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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


AMANTE SOMBRIO / Brenda Joyce
AMANTE SOMBRIO / Brenda Joyce

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

Por trás da arrogância de Ian Maclean se esconde um terrível segredo: durante décadas ele foi mantido prisioneiro por demônios. Não há um só dia em que ele não se veja atormentado por medos obscuros sobre a perda de sua vontade. Agora, está prestes a vender a quem pagar mais por uma página que roubou do Livro do Poder, se uma mulher não o impedir.

A última missão da guerreira Samantha Rose é recuperar a página roubada e vingar-se do único homem que a rejeitou. O que ela não contava era com a imensa atração que existia entre eles… ou a crescente compreensão ao que Maclean teve que sobreviver. Quando as forças do mal do passado encontram Ian, Sam fará tudo para ajudá-lo… mesmo que isso signifique segui-lo através do tempo e enfrentar ao seu lado seus piores pesadelos…

 

 

 

 

            Nova Iorque, 18 de julho de 2009.

            Sam Rose estava de péssimo humor até que viu a nota sobre sua mesa. “Festa esta noite, as sete na casa de Rupert Hemmer. Se vista de vermelho e use sapatos de salto agulha”.

Ela sorriu lentamente. Ótimo, respondeu ao seu chefe por e-mail. Há séculos que não vou a uma boa festa.

Eram três horas e acabava de chegar ao trabalho, mas não estava atrasada. O mal agia à noite, o que significava que ela trabalhava de noite, porque seu trabalho consistia em caçar os bandidos. De fato, combatia o mal desde os doze anos: desde o dia em que sua mãe foi assassinada.

           Aquilo eram águas passadas. Sam podia pensar em Laura da maneira como a viu pela última vez, e inclusive recordar sua cara pálida e sem vida, sem sentir uma pontada de tristeza ou dor. Aprendeu, havia tempos, a defender-se de qualquer iminente compaixão. Nenhum Matador conseguia fazer seu trabalho se começava a sentir pena das vítimas do mal. A morte de Laura estava predestinada. Todas as Rose tinham seu destino, e o de Sam era ser uma Matadora.

           O dia do assassinato de sua mãe gravou em sua alma a necessidade de vencer o mal. Agora, Sam esperava com ânsia que caísse a noite. Outros temiam as sombras, com toda razão. Ela, ao contrário, alegrava-se quando a lua saía. Outros temiam o som de uma respiração pesada em suas costas, ela apreciava quando o mal ousava procurá-la. Que ele tentasse! Sam o caçava com fúria... Literalmente.

           Nick Forrester a recrutou para a Unidade de Crimes Históricos do CDA havia quase um ano, colocando assim um fim aos seus muitos anos de patrulhamento das ruas como vigilante. O Centro de Atividades Demoníacas era um organismo secreto do governo fundado por Thomas Jefferson, que criou a agência pouco depois de tomar posse como presidente. Jefferson acreditava então, como se acreditava agora, que o público não podia confrontar a realidade.

           Sam estava de acordo. Se as pessoas alguma vez soubessem que o mal era formado por uma raça governada pelo grande Satã, empenhada em destruir a humanidade, o caos se instalaria. Já era bastante difícil manter a ordem sem que houvesse uma histeria coletiva. Era muito melhor que as pessoas acreditassem simplesmente que a delinquência estava fora de controle do que ter sociedade em um estado de anarquia iminente. Às vezes, ao escutar os repórteres ou os comentaristas da atualidade, suas politicamente corretas teorias faziam Sam rir.

           Agora, enquanto lembrava o bilhete de seu chefe, ficou pensativa. Rupert Hemmer era um promotor de meia-idade que já estava no quarto ou quinto casamento. Era o multimilionário mais famoso da cidade. Sam se lembrava de ler ou ouvir em alguma parte que ele estava organizando uma grande festa para celebrar o aniversário de sua esposa. Mas Nick não frequentava esses círculos, nem ia a festas. Aquilo não era um compromisso social. E isso significava que a festa de Hemmer tinha más vibrações. Possivelmente Hemmer, com todo seu dinheiro e seu poder, fosse um dos maus. De qualquer maneira, não era um cara comum, e seus convidados também não seriam. Sam estava entusiasmada. A noite prometia ser divertida.

           Cometeu o erro de olhar o calendário sobre sua mesa e sua alegria se dissipou. Sorriu amargamente ao ver a data, dentro de quatro dias era seu aniversário.

           No ano anterior estavam todas juntas. Nesse ano faltavam sua irmã, Tabby, e sua prima, Brie.

           Ligou bruscamente seu computador. Não queria sentir aquela pontada de tristeza. Sentia falta de Tabby e de Brie, claro. E também de Allie, sua melhor amiga. Allie era uma Curandeira, Tabby era uma bruxa, e Brie tinha seus próprios dons. Durante anos lutaram juntas para proteger e defender às pessoas comuns, porque isso era o que faziam as Rose há gerações. Agora, ela trabalhava sozinha. E não se importava. Tabby e Brie acharam seu destino no passado, da mesma forma que Allie. Para falar a verdade, apesar de ser muito esperta, Brie era um pouco desajeitada, e os feitiços de Tabby às vezes eram erráticos. Sam sempre tinha que manter um olho sobre elas quando enfrentavam seus inimigos, especialmente depois do desaparecimento de Allie. Agora podia concentrar-se no mal e nos Inocentes. Era muito mais simples.

           Uma Matadora, no fim das contas, significava viver sozinha, lutar sozinha e, chegado o momento, morrer sozinha. Assim devia ser.

           Então, passaria seu aniversário sozinha. Mas quem se importava? Ficaria com algum gostoso e o dia passaria sem que se desse conta. Colocou de barriga para baixo o calendário e viu a foto de Tabby. Era a fotografia de sua irmã que mais gostava. As pérolas que usava lembravam o quanto elegante e clássica era Tabby.

           E que continua sendo, recordou-se... Só que em outra época.

           Ela virou a foto e começou a pesquisar dados sobre Rupert Hemmer na imensa base de dados da HCU. Alguém bateu na porta aberta. Sam sentiu seu poder sem que houvesse necessidade de ver quem era e levantou o olhar, contrariada.

           MacGregor sorriu.

O que aconteceu com você ontem à noite? Só matou um e escaparam dois?

Desaparece — respondeu. Ele matou oito demônios na noite anterior.

Seu garoto de brinquedo deve ter te deixado esgotada.

           — É claro que sim — mentiu Sam. Todo mundo sabia que era uma mulher muito liberal. Usava os homens como um playboy usava as mulheres, e por que não? Gostava de sexo, e precisava dele. Mas já estava alguns meses desinteressada. Faltava-lhe apetite sexual. E estava quase a ponto de se preocupar com isso. — E você não pode suportar isso, não é?

           — Logo mudará de ideia — respondeu MacGregor com sua arrogância habitual. Tentou ficar com ela desde que Sam começou a trabalhar na HCU — cedo ou tarde vai descobrir o que está perdendo.

           — Você é muito velho para mim — Sam deu de ombros. MacGregor devia ter quase trinta anos, e ela vinte e oito.

           Ele se afastou, rindo, quando uma moça morena apareceu na porta do escritório.

           — Tem um minuto?

           Sam se recostou em sua cadeira.

           — Claro — agora que Tabby, Allie e Brie se foram, Sam considerava Kit Mares uma amiga. Kit era de sua idade e estava tão envolvida quanto ela na luta contra o mal. A recrutaram quando fazia parte da brigada antidrogas da polícia de Nova Iorque, e embora continuasse sendo oficialmente uma novata na agência, era dura e muito esperta, e convinha tê-la perto quando chegava à noite, de vez em quando até tomavam uma bebida juntas.

           Kit entrou com um jornal na mão. Estava sem maquiagem, como de costume. Não fazia falta: era muito bonita. Deixou o New York Times sobre a mesa e olhou a fotografia e o calendário virados para baixo. Sam se sentiu como se a tivessem pego em flagrante.

           Kit titubeou.

           — Não há nenhum problema que sinta falta de sua irmã.

           Sam fez uma careta e voltou a colocar a foto em seu lugar.

           — O que houve? Agora é telepata? — disse com calma.

           — Eu não tenho que ler mentes para saber como é duro perder ma irmã.

           — Eu não perdi a minha irmã. Tabby está vivinha e bem, embora esteja na Escócia medieval, fazendo magia com seu Highlander. — Sam se arrependeu em seguida de ter falado com tanta aspereza. A irmã gêmea de Kit tinha morrido em seus braços, em Jerusalém, quando tinha apenas dezoito anos.

           — Sim, ela está viva — disse Kit, muito séria. — Mas não está aqui, não é?

           Sam enrijeceu.

           — Você realmente quer se meter nos meus assuntos?

           Kit fez uma careta.

           — Não, mas eu sei que eram muito unidas. Eu ainda sinto falta de Kelly. Só estava tentando ser amável.

            Sam respirou fundo.

            — Está bem. Seja amável. Mas acredite em mim: nem a amabilidade nem a compaixão matam demônios. É mais provável que acabem matando você.

           Kit fez uma careta.

           — Faço o que posso — respondeu por fim.

           Sam não podia ler mentes, mas sabia que Kit estava pensando que ela era uma imbecil.

           — Bom. Papai Nick ficará orgulhoso de você. Enfim, o que está acontecendo? — Sam aproximou o jornal. Seus olhos dilataram quando viram a fotografia de Rupert Hemmer na capa e o título: “Hemmer compra um estranho manuscrito celta por 212 milhões de dólares”.

           Ela animou-se imediatamente. Na noite anterior houve um leilão na Sotheby’s, e Hemmer havia adquirido uma página de um manuscrito considerado o texto escrito em língua celta mais antigo jamais descoberto. Sam deixou escapar uma exclamação de surpresa ao continuar lendo. Os historiadores afirmavam que a página era parte do Duisean, um livro sagrado muito antigo que em tempos medievais se guardava em um mosteiro da ilha de Iona. Alguns historiadores acreditavam que o santuário estava sob a custódia de uma irmandade secreta de cavaleiros pagãos e que o livro era a chave de seu poder nos tempos medievais.

           Sam levantou o olhar com o pulso acelerado. Sabia que o Duisean existia. De fato, acreditava-se que algumas de suas páginas circulavam ainda no presente. Quanto àquela irmandade secreta, ela também existia. Sam sorriu.

           — Você recebeu um convite para a festa de Hemmer esta noite?

           Kit assentiu.

           — Sim. Agora começa a fazer sentido. Sam, ontem à noite, Hemmer mandou transportar a página para o seu apartamento de cobertura em um veículo blindado. Ali existe uma grande coleção de arte, e aparentemente ele a guarda em um cofre impenetrável.

           Então era por isso iriam à casa de Hemmer. Poder localizar o que pudessem daquele livro antigo era uma das prioridades da HCU. Sam olhou para Kit.

           Nick provavelmente sabia muito mais sobre a irmandade secreta que qualquer outra pessoa na atualidade. No ano anterior, Brie foi sequestrada por um highlander medieval convertido ao mal. Brie também trabalhava no CAD e Nick era notoriamente obcecado por não “perder” seus agentes no tempo. Ele escolheu Sam para viajar ao passado para encontrar Brie. Depois de retornar com eles a Nova Iorque, sua prima fez um interrogatório completo. Os guerreiros chamavam a si mesmos Mestres. Na HCU eram chamados Mestres do Tempo.

           Brie, naturalmente, voltou para Aidan de Awe, por quem já estava apaixonada antes de ajudá-lo a voltar para o seio da Irmandade. Mas a HCU conseguiu grande quantidade de informação nova para agir, incluindo a possibilidade de que o Duisean estivesse em Nova Iorque e nas mãos de um grande demônio.

           A euforia de Sam aumentou. Acreditava no Duisean. As Rose também tinham seu livro, o Livro das Rose, que continha toda a magia e a sabedoria que lhes concederam os deuses e que era transmitida de geração em geração. O Livro, que se confiava sempre a uma bruxa da família Rose, estava agora em poder de Tabby. Um dos Highlanders foi buscá-lo para levá-lo de volta para ela. Por que os Mestres do Tempo não teriam também um livro de poder? Eram uma sociedade de guerreiros que jurou proteger a Inocência, e para isso precisavam de poderes de guerreiros. Era o mais lógico.

           — Hemmer é mau? — perguntou Sam categoricamente. Encontrar o Duisean, e ter certeza de que não caísse em mãos erradas, era prioritário.

           — Eu também me pergunto isso. Há um arquivo sobre ele, já verifiquei. É possível que tenha contatos entre os demônios.

           — Isso poderia fazer dele qualquer coisa: um demônio autêntico, um mestiço ou um possuído — Sam molhou os lábios. — Mas não importa. Ele não pode ter qualquer parte do Duisean. Merda! — começava a entender quão perigoso podia ser um demônio ou um meio demônio quando armado com o poder destinado aos bons.

           — Pode ser que a página não seja autêntica, Sam — assinalou Kit.

           — Sim. Temos que vê-la de perto. Onde estão os imortais mais próximos quando precisamos deles? — perguntou com ironia. Kit ignorou isso. — Entrar nesse cofre é quase impossível e não poderá ser esta noite — disse. — Ninguém entra nesse cofre sem Hemmer, ele é muito exigente na hora de escolher a quem mostrar.

           Sam cruzou os braços e as longas e esculturais pernas. Sua noção de passar um dia fantástico era competir em um triatlo. Corria maratonas, fazia kickboxing, pedalava e esquiava. Usava, como sempre, uma minissaia jeans, dessa vez de cor cinza e desgastada, com um cinturão com rebites e botas de cano alto e salto alto, apesar do calor que fazia.

           — Estou de acordo — disse Kit, sorrindo. — Você é quem tem mais possibilidades de persuadi-lo a deixá-la entrar no cofre.

           Baseado em seu histórico, estava claro que Nick pensava o mesmo. Apesar de sua nova esposa, Hemmer era célebre por suas infidelidades. Nessa noite, estava frito.

           — Ninguém vai persuadir Hemmer de nada esta noite — disse Nick Forrester entrando no escritório. Era um homem alto e bonito e uma autêntica lenda na agência por suas conquistas, demoníacas e de outro tipo, e porque corria o rumor de que estava há décadas trabalhando ali, apesar de parecer ter apenas trinta e tantos anos. Era muito controlador, o qual era uma chatice, mas também muito bom na hora de organizar e dirigir a guerra contra o mal. E estava disposto a morrer por qualquer de seus agentes. Sam detestava reconhecer, mas gostava disso. E ela o respeitava imensamente.

           Mas Nick era também incrivelmente machista. Olhou para as pernas de Sam, algo ao que ela estava acostumada. Esperava que os homens a olhassem.

           — Esta noite é estritamente para vigilância — disse Nick. — Ainda não sei se essa página é autêntica e ainda não estamos seguros de até que ponto Hemmer está contaminado. Quero fotos, senhoras, muitas e muitas fotos, para que Big Mama possa riscar planos arquitetônicos e mecânicos. E, já que vocês estão nisso, podem me trazer uma amostra do DNA de Hemmer — sorriu para Sam. — Limite-se a provocar sua curiosidade, por enquanto.

           — Sem problemas — respondeu Sam ficando de pé. Às vezes, os seres humanos contaminados tinham uma percentagem mínima de sangue demoníaco, mas isso bastava para que sua maldade ficasse assustadora. — Você também vai?

           — Não é boa ideia. Hemmer e eu não nos conhecemos, assim digamos que não é o momento adequado.

            Assim seria mais fácil para ele apanhar Hemmer de surpresa, pensou Sam.

           — Quero falar com você — Nick disse a Sam.

           Kit recolheu seu jornal e saiu.

           Nick cravou em Sam seus penetrantes olhos azuis.

           — Maclean está na lista de convidados.

           Sam teve que se esforçar para congelar seus músculos faciais.

           — Esqueça isso — disse ele. — Você deseja esse Don Juan e nós dois sabemos disso.

           Não apenas não desejava Maclean, mas também não o suportava. Sam seguiu Nick pelo corredor e entrou em seu escritório, consciente de que uma nova tensão perfurava seu corpo. Percebeu que fechou os punhos e imediatamente os abriu. A única coisa que queria de Maclean era vingança. Porque ele era um canalha.

           — Tire o vestido — ele disse.

           Ela fervia de raiva, a sós com ele em um elegante salão de sua mansão escocesa.

           — Você é um bastardo inacreditável.

           Ele riu.

           — Eu ouvi isso milhares de vezes. O que está acontecendo? A luz te dá medo?

           Sam não tinha nenhuma gota de celulite em todo o corpo. Levantou as finas alças do vestido de seda, deixando-o cair a seus pés.

           — Olhe bem, porque esta vez será a última.

           E, oh! Ele olhou.

           Em dezembro passado, Sam foi a Loch Awe para negociar com Ian Maclean. Ele era o filho de Aidan de Awe, e, como ele, tinha todo tipo de poderes extraordinários, incluindo saltar no tempo. Ela precisava encontrar sua irmã Tabby, aquela que pouco antes foi raptada por um Highlander em Nova Iorque. Mas desde que entrou na antiga mansão de Maclean, ele não deixou de fazer insinuações sexuais. Sam, entretanto, esperava por isso.

           A primeira vez que viu Maclean ele estava com Brie, que precisava de sua ajuda. Na época já lhe parecia um playboy cheio de arrogância e de sexualidade transbordante. Não se enganou. Maclean era rico, poderoso e incrivelmente sexy... E ele sabia disso. Nesse dia viram-se apenas cinco minutos, mas ele a olhou como se estivesse desejando arrancar sua roupa e fazer de tudo.

           Então ele a deixou ali, parada, sozinha, em uma esquina e levou Brie ao passado sem ela. Sam ficou furiosa: quando havia ação, não gostava que a deixassem de fora.

           Quando Tabby desapareceu no tempo com Guy Macleod, Sam foi atrás dela, então viajou para a Escócia decidida a oferecer um trato com Maclean. Um trato que não incluiria seu corpo. Não ia transformar-se em uma das centenas de mulheres usadas por Maclean. Ela seria a única a dizer “sim” ou “não”. Ele, entretanto, transformou seu encontro em outra competição sexual. Quando Sam aceitou a provocação e tirou o vestido, ele contemplou cada centímetro de seu corpo com uma certeza carregada de arrogância, como se soubesse que algum dia, seria dele. Como se ele pudesse esperar. E ela não. Então ele saiu do quarto.

           Ele foi embora.

           E não apenas isso: ele a deixou ali sozinha, completamente nua em seu salão, com as portas totalmente abertas para que seus convidados pudessem vê-la.

           Era difícil não cuspir de raiva, mesmo agora. Os homens não a deixavam. Os homens babavam por seu corpo, a maior parte músculos. Ficavam boquiabertos quando viam seu rosto, seus olhos azuis de longos cílios, seu nariz pequeno e reto, suas altas maçãs do rosto e sua mandíbula forte. Maclean, ao contrário, zombou dela. Quem ele acreditava que era?

           Sam acreditava em vingança. Seus rancores eram para toda a vida. Aquilo era uma guerra, embora ele fosse um dos mocinhos, ela iria ganhar.

           Embora seu poder fosse enorme e branco e ele fosse filho de Aidan de Awe, a sua lealdade não era clara. Sam sabia de uma coisa. Ele, definitivamente, era leal a si mesmo. Duvidava muito de que tomasse parte da Irmandade. Era muito egoísta.

           — Porque ele está na lista de convidados de Hemmer?

           Nick deu-lhe uma pasta.

           — Boa leitura.

           Sam se surpreendeu.

           — Temos um arquivo sobre ele.

           — Já conhece Big Mama — respondeu Nick, referindo-se ao supercomputador da agência. — Maclean é um ADR.

       O que queria dizer que ele estava na lista de recuperação automática de dados. Quando Big Mama encontrava uma pessoa que considerava corruptível, abria automaticamente um arquivo sobre ela, extraindo dados de todas as fontes possíveis, em um horário definido, todos os dias. Devido ao fato de que Ian era filho de Aidan de Awe e ele se converteu ao mal antes de redimir-se, o computador o marcou imediatamente. Só um administrador podia mudar seu status de corruptível.

           — Por que você não reconhece que está tentando puxar essa pequena e incômoda espinha pela raiz? — Nick parecia divertido.

           — Eu não vou arrancar os cabelos e você sabe disso. Estou pensando em usar meu Frisbee — respondeu ela. O disco tinha dentes que podiam separar a cabeça do corpo de uma pessoa apenas atirando-o suavemente, quanto mais outras partes do corpo.

           — Tome cuidado com o que pensa — comentou Nick enquanto se sentava na beirada de sua mesa. — Sinto dizer isso garota, mas ele não vai tremer de medo porque você coloca a mão entre suas pernas — Nick começou a rir.

           Sam ficou tensa, torcendo que Nick não tivesse visto a cena dela nua em meio aquele elegante salão escocês.

           — Se alguma vez eu colocar a mão entre suas pernas, ele lamentará muito, muito mesmo — replicou ela.

           Nick ficou sério e cruzou os braços. Seus bíceps se esticaram sob as mangas da camiseta escura.

           — Nunca vi você tão zangada.

           — Acho que na maioria das vezes eu sou humana — respondeu ela.

           Ele ignorou a resposta.

           — Maclean não faz parte dos mocinhos. Não é um Mestre, Sam, ele é um informante — advertiu-lhe.

           — Não sei por que, mas não penso assim — disse ela com ironia. Mas seu coração pulsava um pouco mais depressa, assim como antes de uma batalha... Ou durante o sexo.

           — Ele não joga conforme as regras. Mas isso você já sabe, não é?

           Sam pensou que certamente Nick sabia tudo.

           — Eu também não me ajusto às regras.

           Ele sorriu.

           — Por isso estou tão orgulhoso de você — voltou a ficar sério. — Não tenho provas de que ele se converteu. Estou desejando conhecê-lo. Mas você está quase fora de controle, Sam. E a raiva te enfraquece. Ele fará picadinho de você, se não se controlar.

           Ela estava furiosa.

           — Não estou zangada. Eu simplesmente não aguento esse filho de uma cadela. É insuportável. Ele faz você parecer um santo. Reconheço que o subestimei. Pensei que seria fácil de manipular. Mas não voltarei a subestimá-lo, nem voltarei a tentar negociar com ele. E eu não vou perder — acrescentou.

           Nick concordou com um brilho no olhar.

           — Me pergunto por que de repente ele comprou uma casa aqui.

       Sam ficou imóvel.

       — O quê?

       — Você me ouviu.

       — Ele está morando aqui?

       — Comprou uma casa de dezoito milhões de dólares em Park Avenue — Nick sorriu.

           Sam ficou chocada. O que fazia Maclean em Nova Iorque? Aproximou-se de uma janela e ficou olhando o tráfego e as pessoas que passavam pela rua Hudson.

     — Quando foi isso?

       — Em janeiro passado. Um mês depois de sua viagem a Loch Awe, mais ou menos.

       — Sua decisão em viver aqui não tem nada que ver comigo — disse Sam sem pensar.

       — Eu não disse o contrário — Nick olhou para pasta. — É uma leitura muito interessante, por sinal.

           Sam cruzou os braços. Seus instintos entraram em alerta. Ao chegar à casa de Ian em Loch Awe, ele estava esperando. Como era possível? Recordou a conversa entre ambos.

           — Me perguntava quanto tempo demoraria para me encontrar — ele parecia divertido.

           Ela sorriu com frieza.

           — Em seus sonhos.

           Ele serviu seu champanhe, ignorando seus outros convidados e sua noiva, que parecia tirada de um pôster da Playboy.

           — Bem-vinda ao meu lar.

           — Seu pai era o lobo.

           — Tal pai, tal filho — murmurou ele, cravando o olhar em seu decote. — Com vontade de me fazer alguma proposta?

       — Eu tive vontade de fazer isso desde a primeira vez que nos vimos.

           Era impossível que ele fosse para Nova Iorque por causa dela. Estava certa de que para Ian Maclean nenhuma mulher valia a pena esse tipo de esforço. Estava na cidade por outros motivos. Pelo Duisean? Não seria de estranhar.

           — Você é uma mulher extremamente atraente e sedutora. — disse Nick, pensativo. — E você sabe. E, além disso, é uma Matadora com muitos poderes.

           Sam ficou olhando seu chefe.

           — Continue me adulando e vou começar a me assustar.

           Ele sorriu.

           — Nada assusta você, Sam.

           Ele tinha razão.

           Nick acrescentou:

           — Não acredito que ele se instalou em Nova Iorque por pura coincidência. É perigoso e implacável — recolheu a pasta. — Mas você também é.

           Aquilo instigou o interesse de Sam.

           — Então, ele é o meu objetivo?

           — Se ele tiver más intenções, conto com você para que o neutralize.

            — Perfeito — ela tocou a pasta. — O que tem aqui?

     — Algumas coincidências interessantes.

     — Sou uma Rose. Segundo nossos ensinamentos, as coincidências não existem.

           Nick sorriu.

           — Eu sei. Maclean também está na lista de observação da Scotland Yard. Lembra-se do roubo do Van Gogh, em Melam, há dois anos?

           — Não, não lembro.

           — A pintura desapareceu de repente, no meio de um dia de trabalho. Segundo o zelador, não havia ninguém dentro da galeria naquela manhã, nem soaram os alarmes. Mas Maclean visitou a galeria uns dias antes.

           Sam passeou pelo escritório pensativamente.

           — Saltou no tempo, apareceu na galeria e levou o quadro. Pergunto-me se o quadro sobreviveu à viagem à velocidade da luz.

           — Adivinha quem espalha rumores de que o tem agora? — Sam aguardou e Nick disse: — Hemmer.

Sam teve um sobressalto.

— Muito bem. Isso explica a lista de convidados. Maclean roubou a pintura, vendeu a Hemmer e agora são amigos íntimos.

           — Ele é amigo íntimo de uns quantos colecionadores de arte de todo o mundo — Nick falava com ironia. — E está vinculado a cinco comerciantes de arte internacionais que, no total, perderam oito obras primas na última década. Conforme se crê, vários de seus amigos se achavam em posse dessas obras roubadas.

Sam ficou olhando para ele. Maclean estava utilizando seus poderes para roubar. Então foi assim que fez sua fortuna... E como comprou sua nova casa em Park Avenue, de repente compreendeu tudo.

           — Não acha que esta aqui simplesmente para cumprimentar Hemmer.

           — Não, não acredito.

           — Vai roubar a página — disse Sam em voz baixa.

           Nick se levantou.

           — E aposto que você fará todo o possível para impedir não é? Sam sorriu devagar.

       — Oh, sim — disse com prazer.

       O olhar de Nick endureceu.

       — Não o perca de vista esta noite. — Sam fez uma saudação militar. — Não há nada melhor que uma mulher rejeitada — Nick sorriu de repente. — De certo modo, me alegro que esteja zangada.

           — Não estou zangada. E lamento te dizer isso, mas tampouco fui rejeitada. Mas quando fico com raiva... eu me vingo.

           — Eu conto com isso.

 

            Maclean não estava em nenhuma parte.

           Sam e Kit se olharam, em pé no vestíbulo de mármore, em frente às portas douradas do elevador que as levou ao apartamento de cobertura. Hemmer construiu o edifício no seu estilo habitual: a elegância da Quinta Avenida, combinada com o esplendor de Las Vegas. Havia chão de mármore, espelhos dourados e colunas Coríntias[1]. Tudo cheirava a dinheiro, diante delas havia uma fila de convidados, e por toda parte se viam guardas de segurança vestidos de negro.

           Sam usava um vestido de jersey vermelho, sem alças, que se colava a todas as suas curvas, e sandálias douradas de salto agulha, colocou um dos braceletes de ouro de sua mãe no pulso direito, apesar dos serem um estorvo quando se lutava corpo a corpo. Os anéis, pelo contrário, eram muito úteis: podiam infligir dolorosas feridas no inimigo. Sam usava vários. A maioria das mulheres usava bolsinhas de mão, mas ela escolheu uma bolsa do tamanho de uma carteira, pendurada no ombro. Quase não pesava: continha apenas um cartão de crédito, seu telefone celular e seu batom vermelho, e não a atrapalharia. Usava também as argolas de diamante que sua irmã lhe deu no ano passado. Só as tirava para limpeza.

     Distinguiu Rupert Hemmer do outro lado da porta de sua casa, acompanhado de sua loira esposa. Foram saudando os convidados à medida que entravam. Mais à frente, o salão já estava lotado de gente. Sam, entretanto, não via Maclean entre os convidados. Seu coração pulsava estranhamente, em ritmo lento e firme, como antes de entrar em uma batalha. Maclean estava ali. Estava certa disso, e não porque Nick disse que estava na lista de convidados. Sentia sua presença em alguma parte do apartamento de cobertura.

           Percebia o poder branco, e o de Maclean era evidente.

           Sua aura exalava um cheiro forte de sexualidade e a tensão de seu corpo a convenceu de que Maclean estava perto. Estava desejando arruinar sua diversão. Deu uma cotovelada em Kit e mostrou com um gesto as minúsculas câmeras que havia nos cantos da sala. Kit seguiu seu olhar. Depois apontou seus anfitriões.

           — Ela não é menor de idade?

           Sam riu e olhou seu anfitrião, que estava muito bonito e bronzeado, com seu smoking negro, a plástica no rosto, óbvia, e o cabelo tingido de um curioso tom de castanho médio com o que os homens mais velhos tentam disfarçar o cinza. Devia ter perto de sessenta anos e embora tivesse passado pela sala de cirurgia e estivesse em plena forma, sua esposa aparentava vinte... se muito. Usava um vestido de noite rosa chiclete que, mais que um traje, parecia uma segunda pele. Sam reconheceu como um Versace. À distância Rupert emanava riqueza e arrogância, mas não o mal. Sam era capaz de perceber o mal com a mesma facilidade que o poder branco, e suspeitava que Hemmer fosse humano, embora tivesse umas poucas gotas de sangue demoníaco.

           Por fim chegou à vez de cumprimentá-las. Ao olhar para ela, os olhos do Rupert dilataram, cheios de interesse. Olhou com cautela seus exuberantes seios, que, diferentes dos de sua mulher, pareciam naturais, e logo contemplou suas longas e firmes pernas. Depois fixou o olhar em Kit, que colocou um vestido clássico, justo e negro, e batom. Sorriu-lhes lentamente.

           — Vocês devem ser Sam Rose e Kit Mares, do World Media.

           Sam notou que Becca Hemmer não se importava que seu marido olhasse com desejo para outras mulheres. E por que se importaria? Sam leu algo sobre os Hemmer enquanto se vestia. Ela era jovem, linda e bastante inteligente para ter assinado um acordo pré-nupcial que a transformava em uma das mulheres mais ricas da cidade, acabasse como acabasse seu matrimônio. E, ao que parecia, Becca gostava de se divertir tanto quanto seu marido.

           Sam a considerou irrelevante e sorriu para Hemmer, olhando-o com desafio. — As mesmas — estendeu-lhe a mão. — Sou Sam Rose. Perguntava-me quando nos conheceríamos por fim, senhor Hemmer.

           Ele estreitou sua mão calorosamente.

           — Todos meus convidados tem ordem de me chamar de Rupert.

           — Rupert — murmurou ela. — Faz muito tempo que não me dão ordens.

       Ele sorriu levemente ao captar a insinuação.

       — Que interessante — disse, e acrescentou:

       — Se eu soubesse que no World Media havia publicitários iguais a vocês, acho que deixaria me convencerem antes com mais facilidade a entregar-lhe meu negócio.

           Sam se perguntou se ele as teria descoberto.

           — O resto da equipe está aqui?

           — Acredito que sim — murmurou ele. — John Ensign e Charles Dupre foram os dois primeiros a chegar.

       Sam sentiu a tensão de Kit.

       — Jack Ensign — ela corrigiu casualmente. — Nós o chamamos de Jack.

           — Ah, sim, claro, me enganei. Bom, entrem e sirvam-se de champanhe. Possivelmente logo possamos conversar um momento sobre o projeto. Estou desejando ouvir suas propostas.

                          — Estou ansiosa por compartilhar. — Sam sorriu amavelmente para Becca antes que Kit e ela entrassem na enorme sala de estar enfeitada com lustres de cristal e ouro, e modernas cadeiras estofadas em diversos tons de branco. Nick disse que haveria quase duzentos convidados, e Sam calculou que não se enganara. Os homens foram de smoking e as mulheres, algumas delas com vestidos de noite, como Becca, ostentavam joias chamativas. Os garçons vestidos de branco passeavam de um lado a outro levando bandejas de prata reluzente, carregadas com refinadas taças de champanhe e aperitivos. Sam demorou só um momento para chegar à conclusão de que Maclean não estava no salão. Já estaria dentro do cofre? Estremeceu. Estava desejando investigar isso. Seu pulso acelerou.

 

           — Acha que ele engoliu? —murmurou Kit.

           — Parece que suspeita de algo — mas na realidade ele não dava a mínima para seu anfitrião.

       — Teve tempo de ler algo sobre esse projeto?

       — Não, e, além disso, pretendo evitar Hemmer. De qualquer maneira, com tanta gente não acho que seja difícil livrar-se de um tête-à-tête. Você está bem? Vou explorar um pouco por aí.

           — Sim, estou bem. Tome cuidado. Hemmer fede.

           Sam sorriu e se perdeu na multidão. De repente, um brilho rosado chamou sua atenção, voltou-se e viu que Becca avançava sozinha entre os convidados, o que não era fácil, levando-se em conta que constantemente a paravam para saudá-la e felicitá-la. Sam virou para tentar localizar Hemmer. Finalmente o viu: estava ainda na porta, conversando com o prefeito e com uma famosa jornalista de televisão, voltou-se para Becca bem a tempo de vê-la escapulir do salão, passando junto a dois enormes guardas de segurança.

           Aonde estava indo? Não parecia das que fugiam das festas. Sam conseguiu encontrar Kit.

     — Preciso que distraia os guardas para que eu possa vasculhar o resto da casa.

     — Com esse vestido, você poderia distrair muito melhor que eu.

       — Deixa de se subestimar — respondeu Sam sinceramente.

           Um momento depois, Sam se colocou não muito distante da porta por onde Becca saiu, onde continuavam os dois guardas. De repente, uma mulher gritou perto da porta:

           — Roubaram minha bolsa! Alguém acaba de puxar minha bolsa das mãos!

           Os dois guardas da segurança se precipitaram para ela e Sam aproveitou a ocasião para escapulir pelo corredor. Ali reinava a calma e a iluminação era muito fraca. Em frente a ela havia um elevador que sem dúvida levava aos aposentos privados de Hemmer. Passou rapidamente adiante, com o batom na mão. Na verdade, era uma câmera fotográfica. Começou a fazer fotos enquanto passava por uma biblioteca e uma sala multimídia. Não temia se deparar com Becca. Tinha quase certeza que foi para o andar de cima.

           Passou em frente a um escritório e chegou ao final do corredor. Em frente a ela havia uma piscina olímpica coberta, rodeada de janelões. A sua esquerda havia uma enorme porta de aço.

           Encontrou o cofre.

           O poder de Maclean parecia chamá-la, ardente e tangível. Mas não vinha daquele cofre. Sam fez algumas fotografias, consciente de que a estavam gravando: havia micro câmeras de vídeo por toda parte. Tomou cuidado de não se aproximar muito, para o caso de existir sensores de movimento e algum alarme ser acionado.

           Quando acabou, guardou a câmera. Maclean estava perto, mas onde? E onde estava Becca? Estava claro que subiu. Mas Sam não acreditava que tivesse ido mudar de sapatos.

           — Que menina malvada — murmurou. Não seria surpresa encontrá-los juntos, pensou. Certamente Maclean se divertia trepando com a mulher de seu anfitrião.

           Sam voltou sem fazer ruído pelo mesmo caminho que seguiu, com os sentidos alerta. Não se apressou: cedo ou tarde o encontraria. O elevador estava o bastante longe do salão para que pudesse entrar facilmente nele sem que a vissem. Era, além disso, muito silencioso. Entrou nele com o olhar fixo nas costas dos guardas, mas nenhum deles se virou. Tocou o único botão que havia. O elevador subiu para o último andar do edifício.

           Sam percebeu o sexo quente antes de vê-lo. Ela o sentiu. O ar parecia mais denso e mais úmido. Estava impregnado de desejo e de testosterona. Muitas mulheres deixariam tudo para estar com Maclean e Sam podia ouvir Becca agora no auge. Parou. A porta de um dos quartos estava entreaberta. Os gemidos de Becca se transformaram em soluços incontroláveis. O coração de Sam pulsava com violência. Seu corpo ficou rígido. Ela empurrou a porta.

           Esqueceu como ele era bonito. E como era incrivelmente sexy. Becca soluçava, presa no prazer, tombada de barriga para baixo sobre a cama, com a saia levantada. Maclean estava atrás dela, completamente vestido. Penetrava-a com força, ritmicamente, a cara crispada, ao mesmo tempo dura, fria e quase cruel. Estava absorto em seu próprio prazer.

           Becca perdeu o controle. Ian Maclean não.

           Sam molhou os lábios, impelida a olhá-los. Como era possível que esquecesse aquele rosto tão bonito? A maioria dos homens belos pareciam efeminados. Maclean não. Apesar de seus olhos cinza, de longas pestanas, e de seu nariz quase perfeito, tinha a mandíbula robusta e as maçãs do rosto altas. Mas não era apenas um rosto bonito. Sam nunca o havia visto nu, mas sabia que seu corpo era musculoso e duro. E, além disso, seu potente impulso sexual. Nesse sentido, Sam reconhecia nele uma alma gêmea. Maclean tinha uma sexualidade poderosa, possivelmente insaciável.

           Seria difícil de agradar.

           Os soluços da Becca enchiam o quarto. Maclean continuava penetrando-a em silêncio. Sam sabia que foi fácil seduzir Becca. Ela apostava qualquer coisa que Maclean nunca deu valor ao seu dinheiro.

           Ela respirava com dificuldade. Uma espantosa tensão a consumia. Mas, mesmo assim, havia uma mulher que Maclean não poderia seduzir.

           Ela deixou escapar um som rouco, único. Ele olhou para ela.

           Assim que seus olhares se encontraram, Sam compreendeu que ele não ficou surpreso ao vê-la. Um instante depois viu que a luxúria não o havia cegado. Seu olhar continuava cinza e claro. Enquanto o olhava fixamente, ele começou a sorrir como se fosse dono de um delicioso segredo.

           O coração de Sam deu um salto.

           — Você teve seu tempo — murmurou ele, afastando-se de sua amante, que continuava ofegando e finalmente desmaiou sobre a cama.

           Sam tentava assimilar o fato de que, assim como em Loch Awe, Maclean estava esperando por ela. Mas seus pensamentos coerentes se dissolveram quando ele levou as mãos às calças desabotoadas. Sam olhou para lá. Seu coração bateu trovejando. Esqueceu de respirar.

       Ele sorriu lentamente enquanto subia por completo a braguilha.

           Usava um anel de prata ali.

           Sam viu muitos piercings, é claro. Mas não ali... Nem assim.

     — Alguma coisa comeu sua língua? — perguntou ele, zombador.

     Ela tragou saliva e saiu de seu estupor.

     — Está se divertindo? Porque eu lamentaria ser o motivo de ter arruinado sua festinha.

           Mas ela desejava limpar o suor do decote e da testa. Seu corpo se rebelou. Pelo visto, não havia nada para se preocupar: seu instinto sexual continuava ali.

           — Com calor? — Maclean seguiu com o olhar seus dedos enquanto ela enxugava o suor. — Estou certo que não é a primeira vez que vê um piercing em um pênis.

           Sam sentiu que seu débil sorriso se evaporava.

           — Grandes boas-vindas, Maclean. Pena que eu não goste de voyeurismo. — Ela tentava mostrar-se arrogante e despreocupada. — Bonita joia.

           Ele levantou as sobrancelhas enquanto se aproximava.

           — Reconheça. Eu a excitei Sam, e você adora olhar.

           Sam percebeu que Becca se levantava precipitadamente da cama e corria para a porta. Tragou saliva. A fuga de Becca lhe deu o tempo que necessitava para recuperar-se.

           — Foi um show decente — respondeu quando recuperou a compostura. — Não vai atrás dela?

           — Não, para que, se você está aqui? — respondeu ele, em pé ao lado dela.

           — Bem, não sei. Para irritar Hemmer? Para continuar tendo uma pessoa íntima nesta casa? — “Porque tem o costume de me deixar paralisada?”.

           Ele riu.

           — Não me importa o que Hemmer pensa, e não preciso de Becca. Sei que você gosta de meu anel, mas e o resto da mercadoria?

           “Mostre-me a mercadoria”. E ela baixou o vestido. Tentava fazer ele recordar aquele momento: sua posição de poder e a humilhação que se seguiu.

     — Sempre gostei muito de homens com olhos doces, Maclean.

           — Mas nunca viu, ou verá, olhos doces como os meus.

           Infelizmente, Sam ficou completamente sem fôlego.

       — Está muito seguro de você mesmo, não é?

       — Muito. — Seus olhos cinza continuavam com uma expressão zombadora. Inclinou-se e murmurou: — Pode tirar o anel quando quiser, Sam, diga-me quando e onde.

           Já a abandonou antes, mas dessa vez ele estava correndo atrás dela. Sam tinha dificuldade para pensar com clareza e não podia perguntar o por quê? E, maldição, era difícil afastar os olhos de seu olhar quente. Suas palavras intensificavam as correntes elétricas que chispavam na habitação.

           — Puxa! uma cantada. Na última vez não parecia muito interessado, porque não concede essa honra à sua amiguinha?

     — Porque prefiro conceder isso a você — ele parecia divertido. — Para compensar pelo meu mau comportamento em Loch Awe.

           Sam tentou não pensar em tirar aquele anel e tocar seu membro. Esqueceu a atração que se agitava violentamente entre eles, contra sua vontade. Mas não esqueceu seu último encontro. Oh, não. Ela nunca esqueceria.

           Sabia que, no fundo, Maclean estava rindo dela. Ele não se arrependia absolutamente.

           — Eu não gosto que os homens tentem dar em cima de mim — respondeu, cortante. — Sou eu quem toma a iniciativa.

           Ele torceu a boca.

           — Claro. Você gosta de seduzir garotos. Ou devo dizer bonecos?

           Ele estava certo.

     — Você tem algum problema com as mulheres fortes, Maclean?

           — Tenho sim. Eu gosto das mulheres suaves e ardentes. E nós dois sabemos que você tem um problema com os homens fortes.

           Sam sorriu devagar.

           — Meu problema é que nunca conheci um tão forte quanto eu. Sobretudo, na cama.

            Ele sorriu amplamente.

     — Quem é o arrogante agora? Quando estiver preparada, descobrirá o quanto esta equivocada.

            Sam tinha a inquietante sensação de que Maclean seria a viagem de sua vida.

     — Eu sempre estou preparada... Exceto com descarados com um ego tão descomunal quanto o seu.

     — Ora — respondeu ele. — Então você não me perdoou por Loch Awe. Está ofendida.

   — A verdade é que não lembro o que aconteceu em Awe — ela retrucou.

           Maclean riu.

     — Claro que lembra. Eu a deixei nua no meu salão, em vez de suplicar seus favores, como esses seus menininhos. Não me arrastei. Não ofeguei, nem babei. E não concedi o que você queria. Estava furiosa comigo. Vamos, Sam, nós dois sabemos que tipo de mulher você é. Nunca esquece, nem perdoa. E nós dois sabemos que você não me esqueceu.

           Sam se enfureceu.

   — Francamente, não te dediquei um pensamento nenhuma só vez desde dezembro — mentiu. — Seu enorme ego poderá lidar com isso?

   — Meu enorme ego pode lidar com qualquer coisa... De qualquer maneira, eu quero você.

   — Eu vou passar... como na última vez.

   — Então você recorda da última vez — disse ele com suavidade. — Quando não te dei a oportunidade de dizer não.

            Ela tremeu de fúria.

           — Tem certeza que não me pareço com um troféu? — acrescentou Maclean. — Assim não haveria perigo de que esquecesse esta noite.

           — Não. — Não sentiu satisfação ao dizer que não. Por mais zangada que estivesse, sabia que passaria muito tempo sem que esquecesse que o viu com Becca. — No que me diz respeito, você não é nenhum prêmio, Maclean, não importa o que pense.

           Ele encolheu os ombros com indiferença e murmurou:

          — Como sabe, se não provar a mercadoria?

           Sam virou para ir embora.

          — Sim, claro, você é o melhor que existe. Eu nunca conheci um homem que acreditasse ser um autêntico presente divino — replicou por cima do ombro.

            Maclean a agarrou pelo braço. Sam se viu obrigada a parar e seus olhares se chocaram, o de Maclean não vacilou.

            — Eu sou o melhor.

            Suas palavras a fizeram desfalecer um momento. Queria replicar, mas ficou ali, recordando sua expressão de um momento antes. Becca parecia estar tendo um orgasmo sobrenatural enquanto ele procurava sua própria satisfação quase com esforço. Sam ouviu dizer que o sexo com os quase imortais era totalmente distinto: que o prazer era infinito. Não acreditava nisso, na realidade, mas estava certa de que Maclean era muito bom na cama... quando estava inspirado.

           Com ela, entretanto, nunca teria oportunidade de demonstrar isso.

            — Você não voltará a desejar um desses bonecos — acrescentou ele em voz baixa.

            — Você está equivocado — respondeu ela no mesmo tom. — Pode ser que algumas mulheres encontrem atração em seu ego, mas eu não. Diminui qualquer outro atributo que você possa ter.

           Ele sorriu.

           — Meu ego não pode diminuir isso em que está pensando.

       Ela escapou do seu alcance.

           — Você é bem dotado. Grande coisa.

            — Está com água na boca.

            Era hora de ir embora. Sam virou de novo, disposta a sair, mas então lembrou que não devia perdê-lo de vista. Recordou também o que havia no cofre de Hemmer, e o que queria a HCU. Olhou lentamente para Maclean.

           — Vamos falar de negócios. Como é cofre?

           Ele levantou as sobrancelhas.

           — Eu não sei.

           — Por que não?

           Ele mostrou a cama.

           — Estive ocupado. Você estava demorando muito e eu decidi começar a noite com um aperitivo. Estava esperando você.

            — Você viu a lista de convidados?

     Maclean encolheu de ombros.

    — Nossos caminhos estavam destinados a cruzar cedo ou tarde.

 — Eu não frequento os mesmos círculos que Hemmer.

— Agora sim — respondeu ele tranquilamente. — É uma Rose. Sua prima se casou com meu pai. Era natural que fosse atrás de Hemmer.

   Sam ficou olhando para ele. Finalmente esqueceu seu atrativo viril. Ele estaria em contato com Brie?

— A página é autêntica?

— A página? — Maclean ergueu suas sobrancelhas morenas. — Não sei. Rupert parece acreditar que sim.

   Deve ser, para gastar duzentos milhões de dólares nela, pensou Sam.

— Tem certeza de que não quer tomar uma bebida comigo? Poderíamos falar de nossos interesses comuns — seus olhos brilhavam, divertidos.

Sam olhou para a cama.

— Tenho certeza.

— Você mudará de ideia.

— Se você diz... — sorriu pra ele, zombadora. — Ouça Maclean... Eu serei a primeira que entrará nesse cofre hoje... Quando Rupert me oferecer uma visita privada, nesta mesma noite.

Ele parecia se divertir.

— Sério? E se eu ofereço uma visão, agora mesmo?

Ela ficou quieta.

— Está de brincadeira?

Ele baixou um momento suas longas pestanas.

— Quero compensá-la.

Sam quase acreditou por um momento. Sabia, entretanto, que ele tentava jogar com ela. Esse jogo, não entanto, podiam jogar dois.

— Me leve para dentro do cofre e provavelmente eu te perdoe.

Maclean levantou as pálpebras e a olhou nos olhos. Ao ver que não se movia, nem dizia nada, Sam passou ao seu lado, empurrando-o, e ele entrou atrás dela no elevador.

— Uma advertência — disse tranquilamente, enquanto começavam a descer. — Eu sempre consigo o que quero.

— Muito bem. Isso faz com que nós dois tenhamos algo em comum! — O elevador era muito pequeno para os dois. Seu corpo grande e masculino enchia o pequeno espaço. Mas Maclean ia introduzir Sam no cofre, e ela devia se concentrar nisso.

   — A propósito, que tal sua nova casa?

— Porque não passa lá e vê com seus próprios olhos?

Sam pensou que aquilo valia uma viagem à parte alta da cidade.

— Alguma peça de arte interessante que possa me mostrar? Possivelmente uma ou duas obras roubadas?

Ele voltou a sorrir.

— Então, esteve pensando em mim.

— Isso se chama fazer o dever de casa.

Maclean sorriu, satisfeito. Quando as portas do elevador se abriram, Sam passou a seu lado, irritada novamente. Talvez o problema fosse o físico de Maclean, parecia muito com seu pai, Aidan de Awe, o que o deixava quase irresistível. Se não tivesse o cabelo escuro e abundante, os olhos cinza claros e faiscantes, as profundas covinhas que apareciam quando sorria e as feições de um Adonis, sua sexualidade não seria tão avassaladora. Seria simplesmente um cara bom.

Mas parecia um dos Deuses dos quais descendia. Sam seria uma mentirosa se dissesse que não era um dos homens mais belos que viu... E nem sequer o viu nu.

Bem, ela viu a parte que contava mais, pelo menos para ela. Pensou no anel de prata e de novo ficou sem ar. Aquele piercing devia ter doído uma barbaridade.

— É de aço — disse ele em voz baixa. — Não de prata.

Sam o olhou bruscamente. Ele leu seu pensamento, demonstrando que tinha poderes telepáticos.

Sam se dirigiu para o cofre. Queria se concentrar na tarefa que tinham nas mãos, mas mesmo assim estava muito consciente de sua proximidade. A parte de trás do apartamento de cobertura de Hemmer continuava tão deserta como antes. Sam parou e mostrou a porta de aço que havia diante deles.

— Posso sentir o bem e o mal. E agora não sinto nada.

Maclean lançou um olhar que ela não conseguiu decifrar; depois tocou o trinco metálico da porta. Sam esperava que saltasse no tempo e aparecesse no interior do cofre, com ela.

— O que está fazendo? — perguntou com aspereza, temendo que soassem os alarmes. Mas não se ouvia nada. Ele sorriu e girou a alavanca. A porta de aço abriu. Maclean se virou para ela.

— Vamos.

— Como fez isso? — perguntou Sam, surpresa.

Ele sorriu devagar.

— É tão fácil como saltar no tempo.

Estava claro que usou seus poderes mentais para abrir a porta e desativar os sensores e os alarmes. Era um truque incrivelmente útil. Sobretudo, para um ladrão.

— Então, foi assim que roubou o Van Gogh?

Ele lançou um sorriso modesto e indicou educadamente que passasse primeiro.

As luzes internas do cofre acenderam ao abrir a porta. Sam passou ao seu lado e observou surpresa as filas e filas de obras primas deslumbrantes que havia nas duas paredes. O cofre era uma espécie de túnel comprido.

— Por que ele ia querer ter sua coleção fechada aqui? — embora não fosse muito ligada à pintura, reconheceu obras de diferentes artistas que viu no Metropolitan, no Whitby e no Guggenheim. Se não estava equivocada, Hemmer tinha uma coleção de incalculável valor.

Maclean não respondeu e ela olhou para ele, que afrouxou a gravata e estava desabotoando o colarinho da camisa como se estivesse desconfortável, dentro do cofre, cuja temperatura era cuidadosamente controlada.

— Hemmer sente a mesma paixão pela arte que os demônios pelo sexo e a destruição.

— Ele é maligno?

Lançou a ela um olhar que parecia dizer que sim.

— Quanto ele pagou a você pelo Van Gogh? — perguntou ela, fingindo despreocupação.

Sua resposta foi imediata.

— Trinta milhões de dólares — sorriu e voltou a puxar o colarinho da camisa. — Uma pechincha.

Sam bufou. Olhou de novo ao seu redor com cautela.

— Alguma coisa está errada — disse ela, sem saber o que sentia exatamente. Aguçou seus sentidos e percebeu um leve sopro de maldade que avançava para eles.

— Você sentiu isso?

Ele concordou com a cabeça.

— É aqui dentro.

Sam o ignorou e tentou isolar o resto de suas sensações. Sentia um torvelinho de poder sagrado. Parecia chamá-la. Estava a sua esquerda, virou-se, tentando segui-lo, e se encontrou cara a cara com uma frondosa paisagem do campo na europa, certamente do século XVIII. Começou a removê-la.

           Maclean se aproximou para ajudá-la. Assim que levantaram o quadro, apareceu a página do Duisean.

           Estava emoldurada e sob um vidro, mas o velho e descolorido pergaminho brilhava ainda, cheio de poder e de luz. Algumas das palavras escritas nele pareciam tridimensionais.

           — É autêntica — disse Sam com voz rouca. — Mas seu poder está distante de alguma forma.

           — É um poder contido — comentou Maclean pensativamente. — Acho que vocês precisam de um feitiço para libertá-lo.

           Olharam um para o outro. Sam estava pensando em Tabby quando Ian disse:

            — Hemmer.

           — Você tem certeza? — Sam não ouviu a aproximação de ninguém, nem pressentiu o perigo. Enquanto colocavam rapidamente o quadro no lugar, Maclean disse:

           — Meus sentidos são maiores que os seus.

           — Então talvez devamos nos apressar — Sam saiu rapidamente do cofre, seguida por Ian, consciente agora das vozes no corredor.

           Maclean fechou a porta de aço e ela ouviu o estalo do fechamento automático. As vozes ficaram mais altas e Sam ouviu um ruído de passos que se aproximavam.

           Ela não pensou duas vezes: agarrou Maclean pela gravata e a usou de correia para puxá-lo pelo corredor, afastando-se do cofre. Empurrou-o contra a parede, com a gravata ainda na mão. Ele compreendeu o que ela estava prestes a fazer e sorriu, presunçoso. Sam apertou-se contra ele e seus olhares se encontraram. Os olhos de Maclean cintilavam.

           Sua maciça ereção penetrou entre eles.

           Sam o apertou mais ainda contra a parede, consciente da dureza de aço de seu corpo. Ficou nas pontas dos pés até que seus olhos ficaram na mesma altura. Ele esperou, esboçando um sorriso triunfal.

           Sam o beijou.

           Abriu a boca e se apoderou da sua. Assim que seus lábios se fundiram, seu coração deu um salto e pareceu alojar-se em sua garganta. Hemmer e seus acompanhantes dobraram a esquina. Sam continuou atenta a eles com uma parte de sua mente, mas com a outra se concentrou em Maclean. Seu corpo, pelo contrário, estava absolutamente entregue a ele.

           Ele tinha um gosto tão bom... E tocar seu corpo duro e rígido era ainda melhor. O desejo era tão brutal, tão avassalador, que se sentia em estado de choque. Depois, não pôde suportar mais. Fechou os olhos, esqueceu Hemmer e o obrigou a abrir a boca. Ele riu. Sam introduziu sua língua. Seu corpo ameaçava explodir.

           Ele a agarrou pelos quadris, girou em torno dela, empurrou-a contra a parede e assumiu o beijo. Apertando-se contra ela, colocou uma de suas enormes coxas entre suas pernas até que Sam montou sobre ele. Ela agarrou seus largos ombros e continuou beijando-o ansiosamente. Era tão delicioso que não queria parar.

           — Me perdoem — disse Rupert Hemmer.

           Enquanto suas línguas se entrelaçavam e ele subia mais ainda a coxa, cravando-a contra a parede, Sam compreendeu que tinham que parar. Mas nenhum homem a imobilizou assim, contra a parede, nem foi tão dominante. Enquanto o beijava, notou um sabor de sangue. Ele deixou escapar um som triunfal e depois se separou dela.

           Com as costas ainda coladas à parede, Sam abriu os olhos e ele a deixou deslizar por sua perna. Olhou seus olhos ferozes. Maclean se afastou dela.

           — Eu sempre consigo o que quero — murmurou.

       Ele estava rindo dela. Sam estava chocada. Que demônios aconteceu?

           Maclean virou para Rupert, afrouxando de novo a gravata. Atrás dele havia dois homens e uma mulher que os olhavam com curiosidade.

           Sam respirou fundo e se ergueu, afastando-se da parede.

           — Minha casa é isso: minha casa. Os convidados devem permanecer nos salões de recepção — o desagrado de Hemmer era óbvio.

           Sam se adiantou. Hemmer a olhou em seguida com interesse. Ele não era imune a ela ou o que ela estava fazendo. Sam usaria isso.

           — Lamentamos, senhor Hemmer. Não sabíamos que o resto da casa estava fora dos limites.

           Hemmer devolveu um sorriso tenso. Voltou a olhar seu vestido curto.

           — Os seguranças os acompanharão de volta à festa, senhorita Rose.

           Outro paspalho rico e luxurioso pensou Sam.

           Enquanto Hemmer falava, dois enormes guardas de segurança vestidos de negro dobraram a esquina. Sam assentiu com a cabeça, consciente de que Ian estava atrás dela. Enquanto seguiam aos guardas, começou a pensar de novo racionalmente.

           Se deixou levar e perdeu o controle. Aquele beijo devia ser apenas um truque. A atração que sentia por Ian era perigosa.

           Tinha que encontrar uma maneira de assumir o comando.

 

Sam se aproximou do garçom mais próximo, pegou uma taça de champanhe e bebeu. Depois pegou outra.

Maclean esticou o braço por cima de seu ombro para pegar uma taça. Então a olhou e levantou a taça com entusiasmo.

           — Você não ganhou ainda.

           — Se você deixar que eu faça do meu jeito, você é que sairá ganhando, Sam.

Como eu já disse, todos os homens se acham os melhores.

           — E como já disse a você, eu sou o melhor.

           Ela bebeu sua segunda taça e a devolveu à bandeja.

           — Você vai roubar a página.

           Ian sorriu.

Cuidando para me deter?

Eu mal posso esperar — respondeu Sam, sorrindo de volta.

 

O que você vai fazer com isso? — perguntou Kit em voz baixa.

           Era tarde. A festa estava chegando ao fim. Sam passou várias horas observando Maclean, que, embora bebesse e olhasse algumas mulheres atraentes, estava quase sempre sozinho. Ele estava claramente solitário, mas isso não a surpreendia.

           Nick ordenou que o vigiasse de perto e, sabendo que Ian se propunha a roubar a página mais cedo ou mais tarde, Sam não pensava perdê-lo de vista. Acabava de segui-lo até o saguão do edifício.

           Sam pegou a bolsa, carregada com seus brinquedos preferidos, que Kit lhe entregava.

Obrigada.

            — Eu não gosto disto — disse Kit, olhando para Maclean.

           Ele tinha uma mulher em cada braço. Duas mulheres altas, jovens e chamativas. Estava claro que pensava em levá-las para sua casa para celebrar uma festa muito íntima.

           Sam não se importava com quem ele dormiria. A única coisa que importava para ela era impedi-lo de roubar o pergaminho. Ela pretendia grudar nele como cola. Ele não iria entrar naquele cofre sem ela.

           Sam e Kit continuavam ainda sob o toldo do edifício. Ele olhou para trás como se convidasse Sam. Ela sacudiu a cabeça e sorriu com frieza. Ian pareceu suspirar e se aproximou do meio fio para parar um táxi.

Está zangada? O que aconteceu esta noite?

                     — Nada. Ele é apenas um idiota, mas está a ponto de cair com toda a equipe. Amanhã nos vemos. Se eu chegar tarde será porque estou no Maclean, sem trocadilhos.    

— Acho que é perigoso, embora seu poder seja branco.

           Sam riu.

Sem brincadeira. O que você vai fazer?

           — Ainda ficaram alguns convidados, vou voltar a subir. Talvez Hemmer me note e mostre o cofre. Vou tentar puxar conversa com ele.

           — Ouça Kit... Para que se fixe em você, é necessário apenas que se esforce um pouco — nunca deixava de se assombrar como quanto modesta era Kit. Sam suspeitava que nunca dormiu com alguém, embora nunca falassem sobre isso. Kit voltou a entrar no lobby. Sam a saudou com uma inclinação de cabeça e olhou depois para Central Park West.

           Toneladas de táxis circulavam para a parte alta da cidade, mas todos iam cheios. Nenhum se dirigia à parte baixa. Era estranho, àquela hora. Deveriam estar quase todos vazios.

           Enquanto as duas garotas que foram com Maclean cochichavam e riam, bêbadas, Sam sentiu um calafrio, esticou-se e esquadrinhou imediatamente a área em busca de algum sinal de violência. Maclean também pareceu sentir, porque baixou o braço e olhou para além do tráfego.

           Sam viu então um casal do outro lado da rua, ao lado do parque. Corriam, seguidos por cinco figuras cobertas com mantos.

           As queimadas estavam em ascensão entre os crimes que se cometiam tanto na cidade quanto no mundo. Um estudo recente publicado pela Interpol mostrava que quase vinte por cento dos assassinatos cometidos no ano anterior foram por queimadas. Queimar vivos os inocentes se transformou em um dos passatempos preferidos das “gangs”. Os assassinos não eram inteiramente humanos: estavam possuídos pelo mal, e se conheciam popularmente como “subs”. A imprensa havia dado o nome de “caça às bruxas” aos crimes, porque os subs vestiam mantos e as queimadas pareciam coisa da Idade Média.

           Cinco jovens vestidos com mantos perseguindo um casal só podia significar uma coisa. Sam já corria pela rua, empunhando um estilete curto que escondeu no salto direito.

       Correr com saltos era uma droga, mas não ia parar por isso. Agarrou um dos meninos por trás, e ele gritou ao ser apanhado. Tentou apunhalá-la com sua faca e Sam lhe cortou o pescoço no instante em que dois de seus companheiros saltaram sobre ela.

           Sam soltou sua bolsa e lançou um golpe fatal na garganta de outro dos meninos. O menino caiu como uma pedra. Ao mesmo tempo, seu companheiro a apunhalou: a ponta de sua faca lhe roçou o braço e penetrou depois entre as costelas.

           Aquilo doeu. E ela não gostava de sentir dor. Furiosa, lançou um chute frontal e o menino saiu voando para o outro lado da rua. Sam se ajoelhou e tirou sua pistola de calibre 38 da bolsa. Ela vislumbrou Ian em pé na esquina. Ele estava observando tranquilamente ela dominar um bando de garotos demônios.

           Sua fúria transbordou. Não podia livrá-la de um dos demônios, ao menos?

           Sam sentiu alguém em suas costas, virou-se e disparou no momento em que a garota se jogava sobre ela. Tinha o rosto peludo. Garras de lobo cravaram em seu corpo. Sam disparou uma e outra vez. Demorou um pouco para matar a garota metamorfoseada. A mulher lobo caiu por fim a seus pés, morta.

Agh!

           Sam virou, mas antes que pudesse disparar contra o quarto adolescente possesso, ele arrancou a pistola da mão com um chute. A ira e o mal o faziam terrivelmente poderoso. Desequilibrada, Sam caiu de costas no momento em que o subs colocava as mãos em sua garganta. Ele começou a sufocá-la com intenção de estrangulá-la até a morte.

           Aquele seria um grande momento para a intervenção de Maclean, pensou Sam. Mas ele não fez isso. Sam descarregou um golpe com os nódulos na artéria carótida do menino; quando o menino engasgou, ela tirou a adaga que levava na liga em sua coxa e a afundou no peito dele. O subs desabou no ato sobre ela. Sam separou-se dele com um empurrão e se ajoelhou ao seu lado para ver se ainda estava vivo.

           Ele estava. Sam tirou seu celular de sua bolsa pequena e discou o número de emergências do CAD. Seu centro médico era tão clandestino como o resto da agência. Conhecido como Five, estava sempre de guarda. Levar um subs a uma emergência normal não era boa ideia. Os nãos comuns (e muitos no CAD o eram) também não podiam ser tratados em um hospital público. A imprensa começaria a especular. Os demônios puros-sangues se desintegravam poucos segundos depois de morrer, se os deixava intactos, raramente tinha que se preocupar com eles.

           Depois de ligar, Sam fechou seu telefone e olhou os corpos espalhados pela rua. Quatro crianças mortas, todas elas antes normais. Aquilo já era rotina. Os meninos possessos quase sempre fugiam de suas casas, e eram presas fáceis do mal.

           Sam olhou o menino que continuava vivo.

       — Tente não morrer. Com um pouco de ajuda dos deuses, talvez possamos devolvê-lo à sua família — falava sem emoção. Sabia desde fazia muito tempo que não convinha a ela sentir compaixão. Se começasse a se preocupar com quem vivia e quem morria, seria ela quem acabaria morta, e sem demorar muito.

           Ele lançou cuspe ensanguentado.

           — Ele está bem? —era a mulher que estava fugindo dos subs.

           O homem que estava com ela se ajoelhou junto a Sam.

           — Meu Deus, você é da polícia? Nunca havia visto nada igual! Você salvou nossas vidas!

           Sam sorriu com amargura. Olhou para Maclean, além do casal.

           Ele estava em pé na esquina, com as mãos metidas nos bolsos do smoking, e a olhava pensativo. Seus olhares se encontraram. Não tinha movido nem um dedo para ajudá-la. A ira de Sam se inflamou de novo.

           — Devemos chamar a emergência? — perguntou a mulher, preocupada.

       — Estou bem — respondeu Sam.

Quando começou a levantar, o marido a agarrou pelo braço para sustentá-la.

           — Você está ferida — ele disse, preocupado.

           Sam olhou seu braço ensanguentado e os rasgos no bojo de seu vestido vermelho. Tinha uma ferida no bíceps e outra nas costelas. Ardiam, mas estava quase certa de que eram superficiais.

           — Por que não vão pra casa? Tomem um conhaque por minha saúde. Sou policial federal — o FBI era seu disfarce. — Eu me ocupo disto.

           — Mas não podemos deixá-la aqui — disse o homem com firmeza.

           Sua mulher concordou energicamente, e começou a chorar.

           — Ela é tão corajosa — disse para seu marido. — Eu estava tão assustada...

           Ele a rodeou com o braço e se virou, sussurrando algo. Tinham quarenta e poucos anos, calculou Sam, e passou por sua cabeça que pareciam se amar de verdade. Que lindo! Voltou a olhar Maclean. Maldito idiota egoísta.

           As sirenes da ambulância sem identificação do CAD já podiam ser ouvidas. Maclean aproximou-se dela sem pressa. Sam olhou para a casa de Hemmer e viu que as duas garotas haviam desaparecido. Naturalmente. Aquelas bonequinhas estavam acostumadas a serem umas covardes.

           — Impressionante — disse ele, olhando seu vestido em farrapos.

           — Puxa! Como me alegro que tenha gostado do show — deu-lhe as costas e se ajoelhou para recolher suas armas e guardá-las em sua bolsa. Estava machucada, coberta de sangue, suja e ferida, e ele não tinha um só cabelo fora de seu lugar, limitando-se a olhar enquanto ela lutava. Que tipo de herói com superpoderes era aquele? Era inacreditável. Até um vilão teria intervindo.

           Levantou-se.

           — Obrigada por sua ajuda.

           Ele encolheu de ombros.

           — Você é uma garota resistente. Não precisava de minha ajuda.

           — Como se você tivesse se incomodado, de qualquer forma.

           — Quero você na cama, mas não morta.

           — Você sabe apaixonar uma garota — bufou ela.

           Maclean sorriu.

           — Qualquer homem gosta de ver uma boa briga. Pode ser que na próxima vez a ajude. Ou pode ser que eu seja seu próximo alvo — seus olhos brilharam.

       Sam teve a sensação imediata de que ele adoraria que ela lutasse com ele com todas as forças.

           — Não se preocupe, esse dia está chegando rapidamente.

           Sua resposta foi tocá-la.

       Sam ficou tensa quando o dorso de sua mão roçou a parte de abaixo de seu peito. Maclean levantou os pedaços do vestido vermelho. Ela conteve a respiração. Apesar da dor, um intenso desejo tomou conta dela. Sabia que ele deixou a mão sobre seu peito de propósito.

           Seu olhar era quase prateado quando baixou as pestanas e deixou cair os farrapos de seda.

           — Terá que cuidar desses cortes.

           — Isto não é a Idade Média. Ninguém morre por uns arranhões — replicou ela, mas estava tremendo e rígida pela tensão. Maldita tensão sexual.

           Ele esboçou um sorriso sarcástico.

           — Sei muito bem, Samantha. Eu vivo aqui, lembra? Não naqueles tempos bárbaros.

       Ela se irritou.

       — Meu nome é Sam. E não se preocupe, ninguém o tomará como um bárbaro medieval, Maclean. Só por um idiota egoísta. — Ele estava na defensiva? Ela pensou. Tinha a impressão que sim e não entendia por que.

           A ambulância branca do Five dobrou a esquina no cruzamento. Usava distintivos do hospital presbiteriano de Cornell. Sam deixou de pensar em Maclean e viu saltar da ambulância os paramédicos. Depois voltou a olhar para Maclean.

           Ele pareceu notar que suas conquistas dessa noite escaparam.

           — Você não precisa delas — disse Sam. Saiu para o meio-fio, consciente de que perdeu um dos sapatos. Amaldiçoando, parou um táxi. Segurou a maçaneta da porta e, enquanto a abria, olhou para Ian. — Entra Maclean.

           Ele arregalou os olhos.

           Sam manteve sua mente em branco.

           — Quero ver sua casa.

           Um lento e sedutor sorriso se desenhou nos lábios de Maclean. Ele deslizou para dentro do táxi e Sam subiu atrás dele. Ela fechou a porta. Quando ele se inclinou para dar a direção ao motorista, ela colocou a mão em sua bolsa.

           — 1101 da Park Avenue — disse Maclean.

           Sam fechou as algemas sobre um de seus pulsos. Ele se sobressaltou e cravou o olhar nela enquanto Sam fechava o outro lado das algemas sobre seu próprio pulso. Ela sorriu.

           — Isto vai ser divertido.

           Acabava de se algemar a ele.

           Maclean começou a rir, divertido. Ela pretendia desanimá-lo? Ele a desejava desde a primeira vez que a viu. Jamais esqueceria seu rosto. Aquelas características marcantes, aqueles olhos surpreendentes e aquele cabelo curto e loiro platinado. Esperava com expectativa o dia em que ela esfregaria seu rosto contra cada palmo de seu corpo...

           Levantou o pulso e disse:

           — Só tinha que me dizer isso Sam. Eu mesmo teria trazido às algemas.

           — Vamos ficar juntos esta noite — respondeu ela tranquilamente.

           Mas ele não a ouviu. Ao puxar suavemente as algemas, seu estômago se agitou e ele se sentiu enjoado. Circulavam a toda velocidade por Central Park West, e os majestosos edifícios começaram a rabiscar-se diante seus olhos, transformaram-se em sombras ameaçadoras...

           Ele não podia ter um flashback agora...

           Mas ele reconhecia aquelas sombras: as paredes estreitas e cansativas de um porão. O ferro em seu pulso estava fixado a uma parede. Ficou meses ali. Sua única companhia eram os ratos. Tinha nove anos.

           — O que está acontecendo, Maclean? — O está ocorrendo, Ian? Está com medo da escuridão? Dos ratos? De mim?

           Olhava para o demônio que o capturou. O demônio que o matou e depois o devolveu à vida para poder torturá-lo. E usá-lo.

           Ouviu uma risada suave e maligna.

           E embora não houvesse usado sua voz por vários meses, desde que gritou e gritou pedindo ajuda, suplicou: — Me deixe sair, por favor. Por favor. Farei o que desejar.

     — Bom, porque me ocorrem muitas coisas para fazer com um menino tão bonito quanto você — disse seu avô.

           — Maclean?

           Viveu horrorizado e torturado, preso em um medo infame, durante sessenta e seis anos. Mas ouviu Sam Rose e de algum modo conseguiu olhar para ela.

           Estava suando.

           — O que está acontecendo com você? — seus olhos azuis se moviam sobre ele. — Está tão excitado que ficou mudo?

           Seu tom zombador o fez voltar para o presente. Olhou-a e sacudiu o pulso de modo que as algemas se retorceram entre eles.

           — Claro que estou excitado. Estamos algemados.

           Ela ficou olhando para ele por um momento. Maclean estava quase certo de que ela não acreditava naquela desculpa. Mas não importava no que ela acreditasse. Sabia que o considerava egoísta e manipulador, e tinha razão. Só tinha interesse por uma coisa dela.

           O prazer era uma fuga. Nunca revivia o passado enquanto praticava o ato sexual.

           A primeira vez que viu Sam Rose, ela estava cruzando uma rua em Oban, Escócia, e os homens que passavam por ali tropeçavam em si mesmos ao olhá-la. O tráfego parou. Ele ficou com água na boca e seu pênis ficou duro como uma rocha. Soube em seguida que a faria dele. Nenhuma mulher resistia. Foi sincero ao dizer que sempre conseguia o que queria.

           Sentiu imediatamente seu poder de guerreira e a desejou ainda mais por isso. Quase todas as mulheres das que se servia eram ricas e entediantes: o mais emocionante que faziam era passear por Cartier. Agora sabia ainda mais dela. Era uma poderosa Matadora. Para ela, o dia chegava a seu apogeu quando lutava pela vida ou morte com o mal. Jamais esqueceria como a viu lutar com os adolescentes possessos, com seu vestido vermelho curto e seus saltos de agulha. Nunca viu uma mulher lutar assim. Sam teria derrubado sem esforço algum os cincos meninos possessos. E não teve medo. Maclean sentiria isso. O mal não a assustava.

           Assustava todo mundo.

           Ele se assustava.

           As lembranças voltaram.

Escondia-se debaixo de um montão de toalhas, tentando ficar tão pequeno quanto podia. Seu avô havia retornado e tinha convidados... e estava chamando por ele. O medo o deixava doente. Ele perdeu o controle de sua bexiga. Estava vomitando. Sabia o que iriam fazer com ele. Eles estavam entediados e ele seria seu entretenimento, até que saíssem para caçar Inocentes. Não havia onde se esconder, e eles não o permitiriam morrer. Ele ouviu Moray dizer aos seus captores que deviam mantê-lo vivo, a todo custo.

           Rezava por seu pai, suplicava que ele o ouvisse, que fosse resgatá-lo.

           A porta do banheiro abriu e as luzes se acenderam.

           Maclean estava suando e se sentia enjoado. Tinha o estômago tão tenso que parecia a ponto de explodir, lembrou-se que já não era um menino num cativeiro e que Sam Rose não era má. Ele já não estava encarcerado, nem indefeso. Não havia monstros esperando para devorá-lo; os convidados de seu pai não o esperavam para rasgar seu corpo. Aquilo era um jogo. E Sam Rose ia acabar em sua cama, debaixo dele, e seria ele quem iria cavalgá-la. Já não era prisioneiro. Era um homem livre. Rico, poderoso e dono de sua vida.

           Ela puxou com força as algemas.

       — Se saltar para esse cofre, terá que me levar com você.

           Maclean não sabia se as algemas a arrastariam com ele, se saltasse. Não precisava desse poder para entrar no cofre de Hemmer. Podia abrir as fechaduras e desativar os alarmes com a mente, mas isso Sam já sabia. Se ele tinha que saltar para entrar, não acreditava que tivesse coragem para fazer isso. A dor ainda o aterrorizava.

           Ian se virou para olhar pela janela do táxi, negava-se a voltar ao passado.

           — O que acha que é isso? Acontece que eu sei que uma pessoa que tem o poder de saltar pode levar outra com ela. Algumas algemas podem fazer o truque.

           Ele conseguiu sorrir.

           — Sério? E com quem você vai saltar?

           Os olhos de Sam se arregalaram, fixos nele. Seu olhar era muito escrutinador, muito direto. Ian não era bom em ler pensamentos. Aquele poder ia e vinha. Às vezes era impreciso, como se houvesse interferências nas ondas telepáticas. Às vezes era perfeito. Mas em todo caso não precisava disso para saber que Sam estava decidida a impedi-lo de roubar o manuscrito.

           — Nick me levou ao passado com ele, fomos procurar Brie quando seu pai a sequestrou — disse ela por fim.

           Ian olhava o Central Park pela janela. Então Sam viajou ao passado e sabia, portanto, como era doloroso saltar através do tempo.

           — Está fazendo planos de saltar para entrar no cofre, não é?

           Ian desejou dizer que ela calasse a boca.

           Mas se virou para olhá-la.

           — Para que eu vou saltar se posso entrar normalmente?

           Ela sorriu.

           — Você tem razão.

           Jamais deixaria que ela soubesse que temia a dor e o mal que o causava. Sabia o que significava o mal no momento em que seu maléfico avô o sequestrou quando tinha nove anos e o levou da Escócia medieval ao mundo moderno. O mal gostava do medo e da dor, e infligia ambos ao seu desejo. O mal ansiava por sexo, poder e morte. Ele foi prisioneiro por sessenta e seis anos. E o mal não teve piedade dele.

           No princípio pensou em escapar. No início pensou que o resgatariam. Meses depois, passado um ano possivelmente, perdeu a esperança e desejou morrer.

           — Tem um pingo de coragem, Ian? Ah, esqueci que seu pai também é um covarde.

           Maclean recordou como lutou para se libertar, sem êxito. Lágrimas de raiva e de impotência escorreram por seu rosto.

           — Meu pai é um herói. É bom e não mau como você.

           — Agora é mau, tão mau como eu. Sim, seu pai caiu na escuridão, Ian — seu avô começou a rir. — Você é o meio pelo qual destruirei seu pai. Lembra disso não é? Só por isso me incomodo em mantê-lo com vida.

           Soltou-o.

           — Meu pai o matará! — gritou ele.

           — Não, eu vou destruí-lo. E então você ficará livre e autorizado a crescer. E viverá com essa culpa, com a dor de todas estas lembranças... até que os Deuses consintam sua morte.

           Ele se encolheu ao sentir-se acariciado...

            Ian não sabia como alguém sobreviveria, e, sobretudo um menino, ao que lhe fizeram: aos estupros, à tortura, ao sadismo.

           Virou-se para olhar pela janela, longe de Sam, que tentava adivinhar seus pensamentos. Ele havia se sentido impotente quando estava cativo, mas agora era dono de si mesmo. Era rico. Fazia o que queria, quando queria, e nada nem ninguém podia detê-lo. Qualquer um que tentasse colocar-se em seu caminho pagaria por isso.

           O controle era tudo para ele. Era questão de vida ou morte: uma questão de sobrevivência. Inclusive de sanidade.

           Passou grande parte de sua vida submisso. Agora, faria o que quisesse.

           Ele passou grande parte de sua vida com dor. Pretendia passar o resto de seus dias com prazer.

           Olhou para a mulher sentada ao seu lado, no táxi. Sam Rose era justamente o contrário dele: não conhecia o medo. Se soubesse seus segredos, talvez não o desejasse tanto. Mas nunca saberia a verdade. Ninguém saberia.

           — Por que está tão carrancudo? Fale sobre essa mudança de humor.

           — Leia minha mente — ele conseguiu esboçar um sorriso que parecia desagradável. Sabia, entretanto, o que precisava para tirar aquele sabor amargo da boca e da alma.

           — Você não me ensinou.

           — Então venha aqui — ele bateu no seu colo.

           — Nada feito — Sam sorriu friamente pra ele.

           Ele colocou sua mão sobre a coxa dura dela, com as pontas dos dedos apoiadas sobre seu sexo. Começou a movê-la suavemente, apertando seu abdômen com a argola metálica das algemas.

           — Alguma vez já ocorreu a você me pedir amavelmente que a leve ao cofre? — Ela afastou sua mão, mas Ian já sentiu a forte palpitação de seu sexo sob o fino vestido.

       — Vejo que está se divertindo com as algemas, mas veremos quem ri por último — disse Sam.

       — Você pode rir por último — murmurou ele, olhando seu perfil clássico. — Eu, inclusive, estou disposto a ceder essa honra.

         — Isto é um acordo comercial, mas estou disposta a ajudá-lo a tomar um banho de água fria — replicou ela.

           Ele esqueceu finalmente o que o preocupava.

           — Estou desejando isso — disse imediatamente. — Você esfregará minhas costas? Ou vai me algemar na cama e olhar enquanto durmo?

           Seus olhos se encontraram um momento e ele se convenceu de que Sam imaginava perfeitamente o que ele faria enquanto ela o olhava.

           — É um obcecado. Que surpresa. Mas ficarei do outro lado do vidro enquanto você toma banho e sabe o quê? Não me interessa vê-lo fazer qualquer coisa.

           — Mentirosa — respondeu ele.

           Ele achou que ela corou.

       — Estamos algemados — acrescentou Ian suavemente. — O que quer que eu pense?

           — Pague ao taxista — disse Sam secamente quando o táxi parou diante da nova casa de Ian. — A propósito, por que se decidiu por Nova Iorque?

           Ian entregou uma nota ao motorista e disse que ele ficasse com o troco. Sam estava sentada do lado da calçada e ele se inclinou sobre ela para abrir a porta, apertando-a contra o assento.

           — Eu mudei para cá para poder foder com você.

           — Sim, certo. Boa sorte — ela respondeu enquanto saía do carro e para longe do seu corpo — Porque, se por acaso não notou isso, Maclean, você não me impressiona nem um pouco.

           — Isso terá que mudar, então.

           O táxi se afastou e ela respondeu lentamente:

           — Não posso imaginar você com uma dessas vagabundas por mais de dois minutos. Exceto pelo sexo, claro.

       Ela parecia entendê-lo e ele sorriu.

     — Até as vadias têm sua utilidade.

     Sam sacudiu a cabeça.

     — Você não usa seus meninos de brinquedo? — perguntou Ian com suavidade, de repente passou-lhe pela cabeça que, em questão de sexo, eles eram iguais.

           Já tarde era o suficiente para que não houvesse ninguém na rua quando ele se aproximou da porta do edifício centenário e digitou o código que abria a porta. Sam ia atrás dele, muito perto, devido as algemas. Ian deixou acesas as luzes do saguão, que tinha teto duplo. Ao fechar a porta deu uma olhada no braço manchado de sangue de Sam e no seu vestido rasgado. Ela parecia não sentir o corte em suas costelas.

           Ian se perguntou se ela teria gritado de dor na única vez que saltou no tempo.

           Sam observava as câmeras quase microscópicas que focavam a porta de entrada e as que ficavam no hall. Ela não perdeu também as que estavam fora. Ian esperou. Ela olhou para ele e disse:

           — Tecnologia de ponta, hein?

           Seu sistema de segurança era de última geração. Mas não era dirigido a assaltantes. Ian, entretanto, não lhe devia nenhuma explicação. Sam estava olhando seus móveis, que eram quase todos antigos. Deixou sua bolsa sobre uma mesa irlandesa do século XVII. Até o lustre que havia sobre eles era francês, do século XV. Só os tapetes eram novos... ou quase. Sobre a porta principal havia um par de autênticas espadas do século XVI.

           — Uma decoração interessante para um playboy moderno — comentou Sam. Seu olhar era afiado. — Embora, pensando bem, sua mansão em Loch Awe é igualmente antiga.

           — Eu gosto das coisas antigas — disse Ian. Era verdade. Ele odiava sua época, o século XVI, e decidiu não viver nela, mas sentia a estranha compulsão de colecionar antiguidades e peças arqueológicas, o que não fazia sentido. Seu pai disse uma vez que uma parte de seu ser tinha saudades do passado. Mas isso eram tolices. E agora não queria pensar em Aidan e em sua esposa, Brie. — Está manchando de sangue meu tapete de vinte e cinco mil dólares.

           — Sinto muito. Comprarei um novo para você... no século XXII, quando for rica e famosa.

     Ian puxou o pulso e ela se aproximou, tropeçando com suas sandálias quebradas. Ele a agarrou pelos quadris, que notou serem duros e musculosos sob suas mãos. Ele já estava excitado. O sexo dissiparia suas últimas lembranças. Para que esperar?

           — Você quer curar essa ferida? — perguntou ele suavemente.

            — Não, se para isso tiver que perder você de vista — agarrou-o pelos pulsos, mas não recuou. — O que está acontecendo? Não há um mordomo para nos servir?

           — A estas horas, Gerard está dormindo, — ele a atraiu para si e ela o olhou com calma ao entrar em contato com sua enorme ereção — com medo ficar sozinha com isto?

           Ela tomou fôlego.

           — Eu nunca tenho medo de nada. Ei, tenho uma ótima ideia. Chame o Gerard e diga-lhe que traga um entretenimento para esta noite, antes que você exploda.

           Ian sorriu.

           — Você quer assistir?

           — Eu não vou embora — respondeu ela com petulância.

           Ian pensou em voltar a atuar para ela. Mas não era isso o que seu corpo pedia aos gritos. Ele a apertou com mais força, empurrando-a contra uma mesa.

           — Nem pense nisso — murmurou Sam.

           — Não penso em outra coisa. Especialmente com seu corpo algemado ao meu e estremecendo de desejo.

       — Você não pensa em outra coisa, se estamos algemados ou não.

     Ian decidiu não responder. Deslizou a mão por seu quadril. Sam ficou muito quieta e conteve o fôlego.

Se prosseguir, assuma as consequências. Ele sorriu. Era difícil conter-se. Queria colocar a mão entre suas coxas, dar-lhe a volta, incliná-la sobre a mesa e apenas fazer, por fim. Ela sabia. E não colocaria muitas objeções. Falava com aspereza, sarcasticamente, mas sua voz soava densa, e seus olhos, de um azul violeta, pareciam arder em fogo lento. Ian sentia o seu pulso batendo sob a pele. Sentia seu desejo crescendo. Percebia sua urgência e sua necessidade.

           Eram quase tão grandes como a sua.

           — Porque é tão forte, tão corajosa? — tocou os farrapos do vestido, roçou com a mão seu peito esquerdo e a sentiu estremecer.

           — Sou uma Matadora, Maclean.

           — Alguma vez teve medo?

           Sam o olhou nos olhos.

           — Medo por mim, não.

           Por um instante, Ian esqueceu o quanto a desejava. Possivelmente pela primeira vez, uma onda de admiração o embargou por completo.

           — Então, por quem tem medo?

           Sam umedeceu os lábios.

           — Por minha irmã, Brie, Allie...

           Ian sentia sobre o dorso da mão o peso de seu seio. Empurrou para cima. Ela deixou escapar um gemido.

           — Dói em você? — sussurrou ele, deslizando a mão para posá-la sobre seu peito.

           — O que você é? Uma Florence Nightingale[2] em versão masculina, com excesso de testosterona? Ian pegou o bojo do vestido e o puxou abaixo de seus seios.

           Sam conteve a respiração.

           E ele ficou de boca seca. Olhou-a nos olhos muito devagar.

           — Podemos curar essas feridas, se você realmente desejar, ou você pode dar a volta e deixar que a tome em cima da mesa, por trás, como eu gosto.

           Apertou-a com mais força nos pulsos.

           Ian se moveu e apertou seu membro ereto contra sua coxa.

           — Vire-se, Sam.

           Ela olhou o que havia entre eles.

           — Por mais bonito que seja, não, obrigada.

           Continuava resistindo a ele. Ian afastou relutantemente o olhar de seus seios nus e seus mamilos endurecidos e olhou a ferida aberta a faca. Sam não era imortal. Tinha que curar aquela ferida. Ian levantou o olhar.

           — Está certa disso? Porque posso fazer você gozar muito mais do que jamais gozou, Sam.

           — Prefiro dar prazer a mim mesma.

           — Nossa! — ele disse, mas sorriu, ia desfrutar da caçada. Sustentaram o olhar, o dela era quente e feroz. Ian sentia formigar o desejo em suas mãos, mas por fim conseguiu soltar o vestido. Sabia que pagaria por isso, mas de todos os modos tocou em seus seios nus.

           Ela cravou no pé dele o salto agulha do sapato que restava. Ian a soltou amaldiçoando.

           — Tire as suas mãos — ela alertou e subiu o vestido.

           — Possivelmente deveria ter pensado melhor, antes de se algemar a mim.

           — Se você não pudesse saltar no tempo, o teria algemado à parede — replicou ela. — Não, à cama. Mas sozinho. Estou certa de que isso sim é uma tortura para você.

           Ian ficou tenso, mas disfarçou. Voltou a ver imagens em flash.

       Estava escondido sob a cama. E depois estava em cima, acorrentado...

     Ele forçou um sorriso.

           — Sabe que teremos que dormir juntos? Tomar banho juntos? Usar o banheiro juntos? — seu tom era instável.

           Ela notou.

           — Eu posso lidar com isso Maclean. Então vamos lá. É quase uma e meia. Tenho que me limpar um pouco. Depois o colocarei na cama.

         Ele ficou olhando para ela. Sua necessidade era cada vez mais intensa. Tinha que escapar do passado.

           — Eu não sou um cavalheiro.

           — Não me diga. Mas também não é nenhum estuprador.

           Ian se afastou bruscamente dela.

           — Você não sabe nada sobre mim.

           Sam o olhou fixamente. Agora tinha sua bolsa na mão.

           — Isso é um aviso? Porque estou certa de que sua arma letal é a sedução. Vamos — acrescentou energicamente. — É tarde e eu preciso dormir um par de horas. Afinal de contas, eu sou mortal. E só para lembrar: se saltar para o cofre, irei com você. Tenho o sono muito leve.

           As imagens de seu passado haviam desaparecido. Ele começou a andar pelo corredor, para o elevador.

       — Realmente se propõe dormir ao meu lado como uma irmã?

           — Na verdade meu plano é dormir no chão.

           — Como vou permitir que durma no frio e duro chão quando podemos compartilhar uma cama grande e quente? — Ian bateu suas pestanas e, passando ao lado em frente ao elevador, dirigiu-se à escada que havia no fundo do corredor. Usava frequentemente o elevador, mas agora não gostaria. Ele tinha medo do que podia acontecer em um espaço tão reduzido, depois de sofrer tantos flashbacks. Ao chegar ao pé da escada parou, tenso e subitamente perturbado, mas não por seu passado.

           Sentia o mal. Estava perto: dentro de sua casa. Não tinha verificado os alertas de segurança ao entrar.

           Olhou para Sam. Ela também sentiu e estava quieta e alerta. Não demonstrava medo, só a tensão de guerreira. Ian experimentou de novo, fugazmente, aquela estranha admiração por ela.

           Sam o agarrou pelo ombro.

           — Você tem companhia, e não do tipo de boas-vindas.

           O estômago de Ian girou de medo, um reflexo que não podia controlar. Mas não importava. Começou a subir a escada quase correndo.

           — Maclean?

           Ele lutou contra o medo, a respiração difícil. Já não tinha nove anos. Ansiava o encontro iminente com o mal. E então só havia raiva, uma raiva tão intensa que não ouviu Sam.

           Ele estava esperando aquele predador, mas esteve tão concentrado em Sam Rose que baixou a guarda. Agora estava preparado.

           — Fique aqui — lhe disse em voz baixa. Era uma ordem. E, enquanto falava, usou seus poderes para abrir as algemas, que imediatamente se desprenderam de seu pulso.

           — Eu desconfiava que você pudesse fazer isso — comentou Sam.

           A fúria começava a apoderar-se de Ian. Era um homem quase imortal, dotado de poderes que só deviam ter quem seguia os deuses. Odiava os demônios, a todos e cada um deles, assim como odiava os mestiços e todo tipo de maldade. Começou a andar com decisão. Sam o seguiu, com o mortífero disco de dentes de aço na mão.

           — Deixe-me com ele — alertou a ela.

           — Uau, que grande mudança.

           No próximo patamar apareceu frente a eles a biblioteca. O demônio, sentado em um sofá de brocado, levantou-se de um salto. Seu belo rosto refletia surpresa. Depois, lentamente, sorriu.

           — Isto deve ser um engano. Estou esperando um aluno meu. Ele disse que precisava me ver. Você é o pai do Liam? — perguntou suavemente.

           — Não há nenhum engano — respondeu Ian com voz calma. —Você fez bem em me esperar.

           O demônio o olhou fixamente.

           — Pode-se saber o que significa isto? — perguntou com olhar ardente. — É algum tipo de jogo?

           — Sim, é um jogo — murmurou Ian, tremendo de raiva reprimida. As lembranças o embargavam. Havia tanta dor e tanto medo... — Não há nenhum Liam, John. Há apenas eu.

       — Você tem poder. O que é? Um vigilante? De acordo, jogarei. — O demônio riu dele.

           Sam deixou escapar um som.

           Ian esqueceu de sua presença. Sentiu que sua boca se curvava ao avançar para o demônio.

     — Venha para que eu te dê seu castigo, John — murmurou. Já não sentia nada, nem sequer raiva, só determinação. O sorriso do demônio vacilou quando Ian parou diante dele.

     — Você compartilha nossos desejos, não é verdade? De alguma forma você está contaminado. Eu posso sentir isso.

     — Compartilhemos isto — respondeu Ian com suavidade. Levava uma adaga presa ao pulso, sob a manga. Empurrou-a profundamente no coração de John.

           Mas John viu o gesto e enquanto a adaga penetrava em seu peito, sua energia vermelha e negra cintilou. Ian sabia que ele lançaria uma descarga e resistiu a ela, tirando a adaga e voltando a apunhalá-lo. Ouviu Sam gritar quando o poder negro a lançou no corredor, mas não podia preocupar-se com ela nesse momento.

           Aquela era a sua vingança.

           Vivo e furioso, John lançou nele outra descarga.

           E isso doeu. A dor se apoderou dele e o enfureceu ainda mais, e agarrando o demônio, jogou-o no chão. Agarrou a adaga, livrou-a da carne e do osso e voltou a afundá-la no coração. Os olhos vermelhos do demônio brilharam e rolaram para trás, inertes, sem vida.

           Ian sabia que ele estava morto, mas não se importou. Continuou apunhalando-o novamente e novamente. Não voltaria a se esconder sob a cama, nem no armário, não voltaria a sentir dor, medo, nem vergonha. John merecia morrer por tudo o que fez, por todos aqueles dias, semanas, meses e anos de choques, torturas, de rasgões e humilhações. Ian lembrava agora de cada um de seus atos atrozes. Lembrava o medo e a dor, apenas reprimidos e enterrados no mais profundo de seu ser. Porque o medo e a dor o tinham forjado. Lembrava, também, a perda de sua humanidade e de sua sanidade, que ele jamais teria novamente. O suor e as lágrimas o cegavam quando levantou de novo a adaga.

           — Ele está morto.

           Ele a ouviu, mas não pôde parar, mesmo sabendo que o demônio havia morrido: seus olhos já não viam e seu corpo ensanguentado permanecia imóvel. Afundou a adaga até o punho no peito do John.

           — Ian, ele está morto — ela o agarrou pelos ombros por trás, mas não tentou afastá-lo.

           Ian ficou vagamente consciente de que o segurava com força. Soltou a faca. Cheia de sangue, ela ficou cravada no peito de John.

           — Ian? — ela perguntou com cautela.

           Ele ofegava incontrolavelmente, inclinado sobre o cadáver, limpando a umidade do rosto, e compreendeu tarde demais que eram lágrimas, e não suor, e que tinha as mãos cobertas de sangue. Ele se lembrou de tudo.

           A dor ameaçava matá-lo.

           Virou-se e vomitou violentamente.

           Não sabia quanto tempo permaneceu ali, sob suas mãos e joelhos, enquanto as lágrimas corriam por seu rosto. Mas quando se sentou, o demônio rapidamente se desintegrava, deixando unicamente uma fulgurante esteira do que pareciam ser brasas. Um terrível silêncio enchia a biblioteca.

           Começou a compreender. Sam Rose acabou de testemunhar sua loucura. Respirou fundo, tentando recuperar-se. Aturdido, ficou em pé. E viu com surpresa e alívio que ela foi embora.

           Cambaleou e teve que apoiar-se em uma estante. Seu alívio desapareceu. Sam viu o que ninguém devia ver, exceto Gerard. E talvez ela fosse inteligente o suficiente para deduzir a verdade...

           Lavou as mãos na pia do bar, limpou as últimas gotas de umidade da face e secou as mãos. Enquanto se servia um grande copo de uísque, ouviu que ela voltava para a sala. Tenso, ele esperava que ela tivesse ido para casa, ele olhou para cima.

           Ela estava na porta, com seu vestido vermelho ensanguentado e uma expressão sombria. Seus grandes olhos azuis estavam sobre ele. Ian não viu pena, nem compaixão em seu rosto, e se sentiu agradecido por isso. Ele a mataria, se ela se atrevesse a ter pena dele. Ele estava tão cansado... Odiava aquela vida maldita e miserável.

           — Vá embora.

           Ela continuou olhando para ele.

           Ian sorriu devagar, esperando que ela ficasse para poder descarregar sua ira nela. Faria com ela o que fizeram a ele, e se divertiria.

     — Você realmente deveria ter cuidado. Estou de péssimo humor.

           Sam não se moveu.

           — Não me diga.

           Ela não tinha medo. Falava com sarcasmo. Ian experimentou um momento de surpresa. Ela olhou o cadáver quase desintegrado.

   — Lembre-me de não irritá-lo muito.

       Ian já estava mais calmo. Não muito, mas um pouco mais.

       Ele não queria machucá-la, nem torturá-la: desejava tê-la em sua cama e saciar todos seus desejos. Mas não confiava em si mesmo. Quando se sentia assim, procurava manter-se afastado das mulheres, dos humanos, dos inocentes.

           — Vá embora antes que eu faça o que desejo fazer.

           — Se acha que esse acesso de raiva me assustou, engana-se — ela já não zombava. Parecia pensativa. — Poderia dar lições de vingança. — Ela aproximou-se lentamente.

           Ian pulou em sua mente. Sam queria compreendê-lo. Queria saber por que ele agiu assim, por que atacou aquele demônio. Queria saber se estava bem.

           E ele estava. Podia estar louco, mas tinha suas contas bancárias, seus carros e suas casas para demonstrar que estava bem. Aquela era sua vida! E não era assunto de Sam, nem de ninguém mais. Seus segredos eram deles. E sua vida era isso: um segredo sujo e escuro.

           A sua raiva retornou. Ian cruzou a sala e agarrou Sam pelo pulso com força. Qualquer mulher teria protestado. Ela, não. Olhou para ele fixamente.

           — Nem pense em me fazer mal. Eu mato você — ela alertou.

           — Experimente — Ian gostava da luta.

           Ela percebeu e recuou.

           — Seja o que for que esse demônio fez a você, eu não tenho nada que ver com isso.

       A raiva cegou Ian.

     — Ele não fez nada comigo!

     — Sim e foi por isso que você fez picadinho dele quando já estava morto.

           Ian a apertou contra seu corpo duro e explosivo.

           — E como você vai me impedir que eu te faça mal? — apesar de Sam dominar as artes marciais e ser poderosa, ele era mais forte. Ela não tinha nem a metade do seu poder. Para ter certeza de que ela havia entendido, ele a girou e a empurrou contra uma estante. Depois se inclinou sobre ela, em posição agressiva, dominante, ameaçadora.

           — Pode me parar agora? — perguntou, esfregando-se contra suas nádegas.

           Sam ficou muito quieta. Ian mergulhou profundamente em sua mente e não encontrou nem um indício de medo. Apesar de sua raiva, ele estava surpreso. Sam pensava calmamente no pior dos cenários: em que ele a estuprava e ela tendo que matá-lo, de uma forma ou de outra. Nesse momento, Ian sabia que ele teria sucesso ou morreria tentando.

           E ele não a queria morta.

           Sua raiva diminuiu em parte. Ele tinha seu corpo pressionado por completo contra o dela, do joelho ao ombro, e a boca contra a sua orelha e as mechas de seu cabelo. Enquanto estavam assim, separados unicamente por duas camadas de tecidos entre eles, sua raiva se intensificou de novo, convertendo-se desta vez em uma aguda consciência do corpo de Sam.

           — Sam... — murmurou com aspereza, esticando os braços ao redor de sua cintura. Enquanto o desejo e a luxúria se apoderavam dele, sentiu que ela começava a estremecer e a respirar com dificuldade.

           Fechou os olhos, envergonhado. Envergonhado por tê-la ameaçado, como o ameaçaram seus torturadores, e porque ela tivesse presenciado aquele acesso de loucura. Era difícil respirar. Sentia tanta pressão... E um instante depois podia haver tanto prazer, tanto alívio...

           — Sam...

           As costelas de Sam se moviam rapidamente sob suas mãos. Levantou os braços e sentiu o peso de seus seios.

           — Não se mova — ele disse, baixando as mãos. Liberou seu membro e o introduziu entre suas pernas.

           Ela ofegou ao sentir seu contato e o agarrou pelas mãos.

           — Maldito seja.

           Ele moveu a boca sobre sua orelha, usando a língua. Sam estremeceu violentamente.

           — Eu não sou um deles, me dê permissão. Eu quero você, Sam.

           Por um instante, ao ver que ela não se movia, nem respondia, pensou que ia submeter-se. Mas depois ela virou... e cravou o joelho em sua virilha.

           Aturdido, Ian conteve um gemido de dor e levou a mão à seu púbis, cheio de dor.

           — Quando digo “nunca”, quero dizer “nunca” — gritou ela. — Eu não quero ser apenas um corpo quente para que você se sinta melhor.

 

           Sam falava sério.

       Ian conseguiu levantar, ruborizado.

           — Quer quebrar seu joelho? — perguntou, zombando.

           — Sim — replicou ela. Mas se arrependeu imediatamente. Foi um gesto desesperado. Estava tão excitada, desejava tanto Ian, que esteve a ponto de ceder. Aquela atração furiosa estava cada vez pior, depois do que acabava de ver, deveria ter desaparecido.

           Sam nunca viu tanta raiva. Estava impressionada, apesar de ter visto inúmeros assassinatos, mortes, violações e torturas. O que aquele demônio fez a Ian Maclean? Tinha que ser algo terrível.

           E ele chorou depois. Ian Maclean derramou lágrimas. Ela tentou esconder sua surpresa e agir como se não tivesse acontecido nada. Curiosamente, parecia-lhe muito importante fingir que não havia nada de estranho naquilo.

           Por puro instinto, ela o deixou sozinho com sua dor quando ele acabou com o demônio. Nenhum homem, imortal ou não, iria querer que outra pessoa fosse testemunha de tanta fúria, e muito menos da surpreendente explosão de emoção posterior.

           Sam ficou chocada.

           Ian respirava com dificuldade.

           — Eu disse que não sou um deles.

           Ela ofegava também. Ouviu Ian, e embora não acreditasse que fosse um estuprador, certamente teria tentando seduzi-la se não tivesse dificultado.

           E esse era o problema. Era tão tentador sentir aquele corpo duro e excitado colado ao dela... Era como se entre eles houvesse uma atração sobrenatural.

           — Está bem. Eu posso ter exagerado. Sinto ter dado uma joelhada. Mas estou certa de que esse golpe não te fará nenhum dano.

           Ele lançou um olhar sombrio.

           — Porque não vai? — aproximou-se do carrinho do bar e se serviu um uísque que bebeu de um gole. Logo serviu outro. — Suponho que compreenderá por que não estou sendo um pouco mais hospitaleiro.

           — Não vou partir até que a página esteja em poder de Nick — respondeu Sam sem rodeios.

           Ian olhou para ela com incredulidade.

           — Esta noite não vou saltar a nenhum lugar. Nem ao cofre, nem ao passado, nem para nenhuma outra época — ele bebeu metade do segundo scotch. Estava impaciente. Seu olhar era frio e duro.

           Sam blindou cuidadosamente seus pensamentos. Pensaria em tudo aquilo depois.

           — E eu deveria confiar em você por que...?

           — Confia em mim porque sou São Cuthbert[3] — replicou ele. — Faça o que quiser. Divirta-se, Sam. — Voltou a encher seu copo e saiu da biblioteca.

           Sam se aproximou da porta da sala e o viu percorrer o corredor, passando por impressionantes obras de arte, e entrando no que parecia ser a suíte master. Quando desapareceu dentro, deixando aberta a porta, Sam respirou fundo.

           Merda. O que exatamente acabou de acontecer?

                        Ela se aproximou do carrinho de bebidas e se serviu de um drink. Enquanto bebia, entrou no banheiro dos hóspedes. Bebeu sua bebida e abriu o armário, onde encontrou algumas coisas úteis, incluindo um enxaguante bucal.

           Enquanto tirava o vestido, notou que estava com o corpo dolorido. Suas feridas pareciam arder, mas já teve dores piores. O tornozelo direito também estava dolorido, e ela esperava que não houvesse torcido: não podia se permitir o luxo de mancar. Colocou o vestido rasgado no lixo e pensou nas poucas coisas que Brie e ela conseguiram sobre Ian Maclean no outono passado.

           Brie e ela tentaram salvar a vida de Aidan. Como todo mundo, elas acreditavam que Ian estava morto. Aidan viu impotente, como seu pai assassinava o menino. Sam lembrava que isso foi em 1436.

           Pegou uma barra do sabonete branco perfumando e lavou o braço e o corte do na costela direita. Agora que pensava sobre isso, se Ian havia nascido no século XV, então ele era realmente velho, a não ser que tivesse chegado a Nova Iorque procedente de outro século. Mas isso não parecia provável: comportava-se como um homem moderno. O importante, entretanto, era que seu avô Moray, o célebre demônio, não o matou, na realidade.

           Ian passou muito tempo cativo pelo mal quando era menino. Sam lembrava agora que Aidan passou para o lado escuro por acreditar que Ian foi assassinado. Aidan de Awe tinha uma história de atividades quase demoníacas que durava décadas. Sam sabia muito bem. Ela mesma entregou a ele o arquivo sobre Brie.

           Durante décadas Ian foi dado como morto. Isso significava que, ao longo desse tempo, foi prisioneiro de um demônio.

           Um calafrio percorreu o corpo de Sam.

           Os demônios prosperavam na tortura, no abuso, estupro e assassinato. Era um milagre que Ian ainda estivesse vivo. Mas aquilo explicava muitas coisas. Não era de estranhar que ele fosse tão duro, tivesse sido tão desagradável, tão frio e insensível... até aquele colapso.

           O que fizeram com ele?

           Ela nunca esqueceria a visão dele de quatro, tremendo violentamente enquanto as lágrimas corriam por seu rosto.

           O coração parecia agitar-se dentro do peito. Sobressaltou-se, em estado de choque, e olhou no reflexo do espelho e se viu ali, nua e ferida, e por um instante seus olhos pareceram estranhamente suaves e angustiados.

           Pareciam os olhos de Tabby, se não fosse pela cor.

           Sua irmã era a mulher mais bondosa que conheceu. Tabby se preocupava com todo mundo. Sua compaixão não tinha limites. E frequentemente tinha aquele olhar.

           Droga. Sam nunca se preocupava, levava a vida na esportiva. Lutava pelos Inocentes, estava disposta a morrer por eles, mas nunca derramava uma lágrima quando morriam. Nem sequer chorou ao compreender que sua mãe estava morta. Ao invés disso, ela foi caçar. Agora também não havia perdido a compostura. O assassinato de sua mãe estava gravado em sua mente, e ela queria que assim fosse.

Ela tinha então doze anos. Estava a caminho de casa depois da escola, sozinha, porque faltou a aula de espanhol para jogar hóquei com os meninos. Mas se zangou com eles, meteu-se numa briga e, no final, foi para casa sozinha.

Ao entrar no jardim, viu um homem levantando-se e sua mãe tombada no chão, sem vida. Sam correu para sua mãe e em seguida compreendeu que Laura estava morta. Lágrimas queimaram seus olhos, mas a dor foi amortecida pela raiva. Ela aceitou de bom grado aquela fúria, aquela necessidade de devolver o golpe, aquele ardente desejo de vingança, levantou-se de um salto e pôs-se a correr. O demônio estava a meio quarteirão dali. Mas, em lugar de confrontá-la, desapareceu, saltando no tempo.

Sam pretendia matá-lo com suas próprias mãos, apesar de ser uma menina magrela.

           — Covarde! — ela gritou.

Ela passou um ano caçando-o, mas ele não voltou.

Agora, dezesseis anos depois, sabia que nunca o encontraria. Mas cada vez que eliminava um demônio, sentia uma profunda satisfação. Laura estaria orgulhosa dela.

Sua frieza era muito mais que uma forma de sobrevivência. Era o único modo de vencer. Ela era uma Matadora. E isso a transformava em um soldado. Nenhum soldado sucumbiria à compaixão, e muito menos à pena. Em sua vida não havia lugar para arrependimentos. Pegou o enxaguante bucal e o derramou sobre a ferida das costelas. Doeu. A compaixão não era parte de seu modus operandi. E compadecer-se de Ian Maclean era uma péssima ideia.

           Se ele achava que ela poderia ser simpática com ele, tentaria se aproveitar disso.

           Contrariada, Sam encharcou a ferida com o resto do scotch. Era uma sorte que ainda considerasse Ian um perfeito canalha. Não havia por que simpatizar com ele. Já não era um menino cativo. Havia sobrevivido e as pessoas sobreviviam constantemente a coisas terríveis e feias. Ela pegou uma toalha verde esmeralda e se envolveu nela enquanto se olhava no espelho. Então fez um pacto consigo mesma.

           Não importava o que fizeram a ele, não era assunto dela: ela tinha sua própria guerra para travar. Procurou seu telefone celular e discou o número de Kit, que estava no escritório.

           — Como foi o resto da festa?

            — Aborrecido. Mas o caviar era bom.

           — Hemmer levou você para fazer um passeio VIP pela casa?

           — Não, mas me fez um montão de perguntas sobre você. Ou está apaixonado, ou suspeita. Onde você esta? Estou prestes a sair.

           — Na casa de Maclean. No nº 1101 da Park Avenue. Foi uma noite bem interessante. Você pode passar por aqui e me trazer alguma roupa? Meu vestido está no lixo.

           — Tenho medo de perguntar.

           — Foram uns subs, Kit.

           — Sim, eu ouvi sobre o tumulto. Dentro de meia hora estarei aí — disse Kit, e desligou.

           Sam pegou sua bolsa, ir ver Maclean envolta em uma toalha era procurar problemas, mas tinha uma missão atribuída e o computador de Maclean estava na mesa da biblioteca quase acenando com uma bandeira vermelha para ela. Ela sorriu, aproximou-se da mesa e sentou. Ao descobrir que não era necessário uma senha para acessá-lo, sacudiu a cabeça com incredulidade. Logo ficou séria. Não fazia falta uma senha porque Maclean não se preocupava que alguém pudesse invadir sua intimidade. As garotas com as quais se deitava não incomodavam, e ele era tão difícil, tão antissocial e solitário que Sam estava quase certa de que não tinha amigos. Nenhum.

           Ela também era uma solitária, mas de vez em quando se divertia tomando uma bebida ocasional com Kit, com seu chefe ou com algum colega de trabalho. Inclusive com o idiota do MacGregor. Maclean, ao contrário, era intratável.

           Tinha a impressão de que começaria a sentir pena por ele se não tomasse cuidado. Notava outra vez aquela estranha sensação no estômago. Era desconcertante. O que lhe interessava se Ian levava uma vida de completo isolamento? Pelo que sabia, ele só se relacionava com um monte de idiotas assim como ele.

           Era hora de trabalhar. Deixando de lado suas reflexões, entrou na imensa base de dados da HCU. Era hora de se familiarizar com o arquivo de Ian Maclean.

           Mas para entrar na base de dados eram necessárias três senhas diferentes. Enquanto esperava, olhou área de trabalho do computador e a pasta de documentos. Talvez não voltasse a ter aquela oportunidade. Saiu da HCU e decidiu bisbilhotar o disco rígido. Mas só continha coisas sem importância. Ian tinha numerosos investimentos, uma coleção de arte catalogada e segurada, e uma lista de despesas de suas duas casas. Tinha seis carros potentes segurados, e um seguro da casa. Era tudo tão rotineiro que tornava-se chato, apesar de que nada em Maclean era aborrecido.

           De repente, entretanto, algo chamou sua atenção. A bandeira vermelha que subiu, começou a acenar.

           Um arquivo com o título “Viajem”, continha diversos itinerários pertencentes aos dois anos anteriores. Maclean viajou de avião por todo mundo, tanto em primeira classe como em aviões privados. Para alguém que podia saltar no tempo, aquilo era realmente chocante.

           Sam se perguntou se mantinha um perfil discreto devido a Scotland Yard. Mas chamaria ainda menos a atenção se chegasse a Paris saltando no tempo e partisse do mesmo modo, ao invés de voar até lá na primeira classe.

Kit ligou e disse que estaria lá em cinco minutos. Ao desligar, Sam decidiu verificar seu histórico na internet, conectou-se e olhou sua caixa de correio.

           Demorou dois segundos para perceber que ele estava mantendo conversas eróticas com um homem, e outros dez para descobrir que se fazia passar por um menino de treze anos, Liam.

           O homem em questão se chamava John.

           Sam compreendeu de repente.

           Maclean estaria disfarçado? Seria policial?

            De novo ela ficou chocada. Nenhuma corporação policial estaria disposta a contratá-lo, estava certa disso, principalmente se a Scotland Yard andava atrás dele. Abriu a última mensagem, na qual Maclean dava seu endereço em Park Avenue ao seu amigo, alegando que seus pais não estavam. “John” prometeu procurá-lo assim que possível.

           Sam se recostou na cadeira, rígida, enquanto sua mente trabalhava vertiginosamente. Ele foi à isca e a armadilha.

           Ian atraiu até sua casa um pedófilo demoníaco para matá-lo.

           Estava agindo como um vigilante.

           Apesar de si mesmo, Sam começou a sentir respeito por ele.

           — Divertindo-se?

           Ela levantou o olhar. Ele a surpreendeu bisbilhotando em seus arquivos e em sua vida.

           Maclean estava na porta vestindo apenas uma calça de moletom solta e de cintura baixa. Instantaneamente Sam desviou a atenção de suas descobertas. Maclean tinha um peito largo e enorme, os braços musculosos e os abdominais esculpidos e duros. Ele treinava... e muito. Podia ser um idiota, mas era impossível não admirar seu corpo. Sam olhou o caminho de pelos embaixo do seu umbigo e o volume muito sugestivo que ficava embaixo da calça. Ficou com a boca seca. Desviou o olhar.

           Ele claramente ficou bravo porque seus olhos tinham uma expressão dura e ardiam, cheios de raiva ainda que controlada.

           — Suas calças estão caindo, Maclean. Perdeu o cordão?

           Ele caminhou até ela e olhou o e-mail que estava lendo, depois esticou o braço para sair de sua caixa de correio.

           — Existem leis contra o que você está fazendo — seu peito musculoso arfava. Surpreendeu-a olhando-o fixamente e Sam sentiu que quase ruborizava.

           — Puxa, nenhum anel no mamilo? — afastou-se lentamente da mesa, segurando a toalha com a mão. Ele a impediu de levantar dando uma palmada sobre a mesa.

           Ele olhou para ela por fim como se acabasse de perceber que ela estava quase nua. Mas não esboçou aquele sorriso provocador, nem a olhou com desejo. Estava furioso.

           Ela afundou na cadeira.

           — Bem, possivelmente deveria considerar colocar uma senha.

           Maclean agarrou a borda da toalha.

           — Está feliz agora?

           Sam meio que desejou ter o vestido de volta.

           — Você encontrou John pela Internet, se fazendo passar por um adolescente. Atraiu-o aqui para matá-lo.

       — Estou cansado deste jogo. Quero sexo. Agora. Ou aceita, ou vai embora — puxou a toalha, mas não a tirou. — O que decide Sam?

       Sam sabia que ele não ia responder a suas perguntas, mas mesmo assim continuou insistindo.

— Isso diz respeito ao que fizeram a você, não é verdade? O que aconteceu com você quando esteve prisioneiro, quando era uma criança?

           Os olhos de Maclean se arregalaram.

           — Eu sei. Eu ajudei a Brie a encontrar Aidan, lembra?

           Ele respirou fundo.

           — Me dê o que quero ou vá embora — ele rosnou.

           — Então estamos de volta ao tigre enjaulado? — Porque ele estava ainda mais zangado?

           Por um momento ele ficou calado. Depois se inclinou para ela.

           — Que mulher tão valente e destemida. Você deveria ter medo, Sam. Ou esqueceu que meu avô era um demônio?

           Ela sabia que esse era um bom momento para recuar porque era quase certo que ele ia arrancar-lhe a toalha. Não que ela não pudesse lidar com isso.

           — Eu sei que Moray era seu avô. E também sei que seu poder é branco, Maclean. Acredito que não tem seus genes. Então, o que está escondendo?

           Maclean a olhou desconcertado, então afastou de repente os papéis e as pastas que havia sobre a mesa e atirou o monitor ao chão. Sam se levantou de um salto, mas ele a agarrou e a atraiu para si.

           — A campainha me acordou. Sua amiga está lá embaixo. Eu vou roubar a página, mas não esta noite. Agora, vá embora. — Ele a empurrou com força.

           Ela cambaleou sem soltar a toalha.

           Maclean passou ao seu lado como um redemoinho, em fúria.

           Sam conseguiu sufocar um grito.

           Maclean tinha as costas cheias de cicatrizes. Era como um mosaico.

 

           Sam despertou com dor no pescoço. Demorou um momento para lembrar que estava deitada no sofá da biblioteca de Maclean, vestida com os jeans e a regata que Kit havia levado. Sentou-se, grunhindo. As janelas do lugar davam para o norte e mostravam os bancos do jardim de um edifício próximo. Havia tanta luz que ela entendeu que havia dormido mais que um par de horas.

     Resmungou uma maldição, levantou-se e calçou suas botas de motoqueiro desgastadas. Saiu da biblioteca apressadamente, passando uma mão pelo cabelo desgrenhado.

           Um homem saía do dormitório principal, mas não era Maclean. Sam reconheceu ao mordomo de cabelo grisalho que conheceu em Loch Awe.

           — Onde está Maclean?

       — Bom dia, madame — ele respondeu com frieza. — Vai tomar o café da manhã?

           Sam passou a seu lado e entrou em uma sala opulenta. À sua esquerda, uma porta dava para um ginásio com máquinas de exercícios e pesos. Isso explicava a sua boa forma. Seu quarto era em frente; as paredes eram de cor azul clara e o teto de cor marfim, e a enorme cama de dossel parecia saída de um castelo antigo.

           — Os quartos de lorde Maclean são privados, senhorita Rose — disse Gerard. — Ele deixou muito claro que você não é bem-vinda em seus aposentos e que depois do café da manhã devia pedir-lhe que partisse.

           Sam entrou no quarto.

           Havia ali tanta testosterona que se sentiu confusa, desfocada, ficou olhando a cama, com sua colcha azul escura e suas almofadas. Depois se virou.

           — Quando ele se foi?

           — Alguns momentos atrás — Gerard a olhava friamente.

           Sam poderia precisar dele como aliado.

           — Sinto muito se começamos com o pé errado na primeira vez — disse.

       Gerard não amoleceu.

         — É de péssima educação irromper desse modo na casa alheia. Mas isso parece ser seu costume.

           — Sim, preciso que me deem lições de boas maneiras — riu. — Alguma vez lhe ocorreu pensar que talvez Maclean também precise?

           Ele enrijeceu visivelmente ofendido.

           — Sua Excelência faz o melhor que pode.

           — Puxa! Eu também — esqueceu que Maclean tinha um título nobre: o barão de Awe.

     — Houve circunstâncias excepcionais, em seu caso — Ele não ia ceder.

           Sam ficou em alerta.

           — Sério? Eu adoraria saber quais foram essas circunstâncias. Quanto tempo está a serviço de Sua Excelência? — Perguntou, tentando não ficar muito sarcástica.

           — Duas décadas, e eu não sou um fofoqueiro.

            Sam suspirou. Melhor assim. Maclean estava levando vantagem sobre ela e sabia pra onde ele foi. Deu uns tapinhas no braço de Gerard, que se afastou como se tivesse batido nele.

           — Eu realmente não mordo. A menos que me peça isso. E teria que me pedir isso muito, muito amavelmente.

           O mordomo a olhou, enrugando o cenho.

           Sam estacionou seu Lexus preto em fila dupla, diante da casa de Hemmer, e colocou a sirene em cima do teto. Vestida com jeans e botas de motoqueiro, usando óculos escuros, saiu do carro e se aproximou do porteiro. Ele admirou seu jeans apertado e sua camiseta branca. Sam exibiu sua identidade falsa.

           — Ian Maclean subiu?

           — Não, senhora, mas já disse isso a seu parceiro.

           Sam se surpreendeu. Então ela olhou para o saguão. MacGregor estava sentado em um luxuoso sofá bege, lendo um jornal e bebendo café. Lançou-lhe um olhar cheio de curiosidade.

           O que significava aquilo? Desconcertada, Sam entrou sem pedir permissão ao porteiro.

           — O que você faz aqui?

           — Uau! Vejo que você está de bom humor. Devo achar que passar a noite com o Maclean não foi tão espetacular como esperava?

           — Vou matar Kit.

           MacGregor se levantou.

           — A verdade é que temos o apartamento grampeado, então não foi ela quem te delatou — ele tinha um olhar muito macho. — Você é tão dura no seu trabalho, Rose — disse suavemente.

           Ela corou. MacGregor estava brincando? Havia microfones no apartamento de Maclean? Eles os observaram diante das câmeras?

           — Agora vai atrás de Maclean?

           — Acho que Nick vai deixar isso para você — ele começou a sorrir.

           — É quase tão idiota quanto ele.

           — Está com ciúmes.

           — Do quê? Do desfile de bunda perfeita?

           MacGregor se inclinou para ela.

           — Ninguém tem bunda mais perfeita que você.

           — Eu não sei nada sobre isso — Ela voltou para a rua.

           — Estou atrás de Hemmer — gritou ele.

           Sam o ignorou, mas estava lívida. Nick poderia ter dito que estavam vigiando a casa de Maclean. Maldição. Eles provavelmente estiveram comendo pipocas e bebendo cerveja na HCU na noite anterior... às suas custas.

           Aquilo estava fugindo ao controle. Maclean poderia não ter saltado no cofre ainda, mas podia fazer isso a qualquer momento e escapar com a página para qualquer época. Seria quase impossível encontrá-lo. Ela ficou tensa ao pensar nisso. Por isso estava tão decidida a não perdê-lo de vista na noite anterior. Agora, sua ausência era uma má notícia.

           Viu Hemmer antes que ele a visse e mergulhou em seu sedan.

           Ele parecia muito feliz quando saiu do edifício com um papel na mão e uma maleta na outra. Um chofer abriu para ele a porta de um carro negro e Hemmer entrou.

           Sam viu quando MacGregor entrou em seu Toyota cinza, estacionado um pouco mais acima, e o seguiu.

           — Divirta-se — resmungou. — Espero que o perca no tráfego — isso era mesquinho, mas ainda estava fervendo de raiva, imaginando que possivelmente a tivessem gravado em vídeo.

           Ela estava pensando nisso quando viu Maclean sair de um táxi poucos momentos depois. Ficou rígida. Ele usava um blazer cinza, uma camiseta escura e jeans, e parecia em plena forma. Passou junto ao porteiro e o saudou como se fizesse isso todos os dias. Estava claro que continuava envolvido com Becca Hemmer.

       Sam olhou seu relógio.           Eram onze e meia da manhã.

           Ela girou a ignição, ligou o rádio, estranhamente irritada e começou a girar os canais. Ela finalmente decidiu-se por uma estação de música country, que rapidamente tornou-se irritante. Ela mudou para jazz e voltou a olhar seu relógio. Passaram apenas sete minutos. A Fox News sempre foi uma boa aposta. Ela recostou no assento ouvindo Sean Hannity defender a América, concordando com a maioria das coisas que ele dizia. Os minutos passavam lentamente e isso era insuportável. Claro, ela sabia o que eles estavam fazendo. Estava deixando Becca esgotada, o bastardo, e se ela não caísse no sono depois ele a drogaria ou a esmurraria. Não que ela se importasse com o que ele fizesse. Maclean era um sociopata com um passado muito confuso, o tipo de cara que toda mulher devia evitar. Alguém deveria avisar Becca.

           Já era meio-dia e quinze.

           Sam mudou de emissora.

           Maclean saiu vinte minutos depois com um pacote sob o braço. Estava sorrindo. E foi direito para o Lexus.

           Sam ficou quieta.

           Ainda sorrindo, Maclean bateu na janela. Usava óculos de sol de aviador.

           Ela baixou o vidro.

           — Acho que você me pegou.

           Ele tirou os óculos e olhou sua camiseta.

           — Você nunca poderia passar despercebida a um homem.

           — Puxa! Um elogio. Estou sentada em um carro relativamente discreto, com os vidros escuros.

— Mas o porteiro acha que você parece Sharon Stone em “Instinto Selvagem”.

           — Lembre-se de não voltar a falar com o serviço de apoio — Sam abriu a porta, obrigando-o a recuar e saiu. Desligou o motor, mas deixando a chave no contato.

           Ele olhou seu jeans apertado.

           — Espero em não tê-la feito esperar muito.

           — Eu adoro música country.

           — Tentei correr.

           — Não se incomode em me contar os detalhes.

           — Por quê? Está com ciúmes? — ele começou a rir.

           — De uma bonequinha sem cérebro que tem uma selvagem aventura sexual com um sociopata obstinado? Você está brincando?

       — É assim que você gosta do sexo, não é mesmo? Selvagem? Mesmo com um sociopata? Mesmo comigo?

           Sam sentiu um vazio por dentro. Disse lentamente:

           — É melhor selvagem que o contrário, disso não há dúvida.

           Sam afastou o olhar de seus olhos cinza e duros, que tinha uma expressão especulativa, e olhou o pacote que tinha debaixo do braço. Sabia o que continha.

           — Ele provavelmente está se desintegrando enquanto falamos. Essa página precisa de controle de temperatura. Quer compartilhá-la comigo?

           Ele quase sorriu.

           — Compartilhar é contra minha natureza.

           — Claro que é. Então, qual é o plano? — ela estendeu a mão e arrastou as unhas pela sua bochecha. Aquele gesto intensificou as vibrações de seu corpo. — O que vai fazer com a página? Ou já tem comprador, como o Van Gogh?

           Maclean a agarrou pela mão e puxou-a.

           — Estou vendendo a quem pagar mais.

           Sam se apertou contra seu corpo musculoso.

           — De alguma forma, não me surpreende. Não o tinha por um patriota. Não poderia levá-lo a agir como os mocinhos?

       — Convença-me — disse ele.

       Ele já estava excitado. Evidentemente não demorou muito. Não que ela devesse criticá-lo por isso: Maclean surtia o mesmo efeito sobre ela.

           — Eu adoraria — respondeu com suavidade.

           Ela se moveu. Ele a agarrou pela mão e ela abaixou-se por debaixo do seu braço e o torceu à velocidade da luz. Executou aquela manobra centenas de vezes, sempre com o mesmo resultado: incapacitar seu adversário. Porque, se ela não parasse, podia quebrar o seu braço. Maclean, entretanto, moveu-se ao mesmo tempo em que ela. Como se adivinhasse o que ela pretendia fazer, ele impediu que ela retorcesse todo o seu braço e acabaram na mesma posição do princípio, cara a cara, com as mãos unidas, ofegantes.

           Maclean sorriu.

           — Eu esperava outro tipo de persuasão, Sam.

           Ela deu-lhe um golpe em seu plexo solar. Maclean se esquivou e descarregou uma leve onda de poder que a lançou para o seu carro.

           — Desculpe-me — disse.

           Sam o amaldiçoou.

           Maclean correu pela rua e levantou a mão para parar um táxi. Freios guincharam. Sam ergueu-se no momento em que ele abria e acenava com a pasta que continha a página abrindo a porta do lado do motorista, tirando o taxista com um puxão e depois se sentando ao volante.

           Sam pulou no seu carro com um pulo, ligou o motor, engatou a marcha e saiu atrás dele a toda velocidade. Buzinas soaram para ela. Ignorou a indignação geral. Um Honda colidiu contra um carro estacionado ao evitar a batida, quando ela se meteu entre o tráfego.

           Ela pisou no acelerador. Não ia perder Maclean, mas havia meia dúzia de táxis diante dela, todos idênticos àquela distância. Procurou não perder de vista o de Maclean.

           Seu taxi, de repente se afastou do grupo, virando bruscamente em uma rua lateral.

           Sam amaldiçoou, trancando os dois últimos táxis ao segui-lo, mas teve que pisar no freio ao ver que uma mulher e um menino já estavam cruzando a rua. Maclean estava quase ao final do quarteirão e Sam viu que ia passar o semáforo.

           — Merda!

           Ela inclinou-se para fora da janela.

           — Anda! — gritou para a mulher e ligou a sirene.

           A mulher pulou para o outro lado da rua com o garoto a tiracolo. Sam pisou no acelerador. Maclean estava entrando no próximo cruzamento e o semáforo que os separava ficou vermelho. Ela amaldiçoou, pisou a fundo no acelerador e começou a buzinar. Milagrosamente os nova-iorquinos que queriam cruzar a rua pararam e ela passou a toda velocidade pela faixa de pedestres e se meteu entre o tráfego do centro da cidade.

           Buzinas soaram e pneus guincharam. Um SUV bateu em sua porta do lado do passageiro. Sam não parou. O Lexus entrou na rua ao lado. Apenas meio quarteirão os separava.

           Maclean estava rindo e ela sabia disso. Ela viu que o táxi virava à esquerda, voltando para o centro da cidade.

           Sam acelerou ainda mais, diante dela, o semáforo continuava aberto. Embora pouco importasse... Estava na Broadway e havia dúzias de pedestres cruzando por onde não deviam. Começou a buzinar várias vezes, o barulho incessante, sua sirene ainda gritava, mas os pedestres a ignoravam. Freou forte para evitar um atropelamento em massa.

           Uma multidão cruzou a rua, bloqueando sua visão.

           — Saiam do meu caminho!

           Os homens e mulheres que passavam do seu lado correram para refugiar-se na calçada.

           Sam passou pelo cruzamento a toda velocidade.

           Diante dela havia uns vinte táxis amarelos.

           Diminuiu a marcha com o coração acelerado enquanto olhava os táxis. Por trás, todos pareciam iguais.

           — Merda.

O semáforo mudou. O tráfego seguiu em frente. Sam seguiu os táxis, tentando sentir Maclean.

           — Onde está você, safado? Em qual deles está você?

           Ela não esperava uma resposta. Mas se concentrou como nunca. E sentiu seu intenso poder masculino. Oh, sim, ela sentia. Cravou o olhar em um táxi situado à direita.

— Eu tenho você! — grunhiu. Dando uma guinada na direção, ultrapassou uma van de entregas ignorando o motorista, que pisou forte nos freios, xingando-a pela janela. Pisou no acelerador e bateu no táxi por trás, no paralama traseiro. O táxi sacudiu com força, o para-choque ficou amassado. Maclean virou e a olhou por cima do ombro.

           Estava rindo.

           — Serei eu quem vai rir por último, Maclean — disse Sam. — E vou ficar aqui, colada no seu traseiro amarelo brilhante — sorriu, perguntando-se o que ele faria em seguida.

           Descobriu dois quarteirões depois. Ele deu uma guinada de repente para a calçada e Sam o seguiu, decidida a não perdê-lo. Maclean parecia a ponto de bater nos clientes de um café sobre a calçada. As pessoas começaram a gritar e a se jogarem de suas cadeiras. Maclean deu outra virada brusca. Sam o seguiu enquanto dirigia a toda velocidade pela rampa de saída de um estacionamento.

           Ele a estava testando, pensou Sam, sombria agarrando com força o volante. Mas ela não tinha vontade de morrer. A rampa de saída em espiral ascendia bruscamente: era impossível ver se vinha algum carro.

           Sam freou um pouco.

           Ao dobrar uma esquina, ela viu que um carro dava uma travada brusca para não se chocar de frente com Maclean.

           Maclean se meteu entre dois pilares para se esquivar do carro seguinte. Sam teve que dar uma guinada para desviar e roçou a parede do estacionamento, ouviu um chiado metálico. O Volkswagen que ia na direção contrária se chocou de frente com a parede.

           Ofegante, Sam dobrou a próxima esquina. Maclean não estava mais à vista. Deu várias guinadas para evitar os carros que desciam pela rampa e desviar dos veículos estacionados. Travou em seco para não bater de frente com um carro que vinha em direção contrária. Ela dirigiu forte seu Lexus até a rampa e se colou à parede de concreto. Faíscas saltavam de seu carro. Ouviu quando o carro que acabava de passar se chocava com uma coluna ou com a parede.

           Ao virar na esquina seguinte estava no piso superior da garagem. Maclean conduzia a toda velocidade entre as filas de carros estacionados.

           Sam freou bruscamente. Aquele piso do estacionamento estava quase vazio e ela pode ver que o telhado da garagem era um retângulo. Os edifícios que o rodeavam por três lados eram maiores. Sam não sabia o que havia pelo quarto lado.

           Onde ele estava indo? O único lugar para onde ele podia ir era para baixo, mas ele acelerou para a rampa de entrada, e ela estava junto à de saída.

           Compreendeu então que ele se dirigia à área descoberta do estacionamento. Colocou o carro em marcha e se dirigiu para ele.

           Maclean não parou.

           Sam estava perto o bastante para ver que o terraço do edifício ao lado ficava a uns dois andares debaixo do teto do estacionamento. E compreendeu o que ele estava a ponto de fazer.

           Pisou fundo no freio.

           — Você está louco? — ela gritou.

           Enquanto ela falava, o carro dele se equilibrou contra a mureta, atravessou-a e ficou suspenso no ar por um momento.

           Depois começou a cair.

           E aterrissou violentamente no telhado inferior.

           Sam desceu do Lexus e correu para a mureta. Viu o táxi sobre o terraço asfaltado. Parecia destroçado. A porta do condutor se abriu e Ian Maclean saiu, ele acenou para ela e, com o pacote sob o braço, começou a cruzar o terraço. Um momento depois entrou no edifício e desapareceu.

           Sam discou para 911.

           Maclean estava louco. Ou era isso, ou ele não se importava em morrer.

 

           Ian queria despertar.

           Tinha tanto medo que não podia respirar.

           Mas a cena era tão inofensiva que sua reação não tinha sentido. A não ser porque sabia que ia acontecer algo terrível.

           Via de longe os meninos na escada de entrada de um colégio do Brooklyn. Riam, conversavam e seus pais e cuidadores se aproximavam para buscá-los. Ian não queria olhar, mas fixava sua atenção neles como se seu olhar fosse um zoom. Um dos meninos não ria, nem falava. Seu coração se apertou ao reconhecer aquele menino magro e mal-humorado, de cabelo escuro.

           Era ele mesmo.

           Mudou o foco e de repente ele era o menino. Seu coração pulsava violentamente, cheio de medo. Gostava do colégio, mas detestava voltar para casa. Procurava não pensar no que aconteceria quando voltasse... Até que soava a campainha, ao final da manhã, e não havia outra escolha.

           Uma sombra escura pôs-se a andar a seu lado.

           Seu medo aumentou. Ignorou os dedos que deslizavam por sua bochecha. Percorreram os três quarteirões em silêncio, até o prédio.

           Na porta, o homem disse:

           — Seu avô voltou Ian. E ele tem planos para você.

           Ian engasgava, fechava os olhos. Às vezes levava meses, inclusive um ano inteiro, sem que Moray voltasse. Ian sabia que ele preferia à Escócia a Nova Iorque. Sonhava com que não voltasse nunca, com o dia em que finalmente pudesse ser autorizado a ir para casa.

           Ficou na soleira da casa escura, estreita e centenária.

           Dentro daquela casa estava seu pior pesadelo. Sabia que, se entrasse, esperavam-lhe a dor, o medo e a vergonha. Sabia que encontraria ali dentro a seus carcereiros, demônios que foram mudando com os anos, e também Moray.

           No porão, os Inocentes choravam e suplicavam piedade.

           Deus, ele se esqueceu deles. Havia tentado levar comida e água, mas bateram e o torturaram até deixá-lo quase sem vida.

           Começou a sentir-se doente. Não podia entrar.

           A porta abriu devagar. Uma onda negra de maldade saiu por ela, envolvendo-o. Ficou rígido, consciente de que o mal começava a abrir caminho dentro dele.

           — Não seja covarde e entre de uma vez — seu avô sorriu. — Quero que faça uma coisa, meu filho.

           Ian sentou ofegante. O medo e a angústia o seguravam com suas garras afiadas como facas. Demorou um momento em perceber que foi um sonho. Ele amaldiçoou.

           Os sonhos eram tão maus quanto os flashbacks.

           No primeiro momento, quando despertava, só sentia medo. Levantou-se de um salto do divã no qual ficou adormecido. Continuava tremendo e estava empapado em suor, resistia a pensar no sonho. Não queria voltar para aquela época, nem agora nem nunca. Respirou fundo e viu que era quase de noite. Chegou em casa fazia umas horas e se sentou para saborear seu triunfo sobre Sam Rose. Pensou em sua valentia, cheio de admiração. Tomou três ou quatro drinks. E dever caído no sono.

           Olhou o copo meio vazio e o sanduíche que estava junto ao divã. Ele temia dormir quase tanto quanto temia a dor e a maldade. Por isso evitava isso a todo custo. O sonho sempre lhe provocava pesadelos, e o despertar trazia lembranças horrendas, vívidas e memórias recicladas.

           Às vezes passava dias sem dormir. Mas, no final, o passado sempre vencia. Eventualmente ficava adormecido uns instantes, como acabou de fazer.

            Seu avô, Moray, foi um dos maiores demônios que povoaram a Terra. Havia rumores de que governou seu maléfico império durante quase mil anos. Seu único fracasso foi sua incapacidade para arrastar por completo a seu filho Aidan, o pai de Ian, para o lado escuro. Moray não só estava acostumado a exercer o poder: estava obcecado por ele. Todos os demônios ansiavam poder; daí a razão por seus crimes pelo prazer. Mas Moray queria governar o mundo. Aidan era seu pior inimigo: seu próprio filho resistia aos seus desejos, às suas ordens. Moray sequestrou Ian em 1436, quando ele tinha nove anos, para utilizá-lo contra Aidan.

           Não conseguiu, entretanto, destruir Aidan. No final, Aidan venceu Moray e Ian foi libertado.

           O libertaram a exatamente vinte e cinco anos, pouco antes de Aidan e Brie destruírem Moray de uma vez por todas. Embora tivesse nascido no século XV, passou quase toda sua vida em tempos modernos, na cidade de Nova Iorque, onde foi mantido em cativeiro. Ian jamais esqueceria o dia de sua libertação. Seu pai o encontrou, e ele sentiu um alívio indescritível. Seu grande sonho havia se tornado realidade. Ele sentiu tanta alegria, mas sua alegria foi muito breve.

           Porque Moray o havia devolvido à Escócia e ao ano de 1502. No momento em que ele saiu da torre de Elgin, encontrou-se na Idade Média. Deveria ter sido familiar para ele, mas, ao contrário, era estranho, confuso e desconcertante. Ele mal conseguia se lembrar dos anos de sua infância, passados ali. Começou a se perguntar por que seu pai não foi antes resgatá-lo. Olhava constantemente para trás, esperando ver Moray ou algum de seus carcereiros aguardando para machucá-lo. E ele não podia dormir. Quando dormia, sonhava.

           E ele ainda tinha nove anos de idade.

           Seu avô o privou de uma infância normal ao lançar sobre ele um feitiço que o manteve com essa idade durante todo seu cativeiro, tanto física quanto emocionalmente. Mas, ao ser libertado, amadureceu rapidamente, e em questão de meses se converteu em um homem. Biologicamente tinha cem anos, mas só fazia vinte e sete que era um adulto. Isso, entretanto, não importava, sentia-se como se tivesse mil anos.

           Bebeu seu uísque escocês. Ninguém melhor que Ian sabia o quão sádico, cruel e malvado foi aquele filho de uma cadela. Embora tivesse sido derrotado, continuava temendo-o. Não lhe ocorria nada pior que sonhar com seu avô... além de voltar a encontrar-se cara a cara com ele.

           Moray disse uma vez que era Satã.

           Ian acreditou.

           Moray disse rindo:

Você não entendeu a verdade ainda? Eu sou Satã.

           Seu coração explodiu de medo e incredulidade. Engasgou, agarrou-se às barras da jaula em que o colocaram como castigo.

Você não pode ser Satã. Satã é o pai de todo o mal.

           Moray colocou a mão na porta, sorrindo com crueldade.

     — Mas tenho muitos rostos, meu filho. Agora, fará o que eu disser?

            Ian pegou de novo seu drink e percebeu que estava vazio. Resmungou uma maldição. Satanás havia imbuído a sua existência em Moray e em tudo o que ele fazia. Sem dúvida tinha mil faces. Moray era uma delas.

           De que forma Moray podia ter sobrevivido mais de mil anos? A Irmandade e outros grandes homens o caçaram através dos tempos. E todos fracassaram, até que Aidan e Brie o destruíram.

           E seu pai, que o havia deixado sozinho com o mal durante tanto tempo, passou à história como um grande Mestre. Ian pôs-se a rir. Sabia que sua risada soava amarga. Não se importava. Longa vida ao grande Lobo de Awe, pensou sarcástico.

           Tinha quase tantos poderes quanto seu pai e uns quantos que Aidan não passuía. Mas sabia que nunca o pediriam que se unisse à Irmandade. Os deuses conheciam a verdade a respeito de seus anos de cativeiro. Sabiam o quanto contaminado ele estava, conheciam sua loucura, seu desequilíbrio. A ele, em todo caso, pouco importava. Se alguma vez cometessem a estupidez de pedir-lhe que se unisse a eles, se recusaria porque era muito diferente deles. Como poderia ser confiável para proteger a Inocência?

           Pendurado na gaiola o Inocente soluçava de medo.

           — Faça isso.

           Ian segurou a faca começando a chorar.

           — Faça isso, Ian, ou sofrerá como eles sofrem.

           Ele sabia o que tinha que fazer. Mas não pôde fazer. Não pôde fazer isso à garotinha e à sua mãe. Olhou o monge, que estava junto a ele, ao lado de seu avô.

           — Castiga-o — havia grunhido Moray.

           De repente Ian gemeu de dor. Viu que agarrou o copo com tanta força que quebrou. Tinha sangue na mão. Amaldiçoou e deixou cair os vidros quebrados. Às vezes odiava todo mundo: os deuses, o seu pai, o mundo inteiro.

           Ao final, quando souberam que ele não tentaria escapar, quando ele mesmo compreendeu que jamais seria liberado, Moray tentou convertê-lo. Foi outro estratagema idealizado para destruir seu pai. Mas, apesar do medo que sentia, Ian nunca foi capaz de fazer mal a um Inocente. O garoto foi um herói, o homem flertava com a dor. Às vezes ele tinha uma vontade intensa de fazer mal a outros, inclusive às mulheres com quem se deitava. Mas isso não era nada comparado ao impulso de fazer mal a si mesmo que tão frequentemente se apoderava dele.

           Essa tarde, quando esteve no último andar da garagem, havia olhado pela borda e se perguntou se ele finalmente iria morrer. Quando chegasse o dia, acolheria a morte com entusiasmo. Outros podiam temê-la. Ele sabia, pelo contrário, que morrer era achar a paz.

           Tocou em seu ombro. Havia sofrido alguns machucados e contusões durante a perseguição de carro.

           A impressionante imagem de Sam Rose encheu sua mente.

           Não esperava que ela o seguisse essa tarde, como não esperava que na noite anterior ficasse com ele. Mas ela fez. Aquela mulher tinha um caráter excelente. E dirigia do mesmo modo que lutava, e certamente da mesma forma que fodia.

           Sua intenção sempre foi que mostrasse suas garras na cama, com ele. Queria manter com ela um relacionamento puramente sexual. Mas de repente imaginou-a sorrindo com ternura e acariciando-o, doce e carinhosa, sob seu corpo.

           E riu de si mesmo. Se fizesse amor como uma gatinha melosa, ele ficaria entediado. O que estava acontecendo com ele? Quando essa fantasia começou?

           Sacudiu a cabeça. Sam era muito poderosa, muito esperta e possivelmente tão sexual quanto ele. E tão bela que deixava a respiração difícil. Ian sorriu. Estaria à sua altura na cama. Seria incansável, insaciável, e muito exigente.

           Compreendeu que estava satisfeito por sair ilesa e, enquanto chamava Gerard para lhe pedir algo de comer, essa ideia o surpreendeu. Ele só se preocupava consigo mesmo. Só se importava que Sam estivesse ilesa unicamente porque queria que ela estivesse inteira em seu próximo encontro.

           Começava a ficar sem paciência.

           Não mentiu ao dizer que se mudou para Nova Iorque para poder transar com ela. Caçá-la desde a Escócia requeria mais paciência do que tinha.

           Ele olhou para frente, para o seu próximo encontro. Estava encantado com o início daquela pequena guerra.

           Então, lembrou-se da noite anterior e começou a andar pela sala. Procurou esquecer o que aconteceu com John, vingou-se, embora Sam o tenha visto em seu maior momento de debilidade. Não tinha por que lhe dar explicações. Não lhe devia nada, além de uma ou duas noites de prazer extremo. Seus segredos continuariam sendo isso: segredos. Se alguma vez fosse revelada a verdade sobre seu cativeiro, ficaria louco.

           O som do intercomunicador interrompeu suas reflexões. Cruzou o salão e entrou em seu quarto.

           — Gerard?

           — Chegou o senhor Hemmer, senhor. Espero para lhe levar o jantar?

           — Sim, por favor. E obrigado, Gerard — soltou o botão, satisfeito. Seu velho amigo não demorou muito em somar dois mais dois.

           Entrou sem pressa em seu enorme closet e tirou a roupa, vestiu un jeans gasto e um pulôver de cachemira azul, fino como o papel. Embora fosse pleno verão, mantinha a casa sempre fresca. Olhou seu relógio Cartier de dezoito quilates. Eram sete e quarenta e cinco. Desceu para receber seu convidado.

           Gerard serviu a Hemmer um Cabernet Philips Insígnia de dez anos que ele não tocou. Rupert Hemmer estava contemplando seu Motherwell recém-adquirido. Não era muito valioso (foi vendido originalmente por quarenta e cinco mil dólares), mas Ian gostava das graciosas pinceladas vermelhas e negras que o pintor distribuiu pela tela branquíssima. Para ele, Motherwell simbolizava a luta de vida e morte entre o bem e o mal. Inclusive havia efetivamente pago pela pintura acrílica.

           Hemmer se virou. Tinha o cenho franzido e parecia excitado.

           — Teve um mau dia? —perguntou Ian, tentando não parecer que se alegrava com isso. Manteve seu olhar o mais inocente possível. Ele realmente não gostava de Hemmer. Embora tecnicamente humano, ele era malvado até a medula. Roubar o Van Gogh para ele foi uma questão puramente profissional.

     — Provavelmente seria bom que medisse a pressão arterial.

           — Conheço apenas uma única pessoa capaz de desativar meu sistema de segurança e sair com a página do Duisean sem disparar um único alarme — replicou Hemmer.

Ian sorriu.

           — Sem dúvida há outros ladrões tão habilidosos quanto eu no mundo.

— Eu o convidei à minha casa como amigo.

           Ian apagou seu sorriso.

— Nunca fomos amigos. Você me pediu para conseguir o Van Gogh e me pagou regiamente por isso.

— Isso nos transforma em sócios, Maclean.

                 — Sim. E o que conta é possuir as coisas, não é isso? Você sabe melhor que ninguém — Ian se aproximou do aparador do século XVII e se serviu de uma taça de bom vinho.

           Hemmer o seguiu.

                 — Então foi você! Bastardo! Foi à minha festa só para me roubar.

                   Ian conservou a calma.

           — É preciso ser um ladrão para reconhecer um — bebeu um gole e impressionou-se com a qualidade do vinho.

           Hemmer tremia de raiva.

           — Te ocorreu pensar que não sou homem que se convenha ter como inimigo?

            Ian encolheu os ombros.

            — Olhe como tremo.

            Hemmer fez uma careta. Seus olhos ardiam.

            — Quanto? Quanto vai extorquir de mim? Quanto vai me custar reaver essa página?

            Ian tentou entrar em sua mente, mas não conseguiu. Só sentia a fúria de Hemmer e sua intenção de lhe fazer pagar pelo que fez. Mas para isso não necessitava de telepatia. Hemmer tinha que saber que a página possuía poderes sobrenaturais. Ian não acreditava que, de outro modo, pagasse mais de duzentos milhões por ela. Hemmer nem sequer era irlandês.

           Mas havia algo mais. Uma sombra negra nublava os pensamentos de Hemmer: uma presença nítida, mas indefinida. Havia mais alguém que desejava possuir a página, além de Hemmer? Ian tentou de novo, mas não conseguiu ver com clareza essa outra pessoa... Se é que havia. Não conseguia encontrar um nome. Só vislumbrava uma sombra negra. Se fosse um demônio, o jogo se complicaria.

           — Aceitarei ofertas até sexta-feira à meia-noite. Faça a sua.

           Hemmer engasgou de ira.

           — Está aceitando ofertas? A página é minha! Quanto quer por ela?

           — Faça sua melhor oferta — repetiu, sem rodeios. — Vou vendê-la ao melhor lance — sorriu e acrescentou suavemente. — Boa sorte.

           Hemmer respirou fundo.

           — Você vai se arrepender, Maclean. Eu não sou realmente o tipo de homem que você desejaria desafiar.

           Ian parecia divertido. Ele temia os demônios... Não demônios bilionários malvados como Rupert Hemmer. Mas se Hemmer estava brincando com demônios, possivelmente deveria temê-lo. Mesmo assim, não daria para trás porque estavam em jogo centenas de milhões de dólares. E a riqueza era poder.

           — Realmente? Boa sorte em sua vingança, então.

           Hemmer sorriu lentamente. Demorou um momento para responder.

           — Na primeira vez que nos vimos, desconfiei de você. Eu deveria saber. Então, gozou com minha mulher ontem à noite? E aproveitou hoje?

           Ian sabia que estavam gravando, encolheu os ombros.

           — É bastante habilidosa.

           Hemmer ficou imóvel.

           — Eu sei que você se considera acima de todos nós. Mas você deveria me temer, Maclean. Ninguém tem tanto poder quanto eu entre os mortais. E tenho aliados. Aliados que fariam você se sentir fraco e patético.

           Uma pontada de desconfiança percorreu Ian. Ele tinha razão. Hemmer tinha aliados entre os demônios. Ele tinha intenção de vender a quem pagasse mais, mas não queria complicar-se com grandes poderes maléficos.

                      

                        Por outro lado, havia passado vinte e cinco anos preservando-se o tanto quanto possível e cem milhões de dólares seriam a cereja do bolo. Sentir-se seguro — fazer seu mundo inexpugnável — era o impulso essencial de sua existência. As pessoas o consideravam um bastardo ganancioso. Como estavam equivocadas!

           E ele não gostava das ameaças. Ele sofreu milhares delas durante seus anos de cativeiro.

           — Não gosto que me ameacem, Rupert — Ian balançou a cabeça com desdém.

           — Nem eu que riam de mim, e menos ainda gosto que me enganem — se dirigiu para a porta e logo se voltou. — Ensinei a Becca todos os truques que sabe. Me pergunto quantos truques sabe Sam Rose.

           Ian enrijeceu incrédulo.

           — Quando eu descobrir, você será o primeiro à saber.

           Ian o viu partir, de repente estava lívido.

          

            Sam fechou devagar a porta de seu loft e se apoiou contra ela.

           Seu carro ficou mais ou menos imprestável. O deixou ali mesmo, no estacionamento, e pegou um táxi para voltar para a HCU, onde foi diretamente para a Cinco. Suas costas sangravam e o médico deu-lhe uma bronca por não cuidar da ferida como devia a noite anterior. Deu-lhe três pontos e refez o curativo. Sam também tinha uma entorse, e o médico a enfaixou. Em um dos choques devia ter batido com a cabeça, porque também tinha um olho roxo. O médico deu a ela uma bolsa de gelo... e logo a convidou para sair. Ela negou educadamente.

           Seu tornozelo estava machucado, seu tórax queimando e seu olho esquerdo latejava. Ela conseguiu escapar do edifício sem ser abordada por ninguém, e menos ainda por seu chefe. Nick tinha que saber que a página foi roubada, e que um de seus principais agentes causou inúmeras colisões.

           Maldito Maclean. O que havia de errado com ele?

           Sam tirou uma bota e teve que sentar em um banquinho da cozinha para tirar a outra. Estava esgotada. Passou vinte e quatro horas infernais. No trabalho a consideravam uma superagente, mas era humana, coisa que todo mundo parecia esquecer. Entrou na cozinha mancando, procurou uma garrafa de vinho e a tirou a rolha, serviu-se uma taça e a levou, coxeando, ao dormitório.

           A imagem de Maclean continuava gravada em sua mente tal e como o viu na última vez: em pé no terraço, ao lado do táxi esmagado, acenando para ela. Ficou parada um momento ao recordar as horríveis cicatrizes de suas costas. Nunca esqueceria aquela imagem. Nem quando teve um colapso depois de destruir John.

           O que estava errado com ele era que foi prisioneiro do mal quando era um menino. Era um milagre que ainda estivesse vivo para contar.

           Para chegar ao seu quarto, Sam tinha que passar pelo de Tabby. A porta estava fechada. Sam sempre a mantinha assim. A primeira vez que Tabby voltou ao passado, sequestrada por Macleod, Sam esperava que voltasse. Cada vez que passava por seu quarto, olhava para dentro. Mas Tabby nunca estava. E não era próprio dela partir sem dizer adeus. Ninguém, entretanto, podia resistir ao seu destino, e Tabby estava no passado. Um dia Sam fechou a sua porta, decidida a não voltar a abri-la. Sabia, no fundo, que cedo ou tarde voltaria a ver a Tabby. Simplesmente não havia outra possibilidade.

           Nesse momento desejava que fosse o quanto antes. Apoiou o ombro na porta, abriu-a e acendeu a luz. O quarto de Tabby era clássico e elegante, igual à Tabby. Era tão puro quanto sua irmã. Estava decorado em azul e branco. Dessas cores eram inclusive as cortinas e a colcha, estampadas com estrelas. Por um momento, pareceu ver sua irmã lendo na cama e sorrindo-lhe com carinho. Sentiu uma aguda pontada.

           — Sim, sinto tua falta, irmãzinha — disse Sam, sentindo-se tola. — E me viria bem que me desse um conselho. Pode acreditar nisso? Eu preciso de um conselho! Então... Onde está você? Como posso chegar até você? Estou começando a me angustiar, Tabby. Esperava que nossos caminhos se cruzassem logo. Faz apenas sete meses que você se foi, claro, mas tenho a sensação de que passaram anos. E sei que é feliz. É absurdo, mas dentro de uns dias faço vinte e oito anos, e você nunca faltou ao meu aniversário.

           Entre elas sempre houve uma telepatia incrível, desde que eram crianças, apenas um ano e meio de diferença. Mas Tabby não lhe respondeu, e Sam tampouco esperava que o fizesse. Sua irmã estava a séculos de distância. Entretanto, o que ela dizia era sério. Se tivesse capacidade de viajar no tempo, iria ver sua irmã para lhe contar suas preocupações. E ela faria isso amanhã. Já era o bastante. Mas a que época deveria ir?

           Maclean a levou para fins do século XIII. Quando ela, Sam, viajou ao passado com Nick para procurar Brie, viram Tabby em 1502 e sua irmã era duzentos anos mais velha.

           As viagens no tempo trocavam a realidade de princípio a fim.

           Embora Sam se considerasse perfeitamente humana, como sua irmã, nenhuma das duas era uma mulher comum. Tabby possuía poderes mágicos e Sam era muito consciente de que sua fortaleza tampouco era proporcional, não em tudo. Sempre teve, além disso, habilidades cinéticas[4] na manga, também. Podia ordenar ao DVD com a borda afiada como navalha que levava colado ao braço que deslizasse até sua mão. Podia fazer com que sua adaga saísse de suas ligas e podia mover pequenos objetos, como garfos sobre a mesa. Inclusive podia abrir de vez em quando uma porta ou uma grade. Seus companheiros a consideravam muito hábil no manejo das armas. Mas certamente Nick era o único que sabia que contava com um pouco de ajuda sobrenatural. O interessante, entretanto, era que Tabby viveu mais de duzentos anos. Sam se perguntava se, como afirmava o velho ditado familiar, as Rose melhoravam com o tempo. Essa brincadeira sempre foi pronunciada com uma piscada.

           Sabia muito bem como sua irmã reagiria a Ian Maclean se alguma vez se conhecessem. Tabby teria pena dele. Ela desculparia seu comportamento de racionalizar tudo. Prepararia para ele um jantar delicioso, serviria um vinho excelente, daria um sermão sobre a vida e, para arrematar, um forte abraço. E ele não seria imune a sua bondade. Tabby agradava a todo mundo. Com ela Ian se comportaria provavelmente como um ser humano, para variar.

           Sam não conseguia imaginar isso. Não se imaginava mantendo com ele uma conversa normal. Inclusive pensar nisso era uma ideia ruim. Além disso, ela não tinha nada que falar com Maclean. Fechou a porta e se recordou o quanto egoísta e deturpado ele era. E o maldito devia-lhe um carro. Não que ela fosse cobrar.

           Entrou mancando em seu próprio quarto, pintado de bege e marrom, e tão rigidamente moderno quanto clássico era o de Tabby. Despiu-se, tomou banho e vestiu um short cinza de lã e uma camiseta branca. Enquanto isso, não deixou de pensar em como Maclean tinha insanamente dirigido o taxi durante a perseguição. Ela estava certa de que ele não se importava em morrer.

           Claro que também nada parecia lhe importar, nem ninguém, não é? Sabia que não devia pensar nisso, mas era bastante triste.

           Era o filho de Aidan de Awe. Herdou muito poder branco de seu pai, mas não usava. Ou, melhor dizendo, não o usava como devia. Utilizava seus poderes para roubar obras de arte e acumular riqueza. Não tinha vestígio de maldade, embora seu avô fosse um demônio, mas mostrava, pelo contrário, muita indiferença e um egoísmo surpreendente.

           E então lá estava sua dor.

           Sam não queria pensar nele, recordá-lo de joelhos, chorando. Mas jamais esqueceria como venceu aquele demônio. Tinha aquela cena gravada em sua mente, infelizmente.

           Gostaria de pensar que Maclean venceu o demônio simplesmente porque lutava contra o mal, mas não era isso. Ele venceu John por vingança pessoal. A guerra contra o mal não lhe interessava. Ele praticamente provou isso.

           Sam estava com o estômago embrulhado, e não por estar bebendo sem ter comido. Ela desejava ter alguém com quem falar. Maclean continuava sendo um enigma. Tabby a animaria a mostrar-se amável e gentil, o que não era boa ideia. Disso estava segura. Especialmente agora que Maclean tinha a página e ela estava decidida a recuperá-la.

           Mal o pensamento se formou em sua mente quando soou o porteiro automático. Entrou na cozinha, curiosa. Nunca recebia visitas inesperadas. Todo mundo sabia o quanto protegia sua privacidade.

           — Olá, Sam, sou eu — disse Kit. — Posso subir?

           Kit nunca passava por ali, mas Sam se alegrou ao ouvir sua voz. Kit era inteligente, adorava investigar. Era muito racional. Talvez ela pudesse ajudá-la a entender Maclean.

           — Sim, suba.

           Kit apareceu com uma bolsa de supermercado e uma garrafa de vinho.

           — Ouvi sobre ontem à noite e hoje — disse enquanto deixava a bolsa sobre balcão. Tirou a garrafa de vinho tinto, um saco de aperitivos de soja e molho de iogurte e abacate. Acrescentou umas mini salsichas de soja e as colocou no microondas. Estava obcecada com a saúde.

           — Ontem à noite, você se refere a quando me viram por vídeo tentando tirar Maclean de cima de mim?

           Kit a olhou com preocupação.

           — A isso também. Mas isso não é tão estranho... Ele é um cara, ouvi dizer que ficou louco com um demônio.

           — Sim, ele ficou. — Sam serviu-se de uma taça de vinho e Kit pôs os aperitivos em uma tigela. Entraram na sala de estar.

           — Você está muito ruim — disse Kit. — O que aconteceu hoje?

           — Decidi persegui-lo sem me dar conta de que quer se matar. A perseguição acabou quando se lançou de um telhado com o carro.

           Kit sentou e disse:

           — Não deixe ele te levar para o túmulo com ele. Poderia ter te matado, pelo amor de Deus.

           Sam teve que sorrir. Ela pretendia morrer matando demônios, não assim. Então disse com culpa:

           — Ele venceu esta rodada. Eu me sinto muito responsável por ele ter roubado a página do Duisean. Tenho que recuperá-la.

           — Não é sua culpa. Mas imagino que ele não vai te entregar isso.           

           Sam riu sem vontade.

           — Não, ele não vai. Vai vendê-la pelo melhor lance. E é muito possível que essa pessoa seja alguém ainda mais malvado que Hemmer. Nós não temos orçamento para lhe fazer uma oferta decente. Nick está muito zangado?

           — Fez bem em ter escapado.

           Sam suspirou.

           — Maclean não se importa com quem é bom e quem é mau. Não lhe importa nada, exceto ele mesmo e seu ímpeto sexual.

           Kit piscou. Depois ruborizou.

           Sam a olhou com curiosidade. Acabava de envergonhá-la. Embora tivesse na casa dos vinte anos, Kit se comportava às vezes como se fosse virgem.

           — Ele está obcecado com sexo, Kit. E pretende utilizá-lo como arma contra mim, se puder.

           — Ele é realmente atraente — comentou Kit.

           Sam fez uma careta.

           — Até você conhecê-lo melhor.

           — E você o conhece bem?

           Sam ficou séria.

           — Não. Na verdade eu aposto que ninguém o conhece. E ele quer que seja assim. Mas está no jogo. Um jogo que temos que ganhar.

            — É só isso? Não te interessa nem um pouquinho todo esse apelo sexual?

           — Maclean é quente, mas não me interessa — Kit a olhava com ceticismo. — Eu não deveria saber o que faz, exceto como um agente, mas Kit a verdade é que o que vi ontem à noite e me deixou um pouco chocada. Ele perdeu a cabeça com esse demônio. Estava fora de controle, enlouquecido. E depois desabou. Acho que nunca vi ninguém assim.

           Kit a olhava com os olhos arregalados.

     — Nada nem ninguém a afeta. Está me dizendo que se sentiu triste pelo Maclean?

           Era difícil não comover-se ao ver um homem como Maclean perder o controle até o ponto de chorar, pensou Sam.

           — Sou uma profissional, lembra? Jamais me permitiria sentir pena por ele. Mas é o jogador principal desta partida, e as apostas são muito altas. Quanto mais soubermos dele, melhor.

           Sam teve a sensação estranha de estar mentindo. Seu trabalho consistia em entender a personalidade de Maclean, mas ele a excitou e comoveu. De fato, sentia-se quase confusa. Olhou para Kit.

           — Como é possível que não sinta pena dele como ser humano? — perguntou Kit.

            — Kit, estamos treinadas para manter a objetividade em nosso trabalho.

           — Eu li seu arquivo.

           Sam ficou calada. Precisava saber o que Kit descobriu, mas de repente desejava não perguntar sobre esse assunto.

           — Sam? — Por que tem esse ar engraçado no rosto?

           Secamente, desejando poder confiar em Kit, Sam respondeu com ironia:

     — O suspense está me matando.

           — O que há entre vocês dois?

           Sam ficou tensa.

           — Nada. Quer dizer, ele quer transar comigo e eu disse que não. Está apreciando a perseguição. Não é assim com todos?

           — Porque diria que não? — Kit parecia intrigada. — É um garanhão, como você gosta. Nunca vi você rejeitar um cara quente.

           Sam começava a se sentir incomodada, de repente imaginou-se na cama com Maclean. Fariam-se em pedaços. Usariam um ao outro até ficarem exaustos, pensou. Seria uma paixão descontrolada. Sabia.

           — Ele está sob investigação Kit. Por que estamos falando de meus hábitos sexuais?

           — Não estamos falando sobre isso. Estamos falando de Ian Maclean e de você. De um quase imortal com um arquivo de duas polegadas de grossura na agência, cheio de incógnitas. Um quase imortal que, devo acrescentar, é suspeito do roubo de obras de arte por valor de várias centenas de milhões de dólares. Um quase imortal que passou décadas em um cativeiro demoníaco. Deveria ser um dos nossos, mas não é. Mas também não é um deles. Acredito que vale a pena falar dessa pessoa, e sobre como você está lidando com ele. E, se sentir algo por ele, acho que também vale a pena falar disso. Por isso vim. — Ela corou. — Estava preocupada com você.

A primeira reação de Sam foi rir. Kit era uma novata e, comparada a ela, tão inocente quanto um civil, sem experiência na luta contra o mal. Lembrou-se então como Maclean havia atacado John e sua reação posterior.

           — Você não tem por que se preocupar comigo — mas ela hesitou e a olhou nos olhos. — Vou procurar não pensar nele, não me preocupar, nem sentir compaixão.

           — Mas sente isso?

           — Eu não sei! — Sam levantou e começou a passear pela sala. Continuava com dor no tornozelo e parou, fazendo uma careta. — Eu nunca me envolveria com Maclean. Seria um suicídio.

           Kit também levantou.

           — Uau, isso sim que é uma resposta radical. Como pode comparar essas duas coisas: envolver-se com um homem e suicidar-se?

           Sam não podia acreditar que disse aquilo.

     — Pode ser que alguma vez eu transe com ele, mas nos meus termos. E não haverá nada mais.

           — Não pode dizer a Forrester que você quer sair e que outra pessoa se encarregue de procurar a página? Provavelmente seja o melhor, Sam. Porque essa perseguição de carro foi uma loucura. O que você teria feito, se o pegasse? Ele tem mais poder que você. Pode saltar no tempo. Como você iria recuperar a página?

           Várias imagens de Maclean nas últimas vinte e quatro horas se amontoavam na cabeça de Sam. E na maioria delas, ela aparecia em seus braços.

           O que Kit acabava de dizer estava certo. Persegui-lo foi um erro de cálculo. A menos que ele morresse na perseguição, ela não tinha como cumprir sua missão e recuperar a página.

           Kit tinha razão. Devia deixar o caso. Maclean era um desafio que não necessitava. Mas ela nunca resistia a um desafio, e Maclean despertava sua curiosidade como ninguém que conheceu.

           — Não vou deixar o caso — afirmou. — Continuarei nisso até que acabe. O que está em seu arquivo? O que fizeram a ele? — O coração dela bateu mais forte enquanto falava.

           Kit suspirou.

           — Eu não achava que você fosse recuar. Não sei o que fizeram a ele. O arquivo não diz. Ninguém sabe. O que sei é que foi sequestrado em 1436 e libertado em 1502. Faz a conta. Ficou sessenta e seis anos prisioneiro.

           O estômago de Sam revirou violentamente.

           — Só um quase imortal poderia sobreviver a isso. Não é à toa que tenha tantas cicatrizes. E não só físicas. Não admira que seja tão pouco sociável.

           — Então, você está sentindo pena dele — os olhos do Kit se arregalaram.

           Sam a olhou fixamente. Estava a caminho do desastre?

           — Sinto-me tentada a sentir pena dele. Como não poderia sentir? Certamente o torturaram até quase matá-lo. Os demônios adoram a dor. E ele não era mais que um menino quando o fizeram prisioneiro, não é? — sua dor de estômago aumentou.

           — Ele tinha nove anos. O mantiveram sob feitiço, Sam. Continuou tendo essa idade durante todos os sessenta e seis anos de seu cativeiro.

           Deus, era pior do que pensava. Sam esfregou a testa. A cabeça doía. Ou seria o coração?

           — Se me permito sentir pena dele, estou perdida. Ele vai descobrir e usará isso contra mim, e então vai rir na minha cara — tinha, entretanto, a impressão de que era já muito tarde.

           Kit levantou e rodeou a mesa do café para ficar do seu lado.

           — Você enfrenta o mal com uma calma e uma distância que parecem admiráveis. Mas como não vai sentir pena dele? Tive vontade de chorar apenas lendo os dados sobre ele. Está confuso. Ele sofreu maus bocados.

           Sam fez uma careta. Kit tinha razão. Ninguém deveria passar por uma coisa assim.

           — Que mais dizia o arquivo?

           — É muito estranho. Big Mama abriu o arquivo assim que ela começou a funcionar, em 2002. Seu arquivo se remonta a vinte e cinco anos. E então não há absolutamente nada, zero. É como se tivesse aparecido do nada.

           — Talvez tenha sido quando o libertaram.

           — Talvez. Se for assim, acredito que ele deveria estar vivendo em 1527, não em 2009. Isso faria dele um homem medieval, não um moderno.

           — Ele pode viajar no tempo. E viver na época que preferir — Sam começou a dar voltas em torno daquela ideia. Maclean se comportava como um homem contemporâneo.

           — Existem regras, Sam, supõe-se que os Mestres devem viver em sua época, não em outra. Podem saltar no tempo para salvar Inocentes, mas logo têm que voltar para sua época. É o mais lógico. Caso contrário, poderiam encontrar-se consigo mesmo no futuro, não é?

Sam já havia chegado a essa conclusão. Isso explicava por que Brie não achou Aidan no século XXI e porque Tabby também decidiu ficar no passado.

           — Mas ele não é um Mestre. Está claro que não joga pelas suas regras.

           Sam mal acabou falar, quando sentiu sua presença. Surpresa, ficou tensa. O calor e a energia próprias de Maclean estavam perto. A sua campainha soou e Sam compreendeu que ele estava embaixo.

           Assustada, ela foi atender. O que ele queria?

           — Posso subir? — perguntou Ian Maclean.

           Sam recuperou a compostura, apesar do coração bater a mil por hora.

           — Só se você estiver me trazendo um cheque de cinquenta mil dólares.

 

           Sam olhou para Kit, que disse:

           — O que ele quer?

           — Não tenho nem ideia. Nem sequer sei como ele sabe onde vivo.

           — Você vai se trocar?

           Sam sorriu. Sabia que seu short minúsculo e sua camiseta eram muito provocantes. Mas não se importava. Iria se divertir vendo-o sofrer.

           — Estou certa de que ele pode lidar com isso.

           — Quer que ele te seduza?

           Passou pela cabeça que, apesar de suas constantes insinuações, Maclean nunca se propôs seriamente a seduzi-la. O que podia ser bom, porque não tinha certeza de poder resistir a um ataque em larga escala. E isso a inquietava.

           A campainha soou antes que houvesse tempo de analisar aquela ideia. Sam abriu a porta. Maclean sorriu pra ela com sua arrogância de costume. Estava muito bonito e muito elegante com seu jeans justo e desgastado, seus sapatos Gucci e um pulôver que custou centenas de dólares.

           Era impossível que pertencesse ao ano 1529, pensou Sam. Ele parecia o que era: um playboy rico, vaidoso e acostumado aos círculos da alta sociedade. Mas isso não diminuía seu atrativo.

           Sam descobriu perplexa, que ele não sofreu nem um único arranhão na perseguição.

           — Parece que você acabou de almoçar no Soho.

           Maclean não respondeu. Seus olhos se arregalaram ao ver seu olho arroxeado e seu tornozelo enfaixado. Logo voltou a cravar o olhar em seu corpo, desta vez, cheio de interesse sexual.

           — O que aconteceu com você? — entrou tranquilamente no loft.

           — Você já deveria saber disso — respondeu ela enquanto fechava a porta. — É o responsável.

       — Não lembro de ter dado um murro no seu olho, e estou acostumado a ter boa memória.

     Sam se perguntou se ele acreditava que na noite anterior havia perdido o controle a ponto de bater nela e não se lembrava disso.

           — Eu me fiz isto perseguindo você pela rampa de saída — respondeu com secura. — E a torção eu fiz lutando na última noite com o salto quebrado, enquanto você olhava.

           Ele deslizou o olhar por sua camiseta e seus seios, visivelmente nus sob o tecido.

           — Você foi ao médico.

           Sam sentiu que a temperatura de Maclean aumentava uns graus, porque seu próprio corpo reagiu do mesmo modo. Procurou responder com calma:

           — E o que importa? Onde aprendeu a dirigir, afinal?

           Ele levantou lentamente o olhar.

           — Aprendi sozinho.

           — Os carros não voam.

           Maclean esboçou um sorriso.

           — Tentarei lembrar disso da próxima vez que estivermos para-choque contra para-choque. Suas palavras acariciaram Sam como uma onda, suave como seu pulôver de caxemira.

           — Sempre será um cachorro lascivo completo?

           — Você gosta assim.

           Sam arregalou os olhos. O olhar de Maclean era intenso e ofuscante. Talvez ele tivesse razão. Esperava, disso não havia dúvida, que se comportasse como um vândalo. Mas pensou em suas cicatrizes e nos sessenta e seis anos de cativeiro que ele suportou. Depois disso, ninguém seria normal.

           Talvez sua obsessão pelo sexo não fosse mais que um grande disfarce.

           — Acho que vou embora — disse Kit.

           Sam esqueceu dela.

           — Não tem porque ir. Maclean não ficará muito tempo.

           Ele sorriu.

           — Não tenho nenhuma pressa, Sam. Quero ver sua casa.

           Sam se lembrou dele em pé sobre Becca, sem nenhuma pressa. Depois, lembrou dele pressionando ela contra a mesa da entrada, na noite anterior. Havia muita ânsia naquele momento. E, agora, essa mesma ânsia começava a crescer de novo.

           — Kit — disse com aspereza, — este é Ian Maclean. Esta é minha melhor amiga, Kit.

           Ian sorriu como se esperasse que ela também caísse rendida aos seus pés.

           Kit ficou corada.

           — Acho que falarão com mais tranquilidade se eu não estiver aqui — recolheu sua bolsa. — Eu acho que uma trégua seria uma ótima ideia — Estamos todos no mesmo lado, na realidade.

           Sam não sabia se ela se dirigia a ela ou a Ian. Quando Kit foi embora, ela entrou na cozinha para servir uma taça de vinho a Ian, consciente de que ele admirava seu traseiro e suas pernas enquanto a seguia. Deu-lhe a taça.

           — Não sou boa anfitriã, — disse — não como minha irmã, que o receberia de braços abertos. Eu me limito a aproveitar o momento, embora não como você queria.

           — Eu gosto — respondeu ele com suavidade — de seu short.

           — Com certeza que sim. E Maclean... Não estamos do mesmo lado. É incrível que Kit seja tão otimista depois de tudo o que passou. Se estivéssemos no mesmo lado, agora mesmo você teria a página no bolso da calça.

           Seus olhos cinza brilharam.

           — Quer checar você mesma?

           Será que ele tinha que fazer de tudo uma insinuação sexual?

           — Ou poderia mudar de ideia e entregar a página às autoridades — estava brincando, mas queria saber onde a guardou.

           Ele sorriu, divertido.

           — E o que eu ganharia com isso?

           — Respeito por você mesmo?

           Ian bebeu um gole de vinho.

           — Eu não me importo com auto respeito.

           Queria dizer que não respeitava a si mesmo? Sam não podia imaginar que alguém pudesse viver assim.

         — Sinto muito que esta tarde você tenha se machucado — acrescentou com voz suave. — Não acreditava que você fosse me perseguir. Ele baixou o tom da voz, num murmúrio acariciador.

         Sam respirou fundo, desconcertada, e sorriu para ele. — Raramente sou subestimada duas vezes. Aposto que você não voltará a fazer isso.

           — Não, nunca — respondeu.

           Se ele fosse um pouco menos sexy, um pouco menos sedutor, sua vida seria muito mais simples, disse Sam para si mesma. E se não tivesse estado em cativeiro por todas essas décadas, também seria útil, porque seu comportamento antissocial e egoísta não teria desculpa. Observou-o atentamente enquanto ele entrava na sala de estar e se sentava em seu sofá. Estava muito bonito. E parecia satisfeito, como um leão de tocaia, pronto para se alimentar.

           Sua carismática presença enchia quase por completo a habitação. Sam sentou na poltrona em frente e cruzou as pernas quase como Sharon Stone. Ele sentou-se reto.

       — Você tem certeza de que não posso persuadi-lo para que faça o correto?

           Ian sorriu devagar.

           — Pode tentar Samantha. A qualquer momento... de qualquer maneira.

           Sam lhe devolveu o sorriso e deixou que se fizesse o silêncio.

           — Consideraria a hipótese de fazer o correto se eu te der o que deseja?

           Ele esboçou um sorriso divertido.

           — Você se renderia com tanta facilidade? Eu ficaria desapontado.

           — Sou muito boa nisso — ela disse convencida de que ele jamais entregaria uma obra no valor de duzentos milhões de dólares em troca de qualquer transa.

           — E o que faria se eu aceitasse?

           Sam ficou sem fôlego. Uma onda de desejo a percorreu, e o olhou com perplexidade.

         — É muito tentador. Mas duzentos milhões de dólares também são.

           Sam respirou de novo.

           — Se me der à página e se checamos sua autenticidade, farei amor com você, mais de uma vez. E como quiser.

         Ian cravou os olhos nela. Sam tentou não pensar no que ele exigiria. Sustentou seu olhar, tentando fazer com que ele não notasse sua confusão.

           Foi ele quem rompeu o silêncio.

           — Você é uma mulher de palavra.

           — Uau, você confia em mim — ele não respondeu, e Sam compreendeu que estava pensando em mil maneiras diferentes de tirar partido para aquele trato. — Eu, ao contrário, não confio em você.

           Ian apontou o sofá, ao seu lado.

           — Você tem medo de sentar comigo?

           — Isto não é um encontro, é? Ou será que temos que dar as mãos? Porque, que eu saiba, não chegamos a nenhum acordo.

       — Não, não temos um acordo — ele sorriu lentamente. — Eu quero você e também quero o dinheiro. E pretendo conseguir ambos.

           Sam levantou.

           — Isso não me surpreende.

           Ian também ficou de pé.

           — Eu achava que ontem à noite tínhamos quebrado o gelo.

           Ela não podia acreditar que estivesse se referindo a noite anterior, levando em conta o colapso que sofreu. Depois disse a si mesma que devia deixar de subestimá-lo. Sua forma de agir foi se tornando óbvia. Gostava manter a vantagem e deixá-la fora de equilíbrio. Ele usava constantemente o sexo como arma de batalha. Mas os dois poderiam jogar esse jogo.

           — Achou que nós...? — perguntou. Pensou em como se serviu da Internet para seus fins. — Você fez uma armadilha para John.

           — Eu fiz.

           — Por quê?

           — O que importa isso? Eu perguntei por que você sai todas as noites para caçar demônios? — encolheu os ombros com indiferença.

           — Eu sou uma Rose. E as Rose se dedicam há gerações a proteger a humanidade. Todas nós temos um destino. E o meu é matar.

           — Você acredita em tudo o que diz. Fizeram uma lavagem cerebral em você?

           Estava zombando dela. Sam começou a irritar-se.

           — Qual é o seu destino, Maclean? Roubar obras de arte e seduzir mulheres ricas?

           Quando cravou seus olhos frios nela, Sam sentiu uma pontada de arrependimento. Como disse Kit, a vida lhe deu experiências ruins. Comparada com a sua, a vida de Sam parecia um passeio de verão por um mundo sem maldade.

           Ian passou por um inferno porque esse era seu destino. Sua sobrevivência também não estava escrita.

           — Sinto muito. Não deveria ter dito isso. Seu destino não foi tolerável.

           Ele não pareceu suavizar-se.

           — Agora sente pena de mim?

           — Estou resistindo a sentir.

           — Da mesma forma que resiste a mim? — perguntou com ceticismo. — Você pode se compadecer de mim quando quiser.

       Sam compreendeu que ele queria que ela sentisse pena dele. Se sentisse, avançaria sobre ela sem escrúpulos. Era hora de virar a mesa.

     — É tão idiota que dificilmente poderia sentir pena de você. Então como sobreviveu a sessenta e seis anos nas mãos de demônios?

           Seus olhos viraram gelo. Sam percebeu que ele ficou perplexo, porque ele não disse nada.

           — Essas cicatrizes...

           — Não vou falar disso — parecia furioso.

           Sam esteve a ponto de recuar, mas continuou falando com cautela:

           — Está em seu arquivo.

           Ele a olhou com aparente surpresa. Respirou fundo.

           — Há um arquivo... sobre isso?

           Sam quase lamentou ter falado.

           — Nosso trabalho consiste em seguir a pista de gente suspeita, como você — Ian parecia horrorizado. — Sabemos que você esteve prisioneiro de seu avô por sessenta e seis anos e que durante todo esse tempo ele não te deixou crescer. E tudo porque odiava seu pai.

           Ian estava incrédulo e furioso, aproximou-se dela. Sam não se moveu.

       — Minha vida é assunto meu — gritou ele. — Não vou falar dela.

           Sam notou que seu acento irlandês se intensificava quando estava zangado ou excitado. Agora estava zangado. E ela não podia reprová-lo. Não queria compartilhar os detalhes de sua vida, e de seu pior pesadelo, nem com ela nem com ninguém. E estava no seu direito. Mas o CDA se ocupava de perseguir e derrotar o mal para proteger os cidadãos. Era a típica contradição entre a necessidade de segurança nacional e o direito individual à intimidade. E ela, que pertencia às forças da ordem, estava convencida de que o interesse nacional se sobrepunha.

           Ela umedeceu os lábios.

           — Eu trabalho para uma organização que persegue o mal, Maclean. Certamente você sabe por que tem faculdades telepáticas. Temos arquivos muito extensos e detalhados. A agência se remonta aos tempos de Thomas Jefferson. Temos arquivos sobre demônios e crimes demoníacos com séculos de antiguidade. E, por causa de seu pai e sua propensão de levar obras de arte alheia, também temos um arquivo sobre você.

           Ele a olhou horrorizado.

           — Quero esse arquivo.

           — É material classificado — sua mente, entretanto, trabalhava a toda velocidade. Talvez eles pudessem utilizar o arquivo para chegar a um acordo.

           — Quero conhecer seu chefe. Imediatamente.

           — Nick Forrester dirige a HCU, uma seção da agência, não a própria agência. Não vai te dar uma cópia desse arquivo, mas tenho certeza de ele que adoraria conhecê-lo. Vocês têm muitas coisas em comum — perguntava-se se ele entregaria a página em troca do arquivo.

           — Arranje-me um encontro com ele — ordenou Ian.

           Sam não gostava de receber ordens, mas concordou.

           — Falarei com ele manhã na primeira hora — observou-o atentamente. — A página está em um lugar seguro, não é? Porque ninguém quer que ela acabe reduzida a pó.

     — Está em um lugar muito seguro — Ian deu meia volta e começou a passear pela sala. Sam o olhava, tentando não ter piedade dele. Ian virou para olhá-la. — Você devia ter me contado sobre esse arquivo antes. Quem mais o viu?

       — Não tenho certeza. Certamente qualquer um que esteja tentando recuperar a página.

           — E quantos são? — perguntou ele. — Dez? Vinte? Cem?

           Parecia muito aborrecido que outras pessoas pudessem saber do seu calvário.

           — Provavelmente menos do que cinco ou seis pessoas. Nick gosta de controlar tudo. Se ele pudesse, seríamos todos marionetes com os fios muito curtos.

           Ian concordou com a cabeça. Seus olhos continuavam cintilando.

           Sam quis lhe dizer que no dossiê não aparecia nenhum detalhe a respeito de seu cativeiro. Custou a ela controlar esse impulso. Essa informação o acalmaria, indubitavelmente. Mas, se descobrisse, perderiam a vantagem que tinham sobre ele.

           — Quero ver Nick amanhã — disse em tom de alerta. Ele já estava na porta.

           — Não se preocupe. Estou certa de que ele também quer vê-lo.

           Ian parou com a mão na maçaneta da porta. Não se virou.

           — Vocês precisam tomar cuidado com Hemmer, vim para avisá-la.

           Sam se sobressaltou, surpresa. Maclean foi avisá-la de um perigo? E por que ele faria isso? E como podia Hemmer ser um perigo para ela?

           — Por quê? Ele sabe que foi você quem roubou seu brinquedo preferido, a não ser que desmontasse seu sistema de vigilância.

           — Ele sabe que fui eu. Mas ele se referiu a você, Sam. Ele acha que pode utilizar você em nossa pequena guerra — seus olhos prateados brilharam de novo.

           Sam não se inquietou.

           — E como poderia me usar, Maclean? Para que? Além disso, eu não me deixo usar — não sorriu. — Mas isso você já sabe.

           Seu rosto endureceu.

           — Ele vai usar você contra mim.

           Aquela afirmação fez que uma onda de desejo percorresse Sam. Mas ela se negou a admitir isso. Ninguém podia usá-la contra Maclean: ele não se importava com o que acontecia com ela.

           — Você deve ter rido dele como um louco.

           Sua expressão não mudou.

           — Hemmer é mau — ele alertou. — Talvez seja humano, mas tem poder e amigos entre os demônios. Fará todo o possível por vingar-se de mim. Mantenha-se afastada dele.

         — Como se você se importasse — respondeu ela lentamente. — Você mesmo acaba de dizer: ele está atrás de você, não de mim.

         — Não quero ver ninguém machucado ou usado — respondeu ele com firmeza.

              — Bem, então você me enganou — ao ver que ele não respondia, acrescentou — Está tentando me convencer de que é um cara bom, afinal de contas? Porque eu o vi em ação e temos seu arquivo. Até nosso supercomputador tem sérias dúvidas a respeito.

           Ian encolheu os ombros.

           — Será que é mesmo remotamente possível que você herdou de seu pai alguma predisposição ao heroísmo?

           — Eu não me pareço em nada com meu pai.

           Sam colocou o dedo na ferida.

           — Que pena. Eu gostava dele, Redimido, claro.

           Ian a olhou fixamente e Sam percebeu que ele estava tremendo.

           — Porque está tão zangado? Não podemos falar de você, nem de seu pai? Por quê? Aidan é um herói. Francamente, eu adoraria ver aflorar em você um pouco de seu afã por destruir o mal.

           — Eu não ligo para o que vocês querem ou esperam, vim te avisar que Hemmer é mau e planeja usar você contra mim — replicou Ian.

           Outro assunto que ele não gostava.

           — Hemmer não me preocupa.

           — Claro que não, porque não conhece o medo.

           Era quase uma acusação.

           — Ter medo não é o ponto. Algum dia morrerei. Nós dois sabemos que morrerei lutando. E que minha morte será coisa do destino. Seu rosto tinha uma expressão tão dura que Sam se surpreendeu que não rachasse. — No que está pensando? — perguntou. — Por que essa cara? Sei que não se importa que eu viva ou morra.

           Ian a agarrou pelo queixo e levantou seu rosto, Sam ficou quieta. Ele a agarrava brutalmente, mas ela não se alterou. Seus olhares se encontraram.

           — Às vezes, o destino não é como pensamos que vai ser — baixou a mão bruscamente.

           Sam começava a compreender.

           — Você esperava crescer no castelo de Awe, no século XV, não em Nova Iorque, nos tempos modernos.

         Ele torceu a boca.

— Você é uma idiota por dirigir como fez, por não ter medo, por acreditar que morrerá como quer.

           — Você também! E não eu não sou a única que tem desejo de morrer! — Ela parou. Por fim entendia tudo. — Espere. Você não se importa em morrer. Essa perseguição demonstrou isso. E já sei o por quê.

           Ian virou e se dirigiu para a porta.

           Sam não o seguiu.

           — Viveu no inferno por sessenta e seis anos. E isso faz que a morte te pareça aceitável — gritou nas suas costas.

           Ian bateu a porta sem olhar para trás.

            Sam ficou olhando a porta. Acabava de descobrir a chave de sua personalidade. Ian não sentia desejo de morrer. Mas a morte não era o que de pior podia acontecer a uma pessoa. E ninguém sabia disso melhor que ele.

           Sam acabava de sair da ducha e estava secando o cabelo quando seu telefone tocou.

           — Olá, Samantha — disse Rupert Hemmer.

           Sam ficou rígida e deixou cair a toalha. O que Hemmer queria? Eram dez da noite. — Olá, senhor Hemmer — ficou alerta. — Estou aqui embaixo — disse ele. — Posso subir? Sam pensou apressadamente. A última vez que viu Hemmer foi esta manhã, quando estava a caminho de seu escritório. Mas ele não a viu. Antes disso, esteve na festa de aniversário de sua mulher, e ele não se mostrou muito contente ao vê-la com Maclean. Entretanto, antes de deixar a festa na noite anterior, ela havia se desculpado. Ele tinha se mostrado amável e meloso e um pouco interessado nela, como se soubesse que cedo ou tarde Sam acabaria por ceder e se deixaria levar a cama. Ela também flertou ligeiramente com ele.

           Estava quase certa, por outro lado, de que Hemmer acreditava que era ela agente do FBI, não do CDA. Agora pretendia descobrir isso.

           Além disso, em seu cofre havia algo maligno. Sam não havia esquecido. E tinha que provar isso.

           Sorriu lentamente.

           — Claro, por que não? — estava desejando descobrir o que Hemmer queria, e não acreditava que o sexo estivesse no topo de sua lista. Ele queria recuperar a página. Mas por que a procuraria? — Não achava que você fosse resistir — murmurou ele antes de desligar.

           — Está jogando, maldito filho de cadela, pensou ela. Podia controlar Hemmer e o que tivesse planejado. Desligou e vestiu um jeans, um pulôver provocante e um pouco de perfume Black Orchid. A campainha tocou. Carregando um brilho labial e umas sandálias de salto alto nas mãos, Sam cruzou correndo o loft para abrir a portaria. Calçou as sandálias, ignorando a torsão, pintou os lábios, penteou-se com os dedos e, quando ouviu a campainha, abriu com um sorriso.

           Maclean disse que Hemmer era humano, mas malvado. Maclean queria que ela o temesse. Se Hemmer era um humano comum, ela não poderia detectar sua maldade. Mas Hemmer não era um homem comum: era multimilionário. Sam chegou à conclusão de que devia agir como se Maclean tivesse razão.

           — Entre — murmurou. — Que surpresa tão agradável.

           Hemmer entrou e a olhou de cima a baixo com deleite.

           — Quanto me alegra que você fique feliz em me ver.

           — Que mulher não ficaria? — Sam fechou a porta.

           — Ao seu lado, minha mulher parece uma animadora de torcida boba — disse ele com suavidade.

       — Uma forma interessante de iniciar uma conversa, pensou ela.

       — A experiência não se compra com dinheiro, não é? Nem a inteligência.

           — Não, certamente — ele lhe deu uma garrafa de vinho. Era um Borgoña Rothschild e devia custar centenas de dólares. Sam não se alterou. Hemmer sabia que ela tinha um fraco por um bom vinho? Isso significaria que se informou sobre ela, ou que tinha habilidades telepáticas. Ambos eram pensamentos interessantes.

           — Assim como não se compra a resistência — disse Hemmer.

           Sam o olhou com surpresa. O que ele queria dizer com isso?

           — É da minha adega — acrescentou ele, satisfeito, e passou o olhar pelo loft enquanto ela o agradecia. — Outra parte de minha casa que eu adoraria mostrar-lhe pessoalmente. Você a admiraria tanto quanto à minha coleção de arte.

           Sim, ele tentava conectar-se com ela.

           — Eu adoraria vê-la. Assim como a qualquer outra coisa que você queira me mostrar — respondeu ela com a mesma suavidade, olhando para sua cintura. Hemmer sabia que havia algo em sua coleção de arte que a interessava. E isso não era bom.

           Porém, Maclean não havia avisado?

           Ele sorriu.

           — Uma mulher feita à medida de meus mais obscuros desejos — disse. — Eu Espero.

         Essa foi uma escolha interessante de palavras, pensou Sam, quase um desafio para que ela exigisse saber o que significava. Será que Hemmer se referia ao fato se fazer parte do lado escuro? Sam se preparou quando ele estendeu os braços. Sentiu um calafrio de repugnância, mas Hemmer se limitou a tocar seu cabelo curto.

           — Os desejos obscuros são muito mais interessantes que os puros — murmurou ela.

           Hemmer riu.

           — Sim, eles são. Não imaginava que você pensasse com essa ousadia, Samantha.   

            Ela sorriu, pensando rapidamente.

            — Alegra-me que tenhamos deixado para trás meu pequeno deslize — disse. — Sou uma mulher de sangue quente e às vezes me deixo levar pelo momento. Desejo é desejo.

           — Uma mulher de sangue quente e apaixonada que tinha encontros amorosos em minha casa com um de meus convidados... como eu realmente poderia me opor? — murmurou Hemmer. — Além disso, prometi a você uma visita privada.

           Sam sentia sua luxúria, escura e densa e lembrou que devia tomar cuidado; não queria ter que matá-lo. Mas não pensava em dormir com ele, não importasse quão longe a levasse aquele jogo.

           — Prometo que isso não voltará a acontecer... Não com o Maclean, ao menos.

           Os olhos do Hemmer brilharam.

           — Não tenho certeza de que me importo com isso, Samantha.

           Sam ficou olhando pra ele, se perguntando o que ele queria dizer com isso.

           — Você desperta as paixões de tantas maneiras... mas está em sua natureza, não é verdade? Ter amantes, gozar deles e deixá-los abandonados com a insensibilidade de um homem.

           Hemmer estava lhe dando a entender que fez investigações sobre ela.

            Para colocá-lo a prova, Sam murmurou:

           — Você faz com que eu pareça uma femme fatale, Rupert. A garota quer apenas se divertir.

           Ele sorriu.

           — Você é a definição de femme fatale e sabe disso.

           Sam decidiu dar-se por vencida.

           — Sim, eu sei. E é divertido...

           — Então, que comece a diversão. Terá sua visita privada, mas eu também quero um show particular.

Sam ficou em silêncio. As coisas começavam a se complicar. Hemmer tocou sua bochecha.

            — Não me importou vê-la passar a língua pelo pescoço de Maclean, mas estou desejando vê-la em outra parte.

           Sam decidiu distraí-lo.

           — E se eu disser que sim? O que ganho com o espetáculo?

           Ele começou a rir.

           — Além da visita privada à minha coleção? Diversão.

           Sam se negou a deixar que seu sorriso se apagasse. Hemmer sabia que ela queria entrar naquele cofre e pretendia fazê-la pagar para entrar... com seu corpo.

           — Então, nos convide Rupert.

           — Você trará o Maclean e proporcionará o entretenimento?

           — Por que não? Talvez eu lhe dê de presente uma caixa do Rothschild, se isso o fizer feliz.

            — Se me fizer feliz, te darei de presente um quadro.

            Hemmer sabia que ela não se venderia por dinheiro. Sam já não tinha dúvidas a respeito. Esta foi à isca e a armadilha. E ela era a presa.

           — Parece surpresa. Na festa de Becca você deixou isso claro. Percebi imediatamente que você é aficionada por arte, como eu. Certamente preferirá um quadro a uma joia. Embora as mulheres adorem as quinquilharias que lhes compro.

           Era absurdo tentar convencê-lo de que aceitaria um colar Bulgari em troca de que a usasse.

           — Eu realmente falava sério quando disse que algumas garotas só querem se divertir. E sexo quente funciona para mim.

           Hemmer parecia divertido. Tocou seu queixo com o dedo e começou a deslizá-lo por seu pescoço. Sam ficou tensa, mas não se afastou.

           — E Maclean? Também funciona assim? Não acho que se mostre tão receptivo como você. Como é seu namorado, a propósito?

           A tensão de Sam aumentou.

           — Namorados são para adolescentes. Essa palavra nem sequer figura em meu vocabulário.

           — Que mulher inteligente — disse ele, desenhando uma linha invisível sobre seu peito, parando quando seu dedo estava entre seus seios. — Esperta, sexy e tão misteriosa... Tenho algo para você.

           Sam sabia que ele não falava de sexo, do mesmo modo que sabia que Maclean tinha razão: Hemmer era perigoso. Ignorava até que ponto, entretanto.

           — Como todos, não? — perguntou com ironia.

           — Não tenha medo de mim.

           — Eu deveria ter?

           — Você é uma das mulheres mais belas que eu já vi. E eu vi várias.

            — Eu adoro uma bajulação. São tão excitantes para uma garota...

           — Você não é uma garota qualquer Samantha. Leva uma vida perigosa. Há câmeras diante de meu edifício — sorriu. — Há câmeras por toda parte. Mas isso você já sabe, não é?

           Sam não pôde evitar olhar para o teto. Hemmer a viu destruir os sub-demônios com suas próprias mãos e sem ajuda. Ela teve um relance de surpresa e em seguida sentiu um calafrio. Hemmer não ganhou milhares de milhões por ser estúpido. Sem dúvida se informou bem sobre ela.

           Teria que continuar com o jogo.

           — Sim, o Big Brother está acostumado a observar.

           Os olhos de Hemmer brilharam.

           — Vou ajudá-la, minha pequena e perigosa Samantha. Vi o quanto precisa gozar. E eu posso te dar mais prazer. Mais do que jamais sonhou. Mais ainda que Ian Maclean.

           — Essa é uma afirmação diabólica — o que ele quis dizer agora?

           — Amanhã descobrirá exatamente a que me refiro — respondeu ele.

           Sam sentiu impulso de se afastar dele. Hemmer não afastou a mão de seu peito. Mas, sem saber o porquê, Sam não se moveu.

           — Então sou uma mulher afortunada.

           Ele parecia divertido de novo e Sam não gostou de sua expressão. Então, Hemmer colocou a mão no bolso de sua jaqueta e tirou um DVD.

           — Acredito que estou a ponto de mudar sua vida. Tenho a impressão de que nossa relação vai ser muito satisfatória — disse ao dar-lhe o disco. — Espero que isso seja mutuamente agradável para os dois... Muito mesmo.

           Sam não sabia o que continha aquele DVD, mas não restava nenhuma dúvida de que não ia gostar.

           — O mesmo digo eu — respondeu.

           Ele se dirigiu para a porta.

           — Espero os dois amanhã, às sete.

           Ele estava indo embora. Ao que parecia, já tinha o que queria. Mas o que era exatamente? Tinha colocado muita ênfase em que queria ver os dois.

           — Aprecie o vinho — disse Hemmer da porta.

           Sam ficou olhando a porta quando ele partiu. Logo correu a seu computador e colocou o DVD no leitor.

           Hemmer era perigoso, Maclean tinha razão. Sabia muito a respeito dela, não havia dúvida. Mas aquilo também tinha a ver com Maclean. Era uma espécie de armadilha. Hemmer tinha que saber que foi Maclean quem roubou a página. Queria recuperar o manuscrito e certamente também queria matar Maclean.

           Os gemidos orgásticos de uma mulher interromperam seus pensamentos.

           Quando ela se virou para a tela do computador, a primeira coisa que pensou foi que Hemmer deixou um filme pornô. Mas isso era absurdo.

           Então ela viu a si mesma.

           Sam ficou rígida imediatamente. Ela estava no auge do êxtase, agarrando-se a um homem como a um salva-vidas, completamente perdida no vendaval de seu clímax.

           E as costas do homem era um mosaico de cicatrizes...

 

            Nick Forrester estava zangado.

           Teve um dia péssimo.

           Olhava fixamente para a tela de seu computador. O hall da casa de Maclean em Park Avenue estava vazio. Nick foi passando de uma sala à outra, todas vazias, até que encontrou ao mordomo na cozinha. Um sujeito interessante, o mordomo. Maclean havia saído. Nick sabia por informações de seus agentes.

           Ele tinha uma casa enorme e repleta de aparelhos de última geração. A página roubada podia estar ali, mas Nick tinha o pressentimento de que ele a guardou em outra parte.

           Ele sorriu friamente para sim mesmo. Maclean estava na merda. Ele tinha a página. Nick a queria. Maclean, portanto, estava sendo vigiado as vinte e quatro horas do dia.

           E Nick sempre se dava bem.

           Bem, quase sempre.

           — Nick, está trabalhando?

           Ele estava discando o número de um dos dois agentes que tinha atribuído a Maclean. Mas esqueceu que tinha companhia e se surpreendeu por um instante.

           Virou-se. Nem sequer tentou recordar o nome da garota. Todo mundo sabia que gostava dos casos passageiros, mas todos se equivocavam em uma coisa: preferia que durassem três, quatro ou cinco noites, e não apenas uma. Era muito mais prático. Podia manter o interesse por uma semana inteira. Seu problema era que não podia permitir-se nenhum vínculo mental ou sentimental, porque seria fatal. Isso ele descobriu há muito tempo.

           Beleza sem cérebro, esse era seu lema. Mas a beleza só conseguia interessá-lo por uns dias. E assim que ele perdia o interesse, acabava.

           Nick olhou para a mulher que conheceu na noite anterior em um bar e de repente esqueceu seu mau humor. Ela era uma garota de programa e vestia unicamente um fio dental brilhante, saltos muito altos e uma camiseta muito pequena e justa, obviamente sem sutiã por baixo. Nick sentiu seu motor incendiar. Só havia passado uma noite com ela, então, em uma escala de um a dez, seu interesse continuava entre sete e oito. Assim que acabasse de trabalhar, certamente subiria até nove ou dez.

           — Só um momento, baby — disse. O trabalho sempre estava em primeiro lugar. Não que ele não gostasse de sexo. O sexo o enchia de energia. Seus sentidos sempre pareciam mais afiados depois, e se sentia mais forte, mais rápido, mais telepático. Fazia tempo que chegou à conclusão de que era uma espécie de dom dos deuses antigos.

           Ela se aproximou.

           — O que você disse que faz?

           — Eu dirijo um fundo de investimentos — ele tocou seu sedoso traseiro e pegou seu celular. Quando seu agente respondeu, disse asperamente:

     — Onde diabos esta Maclean?

           — Acaba de sair da casa de Rose. Estamos no tráfego, no centro da cidade.

           — Não o percam — disse Nick. Terminou a chamada bruscamente. Não gostava da ideia, mas teria que pôr microfones no loft de Sam, e possivelmente uma ou duas câmeras.

           A mulher parecia surpresa.

           — Tem certeza que não é um policial ou algo assim? — perguntou.

           Ele deu-lhe um sorriso.

           — Claro que sim, baby. O meu negócio é dinheiro — embora seu apartamento fosse um desastre. — Eu vou em seguida. Pode ir esquentando os lençóis?

Ela o rodeou com seus braços e passou os dedos por sua virilha. — Depressa — murmurou. — E, enquanto espero, estarei esquentando outra coisa, além dos lençóis.

           Antes que ela o soltasse, uma ideia ocorreu-lhe e ele começou a procurar na imensa base de dados da HCU. Suas entranhas diziam que ultimamente viu algo que podia ajudá-los a encontrar a página desaparecida. Deu algumas pistas a Big Mama: Rupert Hemmer, Ian Maclean, Aidan de Awe, o Duisean e Manhattan. Logo, de sobra, acrescentou Highlands (Terras Altas na Escócia) e Mestres do Tempo. Às vezes, o supercomputador encontrava por si só a peça perdida de um quebra-cabeças muito complexo. Então ele tinha a impressão de estar sendo jogado no escuro, mas e daí?

           Ele mandou instalar microfones na casa de Maclean em Park Avenue uma hora depois de descobrir que ele estava na lista de convidados do Rupert Hemmer; ou seja, no dia anterior pela manhã. Como diretor da HCU, nada nem ninguém escapava à sua atenção. Sua vida foi uma guerra contra o mal, seus agentes (que considerava como seus filhos) e a HCU, nessa ordem. Procurava revisar os dados que Big Mama o enviava constantemente e considerar todas as suas sinalizações, que chegavam a centenas diariamente, assim como se manter em dia com os informes de seus agentes e dos do resto do CDA, do Bureau (FBI), a polícia de Nova Iorque (NYPD) e a CIA quando as agências se propunham a cooperar com eles. Em qualquer caso, dormir era uma perda de tempo.

           Nick sabia que tinha certa fama dentro da agência. Seus agentes o temiam e o respeitavam, e isso era uma coisa boa. Ele era Deus e rei da HCU, e ali sua palavra era lei. Os agentes que o entendiam se aposentariam algum dia com um bom plano de pensão.

           No caso de chegarem à idade da aposentadoria, claro.

           Nick imediatamente sentiu uma dor de cabeça chegando. Ele esfregou as têmporas. Não podia permitir uma enxaqueca agora. Ou, pior ainda, uma daquelas malditas visões do passado.

           Haviam começado há seis meses, quando Macleod chegou à cidade. As primeiras eram boas, e tão claras como décadas atrás. Não era nada bom recordar o passado. Nick enterrou tudo (e todos) havia muito, muito tempo.

           Mas alguma coisa era bom recordar. Havia lembranças que queimavam suas vísceras e proporcionavam uma energia que nenhum mortal deveria ter. Nas várias décadas dirigindo a HCU, mais de cinquenta e três agentes morreram em serviço, outros cem ficaram gravemente feridos e doze se perderam no tempo.

           E não queria pensar nos danos colaterais: nas famílias que sofreram direta ou indiretamente por causa da guerra.

           Considerava culpa sua cada morte, cada ferido grave, cada desaparecimento. Por isso assistia a todos os funerais, visitava cada quarto de hospital e sempre ia, em pessoa, em busca dos desaparecidos em serviço.

           Odiava e temia os hospitais e os enterros. Mas não havia nada pior que perder um agente em uma época passada. Aquela incerteza.         

     Começou a ver rostos de homens e mulheres que o olhavam com recriminação e teve que fazer um esforço para controlar sua respiração. A última agente que desapareceu foi Brie Rose. Mas ele a encontrou. Embora seu arquivo continuasse levando o selo de “desaparecida em serviço” no MIT, Nick sabia que estava bem e que vivia com Aidan de Awe.

           Ele não tinha que se esforçar muito para chegar à conclusão de que convinha encarregar Sam Rose de vigiar Maclean, o filho de Aidan. Maclean podia ser filho de um poderoso Mestre, mas não era um Mestre. Seu arquivo tinha cinco centímetros de espessura e estava cheio de alertas relativos à sua conduta suspeita e ambígua. Maclean agia por conta própria. Não foi à casa de Rupert Hemmer para tomar chá.

           Nick procurava respeitar a intimidade alheia, mas não era fácil fazer isso, tendo tanta facilidade e fluência para ler a mente de outros, não importasse o idioma. No trabalho, entretanto, era diferente. Na HCU ele lia mentes a seu desejo e quando gostava, porque em primeiro lugar estava ganhar a guerra. Na HCU ninguém tinha direito à intimidade, do mesmo modo que ninguém tinha direito a uma vida privada.

           Porque estavam perdendo a guerra, era o grande momento.

           Nick, entretanto, não queria pensar nas estatísticas. Não queria pensar que aquilo era de verdade uma guerra. O mal se infiltrou em todas as organizações terroristas do planeta. Os terroristas que não eram demônios, estavam possessos ou tinham sangue mestiço.

           Mas não se tratava só disso e Nick sabia. O mal se infiltrou também nos governos. Alguns dos ditadores mais implacáveis do mundo eram demônios ou sub-demônios. Irã utilizaria realmente a bomba atômica quando a tivesse. O mal tinha como único propósito destruir o mundo gradativamente. Havia demônios nos organismos de espionagem, nos ministérios de Defesa, nas forças policiais, nos níveis mais baixos e nos mais altos. Nick sabia que o Pentágono tinha uma investigação aberta porque o CDA chegou à conclusão de que havia um demônio entre os pesos pesados do Departamento de Estado. O problema era descobrir quem era. Estava claro que ocupava um posto tão alto que contava com a confiança do presidente.

           Chegaria o dia em que o próprio presidente dos Estados Unidos seria um deles, e Nick sabia. Essa era uma ideia aterrorizante.

           A guerra era de tal envergadura que parecia absurdo dedicar-se a esses joguinhos dia após dia, matando um demônio aqui e outro acolá, ou eliminando um ou outro bando de sub-demônios. Mas o mal tinha que ser contido em todas as frentes. E Nick sabia que o poder da poderosa página do Duisean não podia cair nas mãos de seus inimigos.

           Por isso Maclean ia perder.

           Sam Rose era uma de suas melhores agentes. Ele não a treinou. Inferno ele nem sequer esteve com ela por muito tempo. Mas seu destino era matar. Nick sabia. No momento em que a viu sabia que tinha que tê-la. E não se arrependeu.

           Lamentava, entretanto, tê-la colocado no caso Maclean.

           Sabia, graças à sua telepatia, que ela se sentia atraída por ele. Mas também sabia que Maclean a deixava furiosa... e sabia o porquê.  Estava a par de sua visita à Escócia uns meses antes. Sam queria que Maclean a ajudasse a viajar ao passado para encontrar sua irmã, ele se negou, e Sam ficou furiosa com ele.

           Mas Sam Rose não só era a melhor agente que havia tido; também era dessas mulheres capazes de fazer enlouquecer um homem de desejo. Nick tinha encarregado Sam Rose de vigiar Maclean porque estava 110% seguro de que podia derrotá-lo. Agora, entretanto, começava a ter suas dúvidas. Maclean estava brincando com ela. Parecia ser ele quem controlava a situação. E Nick não queria que uma de suas garotas acabasse morta.

           Foi um dia horrível porque seu melhor agente fez besteira e Maclean roubou a maldita página diante de seus narizes. Ele entrou tranquilamente na casa de Hemmer nesta manhã e desativou não só os alarmes e as fechaduras, como também driblou a equipe de vigilância, aparentemente num abrir e fechar de olhos. Depois, Sam o perdeu naquela ridícula perseguição de carro e agora não sabiam onde diabos estava a página.

           Seus agentes haviam sondado todos os negociantes e galerias de arte entre Montauk e Allentown. Então era hora de ampliar a busca. A página precisava de cuidados sistemáticos. Não podia estar em qualquer parte. Ou podia?

           E esse era um dos problemas. Segundo os peritos da Sotheby’s, era necessário uma atmosfera cuidadosamente controlada. Mas Nick não estava tão seguro. Afinal de contas, a página sobreviveu durante séculos... ou poderia ter sobrevivido, possivelmente, a uma viagem no tempo à velocidade da luz. Nick não sabia. E, se podia sobreviver ao salto no tempo, Maclean poderia havê-la guardado em qualquer lugar e em qualquer época.

           Nick decidiu que era hora de Ian e ele terem uma conversa séria.

           Seu computador apitou três vezes.

           Nick se inclinou para ele. O alerta indicava que ele recebeu um e-mail de Big Mama. Ele não podia acreditar, mas o supercomputador respondeu sua pergunta. A mensagem dizia: Coincidência entre Aidan de Awe e Rupert Hemmer. Trazia um documento anexo. Nick não conseguia imaginar que relação podia haver entre o Mestre e o multimilionário. Abriu o arquivo.

           Era um artigo de jornal com uma fotografia, datado vinte e oito anos atrás. Rupert Hemmer aparecia em uma tribuna, apertando a mão de um homem que parecia extraordinariamente familiar. Nick estava certo de conhecê-lo, embora nunca tivessem se visto. A legenda identificava ambos: o desconhecido era o magnata internacional Robert Moran, que residia em Nova Iorque.

           Começaram a soar sinos de alarme. Nick procurou Moran na base de dados da HCU. A resposta foi imediata.

           Robert Moran era nada menos que o demônio que havia aterrorizado o mundo durante séculos, o demônio a quem antigamente se acreditava imortal: o terrível e legendário Moray.

          

            Ela estava na cama com Ian Maclean. Sam estava tão chocada que não se moveu. Aquilo era impossível.

           Ian a agarrava pela cintura, a sujeitava e a beijava cada vez mais embaixo, sem pressa. Ela gemia, retorcia-se sensualmente. Ele deslizava o joelho entre suas coxas, empurrava para cima com força e parava para olhá-la. E ele sorria...

           — Você é um bastardo — dizia ela, mas também sorria.

           Sam apertou o botão de pausa.

           Que demônios era aquilo?

           Respirou fundo, agarrou-se na borda da mesa, tremendo. Estava na cama com Maclean. Deixou escapar o ar. Não. Aquilo era falso. Tinha que ser. Ela nunca esteve na cama com Maclean. Nunca esteve naquele quarto.

                       Mas ela não podia respirar normalmente. Estava com a boca seca. Não deixava de vê-lo ali, aos pés da cama, entre suas pernas, excitado. E tampouco conseguia esquecer aquele anel.

           Maclean nunca sorriu assim para ela.

           Sam olhou para a tela e molhou os lábios.

           Aquele era Maclean, não havia dúvida disso. Ela disse a si mesma que não devia apertar o botão play do vídeo, mas mesmo assim o fez.

           De repente, Maclean deslizava sobre ela e a penetrava lentamente, sem deixar de olhá-la. Ela sustentava o seu olhar, ofegante, até que ela explodiu. Enquanto ela começava a gemer e a soluçar, e parava e murmurava algo.

           Sam queria apertar o botão de parar. Queria de verdade. Tentava respirar, olhando indefesa o seu corpo magro, musculoso, duro, esculpido e delineado, úmido e escorregadio. Maclean estava brincando com ela e provocando-a, e ela estava indefesa. Ele dava e ela tomava. Ele mandava. Ela não.

           Sam se levantou de um salto, dando as costas para a tela. Seus gemidos guturais a seguiram, de repente ouviu Maclean ofegar. Virou-se. Agora estava em cima dele e sorria, triunfante. Mas em seu sorriso havia algo mais. Sam não sabia o que significava aquele sorriso. E o que era pior ainda: ele a olhava, ofegando de prazer, e seus olhos sustentavam o olhar.

           — Venha — sussurrava ela.

           Ele fechava as pálpebras com um gemido...

           Sam pulsou com força o botão de parar.

           Continuava sem conseguir respirar. E, para cúmulo, ardia de desejo. Se Maclean tivesse entrado nesse momento em seu loft, ela estaria sobre ele. Entrou na cozinha e jogou água no rosto. Quando conseguiu respirar com mais calma, começou a pensar. Como era possível que fossem eles? Eles não dormiram juntos. Ainda não. Se alguma vez se deitassem, o sexo seria violento e áspero. Não pareceriam dois amantes apaixonados.

           Sua mente clareou por fim. Aquela mulher era um dublê dela? Não acreditava nisso. Mas com a maquiagem e o corte de cabelo adequado, não seria tão difícil encontrar um bom dublê.

       Especialmente porque a câmera não a enfocava de perto, em nenhum momento, embora os planos mudassem continuamente. Sam calculou que havia várias câmeras no quarto, e que alguém havia editado as fitas.

           De repente se sentiu doente. Aquela mulher não era sua dublê. Aquele era seu rosto, sua voz. E aquele homem também era Maclean. Sua boca ficou seca de novo ao recordar aquele rosto e aquele corpo muito belo... e aquele reluzente anel de aço.

           Fechou os olhos, trêmula. As imagens, carregadas de erotismo, repetiam-se uma e outra vez dentro de sua cabeça. Tinha que pensar! Sam aproximou-se do balcão da cozinha para servir-se de uma vodca dupla.

           — Bom trabalho, Rose — disse a si mesma com amargura. — É a segunda vez que ele ganha. Idiota! — referindo-se a si mesma.

           Maclean a excitou estando com outra mulher, o que era quase inexplicável. E também a excitava quando discutiam, quando se comportava com exasperada petulância. Ele a excitou durante aquela perseguição suicida, e depois ao vê-lo chorar de joelhos. Aquela maldita atração estava presente inclusive quando ele ficou furioso com ela por bisbilhotar em seu PC e intrometer-se em sua vida. E, agora, maldita seja, ele a excitava em uma gravação de vídeo.

           — Mantenha a objetividade, maldição — disse a si mesma. A gravação tinha que vir do futuro, disse a si mesma. E foi Hemmer quem a entregou.

           Ficou muito quieta. Aquela ideia quase conseguiu sufocar o desejo que palpitava dentro dela. Sabia que Hemmer os tinha observou e que apreciou fazer isso.

           Agora ela entendeu o que ele pretendia. Estava claro que pretendia usá-la contra Ian. Pretendia chantageá-la. Por fim conseguiu dominar sua ansiedade. A guerra, como sempre, estava em primeiro lugar. — Você procurou isso — rosnou.

          

   Sua vida era uma luta constante por sobrevivência. Não tinha família, amigos, nem aliados. Todos eram seus inimigos... e agora seus inimigos conheciam seus segredos mais íntimos.

           Sentia raiva, mas, sobre tudo, ele estava horrorizado.

           Gerard foi ao seu encontro quando entrou no vestíbulo de sua casa em Park Avenue.

           — Quer que lhe traga algo, senhor?

           Ian estava tão atordoado que mal o ouviu. Ele estava tão enojado. Eles tinham um arquivo sobre ele. Sabiam que ele passou anos em cativeiro.

           Que mais sabiam?

           Os policiais de Park Avenue estariam rindo dele naquele mesmo instante? Ela estaria rindo dele? Estava com dificuldade de respirar. Será que eles sabiam o que sofreu aquele menino? O que dizia aquele dossiê?

           — Abra as janelas e ligue o ar — disse secamente, puxando o decote em V do pulôver de caxemira, como se ele estivesse comprimindo a passagem de ar para os seus pulmões. Suava como se tivesse corrido pelas ruas da cidade.

                   

     Gerard hesitou.

           — Sir, lá fora são quase 32° Celsius.

           Ian não podia respirar. Ofegava como um animal assustado.

           — Ponha os ventiladores no máximo — replicou.

           Gerard compreendeu finalmente.

           — Sim, Sir. E também vou abrir as janelas.

           Maclean correu para o elevador, mas sabia que não poderia entrar enquanto aquelas imagens continuassem tumultuando sua cabeça. “Você viveu sessenta e seis anos no inferno. E isso faz com que a morte seja aceitável”.

           Ela havia descoberto a verdade tão depressa! Fechou os olhos e apoiou a cabeça na parede, junto ao elevador, os joelhos, tremendo como uma folha. Maldita Sam por atrever-se a compreendê-lo, por ousar desvendar seus segredos! O que mais ela sabia? De repente, lembrou-se do labirinto.

           Ele corria e corria, ansioso por ver-se livre. Corria até se chocar com os muros e os becos sem saída do labirinto, infinito e traiçoeiro. E ao dobrar uma curva havia um demônio aguardando-o, um demônio loiro e belo, humano na aparência... ou um monstro com presas e garras que babava de antecipação...

           Ian levou as mãos à cabeça, gemendo. O monge desenhou o labirinto no primeiro ano novo que passaram juntos e aquilo se transformou em uma tradição. Prometiam-lhe a liberdade se conseguisse encontrar a saída. Era o jogo mais cruel de todos, porque Ian nunca encontrava a saída. Só encontrava demônios e bestas ansiosos por colocar as mãos nele. O jogo durava dias, até semanas. E quando acabava ele estava tão doente que o monge levava um Curandeiro branco para que o curasse.

           Fazia muito tempo que não pensava no labirinto, e desejava não lembrar. Era uma de suas piores recordações, a mais aterradora de todas. Mesmo agora o fazia adoecer de medo. Tinha a impressão de voltar a achar-se nele, só que agora o prêmio não era sua liberdade. Se conseguisse deixar para trás seus corredores e cantos, conseguiria preservar seus segredos.

           Como era possível que tivessem um arquivo sobre ele?

           Ela o viu?

           Ele explodiria, se não conseguia dominar-se. E ele sabia o que o esperava do outro lado, se explodisse. Suas expressões ficariam em pedaços e só restariam as lembranças, abertos como feridas sangrentas, feridas que nenhum cirurgião podia estancar e que o levariam à loucura.

           Tentou respirar e não conseguiu. Não havia ar! O medo se apoderou dele. Há cinco anos e meio que não sofria um autêntico ataque de ansiedade.

           — Acalme-se — disse a si mesmo em voz alta. — Acalme-se e pense.

           Será que eles sabiam sobre a jaula? Sabiam do labirinto? E dos outros Inocentes? Será que sabiam das visitas de Moray?

           Será que eles sabiam que nos primeiros meses foi um covarde total? Que ele chorou de terror e soluçou por misericórdia? Eles sabiam que ele foi transformado em um escravo condescendente no final?

           O que eles sabiam?

           O que ela sabia?

           Ele ainda não conseguia respirar. Não podia entrar no elevador porque estava tremendo e tinha os olhos úmidos. Mas havia escadas em todos os andares, assegurou-se disso. Se conseguisse que seus olhos clareassem, a única coisa que tinha que fazer era percorrer o corredor e encontraria a escada. Mas então o que?

                       — Sir...

           Sentiu uma toalha gelada na testa. Gerard sabia. Sabia porque seu pai o havia enviado para cuidar dele, embora na época não soubesse disso. Seu maldito pai queria que ao seu lado houvesse alguém que conhecesse seus segredos, alguém que poderia e iria cuidar dele.

           Gerard falou como se nada estivesse acontecendo. Colocou o pano sobre a testa como se fosse uma enfermeira, não um mordomo. Ian viu de repente Sam com seu vestido apertado e manchado de sangue, fingindo que não o viu apunhalar John repetidamente, como um louco.

           “Lembre-me de não te deixar zangado”.

           Ian quase sorriu. Sam deveria ter fugido apavorada. Mas não demonstrou o menor medo. Claro que ela não tinha medo de nada nem de ninguém. Era descuidada e corajosa.

           Eles foram rivais desde o início. Tinha que se lembrar disso. Respirou fundo e abriu os olhos, segurando a toalha contra a testa agora. Estranhamente ficou mais calmo. Continuava vendo Sam com aquele vestido e seu rosto inexpressivo. Continuava ouvindo aquela voz tranquila e irônica. Sam deveria estar horrível, um desastre depois daquela sangrenta confusão... entretanto, estava fantástica.

           Gerard sustentava na mão o frasco pequeno com sua medicação prescrita. Ian balançou a cabeça tristemente e Gerard deu-lhe duas pequenas pílulas brancas. Quando estava assim, tão mal, era melhor que um golpe ou uma panelada. Engoliu os calmantes sem água. Gerard era indispensável e discreto.

           — Obrigado.

            — Vai se sentir melhor em breve, sir, vou trazer-lhe uma bandeja com um bom vinho tinto e algo de lanche.

           Ian não tinha fome. A comida não o interessava, mas Gerard sempre insistia em que comesse algo. Mas o vinho e o Ativan eram uma grande combinação. Quando estivesse suficientemente relaxado, sentaria e se forçaria a comer. Talvez inclusive conseguisse desfrutar da comida de Louis.

           Quando Gerard saiu, olhou para a porta do elevador. Seu controle era tênue, mas se agarrava à lembrança de Sam com seu vestido ensanguentado, fingindo indiferença à sua avaria. Admirava sua força, tinha que reconhecer isso.

           Continuava suando. Sentia os nervos à flor de pele, tirou o pulôver e pressionou o botão. A porta se abriu em seguida e ele olhou o seu interior forrado de madeira. Respirou fundo. Cada vez que entrava em um elevador, tinha que fazer um esforço mental para sobrepor-se às suas lembranças. Mas ele havia aprendido vinte e cinco anos atrás como forçar-se a entrar e a agir como todo mundo em um elevador. Era um teste fazer isso agora.

           Amaldiçoou a si mesmo. Não queria ser um covarde que sofria ataques de ansiedade e claustrofobia. Amaldiçoou Sam por conhecer seus segredos e por ser tão condenadamente atraente ele iria embora e nunca olharia para trás. Ela descobriria que ele sofria de claustrofobia em pouco tempo, e acrescentaria aquilo a sua lista de debilidades.

           Apertando os dentes, ele entrou no elevador e olhou para o botão que fechava a porta. Na noite anterior, no andar de cima foi fácil evitar o elevador. Sam não suspeitou de nada. Ninguém saberia, se ele saísse e subisse pelas escadas. Mas ele saberia.

           Era apenas um elevador, lembrou-se com firmeza, não uma torre pequena, escura e sem janelas, nenhuma cela ainda menor e nem um fosso cavado na terra. Odiava os espaços pequenos e fechados. Tinha medo deles.

           Apertou o maldito botão.

           A porta se fechou.

           Ian se esforçou para respirar. O suor escorria pelo rosto e o corpo, agarrou-se à barra do elevador e apertou os dentes com força. Sam podia ser sua nova conquista, mas também era sua inimiga, disse a si mesmo. Aquilo o fazia querer sobreviver. Sam o fazia querer sobreviver, para poder tê-la em sua cama, para que ele pudesse finalmente ser forte, dominante, o que controlava a situação.

           O elevador parou suavemente. A porta se abriu.

           Ian saiu, fazendo um esforço para não virar e correr. Entrou na grande biblioteca cheia de livros, de obras de arte e de antiguidades. O pior já passou. Superou o ataque de ansiedade e superou suas lembranças e ao conhecimento daquele maldito dossiê sobre sua vida.

           Fechou as portas e se virou. Em algum canto de sua mente persistia ainda a imagem imprecisa de um menino pequeno em um labirinto. Ele segurou firme o pano frio sobre a testa. Já não estava furioso, nem assustado. Pensou de novo em Sam, primeiro com seu vestido manchado de sangue e em seguida como ele a viu uma hora antes, com seus short minúsculo e sua camiseta, ao contar-lhe sobre o arquivo. Respirou fundo enquanto o remédio começava a fazer efeito. Trataria do assunto do arquivo quando falasse com Forrester, o chefe de Sam. Agora seu corpo vibrava. À medida que o impulso sexual crescia, ele relaxou ainda mais, agarrou-se à imagem de Sam com seus short minúsculos e sua camiseta, sem nada por baixo.

           As outras memórias desapareceram também. Gerard bateu na porta e lançou- lhe um olhar ao entrar. Levava uma bandeja com um prato coberto e uma taça de vinho.

           — Precisa de algo mais? — perguntou como se nada fora do comum tivesse acontecido. Deixou a bandeja sobre a mesa do século XVIII.

           Ian balançou a cabeça.

           — Obrigado — disse sem olhá-lo.

           Depois que Gerard saiu, sentou-se no sofá e tomou a taça de vinho. Os jeans apertavam de repente. Sam continuava ocupando sua mente. E o sexo era sempre a melhor saída.

           Não se sentiu culpado ao usar sua telepatia para encontrá-la. Aquele poder começou a manifestar-se quando o capturaram. Pensava em seu pai e imediatamente o via em pleno dia, entregue aos seus afazeres. Tinha tentado comunicar-se com ele com todas suas forças e de vez em quando Aidan o via, mas ele acreditava que Ian era uma aparição.

           Naquele tempo era um menino e seus poderes telepáticos iam e vinham. Agora, ao contrário, dominava-os por completo. Inclusive o utilizou várias vezes na Escócia para espiar Sam. A espiou com seus amantes algumas vezes, e desfrutou de cada instante.

          

       Ela estava sentada no sofá de seu loft, ainda com seus short curto, mas com outra camiseta. O coração de Ian acelerou um pouco. Sorriu devagar e pegou seu celular.

           Fazia tempo que tinha seus números de telefone. Discou para sua casa. Assim que ela respondeu, notou sua voz tensa, quase sem fôlego. Sua própria tensão, já impossível, aumentou.

           — Não pode dormir?

           — Maclean.

           Falava com voz pastosa, como a dele.

           — Eu também não posso dormir Sam.

           Ela parecia surpresa.

           — Vamos ter sexo por telefone?

           Ele esboçou um sorriso.

           — Eu não me incomodaria. Porque está tão quente?

           Ela vacilou.

           — Hemmer esteve aqui. Acaba de sair.

           Por um momento Ian ficou perplexo. Logo se levantou furioso.

— E agora também ele fica para brincar?

— Hemmer é um filho de cadela muito perigoso — respondeu ela. — Você tinha razão, ele vai ser um problema.

           Ian pensava rapidamente. Sam não tinha dormiu com Hemmer, estava certo disso. Tentou ler seu pensamento e só sentiu sua raiva. Hemmer a havia deixado furiosa.

           — O que Hemmer queria? Além de sexo?

           Houve outra pausa.

           — Você já sabe o que ele quer. A mim... a página e, talvez, vingança contra você. Já pensou nisso, Maclean?

       Ele entreabriu os olhos, cada vez mais zangado.

            — E o que isso importa para você?

            — Importa-me porque você tem a página e nós a queremos — replicou ela.— Puxa, esta chamada está muito excitante.

           — Por que trocou de roupa?

           Houve um momento de surpreso silêncio do outro lado da linha.

            — Como você sabe que eu troquei de roupa?

            — Porque antes você usava uma camiseta branca e agora a está com uma vermelha — grunhiu ele.

           — Tem câmeras em minha casa?

           — Eu não preciso de câmeras, nem microfones, Sam — respondeu ele suavemente.

           Sam respirou fundo.

           — Certo, eu esqueci. Você tem um cérebro impressionante, capaz de desativar sistemas de segurança e pode me ver do outro extremo de Manhattan?

           — Eu posso vê-la da Escócia, se quiser.

           Ela ficou calada.

           Ian sorriu, desfrutando daquela pequena vitória.

           — Eu disse que você se mantivesse afastada dele. Devia ter me chamado. Será que você quer jogar com ele, Sam?

           — Aqui está uma notícia rápida... Eu não aceito ordens suas. E o que acha? Claro que joguei Maclean. O que mais eu faria?

           Será que ela escutou uma só palavra do que ele disse?

            — A partir de agora, eu me encarrego do Hemmer — não pôde conter-se. — Ele a beijou?

— Oh, sim, é óbvio. Hemmer é o amante ideal, tão romântico e sexy... Eu não podia esperar para ter sua língua na minha garganta.

           Ian compreendeu então que Hemmer não tocou nela, sentiu-se aliviado, e isso o surpreendeu.

           — Você está brincando com fogo, Maclean. Você roubou uma propriedade dele. Ele quer recuperá-la. E nós também queremos a página. Acredito que você deveria considerar alguma saída estratégica. Como entregar a página, por exemplo.

           Ian sorriu lentamente.

           — Sexo em troca de duzentos milhões de dólares?

           Ela deixou escapar o ar.

           — Você disse que não.

           — Começo a gostar da ideia.

           Sam engasgou.

           — Está de brincadeira?

           Se ele lhe desse a página, poderia passar uns dias com ela e depois poderia afastar-se de tudo aquilo. Na realidade, não precisava de dinheiro. Haviam outras obras de arte que podia roubar e vender. E não queria ter entendimentos com o mal e, principalmente não queria recordar tão vivamente seu passado. Por alguma razão, desde o dia anterior se sentia a beira de um precipício, prestes a se ver empurrado de volta ao passado.

           E isso era inaceitável.

           Mas havia um problema. Ele não tinha aonde ir, além de sua mansão em Loch Awe.

           — Você está bem?

           Ian se sobressaltou. Ele ficou perdido em seus pensamentos e o que estava pensando era desanimador. Claro que tinha outros lugares aonde ir. Ele venderia a casa de Park Avenue, compraria casas em Nice, em Sidney, em Mônaco.

           — Vem tomar uma taça de vinho comigo — disse de repente.

           — Vou para cama... sozinha.

           —Só está atrasando o inevitável. Além disso, o que vai fazer quando sonhar comigo?

            — Você disse que não faríamos sexo por telefone.

            Ele sorriu.

            — E se eu for à sua casa? Você pode ir para a cama sozinha. Eu me limitarei a olhar.

            Sam ficou calada. Ian sabia o que ela estava pensando.

            Depois ela disse:

     — Não acredito que você possa manter suas mãos quietas se eu fizer o que os dois sabemos que quero fazer.

           — Nada de sexo por telefone — respondeu ele suavemente.

           — E se disser que nos convidaram para uma festa amanhã? É uma festa especial. Na casa de Hemmer.

            Ian ficou alerta.

     — Não há razão para voltar ali, Sam.

            — Sim, há. Há algo maligno nesse cofre. Se não quiser ir comigo, levarei alguém da agência.

            — Isso é uma ameaça? — Ian estava muito sério. Não permitiria que Sam fosse sem ele.

            — Não, é um fato. Hemmer quer que lhe ofereçamos um espetáculo só para adultos.

            Ian não teve que lhe ler a mente. Seu interesse foi despertado imediatamente e uma nova tensão começou.

           — Você concordou?

           — Você se importa?

           — Nunca me incomodou ter público — mentiu. Odiava isso. Teve tantas vezes...

            — Eu achei que seria louco. Você vai me ter na cama. Hemmer nos espera às sete. — Vou te pegar às seis e meia.

            — O que está acontecendo, Maclean? — perguntou ela, muito séria. —   Sério. Você está estranho.

           — Não há nada de errado. Passei uma tarde muito agradável, boa noite, Sam — ficou olhando seu Blackberry severamente.

           Sam Rose era muito astuta. Ian sabia que devia livrar-se da página e esquecer tudo aquilo enquanto ainda havia tempo. Antes que seu segredo viesse a público.

           E ele também devia se livrar dela. Mas ele sabia que não faria isso. Ainda não. Não, até que tivesse acabado o que começou naquele dia em Oban, na Escócia.

 

           Na tarde seguinte, Sam estava entrando em seu escritório quando a ajudante de Nick barrou sua passagem. Chegava com uma hora de atraso: eram quase quatro da tarde. Mas ela passou quase toda a noite pensando em Maclean, em Hemmer, na página perdida e no DVD, e depois passou metade do dia discutindo com sua companhia de seguros sobre sua reclamação por causa do sinistro do carro. Estava de mau humor e, ao ver Jan, piorou. Não suportava aquela mulher e o sentimento era mútuo.

           Todos achavam que elas se odiavam porque ambas eram muito belas, embora tão diferentes como a noite e o dia. Jan era uma versão moderna de Marilyn Monroe, toda sorrisos suaves e curvas exuberantes, com o cabelo loiro e cabelos nos ombros, grandes olhos castanhos, boca arqueada e um olhar sedutor que nela era tão natural como respirar. Sua aparência de gatinha sexy escondia, entretanto, um intelecto afiado como uma navalha e uma biografia incomum. Ela foi agente secreto, uma das melhores que Nick já teve. Sam ouviu Nick contar isso muitas vezes e a irritava, ainda mais que a atitude de Jan de bater as pestanas cada vez que um homem passava por seu lado.

           Além disso, Jan e Nick eram muito amigos, ninguém sabia há quanto tempo. Nick era uma lenda na agência, diziam que esteve a ponto de dar a vida por seus agentes muitas vezes e que matou alguns dos piores demônios da história, inclusive na época dos romanos. Jan também tinha um ponto de lenda. Esteve ao lado do Nick nos piores momentos e corria o rumor de que seu prometido morreu lutando com um gladiador no Coliseu de Roma.

           Dizia-se que Jan podia responder a Nick sem que isso tivesse consequências, opinasse ou oferecesse conselho sem que ele pedisse, não importando quem estivesse presente. E, o que era mais importante, parecia saber tudo o que Nick sabia. Estava claro que, além de ser sua secretária, era sua amiga e confidente. Em relação à verdadeira índole de sua relação, havia opiniões para todos os gostos.

           Em qualquer caso, Jan tinha um relacionamento particular com o chefe, e recebia um tratamento especial por causa disso. Sam a odiou instantaneamente. E o mesmo podia se dizer de Jan.

           No ano anterior, Nick levou Jan ao passado para procurar uma bruxa demoníaca que perseguia Tabby. Nick sabia quanto Sam desejava ir. Aquilo foi à gota d’água. Jan poderia deitar-se na Hudson Street, na frente de um rolo compressor e morrer por ela, mas Sam nunca iria deixar o ano passado no passado. Sam jamais perdoaria Jan.

           Agora Jan estava diante da porta de seu escritório, com um colante vestido azul claro sem mangas e saltos altos, e nem sequer se incomodava em sorrir. Sam, a encarou, vestindo sua minissaia de vaqueira de costume, camiseta de alcinhas e botas de cano alto.

           — Você está no meu caminho — disse.

           — Deitou tarde ontem à noite? —perguntou Jan com excessiva inocência.

           — Eu sempre me deito tarde — Sam lhe sorriu. Depois acrescentou: — Eu sou uma Matadora, não uma secretária, lembra?

           Jan ignorou.

           — Esteve doente ontem? — perguntou, zombando. — Você não chamou, mas sabemos que esteve no Five (Cinco) — sorriu. — Muita diversão e jogos na metade de Manhattan com Senhor Limpo[5]? Ops, quero dizer, Sr. baixo e sujo[6].

Ela sorriu. Sam compreendeu que ela viu o vídeo da outra noite.

           — Está com ciúmes?

           Jan riu verdadeiramente.

           — Eu não gosto dos meninos maus, Sam.

           — Eu esqueci. Você vive como uma freira.

           — Algumas de nós podem controlar a libido. Algumas preferem sentir respeito por si mesmas, a deitarem com qualquer um que esteja disponível.

           — E algumas de nós só querem se divertir — Sam passou do seu lado dando-lhe um empurrão. Seu perfume era suave e doce, como sua aparência. Sam sentiu vontade de vomitar.

           — Também se divertiu ontem à noite?

           Sam deduziu que Jan sabia que Maclean foi ao seu loft. Mas era lógico que sabia, Maclean estava sendo vigiado. Sua mente desviou instantaneamente para aquele encontro para o DVD e seu telefonema em seguida.

           — O que foi? Chateada porque Maclean fugiu da Super Sam?

           — Puxa, você se rebaixou à área pessoal? — Sam se aproximou de sua mesa. Ela nunca entenderia por que os homens ficavam loucos por Jan. Certamente porque parecia uma garota de página central de revista masculina, mas era uma dissimulada e jamais se envolvia com alguém. Jan era uma espécie de fantasia masculina moralmente correta. Corria o rumor de que ainda chorava a morte de seu noivo.

           Jan continuou rebolando os quadris.

           — Nick está muito irritado — parecia satisfeita.

           Sam lançou sua bolsa e sua maleta no pequeno sofá que havia junto à parede, sob várias estantes.

— Nick sempre está irritado.

— Está zangado com você — Jan sorriu. — Por várias questões. Você não relatou nada para ele. Ontem deixou uma esteira de destruição pelo centro da cidade, que a CDA terá que pagar. Maclean fugiu e... ops! Te roubou a página. Nick quer vê-la imediatamente — saiu balançando o traseiro.

           Sam teria batido a porta, mas Kit se aproximou. Parecia desconfortável. Sam olhou para ela.

           — Uma das duas tem que ir embora.

           — Na realidade, é boa pessoa.

           — Não se atreva a se tornar amiga dela. Tomaria isso como uma traição pessoal.

            — Ok, era só um comentário. Você está bem? Sobreviveu ao Maclean? —perguntou Kit, entrando no escritório.

            — Pior. Sobrevivi a Rupert Hemmer, que passou na minha casa. Foi me oferecer aliança contra Maclean.

           Kit se sobressaltou.

           — E você vai fazer esse jogo?

           — Sim, vou jogar — Sam se aproximou de sua bolsa e entregou-lhe o DVD. — Sei que posso confiar em você. Descubra se isto é autêntico ou uma montagem. Mas não deixe que ninguém o veja. Eu não poderia suportar isso, principalmente depois dos vídeos da casa de Maclean em Park Avenue.

           — O que é?

                       — Um filme pornô. De Maclean e eu — falava com despreocupação, mas estava tensa. Seu corpo se alterava apenas pensando nele e na gravação.

           Kit a olhou com surpresa e corou.

           — Não dormi com ele, Kit. Mas Hemmer pretende me chantagear com isso, então me ajudaria saber se isso é uma farsa ou se tem origem no futuro.

           — Está bem. Procurarei um consultor para que o analise — Kit parecia preocupada.

           Sam a agarrou pelos ombros.

           — Não se preocupe. Qual a pior coisa que ele pode fazer? Colocá-lo no YouTube? Isso eu posso suportar — ela falava sério. Preferia deixar que Hemmer fizesse o que quisesse com a gravação antes de ceder à sua chantagem. Naturalmente, o melhor seria que a gravação desaparecesse. Sam se virou para sair, mas Kit a agarrou pelo braço.

           — A propósito, ligou um vendedor da Mercedes. Pode buscar seu carro novo hoje mesmo, a qualquer hora, na concessionária de Lower East Side.

           — O que? — perguntou Sam.

           Kit encolheu os ombros.

           — Eu sou apenas a mensageira. Ele disse que havia mandado um e-mail, conforme as instruções do senhor Maclean.

           Sam se aproximou rapidamente de sua mesa, bateu em algumas teclas e abriu seu e-mail. Estava atônita.

           — Ele me comprou um carro — disse. — O desgraçado me comprou um SL 500 conversível todo equipado!

           — Uau! — disse Kit.

           Maclean devia isso a ela, mas Sam não acreditava que fosse cumprir com sua obrigação. E, além disso, devia-lhe um Lexus, não um Mercedes de cem mil dólares. Seu seguro pagaria quase por completo o carro novo, ou a agência pagaria. Mas Ian comprou o conversível para ela de boa. E o carro estava à sua disposição.

           — Maclean é louco.

           — Você não deveria aceitá-lo. Há um conflito de interesses. Mas que presente! Talvez ele esteja arrependido pelo que aconteceu ontem. Talvez ele goste de você de verdade, Sam.

           — Você está brincando? — perguntou Sam, surpresa. — Isso não é mais que outra provocação. Maclean não tem culpa, nem sentimentos. Tenho que ir ver o chefe — saiu depressa, abalada ainda.

           Maclean não gostava dela; simplesmente, desejava-a. Eram coisas diferentes. Os homens gostavam de Jan. Ou gostavam de Tabby. Mas ela era muito forte, muito capaz, poderosa e independente para gostarem dela.

           Nick estava ao telefone quando entrou em seu amplo escritório. Lançou-lhe um olhar e disse:

           — Eu te ligo mais tarde — desligou e se levantou. — Nossa! A senhorita teve sono da beleza suficiente? — perguntou, referindo-se ao seu atraso, e apontou a cadeira que havia diante de sua mesa.

           Sam sentou-se. Nick permaneceu em pé.

           — Sinto muito por ele escapado com a página — disse ela. — Eu assumo total responsabilidade.

           — Eu sei que você sente. Eu também sinto. E então o que fazemos? Devemos nos dar as mãos e chorar enquanto ele ri de nós e vende a página a Hemmer ou algo pior? — antes que ela pudesse responder, acrescentou. — Na noite da festa de Becca você perdeu a cabeça. Eu achava que podia contar com você para cuidar de Maclean, mas não pôde, você perdeu a objetividade. Quantos anos você tem, dezesseis? Quando você está com ele, comporta-se como uma virgem.

           — Isso não é justo — replicou Sam, levantando-se. — E também não é certo. Suponho que você se refere à gravação das câmeras de vigilância de sua casa. Bem, Maclean é um cretino. A maioria das mulheres teria cedido, mas eu não penso em dormir com ele, Nick.

           Nick bufou.

           — Se dormir com ele, você está fora.

           Sam respirou fundo.

           — Eu estraguei tudo. Maclean é forte e é louco. Não se importa em morrer. Caso contrário, ontem eu o teria apanhado. Mas conseguirei a página. Só preciso de um pouco de tempo.

           — Ele está jogando com você e eu não gosto que joguem com meus garotos — o olhar azul de Nick era duro. — Eu não gosto que meus meninos se machuquem. Nem que acabem mortos.

           — Maclean não é mau. Não irá tão longe. Se eu morrer, será um acidente.

           — Ele ficou louco com aquele demônio. Ele perdeu o controle.

           Sam tinha uma expressão amarga. Nick estava certo neste ponto.

           — Aquilo era pessoal, Nick. Foi uma armadilha — contou-lhe o que descobriu no e-mail de Maclean. — O que você sabe sobre seu cativeiro?    

— Seu arquivo não dá detalhes, mas posso imaginar. Sabemos que Moray aterrorizou a Escócia durante quase mil anos. Ele era tão poderoso que convivia com reis e rainhas, com generais e papas. Quer saber por quê? — ao ver que Sam aguardava, acrescentou: — Ele fez um pacto diretamente com Satanás. Ele confessou isso a um de nossos agentes no século VI. Na Antiguidade foi Mestre, um dos primeiros da Irmandade. E, em troca de sua aliança com o diabo, recebeu imensos poderes e desfrutou de dez séculos de mutilação e assassinato.

           — Caramba — disse Sam. — Sorte que está morto e enterrado.

           — Se eu aprendi algo trabalhando na HCU é que os demônios mais perigosos vendem diretamente sua alma a Satanás. É quando o mal não tem limites. Moray usou Ian para controlar seu pai, Aidan de Awe. Manteve-o com vida, sem importar-se com o que fizesse passar. Imagino que foi um autêntico inferno.

     O olhar do Nick ficou aguçado.

     — Começo a ter sensações de que não gosto. Você não pode ter pena dele. Você nunca tem pena de ninguém.

           — Claro que não! — respondeu ela energicamente. — O que pareço, uma voluntária da Cruz Vermelha? Oprah? Nick, Maclean sabe que temos um arquivo sobre ele. Ele o quer. Quer reunir-se com você. Pelo que parece ele não suporta a ideia de que alguém conheça seu passado. Temos algo com o que pressioná-lo.

           — Não existe “nós”.

           Sam se sobressaltou.

           — O que?

           — Você está fora deste caso.

           Ela se zangou.

           — Você está brincando?

           — Tenho cara de ser o palhaço do escritório? Você já me ouviu. Ele está jogando com você e eu não vejo sinais de que seja capaz de responder na mesma moeda — Nick lhe deu as costas, aproximou-se de sua mesa e acionou o interfone.

           Sam o seguiu perplexa.

           — Ninguém da HCU, ninguém na CDA, poderia ter impedido que ele levasse a página ontem.

           — Certamente não. Mas você poderia ter morrido naquela perseguição de carros ontem. Teve sorte de não matar ninguém. Cometeu um erro de cálculo. Equivocou-se ao algemá-lo e erra agora. Quero que afaste-se de Maclean antes que te aconteça algo mau, a você ou a algum civil.

           Sam lutou contra seu desânimo.

           — Posso ajudá-lo a chegar a um acordo com ele, Nick. O arquivo em troca da página. Eu conheço o Maclean melhor que ninguém. Você precisa de mim.

           Nick não respondeu.

           — Então quem você vai colocar em meu lugar? — insistiu Sam. — MacGregor? Eles vão se dar muito bem! Necessita uma mulher agente, Nick. Kit? Ela estaria fora de seu alcance. Eu, ao menos, posso jogar com ele enquanto ele joga comigo. Eu, ao menos, tenho algo que ele quer.

           — Estou colocando Jan no caso — disse Nick com calma. — Tem razão. Convém que seja uma agente, é menos problemático. E estou certo de que Jan se dará tão bem como qualquer mulher... Se não melhor.

           Sam ficou quieta.

           — O inferno.

           — Como disse?

           Sam respirou fundo. Ela mal podia pensar com clareza. Só sabia que não queria que Maclean se aproximasse de Jan. A ideia a deixava furiosa. Ela o conhecia melhor que ninguém!

            — Sente algo por esse criminoso, Sam? — perguntou Nick suavemente.

           — Ele é meu. É minha missão, meu objetivo, meu. E você sabe que eu não a suporto — Sam disse secamente, recusando a considerar por que estava com tanta raiva agora. — Sabe que eu não me dou por vencida. Eu sempre ganho! Vou admitir que ele seja um grande desafio. Eu até admito que esteja tentando não sentir pena dele. Então o que? Desse modo, ganhar é um desafio e isso é tudo. E eu vencerei. Mas não vou ficar de braços cruzados enquanto ela mexe o traseiro diante dele, sente pena e tenta consolá-lo. Estou falando sério. Faça isso e eu vou embora.

           — Então acho que terá que ir embora. Porque Jan vai encarregar-se dele e você foi designada para outro caso — pegou uma pasta e passou para ela. — Você ligou para 911 ontem, às 14h03. Foi quando Maclean entrou no edifício ao lado, não foi?

           Sam tremia de ira, lembrou-se que era uma profissional e que devia responder a suas perguntas antes de mandá-lo ao inferno. Lembrou a si mesma que Jan era uma dissimulada, e em seguida descartou a ideia. Maclean a seduziria, tinha certeza disso. Deus... quase sentiu ciúmes.

           — Sim, isso mesmo.

           — Às 3h37 ele foi visto saindo de um táxi e entrando em sua casa em Park Avenue. Estava carregando o pacote com que saiu da casa de Hemmer, que depositou alegremente no cesto de papeis do canto antes de entrar na casa.

           Sam estava tão zangada que não podia concentrar-se. Ela estava doente de desânimo.

           — Essa é maneira de Maclean dizer “que se fodam”. Está claro que guardou a página em algum lugar antes de chegar em casa. Eu posso saber onde está, Nick. Eu, e não Jan. Estou fazendo progressos com ele.

           Nick bufou.

           — Sim, cada vez está mais perto de sua cama.

           — Somos adversários, não amantes. Mas Maclean me deseja e estou me aproveitando disso. E não só isso: estou começando a conhecê-lo a fundo, o que é incrivelmente difícil, por certo, tendo em conta pelo que passou, quanto mais souber de seu cativeiro, melhor. Eu posso conseguir essa página e posso descobrir quais são suas motivações. Esta noite fomos convidados a ir à casa de Hemmer. Ele e eu, juntos.

           Nick cruzou os braços e ficou olhando-a.

     — O mal no cofre... — disse pensativo.

           — Ele precisa ser investigado. Pode ser perigoso. O ano passado, quando sequestraram Brie, aceitei assim que você me propôs trabalhar aqui. Eu trabalhado mais do que ninguém e você sabe. Estou pedindo um favor. Estou cada vez mais perto de Maclean, e não porque esteja mais perto de sua cama, me deixe continuar.

           Nick pensou. Nick normalmente tomava decisões com um piscar de olhos.

            — Você acha que poderá trabalhar com a Jan sem que arranquem os olhos?

                       — Oh, não vou arrancar os olhos dela, não se preocupe com isso. Mas eu poderia colocar uma bala naquele traseiro gordo que tanto balança — sorriu friamente. Se Jan se atrevesse a olhar para Maclean com olhar pudico, ela atiraria. — Posso lidar com Maclean. Não me transfira e não me faça trabalhar com essa secretária, falsa loura e com as pestanas e todo o resto postiço.

           — Jan conhece muito bem este ofício — respondeu Nick. — E minha intuição me diz que você está em dificuldades — Sam bufou. — Já falamos com todos os comerciantes de arte da cidade e seus arredores, em Long Island, New Jersey e o norte da Pensilvânia. Não temos nada. Começo a acreditar que ele mandou a página a alguma parte, talvez até mesmo a outra época, ou que está em mãos de particulares. Maclean não tem amigos, claro, isso o expunha a certos problemas. E a página é autêntica. As fotos que você fez quando estava dentro foram analisadas ontem, enquanto vocês brincavam de Bonnie e Clyde.

           Embora não tivesse ido trabalhar no dia anterior, Sam mandou por e-mail as fotos que fez enquanto estava no cofre. Cruzou os braços e ficou olhando para Nick.

           — Você vai me dizer que poderes tem a página?

           Nick sorriu.

           — Achei que nunca fosse perguntar.

           Sam sentiu um calafrio correndo pelas costas.

           — É tão terrível assim?

           — Digamos que não queremos que nossos inimigos tenham esse poder. Sam esperou. — É o poder da ilusão — disse Nick. — Ou, em inglês simples, é o poder de controlar a realidade virtual.

          

            — Ele esta aqui — disse Jan pelo intercomunicador.

           O coração de Sam deu um pulo. Mas isso porque Jan era agora sua parceira, não porque Ian Maclean estava a caminho do escritório de Nick. Maclean não surtia esse efeito sobre ela. Ninguém surtia esse efeito sobre ela.

           — Genial — disse. — Ouça, não esqueça de colocar os seios postiços antes de conhecer o grande homem. É para isso que foi ao banheiro, não?

           Jan cortou a comunicação.

           Sam se levantou. O pulso estava acelerado, e isso a inquietava. Tinha que ser profissional e isso não era uma tarefa tão fácil como antes. Ela abriu a gaveta de sua mesa e ficou olhando o DVD que havia dentro. Fez uma cópia.

           Fechou lentamente a gaveta. Jan estaria pulverizando o nariz de porcelana, pintando os lábios e subindo as meias. Mas nem mesmo seus seios postiços conseguiriam distrair o homem daquele DVD.

           Não que ela houvesse decidido mostrar a Maclean.

           Nick afirmou que ela havia perdido o controle. Se ela mostrasse a Ian a gravação, voltaria a estar no controle da situação. Não havia nenhuma dúvida. A não ser, claro, que ele já o tivesse visto. O pensamento a deixou sem fôlego.

           Ela tomaria a decisão de mostrar-lhe ou não o DVD no caminho, disse a si mesma. Desse modo, se ele não o viu, teria um ás na manga. Ele estaria abanando o rabo como um cachorro quando ela o mostrasse e não seria uma cauda. Sam sorriu.

           Agora tinha que pensar na negociação que viria. Ficou pensativa desde que, duas horas antes, Nick lhe falou do poder de ilusão da página. Eles queriam e precisavam desse poder e deviam impedir que caísse nas mãos de seus inimigos. Ian queria seu arquivo. Seria perfeito trocar ambas as coisas. Exceto porque Ian também queria duzentos milhões de dólares.

           Ian conhecia o poder da página? Sam esperava em que não. Se conhecesse, venderia a página e se transformaria em um egoísta desumano, sem preocupação alguma com o bem-estar dos inocentes. Talvez fosse certo que começava a sentir algo por ele, porque resistia a acreditar que pudesse ser tão cruel. Ou não queria acreditar nisso.

           O poder da ilusão era verdadeiramente terrível.

           Uma pessoa iria acreditar e sentir o que o intermediário desse poder quisesse que acreditasse e sentisse. Se fosse vítima desse poder, Sam poderia estar no escritório do Nick e, entretanto, achar que estava perdida em uma tempestade de neve no Ártico a ponto de morrer por congelamento. Não veria as paredes do escritório. Nem sequer veria Nick. Estaria vagando em uma tempestade de neve, cega pela neve e congelada até os ossos.

           Sam se perguntava se uma pessoa salva pelos efeitos de um poder semelhante sofreria hipotermia e queimaduras, por causa do frio. Nick não sabia. E nenhum dos dois queria investigá-lo.

           Custava acreditar que existisse esse tipo de poder. A questão era: esse poder teria sobrevivido através dos séculos?

           Os Mestres do Tempo acreditavam no Duisean, e ela também. De fato, o Livro mencionava outros grandes livros, outras dinastias e seitas secretas, todas elas dedicadas a proteger a humanidade em diferentes partes do mundo e em outras épocas, e todas dotadas de poderes mágicos e sobrenaturais. O conflito entre o bem e o mal era tão antigo quanto o tempo. Os deuses celtas entregaram o Duisean aos Mestres havia séculos, muito antes do nascimento de Cristo, quando seus poderes estavam em seu apogeu. Naquele tempo, a magia era abundante e os deuses se mostravam com frequência para a humanidade.

           Nos tempos medievais não apenas os Mestres eram muito poderosos, os deuses se mantinham ainda muito ativos, embora a maioria das pessoas não soubesse. Sem dúvida a página tinha um poder imenso naquela época. Mas os quase imortais, como os Mestres, eram cada vez mais escassos, enquanto que o mal continuava multiplicando sua população e seu poder. Agora havia menos magia no mundo do que antigamente. A questão era: a página conservava ainda seu poder de ilusão. Sam tinha perguntado isso a Nick.

           — Quem sabe? Podemos nos arriscar a que não seja assim?

           Tinha razão, pensou Sam enquanto avançava pelo corredor. Se o poder da miragem existia, o governo dos Estados Unidos tinha que consegui-lo e mantê-lo afastado das mãos de seus inimigos. Enquanto pensava nisso a porta do elevador se abriu e Sam sentiu a energia de Maclean antes que ele saísse. Seus olhares se encontraram quando ele parou no corredor. Sorriu lentamente.

Vestia uma camisa polo preta, seu relógio de ouro, uns jeans quase apertados e uma cruz celta pendurada de um cordão de couro. Parecia muito seguro de si, rico à moda antiga e um inferno de muito sexy. Ela pensou no DVD, onde ele parecia mais sexy e confiante no que estava fazendo.

Na noite passada, ele ficou furioso quando soube sobre o arquivo. Quando ligou mais tarde, depois que, de alguma forma estava espionando-a do outro lado da cidade, com sua mente, estava de bom humor, sexy, sedutor. Sam demorou um segundo e meio para dar-se conta de que ele estava de bom humor. Estava despreocupado, cheio de curiosidade e tão sensual como sempre.

Sam sentiu um intenso desejo de mostrar-lhe o DVD. Não podia imaginar qual seria sua reação.

           — Cumpri minha palavra — murmurou.

           — Eu nunca duvidei que você fosse arrumar essa reunião — replicou ele. — Conseguiu descansar ontem à noite?

           — Estive assistindo um filme — disse ela com significado.

           O olhar de Ian ficou aguçado.

           Sam percebeu de repente que ele não se introduziu em sua mente. Parecia estar tentando descobrir no que ela estava pensando.

           — O que está acontecendo? Não está funcionando com carga total hoje?

           — Estou distraído — respondeu ele, e apontou sua muito curta minissaia desfiada.

           — Você sempre está distraído. E isso nunca foi um impedimento — enquanto falava, pensou que talvez Ian estivesse fingindo. Um momento depois ele estaria enfrentando Nick pelo arquivo. E o arquivo era tudo para ele, estava se escondendo atrás de sua sexualidade, utilizando-a como distração.

           — Nada me detém quando vou atrás de algo que realmente quero — murmurou ele, parando ao seu lado. — Seu olho está melhor — acariciou sua maçã do rosto.

           Sam se limitou a olhá-lo. Estava ardendo. Todo seu corpo parecia ter acelerado. Notava o calor do dedo de Ian sobre sua pele. Essa noite iriam para a casa do Hemmer. Ela podia utilizar o distorcido convite do Hemmer como desculpa para conseguir o que realmente queria: Maclean.

           Ele tinha que saber o que estava pensando, porque seus olhos cintilaram.

           Então Sam ouviu o ruído de uns saltos, ficou tensa. Aquele ruído era familiar. Jan se aproximava. Sam ameaçou virar-se e viu que os olhos de Ian se dilatavam. Depois ele sorriu, satisfeito, e olhou para Jan de cima a baixo.

           — Ian Maclean? — perguntou ela suavemente. — Sou Jan Bentley, a assistente de Nick — estendeu-lhe a mão. — Se houver algum assunto a resolver na HCU, eu sou sua garota.

           — Que sorte a minha.

           — Sim, que sorte — respondeu Sam secamente. — Outro idiota ofegando na larga fila abaixo de seu pedestal, esperando um convite para a cama da Santa Jan.

           Ele estava olhando as longas pernas de Jan. Olhou nos olhos de Sam e parecia estar rindo dela.

           — Como diz?

           — Recomponha-se — disse ela com nojo. O interesse de Ian era inconfundível.

           — Às vezes acho que você tem treze anos, não trinta — disse Jan. — O que é isto? O ensino médio?

           — Não pode ser. Você tem quarenta anos — replicou Sam. — Hoje é seu dia de sorte, Maclean. Jan é minha nova parceira. Esta noite podemos fazer um trio na casa de Hemmer.

           Ian engasgou, possivelmente de risada.

           Jan perguntou rispidamente:

           — Do que você está falando?

           — Vamos a uma festa. Mas você pode recusar, sinta-se livre. Estava ciente de que não deveria estar mostrando o quanto estava chateada e também o quanto estava lívida. Sam se dirigiu à frente deles em direção ao escritório de Nick. Parecia estar ciumenta, embora soubesse que isso era impossível. O ciúme também não figurava em seu vocabulário. Parou e virou para olhá-los. — Jan não gosta das festas, Maclean. É uma boa garota.

           Ian pôs-se a rir.

— Lorde Maclean, agora trabalho com Sam, mesmo que ela não esteja muito feliz com isso.

           Sam a viu bater as pestanas, atenta e sorridente, como se ela estivesse realmente interessada por Maclean. Mas Jan se comportava sempre assim, com homens e com mulheres. Por isso todo mundo a adorava. Os homens pensavam que os desejava, as mulheres achavam que ela era sua melhor amiga. Era boa atriz: todo mundo acreditava nela.

           Ian sorriu e olhou para Sam.

           — E por que se incomoda que trabalhe conosco? Quanto mais, melhor. E me chame Ian, senhorita Bentley.

            Sam não tentou dissimular seu aborrecimento.

   — Já imaginava daria saltos de alegria. Então, está pronta para atuar, Jan? Acha que terá coragem? Alerto de que se trata de uma sessão obscena. Teremos que nos conformar com que faça o papel de donzela virginal. Ou isso, ou pode ficar em casa.

           — Mas Hemmer quer diversão — respondeu Ian. — E acho que gostará da senhorita Bentley.

           Sam sentiu vontade de lhe dar um chute onde mais doía.

           — Fecha a boca, Ian. Barbie não se rebaixa a essas coisas. É tudo uma farsa — sorriu triunfalmente a Jan. — Você sempre dando falsas esperanças, não é Barbie?

           — Está bem, o que estou perdendo? — perguntou Jan. — O que tem planejado para esta noite exatamente, Sam?

           — Ian e eu temos uma entrevista com o diabo — respondeu Sam tranquilamente. — Hemmer quer que nós tenhamos relações sexuais enquanto ele olha. Se você vier, terá que vir. Se me entende.

           — Sam, está tentando me fazer odiá-la? — perguntou Jan asperamente. — Costumo conceder a todo mundo o benefício da dúvida, mas com você está cada vez mais difícil. E sabe o que? Nick não vai te deixar sozinha neste caso. Assim, se eu disser que não posso trabalhar com você, adivinha o que fará? — seus olhos brilharam.

           Sam respirou fundo.

           — Isso é chantagem.

           — Ou trabalhamos juntas ou acabou. Pode zombar de mim a cada passo e se divertir de minha moral, mas por acaso tenho fortes convicções éticas. E isso não vai mudar, nem por você, nem por Hemmer, nem por ninguém.

           Sam se sentiu um pouco envergonhada.

           — Bem. Então, fique em casa esta noite.

           Jan sacudiu a cabeça, zangada.

           — Por que diabos você aceitou ir à casa do Hemmer com suas condições?

            — Acho que não leu meu relatório. Há algo maligno nesse cofre.

           Jan a olhou com surpresa.

           — Rupert gosta de mim — acrescentou Sam. — Me ofereceu uma visita privada, assim poderei entrar no cofre. E me pediu que levasse Ian para que fizéssemos uma festa.

           Jan assimilou a notícia.

           — Recebemos os resultados do laboratório. Hemmer é cem por cem humano. Não há nada anormal em seu DNA.

           Sam olhou para Maclean, que de repente parecia muito interessado em sua conversa.

           — Eu poderia ter dito isso a vocês e — disse ele — e lhes teria economizado tempo e provas. Mas, mesmo assim, Hemmer é perigoso.

           — Eu não tenho nenhuma dúvida — Jan sorriu. — Nick está esperando.

           Sam se perguntou se Jan poderia manipular Ian. Enquanto se dirigiam ao escritório de Nick, disse:

           — A propósito, obrigado por aquele carro excelente.

           — Então você gostou — ele parecia satisfeito.

           — Claro que gostei. Talvez eu deixe que você dê uma voltinha nele.

           Jan parou na porta de Nick para deixá-los passar. Nick os estava esperando com o quadril apoiado na beirada da mesa. Sam compreendeu por sua calma e sua expressão que sua atitude era: Eu Vou Vencer a Qualquer Custo e de Qualquer Modo.

           Esqueceu do interesse de Ian por Jan, ficou tensa e olhou para Ian. Maclean estava com a mesma fisionomia inexpressiva, mas seus olhos eram frios como o gelo. A energia da sala era quente, masculina, carregada e tensa. Dois touros estavam a ponto de investir um contra o outro. E o pior era que ambos tinham poderes sobrenaturais.

           — Diga às mulheres para saírem — disse Ian.

           — Prazer em conhecê-lo, também — respondeu Nick. — Mas as senhoritas podem ficar.

     — Tenho uma oferta a fazer.

     — Nada do que se diga nesta sala sairá daqui.

O semblante de Ian endureceu.

   — Conheço seu pai e esperava que esse dia chegasse — Nick sorriu.

   — Claro que esperava que as circunstâncias fossem mais agradáveis. Como está Aidan, a propósito? E Lady Brianna?

           Ian sorriu com frieza.

     — Não sei. Não estou em contato com eles. Claro que isso já sabe, não? Está no meu arquivo.

     — Claro que não sabe. Vive fora de sua época. Completamente sozinho, convivendo com o mal, roubando o que quer, quando quer... Não se sente sozinho, vivendo assim?

           — Estou aqui pelo meu arquivo — respondeu Ian. — Não para discutir como vivo.

           — Mas eu quero falar de como você vive e das escolhas que fez. Porque, verá, essas decisões me afetam. Aidan deve estar muito decepcionado com você — acrescentou.

           Ian estava ficando irritado a cada minuto. Sam sentiu desejo de intervir. Por que Nick tocava na ferida?

           — Na verdade, seu coração deve estar partido.

           Ian não conseguia acreditar.

           — Se ele tiver o coração partido, é problema dele, não meu! Estou aqui por meu arquivo. Ele me pertence. E o quero — Ian estava furioso.

           — Os deuses antigos também devem estar muito zangados. E não é boa ideia contrariar aos deuses, embora sejam antigos.

           Ian riu.

           — Os antigos deuses não se importam com o que eu faça e, se acha o contrário, é por que é um tolo.

           — A única coisa que não sou, Maclean, é um tolo.

            — Se você tiver um arquivo sobre mim, então você é muito tolo — respondeu Ian suavemente. — Porque não vou permitir isso.

           Nick sorriu.

           — Aqui, na HCU, eu sou o rei. Todos os arquivos aqui me pertencem.

           — Deixa de provocá-lo — disse Sam. — Uma guerra não vai resolver nada.

           Nick olhou para ela com frieza. Ian se virou. Seus olhos brilhavam de fúria.

           — Com um pouco de tato se conseguem muito mais progresso — acrescentou ela.

           Ian não pareceu tranquilizar-se, mas Nick suspirou.

           — Ela tem razão, Maclean. Comecemos de zero. Acredito que podemos nos ajudar mutuamente.

           — Sério? — perguntou Ian, zombador, e estremeceu. Algumas fotografias e quadros caíram das paredes e alguns livros das estantes.

           — Muito adulto — disse Nick. — Sei que tem poder, Maclean.

           — Então não me faça usá-lo.

           Jan se aproximou de Ian e colocou a mão sobre seu braço. Sam piscou incrédula, quando Ian encolheu os ombros.

           — Ian, dê-lhe uma oportunidade — disse Jan. — E, Nick, por favor... Ian não é mau. Ele simplesmente perdeu o rumo.

           Ian a olhou com frieza.

           Sam engasgou.

           — Maldição, Nick, dê-lhe um tempo — acrescentou Jan com suavidade.

           Ian olhou atentamente para ela. É claro que ela tinha a sua atenção. Jan era incrível.

           — Você está brincando? — perguntou Nick. — Ele roubou a página do poder da ilusão. E pretende vendê-la ao melhor lance, por dinheiro. Não vou lhe dar nenhum tempo. Façamos um trato, Maclean. Um trato que beneficie a ambos.

           Jan apontou o sofá de pele e as poltronas que havia do outro lado do escritório. Suas unhas vermelhas descansavam ainda sobre o braço nu de Ian.

           — Porque não nos sentamos? Gostaria de uma bebida, Ian?

           Ele a olhou e depois olhou para Sam.

           — Não.

           Jan baixou a mão. Cruzou um olhar rápido com Nick. Sam lamentou não poder ler seu pensamento. Nick fez uma careta.

           — Está bem, Maclean, vamos começar de novo. Jan tem razão, como sempre. É minha culpa, mas afinal de contas não sou um diplomático. Mas estou certo de que você me entende. Só estou um pouco nervoso porque essa página possa cair em mãos erradas. Nas piores mãos. Isso para não mencionar que estive a ponto de perder uma das minhas melhores agentes nessa estúpida perseguição de carro de ontem.

           Ian cruzou os braços firmemente sobre o peito.

           — Sam não morreu.

           Nick sorriu amavelmente.

           — Vamos mantê-la dessa maneira. Porque eu gosto de verdade de minha pequena Frisbee, bancando a mulher fatal. Se morrer por sua culpa, você morre.

           Ian sorriu para ele com desagrado.

           — A única coisa que não quero — disse muito suavemente. — É nossa Sam morta.

            — Tenha cuidado, Maclean. O caçador pode ser caçado.

           — Estou ansioso por isso.

           Sam se colocou entre eles.

           — Tempo esgotado, íamos fazer um trato, lembram?

           — Como ia esquecer isso? — perguntou Nick com excessiva suavidade.

           Sam perdeu a paciência.

           — Pois façamos isso de uma vez, então. Maldito seja, Nick, Maclean é um dos mocinhos.

           Nick finalmente lhe deu atenção.

           — Não, ele não é. Poderia ser, mas, em vez disso, ele se relaciona com demônios e vira-latas, criminosos e corruptos. É capaz de vender à página a qualquer um, bom ou mau, desde que paguem o que quer. Pode até vender para o mal só para dizer: “te peguei”. Estou certo, Maclean? — seu olhar azul ficou cravado em Ian.

           — Sim, está certo — respondeu Ian. — De fato, se vocês não me derem o arquivo e destruírem todas as cópias diante de mim, eu a venderei ao primeiro demônio que der um lance por ela... com prazer.

           Aquilo estava indo de mal a pior.

           Nick sacudiu a cabeça.

           — Eu sabia. Ele brincou com você, Sam, te fez de tola. Não precisa de um tempo. Precisa ser quebrado.

            — Pode tentar lembrar o que ele viveu? — gritou. Ele está quebrado!

           Ian girou bruscamente.

           — Cale a boca! — disse ele, lívido. — Eu não preciso de sua ajuda, nem a quero.

           Ela enrijeceu. Droga! pensou, realmente abalada. Estava sofrendo por ele. Ian não deveria ter aquele passado para esconder.

           — Eu imaginava isso. Sente pena dele — disse Nick em tom de recriminação.

           Sam tentou bloquear seus pensamentos dele.

           — Eu estou tentando mediar um acordo aqui. E não é tarefa fácil, com esta overdose de hormônios. Talvez devêssemos extrair um pouco de testosterona dos dois, como os biólogos fazem quando tiram o veneno de cascavel, antes que isto se transforme na 4ª Guerra Mundial.

           Nick ignorou.

           — Está bem, Maclean. O trato é este: eu te dou o arquivo original e te permito ver como destruímos todas as cópias, quando você me entregar à página e minha gente comprovar sua autenticidade.

           Ian riu, zombando, e, excitado ainda, respondeu em voz baixa:

           — Eu vou considerar a possibilidade de vender a página ao governo dos Estados Unidos. E, em sinal de boa vontade, adiar o leilão mais uma semana, para que procurem o dinheiro que vocês vão necessitar para me fazer uma oferta adequada. Até farei um desconto a vocês. Mas, em troca, você me dará o arquivo original agora mesmo. Se chegarmos a um acordo, eu destruirei as cópias e depois entregarei a página.

           Nick ficou olhando-o.

           — Você sabe que não dispomos de tanto dinheiro como Hemmer e essa gente. Nosso orçamento é muito limitado. E não confio em você.

           Ian encolheu os ombros.

           — Estou disposto a vender a página a vocês por vinte e cinco milhões de dólares — disse. — Hemmer pagou mais de duzentos milhões por ela — acrescentou desnecessariamente.

           Nick o olhou com fúria.

           — Jamais conseguirei esse orçamento aprovado.

           — Então, você está fora.

           — Então, você nunca saberá o que está nesse arquivo de cinco centímetros de espessura, não acha? Dê-nos a página e poderá ficar com seu arquivo imediatamente. Eu mesmo destruirei as cópias na sua frente.

           Ian olhou para Sam brevemente, e disse:

           — Cinco milhões de dólares e eu saio daqui com o arquivo. Quando eu receber o dinheiro, faremos a transação.

           Nick se apressou em dizer:

           — Eu vou precisar fazer alguns telefonemas. Não tenho autoridade para aprovar essa soma, que ainda está fora do meu orçamento.

           — Muito bem. Faça suas chamadas. Mas estou saindo daqui hoje com meu arquivo.

           Nick sacudiu a cabeça.

           — Impossível.

           Nick tentava ganhar tempo, pensou Sam. Quando Ian visse seu arquivo, perceberia que não havia nele nenhum detalhe horripilante e deixaria de se importar que a CDA o tivesse em seu poder. Depois, seguiria adiante com seu leilão. Ou não?                     

                        Ian olhou para ela e, apesar de sua expressão séria, Sam viu uma dúvida em seu olhar. Ficou tensa. Desejou poder dizer-lhe que não tinha por que se preocupar com o arquivo. Ian tinha todo o direito de esconder seu terrível passado. Ela umedeceu os lábios.

           — Eu já lhe disse isso. Não o li.

           Ian olhou para Nick.

           — Está cansado de conduzir um Ford, Forrester?

           Nick ergueu as sobrancelhas.

           — Dou-lhe cem mil dólares por uma cópia — Ian sorriu.

           — Só cem mil? Você não pode me comprar Maclean. E eu gosto de carros usados, por sinal. Eu gosto dos Ford. É o mais patriótico. Nunca desejei uma Ferrari.

            — Todos os homens querem Ferraris. Duzentos mil dólares por uma cópia.

           Nick sacudiu a cabeça.

           — Precisamos da página, Maclean. Precisamos dela para que nossos inimigos não possam ter acesso a esse poder.

           Sam queria dizer a Nick que lhe desse uma cópia do maldito arquivo, mas isso não teria sido muito profissional por sua parte.

           — Coloque seu preço — grunhiu Ian.

           — A página — respondeu Nick.

           Ian riu dele.

           — A página vale centenas de milhões de dólares... para determinado demônio — olhou para Sam com frieza, como se ela o tivesse traído em certo modo e, depois de dar meia volta, saiu batendo a porta.

           Sam demorou um momento para recuperar o controle sobre si mesma.

           — Você foi muito bem — disse com sarcasmo. Mas o que ela queria era correr atrás de Ian e dizer-lhe que seus segredos estavam a salvo. Ele ansiava uma cópia de seu arquivo. Estava desesperado para saber o que os outros sabiam dele. E Sam sofria por ele. O que estava acontecendo com ela?

           Provavelmente depois daquilo Ian venderia a página do poder da ilusão a seus inimigos.

           Nick se aproximou da janela, olhou a rua Hudson e resmungou uma fileira de maldições. Jan tocou o braço dele.

           — Eu posso convencê-lo, Nick. Sem dormir com ele. Ele não tem nenhum pingo de maldade. Seu pai é um Mestre do Tempo, me deixe tentar.

           Sam ficou imóvel.

           — Vá atrás dele — disse Nick a Jan laconicamente. — Faça o que achar melhor.

           Sam tremeu de raiva. Respirou fundo e conseguiu não mudar de expressão. Jan saiu rapidamente, mas não sem antes olhá-la e dizer:

           — É só trabalho.

            — Certo — respondeu Sam, voltou-se para o Nick, tentando não explodir.

           — O que foi? Está apaixonada por ele? — perguntou ele. — Maclean tem feridas que não curarão nunca. E isso faz dele um renegado.

           Sam sacudiu a cabeça, muito furiosa para responder, e saiu do escritório. Jan estava com Ian junto ao elevador. Ele continuava excitado. A tensão fazia tremer seu corpo, separou-se de Jan ao ver Sam, aproximou-se dela com olhos cintilantes.

           — Não volte a sair em minha defesa. Não preciso da sua ajuda.

           — Tudo bem — disse ela para aplacá-lo.

           — E tampouco necessito da sua compaixão. O passado é o passado — grunhiu. — Eu o esqueci há muito tempo.

            Uma ova! pensou ela.

            — Não tenho pena de você, Maclean. Acontece que eu sinto muito e acho que você não devia ter passado por tudo isso, mas o que se vai fazer: eu sou humana. A partir de agora, entretanto, eu vou cuidar do meu próprio negócio. Exceto no que se refere à página, claro. Porque é culpa minha que você a tenha e sou eu quem deve recuperá-la.

           Atrás deles a porta do elevador se abriu. Ele puxou o colarinho da camisa com tanta força que o tecido rasgou.

           — Então agora somos inimigos — disse.

 

            Gerard abriu a porta e ergueu as sobrancelhas, surpreso, ao vê-la.

           Sam sorriu para ele. Eram as seis e meia e ela tinha que estar na casa de Hemmer às sete, mas não teve notícias de Ian desde que partiu furioso do escritório de Nick na HCU. Estava considerando que seu encontro com Rupert Hemmer estava ameaçado e não podia deixar isso acontecer. E não era só pelo DVD.

           Estava quase certa de que Ian estava com Jan, ou fazendo planos com ela, porque, quando Jan cravava os dentes em uma presa, era como um cão com um osso. E Sam não podia permitir que manipulasse Ian.

           A reunião dessa tarde na HCU deixou um sentimento de angústia. Imaginava que era simples inquietação. Droga! Detestava o seu envolvimento com Jan naquele assunto, mas detestava mais ainda a angústia dele. Nick devia dar-lhe o maldito arquivo, embora Sam soubesse que não era muito racional de sua parte pensar assim.

           — Olá, Gerard, como você está hoje? — lamentava ter sido tão grosseira com ele quando se conheceram na Escócia. Se Gerard estava com Maclean há anos, como ele dizia, devia ter apego ao seu trabalho e possivelmente também ao seu chefe.

           Sam sabia que Maclean não tinha amigos e se alegrava de que tivesse seu mordomo. Era melhor que nada. Claro, tinha a seu pai, mas Ian se afastou de sua família, assim como de todo o mundo, por quê?

           Aparentemente, Ian pertencia ao passado, não à atualidade, nem a Nova Iorque, nem à Escócia. Essa ideia inquietava Sam. Se isso fosse verdade, possivelmente Ian retornasse ao passado algum dia, quando caísse em si. Seu pai estaria lá, como também Brie, e inclusive Tabby. Sam estava ciente da falta que sentia de sua irmã mais do que nunca. Sabia que tinha que superar isso. Voltaria a ver Tabby algum dia, mais cedo ou mais tarde.

           Suspirou. Ultimamente parecia incapaz de controlar-se, e não gostava nada disso. Mas isso não importava. Seu trabalho atual era resgatar Maclean das garras de Jan, levá-lo para a casa do Hemmer para descobrir o ele escondia e voltar a entrar no cofre. Além disso, recuperar a página continuava sendo sua prioridade absoluta. Não sabia, entretanto, como iria conseguir isso, depois do encontro entre Ian e Nick.

           — Sua Excelência não me disse que estava vindo — disse Gerard com as sobrancelhas ainda levantadas.

            — Sua Excelência provavelmente esqueceu que temos um encontro quente com o lado escuro.

           Gerard fez uma cara estranha. Sam se perguntou se sua menção do mal o perturbou. Estava claro que o mordomo sabia muito mais da sua vida que um mortal comum.

           Mas provavelmente estivesse desconcertado porque Ian estava com Jan.

           — Não se preocupe — disse ela sem deixar de sorrir. — Já sabe como é difícil livrar-se dos maus hábitos. E eu sou uma desmancha-prazeres, lembra? E confie em mim. Depois desta noite, ele não voltará a se incomodar se o interrompem.

O DVD podia tornar-se sua arma predileta. Nunca se sabe quando ele pode ser útil. Provavelmente nem sequer se importasse que Ian já o tivesse visto. Embora começasse a pensar que, se ele o tivesse visto, já teria jogado em sua cara.

           — Não entre, senhorita Rose — disse Gerard laconicamente.

           — Vamos, Gerard. Estou certa de que não é a primeira vez que Maclean se entretém com mais de uma garota. Já devia estar acostumado a seus hábitos de sedutor. — Mas seu sarcasmo soava forçado. Os homens que passavam a maior parte de sua vida em cativeiro não sabiam ter relacionamentos. Só conheciam o básico (o sexo, por exemplo), e esse parecia ser o caso de Maclean.

           — Sua Excelência não está de muito bom humor esta noite — disse Gerard. — E ao contrário de você, essa outra visita estava prevista. Ele não mencionou que tivesse intenção de sair esta noite.

           Jan conseguiu enganá-lo, e isso doía. Sam tentou ignorar isso.

            — Deixe-me adivinhar. Essa outra visita é loira, tem seios grandes e é quarentona. E se chama Jan Bentley, aliás, Barbie.

           — Uma senhorita Bentley está presente, senhorita Rose. Faça o favor de esperar no salão verde — disse Gerard. — Direi ao senhor que está aqui.

           Gerard saiu. Sam respirou fundo, quase desanimada. Lembrou-se que não se importava se Maclean estivesse tentando seduzir a Barbie, sem mencionar que ela não o colocaria para fora. De qualquer maneira, Jan não ia permitir que a deixassem de fora. E ao diabo com Nick. Ela é que iria aquele encontro, ela era quem iria recuperar a página.

           Mesmo que pesasse tanto quanto Sam odiava admitir, subestimar Jan, foi má ideia. Aquilo não era uma competição de escola. Era um assunto profissional, embora quase parecesse uma rivalidade absurda.

Pela primeira vez em anos, Sam sentiu que sua segurança vacilava. De certa maneira, Jan era como Tabby: uma pessoa boa por natureza. Sam podia fingir que não era assim, mas era mentira. Por isso os homens ficavam loucos por ela. O sorriso suave e seu olhar amável eram autênticos. Jan era um sonho para muitos homens, e, além disso, pretendia ser a melhor amiga de todas as mulheres. Era odioso, mas era verdade. Ian certamente estaria babando por ela. Não seria imune ao seu tipo exuberante e a seu caráter amável e super feminino.

Sam se orgulhava de ser uma lutadora. Seu dever como Matadora definia sua personalidade, assim como definia sua vida. Poucas mulheres podiam fazer o mesmo que ela. Mesmo assim, odiava pensar que Ian caísse no feitiço de Jan. Isso ainda a preocupava.

Sam sacudiu suas dúvidas repentinas. Ela cuidaria de Jan o mais rápido possível, de um modo ou de outro. Olhou-se no espelho dourado que havia na parede. Usava um minivestido verde azulado com alças finas. Mal chegava ao meio das coxas e era de jersey, desse modo se agarrava aos seus seios, tronco, quadris e coxas. Havia substituído à volumosa bandagem que rodeava suas costelas por um curativo largo. Não era o que recomendou seu médico, mas ao diabo com isso. Usava sandálias de salto agulha e, diferente de Jan, colocou apenas um pouco de brilho nos lábios e rímel: ela não precisava se maquiar para ficar mais bonita. Um momento antes parou o trânsito ao pegar um táxi. Três executivos de Wall Street disputaram o privilégio de conseguir para ela um táxi na hora do rush. Um homem gordinho e casado cedeu o seu, corado como um Papai Noel. Mas poderia ter havido um aumento da sua pressão arterial.

Mais segura de si mesma, ela se colocou a andar pelo corredor, seguindo Gerard.

Gerard estava parado diante da porta de uma sala de estar grande, decorada em branco e ouro, e estava anunciando sua presença. Sam passou ao seu lado. Ian estava ali, impecável e sexy. Olhou-a com frieza.

Ok, ele continuava zangado porque ela teve pena dele em público. Sam viu Jan sentada em um sofá de brocado de cor marfim, com um vestido laranja. Tinha as pernas cruzadas e um olhar alerta. Ao seu lado havia uma taça de vinho branco intacta.

— Quanta animação para um encontro — disse Sam, zombadora.

           Jan girou os olhos.

— Ian me convidou para um drinque. Deixei-lhe claro que só queria continuar nossa conversa anterior.

— Puxa, e que conversa é essa? A de “eu sou sua garota”? Espero não interromper — se virou para Ian e surpreendeu ele olhando suas pernas. Sua expressão não se suavizou.

           Jan disse:

— Estava tentando explicar nossa posição para ele.

           Sam olhou Ian nos olhos, mas não se virou para Jan.

— E que posição é essa? A do missionário número um?

Jan suspirou. Era horrível que o laranja caísse tão bem nela.

— Nós estamos metidos em uma guerra muito perigosa. Ian não é mau. Nick foi muito duro com ele. Estou preocupada. Quero ajudar.

— Sim, é obvio — Sam olhou para Ian. — Por favor, não me diga que está se deixando enganar pelo número repetitivo do policial bom e do policial mau.

— Por que iria me incomodar em falar com uma mulher bonita? — ele a olhava com frieza.

— Porque você não gosta de falar?

— Vocês falam o tempo todo.

— Sim, e isso irrita você — Sam olhou para Jan. — Ele já se irritou com você, ou você tem carta branca?

— Eu não sou tão abrasiva ao contrário de algumas pessoas. Eu acredito em conversas. E, a propósito, se chama “negociar”, não “preliminares”.

— Eu fico com as preliminares. E também Ian, por certo. Então, boa sorte. Vai precisar — disse Sam secamente. Depois deu as costas a Jan. — Estou certa, Maclean?

O semblante de Ian se contraiu. Voltou a olhar seu muito curto vestido.

— Você ainda pensa em ir à casa de Hemmer? Ou se vestiu assim para mim?

— Vou à residência de Hemmer. Como ia recusar esse convite?

Ele pareceu zangar-se.

— O que há de errado? Minha colega de trabalho aborrece você? Eu realmente não queria interromper seu sexo livre de discussão. Talvez eu deva ir. Não sabia que nosso encontro estava cancelado — mentiu.

           Ian a agarrou pelo braço.

— Você não vai sozinha para a casa de Hemmer.

— Por que não? Eu posso proporcionar entretenimento suficiente sem você. Estou certa de que vai gravar isso. Se você for gentil com ele, pode ser que até te faça uma cópia — Ian continuava zangado, pensou. Não podia acreditar nisso, mas se alegrava de voltar a vê-lo como sempre: transbordante de arrogância e de sexualidade.

— Por que se importa tanto com o diabo desse cofre? Por que não esquece esse assunto?

— É a minha natureza, Maclean, como é sua natureza convidar Jan para tomar uma bebida. Mas ela não te fará feliz esta noite.

Ele a atraiu bruscamente para si.

— E você fará?

Sam olhou seus olhos intensos e duros. Seu corpo musculoso vibrava sob o seu.

— Estive pensando nisso — disse suavemente. — Estive pensando em sexo pelo valor de duzentos milhões de dólares.

Ian sorriu lentamente.

— Talvez eu tenha lhe dado muito tempo para pensar nisso.

— Talvez sim — murmurou ela.

O desejo de Ian estava misturado com raiva e medo, de alguma forma Sam sabia e sabia também que essa raiva era muito, muito profunda.

— Venha para a casa do Hemmer comigo para que possamos jogar — murmurou.

— Esta noite não estou de humor para provocações — alertou ele.

Sam não desviou o olhar.

— Então, o que ela faz em seu sofá?

— Desafios — Ian encolheu os ombros. — Não vou permitir que vá sozinha a casa de Hemmer. Sam sentiu que seu coração disparou. Sentia o corpo duro de Ian apertado contra o seu, palpitando.

— Eu não penso assim.

O olhar de Ian tornou-se escrutinador. Soltou-a.

— Seria apropriado ter um pouco de medo, Sam. E um pouco de cautela.

Sam riu suavemente.

— De uma alma imprudente para outra — sorriu para Jan. — Então, vocês chegaram a um acordo? Ficou clara a... posição? Quero dizer, ficou tudo estabelecido? — Ela estava consciente do quadril de Ian e sua mão ainda apoiada em sua cintura.

Jan levantou, visivelmente zangada.

— De certo modo, sim. Vamos terminar nossas bebidas Sam. Em particular. Ian estava muito mais calmo e mais razoável até que você apareceu. Sua noite na casa de Hemmer pode ser adiada.

Uma ova! Pensou Sam. Ela abriu sua bolsa. Ian a olhou como um falcão quando lhe deu o DVD.

— Acho que ela esta me chutando para fora.

— O que é isto? — ele perguntou, desconfiado, olhando o DVD, antes de olhar para ela.

Ela compreendeu nesse momento que ele não viu a gravação, sentiu-se eufórica.

— Algo que provavelmente você goste... e muito. Eu o veria antes de ir para a cama. Talvez você possa assistir com ela, enquanto tomam o vinho. Entretanto, estou muito atrasada, porque não vem quando acabar com ela? — virou-se para sair.

Mas Ian a agarrou pelo braço de novo e a apertou contra seu corpo. Seu olhar se estreitou, desconfiado.

Atrás deles, Jan disse:

— O que está tramando, Sam?

— Eu sou boa em proporcionar entretenimento aos outros. Isso se chama “negociar”, “jogos preliminares”, “selar o trato” ou como você quiser.

— O que há nesse DVD? — perguntou Jan, cuidadosa.

— Foi um presente — disse Sam tranquilamente. Olhou para Ian. O desejo crispava entre eles. — De nosso rival favorito.

Os olhos deles arregalaram. Então ele a soltou e cruzou a sala de estar com o DVD na mão. Sam viu um laptop em cima de uma mesa antiga. Seu corpo vibrava ardente. O desejo começou a manifestar-se havia algum tempo, possivelmente quando se conheceram em Oban, e agora era explosivo.

Jan seguiu Ian. Tinha uma expressão de desgosto. Lançou um olhar sombrio para Sam ao passar a seu lado. Claramente não confiava nela.

Sam tentou não rir.

— O que foi sombra dele?

— Se eu entendi você, esse DVD é do Hemmer — disse Jan. — Você contou ao Nick?

— Não — Sam murmurou enquanto Ian sentou-se à mesa.

Jan se aproximou dele e disse:

— Deveria tomar cuidado — olhou para Sam. — Por que tenho a sensação de que é uma armadilha?

— O DVD me foi dado de presente, Jan. Não foi ideia minha.

Ian deslizou o DVD na unidade.

— Ela pode me pegar em uma armadilha a qualquer momento.

Jan disse:

— Espero que o ciúme não tenha arruinado por completo seu bom julgamento.

Sam não pôde evitar sorrir.

— Sim, e os porcos podem voar como voava ontem seu táxi. Não estou tão ciumenta — ela não sabia como reagiria Jan ao ver a gravação, mas esperava que se sentisse envergonhada. Não, mortificada.

Ian, por sua vez, ia morder o anzol, se contorcendo e ia perder todo o controle.

Jan olhou a ambos e voltou a olhar o computador.

— Sabe? — disse por fim — Você pode ser uma cadela, mas não te odeio, embora você me odeie. Você só me odeia porque sou atraente e estou mais perto do Nick que você. A verdade é que te respeito, Sam, embora esteja pendurada de uma centena de maneiras diferentes.

— Nossa, estou comovida — respondeu Sam, e então começou a ouvir seus próprios gemidos de prazer.

Ian ficou imóvel, com o olhar fixo na tela. Jan olhou para o monitor e ficou vermelha.

Sam se esqueceu dela. Olhava fixamente Ian. Ele parecia estar em transe. Sua expressão era dura, seu olhar fascinado. Sam sabia o que ele estava assistindo. Viu várias vezes aquela primeira cena, e algumas outras.

Jan saiu. Sam mal notou. O ar da sala havia mudado. Agora estava carregado, parecia arder. Ian continuava com o olhar cravado no monitor. Seus olhos escureceram inacreditavelmente. Sam via seu peito subir e baixar sob a camiseta.

— Venha aqui — ele disse suavemente.

Chegou a hora da verdade, pensou ela.

— Só se pedir, por favor.

Ele ergueu os ombros e afastou o olhar do monitor. Seu olhar era ofuscante, brilhava como um relâmpago.

— Você realmente acha que pode me provocar com uma gravação?

— Eu, vagamente, pensava isso — respondeu ela com ironia. — Você não preferiria vir comigo para a casa do Hemmer a ficar aqui com essa virgem renascida?

           Ele voltou a olhar a tela. Respirou fundo.

           — Venha aqui.

           Sam odiava receber ordens, mas não dessa vez. O desejo se apoderou dela ao ouvir a voz áspera de Ian. Aproximou-se dele lentamente, lembrando que aquela era a reação que procurou. Mas Ian teria ter que se contorcer... e muito. E não porque ela quisesse escapar, mas sim porque queria vê-lo suplicar.

           Parou junto à cadeira onde ele se sentou, antes que pudesse olhar para a tela, Ian a agarrou pelo pulso.

           — Quantas vezes você assistiu isso?

           Sam molhou os lábios e tentou falar, mas não conseguiu. A mão de Ian ardia sobre sua pele. Seu rosto estava tenso, crispado. Sam olhou o monitor e respirou fundo, seu coração pulsava com violência, suas coxas inacreditavelmente apertadas.

           Ian estava esfregando seu anel de aço contra seu corpo, por toda parte, com seu membro largo e enorme.

           Ele apertou a tecla de pausa.

           Sam olhou sua mão. Tinha os nódulos brancos. Olhou mais embaixo, para a enorme protuberância na calça jeans. Aquilo estava doendo. Mas isso era bom porque ela estava se machucando também. E ela estava sofrendo por algum tempo... então olhou para a tela.

           — É uma pena que as câmeras fossem fixas. Um zoom teria sido ótimo — disse ela com voz pastosa.

           Ele levantou lentamente o olhar.

           — Oh! Eu posso dar um close.

           Ela molhou os lábios.

           — Estamos indo a uma festa.

           — A festa está bem aqui.

           Sam custava lembrar por que queria vê-lo ofegar por ela. Ian a agarrou pelos quadris e a atraiu para si, então sorriu para ela. Por um momento, Sam pensou que ia esfregar o rosto contra seu vestido, entre suas coxas, contra seu sexo.

           — Pode vir comigo, ou vou sozinha.

           — Ameaças — Ian a soltou, se levantou e levou a mão ao zíper do jeans. O coração de Sam cambaleou. Ele deslizou a mão por seu enorme vulto enquanto a olhava, depois baixou o zíper lentamente, com os olhos fixos em seu rosto.

           Sam sabia que parecia hipnotizada. Ouvia o batimento selvagem de seu próprio coração. Deveria fingir indiferença, mas não podia afastar o olhar. Sentiu que Ian esboçava um sorriso divertido. Seu membro ereto ficou livre. O anel de aço reluzia, perfurado à parte baixa da glande. Sam sentiu as coxas apertando, os joelhos falhando.

           — O que está errado? Vai desmaiar? — brincou ele.

           Estou tonta, pensou Sam, aspirando fortemente. Ele deixou escapar um som suave, tomou sua mão e a fez deslizar por seu eixo. Sam tentou respirar e não conseguiu. O anel estava agora na extremidade do seu polegar. Ele agarrou a barra do seu vestido.

           — Eu não vou sair desta sala — disse ele. — Nem você, até eu mandar.

           Era tão difícil falar. E era ainda mais difícil pensar.

           — Eu não quero ir a lugar nenhum — ouviu-se dizer espessamente. Ela passou a mão ao longo de seu membro. Ele estava latejante, em silêncio. Seu próprio corpo estava à beira da implosão. Ela se perguntava se o anel doeria. Havia uma linha muito tênue entre o prazer e a dor.

           Tarde demais, quando ela tocou o anel e o ouviu ofegar, ela percebeu que não estava no controle. Estava louca de desejo por ele.

           — Não pare — disse ele, subindo o vestido pelas coxas.

           De algum modo Sam conseguiu olhar para cima. Ian sorriu com arrogância. Seus olhos refletiam uma expressão triunfal.

           — Bastardo — ela conseguiu dizer. Ian ganhou.

           — Será que você realmente acreditava que iria me enganar com esse vídeo de sexo? —murmurou ele. — Quem está mandando agora?

           Sam afastou o olhar de seus lindos e ardentes olhos e olhou sua boca entreaberta. Amaldiçoou, agachou-se, agarrou com mais firmeza seu membro e aproximou a língua do anel. Ele deixou escapar um grito. Então ela começou a saboreá-lo, o anel contra sua língua. Ian tremeu violentamente.

           — Quantas vezes viu a gravação?

           Ela chupava forte, incapaz de falar. O anel roçava sua língua. Ian a agarrou com mais força.

            — Quantas vezes?

            Sam sufocou um gemido. A pressão era cada vez mais intensa. Ela começou a tremer, com a bochecha apertada contra seu membro e o anel cravando-se em sua pele. — Realmente quer que responda e que pare? — conseguiu dizer com voz rouca.

           Ele baixou a mão até seu queixo e a obrigou a olhá-lo.

           — Nunca mais voltará a desejar um desses brinquedinhos jovens.

           Olharam-se nos olhos. O olhar de Ian era feroz, triunfal, cheio de uma luxúria deslumbrante. Depois, a fez voltar à posição vertical. Sam agarrou seus ombros instintivamente.

           — Maldito seja, Maclean — disse ela asperamente, inclinando-se totalmente para ele.

           — Você está pronta para mim.

           Ele estava certo. Sam rodeou-lhe a cintura com uma perna. Ele a apoiou contra mesa do escritório. Sam o rodeou com a outra perna.

            — Espere — sussurrou ele.

            — Bastardo — respondeu ela. Ian a penetrou. Seu enorme membro a encheu por completo, deixando-a deslumbrante, quase inconsciente. Um instante depois, o prazer começou a intensificar-se. Sam deixou escapar um grito. Havia tanto calor... A pressão era insuportável. Ele riu e a empurrou sobre a mesa, para que ela ficasse na horizontal, jogando objetos e fazendo papéis voar.

           — Eu disse a você que era o melhor.

           Meu Deus, pensou ela, ele estava certo. Sua mente foi nublando a medida que as ondas de prazer rompiam dentro dela. Ian a agarrou pelos ombros e começou a mover-se com urgência, penetrando-a com força, profundamente. Sam sentiu o anel. Ele lançou-a para outro precipício, e também gritou.

           Ian se movia agora mais depressa, com mais urgência. Seu sêmen ardia. Sam queria ainda mais. Aquele prazer era tão intenso, tão cru, que parecia sobrenatural. Sentindo que voava, arranhou-lhe as costas. Ele agarrou suas mãos para contê-la, rosnando, ainda empurrando repetidamente. Ele perdeu o equilíbrio ao tentar segurá-la e Sam bateu com a coxa, o joelho, na cavidade entre as suas costelas. Ao ver que ele engasgava uma exclamação de surpresa, ela o levou para fora da mesa. Chocaram-se contra a parede mais próxima e caíram ao chão.

           Maclean tentou amortecer a queda para não machucá-la. Quando seu ombro bateu no chão, ele a apertou contra seu corpo, colocando-a em cima dele. Sam colocou um joelho de cada lado de seus quadris. Ele arregalou os olhos com surpresa e sorriu. Sam olhou seu membro ereto, entre eles, e conteve a respiração.

           — Isso tem que doer.

           Ele a agarrou brutalmente pelo pulso.

           — Eu gosto de sentir dor. Foda-me, Sam.

           Ela esqueceu do anel e da dor que isso poderia causar. Desceu com força sobre seu eixo. Dessa vez, foi Maclean quem quebrou primeiro.

          

            Ela nunca adormecia depois do sexo. Mas dormiu. Abriu lentamente os olhos.

           Estava no chão da sala de estar, sozinha. A luz do amanhecer começava a penetrar pelas janelas que davam para o Park Avenue. Ao sentar-se, notou uma ligeira dor de cabeça e viu que tinha as unhas quebradas. Recobrou as forças. Tinha recuperado a coerência. E estava assombrada.

           Fizeram amor como se fosse questão de vida ou morte. Se ele a queria de joelhos, ela queria ficar por cima dele, se ele se mostrava dominante, ela tentava submetê-lo. Tocou seu queixo, que notava dolorido. Em algum momento bateu contra a mesa de café. Também doía a parte de trás de sua cabeça, que bateu contra a parede. Quanto à parte inferior das costas, bem, ela esteve em suas mãos e joelhos e gostou muito. No momento em que compreendeu isso, ela empinou. Cara, isso machuca, pensou.

           Insaciáveis, fizeram um amor louco, selvagem e violento quase toda a noite. Ela era extremamente forte, ele tinha superpoderes que o faziam ainda mais forte, e haviam esgotado um ao outro ao tentar dominar-se mutuamente. Ao sentar-se agora, completamente nua, Sam não soube o que pensar.

           Nem sequer haviam se beijado.

           Foi o encontro sexual mais brutal, primitivo e ansioso que jamais teve. Ou foi apenas sexo? Ele era sombrio. Nunca desejou alguém como desejava Maclean e isso não tinha explicação, sendo ele como era. O desejo era impressionante, a urgência mais ainda. Mais tarde tentaria descobrir por que o desejava tanto, estando ele tão cheio de cicatrizes, tendo tantos defeitos, sendo tão incapaz de comportar-se como uma pessoa normal. E, maldição, ele venceu. Não foi como ela imaginava que seria. Estava fora de si com aquele desejo, como nunca antes. Ele havia dominado a situação quase toda a noite.

           Por outro lado, ele a havia desejado desesperadamente.

           Em certo momento, durante uma breve pausa, ele a olhou de uma forma muito estranha, colocando-a sob seu corpo, como se temesse voltar para a realidade.

            Sam abraçou a si mesma, um gesto estranho nela. Estava realmente abalada. Porque desespero era o melhor modo de descrever a paixão de Maclean, seu impulso sexual, sua ânsia aconchegante. O prazer e a dor se fundiram até formar uma coisa só, horrível e retorcida, e aquilo começou durante seu cativeiro. Ela não tinha dúvida.

           Seu coração ficou agitado. Sentia compaixão por ele. Sentia preocupação.

           Lembrou a expressão que viu em seu rosto tantas vezes essa noite. Quando estava a ponto de alcançar o êxtase, seu semblante perdia sua máscara zombadora e seu verdadeiro rosto era revelado. E as emoções que o rondavam tornavam-se óbvias. Sam viu angústia, confusão e alívio.

           Sam começou a amaldiçoar, inquieta.

           E o que dizer do êxtase incrível que ela experimentou? Pareceu-lhe que se ruborizava. Aquele safado tinha razão. Ele foi capaz de dar a ela mais prazer do que jamais teve. Aquele também era um dom concedido pelos deuses? Os mortais não podiam alcançar o clímax dezenas de vezes em uma única noite, sem parar.

           De repente ela puxou as pernas para o peito. Porque estava analisando o que acabava de acontecer? Era apenas sexo! Ela evitava as relações íntimas como se fossem a peste, e nunca se incomodava em pensar em suas conquistas. Para que? Eram simples entretimentos. Chegavam e iam.

           Maclean, entretanto, não era um de seus garotos-brinquedos. O sexo com ele foi selvagem e impressionante. Sam não podia compará-lo com nenhuma outra experiência. Eles não tiveram diversão. Não se beijaram. Eles, inclusive, fizeram mal um ao outro. Ela gozou mais que nunca. Mas sentia um estranho desconforto, quase como decepção ou desânimo. Tinha a impressão de que faltava algo na experiência.

           Mas devia estar enganada: não podia estar decepcionada, já que ela queria apenas sexo.

           Ambos obtiveram o que queriam. Não?

           Havia uma coisa mais. O que acabaram de fazer não era nada parecido com o que havia naquele DVD.

           Sam levantou lentamente, incapaz de sacudir aquela sensação de incômodo. O DVD tinha que ser uma montagem, no fim das contas, porque os protagonistas da gravação pareciam se amar. Quanto ao ocorrido essa noite, não havia razão para pensar nisso. Se ela se permitiu sentir pena dele, logo ele estaria na sua mão.

           Olhou ao seu redor e viu seu vestido no chão, não muito longe da mesa. Recordou que Ian o arrancou e o atirou no chão. Ficou em pé. Sabia desde o começo que Maclean não podia lhe trazer nada bom. E isso significava que devia manter-se afastada dele.

           Aquilo não devia se repetir. O DVD não podia vir do futuro.

           Hemmer... Eles o deixaram plantado. Certamente estaria furioso e fazendo todo tipo de planos para eles.

           Sam se aproximou e pegou seu vestido. Estava rasgado ao meio, inútil. Não se sentiu melhor. Sua determinação era frágil. Manter-se afastada de Maclean era impossível: ele tinha a página. Começou a procurar sua bolsa, que estava no console, não muito longe do sofá onde se sentou Jan a noite anterior. Então ela quase sorriu. Jan não teria conseguido moldar Maclean: ele teria se aborrecido mortalmente com ela.

           Ela encontrou seu telefone celular, mas decidiu que não podia chamar Kit novamente. Não queria ter que lhe explicar o que aconteceu, não que ela realmente pudesse.

           Maclean era um desastre e ela estava confusa. Ela, Sam Rose, uma Matadora temida em todas as ruas da cidade, estava confusa. Era a primeira vez que acontecia. Sempre sabia que caminho seguir e era capaz de escalar qualquer obstáculo que se colocasse em seu caminho. Se alguma vez precisou de uma amiga, era agora. Talvez fosse a hora de colocar à prova sua amizade com Kit.

           Estremeceu. Não tinha roupa e Maclean manteve o ar condicionado muito frio. Olhou a hora em seu celular. Eram cinco e meia da manhã. Duvidava de que encontrasse com Gerard se subisse ao terceiro andar e procurasse algumas roupas.

           Então ela sentiu seu olhar. Voltou-se lentamente, notando um formigamento na nuca, e olhou para a porta.

           Maclean estava ali, em pé entre as sombras do amanhecer, vestido só com um jeans que nem mesmo abotoou, e a cruz que tinha pendurada do cordão de couro. Olhava para ela como um falcão. Era impossível saber o que estava pensando, porque seu rosto era inexpressivo.

           O coração de Sam deu um baque. O desejo e a tristeza se fundiram.

           Nem sequer tentou tirar algo de importante daquele momento. Ian se aproximou cos músculos tensos. Sam viu que ele carregava algumas roupas nas mãos, ficou tensa. Quase esperava que lhe atirasse a roupa. Mas Ian a entregou.

           — Pedi um táxi para você — disse. Tinha um arranhão na mandíbula e outro no ombro. Eram profundos e um ainda sangrava.

           Sam aceitou a roupa. Sentindo-se tímida de repente, fechou o corpo com o pacote de roupa. Antes da noite anterior ela teria feito um comentário debochado sobre ele ter pressa para ela ir embora, mas em vez disso, disse:

           — Obrigada.

           Ele encolheu os ombros e saiu.

           Quando ela foi embora, Ian se deitou em sua cama, vestido ainda com os jeans, e olhou o teto com expressão séria. O que havia acontecido?

           Seu coração estava disparado. Em sua mente se repetiam imagens carregadas de paixão, apesar de que ele nunca pensava em suas conquistas depois de transar com elas. Ele não tinha certeza de que Sam Rose fosse uma conquista. Ele desconhecia o que tinha exatamente acontecido nessa noite. Nunca teve um encontro sexual tão físico e violento. Nunca desejou uma mulher como a desejou.

           Tocou-se, ainda excitado. Sam lutou para dominá-lo. E ele tinha respondido do mesmo modo. Não sabia quem havia ganhado. Talvez ele. Agora, Sam sabia como ele era bom na cama. Mas lamentava havê-la deixado partir. Ele poderia facilmente tomá-la de novo.

           Por que ele a fez sua com tanta ferocidade? Por que se mostrou tão insaciável? Tão desesperado?

           Sentia-se inquieto, inseguro. Ele havia se sentido extremamente atraído por ela desde seu primeiro encontro. Ele ainda vagou ao longo do tempo uma ou duas vezes depois daquele dia no Oban, apesar de que evitava saltar no tempo como um homem medieval procurava fugir da peste. Agora, aquela atração era ainda pior: era constante, arrebatadora. E não gostava de sentir uma atração que não podia controlar ou ficar longe.

           Pensou no DVD e se perguntou como esses dois amantes tão selvagens podiam chegar aquele outro lugar. Suas entranhas apertaram tanto que doeu. Ele nunca permitia que as mulheres o tocassem como ela o tocava no DVD: com ternura ou afeto. Se uma mulher sorria para ele enquanto praticavam o sexo, como acontecia com Sam na gravação, ele fingia não ver.

           Compreendeu o quanto a desejava de novo pelo modo como seus jeans apertavam. Pensar nela estava piorando as coisas. Estava incrédulo e confuso. Sam devia tê-lo impressionado enormemente, porque ele sempre se esquecia das mulheres depois de possuí-las. Nunca queria repetir. Quando voltava para uma amante, era porque não tinha nenhuma outra conquista no horizonte, ou porque a mulher na verdade, era um meio para alcançar um fim, como no caso da Becca. Frequentemente utilizava as mulheres simplesmente para escapar de si mesmo. Ansiava por sexo dia e noite, e sabia que isso se devia a seus sessenta e seis anos de cativeiro. Quando gozava, não havia lembranças, nem passado.

           Era um amante egoísta, e disseram isso a ele um milhão de vezes. Mas não se importava. Não se preocupava com o que sentiam as mulheres quando estavam com ele. Os deuses, sempre tão vaidosos, o dotaram de uma virilidade tal que era capaz de satisfazer suas amantes sem esforço. Ele teve a sorte de herdar essa capacidade genética de seu bisavô, ou ele acreditava nisso. Nunca se incomodava em fazer gozar suas amantes: simplesmente, acontecia, quase sempre quando ele se entregava a seu próprio prazer.

           Sam Rose possuía, entretanto, um corpo e um rosto que fazia os homens quererem tocá-la. Ian não lembrava ter acariciado jamais uma mulher. Quando beijava suas amantes, fazia isso com brutalidade. E evitou beijar Sam.

           Ian ficou olhando o teto até que as molduras começaram a ficar turvas aos seus olhos. Não a acariciou, nenhuma só vez. Não a beijou, mas sentiu intensamente sua pele e sua boca. Agora ele tremia ao recordar o único beijo que compartilharam em frente ao cofre. Foi feroz, e ela provocou.

           De repente lamentou não havê-la beijado, brutalmente ou não, e não havê-la acariciado. Não ter passado, talvez, sua mão por aquelas incríveis pernas. Ele estava ficando mais excitado apenas pensando nisso.

           O que estava errado com ele? Por que ele estava deitado na cama, excitado, depois de ter feito sexo?

           Nunca conheceu uma mulher como ela. Ele podia admitir isso. Não era só por seu rosto ou corpo. Nem por sua habilidade como Matadora. Era por sua coragem. Tinha mais valor no dedo mindinho que ele tinha em todo o seu corpo. Sua valentia o surpreendeu e o encantou. Talvez por isso a sua obsessão.

           De repente desejou não tê-la magoado.

           Sentou-se bruscamente. Era um homem sem sentimentos, um egoísta, e ele sabia disso. Era tudo parte de seu caráter defeituoso. Quando se é mantido prisioneiro por mais de seis décadas, se aprende a preocupar-se apenas consigo mesmo. Não acreditava que pudesse mudar, não queria mudar, porque o melhor modo de sobreviver era não ser cruel. Sabia por experiência. Mas não queria machucar Sam Rose. Que demônios significava isso?

           Lembrou-se dela em pé, nua, na sala de estar, segurando a roupa que lhe deu contra o corpo, como se fosse tímida ou pudica. Parecia vulnerável. Mas Sam Rose não era vulnerável. Ian não conseguia decifrar esse instante. Foi simplesmente embaraçoso para ambos. E isso também não fazia qualquer sentido.

           Ele não tentou ler seu pensamento, deliberadamente. Não queria saber o que ela estava pensando.

           — Isso tem que doer.

           — Eu gosto da dor.

           Ian ruborizou. Acabaria por revelar todos seus segredos, se não tomasse cuidado. Odiava a dor, mas as pontadas de dor que lhe causava aquele anel eram tão necessárias quanto respirar.

           As lembranças do menino começaram, nebulosas e dolorosas, mas fechou os olhos e procurou afugentar aquelas imagens. Em vez disso viu seu avô, cruel e satisfeito. Viu as caras de seus guardas. Viu o monge, o último grande demônio com o qual esteve, um carcereiro que brincou com sua mente, algumas vezes seu melhor amigo, outras, seu pior inimigo.

           Seu estômago se revolveu. O desejo começou a retroceder. Temendo reviver de novo aquelas lembranças, levantou-se e começou a vestir-se. Mas estava pensativo.

           Usou Sam Rose por sexo e ela o usou em troca. Estava acostumado a servir-se das mulheres. Ainda não conheceu nenhuma que não estivesse disposta a fazer o que ele quisesse em troca de sexo. Não era consciente. Era o poder concedido pelos deuses: a persuasão sexual era nele uma espécie de capacidade hipnótica que o fazia irresistível. Usou Becca impiedosamente para entrar no cofre e roubar a página.

           Sam Rose era muito poderosa. E era inteligente, mas começou a sentir pena dele. E teve acesso ao arquivo.

           Ian vestiu uma camiseta. Ele detestava que ela suspeitasse de seus segredos. Odiava sua compaixão. Estava quase certo de ter visto piedade em seus olhos um momento atrás, igual ao que ocorreu no escritório de Nick. E também viu preocupação.

           Sam tentou manipulá-lo ao lhe mostrar aquele DVD a noite passada. Ian sorriu. Não se deixou manipular.

           Porque não deixá-la sentir pena dele? Ele poderia manipulá-la, por sua vez, para que lhe desse o arquivo?

           Ficou tenso. A última coisa que ele queria era um envolvimento de qualquer espécie. Além disso, era incapaz de travar os relacionamentos mais básicos e passageiros. Ele não tinha amigos.

           Devia manter-se afastado dela, mas sabia que isso era impossível. Inclusive agora estava muito excitado. E estava acostumado a obter o que queria e quando queria, especialmente quando se tratava de sexo.

           Não estava seguro de poder manipular Sam unicamente com sexo. Mas podia tentar.

 

            — Não me convida para subir e tomar um drink? — Sam saiu das sombras que projetava o crepúsculo enquanto falava.

           Rupert Hemmer acabava de sair de seu Sedan e se preparava para entrar no edifício. Sam estava esperando por ele. Eram seis da tarde.

           Ele se virou lentamente e sorriu, satisfeito, sem tentar fingir surpresa.

            — Bem, mas se é a misteriosa Samantha. Ontem à noite nos deixou plantados. Eu estava muito desapontado.

           Sam devolveu-lhe o sorriso, apesar do estômago encolher. Percebia subitamente a maldade de Hemmer, como se antes ele a tivesse disfarçado. Isso podia ser feito com poder ou com magia negra.

           — Tive um imprevisto — ela procurou esvaziar a mente, para o caso dele poder ler.

           Hemmer a olhou, notando sua saia jeans curta, sua camiseta de alças e suas botas de motorista.

           — Um traje interessante para tomar um coquetel. Claro que pode subir. Onde está sua última conquista?

           — Talvez com sua mulher.

           O sorriso do Hemmer não vacilou, mas sua expressão escureceu. Sam havia colocado o dedo na ferida.

           — Seu descaramento não me surpreende Samantha. Dificilmente você vai desequilibrar-me com seus comentários.

            — Meu nome é Sam. E a chantagem também não me surpreende, vinda de você, Rupert.

            Ele sorriu com frieza e a conduziu para os elevadores que havia no fundo do lobby.

           — Pode ser que Becca esteja com Maclean. Ela me disse que esta noite ia sair com umas amigas. Tem muita energia, se me entende.

           — Que bonito é o amor verdadeiro — mas seu coração apertou, com a ideia de Ian com Becca Hemmer.

           Não que pudesse se importar com o que fizesse, nem com quem o fizesse. A noite anterior foi um encontro passageiro, sem repercussões, para ambos. Mas pensava muito nele e aquela sensação de compaixão não desapareceu. Pelo contrário, parecia ter enraizado junto com a uma semente de preocupação.

           Hemmer lançou-lhe um olhar.

           — Casei-me com ela por seu incrível corpo e pela forma como usa a boca. Isso para não falar que meus rivais perdem a cabeça quando ela está presente — encolheu os ombros. — Você também tem energia suficiente, não é, Samantha?

           — A verdade é que estou esgotada, não é incrível?

            — Deve ter sido uma noite gloriosa — seus olhos brilharam quando entrou no elevador. — Você sabe o que significa se eles estiverem juntos?

           — Se estiverem juntos, temos sua casa para nós sozinhos. Que sorte a minha. Bom, de onde você conseguiu esse DVD? — Hemmer continuava sendo uma de suas prioridades. Havia falado com Kit e o DVD não era falso. O que significava que, algum dia, Maclean e ela fariam amor. Seu coração acelerou.

           Hemmer apertou o botão do apartamento de cobertura.

           — Coleciono vídeos pornôs, Samantha. E decidi dedicar uma série só a você.

           Ela ficou tensa.

           — Que amável.

           — Eu acho que sim.

           — Então, você teve um monte de problemas para conseguir essa gravação.

           — Na verdade, não.

           — O vídeo veio do futuro.

           — Garota inteligente.

           — Os mortais não podem viajar no tempo. Então, quem fez o trabalho sujo para você?

            — A verdade é que, embora seja humano, possuo esse poder.

            Sam o olhou nos olhos. Já não sorria. Não era uma coisa boa que Hemmer pudesse saltar no tempo a vontade.

           — Uau! E o que isso te custou? Sua alma?

           Hemmer a conduziu para fora do elevador.

           — Algo assim — sorriu, satisfeito.

           Sam estremeceu.

           — Tem frio?

           — Algumas entidades malignas vão acompanhadas de uma grande sensação de frio.

            — Sim, algumas.

            — O que espera que faça por você, Hemmer? Além de transar, coisa que não penso fazer, certamente. Eu sou uma boa garota.

           Hemmer riu. Entraram no grande hall de mármore onde realizou a festa na noite anterior e em seguida apareceram um punhado de serventes uniformizados.

           — Eu espero que você mude de ideia. Sou um homem muito paciente e posso esperar Samantha.

           — Meu nome é Sam.

           — Eu não gosto dos diminutivos.

           — E eu não gosto dos demônios nem seus descendentes, sejam de sangue ou não. Na verdade eu não gosto do mal, e ponto, seja qual for sua forma e seu gênero.

           Hemmer enfrentou seu olhar.

           — Você não tem medo de mim, mas isso vai mudar.

           Sam encolheu os ombros.

           — A esperança é uma coisa maravilhosa.

           — Incomoda-me a falta de respeito, reconheço isso. Estou desejando te fazer mudar de atitude... esta noite.

           Sam se perguntou que truques guardava na manga. Ela não tinha medo. Hemmer era repulsivo. O mundo estaria melhor sem ele. Decidiu naquele instante fazer esse favor ao universo, quando chegasse o momento. Agora tinha que descobrir como ele pretendia usar o DVD e quem era seu contato no sobrenatural.

           — Bom, vamos cortar todas as baboseiras, Hemmer. O que você quer?

           — Você já sabe o que quero — conduziu-a através da sala. Ela o seguiu. — Quero recuperar o que é meu.

            Sam riu.

   — Maclean não vai querer me dar a página e, embora quisesse, eu a entregaria ao meu chefe.

           — Ah, sim, o lendário Nick Forrester.

           Sam o seguiu até o fundo do apartamento, onde estavam os elevadores e o cofre. Hemmer entrou na sala dos computadores.

           — Como sabe de Nick? — Sam estava surpresa. Hemmer não apenas não deveria conhecer Nick, mas também não deveria estar a par da existência da CDA.

           Ele lançou-lhe um olhar de desprezo.

           — Não sou tolo. Forrester está há décadas lutando contra o lado escuro. Temos alguns interesses em comum.

            — A página, por exemplo?

            — Na verdade sim, embora não estava pensando nisso.

            — Então, quais são suas intenções? Pensa entregar uma cópia da gravação ao Nick? Não se importará. Nem eu me importo.

           Hemmer parou e sorriu.

           — Eu faço minha lição de casa antes de começar uma negociação, Samantha. Como acha que ganhei milhões de dólares?

           — O que quer dizer?

           — Quero dizer que sei que você não se importaria que essa gravação fosse vista em todas as telas de cinema do país.

           Aquilo não estava indo bem, pensou Sam.

           — Então a chantagem está descartada.

           — Na verdade a chantagem pode ser muito eficaz, se for bem feita.

           Ela estremeceu.

           — E como pretende me chantagear?

           — Traga-me a página ou torturarei Maclean. E apreciarei cada segundo — seus olhos cintilaram.

           Sam ficou paralisada. Hemmer a enganou. O DVD não era mais que uma distração. Hemmer sabia demais sobre ela e sobre seus sentimentos e pretendia usar Maclean para ameaçá-la. Mas era lógico. Maclean e ela faziam amor naquela gravação, e ele viu isso. Tentou sacudir o desânimo que a invadiu de repente. Ian não poderia suportar a tortura. Sam sabia. Havia sofrido muito.

           Mas Maclean tinha poder branco, embora não o usasse muito frequentemente. Ela sabia que ele era poderoso e o sentia cada vez mais presente. Então a questão era quanta maldade adquiriu Hemmer? O que podia fazer, exatamente? E, teria Ian poder suficiente para opor-se a ele?

           — Tenho a sensação de que, se as coisas ficarem feias, Maclean o comerá inteiro e o cuspirá feito mingau.

           — E você vai ver — acrescentou ele suavemente. — Eu o torturarei até que chore como um menino e suplique piedade, como um covarde que é. E, quando ele estiver derrubado outra vez, me ocorrem muitas formas de humilhá-lo ao mesmo tempo em que aumento meus poderes.

           Sam sentiu um calafrio.

           — Então, planeja nos submeter os dois?

           — Certamente que sim. Bom, o que prefere? Tenho a impressão de que você gosta de Martini seco.

            — Um virgin Mary — respondeu ela.

Hemmer sorriu.

     — É um encanto, Samantha. Alguma vez você aborreceu um homem?

           — Não, que eu saiba.

           — Decidi perdoá-la por me deixar plantado ontem à noite. Na verdade, decidi ser eu quem te entretenha esta noite. Se já não tiver feito isso.

           Sam ficou tensa. Chegou o momento da verdade.

           Uma das paredes da sala abrigava um bar embutido e uma área de entretenimento. Hemmer se virou e as grandes portas de madeira de cerejeira se abriram revelando uma tela de cinema.

           — Eu gosto da tecnologia moderna — disse.

   Sam não gostava de surpresas.

           — Bom, o que há de graça para ver? — Hemmer teria mais vídeos dela? Com Maclean? Com seus amantes anteriores? Sam disse a si mesma que não se importava, mas sabia que não ia gostar do que estava a ponto de aparecer na tela.

           Hemmer lançou a ela um turvo sorriso e inseriu um DVD. Era de noite e havia lua cheia. Sam esperava que um lobo uivasse. Mas viu o perfil de uma cidade. Os telhados pareciam antigos. Ouviu uma buzina e depois uns ruídos estranhos, como de garras ou dentes de roedores, ouvia um ofego assustado. Uma respiração humana.

           Era hora de partir.

           Hemmer a agarrou pelo pulso.

           — Não tão depressa.

           Sam estava a ponto de soltar-se quando apareceram dois demônios e se aproximaram dela, antes que ela pudesse mover-se para eliminar os guardas, Hemmer disse:

           — Está tão preocupada com seu amante...

           Sam ficou quieta e voltou a olhar a tela.

           Uma gaiola pendurava no ar. E dentro havia algo. Não, alguém. A câmera enfocava a gaiola. Sam viu o rosto pálido de um menino, seus olhos vidrados. Ele agarrava as grades, claramente querendo sair. Mas não havia nenhuma expressão em seu rosto. Estava tão quieto que parecia de cera. Tinha oito ou nove anos, mas Sam soube quem era sem necessidade de que ninguém o dissesse.

           Respirou fundo.

           Uma mão apareceu no plano. A câmera voltou a enfocar. Era uma mão de homem e levava um anel com selo de ouro muito grande e antigo. Quando aquela mão começava a abrir a porta da jaula, o menino a agarrava. O coração de Sam deu um tombo. O menino começou a beijá-la...

           — Agora ele não parece tão sexy, não é? — Hemmer riu.

           Sam sentiu vontade de vomitar. Destroçaram Ian. Sentiu sua ira agitar-se. Nem sequer tentou controlá-la, girou e cravou sua adaga em um dos guardas. Os olhos do demônio dilataram enquanto começava a desmoronar. Antes que o outro guarda a agarrasse, Sam agarrou o pequeno disco afiado como uma faca e o lançou a sua garganta. Atravessou pele, cartilagem, carne e osso, separando a cabeça do tronco. Então Sam se virou para cuidar de Hemmer com suas próprias mãos.

           — Você deveria escolher seus parceiros com mais cuidado. Realmente quer ter um envolvimento com esse bastardo patético? — antes que acabasse de falar, Hemmer desapareceu.

           Sam gritou de frustração. Então se aproximou do vídeo e parou o disco, ficou ali, tremendo de ira. Hemmer havia se aliado a uma entidade maligna que lhe deu poder demoníaco.

           E esse vídeo... Sam teria desejado não vê-lo. Ela lembrou a si mesma que foi apenas um menino em uma gaiola, mas a lembrança não funcionou.

           Quanto tempo Ian ficou prisioneiro quando gravaram aquele vídeo? Meses? Anos? Ou décadas? Quanto tempo o mantiveram ali? Aquela mão era de Moray?

           Naquele instante compreendeu que, se Hemmer a pressionava, conseguiria a página do poder da miragem para ele. Ela não permitiria que Maclean voltasse a sofrer.

           Mas ainda não chegaram a esse extremo.

           Sam se aproximou dos demônios mortos. Estavam começando a desintegrar-se e recolheu suas armas, guardou a adaga na capa que levava na altura da coxa, sob a saia, e o disco em outra que tinha atada ao redor da cintura, sob a camiseta.

           O escritório do Hemmer estava junto ao cofre. Talvez pudesse encontrar o código para entrar, se tivesse sorte. Duvidava de que tivesse muito tempo.

           — Eu disse que não se aproximasse de Hemmer.

           Sam não sentiu sua presença. Levantou o olhar, sobressaltada. Maclean estava na porta da sala, quieto como uma estátua e estranhamente pálido.

           — Quanto tempo está aí?

           — Um momento — respondeu com aspereza.

           Ela ficou olhando-o. Não conseguiu adivinhar se ele sabia o que acabava de passar no vídeo. Rezou porque não soubesse.

           — Já sabe o que se costuma dizer: não se consegue ensinar truques novos a um cachorro velho. O que faz aqui?

           — Hemmer é perigoso. Te disse isso antes e digo isso agora.

           Ela se ergueu.

           — Não brinca. A verdade é que ele tem alguns amigos super maus que lhe deram superpoderes. O que o traz aqui, Maclean?

           — Eu sabia que estava aqui.

           Ela o olhou fixamente.

           — Estava me espionando?

           Ian encolheu os ombros.

            Sam fechou a cara. Se Ian tinha telepatia visual, poderia espioná-la a qualquer momento. E isso era enervante.

           — Eu sei que você não veio me resgatar.

           — Você é uma garota valente. Não precisa de mim para resgatá-la.

           — Até as garotas valentes podem precisar de um pouco de ajuda de vez em quando — replicou ela. — De qualquer forma, você chega em bom momento. Hemmer acaba de desaparecer... no tempo. Sim, ele tem esse poder. Não é ótimo? — começou a aproximar-se dele. Ian não se moveu. Sam parou diante dele. — Vou pedir um enorme favor. Quero entrar no cofre antes que ele retorne.

           Ian sustentou seu olhar.

           — É uma armadilha.

           — Hemmer sabia que ia torcer sua garganta, foi embora porque teve medo.

           — Ele não tem medo de você. É uma armadilha — seu olhar era inabalável agora.

           Ela o agarrou pelo pulso e disse:

           — Abra o cofre — mas só de tocá-lo lembrou cada instante da noite quente anterior, muito forte, para seu desânimo.

           Ian olhou para ela fixamente. Seus olhos também haviam mudado, tornaram-se mais escuros, mais quentes. Sam baixou a mão.

           — Vamos. O tempo corre.

           Ian a agarrou pela mão.

           — Quem tem medo... de quem?

           Sam sentiu que suas entranhas encolhiam.

           — A noite de ontem foi má ideia.

           Ian sorriu devagar.

           — Sério? Esqueça o cofre.

           Ela sentiu a tentação de fazer isso, molhou os lábios e sacudiu a cabeça. — O cofre, Maclean. Do nosso encontro de ontem à noite podemos falar em outro momento. Ele a soltou deu meia volta e se dirigiu para o cofre. Sam apertou o passo para alcançá-lo.

           Ian estendeu a mão para a alavanca e parou. Sam olhou seu rosto. Tinha uma expressão dura e decidida. Estava com raiva, mas Sam não sabia o por quê. Perguntou-se de novo se sabia sobre o vídeo de Hemmer.

           Sam não notou se ele teve que fazer esforço para desativar o sistema de segurança e as fechaduras. Ian empurrou para baixo a alavanca e a porta de aço se abriu. Depois, deu um passo para trás.

           — Vá em frente, Sam — disse com desaprovação.

           Sam ignorou o tom de sua voz. Passou ao seu lado rapidamente ansiosa para encontrar o mal que espreitava dentro do cofre. Uma vez dentro, parou. Maclean ficou na porta. Sam não percebeu nada. Suavemente, ela amaldiçoou.

           — Não o estou sentindo. Pode me ajudar aqui, Maclean?

           Ele entrou no cofre com relutância, levou a mão ao colarinho de sua camisa polo como se tivesse calor. Passou por sua mente que muitas vezes ele agia como se os colarinhos o comprimissem. Ele acenou com a cabeça atrás dela.

           — Está ali.

           Sam se virou. Ao fazer isso, sentiu que um dedo de negra maligna a tocava e estremeceu. Compreendeu de repente que isso estava esperando por ela, antes mesmo de fazer sentir sua presença. Mas Sam continuava sem saber o que era.

           Maclean andou até uma pintura escura de uma família reunida ao redor de uma pequena mesa, em uma casa de campo. Levantou-a de seu gancho. Sam se aproximou. Atrás do quadro, na parede de cimento, havia uma inscrição formada por hieróglifos que reluziam como brasas.

           — O que é isso?

           Ian não respondeu. Sam percebeu que empalideceu.

           — Ian?

           — Eu já vi isto antes — disse ele, carrancudo.

           Ouviu-se uma risada.

           Sam e Ian se voltaram ao mesmo tempo. Hemmer estava na porta do cofre e sorria para eles. Fechou a porta, ouviu-se o estalo das fechaduras.

           Ian inalou fortemente. Sam olhou e viu que ele estava muito pálido. Sam não conseguia entender. Ian podia saltar para fora dali. Ou isso, pelo menos, era o que ele disse. Não tinha por que ficar encerrado dentro da câmara couraçada.

           — Ian? Hemmer obviamente quer brincar conosco.

           Ele puxou a gola da camisa polo, respirando com dificuldade. Sam demorou uma fração de segundo para perceber que ela estava sofrendo uma espécie de ataque.

           — Você tem asma? — ela perguntou.

           Ele não respondeu, asfixiado. Estava ficando vermelho agora.

           — Ian! — rodeou-o com o braço, alarmada. — É asma?

           — Não... Não posso respirar! — ele caiu de joelhos. O suor descia pela testa e têmporas. Ele ofegou, tentando tomar ar. Ou tinha claustrofobia ou estava sofrendo um ataque de ansiedade.

Sam se ajoelhou ao seu lado, rodeando-o ainda com o braço.

— Ian, aqui há ar de sobra. E nós não estamos trancados. Você pode saltar.

Ele olhou para ela. Os olhos arregalados de pânico. Sam ficou atônita. Ele realmente estava assustado.

           De repente, ele simplesmente desapareceu no ar.

           Mas ela ouviu seus gritos.

 

           No chão, de costas, olhava para o teto de sua biblioteca, gemendo descontroladamente. As lágrimas corriam por seu rosto. Sentia tanta dor... Não podia suportar. Teve que lembrar que já não era um menino, nem estava prisioneiro. Teve que fazer um esforço por convencer-se de que a dor passaria. Tinha a sensação de ter sido quebrado em mil pedaços. Parecia estar morrendo. Havia saltado outras vezes, quando não havia outro remédio. Ou quando estava desesperado e sua urgência superou o medo do salto. Mas nesse momento desejava morrer. Rezou, como de outras vezes, para encontrar alívio finalmente.

           — Sir! —Gerard tinha se ajoelhado ao seu lado.

           Ian sentiu um leve alívio. Enquanto gemia e estremecia, sacudido pela dor de seus ossos quebrados e seus membros feitos pedacinhos, estava vagamente consciente de que Gerard estava ali; de que colocava uma compressa fresca sobre a testa e empurrava uns comprimidos na boca.

           Fechou os olhos com força. O salto através do tempo e do espaço foi horrível. Viajar a essa velocidade podia destroçar um homem. Era como se lhe arrancassem cada membro do corpo, como se arrancassem a pele, como se os músculos fossem triturados e rachassem os ossos, estilhaçando-se em mil pedaços. Seus órgãos pareciam balões, a ponto de explodir.

           Havia suplicado piedade aos deuses.

           Mas ninguém o ouviu, é obvio. Muito tempo atrás ele também havia suplicado misericórdia, mas em silêncio, para que seus torturadores não o ouvissem.

           Os deuses tinham ignorado esse apelo também. Porque queriam que ele vivesse. Para esse dia. Ian ainda não entendia o por quê.

           A dor finalmente aliviou.

            — Sente-se melhor, senhor? — perguntou Gerard suavemente. As lágrimas umedeciam seu rosto. Podia enxugá-las. Ele odiava-se a si mesmo.

           Mas a dor tinha diminuído até transformar-se em tremores. Não o açoitaram até deixá-lo meio morto, ou eletrocutado, ou torturado. Não estava em uma masmorra, em um porão, ou uma jaula. Estava em sua casa de vinte milhões de dólares em Park Avenue. Estava deitado sobre um formoso tapete oriental, rodeado de obras de arte e antiguidades, e seu mordomo estava ajoelhado a seu lado.

           — Estou melhor — ofegou. Então virou-se sobre seu estômago e vomitou.

           Depois conseguiu sentar-se com ajuda de Gerard. Sempre se surpreendia que seu corpo não estivesse destruído, afinal de contas, que ainda funcionasse. Gerard aproximou um copo dos seus lábios. Ian tomou um gole de uísque escocês envelhecido. O medo e a angústia começaram por fim a refluir, como refluía a maré no oceano. Respirou fundo.

           Sam.

           Ian enrijeceu, incrédulo. Deixou-a sozinha no cofre. — Gerard! — lutou para levantar-se. Gerard o ajudou.

            — Senhor, deveria descansar. O que o possuiu para saltar? Não pode suportar as lembranças!

           Ian encontrou o olhar preocupado de Gerard.

           — Traga meu carro. Agora.

           Deveria saltar para ir procurá-la. Demoraria menos de um segundo. Mas não tinha coragem.

          

       Sam estava incrédula.

           Ian saltou no tempo, deixando-a trancada no cofre! E Hemmer podia voltar em qualquer momento, e teria rido, porque era absurdo, incrível, que ele a deixasse abandonada dessa maneira. Mas o que acabava de ocorrer não tinha nenhuma graça. Ian entrou em pânico.

           Nesse momento, Sam compreendeu tudo. Ian Maclean surgiu como um idiota, egocêntrico, arrogante e ao mesmo tempo rico, sedutor e poderoso. A maioria das pessoas achava que ele tinha o mundo a seus pés. Ian andava pela cidade como se não tivesse preocupações. Mas era uma fachada.

           Ele acabara de ficar emocionalmente descontrolado ao encontrar-se fechado no cofre, apesar do poder que tinha de viajar através do tempo e do espaço e libertar-se. Mas era lógico. Haviam-no trancado em uma jaula. Certamente o fecharam de cem maneiras diferentes. Ver-se fechado no cofre havia disparado nele uma reação que não podia controlar.

           Também não pôde dominar-se ao destruir John. Enfrentar aquele demônio disparou nele uma reação de outro tipo, tornou-se louco ao matá-lo, e depois desabou. Havia derramado lágrimas. E Sam não se deu conta do que significavam essas lágrimas.

           Ela nunca esqueceria o que acabava de ver, nem o que viu naquela outra noite, em seu apartamento.

           Mas havia muito mais. Maclean era incrivelmente complexo. Não se mostrou despreocupado, nem indiferente, ao negociar com Nick a respeito de seu arquivo. Ele estava furioso e desesperado. Sua máscara também foi destruída nesse momento.

           Ian Maclean foi ferido gravemente. Sob sua aparente arrogância, sob sua despreocupação, havia outra coisa que Sam não conseguia imaginar. Só via relances dela. Havia medo, dor e raiva. E possivelmente vergonha. Ian parecia decidido a ocultar seu passado a todo custo, e Sam não podia reprová-lo. A imagem de bad boy era só a ponta do iceberg.

           Sam disse a si mesma que se começava a dar-lhe o benefício da dúvida, estava perdida. A compaixão era ruim o suficiente, mas tentar transformá-lo no que não era, não era bom. Ian não era amável, nem carinhoso. Não de todo. Era, ao contrário, egoísta e cruel. Sam, entretanto, não se sentiu melhor ao pensar nisso. Porque agora sabia o por quê.

           Ela também seria cruel e egoísta se tivesse passado sessenta e seis anos prisioneira de um dos maiores demônios da história.

           Ian foi até casa de Hemmer porque acreditava que ela estava lá e em apuros.

           — Voltou por você, Rose — disse a si mesma. A velha Sam sempre estaria furiosa porque ele a abandou daquele modo tão covarde. Não tinha nenhum respeito por uma pessoa que saía fugindo. Mas não estava zangada absolutamente. Estava impressionada pelo que viu e pelo que começava compreender. Muito poucos seres humanos, mortais ou não, teriam sobrevivido com certo grau de sanidade ao que ele sobreviveu.

           E se ele não era nem a metade de ruim do que aparentava ser? E se debaixo daquela fachada de bad boy houvesse uma pessoa autêntica?

           Sam não podia acreditar em si mesma. Não deveria estar pensando nele. Aquilo não era assunto seu. O seu assunto era recuperar a página.

           Mas estava pensando nele. E, o que era ainda pior, queria saber mais. E ela estava definitivamente sentindo pena dele, não havia dúvida. Já não havia modo de evitar seus sentimentos.

           Resmungou uma maldição.

           E se ele não era um idiota total, se dentro daquele peito musculoso e sexy pulsasse um coração? E daí? No dia em que a página estivesse em boas mãos, seria o dia em que teria terminado. Cada um iria para um lado, não importa essa gravação procedente do futuro. Havia algo estranho naquela gravação. Ela não era capaz de sorrir daquela maneira para um amante, e Maclean não era capaz de fazer amor com uma mulher.

           Disse a si mesma que devia esquecê-lo. E ela ficaria encantada quando acabassem. Sua vida voltaria ao normal, e voltaria a ser Sam a Matadora, sozinha, contra a maldade do mundo.

           Pensou em sua irmã, em Brie e em Allie. Suspirou e se sentou no chão. Já nem sequer sabia o que era normal, pensou.

           Estava de frente para a porta do cofre. Tinha que pensar nisso. Evidentemente, só havia um modo de entrar e sair do cofre. Ian se recuperaria do salto em algum momento. Talvez voltasse para liberá-la. Estava quase certa de que não a deixaria apodrecer ali. Mas, por outro lado, não gostava de depender dos outros, nem confiar em milagres. Ela devia se preparar para a batalha. Se Hemmer voltasse, teria que eliminá-lo para sair dali.

           Ansiava destruí-lo. O bastardo ameaçou Ian. Ele merecia morrer lentamente, na forca, à moda antiga.

           Sam voltou-se para revisar suas armas. E foi então quando começou a entender.

            Hemmer sem dúvida sabia que Ian podia saltar se tivesse que fazer isso, porque foi assim que roubou o Van Gogh para ele. E isso significava que ele não queria capturá-lo. Ela era o alvo.

           Quando percebeu isso, sentiu o peso enorme do mal reunindo-se do outro lado da porta do cofre, enrijeceu. Hemmer não teria tantas trevas assim. Ali fora havia um imenso poder negro.

           Ouviu o estalo das fechaduras.

           Sam deslizou o disco em sua mão.

           A porta se abriu revelando um homem com vestes escuras. Sam levou um momento para perceber que aquele ser maligno não era um monge moderno. Suas roupas procediam de uma época anterior. A lã estava grosseiramente tecida, e ele usava sapatos pontudos. Usava um cinturão de couro e uma corda onde penduravam chaves enormes e toscas. Era um homem da Idade Média.

           O cérebro de Sam trabalhava furiosamente. Você está fora do seu tempo. Nick acusou Ian. E ela estava agora em frente a um homem medieval.

           — Allo[7], Samantha Rose — disse o clérigo, sorrindo. Tinha um forte acento francês, levantou o capuz e deixou revelados traços perfeitos, os olhos azuis e o cabelo loiro próprios dos demônios mais puros. Aquele monge poderia rivalizar com Brad Pitt pelo coração da Angelina Jolie.

           O círculo estava se fechando sobre ela, pensou Sam, sem medo. Primeiro Allie, depois Brie e finalmente Tabby. Agora, um demônio de tempos medievais se encontrava em frente a ela. E talvez Ian também pertencesse à Idade Média.

           — Prazer em conhecê-lo — disse, zombadora. — De que ano você vem?

           Ele riu.

           — Eu sou de 1527.

           Ian foi libertado de seu cativeiro em 1502.

           — Ei, você deve conhecer Maclean.

           Ele levantou as sobrancelhas.

           — Gosto muito de Ian.

           Ela ficou tensa. Captava cada uma das insinuações de seu suave tom de voz.

           — Seu filho de puta — ela cuspiu.

           — Eu já atingi um nervo?

           Sam disse a si mesma que não podia alterar-se. Mas desejava matar aquele demônio. Ele levantou a mão, rindo.

            — Mate-me e nunca terá as respostas que tanto deseja.

            Ele podia ler a mente. Sam perdeu o controle. A paciência foi consumida.

           — Então me diga o que eu quero saber.

           — Sim, eu o conheci quando ele era prisioneiro do grande Moray.

           Sam tremeu de raiva.

           — Eu achei que sim. Você terá uma surpresa. Ian não é mais um menino, já não está indefeso. Nem sozinho.

           — Sério? E quem está do seu lado? Você? — sacudiu a cabeça, divertido. — Caso não tenha notado, você é minha prisioneira e neste momento não pode ajudar ninguém.

           — Isso demonstra o quanto você sabe.

           — Você é tão diferente de lady Tabitha.

           Sam respirou fundo. Tabby estava em 1527.

           — Então conhece Tabby. É sua melhor amiga, também?

           — Eu prefiro me manter afastado dela, na verdade. Poderia derrotá-los, Macleod e a ela, mas não tenho compromisso com isso — sorriu. — O temperamento dela é pior que o seu.

           Ha, pensou Sam furiosa. Claro que procurava manter distância. No início do século XVI, Tabby era uma bruxa extremamente poderosa. E seu marido era um Mestre superpoderoso.

           Isso começou com Maclean. Agora, Sam não sabia se se tratava dele ou dela, de Tabby ou de todos de uma vez.

           — O que você quer? — perguntou. — Estou cansada de jogos de palavras. Não é meu estilo. Claro que não sei se um filho de Satã da Idade Média, como você, entende o que digo.

           — Você sabe o que quero Sam, assim como Ian. De fato, ele sabe exatamente o que quero.

           A página do poder da miragem. Sam não achava que o monge estivesse trabalhando com Hemmer: não acreditava que Hemmer gostasse de compartilhar, nem vice versa. Mas Hemmer a trancou no cofre, e agora o monge estava ali, então nunca saberia. Desejava matar aquele demônio no ato. Estava fora de si e era a segunda vez que ela perdia o controle em poucos instantes. Os Matadores que se deixavam levar pela ira acabavam mortos; não era necessário que ninguém dissesse isso.

           Mas já era muito tarde. Estava completamente furiosa. Maclean precisava de justiça. E ela também.

     — Sabe o que acho? Acho que você precisa de uma lição de humildade e de limites.

           Ele sorriu com prazer.

           — Quando acabarmos, você conhecerá seus limites, se você ainda estiver viva.

            — Humm. Uma ameaça. Eu não gosto das ameaças — sorriu e lançou o disco em sua garganta.

           Ele ergueu a mão. Num piscar de olhos Sam compreendeu o que ele pretendia. Abaixou a cabeça. O poder negro que brotava da mão do demônio fez ricochetear o disco e o lançou de novo para ela, tão velozmente que ele assobiava. Cortou o ar por cima de seu cabelo e cravou em um quadro.

           — Uau — disse Sam, olhando para trás. — Não é um John Singer Sargent? Hemmer vai ficar puto — mas estava atônita. O monge tinha muito poder negro. Quase tanto, possivelmente, como o lendário Moray.

           Alguns demônios eram quase invencíveis e viviam milhares de anos para demonstrar isso, como Moray. Mas Sam resistia a considerá-los imortais, e aquele não ia viver mil anos.

           — Deseja viajar ao passado para ver sua irmã, Samantha. Se cooperar, estou seguro de que poderemos arranjar um encontro.

           Ele podia levá-la a Tabby.

           — Posso levá-la e a levarei. Quando me der à página.

           Ela se recuperou.

           — Imbecil! — Sam lançou sua adaga através do cofre.

           Ela tinha uma pontaria infalível. A adaga deveria ter atingido o negro coração do demônio. Mas ele estalou os dedos e a lâmina fez um giro de cento e oitenta graus. Dessa vez, a arma cravou no chão, a seus pés.

           Ok, pensou Sam, estou enrascada.

           De alguma maneira se armou contra ele com uma navalha entre os dedos.

           Ele lançou uma descarga de poder negro contra ela.

           Como se levantada por um ciclone, Sam voou pelo cofre e se estatelou violentamente contra a parede do fundo. Ouviu rachar seus ossos. Ficou deitada no chão, atordoada. Depois, uma dor cega percorreu seu ombro direito e sua clavícula.

           — Levante-se — ordenou ele. — Não vou matá-la. Tenho uma mensagem para Maclean.

           Em um momento como aquele, faziam falta todas as Rose. No passado, quando elas se deparavam com esse tipo de demônio, Allie estaria ali para curar, Brie teria visto o que viria e Tabby faria trabalhar a sua magia. Mas Samantha estava completamente sozinha.

           — Diga a Ian que tenho um novo labirinto só para ele — disse o monge com suavidade.

           Sam agarrou a mortífera navalha e tentou levantar-se, mas soltou um grito, paralisada pela dor que a atravessou.

           O monge demoníaco riu enquanto se aproximava dela.

           Sam ficou tensa, pronta para o ataque, pronta para voltar a lutar.

           — Ria de mim — disse Ian.

 

            O monge ainda estava de pé sobre ela. Sam levantou a vista e viu Ian na porta. Ele parecia a imagem do inferno. Estava furioso. Sua mão tremeu quando a levantou. Sam se perguntou o que aconteceu com ele e se teria forças para salvá-la. Ele lançou uma descarga de energia branca contínua para o interior do cofre.

           Enquanto a descarga de energia voava por ele como uma onda, o demônio desapareceu. Sam cobriu a cabeça com os braços quando o poder de Maclean bateu na parede atrás dela. O gesso se quebrou. Os quadros caíram. Uma parte de teto caiu sobre Sam. Quando tudo voltou a ficar em silêncio, ela respirou fundo. Ian estava ajoelhado ao seu lado.

           — Você está ferida? — ele perguntou.

           Sam levantou os olhos. Ela deslocou o ombro direito, mas era a intensa dor em sua clavícula o que a preocupava. Sentia uma dor muito aguda, mas estava decidida a não desmaiar.

           — Eu vou ficar bem — disse. Tentou sentar-se e em seguida se sentiu fraca.

           Ian rodeou a cintura com seu braço.

           — Não pode reconhecer que está ferida?

           — Está bem, Dane-se. Estou ferida. E dói — apertou os dentes, tentando não enjoar. Ian estava preocupado?

     — Quem era ele?

           Ele desviou o olhar e pareceu hesitar.

           — Não vi seu rosto — Sam o ouviu respirar asperamente. — Estava de costas para mim.

            Algo estava errado, pensou Sam.

     — Ele veio de 1527 — conseguiu dizer com voz rouca. — Conhece você. É do seu passado.

           A expressão de Ian se contraiu quando seus olhares se encontraram.

     — Deite-se — disse ele.

     — Tem certeza de que não o reconhece? — mas ela afundou e viu-se em seus braços. A vertigem desapareceu imediatamente. Seus braços eram fortes e incrivelmente familiares. Quase reconfortantes.

           Desconcertada, Sam tentou incorporar-se e afastar-se dele.

           — Temos que sair daqui. Hemmer poderá voltar. Ou o monge. Estou certa que voltará. Eu posso conseguir atendimento médico em Five.

            Ele a ignorou. Tinha uma expressão dura e decidida.

     — Para de se mexer — disse, apertando seu ombro. Sam sufocou um gemido quando ele a tocou, se recusava a chorar.

            — O que está fazendo? — disse entre dentes. — Tentando me matar?

            — Cale a boca — retrucou ele.

            Sam se virou para olhá-lo. Ele esquivou seu olhar. Seu rosto refletia uma intensa concentração. Sam se deixou cair contra ele, ciente do seu duro e amplo peito. Era difícil pensar. Ia desmaiar.

           De repente sentiu que um calor reconfortante atravessava seu ombro e sua clavícula. O calor aliviou a dor. Em seguida compreendeu o que Ian estava fazendo.

           — Você pode curar? — perguntou. E viu a chuva branca que emanava de suas mãos.

           Ele contraiu a boca. Era evidente que não ia responder.

           Aidan curou Brie uma vez, mesmo antes de sua redenção. Sam se apoiou nele, fechou os olhos e deixou escapar um gemido de alívio enquanto o poder curativo de Ian fluía por seu corpo. À medida que retrocedia a dor de sua clavícula, a neblina de sua mente foi dissipando-se. Maclean podia curar.

           Recostada contra suas fortes coxas, olhou para cima e observou seu semblante determinado. Maclean odiava fazer aquilo, pensou. Será que ele odiava ser bom?

            — Por que voltou para me buscar?

           Ele a olhou por fim, chateado.

           — Para que possamos voltar para a minha cama.

           — Mentiroso — disse ela. Aquilo não o transformava em um bom menino? Ela não deveria importar-se, mas sentia uma estranha euforia. — Acho que se preocupa um pouquinho — disse. — Se preocupa com a guerra contra o mal não comigo. Sua indiferença é parte dessa fachada.

           — Não pode ficar quieta? — perguntou severo.

           Ela o olhou atentamente.

           — Começo a compreendê-lo, Maclean, porque o incomoda?

            — Sério? — Ele baixou as mãos. — Pense o que quiser. É o melhor que posso fazer.

Ela se sentou. Maclean continuava ajoelhado e seus olhos ficaram quase ao mesmo nível.

           — Obrigada por me curar.

           Ele encolheu os ombros.

           — Deveríamos ir a um hospital para que vejam esse seu ombro.

           — Você realmente se importa. Estou comovida — seus olhares se encontraram. Ao ver que ele não dizia nada, Sam deslizou os dedos por dentro da gola de sua camisa. — Não sabia se voltaria para me buscar.

           — Eu tive que pensar sobre isso.

           Sam não sabia se acreditava nele ou não.

           Ele a agarrou pelos ombros.

           — Sou o que acha que sou: um bastardo, um arrogante, um, egoísta que usa os outros. Mas te desejo. Volte comigo para minha casa. Quero usar você esta noite.

           Estava se escondendo de novo detrás daquela fachada de menino mau.

           — Pensarei nisso.

           — Sério? — Ian colocou seu ombro na articulação.

           Sam afogou um grito, mas a dor desapareceu em seguida.

     — Obrigado pelo aviso — ela disse.

           Ian se levantou e estava olhando para ela. Sam se levantou devagar. Seu parecia estar bem com seu corpo. Tomou um momento e respirou fundo. Depois o olhou. Era hora de começar a trabalhar.

           — O monge conhece você, Ian.

           Ele encolheu os ombros, mas baixou os longos cílios para esconder os olhos.

     — O que ele queria?

           Sua voz tremia?

     — Não me disse isso. Disse que você sabe o que ele quer.

            Ian virou bruscamente e afastou-se dela. Tinha os ombros rígidos. Sam o seguiu, recordando as horríveis insinuações nos insultos do monge.

           — Certamente está envolvido com Hemmer, embora não entendo como pode funcionar essa aliança. O monge me ameaçou, a propósito — Ian estava na porta da cofre, fez uma pausa para olhar para ela. — E Hemmer ameaçou você. Acabo de me lembrar de que o monge mandou uma mensagem para você — Sam hesitou. Ela não sabia o que significava a mensagem do monge, mas tinha o pressentimento de que isso perturbaria Ian.

           Ele a olhou fixamente.

           — O que ele disse?

           — Ele disse algo sobre um labirinto. Um labirinto só para você.

           Ian empalideceu.

           Ele estava com medo.

           — Estamos com uma dupla unida. O monge tem muito poder e Hemmer também. É hora de falar com franqueza. Quem é ele? —perguntou Sam. — O que queria dizer? Porque 1527?

           Ele respirou fundo. Quando meteu as mãos nos bolsos do blazer que usava, Sam viu que tremia.

     — Eu pertenço ao ano 1527 — disse Ian com dureza. — Você ouviu Nick dizer que estou fora de meu tempo.

           — Sim — disse Sam lentamente. — Eu ouvi.

           — Libertaram-me em 1502. Vinte e cinco anos antes.

           — Então Nick tinha razão — disse Sam. — Você não é um homem moderno, afinal de contas, não importa as calças jeans, que dirija um carro e tenha obras de arte e uma casa elegante. Deveria estar vivendo em tempos medievais.

           — Uma ova! — grunhiu ele.

           Seus dias no mundo moderno estavam contados. Ninguém podia desafiar aos deuses e o destino. Ele não devia estar vivendo em Nova Iorque. Sam se sentiu consternada. Ela não deveria sentir-se assim. Quando aquilo acabasse, cada um seguiria seu caminho. Não eram apenas os seus ideais e seus costumes que os separavam. Vários séculos se interpunham entre eles.

           — Vamos — disse Ian de repente, e saiu do cofre.

           Sam correu atrás dele, consciente de que não queria ficar presa de novo.

           — Sabe quem é esse monge, não é?

           Ele não parou.

           — Sim, eu sei.

           — Por que não diz a que enfrentamos? Por que o teme?

            — Está bem — explodiu, de frente para ela. — Ele foi meu carcereiro nos últimos dez anos! Está feliz agora?

           Sam o estudou.

           — Até que ponto é perigoso?

           Ian seguiu adiante.

           — Ele é um demônio. Um Deamhan[8].

           — Se foi seu carcereiro durante uma década, deve conhecê-lo bem.

            Ele não respondeu. A repulsa estava gravada em seu rosto. Sam apertou o passo para alcançá-lo.

           — Maclean, eu sinto muito pelo que você passou — disse ela.

           — Basta! — gritou ele, virando-se. — Você não sabe nada do meu passado! Você não sabe nada de mim!

            Ela queria tocá-lo, mas não se atreveu.

            — Conheço o mal. Eu tenho lutado contra o mal durante toda a minha vida, em todas suas formas. E lutarei contra esse demônio com você, Ian.

           — Por quê? Porque você tem pena de mim?

           Ela sacudiu a cabeça.

           — Porque eu nunca fujo e porque eu gosto de cobrar vingança. Esse demônio acaba de me desafiar.

           Ele, entretanto, compreendeu que estava mentindo.

           — Sam, a destemida, corajosa como sempre — disse em tom zombador.

            — Faz que pareça algo ruim.

            Ian meneou a cabeça, com o rosto ainda crispado.

     — Não. Admiro sua coragem. Sempre a admirei.

            Ela ficou atônita.

     — Acaba de me dizer algo bonito?

            Ian a olhou um momento com desconfiança. Depois deu de ombros.

           — É a verdade. Mas agora é você a que parece ter vontade de morrer. Às vezes é melhor ser um covarde e fugir. Deveria fugir do monge.

           — É isso que você planeja?

           Ele continuou andando.

           — Eu não disse isso.

           — Bem, então nos encarregaremos juntos desse filho da puta.

            Ian afrouxou o passo e pôs-se a rir.

     — Isso pode ser seu plano, mas não é o meu, Sam. Meu único plano é desfrutar de seu corpo esta noite e seguir com meu leilão na sexta-feira.

           — Sabe o que mais? Eu não acredito, coração frio, que o sexo seja tudo. Você está abalado e, francamente, eu também. Temos que começar a trabalhar juntos.

           Ele a olhou intensamente.

           — Fala sério? Você nunca fica abalada.

           — Você não estava aí, nesse cofre, um momento atrás. Ele usou meu poder contra mim. Estive a ponto de perder a cabeça graças a minhas próprias armas. Nunca vi tanto poder, exceto, claro, os de seus amigos, os Mestres. Mas sabe o quê? Até os poderosos caem.

           Sam não conseguia decifrar o olhar que ele lhe deu. O que estava pensando? Até que ponto estava zangado?

           — Alguma vez você já havia se encontrado cara a cara com um de seus carcereiros? — Ela pensou que isso devia ter ocorrido com John.

           Ele esboçou um sorriso.

           — Não.

           Sam preferiu não fazer piada sobre haver uma primeira vez para tudo.

           — Devo-lhe uma, Maclean. Não há dúvida.

           — Não me deve nada — inclinou-se e disse duro: — Tenho a página da ilusão, pretendo vendê-la e ir embora com os milhões. Para o inferno com o monge e Hemmer. Eu não sou um Matador — passou ao lado da sala de mídia.

           Sam respirou fundo enquanto o via afastar-se. Ele era muito bom em criar cortinas de fumaça. Ele estava no limite e ela não podia reprová-lo. Não importava o que Ian dissesse: não ia permitir que ele enfrentasse seus carcereiros sozinho. Desse modo, no que se referia à página, eles eram rivais, mas no que se tratava de Hemmer e o monge, eles eram aliados. Se Ian não acreditava nisso, pior para ele. Se ele pretendia vender a página e ir embora estava bem também. Ela derrotaria os caras maus por si mesma.

           Ele quase chegou aos elevadores. Sam olhou para a sala de mídia. Não podia deixar aquele vídeo nas mãos de Hemmer. Não queria que ele o usasse contra Ian. Mas também não queria que Ian conhecesse sua existência. Ele parou bruscamente e olhou para ela.

           — Não vou deixá-la aqui. Vamos — ordenou.

           Para dissimular sua preocupação, ela respondeu em tom zombador:

           — Mas você não se importa com o que acontece comigo.

           Os olhos de Ian brilharam.

           — Vamos, Sam.

           Ela conseguiu sorrir.

           — Tenho um assunto inacabado. Nos vemos dentro de algumas horas. Talvez eu me meta na cama com você. Cara de sorte.

           O olhar dele se estreitou.

           Sam bloqueou seus pensamentos, embora começasse a pensar que Ian não era muito bom em ler mentes.

           — Trabalho à noite, lembra?

           Ele olhou para a sala que havia atrás dela.

           — O que você vai fazer?

           Sam molhou os lábios.

           — Hemmer tem uma coleção de vídeos pornográficos.         Tem o que viu e pode ser que tenha outros comigo.

           Ian olhou para ela com surpresa. Sam sentiu mudar seu interesse.

           — Nem venha! — disse suavemente. — Vá dar uma caminhada. Isso é assunto meu. Logo irei vê-lo. Prometo.

            Ao invés de ir embora, Ian se aproximou.

     — Está mentindo. Eu sinto isso. Embora você se incomode que Hemmer a tenha visto com seus outros amantes, não ficaria aqui para recolher essas gravações. O que há nessa sala?

           Uma horrível imagem da jaula balançando assaltou Sam sem que ela pudesse evitar. A imagem continuou com aquela mão com o selo de ouro, estendendo-se para o cadeado da jaula.

           A imagem era tão poderosa que Ian também a viu. Empalideceu de novo, ficou mudo um momento.

     — Você viu um menino em uma jaula? — perguntou com voz engasgada.

           — Não, não vi nenhuma jaula. Do que está falando?

           Ian a agarrou.

           — O que você viu?

           — Foi Hemmer — gritou ela. — Sinto muito! Era um vídeo velho, dos anos sessenta ou setenta. Era só uma jaula pendurada em meio da escuridão, nada mais. Está tudo bem, Ian.

           Ele estava quase verde quando a soltou. Sam o agarrou.

           — Você vai desmaiar?

           Ian olhou para ela com horror.

           — Hemmer tem um vídeo de mim... na jaula.

           Sam o agarrou com força. Ela não tinha certeza se já viu alguém tão chocado.

           — Estava desfocado, Ian, e era apenas uma jaula e...

           Ele se soltou bruscamente.

           — O que você viu? — rugiu.

           Sam encolheu interiormente.

           — Apenas um menino.

           — Você me viu!

           Ela sentiu vontade de chorar. Pareceu que seus olhos ficavam úmidos. Assentiu lentamente.

           — Ninguém seria capaz de dizer que era você — disse ela.

           — Você poderia dizer!

           Sam puxou sua mão. Ele se afastou.

           — Vamos lá, por favor. Você teve um passado terrível. Eu sei. E você sabe. Ninguém mais deveria saber disso. Nisso concordo com você. Mas isto é a vida real. E a vida não é justa. Outras pessoas sabem disso também. Hemmer me mostrou esse vídeo. Sinto muito.

           Ian entrou na sala.

           — Quantas gravações minhas ele tem?

           Ela o seguiu.

           — Eu não tenho ideia. Você sabia que estavam gravando?

           Ele parou a poucos centímetros da tela. Estava tremendo.

           — Não posso mais com isso — disse de repente, sem voltar-se. Sam não gostou do som daquilo. Ian não olhou para ela. — Vou vender a página hoje mesmo.

           Sam contraiu o estômago de medo. Ela sentiu para onde ele estava indo.

           — Ian...

           — Não. Eu não tenho sua coragem. Nunca tive.

           Ela molhou os lábios.

           — Isso é tão injusto. O que você passou...

           — Deixa estar, Sam — ele a interrompeu. — Vou vender a página e ir embora.

           Sam respirou fundo. Ian ia fugir. E, embora ela nunca tivesse fugido de uma luta, entendia de coração por que seu primeiro impulso era escapar. Aquele não era momento de ficar discutindo, nem de apontar os muitos exemplos de valentia que viu nele. Ficou calada.

           Ele tirou o DVD e a olhou. Seus olhos brilhavam, cheios de ódio e medo agora.

           — Portanto isto é um adeus — sua boca se curvou. — A não ser que queira vir para casa comigo porque você me deve um agradecimento. Neste caso, espero sexo. Não quero falar, nem quero que me interrogue nem me demonstre sua compaixão. Só quero foder.

           Sam teve dificuldades mostrar entusiasmo.

           — Uau! Você tem jeito com as palavras. Mal posso esperar para ir para casa com você.

           Ian passou a seu lado, empurrando-a.

           Foi um dos piores instintos que ela já teve, mas Sam não queria que ele voltasse sozinho para a sua mansão em Park Avenue, sobretudo com aquele vídeo na mão. Tentou se conter. Ela não era Tabby. Não sabia como cuidar e confortar. Sabia lutar, sabia o que fazer na cama com um homem. Mas talvez fosse a hora de aprender a consolar os outros. Porque Ian Maclean estava sofrendo.

           Saiu atrás dele.

 

           Assim que entraram na casa de Maclean em Park Avenue, o silêncio perturbou Sam imediatamente. Embora Ian vivesse sozinho com o mordomo, na casa deveria reinar outra atmosfera. Parecia, entretanto, escura e vazia, inóspita. Como um buraco aberto no universo.

           Ian esteve muito pensativo durante o trajeto de carro pelas ruas da cidade. Tinha conduzido seu Escalade de forma imprudente, como se não se importasse em se chocar com outro veículo.

           Usou o código de segurança para entrar. A enorme porta se fechou atrás deles. Sam sentiu que seu estômago encolhia, cheio de inquietação.

           — Há muito silêncio. Algo está errado — disse ela. — O ambiente mudou.

           — Não há nada de errado — respondeu ele. Lançou-lhe um olhar despreocupado — Já sabe onde é meu quarto, por que não sobe e fica confortável?

           Se ela não soubesse como ele estava alterado por causa daquele vídeo acharia aquela observação inacreditável.

           — Você precisa de uma bebida, assim como eu. E, Maclean? Talvez te convenha ser amável, embora por um segundo, porque não vim aqui por você. Os jurados ainda estão lá fora.

           Ele começou a caminhar pelo corredor, deixando-a sozinha junto à porta. Estava de muito mau humor, pensou Sam. Ela, provavelmente não precisaria se preocupar em se ele deveria ir para cama com ela, ou não. Aquele vídeo apagou seu desejo, e sua reação apagou o dela.

           Sam não queria saber o que mais havia na gravação.

           A casa tinha três andares. Maclean ignorou o elevador e estava subindo pela escada. Agora que ela sabia que ele sofria claustrofobia, Sam não achou estranho. Seguiu-o lentamente.

           — Talvez possamos pedir a Gerard que nos suba algo para comer — disse na escada.

           Ele desapareceu no segundo patamar.

           Sam olhou ao seu redor, perguntando-se onde estava o mordomo. Sentiu que um calafrio de inquietação corria por suas costas. Viu um intercomunicador no topo da escada e apertou o botão que tinha uma estrela.

           — Gerard?

           Ao não obter resposta, apertou o resto dos botões. Mas Gerard não respondeu. Seu mal-estar aumentou. Talvez Ian tivesse dado a noite livre a ele.

           Avançou pelo corredor em penumbra e encontrou Maclean em uma sala de cinema, com o DVD na mão, parou na soleira da sala Borgonha[9].

           — Você não precisa ver isso.

           Ele enfrentou seu olhar.

           — Me espere lá em cima.

           — Não vamos fazer nada, vamos tomar uma bebida, comer algo e pensar em como vamos enfrentar Hemmer e o monge — respondeu com firmeza. Logo reparou no que acabava de dizer. Falava como sua irmã!

           — Eu a convidei aqui para fazer sexo. Se não quiser subir, vá embora — se aproximou do armário e pôs a mão sobre o leitor de DVD. A bandeja se abriu.

           — Porque você faz isto? — perguntou Sam.

           — Que se foda — rosnou. — Você o viu, não foi? — ele colocou o DVD na bandeja.

           Ele estava fora de si. Será que queria infligir-se mais dor? Sam estava decidida a detê-lo.

           A tela se iluminou.

           Sam resmungou uma maldição, aproximou-se e tirou o controle remoto da mão dele. Ele a olhou com surpresa.

           — O que vais conseguir revivendo seu passado? Aí fora há dois seres malvados e muito poderosos, e ameaçaram nós dois. Ficar aqui sentando, chafurdando sobre o que fizeram a você, não nos ajudará a combatê-los. Temos que nos preparar, e precisamos de reforços.

           Ian a agarrou pelo pulso tão brutalmente que Sam ficou chocada. Por um momento pensou que ia quebrar-lhe o osso. Mas não fez isso.

           — Saia daqui — disse asperamente. — Saia imediatamente. Não fale “nós”, Sam. Não existe “nós”. Então basta sair e me deixar em paz.

           Sam respirou fundo, quase cega pela dor que saía de sua mão. Ou seria pela dor que via de repente em seus olhos? Concordou com a cabeça. Ele a soltou. Sam não titubeou. Devolveu-lhe o controle remoto.      

            — Você está certo. Não há “nós”. Eu sentia pena de você e esqueci que é um idiota egoísta. Porque embora tenha ido à casa de Hemmer para me ajudar hoje, nada disto estaria acontecendo se você não fosse um bastardo ganancioso. Se você desse a página ao Nick, tudo acabaria. O monge e Hemmer teriam que atacar a CDA e a todo o governo dos Estados Unidos para consegui-la, e isto não nos afetaria.

           Ele apertou o play.

           — Vá em frente e se autoflagele — disse ela.

           Ian a ignorou.

           Sam esteve a ponto de ficar para observá-lo, como ele via a si mesmo, torturado no passado. Mas o que ia conseguir com isso? Ela não era Tabby. E, de qualquer maneira, Ian não queria que o reconfortasse. Parecia querer sofrer. Era um tigre ferido em uma jaula, e nesse momento era perigoso. Seu pulso ainda doía pela forma como ele lidou com ela. Sam ignorava se ele iria explodir ou implodir, mas intuía que o cataclismo era iminente.

           Saiu apressadamente da sala ao ouvir aqueles ruídos de unhas. Parou no corredor, tão rígida que se sentia doente. Odiava que Ian fizesse aquilo a si mesmo.

           Hemmer podia ser humano, mas era maligno, e tinha que desaparecer. Isso provavelmente não seria problema. O monge, ao contrário, era preocupante.

           Sam ouviu aquela respiração assustada, virou-se. Passou-lhe pela cabeça que, embora não pudesse reconfortá-lo, podia distraí-lo, talvez. Mas antes que pudesse voltar e começar uma sedução, ela o ouviu rugir de raiva e de angústia. Depois ouviu que o aparelho de DVD caía ao chão com estrépito.

           Entrou correndo na sala. Ian estava entre os restos do aparelho de vídeo, que parecia ter destruído com seus poderes. Ele segurou a cabeça com as duas mãos, arfando e seus ombros se agitavam. Sam mordeu o lábio e recuou.

           Ian estava chorando.

           Maldição, onde estava Gerard?

           Sam desceu correndo as escadas e se dirigiu ao fundo da casa, onde estava a cozinha. Maclean não ia querer que ela o visse chorar pela segunda vez. As luzes acesas iluminavam uma cozinha muito moderna, quase toda ela negra e de aço inoxidável.

           No momento em que viu a porta da geladeira aberta, sem ninguém à vista ela compreendeu que tinha acontecido algo terrivelmente errado. Passou correndo junto à ilha central, em granito. Gerard estava imóvel no chão, de barriga para cima, com os olhos fechados, seu rosto de cera, coberto de sangue. Sam viu suficientes vítimas de violência para saber que o tinham apunhalado repetidas vezes e que o sangue era dele.

           — Maclean! — gritou. Quando ela gritou percebeu que ele não podia ouvi-la do segundo andar, ajoelhou-se e procurou o pulso do Gerard. Mas suas artérias não pulsavam, e havia muito sangue.

           Maclean apareceu na cozinha.

           Sam levantou o olhar.

           — Não consigo encontrar o pulso.

           Ele ficou paralisado ao ver Gerard. Seus olhos arregalaram. Então ele engasgou com horror. Sam continuava segurando o pulso de Gerard, de repente, o braço de Gerard se sacudiu.

           — Merda, Maclean, acho que ele está vivo.

           Ian ajoelhou-se, respirando com dificuldade. Enquanto procurava seu telefone celular, passou pela mente que Ian se preocupava muito com seu servente.

           — Não desmaie — disse-lhe e o agarrou pelo braço. Ele a olhou. Seus olhos estavam cheios de pânico. — Pode curá-lo, Ian?

           Ele pareceu voltar em si. Respirou fundo.

           — Nunca tinha curado ninguém, até poucos minutos.

           Sam analisaria depois aquela surpreendente notícia.

           — Talvez seja melhor tentar — disse enquanto discava o número da Five.

           Ian pôs as mãos sobre o peito ensanguentado de Gerard. Enquanto falava com o operador, Sam viu que Ian ia recuperando a cor, o que significava que ele estava tendo controle de si mesmo. Sam viu então que uma corrente de luz branca saía de suas mãos e se misturando com o sangue.

           — Diga-lhes para se apressar — disse antes de desligar.

           Ian fechou os olhos com força, concentrando-se. Seu rosto mudou. As rugas de tensão pareceram gravar-se nele. Uma chuva branca emanava de suas mãos e começava a brotar de seus ombros, de seu pescoço e seu peito. Sam o observou, atordoada. Embora sentisse seu desespero, também sentia seu ímpeto. Gerard era a única pessoa que importava. Aterrorizava-se com sua morte.

           Sam começou a rezar.

           Rezar não era o seu costume. Mas as Rose veneravam aos deuses antigos e, enquanto rezava, estava ciente de que, sem Gerard, Ian estaria sozinho no mundo.

           A chuva branca continuava emanando.

           O rosto de Gerard relaxou, como se fosse antecipadamente prevenido contra a dor. Suas pálpebras se moveram.

           — Está conseguindo, Ian — sussurrou ela. — Você está bem?

           Ian não respondeu. Tremia como uma folha.

           Ela tomou o pulso de Gerard e dessa vez o encontrou firme e constante, cada vez mais forte. Seu peito parecia menos mutilado, as feridas já não eram vermelhas: foram adquirindo um tom rosado e cinza. Ian deixou escapar um gemido. Gerard abriu os olhos. Ele a viu e sufocou um gemido ao recordar. As feridas ficaram mais rosas. O princípio de infecção começava a retroceder.

           — Não se mova — disse-lhe Sam. — Maclean está curando você — e está fazendo um trabalho danado de bom, acrescentou para si mesma. Mas estava preocupada com ele. — Ian, talvez você devesse parar.

           Ele não pareceu tê-la ouvido.

           Gerard olhou para ele.

           — Um monge veio aqui — conseguiu dizer. — Não há mais tempo — respirou fundo. — Acho que estou bem, sir — disse ele.

            — Não, não está. Não fale — disse Sam severamente. Aquilo era responsabilidade do monge. Tinha decidido descarregar sua ira contra Gerard, depois que Ian o frustrou no cofre? Ele sabia exatamente onde Ian vivia e iria atrás para chegar a ele. Aquilo era uma vingança ou uma advertência? De repente, Ian começou a tremer. Abriu os olhos e olhou para ela, ofegante.

           — Você precisa parar! — gritou ela, rodeando-o com o braço.

           Ele fechou os olhos e desabou, inconsciente.

          

            Sam andava de um lado pro outro quando chegaram os médicos auxiliares da Five. Nick e Jan chegaram pouco depois.

           Gerard estava ajoelhado ao lado de Ian. Quando os médicos entraram com sua equipe, Sam se precipitou para eles.

   — Ele estava curando — disse a eles. — Começou a tremer e a gemer e depois desmaiou.

            — Um Curador, hein? — perguntou o médico ao ajoelhar-se, colocando em Maclean um aparelho para medir a pressão. — Já não se veem muitos por aqui.

Sam se sentia impotente. Ian estava mortalmente pálido e havia quinze minutos não se mexia.

           — Ele tem pulso, mas muito fraco.

           Uma médica estava escutando seu coração. Nick pôs a mão sobre o ombro de Sam e ela se assustou. Ele a escrutinou com o olhar.

           — Desde quando não confia em mim?

           Ela vacilou e olhou para Jan.

           — Eu disse a ele sobre o DVD — disse Jan.

           — Obrigado — disse Sam, furiosa.

           — É meu trabalho.

           — Não, não é — replicou Sam.

           — O que diabos aconteceu? — perguntou Nick.

           — Gerard, o mordomo, teve um encontro com um inimigo. Estava virtualmente morto. Maclean o reanimou e em seguida desmaiou — respondeu Sam asperamente.

           Ele continuava olhando para ela com atenção.

           — Você sabia que ele podia curar?

           Ela negou com a cabeça.

           — É a segunda vez que ele usa esse poder. Ele também não conhecia. Nick, esse demônio veio de 1527. Era um dos carcereiros de Ian — os médicos estavam aplicando oxigênio e lhe injetando algo.

           Nick se ajoelhou junto a eles.

           — Ele sairá desta?

           — Pode esperar um momento? — respondeu o médico.

           Nick se levantou e olhou as mãos de Sam. Ela se deu conta de que as estava torcendo freneticamente e parou. Nick balançou a cabeça lentamente.

           — Vamos para o hall.

           Sam amaldiçoou em voz baixa. Não queria deixar Ian, mas também não queria revelar seus sentimentos mais do que já fez. Olhou para Jan.

     — Eu fico com ele — ela disse.

            — Ótimo — Sam saiu, seguida por Nick. Então ela colocou as mãos nos quadris e olhou para ele. — Tenho todo o direito de proteger minha intimidade.

           — Tolices — respondeu ele. — Quem lhe deu essa gravação foi Hemmer. Isso a torna assunto da CDA. Maclean roubou a página. Hemmer a quer e nós também. Isto é uma investigação, Rose. E você se envolveu pessoalmente até os olhos.

           Ela queria voltar para a cozinha.

           — Muito bem! Sabe o que? Sinto pena dele. Está feliz agora?

            — Na verdade, não. Então, explique — ordenou Nick.

            — Hemmer disse que a gravação não era mais que uma manobra de distração. Está furioso. Quer a página e ameaçou torturar Ian se não a der para ele — tomou ar. — Mas é fácil adivinhar o que pretende. Ele tem algum poder. Pode viajar no tempo, por exemplo. Mas eu posso derrotá-lo. Já falei do monge. O que não disse é que ele é muito, muito poderoso. Me deu uma surra, mas não parecia querer enfrentar Maclean diretamente. Quando Ian apareceu para me ajudar, fugiu e depois veio aqui e atacou o mordomo — olhou para o interior da cozinha. Só via as pernas de Maclean atrás da ilha central. Não tinha mudado de posição.

           — Por que o mordomo?

           Sam molhou os lábios.

           — Ele trabalha para ele há décadas. Maclean se preocupa com ele.

           — Deve ser a primeira vez.

           — Você não vai lhe dar um tempo?

           — Para que? Você já dá por nós dois. Escute-me, Sam — acrescentou Nick. — Moray costumava viver aqui antes, em Nova Iorque, sob o nome do Robert Moram. E Hemmer era amigo dele.

           Sam o olhou com surpresa.

           — Que diabos...?

           — Temos duas pistas que conduzem diretamente a Moray, um dos seres mais malvados que tem notícia o CAD.

           Sam tentou assimilar a notícia. O monge foi um dos guardas de Moray. E Hemmer foi seu amigo.

           — Brie disse que Moray tinha partes do Duisean e que as guardou aqui, na cidade. Quanto quer apostar que o poder do monge procede do livro?

           — Eu estava pensando a mesma coisa. Mas, se o monge recebeu poderes de Moray depois de que foi derrotado e procede de 1527, nós podemos pensar que o que ele tem está no século XVI.

           — Eu seguirei o monge! Vou voltar ao passado, Nick — disse Sam.

           — E deixar a seu pobre herói trágico sofrendo aqui, sozinho? Está trabalhando em uma investigação, Rose.

           Ela estava furiosa.

           — Você me negou isso há seis meses, quando a vida de minha irmã estava em jogo. Deixe-me viajar no passado e procurar as partes perdidas do Duisean. Tem agentes suficientes aqui para procurar a página do poder da miragem. Se não aceitar, renunciarei e viajarei ao passado por meus próprios meios.

           Ele não se alterou.

           — O fato de haver partes do Duisean no século XVI é somente uma teoria, sabia?

           — Eu conheço você. Mandará outro para que verificar!

           Nick quase sorriu.

           — Vou pensar sobre isso.

           Isso era melhor que um não, pensou Sam, e começou a se excitar. Tabby estaria lá.

           — Mas, enquanto isso, esta em uma missão — Nick parou e disse pensativamente: — Dois de seus contemporâneos se apresentaram aqui em busca da página. Não acha estranho que não tenham vindo alguns Highlanders seguindo também sua pista.

           — Talvez vieram e não permitiram serem notados. Ou talvez estejam procurando as páginas em poder do monge em 1527.

           Nick a estudou.

           — Ele disse onde escondeu a página?

           Sam se sobressaltou.

           — Não. Nem sequer perguntei ainda.

           — Quando voltar em si, use suas artimanhas e tente descobrir.

           Sam lembrou-se que Nick sabia do vídeo de sexo e quase ruborizou.

     — Ele não é um homem fácil, Nick. Se fosse, já teríamos a maldita página.

           — Eles são todos fáceis para você, Sam. Além disso, é uma ordem. E não acredito que você terá uma desculpa para trabalhar pouco nisso — Nick a olhou com recriminação.

           — Vai me demitir?

            — Provavelmente. Mas não até que a página esteja segura e nas mãos de quem deva estar.

           Ele meteu a mão no bolso e ofereceu a ela um pedaço de papel. Sam ficou surpresa. Nick nunca usava papel. Tudo estava em seu Blackberry, seu laptop ou seu PC.

           — Queria te dar isto desde que tivemos nossa pequena conversa com Maclean.

           Sam viu uma série de números. Em seguida compreendeu que era um número de telefone internacional. Se estômago encolheu.

           — O que é isto?

           — Eu não sou tão canalha como todo mundo pensa — deu de ombros. — É o número de telefone da Brie.

           Sam ficou olhando a parte de papel, atônita. Do que ele estava falando?

           — Sim, Sam. Ela está viva e bem em Edimburgo. E tem centenas de anos.

           Sam engasgou uma exclamação. Então ela percebeu que Jan saiu da cozinha e estava ali, olhando-os com expressão sombria. Nesse instante, Sam compreendeu que Ian estava não estava bem.

           — O que há de errado?

           — Sua pressão sanguínea está baixando. Não parece nada bem.

           Sam ficou paralisada um momento.

           — O que quer dizer? — perguntou, furiosa. — Ele é quase imortal! Não pode morrer!

           — Os quase imortais podem morrer e você sabe — respondeu Nick, voltando a entrar na cozinha.

           Sam olhou para Jan com incredulidade. Agora ela estava com medo.

           — Ele deu muito poder branco — disse Jan suavemente. — Suponho que isso faz dele um dos mocinhos, afinal de contas.

           Sam deixou escapar um grito e passou a seu lado.

 

 

           Quando entrou na cozinha, estavam reanimando ao Ian com um desfibrilador. Nick a agarrou e puxou-a para trás impedindo que ela se aproximasse. Incapaz de respirar, Sam olhava os dois médicos inclinados sobre ele. Ian convulsionava.

           — Temos pulso — disse a médica.

           Sam pensou ter visto que a cor voltava para rosto mortalmente pálido de Ian e que suas pálpebras se moviam.

            — Ele está bem, Rose — disse Nick.

            Ela percebeu que ele ainda tinha a mão em seu ombro. Em circunstâncias normais ela seria arrancada para longe. Sam não se moveu. Não podia. Viu os médicos regularem o oxigênio e olhou o pequeno monitor de seu carrinho portátil. O pulso de Ian parecia perfeito. Ele quase morreu para salvar Gerard.

           — Seus sinais vitais estão voltando ao normal — disse a médica.

           Sam sentiu que os joelhos falhavam. Ian estava fora de perigo. Ao dar a volta, surpreendeu o olhar intenso de Nick.

           Nick a seguiu para fora da cozinha.

           Ela se sentou nos degraus do corredor e olhou para cima.

           — Vá em frente, me detone.

           — Sabe de uma coisa? Depois disto, Maclean se redimiu em parte, então não vou dizer uma palavra mais — Nick passou a seu lado.

           Um momento depois, Sam ouviu bater a porta da rua.

          

            Sam continuou sentada nos degraus enquanto ligava para Edimburgo. Inacreditavelmente ela estava nervosa. Brie e ela eram muito unidas. Mais que primas, pareciam irmãs e, mesmo sendo radicalmente diferentes, eram muito amigas, enfrentaram muitas vezes o mal juntas e sobreviveram. Sam compreendeu que estava nervosa porque não sabia o que podia esperar quando Brie respondesse à ligação.

           Na verdade, não era tão surpreendente que Aidan e Brie vivessem em Edimburgo naquele mesmo instante. Sua prima tinha, portanto, centenas de anos. O qual devia confirmar a velha piada da família... As Rose ficavam melhores e mais sábias com a idade.

           Sam, naturalmente, refletiu sobre as viagens no tempo e a nova realidade que produziam. Ao voltar no tempo, Allie mudou por completo sua vida. Até esse dia foi Allie Monroe. Depois de seu desaparecimento, os arquivos públicos mudaram. Era como se Allie Monroe nunca tivesse existido. Não nasceu, não foi à escola, nunca teve carteira de motorista...

           Mas isso foi porque o destino foi interrompido e corrigido. Sam conhecia muito bem aqueles versículos do Livro da Sabedoria das Rose: o destino sempre estava escrito, mas, quando mudava, o que raramente aconteceu antes, ou continuava errado ou o universo o corrigia.

           Allie foi concebida, na realidade, no século XIII. Seu nascimento em tempos modernos foi um engano do destino. Seu destino era o passado, não o presente. Sam estava consciente de que a Allie centenária vivia no castelo de Carrick com o conde do Morvern, um Mestre do Tempo. Nunca sentiu a necessidade de visitá-la. Para Allie, que retrocedeu ao século XV, centenas de séculos haviam se passado desde que eram amigas e lutavam juntas contra o mal. Para ela, ao contrário, só haviam passados dois anos. Não conseguia imaginar como seria seu reencontro com a Allie atual.

           Mas aquilo a fazia perguntar-se se Brie também estaria ali, em algum lugar.

           Aparentemente Brie estava do outro lado do oceano nesse mesmo instante. Podia entender por que não tentou entrar em contato com ela. Havia todo tipo de regra. Mas sem dúvida sua irmã faria contato, a não ser que algo muito grave a impedisse ou que não vivesse no século XXI. Naturalmente, o destino de Tabby era diferente do de Allie ou de Brie. Ela nasceu em 1979 e todos os seus dados continuavam figurando nos arquivos públicos, inclusive depois de seu desaparecimento. Oficialmente, foi considerada desaparecida, mas o certo era que, seguindo seu destino, voltou no tempo para lutar contra o mal junto a um guerreiro medieval.

           Sam queria sua irmã de volta, não encontrar-se com uma mulher de quinhentos anos que já seria tataravó, no mínimo. Seria muito estranho sentar com sua irmã se elas estavam separadas por séculos. Mas valia a pena saber o que aconteceu.

           Nick, entretanto, deu o número de Brie, não o de Tabby.

            — Residência dos Maclean — respondeu uma voz com forte acento escocês. Sam conteve a respiração. Nem sequer sabia como devia se referir a Brie.

            — Lady Maclean, por favor — disse depois de um momento de hesitação. Seu coração pulsava com força.

           — De parte de quem?

           — Sam Rose.

           Um momento interminável passou. Sam não sabia se foram sessenta segundos ou vários minutos, mas pareceu-lhe uma hora. Em seguida, uma mulher mais velha disse:

           — Sam? É você mesma?

           Sam respirou fundo. Brie parecia de meia idade. Uns meses atrás ela tinha vinte e seis anos.

           — Sim, Brie, sou eu — seus olhos encheram de lágrimas.

           — Há quanto tempo! — exclamou Brie. — Havia séculos que ninguém me chamava Brie.

           Quando Aidan sequestrou Brie, a levou para 1502. Sam estava certa de que sua vida no passado começou então. Se Brie viveu cinco séculos, ela tinha mais de quinhentos anos.

           — Estou meio abalada porque estamos nos falando de verdade... assim. Como você está?

           Sentiu que ela sorriu.

           — Sabia que Allie está em Carrick, com Royce, há séculos?

           — Sim, sei. Nunca a chamei por causa dos anos que se passaram. Me parecia que seria muito constrangedor.

           — Isto te parece constrangedor? — perguntou Brie baixinho.

           — Sim... e não. Brie, você saiu daqui em setembro passado. Não faz tanto tempo. Mas por sua voz parece uma avó. Eu ainda tenho vinte e sete anos.

           Brie riu.

           — Sou avó. E tataravó. E estou bem. Sou feliz. Tive uma vida maravilhosa. E amo Aidan tanto quanto é possível. Loucamente.

           Sam pensou na última vez que viu Aidan, quando ele era sombrio e perigoso e estava furioso com os deuses.

           — Como vai Aidan, afinal?

           — Muito bem. Perfeito. Minha outra metade. Minha melhor metade.

           Sam não soube o que responder. Ela não podia sequer imaginar o sombrio Highlander como a melhor metade de Brie.

           — Passou estes últimos séculos defendendo os meninos, Sam. Foi o que lhe pediram os deuses.

           Sam ficou tensa. Aidan não foi capaz de proteger a seu próprio filho, mas seu destino era, pelo que parecia, defender todas as crianças inocentes do mundo.

           — Fico feliz — disse. Perguntou-se se Ian sabia qual era o dever de seu pai.

           Brie disse suavemente:

           — Naturalmente, a ferida que Ian deixou continua aberta. Nunca superamos que ele nos deixasse justamente depois de encontrá-lo, em 1502. Nos o amamos muitíssimo, Sam. Aidan tentou dizer-lhe muitas vezes, mas ele continua empenhado em nos dar as costas. Há quinhentos anos não temos notícias dele.

           — Ele está aqui — disse Sam laconicamente. — E vive fora de seu tempo.

           — Eu sei — respondeu Brie. — Minha Visão é mais forte do que nunca, apesar da idade.

           Sam pensava a toda velocidade. Ian deveria estar em 1527, o ano de que o monge veio. Se voltasse, como exigiam as leis do universo, envelheceria no século XVI e nos séculos seguintes. Mas, com certeza não estaria em 2009, não por muito tempo.

           — Sabemos que Ian culpa Aidan por tudo o que aconteceu. E o entendemos. Aidan ainda culpa a si mesmo. E vive com esse pesar. É a única mancha de nossa vida.

           Sam se sentou mais ereta.

           — Por que está me contando tudo isso?

           Brie hesitou.

           — Porque Ian está com você, não está?

           Sam estava perplexa. As coincidências não existiam. Se Ian estava com ela era por alguma razão...

           — O que você viu?

           Brie sorriu. Sam sentiu.

           — Sam, você está a ponto de cumprir seu destino.

           — Que demônios você quer dizer com isso? — estava confusa. — Cumpri meu destino há muito tempo. Sou uma Matadora.

           — Seu destino é algo maior que isso, Sam.

           Sam ficou olhando a mesa do corredor, pensando em Maclean.

           — Não poderia ser mais clara?

           — Eu não posso revelar o seu futuro. Não é permitido e você sabe.

            Sam suspirou.

           — Porque não entrou em contato comigo?

           — Porque tenho meu destino e estive muito ocupada cumprindo-o — Sam percebeu outro sorriso. Brie mudou tanto... Parecia tão serena e profunda, tão segura, estável e feminina. — E você está a ponto de cumprir o seu. É assim que tem que ser. Sei que tem sido duro ficar sozinha.

           — Estou bem — Sam ficou calada um momento, convencida de que Brie tinha algo mais para dizer a ela. Mas Brie não disse nada. — Estou trabalhando em um caso, Brie. Agora trabalho para o Nick. Lembra-se do Moray?

           Brie emitiu um som.

           — A verdade é que procurei me esquecer dele. Ele foi um autêntico pesadelo. Tentou destruir seu próprio filho e, de passagem, a mim também.

           — Ele tem capangas rondando pela cidade, procurando a página do poder da ilusão. Uma página do Duisean. Maclean e eu estamos até o pescoço com ele.

           — Graças aos deuses que Moray está morto. Mas eu não gosto da ideia de que seus comparsas tenham retomado as coisas de onde ele as deixou. — Brie parecia inquieta. — Você poderá lidar com isto, Sam?

           — Não sei. Acho que vamos ter que esperar para ver. O que sabe de um monge do início do século XVI? É um demônio muito poderoso e maligno, com sotaque francês.

           Afinal de contas, Brie viveu na época do monge.

           — Deve estar se referindo ao monge de Carlisle — respondeu Brie com a voz tensa. — Eu me lembro muito bem. É um desses demônios que não se esquecem facilmente.

           — Ele está aqui, em Nova Iorque, e tem muito poder.

           — Moray possuía alguns poderes que pertenciam à Irmandade, Sam. Ele mesmo me confessou isso. Alardeou disso, de fato. Como sabe, os Antigos entregaram o Duisean, o Livro do Poder, aos Mestres há muitas eras para que protegessem a humanidade da destruição. Todo poder conhecido pela humanidade está nesse livro. Mas foi roubado há muito tempo. Moray se gabou de ter algumas páginas escondidas em seu tempo. Em Nova Iorque.

           — Eu sei, Brie. Você nos fez um relatório completo, lembra? Para mim só passaram sete meses — estremeceu ao pensar em que um poder semelhante pudesse cair em mãos erradas.

           — O monge era terrivelmente poderoso em sua época. No século XVI era ele quem controlava o mal, Sam.

           — Grande — resmungou Sam.

           — Houve batalhas terríveis entre vários Mestres e ele, incluindo Aidan. Ele deixou uma esteira de devastação por onde passou. Governou Carlisle e as Terras Baixas muitos anos. Muitos Highlanders, como Aidan, ficaram feridos. Alguns morreram — fez uma pausa. — Não me lembro o que aconteceu ao monge ao final — disse com certa perplexidade. — Mas tem que estar registrado nos livros de história.

           Sam se levantou. Embora Brie soubesse o que foi feito do monge, iria contra as normas se o dissesse.

           — Ele disse que vinha de 1527. Imagino que estava então estava no auge do seu poder. Ele ainda está vivo em 2011 ou veio do passado?

           — Eu não sei — respondeu Brie. — Oxalá pudesse te ajudar mais.

           — Talvez possa.

           — Sam, agora sou mais velha. E não me cabe interferir. É proibido. Esta é sua época.

            — Que sorte a minha — murmurou Sam, mas ela estava pensando em Ian agora.

            — Quase me dá medo perguntar, mas como está Ian?

            — Ele tem a página do poder da ilusão. Esta pensando em vendê-la pelo maior preço, em vez de nos entregar. Sua vida é um desastre.

           Brie ficou calada um momento.

           — Ninguém deveria sofrer o que ele sofreu, Sam. Espero que possa compreendê-lo.

            Sam hesitou.

     — Não tema. Não estou apenas confiando nele, também o estou apoiando.

           Sentiu o quanto Brie ficava satisfeita.

           — Obrigada — disse Brie por fim. — Ele tem um bom coração.

           — Está certa disso? Porque eu ainda não sei se ele tem coração ou não. Suas mudanças de humor são incríveis.

           — Eu sei que é bom. Não se afaste dele, Sam. Ele precisa de você. Precisa de toda a ajuda e toda a bondade que possa conseguir. Exatamente como seu pai, há muito tempo.

           Brie sempre foi gentil. E tímida e retraída, como se não fosse óbvio. Ian era, além disso, seu enteado e, naturalmente, acreditava nele. Sam pensou em Tabby. Sua irmã também a teria animado a apoiar Maclean. Mas Brie não disse uma só palavra sobre Tabby. O medo encheu Sam.

           — Eu tenho que perguntar isso: Tabby está por aí?

           — Pensei que nunca fosse perguntar — reclamou Brie. — Tabby está viva e bem. Eles vivem em uma linda propriedade que construíram há uns duzentos anos, não muito longe das ruínas de Blayde. E estão constantemente rodeados de diferentes gerações de Macleod e Rose.

           Sam se sobressaltou. Havia mais Rose para continuar a luta. Estava entusiasmada.

           — Então, por que não me chamou, Brie?

           — Todas as Rose tem seu destino, Sam. Tabby está vivendo o dela. Estamos esperando que você viva o seu.Para que você possa se unir a nós.

           Sam diminuiu o passo ao aproximar-se da suíte de Ian. Estava pensativa agora.

           A conversa com Brie a reconfortou, mas também a encheu de desânimo. Antes suspeitava que Brie e Tabby podiam estar por ali, em algum lugar, mas tentava não pensar nisso. Agora, já não podia evitar os fatos. Sua irmã e sua prima eram mulheres mais velhas e felizes, que viveram uma vida longa e plena. Sam ainda sentia falta delas como as viu pela última vez, quando Brie e Tabby eram jovens. Passou-lhe pela cabeça que dois dias depois, quando fosse seu aniversário, elas poderiam estar todas juntas. Mas sua irmã e sua prima eram agora senhoras mais velhas. Que tipo de reencontro poderia ser esse? Ela tomaria martinis Bellini enquanto Tabby e Brie tomavam chá? Ela contaria histórias de sexo e anedotas da rua enquanto elas mostravam seus álbuns de fotos? Deus, que estranho... e injusto.

           Sam sabia que era impossível voltar aos tempos em que lutavam juntas contra o mal, quando formavam um trio de mulheres jovens e temerárias e sem medo de serem poderosas. Seu sonho era passar uma noite louca nos Hamptons, não cuidar de seus netos. Sam entristeceu. Mas não devia lamentar. Ela estava feliz por elas. Brie e Tabby eram felizes e se achavam na reta final de suas vidas. Sua vida, pelo contrário, estava começando. A não ser que o monge do Carlisle ganhasse a partida.

           Agora, entretanto, desejava voltar no tempo mais do que nunca. E não apenas para encontrar o Duisean ou o que restasse dele.

           Parou diante do quarto de Ian. Se viajasse ao passado, encontraria sua irmã como na última vez em que a viu. Embora fosse apenas um momento, seria um reencontro maravilhoso. E elas não mereciam passar um último momento juntas, como nos velhos tempos? Tabby partiu tão repentinamente...

           Maldição, de repente ela se sentia solitária.

           Olhou em volta da luxuosa casa de Ian. Como era possível que se sentisse sozinha? Estava trabalhando em um caso. Ela sempre estava de serviço! Dessa vez, entretanto, era diferente. Sabia que o destino lançou sua rede. Brie previu isso. E era por causa de Maclean e a tragédia que foi sua vida.

           Ian se machucou durante a tentativa de curar Gerard. E ela não podia abandoná-lo agora.

           Nick já sabia o que ela ainda não havia admitido a si mesma. Sentiu muito medo quando Ian desmaiou. Parecia mais morto que vivo. E o pânico se apoderou dela ao ver os médicos reanimando-o.

           Pensou no que o monge fez a Ian e se surpreendeu com a extensão de sua raiva. Tinha que eliminar aquele canalha. Tinha que haver justiça dessa vez. Sabia por experiência o quanto evasiva podia ser a justiça, mas ela ardia pelo desejo de destruí-lo. Estava consciente de que desejava vingar Ian.

           E não queria reconhecer o que isso podia significar.

           Sam amaldiçoou. A sensação de solidão desapareceu. Estava muito atarefada para sentir-se sozinha, muito envolvida naquele assunto.

           Mas se negava a pensar nisso. Sua prioridade era recuperar a página para Nick e a CDA. E agora tinha uma desculpa para viajar ao século XVI: recuperar as demais páginas do Duisean.

           Ia voltar no tempo, custasse o que custasse, e não só para recuperar os poderes perdidos do Duisean.

           Agora, entretanto, tinha um dilema urgente para enfrentar. Ian, aparentemente, recuperou a consciência e foi transferido para o seu quarto. Seus sinais vitais eram normais ou assim ela entendia e estava se recuperando como somente podia fazer um quase imortal. Segundo os doutores, esgotou-se ao curar Gerard. Os Curadores que não dominavam seus poderes podiam destruir a si mesmos ao transferir muito poder branco à pessoa ferida. Era uma coisa a mais a se preocupar. O bom era que Ian não gostava de curar. Sam não achava que ele fosse utilizar esse poder novamente. Ele a curou. Foi sua primeira vez, e ela nem sequer estava às portas da morte.

           Sam cruzou a sala de estar da suíte tentando não reconhecer o formigamento de excitação que carregava. Lembrou-se que Ian era um homem muito complexo. Seus motivos para curá-la podiam ser múltiplos, entre eles, seu ódio pelo mal e sua necessidade de contar com ela como reforço. Não se importava que a tivesse curado. Para Maclean não importava nenhuma mulher. Ela tinha que ter cuidado.

           Parou na soleira de seu quarto.

           Ian estava sentado na cama, apoiado em vários almofadões, com as mantas à altura da cintura. Tinha o peito nu. Seus músculos peitorais estavam cobertos por um fino pêlo e a cruz que pendurava do cordão de couro continuava aninhada no oco de sua clavícula. Cada vez que respirava esticavam seus abdominais. Estava tão sexy que Sam ficou com água na boca.

           De repente sentiu um desejo irrefreável de juntar-se a ele na cama.

           Mas Jan estava ali, sentada na cama, junto ao quadril de Ian, sorrindo e conversando em voz baixa. Ian levantou o olhar e o cravou em Sam.

           Sam já estava acostumada a suas súbitas mudanças de humor. Uma hora antes, Ian estava furioso e frenético e depois, o horror se apoderou dele ao ver o Gerard à beira da morte. Agora, ele estava fervendo.

           Mas ela também.

           Ian recostou nos almofadões.

           — Ainda aqui?

           — Pode apostar que sim. Caramba, espero não estar interrompendo — Sam olhou para Jan. — E você o que faz você aqui?

           Jan não se afastou da cama.

           — Nick me pediu que interrogasse Ian sobre o ocorrido. Mas Ian não parece muito disposto a cooperar... ainda — sorriu para ele. — Então, o que aconteceu quando voltou da casa do Hemmer esta noite, Ian?

           Sam estava perplexa.

           — Eu achava que tínhamos câmeras instaladas em toda a casa.

           Jan olhou para ela.

           — Alguém as desconectou.

           Sam escondeu um sorriso e olhou para Ian.