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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


AMANTE DESPERTO / J. R. Ward
AMANTE DESPERTO / J. R. Ward

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Irmandade da Adaga Negra

AMANTE DESPERTO

 

Nas sombras da noite no Caldwell, New York, inicia-se uma guerra mortífera entre vampiros e seus assassinos. Mas, existe também uma Fraternidade secreta que não pode ser comparada a nenhuma outra que tenha existido — seis guerreiros vampiros, protegendo sua raça. Destes, Zsadist é o mais assustador membro da Irmandade da Adaga Negra.

Zsadist, que durante séculos foi um escravo de sangue, ainda carrega as cicatrizes de um passado forjado à base de sofrimento e humilhação. Conhecido pela sua insaciável raiva e sinistros atos, é um selvagem, temido igualmente entre os seres humanos e vampiros. A raiva é sua única companheira e o terror sua única paixão... Até que ele resgata uma bela aristocrata da Sociedade do mal Lessers.

Bela se sente enfeitiçada de imediato pelo ardente poder que emana de Zsadist. Porém, quando o desejo de ambos começa a consumi-los a irrefreável sede de vingança que Zsadis sente pelos torturadores de Bela o leva ao limite da loucura. Agora, Bela deve ajudar seu amante a superar as feridas de seu atormentado passado e encontrar um futuro junto a ele...

 

 

— Maldito seja, Zsadist! Não salte…

A voz de Phury apenas se escutou por cima do som da batida do carro diante deles. E, isso não deteve seu gêmeo que saltou do Escalade enquanto iam a cinqüenta milhas por hora.

— V, ele está lá fora! A um e oitenta de nós!

O ombro de Phury golpeou ruidosamente contra a janela quando Vishous derrapou controladamente com o SUV. Os faróis dianteiros se balançaram e Z rolou sobre o asfalto coberto de neve como uma bola. Uma fração de segundo mais tarde, arrastou seu traseiro e se levantou sobre seus pés, indo à caça do sedan dentado que agora tinha um pinheiro como enfeite sobre a capota.

Phury vigiou seu gêmeo e tirou o cinto de segurança. Os lessers que estavam perseguindo no limite rural de Caldwell poderiam ter acabado com seu maldito passeio segundo as leis da física, mas isso não significava que estivessem fora de serviço. Aqueles bastardos não mortos eram duradouros.

Quando o Escalade parou, Phury abriu apressadamente a porta enquanto pegava seu bastão. Não sabia quantos lessers havia no carro ou que tipos de munições levavam. Os inimigos da raça dos vampiros viajavam em grupos e sempre iam armados — Santo inferno! — Três dos assassinos de cabelos claros tinham saído e só se via o cambaleante condutor.

As pequenas probabilidades não detiveram Z. Era um maníaco suicida, que se dirigia diretamente para o trio de não mortos com apenas uma adaga negra em sua mão.

Phury se moveu rapidamente através da estrada, escutando Vishous correr pesadamente atrás dele. Mas não eram necessários.

Enquanto as silenciosas rajadas de ar formavam redemoinhos e o doce aroma de pinheiro se mesclava com o escapamento de gás do destroçado carro, Z derrubou aos três lessers apenas com a faca.

Cortou-lhes os tendões posteriores dos joelhos para que não pudessem correr, rompeu-lhes os braços para que não pudessem se sustentar, e os arrastou pelo chão até que ficaram alinhados como se fossem horríveis bonecas.

Levou-lhe quatro minutos e meio, incluindo despojá-los de suas identificações. Então, Zsadist fez uma pausa para tomar fôlego. Quando olhou para baixo, ao gordurento sangue negro derramado que manchava a branca neve, o vapor se elevava sobre seus ombros, uma aprazível névoa jogava com o frio vento.

Phury colocou o bastão na cartucheira de seu quadril e se sentiu enjoado, como se tivesse comido seis pacotes de bacon gordurento. Esfregando o peito, olhou a sua esquerda, a Rota 22 estava mortalmente tranquila esta noite e estar fora dos subúrbios de Caldwell era adequado. As testemunhas humanas seriam improváveis. Os cervos não falam.

Sabia o que viria depois. Sabia que era melhor não tentar detê-lo.

Zsadist se ajoelhou sobre um dos lessers, sua cara com cicatrizes deformada pelo ódio, seu destroçado lábio superior se torcendo para trás, suas presas largas como as de um tigre. Com o cabelo raspado e os ocos sob suas maçãs do rosto, parecia o Grim Reaper[1], e como a morte, trabalhava cômodo com o frio. Vestia apenas um pulôver de gola alta e calças folgadas negras, ia mais armado que vestido: a pistola negra, marca registrada da Irmandade da Adaga Negra cruzada sobre seu peito e mais duas facas, amarradas com uma correia sobre suas coxas. Também usava um cinturão com dois SIG Sauers.

Não é que nunca usasse os nove milímetros. Quando matava, gostava de fazê-lo pessoalmente. Na realidade, era o único momento em que se aproximava de alguém.

Z agarrou ao lesser pelas lapelas de sua jaqueta de couro e golpeou com força o tórax do assassino sobre o chão, obtendo um estreito boca a boca.

— Onde a mulher está? — quando não obteve mais resposta que um malvado sorriso, Z levantou sem consideração ao assassino. O estalo ecoou através das árvores, um som duro como o de um ramo que se quebra ao meio — Onde a mulher está?

O assassino burlou-se sorrindo abertamente, então a raiva de Z elevou-se tanto que fez seu próprio círculo ártico. O ar ao redor de seu corpo carregou-se magneticamente e tornou-se mais frio que a noite. Os flocos de neve não caíam a seu redor, como se se desintegrassem com a força de sua cólera.

Phury escutou um som estridente e olhou sobre seu ombro. Vishous estava acendendo uma bomba caseira, as tatuagens em sua têmpora esquerda e o cavanhaque ao redor de sua boca destacavam-se sobre o brilho alaranjado.

Ante o som de outra pequena explosão, V respirou profundamente e fez rodar seus diamantinos olhos.

— Está bem, Phury?

Não, não estava. A natureza selvagem de Z sempre era matéria de um conto de horror, mas ultimamente fez-se tão violento que era duro olhá-lo em ação. Um poço sem fundo, sem alma depois que Bela tinha sido seqüestrada pelos lessers.

E, ainda não a tinham encontrado. Os Irmãos não tinham nem pistas, nem informação, nada. Inclusive com o duro interrogatório de Z.

Phury estava confuso sobre o rapto. Não conhecia Bela o suficiente, mas tinha sido encantadora, uma mulher que andava no mais alto nível dentro da aristocracia de sua raça. Entretanto, para ele tinha sido mais que sua linhagem. Muito mais. Ela tinha ido mais à frente do homem sob a disciplina de seu voto de celibato, removendo algo profundo. Estava tão desesperado quanto Z por encontrá-la, mas depois de seis semanas, tinha perdido a fé de que tivesse sobrevivido. Os lessers torturavam aos vampiros para obter informação sobre a Irmandade e como todos os civis ela sabia pouco sobre os Irmãos. Certamente agora estava morta. Sua única esperança é que não tivesse agüentado dias e dias infernais antes de falecer.

— O que fizeram com a mulher? — grunhiu Zsadist ao seguinte assassino. Quando tudo o que lhe disse foi um “Foda-se”, Z pegou a Tyson e golpeou ao bastardo.

Por que Zsadist se preocupava com uma mulher civil, ninguém na Irmandade podia entender. Conheciam-no por sua infernal… Misoginia, temiam-lhe por isso. Por que se importava com Bela era o que todos se perguntavam. Entretanto, ninguém, nem Phury, como seu gêmeo, podia predizer as reações do homem.

Enquanto o eco do brutal trabalho de Z era isolado pelo bosque, Phury sentiu-se quebrar pelo interrogatório enquanto o lesser se mantinha firme e não dava nenhuma informação.

— Não sei quanto mais poderei agüentar disto. – disse em um sussurro.

Zsadist era o único a quem tinha na vida, à parte da missão de proteger à Irmandade da raça dos lessers. Cada dia Phury se deitava sozinho e não dormia, absolutamente. A comida dava-lhe pouco prazer. As mulheres estavam descartadas devido a seu celibato. E, cada segundo estava preocupado pelo que Zsadist faria e quem seria ferido no processo. Sentia como se estivesse morrendo por mil cortes, sangrando lentamente. Por intermédio de todas as cruéis intenções de seu gêmeo.

V estendeu a mão enluvada e apertou a garganta de Phury.

– Olhe-me, homem.

Phury o olhou e encolheu-se. O olho esquerdo do Irmão, que tinha as tatuagens a seu redor, dilatado até não ver-se mais que um negro vazio.

— Vishous, não… Eu não… — merda. Não tinha por que inteirar-se de seu futuro agora mesmo. Não sabia como dirigiria o fato de que as coisas só fossem piorar.

— A neve cai devagar esta noite. — disse V, esfregando o polegar para frente e para trás sobre sua grosa veia jugular.

Phury piscou quando a tranqüilidade chegou, seu coração desacelerou ao ritmo do polegar de seu Irmão.

— O que?

— A neve… Cai muito devagar.

— Sim… Sim, faz.

— E, tivemos muita neve este ano, verdade?

— Uh… Sim.

— Sim… Muita neve e vai haver mais. Esta noite. Amanhã. O mês que vem. No próximo ano. As coisas vêm quando vêm e caem onde caem.

— Assim é. — disse Phury brandamente — Não há nada que o pare.

— Não, a menos que você seja o pedaço de terra. — o polegar se deteve — Meu Irmão, não vejo você como um pedaço de terra. Não o deterá. Nunca.

Uma série de pequenas explosões e brilhos apareceu quando Z apunhalou ao lesser no peito e os corpos se desintegraram. Então, só restou o apito do radiador do carro destroçado e a pesada respiração de Z.

Como uma aparição, levantou-se do enegrecido chão, o sangue dos lessers manchava seu rosto e seus antebraços. Sua aura era uma brilhante neblina de violência que deformava a paisagem que tinha atrás, o bosque atrás dele estava ondulante e impreciso emoldurando seu corpo.

— Vou ao povoado. — disse ele, limpando seu punhal na coxa – Procurar mais.

 

Antes que o senhor O voltasse a caçar vampiros, liberou a trava de segurança da sua nove milímetros Smith & Wesson e olhou no interior do canhão. A arma precisava de uma limpeza e seu Glock também. Uma droga que quisesse fazer, mas apenas um idiota permitiria que seu zelo diminuísse. Infernos, os lessers tinham que estar bem armados. A Irmandade da Adaga Negra não era a classe de objetivo com o qual se descuidar.

Caminhou através do quarto de tortura, fazendo um pequeno desvio ao redor da mesa de autópsias que utilizavam para seu trabalho. A distribuição da sala não tinha nenhuma separação, o piso estava sujo, mas como não havia janelas, o vento, em sua maior parte, mantinha-se fora. Havia uma cama de armar onde dormia. Uma ducha. Nenhuma privada ou cozinha porque os lessers não comiam. O lugar ainda cheirava a madeira fresca, por que o tinham construído fazia apenas um mês e meio.

O único acessório fixo eram as estantes que se estendiam das sujas vigas descendo por toda a parede de quarenta pés de comprimento. Os instrumentos estavam colocados, cuidadosamente limpos, em vários níveis: facas, parafusos de segurança, tenazes, martelos. Se havia algo que pudesse arrancar um grito de dor de uma garganta, eles o tinham.

Mas, o lugar não só era para a tortura, utilizava-se também como armazém. Manter vampiros prisioneiros durante um tempo era um desafio, por que eles podiam fazer “Poof… Desapareci!” diante deles, se fossem capazes de estar calmos e concentrarem-se. O aço impedia o ato de desaparecer, mas uma cela com barras não os protegeria da luz do sol e uma sala de aço no edifício era pouco prática. Funcionava bastante bem, embora fossem uns jogos de tampas de boca-de-lobo metálicos colocados verticalmente no chão. Ou três deles, como era o caso.

O teve a tentação de ir às unidades de armazenagem, mas sabia que se o fizesse, não retornaria à caça e tinha cotas a cumprir. Ser o Fore-lesser, segundo na hierarquia tinha alguns atrativos extras, como ter acesso a este lugar. Mas se tinha a intenção de proteger sua privacidade, teria que ter um desempenho adequado.

Significava que tinha que cuidar de suas armas, mesmo que preferisse estar fazendo outras coisas. Separou com uma cotovelada um estojo de ferramentas, pegou a caixa de limpeza da pistola, e aproximou um tamborete à mesa de autópsias.

A única porta do lugar se abriu de repente sem nenhuma batida. O olhou sobre seu ombro, mas quando viu quem era, obrigou-se a reduzir a expressão de chatice ao mínimo.

O Senhor X não era bem-vindo, mas ele era o responsável pela Sociedade dos Lessers e não podia negar-se. Só por razões de auto-preservação.

De pé sob a luz da lâmpada, o Fore-lesser não era um bom oponente se quisesse permanecer inteiro. De um metro e noventa, era como um carro: quadrado e duro. E, como todos os membros da Sociedade que tiveram sua iniciação há muito tempo, era totalmente pálido. Sua pele branca nunca ruborizava e não conseguia bronzear-se. Seu cabelo era branco, os olhos de cor cinza clara como um céu nublado e igualmente sem brilho e neutros.

Com um passo informal, o Senhor X começou a olhar ao redor, não observando a disposição dos objetos, mas procurando.

— Disseram que você conseguiu outro.

O deixou a barra de limpar a arma e analisou as armas que usava agora. Uma faca para lançar sobre sua coxa direita. Uma Glock na zona lombar. Sentia não ter mais.

— Agarrei-o no centro da cidade faz uns quarenta e cinco minutos fora do ZeroSum. Está em um dos buracos, perto daqui.

— Bom trabalho.

— Penso em sair outra vez. Agora mesmo.

— De verdade? — o Senhor X parou diante das estantes e pegou uma faca de caça denteada — Sabe, ouvi algo que é bastante alarmante.

O seguiu seu apagado falatório e colocou a mão sobre sua coxa, aproximando a lâmina mais.

— Não vai perguntar o que é? — disse o Fore-lesser enquanto caminhava sobre as três unidades de armazenagem do chão — Talvez por que já sabe o segredo.

O escamoteou a faca em sua mão enquanto o Senhor X se atrasava sobre as redes metálicas que cobriam o alto dos tubos de rede de esgoto. Não dava nada pelos dois primeiros cativos. O terceiro não era assunto dele.

— Nenhuma vaga, Senhor O? — a ponta da bota do Senhor X tamborilava dando batidinhas contra um dos jogos de cordas que desapareciam debaixo de cada um dos buracos — Pensava que tinha matado dois depois de perceber que não tinham nada que valesse a pena dizer.

— Fiz.

— Então com o civil que agarrou esta noite, deveria haver um tubo vazio. Em troca, isto está lotado.

— Agarrei outro.

— Quando?

— Ontem à noite.

— Mentira. — o Senhor X começou a levantar a coberta da terceira unidade.

O primeiro impulso de O foi levantar-se, dar dois passos longos e rápidos e perfurar a garganta do Senhor X com a faca. Mas, não poderia fazê-lo nem de longe. O Fore-lesser tinha o elegante truque de poder congelar aos subordinados no lugar. E, tudo o que tinha que fazer era olhá-lo.

Então, O ficou quieto, tremendo pelo esforço de manter seu traseiro sobre o tamborete.

O Senhor X tirou uma caneta-lanterna de seu bolso, acendendo-a e a dirigiu para o buraco. Quando um amortecido grito saiu, seus olhos se abriram de par em par.

— Jesus Cristo, realmente é uma fêmea! Por que demônios não me disseram isso.

O ficou de pé devagar, deixando a faca pendurar pela coxa, entre as dobras de sua calça de cargo.

— É nova. — disse ele.

— Não foi isso o que ouvi.

Com passos rápidos, o Senhor X foi ao banheiro e retirou a cortina de plástico transparente. Com uma maldição, chutou os fracos de xampu e o óleo que estavam alinhados na esquina. Então foi ao armário das munições e tirou a geladeira portátil que estava oculta atrás deles. Virou-a e a comida caiu de repente ao chão. Como os lesser não mastigavam nem engoliam, estava tão claro como qualquer confissão.

A pálida face do Senhor X estava furiosa.

— Esteve mantendo uma mascote, não é verdade?

O considerou negá-lo enquanto media a distância entre eles.

— É valiosa. Uso-a nos interrogatórios.

— Como?

— Os homens da espécie não gostam de verem fêmeas feridas. É um estímulo.

Os olhos do Senhor X se estreitaram.

— Por que não me disse nada?

— Este é meu centro. Você deu-me para dirigi-lo como quisesse. — e quando encontrasse o desgraçado mexeriqueiro, ia rasgar o bastardo em tiras — Cuido do negócio aqui e você sabe. Não deveria importar-se como trabalho.

— Deveria ter dito isso. — bruscamente, o Senhor X lhe disse — Está pensando fazer algo com essa faca na mão, filho?

Sim, papai, na realidade penso em fazer.

— Sou o responsável aqui ou não?

Quando o Senhor X trocou o peso sobre seus pés, O se preparou para o choque.

Mas, o telefone celular tocou. O primeiro toque soou estrondoso no tenso ambiente, como um grito. O segundo soou menos que uma intrusão. E o terceiro não o deixou BDF[2].

Enquanto sua mente desbaratava-se, O se deu conta de que não estava pensando claramente. Ele era um tipo grande e um lutador malditamente bom, mas não era competidor para os truques do Sr. X. E se O fosse ferido ou morresse, quem cuidaria de sua esposa?

—Atenda. — ordenou-lhe o Senhor X — E, ponha no viva-voz.

As informações eram de outro dos Primes. Três lessers tinham sido eliminados próximos a uma estrada a duas milhas de distância. Seu carro tinha sido encontrado embaixo do tronco de uma árvore e as manchas das queimaduras de suas desintegrações tinham chamuscado a neve.

Filhos da puta. A Irmandade da Adaga Negra. Outra vez.

Quando O finalizou a chamada, o Senhor X disse:

— Olhe, quer lutar contra mim ou ir trabalhar? Um caminho o levará a uma morte segura agora mesmo. É sua escolha.

— Sou o responsável por este lugar?

— Enquanto obtiver o que necessito.

— Trouxe muitos civis aqui.

— Mas isso não é o que muitos dizem.

O se aproximou e deslizou sobre a rede do terceiro buraco, assegurando-se de que o Senhor X o visse sempre. Então, colocou sua bota de combate sobre a coberta e encontrou seu olhar com o do Fore-lesser.

— Não posso ajudar se a Irmandade guarda o segredo de sua própria espécie.

— Talvez só deva concentra-se com um pouco mais de vontade.

Não diga que se foda, pensou O. Foda esta prova e sua fêmea será alimento para os cães.

Enquanto O tentava controlar seu temperamento, o Senhor X sorriu.

— Seu controle seria admirável se esta não fosse a única resposta apropriada. Agora, sobre o que aconteceu esta noite. Os Irmãos irão ao encontro daqueles assassinos aos que destruíram. Vá quanto antes à casa de H e pegue-o. Atribuirei alguém ao lugar de A e eu mesmo cobrirei D.

O Senhor X fez uma pausa na porta.

— Sobre essa fêmea. Se a usa como instrumento, está bem. Mas, se a mantém por qualquer outra razão, teremos um problema. Pegue leve ou alimentarei Ômega com você, pedaço por pedaço.

O não estremeceu. Tinha sobrevivido às torturas de Ômega uma vez e calculou que poderia voltar a fazê-lo outra vez. Por sua fêmea passaria pelo que fosse.

— Então, o que me diz? — exigiu o Fore-lesser.

— Sim, mestre.

Enquanto O esperava que o Senhor X partisse em seu carro, seu coração parecia explodir como uma granada. Queria tirar a mulher e senti-la contra ele, mas então nunca iria. Para tentar tranqüilizar-se, rapidamente limpou seu S&W e se armou. Isto na verdade não o ajudou, mas ao menos suas mãos tinham deixado de tremer por um tempo enquanto o fazia.

Caminhado para a porta recolheu as chaves de seu caminhão e conectou o detector de movimento do terceiro buraco. O apoio tecnológico era um verdadeiro salva-vidas. Se o laser infravermelho se danificasse, a arma triangular do sistema dispararia e qualquer curioso apanhado estaria com um sério caso de filtrações.

O vacilou antes de sair. Deus, queria abraçá-la. Pensar em perder sua mulher, inclusive hipoteticamente, deixava-o louco. Aquela fêmea vampira… Era sua razão para viver agora. Não a Sociedade. Nem o assassinato.

— Estou indo, esposa, seja boazinha. — O esperou — Voltarei logo e a lavarei. —quando não houve nenhuma resposta, disse — Esposa?

O engoliu saliva compulsivamente. Embora se dissesse que devia ser um homem, não podia obrigar-se a sair sem ouvir sua voz.

— Não me deixe ir embora sem um adeus.

Silêncio.

A dor penetrou em seu coração, fazendo com que o amor que sentia subisse vertiginosamente. Suspirou, o delicioso peso do desespero se apoderou de seu peito. Tinha pensado que sabia o que era o amor antes de ser transformado em lesser. Tinha pensado que Jennifer, a mulher com quem havia transado e pela qual tinha lutado tantos anos, tinha sido especial. Mas, tinha sido um idiota ingênuo. Agora sabia o que era realmente a paixão. Sua mulher cativa era a dor que o queimava e quem o fazia parecer um homem outra vez. Ela era a alma que substituía a que tinha entregado a Ômega. Por ela vivia, embora fosse um não morto.

— Retornarei assim que puder, esposa.

 

Bela encurvou-se dentro do buraco quando ouviu que se fechava a porta. O fato de que o lesser partisse intranqüilo porque não respondera, agradava-a. Agora a loucura era completa verdade?

Era engraçado que esta loucura fosse a morte que a esperava. No momento em que despertou no tubo há muitas semanas, presumiu que sua morte ia ser convencional, do tipo de corpo destroçado. Mas, não, a sua era a morte em si mesma. Enquanto seu corpo subsistia com uma saúde relativa, seu interior não viveria muito.

A psicose estava apanhando-a, e como uma enfermidade do corpo, tivera suas etapas. No princípio se sentia muito petrificada para pensar em algo que não fosse a tortura que sentiria. Mas, então os dias passaram e nada aconteceu. Sim, o lesser lhe batia e seus olhos sobre seu corpo a repugnavam, mas não fazia com ela o que fazia aos outros de sua raça. Tampouco a estuprara.

Em resposta, seus pensamentos gradualmente mudaram, seu espírito reanimou-se enquanto manteve a esperança de que a resgatariam. Esse período de fênix fora o mais longo. Uma semana inteira, talvez, embora fosse difícil medir a passagem dos dias.

Mas, então tinha começado o irreversível deslizamento e o que o provocara foi o próprio lesser. Havia demorado um tempo para compreender, mas tinha um estranho poder sobre seu captor e depois que passou algum tempo, tinha começado a usá-lo. Ao princípio o provocou para provar os limites. Mais tarde começou a atormentá-lo sem outra razão mais que o ódio e o desejo de feri-lo.

Por alguma razão o lesser que a capturou… a amava. Com todo seu coração. Às vezes gritava com ela e realmente a aterrorizava quando ele tinha algum de seus caprichos, mas quanto mais dura era com ele, melhor a tratava. Quando ela punha os olhos nele, este entrava em uma crise de ansiedade. Quando ele trazia presentes e os rechaçava, chorava. Com crescente ardor, preocupava-se com ela, mendigava sua atenção, acomodava-se contra ela e quando o rechaçava, ele ficava triste.

Jogar com suas emoções era seu mundo, odiava-o e a crueldade que a alimentava, a estava matando. Uma vez fora um ser vivo, uma filha, uma irmã… Uma alguém… Agora se endurecia, como concreto em meio ao seu pesadelo. Embalsamada.

Querida Virgem do Fade, sabia que ele nunca a deixaria partir. Estava segura que se ela se matasse abertamente, ele tomaria seu futuro. Tudo o que tinha agora era apenas o espantoso, infinito presente. Com ele.

O pânico, uma emoção que não tinha tido durante um tempo, elevou-se em seu peito.

Desesperada por voltar para o intumescimento, concentrou-se no quanto estava frio o chão. O lesser a tinha mantido vestida com a sua própria roupa, que tinha tirado de suas gavetas e armários e estava abrigada por um comprido Johns de lã, quentes meias três-quartos e botas. Contudo, o frio era implacável, movendo-se entre as roupas, entrando nos seus ossos, convertendo seus tutanos em gelo.

Seus pensamentos transladaram-se para sua granja, onde tinha vivido durante um período tão curto de tempo. Recordou o alegre fogo que tinha feito no lugar em sua sala de estar e a felicidade que tinha sentido ao estar sozinha… Eram más visões, más lembranças. Faziam-na recordar sua antiga vida, sua mãe… Seu irmão.

Deus, Rehvenge. Rehv a havia deixado louca com seu comportamento dominante, mas tinha tido razão. Se ela tivesse ficado com sua família, nunca teria conhecido Mary, a humana que vivia ao lado. E, nunca teria cruzado o prado entre sua casa aquela noite para assegurar-se de que estava bem. E, nunca teria tido que correr atrás do lesser… Nunca teria terminado morta e respirando.

Perguntou-se quanto tempo seu irmão a teria procurado. Já teria se rendido? Provavelmente. Nem sequer Rehv poderia continuar durante tanto tempo sem esperança.

Apostava que a tinha procurado, mas por uma parte se alegrava de que não a tivesse encontrado. Embora fosse um homem extremamente agressivo, era civilizado e se sentiria responsável se o ferissem caso ele viesse resgatá-la. Aqueles lessers eram fortes. Cruéis e poderosos. Não, para que a salvassem seria necessário alguém igualmente monstruoso como aquele que a retinha.

Uma imagem de Zsadist lhe veio à mente, clara como uma fotografia. Viu seus escuros olhos selvagens. A cicatriz que atravessava seu rosto e deformava o lábio superior. O escravo de sangue com tatuagens na garganta e nos pulsos. Recordou os sinais dos açoites sobre suas costas. E, os piercings que penduravam de seus mamilos. E, os músculos, também o corpo magro.

Pensou em sua cruel vontade, inflexibilidade e todo o ódio totalmente volátil. Era aterrador, um horror da espécie. Arruinado, não, quebrado, nas palavras de seu gêmeo. Mas, isso era o que o faria um bom salvador. O único rival para o lesser que a tinha levado. O tipo de brutalidade de Zsadist era provavelmente a única coisa que poderia tirá-la daí, embora tivesse melhor critério que pensar que alguma vez tentaria encontrá-la. Ela era somente uma civil com a qual se encontrou um par de vezes.

E, a segunda vez, lhe tinha feito jurar que nunca voltaria a se aproximar.

O medo a rodeava e tentou refrear a emoção dizendo-se que Rehvenge ainda a procurava. E, apelaria à Irmandade se encontrasse alguma pista de onde estava. Então, talvez Zsadist viesse procurar por ela, por que seria necessário, como parte de seu trabalho.

— Olá? Olá? Há alguém aí? — a instável voz masculina soava como amortecida, um tom metálico.

Era o cativo mais novo, pensou. Eles no princípio sempre tentavam reagir.

Bela se esclareceu a garganta.

— Estou… Aqui.

Houve uma pausa.

— Oh, meu Deus… É a mulher que levaram? É Bela?

Escutar seu nome foi um choque. Infernos, o lesser a chamava de esposa a tanto tempo, que quase tinha esquecido que tinha sido algo mais.

— Sim… Sim, sou eu.

— Ainda está viva.

Bem, seu coração ainda pulsava, de todos os modos.

— Conheço você?

— Eu... Eu fui ao seu enterro. Com meus pais, Ralstam e Jilling.

Bela começou a tremer. Sua mãe e seu irmão… A tinham posto para descansar. Sua mãe era profundamente religiosa, grande crente das Velhas Tradições. Uma vez que se convenceu que sua filha estava morta, teria insistido na cerimônia apropriada para que Bela pudesse entrar no Fade.

Oh… Deus. Pensar que eles desistiram e saber que desistiram eram duas coisas diferentes. Ninguém viria buscá-la. Nunca.

Escutou algo estranho. E, compreendeu que soluçava.

— Fugirei. — disse o homem com força — Levarei você comigo.

Bela permitiu que seus joelhos dobrassem e deslizou para baixo pela parede acanalada do tubo até que ficou deitada no fundo. Agora estava realmente morta, verdade? Morta e bem morta.

Que horrivelmente adequado que ela estivesse presa na terra.

 

As shitkickers de Zsadist o levaram através de um beco fora da Rua Trade, suas passadas soavam com força sobre os atoleiros de neve em parte congelados e esmagados pelos rastros dos pneus. Estava totalmente escuro, porque não havia janelas nos edifícios de tijolo de um e outro lado e as nuvens se fecharam sobre a lua. Inclusive caminhando assim, sua visão noturna era perfeita, penetrando em toda parte. Como sua raiva.

Sangue negro. Precisava de mais sangre negro. Necessitava-o sobre suas mãos, golpeando em seu rosto e salpicando sua roupa. Precisava de oceanos dele correndo pelo chão e gotejando na terra. Em honra à memória de Bela, sangraria aos assassinos, cada morte seria uma oferenda.

Sabia que não tinha sobrevivido, sabia em seu coração que devia ter sido assassinada de um modo espantoso. Então, por que sempre perguntava a esses bastardos onde estava? Inferno, não sabia. Só era a primeira coisa que saía de sua boca, sem importar quantas vezes se dissesse que estava morta.

Ele ia seguir fazendo essa maldita pergunta. Queria saber onde, como e com o que, eles o tinham feito. A informação só o devoraria, mas precisava saber. Tinha que saber. E um deles falaria em algum momento.

Z se deteve. Cheirou o ar. Rezou para que o suave aroma de talco para bebê fosse até seu nariz. Maldito fosse, não podia suportar isto… Não saber nada por mais tempo.

Mas, então riu com um repugnante ruído. Sim, o inferno não poderia enfrentá-lo. Graças a seus cem anos de cuidadosa educação com a Mistress, não existia nenhum nível de merda ao qual não sobrevivesse. Dor física, angústia mental, abatendo-se nas profundidades da humilhação e a degradação, desespero, impotência: este aqui, agüenta.

Assim, sobreviveria a isto.

Levantou a vista ao céu e quando sua cabeça se inclinou para trás, balançou. Com um rápido movimento de mão se estabilizou, logo suspirou e esperou para ver se a sensação de enjôo passava. Não teve sorte.

Hora de alimentar-se. Outra vez.

Maldição, esperava poder sair sem dificuldade mais uma noite ou duas. O mais seguro era que tinha arrastado seu corpo por pura força de vontade as duas últimas semanas, mas isso não era nada insólito. E, esta noite não queria tratar com a sede de sangue.

Vamos, vamos… Concentre-se, idiota.

Obrigou-se a continuar, espreitando pelos becos do centro, serpenteando o perigoso labirinto urbano de Caldwell, os clubes de New York e os cenários de drogas.

Às três da manhã, estava tão faminto de sangue que se sentia como uma pedra e foi a única razão pela qual se apresentou. Não podia agüentar mais a dissociação, o intumescimento em seu corpo. Recordava-lhe muito a letargia do ópio ao qual lhe tinham obrigado a tomar quando era um escravo de sangue.

Caminhando tão rapidamente como podia, dirigiu-se ao ZeroSum, a guarida atual da Irmandade no centro da cidade. Os seguranças lhe permitiram evitar a fila de espera, o acesso fácil era um dos benefícios das pessoas que deixava cair dinheiro efetivamente, como faziam os Irmãos. Infernos, o hábito da fumaça vermelha de Phury valia só um par de notas ao mês e V e Butch gostavam apenas da chamada que lhes chegava da prateleira superior das bebidas. Estavam regularmente nas compras de Z.

O clube estava quente e escuro por dentro, uma espécie de úmida caverna tropical com música techno no ar. As pessoas lotavam a pista de dança, dando voltas, bebendo água, suando enquanto se moviam com os lasers coloridos ritmicamente.

Tudo ao redor, corpos contra as paredes, em pares ou trios, retorcendo-se, tocando-se.

Z se dirigiu a área VIP e a multidão abria espaço para ele, separando-se como um pano de veludo rasgado. Apesar do alto consumo de ecstasy e cocaína superaquecer seus corpos, ainda tinham suficiente instinto de sobrevivência ao ver sua aparência mortal que esperava passar.

Na parte de trás, um segurança com um interfone permitiu sua entrada na melhor zona do clube. Aqui, na relativa tranqüilidade, vinte mesas com assentos de tamborete estavam espaçadas, com piso de mármore negro iluminado do teto. O lugar da Irmandade estava perto da saída de incêndios e não se surpreendeu de ver Vishous e Butch ali com copos curtos em frente deles. O copo de Martini de Phury estava totalmente sozinho.

Os dois camaradas não pareceram alegrar-se ao vê-lo. Não… Pareciam resignados com sua chegada, como se tivessem esperado tirar uma carga e ele acabasse de lhes lançar um motor em bloco.

— Onde está ele? — perguntou Z, apontando para o Martini de seu gêmeo com a cabeça.

— Fazendo fumaça vermelha na parte de trás. — disse Butch — Ficou sem O-Z´S[3].

Z se sentou à esquerda e inclinou-se para trás, retirando-se da brilhante luz que caía sobre a mesa. Quando deu uma olhada a seu redor, reconheceu os rostos insignificantes dos desconhecidos. A área VIP tinha os rudes clientes habituais, mas nenhum dos grandes esbanjadores interagia com o fechado grupo. De fato, o clube inteiro estava impregnado por sensações de “não me pergunte, não me fale”, o que era um dos motivos pelos quais os Irmãos iam ali. Inclusive embora o ZeroSum fosse propriedade de um vampiro, tinham que procurar passar despercebidos pelo que eram.

Com o passar do século, a Irmandade da Adaga Negra se tornou reservada sobre suas identidades dentro da raça. Havia rumores, certamente, e os civis sabiam alguns de seus nomes, mas tudo era guardado no QT[4]. Tudo tinha começado quando a raça se fragmentou tragicamente fazia um século aproximadamente, a confiança se converteu em um assunto dentro da espécie. Mas, agora, também havia outra razão. Os lessers torturavam aos civis procurando informação sobre a Irmandade, por isso era imperativo continuarem escondidos.

Como resultado, os poucos vampiros que trabalhavam no clube não estavam seguros de que os grandes homens que se vestiam de couro, bebiam e deixavam cair dinheiro fossem membros da Adaga Negra. E, felizmente, se não fosse assim com clientela social, a forma de olhar dos Irmãos evitava perguntas.

Zsadist se moveu em seu lugar, impaciente. Odiava o clube, realmente o odiava. Odiava tantos corpos tão perto dele. Odiava o ruído. Os aromas.

Em um barulhento grupo, três mulheres humanas se aproximaram da mesa dos Irmãos. As três trabalhavam essa noite, entretanto o que serviam não cabia em um copo. Eram as típicas putas de classe alta: apliques no cabelo, peitos falsos, rostos moldados por cirurgiões plásticos, roupa cara. Havia algumas se deslocando fazendo algazarra pelo clube, particularmente na seção VIP. O Reverendo, proprietário e dirigente do ZeroSum, acreditava na diversificação do produto como uma estratégia de negócio, oferecendo seus corpos assim como o álcool e as drogas. O vampiro também emprestava dinheiro e tinha uma equipe de corredores de apostas e só Deus sabe quais outros serviços que prestava em seu escritório de trás, sobre tudo para sua clientela humana.

Enquanto as três prostitutas riam e falavam, ofereceram-se para negociar. Mas nenhuma delas era o que Z procurava e V e Butch não as escolheriam tampouco. Dois minutos mais tarde, as mulheres se aproximaram da mesa seguinte.

Z estava malditamente faminto, mas era inegociável quando se tratava da alimentação.

— Hei, queridinhos! — disse outra mulher — Algum de vocês procura um pouco de companhia?

Ele a olhou. Esta mulher humana tinha um rosto duro que combinava com seu duro corpo. A roupa de couro negro. Os olhos frágeis. O cabelo curto.

Droga, era perfeita.

Z pôs sua mão na base da luz sobre a mesa, levantou dois dedos, logo golpeou com os nódulos duas vezes sobre o mármore. Quando Butch e V começaram a mexer-se no assento, sua tensão o incomodou.

A mulher riu.

— Bom, bom.

Zsadist se inclinou para frente e se levantou em toda sua estatura, seu rosto ficou iluminado pelo projetor. A expressão da prostituta ficou solidamente congelada quando deu um passo para trás.

Nesse momento Phury saiu da porta da esquerda, seu espetacular cabelo refletia as luzes que piscavam inconstantes. Diretamente atrás dele havia um vampiro macho durão com um mohawk[5]: o Reverendo.

Quando os dois pararam junto à mesa, o dono do clube riu forte. Seus olhos cor ametista perceberam a vacilação da prostituta.

— Boa noite, cavalheiros. Vai a algum lugar, Lisa?

O alarde de Lisa retornou com vingança.

— A qualquer um onde ele queira, chefe.

— Resposta correta.

Suficiente para um yakkies[6], pensou Z.

— Fora. Agora.

Empurrou a porta contra incêndio e a seguiu ao beco posterior ao clube. O vento de dezembro soprava pela jaqueta ampla que tinha posto para cobrir seus braços, mas não se preocupava com o frio e menos pela Lisa. Embora as rajadas geladas jogassem seu cabelo e ela estivesse quase nua, confrontou-o sem medo, levantando o queixo.

Agora que se comprometeu, estava pronta para ele. Uma verdadeira profissional.

— Fazemos aqui. — disse ele, dando um passo para as sombras. Pegou duas notas de cem dólares de seu bolso e deu a ela. Seus dedos dobraram-se antes que o dinheiro desaparecesse em sua saia de couro.

— Como quer? — perguntou, aproximando-se furtivamente dele, tratando de chegar a seus ombros.

Fê-la girar e a colocou com a cara contra a parede de tijolo.

— Eu toco. Você não.

Seu corpo esticou e o medo causou coceira em seu nariz, como um ácido. Mas, sua voz foi dura.

— Olhe, idiota. Volto com machucados e ele perseguirá você como a um animal.

— Não se preocupe, vai sair disto perfeitamente bem.

Mas ainda a assustava. E, ele estava felizmente intumescido pela emoção.

Geralmente o medo da mulher era a única coisa que podia animar a ele, a única maneira que deixava duro o que tinha dentro de suas calças. Ultimamente, entretanto o gatilho não funcionava, o que estava bom. Aborrecia a resposta daquela coisa detrás de seu zíper e visto que a maioria das mulheres se acorvadavam diante dele, isso conseguia excitá-lo muitíssimo mais do que queria. Nada teria sido melhor. Droga, era provavelmente o único homem sobre o planeta que queria ser impotente.

— Incline a cabeça para o lado. — disse ele — A orelha contra seu ombro.

Devagar, ela obedeceu, expondo o pescoço. Esta era a razão pela qual a tinha escolhido. O cabelo curto significava que não teria que tocar nada para limpar o caminho. Odiava ter a necessidade de pôr suas mãos sobre elas em todas as partes.

Quando olhou fixamente sua garganta, sua sede aumentou e suas presas se alargaram. Deus, estava tão seco para esgotá-la.

— O que vai fazer? — o interrompeu — Morder-me?

— Sim.

Mordeu-a rapidamente e a sustentou enquanto ela o golpeava. Para fazê-lo mais fácil, ele a acalmou mentalmente, relaxando-a, lhe dando algo que sem dúvida lhe era muito familiar. Enquanto ela se tranqüilizava, ele bebeu tanto como pôde sem engasgar-se, provando a cocaína e o álcool em seu sangue assim como aos antibióticos que tomava.

Quando terminou, lambeu os sinais da espetada para iniciar o processo de cura e para que não sangrasse. Então, lhe colocou rapidamente um colar para ocultar a dentada, limpou suas lembranças e a enviou de volta ao clube.

A sós, de novo, apoiou-se contra os tijolos. O sangue humano era tão fraco, apenas conseguia o que necessitava, mas não podia fazê-lo com as mulheres de sua própria espécie. Não outra vez. Nunca.

Elevou a vista para o céu. As nuvens que as rajadas de vento haviam trazido antes, foram-se e entre os edifícios se podia ver um pedacinho do céu claro, salpicado de estrelas. As constelações lhe diziam que só tinha duas horas para permanecer fora.

Quando teve a força necessária, fechou os olhos e se materializou no único lugar em que queria estar.

Agradecia a Deus que ainda tivesse suficiente tempo para ir ali. Estar ali.

 

John Matthew gemeu e girou até ficar de costas na cama.

A mulher seguiu seu exemplo, seus peitos nus pressionaram sobre o seu amplo peito descoberto. Com um sorriso erótico, ela alcançou abaixo entre as pernas dele e encontrou sua pesada ereção. Ele jogou a cabeça para trás e gemeu enquanto ela apertava sua ereção, para cima e para baixo. Quando ele agarrou seus joelhos, ela começou a montá-lo lentamente.

Oh, sim…

Com uma mão tocava a si mesma, com a outra o atormentava, passando a palma de sua mão sobre os peitos e subindo até seu pescoço, agarrando o comprido, cabelo loiro enquanto ela tinha um orgasmo. Sua mão se moveu para seu rosto, e logo seu braço estava sobre sua cabeça, um arco cheio de graça de carne e ossos. Ela se arqueou para trás e seus peitos se sobressaíram, os duros mamilos dilatados, rosados. Sua pele era tão pálida que parecia neve fresca.

— Guerreiro. — disse ela, rangendo os dentes — Pode agüentar isto?

Agüentar? Maldição, podia. E, então quando estava deixando claro quem agüentava o que, ele agarrou suas coxas e empurrou seus quadris até que ela gritou.

Quando se retirou, lhe sorriu, montando-o mais e mais rápido. Ela era hábil e apertada, e sua ereção estava no céu.

— Guerreiro, pode agüentar isto? — sua voz era mais profunda agora pelo esforço.

— Inferno, sim. — grunhiu. Homem, a segunda vez que ela gozasse, ia lhe virar e empurrar dentro dela uma vez mais.

— Pode agüentar isto? — ela o bombeou ainda mais duro, ordenhando-o. Com seu braço ainda sobre sua cabeça, ela o montava como a um touro, corcoveando sobre ele.

Isto era um grande sexo… Imponente, incrível, grandioso…

Suas palavras começaram a curvar-se, deformar-se... Caindo sob a investigação de uma fêmea. Pode agüentar isto? John sentiu um calafrio. Algo estava mau.

— Pode agüentar isto? Pode agüentar isto? — de repente a voz de um homem saía de sua garganta, a voz de um homem que se burlava dele — Pode agüentar isto?

John lutou para empurrá-la, mas ela estava presa a ele como se tivesse braçadeiras, e a transa não parava.

—Acredita que pode agüentar isto? Acredita que pode agüentar isto? Acredita que pode agüentar isto? — a voz masculina gritava agora, rugindo da cara da fêmea.

A faca veio para John de cima da cabeça dela… Só que ela era um homem agora, um homem com a pele branca, o cabelo pálido e olhos da cor da névoa. Enquanto a lâmina reluzia como prata, John conseguiu bloqueá-la, mas seu braço não era musculoso como antes. Estava magro, enfraquecido.

— Pode agüentar isto, guerreiro?

Com uma navalhada cheia de graça, a adaga atingiu diretamente o meio de seu peito. Uma dor ardente se acendeu onde lhe tinha penetrado, um violento ardor derramando-se através de seu corpo, ricocheteando pelo interior de sua pele até que esteve vivendo em agonia. Ofegou e se afogou em seu próprio sangue, afogado e amordaçado até que nada entrou em seus pulmões. Segurando-se, lutou contra a morte que trás dele…

— John! John! Acorde!

Seus olhos se abriram de repente. Seu primeiro pensamento foi que sua cara doía, embora não tivesse nem idéia do por que, já que tinha sido apunhalado no peito. Então, se deu conta de que sua boca estava aberta tensamente, acomodando o que teria sido um grito se ele tivesse nascido com cordas vocais. Tal como estava, tudo o que ia fazer era soltar uma corrente estável de ar.

Então sentiu as mãos… Mãos que imobilizavam seus braços. O terror voltou, e no que foi para ele uma quebra de onda incrível, jogou seu pequeno corpo para fora da cama. Aterrissou de cara, sua bochecha patinando sobre o tapete.

— John! Sou eu, Wellsie.

A realidade voltou com o som do nome, tirando-o do histerismo como uma palmada.

Oh, Deus… Estava bem. Ele estava bem. Estava vivo.

Jogou-se nos braços de Wellsie e enterrou seu rosto em seu comprido cabelo vermelho.

— Está bem. — ela o empurrou para seu colo e acariciou suas costas — Está em casa. Está a salvo.

Casa. Segurança. Sim, depois de seis semanas estava em casa… A primeira que ele tinha tido depois de crescer no orfanato de Nossa Senhora e em barracões até que completou dezesseis anos. Wellsie e Tohrment eram o lar.

E, não estava somente a salvo, tinha-o compreendido. Infernos, tinha aprendido a verdade sobre si mesmo. Até que Tohrment tinha vindo e o tinha encontrado ele não sabia por que sempre tinha sido diferente das outras pessoas ou por que ele era tão fracote e débil. Mas, os vampiros masculinos eram assim antes que passassem pela transição. Inclusive Tohr, que era um membro da Irmandade da Adaga Negra, quando jovem era pequeno.

Wellsie inclinou a cabeça de John para cima.

— Pode me contar que era?

Ele sacudiu a cabeça e a enterrou mais profundamente nela, apertando-a tão forte que estava surpreso de que ela pudesse respirar.

 

Zsadist se materializou diante da granja de Bela e amaldiçoou. Alguém tinha estado no lugar outra vez. Havia marcas frescas de pneus na neve, distribuídas no caminho de entrada e rastros à porta. Ah, droga… Ali havia muitos rastros, tanto na frente e como atrás, como se um carro tivesse estacionado ali e parecia que as coisas estivessem sendo levadas.

Isto o fez sentir-se inquieto, como se pequenas coisas dela estivessem desaparecendo.

Inferno santo. Se sua família desmontasse a casa, ele não saberia onde iria estar com ela.

Com um olhar duro, olhou fixamente ao pórtico dianteiro e às janelas largas da sala de estar. Talvez ele devesse recolher algo dela para ele. Isto seria fazer uma canalhice, porque então, não seria melhor que um ladrão.

Outra vez, perguntou-se sobre a família dela. Sabia que eram aristocratas de classe social alta, mas isso era tudo, e não queria conhecê-los para averiguar mais. Inclusive em seu melhor dia, ele era horrível com as pessoas, mas a situação com Bela o fazia perigoso, não somente repugnante. Não, Tohrment era o adequado para lidar com os laços de sangue, e Z era sempre cuidadoso para não encontrar-se com eles.

Foi para a parte de trás da casa, entrou pela cozinha, e desligou o alarme de segurança. Como fazia toda noite, verificou primeiro os peixes. Farelos de comida estavam pulverizados em cima da água, prova de que alguém tinha cuidado deles. Ficava de saco cheio por alguém lhe ter roubado a oportunidade.

A verdade era, que pensava nessa casa como seu espaço agora. Tinha limpado a casa depois que a tinham seqüestrado. Tinha regado às plantas e tinha cuidado dos peixes. Tinha andado pelos andares e pela escada e tinha olhado fixamente pelas janelas e se sentou sobre cada cadeira, sofá e cama. Infernos, já tinha decidido comprar a maldita coisa quando sua família a vendesse. Embora nunca tivesse tido uma casa antes ou muitos bens pessoais, estas paredes e este teto e a droga de dentro… Ele possuiria tudo. Um santuário dela.

Z fez uma viagem rápida pela casa, catalogando as coisas que tinham sido tiradas. Não era muito. Uma pintura e um prato de prata da sala de estar, e um espelho do vestíbulo de entrada. Tinha curiosidade de saber por que aqueles objetos em particular tinham sido escolhidos e devolvidos aonde pertenciam.

Enquanto entrava na cozinha outra vez, imaginou o quarto depois que ela tinha sido seqüestrada, todo o sangue, os pedaços de vidros, as cadeiras e a porcelana quebradas. Seus olhos baixaram até uma listra negra de borracha sobre o chão de pinheiro. Podia adivinhar como tinha sido feita. Bela lutando contra o lesser, sendo arrastada, a sola de seu sapato chiando enquanto deixava um rastro.

A cólera avançou lentamente através de seu peito até que esteve ofegando pelo feio e familiar sentimento. Exceto Cristo… Tudo isso não tinha sentido: ele procurando-a, obcecando-se como um merda e andando ao redor de sua casa. Eles não tinham sido amigos. Infernos, nem sequer tinham sido conhecidos. E, ele não tinha sido agradável com ela nas duas ocasiões em que se encontraram.

Homem, lamentava isso. Durante aqueles poucos momentos em que esteve com ela, desejava que tivesse sido… Bom, não levantar-se rapidamente depois que tivesse averiguado que estava excitada por causa dele, teria sido um começo realmente bom. Exceto, pelo fato de que não tivesse nenhum modo de engolir a resposta. Nenhuma fêmea exceto aquela bruxa doente da Mistress tinha estado molhada por ele, assim estava seguro como o inferno que ele não associava a escorregadia carne feminina com nada bom.

Enquanto recordava de Bela estando contra seu corpo, ainda se perguntava por que ela queria deitar-se com ele. Seu rosto parecia um quadro. Seu corpo não estava muito melhor, ao menos suas costas. E, sua reputação fazia com que Jack, o estripador, parecesse um escoteiro. Maldição, ele estava zangado com todos e tudo sempre. Ela tinha sido bonita, suave e amável, uma fêmea da realeza, aristocrata de uma estirpe privilegiada.

Ah, mas suas contradições tinham sido o ponto, verdade? Ele tinha sido o macho de “desvio de caminho” para ela. Um passeio pelo seu lado selvagem. A criatura selvagem que a impressionaria e a tiraria de sua pequena vida agradável durante uma hora ou duas. E, mesmo que lhe tinha doído ser reduzido precisamente ao que ele era, ainda pensava que ela era… Encantadora.

Atrás dele, ouviu o relógio do avô começar a soar. As cinco.

A porta de entrada da casa se abriu com um rangido.

Rápida e silenciosamente, Z pegou uma adaga negra de seu peito e se grudou contra a parede. Inclinou a cabeça para ter uma vista do corredor até o vestíbulo.

Butch levantou as mãos e entrou.

— Só sou eu, Z.

Zsadist baixou a lâmina, então a devolveu a sua bainha.

O antigo detetive de homicídios era uma anomalia em seu mundo, o único humano que alguma vez tinham deixado entrar no círculo interior da Irmandade. Butch era o companheiro de quarto de V, o companheiro de levantamento de pesos de Rhage no ginásio, que compartilhava a puta roupa de Phury. E, por razões que só ele sabia, estava obcecado com o seqüestro de Bela, assim então tinha alguma coisa em comum com Z, também.

— O que há, policial?

— Está chegando à solução? — a Pergunta do tipo poderia ter sido emoldurada como uma pergunta, mas era mais uma sugestão.

— Não agora mesmo.

— Perto da luz do dia.

O que seja.

— Phury te enviou a minha procura?

— Foi minha escolha. Quando não voltou depois de pagar, pareceu-me que poderia terminar aqui.

Z cruzou os braços sobre o peito.

— Se preocupava que tivesse matado àquela fêmea que tomei no beco?

— Não. Vi-a trabalhando no clube antes de partir.

— Então, por que estou olhando você agora mesmo?

Enquanto o macho olhava para baixo como se estivesse reunindo palavras em sua cabeça, seu peso se movia para frente e para trás naqueles sapatos caros dos quais gostava. Então desabotoou o elegante casaco negro de cachemira.

Ah… Assim, Butch era um mensageiro.

— Desembuche, policial.

O humano esfregou um polegar sobre sua sobrancelha.

— Sabe que Tohr esteve falando com a família de Bela, verdade? E, que seu irmão é um autêntico exaltado? Bom, ele sabe que alguém esteve vindo aqui. Pode contá-lo pelo sistema de segurança. Cada vez que desliga ou se acende, recebe um sinal. Quer que as visitas parem, Z.

Zsadist mostrou as presas.

— Pois ele que agüente!

— Vai colocar guardas.

— Por que demônios se preocupa?

— Vamos, homem, é a casa de sua irmã.

Filho da puta.

— Quero comprar a casa.

— Isto é uma área proibida, Z. Tohr disse que a família não vai colocar a casa no mercado logo. Querem mantê-la.

Z apertou os dentes durante um momento.

— Policial, se faça um favor e saia daqui.

— Melhor levar você para casa. O amanhecer está malditamente perto.

— Sim, realmente necessito de um humano me dizendo isso.

Butch amaldiçoou com uma exalação.

— Bom, faça barulho se quiser. Somente não volte aqui outra vez. Sua família já sofreu o bastante.

Logo que a porta da frente se fechou, Z sentiu um calor subir por seu corpo, como se alguém o tivesse envolvido apertadamente em uma manta elétrica e ligado à tomada. O suor descia por seu rosto e peito, e o estômago deu um tombo. Levantou suas mãos. As palmas estavam úmidas e os dedos tremiam.

Sinais fisiológicos de tensão, pensou.

Estava tendo claramente uma reação emocional, embora malditamente não soubesse qual era. Tudo o que reconhecia eram sintomas auxiliares. Dentro de si mesmo não havia nada, nenhum sentimento que pudesse identificar.

Olhou ao redor e quis colocar fogo na granja, incendiar a coisa até os alicerces, assim ninguém poderia tê-la. Melhor isso que saber que não podia entrar mais.

O problema era, que queimar sua casa era como ferir a ela.

Se não podia deixar um montão de cinzas para trás, queria pegar algo. Enquanto pensava no que poderia levar com ele e ainda desmaterializasse, pôs sua mão sobre a corrente fina que se estendia ao redor de seu pescoço.

O colar com seus diminutos diamantes inseridos era dela. Tinha-o encontrado nos escombros uma noite depois que tinha sido seqüestrada, sobre o piso de terracota embaixo da mesa de cozinha. Tinha limpado o sangue, tinha arrumado a tranca quebrada, e o tinha usado após.

E, os diamantes eram eternos, verdade? Eles duravam para sempre. Justo como suas lembranças dela.

Antes que Zsadist partisse, deu uma última olhada no aquário. O alimento quase tinha desaparecido, devorado da superfície por pequenas bocas, bocas que vinham das profundezas.

 

John não sabia quanto tempo esteve nos braços de Wellsie, mas demorou um momento para retornar à realidade. Quando ele finalmente se retirou, lhe sorriu.

— Seguro que não quer me contar o pesadelo?

As mãos de John começaram a mover-se, e ela as olhou fixamente com força porque estava aprendendo a linguagem dos sinais. Ele sabia que ia muito rápido, assim que se inclinou e pegou um de seus blocos e uma caneta da mesinha de cabeceira.

— Não era nada. Estou bem agora. Obrigado por me despertar.

— Quer voltar para a cama?

Ele assentiu. Parecia que não tinha feito nada exceto dormir e comer durante o mês e meio passado, mas não havia nenhum fim para sua fome ou seu esgotamento. Então outra vez, tinha vinte e três anos de fome e insônia para compensar.

Deslizou-se entre os lençóis, e então Wellsie se moveu devagar a seu lado. Sua gravidez não se notava muito se estivesse de pé, mas quando se sentava havia uma elevação sutil sob sua camisa frouxa.

— Quer que acenda a luz do banheiro?

Ele sacudiu a cabeça. Isso só lhe faria com que se sentisse como uma joaninha, e agora mesmo seu ego tinha agüentado todas as humilhações que podia agüentar.

— Vou estar na minha sala de estudo, certo?

Quando ela partiu, ele se sentiu mal por ser do tipo que precisava ser tranqüilizado, mas agora que o pânico tinha desaparecido estava envergonhado de si mesmo. Um homem não agia como ele tinha feito. Um homem teria lutado contra o demônio de cabelo pálido no sonho e teria ganhado. Inclusive se tivesse estado aterrorizado, um homem não se agacharia trêmulo como um menino de cinco anos quando despertasse.

Então, outra vez, John não era um homem. Ao menos não ainda. Tohr havia dito que a mudança não aconteceria até que estivesse próximo dos vinte e cinco, e ele não podia esperar os próximos dois anos passarem. Porque mesmo que agora entendesse por que só tinha um metro e sessenta e oito de altura e cinqüenta e um quilos e quinhentas gramas, ainda era resistente. Odiava olhar seu corpo ossudo todos os dias no espelho. Odiava vestir roupas de adolescente mesmo que pudesse legalmente dirigir, votar e beber. Abatido ante o fato de que nunca tinha tido uma ereção, nem sequer quando despertava de um de seus sonhos eróticos. E, nunca tinha beijado a uma mulher, tampouco.

Não, ele não se sentia parte do departamento masculino ao redor. Sobre tudo considerando o que tinha ocorrido fazia quase um ano. Deus, o aniversário daquele ataque tinha passado, verdade? Com um estremecimento tratou de não pensar naquela suja escada ou no homem que havia sustentado uma faca em sua garganta ou naqueles momentos horríveis quando algo irrecuperável tinha sido tirado dele: sua inocência violada, ida para sempre.

Forçando sua mente a sair daquela queda em desassossego, disse-se que ao menos já não estava desesperado. Algum dia, ele se transformaria em um homem.

Era reconfortante pensar no futuro, retirou as cobertas e foi até seu armário. Enquanto abria as duas portas, ainda não estava acostumado ao que viu. Nunca havia possuído tantas calças, camisas de jérseis em toda sua vida, mas aqui estavam… Tão frescos e novos, todos os zíperes funcionavam, não faltava nenhum botão, não estavam desfiados, nem quebrados. Até tinha um par de Nike Air Shox.

Ele tirou um suéter e o pôs, logo empurrou suas pernas largas e magras em um par de calças. No banheiro lavou as mãos e a cara e penteou seu cabelo negro. Então se dirigiu à cozinha, andando através de quartos que tinham linhas limpas, modernas, mas que estavam decorados com móveis, tecidos e arte do Renascimento italiano. Parou quando ouviu a voz de Wellsie sair do estudo.

— …uma espécie de pesadelo. Quero dizer, Tohr, estava aterrorizado… Não, ele evitou quando perguntei o que era, e não lhe pressionei. Penso que é hora de que veja Havers. Sim, UAH-Hugh[7]. Deveria conhecer primeiro Wrath. Bom. Quero-te, meu hellren. O que? Deus, Tohr, sinto-me da mesma maneira. Não sei como alguma vez vivemos sem ele. Ele é uma bênção.

John se apoiou contra a parede do corredor e fechou os olhos. Engraçado, ele se sentia da mesma maneira sobre eles.

 

Horas mais tarde, ou ao menos pareciam horas, Bela escutou o som da prancha da rede deslizando-se para trás. O aroma doce dos lesser tinha emanado até embaixo, onde ela estava, dominando o acre e úmido aroma de terra.

— Olá, esposa. — o cinto ao redor de seu torso a apertou quando ele a tirou.

Um olhar a seus pálidos olhos marrons e ela soube que agora não era o momento de empurrar qualquer limite. Ele estava nervoso, seu sorriso se mostrava muito excitado. E, lhe desequilibrar não era bom.

Justo quando seus pés bateram no chão, ele puxou as guarnições e então ela caiu contra ele.

—Eu disse “olá, esposa.”.

—Olá, David.

Ele fechou os olhos. Gostava quando ela dizia seu nome.

— Tenho algo para você.

Deixou as correias sobre ela e a conduziu à mesa de aço inoxidável no centro do quarto. Quando a algemou a coisa, ela sabia que ainda devia estar escuro lá fora. Ele relaxava sua segurança durante o dia, quando ela não poderia correr.

O lesser saiu pela porta e a deixou totalmente aberta. Ruídos de arrasto e grunhidos lhe seguiram e então voltou arrastando a um vampiro civil tonto. A cabeça do macho pendurava sobre seus ombros como se estivesse sobre uma dobradiça frouxa, e o arrastava pelos dedos dos pés. Estava vestido no que tinha sido uma agradável calça negra e um suéter de cachemira, mas agora as roupas estavam rasgadas e molhadas de sangue.

Com um gemido afogado em sua garganta, Bela retrocedeu até onde suas correntes permitiu. Não podia olhar a tortura, não podia.

O lesser forçou o macho a colocar-se sobre a mesa e o estendeu sobre ela. As algemas foram colocadas com eficiência ao redor de seus pulsos e tornozelos, e os elos foram presos com clipes metálicos. Assim que os olhos brumosos do civil se cravaram na estante com as ferramentas, invadiu-lhe o pânico. Puxou as correntes de aço, as fazendo repicar contra a mesa de metal.

Bela encontrou com os olhos azuis do vampiro. Estava aterrorizado, e queria lhe tranqüilizar, mas sabia que não era inteligente. O lesser olhava sua reação, esperando.

E, logo tirou uma faca.

O vampiro sobre a mesa gritava enquanto o assassino se inclinava sobre ele. Mas, tudo o que David fez foi dar um puxão no suéter do macho e cortá-lo, expondo seu peito e garganta.

Embora Bela tentasse lutar contra isso, a sede de sangue lhe revolvia o estômago. Tinha passado muito tempo desde a última vez que tinha se alimentado, possivelmente meses, e toda a tensão sob a que tinha estado significava que seu corpo necessitava o que só beber do sexo oposto podia lhe dar.

O lesser a agarrou pelo braço e a puxou, as algemas deslizaram pelo sulco da mesa com ela.

— Pensei que devias estar sedenta agora. —o assassino estendeu a mão e esfregou sua boca com seu polegar — Assim, consegui isto para você, para que te alimente.

Seus olhos se abriram.

— Assim é. Ele é somente para você. Um presente. É fresco, jovem. Melhor que os dois que tenho nos buracos agora. E, podemos mantê-lo enquanto te sirva. — o lesser separou seu lábio superior de seus dentes — Maldição… Olhe essas presas alargando-se. Faminta, verdade, esposa?

Sua mão a segurou fortemente pela nuca e a beijou, lambendo-a com a língua. De algum modo ela conteve seu reflexo de mordê-lo até que ele levantou sua cabeça.

— Eu sempre me perguntei o que parece. — disse ele, os olhos vagando por seu rosto — Vai me excitar? Não estou seguro se quero ou não. Acredito que eu gosto de você pura. Mas tem que fazer isto, correto? Ou morrerá.

Empurrou sua cabeça para baixo para a garganta do macho. Quando ela resistiu, o lesser riu brandamente e falou em seu ouvido.

— Esta é minha garota. Se tivesse ido de bom grado, penso que lhe teria batido por ciúmes. — lhe acariciou o cabelo com sua mão livre — Agora, bebe.

Bela olhou nos olhos do vampiro. Oh, Deus…

O macho tinha deixado de lutar e a olhava, seus olhos a ponto de sair de suas órbitas. Embora estivesse faminta, não podia suportar a idéia de beber dele.

O lesser agarrou seu pescoço com força, e sua voz se fez repugnante.

— Melhor beber dele. Meti-me em muitos problemas de merda para conseguir isto para você.

Ela abriu a boca, sua língua parecia papel de lixa por causa da sede.

— Não…

O lesser pôs uma faca à altura de seus olhos.

— De uma maneira ou outra ele vai sangrar no minuto e meio seguinte. Se eu for trabalhar sobre ele, não vai durar muito tempo. Assim talvez queira tentar, esposa?

Os seus olhos encheram de lágrimas ante a violação que cometeria.

— Sinto tanto. — sussurrou ela ao macho encadeado.

Sua cabeça foi jogada para trás de um puxão, e a palma do lesser bateu em seu rosto do lado esquerdo. A bofetada reverberou pela parte superior de seu corpo, e o assassino agarrou uma mecha de seu cabelo para lhe impedir de cair. Puxou com força, arqueando-a contra ele. Ela não tinha nem idéia de aonde a faca tinha ido.

— Não peça perdão por isso. — apertou sua mão em seu queixo, cavando as gemas dos dedos nos ocos sob suas maçãs do rosto — Sou o único com quem tem que se preocupar. Está claro? Disse, está claro?

— Sim. — ofegou ela.

— Sim, o que?

— Sim, David.

Ele pegou seu braço livre e o dobrou atrás de suas costas. A dor disparou por seu ombro.

— Diga que me ama.

Do nada, a cólera surgiu como uma tormenta de fogo em seu peito. Nunca lhe diria essa palavra. Nunca.

— Diga que me ama. — gritou ele, explodindo o pedido em seu rosto.

Seus olhos cintilaram e despiu as presas. No instante em que o fez a excitação dele disparou fora de controle, seu corpo começou a tremer, seu fôlego se converteu em um ofego rápido. Estava preparado para brigar com ela, excitado com a batalha, preparado como se estivesse ereto para o sexo. Esta era a parte da relação para a qual vivia. Amava lutar contra ela. Tinha-lhe contado que sua antiga mulher não tinha sido tão forte como ela, não tinha sido capaz de durar tanto antes de partir.

— Diga que me ama.     

— Eu. Te. Desprezo.

Enquanto ele levantava sua mão e a fechava em um punho, lhe fulminava com o olhar, séria, tranqüila, preparada para receber o golpe. Ficaram assim durante muito tempo, seus corpos suspensos em arcos gêmeos como um coração, atados pelas cordas da violência que corria entre eles. Ao fundo o macho civil sobre a mesa choramingou.

De repente o lesser a rodeou com seus braços e enterrou a cara em seu pescoço.

— Amo-te. — disse ele — Amo-te tanto… Não posso viver sem você.

— Merda Santa. — disse alguém.

O lesser e Bela contemplaram ao dono da voz. A porta do centro de tortura estava totalmente aberta e um assassino de cabelo pálido estava parado na entrada.

O tipo começou a rir e logo disse as três palavras que provocaram tudo o que aconteceu a seguir:

— Eu vou contar.

David foi atrás do outro lesser em uma corrida mortal, lhe perseguindo do lado de fora.

Bela não vacilou quando os primeiros golpes da luta ressoaram lá fora. Ela trabalhava sobre as correntes que prendiam o pulso direito do civil, liberando os ganchos, desenredando os elos. Nenhum deles disse uma palavra enquanto ela liberava sua mão e logo começava com seu tornozelo direito. Logo que pôde, o macho trabalhou tão rápido como ela, desesperadamente desatando seu lado esquerdo. No segundo em que esteve livre, desceu da mesa e olhou as algemas de aço que a atavam.

— Não pode me salvar. — disse ela — Ele tem as únicas chaves.

— Não posso acreditar que ainda esteja viva. Inteirei-me sobre você…

— Vai embora, vá…

— Ele matará você.

— Não, não o fará. — ele somente ia fazê-la desejar estar morta — Vai embora! Essa luta não vai durar para sempre.

— Voltarei por você.

— Somente chegue em casa. — quando ele abriu a boca, ela disse — Fecha-a, infernos e fique atento. Se puder, diga a minha família que não estou morta. Vai!

O macho tinha lágrimas nos olhos quando os fechou. Ele tomou dois fôlegos longos… E, se desmaterializou.

Bela começou a tremer tanto que caiu no chão, seu braço estirado sobre sua cabeça onde estava algemado à mesa.

Os ruídos da luta pararam bruscamente. Houve um silêncio e logo um brilho de luz e o som de uma explosão. Ela soube sem dúvida nenhuma que seu lesser tinha ganhado.

Oh, Deus. Isso ia ser mau. Este ia ser um dia muito, muito mau.

 

Zsadist ficou de pé sobre a grama nevada de Bela até o último momento possível, e logo se desmaterializou, ao monstro gótico, onde toda a Irmandade vivia. A mansão se parecia com algo de um filme de terror, todas as gárgulas e sombras e janelas de vidro de chumbo. Diante da montanha de pedra havia um pátio cheio de carros, assim como a casa do guarda que era onde Butch e V se alojavam. Uma parede de vinte pés de altura rodeava o complexo e havia uma porta dupla de entrada assim como um bom número de surpresas repugnantes para desencorajar visitantes não desejados.

Z caminhou através das portas de aço da casa principal e abriu um lado delas. Dando um passo no vestíbulo, teclou um código em um teclado numérico e conseguiu acesso imediatamente. Ele fez uma careta enquanto entrava no vestíbulo. O espaço muito alto com suas cores brilhantes, suas folhas de ouro e seu selvagem mosaico do chão se pareciam com um balcão lotado: muito estímulo.

A sua direita, ouviu os sons da cozinha cheia: o tinido suave da prata sobre a porcelana, palavras indistintas de Beth, um sorrisinho de Wrath…Então, a voz baixa de Rhage brincando. Houve uma pausa, provavelmente porque Hollywood fazia uma careta, e logo a risada de todo mundo misturada, saindo em turba como mármores brilhantes através de um piso limpo.

Não estava interessado em misturar-se com seus irmãos, muito menos comer com eles. Todos eles saberiam agora que tinha sido jogado da casa de Bela como um criminoso por passar muito tempo ali. Poucos segredos eram guardados dentro da Irmandade.

Z se encaminhou à magnífica escada, subindo os degraus de dois em dois. Quanto mais rápido ia, mais se emudeciam os sons do jantar, e mais tranqüilo ficava ele. No alto da escada se dirigiu à esquerda e foi ao longo de um corredor comprido enfeitado por estátuas greco-romanas. Os atletas e guerreiros de mármore estavam iluminados por uma iluminação indireta, seus braços, pernas e peitos brancos de mármore formavam um modelo contra a parede vermelho sangue. Se andasse bastante rápido, era como ir pela calçada quando estava em um carro, o ritmo dava animação aos corpos das estátuas quando de fato não se moviam.

A suíte onde dormia estava ao final do corredor, e quando abriu a porta, uma parede de frio o golpeou. Nunca ligava o aquecedor ou o ar condicionado, assim como nunca dormia na cama ou usava o telefone ou punha algo nas antigas escrivaninhas. O armário era a única coisa que necessitava, e foi até ali para desarmar-se. Suas armas e munições estavam guardadas em um gabinete incombustível na parte de trás, e suas quatro camisas e três calças de couro estavam penduradas perto. Com nada mais, freqüentemente pensava em ossos quando estava ali dentro, todos os cabides vazios que pareciam longos e frágeis.

Despiu-se e tomou banho. Tinha fome de comida, mas gostava de manter-se assim. A pontada de fome, o desejo seco da sede… Essas negações que estavam dentro de seu controle sempre o aliviavam. Infernos, se pudesse evitar dormir, evitaria isso também. E, a maldita sede de sangue… Ele queria estar limpo. Por dentro.

Quando saiu da ducha passou o barbeador elétrico sobre sua cabeça para manter seu cabelo baixo sobre sua cabeça e logo fez a barba rapidamente. Nu, com frio, cansado pela fome, aproximou-se de sua plataforma no chão. Quando esteve de pé em cima das duas mantas dobradas que ofereciam tanto amortecimento como um par de tiras, pensou na cama de Bela. A dela era muito grande e toda branca. Capas de travesseiro brancas e lençóis grandes, um edredom branco, um tapete branco aos pés da cama.

Deitou-se em sua cama. Freqüentemente gostava de pensar que podia cheirá-la nela. Às vezes, até se mexia em cima dela, a suavidade cedendo sob seu duro corpo. Era quase como se ela o houvesse roçado então, e melhor que se em realidade o fizesse. Não podia suportar que alguém lhe tocasse… Embora desejasse ter permitido a Bela encontrar um pedaço de sua carne somente uma vez. Com ela, ele poderia ter sido capaz de agüentar.

Seus olhos se moveram pelo crânio enquanto se sentava no chão ao lado da plataforma. As órbitas eram buracos negros, e ele imaginou a combinação da íris e da pupila que uma vez tinham olhado fixamente para fora. Entre os dentes havia uma tira de couro negro de aproximadamente duas polegadas de largura. Tradicionalmente, a expressão de devoção ao falecido estavam inscritas sobre ela, mas a correia que tinha entre as mandíbulas estava em branco.

Quando se deitou, pôs sua cabeça ao lado da coisa e o passado voltou, o ano era 1802…

O escravo estava parcialmente acordado. Estava deitado sobre suas costas e lhe doía por toda parte, embora não pudesse pensar por que… Até que recordou ter passado por sua transição na noite anterior. Durante horas tinha estado mutilado pela dor de seus músculos brotando, seus ossos alargando-se, seu corpo transformando-se em algo enorme.

…Era estranho, de verdade, seu pescoço e seus pulsos doíam de um modo diferente.

Abriu os olhos. O teto estava longe, em cima dele, e marcado com barras magras negras inseridas na pedra. Quando girou sua cabeça, viu uma porta de carvalho com mais grades colocadas verticalmente por suas tábuas grossas. Sobre a parede, também, havia tiras de aço… Na masmorra. Ele estava na masmorra, mas por quê? Fazia seus deveres antes.

Ele tentou sentar-se, mas seus antebraços e tornozelos estavam presos. Seus olhos se ampliaram, puxou…

— Preocupe-se com você. — era o ferreiro. E, havia sido tatuado tiras negras sobre os pontos de bebida do escravo.

Ah, Virgem querida no Fade, não. Não este…

O escravo lutou contra as amarrações, e o outro macho o olhou, furioso.

— Acalme-se! Não serei açoitado por uma falta que não cometi!

— Rogo-lhe isso… — a voz do escravo não soava correta. Era muito profunda — Tenha compaixão.

Ele ouviu uma risada suave, feminina. A Mistress da casa tinha entrado na cela, seu vestido comprido de seda branca se arrastava atrás dela sobre o ladrilhado, seu cabelo loiro descia ao redor de seus ombros.

O escravo deixou cair seus olhos como era apropriado e compreendeu que estava totalmente nu. Ruborizado, envergonhado, desejava estar coberto.

— Está acordado. — disse ela, aproximando-se dele.

Ele não podia compreender por que ela tinha vindo para ver alguém tão humilde como ele. Só era um mero moço da cozinha, alguém mais baixo ainda que as criadas que limpavam seus quartos privados.

— Olhe-me. — ordenou a Mistress.

Fez o que lhe havia dito, embora isto fosse contra tudo o que alguma vez tinha conhecido. Nunca lhe tinham permitido olhá-la fixamente antes.

O que viu foi um choque. Ela o olhava de um modo que nenhuma fêmea o tinha olhado antes. A ganância marcava os refinados ossos de seu rosto, seu olhar escuro estava aceso com alguma espécie de intenção que não podia identificar.

— Olhos dourados. — murmurou ela — Que raros. Que bonito.

Sua mão desceu sobre a coxa nua do escravo. Ele se moveu nervosamente, rechaçando o contato, sentindo-se incômodo. Isto estava mau, pensava. Ela não deveria estar tocando-o.

— Você se converteu em uma surpresa magnífica. Preciso ter cuidado com você, alimentei a alguém que te trouxe para minha atenção.

— Mistress… Imploraria-lhe que me deixasse ir trabalhar.

— Oh, irá. — sua mão foi à deriva através da união de sua pélvis, onde suas coxas se encontravam com seus quadris. Ele saltou e ouviu a maldição suave do ferreiro — E, um favor para mim. Meu escravo de sangue foi vítima de um acidente desafortunado hoje. Assim que seus quartos estejam renovados, será transladado para eles.

O escravo perdeu seu fôlego. Ele sabia do macho que ela tinha mantido preso, já que tinha levado comida à cela. Às vezes, tinha deixado a bandeja com os guardas, tinha ouvido estranhos sons saindo detrás da pesada porta.

A Mistress devia ter reparado em seu medo, porque se inclinou sobre ele, ficando tão perto que pôde cheirar sua perfumada pele. Ela riu brandamente, como se tivesse provado seu medo e o prato a tivesse agradado.

— De verdade, não posso esperar para te ter.

Quando ela se voltou para partir, olhou colericamente ao ferreiro.

— Recorde o que disse ou te enviarei ao amanhecer. Nenhum engano com a agulha. Sua pele é muito perfeita para danificá-la.

A tatuagem foi terminada pouco tempo depois, e o ferreiro levou a vela com ele, deixando o escravo preso sobre a mesa na escuridão.

Ele tremeu de desespero e horror quando seu novo estado se fez real. Agora era o mais baixos dos baixos, mantido vivo unicamente para alimentar a outro… E, só a Virgem sabia o que lhe esperava.

Passou um comprido momento antes que a porta se abrisse outra vez e a luz da vela lhe mostrasse que seu futuro tinha chegado: a Mistress com um vestido negro e dois machos conhecidos por seu amor a seu próprio sexo.

— Limpem-no para mim. — ordenou ela.

A Mistress olhou como o escravo foi lavado e lubrificado com azeite, ela se moveu ao redor de seu corpo enquanto a luz da vela se movia, nunca permanecia quieta. O escravo tremia, odiando a sensação das mãos dos machos sobre seu rosto, seu peito, suas privacidades. Ele tinha medo de que um ou ambos tentassem tomar a ele de um modo sujo.

Quando terminaram, o mais alto deles disse:

— Testaremo-lo para você, Mistress?

— O guardarei para mim esta noite.

Ela deixou cair seu vestido e agilmente subiu à mesa, sentando-se com uma perna de cada lado sobre o escravo.

Suas mãos procuraram sua carne privada, e enquanto o acariciou ele era consciente dos outros machos pegando-se a si mesmos com as mãos. Quando o escravo permaneceu flácido, ela o cobriu com seus lábios. Os sons no quarto eram horrorosos, os gemidos dos machos e a boca da Mistress chupando e açoitando-o.

A humilhação foi completa quando o escravo começou a chorar, lágrimas derramando-se pelos cantos de seus olhos, caindo por suas têmporas até os ouvidos. Nunca o haviam tocado entre suas pernas antes. Como um macho de pre-transição, seu corpo não tinha estado preparado para o acoplamento ou capaz disso, embora isso não lhe tivesse impedido de pensar com muita ilusão em estar um dia com uma fêmea. Sempre tinha imaginado que a união seria maravilhosa, já que nos quartos dos escravos tinha visto o ato de prazer em algumas ocasiões.

Mas, agora… Ter intimidade acontecendo deste modo, envergonhava-se de haver-se atrevido a desejar algo.

Bruscamente, a Mistress o liberou e o pegou com a mão através do rosto. A impressão da palma picava sobre sua bochecha enquanto ela descia da mesa.

— Tragam-me o bálsamo. — disse ela bruscamente — Sua coisa não está funcionando.

Um dos machos avançou para a mesa com um pequeno pote. O escravo sentiu que alguém deslizava uma mão sobre ele, não estava seguro quem, e logo houve uma sensação ardente. Um curioso peso se instalou em sua virilha, sentia que algo mudava em sua coxa e então devagar se moveu através de seu estômago.

— Ah… Santa Virgem do Fade! — disse um dos machos.

— Grande tamanho. — respirou o outro — Poderia derramar-se completamente no profundo de um poço…

A voz da Mistress também soava assombrada.

— É enorme.

O escravo levantou a cabeça. Havia uma coisa poderosa aumentada, caída sobre seu ventre, que não se parecia com nada que tivesse visto antes.

Inclinou-se para trás outra vez enquanto a Mistress montava seus quadris. Esta vez sentiu algo o engolindo, um pouco molhado. Levantou a cabeça outra vez. Ela estava aberta sobre ele e ele estava dentro de seu corpo. Ela se movia contra ele, montando-o para cima e para baixo, ofegando. Era fracamente consciente de que os outros machos no quarto estavam gemendo outra vez, os sons guturais cresciam mais fortes à medida que ela se movia mais e mais rápido. E, logo houve gritos, os dela, os deles.

A Mistress derrubou-se sobre o peito do escravo. Enquanto ainda respirava pesadamente, ela disse:

— Mantenham sua cabeça baixa.

Um dos machos pôs a palma sobre a testa do escravo e logo lhe acariciou o cabelo com sua mão livre.

— Tão encantador. Tão suave. E, olhe todas as cores.

A Mistress enterrou o rosto no pescoço do escravo e o mordeu. Ele gritou pela espetada e ela tomou. Ele tinha visto machos e fêmeas beberem uns dos outros antes, e sempre tinha parecido correto… Mas, isto doía e o fazia sentir-se enjoado, e quanto mais duro sugava ela de sua veia, mais enjoado se sentia.

Devia ter desmaiado, porque quando despertou ela levantava a cabeça e lambia os lábios. Ela desceu dele, vestiu-se e os três o deixaram sozinho na escuridão. Momentos depois, os guardas a quem conhecia entraram.

Os outros machos evitaram lhe olhar, embora ele tivesse amizade com eles antes, porque ele lhes tinha dado sua cerveja. Agora, eles mantinham seus olhos afastados e não lhe falavam. Quando olhou para baixo, envergonhou-se de que qualquer bálsamo que lhe tivessem posto ainda funcionasse, porque sua parte privada ainda estava rígida e grosa.

O brilho sobre isso lhe deu náuseas.

Quis dizer desesperadamente a qualquer um dos machos que não era sua culpa, que estava tentando fazer com que sua carne baixasse, mas estava muito diferente para falar quando os guardas liberaram seus braços e tornozelos da mesa. Quando levantou, balançou, porque tinha estado sobre suas costas durante horas e só tinha passado um dia desde sua transição. Ninguém lhe ajudou enquanto lutava por permanecer ereto, e sabia que era porque não queriam tocá-lo, não queriam estar perto dele agora. Foi cobrir-se, mas eles lhe puseram grilhões de uma maneira tão perita que não ficou com nenhuma mão livre.

A vergonha piorou quando teve que andar pelo corredor. Podia sentir o pesado peso em seus quadris saltando com seus passos, balançando-se obscenamente. Lágrimas derramando-se e deslizando-se por suas bochechas, e um dos guardas soprou com repugnância.

O escravo foi levado a uma parte diferente do castelo, a outro quarto solidamente murado com barras de aço embutidas. Este tinha uma plataforma com uma cama, um urinol apropriado, uma manta e as tochas sobre as paredes. Quando foi introduzido, havia comida e água, provisões deixadas pelo moço da cozinha a quem conhecia de toda a vida. O macho em pre-transição também se recusou a olhá-lo.

As mãos do escravo foram liberadas e foi trancado.

Desnudo e trêmulo, aproximou-se de uma esquina e se sentou no chão. Aconchegou seu corpo com cuidado, como ninguém mais, e tratou de ser amável com sua nova forma depois da transição… Uma forma que tinha sido usada de um modo incorreto.

Enquanto se balançava para frente e para trás, preocupou-se com seu futuro. Nunca tinha tido nenhum direito, nenhum estudo, nenhuma identidade. Mas, ao menos antes tinha sido livre de mover-se ao redor. E, seu corpo e seu sangue eram dele.

A lembrança da sensação daquelas mãos sobre sua pele lhe provocou uma quebra de onda de náuseas. Olhou para baixo a suas partes e se deu conta de ainda podia cheirar a Mistress nele. Perguntou-se quanto tempo duraria o inchaço.

E, o que aconteceria quando ela voltasse a procurar por ele.

 

Zsadist esfregou seu rosto e voltou-se. Ela havia voltado a procurar por ele. E, nunca tinha vindo sozinha.

Fechou os olhos contra as lembranças e tentou dormir. A última coisa que cintilou por sua mente foi uma imagem da granja de Bela com seu prado nevado.

Deus, aquele lugar estava tão vazio, deserto embora estivesse cheio de coisas. Com o desaparecimento de Bela tinha sido despojado de sua função mais importante: embora ainda fosse uma boa estrutura e capaz de manter fora ao vento, ao tempo e aos estranhos, já não era mais um lar.

Sem alma.

De algum jeito, a granja era assim como ele.

 

O amanhecer tinha chegado quando Butch O'Neal deixou o Escalade no pátio. Enquanto saía, podia ouvir G-Unit soando a todo volume na Cova, assim sabia que seu companheiro de quarto estava dentro. V tinha que ter sua música de rap, essa droga era como o ar para ele. Dizia que essas pulsações do baixo lhe ajudavam a manter as intrusões dos pensamentos de outras pessoas em um nível manejável.

Butch caminhou para a porta e teclou o código. Um ferrolho se abriu de repente, com um pequeno som e entrou em um vestíbulo, onde fez outro registro. Os vampiros eram grandes especialistas em sistemas de portas duplas. Assim, nunca se preocupavam se por acaso alguém invadia sua casa com luz solar, porque uma das portas estava sempre fechada.

A casa, também chamada a Cova, não era muito fantástica, só uma sala de estar, uma cozinha, e duas suítes com dormitório e banheiro. Mas, gostava, e gostava do vampiro com o qual vivia. Seu companheiro de quarto e ele estavam unidos como… Bom, irmãos.

Quando entrou na sala, os sofás de couro negro estavam vazios, mas o SportsCenter estava na TV de plasma, e o perfume achocolatado da fumaça vermelha estava por toda parte. Assim, Phury estava em casa, ou acabava de sair.

— Olá, Lucy. — gritou Butch.

Os dois Irmãos chegaram por suas costas. Ambos ainda estavam vestidos com suas roupas de luta, o couro e as botas de cowboy lhes fazendo parecer-se exatamente os assassinos que eram.

— Parece cansado, policial. — disse Vishous.

— Realmente, sinto-me feito pó.

Butch observou a boca fina de Phury. Embora tivesse deixado seus dias de drogas há muito tempo, esta noite quase recaiu e pediu um trago dessa fumaça vermelha. A coisa era, que já tinha dois vícios assim, estava bastante ocupado.

Sim, beber uísque escocês e sentir-se nostálgico depois de que um vampiro fêmea não lhe quisera era tudo para o que tinha tempo. Além disso, não havia razão para estragar um sistema que funcionava. O rechaço alimentava a bebida, e quando estava bêbado, sentia ainda mais falta de Marissa, assim queria tomar outro gole… E, ali o tem. Um inferno de ciclo vicioso. Inclusive, o quarto dava voltas, também.

— Falou com Z? — perguntou Phury.

Butch tirou seu casaco de cachemira e o pendurou no armário.

— Sim. Não estava feliz.

— Vai se manter afastado dali?

— Acredito que sim. Bom, presumindo que não botou fogo no lugar depois que me expulsou a chutes. Tinha esse brilho especial em seus olhos quando saí, sabe, aquele que faz com que seus testículos se apertem quando está a seu lado?

Phury passou uma mão entre seu escandaloso cabelo. Caíam sob seus ombros, fios loiros, vermelhos e castanhos. Seria um tipo de aparência agradável sem esse cabelo, com essa juba, era… Bem, bem, o irmão era lindo. Butch não era desse time, mas o tipo era bem visto por um montão de mulheres. Vestia-se melhor que a maior parte das senhoras também, quando não vestia suas roupas de chutar traseiros.

Homem, era uma coisa boa que lutasse como um sujo bastardo ou poderia ter sido tomado por uma Nancy.

Phury inspirou com uma respiração profunda.

— Obrigado por falar com...

Uma campainha soou em um escritório cheio de computadores.

— Fora de linha. — murmurou V, indo a seu centro IT.

Vishous era o gênio dos computadores na Irmandade, realmente era um gênio em tudo e se encarregava das comunicações e da segurança no lugar. Dirigia tudo dos Quatro Brinquedos, como chamava o seu quarteto de PCs.

Brinquedos… Sim, claro. Butch não sabia muito a respeito de computadores, mas se essas tolices eram brinquedos, então estavam no campo de jogo do Departamento de Defesa também.

Enquanto V esperava a chamada para enviá-la ao correio de voz, Butch percorreu Phury com o olhar.

— Então, mostrei a você meu novo traje Marc Jacobs?

— Já chegou?

— Sim, Fritz o comprou mais cedo e o arrumou.

— Genial.

Enquanto iam aos dormitórios, Butch teve que rir. Era tão culpado quanto Phury de começar essa onda metrossexual[8]. Era engraçado, já que não tinha dado nada por suas roupas quando era um policial. Agora, que estava com os Irmãos, estava trabalhando seu caminho na alta costura e o amava. Assim, como Phury, tinha sorte de brigar sujo.

O Irmão estava acariciando a fina lã negra em um cabide e fazendo apropriados "ahhhs” quando V entrou.

— Bela está viva.

Butch e Phury giraram suas cabeças ao redor enquanto o traje aterrissava no chão, amontoando-se.

— Um varão civil foi seqüestrado do beco que há atrás do Zero-Sum esta noite e levado para um lugar no bosque com o propósito de alimentar a Bela. Viu-a. Falou com ela. De certa forma, ela lhe ajudou a escapar.

— Diga-me que pode encontrar o lugar outra vez. — suspirou Butch, consciente da urgência sufocante. E, ele não era o único em alerta instantâneo. Phury se via tão tenso que não parecia capaz de falar.

— Sim. Marcou sua rota de escapamento, desmaterializando-se duzentas jardas cada vez até que alcançou a Rota 22. Envia-me por correio eletrônico o caminho em um mapa. Malditamente bem preparado para um civil.

Butch saiu correndo para a sala de estar, dirigindo-se para seu casaco e as chaves do Escalade. Não tinha tirado seu coldre, assim que seu Glock ainda estava preso sob seu braço.

Mas, V se pôs entre ele e a porta.

— Aonde vai, homem?

— Já recebeu esse mapa através de seu correio eletrônico?

— Pare.

Butch olhou a seu companheiro de quarto.

— Não pode sair durante o dia. Eu posso. Por que infernos deveríamos esperar?

— Policial. — a voz de V se tornou suave — Isto é assunto da Irmandade. Não vai se meter nisto.

Butch paralisou. Ah, sim, suspender a operação outra vez.

Seguramente, podia trabalhar perto de sua periferia, fazer alguma análise da cena do crime, pôr seu cérebro para pensar sobre os problemas táticos. Mas, quando a briga começava, os Irmãos sempre lhe mantinham fora do campo.

— Maldito seja, V.

— Não. Não vai se encarregar disto. Esquece.

 

Foi só duas horas depois que Phury tinha bastante informação para ir ao quarto de seu gêmeo. Acreditava que não teria que perturbar Zsadist com a metade da história, e tinha levado um tempo esboçando um plano.

Quando bateu na porta e não houve uma resposta, entrou e se sobressaltou. O quarto estava frio como uma geladeira.

— Zsadist?

Z jazia em um par de mantas dobradas na esquina mais longínqua, seu corpo nu coberto contra o frio do quarto. Havia uma cama suntuosa a não mais de dez pés dele, mas nunca tinha sido usada. Z dormia no chão sempre, não importava onde vivesse.

Phury se aproximou e ajoelhou ao lado de seu gêmeo. Não ia tocar ao varão, especialmente quando podia lhe pegar despreparado. Z provavelmente lhe atacaria.

Meu Deus, pensou Phury. Dormindo assim, toda sua cólera dissolvida, Z era quase frágil.

Maldição, tire o quase. Zsadist sempre tinha estado tão malditamente magro, tão terrivelmente fraco. Agora, entretanto, simplesmente era ossos grandes e veias. Quando tinha ocorrido isto? Cristo, durante o rythe de Rhage, todos tinham estado nus na Tumba, e Z certamente não parecia um esqueleto. Disso tinham passado aproximadamente só seis semanas.

Justo antes do seqüestro de Bela.

— Zsadist? Desperte, irmão.

Z se moveu, seus olhos negros abrindo-se lentamente. Usualmente despertava depressa e com o ruído mais leve, mas tinha se alimentado, assim estava preguiçoso.

— Foi encontrada. — disse Phury — Bela foi encontrada. Estava viva esta manhã cedo.

Z piscou um par de vezes, como se não estivesse seguro de que não estava sonhando. Logo levantou seu torso fora da plataforma. Os anéis dos mamilos se refletiram com a luz do vestíbulo enquanto esfregava o rosto.

— O que disse? — perguntou com voz grave.

— Temos uma confirmação de onde Bela está. E, que está viva.

Z ficou alerta, sua consciência movendo-se como um trem, reunindo-se depressa, criando poder por momentos. Com cada segundo sua força voltava de novo, a vitalidade cruel surgindo até que já não se viu fraco, absolutamente.

— Onde está? — perguntou.

— Em uma casa no bosque. Um varão civil fugiu porque ela o ajudou a escapar.

Z saltou sobre seus pés, aterrissando agilmente no chão.

— Como me aproximo dela?

— O varão que escapou enviou a V pelo correio eletrônico as instruções. Mas...

Z se dirigiu para seu armário.

— Obtém um mapa para mim.

— Não é o momento, meu irmão.

Z se deteve. Abruptamente uma explosão de frio saiu de seu corpo, fazendo com que a temperatura do quarto se sentisse balsâmica. E, seus olhos negros se tornaram perigosos como pregos quando brilharam sem parar sobre seu ombro.

— Envie o policial. Envie o Butch.

— Tohr não deixará.

— À merda com isso! O humano vai.

— Zsadist, pare. Pense. Butch não teria nenhum apoio, e poderia haver vários lessers no lugar. Quer se arriscar a que a mate em uma tentativa de resgate incompetente?

— O policial pode cuidar-se.

— É bom, mas é só um humano. Não podemos lhe enviar ali dentro.

Z deixou suas presas descobertas.

— Talvez Tohr esteja mais preocupado que o tipo fique preso e nos delate em uma de suas mesas.

— Vamos, Z, Butch sabe, droga. Sabe uma parte de merda a respeito de nós. Assim, é óbvio que há uma parte disso.

— Mas se ela ajudou um cativo a escapar, então que diabos pensa que esses lessers lhe estão fazendo agora mesmo?

— Se um grupo de nós vai ao pôr-do-sol, então temos mais probabilidades de tirá-la com vida. Sabe. Temos que esperar.

Z permaneceu de pé ali, nu, respirando profundamente, seus olhos eram fatias estreitas de ódio rancoroso. Quando finalmente falou, sua voz era um grunhido sujo.

— Melhor que Tohr reze a Deus para que ainda esteja viva quando a encontrar esta noite. Ou terei sua fudida cabeça, irmão ou não irmão.

Phury pousou seus olhos na caveira do chão, pensando que Z já tinha provado o quanto era bom na decapitação.

— Ouviu-me, irmão? — gritou o varão.

Phury inclinou a cabeça. Homem, tinha um mau pressentimento sobre como ia sair tudo isto. Realmente tinha.

 

Enquanto O conduzia seu F-150 ao longo da Rota 22, o sol poente das quatro lhe irritava os olhos e sentia como se tivesse ressaca. Sim… Junto com a dor de cabeça, tinha os mesmos efeitos no corpo que costumava ter depois de uma noite bebendo muito, pequenos tremores agitando sob sua pele, como vermes.

A longa linha de arrependimento que vinha depois também lhe recordava seus dias de ressaca. Como quando despertou ao lado de uma mulher feia, a qual desprezava, mas com quem havia transando de todas as formas. Tudo era justo assim… Só que muito, muito pior.

Moveu suas mãos no volante. Seus nódulos estavam claramente machucados e sabia que tinha arranhões no pescoço. Enquanto as imagens do dia lhe cegavam, seu estômago se revolvia. Estava aborrecido pelas coisas que tinha feito a sua mulher.

Bom, agora estava aborrecido. Quando as estava fazendo… Tinha sido correto.

Cristo, deveria ter sido mais cuidadoso. Era um ser vivo, depois de todo… Droga, o que ocorreria se tivesse ido muito longe? Oh, homem… Nunca deveria ter se deixado levar dessa forma. O problema era que assim que viu que ela tinha libertado o varão que havia lhe trazido, ficou perdido. Somente explodiu diretamente contra ela.

Levantou seu pé da embreagem. Queria voltar, tirá-la de seu tubo e reconfortar-se sabendo que ainda respirava. Porém, não havia tempo suficiente antes que a reunião dos Primes começasse.

Enquanto pisava no acelerador, soube que não poderia deixá-la uma vez que a visse de qualquer maneira, logo o Fore-lesser lhe faria uma visita. E, isso seria um problema. O centro de tortura parecia um desastre. Maldição.

O desacelerou e virou à direita, com o caminhão movendo-se da Rota 22 a uma estrada de terra de mão única.

A cabana do Senhor X, também quartel general da Sociedade Restritora, estava no meio de um bosque de setenta e cinco acres, completamente isolada. O lugar não era nada mais que um pequeno grupo de tábuas com um teto verde escuro de uma só sala e um quarto acessório da metade do tamanho atrás dela. Quando O parou no caminho, havia sete carros e caminhões estacionados com uma configuração imprecisa, todos eles domésticos, muitos deles com menos de quatro anos de uso.

O caminhou para dentro da cabana e viu o último que desejava. Outros dez Principais estavam apinhados no sombrio interior, suas caras pálidas, seus corpos pesados, com músculos. Estes eram os Lessers mais fortes da Sociedade, os que tinham estado mais tempo. O era a única exceção quanto ao tempo de serviço. Tinham passado só três anos desde sua iniciação, e nenhum deles gostava dele porque era novo.

Não era que tivessem voto. Era tão resistente como qualquer Principal e tinha provado. Fodidos ciumentos… Homem, nunca ia ser como eles, somente era superado pelo Ômega. Não podia acreditar que os idiotas estivessem orgulhosos de sua palidez com o passar do tempo e o desaparecimento de suas identidades. Ele brigava contra o desvanecimento. Coloria seu cabelo para conservá-lo de cor café escuro que sempre tinha tido, e temia o empalidecimiento gradual de sua íris. Não queria parecer-se com eles.

— Chegou tarde. — disse o Sr. X. As costas do Fore-lesser estavam apoiadas contra um refrigerador que não estava ligado, seus pálidos olhos pousando-se sobre os arranhões que havia por todo o pescoço de O. — Esteve lutando?

— Já sabe como são esses Irmãos.

O encontrou um lugar para ficar na frente. Embora ele inclinasse a cabeça para seu sócio, U, não reconheceu a nenhum outro.

O Fore-lesser seguia olhando-o.

— Alguém viu o Senhor M?

Droga, pensou O. Esse lesser se pôs em seu caminho e ele e sua esposa tinham que ser levados em consideração.

— O? Tem algo a dizer?

Da esquerda, U falou sem temor.

— Vi o M. Justo antes de amanhecer. Brigando com um Irmão no centro.

Enquanto o Senhor X desviava seu olhar fixo à esquerda, O estava friamente horrorizado pela mentira.

— Você o viu com seus próprios olhos?

A voz do outro lesser foi estável.

— Sim.

— Por acaso você está protegendo O?

Era o que tinha que perguntar. Os lessers eram valentões, sempre lutando uns com os outros pela posição. Ainda entre sócios havia pouca lealdade.

— U?

A pálida cabeça do tipo se sacudiu.

— Atua sem ajuda de ninguém. Por que perderia minha pele pela dele?

Claramente, nisso havia algo de lógico e o Senhor X sentiu que podia confiar, porque continuou com a reunião. Depois que as cotas de presas e capturas fossem atribuídas, o grupo se dissolveu.

O se aproximou de seu sócio.

— Eu tenho que voltar para o centro antes de sairmos para caçar. Quero que me siga.

Tinha que inteirar-se porque U lhe tinha salvado o traseiro, e não estava preocupado que o outro lesser visse a forma em que o lugar tinha ficado. U não causaria problema. Ele não era particularmente agressivo ou um pensador independente, era mais operador que inovador.

O que tornava ainda mais estranho que tivesse tomado a iniciativa que tinha tomado.

 

Zsadist cravou os olhos no relógio de parede do vestíbulo da mansão. Pela colocação dos ponteiros do relógio sabia que tinha oito minutos antes que o sol estivesse oficialmente posto. Graças a Deus que era inverno e as noites eram longas.

Observou os portões, sabendo justamente aonde iria logo que pudesse passar através deles. Aprendeu de cor a localização que o varão civil lhes tinha dado. Podia desmaterializar-se e estar ali em uma piscada.

Sete minutos.

Seria melhor esperar até que o céu estivesse totalmente escuro, mas que se fudessem. No instante em que a bola de fogo deixada pela mão de Deus escorregasse pela borda do horizonte, sairia. Ao inferno se com isso acabasse como uma cadela bronzeada.

Seis minutos.

Voltou a verificar as adagas em seu peito. Tirou a SIG Sauer do coldre de seu quadril direito e a examinou rapidamente uma vez mais, logo fez o mesmo com a que estava na esquerda. Tratou de tocar a pequena faca colocada em suas costas e as estrela de seis polegadas que tinha em sua coxa.

Cinco minutos.

Z girou a cabeça para o lado, fazendo estralar seu pescoço para relaxá-lo.

Quatro minutos.

À merda com isto. Ia agora...

— Fritará você. — disse Phury atrás dele.

Z fechou seus olhos. Seu impulso foi repartir golpes, e o desejo se tornou irresistível enquanto Phury seguia falando.

— Z, amigo, como vai ajudá-la se cair em cheio sobre sua cara e começa a jogar fumaça?

— Tenta ser um desmancha-prazeres? Ou isso sai de forma natural? — o olhar de Z brilhou intensamente sobre seu ombro, teve uma lembrança repentina daquela noite quando Bela tinha vindo à mansão.

Phury tinha parecido tão assanhado por ela, e Z recordou aos dois juntos, falando, justo onde suas botas estavam plantadas agora. Tinha-os observado das sombras, querendo-a enquanto ela tinha sorrido e rido com seu gêmeo.

A voz de Z se voltou mais definida.

— Pensava que a queria de volta, sendo que ela queria você e droga, pensei que fosse bonito. Ou… Talvez queira que desapareça por isso. Seu voto de celibato foi sacudido, meu irmão?

Como Phury se sobressaltou, o instinto de Z pela fraqueza se liberou.

— Todos nós lhe vimos examinado-a na noite que veio aqui. Olhava-a, verdade? Sim, fez isso, e não só a sua cara. Perguntou-se como ela se sentiria debaixo de você? Ficou nervoso sobre romper a promessa de não ter sexo?

A boca de Phury se apertou em uma linha, e Z esperou que a resposta do varão fosse suja. Queria algo duro de retorno a ele. Talvez, ainda pudesse lutar nos três minutos restantes.

Mas só houve silêncio.

— Nada a dizer? — Z percorreu o relógio com o olhar.

— Está bem. É hora de ir.

— Sangro por ela. Tanto quanto você.

O olhar de Z retornou a seu gêmeo, presenciando a dor na cara do varão à distância, como se estivesse olhando através de um par de binóculos. Teve um pensamento passageiro sobre que deveria sentir algo, algum tipo de vergonha ou pena por obrigar Phury a fazer uma revelação tão íntima, amarga.

Sem falar, Zsadist se desmaterializou.

Triangulou seu reaparecimento em uma área arborizada a aproximadamente cem jardas de onde o varão civil disse que tinha fugido. Quando Z tomou forma, a luz mortiça no céu lhe cegou, lhe dando a impressão de que tinha se alistado como voluntário para uma massagem facial com ácido. Ignorou o ardor e se dirigiu em direção nordeste, correndo sobre a neve que cobria a terra.

Então, ali estava, na metade do bosque, a cerca de uns cem pés de um rio: havia uma casa de um só cômodo com um Ford negro F-150 e um Taurus prateado difícil de descrever estacionado a um lado. Z se moveu de lado pela estrutura, ficando atrás dos finos ramos dos pinheiros, movendo-se silenciosamente na neve enquanto trabalhava o perímetro do edifício. Não tinha janelas e só uma porta. Através das paredes finas podia ouvir movimento, conversa.

Tirou uma de suas SIGs, tirando a trava de segurança, e considerou suas opções. Desmaterializar-se dentro era um movimento tolo, porque não sabia o desenho interior. E, sua única alternativa, embora boa, não era muito estratégica tampouco: derrubar a porta a pontapés e entrar disparando era malditamente atraente, mas por mais suicida que fosse, não ia arriscar a vida de Bela iluminando o lugar.

Salvo pelo milagre dos milagres, um lesser saiu do edifício, a porta fechando-se com uma bofetada. Momentos mais tarde um segundo o seguiu, e então ali estava o pip pip de um alarme de segurança ativando-se.

O primeiro instinto de Z foi atirar na cabeça de ambos, mas pôs o dedo ao lado do gatilho. Se os assassinos tinham ativado o alarme, havia uma boa probabilidade que não houvesse ninguém mais na casa, e suas oportunidades de tirar bela tinham melhorado. Mas, o que ocorreria se apesar de tudo o lugar estivesse vazio? Então, tudo o que faria era anunciar sua presença e fazer explodir uma tempestade de merda.

Observou aos dois lessers enquanto subiam ao caminhão. Um deles tinha o cabelo cor café, o que usualmente queria dizer que o assassino era um novo recruta, mas este tipo não atuava como um novato imbecil: estava seguro em suas botas e dirigia a conversa. Seu camarada de cabelo pálido era o que mostrava uma inclinação na cabeça.

O motor pôs-se a funcionar e o caminhão girou, amontoando neve sob suas rodas. Sem luzes dianteiras, o F-150 se dirigiu por um caminho apenas perceptível através das árvores.

Ver partir a esses dois bastardos era uma prova de escravidão, com Z convertendo os grandes músculos de seu corpo em cordas de ferro sobre seus ossos. Era fazer isso ou já estaria na capota do caminhão, fazendo pedaços do pára-brisa com seu punho, tirando os filhos da puta de seus lugares para poder lhes morder.

Quando o som do caminhão se desvaneceu, Z escutou atentamente o silêncio que seguiu. Quando não ouviu nada, voltou a querer saltar através da porta, mas pensou no alarme e verificou seu relógio. V estaria ali em aproximadamente um minuto e meio.

Mataria a ele. Mas, esperaria.

Enquanto avançava com suas botas de cowboy, deu-se conta do aroma, algo no ar… Que entrou pelo nariz. Havia propano perto, em algum lugar fechado. Provavelmente alimentando o gerador. E, o querosene de um aquecedor. Mas, havia algo distinto, uma espécie de fumaça, de queimado. Olhou suas as mãos, perguntando-se se estava em chamas e não se dera conta. Não.

Que diabos?

Seus ossos esfriaram de repente quando se deu conta do que era. Suas botas estavam plantadas na metade de um círculo tostado de terra firme, um do tamanho de um corpo. Algo tinha sido incinerado nas últimas doze horas, justo onde estava parado, pelo aroma.

Oh… Deus. Tinham-na deixado do lado de fora, no sol?

Z dobrou suas pernas agachando-se, pondo sua mão livre sobre a terra murcha. Imaginou Bela ali quando o sol saiu, imaginou sua dor dez mil vezes pior que o que tinha sentido ao materializar-se.

O lugar enegrecido se tornou pouco definido.

Esfregou o rosto e logo cravou os olhos em sua palma. Havia umidade nela. Lágrimas?

Sondou seu peito para saber o que sentia, mas o único que chegou foi informação a respeito de seu corpo. Seu torso arqueava porque seus músculos estavam fracos. Sentia-se enjoado e vagamente doente. Mas, isso era tudo. Não havia emoções nele.

Esfregou o peito e estava a ponto de fazer outra varredura com suas mãos, quando um par de botas entrou em sua linha de visão.

Olhou para cima, ao rosto de Phury. A coisa era uma máscara, todo frio e duro.

— Isso era ela? — disse com voz rouca, ajoelhando-se.

Z se sacudiu para trás, com muita dificuldade conseguindo deixar a pistola fora da neve. Não podia estar em nenhum lugar perto de alguém agora mesmo, especialmente de Phury.

Em uma repugnante confusão, ficou de pé.

— Vishous já está aqui?

— Justo atrás de você, meu irmão. — murmurou V.

— Há… — esclareceu a garganta. Esfregando o rosto no antebraço — Há um alarme de segurança. Penso que o lugar está vazio, porque dois assassinos acabam de sair, mas não estou seguro.

— Estou com o alarme.

Z sentiu vários aromas de repente ressoando através dele. Toda a Irmandade estava ali, inclusive Wrath, o qual como rei não se supunha que estaria no campo. Estavam todos armados. Todos tinham vindo para levá-la de volta.

O grupo se alinhou contra a casa enquanto V forçava o ferrolho da porta. Seu Glock entrou primeiro. Quando não houve reação, escorregou dentro e trancou-se. Um momento mais tarde houve um pip comprido. A porta abriu.

— Bom, vamos.

Z se apressou a seguir na frente, virtualmente empurrando ao varão.

Seus olhos penetraram nas esquinas escuras da sala. O lugar era uma desordem, com sujeira esparramada por todo o piso… Roupas, facas, algemas e fracos de… Xampu? E, que merda era isso? Deus, um estojo de primeiros-socorros aberto, a gaze e o esparadrapo fora da tampa quebrada. A coisa parecia que tinha sido golpeada até que se abriu.

O coração golpeava em seu peito, o suor floresceu por todo seu corpo, procurou Bela e viu apenas objetos inanimados: uma parede com uma estante que tinha instrumentos de tortura. Uma cama de armar. Um armário de metal a prova de fogo do tamanho de um carro. Uma mesa de autópsias com quatro conjuntos de algemas de aço pendurado de suas esquinas… E, o sangue manchando sua superfície lisa.

Pensamentos aleatórios disparavam através do cérebro de Z. Estava morta. Esse ovalóide queimado o provava. Mas, o que ocorreria se fosse somente outro cativo? O que ocorreria se tivesse sido transferida ou algo pelo estilo?

Seus irmãos ficaram atrás, tinham melhor critério que meter-se no meio, Z foi ao armário a prova de fogo, levando uma pistola na mão. Abriu as portas, somente puxando os painéis de metal e os dobrou até que as dobradiças se romperam. Atirou as pesadas partes, ouvindo-as cair estrepitosamente.

Armas. Munição. Explosivos plásticos.

O arsenal de seus inimigos.

Entrou no banheiro. Nada, exceto uma ducha e uma bacia sanitária.

— Não está aqui, meu irmão. — disse Phury.

Em um ataque de fúria Z se lançou sobre a mesa de autópsia, agarrando-a com uma mão e empurrando-a contra uma parede. No meio do vôo, uma corrente se chocou com ele, lhe batendo no ombro, cravando-se até o osso.

E, logo ouviu. Um som suave de choramingos.

Sua cabeça girou à esquerda.

Na esquina, no chão, havia três tubos cilíndricos de metal projetando-se da terra firmes, e selados com uma tampa de malha blindada, marrom escuro como a sujeira do chão. O que explicava que não os tivesse percebido.

Aproximou-se e chutou fora uma das cobertas. O choramingo se tornou mais forte.

Repentinamente enjoado, caiu de joelhos.

— Bela?

Gritos subiram da terra para lhe responder. Deixou cair sua pistola. Como elevá-la...? Havia umas cordas saindo do que parecia uma boca-de-lobo. Pegou uma delas e puxou devagar.

O que emergiu foi um varão sujo, ensangüentado, teriam passado dez anos desde sua transição. O civil estava nu e trêmulo, seus lábios azuis, seus olhos percorriam ao redor.

Z lhe arrastou para fora, e Rhage abrigou ao varão com seu casaco de couro.

— Tire ele daqui. — disse alguém enquanto Hollywood cortava as cordas.

— Pode desmaterializar-se? — perguntou outro Irmão ao varão.

Z prestou pouca atenção à conversa. Ia ao seguinte buraco, mas não havia cordas que saíssem de debaixo, e seu nariz não detectou perfume. A coisa estava vazia.

Estava dando um passo para o terceiro, quando o cativo gritou:

— Não! Implantou uma armadilha!

Z congelou.

— Como?

Com os dentes batendo feito castanholas, o civil disse:

— Não sei. Mas ouvi o l-lesser advertir a um de seus homens sobre ela.

Antes que Z pudesse perguntar, Rhage começou a percorrer o quarto.

— Há uma arma aqui. Apontada nessa direção.

Houve estalos de metal e deslocamento.

— Já não está armada.

Z olhou por cima do buraco. Montado sobre as vigas expostas do teto, aproximadamente a quinze pés do chão, havia um dispositivo pequeno.

— V, o que temos aqui?

— Laser óptico. Se o interromper, provavelmente se acionará.

— Mantêm-te firme. — disse Rhage — Há outra pistola para esvaziar aqui.

V acariciou seu cavanhaque.

— Deve haver um ativador por controle remoto, embora o tipo provavelmente o levasse com ele. Isso é o que eu faria. — olhou de esguelha o teto — Esse modelo, em particular, funciona com baterias de lítio. Assim, não podemos destroçar o gerador para fechá-lo. E, têm seu truque para desarmar-se.

Z olhou a seu redor em busca de algo que pudesse usar para tirar a tampa e pensou no banheiro. Entrou, arrancou a cortina da ducha, e colocou o pau na qual estava pendurada nas costas.

— Todo mundo fora.

Rhage falou agudamente.

— Z, homem, não sei se encontrei todos os...

— Leve o civil com você. — quando ninguém se moveu, amaldiçoou — Não há tempo para perder, e se alguém ficar ferrado então, vou ser eu. Jesus Cristo, saiam, Irmãos!

Quando o lugar ficou vazio, Z se aproximou do buraco. Voltando a colocar nas costas umas das armas que tinha tirado, acaso tivesse estado em sua linha de fogo, deu um golpe com o pau. Um disparo saiu com um som retumbante.

Z percebeu o golpe em sua perna esquerda. O impacto abrasador lhe fez cair sobre um joelho, mas o ignorou e se arrastou para o pescoço do tubo. Segurou as cordas que prendiam a tampa na terra firme e começou a puxar.

A primeira coisa que viu foi seu cabelo. O cabelo comprido, belo da cor mogno de Bela estava por toda parte ao redor dela, um véu sobre seu rosto e seus ombros.

Dobrou-se e a perdeu de vista, em parte desfalecendo-se, mas até através do enjôo de seu corpo, continuou puxando. De repente o esforço tornou-se mais fácil… Porque havia mais mãos lhe ajudando… Outras mãos na corda, outras mãos colocando-a amavelmente sobre o chão.

Vestida com uma modesta camisola manchada com seu sangue, não se movia, mas respirava. Cuidadosamente, lhe separou o cabelo do rosto.

A pressão sangüínea de Zsadist subiu.

— Oh, doce Jesus… Oh, doce Jesus… Oh, doce…

— O que fizeram...? — quem quer que tenha falado não podia encontrar as palavras para terminar.

As gargantas se esclareceram. Um par de tosses foi afogado. Ou, talvez fossem amordaçadas.

Z a agarrou em seus braços e só… A abraçou. Tinha que levá-la para fora, mas não podia mover-se pelo que lhe tinham feito. Piscando, enjoado, gritando por dentro, balançou-a amavelmente. As palavras caíam de sua boca, lamentações por ela no Velho Idioma.

Phury se agachou sobre seus joelhos.

— Zsadist? Temos que levá-la para fora daqui.

A consciência voltou para Z às pressas, e repentinamente tudo no que podia pensar era em levá-la à mansão. Cortou em rodelas a correia presa a seu troco, logo se levantou com dificuldade com ela em seus braços. Quando tentou caminhar, sua perna esquerda se bambeou e tropeçou. Mas, durante uma fração de segundo não pôde pensar no por que.

— Deixe-me levá-la. — disse Phury, levantando as mãos —Atiraram em você.

Zsadist negou com a cabeça e passou roçando a seu gêmeo, mancando.

Levou Bela para o Taurus que estava estacionado diante do edifício. Sustentando-a contra seu peito, quebrou a janela do acompanhante com o punho, logo colocou o braço dentro e abriu enquanto o alarme soava. Abrindo a porta traseira, agachou-se e a pôs no assento. Quando lhe dobrou as pernas ligeiramente para colocá-las dentro, a camisola subiu e ele se sobressaltou. Tinha machucados. Um montão deles.

Enquanto o alarme silenciava, disse:

— Alguém me dê uma jaqueta.

No segundo em que estendeu a mão para trás, o couro bateu sua palma. Agasalhou-a cuidadosamente no que se precaveu, era o casaco de Phury, e logo fechou a porta e se meteu atrás do volante.

A última coisa que ouviu foi a ordem de Wrath.

— V, põe suas mãos pra trabalhar. Este lugar precisa ser uma tocha.

Indo para estrada, Z tirou o sedã da cena, como uma alma que leva o diabo.

 

O pôs seu caminhão na sarjeta de uma seção escura da Décima Rua.

— Ainda não entendo por que mentiu.

— Se chegar a ser enviado para a casa de Ômega, então onde nos levará isso? É um dos assassinos mais fortes que tivemos.

O lhe olhou com desagrado.

— É um empresário?

— Orgulho-me de nosso trabalho.

— Como em 1950, Howdy Doody.

— Sim, e essa merda salvou seu traseiro, agradeça.

Que seja. Em todo caso, tinha mais coisas pelas quais se preocupar que com a tolice de U.

U e ele saíram do caminhão. O ZeroSum, o Screamer e o Snuff estavam a um par de blocos mais embaixo, e embora fizesse frio, havia fila de espera para entrar nos clubes. Alguns entre as massas trêmulas eram, sem dúvidas, vampiros, e até se não fossem, a noite estaria cheia. Sempre havia brigas com os Irmãos com as quais relaxar.

O teclou o alarme de segurança, colocou as chaves em seu bolso… E, parou em seco na metade da Décima Rua. Literalmente, não podia mover-se.

Sua esposa… Jesus, sua esposa realmente não tinha uma boa aparência quando tinha saído com U.

O agarrou a parte da frente de seu pescoço tornando-o negro, sentindo-se como se não pudesse respirar. Não se preocupava com a dor que ela sentia, tinha procurado. Mas, não poderia suportar se morresse, se lhe deixasse… O que ocorreria se estivesse morrendo agora mesmo?

— O que ocorre? — perguntou U.

O procurou as chaves do carro, a ansiedade queimando em suas veias.

— Tenho que ir.

— Está louco? Perdemos nossa cota a última noite.

— Só tenho que voltar para o centro durante um segundo. L está caçando na Quinta Rua. Vai com ele. Encontramo-nos em trinta minutos.

O não esperou uma resposta. Saltou ao caminhão e se foi velozmente do povoado, tomando a Rota 22 através da extensão rural de Caldwell. Estava a quase quinze minutos do centro de tortura quando viu as luzes do carro de polícia na frente. Amaldiçoou e freou, esperando que fosse simplesmente um acidente.

Mas, não, desde que tinha saído, o maldito policial tinha estabelecido outro de seus pontos de controle de consumo de bebidas alcoólicas. Dois carros patrulha estavam estacionados em cada lado da Rota 22, e os cones alaranjados e as luzes estavam no centro da estrada. À direita, havia um sinal refletor anunciando o Programa Segurança Primeiro do Departamento de Polícia de Cadwell.

Deus Santo, por que tinham que fazer isto aqui? No meio do nada? Por que não estavam no centro, perto dos bares? Não obstante, as pessoas da cidade de merda que havia ao lado de Caldwell tinham que conduzir para casa depois de irem ao clube na cidade grande...

Havia um carro diante dele, uma mini-van, e O tamborilou em cima do volante. Metade de sua mente queria pegar seu Smith&Wesson e fazer explodir ao policial e ao condutor como recompensa. Somente por frear sua marcha.

Um carro se aproximou na direção oposta, e O olhou através da estrada. O Ford Taurus pouco notório parou com um chiado de freios, seus faróis dianteiros sujos e escuros.

Homem, essas drogas de carros eram muito baratos, mas U tinha escolhido essa marca e modelo para ele mesmo. Integrar-se com a população humana geralmente era necessário para guardar em segredo a guerra com os vampiros.

Enquanto o policial se aproximava do PDM[9], O pensou que era estranho que a janela do condutor estivesse baixa em uma noite fria como aquela. Logo, teve um sobressalto pelo tipo que havia atrás do volante. Santa Merda. O bastardo tinha uma cicatriz tão grossa quanto um dedo descendo por seu rosto. E, um brinco em sua orelha. Talvez o carro fosse roubado.

O policial obviamente teve a mesma idéia, porque sua mão estava na parte traseira sobre sua pistola quando se aproximou para dirigir a palavra ao condutor. E, a merda realmente baixou quando enfocou sua lanterna no assento traseiro. Abruptamente, seu corpo se sacudiu com força como se tivesse aparecido algo entre seus olhos, e alcançou seu ombro, pegando o que devia ser seu transmissor. Mas, o condutor colocou a cabeça para fora da janela e ficou olhando o oficial. Houve um momento congelado entre eles.

Logo o policial deixou cair seu braço e casualmente deixou o Taurus passar, sem sequer comprovar a identidade do condutor.

O olhou à polícia cumprindo com seu dever no seu lado do caminho. O desgraçado ainda retinha a soccer-mom special[10] em frente à mini-van como se estivesse cheia de vendedores de drogas. Em troca, o camarada do lado deixara passar ao que se parecia com um assassino em serie através do controle sem nem um “olá, como está?”. Era como se estivesse no caminho errado da guarita de pedágio.

Finalmente, O se deteve no caminho. Foi tão civilizado como pôde, e um par de minutos mais tarde já pisava no acelerador. Tinha percorrido cinco milhas quando o fulgor de uma luz brilhante se destacou na paisagem à direita. Perto de onde estava o centro de tortura.

Pensou no aquecedor de querosene. Que gotejava.

O pisou fundo no acelerador. Sua mulher estava inserida na terra… Se havia um fogo...

Cortou pelo bosque e acelerou sob os pinheiros, sacudindo-se para cima e para baixo, com a cabeça batendo contra o teto enquanto tratava de controlar o volante. Reconfortou-se com o fato de que pelo caminho não se via nenhuma incandescência alaranjada de chamas. Se tivesse havido uma explosão, então, haveria chamas, fumaça.

Seus pensamentos anteriores deram meia-volta. O centro de tortura fora eliminado, reduzido a cinzas.

O pressionou o freio para evitar que o caminhão investisse contra uma árvore. Logo, olhou ao redor do bosque para assegurar-se de que estava no lugar correto. Quando ficou claro que estava, saiu e caiu no chão.

Agarrando punhados de pó, olhou cuidadosamente os resíduos até que a droga entrou em seu nariz, sua boca e cobriu seu corpo como uma túnica. Encontrou pedacinhos de metal derretido, mas nada maior que sua palma.

Através do rugido de sua mente, recordou ter visto este pó fantasmal antes.

O inclinou sua cabeça para trás e lançou sua voz até os céus. Não sabia o que saía de sua boca. Tudo o que sabia era que a Irmandade tinha feito isto. Porque o mesmo tinha ocorrido na academia de artes marciais do lesser seis meses atrás.

Removeu o pó… As cinzas… E, levaram a sua esposa.

Oh, Meu Deus estava viva quando a tinham encontrado? Ou tinham levado seu corpo com eles? Estava morta?

Era culpa dela, tudo culpa dela. Tinha estado determinado a castigá-la, esqueceu-se das implicações da escapada do civil. O varão tinha ido à Irmandade e lhes havia dito onde ela estava, e tinham chegado às primeiras horas da noite e a tinham levado.

O secou as lágrimas desesperadas de seus olhos. E, logo deixou de respirar. Girou a cabeça, percorrendo a paisagem. O Ford Taurus prateado de U não estava.

O posto rodoviário. A droga da blitz rodoviária. A droga de homem horripilante atrás do volante, de fato, não era um homem. Era um membro da Irmandade da Adaga Negra. Tinha que ser. E, a esposa de O estava no assento traseiro, respirando ou totalmente morta. Isso era o que havia deixado o policial transtornado. Tinha-a visto quando investigava a parte de trás do veículo, mas o Irmão lavou seu cérebro para que deixasse o Taurus passar.

O balançou bruscamente no caminhão e pisou fundo no acelerador, conduzindo ao leste, dirigindo-se para o lugar onde U estava.

O Taurus tinha um sistema LoJack[11].

O que significava que com o equipamento correto, poderia encontrar esse PDM em qualquer lugar que estivesse.

 

Bela tinha a vaga idéia de encontrar-se em um automóvel. Entretanto, como isso era possível? Devia estar alucinando.

Não... Realmente soava como um automóvel, com o regular ronrono do motor. E, se sentia como um automóvel, uma sutil vibração que se via interrompida por uma sacudida como se algo no caminho se colocasse debaixo dos pneus.

Tentou abrir os olhos, deu-se conta que não podia, e tentou novamente. Como o esforço a esgotava, deu-se por vencida. Deus, estava cansada... Como se tivesse gripe. Também lhe doía tudo, especialmente a cabeça e o estômago. E, tinha náuseas. Tratou de recordar o que tinha acontecido, como tinha se libertado, caso tivesse se libertado. Mas, tudo o que conseguiu foi uma imagem do Lesser que a amava entrando pela porta, coberto de sangue negro. O resto era névoa.

Tateando ao seu redor, encontrou algo cobrindo seus ombros e puxou para aproximá-lo mais. Couro. E, cheirava a... Nada como a enjoativa doçura de um Lesser. Era a essência de um macho de sua raça. Inspirou várias vezes mais pelo nariz. Quando captou o aroma do talco de bebê dos assassinos, sentiu-se confusa até que pressionou o nariz contra o assento. Sim, no tapete. Este era o automóvel de um Lesser. Mas, então por que havia aroma de macho vampiro no objeto que usava? E, havia outra coisa, outro aroma... Um escuro almíscar com um toque imperecível.

Bela começou a tremer. Recordava esse aroma muito bem, recordava-o da primeira vez que tinha ido ao complexo de treinamento da Irmandade, recordava-o de um tempo depois disso, quando tinha ido a sua mansão.

Zsadist. Zsadist estava nesse automóvel com ela.

Seu coração pulsou com força. Lutou para abrir os olhos, mas ambas as pálpebras se negaram a obedecê-la ou talvez já estivessem abertas era só que estava muito escuro para que pudesse ver algo.

— Fui resgatada? — perguntou — Veio me buscar, Zsadist?

Mas, nenhum som saiu de sua boca, embora movesse os lábios. Formou as palavras outra vez, forçando o ar através de sua caixa de ressonância. Emitiu um áspero gemido, nada mais.

Por que seus olhos não funcionavam?

Começou a mexer-se de um e outro lado e logo ouviu o som mais doce que alguma vez tivesse chegado a seus ouvidos.

— Estou com você, Bela. — a voz de Zsadist. Baixa. Cheia de força — Está a salvo. Fora dali. E, nunca voltará.

Tinha vindo procurá-la. Tinha vindo procurá-la...

Começou a soluçar. Pareceu que o automóvel diminuía a velocidade, mas então a dobrou, acelerando.

Seu alívio foi tão grande, que se deslizou para a escuridão.

Zsadist abriu com um golpe a porta de seu quarto, fazendo saltar o mecanismo da fechadura limpamente. O som foi forte, e Bela se mexeu em seus braços, gemendo. Congelou-se quando começou a girar a cabeça de um lado a outro na curva de seu braço.

Isso era bom, pensou. Isso era muito bom.

— Vamos, Bela, volte para mim. Desperte. — mas ela não recuperou a consciência.

Foi para o colchão e a deitou onde ele dormia. Quando olhou para cima, Wrath e Phury estavam na entrada, os dois enormes machos bloqueando a maior parte da luz que provinha do corredor.

— Precisa ir para o Havers. — disse Wrath — Precisa de tratamento.

— Havers pode fazer o que tiver que fazer aqui. Não sairá deste quarto.

Z ignorou o comprido silêncio que se seguiu, totalmente hipnotizado observando como Bela respirava. O peito subia e baixava a um ritmo regular, mas parecia muito superficial.

O olhar de Phury era um que ele conhecia bem.

— Zsadist...

— Esquece. Verá a ela aqui. E, ninguém vai tocar nela sem minha permissão ou sem que eu esteja presente. — quando olhou para cima, seus irmãos, Wrath e Phury pareciam totalmente confusos — Pelo amor de Cristo, querem que o diga no Idioma Antigo no caso de ambos terem esquecido como falar português? Não vai a nenhum lugar.

Com uma maldição, Wrath abriu seu celular e falou rápida e firmemente.

Quando o fechou, disse:

— Fritz já está na cidade, e vai recolher o doutor. Chegarão aqui em vinte minutos.

Z assentiu e olhou as pálpebras costuradas de Bela. Desejava ser o responsável por vingar-se daqueles que fizeram isso com ela. Desejava que ela se sentisse aliviada agora. Oh, Deus... Como devia ter sofrido.

Deu-se conta de que Phury se aproximou, e não gostou que seu irmão se ajoelhasse.

Os instintos de Z eram fazer uma barricada diante do corpo de Bela com o seu próprio, evitando que seu gêmeo, Wrath, o doutor, ou qualquer macho pudesse vê-la. Não entendia esse impulso, não sabia a origem, mas era tão forte que quase se lançou no pescoço de Phury.

E, então seu gêmeo estirou a mão para lhe tocar o tornozelo. Os lábios de Z se retiraram para mostrar as presas, lhe saindo um grunhido da garganta.

A cabeça de Phury se elevou rapidamente.

— Por que está agindo assim?

Ela é minha, pensou Z.

Mas, no instante que lhe chegou essa convicção, afastou-se. Que demônios estava fazendo?

— Está ferida. — murmurou — Só não se meta com ela, ok?

Havers chegou quinze minutos depois. O alto e magro médico trazia uma maleta de couro na mão e estava preparado para realizar seu trabalho. Mas, quando se adiantou, Z se precipitou para ele, interceptando o macho e pondo-o contra a parede. Os pálidos olhos de Havers lhe saíram das órbitas atrás de seus óculos com armação de tartaruga marinha, e deixou cair sua maleta ao chão.

Wrath amaldiçoou.

— Jesus...

Z ignorou as mãos que tratavam de afastá-lo e cravou o olhar no médico.

— Tratará dela melhor do que faria com alguém de seu próprio sangue. Se ela sofrer uma só sacudida desnecessária, eu cobrarei em sua pele multiplicado por cem vezes o que tenha sofrido.

O magro corpo de Havers tremia, a boca se movia sem emitir som.

Phury lhe deu um forte puxão sem conseguir afastá-lo.

— Z, fique calmo...

— Fique fora disto. — disse bruscamente — Estamos de acordo, doutor?

— Sim... Sim, senhor. — quando Z o soltou, Havers tossiu e arrumou a gravata. Logo franziu o cenho — Senhor...? Está sangrando. Sua perna...

— Não se preocupe comigo. Preocupe-se com ela. Agora.

O macho assentiu, manuseando a maleta, aproximou-se do colchão. Quando se agachou ajoelhando-se ao lado de Bela, Z desejou que as luzes do quarto se acendessem.

A áspera inalação de Havers foi o mais próximo a uma maldição que um macho educado como ele poderia proferir. Murmurou em voz baixa no Idioma Antigo:

— Fazer isto a uma fêmea... Pela misericórdia do Fade.

— Tire os pontos. — demandou Z, aparecendo por sobre o médico.

— Primeiro tenho que examiná-la. Devo verificar se tem feridas mais graves.

Havers abriu a maleta e pegou um estetoscópio, um aparelho para medir a pressão e um lápis lanterna. Mediu-lhe o pulso e a respiração, olhou dentro dos ouvidos e do nariz e mediu a pressão. Quando lhe abriu a boca ela se encolheu um pouco, mas logo quando levantou sua cabeça começou a lutar a sério.

Justo quando Zsadist se precipitava para o médico, o pesado braço de Phury se fechou sobre o peito de Z e o puxou para trás.

— Não a está machucando e sabe disso.

Z lutou contra o agarro, odiando a sensação do corpo de Phury contra o seu. Mas, seu gêmeo não afrouxou, sabia que era o melhor. Estava atuando impulsivamente, e derrubar o doutor teria sido uma jogada estúpida. Demônios, provavelmente não deveria estar armado nesse momento.

Obviamente Phury tinha seguido uma linha de pensamento similar nesse instante. Tirou as adagas que Z levava no peito e as entregou a Wrath. Também lhe tirou as pistolas.

Havers olhou para cima e pareceu aliviado de que as armas se fossem.

— Eu... Ah, vou lhe dar uma medicação suave para a dor. A respiração e o pulso são suficientemente fortes, assim poderá suportá-lo bem, e fará que o resto do exame e o que seguir seja mais fácil de tolerar para ela. Ok?

Não foi até que Z assentiu, então o médico lhe administrou um injetável. Quando a tensão no corpo de Bela diminuiu, o doutor tirou um par de tesouras e se dirigiu para a parte de abaixo da ensangüentada camisa que a cobria.

Enquanto levantava o tecido, Z sentiu uma raiva vermelha.

— Pare!

O Doutor protegeu a cabeça com os braços esperando que o golpeasse, mas tudo o que Z fez foi enfrentar o olhar de Phury e logo de Wrath.

— Nenhum de vocês dois vai vê-la nua. Fechem os olhos ou fiquem de costas.

Ambos o olharam por um momento. Logo Wrath deu as costas e Phury baixou as pálpebras, embora mantivesse seu agarro firme sobre o peito de Z.

Zsadist olhou duramente ao Doutor.

— Se for lhe tirar a roupa, cobre-a com algo.

— O que deveria usar?

— Uma toalha de banho.

— Eu a trarei. — disse Wrath. Depois de entregar-lhe voltou para seu lugar olhando para a porta.

Havers estendeu a toalha sobre o corpo de Bela e logo cortou a camisola de um lado. Olhou para cima antes de levantar nada.

— Preciso ver todo seu corpo. E, vou ter que lhe tocar o estômago.

— Para que?

— Tenho que apalpar os órgãos internos para determinar se algum está inchado por ter recebido um traumatismo ou por causa de uma infecção.

— Que seja rápido.

Havers afastou a toalha para um lado...

Z fraquejou contra o forte corpo de seu gêmeo.

– Oh... Nalla. – sua voz se enrouqueceu — Oh, doce Jesus... Nalla.

Tinha algo cortado na pele do estômago que pareciam ser letras maiúsculas de três polegadas, em português. Como era analfabeto, não podia saber o que dizia, mas tinha um horrível pressentimento...

— O que diz? — gritou.

Havers esclareceu sua garganta.

— É um nome. David. Diz David.

Wrath grunhiu.

— Sobre sua pele? Esse animal...

Z interrompeu o seu Rei.

— Vou matar a esse Lesser. Juro por Deus, vou mastigar seus ossos.

Havers inspecionou os cortes, brandamente, com muito cuidado.

— Deve te assegurar que não toque sal perto dos cortes. Senão, as cicatrizes ficarão com esta forma.

— Não me diga. — como se não tivesse experiência em como as cicatrizes se convertiam em permanentes.

Havers a cobriu e foi para os pés, inspecionando-os e logo se voltando para as panturrilhas. Afastou a camisola enquanto se dirigia para os joelhos. Logo moveu uma das pernas para um lado, separando as coxas.

Z se impulsionou para frente, arrastando Phury com ele.

— Que droga está fazendo?!

Havers retirou as mãos rapidamente, as sustentando sobre a cabeça.

— Preciso lhe fazer um exame interno. Ante a possibilidade de que tivesse sido... Violada.

Com um rápido movimento, Wrath parou na frente de Z e rodeou a cintura de Z com os braços. Através das lentes escuras, o olhar do rei queimava.

— Deixe que o faça, Z. É melhor para ela se fizer.

Zsadist não podia olhar. Deixou cair a cabeça contra o pescoço de Wrath, perdendo-se no comprido cabelo negro do macho. Os firmes corpos de seus irmãos o rodeavam, mas estava muito horrorizado para sentir pânico ante o contato. Fechou os olhos fortemente e respirou profundamente, as essências de Phury e Wrath invadindo seu nariz.

Ouviu um ruído como um sussurro, como se o médico estivesse buscando na maleta. Logo houve dois estalos, como se o macho estivesse colocando luvas. Um roçar de metal contra metal. Uns ruídos. Logo… Silêncio. Não, não realmente. Pequenos sons. Logo um par de clicks.

Z se recordou que todos os Lessers eram impotentes. Mas, só podia imaginar como compensavam essa deficiência.

Tremeu por ela até seus dentes baterem.

 

John Matthew olhou para o assento dianteiro do Range Rover. Tohr estava preocupado enquanto entravam na parte rural de Caldwell, e embora John estivesse assustado pela reunião com Wrath, o Rei, estava mais preocupado a respeito de toda esta calma. Não podia entender o que era que estava mau. Bela tinha sido salva. Agora estava a salvo. Assim, todo mundo deveria estar contente, verdade? Exceto quando Tohr tinha vindo para casa recolher ao John, tinha envolvido seus braços ao redor de Wellsie na cozinha e permanecido ali por muito tempo. Suas palavras, suaves e no Idioma Antigo, tinham saído do que soava como uma garganta obstruída.

John queria conhecer todos os detalhes do que tinha passado, mas era difícil bisbilhotar estando no automóvel, na escuridão, quando ele precisava fazer-se entender por gestos ou escrever. E, não parecia que Tohr tivesse vontade de conversar.

— Aqui estamos. — disse Tohr.

Com uma rápida curva à direita os colocou sobre uma rota de terra calçada, e John se deu conta que já não podia ver nada através das janelas. Havia uma estranha névoa nos gelados bosques que os rodeavam, uma barreira que o fazia sentir-se um pouco enjoado.

Como que saída de nenhuma parte, uma grande grade se materializou na brumosa paisagem, e deslizaram até deter-se. Havia outro conjunto de grades justo depois da primeira, e quando entraram no espaço que havia entre as duas, ficaram enjaulados como um touro em uma rampa para o abate. Tohr baixou a janela, introduziu uma espécie de código em um painel de telefone, e foram liberados para passar ao outro lado para…

Jesus, o que é isto?

Um túnel subterrâneo. E, enquanto se dirigiam para baixo, dentro da terra com tranqüila compostura, apareceram várias portas mais, e as defesas se faziam cada vez mais e mais fortificadas até a última. Esta era a maior de todas, um brilhante monstro de metal que tinha um letreiro de alta voltagem pintada no meio. Tohr olhou para a câmera de segurança, e logo houve um som de click. As comportas se abriram.

Antes que avançassem, John bateu no antebraço de Tohr para que lhe prestasse atenção.

— É aqui onde vivem os irmãos? — falou por gestos, lentamente.

— Mais ou menos. Primeiro, levarei você ao centro de treinamento e logo iremos à mansão. — Tohr pisou no acelerador — Quando começarem as aulas deverá vir aqui de segunda-feira à sexta-feira. O ônibus te recolherá em frente à nossa casa, as quatro em ponto. Meu irmão Phury está neste lugar, assim o resguardará nas primeiras aulas. — ante o olhar que lhe dirigiu John, Tohr explicou — O Complexo está interconectado subterraneamente. Mostrarei a você como acessar ao sistema de túneis que liga todos os edifícios, mas guarde o dado para si mesmo. Qualquer um que apareça em qualquer lugar sem convite, vai enfrentar sérios problemas. Seus companheiros de classe não são bem-vindos, me entendeu?

John assentiu enquanto paravam na área de estacionamento, recordou uma longínqua noite. Deus, sentia-se como se tivessem acontecido cem anos desde que tinha vindo aqui com Mary e Bela.

Ele e Tohr desembarcaram do Rand Rover.

— Com quem treinarei?

— Com outra dúzia de machos de sua mesma idade, aproximadamente. Todos têm um pouco de sangue guerreiro nas veias, que é pelo que os escolhemos. O treinamento perdurará ao longo de suas transições e logo seguirá por outro comprido período, até que pensemos que estão preparados para sair ao campo.

Caminharam para um par de portas de metal e Tohr as abriu completamente. No outro lado havia um corredor que parecia não terminar nunca. Enquanto o transitavam, Tohr lhe mostrava uma sala de aulas, o ginásio, uma sala para pesar-se e um vestuário. O macho se deteve quando chegou a uma porta feita de vidro cristalizado.

— Aqui é aonde venho, quando não estou em casa ou no campo.

John entrou. A sala estava quase vazia e era muito pouco notória. O escritório era de metal e estava coberto com equipamentos de informática, telefones e papéis. Havia arquivos alinhados na parede do fundo. Só havia dois lugares onde sentar-se, assumindo que virar o cesto de papéis para sentar-se sobre ele não era uma opção. Sobre uma esquina, havia uma cadeira das que usualmente se utilizavam para equipamento de escritório. A outra estava atrás da mesa e era bem feia: uma monstruosidade com o estofado rasgado, de couro cor verde abacate com bordas engraçados, o assento frouxo e um par de pés que davam um novo significado à palavra firme.

Tohr pôs a mão sobre o alto respaldo da coisa.

— Pode acreditar que Wellsie me obrigou a me desfazer disto?

John assentiu fazendo gestos:

— Sim, posso.

Tohr sorriu e caminhou para um gabinete alto até o teto. Quando abriu a porta e digitou uma série de números no tabuleiro, a parte traseira se abriu a uma espécie de passagem escura.

— Aqui vamos nós.

John entrou, embora não pudesse ver muito.

Um túnel de metal. Suficientemente largo para que entrassem três pessoas caminhando lado a lado, e tão alto que sobrava espaço inclusive sobre a cabeça de Tohr. As luzes estavam embutidas no teto a cada dez pés ou coisa assim, mas não iluminavam muito na escuridão reinante.

Esta é a coisa mais incrível que vi em minha vida. — pensou John quando começaram a caminhar.

O som das botas de cowboy de Tohr ricocheteou nas paredes de aço, como também fez sua profunda voz.

— Olhe, a respeito de conhecer Wrath. Não quero que se preocupe. É intenso, mas não há nada a temer. E, não te assuste por seus óculos escuros. Está quase cego e é hipersensível à luz, assim deve usá-los. Mas, embora não possa ver, mesmo assim, lerá em você como em um livro aberto. Suas emoções serão tão claras para ele como a luz do dia.

Um pouco mais tarde, à esquerda apareceu uma escada baixa, que levava até uma porta e a outro painel. Tohr se deteve e apontou para o túnel, que até onde John podia ver, continuava eternamente.

— Se seguir direito por ali, chegará à casa do guarda a umas cento e cinqüenta jardas. — Tohr subiu os poucos degraus, manipulou o painel, e abriu a porta. Uma brilhante luz alagou o lugar como água liberada de um dique.

John olhou para cima, com um estranho sentimento ressonando em seu peito. Tinha a estranha sensação de que estava sonhando.

— Tudo está bem, filho. — Tohr sorriu, seu rosto duro suavizando-se um pouco — Nada vai machucar-te aqui em cima. Confie em mim.

 

— OK, está feito. — disse Havers.

Zsadist abriu os olhos, podendo ver unicamente o grosso cabelo negro de Wrath.

— Foi…?

— Ela está bem. Não há sinais de relações forçadas nem de nenhum tipo de trauma. — ouviu-se um estalo, como se o médico estivesse tirando as luvas.

Zsadist fraquejou e seus irmãos agüentaram o peso. Quando finalmente levantou a cabeça, viu que Havers tinha afastado a sangrenta camisa, e havia coberto novamente Bela com a toalha, estava colocando um novo par de luvas. O macho se inclinou sobre a maleta, tirou um par de ferramentas e umas pinças, e logo olhou para cima.

— Eu me ocuparei de seus olhos agora, está bem? — quando Z assentiu, o médico sustentou os instrumentos — Tome cuidado, senhor. Se me assustar, poderia deixá-la cega com estas pinças. Entendeu?

— Sim. Só não lhe faça mal…

— Não sentirá nada. Prometo-o.

Z observou esta parte, e foi eterna. Tinha uma vaga idéia de que estava na metade da consulta e já não estava sustentando-se. Phury e Wrath estavam carregando todo seu peso para mantê-lo em pé, a cabeça lhe pendurava sobre o flanco do maciço ombro de Wrath enquanto olhava atentamente.

— A última. — murmurou Havers — Bom, tirei todas as suturas.

Todos os machos do quarto respiraram fundo, até o doutor, e logo Havers voltou para seus medicamentos e pegou um tubo. Pôs um pouco de ungüento sobre as pálpebras de Bela, logo guardou tudo em sua maleta.

Quando o médico ficou em pé, Zsadist se soltou de seus irmãos e caminhou um pouco. Wrath e Phury estenderam os braços.

— As feridas dela são dolorosas, mas por agora, nenhuma põe sua vida em risco. —disse Havers — Amanhã ou depois de amanhã estarão curadas, sempre que a deixem sozinha. Está desnutrida e precisa alimentar-se. Se for ficar neste quarto, é preciso ligar a calefação e levá-la à cama. Quando despertar deve ingerir comida e bebida. E, outra coisa mais. No exame interno encontrei… — seus olhos passaram por Wrath e Phury, e logo se fixaram em Zsadist — Algo de índole pessoal.

Zsadist foi para o doutor.

— O que?

Havers o levou para um lugar e falou devagar.

Quando o macho terminou, Z estava aturdido, sem palavras.

— Está seguro?

— Sim

— Quando?

— Não sei. Mas, relativamente logo.

Z olhou para Bela. Oh, Cristo…

— Agora, assumo que tem aspirinas ou Motrin na casa?

Z não tinha idéia, nunca tomava remédios para dor. Olhou Phury.

— Sim, temos. — disse seu irmão.

— Subministrem-lhes e lhes darei algo mais forte como respaldo para o caso de que não aliviem toda dor.

Havers tirou um pequeno frasco de vidro que tinha um selo de borracha vermelho como tampa e colocou na palma da mão duas seringas hipodérmicas envoltas em pacotes estéreis. Escreveu algo em um pequeno bloco de papel, e logo entregou o papel e os medicamentos a Z.

— Se durante o dia sentir muita dor quando despertar, pode lhe dar uma injeção disto de acordo com minhas indicações. É a mesma morfina que acabo de lhe administrar, mas deve prestar atenção a dose que lhe indico. Chame-me se tiver perguntas ou se quiser que lhe ajude no procedimento de dar injeções. Por outra parte, se o sol já se pôs, virei e lhe darei a injeção eu. — Havers olhou a perna de Z — Quer que examine sua ferida?

— Posso banhá-la?

— Definitivamente sim.

— Agora?

— Sim. – Havers franziu o cenho — Mas, senhor, sua perna…

Z entrou no banheiro, abriu as torneiras da jacuzzi, e colocou a mão debaixo do jorro. Esperou até que estivesse suficientemente quente, logo voltou para buscá-la.

Naquele tempo, o doutor já se fora, mas Mary, a mulher de Rhage, estava na entrada do quarto, querendo ver Bela. Phury e Wrath falaram com ela brevemente e negaram com a cabeça. Ela se foi, parecendo abatida.

Quando a porta se fechou, Z se ajoelhou perto do colchão e começou a levantar Bela.

— Espere, Z. — a voz de Wrath era dura — Sua família deve cuidar dela.

Z se deteve e pensou em quem teria alimentado a seus peixes. Deus… Provavelmente, isto não estivesse certo. Mantê-la aqui, longe daqueles que tinham todo o direito de cuidar dela em sua dor. Mas, a idéia de deixá-la ir era intolerável. Acabava de encontrá-la…

— Irá com eles manhã. — disse — Esta noite e o dia de amanhã permanecerá aqui.

Wrath sacudiu a cabeça.

— Não está…

— Acredita que está pronta para viajar neste estado? — disse Z bruscamente — Deixem-na em paz. Façam com que Tohr chame à família e diga a eles que a entregaremos amanhã, ao cair da noite. Agora, necessita um banho e um pouco de repouso.

Wrath apertou os lábios. Houve um comprido silencio.

— Então a poremos em outro quarto, Z. Não ficará com você.

Zsadist se levantou e se aproximou do Rei, afundando o dedo no abdômen do macho.

— Só faz o intento de movê-la.

— Pelo amor de Cristo, Z. — ladrou Phury — Retrate-se…

Wrath se inclinou para frente, até que os narizes quase se tocaram.

— Tome cuidado, Z. Sabe condenadamente bem que me ameaçando conseguirá algo mais, além de que te parta a mandíbula.

Sim, tinham passado por isso no verão. Legalmente, Z podia ser executado sob as velhas regras de conduta se forçava isto muito mais à frente. A vida do Rei era valorizada acima da de todos os outros.

Não era algo que a Z importasse em nada nesse momento.

— Pensa que uma sentença de morte me preocupa? Por favor. — entrecerrou os olhos — Mas, te direi isto. Tanto se decidir fazer valer sua realeza sobre meu traseiro ou não, levará ao menos um dia para me condenar com a Virgem Escriba. Mesmo assim, Bela dormirá aqui esta noite.

Voltou para onde ela estava e a levantou o mais cuidadosamente que pôde, enquanto se assegurava de que a toalha permanecesse em seu lugar. Sem olhar a Wrath nem seu gêmeo, entrou no banheiro e fechou a porta com um golpe atrás dele.

A banheira já estava cheia até a metade, assim a sustentou enquanto se inclinava e comprovava a temperatura. Perfeita. Colocou-a dentro da água e logo estendeu seus braços para os lados para que se apoiasse nas bordas.

A toalha se molhou em seguida e se colou ao seu corpo. Ele pôde apreciar claramente a suave curva dos seios, a pequena caixa torácica, a plana extensão do estômago. Ao subir a água, a bainha da toalha flutuou solta e acariciou a parte de cima das coxas.

O coração de Z bateu fortemente no peito e se sentiu como um libertino, observando-a quando estava ferida e fora de si. Com a esperança de defendê-la de seus olhos e querendo lhe dar a privacidade que merecia, foi para o armário procurar gel para lhe fazer um banho de espuma. Não havia nada mais que sais de banho, e estava seguro como o inferno de que ele não usava essas coisas.

Estava a ponto de se virar, quando foi golpeado pelo fato de que o espelho sobre a pia era muito grande. Não queria que ela se desse conta do aspecto que tinha, quanto menos soubesse a respeito do que lhe tinham feito, melhor. Cobriu o espelho com duas toalhas grandes, segurando o tecido de feltro atrás da moldura.

Quando retornou, ela havia afundado mais na água, mas ao menos a parte de cima da toalha ainda se sustentava em seus ombros e basicamente se mantinha em seu lugar. Agarrou-a por baixo de um de seus braços e a elevou, logo pegou a esponja. No instante em que começava a lavar o lado de seu pescoço, começou a agitar-se, salpicando-o com água. Suaves sons de pânico saíam de sua boca, e não pararam nem sequer quando deixou a esponja de lado.

Fale com ela, idiota.

— Bela... Bela, está bem. Está bem.

Ficou quieta e franziu o cenho. Logo seus olhos se abriram e começou a piscar várias vezes. Quando tratou de esfregar as pálpebras, separou-lhe as mãos do rosto.

— Não. É um medicamento. Deixe-o aí.

Ela congelou. Esclareceu a garganta até que pôde falar.

— Onde… Onde estou?

A voz, embora vacilante e rouca, soou-lhe bonita.

— Está com... Comigo. Está com a Irmandade. Está a salvo.

Enquanto seu vítreo e desfocado olhar passeava pelo banheiro, ele se inclinou para um interruptor na parede e atenuou as luzes. Embora estivesse delirando e não havia dúvida de que quase cega pelo ungüento, não queria que se visse. A última coisa que precisava preocupar-se era com o que aconteceria se as cicatrizes não se curassem completamente.

Quando baixou os braços à água e travou os pés na base da banheira, fechou a torneira e se inclinou para trás sentando-se sobre os pés. Não era bom tocando pessoas, assim não era uma grande surpresa que ela não pudesse suportar suas mãos sobre o corpo. Mas, maldição, não tinha idéia do que fazer para aliviá-la. Via-se tão machucada… Muito à frente do pranto e próxima a uma paralisante agonia.

— Está a salvo… — murmurou, embora duvidasse de que lhe acreditasse. Ele não o teria feito se fosse ela.

— Zsadist está aqui?

Franziu o cenho, não sabendo o que deduzir sobre isso.

— Sim, estou justo aqui.

— Está?

— Justo aqui. Justo ao seu lado. — se esticou torpemente e lhe apertou a mão. Ela devolveu-lhe o apertão.

E, logo pareceu que começava a delirar. Murmurava, fazendo pequenos sons que poderiam ter sido palavras, e se agitava. Z agarrou outra toalha, enrolou-a, e a pôs debaixo da cabeça para que não batesse contra a dura borda da jacuzzi.

Espremeu o cérebro pensando no que podia fazer para ajudá-la, e como foi a única coisa que lhe ocorreu, cantarolou um pouquinho. Quando pareceu que isso a acalmava um pouco, começou a cantar brandamente, escolhendo um hino no Idioma Antigo dedicado à Virgem Escriba, um que falava de céus azuis, brancas corujas e verdes prados.

Gradualmente, Bela relaxou e inspirou profundamente. Fechando os olhos, reclinou-se contra o travesseiro de toalha que ele tinha fabricado.

Como cantar era o único consolo que podia lhe dar, cantou.

 

Phury olhou para o colchão onde Bela tinha estado deitada, pensando que a camisa rasgada que ela trazia o adoecia. Logo seus olhos se dirigiram ao esqueleto que jazia no chão à direita. O esqueleto de uma mulher.

— Não posso permitir isto. — disse Wrath quando se sossegou o som de água que corria no banheiro.

— Z não vai machucar ela. — murmurou Phury — Olhe a forma em que a trata. Cristo, atua como um macho emparelhado.

— O que ocorrerá se mudar de humor? Quer que o nome de Bela figure na lista de mulheres que matou?

— Golpeará até o teto se a separarmos dele.

— É um assunto de merda...

Os dois ficaram congelados. Logo lentamente ambos olharam para a porta do banheiro. O som que provinha do outro lado era suave, rítmico. Como se alguém estivesse…

— Que demônios? — murmurou Wrath.

Phury não podia acreditar, tampouco.

— Está cantando para ela.

Embora extinta, a pureza e a beleza da voz de Zsadist era surpreendente. Sua voz de tenor sempre tinha sido assim. Nas raras ocasiões que cantava, os sons que saíam de sua boca eram comoventes, capazes de fazer com que o tempo parasse e logo se deslizasse até o infinito.

— Deus... Demônios. — Wrath empurrou suas lentes para cima, até a testa e esfregou os olhos — Vigia-o, Phury. Vigia-o bem.

— Não faço isso sempre? Olhe, tenho que ir ver o Havers esta noite, mas só o tempo suficiente para que repare minha prótese. Farei com que Rhage o mantenha vigiado até que retorne.

— Faz isso. Não vamos perder essa fêmea enquanto estamos cuidando dela, está claro? Jesus Cristo… Esse seu gêmeo faria com que qualquer um se lançasse de um precipício, sabia isso? — Wrath saiu majestosamente do quarto.

Phury olhou novamente para o colchão e imaginou Bela jazendo ali perto de Zsadist. Isto estava mau. Z não sabia uma maldita coisa a respeito de dar afeto. E, essa pobre mulher tinha passado as últimas seis semanas na terra fria.

Eu deveria ter estado ali dentro, com ela. Lavando-a. Confortando-a. Cuidando-a.

Minha, pensou, olhando a porta de onde saía o canto.

Phury começou a dirigir-se para o banheiro, repentinamente furioso além do impossível. A cólera territorial acendia seu peito como uma fogueira, levantando uma chama de poder que lhe rugia no corpo. Agarrou fortemente a fechadura da porta… E ouviu esse formoso som que era a melodia que entoava o tenor.

Phury ficou ali de pé, tremendo. Enquanto a irritação se convertia em um desejo que o assustava, apoiou a testa contra o marco da porta. Oh, Deus… Não.

Apertou os olhos fechando-os, tratando de encontrar outra explicação para seu comportamento. Não havia outra. E, depois de tudo ele e Zsadist eram gêmeos.

Assim teria sentido que desejassem à mesma fêmea. Que terminassem… Vinculando-se à mesma mulher.

Soltou uma maldição.

Merda Santa, isto eram problemas… Do tipo que lhe enterrariam em monte. Para começar, dois machos emparelhados atados à mesma mulher era uma combinação letal. Adicionava-se ao fato que estes fossem dois guerreiros, tinha potencial para que ocorressem sérios danos. Depois de tudo, os vampiros eram animais. Caminhavam e falavam e eram capazes de raciocínios mais elevados, mas fundamentalmente eram animais. Assim, havia alguns instintos que nem sequer o mais engenhoso dos cérebros podia superar.

O bom era que ainda não tinham chegado a esse ponto. Sentia-se atraído por Bela e a desejava, mas não tinha chegado a sentir o profundo sentido de posse que era a carta de apresentação de um macho emparelhado. E, não tinha detectado a essência de emparelhamento irradiando-se de Zsadist, assim talvez ainda houvesse esperanças.

Mesmo assim, ambos tinham que afastar-se de Bela. Os Guerreiros, provavelmente por sua natureza agressiva, emparelhavam forte e rapidamente. Assim, tinha esperanças de que ela se fosse logo com sua família, a quem pertencia.

Phury soltou o pomo da porta e saiu do quarto. Desceu as escadas como um zumbi e se dirigiu para fora, para o pátio. Queria que o frio lhe golpeasse para poder esclarecer seus pensamentos. Mas, o único que conseguiu foi que sua pele ficasse arrepiada.

Estava a ponto de acender um fino cigarro de fumaça vermelha quando se deu conta que o Ford Taurus, em que Z tinha feito uma ligação direta para trazer Bela para casa, estava estacionado na frente da mansão. Ainda estava com o motor ligado, esquecido ante todo drama.

Bom, essa não era a classe de escultura de grama que precisavam. Só Deus sabia que classe de dispositivo de rastreamento havia nele.

Phury se meteu no sedã, pôs a coisa em movimento e se dirigiu para a saída.

 

Quando John saiu do túnel subterrâneo, ficou momentaneamente cego pela luminosidade. Logo sua vista se adequou. Oh, meu Deus. É bonito.

O vasto vestíbulo era um vívido arco íris, tão colorido que pareceu que suas retinas não poderiam admirá-lo em sua totalidade. Das colunas verdes e vermelhas de mármore até o mosaico multicolorido do chão, dos painéis dourados que se achavam por todos os lados até o…

Santo Anjo Miguel, olhe esse teto.

Achavam-se três andares acima, as pinturas de anjos, nuvens e guerreiros sobre grandes cavalos cobriam uma extensão que parecia tão grande como um estádio de futebol. E havia mais… Ao redor de todo o segundo andar havia um balcão dourado que tinha painéis inseridos com representações similares. Depois, vinha a esplêndida escada com seu intricado corrimão.

As proporções de espaço eram perfeitas. As cores, deliciosas. A arte, sublime. E, não era ao estilo pretensioso Donald Trump. Inclusive John, que não sabia nada a respeito de estilo, tinha a curiosa sensação de que o que estava olhando era verdadeiramente de bom gosto. A pessoa que construiu esta mansão e a decorou sabia o que fazia e tinha o dinheiro para comprar tudo de boa qualidade: um verdadeiro aristocrata.

— Belo, não? Meu irmão D construiu este lugar em 1914. — Tohr colocou as mãos sobre os quadris enquanto olhava ao redor, logo esclareceu ligeiramente a garganta — Sim, tinha um gosto excelente. O melhor do melhor para ele.

John estudou cuidadosamente o rosto de Tohr. Nunca o tinha ouvido utilizar esse tom de voz. Tanta tristeza…

Tohr sorriu lhe pondo uma mão sobre o ombro, apressou John para que seguisse caminhando.

— Não me olhe assim. Sinto-me como uma salsicha nua quando o faz.

Dirigiram-se ao segundo andar, caminhando por um tapete vermelho tão macio que era como caminhar sobre um colchão. Quando John chegou acima, olhou sobre o balcão ao desenho do chão do vestíbulo. Os mosaicos se fundiam em uma espetacular representação de uma árvore frutífera em plena floração.

— As maçãs fazem parte de nossos rituais. — disse Tohr — Ou ao menos, são quando os praticamos. Ultimamente não tivemos muitos desses, mas Wrath está convocando a todos para realizar a primeira cerimônia do solstício de inverno dos últimos cem anos ou algo assim.

— É nisso que Wellsie esteve trabalhando, verdade? — disse John por gestos.

— Sim. Está encarregada de quase toda a logística. A raça está ansiosa por voltar a praticar os rituais, e já era hora.

Dado que John não deixava de admirar o esplendor do lugar, Tohr lhe disse:

— Filho? Wrath está nos esperando.

John assentiu e o seguiu, indo do patamar para um par de portas duplas marcadas com alguma espécie de selo. Tohr estava levantando a mão para bater quando as aldravas de bronze giraram e o interior foi revelado. Não havia ninguém do outro lado. Então, como se abre essas coisas?

John olhou para dentro. A sala era de um tom azul mar e lhe recordava as fotos de um livro de história. Era francês, não? Com todas as flores e os móveis elegantes…

Repentinamente, John teve problemas para engolir.

— Meu senhor. — disse Tohr, fazendo uma reverência e adiantando-se.

John ficou de pé na entrada. Atrás de um espetacular escritório francês que era muito bonito e muito pequeno para ele, achava-se um imponente homem, com ombros maiores que os de Tohr. O comprido cabelo negro lhe caía reto a partir das pronunciadas entradas de sua testa, e o rosto… A dura compostura do mesmo era como se soletrasse “não mexa comigo”. Deus, os envolventes óculos de sol o faziam parecer induvidavelmente cruel.

— John? — disse Tohr.

John foi ficar ao lado de Tohr, escondendo-se um pouco. Sim, era um pouco covarde de sua parte, mas nunca havia se sentido menor ou tão dispensável em sua vida. Demônios, estando tão perto do poder que desprendia o homem que estava diante deles, estava quase convencido de que era totalmente insignificante.

O Rei se moveu na cadeira, inclinando-se sobre a escrivaninha.

— Vem aqui, filho. — a voz era baixa e com acento, estendendo bastante o “q” antes de terminar a palavra.

— Vai. — quando não se moveu, Tohr lhe deu uma ligeira cotovelada — Está tudo bem.

John tropeçou em seus próprios pés, movendo-se através da sala sem nada de aprumo. Parou em frente à escrivaninha como se fosse uma pedra que tivesse rodado até deter-se.

O Rei se levantou e se manteve elevado até que pareceu alto como um arranha-céu. Wrath devia medir mais de dois metros, e a roupa negra que usava, particularmente a de couro, o fazia parecer ainda mais alto.

— Vem, te aproxime.

John olhou para trás para assegurar-se de que Tohr ainda estava ali.

— Está bem, filho. — disse o Rei — Não vou machucar você.

John deu a volta na escrivaninha, seu coração pulsando como o de um camundongo. Quando inclinou sua cabeça para olhar para cima, o braço do Rei se estendeu para frente. A parte interior do mesmo, do pulso até o cotovelo, estava coberta de tatuagens. E, o desenho era como o que John tinha visto em seus sonhos, que tinha colocado no bracelete que usava…

— Sou Wrath. — disse o homem. Logo fez uma pausa — Quer apertar minha mão, filho?

Oh, com certeza. John estendeu a mão, meio esperando que seus ossos fossem esmagados. Em vez disso, quando entraram em contato, só sentiu uma firme quebra de onda de calor.

— Esse nome que está em seu bracelete. — disse Wrath — É Tehrror. Quer que lhe chamemos assim ou John?

John entrou em pânico e olhou a Tohr, porque não sabia o que queria e não sabia como comunicar isso ao Rei.

— Tranqüilo, filho. — Wrath riu brandamente — Pode decidir depois.

O rosto do Rei girou bruscamente para um lado, como se fixasse sua atenção em algo fora, no corredor. Com igual rapidez, um sorriso se estendeu por seus duros lábios formando uma expressão de total reverência.

— Leelan. — suspirou Wrath.

— Lamento chegar tarde. — a voz de mulher era suave e bonita — Mary e eu estamos muito preocupadas com Bela. Tentamos encontrar a maneira de ajudá-la.

— Encontrarão a forma. Vêm conhecer John.

John se virou para a porta e viu uma mulher…

Repentinamente uma luz branca tomou o lugar de sua visão, fazendo impreciso tudo o que via. Foi como se tivesse sido golpeado por um raio ultrabrilhante. Piscou, várias vezes… E, logo vindo do infinito nada, viu a mulher novamente. Tinha cabelo escuro, com olhos que recordavam a alguém que amava… Não, não lhe recordavam… Os olhos dela eram os de seu… O que? Seu o que?

John cambaleou. O som das vozes lhe chegava distante.

Em seu interior, em seu peito, no mais profundo de seu coração palpitante, sentiu que se quebrava, como se o estivessem partindo em dois. Estava-a perdendo… Estava perdendo a mulher de cabelo escuro… Estava…

Sentiu que abria a boca, esforçando-se como se estivesse tentando falar, mas logo ficou presa pelos tremores, que sacudiram seu pequeno corpo, fazendo com que cambaleasse sobre seus pés, e caísse no chão.

 

Zsadist sabia que era hora de tirar Bela da banheira, porque tinha estado ali quase uma hora e sua pele estava enrugando. Mas, então olhou através da água para a toalha que tinha estado mantendo sobre o corpo dela.

Merda… Tirá-la com essa coisa ia ser um problema.

Com uma careta a alcançou e a pegou.

Olhando para outro o lado rapidamente, jogou a toalha molhada no chão e agarrando uma seca, colocou-a justo ao lado da banheira. Apertando os dentes, inclinou-se para frente e colocou os braços na água, procurando seu corpo. Seus olhos terminaram justo ao nível dos seios.

Oh, Deus… Eram perfeitos. De um branco cremoso com pontas rosadas. E, a água lhe acariciava os mamilos, importunando-os com ondeantes beijos que os faziam brilhar.

Apertou as pálpebras fechando os olhos, tirou os braços da água e se sentou sobre os pés. Quando esteve preparado para tentar de novo, concentrou-se na parede que tinha em sua frente e se inclinou para frente… Só para sentir uma repentina dor nos quadris. Olhou para baixo, confuso.

Havia um inchado vulto em suas calças. Isso estava tão duro, que tinha surgido uma tenda de campanha na frente de suas calças esportivas. Evidentemente tinha apertado a coisa contra a banheira quando se inclinou, e essa era a causa da pontada que havia sentido.

Amaldiçoando, empurrou a coisa com a palma da mão, odiando a sensação da pesada carga, a forma em que a dura longitude se enredava em suas calças, o fato de ter que lutar com isso. Entretanto, não importava quanto o tentasse, não podia colocá-la corretamente, ao menos não sem colocar a mão dentro das calças para agarrá-la, o que, maldita fosse, não estava disposto a fazer. Ao final, se deu por vencido e deixou a ereção presa, retorcida e doendo.

Que servisse de lição para a sacana.

Zsadist inspirou fundo, inundou os braços profundamente na água, e os envolveu debaixo do corpo de Bela. Puxou-a, novamente impressionado pela sua leveza, logo a colocou contra a parede de mármore usando o lado de seu quadril e uma mão sobre a clavícula. Levantou a toalha que tinha deixado na borda da jacuzzi, mas antes de envolvê-la ao redor dela, deslocou seu olhar para as letras gravadas na pele do estômago.

Algo estranho se sacudiu em seu peito, uma grande opressão… Não, era uma sensação descendente, como se estivesse caindo, embora estivesse perfeitamente equilibrado. Estava pasmo. Havia muito que nada entrava através de sua ira e insensibilidade. Tinha a sensação de estar... Triste?

O que fosse. Ela tinha a pele de todo o corpo arrepiado. Assim, aquele não era o momento de tentar entender a si mesmo.

Envolveu-a e a pôs na cama. Afastou o cobertor para um lado, deitou-a, lhe tirando a toalha molhada. Enquanto a cobria com os lençóis e as mantas, deu outra olhada em seu estômago.

A estranha sensação de estar caindo retornou, como se seu coração fosse em uma viajem de gôndola para o estômago. Ou talvez para suas coxas.

Agasalhou-a e logo se dirigiu para o termostato. De cara com o controle, olhando os números e palavras que não podia entender, não tinha idéia de onde girá-lo. Moveu o pequeno indicador de onde se achava, bem à esquerda, para um lugar entre o meio e o extremo direito, mas não estava muito seguro de que é o que tinha feito.

Olhou para a escrivaninha. As duas seringas e o frasco com morfina estavam ali onde Havers os tinha deixado. Z foi ali, recolheu uma seringa, a droga e as instruções de dosagem, logo fez uma pausa antes de sair do quarto. Bela estava tão quieta na cama, tão pequena contra os travesseiros.

Imaginou ela dentro daquele tubo, enterrado na terra. Assustada. Sentindo dor. Frio. Logo imaginou ao lesser lhe fazendo o que lhe tinha feito, prendendo-a a força enquanto ela lutava e gritava.

Desta vez, Z sabia o que sentia.

Ânsias de vingança. Fria, gelada vingança. Tanta, que a merda ia se estender até o infinito.

 

John despertou no chão, com Tohr a seu lado e Wrath olhando-o de cima.

Onde estava a mulher de cabelo escuro? Tratou de sentar-se precipitadamente, mas umas fortes mãos o mantiveram em seu lugar.

— Só fica deitado um pouco mais, companheiro. — disse Tohr.

John esticou o pescoço, olhando ao redor e ali estava ela, perto da porta, parecendo ansiosa. No momento em que a viu, cada neurônio de seu cérebro disparou, e voltou à luz branca. Começou a tremer, o corpo batendo contra o chão.

— Merda, aí vai de novo. — murmurou Tohr, inclinando-se para frente para tratar de controlar o ataque.

Quando John sentiu que estava sendo absorvido para baixo, estendeu uma mão em direção à mulher de cabelos escuros, tratando de alcançá-la, esticando-se.

— O que precisa, filho? — a voz de Tohr, por cima dele, estava decaindo como uma estação de rádio com estática — Conseguiremos isso pra você…

A mulher…

— Vá a ele, leelan. — disse Wrath — Pegue sua mão.

A mulher de cabelo escuro se adiantou, e no instante que suas mãos o tocaram, tudo ficou negro.

Quando recuperou a consciência novamente, Tohr estava falando.

— …de qualquer forma, vou levá-lo para ver Havers. Oi, filho, você retornou.

John se sentou, sentindo vertigem. Levou as mãos ao rosto, como se isto pudesse ajudá-lo a permanecer consciente, e olhou para a porta. Onde ela estava? Tinha que… Não sabia que tinha que fazer. Mas, era algo. Algo que envolvia a ela…

Fez gestos freneticamente.

— Foi-se, filho. — disse Wrath — Manteremos vocês separados até que tenhamos uma idéia do que te acontece.

John olhou a Tohr e fez gestos devagar. Tohr traduziu.

— Diz que precisa cuidar dela.

Wrath pôs-se a rir brandamente.

— Acredito que tenho exercido esse posto, filho. É minha companheira, minha shellan, sua Rainha.

Por alguma, razão John relaxou ante essas notícias, e gradualmente voltou à normalidade. Quinze minutos depois pôde ficar em pé.

Wrath lançou um duro olhar a Tohr.

— Quero falar com você de estratégia, assim te necessito aqui. E, como Phury vai à clínica esta noite por que não leva o moço?

Tohr duvidou e olhou a John.

— Concorda, filho? Meu irmão é um bom tio. Em todos os sentidos.

John assentiu. Já tinha causado suficientes problemas esparramando-se no chão como se sofresse um ataque de histeria. Depois disso, estava mais que disposto a mostrar-se amigável.

Deus, o que a mulher teria pensado? Agora que se foi, não podia recordar por que tanto alvoroço. Nem sequer podia recordar seu rosto. Era como se sofresse um caso de amnésia.

— Deixe-me levar você ao quarto de meu irmão.

John pôs a mão no braço de Tohr. Quando terminou de fazer gestos, olhou a Wrath.

Tohr sorriu.

— John diz que foi uma honra te conhecer.

— Foi um prazer te conhecer também, filho. — o Rei voltou para a escrivaninha e se sentou — E, Tohr, quando voltar, traz o Vishous com você.

— Sem problema.

 

O chutou o lado do Taurus de U com força, a bota amassou o pára-lama.

A maldita caixa de merda estava atolada em um lado da estrada. Em algum lugar escolhido ao azar da Rota 14, a vinte e cinco milhas do centro da cidade.

Tinha levado uma boa hora na frente do computador de U para encontrar o carro, porque o sinal LoJack havia sido bloqueado por causa de Deus sabe o quê. Quando o maldito sinal apareceu na tela, o Taurus se movia velozmente. Se O tivesse conseguido reforços, teria deixado alguém ao computador enquanto pegava o caminhão e ia procurar o sedã. Mas, U estava caçando no centro, e tirar ele ou qualquer outro da patrulha teria chamado muita atenção.

E, O já tinha problemas suficientes… Problemas que estavam fazendo soar seu celular outra vez, sendo esta chamada a de número oitocentos. A coisa tinha começado a soar fazia vinte minutos, e depois as chamadas não tinham parado de chegar. Tirou o Nokia da jaqueta de couro. O identificador de chamadas mostrava o número como desconhecido. Provavelmente U, ou ainda pior, o senhor X.

Já haviam sido informados que o Centro tinha sido incinerado.

Quando o celular deixou de tocar, O digitou o número de U. Tão logo respondeu, O disse:

— Estava me procurando?

— Cristo, o quê aconteceu aí? O senhor X disse que o lugar estava destruído!

— Não sei o que aconteceu.

— Mas, estava ali, verdade? Disse que ia para lá.

— Disse isso ao senhor X?

— Sim. Escuta, será melhor que te cuide. O Fore-lesser está furioso e te procurando.

O se apoiou contra a carroceria fria do Taurus. Inferno sagrado. Não tinha tempo para isto. Sua esposa estava em algum lugar, separada dele, viva ou morta, e sem importar em que estado se encontrasse, precisava ter ela de volta. Logo, tinha que ir atrás desse Irmão com a cicatriz que a tinha seqüestrado e pôr a esse feio bastardo em baixo da terra. Cruelmente.

— O? Está aí?

Maldito seja… Talvez devesse ter feito que parecesse que tinha morrido na explosão. Poderia ter deixado o caminhão no lugar para desaparecer caminhando através do bosque. Sim, mas e depois, o que? Não tinha dinheiro, nem transporte, nem reforços contra a Irmandade enquanto ia atrás do da cicatriz. Seria um ASHI[12] lesser, o que significava que se alguém se desse conta de seu ato de desaparecimento, toda a Sociedade o caçaria como a um cão.

— O?

— Honestamente não sei o que aconteceu. Quando cheguei ali, tudo era pó.

— O senhor X pensa que incendiou o lugar.

— Claro que pensa. Assumir isso é conveniente para ele, embora se o pensa não tenho motivos. Chamarei você depois.

Fechou o celular e o guardou na jaqueta. Logo, voltou a tirá-lo e o desligou.

Enquanto esfregava o rosto, não podia sentir nada, e não era por causa do frio.

Homem, estava na merda até as sobrancelhas. O senhor X precisava culpar alguém por essa pilha de cinzas, e O ia ser essa pessoa. Se não o matassem no ato, o castigo imaginado para ele seria muito severo. Deus sabia que a última vez que lhe tinham dado uma reprimenda, o Ômega quase o tinha matado. Maldito fosse… Quais eram suas opções?

Quando a solução lhe chegou, estremeceu. Mas, o tático nele se regozijou.

O primeiro passo era ter acesso aos pergaminhos da Sociedade antes que o senhor X o encontrasse. Isso significava que precisava de uma conexão com a Internet. O que queria dizer que ia voltar onde estava U.

 

John deixou o escritório de Wrath e caminhou pelo corredor para a esquerda, mantendo-se perto de Tohr. Havia portas mais ou menos a cada nove metros, dispostas na parede contrária ao balcão, como se fosse um hotel. Quantas pessoas viviam ali?

Tohr se deteve e bateu em uma das portas. Como não obteve resposta, voltou a bater e disse:

— Phury, cara, tem um segundo?

— Estava me procurando? — chegou uma profunda voz por trás deles.

Um homem com um montão de bonito cabelo vinha caminhando pelo corredor. Aquilo em sua cabeça era de todas as cores diferentes, caindo sobre as costas em ondas. Sorriu a John, logo olhou a Tohr.

— Oi, irmão. — disse Tohr. Logo ambos mudaram, falando no Idioma Antigo enquanto o homem abria a porta.

John olhou dentro do dormitório. Havia uma enorme e antiga cama com dossel, com travesseiros alinhados contra a cabeceira esculpida. Montões de elegantes coisas decorativas. O lugar cheirava a Starbucks.

O homem do cabelo voltou a falar em português e o olhou com um sorriso.

— John, sou Phury. Acredito que ambos iremos ver o médico esta noite.

Tohr pôs a mão sobre o ombro de John.

— Então, vejo você depois, certo? Tem o número de meu celular. Envie-me uma mensagem de texto se necessitar de algo.

John assentiu e olhou como Tohr saía do quarto a pernadas. Ver afastar-se esses amplos ombros o fez sentir muito sozinho.

Ao menos, até que Phury disse calidamente:

— Não se preocupe. Nunca está muito longe, e cuidarei de você muito bem.

John olhou para cima, a esses quentes olhos amarelos. Uau… As coisas eram da cor dos pintassilgos. Quando se deu conta de que estava relaxando, reconheceu o nome. Este Phury era o homem que seria um dos seus professores.

— Bom. — pensou John.

— Entre. Acabo de chegar, após dar um pequeno recado.

Ao cruzar a porta, o fumegante aroma de café se fez mais forte.

— Alguma vez fosse ver o Havers?

John negou com a cabeça e descobriu uma poltrona contra uma janela. Foi para lá e se sentou.

— Bom, não tem nada com o que se preocupar. Asseguraremo-nos de que lhe tratem bem. Assim, suponho, que colheram uma amostra de sangue?

John assentiu. Tohr lhe havia dito que iriam lhe tirar sangue para fazer um exame físico. Provavelmente ambas as coisas fossem boa idéia, dada a paralisia, a queda e o tremor que tinha sofrido no escritório de Wrath.

Tirou seu bloco de papel e escreveu:

— Por que você vai ao médico?

Phury se aproximou e olhou o que estava escrevendo. Com um ágil giro de seu grande corpo, apoiou uma enorme bota de vaqueiro na borda da poltrona. John se afastou um pouco enquanto o homem arregaçava as calças de couro.

Oh, meu Deus… A parte inferior de sua perna era feita de varinhas e parafusos.

John estendeu a mão para tocar o reluzente metal, e olhou para cima. Não tinha dado conta de que tocava sua garganta até que Phury sorriu.

— Sim, sei tudo a respeito do que significa perder uma parte da gente.

John olhou de volta ao membro artificial e sacudiu a cabeça.

— Como aconteceu? — quando John assentiu, Phury duvidou e logo disse — Arranquei-me isso com um tiro.

A porta se abriu de repente e a dura voz de um macho alagou o quarto.

— Preciso saber…

John voltou o olhar enquanto as palavras morriam. Logo se encolheu novamente na poltrona.

O homem que estava na entrada tinha uma cicatriz, o rosto desfigurado por um corte que a atravessava pela metade. Mas não foi isso o que fez que John quisesse encolher-se fora da vista. Os olhos negros nesse rosto arruinado eram como sombras de uma casa abandonada, cheia de coisas que provavelmente lhe machucariam.

E, para arrematar, o homem tinha sangue fresco sobre a perna da calça e sobre a bota esquerda.

Esse olhar cruel se estreitou e olhou diretamente no rosto de John como uma rajada de ar gelado.

— O que está olhando?

Phury baixou a perna.

— Z…

— Fiz uma pergunta a você, menino.

John rabiscou no bloco de papel. Escreveu rápido e entregou apressadamente a folha ao outro homem, mas de alguma forma isto só piorou a situação.

O disforme lábio superior se levantou, revelando imponentes presas.

— Vá à merda, guri.

— Pare já, Z. — interrompeu Phury — É mudo. Não pode falar. — Phury inclinou o bloco de papel para ele — Está se desculpando.

John resistiu ao impulso de se esconder atrás da poltrona quando ficou exposto à vista. Mas, então a agressividade que irradiava do homem se suavizou.

— Não pode falar nada?

John sacudiu a cabeça.

— Bom, eu não sei ler. Assim estamos BJ[13] você e eu.

John moveu rapidamente sua Bic. Enquanto estendia o bloco de papel a Phury, o macho de olhar negro franziu o cenho.

— O que o guri escreveu?

— Diz que está bem. Que é bom escutando. Que você pode levar toda a conversa.

Esses olhos sem alma se afastaram.

— Não tenho nada pra dizer. Agora, como merda regulou o termostato?

— Ah, vinte e um graus. — Phury foi para o outro lado do quarto — O indicador deve marcar aqui. Vê?

— Não o girei o suficiente.

— E, deve te assegurar que o interruptor de baixo esteja na extrema direita. De outra forma, não importa onde esteja marcando o indicador, não esquentará.

— Sim... Obrigada. E, pode ler para mim o que colocou aqui?

Phury olhou o pedaço de papel.

— É a informação para a dose da injeção.

— Não enche. E, que faço?

— Está intranqüila?

— Agora, não, mas quero que leia isto para mim e diga o que devo fazer. Preciso ter uma dose preparada caso Havers não possa vir depressa.

Phury tomou o frasco e desembrulhou a agulha.

— Certo.

— Fez certo. — quando Phury terminou com a seringa, voltou-a a tampar e logo ficaram a falar no Idioma Antigo. Logo o cara horripilante perguntou — Quanto tempo estará ausente?

— Talvez uma hora.

— Então, primeiro me faça um favor. Desfaça-se desse sedã no qual a trouxe.

— Já o fiz.

O homem da cicatriz assentiu e deixou o quarto, fechando a porta.

Phury colocou as mãos sobre os quadris e olhou o chão.

Logo foi para uma caixa de mogno que havia sobre a escrivaninha e tirou o que parecia um cigarro. Sustentando o cigarro enganchado na mão entre o polegar e o indicador, acendeu-o aspirando profundamente, mantendo a fumaça em seus pulmões por um momento para logo exalar lentamente, fechando os olhos. Quando exalou, a fumaça cheirava como uma combinação de grãos de café torrado e chocolate quente. Delicioso.

Quando os músculos de John relaxaram, perguntou-se do que era feita essa coisa. Estava seguro de que não era maconha. Mas, não era um cigarro comum.

— Quem é ele? — escreveu John, e lhe mostrou o bloco de papel.

— Zsadist. Meu gêmeo. — Phury começou a rir brevemente quando o queixo de John afrouxou — Sim, sei, não nos parecemos muito. Ao menos, não agora. Escute, é um pouco sensível, assim provavelmente queira lhe dar um pouco de espaço.

Não fode, pensou John.

Phury colocou uma cartucheira e pôs uma pistola em um dos lados e uma adaga negra no outro. Foi para um armário e voltou usando um jaquetão de couro negro.

Pôs o cigarro ou o que fora em um cinzeiro de prata próximo à cama.

— Bom, vamos.

 

Zsadist entrou silenciosamente em seu quarto. Depois de fixar o termostato e colocar a seringa sobre a mesa, aproximou-se da cama e se apoiou contra a parede, ficando nas sombras. Ficou suspenso no tempo enquanto se inclinava sobre Bela e apreciou a leve ascensão e descida das mantas que marcavam sua respiração. Podia sentir os minutos se transformando em horas, e mesmo assim não pôde mover-se, mesmo quando suas pernas se intumesceram.

À luz da vela viu sua pele curar-se frente a seus olhos. Era milagroso, os machucados desvanecendo-se do rosto, o inchaço ao redor dos olhos e os cortes desaparecendo. Graças ao profundo sono em que se achava, seu corpo estava eliminando os danos, e quando sua beleza foi revelada de novo, esteve condenadamente agradecido. Nas altas esferas em que ela se movia, evitariam a uma fêmea com imperfeições de qualquer classe. Os aristocratas eram assim.

Imaginou o rosto bonito e sem cicatrizes de seu gêmeo e soube que Phury deveria ser quem cuidasse dela. Phury era um perfeito herói, e era óbvio que ela gostava. Além disso, ela gostaria de despertar ao lado de um macho assim. Qualquer fêmea gostaria.

Então, por que, demônios, não a agarrava e a colocava na cama de Phury? Agora mesmo.

Mas, não podia mover-se. E, enquanto a olhava agora que estava sobre os travesseiros que ele nunca tinha usado, entre lençóis que nunca tinha levantado para ele, recordou o passado…

Tinham passado meses desde que o escravo tinha despertado pela primeira vez em seu cativeiro. Neste tempo não havia nada que não lhe tivesse feito, nele ou sobre ele, e havia um ritmo previsível no abuso.

A Mistress estava fascinada por suas partes privadas e sentia a necessidade de mostrá-las a outros machos que ela favorecia. Trazia esses forasteiros à cela, tirava o bálsamo, e o mostrava como um cavalo premiado. Ele sabia que era para manter os outros inseguros, já que podia ver o prazer em seus olhos quando os machos sacudiam suas cabeças com assombro.

Quando as inevitáveis violações começaram, o escravo fez todo o possível para sair de sua pele e ossos. Era muito mais suportável quando podia elevar-se no ar, e subia mais alto e mais alto até que ricocheteava ao chegar ao teto, uma nuvem dele mesmo. Se tivesse sorte, podia transformar-se completamente e só flutuar, lhes vendo de acima, recreando-se sendo a testemunha da humilhação, dor e degradação de alguém mais. Mas, nem sempre funcionava. Às vezes, não podia liberar-se, e era forçado a suportá-lo.

A Mistress sempre teve que usar o bálsamo sobre ele, e ultimamente tinha notado algo estranho: inclusive quando estava preso em seu corpo e tudo o que lhe faziam era intenso, mesmo que os sons e os aromas se aninhassem como ratos em seu cérebro, havia um deslocamento curioso debaixo de sua cintura. O que fosse que sentisse ali embaixo era registrado como um eco, como algo separado do resto dele. Era estranho, mas estava agradecido. Qualquer classe de intumescimento era bom.

Sempre que o deixavam só, trabalhava para aprender a controlar os enormes músculos e ossos de depois da transição. Ele o obteve, e tinha atacado aos guardas várias vezes, totalmente persistente em seus atos de agressão. Na verdade, já não sabia se conhecia aqueles machos que o vigiavam, os que sentiam tanta repugnância pela sua tarefa: seus rostos lhe eram familiares como figuras de sonho, só restos nebulosos de uma vida desgraçada da que deveria ter desfrutado mais.

Cada vez que o tinha feito, tinha sido golpeado durante horas, embora só sobre as palmas das mãos e as plantas dos pés, porque a Mistress gostava que se mantivesse agradável à vista. Como conseqüência de sua agressividade, agora era vigiado por um grupo rotatório de guerreiros, todos usavam cota de malha se por acaso entrasse em sua cela. Além disso, a plataforma do leito agora tinha algemas embutidas que podiam ser abertas pelo lado de fora, de modo que depois que tivesse sido usado, os guardas não tinham que pôr suas vidas em perigo ao soltá-lo. E, quando a Mistress queria vir, era drogado até a submissão fosse por seu alimento ou por dardos que lhe disparavam por uma fissura na porta.

Os dias passavam devagar. Estava concentrado em encontrar a debilidade nos guardas e em afastar-se tanto como pudesse da depravação… Quando, na realidade, já estava morto. E, tão morto que inclusive quando estivesse longe da Mistress, em realidade nunca estaria vivo outra vez.

O escravo comia na cela, tratando de conservar as forças para o seguinte enfrentamento com os guardas, quando viu que o painel se abria e um tubo oco aparecia. Saltou, embora não houvesse onde esconder-se, sentiu a primeira picada no pescoço. Tirou o dardo tão rápido como pôde, mas foi atingido por outro e logo outro até que seu corpo ficou pesado.

Despertou sobre o leito, com os grilhões postos.

A Mistress estava sentada diretamente a seu lado, a cabeça baixa, o cabelo lhe cobrindo o rosto. Como se soubesse que estava consciente, pousou seu olhar no dele.

— Ficarei noiva.

Ah, doce Virgem do Fade, as palavras que tinha desejado escutar. Seria livre agora, já que ela não necessitaria a nenhum escravo de sangue se tinha um hellren. Poderia voltar para seus deveres na cozinha… O escravo se obrigou a dirigir-se a ela com respeito, embora para ele fosse uma fêmea indigna.

— Mistress, me deixará ir?

Só houve silêncio.

— Por favor, deixe-me ir. — disse ele grosseiramente. Considerando tudo pelo que tinha passado, deixar seu orgulho de lado pela possibilidade de ser livre era um sacrifício fácil.

— Rogo, Mistress, me libere deste confinamento. — quando ela o olhou, havia lágrimas em seus olhos.

— Averiguo que não posso… Tenho que te manter. Devo te manter.

Ele começou a lutar, e quanto mais forte lutava contra as ataduras, mais crescia o olhar de amor sobre seu rosto.

— É tão magnífico. — disse, baixando as mãos para tocá-lo entre as pernas. Seu rosto era… Melancólico, quase de adoração — Nunca vi um macho como você. Se não estivesse tão abaixo de mim… Mostraria sua face em minha corte como meu consorte.

Viu seu braço mover-se devagar acima e abaixo e soube que devia estar trabalhando essa corda de carne que tanto a interessava. Felizmente, não podia senti-lo.

— Deixe ir…

— Nunca te endurece sem o bálsamo. — murmurou com voz triste — E, nunca encontra a liberação. Por quê?

Acariciou-lhe com mais força até que sentiu que lhe queimava abaixo onde ela o tocava. Havia frustração em seus olhos, obscurecendo-os.

— Por quê? Por que não me quer? — quando ficou em silencioso, ela deu um puxão em sua parte masculina — Sou bonita.

— Só para os outros. — disse antes de poder deter as palavras.

Seu fôlego se deteve, como se a tivesse afogado com suas próprias mãos. Então, seus olhos se deslizaram sobre seu estômago e do peito ao rosto. Ainda estavam brilhantes com lágrimas, mas a raiva também os enchia.

A Mistress levantou da cama e o olhou. Então, lhe esbofeteou com a mão tão forte que devia ter machucado a palma. Enquanto cuspia sangue, perguntou-se se um de seus dentes não iria junto.

Enquanto seus olhos lhe perfuravam, esteve seguro de que faria com que o matassem, e a calma se apoderou dele. Ao menos o sofrimento terminaria então. A morte… A morte seria gloriosa.

Bruscamente lhe sorriu, como se conhecesse seus pensamentos, como se tivesse esticado a mão e os tivesse tirado dele, como se os tivesse roubado tal como tinha roubado seu corpo.

— Não, não te enviarei ao Fade.

Inclinou-se e beijou um de seus mamilos, logo o sugou em sua boca. Sua mão foi à deriva sobre suas costelas, logo a seu ventre.

Sua língua revoou sobre sua carne.

— Está esgotado. Tem que te alimentar, verdade?

Desceu por seu corpo, beijando e chupando. E, logo, rapidamente, ocorreu. O bálsamo. Ela colocando-se sobre ele. Aquela horrível união de seus corpos.

Quando fechou os olhos e girou a cabeça, ela o golpeou com a mão uma vez… Duas vezes… Muitas vezes mais. Mas, se recusou a olhá-la, e ela não era forte o bastante para girar seu rosto, inclusive quando lhe agarrou por uma das orelhas.

Enquanto se negava a olhá-la, o gemido cresceu, tão ruidoso como o som de sua carne contra seus quadris. Quando terminou, foi-se em um redemoinho de seda, e não muito tempo depois disso foi liberado das algemas.

O escravo se levantou sobre o antebraço e limpou sua boca. Olhando o sangue em sua mão, surpreendeu-lhe que continuasse sendo vermelho. Sentia-se tão sujo, que não estranharia que fosse algum tipo de marrom ferrugento.

Desceu da cama, ainda enjoado pelos dardos, e encontrou a esquina a qual sempre ia. Sentou-se com as costas para a junção das paredes e encolheu as pernas para cima, contra o peito, de modo que os tornozelos estivessem apertados contra suas partes masculinas.

Algum tempo depois, escutou uma luta fora de sua cela, e logo os guardas empurraram a uma fêmea pequena para dentro. Ela caiu em um montão, mas se lançou à porta quando esta se fechou.

— Por quê? — gritou ela — Por que me castigam?

O escravo se levantou, sem saber o que fazer. Não tinha visto uma fêmea com exceção da Mistress desde que tinha despertado no cativeiro. Esta era uma criada ou algo assim. Recordou-a de antes…

A fome de sangue despertou nele quando captou seu aroma. Depois de tudo o que a Mistress lhe tinha feito, não podia vê-la como alguém de quem beber, mas esta fêmea diminuta era diferente. De repente, estava morto de sede, as necessidades de seu corpo emergindo como um coro de gritos e demandas. Deu uns poucos passos cambaleantes para a criada, sentindo só o instinto.

A fêmea golpeou a porta, mas então pareceu notar que não estava sozinha. Quando se voltou e viu com quem a tinham encerrado, gritou.

O escravo quase foi superado por seu impulso de beber, mas se forçou a ir para longe dela e voltou de novo para onde tinha estado. Agachou-se, envolvendo os braços ao redor de seu trêmulo corpo nu para mantê-lo no lugar. Voltando o rosto para a parede, tentou respirar… E, se encontrou a beira do pranto pelo animal ao que o tinham reduzido.

Um pouco depois, a mulher deixou de gritar, e depois de mais um tempo ainda, disse:

— É você, verdade? O moço da cozinha, que levava a cerveja.

Assentiu com a cabeça, sem olhá-la.

— Tinha ouvido rumores de que haviam lhe trazido aqui, mas eu… Acreditei quando disseram que tinha morrido durante sua transição. — houve uma pausa — É muito grande. Como um guerreiro. Por quê?

Ele não tinha nem idéia. Nem sequer sabia que aspecto tinha, pois não havia espelho na cela.

A fêmea se aproximou cautelosamente. Quando a olhou, ela estava olhando suas listras tatuadas.

— Na verdade, o que lhe fazem aqui? — sussurrou ela — Dizem que… Coisas terríveis são feitas ao varão que mora neste lugar.

Quando não disse nada, ela se sentou a seu lado e lhe tocou brandamente o braço. Ele estremeceu com o contato e então se deu conta que o acalmava.

— Estou aqui para te alimentar, não é assim? Essa é a razão pela qual me trouxeram. —depois de um momento lhe separou a mão ao redor de sua perna e lhe pôs seu pulso na palma.

— Deve beber. — então ele chorou, chorou por sua generosidade, por sua amabilidade, pela sensação de sua mão tenra enquanto esfregava seu ombro… O único toque ao qual tinha dado boas-vindas em… Sempre. Finalmente lhe apertou o pulso contra sua boca.

Embora suas presas saíssem e ele a desejou, não fez nada, só beijar sua tenra pele e rechaçá-la. Como poderia tirar dela o que era tomado regularmente dele? Ela o oferecia, mas a estavam forçando a fazê-lo, prisioneira da Mistress justo como ele era.

Os guardas entraram mais tarde. Quando a encontraram embalando-o, surpreenderam-se, mas não foram duros com ela. Enquanto se iam, olharam ao escravo, com preocupação em seus rostos.

Momentos mais tarde, os dardos vieram a ele, tantos pela porta que era como se o houvessem coberto com cimento. Enquanto se deslizava para a inconsciência, pensou vagamente que a natureza frenética do ataque não era de bom agouro.

Quando despertou, a Mistress estava de pé sobre ele, furiosa. Havia algo em sua mão, mas não podia ver o que era.

— Pensa que é muito bom para os presentes que te dou?

A porta se abriu e o corpo brando da jovem fêmea foi jogado. Enquanto os guardas saíam, caiu pesadamente ao chão como um trapo. Morta.

O escravo gritou em sua fúria, o rugido ricocheteando nas paredes de pedra da cela, como um trovão amplificado. Puxou a corrente de aço até que o corte lhe chegou ao osso, até que um dos postes se rachou com um ruído… E, ainda gritava.

Os guardas se afastaram. Inclusive a Mistress pareceu insegura da fúria que tinha desatado. Mas, como sempre, não passou muito tempo antes que tomasse o comando.

— Deixem. — gritou aos guardas.

Esperou até que o escravo se esgotou. Então, se inclinou para ele, só para ficar pálida.

— Seus olhos. — sussurrou olhando-o — Seus olhos…

Por um momento, pareceu assustada com ele, mas então se cobriu com uma capa de majestoso autodomínio.

— As fêmeas que te ofereço? Beberá delas. — jogou uma olhada ao corpo sem vida da criada — E, é melhor que não deixe que lhe consolem, ou farei isto outra vez. É meu e de ninguém mais.

— Não beberei. — gritou — Nunca!

Deu um passo atrás.

— Não seja ridículo, escravo.

Ele mostrou suas presas e vaiou.

— Olhe-me, Mistress. Observe como me enfraqueço!

Gritou a última palavra, sua retumbante voz enchendo o quarto. Enquanto ela estava rígida de fúria, a porta voou aberta e os guardas entraram com as espadas para fora.

— Deixem-nos. — grunhiu, a face vermelha, o corpo tremendo.

Levantou a mão e havia uma vara nela. Com uma sacudida brusca do braço, golpeou com a arma que cruzou o peito do escravo. Sua carne se rasgou e sangrou, e ele riu dela.

— Outra vez. — gritou — Faz outra vez. Não senti, é tão débil!

Algum grilhão se arrebentou em seu interior, e as palavras não paravam… Insultou-a enquanto o açoitava até que a plataforma do leito fluía com o que tinha estado em suas veias. Quando finalmente não pôde levantar mais o braço, ofegava e estava salpicada de sangue e suor. Ele estava concentrado, gelado, tranqüilo, a pesar da dor. Embora fosse ele quem tinha sido golpeado, ela era a que tinha se quebrado primeiro.

Sua cabeça caiu para baixo, como em submissão, enquanto arrastava o fôlego por seus lábios brancos.

— Guarda. — chamou com voz rouca — Guarda!

A porta se abriu. O macho uniformizado que entrou vacilou quando viu o que tinha sido feito, o soldado empalideceu e oscilou em suas botas.

— Sustente a cabeça dele. — a voz da Mistress era aguda enquanto deixava a vara cair — Disse que sustentasse sua cabeça. Agora.

O guarda tropeçou, apressando-se sobre o chão escorregadio. Então, o escravo sentiu uma palma carnuda em sua testa.

A Mistress se inclinou sobre o corpo do escravo, ainda respirando com força.

— Não te… Permito… Morrer.

Sua mão encontrou sua carne masculina e logo passou aos pesos gêmeos abaixo. Apertou e retorceu, fazendo com que seu corpo inteiro tivesse espasmos. Enquanto ele gritava, ela mordeu seu pulso e o sustentou sobre sua boca aberta, e sangrou.

 

Z se afastou da cama. Não queria pensar na Mistress na presença de Bela… Como se todo aquele mal pudesse escapar de sua mente e colocá-la em perigo enquanto dormia e se curava.

Aproximou-se da plataforma e compreendeu que estava curiosamente cansado. Esgotado, na realidade.

Enquanto se esticava no chão, sua perna palpitou malditamente.

Deus, tinha esquecido que tinha levado um tiro. Tirou as botas de combate, as calças e acendeu uma vela ao lado para iluminar. Levantando e girando a perna, inspecionou a ferida sobre sua panturrilha. Havia um buraco de entrada e outro de saída, assim sabia que a bala tinha transfixado. Viveria.

Apagou a vela com um sopro, cobriu os quadris com as calças, e deitou. Abrindo-se à dor de seu corpo, converteu-se em um recipiente para a agonia, recolhendo todos os matizes de suas dores e ardências.

Ouviu um barulho estranho, como um pequeno grito. O som se repetiu, e logo Bela começou a lutar sobre a cama, os lençóis rangendo como se estivesse sacudindo-se.

Levantou do chão e se aproximou, justo quando ela inclinou a cabeça para ele e abriu os olhos.

Piscou, olhou-o… E, gritou.

 

— Quer comer algo, amigo?

Disse Phury a John enquanto caminhavam para a mansão. O menino parecia cansado, mas qualquer um estaria. Ser pinçado e cravado era duro. Ele mesmo se sentia um trapo.

Quando John sacudiu a cabeça e a porta do vestíbulo se fechou, Tohr vinha descendo a escada apressado, com aspecto de um pai nervoso. Apesar de Phury ter ligado e lhe dado um relatório a caminho de casa.

A visita a Havers tinha ido bem. A pesar do ataque, John estava saudável, e os resultados dos exames de linhagem estariam disponíveis logo. Com sorte, encontrariam alguma coincidência com seus ancestrais, e isto ajudaria John a encontrar sua família. Assim não havia nenhum motivo de preocupação.

De todos os modos, Tohr pôs o braço ao redor dos ombros do moço e o menino relaxou. Uma espécie de comunicação olho a olho ocorreu, e o irmão disse:

— Acredito que te levarei para casa.

John assentiu e fez alguns gestos. Tohr levantou os olhos.

— Diz que se esqueceu de perguntar como está sua perna.

Phury levantou o joelho e tocou a panturrilha.

— Melhor, obrigado. Cuide-se, John, certo?

Observou como os dois desapareciam pela porta sob a escada.

Que bom menino, pensou, e graças a Deus que o tinham encontrado antes de sua transição.

Um grito feminino rasgou o vestíbulo, como se o som estivesse vivo e tivesse caído martelando o balcão.

A coluna vertebral de Phury congelou. Bela.

Precipitou-se ao segundo andar e correu pelo corredor de estátuas. Quando abriu a porta de Zsadist, a luz espalhou-se pelo quarto e ele gravou a cena em sua memória imediatamente: Bela sobre a cama, encolhida contra a cabeceira, o lençol apertado contra a sua garganta. Z agachado diante dela, as mãos levantadas, nu da cintura para abaixo.

Phury perdeu o controle e se lançou para Zsadist, agarrando seu gêmeo pela garganta e jogando-o contra a parede.

— O que acontece com você? — gritou enquanto batia Z contra a parede — Maldito animal! — Z não se defendeu quando o golpeou outra vez.

— Saia. Saia daqui. — foi tudo que disse.

Rhage e Wrath irromperam no quarto. Ambos começaram a falar, mas Phury não podia ouvir nada exceto o rugido em seus ouvidos. Nunca tinha odiado Z antes. Tinha sido tolerante a tudo devido ao que ele tinha passado. Mas ir atrás de Bela…

— Maldito doente. — gritou Phury. Empurrando aquele duro corpo à parede uma vez mais — Maldito doente… Deus, repugna-me.

Z simplesmente o olhava, seus olhos negros como o asfalto, opacos e sem vida.

De repente os enormes braços de Rhage os prenderam como uma armadilha, unindo-os em um esmagante abraço de urso. Em um sussurro, o irmão disse:

— Bela não precisa disto agora, rapazes.

Phury diminuiu seu aperto e recobrou-se. Ajeitando o casaco em seu lugar, disse bruscamente:

— Tirem ele daqui até que a removamos.

Deus, tremia tanto que quase hiperventilava. E, a ira não lhe abandonava, inclusive enquanto Z abandonava o quarto voluntariamente, com o Rhage em seus calcanhares.

Phury esclareceu garganta e olhou a Wrath.

— Meu senhor, permite-me atendê-la em privado?

— Sim, claro. — a voz de Wrath era um desagradável grunhido enquanto movia-se para porta — E, nos asseguraremos que Z não volte por um tempo.

Phury olhou Bela. Tremia enquanto piscava e limpava seus olhos. Quando se aproximou, ela se encolheu contra os travesseiros.

— Bela, sou eu, Phury.

Seu corpo relaxou um pouco.

— Phury?

— Sim, sou eu.

— Não posso ver. — sua voz tremia como o inferno — Não posso…

— Sei, é o remédio. Deixe pegar algo para limpá-lo.

Entrou no banheiro e voltou com um pano úmido, imaginando que precisava olhar a seu redor mais do que necessitava do ungüento.

Ela estremeceu quando ele a segurou pelo queixo.

— Tranqüila, Bela… — quando pôs o pano sobre seus olhos, debateu-se e logo o segurou.

— Não, não… Baixe suas mãos. Eu o tirarei.

— Phury? — disse com voz rouca — É você?

— Sim, sou eu. — sentou-se na borda da cama — Está no recinto da Irmandade. Trouxeram-lhe aqui faz aproximadamente sete horas. Sua família foi informada de que está a salvo, e quando desejar pode chamá-los.

Quando ela pôs sua mão no seu braço dele, ele congelou. Com um toque inseguro, apalpou desde seu ombro até o pescoço, logo tocou seu rosto e finalmente o cabelo. Sorriu um pouco quando sentiu as grosas ondas e então levou algumas a seu nariz. Respirou profundamente e pôs a outra mão em sua perna.

— Realmente é você. Lembro do aroma de seu xampu.

A proximidade e o contato faiscaram através da roupa e da pele de Phury, entrando diretamente em seu sangue. Sentia-se um bastardo por sentir algo sexual, mas não podia parar seu corpo. Especialmente, quando acariciou seu comprido cabelo até tocar seu peito.

Seus lábios se abriram, sua respiração tornou-se superficial. Desejou arrastá-la contra seu peito e sustentá-la apertada. Não pelo sexo, embora fosse verdade que seu corpo a desejava. Não, agora precisava sentir seu calor e assegurar-se de que estava viva.

— Deixe-me cuidar de seus olhos. — disse. Jesus, sua voz era profunda.

Quando ela assentiu, limpou cuidadosamente suas pálpebras.

— Como está?

Piscou. Sorriu um pouco e pôs a mão em seu rosto.

— Posso ver-te melhor agora. — mas então franziu o cenho — Como saí de lá? Não posso recordar nada, exceto... Deixei o outro civil fugir e David retornou. E, depois estava em um carro. Ou foi um sonho? Sonhei que Zsadist me salvava. Ele fez isso?

Phury não estava com vontade de falar de seu irmão, tangencialmente. Levantou-se e deixou o pano molhado na mesinha de cabeceira.

— Vamos, levarei você a seu quarto.

— Onde estou agora? — olhou ao redor, e então ficou boquiaberta — Este é o quarto de Zsadist.

Como infernos sabia?

— Vamos.

— Onde está? Onde está Zsadist? — a urgência se filtrava em sua voz — Preciso vê-lo. Necessito…

— Levarei você a seu quarto…

— Não! Quero ficar…

Estava tão agitada que decidiu não seguir tentando falar com ela. Retirou as cobertas para ajudá-la a levantar-se...

Droga, estava nua. Deu um puxão nas cobertas novamente e as pôs no lugar.

— Ah! Perdão... — levou uma mão ao cabelo. Oh, Deus... As graciosas linhas de seu corpo eram algo que nunca ia esquecer — Deixe-me... Um, deixe-me conseguir algo para você vestir.

Foi ao armário de Z e ficou atônito por quanto vazio estava. Não havia nem sequer um roupão para cobri-la, e maldito fosse se colocasse nela uma das camisas de luta de seu irmão. Tirou a jaqueta de couro e caminhou para ela outra vez.

— Virarei enquanto veste isto. Encontraremos um roupão para você…

— Não me leve para longe dele. — sua voz se quebrou ao lhe suplicar — Por favor. Deve ter sido ele quem estava parado ao lado da cama. Não sabia, não podia ver. Mas, devia ser ele.

Seguro como o inferno que era ele. E, o bastardo tinha estado nu como o pecado e preparado para saltar sobre ela. Em vista de tudo pelo que tinha passado, era uma vergonha. Homem... Há anos Phury tinha pego Z fazendo sexo em um beco com uma prostituta. Não tinha sido bonito, e a idéia de Bela passando por isso o pôs doente.

— Ponha a jaqueta. — Phury virou-se — Aqui, você não fica. — quando finalmente a ouviu mexer na roupa de cama e o ruído do couro, respirou profundamente — Está decente?

— Sim, mas não quero ir.

Olhou sobre seu ombro. Via-se diminuta na jaqueta que ele sempre vestia, seu comprido cabelo castanho caindo ao redor de seus ombros, as pontas frisadas como se os tivesse lavado e secaram sem ser escovados. Imaginou ela na banheira, com água limpa correndo sobre sua pele pálida.

E, então viu Zsadist surgindo ameaçador sobre ela, olhando-a com olhos negros sem alma, desejando transar com ela, provavelmente só porque estava assustava. Sim, seu medo seria o que lhe excitaria. Era bem sabido que o terror em uma fêmea lhe excitava mais que algo encantado ou quente ou digno.

Tire ela daqui, pensou Phury. Agora.

Sua voz ficou trêmula.

— Pode caminhar?

— Estou enjoada.

— Levarei você. — aproximou-se, incapaz de acreditar que ia pôr os braços ao redor de seu corpo. Mas, então já estava acontecendo... Deslizou a mão ao redor de sua cintura e chegou embaixo, pegando-a por trás dos joelhos. Notando apenas seu peso, seus músculos aceitando-o facilmente.

Enquanto caminhava à porta ela relaxou contra ele, pondo a cabeça em seu ombro, agarrando sua camisa com mão.

Oh... Doce Virgem. Isto era tão bom.

Phury a levou pelo corredor ao outro lado da casa, ao quarto contíguo ao seu.

 

John estava em piloto automático quando ele e Tohr deixaram as instalações de treinamento e caminharam através do estacionamento onde tinham deixado o Range Rover. Seus passos ecoavam no baixo teto de concreto, ricocheteando através do espaço vazio.

— Sei que tem que ir buscar o resultado. — disse Tohr quando chegavam ao SUV — Desta vez vou contigo, aconteça o que acontecer.

Na realidade, John desejava poder ir sozinho.

— Qual é o problema, filho? Está zangado porque não te levei esta noite? — John pôs a mão no braço de Tohr e sacudiu a cabeça vigorosamente.

— Bom, só queria estar seguro.

John olhou ao longe, desejando não ter ido nunca ao doutor. Ou pelo menos quando esteve ali, ter mantido a boca fechada. Infernos. Não deveria haver dito nenhuma palavra sobre o que tinha lhe acontecido no ano passado. O problema foi, que depois de todas as perguntas sobre sua saúde, tinha estado em modo “respostas”. Assim, quando o doutor tinha perguntado por sua história sexual, ele se referiu à coisa que aconteceu em janeiro. Pergunta. Resposta. Como todas as demais... Quase.

Por um momento se sentiu aliviado. Nunca tinha ido ao médico nem nada antes, e no fundo de sua mente sempre tinha estado preocupado a respeito do que talvez devesse ter feito. Imaginou que ao menos ao justificar-se conseguiria que lhe fizessem uma verificação completa e dessa forma acabar de uma vez por todas com o assunto do ataque. Em vez disso, o doutor tinha começado a falar a respeito de fazer uma terapia e da necessidade de falar sobre a experiência.

Como se desejasse revivê-la? Tinha passado meses tentando enterrar a maldita coisa, assim de maneira nenhuma desenterraria esse cadáver em decomposição. Havia custado muito enterrá-lo.

— Filho? O que aconteceu? — não iria ver nenhum terapeuta. Trauma do passado. Que se foda.

John tirou seu bloco e escreveu:

— Cansado.

— Certeza? — assentiu com a cabeça e olhou Tohr para que o homem pensasse que não mentia. Enquanto isso, encolhia-se por dentro. O que Thor pensaria se soubesse o que tinha acontecido? Os verdadeiros homens não permitiam que lhes fizessem isso sem importar que tipos de arma tivessem contra suas gargantas.

John escreveu:

— A próxima vez vou ao Haver sozinho, ok?

Tohr franziu o cenho.

— Ah... Isso não é muito inteligente, filho. Você precisa de um guardião.

— Então, deve ser outro. Você não. — John não podia olhar Tohr quando mostrou o papel. Houve um longo silêncio.

A voz de Tohr ficou muito baixa.

— OK. Isso... Ah, isso está muito bom. Possivelmente, Butch possa te levar.

John fechou os olhos e exalou. Quem quer que fosse este Butch lhe serviria.

Tohr arrancou o carro.

— Como queira, John.

John. Não filho.

Enquanto saíam, tudo o que ele podia pensar era, querido Deus, não deixe que Tohr descubra nunca, por favor.

 

Enquanto Bela desligava o telefone, rondou-lhe o pensamento de que o que estava ocorrendo no interior de seu peito era tão explosivo, que ia partir ela em pedacinhos a qualquer momento. Não havia maneira de que seus delicados ossos e sua frágil pele suportassem o tipo de emoção que estava sentindo.

Com desespero, olhou ao redor do quarto, vendo os indefinidos e imprecisos perfis de pinturas a óleo, móveis antigos e abajures feitos de vasos orientais e… Phury olhando-a de uma poltrona.

Recordou que igual a sua mãe, era uma dama. Assim, ao menos devia fingir que tinha algum autocontrole. Clareou a garganta.

— Obrigado por ficar aqui enquanto ligava a minha família.

— De nada.

— Minha mãe ficou... Muito aliviada por ouvir minha voz.

— Posso imaginar.

Bom, ao menos sua mãe havia dito palavras tranqüilizantes. Seu afeto havia sido tão suave e calmo como sempre. Deus… Ela era um lago de águas calmas. Inalterável ante os acontecimentos terrenos por mais cruéis que fossem. E, tudo pela sua devoção a Virgem Escriba. Para sua mãe, tudo ocorria por alguma razão... Inclusive, nada lhe parecia verdadeiramente importante.

— Minha mãe… Ficou muito aliviada. Ela… — Bela se deteve.

Já havia dito essas mesmas palavras, verdade?

— Mamãe ficou… Realmente ficou… Ficou aliviada.

Mas, teria ajudado se ao menos ela não tivesse sufocado seus sentimentos. Ou tivesse mostrado algo que não fosse a beata aceitação da espiritualidade ilustrada. Por Deus, a fêmea tinha enterrado a sua filha e tinha sido testemunha de sua ressurreição. Caberia pensar que mostrasse algum tipo de reação emocional. Em troca, foi como se tivessem se falado um dia antes, e nada das seis semanas passadas tivessem ocorrido.

Bela olhou para o telefone. Abraçando-se ao estômago.

Sem nenhuma advertência do que ia ocorrer, desmoronou-se. Os soluços saíram dela como espasmos: rápidos, duros, sacudindo-a com sua ferocidade.

A cama se inclinou e uns fortes braços a rodearam. Ela lutou contra a atração, pensando que um guerreiro não quereria lidar com tal torpe debilidade.

— Perdoe-me…

— Está bem, Bela. Apóie-te em mim.

Oh, demônios… Ela se deixou cair contra Phury, deslizando seus braços por sua magra cintura. Seu comprido e formoso cabelo lhe fez cócegas no nariz e cheirava tão bem que era maravilhoso tê-lo sob seu rosto. Enterrou-se nele, respirando profundamente.

Quando finalmente se acalmou, se sentiu mais leve, mas não era agradável. As furiosas emoções a atingiram em cheio, tinham-lhe dado curvas e peso. Agora, que sua pele não era mais que uma peneira, estava filtrando-se, convertendo-se em ar… Convertendo-se em nada.

Queria desaparecer.

Inalou e se separou do abraço de Phury. Piscando rapidamente, tentou enfocar o olhar, mas o atordoamento produzido pelo ungüento persistia. Deus, o que tinha feito aquele lesser? Tinha a sensação de que tinha sido mau...

Ela levantou as pálpebras.

— O que ele me fez?

Phury só sacudiu a cabeça.

— Foi tão ruim?

— Acabou. Está a salvo. Isso é tudo o que importa.

Não sinto nada disso sobre mim, pensou ela.

Mas, então Phury sorriu, seu olhar amarelo incrivelmente terno, um bálsamo que a tranqüilizou.

— Seria mais fácil se estivesse em sua casa? Porque se quiser, encontraremos uma maneira de te levar, embora o amanhecer esteja muito próximo.

Bela lembrou-se de sua mãe e não pôde imaginar-se na mesma casa que essa fêmea. Não precisamente agora. E, indo mais fundo na questão, havia Rehvenge. Se seu irmão a visse com qualquer tipo de ferida, ia ficar louco, e o último que ela precisava era que ficasse em pé de guerra contra os lessers. Queria que a violência terminasse. Por isso no que a ela concernia, David podia ir para o inferno neste mesmo momento, contudo não queria que ninguém a quem amava arriscasse sua vida por enviá-lo ali.

— Não, não quero ir para casa. Não até que esteja completamente curada. E, estou muito cansada… — sua voz foi debilitando-se enquanto olhava os travesseiros.

Depois de um momento, Phury se levantou.

— Estou na porta do lado, se me necessitar.

— Quer que te devolva o casaco?

— Oh, sim… Deixe-me ver se há um roupão aí. — ele desapareceu em um armário e voltou com um roupão de cetim negro pendurado no braço — Fritz abastece este quarto de convidados para homens, assim provavelmente é muito grande.

Ela agarrou o roupão e ele se virou. Quando encolheu os ombros para tirar o pesado casaco de pele o ar a esfriou, assim se envolveu rapidamente no roupão.

— Está bem. — disse ela, agradecida por sua discrição.

Quando Phury virou para ela, pôs-lhe o casaco nas mãos.

— Sempre estou te dando obrigado, não? – murmurou ela.

Ele a olhou durante um longo momento. Então, lentamente levantou seu casaco até o rosto e aspirou profundamente.

— É… — sua voz decaiu. Deixou escorregar o couro a um lado e uma curiosa expressão apareceu em seu rosto.

Realmente, não, isso não era uma expressão. Era uma máscara. Ele tinha se escondido.

— Phury?

— Estou contente de que esteja conosco. Tente dormir um pouco. E, se puder, come o que te trouxe. — a porta se fechou depois, sem fazer nenhum ruído.

 

A volta à casa de Tohr foi embaraçosa, e John passou o tempo olhando pela janela. O celular de Tohr tocou duas vezes. Ambas as conversas foram no Idioma Antigo, e o nome de Zsadist se mencionou várias vezes.

Quando viraram para o caminho da entrava, um carro desconhecido tinha estacionado. Um Volkswagen Jetta vermelho. Ainda assim, Tohr não pareceu surpreso e passou facilmente a seu lado e entrou na garagem.

Parou o motor do Range Rover e abriu a porta.

— Por certo, as aulas começam depois de amanhã.

John levantou os olhos enquanto desabotoava o cinto de segurança.

— Já? — gesticulou ele.

— Tivemos a última inscrição para treinamento esta noite. Estamos preparados para começar.

Os dois cruzaram a garagem em silêncio. Tohr ia à frente, seus largos ombros movendo-se com os longos passos que dava. A cabeça do homem ia baixa, como se estivesse contando buracos no chão de concreto.

John parou e assobiou.

Tohr diminuiu o passo e depois parou.

— Sim? — disse com tranqüilidade.

John pegou seu bloco de notas, escreveu algo rapidamente e o mostrou.

As sobrancelhas de Tohr baixaram enquanto lia.

— Não há nada pelo que estar arrependido. O que seja, contanto que fique cômodo.

John se adiantou e apertou o bíceps do homem. Tohr sacudiu a cabeça.

— Está tudo bem. Vamos, não quero que fique na friagem aqui fora. — o homem olhou quando John não se moveu — Ah, demônios… Só estou… Estou aqui por você. Isso é tudo.

John pôs a caneta sobre o papel.

— Não o duvidei nem por um momento. Nunca.

— Bom. Não deveria. Para mim, sinto como se fosse seu… — houve uma pausa enquanto Tohr passava o polegar de um lado a outro da testa — Olhe, não quero te perturbar. Vamos entrar.

Antes que John lhe pedisse que terminasse a frase, Tohr abriu a porta da casa. A voz de Wellsie chegou… Assim, como a de outra mulher. John franziu o cenho enquanto virava para a cozinha. E, então parou em seco enquanto uma mulher loira o olhava sobre seu ombro.

Oh… Uau!

Tinha o cabelo cortado à altura da mandíbula e seus olhos eram da cor das folhas novas. Aquele jeans de cintura baixa que vestia tinha o cós tão baixo na cintura… Deus, podia ver seu umbigo e quase uma polegada embaixo dele. E seu pulôver negro de gola virada era… Bom, posto assim podia dizer exatamente o quanto seu corpo era perfeito.

Wellsie sorriu.

— Meninos, chegam bem a tempo. John, esta é minha prima Sarelle. Sarelle, este é John.

— Olá, John. — a fêmea sorriu.

Presas. Oh, sim. Olhe essas presas… Algo passou como uma brisa quente por sua pele, deixando-o tremente dos pés à cabeça. Saindo de sua confusão, abriu a boca. Então pensou, uh-huh, bom. Como se algo fosse sair de seu buraco inútil.

Enquanto ruborizava como um demônio e se aproximava, levantou a mão em uma saudação.

— Sarelle está me ajudando com o festival de inverno, — disse Wellsie — e ficará para um lanche antes que amanheça. Por que não põem a mesa vocês dois?

Enquanto Sarelle sorria de novo, esse agradável formigamento se fez mais forte, sentiu-se como se fosse levitar.

— John? Quer ajudar a pôr a mesa? — sugeriu Wellsie.

Ele assentiu. E, tentou recordar onde estavam as facas e os garfos.

 

Os faróis de O oscilaram em frente da cabana do Senhor X. A pequena caminhonete do Fore-lesser estava estacionada à direita, junto à porta. O parou seu caminhão atrás do Town & Country, bloqueando-o.

Quando saiu e o ar frio entrou em seus pulmões, ficou consciente de que se encontrava na área. Apesar do que estava a ponto de fazer, suas emoções repousavam como suaves plumas em seu peito, tudo arrumado, nada fora do lugar. Seu corpo estava totalmente sereno, movendo-se com seu poder contido, uma pistola pronta para disparar.

Demorou um montão de tempo batalhando com os pergaminhos, mas tinha encontrado o que necessitava. Sabia o que tinha que fazer.

Abriu a porta da cabana, sem bater.

O Senhor X olhou da mesa da cozinha. Seu rosto estava impassível, sem franzir o cenho, sem brincadeira, sem agressão de nenhum tipo. Nem tampouco surpresa.

Assim, ambos estavam na área.

Sem uma palavra, o Fore-lesser levantou, levando uma mão as costas. O soube o que tinha ali, e sorriu enquanto desembainhava sua própria faca.

— Assim, Sr. O…

— Estou preparado para uma promoção.

— Perdão?

O girou a espada agarrando-a com as duas mãos, virou-a para ele mesmo, colocando sua ponta sobre o peito. Com um movimento, apunhalou seu próprio peito.

A última coisa que viu, antes que o grande inferno branco se agitasse jogando a merda nele, foi a surpresa no rosto do Senhor X. Surpresa que se converteu rapidamente em terror quando o homem se deu conta de onde O iria. E, o que O ia fazer quando estivesse ali.

 

Deitada na cama, Bela escutava os tranqüilizantes sons que a rodeavam: as vozes masculinas no hall, graves, rítmicas… O vento lá, fora golpeando a mansão, caprichoso, instável… O chiado da madeira do piso, rápido, estridente.

Forçou-se a fechar os olhos.

Um minuto depois, estava de pé andando, sentindo o suave tapete persa sob seus pés nus. Nem sequer a elegância a seu redor tinha sentido, e sentia que era incapaz de descrever o que estava vendo. A normalidade, a segurança em que se encontrava encharcada, parecia outro idioma, um que ela tinha esquecido de falar ou ler. Ou possivelmente fosse um sonho?

Na esquina do quarto o antigo relógio marcava cinco horas da manhã. Exatamente, há quanto tempo estava livre? Quanto tinha passado desde que A Irmandade tinha ido resgatá-la, tirando-a da terra e levando-a ao ar livre? Oito horas? Possivelmente, porém era como se fossem minutos. Ou possivelmente como se fossem anos?

A quantidade imprecisa do tempo parecia com sua visão, isolando-a, atemorizando-a.

Apertou mais o roupão de seda. Tudo isto estava mau. Deveria estar contente. Deus, sabia que depois de passar tantas semanas em um tubo enterrada com esse lesser vigiando-a, deveria estar chorando com doce alívio.

Em troca, sentia que tudo o que a rodeava era falso e irreal, como se estivesse em uma casa de bonecas de tamanho natural, cheia de falsificações de papel maché.

Parou frente à janela e se deu conta de que só havia uma coisa que parecia real. Ela desejava estar com ele.

Zsadist, devia ser ele quem havia ido ao lado de sua cama quando despertou a primeira vez. Tinha sonhando que estava de volta ao buraco negro com o lesser. Quando abriu os olhos, tudo o que viu foi uma grande forma negra parada sobre ela, e por um momento, não foi capaz de distinguir a realidade do pesadelo.

Ainda tinha o mesmo problema.

Deus, queria estar com Zsadist agora, queria voltar para seu quarto. Mas, em meio de todo o caos, depois que gritou, ele não tinha impedido que se afastasse, verdade? Possivelmente, preferia que estivesse em outro lugar.

Bela forçou seus pés a moverem-se de novo, traçou um pequeno caminho ao redor dos pés da gigantesca cama, em torno da cadeira, uma volta rápida pelas janelas, depois uma grande mudança de cenário para a cômoda a porta do hall e o antigo escritório. A casa se alongava até chegar à lareira e a estante dos livros.

Um passo mais. Um passo mais. Um passo mais.

Finalmente, foi ao banheiro. Não parou em frente ao espelho, não queria saber que aspecto tinha. O que procurava era água quente. Queria tomar centenas de duchas, um milhar de banhos. Queria tirar a tiras a primeira camada de sua pele e raspar o cabelo que aquele lesser tanto tinha amado, cortar as unhas e lixar as plantas dos pés.

Abriu a torneira da ducha. Quando a água estava morna tirou o roupão e entrou embaixo do chuveiro. No instante em que a corrente bateu em suas costas, cobriu-se por instinto, um braço sobre os seios, uma mão protegendo o vértice das coxas… Até que se deu conta de que não tinha que se esconder. Estava sozinha. Aqui, tinha privacidade.

Endireitou-se e se forçou a levar as mãos aos flancos, sentindo como se tivesse passado uma eternidade desde que lhe tinha permitido banhar-se sozinha. O lesser tinha estado sempre aí, olhando, ou pior, ajudando.

Graças a Deus, nunca tinha tentado ter relações sexuais com ela. Ao princípio, um de seus maiores temores era a violação. Tinha estado aterrorizada, estava segura de que a ia forçar, mas então descobriu que era impotente. Não importava quanto a olhasse, seu corpo sempre tinha permanecido flácido.

Com um estremecimento, pegou o sabonete que tinha ao lado, ensaboando suas mãos e as deslizando sobre os braços. Estendeu a espuma sobre o pescoço e através dos ombros e seguiu para baixo…

Bela franziu o cenho e se inclinou. Havia algo em seu ventre… Cicatrizes pálidas. Cicatrizes que… Oh! Deus. Era um D, verdade? E a seguinte… Era um A. Depois um V e um I e outro D.

Bela soltou o sabonete e cobriu o estômago com as mãos, deixando-o cair contra os ladrilhos. Tinha seu nome no corpo. Em sua pele. Como uma repugnante paródia do ritual matrimonial mais elevado de sua espécie. Realmente era sua mulher…

Saiu cambaleando da ducha, escorregando no chão de mármore, puxou uma toalha e se envolveu nela. Agarrou outra e fez o mesmo. Teria pego três, quatro... Cinco, se tivesse encontrado mais.

Trêmula, com náuseas, dirigiu-se ao embaçado espelho. Inspirando profundamente, limpou-o com os braços. E, se olhou.

 

John limpou a boca e de alguma forma conseguiu derrubar o guardanapo. Amaldiçoando-se, agachou-se para recolhê-lo… Sarelle também o fez, e o pegou primeiro. Vocalizou a palavra obrigada quando o alcançou.

— De nada. — disse ela.

Menino, amava sua voz. E, amava a forma que cheirava a loção corporal de lavanda. E, amava suas longas e magras mãos.

Mas, odiava comer. Wellsie e Tohr levavam a conversa por ele, dando a Sarelle uma versão resumida de sua vida. O pouco que ele tinha escrito em seu caderno de notas parecia uma coisa estúpida.

Quando voltou a levantar a cabeça, Wellsie estava sorrindo-lhe. Mas, então esclareceu a garganta, como se estivesse tentando jogar limpo.

— Assim, como ia dizendo, uns pares de mulheres da aristocracia estavam acostumadas a organizar a cerimônia do solstício de inverno no Antigo País. A mãe de Bela era uma delas, por certo. Quero falar com elas. Assegurar-me de que não esqueci nada.

John deixou transcorrer a conversa, sem prestar muita atenção, até que Sarelle disse:

— Bom, melhor ir. Faltam trinta e cinco minutos para que amanheça. Meus pais ficarão preocupados.

Afastou a cadeira, e John se levantou como todos outros. Enquanto se despediam, encontrou-se perdido no fundo. Ao menos, até que Sarelle o olhasse diretamente.

— Acompanha-me? — perguntou.

Deslocou os olhos para a porta. Acompanhá-la? A seu carro?

Em um ataque repentino, um cru instinto masculino brotou em seu peito, tão poderoso que o sacudiu um pouco. Subitamente, as palmas de suas mãos começaram a fazer cócegas, e as olhou, sentindo como se tivesse algo nelas, como se estivesse sustentando algo… Então, podia protegê-la.

Sarelle esclareceu garganta.

— Ok… Um…

John se deu conta de que estava esperando por ele e rompeu seu pequeno transe. Adiantando-se, indicou-lhe com a mão a porta da rua.

E, enquanto saíam lhe perguntou:

— Está ansioso para treinar?

John assentiu e notou que seus olhos vagavam pelos arredores, procurando entre as sombras. Sentiu como se esticava e como as palmas começavam a picar de novo. Não estava seguro do que procurava exatamente. Só sabia que tinha que mantê-la a salvo a qualquer preço.

Ela tirou as chaves da bolsa.

— Acredito que meu amigo vai estar em sua classe. Presumo que se matriculou esta noite. — abriu o carro — De toda forma, sabe por que estou aqui realmente, não?

Ele negou com a cabeça.

— Acredito que querem que te alimente de mim. Quando passar por sua transição.

John pigarreou pelo choque, estava seguro de que os olhos lhe tinham saído das órbitas e estavam rolando rua abaixo.

— Sinto. — sorriu — Deduzo que não lhe disseram isso.

Sim, ele teria lembrado dessa conversa.

— Parece-me legal. — disse ela — E, a você?

Oh. Meu Deus.

— John? — ela esclareceu a garganta — Dê sua opinião. Tem algo em que possa escrever?

Torpemente, negou com a cabeça. Tinha esquecido o bloco de papel em casa. Idiota.

— Dê-me sua mão. — quando ele a estendeu, tirou uma caneta de algum lugar e a deslizou sobre sua mão. A ponta deslizava brandamente pela sua pele — Este é o meu email. Estarei online em mais ou menos uma hora. Mande-me uma mensagem, ok? Falaremos.

Olhou o que ela tinha escrito. Só olhou.

Ela se encolheu um pouco.

— Quero dizer, não tem por que fazê-lo. Só que… Já sabe. Pensei que poderíamos ir nos conhecendo dessa forma. — deteve-se, como esperando uma resposta — Um… De qualquer forma. Não há pressa. Quero dizer...

Agarrou sua mão, tirou-lhe a caneta e escreveu em sua mão.

— Quero falar com você. — escreveu.

Então, ela olhou diretamente nos seus olhos e fez a coisa mais assombrosa.

Sorriu-lhe.

 

Enquanto amanhecia e as persianas se fechavam sobre as janelas, Bela ajustou o roupão negro e saiu do quarto que lhe tinham atribuído. Com um rápido olhar, examinou o corredor de ambos os lados. Sem testemunhas. Bom. Fechando a porta silenciosamente, deslizou sobre o tapete persa, sem fazer ruído. Quando chegou ao início da grande escada parou, tentando recordar que caminho tomar.

O corredor com estátuas, pensou, recordando outra excursão por aquele comprido corredor fazia muitas, muitas semanas.

Caminhou depressa para depois pôr-se a correr, agarrando as lapelas do roupão e mantendo as bordas fechadas à altura das coxas. Passou ao lado das estátuas e portas, até que chegou ao final e parou na frente do último par. Não se preocupou em recompor-se, porque ela não tinha concerto. Perdida, desmotivada, em perigo de desintegração— não havia nada que recompor. Bateu na porta com força.

Através desta escutou:

— Foda-se. Estou quebrado.

Girou o pomo e empurrou. A luz proveniente do corredor entrou inesperadamente, iluminando uma porção de escuridão. Quando o resplendor alcançou Zsadist, este se sentou em um colchonete de mantas no canto mais longínquo. Estava nu, os músculos flexionados marcando-se o sob a pele, os aros de seus mamilos brilharam prateados. O rosto, com aquela cicatriz, era um anúncio da categoria de tipos duros.

— Disse, foda-se... Bela? — cobriu o rosto com as mãos — Jesus Cristo. O que está fazendo?

Boa pergunta, pensou ela enquanto sua coragem diminuía.

— Posso… Posso ficar aqui, com você?

Ele franziu o cenho.

— O que está... Não, não pode.

Recolheu algo do chão e o sustentou em frente a suas coxas enquanto se levantava. Sem desculpar-se por olhá-lo fixamente, ela se embebedou com sua visão: as listras de escravo tatuadas sobre os pulsos e o pescoço, a argola em sua orelha esquerda, os olhos duros, cortantes, o cabelo raspado. Seu corpo era tão absolutamente enxuto como recordava, todo músculos esculpidos com veias salientes e puros ossos. O poder cru emanava dele como uma essência.

— Bela, vá embora daqui, ok? Este lugar não é para você.

Ela ignorou a ordem de seus olhos e sua voz porque, embora sua coragem tivesse desaparecido, o desespero lhe dava a força que necessitava.

Agora a voz não ia tremer.

— Quando me colocaram no carro, você estava ao volante não é certo? — ele não respondeu, mas tampouco necessitava que o fizesse — Sim, foi, foi você. Falou-me. Foi o único que foi me procurar, verdade?

Ele se ruborizou.

— A Irmandade te resgatou.

— Mas, você dirigiu para me tirar dali. E, me trouxe aqui primeiro. Ao seu quarto. —ela olhou a luxuosa cama. Os cobertores estavam jogados para trás, o travesseiro afundado no lugar onde tinha repousado sua cabeça — Deixe-me ficar.

— Olhe, precisa estar a salvo...

— Estou a salvo com você. Você me salvou. Não permita que esse lesser me pegue de novo.

— Ninguém pode te tocar aqui. Este lugar está cercado como o jardim do Pentágono.

— Por favor...

— Não. — rugiu ele — Agora, sai de uma vez daqui.

Ela começou a tremer.

— Não posso ficar sozinha. Por favor, me deixe ficar com você. Necessito… — necessitava a ele especialmente, mas não acreditava que ele aceitasse isso muito bem — Preciso estar com alguém.

— Então, Phury se aproxima mais ao que está procurando.

— Não, ele não. — ela queria ao homem que tinha em sua frente. Mesmo com toda sua crueldade, confiava nele por instinto.

Zsadist passou a mão pela cabeça umas quantas vezes. Então seu peito se alargou.

— Não faça isso. — sussurrou.

Quando amaldiçoou, ela suspirou com alívio, imaginando que era o mais próximo a um sim que ia conseguir.

— Tenho que vestir algo. — ele murmurou.

Bela deu um passo para entrar e fechou a porta, baixando o olhar só um momento. Quando o levantou de novo, ele tinha virado e estava subindo pelas coxas uma cueca preta de nylon.

As costas, marcadas por cicatrizes, flexionada enquanto se inclinava. Observando o desumano mapa, golpeou-lhe a necessidade de saber exatamente pelo que tinha passado. Tudo isso. Todas e cada uma das chicotadas. Tinha ouvido rumores sobre isso, mas queria sua versão.

Tinha sobrevivido ao que lhe tinham feito. Possivelmente ela também pudesse.

Ele virou-se.

— Comeu?

— Sim, Phury me trouxe comida.

Uma expressão fugaz lhe cruzou o rosto, mas foi tão rápida que não pôde lê-la.

— Dói-te algo?

— Não particularmente.

Ele se aproximou da cama e afofou os travesseiros. Então, permaneceu de pé a um lado, olhando ao chão.

— Deite.

Enquanto se aproximava, desejou rodeá-lo com seus braços, e ele se esticou, como se pudesse lhe ler a mente. Deus, sabia que não gostava que o tocassem, tinha aprendido da pior maneira. Mas de todas as formas queria aproximar-se dele.

Por favor, me olhe, pensou.

Quando estava aponto de pedir, notou que usava algo ao redor de seu pescoço.

— Meu colar. — sussurrou — Usa meu colar.

Esticou a mão, mas ele se inclinou para trás. Com um movimento rápido tirou a frágil corrente de ouro com seus pequenos diamantes e o depositou em sua mão.

— Aqui o tem. Devolvo-lhe.

Ela baixou o olhar. Diamantes puros. Da Tiffany. Tinha-os usado durante anos… Sua jóia favorita. Tinha sido uma parte dela, sempre se sentia nua se não os colocasse. Agora, os frágeis elos pareciam totalmente alheios a ela.

Estava quente, pensou, tocando um diamante. Esquentado por sua pele.

— Quero que fique com ele. — resmungou ela.

— Não.

— Mas...

— Chega de bate-papo. Deite na cama ou saia daqui.

Guardou o colar no bolso do roupão e o olhou. Seus olhos estavam fixos no chão, e quando respirava as argolas de seus mamilos capturavam a luz.

Olhe-me, pensou ela.

Como não o fez, deitou-se na cama. Quando ele se inclinou, moveu-se para lhe deixar um lugar, mas tudo o que ele fez foi cobri-la e então voltou para esquina, ao colchonete no chão.

Bela olhou o teto durante uns poucos minutos. Então, agarrou um travesseiro, saiu da cama e foi atrás dele.

— O que está fazendo? — sua voz se elevou. Alarmada.

Soltou o travesseiro e se deitou, no chão atrás de seu grande corpo. Seu aroma era agora muito mais forte, cheirando a folhas e destilando poder masculino. Procurando seu calor, aproximou-se pouco a pouco até que apoiou a testa na parte de trás de seu braço. Era tão sólido, como um muro de pedra, mas era quente, e o corpo dela relaxou. Perto dele, era capaz de sentir o peso de seus ossos, o duro chão embaixo ela, o ar do quarto que trazia o calor. Através de sua presença, conectou-se de novo ao mundo que a rodeava.

Mais. Mais perto.

Moveu-se até ficar grudada a seu lado, do peito até os pés.

Ele se moveu com uma sacudida, retrocedendo até ficar junto à parede.

— Desculpa. — murmurou, aproximando-se dele de novo — Necessito isto de você. Meu corpo precisa — de você — de algo quente.

Abruptamente, ele se levantou de um salto.

Oh, não. Ia enxotá-la…

— Vamos. — disse ele bruscamente — Vamos para cama. Não posso suportar a idéia de que esteja no chão.

 

Quem te disse que não se pode vender algo duas vezes, nunca conheceu o Ômega.

O virou-se sobre seu estômago e se apoiou nos débeis braços. O vômito era mais fácil assim. A gravidade ajudava.

Enquanto vomitava, recordou a primeira e pequena negociação que tinha feito com o pai de todos os lessers. Na noite da incorporação de O à Sociedade dos Lessers, tinha vendido sua alma, assim como o sangue e o coração, para converter-se em um imortal, aprovado e assassino apoiado.

E, agora tinha outro negócio. O Sr. X já não existia. O agora era o Fore-lesser.

Infelizmente, O também era a prostituta de Ômega agora.

Tentou levantar a cabeça. Quando conseguiu que a sala deixasse de dar voltas, estava muito cansado para preocupar-se com sentir mais náuseas. Ou possivelmente já não havia mais inconvenientes nesse departamento.

A câmara. Estava na câmara do senhor X. E, guiando-se pela luz, já tinha amanhecido. Enquanto piscava pelo débil brilho, olhou para baixo. Estava nu. Marcado com feridas. E, odiou o sabor que tinha na boca.

Ducha. Precisava de uma ducha.

O se arrastou no chão usando a cadeira que havia ao lado da mesa. Quando ficou em pé, as pernas lhe fizeram pensar em lavas vulcânicas por alguma estranha razão. Provavelmente porque sentia ambas como se fossem líquidas.

O joelho esquerdo dobrou-se e ele caiu na cadeira. Enquanto se abraçava, decidiu que o banho podia esperar.

Cara… O mundo era novo outra vez, verdade? E, ele tinha aprendido muitas coisas durante sua promoção. Antes de sua mudança de status, não sabia muito mais do Fore-lesser salvo que era o líder dos caçadores. De fato, o Ômega estava preso no outro extremo e necessitava um canal para fazer-se temporário. O lesser nº 1 era o guia que o Ômega utilizava para encontrar o caminho durante a travessia. Todos os Fore-lesser tinham que abrir o canal e converter-se no farol.

E, havia grandes benefícios em ser o lesser no comando. Benefícios que faziam com que a técnica de congelamento de corpos que o senhor. X estava acostumado a utilizar parecesse uma brincadeira de crianças.

Senhor X… Bom e velho sensei. O se pôs a rir. Apesar de sentir-se como uma merda esta manhã, o senhor X se sentia pior. Garantido.

As coisas tinham ido muito bem depois da rotina de espadas em seu peito. Quando O se jogou aos pés de Ômega, tinha apresentado sua solicitação para uma mudança de liderança. Insinuou que os alistados à Sociedade estavam diminuindo em número, especialmente os Alfas. A Irmandade estava ficando mais forte. O Rei Cego tinha subido ao trono. O senhor X não estava apresentando uma retaguarda forte.

E, tudo era verdade. Mas, nenhum deles aceitou a negociação.

Não, a aproximação tinha ocorrido por causa da atração de Ômega por O.

Na história da Sociedade, tinham existido alguns exemplos nos quais Ômega tinha tomado um interesse pessoal, caso se pudesse chamar assim, por um lesser específico. Não era a bênção que ninguém acreditava. O afeto de Ômega era intenso e de curta duração, e as separações eram horríveis, segundo os rumores. Mas, O estava disposto a mendigar, fingir e mentir para conseguir o que necessitava, e Ômega tinha pego o que lhe tinha dado.

Que horrível forma de matar um par de horas. Mas, valia à pena.

Perguntou-se prazerosamente o que estaria acontecendo agora ao senhor X. Quando O tinha sido libertado, o Ômega tinha ido para chamar o Sr. X ao lar dos outros caçadores e isso já devia ter acontecido. A formação de armas do Fore-lesser estava na mesa, seu telefone celular e o BlackBerry, também. E, havia uma marca de estrela chamuscada sobre a porta de entrada.

O olhou o relógio digital do outro lado da sala. Embora se sentisse muito mal, era hora de se mexer. Pegou o telefone do senhor X, digitou os números, e o levou a orelha.

— Sim, sensei? — respondeu U.

— Produziu-se uma mudança de líder. Quero que seja meu segundo no comando.

Silêncio. Então:

— Bendita merda. O que aconteceu ao senhor X?

— Está comendo sua carta de demissão neste momento. Assim, está comigo?

— Ah, sim. Com certeza. Sou seu garoto.

— Está encarregado dos reconhecimentos neste momento. Não há razão para fazê-lo em pessoa. O correio eletrônico estará bem. E, vou manter os esquadrões como estão. Alfas em duplas. Betas em grupos de quatro. Faz o anúncio sobre o senhor X. Depois traz seu traseiro até a câmara.

O desligou. Não ia conceder nenhuma merda à Sociedade. Não se importava o mínimo com a estúpida guerra com os vampiros. Tinha dois objetivos: pegar sua mulher viva ou morta. E, matar ao Irmão com cicatrizes que a tinha levado.

Enquanto levantava, lhe ocorreu olhar para baixo, a sua flácida masculinidade. Um horrível pensamento serpenteou por sua mente.

Os vampiros, ao contrário dos lessers, não eram impotentes.

Imaginou a sua bela e pura esposa… Viu ela nua, o cabelo sobre os pálidos ombros, as elegantes curvas do esbelto corpo captando a luz. Magnífico. Perfeito, perfeito, perfeito. Absolutamente feminino.

Algo para ser adorado e possuído. Mas nunca transado. Uma Madonna.

Porém, nada que tivesse pênis iria querer isso. Vampiro, humano, lesser. Nada.

A violência o atravessou, e bruscamente esperou que estivesse morta. Porque se aquele horrível bastardo tivesse tentado ter sexo com ela… Cara, O ia castrar àquele Irmão com uma colher, antes de matá-lo.

E, que Deus a ajudasse se o desfrutava.

 

Quando Phury despertou, eram três e quinze da tarde. Tinha dormido como se estivesse morto, ainda estava muito ferrado pelo que tinha acontecido na noite anterior antes que suas glândulas de adrenalina fizessem horas extras. O que dificilmente o conduzia a fechar os olhos.

Procurou um charuto e o acendeu. Enquanto levava a fumaça vermelha até seus pulmões e a retinha, tentava não imaginar-se indo ao quarto de Zsadist e derrubando seu irmão com murro direto à mandíbula. Mas, a fantasia era justamente atraente.

Maldito seja, não podia acreditar que Z houvesse tentando levar Bela dessa forma, e nestes momentos odiava a seu gêmeo por sua depravação. Odiava-se a si mesmo também, por sentir-se estupidamente surpreso. Durante muito tempo, tinha estado convencido de que algo em Z tinha sobrevivido a sua escravidão… Que algum pequeno pedaço de alma restou no homem. Depois da noite passada? Não tinha mais dúvida sobre a natureza cruel de seu irmão gêmeo. Nenhuma.

E, merda, sentia-se como um asno sabendo que tinha decepcionado Bela. Nunca deveria tê-la deixado no quanto de Z. Não podia suportar ter sacrificado a segurança dela por sua própria necessidade de acreditar no irmão.

Bela…

Pensou em como ela tinha permitido sustentá-la. Nesses momentos fugazes havia se sentido poderoso, capaz de protegê-la contra um exército de lessers. Durante uma pequena fração de tempo, tinha-o transformado em um verdadeiro homem, um que era necessitado e que servia a um propósito.

Que revelação para ele, que não era outra coisa que um parvo reativo que perseguia um louco suicida e destrutivo.

Queria desesperadamente passar a noite com ela, e só partiu porque era o correto. Estava exausta, mas sobre tudo — apesar de seu voto de celibato — porque não era confiável. Queria socorrê-la com seu corpo. Queria venerá-la e saná-la com seus ossos e sua pele.

Mas não podia pensar assim.

Phury inalou profundamente o charuto, deixando sair o ar com um gemido. Mantendo a fumaça dentro, sentiu como relaxava a tensão dos ombros. Enquanto a calma se estendia sobre ele, olhou seu contrabando. Já estava acabando, por mais que odiasse ia ter que ir ver o Reverendo, precisava de mais.

Sim. Considerando como se sentia a respeito de Z, ia necessitar muito mais. A fumaça vermelha era só um relaxante muscular suave, realmente, nada como a maconha ou qualquer dessas perigosas beberagens. Mas, confiava em manter-se nesse nível, como outros tipos tomavam coquetéis. Se não tivesse que ir ao Reverendo para conseguir mais, diria que era um passatempo perfeitamente inofensivo.

Absolutamente inofensivo e o único alívio que tinha na vida.

Quando terminou o charuto, apagou-o em um cinzeiro e saiu da cama. Depois de colocar a prótese, foi ao banheiro para barbear-se e tomar banho, depois vestiu umas calças folgadas e uma de suas camisas de seda. Calçou tanto no pé real como no que não podia sentir uns mocasins de Penetre Haan.

Observou-se no espelho. Penteou o cabelo. Inspirou profundamente.

Foi ao quarto contíguo e bateu na porta brandamente. Quando não obteve resposta tentou de novo, e então abriu. A cama estava desfeita, mas vazia, e ela não estava no quarto.

Enquanto voltava pelo corredor, um alarme ressoou em seus ouvidos. Antes de dar-se conta, estava apressando o passo e depois correndo. Correu para frente do início da escada e girou pelo corredor das estátuas. Não se incomodou em bater na porta de Z, abriu-a de um empurrão.

Phury ficou mortalmente quieto.

Seu primeiro pensamento foi que Zsadist ia cair da cama. O corpo de seu irmão estava em cima do cobertor e na beira do colchão, tão longe como lhe era possível. Jesus… A posição parecia tão incômoda como o inferno. Os braços de Z rodeavam seu peito nu como se o estivesse mantendo unido, e tinha as pernas encolhidas e virada para um lado com os joelhos suspensos no ar.

Mas, tinha a cabeça virada na direção contrária. Para Bela. E, os lábios desfigurados estavam levemente separados em vez de franzidos com desprezo. As sobrancelhas, normalmente franzidas de forma agressiva estavam livres, relaxadas.

Sua expressão era de sonolento assombro.

O rosto de Bela estava inclinado para o homem que tinha ao lado, a expressão tão pacífica como um anoitecer. E, o corpo abraçado ao de Z, tão próximo como os lençóis e as mantas sob as quais estava o permitiam. Demônios, era óbvio que se pudesse cobrir-se com ele, o teria feito. E, era igualmente óbvio que Z tinha tentado afastar-se dela até que não pôde ir mais longe.

Phury amaldiçoou brandamente. O que tinha ocorrido durante a noite, certamente não tinha sido algo desagradável ao que Z a tivesse arrastado. De nenhuma forma. Não com este par buscando-se como estavam fazendo agora.

Fechou os olhos. Fechou a porta.

Como um completo lunático, considerou brevemente retornar e lutar com Zsadist pelo direito de deitar perto dela. Podia se ver lançando-se a um mano a mano, tendo um antiquado cohntehst com seu gêmeo, para saber quem tinha direito a tê-la.

Mas, isto não era o Antigo País. E, as mulheres tinham o direito de escolher a quem procurar. Ao lado de quem dormir. Com quem unir-se.

E, ela sabia onde estava Phury. Disse-lhe que seu quarto era a porta seguinte. Se o quisesse, podia ter dirigido-se a ele.

 

Z conscientizou-se de uma sensação estranha enquanto despertava: estava quente. Não acalorado, só… Quente. Teria se esquecido de desligar a calefação depois que Bela se foi? Devia ser isso. Porém, notou algo mais. Não estava no acolchoado. E, vestia cueca, verdade? Moveu as pernas tentando baixar uma, pensando que sempre dormia nu. E, seu aquecimento mudou de forma, deu-se conta de que aquilo estava duro. Duro e pesado. O que…

Abriu os olhos de repente. Bela. Estava na cama com Bela.

Separou-se de um salto dela…

E, caiu do colchão, aterrissando sobre o traseiro.

Imediatamente, ela se arrastou atrás dele.

— Zsadist?

Quando se inclinou sobre a borda, o roupão que vestia abriu e seus olhos ficaram presos no seio que ficou exposto. Era tão perfeita como tinha sido na banheira, a pálida pele tão suave e os pequenos mamilos tão rosas... Deus, ele sabia que o outro era exatamente igual, mas por alguma razão precisava vê-lo de todo jeito.

— Zsadist? — apareceu mais, com o cabelo escorregando pelos ombros e deslizando-se pela borda da cama, uma brilhante cascata de mogno profundo.

A coisa entre suas coxas se esticou. Pulsou com o batimento de um coração de seu coração.

Juntou os joelhos e manteve as coxas juntas, não querendo que ela visse.

— O roupão. — disse ele asperamente — Feche-o. Por favor.

Ela olhou para baixo e então juntou as lapelas, ruborizando-se. Oh, demônios... Agora tinha as bochechas tão rosadas como os mamilos, ele pensou.

— Vai voltar para a cama? — perguntou-lhe ela.

A parte mais escondida e decente dele sugeriu que não era uma boa idéia.

— Por favor? — sussurrou ela, colocando o cabelo atrás da orelha.

Ele mediu o arco de seu corpo e o negro cetim que ocultava a pele de seu olhar e seus grandes olhos azul safira e a esbelta coluna de sua garganta.

Não… Realmente não era uma boa idéia aproximar-se dela neste momento...

— Afaste-se. — disse ele.

Enquanto ela deslizava para um lado, ele olhou para a tenda de campanha que tinha entre as pernas. Cristo, aquela maldita coisa era enorme, parecia que tinha outro braço em sua cueca. E, esconder um troço assim podia requerer uma ajuda.

Olhou a cama. Com um fluído movimento saltou entre os lençóis.

O que foi uma dolorosa má idéia. No momento em que esteve embaixo deles, ela se acomodou contra seu duro flanco como se fosse outra manta. Uma suave, cálida, que respirava…

Z se aterrorizou. Havia muito dela contra ele e não sabia o que tinha que fazer. Queria empurrá-la longe. Queria-a mais perto. Queria… Oh, cara. Queria montá-la. Queria tomá-la. Queria fazer amor com ela.

O instinto era tão forte que se viu levando-o a cabo: virando-lhe sobre o estômago, puxando os quadris da cama, levantando-se atrás dela. Imaginou pondo a coisa dentro dela e empurrando com as coxas…

Deus, era repugnante. Querer pegar essa coisa suja e forçá-la dentro dela? Também podia lhe colocar uma escova de cabelo na boca.

— Está tremendo… — disse ela — Tem frio?

Ela se moveu para aproximar-se mais a ele, e sentiu seus peitos, suaves e quentes, na parte de trás de seu antebraço. A coisa crispou grosseiramente, saltando contra sua cueca.

Merda. Tinha a sensação de que essa ação aguda queria dizer que estava perigosamente acordado.

Sim, você acredita? Demônios, o bastardo estava pulsando, e as bolas sob a coisa doíam, e estava tendo visões de investi-la como um touro. Mas, se era o medo feminino o único que fazia com que aquela coisa endurecesse, e ela não estava assustada. Assim, por que estava respondendo?

— Zsadist? — disse brandamente.

— O que?

As quatro palavras que ela disse quase convertem seu peito em um bloco e lhe congelou o sangue. Mas, ao menos a outra tolice acabou.

 

Quando a porta de Phury se abriu sem nenhum aviso, as mãos dele paralisaram na camiseta que estava pondo pela cabeça.

Zsadist permaneceu entre as ombreiras, nu até a cintura, com os olhos negros ardendo.

Phury amaldiçoou brandamente.

— Alegra-me que tenha vindo. Sobre a noite passada… Devo-te uma desculpa.

— Não quero escutá-la. Vêm comigo.

— Z, equivoquei-me ao…

— Vêm. Comigo.

Phury puxou a barra da camiseta baixando-lhe e verificou seu relógio.

— Tenho que dar aulas em meia hora.

— Isto não levará muito tempo.

— Ah… Bom, certo.

Enquanto seguia Z pelo corredor, imaginou que podia desculpar-se pelo caminho.

— Olhe, Zsadist, sinto muito por ontem à noite. — o silêncio de seu gêmeo não era uma surpresa — Precipitei-me e cheguei a uma conclusão errônea. Sobre Bela e você. — Z caminhou inclusive mais depressa — Deveria saber que não lhe faria mal. Queria te oferecer um rythe.

Zsadist parou e olhou por cima dos ombros.

— Para que demônios?

— Ofendi-te. Ontem à noite.

— Não, não o fez.

Phury só pôde sacudir a cabeça.

— Zsadist…

— Estou doente. Sou asqueroso. Não se pode confiar em mim. Só porque tenho meio cérebro e tenha imaginado que não, isso não significa que precise me acariciar o traseiro com essa merda de desculpa.

Phury ficou com a boca aberta.

— Jesus… Z. Você não é…

— Oh, por uma fodida consideração, pode deixar de encher o saco?

Z caminhou rapidamente para seu quarto e abriu a porta.

Bela se sentou na cama, juntando as lapelas do roupão até o pescoço. Parecia estar totalmente confusa. E, muito formosa para descrevê-lo com palavras.

Phury olhou de um lado a outro entre ela e Z. Então se concentrou em seu gêmeo.

— O que é isto?

Os olhos negros de Z se cravaram no chão.

— Vai com ela.

— Perdão?

— Precisa se alimentar.

Bela fez um ruído engasgando-se, como se tivesse ficado sem respiração.

— Não, espere, Zsadist, quero… A você.

— Não pode me ter.

— Mas, quero…

— Agüenta-te. Estarei fora.

Phury se sentiu empurrado ao quarto e então a porta se fechou de repente. No silêncio que seguiu, não estava seguro se queria gritar de triunfo ou… Simplesmente gritar.

Inspirou profundamente e olhou para a cama. Bela estava encolhida com os joelhos contra o peito.

Bom Deus, nunca tinha permitido a uma mulher beber dele antes. Por seu celibato, não queria arriscar-se. Com suas ânsias sexuais e seu sangue de guerreiro, sempre tinha temido que se permitisse que uma mulher tomasse sua veia ficaria confuso e quereria meter-se nela. E, se fosse Bela, ia ser inclusive mais difícil permanecer quieto.

Mas, ela precisava beber. Além disso, o que tinha de bom em um voto se era fácil de manter? Isto podia ser seu teste, sua oportunidade de provar sua disciplina sob as mais extremas circunstâncias.

Esclareceu a garganta.

— Ofereço-te.

Quando os olhos de Bela levantaram, sua pele se tornou muito pequena para seu esqueleto. Isso era o que um rechaço fazia a um homem. Justamente lhe encolher imediatamente.

Afastou seu olhar e pensou em Zsadist, o que podia sentir estando fora do quarto.

— Ele possivelmente não seja capaz de fazê-lo. É consciente de seu… passado, verdade?

— É cruel de minha parte pedir isso a ele? — sua voz estava cheia de cansaço, agravada por sua luta — É?

Provavelmente, pensou ele.

— Seria melhor se usasse a qualquer outro. — Deus,por que não pode tomar-me ?Por que não pode me necessitar em lugar dele? — Não acredito que fosse apropriado pedir a Wrath ou Rhage, eles estão unidos. Possivelmente poderia pedir a V…

— Não… Necessito a Zsadist. — suas mãos tremiam e as levou a boca — Sinto tanto.

Assim, era ele.

—Espere aqui.

Quando saiu ao corredor, encontrou Z justo ao lado da porta. O homem tinha a cabeça entre as mãos, com os ombros encurvados.

— Acabou tão rápido? — perguntou, abaixando as mãos.

— Não. Não ocorreu.

Z franziu o cenho e o olhou de acima a abaixo.

— Por que não? Tem que fazê-lo, cara. Ouviu o Havers…

— Quer a você.

— Assim entrará aí e abrirá uma veia…

— Ela só terá a você.

— Necessita-o, assim…

Phury elevou a voz.

— Não quero alimentá-la!

Z franziu a boca e seus olhos negros se estreitaram.

— Droga. Fará por mim.

— Não, não farei. Porque ela não me permitirá isso.

Z se inclinou para frente, apertando como uma prensa os ombros de Phury.

— Então, fará por ela. Porque é o melhor para ela, porque te enternece e porque quer fazê-lo. Faz por ela.

Cristo. Poderia matar. Estava morrendo por querer voltar ao quarto de Z. Arrancar a roupa dela. Cair no colchão. Apertar Bela contra seu peito e senti-la afundar os dentes em seu pescoço e separar suas pernas, entrado dentro dela entre seus lábios e entre suas coxas.

As fossas nasais de Z dilataram.

— Deus… Posso cheirar o quão desesperadamente quer fazê-lo. Assim vai. Vai com ela, alimenta-a.

A voz de Phury se quebrou.

— Não me quer, Z. O que ela quer…

— Ela não sabe o que quer. Acaba de sair de um inferno.

— É o único. Para ela, é o único.

Quando os olhos de Zsadist deslizaram pela porta fechada, Phury o empurrou, embora, pensou que isso o mataria.

— Escute o que estou dizendo, irmão. Pode fazer isto por ela.

— Uma merda que posso fazer.

— Z, faz.

Aquela cabeça raspada se sacudiu de um lado a outro.

— Vamos, a merda que há em minhas veias está contaminada. Sabe disso.

— Não, não está.

Com um grunhido, Z se inclinou para trás e lhe mostrou os pulsos, brilhando as listras de escravo de sangue tatuadas em seu pulso.

— Quer que ela morda através disto? Pode suportar imaginar sua boca nelas? Porque, tão seguro como o inferno, que eu não posso.

— Zsadist? — a voz de Bela se deslizou sobre eles. Sem que ele tivesse notado, levantou-se e abriu a porta.

Enquanto Z entrecerrou os olhos, Phury suspirou:

— Você é o único a quem ela quer.

A resposta de Z quase não foi audível.

— Estou poluído. Meu sangue pode matá-la.

— Não. Não pode fazer.

— Por favor… Zsadist. — disse Bela.

O tom do humilde e suplicante pedido converteu as costelas de Phury em uma caixa de gelo, e observou, gelado, intumescido, como Z girava lentamente para ela.

Bela deu um passo para trás, mantendo os olhos nele.

Os minutos se converteram em dias… Décadas… Séculos. E, então Zsadist pôs-se a andar e entrou no quarto. A porta fechou.

Phury estava cego enquanto se voltava e punha-se a andar pelo corredor.

Não havia nenhum lugar no qual lhe necessitassem?

A sala de aula. Sim, ia dar aulas agora.

 

Dez minutos depois das quatro, John subiu ao ônibus local enquanto arrastava sua esteira.

— Olá! Senhor. — disse o doggen alegremente atrás do volante — Bem-vindo.

John o saudou com a cabeça e olhou aos doze tipos sentados aos pares que o olhavam fixamente.

Uau! Realmente o sentimento do amor não estava ali, cara, pensou.

Sentou em um assento vazio atrás do condutor.

Quando o ônibus começou a mover-se, uma divisão baixa fez com que os aprendizes ficassem encerrados juntos na parte posterior e não pudessem ver a frente. John caminhou arrastando os pés de forma que se sentou de lado. Observar o que estava acontecendo atrás dele parecia uma boa idéia.

Todas as janelas estavam obscurecidas, mas as luzes acesas no chão e no teto eram bastante brilhantes para que pudesse se dar conta de seus companheiros de classe. Eram todos como eles, magros e pequenos, embora tivessem a cor do cabelo diferente, alguns loiros, alguns escuros. Um deles era ruivo. Como John, todos estavam vestidos com o traje branco de artes marciais jis. E, todos tinham a mesma esteira nos seus pés, um Nike de nylon negro o bastante grande para levar uma roupa de reserva e muita comida. Cada um deles levava uma mochila também e especulou se continha os mesmos materiais que levava na sua: um caderno e algumas canetas, um telefone celular, uma calculadora. Tohr tinha enviado uma lista com as provisões requeridas.

John apertou a mochila aproximando-a a seu estômago e ficou olhando-a fixamente. Isto o ajudou a pensar em todos os números da mensagem de texto, então os repetiu muitas vezes em sua cabeça. O de casa. O celular de Wellsie. O celular de Tohr. O número da Irmandade, o de Sarelle…

Pensar nela, o fez sorrir. Tinha passado horas online noite passada. Homem, MSN, uma vez que conheceu a onda, era o modo perfeito de comunicar-se com ela. Com ambos escrevendo as palavras, parecia que eram iguais. E, se havia gostado dela no jantar, realmente estava com ela agora.

— Como te chama?

John olhou por cima de um par de assentos. Um tipo com o cabelo comprido loiro e um brinco de diamante falava com ele.

Ao menos utilizam o português, pensou.

Quando abriu a mochila e tirou o caderno, o tipo disse:

— Olá? É surdo ou algo assim?

John escreveu seu nome e girou o bloco de papel.

— John? Que diabos de nome é esse? E, por que está escrevendo?

Oh, amigo... Esse lance de escola ia ser aborrecido.

— Qual é seu problema? Não pode falar?

John olhou ao tipo diretamente nos olhos. As leis da probabilidade promulgavam que dentro de cada grupo, havia um macho-alfa chato e este cabeleira suave com o brilhante na orelha o era, claramente.

John negou com a cabeça para responder à pergunta.

— Não pode falar? Absolutamente? — o tipo levantou a voz como se quisesse que todos se inteirassem — Que diabos está fazendo, treinando para ser soldado se não puder falar?

— Você não luta com palavras, verdade? — escreveu.

— Sim, e todos esses músculos que você faz saltar realmente dão medo.

Como os teus, quis rabiscar.

— Por que tem um nome humano? — a pergunta foi feita pelo ruivo do assento de atrás.

John escreveu:

— Cresci com eles. — e, logo girou o bloco de papel.

— Hum. Bom, sou Blaylock. John… Uou, estranho.

Por impulso, John puxou a manga e mostrou o bracelete que tinha feito, com os caracteres com os quais tinha sonhado.

Blaylock se inclinou. Colocando seus pálidos olhos azuis em cima.

— Seu nome real é Tehrror.

Sussurros. Muitos sussurros.

John dobrou seu braço e relaxou contra a janela outra vez. Desejou ter deixado a manga abaixada. Que diabos eles estavam pensando agora?

Depois de um tempo, Blaylock se lembrou da educação e apresentou aos outros. Todos tinham nomes estranhos. O loiro era Lash. E, como isso era apropriado?

— Tehrror… — murmurou Blaylock — É um nome muito velho. É o nome de um verdadeiro guerreiro.

John franziu o cenho. Seria melhor afastar dele a atenção destes moços, escreveu:

— E, o teu? E, o do resto deles?

Blaylock negou com a cabeça.

— Temos um pouco de sangue dos guerreiros em nós, por isso fomos escolhidos para treinar, mas nenhum de nós tem um nome assim. De que linha descende? Deus… É criado pela Irmandade?

John franziu o cenho. Nunca tinha se dado conta de que poderia ser relacionado com a Irmandade.

—Acredito que ele é muito bom para te responder. —Disse Lash.

John deixou passar. Sabia que tropeçaria com todo tipo de ligações sociais, fazendo explodir minas a direita e esquerda, devido a seu nome, a crescer com os humanos e a incapacidade de falar.

Tinha o pressentimento de que esse dia na escola ia ser uma infernal prova de resistência, por isso teria que economizar energia.

A viagem durou aproximadamente quinze minutos, com os últimos cinco mais ou menos envolvendo muitas marchas e paradas, o que significava que estavam atravessando o sistema de portas dentro do recinto de treinamento.

Quando o ônibus parou e a separação se retraiu, John colocou a esteira sobre seus ombros e a mochila, e saiu primeiro. O estacionamento subterrâneo estava tal como tinha estado ontem à noite: sem carros, só outro ônibus local como o que eles tinham entrado. Separou-se para um lado e olhou como os outros circulavam em massa, uma multidão de jis brancos. Suas vozes lhe recordaram o som de pombas batendo as asas.

As portas do centro abriram de repente e o grupo paralisou.

Mas, Phury podia fazer isso com uma multidão. Com seu cabelo espetacular e seu grande corpo vestido de negro, era suficiente para fazer que alguém paralisasse.

— Oi, John. — disse ele, saudando-o com a mão — Como vai?

Os tipos viraram-se o olharam fixamente.

Sorriu a Phury. Depois se ocupou de ficar em segundo plano.

 

Bela olhou Zsadist caminhar pelo quarto. Recordava como ele havia se sentido na noite anterior quando ela tinha saído para procurá-lo: enjaulado, infeliz. Muito provocado.

Por que demônios o forçava a isto?

Quando abriu a boca para suspender tudo isto, Zsadist parou diante da porta do banheiro.

— Preciso de um minuto. — disse ele. Então, se fechou.

Perplexa, aproximou-se e se sentou sobre a cama, esperando-o para saber por que recuou. Quando ele se manteve lá dentro e abriu a ducha, ela entrou em introspecção.

Tentou imaginar-se voltando para casa para sua família e caminhando por aquelas salas tão familiares, sentando-se em suas cadeiras, abrindo as portas e dormindo na cama de sua infância. Sentiu que tudo estava errado, como se fosse um fantasma naquele lugar que conhecia tão bem.

E, como a tratariam sua mãe e seu irmão? E a glymera?

No mundo aristocrático, tinha sido desonrada além de ter sido seqüestrada. Agora, a evitariam terminantemente. Sendo controlada por um… Lesser… Enterrada na terra… A aristocracia não agüentava bem aquele tipo de monstruosidade e a culpariam. Infernos, era provavelmente por isso que sua mãe tinha sido tão reservada.

Deus, pensou Bela. O resto de sua vida ia ser como agora?

Quando o temor a afogava, a única coisa que a mantinha inteira era pensar em permanecer nesse quarto e dormir durante dias com Zsadist bem perto dela. Ele era o frio que a fazia condensar-se outra vez. E, o calor que parava seus tremores.

Era o assassino que a mantinha a salvo.

Mais tempo… Mais tempo com ele, primeiro. Então, talvez pudesse confrontar o mundo exterior.

Ela franziu o cenho, percebendo que ele tinha estado na ducha durante bastante tempo.

Seus olhos se moveram para a plataforma que havia na esquina mais afastada. Como podia dormir ali noite pós noite? Sentido o chão duro em suas costas e não havia nenhum travesseiro para a cabeça. Nem cobertas para cobrir-se se protegendo do frio, tampouco.

Ela se concentrou no crânio que havia ao lado das mantas dobradas. A correia de couro negra entre os dentes o proclamava como alguém a quem tinha amado. Obviamente fora casado, embora ela não tivesse ouvido rumores sobre isso. Sua shellan tinha ido ao Fade por causas naturais ou a tinham afastado de seu lado? Era por isso que estava tão zangado?

Bela olhou na direção do banheiro. O que estava fazendo ali?

Aproximou-se e chamou. Quando não houve nenhuma resposta, abriu a porta devagar. Uma fria rajada de vento a atingiu e ela retrocedeu.

Reforçando-se, entrou no ar glacial.

— Zsadist?

Através da porta de vidro da ducha, viu-o sentado sob o chuvisco de água gelada. Balançava-se para frente e para trás, gemendo, esfregando os pulsos com uma esponja.

— Zsadist! — correu e abriu o vidro. Procurando examinar os acessórios, fechou a água — O que está fazendo?

Ele olhou para ela com olhos selvagens, loucos enquanto seguia balançando-se e esfregando, balançando e esfregando. A pele ao redor das tatuadas listras negras estava vermelha brilhante, completamente em carne viva.

— Zsadist? — controlou-se para manter seu tom aprazível e estável — O que está fazendo?

— Eu… Eu não posso me limpar. Não quero que te suje, também. — levantou seu pulso e o sangue lhe gotejava pelo antebraço — Vê? Olhe a sujeira. Está toda sobre mim. Dentro de mim.

Sua voz a alarmou como nunca o tinha feito antes, suas palavras transmitindo uma estranha e infundada lógica de loucura.

Bela recolheu uma toalha, deu um passo entrando no compartimento e se agachou. Capturando suas mãos, tirou-lhe a esponja.

Quando, com cuidado, secou sua carne ferida, disse:

— Está limpo.

— Oh, não, não estou. — sua voz começou a elevar-se, crescendo com um ímpeto terrível — Estou asqueroso. Estou muito sujo. Estou sujo, sujo… — agora balbuciava, as palavras saíam juntas, o volume se elevou emitindo um som de histerismo nos azulejos e enchendo banheiro — Pode ver a sujeira? Eu a vejo por toda parte. Cobre-me. Presa dentro de mim. Posso sentir na minha pele…

— Shhh. Permita-me… Só…

Vigiando-o, como se fosse a… Deus, nunca tinha pensado que… Agarrou às cegas uma toalha e a arrastou para ducha. Colocando-a ao redor de seus grandes ombros, cobriu-o com ela, mas quando tentou pô-la sobre seus braços, ele recuou.

— Não me toque. — disse com aspereza — Você se sujará.

Ficou de joelhos na frente dele, seu roupão encharcando-se de água, absorvendo-a. Até que não notou o frio.

Jesus… Ele parecia alguém que tivesse estado em um naufrágio: seus olhos muito abertos e dementes, sua calça molhada aderindo-se aos músculos de suas pernas, a pele do peito arrepiada. Seus lábios estavam azuis e seus dentes tocavam castanholas.

— Sinto muito. — sussurrou ela. Queria tranqüilizá-lo dizendo que não havia nenhuma sujeira sobre ele, mas sabia que só o exaltaria outra vez.

Enquanto a água gotejava da ducha até o azulejo, o rítmico som que produzia era como uma armadilha de canos entre eles. Em meio aos golpes, ela se encontrou recordando a noite que o tinha seguido até este quarto… À noite em que ele havia tocado seu excitado corpo. Dez minutos depois de que fez isso, o tinha encontrado agachado sobre o vaso sanitário, vomitando por que tinha posto as mãos sobre ela.

Sou asqueroso. Estou tão sujo. Estou sujo, sujo…

A claridade chegou a ela da mesma maneira que mudam os pesadelos, que se ancoram no conhecimento com uma iluminação glacial, lhe mostrando algo feio. Era óbvio que tinha sido golpeado como escravo de sangue e tinha presumido que por isso não gostava que o tocassem. Mas, ser golpeado, tirando a parte de ser doloroso e espantoso, não lhe faria sentir tão sujo.

Mas, o abuso sexual faria.

Seus escuros olhos de repente enfocaram seu rosto. Como se houvesse sentido a conclusão a que tinha chegado.

Conduzida pela compaixão, inclinou-se para ele, mas a cólera que sangrava em seu rosto a deteve.

— Cristo, mulher. — explodiu — Quer te cobrir?

Ela olhou para baixo. Seu roupão estava aberto até a cintura, a elevação de seus seios exposta. Deu um puxão às lapelas, as juntando.

No tenso silêncio era difícil encontrar onde olhar, então se concentrou em seu ombro… Seguindo a linha do músculo até a clavícula, para a base do pescoço. Seus olhos foram à deriva sobre a grosa garganta… À veia que bombeava sob sua pele.

A fome a atravessou como um relâmpago, fazendo com que lhe alargassem as presas. Oh, inferno. Como era que em uma hora dessas desejava sangue?

— Por que me quer? — resmungou, claramente sentindo sua necessidade — É melhor que isto.

— Você é…

— Sei que sou.

— Não está sujo.

— Maldita seja, Bela…

— E, só quero a você. Olhe, realmente sinto e temos que…

— Sabe o que? Não conversar mais. Estou farto de falar. — esticou o braço sobre o joelho, o pulso para cima e seus escuros olhos ficaram desprovidos de qualquer emoção, inclusive zanga — Este é seu funeral, mulher. Faz, se quiser.

O tempo parou enquanto ela olhava fixamente o que a contra gosto ele oferecia. Deus ajudasse aos dois, mas ia tê-lo. Com um movimento rápido, ela se curvou sobre sua veia e o mordeu. Embora lhe doesse, ele não se afastou, absolutamente.

No instante em que o sangue golpeou sua língua, gemeu de prazer. Alimentou-se de aristocratas antes, mas nunca de um homem da classe dos guerreiros e certamente nunca, de um membro da Irmandade. Seu sabor era um delicioso rugido em sua boca, uma invasão, uma epopéia, uma explosão barulhenta e logo engoliu. A corrente de poder a atravessou, um fogo florestal no tutano de seus ossos, uma explosão que bombeou seu coração com uma rápida força gloriosa.

Tremeu tanto que quase perdeu o contato com seu pulso e teve que agarrar-se ao antebraço dele para estabilizar-se. Bebeu muito, avaros puxões, faminta não só pela força, mas por ele, por este homem.

Para ela, ele era… O único.

 

Zsadist lutou para manter a calma enquanto Bela se alimentava. Não queria incomodá-la, mas cada puxão em sua veia, só o que conseguia era aproximar-se da perdição. A Mistress tinha sido a única que alguma vez se alimentou dele, e as lembranças daquelas violações eram tão agudas como as presas enterradas em seu pulso agora. O medo chegou, duro e vivo, nenhuma sombra do passado nunca mais, agora era um pânico presente.

Merda Santa… Estava enjoado. Ia perder a consciência como um completo afeminado.

Em uma tentativa desesperada por concentrar-se, concentrou-se no cabelo escuro de Bela. Tinha uma mecha perto de sua mão livre e o fio brilhou à alta luz da ducha, tão adorável, tão grosso, tão diferente do loiro da Mistress.

Deus, o cabelo de Bela parecia realmente suave… Se tivesse coragem enterraria sua mão — não, seu rosto inteiro — naquelas ondas mogno. Poderia controlar-se? Perguntou-se. Estando tão perto de uma mulher? Ou se afogaria quando o medo o golpeasse?

Se fosse Bela, pensou que seria capaz de fazê-lo.

Sim… Realmente gostaria de pôr seu rosto ali, em seu cabelo. Talvez se movendo entre ele, encontraria o caminho ao pescoço e… Pressionaria um beijo. Realmente suave.

Sim… E, logo poderia ir movendo-se e roçaria seus lábios contra sua bochecha. Talvez ela lhe deixasse fazer isto. Não iria para sua boca. Não podia imaginar que ela quisesse estar perto de sua cicatriz e de toda forma o lábio superior estava ferrado. Além disso, não sabia como beijá-la. A Mistress e seus ajudantes sabiam manter-se a distância de suas presas. E, depois ele nunca quis aproximar-se tanto de uma mulher.

Bela fez uma pausa e inclinou a cabeça, seus olhos de cor azul safira giraram para ele, examinando-o para se assegurar de que estava bem.

A preocupação dela lhe mordeu o orgulho. Cristo, pensar que estava tão fraco que não podia controlar a alimentação de uma mulher… E, lhe dava vergonha compreender que ela sabia disso enquanto estava em sua veia. Pior, era aquela expressão em seu rosto a uns momentos, aquele horror que significava que ela tinha entendido de que outra maneira ele tinha sido usado além de como escravo de sangue.

Não podia suportar sua compaixão, não queria esses olhares de preocupação, não estava interessado nos mimos e carícias. Abriu a boca, para lhe dizer que separasse sua cabeça, mas de certa forma a cólera se perdeu na viagem entre suas vísceras e sua garganta.

— Tudo bem. — disse bruscamente — O pulso está estável. Pulso firme.

O alívio nos olhos dela foi outra tapa em seu traseiro.

Quando começou a beber outra vez, ele pensou, odeio isto.

Bom… Odiava em parte. Ok, odiava a merda em sua cabeça. Mas quando os aprazíveis puxões continuaram, compreendeu que gostava.

Ao menos, até que pensasse no que ela estava bebendo. Sangue sujo… Sangue oxidado… Corrosivo, infectado, repugnante. Homem, simplesmente não podia compreender por que ela tinha rechaçado ao Phury. O homem era perfeito por dentro e por fora. Entretanto, estava sobre o ladrilho frio e duro, mordendo sobre sua marca de escravo, com ele. Por que o fazia…

Zsadist fechou os olhos. Sem dúvida, depois de tudo pelo que tinha passado, ela acreditava que não merecia nada melhor que alguém que estava poluído. Aquele lesser provavelmente tinha quebrado seu amor próprio.

Homem, Deus era sua testemunha, faria que o último fôlego do bastardo desaparecesse espremido entre suas mãos.

Com um suspiro, Bela liberou seu pulso e relaxou contra a parede da ducha, as pálpebras fechadas, seu corpo débil. A seda da roupa estava molhada e aderia às pernas, perfilando as coxas, os quadris… A união do meio.

Enquanto aquilo se engrossava em suas calças rapidamente, quis cortar-lhe

Levantou o olhar para ela. Meio esperando que tivesse algum ataque ou algo assim, e tentou não pensar em toda a imperfeição que ela tinha engolido.

— Está bem? — perguntou-lhe.

— Obrigado. — disse com voz rouca — Obrigado por me deixar…

— Sim, já pode parar. — Deus, sentia que não a tinha protegido dele mesmo. A essência da Mistress o bombardeava, os ecos da crueldade daquela mulher estavam presos no infinito circuito de suas artérias e veias, circulando por todo seu corpo. E, Bela acabava de tomar um pouco daquele veneno em suas vísceras.

Deveria ter lutado mais duramente contra isso.

— Vou te levar para a cama.

Como ela não se opôs, recolheu-a, tirou-a da ducha e fez uma pausa no lavabo para pegar uma toalha.

— O espelho. — murmurou — Por que cobriu o espelho?

Ele não respondeu enquanto se dirigia ao dormitório, não podia conversar sobre essas horríveis coisas, ela não suportaria.

— Estou com uma aparência tão ruim assim? — sussurrou contra seu ombro.

Quando chegou à cama, colocou-a de pé.

— O roupão está molhado. Deve tirá-lo. Usa isto para te secar, se quiser.

Ela pegou a toalha e começou a afrouxar o laço da cintura. Ele rapidamente se virou, escutando o movimento do tecido, alguma agitação e depois o movimento dos lençóis.

Quando estava instalada, algo muito básico, antigo lhe exigia que se deitasse com ela agora. E, não para abraçá-la. Queria estar em seu interior, movendo-se… Liberando-se. De algum modo lhe parecia correto fazê-lo, lhe dar não só o sangue de suas veias mais finalizar com o ato sexual, também.

Estava totalmente fodido.

Passou uma mão pelo cabelo, perguntando-se de onde infernos lhe tinha chegado essa maldita idéia.

Homem, tinha que afastar-se dela…

Bom, ia passar logo, certo. Ela partiria à noite. Iria para sua casa.

Seus instintos ficaram loucos, fazendo-o querer lutar para que permanecesse em sua cama. Amaldiçoou seu estúpido e primitivo coração. Tinha que fazer seu trabalho. Tinha que sair, encontrar a um lesser em particular e matar o desgraçado por ela. Era o que tinha que fazer.

Z se dirigiu para o armário, vestiu uma camisa e se armou. Enquanto colocava a cartucheira sobre o peito, pensou em lhe pedir uma descrição do assassino que a tinha levado. Mas, não queria traumatizá-la… Não, Tohr perguntaria, porque o irmão conduzia bem esse tipo de coisa. Quando fosse devolvida a sua família esta noite, então Tohr falaria com ela.

— Já vou. — disse Z enquanto fixava a bainha de couro de suas adagas que atravessava suas costelas — Quer que eu diga a Fritz que te traga comida antes de partir?

Como não houve nenhuma resposta, olhou do batente da porta. Estava de lado, olhando-o.

Outra onda de severo instinto o golpeou.

Queria vê-la comer. Depois do sexo, depois de estar em seu interior, queria que comesse o alimento que lhe trouxesse, e queria que o comesse de sua mão. Infernos, queria sair e matar algo para ela, trazer a carne, cozinhá-la ele mesmo e alimentá-la até que estivesse cheia. Então quis estar a seu lado com uma adaga na mão, protegendo-a enquanto dormia.

Retornou ao armário. Homem, estava ficando louco. Totalmente louco.

— Trarei alguma coisa para você.

Verificou as lâminas de sua duas adagas negras, as testando no interior de seu antebraço, cortando a pele. Quando a dor lhe zumbiu no cérebro, olhou fixamente a marca que Bela tinha feito sobre seu pulso.

Sacudindo-se para concentrar-se, colocou a cartucheira ao redor de seus quadris e pôs nela o par de SIG Sauers. Os nove milímetros tinham o tambor cheio de balas e havia outros dois automáticos enfiados nas reentrâncias do cinturão. Escorregou um punhal de lançamento em uma pequena fivela de suas costas e se assegurou de que tinha algumas Hira shuriken[14]. As botas de combate eram o seguinte. O leve blusão impermeável para cobrir o arsenal era o último.

Quando saiu, Bela ainda tinha a vista elevada para ele, da cama. Seus olhos eram tão azuis. Azuis como a noite. Azuis como…

— Zsadist?

Lutou contra o impulso de bater em si mesmo.

— Sim?

— Sou desagradável para você? — como ele retrocedeu, ela colocou as mãos sobre o rosto — Não importa.

Enquanto se escondia dele, ele pensou na primeira vez que a viu, quando ela o tinha surpreendido no ginásio por volta de umas tantas semanas. Fascinou-o, deixando-o como um estúpido e ela ainda tinha esse efeito sobre seu cérebro. Era como se tivesse um interruptor do qual só ela tivesse o controle remoto.

Esclareceu-se garganta.

— É como sempre foi para mim.

Virou-se, só para ouvir um soluço. Então, outro. E, outro.

Olhou sobre o ombro.

— Bela… Inferno Santo…

— Sinto. — disse dentro das palmas — Sou lamentável. Só vai. Estou bem… Sinto, estou bem.

Enquanto se aproximava e sentava sobre o colchão, desejava ter o dom das palavras.

— Não tem por que sentir.

— Invadi seu quarto, sua cama. Obriguei-te a dormir perto de mim. Fiz com que me desse de sua veia. Sou tão… Sinto. — suspirou e se recolheu, porém seu desespero permaneceria muito tempo, trazendo o aroma terroso das gotas de água sobre a calçada quente — Sei que deveria partir, sei que não me quer aqui, mas só necessito… Não posso ir para minha granja. O lesser me levou dali, por isso não posso suportar a idéia de retornar. E, não quero ficar com minha família. Eles não entenderão o que me passa agora e não tenho energia para explicar-lhes. Só necessito um pouco de tempo, necessito conseguir de algum jeito que minha cabeça saia disso, mas não posso sozinha. Embora não queira ver ninguém, exceto…

Quando acabou, ele disse.

— Fique aqui o quanto quiser.

Ela começou a soluçar, outra vez. Maldita seja.

Isto era o que devia dizer.

— Bela… Eu… — o que supunha que estava fazendo?

Estenda-lhe a mão, idiota. Pegue sua mão, pedaço de merda.

Não podia fazê-lo.

— Quer que me mude? Que te dê espaço?

Mais choro, no meio dos quais ela murmurou:

— Necessito-te.

Deus, se a tinha ouvido bem, compadecia-se por ela.

— Bela, deixe de chorar. Deixa de chorar e me olhe. — finalmente ela suspirou e limpou o rosto.

Quando ele esteve seguro de que tinha sua atenção, disse-lhe:

— Não se preocupe com nada. Ficará aqui enquanto quiser. Está claro?

Ela só o olhou fixamente.

— Acene com a cabeça para mim, então saberei que me escutou. — quando ela o fez, ele levantou — Eu sou o último que você necessita. Então, deixa de dizer bobagens agora mesmo.

— Mas…

Dirigiu-se à porta.

— Retornarei antes da alvorada. Fritz sabe como encontrar a todos.

Depois de deixá-la, Z cruzou o corredor de estátuas, virou na ala esquerda e rapidamente passou diante do estudo de Wrath e pela magnífica escada. Três portas mais à frente, ele chamou. Não houve resposta. Voltou a chamar.

Dirigiu-se para baixo e encontrou quem procurava na cozinha.

Mary, a mulher de Rhage, cortava batatas. Muitas batatas. Como um exército delas. Seus olhos cinza levantaram e sua faca de cozinha parou sobre uma batata Idaho golden. Olhou a seu redor, perguntando-se se ele estava procurando a alguém mais. Ou talvez só esperasse não ficar a sós com ele.

— Poderia adiar isto um pouquinho? — disse Z, apontando com a cabeça para o montão de batatas.

— Um, claro. Rhage sempre pode comer outra coisa. Além disso, de todos os modos, Fritz está tendo uma manha de criança porque eu ia cozinhar. O que… Ah, que necessita?

— Eu não. Bela. Agora mesmo, ela precisa de uma amiga.

Mary abaixou a faca e a batata meio cortada.

— Estou querendo vê-la.

— Está em meu quarto. — Z girou, já pensando em qual dos becos do centro da cidade ia bater.

— Zsadist?

Ele parou com a mão sobre a porta do mordomo.

— O que?

— Está cuidando muito bem dela.

Ele pensou no sangue que tinha deixado que ela bebesse. E, a urgência de ter um orgasmo em seu corpo.

— Não realmente. — disse por sobre o ombro.

 

Às vezes, tem que se começar pelo princípio, pensou O enquanto corria pelo parque.

Aproximadamente a dois quilômetros e meio de onde tinha estacionado o caminhão, as árvores diminuíam de quantidade até formar um prado rasteiro. Parou enquanto ainda estava escondido entre os pinheiros.

Entre a branca manta de neve, estava a granja onde tinha encontrado sua esposa e à mortiça luz do dia sua casa era toda Norman Rockwell, uma postal do Hallmark, a perfeita Middle America. A única coisa que faltava era um pouco de fumaça saindo da chaminé de tijolo vermelho.

Tirou seus binóculos e explorou o local, logo se concentrou na casa. As marcas de pneus no caminho da entrada e na porta faziam com que se preocupasse que a granja tivesse sido vendida e os promotores tivessem vindo. Mas, ainda havia móveis dentro, móveis que reconheceu de quando tinha estado ali com ela.

Deixou cair o binóculo, deixando que pendurasse de seu pescoço e agachou. Esperaria por ela ali. Se estivesse viva, iria para casa ou quem quer que a cuidasse viria buscar algumas de suas coisas. Se estivesse morta, alguém começaria a tirar suas porcarias.

Ao menos, esperava que algo assim acontecesse. Não tinha nada mais para continuar, não sabia seu nome ou o paradeiro de sua família. Além disso, não podia adivinhar onde estaria. Sua única opção era sair e perguntar aos civis. Como nenhuma outra mulher tinha sido seqüestrada, certamente seria o tema de conversas dentro de sua raça. O problema era que esse caminho podia levar semanas… Meses. E, a informação dada através de técnicas persuasivas não era sempre sólida.

Não, provavelmente observando a casa conseguiria mais resultados. Sentaria e esperaria que alguém lhe estendesse a mão e o conduzisse até ela. Talvez seu trabalho fosse ainda mais fácil e o irmão com cicatrizes poderia ser quem o mostrasse.

Isso seria perfeito.

O se apoiou sobre os tornozelos, não ligando para o vento frio.

Deus… Esperava que estivesse viva.

 

John manteve a cabeça baixa e tratou de unir esforços. O vestuário estava cheio de vapor, vozes e o estalo de toalhas molhadas nos traseiros nus. Os aprendizes se desfizeram de seus jis suarentos, tomando banho antes do descanso para comer e logo teriam uma aula de golpes como parte da educação.

Era um grupo de caras normais, exceto John, por isso não quis despir-se. Mesmo sendo todos de seu tamanho, isto era, sem rodeios, pior que cada pesadelo que agüentou na escola secundária até que pôde sair do sistema aos dezesseis. E, agora mesmo estava evidentemente muito exausto para lidar com a cena.

Supunha que era meia-noite, mas se sentia como... Se fossem às quatro da madrugada, da manhã seguinte. O treinamento era exaustivo. Nenhum dos outros machos era forte, mas todos eles puderam manter o ritmo com as posturas que Phury e logo Tohr introduziram. Infernos, uns quantos tinham talento. John era um desastre. Seus pés eram lentos, suas mãos estavam sempre no lugar e no momento errado, e não tinha coordenação motora. Homem, não importava o quanto tentasse, não encontrava o equilíbrio. Seu corpo era como uma bolsa cheia de água em movimento, caso se movesse em uma direção, todo resto lhe caia em cima.

— Melhor que te apresse. — disse Blaylock — Só temos mais oito minutos.

John olhou a porta das duchas. Os jorros de água ainda funcionavam, mas não podia ver ninguém ali. Tirou o ji, o suspensório e se meteu rapidamente dentro da...

Droga. Lash estava na esquina. Como se o estivesse esperando.

— Oi, grande homem. — o cara arrastou as palavras — Realmente nos ensinou uma coisa ou duas lá fora...

Lash parou de falar e fixou o olhar no peito de John.

— Você, pequeno beijo no traseiro. — disse bruscamente. E, logo saiu furioso da ducha.

John olhou para a marca circular em cima de seu peitoral esquerdo, com a qual ele tinha nascido... A que, segundo lhe disse Tohr, recebiam os membros da Irmandade em sua iniciação.

Genial. Agora poderia acrescentar essa marca de nascimento à crescente lista de coisas das quais não queria ouvir seus companheiros falar.

Quando saiu da ducha com a toalha ao redor da cintura, todos os machos, inclusive Blaylock, mantinham-se unidos. Enquanto o inspecionavam como uma sólida e silenciosa unidade, perguntou-se se os vampiros tinham instintos de manada, como os lobos ou os cães.

Como continuaram lhe cravando o olhar, pensou, um, certo. Isso era uma grande afirmação.

John abaixou a cabeça e foi vestir a roupa, desesperado para que o dia acabasse.

 

Por volta das três da madrugada, Phury caminhou rapidamente pela Décima Rua para o ZeroSum. Butch estava esperando lá fora na entrada de vidro cromado do clube, matando tempo, apesar do frio. Envolto em seu comprido casaco de cachemira e com o boné dos Red Sox bem introduzida, via-se bem. Anônimo, mas bem.

— Que faz? — perguntou Butch enquanto batia as mãos.

— A noite é uma merda da parte dos lesser. Ninguém encontra nada. Oi, homem, obrigado pela companhia, necessito dela.

— Sem problema. — Butch se enfiou no boné dos Sox ainda mais. Como os Irmãos, não chamava atenção. Enquanto era detetive de homicídios, ajudou a enviar a um numeroso grupo de camelos para a prisão, por isso era melhor para ele passar despercebido.

Dentro do clube, a música tecno era irritante. Também havia luzes piscando e muitos humanos. Mas, Phury tinha suas razões para vir, e Butch estava sendo amável. De certo modo.

— Este lugar é só para estranhas preciosidades. — disse o policial, olhando ao tipo vestido com um traje anos 70 rosa choque com a maquiagem combinando — Melhor picolé caseiro e cerveja todos os dias do que esta sandice da cultura X.

Quando foram à área VIP, a corda de cetim rosa foi abaixada imediatamente para lhes deixar passar.

Phury saudou o segurança, logo olhou a Butch.

— Não demorarei muito.

— Já sabe onde me encontrar.

Enquanto o policial ia para a mesa, Phury andou por trás da ária VIP, parando diante dos dois seguranças que vigiavam a porta privada do Reverendo.

— Direi que você está aqui. — disse o da esquerda.

Uma fração de segundo mais tarde permitiram a entrada de Phury. O escritório era uma cova, fracamente iluminada com teto baixo, e o vampiro dentro do escritório dominava o espaço, especialmente quando se levantou.

Reverendo media uns dois metros, e a estreita crista que usava em seu cabelo combinava tanto quanto o fazia seu excelente e luxuoso traje Italiano. Seu rosto era desumano e inteligente, o tornando legitimamente perigoso no negócio no qual estava. Embora, seus olhos... Seus olhos não encaixavam. Eram curiosamente bonitos, da cor das ametistas, um púrpura tão profundo que resplandecia.

— De volta tão rápido? — disse o macho, com sua voz grave, profunda, mais dura que de costume.

Pegue o produto e parta logo, pensou Phury.

Pegou seu maço de dinheiro, separando três das grandes. Desdobrou as notas de mil em cima da escrevinha cromada.

— O dobro do de costume. E, a quero cortada.

Reverend sorriu friamente e virou a cabeça para esquerda.

— Rally, dê ao macho o que necessita. E, embainha essa O-Zs. — um subordinado saiu da escuridão e saiu através da porta de trilho na esquina mais afastada da sala.

Quando estavam sozinhos, Reverendo rodeou a escrivaninha lentamente, movendo-se como se tivesse azeite nas veias, todo poder sinuoso. Quando deu a volta, aproximou-se o bastante para tocar Phury deslizando sua mão no casaco e encontrando uma de suas armas.

— Tem certeza que não está interessado em algo um pouco mais forte? — disse Reverendo — Essa fumaça vermelha é para um consumidor moderado.

— Se quisesse algo mais, pediria.

O vampiro se deteve ao seu lado. Muito, muito perto.

Phury franziu o cenho.

— Algum problema?

— Tem um bonito cabelo, sabe? É como o das fêmeas. Todas essas cores diferentes. — a voz do Reverendo era estranhamente hipnótica, seus olhos púrpuras, puramente ardilosos — Falando de fêmeas, ouvi dizer que não te aproveita do que minhas damas oferecem. É verdade?

— Por que te importa?

— Só quero estar seguro de que suas necessidades estão sendo atendidas. A satisfação do cliente é malditamente importante. — o macho se aproximou ainda mais mostrando com a cabeça o braço de Phury, que desapareceu dentro do seu casaco — Sua mão está na culatra da pistola, não? Tem medo de mim?

— Só quero estar seguro de que posso me encarregar de você.

— Oh, de verdade?

— Sim. No caso de precisar de uma pequena Glock para pronunciar uma reanimação.

Reverendo sorriu amplamente, cintilando as presas.

— Sabe, ouvi esse rumor... Sobre um membro da Irmandade que é celibatário. Sim, imagine um guerreiro que se abstém. E, ouvi algumas outras coisas sobre esse macho. Não tem uma perna. Tem um sociopata cicatrizado como gêmeo. Por acaso não conhece esse Irmão?

Phury negou com a cabeça.

— Não.

— Hum. Curioso, vi-te rondando com um tipo que parecia levar uma máscara de Halloween. Na realidade, vi-te com um par de grandes machos que estão de acordo com os tipos dos quais ouvi falar. Não acredita...

— Faça o favor de me dar minha erva. Esperarei lá fora. — Phury partiu de volta. Estava de mau humor para começar: frustrado por não ter encontrado uma briga, sangrando por dentro por haver-se fechado com Bela. Agora não tinha tempo para outro conflito. Dificilmente estava dentro de seus nervos.

— É celibatário porque você gosta dos machos?

Phury o olhou enfurecido por cima do ombro.

— O que aconteceu com você esta noite? Sempre é estranho, mas agora mesmo também está sendo um verdadeiro idiota.

— Sabe, possivelmente só precise de sexo. Não transo com varões, mas estou seguro que poderíamos te encontrar a um complacente.

Pela segunda vez em vinte e quatro horas, Phury explodiu. Avançou através do escritório, agarrou o Reverendo pelas lapelas de seu Gucci, e o cravou na parede.

Phury pressionou o peito do tipo.

— Por que está procurando briga?

— Você me beijará antes do sexo? — murmurou Reverendo, ainda brincando — Acredito que é o mínimo que pode fazer, considerando que só nos conhecemos profissionalmente. Ou não gosta das preliminares?

— Foda-se.

— Isso é uma resposta original. Teria esperado algo um pouco mais interessante de sua parte.

— Certo. Como esta?

Phury presenciou-se irrefutavelmente na boca do macho, o beijo, uma pressão entre rostos, nada remotamente sexual. E, o fez só para apagar a expressão na cara do bastardo. Funcionou. Reverendo ficou rígido e grunhiu, e Phury soube que tinha descoberto as intenções do tipo. Mas, só para assegurar-se que tinha aprendido a lição, cortou o lábio inferior do macho com uma presa.

No instante em que o sangue bateu em sua língua, Phury retrocedeu, com a boca aberta. Através da sacudida respirou:

— Bem, quem o diria, comedor de pecados.

Ao som da palavra, Reverendo cortou toda a sandice, ficando bem e completamente sério. No silêncio parecia estar considerando suas negativas plausíveis.

Phury negou com a cabeça.

— Nem o tente. Posso saborear.

Os olhos ametistas se estreitaram.

— O termo politicamente correto é symphath.

As mãos de Phury apertaram ao macho em um ato reflexivo. Merda sagrada. Um symphath. Aqui em Caldwell e vivendo entre as espécies. Fazendo-se passar por qualquer outro civil.

Homem, isso era uma informação crucial. A última coisa que Wrath precisava era outra guerra civil de raças.

— Só vou te avisar algo. — disse Reverendo brandamente — Se me delatar, perderá seu fornecedor. Pense nisso. Onde conseguirá o que necessita, se eu estiver fora de cena?

Phury olhou dentro daqueles olhos púrpuros, ainda refletindo sobre as implicações. Ia contar aos Irmãos logo que chegasse em casa, e ia vigiar o Reverendo de perto. E quanto a entregar o tipo... A discriminação que os symphaths haviam confrontando ao longo da história sempre lhe parecera injusta... Sempre e quando não começassem a jogar fora a porcaria e o metessem em apuros. E, Reverendo fazia funcionar o clube durante os últimos cinco anos sem problemas relacionados com o comportamento symphath.

— Vamos fazer um pequeno trato. — disse Phury, olhando enfurecidamente dentro do violeta e fixo olhar — Eu me calo e você se mantém no anonimato. Tampouco trate de ferrar-me outra vez. Não vou seguir tua cantilena para que me sugue as emoções, o que estava fazendo agora, não? Queria-me furioso porque estava faminto de sentimentos.

A boca de Reverendo abriu justo quando a porta do escritório se entreabriu. Uma vampiro fêmea entrou sem convite, parando bruscamente quando viu a inegável cena: dois machos juntos, o lábio de Reverendo sangrando, e sangue na boca de Phury.

— Por todos os infernos, fora daqui! — ladrou Reverendo.

A fêmea se foi tão rápido que tropeçou, golpeando o cotovelo com o marco da porta.

— Então, temos um trato? — picou Phury quando ela saiu.

— Se você admitir que é um Irmão.

— Não sou.

Os olhos de Reverendo relampejaram.

— Só para que saiba, não acredito em você.

Phury de repente teve a noção de que o tema da Irmandade ter surgido esta noite não foi acidental. Inclinou-se para o macho violentamente.

— Perguntando-se o que aconteceria caso sua identidade saísse à luz?

— Nós… — Reverendo tomou um profundo fôlego — Temos um trato.

 

Butch elevou a vista quando a mulher que enviou para inspecionar Phury retornou. Normalmente as compras eram feitas com rapidez, mas tinham passado uns bons vinte minutos.

— Meu menino ainda esta ali? — perguntou Butch, reparando distraidamente que ela se esfregava o cotovelo como se doesse.

— Oh, está ali. — quando lhe lançou um estreito sorriso, de repente se deu conta que era uma vampiro. Essa coisa como um pequeno sorriso era uma careta que todos eles faziam quando estavam entre humanos.

E, ela era de certo modo atrativa, supôs, com o comprido cabelo loiro e o couro negro em seus seios e quadris. Quando deslizou a seu lado no assento, sentiu seu perfume e pensou ociosamente em sexo pela primeira vez em... Bom, desde que se encontrou com Marissa no verão.

Tomou um comprido trago, acabando o escocês em seu copo. Então, percorreu com os olhos os seios da fêmea. Sim, o sexo estava em sua mente, porém mais como um reflexo físico que qualquer outra coisa. O interesse não era como o que tinha tido por Marissa. Então, a necessidade tinha sido... Urgente. Reverente. Importante.

A fêmea a seu lado lançou um olhar como se soubesse a direção de seus pensamentos.

— Seu amigo poderá demorar um pouco.

— Sim?

— Eles só estavam começando a ir ao ponto.

— A compra?

— O sexo.

A cabeça de Butch se elevou rapidamente e se olharam fixamente.

— Perdão?

— Oh, ui! — franziu o cenho — Estão juntos ou algo assim?

— Não, não estamos juntos. — disse bruscamente — De que demônios está falando?

— Sim, realmente não pensei que você fosse assim. Você se veste bem, mas não libera esse tipo de vibração.

— E, meu amigo não está com homens, tampouco.

— Está seguro sobre isso?

Pensou sobre seu celibato e começou a perguntar-se.

Dá no mesmo. Necessitava outra bebida, não precisava misturar-se nos negócios de Phury. Elevando o braço, fez gestos à garçonete, que se aproximou apressadamente.

— Outro escocês duplo. — disse. Para ser educado, voltou-se para fêmea a seu lado — Quer algo?

A mão dela aterrissou em sua coxa.

— De fato, sim. Mas, ela não pode me dar isso.

Quando a garçonete partiu, Butch se reclinou no reservado, esticando ambos os braços para fora, abrindo-se. A fêmea tomou como um convite, inclinando-se para ele, movendo sua mão para o sul. Seu corpo se agitou, o primeiro sinal de vida em meses, e teve um pensamento fugaz de que possivelmente poderia tirar Marissa da cabeça com um pouco de sexo.

Enquanto a fêmea lhe acariciava através das calças, observou-a com interesse clínico. Sabia aonde conduzia isto. Acabaria fazendo em um dos lavabos privados dali. Possivelmente levasse dez minutos, se chegasse. Levaria ela ao êxtase, feito o trabalho, ele se afastaria dela.

Deus, tinha jogado esse jogo rotineiro centenas de vezes durante sua vida. E, eram realmente só masturbações disfarçadas de sexo. Nenhum problema.

Pensou em Marissa… E, sentiu ardência nos condutos lacrimais.

A fêmea a seu lado se moveu tanto, que seus seios estiveram em cima de seu braço.

— Vamos lá para trás, carinho.

Pôs a mão sobre a sua entre perna e ela fez algum tipo de ronrono em sua orelha. Ao menos até que lhe tirou a mão.

— Sinto muito. Não posso.

A fêmea se separou e o olhou como se ele tivesse brincado com ela. Butch fixou o olhar diretamente atrás.

Não estava preparado para dizer que nunca mais voltaria a ter sexo. E, certamente não podia entender por que Marissa lhe tinha dado muito mais do que recebeu. Tudo o que sabia era que o velho costume de montar com mulheres aleatórias não era feito para ele esta noite.

De repente, a voz de Phury cortou o ruído ambiental do clube.

— Êh, policial, quer ir ou ficar?

Butch elevou o olhar. Houve uma leve pausa enquanto especulava a respeito de seu amigo.

Os olhos do Irmão se estreitaram.

— O que aconteceu, policial?

— Estou pronto para ir. — disse Butch, aliviando o embaraçoso momento.

Quando levantou, Phury jogou um duro olhar à loira. Um verdadeiro especial “mantém sua boca fechada”.

Uau!, pensou Butch enquanto se dirigia à porta. Então, Phury realmente era gay.

 

Um leve ruído despertou Bela, horas mais tarde. Olhando para a janela observou como desciam à persiana de aço. O amanhecer estava perto.

A ansiedade formigava em seu peito, e olhou para a porta. Desejava que Zsadist entrasse por ela, desejava cravar os olhos nele e assegurar-se de que estava inteiro. Embora parecesse que tinha retornado à normalidade quando saiu, tinha-lhe feito passar por muitas coisas.

Virou sobre suas costas e pensou sobre a revelação de Mary. Como Zsadist soube que ela necessitava de uma amiga? E, Deus, o fato de que tivesse pedido a Mary e…

A porta se abriu completamente, sem aviso prévio.

Bela sentou rapidamente, subindo as mantas até o pescoço. Mas, então a sombra de Zsadist foi um alívio impressionante.

— Sou eu. — disse bruscamente. Quando entrou trazia uma bandeja e havia algo em seu ombro. Uma bolsa — Importa-te se acender as luzes?

— Olá… — Estou tão contente de que esteja bem — Não, não me incomodo.

Acendeu várias velas, e ela piscou pelo repentino resplendor.

— Trouxe algumas coisas pra você de sua casa. — pôs a bandeja de comida na mesinha de cabeceira e abriu a bolsa — Peguei roupas e um casaco. O xampu que estava na ducha. Uma escova. Sapatos. Meias três-quartos para conservar seus pés quentes. Também o seu diário… Não se preocupe, não li nada.

— Eu me surpreenderia se o fizesse. É mais confiável que isso.

— Não, sou analfabeto.

Seus olhos flamejaram.

— De toda forma… — sua voz era tão dura como a linha de sua mandíbula — Acreditei que quereria algumas de suas coisas.

Quando pôs a bolsa a seu lado na cama, ela ficou olhando-o fixamente até que, afligida, estendeu a mão para alcançá-lo. Quando se sobressaltou, ruborizou e olhou o que ele havia lhe trazido.

Deus… A deixava nervosa ver suas coisas. Especialmente o diário.

Porém, foi reconfortante tirar seu suéter vermelho favorito, colocou-o no nariz e sentiu o cheiro do perfume que sempre usava. E… Sim, o pente, seu pente, que gostava com sua cabeça larga, quadrada e as pontas metálicas. Pegou o xampu, abrindo-o e inalando. Ahhh… Biolage[15]. Nada parecido ao perfume que o lesser lhe tinha feito usar.

— Obrigado. — a voz tremente enquanto pegava seu diário — Muito obrigado.

Acariciou a capa de couro de seu diário. Não queria abri-lo. Não agora. Mas, logo…

Elevou o olhar para Zsadist.

— Você me levaria para casa?

— Sim. Posso fazê-lo.

— Tenho medo de ir ali, mas certamente deveria.

— Só me diga quando.

Reunindo coragem, querendo tirar do caminho uma das coisas pendentes, disse:

— Quando anoitecer. Quero ir lá.

— Certo, iremos. — mostrou a bandeja — Agora, come.

Ignorando a comida, observou-o entrar no armário e desarmar-se. Era cuidadoso com suas armas, as verificando a fundo, e se perguntou onde tinha estado… O que tinha feito. Embora suas mãos estivessem limpas, seus antebraços tinham sangue negro.

Tinha matado esta noite.

Supôs que sentiria uma espécie de triunfo com um lesser a menos. Mas, enquanto Zsadist ia para o banho com umas calças sobre seus braços, estava muito mais interessada em seu bem-estar.

E, também… Em seu corpo. Movia-se como um animal, no melhor sentido da palavra, todo poder latente e elegante passo. O sexo que despertou nela a primeira vez que o viu, golpeou-a de novo. Desejava-o.

Quando a porta do banheiro se fechou e ouviu a ducha, esfregou os olhos decidindo que estava louca. O macho se separou da ameaça de sua mão em seu braço. Pensava que realmente queria deitar-se com ela?

Desgostosa com ela mesma, olhou a comida. Era algum tipo de frango com ervas, batatas assadas e abobrinha. Havia um copo de água e outro de vinho branco, assim como duas maçãs Granny Smith e um pedaço de bolo de cenouras. Pegou o garfo e pulverizou o frango pelo prato. Queria comer o que havia no prato só porque ele tinha sido tão atento ao trazer-lhe.

Quando Zsadist saiu do banheiro vestindo só as calças de náilon, congelou-se e não pôde afastar seu olhar. Os anéis do mamilo apanharam a luz das velas, assim como os duros músculos do estômago e braços. Junto com a marca estrelada da Irmandade, o peito nu tinha um recente e lívido arranhão que o atravessava e um machucado.

— Está ferido?

Foi para ela e examinou o prato.

— Não comeu muito.

Não lhe respondeu enquanto seus olhos estavam apanhados nos ossos curvos do quadril que se sobressaíam da cintura baixa das calças. Deus… Só um pouquinho mais baixo e poderia vê-lo todo.

De repente recordou dele esfregando-se rudemente porque pensava que era asqueroso. Engoliu em seco, perguntando-se o que lhe haviam feito, sexualmente. Deseja-lo como ela fazia parecia… Inapropriado. Invasivo. Porém, não mudava a maneira como ela se sentia.

— Não estou com muita fome. — murmurou.

Aproximou-lhe a bandeja.

— Come de toda forma.

Quando começou a comer outra vez o frango, ele pegou as duas maçãs e passeou pelo quarto. Mordeu uma delas, sentou no chão com as pernas cruzadas e os olhos fechados. Um braço cruzado sobre seu estômago enquanto mastigava.

— Jantou lá embaixo? — perguntou ela.

Negou com a cabeça e mordeu outra parte de maçã, o rangido ressonou por todo o quarto.

— É tudo o que comerá? — quando encolheu os ombros, ela resmungou — E, diz a mim que como pouco?

— Sim, faço. Continue comendo, mulher.

— Você não gosta de frango?

— Eu não gosto de comida. — os olhos nunca abandonaram o chão, mas sua voz foi mais aguda — Agora, come.

— Por que você não gosta de comida?

— Não posso confiar nela. — disse entre dentes — A menos que eu mesmo a prepare, ou que a veja sendo preparada não se pode saber o que há.

— Por que pensa que alguém pode alterar...

— Mencionei que eu não gosto de falar?

— Dormirá a meu lado esta noite? — a pergunte lhe escapou, imaginando que obteria sua resposta antes que se calasse completamente.

Suas sobrancelhas se moveram interrogativamente.

— Realmente quer isso?

— Sim.

— Então, sim. Farei.

Enquanto acabava as duas maçãs e ela limpava o prato, o silêncio não foi precisamente fácil, mas tampouco chocante. Quando acabou com o bolo de cenouras, foi ao banheiro e escovou os dentes. Quando ela retornou, ele roia o miolo da última maçã com suas presas, partindo os pedacinhos que restavam.

Não podia imaginar como podia lutar com semelhante dieta. Certamente deveria comer mais.

Sentiu-se como se devesse dizer algo, mas em troca deslizou na cama e enrolando-se, esperou-o. Enquanto passavam os minutos, e tudo o que ele fazia era mordiscar cirurgicamente essa maçã, ela não podia agüentar a tensão.

Basta, pensou. Realmente deveria ir para outro lugar da casa. Usava-o como uma muleta, e isso não era justo.

Afastou os lençóis justo quando ele se desenrolava do chão. Quando caminhou para a cama, ela ficou gelada. Deixou cair os miolos das maçãs no prato, pegou um guardanapo que ela tinha usado para limpar a boca. Depois de esfregar as mãos, pegou a bandeja e a tirou do quarto, deixando-a do lado de fora da porta.

Ao retornar foi ao outro lado da cama, e o colchão afundou quando se esticou em cima do edredom. Cruzando os braços sobre seu peito e os pés pelos tornozelos, fechou os olhos.

Uma a uma, as velas se apagaram no quarto. Quando ficou uma só vela queimando, disse:

— Deixarei essa acesa para que possa ver.

Olhou-lhe.

— Zsadist?

— Sim?

— Quando estava... — esclareceu-se garganta — Quando estava nesse buraco no chão, pensava em você. Queria que fosse me buscar. Sabia que me tiraria dali.

Suas sobrancelhas descenderam embora as pálpebras estivessem baixas.

— Eu também pensei em você.

— Fez? — moveu o queixo acima e abaixo, enquanto ela dizia — De verdade?

— Sim. Alguns dias... Você foi tudo no que eu podia pensar.

Bela sentiu que seus olhos aumentavam. Girou para ele e apoiou a cabeça em um braço.

— Sério? — quando não lhe respondeu, ela pressionou — Por quê?

Seu grande peito se expandiu e exalou um fôlego.

— Queria te recuperar. Isso é tudo.

Oh... Somente cumpria com seu trabalho.

Bela deixou cair o braço e lhe virou as costas.

— Bom... Obrigado por me buscar.

Em silêncio observou queimar a vela na mesinha de cabeceira. A chama em forma de lágrima ondulava tão bonita, tão elegante...

A voz de Zsadist era suave.

— Odiava a idéia de que estivesse sozinha e assustada. Que alguém tivesse feito mal a você. Não podia... Deixar.

Bela deixou de respirar e olhou por cima do ombro.

— Não pude dormir nessas seis semanas. — murmurou — Tudo o que podia ver quando fechava os olhos era você, pedindo ajuda.

Deus, embora seu rosto fosse muito rude, sua voz era tão suave e tão bonita, como a chama da vela.

Girou a cabeça para ela e abriu os olhos. Seu escuro olhar estava cheio de emoção.

— Não sei como pôde sobreviver tanto tempo. Estava seguro de que tinha morrido. Mas, então encontramos o lugar e te tirei desse buraco. Mas, quando vi o que te tinha feito...

Bela lentamente se virou, não querendo assustá-lo com uma retirada.

— Não recordo nada disso.

— Bom, isso é bom.

— Algum dia... Precisarei saber. Você me contará isso?

Ele fechou os olhos.

— Se realmente quiser os detalhes.

Ficaram em silêncio durante um tempo, e então ele se moveu para ela, rodando para um lado.

— Odeio lhe perguntar isso, mas como era? Pode recordar algo específico sobre ele?

Suficiente, pensou. Muito.

— Êh, ah, tingia o cabelo de castanho.

— O que?

— Quero dizer, estou quase segura que o fazia. Cada semana, assim que entrava no banheiro podia cheirar os produtos químicos. E, tinha raízes. Uma pequena linha branca em seu couro cabeludo.

— Mas, acreditava que empalidecer era bom porque significava que fazia tempo que pertenciam à Sociedade.

— Não sei. Acredito que tinha... Ou tem... Uma posição de poder. Pelo que podia ouvir do buraco, os outros lesser eram cautelosos a seu redor. E, o chamavam ‘O’.

— Algo mais?

Tremendo, retornou ao pesadelo.

— Ele me amava.

Um grunhido vibrou de Zsadist, grave e desagradável. Gostou desse som. A fazia sentir-se protegida. Deu-lhe força para seguir falando.

— O lesser, disse-me... Disse-me que me amava, e o fazia. Estava obcecado por mim. — lentamente soltou o fôlego, tratando de acalmar seu palpitante coração — No princípio estava aterrorizada, mas depois utilizei seus sentimentos contra ele. Queria lhe machucar.

— Fez?

— Às vezes, sim. Fiz-lhe... Chorar.

A expressão de Zsadist foi mais que estranha. Como se tivesse... Inveja.

— Como se sentiu?

— Não quero dizê-lo.

— Porque foi bom?

— Não quero que pense que sou cruel.

— A crueldade é diferente da represália.

No mundo de um guerreiro, imaginou que fosse certo.

— Não estou segura de estar de acordo.

Seus escuros olhos se estreitaram.

— Há alguns que quereriam te vingar. Sabe isso, não?

Pensou a respeito dele, saindo de noite para caçar ao lesser sem poder suportar a idéia que poderia machucar-se. Então, imaginou a seu irmão, tão furioso e orgulhoso, preparado também para rasgar ao assassino.

— Não… Não quero que faça isso. Nem você, nem Rehvenge. Nem ninguém.

De repente, uma corrente atravessou a habitação, como se tivessem aberto a janela de repente. Olhou ao redor e se deu conta que a onda fria tinha saído do corpo de Zsadist.

— Tem um companheiro? — perguntou abruptamente.

— Por que o… Oh, não, Rehvenge é meu irmão. Não meu companheiro.

Os grandes ombros relaxaram. Mas, então franziu o cenho.

— Teve algum?

— Ter um companheiro? Por um tempo, sim. Mas, as coisas não funcionaram.

— Por quê?

— Por meu irmão. — fez uma pausa — Realmente, isso não é certo. Mas, quando o macho não pôde enfrentar Rehv, perdi o respeito por ele. E, então… O tipo contou detalhes de nossa relação na glymera e as coisas… Se complicaram.

De fato, ficaram horríveis. A reputação do macho permaneceu intacta, é obvio, enquanto que a dela se fez migalhas. Possivelmente essa era a razão pela qual se sentia tão atraída por Zsadist. Não lhe importava o que pensassem dele. Não havia subterfúgios, nem maneiras corteses escondendo seus pensamentos e instintos. Era honesto, e essa franqueza, embora servisse para revelar sua cólera, a fazia sentir-se segura ao confiar nele.

— Vocês foram… — foi ficando sem fala.

— Fomos o que?

— Amantes? — em um áspero arrebatamento, Zsadist amaldiçoou — Não importa, não é por mim…

— Ah, sim, fomos, Rehv nos descobriu, e ali foi onde começaram os problemas. Já sabe como é a aristocracia. Uma mulher que se deita com alguém que não é seu marido? Pode jurar que está manchada por toda vida. Acredito que sempre desejei ter nascido civil. Mas, não se pode escolher sua ascendência, verdade?

— Amava o macho?

— Pensava que sim. Mas… Não. — pensou na caveira ao lado do colchonete de Zsadist — Esteve apaixonado alguma vez?

A esquina de sua boca se elevou em um grunhido.

— Que diabos acredita?

Quando ela retrocedeu, fechou os olhos.

— Sinto muito. Quero dizer, não. Isso seria um não.

Então por que conservava esse crânio? De quem era? Estava a ponto de perguntar quando cortou a pergunta.

— Seu irmão em pensa ir atrás do lesser?

— Indubitavelmente. Rehvenge é... Bom, foi meu guardião desde que meu pai morreu quando era muito jovem, e Rehv é muito agressivo. Extremamente agressivo.

— Bom, então lhe diga que não se mova. Eu vou vingar-te.

— Não. — disse lhe disparando um olhar.

— Sim.

— Mas, não quero que o faça. — não poderia viver consigo mesma se ele morresse no processo.

— Não posso me deter. — apertou com força seus olhos fechados — Jesus… Não posso respirar sabendo que esse bastardo está ali fora. Tem que morrer.

Medo e gratidão e algo completamente cálido se apertou em seu peito. Em um impulso, inclinou-se e lhe beijou nos lábios.

Saltou para trás com um gemido, os olhos mais abertos do que se lhe tivesse esbofeteado.

Oh, demônios. Por que tinha feito isso?

— Sinto muito. Sinto muito, eu…

— Não, está bem. Estamos bem. — virou sobre suas costas e elevou a mão até a boca. Esfregou os lábios com os dedos, como se limpasse dela.

Quando ela suspirou bem e fortemente, ele disse:

— O que ocorre?

— Sou tão desagradável ao gosto?

Ele deixou cair o braço.

— Não.

Que mentira.

— Possivelmente posso te conseguir um pano para te lavar, quer?

Quando ia sair disparada da cama, uma mão lhe segurou o braço.

— É meu primeiro beijo, ok? É só que não o esperava.

Bela ficou sem respiração. Como era possível?

— Oh, pelo amor de Deus, não me olhe assim. — deixou-a ir e voltou a olhar para o teto.

Seu primeiro beijo…

— Zsadist?

— O que.

— Você me deixaria fazê-lo outra vez?

Houve uma longa, longa pausa. Avançando lentamente para ele, pressionou seu corpo contra os lençóis e mantas.

— Não te tocarei com nada mais. Só meus lábios. Sobre os teus.

Gire a cabeça, desejava ferventemente. Gire a cabeça e me olhe.

E, ele o fez.

Não esperou um convite por escrito ou que ele mudasse de idéia. Pressionou os lábios contra os seus ligeiramente, então revoou sobre sua boca. Quando permaneceu quieto, lançou-se abaixo e esta vez o acariciou. Sua respiração se entrecortou.

— Zsadist?

— Sim. — sussurrou.

— Relaxe a boca para mim.

Com cuidado para não se jogar sobre ele, apoiou-se em seus antebraços e se aproximou de novo. Seus lábios eram chocantemente suaves, exceto pelas cicatrizes do lábio superior. Para assegurar-se que sabia que essa imperfeição não lhe importava, deliberadamente atendeu esse lugar, voltando ali uma e outra vez.

E, então aconteceu: devolveu-lhe o beijo. Foi só um leve movimento de sua boca, mas o sentiu até em seu coração. Quando o fez outra vez, elogiou-o gemendo um pouco e deixando tomar iniciativa.

Deus, era tão indeciso, movendo-se sondando sua boca com as mais suaves carícias. Beijou-a docemente e com cuidado, tinha sabor de maçãs e a espécie masculina. E, o contato entre eles, embora leve e lento, foi suficiente para que lhe doesse.

Quando ela tirou ligeiramente a língua e lhe lambeu, afastou-se bruscamente.

— Não sei o que estou fazendo aqui.

— Sim, sabe. — inclinou-se para manter o contato — Realmente sabe.

— Mas...

Sossegou-o com sua boca, e não muito tempo depois retornou ao jogo. Esta vez quando sua língua lhe acariciou, abriu os lábios, e sua própria língua a encontrou habilidosamente cálida. Uma volta lenta começou… E, então ele estava em sua boca, pressionando, procurando.

Sentiu a agitação sexual nele, o calor e a urgência cresciam em seu grande corpo. Estava desejosa de que estendesse a mão e a arrastasse contra ele. Quando não o fez, relaxou-se o olhando. Tinha as bochechas vermelhas e os olhos brilhando intensamente. Estava faminto dela, mas não fez nenhum movimento para aproximá-la. Nem o faria.

— Quero te tocar. — disse ela.

Mas, quando elevou a mão, esticou-se e lhe agarrou fortemente o pulso. O medo sobrevoou debaixo de sua superfície, podia senti-lo ondeando através de seu corpo, esticando-o. Esperou que ele recuperasse o sentido, sem lhe pressionar.

Seu agarro lentamente se afrouxou.

— Só... Vai devagar.

— Prometo.

Começou com o braço, percorrendo de cima a baixo com as pontas dos dedos a suave pele sem pêlo. Seguia inseguro o movimento com os olhos, mas ela não levou a mau, os músculos se moviam nervosamente, estremecendo-se a sua passagem. Acariciou-o lentamente, deixando que se acostumasse a seu toque, e quando estava segura que ele estava cômodo, inclinou-se para ele e pousou seus lábios nos bíceps, ombro, clavícula, a parte superior dos peitorais dele.

Dirigia-se para seu mamilo perfurado.

Quando estava perto da argola de prata com a pequena bola, elevou o olhar. Tinha os olhos muito abertos, tão abertos que se via todo o branco ao redor de sua íris.

— Quero te beijar aqui. — disse — Posso?

Assentiu com a cabeça e lambeu os lábios.

No momento em que sua boca fez contato, seu corpo se sacudiu como se alguém puxasse seus braços e pernas ao mesmo tempo. Ela não se deteve. Sugou o piercing e enroscou a língua em seu redor.

Zsadist gemeu, o som grave retumbou em seu peito, logo inspirou com um gemido. Sua cabeça caiu no travesseiro, mas manteve um ângulo que lhe permitia observá-la.

Quando ela deu batidinhas no aro de prata e o sacudiu um pouco, arqueou-se fora da cama, uma perna pendurada, o tornozelo afundado no colchão. Fez-lhe cócegas no mamilo uma e outra vez até que ele fez uma bola entre seus punhos com o edredom.

— Oh… Droga, Bela… — respirava em um ritmo violento, cru, irradiando calor — O que está me fazendo?

— Quer que pare?

— Isso ou o faz mais duro.

— Que tal um pouquinho mais?

— Sim… Um pouco mais.

Trabalhou-o com a boca, brincando com o anel, lhe conduzindo até que seus quadris começaram a balançar-se.

Quando olhou para seu corpo, perdeu o ritmo. Sua ereção era tão maciça que empurrava contra o magro nylon de suas calças de exercício, e ela via tudo: a arredondada cabeça com sua elegante crista, o grosso eixo, os testículos debaixo.

Meu Deus. Ele era… Enorme.

Estava completamente úmida entre as coxas e moveu seu olhar para encontrar o dele. Suas pálpebras ainda para trás e sua boca aberta com o sobressalto, a comoção e a fome guerreando em sua face.

Estendeu a mão e empurrou o polegar entre seus lábios.

— Sugue-me.

Pegou-o em seguida sugando fortemente e olhando como ela seguia. Um frenesi se apoderou dele, ela podia sentir. A luxúria crescia nele, lhe convertendo em um paiol de pólvora, e Santo Inferno, ela o desejava. Desejava que ele explodisse completamente. Dentro dela.

Soltou seu mamilo, tirou o polegar de sua boca, e se elevou para empurrar a língua entre seus lábios. Com essa invasão ele gemeu grosseiramente, seu grande corpo sacudindo-se contra o agarro que mantinha com as mantas.

Desejava que se soltasse e a tocasse, mas não podia esperar. Esta primeira vez, ela deveria ter o controle. Empurrou longe as mantas, deslizou a parte superior de seu corpo sobre seu peito, e jogou a perna sobre seus quadris.

No instante que seu peso caiu na parte superior dele, esticou-se e deixou de beijá-la.

— Zsadist?

Rechaçou-a com tanta força que ela ricocheteou sobre o colchão.

Zsadist escapou da cama, ofegando enlouquecido, seu corpo apanhado entre o passado e o presente, uma estreita linha entre os dois.

Parte dele queria mais do que Bela lhe estava fazendo. Caramba, morria por continuar explorando sua primeira excitação sexual. As sensações eram incríveis. Uma revelação. A única coisa boa que havia sentido… Alguma vez.

Pela Virgem do Fade, não era estranho que os machos matassem para proteger a suas companheiras.

Porém, ele não podia suportar ter uma fêmea em cima dele, inclusive se fosse Bela, e o pânico selvagem golpeou através dele, agora mesmo era perigoso. O que aconteceria se começasse a golpeá-la? Pelo amor de Deus, se ele já a tinha jogado sobre a maldita cama.

Deu-lhe uma olhada. Estava tão dolorosamente bela entre os lençóis revoltos e os travesseiros esparramados. Mas, estava aterrorizado dela, e por causa disso, aterrorizado por ela. Os toques e beijos, por mais que o tivesse envolvido no princípio, eram muito mais que um detonante para ele. E, não podia colocar-se nessa situação de confusão estando perto dela.

— Não faremos isso outra vez. — disse — Esta merda não passou.

— Você gostou. — sua voz foi suave, mas forte — Pude sentir seu sangue correndo velozmente sob minhas mãos.

— Sem discussão.

— Seu corpo se endureceu por mim.

— Quer que te faça mal? — enquanto apertava fortemente um travesseiro, ele a pressionou mais forte — Porque, vê se entende, o sexo e eu só seguimos um caminho, e não é algo do que queira tomar parte.

— Eu gostei da maneira que me beijou. Quero me deitar com você. Fazer amor com você.

— Fazer amor? Fazer amor? — estendeu os braços — Bela… Tudo que posso te oferecer são restos. Você não gostaria, e francamente eu não gostaria de fazer isso. Merece mais.

— Senti seus lábios sobre os meus. Foram suaves...

— Oh, por favor…

— Cale-se e me deixe terminar!

Z ficou boquiaberto, seguro que lhe tinha dado um pontapé no traseiro. Ninguém tinha falado nesse tom com ele. A anomalia só teria obtido sua atenção, mas o fato que fosse ela o deixou pasmo.

Bela jogou seu cabelo por cima do ombro.

— Se não desejar ficar comigo, concordo. Só tem que dizer. Mas, não te esconda atrás do querer me proteger. Acredita que não sei o quanto rude seria o sexo com você?

— É por isso que o deseja? — perguntou com voz mortal — Pensa que só merece que lhe façam mal agora, depois do lesser?

Ela franziu o cenho.

— Não. Mas, se for a única maneira de te ter, então assim é como te terei.

Esfregou a cabeça com a mão, esperando que a fricção pudesse lhe fazer funcionar o cérebro.

— Acredito que te equivoca. — baixou o olhar ao chão — Não tem nem idéia do que está dizendo.

— Arrogante bastardo. — disse ela bruscamente.

Z elevou a cabeça de repente. Bom, pontapé número dois…

— Perdão?

— Nos faça o favor de não tratar de pensar por mim, ok? Porque está equivocado em cada maldito momento. — com isso partiu para o banheiro e fechou a porta com uma batida.

Zsadist piscou um par de vezes. Que demônios tinha acontecido?

Percorreu com o olhar o quarto como se os móveis ou possivelmente as cortinas pudessem lhe dar uma mão. Logo sua aguda audição captou um leve som. Ela estava... Chorando.

Com uma maldição, se dirigiu ao banheiro. Não bateu, só girou a fechadura e entrou. Estava de pé junto à ducha, com os braços cruzados, as lágrimas enchendo seus olhos de cor safira.

Oh… Deus. O que se supunha que um macho tinha que fazer nesta situação?

— Sinto. — resmungou — Se eu… Uh, feri seus sentimentos.

Ela o olhou, furiosa.

— Não estou doída. Estou muito zangada e sexualmente frustrada.

A cabeça estalou bruscamente em sua coluna. Bom... Então. Certo.

Homem, seria necessária uma coleira depois dessa conversa.

— Direi isso outra vez, Zsadist. Se não quer te deitar comigo, está bem, mas não trate de me dizer que não sei o quero.

Z plantou sua mão nos ossos dos quadris e desceu o olhar para o azulejo de mármore. Não diga nada, idiota. Só mantém a boca…

— Não é isso. — soltou de repente. Enquanto as palavras flutuavam no ar, amaldiçoou-se. Falar era ruim. Falar era realmente uma ridícula idéia…

— Não é o que? Quer dizer que me deseja?

Pensou que aquilo ainda tentava achar o caminho de saída de suas calças. Ela tinha olhos. Podia ver essa maldita coisa.

— Sabe que sim.

— Então se estiver disposta a te ter… Duro… — fez uma pausa, e teve a sensação de que ela se ruborizava — Então podemos estar juntos?

Sua respiração diminuiu até que seus pulmões arderam e o coração pulsava fortemente. Sentiu-se como se estivesse olhando por cima da borda de um precipício. Meu Deus, realmente não podia contar-lhe, não?

Seu estômago revirou-se quando as palavras saíram.

— Ela sempre estava em cima. A Mistress. Quando ela… Vinha para mim, sempre estava em cima. Você, oh, rodou sobre meu peito e… Isso não rola.

Esfregou a face, enquanto tentava esconder que tratava de mitigar uma súbita dor de cabeça.

Ouviu como ofegou. Precavendo-se que era ela.

— Zsadist, sinto muito. Não sabia...

— Sim… Droga… Possivelmente poderia esquecer o que te disse. — Deus, precisava sair dali antes que sua boca começasse a balbuciar outra vez — Olhe, vou ao…

— O que te fez? — a voz de Bela era fina como um cabelo.

Deu-lhe um olhar duro. Oh, nem em sonhos, pensou.

Aproximou-se dele.

— Zsadist, ela… Tomou contra sua vontade?

Virou-se.

— Vou ao ginásio. Eu te verei mais tarde.

— Espere...

— Mais tarde, Bela. Eu não posso… Fazer isto.

Enquanto partia pegou seu Nike e seu MP3.

Uma boa e longa corrida era justo o que necessitava agora. Uma longa… Corrida. Embora não o conduzisse a nenhum lugar. Ao menos poderia ter a suarenta ilusão que escapava de si mesmo.  

 

Phury olhou com desgosto através da mesa de bilhar da mansão, enquanto Butch calculava sua jogada. Havia algo diferente com o humano, mas como o policial encaçapou três bolas com um só movimento, seguro como o inferno que este não era seu jogo.

— Jesus, Butch. Quatro vitórias seguidas. Recorde-me, por que me incomodo de jogar com você?

— Porque a esperança é eterna. — Butch bebeu de um só trago o último de seu escocês — Quer outra partida?

— Por que não? Não posso piorar.

— Jogue, enquanto vou buscar mais bebida.

Quando Phury recolheu as bolas dos buracos, deu-se conta de qual era o problema. Cada vez que se virava, Butch o olhava fixamente.

— Tem algo na cabeça, policial?

O homem verteu dois dedos do Lagavulin, depois tomou um comprido trago.

— Não particularmente.

— Mentiroso. Esteve me olhando estranho desde que voltamos do ZeroSum. Por que não admite e o soltas?

Os olhos pardos de Butch encontraram seu olhar firmemente.

— É gay, amigo?

Phury deixou caiu à bola oito e fracamente a ouviu bater no piso de mármore.

— O que? Por que você…?

— Disseram-me que estava muito perto do Reverendo. — enquanto Phury amaldiçoava, Butch agarrou a bola negra e a enviou rodando de volta sobre o feltro verde — Olhe, não tenho problema se for. De verdade, importa-me uma merda para que lado vá. Mas, eu gostaria de saber.

Oh, isto é genial, pensou Phury. Não só ia atrás da fêmea que desejava seu irmão, agora supostamente estava saindo com um fodido symphath.

Aquela fêmea que tinha interrompido a ele e ao Reverendo, claramente tinha uma boca grande e... Cristo. Butch já devia ter dito a Vishous. Os dois eram como um velho casal, sem segredos entre eles. E, V o diria a Rhage. E, uma vez que Rhage soubesse, era como pôr as notícias na linha da Reuters.

— Phury?

— Não, não sou gay.

— Não se sinta como se tivesse que esconder ou algo.

— Não o faço. Simplesmente não sou.

— É bi, então?

— Butch, deixa. Se algum dos irmãos anda com coisas estranhas, é seu companheiro de quarto. — ante o olhar surpreso do policial, murmurou — Oh vamos, a esta altura já teria que saber sobre V. Vive com ele.

— Obviamente não… Oh, olá, Bela.

Phury se virou. Bela estava parada na soleira do quarto, vestida com um traje negro de cetim. Ele não podia deixar de olhá-la. Sua encantadora face voltara a ter um brilho saudável, as contusões se foram, sua beleza era reveladora. Ela era... Assombrosa.

— Olá. — disse ela — Phury, acredita que posso falar um momento com você? Depois que acabem?

— Butch, te importa se dermos uma pausa?

— Sem problema. Vejo você depois, Bela.

Quando o policial se foi, Phury afastou seu taco com desnecessária precisão, deslizando a madeira polida e clara na prateleira da parede.

— Tem bom aspecto. Como se sente?

— Melhor. Muito melhor.

Porque tinha se alimentado de Zsadist.

— Então... O que aconteceu? — perguntou, tentando não imaginá-la na veia de seu gêmeo.

Sem responder, Bela se dirigiu às portas francesas, arrastando a borda de seu vestido no do chão de mármore como uma sombra. Enquanto caminhava, as pontas de seu cabelo roçavam a parte baixa de suas costas, movendo-se com o balanço de seus quadris. A fome o golpeou com força, e rogou que ela não tivesse captado o aroma.

— Oh, Phury, olhe a lua, está quase cheia. — sua mão foi à janela e a deixou no vidro. — Oxalá pudesse...

— Quer sair agora? Posso te trazer um casaco.

Ela lhe sorriu por cima do ombro.

— Não estou com sapatos.

— Trarei isso também. Espere aqui.

Não demorou nada para voltar com um par de botas de pele e uma capa vitoriana que Fritz, como a pomba mensageira que era, tinha tirado de algum armário.

— Trabalha rápido. — disse Bela enquanto ele cobria seus ombros com o veludo cor vermelho sangue.

Ele se ajoelhou diante dela.

— Permita-me te ajudar a pôr as botas.

Ela levantou um joelho, e enquanto Phury deslizava a bota em seu pé, tentou não notar o quanto era suave a pele de seu tornozelo. Ou quanto o tentava seu aroma. Ou como podia simplesmente afastar o traje e...

— Agora o outro. — disse roucamente.

Uma vez que ela estava calçada, abriu a porta. Caminharam para fora juntos, seus passos rangendo sobre a neve que cobria o terraço. Ao chegar sobre a grama, Bela se envolveu mais na capa e levantou o olhar. Seu fôlego deixava baforadas brancas, e o vento movia o veludo vermelho ao redor de seu corpo, como se acariciasse o objeto.

— O amanhecer não está longe. — disse ela.

— Virá logo.

Phury se perguntava de que ela queria falar, mas então, o rosto de Bela ficou sério e ele soube por que tinha vindo. Zsadist. É óbvio.

— Quero te perguntar sobre ele. — murmurou ela — Seu gêmeo.

— Que deseja saber?

— Como se converteu em um escravo?

Oh, Deus... Ele não queria falar do passado.

— Phury? Você me dirá isso? Perguntaria a ele, mas...

Ah, diabos. Não havia uma boa razão para não lhe responder.

— Uma babá o levou. Tirou-o furtivamente de casa, quando tinha sete meses. Não pudemos encontrá-los em nenhum lugar, e até onde pude descobrir, ela morreu dois anos mais tarde. Quem quer que o encontrou, vendeu-o em escravidão.

— Deve ter sido duro para toda sua família.

— Pior. Uma morte sem corpo para enterrar.

— E quando... Quando era um escravo de sangue... — ela inspirou profundamente — Sabe o que lhe aconteceu?

Phury esfregou a nuca. Como ele vacilou, ela disse:

— Não estou falando das cicatrizes ou das alimentações forçadas. Desejo saber sobre... O que mais lhe fizeram.

— Olhe, Bela…

— Preciso saber.

— Por quê? — embora soubesse a resposta. Ela queria deitar-se com Z, provavelmente já o tinha tentado. Esse era o porquê.

— Simplesmente tenho que saber.

— Deveria lhe perguntar.

— Ele não me contará isso, já sabe. — ela pôs a mão em seu antebraço — Por favor, me ajude a entendê-lo.

Phury permaneceu tranqüilo, dizendo-se que era porque respeitava a intimidade de Z, e em grande medida era verdade. Somente a menor parte de seu ser não queria ajudar para que Z caísse na cama de Bela.

Bela apertou seu braço.

— Ele disse que o prenderam. E, que não pode suportar ter uma fêmea em cima quando… — ela se deteve — O que lhe fizeram?

Merda. Zsadist tinha falado de seu cativeiro com ela?

Phury amaldiçoou brandamente.

— Utilizaram-no para algo mais que sua veia. Mas, isso é tudo o que vou dizer.

— Oh, Deus. — seu corpo fraquejou. Só precisava ouvir de alguém. Precisava saber com segurança.

Ao passar uma rajada fria de vento, Phury respirou profundamente e mesmo assim se sentiu sufocado.

— Deveria entrar antes que se resfrie.

Ela assentiu e se dirigiu a casa.

— Não vem?

— Vou dar uma respirada primeiro. Vai agora.

Ele não a olhou entrar na casa, mas escutou a porta fechar-se.

Pondo as mãos nos bolsos, olhou por cima da ondulante grama branca. Depois, fechou os olhos e viu o passado.

Logo que Phury passou sua transição, procurou seu gêmeo, sondando o Velho País, procurando as casas que eram bastante ricas para ter criados. Tempos depois, escutou um repetido rumor de que havia um macho do tamanho de um guerreiro que era retido por uma fêmea de alta posição dentro da glymera. Mas, não pôde precisá-lo.

Algo que tinha sentido. Naquela época, a princípios do século dezenove, a espécie seguia relativamente coesa, e as velhas regras e costumes sociais seguiam sendo fortes. Se qualquer pessoa tivesse sido encontrada retendo um guerreiro como escravo de sangue, teria morrido sob a lei. Por isso teve que ser discreto em sua busca. Se exigisse uma congregação da aristocracia e lançasse uma chamada pela volta de seu gêmeo, ou se o pegassem tentando encontrar Zsadist, era como se pusesse uma adaga no peito do macho: matar Zsadist e se desfazer do corpo era a melhor e única defesa da captora.

No final do século XIX quase tinha perdido toda esperança. Seus pais já tinham morrido de causas naturais. A sociedade vampírica se fragmentou no Velho País, e a primeira das migrações a América tinha começado. Estava desarraigado, percorrendo a Europa, indo atrás de sussurros e de insinuações... Quando, repentinamente, encontrou o que estava procurando.

Estava em chão inglês a noite que aconteceu. Tinha ido a uma reunião de sua classe em um castelo nos escarpados de Dover. Estava parado em uma esquina escura do salão de baile, ouviu por acaso dois machos falando da anfitriã. Comentavam que ela tinha um escravo de sangue incrivelmente dotado, que ela gostava de ser olhada e às vezes inclusive compartilhar o escravo.

Phury tinha começado a cortejar a fêmea essa mesma noite.

Não se preocupou que seu rosto o delatasse, embora ele e Zsadist fossem gêmeos idênticos. Primeiro de tudo, suas roupas eram as de um macho rico, e ninguém suspeitaria que alguém de sua classe fosse atrás de um escravo que tinha sido comprado legitimamente no mercado quando criança. E, em segundo lugar, teve sempre cuidado de estar disfarçado. Deixou crescer uma barba curta para disfarçar seus traços, e ocultou seus olhos detrás de óculos escuros, que explicou dizendo que sua visão era pobre.

Seu nome era Catronia. Uma aristocrata rica que se uniu a um comerciante mestiço que fazia negócios no mundo humano. Evidentemente, muitas vezes estava sozinha, já que seu hellren viajava muito, mas o rumor dizia que tinha um escravo de sangue desde antes de sua união.

Phury pediu que lhe dessem acolhida na casa, e como era bem educado e atencioso, ela lhe permitiu passar a um quarto, apesar de ter sido vago sobre sua linhagem. A corte estava cheia de pretensiosos, e ele lhe atraía, assim obviamente estava disposta a passar por cima de certas formalidades. Mas, era cautelosa, também. As semanas passaram, e embora ela passasse muito tempo com Phury, nunca o levou ante o escravo que se dizia que possuía.

Cada ocasião que tinha, rastreava os terrenos e os edifícios, esperando encontrar seu gêmeo em algum tipo de cela oculta. O problema era que havia olhos por toda parte, e Catronia o mantinha ocupado. Sempre que seu hellren saía, o que acontecia freqüentemente, ela ia ao quarto de Phury, e quanto mais ele fugia de suas mãos, mais ela o desejava.

Tempo... Tempo foi tudo o que levou. O tempo e sua incapacidade de resistir a lhe mostrar seu prêmio, seu brinquedo, seu escravo. Uma noite, justo antes do amanhecer, convidou-o a seu dormitório pela primeira vez. A entrada secreta que ele tinha estado procurando, estava situada no hall de Catriona, na parte de trás de seu guarda-roupa. Juntos desceram por uma escada extensa e escarpada.

Phury ainda podia recordar a grossa porta de carvalho aberta ao fundo, e a vista do macho nu, preso, com as pernas estendidas, em uma cama com plataforma coberta de tapeçaria.

Zsadist estava olhando fixamente o teto, com o cabelo tão comprido que caía sobre o chão de pedra. Estava barbeado e coberto de azeite, como se tivesse sido preparado para a diversão da fêmea, e cheirava a especiarias caras. A fêmea foi direitamente a ele e o acariciou carinhosamente, seus avaros olhos marrons estampando sua propriedade sobre todo o corpo.

A mão de Phury tinha ido para a adaga a seu lado antes de saber o que fazia. Como se detectasse o movimento, a cabeça de Zsadist tinha girado lentamente, e seus olhos negros mortos tinham cruzado a distância entre eles. Não houve reconhecimento. Só ódio fervente.

Comoção e pesar tinham atravessado Phury, mas ele se manteve enfocado, procurando a saída. Havia outra porta ao outro lado da cela, mas aquela não tinha nenhum pomo ou cabo, só um pequeno entalhe a um metro e meio do chão. Estava pensando que possivelmente poderia abrir cami…

Catronia começou a tocar seu irmão intimamente. Tinha algum tipo de pomada nas mãos, e enquanto esfregava o pênis de seu gêmeo, dizia coisas odiosas sobre como seria seu tamanho. Phury mostrou as presas à fêmea e levantou a adaga.

A porta do outro lado se abriu, de repente. No outro lado estava um macho débil da corte que levava um traje de arminho ajustado. Ficou frenético ao anunciar que o hellren de Catronia havia voltado inesperadamente e a estava procurando. Os rumores sobre ela e Phury evidentemente tinham alcançado os ouvidos do macho.

Phury se agachou, preparado para matar a fêmea e ao macho da corte. Mas, o som de pés golpeando, muitos deles, repetiu-se no quarto.

O hellren desceu com estrondo a escadaria secreta, entrando com seu guarda privado no quarto. O macho ficou pasmo, claramente não sabia que ela tinha um escravo de sangue. Catronia começou a falar, mas ele lhe deu uma bofetada tão forte que a fêmea ricocheteou nas paredes de pedra.

O caos explodiu. O guarda privado foi atrás de Phury. O hellren foi atrás de Zsadist com uma faca. Matar aos soldados da corte foi um processo demorado e sangrento, e assim que Phury conseguiu liberar-se da luta, não havia sinal de Zsadist, só um rastro sangrento saindo da cela.

Phury se lançou pelo corredor, correndo através do subsolo do castelo, seguindo as listras vermelhas. Quando emergiu do corredor quase tinha amanhecido, por isso soube que tinha que encontrar Zsadist com prontidão. Quando se deteve brevemente para orientar-se, escutou um ruído rítmico cortando o ar.

Chicotadas.

À direita, Zsadist tinha sido pendurado em uma árvore no escarpado, e contra a vasta cortina de fundo do mar, estava sendo açoitado com crueldade.

Phury atacou aos três guardas que estavam açoitando o seu gêmeo. Embora os machos lutassem arduamente, ele tinha uma fúria selvagem. Matou-os e depois liberou Zsadist, só para ver mais guardas sair do biombo em blocos de cinco.

Com o sol a ponto de sair e o resplendor lhe queimando a pele, Phury soube que não restava tempo. Jogou Zsadist sobre os ombros, pegou uma das pistolas dos guardas e a colocou em seu cinturão. Então observou o escarpado e o oceano embaixo. Não era a melhor rota à liberdade, mas muito melhor que tentar abrir caminho lutando de volta ao castelo. Começou a correr, esperando lançá-lo suficientemente longe para cair no oceano.

Uma adaga que lançaram o atingiu na coxa, e tropeçou.

Não perdeu seu equilíbrio nem seu ímpeto. Ele e Zsadist caíram sobre a borda do escarpado e escorregaram pela face da rocha até que a bota do Phury se enganchou em uma greta. Como seu corpo parou de um puxão, mexeu-se para segurar Zsadist, sabendo condenadamente bem que o macho estava inconsciente e que se afogaria se caísse desacordado na água.

A pele cheia de sangue de Zsadist escorregou do agarro de Phury, deslizando-se livre…

Phury pegou o pulso de seu gêmeo no último segundo e apertou com força. Houve um puxão intenso quando o corpo pesado do varão se deteve, e a dor se estendeu pela perna de Phury. Sua visão se foi. Retornou. Voltou a ir. Phury podia sentir o corpo de Zsadist pendurado no ar, um balanço perigoso que desafiava sem piedade seu agarro.

Os guardas olharam com fixidez sobre a borda e depois mediram a crescente luz, tampando seus olhos. Riram, guardaram suas armas, e deram Phury e Zsadist por mortos.

Enquanto o sol crescia no horizonte, a força de Phury se drenava rapidamente, e ele soube que não poderia sustentar Zsadist muito mais tempo. A luz era horrível, queimava, somando-se à agonia que ele já sentia. E, não importava o quão forte puxasse sua perna, seu tornozelo seguia preso.

Procurou averiguar a pistola, tirando-a de sua cintura. Com uma respiração profunda, apontou o canhão para sua perna.

Atirou em si mesmo debaixo do joelho. Duas vezes. A dor era assombrosa, uma bola de fogo em seu corpo. Phury deixou cair à arma. Apertando com força os dentes, plantou seu pé livre no escarpado e empurrou com tudo que tinha. Gritou quando sua perna se estilhaçou e se desprendeu.

E, então se fez o profundo vazio no ar.

O oceano estava frio, mas tinha lhe sacudido da inconsciência e selado sua ferida, evitando que sangrasse. Atordoado, nauseabundo e desesperado, tinha forçado sua cabeça por cima das ondas entrecortadas, a única constante era o agarro a Zsadist. Prendendo a seu gêmeo em seus braços, mantendo a cabeça do macho acima da água, Phury nadou para a borda.

Benditamente, havia uma entrada a uma cova, não longe de onde mergulharam, e ele utilizou sua última reserva de força para levar aos dois para a entrada escura. Depois de arrastar seu corpo e o de Zsadist fora da água, Phury estava quase cego ao avançar o mais longe que pôde dentro da cova. Uma curva na arquitetura natural foi o que lhes salvou, lhes dando a escuridão que necessitavam.

        Na parte de trás, longe do sol, protegeram-se detrás das grandes rochas. Colocando Zsadist entre seus braços para conservar seu calor corporal, olhou fixamente para a escuridão, totalmente perdido.

Phury esfregou os olhos, Deus, a imagem de Zsadist algemado a essa cama com plataforma...

Desde o resgate, ele tinha um repetitivo pesadelo, um que nunca falhava de ser um horror fresco cada vez que seu subconsciente o lançava para cima. O sonho era sempre igual: ele baixando velozmente essas escadas ocultas e abrindo a porta. Zsadist amarrado. Catronia na esquina, rindo. Logo que Phury estava na cela, Z girava a cabeça e seus olhos negros, sem vida olhariam de um rosto sem cicatrizes. E, com uma voz dura dizia:

— Deixe-me aqui. Desejo permanecer... Aqui.

Esse era o sinal para que Phury despertasse coberto de um suor frio.

— O que está fazendo, homem?

A voz de Butch soava irritada, mas bem-vinda. Phury esfregou seu rosto, depois olhou sobre seu ombro.

— Só desfrutando da vista.

— Deixe-me te dar um conselho. Isso é o que se faz em uma praia tropical, não estando parado nesta classe de frio. Olhe, venha comer conosco, ok? Rhage quer tortinhas, assim Mary assou uma assadeira completa de Bisquick[16] na cozinha. Fritz está a ponto de voar de tão preocupado que está por não poder ajudar.

— Sim. Boa idéia. — ao dirigir-se para dentro, Phury disse — Posso te perguntar algo?

— Claro. O que necessita?

Phury se deteve à altura da mesa de bilhar e pegou a bola oito.

— Quando trabalhou na homicídios, viu muita gente totalmente ferrada, verdade? Gente que tinha perdido a seus maridos ou suas esposas… Filhos ou filhas. — quando Butch assentiu, disse — Alguma vez soube do que tinha acontecido com eles? Refiro-me aos que ficaram para trás. Sabe se conseguiram superar toda essa merda?

Butch esfregou seu polegar sobre a sobrancelha.

— Não sei.

— Sim, suponho que na realidade não segue…

— Mas, posso te dizer que eu nunca o fiz.

— Quer dizer que a imagem desses corpos nos que trabalhou ficou com você?

O humano sacudiu a cabeça.

— Esqueceu-se das irmãs. Irmãos e irmãs.

— O que?

— As pessoas perdem maridos, esposas, filhos, filhas... E, irmãs e irmãos. Perdi uma irmã quando tinha doze. Dois rapazes a levaram atrás do campo interno de beisebol na escola e abusaram dela e bateram-lhe até matá-la. Nunca me recuperei disso.

— Jesus… — Phury parou, dando-se conta de que não estavam sozinhos.

Zsadist estava parado com o torso descoberto na soleira do quarto. Estava encharcado de suor da cabeça aos Nikes, como se lá embaixo no ginásio tivesse corrido vários quilômetros.       

Quando Phury olhou fixamente seu gêmeo, sentiu uma sensação familiar de fraqueza. Sempre era assim, como se Z fosse uma espécie de zona de baixa pressão.

A voz de Zsadist foi dura.

— Quero que vocês dois venham comigo, ao anoitecer.

— Aonde? — perguntou Butch.

— Bela quer ir até sua casa, e não vou levá-la ali sem reforços. Necessito de um carro, no caso de que queira trazer alguma de suas coisas quando voltarmos, e quero que alguém examine o lugar antes que aterrissemos ali. A coisa é que há um túnel para escapar para fora do porão, se as coisas se complicarem. Examinei-o ontem de noite quando fui procurar algumas coisas para ela.

— Estou preparado para ir. — disse Butch.

Os olhos de Zsadist se moveram pelo quarto.

— Você também, Phury?

Depois de um momento, Phury assentiu.

— Sim. Eu também.

 

Essa noite, enquanto a lua se elevava no céu, O levantou do chão com um gemido. Tinha estado esperando na borda do prado desde que o sol se pôs fazia quatro horas, esperando que alguém aparecesse na granja... Só que não havia nada. E, assim tinha sido os últimos dois dias. Bom, acreditava ter visto algo antes do amanhecer esta última manhã, uma espécie de sombra que se movia dentro do lugar, mas o que fosse, tinha visto uma vez e depois nada.

Desejava como o inferno poder utilizar os recursos de toda a Sociedade para ir atrás de sua esposa. Se enviasse a cada lesser que tinha... Só que seria como colocar uma arma diretamente na cabeça. Alguém contaria a Ômega que a atenção dele desviou-se a uma fêmea inconseqüente. E, então haveria grandes problemas.

Verificou seu relógio e amaldiçoou. Falando de Ômega...

O tinha uma reunião obrigatória com o amo esta noite e não tinha outra opção que comparecer ao maldito encontro. Permanecer viável como assassino era a única maneira de conseguir trazer sua mulher de volta, e não ia arriscar acabar desintegrado por perder uma reunião.

Tirou seu telefone e chamou três Betas para que vigiassem a granja. Posto que o ponto fosse um lugar conhecido de congregação de vampiros, ao menos tinha uma desculpa para atribuir à particularidade.

Vinte minutos depois, os assassinos vieram pelo bosque, os sons de suas botas de footing amortecidos pela neve. O trio, homens de ossos grandes, eram recém iniciados, assim seus cabelos seguiam escuros e suas peles coradas pelo frio. Claramente estavam emocionados por serem utilizados e preparados para lutar, mas O lhes disse que só estavam ali para olhar e fiscalizar. Se alguém aparecesse, não deviam atacar até que quem quer que aparecesse tentasse partir, e então qualquer vampiro devia ser detido vivo, fosse macho ou fêmea. Sem exceções. Segundo o que O tinha calculado, se ele fosse família de sua mulher, primeiro enviaria investigadores antes de deixar que se desmaterializasse em qualquer lugar próximo a casa. E, se ela estivesse morta e seus parentes estivessem recolhendo suas coisas, então queria seus parentes capturados em perfeito estado, para poder encontrar sua tumba.

Depois de assegurar-se que as cabeças dos Betas estavam na linha, O atravessou o bosque até chegar a seu carro, que estava oculto sob um suporte de pinheiros. Ao incorporar-se à rota 22, viu que os lessers tinham estacionado o Explorer em que tinham vindo justo na estrada, a menos de um quilômetro do desvio para a granja.

Chamou aos idiotas e lhes disse que usassem a merda de suas cabeças para pôr o carro bem camuflado. Então, conduziu até a cabine. Enquanto ia, imagens de sua mulher oscilaram em sua mente, lhe turvando a vista da estrada que tinha em frente. Viu-a em seu momento mais encantador, na ducha com o cabelo e a pele molhada. Era especialmente pura dessa forma...

Mas, então as visões mudaram. Viu-a nua de costas, debaixo desse vampiro feio que a tinha levado. O macho a estava tocando... Beijando-a... Bombeando em seu interior... E, ela gostava. A cadela gostava. Sua cabeça estava arremessada para trás e ela gemia e gozava como uma prostituta, querendo mais.

As mãos de O se encresparam no volante até que seus nódulos quase pularam fora de sua pele. Tentou acalmar-se, mas sua cólera era como um pitbull com uma corrente de papel.

Soube então, com absoluta certeza, que se ela já não estivesse morta, iria matá-la quando a encontrasse. Tudo o que tinha que fazer era imaginá-la com o Irmão que a tinha roubado e seu raciocínio acabava totalmente.

Isso punha O em um dilema. Viver sem ela seria horrível, e embora matar-se em um impulso suicida depois que ela morresse fosse muito atrativo, fazer algo assim só o levaria para o Ômega pela eternidade. Os lessers, depois de tudo, voltavam para o amo se eram extintos.

Mas, então lhe ocorreu uma idéia. Imaginou sua mulher depois de muitos anos, sua pele esbranquiçada, seu cabelo loiro, seus olhos da cor das nuvens. Uma lesser igual a ele. A solução era tão perfeita, seu pé deslizou do acelerador, e o carro parou no centro da rota 22.

Dessa maneira, ela seria sua para sempre.

 

Próximo à meia-noite, Bela vestiu um velho jeans azul e aquele pulôver vermelho grosso que gostava tanto. Depois, entrou no banheiro, puxou as duas toalhas que cobriam o espelho, e se olhou. Seu reflexo mostrava a fêmea que sempre tinha visto olhando-a de volta: olhos azuis. Bochechas altas. Lábios carnudos. Muito cabelo marrom escuro.

Bela levantou a borda do pulôver e olhou seu estômago. A pele ali não tinha defeitos, já não levava o nome do lesser. Ela posou a mão onde as letras tinham estado.

— Está preparada? — perguntou Zsadist.

Ela olhou para cima, no espelho. Ele apareceu atrás dela, vestido de negro, com armas que penduravam de seu corpo. Seus olhos como carvões estavam cravados na pele que Bela tinha exposto.

— As cicatrizes curaram. — disse ela — Em apenas quarenta e oito horas.

— Sim. E, me alegro.

— Tenho medo de ir a minha casa.

— Phury e Butch vêm conosco. Tem um montão de seguranças.

— Sei... — ela abaixou o pulôver — É só... E, se não for capaz de entrar?

— Então voltaremos a tentar outra noite. Todo o tempo que precise. — lhe aproximou o casaco.

Vestido o casaco, ela disse:

— Tem coisas melhores para fazer que cuidar de mim.

— Não, agora não. Dê-me sua mão.

Os dedos de Bela tremeram ao estendê-los. Teve o vago pensamento de que era a primeira vez que ele pedia que o tocasse, e esperava que o contato levasse a um abraço.

Mas, ele não estava interessado em abraçar. Pôs uma pistola pequena em sua mão sem nem sequer roçar sua pele.

Ela retrocedeu depressa.

— Não, eu…

— Pegue-a desta…

— Espere um minuto, não…

— …maneira. — ele colocou a pequena culatra contra sua palma — Aqui está a trava de segurança. Com. Sem. Entendeu? Com... Sem. Tem que estar perto para matar com isto, mas está carregada com duas balas que atrasarão o suficiente a um lesser para que possa escapar. Simplesmente, aponte e aperte o gatilho duas vezes. Não precisa prepará-la nem nada disso. E, aponte para o peito, terá um alvo maior.

— Não quero isto.

— E, eu não quero que o tenha. Mas, é melhor que te enviar sem nada.

Ela sacudiu a cabeça e fechou os olhos. Às vezes, este negócio de vida era tão feio.

— Bela? Bela, me olhe. — quando o fez, ele disse — Mantenha-o no bolso exterior de seu casaco, no lado direito. Vai querer a arma em sua mão boa se tiver que utilizá-la. —ela abriu a boca e ele falou justo por cima — Vai permanecer com Butch e Phury. E, enquanto esteja com eles, é extremamente difícil que precise utilizar isso.

— Onde você estará?

— Ao redor. — quando Zsadist virou, ela notou que tinha uma faca na parte baixa das costas… Acrescentando-se às duas adagas no peito, e o par de pistolas nos quadris. Perguntou-se quantas outras armas teria, as quais ela não podia ver.

Ele se deteve na soleira, com a cabeça inclinada.

— Vou assegurar-me de que não tenha que usar essa arma, Bela. Prometo-lhe isso. Mas não posso te ter desarmada.

Ela respirou profundamente. E, deslizou o pequeno pedaço de metal no bolso da capa.

Lá fora, no corredor, Phury estava esperando, apoiado contra o balcão. Também estava vestido para lutar, com pistolas e todas essas adagas sobre ele, uma calma mortal irradiando de seu corpo. Quando ela sorriu, ele assentiu e vestiu seu casaco negro de couro.

O celular de Zsadist tocou e ele o abriu.

— Está aí, policial? Como vai? — quando desligou, assentiu — Tudo bem, podemos ir.

Os três se dirigiram ao vestíbulo e depois saíram ao pátio. No ar frio, ambos os machos tocaram as pistolas, e então todos se desmaterializaram.

Bela tomou forma no alpendre de entrada, de cara a reluzente porta vermelha com sua fechadura de latão. Podia sentir Zsadist e Phury atrás dela, dois enormes corpos masculinos cheios de tensão. Soaram passos e ela olhou sobre seu ombro. Butch estava avançando para o alpendre. Sua arma também estava fora.

Para Bela a idéia de demorar um pouco e entrar tranqüila na casa pareceu perigosa e egoísta. Abriu a porta com sua mente e entrou.

O lugar ainda cheirava igual... Uma combinação da cera de limão do piso que tinha utilizado nos longos tabuleiros de pinheiro e as velas de romeiro que gostava de queimar.

Quando ouviu que a porta se fechava e o alarme de segurança desligava, olhou para trás. Butch e Phury estavam grudados aos seus tornozelos, mas não via Zsadist em nenhuma parte.

Bela sabia que ele não os tinha deixado. Mas, desejava que estivesse lá dentro com ela.

Respirou fundo e olhou ao redor de sua sala de estar. Sem nenhuma luz acesa, somente pôde ver sombras e formas familiares, ou melhor, o padrão dos móveis e as paredes que outra coisa.

— Tudo parece... Deus, exatamente igual.

Embora houvesse uma mancha branca no seu escritório. Faltasse um espelho, um que ela e sua mãe tinham escolhido em Manhattan fazia mais ou menos uma década, que Rehvenge sempre tinha gostado. Ele o tinha levado? Não estava segura se se sentia comovida ou ofendida.

Quando se moveu para acender um abajur, Butch a deteve.

—Nenhuma luz. Sinto muito.

Ela assentiu. Ao avançar mais profundamente na granja e ver mais coisas dela, ela sentiu como se estivesse entre velhos amigos aos quais não tinha visto por anos. Era encantador e triste. Embora, sobre tudo, um alívio. Estava tão segura de que se desgostaria.

Parou ao chegar à sala de jantar. Mais à frente do amplo arco, no fundo, estava à cozinha. O terror lhe enroscou as vísceras.

Armando-se de coragem, caminhou no outro espaço e parou. Ao ver tudo tão arrumado e intacto, recordou a violência que tinha havido no lugar.

— Alguém limpou isto tudo. — sussurrou.

— Zsadist. — Butch a ultrapassou, com a arma ao nível do peito e os olhos explorando ao redor.

— Ele... Fez tudo isto? — ela fez um gesto com a mão.

— À noite depois de que lhe levaram. Passou horas aqui. A parte de baixo também está como uma pintura.

Ela tentou imaginar Zsadist feito uma empregada, com um balde, limpando as manchas de sangue e os pedaços de vidro.

Por quê? Perguntou-se.

Butch encolheu os ombros.

— Disse que era pessoal.

Tinha falado em voz alta?

— Ele explicou... Por que era assim?

Enquanto o humano sacudia a cabeça, Bela se deu conta do interesse que Phury emprestava à parte exterior da casa.

— Quer ir a seu dormitório? — perguntou Butch.

Quando ela assentiu, Phury disse:

— Eu fico aqui em cima.

Embaixo, no porão, Bela encontrou tudo em ordem, arrumado... Limpo. Abriu o armário, passou pelas gavetas do aparador, vagou pelo banheiro. Os pequenos objetos a cativavam. Um vidro de perfume. Uma revista com data de antes do seqüestro. Uma vela que recordava ter acendido ao lado da banheira com pés de garra.

Parou, tocou, voltou gradualmente para seu lugar de uma maneira intensa, queria passar horas... Dias. Mas, podia sentir como aumentava a tensão em Butch.

— Acredito que vi o suficiente por esta noite. — disse ela, desejando poder ficar mais tempo.

Dirigindo-se de novo ao primeiro andar, Butch foi à frente. Quando entrou na cozinha, olhou Phury.

— Bela está pronta para partir.

Phury abriu seu telefone. Houve uma pausa.

— Z, hora de ir. Ligue o carro para o policial.

Quando Butch fechou a porta do porão, Bela se aproximou de seu aquário e olhou fixamente dentro. Perguntou-se se alguma vez voltaria a viver na granja. Tinha a sensação que não.      

— Quer levar algo? — perguntou Butch.

— Não, acredito...

Soou um tiro lá fora, o ruído oco ao detonar soou amortecido.

Butch a agarrou e apertou contra seu corpo.

— Fique quieta. — lhe disse ao ouvido.

— Lá fora e da frente. — falou Phury ao agachar-se. Apontou sua arma mais à frente do corredor, à porta pela qual tinham entrado.

Outro tiro. E, outro. Aproximando-se. Vindo ao redor da casa.

— Sairemos pelo túnel. — sussurrou Butch enquanto a movia e empurrava para a porta do porão.

Phury seguiu os sons com a boca da arma.

— Cubro-te as costas.

No momento que a mão de Butch se apoiou no pomo da porta do porão, o tempo se comprimiu em frações de segundos, homens caindo.

A porta francesa atrás deles se abriu em pedaços, estilhaçando o marco de madeira, quebrando os vidros.

Zsadist a levou para frente, com as costas, ao ser empurrado com enorme força através da porta. Ao aterrissar no chão da cozinha, sua cabeça caiu para trás e golpeou o azulejo tão forte que soou como um disparo de pistola. Então, com um grito horrível, o lesser que o tinha jogado através da porta saltou sobre seu peito e os dois deslizaram pela sala, dirigindo-se direto para as escadas do porão.

Zsadist estava quieto como uma rocha debaixo do assassino. Aturdido? Morto?

Bela gritou quando Butch a separou de um puxão. O único lugar aonde podia ir era a estufa, e ele a empurrou nessa direção, cobrindo-a com seu corpo. Só que agora estavam presos na cozinha.

Phury e Butch apontaram as armas para a confusão de braços e pernas do chão, mas não importou ao assassino. O não-morto levantou o punho e golpeou Zsadist na cabeça.

— Não! — rugiu Bela.

Estranhamente, o golpe pareceu despertar Zsadist ou possivelmente tinha sido sua voz. Seus olhos negros abriram de repente e uma expressão malvada apareceu em seu rosto. Com um impulso rápido afiançou as mãos debaixo das axilas do lesser e torceu com tanta força, que o torso do assassino se contorsionou em um arco vicioso.

Em um segundo, Zsadist estava em cima do lesser, escarranchado. Agarrou o braço direito do assassino e o estirou em um ângulo que lhe quebrou os ossos. Pôs o polegar debaixo do queixo do não-morto tão longe que só se podia ver meio dedo e descobriu umas presas largas que reluziam brancas e mortais. Mordeu ao lesser no pescoço, justo no esôfago.

O assassino uivou de dor, retorcendo-se violentamente entre suas pernas. E, isso foi só o princípio. Zsadist destroçou sua presa. Quando a coisa não se moveu mais, deteve-se ofegando e passou os dedos pelo cabelo escuro do lesser, separando uma parte de par em par, claramente procurando as raízes brancas.

Mas, ela poderia ter-lhe dito que não era David. Presumindo que pudesse encontrar sua voz.

Zsadist amaldiçoou e recuperou o fôlego, mas permaneceu agachado sobre sua presa, procurando sinais de vida. Como se quisesse continuar.

Depois franziu o cenho e levantou a vista, claramente dando-se conta que a batalha tinha acabado e havia testemunhas.

Oh... Jesus. Seu rosto estava marcado com sangue negro do lesser, e mais manchas cobriam seu peito e mãos.

Seus olhos negros giraram até encontrar os de Bela. Estavam reluzentes. Brilhantes. Justo como o sangue que tinha derramado para defendê-la. Rapidamente, olhou para outro lado, como se desejasse ocultar a satisfação que tinha conseguido com a matança.

— Os outros dois estão acabados. — disse ele, ainda respirando fortemente. Pegou a parte de abaixo de sua camisa e limpou o rosto.

Phury se dirigiu para o corredor.

— Onde estão? Na grama dianteira?

— Batem à porta da frente de Ômega. Apunhalei a ambos. — Zsadist olhou Butch — Leva-a para casa. Agora. Está muito emocionada para desmaterializar-se. E, Phury, você vai com eles. Quero que ligue no momento em que ela puser um pé no vestíbulo, entendido?

— E, você o que? — disse Butch, inclusive enquanto a movia ao redor do lesser morto.

Zsadist levantou e tirou uma adaga.

— Eu desvaneço a este e espero que venham outros. Quando estes merdas não se apresentarem, virão mais.

— Estaremos de volta.

— Não me importa o que façam desde que a levem para casa. Assim, diminuam o bate-papo e comecem a sair.

Bela estendeu a mão para ele, embora não estivesse segura do por que. Estava horrorizada pelo que ele tinha feito e pelo aspecto que tinha agora, todo ferido e golpeado, seu próprio sangue deslizando-se pelas roupas junto com o do assassino.

Zsadist moveu uma mão pelo ar, despedindo-a.

— Saiam de uma condenada vez daqui.

 

John saltou do ônibus, tão condenadamente aliviado de estar em casa que quase tropeçou. Deus, se os dois primeiros dias de treinamento eram um indicativo, os próximos dois anos seriam um inferno.

Ao chegar à porta dianteira, assobiou.

A voz de Wellsie veio de seu escritório.

— Olá! Como foi hoje?

Enquanto tirava o casaco, deu dois assobios rápidos, o que era uma espécie de bom, certo, tudo muito bem.

— Bom. Ah, Havers virá em uma hora.

John se dirigiu ao escritório de Wellsie e deteve-se na soleira. Sentada na frente do escritório, Wellsie estava rodeada por uma coleção de velhos livros, muitos dos quais estavam abertos. A visão de todas essas páginas encadernadas e estendidas recordou os cães impaciente deitados de costas, esperando que lhes acariciassem o ventre.

Ela sorriu.

— Parece cansado.

— Vou dormir um pouco antes que Havers venha. — escreveu.

— Está seguro de que está bem?

— Absolutamente. — ele sorriu para dar à mentira um pouco de substância. Odiava mentir, mas não queria entrar em seus defeitos. Em outras dezesseis horas ia ter que exibi-los outra vez. Precisava de uma pausa, e sem dúvida nenhuma eles também estavam esgotados, por ter tido tanto tempo de demonstração.

— Acordarei você quando o doutor chegar aqui.

— Obrigado.

Quando se virou, ela disse:

— Espero que saiba que não importa o que diga o exame, resolveremos.

Ele a olhou. Assim, ela também estava preocupada com os resultados.

Em um rápido movimento se aproximou e a abraçou depois se dirigiu ao seu quarto. Nem sequer pôs a roupa suja no condutor da lavanderia, só deixou cair às bolsas e deitou na cama. Deus, os efeitos cumulativos de oito horas de ironias eram suficientes para lhe fazer querer dormir uma semana.

Tudo o que podia pensar era sobre a visita de Havers. Deus, e se tudo fosse um engano? E, se não fosse converter em algo fantástico e poderoso? E, se suas visões noturnas não fossem mais que uma exagerada fixação pelo Drácula?

E, se fosse, acima de tudo, humano?

Isso mais ou menos teria sentido. Embora o treinamento estivesse só começando, estava claro que não era como os outros machos pré-transição da classe. Era uma merda em algo físico e era mais fraco que os outros meninos. Possivelmente, a prática lhe ajudaria, mas duvidava.

John fechou os olhos e esperou ter um bom sonho. Um sonho que o colocasse em um corpo grande, um sonho no qual seria forte e...

A voz de Tohr o despertou.

— Havers está aqui.

John bocejou e se esticou, tentando ocultar-se da compaixão no rosto de Tohr. Esse era outro pesadelo sobre o treinamento: tinham que chateá-lo todo o tempo diante de Tohr.

— Como vai filho… Digo, John?

John sacudiu a cabeça e escreveu:

— Estou bem, mas preferiria ser filho para você.

Tohr sorriu.

— Bom. Assim é como quero também. Agora, venha arrancar este selo sobre os exames, ok?

John seguiu Tohr à sala de estar. Havers estava sentado no sofá, parecendo um professor com seus óculos com armação de tartaruga marinha, jaqueta com desenhos de espigas e passarinhos vermelhos.

— Olá, John. — disse.

John levantou uma mão e sentou na cadeira mais próxima a Wellsie.

— Tenho os resultados de sua análise de sangue. — Havers tirou um pedaço de papel do interior de seu casaco esportivo — Levou um pouco mais de tempo, porque havia uma anomalia que não esperava.

John olhou Tohr. Depois a Wellsie. Jesus... E, se fosse inteiramente humano? O que lhe fariam? Teria que partir…?

— John, é completamente um guerreiro. Só tem um rastro muito pequeno de sangue de fora de nossa espécie.

Tohr riu em uma explosão ruidosa e juntou as mãos.

— Foda! Isso é genial!

John começou a sorrir e continuou até que seus lábios se esticaram em um grande sorriso.

— Mas, há algo mais. — Havers empurrou os óculos mais acima do seu nariz — É da linha de Darius de Marklon. Tão perto, que poderia ser seu filho. Tão perto... Que deve ser seu filho.

Um silêncio sepulcral invadiu a sala.

John olhou para frente e para trás entre Tohr e Wellsie. Os dois estavam totalmente congelados. Eram estas boas notícias? Más notícias? Quem era Darius? Guiando-se por suas expressões, o indivíduo possivelmente fosse um criminoso ou algo...

Tohr saltou do sofá e pegou John em seus braços, abraçando-o tão forte que os dois se converteram em um. Ofegando para obter ar, com os pés pendurados, John olhou a Wellsie. Ela tinha ambas as mãos sobre a boca, e por seu rosto rolavam lágrimas.

Abruptamente Tohr o soltou e retrocedeu. Tossiu um pouco, com os olhos brilhantes.

— Bom... O que descobriu.

O homem limpou a garganta, várias vezes. Esfregou seu rosto. Parecia um pouco aturdido.

— Quem é Darius? — escreveu John quando voltou a sentar.

Tohr sorriu lentamente.

— Era meu melhor amigo, meu irmão na luta, mi... Não posso esperar para te contar tudo sobre ele. E, isto significa que tens uma irmã.

— Quem?

— Beth, nossa rainha. A shellan de Warth…

— Sim, sobre ela. — disse Havers, olhando a John — Não entendo a reação que teve a ela. A tomografia computadorizada axial está muito boa, igual ao eletrocardiograma, e a análise completa de sangue. Acredito quando diz que ela foi o que causou os ataques, embora não tenho idéia de por que. Eu gostaria que permanecesse um tempo longe dela, para ver se isso acontece em outro ambiente, ok?

John assentiu, embora quisesse voltar a ver a mulher, especialmente se estava aparentado com ela. Uma irmã. Que genial...

— Agora, sobre o outro assunto. — disse Havers intencionalmente.

Wellsie se inclinou para frente e pôs sua mão no joelho de John.

— Havers tem algo sobre o que quer te falar.

John franziu o cenho.

— O que? — escreveu lentamente.

O doutor sorriu, tentando ser tranqüilizador.

— Eu gostaria que visse um terapeuta.

John ficou frio. Em pânico, procurou o rosto de Wellsie, depois Tohr, perguntando-se quanto lhes havia dito o doutor sobre o que lhe tinha acontecido fazia um ano.

— Por que teria que ir? — assinalou — Estou bem.

A resposta de Wellsie foi franca.

— É só para te ajudar a fazer a transição para seu novo mundo.

— E, sua primeira consulta é amanhã à tarde. — disse Havers, inclinando sua cabeça. Olhou fixamente o rosto de John sobre a borda de seus óculos, e a mensagem em seus olhos era: Ou vai ou digo a eles a verdadeira razão pela qual tem que ir.

John se viu superado, e isso lhe encheu o saco. Mas, supôs que era melhor submeter-se a chantagem compassiva do que Tohr e Wellsie saberem algo do que lhe tinham feito.

— Muito bem. Farei.

— Eu te levo. — disse Tohr rapidamente. Então franziu o cenho — Digo... Podemos encontrar alguém para que te leve… Butch o fará.

A cara de John queimava. Sim, não queria Tohr perto da cantilena do terapeuta. De maneira nenhuma.

A campanhia da frente soou.

Wellsie sorriu.

— Oh, bem. Essa é Sarelle. Veio para trabalhar no festival do solstício. John, possivelmente você gostaria de nos ajudar?

Sarelle estava aqui outra vez? Não tinha mencionado isso quando trocaram e-mails ontem de noite.

— John? Quer trabalhar com Sarelle?

Ele assentiu e tentou manter-se frio, embora seu corpo se acendesse como um anúncio de néon. Sentia formigamentos por todo corpo. Sim. Posso fazer isso.

Pôs as mãos em seu colo e baixou a vista para elas, tentando guardar seu sorriso.

 

Definitivamente, Bela voltaria para casa. Esta mesma noite.

Em ótimas circunstâncias, Rehvenge não era o tipo de macho que agüentasse bem a frustração. Por isso seu limite de tolerância já tinha sido mais que ultrapassado na espera que sua irmã voltasse para o lugar ao qual pertencia. Maldita fosse! Ele era mais que seu irmão, era seu guardião, e isso lhe dava direitos.

Enquanto arrancava de um puxão seu comprido casaco de Marta Cibelina, a pele formou redemoinhos ao redor de seu grande corpo, caindo sobre seus tornozelos. Usava um traje negro de Hermenegildo Zegna. Os revólveres gêmeos de nove milímetros que levava sob os braços eram Heckler & Koch.

— Rehvenge, por favor, não faça isto.

Olhou sua mãe. Madalina estava de pé, debaixo do candelabro do vestíbulo, era a imagem da aristocracia, com seu porte real, seus diamantes e seu vestido longo. A única coisa desconjurada era a preocupação em seu rosto, e esta não era por causa da tensão de desafinar com seu Harry Winston e a Alta Costura. Ela nunca se aborrecia. Jamais.

Respirou profundo. Era mais provável que conseguisse acalmá-la se seu infame temperamento não aparecesse, porém, em seu atual estado mental, era propenso a destroçá-la ali mesmo, e não seria justo.

— Ela voltará para casa desta forma. — disse.

A graciosa mão de sua mãe subiu até a garganta, um sinal seguro de que estava presa entre o que queria e o que pensava que era correto.

— Mas, é tão extremo.

— Querê-la dormindo em sua própria cama? Querê-la no lugar no qual deveria estar? —a voz começou a perfurar o ar — Ou quer que fique com a Irmandade? Eles são guerreiros, Mahmen. Sedentos de sangue, guerreiros famintos de sangue. Pensa que duvidariam em tomar a uma mulher? E, sabe perfeitamente bem que, por lei, o Rei Cego pode deitar-se com qualquer mulher que escolha. Quer a ela nessa classe de ambiente? Eu não.

Quando sua Mahmen deu um passo atrás, deu-se conta que estava gritando. Aspirou fundo novamente.

— Mas, Rehvenge, falei com ela. Não quer voltar para casa ainda. E, eles são homens de honra. No Antigo País…

— Já nem sequer sabemos quem faz parte da Irmandade.

— Eles a salvaram.

— Então, podem devolvê-la a sua família. Pelo amor de Deus! É uma mulher da aristocracia. Pensa que a glymera a aceitará depois disto? Já teve uma aventura.

E, que confusão tinha resultado disso. O macho era totalmente indigno dela, um completo idiota, e mesmo assim o bastardo tinha saído do apuro sem que trocassem uma palavra. Por outro lado, tinham cochichado a respeito de Bela por meses, embora ela quisesse demonstrar que não se preocupava, Rehv sabia que a tinha incomodado.

Odiava à aristocracia em que se achavam apanhados, realmente a odiava.

Sacudiu a cabeça, zangado consigo mesmo.

— Nunca deveria ter se mudado desta casa. Nunca deviria ter permitido.

E, logo que a tivesse de volta, nunca lhe permitiria sair outra vez sem seu consentimento. Ia fazer com que a consagrassem como uma mulher Sehcluded. Seu sangue era suficientemente puro para justificá-lo, e francamente já deveria ser uma. Uma vez que estivesse feito, a Irmandade estava obrigada legalmente a entregá-la aos cuidados de Rehvenge, e em conseqüência, não poderia deixar a casa sem sua permissão. E, ainda havia mais. Qualquer macho que quisesse vê-la teria que falar com ele como chefe da família, e ia negar a todos e cada um desses filhos da puta. Tinha falhado em proteger a sua irmã uma vez. Não permitiria que isso acontecesse novamente.

Rehv consultou o relógio, embora soubesse que era tarde para esses assuntos. Faria a petição do Sehclusion ao Rei, no escritório. Era estranho solicitar algo tão antigo e tradicional através de e-mail, mas agora essa era a forma de agir das coisas.

— Rehvenge…

— O que?

— Você a afastará.

— Impossível. Uma vez que me encarregue disto, não terá outro lugar aonde ir além desta casa.

Pegou a bengala e fez uma pausa. Sua mãe se via tão desventurada, que se inclinou e a beijou na bochecha.

— Não se preocupe com nada, Mahmen. Vou arrumar as coisas para que nunca mais seja ferida. Por que não prepara a casa para recebê-la? Poderia tirar sua roupa de luto.

Madalina negou com a cabeça. Com uma voz reverente disse:

— Não até que cruze a soleira. Poderia ofender à Virgem Escriba, ao assumir que retornará a salvo.

Conteve uma maldição. A devoção de sua mãe a Mãe da Raça era legendária. Demônios! Deveria ser um membro dos Escolhidos com todas as suas preces, regras e temores de que uma palavra desdenhosa poderia atrair certas desgraças.

Mas, que fizesse o que quisesse. Era sua jaula espiritual, não a dele.

— Como quiser. — disse, se inclinando sobre a bengala virando-a.

Moveu-se lentamente pela casa, confiando nos diferentes tipos de piso para que lhe dissessem em que sala se encontrava. Havia mármore no vestíbulo, um tapete Persa na sala de jantar, um longo tablado de madeira na cozinha. Usava a vista para que lhe dissesse que seus pés estavam solidamente apoiados e que era seguro depositar todo seu peso neles. Usava a bengala para o caso de que julgasse erroneamente e perdesse o equilíbrio.

Para entrar na garagem, sustentou-se no marco da porta antes de descer um pé e logo o outro para descer os quatro degraus. Depois de deslizar-se dentro do Bentley a prova de balas, acionou o controle remoto para abrir a porta e esperou que abrisse para sair.

Maldição! Desejava mais que tudo saber quem eram esses Irmãos e onde viviam. Iria ali, derrubaria a porta e arrebataria Bela.

Quando pôde ver o caminho de entrada atrás dele, pôs marcha no sedã e apertou o acelerador tão forte que os pneus chiaram. Agora que estava atrás do volante, podia mover-se à velocidade que desejava. Rápido. Ligeiro. Sem necessidade de andar com cautela.

Via o extenso prado de forma imprecisa enquanto corria pelo sinuoso caminho para as portas, que estavam localizadas atrás da rua. Teve que deter-se um instante enquanto as coisas se abriam, logo dobrou pelo Thome Avenue e continuou para baixo por uma das opulentas ruas de Caldwell.

Para manter sua família a salvo e para que nunca lhes faltasse nada, trabalhava em coisas desprezíveis. Mas, era bom no que fazia, sua mãe e sua irmã mereciam o tipo de vida que tinham. Ele lhes proporcionaria qualquer coisa que quisessem, ele lhes consentiria qualquer capricho que tivessem. Por muito tempo as coisas tinham sido muito duras para eles…

Sim, a morte de seu pai tinha sido o primeiro presente que lhes tinha dado. A primeira de muitas maneiras que tinha melhorado suas vidas e mantido a salvo de todo dano. E, não mudaria de rumo agora.

Rehv tomou um atalho e se dirigia para o centro quando sua nuca começou a formigar. Tratou de ignorar a sensação, mas em questão de segundos se condensou em um severo apertão, como se tivessem colocado um parafuso na parte superior de sua espinha dorsal. Levantou o pé do acelerador e esperou que a sensação passasse.

Logo, ocorreu.

Com uma pontada de pânico, sua visão se converteu em sombras de vermelho, como se tivessem posto um véu transparente sobre seu rosto: as luzes dos automóveis que vinham de frente eram de néon rosa, a estrada de uma cor ferrugem opaca, o céu um clarete[17] como o vinho da Borgonha. Consultou o relógio digital, cujos números agora tinham um brilho rubi.

Merda. Isto estava mau. Não deveria estar acontecen…

Pestanejou e esfregou os olhos. Quando voltou a abrir, não tinha percepção da profundidade.

Sim, demônio que isto não estava acontecendo. E, não conseguiria chegar até o centro.

Girou o volante para a direita e entrou em um desmantelado centro comercial, o mesmo em que se encontrava a Academia de Artes Marciais Caldwell antes que se incendiasse. Apagou as luzes do Bentley e conduziu por trás dos extensos e estreitos edifícios, estacionando ao nível dos tijolos para o caso de ter que sair depressa, o único que tinha que fazer era pisar no acelerador.

Deixando o motor ligado, tirou o casaco de Marta Cibelina e a jaqueta do traje, logo arregaçou o braço esquerdo. Através da névoa vermelha abriu o porta-luvas e tirou uma seringa hipodérmica e um pedaço de correia de borracha. As mãos tremiam tanto, que deixou cair à agulha e teve que agachar-se para levantá-la do chão.

Bateu nos bolsos da jaqueta, até que encontrou um frasco de dopamina neuro-moduladora. Colocou no painel do carro.

Fez duas tentativas para abrir o pacote estéril da hipodérmica, e quase quebrou a agulha enquanto a introduzia através da superfície de borracha da tampa da dopamina. Quando a seringa estava cheia, envolveu o pedaço de borracha ao redor de seus bíceps, usando uma mão e os dentes; logo tratou de encontrar a veia. Tudo era mais complicado, devido já que estava trabalhando em um campo visual plano.

Não podia ver suficientemente bem. Tudo o que via em sua frente era… Vermelho.

Vermelho… Vermelho… Vermelho. A palavra disparou em sua mente, golpeando no interior de sua cabeça. Vermelho era a cor do pânico. Vermelho era a cor do desespero. Vermelho era a cor de seu ódio por ele mesmo.

Vermelho não era a cor de seu sangue. Não nesse momento, de nenhuma forma.

Maldizendo-se, tocou o antebraço procurando uma plataforma de lançamento para a droga, uma super estrada que enviasse a droga para os receptores do cérebro. Porém, suas veias estavam sumindo.

Não sentiu nada quando afundou a agulha, o que era tranqüilizador. Mas logo veio… Uma pequena espetada no lugar da injeção. O intumescimento no qual se mantinha estava a ponto de terminar.

Enquanto procurava debaixo de sua pele, uma veia que pudesse utilizar começou a sentir seu corpo: a sensação de seu peso no assento de couro do automóvel. O calor queimando seus tornozelos. O rápido fôlego movendo-se dentro e fora de sua boca, lhe secando a língua.

O terror fez com que empurrasse o êmbolo e soltasse o torniquete de borracha. Só Deus sabia se o tinha feito no lugar correto.

Com o coração golpeando no peito, olhou o relógio.

— Vamos. — murmurou começando a balançar-se no assento do condutor — Vamos… Faz efeito.

Vermelho era a cor das mentiras. Estava preso em um mundo vermelho. E, um destes dias a dopamina não ia funcionar. Estaria perdido no vermelho para sempre.

O relógio mudou os números. Tinha passado um minuto.

— Oh, droga… — esfregou os olhos como se isso pudesse trazer de volta a profundidade a sua visão e o espectro normal de cor.

Seu celular tocou e ele o ignorou.

— Por favor… — odiava a súplica em sua voz, mas não podia pretender ser forte — Não quero me perder…

De repente, sua visão retornou, o vermelho escorrendo-se de seu campo visual, retornando a perspectiva tridimensional. Foi como se a maldade tivesse sido absorvida fora dele e seu corpo paralisou, as sensações evaporando-se até que só restaram os pensamentos em sua cabeça. Com a droga, tornava-se um vulto que se movia, respirava e falava e benditamente, só tinha quatro sentidos pelos quais preocupar-se agora, esse toque tinha sido receitado como queimador.

Derrubou-se contra o assento. O estresse pelo seqüestro de Bela e o resgate, o havia dominado. Era por isso que o ataque tinha sido tão forte e rápido. E, talvez precisasse ajustar a dose novamente. Iria ao Havers perguntar a respeito disso.

Passou um tempo antes que fosse capaz de levar o automóvel para a entrada. Enquanto saía do desmantelado centro comercial e deslizava dentro do trânsito, disse a si mesmo que só era outro sedã em uma longa fila de automóveis. Anônimo. Igual a qualquer outro.

De alguma forma, a mentira o aliviou… E, aumentou sua solidão.

Em um semáforo, consultou a mensagem que lhe tinham deixado.

O alarme de segurança de Bela tinha sido desligado por uma hora mais ou menos e logo tinha religado. Alguém esteve em sua casa, outra vez.

 

Zsadist encontrou o Ford Explorer negro, estacionado no bosque a duzentos e setenta e quatro metros do acesso à entrada do caminho de aproximadamente um quilômetro e meio de comprimento da casa de Bela. A única razão pela qual tinha encontrado a coisa era porque tinha estado explorando a área, muito inquieto para ir para casa, muito perigoso para estar na companhia de alguém mais.

Uma combinação de rastros na neve ia em direção a granja.

Fez uma viseira com as mãos e olhou o interior do automóvel através da janela. O alarme de segurança estava ativado.

Devia ser o veículo de um desses Lessers. Podia cheirar o doce aroma deles por todo o automóvel. Mas, com um só par de rastros, talvez o condutor tivesse deixado seus companheiros, e logo o tinha escondido? Ou talvez o SUV tivesse sido conduzido desde o outro lado?

Como fosse. A Sociedade voltaria em busca de sua propriedade. E, não seria genial saber aonde demônios se dirigiam com ele? Mas, como poderia rastrear a maldita coisa?

Colocou as mãos nos quadris… E, seu olhar se deteve casualmente na cartucheira que levava no cinturão.

Enquanto levantava o celular, pensou com carinho em Vishous, esse professor das artes, sábio tecnólogo filho da puta.

Necessidade, a mãe da invenção.

Desmaterializou-se debaixo do SUV para deixar o mínimo possível de rastros na neve. Enquanto seu peso era absorvido por suas costas, encolheu-se. Homem, ia pagar pela pequena viagem através da porta Francesa. E, pelo golpe na cabeça. Mas, tinha sobrevivido a coisas piores.

Tirou uma lanterna e olhou ao redor da armação inferior, tratando de escolher o lugar adequado. Necessitava algo suficientemente grande e não podia estar perto do escapamento, porque inclusive no frio que fazia, esse tipo de calor podia ser um problema. É obvio, teria preferido meter-se dentro do Explorer e pôr o celular debaixo de um assento, mas o sistema de alarme do SUV era uma complicação. Se o cortava podia não ser capaz de restabelecê-lo, por isso os Lessers saberiam que alguém tinha estado no automóvel.

Como se a janela batida não fosse uma pista.

Maldição… Deveria ter procurado nos bolsos desses Lessers antes de apunhalá-los até fazê-los cair no esquecimento. Um desses bastardos deveria ter a chave. Só que estava tão zangado, que tinha se movido muito rápido.

Z amaldiçoou, pensando na forma em que Bela o tinha olhado depois que tinha mastigado o assassino na frente dela. Seus olhos ficaram enormes em sua pálida face, sua boca frouxa de comoção pelo que ele tinha feito.

O problema era que o trabalho que fazia para a Irmandade protegendo à raça, era sujo. Era enredado e desagradável e às vezes confuso. Sempre sangrento. E, ainda por cima de todo isso, tinha visto a luxúria assassina nele. De alguma forma, estava disposto a apostar que isso era o que a tinha perturbado mais.

Concentre-te, maldito idiota. Vamos, tire ela da cabeça.

Z farejou ao redor um pouco mais, movendo-se debaixo do Explorer. Finalmente, encontrou o que estava procurando: um pequeno oco debaixo do eixo dianteiro. Tirou a jaqueta, envolveu o celular, e empurrou o maço dentro do buraco. Verificou o localizador improvisado para assegurar-se que estava ali dentro bem e ajustado, logo se desmaterializou saindo de debaixo do SUV.

Sabia que o acerto não ia durar muito ali embaixo, mas era muito melhor que nada. E, agora Vishous seria capaz de rastrear o Explorer da casa, porque esse pequeno Nokia bala de prata tinha um chip GPS nele.

Z se dissipou para a borda do prado para poder ver a parte de atrás da granja. Fez um bom trabalho de remendo na arruinada porta da cozinha. Felizmente, o marco ainda estava intacto, assim tinha sido capaz de fechá-la e de restabelecer os sensores do alarme. Logo encontrou uma lona plástica na garagem e cobriu o monstruoso buraco.

Arrumado, mas não de tudo.

Era engraçado… Não pensava que pudesse ter êxito se tratasse de reabilitar a opinião que Bela tinha a respeito dele. Mas… Maldita fosse… Não queria que pensasse que era um selvagem.

À distância, dois faróis dobraram na Rota 22 e brilharam pelo longo caminho privado. Quando chegou à casa de Bela o automóvel diminuiu a marcha, logo tomou seu caminho na entrada.

Isso era um Bentley? Pensou Z. Com certeza, se parecia com um.

Homem, um automóvel tão caro como esse? Devia ser um membro da família de Bela. Sem dúvida, tinham sido avisados que o alarme de segurança tinha sido desconectado por um tempo e voltado a ativar-se fazia uns dez minutos.

Droga. Esse não era um bom momento para que alguém fizesse um percurso de inspeção. Com a sorte de Z, os Lessers podiam escolher justo esse momento para retornar à procura do SUV… E, decidir dirigir… Perto da granja por prazer e diversão.

Amaldiçoando por baixo do fôlego, esperou que abrisse uma das portas do Bentley… Mas, ninguém saiu do automóvel e o motor continuou ligado. Isso era bom. Enquanto o alarme estivesse ativado, possivelmente não pensariam em entrar. Porque a cozinha era um desastre.

Z cheirou o ar frio, mas não pôde capturar nenhum aroma. Embora, o instinto lhe dissesse que havia um macho dentro do sedã. O irmão? Era o mais provável. Devia ser ele, quem revisasse o lugar.

Assim é, amigo. Olhe pelas janelas da frente. Vê? Não aconteceu nada de mau. Não há ninguém na casa. Agora, faça um favor a nós dois e vai-te a merda daqui.

O sedã ficou ali, parado pelo que pareceram como cinco horas. Logo retrocedeu, deu a volta em U na rua e se foi.

Z aspirou fundo. Cristo... Seus nervos estavam muito tensos essa noite.

O tempo passava. Enquanto estava ali de pé entre os pinheiros, ficou olhando a casa de Bela. E, se perguntou se agora ela teria medo dele.

O vento aumentou, o frio agitando-se sobre ele, lhe impregnando até os ossos. Com desespero, abraçou a dor que sentia.

 

John olhou sobre a escrivaninha que havia no escritório. Sarelle tinha a cabeça inclinada para baixo enquanto folheava um dos antigos livros, seu cabelo loiro curto pendurava sobre sua face através do qual o único que podia distinguir era seu queixo. Ambos tinham passado horas fazendo uma lista de encantamentos para realizar no festival do solstício. Enquanto isso, Wellsie estava na cozinha, organizando provisões para a cerimônia.

Enquanto Sarelle virava outra página, deu-se conta de que realmente tinha lindas mãos.

— Ok. — disse ela — Acredito que este é o último.

Levantou seu olhar até seus olhos e foi como se um relâmpago o golpeasse: um choque de calor e logo uma transportadora desorientação. Ainda mais, até podia acreditar que brilhava na escuridão, também.

Ela sorriu e fechou o livro. Logo, houve um comprido silêncio.

— Então… Um, suponho que meu amigo Lash está em sua classe de treinamento.

Lash era seu amigo? Ah, sensacional.

— Sim… E, diz que tem a marca da Irmandade no peito. — como John não lhe respondeu, disse — Tem?

John se encolheu e rabiscou na borda da lista que tinha feito.

— Posso vê-la?

Fechou os olhos fortemente. Como podia querer que ela se fixasse em seu ossudo peito? Ou na marca de nascimento que tinha provado ser um pontapé no traseiro?

— Não acredito que você mesmo tenha feito isso, como eles pensam. — disse rapidamente — E, quero dizer, não é como se quisesse te inspecionar ou algo assim. Nem sequer sei como se supõe que seja uma. Só tenho curiosidade.

Aproximou a cadeira e ele pôde aspirar uma baforada do perfume que usava… Ou talvez não fosse perfume. Talvez fosse só… Ela.

— De que lado está?

Como se a mão pertencesse a ela, ele bateu em seu peito esquerdo.

— Desabotoe um pouco a camisa. — inclinou-se para um lado, com a cabeça em ângulo para poder lhe olhar o peito — John? Por favor, posso vê-la?

Olhou para a entrada. Wellsie ainda estava falando por telefone na cozinha, assim provavelmente não fosse intrometer-se nem nada. Mas, o escritório ainda parecia muito público.

Oh… Deus. Realmente faria isto?

— John? Só quero... Ver.

Ok, ia fazer.

Parou e mostrou a porta com a cabeça. Sem dizer uma palavra Sarelle o seguiu, indo atrás dele, todo o caminho, do vestíbulo até seu dormitório.

Depois que entraram, fechou a porta quase por completo e pegou o primeiro botão da camisa. Obrigou-se a manter as mãos firmes, prometendo-se solenemente cortar-lhe se o envergonhassem. A ameaça pareceu funcionar, porque desabotoou a camisa até o estômago sem muito trabalho. Separou o lado esquerdo e olhou para outro lado.

Quando sentiu um ligeiro toque na pele, deu um salto.

— Sinto muito, minhas mãos estão frias. — Sarelle soprou a ponta dos dedos, logo voltou para seu peito.

Bom Deus. Algo estava acontecendo com seu corpo, algum tipo de selvagem mudança dentro da pele. A respiração acelerou, asfixiava-se. Abriu a boca para poder levar mais ar a seu interior.

— É tão incrivelmente genial.

Sentiu-se desiludido quando ela deixou cair à mão. Mas, logo lhe sorriu.

— Então, talvez queira sair uma vez? Já sabe, poderíamos ir jogar Quazar[18], seria genial. Ou, talvez, ao cinema.

John assentiu, como o parvo que era.

— Bom.

Seus olhos se encontraram. Era tão bonita que o fazia sentir-se enjoado.

— Quer me beijar? — sussurrou-lhe.

Os olhos de John se abriram de repente. Como se um globo tivesse explodido atrás de sua cabeça.

— Porque eu gostaria que o fizesse. — lambeu um pouco os lábios — Realmente, eu gostaria.

Uau… A oportunidade de sua vida, justo ali, justo agora, pensou.

Não desmaie. Desmaiar seria um completo suicídio

John rapidamente relembrou cada filme que tinha visto em sua vida… E, não obteve nenhuma ajuda. Como um fanático pelo terror, foi invadido por visões de Godzilla pisoteando Tóquio e do Tubarão mastigando o traseiro da Orca. Grande ajuda.

Pensou na teoria. A cabeça inclinada. Inclinar-se para frente. Fazer contato.

Sarelle olhou ao redor, ruborizando-se.

— Se não quiser, está bem. Só pensei…

— John? — A voz de Wellsie chegou do vestíbulo. E, se aproximava enquanto seguia falando — Sarelle? Onde estão, crianças?

Piscou. Antes de acovardar-se, tomou a mão de Sarelle, puxou-a, e lhe plantou um beijo na boca, os lábios apertados contra os dela. Sem língua, mas não havia tempo, e de qualquer forma provavelmente tivesse que chamar o 911 depois de algo como isso. Como estavam às coisas, já estava virtualmente hiperventilando.

Logo a afastou. E, começou a preocupar-se a respeito de como o tinha feito.

Arriscou um olhar. Oh… Seu sorriso era radiante.

Pensou que seu peito explodiria de felicidade.

Estava lhe soltando a mão quando Wellsie colocou a cabeça no quarto.

— Tenho que ir a… Ah… Sinto. Não sabia que vocês dois…

John tratou de adotar um sorriso “nada especial está ocorrendo” e notou que os olhos de Wellsie estavam fixos em seu peito. Olhou para baixo. Tinha a camisa completamente aberta.

Gesticular para fechar maldita coisa, só piorou a situação, mas não pôde deter-se.

— Melhor ir. — disse Sarelle tranqüilamente — Minha Mahmen quer que volte para casa cedo. John, estarei no computador mais tarde, ok? Planejaremos que filme ir ver ou o que seja. Boa noite, Wellsie.

Enquanto Sarelle saía do quarto e se dirigia à sala, não pôde evitar afastar o olhar de Wellsie. Olhou como Sarelle recolhia o casaco do armário do vestíbulo, o punha, e tirava as chaves do bolso. Momentos depois, o apagado ruído da porta principal fechando-se soou no vestíbulo.

Houve um comprido silêncio. Logo Wellsie pôs-se a rir e afastou para trás seu cabelo vermelho.

— Eu, ah, eu não tenho idéia de como lidar com isto. — disse— Salvo dizer que ela me agrada muito e que tem bom gosto com machos.

John esfregou o rosto, consciente de que estava da cor de um tomate.

— Vou passear. — falou por gestos.

— Bom, Thor acabou de ligar. Ia passar por casa para te pegar. Pensou que talvez quisesse ir com ele ao centro de treinamento, já que tem trabalho administrativo a fazer. De qualquer forma, é sua escolha ficar ou não. E, eu vou a uma reunião do Conselho Princeps.

Assentiu quando Wellsie tinha começado a virar-se.

— Ah, John? — fez uma pausa e olhou sobre seu ombro — Sua camisa... Humm, está mal abotoada.

Olhou para baixo. E, começou a rir. Embora não pudesse emitir som, precisava deixar sair sua alegria, e Wellsie sorriu, obviamente feliz por ele. Enquanto abotoava os botões corretamente, pensou que nunca tinha querido tanto a essa mulher.

 

Depois de retornar à mansão, Bela passou a seguinte hora sentada na cama de Zsadist com seu diário na saia. No princípio, não fez nada com o diário, muito presa ao que tinha acontecido em sua casa.

Jesus… Não podia dizer que estava surpresa porque Zsadist resultava ser exatamente a ameaça que pensou que era. E, a tinha salvado, verdade? Se esse Lesser que tinha matado tivesse posto as mãos sobre ela, teria terminado outra vez em um buraco na terra.

O problema era que não podia decidir se o que tinha feito era evidência de sua força ou de sua brutalidade.

Enquanto decidia que provavelmente fossem ambas, preocupou-se pensando se ele estaria bem. Tinha sido ferido e mesmo assim ainda estava lá fora, provavelmente tratando de encontrar mais assassinos. Deus… E, se ele…?

E, se. E, se... Se continuasse assim, ia ficar louca.

Desesperada por encontrar outra coisa em que concentrar-se, percorreu as páginas do que tinha escrito em seu diário o ano passado, o nome de Zsadist participava de um rol preponderante no qual as entradas estavam justo antes de ser seqüestrada. Estava tão obcecada por ele, e não podia dizer que isso tivesse mudado. De fato, seus sentimentos por ele eram tão fortes, inclusive depois do que tinha feito essa noite, que se perguntava se não…

Amava-o. Oh… Senhor.

De repente, não suportava estar sozinha, não com essa revelação projetando-se em sua cabeça. Escovou os dentes e o cabelo e foi ao primeiro andar, esperando encontrar alguém. Mas, na metade do caminho descendo as escadas, escutou vozes altas que provinham da cozinha. Estavam fazendo a última refeição da noite, mas a idéia de reunir-se a todos os Irmãos, Mary e Beth lhe parecia entristecedora. Além disso, Zsadist não estaria ali? E, como poderia enfrentá-lo sem ficar em evidência? Não havia forma que esse macho aceitasse bem que ela o amasse. De maneira nenhuma.

Ah, demônios. Cedo ou tarde teria que vê-lo. E, esconder-se não era o seu estilo.

Mas, quando chegou ao final da escada e se deteve sobre o piso de mosaicos do vestíbulo, deu-se conta que se esqueceu de calçar os sapatos. Como podia entrar na cozinha do Rei e da Rainha descalça?

Olhou para trás, para o segundo andar e se sentiu absolutamente exausta. Muito cansada para subir e voltar a descer, muito envergonhada para seguir adiante, ficou escutando os sons da comida: as vozes de homens e mulheres conversando e rindo. Uma garrafa de vinho foi desarrolhada emitindo um pop. Alguém agradeceu a Fritz por ter levado mais cordeiro.

Olhou seus pés descalços, pensando a parva que era. Uma parva transtornada. Estava perdida pelo que lhe tinha feito o Lesser. E, temerosa pelo que tinha visto Zsadist fazer essa noite. E, tão só depois de dar-se conta do que sentia pelo macho.

Estava a ponto de jogar a toalha e voltar a subir quando algo lhe roçou a perna. Saltou e olhou para baixo, encontrando os olhos verde jade de um gato negro. O felino piscou, ronronou, e esfregou a cabeça contra a pele de seu tornozelo.

Inclinando-se, acariciou sua pele com mãos inseguras. O animal era incomparavelmente elegante, deslizava-se com escassos e graciosos movimentos. E, sem nenhuma razão, seus olhos se turvaram. Quanto mais emocional ficava, mais se aproximava do gato, até que ficou sentada no último degrau da escada e o animal subiu em sua saia.

— Seu nome é Boo.

Bela ofegou e olhou para cima. Phury estava de pé em frente a ela, um macho muito alto que já não vestia roupa de combate, mas sim cachemira e lã. Tinha um guardanapo na mão, como se acabasse de levantar-se da mesa, e cheirava realmente bem, como se tivesse tomado banho e se barbeado recentemente. Olhando-o, deu-se conta de que a conversa e os sons da cozinha tinham desaparecido, deixando um silêncio que lhe dizia que todo mundo sabia que ela tinha descido e parado nos arredores.

Phury se ajoelhou e lhe pressionou o guardanapo de linho contra a mão. Dessa forma se deu conta de que havia lágrimas correndo por suas bochechas.

— Não se unirá a nós? — disse-lhe brandamente.

Secou seu rosto, ainda agarrada ao gato.

— Há alguma possibilidade de que possa levá-lo comigo?

— Absolutamente. Boo sempre é bem-vindo em nossa mesa. Igual a você.

— Não estou com sapatos.

— Não nos importa. — estendeu a mão — Vamos, Bela. Vêm te reunir conosco.

 

Zsadist entrou no vestíbulo, com frio e tão rígido que se arrastava para ir adiante. Queria permanecer na granja até que despontasse o amanhecer, mas seu corpo não funcionava bem com o ar gelado.

Embora não fosse comer, dirigiu-se a cozinha, só para deter-se nas sombras. Bela estava na mesa, sentada ao lado de Phury. Havia um prato de comida na frente dela, mas estava prestando mais atenção ao gato que tinha na saia. Estava mimando a Boo, e não deixou de acariciá-lo nem sequer quando elevou a vista para prestar atenção a algo que Phury dizia. Sorriu, e quando subiu a cabeça novamente, os olhos de Phury permaneceram em seu perfil como se estivesse bebendo dela.

Z caminhou rapidamente para a escada, indisposto a cair nessa cena. Estava quase a salvo quando Tohr saiu da porta oculta na primeira pausa. O irmão parecia carrancudo, mas bom, nunca estava para festa.

— Hei, Z, espere.

Zsadist amaldiçoou, e não baixou sua respiração. Não tinha nenhum interesse em ficar e escutar uma droga a respeito de política e procedimento, e isso era a única coisa que Tohr falava ultimamente. O homem estava enlouquecendo a Irmandade, organizando turnos, tentando converter a quatro tiros ao ar como eram V, Phury, Rhage e Z em soldados. Não estranhava que sempre parecesse que estava com dor de cabeça.

— Zsadist. Disse, espere.

— Agora não…

— Sim, agora. O irmão de Bela mandou uma petição a Wrath. Solicitando que lhe seja atribuído um estado de Sehclusion, com ele como seu Whard.

Oh, merda. Se isso ocorresse, seria o mesmo que Bela se fosse. Demônios, era como se fosse uma peça de bagagem. Nem sequer a Irmandade podia defender a ela de seu Whard.

— Z? Escutou o que te disse?

Assinale com a cabeça, idiota, disse-se a si mesmo.

Apenas conseguiu afundar o queixo.

— Mas, por que está me contando isso?

Tohr apertou a boca.

— Quer aparentar que ela não significa nada para você? Bom. Só pensei que quisesse saber.

Tohr se dirigiu para a cozinha.

Z agarrou o corrimão e esfregou o peito, sentindo como se alguém tivesse substituído o oxigênio de seus pulmões por alcatrão. Olhou para cima e se perguntou se Bela passaria por seu quarto antes de ir-se. Teria que fazê-lo, porque seu diário estava ali. Podia deixar a roupa, mas não seu diário. A não ser, é obvio, que já o tivesse pego.

Deus… Como lhe diria adeus?

Homem, deviam-se uma conversa. Não podia imaginar o que lhe diria, especialmente depois que ela viu a ele praticando sua odiosa magia com aquele assassino.

Z entrou na biblioteca, levantou um dos telefones, e discou o número do celular de Vishous, guiando-se pelo desenho das teclas. Escutou como soava no fone e também através do vestíbulo. Quando V respondeu, contou-lhe sobre o Explorer, o celular e as palhaçadas que tinha feito no trem dianteiro.

— Localizo. — disse V — Mas, onde está? Há um estranho eco no telefone.

— Chame-me se esse automóvel se mover. Estarei no ginásio. — desligou e se dirigiu ao túnel subterrâneo.

Supôs que poderia conseguir alguma roupa do vestuário e levar-se a um estado de absoluto esgotamento. Quando suas coxas gritassem, suas panturrilhas se convertessem em pedra e sua garganta estivesse seca por causa dos fôlegos, a dor lhe esclareceria mente, limpá-lo-ia… Ansiava a dor mais do que ansiava a comida.

Quando chegou ao vestuário, foi ao cubículo que lhe tinham atribuído e tirou seus tênis com amortecedores e bermuda para corrida. De qualquer forma preferia andar sem camisa, especialmente se estivesse só.

Tirou as armas e estava a ponto de despir-se, quando sentiu que algo se movia pelo vestuário. Rastreando o som em silêncio, interpôs-se no caminho de... Uma estranha sombra.

Houve um som de metal quando o pequeno corpo bateu contra um dos bancos do vestíbulo.

Merda. Era o moço. Qual era seu nome? John alguma coisa.

E, o moço, John parecia que ia desmaiar enquanto olhava para cima, com os olhos frágeis, saindo das órbitas.

Z olhou para baixo, desde toda sua estatura. Nesse momento, seu humor era absolutamente maligno, negro e frio como o espaço, e mesmo assim de alguma forma, não gostaria de rasgar um novo buraco no traseiro do moço que não tinha feito nada de errado.

— Sai daqui, moço.

John manuseou algo. Um bloco e um lápis. Enquanto punha os dois juntos, Z sacudiu a cabeça.

— Sim, não sei ler, recorda? Olhe, só vai-te. Tohr está lá em cima, na casa.

Z virou-se tirou a camisa de um puxão. Quando escutou um ofego, olhou sobre seu ombro. Os olhos de John estavam fixos em suas costas.

— Cristo, moço… Sai daqui, droga.

Quando Z escutou o som de passos afastando-se, desfez-se das calças, vestiu a bermuda de futebol preta, e sentou em um banco. Levantou os Nikes pegando-os pelos cordões e deixou que pendurassem entre os joelhos. Enquanto olhava as sapatilhas para correr, teve um estúpido pensamento sobre quantas vezes tinha metido os pés nelas e castigado seu corpo na fatigante rotina a que se dirigia. Logo, pensou sobre quantas vezes tinha deixado que o ferissem deliberadamente em brigas com lessers. E, quanta vez tinha pedido a Phury que o abatesse.

Não, não pedido. Ordenado. Houve momentos que tinha mandado que seu gêmeo lhe batesse uma e outra vez até que seu rosto com cicatrizes ficasse todo torcido e a palpitante dor nos ossos fosse tudo o que conhecesse. Para falar a verdade, não gostava de envolver Phury. Preferia ferir-se em privado e se tivesse podido ferir-se-ia ele mesmo. Mas era difícil golpear a si mesmo com força, e a sangue frio.

Lentamente, Z deixou as sapatilhas no piso e se inclinou para trás apoiando-se contra o fichário, pensando a respeito de onde estava seu gêmeo. Lá em cima, na cozinha. Ao lado de Bela.

Seus olhos se desviaram ao telefone que estava localizado na parede do vestíbulo. Talvez devesse ligar para casa.

Um suave assobio se escutou perto dele. Dirigiu os olhos para a esquerda e franziu o cenho.

O moço estava ali com uma garrafa de água na mão, e avançava lentamente, o braço esticado na frente dele, a cabeça inclinada. Como se quisesse relacionar-se com uma pantera e tivesse a esperança de sair da experiência com todos os membros ainda unidos.

John depositou a garrafa de Poland Spring[19] no banco, a três metros de Z. Logo, se virou e saiu correndo.

Z olhou a porta por onde o moço tinha desaparecido. Quando se fechou, pensou em outras portas do Complexo. Especificamente, nas portas principais da mansão.

Deus. Bela também iria logo. Inclusive, poderia estar indo embora nesse preciso momento.

Justo nesse minuto.

 

— Maçãs? Que merda faço me preocupando com maçãs? — gritou O ao celular. Estava a ponto de quebrar cabeças, estava de saco cheio, e U conversava a respeito das malditas frutas? — Só liguei para lhe dizer que temos três Betas mortos. Três deles.

— Mas, esta noite havia mil e oitocentos quilogramas de maçãs comprados em quatro diferentes...

O começou a passear pela cabana. Era isso que o ajudava, ia perseguir U até queimar suas bordas.

Logo que O retornou de Ômega foi para a granja, só para encontrar duas marcas chamuscadas na grama, assim como a porta traseira danificada. Olhando à cozinha através da janela, pôde ver o sangue negro por todo o lugar e outra marca de queimadura no azulejo.

Maldito inferno, pensou, imaginando a cena. Conhecia o irmão que tinha feito o trabalho, porque deixava a sujeira na cozinha, tinha cortado em tiras o lesser que tinha morrido no chão antes de ser apunhalado.

Sua mulher estava com o guerreiro nesse momento? Ou foi uma visita da família tratando de transladar suas coisas e o Irmão só estava protegendo-os?

Malditos fossem esses Betas. Esses três asnos piolhentos, bichas-frouxas, inúteis filhos da puta, mataram a si mesmos, então nunca teria respostas. E, se sua mulher não estivera ali, tão seguro como o inferno que se ela estava viva não retornaria logo, graças à briga que houve.

As tolices de U se enfocaram de novo.

— ...o dia mais curto do ano, em vinte e um de dezembro, será a semana que vem. O solstício de inverno é...

— Tenho uma idéia. — falou bruscamente O — Por que não corta a cantilena sobre o calendário. Quero que vá à granja e recolha o Explorer, deixe a esses betas para trás no bosque. Então...

— Escute o que digo. As maçãs são utilizadas na cerimônia do solistício em honra à Virgem Escriba.

Essas duas palavras, Escriba e Virgem, captaram a atenção de O.

— Como sabe disto?

— Estive por aqui os últimos duzentos anos. — disse U secamente — O festival não se celebrou em... Jesus, não sei, possivelmente um século. Supõe-se que as maçãs representam a espera da primavera. As sementes, o crescimento, essa tipo de merda da renovação.

— De que tipo de festival está falando?

— No passado, centenas deles se reuniam, e suponho que faziam algum tipo de cântico, algum ritual. Realmente não sei. De qualquer maneira, durante anos estivemos observando certo tipo de coisas nas compras durante épocas específicas do ano. Maçãs em dezembro. Cana-de-açúcar em abril. Foi mais por costume, que qualquer outra coisa, porque esses vampiros estavam condenadamente tranqüilos.

O se apoiou contra a porta da cabana.

— Mas, agora seu rei ascendeu. Assim, eles reviverão as chamas dos velhos costumes.

— E, você gostaria do sistema ISBN. Muito mais eficiente que ir perguntando por aí, os quais estavam acostumados a fazer. Como disse antes, uma enorme quantidade de maçãs Granny Smith foram compradas em várias localidades. Como se difundissem as ordens.

— Então está dizendo que em uma semana um montão de vampiros vai se reunir. Fazendo uma música e dança especial. Rezando à Virgem Escriba.

— Sim.

— Comendo maçãs?

— A meu entender, sim.

O esfregou a nuca. Havia sido reticente sobre expor todo assunto de converter a sua mulher em um lesser durante a sessão com Ômega. Precisava averiguar primeiro se estava viva, e logo trabalhar sobre algumas mudanças no conceito. Obviamente, o problema potencialmente insuperável era que ela era um vampiro, e o único contraponto era que ele podia fazer disso a arma secreta final. Uma fêmea de sua própria espécie? Os Irmãos nunca a veriam chegar...

Embora, é claro, que isso só seria um argumento para Ômega. Sua esposa nunca brigaria com ninguém, exceto com ele.

Sim, o projeto seria como uma venda agressiva, mas uma coisa que tinha a seu favor era que Ômega estava aberto às adulações. Então, não seria um grande e refrescante sacrifício em sua honra fazer maravilhas para lhe suavizar?

U ainda estava falando.

— ...estava pensando que poderia verificar nos mercados...

Enquanto U falava e falava, O começou a pensar em veneno. Em um montão de veneno. Em um tonel cheio.

Maçãs envenenadas. Quantas Brancas neves teriam?

— O? Está aí?

— Sim.

— Então, vou aos mercados e averiguo quando...

— Não, agora não. Lemme lhe dirá o que tem que fazer.

 

Quando Bela abandonou o escritório de Wrath tremia de fúria, e nem o rei nem Tohr tentaram detê-la ou fazê-la voltar à razão. O que provava que eram varões extremamente inteligentes.

Caminhou pesadamente pelo hall, com os pés nus, para o quarto de Zsadist, e logo fechou a porta com um golpe, foi ao telefone como se fosse uma arma. Discou o número de seu irmão.

Rehvenge atendeu e respondeu bruscamente.

— Quem é e como conseguiu este número?

— Não te atreva a me fazer isto.

Houve um comprido silencio. Então:

— Bela... Eu... Espere um segundo. — um som arrastado se ouviu através do telefone, então disse em voz cortante melhor — ...que acabe agora mesmo. Ficou claro? Se tiver que ir atrás dele, não vai gostar. — Rehvenge esclareceu garganta e retornou — Bela, onde está? Deixe que vá te buscar. Ou diga a um dos guerreiros que te leve a nossa casa e nos encontraremos ali.

— Pensa que vou a algum lugar perto de você agora?

— É melhor que a alternativa. — disse desagradavelmente.

— E, qual é?

— Os Irmãos lhe trarão para mim à força.

— Por que está fazendo…

— Por que estou fazendo isto? — com sua voz profunda e grave, exigentemente grave, a que ela estava acostumada — Tem alguma idéia do que foram estas últimas seis semanas para mim? Sabendo que estava nas mãos dessas malditas coisas? Sabendo que pus minha irmã... À filha de minha mãe... Nessa situação?

— Não foi sua culpa...

— Deveria estar em casa!

Como sempre, o jorro de fúria de Rehv a estremeceu, e recordou que em um nível básico, seu irmão sempre a tinha assustado um pouco.

Mas, então o ouviu aspirar profundamente. E, outra vez. Então, um estranho desespero se arrastou em suas palavras.

— Jesus, Bela... Só volte para casa, Mahmen e eu, necessitamos de você aqui. Temos saudades. Nós... Eu preciso ver-te para acreditar que está realmente bem.

Ah, sim… Agora seu outro lado, que realmente amava. O protetor. O fornecedor. O brusco e compassivo macho que sempre lhe tinha dado o que necessitava.

A tentação de submeter-se foi forte. Mas então se imaginou sem permissão para sair da casa outra vez. O que era algo malditamente capaz de lhe fazer.

— Rescindirá a ordem de isolamento?

— Podemos falar disso quando dormir outra vez em sua cama.

Bela agarrou o telefone.

— Isso significa não, verdade? — houve uma pausa — Olá? Rehvenge?

— Só te quero em casa.

— Sim ou não, Rehv. Diga-me isso agora.

— Nossa mãe não sobreviverá a algo assim outra vez.

— E, você crê que eu sim? — replicou-lhe bruscamente — Perdoe-me, mas mahmen não foi quem acabou com o nome do lesser tatuado em seu estômago!

No momento em que as palavras saíram de sua boca, amaldiçoou-se. Bom, essa classe de oportunos detalhezinhos iria certamente levá-lo ali. Que maneira de negociar.

— Rehvenge...

Sua voz estava completamente gelada.

— Quero-te em casa.

— Acabo de sair do cativeiro, não vou enjaular-me voluntariamente.

— E, o que vai fazer a respeito?

— Pressione-me um pouco mais e saberá.

Terminou a chamada e golpeou o sem fio com a mesa.

— Maldito!

Em um louco impulso, pegou o receptor e o fez girar, preparada para jogá-lo através do quarto.

— Zsadist! — agarrou como pôde o telefone, apanhando-o, segurando-o contra o peito.

De pé, silenciosamente ao lado da porta, Zsadist vestia uma bermuda para corrida e estava sem camiseta… E, por alguma absurda razão também se deu conta de que não usava sapatos.

— Joga-o se quiser.

— Não. Eu… Ah… Não. — virou-se e o colocou no pequeno suporte, tentando duas vezes para conseguir.

Antes de virar-se para Zsadist outra vez, pensou nele, agachado sobre o lesser, lhe batendo até a morte... Mas, então recordou que havia lhe trazido suas coisas de casa... Levando-a ali... E, tinha deixado ter sua veia embora se ficasse louco pela invasão. Enquanto se movia a seu redor, foi enredando-se em sua rede, apanhada entre a bondade e a crueldade.

Ele rompeu o silêncio.

— Não quero que fuja no meio da noite por causa do que seu irmão decidiu. E, não me diga que não era isso que estava pensando.

Maldito, era preparado.

— Mas, você sabe o que quer me fazer.

— Sim.

— E, por lei a Irmandade terá que me entregar, assim não posso ficar aqui. Pensa que eu gosto da única opção que tenho?

Porém para onde iria?

— O que tem de mal em ir para casa?

Olhou-o enfurecida.

— Certo, na realidade quero que me tratem como uma inútil, como uma menina, como... Um objeto que meu irmão possui. Concordo completamente.

Zsadist passou a mão sobre a cabeça. O movimento flexionou os bíceps, que se avultaram.

— É sensato ter a família sob o mesmo teto. São tempos perigosos para os civis.

Oh, homens… A última coisa que necessitava agora era que ele estivesse de acordo com seu irmão.

— Também é um tempo perigoso para os lessers. — resmungou — Guiando-me pelo que lhes fez esta noite.

Zsadist entrecerrou os olhos.

— Se quiser que me desculpe por isso, não o farei.

— Certamente que não. — replicou — Você não se desculpa por nada.

Negou lentamente com a cabeça.

— Está procurando briga, e está falando com o varão equivocado, Bela. Não te seguirei a corrente.

— Por que não? Você é único enchendo o saco.

O silenciou que seguiu lhe fez desejar gritar. Queria lhe enfurecer, algo que dava livremente a todo mundo, e ela não podia acreditar por que infernos estava aparentando autocontrole quando era ela.

Levantou uma sobrancelha, como se soubesse o que estava pensando.

— Ah, Demônios! — respirou — Estou-te crucificando, verdade? Sinto muito.

Encolheu seus ombros.

— Escolher entre o fogo e as brasas deixa qualquer um louco. Não se preocupe.

Sentou-se na cama. A idéia de escapar só era absurda, mas se negava a viver sob o controle de Rehvenge.

— Tem alguma sugestão? — perguntou em voz baixa. Enquanto elevava a vista, Zsadist estava olhando ao chão.

Estava tão autoconcentrado apoiado contra a parede. Com seu comprido e enxuto corpo, parecia uma greta de cor carne no gesso, uma fissura que se abriu muito na estrutura do quarto.

— Dê-me cinco minutos. — respondeu. Foi-se andando, sem camisa.

Bela se deixou cair para trás no colchão, pensando que cinco minutos não iriam resolver a situação. O que ela precisava era um irmão diferente esperando-a em casa.

Querida e doce Virgem Escriba… Além dos lessers, deveria ter feito melhor as coisas. Em lugar disso, sua vida estava totalmente fora de seu controle.

Concedeu que pelo menos agora ela poderia escolher o xampu.

Levantou a cabeça. Através da porta do banheiro viu a ducha e se imaginou sob o jorro de água quente. Isso seria bom. Relaxante. Refrescante. É, mas poderia chorar sua frustração sem vergonha.

Levantou-se e foi para o banho, abrindo a torneira. O som do jorro golpeando o mármore era calmante, assim como foi o quente jorro quando estava debaixo. Não chorou. Só pendurou a cabeça e deixou cair à água por seu corpo.

Quando finalmente saiu, deu-se conta que a porta do quarto estava fechada.

Provavelmente Zsadist havia voltado.

Envolvendo-se em uma toalha, não teve esperança absolutamente que tivesse encontrado uma solução.

 

Quando abriu a porta do banheiro, Z a examinou guardando uma maldição para si mesmo. Bela estava rosada da cabeça aos pés, o cabelo preso no alto da cabeça. Cheirava ao seleto sabão francês que Fritz insistia em comprar. E, essa toalha envolta em seu corpo só o fazia pensar em quanto seria fácil tê-la totalmente nua.

Um puxão. Isso era tudo o que necessitava.

— Wrath concordou em estar temporariamente inlocalizável. Mas, só é uma prorrogação de quarenta e oito horas, mais ou menos. Fale com seu irmão. Veja se pode trazer ele aqui. De outra maneira, Wrath terá que responder e realmente não poderá negar-se devido a sua linhagem.

Bela atou a toalha um pouco mais acima.

— Certo… Obrigado. Obrigado pelo esforço.

Inclinou a cabeça olhando para a porta, pensando em retornar ao plano A: pôr terra no meio. Era isso ou que Phury o atacasse.

Porém em vez de sair, pôs as mãos na cintura.

— Lamento uma coisa.

— O que? Oh… Por quê?

— Sinto que tivesse que ver o que fiz a esse assassino. — levantou a mão, então a deixou cair, resistindo ao impulso de esfregá-la na cabeça raspada — Quando disse que não me desculparia por isso, quis dizer que não lamento ter matado esses bastardos. Mas, eu não... Eu não gosto que tenha essas imagens em sua cabeça. Apagaria isso de você, se pudesse. Apagaria isso tudo... Suportaria tudo isso em seu lugar. Realmente sinto muito que isto tenha te acontecido, Bela. Ok, lamento tudo isto, incluindo... A mim.

Deu-se conta de que isto era seu adeus. E, estava perdendo forças, por isso apressou suas últimas palavras.

— É uma fêmea de valor. — baixou a cabeça — E, sei que encontrará...

Um companheiro, acabou para si mesmo. Certo, uma fêmea como ela poderia com toda segurança encontrar um companheiro. De fato, havia um nesta casa que não só a desejava, só não era apropriado para ela. Porém, Phury estava perto à volta da esquina.

Z elevou a vista, tentando dirigir seus pés para fora do quarto... E, bater em retorno a porta.

Bela estava bem em frente a ele. Quando pegou seu perfume, seu coração saltou como uma lebre, fazendo com que algo bom revoasse nele, aturdindo-o.

— É verdade que limpou minha casa? — disse-lhe.

Oh, Deus... A única resposta que tinha para isso era muito reveladora.

— Fez?

— Sim, fiz.

— Agora, vou abraçar você.

Z se esticou, mas antes que pudesse separar-se de seu caminho, uns braços lhe envolveram a cintura e uma cabeça encostou-se a seu peito nu.

Permaneceu em seu abraço sem mover-se, sem respirar, sem devolver-lhe. Tudo o que podia fazer era sentir seu corpo. Ela era uma fêmea alta, mas menor que ele uns bons 16 centímetros. E, embora fosse magro para ser um guerreiro, tinha ao menos trinta e dois quilos a mais em seus ossos que ela. Ainda lhe sobressaltava.

Deus, cheirava tão bem.

Fez um barulhinho, como um suspiro, e se afundou em seu corpo ainda mais. Seus seios pressionavam contra seu torso, e quando olhou para baixo, a curva de sua nuca era malditamente tentadora. Então, ali apareceu o problema. Essa coisa deixada da mão de Deus estava endurecendo, inchando, alongando. Rapidamente.

Colocou as mãos sobre os ombros de Bela, revoando simplesmente sobre sua pele.

— Sim, ah, Bela... Tenho que ir.

— Por quê? — mais perto. Ela se aproximou. Movendo os quadris contra ele, apertando os dentes quando as partes inferiores de seus corpos contataram completamente.

Droga, ela tinha que sentir aquela coisa entre suas pernas. Como podia evitar? A ereção empurrava contra sua barriga, e não acreditava que a maldita calça escondesse ao bastardo.

— Por que tem que ir? — sussurrou com o fôlego roçando seus peitorais.

— Por que...

Quando deixou a palavra no ar, ela murmurou:

— Sabe, eu gosto.

— Você gosta do que?

Tocou um dos anéis dos mamilos.

— Deles.

Tossiu um pouco.

— Eu, ah… Eu mesmo os fiz.

— Ficam bem. — deu um passo para trás e deixou cair à toalha.

Z cambaleou. Era tão condenadamente bela, esses seios, esse estômago plano, esses quadris… E, essa pequena e grácil vulva entre suas pernas que viu com dispensável claridade. As poucas humanas com as quais tinha estado tinham cabelo ali, mas ela era de sua raça, assim estava completamente depilada, desgarradamente suave.

— Realmente tenho que ir. — disse roucamente.

— Não vá.

— Tenho que fazê-lo. Se ficar...

— Deite comigo. — disse, relaxando-se contra ele outra vez. Tirou a presilha do cabelo, e as ondas escuras se derramaram sobre os dois.

Fechou os olhos e jogou a cabeça para trás, em um intento de não ficar enterrado por seu perfume. Com voz resolvida, lhe respondeu:

— Só quer uma transa, Bela? Porque isso é tudo o que obterá de mim.

— Tem muito mais...

— Não, não tenho.

— Foi amável comigo. Cuidou de mim. Lavou-me e protegeu-me…

— Não me quer em seu interior.

— Já está, Zsadist. Seu sangue está dentro de mim.

Houve um longo silêncio.

— Conhece minha reputação?

Ela franziu o cenho.

— Isso não tem importância…

— O que as pessoas dizem de mim, Bela? Vamos, quero ouvir de você. Assim, saberei que o entende. — seu desespero foi evidente quando a pressionou, mas tinha que tirá-la do atordoamento no qual estava — Sei que ouviu algo sobre mim. As fofocas alcançam até seu nível social. Que dizem?

— Algo… Algo sobre que mata as fêmeas por esporte. Mas, não acredito…

— Sabe como consegui essa reputação?

Bela cobriu os seios e retrocedeu, negando com a cabeça. Ele se inclinou e lhe deu a toalha, então mostrou a caveira no canto do quarto.

— Matei esta fêmea. Agora me diga, pode tomar a um macho capaz de fazer algo assim? Um que pode machucar assim a uma fêmea? Quer esse tipo de bastardo em cima de você, bombeando em seu corpo?

— Era ela. — sussurrou Bela — Retornou e matou a ama, não?

Z estremeceu.

— Por um momento, pensei que isso me curaria.

— Não o fez.

Não, droga. Ela passou roçando-se nele e caminhou, a pressão aumentava nele até que abriu a boca para soltar:

— Um par de anos depois de partir, ouvi que ela… Droga, ouvi que tinha a outro macho nessa cela… Viajei sem parar durante dois dias, escondendo-me perto do amanhecer. — Z cabeceou. Não queria falar, realmente não queria, mas sua boca continuava em movimento — Jesus… Era tão jovem, tão jovem, como eu quando me tinha. Não tinha nenhuma intenção de matá-la, mas vinha andando justo quando eu fugia com o escravo. Logo que a vi… Soube que se não a golpeasse, chamaria aos guardas. Também soube que conseguiria outro varão e o prenderia ali e o… Ah, droga. Por que demônios estou contando isto?

— Amo você.

Z apertou seus já fechados olhos.

— Não é uma tragédia, Bela.

Deixou o quarto correndo, mas não foi além de quinze passos no corredor.

Ela o amava. Amava a ele?

Tolices. Pensava que amava. Logo que voltasse ao mundo real, ela se daria conta. Jesus, tinha saído de uma situação horrível e estava vivendo em uma fantasia ali no recinto. Nada disso fazia parte de sua vida, e passara muito tempo com ele.

E, ainda… Deus, queria estar com ela. Queria deitar-se a seu lado e beijá-la. Queria fazer inclusive mais que isso. Queria… Fazer tudo, beijar, tocar, chupar e lamber. Mas, onde exatamente ele pensava que levaria tudo isto? Inclusive, se tivesse a idéia de penetrá-la para o sexo, não podia arriscar-se a ejacular dentro dela.

Não que tivesse feito isso com alguma fêmea. Infernos, nunca tinha ejaculado sob nenhuma circunstância. Quando era um escravo de sangue, não ficava sexualmente excitado. E, depois quando esteve com as poucas prostitutas a quem tinha pago pra transar, nunca teve um orgasmo. Esses anônimos interlúdios eram somente experiências para comprovar que o sexo seguia sendo tão ruim como sempre.

Quanto a masturbar-se, não podia tocar essa maldita coisa para urinar, muito menos quando necessitava atenção. E, nunca quis aliviar-se a si mesmo, nunca tinha acordado sexualmente, inclusive quando “isso” estava duro.

Deus, tinham o destruído com essa droga de sexo. Que era como se houvesse um corte em seu cérebro.

A verdade é que tinha um montão deles, não?

Pensou em todos os espaços que tinha, os espaços em branco, os vazios onde os outros sentiam coisas. Quando se reduziu a isso, ele era só uma tela, mais vazada que sólida, as emoções que o golpeavam, apenas obtenção e reunião de cólera.

Só que não era completamente certo, não? Bela o fazia sentir coisas. Quando o tinha beijado antes, na cama, tinha feito ele se sentir… Quente e faminto. Muito masculino. Sexual, pela primeira vez em sua vida.

Saído de seu agudo desespero, algum eco do que tinha sido antes que a Mistress tivesse começado com ele, procurava seu espaço. Encontrou-se desejando outra vez esse sentimento que tinha obtido beijando Bela. E, queria excitá-la também. Desejava ela gemendo, sem fôlego e faminta.

Não era justo para ela… Mas, era um filho da puta, e estava ávido pelo que lhe tinha dado antes. Ela partiria logo. Só tinha esse dia.

Zsadist abriu a porta e entrou de novo.

Bela estava deitada na cama e obviamente surpresa por sua volta. Enquanto ela se sentava, sua visão lhe fez a decência retornar de repente. Como demônios poderia estar com ela? Deus, era tão… Bonita, e ele era um sujo, um sujo bastardo.

O momento passou, paralisou-se no meio do quarto. Prova que não era de tudo um bastardo, pensou. Mas, explicou primeiro.

— Desejo estar com você, Bela, e não só transar. – quando ela começou a dizer algo, silenciou-a levantando a mão — Por favor, só me escute. Desejo estar com você, mas não acredito que possa dar o que necessita. Não sou o homem adequado para você, e definitivamente não é o momento oportuno.

Soltou a respiração, pensando que era um completo idiota. Ali estava ele, lhe dizendo que não, brincando de ser um cavalheiro… Enquanto em sua mente, a jogava contra os lençóis e os substituíam com a manta de sua pele.

A coisa pendurava em frente de seus quadris golpeando como uma perfuratriz.

Como penetraria, perguntava-se, nesse doce e suave lugar entre suas pernas?

— Aproxime-se, Zsadist. — levantou as cobertas, descobrindo-se para ele — Pare de pensar. Vem para a cama.

— Eu… — palavras que nunca tinha falado a ninguém flutuavam sobre seus lábios, uma confissão, uma revelação perigosa. Afastou o olhar e sem pensar em nenhuma boa razão as deixou ir — Bela, quando era escravo as coisas foram… Ah, fizeram-me coisas. Drogas sexuais. — deveria deter-se agora mesmo — Houve varões, Bela. Contra minha vontade, houve varões.

Ouviu um pequeno ofego.

Isso era bom, pensou, inclusive quando se envergonhava. Possivelmente poderia obrigá-la a salvar-se a revoltando. Porque que fêmea poderia estar com um varão a quem fizeram esse tipo de coisas? Não era o ideal heróico. Nem muito menos.

Esclareceu a garganta e ficou olhando uma fresta no chão.

— Olhe, eu não… Não quero sua piedade. A razão pela qual contei isso não é te constranger. Só… Estou confuso. É como se tivesse os fios cruzados, sobre tudo… Já sabe, as fodidas coisas. Quero-te, mas não está certo. Não deveria estar comigo. Você é mais limpa que isso.

Houve um longo silêncio. Ah, droga… Tinha que olhá-la. No momento que o fez, ela levantou da cama como se estivesse esperando que levantasse os olhos. Caminhou para ele nua, nada sobre sua pele exceto a luz da única vela que ardia.

— Beije-me. — sussurrou na penumbra — Só me beije.

— Deus… O que está errado com você? — quando ela se sobressaltou, disse — Quero dizer, por quê? De todos os varões que poderia ter, por que eu?

—Desejo você. — pôs a mão sobre seu peito — É uma resposta natural e normal ao sexo oposto, não?

— Não sou normal.

— Sei. Mas, não é sujo, nem poluído nem indigno. — pegou suas trêmulas mãos e as colocou sobre seus ombros.

Sua pele era tão fina, a idéia de machucar a ela de alguma forma o congelou. Assim, como fez a imagem dele empurrando “isso” dentro dela. Porém, não deveria envolver a parte inferior de seu corpo, não? Isto poderia ser tudo para ela.

Oh, sim, pensou. Isto poderia ser por ela.

Virou-se e a apertou contra seu corpo. Com lentas carícias percorreu seu corpo de cima a baixo, pelas curvas da cintura e quadris. Quando ela arqueou a coluna e suspirou, pôde ver as pontas de seus seios por cima do ombro. Queria tocá-la ali… E, se deu conta que podia. Moveu suas mãos sobre a caixa torácica, sentindo o desenho dos ossos delicados até que as mãos envolveram os seios. A cabeça dela relaxou muito mais e sua boca abriu.

Quando se abriu assim para ele, teve o instinto de gritar, de entrar nela de qualquer forma possível. Em resposta, lambeu seu lábio superior enquanto fazia rodar um dos mamilos entre o polegar e o indicador. Imaginou-se colocando a língua à força em sua boca, entrando entre os dentes e presas, entrando nela dessa maneira.

Como se soubesse o que ele pensava, tratou de virar-se e ficar na frente dele, mas parecia muito perto de certa forma… Muito real que ela entregava-se a ele, que ia deixar alguém como ele fazer coisas íntimas, eróticas a seu corpo. Parou, agarrando-a pelos quadris e empurrando-a contra suas coxas. Rangeu os dentes sentindo seu traseiro contra a extensa ereção em suas calças.

— Zsadist… Deixe-me te beijar. — tentou virar-se outra vez e ele a deteve.

Quando lutou contra seu agarro, ele manteve-a em seu lugar facilmente.

— Será melhor para você desta maneira. Se não puder ver-me, será melhor.

— Não, não quero.

Baixou a cabeça até seu ombro.

— Se pudesse conquistar o Phury… Uma vez pareci com ele. Poderia fingir que era eu.

Liberou o corpo de suas mãos.

— Mas, não seria você. E, é você quem eu quero.

Enquanto ela o olhava com feminina espera, ele deu-se conta que se encaminhava para a cama, justo atrás dela. E, foi ao ponto. Mas, Deus… Não tinha nem idéia do que fazer para que ela sentisse prazer. Poderia muito bem ser virgem por toda merda que sabia sobre o prazer de uma fêmea.

Com essa pequena e feliz revelação, pensou sobre o outro varão que ela tinha tido, esse aristocrata, que sem dúvida sabia muito mais de sexo que ele. De um nada foi golpeado por um desejo totalmente irracional de perseguir a seu amante anterior e fazê-lo sangrar.

Oh... Demônios. Fechou os olhos. Oh... Merda...

— O que? — perguntou ela.

Esse tipo de impulso violento e territorial era característico do varão vinculado. A diferença de um, realmente.

Z levantou o braço e pôs o nariz em seus bíceps, respirando profundamente… O perfume vinculante saía de sua pele. Era fraco, provavelmente só reconhecível para ele, mas estava ali.

Droga. O que ia fazer agora?

Infelizmente, seus instintos responderam. Como se seu corpo gritasse, levantou-a e se encaminhou para cama.

 

Bela olhou o rosto de Zsadist enquanto a levava através do quarto. Seus olhos negros eram estreitas frestas, uma escura, erótica ânsia brilhava neles. Enquanto a deixava sobre a cama e olhava para seu corpo, ela teve o claro pensamento de que ele ia comê-la a viva.

Porém, só se inclinou sobre ela.

— Arqueie as costas para mim. — pediu.

Ok… Não era o que ela esperava.

— Arqueie as costas, Bela.

Sentindo-se estranhamente exposta, fez o que pedia, levantando seu corpo sobre o colchão. Enquanto ela se movia na cama, olhou à frente de sua cueca. Sua ereção deu um puxão violento, e a idéia de que ele logo estaria dentro dela a ajudou a relaxar.

Ele se inclinou e roçou um de seus mamilos com seus dedos.

— Quero isto em minha boca.

Uma deliciosa ânsia arraigou nela.

— Então, o beije.

— Shh. — o dedo viajou pelo meio de seus seios e desceu ao estômago. Deteve-se quando chegou ao umbigo. Com seu dedo indicador riscou um círculo pequeno ao redor do umbigo. Então, parou.

— Não pare. — gemeu ela.

Não o fez. Baixou mais, até que roçou o topo de sua fenda. Ela mordeu o lábio e esticou o corpo, aquele enorme guerreiro, com todos esses músculos totalmente duros. Deus… Ela estava realmente preparada para ele.

— Zsadist.

— Vou deitar sobre você. E, então não serei capaz de parar. — com a mão livre acariciou seus lábios, como se estivesse imaginando o ato — Está preparada para me deixar fazê-lo?

— Sim…

Ele riscou com um dedo o lado desfigurado de sua boca enquanto acariciava sua abertura.

— Desejaria ter um melhor aspecto para te oferecer. Porque você é perfeita aí embaixo. Sei.

Ela odiou a vergonha que veio com seu orgulho.

— Eu acredito que você é.

— Tem uma última oportunidade para me dizer que não, Bela. Se não fizer agora mesmo, vou estar sobre todas as suas partes. Não vou parar, e não acredito que possa ser gentil.

Ela manteve os braços longe dele. Ele assentiu uma vez, como se tivessem feito alguma espécie de pacto, e então foi ao final da cama.

— Separe as pernas. Quero te ver.

Um rubor nervoso se estendeu sobre ela.

Ele sacudiu a cabeça.

— Muito tarde, Bela. Agora… É muito tarde. Mostre-me.

Lentamente, ela levantou um de seus joelhos e foi se revelando gradualmente.

Seu rosto se enterneceu, a tensão e a dureza saíram dele.

— Oh… Deus… — sussurrou ele — É… Bonita.

Inclinando-se sobre os braços, espreitou pela cama para seu corpo, com os olhos fixos em sua pele secreta como se nunca tivesse visto algo assim. Quando acabou seu percurso, suas longas mãos nivelaram o caminho lhe levantando as coxas, abrindo-as inclusive mais.

Mas, então franziu o cenho e a olhou.

— Espere, supõe-se que tenha que beijar primeiro na boca, não? Quero dizer, os homens começam por cima e vão trabalhando para baixo, não o fazem assim?

Que estranha pergunta… Como se ele nunca tivesse feito assim.

Antes que ela pudesse responder, ele começou a retroceder, assim ela se sentou e capturou seu rosto entre suas mãos.

— Pode fazer o que quiser.

Os olhos dele cintilaram e manteve sua posição por uma fração de segundo.

Então, se equilibrou sobre ela, baixando à cama. Sua língua entrou em sua boca e enredou as mãos nos seus cabelos, esticando-a, arqueando-a, prendendo sua cabeça. A fome nele era feroz, a necessidade de sexo engrossava o sangue de um guerreiro. Ele ia arrebatá-la com toda força que tinha, e ela ia estar dolorida quando ele a possuísse. Dolorida e totalmente em êxtase. Ela não podia esperar.

De repente, ele parou e se separou de sua boca. Respirava profundamente e tinha as bochechas ruborizadas quando a olhou nos olhos.

E, então lhe sorriu.

Ela estava tão surpresa que não soube o que fazer. Nunca tinha visto essa expressão em seu rosto antes, e a elevação de sua boca eliminava a deformação no lábio superior, luzindo os dentes brilhantes e as presas.

— Eu gosto disto. — disse ele — Você debaixo de mim… É tão bom. É suave e morna. Peso muito? Aqui, me deixe…

Quando se sustentou com os braços, sua excitação pressionou contra o centro dela e seu sorriso se converteu rapidamente em uma respiração entrecortada. Era como se não gostasse da sensação, mas como podia ser isso? Ele estava excitado. Ela podia sentir sua ereção.

Com um ágil movimento, ele se reposicionou de forma que as pernas dela ficaram fechadas e os joelhos dele de cada lado dela. Ela não podia adivinhar o que tinha acontecido, mas a qualquer lugar aonde tivessem ido seus pensamentos, não era um bom lugar.

— É perfeito em cima de mim. — disse para distraí-lo — Exceto por uma coisa.

— O que?

— Você parou. Tire a cueca.

Seu peso baixou sobre ela imediatamente e sua boca foi para um lado do seu pescoço. Quando mordiscou sua pele, ela inclinou a cabeça no travesseiro e descobriu a coluna de sua garganta. Agarrando-o pela parte de atrás da cabeça, apertou-o contra sua veia.

— Oh, sim… — gemeu ela, querendo que ele se alimentasse.

Ele fez um ruído que era um não, mas antes que o rechaço pudesse murmurar através dela, estava beijando-a descendo por sua clavícula.

— Quero pegar seus seios. — disse ele contra sua pele.

— Faz.

— Precisa saber algo primeiro.

— O que?

Ele levantou a cabeça.

— À noite em que veio aqui… Quando te banhei? Fiz tudo o que pude para não te olhar. Realmente o fiz. Cobri-te com uma toalha, inclusive quando estava na água.

— Isso foi amável.

— Mas, quando a tirava… Vi estes. — sua mão capturou um de seus seios — Não pude evitar. Juro. Tentei permitir sua modéstia, mas você estava… Não podia deter meus olhos. Seu mamilo estava arrepiado pelo ar frio. Tão pequeno e rosado. Adorável.

Ele moveu o polegar de um lado a outro sobre seu duro topo, perturbando sua mente.

— Tudo bem. — murmurou ela.

— Não está. Estava indefesa e era incorreto te olhar.

— Não, se era você.

Ele se moveu e sua ereção pressionou no topo de suas coxas.

— Isto ocorreu.

— Que ps… Oh, excitou-te?

Apertou a boca.

— Sim. Não pude conter-me.

Ela sorriu um pouco.

— Mas, não fez nada, não é mesmo?

— Não.

— Então, está tudo bem. — arqueou as costas e viu como seus olhos se cravavam em seus seios — Beije-me, Zsadist. Justo onde está olhando. Justo agora.

Seus lábios separaram, e sua língua seguiu seu caminho enquanto se inclinava. Sua boca era cálida sobre sua pele, e tão vacilante, beijando, para depois sugar o mamilo dentro dela. Ele tirou, depois percorreu um lânguido círculo ao redor, depois o levou dentro de novo… E, todo o tempo suas mãos lhe acariciavam a cintura, os quadris e as pernas.

Que irônico que estivesse preocupado por não ser gentil. Longe de ser brutal, era positivamente reverente enquanto amamentava, suas pestanas sobre as bochechas enquanto a saboreava, seu rosto adorável e absorto.

— Cristo. — murmurou ele movendo-se para o outro seio — Não tinha nem idéia de que pudesse ser assim.

— Como… Assim? — Oh, Deus… Sua boca…

— Poderia te lamber para sempre.

Ela agarrou sua cabeça com as mãos, aproximando-o mais. Levou algum tempo, mas conseguiu tirar uma de suas pernas debaixo dele de forma que ele estava quase enterrado no berço de seu corpo. Morria por sentir sua excitação, porém ele apenas roçava seu corpo sobre o dela.

Quando ele se afastou, protestou, mas suas mãos foram ao interior de suas coxas e se moveu para descer sobre seu corpo. Quando ele separou suas pernas, o colchão começou a tremer embaixo dela.

Todo o corpo de Zsadist tremia enquanto a olhava.

— É tão delicada… E, brilha.

O primeiro movimento de seu dedo descendo para seu centro quase a lançou ao final. Quando ela deixou escapar um som rouco, seus olhos flamejaram fixos nos dela e amaldiçoou.

— Maldita seja, não sei o que estou fazendo. Estou tentando ser cuidadoso.

Ela o puxou pela mão antes que pudesse separá-la.

— Mais…

Ele pareceu duvidar por um momento. Então, a tocou de novo.

— É perfeita. E, Deus, é suave. Tenho que saber...

Ele se inclinou, os ombros dele esticaram duramente. Ela sentiu um roce de veludo.

Seus lábios.

Esta vez quando ela saltou na cama e disse seu nome, ele só pressionou outro beijo sobre ela de novo, e depois disso, o úmido golpe de sua língua. Quando ele levantou a cabeça e engoliu, o grunhido de êxtase que fez quase lhe pára o coração. Seus olhos se encontraram.

— Oh… Jesus… É deliciosa. — disse ele, baixando de novo sua boca.

Ele se estendeu na cama, passando os braços por debaixo dos joelhos dela aumentando o espaço entre suas coxas… Um homem que não ia a nenhum lugar durante muito tempo. Seu fôlego era quente e necessitado, a boca faminta e desesperada. Ele a explorou com uma necessidade erótica, lambendo e tateando com a língua, chupando com os lábios.

Quando seus quadris investiram, colocou um de seus braços sobre seu estômago, prendendo-a no lugar. Ela ondeou-se outra vez e ele se deteve sem levantar a cabeça.

— Está bem? — perguntou ele, a áspera voz amortecida, as palavras vibrando em seu centro.

— Por favor… — foi o único que lhe veio à mente.

Ele foi para trás um pouco, e tudo o que ela pôde fazer foi olhar os lábios brilhantes e pensar em onde tinham estado.

— Bela, não acredito que possa parar. Há um… Rugido em minha cabeça me dizendo que mantenha minha boca em você. Como posso fazer isto… Prazeroso para você?

— Faça-me… Gozar. — disse ela com voz rouca.

Ele piscou, como se estivesse surpreso.

— Como te faço gozar?

— Simplesmente continue o que estava fazendo. Só que mais rápido.

Ele aprendeu com muita rapidez enquanto descobria o que a fazia ficar selvagem, e foi desumano quando descobriu como lhe dar um orgasmo. Impulsionou-a duramente, olhando como ela explodia de prazer uma vez, duas vezes… Muitas vezes. Foi como se ele se alimentasse de seu prazer e fosse insaciável.

Quando levantou finalmente a cabeça, ela estava sem energia.

Ele a olhou seriamente.

— Obrigado.

— Deus… Sou eu que deveria estar dizendo isso.

Ele sacudiu a cabeça.

— Permitiu a um animal estar em sua parte mais bonita. Sou o único que deve sentir gratidão.

Ele se separou de seu corpo, com aquele rubor ainda nas bochechas. Aquela ereção ainda tensa.

Ela estendeu os braços.

— Aonde vai? Não acabamos.

Quando ele vacilou, ela recordou. Rodou sobre seu estômago e ficou engatinhando, uma oferta descarada. Quando ele não se moveu, olhou para trás. Ele tinha fechado os olhos como se sofresse, e isso a confundiu.

— Sei que só faz desta maneira.— disse ela brandamente — Isso é o que me disse. Está bem para mim. De verdade. — houve um longo silêncio — Zsadist, eu quero terminar isto entre nós. Quero te conhecer… Assim.

Ele esfregou o rosto. Ela pensou que ele ia sair, mas então se moveu rodeando-a até que ficou atrás dela. Suas mãos caíram brandamente sobre seus quadris e ele pediu que ela deitasse, sobre suas costas.

— Mas, você só…

— Não com você. — sua voz era áspera — Não desta forma, não com você.

Ela abriu as pernas, preparando-se para ele, mas ele só se sentou sobre os tornozelos.

Seu fôlego saía entrecortado.

— Deixe-me colocar uma camisinha.

— Por quê? Não estou fértil agora, assim não precisa. E, quero que você… Termine.

Suas sobrancelhas baixaram sobre seus olhos negros.

— Zsadist… Isto não foi suficiente para mim. Quero estar com você.

Ela esteve a ponto de levantar-se para ele quando ele se ajoelhou e levou as mãos à frente de suas calças de esporte. Manuseou o cordão e então o tirou para fora.

Bela tragou duramente.

Sua excitação era enorme. Uma perfeita, formosa e sólida rocha como uma aberração da natureza.

Sagrado… Moisés. Ela podia ajustar-se?

Suas mãos tremiam enquanto enganchava as calças sob os testículos. Então inclinou seu corpo, posicionando-se em seu centro.

Quando ela estendeu a mão para acariciá-lo, ele se afastou com um puxão.

— Não! — quando ela recuou, ele amaldiçoou — Sinto… Olhe, só deixe que eu me ocupe disto.

Ele moveu seus quadris para frente e ela sentiu a cabeça grossa e quente contra ela. Passou-lhe uma mão por debaixo de um dos joelhos e lhe estendeu mais a perna, então se introduziu um pouco, depois um pouco mais. Enquanto o suor cobria todo seu corpo, uma escura essência chegou até seu nariz. Por um momento, ela se perguntou se…

Não, não podia estar unindo-se a ela. Não estava em sua natureza.

— Deus... É tão apertada. — resmungou ele — Oh… Bela, não quero te despedaçar.

— Continue entrando. Só vai devagar.

Seu corpo se agitou sob a pressão e o esticamento. Inclusive, estando tão preparada, ele era uma invasão, mas ela adorou, especialmente quando o fôlego dele explodiu saindo do peito e tremeu. Quando estava completamente dentro dela, sua boca se abriu, com as presas alargando-se pelo prazer que sentia.

Ela deslizou as mãos por seus ombros, sentindo os músculos e a calidez dele.

— Está tudo bem? — perguntou ele através dos dentes apertados.

Bela comprimiu um beijo em um lado do pescoço e girou os quadris. Ele gemeu.

— Faça-me amor. — disse ela.

Ele gemeu e começou a mover-se como uma grande onda em cima dela, com essa parte grossa e dura dele acariciando seu centro.

— Oh, droga… — ele deixou a cabeça cair em seu pescoço. Seu ritmo se intensificou, seu fôlego saía com força, precipitando-se em seu ouvido — Bela… Droga, temo que… Mas, não posso… Parar…

Com um gemido ele se sustentou sobre os braços e permitiu aos seus quadris balançarem-se livremente, cada impulso cravando-o contra ela, empurrando-a mais para cima na cama. Ela se agarrou em seus pulsos para manter seu corpo no lugar sob o assalto. Enquanto ele investia, ela podia sentir como se aproximava do limite de novo, e quanto mais rápido ele ia, mais ela se aproximava.

O orgasmo explodiu em seu centro, depois atravessou seu o corpo, a força que se estendeu para ela foi imensa, ampla e prolongada. As sensações duraram uma eternidade, as contrações de seus músculos internos se agarravam à parte dele que a penetrava.

Quando ela retornou a sua própria pele, deu-se conta que ele estava imóvel, completamente gelado em cima dela. Piscando para afastar as lágrimas, estudou seu rosto. Os ângulos duros estavam tensos, assim como o resto de seu corpo.

— Machuquei-te? — perguntou apertadamente — Gritou alto.

Ela tocou seu rosto.

— Não de dor.

— Graças a Deus. — seus ombros relaxaram enquanto exalava — Não poderia suportar se te ferisse dessa forma.

Ele a beijou brandamente. E, então se retirou e desceu da cama, subindo os calções enquanto entrava no banheiro e fechava a porta.

Bela franziu o cenho. Ele tinha ejaculado? Parecia estar completamente ereto enquanto se retirava.

Ela deslizou para fora da cama e olhou para baixo. Quando viu que não havia nada entre suas coxas, vestiu o roupão e foi atrás dele, sem nem sequer incomodar-se em bater.

Os braços de Zsadist estavam apoiados no lavabo, a cabeça pendurada. Respirava com dificulta e parecia febril, a pele escorregadia, sua postura antinatural, tensa.

— O que é, nalla? — disse ele com um rouco sussurro.

Ela parou insegura de que tivesse ouvido bem. Mas, ele havia… Amada. Tinha-lhe chamado amada.

— Por que você não…? — ela não parecia poder concretizar as demais palavras — Por que parou antes que você…?

Quando ele só sacudiu a cabeça, foi até ele e lhe deu a volta. Através dos calções podia ver que sua excitação pulsava dolorosamente rígida. De fato, parecia que o corpo inteiro lhe doía.

— Deixe-me te ajudar. — disse, tocando-o.

Ele recuou contra a parede de mármore entre a ducha e o lavabo.

— Não, não o… Bela…

Ela pegou o roupão com as mãos e começou a ajoelhar-se a seus pés.

— Não! — ele a arrastou para cima.

Ela o olhou diretamente nos olhos e foi até sua braguilha.

— Deixe-me fazer isto por você.

Ele pegou suas mãos e apertou seu pulso até que doeram.

— Quero fazer isto, Zsadist. — disse com intensidade — Deixe-me cuidar de você.

Houve um longo silencio, e ela passou esse tempo avaliando o problema, o desejo e o medo nos olhos dele. Um golpe frio a atravessou. Não podia acreditar no que estava pensando, mas ela tinha realmente a vívida impressão de que ele nunca tinha se permitido ter um orgasmo antes. Ou estava precipitando-se ao tirar conclusões?

Possivelmente. Não era como se fosse perguntar-lhe. Ele vacilava a ponto de sair correndo, e se ela dissesse ou fizesse algo incorreto, ele ia sair do quarto.

— Zsadist, não quero te machucar. E, você pode ficar no controle. Pararemos se não se sentir bem. Pode confiar em mim.

Passou muito tempo antes que diminuísse o apertão nos seus pulsos. E, então finalmente ele a soltou e a aproximou de seu corpo. Titubeando, ele baixou os calções.

Aquela excitação saltou ao espaço entre eles.

— Só pegue. — disse ele com a voz partida.

— A você. Pegarei a você.

Quando ela o envolveu em suas mãos, ele deixou escapar um gemido, e sua cabeça retrocedeu. Deus, ele estava duro. Duro como ferro, entretanto rodeado de pele suave como a de seus lábios.

— É…

— Shh. — cortou-a — Sem… Falar. Não posso… Sem falar.

Ele começou a mover-se dentro de seu punho. Lentamente a princípio, e depois com crescente urgência. Pegou seu rosto entre as mãos e a beijou, e então seu corpo o dominou completamente com um bombeamento selvagem. Ele estava enlouquecendo, disparando-se mais e mais alto, seu peito e seus quadris eram tão bonitos enquanto se moviam com aquele antigo e encrespado movimento masculino. Mais rápido… Mais rápido… Lançando-se para frente e para trás…

Porém, alcançou algum tipo de estágio. Ele se esforçava, as cordas do pescoço quase abrindo caminho pela pele, seu corpo coberto de suor. Mas, parecia que não podia gozar.

Ele parou, ofegando.

— Isto não vai funcionar.

— Simplesmente relaxe. Relaxe e deixe que ocorra…

— Não. Necessito… — pegou uma das mãos dela e a colocou sobre seus testículos — Aperte. Aperte forte.

Os olhos de Bela levantaram para seu rosto.

— O que? Não quero te machucar…

Ele envolveu a mão dela com a sua como um parafuso e retorceu seus punhos até que gritou. Então, lhe sustentou o outro pulso, mantendo a palma da mão dela contra sua ereção.

Ela lutou contra ele, brigando para parar a dor que ele infringia a si mesmo, mas ele estava bombeando de novo. E, quanto mais duramente ela queria afastar-se, mais ele apertava sua mão na mais tenra parte de um homem. Seus olhos se alargaram sem piscar ante o ato, a agonia que ele devia…

Zsadist gritou, sua ruidosa exclamação ricocheteou no mármore até que ela ficou segura que todos na casa o tinham ouvido. Então, ela sentiu os poderosos espasmos de sua liberação, pulsos quentes umedecendo suas mãos e a frente do roupão.

Ele caiu sobre seus ombros, seu imponente corpo caindo sobre ela. Respirava como um trem de carga, os músculos tremiam, seu grande corpo estremecia com réplicas. Quando soltou as mãos dela, ela teve que separar a palma de seu testículo.

Bela estava gelada até os ossos enquanto suportava seu peso.

Algo feio tinha brotado entre eles neste momento, algum tipo de doença sexual que turvou a distinção entre o prazer e a dor. E, embora isso a fizesse cruel, quis fugir dele. Quis fugir do vergonhoso conhecimento de que lhe tinha machucado porque ele a tinha obrigado a fazer e que tinha tido seu orgasmo por isso.

Porém, a respiração dele se cortou em um soluço. Ou ao menos assim pareceu.

Ela conteve a respiração, escutando. O suave som voltou, e sentiu o tremor de seus ombros.

Oh, meu Deus. Estava chorando...

Ela o envolveu com seus braços, recordando-se que ele não tinha pedido para ser torturado como tinha sido. Nem havia se oferecido como voluntário aos efeitos secundários.

Ela tentou levantar a cabeça dele para beijá-lo, mas ele lutou contra ela, aproximando-a, escondendo-se em seu cabelo. Ela o embalou, sustentando-o e consolando-o enquanto ele lutava para mascarar o fato de que estava chorando. Finalmente, ele se moveu para trás e esfregou o rosto com as mãos. Evitou encontrar seu olhar enquanto se esticava e caminhava para a ducha.

Com um rápido puxão lhe tirou o roupão do corpo, fez uma bola com ele e o jogou no lixo.

— Espere, eu gosto desse roupão.

— Eu te comprarei um novo.

A instigou a entrar debaixo d’água. Quando ela resistiu levantou-a facilmente e a colocou sob o jorro, e começou a ensaboar suas mãos sem dissimular seu pânico.

— Zsadist, pare. – separou-se dele, mas ele a agarrou — Não estou suja… Zsadist, pare. Não preciso ser lavada, porque você…

Ele fechou os olhos.

— Por favor… Tenho que fazer isso. Não posso te deixar toda… Coberta com esta porcaria.

— Zsadist. — estalou ela — Olhe-me. — quando ele o fez disse — Isto não é necessário.

— Não sei mais o que fazer.

— Volte para a cama comigo. — ela fechou a torneira — Abrace-me. Deixe-me te abraçar. É a única coisa que precisa fazer.

E, francamente, ela também o necessitava. Estava estremecida até seu coração.

Ela pegou uma toalha ao redor e o empurrou para o dormitório. Quando estavam embaixo das cobertas, ela deitou junto a ele, mas estava tão tensa quanto ele. Tinha pensado que a proximidade podia ajudar. Não.

Depois de um longo tempo a voz dele lhe chegou através da escuridão.

— Se houvesse sabido como tinha que ser, nunca teria permitido que acontecesse.

Ela virou o rosto para ele.

— É a primeira vez que acontece?

O silêncio não foi uma surpresa. Então, finalmente respondeu.

— Sim.

— Alguma vez deste prazer a ti mesmo? — sussurrou, embora conhecesse a resposta. Deus… O que deviam ter sido aqueles anos como escravo de sangue. Todos aqueles abusos… Quis chorar por ele, mas sabia que lhe faria sentir-se incômodo.

Ele exalou.

— Eu não gosto de tocá-lo, absolutamente. Francamente, odeio o fato de que tenha estado dentro de você. Eu gostaria que estivesse em uma banheira agora, rodeada de desinfetante.

— Amei estar com você. Estou contente de que tenhamos transado. — só tive dificuldade com o que veio depois — Mas, sobre o que ocorreu no banheiro…

— Não quero que seja parte disso. Não quero você me fazendo isso que faz que eu… Não quero que conviva com isso.

— Eu gostei de te dar prazer. É só que… Preocupou-me muito te machucar. Possivelmente poderíamos tentar…

Ele se afastou.

— Sinto… Tenho que… Vou ver o V. Tenho trabalho a fazer.

Ela o pegou pelos braços.

— O que acontece se disser que penso que você é bonito?

— Diria que está em cima de uma onda de compaixão e isso me encheria o saco.

— Não tenho pena de você. Desejava que tivesse ejaculado dentro de mim, e acredito que é magnífico quando está excitado. É grosso e comprido, e eu esta morrendo de vontade de tocar em você. Ainda estou. E, quero tomar você em minha boca. Que tal isso?

Ele deu de ombros para soltar-se e ficou de pé. Com rápidos e bruscos movimentos se vestiu.

— Se precisa projetar uma luz diferente sobre este ato sexual para que possa tratá-lo, está bem. Mas, agora está mentindo para você mesma. Em algum momento, despertará ao fato de que ainda é uma fêmea de valor. E, então vai lamentar esta merda de transar comigo.

— Não farei.

— Espere.

Ele saiu pela porta antes que ela pudesse encontrar as palavras apropriadas para fazê-lo retornar.

Bela cruzou os braços e balbuciou com frustração. Então, chutou as mantas. Maldição, que calor fazia neste quarto. Ou possivelmente ela estivesse muito estimulada, estava oprimida pela química interior.

Incapaz de ficar na cama, vestiu-se e desceu pelo corredor das estátuas. Não importava onde acabasse, só queria sair e afastar-se desse calor.

 

Zsadist parou no túnel subterrâneo, a meio caminho entre a casa principal e a área de Vishous e Butch.

Quando olhou para trás, não viu nada exceto uma fileira de luzes no teto. Em frente havia mais do mesmo, uma fileira de placas resplandecentes que seguiam e seguiam. As portas, pela qual tinha entrado e pela qual devia sair, eram invisíveis para ele.

Bom, isso não era uma droga de uma perfeita metáfora da vida.

Sentou-se contra a parede de aço do túnel, sentindo-se preso apesar do fato de não estar retido por nada e por ninguém.

Oh, mas que loucura. Bela estava agarrando-o, prendendo-o, o amarrado com seu bonito corpo e seu coração amável a essa ilícita quimera de amor que resplandecia em seus olhos cor safira. Preso… Estava tão preso.

Com uma repentina mudança, sua mente se focou na noite em que Phury finalmente o tirou da escravidão.

Quando a Mistress apareceu com outro macho, o escravo se mostrou desinteressado. Depois de dez décadas, os olhos de outros machos já não lhe incomodavam, e as violações e invasões não tinham novos horrores para lhe ensinar. Sua existência era um trecho de constante queda para o inferno, o único repouso real na infinita natureza de seu cativeiro.

Mas, então havia sentido algo estranho. Algo… Diferente. Tinha virado a cabeça e olhado ao estranho. O primeiro que pensou era que o homem era enorme e vestido com luxo, assim tinha que ser um guerreiro. O seguinte foi que esses olhos amarelos o estavam olhando com uma vergonhosa pena. Na verdade, o estrangeiro que permanecia na porta tinha empalidecido até que sua pele pareceu de cera.

Quando o aroma do ungüento assaltou o nariz do escravo, voltou a olhar o teto, pouco interessado no que ocorreria a seguir. Mesmo assim, quando sua masculinidade foi manipulada uma quebra de onda de emoção surgiu na habitação. Voltou a olhar ao homem que estava dentro da cela. O escravo franziu o cenho. O guerreiro estava procurando uma adaga e olhando a Mistress como se fosse matá-la…

A outra porta se abriu de repente e um dos cortesãos falou em pânico. De repente, a cela encheu de guardas, armas e fúria. A Mistress foi agarrada bruscamente pelo macho à frente do grupo e esbofeteada tão duramente que bateu contra a parede. Então, o macho foi para o escravo desembainhando uma faca. O escravo gritou enquanto a lâmina era passada em seu rosto. Uma ardente dor cortou a testa, o nariz e a bochecha, então a escuridão o reclamou.

Quando o escravo recuperou a consciência, estava pendurado pelo pescoço, o peso de seus braços, pernas e torso o estrangulavam lhe tirando o direito à vida. Sua lucidez mental foi como se seu corpo soubesse que era seu último fôlego e o tivesse despertado no caso de seu cérebro poder ajudar. Uma penosa tentativa de resgate, ele pensou.

Querida Virgem, não deveria sentir dor? E, se perguntou se tinha sido salpicado com água, porque sua pele estava úmida. Então se deu conta de algo grosso gotejava nos seus olhos. Seu sangue. Estava coberto por seu próprio sangue.

E, o que era todo esse ruído ao redor dele? Espadas? Lutas?

Enquanto se asfixiava, levantou os olhos, e por uma fração de segundo todo tipo de sufoco o abandonou. O mar. Estava olhando ao vasto oceano. A alegria se elevou durante um momento… E, então sua visão nublou-se pela falta de ar. Suas pálpebras vacilaram e ele cedeu, pensando que estava agradecido por ter visto o mar uma vez mais antes de morrer. Ponderou vagamente se o Fade seria algo como este vasto horizonte, uma expansão infinita que era de uma vez inconquistável e um lar.

Justo quando via uma brilhante luz branca ante ele, a pressão em sua garganta cedeu e seu corpo foi manipulado bruscamente. Houve gritos e sacudidas, então uma trepidante e robusta cavalgada que terminou abruptamente. Durante o caminho, a agonia floresceu por todas as suas partes, assaltando seus ossos, golpeando como torpes punhos que o massacravam.

Dois disparos de um fuzil. Um grunhido de dor que não era dele. E, então um gemido e uma explosão de vento em suas costas. Cair… Ele estava no ar, caindo…

Oh, Deus, o mar. O pânico se estendeu por ele. O sal…

Sentiu o duro amortecimento da água só por um momento antes que a sensação do mar tocando sua pele em chagas sobrecarregasse sua mente. Desmaiou.

Quando voltou a si de novo, seu corpo não era mais que um saco frouxo cheio de dores. Deu-se conta confusamente que estava congelando de um lado e moderadamente quente do outro, e se moveu para ver se podia. Logo que o fez, sentiu que a calidez contra ele mudava em resposta… Estava em um abraço. Um homem estava contra suas costas.

O escravo empurrou violentamente o corpo para longe do dele e se arrastou pela terra. Sua visão empanada lhe mostrou o caminho, alcançando um canto arredondado na escuridão, lhe dando algo onde esconder suas costas. Quando estava resguardado respirou apesar do tormento em seus órgãos vitais, cheirando o salitre do mar e a desagradável podridão de peixes mortos.

E, também um aroma estanho. Um intenso, e estanho…

Ele apareceu na esquina da rocha. Embora seus olhos estivessem débeis, era capaz de reconhecer a figura do homem que tinha ido à cela com a Mistress. O guerreiro se incorporava contra a parede agora, seu cabelo comprido pendurava em tiras abaixo dos largos ombros. Suas elegantes roupas estavam rasgadas, e seu fixo olhar amarelo resplandecia com pena.

Esse era o outro aroma, pensou o escravo. Essa emoção triste que o homem estava sentindo tinha um cheiro.

Quando o escravo cheirou outra vez sentiu um estranho puxão no rosto, e levantou as pontas dos dedos até a bochecha. Havia um corte, uma linha rígida na pele… Seguiu até a testa. Então, para baixo aos lábios. E, recordou a lâmina da faca que vinha para ele. Recordou-se gritando enquanto o cortava.

O escravo começou a tremer e se envolveu em seus braços.

— Deveríamos nos dar calor um ao outro. — disse o guerreiro — Sinceramente, isso é tudo o que estava fazendo. Não tenho… Planos para você. Mas, te ajudaria se pudesse.

Todos os machos da Mistress queriam ficar com o escravo. Era por isso que ela os trazia. Ela gostava de olhar, também…

Mas, então o escravo recordou do guerreiro levantando a adaga, parecendo como se fosse estripar a Mistress como a um porco.

O escravo abriu a boca e perguntou com voz rouca:

— Quem é você, senhor?

A boca não funcionava como antes, e suas palavras foram confusas. Tentou outra vez, mas o guerreiro o cortou.

— Escutei sua pergunta. — o estanhado aroma da tristeza ficou mais forte até que anulou inclusive o fedor do pescado — Sou Phury. Sou… Seu irmão.

— Não. — o escravo sacudiu a cabeça — Na verdade, eu não tenho família. Senhor.

— Não, eu não sou… — o macho esclareceu a garganta — Eu não sou seu senhor. E, sempre teve uma família. Foi raptado. Procurei por você durante um século.

— Temo que esteja equivocado.

O guerreiro se moveu como se fosse levantar, e o escravo deu um salto para trás, baixando seus olhos e cobrindo a cabeça com os braços. Não poderia suportar ser golpeado outra vez, inclusive se o merecesse por sua insubordinação.

Rapidamente, ele disse com sua nova forma enredada:

— Não pretendia ofendê-lo, senhor. Eu lhe oferecia só meu respeito por sua melhor posição.

— Doce Virgem nas alturas. — um ruído estrangulado veio através da cova — Não te baterei. Está a salvo… Comigo, está a salvo. Foi encontrado, irmão.

O escravo sacudiu a cabeça outra vez, incapaz de escutar nada disso, porque se deu conta de repente do que ia acontecer ao anoitecer, o que tinha que acontecer. Era propriedade da Mistress, o que significava que teria que ser devolvido.

— Suplico ao senhor, — gemeu — não me devolva a ela. Mate-me agora… Não me mande de volta a ela.

— Matarei a ambos antes de permitir que volte a ficar ali de novo.

O escravo levantou o olhar. Os olhos do guerreiro ardiam através da escuridão.

O escravo olhou fixamente o brilho enquanto o tempo passava. E, então recordou, fazia muito, muito tempo, quando despertou pela primeira vez depois de sua transição em seu cativeiro. A Mistress lhe disse que adorava seus olhos… Seus olhos amarelo canário.

Entre sua espécie, havia muito poucos com a íris de cor dourada brilhante.

As palavras e as ações do guerreiro começaram a penetrar. Por que um estranho brigaria para libertá-lo?

O guerreiro se mexeu, escoiceou, e agarrou uma das coxas.

A parte de baixo de sua perna tinha desaparecido.

Os olhos do escravo aumentaram ante o membro perdido. Como tinha salvado o guerreiro a ambos na água com essa ferida? Ele teria que esforçar-se para manter-se simplesmente flutuando. Por que não tinha deixado simplesmente o escravo ir-se?

Só um laço de sangue podia engendrar esse tipo de falta de egoísmo.

— É meu irmão? — disse o escravo entre dentes através de seus lábios destroçados — Verdadeiramente, sou de seu sangue?

— Ora! Sou seu gêmeo.

O escravo começou a tremer.

— Mentira.

— Verdade.

Um curioso temor se instalou sobre o escravo, congelando-o. Enroscou-se em si mesmo apesar da fria carne que o cobria da cabeça aos pés. Nunca tinha lhe ocorrido que fosse outra coisa que não um escravo, que podia ter tido a oportunidade de viver de forma diferente… Viver como um homem, não como uma propriedade.

O escravo se balançava de lá para cá na sujeira. Quando parou, olhou uma vez mais ao guerreiro. O que sabia a respeito de sua família? Por que tinha acontecido isto? Quem era ele? E…

— Sabe se tinha um nome? — murmurou o escravo — Foi me dado alguma vez um nome?

O guerreiro delineou uma áspera respiração, como se uma de suas costelas estivesse quebrada.

— Seu nome é Zsadist. — a respiração do guerreiro se cortava até suas palavras se estrangularam — É filho… De Ahgony, um grande guerreiro. É o amado de nossa… Mãe, Naseen.

O guerreiro deixou sair um desventurado soluço e deixou cair à cabeça entre as mãos.

Enquanto ele chorava, o escravo o olhava.

Zsadist sacudiu a cabeça, recordando aquelas silenciosas horas que tinham seguido. Phury e ele tinham passado a maior parte do tempo simplesmente olhando um ao outro. Os dois estavam em má forma, mas Phury era o mais forte deles, inclusive com o membro amputado. Tinha reunido madeira flutuante e fios de algas marinhas e tinha juntado as coisas em uma balsa raquítica que não dava confiança. Quando o sol tinha caído se arrastaram pela costa para a liberdade.

Liberdade.

Sim, bom. Não era livre, nunca tinha sido. Aqueles anos perdidos tinham permanecido com ele, a fúria sobre o que lhe tinham extorquido e sobre o que lhe tinham feito estava mais viva do que ele.

Tinha ouvido Bela dizendo que o amava. E, quis lhe gritar algo.

Em vez disso, foi para a Cova. Não tinha nada digno dela exceto sua vingança, assim estaria malditamente bem que voltasse ao trabalho. Queria ver todos os lessers esmagados ante ele, empilhados na neve como troncos, um legado era o único que lhe podia oferecer.

E, para aquele que a pegou, que a feriu, haveria uma morte especial esperando-o. Z não tinha amor para dar a ninguém. Mas, o ódio que sentia o canalizaria por Bela até o último fôlego de seus pulmões.

 

Phury acendeu o cigarro e jogou um olhar aos dezesseis frascos de Aqua Net que estavam alinhadas na mesa de café de Butch e V.

— O que estão fazendo com spray de cabelo? Vão aborrecer os meninos?

Butch sustentava o tubo de PVC enquanto o perfurava.

— Um lançador de batatas, homem. Muito divertido.

— Perdão?

— Alguma vez foi a um acampamento de verão?

— As cestas de piqueniques e a oficina de madeira são para humanos. Não te ofenda, mas nós temos melhores coisas para ensinar a nossos jovens.

— Tá! A gente não viveu até ir a uma incursão de calças à meia-noite. De toda forma, põe a batata no final, enche a base com spray…

— E, então o acende. — cortou V de seu quarto. Saía em um roupão, esfregando uma toalha no cabelo úmido — Faz muito barulho.

— Um grande barulho. — repetiu Butch.

Phury olhou a seu irmão.

— V, fez isto antes?

— Sim, a noite passada. Mas, o lançador entupiu.

Butch amaldiçoou.

— A batata era muito grande. Malditos padeiros de Idaho. Vamos enfrentar a corte vermelha esta noite. Isto vai ser magnífico. É obvio, a trajetória pode ser uma puta…

— Mas, realmente é como o golfe. — disse V, soltando a toalha sobre uma cadeira. Vestiu uma luva na mão direita, cobrindo as tatuagens sagradas que lhe marcavam da mão às pontas dos dedos e todo o dorso — Quero dizer, deve pensar em seu arco no ar…

Butch assentiu destrambelhando.

— Sim, é como golfe. O vento tem um grande papel…

— Enorme.

Phury fumou enquanto eles terminavam as frases um do outro durante um par de minutos. Depois de um momento se sentiu obrigado a mencionar:

— Vocês dois estão passando muito tempo juntos, entendem-me?

V sacudiu a cabeça olhando o policial.

— O irmão não aprecia este tipo de coisas. Nunca o fez.

— Então, apontaremos para seu quarto.

— É verdade. E, está na frente do jardim…

— Assim não teremos que nos ocupar dos carros do pátio. Excelente.

A porta do túnel se abriu balançando-se, e os três se viraram.

Zsadist estava na entrada… E, o aroma de Bela estava sobre ele. Junto com a sufocante fragrância de sexo. Assim como com a mais ligeira insinuação da marca de união.

Phury se esticou e aspirou profundamente. Oh, Deus… Tinham estado juntos.

Cara, a necessidade de correr pela casa e verificar que ela ainda estava respirando eram quase irresistíveis. Assim como o desejo de esfregar o peito até que desaparecesse o doloroso buraco.

Seu gêmeo tivera a única coisa que Phury tinha desejado.

— O SUV se moveu? — disse Z a Vishous.

V foi para seus computadores e apertou algumas teclas.

— Não.

— Mostre-me.

Quando Zsadist se aproximou e se agachou, V mostrou na tela.

— Aqui está. Se começar a andar, posso seguir seu ra