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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


AMAR DE NOVO / Danielle Steel
AMAR DE NOVO / Danielle Steel

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

AMAR DE NOVO

 

Em qualquer cidade há uma época do ano que se aproxima da perfeição. Após o calor intenso do verão, antes da desolação hibernal, antes que a neve e a chuva sequer façam parte de nossos sonhos. Uma época que se destaca pela sua limpidez cristalina, quando o ar começa a esfriar; uma época em que o azul do céu ainda é radiante, quando usar lã dá um enorme prazer outra vez e quando se anda mais depressa do que se andava antes. Uma época para se reviver, fazer planos, agir, ser, à medida que setembro caminha para outubro. É uma época em que as mulheres têm uma aparência melhor, os homens se sentem mais dispostos e até as crianças dão a impressão de mais animadas ao voltarem para o colégio em Paris, Nova York ou São Francisco. E, talvez, mais ainda em Roma. Todas estão em casa outra vez após os ociosos meses de verão passados estrepitosamente em táxis antigos desde a piazza até a Marina Piccola, em Capri, ou estão reanimadas com os banhos de mar tomados em Ischia, com os dias ensolarados de San Remo ou até mesmo com os banhos de mar na praia de Ostia. Mas no final de setembro tudo está terminado, o outono acaba de chegar. Um mês sério, um mês lindo, quando o simples fato de se estar vivo faz um enorme bem.

Isabella di San Gregorio achava-se sentada tranqüilamente no banco traseiro da limousine. Ria consigo mesma, os olhos escuros dançando, o cabelo preto brilhante afastado do rosto por dois pesados pentes de tartaruga, enquanto observava os transeuntes caminharem apressadamente pelas ruas. O tráfego estava como sempre está o tráfego romano: apavorante. Ela se acostumara, vivera ali toda a sua vida, exceto em suas visitas ocasionais à família da mãe, em Paris, e no ano que passara nos Estados Unidos, aos 21 anos.

No ano seguinte casara-se com Amadeo e tornara-se uma espécie de lenda, a rainha preponderante da alta-costura romana. Naquele reino era uma princesa de nascença, e com o casamento tornara-se algo mais. Porém sua lenda fora conquistada pelo talento e não apenas por obter o nome de Amadeo. Amadeo di San Gregorio era o herdeiro da Casa de San Gregorio, o tabernáculo da alta-costura italiana, o pináculo do prestígio e do gosto requintado na eterna competição internacional entre as mulheres de recursos e aspirações colossais. San Gregorio ─ palavras consagradas para mulheres consagradas, e Isabella e Amadeo eram as palavras mais consagradas de todas.

Ele em toda sua magnificência florentina loura, de olhos verdes, herdando a casa aos 31 anos; ela neta de Jacques-Louis Parei, o rei da alta-costura de Paris desde 1911. O pai de Isabella era italiano, mas sempre tivera prazer em dizer à filha que estava certíssimo de que ela possuía sangue totalmente francês. Isabella tinha sentimentos franceses, como francesas eram suas idéias e francês o seu estilo e o gosto infalível do avô. Aos dezessete anos já sabia mais a respeito da alta moda do que a maioria dos homens do ramo aos 45. Estava em suas veias, em seu coração e em seu espírito. Isabella possuía um dom excepcional para o design, talento para lidar com cores e um conhecimento do que combinava e o que não combinava, originado dos estudos que fazia nas coleções do avô ano após ano. Quando finalmente, aos oitenta anos, ele vendeu a Parei para uma firma americana, Isabella jurara que jamais o perdoaria. É claro que o perdoou. Contudo, se ao menos ele houvesse esperado, se tivesse sabido... Porém, por outro lado, ela teria vivido em Paris e jamais conheceria Amadeo, como ocorreu ao instalar seu pequeno atelier de design em Roma, aos 22 anos. Foram necessários seis meses para seus caminhos se cruzarem; seis semanas para seus corações determinarem qual seria o futuro deles; e apenas mais três meses para que Isabella se tornasse esposa de Amadeo e a luz mais brilhante no firmamento da Casa de San Gregorio. Um ano depois, ela tornou-se a designer chief, um posto que qualquer profissional daria a vida para obter.

Era fácil invejar Isabella. Uma criatura que tinha tudo: elegância, beleza, uma coroa de sucessos que usava com a mesma desenvoltura com que punha um chapéu Borsalino, e o tipo de estilo que ainda faria um salão inteiro parar para olhá-la. Isabella di San Gregorio era uma rainha em cada milímetro do seu ser, e ainda havia mais. O riso fácil, o lampejo súbito dos diamantes engastados nos magníficos olhos de ônix; o modo de saber o que havia por trás do que as pessoas diziam, quem eram, por que eram, o que eram e o que não eram e com o que sonhavam ser. Isabella era uma mulher cheia de magia num mundo maravilhoso.

A limousine diminuiu a velocidade na confusão do vasto tráfego próximo à Piazza Navona. Isabella recostou-se sonhadoramente no banco e fechou os olhos. O som agressivo e atordoante das buzinas era reduzido pelas janelas hermeticamente fechadas do carro, mas seus ouvidos há muito que estavam acostumados com os ruídos de Roma para que isso a perturbasse. Gostava do burburinho, crescera naquele ambiente, que fazia parte de cada fibra do seu ser exatamente como o ritmo arrebatado do seu trabalho. Seria impossível viver sem nenhum dos dois. Razão pela qual jamais deixaria sua vida profissional inteiramente, apesar de ter ficado meio afastada no ano anterior.

Quando Alessandro nascera, cinco anos atrás, o trabalho tinha sido tudo para Isabella: a linha primavera, a ameaça de espionagem de uma casa rival, a importância de desenvolver uma linha de butique de prêt-à-porter a fim de exportar para os Estados Unidos, a sensatez de acrescentar roupas masculinas e, finalmente, cosméticos, perfumes e sabonetes. Interessava-se intensamente por tudo. Não conseguira abrir mão disso, nem mesmo pelo filho de Amadeo. Era sua força vital, seu sonho.

Porém, à medida que os anos foram passando, chegou a sentir algo lhe roendo por dentro com maior intensidade, um anseio, uma solidão, quando chegava em casa às oito e meia e o filho já estava dormindo, posto na cama por outras mãos que não as suas.

─ Isso a aborrece, não é?

Amadeo ficara observando-a enquanto ela sentava-se pensativamente na poltrona de cetim cinza, colocada num ângulo perfeito no canto da sala de estar.

─ O quê? ─ Ao responder dera a impressão de distraída, cansada, aborrecida.

─ Isabellezza... ─ Ele sempre a fizera sorrir quando a chamava assim. Desde o princípio, era assim que a chamava. ─ Fala comigo.

Ela sorrira timidamente e deixara escapar um longo suspiro.

─ Estou ouvindo.

─ Eu perguntava se a aborrece muito não ficar aqui com o menino.

─ Às vezes. Não sei. É difícil de explicar. Passamos... Passamos momentos adoráveis juntos. Aos domingos, quando tenho tempo.

Uma pequena lágrima brotara de um de seus olhos, de uma tonalidade escura maravilhosa, e Amadeo estendera-lhe os braços. Prontamente, ela lançara-se a eles e sorriu através das lágrimas.

─ Sou uma louca. Tenho tudo. Eu... É que essa maldita babá não o deixa acordado até chegarmos!

─ Alie dieci?

─ Ainda não são dez horas, são apenas...

Consultou o relógio com irritação, percebendo então que ele estava certo. Deixaram o escritório às oito horas, passaram pela casa do advogado, onde ficaram cerca de uma hora, pararam mais um "minuto" para dar um beijo em sua cliente americana favorita, em sua suíte no Hassler e... dez horas.

─ Droga! Muito bem, é tarde mesmo. Mas normalmente estamos em casa as oito e ele nunca está acordado.

Lançara um olhar para Amadeo que rira gentilmente ao estreitá-la nos braços.

─ O que quer? Uma daquelas crianças que as estrelas de cinema levam aos coquetéis quando ainda não completaram dez anos? Por que não tira mais tempo de folga?

─ Não posso.

─ Você não quer.

─ Quero sim, eu realmente quero... não, não quero.

Ambos riram. Era verdade. Ela queria e não queria. Queria estar com Alessandro, para não deixar passar aquilo tudo, para não vê-lo de repente com dezenove anos e ela não ter aproveitado a sua oportunidade. Vira acontecer isso a muitas mulheres com carreiras. Elas pretendem, aproximam-se do seu intento, querem e jamais conseguem. Acordam numa bela manhã e seus filhos já não estão mais ali. As idas ao zoológico, ao cinema, aos museus, que nunca aconteceram, os momentos que pretenderam compartilhar; porém os telefones estavam sempre tocando, os clientes aguardando. Os grandes acontecimentos...

Isabella não queria que isso acontecesse com ela. Quando o filho era apenas um bebê não tinha importado tanto. Mas agora era diferente. Ele completara quatro anos e já sabia quando não a via por mais de duas horas em três dias, sabia quando ela não estava lá para apanhá-lo na escola ou quando ela e Amadeo passavam seis semanas loucas, fazendo planos para a próxima coleção, para a linha a ser exportada para os Estados Unidos.

─ Você parece infeliz, meu amor. Quer que eu a demita?

Para assombro de Amadeo e dela própria, Isabella assentira com a cabeça.

─ Sério mesmo?

Havia uma expressão de choque nos olhos dele.

─ Em parte. Deve haver um meio para que eu possa trabalhar parte do tempo e estar aqui um pouco mais também.

Olhara para o esplendor de sua villa, pensando no filho que não vira o dia todo.

─ Vamos pensar a respeito, Bellezza. Acharemos uma solução.

E acharam. Era perfeita. Durante os últimos oito meses ela fora a consultora-chefe das criações da Casa de San Gregorio. Tomara as mesmas decisões de sempre, e em cada detalhe havia a presença de seu dedo. O toque inconfundível de Isabella ainda podia ser distinguido em cada criação que a San Gregório vendia. Mas ela própria retirara-se do mecanismo do negócio, dos problemas espinhosos do cotidiano. O que significou sobrecarregar ainda mais o estimado diretor, Bernardo Franco, e contratar outro designer para encarregar-se dos passos intermediários entre as idéias de Isabella e o produto final.

Mas tudo estava funcionando perfeitamente. Agora Isabella tinha um horário flexível. Tomava parte nas reuniões principais. Estudava tudo cuidadosamente com Amadeo durante um dia exaustivo por semana. Dava uma passada inesperada na casa sempre que tinha um compromisso iminente, mas, pela primeira vez, sentia que era de fato a mãe de Alessandro também. Eles almoçavam no jardim. Pela primeira vez levou-o ao jardim de infância. Levava-o ao parque e ensinava-lhe versos infantis em inglês e cançõezinhas jocosas em francês. Ria com ele, corria com ele e o empurrava no balanço. Isabella tinha o melhor dos mundos. Um trabalho, um marido e um filho. E nunca se sentira mais feliz.

Demonstrava isso na luz que dançava em seus olhos, na maneira como se movia, ria e se apresentava quando Amadeo vinha para casa. Demonstrava nas coisas que dizia aos amigos ao deleitá-los com as histórias das últimas realizações de Alessandro: "E Deus do céu, como aquele menino desenha!" Todos achavam divertido. Principalmente Amadeo, que desejava vê-la feliz. Ele ainda a adorava, após dez anos de casados. Na verdade, mais do que nunca. E a casa prosperava, apesar da ligeira mudança na administração. Isabella não conseguia ausentar-se de todo. Simplesmente não era seu estilo. Sua presença fazia-se sentir em toda parte. O som de sua voz assemelhava-se ao eco de uma campainha de cristal perfeito.

A limousine parou no meio-fio enquanto Isabella lançava um último olhar para as pessoas na rua. Gostava do que as mulheres estavam vestindo naquele ano. Sensual, mais feminino. Reminiscências das coleções dos anos anteriores do avô. Um look que a agradava muito. Ela própria desceu do carro em um vestido de lã cor de marfim, cujo drapeado perfeito era formado por um mar de pequeninas pregas impecavelmente executadas. Os três longos fios de enormes pérolas pendiam-lhe do pescoço precisamente na direção certa do decote suavemente ondulado, e sobre o braço trazia uma jaqueta curta de vison cor de chocolate, um abrigo de pele criado especialmente para ela em Paris pelo peleteiro empregado anteriormente por Parei.

Mas Isabella estava apressada demais para vesti-lo. Queria discutir com Amadeo alguns detalhes de última hora da linha americana, antes de ir ao encontro de uma amiga para o almoço. Consultou o relógio de ouro sem mostrador em seu pulso, onde uma safira e um diamante flutuavam misteriosamente em sua superfície, indicando aos conhecedores apenas a hora exata. Eram 10:22.

─ Obrigada, Enzo. Sairei cinco para o meio-dia.

Segurando a porta com uma das mãos, ele tocou no boné com a outra e sorriu. Era fácil trabalhar para ela atualmente, e ele gostava dos freqüentes passeios de carro com o menino. Ele o fazia lembrar-se de seus próprios netos, sete dos quais viviam em Bolonha e os outros cinco em Veneza. Ele os visitava de vez em quando. Mas seu lar era Roma. Exatamente como era de Isabella, apesar de a mãe dela ser francesa e do ano que passara nos Estados Unidos. Roma fazia parte dela, nascera ali, tinha de viver ali, morreria ali. Ele sabia o que todo italiano sabia: que um romano não se dispunha a viver em nenhum outro lugar.

Enquanto caminhava resoluta pela calçada em direção à pesada porta preta na fachada antiga, ela lançou um olhar para a rua, como fazia sempre. Era um meio seguro de saber se Amadeo estava no escritório. Tudo que precisava fazer era procurar a Ferrari prateada estacionada no meio-fio. O “torpedo prateado”, como Isabella o chamava.

E ninguém tocava no carro, exceto ele. Todos o provocavam por causa disso, principalmente Isabella. Amadeo parecia um menino com um brinquedo. Não admitia compartilhá-lo. Ele próprio o dirigia, estacionava, mimava e brincava com ele. Tudo sozinho. Até mesmo o porteiro da San Gregorio, trabalhando na firma há 42 anos, nunca tocara no carro. Isabella ria consigo ao aproximar-se da suntuosa porta preta. Às vezes, Amadeo parecia um menino; o que a fazia estimá-lo ainda mais.

─ Buon giorno, signora Isabella.

Apenas Ciano, o porteiro idoso de libré preta e cinza, a chamava assim.

─ Ciao, Ciano, come sta? ─ Isabella esboçou-lhe um largo sorriso, exibindo dentes tão lindos como suas famosas pérolas. ─ Va bène?

─ Benissimo.

O tom rico de barítono chegou até ela numa onda musical, enquanto ele abria-lhe a porta com uma inclinação de cabeça.

A porta fechou-se com estrondo. Isabella permaneceu na entrada por um momento, olhando para todos os lados. A Casa era o seu lar tanto quanto a villa na Via Appia Antica. Os pisos de mármore rosado perfeito, os veludos verdes e as sedas rosadas, o candelabro de cristal que trouxera da Parel, de Paris, após longas negociações com seu proprietário americano. O avô mandara fazê-lo em Viena e era de um valor praticamente incalculável. Uma escada de mármore majestosa levava ao salão principal no andar superior. No terceiro e quarto andares havia escritórios decorados nos mesmos tons cinza e rosa, as cores das pétalas das rosas e da cinza da lareira. Uma cor que agradava aos olhos, tanto quanto os quadros escolhidos cuidadosamente, os espelhos antigos, as luminárias elegantes, os sofazinhos Luís XVI para duas pessoas, aconchegados em reentrâncias aqui e ali, onde as clientes podiam descansar e conversar.

Criadas em uniformes cinzentos moviam-se apressadamente por toda parte, fazendo farfalhar os aventais brancos engomados enquanto levavam chá e sanduíches às salas privativas nos andares superiores, onde as clientes, em pé, suportavam árduas provas, imaginando como as modelos sobreviviam depois de desfiles inteiros.

Isabella ficou ainda mais um pouco, como geralmente ficava, examinando seu domínio. Entrou discretamente no elevador privativo, apertando o botão para o quarto andar, e começou a revisar mentalmente o trabalho matutino. Havia apenas algumas coisas para providenciar; para sua satisfação, no dia anterior acertara a maioria dos negócios atuais. Precisou resolver com Gabriela, a designer chief, detalhes nas criações e discutir problemas administrativos com Bernardo e Amadeo. O trabalho daquele dia não lhe tomaria muito tempo.

As mulheres eram loucas pelas criações da San Gregorio. Muitas eram mulheres como a própria Isabella ─ espetaculares, sensuais, soberbas.

Isabella caminhou silenciosamente em direção às portas duplas do final do longo corredor e calcou o trinco de metal extremamente polido. Surgiu como uma visão diante da mesa da secretária.

─ Signora! ─ Exclamou a jovem, espantada, ao erguer os olhos.

Ninguém sabia exatamente quando Isabella apareceria ou o que teria em mente. Mas Isabella apenas assentiu com a cabeça, sorriu e caminhou imediatamente para o escritório de Amadeo. Sabia que estava ali, pois vira seu carro. E, ao contrário de Isabella, ele raramente perambulava pelos outros andares. Amadeo e Bernardo costumavam ficar em seus escritórios nos andares superiores. Era Isabella quem fazia a ronda, quem percorria os departamentos, quem aparecia de repente na sala dos manequins, nos corredores onde se localizavam as salas de provas privativas, no salão principal com a longa passadeira sedosa cinza, que precisava ser substituída com freqüência. O que significava uma fonte de constante irritação para Bernardo, sempre prático na direção da casa. Era sobre os seus ombros que caía o orçamento.

Como presidente e chefe do departamento financeiro, Amadeo planejava o orçamento, mas Bernardo tinha que conviver com ele, providenciando para que os tecidos, as contas, as plumas e os maravilhosos e mínimos ornamentos se restringissem aos limites estabelecidos por Amadeo. E graças a Bernardo, eles sempre subsistiram dentro desse orçamento.

Graças a Bernardo, a casa fora dirigida cuidadosamente e, às vezes com brilho, durante anos. Graças aos investimentos e à perspicácia financeira de Amadeo haviam prosperado. Graças ao gênio criativo de Isabella se desenvolveram, bem como conquistaram a glória.

Mas era Bernardo quem servia de ponte para o mundo da criação e das finanças. Era quem calculava, especulava, avaliava e ponderava o que daria certo e o que não daria, o que lhes custaria o sucesso da linha ou se o empreendimento valeria a pena. E, até agora, jamais se enganara. Bernardo tinha por instinto e o talento que fazia Isabella pensar em um matador: orgulhoso, ereto, ousado, fazendo cintilar o cetim vermelho diante do touro e sempre vencendo no final. Ela amava seu sistema e amava-o. Mas não da maneira como Bernardo a amava. Ele sempre a amara. Sempre. Desde o primeiro dia em que a conhecera.

Bernardo e Amadeo eram amigos há anos e trabalhavam juntos na Casa de San Gregorio antes de Isabella aparecer em cena. Fora Bernardo quem a descobrira em seu minúsculo atelier em Roma. Fora ele quem insistira com Amadeo para que fosse ver o trabalho dela, conhecê-la, falar com ela e talvez até convencê-la a trabalhar para eles. Isabella já era notável então, de uma beleza sensacional e incrivelmente jovem. Aos 22 anos, era uma mulher extraordinária e um gênio em desenho de moda.

Naquele dia chegaram ao seu pequeno ateliê e a encontraram usando uma camisa vermelha de seda e uma saia branca de linho, sandálias douradas e praticamente mais nada. Parecia um pequeno diamante preso num cartão do Dia dos Namorados. O calor estivera insuportável, mas piorou momentos depois, quando os olhos de Isabella encontraram os de Amadeo pela primeira vez. Só então Bernardo percebera o quanto também se interessava por ela e que já era tarde demais. Amadeo e Isabella apaixonaram-se instantaneamente, e Bernardo jamais se manifestara. Jamais. Era tarde e ele nunca teria cometido uma traição com o amigo. Amadeo significava muito para ele; durante anos fora como um irmão, e Amadeo não era o tipo de homem que se podia trair. Era de grande valor, para todos, amado por todos. Era a pessoa que todos gostariam de ser, não o homem que alguém desejaria magoar. Portanto, Bernardo não o magoou.

Também sabia que isso lhe poupava a dor de descobrir que ela não o amava. Sabia o quanto Isabella amava Amadeo. Era a maior paixão de sua vida. Na verdade, Amadeo significava mais do que seu trabalho, o que, no caso de Isabella, era de fato notável. Bernardo não podia competir com isso. Assim, conservou seu orgulho, seu segredo, seu amor e tornou o negócio ainda melhor; aprendeu a amá-la de outra maneira, a amar ambos com uma paixão só dele, e uma espécie de pureza que chegava a queimá-lo intimamente como se fosse uma pureza incandescente. Isso criava enorme tensão entre ele e Isabella, mas valia a pena. O resultado de seus embates, da fúria que sentiam e de suas guerras era sempre esplêndido: mulheres de beleza exótica que desfilavam em suas passarelas... Mulheres que, de vez em quando, desfilavam nos braços de Bernardo.

Mas ele tinha direito a isso. Tinha direito a algo mais do que seu trabalho e seu amor por Amadeo e Isabella. Mantinha acesa uma espécie de luz brilhante só sua, e as mulheres que freqüentavam a casa, modelos ou clientes, sentiam-se atraídas por ele, por algo que jamais compreenderam realmente, algo que jamais revelaram por completo, algo em que o próprio Bernardo, conscientemente, já não pensava a respeito. Era apenas uma parte dele, como seu infalível senso de estilo ou seu respeito para com duas pessoas com quem trabalhava que, a seu próprio modo, tornaram-se uma só. Compreendia perfeitamente o que eram. E sabia que com ele e Isabella jamais aconteceria o mesmo. Teriam continuado dois, sempre dois, sempre apaixonados, sempre em pé de guerra; mesmo se ela soubesse de seus sentimentos, continuariam se encontrando como constelações em colisão, explodindo numa chuva de cometas através dos céus do seu mundo.

Mas com Isabella e Amadeo não era assim. Era gentil, terno, forte. Estavam ligados como uma alma única. Ver Isabella olhar nos olhos de Amadeo era vê-la desaparecer neles, mergulhar numa parte mais profunda de si mesma, vê-la crescer e voar com suas asas abertas de par em par. Amadeo e Isabella eram como duas águias pairando em seu céu particular, as asas em perfeita harmonia, seu próprio ser um só, uma total união. Era algo de que Bernardo já não se ressentia mais. Era impossível ressentir-se com um casal como aquele, lindo de se ver.

E agora ele se achava mais à vontade com o que parecia um relacionamento profissional ardente com uma dama que amava de longe. Tinha sua própria vida. E compartilhava algo especial com eles. Sempre compartilharia. Formavam um trio indestrutível, inseparável. Nada conseguiria intervir entre eles. Os três sabiam disso.

Enquanto parou por um momento diante da porta do escritório de Amadeo, Isabella sorriu. Não podia observar aquela porta sem pensar na primeira vez em que a vira, bem como os corredores. Eram diferentes na época. Bonitos, mas não possuíam a extrema elegância atual. Ela os tornara algo mais, como Amadeo a transformara em algo mais. Ela crescia em sua presença. Sentia-se infinitamente valiosa e totalmente segura. Segura o suficiente para ser o que era, para fazer o que queria, para ousar, para mover-se num mundo absolutamente ilimitado.

Amadeo a fazia sentir-se ilimitada, mostrara-lhe o que ela era, que podia ser tudo que quisesse e fazer tudo que desejasse, e Isabella fez tudo com o poder do amor dele.

Isabella bateu suavemente na porta a que poucas pessoas tinham acesso. A porta levava direto ao gabinete particular do marido. Uma porta que apenas ela e Bernardo usavam. A resposta veio rápida. Ela moveu o trinco e entrou.

Por um momento nada disseram, apenas se olharam enquanto a alma de Isabella era dominada pela mesma emoção que sentira ao vê-lo pela primeira vez. Amadeo retribuiu com um sorriso. Ele também sentia o mesmo. Em seus olhos havia um prazer irrestrito, uma espécie de adoração gentil que sempre a atraía para os seus braços como ímã. Era essa gentileza nele que Isabella amava tanto, essa bondade, essa ternura que o marido demonstrava sempre. O fogo existente nele era diferente do de Isabella. O dele era uma chama sagrada que permaneceria acesa eternamente, dominante, em prol dos sofredores e oprimidos, uma luz altiva, um guia para todos. O dela era a tocha que dançava no céu noturno, tão brilhante e linda que fazia alguém quase recear aproximar-se. Mas ninguém receava aproximar-se de Amadeo. Ele era extremamente acolhedor. Todos queriam ficar ao seu lado, embora apenas Isabella ficasse de fato. E também Bernardo, é claro, mas de modo diferente.

─ Allora, Isabellezza. O que a traz aqui hoje? Pensei que tivéssemos acertado tudo ontem.

Ele recostou-se na cadeira, estendeu a mão e Isabella pegou-a.

─ Acertamos mais ou menos. Além disso, tive algumas novas idéias.

─ Algumas...

Ele riu diante da palavra. “Algumas” para Isabella significavam 35 ou 47 ou 103. Isabella jamais tinha "algumas" do que quer que fosse: nem algumas idéias, nem algumas jóias, nem algumas roupas. Amadeo esboçou um largo sorriso quando ela inclinou-se um pouco para beijá-lo no rosto e estendeu a mão para tocar na dela.

─ Você está linda hoje.

O brilho em seus olhos banhou-a como um raio de sol.

─ Mais do que pela manhã?

Ambos riram. Ela havia passado um novo creme no rosto, o cabelo estava preso no alto da cabeça, usava uma roupa caseira confortável e os chinelos dele.

Mas Amadeo apenas sacudiu a cabeça.

─ Não. Acho que gostei mais de você como estava esta manhã. Mas... também gosto desse vestido. É um dos nossos?

─ Claro. Eu usaria alguma coisa que não fosse nossa?

Por um momento, os olhos escuros faiscaram em direção aos olhos verdes.

─ Parece uma das criações do seu avô.

Ele a examinava com cuidado, estreitando os olhos. Tinha um modo de ver e saber de tudo.

─ Você é muito esperto. Roubei-o da coleção dele de 1935. Não totalmente, é claro. Apenas um pouco. ─ Ofereceu-lhe um largo sorriso. ─ E as pregas.

Divertido, ele retribuiu o sorriso e curvou-se para a frente a fim de dar-lhe um beijo rápido.

─ Esse pouco é excelente.

─ Acho ótimo não trabalharmos mais juntos tempo integral, pois jamais conseguiríamos fazer alguma coisa. Às vezes pergunto a mim mesma como pudemos um dia.

Ela recostou-se na cadeira, admirando-o. Impossível não fazê-lo. Amadeo era o deus grego de uma centena de quadros da Uffizi em Florença, a estátua de todo rapaz romano de ombros largos, magro, gracioso, elegante; contudo, havia mais. Os olhos verdes sagazes, maliciosos, inteligentes, alegres. Eram rápidos e seguros, e apesar da beleza loura florentina dos genes de Amadeo, havia energia naqueles olhos, bem como poder e autoridade. Ele era o chefe da Casa de San Gregorio, fora o herdeiro de um trono positivamente importante, e agora usava bem o manto de sua posição. Harmonizava-se com ele. Amadeo parecia o chefe de um império, ou talvez de um enorme banco. Seu terno de listras finas, elegantemente talhado, acentuava o porte alto e esguio, contudo os ombros largos eram autênticos.

Tudo em Amadeo era autêntico. Não havia nada de falso ou imperfeito, nada emprestado, nada roubado, nada irreal. A elegância, a beleza aristocrática, o calor do seu olhar, a inteligência rápida, o espírito aguçado e o interesse que tinha por todos que o cercavam. E a paixão pela mulher.

─ A propósito, o que está fazendo aqui hoje, tão bem vestida? Exceto compartilhar "algumas" idéias comigo, é claro.

Sorriu outra vez quando seus olhos se encontraram. Isabella também sorriu.

─ Tenho um almoço com algumas senhoras.

─ Parece terrível. Será que um encontro comigo no Excelsior não a atrairia mais?

─ Talvez, mas tenho um compromisso com outro homem depois do almoço.

Ela disse isso com presunção, um riso bailando nos olhos, bem como nos dele.

─ Meu rival, Bellezza?

Mas ele não tinha razão para se preocupar e sabia disso.

─ Seu filho.

─ Nesse caso, nada de Excelsior. É uma pena.

─ Da próxima vez.

─ Certo.

Muito satisfeito, ele estendeu as longas pernas, como um gato preguiçoso ao sol.

─ Muito bem. Silêncio agora. Temos muito trabalho a fazer.

─ Ecco. Essa é a mulher com quem casei. Terna, romântica, gentil.

Isabella fez uma daquelas caretas horríveis do filho e ambos riram, ao mesmo tempo em que ela tirava da bolsa um maço de anotações. À luz do sol que banhava seu escritório, Amadeo viu o fulgor do grande diamante lapidado do anel que lhe dera naquele verão, como presente pelo décimo aniversário de casamento. Dez quilates, é claro. Que mais? Dez quilates para dez anos.

─ Esse anel é lindo.

Ela assentiu, muito feliz, e olhou para a jóia. Ficava lindo em sua mão longa e graciosa. Tudo caía bem em Isabella. Principalmente diamantes de dez quilates.

─ E é mesmo. Mas você é mais. A propósito, eu te amo.

Sua intenção foi ser insolente, mas ambos sabiam que não era.

─ Também te amo.

Compartilharam um último sorriso e depois se lançaram ao trabalho. Agora era melhor. Melhor quando não ficavam juntos o dia todo. No final da tarde Amadeo sempre estava faminto por ela e ansioso para chegar em casa. E agora havia algo especial em seus encontros, em suas noites, em seus almoços, no trato cotidiano. Ela voltara a tornar-se misteriosa para ele. Via-se imaginando o que ela andaria fazendo o dia todo, onde estava, o que usava, enquanto a lembrança do seu perfume dominava-lhe a mente.

─ Você não acha que a linha americana está sóbria demais? Fiquei pensando nela a noite passada.

Olhou-o de soslaio, mas sem vê-lo, pois só tinha em mente os esboços que ela e Gabriela examinaram detalhadamente no dia anterior.

─ Não acho. E Bernardo ficou entusiasmado.

─ Merda! ─ Ela voltou os olhos para Amadeo com genuína preocupação. ─ Então estou certa.

Amadeo riu, mas ela não.

─ Estou falando sério. Quero mudar quatro dos tecidos e acrescentar uma ou duas peças da linha francesa à linha americana. Então dará certo.

Parecia segura, como sempre. E raramente se enganava. Essa certeza absoluta fora responsável pelas recompensas que conquistaram durante anos no mundo da moda.

─ Quero introduzir aqueles em roxo, os vermelhos e o casaco branco. Então, ficará perfeito.

─ Resolva com Bernardo e avise Gabriela.

─ Já fiz. Falei com Gabriela, quero dizer. E o novo sabonete de Bernardo para a linha masculina não está bom. Ficou no meu nariz a tarde toda.

─Isso é ruim?

─ Péssimo. Um perfume feminino deve ficar com você. O cheiro de um homem só deve chegar até você no momento em que se aproximar dele, deixando apenas uma lembrança. Não uma dor de cabeça.

─ Bernardo vai vibrar.

Por um momento deu a impressão de cansado. Às vezes as brigas de Isabella e Bernardo o deixavam esgotado. Embora fossem essenciais para os negócios. Sem o feroz empenho de Isabella e o apoio incondicional de Bernardo, a Casa de San Gregorio teria sido muito diferente. Mas assim como o eixo que impede duas rodas de se soltarem em direções diferentes, Amadeo sentia que a tensão sobre ele às vezes era maior do que gostaria que fosse. Mas, como um trio, formavam um time miraculoso, e os três sabiam disso. E no final, de alguma forma, sempre conseguiam permanecer amigos.

Ele jamais conseguiu entender. Com Isabella vociferando e xingando Bernardo com nomes que ele jamais sonhara que ela soubesse, e Bernardo parecendo que acabaria cometendo assassinato, horas depois ia encontrá-los em uma das salas de provas, bebendo champanha e esvaziando um prato cheio de sanduíches, como duas crianças usufruindo dos restos de um chá após a retirada dos convidados adultos. Ele jamais poderia entender; apenas ficava grato porque tudo se resolvera daquela maneira. Agora, com um suspiro, consultou o relógio.

─ Quer que o chame para vir aqui?

Ele não precisava dar recados por Isabella. Ela mesma os entregava sempre. Diretamente. Sem rodeios.

─ Seria preferível agora. Preciso estar no restaurante ao meio-dia.

Consultou o relógio de mostrador ilegível. Também presente dele.

─ Ótimo! O almoço com as senhoras é mais importante.

Mas havia divertimento em seus olhos. Sabia que, na vida de Isabella, isso jamais seria verdade. Sem contar ele próprio e Alessandro, era para o trabalho que Isabella vivia, o que a mantinha respirando, estimulada e a mil por hora.

Amadeo pegou no telefone e falou brevemente com a secretária. Ela chamaria o sr. Franco agora mesmo. O que realmente fez, e ele veio imediatamente, como sempre. Bernardo entrou na sala em largas passadas, como uma explosão, e de repente Amadeo sentiu Isabella tensa. Ela já estava se preparando para a batalha.

         ─ Oi, Bernardo.

Isabella lançou-lhe um sorriso despreocupado quando ele entrou no escritório com um terno escuro escolhido entre uns cem que possuía. Para Isabella todos pareciam exatamente o mesmo. Usava o mesmo relógio de ouro, de bolso, as mesmas camisas brancas impecavelmente engomadas e gravatas geralmente escuras com minúsculas pintinhas brancas. Ou, quando ele se sentia muito agressivo, pintinhas vermelhas.

─ Adoro seu terno.

Era o gracejo normal deles. Ela sempre lhe dizia que seus ternos eram excessivamente enfadonhos. Mas a simplicidade dos ternos fazia parte do seu estilo.

─ Ouçam, vocês dois, não comecem hoje. Não estou com disposição.

Amadeo olhou-os ameaçadoramente, porém, como sempre, seus olhos riam mesmo quando seus lábios não.

─ Além disso, ela tem um almoço dentro de quarenta minutos. Agora seus almoços são mais importantes.

─ Calcula-se. ─ Bernardo exibiu um pequeno sorriso forçado e sentou-se. ─ Como está meu afilhado?

─ Alessandro está ótimo. As cortinas da sala de jantar, entretanto, não estão.

Amadeo começou a esboçar um largo sorriso enquanto Isabella contava a história. Ele adorava a malícia do menino, o fogo em seus olhos escuros, tão semelhante ao dos da mãe. - Enquanto eu estava aqui ontem, resolvendo os problemas para vocês ─ ela ergueu uma sobrancelha, aguardando que Bernardo engolisse a isca e ficou claramente desapontada por ele não engolir ─ ele pediu à minha manicure suas tesouras e "deu um jeito nelas", como ele próprio disse. Alessandro cortou cerca de um metro que, como me disse, ficava em seu caminho toda vez que dirigia seu caminhão favorito ao longo da janela. Ele não conseguia ver o jardim. Agora pode ver o jardim. Na verdade, perfeitamente.

Mas ela também ria, tal como Bernardo. Quando ele sorria daquela maneira, vinte dos seus 38 anos desligavam-se dele e Bernardo não era mais que um menino. Porém há muito que vinha trabalhando exaustivamente, e quando não estava se divertindo com as histórias de Alessandro, em geral aparentava austeridade. Grande parte da responsabilidade da Casa de San Gregorio repousava em seus ombros e muitas vezes isso se evidenciava. Sempre trabalhara com afinco e conscienciosamente, e tivera de pagar um preço por isso. Nunca se casou, não tinha filhos, sofria de muita solidão, trabalhando até tarde da noite, logo cedo de manhã, aos sábados, nos feriados e dias santificados e nos dias em que deveria ter estado em outro lugar, com outra pessoa. Mas vivia para o que fazia, suas responsabilidades ajustavam-se a ele como seus ternos escuros; faziam parte dele, como seu cabelo, quase tão escuro como os de Isabella, e seus olhos, que eram da cor do céu do verão romano. Tinha o tipo de rosto pelo qual as modelos se deixavam seduzir. Mas, para Bernardo, elas pouco significavam. Divertiam-no por uma ou duas noites, não mais que isso.

─ Seu novo sabonete não está bom.

Como sempre, Isabella fez a comunicação de modo direto e Amadeo quase chegou a estremecer, esperando pela batalha.

Bernardo continuava muito calmo.

─ Por que não?

─ Me deu dor de cabeça. É muito forte.

─ Se alguém cortasse a cortina da minha sala de jantar pela metade, eu também ficaria com dor de cabeça.

─ Estou falando sério.

Os olhos dela fixaram os dele, ameaçadores.

─ Eu também. Todos os nossos testes mostraram que é perfeito. Ninguém o achou forte demais.

─ Talvez estivessem muito resfriados e não o sentissem.

Bernardo revirou os olhos e refugiou-se mais na cadeira.

─ Pelo amor de Deus, Isabella, acabei de lhes dizer para prosseguirem com a produção. O que quer que eu faça agora?

─ Suspenda-a. Ele não está bom. Exatamente igual à colônia que, a princípio, não estava boa pelas mesmas razões.

Desta vez Amadeo fechou os olhos. Ela estivera certa sobre a colônia também, mas fora uma batalha que Bernardo perdera com desgosto. E fúria. Ele e Isabella mal se falaram durante um mês.

Os lábios de Bernardo estreitaram-se e ele enfiou as mãos nos bolsos do colete.

─ O sabonete tem de ser forte. Você usa com água. No banho. Você se enxágua. O perfume desaparece.

Ele fez a explicação através dos lábios apertados.

─ Capisco. Já usei sabonete antes. O meu não me dá dor de cabeça. O seu sim. Quero que o mude.

─ Porra, Isabella!

Ele bateu com o punho fechado na mesa de Amadeo e olhou para ela, mas Isabella estava imóvel.

Lançou um olhar vitorioso para ele.

─ Diga ao pessoal do laboratório para fazer serão, e a única ajuda que você receberá para a produção será de uma ou duas semanas.

─ Ou meses. Sabe o que vai acontecer com os anúncios que já publicamos? Ficarão perdidos.

─ Ficarão mais ainda se você continuar com o produto errado. Confie em mim. Estou certa.

Ela sorriu lentamente.

Durante um instante, Bernardo deu a impressão de que ia explodir.

─ Tem mais alguma surpresa desagradável para mim esta manhã?

─ Não, só tenho algumas adições a fazer na linha americana. Já falei com Gabriela a respeito. Não apresentam nenhum problema.

─ Meu Deus, como não? Você quer dizer que será fácil? Isabella, não!

Mas, de súbito, ele sorria de novo. Bernardo possuía enorme capacidade para a raiva e o perdão.

─ Você me dará notícias sobre o sabonete? ─ Insistiu ela, sem rodeios.

─ Darei.

─ Ótimo. Então tudo está resolvido e ainda tenho vinte minutos para o meu almoço.

Amadeo lançou-lhe um largo sorriso. Ela refestelou-se no braço da cadeira do marido e, gentilmente, passou-lhe a mão pelo rosto. Com o gesto, o diamante do anel captou a luz do sol e lançou-a numa chuva de reflexos coloridos na parede oposta. Ela notou que isso não escapou a Bernardo, devido ao seu olhar de súbita irritação, o que pareceu diverti-la.

─ O que há, Nardo? Uma de suas namoradas o está fazendo passar por novos aborrecimentos?

─ Muito engraçada. Acontece que fiquei preso à minha mesa a semana inteira. Estou começando a me sentir o eunuco da Casa.

As sobrancelhas de Amadeo se uniram num súbito franzir da testa. Ficou preocupado se estariam fazendo Bernardo trabalhar demais, mas Isabella sabia que o repentino olhar de infortúnio de Bernardo originava-se de uma outra coisa. Conhecia-o bem demais para acreditar que pudesse se importar com o fato de estar mais sobrecarregado de trabalho do que ela. E estava certa ao pensar que ele não se importava. Os três viviam tremendamente sobrecarregados de trabalho e adoravam isso. Bernardo era apenas um pouquinho mais compulsivo que seus dois amigos. Agora, porém, parecia verdadeiramente perturbado ao desviar o olhar do grande diamante do anel de Isabella para o colar de pérolas.

─ Você é louca, Isabella, por usar essas jóias. ─ E depois, com um olhar significativo para Amadeo ─ Falei com você na semana passada.

─ O que significa tudo isto?

Isabella olhava de um para outro, fingindo consternação; depois, seus olhos detiveram-se no rosto do marido.

─ Ele está tentando fazer com que você receba de volta meu anel?

─ Mais ou menos.

De repente, Amadeo pareceu muito italiano ao dar de ombros. Mas Bernardo não estava gostando do jogo deles.

─ Sabem muitíssimo bem que não é isso que eu quis dizer. Sabem o que aconteceu aos Belloggios na semana passada. Poderia acontecer o mesmo com vocês.

─ Seqüestro? ─ Isabela parecia aturdida. ─ Não seja ridículo, Nardo! Os irmãos Belloggios eram os dois políticos mais importantes de Roma. Conheciam todo mundo e exerciam um poder extraordinário. Os terroristas os odiavam como símbolos capitalistas.

─ Também sabiam que ambos valiam uma fabulosa fortuna. E suas esposas andam pela cidade parecendo anúncios da Van Cleef. Não acham que isso poderia ter alguma coisa a ver com o seqüestro?

─ Não acho. ─ Isabella parecia imperturbável. Depois, tornou a olhar fixamente para Bernardo. ─ O que deu em você? Por que de repente começa a se preocupar com isso? Está tendo problemas com a sua úlcera outra vez? Ela sempre o deixa estranho.

─ Pare com isso, Isabela. Não seja infantil. Esse foi o quarto seqüestro importante deste ano e, ao contrário do que parecem pensar, nem todos os seqüestros ocorridos ultimamente na Europa são de caráter político. Alguns acontecem apenas porque as pessoas são ricas e deixam que o mundo inteiro saiba.

─ Ah, então você pensa que fico andando por aí fazendo propaganda do que tenho? É isso? Meu Deus, Bernardo, que coisa mais vulgar e incrível!

─ Mas é isso mesmo, não é?

De repente, seus olhos lançaram chispas, enquanto agarrava um jornal da mesa de Amadeo. Seus olhos fixaram-se nas páginas, que folheava rapidamente. Os outros dois o observavam.

─ Sim, Isabela, terrivelmente vulgar. Estou contente porque você não faria uma coisa tão grosseira assim.

A seguir, abriu o jornal com uma sacudida e mostrou uma grande fotografia de ambos entrando num suntuoso prédio público na noite anterior, uma festa para comemorar a abertura da temporada lírica. Isabela trajava um belíssimo vestido de noite bege de moiré, com um casaco combinando, debruado de luxuosa zibelina, que caía até seus pés como um manto. No pescoço e nos pulsos trazia fileiras de diamantes que cintilavam em uníssono com a enorme pedra do anel.

─ Estou contente por você ser tão simples. ─ Depois olhou sinistramente para Amadeo. ─ Por vocês serem tão simples.

O Rolls-Royce com motorista, que Amadeo só usava em ocasião de gala, achava-se visível bem atrás deles, e os botõezinhos da camisa sob o traje a rigor de Amadeo cintilavam tanto quanto os pequenos diamantes das orelhas de Isabella. Ambos olhavam estupidamente para a fotografia, enquanto Bernardo os fitava de modo acusador do lugar em que se achava.

─ Você sabe que não éramos os únicos na festa ─ replicou Isabella em voz baixa.

Comoveu-a o fato de Bernardo se importar, e o assunto não era de todo novo. Ele já o trouxera à baila antes, mas agora, com os Belloggios seqüestrados e assassinados, parecia haver uma determinação obstinada em seu interesse.

─ Querido, você realmente não precisa se preocupar conosco.

─ Por quê? Acham que são tão sagrados assim? Acham que ninguém tocará em vocês? Se pensam assim nos tempos que correm, então são malucos! Os dois!

Por um momento ele pareceu próximo às lágrimas. Conhecia um dos Belloggios e tinha ido ao enterro na semana anterior. Como insanos, os raptores haviam exigido quinze milhões de dólares e a liberdade de seis presos políticos. Mas a família não pudera aceitar tais exigências e o governo também não demonstrara disposição. Os resultados tinham sido trágicos. Mas, embora Isabella e Amadeo parecessem compreensivos, permaneceram impassíveis. Obviamente Bernardo estava vendo fantasmas.

Isabella levantou-se devagar e caminhou até Bernardo. Estendeu os braços, abraçou-o e sorriu.

─ Nós amamos você. E você se preocupa demais.

Amadeo estava de cenho franzido, mas sem preocupação por Bernardo, sem receio por ele.

─ Vocês não compreendem, não é?

Bernardo olhou-os com um desespero crescente.

Mas desta vez foi Amadeo quem respondeu, enquanto Isabella sentava-se numa cadeira com um suspiro.

─ Compreendemos. Mas acho que não há tanto motivo para preocupação como imagina. Olhe para nós ─ ele apontou humildemente para Isabella e para si mesmo ─ não somos ninguém. Apenas comerciantes de vestidos. O que alguém pode querer de nós?

─ Dinheiro. E quanto a Alessandro? E se o pegarem?

Por um instante Amadeo quase estremeceu. Bernardo marcara um tento.

─ Isso seria diferente. Mas ele nunca fica sozinho, Bernardo. Sabe disso. A villa é fechada. Ninguém conseguiria entrar. Não precisa ficar tão preocupado. Ele está a salvo e nós estamos a salvo.

─ Engana-se. Ninguém tem mais segurança. E enquanto vocês dois ficam badalando desta maneira ─ com expressão infeliz, apontou novamente para a foto do jornal ─ estão procurando desgraça. Quando vi isto pela manhã, minha vontade foi dar um pontapé em vocês.

Amadeo e Isabella trocaram um rápido olhar, e Bernardo se virou para o outro lado. Eles não compreendiam. Achavam que ele estava doido. Mas os loucos eram eles. Ingênuos, simplórios e estúpidos. Bernardo queria gritar com eles, mas sabia que seria inútil. Comerciantes de vestidos... A maior Casa de alta-costura da Europa, uma das maiores fortunas de Roma, duas pessoas de beleza espetacular, um filho vulnerável, uma mulher coberta de jóias... Comerciantes de vestidos. Olhou para um, depois para o outro, sacudiu a cabeça e encaminhou-se para a porta.

─ Vou providenciar a respeito do sabonete, Isabella. Mas façam-me um favor, os dois. ─ Parou por um momento, parecendo angustiado. ─ Pensem no que eu disse.

─ Pensaremos ─ prometeu Amadeo suavemente, enquanto Bernardo fechava a porta. E, então, olhou para a mulher. ─ Sabe bem que ele pode estar certo. Talvez devêssemos ser mais cuidadosos em relação a você e Alessandro.

─ E quanto a você?

─ Dificilmente serei objeto de grande interesse. ─ Sorriu. ─ E não fico circulando em diamantes e peles.

Ela também sorriu por um instante; depois ficou amuada.

─ Você não pode tomar meu anel de volta.

─ Nem pretendo.

Lançou-lhe um olhar carinhoso.

─ Nunca?

Ela era uma criança petulante, sentada em seu colo, e ele esboçou um largo sorriso.

         ─ Jamais. Prometo. É seu. E eu sou seu. Para sempre.

Então a beijou e ela sentiu o mesmo fervor brotar dentro dela, o mesmo ardor que ele conseguira despertar desde que se conheceram. Passou os braços ao redor do pescoço dele e seus lábios pousaram exigentes sobre os do marido.

─ Amo você, carissimo... mais do que qualquer coisa neste mundo...

        Beijaram-se de novo e ela sentiu lágrimas brotarem em seus olhos quando finalmente se separaram. Isso acontecia às vezes. Ela ficava tão feliz que sentia vontade de chorar. Tinham tanta coisa em comum, uma história fértil, muitas vitórias; não apenas os troféus e a fama, mas também as lembranças ternas, o nascimento do filho, os dias que passaram sozinhos numa ilha grega cinco anos atrás, quando sentiram que o trabalho se tornara de repente demasiado para eles; fora então que Alessandro tinha sido concebido. Mil momentos projetaram-se em sua mente e, mais uma vez, tornaram Amadeo infinitamente precioso para ela.

─ Isabellezza... ─ Ele olhou-a, e seus olhos, de um verde profundo, pareceram sorrir. ─ Você tornou minha vida perfeita. Já lhe disse isso ultimamente?

─ Você fez o mesmo comigo ─ respondeu ela, sorrindo.

─ Sabe o que eu gostaria de fazer?

─ O quê?

Fosse o que fosse, eles o fariam. Não havia nada que ele lhe negasse. Talvez outros pudessem dizer que ela era mimada, tratada com indulgência pelo marido. Mas não era. Ela também o mimava. Era algo que faziam mutuamente. A reciprocidade de um amor generoso que ambos desfrutavam.

─ Gostaria de ir à Grécia outra vez.

As palavras de advertência de Bernardo já estavam esquecidas.

─ Quando?

Ele tornou a sorrir. Também gostaria de ir. Tinha sido uma das mais belas épocas de sua vida.

─ Na primavera?

Ela ergueu os olhos para o marido e ele achou-a irresistivelmente sensual.

─ Vamos fazer outro bebê?

Era algo em que ele estivera pensando durante algum tempo. Esta parecia uma oportunidade ótima. Antes de Alessandro, eles apenas desejavam um filho. Mas ele representava tal alegria que, ultimamente, Amadeo estará pensando em abordar o assunto com Isabella.

─ Na Grécia? ─ Os olhos escuros de Isabella arregalaram-se e seus lábios pareciam apetitosos e carnudos quando ele curvou-se para beijá-la. Depois, ela sorriu. ─ Sabe que não precisamos esperar até chegarmos à Grécia. As pessoas fazem bebês em Roma o tempo todo.

─ Fazem? ─ Sussurrou ele em seu pescoço. ─ Terá de me mostrar como.

─ Ecco, tesoro. ─ E, então, de súbito, ela soltou uma gargalhada e consultou o relógio. ─ Mas só depois do almoço. Estou atrasada.

─ Que pena. Talvez fosse preferível você não ir. Poderíamos ir para casa e...

─ Mais tarde.

E então ela o beijou mais uma vez e caminhou devagar até a porta, virando-se por um instante com a cabeça inclinada para o lado, enquanto agarrava a maçaneta. Olhou-o por cima do ombro, com uma indagação:

─ Estava falando sério?

─ A respeito de você não comparecer ao almoço? ─ Divertido, ele sorriu.

Mas ela sacudiu a cabeça e riu.

─ Almoço não, fera devassa. Quero dizer sobre o bebê.

Ela pronunciou a última sentença muito gentilmente, como se a idéia também significasse algo para ela.

Mas Amadeo assentiu, sem desviar o olhar.

─ Sim, eu falava sério. O que acha, Bellezza?

Ela lançou-lhe um sorriso misterioso da porta.

─ Acho que devemos considerar.

Depois, com um beijo, ela partiu e Amadeo continuou olhando para a porta. Queria dizer-lhe mais uma vez que a amava. Mas isso teria que esperar até a noite. Também estava surpreso com o que acabara de dizer sobre outro bebê. Tinha pensado a respeito, mas ainda não havia expressado seu pensamento. Agora, de repente, sabia que pretendia isso. E não precisava interferir na carreira dela.

Alessandro não interferiu, e ambos tinham muito a dar à criança. Na verdade, quanto mais pensava no assunto, mais o apreciava. Voltou-se para a escrivaninha e apanhou uma folha de papel com um sorriso.

Era quase uma hora da tarde quando Amadeo finalmente se levantou. Espreguiçou-se. Estava satisfeito com os cálculos que andara fazendo. Os negócios americanos que tinham feito naquele outono iam render uma respeitável soma. Muito salutar, realmente. Ele estava a ponto de oferecer a si mesmo um almoço solitário de congratulações quando ouviu uma leve batida na porta.

─ Si?

Parecia surpreso. Em geral a secretária usava o interfone, mas provavelmente já devia ter saído para o almoço.

Virou-se para a porta e viu uma das subsecretárias meter timidamente a cabeça pela porta entreaberta.

─ Sinto muito, senhor, mas...

Ela sorriu. Amadeo era de uma beleza tão incrível que a moça nunca sabia bem o que dizer. De qualquer modo, dificilmente tinha de falar com ele.

─ Sim? ─ Ele retribuiu o sorriso. ─ Há alguma coisa que posso fazer?

─ Há dois homens aqui que desejam vê-lo, senhor.

A voz da jovem foi sumindo aos poucos, enquanto um rubor subia-lhe ao rosto.

─ Agora? ─ Ele lançou um olhar para a agenda aberta sobre a mesa. Não havia nada anotado para antes das três. ─ Quem são?

─ Eles... é sobre seu carro. O... a Ferrari.

─ Meu carro? ─ Ele pareceu surpreso e confuso. ─ O que há com ele?

─ Eles... eles disseram que houve... um acidente.

Ela aguardou uma explosão, mas nada aconteceu. Ele parecia perturbado, mas não zangado.

─ Alguém se feriu?

─ Acho que não. Mas eles estão aqui... no escritório da srta. Alzini, senhor.

Ele assentiu gentilmente com a cabeça e passou por ela ao dirigir-se para o outro escritório. Os dois homens pareciam constrangidos, embaraçados. Estavam bem arrumados, mas suas roupas eram simples, possuíam mãos grandes e morenas e tinham faces coradas; Amadeo ainda não estava certo se isso se devia à mortificação ou ao sol. E era evidente que de modo algum estavam acostumados com um ambiente daqueles. O mais baixo parecia afligir-se com o simples fato de pisar no tapete, enquanto o outro demonstrava claramente desejar que o chão o tragasse. Talvez um açougueiro, talvez um padeiro, trabalhadores braçais. E quando falaram suas vozes soaram ásperas, porém temerosas, respeitosas. Estavam consternados com o que tinha acontecido. Ficaram fora de si ao constatarem que o carro era dele.

─ O que aconteceu?

Amadeo ainda parecia confuso, mas sua voz era gentil e os olhos bondosos; e se sentia alguma consternação por causa do carro, ocultava muitíssimo bem.

─ Estávamos dirigindo; o trânsito intenso, doutor. Como sabe, é hora do almoço. ─ Amadeo assentiu paciente com a cabeça enquanto ouvia o relato. ─ Uma mulher e uma menina corriam pelo meio da rua; desviamos para não pegá-las, e... ─ O homem mais baixo corou ainda mais. ─ ...mas batemos no seu carro, em vez de pegá-las. Não foi demais, mas amassou um pouco. Podemos consertar. Meu irmão tem uma oficina, ele trabalha bem. O senhor ficará satisfeito. E nós pagaremos. Tudo. Pagaremos tudo.

─ É claro que não! Executaremos o serviço com as nossas companhias de seguro. O estrago foi muito grande? ─ Procurou não demonstrar a infelicidade que sentia.

─ Ma... Lamentamos muitíssimo. Por coisa alguma deste mundo teríamos batido no carro do doutor. Um Fiat, um carro estrangeiro, qualquer coisa, mas nunca um belo carro como o seu.

O homem mais alto torcia as mãos e, finalmente, Amadeo chegou até a sorrir. Eles eram tão absurdos, parados ali, no escritório de sua secretária, provavelmente mais arrasados do que seu carro. Viu-se tendo de reprimir uma explosão de gargalhadas nervosas e ficou de repente satisfeito por Isabella não estar ali para encará-lo maliciosamente, com seu olhar sério e ao mesmo tempo de zombaria.

─ Não importa. Venham, vamos dar uma olhada.

Conduziu-os até o pequeno elevador privativo, introduziu a própria chave e ficou parado junto com eles, enquanto desciam para o térreo, os dois homens de cabeças abaixadas, num gesto de humildade, e Amadeo numa tentativa de envolvê-los numa brincadeira comum.

Até Ciano tinha ido almoçar quando Amadeo saiu do prédio e lançou um olhar pela rua à procura do carro. Conseguiu ver o carro deles ainda estacionado em fila dupla, ao lado do seu. Era um carro grande, deselegante, antiquado e, na verdade, devido ao seu evidente peso, talvez pudesse ter causado um sério dano. Com uma expressão preocupada que tentava ocultar, foi subindo a rua em largas passadas, os dois homens caminhando nervosamente atrás dele, sem dúvida aterrorizados com o que ele iria ver. Quando se aproximou do carro, caminhando pela calçada, Amadeo notou que uma terceira pessoa aguardava no Fiat antiquado, com um ar infeliz ao ver Amadeo chegando mais perto. Inclinou a cabeça num breve cumprimento.

Amadeo acercou-se do seu próprio carro a fim de examinar o lado esquerdo danificado. Seus olhos percorreram devagar o lado afetado à medida que se abaixava um pouco, para ver melhor o estrago. Mas enquanto ele, curvado, examinava o local, seus olhos de súbito estreitaram-se, aturdidos; não havia dano algum, nenhum amassado, nenhum arranhão no querido automóvel.

Mas era tarde demais para fazer outras perguntas. Quando seus olhos se arregalaram com a surpresa, um objeto de peso incalculável desceu brutamente sobre sua nuca. Ao se vergar, no mesmo instante, foi empurrado e depois puxado rudemente para o banco traseiro do carro que estava esperando. A cena toda se desenrolou em menos de um minuto e foi controlada concisamente pelos dois visitantes de aparência inocente. Tranqüilos, os dois entraram furtivamente no Fiat, ao lado do amigo, e o carro afastou-se. Dois quarteirões depois da Casa de San Gregorio, Amadeo estava cuidadosamente amarrado, amordaçado e de olhos vendados; sua figura imóvel achava-se em silêncio, mal respirando no chão do carro, enquanto os seqüestradores o levavam para longe.

 

O sol acabara de desaparecer, derramando brilhantes tons alaranjados e malva, no momento em que Isabella, resplendente em seu vestido de cetim verde, se encontrava na sala de estar.

Na parede, discretos candelabros de latão e cristal espalhavam uma luz suave no aposento. Ela lançou um olhar para o relógio Fabergé azul forte sobre o console da lareira. Ela e Amadeo o haviam comprado anos atrás em Nova York. Era uma peça de colecionador, de preço incalculável, quase tão incalculável como o colar de esmeraldas e diamantes cuidadosamente colocado ao redor do seu pescoço. Fora de sua avó e diziam que outrora pertencera a Josefina Bonaparte. O colar pendeu no longo pescoço branco em seu fecho delicado quando Isabella levantou-se devagar e começou a andar de um lado para outro na sala.

Faltavam cinco minutos para as oito, e eles ficariam muito atrasados para o jantar da princesa de Sant'Angelo. Maldito Amadeo! Que coisa! Será que ele não podia chegar na hora? A princesa era uma das poucas pessoas que realmente enervavam Isabella. Tinha 83 anos e possuía um coração de mármore de Carrara e olhos de aço; há muitos anos amiga íntima da avó de Amadeo e uma mulher que Isabella sinceramente abominava. Recebia em sua casa com rígida pontualidade: coquetéis as oito, jantar precisamente às nove. E ainda precisavam praticamente atravessar Roma e depois percorrer a região do campo até o Palazzo Sant'Angelo, aonde a princesa conduzia o cortejo usando vestidos de baile antigos, embora surpreendentemente lindos, e brandindo sua bengala de ébano com castão de ouro.

Impaciente, Isabella viu-se de relance no espelho sobre a mesa francesa de entalhes primorosos e perguntou a si mesma se deveria ter feito algo diferente com os cabelos. Examinou sua imagem com desânimo. Simples demais, severa demais. Erguera os cabelos para o alto da cabeça num coque bem natural, de forma a não depreciar o colar e os brincos iguais que Amadeo mandara fazer. As esmeraldas eram belas e seu vestido exatamente no mesmo tom de verde. Era da sua própria coleção daquele ano, um tubinho longo de cetim verde que parecia cair diretamente dos ombros até o chão. Usaria por cima o casaco de cetim branco, que criara para o vestido, de gola estreita e bem ajustada e punhos largos, forrados de seda num tom fúcsia fora do comum. Mas talvez fosse requintado demais ou o cabelo estivesse simples demais ou... Droga, onde estaria Amadeo? E por que estava atrasado? Consultou o relógio outra vez e começou a franzir os lábios ao ouvir um suave sussurro ofegante que vinha da porta. Surpresa virou-se e viu-se olhando fixamente para os olhos escuros e arregalados de Alessandro, de pantufas, escondendo-se atrás da porta da sala de estar.

─ Psiu... Mamma... Vem cá.

─ Mas o que está fazendo?

No mesmo instante aderiu ao tom conspirador, com um largo sorriso dominando seu rosto.

─ Fugi dela!

Seus olhos estavam faiscantes, com a mesma chama dos olhos da mãe.

─ De quem?

─ Mamma Teresa! ─ Maria Teresa, é claro. A babá.

─ Por que não está dormindo? ─ Ela já estava ao lado do filho, ajoelhando-se cuidadosamente com os saltos altos. ─ É muito tarde.

─ Eu sei! ─ Uma risadinha de puro contentamento de uma criança de cinco anos. ─ Mas eu queria ver você. Veja o que ganhei de Luisa!

Mostrou a mão cheia de biscoitos, ofertados amorosamente pela cozinheira, as migalhas esmagadas já escapando pelos dedos roliços. Os farelos de chocolate não passavam de uma pasta marrom em sua mão.

─ Quer um?

Ele meteu um biscoito na boca antes de estender a mão.

─ Você devia estar na cama! ─ Ela ainda sussurrava, contendo o riso.

─ Está bem, está bem. ─ Alessandro devorou outro biscoito antes que a mãe tivesse oportunidade de recusar. ─ Você me leva para a cama?

Ele lançou-lhe um olhar que lhe derreteu a alma e, cheia de felicidade, ela assentiu com a cabeça. Essa era a razão por que Isabella não trabalhava mais onze horas por dia no escritório, não importa quanto lamentava, às vezes, por não passar todo momento possível ao lado de Amadeo. Isto valia a pena. Aquele olhar e aquele brilhante sorriso maroto.

─ Onde está papai?

─ A caminho de casa, espero. Vamos.

Alessandro introduziu cuidadosamente a mão limpa na dela e dirigiram-se ao vestíbulo revestido de parquete e suavemente iluminado. Aqui e ali se viam retratos dos ancestrais de Amadeo e alguns quadros comprados por ambos na França. A casa dava mais a impressão de um palácio do que de uma villa e, ocasionalmente, quando ofereciam suas magníficas festas, os casais valsavam lentamente pelo longo vestíbulo revestido de espelhos, aos acordes de uma orquestra.

─ O que faremos se mamma Teresa nos encontrar aqui?

Alessandro ergueu os olhos para a mãe, aqueles olhos castanhos, enternecedores.

─ Não tenho idéia. Acha que ajudaria se a gente gritasse?

Ele assentiu sério com a cabeça, depois deu uma risadinha, escondendo a boca com a mão cheia de farelos.

─ Você é esperta.

─ Você também. Como escapuliu do seu quarto?

─ Pela porta do jardim. Luisa disse que ia fazer biscoitos esta noite.

O quarto de Alessandro estava decorado com brilhantes tons de azul e repleto de livros, jogos e brinquedos. Ao contrário do resto da casa, não era nem elegante nem suntuoso, apenas o quarto dele. Isabella deixou escapar um longo e significativo suspiro enquanto o levava para a cama e sorria novamente para ele.

─ Conseguimos.

Contudo, foi mais do que Alessandro pôde agüentar. Desabou na cama com um pequeno grito de alegria, retirando do bolso o resto dos biscoitos ─ na mão ele apenas carregara o excesso. Passou a devorá-los enquanto Isabella insistia em aconchegá-lo debaixo das cobertas.

─ E não faça muita sujeira.

Mas era um aviso inútil e, na verdade, ela não se importava. Meninos eram assim mesmo: farelos de biscoitos, rodas de carros quebradas, soldadinhos sem cabeça e manchas pelas paredes. Ela gostava que fosse dessa maneira. O resto da sua vida era requintado demais. Gostava dos mínimos e significativos momentos que passava com o filho e tudo que envolvia esses momentos.

─ Promete que dormirá assim que terminar de comer os biscoitos?

─ Prometo! ─ Olhava para ela com ar sério e com os olhos cheios de admiração. ─ Tu sei bella.

─ Obrigada. Você também é. Buona notte, tesoro. Durma bem.

Beijou-o no rosto e no pescoço. Ele deu uma risadinha.

─ Amo você, mamma.

─ Também amo você.

Ao voltar para o vestíbulo, ela sentiu os olhos se encherem de lágrimas e achou-se uma tola. Que se dane a princesa de Sant'Angelo. De repente, sentiu-se contente pelo atraso de Amadeo. Mas, meu bom Deus, que horas deviam ser agora? Seus saltos altos batiam rapidamente enquanto se dirigia às pressas para a sala de estar, a fim de consultar de novo o relógio. Eram 20:25. Como era possível? O que estava acontecendo? Mas sabia muito bem o que provavelmente acontecia. Um problema de última hora, um telefonema urgente de Paris, de Hong Kong ou dos Estados Unidos. Um tecido que não podia ser entregue, uma tecelagem em greve. Sabia muito bem como era comum um atraso desses. Uma crise semelhante a mantivera afastada de Alessandro todas as noites durante um período longo demais.

Com o smoking de Amadeo no braço, Isabella decidiu que talvez fosse aconselhável telefonar para ele, encontrá-lo no escritório. Encaminhou-se para o seu pequeno boudoir, todo decorado com seda cor-de-rosa, e pegou no telefone. Os números faziam parte dos seus dedos, de sua alma, bem como de sua mente. Uma secretária exausta atendeu:

─ Alô. San Gregorio.

─ Buona sera.

Isabella identificou-se rapidamente e sem necessidade, pedindo à moça que localizasse Amadeo para que ele atendesse ao telefone. Houve uma pausa, depois uma rápida desculpa pela demora, a seguir outra pausa, enquanto Isabella batia o pé e começava a franzir a testa. Talvez estivesse acontecendo alguma coisa. Talvez ele tivesse batido com aquele seu maldito carro super veloz. De repente, começou a sentir muito calor naquele vestido pesado de cetim verde, achou que o coração parecia prestes a parar. Foi então que Bernardo atendeu.

─ Oi, o que há?

─ Onde está Amadeo, droga? Ele está quase duas horas atrasado. Prometeu que chegaria cedo esta noite. Temos um jantar na casa da gárgula.

─ Sant'Angelo? ─ Bernardo a conhecia bem.

─ Quem mais? A propósito, onde ele está?

─ Não sei. Pensei que estivesse com você.

As palavras lhe escaparam rápido demais. Ele franziu as sobrancelhas, formando um vinco na testa.

─ O quê? Ele não está aí?

Pela primeira vez Isabella ficou assustada. Talvez tivesse realmente acontecido alguma coisa com ele e o carro.

Mas Bernardo foi rápido na resposta e não havia nada de extraordinário em seu tom firme de voz.

─ Na certa está aqui em algum lugar. Estive ocupadíssimo com aquele maldito sabonete de que você não gostou. Não estive no gabinete dele desde a hora do almoço.

─ Bem, tente encontrá-lo e diga-lhe para me telefonar. Quero saber se devo ir ao encontro dele no escritório, ou se ainda quer vir em casa para mudar de roupa. Aquela bruxa velha na certa vai nos matar. Jamais chegaremos a tempo para o jantar.

─ Vou verificar.

─ Obrigada. E... Bernardo? Acha que pode ter acontecido alguma coisa?

─ É claro que não. Num minuto localizo Amadeo para você. ─ Sem dizer mais nada, ele desligou.

Inquieta, Isabella ficou olhando fixamente para o aparelho.

Suas palavras ficaram soando nos ouvidos de Bernardo... Poderia ter acontecido alguma coisa. Acontecido alguma coisa… Foi exatamente o que ele pensou. Ele mesmo tentara localizar Amadeo a tarde toda para discutir uma nova possibilidade para o malfadado sabonete. Precisariam de mais dinheiro para os testes, muito dinheiro mesmo, e tinham necessidade da aprovação de Amadeo. Mas Amadeo estivera ausente O dia todo. Desde a hora do almoço.

Bernardo consolara-se com a idéia de que Isabella e Amadeo deviam ter desaparecido para uma tarde de amor. Faziam isso com freqüência, como só ele sabia. Mas se Amadeo não estava com ela, então onde estava? Sozinho? Com outra pessoa? Com outra mulher? Bernardo afastou essa idéia. Amadeo não enganava Isabella. Nunca enganara. Mas então onde estava? E onde estivera desde o meio-dia?

Bernardo começou a vasculhar os escritórios, procurando nos quatro andares. Tudo que pôde descobrir foi uma jovem e trêmula secretária, ainda em sua mesa, martelando na máquina de escrever, que explicou que dois homens procuraram Amadeo para explicar que, acidentalmente, tinham amassado o carro dele. O signore San Gregorio saíra então, explicou ela. Bernardo sentiu-se empalidecer enquanto precipitava-se para a rua e entrava nervoso no próprio carro. Enquanto engrenava o Fiat e afastava-se, viu a Ferrari no mesmo lugar onde o vira pela manhã, em seu espaço de estacionamento junto ao meio-fio. Diminuiu a marcha por um momento ao passar pelo carro. O automóvel não sofrera dano algum. Não fora tocado. Seu coração começou a disparar. Dirigiu-se o mais rápido possível para a casa de Isabella e Amadeo.

Conforme prometera, obviamente Bernardo o encontrara. Isabella sorriu ao precipitar-se pela sala de estar em direção ao boudoir para atender ao telefone. Idiota! Ele provavelmente esquecera-se da principessa e do seu jantar, bem como da hora. Ela o faria passar um mau pedaço. Mas sem muita convicção. Praticamente era capaz de tanto fazer Amadeo passar um mau pedaço quanto de proibir Alessandro de comer seus biscoitos de chocolate. A visão do seu sorriso nos lábios carnudos, cobertos de farelos, voltou à sua mente enquanto pegava no telefone.

─ Ora, ora, querido. Um pouquinho atrasado para chegar em casa esta noite, não é? E que diabos faremos quanto à principessa?

Já estava sorrindo, falando antes mesmo de aguardar por uma palavra. Sabia que devia ser Amadeo. Mas não era. Era um homem estranho.

─ Pronto, signora. Não sei o que farão quanto à principessa. A questão é o que faremos quanto ao seu marido...

─ O quê? Deus do céu!

Telefonema de um maníaco. Só lhe faltava essa. E, num breve espaço de tempo, sentiu-se uma idiota. Um admirador secreto, talvez? Apesar do número do seu telefone não constar da lista, de vez em quando alguém ligava.

─ Lamento. Acho que discou o número errado. Estava a ponto de desligar quando ouviu a voz de novo. Desta vez soava mais áspera.

─ Espere! Signora di San Gregorio, creio que seu marido está desaparecido. Não é mesmo?

─ Claro que não! ─ O coração dela havia disparado. Quem era esse homem?

─ Ele está atrasado. Certo?

─ Quem está falando?

─ Isso não interessa. Estamos com seu marido. Aqui...

Ouviu-se um nítido grunhido, como se alguém tivesse levado um empurrão com violência ou um soco; depois, Amadeo apareceu na linha.

─ Querida, não entre em pânico. ─ Mas sua voz parecia cansada, fraca.

─ O que é isso? Algum tipo de brincadeira?

─ Não é uma brincadeira. De jeito nenhum.

─ Onde você está?

Ela mal podia falar, dominada pelo pânico. Então Bernardo tinha razão!

─ Não sei. Não importa. Mantenha-se calma, só isso. E saiba... ─ Houve uma pausa dolorosamente sem fim. O corpo todo de Isabella começou a tremer violentamente, enquanto ela ainda agarrava-se ao telefone. ─...saiba que a amo.

Nesse instante, devem tê-lo afastado do aparelho, a voz do estranho reapareceu.

─ Satisfeita? Nós o temos. Quer realmente tê-lo de volta?

─ Quem é você? Algum louco?

─ Não. Apenas um ambicioso. ─ Houve uma risada dissonante ao mesmo tempo em que Isabella tentava, desesperadamente, manter-se firme ao telefone. ─ Queremos dez milhões de dólares. Se você o quiser de volta.

─ Você está louco. Não temos tanto dinheiro assim disponível. Ninguém tem.

─ Algumas pessoas têm. Vocês têm. Sua empresa tem. Arranje-o. Tem todo o fim de semana para consegui-lo enquanto tomamos conta do seu marido.

─ Não posso... pelo amor de Deus... ouça... por favor...

Mas ele já havia desligado, e Isabella ficou ali de pé em seu boudoir, destroçada pelos soluços. Amadeo! Eles estavam com Amadeo! Oh, Deus, eram loucos!

Isabella não ouviu a campainha da porta, nem a empregada correr para atendê-la, nem os passos rápidos de Bernardo em direção aos seus soluços.

─ O que há? ─ Ele olhava-a com horror, enquanto ela ainda estava dominada pela convulsão causada pelo que ouvira. ─ Isabella, diga-me, o que há? ─ Estaria Amadeo ferido? Morto?

Por um momento, ela não conseguiu falar; a seguir, sem compreender, ficou olhando para Bernardo fixamente, enquanto as lágrimas rolavam por suas faces. Sua voz não passava de um lamento patético quando finalmente falou:

─ Ele foi seqüestrado.

─ Oh, meu Deus!

 

Uma hora mais tarde, Isabella ainda se encontrava em seu boudoir, pálida e trêmula, agarrada à mão de Bernardo, quando receberam o segundo telefonema.

─ A propósito, signora, esquecemos de lhe avisar. Não chame os tiras. Saberemos, se chamar. E o mataremos. E, se não aparecer com o dinheiro, também o mataremos.

─ Mas não podem. Não há como...

─ Isso não interessa. Basta ficar longe dos tiras. Eles congelarão seu dinheiro assim que os bancos abrirem e, então, nem ele nem você valerão mais nada.

Telefonaram de novo, mas dessa vez Bernardo também ouviu a ligação. Depois do telefonema, ela ficou chorando novamente.

─ Isabella, devíamos ter chamado a polícia uma hora atrás.

─ Eu disse que não, que diabo! O homem tem razão. A polícia ficará nos vigiando o fim de semana todo e na segunda-feira, congelará tudo que temos para que não possamos pagar o resgate.

─ Seja como for, você não pode. Levaria um ano para liberar tal importância. E, além disso, o único que pode fazer isso é o próprio Amadeo, você sabe.

─ Pouco me importa. Nós conseguiremos. Temos de conseguir.

─ Não podemos. Precisamos chamar a polícia. Não há outro jeito. Se de fato querem esse dinheiro, você não o possui para lhes dar, Isabella. Não pode correr o risco de deixá-los zangados. Precisa encontrá-los primeiro.

Enquanto, num gesto de desespero, passava a mão pelo cabelo, Bernardo parecia tão pálido quanto Isabella.

─ Mas e se descobrirem? O homem disse...

─ Não farão nada. Temos de confiar em alguém. Pelo amor de Deus, neles é que não podemos confiar!

─ Mas talvez nos dêem tempo de levantar o dinheiro. Há pessoas que nos ajudarão. Podemos dar alguns telefonemas para os Estados Unidos.

─ Que se danem os Estados Unidos! Não podemos fazer isso. Você não pode lhes dar tempo. E quanto ao Amadeo, durante o tempo em que você ficar tentando arranjar o dinheiro?

O que estão fazendo com ele?

─ Oh, por Deus, Bernardo! Não consigo pensar...

A voz dela foi sumindo num gemido infantil, indistinto, no instante exato em que Bernardo a tomava em seus braços.

─ Por favor, deixe-me chamar a polícia.

Sua voz não passava de um sussurro. E a resposta dela foi apenas um consentimento com a cabeça. Mas a polícia chegou em quinze minutos. Pela porta dos fundos, usando roupas surradas, dando a impressão de amigos dos criados, com velhos chapéus nas mãos. Pelo menos se esforçaram para ocultar suas identidades, pensou Isabella, enquanto Bernardo os fazia entrar apressadamente. Talvez Bernardo estivesse certo, afinal.

─ Signora di San Gregorio?

O policial reconheceu-a imediatamente. Grudada em sua cadeira, Isabella parecia distante e magnificente, usando ainda o vestido de cetim verde e suas esmeraldas.

─ Eu mesma.

Sua voz quase não foi ouvida. Mais uma vez formaram-se lágrimas em seus olhos negros. Bernardo apertou sua mão com força.

─ Lamentamos muito. Sabemos o quanto deve estar sofrendo. Mas precisamos saber de tudo. Como, quando, quem o viu pela última vez, se houve ameaças anteriores, se há alguém na empresa ou em sua casa que a senhora possa ter razão para suspeitar... Ninguém deve ser poupado. Nada de bondade, nada de gentileza, nada de lealdade a velhos amigos. A vida do seu marido está em jogo. Deve nos ajudar.

Olharam com suspeita para Bernardo, que retribuiu o olhar tranqüilamente. Foi Isabella quem explicou que Bernardo insistira em chamar a polícia.

─ Mas eles disseram... disseram que se chamássemos... que... ─ Ela não pôde continuar.

─ Nós sabemos.

Fizeram um número interminável de perguntas a Bernardo e ficaram sentados pacientemente com Isabella durante duas horas de interrogatório insuportavelmente doloroso. Por volta da meia-noite, terminaram. Sabiam tudo que havia para ser dito. Demissões desagradáveis na empresa, intrigas e rivalidades, inimigos esquecidos e amigos ressentidos.

─ E não disseram nada sobre quando, onde ou como desejam o dinheiro?

Isabella sacudiu a cabeça com tristeza.

─ Desconfio que sejam amadores. Talvez amadores de sorte, contudo não são profissionais. O segundo telefonema, lembrando-a para não chamar a polícia, confirma isso. Os profissionais teriam avisado imediatamente ─ disse o policial mais velho, em tom sério.

─ Sei disso. Foi a razão pela qual não deixei o signore Franco chamá-los.

─ Foi sensata ao mudar de idéia – falou de novo o oficial encarregado, com tranqüilidade e grande consideração. Na força policial romana, era um especialista em seqüestro. E, lamentavelmente, adquirira uma experiência extraordinária nos últimos anos.

─ Nos será útil o fato de serem amadores?

Isabella olhou-o esperançosamente, rezando para que ele respondesse de imediato que sim.

─ Talvez. Esses amadores são muito perspicazes. E teremos de proceder de acordo. Confie em nós, signora. Afirmo-lhe… ─ Depois, lembrou-se de algo que ele próprio havia esquecido. ─ Ia a algum lugar esta noite? ─Tornou a olhar para as jóias e o vestido dela.

Isabella assentiu com a cabeça.

─ Íamos a um jantar... uma festa... Oh, que importa isso agora?

─ Tudo importa. Festa de quem?

Por um momento, Isabella quase sorriu.

─ Da principessa di Sant'Angelo. Fará perguntas a ela também? - Oh, Deus, a pobre gárgula!

─ Só se for necessário.

O inspetor sabia de quem se tratava. A viúva mais terrível de Roma.

─ Porém, no momento, o mais prudente será a senhora mesma não falar com ninguém. Não saia, não fale com amigos. Diga às pessoas que está doente. Mas atenda pessoalmente o telefone. Pode ser que os seqüestradores não estejam dispostos a falar com outra pessoa. Precisamos saber o resto de suas exigências o mais rápido possível. A senhora tem um menino, não tem? ─ Ela apenas concordou com a cabeça. ─ Ele também não deverá sair. A casa toda ficará cercada por guardas. Discretamente, sem a menor dúvida.

─ Devo também reter os criados em casa?

─ Não. ─ Ele sacudiu a cabeça com firmeza. ─ Não diga nada a eles. Talvez um deles acabe se denunciando. Deixe-os sair como de costume. Seguiremos todos.

─ Acha que pode ser um deles?

Isabella estava pálida, mas esperançosa. Não se importava de quem fosse, apenas que encontrassem Amadeo a tempo, antes que aqueles doidos fizessem alguma coisa, antes que eles... ela não conseguia pensar nas palavras. Não queria pensar nelas. Não podia acontecer. Não para Amadeo. Não para eles. As lágrimas tornaram a inundar seus olhos e o inspetor se virou para o outro lado.

─ Precisamos apenas nos certificar. E quanto à senhora, lamento, mas será uma hora muito difícil.

─ E quanto ao dinheiro?

Porém, assim que pronunciou essas palavras, ela arrependeu-se. A expressão do rosto do inspetor endureceu.

─ O que tem o dinheiro?

─ Devemos... devemos...

─ Todas as suas contas, particulares e comerciais, ficarão congeladas segunda-feira de manhã. Notificaremos seu banco momentos antes de abrirem.

─ Oh, meu Deus. ─ Por um instante ela olhou para Bernardo, cheia de terror, a seguir furiosa, tanto com ele quanto com o inspetor. ─ Como espera que prossigamos com a empresa?

─ A crédito. Por enquanto. ─ Também o rosto dele parecia ter congelado. ─ Estou certo de que a Casa de San Gregorio não terá problemas a respeito.

─ Então do que o senhor está certo, inspetor, e do que eu estou certa são duas coisas diferentes.

Ela levantou-se rapidamente, seus olhos faiscando com a própria luminosidade cheia de ira. Pouco se importava com o dinheiro destinado à empresa. Ela só queria saber que podia botar a mão nele se fosse obrigada, para Amadeo, caso as idéias dos policiais provassem ser insuficientes. Malditos policiais, maldito Bernardo, maldito...

─ Vamos deixá-la para que durma um pouco.

Pela primeira vez, Isabella tinha vontade de gritar "foda-se" bem alto para o inspetor, mas não o fez. Apenas cerrou os dentes e apertou as mãos. Um momento depois, eles tinham ido embora e ela ficou sozinha com Bernardo na sala.

─ Viu? Diabo que te carregue! Viu só? Eu disse que fariam isso. O que faremos agora?

─ Esperar. Deixe que façam o trabalho deles. Rezemos.

─ Será que não compreende? Eles estão com Amadeo. Se não arranjarmos os dez milhões de dólares matarão Amadeo! Isso ainda não entrou na sua cabeça?

Por uma fração de segundo ela pensou que ia esbofeteá-lo, mas a expressão dele dizia que ela já o havia feito. Isabella esbravejou, enfureceu-se, chorou. E, naquela noite, ele dormiu no quarto de hóspedes. Mas também não havia nada que pudessem fazer. Não num fim de semana, e não com as contas congeladas; e provavelmente nada poderiam fazer, mesmo se não estivessem.

Naquela noite ela não deitou. Ficou sentada, aguardou, chorou, sonhou. Quis quebrar tudo que havia na villa, quis embrulhar tudo e dar de presente... qualquer coisa... qualquer coisa... contanto que o mandassem para casa... por favor...

Tiveram de aguardar mais 24 horas até o telefonema seguinte. Nesse havia mais uma particularidade. Queriam os dez milhões na terça-feira e estavam na noite de sábado. Ela procurou chamá-los à razão, que estavam num fim de semana, que era impossível reunir o dinheiro quando os bancos, os escritórios e a própria empresa deles estavam fechados. Pouco se importaram. Terça-feira. Imaginavam que lhe davam muito tempo. Avisariam quanto ao local depois. E, dessa vez, não deixaram Amadeo vir ao telefone.

─ Como posso saber se ele ainda está vivo?

─ Não pode. Mas ele está. E ficará, se você, por estupidez, não estragar tudo. Enquanto não chamar os tiras e aparecer com o dinheiro, ele estará ótimo. Ligaremos para você. Ciao, signora.

─ Ora, Deus... e agora?

Na manhã de domingo Isabella parecia um fantasma, os olhos rodeados por olheiras fundas, o rosto mortalmente pálido. Numa tentativa de manter uma aparência de normalidade, Bernardo ia e vinha e pedia notícias de Amadeo. Era fácil acreditar na história de que Isabella estava doente. Ela realmente dava essa impressão. Mas nenhum dos criados deixou escapar nada. Ninguém parecia saber a verdade. E a polícia não descobrira nada. No domingo à noite Isabella tinha certeza de que ia enlouquecer.

─ Não posso, Bernardo, não posso mais. Eles não estão fazendo nada. Tem que haver outro jeito.

─ Como? Aparentemente, até minha conta pessoal ficará congelada. Amanhã vou pedir à minha mãe dinheiro emprestado. A policia me disse que nem posso descontar um cheque no meu banco.

─ Vão congelar sua conta também? ─ Ele assentiu com a cabeça, em silêncio. ─ Droga!

Mas havia uma coisa que eles não poderiam congelar na segunda-feira. Uma coisa na qual não poderiam tocar. Ela ficou acordada em seu quarto durante a noite toda de domingo, contando, calculando, imaginando e, pela manhã, foi até o cofre. Talvez não tivesse dez milhões, mas um milhão. Ou até mesmo dois. Apanhou as duas caixas compridas de veludo verde, onde guardava suas jóias, e levou-as para o quarto, trancou a porta e espalhou tudo sobre a cama. As esmeraldas, o novo anel de diamantes de dez quilates dado por Amadeo, um colar de rubi que detestava devido à sua extravagância, suas pérolas, o anel de noivado com uma safira que Amadeo lhe dera há quase onze anos, o bracelete de diamantes da mãe, as pérolas da avó. Fez um inventário cuidadoso e dobrou calmamente a lista. Depois tirou o conteúdo das caixas e colocou-o num grande lenço Gucci de pescoço e enfiou a trouxa pesada numa grande e velha sacola marrom de couro. A sacola quase lhe deslocou o ombro quando a colocou a tiracolo, mas não se importou.

Para o inferno a polícia, ela e sua vigilância eterna, sua verificação e sua idéia de esperar para ver. Um homem em que sabia que podia confiar era Alfredo Paccioli. Durante anos, tanto a família dela quanto a de Amadeo fizeram negócios com ele. Paccioli comprava e vendia jóias para reis e príncipes, estadistas e viúvas, e todos os grandes e os quase grandes de Roma. Ele sempre fora seu amigo.

Isabella vestiu-se em silêncio, colocando calças compridas e um velho suéter de cashmere; chegou a pegar a jaqueta de vison, mas desistiu. Preferiu uma velha jaqueta de camurça e, para a cabeça, usou uma echarpe. Mal se parecia com a Isabella di San Gregorio. Ficou sentada em silêncio por um momento, pensando, imaginando como chegar lá, apesar da vigilância dos guardas. Em seguida, achou que não importava. Não tinha que se esconder deles. Tudo que precisava era obter o dinheiro. E era importante que ninguém a reconhecesse quando estivesse dentro da joalheria.

Chamou por Enzo em seu apartamento sobre a garagem e disse-lhe que o queria na porta dos fundos dentro de dez minutos. Gostaria de dar um pequeno passeio. Dez minutos mais tarde, ele aguardava com o carro, conforme ela mandara e, furtivamente, Isabella saiu de casa. Não queria que Alessandro a visse, não queria responder às indagações contidas em seus olhos. Dissera-lhe que nesses últimos quatro dias estava doente e não desejara transmitir-lhe a doença, assim ele teria que se ocupar e brincar com mamma Teresa, sua babá, em seu quarto ou ao lar livre. Papai estava viajando; para a escola telefonaram dizendo que todos estavam em férias. Graças a Deus que ele só tinha cinco anos. Mas, ao sair, conseguiu evitá-lo mais uma vez e ficou de súbito grata pela rotina movimentada que Maria Teresa usava para a criança. Naquele momento ela não poderia ocupar-se do filho, não poderia encará-lo sem apertá-lo estreitamente nos braços e romper num pranto violento e assustado.

─ Va meglio, signora?- Enzo olhou-a pensativo pelo espelho retrovisor enquanto se afastavam. Isabella apenas acenou com a cabeça no momento em que sua escolta policial disfarçada afastava-se discretamente do meio-fio.

─ Si.

Deu-lhe o endereço da loja ao lado da de Paccioli, não muito longe da sua própria casa de modas, e resolveu que não se importaria se Enzo soubesse por que estava indo àquele endereço. Se ele fosse um dos conspiradores, então era melhor que soubesse que ela estava esforçando-se ao máximo. Os sacanas. Não restava um em quem pudesse confiar. Não agora. E talvez nunca mais. E Bernardo, aquele maldito, como pudera estar tão certo? Reprimiu as lágrimas enquanto dirigiam-se para o endereço dado. A corrida levou menos de quinze minutos, e ela fez uma ligeira encenação parando brevemente em duas boutiques antes de desaparecer depressa no interior da loja de Paccioli. Como a Casa de San Gregorio, tinha uma fachada discreta, neste caso apresentada apenas pelo endereço. Ela entrou no silencioso recinto bege e falou com uma jovem sentada numa grande escrivaninha Luís XV.

─ Quero ver o signore Paccioli.

Mesmo envolta numa echarpe e sem maquiagem, era difícil despojar-se do seu tom autoritário. Mas a jovem não ficou impressionada.

─ Lamento muitíssimo, mas o sr. Paccioli está numa reunião. Com clientes de Nova York.

Ergueu os olhos como se esperasse que Isabella compreendesse. Mas não foi bem sucedida. E a obscura saca de couro marrom no ombro de Isabella a incomodava extremamente.

─ Não importa. Diga a ele que é... Isabella.

A mulher hesitou, mas desta vez apenas por um momento.

─ Muito bem.

Havia algo desesperado nessa mulher, algo assustador em seu olhar alucinado enquanto mudava a sacola de lugar em seu ombro. Durante um momento insano, a jovem rezou para que a desconhecida, estranhamente mal vestida, não estivesse carregando uma arma. Porém, nesse caso, havia mais motivo ainda para tirar o sr. Paccioli da reunião. Encaminhou-se para um longo e estreito corredor, deixando Isabella sozinha, com dois guardas uniformizados de azul. E voltou em menos de um minuto, com Alfredo Paccioli andando apressado ao seu lado. Tinha sessenta e poucos anos, era quase careca, com uma delicada orla de cabelos brancos que combinavam com seu bigode e acentuavam, de certa forma, seus risonhos olhos azuis.

─ Isabella, cara, come stai? Em busca de alguma coisa para apresentar com as coleções?

Mas ela apenas sacudiu a cabeça.

─ Posso falar com você por um instante?

─ Naturalmente.

Ele olhou-a mais de perto e não gostou do que viu. Algo terrivelmente estranho se passava com ela. Como se Isabella estivesse muito doente ou, talvez, um pouquinho louca. O que ela fez um momento depois quase confirmou essa opinião, ao abrir silenciosamente a sacola marrom com um puxão e retirar a trouxa formada pelo lenço de seda, espalhando seu conteúdo sobre a mesa dele.

─ Quero vender isto. Tudo!

Então ela enlouquecera mesmo? Ou seria uma briga com Amadeo? Alguma infidelidade da parte dele? Por Deus, o que estava acontecendo?

─ Isabella... querida... não pode estar falando sério. Mas esta... esta peça tem estado com sua família há anos. – Olhava horrorizado para as esmeraldas, os diamantes, os rubis, o anel e vendera para Amadeo apenas alguns meses antes.

─ Preciso vender. Não me pergunte o motivo. Por favor, Alfredo, preciso de você. Apenas compre isto.

─ Está falando sério? ─ A empresa deles teria ficado em dificuldades de repente?

─ Absolutamente sério.

Ele notava agora que ela não estava doente nem louca, mas que algo acontecia, algo muito sério, desesperadamente ruim.

─ Talvez leve um pouco de tempo. ─ Ele passou os dedos afetuosamente pelas belas peças, pensando em encontrar um comprador para a uma. Mas não era uma tarefa que sentisse prazer em executar. Era o mesmo que vender a família ou um filho em leilão. ─ Não há mesmo outro jeito?

─ Nenhum. E, na verdade, não tenho tempo. Pague o que puder por elas agora. Você mesmo. E não fale com ninguém a respeito. Ninguém. É uma questão de... é... oh, Deus, Alfredo, por favor. Precisa me ajudar.

De repente, os olhos de Isabella encheram-se de lágrimas e ele estendeu a mão enquanto seus olhos questionavam os dela.

─ Tenho até medo de perguntar.

Algo parecido já havia acontecido duas vezes antes. Uma vez, há um ano. E a segunda vez apenas há uma semana atrás. Fora horrível... terrível... e inútil.

─ Não pergunte. Não posso responder. Apenas me ajude. Por favor.

         ─ Certo. Certo. De quanto precisa?

─ Oh, Deus. Dez milhões de dólares. Você não pode me dar a quantia de que preciso. Apenas me dê o que puder. Em dinheiro.

Ele olhou, aturdido; em seguida, assentiu com a cabeça.

─ Posso lhe dar ─ fez um cálculo rápido do dinheiro que tinha disponível na hora ─ talvez duzentos mil hoje. E talvez a mesma importância dentro de uma semana.

─ Não pode me dar tudo hoje?

Parecia desesperada outra vez e, por um instante, ele achou que ela fosse desmaiar sobre sua mesa.

─ Não posso, Isabella. Acabamos de fazer uma compra enorme no Extremo Oriente. No momento, todos os nossos bens disponíveis são em pedras. E, obviamente, não é o que você deseja.

Olhou para o pequeno monte de diamantes, em seguida novamente para os olhos dela, com uma idéia. De súbito sentia-se assustado tanto quanto ela. O desespero de Isabella contagiava.

─ Pode esperar um minuto, enquanto dou alguns telefonemas?

─ Para quem?

─ No mesmo instante, os olhos de Isabella encheram-se de terror, e ele viu que as mãos dela tremiam de novo.

─ Confie em mim. Telefonemas para alguns colegas, alguns amigos. Talvez possamos levantar mais algum dinheiro. E... IsabeIla.... ─ Hesitou, mas achou que tinha entendido. ─       Tem de ser... dinheiro?

─ Tem.

Então ele estava certo. Agora as mãos dele também tremiam.

─ Farei o que puder.

Sentou-se ao lado dela, pegou o telefone e ligou para cinco ou seis amigos. Joalheiros, peleteiros, um banqueiro de reputação um tanto duvidosa, um jogador profissional que tinha sido freguês e que se tornara amigo. Com eles, Alfredo conseguiu levantar mais trezentos mil em dinheiro.

Ele disse a ela e Isabella confirmou com a cabeça. Essa soma completaria o total de quinhentos mil. Meio milhão de dólares. Um vigésimo do que eles queriam. Cinco por cento. Os olhos dele procuravam os de Isabella com uma expressão penalizada.

─ Isso não vai ajudar? ─ Viu-se rezando para que ajudasse.

─ Terá de ajudar. Como apanho o dinheiro?

─ Mandarei imediatamente um mensageiro. Pegarei o que acho que precisaremos em jóias para os outros joalheiros.

Sem paixão, ela ficou observando enquanto ele apanhava algumas peças. Quando Paccioli pegou o anel de diamante, ela mordeu o lábio para reprimir as, lágrimas. Nada importava, só Amadeo.

─ Isto deve bastar. Devo ter o dinheiro aqui em uma hora. Pode esperar?

Ela apenas assentiu com a cabeça.

─ Mande seu mensageiro sair pela porta dos fundos.

─ Estou sendo vigiado?

─ Não. Eu é que estou. Mas meu carro está aí em frente, e eles podem estar observando quem sai daqui.

Alfredo não fez mais perguntas. Não era preciso.

─ Gostaria de um pouco de café enquanto espera?

Ela apenas sacudiu a cabeça, e ele deixou-a depois de bater-lhe afetuosamente no braço. Sentia-se totalmente inútil, e de fato era. Ela ficou sentada em um silêncio solitário pouco mais de uma hora, aguardando, pensando, tentando não deixar sua mente retroceder para os momentos de ternos arroubos que ambos tinham compartilhado. Ficou recordando-se dos primeiros e dos últimos tempos, dos tempos alegres, de vê-lo com Alessandro pequenino em seus braços pela primeira vez; do lançamento da sua primeira coleção que apresentaram com excessiva coragem e prazer; da lua-de-mel; das primeiras férias; da primeira casa; da primeira vez que fizeram amor, e da última vez, apenas quatro dias atrás... Lembranças que lhe despedaçavam o coração de tal modo que não conseguia suportar. Os momentos, as vozes e os rostos apinhavam-se em sua cabeça ao mesmo tempo em que ela tentava afastá-los, ao mesmo tempo em que sentia o pânico dominar-lhe a alma. Foi uma hora sem fim até que Alfredo Paccioli acabou voltando. A quantia exata estava num envelope comprido, pardo. Quinhentos mil dólares em dinheiro.

─ Obrigada, Alfredo. Ficarei grata a você até o fim da minha vida.

E de Amadeo. Não eram os dez milhões. Mas era um começo. Se a polícia estivesse certa, se os raptores fossem, de fato, amadores, talvez até meio milhão servisse para eles. Teria de servir. Era tudo que tinha, agora que as contas estavam congeladas.

─ Isabella... posso... posso fazer alguma coisa?

Silenciosamente, ela sacudiu a cabeça, abriu a porta e saiu, passando rápido pela jovem na entrada, que alegremente cumprimentou-a. Ao ouvi-la, Isabella parou.

─ O que disse?

─ Eu disse bom dia, sra. di San Gregorio. Ouvi o sr. Paccioli mencionar coleções e percebi que era a senhora... desculpe... não a reconheci a princípio... eu...

─ Você não reconheceu. ─ Isabella virou-se para ela, furiosa. ─ Você não me reconheceu porque nunca estive aqui. Compreendeu?

─ Compreendi... sim... desculpe...

Santo Deus, a mulher era realmente maluca. Mas havia algo mais naquela criatura também... Algo... a sacola... agora não parecia tão pesada; pendurou-a no ombro como se de repente estivesse leve. O que a mulher trouxera ali que tinha sido tão importante e tão pesado?

─ Entendeu o que eu disse? ─ Isabella ainda olhava fixamente para a recepcionista, a exaustão de três noites insones fazendo-a realmente parecer doida. ─ Porque, se não entendeu, e contar a alguém, se contar que estive aqui, será despedida. Permanentemente. Cuidarei disso.

─ Entendi.

Então ela estava vendendo suas jóias. A rameira. Educadamente, a jovem assentiu com a cabeça enquanto Isabella precipitava-se em direção à porta.

Isabella ordenou a Enzo que a levasse diretamente para a villa. Durante horas ficou aguardando, sentada ao lado do telefone. Sempre imóvel. Ficou sentada ali no quarto, com a porta trancada. Uma indagação de Louis a respeito do almoço resultou apenas num simples não. A vigília prosseguia. Eles tinham que telefonar. Era segunda-feira. Queriam o dinheiro para o dia seguinte... Teriam de dizer onde deixar o dinheiro e a que horas exatamente.

Porém, por volta das sete horas da noite daquele mesmo dia, eles ainda não tinham telefonado. Ela ouvira Alessandro fazer algazarra nos corredores e a voz de mamma Teresa chamando-lhe atenção, fazendo-o lembrar-se de que sua mãe estava resfriada. Em seguida, tudo silenciou outra vez, até que, finalmente, ouviu-se uma batida violenta na porta.

─ Deixe-me entrar. ─ Era Bernardo.

─ Deixe-me em paz.

Ela não o queria no quarto, caso telefonassem. Ela nada lhe revelara sobre as jóias. Provavelmente ele contaria à polícia. Ela já tolerara aquela tolice o suficiente. Agora cuidaria sozinha do assunto. Poderia prometer-lhes um milhão de dólares, metade amanhã e a outra metade na próxima semana.

─ Isabella, preciso falar com você. Por favor.

─ Estou ocupada.

─ Não interessa. Por favor. Preciso... há uma coisa que eu… tenho de mostrar a você. ─ Por um momento, ela percebeu a voz dele falhar. Então, disse: ─ -- Passe por debaixo da porta.

Era o jornal da tarde. Página cinco. Isabella di San Gregório foi vista hoje na Paccioli... Descreviam o que ela usara, como estava, e praticamente cada item. Mas como? Quem? Alfredo? E, então, ela compreendeu. A recepcionista. A rameirinha impaciente na entrada. Isabella sentiu o coração parar ao abrir a porta. Bernardo estava ali de pé, chorando em silêncio, olhando para o chão.

─ Porque fez isso?

─ Eu tinha de fazer.

Mas, de repente, sua voz tornou-se apática. Se saíra nos jornais, então os seqüestradores também saberiam. E saberiam mais: que se ela estava vendendo as jóias, provavelmente suas contas haviam sido congeladas. Saberiam que ela falara com a polícia. ─ Oh, não!

Não disseram mais nada um para o outro. Bernardo apenas entrou no quarto e, em silêncio, ocupou seu lugar ao lado do telefone. O chamado ocorreu às nove. Era a mesma voz, o mesmo homem.

─ Capito, signora. Então, deu com a língua nos dentes.

─ Não dei, juro. ─ Mas sua voz tinha aquele timbre excitado da mentira. ─ Mas eu tinha de obter mais dinheiro. Não poderíamos conseguir o suficiente.

─ Você jamais conseguirá o suficiente. Mesmo se não tivesse falado com os tiras, agora eles saberiam. Vão começar a bisbilhotar por aí. Se não contou, alguém vai contar a eles.

─ Mas ninguém mais sabe.

─ Besteira. Que espécie de idiotas pensa que somos? Escute, quer dizer adeus ao seu marido?

─ Não, por favor... espere... Tenho dinheiro para vocês. Um milhão...

Mas ele não estava ouvindo, e Amadeo já se achava no aparelho.

─ Isabella... querida... está tudo bem.

Está tudo bem? Ele enlouquecera? Mas ela não se importava se ele tivesse enlouquecido. Nunca lhe parecera tão sincero, e o coração de Isabella, que sempre fora fiel, chegou às alturas agora. Ele ainda estava lá, em algum lugar; não o tinham magoado. Talvez tudo pudesse ficar bem. Enquanto Amadeo ainda estivesse ali, em algum lugar, em qualquer lugar, estava tudo bem.

─ Você tem sido uma garota muito corajosa, querida. Como está Alessandro? Ele sabe?

─ Claro que não. E está ótimo.

─ Isso é bom. Beije-o por mim.

Ela achou ter ouvido a voz dele tremer, então fechou os olhos com força. Não podia chorar. Agora não. Tinha de ser corajosa como ele a imaginava. Tinha de ser. Por ele.

─ Quero que você... sempre... saiba quanto a amo ─ disse Amadeo. ─ O quanto é perfeita. Que ótima esposa. Jamais me deu um único dia de infelicidade, querida. Nenhum…

Ela agora chorava abertamente e reprimia com esforço os soluços que lhe embargavam a garganta.

─ Amadeo, querido, amo você. Tanto. Por favor... venha para casa.

─ Irei, querida. Irei. Prometo. E estou com você agora mesmo. Seja corajosa só mais um pouquinho.

─ Você também, meu querido. Você também.

Depois a ligação foi cortada sumariamente.

A polícia encontrou-o pela manhã, próximo a um armazém, em um subúrbio de Roma, estrangulado, ainda muito bonito, e absolutamente morto.

 

Os carros da polícia cercavam a limousine enquanto Enzo a dirigia lentamente para o centro de Roma. Isabella escolhera a igreja próxima à Casa de San Gregorío, perto da Piazza di Spagna. Santo Stefano. No começo do namoro, costumavam ir a essa igreja quando queriam parar em algum lugar para descansar por um momento, depois das longas caminhadas que davam na hora do almoço. Era antiga, simples e bonita e para ela parecia mais apropriada do que as catedrais mais aparatosas de Roma.

Bernardo ia ao seu lado no carro, enquanto Isabella olhava fixa para a frente, sem ver, fitando apenas a nuca de Enzo. Era ele? Era outra pessoa? Quem eram os traidores? Agora não importava. Amadeo se fora. Levando consigo o entusiasmo e o riso, o amor e os sonhos. Amadeo se fora. Para sempre. Ela ainda estava em estado de choque. Acontecera dois dias depois de sua visita a Alfredo Paccioli, quando ela fora carregando seu lenço cheio de jóias. Dois dias. Sentia-se deprimida, como se também ela tivesse morrido.

─ Isabella... bella mia.

Bernardo tocava em seu braço gentilmente. Pegou em sua mão em silêncio. Havia tão pouco que pudesse fazer! Ele havia chorado cerca de uma hora quando a polícia telefonara dando a notícia. E novamente quando Alessandro correra para seus braços.

─ Mataram meu papai... eles... eles...

A criança ficara soluçando enquanto Isabella permanecia ao lado, deixando-o buscar o conforto que pudesse de um homem. Agora ele não teria nenhum homem, estava sem pai, sem Amadeo. Ele fitara a mãe com grande terror em seus olhos escuros e infelizes.

─ Vão levar você também?

─ Não, ela respondera. Não, nunca. ─ Enquanto apertava-o estreitamente em seus braços. ─ E jamais levarão você tampouco, tesoro. Você é meu.

Fora mais do que Bernardo pôde suportar, e agora isto. Isabella, rígida e formal, em seu casaco, meias e chapéu pretos e um espesso véu. O luto apenas realçava sua beleza, só fazia aumentar seu encanto, em vez de diminuí-los. Ele lhe devolvera todas as jóias sem dizer uma palavra. Ela agora usava apenas a aliança e o grande solitário que ganhara como presente de aniversário, poucos meses antes. Isso era tudo? Fazia apenas cinco dias que o viram pela última vez? Ele realmente não voltaria mais? O próprio Bernardo sentira-se como uma criança de cinco anos ao olhar para o rosto de Amadeo di San Gregorio, tão quieto e calmo na morte. Mas do que nunca ele se parecia com as estátuas, as pinturas, os jovens graciosos da antiga Roma. E agora se fora.

Bernardo ajudou-a a descer discretamente do carro e segurou seu braço com firmeza. Entraram na igreja. Havia policiais e guarda-costas em todas as entradas, e hordas de pranteadores sentados no interior. A cerimônia fúnebre foi breve e insuportavelmente dolorosa. Isabella ficou em silêncio ao lado de Bernardo, as lágrimas rolando incontroláveis por suas faces, sob o véu preto. Empregados, amigos e parentes soluçavam sem reservas. Até a gárgula estava lá, com sua bengala de ébano com castão de ouro. O regresso para casa pareceu levar anos. Ao contrário da tradição, Isabella informara que não veria ninguém na villa. Ninguém. Queria ficar só. Quem haveria de saber qual deles o traíra? Mas Bernardo sabia agora que era improvável ser alguém do seu círculo de amizades. A própria policia não tinha nenhuma pista. Presumiam, talvez corretamente, que fora obra de "amadores de sorte", ávidos por um quinhão da fortuna de San Gregorio. Não havia impressões digitais, a mínima prova, nenhuma testemunha, e não ocorrera outro telefonema. E não ocorreria, a polícia tinha certeza. Exceto os telefonemas das centenas, talvez milhares de maníacos, que começariam com seus jogos macabros. A polícia colocara um dispositivo no telefone de Isabella, contando com a investida violenta dos malucos minoritários que tinham prazer em assombrar, escarnecer, provocar, confessar, ameaçar ou sussurrar obscenidades ao telefone. Preveniram Isabella do que a esperava. Bernardo encolheu-se ao pensar; ela já sofrera bastante.

─ Onde está Alessandro?

Depois da cerimônia fúnebre, Bernardo bebia uma xícara de café, pensando como a casa parecia insuportavelmente vazia. Envergonhou-se por achar-se grato pelo fato de que tivesse sido Amadeo e não a criança. Isabella não teria sido capaz de fazer essa escolha. Mas para Bernardo não havia dúvida. Como não teria havido para Amadeo. Ele teria se sacrificado de bom grado para poupar seu único filho.

─ Está no quarto dele com a babá. Quer vê-lo?

Isabella olhou-o tristemente sobre a borda da xícara.

─ Posso esperar. De qualquer modo, precisava falar com você a respeito de uma coisa.

─ O quê?

Não estava sendo fácil falar com ela ultimamente, e Isabella não permitiria que o médico lhe desse qualquer coisa para ajudar. Bernardo não se enganou ao calcular que ela ficara de fato sem dormir quase uma semana.

─ Acho que você precisa viajar.

─ Não seja ridículo. ─ Ela pousou a xícara sobre a mesa com violência e olhou para ele. ─ Estou ótima.

─ Parece ótima.

Ele retribuiu o olhar e, por um momento, Isabella cedeu ao vislumbre de um sorriso. Era a primeira amostra da velha tensão entre eles em uma semana. Parecia confortador e familiar.

─ Muito bem, estou cansada. Mas ficarei ótima.

─ Não ficará se permanecer aqui.

─ Engana-se. Este é o lugar onde preciso ficar. Perto das coisas dele, da casa dele... perto... dele...

─ Por que não faz uma viagem aos Estados Unidos?

─ Por que não cuida da sua própria vida? ─ Ela recostou-se na cadeira, com um suspiro. ─ Não vou, Bernardo. Não faça pressão sobre mim.

─ Você ouviu o que a polícia disse. Os maníacos vão ficar telefonando, atormentando você. A imprensa já não a está deixando em paz agora. É assim que deseja viver? O que deseja para Alessandro? Nem pode mandá-lo para a escola.

─ Ele pode voltar mais tarde para a escola.

─ Então viaje até ele poder voltar. Um mês. Alguns meses.

─ O que prende você aqui?

─ Tudo.

Olhou-o muito cautelosa, enquanto tirava lentamente o chapéu e afastava o véu dos olhos. Havia algo assustador e determinado no modo como o olhava agora.

─ O que significa isso?

─ Significa que volto para trabalhar na segunda-feira. Meio expediente, mas diariamente. Das nove à uma... Das nove às duas... O que for preciso.

─ Está brincando?

─ De modo algum.

─ Isabella. Não pode estar falando sério.

Ele estava chocado.

─ Posso e estou falando sério mesmo. Quem você acha que dirigirá a empresa agora... agora que... ele se foi?

Por um momento, ela titubeou ao pronunciar as palavras. Mas Bernardo empertigou-se assim que ela as pronunciou.

─ Pensei que eu pudesse.

Por um instante Bernardo pareceu magoado e muito irredutível. Ela olhou ao longe, em seguida tornou a olhar para ele.

─ Você poderia. Mas não posso fazer isso. Não posso me sentar aqui e abdicar. Não posso abrir mão do que Amadeo e eu compartilhamos, do que ele construiu, do que amávamos, do que fizemos. Ele se foi, Bernardo. Devo isso a ele. E a Alessandro. Um dia a empresa será dele. Você e eu teremos de ensinar a ele o que precisar saber. Você e eu. Os dois. Não posso fazer isso sentada aqui. Se o fizesse, poderia apenas contar-lhe como era vinte anos atrás "quando seu pai estava vivo". Devo a ele mais do que isso, e a Amadeo, e a você e a mim mesma. Vou voltar na segunda-feira.

         ─ Não estou dizendo que não deveria voltar. Só acho que é muito cedo.

Tentou parecer gentil, mas ele não era Amadeo. Não conseguiria tratá-la do modo gentil de Amadeo, só com exaltação.

Porém, desta vez, ela apenas sacudiu a cabeça e seus olhos se encheram de lágrimas novamente.

─ Não é não, Bernardo... não é muito cedo de modo algum. É muito... muito... muito tarde.

Ele pôs a mão sobre a dela e esperou até que Isabella tomasse fôlego.

─ O que eu faria aqui? Ficaria perambulando pela casa? Abrindo os armários dele? Sentando no jardim? À espera em meu boudoir? À espera do quê? De um homem... ─ Um soluço brotou dela enquanto permanecia sentada com as costas eretas, o rosto erguido bem alto. ─ ...um homem... a quem... amei... E que jamais... Voltará... Para casa. Preciso... Voltar a trabalhar. Preciso! Faz parte de mim, e fazia parte dele. Eu o encontrei no trabalho. Diariamente. De mil maneiras diferentes. Das maneiras que importavam mais. Eu apenas... Preciso. É só. Até Alessandro compreende. Falei com ele esta manhã. Ele compreende perfeitamente. ─ Pareceu orgulhosa por um instante. O filho era um excelente menino.

─ Então você o está deixando louco, igualzinho a você.

Mas Bernardo não quisera dizer isso de modo cruel, e Isabella apenas sorriu.

─ Talvez eu o deixe tão louco como eu, Bernardo. E tão adorável como o pai. Talvez o torne maravilhoso assim.

Em seguida levantou-se e, pela primeira vez em vários dias, ele viu um autêntico sorriso e apenas um vislumbre do que outrora tinha sido um brilho em seus olhos, outrora de apenas alguns dias, apenas alguns dias.

─ Preciso ficar sozinha agora. Por algum tempo.

─ Quando voltarei a vê-la?

Ele levantou-se, observando-a. Isabella ainda estava ali. Em algum lugar, dormindo, esperando, mas ela voltaria a viver outra vez. Ele estava certo disso. Havia muita vida nela para ser o contrário.

─ Você me verá na segunda-feira de manhã, é claro. Em meu escritório.

Ele apenas olhou-a em silêncio, depois saiu. Tinha muita coisa em mente.

 

Isabella di San Gregorio apareceu de fato no escritório na segunda-feira pela manhã, e todos os dias dali em diante. Ficava das nove às duas, causando estupefação, terror, admiração e respeito. Era tudo que Amadeo sempre imaginara dela. Era feita de fogo e aço, de emoção e garra. Agora usava o chapéu dele, bem como o seu também, e centenas de outros. Continuava a trabalhar com os documentos em casa, em seu quarto, à noite, muito depois de Alessandro ter ido dormir. Agora tinha dois interesses na vida: seu trabalho e o filho. E pouquíssima coisa mais. Estava tensa, cansada, deprimida, mas fazia o que dissera que ia fazer. Inclusive mandou Alessandro de volta para a escola, com um guarda-costas, com cautela, com preocupação, mas também com determinação. Ensinou o menino a ser orgulhoso, a não ter medo. Ensinou-o a ser corajoso, a não ter raiva. Ensinou-o tudo que ela própria era e ainda conseguiu dar-lhe algo mais. Paciência, amor, riso. E, às vezes, também choravam juntos. A perda de Amadeo custara a ambos quase tudo que tinham. Mas isso os aproximou mais, fortaleceu sua amizade.

O único cuja amizade se viu prejudicada foi Bernardo. Foi ele quem suportou o impacto do sofrimento, das ansiedades e da fadiga de Isabella. Apesar de Bernardo dirigir mais a empresa, tinha a impressão de que dirigia menos. Trabalhava com mais afinco, durante mais tempo, fazia mais trabalho, mesmo assim ela tentava ser tudo, a raiz, a essência, o coração e a alma da Casa de San Gregorio. A ele cabia o trabalho enfadonho. E a amargura. E a ira. O que transparecia entre eles em cada reunião. As brigas eram constantes, e Amadeo não estava mais ali para moderá-las. Ela tentava ser Amadeo bem como ela própria, e não compartilhava com ele como fizera com Amadeo. Ela ainda estava na chefia. Isso criou mais tensão do que nunca entre os dois. Mas, pelo menos, a empresa não sofrera com o golpe da morte de Amadeo. Um mês depois, os números permaneciam estáveis; dois meses depois, estavam melhores do que no ano anterior. Tudo melhorava, exceto o relacionamento entre Bernardo e Isabella; e a aparência de Isabella.

O telefone tocava constantemente, dia e noite, em casa e no escritório. Os maníacos apareceram, conforme o esperado. Ameaças, discussões, confissões, arengas, solidariedade e acusações, obscenidades e propostas indecorosas. Ela já não atendia mais o telefone. Três homens o atendiam 24 horas por dia na villa e outros três faziam o mesmo no escritório. Mas ainda nenhuma pista fora encontrada que identificasse os seqüestradores e agora estava claro que jamais seriam encontrados. Isabella compreendia. Tinha de compreender. Como também sabia que, no final, eles a deixariam em paz. Os fanáticos, os maníacos, os idiotas. Todos. Um dia. Ela esperaria. Mas Bernardo não concordava.

─ Você está doida. Não pode continuar vivendo dessa maneira. Já emagreceu nove quilos. Está praticamente esquelética.

Não falava a verdade, é claro; para ele, ela era sempre linda... mas ainda parecia doente.

─ Isso nada tem a ver com os telefonemas. Tem a ver com o que eu como ou não.

Ela tentou sorrir do outro lado da mesa, mas estava cansada demais para continuar discutindo. O que fizeram a manhã inteira.

─ Você está prejudicando o menino.

─ Pelo amor de Deus, Bernardo, não estou não!! - Lançou-lhe um olhar furioso. ─ Temos sete guarda-costas na casa. Um com Enzo no carro. Outro na escola. Não seja ridículo!

─ Espere, espere só, sua grande imbecil. Eu avisei vocês naquele dia, não avisei, sobre o modo como os dois viviam? Eu estava errado?

Foi um golpe cruel.

─ Saia da minha sala ─ gritou Isabella. ─ Saia da minha vida!

─ Va cagare!

Ele bateu a porta ao sair. Por um momento Isabella ficou aturdida demais para ir atrás dele e exigir desculpas; e sentia-se cansada demais até para tentar. Estava extremamente cansada de brigar com Bernardo; procurou recordar se sempre fora assim. Antes não chegava até ser engraçado? Já não chegaram às vezes a rir juntos? Ou apenas tinham rido quando Amadeo estava ali para convencê-los a abandonar as lutas? Já não conseguia lembrar-se mais. Não conseguia lembrar-se de coisa alguma, exceto das montanhas de papéis que tinha sobre a mesa... exceto à noite. Então, lembrava-se. Demais. Lembrava-se dos sons suaves de Amadeo dormindo na cama à noite e suas mãos sobre a carne tépida de suas coxas. Lembrava-se do modo como ele bocejava e espreguiçava-se ao acordar, a expressão dos seus olhos ao sorrir para ela por cima do jornal da manhã, do seu cheiro bom logo após ter feito a barba e tomado banho, o som de sua risada vibrando no corredor enquanto corria atrás de Alessandro, o modo como...

Todas as noites deitava-se com essas lembranças. Levava trabalho para casa, na esperança de deter as visões, esperando perder-se nos pedidos de tecido e detalhes da coleção, estatísticas, algarismos e investimentos. As noites ficavam longas demais depois que Alessandro ia para a cama.

Agora, sentada ali no escritório, fechou os olhos com força, procurando obrigar-se a voltar para o trabalho, mas ouviu uma batida suave na porta. Surpresa deu um pulo, relutante. Era na porta lateral que dava para o gabinete de Amadeo, a porta que ele sempre usara. Por um momento, sentiu-se trêmula. Ainda tinha aquela sensação louca de que ele ia voltar. Que tudo havia sido um pesadelo, uma terrível mentira, que uma noite dessas a Ferrari iria deslizar suavemente na entrada de cascalho, a porta iria bater e ele chamaria por ela: "Isabellezza! Cheguei!"

─ Quem é?

Ela olhou fixamente para a porta ao ouvir outra vez a batida.

─ Posso entrar?

Era apenas Bernardo, ainda parecendo constrangido.

─ É claro. O que está fazendo aí?

Ele estivera no gabinete de Amadeo. Ela não o queria ali. Não queria ninguém ali. Ela usava o gabinete em busca de um refúgio, às vezes, por um instante, na hora do almoço ou no fim do expediente. Mas sabia que não podia impedir Bernardo de entrar lá. Ele tinha direito de acesso aos papéis de Amadeo, aos livros que ele mantinha na parede, atrás da escrivaninha.

─ Estava dando uma olhada em alguns arquivos. Por quê?

─ Por nada.

A expressão de sofrimento nos olhos dela era inconfundível. Por um momento Bernardo tornou a sofrer por ela. Não importava o quanto ela fosse impossível às vezes, não importava o quanto eram diferentes em suas aspirações para a empresa, ainda assim ele compreendia a grandeza da perda que ela sofrera.

─ Incomoda-se tanto assim quando entro ali?

Sua voz estava diferente agora do que estivera instantes atrás, quando gritara e batera a porta. Ela assentiu com a cabeça, olhando ao longe um segundo, em seguida para ele.

─ Estupidez, não é? Sei que precisa de coisas do escritório dele de vez em quando. Assim como eu.

─ Você não pode transformá-lo num santuário, Isabella.

Sua voz estava macia, mas tinha o olhar firme. Ela já fazia isso com a empresa. Ele gostaria de saber quanto tempo iria durar.

─ Eu sei.

Constrangido, Bernardo continuou na soleira da porta, em dúvida se esta seria uma boa ocasião. Mas quando então? Quando poderia perguntar-lhe? Quando poderia dizer-lhe o que pensava?

─ Podemos conversar um instante ou está muito ocupada?

─ Tenho algum tempo.

O tom de sua voz não era muito convidativo. Isabella forçou-se a suavizar a voz. Talvez ele quisesse desculpar-se pelo que dissera no momento exato em que batera a porta da sala dela, pouco tempo atrás.

─ Alguma coisa em especial?

─ Acho que sim. ─ Ele suspirou suavemente e sentou-se. ─ Há uma coisa com a qual eu não desejava incomodá-la, mas acho que talvez esta seja uma boa ocasião.

Oh, Deus. O que é agora? Quem estava pedindo demissão, o que fora cancelado, o que não ia chegar?

─ É sobre aquele maldito sabonete outra vez?

Ela sabia o suficiente, e toda vez que tinham de discutir sobre o assunto, isso a fazia recordar-se do dia quando... quando Amadeo... naquela última manhã... Ela desviou o olhar.

─ Não faça essa cara. Não é nada desagradável. Na verdade ─ tentou convencê-la com um sorriso ─ poderia até ser muito bom.

─ Não estou certa se poderia suportar o choque de alguma coisa "muito boa" acontecendo. ─ Recostou-se na cadeira, lutando contra a exaustão e uma dor nos rins. Nervos, tensão, estavam ali desde... ─ Muito bem, desembuche! Pode falar!

─ Ecco, signora.

E, de repente, ele lamentou não tê-la levado para almoçar. Talvez tivesse sido melhor, algumas horas longe dali, uma boa garrafa de vinho. Mas quem ainda conseguia levá-la a algum lugar? E sair do edifício significava levar junto o exército de guardiões. Não, aqui era melhor.

─ Recebemos um telefonema dos Estados Unidos.

─ Alguém fez um pedido de dez mil peças, estamos vestindo a primeira-dama ou acabei de ganhar o prêmio cobiçado internacionalmente. Certo?

─ Bem...

Ambos sorriram por um instante. Graças a Deus, ela se mostrava mais jovial do que no princípio da manhã. Ele não estava certo do motivo, talvez porque ela precisasse muito dele, ou talvez apenas estivesse cansada demais para brigar.

─ Na realidade, não foi essa espécie de telefonema. Foi um telefonema de Farnham-Barnes.

─ O monstro onívoro de lojas de departamentos? Que diabo querem agora?

Nos últimos dez anos, a F-B, como era chamada, estivera devorando atentamente todas as principais lojas de departamentos de alta qualidade dos Estados Unidos. Agora era uma entidade poderosa a ser levada em consideração e uma conta cobiçada por todos no comércio.

─ Ficaram satisfeitos ou não com seu último pedido? Não, não importa. Sei a resposta, querem mais. Bem, diga-lhes que não podem ter mais. Você já sabe disso.

Devido ao número de lojas que a cadeia F-B possuía, Isabella cuidara de manter um controle bastante firme. Portanto, só poderiam ter grande quantidade da sua linha prêt-à-porter e uma pequenina quantidade da linha das criações exclusivas. Não queria que as mulheres de Dei Moines, Boston e Miami vestissem centenas do mesmo vestido. Até com a linha prêt-à- porter Isabella era cuidadosa e mantinha um rígido controle.

─ É isso?

Olhou para Bernardo, já se empertigando, e ele sentiu que perdia a coragem.

─ Não é bem isso. Eles tinham algo mais em mente. A companhia matriz, denominada I.H.I., International Holding Industries, que por acaso possui as Fábricas Farrington, Linhas Aéreas Interamericanas e Produtos Alimentícios Harcourt, vem fazendo sindicâncias discretas sobre nós desde que Amadeo... nos últimos dois meses.

─ Que espécie de sindicâncias?

Os olhos dela pareciam ardósia preta. Frios, duros e apáticos. Mas não havia razão para continuar com rodeios.

─ Querem saber se você está interessada em vender.

─ Você enlouqueceu?

─ Em absoluto. Para eles seria uma brilhante adição ao que já fizeram com a F-B. Eles já adquiriram quase todas as principais lojas de departamentos existentes nos Estados Unidos, embora tenham conservado a identidade de cada uma. É uma cadeia sem ser uma cadeia. Cada loja continuou exatamente como era antes, embora lucre por ser parte de uma organização muito maior, capital mais extenso para recorrer, maiores recursos. Com relação aos negócios, o sistema é brilhante.

─ Então congratule-os por mim. E diga-lhes para irem se foder. O que estão pensando? Que a San Gregorio é alguma lojinha italiana de departamentos para anexar à sua cadeia? Não seja ridículo, Bernardo! O que eles fazem não tem nada a ver conosco!

─ Ao contrário. Talvez tenha tudo a ver conosco. Isso nos oferece um sistema de abastecimento internacional para todas as linhas, facilidades de produção, marketing de massa, se o quisermos, para as colônias, o sabonete. É uma operação de alta categoria e se adaptaria perfeitamente a todas as nossas linhas principais.

─ Você perdeu o juízo. ─ Olhou-o e sorriu nervosamente. ─ Está mesmo sugerindo que eu venda para eles? É o que significa toda essa história?

Ele hesitou apenas uma fração de segundo; depois assentiu com a cabeça, temendo o pior. Chegou rápido.

─ Está louco? ─ Gritou ela e se pôs rapidamente de pé. ─ Era isso o que significava todo aquele disparate desta manhã? Como eu parecia cansada? Como estava magra? O que é isso, Bernardo? Eles estão lhe oferecendo enormes honorários caso consiga me convencer? Cobiça, todos são motivados pela cobiça, como os... aqueles... ─ ela reprimiu as palavras, pensando nos seqüestradores de Amadeo, e virou-se rapidamente para esconder uma súbita onda de lágrimas. ─ Não quero discutir sobre o assunto.

Continuou de costas para ele, olhando pela janela, procurando inconscientemente o carro de Amadeo. Já fora vendido. Atrás dela, a voz de Bernardo soou surpreendentemente calma.

─ Não estou recebendo honorários de ninguém, Isabella. A não ser de você. Sei que é muito cedo para você discutir a respeito. Mas faz sentido. É o próximo passo óbvio para a empresa. Agora.

─ O que isso quer dizer?

Ela virou-se de novo para encará-lo, e ele devia estar sofrendo por ainda ver lágrimas em seus olhos.

─ Acha que Amadeo teria feito isso? Vender para algum monstro comercial da América? Para uma corporação? Uma F-B e uma I.H.I. e só Deus sabe que mais. Esta é a San Gregorio, Bernardo. San Gregorio. Uma família. Uma dinastia.

─ É um império com um trono vazio. Durante quanto tempo você realmente acredita que pode controlar tudo? Morrerá de exaustão antes de Alessandro atingir a maioridade. E não é só isso. Você corre o mesmo risco que correu Amadeo, como Alessandro também corre. Sabe o que acontece na Itália hoje em dia. E quanto a você? E se alguma coisa lhe acontecer? Com que constância pode se manter protegida, toda vez que tiver de sair e entrar ou levantar ou sentar-se?

─ Enquanto eu precisar. Isso vai parar aos poucos. Acha mesmo que vender é a solução? Como pode sequer dizer uma coisa dessas depois do que produziu aqui, depois do que construiu conosco, depois... ─ Novamente seus olhos encheram-se de lágrimas.

─ Não a estou traindo, Isabella. ─ Lutou para se controlar. ─ Estou tentando ajudá-la. Não há outra solução para você a não ser vender. Estão falando em enormes somas de dinheiro. Alessandro seria um homem imensamente rico. ─ Mas, ao dizer isso, sabia que o dinheiro não era o problema.

─ Alessandro será o que o pai dele era. O chefe da Casa de San Gregorio. Aqui. Em Roma.

─ Se ainda estiver vivo.

As palavras foram pronunciadas suavemente, com uma camada finíssima de raiva.

─ Pare com isso! Pare! ─ Isabella olhou fixamente para ele. Suas mãos tremiam, o rosto contorceu-se subitamente numa crispação hedionda. ─ Pare de dizer essas coisas. Nada igual acontecerá de novo. E não venderei. Nunca! Diga a essas pessoas que não! Isso é tudo, é final. Não quero saber da oferta. Não quero que você trate coisa alguma com eles. Na verdade, eu o proíbo de falar com eles!

─ Não seja tola ─ gritou Bernardo. ─ Fazemos negócios com eles. E, apesar das suas estúpidas restrições, a I.H.I. ainda é uma das nossas maiores contas.

─ Cancele-a.

─ Não cancelarei.

─ Pouco me importa com o que fizer, dane-se. Apenas me deixe em paz.

Desta vez foi Isabella quem bateu a porta da sala e refugiou-se no gabinete de Amadeo, ao lado. Bernardo ficou sentado no escritório dela por um momento apenas, depois se retirou para o seu, ao longo do corredor. Isabella era uma tola. Ele sabia que ela nunca concordaria, mas vender era a coisa mais segura para Isabella. Alguma coisa estava acontecendo com ela. Outrora, a empresa tinha acrescentado alegria, prazer e algo maravilhoso e poderoso à sua vida. Agora, ele via que a destruía. O dia inteiro nos escritórios a deixava mais solitária, mais amarga. O dia inteiro cercada de guarda-costas a deixava mais assustada, não importa quanto negasse o fato. O dia todo sonhando com Amadeo despedaçava mais um pedaço de sua alma. Mas era ela quem controlava tudo agora. Isabella di San Gregorio estava no comando.

Na manhã seguinte, Bernardo ligou para o presidente da I.H.I e comunicou-lhe que Isabella recusara. Após ter feito isso e pensado tristemente na oportunidade que Isabella rejeitara, sua secretária chamou-o pelo interfone.

─ O que é?

─ Há uma pessoa aqui que deseja vê-lo.

─ Sobre o quê?

─ É a respeito de uma bicicleta. Ele disse que o senhor mandou que a entregasse aqui.          Cansado, Bernardo sorriu para si mesmo e deixou escapar outro suspiro. A bicicleta. Praticamente era só isso que estava com disposição de tratar, depois do começo difícil do seu expediente.

─ Irei agora mesmo.

Era vermelha, com um selim azul e branco, flâmulas vermelhas, brancas e azuis esvoaçando nos guidões, uma campainha, um velocímetro e a plaquinha da licença com o nome de Alessandro. Era uma bicicleta pequena e linda, e ele sabia que iria encantar a criança, que desde o verão morria de vontade de ter uma "bicicleta de verdade".

Bernardo sabia que Amadeo planejara dar uma ao menino no Natal. Ele encomendara essa bicicleta, uma miniatura da roupa prateada de astronauta e meia dúzia de jogos. Ia ser um Natal difícil e, lançando um olhar para o calendário ao levantar-se, Bernardo notou que só faltavam duas semanas.

 

─ Mamma, mamma... é Bernardo!

Alessandro comprimia o nariz contra a vidraça; a árvore de Natal cintilava atrás dele. Isabella envolveu-o em seus braços e olhou para fora, sorrindo. Ela e Bernardo puseram as querelas de lado alguns dias antes. Ela precisava desesperadamente dele esse ano, bem como a criança. Ela e Amadeo tinham perdido os pais na década anterior e, como filhos únicos, não tinham ninguém a oferecer a Alessandro no tocante à família, a não ser eles próprios e seus amigos. Como sempre, Bernardo fazia o que era devido.

─ Oh, veja... veja! É enorme! Ele tem um embrulho... e veja! Mais!

Bernardo fez uma pantomima hilariante, cambaleando sob o peso dos seus fardos, todos enfiados num saco de lona enorme. Usava um chapéu de Papai Noel com um dos seus ternos escuros. Isabella também ria enquanto o guarda-costas abria a porta.

─ Ciao, Nardo, come va?

Ele beijou-a de leve no rosto e, no mesmo instante, voltou sua atenção para o menino. Tinham sido duas semanas difíceis no escritório. O assunto da I.H.I. estava definitivamente encerrado. Isabella enviara-lhes uma carta agressivamente sucinta que deixara Bernardo lívido. Outros problemas tinham aflorado; por fim tudo fora tratado e resolvido. Tinha sido uma época cansativa para ambos. Porém, de alguma forma, com a ameaça de um Natal deprimente, os dois conseguiram pôr de lado suas diferenças. Ela ofereceu-lhe conhaque quando se sentaram ao lado da lareira.

─ Quando posso abri-los? Agora?... Agora? –

Alessandro estava aos pulinhos como um pequeno duende vermelho de pantufas, enquanto mamma Teresa rondava em algum lugar perto da porta. Todos os criados celebravam na cozinha, com vinho e os presentes que Isabella lhes dera na noite anterior. Os únicos membros da casa não incluídos nas festividades eram os guarda-costas. Eram tratados como invisíveis, e a segurança de toda a família dependia da permanência deles em serviço, em todas as entradas da villa e do lado de fora também. Os homens que atendiam ao telefone estavam a postos, como de costume, no antigo gabinete de Amadeo, e os telefonemas dos maníacos continuavam e agora, por alguma razão, dobraram durante os feriados, como se não bastasse o que já tinham feito. Precisava haver mais. E Bernardo sabia que isso estava custando um alto preço para Isabella. Ela sempre tomava conhecimento dos telefonemas, como se os sentisse. Agora não confiava em ninguém. Algo terno e generoso, que tanto fizera parte dela, morria lentamente em seu íntimo.

─ Quando posso abri-los? Quando?

Alessandro puxava com força a manga de Bernardo, que fingia não entender.

─ Abrir o quê? É só minha roupa para a lavanderia que está naquele saco.

─ Não é não... não é não! Mamma... por favor...

─ Acho que ele não vai agüentar esperar até meia-noite, quanto mais até amanhã cedo! ─ A própria Isabella sorria enquanto seus olhos acariciavam gentilmente o filho. ─ E quanto à mamma Teresa, querido? Por que não dá o presente dela primeiro?

─ Oh, mamma!

─ Vamos.

Ela colocou um embrulho grande nos braços dele e o menino correu rapidamente para entregar o lindo robe de cetim rosa, o mais bonito da linha americana de Isabella. A babá já recebera de Isabella uma bolsa a tiracolo e um pequeno e elegante relógio. Este era um ano para ser boa com todos, todos os que tinham demonstrado tanta devoção a ela e ao menino. Pelo menos, já não desconfiava mais dos membros da casa. Acabou acreditando que os traidores tinham sido pessoas de fora. A Enzo ela dera um capote novo, um capote quente, de casimira preta, para usar sobre o uniforme quando a conduzisse pela cidade, além de um excelente rádio novo para o seu quarto. Poderia, inclusive, pegar Paris e Londres nele, Enzo lhe contara com orgulho naquele dia. Houve distribuição de presentes para a casa toda, e presentes igualmente bonitos e atenciosos para todos no escritório. Mas Alessandro ganhou o presente mais especial de todos. Ele ainda não o vira, mas Enzo já o tinha montado e preparado tudo.

Alessandro acabava de voltar para a sala correndo.

─ Ela disse que é lindo e que usará durante toda sua vida e pensará em mim. ─ Ele parecia feliz com o efeito que o grande roupão rosa causara. ─ Agora eu.

Isabella e Bernardo riam enquanto olhavam Alessandro com seus olhos brilhantes e muito arregalados. Por um momento, deu a impressão de como se nada de feio tivesse acontecido. Por um instante, o sofrimento dos últimos meses não existiu.

─ Muito bem, sr. Alessandro. É todo seu!

Bernardo fez um gesto pomposo com a mão, indicando o grande saco de lona. O menino abaixou-se rapidamente na direção indicada, em seguida introduziu a mão, soltando altos gritos de alegria. Papel e fitas começaram a voar no mesmo instante e, num abrir e fechar de olhos, ele já vestia a roupa prateada de astronauta, os pés calçados com as pantufas vermelhas espreitando pelas aberturas. Ele sorriu, soltou pequenas risadas e saiu deslizando rápido pelo assoalho extremamente lustroso a fim de dar um beijo em Bernardo. Em seguida, mergulhou nos embrulhos em busca de mais presentes. Os jogos, os novos lápis de cera, um grande e irresistível urso castanho, e finalmente a bicicleta, empurrada à força para o fundo do grande saco de lona.

─ Oh... oh... é linda... É... é uma Rolls-Royce?

Ambos riram enquanto o observavam, já escarranchado na nova bicicleta.

─ É claro que é uma Rolls-Royce. Eu lhe daria menos do que isso?

Ele já acenava pela sala de estar, visando primeiro uma mesa Luís XV, depois uma parede, enquanto as duas pessoas que o amavam riam até as lágrimas. E então todos viram Enzo, sorrindo hesitantemente da porta. Seus olhos questionavam Isabella e ela assentiu com a cabeça e um sorriso. Ela susurrou algo para Bernardo, que ergueu as sobrancelhas e depois riu.

─ Acho que talvez tenha me excedido

─ De modo algum. Provavelmente, amanhã cedo ele virá tomar café de bicicleta. Mas isso... Eu queria exatamente lhe dar uma coisa que o fizesse menos infeliz por estar confinado a esta casa. Ele não pode... ─ Ela hesitou tristemente por um instante ─ ...ele não pode ir mais ao parquinho.

Bernardo assentiu com a cabeça em silêncio, colocou o copo de conhaque sobre a mesa e levantou-se. Mas a tristeza momentânea nos olhos de Isabella se fora outra vez, ao voltar-se sorridente para o filho.

─ Vá buscar mamma Teresa e seu casaco.

─ Vamos sair? ─ Parecia intrigado.

─ Apenas por um instante.

─ Posso ir com isto?

Lançou um olhar feliz para a roupa de astronauta. Bernardo inclinou-se ligeiramente para olhar nas costas do menino.

─ Pode, e vista o capote por cima.

─ Okay.

Pronunciou a palavra americana com seu sotaque romano e desapareceu a toda velocidade, ao mesmo tempo em que Bernardo se encolhia.

─ Talvez eu tenha de substituir os espelhos do seu vestíbulo. Sem falar na mesa da sala de jantar, em todos os armários daqui até o quarto dele e, possivelmente, nos vidros das portas.

Ambos ficaram ouvindo sorridentes enquanto a campainha da bicicleta soava ao longo do corredor.

─ Foi o presente certo.

Ela também sabia que o presente tinha sido o que Amadeo planejara para o filho e, por um instante, nenhum dos dois falou. Então, ela lançou um olhar penetrante a Bernardo e deixou escapar um pequeno suspiro.

─ Estou contente por você ter conseguido estar aqui com Alessandro este ano, Nardo... e comigo também.

Gentilmente, ele tocou em sua mão, enquanto o fogo crepitava e ardia na lareira.

─ Eu não poderia estar em nenhum outro lugar. ─ E sorriu para ela. ─ Apesar das úlceras que me causou no trabalho.

Mas isto era diferente. E, de repente, havia uma espécie distinta de eletricidade no ar.

─ Desculpe, eu... sinto as responsabilidades demais agora. Continuo pensando que você sempre compreende.

Ergueu os olhos para ele, o rosto lindamente delineado e muito pálido, onde os olhos escuros ajustavam-se com extrema perfeição.

─ Compreendo mesmo. Você sabe que eu poderia ajudar mais, se me deixasse.

─ Não estou certa se conseguiria deixar. Tenho essa ânsia insana de... de fazer tudo eu mesma. Difícil de explicar. É tudo que me restou, sem contar Alessandro.

─ Um dia haverá mais. Um dia... ─ mas ela apenas sacudiu a cabeça.

─ Nunca mais. Não há ninguém como ele. Era um homem muito especial.

Seus olhos marejaram-se de lágrimas no momento em que ela retirou a mão e ficou olhando em silêncio para o fogo. Bernardo olhou em direção oposta e deu outro gole no conhaque ao ouvir a campainha da bicicleta e Alessandro disparando pelo corredor com mamma Teresa atrás.

─ Pronto?

Os olhos de Isabella estavam um pouco brilhantes demais, mas nada em seu rosto voltado para o filho mostrava quanto era grande sua dor.

─ Si. –

Dentro do grande capacete plástico de astronauta, o rostinho olhava buliçoso para fora.

─ Allora, andiamo.

Isabella levantou-se e foi a primeira a dirigir-se para as portas duplas que davam para o jardim. Discretamente, um guarda-costas afastou-se para o lado, e todos viram que agora o jardim estava brilhantemente iluminado. Ela olhou para o filho e notou que ele tomava fôlego.

─ Mamma!...

Embora pequeno, era um lindo carrossel, do tamanho exato para uma criança de cinco anos. Custara uma fortuna a Isabella, mas achou que valera a pena cada centavo quando viu o brilho nos olhos do filho. Quatro cavalos dançavam garbosamente sob uma tenda de madeira entalhada e pintada de vermelho e branco; havia campainhas, palhaços e enfeites. Bernardo achou que nunca vira os olhos do menino tão arregalados. Enzo ajudou-o a montar na sela de um cavalo pintado de azul, com fitas verdes presas ao cabresto dourado com sininhos prateados. Uma chave foi acionada e o carrossel começou a girar. Alessandro gritou de excitação e prazer. De repente, a noite foi invadida por música carnavalesca, enquanto os criados chegavam às janelas. Em toda parte, sua audiência sorria.

─ Buon Natale!

Isabella gritou para o menino, depois correu e saltou para a sela do cavalo ao lado, pintado de amarelo com uma selinha vermelha com beiradas douradas. Riam um para o outro enquanto o carrossel rodopiava lentamente.

Bernardo observava-os, sentindo algo terno dilacerando-lhe o coração. Mamma Teresa virou-se para o lado, enxugando uma lágrima que lhe escapava dos olhos, e Enzo e o guarda-costas compartilhavam sorrisos.

Alessandro ficou dando muitas voltas, montado no cavalo do carrossel, por cerca de meia hora, até que Isabella insistiu para que voltasse para casa.

─ Mas quero andar esta noite.

─ Se ficar aqui fora a noite toda, Papai Noel não virá.

Papai Noel? Bernardo riu. O que ainda faltava àquela criança? O sorriso desapareceu. Um pai. Isso é o que faltava para Alessandro. Ele ajudou o menino a descer do carrossel e segurou a mão dele com força ao voltarem para a casa, Alessandro desapareceu rapidamente em direção à cozinha, e Bernardo e Isabella ocuparam seus lugares outra vez perto do fogo.

─ Que coisa maravilhosa, Isabella!

O eco dos repiques carnavalescos ainda soava em sua cabeça. E, finalmente, ela estava sorrindo como há meses não fazia.

        ─ Sempre desejei ter um carrossel só meu quando era menina. É perfeito, não é?

Por um momento, seus olhos estavam quase tão brilhantes como o fogo. Por um instante, ele gostaria de dizer: "Você também é perfeita." Era uma mulher extraordinária. Ele a odiava e a amava, e ela era a sua amiga mais querida.

─ Acha que Alessandro nos deixará andar no carrossel com ele se formos muito, muito bonzinhos?

Ela riu junto com Bernardo e serviu-se de um pequeno copo de vinho tinto. Em seguida, como se tivesse esquecido de alguma coisa, levantou-se de um salto e correu até a árvore de Natal.

─ Eu quase ia esquecendo. ─ Apanhou duas pequenas caixas envoltas em papel dourado e voltou para perto da lareira. ─ Para você.

─ Se não for um carrossel só para mim, não quero.

E riram outra vez. Mas o riso empanou-se muito rapidamente quando ele descobriu o que continham as caixas. Na primeira uma pequena máquina de calcular extremamente complicada, em sua própria caixa prateada; dava a impressão de uma cigarreira muito elegante e poderia ser carregada com discrição no colete.

─ Mandei vir dos Estados Unidos. Não a entendo. Mas você entenderá.

─ Isabella, você enlouqueceu?

─ Não seja tolo. Eu deveria ter comprado um saco de água quente para a sua úlcera, mas achei que isto talvez fosse mais divertido.

Beijou-o afetuosamente no rosto e entregou-lhe a outra caixa. Mas, desta vez, ela se virou para o outro lado, olhando fixamente para o fogo. E quando ele já abrira a caixa, Bernardo também ficou em silêncio. Havia muito pouco o que dizer de fato. Era o relógio de bolso que ele sabia que Amadeo guardava como um tesouro e praticamente nunca usava, pois lhe era por demais sagrado. Pertencera ao seu pai e, atrás, as iniciais de três gerações de San Gregorio estavam caprichosamente gravadas. Embaixo delas, Bernardo notou que havia as suas próprias iniciais.

─ Não sei o que dizer.

─ Niente, caro. Não há nada para dizer.

─ Deveria ser de Alessandro.

Mas ela apenas sacudiu a cabeça.

─ Não, Nardo. Você deve possuí-lo.

E, por um momento infindável, os olhos dela perderam-se nos dele. Isabella queria que ele soubesse: não importava quanto tivessem atritos no trabalho, ele era precioso para ela, e ele é que importava. Muitíssimo. Ele e Alessandro eram tudo que lhe restava agora. E Bernardo sempre seria especial. Era seu amigo. Como também fora de Amadeo. O relógio era para que se lembrasse disso, que era algo mais do que apenas o diretor da San Gregorio ou o homem para quem vociferava todos os dias, 27 vezes antes do meio-dia. Longe do escritório, era alguém importante para ela, uma espécie de família. Bernardo fazia parte da sua vida particular. E a expressão do olhar de Isabella dizia tudo isso agora, enquanto ele a observava. Os olhos dele pareceram sustentar os dela por um tempo muito longo, como se ele estivesse pensando em alguma coisa, como se estivesse tentando reagir contra uma torrente irresistível sobre a qual não tivesse controle.

─ Isabella... ─ De repente, ele pareceu estranhamente formal e ela ficou aguardando, sabendo que estava comovido demais por causa do presente. ─ Eu... eu tenho algo para lhe dizer. Há muito tempo. Talvez não seja o momento oportuno. Provavelmente seja... não estou certo. Mas preciso lhe dizer. Devo ser honesto com você agora. É... muito importante... para mim.

Ele hesitava de forma cansativa entre as palavras, como se o que dizia lhe fosse muito difícil, e a expressão do seu olhar revelava a Isabella que de fato era.

─ O que está havendo?

De repente, os olhos dela encheram-se de compaixão. Bernardo parecia angustiado, pobre homem; e nos últimos tempos vinha sendo tão dura! O que, em nome de Deus, Bernardo estava a ponto de lhe dizer? Sentou-se muito ereta e aguardou.

─ Nardo... parece assustado, caro. Não tem necessidade. Seja o que for, pode me dizer. Deus sabe que temos sido muito sinceros durante todos estes anos.

Procurava fazê-lo sorrir e ele não sorria e, pela primeira vez em todos esses anos que se conheciam, Bernardo considerou-a insensível. Meu Deus, como Isabella podia deixar de saber? Mas não era insensibilidade, era cegueira. Soube disso enquanto a observava. Então, ele assentiu com a cabeça e colocou o copo sobre a mesa.

─ Estou assustado, sim. O que tenho para lhe dizer costumava me assustar muito. E o que me preocupa agora é que talvez o assunto a assuste. E isso eu não quero. É a última coisa que desejo.

Ela estava sentada muito serena, observando-o, aguardando.

─ Nardo...

Ela começou a falar, estendendo a mão graciosa, alva e longa. Ele a pegou e reteve-a rápido entre as suas. Seus olhos não se desprenderam dos dela.

─ Vou lhe dizer com toda a simplicidade, Bellezza. Não há outro modo. Amo você. ─ E, depois, suave ─ Há anos que te amo.

Ela deu a impressão de quase dar um pulo diante de suas palavras, como se uma corrente elétrica de repente tivesse passado por ela e provocado um choque em seu corpo todo.

─ O quê?!

─ Eu te amo.

Desta vez ele pareceu menos assustado, fazendo lembrar mais o Bernardo que ela conhecia.

─ Mas Nardo... todos esses anos?

─ Todos esses anos ─ repetiu com orgulho. Sentia-se melhor. Por fim desabafara.

─ Como pôde?

─ Muito fácil. Em geral você é uma pessoa desagradável, mas, por estranho que pareça, isso não a torna difícil de ser amada.

Ele sorria e ela de repente riu, o que pareceu quebrar um pouco a tensão na sala.

─ Mas por quê?

Ela levantou-se e caminhou pensativa até a beira do fogo.

─ Por que amei você ou por que não lhe disse?

─ Ambas as coisas. E por que agora? Por que agora, Nardo... por que precisou me contar agora?

De repente, havia lágrimas em sua voz e nos olhos quando ela apoiou-se no console da lareira, olhando para o fogo. Bernardo caminhou devagar até ela, ficou ao seu lado e, gentilmente, virou o rosto dela para o seu a fim de que pudesse olhar em seus olhos.

─ Não lhe disse nada em todos esses anos porque eu amava vocês dois. Também amava Amadeo, você sabe. Ele era um homem muito especial. Jamais teria feito alguma coisa que o ferisse ou a magoasse. Coloquei meus sentimentos de lado, sublimei-os. Coloquei o que sentia na empresa e talvez ─ ele sorriu ─ inclusive nas brigas com você. Mas agora... tudo mudou. Amadeo se foi. E dia após dia, semana após semana, eu a observo, solitária, destruindo-se, esforçando-se, sozinha, sempre sozinha. Não posso suportar mais isso. Estou lá por você. Tenho estado durante todos esses anos. Já era hora de você saber disso. Está na hora de voltar-se para mim, Isabella. E... ─ hesitou por um longo momento, em seguida ficou muito calmo e disse ─...e está na hora de eu ter minha família também. Chegou a hora de poder lhe dizer que a amo, senti-la em meus braços, ser o padrasto de Alessandro, se você me deixar, e não apenas seu amigo. Talvez eu esteja louco por estar lhe dizendo isso tudo, mas...

eu... preciso... Amei-a durante um tempo longo demais.

Estava rouco, com a paixão de anos enclausurada, e enquanto ela o observava, as lágrimas escorriam lentamente por seu rosto, rolando impiedosamente pelas suas faces e sobre seu vestido.

Ele a olhava e, devagar, levou a mão ao rosto dela e enxugou-lhe as lágrimas. Era a primeira vez que a tocava desse modo e sentiu a paixão descontrolada romper-lhe as entranhas. Quase sem pensar, puxou-a para si e esmagou seus lábios contra os dela. Isabella não lutou para soltar-se e, por um instante, Bernardo julgou sentir que ela retribuía seu beijo. Estava ansiosa, solitária, triste, assustada, mas o que acontecia era demais e, de repente, ela afastou-o com firmeza. Ambos ofegavam, e Isabella lançou um olhar selvagem ao fitar seu velho amigo.

─ Não, Nardo!... Não!

Ela tanto lutava contra o que ele acabara de dizer como contra o beijo.

Porém, subitamente, Bernardo pareceu até mais assustado do que ela. Sacudiu a cabeça.

─ Desculpe. Não pelo que eu disse. Mas por... por puxá-la tão rapidamente... eu... meu Deus, lamento muito! É cedo demais. Eu estava errado.

Contudo, ao observá-lo, ela ficou triste e pesarosa por ele. Era óbvio que há anos Bernardo vinha sofrendo. E, durante esse tempo, nunca desconfiara e estava certa de que Amadeo ignorara tanto quanto ela. Mas como pôde ter sido tão ignorante? Como não conseguiu ver? Fitava-o com compaixão e ternura e estendeu-lhe ambas as mãos.

─ Não lamente, Nardo, está tudo bem. ─ Mas, como surgisse um brilho intenso de esperança nos olhos dele, ela sacudiu rapidamente a cabeça. ─ Não, não é isso que eu quis dizer. E... eu simplesmente não sei. É cedo demais. Mas você não estava errado, se é o que sente, devia realmente me dizer. Devia ter me dito há muito mais tempo.

─ Dizer o quê então? ─ Por um momento parecia amargo e com ciúmes do velho amigo.

─ Não sei. Mas devo ter parecido muito ignorante e cruel durante todo esse tempo

Olhou-o afetuosamente e Bernardo sorriu.

─ Não. Apenas cega. Mas talvez tenha sido melhor assim. Se eu lhe tivesse dito, só complicaria as coisas. Talvez complique, inclusive agora.

─ Não há necessidade.

─ Mas talvez complique. Gostaria que eu deixasse a San Gregorio, Isabella? ─ Ele perguntou, muito honesto, e sua voz parecia muito cansada. Fora uma noite muito difícil para ele.

Mas agora Isabella olhava-o com fogo nos olhos.

─ Está louco? Por quê? Por que me beijou? Por que disse que me ama? Por causa disso iria embora? Não faça isso comigo, Nardo. Preciso de você, de muitas maneiras. Não sei o que sinto neste exato momento. Sinto-me ainda entorpecida. Ainda quero Amadeo noite e dia... quase o tempo todo não compreendo que ele jamais voltará para casa. Ainda espero que

volte... Ainda ouço sua voz, vejo-o na minha frente e sinto seu cheiro... Não há lugar para outra pessoa em minha vida, a não ser Alessandro. Não posso lhe fazer nenhuma promessa. Mal ouço o que está dizendo. Escuto, mas na verdade não compreendo. Não mesmo. Talvez um dia. Mas até lá tudo que posso fazer é amá-lo como sempre amei, como a um irmão, como amigo. Se isso é razão para você deixar a San Gregorio, então faça, mas jamais compreenderei. Podemos continuar como sempre temos feito; não há nenhuma razão para ser o contrário.

─ Mas não para sempre. Pode compreender isso?

Ela parecia sofrer quando seus olhos se encontraram.

─ O que quer dizer?

─ Exatamente o que eu disse: que não posso continuar assim para sempre. Tive de lhe contar porque não posso mais viver com meus sentimentos ocultos, e não há razão para isso. Amadeo se foi, Isabella, quer reconheça ou não. Ele se foi e eu a amo. Dois fatos distintos. Mas continuar assim para sempre, sem que você também me ame, continuar trabalhando para você, porque na verdade realmente trabalho para você e não com você, principalmente agora, continuar ocupando posição subalterna, Isabella... não posso. Quero um dia compartilhar da sua vida, deixar de existir à margem dela. Quero lhe dar o que há em minha vida. Quero torná-la melhor, mais feliz, mais forte. Quero ouvi-la rir novamente. Quero compartilhar a vitória das nossas coleções e dos negócios fabulosos. Quero ficar ao seu lado enquanto Alessandro vai crescendo.

─ Ficará de qualquer modo.

─ Exato. ─ Ele apenas assentiu com a cabeça. ─ Ficarei. Como seu marido ou como seu amigo. Mas não como seu funcionário.

─ Compreendo. Então o que está me dizendo é que ou se casa comigo ou se demite?

─ Conseqüentemente. Mas talvez pudesse levar muito tempo... se... eu sentisse haver esperança. ─ Em seguida, após uma longa pausa: ─ Há?

Porém, da mesma forma que ele, Isabella levou muito tempo para responder.

─ Não sei. Sempre amei você. Mas não dessa maneira. Eu tinha Amadeo.

─ Compreendo. Sempre compreendi.

Ficaram em silêncio por longo tempo, olhando para o fogo, cada qual perdido em seus pensamentos; e, gentilmente, Bernardo tomou-lhe a mão mais uma vez. Abriu-a, olhou para a palma delicada, com suas linhas finas, e beijou-a. Isabella não retirou a mão, apenas observava-o com um olhar triste. Era-lhe especial e o amava, mas ele não era Amadeo. Jamais seria... jamais... e enquanto estavam ali sentados, ambos sabiam disso. Bernardo olhou-a durante muito tempo e com uma expressão séria ao soltar-lhe a mão.

─ Eu estava falando sério. Gostaria que eu me demitisse?

─ Por causa desta noite?

Ela parecia cansada e triste. Não tinha sido uma traição, mas uma perda. De certa forma, sentia que acabara de perdê-lo como amigo. Bernardo queria ser seu amante. E não havia vaga para esse trabalho.

─ Sim. Por causa desta noite. Se tornei impossível para você viver comigo no escritório agora, irei embora. Imediatamente, se quiser.

─ Eu não quero. Isso seria até mais impossível, Nardo. Eu fracassaria em uma semana.

─ Talvez surpreendesse a si mesma. Não fracassaria. Mas não é o que prefere?

Ela sacudiu a cabeça, com honestidade.

─ Não. Mas não sei o que lhe dizer sobre isso tudo.

─ Então não diga nada. E um dia, se a ocasião ainda for apropriada, daqui a bastante tempo, repetirei o que disse. Mas, por favor, não se atormente ou pense que isto seja uma ameaça para você. Não vou aparecer de repente nas soleiras das portas e torná-la em meus braços. Temos sido amigos durante muito tempo. Não quero perder isso também.

De repente, Isabella sentiu-se aliviada. Talvez não tivesse perdido tudo afinal.

─ Fico contente, Nardo. Não posso lidar com qualquer uma dessas situações neste momento. Não estou preparada. Talvez não venha a estar nunca.

─ Estará sim. Mas talvez nunca para mim. Compreendo isso também.

Ela o olhou com um sorriso terno e inclinou-se devagar para beijá-lo no rosto.

─ Desde quando ficou tão esperto, sr. Franco?

─ Sempre fui, você é que nunca notou.

─ É mesmo?

Ele sorria e ela ria, toda a atmosfera do ambiente tornou a mudar.

─ Sim, é mesmo. Acontece que sou o gênio do escritório ultimamente, ou ainda não tinha percebido?

─ De modo algum. E todas as manhãs, quando olho no espelho e digo: "Espelho, espelho da parede, quem é o gênio dentre todos eles...?"

Mas os dois riam agora e, de repente, seus rostos se reaproximaram, e ele pôde sentir a suave respiração de Isabella em seu rosto. Tudo que desejava fazer era beijá-la outra vez, podia ver os lábios dela aguardando os seus. Mas não a beijou, o momento passou e Isabella, embaraçada, soltou uma risada estranha e afastou-se. Não, não ia ser fácil no escritório. Ambos sabiam.

         ─ Vejam o que Laura preparou para Papai Noel!

Calçado com as pantufas macias, Alessandro aproximara-se sem ser notado. Mas os dois ergueram os olhos para ver o menino carregando dois pratos cheios de pão de mel, depositados cuidadosamente sobre um banquinho, que colocou ao lado da lareira. Olhou-os com ar sério e depois apanhou um grande pedaço morno de pão, comendo-o rapidamente. Tornou a desaparecer, após ter rompido o penoso encantamento.

─ Isabella... ─ Bernardo olhou-a e sorriu. ─ Não se preocupe.

Ela apenas deu um tapinha amistoso em seu braço e trocaram um sorriso, no mesmo instante em que Alessandro voltava, carregando apreensivo duas canecas de leite.

─ Você está preparando uma festa ou alimentando Papai Noel?

Bernardo lançou-lhe um largo sorriso e tornou a sentar-se.

─ Não. Nada é para mim.

─ Tudo isto é para Papai Noel?

Bernardo olhava-o com um amplo sorriso, mas o rosto do menino foi adquirindo lentamente uma expressão compenetrada, e ele sacudiu a cabeça.

─ É para mim?

A cabeça tornou a se sacudir seriamente.

─ É para papai. Se... os anjos o deixarem vir para casa... só por esta noite.

Olhou outra vez para os dois lugares que arrumara ao lado da lareira, depois deu um beijo de boa-noite na mãe e em Bernardo. E, cinco minutos mais tarde, Bernardo foi embora e Isabella seguiu para seu quarto em silêncio. For a uma noite muito longa.

 

─ Alessandro está brincando muito com o carrossel?

Bernardo esticou as pernas à frente, quando ele e Isabella terminaram. Uma reunião privativa no final de um dia muito cansativo. Já haviam decorrido três semanas após o Natal, e eles não fizeram outra coisa senão trabalhar. Mas, finalmente, parecia que as coisas voltavam a entrar na rotina. Tinham tido uma boa briga, inclusive, uns dez dias atrás. E ele não voltara a mencionar a "confissão" que fizera no Natal. Isabella sentia-se aliviada.

─ Acho que ele gosta, tal como gostou da bicicleta.

─ Já quebrou alguma peça da mobília com ela?

─ Não, mas sem dúvida está tentando. Ontem mesmo ele estabeleceu uma pista de corrida na sala de jantar, e só colidiu com cinco cadeiras.

Riram por um momento, e Isabella levantou-se, espreguiçando-se. Estava alegre porque os feriados haviam acabado e satisfeita com o trabalho realizado. Com algum esforço, ambos tinham voltado ao velho relacionamento, e até Bernardo notava que Isabella demonstrava uma disposição pacífica. E, então, ele a viu enrijecer ao ouvir o telefone do gabinete de Amadeo.

─ Por que estão tocando para o gabinete dele?

─ Talvez não tenham conseguido chegar até o seu.

Ele tentou mostrar-se descontraído, embora, por um momento, o som o tivesse feito estremecer também. Mas ambos sabiam que os homens que selecionavam as chamadas telefônicas para ela por vezes retinham todas as linhas. Os homens que selecionavam as chamadas telefônicas para ela por vezes retinham todas as linhas.

─ Quer que eu atenda?

─ Não. Está tudo bem. –

Ela entrou depressa no gabinete de Amadeo e, após ficar lá uns dois minutos, ele ouviu um grito. Correu e encontrou-a pálida e histérica, as mãos tapando a boca e olhando fixamente para o telefone.

─ O que é? ─ Mas ela não respondeu e, quando tentou, tudo que saiu de dentro dela foi um grunhido seguido de outro grito. ─ Isabella, fale comigo! ─ Ele a segurava pelos ombros, sacudindo-a desesperado, enquanto procurava fitá-la nos olhos.

─ O que disseram? Teve algo a ver com Amadeo? Foi o mesmo homem?

─ Isabella...

Ele pensava seriamente na possibilidade e esbofeteá-la, quando o guarda que rondava a parte externa o escritório entrou precipitado.

─ Isabella!

─ Alessandro!... Eles... disseram... eles... estão com ele...

Soluçando, ela caiu nos braços de Bernardo. O guarda correu frenético para o telefone, ligando para a villa, sem conseguir completar a ligação.

─ Chame a polícia! ─ Bernardo gritou por sobre o ombro enquanto agarrava o casaco e a bolsa de Isabella, precipitando-a pelo escritório dela, e depois porta afora. ─ Vamos para casa.

E, então, parando um instante na porta, olhou duro, para Isabella, segurando-a pelos dois braços.

─ Devem ser os maníacos outra vez. Sabe disso, não sabe? Vai ver que ele está bem.

Mas a única coisa que ela pôde fazer foi olhá-lo fixamente e sacudir a cabeça com gestos frenéticos, de um lado para outro.

─ Foi a mesma voz, o mesmo homem? ─ Perguntou ele.

Ela tornou a sacudir a cabeça. Bernardo fez um sinal para que o guarda o seguisse e os três desceram correndo as escadas para fora do prédio. No caminho, chamaram outro guarda para juntar-se a eles. O carro de Isabella já estava esperando por ela, conforme fazia no final de cada dia. Enzo olhou-os, cheio de confusão, quando os quatro entraram precipitados no carro, um dos guardas empurrando Enzo para o lado, enquanto introduzia-se no veículo, assumindo a direção.

─ Ma, che... ─ Enzo começou, mas um olhar para Isabella lhe disse o que ele não queria saber. ─ O que há? Il bambino?

Ninguém respondeu. Isabella continuava agarrada a Bernardo e eles partiram para a villa na Via Appia Antica, fazendo um barulho ensurdecedor.

O motorista mal esperou que os portões elétricos se abrissem de par em par. Um dos guardas já estava fora do carro antes do veículo parar. Ele entrou correndo na casa, seguido um instante depois por Isabella, Bernardo, Enzo e o guarda restante, todos andando freneticamente e em passadas pesadas pela casa. A primeira pessoa que Isabella viu foi Luisa.

─ Alessandro? Onde está ele? ─ Agora ela conseguia falar e agarrava rudemente a assustada criada.

─ Eu... senhora... ele…

─ Diga de uma vez!

Confusa, a idosa cozinheira começou a chorar.

─ Não sei. Mamma Teresa saiu com ele uma hora atrás, creio eu... O que aconteceu? ─ Depois, vendo Isabella histérica à sua frente, compreendeu. ─ Oh, Deus, não. Oh, Deus!...

O ar encheu-se com seus longos gritos pesarosos. O som penetrava em Isabella como uma lâmina. Conseguia apenas pensar em parar com aquilo, interromper. Sem refletir, impulsionou a mão e esbofeteou Luisa antes que Enzo pudesse levar a cozinheira embora. Um momento mais tarde, o braço de Bernardo rodeava a cintura de Isabella. E ele estava meio guiando, meio arrastando-a pelo corredor até seu quarto. No momento exato em que chegaram à porta, houve um tumulto na outra extremidade da casa. O barulho de passos. Os guardas trovejando pela casa. Em seguida, como música, a voz de Alessandro e de mamma Teresa, como de costume, tranqüila, quando ela entrou com o menino. Isabella olhou para Bernardo com expressão selvagem e correu pelo corredor.

─ Mamma…!

Alessandro começou, depois parou. A mãe não mais tivera aquela aparência desde que lhe disseram, quatro meses atrás, que ela estava resfriada e fora quando... Olhando-a, assustado, cheio de lembranças, ele correu para ela e começou a chorar. Abraçando-o estreitamente contra si, a voz embargada pelos soluços, ela olhou para mamma Teresa.

─ Aonde foram?

─ Fomos dar um passeio de bicicleta. ─ A babá, que já não era moça, começava a entender o que devia ter acontecido ao olhar para Isabella e a falange de guarda-costas. ─ Achei que uma mudança iria fazer bem ao menino.

─ Nada aconteceu? ─ Mamma Teresa sacudiu a cabeça e Isabella olhava para Bernardo, atrás dela. ─ Então foi apenas... outro daqueles telefonemas ─ disse ela.

Mas acreditara neles. Parecera-se tanto com aqueles outros, aquelas terríveis vozes ameaçadoras. E como tinham conseguido seu intento? Sentiu-se vacilar e percebeu indistintamente alguém retirar o filho dos seus braços. Cinco minutos depois voltava a si em seu quarto, com Bernardo e uma das criadas de pé, vigiando-a de perto, olhando-a ansiosamente enquanto recobrava a consciência.

         ─ Grazie.

Com um gesto de cabeça, Bernardo despediu a criada, entregou a Isabella um copo com água e sentou-se na beira da cama. Parecia quase tão pálido quanto Isabella. Silenciosamente, ela bebeu a água do copo que suas mãos trêmulas seguravam.

─ Quer que eu chame o médico?

Isabella recusou com a cabeça. Ficaram ali por um momento, abalados, silenciosos, aturdidos com o que chegaram a pensar.

─ Como conseguiram completar a ligação? ─ Perguntou Isabella finalmente.

─ Um dos guarda-costas disse que hoje houve alguma coisa com as linhas. O sistema interceptador dos telefonemas do escritório deve ter sofrido uma interrupção por alguns minutos. Ou talvez tenham deixado escapar o chamado. Deve ter caído no escritório de Amadeo por alguma razão. Até devido a uma linha cruzada.

─ Mas por que fariam isso comigo? Oh, Deus, Bernardo... ─ Ela fechou os olhos e voltou a encostar a cabeça nos travesseiros por um instante. ─ E coitada da Luisa.

─ Esqueça a Luisa.

         ─ Irei vê-la daqui a pouco. Pensei...

─ Também eu. Pensei que tivesse acontecido realmente, Isabella. E se um dia acontecer? E se alguém levá-lo também?

Fitou-a impiedosamente no momento em que ela fechava os olhos e sacudia a cabeça.

─ Não diga uma coisa dessas.

─ O que fará você? Vai acrescentar mais uma dúzia de guardas ao séquito? Construir uma fortaleza só para você e o menino? Terá um ataque cardíaco da próxima vez que receber o telefonema de um maníaco?

─ Não sou velha o bastante para ter ataque cardíaco.

Olhou-o com uma expressão de tristeza e uma tentativa de sorriso, mas Bernardo não retribuiu.

─ Você não pode mais viver assim. E não me venha com discursos sobre o que está fazendo por Amadeo, sobre assumir seu lugar. Se ele soubesse o que esteve fazendo, como esteve vivendo, trancada aqui, no escritório, mantendo a criança trancada também. Se ele soubesse os riscos que estaria correndo com aquele menino só por continuar morando em Roma, ele a mataria, Isabella. Você mesma sabe disso. Não ouse jamais tentar justificar essa atitude me dizendo que está fazendo tudo isso só por causa dele. Amadeo jamais a perdoaria. E, talvez, um dia, nem Alessandro. Você está proporcionando a ele uma infância de terror, sem mencionar o que está fazendo a si mesma. Como ousa! Como ousa! –

A voz de Bernardo, à medida que falava, elevava-se com firmeza. Ele andava pelo quarto em passadas rígidas e lentas, voltando-se para olhá-la, gesticulando. Passou uma das mãos pelo cabelo, depois tornou a sentar-se, lamentando a própria explosão, preparada para encolerizar Isabella.

Mas ao olhá-la ficou desorientado, porque desta vez Isabella não o mandara para o inferno. Não evocara o sagrado nome de Amadeo, não lhe dissera que sabia que estava certa procedendo assim.

─ O que acha então que eu devia fazer? Fugir? Deixar Roma? Esconder-me pelo resto da vida? ─ perguntou ela.

Mas desta vez não havia ironia. Apenas a sombra do terror que acabara de sentir mais uma vez.

─ Não precisa se esconder pelo resto da vida. Mas talvez tenha de fazer algo parecido por uns tempos.

─ E depois o quê? Bernardo, como eu posso?

Ela parecia uma menina assustada, cansada. Gentilmente, Bernardo tomou-lhe a mão.

─ Você é obrigada, Isabela. Não tem escolha. Eles a deixarão louca se ficar. Vá viajar. Por seis meses, um ano. Resolveremos tudo. Podemos nos comunicar. Você pode me dar ordens, instruções, úlceras, qualquer coisa, mas não fique aqui. Pelo amor de Deus, não fique aqui! Eu não suportaria se... ─ Ele sacudiu a cabeça que deixara cair entre as mãos. Chorava. ─ ...se algo acontecesse a Alessandro ou a você. ─ Ergueu os olhos para ela então, as lágrimas ainda escorrendo dos seus olhos azuis. ─ Você é como minha irmã. Amadeo era meu melhor amigo. Pelo amor de Deus, faça uma viagem!

─ Para onde?

─ Poderia ir para Paris.

─ Não há mais nada para mim em Paris. Já morreram todos. Meu avô, meus pais. E se essas pessoas podem fazer isso comigo aqui, farão na França com a mesma facilidade. Por que não posso encontrar um lugar isolado, aqui no campo, talvez não muito distante de Roma? Se ninguém souber onde estou, seria a mesma coisa.

Mas agora Bernardo olhou-a zangado.

─ Não comece fazendo seu jogo. Vá embora, droga! Agora! Vá para algum lugar. Qualquer lugar. Não a dez minutos de Roma, nem em Milão ou Florença. Vá para longe, que diabo!

─ O que está sugerindo? Nova York?

Fizera a pergunta com ironia, contudo, no momento em que pronunciou as palavras, ela soube, bem como ele. Isabella ficou parada por um longo tempo, pensando, enquanto ele a observava, esperançoso, rezando. Silenciosamente, ela assentiu com a cabeça, concordando. Olhou para ele muito séria, avaliando aquilo tudo. Então, levantou-se da cama devagar e dirigiu-se ao telefone.

─ O que está fazendo?

A expressão dos seus olhos dizia que ela não estava derrotada, que não desistiria. Que ainda havia esperança. Ela não ficaria fora por um ano. Não deixaria que a afastassem do seu lar, do seu trabalho, do lugar ao qual pertencia. Mas iria. Por algum tempo. Se pudesse ser arranjado. Havia fogo em seus olhos outra vez quando Isabella pegou no telefone.

 

Uma loura alta e magra, o cabelo caindo sobre um dos olhos, encontrava-se numa salinha pintada de amarelo-claro, martelando com empenho numa máquina de escrever. A seus pés, um pequeno cocker spaniel castanho dormia, e pela sala espalhavam-se livros, plantas e montanhas de papéis. Havia sete ou oito xícaras de café vazias ou emborcadas, depois de fuçadas pelo cachorro, e, pregado sobre a janela, um pôster de São Francisco. Ela o chamava de seu panorama. Evidentemente, tratava-se do gabinete de uma escritora. E as capas emolduradas dos seus últimos cinco livros pendiam tortas na parede mais distante, espalhadas entre fotografias igualmente tortas de um iate ancorado em Monte Carlo, de duas crianças numa praia de Honolulu, de um presidente, um príncipe e um bebê. Todas relacionadas, de alguma forma, com publicidade, amantes ou amigos, exceto o bebê, que era dela. A data da fotografia era de cinco anos atrás.

O spaniel moveu-se preguiçoso no calor do aquecimento do apartamento nova-iorquino. A mulher na máquina de escrever esticou os pés descalços e, distraída, acariciou o cachorro.

─ Agüente um pouco, Ashley. Estou quase terminando.

Ela apanhou uma caneta preta e fez algumas correções apressadas com a mão esguia e fina, despojada de anéis. A voz com que falara com o cachorro decididamente possuía sotaque sulista. Savannah. Uma voz que lembrava grandes plantações, festas e elegantes salas de estar do extremo sul. Uma voz aristocrática. Uma dama.

─Droga!

Ela agarrou a caneta outra vez, riscou metade de uma página e ajoelhou-se freneticamente no chão, em busca de duas páginas que há uma hora não via. Estavam ali em algum lugar. Refeitas, datilografadas, corrigidas. E, é claro, importantes. Ela estava reescrevendo um livro. Aos trinta anos, continuava com o mesmo físico da época em que viera para Nova York, aos dezenove, para ser modelo, apesar dos protestos violentos da família. Persistira durante um ano, odiando o que fazia, mas não admitindo isso para ninguém, a não ser para a sua querida colega de quarto romana, que viera para os Estados Unidos por um ano, a fim de estudar o design americano. Como Natasha, Isabella viera para Nova York por um ano. Mas Natasha levara um ano, desde que saíra da faculdade, para tentar a sorte e ter sucesso sem depender de ninguém. Não era o que seus pais planejaram para ela. Ricos em refinada linhagem sulista e pobres em dinheiro vivo, queriam que a filha terminasse a faculdade e se casasse com um excelente rapaz sulista, coisa que não passava pela cabeça de Natasha.

Aos dezenove anos, tudo que ela desejara era sair do sul, ir para Nova York, ganhar dinheiro e ser livre. E conseguiu. Ganhou dinheiro como modelo e, depois, como escritora independente. Chegou inclusive a ser livre, durante algum tempo. Até que conheceu e se casou com John Walker, crítico teatral. Um ano mais tarde tiveram um filho, para se divorciarem um ano depois. Tudo que lhe restou foi um corpo magnífico, um rosto sensacional, talento para escrever e um filho de quinze meses de idade. E, cinco anos mais tarde, já escrevera cinco romances e dois roteiros para o cinema, sendo uma estrela no mundo literário.

Mudara-se para um grande e confortável apartamento na Park Avenue, pusera o filho numa escola particular, contratara uma governanta, investira dinheiro; e Natasha Walker divertia-se muitíssimo. Após ter adquirido sucesso para acrescentar à beleza, Natasha tinha tudo.

─ Sra. Walker?

Houve uma suave batida na porta.

─ Agora não, Hattie, estou trabalhando.

Natasha afastou o longo cabelo louro dos olhos e recomeçou a examinar minuciosamente a pilha de papéis.

─ Tem certeza? É um telefonema. Acho que é importante.

─ Acredite em mim. Não é importante.

─ Mas dizem que é de Roma.

A porta foi aberta antes que Hattie pudesse acrescentar outra palavra à sua exortação. Já não havia mais necessidade. Natasha atravessou a cozinha, com os pés nus, compridos e magros batendo no piso amarelo-claro, os jeans apertados realçando os ossos dos quadris, a camisa masculina abotoada logo abaixo dos seios pequenos.

─ Por que não me disse que era de Roma? ─ Lançou um olhar de censura para a mulher negra de cabelos grisalhos, crespos e macios e, depois, esboçou um rápido sorriso. ─ Não se preocupe. Sei como sou desagradável quando estou trabalhando. Só não entre ali. Não lave as xícaras de café, não regue as plantas, nada. Preciso da confusão.

Hattie fez uma careta de zombaria diante do refrão familiar e desapareceu por um corredor claro e ensolarado em direção aos quartos enquanto Natasha atendia ao telefone.

─ Alô?

─ Signora Natasha Walker?

─ Eu mesma.

─ Temos uma ligação de Roma. Um instante, por favor.

Natasha ficou muito quieta e aguardou. Não havia falado com Isabella desde que soube das notícias. Sua vontade foi voar para Roma, para o enterro. Mas Isabella não desejara que ela fizesse a viagem. Pedira-lhe que aguardasse. Ela escrevera e aguardara, porém, pela primeira vez, nos onze anos daquela amizade, não houve nenhuma resposta, nenhuma notícia. Quatro meses já se haviam passado desde a morte de Amadeo, e ela nunca se sentira tão afastada de Isabella desde que a amiga deixara o apartamento que compartilharam durante um ano e voltara para Roma. Tampouco escrevera nos primeiros meses, mas isso porque Isabella andara ocupada demais com seus designs, e depois se apaixonara. Apaixonada demais. Natasha ainda recordava a excitação contida nas cartas de Isabella quando lhe escrevera para contar: “... e ele é maravilhoso... e eu o amo... tão bonito... tão alto, louro, e vou trabalhar para ele na San Gregorio, fazendo alta costura de verdade..." A alegria e a excitação continuaram através dos anos. Havia sido uma lua-de-mel permanente com aqueles dois. E, então, subitamente, ele estava morto. Abalada e horrorizada, Natasha ficara sentada em silêncio, enquanto inteirava-se do fato através do noticiário das seis.

─ Signora Walker?

─ Sim, sim, eu mesma.

─ A pessoa já vai falar.

─ Natasha? ─ A voz de Isabella estava estranhamente controlada.

─ Por que não tem respondido às minhas cartas?

─ Eu... não sei, Natasha... não sabia o que dizer.

Natasha franziu a testa, depois assentiu com a cabeça.

─ Fiquei preocupada. Você está bem?

A preocupação em sua voz viajou oito mil quilômetros para apresentar-se a Isabella, que enxugou as lágrimas dos olhos e quase sorriu.

─ Acho que sim. Preciso de um favor.

Sempre fora assim com elas. Podiam recomeçar de onde quer que tivessem parado. Podiam não se falar durante seis meses e depois, instantaneamente, voltarem a ser irmãs quando se encontrassem ou tornassem a se falar. Era uma dessas raras amizades que sempre podia ser interrompida sem esfriar.

─ O que desejar ─ respondeu Natasha.

Isabella explicou em breves palavras o que tinha acontecido com Alessandro naquele dia, ou o que não tinha, mas que podia ter acontecido.

─ Não agüento mais. Não estou agüentando uma coisa dessas ─ disse ela. ─ Não posso correr o risco e deixar que aconteça alguma coisa com ele.

Ao pensar no próprio filho, Natasha sentiu-se estremecer só em ouvir a história.

─ Ninguém agüentaria. Gostaria de mandá-lo para mim?

Os meninos tinham a mesma idade, apenas quatro meses de diferença, e Natasha não era pessoa que ficasse arrasada com mais uma criança.

─ Jason vai adorar ─ acrescentou. ─ Ele fica se queixando comigo por não ter um irmão. Além disso, ambos têm muito em comum.

No ano anterior, quando todos se encontraram para esquiar em Saint Moritz, os dois meninos se divertiram cortando o cabelo um do outro.

─ Estou falando sério, Isabella. Acho que você devia tirá-lo de Roma.

─ Concordo. ─ Houve uma pausa de uma fração de segundo. ─ Como se sentiria tendo uma companheira de quarto outra vez?

Ela aguardou, não sabendo o que Natasha diria, mas sua resposta foi imediata. Tomou a forma de um grito longo, encantado, de uma menina sulista. Isabella viu-se subitamente rindo.

─ Adoraria. Está falando sério?

─ Muito. Bernardo e eu concluímos que não há outro jeito. Só por algum tempo. Não permanente, é claro. E, Natasha ─ ela parou, imaginando como explicar que ela não estava apenas fugindo ─ talvez fosse um tanto embaraçoso. Terei de ficar escondida. Não quero que ninguém saiba onde estou.

─ Vai ser difícil. Você não poderá pôr o pé fora do apartamento.

─ Acha mesmo que as pessoas aí me reconheceriam se me vissem?

─ Quer saber mesmo? Talvez os operários que vão para o trabalho de metrô não a reconheçam, mas praticamente todos os demais o fariam. Além disso, se você desaparecer de Roma, isso sairá nos jornais do mundo inteiro.

─ Então só terei de ficar escondida.

─ Será que poderá viver assim? ─ Natasha tinha suas dúvidas.

─ Não tenho escolha. Pelo menos no momento. Isso é o que preciso fazer.

Natasha sempre sentira admiração pelo senso de dever e pela coragem de Isabella, bem como por sua maneira pessoal de fazer as coisas.

─ Mas tem certeza de que pode agüentar viver comigo? Posso ficar em outro lugar ─ disse Isabella.

─ Proíbo que fique em outro lugar. Se fizer isso, nunca mais falo com você. Quando pretende chegar?

─ Não sei. Mal acabei de tomar a decisão. Levará tempo para resolver os assuntos sobre o escritório. Terei de continuar dirigindo a San Gregorio de onde estiver.

Em resposta, Natasha deixou escapar um assobio longo e baixo.

─ Como vai conseguir?

─ Teremos de resolver. Coitado do Bernardo, como sempre, terá de agüentar o rojão. Mas posso falar com ele todos os dias pelo telefone, se precisar, e temos um escritório aí para o nosso representante. Posso telefonar sem lhe dizer que estou em Nova York. Creio que pode ser resolvido.

─ Se pode, então você o fará. Se não puder, o fará de qualquer modo.

─ Gostaria de me sentir tão segura. Detesto deixar a empresa aqui. Oh, Natasha... ─ Soltou um longo suspiro de infelicidade. ─ Tem sido uma época horrível. Nem me sinto a mesma.

Natasha nada disse, mas Isabella não parecia ela própria. Obviamente, os últimos quatro meses tinham cobrado um alto tributo.

─ Sinto-me como um robô ─ continuou Isabella. ─ Mal consigo chegar ao fim de cada dia que passa, matando-me no escritório e brincando com Alessandro quando posso. Mas continuo... continuo pensando... ─ Natasha pôde sentir que a voz da amiga falhou do outro lado do fio. ─Continuo pensando que ele vai ainda voltar para casa. Que ele, na verdade, não morreu.

─ Acho que é o que acontece quando alguém que amamos desaparece de repente, como foi o caso. Você ainda não teve tempo para assimilar o que aconteceu, para compreender.

─ Já não compreendo mais nada.

─ Não é necessário. ─ A voz de Natasha estava cordial. ─ Venha para casa apenas. ─ Havia lágrimas em seus próprios olhos enquanto pensava na amiga. ─ Você devia ter permitido que eu fosse a Roma quatro meses atrás. Eu a teria trazido de volta.

─ Não teria não.

─ Teria sim. Sou mais alta que você, lembra-se?

De repente, Isabella riu. Seria muito agradável rever Natasha. E talvez até fosse divertido ir a Nova York. Divertido! Que loucura pensar numa coisa dessas, depois de tudo que acontecera nos últimos quatro meses.

─ Falando sério, quando acha que terá resolvido tudo? ─ Natasha já estava fazendo cálculos rápidos e começara a rabiscar algumas anotações. ─ Gostaria de mandar Alessandro na frente? Ou gostaria que eu fosse buscá-lo agora?

Por um momento, Isabella considerou a possibilidade, porém disse:

─ Não, eu o levarei comigo. Não quero perdê-lo de vista.

Ao ouvi-la, Natasha começou a imaginar que espécie de efeito tudo isso estaria causando ao menino, mas não era hora de perguntar e Isabella já continuava com o assunto.

─ E não esqueça, não fale com ninguém a respeito. E, Natasha... Obrigada.

─ Vá para o inferno, cara de espaguete.

Cara de espaguete, o apelido que Natasha lhe dera e que Isabella não ouvia há anos. Ao despedir-se, percebeu que ria pela primeira vez em meses. Desligou o telefone e ergueu os olhos para fitar Bernardo, seu rosto uma concentração de ansiedade e tensão. Havia esquecido que ele estava ali.

─ Vou viajar.

─ Quando?

─ Assim que resolvermos tudo sobre o escritório. O que acha? Dentro de algumas semanas?

Ela o olhava, sua mente começando de repente a girar. Seria viável? Poderia ser feito? Poderia ela dirigir a empresa do seu esconderijo com Natasha em Nova York?

Mas Bernardo assentia com a cabeça.

─ Acho que sim. Retiraremos você daqui, nas próximas semanas.

Depois, ele apanhou um monte de papéis sobre a mesa no quarto de Isabella e começaram a elaborar um plano.

 

Nas três semanas seguintes, os telefonemas cortaram velozmente o ar entre Nova York e Roma. Isabella ia querer uma ou duas linhas telefônicas? Alessandro iria para a escola? Ela levaria os guarda-costas?

Isabella ria, erguendo as mãos. Certa vez Amadeo declarara que Natasha poderia construir uma ponte, governar um país e ganhar uma guerra sem deixar tantas marcas quantas deixava ao fazer as unhas. Agora Isabella concluiu que ele tinha razão.

Dois telefones, Isabella ordenou. Decidiria mais tarde se mandaria Alessandro para a escola ou não. E, quanto aos guarda-costas, não precisaria de nenhum. Os edifícios residenciais da Park Avenue eram verdadeiras fortalezas hoje em dia, e o de Natasha um dos mais bem guardados de Nova York.

─Os planos de Isabella para a partida foram igualmente bem guardados. Nenhum general chegou a esquematizar uma campanha com tanta precisão ou tanto sigilo como Isabella e Bernardo planejaram sua fuga da San Gregorio. Ninguém, nem mesmo o mais alto escalão da San Gregorio, conhecia seu destino; a maioria nem mesmo sabia, de maneira alguma, que ela estava partindo. Tinha de ser dessa maneira. Tudo precisava ficar em segredo. Pelo bem dela e do menino. Ela simplesmente desapareceria. Correriam boatos de que estava escondida na cobertura do prédio dos seus escritórios. Apenas Isabella, sozinha com o filho. As refeições seriam enviadas lá para cima, retornando os pratos vazios; a roupa para a lavanderia entrava e saía. Na verdade, devia haver um inquilino naquele apartamento; Livia, a secretária fiel de Amadeo, oferecera-se para isolar-se ali, fazendo os ruídos apropriados, caminhando pelo assoalho estalante de parquete. Todos saberiam que alguém estava morando ali escondido. Como poderiam suspeitar que a própria Isabella estava em Nova York? Tinha que dar certo. Pelo menos por algum tempo.

─ Está tudo pronto? –

Isabella ergueu os olhos para Bernardo. Ele metia outra pilha de pastas de arquivo numa grande sacola de couro. Bernardo assentiu com a cabeça, em silêncio, e Isabella notou como ele parecia envelhecido e cansado.

─ Acho que tenho cópia de todo arquivo que possuímos ─ disse ela. ─ E quanto às exportações para a Suécia? Você gostaria que eu assinasse algumas daquelas guias agora, antes de partir?

Ela continuou fazendo os pacotes enquanto Bernardo dirigiu-se ao seu escritório em busca das guias. Outra pasta de couro. Mais arquivos, mais amostras de tecido, alguns cálculos de Amadeo, recortes de jornais financeiros enviados pelo representante deles nos Estados Unidos. Já tinha trabalho suficiente para mantê-la ocupada durante seis meses. Haveria mais, um fluxo constante de documentos, arquivos, relatórios, informações. O que não poderia ser feito pelo telefone, Bernardo enviaria através do agente literário de Natasha, simplesmente endereçado à sra. Walker. Isabella concentrava-se no plano, no trabalho a ser feito. Pensar por que estava fazendo os embrulhos, admitir que estava partindo, era mais do que podia suportar.

Momentos depois, Bernardo estava de volta com os papéis. Isabella tirou a tampa da caneta de ouro da Tiffany, que fora de Amadeo, e assinou.

─ Sabe de uma coisa? Acho que esta não é a hora ou o lugar, mais ainda gostaria que você pensasse melhor ─ disse Bernardo.

─ Pensasse em quê?

─ Isabella olhou-o com uma expressão aparvalhada. Mal conseguia continuar pensando. Tinha coisas demais na cabeça.

─ Na compra oferecida pela I.H.I. - F-B. Talvez acabe se encontrando com eles em Nova York.

─ Não, Bernardo. Estou lhe dizendo pela última vez. ─ Nem sequer desejava discutir o assunto. E agora não tinha tempo. ─ Julguei que você havia prometido não tocar mais nisto.

─ Tudo bem.

De certa forma, ela estava com a razão. Ainda tinham muito que resolver naquele exato momento. Mais tarde, sempre haveria possibilidade de discutir sobre o assunto quando ela estivesse cansada de tentar dirigir a empresa a oito mil quilômetros de distância. O pensamento o deteve. Quem teria imaginado, seis meses atrás, que Amadeo estaria morto, Isabella escondida, e ele, Bernardo, sozinho? Sentiu uma onda de desânimo dominá-lo, ao mesmo tempo em que vigiava Isabella trancar a última pasta de documentos. Lembrou-se do verão que passaram em Rapallo. Amadeo contara dezessete malas de Isabella; toalhas de mesa, lençóis, roupas de banho... caixas de chapéu, uma valise só para sapatos. Mas esta viagem não seria para Rapallo. Seria uma vida inteiramente diferente, uma vida iniciada com duas valises, uma mala para as roupas de Isabella e outra para as de Alessandro.

─ Alessandro ficará inconsolável por não estarmos levando sua bicicleta ─ disse Isabella subitamente, interrompendo os pensamentos dele.

─ Mandarei para Nova York uma para ele. Outra melhor.

Deus, como ele ia sentir falta do menino! E também de Isabella. Seria estranho não tê-la por perto. Sem disputas ruidosas, sem olhos de ônix chamejantes presos aos dele. Sua úlcera confiava nela, bem como ele próprio.

─ Estaremos de volta dentro em breve, Nardo. Acho que não poderei suportar por muito tempo ficar longe daqui.

Ela tornou a levantar-se, lançando um olhar pelo seu gabinete, imaginando o que poderia ter esquecido, abrindo seus arquivos mais uma vez, enquanto Bernardo a observava, silencioso. Ela olhou-o por cima do ombro, com um meio sorriso cansado.

─ Escute, por que não vai para casa e procura dormir um pouco? Vai ser uma longa noite.

─ É, acredito. Eu... Isabella... ─ Sua voz estava estranhamente embargada, enquanto ela se virava lentamente. ─ Vou sentir sua falta. E do menino.

A expressão dos olhos era o primeiro sinal de seus verdadeiros sentimentos, desde o Natal.

─ Também sentiremos sua falta.

A voz de Isabella ficou abafada quando estendeu os braços e os dois uniram-se estreitamente naquele aposento tão familiar. Quando tornaria a ver aquele gabinete? Ou Bernardo?

─ Mas estaremos logo de volta. Muito em breve. Você vai ver.

─ Ecco.

Havia lágrimas nos olhos de Bernardo, que ele procurou reprimir pestanejando, no momento em que ela se afastava. Ocultar seus sentimentos era uma coisa e não estar ao lado dela, em definitivo, outra totalmente diferente. Ele já sofria diante daquela perda, mas não havia outra maneira. Pelo bem dela e do menino.

─ Agora vá para casa e procure dormir um pouco.

─ É uma ordem?

─ Claro. ─ Ela esboçou um largo sorriso enviesado e sentou-se discretamente numa cadeira. ─ Que época horrível para se ir à Riviera!

Procurou parecer entediada e desinteressada enquanto ele ria, parado à porta. Era o plano que tinham estabelecido. Ele a levaria de carro até a fronteira com a França e atravessariam a Riviera até Nice, onde ela pegaria o vôo matutino para Londres; lá haveria a mudança dos guarda-costas e, enfim, ela seguiria para Nova York. Era bem provável que Isabella e Alessandro ficassem em trânsito quase 24 horas.

─ Há alguma coisa que eu poderia levar esta noite para Alessandro? Biscoitos? Um jogo?

─ Biscoitos são sempre uma excelente idéia, mas talvez uma manta e um pequeno travesseiro. E um pouco de leite.

─ Mais alguma coisa? Para você?

─ Apenas não falte, Nardo. E reze para que estejamos a salvo.

Ele assentiu, com ar sério, abriu a porta com um puxão e se foi. Ele não só rezou para que ela partisse em segurança, como também para que voltasse a salvo. E logo. E que voltasse para ele.

 

─ Mamma, quer me contar uma história?

Isabella estava sentada na beirada da cama de Alessandro. Uma história... uma história... nessa noite, ela mal conseguia pensar, quanto mais inventar narrativas complicadas.

─ Por favor...

─ Muito bem. Vejamos. ─ Sua testa franziu-se, produzindo uma carranca ao olhar para o menino, seus dedos longos e elegantes apertando-lhe a mãozinha branca. ─ Era uma vez um menino. Ele vivia com sua: mãe e...

─ Ele não tinha pai?

─ Já não tinha mais.

Alessandro assentiu com a cabeça, compreendendo, e aconchegou-se na cama. Ela lhe disse o nome do lugar onde o menino morava com a mãe e todos os amigos que tinham, pessoas que os amavam e uns poucos que não.

─ O que eles fizeram?

Alessandro começava a gostar da história; possuía um tom de credibilidade.

─ A respeito de quê? ─ Era fácil distrair-se, Isabella tinha milhares de coisas na cabeça.

─ O que eles fizeram a respeito das pessoas que não gostavam deles?

─ Ignoraram-nas. E sabe mais o que fizeram? ─ Ela abaixou a voz, num tom de conspiração. ─ Fugiram.

─ Fugiram? Isso é horrível! ─ Alessandro parecia chocado. ─ Papai sempre dizia que era errado fugir. Só quando você tem absoluta necessidade, como fugir de um leão ou de um cão muito bravo.

Ela gostaria de lhe dizer que algumas pessoas são como cães, mas, na verdade, não estava muito certa sobre o que dizer. Olhou pensativamente para o filho; sua mão ainda estava entre as dela.

─ E se fugindo ficassem em maior segurança? E se fugindo evitassem que fossem importunados pelos leões e cães bravos? E se fossem para um lugar maravilhoso onde pudessem ser felizes outra vez? Isso não seria certo?

Enquanto olhava para o menino, ela descobriu que tinha muito para dizer.

─ Acho que sim. Mas há um lugar assim? Onde todos vivam em segurança?

─ Talvez. Porém, de qualquer modo, você está a salvo, meu querido. Sabe disso. Jamais deixarei que alguma coisa lhe aconteça.

Ele olhou-a com ar preocupado.

─ Mas e quanto a você?

Ele ainda tinha pesadelos. Se tinham apanhado seu pai, não podiam também apanhar sua mãe? Era inútil dizer-lhe, repetidas vezes, que não. Nesse caso, por que a casa vivia cheia de guarda-costas? Ninguém enganava Alessandro.

─ A mim também não acontecerá nada. Prometo.

─ Mamma...

─ O que é?

─ Por que não fugimos?

─ Se o fizéssemos, não ficaria triste? Não haveria mamma Teresa, nem Enzo, nem Luisa...

Nem carrossel, nem bicicleta, nem Roma. Nenhuma lembrança de Amadeo...

─ Mas haveria você! ─ Parecia encantado.

─ Seria suficiente? ─ Ela achou divertido.

─ Claro!

O sorriso gentil do filho deu-lhe coragem para continuar com a história, a do menino e sua mãe que encontraram um novo lar numa nova terra, onde ficaram, como num passe de mágica, a salvo e onde fizeram novos amigos.

─ Ficaram lá para sempre?

Ela ficou olhando o filho por um longo tempo.

─ Não estou certa, acho que voltaram para casa outra vez. No final.

─ Por quê? ─ Parecia-lhe uma idéia ridícula.

─ Talvez porque o lar seja sempre o lar, não importa o quanto possa ser difícil.

─ Acho que é uma estupidez.

─ Você não gostaria de voltar para casa se fosse embora?

Ela olhou-o, aturdida, surpresa com o que ele acabara de dizer.

─ Não se tivessem acontecido coisas ruins ali.

─ Como aqui na villa?

Ele assentiu em silêncio.

─ Mataram meu pai aqui. São pessoas ruins.

─ Não foram todos que fizeram isso, Alessandro. Apenas alguns homens muito ruins.

─ Então como ninguém descobriu eles para serem castigados ou espancados?

Olhou-a com pesar, e ela puxou-o gentilmente para seus braços.

─ Talvez ainda venham a fazê-lo.

─ Não me interessa. Quero fugir. Com você.

Aninhou-se mais a ela e Isabella sentiu o calor dele em seus braços. Era o único calor que sentia ultimamente, agora que Amadeo se fora.

─ Talvez um dia... fujamos para a África juntos e vivamos numa árvore.

─ Puxa, eu gostaria disso! Podemos? Por favor, podemos?

─ Não, claro que não. Além disso, você não poderia dormir em sua bela cama aconchegante numa árvore. Poderia?

─ Acho que não. ─ Lançou para a mãe um olhar meigo por um longo momento, depois sorriu e deu um tapinha em sua mão. ─ Foi uma ótima história.

─ Obrigada. A propósito, já lhe disse hoje o quanto amo você? ─ Estava inclinada sobre ele, sussurrando em seu ouvido.

─ Também amo você.

─ Ótimo. Durma agora, querido. Até amanhã cedo.

Muito cedo. Dentro de sete horas. Aconchegou-o bem debaixo das cobertas e fechou a porta de mansinho, caminhando pelo longo corredor espelhado.

A noite foi uma espera longa e angustiante. Isabella ficou na sala de estar, examinando alguns papéis e vigiando o relógio Fabergé arrastar-se em direção às oito horas da noite. As oito em ponto, o jantar foi servido na sala de jantar, e ela comeu, como sempre, rápido e sozinha. Às 8:40, estava de volta ao quarto, olhando pela janela, para a sua imagem no espelho, para o telefone. Não poderia fazer nada antes que tudo ficasse em silêncio. Nem ousou voltar para o vestíbulo. Ficou sentada ali sozinha durante três horas, pensando, esperando, olhando para fora. Da janela do quarto podia ver o carrossel, no jardim, as janelas da cozinha, as da sala de jantar e as do pequeno gabinete onde Amadeo fazia revisão de documentos em casa. Por volta da meia-noite, todas as janelas da casa estavam às escuras, exceto as do seu próprio quarto. Ela dirigiu-se furtivamente até o final do longo corredor onde havia um armário. Abriu-o, verificou seu interior e retirou duas grandes sacolas Gucci. Havia uma de couro macio cor de chocolate, com as clássicas listras verdes e vermelhas. Olhou-as com expressão especulativa. Como se pode colocar uma vida inteira dentro de duas sacolas?

De volta ao quarto, trancou a porta, puxou as, persianas e abriu o closet, escolhendo as coisas sem fazer nenhum ruído. Em seguida, retirou rapidamente as calças dos cabides, os suéteres de cashmire dos sacos plásticos forrados de seda, feitos especialmente para esse fim. Bolsas, meias, roupas de baixo, sapatos. Era mais fácil agora. Tudo que usava ultimamente ainda era preto. Isabella levou exatamente meia hora para colocar na mala três saias, sete suéteres, seis vestidos pretos de lã e um tailleur. Mocassins pretos, cinco pares de sapatos de salto alto, um par de sapatos pretos de noite, de cetim e camurça. Sapatos de noite? Olhou de novo para o closet e retirou cuidadosamente um vestido preto de cetim, longo, totalmente liso. Terminou tudo em menos de uma hora. Dirigiu-se ao cofre. Tudo estava outra vez em suas respectivas caixas, como estiveram desde que Bernardo trouxera de volta da Paccioli, após ter devolvido o dinheiro de Alfredo. O dinheiro que ela não pudera entregar aos seqüestradores. As jóias que não usava mais. Mas não tinha coragem de deixá-las ali. E se alguém arrombasse a casa? Se alguém as roubasse? Se! Sentiu-se uma refugiada fugindo do país durante a guerra. Esvaziou as caixas de veludo verde e colocou tudo nos estojos de cetim, guardando no compartimento secreto de uma grande bolsa Hermés, de couro de crocodilo. Carregaria no braço durante a viagem. Finalmente, fez a valise deslizar até o chão e saiu sorrateira do quarto, trancando-o. Carregou a valise vazia pelo corredor até o quarto de Alessandro, trancando a porta pelo lado de dentro. O menino dormia profundamente, aconchegado nas cobertas, uma das mãos agarrada a um ursinho de pelúcia e a outra pendendo fora da cama. Esboçou um breve sorriso para o filho e começou a esvaziar a cômoda. Roupas quentes, um conjunto para andar na neve, luvas, gorros de lã, roupas para brincar, para usar no apartamento, jogos e alguns dos seus brinquedos favoritos. Lançou um olhar pelo quarto, imaginando o que seria mais precioso, enquanto fazia a escolha.

A 1:30, ela estava pronta, as valises ao seu lado, o quarto obscurecido devido à luz suave. Bernardo estaria trazendo as duas valises que ela fechara no escritório. Estava pronta. O relógio na mesinha-de-cabeceira tiquetaqueava implacavelmente. Decidira acordar Alessandro quando desse 1:40. Sabia que lá fora, em algum lugar, os dois guarda-costas estavam esperando, preparados para viajar, embora não tivessem a mínina idéia de para onde. Tinham sido cuidadosamente selecionados por Bernardo e avisados para inventarem uma história que justificasse seu paradeiro durante o dia. Estariam de volta a Roma na noite seguinte, após deixarem Isabella e Alessandro em Londres, onde apanhariam o vôo da tarde.

Isabella ofegava, sentindo o coração bater dentro do peito. O que estava fazendo? Estava certa em partir? Poderia realmente deixar tudo nas mãos de Bernardo? E por que estava deixando seu lar? Silenciosamente, abriu a porta outra vez e saiu de mansinho. A casa estava totalmente em silêncio quando ela perambulou devagar pelo corredor. Ainda tinha dez minutos para acordar Alessandro, dez minutos para dizer adeus.

Viu-se na sala de estar, olhando ao redor à luz da lua, passando a mão pela mesa, lançando um olhar para o sofá vazio. Ali tivera festas incontáveis com Amadeo, noites felizes, dias melhores. Lembrava-se do rebuliço que fizera escolhendo os tecidos, os objetos comprados em Paris, o relógio que, afetuosamente, trouxeram de Nova York. Depois, continuou vagueando, passou pela sala de jantar em direção a uma sala de estar menor, que usavam pouquíssimo. Por fim, em silêncio, ficou na entrada do pequeno gabinete que Amadeo tanto amara. Em geral ficava inundado de sol e de luz, repleto de tesouros, livros, troféus e plantas de floração radiante. Fizera dele o paraíso para o marido, e ambos refugiavam-se ali com freqüência para falarem de negócios ou para rirem de Alessandro pelas portas envidraçadas que davam para o jardim. Foi ali que o viram dar seus primeiros passos, ali que Amadeo muitas vezes lhe dissera que a amava, ali que ele de vez em quando fazia amor com ela no confortável sofá de couro castanho e, algumas vezes, sobre o tapete espesso do chão. Ali haviam fechado as persianas e cortinas, tinham se ocultado, tramado, brincado e vivido, ali, no aposento agora tão vazio enquanto o olhava, mal ousando entrar, com uma das mãos apoiada na porta. "Ciso, Amadeo, eu voltarei." Era uma promessa que fazia a si mesma e a ele, à casa e à Roma. Cruzou o tapete e parou ao aproximar-se da escrivaninha. Ainda havia uma fotografia dela ali, numa moldura de prata que fora presente de Bernardo.

Enquanto olhava o retrato na escuridão, lembrou-se do ovinho de ouro Fabergé, que dera para o marido no seu aniversário, pouco antes de Alessandro nascer. Passou os dedos por ele gentilmente, tocou no couro sobre a mesa e depois, lentamente, virou-se. "Ciao, Amadeo." Ao fechar a porta atrás de si, sussurrou: "Adeus."

Parou um momento no vestíbulo, depois dirigiu-se apressada para o quarto de Alessandro, rezando para que ele acordasse facilmente e não chorasse. Por um breve espaço de tempo sentiu uma dor cruciante. Parecia um ato de crueldade levar o menino sem sequer deixar mamma Teresa despedir-se. Ela cuidara dele com todo amor, às vezes até com ferocidade, durante os seus cinco anos. Rezava para que a mulher pudesse suportar o choque do seu desaparecimento com coragem e que, de alguma forma, compreendesse quando lesse a carta de Isabella no dia seguinte.

Abriu a porta com suavidade, curvou-se sobre ele, segurando-o junto a si, sentindo sua respiração branda, ronronando em seu pescoço.

─ Alessandro, tesoro. É a mamma. Querido, acorde.

Ele mexeu-se tranqüilamente e virou para o outro lado. Ela tocou-lhe de leve na face com um dedo e beijou-o nos olhos.

─ Alessandro...

Ele abriu os olhos e então olhou-a. Sorriu, sonolento.

─ Amo você.

─ Também amo você. Vamos, querido, acorde.

─ Mas ainda não é de noite? ─ Fitou-a de modo estranho, olhando para a escuridão lá fora.

─É sim. Mas estamos partindo para uma aventura. É segredo. Apenas você e eu.

Ele olhou-a com interesse, arregalando os olhos.

         ─ Posso levar meu urso?

Ela assentiu sorrindo, esperando que ele não ouvisse o martelar acelerado do seu coração.

─ Já coloquei alguns dos seus brinquedos e jogos na valise. Vamos, doçura. Levante-se.

Ainda sonolento, o menino levantou-se, esfregando os olhos, e ela pegou-o no colo.

─ Carregarei você.

Caminhou de mansinho até a porta, trancou-a depois que saíram e precipitou-se para o próprio quarto, sussurrando para o filho que não deviam conversar; depois sentou-o na cama, retirando-lhe as pantufas e vestindo-o com roupas quentes.

─ Aonde vamos? ─ Ele ergueu um pé para que a mãe pudesse calçar-lhe a meia.

─ E surpresa.

─ Para a África?

Ele parecia encantado. Ajudou com a outra meia. Vestiu uma camiseta azul, um macacão de veludo cotelê. Também um suéter vermelho. Em seguida, os sapatos.

─ Para a África, mamma?

─ Não, tolinho. Um lugar melhor.

─ Estou com fome. Quero um copo de leite.

─ Tio Bernardo deve ter leite e biscoitos no carro para você.

─ Ele também vai? ─ Alessandro parecia intrigado.

─ Apenas uma parte do caminho. As únicas pessoas que percorrerão o caminho todo em nossa aventura são você e eu.

─ Mamma Teresa também não?

Ele afastou-se e Isabella parou. Fitou-o nos olhos e sacudiu a cabeça devagar.

─ Não, querido, ela não pode ir conosco. Nem podemos nos despedir.

─ Ela não vai ficar muito triste e nos odiar quando voltarmos?

─ Não. Ela compreenderá. ─ Pelo menos assim esperava.

─ Okay. ─ Ele sentou-se na cama outra vez, apanhando seu ursinho. ─ De qualquer modo, gosto mais de passear com você.

Isabella sorriu.

─ Também gosto de passear com você. Estamos prontos, agora?

Ela lançou um olhar ao redor. Tudo foi guardado ou embalado. Só as pantufas dele permaneciam tristemente sobre a cama de Isabella. Na escrivaninha, ela deixou um bilhete explicando à mamma Teresa e à governanta que o sr. Franco decidira que seria mais prudente para ela e o menino saírem da cidade. Elas poderiam entrar em contato com o sr. Franco imediatamente se houvesse qualquer problema na casa. Não deveriam informar sua partida ou falar com a imprensa.

─ Oh, quase íamos esquecendo de uma coisa. ─ Sorriu para o filho enquanto ele bocejava. ─ Apanhou seu ursinho? ─ Ele mostrou o bichinho enquanto a mãe o ajudava a vestir o capote. ─ Tudo pronto?

Ele fez que sim com a cabeça outra vez e apertou a mão dela com força. De repente, já na porta, ela enrijeceu. Podia ouvir o rangido dos portões elétricos, o lento revolvimento do cascalho, em seguida as vozes apressadas de Bernardo e de dois homens. Um instante depois, ouviu-se uma suave batida na porta.

─ Isabella, sou eu. ─ Era Bernardo.

Alessandro deixou escapar uma risadinha.

─ Isto está divertido.

Ela abriu a porta e viu um dos guarda-costas ao seu lado.

─ Estão prontos?

Ela confirmou, fitando-o com os olhos arregalados.

─ Eu carregarei Alessandro. Giovanni levará a bagagem.

─ É isto?

─ Isto é tudo.

─ Ótimo.

─ Falavam aos sussurros. Ela apagou a luz. Os faróis do Fiat lançavam um brilho pálido no corredor. Silenciosamente, ele apanhou Alessandro no colo enquanto o outro homem pegava a bagagem. Isabella foi a última. Ela fechou a porta. Estava acabado. Os adeuses tinham sido dados. Ela estava deixando seu lar.

Bernardo assumiu o volante, com um dos guardas ao seu lado. No banco de trás, o outro homem sentou-se ao lado de Isabella e de Alessandro. Enquanto se afastavam, ela lançou um olhar por sobre o ombro. A casa parecia como sempre. Porém, agora, era apenas uma casa. Uma casa vazia.

 

─ Va bene? ─ Isabella olhou de relance para Bernardo. Há horas que estavam viajando, correndo através da noite. ─ Não está cansado?

Ele sacudiu a cabeça. Estava nervoso demais para pensar no próprio cansaço. O sol despontaria dentro de uma hora, e ele queria atravessar a fronteira antes do dia raiar. Pela primeira vez, lamentava estar usando seu Fiat e sentia saudades da Ferrari de Amadeo. De qualquer forma, dirigira a mais de 120 por hora, porém agora talvez pudesse usar um pouco mais de velocidade. Em horas normais, os homens da alfândega poderiam ligar o nome no passaporte com o seu rosto e chamar a imprensa.

─ Falta muito ainda? ─ Perguntou Isabella.

─ Mais uma hora. Talvez duas.

O guarda-costas não disse nada. Alessandro dormia profundamente no colo de Isabella. Bernardo passara-lhe um pouco de leite e biscoitos; ele os mastigara ruidosamente, muito satisfeito, bebera dois goles de leite e dormira no mesmo instante.

         O sol estava prestes a despontar quando Bernardo finalmente parou. De cada lado da fronteira havia duas cabines aduaneiras com seus respectivos guardas impassíveis. Um italiano e outro francês. Eles avançaram lentamente até o portão do lado italiano e buzinaram.

─ Buon giorno.

Bernardo lançou um olhar divertido para o guarda uniformizado e entregou-lhe cinco passaportes. O homem de uniforme olhou para o carro sem interesse. Com os passaportes na mão, fez um sinal para Bernardo abrir o porta-malas. Ele desceu do carro, abriu o porta-malas, deixando ver as quatro sacolas de Isabella, duas cheias de papéis e duas com roupas.

─ Seus pertences? ─ Bernardo assentiu com a cabeça. ─ Estão indo para a França?

─ Estamos.

─ Por quanto tempo?

─ Alguns dias.

O guarda balançou a cabeça, ainda segurando os passaportes. Abriu o primeiro, que pertencia a um dos guarda-costas, enquanto Bernardo rezava com fervor para que ele não fosse um homem a par dos noticiários. O nome de San Gregorio era mais familiar agora do que nunca. Mas ambos foram surpreendidos por uma súbita buzinada no momento em que dois caminhões pararam bem atrás do carro. O homem da alfândega denotou impaciência e o motorista do primeiro caminhão usou um braço e um punho para expressar um gesto grosseiro. Com isso, o guarda fechou os passaportes com violência, devolveu-os a Bernardo e tornou a acenar para eles.

─ Ecco. Façam uma boa viagem.

Afastou-se em direção ao motorista do caminhão, com uma expressão de fúria reprimida no olhar. Grato, Bernardo deu partida no carro.

─ O que aconteceu? O que ele disse?

Do banco traseiro, Isabella olhava-o ansiosa. Bernardo sorriu.

─ Desejou-nos boa viagem.

─ Disse alguma coisa sobre o meu passaporte?

─ Nada. Aquele idiota atrás do nosso carro nos prestou um grande favor. Estou tão contente que daria um beijo nele.

Os dois guarda-costas sorriram enquanto atravessavam calmamente a fronteira e tornavam a parar.

─ Ele fez um gesto grosseiro para o cara da alfândega, que acabou perdendo o interesse em nós ─ explicou Bernardo.

─ E agora? ─ Isabella olhou nervosa para o homem vestido de azul-marinho que vinha na direção deles.

─ O homem da alfândega francesa carimba nossos passaportes e estamos livres. ─ Bernardo baixou o vidro e tornou a sorrir.

─ Bonjour, messieurs, madame.

─ Sorriu-lhes, lançou um olhar compreensivo para Isabella e outro breve para o menino. Isabella flagrou-se fitando fixamente o remate vermelho em seu uniforme e desejando estar a quilômetros de distância.

─ Férias ou negócios?

─ Um pouco de cada. ─ Não havia outra maneira de explicar as duas valises atulhadas de papéis, caso fossem inspecionadas. ─ Minha irmã, nosso primo e meu sobrinho. Negócios de família.

─ Compreendo.

Ele apanhou os passaportes da mão de Bernardo. Isabella apertava Alessandro contra si.

─ Vão ficar muito tempo na França?

─ Apenas alguns dias.

Não importava o que Bernardo dissesse; eles voltariam por caminhos diferentes, e Isabella e Alessandro não estariam voltando de modo algum.

─ Alguma coisa no porta-malas? Comida? Plantas? Sementes? Batatas?

Oh, Deus!

─ Não, apenas nossa bagagem. ─ Bernardo fez menção de sair do carro, mas o guarda da alfândega acenou com a mão. ─ Não é preciso. Merci. ─ Foi até a janela da cabine, apanhou um carimbo, carimbou os passaportes e endossou a entrada deles, sem sequer olhar os nomes. ─ Bon voyage.

Acenou-lhes quando o portão se abriu. Isabella sorriu para Bernardo com lágrimas nos olhos.

─ Como está sua úlcera?

─ Ativa e protestando violentamente.

─ A minha também.

Ambos riram e então Bernardo calcou firme o acelerador. Chegaram a Nice no meio da manhã. Alessandro já começava a se mexer. A mãe, como os demais, não dormira a noite inteira.

─ Isto é a África? Já chegamos? ─ Pôs-se de pé com um amplo sorriso sonolento.

─ Chegamos, querido. Mas aqui não é a África. É a França.

─ É para onde vamos? ─ Parecia desapontado. Já estivera na França várias vezes.

─ Quer mais biscoitos? ─ Bernardo olhou-o de relance enquanto continuavam a grande velocidade.

─ Não estou com fome.

─ Nem eu.

Isabella apressou-se para reforçar os sentimentos dele, mas, a poucos quilômetros do aeroporto, Bernardo parou numa pequena barraca. Comprou frutas, depois tornou a parar e comprou quatro xícaras de café e mais leite.

─ O café, pessoal!

O líquido escuro reanimou todos eles. Isabella penteou o cabelo e renovou a maquiagem. Só os homens pareciam ter passado a noite em viagem, com olhos cansados e barba por fazer.

─ Aonde vamos agora? ─ Alessandro apresentava um bigode branco de leite, que enxugou com o braço do ursinho.

─ Para o aeroporto. Vou colocar você e sua mãe no avião.

─ Oh, que bom!

Alessandro batia palmas de alegria. Isabella observava-o. Era extraordinário: nem um pio, nem uma queixa, nem um sinal de medo ou um adeus. Ele aceitara a partida e sua "aventura" como algo que tivessem planejado durante semanas. Até Bernardo estava um pouco surpreso. E ficou ainda mais quando se despediram no aeroporto.

─ Cuide bem de sua mamma! Logo falarei com você pelo telefone.

Bernardo olhou o menino com ternura, rezando para que ele não chorasse Mas Alessandro olhou-o de modo reprovador.

─ Na África eles não têm telefone, seu tolo.

─ É para onde você e sua mamma estão indo?

─ É.

Gentilmente, Bernardo desmanchou o cabelo do menino. Depois, nervoso, ficou observando os passageiros dirigindo-se apressados ao avião.

─ Ciao, Isabella. Por favor... tome cuidado.

─ Tomarei. Você também. Ligarei assim que chegarmos.

Ele assentiu e tomou-a delicadamente nos braços.

─ Addio.

Ele a conservou em seus braços mais tempo do que devia, sentindo um aperto na garganta. Mas ela apenas abraçou-o com força e olhou-o muito séria, afinal.

─ Até breve, Bernardo.

Abraçou-o mais uma vez, por um último instante; em seguida, com os guarda-costas caminhando um de cada lado, com o filho em seus braços e o casaco de vison encapelando-se, desapareceu. Ele não queria que ela usasse aquele agasalho. Preferia algo simples e preto, um dos casacos de lã de sua criação, mas ela insistira que talvez precisasse dele em Nova York. Isabellezza... Sentiu uma coisa terrível estremecer em seu íntimo. E se ele a tivesse perdido para sempre? Mas não se permitiu continuar pensando nisso. Enxugou uma lágrima e saiu do aeroporto, sussurrando um adeus. Isabella tinha uma longa jornada pela frente, e ele queria estar de volta a Roma naquela mesma noite.

 

Os novos guarda-costas já estavam à espera quando Isabella entrou no saguão do Aeroporto Heathrow com Alessandro no colo. Ela sentiu o coração dar um salto ao vê-los caminhar em sua direção. Eram altos, morenos, e tinham a aparência saudável de jogadores de futebol americano.

─ Sra. Walker? ─ Referiam-se à senha que ela e Natasha combinaram.

─ Sim.

Olhou-os fixamente por um momento, não sabendo o que dizer, porém o mais alto entregou-lhe uma carta escrita por Natasha do próprio punho. Isabella abriu-a e, apressada, leu seu conteúdo:

“Você está quase em casa, cara de espaguete. Beije seu molequinho por mim e tranqüilize-se. Com amor, Natasha.”

─ Obrigada. O que faremos agora?

Eles apanharam as respectivas passagens e entregaram as de Isabella. Tinham instruções de nada comentarem diante dos guarda-costas da moça. Ela abriu o envelope e verificou a hora. Teria de mandar seus seguranças embora agora. Virou-se para ambos, falou-lhes rapidamente em italiano; eles puseram-se em pé e apertaram-lhe a mão. Desejaram-lhe boa sorte, esperando que voltasse em breve; em seguida a surpreenderam quando se inclinaram apressadamente para beijar Alessandro. Brotaram lágrimas dos seus olhos quando a deixaram. Acabara de perder a última lembrança do lar. Estiveram entrando e saindo de sua casa durante tantos meses, que era estranho pensar que agora já não os teria mais por perto. Como Alessandro, ela estava ficando cansada. Tinha sido uma noite longa, extenuante, e uma manhã nervosa, imaginando se encontraria e reconheceria os guarda-costas de Natasha e o que aconteceria se, de alguma forma, isso não acontecesse.

─ Seria aconselhável irmos agora.

O primeiro homem tomou-a pelo braço, e Isabella viu-se impelida para o portão de embarque, ainda com Alessandro em seus braços. Enquanto embarcavam no avião, ela viu-se esperando que acontecesse algo espantoso, um alarme de bomba, uma explosão, alguém tentando agarrar Alessandro... qualquer coisa. Era como viver num pesadelo; jamais se sentira tão longe de casa. Mas o avião decolou tranqüilamente, e por fim estavam no ar.

─ Para onde estamos indo, mamma?

Cansado, Alessandro olhava para Isabella, os olhos castanhos arregalados, um pouco confuso.

─ Para junto de tia Natasha, querido. Em Nova York. -

Beijou-o delicadamente na testa e, com a mão dele na sua, ambos pegaram no sono.

Ela acordou quatro horas mais tarde, quando Alessandro desprendeu-se dos seus braços. Teve um sobressalto instantâneo, alcançou-o, depois voltou a sentar-se com um sorriso. Os dois guarda-costas americanos ainda estavam sentados um de cada lado. Alessandro achava-se de pé na passagem, olhando para eles.

─ Mi chiamo Alessandro, e lei?

O homem olhou-o, sorriu e estendeu ambas as mãos, desamparado.

─ No capito. ─ Olhou para Isabella em busca de ajuda.

─ Ele está lhe perguntando como você se chama.

─ Oh, Steve. E você é... Alexandro?

─ Alessandro. ─ O menino corrigiu-o com expressão séria e um brilho malicioso no olhar.

─ Certo, Alessandro. Já viu uma destas?

Estendendo a mão, mostrou uma moeda de cinqüenta cents, que fez desaparecer; depois, prontamente, retirou-a de uma das orelhas de Alessandro. O menino soltou um grito de prazer e bateu palmas, pedindo mais. Uma moeda de cinqüenta cents, depois uma de cinco, outra de 25 e finalmente uma de dez apareceram e desapareceram enquanto começavam uma conversa difícil, Alessandro tagarelando em italiano e o homem corpulento comunicando-se principalmente através de mímica.

Isabella tornou a fechar os olhos. Até aqui tudo correra calmamente; só precisava agora passar pela alfândega de Nova York e depois dirigir-se para o apartamento de Natasha, onde tiraria todas as suas roupas, mergulharia numa banheira de água quente e se esconderia pelo resto da vida. Sentia-se como se estivesse usando as mesmas roupas há uma semana. Jantaram, assistiram a um filme e, exceto duas idas ao banheiro com Alessandro, não abandonaram seus lugares. Quando saíam, os guardas, displicentemente, iam junto. Mas Isabella logo notou que ninguém no avião mostrara interesse. Nem as aeromoças pareciam impressionadas. Eles constavam da lista de passageiros apenas como I. e A. Gregorio, S. Connally e J. Falk. Nada que causasse alvoroço. O longo casaco escuro de vison atraíra um olhar de aprovação da aeromoça chefe, mas mesmo este fato não era extraordinário. No percurso entre Londres e Nova York, elas viam casacos de vison em abundância. Se tivessem visto algumas das jóias cuidadosamente escondidas no fundo de sua bolsa talvez ficassem mais impressionadas.

─ Estaremos chegando a Nova York aproximadamente dentro de meia hora ─ o homem chamado Steve inclinou-se para informar. Falava num tom de voz abafado, que mal se ouvia, e Isabella assentiu com a cabeça. ─ A sra. Walker estará esperando do outro lado da alfândega. Iremos com vocês até o carro dela.

─ Obrigada.

Ele olhou-a com cautela assim que ela desviou o olhar para longe. Estava quase certo de que conseguiria adivinhar. Passaram por um caso semelhante ocorrido dois anos atrás. Uma mulher seqüestrando os filhos que estavam com o pai, escondendo-se com eles na Grécia. Qualquer coisa em relação ao modo como a mulher agarrava-se ao menino dizia-lhe que algo semelhante ocorrera com ela. Que vergonha, fazer esse tipo de coisa com uma criança também. Às vezes não conseguia entender essa gente rica, arrastando as crianças de um lado para outro como se fosse um tipo de jogo. Ela parecia uma mulher refinada, apesar do olhar de pânico que assumia de vez em quando e o cenho franzido que com freqüência alterava a expressão do seu rosto. Provavelmente receara que o marido pudesse alcançá-la e jamais conseguisse tirar o menino da França. Tudo que sabiam sobre Isabella era que chegara a Londres procedente de Nice. Ele virou a cabeça de leve para vê-la outra vez, assim que o aparelho começou a descer.

─ Mais uma ida ao banheiro, Alessandro? Talvez demore muito na alfândega. ─ A mãe traduziu rapidamente, mas a criança sacudiu a cabeça. ─ Certo. Você já esteve em Nova York? ─ Isabella traduziu de novo.

Alessandro sacudiu a cabeça, acrescentando que, de qualquer modo, pensava que estavam indo para a África. O americano alto, espadaúdo, riu e rapidamente firmou o menino na poltrona. Mas agora Alessandro observava a mãe e estendeu a mão para pegar na dela. Isabella segurou-a e ficou olhando distraída as luzes no chão. Eram 16:30, hora de Nova York, mas no início de fevereiro já era noite. Como agora era diferente! Fazia dois anos desde que estivera em Nova York pela última vez. Com Amadeo. Geralmente ele fazia as viagens para a América sem ela. Isabella sempre preferira ir para a Inglaterra ou França. Mas da última vez vieram juntos a Nova York, e a viagem fora um sonho. Hospedaram-se no St. Regis, jantaram no Caravelle, Grenouille e Lutece. Tinham ido a uma grande festa para designers americanos, compareceram a diversos jantares de gala, deram longos passeios no parque. Desta vez não haveria St. Regis, nem Lutece, nem momentos tranqüilos, compartilhados. Ela o deixara agora. Nem sequer poderia devanear mais com suas lembranças em todos os cantos familiares do lar, outrora deles. Não havia cantos conhecidos. Nem pessoas conhecidas. Apenas Natasha, seu filho e Alessandro. Nada que tinha sido parte da vida de Amadeo restara para ela. De repente, lamentava não ter trazido alguma coisa. Alguma coisa dele, para olhar, tocar e lembrar... algo para recordar seu riso e o amor em seus olhos. Isabelle…Ainda podia ouvi-lo pronunciar seu nome.

─ Mamma, mamma! ─ Alessandro puxava-a pela manga. Já haviam aterrissado. ─ Siamo qui. Chegamos.

Os dois homens lançaram um rápido olhar para Isabella.

─ Vamos?

O avião nem sequer tinha parado, mas eles já estavam na passagem. O homem chamado Steve entregara-lhe o casaco, o outro pegara Alessandro no colo. No momento em que o avião parou completamente, eles a impeliram para o corredor. Por um momento, ela sentiu como se ainda estivesse voando, quase erguida do chão entre eles, enquanto caminhavam apressados ao lado dela. Minutos mais tarde, quando chegaram à alfândega, os demais passageiros ainda dispersavam-se lentamente, saindo do aparelho.

O inspetor alfandegário fez sinal para Isabella abrir suas sacolas. Ela destrancou-as, escancarou todas as quatro enquanto os guarda-costas e Alessandro mantinham-se atentos.

─ Qual o objetivo da sua visita?

─ Uma viagem para visitar a família.

O inspetor lançou um olhar para os homens, que a ladeavam. Meu Deus! Se ele perceber... se reconhecer meu nome...

─ Que papéis são esses? ─ Ele olhava para as duas valises abarrotadas.

─ Um pouco de trabalho que eu trouxe.

─ Está planejando trabalhar aqui?

─ Apenas em alguns assuntos particulares. Assuntos de família.

Ele tornou a olhar para as duas valises e depois começou a revolver as valises de roupas. Mas havia muito pouco para despertar interesse na sacola de Alessandro e na dela.

─ Muito bem. Podem ir.

Tinham conseguido. Ela conseguira. Agora só tinham de encontrar Natasha e poderiam ir para casa. Por um momento, ela ficou ali parada, olhando fixamente, um tanto confusa, imaginando se alguma coisa saíra errado, então viu-a, correndo na direção deles, o longo cabelo louro esvoaçando, flutuando suavemente sobre o casaco de lince. Ela corria em direção a Isabella e logo estavam uma nos braços da outra, abraçando-se estreitamente, com Alessandro entre as duas. O menino protestou e depois gritou, quando Natasha deu uma mordida em seu pescoço.

─ Ciao, Alessandro. Como vai?

Tirou-o rapidamente de Isabella, tomando-o em seus braços longos e magros; a seguir, as duas mulheres fitaram-se e Natasha falou, com voz rouca:

─ Bem-vinda ao lar. ─ Depois voltou-se para Alessandro: ─ Tem idéia de como você é pesado, filhote? Que tal caminhar até o carro?

Mas Isabella sacudiu depressa a cabeça. Desde Roma os pés dele praticamente não tocavam o chão. Seria muito fácil alguém arrebatá-lo, agarrá-lo; ele sempre estivera no colo desde que começaram a viagem.

─ Está certo. Eu o carrego.

─ Compreendo. ─ Então, ela olhou para os dois guarda-costas. ─ Estamos expostos aqui.

O grupinho fortemente unido moveu-se como uma só pessoa para a saída e, em seguida, para o carro. Era um Rolls-Royce com motorista e licença com iniciais que Isabella não teve tempo de ver. Antes que pudessem tomar fôlego, eles foram introduzidos prontamente no interior forrado de couro, a porta fechada, as bagagens guardadas, os homens despedidos e o carro afastado do meio-fio pelo motorista. Só então é que Isabella percebeu que não estavam sozinhos no carro. Havia outro homem no banco da frente. Ela olhou de repente quando ele virou-se para trás e sorriu. Era bonito, de olhos azuis, um rosto jovem e de cabelos grisalhos.

─ Oh! ─ Isabella soltou apenas um pequeno som quando ele se virou.

Mas Natasha, mais do que depressa, deu-lhe um tapinha na mão.

─ Está tudo bem, Isabella. Este é meu amigo, Corbett Ewing.

Ele acenou a cabeça e estendeu a mão.

─ Não pretendia assustá-la. Lamento muitíssimo.

Apertaram-se as mãos. Isabella fez um gesto formal com a cabeça. Não contara ver ninguém além do motorista. Lançou um olhar indagador para Natasha, mas a amiga apenas sorriu e trocou um olhar com Corbett. Então Isabella compreendeu.

─ Como foi de viagem?

Ficou prontamente óbvio que ele apenas sabia que ela chegara de Roma. Ali sentado, com seu olhar de despreocupação natural, deixava claro para Isabella que não sabia do terror em potencial da viagem. Por um instante, mas só por um instante, ficou aborrecida com Natasha por trazê-lo. Não desejava manter uma conversa polida durante todo o caminho. Mas também ficou óbvio que ele lhes emprestara o carro e, talvez, Natasha o quisesse junto. Pareciam entender-se muito bem, e Isabella calculou que Natasha também tivesse sido cautelosa e precisasse da força dele. Sorridente, Isabella procurou esforçar-se. Sentia que devia isso à amiga.

─ A viagem foi ótima. Mas acho que ambos estamos... um pouco... ─ De repente, ela titubeou; estava tão exausta, mal conseguia encontrar as palavras. ─ ...ambos estamos muito cansados.

─ Posso imaginar.

Ele assentiu outra vez e, momentos depois, virou-se para a frente e falou em tom baixo com o motorista. Contudo, antes de virar-se, não deixou de notar a beleza frágil de Isabella.

 

A limousine Rolls-Royce parou tranqüilamente diante do prédio de Natasha. No mesmo instante, o porteiro e um auxiliar precipitaram-se para ajudá-los. Isabella desceu do carro, segurando Alessandro com firmeza pela mão, com uma expressão desnorteada no rosto pálido, cor de marfim. Ficou parada por um momento, erguendo os olhos para o edifício e depois para a longa rua arborizada. Então, mais uma vez deu-se conta do quanto estava distante de seu lar. Em outro mundo, em outra vida.

Ainda na véspera trabalhara na San Gregorio e residira na villa, em Roma. E agora ali estava, diante da casa de Natasha, na Park Avenue, em Nova York. Eram 18:00 e centenas de nova-iorquinos voltavam para suas casas, após um dia de trabalho. Estava escuro e o ar era gélido, mas em toda parte havia ao redor deles uma espécie de excitação, uma cacofonia de ruídos, uma sinfonia de luzes brilhantes. Esquecera-se de como Nova York era estridente e ativa, de algum modo mais louca e até mais excitante do que Roma. Enquanto ficou parada por um breve instante na calçada, observando as mulheres em seus preciosos, pesados e coloridos casacos de lã passar apressadas, perdidas na multidão de homens prósperos, de aparência vigorosa, Isabella de repente desejou ir a algum lugar, dar um passeio, tomar um pouco de ar. Queria ver o povo, sentir o cheiro da cidade e dar uma olhada nas lojas. Já não importava mais que, quarenta horas atrás, dormira praticamente uma insignificância, que andara de carro e de avião quase metade de uma volta ao mundo. Por um momento, só por um momento, queria voltar a viver outra vez, ser um daqueles nova-iorquinos. Natasha a observava enquanto o porteiro retirava a bagagem do carro. E do local onde se achava na calçada, Corbett também a observava.

─ Está tudo bem, Isabella?

Ela ergueu os olhos para ele, cuidadosamente.

─ Sim, tudo ótimo. E... muito obrigada pelo passeio de carro.

─ Às ordens. ─ Depois, ele virou-se para Natasha. ─ As senhoras estarão bem agora?

─ Naturalmente. ─ Natasha inclinou-se e beijou-o no rosto. ─ Telefonarei mais tarde.

Ele assentiu, atento, enquanto elas entravam apressadas. Depois, perdido nos próprios pensamentos, entrou no carro.

Natasha e Isabella atravessaram com rapidez o vestíbulo e, todos juntos, lotaram o elevador, onde um homem de uniforme preto com alamares dourados e luvas brancas manobrava os controles e a porta de metal reluzente.

─ Boa noite, sra. Walker.

─ Obrigada, John. Boa noite.

Ao introduzir a chave na fechadura, Natasha lançou um olhar de soslaio para Isabella.

─ Sabe de uma coisa? Para uma mulher que esteve viajando, só Deus sabe desde que horas da manhã, você não está com má aparência.

Isabella sorriu em resposta. Um momento depois, Natasha abriu a porta, desencadeando o latido excitado de Halley, a saudação frenética de Jazam e o alô de Apitei. Os aromas e ruídos do apartamento conquistaram Isabella assim que cruzou a soleira da porta. Não havia a perfeição palaciana da sua villa na Via Afia Ântica, contudo o apartamento ajustava-se a Natasha perfeitamente. Se Isabella tivesse de criar um cenário para exibir a beleza extraordinária de Natasha, teria sido exatamente o que via naquele instante. A sala de estar era enorme, da brancura do gelo, preciosamente entremeada com grande quantidade de cor creme, tecidos brancos lisos, couro branco, paredes brancas, longos painéis de espelho e muito aço cromado. Havia mesas de vidro espesso que pareciam suspensas no ar transparente, iluminação suave, uma lareira de mármore branco e plantas que pendiam airosamente do teto até o chão. O único colorido audacioso na sala provinha dos grandes e bonitos quadros modernos salpicados aqui e ali.

─ Gosta?

─ Muito refinado.

─ Venha. Vou lhe mostrar todo o apartamento. Está cansada demais para andar?

A fala sulista arrastada era suave como a brisa sulista numa noite quente de verão. Como sempre, parecia incongruente com o andar rápido de Natasha, seu passo determinado, sua linguagem colorida. Ela parecia personificar Nova York em tudo, até se ouvir a suave fala arrastada, ver os grandes olhos azuis pensativos e os longos cabelos dourados.

De repente, Isabella estava sorrindo e queria ver mais. Alessandro já havia desaparecido com Hattie e Jason, com o pequeno spaniel castanho latindo nos calcanhares deles.

Entraram no quarto de Natasha, que se espalhou numa poltrona.

─ Não gostou, não foi? Seja honesta. Não sei o que aconteceu comigo quando fiz este quarto.

─ Eu sei o que aconteceu. É um sonho.

O resto do apartamento era estritamente moderno, mas em seu quarto Natasha fora totalmente fantástica. No meio do aposento havia uma cama antiga, ricamente trabalhada, de quatro colunas, com drapeados de seda branca em camadas, almofadas e babados, maravilhosos travesseirinhos de renda, e uma penteadeira extraída de um sonho de Scarlett O'Hara. Havia dois sofás em azul e branco de dois lugares, ao lado de uma pequena lareira e, ao lado da janela, uma bela chaise-longue de vime, estofada de azul-claro.

─ É tão maravilhosamente sulista, Natasha! Como você.

Então, as duas riram outra vez, como tinham feito uma eternidade atrás, quando Natasha estava com 19 e Isabella com 21 anos.

─ Vamos ─ convidou Natasha ─ há mais para se ver.

A sala de jantar fora feita num esplendor moderno comedido, com uma enorme mesa de vidro, cadeiras de aço cromado e aparadores de vidro grosso. Porém, nessa sala, Natasha tornara a enlouquecer em silêncio. O teto era pintado de azul e fora dotado de grandes nuvens brancas, próprias do verão.

─ É como uma viagem à praia, não acha?

Ela decorara todo o apartamento com ostentação e humor e, de alguma forma, ele também conseguira ter uma aparência espetacular e aconchegante ao mesmo tempo. Um refúgio cordial e confortável conseguia combinar maravilhas modernas e antigas, cobres, veludos, arte mais moderna e um fogo brilhantemente crepitante.

Deram uma passada ligeira no gabinete de Natasha e na grande cozinha acolhedora com seu piso amarelo-claro. Então, Natasha olhou-a, sorrindo, seus olhos dançando por um instante ao afastar-se para o lado.

─ E se você caminhar por aquele corredor, Isabella, tenho uma surpresa.

Um mês antes tinha sido um quarto de empregada vazio, atulhado de caixas e velhos esquis. Mas depois do primeiro telefonema de Isabella, Natasha pusera-se a trabalhar furiosamente. Agora, ao escancarar a porta, ela quase exultou diante da expressão nos olhos de Isabella. Ela própria comprara vários metros de tecido, uma delicada seda rosa que um decorador amigo acabara de trazer da França. Com grampos (de grampeador), tachas e um delicado enfeite para rematar, ela revestira as paredes com um rosa suave. Uma pequenina escrivaninha francesa ficava num canto com uma cadeirinha ideal, revestida no mesmo tom de rosa. Algumas prateleiras para livros, algumas plantas, um lindo tapetinho oriental em tons claros de verde entrelaçados com sombras de framboesa e o mesmo rosa seco das paredes. Havia duas lindas luminárias de metal sobre a escrivaninha e sobre a mesa, um arquivo que ela descobrira e que, na verdade, era revestido de madeira, e um sofazinho que ficara irresistível estofado de veludo com almofadas de seda rosa.

─ Meu Deus, está quase parecido com o meu boudoir! ─ Isabella olhava a amiga e quase soltou um grito sufocado.

─ Na verdade, não é. Mas tentei.

─ Oh, Natasha, não devia ter feito. Como pôde?

─ Por que não? O telefone tem duas linhas. O arquivo está vazio. E emprestarei minha máquina de escrever se você for muito, muito boazinha.

Havia de tudo. Tudo que possivelmente teria desejado. E mais do que isso: havia algo naquilo tudo, algo de familiar, algo de carinhoso, algo de lar. Novamente brotaram lágrimas de seus olhos enquanto olhava o aposento.

─ Realmente, você é a mulher mais extraordinária que conheço.

Natasha apertou os ombros de Isabella e voltou para o corredor.

─ Agora que já viu o escritório, mostrarei seu quarto, mas não é tão magnífico.

─ Como poderia? Oh, Natasha, você é espantosa.

Isabella ainda estava sem fala ao voltarem para o corredor principal, o mesmo por onde vieram. No caminho passaram pelo quarto de Jason, onde os meninos já atacavam impulsivamente a valise de Alessandro, enquanto Hattie fazia correr água para um banho.

─ Va bene, tesoro? ─ Da porta, ela dirigiu-se ao filho.

─ Si, ciso! ─ Feliz, o menino acenou-lhe e desapareceu debaixo da cama com Jason, para irem atrás do cachorrinho.

─ Acredita que seu cachorro vai sobreviver?

─ Não se preocupe. Ashley está acostumado. Bem, chegamos.

Abriu a porta e entrou na frente de Isabella. O quarto não era tão cheio de rufos e babados como o de Natasha, nem tão rigidamente moderno como o resto da casa. Era acolhedor, confortável e agradável, decorado em tons vivos de verde-garrafa e tapetes franceses antigos. Havia mesas estreitas de vidro e uma poltrona de veludo verde-escuro. A colcha era feita no mesmo veludo pesado, e aos pés da cama havia uma manta de pele escura, forrada caprichosamente, parecendo uma dessas peças existentes em domínios feudais, em uma terra hibernal longínqua. O fogo ardia na lareira de mármore. Havia rosas de um tom vermelho num vaso de cristal na mesa de centro. No canto, estava um armário com portas cujas almofadas de malaquita chegavam a ser magnificentes.

─ Meu Deus, é uma beleza! Onde encontrou isso?

─ Em Florença. No ano passado. Direitos autorais não são maravilhosos, Isabella? É espantoso o que podem fazer por uma moça.

Isabella sentou-se na cama e Natasha na poltrona de veludo verde.

─ Você está bem, Isabella?

─ Estou. ─ Ela olhou para o fogo e deixou a mente voltar para Roma.

─ Como foi?

─ Partir? Difícil. Assustador. Senti medo a cada trecho da viagem. Fiquei pensando que poderia acontecer alguma coisa. Alguém iria nos reconhecer e nos desmascarar. Continuei pensando... Fiquei preocupada por causa de Alessandro... Acho que não poderíamos ter ficado em Roma.

Por um momento, vendo Natasha tão à vontade em seu ambiente, sentiu saudades do próprio lar em Roma.

─ Você voltará.

Isabella assentiu em silêncio, depois procurou os olhos da amiga.

─ Não sei o que fazer sem Amadeo. Continuo pensando que ele vai voltar para casa. Mas ele não volta. Ele... é difícil explicar.

Mas não precisava. A dor estava claramente estampada em seu coração, em sua alma e em seus olhos.

─ Acho que, de fato, não posso imaginar ─ respondeu Natasha. ─ Mas... você precisa agarrar-se aos bons pensamentos, às lembranças felizes, aos momentos preciosos que construíram uma vida. Esqueça o resto.

─ Como? ─ Os olhos de Isabella fitaram diretamente os da amiga. ─ Como se pode esquecer uma voz ao telefone? Um momento? Uma eternidade de espera, de não saber, e depois... Como catar os pedaços e fazer com que signifiquem algo inteiro de novo? Como interessar-se por alguma coisa, inclusive pelo próprio trabalho?

Antes que Natasha pudesse responder, Alessandro e o cachorrinho apareceram saltitantes na porta.

─ Ele tem um trem! Um trem de verdade! Exatamente como aquele que papai me levou para ver em Roma! Quer ver também? ─ Da entrada, chamava com a mão e Ashley mordiscava seus sapatos.

─ Num minuto, querido. Tia Natasha e eu queremos conversar um pouco.

Alessandro saiu correndo; Natasha ficou vendo o menino afastar-se correndo, depois respondeu:

─ Alessandro, Isabella. Talvez seja tudo que você tem para se agarrar por enquanto. O resto começará a desaparecer aos poucos, com o tempo. Não as coisas boas, apenas o sofrimento. Tem de desaparecer. Você não pode tolerar a vida inteira, como um vestido de cinco anos atrás!

Isabella riu diante da comparação.

─ Está insinuando que estou fora de moda?

─ Dificilmente estaria. ─ As duas trocaram um sorriso. ─ Mas você sabe o que quero dizer.

─ Ecco. Mas, oh, Natasha, sinto-me tão velha! E há tanta coisa que preciso fazer! Se ao menos conseguisse fazer daqui... Só Deus sabe como poderei agüentar com Bernardo a milhares de quilômetros de distância e por telefone.

Não queria explicar as dificuldades da situação deles, mas seus olhos revelavam tudo.

─ Você conseguirá. Estou certa.

─ E realmente não se importa muito por dividir o apartamento?

─ Já lhe disse. Será como nos velhos tempos.

Mas não exatamente, e ambas sabiam disso. Nos velhos tempos, saíam juntas, iam a restaurantes, à ópera, ao teatro. Visitavam amigos, travavam conhecimento com homens, davam festas. Esta era uma ocasião muito diferente. Isabella não iria a lugar nenhum, a não ser que parecesse seguro. Talvez, pensou Natasha, pudessem dar uma volta no parque. Já cancelara a maior parte dos seus compromissos para as próximas três semanas. Isabella não tinha necessidade de vê-la entrando e saindo, indo a coquetéis, a festas beneficentes e aos últimos espetáculos. Espantou-se quando Isabella falou:

─ Tornei uma decisão quando chegamos esta noite.

Por um momento, Isabella olhou-a com um riso insinuando-se sorrateiramente em seus olhos.

─ Do que se trata?

─ Vou sair amanhã, Natasha.

─ Não, você não vai.

─ Preciso. Não posso viver enjaulada aqui. Preciso andar, respirar, ver pessoas. Eu as vi esta noite durante o trajeto pela cidade e ao pararmos à sua porta. Preciso vê-las, Natasha. Preciso conhecê-las, senti-las e observá-las. Como posso tomar decisões sensatas sobre meu trabalho se vivo num casulo?

─ Você tomaria as decisões certas sobre moda mesmo se ficasse trancada num banheiro durante dez anos.

─ Duvido.

─ Eu não. ─ Por um momento, houve conflito nos olhos azuis de Natasha. ─ Veremos.

─ Sim, Natasha, veremos.

Mas, ao dizer isso, ela reviveu. E embora Natasha se preocupasse, ficou aliviada ao voltar para o seu quarto. Isabella di San Gregorio não estava acabada de modo algum. A princípio ficara preocupada, não estava certa quanto à possibilidade da amiga sobreviver à provação. Agora sabia. Ainda havia luta, fúria, amargura e medo naquela criatura. Mas havia fogo e vida, e os reflexos de diamantes ainda cintilavam nos brilhantes olhos de ônix.

Após certificar-se de que os meninos sobreviviam, ela voltou para o quarto de Isabella a fim de oferecer-lhe jantar depois que ela tomasse banho e mudasse de roupa, mas apenas sorriu ao parar na porta do quarto. Esparramada sobre a colcha de veludo verde, Isabella estava morta para o mundo. Natasha puxou a manta de pele sobre a amiga, sussurrou "bem-vinda ao lar", apagou as luzes e fechou suavemente a porta.

 

Aconchegada num robe de veludo azul, com gola mandarim alta, Isabella perambulava sonolenta pelo corredor. Era muito cedo. Um sol hibernal manifestava-se, lançando raios tremeluzentes pelos arranha-céus de Nova York. Ela ficou parada diante da janela da sala de estar por um instante, pensando na cidade aos seus pés, uma cidade que atraía os vitoriosos, os dinâmicos, os competidores ferozes e os destinados a vencer. Uma cidade para pessoas como Natasha... como ela mesma, tinha de reconhecer. Mas não era a cidade que Isabella teria escolhido; faltava-lhe a decadência, o riso e o encanto simples de Roma. Contudo, possuía algo mais; fulgurava brilhantemente como um rio de diamantes, e Isabella notou como ele dava a impressão de estar acenando para ela.

Dirigiu-se silenciosamente até a cozinha, abriu os armários e encontrou o material com que se fazia o que Natasha chamava café. Não era o que teria servido em sua casa. Porém, tão logo o preparou, tornou-se pungente e familiar, fazendo-a lembrar-se de sua vida com a amiga doze anos atrás. Os aromas sempre lhe provocavam essa sensação; uma fragrância, um aroma distante, e ela conseguia ver de novo tudo que vira muito tempo antes: uma sala, um amigo, um momento, um encontro com um homem há muito esquecido. Mas esta não era uma ocasião para sonhar. Olhou de relance para o relógio da cozinha e sabia que seu dia já começara.

Eram 6:30. E, em Roma, seis horas mais do que isso. Com sorte poderia pegar Bernardo no escritório, antes do almoço, vergado ao peso da responsabilidade agora em seus ombros. Levou a xícara de café para o seu lindo escritoriozinho e sorriu ao acender a luz. Natasha, doce Natasha. Como era boa! Quanto fizera! Mas a ternura em seus olhos logo desapareceu ao preparar-se para o trabalho. Enquanto a telefonista fazia a ligação para a Itália, Isabella puxou o zíper de uma das sacas abarrotadas de papéis, retirou um bloco grosso e duas canetas coloridas. Tinha tempo suficiente para sentar-se e beber outro gole de café até a recepcionista da San Gregorio atender.

A telefonista chamava por Bernardo, enquanto Isabella, nervosamente, batia no tapete macio com a ponta do pé de unhas bem pintadas. Foi cautelosa ao manter-se em silêncio para que a moça da San Gregorio não tivesse uma pista quanto à identidade de quem chamava. Teve tempo apenas para um rabisco rápido e depois ele estava na linha.

─ Alô?

- Ciao, bravo. Sou eu.

Bravo... numa tradução livre: sujeito bom, paciente. Mais do que qualquer um, o nome assentava-lhe bem.

─ Tudo correu bem?

─ Perfeitamente.

─ Como se sente?

─ Meio cansada. Ainda um pouco em estado de choque, creio. Acho que não compreendi, até chegar aqui, o que tudo isso significa. Você teve sorte porque eu estava cansada demais para pegar o avião seguinte para casa.

Ela sentiu que uma onda de nostalgia a dominava e, de repente, desejou estender-lhe a mão.

─ Teve sorte. Eu a teria feito passar o diabo e mandado de volta na mesma hora. ─ Seu tom de voz parecia sério, mas Isabella riu.

─ Provavelmente teria. Seja como for, agora estamos metidos nesse negócio, nessa loucura que tramamos. Teremos de fazer o melhor que pudermos enquanto eu estiver aqui. Agora me diga, o que aconteceu? Tudo tranqüilo por aí?

─ Acabei de lhe mandar um recorte de Il Messaggero. Tudo correu de acordo com o planejado. Você agora está morando, segundo as notícias, na suíte da nossa cobertura.

─ E o resto?

─ A princípio mamma Teresa recebeu a notícia pessimamente, mas acho que agora compreende. Achava que você devia tê-la levado junto. Contudo, parece resignada. Como está o neném?

Neném... ela e Amadeo já não chamavam Alessandro assim há dois anos.

─ Encantado. Plenamente feliz. Apesar de não termos ido para a África.

Tornaram a rir, e Isabella estava grata por terem, anos atrás, instalado uma linha telefônica especial. Só era usada por Isabella, Amadeo e Bernardo, e agora iria garantir-lhes liberdade. Não havia nenhuma extensão onde alguém pudesse ouvir de alguma parte da Casa de San Gregorio.

─ A propósito, diga-me. E quanto à coleção? Telefonemas? Recados? Novas encomendas? Algum problema de última hora com a linha de verão? ─ Devia ser lançada breve. Era uma péssima hora para Isabella sumir.

─ Não aconteceu nada de drástico, exceto com o tecido vermelho que você encomendou de Hong Kong.

─ O que há com ele? ─ Os dedos do pé retesaram-se no momento em que brincavam com o fio do telefone que serpenteava no chão, debaixo de sua escrivaninha. ─ Na semana passada, eles me disseram que não havia nenhum problema.

─ Mentiram. Não podem entregar.

─ O quê? ─ Sua voz teria repercutido por todo o apartamento se ela não tivesse tido a precaução de fechar a porta. ─ Diga àqueles cretinos que não podem fazer isso. Não comprarei mais deles. Oh, Deus... não, não se preocupe. Telefonarei para Hong Kong... maldição, não posso! Há uma diferença de treze horas daqui. Mas posso telefonar em doze horas. Ligarei à noite.

─ Seria aconselhável você já pensar em algumas alternativas. Não há nada que possamos usar aqui em Roma?

─ Nada. A menos que usemos o roxo da última estação no lugar do vermelho.

─ Dará certo?

─ Terei que falar com Gabriela. Não sei. Terei que ver como vai se encaixar com o resto da linha.

No mesmo instante ela soube que isso criaria um look inteiramente diferente para eles. Tons brilhantes de azul-claro, amarelos ensolarados, o vermelho de Hong Kong e grande quantidade de branco. Se usassem o roxo, ela precisaria de verde, laranja, talvez um pouco de amarelo e apenas um pouquinho de vermelho.

─ Isso altera o equilíbrio todo ─ disse ela.

─ Altera. Mas pode ser feito?

Ela gostaria de gritar: “Pode sim, mas não daqui!''

─ O que eu gostaria de saber e: como pôde me dizer que nada de drástico aconteceu? O vermelho de Hong Kong é drástico.

─ Por que você não o substitui por algo dos Estados Unidos?

─ Eles não têm nada que me agrade. Esqueça. Depois eu resolvo. Que mais? Não tem nenhuma notícia bem pequena e boa para mim?

- Só uma.

- Não vão entregar o verde-claro?

- Já entregaram. Não, esta é uma boa notícia.

─ Para variar.

Mas, apesar da ironia em sua voz, o rosto de Isabella readquirira vida. Ela não sabia como fazer, como conseguiria fazer as mudanças de cor e do tecido principal em tão pouco tempo e de tão longe, porém, enquanto falava com Bernardo, o problema a levara de volta à San Gregorio. Não importa onde estava, ainda tinha seu trabalho, e se precisasse mover montanhas, ela faria as mudanças a tempo.

─ Então, qual é a boa notícia?

─ A F-B comprou perfume suficiente para fazer flutuar a sexta esquadra.

─ Isso é bom.

─ Por que tanto entusiasmo?

Bernardo voltou a parecer o mesmo de sempre. Cansado, zangado, aborrecido.

─ É claro que estou satisfeita. Estou é farta desses cretinos da F-B com suas ofertas para comprarem a nossa empresa. E não me aborreça mais com esse disparate enquanto eu estiver aqui.

─ Não aborrecerei. O que você quer que eu fale com Gabriela? - A designer chief ia ficar com úlcera quando soubesse da notícia. “Mudanças? Que mudanças? Como podemos fazer mudanças agora?”

─ Diga-lhe que pare com tudo até eu voltar a telefonar.

─ Isso significa quando?

─ Em setembro, querido. Estou de férias, lembra-se? Que diabo acha que significa? Acabei de dizer que vou ligar para Hong Kong à noite. E hoje mesmo estudarei alternativas. Sei de cada cor, de cada pedaço de tecido que temos em estoque.

Bernardo sabia muitíssimo bem que era verdade.

─ Presumo que isso também afetará a linha prêt-à- porter.

─ Não muito.

─ Mas o suficiente. ─ A úlcera dele dava sua pontada costumeira. ─ Certo. Certo. Direi a ela para agüentar um pouco. Mas, pelo amor de Deus, não deixe de telefonar.

A velha irritação entre eles estava de volta. Insensatamente, parecia familiar e boa.

─ Ligarei para você depois que falar com Hong Kong. Por volta de uma hora ─ disse ela prosaicamente, já rabiscando um rio de pequeninas anotações bem organizadas. ─ Como está minha correspondência?

─ Não há muita coisa.

─ Ótimo. ─ Da cobertura, a secretária de Amadeo respondia a toda sua correspondência. ─ Volto a falar com você à noite. Não deixe de ligar se alguma coisa acontecer durante o dia.

Mas, esgotado, Bernardo sabia que não ligaria. Guardaria tudo até a noite.

─ Já tem bastante para manter-se ocupada.

─ Hum... hum... já tenho. ─ Ele a conhecia muito bem para saber que Isabella devia ter preenchido duas folhas do seu bloco. ─ Ciao.

Desligaram como se ambos estivessem em seus respectivos gabinetes nos extremos opostos do mesmo andar. Em seu escritório novo em folha, Isabella separou suas anotações e espalhou-as diante de si. Tinha exatamente doze horas para substituir aquele vermelho de Hong Kong. Claro que sempre havia a possibilidade de ela poder atormentá-los para que o mandassem, se o tivessem, se pudessem. Mas Isabella sabia que não podia correr o risco de depender deles. Não podia mais. Fez outra rápida observação mental para falar com Bernardo.

Queria cancelar a conta de Hong Kong. De qualquer maneira, vira melhores tecidos em Bangkok. No tocante à San Gregorio, Isabella não era pessoa de permanecer compreensiva ou se deixar intimidar.

─ Você está de pé de manhã bem cedo.

Surpresa, Isabella ergueu os olhos quando a cabeça loura e desgrenhada de Natasha apareceu no vão da porta.

─ O que aconteceu aos dias em que estava acostumada a dormir até o meio-dia?

─ Jason. Tive de aprender a trabalhar durante o dia e a dormir à noite. Diga-me uma coisa, você tem sempre essa aparência às sete da manhã? ─ Olhava com admiração para o robe de veludo azul-claro de Isabella.

─ Só quando vou trabalhar. ─ Lançou um largo sorriso para a amiga e apontou para as anotações sobre a mesa. ─ Acabei de falar com Bernardo.

─ Como estão as coisas em Roma?

─ Formidáveis, exceto que preciso refazer metade da coleção de verão antes de voltar a falar com ele esta noite.

─ Está parecendo com a reescritura dos meus textos. Santo Deus! Antes de começar, posso preparar alguns ovos para você?

Isabella sacudiu a cabeça.

─ Tenho de começar a trabalhar nisto antes de comer. E quanto aos meninos? Já levantaram?

─ Está brincando? Ouça... ─ Levou um dedo aos lábios e as duas riram ao ouvirem uma estridente risada distante. ─ Hattie está aprontando Jason para a escola. Natasha lançou um olhar afetuoso para Isabella, caminhou pelo aposento e sentou-se. ─ O que vamos fazer com respeito a Alessandro? Quer que ele fique em casa?

─ Eu... eu não sei... ─ As nuvens tinham voltado aos seus olhos escuros quando Isabella virou-se para Natasha, o cenho franzido. ─ Tinha planejado mantê-lo em casa, mas... não sei. Não estou certa do que fazer.

─ Alguém já notou que você deixou Roma?

─ Não. Bernardo diz que tudo saiu perfeitamente bem. Segundo Il Messaggero, refugiei-me na cobertura da Casa de San Gregorio.

─ Então não há nenhuma razão para alguém suspeitar de quem ele possa ser. Acha que conseguiria convencê-lo a não dizer a ninguém seu sobrenome? Ele poderia ir para a escola com Jason e dizer que é nosso primo de Milão. Alessandro... ─ Pensou por um momento. ─ Que tal o nome do seu avô?

─ Parel?

─ Parelli? ─ Natasha esboçou um largo sorriso com a sua criação. ─ Passei metade da minha vida inventando nomes. Toda vez que inicio um romance, começo a olhar atentamente todos os rótulos à mão e, seja como for, sempre tenho todos os nomes do livro em andamento. Bem, que tal? Alessandro Parelli, nosso primo de Milão?

─ E quanto a mim? ─ Isabella divertia-se com a imaginação criativa da amiga.

─ Sra. Parelli, é claro. Basta me autorizar que ligarei para a escola. Para falar a verdade... ─ Parecia pensativa. ─ Ligarei para Corbett e perguntarei se ele tem tempo para levá-los quando for para o trabalho.

─ Isso não seria uma espécie de imposição?

Isabella parecia preocupada, mas Natasha sacudiu a cabeça.

─ Se fosse, eu mesma faria. Mas ele adora fazer coisas desse tipo. Está sempre me ajudando com Jason. ─ Ficou olhando ao longe por um momento, perdida nos próprios pensamentos. ─ Ele tem essa coisa sobre ser útil... sobre pessoas que precisam dele.

Isabella olhou-a, imaginando se Natasha precisaria muito dele. Ela parecia tão independente! Ela teria achado graça se soubesse que esse era o mesmo pensamento que sempre passava pela mente de Corbett.

─ Bem, se ele não se importar muito, seria maravilhoso. Desse modo não me veriam na escola.

─ Era nisso que eu estava pensando. ─ Ela mordeu o lápis. ─ Vou telefonar para ele.

E desapareceu antes que Isabella pudesse dizer mais alguma coisa. Contudo, desde que o conhecera, no caminho do aeroporto para casa, Isabella estivera imaginando o que haveria entre o homem de cabelos grisalhos e sua velha amiga. Dava a impressão de um ótimo relacionamento, e a compreensão entre eles era algo que Isabella via com inveja agora. Mas até que ponto levavam a sério esse relacionamento? De Natasha, ela sabia que não conquistaria seu íntimo, a menos que ela estivesse disposta a falar.

Natasha foi telefonar para Corbett e voltou dizendo que ele não demoraria. Os meninos estavam de pé, numa grande agitação.

─ Meu Deus, será que ele agüentará? ─ Isabella encolheu-se e Natasha esboçou um largo sorriso.

─ Você vai saber o quanto o homem é realmente doido quando eu lhe disser que ele vai adorar os dois juntos. Mesmo a esta hora do dia.

─ Obviamente um masoquista.

Isabella sorria enquanto pesquisava os olhos de Natasha. Mas não havia nenhuma resposta neles. Natasha olhou-a com simpatia, preparando torradas na cozinha.

─ Hoje você pode dormir?

─ Está brincando? ─ Isabella olhou-a, horrorizada, e ambas de repente riram.

─ E quanto ao seu trabalho?

─ Você me ouvirá martelando sem parar dentro de meia hora. Mas não ─ esboçou um largo sorriso malicioso ─ vestida com algo tão elegante assim.

Isabella deu uma risada. Ela sabia que Natasha possuía um uniforme para trabalhar, jeans, uma suéter de malha de algodão e meias de lã com um desenho decorativo em forma de losangos coloridos. No mesmo instante Isabella compreendeu que poderia fazer o mesmo. De súbito, tornou-se invisível, desconhecida, não existia.

─ Certo, sra. Parelli de Milão, vou telefonar para a escola.

Natasha desapareceu e Isabella foi ao encontro do filho. Encontrou-o no quarto, brincando com Ashley, um largo sorriso no rosto.

─ Por que está tão feliz? ─ Ela envolveu-o nos braços, beijando-o.

─ Jason precisa ir para a escola hoje. Vou ficar em casa com o trem dele. ─ Mas Isabella deixou-o cair pesadamente na cama.

─ Adivinhe só uma coisa. Você também vai para a escola.

─ Vou? ─ Olhou-a com desânimo. ─ Não posso brincar com o trem?

─ Claro que pode. Quando voltar para casa. Não seria mais divertido ir para a escola com Jason do que ficar aqui sozinho o dia todo, enquanto eu trabalho?

Ele ficou pensando por um minuto e inclinou a cabeça para um lado.

─ Ninguém vai falar comigo. Não posso falar com eles.

─ Se for à escola com Jason, logo poderá falar com todos, e muito mais rápido do que se ficar aqui falando italiano comigo. O que acha?

Pensativamente, ele concordou.

─ Vai ser muito difícil?

─ Igual à sua escola em Roma.

─ Com brincadeiras o tempo todo? ─ Olhou-a encantado, e ela sorriu.

─ Era só o que estava acostumado a fazer?

─ Não, tínhamos que fazer letras também.

─ Que coisa incrível! ─ Sua expressão mostrava que concordava. ─ Você quer ir? ─ Não estava certa do que faria com ele se o menino recusasse.

─ Okay. Vou tentar. E, se eu não gostar, nós dois saímos. Jason pode ficar em casa comigo.

─ Tia Natasha vai adorar. E ouça, tenho uma coisa para lhe dizer.

─ O que é?

─ Bem, faz parte da aventura. Temos de guardar segredo que estamos aqui.

O menino olhou-a e depois sussurrou:

─ Devo me esconder na escola?

Ela procurou manter a expressão séria e, gentilmente, pegou a mão dele.

─ Não, tolinho. Eles vão saber que você está lá. Mas... não queremos que ninguém saiba quem você é.

─ Não queremos? Por quê? ─ lançou-lhe um olhar estranho, e ela sentiu a montanha de ferro tornar a cair sobre seu coração.

─ Porque é mais seguro. Todo mundo pensa que ainda estamos em Roma.

─ Por causa do... do papai? ─ Seus olhos estavam arregalados e tristes ao mergulharem nos dela.

─ Isso mesmo. Vamos dizer que nosso nome é Parelli. E que somos de Milão.

─ Mas não somos de Milão. Somos de Roma. ─ Aborrecido, lançou um olhar demorado para a mãe. ─ E somos di San Gregorio. Papai não gostaria se mentíssemos sobre isso.

─ Ele não gostaria e eu também não gosto. Mas tudo faz parte do segredo, Alessandro. Temos de fazer a coisa desse modo, mas apenas por um pequeno espaço de tempo.

─ Depois posso contar meu verdadeiro nome na escola?

─ Talvez mais tarde. Mas agora não, Alessandro Parelli. Provavelmente jamais venham a usar seu sobrenome.

─ Seria melhor que não. Não gosto dele.

Por um momento, Isabella quase riu. Provavelmente o chamariam Alessandro Espaguete, como fizera Natasha quando se conheceram.

─ Não importa como o chamem, querido. Você sabe quem é.

─ Acho que é tolice.

Sentou-se sobre as próprias pernas e ficou observando o amigo. Jason amarrava cuidadosamente os cadarços dos sapatos, que também tinham sido cuidadosamente calçados. Mas nos pés trocados.

─ Não é tolice, Alessandro. É necessário. E ficarei muito, muito zangada com você se contar a alguém seu verdadeiro sobrenome. Se o fizer, teremos de fugir de novo, e não poderemos mais ficar com tia Natasha e Jason.

─ Teremos de ir para casa? ─ Parecia horrorizado. ─ Eu nem sequer brinquei com o trem...

─ Então faça como eu lhe disse. Quero que me prometa. Alessandro, você promete?

─ Prometo.

─ Quem você é?

Ele olhou-a com expressão de desafio.

─ Sou Alessandro... Parelli. De Milão.

─ Isso mesmo, querido. E lembre-se de que amo você. Agora se apresse e se vista.

Já podiam sentir o cheiro de Hattie fritando bacon na cozinha. E Jason, confuso, olhava fixamente para os pés, estranhamente calçados.

─ Você os calçou nos pés trocados, querido. ─ Isabella abaixou-se para dar-lhe uma mãozinha. ─ Adivinhe só uma coisa. Alessandro vai para a escola com você hoje.

─ Vai? Uau!

Ela explicou-lhe a respeito do nome Parelli e que eles eram primos de Milão. E então lembrou-se de dizer a mesma coisa a Alessandro.

─ Que sou primo dele? Por que não posso dizer que sou seu irmão? ─ Sempre gostara da idéia.

─ Porque você não fala inglês, tolinho.

─ Depois que eu aprender, posso dizer que somos irmãos então?

─ Não se preocupe com isso. Vista as calças. E lave o rosto.

Vinte minutos mais tarde, Corbett buzinou lá embaixo. Os meninos estavam consideravelmente vestidos com calças de veludo cotelê, tênis, camisas, suéteres, gorros de lã e capotes quentes. Tomaram um café apressado e foram embora. Quando a porta se fechou atrás deles, Natasha olhou para a sua camiseta desbotada e enxugou as mãos nos jeans.

─ De qualquer forma, acabo sempre com a roupa suja do que ele comeu por último. Alessandro, sem dúvida, estava uma gracinha.

─ Ele queria dizer na escola que era irmão de Jason. ─ Isabella suspirou ao se afastarem da porta.

─ Acha que ele será capaz de manter o sobrenome em segredo? ─ Por um instante, Natasha ficou preocupada.

─ Infelizmente, nos últimos quatro meses e meio, ele aprendeu bastante sobre segredo, discrição, cautela e perigo. Compreende que os três primeiros são necessários para evitar o último.

─ Não resta dúvida de que é um aprendizado e tanto para uma criança de cinco anos.

─ Assim como para uma mulher de 32 ─ disse Isabella e, enquanto a observava, Natasha sabia que ela falava a verdade.

─ Espero que tenha isso em mente, cara de espaguete. Não foi propriamente entusiasmo o que senti com a sua declaração de ontem à noite, dizendo que queria sair. Alessandro é uma coisa, é uma criança anônima. Não há nada, nem de leve, anônimo em você.

─ Poderia haver.

─ O que tem em mente? Ver um cirurgião plástico para um novo rosto?

─ Não seja ridícula. Há uma maneira de comportamento quando a pessoa quer ser vista. De "estar ali", de chamar atenção e dizer "estou aqui". Se não quero ser vista, não preciso ser. Posso usar um lenço na cabeça, calças compridas e um casaco escuro.

─ Óculos escuros, barba, bigode. Certo. Escute, Isabella. Faça-me um favor. Tenho nervos muito delicados. Se vai começar a perambular por Nova York, posso ter um colapso nervoso. Nesse caso, não poderia terminar de reescrever meu livro, não receberia meu próximo adiantamento, meus direitos autorais estancariam, meu editor me despediria e meu filho morreria de fome.

Mas Isabella apenas ria ao ouvi-la.

─ Natasha, adoro você.

─ Então seja uma boa amiga. Fique em casa.

─ Não posso. Pelo amor de Deus, Natasha, o mínimo que preciso é de ar.

─ Comprarei um pouco. Mandarei entregar em seu quarto. ─ Sorriu, mas nunca estivera mais séria. ─ Se começar a circular por Nova York, alguém a verá. Um repórter, um fotógrafo, alguém que conhece moda. Deus do céu, pode até ser uma repórter da Women's Wear Daily.

─ Não estão interessados em mim. Apenas nas minhas coleções.

─ A quem está tentando enganar, querida? Não é a você mesma e nem a mim.

─ Conversaremos a respeito mais tarde.

Com a questão de Isabella ousando sair ainda não resolvida entre ambas, elas se separaram e cada qual dirigiu-se a seu respectivo mundo: Natasha, perdida entre seus papéis em desordem, suas inúmeras xícaras de café pela metade, suas visões, seus personagens e seu mundo imaginário; Isabella, para o seu bloco repleto de anotações minuciosamente detalhadas, seus arquivos cuidadosamente em dia, sua longa lista de tecidos que atualmente tinham em estoque, suas amostras, seus figurinos, sua lembrança perfeita sobre a linha de verão. Nenhuma das duas sequer ouviu as crianças voltarem para casa às 15:30, e só duas horas mais tarde que se encontraram na cozinha, cada qual tensa, faminta, cansada.

─ Puxa, estou faminta. ─ Por um momento, o sotaque de Natasha pareceu até mais sulista. Isabella parecia cansada e havia ligeiras sombras debaixo dos seus olhos. ─ Você comeu hoje?

─ Acho que não.

─ Nem eu. Como foi isso?

Tinha sido estafante, mas ela fizera um plano eventual para a coleção de alta costura.

─ Acho que conseguiremos. Talvez nem precisemos usar o que fiz hoje. Mas não poderia correr o risco.

Ela só saberia com certeza quando ligasse para Hong Kong à noite. Sorriram uma para a outra enquanto bebiam café. Natasha fechou os olhos por um minuto e Isabella esticou os braços cansados. Hoje passara por uma nova experiência. Sem botões para apertar, sem secretárias para dar ordem, sem elevadores para entrar e sair, problemas para analisar em cada andar. Sem imagem para ganhar, sem aura, sem magia, sem encanto. Vestira um suéter preto de cashmere e jeans já bem surrados.

─ O que vai fazer esta noite? ─ perguntou a Natasha.

─ O mesmo que você. Ficar em casa.

─ Por que quer ficar ou por minha causa?

Isabella imaginou até que ponto Corbett seria paciente com a decisão imposta por Natasha. Realmente não era justo para com ele.

─ Não seja tola. Porque estou extremamente cansada. E, acredite ou não, gosto de ficar em casa. Além disso, você é muito mais divertida do que qualquer um dos convites que há semanas tenho tido.

─ Fico lisonjeada. ─ Mas Isabella não se deixava enganar por palavras impetuosas.

─ Não fique não. Vivo cercada de idiotas, enfadonhos e pessoas que me convidam porque querem dizer que me conhecem. Há dez anos, eu era apenas mais um modelo da Geórgia e, de repente, sou "Uma Romancista", "Uma Escritora", alguém para enfeitar um grande jantar.

Grandes jantares! Há meses que Isabella não ia a um grande jantar, mas também jamais fora sozinha. Nunca era apenas Isabella, mas Isabella e Amadeo, juntos. Nós, não Eu. Éramos uma espécie de time mágico, pensou. Nós dois, quem éramos, o que éramos, o que significávamos juntos. Como aspargos e molho holandês. E difícil quando já não se pode contar com ambos. Como condimento, como algo doce... como algo interessante... como...

Novamente triste, Isabella olhou para Natasha com admiração; sua amiga corajosa que "decorava" grandes jantares desacompanhada e que sempre parecia divertir-se muito.

─ Não sou nada sem ele ─ sussurrou. ─ Toda a excitação se foi. Tudo que eu era... que éramos...

─ Você sabe que isso é tolice. Talvez seja solitário, mas você ainda é o que sempre foi. Bonita, inteligente, uma mulher extraordinária, Isabella. Mesmo só. Vocês eram dois inteiros que somados um ao outro formaram dois inteiros e uma metade e não duas metades que se tornaram um inteiro.

─ Éramos mais que isso, Natasha. Formávamos um inteiro que se tornou único. Sobreposto, entrelaçado, engrenado, soldado, trançado. Nunca soube realmente onde eu começava e ele terminava. E agora sei... muitíssimo bem... ─ Olhou fixamente para o café, sua voz um sussurro suave.

Natasha tocou sua mão.

─ Dê tempo ao que aconteceu.

Mas quando Isabella ergueu os olhos, neles havia raiva.

─ Por que deveria? Por que eu deveria dar alguma coisa? Por que teve de acontecer comigo?

─ Não aconteceu com você, Isabella. Aconteceu com ele. Você ainda está aqui, com Alessandro, com a empresa, com todas as partes do seu ser: sua mente, sua alma, seu coração ainda intactos. A menos que deixe a amargura lhe roubar, como pensa que já roubou.

─ Não teria causado o mesmo a você?

─ Provavelmente. Eu não teria a força para fazer o que você tem feito. Seguir em frente, assumir a direção da empresa, torná-la melhor, continuar na direção, mesmo daqui. Mas isso não basta, Isabella. Não basta... oh, Deus, garota, por favor... não esqueça de si mesma.

Lágrimas brotaram de seus olhos ao fitar a beleza de cabelos negros, tão cansada, de repente tão desolada e solitária. Enquanto ficasse enterrada no trabalho o dia inteiro, ela não sentiria. Porém, mais cedo ou mais tarde, mesmo no quartinho de empregada, seu escritório agora, o dia precisava terminar para ela e Isabella tinha de ir para casa.

Natasha entendeu.

Isabella levantou-se calmamente, deu um tapinha no ombro de Natasha e voltou em silêncio para seu quarto. Quando retornou, dez minutos depois, usava óculos escuros, o casaco de vison e um outro chapéu preto de lã. Ao vê-la, Natasha interrompeu o que estava fazendo.

─ Aonde pensa que vai?

─ Dar uma volta.

Era impossível ver seus olhos por trás dos óculos, mas Natasha percebeu no mesmo instante que ela estivera chorando. Durante alguns segundos, as duas mulheres ali ficaram, presas numa batalha, sem pronunciarem uma palavra. Então Natasha capitulou, dominada pela tristeza que sentia pela amiga.

─ Muito bem. Vou com você ─ decidiu ─ mas, pelo amor de Deus, tire esse casaco. Você está tão discreta como a Greta Garbo. Só precisa de um dos chapéus dela.

Com expressão cansada, Isabella lançou-lhe um largo sorriso e um encolher de ombros tipicamente italiano.

─ Esse foi o único que eu trouxe, meu único casaco.

─ Pobre menina rica. Venha, acharei alguma coisa para você.

Isabella seguiu a amiga, quando Natasha dirigiu-se ao closet e retirou um casaco vermelho de lã.

─ Não posso usar isto. Eu... Natasha, lamento...

─ Por que não?

─ Não é preto.

Natasha encarou-a por um momento, sem entender; depois, examinando-a, compreendeu. Antes disso não tivera certeza.

─ Você está usando luto? ─ Isabella confirmou. ─ Não pode tomar emprestado o casaco vermelho? ─ O conceito todo era novo para ela. A idéia de usar vestidos pretos, suéteres pretas, meias pretas. Durante um ano inteiro.

─ Eu me sentiria horrível.

Natasha ficou examinando o armário outra vez e depois murmurou, por sobre o ombro:

─ Concordaria em usar azul-marinho?

Hesitando um instante, Isabella assentiu e, tranqüilamente, tirou o espetacular casaco de vison. Natasha vestiu uma jaqueta de raposa, luvas quentes e um grande chapéu de pele de raposa.

Virou-se e descobriu Isabella sorrindo.

─ Você está maravilhosa.

─ Você também.

Era assombroso como ela conseguira fazer isso. Mas conseguira. O casaco azul-marinho era totalmente liso, e a boina preta de lã dificilmente era mais atraente; mas o rosto de marfim e os profundos olhos amendoados eram só do que ela precisava. Teria parado o trânsito durante altas horas da noite.

As duas deixaram o apartamento em silêncio. Lá fora já estava escuro. Natasha saiu primeiro. O porteiro abriu a porta e, por um momento, Isabella espantou-se com o frio cortante. De repente, sentiu-se como se alguém tivesse lhe dado um murro forte no peito. Ficou com a respiração entrecortada e sentiu uma névoa transparente de lágrimas enchendo seus olhos.

─ É sempre assim em fevereiro? De certa forma, só me lembro de Nova York no outono.

─ Uma época moderada, abençoada, minha querida. A maior parte do tempo é pior. Gostaria de andar por algum lugar especial?

─ Que tal o parque?

Andavam apressadas pela Park Avenue. Natasha olhou-a, chocada.

─ Só se estiver com tendências suicidas. Como sabe, eles têm uma cota a atingir. Acho que é qualquer coisa por volta de trinta e nove assaltos e dois assassinatos por hora.

Isabella riu para a amiga e, de repente, sentiu seu corpo reviver. Mas não era energia que incitava seus pés para a frente, apenas a tensão e a solidão, a fadiga e o medo. Estava tão cansada... de trabalhar, de viajar, de se esconder, de sentir a falta dele e de ser corajosa. "Procure ser corajosa só mais um pouquinho." Ainda conseguia ouvir as palavras que Amadeo lhe dissera quando o deixaram falar com ela... naquela última noite.

Seus pés já martelavam a calçada. Natasha mantinha o passo com ela, mas Isabella esquecera que a amiga estava ali. "Tente ser... corajosa... corajosa... corajosa..." Parecia a Isabella que já haviam percorrido quilômetros quando finalmente pararam.

─ Onde estamos?

─ Rua 79. ─ Tinham percorrido dezoito quarteirões. ─ Não está em má forma, para uma velha. Disposta a voltar para casa agora?

─ Estou. Porém mais devagar. Que tal andarmos em lugar mais interessante?

Tinham passado por quarteirões e quarteirões de edifícios semelhantes ao de Natasha, fortalezas de pedra, com toldos e porteiros. Causavam impressão, mas não atração.

─ Podemos ir até a Madison e dar uma olhada nas lojas.

Eram quase sete da noite. Uma hora morta, quando as pessoas estavam em casa, aquela hora depois do trabalho e antes que alguém saísse para algum programa noturno. E estava mesmo frio demais para muitas pessoas ficarem olhando vitrinas à noite. Natasha deu uma olhada para o céu. Havia uma friagem familiar no ar.

─ Acho que vai nevar.

─ Alessandro adoraria. ─ Agora caminhavam lentamente, tomando fôlego.

─ Eu também.

─ Gosta de neve? ─ Isabella olhou-a, surpresa.

─ Não. Mas conservaria você dentro de casa, sem que eu precisasse andar de um lado para outro para certificar-me de que não vai escapar.

Isabella soltou uma risada e continuaram caminhando, passando por quarteirões de boutiques que armazenavam os deleites de Cardin, Ungaro, Pierre D'Alby e Yves Saint Laurent. Havia galerias de arte e os penteados artísticos de Sassoon.

─ Checando a concorrência?

Natasha observava-a, divertida. Isabella extasiava-se com tudo, os olhos cintilantes de prazer. Era uma mulher que adorava cada faceta do seu trabalho.

─ Por que não? Eles têm coisas muito bonitas.

─ As suas também são.

Isabella fez uma pequena reverência enquanto caminhavam. Era o Faubourg St.-Honoré de Nova York, um colar cintilante de gemas brilhantes e de valor incalculável, unidas, realçando umas às outras, uma miríade de tesouros oculta em cada quarteirão.

─ Você realmente adora isto, não?

─ O quê, Nova York?

Isabella parecia surpresa. Gostava dali. A cidade a intrigava. Mas amar... não... ainda não. Mesmo depois de ter passado um ano ali, ficou contente quando voltou para Roma.

─ Nova York não. Digo moda. Algo acontece com você, só em olhar as roupas.

─ Ah... isso.

─ Puxa, eu teria enlouquecido se tivesse continuado como modelo.

─ Isso é diferente.

Isabella olhou-a com uma expressão sagaz, a retentora de segredos que raramente revelava.

─ Não, não é.

─ É, sim. Ser modelo é o mesmo que levar uma existência inteira fazendo apresentações únicas em determinados lugares. Não há nenhuma aventura amorosa, não há amantes carinhosos, não há traições, corações partidos, casamentos ou proles preciosas. A criação é diferente. Nela há história, drama, coragem, arte. Você ama as roupas, você vive com elas durante certo tempo, você as gera, evoca seus pais, seus avós, os vestidos de outras coleções, outros tempos. Há toda uma atmosfera romântica, uma excitação... ─ Interrompeu-se, depois riu. ─ Você deve pensar que estou louca.

─ Não. É assim mesmo que me sinto em relação aos personagens dos meus livros.

─ Maravilhoso, não é? ─ As duas olharam-se num entendimento perfeito.

─ Muito.

Estavam quase em casa. Ao dobrarem a esquina da Park Avenue, Natasha sentiu os primeiros flocos de neve.

─ Está vendo, não lhe disse? Mas imagino que isto não será motivo para prendê-la em casa.

Contudo, não havia ofensa no que disse. Poderiam andar como tinham feito nessa noite. Afinal, não fora perigoso.

─ Não, não será. Eu não poderia ter ficado no apartamento. Não por muito tempo.

Natasha concordou com a cabeça.

─ Eu sei.

Também sabia que Isabella não ficaria satisfeita para sempre com uma breve caminhada à noite.

 

─ Mamma! Olhe!... Nevou!

E realmente nevara. Um manto de uns trinta centímetros de espessura cobria toda a superfície de Nova York. E do calor aconchegante do apartamento, todos os quatro assistiam ao espetáculo da tempestade em redemoinho. Não havia parado desde que Natasha e Isabella voltaram para o apartamento na noite anterior.

─ Podemos brincar na neve?

Isabella lançou um olhar de relance para Natasha, que assentiu e ofereceu-se para emprestar-lhes as roupas apropriadas. Certamente não haveria aula. A cidade havia parado completamente.

─ Iremos depois do café.

Isabella consultou o relógio. E depois ligou para Bernardo em Roma. Na véspera só conseguira ligação com Hong Kong muito tarde, e não ousara telefonar para ele àquela hora. Afastou-se rapidamente dos meninos, fechou a porta do escritório e pegou o telefone.

─ Onde esteve a noite passada? Calculei que fosse me telefonar por volta das quatro.

─ Que encantador! Minhas maneiras não são tão ruins assim, Bernardo. Foi por isso que esperei até agora.

─ Boníssima signora.

─ Ora, cale a boca.

Ela estava sorrindo, muito bem disposta.

─ O tecido de Hong Kong está fora de cogitação. Teremos de procurar uma harmonia com os planos alternativos.

─ Que planos alternativos? ─ Ele parecia frustrado.

─ Os meus, é claro. Falou com Gabriela para parar com tudo?

─ Naturalmente. Foi o que você quis. Eu praticamente tive que apanhá-la do chão, completamente desacordada.

─ Então devia me agradecer. Seja como for, ontem resolvi o problema. Está com papel e caneta à mão?

─ Sim, madame.

─ Ótimo. Já tenho tudo resolvido. Primeiro a coleção de alta costura, depois faremos o resto. Começando com o número 12, o forro vermelho passou agora para amarelo. O número do tecido em nosso estoque é 2-7-8-3 FBY... Fabia-Bernardo-Yvonne. Entendeu? Os números 16, 17 e 19... ─ E assim ela continuou até ter abrangido a linha inteira. Até Bernardo estava atordoado.

─ Em nome de Deus, como fez isso?

─ Com dificuldade. A propósito, as peças adicionais da coleção prêt-à-porter não ficarão tão mais caras assim. Usando o tecido que temos em estoque, estamos poupando uma enormidade de dinheiro.

Realmente estavam, Bernardo pensou, com admiração. E ela detalhara cada maldito tecido. Isabella conhecia cada peça, cada rolo, cada metro de tecido, cada tipo de textura e cada tom disponível.

─ E se o 37 da linha de alta costura ficar horrível, diga a ela para retirá-lo ─ continuou Isabella. ─ Provavelmente seremos obrigados a esquecê-lo e só deixá-lo na linha como número 36 em azul.

─ Que vestido é esse?

Ele estava perplexo. Ela fizera o trabalho de um mês em um dia. Em uma manhã, ela recuperara a linha de verão inteira. Só de falar com Gabriela na noite anterior, ele havia compreendido como teria sido potencialmente desastrosa a falta do tecido de Hong Kong.

─ Não se preocupe com qual vestido seja. Gabriela sabe. Há alguma coisa de novo?

─ Hoje, nada. Tudo calmo no front doméstico.

─ Que ótimo para você. Nesse caso, vou tirar uma folga hoje.

─ Vai sair? ─ Parecia em pânico.

─ Só até o parque. Está nevando. Natasha e eu acabamos de prometer aos meninos.

─ Isabella, cuidado.

─ É claro. Mas acredite em mim, não haverá outra alma.

─ Por que não deixa Alessandro ir com Natasha? Você fica em casa.

─ Porque preciso de um pouco de ar fresco, Bernardo.

Ele começou a falar, mas ela o interrompeu.

─ Bernardo, amo você. Agora preciso ir.

Ela foi lacônica e cordial e estava enervada ao assoprar-lhe um beijo e desligar. Ele não gostou. Não gostou de jeito nenhum. Havia de novo um pouco de irritação exagerada em sua voz. E, a essa distância, ele não tinha nenhum controle. Só contava que Natasha fosse mais esperta que Isabella e não a deixasse sair além de uma breve caminhada ocasional depois que escurecesse. Então riu para si mesmo. Havia um meio de mantê-la afastada de encrenca e isso era cumulá-la de mais trabalho, como o esforço maciço do dia anterior. Era inconcebível que ela realmente o tivesse feito.

─ Estão prontos?

Isabella olhou para os dois meninos agasalhados como bonecos de neve: Jason num conjunto vermelho, espessamente forrado e com capuz; Alessandro num conjunto idêntico amarelo-claro, emprestado de Jason.

Saíram para o parque imediatamente e, meia hora depois, os meninos deslizavam nos pequenos montes, no trenó de Jason. Ficaram patinando, fazendo algazarra, gritando, rindo e atirando neve um no outro. Depois de usarem o trenó, passaram a travar uma batalha de bolas de neve e rapidamente Isabella e Natasha juntaram-se à brincadeira. Apenas algumas almas corajosas tiveram audácia suficiente para sair no frio. Os quatro resistiram durante quase duas horas; depois, felizes e encharcados, estavam prontos para voltar a casa.

─ Banho quente para todos! ─ Gritou Natasha ao entrarem.

Hattie os aguardava com chocolate quente e torradas temperadas com canela e um bom fogo crepitando no gabinete.

A tempestade de neve continuou por mais um dia, e os meninos não precisaram ir à escola a semana inteira, enquanto os homens de negócio levavam raquetes de neve para os escritórios e as donas-de-casa faziam ressurgir os esquis para fazer compras.

Porém, para Isabella, o feriado foi breve. E, depois do dia de brincadeiras na neve, ela voltou ao seu escritório, nos fundos do apartamento de Natasha, com um novo mar de problemas de Roma. Dois dos mais importantes tecidos alternativos tinham sido destruídos acidentalmente por uma inundação no armazém, na semana anterior. A modelo número um da casa demitira-se e tudo precisou ser ajustado outra vez. Pequenos problemas, grandes dores de cabeça, desastres e vitórias, um mês repleto, com uma abençoada montanha de trabalho em que Isabella pôde ocultar-se, com exceção das caminhadas noturnas com Natasha. Agora tornaram-se um ritual sem o qual Isabella achava que não podia viver.

─ Por quanto tempo você vai continuar assim?

Tinham acabado de fazer uma parada para acender um cigarro na Madison Avenue. Isabella ficara perscrutando as vitrinas das boutiques, examinando as exposições para a primavera. Estavam em março e as últimas neves finalmente tinham chegado e partido, embora ainda fizesse um frio hibernal e houvesse quase sempre um vento gelado.

Sua pergunta pegou Natasha de surpresa.

─ O que quer dizer? Continuar assim como?

─ Vivendo como uma eremita, sendo minha ama-seca? Já percebeu que não saiu uma só noite durante as cinco semanas em que estamos aqui? A essa altura, Corbett deve estar com vontade de me matar.

─ Por que ele deveria? ─ Natasha parecia frustrada ao olhar para a amiga.

Mas Isabella divertia-se diante da sua inocência dissimulada. Há muito que tinha entendido.

─ Sem dúvida ele espera um pouco mais do seu tempo.

─ Não por costume, obrigada. Conservamos nossas vidas muitíssimo para nós mesmos.

Natasha dava a impressão de ligeiramente divertida. Mas desta vez foi Isabella quem ficou frustrada.

─ Que diabo quer dizer? ─ Natascha não estava zangada com Isabella, apenas confusa.

Mas Isabella respondeu com um sorriso lento:

─ Não espero que se comporte como uma virgem, Natasha, sabe disso. Pode ser franca comigo.

─ Sobre o quê? ─ E, então, de repente, Natasha esboçava um largo sorriso. ─ Sobre Corbett? ─ Durante um longo tempo ela riu até brotarem lágrimas de seus olhos. ─ Está brincando? Oh, Isabella... você pensou?... Oh, Deus! ─ E então olhou para a amiga, divertida. ─ Não posso imaginar nada menos atraente do que estar envolvida com Corbett Ewing.

─ Sério? Não está envolvida com ele? ─ Isabella parecia aturdida. ─ Mas eu supunha... ─ E, depois, pareceu até mais confusa. ─ Mas por que não? Pensei que vocês dois...

─ Talvez você tenha pensado, mas Corbett e eu jamais pensamos. Temos sido amigos durante anos e jamais seremos algo mais. Ele é quase como um irmão e é meu melhor amigo. Mas nós dois somos basicamente pessoas muito dinâmicas. Como mulher, não sou gentil o suficiente para Corbett, não sou bastante frágil ou indefesa. Não sei, não consigo explicar. Ele sempre diz que eu devia ter nascido homem.

─ Que indelicadeza! ─ Isabella parecia não aprovar.

─ Bernardo não lhe diz coisas indelicadas?

Isabella respondeu, com um sorriso:

─ Diariamente, no mínimo.

─ Exato. É como irmão e irmã. Não consigo imaginar uma coisa diferente com Corbett.

Esboçou um largo sorriso outra vez e Isabella deu de ombros, sentindo-se um pouco tola.

─ Acho que estou ficando velha, Natasha. Minhas percepções andam péssimas. De fato, logo de princípio, presumi...

Mas Natasha apenas continuava com seu largo sorriso, e sacudia a cabeça. E, enquanto caminhavam, Isabella ficou pensativa durante um longo momento. De repente, imaginou Corbett Ewing sob um outro prisma muito diferente. Não tornaram a falar até se aproximarem do edifício. Natasha notou que Isabella sorria enquanto caminhavam.

─ Você devia ter ido ao baile da ópera, sabe disso ─ comentou Isabella. ─ Deve ter sido divertido.

─ Como sabe?

─ Temos um baile maravilhoso em Roma.

─ Quero dizer: como sabe que havia um baile aqui e que fui convidada?

─ Porque sou excelente detetive e o convite não se queimou inteiramente.

De repente, brotaram lágrimas nos olhos de Natasha. Suas mentiras, seu "sacrifício", tinham feito mal à amiga.

─ Muito bem ─ disse ela, passando um braço pelos ombros de Isabella, abraçando-a estreitamente, porém por um breve instante. ─ Você venceu.

─ Obrigada ─ Isabella entrou no edifício com uma expressão vitoriosa e um brilho extraordinário no olhar.

 

Isabella apagou a luz do escritório. Eram oito da noite e ela acabara de fazer sua última ligação para Roma. Pobre Bernardo! Pela manhã, fizera duas chamadas para ele, mas tinha sido a noite de lançamento da coleção de verão e ela precisava saber como tinha sido.

─ Requintada, cara ─ dissera ele. ─ Todos declararam que é maravilhosa. Ninguém entende como você pôde fazê-la sob a tensão em que esteve, com as dificuldades, com tudo. Enquanto o ouvia, os olhos de Isabella cintilavam.

─ Não ficou muito estranha com todas aquelas cores em lugar do vermelho? Trabalhando dessa forma, no papel, à distância, foi um pouquinho como trabalhar às cegas.

─ Não pareceu nada estranho e o forro turquesa no casaco branco de noite foi simplesmente genial. Você devia ter visto a reação da Vogue italiana.

─ Va bene.

Ela estava feliz. Ele lhe dera todos os detalhes até que, por fim, nada restava que ela já não soubesse.

─ Certo, querido, acho que conseguimos. Desculpe tê-lo acordado. Agora volte para a cama.

─ Quer dizer que não tem nenhum outro projeto para mim a esta hora? Nenhuma instrução frenética sobre uma nova idéia sua para o outono?

Ele sentia falta dela, mas sua necessidade estava desaparecendo. Tinha sido bom para ambos; a fuga de Isabella fora uma fuga também para ele.

─ Amanhã.

Por um instante seus olhos toldaram-se. O outono... então ela teria de criar a coleção dali? Jamais conseguiria voltar para casa? Dois meses! Já se haviam passado dois meses desde que viera para os Estados Unidos. Dois meses de esconderijo e de dirigir sua empresa a oito mil quilômetros de distância, pelo telefone. Dois meses sem ver a villa e sem dormir na própria cama. Já estavam em abril. O mês do sol, dos jardins e das primeiras explosões da primavera em Roma. Mesmo em Nova York, o tempo estivera um pouco mais quente no momento em que Isabella caminhara todas as noites até a orla do parque. E, algumas vezes, até o East River para dar uma olhada no desfile dos praticantes de cooper dos barquinhos. O rio não era o Tibre e Nova York não era sua terra natal.

─ Ligarei para você pela manhã ─ disse a Bernardo. ─ E, a propósito, meus parabéns pelo sabonete.

─ Por favor. Não seja por isso.

Levara quatro meses para fazer a pesquisa, mais dois para colocá-lo no mercado. Mas, pelo menos, compensara. Tinham acabado de receber um pedido de quinhentos mil dólares da F-B, é claro. Bernardo relatava os pedidos, mas ela não ouvia. O sabonete. Até isso a fazia lembrar-se do seu último dia com Amadeo. Aquele dia fatídico quando discutira com Bernardo e depois os deixara para comparecer a um almoço. Isso ocorrera há quase sete meses. Sete meses longos e solitários, cheios de trabalho. Forçou sua atenção de volta a Bernardo.

─ Por falar nisso, como está Nova York agora? ─ Ele perguntava.

─ Ainda fria, talvez um pouquinho mais quente, mas tudo ainda é muito cinzento. Aqui eles não vêem a primavera antes de maio ou junho. Ele não lhe disse que o jardim da villa estava em plena floração. Tinha ido até lá para verificar as coisas apenas alguns dias atrás. Em vez disso, ele falou:

─ Bene, cara. Falarei com você amanhã. E parabéns.

Ela assoprou-lhe um beijo e desligaram. Parabéns... Em Roma, ela teria assistido, com terror e fascinação, ao espetáculo do lançamento. Teria ficado a postos, sem fôlego, em dúvida de repente quanto às cores, aos tecidos, ao look, infeliz com os adereços, a música e ao cabelo impecável das modelos. Teria odiado cada momento até que a primeira manequim pisasse na passarela forrada de seda cinza. Então, depois que tivesse começado, teria sentido toda a emoção, como sempre sentia a cada estação. A excitação absoluta, a beleza, a loucura do mundo da alta moda. E quando terminasse, ela e Amadeo teriam piscado um para o outro secretamente, através do salão perigosamente apinhado; em seguida teriam se encontrado mais tarde para um beijo longo, cheio de felicidade. A imprensa teria estado ali e haveria rios de champanha. E festas à noite. Era o mesmo que um casamento e uma lua-de-mel quatro vezes por ano.

Mas não neste ano. Nesta noite, ela estava de jeans, num minúsculo escritório, bebendo café e extremamente só. Isabella fechou a porta do escritório e, ao passar pela cozinha, consultou o relógio. Ouviu os meninos ao longe e indagava a si mesma por que não estavam na cama. Alessandro aprendera inglês, não perfeitamente, mas o suficiente para se fazer entender. Quando não conseguia, falava aos gritos para compensar, como se de outra forma não pudesse ser ouvido. O estranho era que ele raramente falava. Como se Alessandro precisasse do seu italiano como uma recordação da sua pátria, à qual ele pertencia de fato. Riu ao passar pelo quarto dos meninos. Brincavam com Hattie, tinham a televisão ligada, e Jason acabara de montar seu trem.

Nesta noite, ela esquecera-se da caminhada. Estivera muito nervosa, esperando até telefonar para Bernardo, preocupada com a estréia da coleção naquele dia. De qualquer modo, começava a cansar-se do caminho já conhecido, mais ainda porque agora Natasha nem sempre a acompanhava. A amiga reassumira sua rotina e, à noite, Isabella costumava ficar sozinha.

Nesta noite Natasha ia sair outra vez. Um baile beneficente. Parando na entrada do seu quarto, Isabella ali permaneceu por um momento; depois caminhou devagar até o final do corredor, para o quarto de Natasha. Era ótimo vê-la bonita outra vez, usando cores brilhantes, fazendo algo elegante ou surpreendente com seu cabelo longo e louro. Isso deu vida nova a Isabella, tão cansada de olhar para o espelho e ver o próprio rosto, o cabelo escuro puxado para trás, a constante sobriedade de suas roupas pretas austeras em sua silhueta cada vez mais fina. Bateu suavemente uma vez e sorriu quando Natasha sussurrou:

─ Entre.

Tinha longos grampos de tartaruga entre os dentes, e seu cabelo já estava preso num turbilhão de cachinhos soltos à grega, que cascateavam delicadamente de um coque no topo da cabeça.

─ Isso está bonito, madame. O que vai vestir?

─ Não sei. Eu ia vestir o amarelo antes de Jason deixar suas marcas. ─ Ela tornou a gemer enquanto fincava mais um dos longos grampos.

─ Não me diga! Marcas de dedos? ─ Isabella passou os olhos pela seda amarela posta de lado.

─ Pasta de amendoim com a mão esquerda. Sorvete de chocolate com a direita.

─ Parece uma delícia. ─ Ela sorriu de novo.

─ É, talvez, mas doloroso também.

─ E que tal este?

Isabella foi até o armário e apareceu com algo conhecido e azul-claro. Ela pensara em Natasha quando comprara o tecido. Era da mesma cor dos seus olhos, uma espécie de lavanda com um toque azulado.

─ Esse? É magnífico. Mas nunca sei o que usar com ele.

─ Que tal dourado?

─ O que dourado? ─ Natasha olhou-a curiosa ao terminar o cabelo.

─ Sandálias. E um toque dourado nos cabelos.

Olhava fixamente para a amiga, como fazia com as modelos durante as provas para as coleções em Roma. Olhos semicerrados, os pés afastados, vendo algo diferente do que realmente era. Criando a própria magia com uma mulher, um vestido, uma inspiração.

─ Espere! Você vai pulverizar meu cabelo de dourado?

Natasha encolheu-se diante da penteadeira branca cheia de babados, mas Isabella ignorou-a e desapareceu. Voltou um minuto depois, com uma agulha e uma linha dourada muito fina.

─ O que é isso?

Ela enfiou a agulha diante do olhar curioso de Natasha.

─ Não se mexa.

A mão movendo-se com destreza, Isabella ia entrelaçando-a levemente, cortando a linha, fazendo as extremidades desaparecerem e executando milagres novamente com a agulha até terminar, criando apenas uma impressão, como se, em mistura com os próprios cabelos de Natasha, ela tivesse feito brotar filetinhos dourados brilhantes.

─ Pronto.

Natasha olhou assombrada para sua imagem no espelho.

Esboçou um largo sorriso.

─ Você é espantosa. E agora?

─ Um pouco disto… ─ Usou uma caixa de pó-de-arroz transparente, translúcido, que faiscava minúsculas partículas douradas. A impressão que criava era de uma beleza deslumbrante, um brilho reluzente, num rosto já encantador. Em seguida, ela desapareceu no closet de Natasha, voltando com um par de sandálias douradas de salto baixo. ─ Você vai parecer uma deusa quando eu terminar.

Natasha começava a acreditar, enquanto prendia as próprias sandálias, já esquecidas nos pés calçados com meias praticamente invisíveis.

─ Lindas meias. Onde as comprou? ─ Isabella olhou com interesse.

─ Dior.

─ Traidora. ─ Depois, pensativamente: ─ Não precisa se desculpar. São mais bonitas do que as nossas.

Procurou memorizar algo para dizer a Bernardo. Já era tempo de fazerem alguma coisa nova e diferente com suas meias.

─ Agora...

Retirou o vestido do seu envoltório plástico e resmungou de satisfação ao introduzi-lo sem problemas pela cabeça da amiga, sem desmanchar um fio do cabelo de Natasha. Puxou o zíper com habilidade e foi para frente, afofando aqui, alisando ali, aprovando. O vestido era criação sua. Fizera-o para a linha primavera, apenas três anos antes. Como adereço, escolheu entre suas próprias coisas um anel de ametistas de cor malva-clara, cercadas de diamantes e engastadas em ouro. Havia um par de brincos pequeninos, delicadamente moldados, e também um bracelete. Era um conjunto notável.

─ Onde conseguiu isto?

─ Amadeo comprou para mim em Veneza, no ano passado. São do século XIX, creio. Ele disse que as pedras não são perfeitas, mas a montagem é extremamente primorosa.

─ Oh, meu Deus, Isabella! Não posso usar uma coisa dessas. Mas obrigada, querida, você é maluca.

─ Não enche! Quer ficar encantadora ou não? Se não quiser, talvez queira ficar em casa também.

Ela fechou o colar ao redor do pescoço de Natasha. Ele caía exatamente na direção certa do decote, cintilando de maneira deslumbrante entre as dobras de chiffon malva-claro.

─ Tome, ponha-os você mesma. ─ - Entregou os brincos após fechar o bracelete no braço de Natasha. ─ Está maravilhosa. ─ Isabella lançou-lhe um olhar de puro prazer.

─ Estou morrendo de medo. E se eu os perder, pelo amor de Deus? Isabella, por favor!

─ Já lhe disse, não enche, tá? Agora vá e divirta-se.

Natasha se olhou rápido no espelho, sorrindo para Isabella e para sua imagem. A campainha tocou quase no mesmo instante, e um corretor da Bolsa, de smoking, chegou para reivindicar a pessoa com quem tinha compromisso. Isabella foi para seu quarto e esperou até ouvir a porta fechar-se. Só houvera uma batida suave antes de Natasha sair com ele, além de um agradecimento sussurrado às pressas. Depois, Isabella ficou outra vez com os ruídos dos meninos e do trenzinho de Jason, correndo e apitando. Ela consultou o relógio meia hora depois e foi beijar os meninos, já deitados. Alessandro olhou-a de modo estranho.

─ Você não sai mais, mamma?

─ Não, querido. Gosto mais de ficar aqui com vocês.

Apagou a luz para eles e foi deitar-se na pele estendida sobre a cama. "Não sai mais mamma?" Não caro. Nunca. Talvez nunca mais.

Tentou dormir enquanto olhava fixamente para o fogo, mas foi inútil. Ainda estava muito nervosa, muito excitada, muito ansiosa, após passar o dia aguardando notícias das coleções de Roma. E não tomara nem um pouco de ar o dia todo. Não caminhara. Não correra. Finalmente, com um suspiro, virou-se e ficou olhando o fogo, mas em seguida levantou-se. Saiu à procura de Hattie, em seu quarto, assistindo televisão, com o cabelo cheio de rolinhos e um volume de Good housekeeping ao lado da cama.

─ Você ainda vai ficar em casa por algum tempo?

─ Sim, sra. Parelli. Não vou sair.

─ Então vou andar um pouco. Voltarei logo.

Isabella fechou a porta e voltou para o quarto. O casaco azul-marinho que Natasha lhe emprestara ficava pendurado no seu armário agora, e ela já não precisava mais da boina de lã. Vestiu rapidamente o casaco e apanhou a bolsa, lançando um olhar pelo quarto por um momento, como se receosa de esquecer alguma coisa. O quê? A bolsa a tiracolo? O pó compacto? As luvas longas de pelica branca, de ir à ópera? Olhou melancólica para os jeans que usava e por um instante sentiu uma pontada de ciúmes. Natasha. Natasha felizarda. Com seus atos de caridade, suas sandálias douradas e seus beaux. Isabella sorriu quando voltou a pensar na conversa que tiveram sobre Corbett. Ela devia ter sabido que Corbett não era o tipo de Natasha. Ele não seria dominado com muita facilidade. Então olhou-se no espelho, zangada, e sussurrou: "É isso o que quer?" É claro que não. Sabia que não. Não queria um corretor da Bolsa, usando óculos de aros de tartaruga. "Ah, então é um sujeito bonito o que você quer." Acusou-se enquanto fechava suavemente a porta. "Não! Não!", foi sua resposta. Então o que ela queria? Amadeo, é claro. Só Amadeo. Porém, ao pensar nisso, uma breve visão de Corbett manifestou-se repentinamente em sua cabeça.

Nessa noite caminhou muito além do que sempre tinha ido, as mãos comprimidas nos bolsos, o queixo enterrado na gola do casaco. O que ela queria? De repente, ficou em dúvida. Perambulou mais lentamente, passando pelas lojas agora muito conhecidas. Por que não mudavam as vitrinas com mais freqüência? Ninguém se importava? E eles não sabiam que ainda estavam usando as cores do ano passado? E por que não era primavera? Fazia críticas a tudo aquilo enquanto procurava afastar repetidamente a imagem de Natasha da mente. Então o que era isso? Apenas ciúmes? Mas por que Natasha não podia se divertir? Ela trabalhava tanto! Era boa amiga. Abrira seu lar e seu coração para Isabella como ninguém fizera. Que mais poderia desejar? Conservar a amiga trancada em casa, como ela mesma? De repente, sem querer, ficou sabendo a resposta muitíssimo bem. Não queria a reclusão de Natasha, mas sim um pouco de liberdade para si própria. Só isso.

Enterrou as mãos nos bolsos, comprimiu ainda mais o queixo no casaco e continuou andando incessantemente até que, pela primeira vez, viu-se no centro da cidade. Não estava mais no aconchego, na segurança, na parte residencial das ruas sessenta; ou na sobriedade notável das setenta; ou até no tédio característico das oitenta; sem falar no refinamento duvidoso, decadente das noventa, onde ela vez por outra chegara a se perder; porém, desta vez, ao contrário, passou pelas ruas cinqüenta cheias de entusiasmo, com seus restaurantes, seus jantares animados, seus táxis estridentes e suas lojas muito maiores. Passou pelas lojas de departamentos com vitrinas exageradas. Pela Tiffany's, com suas atrações cintilantes, pelo Rockefeller Center, com seus patinadores ainda promissores, e pela igreja de St. Patrick, com suas torres elevadas.

Ela percorreu todo o caminho até a rua 42, até os edifícios de escritórios, as lojas menos elegantes e os bêbados. Tudo parecia passar por ela em disparada, numa velocidade que a fazia lembrar-se de Roma.

Finalmente, retomou o caminho de volta para a Park Avenue e, ao passar pela Grand Central, ficou olhando diretamente para o alto da Park Avenue. Enfileirados de cada lado, encontravam-se os arranha-céus, monumentos altaneiros de vidro e aço cromado, onde se aspirava alcançar fortunas e realizar ambições. Enquanto os olhava, Isabella ficou com a respiração suspensa pela emoção; o topo dos edifícios parecia levar direto ao céu. Lenta e pensativamente, voltou para casa.

Sentia como se tivesse aberto uma nova porta nessa noite e não havia um modo de poder fechá-la outra vez. Ela curvara-se servilmente, ocultara-se num labirinto, trancada num apartamento, fingindo que vivia num lugarejo distante da excitação da cidade. Porém, nessa noite, vira bastante, sentira a proximidade do poder, do sucesso, do dinheiro, da excitação, da ambição. Quando Natasha chegou em casa, ela já se decidira.

─ O que está fazendo ainda de pé, Isabella? Julguei que já estivesse dormindo há horas.

Ela vira luz na sala de estar e, perplexa, entrara devagar.

Isabella sacudiu ligeiramente a cabeça, com um pequeno sorriso para a amiga.

─ Você está maravilhosa esta noite, Natasha.

─ Graças a você. Todos adoraram o dourado no meu cabelo; não fazem idéia de como consegui isso.

─ Contou a eles?

─ Não.

─ Ótimo. ─ Ela ainda sorria. ─ Afinal, é preciso ter alguns segredos.

Preocupada, Natasha observava-a. Alguma coisa mudara naquela noite. Havia algo no modo como Isabella estava ali, no modo como olhava, como sorria.

─ Saiu para dar um passeio esta noite?

─ Sai.

─ Como foi? Aconteceu alguma coisa?

Por que Isabella olhava daquele jeito? Sentia algo estranho na expressão dos seus olhos.

─ Claro que não. Por que deveria acontecer alguma coisa? Ainda não.

─ E não vai acontecer. Enquanto for cautelosa.

─ Oh, sim. ─ Ela parecia melancólica. ─ Isso. ─ De repente, ela ergueu a cabeça com um olhar de poder e de graça que indicava que ela devia ter sido a pessoa usando os fios dourados nos cabelos. ─ Natasha, quando vai sair de novo?

─ Só daqui a alguns dias. Por quê? ─ Droga! Provavelmente ela estava se sentindo solitária e entediada. Quem não estaria? Principalmente Isabella. ─ Aliás, estava pensando em ficar em casa o resto da semana, com você e os meninos.

─ Que maçante!

Era isso então, Natasha devia ter calculado. Ela voltara a se envolver com tudo, levara Isabella por demais a sério.

─ De jeito nenhum, tolinha. Na verdade ─ bocejou encantadoramente ─ se eu não parar de correr de um lado para outro como ando, vou acabar desmoronando. ─ Mas Isabella ria, e Natasha não compreendia. ─ E quanto à pré-estréia que você deve comparecer depois de amanhã?

─ Que pré-estréia?

Natasha arregalou os olhos e parecia totalmente apatetada, mas Isabella apenas ria mais.

─ A de quinta-feira. Lembra-se? Em benefício de uma fundação pró-cardíacos ou qualquer coisa parecida!

─ Mais essa! Acho que não irei.

─ Ótimo! Usarei seu convite. ─ Recostou-se e quase soltou um grito de prazer.

─ O quê? Espero que esteja brincando.

─ Não, não estou. Quer me arranjar um convite? ─ Esboçou um largo sorriso e sentou-se sobre as pernas cruzadas no sofá.

─ Está maluca?

─ Não. Andei até o centro da cidade esta noite e foi maravilhoso. Natasha, não consigo mais fazer o que estou fazendo.

─ Você precisa. Sabe que não tem escolha.

─ Tolice. Numa cidade deste tamanho? Ninguém me conhecerá. Não estou dizendo que vou começar a me exibir por aí, indo a desfiles de modas e almoçando fora. Mas certas coisas posso fazer. É loucura esconder-me aqui deste jeito.

─ Seria loucura não se esconder.

─ Está enganada. Se for a uma pré-estréia como essa, posso entrar e sair sem ser notada. Depois do coquetel, da reunião. Posso apenas assistir ao filme e ver as pessoas enquanto entro e saio. O que imagina? Que posso criar roupas para as mulheres elegantes sem pôr os pés fora da minha casa e conseguir sentir o que está dando resultado e o que não está, do que elas gostam, o que fica bem nelas, sem sequer ver o que está sendo usado? Sabe bem que não sou mística. Sou uma estilista. Uma profissão muito equilibrada.

Mas o discurso não foi convincente. Natasha apenas sacudiu a cabeça.

─ Não posso fazer o que me pede. Não posso. Pode acontecer alguma coisa. Isabella, você perdeu o juízo!

─ Ainda não. Mas perderei. Breve. Se não começar a sair. Discretamente. Com precaução. Mas não posso continuar assim por muito mais tempo. Compreendi isso esta noite.

Natasha parecia acabrunhada, e Isabella deu-lhe um tapinha amistoso na mão.

─ Por favor, Natasha, ninguém sequer suspeita que seja outra pessoa que não eu que mora na cobertura da casa em Roma.

─ Suspeitarão se começar a se exibir em pré-estréias cinematográficas.

─ Prometo-lhe, não suspeitarão. Vai me arranjar o convite? ─ De repente, ela adotou o olhar suplicante de uma criança.

─ Vou pensar a respeito.

─ Se não arranjar, eu mesma arranjarei. Ou irei a outro lugar. Um outro lugar público, onde estou certa de que serei vista.

Por um momento, seus olhos escuros cintilaram com malícia, e os olhos azuis de Natasha subitamente inflamaram-se.

─ Nada de chantagem comigo, droga! ─ Ergueu-se de um salto e ficou andando de um lado para outro da sala.

─ Então, vai me ajudar? Por favor, Natasha... por favor...

Ao ouvir as palavras da amiga, Natasha virou-se lentamente para encará-la outra vez, fitou os olhos acossados, o rosto fino e pálido e teve de admitir que Isabella precisava mais do que o apartamento e uma caminhada ocasional pela Madison Avenue à noite.

─ Vou ver.

Mas Isabella estava cansada do jogo agora; seus olhos se inflamaram e ela ergueu-se de um pulo.

─ Esqueça, Natasha. Eu mesma cuidarei do assunto.

Dirigiu-se para os fundos da casa. Um momento depois, Natasha ouviu-a fechar a porta. Lentamente, apagou as luzes da sala de estar e olhou para a cidade lá fora. Mesmo às duas da madrugada, estava animada, atarefada, alvoroçada; havia caminhões, táxis, pessoas; havia ainda buzinas e vozes, excitação e tumulto. Era por isso que as pessoas afluíam a Nova York, por isso é que não conseguiam ficar longe. Ela própria sabia que precisava do que a cidade lhe dava, precisava sentir seu movimento pulsando como o sangue em suas veias. Como podia negar isso a Isabella? Porém, não negando, se os seqüestradores a descobrissem, se custasse a vida de Isabella, talvez ela fosse a responsável. Em silêncio, Natasha percorreu o corredor, devagar. Parou à porta do quarto de Isabella e bateu gentilmente. A porta abriu-se no mesmo instante. As duas ali ficaram, sem falar, face a face. Foi Natasha quem falou primeiro.

─ Não faça isso, Isabella. É muito perigoso. Não está certo.

─ Diga-me isso quando tiver vivido assim, aterrorizada, escondida, durante tanto tempo quanto eu. Diga-me que seria capaz de continuar.

Mas Natasha não poderia. Ninguém poderia.

─ Você tem sido muito corajosa, Isabella, e por muito tempo.

"Corajosa... só mais um pouquinho." O eco das palavras de Amadeo pegou Isabella de surpresa, alojando-se em sua garganta. Com lágrimas nos olhos, ela sacudiu a cabeça.

─ Não tenho sido corajosa.

─ Tem sim, você tem sido. ─ Ainda sussurravam. ─ Tem sido corajosa, paciente e sensata. Poderá ser mais um pouquinho?

Diante dessas palavras, Isabella quase gritou. Sacudiu freneticamente a cabeça de um lado para outro, sussurrando para Amadeo, bem como para sua amiga:

─ Não. Não, não posso. ─ E, então, ficou ereta e olhou atrevidamente para Natasha, de repente sem vestígio de lágrimas. ─ Não posso ser corajosa só mais um pouquinho. Tenho sido assim enquanto pude.

─ E quanto à quinta-feira?

Isabella olhou-a, sorrindo lentamente.

─ A pré-estréia? Estarei lá.

 

─ Isabella!... Isabella!...

Natasha estava diante do quarto da amiga e batia freneticamente na porta.

─ Espere um minuto! Ainda não estou pronta. Só um segundo... pronto...

Calçou depressa os sapatos, colocou os brincos, olhou-se apressada no espelho e abriu a porta. Natasha aguardava, já vestida para a pré-estréia, usando um casaco bege, longo, em estilo chinês, forrado de cetim cor de pêssego, em sua tonalidade mais clara. As calças que usava por baixo eram de veludo cor de café e essas cores, café e pêssego, reuniam-se no brocado dos sapatos. E ela estava usando brincos de coral que espreitavam através dos cabelos louros. Isabella examinou-a com admiração e sorriu de prazer, enquanto aprovava.

─ Minha querida, você está maravilhosa. E nem sequer é um dos meus! Onde comprou esse traje sensacional?

─ Em Paris, no ano passado.

─ Muito bonito.

Contudo, de repente, foi Natasha quem olhou e aprovou, reduzida ao silêncio com a surpresa ao ver a figura familiar ali parada, numa atitude régia no centro do aposento. Era a antiga Isabella, e Natasha ficou instantaneamente sem fôlego, sob o efeito da fascinação. Esta era a Isabella di San Gregorio, como outrora tinha sido. A mulher de Amadeo e a mais brilhante estrela de toda Roma.

Não era apenas o que vestia, mas a maneira como vestia, além do ângulo do longo pescoço de marfim, talhado com tanta delicadeza, a linha do seu cabelo escuro penteado e preso com perfeição, o formato de suas delicadas orelhas, a profundeza dos notáveis olhos negros. Mas agora Natasha ficou boquiaberta diante do que ela estava usando, tão simples e tão severo. Um tubinho longo, preto, de cetim, que caía dos ombros aos pés. Um pequeno decote em V, mangas formando minúsculas abas nos ombros e a riqueza do pesado cetim preto, que expunha apenas a ponta dos sapatos também pretos de cetim. O cabelo fora arrebatado num coque, os braços estavam totalmente nus e sua única jóia era um par de grandes brincos de ônix cravejados de diamantes, brilhantes como seus próprios olhos.

─ Meu Deus, é magnífico, Isabella! ─ Era perfeitamente simples, inteiramente despretensioso. ─ Deve ser um dos seus.

Isabella confirmou com a cabeça.

─ Minha última coleção, antes... De deixarmos o país.

Houve uma longa pausa. Antes do desaparecimento de Amadeo… Fazia parte da mesma coleção do vestido verde de cetim que ela usara naquela noite, aguardando que ele voltasse para casa.

─ O que vai usar por cima? Seu casaco de vison?

Natasha hesitava. Sem dúvida, o casaco devia chamar atenção. Contudo, mesmo de cetim preto totalmente sem enfeite, Isabella era uma mulher que todos iriam ver. Mas Isabella sacudia a cabeça, desta vez com um olharzinho de prazer, uma insinuação de sorriso.

─ Com esse casaco não, tenho outra coisa. Algo da coleção que lançamos esta semana. Na verdade ─ disse ela por sobre o ombro, enquanto procurava no armário por alguns instantes ─ isto é apenas uma amostra, mas Gabriela mandou-o para mim, para mostrar que efeito bom produziu. Foi à caixa que você apanhou na semana passada com o seu agente. Na coleção, nós o forramos de turquesa, para ser usado sobre roxo ou verde.

E, enquanto falava, voltava do armário, vestindo um casaco de cetim branco leitoso. Com o preto do vestido por baixo, ela parecia ainda mais extraordinária que antes.

─ Oh, Deus! ─ Natasha parecia ter visto um fantasma.

─ Não gosta? ─ Isabella mostrou-se admirada.

─ Adorei. ─ Natasha fechou os olhos e sentou-se. ─ Mas acho que você enlouqueceu. Enlouqueceu! Jamais conseguirá levar a cabo o que pretende.

Reabriu os olhos e fixou-os em Isabella, que vestia o notável casaco branco e o vestido preto extraordinariamente simples. O traje inteiro era tão simples e tão lindo que não havia dúvida de que pertencia à alta costura. E um olhar para o seu rosto pálido, tão pálido e revelador, e o estratagema terminaria. O paradeiro de Isabella di San Gregorio seria conhecido imediatamente.

─ Há alguma chance, humanamente possível, por mais remota que seja, de eu dissuadi-la? ─ Natasha olhava-a sombriamente.

─ Nenhuma.

Agora era ela quem ditava as ordens. A princesa da Casa de San Gregorio, de Roma. Isabella consultou o relógio que deixara sobre a mesa, depois voltou-se para a amiga.

─ É melhor apressar-se, Natasha, você vai se atrasar.

─ Não há essa possibilidade. E você?

─ Exatamente como prometi. Ficarei aqui até nove e quinze em ponto. Pegarei a limousine que você alugou para mim e irei direto para o cinema, mandarei o motorista verificar com os lanterninhas se o filme já começou, e, caso tenha começado, conforme programado, às nove e meia, entrarei rapidamente. Sentarei na poltrona do corredor lateral que você reservou para mim e sairei no momento em que as luzes se acenderem no final.

─ Antes das luzes se acenderem. Não espere pela lista dos participantes ou por mim. Saia imediatamente. Voltarei mais tarde para casa, depois do jantar.

─ Ecco. E quando você voltar, estarei aqui, e então poderemos fazer um brinde a uma noite perfeita.

─ Perfeita? Mil coisas podem sair erradas.

─ Mas nada sairá errado. Va, cara. Chegará atrasada para o coquetel.

Natasha continuava parada, paralisada. Isabella lhe sorria. Parecia não entender nada, como era grande o risco que corria, como poderia ser facilmente reconhecida, a sensação que causaria se sua residência em Nova York se tornasse conhecida.

─ Bernardo sabe o que você está tramando?

─ Bernardo?! Ele está em Roma. E aqui é Nova York. Sou apenas um rosto nas revistas de modas. Nem todos se mantêm em dia com a moda, minha querida. Ou não sabia?

─ Isabella, você é uma tola. Você não cria vestidos apenas para as condessas francesas e mulheres ricas de Roma, Veneza e Milão. Você tem uma linha americana inteira, roupas masculinas, prêt-à-porter, cosméticos, perfumes, sabonetes. Você é uma mercadoria internacional.

─ Nada disso. Sou uma mulher. E não posso mais viver assim.

Nos dois últimos dias andaram discutindo o assunto mais de cem vezes e os argumentos de Natasha estavam se esgotando. O melhor que conseguira foi apresentar um plano razoavelmente seguro. E, com sorte, funcionaria, se Isabella chegasse ao cinema tarde, saísse cedo o bastante e se sentasse discretamente para assistir ao filme. Talvez, apenas talvez, desse certo.

─ Então, está pronta?

Isabella olhava-a com expressão dura, como se instigasse uma debutante indecisa a comparecer ao seu primeiro baile.

─ Bem que gostaria de estar morta.

─ Não seja tola, querida. ─ Beijou docemente Natasha na face. ─ Vejo você no cinema.

Sem dizer mais nada, Natasha levantou-se para ir embora; parou na porta por um instante, sacudiu a cabeça e saiu, enquanto Isabella tornava a sentar-se, sorrindo e, impacientemente, batendo no chão um pé calçado de cetim preto.

Em seu esplendor negro e discreto, a limousine que Natasha alugara aguardava à porta. Eram exatamente 21:15. Isabella caminhou até o meio-fio. O ar caiu sobre seu rosto como uma bênção e, por uma vez, ela nem se importou com o frio. Com um ruído surdo, o motorista fechou a porta depois que ela entrou. Isabella acomodou-se cuidadosamente, o casaco branco espalhado ao seu redor como o manto da coroação. Seguiram decorosamente pelo Central Park, em seguida encaminharam-se para o centro da cidade, para o cinema, enquanto Isabella observava em silêncio os outros carros passarem por ela. Oh, Deus, finalmente ela saía de casa! Em sedas e cetins, perfume e traje a rigor. Até Alessandro a olhara com entusiasmo, gritando de alegria ao dar-lhe um beijo de boa-noite, com todo o cuidado, com ambas as mãos no ar, de acordo com as instruções que recebera.

─ Igualzinho quando saía com papai! ─ Gritara.

 

Porém, na verdade, não era igual. Por um instante, os pensamentos de Isabella voaram para Roma. Para os dias de suas idas a festas na Ferrari; das corridas para casa depois do escritório, a fim de tagarelar e vestir-se para um baile, a mente ainda aturdida, bombardeada de trabalho; de Amadeo cantando no chuveiro enquanto ela depositava seu smoking sobre a cama e desaparecia no seu quarto para surgir de veludo cinza ou brocado azul. Isso era tolice, uma "vida vazia", alguém lhe dissera certa vez, mas era o mundo deles também. Tinham conseguido isso juntos e o desfrutavam, compartilhavam suas risadas e seus sucessos com divertimento e orgulho.

Agora era diferente. O lugar ao seu lado estava vazio. Não havia ninguém além do motorista no grande carro preto. Ninguém com quem conversar quando lá chegasse, ninguém com quem rir quando acabasse de chegar em casa, ninguém para quem brilhar, para quem sorrir. Sua cabeça estivera um pouco mais alta porque ele havia estado ali. De súbito, seu rosto adquiriu uma expressão séria ao pararem à porta do cinema.

O motorista virou-se para trás, para falar com Isabella.

─ A sra. Walker falou qualquer coisa sobre eu entrar para ver se o filme já começou.

Ele a deixou na limousine e foi ver se estava tudo certo. Ela sentiu o coração começar a acelerar um pouco, como sentira no dia do casamento, quando, numa nuvem de renda branca e tule, ela havia sido a noiva de Amadeo. Mas era tolice sentir o mesmo agora. Ia apenas a um cinema. E desta vez estava de preto. E já não era mais a noiva de Amadeo e sim sua viúva. Embora fosse tarde demais para hesitações. O motorista havia voltado para ajudá-la a descer do carro.

No cinema às escuras, Natasha estava fora de si. Um grupo de sete pessoas já havia se apossado dos sete primeiros lugares junto à passagem lateral, e todas as suas desculpas: "Sinto muito, se importaria muito? Minha prima... tem um terrível resfriado... aqui em um minuto... vem mais tarde... talvez não se sinta bem e tenha de ir embora.." foram inúteis. Ninguém lhe dava ouvidos, o grupo era intratável e numeroso. Um homem gordo do Texas, "do petróleo, querida'" de smoking e chapéu Stetson, tinha bebido excessivamente. "Rins doentes, querida, sabe como é!" Fora impossível tira-lo do seu lugar na passagem. Ao lado dele, estava a esposa de brocado branco e seus convidados, o editor financeiro do Times de Londres, mais outro casal muito amável e, finalmente, Natasha, com seu assento sobressalente. Ela queria matar Isabella. O plano fora uma loucura desde o princípio. Isabella teria de passar por todos; seria impossível impedir que fosse vista. Natasha sentou-se com expressão carrancuda, aguardando que o filme começasse e esperando que Isabella, ao dirigir-se para o carro, tivesse pegado varíola ou tifo, talvez até malária.

─ Parece infeliz esta noite, Natasha. O que aconteceu? Cancelaram seu novo livro?

─ Não há essa possibilidade. ─ Ela olhou para Corbett Ewing, sentado do outro lado da poltrona vaga.

─ Está parecendo doida de pedra. ─ Ele lançou um olhar divertido para o homem de chapéu Stetson, na poltrona junto à passagem. ─ Problemas com o Texas? ─ Corbett Ewing fitou-a com seus olhos azuis buliçosos e um amplo sorriso.

─ Eu tentava guardar o lugar para uma pessoa.

─ Ah! Então está apaixonada de novo. Droga, toda vez que saio da cidade, pareço perder minha chance!

Natasha sorriu. Mas ele logo notou que ela estava preocupada. E, ao observá-la, imaginou quem devia ser a pessoa. E ao pensar nela, seu coração acelerou.

─ Onde tem estado?

Natasha procurou iniciar uma conversa banal, mas ainda havia inquietação em seu olhar.

─ Em Tóquio, principalmente. Depois Paris, Londres. E, na semana passada, Marrocos. Puxa, é um lugar lindo!

─ Assim ouvi dizer. Como vão os negócios? ─ Com Corbett era o mesmo que perguntar ao chef da Casa Branca: "Como foi o almoço?" Ele estava constantemente tramando grandes negócios empresariais.

─ Tudo bem. Como está seu livro?

─ Terminei, afinal. Decidi que, na verdade, não sou escritora. Apenas uma pessoa que reescreve. Passo seis semanas planejando os livros e seis meses resumindo-os.

─ Na realidade, é mais ou menos como acontece comigo.

Os dois ficaram em silêncio por algum tempo, observando as pessoas.

E então, sem qualquer aviso, Corbett mudou-se para a poltrona vaga. Natasha olhou-o, espantada, e fez um gesto para que voltasse ao lugar.      

─ Ali não consigo ver. ─ Olhou-a com ternura.

─ Corbett... quer fazer o favor de voltar? ─ Sua voz era insistente, mas o sorriso dele apenas se expandia enquanto sacudia a cabeça.

─ Nada disso, não vou voltar.

─ Corbett!

Porém, naquele exato momento, as luzes diminuíram de repente. Natasha continuou insistindo com ele na escuridão. Atrás deles, algumas senhoras aristocráticas pediram silêncio.

Exatamente naquele instante, a lanterna de um vaga-lume surgiu na extremidade da passagem. Sobressaltada, Natasha olhou naquela direção. Pelo menos Isabella chegara na hora exata. Estava de pé, confusa por um momento, encarando o homem de chapéu Stetson.

─ Oi, querida, você deve ser a prima de Natasha. Não é que esse casaco é belíssimo?

Isso foi dito num nível de sussurro alto, pois as senhoras idosas voltaram a se manifestar. O texano apresentou Isabella à esposa. Isabella murmurou algo amável e lançou um olhar pela fileira de poltronas. Natasha fez lhe um sinal e Isabella assentiu com a cabeça, avançando lentamente através de sete pares de pés e joelhos.

─ Lamento... oh... desculpe... lamento muitíssimo.

Conseguiu alcançar Natasha, que apenas apontou silenciosamente para a poltrona vazia... Isabella concordou com a cabeça, olhou para Corbett, ultrapassou os dois, ajeitou o casaco à sua volta e sentou-se. O filme começava e o cinema estava às escuras, mas, ao sentar-se, ela voltou-se para Corbett e os dois trocaram um sorriso. Ela estava excitada demais para assistir ao filme; em vez disso, viu-se passando os olhos de cima a baixo pelas longas passagens escuras. Como seriam aquelas pessoas, quem eram, o que estavam vestindo? Será que sabiam como era bom não estar enclausurada? Sorria na escuridão, fitando muito feliz os penteados elaborados e as cabeças masculinas de cabelos bem aparados. Finalmente, deixou que seus olhos fossem atraídos pelo filme e ficou satisfeita, quase como uma criança, desfrutando o que acontecia na tela. Há quanto tempo não ia a um cinema? Pensou um instante. Desde o princípio de setembro, com Amadeo. Sete meses... Ouviu-se emitir um pequeno gemido de contentamento. O filme em si era delicioso, e ela estava encantada com a sua beleza e o humor dos atores. Ficou assistindo, absorta, até a cortina descer lentamente e as luzes se acenderem.

─ Já terminou?

Confusa, Isabella lançou um olhar para Corbett, insatisfeita com o final do filme. Mas ele, divertido, ria para ela e apontava para os créditos na tela, quase ocultos pelas borlas douradas da pesada cortina que se fechava, balouçante.

─ É apenas o intervalo. ─ O sorriso intensificou-se. ─ É ótimo vê-la, Isabella. Vamos até o foyer para tomarmos um drinque.

Mas enquanto Isabella concordava com a cabeça, a mão de Natasha pegou-a pelo braço. Seus olhos sustentaram os de Corbett com uma expressão carrancuda.

─ Acho que ela deve permanecer aqui.

Ele parou momentaneamente, olhando com interesse para Isabella; e depois com preocupação para a velha amiga. Ele gostaria de dizer-lhe que se descontraísse um pouco, que não era um homem metido a conquistador e nem seqüestrador, mas não era nem lugar nem hora. Voltou-se outra vez para Isabella.

─ Gostaria que eu lhe trouxesse alguma coisa?

Mas Isabella apenas sacudiu a cabeça, sorrindo educadamente, e voltou a sentar-se em seu lugar.

Assim que ele se afastou, Natasha aproximou-se mais, lamentando ter permitido que Isabella viesse.

Isabella apenas sorriu e deu-lhe um tapinha na mão.

─ Não fique tão preocupada, Natasha. Está tudo bem.

Ela estava tendo a oportunidade que desejara com tanto desespero. Observar as pessoas, ver seus vestidos, ouvir as risadas, estar "ali". E, de repente, Natasha viu-a levantar-se e olhar lentamente ao redor.

Natasha sibilou furiosamente:

─ Sente-se.

Mas essa era Isabella, e antes que Natasha pudesse detê-la, ela dirigiu-se devagar para a direção oposta, para a outra passagem.

─ Isab... droga!... ─ Sussurrou para si mesma através dos dentes cerrados, levantando-se rapidamente, pedindo desculpas, evitando os pés em elegantes sapatilhas e procurando ficar perto de Isabella.

Porém, no instante em que se juntaram à multidão na passagem, Isabella pareceu estar sendo levada por uma corrente de pessoas que passavam entre elas num turbilhão, rindo alegremente, procurando não respingar seus drinques. Puxaram Natasha pelas longas luvas brancas.

─ Natasha! Querida! Senti sua falta no...

Ela murmurou rapidamente:

─ Mais tarde. ─ E prosseguiu, decidida.

Contudo, estava a uma boa distância de Isabella agora, que entrava no foyer junto com os demais, onde uma multidão se comprimia ao redor do bar improvisado.

─ Mudou de idéia? ─ Era Corbett Ewing, de repente dominando Isabella com sua altura.

Ela ergueu os olhos para ele com um sorriso.

─ Mudei, obrigada.

─ Gostaria de um drinque?

─ Não, eu...

Muito atrás, Natasha de repente olhava fixamente para ela, com uma expressão de pânico nos olhos. Acenou freneticamente para Corbett, que apenas retribuiu o aceno. Natasha não retribuiu o sorriso, mas olhava aflita para a amiga. Precisava alcançá-la. Acenou para que ela virasse para trás. Perturbada, Isabella assim o fez, imaginando se havia algo de especial que devesse ver. Foi Natasha quem viu o perigo se aproximando, na forma de duas repórteres, uma da Women's Wear Daily e a outra da seção Gente do Time. A mulher da revista, parecendo uma aranha num vestido preto de jérsei, olhou atentamente para Isabella por um instante, franzindo as sobrancelhas. Então, procurou aproximar-se mais, após sussurrar alguma coisa para o homem que a acompanhava.

Nesse meio tempo, Isabella estava sorrindo para Corbett e lançando um olhar embaraçado para Natasha. Natasha ainda não conseguira chegar até ela. Tinha vontade de chutar todos eles, mordê-los, empurrá-los para o lado com os cotovelos. Precisava alcançar Isabella antes das duas repórteres, antes...

Tarde demais. Dois flashes espocaram nos olhos de Isabella. Ela virou-se depressa, assustada, momentaneamente cega pelas luzes fortes. Agarrou o braço de Corbett exatamente quando Natasha alcançou-a e puxou-a para o seu lado. Aturdido, Corbett ficou ali parado, com o drinque na mão, seu corpo vigoroso bloqueando as repórteres que, no momento, tinham sido afastadas para o lado com empurrões. Natasha agarrou o braço dele, gritando mais alto que o alarido:

─ Tire-a daqui, pelo amor de Deus! Agora!

Tomou-lhe o copo e os dois braços de Corbett cercaram Isabella como uma fortaleza, enquanto outro flash explodia no rosto dela. Antes que ela percebesse, ele praticamente já a impelira através do foyer. Isabella ouvia indistintamente o murmúrio que crescia no recinto. Corbett segurava seu braço com força e saíram do cinema, correndo até o Rolls-Royce. Isabella não dissera uma palavra, porém, enquanto corria, pensou que isto não era novidade para ela. Precipitaram-se para dentro do carro. Antes da porta se fechar, Corbett gritou:

─ Vamos embora daqui, depressa!

Foi só então que as repórteres surgiram à porta de saída, lançando-se ruidosamente ao encalço deles. Corbett esboçou um largo sorriso. O futebol que jogara na universidade vez por outra se desforrava. E tinha de admirar Isabella. Ela cobrira a distância com ele sem as pretensões de uma dama sobre saltos altos, caindo ou o que poderia estar fazendo com seu vestido. Agora estava sentada no banco, sem falar, tentando recuperar o controle e tomar fôlego. Já haviam dobrado a esquina, deixando as repórteres boquiabertas no meio-fio.

─ Você está bem? ─ Corbett voltou-se para ela, abrindo um compartimento e retirando uma garrafa de conhaque e um copo.

─ Muito conveniente! ─ E depois, sorrindo debilmente ─ Estou ótima.

─ Isto lhe acontece sempre? ─ Entregou-lhe o copo, que ela aceitou.

─ Com freqüência.

Ele olhou para Isabella, notando que a mão dela tremia ao pegar o copo. Pelo menos era humana, apesar da serenidade. Já não estava mais ofegante.

─ Natasha não me disse aonde devo levá-la. Quer ir para casa? Ou seria mais seguro na minha?

─ Não, para nossa casa está ótimo. Peço desculpas pela cena desagradável.

─ De modo algum. Minha vida é extremamente enfadonha, em comparação.

Ele deu o endereço ao motorista. Mas, de súbito, ficou enervado pelo que observara em Isabella. Apesar da serenidade, havia uma expressão desesperada em seu rosto.

─ Não pretendi levar o caso na brincadeira. Deve ser muito enervante. Foi por isso que deixou a Itália? Ou é algo que só lhe acontece aqui? ─ Sua voz estava gentil ao recostar-se ao lado dela.

─ Não é só aqui. Isto... aconteceu também na Itália. Eu... sinto muito, mas não posso explicar. É muito embaraçoso. Apenas sinto muitíssimo ter estragado sua noite. Basta me deixar em casa e voltar.

Mas isso não era em absoluto o que Corbett Ewing desejava. Havia algo raro e estranho em Isabella que lhe tocava o coração. Algo oculto, extraordinário e sutil. Isabella tinha um porte de rainha, beleza. Notava em seus olhos humor e inteligência, porém havia algo mais, algo soterrado. Dor, sofrimento, solidão, percebera agora, com seu olhar escuro, manifestando uma emoção reprimida. Ele se manteve calado por algum tempo; depois, ao dobrarem no parque, Corbett falou calmamente:

─ Como vai meu amigo Alessandro?

Trocaram um sorriso, e Corbett ficou satisfeito ao notar que ao falar no menino ela pareceu descontrair-se.

─ Ele vai muito bem.

─ E quanto a você? Ainda aborrecida?

Ele sabia que Isabella raramente deixava o apartamento, exceto para breves caminhadas com Natasha. Ele não entendia, mas parecia ser tudo que ela fazia. Porém, agora, Isabella sacudia a cabeça com veemência, sorrindo.

─ Oh, não, aborrecida não! Tenho estado tão ocupada!

─ Ocupada? ─ Ele ficou curioso. ─ Fazendo o quê?

─ Trabalhando.

─ É mesmo? Trouxe seu trabalho para Nova York? ─ Ela assentiu com a cabeça. ─ Qual seu ramo de atividade?

Por um instante, ela ficou aturdida. Mas deu uma resposta rápida.

─ No da minha família. Em... arte.

─ Interessante. Receio que eu não possa reivindicar algo tão nobre com o meu ramo de atividade.

─ O que faz? ─ Obviamente uma coisa de muito sucesso, pensou ela, enquanto seus olhos percorriam discretamente o interior revestido de madeira e couro do novo Rolls-Royce.

─ Muitas coisas, mas principalmente tecidos. Pelo menos é o que prefiro. O resto deixo para as pessoas com quem trabalho. Minha família começou com tecidos há muitos anos e é do que sempre gostei mais.

─ É interessante. ─ Durante alguns instantes surgiu um brilho nos olhos de Isabella. ─ Está envolvido em algum tipo especial?

Morria de vontade de saber se havia comprado dele, mas não ousava perguntar. Talvez descobrisse através de alguma informação que ele revelasse.

─ Lãs, linhos, sedas, algodão. Temos uma linha de veludo que estofa a maior parte deste país e, é claro, fibras artificiais, sintéticos e algumas coisas novas que estamos desenvolvendo agora.

─ Sei, mas não tecidos para vestidos, então. ─ Parecia desapontada. Ela nada tinha a ver com tapeçaria.

─ Também para vestidos, é claro. Fazemos tecidos para vestuário.

Vestuário. Isabella encolheu-se diante da hedionda palavra. Vestuário. Seus vestidos não faziam parte do vestuário. Isso pertencia à Sétima Avenida. O que ela fazia era alta-costura. Ele não conseguia decifrar a expressão dos olhos de Isabella, mas achava divertido assim mesmo.

─ Provavelmente fizemos, inclusive, o tecido do vestido que está usando.

Permitiu que uma rara explosão de orgulho aparecesse em sua voz, mas ela o olhou então com arrogância, a própria princesa romana.

─ Este tecido é francês.

─ Nesse caso, peço desculpas. ─ Divertido, ele recuou. ─ O que me faz lembrar algo muito importante. Você não me disse seu sobrenome.

Ela hesitou apenas por um instante.

─ Isabella.

─ Só isso? ─ Ele sorriu. ─ Apenas Isabella, a amiga italiana?

─ Isso mesmo, sr. Ewing. Só isso.

Ela lançou-lhe um olhar longo e sério e ele assentiu com a cabeça lentamente.

─ Compreendo.

Depois do que viu de relance no cinema, ele sabia que ela já havia sofrido o bastante. Alguma coisa difícil acontecera a essa mulher, e ele não ia intrometer-se. Não queria afugentá-la.

Naquele exato momento, pararam à porta de Natasha. Com um pequeno suspiro, Isabella virou-se para ele e estendeu-lhe a mão direita.

─ Muito obrigada. E lamento muitíssimo ter estragado sua noite.

─ Não estragou. Fiquei até feliz por sair de lá. Sempre acho essas sessões beneficentes um aborrecimento.

─ Acha? ─ Ela olhou-o com interesse. ─ Por que razão?

─ Gente demais, falatório demais. Todos estão lá por motivos errados, para ver seus amigos e não para fazer um benefício seja qual for a causa. Prefiro ver meus amigos em pequenas reuniões onde possamos ouvir uns aos outros.

Ela assentiu com a cabeça. Sob certos aspectos, concordava com ele. Mas, por outro lado, noites como essa estavam em seu sangue.

─ Permita que eu a acompanhe até lá dentro, para ter certeza de que ninguém está escondido nos corredores?

Ela riu diante da suspeita, porém, grata, inclinou a cabeça.

─ Obrigada. Mas estou absolutamente certa de que estou a salvo aqui.

Quando Isabella fez essa declaração, alguma coisa disse a Corbett que essa era a razão por que ela viera para a América. Para estar a salvo.

─ Vamos apenas nos certificar. ─ Acompanhou-a até o elevador e entrou com ela. ─ Só vou levá-la até lá em cima.

Isabella não disse nada até o elevador parar. Então, de repente, sentiu-se embaraçada; ele tinha sido tão encantador...

─ Gostaria de entrar por um instante? Sabe de uma coisa? Poderia esperar até Natasha voltar.

─ Obrigado, gostaria mesmo. ─ Fecharam a porta. ─ A propósito, por que ela não veio conosco, em vez de ficar para representar com a imprensa?

Aquilo o deixara confuso enquanto corria com Isabella, pensando no que Natasha acabara de falar.

Isabella suspirou ao fitar Corbett. Poderia ao menos contar-lhe essa parte:

─ Creio que Natasha achou ser mais sensato se ninguém soubesse que eu estava com ela.

─ Foi por essa razão que você chegou atrasada? ─ Ela confirmou com a cabeça e ele continuou ─ Você leva uma vida muito misteriosa, Isabella. ─ Sorriu e não fez mais perguntas, ao se sentarem no longo sofá branco.

O resto da noite transcorreu rapidamente. Conversaram sobre a Itália, sobre tecidos, sobre a terra natal dele. Corbett tinha comprado uma grande plantação na Carolina do Sul, uma fazenda na Virgínia e uma casa em Nova York.

─ Você cria cavalos na Virgínia?

─ Sim, crio. Sabe montar?

Ela esboçou um largo sorriso enquanto bebericavam conhaque.

─ Eu costumava montar. Mas faz muito tempo.

─ Você e Natasha precisam levar os meninos qualquer dia desses. Haveria tempo para isso antes de você voltar?

─ Talvez.

Mas quando começaram a falar a respeito, Natasha avançou porta adentro. Parecia abatida, exausta. Olhou para Isabella diretamente nos olhos.

─ Eu disse que você estava louca ao tentar sair. Tem alguma idéia do que fez?

Por um momento Corbett ficou confuso diante da expressão do rosto da amiga e da veemência em seu tom de voz. Mas Isabella não parecia perturbada. Fez sinal para Natasha sentar-se.

─ Não fique tão exaltada. Não foi nada. Tiraram algumas fotos. E daí? ─ Procurava ocultar a própria inquietação e estendeu a mão num gesto cordial.

Mas Natasha não concordava. Deu as costas, furiosa; depois, olhou fixamente para Corbett, em seguida para Isabella; então levantou a túnica de cetim e sentou-se.

─ Faz uma idéia de quem eram? Da revista Women's WearDaily e do Time. A terceira era da Associated Press. E acho que talvez tenha visto, de relance, o editor da coluna social da Vogue. Mas acontece, sua débil mental, que não teria importado se fosse um menino de doze anos com uma fadinha. Seu estratagema acabou.

Que estratagema? O que estava acontecendo? Corbett estava curioso. Olhou para as duas mulheres e perguntou, rápido:

─ Devo me retirar?

Natasha respondeu antes que Isabella o fizesse:

─ Não importa, Corbett. Confio em você. E amanhã de manhã o mundo inteiro vai saber.

Mas Isabella agora estava zangada. Levantou-se e ficou andando pela sala.

─ Isso é absurdo.

─ É, Isabella? Acha que ninguém lembra de você? Acha que após poucos meses todos já a esqueceram? Sente-se mesmo tão segura assim? Porque se assim for, você é uma idiota!

Corbett não dizia nada. Não tirava os olhos do rosto de Isabella. Ela estava assustada, porém determinada, e tinha o olhar de quem se aventurara, perdera a primeira mão e não ia desistir ou abandonar o jogo. Ele queria confortá-la, dizer-lhe que a protegeria, dizer a Natasha que sossegasse. Sua voz era profunda e gentil quando finalmente falou:

─ Talvez nada seja divulgado.

Natasha apenas lançou-lhe um olhar furioso, como se ele tivesse participado da trama original.

─ Engana-se, Corbett. Você não sabe o quanto está enganado. Amanhã de manhã sairá em todos os jornais. ─ Com ar infeliz, olhou para Isabella. ─ Você sabe que estou certa.

Isabella empertigou-se e falou com bastante suavidade:

─ Talvez não.

 

Em seu escritório, Corbett Ewing olhava fixamente para o jornal matutino, em desespero. Como predissera Natasha, estava tudo nos noticiários. Ele lia o The New York Times. "Isabella di San Gregorio, viúva do costureiro seqüestrado e subseqüentemente assassinado, Amadeo di San Gregorio..." A notícia prosseguia para explicar mais uma vez cada detalhe possível do seqüestro e do lamentável resultado final. E, o mais interessante, descrevia com detalhes minuciosos como Isabella havia desaparecido e como se chegara a pensar que ela se refugiara na cobertura da Casa de alta costura de Roma. Havia uma pequena frase questionando se, de fato, Isabella estivera nos Estados Unidos o tempo todo ou se fugira depois do lançamento vitorioso da linha primavera da San Gregorio.

O artigo continuava dizendo que não se sabia onde ela estava hospedada e que indagações discretas junto a pessoas importantes do mundo da moda em nada resultaram. Ou estavam cooperando para manter seu paradeiro em segredo, ou realmente não sabiam. O signore Cattani, representante americano da San Gregorio em Nova York, disse que ouvira falar dela com mais freqüência do que a usual nos últimos meses, mas não tinha nenhuma razão para acreditar que ela estivesse em Nova York e não em Roma. Também havia uma menção sobre o fato de que ela fora vista na pré-estréia cinematográfica acompanhada por um homem alto, de cabelos grisalhos, e que conseguiram fugir juntos num Rolls-Royce preto com motorista. Mas nada se sabia ao certo quanto à identidade dele.

O interesse das repórteres concentrou-se no choque que sentiram ao verem Isabella e, embora uma das repórteres tivesse a impressão de que o homem de fato tinha um rosto conhecido, nenhuma das duas pensou em examiná-lo com mais cuidado e tudo que se podia ver dele nas fotos era sua nuca enquanto corriam.

Corbett suspirou, largou o jornal, recostou-se na cadeira e a fez girar lentamente. O que ela sabia dele? O que Natasha teria dito? Ele desejava que, de todas as mulheres do mundo, ela fosse qualquer uma, menos quem realmente era. Parecendo desalentado, ficou olhando o jornal, em seguida para as mãos.

Aos poucos, seus pensamentos desviaram-se de suas próprias preocupações para as dela. Isabella di San Gregorio. Jamais poderia imaginar. A prima de Milão de Natasha! Ele achou graça da história, depois sorriu mais amplamente ao reunir o resto dos pedaços e lembrar-se de todo aquele estratagema tolo... ele lhe dissera que estava no ramo de tecidos... ela lhe dissera que sua família ligava-se à arte. Contudo, ela sabia alguma coisa sobre tecidos.

E o modo como Isabella empertigara-se quando lhe contou que o cetim do seu vestido sem dúvida não era dele, mas fora comprado na França!

Agora compreendia tudo melhor: o segredo, a fuga deles do espetáculo beneficente, e os olhos de Isabella cheios de medo, como se vivesse aquela cena com muita freqüência, como se tivesse sido assediada por ela durante um tempo longo demais. Pobre mulher! O que deve ter sofrido! Corbett achou-se imaginando, também, como Isabella conseguia dirigir a empresa de Nova York.

Uma coisa era certa: Isabella di San Gregorio era uma mulher notável, uma mulher com talento, beleza e alma. Contudo, agora, ele indagava a si mesmo se um dia chegaria a conhecê-la. Se teria, inclusive, essa oportunidade. Compreendia que havia apenas uma resposta, e essa teria que vir dela. Nessa noite ele lhe contaria. Não poderia correr o risco de Isabella descobrir mais tarde e saber de maneira deturpada o que ele sentia por ela e o que queria fazer para ajudá-la. Se ela assim permitisse. Se ao menos falasse com ele novamente...

Com um longo suspiro de resignação, Corbett Ewing ergueu-se e afastou-se da mesa. Olhou para a Park Avenue ao longe, para o lugar onde ele sabia que Isabella estava escondida, no apartamento de Natasha, com seu filho e o da amiga, então tornou a sentar-se e pegou o telefone.

Isabella ainda falava com Bernardo em Roma. Ele recebera as primeiras notícias ao meio-dia. Sua secretária trouxera-lhe o jornal da tarde, que ele leu com horror, com os olhos flamejantes, mas sem dizer uma palavra. Ligara para Isabella às seis, às sete e, de novo, agora, pouco depois das dez.

─ Certo, que droga! E daí? Fiz isso mesmo. Agora não há nada que se possa mudar. Voltarei a me esconder. Ninguém saberá se ainda estou aqui. Não posso suportar mais. Trabalho noite e dia. Faço minhas refeições com as crianças. Dou umas voltinhas depois que escurece. Sozinha, Bernardo! Sem ninguém para olhar, com quem rir, com quem conversar. Ninguém inteligente com quem conversar sobre negócios. A única agitação existente em minhas noites é fornecida pelo trem elétrico de Jason.

Sua voz estava suplicante, mas Bernardo não queria ouvir.

─ Muito bem, vá em frente, exiba-se. Mostre-se. Mas se acontecer alguma coisa a você ou a Alessandro, não venha chorar no meu ombro, porque será unicamente sua maldita culpa.

Em seguida, subitamente, tomou um longo fôlego e moderou o modo de falar. Do outro lado, podia ouvir Isabella chorar de mansinho ao telefone.

─ Certo, certo, desculpe... Isabella, por favor... mas fiquei tão assustado por sua causa! Foi uma tolice o que fez. ─ Ele acendeu um cigarro, mas acabou apagando-o no cinzeiro.

─ Eu sei. ─ Ela tornou a soluçar e depois, num gesto de cansaço, enxugou os olhos. ─ Apenas achei que tinha de ir. Não pensei, realmente, que alguém pudesse me ver ou que houvesse algum mal.

─ Pensa diferente agora? Compreende o quanto você é visível?

Sentindo-se infeliz, ela assentiu com a cabeça.

─ Sim. Eu costumava gostar dele. Agora eu o odeio. Sou prisioneira do meu próprio rosto.

─ Um rosto lindo que eu adoro, portanto pare de chorar. ─ Sua voz era gentil.

─ Então o que faço agora? Volto para casa?

─ Está maluca? Seria pior do que a noite passada. Não. Você fica aí. Tentarei contar a todos que você só partiu depois do lançamento da coleção e que já está voltando para a Europa. Nas entrelinhas, deixarei uma pista sobre algo relacionado com a França. Fará sentido devido à família de sua mãe que vive lá.

─ Já morreram todos. ─ Ela fungou ruidosamente e assoou o nariz.

─ Sei disso. Mas faz sentido você ter laços naquele país.

─ Acha que vão acreditar?

─ Quem se importa? Contanto que não a vejam em público de novo, você está segura. Parece que ninguém sabe onde está hospedada. Natasha saiu do cinema com você? ─ Ele fez uma breve oração para que uma das duas tivesse sido mais esperta.

─ Não. Um amigo dela levou-me para casa. Ela saiu depois.

─ Ótimo. ─ Ele parou por um instante, tentando parecer casual. ─ E, a propósito, quem é o homem da fotografia? Era só o que lhe faltava, envolver-se com algum americano!

─ É um amigo de Natasha, Bernardo. Acalme-se.

─ Ele não contará a ninguém onde você está?

─ Claro que não!

─ Você é confiante demais. Eu me encarrego da imprensa aqui. E Isabella, por favor... pelo amor de Deus, cara, use a cabeça e fique em casa.

─ Capisco, capisco. Não se preocupe. Agora entendo, mesmo aqui sou prisioneira. Mais até do que se estivesse em Roma.

─ Um dia tudo isso vai acabar. Você só precisa ter paciência por enquanto. Já se passaram sete meses desde o seqüestro, sabe disso. Dentro de alguns meses, um ano, será uma notícia ultrapassada.

Notícia ultrapassada... ela estava pensando que, nessa época, ela também seria notícia ultrapassada.

─ É. Talvez. E Bernardo... desculpe por lhe dar tanto problema. ─ De repente, ela se sentiu como uma menina muito levada.

─ Não se preocupe. Estou acostumado. A esta altura, eu estaria perdido sem isso.

─ Como vai sua úlcera? ─ Ela sorriu ao telefone.

─ Conduzindo-se lindamente. Acho que fica maior e mais forte a cada dia.

─ Pare com isso. Tenha calma, por favor, sim?

─ Sim. Certo. Agora veja se consegue continuar trabalhando naqueles problemas com a linha prêt-à-porter para a Ásia. E, se ficar entediada, pode começar a linha de verão.

─ Você é bom demais para mim.

─ Ecco. Eu sei. Telefonarei mais tarde se surgir mais alguma coisa. Não deve surgir nada, se você conservar a porta fechada e permanecer em casa.

─ Capisco.

Despediram-se e desligaram. Do seu lado, Isabella estava indignada. Por que teria ela de ficar em casa, e que direito tinha ele de lhe dizer para não confiar em Corbett? Deixou o escritório, foi à cozinha e encontrou Natasha servindo-se de uma xícara de café, com expressão severa.

─ Bateu um papo agradável com Bernardo?

─ Sim, encantador. Mas você também não, por favor, Natasha. ─ Natasha havia entrado em seu quarto intempestivamente às sete horas, com o jornal na mão e no semblante uma expressão de fúria.

─ Acho que não suportarei mais nada por hoje. Cometi um erro. Fui excessivamente confiante. Não devia ter saído ontem à noite, mas saí. Precisava. Não estava agüentando mais. Mas agora compreendo que tenho de ficar em segundo plano pelo menos por enquanto.

─ O que ele vai dizer à imprensa?

─ Que estive aqui durante alguns dias e que vou morar na França.

─ Isso deve mantê-los espionando por Paris durante um ou dois dias. E você, o que vai fazer?

─ O que estive fazendo. Meu trabalho e pouca coisa mais.

─ De toda aquela confusão de ontem à noite, pelo menos uma coisa boa aconteceu. ─ Ela observava Isabella atentamente.

─ O quê? ─ Isabella parecia inexpressiva.

─ Você se encontrou com Corbett outra vez. ─ Natasha fez uma pausa, sem tirar os olhos do rosto da amiga. ─ Permita que lhe diga que você teve uma sorte e tanto.

─ Com Corbett? Não seja absurda. ─ Mas enquanto afastava-se, Natasha estava certa de que a viu corar.

─ Gosta dele? ─ Houve um longo silêncio. ─ E então? ─ Porém, lentamente, ela tornou a virar-se com um brilho ardente nos olhos escuros.

─ Natasha, não force.

A outra assentiu com a cabeça.

─ Acho que talvez ele lhe telefone. Como resposta, Isabella concordou em silêncio, mas seu coração deu um pulinho enquanto ela voltava para o escritório e fechava a porta.

 

Isabella ainda estava em seu quarto, vestindo-se para o jantar, quando Corbett chegou. Ainda com a porta fechada, enquanto prestava atenção, ouvia a risada estridente de prazer de Jason e, um momento depois, as risadinhas igualmente alegres do seu próprio filho. Sorriu. Não faria nenhum mal a ele ver um homem, para variar. Fazia muito tempo que ele estivera ao lado de Bernardo e, ao contrário de sua casa, Natasha não tinha nenhum empregado em seu serviço doméstico. Alessandro só tivera contato com pessoas do sexo feminino, que ultimamente o fizeram sentir ainda mais a falta do pai.

Isabella puxou o zíper do vestido preto de lã, alisou as meias pretas e calçou os sapatos pretos de camurça. Colocou os brincos de esmalte preto e pérola e passou a mão pelo cabelo escuro, num penteado severo. Esboçou um largo sorriso para si mesma ao apagar a luz. O cisne voltara a ser o patinho feio. Mas não importava. Ela não estava tentando conquistar Corbett Ewing, e, tal como para Alessandro, iria fazer-lhe bem ter um amigo do sexo masculino.

Quando entrou tranqüilamente na sala de estar, encontrou-o cercado pelos dois meninos, que tinham acabado de abrir dois grandes embrulhos, contendo idênticos chapéus de bombeiro equipados com lanterna, sirene e dois casacos de bombeiros para combinar.

─ Veja, agora somos bombeiros!

        Vestiram seus equipamentos e começaram a correr pela sala. Obviamente, Alessandro estava encantado por rever Corbett, e o som estridente das sirenes era estarrecedor, fazendo Natasha estremecer.

─ Presente adorável, Corbett. Não me deixe esquecer de lhe telefonar e agradecer amanhã de manhã, às seis.

Ele ia responder quando viu Isabella de pé, do outro lado da sala. Levantou-se no mesmo instante, olhou-a meio nervoso e caminhou em sua direção para cumprimentá-la, estendendo-lhe a mão.

─ Alô, Isabella. Como vai?

Mas os olhos dela diziam como Isabella estava: Cansada. Exausta. Porém, mais uma vez, ele viu-se atraído por sua beleza. Ela teria ficado surpresa ao ouvir isso, mas ele concluiu que ela parecia ainda mais bonita no severo vestido preto de lã, sem a magnificência dos cetins e do extraordinário casaco branco.

─ Você deve ter tido um dia e tanto.

Ele virou os olhos de maneira simpática, e ela sorriu ao acompanhá-lo de volta ao sofá, onde sentou-se.

─ Oh, eu sobrevivi. Sempre se sobrevive. E quanto a você?

─ Para mim, foi fácil. Tudo que sabiam a meu respeito era que eu tinha cabelo branco. A única coisa que não disseram foi que eu era um cavalheiro idoso... –

Ele ia continuar falando, mas os meninos o interromperam.

─ Vejam, vejam, esguicha água!

─ Oh, não!

Jason descobrira que havia uma pequena pipa fixada em algum lugar no chapéu, que se podia encher de água e, subseqüentemente, ser usada para encharcar os amigos do seu proprietário.

─ Corbett, talvez não volte a falar com você nunca mais. ─ Natasha gemeu e anunciou aos meninos que já era hora de irem para a cama.

─ Não, mamãe... tia Isabella... não... por favor!

Jason as olhava com ar suplicante, mas Alessandro apenas aproximou-se mais dos joelhos de Corbett. Olhava-o com interesse enquanto Jason continuava brincando com o chapéu. Isabella nunca o vira tão quieto e, de uma pequena distância, ela ficou observando. Corbett também notara e voltou-se para o menino, sorriu-lhe e colocou despreocupadamente um braço ao redor dos pequeninos ombros.

─ O que pensa de tudo isso, Alessandro?

─ Acho que é... ─ procurou usar o inglês correto ─ muito divertido. Gosto muito do chapéu. ─ Ergueu os olhos para Corbett com admiração e esboçou um largo sorriso.

─ Também os achei ótimos. Você gostaria de ir comigo qualquer dia a um quartel do corpo de bombeiros de verdade?

─ Com bombeiros? ─ Olhou para Corbett e depois para a mãe com temor respeitoso. ─ Você também vai?

Isabella assentiu com a cabeça, notando que Alessandro agora falava em inglês também com ela.

─ Claro. Eu quis dizer vocês dois. O que diz?

─ Si!

Mas isso foi demais para ele. Passou os cinco minutos seguintes matraqueando freneticamente com a mãe em italiano. Houve longas especulações sobre os bombeiros americanos, como deviam ser maravilhosos, o que vestiam, como seus carros eram grandes e se realmente usavam ou não um poste de metal.

─ Non so... non so... espere, descobriremos isso tudo.

Isabella ria com ele e, divertida, observou que o menino mudou, da posição em que estava ao seu lado, para os joelhos de Corbett.

─ Iremos logo?

─ Prometo.

─ Ótimo. –

Ele bateu palmas e saiu em busca ansiosa de Jason. Momentos depois, ambos foram banidos para o quarto, apesar dos pedidos, súplicas, protestos e comentários violentos de que era cedo demais para bombeiros irem para a cama. Quando por fim se foram, a sala ficou estranhamente silenciosa. Corbett, mais uma vez, ficou observando Isabella.

─ Você tem um menino encantador.

─ Acho que ele está um pouco ansioso por companhia masculina, como provavelmente deve ter notado. ─ Mas depois do que Corbett tinha lido nos jornais daquele dia, não havia necessidade de esconder a verdade. ─ Em Roma ele tinha um dos meus sócios, que é seu padrinho. Aqui ele tem ─ ela olhou para Natasha ─ apenas nós. Não é realmente a mesma coisa. Mas não precisa sentir-se obrigado a levá-lo ao quartel do corpo de bombeiros. Os presentes que trouxe são maravilhosos. Já fez mais do que o suficiente.

─ Não seja tola. Adoro isso. Natasha pode dizer. Jason é um dos meus melhores amigos.

─ Felizmente ─ confirmou ela ─ uma vez que seu encantador pai nunca aparece.

Nos dois últimos meses, ela e Isabella comentaram com freqüência a respeito. Porém, de qualquer modo, Jason parecia feliz, e ter outra criança em casa estava fazendo aos dois meninos um enorme bem. Compensava outras carências, outras perdas, como nem a própria mãe deles conseguia.

─ Providenciarei para qualquer dia desta semana. Talvez no próximo fim de semana, se todos estiverem livres. ─ Mas, quando ele disse isso, Isabella olhou-o e riu.

─ Oh, sim, sem dúvida estaremos livres.

Corbett ficou satisfeito porque Isabella estava rindo. Depois do que tinha lido naquele dia, ele não sabia como Isabella ainda conseguia. Mas enquanto a observava, percebeu o quanto ela era forte. Estava magoada, solitária, porém era destemida, e nela ainda havia riso, fogo e uma certa alegria indestrutível. Ele esboçou um amplo sorriso e depois ergueu uma sobrancelha.

─ Diga-me, Isabella ─ perguntou ─ gostaria que eu lhe falasse mais sobre tecidos esta noite? Ou apenas comentaremos sobre arte?

Ele agora também ria. Um momento depois, todos riam, e a atmosfera da sala ficou descontraída e livre.

─ Desculpe. Não pude evitar. Mas o que você me contou foi muito interessante. Mesmo se comprássemos realmente a maior parte dos nossos cetins na França.

─ É aí que você se engana. Mas, no mínino, o que você poderia ter feito era me dizer que estava no mundo da moda ou em algo relacionado com o comércio.

─ Por quê? Eu estava gostando do que você poderia ainda me dizer. E você estava absolutamente certo sobre tudo, exceto no que diz respeito aos sintéticos. Detesto usá-los na alta costura.

─ Mas os usa na linha prêt-à-porter, não é?

─ Óbvio. Tenho de usar, pela sua durabilidade e preço.

─ Então não estou tão por fora.

Lançaram-se numa discussão complexa sobre substâncias químicas e cores. Silenciosamente, Natasha os deixou. Quando voltou, a conversa mudara para a Ásia, a dificuldade de se fazer negócios ali, o clima, os acordos financeiros, problemas de taxas de câmbio, openmarket, todos os termos altamente especializados, até que, finalmente, Hattie anunciou o jantar e Natasha bocejou.

─ Adoro vocês dois, mas estão me entediando ao extremo.

─ Desculpe. ─ Isabella apressou-se em desculpar-se. ─ É muito bom ter alguém com quem conversar sobre negócios, para variar.

─ Está desculpada.

Corbett sorriu para a sua anfitriã.

Os três tiveram uma noite agradabilíssima. Já estavam se servindo de mousse de limão; em seguida serviram-se de café expresso, enquanto Hattie passava uma bandejinha de prata cheia de pastilhas de hortelã.

─ Eu não devia fazer isto. ─ Natasha fazia lembrar Scarlett O'Hara ao jogar na boca quatro balinhas.

─ Nem eu. ─ Isabella hesitava, mas acabou dando de ombros. ─ Por que não? De acordo com Natasha e Bernardo, vou ficar escondida nos próximos dez anos, de qualquer modo, portanto eu bem que poderia ficar enorme de gorda. Posso deixar meu cabelo crescer até o tornozelo...

Natasha interrompeu imediatamente.

─ Eu não disse dez anos. Disse um.

─ Que diferença faz? Um ano? Dez anos? Agora sei como as pessoas se sentem quando são condenadas à prisão. Nunca parece real enquanto não se está na situação e, uma vez estando, é difícil acreditar que um dia acabará. Continua, continua, continua sem parar até que um dia acaba. E, nessa altura, provavelmente não importa mais.

Sua fisionomia estava séria enquanto mexia o café e Corbett observava.

─ Não sei como agüenta. Não estou certo se conseguiria.

─ Tudo indica que não agüento assim tão graciosamente, ou não teria favorecido aquele fiasco de ontem à noite. Graças a Deus que você, Corbett, estava lá ou eu teria sido lançada aos lobos, e agora não poderia nem mesmo ficar aqui no apartamento de Natasha. Teria de me esconder sozinha com Alessandro em algum outro lugar.

Os três ficaram muito sérios com a idéia.

─ Então fico satisfeito por ter estado lá.

─ Eu também.

Ela lançou-lhe um olhar sincero e foi exibindo um sorriso aos poucos.

─ Acho que fui muito tola. Mas também uma felizarda. Graças a você de novo. ─ Ela caíra em si, mas ele sacudia a cabeça.

─ Não fiz nada. A não ser correr como doido.

─ Bastou.

Por um momento seus olhos se encontraram através da mesa e ele olhou-a com um sorriso cálido. Relutantes, deixaram a sala de jantar e voltaram à sala de estar para sentarem ao lado do fogo. Conversaram sobre os livros de Natasha, teatro, viagens e acontecimentos de Nova York. Por um minuto, Natasha pareceu preocupada ao ver um olhar de saudade surgindo nos olhos de Isabella. Corbett entendeu rapidamente e, por um breve espaço de tempo, ficaram calados. Depois Natasha levantou-se preguiçosamente e ficou de costas para o fogo.

─ Bem, meus amigos. Acho que vou ser rude para variar. Estou cansada.

Mas ela também sabia que Corbett desejava falar com Isabella a sós. Surpresa, Isabella aguardou que Corbett sugerisse que era ele quem devia ir, mas ele não o fez. Ele levantou-se para beijar Natasha, depois os dois ficaram sozinhos. Corbett ficou observando-a por um breve instante enquanto Isabella olhava distraidamente o fogo, a incandescência iluminando suavemente o rosto dela, a luz refletindo-se nos seus olhos grandes e escuros. Ele queria dizer o quanto ela estava encantadora, mas, por instinto, sabia que não podia.

─ Isabella... ─ Sua voz era um sussurro suave e ela virou o rosto para ele. ─ Lamento muitíssimo sobre a noite passada.

─ Não lamente. Foi inevitável, creio eu. Só gostaria que tivesse sido diferente.

─ Você sabe que Natasha está certa. No final será diferente.

─ Mas não antes de um período de tempo muito longo. ─ O riso esmaecera e ela olhou-o, pensativa. ─ Sob certos aspectos, tenho sido mimada.

─ Esse tipo de coisa, como o evento de ontem à noite, é importante para você?

─ Na verdade, não. Mas as pessoas sim. O que estão fazendo, que aparência têm, o que pensam. É muito difícil de repente viver sem elas em meu mundinho próprio.

─ Não precisa ser tão diminuto assim.

Ele passou os olhos pela sala de estar iluminada suavemente e depois focalizou seu olhar nela com um sorriso.

─ Há meios de você sair sem ser vista.

─ Tentei isso ontem à noite.

─ Não, você não tentou. Entrou direto na arena, vestida como o matador, e, quando todos deram pela sua presença, ficou surpresa.

Ela riu diante da comparação.

─ Eu não havia pensado nisso dessa maneira.

Ele também riu, de mansinho.

─ Não tenho certeza se disse a coisa certa. Mas você pode sair daqui. Pode ir passear no campo, dar longas caminhadas. Não há nenhuma necessidade de trancar-se inteiramente aqui em cima. Você precisa sair. Tem necessidade disso.

Sentindo-se infeliz, ela estendeu a mão, tentando dominar o anseio em seu coração.

─ Você permitiria que eu a levasse para passear qualquer dia? Com Alessandro talvez? Ou sozinha?

─ Seria ótimo. ─ Ela aprumou o corpo, muito tensa por um momento, e olhou-o diretamente nos olhos. ─ Mas você não é obrigado, sabe disso. É muita bondade sua.

Ele não tirava os olhos dela. Sacudiu a cabeça suavemente, depois desviou o olhar.

─ Compreendo mais do que imagina. Perdi minha mulher há muito tempo. Não da maneira chocante como você perdeu seu marido. Mas, a seu modo, foi insuportavelmente doloroso. No princípio, pensei que ia morrer sem ela. Perde-se tudo que é familiar, tudo que importa, tudo que de fato conta. A única pessoa que sabe como você pensa, como você ri, como você chora, como você se sente, a pessoa que lembra as brincadeiras favoritas de sua infância, os piores medos, a pessoa que conhece isso tudo, a que tem a chave. De repente, você fica só e está certa de que ninguém jamais a compreenderá outra vez.

─ E realmente compreendem? ─ Isabella o observava, contendo as lágrimas. ─ Será que alguém mais conhece a linguagem, compreende os segredos? Será que alguém voltará a se interessar algum dia? ─ Ela estava pensando: Voltarei a me interessar um dia?

─ Estou certo de que no fim sempre há alguém. Talvez os segredos não sejam exatamente os mesmos, talvez o modo de rir seja diferente, ou chorem mais, ou suas necessidades estejam engrenadas de outro modo que não o nosso. Mas há outras pessoas, Isabella. Por mais que não queira, é algo que deve saber.

─ Tem havido para você? Alguém que pudesse substituí-la?

─ Sob certos aspectos, não. Porém, na verdade, não dei abertura para tanto, não fui diferente de você. Embora o que tenha acontecido é que aprendi a viver com isso. Já não machuca todos os dias. Por outro lado, também não perdi meu lar, meu país, todo o meu modo de vida, como você acabou de fazer.

Ela suspirou de mansinho.

─ As duas únicas coisas que não perdi foram meu trabalho e meu filho. Razão pela qual estamos aqui. Houve um alarme falso sobre Alessandro, e decidi que não poderia mais viver desse modo.

─ Mas você ainda tem essas duas coisas, e ninguém pode tirá-las de você. Nem o trabalho e nem o menino. Ambos estão a salvo com você, aqui.

─ Alessandro está, mas me preocupo muito com o meu trabalho.

─ Não creio que precise. Pelo que li a respeito, parece estar muito firme.

─ Por enquanto. Mas não posso dirigir a empresa dessa maneira para sempre. Mais do que ninguém, você deve compreender.

Corbett compreendia, melhor do que ele desejava lhe dizer. Depois do que ela acabara de falar, ele não podia mais tocar em outro assunto. Sentiu um peso em seus ombros enquanto aquecia as mãos no fogo.

─ Eventualmente, você pode fazer certas mudanças. Pode abrir um escritório maior aqui. Pode dividir sua administração de uma forma que lhe permita dirigi-la de qualquer lugar. Mas só se for obrigada. E, provavelmente, esta não é a época certa.

─ Planejo voltar para Roma.

Em resposta, ele assentiu sensatamente com a cabeça, não dizendo nada. Depois falou suave:

─ Estou certo de que voltará. Mas, enquanto a hora não chega, vai ficar aqui. Gostaria de ajudá-la a aproveitar ao máximo. A única coisa que me salvou quando Beth morreu foram meus amigos.

Com um gesto de cabeça Isabella confirmou que compreendia; sabia disso muitíssimo bem.

─ Corbett... ─ Ela o olhou com lágrimas brilhando subitamente em seus olhos. ─ Já teve a sensação de que algum dia ela poderá voltar para casa? Não creio que alguém compreenda isso. Mas continuo me sentindo assim, como se ele estivesse apenas viajando.

Ele sorriu gentilmente e assentiu.

─ Sob certos aspectos, ele está mesmo. Acredito que um dia todos nós nos encontraremos de novo. Mas agora temos esta vida para melhorar. Precisamos aproveitar ao máximo enquanto estivermos aqui. Mas, respondendo à sua pergunta, sim, eu costumava ter a sensação de que Beth tinha saído apenas por algum tempo, algumas horas, que se ausentara por uns dias, que estava fazendo visitas, compras, em algum lugar. Eu ouvia o elevador ou uma porta que se fechava no meu apartamento e pensava: "Ela chegou!" E, um minuto mais tarde, eu me sentia pior do que antes. Talvez seja um jogo que jogamos com nós mesmos para ignorarmos a verdade. Ou talvez seja apenas difícil romper velhos hábitos. Alguém vem para casa todos os dias e você pensa que virá eternamente. A única coisa que muda no final é que, posteriormente, esse alguém não vem mais. Isso é bom porque torna você grata pelo que tem, enquanto o tem, porque agora sabe como, às vezes, a vida é breve e efêmera.

Ficaram silenciosos novamente durante algum tempo, enquanto as cinzas da lareira luziam indistintamente.

─ Sete meses e meio não é muito tempo. Mas é tempo suficiente para se estar muito solitária e perceber que realmente está sozinha. Às vezes, isso me assusta. Não, assustar não é a verdade. Fico aterrorizada.

─ Para mim, você não parece muito aterrorizada.

Ela parecia calma, reanimada e quase capaz de lidar com tudo, e ele estava certo de que nos últimos sete meses e meio ela lidara.

─ Não deixe que as pessoas forcem você. Siga a sua própria marcha.

─ Não tenho marcha nenhuma. Exceto em meu trabalho. É a única vida que agora tenho.

─ Agora, apenas agora. Não esqueça isso. Não é eterno. Lembre-se disso todos os dias. Se ficar insuportável de tão doloroso, diga a si mesma que é apenas agora. Quando perdi Beth, uma pessoa amiga disse-me isso... uma mulher. Ela disse que se assemelhava um pouquinho a ter um filho. Quando está em trabalho de parto e as dores ficam insuportáveis, você acha que aquilo vai durar eternamente, que jamais conseguirá sobreviver. Mas não é eterno, são apenas algumas horas. E depois está terminado, fica para trás. Você conseguiu, você sobreviveu. Ela sorriu diante da comparação. Tivera uma hora difícil quando Alessandro nasceu.

─ Vou procurar me lembrar.

─ Ótimo.

Então ela olhou-o, curiosa.

─ Você tem filhos, Corbett?

Ele sacudiu a cabeça.

─ Apenas os que peço emprestado de vez em quando aos amigos.

─ Talvez não seja um arranjo tão ruim assim. ─ Ela esboçou um largo sorriso. ─ É provável que se sinta dessa maneira, principalmente depois que tiver levado Jason e Alessandro ao quartel dos bombeiros.

─ Vou adorar. E quanto a você?

─ Quanto a mim o quê?

─ Gostaria de dar um passeio de carro, amanhã?

─ Você não trabalha amanhã? ─ Ela pareceu surpresa.

─ Amanhã é sábado. Você trabalha?

─ Eu tinha esquecido. E eu ia trabalhar, mas ─ olhou-o afetuosamente ─ adoraria dar uma volta de carro. Em plena luz do dia?

─ É claro! ─ Parecia momentaneamente vitorioso. ─ O banco traseiro do meu carro tem cortinas. Podemos fechá-las até nos afastarmos um pouco da cidade.

─ Quanto mistério! ─ Ela tornou a rir e Corbett levantou-se quando Isabella lhe estendeu a mão. ─ Obrigada, Corbett.

Ele ia provocá-la por estar sendo formal, mas decidiu que seria mais prudente não fazê-lo. Então, apertou-lhe a mão e encaminhou-se para a porta.

─ Até amanhã, Isabella.

─ Obrigada. ─ Ela riu mais uma vez quando o elevador chegou. ─ Boa noite.

Dessa vez, quando a deixou, Corbett estava sorrindo. Mas foi invadido por um tremor de medo ao lembrar-se de tudo que não dissera.

 

No dia seguinte, foram para Connecticut, ocultos na intimidade misteriosa do Rolls-Royce com cortinas, conversando sobre negócios novamente, desta vez sobre a Casa de alta-costura do avô em Paris e, depois, mais uma vez sobre Roma.

─ Como sabe tanto a respeito disso tudo? –

Ela olhou-o intensamente enquanto passavam debaixo de árvores que começavam a exibir suas folhas.

─ Não é diferente de qualquer outro negócio. Seja qual for o produto com que você lida, geralmente os conceitos são os mesmos.

A idéia deixou-a curiosa. Jamais pensara em aplicar o que sabia sobre sua empresa a qualquer outra coisa.

─ Você está envolvido em muitos empreendimentos?

Mas ela já sabia, devido aos seus extensos conhecimentos, que ele estava. Achou estranho sua reserva sobre esse assunto, a maioria dos homens ficava ansiosa só de pensar nisso.

─ Estou.

─ Por que não me fala mais a respeito?

─ Isso vai entediá-la. Alguns entediam até a mim.

Ela riu junto com ele e espreguiçou-se alegremente quando desceram do carro.

─ Se ao menos você soubesse há quanto tempo não ando na grama e não vejo árvores! Até que enfim, até que enfim, vejo um pouco de verde! Pensei que fosse ficar eternamente cinza.

Ele sorriu gentilmente.

─ Veja bem. É a mesma coisa. Nada é eterno, Isabella. Coisas boas e coisas ruins. Nós dois sabemos disso agora. Você não pode cortar uma árvore porque ela ainda não está florida. Precisa esperar, alimentá-la, amá-la. Quando chegar a hora, ela torna a reviver.

Ele queria dizer: “Você também.”

─ Talvez tenha razão.

Mas estava muito feliz para pensar no passado agora. Gostaria apenas de respirar profundamente e usufruir do campo e da sua primeira amostra da primavera.

─ Por que não trouxe Alessandro? ─ perguntou ele ao fitá-la.

─ Ele e Jason tinham um compromisso com alguns amigos no parque. Mas pediu-me que me certificasse e lembrasse você sobre o corpo de bombeiros. ─ Sacudiu um dedo diante dele, rindo. ─ Eu bem que avisei!

─ Já acertei a visita. Para terça-feira, à tarde!

─ Você é um homem de palavra, então.

Ele olhou-a com seriedade.

─ Sou, Isabella, sou sim.

Mas ela já sabia. Tudo nele indicava um homem honrado, alguém em quem se podia confiar os segredos do coração. Há anos que não conhecia alguém assim; há muito tempo não se abria com alguém como fizera com ele. Seus únicos confidentes tinham sido Amadeo, Bernardo e Natasha. Mas perdera Amadeo, e ela e Bernardo... bem, ela e Bernardo já não conversavam mais sobre assuntos pessoais. Havia muita distância entre eles e, além disso, sentia-se reservada com Bernardo e o mesmo se dava com ele. Portanto, restara-lhe Natasha, e agora Corbett. Era espantoso como viera, em tão poucos dias, a confiar nele e em tudo que dizia.

─ Em que esteve pensando?

─ É estranho como me sinto à vontade com você. Como se você fosse um velho amigo.

─ Por que é tão estranho?

Pararam numa árvore caída e sentaram-se. Corbett esticou as longas pernas à sua frente, cruzando-as na altura do tornozelo; seus ombros largos estavam protegidos por um excelente tweed inglês. Parecia surpreendentemente jovem, apesar dos cabelos brancos prematuros.

─ Só é estranho porque não conheço você. Não mesmo; não sei quem você é.

─ Conhece sim. Sabe todos os pontos essenciais a meu respeito. Onde moro, o que faço. Sabe que sou amigo de Natasha há muitos anos. Sabe outras coisas. Inclusive já lhe contei bastante sobre minha vida. ─ Referia-se a Beth, sua finada esposa.

Isabella assentiu em silêncio; depois ergueu os olhos para as árvores, o longo pescoço arqueado em direção ao céu, o cabelo caindo-lhe nas costas. Ele sorriu para ela; por um instante, ela deu a impressão de uma menina no balanço.

Ele estava intrigado com ela, devido à sua grande beleza, sua mente brilhante como o diamante, a elegância requintada, em combinação com uma energia rara e um poder de comando. Ela era toda contrastes e ricas nuanças, com elevações, ângulos e texturas que ele adorava.

─ Por que está sempre vestida de preto, Isabella? Nunca a vi usando algo diferente exceto naquela noite; você usava um casaco branco.

Ela fitou-o com simplicidade.

─ Estou de luto por Amadeo. Durante um ano usarei preto.

─ Desculpe. Eu devia ter sabido. Mas, aqui nos Estados Unidos, as pessoas não guardam mais luto.

Ele parecia contrariado, como se tivesse dito algo indevido, mas Isabella sorriu.

─ Está tudo bem. Isso não me perturba. É um costume, só isso.

─ Você usa preto até em casa? ─ Ela assentiu com a cabeça. ─ Mas deve ficar maravilhosa com roupas de cor... tons de cinza e pêssego, azuis brilhantes e fúcsia... com seu cabelo escuro... ─ Parecia sonhador e jovem. Ela riu.

─ Devia ser estilista, Corbett.

─ Às vezes sou.

─ Com o quê, por exemplo?

Os olhos de Isabella adquiriram uma expressão séria, enquanto ela endireitava a cabeça e o olhava mais de perto. Era um homem interessante.

─ Certa vez selecionei alguns designs para uma companhia aérea. ─ Ele receava falar demais.

─ Saiu-se bem?

─ A companhia aérea?

─ Não, o design. Estava bom?

─ Acho que sim.

─ Usou seus tecidos?

Ele confirmou e ela pareceu aprovar.

─ Foi bom negócio. De vez em quando tento usar coisas alternativas entre minha linha prêt-à-porter e minha linha de alta costura. Embora nem sempre seja fácil, devido aos tecidos. Mas faço quando posso.

─ Onde aprendeu tudo isso? ─ Estava fascinado, e ela sorriu.

─ Com meu avô. Ele era um gênio. O primeiro e único Jacques-Louis Parei. Observei-o, ouvi e aprendi com ele. Sempre soube que seria uma estilista. Depois de passar um ano aqui, abri meu próprio atelier em Roma.

Foi assim que ela conhecera Amadeo, como tudo havia começado…

─ Gênio congênito, então.

─ Obviamente. ─ Com um largo sorriso, ela apanhou uma flor silvestre.

─ E modéstia também. ─ Tranqüilamente, ele colocou um braço ao redor do ombro de Isabella e levantou-se. ─ Que tal comermos alguma coisa?

─ Podemos ir a algum lugar?

Ela parecia encantada, mas ele sacudiu a cabeça rapidamente.

─ Não. ─ Por um momento, ela baixou os olhos.

─ Foi idiotice perguntar.

─ Voltaremos no verão. Há um ótimo restaurante do outro lado da colina. Mas, nesse meio tempo, Isabella, providenciei algumas coisas.

─ Você?

─ É claro. Não esperava que eu a deixasse passar fome, esperava? Tenho um pouco mais de juízo. Além disso, também estou com fome, sabe?

─ Você providenciou um piquenique?

─ Mais ou menos.

Ele estendeu a mão para ela, e Isabella levantou-se do tronco de árvore, sacudindo a poeira da saia, aconchegando-se mais ao blazer preto enquanto voltavam para o carro. Corbett dirigiu até um lago das proximidades, parou e abriu uma grande sacola de couro. O piquenique consistia em patê, queijo, pão francês, caviar, biscoitos, doces e frutas.

Isabella olhou encantada para aquilo tudo, distribuído sobre uma mesinha que ele fizera surgir de um compartimento existente nas costas do banco da frente.

─ Meu Deus, isto é magnífico! Só falta champanha.

Ele curvou-se para a frente e lançou-lhe um olhar malicioso.

─ Falou cedo demais.

Tornou a abrir o bar e retirou uma garrafa grande, pousada num balde de gelo. Também pegou duas taças.

─ Você pensa em tudo.

─ Quase.

Ela brincou com Alessandro durante todo o domingo chuvoso, sentindo-se grata por não ter chovido no dia anterior. Na segunda-feira, trabalhou durante quinze horas, passando a terça-feira telefonando para Hong Kong, Europa, Brasil e Bangkok. Estava na cozinha, descalça e de jeans, bebericando café, quando tocaram a campainha. Ergueu os olhos, espantada. Era muito cedo para os meninos. Hattie estava no supermercado e Natasha lhe dissera que ficaria fora o dia todo. Com uma expressão aturdida, foi até a porta da frente e deu uma espiada pelo olho mágico. Depois, esboçou um largo sorriso. Era Corbett. Também usava um velho suéter e jeans.

─ Como pôde esquecer algo tão importante? É o dia da visita aos bombeiros, é claro!

Isabella pareceu embaraçada.

─ Esqueci.

─ Os meninos estão em casa? Se não estão, preciso levar você. O pessoal do quartel jamais me perdoará se não aparecermos. Direi que você é minha sobrinha.

Um olhar avaliador percorreu Isabella da cabeça aos pés, notando subitamente as longas pernas finas e os quadris estreitos.

─ Os meninos chegarão dentro de cinco minutos e vão vibrar. E como vai você?

─ Estou ótimo. E vocês duas, o que pretendem fazer? Trabalhar, como sempre?

─ Naturalmente. ─ Isabella lançou-lhe um olhar pretensioso. Depois, chamou-o com um gesto em direção à porta do seu escritório. ─ Gostaria de ver o lindo escritório que Natasha me ofereceu quando cheguei?

Parecia uma menina exibindo seu quarto. E ele a seguiu de bom grado e assobiou ao entrar.

─ Não é adorável?

─ Sem dúvida. Seu trabalho estava espalhado sobre a mesa, montanhas de papéis, o chão coalhado de pilhas arrumadas de designs.

─ Deve levar algum tempo para se acostumar. Imagino que em Roma devesse ter um pouco mais de espaço.

─ Um pouquinho mais. ─ Ela sorriu ao pensar nos espaçosos escritórios que ela e

Amadeo dividiam no quarto andar. ─ Mas estou me acostumando.

─ Parece-se com você.

Naquele momento os meninos chegaram. Deram gritos de alegria ao descobrirem que ele estava ali. Dez minutos mais tarde, já haviam saído de novo, com Corbett, só voltando duas horas depois.

─ Como foi o passeio?

Isabella os esperava quando chegaram, e eles relataram os mínimos detalhes. Alessandro informou-a, muito excitado, que de fato havia um poste de metal. Foi falando por sobre o ombro enquanto Hattie finalmente conseguiu levá-lo para tomar banho.

─ E mais objetivamente ─ disse ela a Corbett quando ficaram a sós ─ como você está?

Exausto?

─ Um pouco. Mas nos divertimos muito.

─ Que sujeito bom você é! Gostaria de beber alguma coisa?

─ Por favor. Uísque com água e bastante gelo.

─ Muito americano.

Ela lançou-lhe um olhar de reprovação zombeteira e dirigiu-se ao bar de mármore branco de Natasha.

─ O que eu deveria beber?

─ Cinzano, Pernod, ou talvez Kirsch.

─ Da próxima vez não esquecerei. Mas, com franqueza, prefiro uísque escocês. ─ Ela entregou-lhe o drinque e ele esboçou um largo sorriso. ─ Onde está Natasha?

─ Vestindo-se para um jantar e um vernissage.

─ E você, Cinderela?

─ O mesmo de sempre. Vou dar minha caminhada.

─ Não tem medo de fazer isso, Isabella? ─ Olhou-a, subitamente preocupado.

─ Sou cautelosa. ─ Ela nem mais voltava a pé pela Madison Avenue. ─ Não é muito empolgante, mas serve.

Ele concordou.

─ Posso ir com você esta noite?

Ela respondeu prontamente:

─ É claro.

Antes de saírem, esperaram até que ele terminasse seu drinque e Natasha fosse para o seu programa noturno. Percorreram o trajeto costumeiro de Isabella e mais um pouco, fazendo cooper em uma parte do caminho, e caminhando o resto até em casa. Depois dessas caminhadas, ela sempre se sentia melhor. Como se seu corpo tivesse grande necessidade de exercício e ar fresco. Ainda não era o suficiente, mas era melhor do que nada.

─ Agora sei como aqueles coitadinhos se sentem presos o dia todo no apartamento.

─ Às vezes sinto o mesmo no escritório.

─ É. ─ Ela o olhou com ar de censura. ─ Mas você pode sair.

Depois, quando voltaram para o apartamento, ele parecia estar pensando em alguma coisa, mas os meninos os atacaram no mesmo instante, agora de pijamas, com os cabelos recém lavados, e o momento se perdeu. Isabella ficou observando-o com os meninos cerca de meia hora, enquanto os três lutavam e brincavam. Corbett parecia estar se divertindo. Tinha um modo encantador de lidar com as crianças como, aliás, com todo mundo. Mas agradava muito a Isabella ver as crianças com ele. Era o único homem que tinham. Mas Hattie finalmente entrou em cena e, apesar dos veementes protestos, levou-os para a cama.

─ Gostaria de ficar para jantar?

─ Adoraria.

Comeram na cozinha um jantar prático que Hattie deixara para que se servissem sozinhos: galinha frita, espigas de milho e manteiga derretida no prato de cada um. Depois do jantar, caminharam até os fundos da casa e acomodaram-se no pequeno e agradável refúgio de Natasha. Isabella providenciou um pouco de música, e Corbett, à vontade, esticou suas longas pernas.

─ Estou muitíssimo satisfeito por ter ido àquela sessão cinematográfica beneficente da semana passada. Sabe que por pouco não fui?

─ Por que não?

─ Julguei que fosse me aborrecer.

Ele riu ao se lembrar, e Isabella imitou-o.

─ Aborreceu-se?

─ Quase. E, desde então, nem por um minuto.

─ Nem eu. ─ Ela sorriu tranqüilamente e ficou surpresa quando ele pegou em sua mão.

─ Fico satisfeito. Lamento muito pelo que você tem passado. Se eu pudesse mudar isso tudo...

Mas ele não podia e sabia disso. Ainda não podia.

─ Às vezes, a vida não é fácil, mas, como você disse, sempre sobrevivemos.

─ Alguns sobrevivem, outros não. Mas você é uma sobrevivente. Assim como eu.

Ela concordou com um gesto de cabeça.

─ Acho que meu avô me ensinou isso. Não importa o que pudesse acontecer, o que saísse errado, ele se levantava e fazia algo melhor imediatamente após. Às vezes, demorava um pouco para tomar fôlego, mas sempre conseguia fazer algo espetacular. Admiro isso.

─ Você é muito parecida com ele ─ disse Corbett, e ela agradeceu com um sorriso. ─ Por que ele acabou vendendo o negócio?

─ Ele estava com 83 anos, cansado e velho. Minha avó já havia morrido e minha mãe não tinha nenhum interesse no negócio. Só restava eu. Mas era jovem demais. Não poderia ter dirigido a Parel na época. Embora agora pudesse. Às vezes sonho em comprá-la de novo e incorporá-la à San Gregorio.

─ Por que ainda não comprou?

─ Amadeo e Bernardo sempre insistiram que isso não fazia sentido.

─ E faz? Para você?

─ Talvez. Ainda não considerei a possibilidade totalmente.

─ Então, talvez, algum dia possa comprá-la.

─ Talvez. Mas uma coisa é certa: jamais venderei o que tenho. ─ Referia-se à San Gregorio.

─ Houve cogitação a respeito? ─ Ele olhava em outra direção quando fez a pergunta.

─ Não da minha parte. Jamais. Mas meu diretor, Bernardo Franco, continua tentando nesse propósito. É um perfeito idiota! Jamais venderei.

Corbett concordou.

─ Um dia a empresa pertencerá a Alessandro. Devo isso a ele. ─ Corbett tornou a assentir e a conversa desviou-se para outros assuntos; música e viagem, os lugares em que viveram quando crianças, e por que Corbett nunca teve um filho.

─ Receava que não teria tempo para um filho.

─ E sua mulher?

─ Não estou bem certo se ela era do tipo maternal. Seja como for, concordava comigo e nunca tivemos um filho. Agora, é um pouco tarde demais.

─ Aos 42 anos? Não seja ridículo. Na Itália, homens muito mais velhos têm filhos incessantemente.

─ Então vou sair correndo e ter um imediatamente. O que devo fazer? Pôr um anúncio no jornal?

Isabella sorriu-lhe da extremidade oposta do sofazinho.

─ Eu não ousaria pensar que você tivesse de fazer algo tão drástico assim.

Ele sorriu de mansinho.

─ Talvez não.

E, então, sem mesmo saber como aconteceu, ela o viu aproximar-se mais e colocar as mãos em seus ombros. Sentiu-se arrastada para seus braços. A música tocava ao longe e algo martelava em seus ouvidos quando Corbett beijou-a e ela agarrou-se a ele como a uma balsa de salvamento na arrebentação violenta. Ele a beijou gentilmente. Isabella sentiu profundamente aquele beijo, ao mesmo tempo seu corpo lançava-se para Corbett. Então ela afastou-se, desviando-se subitamente.

─ Corbett! Não! ─ Estava alarmada, mas a expressão nos olhos dele tranqüilizou-a. Uma expressão amorosa e gentil do homem em quem ela confiava, com quem sentia-se totalmente segura. ─ Como isso aconteceu? ─ Seus olhos estavam toldados de lágrimas confusas e, talvez, um toque de alegria.

─ Bem, vejamos, fui me deslocando suavemente por este sofá aqui, depois coloquei minha mão aqui...

Ele ria bondosamente, e ela não pôde fazer outra coisa a não ser rir também.

─ Isso foi terrível, você não devia fazer isso, Amadeo...

De repente, ela parou. Não era Amadeo. Breves lágrimas surgiram em seus olhos. Mas ele a tomou outra vez em seus braços e abraçou-a estreitamente enquanto Isabella chorava.

─ Não, Isabella, não chore. Não olhe para trás, querida. Pense no que lhe disse. A dor não dura para sempre. Isto é muito, muito novo. Mas, enquanto a abraçava, estava grato pelo fato de Amadeo ter morrido há quase oito meses. Tempo longo o suficiente para ela estar pronta, para ao menos considerar outra pessoa.

─ Mas eu não devia, Corbett. ─ Afastou-se dele, devagar. ─ Não posso.

─ Por que não? Se for algo que você não deseja, então não falaremos mais sobre o assunto.

─ Não é isso, gosto de você.

─ É cedo demais? Iremos devagar. Prometo. Não quero vê-la infeliz, nunca mais.

Ela então sorriu gentilmente.

─ É um sonho adorável. Nada é eterno, lembra-se? Nem coisas boas, nem ruins.

─ É verdade, mas algumas coisas o são durante um tempo bastante longo. Eu gostaria muitíssimo de uma coisa dessas com você.

Sem saber por que dizia, ela viu-se respondendo:

─ Também eu.

Ele sorriu-lhe. Beberam conhaque, ouviram música e sentaram-se no chão como crianças. Era tranqüilo ficar com ele, e ela estava feliz, mais feliz ainda quando Corbett a beijou novamente. Desta vez ela não discutiu e não queria que ele parasse. Por fim, ele consultou o relógio, olhou-a com afeto e levantou-se.

─ Minha querida, acho que está na hora de eu ir para casa.

─ Tão cedo? Não deve passar das dez.

Ele sacudiu a cabeça.

─ Já é quase uma e meia da manhã, e se eu não sair daqui agora, vou atacar você.

─ Estupro? ─ Perguntou ela divertida. Já conseguira dominar-se.

─ Podíamos começar com isso. O recinto é ótimo, não acha? ─ Seus olhos azuis reluziam maliciosamente, e ela riu.

─ Você é impossível.

─ Talvez, mas estou louco por você. ─ Estendeu-lhe a mão e ajudou-a a levantar-se. ─ Sabe de uma coisa, Isabella? Há anos que não me sinto assim.

─ E antes disso?

Ela ainda estava brincando. Ficou tão feliz de repente que gostaria de voar.

─ Antes disso apaixonei-me por uma garota chamada Tillie Erzbaum. Tinha 14 anos e um busto fabuloso.

─ E você, quantos anos tinha?

Ele considerou, pensativamente.

─ Nove e meio.

─ Então está perdoado.

─ Graças a Deus.

Caminharam lentamente até a porta e ele a beijou de novo ao se despedirem.

─ Telefonarei amanhã. ─ Feliz, ela ofereceu-lhe um sorriso. ─ E quanto à nossa caminhada? Posso ir com você amanhã?

─ Acho que podemos dar um jeito.

Ao levantar-se na manhã seguinte, Isabella estava horrorizada com o que fizera. Era uma viúva. Em seu coração, ainda uma mulher casada. O que estava ela fazendo, beijando-o a noite toda no chão do escritório de Natasha? O coração batia forte toda vez que pensava naquilo, e sentia um misto de pesar e uma culpa desconhecida. Quando ele telefonou, Isabella escondeu-se no escritório e disse a Natasha, num tom brusco de voz através da porta fechada, que estava muito ocupada para atender telefonemas, inclusive dele. Mas a culpa não era dele, raciocinou, ao tentar infrutiferamente enterrar-se no trabalho. Não era culpa dele de maneira alguma. Ela estivera tão ansiosa como ele por aqueles beijos, ficara tão surpresa como ele diante da reação dela, e muito mais surpresa diante do que sentia agitando-se no fundo de sua alma. Mas Amadeo... Amadeo... Então era verdade. Amadeo não ia voltar mais.

─ Aonde você vai? ─ Natasha olhou-a, admirada, enquanto Isabella dirigia-se para a porta da frente.

─ Vou dar minha caminhada mais cedo. Tenho muito trabalho para fazer esta noite.

Lançou um olhar rápido e nervoso para Natasha, e sua voz soou áspera.

─ Certo. Não precisa ficar tão tensa. Só fiz uma pergunta.

Às cinco, Isabella estava de volta, mas ainda trêmula, ainda nervosa, ainda abatida com o que fizera. Depois, de repente, enquanto subia pelo elevador, percebeu que estava sendo tola. Era uma mulher adulta, estava solitária, e ele era um homem muito atraente. Portanto o beijara. E daí? Porém, quando abriu a porta do apartamento, deu um pulo ao vê-lo parado, de pé; no meio da sala. Como sempre, as crianças brincavam ao redor de suas pernas e Natasha estava escarrapachada no sofá, cercada de livros e papéis, procurando conversar com Corbett apesar da barulhada.

─ Oi, Isabella. Como foi a caminhada? ─ Gritou Natasha.

─ Ótima.

─ Espero que lhe tenha feito algum bem. Você estava de péssimo humor quando saiu.

Ela concordou e Corbett esboçou um largo sorriso. Mas não havia nada íntimo demais, nada possessivo ou constrangedor na expressão dos olhos dele.

─ Teve um dia ruim?

Ela tornou a assentir com a cabeça, procurando sorrir, e se descontraiu um pouco diante da expressão insistente de serena amizade em seus olhos. Talvez ela tivesse dado muita importância ao fato. Talvez ele não levasse a coisa adiante afinal. Fora o conhaque, a música, mas isso ainda podia ser esquecido; não era tarde demais. Em seguida, viu-se sorrindo e escarrapachada numa cadeira, como Natasha. Esta gritava por Hattie enquanto Corbett e os meninos brincavam. Hattie apareceu um momento depois, e Natasha, com um gesto, mandou os meninos embora.

─ Meu Deus, eu os adoro, mas, às vezes, me deixam louca.

Descontraído, Corbett sentou-se numa poltrona, deixou escapar um suspiro e esboçou um largo sorriso.

─ Vocês duas nunca jogaram bruto com eles? Ambos têm mais energia do que um estrado de molas novo em folha.

─ Lemos histórias para eles. ─ Natasha olhou-o, divertida. ─ E brincamos com os jogos.

─ Então comprem para eles aqueles sacos de areia com que os pugilistas treinam, ou algo parecido. Não, pensando bem, calculo que eles não precisam disso. Eles têm a mim. ─ Seus olhos encontraram-se com os de Isabella, dessa vez com uma expressão mais penetrante. ─ Já foi dar sua caminhada?

─ Já ─ Confirmou ela.

─ Muito bem. Então mostre-me o que fez em seu escritório hoje. Prometeu-me ontem, lembra-se?

E, antes que ela pudesse opor-se, ele já tomara sua mão e a colocara de pé com um puxão. Não querendo fazer uma cena diante de Natasha, ela encaminhou-se depressa para o escritório. Corbett fechou a porta.

─ Corbett, eu...

─ Espere um minuto antes de dizer alguma coisa. Por favor. ─ Ele sentou-se numa cadeira e olhou-a com bondade. ─ Por que não se senta?

Ela sentou-se, como uma aluna obediente, aliviada só porque ele não a envolvera impetuosamente em seus braços.

─ Antes que me diga o que tem em mente ─ continuou ele ─ deixe-me dizer-lhe o que já sei. Já passei por isso. Sei como é. E é horrível; portanto, deixe-me ao menos compartilhar com você o que aprendi. Se não estou de todo maluco, quando saí daqui a noite passada você estava tão feliz como eu. Mas em algum momento... talvez ontem à noite, talvez nesta manhã,

talvez só agora de noite, embora eu duvide disso... você começou a pensar. Em seu marido, no que costumava ser, em ainda estar casada. Sentiu-se culpada, assustada, louca. Isabella olhou-o, aturdida, não disse uma só palavra, mas seus olhos arregalaram-se.

─ Nem mesmo conseguia entender por que agiu assim, mal conseguia lembrar-se de quem eu era. Mas deixe-me dizer-lhe, querida, que isso é muito natural. É uma coisa pela qual terá de passar. Não pode fugir, agora. Está solitária, é humana, não fez nada de terrível ou errado. E se tivesse sido você a seqüestrada, seu marido estaria passando exatamente pela mesma coisa. Demora muito tempo para se voltar a ter um novo sentimento, para se descontrair, e então, quando esse tempo chegar, e você tiver todos os mesmos sentimentos que já teve um dia, não haverá ninguém com quem compartilhá-los. Mas agora tem a mim. Pode experimentar aos poucos, aos pouquinhos, ou pode fugir desesperadamente e esconder-se em sua culpa e na sensação de que ainda é casada para o resto da vida. Isto não significa um ultimato. Você pode simplesmente não me querer. Talvez eu não seja o sujeito certo. Se é o que está pensando, entenderei. Mas não fuja do que está sentindo, Isabella... você não pode voltar. ─ Ele parou então, quase sem fôlego, e Isabella o olhava, aturdida.

─ Mas como soube?

─ Já passei por isso. E na primeira vez em que beijei uma mulher, senti como se tivesse profanado a memória de Beth, como se a tivesse traído. Fiquei arrasado. Mas a diferença é que eu não ligava a mínima para aquela mulher. Apenas estava solitário, excitado, cansado e triste. Mas por você tenho interesse. Eu a amo. E espero loucamente que se interesse por mim.

─ Como consegue entender tudo assim?

Ela o olhava espantada, do outro lado do aposento. E ele esboçou um sorriso cheio de amor sereno, do fundo do coração.

─ Sou muito esperto, só isso.

─ Ah, e modesto! ─ De súbito, ela voltava a sorrir e sentia prazer em provocá-lo.

─ Nesse caso, acontece que somos iguaizinhos. Foi por essa razão que deu sua caminhada sem esperar por mim?

─ Eu queria fugir de você. Ter acabado a caminhada antes de você chegar.

─ Foi uma esperteza. ─ Mas não parecia magoado, nem que o fato o divertira. Compreendeu, simplesmente.

─ Desculpe.

─ Não é necessário. Quer que eu vá embora agora? Tudo bem, Isabella, eu compreenderei.

Mas ela sacudiu a cabeça e estendeu a mão. Corbett encaminhou-se para ela e pegou na mão estendida, olhando diretamente nos olhos negros insondáveis.

─ Não quero que se vá. Sinto-me uma idiota, agora. Talvez eu estivesse errada.

Agarrou-se a ele como as crianças faziam, e ele, delicadamente, tomou-lhe as mãos. Ajoelhando-se ao lado dela, segurou-as entre as suas.

─ Já lhe disse que iríamos devagar. Não estou apressado.

─ Fico satisfeita.

Então, ela colocou os braços suavemente ao redor do pescoço dele e apertou-o com força, como fazem as crianças. Ficaram abraçados assim durante o que pareceu um longo tempo. E dessa vez foi Isabella quem moveu a mão lentamente, tocou-lhe o queixo, os olhos e o rosto fino e bonito. Foi ela quem deu o primeiro passo, seus lábios procurando os dele, gentilmente a princípio e avidamente depois. E era ela quem tremia quando pararam.

─ Tenha calma, querida.

Mas ela voltava a sorrir.

─ O que foi que você disse sobre estupro?

─ Se me estuprar, lhe darei uma surra. ─ Ele parecia a própria virtude ofendida enquanto ela ria. Depois, ele voltou a sorrir. ─ Gostaria de dar uma volta de carro? ─ Ele parecia ansioso, mas não queria forçar.

─ Trouxe o carro?

─ Não, planejava roubar um. É claro que trouxe. Por quê?

─ Então eu adoraria. ─ Ela parou. ─ O que diremos a Natasha?

─ Que vamos dar uma volta de carro. É tão errado assim?

Ela olhou-o, acanhada.

─ Ainda me sinto culpada.

Mas ele sorriu gentilmente.

─ Não se preocupe. Às vezes também me sinto.

Deram um au revoir casual a Natasha e saíram para o passeio de carro, até Wall Street, Cloisters, em seguida pelo parque. Recostada no estofado macio, sentada ao lado dele, sentia-se protegida contra o mundo.

─ Não sei o que aconteceu comigo hoje ─ disse ela.

─ Não se preocupe, Isabella. Está tudo bem.

─ Acho que está. Acredita que um dia voltarei a ser sensata?

Olhou-o, sorrindo, meio zombeteira, meio sincera.

─ Espero que não. Gosto de você assim.

Ela sorriu-lhe ternamente.

─ Também gosto de você.

Mas, duas semanas depois, quando Natasha foi passar um fim de semana fora com os meninos, Isabella soube que o sentimento que tinha por ele era mais do que apenas gostar.

─ Está dizendo que eles simplesmente a deixaram?

Corbett parecia infinitamente pesaroso por ela, ao passar pelo apartamento no sábado à tarde para um chá. Planejara ficar com ela algumas horas, para talvez dar uma caminhada, e contara que Natasha saísse. Gostava dessas ocasiões a sós com Isabella, mas eram-lhe ainda mais preciosas por serem raras. Estavam sempre cercados pelas crianças, por Natasha ou até por Hattie, a criada.

─ Aonde foram?

Divertida, Isabella sorriu ao entregar-lhe uma xícara de Earl Grey.

─ Para a casa de uns amigos de Natasha em Connecticut. Fará bem aos meninos.

Ele assentiu lentamente, mas não era nos meninos que pensava ao pegar-lhe a mão, gentil.

─ Já notou como está silencioso aqui e como são raras as ocasiões em que ficamos a sós?

Isabella ficou ali sentada, pensando, e lentamente sua mente deixou-se levar para Roma. Ali tivera tanto espaço em seu lar, tanto lugar para si mesma, tantas horas só para ela.

─ Gostaria que tivesse me conhecido na ocasião. ─ Ela pronunciou as palavras sonhadoramente, enquanto ele observava seus olhos.

─ Quando, Isabella?

─ Na Itália... ─ disse com suavidade, depois ergueu os olhos para ele com um ligeiro rubor. ─ Mas isso não faz sentido nenhum, faz?

Na Itália, nos bons tempos, ela era casada. Corbett não teria tido lugar em sua vida. Mas ele compreendeu o que Isabella estava pensando. Era normal que sentisse saudades do seu lar.

─ Na Itália sua casa era tão maravilhosa assim?

Ela sorriu e concordou, em seguida contou-lhe sobre o carrossel que Alessandro ganhara no Natal, enquanto seus olhos dançavam. Parecia tão encantadora no momento em que falava que ele pôs a xícara sobre a mesa e tomou-a nos braços.

─ Gostaria de poder levá-la de volta para lá... levá-la para casa, se é o que deseja. ─ E, depois, ele falou suavemente: ─ Mas, quem sabe, talvez um dia seu lar seja aqui?

Porém, na verdade, ela não acreditava; não podia imaginar-se passando o resto da vida em outro lugar que não fosse Roma.

─ Sente uma falta tremenda de lá?

Ela deu de ombros e sorriu.

─ A Itália é... simplesmente a Itália. Não há nada igual, em nenhuma parte do mundo. Gente louca, tráfego louco, ótimo espaguete, cheiros maravilhosos...

Ao dizer isso, viu-se pensando nas ruelas estreitas não muito distantes da San Gregorio, nas mulheres amamentando seus bebês nas portas das casas e crianças saindo correndo da igreja, nos pássaros cantando no topo das árvores do seu jardim... Só em pensar, brotaram-lhe lágrimas nos olhos. E, ao observá-la, Corbett sentiu sincera simpatia por suas lágrimas.

─ Quer jantar fora esta noite, meu amor?

Era a primeira vez que ele a chamava assim e ela sorriu, mas sacudiu lentamente a cabeça.

─ Sabe que não posso.

Mas ele pensou um instante.

─ Talvez possa.

─ Fala sério?

─ Por que não? ─ Os olhos dele dançavam, maliciosos. Tinha um plano. ─ Conheço um restaurantezinho italiano singular, que costumava freqüentar, indo para o centro. Pessoas "respeitáveis" não vão lá. ─ Esboçou um largo sorriso. ─ Talvez pudéssemos dar uma passada rápida, um jantar ligeiro, e ninguém teria a mínima idéia de quem você possa ser. E é tão italiano que está determinado a fazer com que as pessoas se sintam na própria Itália.

Por um momento, imaginou se isso tornaria as coisas piores, mas tinha a sensação de que não seria o caso, e ele cuidaria para que ela se divertisse bastante. Como um companheiro de conspiração, ele ficou esperando na sala de estar enquanto ela se aprontava. Isabella surgiu dando uma risadinha, usando calças compridas pretas e suéter, com um chapéu Borsalino, preto, de feltro, puxado sobre um olho.

─ Pareço misteriosa? ─ Ela ria, bem como ele.

─ Muitíssimo misteriosa!

Ele inclusive estacionou o Rolls-Royce algumas casas adiante. Entraram no restaurante sem serem notados e comeram vorazmente. Isabella conversou muito feliz com o garçom que os servia, enquanto bebiam vinho romano barato.

─ Prometa que não vai contar nada para Natasha! Ela me mataria.

Os olhos dela cintilavam e ele concordou.

─ Eu não poderia contar. Provavelmente ela me mataria primeiro.

Mas ele não estava nervoso por causa de Natasha. Sabia que Isabella se achava segura, e após comerem massa e bebido vinho tinto comum até se fartarem, voltaram sem pressa para casa, com uma breve volta pelo parque.

─ Feliz?

Ela confirmou e pousou a cabeça no ombro dele. Havia colocado o chapéu ao seu lado, no banco, e seu cabelo negro caía suavemente no casaco de Corbett. Com delicadeza, Corbett alisou-o, depois acariciou-lhe o rosto. E seus olhos pareciam não abandoná-la enquanto ele e Isabella entravam em casa de mansinho.

─ Quer entrar para tomar um café?

Ela olhou-o convidativamente, mas não era café o que cada um tinha em mente. Ele aceitou e seguiu-a para o interior do apartamento, mas assim que chegaram ao corredor, Isabella não se preocupou em acender as luzes. No mesmo instante, viu-se nos braços de Corbett e, na escuridão, sentiu-se palpitante de paixão, que há muito esquecera, quando Corbett comprimiu seus lábios contra os dela.

Arquejantes, caminharam de mãos dadas até o quarto e, sem acender as luzes, Corbett despiu-a. Isabella fez o mesmo com ele. Finalmente, seus corpos se uniram. Quando Isabella acendeu uma pequena luminária, várias horas pareciam ter transcorrido, e ela sorriu para ele, deitado em sua cama. Ela lançou um olhar pelo quarto, para as roupas espalhadas dos dois, e começou a rir.

─ Está rindo de quê, meu bem?

─ De nós. ─ Olhou-o e depois beijou-o carinhosamente no pescoço. ─ Não se pode confiar em nós em absoluto. Minha colega de apartamento vai passar o fim de semana fora, e o que fazemos? Vamos jantar num restaurante e depois voltamos para casa e fazemos amor.

Corbett puxou-a lentamente para si.

─ ... Em seguida fazemos de novo... e mais uma vez... e ainda outra vez.

 

Abril e maio passaram correndo por eles com extrema rapidez. Quando o tempo permitia, saíam para caminhar todas as noites ou para dar uma volta de carro. Às vezes, levavam Alessandro ao campo e ficavam observando a expressão maravilhada em seus olhos enquanto brincava no gramado ou construía castelos em praias ainda desertas. E, algumas vezes, também levavam Natasha. Durante as primeiras semanas, ela tentara fingir que ignorava o que estava acontecendo, mas acabou perguntando.

E, como uma menina, Isabella confirmara, rindo e admitindo, que ela e Corbett estavam apaixonados. Era óbvio que Isabella se achava imensamente feliz, e sempre que Natasha via Corbett notava o mesmo nele. Mas para ela evidenciava-se também que, excetuando-se a alegria de Isabella sobre seu romance, a amiga ainda tinha grandes preocupações com o trabalho.

A noite era quente, balsâmica, quando Corbett chegou a casa com um fiacre, convidando Isabella para dar uma volta. Ela riu ao ver o veículo, e ficaram passeando durante duas horas.

─ Então, como foi o trabalho hoje, querida?

Puxou-a para mais perto e olhou diretamente nos olhos escuros.

─ Terrível. Bernardo está me dando preocupação outra vez.

─ É a nova linha?

─ Não, essa já está resolvida. Lançamos na próxima semana. É o resto. Planejamento para o inverno, cosméticos, tecidos, não sei. Ele está impossível neste exato momento.

─ Talvez ele esteja sobrecarregado, já que você está aqui.

─ O que está insinuando? ─ Olhou-o com expressão cansada. ─ Que eu vá para casa?

─ Quase isso. Embora sempre tenha pensado que há certas coisas que você poderia mudar.

─ Eu sei, mas agora não posso. Não enquanto estiver aqui.

O modo como falou a fez pensar em Roma outra vez, algo que agora odiava admitir para Corbett. Tinham-se apegado um ao outro como se a ligação fosse eterna, porém, mais cedo ou mais tarde, teria de voltar para casa. E os negócios de Corbett sempre o prenderiam aos Estados Unidos. Nada é eterno, pensou, e em seguida afastou a idéia.

─ Bem, não se preocupe. As coisas provavelmente vão se acalmar dentro de alguns dias.

Mas não se acalmaram. Durante as duas semanas seguintes, os problemas só pioraram. Explosões após explosões, brigas após brigas. Isabella estava saturada. Disse isso a Bernardo certa manhã, ao telefone. Ele parecia ter se desligado dela. Na verdade, parecia mais capaz de lidar com seus sentimentos por ela. Oh, Bernardo, ela pensou mais de uma vez, se ao menos fosse você a pessoa a quem amo. A vida seria muito mais simples.

─ Seja sensata, pelo amor de Deus, e venda!

─ Ah, não, outra vez isso! Escute Bernardo, pensei que tivéssemos acertado esse assunto antes de eu partir!

─ Não, não acertamos. Você se recusava a raciocinar. Bem, estou física e mentalmente esgotado. Gabriela está fazendo o trabalho de dez pessoas, você muda os malditos tecidos toda vez que viramos as costas, você não entende nada sobre marketing de cosméticos e, sempre que você se mete, fico atolado, arrumando tudo depois.

─ Muito bem, por que então não tem a coragem de portar-se como homem em vez de me dizer para vender? Talvez o problema esteja com você e não com a empresa! É você quem causa os problemas entre nós o tempo todo, é você quem não cumpre o que eu mando. Por que não faz o que lhe peço, só para variar, em vez de me meter a F-B goela abaixo toda vez que abro a boca?

A fúria italiana continuava partindo do escritório de Isabella.

─ Não quero mais ouvir falar nesse assunto. E se você não parar, volto para casa ─ ela gritou. ─ Não ligo a mínima para esse lixo sobre perigo. Você, definitivamente, está enterrando a empresa.

Era uma acusação injusta, mas o nível de frustração entre eles chegara ao máximo. Há cinco meses que ela estava nos Estados Unidos e o fascínio de trabalhar a distância começava a diminuir.

─ Tem alguma idéia do que está fazendo, Isabella? Você ao menos ouviu o pessoal da F-B? Não. É claro que não. Preferiu ficar como espectadora aí, insultar-me, aferrar-se à empresa, ao seu ego e salvar as aparências.

─ A empresa é perfeitamente sólida e você sabe disso.

─ Sim, eu sei. Mas o fato é que não posso mais continuar sozinho; e você ainda não pode voltar. São as circunstâncias, Isabella, as circunstâncias. Seu avô também viu-se diante das circunstâncias e foi inteligente o bastante para vender.

─ Eu nunca venderei.

─ É claro que não. ─ Ela pôde perceber o tom mordaz de sua voz. ─ Porque é orgulhosa demais, não obstante o fato de que a F-B, a I.H.I. e Ewing me tivessem solicitado para que você vendesse. Bem, na verdade, não ultimamente, ele continuou, mas sei muitíssimo bem que tudo que preciso fazer é pegar no telefone, chamá-los e você mesma fecharia o negócio.

Não houve resposta para o que ele acabara de dizer. Isabella estava chocada, quase sem fala.

─ Quem?

─ Do que está falando? ─ De repente, ela não falava coisa com coisa e ele ficou confuso.

─ Estou perguntando quem tem se oferecido para comprar. ─ A voz dela soou como aço gelado.

─ Você enlouqueceu? Venho lhe dizendo isto desde outubro do ano passado e você me pergunta quem são?

─ Não quero nem saber a quanto tempo você vem me dizendo. Diga-me agora. Devagar.

─ Farnham-Barnes. ─ Ele falou como se Isabella fosse retardada.

─ Quem mais?

─ Mais ninguém. O que há com você? F-B. F-B. F-B. E eles pertencem à I.H.I.

─ E qual foi o outro nome que você mencionou?

─ Qual? Ewing? Ele é o presidente do conselho da I.H.I. A oferta inicial partiu dele.

─ Oh, meu Deus!

─ O que está havendo?

─ Nada.

Ela tremia dos pés à cabeça. Os piqueniques. As caminhadas, os jantares, o corpo de bombeiros... apareceram subitamente diante de seus olhos …que bela brincadeira fizeram com ela! Foi uma aventura amorosa uma aventura amorosa de Corbett com a Casa de San Gregorio.

─ Devo chamá-los?

─ Não. Está entendendo bem? Jamais! Cancele nossos negócios com a F-B, a partir de hoje! Telefone para eles ou eu mesma farei.

─ Você ficou doida!

─ Ouça, Bernardo, não estou louca e jamais falei tão sério em toda a minha vida. Ligue para a F-B e diga-lhes que vão pro inferno. Agora, hoje. Finito. Não há mais ofertas, não há mais pedidos. Nada. E prepare-se. Volto para casa esta semana. ─ Ela acabara de se decidir. A tolice durara um tempo longo demais. ─ Se ainda achar que é necessário, contrate dois seguranças, mas só isso. Telefonarei avisando quando devo chegar.

─ Vai trazer Alessandro?

Bernardo estava abalado. Ela falava num tom de voz que há anos ele não ouvia. Talvez nunca tivesse ouvido. De súbito, ela ficou fria e a ponto de brigar, e ele estava satisfeito por não se encontrar na mesma sala com ela ou teria receado pela própria pele.

─ Não levarei Alessandro. Ele pode ficar aqui.

─ Quanto tempo ficará aqui?

Ele nem sequer discutira. Sabia que não ia adiantar. Isabella voltava para casa. Punto. Finito. Talvez ela estivesse certa. Já estava na hora.

─ Enquanto eu tiver que ficar obrigando você e os demais a entrarem na linha de novo. Agora ligue para a Farnham Barnes.

─ Está falando sério? ─ Agora ele estava realmente abalado.

─ Estou.

─ Capito.

─ E diga ao pessoal para aprontarem a cobertura. Ficarei lá.

Sem mais cerimônias, desligou o telefone.

─ Como teve coragem? ─ Isabella entrou no pequenino aposento e ficou olhando para Natasha.

─ O quê?

─ Como teve coragem?

─ Coragem para quê?

Natasha olhou-a com súbito terror. Isabella estava de pé diante dela, tremendo da cabeça aos pés, o rosto branco como papel, as mãos nos quadris.

─ Você me preparou uma armadilha!

─ Isabella! O que está falando não faz sentido!

Teria ela sofrido um colapso mental, afinal? A tensão dos negócios fora demais para ela? Porém, enquanto Natasha a observava, evidenciava-se que a amiga tinha algo bem definido em mente. Ela sentou-se de repente, sem tirar os olhos de Natasha, um sorriso mau de fúria dominando-lhe o semblante.

─ Então me deixe contar-lhe uma pequenina história ─ disse Isabella. ─ Talvez, depois, nós duas possamos entender. Em outubro do ano passado, depois que meu marido morreu... você sabe, Amadeo... você ainda se lembra dele? Bem, ele morreu, vítima de um seqüestro brutal...

Natasha olhava Isabella com atenção. Se isto era loucura, era uma loucura calculada, fria e furiosa, cada palavra embebida em amargura. Assustada, continuou a observá-la. Não havia nada a fazer a não ser deixá-la prosseguir.

─ Ele me deixou uma Casa de modas, uma grande Casa de alta costura bem-sucedida em Roma. Também produzimos prêt-à-porter, cosméticos, lingerie, não vou entediá-la com a listagem. Assumi o controle da empresa, esgotei-me de tanto trabalhar e fiz uma promessa a mim mesma e a Amadeo de que a conservaria forte até o dia em que nosso filho pudesse tomar conta. Mas, veja bem, eis que meu braço direito, Bernardo Franco, primeiro me propõe casamento. ─ Natasha estava chocada, mas Isabella prosseguiu, vigorosamente ─ Em seguida me participa que uma empresa americana chamada Farnham-Barnes quer comprar meu estabelecimento. Não, eu lhe disse. Não quero vender. Mas ele insiste, insiste, tenta e torna a tentar. Inutilmente. Não venderei! Então, como que por milagre, certo dia recebo um telefonema, informando-me que meu filho também fora seqüestrado. Só que, felizmente, é uma brincadeira. E meu filho está ótimo. Então Bernardo me diz que a minha vida e a do meu filho correm perigo em Roma. “Você precisa ir embora”, diz ele. Portanto, telefono para a minha amiga Natasha Walker em Nova York, com quem ele, por coincidência, transou algumas vezes quando ela esteve em Roma.

Natasha tentou argumentar, mas Isabella ergueu a mão.

─ Deixe-me continuar. Então eu telefono para minha amiga Natasha, que me convida para ficar com ela. Um plano elaborado é preparado para me manter segura e dirigir a empresa do apartamento de Natasha em Nova York. Maravilhoso! Mais uma vez, Bernardo tenta me convencer a vender para a F-B e eu recuso. Viajo para a América, com meu filho, e minha amiga Natasha me apanha no aeroporto, juntamente com um amigo num belo Rolls-Royce preto. Então passo a morar com Natasha, dirijo minha empresa, Bernardo me levando à loucura e, toda vez que tem oportunidade, ele me aborrece com a idéia de vender. Mas eu me torno amiga do homem do aeroporto, sr. Corbett Ewing. "Meu amigo" muito conveniente.

Ela destilava veneno nas palavras.

─ Natasha me convida para ir a uma pré-estréia cinematográfica. Vou, e ao lado de quem devo me sentar senão do sr. Corbett Ewing, que por acaso é apenas o presidente do conselho da I.H.I., proprietária da F-B, que quer comprar a San Gregorio? Feliz coincidência, não? Passo três meses sendo interrogada habilmente sobre meus negócios, sendo cortejada, sendo manipulada por esse monstro, esse aproveitador, esse vilão, que quer comprar minha empresa e, aparentemente, fará qualquer coisa para conseguir, inclusive fingindo-se apaixonado por mim, adulando meu filho e usando meus "amigos". Natasha, é claro, o convida noite e dia e fica emocionada quando nos "apaixonamos". E o que acontece, então, minha querida? Você ganha uma comissão de Corbett quando ele se casar comigo e me convencer a vender a empresa?

Natasha olhava-a com espanto. Levantou-se lentamente.

─ Você está falando sério?

Isabella era a própria frieza agora.

─ Cada palavra. Acho que Bernardo armou a brincadeira sobre Alessandro para me tirar do caminho, usou-a para me mandar para cá e você providenciou para que Corbett Ewing

se aproximasse de mim! Tudo feito lindamente, mas é inútil, porque nunca venderei. Nunca! Nem para Corbett, nem para mais ninguém e acho repulsivo o que vocês fizeram. Ouviu bem, repulsivo! E eram meus amigos, que se danem!

Em seus olhos havia lágrimas de raiva e desapontamento, e Natasha não ousava aproximar-se dela.

─ Isabella, eu não fiz nada! Nada! Foi você quem quis vir para cá. Foi você quem quis ir àquela maldita pré-estréia. Eu nem queria que você fosse. O que está pensando, que informei à imprensa? Oh, Deus! ─ Ela tomou a sentar-se e passou a mão pelo cabelo emaranhado.

─ Não acredito em você. Está mentindo, como Bernardo. Como ele…

─ Escute, Isabella, por favor. Sei que isto é difícil e, do modo como você fala, tudo se encaixa, mas apenas aconteceu desse modo, ninguém planejou, e claro que Corbett não… ─ Agora havia lágrimas correndo-lhe pelas faces. ─ Ele a ama, sei disso. Ele ficou alucinado quando descobriu quem você era, depois da pré-estréia. Ele veio aqui no dia seguinte para lhe contar; falou comigo a respeito. Temia que algo semelhante acontecesse. Mas acabou não lhe contando nada. Não sei porque, mas algo aconteceu naquela noite que o fez mudar de idéia. Corbett receava perdê-la antes que tivesse oportunidade, e esperava que, se isso viesse à tona um dia, na ocasião talvez você pudesse entender.

─ Entender o quê? Que ele dormiu comigo para roubar a San Gregorio? Entendo perfeitamente.

─ Pelo amor de Deus, ouça-me. ─ Natasha soluçava e segurava a cabeça com ambas as mãos. ─ Ele a ama, não quer perdê-la. Ao descobrir quem você era, ele avisou aos seus assessores na F-B para retirarem a oferta e jamais mencionarem o seu nome.

─ Bem, Bernardo acabou de fazê-lo.

─ A respeito de uma nova oferta, ou ele se referiu à oferta antiga?

─ Não sei, mas eu mesma vou me informar quando for para Roma. O que traz à baila apenas mais uma questão. Você se diz minha amiga... bem, não tenho ninguém a quem recorrer, não importa o que eu pense qual seja a verdade... você fica com Alessandro enquanto vou até Roma?

─ É claro. Quando você vai? ─ Natasha parecia abalada.

─ Esta noite.

─ Por quanto tempo?

─ Um mês, dois. O tempo que o assunto exigir de mim. Não sei. E conserve aquele cretino afastado do meu filho enquanto eu estiver fora. Quando eu voltar, providenciarei outra acomodação. Se eu não voltar de vez para Roma, vou procurar um apartamento para mim.

─ Não precisa fazer isso, Isabella. ─ Natasha encolhera-se na cadeira, aniquilada.

─ Preciso, sim. ─ Ela moveu-se para deixar o aposento, depois parou por um instante. ─ Obrigada por ficar com Alessandro. ─ Amava Natasha. Tinham passado muita coisa juntas.

Não importa qual fosse a verdade.

Natasha ainda chorava.

─ Eu o amo e amo você também. O que vai dizer a Corbett?

─ Exatamente o que disse a você.

Isabella ligou para ele e Corbett chegou ao apartamento uma hora depois, com uma aparência provavelmente não melhor do que a de Natasha quando passou pela mesma situação.

─ Isabella, só posso lhe dizer que tentei lhe contar várias vezes. Mas alguma coisa sempre atrapalhava. ─ Inconsolável, lançou um olhar para ela da poltrona onde se encontrava, quase do outro lado da sala. Não ousava aproximar-se. ─ Estou horrorizado porque o fato revelou-se dessa forma.

─ Você precisava forçar, interrogar sobre os meus negócios, manipular, descobrir, revolver dentro da minha cabeça tudo que pudesse aprender sobre a San Gregorio. Bem, já sabe o suficiente agora? Não lhe servirá para nada, fique sabendo. Pois não estou vendendo e mandei Bernardo cancelar todos os nossos negócios com a Farnham-Barnes a partir de hoje.

─ Há mais de três meses que não tem havido nenhuma oferta da F-B para a San Gregorio.

─ Terei de verificar isso. Mas não faz diferença. Você foi muito esperto para evitar ofertas enquanto estivesse me "cortejando", talvez tenha calculado que eu seria bastante inteligente para descobrir. Mas e depois? O que tinha em mente, Corbett, casar-se comigo e cativar-me em troca da San Gregorio? Jamais teria essa oportunidade.

─ O que vai fazer agora?

─ Voltar para Roma e obrigar todo mundo a entrar novamente na linha.

─ E depois? Vai voltar para cá para tornar a se esconder? Por que não traz a firma com você? E a única coisa que faz sentido.

─ Não se preocupe com o que eu possa fazer com a minha firma. Você já disse e fez o bastante.

─ Então vou embora. Mas deve saber de uma coisa, Isabella. O que aconteceu entre nós foi verdadeiro, foi honesto; estou sendo totalmente sincero.

─ Foi uma mentira.

─ Eu não menti. Amo você.

─ Não quero ouvir falar mais sobre isso! ─ Ela levantou-se e sorriu maliciosamente. ─ Nada dura para sempre, Corbett. Lembra-se? Nem mesmo uma mentira. Você me usou, droga! Tomou meu coração, meu corpo, minha vulnerabilidade, e me usou só para acrescentar outra marca ao seu cinturão de corporações: San Gregorio. Bem, a mim você teve, mas não terá o resto.

─ Não posso dizer que nunca desejei o resto. Antes de conhecê-la, eu desejei. Mas depois não. Depois jamais, nem por um instante sequer.

─ Nunca acreditarei em você.

─ Então só me resta dizer adeus.

Ela ficou olhando enquanto ele, com expressão infeliz, saía da sala. Mas ela já estava no próprio quarto fazendo as malas quando ele despachou o carro com um gesto e caminhou sozinho, rapidamente, cabeça baixa, de volta para o escritório.

 

O avião aterrissou no Aeroporto Leonardo da Vinci às 11:05 da manhã seguinte. Bernardo e dois guarda-costas estavam à espera quando ela passou pela alfândega. O cumprimento que endereçou a Bernardo demonstrava afeto bem como tensão. Parecia exausta, sem ter dormido durante todo o vôo. Fora doloroso deixar Alessandro, deixar Natasha constrangida. Tudo que desejara fazer era fugir. Tinha chorado metade da viagem para Roma. Ele a traíra. Todos a tinham traído. Bernardo, Amadeo, Corbett, Natasha. Todas as pessoas em quem confiava. Todos que amava.

Amadeo, por morrer; Bernardo, por seus esforços para fazê-la vender; e Corbett , não suportava pensar. Ela gostaria de saber como começaria outra vez, como ainda conseguiria ao menos trabalhar.

Após passar pela alfândega com duas pequenas valises, cansada, ela olhou nos olhos de Bernardo. Era difícil acreditar que não o via há cinco meses. Mais pareciam cinco anos.

─ Ciao, Bellezza. ─ Ao olhá-la, ele achou que os cinco meses que ela passara em Nova York não tinham sido muito benignos. Parecia frágil, magra e destroçada, e havia círculos profundos ao redor dos seus olhos. ─ Você está bem? ─ Bernardo estava preocupado.

─ Apenas cansada. ─ Pela primeira vez em 24 horas, ela sorriu.

Ele podia sentir a tensão que a dominava durante todo o trajeto por Roma. Isabella estava estranhamente reticente, enquanto olhava em silêncio e com expressão de sofrimento pela janela da limousine.

─ Nada mudou muito.

Ele procurou iniciar uma pequena conversa. Não queria falar de negócios diante dos seguranças.

─ Mudar não mudou, mas está mais quente. -─Lembrou-se de como estava frio na noite em que partira.

─ Como está Alessandro?

─ Está ótimo.

─ Isabella ansiava ver a villa, mas sabia que não estava preparada. Ainda não. E tinha muito trabalho para fazer na firma. Para ela fazia mais sentido ficar ali mesmo. Havia mais sentido ficar junto à San Gregorio, embora admitisse apenas abertamente para si mesma: Após ter dado seu corpo a Corbett, não desejara voltar para a cama que compartilhara com Amadeo. Agora ela o traíra também. E para quê? Para uma artimanha. Uma mentira. Sentiu o tropel mansinho do coração ao pararem diante da pesada porta preta. Tinha vontade de chorar, mas só pôde olhá-la fixamente por um instante. Depois, desceu do carro e entrou na Casa de San Gregorio em largas passadas, como se nunca tivesse partido. Ninguém fora avisado de sua chegada, mas sabia que a notícia se espalharia por toda Roma naquela noite mesmo. Não ligava a mínima. Que eles a persigam, que façam explodir seus flashes diante do seu rosto; ela não ligava a mínima a isso tampouco. Nada mais a perturbaria ou surpreenderia, nada mais.

Levada pelo longo hábito, introduziu a chave no elevador e apertou o botão para o quarto andar, enquanto Bernardo a observava, abalado e infeliz. Ele notara que alguma coisa horrível acontecera a Isabella. Estava morta interiormente. O rosto pálido, de marfim, que tanto amava, mais parecia uma máscara. Nunca a vira assim, nem mesmo durante aquelas horas pavorosas em que aguardavam notícias de Amadeo, nem durante o funeral, ou nem mesmo em seu vôo para o exílio. A Isabella que ele conhecera durante anos não existia mais.

Do final do corredor do quarto andar, ela dirigiu-se para a porta da escada que levava à cobertura, com Bernardo acompanhando o pequeno lance de escadas. Foi então que ela finalmente sentou-se, tirou o chapéu de feltro e pareceu se descontrair.

─ Allora, va bene, Bernardo?

─ Eu estou bem, Isabella. E você? Esteve longe durante cinco meses, volta para casa e age como se eu tivesse lepra.

Talvez tenha, ela pensou. Disse apenas:

─ Ligou para a F-B?

Ele confirmou.

─ Deixou-me doente, mas telefonei. Sabe o que vai significar para as nossas contas?

─ Recuperaremos no ano que vem.

─ O que aconteceu ontem?

Ele não tinha coragem de discutir com ela agora. Isabella parecia muito cansada, frágil demais.

─ Fiquei sabendo de uma coisa muito interessante.

─ E o que foi?

─ Que um amigo de Natasha, que pensei que tivesse se tornado meu amigo também, esteve me usando. Para comprar a empresa. Talvez consiga reconhecer o nome, Bernardo. Corbett Ewing. Não achei graça.

Bernardo olhou-a, chocado.

─ O que quer dizer, "usando" você?

Ela poupou-lhe os detalhes.

─ Nunca imaginei quem ele era. Mas Natasha sabia, é claro. E você também. Não tenho meios de saber; não há nenhuma possibilidade de um dia vir a saber. Não estou certa se essa era a razão pela qual você insistia para que eu saísse de Roma. Isso não tem mais importância, Bernardo. Estou em Roma agora. Na verdade, o vilão é Ewing. A questão já foi resolvida. Não vou vender. E tomei uma decisão que devia ter tomado alguns meses atrás. Exigiu-me certo tempo. Bernardo ficou imaginando o que estava para vir. Sentiu uma dolorosa ferroada de sua úlcera e aguardou as notícias.

─ Vou levar comigo para os Estados Unidos a parte principal dos negócios.

Fora sugestão de Corbett. Porém, o mais notável, ele estava certo!

─ O quê? Como?

─ Ainda não resolvi. O setor da alta costura ficará aqui. Gabriela pode dirigi-lo. Viajarei várias vezes por ano. Essa parte da empresa não precisa da minha supervisão constante. O resto sim. Do contrário, é tensão demasiada sobre você... e sobre mim. ─ Ela sorria outra vez, debilmente, e observava Bernardo enquanto ele assimilava o choque. ─ Resolveremos juntos, enquanto estou aqui. Mas quero que você volte comigo. Não importa o que aconteceu, preciso de você. Sempre foi meu amigo e é bom demais para se perder.

─ Terei de pensar no assunto. Isso surgiu como uma espécie de impacto. Não sei, Isabella...

Mas com suas palavras ela só confirmava o que ele já sabia. Ele era apenas seu amigo e funcionário. Ela jamais o deixaria ser mais. E ele imaginava algo mais. Era melhor assim. Isabella sempre teria sido demais para ele lidar como amante. Ela continuava relatando seus planos:

─ Não posso mais viver aqui, principalmente sem Alessandro. Quanto a isso, você estava com a razão. Não posso correr o risco. Não há nenhuma razão que nos impeça de dirigir a parte internacional inteira em Nova York. E ─ ela hesitou outra vez ─ decidi levar Peroni e Baltare comigo, se desejarem. Dos nossos quatro subdiretores, são os únicos que falam inglês. Os outros dois terão de ir. Mas podemos falar sobre o resto depois. E vou dizer uma coisa. ─ Ela suspirou baixinho e olhou ao seu redor. ─É ótimo ver algo familiar para variar. Estava excessivamente cansada de ficar tão longe de casa.

─ Mas decidiu-se por ficar lá. Está segura?

─ Acho que não tenho escolha.

─ Talvez não. E quanto à villa?

─ Vou fechá-la e conservá-la. Ela pertence a Alessandro. Talvez, um dia, ele possa voltar para viver aqui. Mas está na hora de eu estabelecer um lar para ele nos Estados Unidos. E está na hora de parar de me esconder. Faz nove meses que Amadeo morreu, Bernardo. Chega.

Ele assentiu lentamente com a cabeça. Nove meses. E quanta coisa havia mudado.

─ E quanto a Natasha? Pelo que concluí, então vocês tiveram uma desavença?

─ Concluiu corretamente. ─ Não acrescentou mais nada.

─ Acha mesmo que Ewing tentava forçá-la?

─ Tão certa como nunca. Talvez você saiba mais a respeito do que eu. Isso também jamais saberei.

Era chocante. Agora ela não confiava em ninguém. De repente estava amarga e fria. O que o deixou constrangido e assustado. O que ele viu nas três semanas seguintes não contribuiu em nada para fazê-lo mudar de idéia.

Isabella participou aos diretores suas decisões e examinou cada milímetro da Casa de San Gregorio, indo de sala em sala, de escritório em escritório, de sala de estoque em sala de estoque, de mesa em mesa, de arquivo em arquivo, andar por andar. Em três semanas sabia tudo que acontecia e tudo que desejava saber. Os dois subdiretores que Isabella convidara para juntarem-se a ela em Nova York concordaram e ela decidiu contratar dois subdiretores americanos para trabalharem com eles lá. O resto do pessoal estava sendo transferido e dividido. Gabriela ficou imensamente satisfeita. Seria quase autônoma agora na parte de alta costura, supervisionada unicamente por Isabella, que confiava plenamente nela. Mas a confiança de Isabella parava aí. Estava desconfiada, incrédula, e a maior mudança de todas era que Isabella nem brigava mais com Bernardo. Não era mais a mulher afável para quem todos gostavam de trabalhar, de repente era uma mulher a quem todos temiam. Qualquer um poderia ser demitido inesperadamente. Seus olhos negros viam tudo, seus ouvidos escutavam tudo. Ela parecia não ter mais suspeitas dele, mas continuava desconfiada dos demais.

─ Bem, Bernardo, a quantas andamos?

Durante o almoço em seu escritório, ela observava-o. Apenas por um momento, o desejo dele era tocar em sua mão. Queria libertá-la desse feitiço hediondo, assegurar a si mesmo que ela ainda era humana, queria estender-lhe a mão. Tinha dúvidas se alguém ainda poderia, inclusive ele. A única hora em que sua voz se animava era quando falava com Alessandro ao telefone; em seu telefonema daquela manhã, ela lhe prometera que voltaria em breve.

─ Estamos extraordinariamente bem, Isabella. ─ Bernardo deixou o momento passar com um suspiro. ─ Considerando o tipo de mudanças que estamos fazendo. Eu diria que você trabalhou esplendidamente. Devemos estar aptos para organizar os escritórios em Nova York dentro de um mês.

─ Isso significa fim de julho, princípio de agosto. É o bastante. ─ Em seguida veio a pergunta final. A que ele vinha temendo há semanas: ─ E você?

Ele hesitou por um longo momento; por fim, sacudiu a cabeça.

─ Não posso.

Ela parou de comer, depositou o garfo no prato e olhou para Bernardo com atenção. Por um instante parecia a Isabella de outrora, e ele quase sentiu alívio.

─ Por que não?

─ Estive pensando no assunto. Não daria certo. ─ Ela aguardou em silêncio enquanto ele prosseguiu ─ Você está preparada para dirigir a empresa sozinha. Entende do assunto tão bem como eu, na verdade até melhor do que Amadeo entendia. Não sei se você se dá conta disso.

─ Não é verdade.

─ É verdade, sim. ─ Ele sorriu para ela e Isabella ficou emocionada. ─ E eu não seria feliz em Nova York. Quero ficar em Roma, Isabella.

─ Fazendo o quê?

─ Vai aparecer alguma coisa. A coisa certa. No devido tempo. Talvez tire até umas longas férias, talvez vá para algum lugar, talvez passe um ano na Grécia.

─ Você enlouqueceu. Não poderia viver sem a empresa.

─ Tudo tem de chegar a um fim.

Ela olhou-o, pensativa.

─ Nada é eterno.

─ Exatamente.

─ Gostaria demais algum tempo para pensar no assunto?

Ele quase concordou, mas depois tomou a sacudir a cabeça. Era inútil. Estava tudo acabado.

─ Não, cara, não gostaria. Não quero viver em Nova York. Como você disse quando aqui chegou, basta.

─ Não me referia a você.

─ Eu sei. Mas está na hora para mim.

De repente, enquanto olhava para ela, ele viu lágrimas em seus olhos. O rosto crispado, cansado, com os grandes olhos negros apertados. Ele moveu-se para sentar-se ao lado dela no sofá de couro e tomou-a nos braços.

─ Não chore, Bellezza. Isabellezza...

Isabellezza... Ao som daquela palavra ela virou a cabeça e rompeu em soluços.

─ Oh, Bernardo, não existe mais nenhuma Isabellezza.

─ Sempre existirá. Para mim. Jamais esquecerei aqueles tempos, Isabella. Nem você esquecerá.

─ Mas terminaram. Tudo mudou.

─ Tem de mudar. Você está certa ao mudar a San Gregorio. A única coisa que está errada em mudar é você.

─ Mas estou tão confusa!

Ela parou por um instante para assoar o nariz no lenço dele, enquanto Bernardo passava a mão gentilmente pelos seus cabelos.

─ Sei que está. Não confia em mais ninguém. É natural, depois do que aconteceu. Porém, agora, precisa livrar-se disso. Precisa parar, antes que deixe que isso a destrua. Amadeo morreu, Isabella. Mas você não pode deixar-se morrer também.

─ Por que não?

Ela parecia uma menina inconsolável, ali sentada ao lado dele, enquanto assoava o nariz outra vez.

─ Porque você é muito especial, Bellezza. Partiria meu coração se permanecesse assim, zangada, infeliz, desconfiada de todos. Por favor, Isabella, você precisa libertar-se do passado e tentar outra vez.

Ela não lhe contou que fizera exatamente isso e que fora magoada mais do que já havia sido antes.

─ Não sei, Bernardo. Muita coisa mudou nesse ano que passou.

─ Mas você verá. Vai descobrir, no devido tempo, que algumas dessas mudanças foram boas também. Está tomando a decisão certa ao levar a empresa para a América.

─ Espero que sim.

─ A propósito, o que vai fazer com a villa?

─ Começarei a empacotar as coisas na próxima semana.

─ Vai levar tudo com você?

─ Tudo não. Deixarei algumas coisas aqui.

─ Posso ajudá-la?

Ela assentiu lentamente com a cabeça.

─ Tornaria mais fácil. Ando com medo de voltar para lá.

Ele também assentiu com a cabeça e sorriu enquanto ela assoava o nariz pela última vez.

 

O carro dobrou na entrada de cascalho e parou diante da familiar porta da frente. Isabella olhou-a pensativa por um momento, antes de descer. De alguma forma, a casa parecia-lhe maior e o espaço ao redor estranhamente silencioso. Por um instante, deu-lhe a impressão que voltava de uma longa viagem. Esperava vislumbrar o rosto de Alessandro na janela, a seguir, um minuto depois, vê-lo saltitando para vir ao seu encontro, mas ele não veio. Ninguém veio. Nada se moveu.

Bernardo permanecia silencioso atrás dela enquanto Isabella começava a caminhar lentamente para a casa. Nas cinco semanas em que estava em Roma, ainda não viera até aqui. De certa forma, em seu coração, ela na realidade não tinha voltado. Viera para Roma a fim de prestar assistência à sua empresa. Mas isto era algo diferente, algo íntimo, um pedaço do passado. E ela própria sabia que não estava preparada para vê-la. Agora que estava de volta, sentia-se grata por não estar sozinha. Então olhou de relance por sobre o ombro com um sorriso suave, lembrando-se de Bernardo. Mas os olhos negros não estavam sorrindo; pareciam infelizes e distantes quando Isabella olhou à sua volta e depois tocou a campainha. Tinha a própria chave, mas não queria usá-la. Era o mesmo que visitar alguém agora. Alguém que ela fora outrora.

Bernardo estava atento quando uma criada abriu a porta e Isabella entrou. Ele avisara o pessoal. A signora di San Gregorio estava de volta. A notícia foi recebida com agitação e alvoroço: com Alessandro? Para sempre? Tinha-se seguido um lufa-lufa de planos, que quartos abrir, que refeições preparar. Mas Bernardo apressara-se em dispersar as ilusões. Ela não ficará hospedada na villa e virá sozinha. Alessandro ainda estava na América. A seguir, ele desferira o derradeiro golpe. Ela fecharia a casa.

De qualquer modo, a casa já não era mais a mesma. As figuras centrais do corpo doméstico já tinham ido embora. Mamma Teresa partira em abril, compreendendo finalmente que seu pupilo ficaria afastado durante um tempo muito longo. Bernardo falara francamente com ela, os riscos eram grandes demais. O menino ficaria afastado por um ano, talvez um pouco menos ou, provavelmente, um pouco mais. Ela fora trabalhar para uma família em Bolonha, com três filhas e dois meninos. Jamais se recuperara inteiramente do modo como Isabella a deixara, sem sequer avisá-la que estava tirando Alessandro dela, na escuridão da noite, abandonando a cama dele vazia e deixando seu quarto trancado e a mulher que o protegera e amara para trás. Luisa arranjara emprego para o verão, em San Remo, com as pessoas para quem já havia trabalhado certa vez. E Enzo aposentara-se; seu quarto sobre a garagem estava vazio. Pesarosas, há muito que as três estrelas de primeira grandeza do corpo doméstico tinham partido. Agora havia apenas os corpos celestes secundários para ajudar Isabella.

Bernardo encomendara um número incontável de caixas, que foram deixadas no vestíbulo. Isabella viu-as assim que entrou. Silenciosamente, ficou parada, olhando-as, mas seus olhos deixaram-se levar dali. Isabella parecia estar aguardando; por ruídos familiares, por sons que ali ouvira, por vozes que não estavam mais. Bernardo observava-a, cautelosamente retraído.

Ela colocou a jaqueta leve de linho numa cadeira e começou a caminhar pelo longo vestíbulo, seus passos soando ocos. Passaram-se apenas cinco meses desde a noite em que ela fugira com Alessandro? Cinco meses desde que ela percorrera furtiva aquele vestíbulo, reunindo valises e Alessandro em suas pantufas vermelhas, sussurrando "psiu" e prometendo aventura? "Vamos para a África, mamma?" Ela sorriu e perambulou pela sala de estar. Olhou para o relógio Fabergé azul, o mesmo que consultara com tanta intensidade na noite em que ficara aguardando por Amadeo, quando iam a um jantar na casa da principessa, na noite em que ele se atrasara tanto, na noite em que desaparecera. Sentou-se pesadamente na chaise longue ao lado da janela, olhando para Bernardo, com uma expressão vazia.

Nem mesmo sei por onde começar.

Seus olhos estavam marejados e pesados, e ele assentiu com a cabeça, entendendo.

─ Está certo, Bellezza. Faremos tudo devagar, quarto por quarto.

─ Levará anos.

Olhou para o jardim. O carrossel que ela dera a Alessandro no Natal estava envolto por uma lona, os sinos e a música em silêncio. Brotaram lágrimas em seus olhos, mas ela sorriu. Bernardo a observava, lembrando-se daquela noite, como ele também estava. Remexeu no bolso e retirou algo que ficou segurando.

─ No último Natal não cheguei a lhe dar isto. Receei que a faria muito infeliz se lhe desse um presente. ─ O Natal com Amadeo sempre significara originalidade, uma jóia ou objetos singulares, pequenos tesouros e livros notáveis que ela cobiçava, pequenas surpresas que ela sempre adorara. De modo algum Bernardo poderia ter feito o mesmo para agradá-la e ele ficara, inclusive, receoso de tentar. Mas tinha ido ao Alfredo Paccioli e comprara uma coisa que agora, cinco meses depois, ele lhe oferecia. ─ Depois me senti péssimo por não lhe dar nada.

Silenciosamente, tateou o relógio de bolso agora familiar, que fora de Amadeo. Usava-o sempre.

Bernardo entregou-lhe o pacotinho. Ela o recebeu, seus olhos marejaram-se de lágrimas, e sentou-se outra vez com um pequeno sorriso.

─ Não precisa me dar presentes, Bernardo.

Mas pegou-o e abriu-o, depois ergueu os olhos para o amigo, sem fala pela emoção. Era um anel de ouro grande, com o selo da San Gregorio cuidadosamente gravado, impecavelmente cinzelado na superfície lisa de uma pedra preta. Era ônix, e suas proporções eram perfeitas em sua mão longa e fina. Ela colocou-o antes da aliança e seus olhos arregalaram-se, tornando a umedecer.

─ Bernardo, você é doido...

─ Não, não sou. Gosta? ─ De onde se achava, lançou-lhe um sorriso, parecendo muito jovem para ela, quase um garoto.

─ É perfeito. ─ Contemplou o anel mais uma vez.

─ Se gostar dele a metade do que gosto do meu relógio de bolso, ficarei feliz.

Sem falar mais nada, ela levantou-se e dirigiu-se a ele. Por um momento, ficaram estreitamente abraçados, e ele sentiu as batidas do coração de Isabella ao mantê-la junto a si.

─ Obrigada.

─ Va bene, Bellezza. Não, não chore. Vamos, temos um trabalho a fazer. ─ Separaram-se sem pressa, ele tirou o paletó e soltou as abotoaduras enquanto ela observava. ─ Por onde começamos?

─ Meu quarto?

Ele concordou com a cabeça e, de mãos dadas, encaminharam-se com determinação para o corredor. Ela estava dividindo tudo em três categorias. As coisas que deixaria na casa sob capas contra poeira, para serem apanhadas por ela, um dia, talvez, ou postas em uso na casa se Alessandro viesse a reabri-la, se, já adulto, voltasse para Roma. As coisas que empacotaria e mandaria para a América. E os objetos preciosos que não poderiam ficar abandonados ali, mas teriam de ser postos em um guarda-móveis. Desses, ela concluiu, havia poucos. Coisas que valiam a pena levar com ela ou poderiam ficar em Roma, na casa. Coisas como o piano de cauda e algumas peças da mobília grande e antiga que estivera durante anos na família de Amadeo, mas das quais nenhum dos dois gostara muito. A maioria dos tapetes ela deixaria no guarda-móveis. Talvez não se adaptassem ao seu novo apartamento. As cortinas ficariam nas janelas para as quais tinham sido feitas. Os candelabros de parede e os lustres ficariam. Não queria deixar buracos ou fendas expostos na casa. Quando Alessandro um dia voltasse, ela queria que a casa ainda tivesse a aparência de um lar, não de um lugar que alguém tivesse saqueado ao preparar-se para fugir.

─ Allora. ─Lançou um olhar para Bernardo. ─ Avanti!

Ele sorriu-lhe, e começaram a embalar as coisas. Primeiro, no quarto dela, depois no de Alessandro, a seguir seu boudoir, então, finalmente, pararam para almoçar. O santuário sagrado estava sendo desmantelado, as caixas agrupadas em pilhas intermináveis no vestíbulo, e Isabella estava satisfeita enquanto olhava ao seu redor. Era uma boa oportunidade para separar suas coisas favoritas das que não lhe interessavam realmente. Bernardo observara-a com atenção, mas não aparecera uma lágrima sequer desde o instante em que começaram. Isabella readquirira o autocontrole. Estavam almoçando no jardim.

─ O que vai fazer com o carrossel? ─ perguntou Bernardo.

Ele mastigava com firmeza e energia um sanduíche de presunto defumado e tomate. Isabella servia vinho branco a ambos.

─ Não posso levá-lo. Nem mesmo sei onde vamos morar. Talvez nem tenhamos um jardim.

─ Se puder tê-lo, avise-me. Mandarei encaixotá-lo. Alessandro adoraria.

Ela olhou para Bernardo.

Irá nos visitar?

─ É claro que irei. Posteriormente. Mas antes ─ ele parecia vitorioso ─ vou à Grécia.

─ Já decidiu então?

─ Está tudo acertado. Na semana passada, aluguei uma casa em Corfu, por seis meses.

─ E depois disso? ─ Ela bebeu outro gole de vinho. ─ Talvez devesse ir a Nova York e fazer uma avaliação cuidadosa.

Ele sacudiu a cabeça.

─ Não, Bellezza, ambos sabemos que tomamos as decisões certas. Farei alguma coisa por aqui.

─ Para um dos meus rivais?

Seu olhar de preocupação era apenas meio sério, porém, ele tornou a sacudir a cabeça.

─ Você não tem nenhum, Isabella. E eu não suportaria trabalhar com um profissional de segunda após ter trabalhado para você. Já recebi cinco ofertas.

─ Santo Deus, é mesmo? De quem? ─ Ele mencionou, e ela mostrou-se desdenhosa. ─ Esses fazem lixo, Bernardo! Não!

─ É claro que não! Mas pode surgir outra coisa. Houve uma oferta que me deixou intrigado. ─ Ele contou-lhe. Era o maior designer de roupa masculina da Itália, que também fazia provas particulares em Londres e na França.

─ E isso não iria aborrecê-lo?

─ Talvez. Mas precisam de alguém que dirija a empresa. O velho Feleronio morreu em junho, o filho vive na Austrália e é médico, a filha não entende nada do negócio. E ─ Bernardo lançou-lhe um olhar malicioso ─ não querem vendê-la. Querem alguém que dirija para eles, assim podem continuar vivendo como reis. Acho que no final acabarão vendendo, porém não antes de cinco ou dez anos talvez. Me daria um bocado de liberdade para fazer o que eu quisesse. ─ Lançou-lhe um sorriso.

─ Prossiga, diga logo. Uma coisa que nunca teve comigo.

─ Eu não a teria respeitado tanto se você desempenhasse papel sem importância. E não há razão para desempenhar, pois conhece mais esse negócio do que qualquer um na Europa.

─ E nos Estados Unidos ─ ela acrescentou, com orgulho.

─ E nos Estados Unidos. E se fizer a metade de um bom trabalho ensinando Alessandro, a San Gregorio continuará por mais cem anos.

─ Às vezes me preocupo a esse respeito. E se ele não quiser?

─ Vai querer.

─ Como pode saber?

─ Já conversou com ele sobre o assunto? Alessandro mais parece um menino de quinze do que de cinco anos. Talvez não tenha realmente seu olho para o design e cor, mas o funcionamento, a engenhosidade e o mecanismo da San Gregorio já estão no sangue dele. Como em Amadeo. Como em você.

─ Espero que sim. ─ Ela fez uma anotação mental para falar com o filho a respeito quando voltasse. ─ Sinto terrivelmente a falta dele ─ acrescentou ─ e acho que está ficando zangado. Quer saber quando vou voltar.

─ Quando você vai?

─ Dentro de um mês. É bastante razoável. Natasha alugou uma casa em East Hampton para o verão. Ele pode ficar na praia enquanto termino aqui e, depois, enquanto procuro um apartamento em Nova York.

─ Vai ficar extremamente ocupada. Tem de procurar um local para os escritórios temporários. Os rapazes estarão chegando lá duas semanas depois de você... sem falar que precisa escolher sua casa definitiva e um arquiteto para fazê-la, uma casa para você e Alessandro.

─ Enquanto você fica passeando na Grécia!

Ele esboçou um largo sorriso.

─ Eu mereço, criatura desnaturada.

─ Vamos ─ disse ela ─ vamos voltar ao trabalho.

Trabalharam até as onze da noite, separando os tesouros da sala de estar, embalando o que podiam e deixando o resto para os embaladores profissionais. Etiquetas vermelhas indicavam o que ia com ela, as azuis o que ficaria em Roma e as verdes o que iria para o guarda-móveis. Depois, havia o restante, o inevitável excedente que vem à tona na vida de toda pessoa quando muda de residência. Mesmo para Isabella, com seus móveis Luís XV, seus mármores, seu relógio Fabergé, havia ainda os brinquedos quebrados, coisas que ela detestava, livros que não queria mais e louça rachada.

Naquela noite, Bernardo deixou-a na Casa de San Gregorio e voltou para apanhá-la no dia seguinte. Durante as três semanas seguintes, eles deixavam o trabalho cedo, chegando à villa por volta das duas e só saindo depois da meia-noite. Na quarta semana a tarefa terminara.

Isabella ficou parada por um último e solitário momento entre a montanha de caixas empilhadas em ordem na sala de estar e no vestí-lo. Um mar de etiquetas vermelhas, os tesouros que ela estava enviando para Nova York. De repente, a casa produziu um eco estranho; as luzes estavam apagadas. Eram duas da manhã.

─ Você não vem? ─ Bernardo já aguardava na entrada para automóveis.

─ Espere! ─ Ela gritou. Exatamente quando pensava. O quê? Ele estava chegando? Ia ouvir seus passos? Do homem que se fora há dez meses. Ela sussurrou docemente na escuridão: ─ Amadeo?

Ela ficou esperando, ouvindo, prestando atenção, como se ele pudesse voltar para ela e dizer-lhe que seu desaparecimento não passara de uma brincadeira. Que ela devia parar com tudo e desfazer as caixas. Na verdade, não houve nenhum seqüestro... ou tinha havido, mas eles mataram outra pessoa. Ela ficou ali de pé parada, trêmula, sozinha, durante um minuto que pareceu uma hora. Então, com as lágrimas escorrendo-lhe pelas faces, fechou suavemente a porta e trancou-a. Segurou o trinco um derradeiro instante, sabendo que jamais voltaria.

 

─ Você irá me visitar? Promete?

Ela agarrava-se a Bernardo no aeroporto. Ambos estiveram chorando. Agora ele enxugava os olhos dela com seu lenço e o passava rudemente nos seus.

─ Prometo.

Ele sabia como Isabella ficara de repente nervosa a respeito de dirigir a empresa sozinha em Nova York. Isabella estava provendo-a sensatamente de auxiliares. Peroni e Baltare não tinham imaginação, mas eram firmes. Isabella não precisava de ninguém com imaginação, pois a possuía e sobra por todos eles.

─ Dê um beijo em Alessandro por mim ─ disse ele.

Ela chorava de novo.

─ Darei.

Fora uma semana insuportável de despedidas. Na villa. Na casa. Com Gabriela, que só a veria na sua próxima viagem a Roma, dentro de três meses. Mas, ainda assim, havia a dor constante da partida, e agora Bernardo. De certa forma, era o mesmo que partir como fizera seis meses antes. Mas desta vez, era em plena luz do dia, do aeroporto de Roma, com os dois guarda-costas parecendo entediados, e não houvera mais nenhum telefonema dos maníacos. Finalmente estava terminado.

Até Bernardo concordara que ela estaria a salvo sendo vista em Nova York. Não era segredo que a empresa estava sendo transferida, e haveria fotos e telefonemas da imprensa. Mas a polícia tinha lhe assegurado que ela não corria mais nenhum perigo real. Só precisava ser sensata e, talvez, um pouco cautelosa com Alessandro, porém não mais do que qualquer pessoa em sua posição. Ela aprendera bem a lição. Dolorosamente bem.

Beijou Bernardo pela última vez, e ele sorriu para ela, mais uma vez através das próprias lágrimas.

─ Ciao, Isabellezza. Cuide-se.

─ Ciao, Nardo. Amo você.

Abraçaram-se estreitamente pela última vez, e ela embarcou no avião. Sozinha desta vez, sem guarda-costas, na primeira classe, com seu nome na lista de passageiros. Escorriam lágrimas os seus olhos. Dormiu durante três horas, depois lhe apresentaram um jantar leve. A seguir ela tirou alguns papéis da pasta e sorriu diante da perspectiva de ver Alessandro. Há dois meses que não o via.

Quando o avião aterrissou em Nova York, ela passou rapidamente pela alfândega, sem nenhum receio desta vez. Lembrou-se da última vez que chegara em Nova York, exausta, aterrorizada, suas jóias escondidas na bolsa a tiracolo, os guarda-costas ao seu lado e o filho em seus braços. Hoje, as autoridades alfandegárias a liberaram com um aceno, e ela murmurou um rápido "obrigada", passando pelo portão, os olhos esquadrinhando o aeroporto.

Então, ela os viu, Natasha e os meninos, esperando. Correu na direção deles e tomou Alessandro nos braços.

─ Mamma!... Mamma! - Os gritos do menino invadiram o aeroporto inteiro. Ela o envolveu com força em seus braços.

─ Oh, querido, como eu amo você... oh, e você está tão moreninho! Bernardo te mandou um beijo...

─ Trouxe meu carrossel? ─ Seus olhos estavam arregalados e felizes, um reflexo dos da mãe.

─ Ainda não. Se encontrarmos uma casa com jardim, pedirei que o mandem, mas você já está um pouquinho crescido para ele, sabe disso.

─ Carrosséis são para nenéns.

Jason olhou-os, aborrecido com todos aqueles beijos e abraços. Aquele tipo de tolice não era próprio de um homem. Mas, de qualquer modo, Isabella beijou-o e fez-lhe cócegas, e ele de repente riu.

─ Esperem até ver o que eu trouxe para vocês dois!

Houve gritos de excitação e mais risadas, e Isabella ergueu os olhos para Natasha. A expressão do seu rosto ficou mais moderada, mas ela sorriu gentilmente.

─ Como vai?

Por um instante, Natasha hesitou, em seguida caíram nos braços uma da outra.

─ Também senti muita falta de você, sabe disso.

─ Também senti. Foi horrível não ter a colega de apartamento.

Ambas riram outra vez. Enquanto caminhavam juntas, Natasha saia que Isabella não estava mais zangada. O brilho da angústia toldara-se um pouco nos olhos da amiga.

─ Quase caí dura quando você disse que estava transferindo a empresa. O que disseram em Roma?

─ O mesmo que você. O único que achou maravilhoso foi Bernardo. Ele sabia que eu estava certa ao fazer isso. Vai ser uma loucura durante algum tempo. Tenho milhões de coisas para fazer. ─ Gemeu só em pensar.

─ Eu ajudarei.

─ Você não está em East Hampton? ─ Todos pareciam bronzeados e saudáveis devido a um mês ao sol.

─ Estou, mas posso deixar os meninos com Hattie.

Isabella assentiu.

─ Certo.

Tinha algumas arestas a aparar com Natasha. O caso com Corbett não importava mais tanto assim. Talvez a intenção de Natasha tivesse sido boa. Mas não importava. Isabella não queria saber. O assunto estava encerrado entre elas. Dessa vez não havia nenhum Rolls-Royce, apenas a limousine comum que Natasha às vezes alugava e que levara Isabella àquela pré-estréia desastrosa em abril. Isabella sorriu para ela. Parecia que mil anos tinham se passado.

Foram para o apartamento. Os meninos abriram os embrulhos, gritando e rindo, experimentando suéteres e chapéus bizarros, jogando com novos jogos e brincando com seus brinquedos. Finalmente, sorrindo com timidez, Isabella ofereceu um embrulho a Natasha.

─ Este é para você.

─ Ora, Isabella. Que tolice é essa?

─ Não interessa. Abra.

Era o requinte da alta costura da nova coleção de inverno, lançada em junho. Um vestido azul, de cashmere macio, com um casaco azul combinando. Natasha ergueu-o diante do espelho, cheia de admiração.

─ É magnífico.

─ Combina com seus olhos. ─ Das camadas de papel, Isabella retirou uma echarpe e um chapéu. ─ Pode usá-lo para almoçar com seu editor.

─ Essa não! Por que desperdiçar com ele?

─ Então pode usar para almoçar comigo. No Lutece.

Natasha olhou-a fixamente.

─ Vai sair outra vez?

Isabella confirmou com um gesto de cabeça.

─ Agora já está tudo bem. Já está na hora.

Corbett estivera certo, pensou, sua prisão não durara para sempre. Apenas dez meses, embora lhe parecesse uma vida inteira.

Pela manhã, Natasha e os meninos voltaram para East Hampton e Isabella foi trabalhar. Desta vez não ia telefonar para Roma, mas para quatro corretores de imóveis que a levaram de uma extremidade à outra da Park Avenue e de cima a baixo da Quinta Avenida. Em uma semana, Isabella já tinha lugar para um escritório temporário, contratara cinco secretárias bilíngües, alugara montes de equipamento e encomendara telefones. Não era o ideal, mas um começo.

No final da segunda semana, ela encontrou o que procurava. No alto do mais elevado arranha-céu da cidade, dois andares para a Casa de San Gregorio, com vista para toda a cidade de Nova York.

Para encontrar o apartamento, ela levara mais tempo, mas, no final de duas semanas de procura, ela estava de pé, numa cobertura da Quinta Avenida, olhando o panorama. Lá estava o movimento circular do Central Park aos seus pés, o rio Hudson mais além e a silhueta da cidade à sua esquerda, tendo pela frente o sul. O apartamento em si era espaçoso e encantador. Tinha quatro quartos, um para ela mesma, outro para Alessandro, um quarto de hóspedes e outro que Isabella poderia usar como gabinete de leitura, duas dependências de empregada, uma sala de jantar enorme com lareira, uma sala de estar dupla e um amplo corredor e vestíbulo que a faziam lembrar-se vagamente da casa de Roma. O corretor ficara observando-a atentamente.

─ Gostou?

─ Ficarei com ele.

O edifício possuía um exército de porteiros e auxiliares, mais do que no edifício de Natasha, doze quarteirões ao sul. No dia seguinte, Natasha veio de East Hampton para vê-lo.

─ Meu Deus, Isabella, que vista! ─ Isabella estava de pé, orgulhosa, em seu novo terraço. Haveria lugar, inclusive, para o carrossel, se ele conseguisse sobreviver às neves de inverno de Nova York. ─ Quando vai mudar?

─ Bem, ontem telefonei para a empresa de mudanças. O navio chega amanhã. Estava pensando no próximo sábado. Tenho que acabar logo com isso, assim posso voltar para trabalhar.

Seus auxiliares de confiança, de Roma, já haviam chegado e todos estavam ansiosos para começar e pôr mãos à obra.

Mas Natasha pareceu triste de repente.

─ Tão cedo? ─ Isabella sacudiu a cabeça. ─ Isso é horrível. Sentirei muito sua falta. E Jason diz que ficará com medo de dormir sozinho no quarto.

─ Ele pode vir nos visitar todo fim de semana ─ Isabella sorriu-lhe.

─ Sinto-me como se estivesse me divorciando de novo.

─ Mas não está não.

Durante o calor intenso de uma tarde de setembro, as duas mulheres olhavam uma para a outra, e Isabella decidiu afinal mencionar o assunto doloroso. Devia isso à amiga.

─ Devo-lhe uma desculpa, Natasha.

No mesmo instante, Natasha compreendeu do que Isabella estava falando, mas sacudiu a cabeça e olhou ao longe.

─ Não, não me deve.

─ Devo-lhe sim. Não compreendo o que realmente aconteceu. Eu estava zangada com Corbett. Mas errei ao agredi-la. Não sei se você tentou me ajudar, ou não, mas isso não importa. Se o fez, foi levada por boas intenções. Eu sei. E sinto muito tudo o que disse.

Mas agora Natasha olhou-a intensamente.

─ Você está errada a respeito dele.

─ Isso jamais saberei.

─ Poderia conversar com ele, deixar que ele lhe contasse. Poderia ao menos dar-lhe essa oportunidade.

Isabella apenas sacudiu a cabeça.

─ Nada dura eternamente. Nem o bom. Nem o ruim. Corbett disse-me isso no começo. Ele tinha razão.

─ Ele ainda a ama. ─ Natasha pronunciou as palavras suavemente.

─ Então você o tem visto?

Isabella procurou os olhos da amiga. Natasha confirmou com a cabeça.

─ Ele compreende o que aconteceu. Talvez melhor do que você. Desde o princípio ele receava esse desfecho. O único erro que ele cometeu foi não lhe contar logo.

─ Agora não faz diferença. Está acabado.

Sentindo-se infeliz, Natasha sabia que Isabella falava sério. Para ela, estava acabado. Mas não para Corbett ou para o menino. Mas Natasha não disse nada, e Isabella não falou mais de Corbett até essa tarde. Ela contava para Alessandro a respeito do apartamento.

─ Você está dizendo que posso ter meu carrossel?

─ Claro que sim. Já telefonei para Roma.

─ Mamma!... Mamma! Espere até Corbett ver ele.

Seus olhos cintilavam e, por um instante, tudo parou. Isabella olhou-o de modo estranho, depois sacudiu a cabeça.

─ Ele não o verá, querido.

─ Ele vai ver sim! Ele é meu amigo.

Uma expressão de desafio luzia nos olhos escuros de Alessandro. Ninguém dissera nada a ele, mas o menino sentira uma brecha entre sua mãe e seu amigo. Alessandro não gostou. De jeito nenhum. Podia afirmar isso pelo modo como Corbett falava de sua mãe. Como se ele a temesse. Como se ela estivesse morta.

─ Eu o convidarei para ver o carrossel. ─ Ergueu os olhos para a mãe, com uma expressão de desafio, mas a voz de Isabella tornou-se áspera.

─ Não, Alessandro, você não vai convidá-lo.

─ Vou sim. Prometi a ele, neste verão.

─ Prometeu? Quando?

─ Quando vi ele na praia. Ele também estava em East Hampton.

Então Isabella virou-se rápido e foi à procura de Natasha. Mais uma vez encontrou-a em seu escritório, com uma xícara de café na mão, lendo uma página nova. Isabella fechou a porta com violência após entrar. Natasha deu um pulo com o ruído, depois olhou com atenção para a amiga como se ela tivesse perdido o juízo.

─ O que há?

A expressão de Isabella era estranhamente conhecida, mas antes que Natasha pudesse reconhecê-la, a amiga começou a esbravejar.

─ Por que não me disse? Que ele estava em East Hampton durante o verão, grudado em Alessandro, tentando reaproximar-se de mim!

Natasha levantou-se, com as mãos na cintura. Desta vez não seria condescendente.

─ Alessandro precisa dele, Isabella. E Corbett não está tentando aproximar-se de você. Pare com essa paranóia, pelo amor de Deus! O que há com você? Acha que todo mundo quer roubar sua maldita empresa, todo mundo está usando você e seu filho?

─ Mas estão, droga! Tiraram meu marido também.

─ Eles tiraram. Eles. Pessoas loucas, que queriam dinheiro. Mas isso terminou, Isabella. Terminou! Agora ninguém está procurando prejudicá-la.

─ Pouco me importa. Não quero aquele homem perto do meu filho.

─ Está enganada. Mas diga isso a ele, não a mim.

─ Mas você sabia! Sabia como me sentia quando fui para Roma.

─ Pensei que recobrasse o juízo, que passasse por cima disso tudo.

─ Não vou passar por cima de nada. Já recobrei o juízo. No minuto em que Bernardo mencionou o nome dele. Não quero aquele homem ao lado de Alessandro novamente. ─ Depois saiu do escritório de Natasha batendo a porta.

Foi para o seu quarto e, com mão trêmula, pegou no telefone. Ele apressou-se em atender.

─ Isabella? Aconteceu alguma coisa?

─ Muita coisa. E quero vê-lo. Agora! É possível?

─ Estarei aí em meia hora.

─ Ótimo. Encontrarei com você lá embaixo.

Ela não queria que Alessandro o visse. Consultou o relógio do quarto, e 25 minutos depois desceu. Quatro minutos mais tarde, o Rolls Royce parou na porta do prédio. Corbett estava sozinho no carro. Ele desceu e abriu a porta para ela. Isabella entrou discretamente no carro, mas quando Corbett começou a virar a ignição, ela fez um gesto rápido com a mão, exibindo o anel que ganhara de Bernardo.

Ele notou e compreendeu no mesmo instante o que a jóia significava. Ele queria dizer-lhe que era bonito, que ela estava linda, que ainda a amava, mas Isabella não lhe deu oportunidade.

─ Não se incomode, Corbett. Não vou a canto algum com você. Mas não queria falar lá em cima, onde Alessandro poderia nos ouvir.

Preocupado, o rosto dele retesou-se.

─ O que aconteceu?

─ Quero que se afaste do meu filho. Ficou claro? Quero você fora da vida dele, total, permanente e completamente. Estou farta dos seus estratagemas... influenciando meus amigos, meus assistentes, em minha empresa, e agora meu filho. Quanto aos outros, tinha o direito de fazer; como conduz seus negócios, só compete a você saber. Mas quando me usa pessoalmente ou meu filho, Corbett, então está se envolvendo numa guerra que só pode perder. Se tornar a se aproximar do menino, se lhe mandar presentes, se tentar vê-lo ou falar com ele, ou se deixá-lo telefonar para você, chamarei a policia e meu advogado. Eu o processarei por estar nos molestando. Tomarei seus negócios e o verei na cadeia. Molestar um menor, tentativa de seqüestro, estupro, chame como quiser, mas fique totalmente afastado do meu filho!

Ela gritava tão alto que o porteiro a teria ouvido se Corbett não tivesse tomado a precaução de fechar os vidros do carro.

Ele ficou olhando-a por um instante, não acreditando no que ouvia. Depois, foi dominado pela raiva.

─ É isso o que acha que estou fazendo, Isabella? ─ perguntou. ─ Usando o menino para tomar a me aproximar de você? É o que pensa? É mesmo? Como você é pretensiosa, arrogante e incrivelmente imbecil! Meses atrás, eu lhe disse que devia continuar com sua empresa, disse que minhas ofertas tinham sido retiradas. Apaixonei-me e, para falar a verdade, sentia enorme pena de você. Trancada como um animal, com medo de todo mundo, não confiando em ninguém. Você passou um período de infortúnio na vida, Isabella. E o mesmo aconteceu com o menino. Ele perdeu o pai; está tão solitário como você. E quer saber de uma coisa? Amo aquele menino. É uma criança maravilhosa. E ele precisa de mim. Precisa muito mais do que você! Você é uma maldita máquina. Sua empresa, sua empresa, sua empresa! Estou farto de ouvir isso. Agora me deixe em paz e saia imediatamente do meu carro!

Antes que Isabella pudesse responder, ele já descera do carro de um salto, contornara a frente do Rolls Royce e segurava a porta aberta para ela, enquanto ela, aturdida, descia.

─ Espero que me tenha feito entender por você. ─ Ela olhou-o com expressão de frieza.

─ Completamente ─ respondeu ele. ─ Adeus.

Corbett voltou para o carro e, antes que ela tivesse entrado no edifício, ele já havia partido.

 

─ Demoro a me organizar sempre que mudo de local, Natascha, mas do jeito como eles estão demorando para se organizar nos novos escritórios, não terei que me preocupar com isso novamente até o ano que vem. Vão levar séculos.

─ Tolice. Há quanto tempo já estão ali? ─ Ela esboçou um largo sorriso para Isabella. ─ Duas semanas?

Isabella retribuiu o sorriso.

─ Seis.

─ Paciência, paciência!

─ Uma virtude pela qual jamais fui conhecida.

─ Você está aprendendo.

Ela aprendera muito no ano que passou.

─ Que tal a sensação de sair outra vez?

─ Magnífica. ─ Em seguida, ficou séria. ─ Mas um pouco estranha. Continuo aguardando que algo aconteça. Algo horrível. Algo inevitável. Que a imprensa faça explodir seus flashes no meu rosto, em seguida as ameaças, os telefonemas dos maníacos.

─ E tem havido tais telefonemas?

Isabella sacudiu a cabeça, esboçando um lento sorriso.

─ Não, só das repórteres da Women's Wear Dady, que desejam saber o que estou comendo ou o que vou vestir. Mas leva muito tempo para se esquecer o pesadelo, Natasha. Um tempo muito, muito longo.

Pelo menos ela já não aguardava mais que Amadeo voltasse para casa à noite. Levara um ano.

─ O que me faz lembrar de uma coisa. ─ Voltou seus pensamentos para algo alegre. ─ Quero que jante comigo amanhã à noite. Está ocupada?

─ É claro que não. O homem com quem gastei minhas energias durante o verão acaba de voltar para a esposa. O miserável!

Isabella exibiu um largo sorriso, e ambas disseram juntas:

─ Nada permanece eternamente.

A suave iluminação rosada animava os rostos conhecidos, rostos que geralmente se viam nas revistas de modas ou nas capas do Fortune ou do Time. Estrelas de cinema, magnatas, editores, autores, empresários. Os muito bons naquilo que faziam e os muito ricos porque simplesmente o eram. As mesas estavam colocadas juntas, as chamas das velas sobre as toalhas cor-de-rosa dançavam na brisa suave que vinha do jardim e os diamantes de todos pareciam cintilar, enquanto os rostos esfuziantes conversavam e riam. O Lutece jamais esteve tão encantador.

Como entrada, pediram caviar, filé mignon e salmão escaldado para cada uma. Meia garrafa de vinho tinto para Isabella e meia de branco para o peixe de Natasha. A salada constava de palmito e endívia e, como sobremesa, morangos grandes e lindos. Isabella parecia à vontade e feliz, quando de repente Natasha notou seu vestido.

─ O que houve?

Isabella olhava com atenção para a amiga, mas esta apenas ficou sentada ali, com uma expressão de espanto nos olhos.

─ Durante o ano inteiro você se assemelha a uma freira ou a um espantalho e, de súbito, muda completamente e eu nem sequer comentei!

Isabella apenas sorriu. O período de luto oficial terminara e, nessa noite, pela primeira vez, ela usava o mais suave tom de malva e branco. O traje era composto de um tubinho branco de gabardine, criação sua e, por cima dele, uma túnica malva de cashmire macio, com os brincos de ametistas e diamantes que certa vez emprestara a Natasha.

─ Gostou? É novo.

─ Da mesma coleção daquela minha maravilha azul? ─ Isabella confirmava com a cabeça ao mesmo tempo em que Natasha inclinava-se para ela, confidenciando: ─ No outro dia liguei o ar-condicionado só para que eu pudesse usá-lo pela casa.

─ Não se preocupe. Logo estará frio o suficiente para usá-o.

Isabella estremeceu, já pensando no longo inverno de Nova York que dava a impressão de não acabar nunca.

─ Você está linda ─ disse Natasha. Contudo, havia um lampejo de algo muito triste nos profundos olhos de ônix da amiga. ─ Estou contente porque tudo acabou, Isabella.

Imediatamente lamentou o que disse, porque, sob certos aspectos, ela sabia que não estava acabado. Jamais acabaria. A perda de Amadeo sempre pesaria no coração de Isabella.

─ Nem acredito que já tenha se passado um ano. ─ Isabella levantou os olhos do café, com uma expressão pensativa. ─ Sob certos aspectos, dá a impressão de que ele se foi para sempre. Em outros, parece que foi ontem apenas. Mas, para mim, é mais fácil suportar aqui do que em Roma.

─ Você tomou a decisão certa.

Isabella tornou a sorrir.

─ O tempo dirá.

Continuaram conversando por mais uma hora, a seguir cada uma foi para sua casa, Natasha para um apartamento que agora lhe parecia vazio, Isabella para a sua cobertura nova. Ela despiu-se tranqüilamente, colocou a camisola, foi beijar Alessandro, já adormecido em sua cama. Depois meteu-se pacificamente debaixo das cobertas de sua cama e apagou a luz. Eram seis horas da manhã seguinte quando foi acordada, sobressaltada, pelo telefone.

─ Alô?

─ Ciao, Bellezza.

─ Bernardo! Sabe que horas são? Eu estava dormindo. Já está entediado?

Bernardo partira para Corfu pouco depois que ela retornara a Nova York.

─ Entediado? Está louca! Adoro isto aqui. ─ A voz dele adquiriu um tom sóbrio no mesmo instante. ─ Isabella, querida... tive de telefonar. Tenho de ir a Roma.

─ Já? ─ Ela soltou uma risada. ─ Já vai voltar para trabalhar? Foi rápido.

─ Não, não é nada disso.

─ Houve uma pausa enquanto Bernardo revestia-se de coragem para contar-lhe. Gostaria de estar ao lado dela e não em uma ilha a milhares de quilômetros de distância, olhando desamparado para o telefone.

─ Ontem recebi um telefonema. Esperei até me telefonarem de novo esta manhã, até que tivessem certeza.

─ Quem, pelo amor de Deus? ─ Ela levantou-se da cama e bocejou, sonolenta. Era sábado, e ela contara dormir até meio-dia. ─ Você não está sendo coerente.

─ Eles os pegaram, Isabella.

─ Quem pegou o quê? ─ Ela agora franzia a testa, e sentiu o sangue gelar de repente no momento em que compreendeu. ─ Os seqüestradores?

─ Todos eles. Eram três. Um deles falou bastante. Está tudo terminado, Isabella. Está terminado, cara.

Ao ouvi-lo, subitamente ela começou a chorar e a sacudir a cabeça.

─ Terminou no ano passado ─ disse.

Não sabia se ficava feliz ou triste agora. Não fazia mais nenhuma diferença. Amadeo morrera. E capturar os homens que o mataram não iria trazê-lo de volta.

─ Temos de ir a Roma. A polícia tornou a me telefonar esta manhã. Eles têm permissão especial de acelerar o julgamento. Que será dentro de três semanas.

─ Eu não vou. ─ Ela parou de chorar. Estava mortalmente pálida.

─ Você precisa, Isabella. Precisa. Eles necessitam do seu depoimento.

─ Nardo... Não! Não posso.

─ Pode sim. Estarei com você.

─ Não quero vê-los.

─ Nem eu. Mas devemos isso a Amadeo. E a nós mesmos. Você não pode ficar de fora, Isabella. E se acontece alguma coisa, se forem libertados? Pode deixar que isso aconteça com outras pessoas?

Diante de suas palavras, os acontecimentos de um ano atrás voltaram a assaltá-la. Então aquele maldito Corbett mentira para ela. Continuava sempre. Não terminava nunca. Nunca!

Ela chorava de novo ao telefone.

─ Isabella, pare com isso. Está quase acabado.

─ Não está.

─ Prometo-lhe, cara. Está. Só mais esta última coisa e, depois, você pode deixar o caso para trás, para sempre. A polícia me pediu que telefonasse para você, acham que seria um choque menor se você soubesse por mim ─ continuou. ─ Acham que o julgamento não levará mais de uma semana. Você pode ficar na Casa.

─ Não vou.

Agora a voz dele estava firme:

─ Vai, sim, Isabella. Você vai.

Depois de desligar, ela sentou-se na cama. Via as imagens que apagara da mente durante o ano que passou; a de ficar aguardando na sala de estar em seu vestido verde de noite, vigiando o relógio no console da lareira; a de Alessandro com a mão cheia de biscoitos naquela mesma noite. Em seguida o telefonema, a visita a Alfredo Paccioli para vender suas jóias, Amadeo ao telefone, dizendo-lhe para ser corajosa. Ela fechou os olhos bem apertados, procurando não gritar. Com mão trêmula, pegou no telefone outra vez e discou o número de Natasha. Quando a sonolenta Natasha respondeu, Isabella já estava histérica.

─ Quem? Quem fala? Isabella! O que há? Querida, fale comigo... Isabella?... Por favor... ─ disse Natasha.

─ Eles os pegaram... os seqüestradores... e tenho de... ir ao julgamento... em Roma...

─ Estarei aí agora mesmo.

Com o rosto enterrado nos travesseiros, Isabella afugentou as imagens e largou o telefone.

 

Do aeroporto, dirigiram-se direto para a Casa de San Gregorio, indo à grande velocidade através de Roma. Era aquela época milagrosa do ano outra vez, ainda ensolarada e quente, embora com brisas frias, céu azul sem nuvens. Meados de outubro. Outrora tinha sido a época do ano favorita de Isabella. Ela estava sentada no carro em completo silêncio, usando um costume cinza e um chapéu da mesma cor. Bernardo mal podia ver-lhe os olhos, ocultos pela aba e voltados para as mãos dela, cruzadas firmemente no colo.

─ O julgamento começa amanhã, Bellezza. Agiu certo ao vir.

Isabella lançou-lhe então um olhar cansado, e ele retraiu-se diante da dor que viu estampada tão nitidamente naqueles olhos.

─ Estou cansada de fazer o que é certo. O que isso importa agora?

─ Importa. Confie em mim.

Ela segurou a mão dele. Depois de todo esse tempo, de todas as discussões e acusações, ela confiava.

Havia alguns fotógrafos aguardando-a na porta, mas Bernardo foi conduzindo-a entre eles, e ambos passaram rapidamente pela Casa, até a cobertura, onde ele colocou suas valises e serviu um copo de vinho para os dois.

─ Como foi a viagem?

─ Correu tudo bem.

─ E Alessandro?

─ Louco da vida por eu ter partido, mas está ótimo.

─ Contou-lhe o motivo da viagem?

Ela assentiu lentamente com a cabeça.

─ Contei. Eu não ia, mas Natasha disse que eu devia lhe contar. Assim ele não ficaria mais com medo.

─ O que ele disse?

Ela parecia espantada.

─ Ficou feliz. Mas não compreendia por que eu tinha de vir. Nem eu.

Isabella bebeu mais pouco do vinho e olhou para Bernardo, bronzeado e parecendo anos mais moço após o mês que passara em Corfu.

─ Você compreendeu e sabe disso. E quanto ao escritório?

─ Está tudo ótimo. ─ Pela primeira vez ela sorriu para ele, tirando o chapéu cinza.

─ E quanto a você? ─ Bernardo lançou-lhe um olhar penetrante.

─ O que essa pergunta deve significar?

─ Tem visto alguém? Já faz mais de um ano agora. Está na hora de começar a sair.

Ele finalmente veio a aceitar aquilo que jamais haveria entre eles e a tratar com carinho o que tinham.

─ Cuide da sua própria vida. ─ Ela olhou ao longe, para os telhados de Roma.

─ Por que deveria? Você não cuida da sua. E quanto ao Corbett Ewing?

─ E quanto a ele o quê? ─ Lançou um olhar aturdido para Bernardo. ─ O que sabe sobre nós?

─ Não foi difícil de calcular. Sua reação violenta sobre a F-B e o modo como falou naquele dia quando mencionei o nome de Ewing ao telefone. Nunca ouvi você tão zangada.

─ Nunca fiquei tão zangada realmente. Mas achei que ele havia me seduzido de propósito, só para botar as mãos na San Gregorio.

─ É o que acha agora?

Ela deu de ombros.

─ Isso não importa mais. Não o tenho visto, de jeito nenhum.

─ Ele a seduziu? ─ A voz de Bernardo soou muito macia.

─ Não é da sua conta. ─ Depois, ela moderou o tom. ─ Por um momento pensei que estivéssemos apaixonados. Mas enganei-me, é só. Jamais teria dado certo, de qualquer maneira.

─ Por que não?

─ Porque... oh, droga, não sei, Bernardo. Talvez porque sejamos diferentes. Talvez porque eu já esteja casada com meu trabalho. Além disso, jamais será como foi com Amadeo. E não quero partir meu coração ou o de outra pessoa, descobrindo.

Olhou-o com expressão de tristeza. Ele sacudiu a cabeça.

─ Então quer destruir-se, é isso? Aos 33 anos, resolve confinar-se. Perde Amadeo, e então desiste de viver.

─ Não desisti de viver! Tenho Alessandro e a empresa.

Olhou para Bernardo com expressão de desafio, mas ele não o aceitou.

─ Para uma vida isso não é muito. Deu pelo menos uma chance ao Ewing de contar-lhe o que aconteceu, para descobrir se o que pensa é verdade?

─ Já disse, isso não interessa. Ah, sim, eu o vi uma vez quando voltei de Roma.

─ E o que aconteceu?

─ Nada. Disse a ele para se afastar de Alessandro. Descobri que, enquanto estive aqui, Natasha tinha deixado Corbett ver o menino. ─ Deixou escapar um suspiro brando e esboçou um sorriso amargo. ─ Eu disse a ele que, se voltasse a se aproximar de nós, eu chamaria meu advogado e a polícia e mandaria prendê-lo por molestar Alessandro... algo assim.

─ Você enlouqueceu? O que ele disse?

─ Mandou-me sair imediatamente do carro dele.

─ Fez muito bem. Eu a teria posto para fora com um pontapé. Pelo amor de Deus, Isabella, no que esteve pensando?

─ Não sei... em mim mesma... Amadeo... alguma coisa. Eu disse a você, está acabado. Não teria dado certo.

─ Não mesmo, se é dessa maneira que você tem se comportado. ─ Ele serviu-se de outro copo de vinho.

─ Natasha o vê, é claro. São velhos amigos.

─ Ela contou a ele sobre o julgamento?

Bernardo olhava-a de modo estranho, mas Isabella apenas deu de ombros.

─ Não sei. Talvez. Em todo caso, estava nos jornais. Vou lhe dizer uma coisa, ficarei contentíssima quando voltar a ver meu nome unicamente na seção de modas.

─ Esse dia chegará. Depois desta semana, estará tudo terminado. Agora durma um pouco. Apanharei você pela manhã.

─ Beijou-a gentilmente no rosto e deixou-a sentada ali, bebendo o restante do seu vinho.

 

─ Va bene?

Bernardo olhou-a com ar preocupado, assim que Isabella desceu do carro. Hoje usava um vestido preto, porém, desta vez, sem meias pretas. Era um vestido preto de lã, de mangas compridas, com sapatos e bolsa de crocodilo, e um chapéu pequeno e discreto. Usava apenas suas pérolas e o anel que Bernardo lhe dera da última vez em que partira de Roma.

─ Você está bem, Isabella? ─ perguntou ele.

Estava tão pálida que, por um momento, ele receou que ela desmaiasse nos degraus do tribunal.

─ Estou ótima.

Ele pegou-a pelo braço. Num instante, a barragem começou. Fotógrafos, câmeras de TV, microfones, loucura.

Houve um retrospecto de toda aquela época feia. Ela apertava fortemente a mão dele e, um momento depois, estavam no interior do tribunal, aguardando numa salinha anexa à sala de audiência do juiz. Ele a deixara disponível só para ela.

Ficaram ali durante o que pareceu a Isabella o mesmo que horas, até que um guarda uniformizado entrou e acenou para ela. Apoiando-se firmemente em Bernardo, sentindo as pernas duras, ela o seguiu para a sala do tribunal, desviando os olhos da longa mesa onde se encontravam os acusados, procurando não olhar para eles, não desejando vê-los. Bernardo sentiu-a trêmula quando Isabella sentou-se.

O depoimento das testemunhas foi longo e penoso: a secretária de Amadeo, o porteiro e, finalmente, dois funcionários da San Gregorio que tinham visto os dois homens entrarem.

Foi explicada a história sobre o carro, e Bernardo pôde ver um dos homens demonstrar embaraço. A seguir mais depoimento do médico-legista, dois funcionários subalternos, e, depois, finalmente, terminou; a corte não voltaria a se reunir depois do almoço. Devido à natureza dolorosa do julgamento e em consideração à viúva do signore di San Gregorio. O julgamento seria adiado até a manhã seguinte.

O juiz ordenou aos guardas que retirassem os acusados. Quando se levantaram, prontos para serem levados sob escolta, Bernardo ouviu Isabella soltar um grito abafado. Eram homens comuns, usando roupas simples, homens que ela nunca vira, mas que, de repente, estavam ali, diante dela, os homens que haviam tirado a vida de Amadeo. Isabella empalideceu ainda mais

─ Tudo bem, Isabella, tudo bem ─ disse ele, sentindo-se impotente para acalmá-la. ─ Ela precisava de algo que mesmo ele não poderia lhe dar. ─ Venha, vamos embora agora. Às cegas, ela deixou-se levar. Em um momento, foram cercados outra vez por um tumulto nos degraus da frente do prédio.

─ Signora di San Gregorio, viu os acusados?... Como eram eles ... Lembra-se?... Pode-nos contar?...

Alguém arrebatou-lhe o chapéu. Ela corria e chorava, protegida por dois guarda-costas e Bernardo, até que finalmente alcançaram o carro. Ela jogou-se nos braços de Bernardo, soluçando, o caminho todo até a casa. Ele levou-a rapidamente para a cobertura e amparou-a até o sofá.

─ Quer que chame um médico?

─ Não... não... mas não me deixe... ─ começou ela, no momento em que o telefone tocou.

Isabella sentou-se imediatamente ereta, com uma expressão de terror no olhar. Não conseguiria passar por aquilo outra vez, não agüentaria.

─ Diga-lhes para não transferirem ligações cá para cima.

Mas Bernardo já atendera e falava em voz baixa. Ela não podia ouvir o que ele dizia. Por fim, ele olhou para ela, sorriu e assentiu. Em seguida, sem maiores explicações, passou-lhe o telefone e deixou a sala.

─ Isabella? ─ A princípio, ela não reconheceu a voz. Depois, seus olhos arregalaram-se. ─ Corbett? ─ Mas não podia ser!

Mas a voz respondeu:

─ Eu mesmo ─ acrescentando ─ e não desligue. Ou, pelo menos, ainda não.

─ Onde você está?

O rosto dela estava impassível; dava a impressão de que ele estava ali com ela, na mesma sala.

─ Estou aqui embaixo, Isabella, mas não precisa me ver. Se quiser, vou embora.

─ Mas por quê? E por que agora, quem diria!

─ Vim para roubar a empresa. Lembra-se de mim?

─ Sim, lembro de você. Eu... eu lhe devo uma desculpa... pelo que disse em seu carro. ─ Ela sorria ao telefone.

─ Você não me deve nada. Nem desculpa, nem a empresa, nada. Nada a não ser dez minutos do seu tempo.

Ocorreu-lhe uma idéia então, e ela ficou espantada. Bernardo! Teria pedido a Corbett para vir?

─ Veio a Roma para me ver, Corbett?

Ele respondeu:

─ Vim. Calculei o que devia estar passando. Pensei que talvez precisasse de um amigo. ─ Depois: ─ Isabella, posso subir?

Um instante depois, ela abria a porta para ele. Não falou. Seus olhos escuros estavam cansados e vazios. Lentamente, ela estendeu a mão.

─ Como vai, Corbett?

Era igual ao começo. Ele apertou-lhe a mão solenemente e acompanhou-a até a sala.

─ Gostaria de um copo de vinho?

Ela sorria agora ao olhar para ele. Corbett precisou usar todo o seu autocontrole para não tomá-la nos braços. Ele sacudiu a cabeça e deu uma olhada pelo aposento.

─ É seu escritório?

─ Não, é um apartamento que mantemos para hóspedes importantes. ─ Em seguida, olhou-o com ar infeliz e sentou-se, a cabeça baixa. ─ Oh, Corbett, como eu gostaria de não estar aqui! ─ Ele sentou-se ao lado de Isabella, demonstrando-lhe solidariedade.

─ Lamento que tenha de passar por isto, mas, pelo menos, foram apanhados. Pelo menos, agora você não vai ficar imaginando o que aconteceu com eles e se um dia voltariam a atacar de novo.

─ Acho que sim. Mas pensei que tivesse me livrado disso tudo.

Ele limitou-se a sacudir a cabeça. Queria dizer a ela que isso é uma coisa que não se pode fazer realmente. Não se consegue apagar uma lembrança. Ou negar uma perda irreparável. Pode-se embaçá-la, pode-se remediá-la, pode-se preencher uma lacuna com outra coisa.

─ Isabella... ─ ele parou por um momento ─ ...posso ficar lá com você amanhã?

Ela olhou-o, horrorizada.

─ No julgamento? ─ Ele confirmou. ─ Mas por quê?

Então ele era curioso? Era isso? Ele era igual aos outros? Foi por isso que veio? Olhou-o com desconfiança, e ele pegou em sua mão.

─ Quero estar lá com você. Foi por isso que vim…

Desta vez ela concordou, compreendendo, enquanto ele apertava estreitamente a mão dela na sua.

 

Na manhã seguinte, ela desceu do carro com um guarda-costas à sua frente e outro atrás, com Corbett de um lado e Bernardo de outro. Juntos, avançaram a custo através da multidão, Isabella de cabeça baixa, o rosto oculto pela aba do chapéu preto. Momentos depois, estavam na sala do tribunal e o juiz tinha entrado e chamado Alfredo Paccioli, o joalheiro, para depor no banco das testemunhas.

─ E a signora di San Gregorio levou para o senhor suas jóias? Todas?

─ Todas ─ murmurou Paccioli.

─ O que deu a ela em troca? Deu alguma coisa? ─ O promotor estava pressionando, e novamente Paccioli confirmou.

─ Dei a ela todo o dinheiro que tinha no escritório na ocasião. E consegui mais trezentos mil dólares com comerciantes conhecidos meus. Também prometi a ela uma quantia igual na semana seguinte.

─ E o que ela lhe disse?

Corbett sentiu Isabella enrijecer ao seu lado, e ele voltou-se ligeiramente para observá-la. Seu rosto estava pálido, quase branco.

─ Ela disse que não bastava, mas que levava.

─ Ela lhe disse por que precisava do dinheiro?

─ Não. ─ Paccioli parou, incapaz de prosseguir. Quando falou de novo, sua voz era quase um sussurro. ─ Mas desconfiei. Ela... ela... parecia... destroçada... desanimada... assustada...

Ele teve de parar, enquanto as lágrimas inundavam suas faces coradas. Seus olhos encontraram-se com os de Isabella. Ela chorava também.

O juiz anunciou um recesso.

O depoimento continuou de maneira angustiante por mais três dias. Finalmente, na manhã do quinto dia, o juiz olhou para Isabella com uma expressão pesarosa no olhar e pediu-lhe que ocupasse o banco das testemunhas.

─ A senhora é Isabella di San Gregorio?

─ Sou. ─ Sua voz foi um sussurro trêmulo, seus olhos quase maiores do que seu rosto.

─ É a viúva de Amadeo di San Gregorio, que foi seqüestrado do seu escritório em 17 de setembro e assassinado em...

O promotor apurou a data certa. Forneceu-a, e Isabella, com um gesto de cabeça, confirmou tristemente.

─ Sou a viúva sim.

─ Pode nos contar, de maneira ordenada, o que aconteceu naquele dia? A última vez que o viu, o que fez, o que soube?

Passo a passo, ela fez a recapitulação minuciosa: sua chegada à casa naquela manhã, o assunto que discutiram, o aviso de Bernardo, como Amadeo e ela ficaram perturbados, mas puseram o aviso de lado. Ela olhou rapidamente para Bernardo. Havia lágrimas em seus olhos, e ele olhou em outra direção. Com angústia, Corbett prestava atenção nos trabalhos, fazendo votos para que Isabella tivesse energia para prosseguir.

Durante dias, agora, ele ficara observando-a e ouvindo-a, levando-a de volta para a San Gregorio todas as tardes e conversando com ela até a noite. Mas não dissera nada de natureza intima, nunca a tocara, exceto gentilmente com os olhos. Ele viera a Roma como amigo, sabendo que esses dias seriam os mais dolorosos, que, ao reviver o acontecimento, finalmente ela ficaria livre. Mas sabendo também que esse julgamento poderia abatê-la, que ela poderia não querer nada com ele mesmo se sobrevivesse à prova. De qualquer modo, ele viera, esteve ali com ela, como estava agora, por ela mesma..

─ E quando percebeu que seu marido estava atrasado?

─ As... não sei... talvez às sete e meia.

Contou sobre o momento em que fora interrompida por Alessandro. Em seguida, em agonia, continuou explicando que chamou Bernardo, que ficou aguardando, que de repente sentiu medo. E, depois, o telefonema. Começou a descrevê-lo, mas desesperou-se e não pôde continuar. Ficou ofegante por um instante, esforçando-se para obter ar e serenidade, mas, de súbito, as lágrimas caíram pelas suas faces.

─ Eles... eles disseram que tinham... meu marido. ─ Era uma palavra sufocada pronunciada entre uma arfada e um grito estridente. ─ ...que eles o matariam... e... me deixaram falar com ele, e Amadeo disse...

Bernardo olhou para o juiz com ar infeliz, mas ele apenas assentiu com a cabeça. Era melhor se ela acabasse com tudo de uma vez. Tinham que prosseguir.

─ E então o que a senhora fez?

─ Bernardo... o signore Franco... chegou. Conversamos. Mais tarde, naquela mesma noite, chamamos a polícia.

─ Por que mais tarde? Os seqüestradores lhe disseram que não chamasse?

Ela tomou fôlego e continuou:

─ Sim, mais tarde. Mas, a princípio receei que, se eu chamasse a polícia, minhas contas seriam congeladas e eu não poderia de jeito nenhum obter o dinheiro. E elas foram congeladas, é claro. ─ Ela parecia amarga ao dizer isso.

─ Foi por essa razão que tentou vender suas jóias?

Ela olhou para Paccioli, sentado no fundo da sala, e confirmou. Ele chorava sem reservas.

─ Foi. Eu teria feito qualquer coisa... qualquer coisa...

O maxilar de Corbett retesou-se, e ele e Bernardo trocaram um olhar aflito.

─ O que aconteceu em seguida? Depois de ter conseguido o dinheiro? Entregou-o aos seqüestradores, embora fosse uma quantia menor do que a exigida?

─ Não cheguei a entregar. Eu ia fazer isso. Ia contar a eles. Foi na noite de segunda-feira, e eles queriam o dinheiro para a terça-feira. Mas... ─ ela recomeçou a tremer ─ ... mas eles telefonaram... estava... estava... ─ Estampou-se uma expressão de horror em seu rosto, e os olhos procuraram por Corbett e Bernardo. ─ Não posso! Não posso continuar!

Ninguém se mexeu. O juiz falou gentilmente com ela e insistiu para que terminasse, se pudesse. Ela aguardou um instante, soluçando, enquanto um guarda trazia-lhe um pouco de água. Ela bebeu um pequeno gole e continuou:

─ Estava nos jornais que eu fora à loja de Alfredo. Alguém disse a eles. ─ E, ao pronunciar estas palavras, lembrou-se do rosto da moça. ─ Os seqüestradores então souberam que minhas contas haviam sido congeladas. Que tínhamos chamado a polícia. ─ Ficou sentada muito ereta e fechou os olhos.

─ E que lhe disseram na vez seguinte que falou com eles?

Ela sussurrou, os olhos fechados:

─ Que iam matá-lo.

─ Foi só o que disseram?

─ Não. ─ Ela tornou a abrir os olhos, como se estivesse diante de uma visão, como se ela própria estivesse agora muito longe. As lágrimas corriam-lhe pelas faces. Ela olhou para o teto. ─ Disseram que eu poderia... ─ Sua voz estava sumindo quando tornou a baixar os olhos. ─ ...me despedir de Amadeo... E... eu me despedi. Ele me disse... ele me disse... para ser corajosa só mais um pouquinho, que tudo ficaria... bem... que ele me amava... eu disse que o amava... e depois...

Às cegas, ela ficou olhando fixamente para a sala do tribunal.

─ E então o mataram. Na manhã seguinte, a polícia encontrou-o morto.

Enquanto permaneceu ali sentada, ela ficou inerte, relembrando aquele momento, a sensação, e o último som da voz de Amadeo, que parecia desaparecer gradualmente no momento em que a voz dela também se extinguia. Em silêncio, Isabella olhou para os três acusados do assassinato de Amadeo e, ainda chorando, ela sacudiu a cabeça.

O juiz fez um rápido sinal para Bernardo. A parte de Isabella no julgamento estava terminada. Ele queria que ela fosse retirada.

Compreendendo, Bernardo levantou-se. Corbett seguiu-o juntamente com o promotor até o banco das testemunhas, onde estenderam a mão para Isabella, que os olhava sem entender.

─ Eles o mataram... eles o mataram... Bernardo... ─ Sua voz foi um pavoroso grito de dor na sala do tribunal... ─ Ele está morto!

Seu grito chegara à parte externa do tribunal. Enquanto Corbett e Bernardo amparavam Isabella em direção à saída, cujas portas se abriram de par em par, os fotógrafos precipitaram-se sala adentro.

─ Vamos, Bernardo! ─ Subitamente Corbett estava em plena ação, envolvendo Isabella em seus braços. ─ Afastem-se e, seus cretinos.

Bernardo e os dois guarda-costas avançavam a custo através do rebuliço. O juiz, aos gritos, exigia ordem e os auxiliares tentavam retirar a imprensa. A sala do tribunal assemelhava-se a um matadouro, e Isabella continuava chorando, enquanto a multidão aturdida os observava.

De algum modo, conseguiram chegar ao carro de Isabella finalmente; as portas se fecharam e os três se comprimiram no banco traseiro enquanto o carro se afastava a toda velocidade e os repórteres continuavam gritando e os cliques das câmeras se sucediam.

Isabella desabou no peito de Corbett.

─ Acabou, Isabella. Acabou, querida... acabou.

Ele repetiu muitas vezes que havia acabado, enquanto Bernardo, abalado, os observava. Ele lamentava ter dito a ela para fazer a viagem. Errara, mas os olhos de Corbett não o censuravam, nem mesmo quando chegaram à Casa di San Gregorio e uma nova multidão de repórteres aguardava por eles.

Bernardo olhava para aquela gente com horror, e Isabella começava a derramar novas lágrimas. Corbett lançou um olhar para a multidão e falou rapidamente com o motorista:

─ Não pare aqui. Prossiga. ─ Olhou para Bernardo. ─ Vamos levá-la para o meu hotel.

Furioso, Bernardo assentiu com a cabeça, achando que a única coisa sensata que fizera ultimamente foi ter chamado Corbett Ewing, pedindo-lhe que viesse.

Cinco minutos depois, estavam em sua suíte do Hassler, e Isabella fitava-os com expressão arrasada.

─ Tudo acabou agora ─ disse Corbett. ─ Jamais terá de passar por uma coisa dessas outra vez.

Ela assentiu lentamente, como uma menina que tivesse acabado de ver sua família morrer num incêndio. Bernardo olhava-a com ar penalizado.

─ Lamento, Bellezza.

Porém ela já estava mais controlada enquanto o observava e inclinava-se para a frente, a fim de beijá-lo no rosto.

─ Esqueça. Talvez agora esteja realmente terminado. O que acontecerá àqueles homens?

─ Se conseguirem viver tempo suficiente para saírem da sala do tribunal, saberão que foram considerados culpados e presumo que sentenciados à prisão perpétua ─ respondeu Bernardo maldosamente, e Corbett concordou com um gesto de cabeça.

Mas, em seguida, levantou-se e dirigiu-se ao telefone. Falou em voz baixa e voltou um instante depois para consultar os outros.

─ Acho que deveríamos partir para Nova York no próximo vôo. Pode ir, Isabella? Ou tem algum trabalho a fazer?

Ela sacudiu a cabeça, meio entorpecida, e a seguir ergueu os olhos para ele.

─ E as minhas coisas?

Mas Bernardo já estava de pé agora.

─ Vou buscá-las.

Corbett assentiu com a cabeça.

─ Ótimo! Você pode encontrar-se conosco no aeroporto em uma hora?

Bernardo, respondeu concordando e olhou para Isabella.

─ Está tudo bem com você?

─ O julgamento já terminou?

Ambos confirmaram. O depoimento principal fora dado e nunca houve dúvidas quanto ao resultado. Foi uma ofensa capital. Os homens que levaram Amadeo e o mataram seriam punidos.

─ Terminou, Isabella. Pode ir para casa agora.

Casa. Bernardo referia-se a Nova York como sua casa. Pela primeira vez, ela percebeu que era mesmo. Ela não pertencia mais a Roma. Não pertencia mais, depois do dia de hoje, depois desta semana, depois do que acontecera. Seus olhos procuraram os de Corbett, após Bernardo deixá-los e ele trancar a porta. Ela ficou observando-o enquanto ele fechava sua valise, e depois veio sentar-se por um instante ao lado dela.

─ Obrigada por estar aqui. Eu... foi tão horrível... pensei que fosse morrer... O que me deu forças para prosseguir foi saber que eu tinha de contar o fato, precisava ir até o fim, deixar sair tudo... ─ Olhou para ele de novo. ─ E eu sabia que daria conta de tudo contanto que você estivesse ali. ─ Em seguida, ela precisou perguntar: ─ Foi Natasha quem o mandou?

Mas ele sacudiu lentamente a cabeça. Não esconderia mais nada.

─ Bernardo me chamou.

─ Bernardo? ─ Ela parecia chocada. Depois, sacudiu a cabeça. ─ Capisco.

─ Está zangada?

Sua voz soou muito gentil quando sorriu para ele.

─ Não.

Desta vez, ele também sorriu. Olhou-a por um longo momento, sentando-se bem perto dela no sofá.

─ Há certas coisas sobre as quais precisamos falar, mas, neste exato momento, vamos para o aeroporto pegar nosso avião. Está com o seu passaporte? Se Bernardo desencontrar-se de nós, poderá mandar sua bagagem no próximo vôo.

─ Meu passaporte está na bolsa.

─ Então vamos.

Estendeu-lhe a mão, e ambos se levantaram. A limousine já os aguardava. Não havia nenhum papparazzi. Não tinham nenhum interesse por Corbett Ewing, hospedado no Hassler. Estavam ocupados demais na San Gregorio.

Uma hora mais tarde, Bernardo foi encontrá-los no aeroporto, cinco minutos antes de pegarem o avião. Isabella agarrou-se fortemente a ele por um último momento.

─ Grazzie, Nardo, grazzie. ─ Ele também abraçou-a estreitamente por um instante, em seguida empurrou-a para o avião.

─ Vejo você em março! ─ Foram suas últimas palavras, enquanto Corbett acenava-lhe e eles embarcavam.

Quando Roma ficou reduzida lá embaixo, Corbett observava silenciosamente, olhando pela janela, por cima da asa do aparelho. Finalmente, ela virou-se para ele e introduziu sua mão na dele. Mas ele não podia esperar mais. Contemplou-a com uma expressão preocupada nos olhos.

─ É muito cedo para lhe dizer que a amo?

Sua voz era apenas um sussurro que mal chegava aos ouvidos dela. Enquanto o olhava, Isabella esboçou um sorriso que foi se espalhando lentamente até seus olhos.

─ Não, querido, nunca foi cedo demais.

Trocaram um beijo longo e ávido enquanto a aeromoça esperava para servir-lhes champanha. Ela derramou o líquido espumante nas taças e Isabella, apanhando a sua, lançou um olhar longo e penetrante para os olhos de Corbett. Então, suavemente, sussurrou enquanto erguia seu corpo:

─ Para sempre, meu amor... para sempre, enquanto dure.

 

                                                                                Danielle Steel  

 

                      

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