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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


AMANTE ETERNO / J. R. Ward
AMANTE ETERNO / J. R. Ward

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Irmandade da Adaga Negra

AMANTE ETERNO

 

Dentro da Irmandade, Rhage é o vampiro mais voraz, o melhor lutador, agindo sempre através de seus instintos mais primários...

E o amante mais selvagem - porque em seu interior arde uma feroz maldição lançada pela Virgem Escriba. Possuído por este lado sombrio, Rhage teme o momento em que o dragão que leva dentro de si seja libertado, convertendo-o em um perigo para quem o rodeia.

Mary Luce, uma mulher que conseguiu sobreviver a uma vida cheia de penúrias,

é introduzida de maneira involuntária ao mundo dos vampiros.

Agora, toda sua vida depende da proteção de Rhage.

Com uma maldição que ameaça sua própria vida, Mary não está buscando o amor. Faz muito tempo que deixou de acreditar em milagres. Mas quando a intensa atração animal de Rhage se converte em algo mais emocional, ele sabe que deve fazê-la sua. E, enquanto os inimigos pisam em seus calcanhares, Mary lutará desesperadamente por conseguir uma vida eterna junto ao homem ao qual ama...

 

 

- Ah, inferno, Vishous, você está me matando.

Butch O’Neal procurava na gaveta das meias, as de seda preta, mas só encontrava as de algodão branco.  

- Não, espera. - Ele tirou uma meia três-quartos. Não foi exatamente um triunfo.

- Se quisesse te matar, Tira, então os sapatos seriam a última coisa em sua mente.

Butch olhou fixamente seu companheiro de quarto.

Seu companheiro fã dos Red Sox. Seu… bem, um de seus dois melhores amigos. Ambos, por assim dizê-lo, casualmente eram vampiros.

Refrescado pelo banho, Vishous tinha uma toalha ao redor de sua cintura, exibindo seu musculoso peito e seus grossos braços. Estava colocando uma luva de couro, que cobria completamente sua mão esquerda tatuada.

- Tem que ir vestido com minhas roupas? Vishous lhe sorriu, suas presas cintilavam em meio a seu cavanhaque.

- Gosto delas.

- Por que não pede ao Fritz que te consiga algumas?

- Ele está muito ocupado saciando nossos desejos para suas roupas, homem.

Certo, talvez recentemente Butch houvesse conseguido um contato interno na Versace, e quem teria pensado que o teria tido, mas quão difícil pode ser colocar uma dúzia de sedas adicionais na casa?

- Pedirei algumas para você.

- Não é um cavalheiro. - Vishous prendeu para trás seu cabelo escuro. As tatuagens de sua têmpora esquerda apareceram e em seguida ficaram encobertas outra vez.

- Necessita do Escalade esta noite?

- Sim, obrigado. - Butch colocou seus pés em seus mocassins Gucci, sem se sentar.

- Então você vai ver Marissa?

Butch assentiu.

- Preciso vê-la. De uma maneira ou outra.

E ele tinha o pressentimento de que ia ser da outra.

- Ela é uma boa mulher.

Com certeza, por todos os infernos que o era, e era por isso provavelmente que ela não lhe respondia seus telefonemas. O ex-policial que, como bom escocês, não era exatamente bom material para relacionar-se com as mulheres, humanas ou vampiras. E o fato de que ele não era uma dessas coisas não o ajudava na situação.

- Bem, Tira, Rhage e eu estaremos relaxando no One Eye. Quando terminar o que tiver de fazer, venha nos buscar.

Um golpe, como se alguém atingisse a porta principal com um aríete, fez que girassem suas cabeças.

Vishous subiu a toalha.

- Mas que droga, o menino voador tem que aprender a usar a campainha.

- Tente falar com ele. Ele não me escuta.

- Rhage não escuta ninguém. - V desceu correndo para o vestíbulo.

 

Quando o estrondo se silenciou, Butch foi para sua extensa coleção de gravatas. Escolheu uma Brioni azul claro, dobrou a gola de sua camisa branca, e colocou a seda ao redor de seu pescoço. Quando saiu da sala de estar, pôde ouvir Rhage e Vishous falando sobre ”Rustill down” de Tupac?

Butch teve que rir. Homem, sua vida já o havia levado a um montão de lugares, muitos deles perigosos, mas nunca tinha pensado que terminaria vivendo com seis vampiros guerreiros. Ou estando em volta das brigas para proteger sua decrescente espécie oculta. De certa forma, entretanto, ele tinha um lugar com a Irmandade da Adaga Negra. Vishous, Rhage e ele formavam um trio impressionante.

Rhage vivia na mansão cruzando o pátio com o resto dos integrantes da Irmandade, mas o trio que dirigia a Irmandade estava fora da casa do guarda, onde V e Butch ficavam. O Pit, como era conhecido o lugar, era um doce alojamento comparado com o barracão em que Butch tinha vivido. Ele e Vishous tinham dois dormitórios, dois banheiros, uma cozinha, uma sala de estar que era decorada com um atraente estilo, no porão da Casa da Fraternidade, alguns sofás de couro, uma TV de plasma de alta definição, futebol de mesa, e sacos de academia por toda parte.

Quando Butch entrou no quarto principal, teve uma vista da roupa de Rhage para a noite: trench-coat preto de couro que caia de seus ombros até seus tornozelos. Camiseta preta metida nas calças de couro. As botas de combate faziam-no ultrapassar os 2,05m. Assim vestido, o vampiro era sem dúvida nenhuma, extremamente atraente. Até para um hetero reconhecido como Butch.

O filho da puta realmente dobrava as leis da física, era muito atraente. O cabelo loiro estava cortado curto atrás e mais longo na frente. O azul de seus olhos eram da cor da água do mar das Bahamas. E a face fazia que Brad Pitt se visse como um candidato para o The Swan[1].

Mas ele não era um filhinho da mamãe, apesar de ser fascinante. Algo escuro e letal fervia detrás de um reluzente exterior, e você sabia no minuto que o via. Ele emitia as vibrações de um cara que enquanto sorria, fazia a elucidação diretamente com seus punhos, inclusive se cuspia entre dentes enquanto se encarregava do assunto.

- O que está fazendo, Hollywood? - Perguntou Butch.

Rhage sorriu, mostrando um esplêndido grupo dentes perolados com longos caninos.

- Fazendo cera para sair, Tira.

- Maldição, vampiro não teve bastante ontem à noite? Essa ruiva parecia um assunto sério. E também a irmã dela.

- Já me conhece. Sempre faminto.

Sim, bem, felizmente para Rhage, havia uma corrente interminável de mulheres mais que felizes para satisfazer suas necessidades. E doce Jesus, o cara as possuía. Não bebia. Não fumava. Mas ele corria entre as damas como Butch nunca tinha visto.

E Butch não conhecia meninos bonzinhos.

Rhage olhou para Vishous.

- Vá se vestir, homem. A menos que esteja pensando em ir ao One Eye com uma toalha?

- Deixa de me cronometrar, meu Irmão.

- Então mova o traseiro.

Vishous se levantou atrás da pesada mesa onde estavam os aparelhos de informática que podia dar ao Bill Gates uma ereção. Deste centro de comando, Vishous executava e fiscalizava os sistemas de segurança do recinto da Irmandade, incluindo a casa principal, as instalações subterrâneas de treinamento, a Tumba e seu Pit, assim como também o sistema de túneis subterrâneos que interconectaram os edifícios. Ele controlava tudo: as venezianas cobertas de aço que estavam instaladas em cada janela; as fechaduras nas portas de aço; a temperatura nas residências; a iluminação; as câmeras de segurança; as grades.

Vishous tinha preparado o equipamento inteiro ele mesmo antes que a Irmandade se mudasse, há três semanas. Os edifícios e os túneis estavam preparados desde os princípios de 1900, mas em sua maior parte não tinham sido utilizados. Depois dos acontecimentos de julho, no entanto, a decisão tinha sido tomada para consolidar as operações da Irmandade, e todos eles haviam vindo até aqui.

Enquanto Vishous se dirigia para seu quarto, Rhage tirou um pirulito de seu bolso, rasgou o pacote vermelho, e o meteu na boca. Butch podia sentir como o cara olhava fixamente. E não se surpreendeu quando o irmão conectou com ele.

- Eu não posso acreditar que te vista da melhor maneira para ir até o One Eye, poli. Suponho, este é um serviço perigoso, inclusive para você. A gravata, as abotoaduras dos punhos da camisa são todos novos, não é mesmo?

Butch alisou a Brioni sobre seu peito e estendeu a mão para pegar a jaqueta de Tom Ford que combinava com suas amplas calças pretas. Ele não queria comentar sobre Marissa. Só falar do tema com Vishous tinha sido suficiente. Além disso, o que ele podia lhe dizer?

“Ela me fechou as portas quando eu a encontrei, e me evita há três semanas. Assim em vez de aceitar a indireta, me descabelo e suplico como um perdedor desesperado.”

Bem, ele realmente não queria dizer isso diante do Sr. Perfeito, mesmo ele sendo um bom camarada.

Rhage girou o pirulito em sua boca.

- Me diga uma coisa. Por que perde tempo com as roupas, homem? Não faz nada com seu membro. Eu me refiro, vejo-te sempre rechaçando as mulheres no balcão. Está tentando se salvar do casamento?

- Yup. Tem razão. Terão que me levar amarrado para que eu caminhe por esse corredor.

- Vamos, realmente estou curioso. Está se reservando para alguém? - Quando houve somente silêncio, o vampiro riu suavemente.

- Eu a conheço?

Butch entrecerrou os olhos, pensando se a conversa terminaria mais rapidamente se ele fechasse a boca. Provavelmente não. Uma vez que Rhage começava, não o deixava até que ele decidia que havia se acabado. Falava da mesma forma que matava.

Rhage negou com a cabeça tristemente.

- Ela não te necessita?

- Saberemos esta noite.

Butch verificou quanto tinha de dinheiro. Dezesseis anos como detetive de homicídios não tinham forrado muito seus bolsos. Agora era dependente da Irmandade e tinha muito dinheiro, possivelmente não poderia gastá-lo suficientemente rápido.

- Que tenha sorte, Tira.

Butch o olhou de cima a baixo.

-Como você o compreende?

- Sempre me perguntei como seria viver com uma mulher que valesse a pena.

Butch riu. O cara era um deus sexual, uma lenda erótica em sua raça. Vishous lhe tinha contado histórias sobre Rhage que haviam passado de geração em geração quando o tempo era o correto. A idéia de que poderia trocar isso para ser o marido de alguém era absurda.

- De acordo, Hollywood. Qual é o golpe final? Vamos, dêem-me isso.

Rhage se sobressaltou e se afastou o olhar.

“Por todos os infernos, o cara falava a sério.”

-Ei, escuta, não significa nada.

- Não, você é gay.

O sorriso reapareceu, mas os olhos eram planos.

Ele caminhou a passo lento até a lixeira e atirou o palito do pirulito no lixo.

- Agora, podemos sair daqui? Estou cansado de esperar vocês, crianças.

 

Mary Luce estacionou em sua garagem, desligou o Civic, e ficou com o olhar fixo nas pás de neve que limpavam a passagem diante dela.

Estava cansada, embora o dia não tivesse sido extenuante. Atender ao telefone e identificar e arquivar os documentos em um escritório de advogados não era exaustivo, física ou mentalmente. Então realmente não deveria estar exausta.

Mas talvez esse fosse o ponto. Ela não se sentia muito estimulada, de maneira que estava adoecendo.

Talvez fosse o momento de voltar para as crianças? Depois de tudo, era para o que havia estudado. O que amava. O que a alimentava. Trabalhar com seus pacientes autistas e lhes ajudar a encontrar as formas de se comunicarem havia lhe trazido todo tipo de recompensas, pessoal e profissionalmente. E o intervalo de dois anos não tinha sido sua escolha.

Talvez devesse chamar o centro, ver se estava aberto. Inclusive se não estivesse ela poderia se alistar como voluntária até que houvesse algo disponível.

Sim, amanhã o faria. Não havia razão para esperar.

Mary pegou sua bolsa e saiu do carro. Quando a porta da garagem se fechou, ela foi para a parte dianteira de sua casa e recolheu a correspondência. Folheando as contas, fez uma pausa para examinar a noite moderadamente fria de outubro com seu nariz. Suas fossas nasais zumbiam. O outono tinha varrido com todos os indícios do verão fazia um mês, a mudança de estação tinha chegado após uma rajada de ar frio do Canadá.

Ela amava o outono. E o norte do estado de Nova Iorque o fazia memorável, em sua opinião.

Caldwell, Nova Iorque, a cidade onde ela tinha nascido e provavelmente morreria, estava a mais de uma hora ao norte de Manhattan, de maneira que estava no que tecnicamente se considerava o "upstate" (norte do estado). Partido pela metade pelo rio Hudson, o Caldie, como era conhecida pelos nativos, era uma cidade média na América. As zonas ricas, pobres, sujas e as zonas normais. Os Wall-Marts, Target’s e McDonalds. Os museus e as bibliotecas. As alamedas suburbanas sufocadas por um centro da cidade descolorido. Três hospitais, duas universidades, e uma estátua de bronze de George Washington no parque.

Ela inclinou a cabeça para trás e olhou as estrelas, pensando que nunca lhe ocorreria se mudar. Se falasse por lealdade ou por falta de imaginação, ela não tinha certeza.

Talvez fosse sua casa, - pensou enquanto se dirigia à porta principal. O celeiro convertido estava situado na beira de uma velha propriedade da granja, e ela tinha feito uma oferta quinze minutos depois de tê-la examinado com um agente imobiliário. Dentro, os espaços eram acolhedores e pequenos. Era… preciosa.

A havia comprado há quatro anos, imediatamente depois da morte de sua mãe. Necessitava de algo adorável, assim como uma mudança completa de paisagem. Seu celeiro era tudo o que sua casa durante sua infância não tinha sido. Aqui, as tábuas do piso de madeira do pinheiro eram da cor do mel, claro envernizado, não manchadas. Seu mobiliário era da Crate e Barrel, tudo novo, nada usado ou velho. Os tapetes pequenos eram de sisal, de pele curta e couro. E cada uma das camadas das cortinas para as paredes e os tetos eram de um branco cremoso.

Sua aversão à escuridão tinha influenciado na decoração interior. E veja, se tudo for uma variação da cor bege, então as coisas combinam, não é mesmo?

Ela colocou as chaves e sua bolsa na cozinha e pegou o telefone. Ela foi informada que tinha… duas mensagens… novas.

- Oi, Mary, é Bill. Escuta, vou te fazer uma proposta. Se pudesse me cobrir na linha direta esta noite durante uma hora, mais ou menos seria genial. A menos que saiba de você, assumirei que ainda está livre. Obrigado, outra vez.

Ela o apagou com um bip.

- Mary, aqui é do consultório da Dra. Delia Croce. Nós gostaríamos que viesse para sua consulta médica trimestral. Você me liga, por favor, para programar uma consulta quando ouvir esta mensagem? Nós a internaremos. Obrigado, Mary.

Mary baixou o telefone.

O tremor começou em seus joelhos e abriu caminho até os músculos de suas coxas. Quando atingiu seu estômago, pensou em correr em busca do banheiro.

Consulta médica. Nós a internaremos.

Ela voltou, e ela que pensava que a leucemia havia ficado atrás.

 

- Que diabos vamos dizer-lhe? Ele chegará aqui em vinte minutos!

O Sr. O considerou a seu dramático colega com um olhar aborrecido, enquanto pensava que se o lesser fizesse algo mais que saltar para cima e para baixo, o idiota poderia ser qualificado como um brinquedo saltitante.

Maldição, mas Sr. E era um ferrado. Por que seu patrocinador havia o metido na Lessening Society em primeiro lugar era um mistério. O homem tinha pouco impulso. Nenhuma concentração. E nenhum estômago para a nova direção na guerra contra os vampiros.

- Que vamos...

- Não vamos lhe dizer nada. - Disse o Sr. O enquanto olhava ao redor do porão.

Facas, navalhas e martelos estavam espalhados sem ordem no aparador barato do canto. Havia poças de sangue aqui e lá, mas não debaixo da mesa, onde pertenciam. E misturado com o vermelho havia um negro lustroso, graças às feridas superficiais de E.

- Mas o vampiro escapou antes que lhe tirássemos qualquer informação.

- Obrigado pelo resumo.

Dois deles haviam começado a trabalhar sobre o macho quando o Sr. O saiu em busca de ajuda. Quando ele regressou, o Sr. E havia perdido o controle do vampiro, havia cortes em alguns lugares, ficando apenas com um pequeno sangramento num canto.

Seu chefe idiota ia encher o saco, e embora o Sr. O desprezasse o homem, ele e o Sr. X tinham uma coisa em comum: o descuido era para perdedores.

O Sr. O olhou a dança do Sr. E a seu redor um pouco mais, enquanto encontrava em seus movimentos estúpidos a solução do problema imediato de ambos e ao mesmo tempo em longo prazo. Quando o Sr. O sorriu, o Sr. E, o tolo, pareceu aliviado.

- Não se preocupe por nada. - Murmurou Sr. O.  

- Direi-lhe que tiramos o corpo e o deixamos ao sol no bosque. Não é grande coisa.

- Falará com ele?

- Sem problema, homem. Entretanto, é melhor sair correndo. Ele vai sentir se chateado.

E assentiu e abriu a fechadura da porta.

-Até mais tarde.

Sim, diga boa noite, filho da puta, pensou o Sr. O quando começou a limpar o porão.

A repugnante casa pequena onde trabalhavam passava despercebida na rua, intercalada entre uma desgastada armação que uma vez tinha sido uma churrascaria e uma arruinada pensão. Esta parte da cidade, uma mescla de residências miseráveis e antros comerciais, era perfeita para eles. Por aqui, as pessoas não saíam depois do anoitecer, pequenos estalos de pistolas eram tão comuns como os alarmes dos carros, e ninguém dizia nada se alguém deixava escapar um grito ou dois.

Também, ir e vir do lugar era fácil. Graças aos “pesados” do bairro, todas as luzes estavam quebradas e a luz ambiente de outros edifícios era insignificante. Como um benefício acrescentado, a casa tinha uma entrada exterior com um biombo na entrada de seu porão. Carregar um corpo completo em um saco e sair e entrar não era problemático.

Embora se alguém visse algo, tomaria só um momento eliminar o descobrimento. Não seria uma grande surpresa para a comunidade, em qualquer caso. O lixo branco tinha um caminho para descobrir suas sepulturas. Junto com esposas maltratadas e bebedores de cerveja, morrer devia ser provavelmente somente outra competência principal.

O recolheu uma faca e passou um pano sobre o sangue negro de E eliminando-o da lâmina.

O porão não era muito grande e o teto era baixo, mas havia espaço suficiente para a velha mesa que usavam como estação de trabalho e para o aparador estragado onde conservavam seus instrumentos. De todos os modos, o Sr. O pensava que não era a instalação correta. Era impossível armazenar de forma segura um vampiro aqui, e isso queria dizer que perdiam uma importante ferramenta de persuasão. O tempo desgastava as faculdades físicas e psíquicas. Se a influência era a correta, o passar dos dias tinha tanto poder como qualquer outra coisa com a qual pudesse quebrar um osso.

O Sr. O queria algo que fosse no bosque, o suficientemente grande de maneira que pudesse conservar seus cativos durante um período de tempo. Como os vampiros viravam fumaça com o amanhecer, tinham que ser mantidos protegidos do sol. Mas se os encerrava em um quarto, então corria o risco de se desmaterializassem fora de suas mãos. Ele necessitava de uma jaula de aço para eles.

Acima se ouviu fechar a porta traseira e alguns passos desciam pelas escadas.

O Sr. X caminhou sob uma lâmpada nua.

O Fore-lesser media aproximadamente 1,95m e sua constituição era como a de um jogador de defesa do futebol americano. Assim como todos os assassinos que estavam há muito tempo na Lessening Society, era muito pálido. Seu cabelo e sua pele eram da cor da farinha, e sua íris eram tão claras e incolores como o vidro de uma janela. Como o Sr. O, ele se vestia com a roupa padrão dos lessers. Calças cargo pretas e um pulôver preto de gola alto com as armas escondidas sob uma jaqueta de couro.

- Então, me diga Sr. O, como foi o trabalho?

Como se o caos no porão não fosse explicação suficiente.

- Eu estou a cargo desta casa? - Perguntou Sr. O.

O Sr. X caminhou casualmente até o aparador e pegou um cinzel.

- Por assim dizê-lo, sim.

- Então me permite assegurar-me para - ele moveu sua mão ao redor da desordem - que não ocorra outra vez?

- O que ocorreu?

- Os detalhes são aborrecidos. Um civil escapou.

- Sobreviverá?

- Não sei.

- Estava aqui quando ocorreu?

- Não.

- Conte-me tudo. - O Sr. X sorriu quando o silêncio se estendeu.

- Sabe, Sr. O, sua lealdade poderia te levar a ter problemas. Não quer que castigue a pessoa certa?

- Quero encarregar-me eu mesmo.

- Estou seguro de que o fará. Exceto se não me disser isso, poderia ter que tirar o custo do fracasso de sua pele de todas as formas. Vale isso?

- Se tiver permissão para fazer o que quiser com o responsável pela festa, então sim.

O Sr. X sorriu.

- Só posso imaginar que poderia ser.

O Sr. O esperava, enquanto olhava a cabeça do afiado cinzel pego suavemente enquanto o Sr. X passeava ao redor do quarto.

- Te juntei com o homem incorreto verdade? - O Sr. X murmurou enquanto recolhia as algemas do chão. Ele as deixou cair sobre o aparador.

- Pensei que o Sr. E poderia elevar-se a seu nível. Não o fez. E me alegra que eu viesse primeiro antes que você o disciplinasse. Ambos sabemos quanto você gosta de trabalhar independentemente. E quanto desgosta a mim.

O Sr. X o olhava sobre seu ombro, seus olhos fixos no Sr. O.

- Em vista de tudo isto, particularmente porque te aproximou de mim primeiro, pode ter o Sr. E.

- Quero fazê-lo com audiência.

- Seu esquadrão?

- E outros.

- Tratando de provar a você mesmo outra vez?

- Elevando o nível.

O Sr. X sorriu friamente.

- É um pequeno bastardo arrogante, não é mesmo?

- Sou tão alto como você.

Repentinamente, o Sr. O se encontrou incapaz de mover seus braços ou suas pernas. O Sr. X tinha utilizado a merda paralizadora antes, por isso não era totalmente inesperado. Mas o cara ainda tinha o cinzel em sua mão e se aproximava.

O Sr. O se opôs ao agarramento, suando enquanto lutava e não conseguia nada.

O Sr. X se inclinou de maneira que seus peitos se tocavam. O sentiu que algo roçava seu traseiro.

- Te divirta, filho. - Murmurou o homem no ouvido do Sr. O. - Mas faça um favor a você mesmo. Recorda-se que por maiores que sejam suas calças, você não é eu. Verei-te mais tarde.

O homem caminhou com grandes passos pelo porão. A porta de cima se abriu e se fechou.

Assim que o Sr. O pôde se mover, colocou a mão em seu bolso de trás.

O Sr. X havia lhe dado o cinzel.

 

Rhage saiu do Escalade e esquadrinhou a escuridão ao redor do One Eye, esperando que um par de lessers os assaltassem. Não esperava ter sorte. Ele e Vishous tinham patrulhado durante as horas noturnas, e não tinham conseguido nada. Nem sequer uma olhada. Era condenadamente estranho.

E para alguém como Rhage, que dependia de lutar por razões pessoais, também era infernalmente frustrante.

Como todas as coisas, entretanto, a guerra entre a Lessening Society e os vampiros eram cíclicas, e atualmente estavam em baixa. Tinha sentido. Lá por julho, a Irmandade da Adaga Negra tinha atacado o centro local de recrutamento da Lessening Society, junto com dez de seus melhores homens. Claramente, agora os lessers faziam um reconhecimento do terreno.

Graças a Deus, havia outras formas de queimar sua frustração.

Ele olhou para o crescente ninho de depravação que era atualmente o lugar de descanso e relaxamento da Irmandade. O One Eye estava nos limites da cidade, por isso as pessoas em seu interior eram motoristas e caras que trabalhavam na construção, caras duros que tendiam à brutalidade em vez de suave persuasão. O bar era seu modelo de chiqueiro úmido. Um só andar construído ao redor de um aro de asfalto. Caminhões, sedãs americanos, e Harleys estacionavam no espaço. Com diminutas janelas, sinais de cerveja brilhavam vermelho, azul e amarelo, o logotipo da Coors e Bud Light e Michelob.

Não Coroas ou Heinekens para estes rapazes.

Quando fechou a porta do carro, seu corpo tremia, sua pele coçava, seus grossos músculos crispados. Estendeu seus braços, tentando ganhar um pouco de alívio. Não se surpreendeu quando não houve diferença. Sua maldição arrojava seu passo ao redor, levando-o a um território perigoso. Se não encontrasse algum tipo de libertação logo, então ia ter sérios problemas.

Caramba, ele ia ser um sério problema.

Muito obrigado, Virgem Escriba.

Era suficientemente ruim ter nascido com muito poder físico, um maldito presente forte que nunca tinha apreciado ou valorizado. Mas então ele tinha aborrecido muito à mística mulher que teve o domínio sobre sua estirpe. Homem, ela só tinha estado muito feliz de colocar outra camada de merda no abono com o qual ele tinha nascido. Agora, se ele não esgotasse a cólera de forma regular, então se tornava mortífero.

As brigas e o sexo eram as únicas duas libertações que o ajudavam, e ele as usava como um diabético à insulina. Uma corrente estável de ambas o ajudava manter o nível, mas nem sempre resolvia o problema. E quando o perdia, as coisas ficavam mal para todo mundo, inclusive para ele mesmo.

Meu Deus, ele estava cansado de ser golpeado no interior de seu corpo, dirigindo suas exigências, fazendo uma tentativa para não cair em uma inconsciência brutal. Certamente, seu rosto estonteante e sua força eram excelentes e boas. Mas teria trocado ambas por um corpo fraco, ossudo e feio, se tivesse tido alguma paz. Caramba, não podia recordar o que era a serenidade. Inclusive não podia recordar quem era.

A desintegração de si mesmo havia se iniciado rapidamente. Depois de somente alguns anos de maldição, tinha deixado de esperar qualquer alívio verdadeiro e simplesmente tinha tentado sobreviver sem ferir ninguém. Foi então que havia começado a morrer por dentro, e agora, uns cem anos mais tarde, estava em sua maior parte intumescido, nada mais que uma fachada brilhante e encanto vazio.

Em cada nível que contava, tinha deixado de tentar fingir que era tudo menos uma ameaça. Porque a verdade era que ninguém estava a salvo quando estava por perto. E isso era o que realmente o matava, ainda mais que as coisas físicas pelas quais tinha que passar quando a maldição se manifestava. Vivia com medo de ferir algum de seus irmãos. E, de um mês atrás, a Butch.

Rhage caminhou ao redor do SUV e olhou o macho humano através do pára-brisa. Meu Deus, quem teria pensado que alguma vez estaria junto a um Homo Sapiens?

- O veremos mais tarde, Tira?

Butch se encolheu de ombros.

- Não sei.

- Boa sorte, homem.

- Será o que tem que ser.

Rhage praguejou suavemente quando o Escalade se foi e ele e Vishous atravessaram o estacionamento.

- Quem é ela, Vishous? Uma de nós?

- Marissa.

- Marissa? A shellan anterior de Wrath? - Rhage negou com a cabeça.  

- Oh, certo, necessito de detalhes. Vishous, você vai me dar.

- Não faço brincadeiras sobre isto. E você tampouco deveria.

- Não tem curiosidade?

Vishous não respondeu até que chegaram à altura da entrada dianteira do bar.

- Oh, bom. Você sabe, não? - Disse-lhe Rhage. - Sabe o que vai acontecer.

Vishous meramente levantou seus ombros e chegou até a porta. Rhage plantou sua mão sobre a madeira, lhe detendo.

- Ouça.

- Vishous, alguma vez sonha comigo? Alguma vez você viu meu futuro?

Vishous girou a cabeça. Na brilhante luz de néon do Coors, seu olho esquerdo, ao redor do qual tinha suas tatuagens, ficou todo preto. A pupila se dilatou até que lhe comeu a íris e a parte branca, até não houve nada exceto um buraco.

Era como ficar olhando no infinito. Ou talvez no Fade enquanto se morria.

- De verdade quer sabê-lo? - Disse o irmão.

Rhage deixou cair sua mão de um lado.

- Só uma coisa me preocupa. Vou viver o bastante para escapar de minha maldição? Você sabe, encontrar a paz?

A porta se abriu repentinamente e um homem bêbado cambaleante saiu como um caminhão com a direção quebrada. O cara se dirigiu para os arbustos, vomitou, e em seguida caiu de barriga sobre o asfalto.

A morte era uma forma segura para encontrar a paz, pensou Rhage. E todo mundo morria. Inclusive os vampiros. Eventualmente.

Ele não encontrou os olhos de seu irmão outra vez.

- Esqueça, Vishous. Não quero saber.

Ele tinha sido amaldiçoado uma vez e ainda restavam outros noventa e um anos antes que fosse livre. Noventa e um anos, oito meses, quatro dias até que seu castigo tivesse terminado e a besta já não fosse parte dele. Por que deveria alistar-se como voluntário para um golpe cósmico e saber que não viveria durante muito tempo, o suficiente para ser livre da maldita coisa?

- Rhage.

- O que?

- Eu vou contar isso. Seu destino está chegando. E ela virá logo.

Rhage sorriu.

- Oh, sim? Como é a mulher? Eu a preferiria…

- Ela é uma virgem.

Um calafrio atravessou a coluna vertebral de Rhage e lhe cravou no traseiro.

- Está brincando, não é mesmo?

- Olhe em meus olhos. Pensa que estou te ferrando?

Vishous fez uma pausa durante um momento e depois abriu a porta, lançando-se para o aroma de cerveja e os corpos humanos juntos com a batida de uma velha canção do Guns N ' Roses.

Quando entraram, Rhage resmungou,

- É um pervertido de merda, meu irmão. Realmente o é.

 

Pavlov fazia sentido, Mary pensou enquanto voltava para centro. Sua reação de pânico pela mensagem do consultório da Dr. Delia Croce era por instinto, não por algo lógico. "Mais exames" poderia ser mais coisas. Só porque ela associasse qualquer tipo de notícias de um médico com uma catástrofe não significava que pudesse ver o futuro. Ela não tinha nem idéia do que (se era algo), estivesse errado. Depois de tudo, tinha passado já dois anos e ela se sentia muito bem. Bom, cansava-se, mas quem não o fazia? Seu trabalho e o trabalho de voluntária a mantinham ocupada.

- O primeiro que faria pela manhã seria ligar e marcar a consulta. Mas agora ela ia começar o trabalho que tinha trocado com Bill na linha direta para suicídios.

Para diminuir um pouco a ansiedade, ela fez uma profunda respiração. As vinte e quatro horas seguintes iam ser uma dura prova, com seus nervos convertendo seu corpo em um trampolim e sua mente em um redemoinho. O truque era atravessar as fases do pânico e em seguida reforçar-se quando o medo se aliviava.

Ela estacionou o Civic em uma área aberta na Tenth Street e caminhou rapidamente para um edifício desgastado de seis andares. Estava na área sombria da cidade, resultado de um esforço dos anos setenta de profissionalizar uma área com nove blocos do que era então um "bairro ruim". O otimismo não tinha funcionado, e agora o espaço do escritório se mesclava com um albergue de baixa renda.

Ela parou na entrada e saudou com a mão aos dois policiais que passavam em um carro patrulha.

O escritório central da Linha Direta da Prevenção contra o Suicídio estava no segundo andar na frente, e ela olhou para as iluminadas janelas. Seu primeiro contato com a associação sem fins lucrativos tinha sido quando ela tinha ligado para lá. Três anos antes, ela atendia ao telefone a cada quinta-feira, sexta-feira, e os sábados de noite. Também cobria os dias de festa e quando era necessário.

Ninguém sabia que ela tinha ligado para aquele número. Ninguém sabia que havia tido leucemia. E se tinha que voltar a batalhar com seu sangue, então ia ter que mantê-lo da mesma maneira.

Tendo visto sua mãe morrer, não queria ninguém chorando sobre sua cama. Ela já conhecia a raiva impotente quando a graça salvadora não chegava. Não tinha interesse em representar enquanto brigava por respirar e se movia entre as falhas dos órgãos.

Certo. Os nervos estavam se acalmando.

Mary escutou um som à esquerda e viu o brilho de um movimento, como se alguém se inclinasse evitando que o vissem atrás do edifício. Reagindo, ela digitou um código em uma fechadura, entrou, e subiu as escadas. Quando chegou ao segundo andar, chamou no interfone para entrar nos escritórios da Linha Direta.

Enquanto passava pela recepção, saudou com a mão à diretora executiva, Rhonda Knute, que estava no telefone. Depois saudou com a cabeça Nan, Stuart, e Lola, que estavam cobrando essa noite, e se instalou em um cubículo vago. Depois de se assegurar que tinha suficientes formulários de entradas, algumas canetas, e o livro de intervenções da Linha Direta, tirou uma garrafa de água de sua bolsa.

Quase imediatamente uma de suas linhas soou, e ela comprovou na tela que identificava a chamada. Ela conhecia o número. E a polícia havia lhe havia que era o número de um telefone público. Do centro da cidade.

Chamava a ela.

O telefone soou uma segunda vez e o pegou, e em seguida disse o roteiro da linha direta. - Linha Direta Para a Prevenção do Suicídio, sou Mary. Como posso lhe ajudar?

Silêncio. Nem sequer uma respiração.

Fracamente, ela ouviu o zumbido de um motor de um carro e depois se desvaneceu no transito. De acordo com o registro de chamadas da polícia, a pessoa sempre ligava de um telefone público e variava sua posição de maneira que não pudessem rastreá-lo.

- Sou Mary. Como posso lhe ajudar? - Ela baixou sua voz e quebrou o protocolo.  

- Sei que é você, e me alegro que estenda sua mão esta noite outra vez. Mas por favor, não me pode dizer seu nome ou o que lhe passa?

Ela esperou. O telefone continuou mudo.

- Outro dos seus? - Perguntou-lhe Rhonda, bebendo um gole de chá de ervas.

Mary desligou o telefone. - Como soube?

A mulher assentiu sobre seu ombro.

- Ouvi um montão de ligações de fora, mas não foi mais à frente da saudação. Então de repente você estava encurvada sobre o telefone.

- Sim, bom...

- Escuta, os policiais voltaram hoje. Não há nada que possam fazer para controlar cada telefone público da cidade, e não estão dispostos a ir mais à frente neste ponto.

- Já lhe disse. Não me sinto em perigo.

- Não sabe se não está.

- Vamos, Rhonda, isto está acontecendo a nove meses, certo? Se fossem saltar sobre mim, então já o teriam feito. E realmente quero ajudar...

- Essa é outra coisa pela qual estou preocupada. Claramente tenho a impressão de que está protegendo a quem quer que seja. Está agindo como fosse algo muito pessoal.

- Não, não sou a razão pela qual ligam, e sei que posso me encarregar disso.

- Mary, pare e ouça. - Rhonda aproximou uma cadeira e falou baixo quando se sentou.  

- É … duro para mim lhe dizer isso. Mas acredito que necessita de um descanso.

Mary se virou para trás.

- Do que?

- Está aqui há muito tempo.

- Trabalho o mesmo número dias que outros.

- Mas fica aqui durante horas depois de que seu turno chega ao final, e cobre os horários dos outros sempre. Você está muito envolvida. Sei que está substituindo Bill agora mesmo, mas quando ele chegar quero que vá. E não quero você aqui até algumas semanas. Necessita de alguma perspectiva. Isto é duro, reduzir drasticamente o trabalho, mas tem que manter uma devida distância.

- Não agora, Rhonda. Por favor, não agora. Preciso estar aqui mais que nunca.

Rhonda amavelmente apertou a mão tensa de Mary.

- Este não é um lugar apropriado para solucionar seus problemas, e você sabe. É uma das melhores voluntárias que já tive, e que quero que volte. Mas só depois de que tenha tido algum tempo para limpar a cabeça.

- Posso não ter esse tipo de tempo. - Murmurou Mary sob sua respiração.

- O quê?

Mary tremeu e sorriu à força.

- Nada. É obvio, tem razão. Sairei logo que Bill chegar.

 

Bill chegou perto de uma hora mais tarde, e Mary esteve fora do edifício dois minutos depois. Quando chegou em casa, fechou a porta e se apoiou contra os painéis de madeira, escutando o silêncio. O horrível, esmagante silêncio.

Meu Deus, queria voltar para os escritórios da Linha Direta. Precisava ouvir as suaves vozes dos outros voluntários. E os telefones tocando. E o zumbido dos fluorescentes no teto.

Porque sem distrações, sua mente voava para as terríveis imagens: As camas do hospital. As agulhas. As bolsas de medicação pendendo a seu lado. Em uma horrível foto mental, via-se careca, sua pele cinza e seus olhos afundados até que não parecesse ela mesma, até que não fosse ela mesma.

E recordou como se sentia quando deixava de ser uma pessoa. Depois que os doutores iniciaram seu tratamento com quimioterapia, rapidamente havia se afundado na classe marginada dos doentes frágeis, dos moribundos, convertendo-se em nada mais que um aviso lastimoso, horripilante da mortalidade de outras pessoas, um pôster da natureza terminal da vida.

Mary passou velozmente pela sala de estar, atravessou a cozinha, e abriu a porta corrediça. Quando suas emoções explodiram na noite, o medo a fez ofegar, mas o choque do ar frio baixou sua respiração.

Você não sabe o que é o que pode estar errado. Não sabe o que é o que...

Ela repetiu o mantra, tentando lançar uma rede sobre o incessante pânico enquanto se dirigia para a piscina.

Não era mais que uma banheira grande de água quente, e sua água, espessa e lenta como o azeite negro à luz da lua. Ela se sentou, tirou seus sapatos e meias três-quartos, e colocou seus pés nas profundidades geladas. Manteve-os inundados inclusive quando se intumesceram, desejando ter o bom senso de saltar e nadar até a grade do fundo. Caso se agarrasse a ela por tempo suficiente, então poderia anestesiar-se completamente.

Pensou em sua mãe. E em como Cissy Luce tinha morrido em sua cama na casa que as duas sempre tinham chamado lar.

Tudo sobre aquele dormitório era ainda muito claro: a forma em que a luz atravessava as cortinas e fazia um padrão de flocos de neve. Essas pálidas paredes amarelas e o tapete branco e as mantas. Esse objeto de alívio que sua mãe tinha amado, o que tinha as pequenas rosas com um fundo creme. O aroma de noz moscada e gengibre de um prato com uma mescla de flores secas. O crucifixo na cabeceira da cama e a grande imagem de Nossa Senhora no canto do chão.

As memórias ardiam, obrigando Mary a ver a residência como tinha estado depois de que tudo tivesse terminado, a enfermidade, a morte, a limpeza, a venda da casa. Tinha visto o quarto antes de se mudar. Limpo. Em ordem. Os apoios católicos de sua mãe empacotados, a sombra que a cruz tinha deixado na parede coberta com uma imagem emoldurada de Andrew Wyeth.

As lágrimas não ficaram em seu lugar. Chegaram lenta e implacavelmente, caindo sobre a água. Olhou-as cair sobre a superfície e desaparecer.

Quando olhou para cima, não estava só.

Mary se levantou e tropeçou para trás, mas se deteve, enxugando as lágrimas. Era só uma criança. Um adolescente. De cabelo escuro e pele pálida. Tão magro que estava esquelético, tão belo que não parecia humano.

- O que está fazendo aqui? - Perguntou ela, não particularmente assustada. Era difícil estar tão assustada de algo tão angélico. - Quem é você?

Ele só balançou a cabeça.

- Você se perdeu?

Ele a olhou com tranquilidade. Fazia muito frio para que ele usasse somente calça jeans e uma camiseta.

- Como você se chama?

Ele levantou uma mão para sua garganta e a moveu de um lado para outro negando com a cabeça. Como se fosse um estrangeiro e estivesse frustrado pela barreira idiomática.

- Você fala inglês?

Ele assentiu e em seguida suas mãos se ergueram e se moveram. A Linguagem de Sinais Americano. Ele usava o LSA.

Mary voltou para sua antiga vida, quando havia ensinado a seus pacientes autistas a usar suas mãos para se comunicarem.

-Você lê os lábios ou pode ouvir? Ela falou por gestos para ele.

Ele se congelou, como se o fato de que ela o compreendesse fosse o último que ele esperasse.

-Posso ouvir muito bem. Só que não posso falar.

Mary o olhou fixamente durante um momento.

- É a pessoa que ligava para mim.

Ele vacilou. Depois assentiu com a cabeça.

-Nunca tive a intenção de lhe assustar. E eu não ligo para incomodá-la. Só gosto de saber que você está ali. Mas não há nada estranho nisso, honestamente. Juro-o.

Seus olhos firmes encontraram os seus.

- Eu acredito em você. - Mas o que ela ia fazer agora? A Linha Direta proibia todo contato com as pessoas que ligavam.

Sim, bom, ela não ia tirar a pobre criança a pontapés para fora de sua propriedade.

- Quer comer algo?

Ele negou com a cabeça.

-Talvez eu possa me sentar com você por um momento? Ficarei do outro lado da piscina.

Como se estivesse acostumado que lhe dissessem que se mantivesse afastado deles.

- Não - Disse ela.

Ele inclinou a cabeça uma vez e partiu dando meia volta.

- Quero dizer, sente-se aqui. Perto de mim.

Ele se aproximou lentamente, como se esperasse que ela mudasse de idéia. Quando tudo o que ela fez foi se sentar e colocar seus pés de novo na piscina, ele tirou um par de tênis de lona velhos, enrolou suas folgados calças, e se sentou a mais ou menos a um metro dela.

Meu Deus, ele era tão pequeno.

Ele colocou seus pés na água e sorriu.

-Está fria. - afirmou ele.

- Quer um suéter?

Ele negou com a cabeça e moveu seus pés em círculos.

- Como te chama?

- John Matthew.

Mary sorriu, pensou que tinham algo em comum.

- Dois profetas do Novo Testamento.

-As freiras me chamaram assim.

- Freiras?

Houve uma longa pausa, como se ele debatesse o que dizer a ela.

- Estava em um orfanato? - Ela apontou amavelmente. Ela recordou que havia um na cidade, Nossa Senhora da Graça.

-Nasci em um banheiro de uma estação de ônibus. O empregado da limpeza que me encontrou me levou para o Nossa Senhora. As freiras que me deram esse nome.

Ela conteve seu arrepio.

- Ah, onde vive agora? Adotaram-lhe?

Ele negou com a cabeça.

- Pais adotivos? - Por favor, Deus, deixa que tenha pais adotivos. Pais adotivos agradáveis. Que o resguardassem do frio e o alimentassem. Boa gente que lhe dissessem que se importavam com ele inclusive quando seus pais o haviam desertado.

Quando ele não respondeu, ela viu suas velhas roupas, e a velha expressão em seu rosto. Ele não olhava como se tivesse conhecido muitas coisas agradáveis.

Finalmente, suas mãos se moveram.

-Vivo na Tenth Street.

O que queria dizer que vivia em um edifício não habitável ou era o inquilino de um barracão infestado de ratos. Como conseguia estar tão limpo era um milagre.

- Vive perto dos escritórios da linha direta, não é mesmo? Por isso você sabia que eu estive lá esta tarde apesar da mudança.

Ele assentiu.

Meu apartamento é em frente. Observo-a ir e vir, mas não de uma forma furtiva. Acredito que penso em você como em uma amiga. Quando liguei a primeira vez … sabe, foi como um capricho ou algo do tipo. Você atendeu… e eu gostei como soava sua voz.

Ele tinha belas mãos, pensou ela. Como as de uma garota. Graciosas. Delicadas.

- E me seguiste até a casa esta noite?

Muitas noites. Tenho uma bicicleta, e você é uma condutora lenta. Penso que se velo por você, estará mais segura. Sempre fica até tarde, e essa não é uma área boa da cidade para que uma mulher esteja sozinha. Mesmo que seja em um carro.

Mary negou com a cabeça, pensando que era algo estranho. Parecia uma criança, mas suas palavras eram as de um homem. E considerando as coisas, ela provavelmente deveria partir. Este menino anexando-se a ela, pensando que era uma espécie de protetor, ainda quando parecia como se ele necessitasse que o resgatassem.

-Me diga por que estava chorado agora. - lhe disse por gestos.

Seus olhos eram muito diretos, e era raro ver o olhar de um adulto na face de um criança.

- Porque pode ser que o meu tempo tenha acabado. – Ela falou pelos cotovelos.

- Mary? Não vais me apresentar a visita?

Mary olhou sobre seu ombro. Bela, sua única vizinha, tinha atravessado andando o prado de oito mil metros quadrados que havia entre suas propriedades e estava de pé sobre a beira do gramado.

- Oi, Bela. Ah, venha conhecer John.

Bela desceu até a piscina. A mulher tinha chegado à velha granja no ano passado e se dedicaram a falar pelas noites. Com 1,80m de altura, e uma juba de cachos escuros que lhe caíam um pouco pelas costas. Bela te deixava de nocaute. Sua face era tão formosa que Mary tinha demorado meses em deixar de olhá-la fixamente, e o corpo dela era perfeito para a capa da edição em trajes de banho do Sports Illustrated.

Naturalmente John parecia assombrado.

Mary se perguntou distraidamente como seria provocar essa percepção em um homem, inclusive em um pré-adolescente. Ela nunca tinha sido formosa, estava dentro da vasta categoria de mulheres que não eram nem feias nem bonitas. E isso tinha sido antes do efeito que a quimioterapia surtiu em seu cabelo e pele.

Bela se inclinou com um leve sorriso e estendeu sua mão para o rapaz.

- Olá.

John se levantou e a tocou brevemente, como se não estivesse seguro de que fosse real. Tinha graça, Mary freqüentemente tinha sentido o mesmo pela mulher. Havia algo muito … muito sobre ela. Parecia maior que a vida, com mais vivências que as que Mary tinha vivido. Certamente mais magnífica.

Embora Bela com certeza não desempenhasse o papel de femme fatale. Ela era tranqüila, modesta e vivia só, aparentemente trabalhava como escritora. Mary nunca a via durante o dia, e ninguém nunca parecia vê-la ir e vir da velha granja.

John olhou para Mary, suas mãos movendo-se.

-Quer que eu vá?

Depois, como se antecipando a sua resposta, ele tirou seus pés para fora da água.

Ela colocou sua mão em suas costas, tratando de ignorar os pontiagudos ossos que havia debaixo de sua camisa.

- Não. Fique.

Bela tirou suas meias três-quartos e suas sapatilhas e deu uma batidinha com seus dedos dos pés em cima da superfície da água.

- Sim, vamos, John. Fica conosco.

 

Rhage viu a primeira coisa que queria nessa noite. Ela era uma mulher humana e loira, toda sexualidade e preparada. Como o resto de sua classe no balcão, estava emitindo sinais: Exibindo seu traseiro. Afagando sua desenredada juba.

- Encontrou algo que lhe agrada? - Disse-lhe Vishous secamente.

Rhage assentiu e sinalizou com seu dedo a mulher. Ela foi quando ele a chamou. Ele gostava disso em um humano.

Ele estava acompanhando o movimento de seus quadris quando seu olhar foi bloqueado pelo corpo escuro de outra mulher. Ele olhou para cima e forçou seus olhos a não girar.

Caith era uma de sua espécie, e suficientemente formosa com seu cabelo preto e os olhos escuros. Mas ela era uma irmã caçadora, sempre procurando, oferecendo-se a si mesma. Ele sentia que ela os via como prêmios, algo sobre o que se gabar. E isso era muito irritante.

No que a ele se referia, ela tinha colocado o dedo na ferida.

- Oi, Vishous. - Disse ela em voz baixa, erótica.

- Boa noite, Caith. - Vishous tomou um gole de sua Grey Goose.

- O que acontece?

- Me pergunto o que você estava fazendo.

Rhage deu um olhar pelo lado dos quadris de Caith. Graças a Deus a loira não estava fora da pequena competição. Ela ainda vindo na direção da mesa.

- Vai dizer-me olá, Rhage? - Provocou-o Caith.

- Só se sair da frente. Está bloqueando a minha vista.

A mulher riu.

- Outra das suas milhares de modelos. É muito sortuda.

- Você o quer, Caith.

- Sim, o faço. - Seus olhos, predadores e quentes, deslizou-os sobre ele. - Talvez você queira se unir com Vishous e eu?

Quando ela estendeu a mão para acariciar seu cabelo, ele prendeu seu pulso.

- Nem se atreva.

- Como é que sempre o faz com humanas e me nega isso?

- É só que não estou interessado.

Ela se inclinou, lhe falando no ouvido.

- Deveria me provar alguma vez.

Ele a separou com força, enquanto lhe apertava os ossos de sua mão.

- De acordo, Rhage, aperta mais forte. Eu gosto quando dói.

Ele deixou de apertar imediatamente, e ela sorriu enquanto se esfregava o pulso.

- Está ocupado, Vishous?

- Estou me acomodando agora. Mas talvez um pouco mais tarde.

- Sabe onde me encontrar.

Quando ela saiu, Rhage voltou o olhar para seu irmão.

- Não sei como você a aguenta.

Vishous remexeu sua vodca, olhando à mulher com os olhos entrecerrados.

- Ela tem seus atributos.

A loira chegou, detendo-se diante de Rhage e com uma postura impressionante. Ele colocou ambas as mãos em seus quadris e a atraiu para frente de maneira que a colocou sentada sobre suas coxas.

- Olá. - Disse ela, enquanto se movia contra sua ereção. Ela estava ocupada lhe observando, classificando-o por suas roupas, olhando o grande Rolex dourado que aparecia às escondidas sob a manga de seu casaco. O olhar calculador era tão frio como o centro de seu peito.

Meu Deus, se tivesse podido partir o teria feito; estava farto desta merda. Mas seu corpo necessitava da libertação, a solicitava. Podia sentir como aumentava e como sempre, a horrível sensação deixava seu coração arrasado.

-Como você se chama? - Perguntou-lhe.

- Tiffany.

- Prazer em conhecê-la, Tiffany. - Disse ele, mentindo.

 

A menos de dezesseis quilômetros de distância, na piscina de Mary em seu pátio traseiro, ela, John, e Bela tinham um surpreendente momento alegre.

Mary soltou uma gargalhada e olhou para John.

- Você está brincando.

-É verdade. Eu me transporto por entre os teatros.

- O que você disse? - Perguntou Bela, sorrindo abertamente.

- Ele viu Matrix quatro vezes no dia que estreou.

A mulher riu.

- John, sinto muito te dizer isto, mas isso é patético.

Ele sorriu para ela, ruborizando-se um pouco.

- Você viu "O Senhor Dos Anéis" completo também? - Perguntou ela.

Ele negou com a cabeça, falou por gestos, e olhou impacientemente para Mary.

- Diz que gosta das artes marciais. - traduziu ela. - Não de elfos.

- Não posso culpá-lo. Essa horripilante coisa de pés? Não posso fazê-lo.

Uma rajada de vento chegou, brincando com as folhas caídas na piscina. Quando chegaram até eles, John estendeu a mão e pegou uma.

- O que está usando no pulso? - perguntou Mary.

John estendeu seu braço de maneira que ela pudesse examinar a pulseira de couro. Tinha marcas ordenadas, alguma mistura de hieróglifos e caracteres chineses.

- É magnífico.

- Eu que o fiz.

- Posso vê-lo? - Perguntou Bela, inclinando-se. Seu sorriso se desintegrou e seus olhos se estreitaram na face de John.

- Onde você o conseguiu?

- Diz que foi ele que o fez.

- De onde disse que era?

John retraiu seu braço, claramente um pouco nervoso pela repentina atenção de Bela.

- Ele vive aqui. - Disse Mary. - Nasceu aqui.

- Onde estão seus pais?

Mary olhou para sua amiga, perguntando-se por que Bela estava tão interessada. - Não tem ninguém.

- Ninguém?

- Ele me disse que cresceu no sistema de adoções, não é mesmo, John?

John assentiu e colocou seu braço sobre o estômago, protegendo a pulseira.

- Essas marcas. - Animou-o Bela. - Sabe o que significam?

O rapaz negou com a cabeça, em seguida se sobressaltou e se esfregou as têmporas. Depois de um momento, suas mãos falaram por sinais lentamente.

- Diz que não significam nada. - Murmurou Mary. - Só sonha com elas e gosta como são. Bela, vamos deixar isso, Ok?

A mulher pareceu se conter.  

- Sinto muito. Eu … ah, realmente sinto.

Mary voltou a olhar para John e tratou de tirar pressão sobre ele.

- E que outros filmes você gosta?

Bela tirou seus pés e os meteu nos tênis. Sem as meias três-quartos.

- Desculpam-me por um momento? Voltarei em seguida.

Antes que Mary pudesse dizer algo, a mulher correu através do prado. Quando ela esteve fora do alcance de seu ouvido, John olhou para Mary. Ele ainda estava sobressaltado.

-Eu deveria ir agora.

- Dói-te a cabeça?

John colocou seus nódulos com força no sobrecenho.

-Sinto-me como se tivesse comido um picolé muito rápido.

- Quando você vai jantar?

Ele se encolheu de ombros.

-Não sei.

O pobre rapaz devia estar hipoglicêmico.

-Escuta, por que não entra e janta comigo? A última coisa que comi foi algo rápido no almoço, e isso foi faz aproximadamente oito horas.

Seu orgulho era evidente na firme sacudida de sua cabeça.

-Não tenho fome.

- Então se sentará comigo enquanto faço uma janta tardia? - Talvez ela pudesse lhe seduzir para que comesse desse modo.

John ficou de pé e estendeu sua mão para ajudá-la a se levantar. Ela tomou sua pequena palma e se apoiou nele o suficiente de maneira que sentisse um pouco de seu peso. Juntos se dirigiram para a porta de trás, os sapatos na mão, os pés nus deixando rastros molhados sobre a laje ao redor da piscina.

 

Bela irrompeu em sua cozinha e parou, não tinha tido nenhum plano em particular quando havia saído correndo. Só sabia que tinha que fazer algo.

John era um problema. Um sério problema.

Não podia acreditar que não o tivesse reconhecido o que era assim que o havia visto. Não obstante, ainda não tinha passado pela mudança. E como era que um vampiro estava no pátio traseiro da casa de Mary?

Bela quase riu. Ela esteve no pátio traseiro de Mary. Então por que não outros não o poderiam fazer?

Colocando seus braços na cintura, cravou os olhos no chão. Que diabos ia fazer? Quando tinha revistado a mente de John, não tinha encontrado nada sobre sua raça, sua gente, suas tradições. A criança não sabia nada, não tinha nem idéia de quem era ou no que ia se converter. E honestamente não sabia o que queriam dizer aqueles símbolos.

Ela sim. Soletrava-se TEHRROR na Velha Linguagem. O nome de um guerreiro.

Como era possível que se perdesse no mundo humano? E quanto tempo tinha antes que a transição o atingisse? Ele parecia estar no início dos vinte anos, o que significava que tinha um ano ou dois mais. Mas se ela estava equivocada, se ele se aproximava mais dos vinte e cinco, podia estar em um perigo imediato. Se ele não tinha a um vampiro fêmea para lhe ajudar a atravessar a mudança, então morreria.

Seu primeiro pensamento foi chamar seu irmão. Rehvenge sempre sabia o que tinha o que fazer em tudo. O problema era, que uma vez que ele se envolvia, assumia o controle completamente. E assustava infernalmente a todo mundo.

Havers … poderia pedir ajuda a Havers. Como médico, poderia lhe dizer quanto tempo restava ao rapaz antes da transição. E talvez John pudesse ficar na clínica até que seu futuro fosse mais claro.

Bem, exceto que ele não estava doente. Era um macho em pré-transição, por isso é que estava fisicamente frágil, mas ela não havia sentido nenhuma enfermidade nele. E Havers tinha instalações médicas, não algo como uma casa de hóspedes.

Além disso, e seu nome? Era como o dos guerreiros...

Bingo.

Saiu da cozinha e entrou na sala de estar, dirigindo-se para o livro de endereços que tinha em seu escritório. Na parte traseira, na última página, havia um número escrito que ela havia circulado há uns dez anos mais ou menos. O rumor dizia, que se chamava, contataria com A Irmandade da Adaga Negra. A raça de guerreiros.

Quereriam saber que existia um rapaz com um de seus nomes mantendo-se por si mesmo. Talvez acolhessem John.

Sua palmas estavam úmidas quando pegou o telefone, e ela meio que esperava que o número não fosse direto ou que alguém lhe respondesse que fosse ao inferno. Em lugar disso, tudo o que ela obteve foi uma voz eletrônica repetindo o número que tinha discado e após um pip.

- Eu … ah, meu nome é Bella. Estou procurando à Irmandade. Necessito … de ajuda. - Ela deixou seu número e desligou o telefone, pensando que menos era mais. Se tivesse sido mal informada, então não queria deixar uma mensagem detalhada na secretária eletrônica de algum humano.

Ela espiou por uma janela, vendo o prado e a luminosidade da casa de Mary ao longe. Não tinha nem idéia de quanto tempo passaria até que alguém respondesse, se o fizessem. Talvez devesse voltar e se inteirar de onde vivia o rapaz. E como tinha conhecido Mary.

Deus, Mary. A terrível doença dela havia retornado. Bela havia sentido sua volta e havia pensado em como lidar com aquilo o sabia dela quando Mary tinha mencionado que ia a sua consulta médica trimestral. Isso havia sido há alguns dias, e esta noite Bela tinha tido a intenção de lhe perguntar como haviam ido as coisas. Talvez ela pudesse ajudar à mulher em alguma pequena coisa.

Movendo-se rapidamente, ela retornou para as portas francesas e que davam para o prado. Ela encontraria algo mais sobre John e ...

O telefone soou.

Tão cedo? Não podia ser.

Ela chegou até a bancada e recolheu a extensão que tinha na cozinha.

- Olá?

- Bela? - A masculina voz era baixa. Comandando.

- Sim.

- Você ligou para nós.

Santo Moisés, havia sortido efeito.

Ela clareou a voz. Como qualquer civil, ela sabia tudo sobre A Irmandade: seus nomes, suas reputações, seus triunfos e suas lendas. Mas nunca havia se encontrado com algum. E era um pouco difícil de acreditar que ia dirigir a palavra a um guerreiro em sua cozinha.

Assim vá direto ao ponto, disse-se a si mesma.

- Eu, ah, tenho um assunto. - Explicou ao homem o que sabia sobre John.

Houve silêncio durante um momento.

- Amanhã à noite você vai trazê-lo para nós.

Oh, homem. Como ia ela a fazê-lo?

- Ah, ele não fala. Pode ouvir, mas necessita de um tradutor para ser entendido.

- Então traga um com ele.

Ela se perguntou como Mary se sentiria sobre enredar-se com seu mundo.

- A mulher que ele usa esta noite é humana.

- Ocuparemo-nos de sua memória.

- Como me aproximo de vocês?

- Enviaremos-lhes um carro. As nove em ponto.

- Meu endereço é...

- Sabemos onde você vive.

Quando o telefone ficou mudo, ela tremeu um pouco.

Ok. Agora só tinha que fazer que John e Mary concordassem em ver a Irmandade.

Quando retornou ao celeiro de Mary, John estava sentado na mesa da cozinha enquanto a mulher tomava uma sopa. Ambos a olharam quando ela se aproximou, e ela tentou parecer casual quando se sentou. Esperou um momento antes de começar.

- Então, John, eu conheço algumas pessoas que estão metidas nas artes marciais. - O qual não era exatamente uma mentira. Tinha ouvido que os irmãos eram muito bons em alguns tipos de combates. - E me perguntava se você tem algum interesse em conhecê-los?

John inclinou sua cabeça e moveu suas mãos enquanto olhava para Mary.

- Ele quer saber por que. Para treinar?

- Talvez.

John falou um pouco mais com as mãos.

Mary limpou a boca.

- Diz que não pode pagar o custo do treinamento. E que é muito pequeno.

- Se fosse grátis iria? - Meu Deus, o que estava fazendo, oferecendo coisas das quais não poderia efetuar a entrega? O céu sabia o que A Irmandade faria com ele.

- Escuta, Mary, posso levá-lo a um lugar onde pode encontrar … diga-lhe que é um lugar que os melhores guerreiros frequentam. Ele poderia falar com eles. Chegar a conhecê-los. Poderia gostar de...

John puxou fortemente a manga de Mary, fez alguns sinais, e o homem olhou fixamente para Bela.

- Ele quer te lembrar que pode ouvir perfeitamente bem.

Bela olhou para John.

- Sinto muito.

Ele assentiu, aceitando a desculpa.

- Só vem encontrar-se com eles manhã. - Disse ela. - O que tem a perder?

John se encolheu de ombros e fez um elegante movimento com sua mão.

Mary sorriu.

- Ele diz que está de acordo.

- Você terá que vir, também. Para traduzir.

Mary pareceu surpresa, mas então ficou olhando ao rapaz.

- A que horas?

- As nove em ponto. - Respondeu Bela.

- Sinto muito, estarei trabalhando.

- De noite. As nove em ponto da noite.

 

Butch entrou no One Eye sentindo-se como se alguém tivesse lhe arrancado os tampões de alguns de seus órgãos internos. Marissa tinha recusado lhe ver, e embora não estivesse surpreso, doía-lhe muitíssimo.

Então, agora era a hora para a terapia escocesa.

Depois de se afastar do caminho de um animado bêbado, um grupo de prostitutas, e alguns lutadores de boxe, Butch encontrou a mesa habitual do triunvirato. Rhage estava no canto mais afastado, contra a parede com uma morena. E Vishous não se via, mas um copo cheio de Grey Goose (vodca) e um agitador para a bebida se encontravam em frente de uma cadeira.

Butch tomou dois goles e não se sentiu muito melhor quando Vishous saiu da parte de trás. Sua camisa estava para fora das calças e enrugada na parte inferior, e bem atrás dele havia uma mulher de cabelo escuro. V a despediu com a mão quando viu Butch.

- Ei, Tira. - Disse o irmão quando se sentou.

Butch inclinou seu gole.

- O que foi?

- Como...?

- Não vai.

- Ah, caramba, homem. Sinto muito.

- Eu, também.

Vishous fechou o telefone e se levantou. O vampiro disse duas palavras, colocou-o de novo em seu bolso, e estendeu sua mão para seu casaco.

- Era Wrath. Temos que estar em casa em meia hora.

Butch pensava em sentar-se e somente beber. Que este plano era uma má idéia estava escrito.

- Quer se desmaterializar ou voltará comigo?

- Temos tempo para ir dirigindo.

Butch lançou as chaves do Escalade através da mesa.

- Vá pegar o carro. Vou chamar Hollywood.

Ele se levantou e se dirigiu para um canto escuro. O Casaco de Rhage cobria o corpo da morena. Só Deus sabia o longe que tinham chegado as coisas debaixo dele.

- Rhage, colega. Temos que ir.

O vampiro levantou sua cabeça, apertou os lábios e estreitou os olhos.

Butch levantou suas mãos.

- Não venho te tirar a garota. O nave-mãe chamou.

Com uma maldição, Rhage deu um passo para trás. As roupas da morena estavam desordenadas e ofegava, mas ainda não tinham obtido nada. Os couros de Hollywood estavam todos onde deviam estar.

Quando Rhage se retirava, a mulher o agarrou como se ela se desse conta de que o orgasmo de sua vida caminhava para a porta. Com um suave movimento, ele passou sua mão na frente de seu rosto e a congelou. Depois ela olhou para baixo, para si mesmo enquanto tentava saber como tinha chegado estar tão excitada

Rhage partiu dando meia volta olhando encolerizado, mas quando ele e Butch estiveram lá fora, sacudiu a cabeça com arrependimento.

- Tira, escuta, sinto muito se te olhei de um modo ruim. Estava um pouco … concentrado.

Butch lhe atingiu ruidosamente no ombro.

- Não há problema.

- Ouça, como foi com sua mulher...

- Nenhuma oportunidade.

- Demônios, Butch. Isto é contagioso.

 

Entraram no Escalade e foram para o norte, seguindo a rota 22 atravessando o campo. Estavam bastante unidos, Thug Matrimony de Trick Daddy soava como uma metralhadora, quando de repente Vishous freou. Em uma clareira, a uns noventa metros da estrada, havia algo pendurado de uma árvore.

Não, alguém estava em processo de pendurar algo em uma árvore. Com uma audiência de caras rudes de cabelo pálido e roupas pretas, observando.

- Lessers. - Resmungou V, relaxando o ombro.

Antes que se detivessem por completo, Rhage saiu do carro, correndo depressa ao encontro do grupo.

Vishous olhou através do assento dianteiro.

- Tira, você deveria ficar...

- Vá se ferrar, Vishous.

- Está armado com alguma das minhas?

- Não, ali vou estar nu. - Butch pegou uma Glock debaixo do assento, destravando-a enquanto ele e Vishous saltavam ao chão.

Butch tinha visto só a dois lessers antes, e o alucinaram. Pareciam-se com os homens, moviam-se e falavam como homens, mas não estavam vivos. Um olhar a seus olhos e sabia que os assassinos eram tigelas vazias, sem alma. E cheiravam tão mal que fediam.

Mas de todas as formas, ele nunca poderia agüentar o aroma de talco de bebê.

Fora da clareira, os lessers adotaram posições para atacar e tiraram suas jaquetas quando Rhage correu pelo prado como um trem de carga. Derrubou o grupo com algum tipo de onda suicida, não usou nenhuma arma.

Jesus, o cara estava louco. Ao menos, um desses assassinos tinha pegado uma pistola.

Butch apontou com a Glock e averiguou a ação, mas não podia obter um disparo limpo. E depois se deu conta de que não precisava fingir que estava de reforço.

Rhage cuidou dos lessers por si mesmo, todo reflexo e força animal. Estava utilizando algum tipo de artes marciais híbridas, seu casaco ondulava atrás dele enquanto chutava cabeças e perfurava torsos. Era mortalmente formoso à luz da lua, sua face retorcida em um grunhido, seu grande corpo esmurrando os lessers sem misericórdia.

Um grito excitado à direita e Butch olhou a seu redor. Vishous havia derrubado um lesser que tinha tentado fugir, e o irmão estava sobre a maldita coisa que era tão branco como o arroz.

Deixando essa coisa de Clube da Luta para os vampiros, Butch se dirigiu para a árvore. Preso com uma corda que estava pendurada em um grosso galho estava o corpo de outro lesser. Tinham trabalhado bem sobre a coisa.

Butch afrouxou a corda e abaixou o corpo, olhando sobre seu ombro porque as bofetadas e os grunhidos da briga eram repentinamente mais fortes. Três lessers mais se uniram à briga, mas não estava preocupado por seus rapazes.

Ele se ajoelhou diante do assassino e iniciou a revisão de seus bolsos. Ele tirava uma carteira quando uma pistola se apagou com um horrível som de estouro. Rhage atingiu o chão. Caiu de bruços sobre suas costas.

Butch não pensou duas vezes. Trocou a posição de tiro e apontou para um lesser que estava a ponto de dar outra porrada em Rhage. O gatilho nunca foi apertado. Do nada, apareceu uma brilhante luz branca, como se tivesse explodido uma bomba atômica. A noite pareceu converter-se em dia quando a clareira ficou iluminada: as árvores outonais, a briga, o espaço plano.

Quando o resplendor diminuiu, alguém se lançou contra Butch. Quando reconheceu Vishous, abaixou a pistola.

- Tira! Entra no maldito carro. - O vampiro estava lhe arrastando o traseiro, as pernas lhe batendo por estar a ponto de cair.

- O que aconteceu a Rhage....?

Butch não disse o resto da frase. Vishous o atingiu como com um pedaço de madeira agarrou-o, carregou-o e só acabou quando estiveram no Escalade e as portas estavam trancadas.

Butch se voltou para o irmão.

- Não deixaremos Rhage lá fora!

Um poderoso rugido soou na noite e Butch lentamente girou sua cabeça.

Na clareira viu uma criatura. De 2,50m de altura, parecido com um dragão, com dentes como de um Tiranossauro Rex e afiadas garras dianteiras. A coisa brilhava à luz da lua, seu enérgico corpo e sua cauda estavam cobertos com um púrpura iridescente e escamas verdes amarelados.

- Que diabos é isso? - Murmurou Butch, tateando para se assegurar de que a porta estava fechada.

- Rhage está realmente de muito mau humor.

O monstro soltou outro uivo e foi atrás dos lessers como se fossem brinquedos.

Mas como...... Bom Senhor. Não ia restar nada dos assassinos. Nem sequer os ossos.

Butch sentiu que começava a ofegar.

Fracamente, escutou que um ligeiro som se produzia, e voltou o olhar para o assento. O rosto de Vishous se acendeu e sustentou uma labareda amarelada enquanto acendia um charuto com mãos trêmulas. Quando o irmão exalou a fumaça, o sabor forte de tabaco turco encheu o ar.

- Desde quando ele tem... - Butch se deu a volta para a criatura que protagonizava o jogo na clareira. E perdeu completamente o rumo de seus pensamentos.

- Rhage desgostou muito a Virgem Escriba, assim ela o amaldiçoou. Deu-lhe duzentos anos de inferno. Em qualquer momento que ele esteja muito aborrecido, ele se transforma rapidamente. A dor pode transformá-lo. A cólera. A frustração física, se me entende.

Butch elevou uma sobrancelha. E pensar que ele havia se interposto entre esse cara e uma mulher que ele queria. Nunca voltaria a fazer uma coisa tão estúpida outra vez.

Enquanto o massacre continuava, Butch começou a sentir como se olhasse o Canal de Ficção Científica sem som. Homem, este tipo de violência estava inclusive fora de sua liga. Em todos seus anos como detetive de homicídios, havia visto grande quantidade de cadáveres, alguns dos quais tinha sido horripilantes. Mas nunca tinha presenciado a ação de uma matança ao vivo antes, e estranhamente, o choque disso retirou a experiência da realidade.

Graças a Deus.

Embora tivesse que admitir que a besta fosse um homem de ação refinada. A forma em que fazia os lesser girar levantando-os no ar e prendendo os assassinos com seu...

- Ocorre freqüentemente? - Perguntou ele.

- Muito. Por isso vive em busca de sexo. O acalma. Digo-te isto, não se aproxime ao redor da besta. Não sabe quem é amigo e quem é o almoço. Tudo o que podemos fazer é esperar até que Rhage volte e depois cuidar dele.

Algo ricocheteou contra a capota do Escalade fazendo ruído pela batida. Oh, Meu Deus, era uma cabeça? Não, uma bota. Talvez à criatura não gostasse do sabor da borracha.

- Cuidar dele? - Murmurou Butch.

- Como se sentiria se cada osso de seu corpo estivesse quebrado? Ele experimenta uma transformação quando aquilo sai, e quando o deixa, volta outra vez.

Em pouco tempo, a clareira estava vazio de lessers. Com outro rugido ensurdecedor, a besta girou como se procurasse algo mais para consumir. Não encontrando outros assassinos, seus olhos concentraram sua atenção no Escalade.

- Pode entrar no carro? - Perguntou Butch.

- Se quiser de verdade. Felizmente, não pode estar muito faminto.

- Bem, bom … o que ocorre se tiver lugar para o ferro - resmungou Butch.

A besta moveu a cabeça, a escura juba sacudida à luz da lua. Depois uivou e se lançou contra eles, correndo em duas pernas. Os golpes de seus passos soavam como o trovão e houve pequenos tremores sobre a terra.

Butch se certificou a tranca da porta uma vez mais. Depois refletiu sobre ser um maricas e talvez ficar no chão.

A criatura se deteve ao lado do SUV e caiu dobrando-se. Estava o suficientemente perto de maneira que sua respiração embaçava a janela de Butch com seu hálito, e de perto, a coisa era horrenda. O branco de seus olhos era estreito. Suas queixadas grunhiam. E o conjunto cheio das presas de sua boca aberta era como um pesadelo febril. O sangue negro descia correndo por seu peito como petróleo cru.

A besta levantou suas patas dianteiras as quais se fizeram mais musculosas.

Jesus, essas garras eram como adagas. Fazia as de Freddie Krueger serem simples.

Mas Rhage estava ali dentro. Em alguma parte.

Butch colocou sua mão na janela, como se pudesse alcançar o irmão.

A criatura levantou sua cabeça, seus brancos olhos piscavam. Abruptamente fez uma grande inspiração, e em seguida o maciço corpo começou a estremecer-se. Um alto e penetrante uivo saiu de sua garganta, perdendo-se na noite. Houve outro grande brilho. E depois Rhage apareceu nu no chão.

Butch abriu a porta do carro e se ajoelhou junto a seu amigo.

Rhage tremia incontrolavelmente na sujeira e na grama, sua pele estava úmida e pegajosa, seus olhos fechados, sua boca movendo-se lentamente. Havia sangue negro por toda sua face, em seu cabelo, sobre seu peito. Seu estômago estava terrivelmente distendido. E havia um pequeno afundamento em seu ombro onde uma bala o tinha atingido.

Butch tirou bruscamente a jaqueta e a colocou sobre o vampiro. Inclinando-se para baixo, tentou ouvir as palavras que ele murmurava.

- O que aconteceu?

- Vocês estão feridos? Você … Vishous?

- Não, estamos bem.

Rhage pareceu relaxar um pouco.

- Me leve para casa … por favor … me leve para casa.

- Não se preocupe com nada. Nós vamos cuidar de você.

 

O Sr. O se moveu rapidamente através da clareira, separando-se do massacre. Seu caminhão estava estacionado na rua, a um quilômetro de distância. Acreditava que tinha outros três ou quatro minutos antes de poder chegar até ele, e até agora ninguém o perseguia.

Tinha saído correndo no instante em que o brilho de luz tinha atravessado a clareira, sabendo malditamente bem o que vinha depois desse fogo de artifício. Tinha acreditado que era gás paralisante ou o precursor de alguma explosão, mas então escutou um rugido. Quando olhou sobre seu ombro, parou em seco. Algo estava brincando com seus companheiros lesser, abatendo-os como moscas.

Uma criatura. Do nada.

Não tinha observado o suficiente, e enquanto corria, voltou a olhar para trás outra vez para se assegurar de que não o perseguiam. O caminho atrás ainda estava claro, e no caminho a frente estava o caminhão. Quando chegou, lançou-se para dentro, ligou o motor, e pisou no acelerador.

A primeira coisa a fazer era se afastar da cena. Um massacre como esse ia atrair atenção, fosse pelo que se via e parecia, como o momento em que tinha ocorrido ou pelo que restou quando havia terminado.

Em segundo lugar teria que fazer um reconhecimento. O Sr. X ia ficar muito chateado por isso. O florescente esquadrão do Sr. O tinha desaparecido, e os outros lessers aos quais havia convidado para observar a disciplina sobre E estavam mortos, também. Seis assassinatos em menos de meia hora.

E maldição, ele não sabia muito sobre o monstro que tinha feito o mal. Estavam pendurando o corpo do Sr. E na árvore quando o Escalade se aproximou do lado da estrada. Um guerreiro loiro tinha saído, tão grande, tão rápido, que obviamente era um membro da Irmandade. Tinha havido outro macho com ele, também incrivelmente letal, inclusive um humano, embora só Cristo soubesse o que esse cara estava fazendo com os dois irmãos.

A briga tinha continuado por aproximadamente oito ou nove minutos. O Sr. O havia se colocado diante do loiro, tinha-lhe dado socos muitíssimas vezes sem efeito visível na resistência do vampiro ou em sua força. Dois deles tinham sido profundos quando outro lesser havia disparado uma pistola. O Sr. O teve que inclinar-se rapidamente e rolar, quase o haviam acertado. Quando tinha olhado para cima, o vampiro agarrava fortemente seu ombro e caía para trás.

O Sr. O havia se inclinado sobre ele, querendo matá-lo, mas quando saltou para frente, o lesser com a pistola tinha tentado alcançar ao mesmo vampiro. O idiota tinha tropeçado na perna do Sr. O e os dois haviam caído ao chão. Então a luz apareceu e o monstro saiu. Era possível que essa coisa tivesse vindo de certa maneira do guerreiro loiro? Homem, que arma secreta poderia ser.

O Sr. O imaginou o guerreiro, recordando cada aspecto do macho desde seus olhos, seu rosto inclusive as roupas que usava e a forma em que se movia. Ter uma boa descrição do irmão loiro seria crucial para os interrogatórios da sociedade. Perguntas mais específicas aos cativos provavelmente conduziria então a melhores respostas.

E informação sobre os irmãos era o que estavam procurando. Depois de décadas simplesmente atingindo civis, os lessers agora apontavam para a Irmandade especificamente. Sem esses guerreiros, a raça dos vampiros seria completamente vulnerável, e os assassinos finalmente poderiam terminar seu trabalho erradicando a espécie.

O foi até o estacionamento no local indicado pelo laser, pensando que a única coisa boa da tarde tinha sido quando tinha matado o Sr. E lentamente. Derrubar sua irritação no corpo do assassino tinha sido como beber uma cerveja gelada em um dia quente de verão. Satisfeito. Acalmado.

Mas o que tinha acontecido depois o tinha colocado de volta ao caminho.

O Sr. O apertou a tecla de seu telefone e discou rapidamente. Não havia razão para esperar até chegar em casa para fazer um relatório. A reação do Sr. X pensou que seria pior se as notícias se atrasassem.

- Tivemos uma situação. - Disse quando a ligação foi atendida.

Cinco minutos mais tarde desligou o telefone, deu a volta no caminhão, e voltou para a zona rural da cidade.

O Sr. X tinha requerido uma audiência. Em sua cabana privada no bosque.

 

       Rhage só podia ver sombras, enquanto seus olhos eram incapazes de enfocar ou filtrar muita luz. Odiava a perda de faculdades e tentou focalizar o melhor que pôde as duas formas grandes que se moviam a seu redor. Quando as mãos o agarraram pelas axilas e o atingiram acima de seus tornozelos, gemeu.

- Tranqüilo, Rhage, vamos te levantar durante um segundo, certo? - Disse Vishous.

Uma bola de fogo de dor atravessou como um relâmpago seu corpo quando o moveram e o colocaram na parte de atrás do Escalade. O colocaram no chão. As portas se fecharam. O motor ligou com um baixo ronronar.

Tinha tanto frio que seus dente tiritavam, e tentou tirar tudo o que estava perto de seus ombros. Não podia mover as mãos, mas alguém lhe atirou em cima o que parecia uma jaqueta.

- Só a mantenha ai, menino grande.

Butch. Era Butch.

Rhage lutou para falar, odiando o pestilento sabor de sua boca.

- Ei, relaxe, Hollywood. Fique frio. Vishous e eu levaremos você para casa.

O carro começou a se mover, balançando para cima e para baixo enquanto atingia a estrada. Ele gemeu como um efeminado, mas não podia ajudar. Sentia seu corpo como se o tivessem golpeado em todas as partes com um taco de beisebol do tipo A, com um gancho na ponta.

E os ossos e os doloridos músculos eram seu menor problema comparados com seu estômago. Rezava para chegar em casa antes de vomitar no carro de Vishous, mas não havia nenhuma garantia sobre se aguentaria tanto. Suas glândulas salivais tinham trabalho extra, de maneira que teve que tragar repetidamente. O que fez que lhe disparasse o reflexo de engasgar-se. O que impulsionou a náusea a voltar. Que lhe fez querer...

Tentando sair da espiral, ele respirou lentamente através de seu nariz.

- Como vai por aí, Hollywood?

- Me prometa. A ducha. A primeira coisa.

- Conseguiu-o colega.

Rhage acreditava ter desmaiado porque despertou quando estava sendo tirado do carro. Escutou vozes familiares. De Vishous. De Butch. Um grunhido profundo que só poderia ser Wrath.

Perdeu a consciência outra vez. Quando voltou, algo frio estava contra suas costas.

- Pode ficar de pé? - Perguntou Butch.

Rhage tentou e agradeceu quando suas coxas aceitaram seu peso. E agora que estava fora do carro, a náusea estava um pouco melhor.

Seus ouvidos perceberam o doce ruído de um toque de campainha, e um momento mais tarde uma rápida quentura sobre seu corpo.

- Como está, Rhage? Muito quente?

A voz de Butch. Estava em cima dele.

O tira estava na ducha com ele. E cheirava a tabaco turco. V também devia estar no banheiro.

- Hollywood? Está muito quente para você?

- Não. - Ele pegou o sabão, tateando. - Não posso ver.

- Melhor. Não há nenhuma razão para que saiba o que parecemos juntos nus. Francamente, estou o suficientemente traumatizado pelos dois.

Rhage sorriu um pouco quando uma esponja passou sobre sua face, pescoço e peito.

Deus, sentia-se fantástico. Esticou o pescoço para trás, deixando que o sabão e a água lavassem os restos da obra da besta.

O banho acabou muito rápido. Uma toalha estava envolta ao redor de seus quadris enquanto com outra o secavam completamente.

- Há alguma outra coisa que possamos fazer por você antes de deitar? - Perguntou Butch.

- Alka-Seltzer. No armário.

- Vishous, vamos infundir lhe algo de ânimo a esta merda, não é mesmo? - Butch colocou seu braço na cintura de Rhage.

- Te apóie em mim, colega. Bem, certo. Pare! Maldição, temos que deixar que se alimente.

Rhage deixou que o dirigissem através do chão de mármore e sobre o tapete do dormitório.

- Bom, menino grande, se deite.

Oh, sim. A cama. A cama era boa.

- Olhe quem está aqui. É a enfermeira Vishous.

Rhage sentiu como inclinavam sua cabeça e em seguida lhe colocaram um copo nos lábios. Quando tomou tudo o que pôde, ele desabou sobre os travesseiros. Ele estava a ponto de desmaiar outra vez quando escutou a voz baixa de Butch.

- Ao menos a bala o atravessou limpamente. Mas, homem, não tem bom aspecto.

Vishous respondeu em voz baixa

- Ele estará bem em um dia ou dois. Recupera-se rapidamente de qualquer coisa, mas ainda é difícil.

- Aquela criatura era algo mais.

- Preocupa-se muito pelo que aconteceu. - Ali estava o som de um isqueiro e depois uma suave fumaça desse maravilhoso tabaco.

- Tenta não mostrar o medo que lhe produz isto. Tem que manter essa imagem brilhante demais. Mas lhe aterroriza fazer mal a alguém.

- A primeira pergunta que fez foi se você e eu estávamos bem.

Rhage tentou se forçar a dormir. A negra lacuna mental era muitíssimo melhor que escutar a piedade que seus amigos tinham por ele.

Noventa e um anos, oito meses e quatro dias. E depois seria livre.

 

Mary estava desesperada para conciliar o sonho. Ela fechou seus olhos. Fez uma profunda inspiração. Relaxado os dedos do pé um por um. Repassou rapidamente todos os números de telefone que ela sabia. Nada lhe funcionou.

Virou-se e cravou os olhos no teto. Quando sua mente formou uma imagem de John, sentiu-se agradecida. O rapaz era melhor que tantos outros temas nos quais podia pensar insistentemente.

Não podia acreditar que tinha vinte e três anos de idade, embora quanto mais pensasse ele, mais parecia possível. Tirando sua fixação por Matrix, era incrivelmente adulto. Velho, realmente.

Quando disse que era tempo de partir, ela havia insistido em levá-lo de volta a seu apartamento. Bela tinha perguntado se podia ir também, então os três foram ao centro com sua bicicleta se sobressaindo atrás do Civic. Deixar o rapaz diante daquele miserável edifício de apartamentos tinha sido duro. Quase tinha lhe rogado que voltasse para casa com ela.

Mas ao menos ele tinha concordado em estar na casa de Bela na noite seguinte. E talvez a academia de artes marciais abrisse algumas portas para ele. Tinha a impressão de que não tinha muitas amizades, e pensou que Bela era doce ao fazer o esforço em seu benefício.

Com um pequeno sorriso, Mary recordou a maneira com a qual John tinha olhado para a outra mulher. Com tímida admiração. E Bela havia administrado a atenção graciosamente, entretanto ela sem dúvida se desse conta de seus olhares fixos. Provavelmente soube todo o tempo.

Por um momento Mary se deu o prazer e imaginou olhar ao mundo através dos impecáveis olhos de Bela. E caminhando sobre as perfeitas pernas de Bela. E balançando o perfeito cabelo de Bela sobre o ombro.

Fantasiar tinha sido uma boa diversão. Decidiu que iria à cidade de Nova Iorque e se passearia pela Quinta Avenida e compraria algo fabuloso. Não, à praia. Iria à praia com um biquíni preto. Caramba, pode ser um biquíni preto com uma tira de couro.

Certo, isso seria um pouco horripilante.

De qualquer modo, teria sido genial, uma única vez, ao ter o olhar fixo de um homem sobre ela com adoração total. Ter ele … cativado. Sim, essa era a palavra. Teria amado a um homem que estivesse cativado por ela.

Exceto que isso nunca ia ocorrer. Aquele tempo em sua vida, de juventude, beleza e sexualidade coberta de orvalho, tinham passado. Nunca tinham existido, realmente. E agora era uma mulher nada especial de trinta e um anos de idade que tinha tido uma vida muito árdua, graças ao câncer.

Mary gemeu. Oh, isto era maravilhoso. Ela não estava aterrorizava, mas estava até os joelhos de sentir pena de si mesma. E a merda parecia lodo, pegajoso e asqueroso.

Ela acendeu a luz e pegou a Vanity Fair com determinação sombria. Dominick Dunne, me dê força, pensou.

 

Depois que Rhage adormeceu, Butch desceu com Vishous para o vestíbulo para o escritório particular de Wrath. Normalmente Butch não ficava ao redor dos negócios da Irmandade, mas Vishous ia contar o que tinham encontrado quando voltavam para casa, e Butch era o único que tinha visto o lesser da árvore.

Quando atravessou a porta, teve a mesma reação que sempre tinha com a decoração Versailles: não encaixava. Todas as coisas de flores de dourado nas paredes e as pinturas de pequenas crianças gordas com asas no teto débil e o mobiliário frágil, de fantasia. O lugar se via como um lugar ultrapassado, caras franceses com perucas empoeiradas. Não um quarto de guerra para um montão de resistentes guerreiros.

Mas que diabos. A Irmandade havia se mudado à mansão porque era conveniente e segura, não porque gostassem da decoração.

Ele escolheu uma cadeira com pernas largas e finas e tentou se sentar sem deixar cair todo seu peso. Quando se sentou, saudou com uma inclinação de cabeça a Tohrment, que estava no sofá recoberto de seda em frente. O vampiro ocupava a maior parte do móvel individual, seu grande corpo encolhido desconfortavelmente sobre as almofadas azul pálida. Seu cabelo preto cortado como nas Forças Armadas e seus ombros largos lhe marcavam como uma pessoa de mau humor, mas esse olhar azul escuro contava outras histórias.

Debaixo de toda essa coisa de guerreiro duro, Tohr era um cara realmente agradável. E surpreendentemente empático, apesar de que atingia os mortos para ganhar a vida. Era o líder oficial da Irmandade desde que Wrath tinha subido ao trono há dois meses, e o único guerreiro que não vivia na mansão. A Shellan de Tohr, Wellsie, esperava seu primeiro filho e não ia compartilhar o lar com um montão de caras solteiros. E quem a podia culpar?

- Então adivinho que vocês, rapazes, se divertiram durante o caminho para casa. - Thor disse a Vishous.

- Sim, Rhage realmente se soltou. - Vishous respondeu enquanto se servia de um gole de vodca no bar.

Phury entrou depois e os saudou com a cabeça. Butch gostava muito do irmão, embora não tivessem muito em comum. Bem, exceto por seu fetiche com o vestuário, mas inclusive ali tinham diferenças. O de Butch era uma camada de tinta fresca em uma casa velha. O estilo e a elegância masculina de Phury eram impregnados em seus ossos. Era letal, sem lugar a dúvidas, mas para ele tinham vibrações metrossexuais.

A impressão de cavalheiro refinado não era simplesmente um resultado de suas atraentes roupas, como o suéter preto de caxemira e as calças longas e finas de sarja que estava usando. O irmão tinha a cabeleira mais assombrosa que Butch tinha visto. Longas ondas, grossas, vermelhas e marrons eram escandalosamente formosas, inclusive para uma mulher. E seu olhar amarelado, que brilhava como o ouro à luz do sol, acrescentava ao todo.

Por que ele era celibatário era um mistério total.

Quando Phury foi até o bar e se serviu de uma taça de vinho do Porto, sua claudicação quase não se notava. Butch tinha ouvido que o cara havia perdido a perna em alguma parte ao longo do caminho. Agora tinha uma extremidade artificial, e evidentemente não lhe obstaculizava nem um pouco no campo de batalha.

Butch se virou para olhar a alguém que tinha entrado no quarto.

Infelizmente, o gêmeo de Phury havia decidido em aparecer a tempo, mas ao menos Zsadist era uma pessoa longínqua e se mantinha afastado de todo mundo. Isso ia bem para Butch, porque esse bastardo o deixava nervoso.

A face cheia de cicatrizes de Zsadist e os escuros olhos brilhantes eram simplesmente a ponta do iceberg para a bizarrice. A cabeça raspada, as tatuagens ao redor de seu pescoço e punhos, os piercings: era uma ameaça completa e tinha a impressão de que tinha de uma alta dose de ódio. No jargão da execução da lei, ele era uma tripla ameaça. Frio como a pedra. Mesquinho como uma serpente. E imprevisível como o inferno.

Aparentemente Zsadist tinha sido seqüestrado de sua família quando era uma criança e vendido para algum tipo de escravidão. Os cem ou mais anos que ele havia estado no cativeiro lhe absorveram todo o remotamente humano, ou vampiro, que havia nele. Agora ele não era mais que escuras emoções presas em uma pele estragada. E se sabe o que é o melhor para você, melhor sair de seu caminho.

Do vestíbulo chegou o som de passos fortes. Os irmãos ficaram calados, e um momento mais tarde Wrath encheu a porta.

Wrath era enorme, de cabelo escuro, um cara com uma boca cruel. Sempre usava óculos escuros, muito couro, e era a última pessoa do planeta que ninguém quereria enganar.

Ele também tinha passado a encabeçar a lista de homens que Butch queria ter a suas costas. Ele e Wrath tinham forjado um vínculo na noite em que Wrath havia sido baleado ao tentar recuperar sua esposa dos lessers. Butch tinha dado uma mão, e isso era tudo. E se deram bem.

Wrath entrou no quarto como se possuísse o mundo inteiro. O irmão tinha todo o material de um imperador, o qual tinha sentido, porque era isso o que ele era. O Rei Cego. O último vampiro puro-sangue que havia no planeta. Um governante de raça.

Wrath voltou o olhar na direção de Butch.

- Encarregou-te bem de Rhage esta noite. Obrigado.

- Ele teria feito o mesmo por mim.

- Sim, ele faria. - Wrath foi para trás da mesa do escritório e se sentou, cruzando suas armas sobre seu peito. - Isto é o que temos. Havers teve um caso de trauma esta noite. Um macho civil. Feito merda, quase não estava consciente. Antes de morrer, disse a Havers que os lessers o haviam interrogado. Quiseram saber sobre a Irmandade, onde vivemos, o que sabia sobre nós.

- Outro mais. - Murmurou Tohr.

- Sim. Acredito que há uma mudança na estratégia da Lessening Society. O homem descreveu um lugar especificamente feito para um duro interrogatório. Infelizmente, morreu antes que pudesse indicar o lugar.

Wrath fixou a vista em Vishous.  

- Vishous, quero que vá ver a família do civil e lhes dirá que sua morte será vingada. Phury, vá ver Havers e fala com enfermeira que acolheu e falou com o civil. Vê se pode obter onde o prenderam e como escapou. Não vou ter a esses bastardos usando meus civis para se coçarem.

- Também estão trabalhando sobre sua classe. - Interrompeu Vishous. - Encontramos um lesser pendurado com uma corda em uma árvore no caminho para casa. Rodeado por seus amigos.

- O que lhe fizeram ao cara?

Butch falou sem temor.

- Bastante. Ele já não respirava. Fazem isso normalmente?

- Não. Não o fazem.

- Então é uma infernal coincidência, não acha? O civil se livra de um campo de tortura esta noite. Lessers aparecem parecendo agulheiros.

- Estou contigo, tira. - Wrath se voltou para Vishous. - Obteve alguma informação desses lessers? Ou Rhage limpou a casa?

Vishous sacudiu a cabeça.

- Tudo desapareceu.

- Não exatamente. - Butch colocou a mão em seu bolso e tirou a carteira que havia tinha do lesser pendurado. - Tirei isto do qual haviam atacado. - Ele olhou e encontrou a carteira de motorista. - Gary Essen. Ei, ele vivia em meu velho edifício. Quem ia dizer, nunca se sabe sobre seus vizinhos.

- Revistarei o apartamento. - Disse Tohr.

Quando Butch lhe lançou a carteira, os irmãos se levantaram, preparados para sair.

Tohr falou antes que alguém saísse.

- Há outra coisa. Esta noite recebi uma chamada. Uma mulher civil encontrou um jovem varão dos nossos. Seu nome é Tehrror. Disse-lhe que o trouxesse para o centro de treinamento amanhã de noite.

- Interessante. - Disse Wrath.

- Ele não fala, e sua tradutora virá com ele. É uma humana, a propósito. - Tohr sorriu e meteu a carteira do lesser no bolso detrás de suas calças de couro.

- Mas não se preocupe. Apagaremos sua memória.

 

Quando o Sr. X abriu a porta principal de sua cabana, seu humor não tinha melhorado seu afeto pelo Sr. O. O lesser do outro lado se via firme, imperturbável. A humildade o teria levado mais à frente, mas qualquer forma de debilidade ou submissão não estava na natureza do homem. Ainda.

O Sr. X fez gestos a seu subordinado.

- Sabe de uma coisa, esta coisa de confissão de fracasso que continuamos tendo não funciona para mim. E deveria ter sabido que não devia confiar em você. Você vai me explicar por que matou a seu esquadrão?

O Sr. O se virou.

- Desculpe?

- Não trate de se esconder atrás de mentiras, é incômodo - O Sr. X fechou a porta.

- Não os matei.

- Mas uma criatura o fez? Por favor, Sr. O. Ao menos poderia ser mais original. Melhor ainda, jogue a culpa à Irmandade. Isso seria mais plausível.

O Sr. X atravessou andando o cômodo principal da cabana, ficando calado enquanto seu subordinado se recompunha e se preparava. Tranqüilamente ele olhou seu notebook e depois percorreu com o olhar o local particular. O lugar era rústico, com escasso mobiliário, ao redor de 4 km2 que o rodeavam eram um bom amortecedor. O banheiro não funcionava, mas os lessers não comiam, então esse tipo de facilidade era desnecessária. Entretanto, o chuveiro funcionava como foi pedido.

E até que entrassem em um acordo de achar outro centro de recrutamento, este humilde local avançado era o quartel general da sociedade.

- Disse-lhe exatamente o que vi. - Disse-lhe o Sr. O, quebrando o forte silêncio. - Por que eu mentiria?

- O porquê é irrelevante para mim. - O Sr. X casualmente abriu a porta que ia para o dormitório. As dobradiças chiaram.

- Deveria saber que enviei um esquadrão à cena enquanto vinha de carro para cá. Disseram que ali não havia nada mais que os corpos, de maneira que assumo que os apunhalou em um grande desconhecimento. E confirmaram que houve uma briga infernal, um montão de sangue. Posso imaginar como seu esquadrão brigou contra você. Deve se sentir espetacular pela vitória.

- Se os tivesse matado assim, por que minhas roupas em sua maior parte estão limpas?

- As trocou antes de vir para cá. Você não é estúpido. - O Sr. X se posicionou no portal do dormitório.

- Então onde nos encontramos, Sr. O. É uma dor no traseiro, e a pergunta que preciso me fazer é se você vale toda esta miserável provocação. Eram Principais os que matou. Lessers com muita experiência. Sabe como...

- Não os matei...

O Sr. X deu dois passos para frente e o Sr. O lhe deu um golpe nocauteador no queixo. O outro homem caiu ao chão.

O Sr. X colocou sua bota sobre o rosto do Sr. O lhe imobilizando.

- Vamos deixar assim, certo? O que eu dizia era: você tem a menor idéia de quanto tempo se necessita para fazer um Principal? Décadas, séculos. Você arrasou com três deles em uma noite. Que eram um total de quatro, contando com o Sr. M, a quem cortou em rodelas sem minha permissão. E também estão os Betas que matou violentamente esta noite.

O Sr. O cuspia loucamente, seus olhos olhando fixamente para as exclusivas botas Timberland. O Sr. X apoiou seu pé até que as botas fizeram mais pressão.

- Então, outra vez, tenho que me perguntar, você vale a pena? Só faz três anos que está na sociedade. Você é forte, é efetivo, mas é impossível de controlar. Coloquei-lhe com os Principais por que achei que você seria super! Igual a seu excelente nível e seu caráter. Em lugar disso, você os matou.

O Sr. X sentiu que o sangue lhe levantava e se recordou a si mesmo que a cólera não era apropriada para um líder. Calma, a dominação sensata funcionava melhor ele respirou profundamente antes de falar outra vez.

- Você eliminou alguns de nosso melhores ativos esta noite. E isto tem que parar, Sr. O. Agora mesmo.

O Sr. X levantou sua bota. O outro lesser imediatamente se levantou do chão.

Quando o Sr. O estava a ponto de falar, algo raro, um discordante som atravessou a noite. Ele olhou para o som.

O Sr. X sorriu.

- Agora se não se importa, meta-se naquele dormitório.

O Sr. O ficou em uma postura de ataque.

- O que é isso?

- É a hora para modificar um pouco seu comportamento. Um pouco de castigo, também. Então meta-se no dormitório.

Neste momento o som era tão forte que era mais que uma vibração do ar, era algo que seus ouvidos podiam registrar.

O Sr. O gritou.

- Disse-lhe a verdade.

- Ao dormitório. O tempo para falar passou. - O Sr. X olhou por cima de seu ombro, rumo ao zumbido.

- Oh, por todos os Santos.

Congelou os grandes músculos do corpo do lesser e dirigiu o Sr. O para o outro quarto, empurrando-o para a cama.

A porta principal explodiu abrindo-se de par em par.

Os olhos do Sr. O se arregalaram quando viu Omega.

- Oh … Deus … não.

O Sr. X colocou em ordem as roupas do homem, endireitando a jaqueta e a camisa. Além disso, alisou todo esse cabelo escuro e beijou a testa do Sr. O, como se ele fosse uma criança.

- Se me desculpar. - Murmurou então o Sr. X. - Vou deixá-los a sós.

O Sr. X saiu pela porta traseira da cabana. Justo quando entrava no carro, começaram os gritos.

 

- Ah, Bela, acredito que nosso transporte está aqui. - Mary deixou que a cortina voltasse a cair em seu lugar. - Isso ou um ditador de terceiro mundo se perdeu em Caldwell.

John se dirigiu para a janela.

-Uau, ele fez sinais. - Olhem esse Mercedes. Essas janelas escuras parecem antibalas.

O três deixaram a casa de Bela e caminharam para o sedan. Um pequeno ancião, vestido com uma roupa preta, saiu do lado do condutor e foi saudá-los. Incongruentemente, ele era um cara alegre, todo sorrisos. Com a pele solta em sua face, seus lóbulos largos, e as maçãs do rosto, parecia estar se derretendo, embora sua felicidade radiante sugeria que a desintegração era um bom estado para estar.

- Sou Fritz. - Disse ele, abaixando-se profundamente. - Por favor me permitam lhes conduzir.

Ele abriu a porta traseira e Bela foi a primeira a deslizar para dentro. John foi depois, e quando Mary estava tranqüilamente recostada contra o assento, Fritz fechou a porta. Um segundo mais tarde estavam a caminho.

Enquanto o Mercedes se deslizava para frente, Mary tentou ver para onde iam, mas as janelas eram muito escuras. Pensava que iam para o norte. Mas quem saberia?

- Onde é este lugar, Bela? - Perguntou ela.

- Não é longe. - Mas a mulher, contudo não soava confiante, de fato estava com os nervos à flor da pele desde que Mary e John tinham aparecido.

- Sabe aonde nos levam?

- Oh, claro. - A mulher sorriu e olhou para o John. - Vamos nos encontrar com alguns dos homens mais assombrosos que já viu.

Os instintos de Mary atingiram seu peito, enviando todo gênero de sinais que se misturavam cuidadosamente. Meu Deus, ela desejou ter pegado seu carro.

Vinte minutos mais tarde, o Mercedes freou. Avançou pouco a pouco. Freou outra vez. Isto ocorreu em intervalos regulares muitíssimas vezes. Depois Fritz baixou sua janela e falou por algum tipo de interfone. Seguiram um pouco mais à frente, depois pararam. O motor foi desligado.

Mary tentou alcançar a porta. Estava trancada.

Os Mais Procurados da América, aqui vamos, pensou ela. Só podia imaginar suas fotos na TV, vítimas de um crime violento.

Mas o condutor os deixou sair imediatamente, tranqüilo com aquele sorriso em seu rosto.

- Querem me seguir?

Quando Mary saiu, olhou a seu redor. Estavam dentro de algum tipo de estacionamento subterrâneo, mas não havia outros carros. Só dois microônibus, como as do tipo que ficavam ao redor de um aeroporto.

Mantiveram-se juntos a Fritz e passaram através de um algumas portas de metal grossas que se abriram em um labirinto de corredores iluminados com fluorescentes. Graças a Deus o cara parecia saber para onde ia. Havia ramificações em todas as direções sem plano racional, como se o lugar tivesse sido desenhado para deixar as pessoas perdidas e conservá-las desse modo.

Exceto alguém que sempre soubesse para onde ia, pensou ela. Cada nove metros havia uma cápsula colocada no teto. Ela as tinha visto antes nas alamedas, e o hospital as tinha também. Câmeras de vigilância.

Finalmente entraram em um quarto pequeno com espelho dos dois lados, uma mesa e cinco cadeiras metálicas. Uma pequena câmera estava colocada no canto oposto à porta. Era exatamente como o quarto de interrogação da polícia, ou como devia ser em algum dos sets do NYPD Blue.

- Não terão que esperar muito. - Disse Fritz com uma pequena referência. Assim que desapareceu, a porta se fechou sozinha.

Mary se aproximou e testou a maçaneta, surpresa de encontrá-la facilmente liberava. Não obstante, quem quer que estivesse a cargo por aqui claramente não tinha que se preocupar em perder a pista de suas visitas.

Ela olhou para Bela.

- Pode me explicar que lugar é este?

- É uma instalação.

- Uma instalação.

- Já sabe, para treinar.

Sim, mas que tipo de treinamento?

- Estas pessoas pertencem ao governo ou a algo assim?

- Oh, não. Não.

John fez sinais, Isto não se parece com uma academia de artes marciais.

Sim, não brinque.

- O que ele disse? - Perguntou Bela.

- Ele está tão curioso como eu.

Mary se voltou para a porta, abriu-a, e colocou sua cabeça para fora da sala. Quando ouviu um som rítmico, deu um passo na direção da sala, mas não entrou.

Ruído de passos. Não, arrastavam os pés. Que o...

Um homem loiro, alto e musculoso, vestido com uma camisa preta e calças de couro se cambaleava ao redor de uma esquina. Estava instável sobre seus pés descalços, com uma mão na parede e seus olhos olhando para baixo. Parecia olhar ao chão cuidadosamente, como se confiasse em sua percepção da profundidade para equilibrar-se.

Parecia bêbado ou talvez doente, mas… bom Deus, ele era belo. De fato, seu rosto era tão deslumbrante que teve que piscar algumas vezes. O queixo perfeitamente quadrado. Lábios cheios. Maçãs do rosto altas. A testa larga. O cabelo era grosso e ondulado, mais claro na frente, mais escuro na parte de trás onde era mais curto.

E seu corpo era tão espetacular como seu rosto. De ossos grandes. Muito musculoso. Nada de gordura. Sua pele era dourada até sob as luzes fluorescentes.

Repentinamente ele a olhou. Seus olhos eram de cor azul elétrica, tão brilhantes, tão vívidos, que eram quase como o néon. E ficaram olhando fixamente através dela.

Mary desabou de todas as maneiras e pensou que a carência de resposta não era uma surpresa. Os homens como ele não notavam as mulheres como ela. Isto era um fato natural.

Ela deveria retornar para a sala. Não havia sentido em observá-lo enquanto ele não a notasse quando passasse por ela. O problema era quanto mais se aproximava, mais fascinada se sentia.

Meu Deus era realmente… lindo.

 

Rhage se sentia no santo inferno enquanto serpenteava pelo corredor. Cada vez que a besta saía dele e sua visão tirava pequenas férias, seus olhos tomavam seu tempo para retornar ao trabalho. O corpo não queria funcionar, tampouco; suas pernas e braços ficavam pendurados como pesos pesados fora de seu tronco, não exatamente imprestáveis, mas malditamente perto.

E seu estômago ainda estava desligado. Só de pensar em comida o fazia ter náuseas.

Mas tinha que sair de seu quarto. Doze horas deitado era suficiente tempo desperdiçado. Determinado a chegar até o ginásio do centro de treinamento, subir na bicicleta ergométrica, e poder desentorpecer-se um pouco...

Ele se deteve, ficando tenso. Não poderia ver muito, mas sabia com certeza que não estava sozinho no vestíbulo. Quem quer que fosse estava perto dele, a sua esquerda. E era um desconhecido.

Ele se virou e pegou bruscamente a figura da porta, agarrando-a pela garganta, forçando seu corpo contra a parede oposta. Muito tarde se deu conta de que era uma mulher, e o agudo ofego o envergonhou. Ele rapidamente afrouxou um pouco a pressão da mão, mas não deixou de apertar.

O pescoço delgado sob sua palma estava quente e suave. Seu pulso era frenético, o sangue corria rapidamente através das veias que chegavam a seu coração. Apoiou-se e respirou pelo seu nariz. Só para avançar dando tombos para trás.

Jesus Cristo era uma humana. E estava doente, talvez morrendo.

- Quem é você? - Lhe exigiu. – E como você entrou aqui?

Não houve resposta, só uma respiração acelerada. Ela estava completamente aterrorizada, o aroma de seu medo era como fumaça de madeira em seu nariz.

Ele abaixou sua voz.

- Não vou te fazer mal. Mas este não é seu lugar e quero saber quem é você.

Sua garganta se moveu sob sua mão, como se tragasse.

- Meu nome… meu nome é Mary. Estou aqui com alguns amigos.

Rhage deixou de respirar. Seu coração aumentou uma pulsação e depois se desacelerou.

- Diga-me isso outra vez. - Murmurou ele.

- Ah, meu nome é Mary Luce. Sou amiga de Bela… viemos aqui com um rapaz, com John Matthew. Fomos convidados.

Rhage tremeu uma suave brisa florescente saindo por toda sua pele. A cadência musical de sua voz, o ritmo de seu discurso, o som de suas palavras, tudo isso se espalhando através dele, acalmando-o, confortando-o. O prendendo docemente.

Ele fechou seus olhos.

- Me diga algo mais.

- O que? - Perguntou ela, desconcertada.

- Converse. Fale comigo. Quero ouvir sua voz outra vez.

Ela ficou em silêncio, e ele estava a ponto de lhe exigir que falasse quando disse. – Você não parece bem. Necessita de um médico?

Ele se encontrou cambaleando. As palavras não importavam. Era o som: baixo, suave, lhe acariciando os ouvidos. Ele se sentiu como se estivesse sendo acariciado por dentro de sua pele.

- Mais. - Disse ele, retorcendo sua palma pela parte dianteira de seu pescoço de maneira que podia sentir melhor as vibrações de sua garganta.

- Poderia..... poderia por favor me soltar?

- Não. - Ele subiu seu outro braço. Ela usava algum tipo de lã, e ele a moveu para um lado do pescoço, colocou uma mão sobre o ombro dela de maneira que não pudesse escapar.

- Fale.

Ela começou a lutar.

- Você está me apertando.

-Eu sei. Fale.

- Oh, pelo amor de Deus, o que quer que eu diga?

Até exasperada, sua voz era bela.

- Qualquer coisa.

- Bem. Tire sua mão da minha garganta e deixe-me ir ou vou te dar uma joelhada onde você vai sentir.

Ele riu. Depois afundou a parte inferior de seu corpo sobre ela, prendendo-a com suas coxas e seus quadris. Ela ficou rígida contra ele, mas ele conseguiu uma ampla percepção dela. Tinha a constituição delgada, entretanto não havia dúvida de que era uma mulher. Seu seios atingiam seu peito, seus quadris se amoldavam ao dele, seu estômago era macio.

Siga falando. - Disse ele contra seu ouvido.

Meu Deus, ela cheirava muito bem. Limpo. Fresco. Como o limão.

Quando ela se empurrou contra ele, ele se inclinou totalmente contra ela. Sua respiração se acelerou.

- Por favor. - Murmurou ele.

Seu peito se moveu contra o dele quando inspirou.

- Eu… er, não tenho nada para dizer. Exceto te afaste de mim.

Ele sorriu cuidadoso em manter a boca fechada. Não havia sentido em mostrar suas presas, especialmente se ela não soubesse o que ele era.

- Então diga nada.

- O que?

- Nada. Diga nada. Outra e outra e outra vez. Faça-o.

Ela se encolerizou, o cheiro do medo foi substituído por um cheiro forte, um cheiro de hortelã fresca do jardim. Ela estava incômoda agora.

- Diga. - Ele lhe ordenou, precisando sentir mais do que ela fazia a ele.

- Bem. Nada. Nada. - Abruptamente ela riu, e o som foi diretamente para sua coluna vertebral, queimando-o.

- Nada, nada. Naaada. Naaada. Naaaaaaaada. É o suficientemente para você? Me deixará partir agora?

- Não.

Ela lutou contra ele outra vez, criando uma fricção deliciosa entre seus corpos. E ele soube o momento em que sua ansiedade e sua irritação se converteram em algo quente. Ele cheirou sua excitação, um precioso doce no ar, e seu corpo respondeu a sua chamada.

Ele ficou duro como um diamante.

- Fale para mim, Mary. - Ele moveu seus quadris em um lento círculo contra ela, esfregando sua ereção sobre seu abdômen, aumentando sua dor e sua temperatura.

Depois de um momento a tensão dela diminuiu, amolecendo-a contra o impulso de seus músculos e sua excitação. Suas mãos esmagadas em sua cintura. E depois lentamente as deslizando para aproximá-las de suas costas, como se estivesse insegura da forma em que ele ia responder a ela.

Ele se arqueou contra ela, para exteriorizar sua aprovação e a incentivar a tocá-lo. Quando suas palmas subiram por sua coluna vertebral, ele se expressou com um grunhido baixo em sua garganta e deixou cair sua cabeça de tal maneira para que seu ouvido ficasse mais perto de sua boca. Ele queria lhe dar outra palavra para que a dissesse algo apetitoso ou um sussurro ou um morango.

Infernos, ela o estava desestabilizando.

O efeito que ela teve sobre ele era como uma droga, uma combinação tentadora de necessidade sexual e desafogo profundo. Como se estivesse tendo um orgasmo e caísse em um sono tranqüilo ao mesmo tempo. Não era nada do que ele houvesse sentido antes.

Um calafrio passou como um relâmpago por ele, absorvendo o calor de seu corpo.

Jogou sua cabeça para trás quando recordou o que Vishous havia lhe dito.

- Você é virgem? - exigiu Rhage.

Voltou a rigidez de seu corpo, como se fosse de cimento. Ela tentou afastá-lo com um duro empurrão, não movendo-o nenhuma polegada.

- Desculpe que tipo de pergunta é essa?

A ansiedade fez que apertasse a mão em seu ombro.

– Alguma vez foste tomada por um macho? Responde à pergunta.

Sua preciosa voz se elevou assustada.

- Sim. Sim, tive… um amante.

A desilusão afrouxou seu apertão. Mas o alívio o colocou sobre seus calcanhares.

Considerando tudo, não estava seguro de precisar se responsabilizar por seu destino nestes dez minutos.

Além disso, mesmo que ela não fosse seu destino, esta fêmea humana era extraordinária… algo especial.

Tinha que fazer alguma coisa.

 

Mary inspirou profundamente quando a pressão em sua garganta diminuiu de intensidade.

Tem que ter cuidado com o que se pede, pensou ela, recordando como tinha querido que um homem se sentisse cativado por ela.

Meu Deus, isto não era a experiência que ela queria. Estava completamente constrangida. Pelo corpo masculino pressionando o dela. Pela promessa de ter sexo com ele. Pelo poder letal que ele poderia exercer se pensasse em apertar seu pescoço outra vez.

- Me diga onde vive. - Disse o homem.

Quando ela não respondeu, ondulou seus quadris, a ereção maciça movendo-se, dando voltas, pressionando em seu abdômen.

Mary fechou os olhos. E tentando não se perguntar sobre o que sentiria se ele estivesse dentro dela enquanto estivesse fazendo isso.

Sua cabeça baixou e seus lábios acariciaram o lado de seu pescoço. Acariciando-a com o nariz.

- Onde vive?

Ela sentiu um golpe suave, úmido. Deus, sua língua. Subindo por sua garganta.

- Alguma hora você vai me dizer. - Murmurou ele. - Mas tome seu tempo. Agora mesmo não tenho muita pressa.

Seus quadris a deixaram brevemente, retornando com sua coxa empurrando entre suas pernas e lhe acariciando o centro. A mão na base de seu pescoço desceu totalmente para seu esterno, detendo-se finalmente entre seu seios.

- Seu coração palpita rapidamente, Mary.

- Is…. isso é por que eu estou com medo.

- O medo não é a única coisa que você sente. Por que você não comprova o que suas mãos estão fazendo?

Estavam levantadas sobre seus bíceps. E os agarravam, aproximando-o mais. Suas unhas cravando-se em sua pele.

Quando ela o soltou, ele franziu o cenho.

- Eu gosto do que percebo. Não se detenha.

A porta se abriu atrás deles.

- Mary? Você está ok... Oh… Meu Deus. - As palavras de Bela se desvaneceram.

Mary se preparou psicologicamente quando o homem virou seu torso e olhou para Bela. Seus olhos a olharam de esguelha, espionando-a de cima a baixo e em seguida se voltaram para Mary.

- Sua amiga está preocupada com você. - Disse ele suavemente. - Pode lhe dizer que não é preciso.

Mary tentou se soltar e não se surpreendeu quando ele dominou facilmente seus abruptos movimentos.

- Tenho uma idéia. - Resmungou ela. - Por que você não me deixa partir, e assim não terei que reconfortá-la?

Uma seca voz masculina atravessou o vestíbulo.

- Rhage, a mulher não veio aqui para seu prazer, e este não é o One Eye, meu irmão. Nada de sexo no vestíbulo.

Mary tentou virar a cabeça, mas a mão entre seu seios se deslizou para sua garganta e tomou seu queixo, segurando-a. Seus olhos azuis a perfurando.

- Vamos ignorar a ambos. Se você fizer o mesmo, então podemos fazê-los desaparecer.

- Rhage, deixa-a ir. - Uma corrente afiada de palavras seguiu falado em uma linguagem que ela não entendeu.

Enquanto a acalorada discussão continuou, o brilhante olhar do loiro se manteve nela, seu controlado polegar para frente e para trás ao longo de seu queixo. Ele foi preguiçoso, carinhoso, mas quando respondia ao outro homem, sua voz era dura e agressiva, como seu poderoso corpo. Outra série de palavras voltaram de novo, desta vez menos combativas. Como se o outro cara tentasse raciocinar com ele.

Bruscamente o loiro a deixou partir e se distanciou. A ausência de seu corpo quente foi como um curioso choque.

- Verei-te mais tarde, Mary.

Ele acariciou sua bochecha com seu dedo indicador e em seguida se separou dela.

Sentindo seus joelhos fracos, apoiou-se contra a parede quando ele a soltou, colocando um braço a seu lado para se estabilizar.

Meu Deus, quando ele a tinha tido a sua mercê, ela se havia se esquecido de que estava doente.

- Onde está o rapaz? - Requereu a outra voz masculina.

Mary olhou para sua esquerda. O cara era grande e se vestia com couro preto, com um corte de cabelo militar e sagazes olhos azul escuro.

Um soldado pensou ela, de certa forma como o outro.

-O rapaz? - Exigiu-lhe ele.

- John está lá dentro. - Respondeu Bela.

- Então vamos.

O homem abriu a porta e se apoiou contra ela de maneira que ela e Bela tiveram que se apertar contra ele. Ele prestou pouca atenção a elas quando passaram, em vez disso ficou olhando para John. John o olhou diretamente, os olhos se estreitaram como se tentasse se encontrar no soldado.

Quando todos se sentaram à mesa, o homem inclinou a cabeça para Bela.

- Foi você quem ligou.

- Sim. E esta é Mary Luce. E John. John Matthew.

- Sou Tohrment. - Ele concentrou sua atenção em John. - Como está, filho?

John fez sinais, e Mary teve que clarear a voz antes de traduzir.

- Ele diz: bem senhor. Como está você?

- Bem. - O homem sorriu um pouco e depois voltou a olhar para Bela.

- Quero que espere no vestíbulo. Falarei contigo quando acabar de falar com ele.

Bela vacilou.

- Não é um pedido. - Disse ele com uma voz nivelada.

Depois que Bela tivesse saído, o cara voltou sua cadeira para John, reclinou-se nela, e esticou suas longas pernas.

- Então me diga filho, onde você cresceu?

John moveu suas mãos, e Mary disse.

- Aqui na cidade. Primeiro em um orfanato, depois com alguns pais adotivos.

- Sabe alguma coisa sobre sua mãe ou seu pai?

John negou com a cabeça.

- Bela me disse que tinha uma pulseira com alguns símbolos, você poderia me mostrá-la.

John subiu sua manga e estendeu seu braço. A mão do homem pegou o pulso do rapaz.

- Isto é estupendo, filho. Foi você quem fez?

John assentiu.

- E de onde tirou a idéia para o desenho?

John se soltou da mão do soldado e começou a fazer sinais. Quando ele se deteve, Mary disse:

- Ele sonha com modelo.

- Sim? Importa-te se te pergunto como são seus sonhos? - O homem retornou a sua postura casual na cadeira, mas seus olhos se estreitaram.

Adeus treinamento de artes marciais pensou Mary. Isto não se tratava de algumas aulas de karate. Era um interrogatório.

John hesitou, ela queria pegar o rapaz e partir, mas tinha o pressentimento de que o rapaz se oporia. Ele se concentrou completamente no homem, intenso e concentrado.

- Está bem, filho. O que for, está bem.

John levantou suas mãos, e Mary falou quando fez os sinais.

- Que… que ele está em um lugar escuro. Ajoelhando diante de um altar. Atrás dele, ele vê escritos sobre a parede, centenas de linhas de escritura em pedra escura.   - John, um momento, reduz a velocidade. Não posso traduzir quando vai tão rápido. - Mary se concentrou nas mãos do rapaz. - Ele diz que no sonho continua e tira uma tira da escritura que em geral lhe agrada.

O homem franziu o cenho.

Quando John olhou para baixo, como se estivesse envergonhado, o soldado lhe disse.

- Não se preocupe filho, está tudo bem. Há algo mais no que possa pensar que te pareça incomum? Coisas que talvez lhe façam diferente de outra pessoa?

Mary trocou de posição em sua cadeira, realmente incômoda com a forma que as coisas estavam indo. John ia claramente responder a qualquer pergunta que lhe fizesse, mas pelo bem de Deus, não sabiam quem era este homem. E Bela, embora tivesse feito a apresentação, havia estado obviamente incômoda.

Mary levantou suas mãos, a ponto de indicar através de gestos uma advertência a John, quando o rapaz desabotoou sua camisa. Ele abriu um lado, mostrando uma cicatriz circular por cima de seu músculo peitoral esquerdo.

O homem se inclinou para frente, estudando a marca, e então se moveu para trás. - Onde você fez isso?

As mãos do rapaz voaram diante dele.

- Ele diz que nasceu com isso.

- Há alguma outra coisa? - Perguntou o homem.

John olhou para Mary. Ele fez uma profunda respiração e fez os sinais:

- Sonho com sangue. Com presas. Com morder.

Mary sentiu que seus olhos se arregalavam antes de poder se deter.

John a olhou ansioso.

Não se preocupe Mary. Não sou um psicopata ou algo parecido. Estava aterrorizado quando tive os primeiros sonhos e não posso controlar o que meu cérebro faz você sabe.

- Claro, eu sei. - Disse ela, estendendo e apertando sua mão.

- O que ele disse? - Perguntou o homem.

- Essa última parte foi para mim.

Ela respirou a fundo. E voltou a traduzir:

 

Bela se apoiou contra a parede do corredor e começou a trançar seu cabelo, algo que fazia quando estava nervosa.

Tinha ouvido que os membros da Irmandade eram quase como uma espécie distinta, mas ela nunca tinha pensado que fosse verdade. Até agora. Esses dois homens não eram simplesmente colossais em uma escala física; irradiavam dominação e agressão. Caramba faziam que seu irmão parecesse um amador no departamento dos caras duros, e Rehvenge era a coisa mais resistente que ela havia encontrado.

Querido Deus, o que havia feito ao trazer Mary e John até aqui? Estava menos preocupada com o rapaz, mas e Mary? A maneira como o guerreiro loiro havia agido a redor dela seriam problemas à vista. Poderia se ferver um oceano com o tipo de luxúria que ele emanava, e os membros da Irmandade da Adaga Negra não estavam acostumados a que lhes negasse nada. Pelo que havia escutado, quando queriam uma mulher, tinham-na.

Felizmente, não se sabia que violassem, embora pelo que havia visto agora mesmo, não teriam por que fazê-lo. Os corpos desses guerreiros estavam feitos para o sexo. A união com um deles, sendo possuída por toda essa força, seria uma experiência extraordinária.

Embora Mary, como uma humana, poderia não se sentir assim.

Bela olhou de cima a baixo o corredor, agitada, tensa. Não havia ninguém, e se tivesse que ficar quieta ia ter a cabeça cheia de tranças. Ela sacudiu seu cabelo, escolheu uma direção aleatória, e caminhou sem rumo. Quando percebeu o som de um tamborilar rítmico ao longe, ela seguiu o ruído surdo até uma porta de metal. Abriu um lado e a atravessou andando.

O ginásio era do tamanho de um estádio de basquete profissional, o chão de madeira envernizado muito brilhante. Tapetes azul brilhante estavam colocados aqui e lá e os fluorescentes protegidos pendurados em um teto alto. Uma sacada com assentos de estádio se projetava à esquerda, e sob uma depressão saliente, uma série de sacos de areia estavam pendurados acima.

Um magnífico homem atingia com força um deles, de costas para ela. Dançava sobre as pontas de seus pés, ligeiro como a brisa, lançando soco atrás de soco, inclinando-se rapidamente, chocando, conduzindo o saco pesado para frente com sua força de maneira que a coisa pendurada ficava em ângulo.

Não podia ver o seu rosto, mas tinha que ser atraente. Seu cabelo cortado rente era de cor de café, e estava usando um suéter de gola virada preto muito justo e calça preta de náilon ampla de ginástica. Um coldre cruzava suas largas costas.

A porta fez um clique quando se fechou atrás dela.

Com um golpe de seu braço, o homem tirou de repente uma adaga e a enterrou no saco. Ele abriu com um puxão a coisa, a areia e o enchimento caíam rapidamente sobre o chão. E em seguida ele se virou.

Bela colocou uma mão sobre sua boca. Sua face estava cheia de cicatrizes, como se alguém tivesse tentado cortá-la pela metade com uma faca. A grossa linha se iniciava em sua testa, descia pela ponta do nariz, e se curvava sobre sua bochecha. Acabava ao lado de sua boca, deformando seu lábio superior.

Os olhos estreitos, negros e frios como a noite, acolheram-na e depois se arregalaram levemente. Ele pareceu desconcertado, seu grande corpo imóvel exceto pelas inspirações profundas que fazia.

O homem a queria pensou ela e estava inseguro sobre que fazer com isso.

Então a incerteza e a estranha confusão foram enterradas. O que tomou seu lugar foi uma cólera gelada que a assustou como o próprio inferno. Mantendo seus olhos sobre ele, ela voltou para trás até a porta e apertou a barra de abertura. Quando não chegou a nenhuma parte, teve o pressentimento que estava presa.

O homem olhou sua luta durante um momento e em seguida foi atrás dela. Enquanto atravessava os tapetes, lançava sua adaga ao ar e a pegava pelo cabo. Lançando-a para cima, voltando a pegá-la. Para cima e para baixo.

- Não sei o que você está fazendo aqui. - Disse ele em voz baixa. - Além de ferrar meu treinamento.

Quando seus olhos passaram sobre seu rosto e seu corpo, sua hostilidade era evidente, mas ele também eliminava um calor cru, uma espécie de ameaça sexual pela qual ela realmente não deveria ter se sentido cativada.

- Sinto muito. Não sabia...

- Não sabia o que, mulher?

Meu Deus, ele estava tão perto agora. E ele era maior que ela.

Ela se apertou contra a porta.

- Sinto muito...

O homem apoiou suas mãos no metal a cada lado de sua cabeça. Ela viu a faca que ele ainda segurava, mas logo esqueceu tudo sobre a arma quando ele se apoiou nela. Ele se deteve justo antes que seus corpos se tocassem.

Bela fez uma profunda inspiração, cheirando-o. Seu perfume era mais como um fogo em seu nariz que qualquer outra coisa que ela pudesse identificar. E ela lhe respondeu o calor, o desejo.

- Você sente muito. - Disse ele, colocando sua cabeça a seu lado e concentrando-se em seu pescoço. Quando ele sorriu, suas presas eram largas e muito brancas. - Sim, com certeza que sim.

-De verdade sinto muito.

- Demonstre-me isso

- Como? - Ela sussurrou.

- Te coloque sobre suas mãos e seus joelhos. Tomarei sua desculpa assim.

Uma porta no outro lado do ginásio se abriu de repente.

- Oh Cristo!.... Deixa-a ir! - Outro homem, com uma longa cabeleira, correu através do vasto chão.

- Tire as mãos, Zsadist. Agora mesmo.

O homem das cicatrizes se apoiou nela, colocando sua deformada boca perto de seu ouvido. Algo pressionou sobre seu esterno, sobre seu coração. A ponta de um dedo.

- Salvaram-lhe, mulher.

Ele deu um passo ao redor dela e foi em direção a porta, justo quando o outro homem chegou até ela.

-Você está bem?

Bela olhou para o dizimado saco perfurado. Parecia que não podia respirar, embora não soubesse se era de medo ou era algo inteiramente sexual, não tinha certeza. Provavelmente uma combinação de ambos.

- Sim, acredito que sim. Quem era?

O macho abriu a porta e a levou de volta a sala de interrogação sem responder a sua pergunta.

- Te faça um favor e espera aqui, ok?

Um bom conselho pensou ela, quando ficou só.

 

Rhage despertou bruscamente. Quando olhou para o relógio em sua mesinha de cabeceira, ficou nervoso quando pôde enfocar seus olhos e pôde ler algo. Então se sentiu chateado quando viu a hora que era.

Onde diabos Tohr estava? Ele havia se comprometido a chamá-lo logo que tivesse terminado com a fêmea humana, mas isso tinha sido há mais de seis horas.

Rhage tratou de agarrar o telefone e discar o número do celular de Tohr. Quando lhe respondeu a voz da caixa de correio, amaldiçoou e desligou o telefone.

Quando saiu da cama, espreguiçou-se cuidadosamente. Estava dolorido e mal do estômago, mas era capaz de se mover muito melhor. Uma ducha rápida e um conjunto limpo de couros fizeram que se sentisse como se fosse ele mesmo, e se dirigiu para o escritório de Wrath. O amanhecer chegaria logo, e se Tohr não atendia ao seu telefone, então devia estar fazendo alguma transmissão para o rei antes de voltar para casa.

As portas duplas da residência estavam abertas, pelas quais viu Tohrment que caminhava pelo tapete Aubusson, passeando enquanto falava com Wrath.

- Estava te procurando. - Rhage falou arrastado as palavras.

Tohr o olhou por alto.

- Eu ia à sua residência depois.

- Com certeza que ia. O que está fazendo, Wrath?

O Rei Cego sorriu.

- Estou contente de ver que voltaste para sua forma de combate, Hollywood.

- Oh, estou preparado, tudo certo. - Rhage cravou os olhos em Tohr.

- Tem algo para me dizer?

- Na verdade não.

- Está me dizendo que não sabe onde a humana vive?

- Não sei por que precisa vê-la, o que acontece?

Wrath se apoiou para trás em sua cadeira, colocando seus pés sobre a mesa. Suas enormes botas militares faziam que o delicado objeto parecesse uma banqueta.

Ele sorriu.

- Algum de vocês quer mencionar algo?

- Discutimos sobre algo particular. - Murmurou Rhage. - Nada em especial.

- Um inferno que é. - Tohr virou-se para Wrath. - Nosso moço aqui presente parece querer chegar a conhecer melhor à tradutora do rapaz.

Wrath sacudiu sua cabeça.  

- Oh, não, não o faça, Hollywood. Te deite com outra mulher. Deus sabe que, há suficientes delas para você lá fora. - Ele inclinou a cabeça para Tohr.   - Como dizia, não tenho nenhuma objeção a que o rapaz se una à primeira classe de aprendizes, a condição de que verifique seus antecedentes. E a humana deve ser investigada, também. Se o rapaz desaparecer de repente, então não quero ser a causa do problema.

- Me encarregarei dela. - Disse Rhage. Quando ambos o olharam, ele se encolheu de ombros. - Ou me deixam ou seguirei a quem o fizer. De um jeito ou de outro, encontrarei a essa mulher.

A testa de Tohr ficou igual a um campo arado, cheia de sulcos.

- Voltará atrás, meu irmão? Se acaso o rapaz ficar aqui, há uma conexão muito próxima com essa humana. Deixe disso.

- Sinto muito. Eu a quero.

- Cristo. Pode ser uma verdadeira dor no traseiro, sabe? Não controla seus impulsos, mas mantém um só propósito. Grande combinação.

- Olhe, em qualquer caso vou tê-la. Agora, quer que a investigue enquanto o faço ou não?

Quando Tohr esfregou seus olhos, e Wrath praguejou, Rhage soube que havia ganhado.

- Bom. - Tohr resmungou. – Descubra seus antecedentes e sua conexão com o rapaz e depois faz o que quiser com ela. Mas quando acabar apaga sua memória e não a veja outra vez. Está me ouvindo? Limpe a memória dela quando acabar e não a veja outra vez.

- Certo.

Tohr abriu seu telefone celular e apertou algumas teclas.

- Vou enviar uma mensagem de texto com o número da humana para você.

- E o de sua amiga.

- Vai usá-la também?

- Só me dê isso, Tohr.

 

 

Bela estava na cama durante o dia quando soou o telefone. Ela o pegou, esperando que não fosse seu irmão. Ela odiava quando ele comprovava que estava em casa ao anoitecer. Ela gostaria de ser um homem que o detestasse ou algo do tipo.

- Olá? - Disse ela.

- Ligará para Mary e lhe diga que se encontre comigo para jantar.

Bela se ergueu de repente. O guerreiro loiro.

- Você ouviu o que te disse?

- Sim… mas o que quer dela? - Como se já não soubesse.

- Ligue para ela agora. Diga-lhe que sou teu amigo e que passará uma boa noite. Será melhor dessa maneira.

- Melhor que o que?

- Irromperei em sua casa e a recolherei. É o que farei se tiver que fazê-lo.

Bela fechou seus olhos e viu Mary contra a parede, o macho dominando-a enquanto a mantinha no lugar. Ele em primeiro lugar ia atrás dela e só havia uma razão: liberar todo o sexo em seu corpo. Liberá-lo em seu interior.

- Oh, meu Deus… por favor, não a machuque. Ela não é uma de nós. E ela está doente.

- Eu sei. Não vou feri-la.

Bela colocou sua cabeça sobre sua mão, perguntando-se como um macho tão duro saberia o que fazia mal e que não o fazia.

- Guerreiro… ela não sabe sobre nossa raça. Ela é.... suplico-te, que não o faça...

- Não se lembrará de mim depois de fazê-lo.

Como supunha que isto a faria se sentir menos horrível? Fosse como fosse, sentia que servia Mary em uma bandeja.

- Não pode me deter, mulher. Mas pode fazer mais fácil para sua amiga. Pensa nisso. Ela se sentirá mais segura se nos encontrarmos em um lugar público. Não saberá o que sou. Será tão normal como pode ser para ela.

Bela odiava que a empurrassem, odiava sentir que traía a amizade de Mary.

- Sinto tê-la levado. - Resmungou ela.

- Não o faça. - Houve uma pausa. - Ela tem feito um… caminho incomum.

- O que acontece se ela se negar?

- Não o fará.

- Mas se o fizer?

- Ela escolherá. Não será forçada. Eu lhe juro.

Bela colocou sua mão sobre sua garganta, enredando um dedo na corrente com diamantes da Tiffany’s que sempre usava.

- Onde? - Disse ela abatida. - Onde ela deve se encontrar com você?

- Onde os humanos se encontram normalmente?

Como diabos ela saberia? Então se recordou de Mary lhe dizendo algo a respeito de sua colega se reunindo com um homem… Qual era o nome do lugar?

- TGI Friday's, - Disse ela. - Há um no Lucas Square.

- Bem. Diga-lhe que vá oito horas em ponto.

- Que nome lhe dou?

- Lhe diga que.... Hal. Hal E. Wood.

- Guerreiro?

- Sim?

- Por favor.

Sua voz realmente atenuada.

- Não se preocupe Bela. A tratarei muito bem.

O telefone ficou mudo.

 

Na cabana do Sr. X. Na profundeza do bosque, Sr. O lentamente se sentou na cama, aliviando-se ao ficar na vertical, acariciou suas úmidas bochechas.

Ômega o havia deixado somente há uma hora, e o corpo do Sr. O vazava ainda por vários lugares, feridas e outras maneiras. Não se sentia muito seguro enquanto se movia, mas tinha que sair daquele infernal dormitório.

Quando tentou ficar de pé sua visão deu voltas grosseiramente, então se sentou. Através da pequena janela do quarto, viu quebrar a alvorada, o estilhaçado brilho quente por entre os ramos de pinheiros. Não tinha esperado que o castigo durasse um dia inteiro. E tinha certeza de que não faria muitas perguntas.

Ômega o havia tomado por lugares que ele mesmo não sabia que os tinha. Lugares de medo e autoaborrecimento. De absoluta humilhação e degradação. E agora, como seqüela, sentia-se como se não tivesse pele, como se ele estivesse totalmente aberto e exposto, uma crua laceração que somente respirava.

A porta se abriu. Os ombros do Sr. X encheram a soleira.

- Como estamos passando?

O Sr. O cobriu a si mesmo com uma manta e em seguida abriu sua boca. Nada saiu dela. Tossiu algumas vezes.

- Eu..... o fiz.

- Esperava que o fizesse.

Para o Sr. O, era difícil ver o homem vestido de forma normal, segurando uma a prancheta, vendo-se como se estivesse pronto para um dia de trabalho produtivo. Comparado como o Sr. O tinha passado nas últimas vinte e quatro horas, a normalidade parecia falsa e vagamente ameaçadora.

O Sr. X sorriu um pouco.

- Então, você e eu vamos fazer um acordo. Chegue até o limite e fique ali, e isto não ocorrerá de novo.

O Sr. O estava muito exausto para discutir. A briga com ele chegaria depois, soube que o faria, mas agora mesmo tudo o que queria era sabão e água quente. E algum tempo para ficar sozinho.

- O que me diz? - Perguntou o Sr. X.

- Sim, sansei. – O Sr. O não se importava com o que tivesse que fazer com o que tivesse que dizer. Só queria escapar da cama… do quarto… da cabana.

- Há algumas roupas no armário. Você está bem para dirigir?

- Sim. Sim… estou bem.

O Sr. O imaginou a ducha de sua casa, o azulejo creme e os rejuntes brancos. Limpo. Muito limpo. E ele estaria, também, quando saísse de lá.

- Quero que me faça um favor, Sr. O. Quando voltar para seu trabalho, se recorde de tudo o que passou. Mantenha-o, conserve-o fresco em sua mente, e tire suas lições. Posso estar irritado por sua iniciativa, mas lhe desprezaria se ficasse suave comigo. Entendemo-nos?

- Sim, sansei.

O Sr. X se virou, mas depois olhou por cima de seu ombro.

- Acredito saber por que Omega lhe deixou sobreviver. Quando saiu, ele estava absolutamente cheio de elogios. Sei que gostaria de vê-lo outra vez. Direi-lhe que você se alegrará com suas visitas?

O Sr. O fez um som estrangulado. Não poderia evitar.

O Sr. X riu suavemente.

- Provavelmente não.

 

Mary estacionou no TGI Friday. Olhando ao redor para os carros e caminhonetes, perguntou-se como diabos tinha concordado em se encontrar com um homem para jantar. Pelo que ela podia se recordar, Bela havia ligado para ele e havia lhe falado disso naquela manhã, mas, que droga, se podia se recordar de algum detalhe.

Não entanto, ela não conseguia se lembrar de muita coisa. Amanhã pela manhã iria ao médico para o exame, e com isso pairando sobre ela, sentia-se aturdida. Como ontem à noite, por exemplo. Poderia ter jurado que tinha ido a algum lugar com John e Bela, mas com exceção da tarde o restante era um total buraco negro. No trabalho aconteceu o mesmo. Hoje, no escritório de advocacia parecia inexperiente, cometendo erros simples e tendo o olhar perdido.

Quando saiu do Civic, reforçou-se mentalmente o melhor que pôde. Tinha uma dívida com o pobre homem, visto que precisava esforçar-se para estar alerta, mas, além disso, não sentia nenhuma pressão. O havia esclarecido com Bela, eram só amigos. O havia comprovado. Prazer em conhecê-lo; nos vemos mais tarde.

Qual teria sido sua atitude se não tivesse sido distraída com a loteria médica - roleta russa que pairada sobre sua cabeça. Além do fato de que poderia estar doente outra vez, estava muito longe de ter prática com encontros e não procurava voltar a tê-la. Quem necessitava de drama? Muitos caras solteiros perto dos trinta anos andavam procurando diversão ou já estavam casados, e ela era a antidiversão, do tipo sem-graça. Seria por natureza, ou por alguma experiência dura.

E ela não estava uma festa, tampouco. Seus poucos cabelos penteada para trás, estava esticada e presa com um elástico. O suéter de tecido irlandês de cor creme que usava era folgado e quente. Suas calças cor cáqui eram muito cômodas, seus sapatos baixos, marrons e ralados nos dedos dos pés. Provavelmente parecia a mãe que nunca seria.

Quando entrou andando no restaurante, dirigiu-se à encarregada e foi dirigida para um reservado no canto dos fundos. Quando deixou sua bolsa, sentiu o cheiro de pimentas verdes e cebolas e olhou para cima. Uma garçonete com uma bandeja de aço se movia rapidamente.

O restaurante estava cheio, uma grande cacofonia levantando-se por todo o lugar. Enquanto os garçons dançavam por todos os lados com bandejas de comida fumegante ou com pratos usados, as famílias e os casais e os grupos de amigos riam, falavam, discutiam. O amalucado caos a impressionou mais que normalmente, e sentada ali sozinha se sentiu completamente à parte, um estigma entre as pessoas.

Todos eles tinham futuros felizes. Ela tinha… mais uma consulta com sua médica.

Com uma maldição, devolveu suas emoções a seu lugar, diminuindo o catastrófico pânico, esquecendo a determinação de não pensar obsessivamente na Dra. Delia Croce esta noite.

Mary pensou nos jardins e sorriu um pouco, então uma garçonete chegou até a mesa. A mulher colocou um copo de água de plástico, derrubando um pouco.

- Você está esperando alguém?

- Sim, estou.

- Quer beber algo?

- Isto está bem. Obrigado.

Quando a garçonete se foi, Mary sorveu a água, com sabor de metal, e afastou o copo. Pelo canto do olho percebeu uma rajada de movimento na porta principal.

Deus… Uau.

Um homem havia entrado no restaurante. Um muito, um muito… um muito excelente homem.

Era loiro. Uma formosa estrela de cinema. E monumental em um casaco preto de couro. Seus ombros eram tão largos como a soleira da porta pela qual ele havia passado suas pernas tão longas que era mais alto que qualquer um no local. E enquanto caminhava a grandes passadas através das pessoas da entrada, os outros homens olhavam para baixo ou para fora ou para seus relógios de pulso, como se soubessem que não podiam competir até que ele tivesse passado.

Mary franziu o cenho, sentindo como se já o tivesse visto antes em algum lugar.

Sim, era um artista de cinema, disse-se a si mesmo. Talvez tivesse começado algum filme aqui na cidade.

O homem se aproximou da encarregada e passeou seu olhar pela mulher como se a submetesse a julgamento por seu tamanho. A ruiva piscava com incredulidade ficando estupefata, mas então claramente seus receptores de estrogênio fugiram do controle. Ela afastou o cabelo, como se quisesse se assegurar de que entendia as coisas, e depois inclinou para fora seu quadril como se tivesse se desencaixado.

Não se preocupe, Mary pensou. Ele te vê querida.

Quando os dois se moveram através do restaurante, o homem examinou cada mesa, e Mary se perguntou com quem comeria.

Ah. Dois reservados mais à frente havia uma loira sozinha. Seu suave suéter azul era muito justo, o casaco de angorá mostrava seus deslumbrantes atributos. E a mulher irradiava antecipação quando o viu caminhar direto pelo restaurante.

Bingo. Ken e Barbie.

Bom, não realmente Ken. Enquanto o cara caminhava, havia algo nele que não era WASP (anglo-saxão, branco e protestante) de aparência agradável apesar de seu assombroso aspecto geral. Algo… animal. Ele não se comportava como faziam as outras pessoas.

De fato, movia-se como um predador, ombros grossos se giravam com seu modo de andar, trocando de direção, esquadrinhando. Ela tinha a incômoda sensação de que se ele quisesse, poderia arrasar com todo mundo no lugar somente com suas mãos.

Requerendo toda sua força de vontade, Mary forçou a si mesma a ficar olhando fixamente seu copo de água. Ela não queria ser como todos os outros tolos olhando-o estupidamente.

Oh, caramba, ela teve que olhar para cima outra vez.

Ele tinha passado da loira e estava de pé diante de uma morena do outro lados do corredor. A mulher lhe sorria amplamente. O que também lhe pareceu razoável.

- Oi. - Disse ele.

Pois bem, as coisas acontecem. A voz era espetacular, também. Uma profunda voz arrastada, ressonante.

- Olá, a você também.

O tom do homem se aguçou.  

- Você não é Mary.

Mary se retesou. Oh, não.

- Serei quem você quer que eu seja.

- Estou procurando Mary Luce.

Oh… Merda.

Mary limpou sua garganta, desejando não estar ali se não em qualquer outro lugar.

- Eu sou… ah, eu sou Mary.

O homem se virou. Quando os olhos de um azul esverdeado se fixaram nela, seu grande corpo ficou rígido.

Mary olhou para baixo rapidamente, recolhendo a gota que transbordava de seu copo de água.

Não sou o que estava esperando, não é mesmo? - Pensou ela.

Enquanto o silêncio se prolongava, claramente ele procurava uma desculpa o suficientemente boa para sair correndo.

Meu Deus, como Bela tinha podido humilhá-la dessa maneira?

 

Rhage deixou de respirar e só observou a humana. Oh, era linda. Nada do que havia esperado, mas encantada, entretanto.

Sua pele era pálida e suave, como o fino papel de marfim. Os ossos de seu rosto eram igualmente delicados, seu queixo um arco cheio de graça percorria desde suas orelhas até seu queixo, suas bochechas altas tinham um rubor natural. Seu pescoço era longo e delgado, como suas mãos e provavelmente suas pernas. Seu cabelo castanho escuro estava recolhido para trás em um rabo-de-cavalo.

Ela não usava maquiagem, ele não podia detectar nenhum perfume, e a única jóia que usava era um par de brincos de pérolas diminutos. Seu suéter esbranquiçado era grande e solto, e estava disposto a apostar que suas calças também eram folgadas.

Não havia absolutamente nada que o avisasse sobre seu desejo de ser cortejada. Ela não era como as mulheres com as quais ele saía. E ela prendia sua atenção como uma banda de marcha.

- Olá, Mary. - Disse ele suavemente.

Ele esperava que ela olhasse para cima, porque ele não tinha podido ver seus olhos. E não podia esperar para ouvir sua voz outra vez. As duas palavras que lhe havia dito tinham sido tranqüilas e não eram suficientes.

Esticou sua mão, sentindo um comichão por tocá-la.

- Sou Hal.

Ela deixou a mão dele balançar entre eles quando tentou alcançar sua bolsa e começou a procurar a saída do reservado.

Ele se plantou em seu caminho.

- Aonde você vai?

- Olhe tudo bem. Não direi a Bela. Vamos só fingir que jantamos.

Rhage fechou seus olhos e excluindo o ruído de fundo de modo que pôde absorver o som de sua voz. Seu corpo revolto e calmo retesou-se um pouco.

E em seguida ele se deu conta do que ela havia dito.

- Por que vamos mentir? Vamos jantar juntos.

Seus lábios se apertaram, mas ao menos agora ela deixou de fugir.

Quando ele teve certeza de que ela não ia escapar, ele se sentou e tratou de colocar suas pernas sob a mesa. Quando ela o olhou, colocou os joelhos a seu redor.

Querido Deus. Seus olhos não combinavam com o jeito terno de sua voz. Pertenciam a um guerreiro.

De um cinza metalizado, rodeados por pestanas da cor de seu cabelo, eram graves, sérios, recordavam os homens que haviam lutado e tinham sobrevivido à batalha. Eram assombrosamente formosos em sua força.

Sua voz tremia.

- Sou 50 (gíria policial) e agora vou jantar com você.

Os olhos flamejaram e depois se estreitaram.

- Sempre trabalhaste para a caridade?

-Desculpe?

Uma garçonete chegou e lentamente baixou um copo de água diante dele. Ele podia cheirar a resposta luxuriosa da mulher em seu rosto e seu corpo e isso o incomodava.

- Olá, eu sou Amber. - Disse ela. - O que posso lhe trazer para beber?

- A água está bem. Mary quer alguma outra coisa?

- Não, obrigado.

A garçonete deu um passo aproximando-se mais a ele.

-Posso lhes dizer nossas especialidades?

- Certo.

Como a lista seguiu sem parar, Rhage não afastou o olhar de Mary. Ela ocultava os olhos, que inferno.

A garçonete pigarreou. Algumas vezes.

- Tem certeza de que não quer uma cerveja? Ou talvez algo um pouco mais forte? Que tal um gole...?

- Estamos bem, e pode voltar mais tarde para fazermos o pedido. Obrigado.

Amber entendeu a indireta.

Quando ficaram sós, Mary disse.

- Realmente, me permita só acabar....

- Dei-te algum indício de que não quero jantar com você?

Ela colocou uma mão sobre o cardápio que havia diante dela, traçando a imagem de um prato de costelas. Abruptamente ela se afastou o objeto com força.

-Você continua me olhando fixamente.

- Os homens o fazem.... Quando encontram uma mulher que querem, acrescentou para si mesmo.

-Claro, pois bem, comigo não fazem isso. Posso imaginar seriamente quão desconcertado você está, mas não necessito que concentre sua atenção nos detalhes. Sabe o que significa? E realmente não tenho interesse em resistir uma hora pelo bem do time.

Deus, essa voz. Ela estava fazendo isso com ele novamente, sua pele queimava com calafrios e em seguida se acalmava, afrouxando-se. Respirou profundamente, tentando pegar uma parte de seu perfume natural, cítrico.

Quando o silêncio se introduziu entre eles, ele empurrou o cardápio de volta para ela.

- Decide o que você vai pedir, a menos que queira somente se sentar aí enquanto eu como.

- Posso partir a qualquer momento, se quiser.

- É verdade. Mas você não quer.

- Oh! E por que isso? - Seus olhos brilhavam intermitentemente, e seu corpo se iluminou como um estádio de futebol.

- Não vai fazer isso porque você gosta muito de Bela para fazê-la passar pela vergonha de você me abandonar. E ao contrário de você, eu direi a ela que você fugiu de mim.

Mary franziu o cenho.

- Chantagem?

- Persuasão.

Ela lentamente abriu o cardápio e o percorreu com o olhar.

- Ainda está me olhando.

- Eu sei.

- Você poderia olhar para alguma outra parte? Para o cardápio, para aquela morena do outro lado do corredor. Há alguns reservados com duas loiras mais atrás, acaso você não tenha se dado conta.

- Alguma vez você usa perfume?

Seus olhos se elevaram até os dele.

- Não, não uso.

- Posso? - Ele inclinou a cabeça para suas mãos.

- Desculpe?

Não poderia dizer que queria cheirar sua pele mais de perto.

- Considerando que vamos jantar e tudo mais, seria mais civilizado nos saudar com as mãos, não é mesmo? Mesmo que você tenha retirado minha chance quando tentei ser educado, estou disposto a te dar outra oportunidade.

Quando ela não respondeu, ele a alcançou através da mesa e tomou sua mão entre as suas. Antes que ela pudesse reagir, atraiu seu braço para frente, inclinou-se, e pressionou seus lábios sobre seus nódulos. Ele aspirou profundamente.

A resposta de seu corpo à seu perfume foi imediata. Sua ereção atingiu a braguilha de seus couros, esticando, empurrando. Mudou de posição para conseguir mais espaço em suas calças.

Meu Deus, ele não poderia esperar para tê-la em casa a sós.

 

Mary deixou de respirar quando Hal lhe soltou a mão. Talvez estivesse sonhando. Sim, tinha que ser isso. Ele era magnífico. Muito sexy. E se concentrava demais nela para ser real.

A garçonete voltou, aproximando-se tanto de Hal que na realidade poderia estar em seu colo. E como não podia ser, a mulher havia retocado o batom. Aquela boca parecia que havia trocado azeite com algo chamado Fresh Pink. Ou Curious Coral. Ou algo igualmente ridículo.

Mary moveu a cabeça, surpreendida de ter sido tão maliciosa.

- O que vai ser? - A garçonete perguntou para Hal.

Ele a olhou através da mesa e levantou uma sobrancelha. Mary sacudiu sua cabeça e começou a folhear o cardápio.

- Bem, vejamos o que temos aqui. - Disse ele, abrindo o seu. - Vou querer o Frango Alfredo. A carne NY, mal passada. E um hambúrguer com queijo, também mal passado. Duplo de batatas fritas. E alguns nachos. Sim, quero nachos com tudo isso. Duplo disso também. Pode ser?

Mary só podia olhá-lo fixamente quando ele fechou o cardápio e esperou.

A garçonete o olhou com um pouco desajeitada.

- É tudo o que quer para você e sua irmã?

Como se a obrigação familiar fosse a única razão que um homem como ele estivesse com uma mulher como ela. Oh, homem…..

- Não, isto é para mim. E ela é meu encontro, não minha irmã. Mary?

- Eu…vou querer somente uma salada César, quando sua …- alimentação - sua comida cegar.

A garçonete pegou os menus e se foi.

- Então, Mary, me diga algo sobre você.

- Por que não o fazemos sobre você?

- Por que então não poderei te ouvir falar.

Mary ficou rígida, algo borbulhava sob a superfície de sua consciência.

Fale. Quero ouvir seu voz.

Diga algo. Uma e outra vez. Faça-o.

Poderia jurar que este homem havia lhe dito essas coisas, mas ela não o havia visto antes. Deus sabia, teria se lembrado dele.

- O que faz para ganhar a vida? - Ele a incentivou.

- Eu….sou ajudante executiva.

- Onde?

- Em um escritório de advogados aqui na cidade.

- Mas faz algo mais, não é verdade?

Ela se perguntou quanto Bela havia lhe dito. Deus, esperava que a mulher não tivesse explicado a ele sobre sua doença. Talvez fosse por isso que ele havia ficado.

- Mary?

- Costumado trabalhar com crianças.

- Professora?

- Terapeuta.

- Cabeça ou corpo?

- Ambos. Era especialista na reabilitação de crianças autistas.

- O que te fez fazê-lo?

- Temos que fazer isto?

- O que?

- Tudo isso sobre vamos - fingir - que – quero - te conhecer.

Ele franziu o cenho, inclinando-se para trás quando a garçonete colocou o enorme prato de nachos sobre a mesa.

A mulher se inclinou sobre seu ouvido.

- Shhh, não o diga a ninguém. Roubei estes de outro pedido. Eles podem esperar e você parece muito faminto.

Hal inclinou a cabeça, sorriu, mas parecia desinteressado.

Tinha que lhe conceder o crédito de ser cortês, pensou Mary. Agora que ele estava sentado em frente dela na mesa, não parecia notar nenhuma outra mulher absolutamente.

Ele ofereceu o prato. Quando ela negou com a cabeça, colocou um nacho na boca.

- Não me surpreende que te incomode o bate-papo. - Disse ele.

- Por quê?

- Você já sofreu muito.

Ela franziu o cenho.

- O que exatamente Bela te falou sobre mim?

- Não muito.

- Então como sabe o que passei por algo?

- Está em seus olhos.

Oh, infernos. Também era inteligente. Falando de pacote completo.

- Mas lamento quebrar isso - Disse ele, rapidamente limpando as mãos dos nachos. - Não me importo se por acaso você se incomodou. Quero saber o que foi que te interessou nessa linha de trabalho e você vai me dizer isso.

- Você é arrogante.

- Surpresa, surpresa. - Riu ele fortemente. - E você está evitando minha pergunta. O que te fez trabalhar isso?

A resposta era a luta de sua mãe contra a distrofia muscular. Depois de ver o que sua mãe havia passado, ajudar outras pessoas com suas limitações tinha sido uma chamada. Talvez fosse um caminho para pagar a culpa por estar tão saudável quando sua mãe havia estado tão comprometida.

E depois Mary tinha sido atingida com alguns outros compromissos sérios nela mesma.

Engraçado, a primeira coisa que pensou quando foi diagnosticada foi que não era justo. Tinha visto sua mãe enfrentar à enfermidade, tinha sofrido a seu lado. Então por que o universo queria que ela conhecesse diretamente o tipo de dor que havia testemunhado? Logo após havia compreendido que não havia nenhuma cota de sofrimento das pessoas, nenhum valor quantificado que uma vez alcançado o topo, milagrosamente te tirava do fundo do poço.

- Nunca quis fazer nada mais. - Ela se esquivou.

- Então por que se afastou?

- Minha vida mudou.

Graças a Deus, ele não prosseguiu com o assunto.

- Você gosta de trabalhar com crianças deficientes?

- Eles não são….eles não são deficientes.

- Sinto muito. - Disse ele claramente sentindo isso.

A sinceridade em sua voz fez que abrisse a tampa de sua reserva de uma maneira que os elogios ou as risadas nunca fariam.

- Eles só são diferentes. Experimentam o mundo de uma maneira diferente. Normal é só o que é comum, essa não é a única maneira de ser ou viver. - Ela parou, notando que ele tinha fechado os olhos.

- Estou te aborrecendo?

Ele levantou suas pálpebras devagar.

- Amo ouvir você falar.

Mary ofegou. Seus olhos eram da cor do néon, acesos e iridescentes.

Tinham que ser lentes de contato, pensou ela. Os olhos das pessoas não tinham essa cor.

- A diferença não te incomoda, não é mesmo? - Murmurou ele.

- Não.

- Isso é bom.

Por alguma razão, ela se encontrou sorrindo para ele.

- Eu tinha razão. - Sussurrou ele.

- Sobre o que?

- Você é encantadora quando sorri.

Mary afastou o olhar.

- O que acontece?

- Por favor não fique encantador. Preferiria continuar com o bate-papo.

- Sou honesto, não encantador. Pergunte a meus irmãos. Constantemente meto os pés pelas mãos.

Havia mais como ele? Rapaz, devia ser um inferno o cartão de Natal da família.

- Quantos irmãos você tem?

- Cinco. Agora. Perdemos um. - Ele bebeu água, como se quisesse que ela não visse seus olhos.

- Sinto muito. - Disse ela baixinho.

- Obrigado. Ainda é recente. E sinto a falta dele como o inferno.

A garçonete chegou com uma pesada bandeja. Quando os pratos estiveram alinhados diante dele e a salada de Mary estava sobre a mesa, a mulher esperou até que Hal a agradecesse de forma significativa.

Ele começou pelo Alfredo. Afundou seu garfo na mistura de fettuccine, retorcendo-o até que fez um nó de massa e a levou até sua boca. Mastigou pensativo e colocou um pouco de sal. Provou o filé depois. Colocou-lhe um pouco de pimenta. Depois recolheu o hambúrguer com queijo. Estava na metade do caminho para sua boca quando franziu o cenho e abaixou-o novamente. Ele usou seu garfo e faca para tomar um bocado.

Ele comeu como um cavalheiro. Com ar quase fino.

Bruscamente, ele a olhou.

- O que foi?

- Sinto muito, eu, ah…. - Ela picou de sua salada. E em seguida voltou a olhá-lo comer.

- Se seguir me olhando tão fixamente, vou me ruborizar. - Ele falou arrastando as palavras.

- Sinto muito.

- Eu não. Eu gosto de seus olhos sobre mim.

Pelo corpo de Mary fluía a vida. E respondeu com uma graça total lançando uma casquinha de pão sobre o colo.

- O que está olhando? - Perguntou ele.

Ela utilizou seu guardanapo para evitar as manchas sobre suas calças.

- Suas maneiras na mesa. São muito boas.

- A comida deve ser saboreada.

Ela se perguntava como ele gozava tão lentamente. Concentrado. Deus, ela só podia imaginar o tipo de vida amorosa que ele tinha. Seria assombroso na cama. Esse corpo grande, de pele dourada, os delgados estreitos e longos dedos…

A garganta de Mary secou e ela pegou seu copo.

- Mas você sempre…….come tanto?

- Na realidade, tenho trancado no estômago. Estou comendo pouco. - Colocou um pouco mais de sal sobre o fettuccine.

- Então estava acostumada a trabalhar com crianças autistas, mas agora está em um escritório de advogados. Que mais faz com seu tempo? Lazer? Interesses?

- Eu gosto de cozinhar.

- De verdade? Eu gosto de comer.

Ela franziu o cenho, tentando não imaginá-lo sentando-se em sua mesa.

- Você ficou irritada outra vez.

Ela agitou sua mão.

- Não estou.

- Sim, está. Você não gosta da idéia de cozinhar para mim, não é?

Sua honestidade sem travas a fez pensar que podia lhe dizer nada e ele lhe responderia com exatamente o que pensava e sentia. Bom ou ruim.

- Hal, tem algum tipo de filtro entre seu cabeça e sua boca?

- Na realidade não. - Terminou o Alfredo e retirou o prato. O filé foi depois.

- E sobre seus pais?

Ela suspirou.

- Minha mãe morreu há aproximadamente quatro anos. Meu pai foi assassinado quando tinha dois anos, estava no lugar errado no momento errado.

Ele fez uma passada.

- Isto é duro. Perdeu os dois.

- Sim, assim foi.

- Eu também perdi ambos. Mas ao menos foi de velhice. Tem irmãs? Irmãos?

- Não. Éramos somente minha mãe e eu. E agora somente eu.

Houve um longo silêncio.

- Então como conheceu John?

- John…Oh, John Matthew? Bela te falou sobre ele?

- Algo do tipo.

- Não o conheço muito bem. Ele entrou em minha vida recentemente. Acredito que é um criança especial, amável e acredito que as coisas não foram fáceis para ele.

- Conhece os pais dele?

- Ele me disse que não tem nenhum.

- Sabe onde ele vive?

- Conheço a área da cidade. Não é muito boa.

- Você quer salvá-lo, Mary?

Que pergunta mais estranha, pensou ela.

- Não acredito que necessite que o salvem, mas eu gostaria de ser sua amiga. Sinceramente, mal o conheço. Ele só apareceu uma noite em minha casa.

Hal assentiu, como se ela tivesse lhe dado a resposta que ele queria.

- Quando conheceu Bella? - perguntou ela.

- Você gostou de sua salada?

Ela olhou seu prato.

- Não estou com fome.

- Você tem certeza?

- Sim.

Assim que terminou seu hambúrguer e a comida frita, ele passou sobre o cardápio para pegar o sal e a pimenta.

- Você gostaria de uma sobremesa? - Perguntou ele.

- Não esta noite.

- Deveria comer mais.

- Almocei muito.

- Não, não o fez.

Mary cruzou os braços sobre seu peito.

- Como você sabe?

- Posso sentir sua fome.

Ela deixou de respirar. Deus, aqueles olhos brilhavam outra vez. Tão azuis, uma cor infinita, como o mar. Um oceano onde nadar. Afogar-se. Morrer.

- Como sabe que estou…faminta? - Disse, sentindo como se o mundo lhe escapasse.

Sua voz caiu até que foi quase um ronronar.

- Tenho razão, não é mesmo? Então por que te importa isto agora?

Felizmente, a garçonete voltou para recolher os pratos e quebrou o momento. Quando Hal pediu uma maçã crisp, uma espécie de brownie e uma xícara de café, Mary sentiu como se retornasse ao planeta.

- Qual é sua profissão? - Perguntou ela.

- Isto e aquilo.

- Ator? Modelo?

Ele riu.

- Não. Posso ser decorativo, mas prefiro ser útil.

- E como você é útil?

- Acredito que poderia dizer que sou um soldado.

- Está no exército?

- Algo assim.

Bem, isso explicaria o ar mortal. A confiança física. Sua acuidade visual.

- De que ramo? - Marinha, pensou ela. Ou talvez um SEAL. Ele era força.

A face de Hal se apertou.

- Só outro soldado.

De algum lugar, uma nuvem de perfume invadiu o nariz de Mary. Era a garçonete que estava limpando a mesa.

- Está tudo bem? - Enquanto olhava para Hal, virtualmente podia ouvir o crepitar da mulher.

- Bem, obrigado. - Disse ele.

- Bom. - Ela escorregou algo sobre a mesa. Um guardanapo. Com um número e um nome.

Quando a mulher o olhou e passeou o olhar, Mary olhou para baixo, para suas mãos. Pelo canto do olho, observou seu moedeiro.

Tempo de partir, pensou ela. Por alguma razão não queria olhar Hal colocar aquele guardanapo em seu bolso. Embora ele tivesse o direito de fazê-lo.

- Bem, isto foi….interessante. - Disse ela. Recolheu sua bolsa e arrastou os pés para sair do reservado.

- Por que você vai? - Seu cenho franzido o fez parecer um verdadeiro militar e afastando-o do atrativo material masculino.

A ansiedade titilou em seu peito.

- Estou cansada. Mas, obrigado, Hal. Isto foi….Bem, obrigado.

Quando tentou passar por seu lado, ele pegou sua mão, acariciando o interior de seu punho com o polegar.

- Fique enquanto como a sobremesa.

Ela olhou seu rosto perfeito e seus amplos ombros. A morena do outro lado do corredor ficou de pé e o olhou, levava um cartão de visita na mão.

Mary, inclinou-se para ele.

- Tenho certeza de que encontrará muitas outras te esperando para te fazer companhia. De fato, há alguém encabeçando o caminho agora mesmo. Diria-te boa sorte com ela, mas parece muito seguro.

Mary saiu disparada para a saída. O ar frio e o silêncio relativo foram um alívio depois do aperto das pessoas, mas quando se aproximou de seu carro, sentiu misteriosamente que não estava só. Deu uma olhada sobre seu ombro.

Hal estava atrás dela, mesmo que o tivesse deixado no restaurante. Ela se virou, o coração atingia suas costelas.

- Jesus! O que está fazendo?

- Caminho contigo até seu carro.

- Eu..ah. Não se incomode.

- Muito tarde. Este Civic é teu, não é mesmo?

- Como o tem feito….

- As luzes brilharam intermitentemente quando o abriu.

Ela se afastou dele, mas quando retrocedeu, Hal avançou. Quando se chocou contra seu carro, levantou suas mãos.

- Para.

- Não fique assustada.

- Então não me aperte.

Ela se deu a volta afastando-se dele e foi até a maçaneta da porta. Sua mão saiu disparada, segurando a junta entre a janela e o teto.

Sim, ela ia ficar atrás do volante. Quando ele a deixasse.

- Mary? - Sua voz profunda apareceu ao lado de sua cabeça e ela saltou.

Ela sentiu sua crua sedução e imaginou seu corpo como uma jaula fechada a seu redor. Com um movimento traiçoeiro, seu medo mudou para algo licencioso e de necessidade.

- Me deixe partir. - Sussurrou ela.

- Ainda não.

Ela o ouviu suspirar, como se a cheirasse e logo seus ouvidos se encheram com o som rítmico de bombeamento, como se ronronasse. Ela afrouxou o corpo, acalorado, aberto entre suas pernas como se estivesse preparada para aceitá-lo em seu interior.

Bom Deus, ela tinha que se afastar dele.

Ela agarrou o antebraço e o empurrou. Mas não conseguiu ir a nenhuma parte.

- Mary?

- O que? - Ela estalou, ressentida por que estava conectada quando deveria ter ficado petrificada. Por Deus, ele era um estranho, um estranho grande, insistente e ela era uma mulher só sem ninguém que a reclamasse se não voltasse para casa.

- Obrigado por não me abandonar.

- Por nada. Agora se me permite?

- Assim que me deixe que lhe de um beijo de boa noite.

Mary teve que abrir a boca para conseguir suficiente ar para seus pulmões.

- Por quê? - perguntou com voz rouca. - Por que quer fazê-lo?

Suas mãos se pousaram sobre seus ombros e a viraram. Ele estava inclinado sobre ela, obstruindo o brilho do restaurante, as luzes no estacionamento, as estrelas por cima.

- Só me deixe te beijar, Mary. - Suas mãos se deslizaram por sua garganta e sobre os lados de seu rosto. - Só uma vez. Certo?

- Não, isto não está bem. - Sussurrou ela quando inclinou sua cabeça para trás.

Seus lábios desceram e sua boca tremeu. Fazia muito tempo que a haviam beijado. E nunca um homem como ele.

O contato foi suave, aprazível. Inesperado, dado o tamanho dele.

E como uma rajada de calor lambeu sobre seus seios e entre suas pernas, ela escutou um assobio.

Ele tropeçou para trás e a olhou de uma forma estranha. Com movimentos desiguais, seus pesados braços cruzados no peito, como se a protegesse.

- Hal?

Ele não disse nada, só esteve ali, olhando-a fixamente. Se não o conhecesse melhor, pensaria que o haviam sacudido.

- Hal, você está bem?

Ele negou com a cabeça uma vez.

Então se afastou, desaparecendo na escuridão mais à frente do estacionamento.

 

Rhage se materializou no pátio entre o Pit e a mansão.

Não podia explicar exatamente a sensação que tinha sob a pele, mas era uma espécie de zumbido de baixo nível em seus músculos e ossos, como a vibração de um garfo que se modela. Ele tinha certeza que nunca havia sentido este zumbido antes. E isto tinha começado no momento em que sua boca havia tocado a de Mary.

Desde que cada coisa nova e diferente em seu corpo era má, ele imediatamente se distanciou dela, e não estar perto da mulher parecia ajudar. O problema era que agora que o sentimento se apagava, a necessidade de liberação de seu corpo lhe puxava. Não era justo! Depois que a besta saísse geralmente ele conseguia ao menos alguns dias livres.

Olhou seu relógio.

Mas que inferno, queria sair para caçar alguns lessers, encaixar um ou dois, mas desde que Tohr havia assumido o comando da Irmandade, novas regras haviam sido apresentadas.

Depois da mudança, Rhage, como se supunha, refrescava seus motores durante alguns dias até que estava de retorno a todo vapor. Com a morte de Darius no verão passado, os irmãos se reduziram a seis, e logo Wrath havia subido ao trono, então haviam restado somente cinco. A raça não podia permitir-se perder outro guerreiro.

O forçado descanso e o relaxamento tinham sentido, mas ele odiava que lhe dissessem o que tinha que fazer. E ele não podia suportar não estar lá fora no campo, especialmente quando precisava tirar proveito de alguns.

Pegando um molho de chaves de seu casaco, aproximou-se de seu GTO superalimentado. O carro despertou com um rugido e um minuto e meio mais tarde estava em campo aberto. Não sabia que direção havia tomado. Não se preocupava.

Mary. Aquele beijo.

Deus, sua boca tinha sido incrivelmente doce quando tremeu sob a sua, tão doce que tinha querido separar seus lábios com a língua e colocá-la dentro. Deslizando-a e retraindo-a e voltar outra vez a degustá-la. E depois fazer o mesmo com seu corpo, entre suas pernas.

Exceto que tinha tido que parar. O que fora aquele zumbido, foi como um aviso, o que era perigoso. A maldita reação não tinha sentido, pensou. Mary o acalmava, trazia-lhe tranqüilidade. Certo, ele a queria, e isso lhe enviava um aviso, mas não deveria ser suficiente para colocá-lo em perigo.

Ah, infernos. Talvez tivesse interpretado mal a resposta. Talvez aquela corrente tivesse sido a atração sexual de um tipo mais profundo à que ele estava acostumado a ter..., o que era nada mais que o impulso de gozar para que a probabilidade de que a maldição de seu corpo aparecesse fosse menor.

Pensou nas mulheres que havia tido. Havia um número incontável delas, todos os corpos anônimos nos quais havia gozado, nenhuma outra fonte de prazer verdadeiro para ele. As havia tocado e beijado só porque a menos que se satisfizessem também, sentia-se como se as tivesse usado.

Merda, sentia-se como um usuário em qualquer caso. Era um usuário.

Embora tivesse sido golpeado pelo zumbido ao beijar Mary, ele ainda a teria deixado abandonada naquele estacionamento. Com sua voz encantadora, seus olhos de guerreiro e sua boca trêmula, Mary não podia ser somente outra trepada. Tomá-la, mesmo que estivesse disposta, parecia a violação de algo puro. Algo melhor do que ele era.

Seu telefone celular soou e o pegou de seu bolso. Quando verificou o identificador de chamadas, amaldiçoou, mas atendeu de qualquer maneira.

- Oi, Tohr! Ia ligar para você.

- Só vi seu carro ali fora. Encontraste a mulher humana?

- Já o tenho feito.

- Isto foi rápido. Ela deve ter te tratado bem.

Rhage apertou os dentes. Por uma vez não tinha nenhuma resposta rápida.

- Falei com ela sobre o rapaz. Não temos nenhum problema. Ela gosta dele, sente-se mal por ele, mas se ele desaparecesse, ela não causaria nenhum problema. O conheceu recentemente.

- Bom trabalho, Hollywood. Para onde você está se dirigindo agora?

- Só dirijo.

O tom de voz de Tohr se abrandou.

-Você odeia não poder lutar, não é verdade?

- E você não se sentiria assim?

- Certamente, mas não se preocupe, amanhã de noite virá logo e você poderá voltar para a ação. Enquanto isso, poderia trabalhar um pouco seus casos no One Eye. - Tohr riu em silêncio. - A propósito, inteirei-me sobre o que fez à duas irmãs algumas noites, uma depois da outra. Homem, é assombroso, sabe?

- Sim, Tohr. Posso te pedir um favor?

- Qualquer coisa, meu Irmão.

- Poderia não...me falar sobre as mulheres? - Rhage suspirou. - A verdade é que odeio, de verdade, o que faço.

Ele pensou em parar ali, mas de repente as palavras saíam e não podia calar-se.

- Odeio o anonimato disso, odeio a forma em que o peito dói depois. Odeio os aromas sobre meu corpo e em meu cabelo quando chego em casa. Mas sobre tudo, odeio o fato de que vou ter que voltar a fazê-lo outra vez por que se não o fizer, poderia chegar a fazer mal a algum de vocês ou a algum inocente. - Ele exalou o ar pela boca. - E aquelas duas irmãs lhe impressionam tanto? Olhe, esse é o caso. Só recolho às que não se importam nem um pouco com os quem estão, por que o contrário não é justo. Essas duas garotas do bar comprovaram meu relógio, meu cilindro e calcularam que era um maldito troféu. Transar foi algo tão íntimo como o é um acidente de trânsito E esta noite? Você chegará na casa com Wellsie. Eu irei para casa sozinho. Assim como ontem. Assim como eu fiz antes de ontem. Sair com vadias não é diversão para mim e isto está me matando durante anos, por isso por favor o deixa descansar, ok?

Houve um longo silêncio.

- Jesus...eu sinto muito. Eu não sabia. Não tinha nem idéia...

- Sim, ah... - Ele realmente tinha que parar essa conversa.

- Olhe, tenho que ir. Tenho que…ir. Mais tarde.

- Não, espere, Rhage.

Rhage desligou seu telefone e o jogou ao longo da estrada. Quando olhou ao seu redor, compreendeu que estava mo meio de nenhuma parte, com nada mais que o bosque como companhia. Deixou sua cabeça sobre o volante.

As imagens de Mary voltaram. E compreendeu que havia se esquecido de se apagar da memória dela.

Descuidado? Sim, bem. Não a tinha limpado por que no fundo queria vê-la outra vez. E queria que se lembrasse dele.

Oh, homem...Isto não era bom. Tudo a seu redor.

 

Mary desabou na cama e empurrou os lençóis e mantas com os pés. Meio adormecida, estendeu suas pernas tentando se esfriar.

Maldição, tinha o termostato muito alto…

Uma horrível suspeita a trouxe bruscamente à consciência, sua mente voltando para a atenção em uma onda de temor.

Febre baixa. Ela tinha febre baixa.

Oh, infernos...Ela conhecia a sensação muito bem, o rubor, o calor seco, as dores generalizadas. E o relógio marcava 4:18 da madrugada. Horário no qual, quando havia estado doente, era o momento em que a sua temperatura gostava de subir.

Erguendo-se, abriu a janela que havia atrás de sua cama. O ar frio aceitou o convite e se precipitou para dentro, refrescando-a, acalmando-a. A febre baixou pouco depois, um brilho de suor anunciou sua retirava.

Talvez só fosse um resfriado. As pessoas com seu histórico médico tinham enfermidades comuns como o resto do mundo. De verdade.

Exceto que, de qualquer maneira, rhinovirus ou recaída, não ia voltar a dormir. Colocou um robe sobre sua camiseta e seus boxers e desceu. Caminhou para a cozinha, acendeu cada interruptor por onde passava até que todas os cantos escuros na casa ficaram iluminados.

Destino: sua cafeteira. Não havia nenhuma dúvida, responder algum e-mail do escritório e preparar-se para o longo fim de semana pelo Dia Hispânico (12 de outubro), era melhor que estar na cama e contar o tempo antes de ir a seu encontro com a doutora.

Que a propósito era em cinco horas e meia.

Deus, odiava a espera.

Encheu a máquina Krups de água e foi à despensa para procurar o café. Estava quase vazio, então tirou o que tinha de reserva e o abridor de latas manual e...

Ela não estava só.

Mary se inclinou para frente, olhou pela janela que havia sobre a pia. Sem luzes externas não podia ver nada, então se virou e acendeu o interruptor que havia ao lado da porta.

Por Deus!

Uma grande forma negra estava no outro lado da janela.

Mary se voltou para o telefone, mas parou quando viu o brilho de um cabelo loiro.

Hal levantou sua mão a modo de saudação.

- Oi! - sua voz ficou amortecida pelo vidro.

Mary se protegeu colocando seus braços ao redor de seu estômago

- O que está fazendo aqui?

Seus amplos ombros de encolheram.

- Queria te ver.

- Por quê? E por que agora?

Ele encolheu-se outra vez.

- Pareceu-me uma boa idéia.

- Está transtornado?

- Sim.

Ela quase riu. E depois recordou que não tinha vizinhos por perto e ele era virtualmente do tamanho de sua casa.

- Como me encontraste? - Talvez Bela tivesse lhe dito onde ela vivia.

- Posso entrar? Ou talvez você possa sair, se assim se sentir mais cômoda?

- Hal, são quatro e trinta da manhã.

- Eu sei. Mas você está acordada e eu também.

Deus, ele era muito grande em todo esse couro negro e com seu rosto quase todo na sombra era mais ameaçador que belo. E ela pensava em abrir a porta? Claramente ele também estava transtornada.

- Olhe, Hal, não acredito que seja uma boa idéia.

Ele a olhou através do vidro.

- Então talvez possamos falar tal e como estamos?

Mary o olhou, ficando sem fala. O cara estava disposto a perder tempo, observando de fora de sua casa como um criminoso, só para que pudessem falar?

- Hal, não se ofenda, mas lá fora há centenas de milhares de mulheres nesta área que não só lhe deixariam entrar em suas casas, mas sim lhe levariam para suas camas. Por que você não vai procurar alguma e me deixa só?

- Elas não são você.

A escuridão que lhe caía sobre o rosto fez que fosse impossível ler seus olhos. Mas seu tom de voz, era malditamente sincero.

Na longa pausa que se seguiu, ela tentou se convencer para não deixá-lo entrar.

- Mary, se quisesse te fazer mal, poderia fazê-lo em um instante. Poderia fechar cada porta e cada janela e eu ainda poderia entrar aí dentro. O que quero é...falar contigo um pouco mais.

Ela olhou seus largos ombros. Tinha um bom ponto de vista sobre a invasão de moradia. E tinha o pressentimento de que se ela mantivesse a porta fechada entre ambos, ele pegaria uma de suas cadeiras de jardim e se sentaria no terraço.

Destravou a porta corrediça, abriu-a e se afastou.

- Só me explique algo.

Ele riu forte quando entrou.

- Dispara.

- Por que não está com uma mulher que te queira? Hal estremeceu. – Penso que, aquelas mulheres esta noite no restaurante, estavam loucas por você. Por que não tem um sexo-louco-e-quente e diversão com uma delas?

- Prefiro falar contigo aqui que estar dentro de alguma daquelas mulheres.

Ela retrocedeu um pouco ante sua ingenuidade e logo compreendeu que ele não estava sendo ordinário, só honestamente sem rodeios.

Bem, ao menos tinha razão em uma coisa: quando havia partido depois daquele suave beijo, ela tinha presumido que era por que não havia sentido nenhum calor. Claramente ela sentiu que havia cegado ao ponto. Ele não estava aqui para ter sexo e se disse que era bom que não sentisse luxúria por ela. Quase acreditou nisso, também.

- Estava a ponto de fazer um café, você vai querer?

Ele assentiu e começou a vagar pela sala de estar, observando suas coisas. O contraste de seus móveis brancos e paredes cor creme com sua roupa preta e pesada constituição era sinistro, mas então contemplou seu rosto. Tinha um tolo sorriso zombador, como se fosse feliz somente pelo fato de estar dentro da casa. O cara era como um bichinho que estava preso no pátio e que finalmente haviam lhe permitido entrar na casa.

- Quer tirar o casaco? - Perguntou ela.

Deslizou o couro de seus ombros e o colocou sobre o sofá. A coisa aterrissou com um golpe, esmagando as almofadas.

O que ele levava nos bolsos? Ela se perguntou.

Mas então olhou seu corpo e se esqueceu de seu estúpido casaco. Usava uma camiseta preta que mostrava um poderoso jogo de braços. Seu peito era amplo e bem definido, seu estômago bastante apertado, e pelo que pôde ver seus músculos abdominais marcados inclusive através da camiseta. Suas pernas eram longas, suas coxas grossas…

- Você gosta do que vê? - Perguntou-lhe ele em voz baixa, tranqüila.

Sim, claro. Ela não ia lhe responder isso.

Ela se dirigiu para a cozinha.

- Como de forte quer o café?

Recolhendo o abridor de latas, abriu a tampa do Hills Bros e começou a fazê-la girar como se não houvesse amanhã. A tampa caiu para dentro e ela conseguiu tirá-la.

- Te fiz uma pergunta. - Disse ele, diretamente ao lado de seu ouvido.

Ela pulou e se cortou o polegar com o metal aberto. Com um gemido, subiu a mão e olhou o corte. Era profundo, e sangrava.

Hal amaldiçoou.

- Não queria te assustar.

- Sobreviverei.

Ela abriu a torneira, mas antes que pudesse colocar a mão debaixo da água ele lhe pegou o pulso.

- Me permita vê-lo. - Sem lhe dar a opção de protestar contra, ele se inclinou sobre seu dedo.

- Isto é mau.

Ele colocou o polegar em sua boca e o chupou com cuidado.

Mary ofegou. Quente, molhado, o atrito das sensações a paralisaram. E depois sentiu o contato de sua língua. Quando a liberou, ela só pôde olhá-lo.

- Oh...Mary. - Disse ele tristemente.

Ela se sobressaltou perguntando-se sobre sua mudança de humor.

-Você não deveria ter feito isso.

- Por quê?

Por que ela se sentia bem.

- Como sabe que não tenho o HIV ou algo parecido?

Levantou seus ombros.

- Não me importaria se você o tivesse.

Ela empalideceu, pensou que ele era soro positivo e ela acabava de lhe deixar colocar uma ferida aberta em sua boca.

- E não, Mary, não tenho a enfermidade.

- Então por que não o…

- Só queria melhorá-lo. Veja? Não está sangrando mais.

Ela olhou seu polegar. O corte estava fechado. Parcialmente curado. Como demônios...

- Agora vais me responder? - Disse Hal, como se deliberadamente cortasse as perguntas que ela estava a ponto de lhe fazer.

Quando o olhou, notou que seus olhos faziam aquela coisa brilhante, o azul cobrava um brilho fora deste mundo, um brilho hipnótico.

- Qual era a questão?

- Gosta do meu corpo?

Ela apertou os lábios. Homem, se estava esperando ouvir mulheres dizendo que era lindo, iria para casa decepcionado.

- E o que você faria se eu não gostasse? - Disparou-lhe ela.

- Eu me cobriria.

- Sim, claro.

Ele inclinou a cabeça, como se o que tivesse pensado fosse incorreto. Então se dirigiu à sala de estar onde estava seu casaco.

Por Deus! Ele falava à sério.

- Hal, volta. Não tem que...eu, ah, eu gosto de seu excelente corpo.

Ele ria quando retornou.

- Me alegro. Quero te agradar.

Excelente dândi, pensou ela. Então tira a camisa, abaixe as calças de couro e te jogue sobre meus ladrilhos. Alternaremo-nos para estar por baixo.

Amaldiçoando, ela se voltou para fazer o café. Enquanto colocava as colheradas para moer na máquina, pôde sentir que Hal estava observando-a. Ouvia-o tomar profundas inspirações, como se a cheirasse. E ele ia...se aproximando pouco a pouco.

Os sinais de pânico penetraram por todo seu corpo. Muito grande. Também…lindo. E o calor e a luxúria que a chamavam eram muito poderosos.

Quando a cafeteira estava ligada, ela se afastou.

- Por que não quer que eu te queira? - Disse ele.

- Deixa de usar essa palavra. - Quando ele dizia querer, em tudo o que podia pensar era em sexo.

- Mary. - Sua voz era profunda, ressonante. Penetrante. - Eu quero...

Ela cobriu os ouvidos. De repente havia muito dele na casa. Em sua cabeça.

- Isto foi uma idéia ruim. Acredito que você deveria partir.

Ela sentiu uma grande mão sobre seus ombros.

Mary se afastou um passo, engasgando-se. Ele tinha saúde, vitalidade, sexo cru e outras cem coisas mais que ela não podia ter. Ele estava totalmente vivo e ela estava...provavelmente muito doente outra vez.

Mary se aproximou da porta corrediça e a abriu.

- Saia, ok? Por favor só vá.

- Não quero.

- Parta, por favor. - Mas ele só a olhou durante um instante. - Cristo, parece um cão vagabundo do qual não posso me desfazer. Por que não vais chatear a alguém mais?

O poderoso corpo de Hal ficou rígido. Por um momento pareceu que ia dizer algo áspero, mas então recolheu seu casaco. Quando colocou o couro ao redor dos ombros e foi até a porta, ele não a olhou.

Oh, bom. Agora ela se sentia mal.

- Hal. Hal, espera. - lhe pegou a mão. - Sinto muito, Hal.

- Não me chame assim. - Ele explodiu.

Quando ele se desfez de seu apertão, ela ficou em seu caminho. E de verdade desejou não tê-lo feito. Seus olhos eram completamente frios. Gotinhas de cristal transparente.

Suas palavras foram afiadas.

- Sinto ter lhe ofendido. Imagino que é uma maldito fardo que alguém queira chegar a te conhecer.

- Hal…

Afastou-a facilmente.

- Se voltar a dizê-lo outra vez, vou atravessar a parede com o punho.

Caminhou com grandes passadas para fora, entrando no bosque que havia no lado esquerdo da propriedade.

Em um impulso, Mary colocou os tênis, pegou uma jaqueta e passou como um relâmpago através da porta corrediça. Ela chegou até a grama, chamando-o. Quando chegou até a entrada do bosque, parou.

Não havia galhos se balançando, nenhuma arbusto quebrado, nenhum som de passos de um homem grande. Mas ele tinha ido nesta direção. Ou não?

- Hal? – o chamou.

Um longo momento depois se virou e retornou para dentro de casa.

 

- Tem-no feito bem esta noite, Sr. O.

O Sr. O deu um passo pelo abrigo atrás da cabana, a aprovação do Sr. X era uma mentira. Manteve sua irritação para si, quase não tinha passado um dia desde os problemas com Omega e a verdade é que não estava de humor para que o trabalho.

- Mas o homem não disse nada. - Resmungou ele.

- É por que não sabia de nada.

O Sr. O fez uma pausa. Na frágil alvorada, o rosto do Sr. X brilhava como uma lamparina.

- Perdão, sansei?

-Eu trabalhei com ele antes que você o trouxesse aqui. Tinha que ter certeza de que podia depender de você, mas não queria esbanjar a oportunidade, caso não fosse mais sólido.

O que explicava a condição do homem. O Sr. O tinha presumido que o vampiro tinha lutado quando o haviam seqüestrado.

Tempo desperdiçado, esforço desperdiçado, pensou o Sr. O, retirando-se com as chaves de seu carro.

- Tem alguma prova mais para mim? – Idiota.

- Não neste momento. - O Sr. X olhou seu relógio. – Seu novo esquadrão logo chegará aqui, guarde essas chaves. Vamos para dentro.

A repulsa do Sr. O de estar em qualquer parte perto do abrigo lhe fez perder a sensação de seus pés. As malditas pernas estavam totalmente paralisadas.

Mas ele sorriu.

- Vá na frente, sansei.

Quando entraram, ele foi diretamente ao dormitório e se apoiou contra a soleira da porta. Embora seus pulmões tivessem se convertido em bolas de algodão, ele se manteve calmo. Se tivesse evitado o espaço, o Sr. X teria pensado que havia alguma razão para evitá-lo. O bastardo sabia que tocar as feridas frescas era o único modo de determinar o grau de cura ou de infecção.

Enquanto os assassinos entravam no abrigo, o Sr. O os examinava. Não conhecia nenhum, mas quanto mais tempo um membro estava na Sociedade, mais anônimo se tornava. Com o cabelo, pele e cor dos olhos se descolorindo até empalidecer, eventualmente um lesser se via como um lesser.

Quando os outros homens o observaram, olharam airadamente seu cabelo negro. Na Sociedade os novos recrutas estavam na parte inferior da escada e era insólito para um ser incluído em um grupo de homens com muita experiência. Sim, bem, que se ferrassem. O Sr. O cruzou o olhar com cada um deles, esclarecendo que se queriam agarrá-lo ele seria mais que feliz de lhes devolver o maldito favor.

Confrontando a possibilidade de uma confrontação física, ele reviveu. Parecia como despertar logo depois de uma boa noite de sonho, e gostava das feias ondas agressivas, a velha boa necessidade de dominar-se. Isto lhe assegurava que era como sempre havia sido. Omega não havia lhe subtraído sua essência, depois de tudo.

A reunião não durou muito tempo e isso era o padrão. Apresentações. Um aviso de que a cada manhã, cada um deles devia registrar-se via e-mail. Também se refrescavam as técnicas da estratégia de persuasão e algumas quotas para a captura e matança.

Quando acabou, o Sr. O foi o primeiro em se dirigir à porta. O Sr. X se colocou diante dele.

- Você ficará.

Aqueles olhos pálidos lhe prenderam o olhar à espera de ver um brilho de medo.

O Sr. O assentiu uma vez e dobrou sua postura.

- Claro, sansei. Como quiser.

Sobre o ombro do Sr. X, viu como os outros partiam como se fossem estranhos. Sem conversa, sem mover os olhos, corpos que não se tocavam acidentalmente. Claramente nenhum deles se conhecia, então deviam ter sido chamados de diferentes distritos. O que significava que o Sr. X tinha descido nas filas.

Quando a porta foi fechada pelo último homem, a pele do Sr. O tremeu pelo pânico, mas se manteve ainda como uma rocha.

O Sr. X o olhou de cima a baixo. Então colocou o computador portátil sobre a mesa da cozinha e o ligou. Quase no último momento, ele disse.

- Coloco-o a cargo de ambas os esquadrões. Quero-os treinados nas técnicas de persuasão que utilizamos. Trabalhando como unidades - Elevou o olhar da tela acesa. - E quero que permaneçam respirando, me entendeu?

O Sr. O franziu o cenho.

- Por que não o disse enquanto eles estavam aqui?

- Não me diga que você necessita desse tipo de ajuda?

O tom zombador fez que o Sr. O estreitasse o olhar.

- Posso dirigi-los excelentemente.

- Você tem os melhores.

- Terminamos?

- Nunca. Mas você pode partir.

O Sr. O se dirigia para a porta, mas soube no momento que conseguia chegar que haveria algo mais. Quando colocou a mão sobre o maçaneta, encontrou-se fazendo uma pausa.

- Há algo que queira me dizer? - Murmurou o Sr. X. - Pensava que você partia.

O Sr. O deu uma olhada através do quarto e puxou um tema para justificar sua vacilação.

- Não podemos utilizar a casa central mais para a persuasão, não desde que o vampiro escapou. Necessitamos outra de fácil acesso além dessa daqui.

- Tenho consciência disso ou pensou que o enviei para olhar a terra por nenhuma razão?

Então esse era o plano.

- A área cultivada que verifiquei ontem não servia: muito pantanosa e muitas estradas se cruzam a seu redor. Tem em mente alguma outro lugar?

- Enviei-lhe por e-mail os listados. E até que diga onde vamos construir, trará os cativos aqui.

- Não há bastante espaço no abrigo para uma audiência.

- Falo do dormitório. É bastante grande. Como você sabe.

O Sr. O tragou e manteve sua voz tranqüila.

- Se quiser que de aulas, necessitarei de mais espaço para isso.

- Você virá aqui até que o construamos. Está bastante claro para você ou quer um diagrama?

Bom. Negociaria-o.

O Sr. O abriu a porta.

- Sr. O acredito que se esqueceu de algo.

Jesus. Agora sabia o que significava para as pessoas quando se dizia, que sua pele avançava lentamente.

- Sim, sansei?

- Quero que me agradeça a promoção.

- Obrigado, sansei. - Disse o Sr. O com o queixo apertado.

- Não me decepcione, filho.

Sim, foda-se, papai.

O Sr. O se dobrou um pouco e partiu rapidamente. Foi bom chegar a seu caminhão e partir. Melhor que bom. Isto parecia um maldito gozo.

De caminho para sua casa, o Sr. O parou em uma farmácia. Não lhe custou muito tempo encontrar o que necessitava e dez minutos mais fechou com chave a porta da rua e desativou o alarme de segurança. Seu lugar era um diminuto apartamento em uma área da cidade não tão residencial, e a posição lhe proporcionava uma boa cobertura. A maior parte de seus vizinhos eram idosos e os que não, eram imigrantes que trabalhava em dois ou três empregos. Ninguém lhe incomodava.

Quando foi ao dormitório, o som de seus passos ressonando nos pisos nus e ricocheteando nas paredes vazias, era estranhamente consolador. De todas as maneiras a casa não era um lar e nunca o havia sido. Um colchão e uma poltrona era tudo o que tinha de móveis. As persianas fechadas diante de cada janela, bloqueava qualquer vista. Os armários estavam abastecidos de armas e uniformes. A cozinha estava completamente vazia, os eletrodomésticos estavam sem usar desde que ele havia chegado.

Despiu-se e levou uma arma ao banheiro com a bolsa de plástico branca da farmácia. Inclinando-se para o espelho, separou seu cabelo. Suas raízes se mostravam alguns milímetros descoloridas.

A mudança tinha começado aproximadamente por volta de um ano. Primeiro alguns poucos cabelos, diretamente sobre a parte mais alta, depois uma parte inteira que se estendia da frente para trás, embora agora até esses se descoloriam.

Clairol Hydrience nº48 solucionava o problema, o tornava marrom. Tinha começado com o Hair Cor For Man, mas tinha descoberto que a merda para mulheres funcionava melhor e durava mais.

Abriu a caixa e não se incomodou com as luvas de plástico. Esvaziou o tubo na garrafa apertando-o, mesclou o material e o estendeu por todo seu couro cabeludo em seções. Odiava o aroma da química. A manutenção. Mas a idéia de empalidecer era-lhe repulsiva.

Por que os lessers perdiam sua pigmentação com o tempo lhe era desconhecido. O Sr. O ao menos, nunca o tinha perguntado. Os por que não lhe importavam. O Sr. O só não queria se perder no anonimato com os outros.

Deixou a garrafa apertada e olhou por um instante o espelho. Via-se como um idiota total, gordura marrom estendida por toda sua cabeça. Jesus Cristo, no que estava se convertendo?

Bem, não era uma pergunta tão estúpida. Fazia muito tempo que o fazia e era muito tarde para as desculpas.

Homem, a noite de sua iniciação, quando havia negociado uma parte de si mesmo pela possibilidade de matar durante anos, anos e anos, tinha pensado que sabia o que deixava e o que conseguiria de volta. O trato havia lhe parecido mais que justo.

E durante três anos, isto tinha estado muito bom. A impotência não lhe havia incomodado muito, por que a mulher que ele queria estava morta. Com a comida e a bebida, tinha demorado um pouco em se acostumar, mas nunca tinha sido um grande perseguidor da comida ou um bêbado. Tinha estado impaciente por perder sua velha identidade, porque a polícia o procurava.

O lado positivo havia lhe parecido enorme. A força tinha sido mais do que tinha esperado. Tinha sido um infernal quebra-crânios quando trabalhou como leão-de-chácara no Sioux City. Mas depois Omega fez o seu, o Sr. O tinha um poder desumano extensível a seus braços, pernas e peito e tinha gostado de usá-lo.

Outra vantagem era a liberdade financeira. A Lessening Society lhe dava tudo o que necessitava para fazer seu trabalho, cobrindo os gastos de sua casa, caminhão, armas, roupa e seus brinquedos eletrônicos. Era completamente livre para caçar a sua presa.

O Sr. O havia completado seus primeiros dois anos. Quando o Sr. X tinha tomado o comando, aquela autonomia tinha chegado a seu fim. Agora havia registros. Esquadrões. Cotas.

Visitas do Omega.

O Sr. O foi ao chuveiro e lavou a merda de seu cabelo. Quando se secou, foi até o espelho e olhou atentamente seu rosto. Sua íris, uma vez marrom como seu cabelo, tornaram-se cinza.

Em outro ano ou assim, tudo o que ele havia sido teria desaparecido.

Esclareceu-se garganta.

- Meu nome é David Ormond. Irmão de Bob e Lilly Ormond.

Deus, o nome parecia estranho quando saiu de sua boca. E em sua cabeça, escutou a voz do Sr. X referindo-se a ele como Sr. O.

Uma enorme emoção cresceu nele, o pânico e a dor combinadas. Queria voltar. Queria...voltar, desfazer tudo, apagá-lo. O trato por sua alma só havia parecido bom. Na realidade, este era um tipo especial de inferno. Ele era um vivo, ele respirava, assassino fantasma. Não mais um homem, mas uma coisa.

O Sr. O se vestiu com mãos trêmulas e saltou ao caminhão. Quando estava no centro, ele não tinha mais pensamentos lógicos. Estacionou no Trade Street e começou a caminhar pelas ruas. Custou algum tempo para encontrar o que procurava.

Uma puta com longo cabelo negro. Que, enquanto não mostrasse seus dentes, se parecia com sua pequena Jennifer.

Ele escorregou cinqüenta dólares e a levou para trás de um beco.

- Quero que me chame de David. - Disse ele.

- qualquer coisa. - Ela sorriu quando se desfez do casaco e lhe exibiu seu peito nu. - Como quiser se chamar...?

Ele segurou uma mão sobre sua boca e começou a apertar. Não se deteria até que seus olhos arrebentassem.

- Diga meu nome. - Lhe ordenou.

O Sr. O a liberou de seu apertão e esperou. Quando ela começou a hiperventilar, ele tirou sua faca e a pressionou sobre sua garganta.

- Diga meu nome.

- David. - Sussurrou ela.

- Me diga que me ama. - Quando ela hesitou, ele cravou a pele de seu pescoço com a ponta da lâmina. Seu sangue brotou e se deslizou pelo brilhante metal.   - Diga-o. - Seu descuidados seios, tão diferentes aos de Jennifer, moviam-se de cima para baixo.

- Eu…eu te amo.

Ele fechou seus olhos. A voz era totalmente equivocada.

Isto não lhe dava o que necessitava.

A cólera do Sr. O se elevou a um nível incontrolável.

 

Rhage levantou o peso sobre seu peito, mostrando seus dentes, movendo seu corpo, o suor escorrendo.

- São dez. - disse-lhe Butch.

Rhage colocou a carga sobre o suporte, escutando o gemido da coisa quando os pesos rangeram e caíram.

- Coloque outros cinqüenta.

Butch se inclinou sobre a barra.

- Você já colocou cinco de vinte e cinco aí, homem.

- E necessito de outros cinqüenta.

Os olhos cor de avelã se estreitaram.

- Calma, Hollywood. Se você quer esmigalhar seus peitorais, é assunto seu. Mas não em minha cabeça.

- Sinto muito. - Ele se levantou e sacudiu seus ardentes braços. Eram nove haras da manhã e estava na sala de musculação desde às sete. Não havia nenhuma parte de seu corpo que não ardesse, mas deixá-lo estava bastante longe. Aspirava ao tipo de esgotamento físico que fosse ao interior do osso.

- Ainda estão todos ali? - Resmungou ele.

- Me deixe que te aperte as amaras. Certo, bom pode começar.

Rhage se deitou, levantou os pesos do suporte e o deixou descansar sobre seu peito. Ordenou sua respiração antes de levantar o peso.

Inspirar. Expirar

Inspirar. Expirar

Inspirar. Expirar

Controlou a carga até as duas últimas, quando Butch teve que intervir e o ajudou.

- Terminou? - Butch lhe perguntou quando o ajudou a colocar a barra sobre o suporte.

Rhage se sentou ofegando, descansando seus antebraços sobre seus joelhos.

- Uma repetição mais depois deste descanso.

Butch ficou de frente, retorcendo a camisa que havia encontrado em uma corda. Graças a todos os levantamentos que tinham estado fazendo, o peito e os músculos dos braços aumentaram e ele não era muito pequeno para começar. Não podia levantar o tipo de ferro que levantava Rhage, mas para ser um humano, o cara era como um buldogue.

- Está ficando em forma, Tira.

- Ah, vamos, agora. - Sorriu-lhe Butch. - Não permita que o banho que tomamos juntos te suba à cabeça.

Rhage atirou uma toalha ao macho.

- Só se esforce para que desapareça sua barriga cervejeira.

- Isto é um recipiente escocês. E não o evito. - Butch colocou uma mão sobre seus abdominais. - Agora, me diga. Por que está empurrando esta merda sobre você desde esta manhã?

- Tem muito interesse que falemos sobre Marissa?

A face do humano se retesou.

- Não particularmente.

- Então entenderá se não tenho muito a dizer.

As escuras sobrancelhas de Butch se elevaram.

- Tem uma mulher? Algo como uma mulher em concreto?

- Pensava que não íamos falar de mulheres.

O tira cruzou os braços e franziu o cenho. Era como se avaliasse uma mão de blacjack e tentasse decidir se tinha que dar outra mão. Falou rápido e forte.

- Estou mal com Marissa. Ela não quer me ver. Eis aqui, toda a história. Agora me fale sobre seu pesadelo.

Rhage teve que rir.

- A idéia de que não sou o único que patina no assunto me traz alívio.

- Isto não me diz nada. Quero detalhes.

- A mulher me jogou de sua casa esta manhã cedo depois de trabalhar meu ego.

- Que tipo de machado usou?

- Uma comparação pouco grata entre um canino e eu.

- Ouch. - Butch retorceu a camisa em outra direção. - E naturalmente, você morre por vê-la outra vez.

- Bastante.

- É patético.

- Eu sei.

- Mas quase posso vencê-lo. - O policial sacudiu a cabeça. - Na noite passada, eu...ah…dirigi até a casa do irmão de Marissa. Não sei como o Escalade chegou até lá. Eu acredito, que a última coisa que preciso é correr para ela, entende-me?

- Me deixe adivinhar. Esperou pelos arredores com a esperança de pegar um …

- Nos arbustos, Rhage. Sentei-me nos arbustos, debaixo da janela de sua residência.

- Wow. Isso...

- Sim. Em minha antiga vida eu poderia ter me detido por espreitar. Olhe, talvez devêssemos mudar de tema.

- Grande idéia. Termina de me colocar à par do homem civil que escapou dos lessers.

Butch se apoiou contra a parede, cruzando os braços sobre seu peito e esticando-os para espreguiçar-se.

- Então Phury falou com a enfermeira que o cuidou. O cara parecia muito ruim, mas conseguiu lhe dizer que eles lhe perguntavam sobre os Irmãos. Onde vivem. Como se movem. A vítima não deu um endereço concreto onde o haviam torturado, mas tem que ser algum lugar no centro, por que é onde o encontraram e Deus sabe que não podia ter ido muito longe. Ah e resmungava as letras. X. O. E.

- Assim é como os lessers se denominam a si mesmos.

- Cativante. Muito 007. - Butch trabalhou seu outro braço, seu ombro rangeu.

- De todos os modos, tirei a carteira de um lesser que havia sido pendurado naquela árvore e Tohr se aproximou da casa do cara. Havia sido limpa a fundo, como se soubessem que ele se foi.

- O pote estava lá?

- Tohr disse que não.

- Então eles definitivamente tinham ido.

- O que há dentro dessas coisas de todos os modos?

- O coração.

- Repugnante. Mas melhor que outras partes da anatomia, considerando que alguém me disse que eles não podem despertá-lo. - Butch deixou cair seus braços e aspirou entre dentes, um pouco de ruído liberado de sua boca.

- Já sabe, isto começa a ter sentido. Lembra-se daquelas prostitutas mortas que estive investigando nos becos traseiros este verão? Essas com sinais de mordidas em seus pescoços e heroína em seu sangue?

- As noivas de Zsadist, homem. Esta é a maneira que ele se alimenta. Só humanos, embora como ele sobreviva com o sangue tão frágil, é um mistério.

- Ele disse que não o havia feito.

Rhage fez rolar seus olhos.

- E você acredita nele?

- Mas se ele nos deu sua palavra. Ei, só siga o meu raciocínio, Hollywood. Se acreditarem nele, então tenho outra explicação.

- Qual é?

- Uma isca. Se você quer seqüestrar um vampiro, como o faria? Dê-lhe comida, homem. Coloque, espera até que venha um, droga-o e o leve para onde quiser. Encontrei dardos nos locais, do tipo com que se tranqüilizaria um animal.

- Jesus.

- Escute isso. Esta manhã escutei o rádio da polícia. Outra prostituta foi encontrada morta em um beco, perto de onde morreram as demais. Eu entrei sem autorização de Vishous no servidor da polícia, e o relatório colocava que sua garganta tinha sido cortada.

- Disse tudo isso a Wrath e Thor?

- Não.

- Deveria.

O humano trocou de lugar.

- Não sei quão comprometido posso estar, sabe? Pensei, que não quero colocar meu nariz onde não deveria estar. Não sou um de vocês.

- Mas está conosco. Ou ao menos é o que Vishous disse.

Butch franziu o cenho.

- Ele disse?

- Sim. É por isso que lhe trouxemos aqui conosco em vez de...bem, você sabe.

- Me colocar clandestinamente? - O humano fez meio sorriso.

Rhage limpou a garganta.

- Nenhum de nós teria gostado de fazer isso. Bom, exceto Zsadist. Na realidade, não, ele não teria gostado nada...A verdade é, Tira, que ele cresceu em uma espécie...

A voz de Tohrment o cortou.

- Jesus Cristo, Hollywood!

O homem entrou no sala de pesos como um touro. E de toda a Irmandade, ele os encabeçava. Então alguma coisa estava pegando fogo.

- O que acontece, meu irmão? - Perguntou Rhage.

- Tenho uma pequena mensagem para você em minha caixa de mensagem geral. Daquela humana, Mary. - Thor plantou suas mãos sobre seus quadris, jogando o tórax para frente.

- Por que demônios ela se lembra de você? E como é que tem nosso número?

- Não lhe disse como nos chamar.

- E tampouco apagou a memória dela. Em que droga você estava pensando?

- Ela não será um problema.

- Já é. Liga para o nosso telefone.

- Relaxe, homem…

Tohr o cravou com um dedo.

- Arrume-o antes que eu tenha que fazê-lo. Entendeu?

Rhage se levantou do banco e seu irmão piscou.

- Ninguém se aproximará dela, a não ser que queiram tratar comigo. Isto te inclui.

Os escuros olhos azuis de Thor se estreitaram. Ambos sabiam quem ganharia se chegavam ao fundo da questão. Ninguém podia lutar contra Rhage corpo a corpo; este era um fato provado. E ele estava preparado para atingir Thor se tivesse que fazê-lo. Aqui mesmo. Agora mesmo.

Thor lhe falou em tom severo.

- Quero que respire profundamente e te afaste de mim, Hollywood.

Quando Rhage não se moveu, escutaram-se passos através dos tapetes e o braço de Butch se colocou ao redor de sua cintura.

- Por que não se acalma um pouco, grandão. - Butch falou arrastando as palavras. - Vamos terminar a festa, ok?

Rhage permitiu que o retirasse, mas manteve os olhos sobre Thor. A tensão rangia no ar.

- O que está acontecendo? - Exigiu Thor.

Rhage deu um passo libertando-se de Butch e caminhou inquieto ao redor da sala de pesos, serpenteando entre bancos e pesos no chão.

- Nada. Não está acontecendo nada. Ela não sabe o que sou e não sei como conseguiu o telefone. Talvez aquela mulher civil o tenha dado.

- Me olhe, meu irmão. Rhage se detenha e me olhe.

Rhage se deteve e moveu seus olhos.

- Por que não apagou a memória dela? Você sabe que uma vez que a memória é de longo prazo, não poderá limpá-la o suficiente. Por que não o fez quando teve a oportunidade? - Quando o silêncio se estendeu entre eles, Tohr sacudiu a cabeça.

- Não me diga que você se envolveu com ela.

- Algo assim, homem.

- Tomarei isso como um sim. Cristo, meu irmão…no que está pensando? Sabe que não deveria se envolver com uma humana, e sobretudo, não com ela devido a sua relação com o rapaz. - O olhar de Thor era agudo. – Vou te dar uma ordem. Outra vez. Eu quero que apague a memória dessa mulher e não quero que volte a vê-la.

- Já lhe disse isso, ela não sabe o que sou…

- Está tentando negociar isto comigo? Não pode ser tão estúpido.

Rhage deu a seu irmão um olhar desagradável.

- E você não me quer em cima de você outra vez. Desta vez não permitirei que o tira me segure.

- Já a beijaste na boca? O que lhe disse suas presas, Hollywood? - Quando Rhage fechou os olhos e amaldiçoou, o tom de Tohr se aliviou. - Seja realista. Ela é uma complicação que não necessitamos, ela é um problema para você porque a escolheu por cima de minha ordem. Não faço isto para te quebrar as bolas, Rhage. É mais seguro para todos. Para ela. O fará, meu irmão.

Mais seguro para ela.

Rhage se sentou e pegou os tornozelos. Esticou seus tendões com força, quase colocou suas costas em suas pernas.

Mais seguro para Mary.

- Me encarregarei disso. - Disse ele finalmente.

 

- Sra. Luce? Por favor, venha comigo.

Mary olhou para cima e não reconheceu à enfermeira. A mulher parecia realmente jovem com seu uniforme rosado, provavelmente acabava de sair da escola. E ainda pareceu mais jovem quando sorriu devido a suas covinhas.

- Sra. Luce? - Ela mudou de lugar o volumoso arquivo em seus braços.

Mary colocou a alça de sua bolsa sobre seu ombro, levantou-se e seguiu à mulher pela sala de espera. Desceram a metade de um longo corredor, pintado de bege e fizeram uma pausa ante o balcão de registro.

- Só vou pesar e tomar a temperatura. - A enfermeira sorriu outra vez e conseguiu mais pontos sendo boa com o peso e o termômetro. Ela era rápida. Amistosa.

- Perdeu algum peso, Sra. Luce. - Disse ela, anotando-o no arquivo. - Como está seu apetite?

- O mesmo.

- Desceremos aqui para a esquerda.

As salas de exames eram todas parecidas. Um pôster de um Monet emoldurado e uma pequena janela com persianas pintadas. Uma mesa com folhetos e um computador. Uma mesa de exames com um pedaço de papel branco estirado sobre ela. Uma pia com vários suprimentos. Um contêiner vermelho para lixo biológico no canto.

Mary tinha vontade de levantar-se.

- A Dra. Delia Croce disse que queria que tomasse os sinais vitais. - A enfermeira entregou um quadrado de tecido perfeitamente dobrado.

- Se colocar isto, ela virá em seguida.

As batas eram todas iguais, também. Fino algodão, suave, azul com um pequeno estampado rosado. Havia dois jogos de laços. Ela nunca tinha certeza se aquelas malditas coisas ficavam à direita, se a abertura devia ficar na frente ou atrás. Hoje escolheu para frente.

Quando já havia se trocado, Mary se sentou em cima da maca e deixou seus pés balançando. Tinha frio sem sua roupa e as olhou, todas muito bem dobradas sobre a cadeira ao lado da mesa. Pagaria um bom dinheiro para voltar a usá-las.

Com uma vibração e um assobio, seu telefone celular soou em sua bolsa. Ela caiu sobre o chão calçada por suas meias três-quartos.

Ela não reconheceu o número quando verificou a identificação e respondeu esperançosa.

- Olá?

- Mary.

O rico som da masculina voz fez que sentisse alívio. Tinha estado quase segura de que Hal não ia lhe devolver a chamada.

- Olá. Olá, Hal. Obrigado por ligar. - Ela olhou a seu redor procurando um lugar para se sentar que não fosse a mesa de revisão. Colocando a roupa sobre seu colo, ela limpou a mesa.

- Olhe, sinto muito sobre ontem à noite. Eu só...

Houve um golpe e depois a enfermeira espiou pela porta.

- Me desculpe, você nos entregou seu exame ósseo de julho passado?

- Sim. Deveriam estar em meu arquivo. - Quando a enfermeira fechou a porta, Mary, disse.

- Sinto muito.

- Onde você está?

- Eu, ah... - Ela pigarreou. - Não é importante. Só queria que soubesse o mal que me senti sobre o que te disse.

Houve um longo silêncio.

- Eu fiquei aterrorizada. - Disse ela.

- Por quê?

- Você me faz...não sei, você só... - Mary tocou a barra de seu vestido. As palavras se desvaneceram. - Tenho câncer, Hal. Quero dizer, eu tive e pode voltar.

- Eu sei.

- Então Bela lhe contou. - Mary esperou que ele confirmasse, quando ele não o fez, ela suspirou. - Não utilizo a leucemia como desculpa pelo comportamento que tive. É só…Estou em um lugar estranho agora mesmo. Minhas emoções ricocheteiam por toda parte e te ter em minha casa me sentindo totalmente atraída por você provocou algo e distribuí golpes a torto e a direito.

- Entendo.

De algum modo, ela sentiu que ele entendia.

Mas Deus, seus silêncios a assassinavam. Ela começava a parecer uma idiota por mantê-lo na linha.

- Em qualquer caso, isto é tudo o que eu queria te dizer.

- Recolherei-te esta noite às oito horas. Em sua casa.

Ela apertou o telefone. Deus, queria vê-lo.

- Eu te esperarei.

Do outro lado da porta da sala de exames, elevou-se a voz da Dra. Delia Croce e diminuiu de comum acordo com a enfermeira.

- E Mary?

- Sim?

- Solte o cabelo para mim.

Houve uma batida e a doutora entrou.

- Certo. Farei-o. - Disse Mary antes de desligar. - Oi, doutora.

- Olá, Mary. - Quando a Doutora Delia Croce cruzou a sala, sorriu e seus negros olhos se enrugaram nos cantos. Tinha aproximadamente uns cinqüenta anos, com o cabelo grisalho batia em seu queixo.

A doutora se sentou atrás da escrivaninha e cruzou as pernas. Quando ela tomou um momento para se situar, Mary moveu a cabeça.

- Odeio quando tenho razão. - Resmungou ela.

- Sobre o que?

- Voltou, não é?

Houve uma leve pausa.

- Sinto muito, Mary.

 

Mary não foi trabalhar. Em lugar disso dirigiu até sua casa, despiu-se, e se meteu na cama. Uma rápida ligação para o escritório e teve o resto do dia assim como também a seguinte semana de folga. Ia necessitar de tempo. Depois do longo fim de semana do Dia Hispânico iam lhe fazer vários exames e segundo pareceres, e depois ela e a Dra. Delia Croce se encontrariam e discutiriam as diferentes opções.

O mais estranho era que, Mary não se surpreendeu. Em seu coração sempre tinha sabido, eles haviam obrigado a enfermidade a se retirar, não a se render.

Ou talvez ela só estivesse em choque e começava sentir a familiar enfermidade.

Quando pensava no que ia confrontar, o que a assustou não era a dor; era a perda de tempo. Quanto tempo até que voltasse a estar sob controle? Quanto tempo duraria a seguinte pausa? Quando poderia retornar a sua vida?

Ela recusava pensar que havia uma alternativa à remissão. Não ia por ali.

Virando-se sobre seu lado, cravou os olhos na parede do quarto e pensou em sua mãe. Viu sua mãe virando um rosário com as pontas de seus dedos, murmurando palavras de devoção enquanto jazia na cama. A combinação de fricção e sussurros a haviam ajudado a encontrar um alívio além do que a morfina podia lhe proporcionar. Porque de certa maneira, presa em meio de sua maldição, até no apogeu da dor e do medo, sua mãe tinha acreditado nos milagres.

Mary queria ter perguntado a sua mãe se realmente pensava que se salvaria, e não no sentido metafórico, mas de maneira prática. Cissy verdadeiramente tinha acreditado em que se dissesse as palavras certas e tivesse os objetos corretos a seu redor, se curaria, caminharia outra vez, viveria outra vez?

As perguntas nunca foram feitas. Esse interrogatório teria sido cruel, e Mary tinha sabido a resposta de qualquer maneira. Havia sentido que sua mãe tinha esperado uma redenção temporária antes do verdadeiro final.

Mas então, talvez Mary só havia projetado o que tinha esperado com ilusão. Para ela, salvar-se significava ter uma vida como a de uma pessoa normal: você estará saudável e forte, e o prospecto da morte, apenas um hipotético conhecimento longínquo. Uma dívida paga completamente em um futuro que não poderia imaginar.

Talvez sua mãe o tivesse visto de outro modo, mas uma coisa era certa: o resultado não havia se alterado. As orações não a haviam salvado.

Mary fechou os olhos, e o excessivo cansaço a venceu. Como tragou de todo, agradeceu o vácuo temporário. Dormiu durante horas, entrando e saindo da consciência, desabada na cama.

Despertou às sete em ponto e tratou de alcançar o telefone, discando o número que Bela lhe havia dado para comunicar-se com Hal. Desligou o telefone sem deixar nenhuma mensagem. Deveria ter cancelado o encontro, porque não ia ser uma grande companhia, mas que droga, sentia-se egoísta. Queria lhe ver. Hal a fazia sentir-se viva, e agora mesmo estava desesperada por essa excitação.

Depois de uma rápida ducha, colocou rapidamente uma saia e um pulôver de gola alta. No espelho de corpo inteiro que havia na banheiro as duas peças estavam mais folgadas do que tinham que estar, e pensou no peso dessa manhã na consulta da doutora. Provavelmente deveria comer como Hal esta noite, porque Deus sabia que não havia razão para fazer dieta nesse momento. Se ela fosse enviada para outra ronda de quimioterapia, então deveria fazer uma bagagem em quilos.

O pensamento a congelou no lugar.

Passou as mãos por seu cabelo, retirando-o de seu pescoço, passando-o através de seus dedos e deixando-o cair sobre seus ombros. Tão comum, todo marrom, pensou ela. E tão pouco importante no esquema maior das coisas.

A idéia de perdê-lo a fez querer chorar.

Com uma expressão sombria, ela juntou as pontas, as retorcendo em um nó e as atando em seu lugar.

Estava na porta da rua esperando no caminho de entrada alguns minutos mais tarde. O frio a atingiu e compreendeu que tinha esquecido de colocar um casaco. Voltou para dentro, pegou um casaco de lã preta e perdeu suas chaves no processo.

Onde estavam suas chaves? Se tivesse deixado suas chaves no…

Yup, as chaves estavam na porta.

Fechou a casa, trancando a porta e lançou a chave no bolso de seu casaco.

Esperando, ela pensou em Hal.

Solte seu cabelo para mim.

Tudo bem.

Ela abriu o prendedor e penteou com os dedos o melhor que pôde. E então se sentiu tranqüila.

A noite era tranqüila, pensou ela. E isto era por que gostava de viver em uma granja; não tinha nenhum vizinho exceto Bella.

Então se lembrou dela: tinha pensado em ligar para ela e lhe explicar sobre o dia, mas não tinha conseguido até então. Amanhã. Iria ver Bella amanhã. E a informaria dos dois encontros.

Um sedan virou na estrada a 800 metros de distância, acelerando com um grunhido baixo que ela escutou claramente. Se não tivesse sido pelos dois faróis, teria pensado que uma Harley subia pelo caminho.

Quando o grande carro violeta parou diante dela, pensou que parecia um GTO de algum tipo. Reluzente, ruidoso, ostentoso…encaixava perfeitamente com um homem que gostasse da velocidade e se encontrasse cômodo com a atenção.

Hal saiu pelo lado do condutor e caminhou ao redor do capô. Usava um terno, um terno todo preto com uma camisa preta aberta no pescoço. Seu cabelo penteado para trás, caindo em sua nuca, com mechas loiras. Parecia uma fantasia, sexy, poderoso e misterioso.

Excetuando sua expressão que não era material de sonho. Seus olhos se estreitaram, seus lábios e o queixo apertados.

De todas as formas ele sorriu um pouco quando chegou até ela.

- Deixou o cabelo solto.

- Eu disse que o faria.

Ele levantou sua mão como se quisesse tocá-la, mas hesitou.

- Está preparada para ir?

- Aonde vamos?

- Fiz uma reserva no Excel. - Ele deixou cair seu braço e a olhou a distância, silencioso, imóvel.

Oh...infernos.

- Hal, tem certeza de que quer fazer isto? Você está claramente mantendo certa distância esta noite. Sinceramente, eu também.

Ele se afastou andando e olhou fixamente o chão, apertando o queixo.

- Poderíamos deixá-lo para outra hora. - Disse ela, calculando que ele era um cara agradável para partir sem algum tipo de convite proposto para outra ocasião. - Não é uma grande…

Ele moveu-se tão rapidamente que ela não pôde vê-lo. Em um momento estava à alguns passos de distância; aproximou-se e a levantou contra seu corpo. Tomou seu rosto entre suas mãos e colocou seus lábios sobre os dela. Quando suas bocas se juntaram, olhou-a diretamente aos olhos.

Não havia nenhuma paixão nele, só uma intenção sombria que converteu o gesto em uma espécie de voto.

Quando a soltou, ela tropeçou para trás. E caiu diretamente sobre seu traseiro.

- Ah, maldição, Mary, sinto muito. - Ele se ajoelhou. – Você está bem?

Ela assentiu mesmo que não o estivesse. Sentiu-se tola e ridícula caída sobre a grama.

- Tem certeza de que você está bem?

- Sim. - Ignorando a mão que ele lhe oferecia, levantou-se e retirou os restos de grama que tinha sobre ela. Agradeceu a Deus que sua saia fosse marrom e a terra estivesse seca.

- Vamos simplesmente jantar, Mary. Vamos.

Uma grande mão se deslizou ao redor de sua nuca, e a conduziu para o carro, não lhe deixando nenhuma outra opção, somente continuar.

Embora o conceito de lutar com ele não lhe ocorresse, sentia-se aflita por muitas coisas, ele estava entre elas e ela estava muito cansada para apresentar alguma resistência. Além disso, algo tinha acontecido entre eles no instante em que suas bocas se encontraram. Não tinha nem idéia do que significava, mas um laço afetivo estava ali.

Hal abriu a porta do passageiro e a ajudou entrar em seu interior. Quando ele se deslizou no assento do condutor, ela olhou o interior ao redor para evitar ser presa por seu perfil.

O GTO grunhiu quando ele engatou a primeira e conduziu pelo pequeno caminho parando no sinal da Rota 22. Ele olhou para ambos os lados da estrada e em seguida acelerou para a direita, o crescente som do motor e a sua caída eram como uma respiração quando engatou as mudanças uma e outra vez enquanto viajavam.

- É um carro espetacular. - Disse ela.

- Obrigado. Meu irmão o arrumou para mim. Tohr gosta de carros.

- Quantos anos tem seu irmão?

Hal riu forte.

- Muito velho.

- Mais velho que você?

- Aha.

- É o mais novo?

- Não, não é assim. Não somos irmãos porque não nascemos da mesma mulher.

Deus, ele as vezes tinha um estranho modo de reunir as palavras.

- Foram adotados pela mesma família?

Ele assentiu com a cabeça.

- Está com frio?

- Ah, não. - Ela se olhou as mãos.

Estavam profundamente cravadas em seu colo, seus ombros encurvados para frente. O que explicava por que ele pensava que ela estivesse com frio. Tentou relaxar.

- Estou bem.

Ela olhou o pára-brisa. A linha amarela dupla na estrada brilhava por causa dos faróis. E o bosque chegava até a margem do asfalto. Na escuridão, a ilusão de túnel era hipnótica, sentindo como se a Rota 22 continuasse para sempre.

- Este carro é muito rápido? - Murmurou ela.

- Muito rápido.

- Mostra-me.

Ela sentiu seu olhar como um dardo atravessando-a no assento. Então ele mudou a marcha, acelerou e os colocou em órbita.

O motor rugiu como um ser vivo, o carro vibrava enquanto as árvores pareciam uma parede negra. Iam mais e mais rápido, mas Hal permaneceu com absoluto controle quando fizeram as curvas apertadamente, serpenteando pela estrada.

Quando ele começou a reduzir a velocidade, ela colocou sua mão sobre sua dura coxa.

- Não pare.

Ele hesitou durante um momento. Então continuou e ligou o som. “Dream Weaver”, aquele hino dos anos setenta, inundou o interior do carro até níveis estridentes. Pisou forte no acelerador e o carro explodiu, levando-os a grande velocidade pela vazia e interminável estrada.

Mary abaixou o vidro de sua janela, deixando que o ar entrasse. A rajada enredou seu cabelo e refrescou suas bochechas e a libertou do torpor no qual a doutora a havia deixado. Começou a rir e mesmo que pudesse ouvir que havia uma ponta de histerismo em sua voz, ela não se preocupou. Tirou sua cabeça para o frio, gritando ao vento.

E permitiu ao homem e ao carro que a levassem.

 

O Sr. X observou a seus dois novos esquadrões quando entraram na cabana para outra reunião. Os corpos dos lessers absorveram o espaço livre encolhendo o tamanho do quarto e satisfazendo-o pela a quantidade de muitos músculos para cobrir a linha de frente do combate. Havia pedido a eles que voltassem pelos motivos habituais, mas também queria ver em pessoa como eles haviam reagido ante as notícias de que o Sr. O era agora seu superior.

O Sr. O entrou por último no interior, e foi diretamente à entrada do dormitório, apoiando-se contra a soleira casualmente, seus braços cruzados sobre seu peito. Seus olhos eram agudos, mas agora eram reservados, uma reticência que era muito mais útil do que teria sido sua cólera. Parecia como se um cachorro perigoso tivesse entrado na sala, e se a tendência continuava, eles tinham sorte. O Sr. X necessitava de um segundo no comando.

Com as últimas perdas que haviam sofrido, tinha que se concentrar em recrutar e esse era um trabalho de tempo inteiro. Escolhendo os candidatos corretos, trazendo-os até o limite, quebrando-os em cada etapa do processo requeria dedicada concentração e recursos. Mas enquanto ele preenchia as filas da sociedade, não podia permitir o rapto e a estratégia de persuasão que havia apresentado perdesse o ímpeto. E a anarquia entre os assassinos não era algo que ele tolerasse.

Em muitos níveis, o Sr. O tinha boas qualificações para ser o homem certo. Era comedido, desumano, eficiente, de mente limpa: um agente de poder que motivava os outros com o medo. Se Omega tivesse conseguido tirar sua rebelião, estaria perto da perfeição.

Era tempo de que começasse a reunião.

- Sr. O, fale com os outros sobre as propriedades.

O lesser começou seu relatório sobre as duas extensões de terreno que tinha visitado durante o dia. O Sr. X já tinha decidido comprar ambas com dinheiro vivo. E enquanto aquelas transações eram fechavam, ele ia ordenar às equipes que erigissem um centro de persuasão sobre trinta hectares rurais que a Sociedade já possuía. O Sr. O em última instância seria o responsável pelo lugar, mas como o Sr. O tinha fiscalizado os projetos do edifício em Connecticut, ele faria um resumo informativo sobre as fases de construção do centro.

Os objetivos da atribuição incluiriam a velocidade e a conveniência. A Sociedade necessitava de outros lugares para trabalhar, lugares isolados, seguros e calibrados para seu trabalho. E eles os necessitavam agora.

Quando o Sr. O se calou, o Sr. X delegou à ela a construção do novo centro e ordenou aos homens que saíssem às ruas durante as tardes.

O Sr. O ficou para trás.

- Temos algum assunto? - Perguntou o Sr. X - Algo mais fracassou?

Aqueles olhos marrons flamejaram, mas o Sr. O não se quebrou. Mais provas das melhorias.

- Quero construir algumas unidades de armazenagem na nova instalação.

- Para que? Nosso objetivo não é manter os vampiros como animais domésticos.

- Espero ter mais de um sujeito ao mesmo tempo e quero mantê-los pelo tempo que puder. Mas necessito de um lugar onde eles não possam desmaterializar-se e tem que estar protegido da luz solar.

- O que você tem em mente?

A solução que o Sr. O detalhou não só era viável, como também eficiente.

- Faça-o. - Disse o Sr. X, sorrindo.

 

Quando Rhage entrou no estacionamento do Excel, se dirigiu diretamente para perto da entrada do restaurante. Embora o GTO não tivesse uma embreagem delicada, não ia deixar as chaves para ninguém mais. Não com o tipo de armas e munições que levava no porta-malas.

Ele escolheu um lugar na área traseira, um que estava justo ao lado da porta lateral. Quando girou a chave de contato, tirou o cinto de segurança e …

E não fez nada. Só ficou ali sentado, sua mão na porta.

- Hal?

Ele fechou os olhos. Deus, daria qualquer coisa só para a ouvir dizer seu verdadeiro nome. E ele queria...mas que droga, a queria nua em sua cama, sua cabeça sobre seu travesseiro, seu corpo entre seus lençóis. Queria tomá-la em privado, somente eles dois. Nenhuma testemunha, sem o escudo de seu casaco. Nada de público, nenhuma ação rápida no corredor ou no banheiro.

Queria suas unhas em seu traseiro e sua língua em sua boca e seus quadris balançando-se debaixo dele até que o fizesse com tal força que visse as estrelas. Então queria dormir com ela entre seus braços. E despertar, comer e fazer amor outra vez. Conversar sobre a escuridão sobre coisas estúpidas e sérias…

Oh, Deus. Estava vinculando-a a ele. A união estava acontecendo.

Tinha ouvido os homens dizerem que podia ser assim. Rápido. Intenso. Sem lógica. Só poderosos instintos primitivos consumindo-os, um dos mais fortes era o desejo de possuí-la e marcá-la no processo para que outros homens soubessem que já tinha um companheiro. E queria que ficassem decididamente longe dela.

Olhou o corpo dela. E compreendeu que mataria a qualquer membro de seu sexo que tentasse tocá-la, estar com ela ou amá-la.

Rhage se esfregou os olhos. Sim, aquele impulso de marcá-la estava definitivamente dando trabalho.

E esse não era seu único problema. O zumbido estranho havia voltado a seu corpo, animado pelas explícitas imagens em sua cabeça, seu aroma e o suave som de sua respiração.

E o seu sangue correndo.

Ele queria prová-la...beber dela.

Mary se virou para ele.

- Hal, você está…

Sua voz parecia uma lixa.

- Tenho que te dizer algo.

Sou um vampiro. Sou um guerreiro. Sou uma besta perigosa. Ao final desta noite, não se lembrará que alguma vez me encontrou. E a idéia de não estar em sua memória me faz sentir como se me apunhalassem sobre o peito.

- Hal, o que está acontecendo?

As palavras de Thor se repetiam em sua cabeça.

É mais seguro. Para ela.

- Nada. - Disse ele soltando o cinto de segurança e saindo do carro. - Não é nada.

Ele rodeou o carro e abriu a porta dela, lhe oferecendo a mão para ajudá-la a sair. Quando ela colocou sua palma nas suas, ele fechou as pálpebras. A vista de seus braços e suas pernas fizeram que seus músculos se retesassem e um suave grunhido lhe subiu pela garganta.

E, droga, em vez de se afastar de seu caminho, fechou o espaço até que seus corpos quase se tocassem. As vibrações sob sua pele se retesaram ainda mais e mais forte com sua luxúria rugindo por ela. Sabia que deveria olhá-la de mais distância porque certamente sua íris brilhavam um pouco. Mas ele não podia.

- Hal? - Disse ela roucamente. - Seus olhos…

Ele fechou suas pálpebras.

- Sinto muito. Vamos entrar...

Ela puxou sua mão.

- Não acredito que eu queira jantar.

Seu primeiro impulso foi discutir, mas ele não queria intimidá-la. Além disso, menos tempo que passassem juntos, menos teria que apagar.

Infernos, deveria acabar de lhe apagar desde o momento em que a pegou em sua casa.

- Levarei-te para casa.

- Não, digo, quer caminhar um pouco comigo? Por aquele parque? É só que não tenho vontade de me sentar em uma mesa. Também estou...inquieta.

Rhage colocou as chaves do carro em seu bolso.

- Eu gostaria.

Enquanto eles serpentearam pela grama e andaram sob um dossel de folhas coloridas, ele explorou os arredores. Não havia nada de perigoso ao redor, nenhuma ameaça que pudesse sentir. Olhou para cima. Uma meia lua estava pendurada no céu.

Ela riu um pouco.

- Eu nunca faria isto normalmente. Sabe, sair para o parque à noite! Mas contigo! Não me preocupo que nos ataquem.

- Bom. Não deveria. - Por que ele despedaçaria a quem tentasse machucá-la, humano, vampiro ou não morto.

- Parece que está errado. - Murmurou ela. - Estar ao ar livre na escuridão, quero dizer. Parece algo ilícito e um pouco assustador. Minha mãe sempre me advertia sobre ir aos lugares de noite.

Ela parou, inclinou sua cabeça para trás, e olhou fixamente para cima. Devagar estendeu seu braço para o céu com sua mão aberta. Fechou um olho.

- O que você está fazendo? - Perguntou ele.

- Segurando a lua na palma de minha mão.

Ele se inclinou e seguiu a longitude de seu braço olhando fixamente.

- Sim, você a tem.

Quando se endireitou, deslizou suas mãos ao redor de sua cintura e a apertou contra seu corpo. Após da rigidez inicial do momento, ela se relaxou e deixou cair a mão.

Deus, adorava seu aroma. Tão limpo e fresco, com aquele leve toque cítrico.

- Estava no médico quando liguei para você hoje. - Disse ele.

- Sim, estava.

- O que vão fazer por você? - Ela se afastou e começou a andar outra vez. Ele seguiu seu passo, lhe permitindo que escolhesse o ritmo. - O que lhe disseram, Mary?

- Não temos que falar sobre tudo isso.

- Por que não?

- Vai contra seu tipo. - Disse ela ligeiramente. - Os playboys. Supõe-se que não lidam adequadamente com as partes pouco atraentes da vida.

Ele pensou em sua besta.

- Estou acostumado ao pouco atraente, acredita em mim.

Mary parou outra vez, sacudindo a cabeça

- Sabe, algo não está bem em tudo isto.

- Bom ponto. Eu deveria estar segurando sua mão enquanto caminhamos.

Ele estendeu a mão, só para que ela se afastasse.

- Sério, Hal por que está fazendo isto? Estar comigo?

- Você vai me deixar complexado. O que acontece é que desejo passar um pouco de meu tempo contigo?

- Necessita que eu lhe explique isso detalhadamente? Sou uma mulher comum, com um trabalho comum. E você é muito atraente. Saudável. Forte…

Dizendo-se que era dez vezes estúpido, ele se colocou frente a ela e colocou suas mãos sobre a base de seu pescoço. Ia beijá-la outra vez, mesmo que não devesse. E este não ia ser do tipo de beijo que havia lhe dado diante de sua casa.

Quando ergueu sua cabeça, a estranha sensação em seu corpo se intensificou, mas não parou. Ao inferno se ia deixar seu corpo se impor sobre ele esta noite. Combatendo o zumbido, apertou a sensação por pura força de vontade. Quando conseguiu suprimi-la, sentiu-se aliviado.

E determinado a entrar nela, embora fosse somente com a língua em sua boca.

Mary olhou os elétricos olhos azuis de Rhage. Poderia ter jurado que ardiam na escuridão, aquela luz verde azulada na realidade saía deles. Ela havia sentido uma coisa parecida no estacionamento.

O pêlo de sua nuca se arrepiou.

- Não se preocupe pelo brilho. - Disse ele suavemente, como se tivesse lido sua mente. - Não é nada.

- Não o entendo. - Sussurrou ela.

- Nem tente.

Ele diminuiu a distância entre eles, abaixando a cabeça. Seus lábios eram suaves contra os seus, prolongando-o, rodeando-a. Sua língua saiu e lhe acariciou a boca.

- Te abra para mim, Mary. Deixe-me entrar.

Lambeu-a até que ela separasse os lábios para ele. Quando sua língua se deslizou para dentro dela, o impulso aveludado a atingiu entre as coxas e aliviou seu corpo, o calor a atravessou quando seu seios encontraram seu peito. Ela o agarrou pelos ombros, tentando se aproximar mais de todos aqueles músculos e do calor.

Ela só teve êxito durante um momento. Bruscamente, ele separou seus corpos, embora mantivesse o contato com seus lábios. Ela se perguntou se ainda estava beijando-a para ocultar o fato de que ele havia se retirado. Ou talvez só tentasse refrescá-la um pouco, já que ela havia estado muito agressiva ou algo assim?

Ela virou sua cabeça para um lado.

- O que está errado? - Perguntou ele. – Você está nisso.

- Sim, bem, não é o bastante para os dois.

Ele se deteve antes que se distanciasse um passo, relutando em deixar seu pescoço.

- Não quero parar, Mary. - Seus polegares acariciaram a pele de sua garganta e depois pressionaram sobre seu queixo e inclinou sua cabeça para trás. - Quero que esteja quente. Muito quente para não sentir nada, exceto a mim. Não pensará em nada mais que não seja o que te faço. Quero-te molhada.

Ele se dobrou e tomou sua boca, entrando profundamente, comendo-a. Procurou em todos os cantos até que não houve nenhum lugar em seu interior que não tivesse explorado. Então mudou o beijo, retirando e avançando, uma penetração rítmica que fez que ficasse mais molhada e ainda mais preparada para ele.

- É isso aí, Mary. - Disse ele contra seus lábios. - Deixe ir. Deus, posso cheirar sua paixão...é deliciosa.

Suas mãos iam de cima a baixo, passando sob a gola de seu casaco, sobre sua clavícula. Por Deus! Estava perdida por ele. Se ele tivesse lhe pedido que tirasse a roupa, já teria se despido. Se ele houvesse lhe dito que se estendesse sobre o chão e que abrisse as pernas, ela teria preparado a grama para ele. Qualquer coisa. Tudo que ele quisesse, o que fosse desde que nunca deixasse de beijá-la.

- Vou tocar-te. - Disse ele. - Não o bastante, não realmente o bastante. Mas um pouco…

Seus dedos se moveram sobre seu pulôver de gola alta de caxemira, indo mais e mais para baixo e…

Seu corpo se sacudia com força quando ele encontrou seus mamilos rígidos.

- Tão preparada para mim. - Murmurou ele, agarrando-os. – Gostaria tomá-los em minha boca. Quero chupar você, Mary. Vai me deixar fazê-lo?

Sua palmas abertas tomaram o peso de seu seios.

- Queria, Mary que estivéssemos a sós? Se estivéssemos em uma agradável cama quente? E você estivesse nua para mim? Deixaria-me prová-los? - Quando ela assentiu, ele riu com ferocidade. - Sim, onde mais, além disso, você iria querer a minha boca? - Ele a beijou duramente quando ela não respondeu. - Diga-me.

Sua respiração saiu em uma muda pressa. Ela não podia pensar, não podia falar.

Ele tomou sua mão e a colocou ao redor da sua mão.

- Então me mostre, Mary. - Disse ele a seu ouvido. - Me mostre onde quer que eu vá. Conduza-me. Vamos. Faça-o.

Incapaz de parar, ela tomou sua palma e a colocou sobre seu pescoço. Deslizando lentamente, devolveu-a a seu seio. Ele ronronou com aprovação e a beijou de um lado do queixo.

- Sim, ali. Sabemos que quer que vá ali. Onde mais?

Tonta, fora de controle, ela conduziu sua mão para seu estômago. Então a desceu até seu quadril.

- Bom. Isto é bom. - Quando ela hesitou, ele sussurrou. - Não pare, Mary. Continue. Mostre-me onde quer que eu vá.

Antes que ela perdesse o ânimo, colocou sua mão entre as pernas. Sua saia folgada lhe deu passagem, deixando-o entrar e um gemido escapou dela quando percebeu a palma dele sobre seu centro.

-Oh, sim, Mary. Assim é. - Ele a acariciou e ela se agarrou a seus grossos bíceps, inclinando-se para frente. - Deus, está me queimando vivo. Está tão molhada para mim, Mary? Acredito que sim. Penso que está coberta de mel…

Precisando tocá-lo, ela colocou suas mãos sob seu casaco, em sua cintura, sentindo o cru e atemorizante poder de seu corpo. Mas antes que pudesse afastar-se, ele afastou seus braços segurando os pulsos com uma mão. Claramente ele não ia parar. Pressionou-a para trás com seu peito, até que ela sentiu uma sólida árvore contra suas costas.

- Mary, me permita te fazer sentir bem. - Através de sua saia, seus dedos sondaram e encontraram o ponto de prazer. - Quero fazer você gozar. Aqui e agora.

Quando ela gritou, ela compreendeu que estava à beira do orgasmo e ele estava completamente longe, um engenheiro de sua luxúria que não sentia, nada mesmo: sua respiração era serena, sua voz estável, seu corpo sem nenhuma afetação.

- Não. - Gemeu ela.

A mão de Hal cessou com as carícias.

- O que?

- Não.

- Você te certeza?

- Sim.

Imediatamente, ele se voltou para trás. E enquanto ele esteve de pé calmo diante dela, ela tentou recuperar o fôlego.

Seu fácil consentimento lhe doeu, mas ela se perguntou por que ele o havia feito. Talvez se satisfizesse estando em controle. Infernos, fazer que uma mulher ofegasse devia ser uma viagem de poder fabuloso. E isso explicaria por que ele queria estar com ela e não com aquelas garotas sexys. Uma mulher não-tão-atraente poderia ser mais fácil para permanecer distante.

A vergonha apertou seu peito.

- Quero voltar. - Disse ela, a ponto de começar a chorar. - Quero ir para casa.

Ele suspirou.

- Mary…

- Se pensa em me pedir desculpas, vou adoecer…

De repente, Hal franziu o cenho e ela começou a espirrar.

Deus, por alguma razão, seu nariz sentia um comichão como se quisesse escapar. Havia algo no ar. Doce. Como o sabão de lavanderia. Ou era talvez talco de bebês?

A mão de Hal atingiu seu braço.

- Te jogue no chão. Agora mesmo.

- Por quê? O que…

- Te jogue ao chão. - Ele a empurrou até seus joelhos. - Mantenha sua cabeça coberta.

Girando a seu redor, plantou-se diante dela, seus pés afastados, a mãos diante de seu peito. Pela pernas separação ela viu dois homens saírem de cima das árvores. Estavam vestidos com macacão preto, sua pele pálida e seus cabelos brilhavam à luz da lua. A ameaça do parque fez com que ela compreendesse o longe que ela e Hal tinham estado vagando.

Ela procurou em sua bolsa seu telefone celular e tentou se convencer que estava reagindo de uma forma exagerada.

Sim, certo.

Os homens se dividiram e atacaram Hal por ambos os lados, chegaram rapidamente e desceram ao chão. Ela gritou alarmada, mas Hal...Santo Moisés, Hal sabia o que fazia. Equilibrou-se para a direita e agarrou um deles por um braço, atirando o cara no chão. Antes que o homem pudesse se levantar, Hal pisou com força sobre seu peito, prendendo-o. O outro atacante foi pego por Hal pelo pescoço e terminou por sufocando, dando socos e pontapés, ofegando por conseguir ar, indo a lugar nenhum.

Sombrio, mortífero, Hal estava muito controlado, a vontade com a violência. E sua fria expressão, tranqüila incomodava infernalmente a ela, até mesmo quando estava agradecida por ele tê-los salvado.

Ela encontrou seu telefone e começou a marcar o 911, pensando que ele claramente poderia segura-los enquanto a polícia chegava.

Ela ouviu um repugnante estalo.

Mary elevou a vista. O homem que havia sido agarrado caiu ao chão, sua cabeça pendurada de seu pescoço em um ângulo totalmente incorreto. Não se movia.

Ela se levantou.

- O que você fez!

Hal tirou uma larga adaga negra de algum lugar e se sobressaiu sobre o homem que tinha estado sob sua bota. O cara se arrastava pela terra para escapar.

- Não. - Ela se colocou diante de Hal.

- Vá para o lado. - Sua voz era misteriosa. Afastada. Totalmente indiferente.

Ela o agarrou pelo braço.

- Pare.

- Tenho que terminar…

- Não vou deixar que mate outro…

Alguém a agarrou pelo cabelo e a atirou a seus pés. Então o outro homem de preto atacou Hal.

A dor atravessou sua cabeça e seu pescoço como um relâmpago e depois caiu sobre seu traseiro com força. O impacto do golpe fez que abandonasse a respiração e as estrelas irrompessem sua visão como foguetes. Ela lutava para conseguir ar em seus pulmões quando seus braços foram retorcidos para cima e a levaram arrastando-a. Rapidamente.

Seu corpo batia contra o chão, seus dentes rangendo. Ela levantou a cabeça mesmo quando isto lhe enviava agulhas de cima e a baixo de sua espinha dorsal. O que viu foi um horrível alívio. Hal lançava outro corpo sem vida sobre a grama e vinha atrás dela em uma corrida mortal. Suas coxas cobriam por completo a distância, o casaco flamejava atrás dele, a adaga estava em sua mão. Seus olhos eram de um azul gritante na noite, como lanternas de néon sobre um carro, e seu grande corpo era nada mais que a morte que espera um lugar para passar.

Graças a Deus

Mas então outro homem se lançou sobre Hal.

Quando Hal rechaçou ao cara, Mary recorreu a seu treinamento de autodefesa, retorcendo-se até que seu atacante tivesse que se ajeitar para apertá-la. Quando ela sentiu que seus dedos se afrouxavam, deu um puxão com tanta força como pôde. Ele se virou e a recapturou rapidamente, mas com um apertão menos seguro. Ela se arremessou outra vez, obrigando-o a parar e a girar-se.

Ela se debateu, preparada para ser atingida, mas ao menos esperava ter conseguido dar algum tempo para Hal.

Não houve nenhum golpe. Em troca um uivo de dor saiu do homem e seu raptor caiu sobre ela, um pesado e sufocante peso. O pânico e o terror lhe deram forças para afastá-lo.

Seu corpo se girou fracamente. A adaga de Hal atravessava o olho esquerdo do homem.

Muito horrorizada para gritar, Mary ficou de pé e correu tão rápido como pôde. Estava segura de que voltariam a agarrá-la, convencida de que ia morrer.

Mas então o brilho das luzes do restaurante finalmente entraram em seu campo de visão. Quando sentiu o asfalto do estacionamento, quis chorar de gratidão.

Até que viu Hal diante dela. Como se tivesse aparecido do nada.

Deu um freada ao parar, ofegando, tonta, incapaz de compreender como tinha podido ir atrás dela. Quando seus joelhos se esgotaram, ela foi até um carro qualquer.

- Venha, vamos. - Disse ele apenas.

Em uma fria precipitação, ela recordou o estalo do pescoço do homem. E a adaga negra no olho do homem. E o controle tranqüilo, cruel de Hal.

Hal era a morte...A morte em um formoso pacote.

- Te afaste de mim. - Ela caiu sobre seus pés e ele estendeu a mão para ela. - Não! Não me toque.

- Mary…

- Se mantenha longe de mim. - Ela foi até o restaurante, as mãos levantadas para rechaçá-lo. Pouco lhe serviria contra ele.

Hal a seguiu, movendo seus poderosos braços e pernas.

- Me escute…

- Necessito… - Ela clareou a garganta. - Tenho que chamar à polícia.

- Não, você não o fará.

- Fomos atacados! E você...matou aquelas pessoas. Matou às pessoas. Quero chamar a…

- Isto é algo privado. A policia não pode te proteger. Eu posso.

Ela parou, um desagradável disparo da verdade em que ele estava no centro. Tudo tinha sentido. A ameaça que ele ocultava atrás de seu encanto. A falta absoluta de medo quando foram atacados. Sua determinação de não implicar a polícia. Deus, o fato de que tivesse rachado a cabeça de um homem com facilidade, como se o tivesse feito antes.

Hal não queria que ela chamasse o 911 porque ele estava do outro lado da lei. Nada menos que bandidos tinham ido atrás dele.

Ela abaixou seu braço para segurar a bolsa, a ponto de começar a correr. E se deu conta de que sua bolsa tinha desaparecido.

Hal amaldiçoou, rápido e forte.

- Perdeste a bolsa, não é mesmo? - Ele olhou a seu redor. - Escuta, Mary, você tem que vir comigo.

- Um inferno que o farei.

Ela fugiu para o restaurante, mas Hal saltou diante dela, lhe bloqueando o caminho, agarrando-a pelos braços.

- Gritarei. - Ela olhou para os manobristas. Eles estavam provavelmente a 25 metros de distância. - Gritarei muito forte.

- Sua vida está em perigo, mas posso te proteger. Confie em mim.

- Não te conheço.

- Sim, conhece.

- Ah, tem razão. É lindo, então talvez não possa ser mau.

Ele apontou com um dedo para o parque.

- Salvei-te ali. Sem mim, agora mesmo você não estaria viva.

- Bem. Muito obrigado. Agora me deixe só!

- Não quero fazer isso. - Resmungou ele. - Realmente não quero!

-Fazer o que?

Ele passou sua mão na frente de seus rosto.

E de repente, ela não podia se lembrar de por que estava tão zangada.

 

Estando de pé diante de Mary, a memória dela a sua mercê, Rhage disse que tinha que terminar o trabalho. Só apagar a sim mesmo como se fosse uma mancha.

- Sim, e como ela ia trabalhar para eles?

Tinha abandonado ao menos a um, talvez a dois lessers vivos no parque quando tinha tido que ir atrás dela. Se aqueles sujeitos pegassem a bolsa dela e ele só podia imaginar que o haviam feito, ela estava na mira deles. A Sociedade já estava seqüestrando civis que não sabiam nada sobre a Irmandade: ela na realidade tinha sido vista com ele.

Mas que diabos ia fazer agora? Não podia abandoná-la sozinha em sua casa porque seu endereço estaria em sua carteira de motorista e este seria o primeiro lugar ao qual os lessers iriam. Levá-la a um hotel não era uma opção, porque não podia ter certeza de que ela ficaria lá. Ela não entenderia por que teria que se manter afastada de sua casa porque não se lembraria do ataque.

O que ele queria fazer era levá-la à mansão, ao menos até que pudesse calcular como dirigir esta merda de tempestade. O problema era que cedo ou tarde alguém averiguaria que ela estava em seu quarto e estas não seriam boas notícias para ninguém. Inclusive se a ordem de Tohr de lhe apagar a memória não se mantivesse de pé, os humanos estavam proibidos em seu mundo. Muito perigoso. A última coisa que a Irmandade necessitava para a existência da raça e a secreta guerra com os lessers era tornarem-se público entre os Homo Sapiens.

Sim, mas ele era o responsável pela vida de Mary E as regras existiam para serem desobedecidas…

Talvez pudesse conseguir que Wrath lhe permitisse levá-la. A Shellan de Wrath era meio humana e depois que os dois se uniram, o Rei Cego se abrandou com respeito ao tema das mulheres. E Thor não podia anular o rei. Ninguém podia.

Exceto que enquanto Rhage tentasse apresentar seu caso, Mary tinha que ser mantida a salvo.

Ele pensou em sua casa. Estava afastada da estrada, então se um maldito viesse para atingi-la, ele poderia defendê-la sem ter que se preocupar muito com a interferência da polícia humana. Tinha muitas armas em seu carro. Poderia levá-la até lá e protegê-la se fosse necessário e chamar Wrath.

Rhage libertou sua mente, cortando de sua memória só a parte após deles terem saído do carro. Ela não se recordaria de seus beijos.

O que, considerando todas as opções, era uma coisa boa. Maldição.

Ele a havia pressionado demais, demasiado rápido e ele quase havia se dividido. Enquanto sua boca e seu corpo estiveram nela, o zumbido havia se elevado a um grito. Especialmente quando ela havia tomado sua mão e a tinha colocado entre suas coxas.

- Hal? - Mary o olhou com confusão. - O que está acontecendo?

Ele se sentiu horrível enquanto examinava seus grandes olhos e terminou de enterrar as imagens em sua mente. Tinha apagado a memória de incontáveis mulheres humanas antes e nunca o tinha pensado duas vezes. Mas com Mary, parecia que levava algo dela. Invadindo sua intimidade. Traindo-a.

Passou-lhe uma mão pelo cabelo, pegando uma mecha e desejando tirar as coisa diretamente de sua cabeça.

- Então prefere que nos pulemos o jantar e voltemos para seu casa? Eu poderia comer alguma coisa fria.

- Bom, mas...sinto como se houvesse alguma coisa que nós tínhamos que fazer. - Ela olhou a si mesma e começou a retirar a grama. - Considerando como tinha deixado esta saia quando deixamos minha casa, provavelmente não deveria aparecer em público de qualquer maneira. Sabe, pensava que eu havia limpado a grama de...Espera um minuto, onde está minha bolsa?

- Talvez você a tenha deixado no carro.

- Não, eu…Oh, meu Deus. - Ela começou a tremer de modo incontrolável, respirando rapidamente, levemente. Seus olhos frenéticos.

- Hal, sinto muito, eu...necessito…Ah, infernos.

A adrenalina corria por todo seu sistema. Sua mente podia estar calma, mas seu corpo ainda estava cheio de medo.

- Vem aqui. - Disse ele, atraindo-a contra seu corpo. - Me deixe te abraçar até que isto passe.

Enquanto lhe murmurava, manteve suas mãos à frente de maneira que não encontrassem a adaga sob seu braço ou sua Baretta nove milímetros em seu bolso traseiro. Seus olhos precipitando-se ao seu redor, procurando entre as sombras do parque à direita e o restaurante à esquerda. Estava desesperado para levá-la até o carro.

- Sinto-me tão envergonhada. - Disse ela contra seu peito. - Eu não havia tido um ataque de pânico há muito tempo.

- Não se preocupe por isso. - Quando ela deixou de tremer, ele se afastou. - Vamos.

Colocou-a rapidamente no GTO e se sentiu melhor quando o colocou em funcionamento e saiu do estacionamento.

Mary olhou tudo ao redor de dentro do carro.

- Merda. Minha bolsa não está aqui. Devo ter deixado ela em casa. Hoje estou esquecida. - Ela se recostou contra o assento e procurou entre seus bolsos. – Dane-se! Ao menos tenho minhas chaves.

A viagem para fora da cidade foi rápida, tranqüila. Quando estacionou o GTO diante de sua casa, Mary escondeu um bocejo e tentou abrir a porta. Ele colocou sua mão em seu braço.

- Me deixe ser um cavalheiro e fazer isto por você.

Ela sorriu e deixou cair o olhar como se não estivesse acostumada que os homens a tratassem com excessivos mimos.

Rhage saiu. Enquanto, cheirou o ar e usou seus olhos e ouvidos para penetrar na escuridão. Nada. Um monte de nada.

Enquanto caminhava ao redor da parte traseira do carro, abriu o porta-malas, tirou uma grande bolsa, e fez uma nova pausa. Tudo estava tranqüilo, incluindo seus impulsivos sentidos.

Quando abriu a porta para Mary, ela olhou com o cenho franzido o que estava pendurado em seu ombro.

Ele sacudiu a cabeça.

- Não acredito que passe a noite ou algo assim. Só notei que a fechadura de meu porta-malas está quebrado e não quero deixá-lo tão vulnerável . Ou simplesmente a vista.

Maldição, odiava mentir para ela. Literalmente lhe revolveu o estômago.

Mary se encolheu e andou até a porta dianteira.

- Deve haver algo importante dentro dessa coisa.

Sim, somente suficiente potência de fogo para destruir um edifício de dez andares. E isto ainda não era suficiente para protegê-la.

Ela parecia um pouco envergonhada quando abriu a porta dianteira e deu um passo para dentro. Deixou-a vagar pela residência ligando as luzes e lidando com seu nervosismo, mas ele estava bem atrás dela. Quando a seguiu, visualmente verificou as portas e as janelas. Todas estavam fechadas. O lugar era seguro, ao menos no andar de baixo.

- Quer comer algo? - Perguntou-lhe ela.

- Não, estou bem.

- Eu tampouco tenho fome.

- O que há lá em cima?

- Um ...meu quarto.

- Quer me mostrar? - Ele tinha que examinar o segundo andar.

- Talvez mais tarde. De verdade quer vê-lo? Er…ah…infernos. - Ela parou com inquietação e o olhou fixamente, com as mãos nos quadris. - Vou ser clara contigo. Nunca tive um homem nesta casa. E estou com a hospitalidade enferrujada.

Ele deixou cair sua bolsa. Embora ele estivesse pronto para a batalha e tenso como um gato, tinha bastante energia mental armazenada para ser atraído por ela. O fato de que outro homem não tivesse estado em seu espaço íntimo o alegrava tanto que seu peito cantou.

- Acredito que você o está fazendo bem. - Murmurou ele. Ele estendeu a mão e lhe acariciou a bochecha com o polegar, pensando no que queria fazer com ela naquele dormitório.

Imediatamente seu corpo começou a dar voltas, uma estranha queimação condensando-se ao longo de sua coluna vertebral. Ele obrigou a sua mão a cair a um lado.

- Tenho que fazer uma rápida ligação. Importa-te se uso a parte de cima para falar com privacidade?

- Certamente. Vou te esperar aqui.

- Não demorarei muito.

Quando correu para seu quarto, ele tirou seu telefone celular do bolso. A maldita coisa estava quebrada, provavelmente por um dos pontapés dos lessers, mas ainda discava. Quando saiu a mensagem de voz de Wrath, deixou-lhe uma curta mensagem e rezou como o inferno para que o chamassem logo.

Depois de fazer uma avaliação rápida da parte de cima, ele voltou para baixo. Mary estava sobre um divã, as pernas recolhidas debaixo dela.

- Então, o que vamos ver? - Perguntou ele, procurando faces pálidas em portas e janelas.

- Por que você olha ao redor como se isso fosse um beco?

- Sinto muito. Um velho hábito.

- Deve ter estado em uma unidade militar infernal.

- O que quer ver? - Ele se aproximou de onde estavam arrumados todos os DVDs.

- Você escolhe. Eu irei trocar de roupa... - Ela se ruborizou. - Bem, para ser honesta, vou colocar algo mais cômodo. E que não tenha grama sobre ela.

Para assegurar-se que ela estava a salvo, esperou-a na parte inferior da escada enquanto ela se encaminhava para seu quarto. Quando começou a descer para o primeiro andar, ele caminhou novamente até a estante.

Olhando a coleção de filmes soube que estava com problemas. Havia muitos títulos estrangeiros, alguns sinceramente americanos. Alguns sucessos antigos como Algo Para Recordar. Casablanca.

Absolutamente nada de Sam Raimi ou Roger Corman. Ela não havia ouvido nada sobre a série Evil Dead? Espera, havia uma esperança. Ele tirou uma capa. Nosferatu, Eine Symphonie de Grauens. O clássico filme alemão de vampiros de 1922.

- Encontraste algo que você gosta? - Disse ela.

- Sim. - Olhou-a sobre seu ombro

Oh,…homem. Ela havia se vestido para o amor, por isso ele se preocupou: O pijama de flanela com estrelas e luas estampadas. Uma camiseta branca. Mocassins brancos de couro.

Ela puxou a barra da camiseta, tentando baixá-la mais.

- Pensei em colocar jeans, mas estou cansada e uso isto na cama...eh, para relaxar. Já sabe, nada de imaginação.

- Eu gosto de você dentro de tudo isso. - Disse ele em voz baixa. - Parece estar cômoda.

Sim, ao diabo com isso. Ela estava comestível.

Uma vez que havia escolhido o filme e o fez rodar, ele pegou a bolsa, levou-o até o safa e no final se sentou em frente a ela. Esticou-se, tentando fingir para seu benefício que cada músculo de seu corpo não estava tenso. A verdade era que estava no limite. Entre a espera de que um lesser entrasse a força, e rezar para que Wrath ligasse a qualquer momento e o desejo de beijar a trilha para a parte interior de suas coxas, era um intenso e folgado cabo de aço.

- Pode colocar os pés sobre a mesa, se quiser. - Disse ela.

- Estou bem. - Ele se esticou e apagou o abajur à sua esquerda, esperando que ela dormisse. Ao menos poderia se mover e vigiar o exterior sem conseguir irritá-la.

Aos quinze minutos de filme, ela disse.

- Sinto muito, mas estou apagando aqui.

Ele a olhou. Seu cabelo aberto como um leque sobre os ombros e enroscada sobre si mesma. Sua luminosa pele um pouco avermelhada pela luz da TV, suas pálpebras fechadas.

Assim se veria ela quando despertava pelas manhãs, pensou ele.

- Pode dormir, Mary. Vou ficar um pouco mais, OK?

Ela colocou uma suave manta de cor creme sobre ela.

- Sim, certamente. Mas, hum, Hal…

- Espere. Por favor poderia me chamar por meu…outro nome?

- Ok. Qual é?

- Rhage.

Ela franziu o cenho.

- Rhage?

- Sim.

- Ah, certo. É como um apelido ou algo assim?

Ele fechou os olhos.

- Sim.

- Bem. Rhage...obrigado por esta noite. Por ser tão flexível, acredito.

Ele amaldiçoou silenciosamente, pensando que ela deveria esbofeteá-lo em vez de sentir-se agradecida. Ele quase a tinha matado. Agora ela era um objetivo dos lessers. E se ela soubesse a metade das coisas que ele queria fazer a seu corpo, ela provavelmente se trancaria no banheiro.

- Está bem, já sabe. - Murmurou ela.

- O que?

- Sei que só quer que sejamos amigos.

Amigos?

Ela riu com força.

- Quero dizer, que não quero que pense que interpretei mal aquele beijo quando me pegou esta noite. Sei que não era…já sabe. De todas as formas, não tem que se preocupar de eu ter uma idéia equivocada.

- Por que pensa que eu poderia estar preocupado?

- Está sentando tão rígido como uma tábua no outro lado do sofá. Como se tivesse medo de que eu fosse saltar sobre você.

Ele ouviu um ruído lá fora e seus olhos se dirigiram para a janela da direita. Mas era somente uma folha que havia batido sobre o vidro da janela.

- Não queria te deixar embaraçado. - Soltou ela. - Só queria ...já sabe, te tranqüilizar.

- Mary, não sei o que dizer. - Por que a verdade a aterrorizaria. E já havia lhe mentido o bastante.

- Não diga nada. Provavelmente não deveria tê-lo dito. Tudo o que queria dizer era, que estou contente de que você esteja aqui. Como um amigo. De verdade que eu gostei do passeio de carro. E eu gosto de caminhar. Não necessito mais de você, francamente. Você é um amigo.

Rhage deu um suspiro. Em toda sua vida adulta, nunca uma mulher o havia chamado de amigo. Ou valorizara sua companhia para outra coisa que não fosse o sexo.

Na Velha Língua, lhe sussurrou.

- Não tenho palavras, minha mulher. Nenhum som de minha boca é digno de seu ouvido.

- Que língua é esta?

- Minha língua materna.

Ela assentiu com a cabeça, avaliando-o.

- É parecido com o francês, mas não exatamente. Havia algo de eslavo. Talvez húngaro ou algo assim?

Ele cabeceou.

- Basicamente.

- O que você disse?

- Eu gosto de estar aqui contigo, também.

Ela sorriu e deixou cair sua cabeça.

Assim que ele soube que ela estava apagada, abriu o zíper de sua bolsa e verificou duas vezes que as armas estivessem carregadas. Então andou pela casa, apagando as luzes. Quando estava totalmente escuro, seus ajustados olhos e sentidos se intensificaram ainda mais.

Explorou os bosques posteriores à casa. E o prado da direita. E a grande granja à distância. E a estrada em frente.

Ele escutou, rastreando os passos dos animais através da grama e notando como o vento acariciava as tábuas de madeira do celeiro. Quando a temperatura de fora baixou, controlou os rangidos da casa, examinando-os, sondando se por acaso se irrompiam. Caminhou ao redor, voltando para a sala, até que pensou que ia explodir.

Verificou seu telefone celular. Estava conectado, com o timbre ativado. E a coisa recebia o sinal.

Ele amaldiçoou. Caminhando ao redor um pouco mais.

O filme terminou. Ele o recomeçou para o caso de ela despertar e quisesse saber por que ele ainda estava ali. Então deu outra volta ao redor do primeiro andar.

Quando esteve na parte detrás da sala de estar, esfregou-se a testa e sentiu o suor. A casa dela estava mais aquecida do que estava acostumado ou talvez ele só estivesse nervoso. Por outro lado, ele tinha calor, então tirou o casaco e colocou suas armas e o telefone celular dentro da bolsa.

Quando se enrolou as mangas, ficou de pé ante ela e a mediu lentamente, inclusive as respirações. Ela era muito pequena sobre aquele sofá, menor ainda para aqueles fortes olhos cinza de guerreiro, ocultos atrás das pálpebras e sobrancelhas. Sentou-se a seu lado e com cuidado mudou seu corpo, para que ela se recostasse contra a dobra de seu braço.

Ao lado de seu músculo, ela era diminuta.

Ela se remexeu, levantando sua cabeça.

- Rhage?

- Volte a dormir. - Sussurrou-lhe ele, impulsionando-a contra seu peito. - Só deixa que te segure. É tudo o que vou fazer.

Ele absorveu seu suspiro através de sua pele e fechou os olhos quando seu braço se colocou ao redor de sua cintura, sua mão metida a seu lado.

Tranqüilo.

Tudo estava tranqüilo. Tranqüila na casa. Tranqüilo lá fora.

Teve o estúpido impulso de despertá-la e aconchegá-la de novo, então poderia senti-la mais facilmente contra ele uma vez mais.

Em troca, concentrou-se em sua respiração, combinando e empurrando seus próprios pulmões como os dela.

Tão...pacífico.

E silencioso.

 

Quando John Mathew deixou o Moe’s Diner, onde trabalhava como ajudante de garçom, preocupou-se com Mary. Ela tinha feito uma mudança na quinta-feira no Telefone Direto, o que era algo insólito, e esperava que estivesse lá esta noite. Como eram doze e trinta agora, ainda tinha meia hora antes que ela saísse, então com certeza que a encontraria. Supondo que ele se deixasse ver.

Caminhou tão rápido como pôde, cobriu os seis sujos blocos de apartamentos em aproximadamente dez minutos. E embora a viagem para casa não fosse nada especial, seu edifício estava cheio de diversão e jogos. Quando passou pela porta principal, ouviu alguns homens bêbados discutindo, suas palavras altas imprecisas, coloridas e inconsistentes. Uma mulher gritou algo sobre o volume da música. A irreverente resposta masculina que ela obteve foi do tipo que ele associava com gente armada.

John passou como um relâmpago pelo vestíbulo e subiu as descascadas escadas, trancando-se em seu estúdio com rapidez.

Seu espaço era pequeno e provavelmente dentro de uns cinco anos o declarariam em ruínas. O piso era metade de linóleo e a outra metade de carpete, e os dois estavam destruídos. O linóleo estava desgastado de maneira que parecia que fosse se converter-se em fios de cabelo e o carpete havia se tornado tão duro que mais parecia madeira dura.

As janelas estavam opacas pela imundície, o que na realidade era algo bom, já que assim não necessitava de persianas. A ducha e o banheiro funcionavam, mas a pia estava entupida desde o dia que havia chegado. Tinha tentado desentupi-la, mas quando isto não funcionou, decidiu não mexer nos encanamentos. Não tinha nenhum interesse em saber o que tinham empurrado por aquela garganta.

Como ele sempre fazia quando chegava em casa nas sextas-feiras, abriu uma janela e olhou a rua através dela. Os escritórios do Telefone Direto Para a Prevenção do Suicídio estavam abertas, mas Mary não estava no escritório que normalmente usava.

John franziu o cenho. Talvez ela não se estivesse bem. Parecia bastante esgotada quando ele havia ido a sua casa.

Amanhã, decidiu ele, iria de bicicleta até onde ela vivia e comprovaria como estava.

Deus, estava tão contente por que finalmente teve a coragem de aproximar-se dela. Tinha sido tão agradável, ainda mais em pessoa que pelo telefone. E ela conhecia o ASL? Teria sido o destino?

Fechando a janela, aproximou-se da geladeira liberando a borracha que mantinha a porta fechada. Dentro havia quatro pacotes de baunilha Ensure. Tirou duas latas, depois estirou a borracha até seu lugar. Calculou que seu apartamento era o único do edifício que não estava infestado de insetos, e era só por que não tinha nenhum alimento de verdade a seu redor. Seu estômago não podia com essa matéria.

Sentado sobre seu colchão, apoiou-se contra a parede. O restaurante tinha estado cheio e lhe doíam horrivelmente os ombros.

Bebendo com cautela primeiramente, esperando que seu ventre o deixasse tranqüilo esta noite, recolheu de novo a revista Músculos e Saúde que já havia lido duas vezes.

Olhou fixamente a capa. O cara na capa tinha a pele bronzeada, um tórax aumentado, cheio de bíceps, tricípite, peito e abdominais. Para amplificar a aparência do macho, tinha uma formosa moça com um biquíni amarelo ao redor dele como uma fita.

John tinha estado lendo sobre os levantadores de peso durante anos e tinha economizado durante meses para comprar um pequeno jogo de pesos. Trabalhava com o metal seis dias à semana. E não tinha nada que o demonstrasse. Não importava com a força que trabalhasse ou como desesperadamente queria ser maior, não tinha aumentado nenhum músculo.

Parte do problema era sua dieta. Those Ensures era tudo o que podia tomar sem adoecer e eles não tinham toneladas de calorias. O problema estava relacionado com o alimento. Sua genética era uma porcaria. Aos vinte e três anos, tinha cinco pés e seis polegadas, 102 libras. Não precisava se barbear. Não havia nenhum cabelo sobre seu corpo. Nunca tinha tido uma ereção.

Pouco viril. Frágil. O pior de tudo, não mudava. Tinha tido este tamanho e tinha sido assim nos últimos dez anos.

A identidade repetitiva de sua existência o cansava, esgotava-o, esvaziava-o. Tinha perdido a esperança de se converter em um homem e a aceitação da realidade o havia envelhecido. Sentia seu pequeno corpo velho, como se sua cabeça não pertencesse ao resto dele.

Mas tinha algum descanso. Gostava de dormir. Em seus sonhos se via lutando, era forte, sentia-se seguro, ele era…um homem. De noite, enquanto seus olhos estavam fechados, tinha uma temível adaga em sua mão, um assassino que fazia o que fosse por uma nobre razão, E não estava só em seu trabalho. Tinha a companhia de outros homens como ele, lutadores e irmãos, leais até a morte.

E em suas visões, fazia amor com mulheres, lindas mulheres que faziam estranhos sons quando ele entrava em seus corpos. Às vezes havia mais de uma com ele, e as tomava com força por que elas o queriam assim e ele também o queria. Suas amantes lhe agarravam as costas, arranhando sua pele quando se estremeciam e se moviam debaixo de seus quadris que se chocavam. Com rugidos de triunfo, ele gozava, seu corpo contraindo-se e escorregando-se no calor úmido que elas lhe ofereciam. E depois de que tivesse prazer, em emocionantes atos de depravação, beberia seu sangue e o frenesi selvagem deixaria os lençóis brancos, vermelhos. Finalmente quando as necessidades passassem e a fúria e as ânsias terminassem, a seguraria amavelmente e a contemplariam com satisfação, adorando seus olhos. A paz e a harmonia viriam e seriam bem-vindas como benções.

Infelizmente, seguia despertando a cada manhã.

Na vida real, não podia esperar derrotar ou defender alguém, não do modo que o havia sonhado. E ainda não tinha beijado uma mulher. Nunca tinha tido a oportunidade. O sexo oposto tinha duas reações: as mais velhas o tratavam como a uma criança e as mais jovens olhavam através dele. Ambas as respostas lhe doíam, as mais velhas por que apontavam sua fraqueza, as últimas por que lhe roubavam qualquer esperança de que encontraria alguém de quem cuidar.

Era por isso queria uma mulher. Tinha a grande necessidade de proteger, abrigar, guardar. Uma chamada inconcebível e sem saída.

Além disso, que mulher ia lhe querer? Era condenadamente fracote. Seu jeans penduravam de suas pernas. Sua camisa colada ao peito côncavo que corria entre suas costelas e seus quadris. Seus pés eram do tamanho de um criança de dez anos.

John podia sentir crescer sua frustração, mas não sabia o que era que lhe desgostava. Certo, gostava das mulheres. E queria tocá-las por que sua pele parecia tão delicada e cheirava tão bem. Mas não era como se tivesse despertado, inclusive quando despertava em meio de um de seus sonhos. Era um monstro. Preso em algum lugar entre um homem e uma mulher, nem um nem outro. Um hermafrodita sem a equipe normal.

Uma coisa era certa. Definitivamente não gostava dos homens. Muitos deles haviam ido atrás dele durante anos, empurrando o dinheiro ou as drogas ou ameaçando-o, tentando atraí-lo para banheiros ou para os carros. De algum modo, sempre conseguia escapar.

Bem, sempre até o inverno passado. Lá por janeiro o haviam preso na ponta de uma pistola no vão da escada do edifício anterior onde tinha vivido.

Depois disto, mudou-se e tinha começado a levar uma pistola.

Também tinha chamado ao Linha Direta de Prevenção ao Suicídio.

Isso fora há dez meses e ele ainda não podia suportar sentir o contato dos jeans contra sua pele. Teria jogado fora os quatro pares se tivesse podido. Em troca, tinha queimado os que usava naquela noite e havia se acostumada a usar cueca largas sob as calças, inclusive no verão.

Pois não, não gostava dos homens.

Talvez essa fosse outra das razões pelas quais respondia assim ante as mulheres. Sabia como se sentiam, sendo um alvo, por que tinham algo que alguém mais poderoso queria tirar delas.

Não é que estivesse a ponto de contar para alguém sobre sua experiência ou alguma coisa. Não tinha nenhuma intenção de compartilhar com ninguém o que lhe havia passado naquele vão daquela escada. Não podia imaginar contando-o.

Mas Deus, o que, se uma mulher lhe perguntasse se já havia estado alguma vez com alguém? Não saberia como responder a isso.

Uma pesada mão bateu em sua porta.

John ficou de pé depressa, pegando a arma que estava debaixo de seu travesseiro. Liberou a tranca com um movimento rápido de seu dedo.

A batida se repetiu.

Nivelando a arma contra a porta, esperou que um ombro atingisse a madeira e a estilhaçasse.

- John? - Era uma voz masculina, grave e poderosa. - John, sei que está dentro. Meu nome é Tohr. Conheceu-me há duas noites.

John franziu o cenho e depois estremeceu quando suas têmporas lhe doeram. Bruscamente, como se alguém tivesse aberto uma comporta, recordou que tinha ido a algum lugar clandestinamente. E havia se reunido com um homem alto vestido de couro. Com Mary e Bella.

Enquanto a memória o atingia, algo se moveu no mais profundo de seu interior. No nível de seus sonhos. Algo antigo…

- Vim para falar contigo. Me deixará entrar?

Com a arma em sua mão, John foi até a porta e a abriu, mantendo a corrente em seu lugar. Esticou o pescoço para cima, para encontrar-se com os olhos azul escuro do homem. Uma palavra lhe veio à memória, uma que não entendia.

Irmão.

- Quer travar novamente essa arma, filho?

John negou com a cabeça, preso entre o eco de uma estranha lembrança em sua cabeça e que estava diante dele: um homem mortal de couro.

- Bem. Só cuide par onde você aponta. Não te vê muito cômodo com essa coisa e não quero o incomodo de ter um buraco em mim. - O homem olhou a corrente. – Vai me deixar entrar?

Duas portas mais abaixo, uma onda de elevados gritos foram crescendo e terminaram com o som de um vidro quebrado.

- Vamos, filho. Um pouco de privacidade será bom.

John inspirou profundamente e soltou seus instintos procurando qualquer sensação real de perigo real. Não encontrou nada, apesar do homem ser grande e duro e indubitavelmente armado. Alguém como ele só tinha embalagem.

John retirou a corrente e se distanciou, abaixando a arma.

O homem fechou a porta atrás dele.

- Se recorda que nos encontramos, não é mesmo?

John assentiu, perguntando-se por que suas lembranças haviam retornado tão depressa. E por que a terrível dor de cabeça tinha chegado com eles.

- Se recorda sobre o que estivemos falando. Sobre o treinamento que lhe oferecemos?

John colocou a trava da arma em seu lugar. Recordou tudo e a curiosidade que o havia atingido, voltou. Assim como um feroz desejo.

- Então você gostaria de se unir e trabalhar conosco? E antes que me diga que não é demasiado grande, conheço muitos caras de seu tamanho. De fato, temos uma classe de homens que são justo como você.

Mantendo seus olhos sobre o forasteiro, John colocou a arma sobre seu bolso traseiro e se aproximou da cama. Agarrou um bloco de papel de papel e uma caneta Bic e escreveu: Não tenho dinheiro.

Quando lhe mostrou o bloco de papel, o homem leu suas palavras.

- Não tem que se preocupar com isso.

John rabiscou: Sim, faço-o e girou o papel.

- Controlo o lugar e necessito de alguma ajuda em matéria administrativa. Poderia trabalhar para cobrir o custo. Sabe alga coisa sobre computadores?

John negou com a cabeça, parecendo um idiota. Tudo o que sabia fazer era recolher pratos, copos e lavá-los. E este cara não necessitava de um ajudante de garçom.

- Bem, conseguiremos que um Irmão que entenda dessas malditas coisas te dê uma mão. Ele te ensinará. - O homem sorriu um pouco. - Trabalhará. Treinará. Estará bem. E falará com minha shellan. Ela se sentiria muito feliz se ficasse conosco enquanto estiver na escola.

John entrecerrou suas pálpebras, sua cautela crescendo. Isto soava de todas as formas como um bote salva-vidas. Mas porque este cara queria salvá-lo?

- Quer saber por que eu faço isso?

Quando John assentiu com a cabeça, o homem tirou o casaco e desabotoou a metade superior de sua camisa. Deixou a coisa aberta, expondo seu peitoral esquerdo.

Os olhos se fixaram na cicatriz circular que lhe era mostrada.

Quando ele ficou a mão sobre seu próprio peito, o suor escorreu sobre sua testa. Tinha uma rara sensação de que algo transcendental se encaixava no lugar.

- Você é um de nós, filho. É tempo de que volte para a casa .

Família.

John deixou de respirar, um estranho pensamento passou por sua cabeça: Por fim, encontraram-me.

Mas então a realidade apareceu a sua frente, chupando a alegria de seu peito.

Não lhe aconteciam milagres. Sua boa sorte lhe tinha secado antes que tivesse tido a consciência de que havia tido alguma. Ou talvez fosse a sorte que o havia evitado. Em qualquer caso, este homem vestido de couro negro, que vinha de alguma parte, lhe oferecendo uma saída de emergência do horrível lugar no qual vivia, era muito bom para ser verdade.

- Quer mais tempo para pensar nisso.

John negou com a cabeça e se distanciou, escrevendo: Quero ficar aqui.

O homem franziu o cenho quando leu as palavras.

- Escuta, filho, está em um momento perigoso de sua vida.

Vá à merda. Tinha convidado o cara a entrar, sabendo que ninguém viria em sua ajuda se gritasse. Sentiu sua arma.

- Bem, te acalme. Já me dirá. Pode assobiar?

John assentiu com a cabeça.

- Aqui está o número onde pode me localizar. Assobia no telefone e saberei que é você. - O cara lhe deu um pequeno cartão. - Darei-te alguns dias. Ligue se mudar de idéia. Se não o fizer, não se preocupe com isso. Não se recordará de nada.

John não tinha nem idéia do que fazer com esse comentário, então ele ficou olhando fixamente os números negros gravados, perdendo-se em todas as possibilidades e improbabilidades. Quando olhou para cima, o homem tinha ido.

Deus, não tinha ouvido abrir e fechar a porta.

 

Mary saiu do sonho com um violento espasmo. Um profundo grito retumbou em sua sala de estar, quebrando a tranqüila manhã. Ergueu-se de repente, mas foi empurrada para um lado outra vez. Então o sofá inteiro estava inclinado afastado da parede.

Na cinza luz do alvorada, viu a bolsa de Rhage. Seu casaco. E compreendeu que ele havia saltado para trás do sofá.

- As persianas! - Gritou ele. - Abaixe as persianas!

A dor em sua cortante voz a perturbou fazendo-a correr pela residência. Ela cobriu cada janela até que a única luz que entrava de fora fosse pela cozinha.

- E aquela porta, também… - Sua voz se fragmentou. - A da outra sala.

Ela a fechou rapidamente. Agora estava completamente escuro exceto pelo brilho da TV.

- O banheiro tem janela? - perguntou ele bruscamente.

- Não, não tem. Rhage, que aconteceu? - Ela começou a inclinar-se para a beira do sofá.

- Não se aproxime de mim. - As palavras soaram estranguladas. E seguida de uma maldição picante.

- Você está bem?

- Só deixe...que recupere o fôlego. Necessito que me deixe só agora.

Ela deu a volta ao sofá de qualquer maneira. Na escuridão, vagamente só podia distinguir a grande silhueta dele.

- O que aconteceu Rhage?

- Nada.

- Sim, claro. - Droga, ela odiava a tenaz rotina do cara. - É por causa da luz solar, não é mesmo? Você é alérgico a ela.

Ele riu asperamente.

- Poderia-se dizer isso. Mary, para. Não venha aqui.

- Por que não?

- Não quero que me veja.

Ela o alcançou e acendeu o abajur mais próximo. O som de um assobio ressonou na residência.

Quando seu olhar se adaptou, viu Rhage deitado de barriga para cima, um braço atravessando seu peito, o outro sobre seus olhos. Havia uma repugnante queimadura sobre a pele exposta pelas mangas enroladas. Ele fazia caretas pela dor, seus lábios puxados para trás…

O sangue dela gelou.

Presas.

Dois longos caninos estavam alojados entre seus dentes superiores.

Ele tinha presas.

Ela devia ter ofegado por que ele resmungou.

- Disse-te que não me olhasse.

- Jesus Cristo. - Sussurrou ela. - Me diga que são falsos.

- Não são.

Ela caminhou para trás até que tropeçou contra a parede. Santo...Bom Deus.

- O que...você é? - A garganta dela se fechava.

- Nada de luz solar. Presas. - Ele respirava desigualmente. - Faça uma conjetura.

- Não...não é...

Ele gemeu e depois ela escutou um movimento, como se ele se mexesse.

- Pode me fazer o favor de apagar aquele abajur? Minhas retinas torraram e necessitam de algum tempo para se recuperarem.

Ela se inclinou para frente e apertou o interruptor. Abrigando-se com seus braços a seu redor, escutou os sons roucos que ele fazia quando respirava.

O tempo passou. Não disse nada. Não se sentou, riu ou tirou a falsa dentadura. Não disse que era o melhor amigo de Napoleão ou João Batista ou Elvis, como um cara louco .

Tampouco voou pelo ar e tentou mordê-la ou matá-la. Tampouco se converteu em morcego.

Oh, vamos. Pensou ela. Não podia levá-lo a sério, não é verdade?

Mas ele era diferente. Fundamentalmente diferente a qualquer homem que ela tivesse conhecido. Que se...

Ele gemeu suavemente. Pelo brilho da TV, viu como sua bota se sobressaía do sofá.

Não havia sentido que pensasse no que ele era, mas sabia que agora estava sofrendo. E não ia abandoná-lo sobre o chão em sua agonia se havia algo que ela pudesse fazer por ele.

- Como posso te ajudar? - Disse ela.

Houve uma pausa. Como se o tivesse surpreendido.

- Pode me trazer sorvete? Não de frutas secas ou de chips se tiver. E uma toalha.

Quando retornou com o sorvete, ela pôde escutar como lutava para se sentar.

- Deixe que eu lhe ajude? - Disse ela.

Ele estava quieto.

- Não está com medo de mim agora?

Considerando que ele era uma ilusão ou um vampiro, ela deveria estar aterrorizada.

- Uma vela seria muita luz? - Perguntou ela, não fazendo caso de sua pergunta. - Porque não serei capaz de ver aí atrás.

- Provavelmente não. Mary, não te farei mal. Prometo-lhe isso.

Ela largou o sorvete, acendeu uma de suas longas velas e a deixou sobre a mesa ao lado do sofá. Com a brilhante piscada ela pôde ver seu grande corpo. E o braço ainda sobre seus olhos. Inúteis. Não estava fazendo caretas, mas sua boca estava ligeiramente aberta.

Então pôde observar as pontas de suas presas.

- Sei que não me fará mal. - Murmurou ela, enquanto recolhia o sorvete. – Você já tiveste muitas possibilidades.

Tapando-se com a parte traseira do sofá, tirou um pouco de sorvete e o estendeu.

- Aqui. Abre a boca grande. Haagen-Daz de baunilha.

- Não é para comer. A proteína do leite e o frio ajudam às queimaduras a sarar.

Não havia nenhum modo para que pudesse alcançar a parte onde ele havia se queimado, então retirou o sofá para trás e se sentou a seu lado. Trabalhando o sorvete para que se convertesse em uma sopa espessa, ela usou os dedos para colocar um pouco sobre a inflamação, sobre as bolhas de sua pele. Ele estremeceu, mostrando suas presas, então ela fez uma pausa.

Ele não era um vampiro. Não podia sê-lo.

- Sim, de verdade que o sou. - Murmurou ele.

Ela deixou de respirar.

- Pode ler as mentes?

- Não, mas sei que está me olhando fixamente e posso imaginar como me sentiria se estivesse nesta situação. Olhe, somos uma espécie diferente, isso é tudo. Nada estranho, só...diferentes.

Bem, pensou ela, colocando mais sorvete sobre as queimaduras. Vamos tentar colocar as coisas nos eixos.

Aqui estava ela com um vampiro. Um ícone do horror de 2,10 m. de altura e 125 kg de peso, com uma dentadura como a de um Dobermann.

Poderia ser verdade? E por que acreditava nele quando lhe dizia que não lhe faria mal? Deveria estar fora de si.

Rhage gemeu de alívio.

- Isto funciona. Graças a Deus.

Bem, em primeiro lugar, ele estava muito ocupado com suas feridas para agora mesmo ser uma verdadeira ameaça. Iriam passar semanas até que se recuperasse dessas queimaduras.

Ela banhou seus dedos na tigela e colocou mais Haagen-Daz em seu braço. Depois da terceira rodada, ela teve que inclinar-se para baixo para assegurar-se que estava bem. Sua pele absorvia o sorvete como se fosse um bálsamo. Diretamente ante seus olhos.

- Isto está muito melhor. - Disse ele suavemente. - Obrigado.

Ele retirou o braço de sua testa. A metade de sua face e de seu pescoço estavam avermelhados.

- Quer que faça essa parte também? - Disse ela indicando a área queimada.

Seus misteriosos olhos azuis se abriram. Olhava-a cautelosamente quando levantou o olhar.

- Por favor. Se não se importar.

Enquanto ele a olhava, ela colocou seus dedos na tigela e em seguida estendeu a mão. Suas mãos tremiam um pouco enquanto estendia a primeiro parte sobre sua bochecha.

Deus, seus cílios eram espessos. Grossos e morenos. E sua pele era suave, embora sua barba tivesse crescido da noite para o dia. Tinha um grande nariz. Reto como uma flecha. E seus lábios eram perfeitos. Demasiados grandes para combinar com o tamanho de seu rosto. Rosa escuro. O inferior era maior.

Retirou-se para pegar mais e lhe cobriu o queixo. Então se moveu para seu pescoço, passando por cima dos grossos cordões de seus músculos desde seus ombros até a base do crânio.

Quando ela sentiu algo que lhe acariciava o ombro, deu uma olhada. Seus dedos estavam lhe acariciando as pontas de seu cabelo.

Suscetível pela inquietação. Ela se afastou para trás.

Rhage deixou cair sua mão, sem se surpreender por seu rechaço.

- Sinto muito. - Resmungou ele, fechando os olhos.

Sem olhá-la, ele ficou extremamente consciente de seus aprazíveis dedos quando moviam por sua pele. Ela estava muito perto dele, o bastante perto para que pudesse cheirá-la. Quando a dor de sua exposição ao sol diminuiu, seu corpo começou a queimar-se de um modo diferente.

Ele abriu os olhos, mantendo as pálpebras abaixadas. Olhando-a. Desejando-a.

Quando ela terminou, deixou a tigela de um lado e o observou diretamente.

- Vamos supor que acredito que é um…que é diferente. Por que não me mordeu quando teve a ocasião? Acredito que estas presas não são somente decorativos, não é verdade?

Seu corpo estava tenso, como se estivesse preparada para fugir a qualquer momento, mas não cedia ante seu medo. Ela o havia ajudado quando ele havia necessitado dela, embora estivesse assustada.

Deus, sua coragem era excitante.

- Alimento-me das mulheres de minha própria espécie. Não dos humanos.

Seus olhos flamejaram.

- Existem muitos como você?

- Muitos. Não tantos como costumava haver. Caçam-nos para nos extinguir.

O que lhe recordou que estava separado de suas armas por 5 metros e um sofá. Tentou se levantar, mas a debilidade de seu corpo fez que seus movimentos fossem lentos e descordenados.

Maldito sol, pensou ele. Suga-te diretamente a vida.

 

- O que você necessita? - Perguntou-lhe ela.

Ele se levantou e desapareceu atrás do sofá. Escutou um ruído surdo e depois o som de uma bolsa sendo arrastada pelo chão.

- Por Deus, o que tem aqui dentro? - Ela se voltou para olhá-lo.

Quando ele deixou cair as alças, elas caíram aos lados. Ele esperava como o inferno que ela não olhasse para dentro da bolsa.

- Escuta, Mary...temos um problema. - Ele forçou seu torso a se levantar do chão, forçando seus braços.

A probabilidade de um ataque dos lessers à casa era baixa. Embora os assassinos pudessem sair à luz do sol, eles trabalhavam de noite e precisavam entrar em transe para repor sua força. A maior parte do tempo estavam tranqüilos durante o dia.

Mas ele não tinha tido notícias de Wrath. E a noite chegaria eventualmente.

Mary afastou o olhar dele, sua expressão era uma grava.

- Precisa ficar escondido? Por que posso te conseguir um porão no velho celeiro. A porta para lá é pela cozinha, mas eu posso pendurar edredons sobre as persianas…, há clarabóias. Talvez poderíamos cobrir-las com alguma coisa. Provavelmente estaria mais a salvo ali.

Rhage deixou cair sua cabeça para trás de maneira que via todo o teto.

Aqui estava esta mulher humana, que tinha nem a metade de seu peso, que estava doente, que acabava de saber que havia um vampiro em sua casa e estava preocupada em protegê-lo.

- Rhage? - Ela se aproximou e se ajoelhou a seu lado. - Posso te ajudar a descer…

Ante que ele pudesse pensar, tomou sua mão, pressionando seus lábios sobre sua palma e em seguida a colocou sobre seu coração.

Seu medo se transformou em redemoinhos no ar, um aroma agudo, defumado que se mesclava com seu delicioso aroma natural. Mas ela não arrancou a mão desta vez, e a mistura de luta-ou-luta não durou muito tempo.

- Não tem por que se preocupar. - Disse ela suavemente. - Não deixarei que ninguém chegue até você hoje. Está a salvo.

Ah, infernos. Ela o derretia. Realmente o fazia. Ele clareou a garganta.

- Obrigado. Mas é por você que estou preocupado. Mary, ontem à noite nos atacaram no parque. Você perdeu sua bolsa e tenho que supor que meus inimigos a pegaram.

A tensão se disparou por seu braço, viajando por sua mão e atingiu seu peito. Como estava suscetível pela inquietação, desejou tirar de algum modo o medo dela, tomando-o em si mesmo.

Ela negou com a cabeça.

- Não me recordo de nenhum ataque.

- Apaguei seu memória.

- O que significa que “apagou”?

Ele entrou em sua mente e libertou os acontecimentos da noite anterior.

Mary ofegou e colocou suas mãos sobre seus quadris, piscando rapidamente. Ele sabia que tinha que se explicar rapidamente. Ela não ia processar tudo e a assaltariam conclusões de que ele era um assassino.

- Mary, tive que te trazer para casa para poder te proteger enquanto espero notícias de meus Irmãos. - As que ainda não haviam chegado, droga. - Aqueles homens que nos atacaram, não são humanos e são muito bons no que fazem.

Ela caiu sobre o chão, sem graça, como se seus joelhos não a sustentassem. Seus olhos estavam arregalados e cegos enquanto negava com a cabeça.

- Matou dois deles. - Disse ela com uma voz morta. - Quebrou o pescoço de um deles. E o outro…

Rhage amaldiçoou.

- Sinto ter te enredado em tudo isso. Sinto ter colocado você em perigo agora. E sinto ter apagado sua memória…

Ela o olhou com dureza.

- Não o faça outra vez.

Ele sentia que não podia lhe fazer essa promessa.

- Não. A não ser que tenha que te salvar. Sabe muito de mim agora, e isto te coloca em perigo.

- Apagaste-me a memória alguma outra vez?

- Encontramo-nos no centro de treinamento. Você veio com John e Bela.

- Quanto tempo faz isso?

-Alguns dias. Posso lhe devolver isso também.

- Espera um minuto. - Ela franziu o cenho. - Por que não me tem feito esquecer tudo sobre você até o momento atual? Já sabe, apagar tudo.

Como se ela tivesse preferido isso.

- Ia fazer. Ontem à noite. Depois do jantar.

Ela o olhou à distância.

- E não o fez devido ao que aconteceu o parque?

- E por que… - Deus, até onde ele queria chegar? Realmente queria que ela soubesse o que sentia? Não, pensou ele. Ela o olhava totalmente sobressaltada. Agora praticamente não era o momento para que chegassem as felizes notícias, que um vampiro macho havia se fixado nela. - Por que é uma invasão a sua intimidade.

No silêncio que seguiu, podia vê-la refletir sobre os acontecimentos, as implicações, a realidade da situação. E logo seu corpo deixou seu doce aroma de sua excitação. Ela recordava como ele a havia beijado.

Bruscamente, ela se estremeceu e franziu o cenho. E a fragrância foi caminho.

- Ah, Mary, no parque, quando eu mantinha a distância de você enquanto nós...

Ela segurou sua mão, parando-o.

- Tudo sobre o que quero falar é sobre o que vamos fazer agora.

Seus olhos cinza se encontraram com os seus e não hesitaram. Ela estava, ele compreendeu, preparada para qualquer coisa.

- Deus…é assombrosa, Mary.

Suas sobrancelhas se levantaram.

- Por quê?

- Você administra toda esta merda realmente bem. Sobre tudo a parte do que sou.

Ela passou uma mecha de seu cabelo para trás de sua orelha e estudou seu rosto.

- Sabe de uma coisa? Não é uma grande surpresa. Bem, é... Mas,…eu sabia que era diferente desde o primeiro momento em que te vi. Eu não sabia que era um… O chamam de vampiro?

Ele assentiu.

- Vampiro. - Disse ela, como se fizesse um teste com a palavra. – Você não me fez mal ou me assustado. Bem, não realmente. E...sabe, estive clinicamente morta ao menos duas vezes. Uma quando me deu uma parada cardíaca enquanto me faziam o transplante de medula óssea. Outra vez quando tive uma pneumonia e meus pulmões estavam cheios de líquido. Eu, ah, não tenho certeza de onde fui ou por que voltei, mas havia algo do outro lado. Nem céu com nuvens e anjos e tudo aquilo jazz. Só uma luz branca. Eu não sabia o que era a primeira vez. A segunda, só fui diretamente a ela. Não sei por que voltei...

Ela se ruborizou e deixou de falar, como se estivesse envergonhada pelo que havia lhe revelado.

- Viu o Fade. - Murmurou ele, intimidado.

- O Fade?

Ele assentiu.

- Ao menos, é assim como o chamamos.

Ela negou com a cabeça, claramente indisposta de ir mais longe com o assunto.

- De todas as formas, há muito que não entendemos sobre este mundo. Os vampiros existem? Isto é só uma coisa mais.

Quando ele não disse nada durante um momento, ela lhe deu uma olhada.

- Por que me olha assim?

- Você é um wahlker. - Disse ele, sentindo como se devesse se levantar e se inclinar ante ela, como era o costume.

- Um wahlker?

- Alguém que foi ao outro lado e retornou. De onde eu venho, esse é um título de distinção.

O telefone celular soou e ambos viraram suas cabeças. O som vinha de dentro da bolsa.

- Poderia me trazer aquela bolsa? - perguntou ele.

Ela se inclinou e tentou levantá-la. Não conseguiu.

- Por que não te dou só o telefone?

- Não. - Ele lutou para ficar de joelhos. - Só me deixe…

- Rhage, conseguirei…

- Mary, para. - Ordenou-lhe ele. - Não quero que abra a bolsa.

Ela retrocedeu ante a coisa, como se estivesse cheia de serpentes. Com uma sacudida ele colocou sua mão dentro. Assim que encontrou o telefone, levantou-o e o colocou ao ouvido.

- Sim? - Ele ladrou, fechando parcialmente o zíper da bolsa.

- Você está bem? - Perguntou Tohr. - E onde infernos está?

- Estou bem. Só que não estou em casa.

- Não me digas! Quando Butch não te encontrou na academia e tampouco na casa, preocupou-se e me ligou. Precisa que nós te buscamos?

- Não. Estou bem onde estou.

- E onde é isso?

- Liguei para Wrath na noite passada e ele não me respondeu. Está nos arredores?

- Ele e Beth foram a um lugar íntimo na cidade. Agora, onde você está? - Quando não houve uma rápida resposta, a voz de seu Irmão baixou um pouco mais a voz.

- Rhage, que infernos está fazendo?

- Só diga a Wrath que o estou procurando.

Tohr amaldiçoou.

- Tem certeza de que não necessita que o busquemos? Posso enviar alguns doggen com uma bolsa preta.

- Não, estou bem. - Ele não ia a nenhuma parte sem Mary.

- Mais tarde, homem.

- Rhage…

Desligou e o telefone soou novamente. Depois de verificar, ele deixou a Tohr uma mensagem na caixa de voz. E deixou o telefone a seu lado no chão quando seu estômago se queixou.

- Quer que te consiga alguma comida? - Perguntou-lhe Mary.

Ele a olhou por um momento, atordoado. E depois teve que se recordar que intimamente ela não sabia o que lhe oferecia. De todas as formas a idéia de que lhe honrasse com o alimento que lhe prepararia com suas próprias mãos o deixava sem fôlego.

- Fecha seus olhos para mim. - Disse-lhe ele.

Ela ficou rígida. Mas fechou as pálpebras.

Inclinou-se para frente e pressionou seus lábios suavemente sobre os seus.

Aqueles olhos cinza reabriram arregalados, mas ele se afastou antes que ela o fizesse.

- Eu gostaria que você me alimentasse. Obrigado.

 

Quando o sol se foi, o Sr. O olhava os esboços do edifício que cobriam a mesa da cozinha do Sr. U. Ele marcou um.

- Isto é o que quero. Quão rápido podemos levantá-lo?

- Rápido. O lugar está no meio de parte nenhuma, e a instalação não estará sujeita a qualquer dificuldade municipal, assim não há nenhuma necessidade de ter a permissão de construção. Reunindo os apoios da parede e lançando algumas tábuas exteriores sobre um espaço de 140 metros quadrados não nos levará muito tempo. A instalação das áreas de armazenagem dos cativos não deverá ser um problema. Quanto à ducha, podemos desviar facilmente a corrente próxima e instalar uma bomba para proporcionar a água corrente. As provisões de hardware e ferramentas são todas genéricas e segui o tamanho padrão de longitudes aconselhadas reduzindo a quantidade de recorte. O gerador impulsionado por gás local proverá a eletricidade para as serras e as pistolas de pregos. Também nos proverá de luz se quisermos nos manter aqui a longo prazo.

- Me dê um número de dias.

- Com uma equipe de cinco caras, posso ter um teto sobre sua cabeça em quarenta e oito horas. A condição de que possa trabalhar no chão e as provisões cheguem a tempo.

- Então, te darei dois dias.

- Começarei a conseguir o que necessitamos no Home Depot e Lowe esta manhã. Vou dividir o fornecimento das encomendas entre dois. E vamos necessitar de uma pequena escavadeira, uma dessas Touro Dingos com baldes intercambiáveis e sistema de enxada. Sei onde podemos alugar uma.

- Bem. Tudo está bem.

O Sr. O se inclinou para trás para esticar os braços e ociosamente os separou cobrindo-se. A casa do Sr. U era um buraco anônimo na área de classe média. Esta parte de Cadwell com ruas chamadas Elmwood, Spruce Knoll e Pene Notch, onde as crianças andavam com suas bicicletas sobre as calçadas e o jantar estava sobre a mesa às seis da tarde.

Toda essa feliz alegria fazia que a pele do Sr. O se arrepiasse. Queria atear fogo à casa. Jogar sal à grama. Destruir as árvores. O impulso foi tão profundo que o surpreendeu. Não tinha nenhum problema com a destruição da propriedade, mas ele era um assassino, não um vândalo. Não podia acreditar por que lhe importava essa merda.

- Quero utilizar seu caminhão. - Disse-lhe o Sr. U. - Alugarei um reboque com gancho. Entre os dois, vou ser capaz de me encarregar das entregas na passarela e as provisões de materiais utilizados para cobrir seus lotes. Não há nenhuma razão para a gente da Home Depot saiba onde estamos.

- E o material para as unidades de armazenamento?

- Sei exatamente o que está procurando e onde encontrá-lo.

Ouviu-se um som eletrônico.

- Que infernos é isso? - Perguntou o Sr. O.

- Um aviso sobre o registro das 9 da manhã. – O Sr. U tirou um Black Berry, seus embotados dedos voaram sobre o pequeno teclado.

- Quer que envie seu status por correio eletrônico?

- Sim. O Sr. O se concentrou no Sr. U. O lesser havia estado na sociedade durante 175 anos. Era tão pálido como o papel. Tranqüilo e afiado como um percevejo. Não tão agressivo como outros, mas estável.

- Você é um membro valioso, Sr. U.

O Sr. U deu um sorriso e levantou o olhar do Black Berry.

- Eu sei. E gosto que me utilizem. Falando nisso, quem vai me dar para a equipe?

- Vamos utilizar os dois esquadrões principais.

- Os terá duas noites fora da linha?

- E dias. Dormiremos por turnos no lugar.

- Bom. – O Sr. U olhou para baixo para a coisa que havia em sua mão, tocando uma pequena roda sobre o lado direito. - Ah,…merda. O Sr. X não vai gostar disto.

O Sr. O estreitou os olhos.

- Ah, e o que é?

- É um e-mail do esquadrão Beta. Adivinho que estou bem arrumado.

- E?

- Um grupo do Beta caçava ontem à noite e correu contra um da Irmandade no parque. De cinco deles, três estão faltando. Ouça-o bem, o guerreiro estava com uma mulher humana.

- Às vezes têm sexo com elas.

- Sim. Bastardos com sorte.

 

Mary estava de pé na cozinha pensando na maneira que Rhage a olhava. Não podia entender por que oferecer-se para lhe fazer o café da manhã era tão grande coisa, mas ele havia agido como se lhe dado um grande presente.

Colocou a omelete e se dirigiu à geladeira. Tirando um pote de plástico com fruta picadas, tirou a mistura com uma colher. Isto não lhe pareceu o bastante, então ela pegou uma banana e a cortou jogando-a por cima.

Quando deixou a faca, tocou-se os lábios. Não houve nada sexual no beijo que ele havia lhe dado no sofá; tinha sido de gratidão. E a ação da boca a boca no parque tinha sido mais profunda, mas a distância dele havia sido a mesma. A paixão havia sido unilateral. A sua.

Será que os vampiros dormiam com humanos? Talvez fosse por isso que ele se continha, em vez de ser uma espécie de jogo de poder.

Mas e o que havia acontecido com a garçonete do TGI Friday? Definitivamente ele tinha avaliado aquela mulher, e não porque tivesse querido comprar um vestido. Então claramente sua raça não tinha nenhum problema para ficar com outra espécie. O que acontecia era que ele não tinha nenhum interesse nela.

Amigos. Só amigos.

Quando terminou a omelete e passou manteiga na torrada, enrolou um garfo em um guardanapo, colocando-o sob seu cotovelo e pegou o prato e a tigela e levou tudo para a sala de estar. Rapidamente fechou a porta atrás dela e se dirigiu para o sofá.

Uau!

Rhage tinha tirado a camisa e se inclinava contra a parede, inspecionando suas queimaduras. Ao brilho da luz da vela, ela conseguiu um olhar para seus pesados ombros, seus poderosos braços, seu peito. Seu estomago. A pele sobre todos esses músculos era dourada, sem pelo.

Tentando mantê-lo junto a ela, colocou o que levava sobre o chão ao lado dele e sentou-se a poucos centímetros. Para evitar olhar fixamente para seu corpo, deu uma olhar para seu rosto. Ele não olhava a comida, nenhum movimento, nenhuma conversa.

- Não tinha certeza do que você gostava. - Disse-lhe ela.

Seus olhos se moveram rapidamente sobre os seus e mudou de posição para ficar em frente a ela. Sua vista frontal era ainda mais espetacular que seu perfil. Seus ombros eram demasiados amplos para encher o espaço entre o sofá e a parede. E a cicatriz em forma de estrela sobre seu peitoral esquerdo era infernalmente atraente, como uma espécie de marca sobre sua pele.

Depois de um batimento ou dois ele em que ele somente a olhava fixamente, ela pegou o prato.

- Conseguirei-te algo mais...

Ele estendeu sua mão e lhe pegou o pulso, lhe acariciando a pele com o polegar.

- Adoro isso.

- Não provaste a…

- Foi você quem o fez. Isso é suficiente. - Ele pegou o garfo do guardanapo, os músculos e tendões de seu antebraço trabalharam. - Mary?

- Hum?

- Eu gostaria de te alimentar. - Quando ele falou, seu estômago soltou um uivo.

- Não se preocupe. Conseguirei algo para mim…Ah, por que você franze o cenho assim?

Ele acariciou suas sobrancelhas, como se quisesse desenrugar sua expressão.

- Sinto muito. Você não poderia saber.

- Saber o que?

- De onde eu venho, quando um homem se oferece para alimentar uma mulher de sua mão, é uma maneira de mostrar respeito e...afeto.

- Mas você tem fome.

Ele atraiu o prato um pouco mais perto e arrancou um ponta da torrada. Então cortou um quadrado perfeito da omelete e o colocou em cima.

- Mary, come de minha mão. Tome de mim.

Ele se inclinou mais perto, estendendo seu longo braço. Seus olhos eram hipnóticos, chamando-a, inclinando-a, abrindo sua boca. Quando ela colocou seus lábios ao redor do alimento que havia cozinhado para ele, ele grunhiu com aprovação. E depois que ela havia engolido, ele voltou para ela outra vez, outra parte de pão torrado suspenso entre as pontas de seus dedos.

- Você não deveria comer alguma coisa? - Disse-lhe ela.

- Não antes que você esteja saciada.

- E se eu comer tudo?

- Nada me daria mais prazer que saber que você está bem alimentada.

Amigos, ela se disse. Somente amigos.

- Mary, coma para mim. - Sua insistência conseguiu que abrisse a boca outra vez. Seus olhos ficaram sobre seus lábios depois que ela os fechasse.

Jesus. Isto não parecia amigos.

Quando ela mastigou, Rhage escolheu uma parte da tigela de fruta com as pontas dos dedos. Ele finalmente escolheu uma fatia de melão e a ofereceu a ela. Ela tomou o pedaço todo e um pouco de suco escorregou pela canto de sua boca. Ela foi se limpar com o dorso da mão, mas ele a parou, levantando o guardanapo, acariciando sua pele.

- Terminei.

- Não, não terminou. Posso sentir sua fome. - Desta vez meio morango foi para ela. – Abra a boca para mim.

Ele a alimentou com bocados escolhidos, olhando-a com primitiva satisfação que era diferente do que ela havia visto antes.

Quando ela não pôde comer outro bocado, ele comeu rapidamente o que ela havia deixado e quando terminou, ela recolheu o prato e se dirigiu à cozinha. Fez-lhe outra omelete, encheu a tigela com cereais, e lhe deu a última de suas bananas.

Seu sorriso foi brilhante quando ela colocou tudo diante dele.

- Como você me honra com tudo isto.

Quando ele comeu daquele modo metódico, tão ordenado, ela fechou os olhos e deixou que sua cabeça se recostasse contra a parede. Ela cada vez se cansava mais facilmente e sentiu uma punhalada de frio terror agora que sabia o porquê. Deus, temia descobrir que os médicos iam fazer depois de todo os exames.

Quando ela abriu os olhos, o rosto de Rhage estava na frente dela.

Ela se jogou para trás, se encostando contra a parede.

- Eu, ah, não ouvi você se mover.

Abaixado nas quatro patas como um animal preparado para saltar, ele colocou um braço de cada lado de suas pernas, seus maciços ombros agüentando o peso de seu torso. Afinal, era enorme. Mostrava muita pele. E cheirava realmente bem, como às escuras especiarias.

- Mary, agradeceria-te, se você me permitisse.

- Como? - Ela sussurrou.

Ele inclinou sua cabeça para um lado e colocou seus lábios sobre os dela. Quando ela ofegou, sua língua penetrou em sua boca e a acariciou. Quando ele se retirou para avaliar sua reação, seus olhos brilhavam com a promessa do êxtase, do tipo que fervia a medula óssea.

Ela clareou a garganta.

- Você é bem vindo.

- Voltaria a fazê-lo outra vez, Mary. Vai deixar?

- Um simples agradecimento estaria bem. Realmente eu…

Seus lábios a cortaram e depois sua língua assumiu outra vez, invadindo-a, tomando-a, acariciando-a. Quando o calor rugiu em seu corpo, Mary deixou de lutar e saboreou a louca luxúria, a palpitação de seu peito, a dor nos seu seios e entre suas pernas.

Oh, Deus. Isto tinha sido tão bom. E nunca havia sido assim.

Rhage soltou um ronronar baixo, como se ele tivesse sentido sua excitação. Ela sentiu como sua língua se retraía e em seguida tomava seu lábio inferior entre as suas…

Presas. Aquelas presas beliscavam sua carne.

O medo penetrou por entre sua paixão e a deixou mais espessa, adicionando uma pontada de perigo que a abriu mais. Colocou suas mãos sobre seus braços. Deus, era tão duro, tão forte. Ele ia ser tão pesado em cima dela.

- Deixará que eu me deite contigo? - Perguntou-lhe ele.

Mary fechou os olhos, imaginando eles indo além dos beijos para um lugar onde estariam nus juntos. Não havia estado com um homem desde muito antes de sua enfermidade. E seu corpo havia mudado muito depois.

Ela tampouco sabia de onde vinha seu desejo de estar com ela. Os amigos não tinham sexo. Não em seu livro, de qualquer maneira.

Ela negou com sua cabeça.

- Não tenho certeza.

A boca de Rhage caiu sobre a sua outra vez, brevemente.

- Só quero me deitar a seu lado, ok?

Tradução literal…certo. Exceto como o olhava fixamente, ela não podia ignorar as diferenças entre eles. Ela estava sem fôlego. Ele estava tranqüilo. Ela tonta. Ele estava lúcido. Ela tinha calor. Ele ...não.

Bruscamente ele se sentou contra a parede e jogou a manta que pendurava do sofá até seu colo. Ela se perguntou durante uma fração de segundo se ele estava ocultando uma ereção.

Sim, certo. Provavelmente ele tinha frio por que estava meio nu.

- De repente se recordou de quem eu sou? - Perguntou-lhe ele.

- Desculpe?

- O que te tirou a vontade?

Ela se recordou daquelas presas sobre seus lábios. A idéia de que ele era um vampiro voltou.

- Nada.

- Então por que se fechou? Mary? - Seus olhos mantinham-se presos aos seus. - Mary, me diga o que acontece?

Sua confusão quando ele a olhou era espantosa. Ele pensava que não se importaria em fazer amor por pena?

- Rhage, aprecio até onde está disposto a chegar em nome da amizade, mas não me faça nenhum favor, certo?

- Você gosta do que te faço. Posso senti-lo. Posso cheirá-lo.

- Por todos os Santos, excita-te fazer que eu me envergonhe? Porque te direi, que ter um homem que me inquiete e me acenda enquanto ele bem poderia estar lendo um jornal não faz com que eu me sinta bem no final. Deus…está realmente doente, sabe?

Aquele olhar fixo de néon se estreitou ofendido.

- Pensa que não te quero.

- Oh, sinto muito. Imagino que me perdi toda em sua luxúria. Sim, realmente está quente por mim.

Ela não podia acreditar quão rápido ele se moveu. Em um minuto ele estava recostado contra a parede, olhando-a. No seguinte ele a tinha sobre o chão, debaixo dele. Sua coxa lhe abrindo as pernas e depois seus quadris se conduziram ao seu centro. O que chegou contra ela foi a dura e grossa ereção.

Sua mão enredada em seu cabelo e o puxou, arqueando-a sobre ele. Ele deixou cair sua boca sobre seu ouvido.

- Sente-o Mary? - Ele esfregou sua excitação em apertados círculos, acariciando-a, fazendo-a florescer para ele. - Sente-me? Sabe o que significa?

Ela ofegava por ar. Agora estava muito molhada, seu corpo pronto para conduzi-lo profundamente a seu interior.

- Me diga o que significa, Mary. - Quando ela não respondeu, ele chupou seu pescoço até que começou a lhe doer e em seguida tomou o lóbulo de seu ouvido entre seus dentes. Pequenos castigos.

- Quero que o diga. Então saberei que fica claro sobre como eu me sinto.

Sua mão livre baixou até seu traseiro, aproximando-a mais e em seguida a empurrou contra sua ereção, atingindo o lugar correto. Ela podia sentir a cabeça dele sondando através de suas calças de seu pijama.

- Diga-o, Mary.

Ele se inclinou para frente outra vez e ela gemeu.

- Deseja-me…

- E vamos assegurar-nos de que se lembre disso, certo?

Ele soltou seu cabelo e tomou seus lábios com um toque cru. Ele estava por toda parte, dentro de sua boca, sobre seu corpo, seu calor, seu masculino aroma e sua enorme ereção que lhe prometia um infernal passeio selvagem, erótico.

Mas então ele se separou dela e voltou para o lugar onde havia estado contra a parede. De qualquer jeito, ele voltava a estar controlado outra vez. Inclusive sua respiração. Seu corpo também.

Ela lutou por voltar para se sentar, tentando se recordar de como utilizar seus braços e pernas.

- Não sou um homem, Mary, embora minhas partes se pareçam. O que tiveste não é nada comparado com o que quero te fazer. Quero minha cabeça entre suas pernas te lambendo até que grite meu nome. Também quero te montar como um animal e olhar seus olhos quando estiver dentro de você. E depois disto? Quero te tomar de todas as formas. Quero fazer isso por trás. Quero te jogar contra a parede. Quero que se sente sobre meus quadris e me monte até que já não possa respirar. - Olhava-a a seu nível, brutal em sua honestidade. - Mas nada disto vai acontecer. Se eu sentisse menos, seria diferente, mais fácil. Mas você faz algo estranho a meu corpo por isso me controlar totalmente é a única maneira que posso estar contigo. Não posso relaxar e quão último quero é te dar um susto infernal. Ou pior, te fazer mal.

As visões vagaram em sua cabeça, visões de tudo o que ele havia lhe descrito e seu corpo se umedeceu de novo para ele. Ele suspirou e grunhiu suavemente, ele tinha pegado o aroma de seu sexo e havia lhe agradado.

- Oh, Mary. Permitirá que eu lhe dê prazer? Deixará eu tomar sua suave excitação onde quer que vá?

Ela queria lhe dizer que sim, mas a lógica do que lhe sugeria era difícil: ficando nua, diante dele, à luz de uma vela. Ninguém exceto os doutores e as enfermeiras sabiam como tinha ficado seu corpo depois que a enfermidade havia se retirado. E ela não podia deixar de pensar nas formosas mulheres que havia visto irem atrás dele.

- Não sou o que está acostumado. - Disse ela suavemente. - Não sou…linda - Ele franziu o cenho, mas ela negou com a cabeça. Confie em mim sobre isso.

Rhage a rondou, aqueles ombros se moveram como um leão.

- Me permita lhe mostrar quão linda você é. Amavelmente. Devagar. Nada violento. Serei um perfeito cavalheiro, prometo-lhe.

Seus lábios se separaram e teve uma visão das pontas de suas presas. Então sua boca se pousou sobre a sua e Deus, ele era fantástico, como uma droga varrendo seus lábios e sua língua. Com um gemido, ela enrolou seus braços ao redor de seu pescoço, cravando seus dedos em seu couro cabeludo.

Quando ele a deitou sobre o chão, ela se preparou para receber seu peso. Em troca ele se esticou a seu lado e alisou seu cabelo para trás.

- Devagar.   - Murmurou ele. - Com cuidado.

Ele a beijou outra vez e isto foi um momento antes que seus longos dedos fossem ao interior de sua camiseta. Quando subiu a camiseta, ela tentou concentrar-se sobre o que ele fazia com a boca, obrigando-se a não pensar no que revelava. Mas quando ele retirou o tecido sobre sua cabeça, o ar fresco atingiu seu seios. Ela os cobriu com as mãos e fechou os olhos, rezando para que estivesse o suficientemente escuro para ele não poder ver a maior parte dela.

Uma ponta do dedo acariciou a base do pescoço, onde estava a cicatriz de sua traqueotomia. Depois permaneceu sobre a pele franzida de seu peito onde os cateteres tinham sido conectados. Ele lhe baixou o cós de seu pijama até onde estavam as perfurações dos buracos de seu estômago dos tubos de alimentação. Então ele encontrou o lugar de inserção de seu transplante de medula óssea, sobre seu quadril.

Ela não podia suportar. Sentou-se e pegou a camiseta para se proteger.

- Oh, não, Mary. Não pare. - Ele capturou suas mãos e as beijou. Então ele tocou da camiseta. - Não vai deixar que eu te olhe?

Ela virou sua cabeça quando ele tomou sua cobertura. Seu seios nus ficaram rígidos e se elevaram quando seus olhos a tocaram.

Então Rhage beijou todas e cada uma das cicatrizes.

Ela tremeu, não importava o quanto tentasse ficar quieta. Seu corpo havia sido bombeado de veneno. Deixara os buracos e cicatrizes à intempérie. Infértil. E aqui estava este lindo homem lhe rendendo culto como se tudo o que tinha fosse digno de reverência.

Quando ele a olhou e lhe sorriu, ela começou a chorar. Os soluços lhe saíram como duros socos, lhe rasgando o peito e a garganta, espremendo suas costelas. Ela se cobriu o rosto com as mãos, desejando ter a força para fugir para outro corpo.

Enquanto ela chorava, Rhage a segurou contra seu peito, balançando-a para frente e para trás. Ela não tinha nenhuma idéia de quanto tempo ia durar antes que se fizesse pedaços, mas eventualmente o pranto reduziu e ela se deu conta de que ele se dirigia a ela. As sílabas e a cadência lhe eram completamente desconhecidas e as palavras indecifráveis. Mas o tom…o tom era encantador.

E sua bondade era uma tentação para o que ela não tinha coragem.

Ela não podia confiar nele para seu conforto, não até este momento. Sua vida dependia de manter-se inteira e ali havia uma gota escorregadia de lágrimas. Se ela começasse a chorar agora, não pararia nos seguintes dias e semanas. Deus sabia, o duro interior de seu centro tinha sido a única coisa que havia lhe ajudado todo o tempo que tinha estado doente. Se ela perdia aquela resolução, não teria nenhum poder absolutamente contra a enfermidade.

Mary se limpou os olhos.

Não outra vez, pensou ela. Não perderia a compostura diante dele outra vez.

Clareou a garganta e tentou sorrir.

- Então. Como é que se para um acesso assim?

Ele disse algo na outra língua e depois negou com a cabeça e mudou para o inglês.

- Chora tudo o que quiser.

- Não quero chorar. - Ela olhou seu peito nu.

Não, o que ela queria agora mesmo era ter sexo com ele. Quando o mar de lágrimas finalizou, seu corpo começou a responder outra vez. E considerando que ele já tinha visto o pior de suas cicatrizes e parecia ter-se apagado, sentiu-se mais cômoda.

- Há alguma possibilidade de que queira me beijar depois de tudo isto? - Perguntou ela.

- Sim.

Sem lhe permitir pensar, ela agarrou seus ombros e o conduziu para sua boca. Ele se conteve durante um momento, como se estivesse surpreso por sua força, mas então ele a beijou profunda e longamente, como se entendesse o que ela necessitava dele. Em um momento ele a deixou totalmente nua, o pijama desapareceu, as meias três-quartos desapareceram, as calcinhas a abandonaram.

Ele a acariciou com as mãos da cabeça até as coxas e se moveu com ele, levantava-se, arqueava-se, sentindo a pele nua de seu peito contra seu seios e seu estômago enquanto o liso tecido de suas calças caras se esfregavam como azeite corporal sobre suas pernas. Ela estava dolorida e aturdida quando ele mordiscou seu pescoço, mordiscou sua clavícula, abrindo caminho até seus seios. Ela levantou a cabeça e olhou como a língua saía e fazia um círculo ao redor se seu mamilo antes que ele o tomasse em sua boca. Enquanto se amamentava dela, sua mão se deslizou pelo interior de suas coxas.

E logo lhe tocava seu centro. Ela se elevava para ele, sua respiração saía rapidamente de seus pulmões.

Ele gemeu, seu peito vibrava contra o seu quando ele emitiu o som.

- Doce Mary, é tal como imaginei. Suave...molhada. - Sua áspera voz, com força, dava-lhe uma idéia de quanto controle utilizava para manter a si mesmo sob controle. - Abra suas pernas para mim. Um pouco mais. Assim, Mary. Isto é tão...Oh, sim.

Ele escorregou um dedo e depois dois em seu interior.

Tinha passado muito tempo, mas seu corpo sabia onde se dirigia. Ofegando, agarrando-se a seus ombros com as unhas, Mary o olhou lamber seu seio quando ele moveu sua mão sobre seu corpo, seu polegar roçando o lugar correto na carreira ascendente. Em um brilho de um relâmpago ela explodiu, a força do prazer a lançou precipitadamente a um vazio onde só luz e calor branco existiam.

Quando ela se jogou para trás, olhos de Rhage eram graves, seu rosto tenso e sombrio. Parecia um completo estranho, completamente fora dela.

Ela tentou agarrar a manta para cobrir-se, calculando que com a camisa não faria nem a metade do trabalho. O movimento a fez consciente de que seus dedos ainda a penetravam.

- É muito linda. - Disse-lhe ele bruscamente.

A palavra linda a fez se sentir incômoda.

- Permita que eu me levante.

- Mary…

- Isto é muito constrangedor. - Ela lutou e seu corpo só fez que o sentisse mais.

- Mary, olhe para mim.

Ela o fulminou com o olhar, frustrada.

No lento movimento, ele retirou sua mão do meio de suas pernas e se levou seus dois dedos brilhantes à boca. Seus lábios se separaram, saboreando-a enquanto ele os chupava com simples paixão. Quando ele tragou, fechou seus acesos olhos.

- É incrivelmente linda.

Sua respiração se congelou. E logo se redobrou quando ele se deslizou para baixo por seu corpo, colocando suas mãos no interior de suas coxas. Ela se retesou quando ele tentou lhe separar as pernas.

- Não me detenha, Mary. - Ele beijou seu umbigo e depois seu quadril, espalhando-se amplamente. - Necessito mais de você em minha boca, através de minha garganta.

- Rhage, eu…Oh, Deus.

Sua língua lhe deu um golpe quente sobre seu centro, produzindo estragos sobre seu sistema nervoso. Ele levantou sua cabeça e a olhou. E depois abaixou e a lambeu outra vez.

- Você me mata. - Disse ele, acariciando-a com seu fôlego onde lhe doía. Ele esfregou seu rosto sobre ela, sua barba lhe produziu uma suave raspadura quando ele se banhou em seu centro.

Ela fechou os olhos, parecendo que ia voar.

Rhage mordiscou e depois capturou sua quente carne com seus lábios, chupando, então soltando, inclusive movendo rapidamente sua língua. Quando ela se arqueou sobre o chão, uma de suas mãos foi ao pequeno traseiro dela, já outra se colocou sobre seu ventre inferior. Ele a sustentou enquanto a trabalhava, impedindo a seu corpo que se separasse de sua boca quando ela se movia.

- Olhe para mim, Mary. Olhe o que te faço.

Quando ela o fez, ela teve uma visão momentaneamente de sua rosada língua lambendo-a por cima de sua fenda e isso foi tudo. O prazer a quebrou, mas ele só continuou. Parecia que não havia nenhum final em sua concentração ou sua técnica.

Finalmente ela estendeu a mão, necessitando da grossa ereção preenchendo-a. Ele resistiu e depois fez algo pecaminoso com suas presas. Quando ela se soltou outra vez, ele olhou seu orgasmo, seus brilhantes olhos azuis que a olhavam do meio de suas pernas, escurecidos, muito brilhantes. Depois que tudo tivesse terminado, ela disse seu nome como uma rouca pergunta.

Em um fluido movimento ele ficou de pé e se afastou dela. Quando se virou, seu fôlego saiu em um assobio.

Uma magnífica tatuagem, multicolorido cobria todas suas costas. O desenho era o de um dragão, uma temível criatura com cinco garras e um corpo, um poderoso corpo. Do seu lugar de descanso, a besta a olhava fixamente, como se na realidade a visse através de seus olhos brancos. E enquanto Rhage caminhava, a coisa se movia com os ondulações de seus músculos e pele, mudando de posição, fervendo.

Como se quisesse sair, pensou ela.

Sentindo uma obrigação, Mary jogou a manta por cima de seu corpo. Quando ela levantou o olhar, Rhage caminhava pela residência.

E ainda, aquela tatuagem a olhava fixamente.

 

Rhage caminhava ao redor da sala de estar, tentando apagar a queimação. Tinha sido bastante difícil manter seu corpo sob controle antes de colocar sua boca sobre ela. Agora que sua língua conhecia seu sabor, sua coluna vertebral ardia, a extensão da queimadura ia até cada músculo que tinha. Sua pele tremia por toda parte, causando tal comichão que queria passar uma lixa nela.

Quando se esfregou os braços, suas mãos tremiam de modo incontrolável.

Deus, tinha que se afastar do cheiro de seu sexo. Do olhar dela. Do saber de que poderia tomá-la agora mesmo porque ela teria deixado.

- Mary, tenho que estar só um momento. - Ele deu uma olhada para a porta do banheiro. - Vou entrar ali. Se alguém vier à casa ou se você escutar algo estranho, quero que me avise imediatamente. Mas não demorarei.

Ele não a olhou quando fechou a porta.

No espelho sobre o lavabo, suas pupilas brancas brilharam na escuridão.

Oh, Jesus, não podia se transformar. Se a besta saísse agora…

O medo pela segurança de Mary enviou a seu coração um sprint fazendo a situação piorar.

Foda. Que ele ia fazer? E por que lhe acontecia isto? Por que…

Pare. Pare este pensamento. Sem pânico. Acalme seu organismo. Então poderá preocupar-se com tudo o que queira.

Ele abaixou a tampa do vaso e se sentou sobre ela, descansando suas mãos sobre os joelhos. Obrigou seus músculos a relaxarem, concentrando-se em seus pulmões. Tirando o ar por seu nariz e inalando pela boca, concentrou-se em manter sua respiração boa e lenta.

Inspire, expire. Inspire, expire.

O mundo retrocedeu até que todos os sons, visões e aromas foram excluídos e só existisse sua respiração.

Somente sua respiração.

Somente sua respiração.

Somente sua…

Quando se acalmou, abriu os olhos e levantou as mãos. O tremor havia desaparecido. E um olhar rápido ao espelho mostrou que suas pupilas eram negras outra vez. Apoiou os braços sobre a pia e se afundou sobre eles.

Desde que foi amaldiçoado, o sexo tinha sido um instrumento viável que o ajudava a controlar a besta. Quando tomava uma mulher, ele ficava suficientemente estimulado para gozar quando o necessitasse, mas sua excitação nunca chegava ao nível onde a besta era provocada. Nem perto.

Com Mary, nunca podia ter certeza. Não pensou que teria que se controlar tanto para entrar nela, muito menos para fazê-la gozar. Aquela maldita vibração que ela lhe provocava impelia seu sexo na direção a uma área perigosa.

Ele suspirou. A única graça parecia ser que podia se recuperar rapidamente. Se ele se afastasse dela, se fosse capaz de controlar seus nervos, então podia dirigir os sentimentos de tal intensidade. Graças a Deus.

Rhage utilizou o banheiro, depois lavou o rosto na pia e se secou com uma toalha de mãos. Quando abriu a porta, preparou-se psicologicamente. Tinha o pressentimento de que quando voltasse a ver Mary, o sentimento voltaria um pouco.

Ele entrou na sala.

Ela estava sentada sobre o sofá vestindo calças cáqui e um blusão de lã. A luz da vela ampliou a ansiedade em seu rosto.

- Oi. - Disse ele.

- Você está bem?

- Sim. - Ele esfregou o queixo. – Sinto muito por tudo isto. Às vezes necessito de um minuto.

Os olhos dela se arregalaram.

- O que foi? - Perguntou ele.

- São quase seis horas. Você ficou lá dentro durante quase oito horas.

Rhage amaldiçoou. Muito tarde para corrigir rapidamente.

- Eu não sabia que havia passado tanto tempo.

- Eu, ah, verifiquei algumas vezes. Estava preocupada...De qualquer maneira, alguém ligou para você. Roth?

- Wrath?

- Esse é o nome. Seu telefone continuou tocando e tocando. Então atendi. - Ela se olhou as mãos. – Tem certeza de que está bem?

- Agora estou.

Ela inspirou profundamente e soltou lentamente. A expiração não aliviou a tensão de seus ombros.

- Mary, eu… - Droga, que ia dizer para não tornar as coisas mais difíceis para ela?

- Está tudo bem. Independentemente do que aconteceu, está tudo bem?

Ele foi até o sofá e se sentou a seu lado.

- Escuta. Mary, quero que venha comigo esta noite. Quero te levar a algum lugar onde você esteja a salvo. Os lessers, aquelas coisas do parque, provavelmente virão te pegar e eles procurarão aqui primeiro. Agora você é um alvo porque está aqui comigo.

- Para onde vamos?

- Quero que fique comigo. – Supondo que Wrath permitirá que eles entrem pela porta. - Isto é muito perigoso para você, e se os assassinos vêm pegar você, será logo. Conversaremos esta noite. Vem comigo durante alguns dias até que saibamos o que fazer.

Soluções a longo prazo lhe escapavam neste momento, mas ele as encontraria. Ela havia se convertido em sua responsabilidade quando ele a tinha misturado em seu mundo e não ia deixá-la indefesa.

- Confia em mim sobre isto. Só por alguns dias.

Mary preparou a bolsa, pensando que estava louca. Indo Deus sabia onde. Com um vampiro.

Mas a coisa sobre Rhage era que, ela tinha fé nele. Era muito honesto para mentir e muito inteligente para subestimar a ameaça. Além disso, suas consultas com os especialistas não começavam até na quarta-feira pela tarde. E ela havia tirado uma semana de férias do trabalho, assim como tinha pedido dispensa do Telefone Direto. Não havia nada a perder.

Quando ela retornou à sala de estar, ele se virou para ela, balançando a bolsa sobre seu ombro. Ela olhou seu casaco preto, vendo protuberâncias que antes não tinha pensado que fossem significativas.

- Está armado? - Perguntou ela.

Ele assentiu.

- Com o quê? - Quando ele só a olhou, Mary moveu a cabeça. - Tem razão. Provavelmente é melhor que eu não saiba. Vamos…

Dirigiram em silêncio pela Rota 22 entre a área morta entre os limites rurais de Cadwell e o início da próxima cidade grande. Era uma área montanhosa, com florestas e nada mais que extensas áreas entre podridão em ambos os lados da estrada. Não havia faróis, poucos carros e muitos cervos.

Aproximadamente vinte minutos depois que eles tivessem abandonado a casa, ele se dirigiu para uma estrada mais estreita que os levou a uma elevação gradual. Ela examinou o que os faróis dianteiros iluminavam, mas não pôde distinguir onde estavam. De uma maneira estranha, não parecia haver nenhum traço de identificação na floresta ou na estrada. De fato, a paisagem tinha algo de confuso, uma proteção que ela não podia explicar e não podia passar por cima não importando o quanto ela piscava.

Do nada apareceram um conjunto de portões de ferro preto.

Quando Mary saltou em seu assento, Rhage chegou até a porta de uma garagem, as pesadas portas abertas pela metade, lhes permitindo somente o espaço para poderem passar. Imediatamente eles encontraram outro conjunto de portões. Ele abaixou sua janela e teclou um código em um intercomunicador. Uma agradável voz lhe dava as boas vindas e ele olhou para cima e à esquerda, assentindo para uma câmara de segurança.

O segundo conjunto de portas se abriram e Rhage acelerou por um longa estrada, subindo por um caminho. Quando viraram por uma esquina, 6 metros de uma parede alta de alvenaria se materializou da mesma maneira que a primeira entrada. Depois passaram sob uma arcada e por outro conjunto de barricadas, entrando em um pátio com uma fonte no meio.

À direita, havia uma mansão de quatro andares feita de pedra cinza, o tipo de lugar que vê nas divulgações de filmes de terror: gótico, sombrio, opressivo com mais sombras para que uma pessoa se sentisse a salvo nos arredores. Mais à frente do caminho, havia uma pequena casa, uma casa de um andar no estilo que Wes Craven utilizava em seus filmes.

Seis carros, quase todos do gênero europeu caro, estavam estacionados em ordem. Rhage estacionou o GTO entre um Escalade e uma Mercedes.

Mary saiu e levantou o pescoço na direção da mansão. Sentia como se estivessem a observando e assim era. Do terraço, as gárgulas a olhavam e as câmeras de segurança também.

Rhage chegou até ela, sua bolsa de fim de semana em sua mão. Sua boca estava apertada, seus olhos profundos.

- Vou cuidar de você. Ok? - Quando ela assentiu, ele sorriu um pouco. - Vai dar certo, mas quero que esteja junto a mim. Não quero que se afaste. Está claro? Ficará comigo aconteça o que acontecer.

Tranqüilidade combinada com uma ordem, pensou ela. Isto não estava bom.

Aproximaram-se de uma porta dupla de bronze envelhecida e ele abriu um lado. Depois que passaram para um corredor sem janelas, o grande painel se fechou com uma reverberação que subiu através de seus sapatos. Diretamente na frente havia outra conjunto de portas maciças, estas feitas de madeira e esculpidas com símbolos. Rhage introduziu um código em um teclado numérico e houve um som de mudança na fechadura que se abria livremente. Ele a pegou pelo braço firmemente e abriu a segunda porta que dava a um vestíbulo enorme.

Mary ofegou.

Uou...era mágico!

O vestíbulo era um arco íris de cor, tão inesperado como um jardim que floresce em uma caverna. Verdes colunas de malaquita alternadas com outras de mármore claro, elevando-se para cima sobre um chão multicolorido. As paredes eram de uma cor amarela brilhante e tinha espelhos emoldurados em dourado e cantos em cristal pendurados. O teto, três andares mais acima, era uma obra-prima da arte e folhado à ouro, as cenas representavam heróis, cavalos e anjos. E mais adiante, e no centro de todo este esplendor, uma ampla escada que levava a segundo andar com mezanino.

Era um formoso salão tipo russo dos tempos do czar...mas os sons do lugar não eram exatamente formais e elegantes. Da sala da esquerda, música rap soava e profundas vozes masculinas se ouviam. Bolas de bilhar americano atingiam umas às outras. Alguém gritou.

- Vamos, Tira.

Uma bola de futebol americano deslizou até o vestíbulo e um musculoso homem saiu disparado atrás dela. Ele saltou para cima da bola e justamente quando a teve entre as mãos, um cara ainda maior com uma juba leonina caiu sobre ele. Os dois caíram sobre o chão em um emaranhado de braços e pernas, deslizando com dificuldade sobre a parede.

- Eu te peguei bem, Tira.

- Mas ainda não tem a bola, vampiro.

Grunhidos, risadas e suculentas maldições foram feitas debaixo daquele teto adornado enquanto os homens lutaram pela bola, atirando um sobre ao outro, sentando-se sobre o peito do outro. Dois enormes caras vestidos de couro preto correram para verificar a ação. E logo um pequeno homem idoso vestido com casaco de mordomo surgiu a seu lado, levando um buquê de flores frescas em um vaso de cristal. O mordomo deu um passo rodeando os lutadores com uma risada indulgente.

Então tudo ficou em silêncio quando todos eles a notaram de repente.

Rhage a colocou atrás de seu corpo.

- Filho da puta. - Disse alguém.

Um dos homens foi na direção de Rhage como um tanque. Seu cabelo negro estava cortado ao estilo militar e Mary sentiu um estranha sensação tê-lo visto antes.

- Que diabos você está fazendo?

Rhage alongou sua postura, deixando cair a bolsa e levou seus braços ao nível de seu peito.

- Onde está Wrath?

- Eu te fiz uma pergunta. - Replicou-lhe o outro cara. - O que você está fazendo trazendo-a aqui?

- Preciso falar com Wrath

- Eu disse para você se livrar dela. Ou espera que algum de nós faça o trabalho?

Rhage se encontrou queixo a queixo com o homem.

- Cuidado, Tohr. Não me faça te fazer mal.

Mary lançou um olhar para atrás dela. A porta do vestíbulo ainda estava aberta. E agora mesmo esperar no carro de Rhage, enquanto as coisas eram esclarecidas, lhe pareceu uma idéia realmente boa. Manter-se junto, não entanto, era a ordem.

Quando ela se afastou, manteve os olhos sobre ele. Até que se chocou com alguma coisa dura.

Ela se virou sobre si mesma. Procurando. E perdeu a voz.

O que obstruía sua fuga tinha uma face cheia de cicatrizes, escuros olhos e uma auréola de fria cólera.

Antes que ela pudesse fugir apavorada, ele a agarrou pelo braço e a fez girar para longe da porta.

- Não pense em correr. - Fazendo cintilar suas largas presas, medindo seu corpo. - Engraçado, você não é tipo habitual dele. Mas está viva e urinando nas calças de pavor. Então me servirá.

Mary gritou.

Cada cabeça do vestíbulo se virou. Rhage investiu na direção dela, atraindo-a apertadamente para seu corpo. Ele falou severamente, na língua que ela não entendia.

O homem das cicatrizes estreitou os olhos.

- Fique calmo, Hollywood. Somente cuidarei para que sua pequena não fuja da casa. Você vai compartilhá-la ou vai ser tão egoísta como costuma geralmente ser?

Rhage o olhou como se estivesse disposto a distribuir golpes à torto e a direito quando a voz de uma mulher o cortou.

- Oh! Por Deus, meninos! Estão assustando-a.

Mary deu uma olhada em torno do peito de Rhage e viu uma mulher descer a escada. Ela parecia completamente normal: longo cabelo preto, jeans azuis, pulôver de gola alta branco. Um gato ronronava como uma máquina de costurar sobre seus braços. Quando ela se aproximou do conjunto de homens, todos eles se afastaram de seu caminho.

- Rhage, estamos felizes porque você está seguro em casa. Wrath descerá em um minuto. - Ela indicou a sala da qual os homens tinham saído.

- O resto de vocês pode voltar para lá. Vamos, agora. Se alguém for rachar algumas bolas, que o faça sobre a mesa de bilhar. O jantar ficará pronto em meia hora. Butch, leve a bola contigo, ok?

Ela os afugentou do vestíbulo como se não fossem caras durões. O único cara que ficou era do cabelo de corte militar.

Ele estava mais tranqüilo agora enquanto olhava para Rhage.

- Isto terá repercussões, meu Irmão.

A face de Rhage se endureceu e começaram a falar em sua língua secreta.

A mulher do cabelo preto chegou até Mary, todo o tempo acariciando a garganta do gato.

- Não se preocupe. Tudo ficará bem. A propósito, sou Beth. E este é Boo.

Mary suspirou, instintivamente confiando neste solitário e feminino posto avançado no que era uma selva de testosterona.

- Mary. Mary Luce.

Beth lhe ofereceu a mão e sorriu.

Mais presas.

Mary sentiu que o chão se movia debaixo dela.

- Acho que ela vai cair. - Grito Beth movendo-se para frente. - Rhage!

Fortes braços lhe rodearam a cintura quando seus joelhos se dobravam.

A última coisa que ela escutou antes de perder os sentidos foi Rhage dizendo.

- A levarei para o meu quarto.

Quando Rhage colocou Mary sobre sua cama, o fez suavemente.

Oh, Deus, que havia feito, trazendo-a a seu recinto?

Quando ela se moveu e abriu os olhos, ele disse.

- Aqui você estará a salvo.

- Sim, claro.

- Farei que aqui seja seguro para você, certo?

- Agora acredito em você. - Ela sorriu um pouco. - Lamento o que passou. Geralmente não sou tão frágil.

- É perfeitamente compreensível. Olhe, tenho que ir ver meus Irmãos. Está vendo a fechadura de aço que há sobre a porta? Sou o único que tem a chave, por isso estará segura aqui.

- Aqueles caras não ficaram muito felizes em me verem.

- Esse é problema deles. - Ele acariciou seu cabelo empurrando-o para trás, colocando-o para trás dos ouvidos. Quis beijá-la, mas em vez disso se levantou.

Ela parecia tão bem em uma cama grande, recostada sobre uma montanha de travesseiros com as quais ele insistia em dormir. Ele a queria ali amanhã e depois da amanhã e depois e…

Isto não era um erro, pensou ele. Ela estava bem, estava no lugar ao qual pertencia.

- Rhage, por que está fazendo isto por mim? Quero dizer, você não me deve nada e mal me conhece.

Por que você é minha, pensou ele.

Atendo-se um pouco a esse pensamento, inclinou-se e acariciou sua face com o dedo indicador.

- Isto não levará muito tempo.

- Rhage…

- Somente deixe que eu cuide de você . E não se preocupe com nada.

Ele fechou a porta quando saiu e virou a fechadura antes de partir pelo corredor. Os Irmãos lhe esperavam ao pé da escada, Wrath diante do grupo. O rei o olhou severamente, suas sobrancelhas negras enterradas atrás de seus óculos de sol.

- Onde quer que discutimos sobre isto? - Perguntou Rhage.

- Em meu estúdio.

Depois que se encaminhassem em fila para o estúdio, Wrath foi para trás da sua mesa e se sentou. Tohr o seguiu, colocando-se atrás dele e à sua direita. Phury e Zsadist se apoiaram contra a parede recoberta de seda. Vishous se sentou em uma das poltronas com apoio ao lado da lareira que foi acesa com um movimento de sua mão.

Wrath sacudiu a cabeça.

- Rhage, homem, estamos com sérios problemas. Desobedeceu uma ordem direta. Duas vezes. Então arrasta uma humana para esta casa, sabendo que é proibido…

- Ela está em perigo…

Wrath bateu com o punho na mesa, fazendo que tudo fosse para o chão.

- Você realmente não quer me interromper agora.

Rhage mexeu seus molares, apertando-os, mordendo. Ele forçou as palavras de respeito que normalmente oferecia livremente.

- Não pensei em lhe ofender, meu senhor.

- Como estava dizendo, desobedeceu a Tohr e agravou a ofensa te apresentando com uma humana. Em que diabos está pensando? Digo, merda, você não é um idiota, apesar de como se comporta. Ela é de outro mundo, e automaticamente nos expõe. E deve saber que passou tanto tempo que não se pode apagar sua memória e os traumas. Ela está permanentemente comprometida.

Rhage sentiu que se condensava um grunhido em seu peito e só pôde tragá-lo de volta. O som impregnou a residência como um aroma.

- Ela não morrerá por isso.

- Sim, veja, ela não é sua responsabilidade. Fez com que fosse minha responsabilidade quando a trouxe para nosso terreno.

Rhage exibiu suas presas.

– Então partirei. Partirei com ela.

As sobrancelhas de Wrath apareceram sobre seus óculos.

- Não é o momento de ameaças, meu Irmão.

- Ameaças? Estou falando muito a sério. - Ele se acalmou esfregando o rosto e tentando respirar. - Olhe, ontem à noite nós dois fomos atacados por vários lessers. Ela foi presa e eu deixei ao menos a um daqueles assassinos vivo enquanto tentava salvá-la. Ela perdeu sua bolsa no processo e se qualquer um daqueles lessers sobreviveu, vocês sabem que terá recolhido a maldita bolsa. Inclusive se lhe apago a memória, sua casa não é segura e não vou deixar que a Sociedade a leve. Se ela e eu não pudermos ficar aqui e o único modo que tenho de protegê-la é desaparecendo com ela, então isso é que vou fazer.

Wrath franziu o cenho.

- Compreende que escolhe uma mulher em vez da Irmandade.

Rhage se exaltou. Jesus! Ele não tinha pensado que a situação chegaria até isto. Mas percebeu que o fazia.

Incapaz de ficar quieto, aproximou-se de uma das janelas. Olhando para fora, viu os jardins escalonados, a piscina, o vasto gramado que os rodeava. Mas ele não se concentrou na paisagem. Mas viu a proteção que a área oferecia.

As luzes de segurança iluminaram a panorâmica. As câmeras montadas sobre as árvores registravam cada movimento. Os sensores de movimento fiscalizavam cada vistosa folha que caía ao chão. E se alguém tentasse superar a parede, iriam encontrar e saudar 240 volts de boa noite.

Este ambiente era o mais seguro para Mary. Sem dúvida.

- Ela não só é uma fêmea para mim. - Murmurou ele. - Eu a teria como minha shellan, se pudesse.

Alguém amaldiçoou enquanto os outros ofegaram bruscamente.

- Você não a conhece. - Indicou Tohr. - E ela é uma humana.

- Então...

A voz de Wrath era baixa, insistente.

- Rhage, homem, não saia da irmandade por isso. Necessitamos de você. A raça te necessita.

- Então parece que ela vai ficar aqui, não é mesmo. - Quando Wrath murmurou algo vil, Rhage se voltou para ele. - Se Beth estivesse em perigo, permitiria que algo ficasse em seu caminho para protegê-la? Inclusive a Irmandade?

Wrath se levantou da cadeira e deu a volta na mesa. Parou quando estiveram peito contra peito.

- Minha Beth não tem nada a ver com as opções que você tomou ou a situação em que nos colocou. Ficar em contato com os humanos tem que ser limitado e só sobre seu território, já sabe isto. E ninguém vive nesta casa exceto os Irmãos e suas shellans, se as tiverem.

- O que acontece com Butch?

- Ele é uma exceção. E só é permitido porque Vishous sonhou com ele.

- Mas Mary não estará aqui para sempre.

- Como você sabe isso? Pensa que a Sociedade vai se render? Acredita que os humanos de repente vão tolerará a raça? Seja realista.

Rhage deixou cair a voz, mas não seus olhos.

- Ela está doente, Wrath. Tem câncer. Quero cuidar dela e não só por causa do pesadelo dos lessers.

Houve um longo silêncio.

- Merda, se vinculaste a ela. - Wrath passou a mão por seu longo cabelo. - Por Deus…você acaba de encontrá-la, meu Irmão.

- E quanto tempo você levou para marcar Beth como sua? Vinte e quatro horas? Ah, claro, esperou dois dias. Sim, bom tempo você deu a ela.

Wrath soltou uma risada curta.

- Tem que continuar a trazer minha shellan a isso, não é mesmo?

- Olhe, meu senhor, Mary é ...diferente de mim. Não pretendo que o entenda. Tudo o que sei, é que ela faz palpitar meu peito de uma maneira que não posso ignorar...infernos, que não quero ignorar. Então a idéia de abandoná-la à mercê da Sociedade não é simplesmente uma opção. No que se refere a ela, cada instinto protetor que tenho me aflige e não posso afastar dessa merda. Nem sequer pela Irmandade.

Rhage se calou e passaram vários minutos. Horas. Ou talvez só alguns batimentos do coração.

- Se permitir que fique aqui, - disse Wrath - é só por que você a vê como sua companheira e só se ela pode conservar sua boca fechada. E ainda temos que tratar o fato de que você violou as ordens de Tohr. Não posso permitir isso. Terei que reportá-lo a Virgem Escriba.

Rhage fraquejou de alívio.

- Aceitarei as repercussões.

- Que assim seja. - Wrath foi para trás da mesa e se sentou.

- Temos que falar de algumas outras coisas, meus Irmãos. Tohr, fale.

Tohrment se encaminhou para frente.

- Más notícias. Tivemos notícias de uma família civil. Um homem, dez anos após sua transição, desapareceu ontem à noite da cidade. Enviei um e-mail à comunidade que informa a cada um deles que deverão ter cuidado redobrado quando saírem e que se alguém desaparecer é necessário que seja comunicado imediatamente. Também, Butch e eu estivemos conversando. O Tira tem uma boa cabeça sobre os ombros. Alguém tem algum problema se ele falar um pouco sobre nosso negócio? - Quando as cabeças negaram, Tohr se concentrou em Rhage. - Agora nos explique o que aconteceu ontem à noite no parque.

 

Depois que Rhage partiu e quando se sentiu o suficientemente estável para ficar de pé, Mary saiu da cama e verificou a porta. Estava trancada e era sólida, então se sentiu completamente a salvo. Quando viu um interruptor na parede, apertou-o, iluminando o quarto.

Santa… casa de Windsor.

Cortinas de seda estavam penduradas nas janelas em camadas de dourado e vermelho. O cetim e o veludo adornavam uma enorme e antiga cama Jacobina, as pilastras da mesma deviam ter sido feitos de troncos inteiros de carvalho. Havia um tapete Aubusson no chão, telas a óleos em todas as paredes…

Bom senhor, aquela Madonna e criança eram realmente um Rubens?

Mas todas as coisas não eram do Sotherby. Havia uma TV de plasma, muito equipamento estéreo para fazer a transmissão do Super Bowl, um computador digno da Nasa. E um Xbox no chão.

Ela vagou pelas estantes, onde volumes encadernados em couro em idiomas estrangeiros estavam de pé e orgulhosos. Estudou os títulos com apreciação até que entrou na coleção de DVDs...

Oh, a humanidade.

O box de Austin Powers. Aliens e Alien. Tubarão. Os três “Corram que a Policia Vem Aí”. Godzilla. Godzilla. Godzilla…espera, o resto daquela prateleira inteira era de Godzilla. Foi um pouco mais abaixo. Sexta-feira 13, Halloween, Pesadelo em Elm Street. Bem, ao menos ele não havia se incomodado com a seqüência desses. Caddyshack, A Noite dos Mortos Vivos ainda embalado em plástico.

Era uma maravilha que Rhage não havia ficado totalmente se cego com toda aquela cultura pop.

Mary entrou no banheiro e acendeu as luzes. Uma Jacuzzi de mármore do tamanho de sua sala de estar estava no chão.

Esta é uma verdadeira beleza, pensou ela.

Ouviu que a porta se abria e se sentiu aliviada quando Rhage a chamou por seu nome.

- Estou aqui olhando sua banheira. - Ela caminhou para o dormitório. - O que aconteceu?

- Tudo está bem.

Você tem certeza disso? Ela queria lhe perguntar. Porque ele estava tenso e preocupado quando entrou caminhando para o closet.

- Não se preocupe, poderá ficar aqui.

- Mas...?

- Nada de mais.

- Rhage, o que vai acontecer?

- Tenho que sair com meus Irmãos esta noite. - Voltou sem seu casaco e a conduziu para a cama colocando-a ao seu lado quando ele se sentou.

- Os doggen, nossos criados, sabem que você está aqui. São incrivelmente leais e amistosos, nada que te assuste. Fritz, é quem controla a casa, trará alguma comida. Se necessitar de algo, é só perguntar. Voltarei ao amanhecer.

- Estarei presa aqui até então?

Ele negou com a cabeça e se levantou.

- É livre de te mover pelos arredores da casa. Ninguém te tocará. - Ele pegou uma folha de papel de uma caixa de couro e escreveu sobre ela.

- Aqui está o número do meu celular. Me ligue se me necessitar e eu estarei aqui em um momento.

- Tem uma sala de tele transporte em algum lugar?

Rhage a olhou e desapareceu.

Não foi como se ele tivesse saído muito rápido. Ele simplesmente, poof, desapareceu.

Mary saltou da cama, segurando um grito de alarme com a mão.

Os braços de Rhage a abraçaram por trás.

- Em um momento.

Ela agarrou-lhe os pulsos, lhe apertando os ossos para se assegurar de que não estava com alucinações.

- Este é um truque infernal. - Sua voz era fina. - Que mais você tem sob o chapéu?

- Posso apagar e acender coisas. - A residência se inundou na escuridão. - Posso acender velas. - Duas delas flamejaram sobre sua cômoda. - E sou habilidoso com fechaduras e outras coisas.

Ela escutou o barulho do trinco da porta para frente e para trás, e em seguida o armário se abriu e fechou.

- Oh, e posso fazer algo realmente grande com minha língua e o caule de uma cereja.

Deu-lhe um beijo na base do pescoço e se dirigiu para banheiro. A porta se fechou e ouviu o som da ducha.

Mary ficou congelada onde estava, sua mente saltava como uma agulha em um LP. Olhando a coleção de DVDs, decidiu que havia algo para ser dito sobre a evasão. Especialmente quando uma pessoa tinha muitas raridades, muitas reorientações da realidade, muito…tudo.

Quando Rhage saiu um momento mais tarde, barbeado, cheirando a sabonete, com uma toalha ao redor de seus quadris, ela se apoiou sobre a cama, Austin Powers e o Homem do Membro de Ouro estava passando na TV.

- Ei, esse é um clássico. - Ele riu e olhou para a tela.

Ela se esqueceu do filme quando olhou aqueles amplos ombros, os músculos de seus braços, a toalha seguindo a forma de seu traseiro. E a tatuagem. Aquela retorcida, feroz criatura de olhos brancos.

- Gêmeos, Basil, gêmeos. - Rhage disse com uma cronometragem e uma entonação perfeitas.

Piscou um olho para ela e entrou no closet...

Contra seus melhores instintos, ela o seguiu, e se inclinou sobre a soleira, tentando parecer casual. Rhage estava de costas quando colocou as calças de couro preto, combate. A tatuagem se moveu com ele quando ele fechou a braguilha.

Um suave suspiro lhe escapou da boca. Que homem. Vampiro. Qualquer coisa.

Ele a olhou sobre o ombro.

- Você está bem?

Na realidade, ela se sentia quente por toda parte.

- Mary?

- Estou bem e excelente. - Baixando o olhar, interessou-se pela coleção de sapatos alinhados no chão. - A verdade é que vou tentar me auto medicar com sua coleção de filmes até que esteja em um coma cultural.

Quando ele se inclinou para colocar as meias, seus olhos prenderam-se em sua pele. Toda ela nua, lisa, dourada...

- Sobre os acertos para dormir. - Disse ele. - Ficarei no chão.

Mas ela queria estar naquela enorme cama com ele, pensou.

- Não seja tolo, Rhage. Ambos somos adultos. E aquela coisa é o bastante grande para que durmam seis.

Ele vacilou.

- Bem. Prometo não roncar.

E tampouco colocar a mãos sobre você?

Ele colocou uma camisa preta de manga curta e colocou seus pés dentro de um par de Timberlands. Então fez uma pausa, olhando para uma cabine metálica que ia do chão ao teto que havia na parede do armário.

- Mary, por que não vai lá fora? Necessito de um minuto, ok?

Ela se ruborizou e se virou, afastando-se.

- Sinto muito, não queria invadir seu intimidade…

Ele lhe pegou a mão.

- Não é por nada. É que você poderia não gostar do que pode ver.

Como se algo do que houvesse ali pudesse sobressaltá-la depois de hoje?

- Vá em frente. - Murmurou ela. – Faça ...qualquer coisa.

Rhage acariciou seu pulso com o polegar e em seguida abriu o gabinete metálico. Ele tirou um coldre peitoral preto de couro e o colocou através dos ombros, prendendo-o sob seus peitorais. Um largo cinturão apareceu depois, igual ao que era usado pelos policiais, mas como com o coldre, não havia nada como isso.

Ele a olhou. E depois trouxe as armas.

Duas largas adagas negras, que embainhou sobre seu peito, com as lâminas para baixo. Uma brilhante pistola que verificou que estivesse carregada com rápidos e seguros movimentos antes de ancorá-la sobre seu quadril. Estrelas de artes marciais e cartuchos de munição pretos que meteu em seu cinturão. E mais, outra pequena faca que ele o ocultou em algum lugar.

Ele pegou seu casaco de couro preto de um cabide e o balançou para frente, apalpando os bolsos. Tirou outra pistola do gabinete de armas e a avaliou rapidamente antes de enterrá-la entre os pregas do couro. Colocou mais estrelas de lançamento nos bolsos do casaco. Adicionou outra adaga.

Quando ficou em frente a ela, ela retrocedeu.

- Mary, não me olhe como se eu fosse um estranho. Sou eu mesmo, debaixo de tudo isto.

Ela não parou até que esteve na cama.

- Você é um estranho. - Sussurrou ela.

Seu rosto se endureceu e sua voz ficou murcha.

- Voltarei antes da alvorada.

Ele partiu sem nenhum hesitação.

Mary não soube quanto tempo esteve sentada e olhando fixamente para o tapete. Mas quando levantou o olhar, se levantou e pegou o telefone.

 

Bella abriu seu forno, lançou uma olhadinha ao jantar, e se rendeu.

Que confusão.

Pegou um par de luvas e tirou a carne assada. O coitado havia murchado nos cantos da panela, tinha enegrecido no meio e tinha desenvolvido fendas por estar seco. Não era comestível, mais adequado para ser usado na construção que para um simples prato. Uma dúzia mais destes e alguma argamassa e ela teria aquela parede que queria ao redor de seu terraço.

Quando fechou a porta do forno com seu quadril, podia ter jurado que a cozinha Viking de alta qualidade a olhava irritada. A animosidade era mútua. Quando seu irmão havia feito a granja para ela, havia colocado o melhor de tudo, por que esta era a única maneira que Rehvenge fazia as coisas. O fato de que ela preferisse uma cozinha antiga e portas maciças e um lugar aprazível e envelhecido não tinha importado. E Deus a ajudasse se tivesse armado um alvoroço sobre as medidas de segurança. A única maneira que Rehvenge havia lhe permitido se mudar era se a casa era incombustível, antibalas e impenetrável como um museu.

Ah, as alegrias de ter um irmão mandão com uma mentalidade fechada.

Ela pegou a panela e se dirigiu para as janelas do pátio traseiro quando o telefone soou.

Quando ela atendeu, esperava que não fosse Rehvenge.

- Alo.

Houve uma pausa.

- Bella?

- Mary! Liguei para você hoje. Espera um segundo, tenho que alimentar os texugos. - Ela colocou o telefone sobre a mesa, saiu disparada para o pátio, desfez-se da carga e retornou. Quando a panela estava na pia, ela recolheu o receptor.

- Como você está?

- Bella, tenho que saber algo. - A voz da humana era tensa.

- Algo, Mary. O que aconteceu?

- Você é … uma deles?

Bela se afundou em uma cadeira ao lado da mesa da cozinha.

- Pensa que sou diferente a você?

- Uh - huh.

Bela olhou o seu aquário. Tudo se via muito tranqüilo ali, ela pensou.

- Sim, Mary. Sim, eu sou diferente.

Houve uma rápida respiração na linha.

- Oh, graças a Deus.

- De algum modo, não pensei que você saber seria um alívio.

- Isto é…eu tenho que falar com alguém. Estou muito confusa.

- Confusa sobre... - Espera um minuto. Por que elas estavam tendo essa conversa? - Mary, como sabe sobre nós?

- Rhage me disse. Bem, mostrou-me, também.

- Isso significa que ele não a apagou... Você se lembra dele?

- Estou com ele.

- Você o que?

- Aqui. Na casa. Com um punhado de homens, vampiros...Deus, essa palavra... - A mulher clareou sua garganta.

- Estou aqui com aproximadamente outros cinco caras como ele.

Bella colocou a mão sobre a boca. Ninguém ficava na Irmandade. Ninguém sabia onde eles moravam. E esta mulher era uma humana.

- Mary, como fez...como isso aconteceu?

Quando ela contou toda sua história, Bela estava desconcertada.

- Olá? Bella?

- Sinto muito, eu... Você está bem?

- Eu acho que sim. Estou, agora pelo menos. Escuta, tenho que saber. Por que você reuniu nós dois? Rhage e eu?

- Ele te viu e gostou de você. E me prometeu que não te faria mal, essa foi a única razão pela qual concordei em arrumar esse encontro.

- Quando ele me viu?

- Na noite que levamos John ao centro de treinamento. Ou não se lembra disso?

- Não, não me lembro, mas Rhage me disse que eu havia estado lá. John...é um vampiro?

- Sim, é. Sua mudança está próxima, foi por isso que eu me envolvi. Ele morrerá a não ser que uma fêmea da nossa raça esteja com ele quando chegar a transição. Ele necessitará de uma mulher para tomar seu sangue.

- Então naquela noite, quando o conheceu, você soube.

- Soube. - Bela escolheu as palavras com cuidado. - Mary, o guerreiro te trata bem? É ele...amável contigo?

- Ele cuida de mim. Me protege. Embora eu não tenha nem idéia do por que.

Bela suspirou, pensando que ela sabia. Considerando a fixação do guerreiro com a humana, ele provavelmente havia se vinculou a ela.

- Mas voltarei para casa logo. - Disse a humana. – Somente alguns dias.

Bela não tinha tanta certeza sobre isso. Mary estava entrando em seu mundo mais do que ela imaginava.

 

O aroma dos vapores de gás eram repugnantes, pensou o Sr. O enquanto manobrava o Toro Dingo no meio da escuridão.

- Está bem. Estamos prontos para ir. - Chamou o Sr. U.

O Sr. O apagou o equipamento e inspecionou a área do bosque que havia destruído. Profissionalmente, de 12 por 12 metros, esta era a disposição do edifício de persuasão mais o espaço para que eles pudessem trabalhar.

O Sr. U. deu um passo para a área nivelada e comandou a reunião dos lessers.

- Vamos começar a levantar as paredes. Quero três lados levantados. Deixem um aberto. – O Sr. U fez gestos impaciente com a mão.

- Vamos. Movam-se.

Os homens recolheram as estruturas feitas de 2,5 metros de comprimento e dois por quatro e levaram-nas para o meio.

O som de um veículo se aproximando parou cada um deles, embora a carência de faróis sugerisse que era outro lesser. Com sua superior visão noturna, os membros da Sociedade eram capazes de dançar ao redor da escuridão como se fosse pleno meio-dia; quem quer que estivesse atrás daquelas rodas esquivando árvores tinha a mesma acuidade.

Quando o Sr. X saiu do mini-caminhão, o Sr. O se aproximou.

- Sansei. - Disse o Sr. O, inclinando-se. Sabia que o bastardo apreciaria o gesto e de algum modo encheria o saco do cara só para não ser tão divertido como estava acostumado a ser.

- Sr. O, vejo como estão fazendo progressos.

- Me deixe lhe mostrar o que estamos fazendo.

Tiveram que gritar sobre os golpes dos martelos, mas não havia nenhuma razão para se preocuparem com qualquer ruído. Eles estavam trabalhando no meio de um terreno de trinta hectares aproximadamente a trinta minutos da cidade de Caldwell. Ao oeste da propriedade havia um pântano que servia como uma das zonas de inundação do Rio Hudson. Ao norte era a Big Notch Mountain, um montão de rocha que pertencia ao Estado e que os escaladores não apreciavam, devido as tocas de cascavéis e os turistas consideravam o lugar pouco atraente. O único ponto de exposição era o sul, mas os coitados que viviam no descampado, com suas granjas desmoronando não tinham tempo para perambular por aí.

- Isto está bom. - Disse o Sr. X. - Agora, onde serão colocadas as instalações de armazenagem?

- Aqui. – O Sr. O se manteve de pé sobre uma parte de terreno. - Teremos os suplementos pela manhã. Devemos estar prontos para receber visitantes em um dia.

- Tem-no feito muito bem, filho.

Maldito fosse, o Sr. O odiava a merda de filho. De verdade que odiava.

- Obrigado, sansei. - Disse ele.

- Agora caminhe comigo até o meu carro. - Quando eles estiveram a certa distância do trabalho, o Sr. X lhe disse.

- Me diga uma coisa, você tem muito contato com os Betas?

O Sr. O se assegurou de que seu contato ocular não hesitasse.

- Realmente não.

- Viu algum deles ultimamente?

Cristo, onde queria chegar o Fore-lesser com isto?

- Em nenhum momento desde a noite passada?

- Não, como lhe disse, não me misturo com os Betas. – O Sr. O franziu o cenho. Sabia que se lhe exigisse uma explicação, só o olharia defensivamente, mas que se lixasse.

- O que aconteceu?

- Aqueles Betas que perdemos no parque ontem à noite tinham mostrado alguma competência. Eu lamentaria pensar que mataram a sua competência.

- Um Irmão…

- Sim, um membro da Irmandade os atacou. Direto. Engraçado, embora os Irmãos sempre se assegurem de apunhalar sua caça para que os corpos se desintegrem. Mas ontem à noite, aqueles Betas foram abandonados para que morressem. E foi bastante ruim por que então não puderam responder às perguntas quando foram encontrados pelo esquadrão de reserva. Por isso ninguém sabe o que aconteceu.

- Eu não estava no parque e você sabe.

- Eu sabia?

- Por todos os Santos …

- Cuide da sua boca. E você cuide-se. - Os pálidos olhos do Sr. X se estreitaram como fendas. - Sabe a quem chamarei se tiver que colocar a corrente em seu pescoço outra vez. Agora volte a trabalhar. Verei você e os outros iniciantes nas primeiras luzes para seu check-in.

- Pensava que tínhamos o e-mail. - Disse o Sr. O com os dentes apertados.

- Será em pessoa a partir de agora em diante para você e sua equipe.

Quando o mini-caminhão se foi, o Sr. O olhou fixamente para a noite, escutando os sons da construção. Deveria estar fervendo de ódio. Em troca ele estava só...cansado.

Deus, não tinha nenhum entusiasmo por seu trabalho. E ele não podia estar trabalhando sobre as panaquices do Sr. X. A emoção se foi.

 

Mary deu uma olhada ao relógio digital: 1:56. Ainda faltavam horas e horas para o alvorada e o sono era inadmissível. Tudo o que ela imaginava quando fechava os olhos eram aquelas armas penduradas no corpo de Rhage.

Ela rolou sobre si mesma. A idéia de não voltar a vê-lo era perturbadora, se recusou a examinar seus sentimentos muito estreitamente. Só os aceitava, as suportava muito mal e esperava algum alívio.

Deus, desejava poder voltar para momento antes que ele tivesse partido. O teria abraçado com força. E teria lhe dado uma advertência sobre a necessidade de segurança mesmo que ela não soubesse nada sobre a luta e ele era, assim esperava, um mestre nisso. Ela só queria sua segurança…

De repente a porta se abriu. E de repente o cabelo loiro de Rhage brilhou com a luz do corredor.

Mary saiu disparada da cama, cruzando o cômodo em uma corrida mortal e se lançou sobre ele.

- Uau, o que... - Seus braços a abraçaram e a recolheram, mantendo-a com ele quando foi em direção à porta e a fechou. Quando a libertou, ela se deslizou por seu corpo.

-Você está bem?

Quando seus pés se pousaram sobre o chão, ela voltou para a realidade.

- Mary?

- Ah, sim...sim, estou bem. - Deu um passo para um lado. Olhando a seu redor. Ruborizada como um inferno. - Só...sim, só vou voltar para a cama agora.

- Pare, mulher. - Rhage tirou o casaco, o coldre do peito e o cinturão. - Volta aqui. Eu gosto do modo que me dá as boas vindas à casa.

Ele abriu seus amplos braços e ela entrou neles, abraçando-o com força, sentindo como respirava. Seu corpo estava muito quente e cheirava maravilhosamente, como ao ar e o suor limpo.

- Não esperava que estivesse acordada. - Murmurou ele, acariciando suas costas de cima a baixo.

- Não conseguia dormir.

- Eu lhe disse, aqui você está a salvo, Mary. - Seus dedos encontraram a base de seu pescoço e o massagearam com força. - Droga, está tensa. Tem certeza de que está bem?

- Estou bem. De verdade.

Ele cessou a massagem.

- Alguma vez responde a estas perguntas sinceramente?

- Acabei de fazer. – Mais ou menos.

Sua mão voltou a acariciá-la.

- Me prometerá uma coisa?

- O quê?

-Me avisará quando não se encontrar bem? - Sua voz foi provocadora. – Quero dizer, sei que você é forte, por isso não esbanjarei meu fôlego por isso ou qualquer outra coisa. Não terá que se preocupar de me matar por isso.

Ela riu.

- Eu prometo.

Ele levantou o queixo com um dedo, olhando-a severo.

- Vou te obrigar a cumprir essa promessa. - Então ele a beijou na bochecha. - Escuta, eu ia até a cozinha para pegar algo de comer. Quer vir comigo? A casa está tranqüila. Os outros Irmãos ainda estão fora.

- Sim. Deixa que eu me troque.

- Só coloque um de meus casacos de lã. - Ele se aproximou da cômoda e tirou algo suave, preto e do tamanho de uma lona.

- Eu gosto da idéia de que use a minha roupa.

Quando ele a ajudou a vestir-la, sua risada foi uma expressão muito masculina de satisfação. E possessividade.

E, maldita fosse, se não manifestava satisfação em seu rosto.

Quando terminaram de comer e haviam voltado para seu quarto, Rhage tinha problemas de concentração. O zumbido rugia com toda sua força, pior que da última vez. E ele estava totalmente acordado, seu corpo tão quente que parecia que seu sangue ia secar em suas veias.

Quando Mary se aproximou da cama e se instalou, ele tomou uma rápida ducha e se perguntou se não deveria lhe dar um prazer à sua ereção antes de se deitar. A maldita coisa estava dura, rígida e doía como uma cadela e a água que caía sobre seu corpo o fazia pensar nas mãos de Mary sobre sua pele. Agarrou o seu membro e recordou como havia sentido os movimentos dela contra a sua boca e o prazer de seus suaves segredos. Ele gozou em menos de um minuto.

Quando terminou, o vazio orgasmo só o enervou mais. Parecia que seu corpo sabia que o verdadeiro assunto estava no dormitório e não tinha nenhuma intenção de se desviar.

Amaldiçoando, saiu e secando-se com a toalha se dirigiu até o closet. Agradecendo por quão detalhista era Fritz, ele procurou até que encontrou – obrigado Deus - um pijama que nunca antes ele havia usado. Encolheu os ombros e em seguida, inclusive colocou o robe que combinava.

Rhage fez caretas, parecia que estava usando a metade do maldito closet. Mas este era o ponto.

- O quarto está muito quente para você? - Perguntou-lhe enquanto acendia uma vela e apagou o abajur.

- Está perfeito.

Pessoalmente, pensava que se encontrava no trópico. E a temperatura aumentou quando se aproximou da cama e se sentou sobre o lado oposto ao dela.

- Escute, Mary, em aproximadamente uma hora e quarenta e cinco minutos, escutará que as persianas se fecharão para o dia. Deslizam para baixo das janelas. Não é que faça muito ruído, mas não quero que se assuste.

- Obrigado.

Rhage se deixou cair sobre o edredom e cruzou os pés sobre seus tornozelos. Tudo isto o irritava, o quarto quente, a roupa. Agora sabia como os presentes se sentiam, totalmente rígido como em papéis e fitas: irritado.

- Normalmente você usa tudo isso quando vai dormir? - Perguntou-lhe ela.

- Ah, normalmente.

- Então por que ainda tem a etiqueta na roupa?

- É que em caso de que queira outra, saberei qual é.

Ele se virou sobre seu lado, distanciando-se dela. Rolando sobre si mesmo até que ficou olhando fixamente para o teto. Um minuto mais tarde, deitou-se de bruços.

- Rhage. - Sua voz era adorável na escura quietude.

- O que?

- Você dorme nu, não é mesmo?

- Ah, normalmente.

- Olhe, pode tirar a roupa. Não vai me incomodar.

- Não queria que se sentisse...incômoda.

- Eu fico mais incômoda que você se vire tanto sobre seu lado da cama. Parece uma salada arremessada neste lado.

Ele teria rido em silêncio por seu razoável tom, mas a bomba quente que tinha entre as pernas aspirou diretamente todo seu humor.

Ah, infernos, se tirasse o pijama teria que guardá-lo e ela comprovaria que, estava fora de si. Queria-a tão duramente que, exceto uma cota de malha, o que usasse ou deixasse de usar não ia fazer a diferença.

Mantendo-se de costas para ela, levantou-se e se despiu. Com algumas artimanhas, conseguiu meter-se sob o edredom sem que ela conseguisse nenhum vislumbre do que ele tinha na frente, no ventre dele. Ela não tinha necessidade de saber daquela monstruosa excitação.

Ele se manteve distante dela, virando-se sobre seu lado.

- Posso tocar isso? - Perguntou-lhe ela.

Sua ereção endureceu, como se ela se oferecesse como voluntária para ser “isso”.

- Tocar o que?

- A tatuagem. Eu gostaria de...tocá-la.

Deus, ela estava muito perto dele e aquela voz, doce, formosa - era mágica. Mas o zumbido em seu corpo fazia que parecesse que tinha um misturador de tinta no estômago.

Como ele ficou quieto, ela murmurou.

- Não importa. Não faço...

- Não. É só... - Merda. Ele odiou a frieza em seu tom. - Mary, tudo bem. Faça que você quer.

Ouviu o roçar dos lençóis. Sentiu como o colchão se moveu um pouco. E em seguida as pontas de seus dedos roçaram seu ombro. Ele tentou se controlar o melhor que pode.

- Onde lhe fizeram isso? - Sussurrou ela, traçando o contorno da maldição. - O desenho é extraordinário.

Todo seu corpo se retesou quando sentiu com precisão onde ela estava sobre a besta. Ela agora traçava no seu antebraço esquerda e sabia disso por que sentiu o arrepio correspondente em seu próprio membro.

Rhage fechou o olhos, preso entre o prazer de ter sua mão sobre ele e a realidade de que brincavam com o desastre. A vibração, a queimação - ela elevava tudo, chamava a escuridão de seu coração, o mais destrutivo dele.

Ele respirou através de seus dentes quando ela lhe acariciou o lado da besta.

- Seu pele é tão suave. - Disse ela, passando sua mão pela parte inferior de suas costas.

Congelado no lugar, incapaz de respirar, rezou para ter autocontrole.

- E…bem, de qualquer jeito. - Ela se retirou. – Eu acho lindo.

Ele já estava em cima dela antes que soubesse que se movera. E não era um cavalheiro. Empurrou sua coxa entre suas pernas, prendeu seus braços sobre sua cabeça e procurando a boca dela com a sua. Quando ela se arqueou contra ele, ele agarrou a barra de sua camisola e a puxou com força. Ia tomá-la. Neste momento e em sua cama, tal como tinha querido.

E ela ia ser perfeita.

Suas coxas se deixaram vencer por ele, abrindo-se amplamente e ela o incentivou, seu nome um gemido rouco que abandonou seus lábios. O som aceso deu uma violenta sacudida nele, que obscureceu sua visão e enviou vibrações a seus braços e pernas. Tomá-la o consumia, despojava-o de qualquer camada civilizada que havia sobre seus instintos. Ele era bruto, selvagem e ...

À beira da implosão abrasadora que era o cartão de visita da maldição.

O terror lhe deu a força para saltar para trás e se separar dela, tropeçando pelo quarto. Bateu em algo. A parede.

- Rhage!

Afundando-se no chão, ele colocou suas mãos trêmulas sobre sua rosto, sabendo que seus olhos estavam branco. Seu corpo tremia tanto que suas palavras saíram como ondas.

- Estou fora de mim…isso é ...merda, não posso...tenho que me afastar de você.

- Por que? Não quero que pare…

Ele falou diretamente.

- Estou morro de fome por você, Mary. Estou, droga, ...faminto, mas não posso ter você. Não tomarei... você.

- Rhage. - Ela se interrompeu, como se tentasse comunicar-se com ele. - Por que não?

- Não me quer. Confia em mim, realmente não me quer assim.

- Um inferno que não quero.

Ele não estava preparado para lhe dizer que era uma besta que esperava a transição. Então decidiu repugná-la em vez de assustá-la.

- Tive a oito mulheres diferentes esta semana.

Houve uma longa pausa.

- Bom Deus…

- Não quero mentir para você. Nunca. Mas me deixe ser muito claro. Tive muito sexo anônimo. Tive muitas mulheres, nenhuma pela qual eu tenha me preocupado. E não quero que pense que alguma vez te utilizaria assim.

Agora que suas pupilas voltavam a ser negras, ele a olhou.

- Me diga que pratica o sexo seguro. - Resmungou ela.

- Quando as mulheres pedem isso, eu faço.

Seus olhos flamejaram.

- E quando elas não o fazem?

- Eu não pegaria nem sequer um resfriado comum, da mesma maneira não posso me contagiar o HIV ou Hepatite C ou qualquer enfermidade de transmissão sexual. Os vírus dos humanos não nos afetam.

Ela colocou os lençóis sobre os ombros.

- Como sabe que não as deixa grávidas? Ou os humanos e os vampiros não podem…

- Os híbridos são raros, mas ocorre. E é óbvio para mim quando as mulheres estão férteis. Posso cheirar. Se estiverem ou estão perto, não tenho sexo com elas, até uso preservativo. Minhas crianças, quando as tiver, nascerão na segurança de meu mundo. E amarei a sua mãe.

Os olhos de Mary ficaram distantes, fixos, atormentados. Ele olhou para o que ela olhava fixamente. Era a Virgem e a Criança que tinha pintado sobre a cômoda.

- Alegra-me que tenha me dito isso. - Disse ela finalmente. - Mas por que tem que ser com estranhas? Por que não pode ser com alguém como você…Na realidade, não me responda. Isso não é meu assunto.

- Eu preferiria estar contigo, Mary. Não estar dentro de ti é uma tortura...te quero tanto que não posso suportar. - Ele bufou. - Mas pode me dizer francamente que você me quer agora? Embora… infernos, inclusive se eu quisesse, há ainda algo mais. A forma que você está em minha cabeça, é como te disse antes. Assusta-me perder o controle. Você me afeta de uma maneira diferente que as outras mulheres.

Houve outro longo silêncio. Ela o quebrou.

- Me diga outra vez que é um miserável e que não dormiremos juntos. - Disse ela secamente.

- Sou um completo miserável. Dolorido. Duro todo o tempo. Transtornado e zangado.

- Bom - Ela sorriu um pouco. - Rapaz, sou uma vagabunda, não é mesmo?

- Não.

O quarto ficou tranqüila. Por fim, ele se deitou sobre o chão e se aconchegou, descansando sua cabeça sobre seu braço.

Ela suspirou.

- Não espero que durma no chão agora.

- É o melhor.

- Por todos os Santos. Rhage, se levante daí.

Sua voz era baixa como um grunhido.

- Se voltar para essa cama, não há nenhum modo de que não vá até esse doce lugar entre suas pernas. E desta vez não seria só com minhas mãos e minha língua. Voltaríamos para onde estávamos. Meu corpo em cima de você, cada polegada de meu corpo se desesperando por entrar no teu.

Quando ele sentiu o delicioso aroma de sua excitação, no ar entre eles se levantou com o sexo. E dentro de seu corpo, ele voltou a reviver.

- Mary, é melhor eu partir. Voltarei quando você estiver dormindo.

Ele partiu antes que ela pudesse pronunciar outra palavra. A porta se fechou atrás dele, e ele se apoiou contra a parede do corredor. Estar fora do quarto ajudava. Era mais difícil sentir seu cheiro.

Ele ouviu uma risada e viu Phury caminhando pelo corredor.

- Você está enroscado, Hollywood. Assim como condenadamente nu.

Rhage se cobriu com as mãos.

- Não sei como pode aceitar isso.

O Irmão parou, agitando a taça de cidra quente que levava.

-Aceitar o que?

- O celibato.

- Não me diga que sua mulher não te quer?

- Esse não é o problema.

- Então, por que você está no corredor agora?

- Eu, ah, não quero fazer mal a ela.

Phury o olhou com surpresa.

- Você é grande, mas nunca feriste nenhuma mulher. Ao menos que eu saiba.

- Não, é só...a quero tão brutalmente. Eu estou...estou duro, homem.

Os olhos amarelos de Phury se estreitaram.

- Está falando da besta.

Rhage o olhou.

- Sim.

O assobio que saiu do Irmão foi sombrio.

- Bom...infernos, melhor se cuidar. Quer ganhar seu respeito, isso é bom. Mas você se mantém no nível ou realmente vai fazer lhe mal, me entende? Procure uma briga, encontre outras mulheres, mas te assegure de estar calmo. E se necessitar de uma red-smoke, vem me procurar. Darei-te algumas de meus O-Zs, sem problema.

Rhage suspirou.

- Por hora vou passar as red-smoke. Mas, posso pegar emprestado algum pulôver e um par de Nike? Vou tentar me controlar com esgotamento.

Phury deu um tapa em seu traseiro.

- Vamos, meu Irmão. Serei mais que feliz de cobrir seu traseiro.

 

Quando a luz da tarde diminuiu na floresta, o Sr. O deu marcha ré no Toro, evitando o montão de terra que tinha feito.

- Está pronto para os canos? - Gritou-lhe o Sr. U.

- Sim. Largue-os lá embaixo. Vamos ver como se encaixa.

O cano da boca-de-lobo composto de metal acanalado de aproximadamente 3 metro de diâmetro e 7 metros de comprimento foi abaixado até o buraco onde estava sua extremidade. A coisa se adaptava perfeitamente.

- Vamos colocar outros dois ali. - Disse o Sr. O.

Vinte minutos mais tarde as três seções de canos estavam alinhados. Usando o Dingo, o Sr. O empurrou a terra enquanto outros dois lessers mantinham os canos em seu lugar.

- Está bom. - Disse o Sr. U, andando em volta. – Está condenadamente bom. Mas como conseguiremos que os civis entrem e saiam?

- Sistemas de arnês. – o Sr. O apagou o Dingo e se aproximou para olhar atentamente dentro de um dos canos. - Pode comprar os artigos para escalada no Dick’s Sporting Goods. Somos bastante fortes para levantar os civis inclusive se forem um peso morto e eles estarão drogados, doloridos ou esgotados, então não lutarão muito.

- Esta é uma grande idéia. - Murmurou o Sr. U. - Mas como o fecharemos?

- As tampas serão redes metálicas com pesos no centro.

O Sr. O deu uma olhada para cima, vendo o céu azul.

- Quanto tempo pensa que demorará para que tenhamos o teto pronto?

- Bom nós colocaremos a última parede agora mesmo. Então tudo o que temos que fazer é levantar as vigas e colocar as clarabóias. As telhas não levará muito tempo e as tábuas já estão sobre as três paredes que temos agora. Moverei as ferramentas para cá, conseguirei uma mesa e começaremos amanhã de noite.

- Teremos as persianas para as clarabóias logo?

- Sim. E serão automáticas então você poderá levantá-las e abaixá-las.

Homem, aquelas coisas eram práticas. Uma pequena luz de sol era a melhor babá que um lesser podia ter. Ela entraria, flashes no espaço e pronto, não haveria mais restos de vampiro.

O Sr. O assinalou com a cabeça ao seu caminhão.

- Devolverei o Toro à locadora. Necessita de alguma coisa da cidade?

- Não. Estamos bem.

A caminho de Caldwell, com o pedaço de maquinaria fixa da F150, o Sr. O deveria estar de bom humor. O edifício ia bem. Seu esquadrão aceitava seu comando. O Sr. X não havia trazido Betas outra vez. Mas em troca ele se sentia...morto E isto não era irônico como o inferno para alguém que não havia estado vivo há mais de três anos?

Já havia se sentido assim antes.

Lá em Sioux City, antes de ter se convertido em um lesser, ele tinha odiado sua vida. Tinha passado no colégio e eles não tinham dinheiro para enviá-lo à uma universidade pública, então as opções de carreira tinham sido limitadas. Trabalhando como leão de chácara tinha sido chamado para o serviço pelo seu tamanho e seu mau temperamento, mas isto tinha sido só moderadamente divertido: os bêbados não conseguiam lutar e os arrebentá-los inconscientes não era mais divertido que espancar uma vaca.

A única coisa boa que havia encontrado era Jennifer. Ela o tinha salvado do estúpido aborrecimento e a tinha amado por isso. Ela era o drama, o entusiasmo e a imprevisibilidade na paisagem plana de sua vida. E sempre que ele tinha um de seus ataques de raiva, ela o havia golpeado diretamente, ainda que fosse pequena e sangrava mais facilmente que ele. Ele nunca tinha sabido se ela o batia porque era muito tola para saber que ele sempre ganharia no final ou porque ela já estava habituada a ser espancada por seu pai. Em qualquer caso, a estupidez ou o hábito, ele havia tomado tudo o que ela podia lhe dar e depois ele a jogava no chão. Cuidando-a depois, quando o fogo já havia se apagado, tinha-lhe entregue os momentos mais sensíveis de sua vida.

Mas como todas as coisas boas, ela havia chegado ao fim. Deus, ele sentia falta dela. Tinha sido a única que entendia como o amor e o ódio batiam lada a lado em seu coração, a única que podia administrar ambos os sentimentos ao mesmo tempo. Pensando nela longamente, sua negra cabeleira e seu corpo magro, sentia tanto a sua falta que quase podia senti-la a seu lado.

Quando entrou em Caldwell, pensou na prostituta que havia comprado na outra manhã. Tinha terminado por lhe dar o que ele necessitava, embora tivesse tido que negociar sua vida para fazê-lo. E agora enquanto dirigia, explorou as calçadas, procurando outra libertação. Infelizmente, as morenas eram mais difíceis de adquirir que as loiras que comercializavam o corpo. Talvez pudesse comprar uma peruca e dizer às putas que a colocassem.

O Sr. O pensou no número de pessoas que havia matado. A primeira pessoa que tinha matado tinha sido em defesa própria. O segundo tinha sido um erro. O terceiro tinha sido a sangue frio. Então, quando chegou na Costa Leste, procurado pela lei, sabia um pouco sobre a morte.

Naquele tempo, quando Jennifer recentemente tinha ido, a dor em seu peito era muito viva, um cão louco que tinha que esticar as pernas antes que isto o destruísse. Cair na Sociedade tinha sido um milagre. Isto o tinha salvado de uma tortura desarraigada, lhe dando uma concentração, um objetivo e uma saída para a angústia.

Mas agora, de algum modo, todas aquelas vantagens se foram e se sentia vazio. Tal e como estava há cinco anos em Sioux City justamente antes que se encontrasse com Jennifer.

Bom, quase o mesmo, pensou ele, conduzindo até o lugar de aluguel.

Naquele tempo, ele ainda tinha estado vivo.

 

- Saíste da banheira?

Mary riu, colocando o telefone no outro ouvido, desabando no mais profundo dos travesseiros. Era um pouco depois das cinco horas.

- Sim, Rhage.

Ela não podia se recordar quando havia tido um dia com tanto luxo. Dormindo. Comida entregue com livros e revistas. A Jacuzzi.

Era como estar em um SPA. Bem, um SPA onde o telefone tocava constantemente. Não sabia quantas vezes ela a havia lhe ligado.

- Fritz lhe trouxe o que lhe pedi?

- Como encontrou morangos frescos em outubro?

- Temos os nossos jeitos.

- E as flores são muito lindas. - Ela olhou o ramo de rosas, dedaleras, esporas de cavalheiro e tulipas. Primavera e verão em um vaso de cristal.

- Obrigado.

- Alegra-me que você goste. Sinto não ter podido sair e as escolher eu mesmo. Teria gostado de encontrar só as mais perfeitas. Queria que fossem brilhantes e cheirassem muito bem.

- Missão cumprida.

Vozes masculinas ressonavam no fundo. Rhage baixou a voz.

- Hei!, Tira, se importa que use seu dormitório? Necessito de alguma intimidade.

A resposta foi amortecida e depois ela escutou como se fechava uma porta.

- Olá. - Disse Rhage com voz levemente rouca.

- Você está na cama?

Seu corpo se sacudiu, esquentando-se.

- Sim.

- Sinto sua falta.

Ela abriu a boca. Não saiu nada.

- Ainda está aí, Mary? - Quando ela suspirou, ele disse. – Isso não parece bem. Estou ficando muito real para você?

Tive oito mulheres diferentes só esta semana.

Oh, Deus. Ela não queria se apaixonar por ele. Só não podia deixá-lo.

- Mary?

- Só não...me diga coisas como essa.

- É como eu me sinto.

Ela não respondeu. O que podia dizer? Que se sentia da mesma maneira? Que sentia a falta dele, mesmo quando tinha ligado para ela a cada hora durante o dia? Isto era de verdade, mas não algo que a fizesse feliz. Ele também era condenadamente lindo...e inferno, podia colocar Wilt Chamberlain nas sombras quando se tratava de um monte de amantes. Embora ela estivesse perfeitamente saudável, ele era uma receita para o desastre. Acrescentada à situação que ela se confrontava?

Atar-se emocionalmente a ele era verdadeiramente absurdo.

Quando o silêncio se alargou entre eles, ele amaldiçoou.

- Temos muitos negócios que atender esta noite. Não sei quando voltarei, mas se me necessitar já sabe onde me encontrar.

Quando a conexão telefônica foi cortada ela se sentiu horrível. E sabia que os discursos sobre manter a distância realmente não funcionavam.

 

Rhage pisou com força com suas botas de combate sobre o chão e olhou ao seu redor no bosque. Nenhum ruído ou aroma de lessers. Nenhuma evidência de que alguém tivesse estado neste ponto do bosque durante anos. Tinha sido assim nos outros terrenos que tinham visitado.

- Que diabos estamos fazendo aqui? - Resmungou ele.

Sabia a maldita resposta. Tohr tinha encontrado um lesser na noite anterior em uma área isolada da Rota 22. O assassino tinha saído do bosque sobre uma moto para todo terreno, mas o havia perdido um pequeno pedaço de papel no processo: uma propaganda de grandes pedaços de terra à venda sobre as margens de Caldwell.

Hoje, Butch e Vishous tinham feito uma busca sobre todas as propriedades vendidas nos doze meses anteriores na cidade e as populações circundantes. Aproximadamente haviam sido vendidas uns cinqüenta pedaços rurais. Rhage e Vishous tinham visitado cinco delas e os gêmeos faziam o mesmo, cobrindo outros tantos. Enquanto isso, Butch tinha ido ao Pit, reunindo os relatórios de campo, fazendo mapas e procurando padrões. Ia lhes tomar algumas noites passar por todas os pedaços, por que as patrulhas ainda tinham que ser realizadas. E a casa de Mary tinha que ser monitorada.

Rhage passeou pelos arredores do bosque, esperando que alguma das sombras revelasse ser um lesser. Começava a odiar os ramos das árvores. Malditas brincadeiras quando soprava o vento.

- Onde estão esses bastardos?

- fique calmo, Hollywood. - Vishous se alisou a cavanhaque e tirou sua boina Sox. - Homem, você está excitado esta noite.

Excitação não o descrevia. Quase saltava de sua pele. Tinha esperado que estar longe de Mary durante o dia o ajudaria e tinha contado em encontrar alguma luta nessa noite. Também tinha contado com o esgotamento da privação do sono baixasse sobre ele.

Sim, bem, não tinha tido sorte em nenhum das fontes. Queria Mary com um crescente desespero, que parecia não estar ligado à proximidade. Não tinham encontrado nenhum lesser. E estar acordado por quarenta e oito horas e não fechar o olho só o havia deixado mais agressivo.

Pior, eram três horas da madrugada. Estava ficando sem tempo para libertar-se em uma luta, a qual necessitava desesperadamente. Maldição…

- Rhage. - Vishous agitou a enluvada mão pelo ar.

- Está comigo aqui, meu Irmão?

- Sinto muito, o que? - Ele se esfregou os olhos. Seu rosto. Seus bíceps. A pele lhe ardia tanto que parecia que usava um traje de formigas.

- Está seriamente fora disso.

- Não, estou bem…

- Então por que está movendo seus braços dessa maneira?

Rhage deixou cair suas mãos. Só para começar a massagear as coxas.

- Temos que te levar ao One Eye. - Disse Vishous suavemente. – Está se perdendo. Necessita de sexo.

- Vá se ferrar.

- Phury me explicou sobre o que ocorreu no corredor.

- São um bando de velhas criadas, sério.

- Se não o fizer com sua mulher e não encontrar uma briga. Qual será sua alternativa?

- Não precisa ser assim. - Ele virou a cabeça ao seu redor, tentando relaxar seus ombros e seu pescoço. - Não funciona assim. Faz pouco que me transformei. Supõe que não saia outra vez...

- Suposição em uma mão, merda na outra, olhe o que tem que fazer. Está em um momento ruim, meu Irmão. E você sabe o que tem que fazer para sair disto, não é mesmo?

 

Quando Mary ouviu que a porta se abria, despertou desorientada e tonta. Droga, voltara a ter febre esta noite.

- Rhage? - Resmungou ela.

- Sim, sou eu.

Sua voz se parecia com o inferno, pensou ela. E ele tinha deixado a porta aberta, por isso não ficaria muito tempo. Talvez estivesse ainda zangado com ela por aquela última chamada telefônica.

De dentro do closet, ela escutou o ruído de metal e tecido se batendo, como se ele estivesse colocando uma camisa limpa. Quando saiu ele foi direto para o corredor, seu casaco ondeava atrás dele. A idéia de que de algum jeito ele partisse sem dizer adeus foi de algum jeito espantosa.

Quando ele pegou a maçaneta da porta, fez uma pausa. A luz do corredor se refletiu sobre sua brilhante cabeleira e seus amplos ombros. Seu rosto estava de perfil, na escuridão.

- Aonde você vai? - Perguntou ela sentando-se.

Houve um longo silêncio.

- Sair.

Por que parecia tão arrependido? - Perguntou-se ela. Ela não necessitava de uma babá. Se ele tinha negócios para tratar...

Oh...certo. Mulheres. Ele saía para ir atrás de mulheres.

Seu tórax se converteu em uma fria cavidade, uma fossa úmida, sobretudo quando olhou o buquê de flores que ele havia lhe enviado. Deus, a idéia dele tocando em alguém mais quando ela sabia o que ele podia fazer sentir, a deixava tonta.

- Mary… sinto muito.

Ela pigarreou.

- Não sinta. Não há nada entre nós, por isso não espero que mude seus hábitos por mim.

- Isto não é um hábito.

- Oh, certo. Sinto muito. Vício.

Houve outro longo silêncio.

- Mary, eu...se houvesse outra maneira…

- Para fazer o que? - Ela balançou a mão para frente e para trás. - Não responda a isso.

- Mary…

- Não o faça, Rhage. Não é assunto meu. Só vá.

- Meu telefone celular estará ligado se você…

- Sim. Se precisar eu te chamarei.

Ele a olhou durante um batimento de seu coração. E depois sua negra sombra desapareceu pela porta.

 

John Matthew caminhava para casa vindo do Moe’s, às três e quarenta da madrugada, atrás da patrulha policial. Temia as horas até o alvorada. Sentar-se em seu apartamento lhe pareceria como estar em uma jaula, mas era muito tarde para ele estar lá fora, na rua. Ainda...Deus, estava tão inquieto que podia sentir a agitação em sua boca. E o fato de que não houvesse ninguém com quem falar lhe doía ainda mais.

De verdade que necessitava de algum conselho. Depois que Tohrment havia saído, tinha estado dando voltas à cabeça, se debatendo se realmente havia feito a coisa certa. Seguiu dizendo a si mesmo que sim, mas segundas estimativas não paravam.

Desejaria ter podido encontrar-se com Mary. Tinha ido à sua casa na noite anterior, mas a havia encontrado escura e fechada. E ela não tinha ia até o Linha Direta. Era como se tivesse desaparecido e sua preocupação por ela era uma razão mais para estar nervoso.

Quando se aproximou de seu edifício, viu um caminhão estacionado em frente. A carroceria estava cheio de caixas, como se alguém as estivesse movendo.

Que estranho fazer isto durante a noite, pensou ele, olhando a carga.

Quando viu que não havia ninguém montando guarda, esperava que seu dono voltasse logo. Do contrário, o material ia desaparecer.

John entrou no edifício e subiu as escadas, não fazendo caso às bitucas, latas de cerveja vazias e sacos de batatas fritas vazios. Quando já quase estava no segundo andar, olhou com os olhos entreabertos. Havia algo derramado por todo o chão do corredor. Vermelho profundo…

Sangue.

Dando marcha ré para o vão da escada, olhou fixamente para a porta. Havia um respingo no centro, como se alguém tivesse batido a cabeça...mas então viu a garrafa verde escuro. Vinho tinto. Era somente vinho tinto. A turma de bêbados que viviam ao lado haviam voltado a discutir no corredor.

Seus ombros se afrouxaram.

-Me desculpe. - Disse alguém de cima.

Ele se moveu e levantou o olhar.

O corpo de John se retesou.

O homem grande que estava sobre ele estava vestido com calças de camuflagem negras e uma jaqueta de couro. Seu cabelo e sua pele eram completamente brancos e seus pálidos olhos tinham um brilho misterioso.

Maligno. Não, morto.

Inimigo.

Este era um inimigo.

- Alguma confusão se formou neste piso. - Disse o cara antes de estreitar seu olhar sobre John.

- Tem algo de errado?

John com ferocidade sacudiu a cabeça e abaixou o olhar. Seu primeiro instinto foi correr para seu apartamento, mas não queria que o cara soubesse onde ele vivia.

Deu um sorrisinho profundo.

- Parece um pouco pálido, colega.

John saiu disparado pelas escadas em direção à rua. Correu até a esquina, dobrou à esquerda e seguiu correndo. Correu e correu, até que não pôde mais porque ficou sem fôlego. Apoiou-se sobre a junta entre o edifício de tijolos e uma lixeira, ofegando.

Em seus sonhos, lutava contra homens pálidos. Homens pálidos com roupa negra cujos olhos não tinham alma.

Meus inimigos.

Tremia tanto que não conseguia colocar a mão em seu bolso. Tirando vinte e cinco centavos, colheu-os com tanta força que os cravou na palma de sua mão. Quando recuperou o fôlego, olhou atentamente de cima a baixo do beco. Não havia ninguém nos arredores, nenhum som de pés atingindo o asfalto.

Seu inimigo não o haviam reconhecido.

John abandonou o refúgio da lixeira e caminhou rapidamente para a longínqua esquina.

A cabine telefônica estava recoberta de pichações, mas sabia que funcionava por que não fazia muito que tinha ligado para Mary. Colocou os centavos na abertura e discou os números do telefone que Tohrment havia lhe dado.

Depois do primeiro toque, a secretaria de voz começou a recitar roboticamente os números que tinha discado.

John esperou o bip. E assobiou.

 

Foi um pouco antes da alvorada que Mary escutou finalmente vozes masculinas no corredor. Quando a porta se abriu, seu coração saltou de seu peito. Rhage enchia a soleira da porta quando o outro cara falou.

- Homem, foi uma luta infernal quando deixamos o bar. Converteu-te em um demônio lá fora.

- Eu sei. - Resmungou Rhage.

- É incrível, Hollywood e não só com o corpo a corpo. Aquela mulher que você…

- Mais tarde, Phury.

A porta se fechou e a luz do closet se acendeu. Pelo som de estalos e movimentos metálicos, ele estava se desarmando. Quando saiu, deu um suspiro trêmulo.

Mary fingiu que estava adormecida quando seus vacilantes passos chegaram até o pé da cama e logo se dirigiu ao banheiro. Quando escutou que estava tomando banho, ela se imaginou o que ele estava lavando: Sexo. Luta.

Especialmente o sexo.

Ela se cobriu seu rosto com as mãos. Hoje ela partiria para sua casa. Empacotaria suas coisas e sairia pela porta. Ele não podia fazer que ficasse; ela não era responsabilidade dele só por que ele o dissesse.

A água foi fechada.

O silêncio aspirou todo o ar da residência e ela soltou o fôlego mantendo-se no lugar. Ofegando, asfixiando-se...levantou os lençóis e foi até a porta. Suas mãos sobre a tranca, lutando por abrir a fechadura, sacudindo-a, jogando inclusive seu cabelo se agitava a seu redor.

- Mary. - Disse Rhage diretamente atrás dela.

Ela saltou e lutou mais contra a porta.

- Me solte. Tenho que escapar …não posso ficar neste quarto contigo. Não posso estar aqui…contigo. – Ela sentiu quando ele colocou suas mãos sobre seus ombros. - Não me toque.

Ela se moveu loucamente pelo quarto até que saltou para o canto mais afastado, compreendendo que não podia ir e que não havia modo de escapar. Ele estava diante da porta e ela tinha o pressentimento de que manteria as trancas em seu lugar.

Presa, cruzou os braços sobre seu peito e se apoiou de pé contra a parede. Não sabia o que faria se ele voltasse a tocá-la.

Rhage não voltou a tentar.

Ele se sentou sobre a cama, usava uma toalha ao redor de seus quadris, o cabelo úmido. Arrastou sua mão pelo rosto, através do queixo. Parecia o inferno, mas seu corpo era a coisa mais formosa que ela já havia visto. Imaginou as mãos de outras mulheres sobre aqueles poderosos ombros, tal como ela tinha feito. Viu como dava prazer a outros corpos como Havia dado ao seu.

Rasgava-se entre o desejo de agradecer a Deus por não ter dormido com ele e estar chateada que depois de ter estado com todas aquelas mulheres, ele não queria ter sexo com ela.

- Quantas? - Exigiu-lhe ela, as palavras tão roucas que quase não lhe saíram. - E me diga, foi bom para você? Não tenho que perguntar se elas gostaram. Sei o talento que tem.

- Doce…Mary. - Sussurrou ele. - Se me deixasse te abraçar. Deus, mataria só por te abraçar agora mesmo.

- Você nunca voltará a estar perto de minha outra vez. Quantas havia ali? Duas? Quatro? Um pacote de seis?

- De verdade que você quer os detalhes? - Sua voz era suave, triste até o ponto de rachar-se. Bruscamente sua cabeça caiu para baixo e balançou frouxamente de seu pescoço. Segundo todas as aparências, parecia um homem destroçado. - Não posso…Não sairei dessa maneira outra vez. Encontrarei outro caminho.

- Outro caminho para que? - Ela explodiu. – Esteja tão certo como o inferno que não dormirá comigo, então talvez pense em usar a mão?

Ele suspirou.

- Aquele desenho. Em minhas costas. É parte de mim.

- De qualquer modo. Hoje eu vou embora daqui.

Sua cabeça se virou para ela.

- Não, não o fará.

- Sim, o farei.

- Darei-te outro quarto. Não terá que me ver. Mas não vai a nenhuma parte.

- Como você vai impedir que eu parta? Me trancando aqui?

- Se for preciso, sim.

Ela retrocedeu.

- Não pode falar a sério.

- Quando você tem a próxima consulta com o médico?

- Esse não é teu assunto.

- Quando?

A bruta cólera em sua voz refrescou um pouco seu humor.

- Ah…na quarta-feira.

- Assegurarei-me de que você vá.

Ela o olhou fixamente

- Por que me faz isto?

Seus ombros se elevaram e caíram.

- Por que te amo.

- Desculpe?

- Eu te amo.

O controle de Mary se evaporou sob uma rajada de fúria tão grande que ficou muda. Ele a amava? Ele não a conhecia. E ele tinha estado com outras...a indignação apareceu quando o imaginou tendo sexo com alguém mais.

De repente Rhage saltou da cama e chegou até ela, como se sentisse suas emoções e fosse estimulado por elas.

- Sei que está zangada, assustada, ferida. Jogue isso para mim, Mary. - Ele a agarrou pela cintura para impedir que ela corresse, mas não para que tentasse separar-se dele. - Me utilize para suportar a dor. Deixe-me sentir na pele. Me bata se tiver que fazê-lo, Mary.

Que o inferno a condenasse, ela estava tentada. Golpeá-lo parecia o único recurso para o tipo de força que surgia por todo seu corpo.

Mas ela não era um animal.

- Ua! Agora deixa que eu vá!

Ele a agarrou pelo pulso e ela lutou contra o aperto, lançando todo seu corpo para a luta até que seus ombros se sentiram como se fossem estalar. Rhage pediu novamente.

- Me use, Mary. Me permita suportar isto por você. - Com um rápido movimento, ele arranhou seu peito com as unhas dela e depois segurou os dois lados de se rosto com sua mãos. - Me faça sangrar para ti… - Sua boca acariciava a dela. - Permite que sua raiva saia.

Deus a ajudasse, ela o mordeu. Diretamente no lábio inferior. Ela tão só afundou seus dentes em sua carne.

Como com um golpe deliciosamente pecaminoso com sua língua, Rhage gemeu com aprovação e pressionou seu corpo contra o dela. Um zumbido, como se tivesse tomado muito chocolate, cantarolava para ela.

Mary gritou.

Horrorizada pelo que tinha feito, assustou-se do que ele poderia lhe fazer depois, ela lutou para escapar, mas ele a manteve no lugar, beijando-a, lhe dizendo muitas vezes que a amava. A dura ereção, quente que tinha despertado sobre seu ventre através da toalha e se esfregava contra ela, seu corpo uma promessa sinuosa, de sexo latente que ela não queria, mas o necessitava até que as entranhas tivessem cãibras.

Ela o queria...mesmo que soubesse que tinha transado com outras mulheres. Nesta noite.

- Oh, Deus…não... - Ela afastou sua cabeça para um lado, mas ele a pegou pelo queixo, voltando-a para centro.

- Sim, Mary... - Ele a beijou desesperadamente, a língua em sua boca. - Amo-te.

Algo dentro dela se quebrou e o afastou, evitando seu aperto.

Mas em vez de correr para a porta, ela o olhou sem piedade.

Quatro arranhões atravessavam seu peito. Seu lábio inferior estava cortado. Ela ofegava, ruborizada.

Ela estendeu a mão e lhe tirou a toalha do corpo.

Rhage despertou sexualmente, sua ereção tensa, enorme.

E no momento ofegante entre eles, ela odiou sua pele lisa, perfeita sem pêlo, seus tensos músculos, seu belo rosto de anjo. Sobretudo, ela odiou sua orgulhosa ereção, o instrumento sexual que tanto usava.

E de todos os modos, ela o queria.

Se tivesse estado em seu juízo perfeito, se afastaria de Rhage. Teria se trancado no banheiro. Infernos, teria que se sentir intimidada por seu tamanho. Mas estava muito zangada e fora de controle. Agarrou sua dura carne com uma mão e com a outra lhe agarrou as bolas, ambas transbordavam em suas mãos. Sua cabeça se arremessou para trás, os tendões de seu pescoço tensos, o fôlego explodindo em sua boca.

Sua voz vibrou, enchendo o quarto.

- Faz o que for preciso para tomá-lo. Oh, Deus, te amo.

Ela o aproximou da cama, empurrando-o de maneira que retrocedesse para o colchão. Ele caiu sobre os lençóis revoltos, seus braços e pernas estendidas como se não tivesse nenhuma reserva, nenhuma restrição.

-Por que agora? - Perguntou ela amargamente. - Por que está disposto a fazê-lo agora? Ou isto não é absolutamente sobre o sexo e é só por que quer que eu te faça sangrar mais?

- Morro por fazer amor contigo. E posso estar contigo neste momento por que estou no nível. Estou...esgotado.

Oh, agora esse era um pensamento encantador.

Ela negou com a cabeça, mas ele a cortou.

- Você me quer. Tome o prazer. Não pense, só tome o prazer de mim.

Enlouquecida pela luxúria, pela cólera e pela frustração, Mary levantou sua camisola ao redor de seus quadris e se sentou escancarada sobre suas coxas. Mas uma vez que ela esteve sobre ele, olhando-o ao rosto, hesitou. Ela realmente ia fazer isso? Tomá-lo? Usando-o como saída e vingando-se por algo que ele tinha direito a fazer?

Ela começou a se afastar.

Em um rápido movimento, as pernas de Rhage a levantaram, derrubando-a sobre seu peito. Quando ela caiu sobre ele, seus braços a prenderam.

- Sabe o que quer fazer, Mary. - Disse-lhe ele ao ouvido. - Não pare. Toma tudo o que necessita de mim. Use-me.

Mary fechou os olhos, apagou seu cérebro e deixou seu corpo ir.

Colocando-se entre suas coxas, ela o segurou e se sentou com força sobre ele.

Ambos gritaram quando ela o tomou inteiro, direto até o osso pubiano.

Ele era uma enorme presença em seu corpo. Esticando-a até que pensou que poderia rasgá-la. Ela respirou profundamente e não se moveu, suas coxas esticando-se quando seu interior estava lutando para se adaptar a ele.

- Está tão apertada. - Gemeu Rhage. Seus lábios libertando seus dentes, mostrando suas presas. - Oh,...Deus, sinto-te por todas as partes de meu corpo, Mary.

Seu peito subiu e desceu e os músculos de seu abdômen se retesaram nas sombras com força. Quando suas mãos espremeram seus joelhos, seus olhos se dilataram até que quase não restou azul neles. E depois suas pupilas brilharam em branco.

O rosto de Rhage se retorceu com um pouco de pânico. Mas então sacudiu a cabeça como se quisesse limpá-la e assumiu uma expressão de concentração. Devagar o centro de seus olhos voltaram a enegrecer-se, como se desejasse que estivessem assim.

Mary deixou de se concentrar nele e começou a pensar nela.

Não se preocupando sobre como seus corpos se encontravam, ela plantou suas mãos sobre seus ombros e o puxou para cima. A fricção era elétrica e a explosão de prazer fez que a ajudasse a aceitá-lo mais facilmente. Deslizou-se para baixo sobre sua ereção e subiu e depois repetiu o movimento muitas vezes. Seu ritmo era um lento deslizar-se, cada descida colocando-se em posição horizontal, cada elevação cobrindo-o com a sedosa resposta de seu corpo.

Com crescente predomínio ela o montou, tomando-o como queria, a grossura, o calor e a ereção dele criando uma selvagem, retorcendo um nó de profunda energia em seu coração. Ela abriu os olhos e o olhou.

Rhage era uma imagem do êxtase masculino. Um fino brilho de suor cobria seu amplo peito e seus ombros. Sua cabeça se arremessou para trás, seu queixo alto, seu cabelo loiro que caía sobre o travesseiro, seus lábios afastados. Ele a olhava com as pálpebras caídas, seus olhos detendo-se em seu rosto, em seu seios e onde estavam unidos.

Como se estivesse completamente cativado por ela.

Ela apertou seus olhos fechados e empurrou a adoração dele para fora de sua mente. Era isso ou perdia o toque com o orgasmo que estava tão perto por que a visão dele a fazia querer chorar.

Não custou muito tempo para explodir. Com uma rajada explosiva, a liberação varrendo-a, privando o olhar, o ouvido e o batimento do coração, até que tudo o que pôde fazer foi cair sobre ele.

Quando sua respiração se fez mais lenta, ela se deu conta de que ele estava lhe acariciando o traseiro com cuidado e lhe sussurrava suaves palavras.

Em seguida ela se sentiu envergonhada e as lágrimas lhe ardiam nos olhos.

Não importava com quem mais ele havia estado nesta noite, não merecia ser usado e isto era exatamente o que ele havia feito. Tinha estado muito zangada quando tudo isto tinha começado e depois o tinha deixado fora antes de recusar olhá-lo. Tinha-o tratado como um brinquedo sexual.

- Sinto muito, Rhage. Eu... Sinto muito...

Ela se moveu para descer de seus quadris e compreendeu que ainda estava muito grosso dentro dela. Ele não tinha gozado.

Oh, Deus, isso era ruim. Tudo isso era ruim.

As mãos de Rhage a seguravam como braçadeiras sobre seus músculos.

- Nunca lamente quando estivermos juntos.

Ela o olhou fixamente aos olhos.

- Parece que te violentei.

- Eu estava mais que disposto. Mary, tudo bem. Venha aqui, deixe eu te beijar.

- Como pode me ter perto de você?

- Quão único não posso permitir é que você parta.

Ele a segurou pelos pulsos e a impulsionou para sua boca. Quando seus lábios se encontraram, ele deslizou seus braços a seu redor, sustentando-a. A mudança de posição a fez extremamente consciente que ele estava preparado para explodir, tão forte que ela podia sentir as contrações involuntárias de sua excitação.

Ele balançou seus quadris com cuidado contra ela, colocando seu cabelo para trás com sua grandes mãos.

- Não poderei agüentar este fogo muito mais tempo. Você me leva tão alto, que estou chegando ao limite agora mesmo. Mas enquanto for capaz, enquanto puder me controlar, quero degustar seu corpo no meu. Como começa. Como acaba.

Ele moveu seus quadris para cima e para baixo, saindo, entrando. Ela se derreteu a seu redor. O prazer era profundo, infinito. Aterrador.

- Beijou-as esta noite? - Perguntou-lhe ela. - As mulheres?

- Não, não beijei as mulheres, nunca o faço. E odiei. Não voltarei a fazer isso outra vez, Mary. Encontrarei outro modo de impedir que me descontrole enquanto você estiver em minha vida. Não quero a ninguém mais a não ser você.

Permitiu que ele rolasse sobre ele. Quando ele ficou em cima dela, seu peso quente, pressionando a forquilha de seu corpo onde ele estava agasalhado. Beijou-a meigamente, lambendo-a com a língua, querendo-a com seus lábios. Era tão aprazível embora estivesse em seu interior e seu corpo armazenasse o tipo de força que poderia parti-la pelo meio.

- Não terminarei isto se você não me quiser. - Sussurrou-lhe ele em seu pescoço. - Retirarei-me agora mesmo.

Ela o atraiu colocando suas mãos em suas costas, sentindo os músculos mudarem e a expansão e compressão de suas costelas enquanto respirava. Ela inalou profundamente e sentiu um aroma encantador, erótico. Escuro, picante, temperado com especiarias. Entre suas pernas ela sentiu uma rápida resposta úmida, como se a fragrância fosse um toque ou um beijo.

- O que é esse arama maravilhoso?

- Eu. - Murmurou ele contra sua boca. - É o que acontece quando um homem se vincula. Não posso evitar. Se me deixa continuar, estará por toda a sua pele, em seu cabelo. Também dentro de você.

Com isto, ele empurrou profundamente. Ela se arqueou até o prazer, deixando o fluxo de calor por todas as partes de seu corpo.

- Não posso fazê-lo outra vez esta noite. - Gemeu ela, mais para si mesma que para ele.

Caindo completamente, ele tomou sua mão e a colocou sobre seu coração.

- Nunca mais, Mary. Juro-o por minha honra.

Seus olhos eram severos, um bom voto como poderia fazer qualquer ser vivo. Mas o alívio que sentiu em sua promessa era um problema.

- Não me apaixonarei por você. - Disse ela. - Não posso me permitir isso. Não quero.

- Está bem. Amarei-te o suficiente para os dois. - Ele se inundou nela, enchendo suas profundidades.

- Você não me conhece. - Beliscou-lhe o ombro e depois lhe lambeu a clavícula. O sabor de sua pele fez que sua língua cantasse, que aquele aroma especial se condensasse em sua boca.

- Sim, eu te conheço. - Ele se retirou, seus olhos considerando-a com a convicção e a claridade de um animal. - Sei que me manteve a salvo quando o sol esteve alto e eu me encontrava indefeso contra isso. Sei que se preocupou por mim mesmo quando teve medo. Alimentou-me de sua cozinha. Sei que é uma guerreira, uma sobrevivente, uma wahlker. E sei que o som de seu voz é o mais precioso que já escutei. - Ele a beijou suavemente. - Sei tudo sobre você e tudo o que vejo é lindo. Tudo o que vejo é meu.

- Não sou tua. - Sussurrou ela.

O rechaço não o desconcertou.

- Bom. Se não posso tê-la, então tome. Pegue tudo de mim, uma pequena parte, tudo o que quiser. Mas por favor, tome algo.

Ela chegou até seu rosto, acariciando os planos e ângulos perfeitos de suas bochechas e seu queixo.

- Não teme a dor? - Perguntou ela.

- Não, mas te direi o que me assusta como o inferno. Te perder. - Ele olhou seus lábios. - Agora quer que me afaste? Por que o farei.

- Não. Fique. - Mary manteve os olhos abertos e atraiu sua boca para a sua, deslizando sua língua em seu interior.

Ele tremeu e começou a mover-se em um ritmo estável, penetrando e retirando-se, o eixo cada vez mais grosso, vacilando na ruptura de sua conexão.

- Sinto-a...tão perfeita. - Disse ele, particularizando as palavras com seus golpes. - Fui feito para...estar em seu interior.

O delicioso aroma que provinha de seu corpo se intensificou quando ele fez o bombeamento, até que toda ela o poderia sentir, toda ela cheiraria a ele, toda ela pertencia a ele.

Ela o chamou por seu nome quando chegou ao clímax e o sentiu se aproximar da beira com ela, seu corpo estremecendo-se com o seu, seu gozo tão poderoso como haviam sido suas investidas, seu orgasmo vertido nela.

Quando ele ficou quieto, virou-os para ficarem de lado. Ele a apertou contra ele, tão perto que ela podia ouvir os batimentos do grande coração em seu peito.

Ela fechou os olhos e dormiu com um esgotamento que rivalizava com a morte.

 

Naquela noite, quando caiu o sol e as persianas se elevaram sobre as janelas, Mary decidiu que poderia se acostumar a ser mimada por Rhage. O que não podia tolerar era mais comida. Colocou seus dedos sobre seu pulso, detendo a quantidade de purê que vinha em sua direção.

- Não, estou cheia. - Disse ela enquanto se reclinava sobre os travesseiros. - Meu estômago vai arrebentar.

Com um sorriso, ele recolheu a bandeja de pratos, depois se sentou ao lado dela outra vez. Ele tinha desaparecido durante a maior parte do dia, trabalhando, pensou e lhe agradeceu o sono que obteve. Seu esgotamento piorava a cada dia e podia sentir como se deslizava na enfermidade. Seu corpo sentia como se lutasse para manter seus processos regulares, pequenas dores que lhe apareciam por toda parte. E os hematomas em suas costas: sinais arroxeados que afloravam sob sua pele em uma rapidez alarmante. Rhage havia se horrorizado quando os havia visto, estava convencido que havia lhe feito mal enquanto haviam mantido sexo. Havia-lhe levado muito tempo de conversas para fazê-lo compreender que não tinha sido culpa dele.

Mary se concentrou em Rhage, não querendo pensar na enfermidade ou no encontro com o doutor que logo aconteceria. Deus, ele não parecia se sentir melhor do que ela se sentia, embora não aparentasse, não podia deter o ardor. Quando ele se sentou ao seu lado na cama, se esfregava as coxas com as mãos, parecia que tinha um caso de hera venenosa ou de varicela. Ela estava a ponto de lhe perguntar que lhe acontecia quando falou.

- Mary, deixará que eu faça algo por você?

Embora sexo fosse o último que lhe passava pela mente, ela olhou os bíceps que se retesavam sob sua camisa negra.

-Posso saber o que é?

Um suave grunhido saiu dele.

- Não deveria me olhar assim.

- Por que não?

- Por que quero te montar quando você o faz.

- Não lute contra o que sente.

Como o ataque de duplo combate, suas pupilas brancas brilharam. Era algo estranho. Um momento antes eram negros. Próxima, a pálida luz brilhava sobre eles.

- Por que acontece isso? - Perguntou ela.

Seus ombros se retesaram quando ele se dirigiu ameaçadoramente sobre suas pernas e se apoiou sobre si mesmo. Ela podia sentir sua energia chegando até ela, saindo dele.

- Rhage?

- Não tem que se preocupar com isso.

- Esse tom bruto em sua voz me diz que talvez eu devesse.

Ele riu dela e sacudiu a cabeça.

- Não. Melhor que não. Sobre o favor. Nossa raça tem um médico, Havers. Deixará que eu dê acesso a seus arquivos médicos? Talvez nossa ciência possa te ajudar.

Mary franziu o cenho. Um doutor vampiro. Falar sobre explorar suas terapias alternativas.

Ora, exatamente o que ela podia perder?

- Bom. Mas não sei como conseguir as cópias...

- Meu Irmão, Vishous, é um Deus dos computadores. Pode entrar em qualquer lugar e a maior parte do material deveria estar on-line. Tudo o que preciso são os nomes e lugares. Datas também se as souber.

Quando pegou um papel e uma caneta, ela lhe disse onde havia se tratado assim como também os nomes de seus doutores. Depois que ele tivesse escrito tudo, olhou fixamente a folha de papel.

- O que foi? - Perguntou ela.

- Há tantos. - Seus olhos se levantaram até os seus. – Quanto de mal é, Mary?

Seu primeiro impulso foi lhe dizer a verdade: que ela teve duas rodadas de quimioterapia, um transplante de medula óssea e tudo tinha passado muito duramente. Mas então pensou na noite passada, quando suas emoções estiveram tão fora de controle. Era uma caixa de dinamite e sua enfermidade era o melhor recheio. Quão último precisava era desmoronar outra vez, por que Cristo sabia que nada de bom tinha acontecido nas duas últimas vezes que o havia perdido o controle. Primeiro ela tinha gritado tudo sobre ele. No segundo ela...bom, cortar seu lábio tinha sido o mínimo que havia acontecido.

Encolhendo-se, mentindo, odiando-se, ela murmurou.

- Tudo bem. Alegrei-me quando isto acabou.

Seus olhos se estreitaram.

Então alguém bateu na porta.

Rhage a olhou sem hesitar, apesar do som urgente.

- Algum dia aprenderá a confiar em mim.

- De verdade que confio em você.

- Que mentira! E aqui vai um rápido conselho. Odeio que mintam para mim.

A pesada batida soou outra vez.

Rhage se aproximou e abriu a porta, pronto para dizer a quem quer que fosse, que desaparecesse. Tinha o pressentimento de que Mary e ele estavam a ponto de entrar em um acordo e queria acabar com o assunto.

Tohr estava do outro lado. Parecia que o haviam atingido com uma arma assombrosa.

- O que te aconteceu? - Perguntou-lhe Rhage saindo para o corredor. Fechou a porta parcialmente.

Tohr cheirou o ar que saía do dormitório.

- Jesus, você a marcou, não é mesmo?

- Você tem algum problema com isso?

- Não, isto faz o caminho mais difícil. A Virgem Escriba falou.

- Diga-me.

- Deverá te reunir com o resto dos Irmãos para escutá-lo...

- Foda-se. Quero saber agora, Tohr.

Quando o Irmão terminou de falar na velha língua, Rhage suspirou.

- Me dê dez minutos.

Tohr assentiu.

- Estaremos no escritório de Wrath.

Rhage retornou ao quarto e fechou a porta.

- Escute, Mary, tenho um negócio com meus Irmãos. Talvez não retorne esta noite.

Ela ficou rígida e seus olhos se afastaram de seu rosto.

- Mary, não é por causa das mulheres, juro-lhe isso. Só me prometa que estará aqui quando eu retornar. - Como ela hesitou, ele se aproximou e lhe acariciou a bochecha.

- Você me disse que não tem consulta com o médico até na quarta-feira. O que significa outra noite? Poderá passar mais tempo na banheira. Disse-me o muito que você gosta de estar assim.

Ela deu um pequeno sorriso.

- Você é um manipulador.

- Eu gosto mais de pensar em mim mesmo como um engenheiro de resultados.

- Se ficar um dia mais, você vai tentar me falar de uma coisa e de outra...

Ele se inclinou e a beijou brutalmente, desejando ter mais tempo, querendo estar com ela, dentro dela, antes de ter que ir. Mas infernos, inclusive se tivesse tido horas de sobra, não teria podido fazê-lo. O ardor e o zumbido em seu interior estavam a ponto de vibrar em seu corpo em contato com o ar.

- Amo-te. - Disse ele. Então se afastou, tirou o relógio e colocou o Rolex em sua mão. - Guarde-o para mim.

Ele se aproximou do armário e tirou a roupa. Na parte traseira, atrás de um pijama que ele nunca usava, encontrou seu traje cerimonioso negro. Colocou a pesada seda negra sobre sua pele nua e o fechou com uma grosa tira de couro trançado.

Quando ele saiu, Mary lhe disse.

- Parece que vai a um monastério.

- Me diga que estará aqui quando eu voltar.

Depois de um momento, ela assentiu.

Ele colocou o capuz de seu traje em seu lugar.

- Bom. Isso é bom.

- Rhage, o que está acontecendo?

- Tão só me espere. Por favor, me espere. - Quando ele chegou à porta, lhe deu um último olhar em sua cama.

Este era seu primeiro adeus que tinha entre dentes, sua primeira separação desde que eles haviam se reunido, sentiria a horrível experiência da separação no tempo. Sabia que esta noite seria uma dura para passar. Só esperava que quando saísse do outro lado, as consequências de seu castigo não demorassem muito tempo. E que ela estivesse ainda com ele.

- Vemo-nos depois, Mary. - Disse ele quando a encerrou em seu quarto.

 

Quando ele entrou no escritório de Wrath, fechou atrás de si as portas duplas. Todos os Irmãos estavam ali e ninguém falava. O aroma de inquietação impregnou o cômodo, cheirava como a álcool seco.

Wrath chegou até a frente de sua mesa, parecendo tão tenso como estava Tohr. Atrás de seus óculos de sol, o rei olhava fixamente, sentia algo, embora não o visse.

- Irmão.

Rhage inclinou sua cabeça.

- Meu senhor.

- Usa esse traje como se quisesse ficar conosco.

- Certamente que quero.

Wrath assentiu uma vez.

- Aqui está a declaração então. A Virgem Escriba determinou que você ofendeu à Irmandade, tanto quando não acatou as ordens de Tohr e quando trouxe uma humana à nossa casa. Serei honesto contigo, Rhage, ela quer anular minha decisão sobre Mary. Ela quer que a humana parta.

- Você sabe onde leva isso.

- Disse-lhe que estava preparado para partir.

- Isto provavelmente a animou. - Rhage sorriu com satisfação. - Tentou desfazer-se de mim durante anos.

- Bom, esta é sua opção agora, Irmão. Se quiser permanecer conosco e se a humana tiver que ficar protegida entre estas paredes, a Virgem Escriba exigiu que ofereça um rythe.

O modo ritualista de aliviar a ofensa era um castigo lógico. Quando um rythe era oferecido e aceito, o ofensor permitia ao objeto de seu insulto o uso livre de uma arma contra ele sem apresentar defesa. O ofendido poderia escolher qualquer coisa, desde uma faca a um conjunto de armas de aço, com a condição de que a ferida infringida não fosse mortal.

- Assim ofereço o rythe. - Disse Rhage.

- Deve ser executado por cada um de nós.

Houve um gemido coletivo no cômodo. Alguém murmurou, “Foda-se.”

- Igualmente o ofereço.

- Que seja o que desejas, Irmão.

- Mas… - Rhage endureceu sua voz - ... ofereço-o só por que se entende que se o ritual é observado, Mary ficará todo o tempo que quiser.

- Esse foi meu acordo com a Virgem Escriba. E deve saber que ela aceitou só depois que lhe disse que queria tomar à humana como seu shellan. Penso que Sua Santidade se sobressaltou ante esse tipo de compromisso. - Wrath o olhou sobre seu ombro. - Tohrment deve escolher a arma que usaremos.

- O triplo-chicote. - Disse Tohr em voz baixa.

Oh, merda. Isto ia doer.

Houve mais murmúrios.

- Assim seja. - Disse Wrath.

- Mas que acontecerá com a besta? - Perguntou Rhage. - Pode aparecer quando tenho dor.

- A Virgem Escriba estará lá. Disse que tinha um modo de mantê-lo na linha.

Mas certamente que ela podia. Tinha cozinhado a maldita coisa sobre ele em primeiro lugar.

- Faremos isto esta noite, certo? - Rhage deu uma olhada ao redor do escritório. - Penso que não há nenhuma razão para esperar.

- Iremos à Tumba agora.

- Bom. Terminemos com isso.

Zsadist foi o primeiro a partir quando o grupo se levantou e resolveu a logística em tons quietos. Tohr necessitava de um traje, alguém teria algum de sobras? Phury anunciou que ele traria a arma. Vishous ofereceu seu Escalade para levar a todos juntos.

O último pensamento era bom. Eles iam necessitar de algo para trazê-lo de volta para a casa quando o rythe tivesse terminado.

- Meus Irmãos? - Disse ele.

Todos eles deixaram de falar, deixaram de se mover. Ele olhou a cada um deles, notando a severidade nas feições de seus rostos. Eles estavam odiando isso, e ele o compreendia perfeitamente. Ferir qualquer um deles teria sido insuportável parra ele. Era muito melhor ser o receptor.

- Tenho um pedido, meus Irmãos. Não me tragam para cá, ok? Quando tudo tiver terminado, me levem para outra parte. Não quero que Mary me veja assim.

Vishous falou.

- Pode ficar no Pit. Butch e eu cuidaremos de você.

Rhage sorriu.

- Duas vezes em menos de uma semana. Poderiam lhes alugar como babás depois disto.

Vishous lhe deu uma batidinha no ombro e depois partiu. Tohr o seguiu, fazendo o mesmo. Phury lhe deu um abraço quando passou diante dele.

Wrath fez uma pausa antes de sair.

Como o rei permanecia em silêncio, Rhage lhe apertou o antebraço.

– Eu sei, meu senhor. Eu sentiria o mesmo se estivesse em sua situação. Mas sou resistente. Posso fazê-lo.

Wrath colocou as mãos no capuz e emoldurou o rosto de Rhage entre suas mãos, inclinando-se. Beijou a testa de Rhage e manteve o contato entre eles, uma promessa de respeito do rei para o guerreiro, uma reafirmação de seu vínculo.

- Alegra-me que fique conosco. - Disse Wrath suavemente. - Teria lamentado te perder.

Aproximadamente quinze minutos depois, eles recomeçaram a sessão no pátio junto a Escalade. Estavam descalços e se vestiam de preto. Com os capuzes postos, era difícil saber quem era quem, exceto Phury. A prótese de seu pé podia ser vista e lançou um saco com uma protuberância sobre o ombro. Sem dúvida tinha metido dentro ataduras e fitas, assim como a arma.

Mantiveram-se em silêncio enquanto Vishous os conduzia à parte posterior da casa e à espessa montanha de pinheiros e cicutas. O caminho era somente um sulco sujo, lotado pelas árvores de folha perene.

Enquanto iam rapidamente, Rhage não pôde suportar o tenso silêncio um minuto mais.

- Oh, por Deus, meus Irmãos. Vocês não vão me matar. Não poderíamos aliviar o assunto um pouco? - Ninguém o olhou. - Vishous, coloque algo de Ludacris ou Fifty, ok? Tudo está tão tranqüilo que é muito aborrecido.

A risada de Phury saiu do traje da direita.  

- Só você podia tentar converter isto em uma festa.

- Bem, infernos, todos já quiseram me acertar em cheio por alguma merda que lhes preguei, não é mesmo? Este é seu dia de sorte. - Ele apalpou a coxa de Phury. - Quero dizer, vamos, meu Irmão, fiz muitas brincadeiras contigo durante anos sobre as mulheres. Wrath, faz alguns meses que fiz que apunhalasse uma parede. Vishous, foi no outro dia que você me ameaçou em colocar a mão em cima de mim. Recorda-se? Quando te disse aquela monstruosidade sobre seu cavanhaque?

Vishous riu em silêncio.

- Tinha que fazer algo para que você se calasse. Cada maldito momento que me encontrei contigo desde que nos conhecemos, me perguntaste se dei um beijo francês um cano de escapamento.

- E ainda não me convenceste sobre o que faz a meu GTO, bastardo.

A bola continuou rolando. As histórias de Rhage continuaram voando a seu redor até que as vozes ficaram tão ruidosas, que ninguém podia escutar a ninguém mais.

Enquanto seus Irmãos se dissipavam no vapor, Rhage se recostou contra o assento, olhando para a noite. Esperava por todos os infernos que a Virgem Escriba soubesse o que fazia, por que se sua besta se soltasse na Tumba, seus Irmãos estariam na merda. E eles teriam que matá-lo depois de tudo.

Franziu o cenho e olhou a seu redor. Localizou Wrath atrás dele. Sabia que era ele pelo anel de diamantes negro que usava no dedo do meio.

Rhage se arqueou para trás e lhe sussurrou.

- Meu senhor, peço-lhe um favor.

Wrath se inclinou para frente, sua voz era profunda.

- O que necessita?

- Se eu não sair...disto, por qualquer razão, peço-lhe que cuide de Mary.

O capuz assentiu. Na Velha Língua, o rei lhe disse: “Como deseja, eu lhe juro. a considerarei como minha própria Irmã de sangue e a cuidarei como a qualquer mulher de minha própria família”.

Rhage suspirou.

- Isso é bom. Isso é muito...bom.

Minutos após, Vishous estacionou o Escalade em uma pequena clareira. Eles saíram e ficaram de pé, escutando, olhando, sentindo.

Considerando tudo, era uma tarde agradável e era um lugar sereno para estar. A brisa serpenteava os incontáveis ramos e troncos do bosque levando um agradável aroma de terra e de pinheiro. No alto, uma grande lua brilhava entre as leitosas nuvens.

Quando Wrath fez o sinal, andaram cem metros para um conjunto de cavernas na montanha. O lugar parecia não ter nada de especial, inclusive quando se encontrava lá dentro. Tinha que saber o que se procurava para encontrar a pequena fenda na parede na parte traseira. Se fosse acionada corretamente, uma laje de pedra se deslizava e se abrindo.

Quando entraram no interior da caverna, a rocha se fechou atrás deles com um sussurro. As tochas montadas nas paredes piscaram douradamente enquanto suas chamas respiravam o ar, soprando e assobiando.

O caminho na terra era uma descida lento e fácil, sobre o chão de rocha que era frio sob seus pés. Quando entraram se despiram e portas de ferro fundido se abriram. O corredor que se abria era de aproximadamente cinqüenta pés de comprimento e vinte pés de altura.

Sobre as prateleiras, milhares de potes de cerâmica de vários tamanhos refletiam a luz de diferentes formas. Cada pote continha o coração de um lesser, órgão que Omega lhes tirava durante a cerimônia de entrada na Sociedade. Durante a existência de um lesser como assassino, o pote era a única verdadeira posse pessoal, e se era possível a Irmandade o recolhia depois de uma matança.

No final do corredor, havia outro conjunto de portas duplas. Estas já estavam abertas.

O Santo Sanctorum da Irmandade havia sido esculpido no leito da rocha e folhado em mármore preto no princípio de 1700 quando a primeira migração da Europa havia cruzado por acaso o oceano. O aposento era de bom tamanho e tinha um teto de estalactites brancas que pendiam como adagas. Velas maciças, tão grossas como o braço de um homem e longas como uma perna, estavam embainhadas estações de ferro preto, suas chamas quase tão luminosas como as das tochas.

Abaixo do frontal havia uma plataforma levantada, tinha acesso por uma série de escadas baixas. O altar sobre o topo tinha sido feito sobre uma laje de calcária que havia sido trazida do Velho Continente, seu grande peso apoiado horizontalmente sobre dois dente de pedra de corte áspero. No centro da coisa havia uma caveira.

Atrás do altar, uma parede reta tinha esculpida os nomes de cada um dos Irmãos que alguma vez tivesse existido, atrás do primeiro havia uma caveira sobre o altar. As inscrições se encontravam nos painéis que cobriam cada polegada da superfície, salvo uma extensão não marcada na área central. Essa parte lisa era de aproximadamente seis pés de largura e controlava a área vertical da extensão do mármore. Em meio de tudo isso, aproximadamente cinco pés sobre o chão, duas grossas estacas se elevavam, onde um homem poderia agarrar-se e manter-se nesse lugar.

O ar que se respirava era muito familiar: terra úmida e cera de velas.

- Saudações, Irmandade.

Todos se viraram para a voz feminina.

A Virgem Escriba era uma diminuta figura no longínqua canto, seu traje negro flutuava sobre o chão. Nada dela era visível, nem sequer seu rosto, mas debaixo daquelas negras pregas que a cobriam, a luz saía em turba como água caindo.

Ela flutuou até ele, detendo-se diante de Wrath.

- Guerreiro.

Ele se inclinou.

– Virgem Escriba.

Ela saudou cada um por vez, deixando Rhage por último.

- Rhage, filho do Tohrture.

- Virgem Escriba. - Ele inclinou a cabeça.

- Como vai?

- Estou bem. - Ou estaria, assim que tudo isto tivesse terminado.

- Você esteve ocupado, não é mesmo? Continuando a abrir novos precedentes, como é de seu feitio. É um pena que não está em louváveis direções. - Ela riu. - De algum modo, não é nenhuma surpresa que acabemos com você aqui. É consciente, ou não o é, que este é o primeiro rythe que acontece dentro da Irmandade?

Não exatamente, pensou ele. Tohr havia rechaçado o que Wrath lhe ofereceu em julho passado. Mas ele não podia falar isso.

- Guerreiro, está preparado para aceitar o que ofereceste?

- Estou. - Ele escolheu as seguintes palavras com muito cuidado. Por que você não podia fazer nenhuma pergunta à Virgem Escriba. A não ser que queria te comer seu próprio traseiro. - Eu lhe imploro que não machuque meus Irmãos.

Sua voz se endureceu.

- Está perigosamente perto de perguntar.

- Não acredito que seja nenhuma ofensa.

Aquela risada baixa, suave voltou outra vez.

Homem, ele apostaria que ela estava desfrutando como o inferno com isto. Nunca havia gostado dele, embora tampouco podia culpá-la. Ele havia lhe dado muitos motivos para aumentar sua antipatia.

- Pensa que não ofende, guerreiro? - A roupa se moveu enquanto ela sacudia sua cabeça. - Ao contrário, nunca hesita em ofender para conseguir o que desejas e sempre são problemas. É também por isso que estamos todos juntos aqui esta noite. - Ela partiu dando a volta. - Tem a arma?

Phury deixou a bolsa, abriu-a e tirou o triplo-chicote. A cabo de 60cm de comprimento era feito de madeira e recoberto de couro marrom que estava escurecido pelo suor de muitas mãos. Da ponta da barra, três longas correntes enegrecida de aço se balançavam no ar. No final de cada um deles havia pontas agudas pendurando, como uma abacaxi com lingüetas.

O triplo-chicote era uma arma antiga, cruel, mas Tohr tinha escolhido sabiamente. Para que o ritual se considerasse acertado, o irmãos não podiam poupar Rhage de nada, nem do tipo de arma que utilizassem e do modo em que a colocariam sobre sua pele. Ser indulgentes seria rebaixar a integridade da tradição, o pesar que ele oferecia e a possibilidade de uma verdadeira purificação.

- Assim seja. - disse ela. - Avança para a parede, Rhage, filho de Tohrture.

Ele se adiantou, subindo as dois degraus de vez. Quando chegou ao altar, olhou fixamente a caveira sagrada, olhando a chama da luz nas órbitas e as longas presas. Colocando-se contra o negro mármore, agarrou as cavilhas e sentiu o frio suave sobre suas costas.

A Virgem Escriba foi até ele e levantou seu braço. Sua manga subiu e um brilho candente como o arco de um soldador foi revelado, a flamejante luz vagava formando uma mão. Um zumbido elétrico de baixo nível o atravessou e ele sentiu que algo mudava em seu torso, como se seus órgãos internos tivessem sido reorganizados.

- Pode começar o ritual.

Os irmãos se alinharam, seus corpos nus brilhavam com força, seus rostos marcavam profundos sulcos. Wrath pegou o triplo-chicote de Phury e foi o primeiro a avançar. Quando se moveu, os elos da arma soaram com a doçura da chamada de um pássaro.

- Irmão. - Disse o rei suavemente.

- Meu senhor.

Rhage olhou fixamente aqueles óculos de sol enquanto Wrath começava a balançar o açoite em um amplo círculo para pegar ímpeto. O som de um zumbido começou baixo e cresceu até que a arma avançou, cortando o ar. As correntes atingiram o peito de Rhage e em seguida as lingüetas se agarraram a ele, cravando o ar em seus pulmões. Enquanto se mantinha sobre os plugues, manteve sua cabeça alta enquanto sua visão que se obscurecia e logo retornava.

Tohr era o seguinte, seu golpe extraiu de repente o ar de Rhage de maneira que seus joelhos se dobraram aceitando seu peso outra vez. Vishous e Phury o seguiram.

Cada vez, ele procurava os afligidos olhos de seus Irmãos com a esperança de aliviar sua angústia, mas como Phury se virou dando meia volta, Rhage só pôde apoiar a cabeça. Deixou que caísse sobre seu ombro e dessa maneira viu como o sangue lhe percorria o peito, as coxas e os pés. Uma poça se formava no chão, refletindo a luz das velas e olhou fixamente a confusão vermelha que o deixava tonto. Decidido a ficar de pé, apoiou-se sobre seus cotovelos de maneira que foram suas articulações e seus ossos, não seus músculos, os que o mantiveram no lugar.

Quando houve uma pequena calma, fez-se fracamente consciente de uma espécie de discussão. Piscou várias vezes antes que seus olhos se desembaciassem o suficiente para enxergar.

Phury oferecia o açoite e Zsadist tomava distância da coisa no que se parecia muito com terror. As mãos de Zsadist estavam levantadas e as argolas de seus mamilos emitindo a luz do fogo como se respirasse com dificuldade. O Irmão estava da cor da névoa, sua pele era de cor cinza e era brilhante pouco natural.

Phury falou suavemente e tentou pegar o braço de Zsadist. Zsadist se movia desordenadamente, mas Phury se manteve com ele. Quando se moveram em uma dança sombrio, o chicote cobriu as costas de Zsadist trocando a posição de seus músculos.

Esta aproximação não ia a nenhuma parte, pensou Rhage. Zsadist estava muito perto do pânico, como um animal encurralado. Tinha que haver outra maneira de chegar a ele.

Rhage suspirou e abriu a boca. Nada saiu. Voltou a tentar.

- Zsadist... - sua voz atraiu os olhos de todos para o altar. - Termine, Zsadist...não posso...não poderei me sustentar de pé durante muito mais tempo.

- Não…

Phury cortou Zsadist.

- Tem que…

- Não! Se afaste de mim, droga.

Zsadist se virou para a porta, mas a Virgem Escriba chegou ali primeiro, lhe obrigando a se deter para não atropelá-la. Preso diante da diminuta figura, suas pernas começaram a tremer e seus ombros se sacudiram. Ela se dirigiu a ele silenciosamente, as palavras não chegaram o suficientemente longe para que Rhage pudesse as decifrar em sua névoa de dor.

Finalmente a Virgem Escriba fez gestos para Phury, que lhe trouxe a arma. Quando ela a teve, estendeu a mão e tomou a mão de Zsadist e colocou o apertado couro sobre sua mão. Indicou-lhe o altar e Zsadist deixou cair sua cabeça. Pouco depois foi para a parte dianteira com um passo vacilante.

Quando Rhage olhou ao Irmão, esteve a ponto de sugerir que alguém tomasse o lugar de Zsadist. Aqueles olhos escuros estavam muito arregalados, totalmente brancos ao redor das íris. E Zsadist tragava, sua garganta trabalha enquanto mantinha um grito em seu peito.

- Tudo bem, meu Irmão. - Murmurou Rhage. - Mas tem que terminá-lo agora. Agora.

Zsadist ofegou e tremeu, o suor lhe caía pelos olhos e pela cicatriz de sua face.

- Faça-o.

- Irmão. - Sussurrou-lhe Zsadist, levantando o açoite sobre seu ombro.

Não o balançou para lhe dar impulso, provavelmente não podia coordenar seu braço dessa maneira. Mas era forte e a arma cantou enquanto viajava pelo ar. As correntes e pendentes arranharam o estômago de Rhage em um resplendor de agulhas.

Os joelhos de Rhage se esgotaram e tentou se manter com seus braços, só para verificar que também se recusavam a sustentá-lo. Caiu sobre seus joelhos, as mãos aterrissando sobre seu próprio sangue.

Mas ao menos isto havia terminado. Tomou longas respirações, determinado a fazer desvanecer a náusea .

Bruscamente o som de um corte limpo se precipitou pelo santuário, algo assim como metal contra metal. Ele não pensou muito nisso. Estava muito ocupado com seu estômago, tentando convencê-lo de que vomitar não era um plano nada bom.

Quando esteve preparado, avançou lentamente sobre suas mãos e joelhos sobre o altar, inspirando antes de abordar as escadas. Quando olhou para frente, viu como seus Irmãos se alinharam outra vez. Rhage se esfregou os olhos, manchando o rosto com seu sangue.

Isto não é parte do ritual, pensou ele.

Cada um dos Irmãos levava uma adaga negra em sua mão direita. Wrath iniciou o cântico e outros elevaram suas vozes até que foram forte gritos que ressonavam no sanctorum. O aumento gradual não parou até que eles quase gritaram e depois suas vozes se cortaram bruscamente.

Como uma unidade, atravessaram com suas adagas seus peitos.

O corte de Zsadist era o mais profundo.

 

Mary estava lá em baixo, na sala de bilhar, falando com Fritz sobre a história da casa, quando os ouvidos do doggen captaram um som que ela não percebeu.

- Pode ser que os senhores retornaram.

Ela foi para uma das janelas enquanto os faróis se balançava em volta do pátio.

O Escalade parou, suas portas se abriram e os homens saíram. Com os capuzes de seus trajes abaixados, ela os conhecia da noite em que havia chegado à mansão. O cara do cavanhaque e das tatuagens em suas têmporas. O homem do cabelo espetacular. O da terrível cicatriz e do corte militar. O único que ela não tinha visto antes era um homem com o cabelo longo e negro e de óculos de sol.

Deus, suas expressões eram tristes. Talvez alguém tivesse se machucado.

Ela procurou por Rhage, tentando controlar o pânico.

O grupo se juntou e foram para atrás do SUV quando alguém saiu da guarita e segurava a porta aberta. Mary reconheceu o cara que estava na soleira da porta como o que havia jogando futebol no vestíbulo.

Com todos esses grandes corpos masculinos colocados em um apertado círculo na parte posterior do Escalade, era difícil dizer o que estavam fazendo. Mas parecia que uma espécie de coisa pesada estava entre eles…

A luz mostrou uma cabeleira loira.

Rhage. Inconsciente. E levavam seu corpo para aquela porta aberta.

Mary estava fora da mansão antes de compreender o que estava correndo.

- Rhage!Parem! Esperem! - O ar frio se movia rapidamente em seus pulmões. - Rhage!

Ante o som de sua voz, ele se moveu com força, levantando a mão para ela. Os homens pararam. Alguns deles amaldiçoaram.

- Rhage! - Ela parou de repente, chutando as pedrinhas.

- Que...Oh...Senhor.

Havia sangue sobre seu rosto e seus olhos desfocados pela dor.

- Rhage…

Sua boca aberta. Movendo-se silenciosamente.

Um dos homens disse.

- Merda, nós poderíamos deixá-lo em seu quarto agora.

- Certamente que vão deixarem ali! Feriu-se lutando?

Ninguém lhe respondeu. Eles só trocaram de direção e levaram Rhage através do vestíbulo da mansão, para a escada. Depois que o deixaram sobre a cama, o cara do cavanhaque e das tatuagens no rosto colocou o cabelo de Rhage para trás.

- Irmão, talvez podemos te trazer algo para acalmar a dor?

A voz de Rhage era confusa.

- Nada. Melhor assim. Conhece as regras. Mary... Onde está Mary?

Ela foi até a cabeceira e tomou sua mão frouxa. Quando ela pressionou seus lábios sobre seus dedos, compreendeu que o traje estava em perfeitas condições, sem rasgaduras ou buracos. O que significava que não o vestia quando havia se machucado. E alguém o tinha colocado em cima.

Com uma horrível intuição, ela alcançou o laço trançado de couro ao redor de sua cintura. Afrouxou-o, puxou as bordas e deixou o traje aberto. Desde suas clavículas até seus quadris estava coberto de ataduras brancas. E o sangue tinha fluido através delas, brilhante, ofensivamente vermelho.

Com medo de olhar, mas necessitando saber, com muito cuidado tocou uma ponta e a levantou.

-Querido Deus - Ela cambaleou e um dos Irmãos a sustentou. - Como lhe aconteceu isto?

Quando o grupo permaneceu tão silencioso, ela empurrou quem quer que fosse que a sustentava, distanciou-se e olhou a todos. Eles estavam imóveis, olhando fixamente a Rhage…

E com toda a dor que ele sentia. Doce Jesus, eles não podiam haver…

O do cavanhaque a procurou com o olhar.

Havia sido eles que o haviam feito.

- Vocês fizeram isto. - Murmurou ela. - Vocês lhe fizeram isto!

- Sim. - Disse o que usava óculos de sol. - E não é assunto seu.

- São uns bastardos.

Rhage emitiu um som e depois clareou a garganta.

- Nos deixem.

- Voltaremos para ver como se encontra, Hollywood. - Disse o cara do cabelo longo e multicolorido. - Necessita de alguma coisa?

- Um enxerto de pele? - Rhage sorriu um pouco e depois se estremeceu quando se moveu sobre a cama.

Enquanto os homens saíam pela porta, ela fulminou-os com o olhar à suas costas. Aqueles malditos animais…

- Mary? - Murmurou Rhage. - Mary.

Ela tratou de se recompor. Exaltar-se pelo que esses vândalos haviam lhe feito não ia ajudar Rhage agora.

Ela o olhou, abafando sua fúria e lhe disse.

- Deixará que eu chame o doutor do qual você me falou? Como se chamava?

- Não.

Ela queria lhe dizer que perdesse a expressão do cara-resistente-suportando-a-dor-notavelmente. Mas sabia que lutaria e argumentar era quão último ele necessitava.

- Quer ficar com o traje ou tiro ele? - Perguntou-lhe ela.

- Tira. Se puder suportar me olhar.

- Não se preocupe com isso.

Ela lhe soltou o cinturão de couro e retirou a seda negra, querendo chorar quando ele rolou para um lado e para o outro para ajudá-la enquanto grunhia de dor. Quando terminaram de lhe tirar o traje, o sangue gotejava sobre seu flanco.

Aquele lindo edredom ficaria arruinado, pensou ela, não se importando nem um pouco.

- Perdeste muito sangue. - Ela dobrou o pesado traje.

- Eu sei. - Ele fechou os olhos, sua cabeça afundando-se sobre o travesseiro. Seu corpo nu experimentava uma série de intermitentes espasmos, seus músculos tremiam e os peitorais se moviam sobre o colchão.

Ela colocou o traje na banheira e voltou.

- Limparam-lhe antes de lhe enfaixar as feridas?

- Não sei.

- Talvez deveríamos verificar.

- Me dê uma hora. Então o sangramento terá parado. - Ele suspirou e fez uma careta. - Mary...eles tinham que fazê-lo.

- O que? - Ela se inclinou para ele.

- Eles tinham que fazer tudo isto. Eu não… - Outra respiração foi seguida por um gemido. - Não se zangue com eles.

Que se fodam.

- Mary. - Disse ele com força, seus embaçados olhos se concentraram nela. - Não lhes dei nenhuma opção.

- O que você fez?

- Acabou-se. E não deve se zangar com eles. - Seu olhar ficou impreciso outra vez.

Preocupada como estava, o que queria é que todos esses bastardos fossem ao inferno.

- Mary?

- Não se preocupe. - ela acariciou a bochecha, desejando poder lavar todo o sangue que tinha no rosto. Quando ele se estremeceu pelo ligeiro contato, ela se retirou. - Voc6e não vai permitir que eu te conseguir alguma coisa?

- Só fale. Leia para mim...

Havia uns livros contemporâneos nas prateleiras ao lado dos DVD, ela se aproximou dos livros de capa dura. Agarrou o do Harry Potter, o segundo e colocou uma cadeira ao lado da cama. No princípio era difícil concentrar-se por que ela seguia controlando sua respiração, mas no final ela encontrou o ritmo e ele também. Sua respiração era mais lenta e os espasmos cessaram.

Quando ele dormiu, ela fechou o livro. Tinha a testa enrugada e os lábios pálidos e apertados.

Ela odiava a dor que ele tinha e inclusive o resto que ele havia encontrado.

Mary sentiu na pele os anos passados.

Visualizou o dormitório amarelo de sua mãe. Cheirava a desinfetante. Escutava as trabalhosas e desesperadas respirações.

Ali estava outra vez, pensou ela. Outra cabeceira. Outro sofrimento. Necessitado.

Olhou ao redor do quarto, seus olhos aterrissaram sobre a Madonna e a criança sobre a cômoda. Neste contexto a pintura era arte, não um ícone, a parte de uma coleção da qualidade de um museu e só era utilizava como decoração.

Por isso ela não tinha que odiar a maldita coisa. E tampouco a assustava.

A estátua da virgem no quarto de sua mãe tinha sido diferente. Mary a tinha desprezado e assim que o corpo de Cissy Luce tinha abandonado a casa, aquele pedaço de gesso tinha acabado na garagem. Mary não teve coragem de quebrá-la, mas queria tê-lo feito.

À manhã seguinte ela tinha pego Nossa Senhora e a tinha levado para fora. Fez o mesmo com o crucifixo. Quando ela estacionou na igreja, o triunfo que havia sentido, o verdadeiro Vá se ferrar Deus, tinha sido embriagador, o único sentimento bom desde há muito tempo. Entretanto o arroubo não havia durado muito. Quando voltou para casa, tudo o que podia ver era a sombra sobre a parede onde a cruz tinha estado e o lugar livre de pó no chão onde a estátua havia estado de pé.

Dois anos mais tarde, no mesmo dia em que havia abandonado aqueles objetos de devoção, haviam lhe diagnosticado a leucemia.

Logicamente sabia que não a haviam amaldiçoado por ter deixado aquelas coisas. Havia 365 dias no calendário para poder atingi-la e como uma bola sobre a roda de uma roleta, o anúncio de sua enfermidade tinha tido que aterrissar em um deles. Em seu coração, entretanto, algumas vezes acreditava que não. O que fazia que odiasse Deus ainda mais.

Infernos...Ele não tinha tempo para fazer um milagre para sua mãe, que havia lhe sido fiel. Mas Ele fez um esforço extraordinário para castigar uma pecadora como ela. Grande figura.

- Você me alivia. - Disse Rhage.

Seus olhos encontrando os seus. Ela clareou sua cabeça e tomou a mão dele.  

- Como você está?

- Melhor. Sua voz me calma.

Tinha sido o mesmo com sua mãe, pensou ela. Também a sua mãe gostava do som de sua voz.

- Quer algo de beber? - Perguntou ela.

- O que estava pensando neste momento?

- Em nada.

Ele fechou os olhos.

- Quer que eu te lave? - Disse-lhe ela.

Quando ele se encolheu, ela foi até o banheiro e voltou com uma esponja quente, úmida e uma toalha de banho seca. Limpou-lhe o rosto e com cuidado trabalhou ao redor das bordas das ataduras.

- Vou lhe tirar isso, OK?

Ele assentiu e ela com cuidado retirou as fitas de sua pele. Tirou as gazes e os esparadrapos.

Mary se estremeceu, a bílis lhe subiu até a boca.

O haviam açoitado. Era a única explicação das marcas.

- Oh...Rhage. - As lágrimas lhe nublaram os olhos, mas não permitiu que caíssem. - Só vou trocar as ataduras. Mas também...ainda mantenho a oferta de te lavar. Tem que...

- No banheiro. No armário à direita do espelho.

Estando de pé diante do armário, ficou intimidada ante as provisões que tinha à mão. Equipamentos cirúrgicas. Gesso para as fraturas. Ataduras de todo tipo. Fitas. Ela pegou o que pensou que era preciso e retornou. Abrindo os pacotes de gazes almofadadas estéreis de 30 cm., colocou-as sobre seu peito e estômago e calculou que devia deixá-las ali. Não havia nenhum modo de poder levantar seu torso para envolvê-lo, a ação de prendê-los todos juntos implicaria em um excesso de perda de tempo.

Quando ela tocou a seção da área inferior esquerda das ataduras, Rhage se retesou. Ela o olhou.

- Te machuquei?

- Pergunta engraçada.

- Me desculpe?

Seus olhos se abriram, olhando-a fixamente com dureza.

- Ainda não sabe, não é mesmo?

Claro que não.

- Rhage, o que você precisa?

- Que fale comigo.

- OK. Me deixe terminar.

Assim que o fez, abriu o livro. Ele amaldiçoou. Confusa, lhe pegou a mão.

- Não sei o que você quer.

- Não é tão difícil entendê-lo. - Sua voz era frágil, mas indignada. - Cristo ao menos por uma vez poderia me deixar entrar?

Houve um golpe que atravessou o quarto. Ambos olharam para o som.

- Volto em seguida. - Disse ela.

Quando abriu a porta, o homem do cavanhaque estava no outro lado. Levava uma bandeja de prata sobrecarregada de comida equilibrando-a com uma mão.

- A propósito, sou Vishous. Ele está acordado?

- Oi, Vishous. - Disse Rhage.

Vishous passou direito por ela e colocou a comida sobre a cômoda. Quando ele se dirigiu para a cama, ela sentia não ser tão grande como ele para assim poder tirá-lo do quarto.

O cara apoiou o quadril sobre o colchão.

- Como você está, Hollywood?

- Estou bem.

- A dor está se desvanecendo?

- Sim.

- Então está te curando bem.

- Não pode acontecer o suficientemente rápido para mim. - Rhage fechou os olhos esgotado.

Vishous afastou o olhar durante um momento, seus lábios apertados.

- Voltarei mais tarde, meu Irmão. Certo?