rápidas transições que denotavam a grande agitação interior.

Madalena voltou logo e visivelmente impressionada.

- Isabel saiu sem dizer nada!... Não sei onde se meteu...

O pai não pareceu admirado.

- Deve ter ido para a Alameda, mandar preparar tudo para me receberem... Surpresas...

- Estranho... Nunca foi sem me prevenir...

- Não se preocupe, minha amiga!... Isabel sabe o caminho. todos a conhecem... e por aqui não há feras... As únicas a temer são as de dois pés!... Essas são as mais perigosas... põem-me os cabelos em pé. Desculpe-me, sim, querida amiga, mas há casos que não admitem delongas.

 

Saíram. Madalena sentiu um abalo horrível e inexplicável. Não soube nem conseguiu explicar a si mesma o que experimentou naquele momento de aparência banal, mas que para ela tomou proporções assustadoras. Sentou-se aniquilada.

Entrou a Maria, alarmada...

- Então a menina não sabe?... O José viu a Isabelinha sair o portão sozinha, com uma malita na mão...

- O que me dizes?... Tudo isto é misterioso e fantástico... Serei eu que estou louca, ou tudo endoideceu?

- Não tenho dúvida em que anda coisa no ar... A menina é uma santa... Só tem culpa em fechar os olhos a muita coisa. A gente não deve ser assim... bem sabe que o mundo é falso e enganador... À mãezinha, que Deus tem, ninguém fazia o ninho atrás da orelha... A menina nunca se fiou no que eu dizia? Veremos o que tudo isto dá. Mas não agoiro nada bom. O pai da cachopa aparecer, assim, de chofre, e sem mais nem menos... Hum!... Não me entendo com tal gente...

Madalena estava amarfanhada! Um farrapo humano. Pressentia borrasca. Tinha os nervos excitados. As fontes latejavam-lhe com violência.

- Que se meteu na minha vida que tanto a perturbou?

- Que se meteu Esse diabinho de saias que ainda ao colo já tinha a dentuça afiada e não sabia senão morder. Há criaturas que não vêm ao mundo senão para fazer mal... E esta é uma delas...

- Oh! Maria... tu não tens coração... Sabes lá de que se trata!...

- De que há-de ser?... Ai, menina, os olhos não comem sopas... Ou eu me engano muito ou ele a não veio cá fazer limpa...

- Ele quem?

- O pai da delambida...

- Tens ideias...

- Quem me dera cá os meus meninos... Esses é que tiravam tudo a limpo num instante...

- É bom não começares a fantasiar como de costume...

A chuva parara; mas o céu tinha um aspecto tempestuoso. Nuvens negras e espessas sobrepunham-se fazendo daquela tarde triste e sombria quase um crepúsculo.

A sineta tocou. Maria foi espreitar da janela.

- É o Sr. Padre Anselmo!... Em boa hora vem... Era cá bem preciso... Deus o traga.

- Tem cautela... não te ponhas a tagarelar.

- Eu?... Deus me defenda... Vou-me já embora, para a menina não dizer que tenho a culpa de tudo...

O sacerdote entrou com a naturalidade habitual.

- Boa tarde, Sr. D. Madalena... Como tem passado?

- Menos mal, meu amigo... As condições atmosféricas é que têm uma influência deprimente nos meus nervos.

- É a esfera, é... Aquela esfera é outra - resmungou a Maria, que voltara irresistivelmente, sem se poder conter...

O Padre Anselmo não pôde deixar de sorrir. Sentia no entanto que qualquer coisa de anormal se passava. Tinha receio de interrogar e o pavor de saber. Havia muito que esperava o rebentar da bomba. Pressentia-o, adivinhava-o.

Fez-se um silêncio penoso... -A Sr. D. Madalena está doente? -Não sei, meu amigo... Há estados de alma que correspondem à mais dolorosa enfermidade...

- Mas que aconteceu?

- Para lhe dar uma explicação, tenho primeiro que a pedir a mim mesmo... e não sei... sinto-me emaranhada numa teia de cogitações que não posso definir... Sabe que o João chegou sem ninguém o esperar? Foi de roldão ter com o Paulo à quinta... Pouco depois, apareceu Isabel num pé-de-vento... Passados minutos vinha o pai com o meu marido, ambos com cara de enterro, anunciando-me o João que fora chamado inesperadamente à Alameda e que carecia do auxílio de Paulo. Nesta altura procurou-se Isabel, para tomarmos chá juntos... Não apareceu! Em conclusão, meu amigo, estou só... Poderá decifrar este enigma?

- Não posso, não posso... - respondeu consternado.

- Sr. Padre Anselmo, sei que devo contar consigo como amigo. Falemos claro e sinceramente... Que pensa disto tudo?

- Não sei, minha senhora...

- Dar-se-á o tristíssimo caso de ter de dar razão à Maria?

- Sr. a D. Madalena, o mundo prepara-nos a cada momento ciladas com que não contamos... O que acaba de passar-se é realmente esquisito... Mas não vejo, por enquanto, razão para alarme...

- Não há? Mas a mim parece-me horrível...

Diz-me o coração que qualquer coisa de muito extraordinário está iminente...

- Não vale a pena criar fantasmas onde há apenas ligeiras sombras. Tudo naturalmente virá à luz clara do sol e da inteligência...

- Parece-lhe normal o que aconteceu? -Qualquer mal-entendido... nem sei...

- Pensa que a opinião pública pudesse ter interferência neste assunto?

- Ah! sim!... disso não tenho a menor dúvida... O povo tem uma tendência rara para as más interpretações... E quantas desgraças isso acarreta...

- Meu Deus, repugna-me acreditar que Paulo pudesse dar um passo em falso... pudesse mesmo ter um pensamento que não fosse digno do seu nome, e do seu carácter. Não, não acredito. Paulo é, acima de tudo, um cavalheiro...

- Há na vida de certos indivíduos horas trágicas e diabólicas. Tentações a que não podem resistir, que os avassalam doentiamente...

- Também acredita que fosse possível? -. Não sei a que V. Ex.a se refere.

- Não se faça de novas, meu amigo; é inútil entre nós... Há muito adivinhei que traz grande pesar consigo... Esse pesar é mais uma prova de estima para mim e para Paulo. Compreendi-o bem, e a minha consideração por si crescia de uma forma que não posso traduzir por palavras.

- Oh! Sr. a D. Madalena... Por quem é!...

- Esta é a verdade; esse pesar tinha em parte origem por ver como uma nobre acção, perdoe a imodéstia de que nunca fiz alarde, era compensada com a mais triste, a mais desgraçada vileza... E ainda, no que diz respeito a Paulo, o grande amor da minha vida, por vê-lo resvalar no despenhadeiro sem poder deitar-lhe a mão... Compreendo a sua delicadeza e o seu terror... Só a suspeita de verdade aterrava-o... e a mim também...

- Mas nada há de positivo...

- Como explica a fuga de Isabel, o desaparecimento de Paulo e João e a atitude de um e outro?

- Podem ter tido afazeres...

- Que caso estranho!... Nunca nas maiores crises da vida, nem um nem outro tiveram para mim segredos... Que mistério os afastou de mim?

Maria entrou precipitadamente.

- Está ali um criado de casa do Sr. Padre Anselmo, com esta carta que é urgente. Espera pela resposta.

O sacerdote pegou no sobrescrito e irreflectidamente saiu-lhe esta exclamação:

- Letra do João Saavedra!...

Madalena fixou nele os olhos ansiosos...

- V. Ex. a dá-me licença?

- Leia, leia à sua vontade...

Madalena não o desfitava, tentando descobrir-Lhe na fisionomia as impressões que a leitura lhe ia imprimindo. Via-o mudar de cor, de instante a instante... As poucas linhas que o papel continha levavam-lhe um tempo horrível a decifrar. Sentia-se que estudava a forma de dizer o conteúdo da carta à sua interlocutora, de forma a tranquiliza-la.

A cintilante inteligência de Madalena não era de molde a aceitar qualquer invento inverosímil. Era melhor a verdade. Para que estar com manobras inúteis?

- Que diz essa carta, meu amigo?

- É o Saavedra que me pede para ir rapidamente à Alameda.

- Chamam-no para ser o portador da má nova...

- Que má nova havia de ser?

- Não sei, não sei... O que tenho é pressa de o ver ir. Quero saber o que se passa, que lhe digam tudo...

- Irei.

Despediu-se e partiu.

Fora do portão estava um criado da Alameda, o que tinha levado a carta a casa do pároco, e que trazia ordem para o acompanhar.

- Não é para levar a extrema-unção, não?

- Que eu saiba não está ninguém doente, Sr. Padre Anselmo.

Os dois seguiram calados. O criado do prior tinha seguido para casa por outro caminho.

O sacerdote ia visivelmente preocupado, quase nem dava pelo companheiro. Num instante chegaram à Alameda. Encontrou o Saavedra na vasta sala de entrada, a passear agitado; nem o viu chegar.

- Boa tarde, Sr. Dr. Saavedra... Por cá, sem ser esperado? Que agradável surpresa para todos nós.

- Surpresa, sim, e foi justamente para que a tivessem, que vim sem prevenir. A vida é uma comédia, meu amigo, e os mortais uns péssimos comediantes.

- Às vezes, assim é...

- Mais ou menos deve supor o que me arrastou a estes sítios, destinados a serem o palco das maiores dores da minha vida.

- Pois não sei...

- Falemos claro, Padre Anselmo, e sem subterfúgios. Sabe muito bem o que fizeram à reputação da minha filha...

- Da filha de V. Ex. a?

- Sim, da minha Isabel. Pois, meu amigo, até hoje nunca brincaram comigo quando se trate de coisas sérias. A infâmia de uns e a incúria de outros, atiraram aquela incauta criança para o abismo. Esqueceram-se porém de que, se perdeu a mãe, não perdeu o pai, de rija têmpera, muito capaz de a desforrar e de fazer cumprir o dever a quem se esqueceu dessa pequena formalidade.

- Cada vez o entendo menos...

- Façamos de conta que assim é. Incomodei-o para lhe pedir um grande favor. O de comunicar à Sr. D. Madalena que parto para Lisboa com a minha filha e com o Paulo. Não tenho tempo de ir despedir-me... e... também o que tinha a dizer-lhe não podia de forma alguma ser-lhe agradável.

O sacerdote estava perplexo...

- Padre Anselmo, o senhor foi sempre um homem de bem, que mereceu, sem hesitação nem dúvida de um segundo, toda a minha estima e consideração. Fala-lhe um pai amargurado. Veja se me pode entender... Estou resolvido a tudo, irei até ao crime para reabilitar minha filha. Paulo tem de divorciar-se para casar com ela, doa a quem doer, e sofra quem sofrer...

- Oh!... Mas isso é um absurdo... não pode ser!

- Pode e há-de ser, afirmo-lho terminantemente. É para preparar a Sr. a D. Madalena nesse sentido, que venho pedir o seu auxílio. Ela tem o carinho dos filhos, que a absorve por completo. O Paulo, apaixonado por uma rapariga de vinte anos, pouco podia contar para ela...

- Sr. Dr. João Saavedra, tenho estado a ouvi-lo num estado de sonambulismo inexplicável. Nem me parecia tê-lo na minha frente, e eu mesmo que o escuto... não sei se sou eu... Tudo que me pareceu ouvir se me afigurou monstruoso. Casei o Sr. Paulo Abrunhosa... baptizei-lhe os filhos. Habituei-me a querer a todos como a pessoas de minha família e muito queridas. O divórcio, Sr. Saavedra, não é um sacramento da igreja. Como queria que eu aconselhasse semelhante monstruosidade? Separar um casal que sempre se quis bem, não é doutrina de Deus, nem da humanidade. Sr. Saavedra, escolheu mal o portador de tal missão...

- Acha então bem que a minha filha fique desacreditada?

- Não sei até que ponto foi o agravo. Mas o que não é justo é que pague a honestidade os erros cometidos por juventudes levianas.

- Parece-lhe que minha filha andou mal?

- Nada sei. Mas se levar o assunto a tais extremos, só ofensa irremediável justificaria a atitude de V. Ex.A.

- E podia essa ofensa ficar impune?

- A filha de V. Ex. a tem vinte anos. Nessa idade, aos quinze mesmo, todo o indivíduo tem obrigação de reflectir. O sr. Paulo devia ser considerado para todos os efeitos o que era; um homem casado e nada mais...

- Meu amigo, isso são frases feitas e conhecidas... Mas nada solucionam neste caso. Estou irrevogavelmente decidido. Ou casa com a minha filha, ou prego-lhe um tiro nos miolos. É uma decisão inabalável. Não; comigo nunca ninguém mangou.

- Sr. Saavedra, peço licença para me retirar. Levo a alma de luto. Sinto-me verdadeiramente consternado. Comigo não conte V. Ex. a para dar um único passo nesse sentido.

- Vejo que foi a minha filha a única que não lhe entrou no coração.

- Quero à filha de V. Ex. a como se minha filha fosse. Mas, se me assistissem direitos de pai, apontar-lhe-ia o caminho do dever, o respeito pela situação daqueles que, se lhe não deram a vida, deram-lhe o seu carinho, a sua ternura, a sua afeição pura e desinteressada. A filha de V. Ex. a podia e devia inclinar-se para os da sua idade e não lhe faltou quem a

cortejasse. Tinha em casa dois belos rapazes, sob todos os pontos de vista apreciáveis!... Pois repeliu-os sempre com azedume... Para que entontecer a cabeça do pai, passando impávida por cima do cadáver moral da que lhe serviu de mãe, nuns extremos exagerados, com mais dedicação por ela que pelos próprios filhos? Eu não acredito no que me diz, Sr. Dr. Saavedra, porque, se acreditasse, tinha de admitir que a sua filha era uma anomalia. João Saavedra ouvia-o aniquilado.

- Quer então atribuir toda a responsabilidade do sucedido à sua mocidade ardente e entregue, por assim dizer, a si mesma?... E que pensa do velho Fauno que soube insinuar-se no seu espírito juvenil? Também esse não tem culpas?

- Creio que já disse a V. Ex. a o que pensava. Não tenho mais nada a fazer aqui.

- Quererá ao menos prestar-me o obséquio de levar uma carta?

- Nem isso. Tem V. Ex. a a facilidade do correio, se não quiser servir-se do portador por quem me mandou chamar.

- Não posso, ao que vejo, contar consigo como aliado.

- A minha missão é congraçar os desavindos, unir as famílias e não separá-las...

- Acha então bem o que se passou?

- Mas se ignoro tudo, se nunca vi nada que ofendesse a minha sensibilidade moral!...

- Todavia, todos notaram o procedimento irregular de Paulo...

- Nunca fui ouvido para aconselhar nem para apreciar.

- É então a favor do escândalo?

- Sr. Dr. Saavedra, permita-me que lhe diga que não vim a esta casa para ser insultado...

- Perdoe... não tive a menor intenção de o ofender... Mas a sua atitude desorientou-me...

- É a de um homem que se preza...

- Não fará nada pela honra da minha filha?

- Tudo que esteja ao meu alcance, sem que com isso sofram os inocentes.

- Sempre houve vítimas na terra, Sr. Padre Anselmo.

- Lamento-o profundamente!... Faria tudo para que não existisse nenhuma.

O sacerdote ergueu-se, sério e digno.

- Nada posso esperar de si no sentido de influir em Madalena para assinar o divórcio?

- Absolutamente nada, Sr. Dr. João Saavedra - disse, de semblante carregado e ar severo. - Lamento esta ocorrência desagradável... Às suas ordens.

Cortejou gravemente e saiu. Ia desapontado e fulo. Era o maior desaforo de que havia memória. Precisava de ver Paulo... mas como?

Dirigiu-se para casa. Sentia, porém, o dever de ir sossegar Madalena. Não disse nada aos pais. A mãe, com o fino tacto de mulher esperta, adivinhou que alguma coisa de extraordinário se passava. No entanto, viu-o tão consternado, tão abstracto, tão fora de si, que não ousou interrogá-lo. Aquela atitude nele era desusada.

- Tenho de sair, mãe...

- Por uma noite destes, filho?... Vais para a Abrigada, por certo. Era melhor levares um moço contigo com um lampião...

- Não é preciso... as estrelas alumiam bem... -Está escuro como breu...

- Tenho ido tanta vez só, porque havia de ir hoje acompanhado?

O pai não gostava nada de o ver sair de noite.

- Está mau tempo... Querem-lhe muito, é verdade, mas deviam aconselhá-lo a não se expor tanto... Que diabo, um homem não é de ferro... E daqui lá é um estirão!... Bem basta de dia... E já não é pouco...

- Não sei o que o nosso filho tinha hoje! Tão calado... tão abatido... Ele que é sempre tão falador.

- O rapaz também precisa espairecer... Sempre aqui metido... Depois... uma pessoa percebe bem as coisas... Ele já se não entende connosco... Habituou-se a lidar com fidalgos...

- O nosso filho sempre se deu com toda a gente... É bom... é um santo...

- Ninguém lhe nega a santidade, mas que gosta mais de lidar com criaturas da alta, não se pode duvidar.

- Ora, ora... da alta e da baixa... O nosso Anselmo não é como os mais...

- Não, não... Não saiu ao pai... Olha que não era eu que me metia a pregador... É ele a luz que nos alumia... Quem o háde alumiar a ele quando chegar à nossa idade?

- Tem bons amigos...

- Não é a mesma coisa, tu bem o sabes...

- Não foste tu nem eu que lhe escolhemos a carreira... Foi do seu gosto, da sua livre vontade.

O padre Anselmo encontrou Madalena só e verdadeiramente aniquilada. Sempre que ouvia badalar a campainha, estremecia. Quem seria? Esperava o marido... esperava o Padre Anselmo... esperava todos, a debater-se entre a esperança e a desilusão, sem que ninguém viesse consolar a sua alma atribulada.

O sacerdote entrou. Vinha completamente transtornado, apesar dos esforços inauditos para manter uma aparência tranquila. Madalena compreendeu que alguma coisa de muito grave se tinha passado. Fez todos os esforços para dar às palavras um tom natural e ao aspecto uma grande serenidade; não o conseguiu...

- Meu amigo, conhece-me há muito, conhece-me de sempre, para saber da coragem de que disponho. Adivinho que sabe muitas coisas que deseja ocultar-me... Não vale a pena... Estou preparada para tudo... Fale sem reticências... Já nada me pode surpreender.

- Bem sei que a Sr. a D. Madalena é uma mulher superior para encarar os passos mais espantosos com a maior calma.

- Esteve na Alameda? Viu Paulo?

- Não vi.

- O quê? Ele não lhe apareceu?

- Talvez lhe não anunciassem a minha visita... Encontrei no átrio o dono da casa, que me esperava.

- Que se passou?

- Não sei se deva comunicar-lho na íntegra... -Diga tudo... sem hesitar... Não pode ser

pior que esta dolorosa incerteza... Não me pode passar pela mente o que tudo isto significa...

- O que me parece deduzir é que o Saavedra recebeu uma carta anónima dizendo qualquer coisa de desagradável de Isabel e de Paulo... Alucinado, quis reparar o mal-entendido que havia a respeito da honra da filha, e o meio que ocorreu àquela cabeça, desvairada pelo desgosto, foi conseguir o divórcio dele para o casar com a rapariga...

- Mas isso é a mais vil das infâmias! - gritou Madalena, pálida, os olhos desmedidamente abertos, numa atitude completamente desconcertada.

- Sr. a D. Madalena, não me faça arrepender de lhe ter narrado os pormenores desta tremenda entrevista. Creio que estou a falar com uma senhora de coragem, capaz de enfrentar o perigo, de o combater com a prudente inteligência de sempre...

- Mas, Paulo?

- Deve estar por assim dizer sequestrado... Teria uma bala no peito se oferecesse a menor resistência. com doidos não se brinca... A crise, porém, há-de passar!... Não convém contrariar os loucos nos acessos de fúria...

- Que quer esse homem maldito?

- Já há pouco o disse a V. Ex. a: casar a filha com o senhor Paulo Abrunhosa...

- Como? Que haviam de alegar para conseguir tal divórcio?

- Foi justamente para resolver essa dificuldade que me chamaram...

- O que pretendiam de si? - Que convencesse a Sr. a D. Madalena a assinar o divórcio...

- Eu? Esse homem perdeu a cabeça... -sim, completamente...

-O Sr. Padre Anselmo o que lhe disse?

- Que não contasse comigo para cometimento dessa natureza... Que a minha missão era unir e não desunir os bem-casados...

- Isto é o cúmulo!... Tudo poderia passar-me pela mente, menos um desenlace de tal forma disparatado. Que hei-de fazer nesta conjuntura, meu amigo? Os pequenos fora... sem poder desabafar com eles...

- A meu ver, os filhos de V. Ex. a devem ignorar este triste episódio. É melhor... São nuvens que passam... A crise não pode durar muito. É um caso de tal maneira absurdo, que nem vale a pena ligar-lhe importância.

- Realmente era digno de se pedir a intervenção da polícia.

- O melhor é não dar vulto a isto e ocultar o motivo da ausência do Sr. Paulo. Parece-me o mais conveniente... Teve de ir inesperadamente a Lisboa, explicará... entretanto o tempo deve trazer o raciocínio a quem o perdeu...

- Passaria pela extravagante cabeça do Sr. Dr. João Saavedra que eu cederia os meus direitos de esposa honesta e digna, para os entregar a uma garota que amei e criei como filha?

- Eu bem lhe disse muita vez, Sr. a D. Madalena, que a rapariga era terrível, que acarinhava a víbora que havia de dar-lhe a mordedura fatal... Lembra-se?

- Se lembro... Mas ninguém vê os defeitos dos filhos e ela para mim era mais que filha... Era o legado da morta querida, pelo qual prometi velar, jurando a mim mesma querer-lhe como àqueles a quem dei o ser.

- Mal empregado tempo.

- Bem sei que o meu amigo nunca viu com bons olhos essa ternura...

- Achava-a excessiva, confesso... E a pequena pareceu-me sempre bravia, indómita, sem gratidão, sem afectividade... Nunca achei a matéria-prima de bom quilate, nem própria para se deixar moldar...

- Não tinha mãe...

- As mães também castigam os filhos... e a Sr. a D. Madalena foi sempre de uma indulgência excessiva para os seus extravagantes caprichos...

- Talvez... Considera-me então a responsável pelo que aconteceu?

- Em grande parte, pela sua extraordinária

bondade...

- Nesse caso, é justo o castigo!...

- Se lhe parece a lei natural que a bondade seja compensada com a ingratidão!...

- Mas que hei-de fazer agora?

- Aguardar os acontecimentos... Creio que, tendo falhado a minha intervenção, com que contavam, têm de recorrer à epistolografia. Segundo os ditames, tendo falhado a minha intervenção, com que contaque a oriente.

- Que atitude tomará o Paulo perante este desencadear de disparates?... - Neste momento, não poderá revoltar-se, nem estará em estado de pensar nem de reflectir... Aguardemos, Sr. a D. Madalena. Coragem e tranquilidade...

- Veremos se os meus nervos, desequilibrados por este abalo tremendo, logram, aguentar-se...

O Padre Anselmo despediu-se. Ia preocupadíssimo.

Apareceu logo a Maria da Pena... Não podia haver segredos para ela... Se lhos não contassem, adivinhava-os... Era inútil querer ocultar-lhe qualquer coisa que magoasse a sua menina. Se a ferissem... surgia a fera indignada e feroz...

- E esta?... A menina não me dirá aonde se meteu a delambida?... O pai e o Sr. Paulo?

- Naturalmente na Alameda!... É a casa deles...

- E também é a casa do Sr. Paulo?

- Não me perguntes nada... Sei tanto como tu e... sinto-me doente... amarfanhada...

- Pois não é a ocasião para se deixar ir abaixo... A menina... tão forte sempre... não queira que os outros façam pouco de si... Isto brada aos céus...

- Maria... peço-te... guarda o maior segredo sobre o que sabes e o que presumes... O momento é para mim desgraçado... Não tenho cabeça para pensar... Queria identificar-me com a situação... conformar-me ou... reagir... Não posso... O choque foi violento e inesperado... sinto-me esgotada...

- Em primeiro lugar precisa de se alimentar para ter força... Não pode passar sem comer...

- Não me fales nisso... Tentarei repousar... Se o conseguir, será um grande milagre...

Deitou-se impressionadíssima. Não tardou que a Maria aparecesse com o chá...

- Preferia ficar com os olhos fechados, para nunca mais os abrir...

- com eles fechados tem a menina andado sempre...

- Talvez tenhas razão... Agora porém é tarde para seguir os teus conselhos. Tudo está perdido...

- Perdido? Nem pensar nisso. Quem tiver direitos que puxe por eles...

- Não, Maria!... Há certos direitos que parecem de pouca monta, e sobre os quais ninguém pode exercer violência... São os do coração...

- Qual coração, qual carapuça!... Aqui não há coração, há velhacaria... A menina pensa que eu não sei o que eles querem?

- Não sabes, como eu não sei...

- Mas adivinho... É desfazer o que está feito à face de Deus, para se anicharem na vida... Uma monstruosidade... - clamou, sem se poder conter.

- O melhor é escrever-se ao Antoninho. Esse sim, é capaz de meter tudo nos eixos...

Madalena estava incapaz de reflectir, de traçar um plano. A mulher enérgica e inteligente sentia-se completamente aniquilada. Concordava em que era urgente repousar, ordenar as ideias, para poder resistir ao embate. No dia seguinte veria o que devia fazer... O procedimento de Paulo era o que mais a surpreendia. Talvez para evitar o escândalo... Que havia de fazer perante a ira de um louco?

Intimamente estava sempre propensa a desculpá-lo. O seu amor fora absorvente, tão profundo e intenso, que resistia ainda a toda a suspeita de incorrecção, encontrando nele valente muralha inexpugnável. Não, não podia ser - pensava. As grandes, as sinceras afeições não morrem nem esmorecem. Nunca lhe passara pela ideia um desvario do marido. Agora, porém, sentia-se seriamente abalada.

- Apaga-me a luz... Sinto necessidade de dormir.

- Se for preciso alguma coisa, toque sem demora. Ficarei sempre de ouvido à escuta!... Não me deito...

- Decididamente, não estás boa... Queres ficar de vela ao cadáver? Olha que eu ainda não morri...

- Que lembrança, santo nome de Deus!... Nosso Senhor lhe dê uma noite de descanso...

Madalena estava realmente com intenção de dormir. Sentia que era uma necessidade do corpo e do espírito... Fechou os olhos... Era inútil!... Uma excitação horrível teimava em lhos abrir. O pensamento, numa labuta constante, numa agitação enorme.

Acendeu a luz. Pensou em se levantar, mas para não alarmar a criadagem, aguentou-se. Paulo era a sua preocupação. Era então verdade... era possível que se deixasse arrastar por um impulso irresistível e irreflectido, daqueles que só na primavera da vida se admitem?... Onde estava a sua dedicação, o seu afecto, o seu raciocínio, a sua inteligência? Tudo desaparecera ao sopro de uma leviandade, como se fora um menino!... Leviandade numa idade em que as responsabilidades são graves, impostas pelo dever e pela posição.

Toda a noite levou naquela tormentosa labuta sem conseguir conciliar o sono.

Muito cedo, a Maria veio, subtilmente, observar se ela ainda dormia. Ao vê-la de olhos tão abertos e

olheiras profundas, suspirou.

- Bons dias, menina... Então como passou a noite?

- Dormi relativamente bem...

- Ah!... Os olhos das mães nunca se enganam e a menina sabe bem que lhe quero mais que a uma filha!

Trouxe-lhe café com leite rapidamente. Era mister alimentar-se depois daquela longa noite de vigília.

Madalena levantou-se tarde... Sentia-se prostrada... Parecia-lhe estranha a casa... e via-se desoladoramente só... num abandono que lhe doía como se sentisse nas carnes o choque doloroso de ferro em brasa... Afigurava-se-lhe que um tremendo ciclone tudo deitara abaixo, e que tudo que a rodeava eram

Os destroços de tão fatal cataclismo...

Era domingo. Desde sempre, o Padre Anselmo costumava vir almoçar à Abrigada depois da missa. Madalena tinha perdido a noção do tempo. Nem se lembrava em que dia da semana estava... Ficou, pois, surpreendida ao vê-lo entrar.

- Cá estou... Não se perdem os velhos hábitos... Há tantos anos que nestes dias encaminho os meus passos para aqui...

- Eu é que esqueci tudo.

- Não admira que esteja impressionada... Recapitularam os acontecimentos do dia anterior. O Padre Anselmo soubera pelo feitor da Alameda que tinham partido todos para Lisboa nesse domingo...

- Já nada me espanta, meu amigo... O meu pobre Paulo enlouqueceu... E para os loucos, quando se não aplica a camisa-de-forças, tem de haver comiseração.

- Neste momento a situação dele é grave... Quase compreendo a sua atitude... Num excesso de fúria, o outro era muito capaz de lhe dar um tiro, e essa tragédia não só enlutaria a família, como enodoaria duas vidas... O Sr. Paulo é ponderado e inteligente... Não acredito que não esteja à espera de oportunidade para se escapar...

- Já não creio no bom senso de ninguém. O que aconteceu é espantoso e único...

Depois do almoço, ficaram largo tempo a conversar... Não diria nada aos filhos, e a quem perguntasse pelo marido explicaria que tivera necessidade imperiosa de ir a Lisboa tratar de assuntos inadiáveis que possivelmente lhe levariam largo tempo... Por isso ela resolvera ficar.

- Era mister mostrar-se serena para não alarmar o público - insistiu o Padre Anselmo.

- Sim, hei-de fazer tudo para que as aparências não traiam o desassossego da minha alma.

Todos os dias o Padre Anselmo vinha confortar Madalena, trazer-lhe notícias, contar-lhe o que sabia. Realmente, na Alameda, já não estava ninguém.

De Paulo nem uma palavra. Era esse o maior, o mais sério dos agravos. Seria coagido?... Era possível!... Mas quem não pode, especialmente um homem, romper essa coacção? Estava de acordo, e feliz com a perspectiva de uma união com uma rapariga exuberante de vida. Sim. talvez tivesse razão... para ela a Primavera ia longe... Mas ambos tinham envelhecido.

Madalena olhava então o espelho, pasmada... Estava efectivamente bem diferente de quando tinham casado. Tantos cabelos brancos... Que medonha transformação... Nunca tinha reparado nessa derrocada lenta que os anos tinham operado...

Era feliz!... O coração permanecia moço como na hora ditosa em que o unira ao escolhido da sua alma... Só agora dava por aquela metamorfose a que nunca ligara importância. Era pois certo que o homem se prendia apenas por aparências fúteis, pela beleza efémera e nada mais? O resto não pesa na balança do seu apreço?

Sentiu então aquela amarga dor dos que sofrem de um mal para que se não descobriu ainda remédio...

Era uma divorciada para todos os efeitos... Tinham passado semanas e semanas e nem uma letra viera suavizar a solidão daquela alma amargurada. Os filhos estavam em vésperas de exames e nem a mais leve suspeita do ocorrido os perturbava. Vinham de quando em quando visitas...

Uma tarde, estava com algumas senhoras mais, na Abrigada, quando apareceu uma condiscípula, casada com um advogado e magistrado da comarca a que pertenciam e com os quais se davam muito. Madalena acolheuos com a afabilidade de sempre.

- Bem-vindos sejam!... Há quanto tempo sem te ver, Teodora...

- Não tem sido por falta de vontade... Mas os afazeres do Roque é que me têm inibido de vir tantas vezes como desejava, especialmente agora - acentuou intencionalmente -, para te fazer companhia.

Como os outros visitantes não dessem mostras de sair tão cedo, o Dr. Roque aproximou-se da Madalena e pediu-lhe para lhe falar em particular...

- Pois não, senhor Doutor. Passemos ao meu gabinete.

Teodora e o marido seguiram-na. Instalados no elegante compartimento, Madalena, sorridente, sem presumir o assunto que ali os trouxera, disse:

- Estou às suas ordens, senhor Doutor.

- Sr. D. Madalena, traz-me hoje aqui uma missão espinhosíssima, de que muito me custou encarregar.

- Isso é verdade - apoiou a esposa. - Se não fosse por ti, não viria...

- Mas de que se trata? - interrogou Madalena. - Venho aqui em nome de seu marido...

- Ah!...

- Paulo incumbiu-me de vir ter com V. Ex. a para lhe dizer que era obrigado a divorciar-se.

- Ah!...

- É verdade... e olha que o teu marido tem muita pressa.

- Sim? E não te explicou porque deseja o divórcio?

- Disse-me apenas que pedia para V. Ex. o requerer, que era assim mais simpático.

- Simpático?

- Menos escandaloso...

- É boa...

- Obrigou-me a aceitar esta missão e a levar uma resposta urgente...

- Muito bem!... Fico ciente, Sr. Doutor...

- Que devo então dizer ao Paulo?

- Que lhe mando a resposta directamente, sem necessitar de intermediários...

Madalena ergueu-se com dignidade.

- Passemos à outra sala, Visto nada mais termos a tratar em segredo.

Os dois não se sentaram mais, nem aceitaram o chá. Já na escada, quando Madalena os acompanhou, Teodora articulou ainda estas palavras azedas:

- Olha que teu marido recomendou-me: "diga-Lhe que tenho muita pressa... "

Madalena, que conseguira conter-se até ali com a maior calma, deixou escapar uma gargalhada nervosa.

Era um grito de dor... um brado de indignação. que realmente chocou o casal que saía.

- Custou-lhe a engolir a pílula - disse Teodora ao marido, já na rua...

- Pois ninguém lhe vale... Que procure outro... que aquele... foi chão que deu vinha...

- A bom tempo - chasqueou a condiscípula de Madalena. - Está caduca... Este abalo arrasou-a...

Que ela nunca foi bonita!...

Foi a maior das afrontas mandar-lhe a amiga do colégio para lhe propor o divórcio. a indignação deu-lhe forças para resistir. Era a baixeza mais completa de que havia memória.

Quando todos saíram, contou ao Padre Anselmo o que se tinha passado.

- Patifes... Como se sentiam satisfeitos de trazer a desdita a quem já estava Profundamente amargurada.

Madalena não se lamentou...

- E agora?

- Silêncio, Sr. D. Madalena... Não dê um rumo triste à vida. Os seus filhos estão a regressar para as férias. Então fixaremos definitivamente o plano que tracei e que não posso executar Sem colaboradores.

Estavam próximos os exames. Não convinha alarmar os rapazes.

Tudo correu satisfatoriamente. António, com as brilhantes classificações de sempre; Carlos, guindado pelo irmão, saiu-se menos mal...

Partiram delirantes para a Abrigada, onde se sentiam completamente felizes. O não encontrarem o pai foi um choque tremendo que a mãe não pôde evitar de entrada. Não quis logo estragar-lhes a alegria da chegada com a triste notícia dos acontecimentos que a traziam esmagada. Contar-lhes-ia mais tarde, com vagar, sem a crueza da triste realidade, tentando atenuar de alguma forma artificiosa as culpas do pai.

A ausência de Isabel também os surpreendeu, sem todavia lamentarem o facto, que lhes era extremamente simpático.

Carlos expandiu-se logo, como de costume:

- Oxalá que ela não volte... Que criatura insuportável...

António não se manifestou, mas sentia que qualquer coisa de muito extraordinário se tinha passado.

A Maria da Pena, como era de esperar, quando o encontrou a jeito, contou tudo o que sabia, tirando as conclusões que no seu entender achava mais acertadas.

Precisava falar com a mãe, mas antes ouviria o Padre Anselmo, o amigo imparcial e justo, cuja opinião respeitara sempre.

 

Encontrou-o no caminho quando se dirigia a sua casa. Sentaram-se numa eminência fora da estrada, para falarem à vontade.

- O que se passou na nossa casa é grave, Padre Anselmo.

- Sim, gravíssimo... É também a minha opinião. Neste momento, porém, o primeiro passo a dar é encorajar vossa mãe...

- Não me parece que a coragem lhe falte... Minha mãe foi sempre uma pessoa decidida. O que é urgente é evitar a consumação da catástrofe.

- Tua mãe não assina o divórcio e não é uma situação duvidosa, ilegal, o que o Saavedra deseja para a filha.

- Claro que não... Ah!... a nossa mãe tem graves responsabilidades neste desagradável incidente. A menina era intangível... Depois... ultimamente a vida modificou-se muito na Abrigada... A mãe, que sempre acompanhava o pai nas suas digressões, achou por bem fazer-se substituir pela pupila...

- Considerava-a filha... era natural...

- Sim, sim... era uma filha diabólica... Isabel nunca foi uma criança como as outras... O Sr. Padre Anselmo nunca reparou nisso?

- Muito mimo... uma ferazinha caprichosa...

- Mas vamos ao que importa; que havemos de fazer para acabar com esta farsa?

- Esperava justamente por vós para traçarmos um plano seguro.

- Meu pai andou mal, concordo, mas não acredito que as coisas chegassem ao irreparável. Como se meteu na cabeça do Sr. Dr. Saavedra desfazer um lar tão solidamente construído para edificar outro com tão insólitos alicerces É realmente absurdo... Quem pode ter mais direitos?... A mulher honesta, ou a que, pelo menos moralmente, deixou de o ser?...

- Quer-me parecer que, em parte, a atitude do pai da Diva tinha um grande fundo de negociata... A enorme fortuna de seu pai devia pesar pouco na balança, para a exigência torpe deste homem tão cioso pela honra da filha, a ponto de o levar a requerer uma reparação em circunstâncias tão extraordinárias. Não se informou, não tomou medidas preventivas, nada... uma simples carta anónima bastou para vir por aí fora de arma em riste, pronto a desfechar à primeira recusa...

- Há-de concordar que a atitude de meu pai é verdadeiramente fantástica...

- Teu pai... quis talvez evitar o escândalo...

- Quer ainda maior escândalo que este?

- Talvez não presumisse que as coisas chegassem a este ponto... Pensou, possivelmente, em poder abrandar a fúria do amigo, adiar... convencê-lo... sei lá!...

- Mas aquele ultimato pelo marido da Teodora é infame...

- Sim, ignóbil!... Sabes o que achava bem? Abordarem vosso pai...

- Como?

- Indo a Lisboa e expondo-lhe as razões que lhes assistem... Ele afinal está só... Rodearam-no, prenderam-no... fraquejou...

- Bem sabe, Sr. Padre Anselmo, que há uma quadra na vida em que o homem perde o equilíbrio... Tenho-o lido e tenho-o observado... Desgraçadamente o nosso sexo tem desses desvarios causados por impressões violentas. A mocidade exerce sobre o indivíduo de certa idade uma influência decisiva. Raros resistem... Era amor da parte de meu pai? Não, não podia ser... meu pai é um carácter... Não duvidemos dele apesar de tudo... Houve o convívio constante. A companheira inseparável, o riso pronto e fresco, a alegria exuberante, a confiança absoluta... Foi-se enredando sem dar por isso... E a vida continuaria assim indefinidamente... Um dia a cachopa casava e meu pai achava a coisa mais natural do mundo. Sentiria, de princípio, uma grande falta... mas esquecia, como era razoável... E tudo voltaria à normalidade sem se reparar que tinha sido interrompida. Foi aquele homem fatal que veio perturbar a felicidade da nossa casa. Boa paga para quem lhe criou a filha, para quem fez tudo pela felicidade dela...

- Uma tremenda ingratidão...

- bom, Padre Anselmo, tudo isto são considerações inúteis... temos de agir... Meu pai está por assim dizer sequestrado... Talvez nesta altura, se a razão ainda não acordou nele o sentimento de dignidade que deve a si mesmo, lhe sorria o casamento com uma moça de vinte anos... Meu caro amigo, como o tino se esvai e como a idade nos atraiçoa... Perde-se o senso completamente... É o momento de dizer também como o Saavedra lhe disse: temos de obstar a

este tremendo desastre, custe o que custar, doa a quem doer. Não falaremos a minha mãe no horror desta situação. Faremos tudo para a distrair e para se conformar temporariamente. O Carlos partirá já para uma praia com o intuito de se divertir, explicará, e eu alego que tenho de abalar pelo país em viagem de estudo. Ela continuará a imaginar que ignoramos tudo. Iremos em datas diferentes para nos reunirmos em Lisboa. Havemos de ver meu pai, falar-lhe, convencê-lo do passo errado que pretende dar!... Numa palavra: salvá-lo.

- O plano é bom; precisamos falar com teu irmão.

- O Carlos é um estouvado, mas uma alma nobre, um cavalheiro, de uma lealdade rara na sua idade.

- Sempre assim foi!... Brincalhão como não havia outro enquanto as circunstâncias não impunham seriedade.

- O programa está mais ou menos traçado; agora vamos almoçar...

Madalena esperava-os na varanda que dava para o jardim.

- Já me tardavam... Ainda nem vos vi bem, filhos...

- Mas agora aqui nos tem... fui dar um abraço ao Padre Anselmo e arrastá-lo a vir almoçar connosco.

- É um grande amigo... não poderemos nunca retribuir a sua dedicação, por mais que façamos...

- Não faltava mais nada ao Sr. Padre Anselmo

que pensar em lhe retribuírem a amizade... Era uma maçada para ele...

- É a única coisa apreciável na vida, filho...

- Há tanta coisa boa, mãe...

- Impressões efémeras... só ela fica para dar alento, para encorajar na rude ladeira da existência...

 

António fingiu não perceber e deu à conversa rumo diferente. Compreendia que era indispensável distrair a mãe, e tanto ele como o irmão foram de uma assiduidade enternecedora... Traziam-na completamente absorvida, não lhe deixando um minuto para pensar. Nunca António falou tanto na sua vida. A ausência do pai parecia não os preocupar absolutamente nada... Nem sequer aludiam a ela...

Madalena não ousava desabafar com os filhos...

Via-os tão felizes, que teria remorsos, se o fizesse, de perturbar aquela paz de espírito... Nem sonhava que eles não pensavam noutra coisa...

Uma noite em que estava o Padre Anselmo, Carlos esboçou o desejo que tinha de ir flanar algum tempo para uma praia...

- Ó mãe, preciso de namorar... Não acha que é tempo de lhe apresentar uma nora?...

Todos riram, menos António.

- Só irás quando eu voltar... Não vamos deixar a mãe só... Sabes demais que tenho há muito o projecto de sair nestas férias.

Claro que esta discussão estava previamente combinada. Fingiram-se azedos, para a mãe intervir

como esperavam, e como sucedeu.

- Não se preocupem comigo. Não quero que estraguem as horas luminosas da vossa mocidade com birras e teimas inúteis... O Sr. Padre Anselmo faz-me companhia... Já agora será mais um sacrifício. Mas como já está habituado... Irão ambos... Exijo mesmo que vão...

Era exactamente o que eles queriam ouvir... O Padre Anselmo, intimamente regalado das coisas seguirem tão bem, emitiu a sua opinião:

- Acho muito justo o que a Sr. a D. Madalena diz. Estudaram valentemente durante o ano, têm direito a espairecer um pouco.

Ficou assente que partiriam dali a dois dias. Os dois irmãos estavam radiantes. Iriam juntos para Lisboa, onde manobrariam livremente. Esperavam conseguir trazer o pai, acordá-lo daquele pesadelo, chamá-lo à realidade, arrancá-lo à tirania do Saavedra. Pena de talião... haviam de vencer...

Sucediam-se as entrevistas com o Padre Anselmo.

Delineavam planos, esboçavam projectos...

- Este é o caso mais espantoso de que reza a história... Ficarão sabendo que a nossa mãe tem dois filhos capazes de a defenderem. Mãos à obra.

Os preparativos da viagem dos dois rapazes absorviam agora Madalena. A Maria, com a sua finíssima intuição, adivinhou que a passeata dos meninos era feita com segunda intenção. E assim, ao despedir-se, bichanou-lhes: "Deus os leve em bem, e oxalá consigam trazê-lo ao bom caminho"...

Os dois olharam-se surpreendidos e beijaram-na como sempre com a ternura que lhes merecia e que era como se ela fosse uma pessoa de família muito querida.

O Padre Anselmo veio ao bota-fora... Muitas efusões na despedida. Iam radiantes.

Os dois não podiam ocultar uma alegria interior, que transparecia apesar dos seus esforços para mostrarem o contrário.

Depois de desaparecerem, Madalena ficou sucumbida:

- Só, meu amigo, completamente só. Veja que triste sorte a minha... Sem marido e sem filhos... Hoje trata-se apenas de uma digressão... de um passeio... Amanhã casam e então será o luto eterno... Ah! meu amigo, como tudo se transtorna na vida num momento!

- Não desesperemos, Sr. a D. Madalena. Um dia acordará daquele mau sonho.

- Será tarde!... Já me não encontrará.

Chegaram as primeiras notícias.

Afinal os dois tinham resolvido ir passar uma temporada à Figueira. Contavam que estavam divertidíssimos.

- Ainda bem - confidenciava Madalena ao Padre Anselmo. - A mocidade despreocupada arranja sempre distracções. Não lhe escreveram, Sr. Padre Anselmo?

O sacerdote fixou uma revista para não ver o olhar de Madalena e respondeu brandamente:

- Não, senhora... Madalena.

Mentia piedosamente para não levantar suspeitas. Os dois irmãos tinham-lhe escrito no mesmo dia que à mãe, não da Figueira como a ela, para despistarem, mas de Lisboa, onde se encontravam a manobrar com o mais encarniçado ardor.

Vigiavam a vivenda do Saavedra, seguiam-lhe os passos, sabiam o que se passava pormenorizadamente. Viram várias vezes sair o pai com ele e com a filha, iam-lhes no encalço, estudavam-lhes as atitudes, a fisionomia, que traduzia uma acentuada contrariedade. Estava envelhecido, abatido e triste...

Era visível que se sentia coagido e que o noivado extemporâneo a que pretendiam levá-lo não o trazia encantado. Essa descoberta deixou-os admiravelmente impressionados. Agiriam assim mais seguros. Tinham a seu favor o estouvamento de Isabel.

Em Lisboa viviam vários condiscípulos dos dois e alguns amigos íntimos. António teve uma ideia que comunicou imediatamente ao irmão.

- Isabel é uma leviana-disse. -Se alguém lhe fizer a corte, desiste logo daquele devaneio idiota...

- Se calhar queres que eu me proponha como candidato, interpondo-me entre ela e o nosso pai!

- Nem pensemos nisso; se bem que, para conseguirmos o nosso fim, não devemos escolher os meios; todos servem... Mas não foi esse o que me ocorreu. O Tomás Lencastre é atiradiço e brincalhão... Não lhe desagradaria a aventura. Vamos expor-lhe o que temos em vista. Pode salvar-nos. Tentemos.

Uma noite convidaram o Lencastre. Foi uma sessão de gargalhadas...

- Aceito a missão, vou namorar a linda patetinha, ingrata e frívola. Tenho gosto em vos ajudar nessa campanha... O papel não é muito simpático, mas prometo desempenhá-lo com a correcção que o caso requer. Vão ver o que é um actor, mesmo sem ter frequentado a escola da arte de representar.

Ficou assente. Os dois irmãos continuariam a manobrar e a observar, sem dar nas vistes. Não visitaram ninguém conhecido e não se arriscavam a sair de dia senão quando tinham a certeza de não encontrar ninguém da casa do Saavedra.

 

Tomás Lencastre começou na sua faina. Era rico, bastante dado a proezas do género, não lhe desagradava nada aquela, que achava em extremo pitoresca. Sentia ainda que, além de tudo, praticava uma boa acção. Trazer o pai Abrunhosa ao seio da família, acordar nele o senso adormecido, era uma obra de caridade... Aquele devaneio extemporâneo era, além de ridículo, perigoso... Estava pronto a colaborar com os amigos para salvar a situação. Era namoro a mais, namoro a menos... e, por feliz coincidência, tinha escritos no coração. Mãos à obra, pois!

Tomás era elegante e distinto. Iniciou o assédio. A princípio, Isabel não deu por ele, mas, depois, pouco a pouco, foi notando que o rapaz aparecia em toda a parte aonde iam. Também não era coisa de estranhar... Podia ser obra do acaso.

Uma noite, porém, em que foram ao teatro, reparou na insistência com que ele a fitava, ia observando à socapa. Quando saíram, viu-o à porta. Tomás agia tão discretamente que nem o pai nem o pretenso noivo deram por ele. Isabel é que estava sempre de atalaia!... Não lhe escapava um movimento do admirador. Chegou a casa, pretextou uma ligeira fadiga e meteu-se no quarto para espiar a rua. Abriu a janela sorrateiramente, não acendeu a luz e viu perfeitamente que Tomás estava em frente. Sorriu satisfeita.

Era um triunfo!... Realmente - pensou ao deitar-se -, era mais natural casar com um homem novo que com um velho... Sim, porque Paulo, apesar de muito conservado, era da idade do pai... Dali a alguns anos estaria decrépito e ela ainda na flor da vida.

Começou a esboçar o plano de se desfazer daquele tropeço. Mas, voltava a reflectir:

- Tudo isto são fantasias... Sei lá quem é o rapaz?...

As manobras do Lencastre repetiam-se de maneira a não lhe deixarem dúvidas. Começava a demorar-se mais à janela e o Lencastre sem despregar os olhos dela... Uma noite ofereceu-lhe uma carta. Aceitou. Soube então de quem se tratava e entusiasmou-se.

Assim, sim!... Seria um casamento inteiramente a seu gosto... Que ideia a do pai de a amarrar a um cepo. Para se divertir na aldeia à falta de outro, ainda se tolerava... mas para casar? Que destempero...

A correspondência com o Tomás activou-se. Isabel andava radiante... Era assim que compreendia o amor!...

Todos a estranhavam em casa... Cantava, ria, numa alegria espantosa. Mas, caso curioso, passava a maior -parte do tempo no quarto. Evitava Paulo e escapava-se do pai quanto podia... Surpreendia a todos aquela atitude, mas estavam longe de supor o que se passava naquela cabeça esquentada.

A certa altura, Isabel resolveu conversar, noite alta, com o namorado, sem receio... Não aparecia vivalma na rua e os quartos de Paulo e do pai eram distantes do seu.

Isabel, à mesa, fazia sempre as despesas da conversa, rindo por todos, sempre bemdisposta, inventando passeios e diversões. Agora falava pouco e arranjava pé para se levantar da mesa primeiro que ninguém. Ficavam os dois sós, frente a frente, sem assunto, pois a situação não oferecia grande saída.

 

Paulo envelhecera nos últimos tempos de uma forma deplorável... Ele, que na Abrigada vendia saúde, estava um dispéptico, alcachinado, sem alegria, sem força de vontade para nada, sem a palavra fácil do outro tempo, sem actividade!... Um doente físico e moral.

Ficavam-se os dois, pasmados e silenciosos, olhando-se de revés, como se fossem o algoz um do outro... Fumar era a sua distracção favorita e nela concentrava tanta atenção que dir-se-ia tratar-se de uma ocupação da maior importância. Seguia as espirais do fumo cautelosamente, como se do rumo que tomavam dependesse alguma coisa de muito importante. O tempo corria com uma lentidão enervante, sem nada solucionar. O advogado amigo, incumbido daquela triste missão, nada conseguira, e a esperada resposta de Madalena não chegava mais. Paulo recusava-se terminantemente a dirigir-se-lhe.

- Isso nunca! - respondia inabalável, quando o Saavedra insistia nessa ideia.

com que direito iria exigir à companheira de toda a vida um rompimento formal? Não o faria jamais... Falecia-lhe a coragem para esse gesto que considerava o mais incorrecto, o mais indigno possível. Sentia-se só e esmagado... Tudo que se estava passando lhe parecia um mau sonho. Via-se entalado num beco tenebroso, horrível, de onde não lhe era possível escapar-se... Isabel passava-lhe agora pela mente como uma figura imprecisa, não lhe via os contornos das formas, mesmo quando estava a olhar para ela. E dia a dia se apagava mais e mais... Fora um devaneio tardio. Nem isso... Era a mocidade a alegrar-lhe o outono próximo... a manhã deslumbrante de sol a alumiar o crepúsculo quase a cerrar-se em noite escura...

Mas, facto curioso, assim distante e prestes a dar a machadada fatal na sua vida de homem sério, de pessoa honesta e digna, ao passo que a figura de Isabel, quase sempre junto dele, se esbatia, outra imagem teimava em lhe aparecer de contornos bem nítidos, de cores suaves, a impressioná-lo com a sua beleza austera, com a sua expressão doce, com aquela cintilação que da pureza de santa emana e nem o tempo nem a distância logram apagar.

Era Madalena que ele via, olhasse para quem olhasse!...

E os filhos? Que saudades!... O ambiente calmo e delicioso da sua linda casa... Então é que a dor era mais forte, que se sentia completamente só na vida.

O amigo, mesmo calado, sabia que ardia em cólera, que tinha dentro um vulcão de indignação pronto a explodir ao primeiro embate.

Ultimamente, Isabel escapava-se e ele nem dava por isso. Há muito que ela mudara completamente, e ainda bem. O que não atinava era com a causa de semelhante transformação... Compreendia perfeitamente que o meio devia ter influído no ânimo da rapariga. Na Abrigada não via ninguém... Mas Lisboa era grande, e a sua mocidade, beleza e frescura atraíam os olhares do público.

Via então o desastre de um tal casamento. Um velho e uma criança!... Um disparate sob todos os pontos de vista. Estava, infelizmente, em um beco sem saída. Não podia libertar-se da garra do amigo feroz e inexorável.

Esitava nesta angustiosa perspectiva quando uma manhã o correio lhe trouxe uma carta que o deixou perplexo e arrasado.

 

- Velho tonto - rezava a missiva -, vende a alma ao diabo em troca da mocidade, para armares em conquistador. com essa figura decrépita não prenderás a tua Margarida... Não te iludas... Para teres um triste desengano, dá-te ao trabalho de passares uma noite de vigília e surpreenderás o idílio daquela a quem idiotamente queres unir-te!... Não sejas ridículo... Abre os olhos... ".

Claro que a carta não trazia assinatura... Paulo caiu das nuvens. No entanto compreendia que, mais tarde ou mais cedo, era de esperar aquele desenlace. Todavia, ficou preocupadíssimo... Não pensava noutra coisa. Quem reparasse nele, notar-lhe-ia o olhar abstracto de quem vê ao longe um quadro que nem

por isso o encantasse muito. Nessa mesma noite havia de certificar-se.

João tinha muitas vezes os seus negócios, saía. Paulo passou também o dia na rua. Deambulou ao acaso. Tudo se conjugava para o acabrunhar... Seria uma libertação?... Podia ser!... A verdade viria justificar ou negar a acusação...

À hora do jantar estavam todos.

Paulo observava Isabel, que parecia outra, sorrindo sem causa que o justificasse, vendo-se claramente que alguma alegria interior a trazia enlevada. De vez em quando a fisionomia iluminava-se-lhe como se lhe surgisse uma visão que a encantava...

Andava enamorada, não havia dúvida, e ali estava a explicação daquela súbita transformação... Era natural e seria possivelmente a sua salvação.

À noite foram ao teatro e recolheram tarde... Paulo não quis tomar chá, pretextando uma necessidade imperiosa de repousar. Recolheu-se rapidamente...

Quando tudo sossegou, escapou-se como um gatuno para a rua. Podia também ser um amoroso. Era a fuga de um colegial para uma primeira aventura de amor. Ia sobressaltado, inquieto. Queria e não queria que a acusação fosse verdadeira. Sorria-lhe um rompimento que o libertasse daquelas algemas de ferro, que lhe restituísse a família. Mas... era homem... e o amor-próprio ofendido, produzia-lhe uma dor esquisita e que nunca experimentara.

Fechou a porta cautelosamente, pesquisando bem a rua, coseu-se com a parede e, já distante, atravessou-a para ir postar-se no jardim em frente à casa do amigo, de onde podia ver à vontade a janela do quarto de Isabel.

Não esperou muito. Deslizou perto um homem elegante, passo firme, apressado. Seria o adónis esperado? Ia verificar.

A janela dos aposentos da filha do Saavedra abriu-se e uma cabeça espreitou para todos os lados; era ela... O desconhecido estava em frente, do outro lado, no passeio. Depois de se certificar da solidão da rua, aproximou-se da janela. Isabel debruçou-se para melhor ouvir e o idílio continuou.

Não mentira a carta anónima. Paulo sentiu o suor orvalhar-lhe as faces e cair-lhe às bagadas pelas fontes. Apesar de esperar aquilo mais dia menos dia, não deixava de sentir a sua dignidade ferida em cheio... Era a certidão de idade trazida a público... Era a velhice a dar o sinal de alarme desagradavelmente...

 

Toda aquela derrocada tinha sido tão rápida, tão inesperada, tinha surgido tão inconscientemente, que nem lhe dera tempo de atentar no ridículo da situação. Isabel tinha vinte anos. Uma primavera em plena floração. Ele... era ainda mais velho que o pai... Queria-lhe muito, como a uma filha adorada, mas como ir mais além? Um noivado, naquela altura e em tais circunstâncias, era decididamente um noivado do sepulcro. Não podia ser.

Aquela descoberta caía do céu. A vida retomaria o ritmo normal e Isabel casaria com um rapaz da sua idade, o escolhido da sua alma, dos seus olhos e do seu coração. Contrariar a natureza era um crime!

Depois do primeiro abalo, choque tremendo, tinha de confessar, misto de despeito e de medo da velhice, começou a serenar e a sentir-se feliz. Agora era necessário proceder com cautela para não espantar o pássaro.

O colóquio amoroso prolongou-se. Não podia precisar as palavras, mas notou com facilidade que estavam entusiasmadíssimos. Tanto melhor!

Eram quatro horas quando a conversa amorosa

terminou... Não passava vivalma... A rua estava deserta. Isabel fechou a janela e Tomás tomou pela avenida abaixo, apressadamente...

Estava explicada a transformação de Isabel, dantes tão madrugadora e agora acordando sempre depois do meio-dia.

Depois de refeito da surpresa, sentiu-se satisfeitíssimo. Deixou passar um bocado para se safar do seu posto de observação. Viu a luz do quarto de Isabel apagar-se. Quando presumiu que ela estivesse bem pregada no primeiro sono, saiu do esconderijo, Olhou a rua em todas as direcções, atravessou, e entrou em casa.

Todo o resto da noite não conseguiu conciliar o sono!... Elaborava planos. Este lhe parecia melhor, outro pior, até que se fixou. Tinha de justificar-se e isso não era difícil.

O idílio continuou e as cenas nocturnas repetiram-se sem uma falha... Para obter essa certeza teve de perder muitas noites consecutivas. Precisava de chamar o pai da rapariga, para que ele se certificasse do que se estava passando. Era urgente que ele o largasse, que desprendesse os tentáculos que o asfixiavam, com o pretexto de reparar a honra da filha, seriamente abalada, no seu dizer.

Numa das últimas noites, não estava o ar sereno como de costume. Uma aragem branda, como que a querer dar-lhe mais uma prova, se alguma dúvida lhe restasse, acerca do género de conversa que animava os dois pombinhos, trouxe-lhe aos ouvidos palavras soltas e frases completas. "O velho - dizia Isabel - vai ficar danado"... A juventude tem às vezes ilusões; julga-se irresistível a todas as idades e posições e quantas vezes os anos são os primeiros a escarnecê-la...

 

Decididamente, riam-se à sua custa... Essa afronta doía-lhe mais que tudo por ter à filha do Saavedra uma afeição sincera, profunda. Como o ambiente a transformara! Na Abrigada, Isabel via pelos olhos dele, ria quando ele ria, seguia-o sem discutir, nem discordar jamais e sem se contrariar. Chegara a pensar, quando João o foi perturbar naquele sereno viver, que seria possível ser amado apesar da diferença de idade.

Que decepção!... Mais uma vez se confirmava o velho rifão popular - "tudo se quer no seu tempo como as pêras"...

Estava resolvido a romper com aquela situação, custasse o que custasse... Sentia-se feliz... Era uma libertação natural. O acaso parecia ter procuração, para lhe preparar o caminho de uma saída airosa.

No dia seguinte, depois de jantar e logo que Isabel se retirou, como costumava nos últimos tempos, disse ao Saavedra:

- Preciso falar-te.

Dirigiram-se ao escritório e aí se demoraram largo tempo.

- Podes dispor desta noite para mim?

João abriu os olhos espantado: - De que se trata?

- Tenho que ir ao Clube Literário e gostava que me acompanhasses. Sem ti não posso tomar definitivamente a resolução que me sugeriram. Quero ouvir a tua opinião.

- Irei.

- É escusado dizeres a Isabel. Prometes?

- Porque não?

- Tu sairás primeiro e encontrar-nosemos na leitaria da esquina. Lá estarei pouco depois da tua chegada.

Assim foi. Isabel não deu por eles... Trazia a alma em festa, a cabeça povoada de sonhos cor-de-rosa. Podia lá perder tempo a pensar nas duas personagens que naquele momento ocupavam no seu coração um lugar medíocre? Para que estragar as horas preciosas da sua mocidade ardente com as trevas do passado? O pai e o amigo pertenciam a outra geração... não eram do seu tempo. Se às vezes se queria recordar de Paulo, via-o como um fantasma trágico e repugnante. Apetecia-lhe fugir e gritar a plenos pulmões que lhe acudissem, que a salvassem do pélago em que estava prestes a afundar-se.

Que irrisório lhe parecia agora tudo o que se passara! Como a vida se lhe apresentava diferente desde que amava uma mocidade jovial e esplêndida como a sua!... Tomás era a força, a alegria, a elegância, o espírito, a graça, o futuro, a promessa radiosa de dias ofuscantes de luz... Como poderia ela amarrar-se a uma tumba? Como? O pai não estava bom quando tal pensou!...

E ria da surpresa que haviam de ter quando um dia lhes apresentasse o escolhido da sua alma, aquele formoso exemplar, de tipo bem português. Sim, porque Tomás era uma estampa. Que galhardia, que aprumo, que voz tão doce e forte, que maneiras fidalgas!

 

Decididamente, estava deslumbrada. Sentia-se completamente feliz.

Paulo sumiu-se cautelosamente, depois de João o ter precedido algum tempo.

Eram onze horas quando se juntaram na leitaria. Seguiram a pé para o Clube. A noite estava tépida, apetecia deambular ao acaso pelas avenidas, onde àquela hora já havia, poucos transeuntes, e onde os táxis descansavam e os motoristas, de ouvido alerta, aguardavam, ansiosamente, fregueses.

- O que quer isto dizer? - interrogou João, intrigado.

- Não tardarás a sabê-lo. Há episódios que não podem contar-se, porque não se acreditam. É necessário certificarmo-nos com os nossos próprios olhos para nos convencermos da verdade dos factos.

- Mas de que se trata? - insistiu João, cheio de curiosidade.

- De qualquer coisa de muito importante para ti e para mim.

No Clube, Paulo conversou animadamente, jogou como de costume como se nada fosse com ele. João Saavedra observava-o atentamente.

- Que sairá daqui - magicava, sem todavia lhe passar pela mente que tudo aquilo se relacionava com a filha.

Saíram tarde, precisamente a tempo de irem a pé, avenida acima, e poderem postar-se no esconderijo fronteiro à casa do Saavedra sem ninguém dar fé. Iam lenta e visivelmente embaraçados, preocupados.

- A tua atitude surpreende-me...

- Não acreditas, certamente, que te pedisse para me acompanhares, para jogar uma partida de brídege!... A segunda parte do serão é a mais importante. Demanda silêncio, ouvido atento, olhar arguto e... muita calma. Segues-me, esperas e não me dizes uma palavra...

Meteram pelo jardim cautelosamente, embrenharam-se na sombra espessa e esperaram.

João Saavedra estava pasmado... Que iria acontecer? Passou-lhe péla mente uma nuvem de suspeita. Sentia-se nervoso, preocupado.

Às duas horas em ponto, como de costume, um vulto apareceu ao fundo da rua. Parou em frente da casa do Saavedra. A janela de Isabel abriu-se, o vulto saudou-a galhardamente e atravessou. Começou o idílio.

João Saavedra deu um passo à frente, na intenção de ir pedir explicações do que estava ocorrendo. A mão forte de Paulo deteve-o.

- Tenho a tua promessa... Espera e escuta. Poucas palavras lhe chegavam aos ouvidos e essas mesmo, entrecortadas, soltas, mas que davam bem a ideia do tema da conversa. Amor, amor, a paixão acesa no mais alto grau. De vez em quando alusões picarescas ao pretenso noivo antediluviano... Gargalhadas frescas, ironias, na completa certeza de que ninguém os ouvia. Não havia segredos para o Romeu!... Isabel confiara-se-lhe cegamente, numa certeza absoluta de quem encontrou o ideal e está por completo segura dele...

 

Sobre a madrugada, quando as luzes começavam a esmorecer, perante os alvores da aurora, o adónis despediu-se e Isabel ficou ainda a olhá-lo, enlevada, até à volta da rua, de onde ele, num gesto elegante, tirou o chapéu num último adeus. Ela fechou a janela de mansinho e tudo recaiu na mais serena tranquilidade.

Os dois amigos deixaram-se cair num banco, sem alento para quebrarem aquele silêncio profundo, esmagador, que sentiam na alma, e em volta de si. Paulo queria uma expansão do amigo antes de se manifestar, e este continuava mudo e quedo...

- Que hei-de fazer à minha triste vida?

- Não procederes de ânimo leve como até aqui: e deixares correr os acontecimentos o seu curso natural...

- Quem é o tipo?

- Trata de te informar.

- Algum infame caçador de dotes...

- Nada mais te posso dizer, a não ser que é um homem elegante e correcto. Basta vê-lo para classificar a sua situação social. Positivamente não é um valdevinos...

- Onde o conheceria ela? Como descobriste isto?

- Uma carta anónima.

- Sempre a baixeza do anonimato a perturbar as almas.

- João, hoje estás mais sereno e poderás compreender melhor as coisas. Entre mim e a tua filha medeia o abismo dos anos. com a tua precipitação, com a tua interpretação absolutamente errada, ias fazer muitos desgraçados. Desunir uma família e sujeitar um homem da minha idade, quase um velho, ao ridículo, expondo tua filha a uma de duas: a ser muito infeliz ou a dar um mau passo...

- Não pensaste nisso na Abrigada!

- A tua filha foi sempre para mim a companheira a que me habituei desde os seus primeiros anos... Sonhávamos casá-la com um dos nossos rapazes... Não o conseguimos... Havia entre eles uma tal animosidade, que nunca a cheguei a compreender. Era o destino a interpor-se, a querer destruir uma amizade de sempre e que eu julgava iria até à morte. João estava nervoso. Oustava a conter-se para ouvir o amigo... A projectada vingança caía por terra. Sentia-se outro... mau, intratável... intransigente. A sua vontade, naquele momento, não era tirar informações do namorado da filha, como a razão lhe apontava, mas corrê-lo a pontapés e obrigá-la a casar sem demora...

Mas o divórcio de Paulo?... Como obtê-lo?... Sentia que pisava mau terreno. Tinha arranjado um ambiente péssimo. Ninguém estava por ele e muito menos pela filha, que tivera a habilidade de granjear as antipatias de toda a gente. Madalena, a única que estaria a seu lado, fora a vítima escolhida... Não podia ceder o seu lugar... não o faria nunca... Tinha que contar com a sua indignação... A amiga tinha-se convertido na mais feroz inimiga... Era natural... Que poderia esperar?

Encontrava-se, pois, num beco sem saída. Talvez aquela solução fosse a melhor. Não podia desabafar!... Sufocava. A hostilidade do amigo não era difícil de adivinhar. A imaginação dava-lhe mil voltas.

Sentia-se mais só que nunca. Não podia expandir-se... Não tinha com quem... À sua volta só inimigos ou indiferentes. Concordava, agora, que agira precipitadamente... O melhor era ter uma conversa séria com a filha.

Sem articularem mais palavra, dirigiram-se para casa.

No dia seguinte, antes do almoço, mandou chamar Isabel ao seu gabinete. A filha acorreu pressurosa e sorridente. Caiu nos braços do pai, com as habituais expansões de ternura. O pai olhou-a, envaidecido. Como era formosa aquela filha extravagante e indómita... Uma primavera exuberante, sadia, alegre. Era a alvorada, o sol, a luz dos seus olhos, a saudade da mãe. Todo o amor que tivera a Marta se fundira naquela adoração pelo precioso legado que ela, a lembrada morta, lhe deixara. Bastava vê-la para se sentir feliz.

O problema do casamento tinha sido abordado entre os dois, sempre de fugida... Nunca tivera coragem para arguir a filha de coisa alguma. Deixara-a errar à vontade, parecendo-lhe que a mãe, do além, intercedia por ela. Isabel abusara sempre... Era caprichosa, voluntariosa... Agora, porém, tinha que ser. Precisavam definir situações. Não ficariam eternamente naquela comédia. Apresentava-se o momento oportuno de aludir a esse casamento, se bem que convencido que era quase irrealizável, pêlo menos em época próxima.

- Tens pensado no teu casamento, minha filha?

- Ora, pai, deixemo-nos de ideias trágicas. Está um dia de sol ridente... Não o estraguemos com pensamentos sombrios,

- Vejo-te mudada!...

- Totalmente... Deixe o Paulo em paz... Que lembrança sinistra de querer unir o meu destino ao de um velho. Não pensemos mais nisso...

- Pasmo, Isabel!... Que novas surpresas reservas ao teu desventurado pai?

- Andava exactamente para ter uma conversa séria consigo... O pai veio ao meu encontro... Antecipou-se!... Melhor. Tenho uma inclinação... O rapaz chama-se Tomás de Lencastre. Gosto dele e, se não for o meu marido, como pretendo e julgo, há muitos da mesma idade em Lisboa...

- Isabel, tenho medo da tua volubilidade... Vejo que não te prendes seriamente a um afecto.

- Ora, pai, - disse com a costumada meiguice, atirando-se-lhe ao pescoço-, não seja maçador!... Deixe-me gozar a vida como deve ser. Vinte anos metida na Abrigada, sem saber o que era o mundo...

Creio que vão sendo horas de aproveitar o tempo perdido...

- Tenho entendido...

- O pai pode informar-se de quem é o Tomás.

- Não preciso... Conheço-o bem e a toda a família...

- Tanto melhor... Tudo corre no melhor dos mundos e pela melhor forma possível...

Paulo ficou ao facto do que se passara nesse mesmo dia... Não podia muito facilmente ocultar a enorme alegria que sentiu. A sua vontade era abalar quanto antes. Convinha no entanto, aguentar-se mais alguns dias para salvar as aparências...

Nem pela iddeia lhe passava que os filhos se encontravam em Lisboa e eram os autores da peça que se estava representando. Que só eles tinham traçado o plano para o levarem para junto da mãe... Ocultaram-se tão prudentemente, que nenhum conhecido os avistou.

 

Só o Padre Anselmo estava a par do que ia sucedendo, dia a dia. A mãe presumia-os em grande folgança na Figueira, de onde vinham as cartas por intermédio de um amigo, contando aventuras, conquistas, bailes, tudo quanto lhes vinha à cabeça, Madalena lia as cartas ao Padre Anselmo.

- Ainda bem que se divertem, meu amigo... Se eles sonhassem o drama que agita a alma da mãe... Feliz mocidade!

Não recebia visitas. A neurastenia tomou-a de assalto. Só com o sacerdote desabafava; era o único refúgio que lhe restava. Descria de tudo. Fora boa esposa, boa mãe, boa amiga, até ao exagero, e o destino armara-lhe aquela cilada tremenda. Sentia-se profundamente infeliz.

Tardes de Verão, eternas, abafadiças, sem interesse, sem estímulo, sem alegria, sem esperança. Às vezes ficava-se a olhar os passaritos, siglando o azul, pipilando joviais, beijando-se, apaixonados, em perpétuo idílio, e muito mais entristecia... Como a vida começara e como ia acabar... Que desoladora solidão!

O Padre Anselmo aparecia amiúde, sempre que podia, o mais que podia, mas não era possível estar permanentemente ali a ouvi-la de confissão, a consolá-la, a animá-la... Tinha a sua vida, os seus afazeres. A Maria, tão solícita, tão boa, sofria por ela e talvez mais que ela, porque não se conformava. Depois torturava-a com a sua persistente esperança, queria-lhe transmitir, comunicar-lhe, inocular-lha, e ela desejava matá-la para sempre, afazer-se ao isolamento, não pensar mais no passado, nem no futuro. Que outras decepções e aborrecimentos a surpreenderiam? Nada mais havia a esperar do destino que a desiludira.

Quando estavam sós, e ouviam passos, Maria, sempre de ouvido alerta, voltava-se ansiosamente e, perante mais um desejo frustrado, dizia desalentada, sem se poder conter.

-Santo Deus!... Julgava que era ele!...

Madalena sabia bem a quem ela se referia, mas calava-se, sentindo o choque profundo.

Uma porta que se abria, uma voz distante, tudo na boa mulher despertava a atenção e acendia o fogo de uma esperança que teimava em viver quase sem razão de ser. Ela esperava, esperava sempre, uma alvorada de felicidade para a sua querida menina.

- Maria, deixemo-nos de fantasias... Acabar, acabar depressa é a maior graça que tenho a solicitar do Céu... A suprema ventura...

- E os meninos?

- Ora... Amanhã constituirão família e a mãe passará a quarto plano...

- Não será assim!... Deus não dorme!... A Providência tem de velar por aqueles que o merecem.

O Padre Anselmo vinha sempre encontrá-la num abatimento, num estado de prostração, crescendo de uma forma assustadora.

- Não pode continuar assim, minha amiga... As crises passam... Quem não teve na vida um desvario Nos dias mais límpidos? aparecem, por vezes, nuvens no espaço. Depois o Sol volta a brilhar com a mesma intensidade.

- No Inverno, são mais difíceis essas transmutações; a chuva é impertinente, as nuvens acastelam-se todos os dias, não deixando lobrigar uma nesga de céu azul, desse azul puríssimo que nos deslumbra na Primavera. Tudo murcha em vez de reverdecer. A geada cresta, o frio tolhe os movimentos da natureza... Os pássaros emudecem... No Inverno, meu amigo, a aurora assemelha-se ao crepúsculo, o Sol entristece. Há frio nas almas e nos corações. Morrem no peito todas as esperanças.

Deixe-me contar-lhe a si, o único que pode ouvir-me e compreender-me, o que sofro, em que cogitações martirizantes se abisma o meu pensamento enfraquecido e desalentado. Oiça esta confissão geral e julgue-me imparcialmente. Quantas vezes, numa auto-observação rigorosa, tenho tentado descobrir, em mim, erros, faltas, que justifiquem este tremendo castigo. Amei meu marido apaixonadamente, com uma ternura que não podia ser suplantada!... Vieram os pequenos... Criei-os com o carinho que sabe. Vivi para eles. Eram a vida da minha vida, a alma da minha alma... Aos pobres, nunca neguei o pão nem o conforto... Pareceu-me sempre seguir pelo caminho direito... Fiz tudo para contribuir para a felicidade alheia. Padre Anselmo, seja franco e diga-me sinceramente se pequei.

O sacerdote, com os olhos rasos de água, contendo e disfarçando as lágrimas como podia, não conseguiu dizer mais que: -É uma santa!...

- Ah! não sou!... não sou!... Se fosse, resignava-me... Esta calma aparente que todos vêem é a minha falta, porque é mentira... Sinto cá dentro o cachoar da revolta. Não sou uma conformada, sou uma indignada! A surpresa, o inesperado dos acontecimentos, tornaram-me céptica. Já não creio em nada. Tudo quanto eu imaginava puro, grande e belo, se me afigura agora mentiroso e falso... Vejo a humanidade no seu rodopiar constante, como quem assiste a uma farsa. Tudo falhou! É possível que haja excepções, mas a essas, o meu espírito descrente e alarmado passa-lhes a vasoira inexoravelmente, misturando, nivelando. Sofro por não poder ver com os mesmos olhos o panorama da vida. Vejo cómicos à minha volta e tenho uma vontade doida de patear. Que dolorosos dias, meu amigo!... Que horas trágicas e sem fim nesta solidão amargurante!

- Coragem, coragem!... Cada manhã aparece diferente... Cada aurora tem uma pincelada especial a marcá-la... O dia de hoje não é igual ao de ontem. O de amanhã não se assemelhará ao que está a correr.

- Para mim todos são monstruosamente negros. A mesma tristeza, a mesma mágoa esmagadora, a mesma solidão, a mesma saudade do passado, que parece tão distante que se perde na bruma dos tempos e que, ao evocá-lo, é como se relesse as páginas de um romance esquecido e que vai lembrando à maneira que vamos voltando as páginas...

- A vida voltará à normalidade nesta casa.

Tenho uma fé segura de que me não engano... Seus filhos... tão bons... seu marido...

- Não me fale nele... Façamos de conta que morreu... Se voltasse... seria para exigir, como se isso fosse possível, que assinasse o divórcio, esse absurdo, esse horror que me faz subir o rubor às faces, não por mim, mas por ele... Ao que desceu!... Sei o que me espera...

 

A porta do lado do jardim estava aberta. Madalena, de costas, não podia ver quem entrava por ali. Havia instantes que o Padre Anselmo, surpreendido e atónito, vira aparecer Paulo, impondo-lhe silêncio.

- Madalena! - exclamou este, ao escutar as últimas palavras.

A fidalga voltou-se como se ouvisse o eco de uma voz que há muito tivesse emudecido. Ergueu-se automaticamente, levou as mãos ao peito... Quis falar... Não pôde... Encostou-se a uma mesa para não tombar. O terror desenhava-se-lhe na fisionomia... Depois, num grito horrível, como se lhe esfacelassem as entranhas, como se fosse a sua última e irrevogável decisão: - Não assino!

Caiu numa poltrona, sem sentidos. A violência do choque fora tremenda. Paulo correu para ela, desorientado. O Padre Anselmo fez o mesmo. Tocaram para trazerem água.

Apareceu a Maria. Quando deu com os olhos em Paulo, deu um berro como se visse almas do outro mundo e fugiu a gritar.

Paulo transpirava, aflitíssimo. Estenderam-na num divã, com mil precauções.

- Madalena... meu bem, meu único amor... não te assustes, é o teu Paulo que volta.

Passado algum tempo conseguiram reanimá-la... Ergueu o busto lentamente, fixando o marido com olhar esgazeado. Depois, num gesto imperioso:

- Vai-te... Não te quero ver, não me tortures mais... não me tortures mais... Sei ao que vens... Padre Anselmo, meu único amigo, leve esse homem. Deixem-me só, por piedade... Deixem-me morrer...

- Madalena - implorava o marido-, peço-te que me escutes.

- Não quero, nem posso... Já basta!... Vão-se todos... Eu quero morrer. Há muito que estou viúva e os mortos não ressuscitam.

- Escuta-me, por misericórdia...

- Vai para onde tens estado... Para a tua nova família, para a mocidade, para a ventura... A velhice é antipática e desagradável!... Vai, vai...

- Mas eu não quero deixar-te mais.

- É tarde! Encontras uma sombra do passado. o desalento, a tristeza que tem sido a minha inseparável companheira; seria negra ingratidão deixá-la partir sozinha depois de tão relevantes serviços. Deixa-me em paz... Não exijas mais do que o meu desprezo... Vai-te... vai-te!...

Lia-se na fisionomia de Madalena uma dor imensa, um desgosto profundíssimo, uma tão grande mágoa que impressionava a sensibilidade mais empedernida.

- É muito!... É de mais...

Ergueu-se imperiosa como a estátua da dor. O olhar era duro, a expressão inflexível.

- Brincaste com o meu afecto, chacoteaste do meu bem-querer, ultrajaste a minha dignidade, mataste tudo que em mim havia de bom... Deves estar contente com a tua obra... Eu também estou satisfeita. Tudo acabou tragicamente entre nós. Mas não contes nunca com a minha assinatura para legalizares os teus caprichos torpes. Vive como quiseres e deixa-me!... Vai...

Apontava a porta com uma intimatíva, com um gesto tão imperioso, que não admitia réplica. Estava exaltadíssima... A concentração, a calma de largos meses de sofrimento, explodia, enfim.

O Padre Anselmo via que era impossível tranquilizá-la naquele momento. Encontrava-se num estado de nervosismo horrível... Era preferível que Paulo saísse para ela sossegar. A violência do choque podia ser séria. Fez sinal a Paulo para que desaparecesse.

Quando o viu sair, deixou-se cair numa poltrona, aniquilada.

- É o cúmulo, meu amigo. Que mais me preparará o destino? Que grande fatalidade...

O sacerdote deixou-a desabafar, sem a interromper. Fazia-lhe bem.

- Só!... Completamente só. Ficou o senhor Padre Anselmo, para me consolar, para me ajudar a carregar com a minha tremenda cruz... E creia que não posso mais. Abusaram das minhas forças... Sucumbo... É impossível lutar mais. Todos me abandonaram. Os filhos, que neste momento me eram tão precisos, andam a dançar pelas praias... Pobre mocidade!... Deixá-los... Têm tempo de sofrer... Que gozem, enquanto os desgostos não vêm amargurar-lhes a vida. A dor virá, depois, fatalmente!...

- Os filhos de V. Ex.a são verdadeiras excepções nos tempos correntes...

- Sim!... são muito bons... Mas...

- Não há nada que se lhes assemelhe...

- Para o Sr. Padre Anselmo não existe ninguém mau... Ia apostar em como também acha bom o que foi meu marido...

O sacerdote ficou calado.

- Só me faltaria ouvir da sua boca que procedeu bem.

- Deus também perdoou à mulher adúltera... Como não havia de perdoar a quem se arrependeu de um passo que foi obrigado a dar por uma série de circunstâncias bem extraordinárias e imprevistas? Paulo volta ao lar para nunca mais o deixar...

- Não acredite!... Vem com pés de lã, por imposição dos outros, para exigir ou ver se consegue convencer-me a assinar o divórcio. Mas isso nunca!... Pode dizer-lho, Padre Anselmo... Nunca... ouviu bem? Nunca, nunca!...

- Sr. a D. Madalena, acalme-se e tenha coragem. Estou absolutamente certo que a reconciliação depende de si, neste momento...

- É tarde... Já não sinto por ele coisa nenhuma. Entrou o frio da indiferença no meu coração... e na minha alma... Não posso... Não posso...

- Perdoar é próprio dos bons, minha senhora.

Madalena não teve tempo de responder. A porta abriu-se estrepitosamente e os filhos entraram com enorme alarido. Traziam o pai, abraçado...

- Três visitantes inesperados, mãe!... -exclamou António, atirando o pai para os braços da mãe, que se deixou abraçar sem resistência.

- Cá estamos todos, adorada mãe... E para nunca mais a deixarmos... Quando andávamos a dançar por essas praias elegantes, a mãe não nos saía do pensamento. Nunca mais sairemos sós... Nunca mais...

 

O Padre Anselmo olhava para os dois rapazes com um misto de adoração e respeito... Mocidades admiráveis. Ali estava a obra deles... A paz do lar, a reconciliação da família. Nunca se presumiu que tinham sido eles os autores de tão bela acção.

- Abençoados! - clamava o sacerdote, em tom que eles apenas podiam ouvir, olhando-os enternecidamente.

Houve grande jantar na Abrigada. As nuvens desapareceram depressa. O Seu voltou a brilhar com a mesma intensidade.

A Maria, em volta dos seus meninos, repetia, delirante:

- Eu bem sabia que os meus ricos filhos o haviam de trazer... Depois de uma noite tempestuosa vem por vezes uma linda alvorada.

 

                                                                                Sarah Beirão  

 

                      

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