Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Amargo e Doce Amor / Danielle Stel
Amargo e Doce Amor / Danielle Stel

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Amargo e Doce Amor

 

          

 

Índia Taylor tinha a máquina fotográfica apontada para o exército endiabrado de miúdos de nove anos que corriam pelo terreno relvado, depois do jogo de futebol que haviam disputado com entusiasmo.

 

Quatro tombaram uns sobre os outros numa confusão de braços e pernas e ela sabia que, algures, lá pelo meio, se encontrava o seu filho Sam. Não conseguiu, porém, avistá-lo enquanto tirava uma série infindável de fotos. Prometera fotografar a equipa, como era hábito, e adorava estar ali, numa quente tarde de Maio, em Westport.

 

Ia com os filhos a todo o lado: futebol, basebol, natação, ballet, ténis. E não o fazia apenas por uma questão de dever, mas porque gostava. A sua vida era um desfile constante de idas e vindas para o colégio e actividades extracurriculares, apimentada com visitas ao ortopedista e ao pediatra, sempre que as crianças estavam doentes ou precisavam de exames médicos.

 

Com quatro filhos entre os nove e os catorze anos, sentia-se como se vivesse no carro e passasse os Invernos a varrer a neve com a pá para poder tirá-lo da garagem e descer o acesso.

 

Índia Taylor adorava os filhos e o marido. A vida tratara-os bem e, embora não fosse isto o que inicialmente esperara dela, achava que se lhe adequava melhor do que julgara. Os sonhos que um dia partilhara com Doug já não eram relevantes para a vida como agora a conheciam, para as pessoas em quem se haviam tornado ou o lugar aonde tinham ido parar, desde o encontro de ambos, há vinte anos, no Corpo da Paz, na Costa Rica.

 

A existência que agora levavam era a que Doug desejara, a visão que idealizara para eles, o porto aonde queria chegar. Uma casa grande e confortável em Connecticut, estabilidade para ambos, um lar cheio de filhos, um retriever labrador, ° que se lhe adequava na perfeição.

 

Doug apanhava todos os dias, para ir para o trabalho, o comboio das sete e cinco na estação de Westport. Via os mesmos rostos, falava com as mesmas pessoas, ocupava-se das mesmas contas no escritório. Trabalhava para uma das mais importantes empresas de publicidade do país e tinha um bom ordenado. Contudo, dinheiro não era algo que dantes a tivesse preocupado muito, nada mesmo, fora igualmente feliz a abrir valas de irrigação e a viver em tendas na Nicarágua, Peru e Costa Rica.

 

Adorara esses tempos, a excitação, os desafios, a sensação de que estava a fazer algo pela raça humana. Os perigos ocasionais que eventualmente tinham de enfrentar pareciam revigorá-la.

 

Começara a tirar fotografias muito antes dessa época, na adolescência, ensinada pelo pai, que era então repórter do The New York Times e passara muitos anos da infância dela longe, em perigosas missões em zonas de guerra.

 

índia não só gostava das suas fotografias, como de ouvi-lo contar histórias. Em criança, ambicionava levar uma vida assim, um dia, e os sonhos tornaram-se realidade quando ela própria começou a trabalhar como free-lancer para alguns jornais, quando estava no Corpo da Paz.

 

As missões levavam-na até às montanhas e punham-na cara a cara com tudo, desde bandidos a guerrilheiros. Nunca pensava nos riscos que corria. O perigo nada significava aos seus olhos e, na verdade, apreciava-o. Gostava das pessoas, dos sítios, dos cheiros, da enorme alegria do que fazia, e da sensação de liberdade que a invadia nessas alturas.

 

Mesmo depois de terem deixado de trabalhar com o Corpo da Paz e de Doug haver regressado aos EUA, ela permaneceu vários meses na América Central e do Sul, e depois seguiu para fazer reportagens em África e na Ásia. Acertava sempre no alvo. Onde quer que houvesse problemas, pelo menos durante algum tempo, índia encontrava-se lá, a tirar fotografias. Estava-lhe na alma e no sangue, como nunca fora o caso de Doug. Para ele, tratara-se de algo excitante com que se ocupar antes de assentar para a «vida real», mas para índia era esta a vida real e o que, de facto, desejava.

 

Vivera dois meses com um exército de insurrectos na Guatemala e regressara com fotografias espantosas, lembrando as do pai, com as quais obtivera não só elogios a nível internacional como vários prémios pela sua perspicácia e coragem.

 

Mais tarde, ao recordar-se desses dias, tinha consciência de que nessa altura era diferente, uma pessoa em quem por vezes pensava, interrogando-se sobre o que lhe acontecera. Para onde fora essa mulher, esse espírito livre e selvagem, transbordante de paixão? índia ainda a localizava, mas também se apercebia de que já não a conhecia. A sua vida era agora tão diferente que deixara de ser essa pessoa.

 

Às vezes, no escuro do quarto e quando a noite ia adiantada, perguntava a si própria como podia sentir-se satisfeita com uma existência tão diferente da que a apaixonara. No entanto, sabia, sem sombra de dúvida, que adorava a vida que levava com Doug e as crianças, em Westport. O que agora fazia era tão importante como o seu antigo trabalho. Não experimentava uma sensação de sacrifício, de ter abdicado de algo de que gostava, mas de haver feito uma troca por algo muito diferente. Os benefícios sempre lhe tinham parecido proveitosos. «O que fazia pela família era muito importante para Doug e para as crianças», dizia de si para si, e disso estava segura.

 

Contudo, ao olhar para as suas antigas fotografias, não podia negar que tivera uma paixão pelo que fizera nessa altura. Algumas das recordações eram muito nítidas. Ainda se lembrava da imensa excitação, da desagradável sensação de saber que corria riscos e da emoção de captar o momento perfeito, aquela explosiva fracção de segundo em que tudo se unia, por um instante, no que via através da máquina fotográfica.

 

Nunca vivera nada igual e, quanto mais não fosse, estava contente por tê-lo feito. Sabia que herdara esses genes do pai, que morrera em Da Nang quando índia tinha quinze anos, depois de ganhar um Pulitzer no ano anterior, e fora fácil para a jovem seguir-lhe as pisadas. Era um curso que não pudera nem quisera abandonar, as mudanças chegaram mais tarde.

 

Voltou a Nova Iorque um ano e meio depois de Doug ter regressado, altura em que ele lhe fez finalmente um ultimato. Dissera-lhe que, se ela quisesse um futuro ao lado dele, era melhor «que mexesse o traseiro de volta a Nova Iorque» e deixasse de arriscar a vida no Paquistão e no Quénia.

 

Por um breve momento foi uma decisão dura. Sabia que nesses países a esperava uma vida muito semelhante à do pai, talvez mesmo um Pulitzer, mas também estava ciente dos riscos, talvez lhe custasse a vida, como a ele, e, em certa medida, o casamento. O único interesse do pai residia nos momentos em que arriscava tudo pela fotografia perfeita, com bombas a explodirem à sua volta. No entanto, Doug recordava-lhe que, se ela o quisesse e pretendesse alguma normalidade na vida, teria de fazer uma opção, mais cedo ou mais tarde, e desistir da sua actividade actual.

 

Aos vinte e seis anos casou com Doug e trabalhou dois anos para The New York Times, mas o marido estava ansioso por ter filhos.

 

Quando Jessica nasceu, cerca de três anos depois, índia desistiu do emprego no jornal, mudou-se para Connecticut e abandonou definitivamente a sua antiga vida. Era o acordo que fechara. Ao casarem, Doug deixara bem claro que, depois de nascerem filhos, ela teria de abdicar da carreira.

 

índia concordara. Achara que nessa altura estaria pronta a fazê-lo. Via-se, porém, obrigada a admitir que deixar o Times e tornar-se mãe a tempo inteiro, fora mais difícil do que esperara.

 

No início, sentiu muito a falta do trabalho, mas, por fim, apenas esporadicamente recordava o passado com nostalgia, mas acabou por nem sequer ter tempo de o fazer. Com quatro filhos em cinco anos, mal conseguia aguentar-se economicamente ou arranjar tempo para pôr um rolo na máquina fotográfica. A sua vida resumia-se a guiar, mudar fraldas, fazer de enfermeira, e suportar gravidezes umas a seguir às outras.

 

As duas pessoas que viu com mais frequência foram o obstetra e o pediatra e, obviamente, as outras mulheres com quem se cruzava todos os dias e que tinham vidas iguais à sua, apenas em função dos filhos.

 

Várias delas também haviam abdicado das carreiras ou mostravam-se dispostas a adiar as suas vidas de adultas até os filhos serem um pouco mais velhos, como no caso dela.

 

Eram médicas, advogadas, escritoras, enfermeiras, artistas, arquitectas e todas tinham desistido das profissões para cuidar dos filhos.

 

Algumas estavam sempre a queixar-se, mas índia, embora sentisse a falta do trabalho, não se importava, de facto, com a opção feita. Gostava de tratar dos filhos, mesmo quando acabava o dia exausta, com outro bebé a caminho, e Doug chegava a casa tarde de mais para a ajudar.

 

Era a vida que escolhera, uma decisão que tomara, um acordo a cumprir, e também não lhe agradaria ter de deixar a companhia dos filhos para ir trabalhar. Ocasionalmente ainda fazia uma reportagem próximo de casa, meia dúzia de vezes em todos aqueles anos, mas não lhe restava tempo para mais, como há muito explicara ao seu agente.

 

O que ela não soubera, nem entendera totalmente, antes de Jessica nascer era quanto iria afastar-se da sua antiga existência. Por comparação com a vida que levara, a tirar fotografias de guerrilhas na Nicarágua, de crianças moribundas no Bangladesh ou de inundações na Tanzania, nunca fizera ideia de como esta seria diferente, nem de como ela própria se tornaria também diferente. Sabia que tinha de fechar a porta sobre estes primeiros capítulos da sua vida e fizera-o, independentemente dos prémios que ganhara, da excitação que sentira ou do seu talento.

 

Na sua mente, e sobretudo na de Doug, desistir era o preço que se vira obrigada a pagar para ter filhos. Não existia qualquer outra forma de o fazer.

 

Algumas das mulheres que conhecia ainda conseguiam jogar com as oportunidades. Várias eram advogadas e iam à cidade duas ou três vezes por semana, só para não perderem o hábito, e outras eram artistas e trabalhavam em casa. Havia ainda escritoras que se debatiam com a escrita entre a mamada da meia-noite e a das quatro da manhã, mas acabavam por desistir, tão cansadas se sentiam.

 

No entanto, índia não tinha hipótese de continuar a sua carreira, como dantes a vivera. Mantinha-se em contacto com o seu agente, mas as reportagens que fazia de vez em quando, a cobertura de festas sociais em Greenwich, nada significavam aos seus olhos. Além de que Doug nem sequer essas tarefas gostava que ela cumprisse.

 

Usava, em vez disso, a máquina fotográfica como uma espécie de utensílio materno, registando sem cessar os primeiros anos dos filhos, tirando fotografias aos das amigas, ou ainda por brincadeira, como neste momento em que via Sam e os amigos a jogarem futebol.

 

Não havia outra forma, estava acorrentada de pés e mãos, emparedada, enraizada na sua vida de mil maneiras, umas visíveis e outras não. Era este o acordo que ela e Doug haviam selado, o que tinham dito que queriam, índia cumprira a sua parte do compromisso, mas andava sempre com a máquina fotográfica, à vista, ou pendurada no ombro, não conseguia imaginar-se sem ela.

 

Ocasionalmente ponderava em trabalhar de novo depois de os miúdos crescerem, talvez dali a cinco anos, quando Sam estivesse no liceu, mas de momento tratava-se de algo impossível, ele tinha apenas nove anos, Aimee onze, Jason doze e Jessica catorze. A sua vida era um imparável carrossel de desportos pós-escolares, barbecues e lições de piano.

 

A única maneira de chegar para tudo era nunca parar, nunca pensar em si própria nem se sentar cinco minutos. Apenas descansava um pouco quando iam para Cape Cod, no Verão. Doug passava lá três semanas com eles, todos os anos, e também os fins-de-semana.

 

A família adorava as férias em Cape Cod. Ela tirava sempre fotografias fantásticas e conseguia arranjar um pouco de tempo só para si. Tinha um laboratório em casa, tal como em Westport, e podia passar horas lá dentro, enquanto os filhos visitavam amigos, iam à praia, ou jogavam voleibol e ténis.

 

Em Cape Cod conduzia menos, pois os miúdos iam de bicicleta para todo o lado, o que lhe deixava mais tempo livre, sobretudo nos últimos dois anos, pois Sam já não necessitava de tantos cuidados. A única coisa sobre que se interrogava, de vez em quando, era até que ponto ela própria crescera.

 

Havia alturas em que se sentia culpada por nunca conseguir ler e ter deixado de se interessar pela política. Era como se o mundo girasse sem ela. Perdera a noção de evolução e tudo se resumia a uma questão de cozinhar, levar e trazer os miúdos de carro e acompanhá-los nos estudos. Recentemente, nada havia na sua vida que a fizesse sentir mais adulta.

 

Nos últimos catorze anos, desde que Jessica nascera, a rotina de índia quase não mudara, resumia-se a trabalho, sacrifício e compromisso. No entanto, o resultado final era palpável, estava à vista, tinha filhos saudáveis e felizes. Viviam num pequeno mundo familiar, que girava por completo à volta deles. Nada de mau, inseguro ou desagradável os perturbou, e o pior que lhes aconteceu resumiu-se à discussão com o filho de um vizinho, ou a um trauma devido a um trabalho de casa por fazer. Nunca conheceram a solidão por que ela passara em criança, com um pai constantemente ausente, nunca lhes havia faltado cuidado e atenção. O pai vinha jantar todas as noites a casa, facto muitíssimo importante para ela, pois conhecia perfeitamente o reverso da medalha.

 

Os filhos de índia viviam num universo diferente do das crianças que ela fotografara há duas décadas, a morrerem de fome em África, sofrendo danos impensáveis em países subdesenvolvidos, onde a sua sobrevivência se punha diariamente em causa, fugindo dos inimigos ou vítimas de agressões naturais como doenças e inundações. Os seus filhos nunca conheceriam uma vida dessas e sentia-se grata que assim fosse.

 

índia observou o mais novo a desembaraçar-se da pilha de miúdos que havia caído em cima dele, marcar um golo e acenar à mãe.

 

índia sorriu, a máquina voltou a disparar e regressou lentamente até ao banco, onde algumas das outras mães estavam sentadas a cavaquear. Nenhuma observava o jogo, tão entretidas estavam na conversa, aquilo era tão rotineiro para elas que raras vezes observavam com atenção o que os filhos faziam, estavam simplesmente ali, como o banco em que se sentavam, faziam apenas parte do cenário.

 

Uma delas, Gail Jones, ergueu os olhos quando índia se aproximou e sorriu ao vê-la. Eram velhas amigas e enquanto índia tirava um rolo novo do bolso, Gail arranjava espaço para que ela se sentasse. As folhas tinham finalmente voltado a nascer nas árvores e toda a gente se mostrava de bom humor. Gail estendeu-lhe um copo de plástico com café e sorriu. Era um ritual entre ambas, sobretudo nos Invernos gelados sempre que iam ver os filhos a jogar à bola, no chão coberto de neve, e tinham de bater com os pés e andar de um lado para o outro, durante o desafio, para se manterem quentes.

 

Mais três semanas e as aulas terminam, pelo menos este ano disse Gail com uma expressão aliviada e bebendo um gole de fumegante café. Odeio estes jogos, céus! Gostava de ter tido raparigas, nem que fosse só uma. Esta vida vai acabar por dar comigo em doida acrescentou sorrindo.

 

índia sorriu também, colocou o rolo de filme e fechou a máquina. Estava habituada às queixas de Gail, há nove anos que ela não parava de se lamentar por ter desistido da carreira de advogada.

 

Acredita que também irias cansar-te de as levar ao ballet. A ideia é a mesma, o fato diferente, mas há mais pressão retorquiu índia convicta.

 

Nessa Primavera, Jessica tinha, de facto, abandonado o ballet depois de oito anos e índia ainda não sabia se estava aliviada ou tinha pena. Sentiria a falta dos recitais, mas não de a levar de carro três vezes por semana. Jessica dedicara-se agora ao ténis com igual obstinação, mas pelo menos podia ir sozinha, de bicicleta, sem que índia precisasse de a acompanhar.

 

Pelo menos, as sapatilhas seriam bonitas insistiu Gail, pondo-se de pé e juntando-se a índia, depois do que começaram a andar devagar à volta do campo.

 

índia queria tirar mais fotografias de um ângulo diferente, para as oferecer à equipa, e Gail caminhava ao seu lado. Eram amigas desde que os Taylors se tinham mudado para Westport. O filho mais velho de Gail era da mesma idade de Jessica e tinha gémeos da idade de Sam.

 

Fizera uma pausa de cinco anos entre eles, a fim de voltar a trabalhar, mas acabara por desistir depois de ter os gémeos e agora achava que passara tempo de mais para poder sequer pensar no regresso à sua antiga firma de advogados. No que lhe dizia respeito, a sua carreira acabara, mas ela era cinco anos mais velha do que índia e, aos quarenta e oito, afirmava que já não queria ver-se enclausurada numa sala de tribunal.

 

Gail dizia que o que lhe faltava realmente eram conversas interessantes, mas, apesar das queixas, admitia ocasionalmente que era mais fácil deixar que o marido levasse a cabo as suas lutas diárias em Wall Street. À semelhança de Índia, a sua vida pautava-se por jogos de futebol e levar e trazer os miúdos, mas, contrariamente à amiga, estava muito mais disposta a admitir que aquela vida a aborrecia. E notava-se-lhe uma permanente inquietação.

 

Com que andas ocupada? perguntou Gail num tom afectuoso e terminando o café. Como vai a vida no paraíso da mamã?

 

O habitual respondeu índia, que tirou uma série de fotografias, ouvindo-a, distraída. Voltou a fazer um grande plano de Sam e mais outro quando os adversários marcaram um golo. Partimos para Cape Cod daqui a umas semanas, quando as aulas acabarem. Este ano, o Doug só pode juntar-se-nos em Agosto, o marido costumava tirar férias antes.

 

Nós vamos à Europa, em Julho anunciou Gail pouco entusiasmada e, por um breve momento, índia invejou-a.

 

Há anos que tentava convencer Doug a fazerem essa viagem, mas ele queria esperar até as crianças serem mais crescidas, embora índia argumentasse que, se esperassem muito mais, os filhos sairiam de casa, entrariam na faculdade e teriam de ir sem eles. No entanto, até agora não conseguira demovê-lo. Contrariamente a índia, ele não gostava muito de viajar para longe de casa, os seus dias de aventura tinham terminado.

 

Deve ser divertido comentou índia, virando-se para a olhar.

 

As duas mulheres formavam um contraste interessante. Gail era baixa e cheia, de cabelo preto e curto e olhos castanho-escuros, cor de chocolate quente. Índia era alta e magra, com feições clássicas, olhos azuis e uma comprida trança loura, que lhe pendia sobre as costas. Dizia que a usava assim por nunca ter tempo de a pentear. Caminhando lado a lado, ofereciam uma imagem muito atraente e nenhuma delas parecia ter já ultrapassado os quarenta.

 

E a que sítio da Europa? quis saber índia, interessada.


Itália e França e uns dias em Londres. Não é propriamente a grande aventura ou uma viagem de alto risco, mas é fácil, com os miúdos. O Jeff adora ir ao teatro em Londres. Alugámos uma casa na Provença, durante umas semanas em Julho, e vamos dar uma volta de carro por Itália e levar as crianças a Veneza.

 

Aos ouvidos de índia soava como uma viagem maravilhosa e a mundos de distância do seu preguiçoso Verão, em Cape Cod.

 

Ficaremos umas seis semanas por lá prosseguiu Gail, mas não sei se o Jeff e eu nos aguentaremos juntos tanto tempo, para já nem falar dos rapazes. Ele endoidece depois de dez minutos com os gémeos.

 

A amiga referia-se sempre ao marido como as pessoas falam de companheiros de quarto irritantes, mas índia tinha a certeza de que, apesar de toda aquela resmunguice, Gail o amava realmente. Acreditava que era assim, malgrado as provas em contrário.

 

Estou certa de que tudo correrá bem, terás muito que ver garantiu, embora estar dentro de um carro com dois gémeos de nove anos e um rapaz de catorze durante largos períodos de tempo também não fosse a imagem de um paraíso para índia.

 

Nem sequer posso conhecer um italiano simpático, com os miúdos atrás de mim e o Jeff na peugada, a pedir-me que lhe traduza tudo.

 

índia riu-se ante o retrato pintado por Gail e abanou a cabeça. Uma das evasões da amiga era falar de outros homens e às vezes mais do que falar. Confiara-lhe muitas vezes que tivera vários romances nos vinte e dois anos de casamento com Jeff, mas surpreendera-a com a observação de que, estranhamente, tal servira para o melhorar. Era uma forma de «melhoria» para que índia nunca se sentira atraída, nem aprovava. No entanto, gostava muito de Gail, apesar das suas imprudências.

 

Talvez a Itália torne o Jeff mais romântico sugeriu índia, pendurando a imprescindível máquina ao ombro e baixando os olhos para a impulsiva amiga, que, outrora, fora o terror das salas de tribunal.

 

Índia não tinha dificuldade em imaginar o quadro. Gail Jones não deixava que ninguém lhe tirasse o tapete e muito menos o marido. Era, porém, uma amiga leal e, apesar de todas as queixas, uma mãe dedicada.

 

Acho que nem mesmo uma transfusão de um gondoleiro veneziano tornaria Jeff Jones romântico. Além de que termos as crianças connosco vinte e quatro horas por dia não vai ajudar. A propósito, ouviste dizer que os Lewinsons estão separados?

 

índia acenou com a cabeça. Nunca se interessava muito pela coscuvilhice local, andava demasiado ocupada com os filhos e o marido. Tinha um punhado de amigos a quem dava atenção, mas as excentricidades da vida dos outros, e a consequente curiosidade a esse respeito, passavam-lhe ao lado.

 

O Dan convidou-me para almoçar acrescentou. Este novo dado mereceu um olhar de Índia e Gail sorriu,

 

maliciosa.

 

Não me olhes assim. Ele só quer um conselho jurídico de graça e um ombro onde chorar.

 

Deixa-te de conversas redarguiu Índia, a quem não faltava sofisticação, mesmo sem se envolver nos escândalos locais, além de que conhecia bem o prazer de Gail em flirtar com os maridos das outras. Dan sempre gostou de ti.

 

Também gosto dele. E daí? Sinto-me aborrecida. Ele está só, chateado da vida e infeliz. Um almoço não significa necessariamente uma relação escaldante. Acredita que nada tem de sexy ouvir um tipo queixar-se de quantas vezes Rosalie gritava com ele por ignorar os filhos e ir ao futebol aos domingos. Não está em condições para mais do que isso e ainda espera convencê-la a reconciliar-se. É um bocado complicado, mesmo para alguém como eu.

 

índia achava-a um pouco nervosa. Segundo Gail, há anos que Jeff não a excitava e índia sabia-o, não era nada que a surpreendesse. Jeff não era um homem sexy, mas ela nunca tinha, na verdade, perguntado a Gail o que, na opinião dela, era excitante.

 

O que queres, Gail? Para quê saíres com outra pessoa, mesmo que seja só para almoçar? O que lucras?

 

Ambas tinham maridos, vidas preenchidas, filhos que precisavam delas e ocupações bastantes para as afastarem de problemas, mantendo-as permanentemente ocupadas. Mas Gail provocava-lhe sempre a sensação de que procurava algo inacessível e ilusório.

 

Porque não? Almoçar com alguém de vez em quando, apimenta um pouco os meus dias. E, caso se transforme em algo mais, não é o fim do mundo. Aligeira-me o passo, faz com que me volte a sentir viva, torna-me algo mais do que apenas uma motorista e uma dona de casa. Nunca sentes a falta do passado? rematou, virando-se para índia e brindando-a com um olhar penetrante, como se estivesse a interrogar um réu na sala do tribunal.

 

Não sei respondeu índia honestamente. Nunca penso nisso.

 

Talvez fosse bom. Talvez um dia coloques a ti própria uma série de perguntas sobre o que não tiveste e o que não fizeste e devias ter feito. Talvez, mas, aos olhos de índia, enganar o marido após um almoço não parecia a resposta perfeita, bem longe disso. Sê franca. Nunca sentes a falta da vida que tinhas antes de te casares? insistiu Gail.

 

Os olhos davam a entender a índia que a amiga estava à espera de toda a verdade.

 

Penso nas coisas que costumava fazer, na vida que tínhamos antes... penso no trabalho... na Bolívia... no Peru... no Quénia. Penso em tudo o que fazia lá e o que isso significava para mim. Claro que às vezes sinto saudades. Foi óptimo e adorei, mas não sinto a falta dos homens que fizeram parte dessa época sobretudo por saber que Doug apreciava que tivesse desistido de tudo por ele.

 

Então, talvez tenhas sorte. Porque não voltas a trabalhar um destes dias? Com o teu currículo, poderias recomeçar quando quisesses. Não é como na advocacia, em que estou desactualizada e passei à história. Mas enquanto tiveres a tua máquina fotográfica, podes regressar à luta já amanhã. És doida em desperdiçar uma coisa dessas.

 

índia sabia, porém, o que fora a vida do pai e a deles, sempre à sua espera. Era algo mais complicado do que a perspectiva de Gail. Havia um preço a pagar por tudo isso, e era elevado.


Não é assim tão simples e sabes bem. O que hei-de fazer? Telefonar ao meu agente e dizer-lhe que me meta num avião para a Bosnia, amanhã de manhã? Doug e os miúdos iam adorar!

 

A ideia era tão impraticável que lhe dava vontade de rir. Sabia, tal como Gail, que esses dias estavam acabados para ela e, contrariamente à amiga, não precisava de provar a sua independência ou abandonar a família para o fazer. Amava Doug e os filhos, e sabia que o marido estava tão apaixonado quanto ela.

 

Talvez preferissem a ver-te aborrecida e rezingona. índia ficou surpreendida com este comentário e fitou Gail com uma expressão interrogativa.

 

Achas que sou rezingona?

 

Sentia-se por vezes um pouco só e talvez ocasionalmente nostálgica em relação ao passado, embora cada vez menos, mas nunca muito descontente com o que fazia. Por oposição a Gail, aceitava a vida que levara e ia ao ponto de a apreciar. Sabia, além disso, que os filhos não ficariam sempre crianças. Cresciam rapidamente e Jessica iniciara o secundário em Setembro. Podia pensar em regressar ao trabalho mais tarde, se Doug deixasse.

 

Penso que, de vez em quando, te sentes aborrecida como eu expressou-se Gail com honestidade, olhando-a e esquecendo momentaneamente os filhos. És boa desportista, mas desististe de muito mais do que eu. Se tivesses continuado, já terias ganho um Pulitzer e sabe-lo.

 

Duvido ripostou índia modestamente. Podia acabar como o meu pai, que tinha quarenta e dois anos quando morreu, abatido por um atirador. Só tenho mais um e ele era muito mais esperto e talentoso do que eu. É impossível manter esse tipo de vida para sempre. As probabilidades são contra, e bem o sabes.

 

Algumas pessoas conseguem. E, se vivermos até aos noventa e cinco, quem vai importar-se quando morrermos, excepto os nossos maridos e os filhos, índia?

 

Talvez seja bastante retorquiu esta, calmamente.

 

Gail estava a pôr-lhe questões que ela nunca se atrevia a enfrentar, embora tivesse de admitir que, no último ano, pensara, mais do que uma vez, que há anos que não fazia nada de brilhante, para já nem falar dos desafios que recusara. Tentara abordar o assunto com Doug uma ou duas vezes, mas ele respondia sempre que estremecia só de pensar nas coisas que haviam feito no Corpo da Paz. Ela sentia-se muito mais feliz agora.

 

Não tenho assim tantas certezas de que o que fizesse contribuiria para mudar o mundo prosseguiu. Será que interessa realmente quem é o autor das fotografias que se vêem da Etiópia, da Bosnia, de qualquer montanha, sabe-se lá onde, tirada dez minutos depois de um rebelde ser abatido? Há alguém interessado? Talvez o que faço aqui seja mais importante.

 

Era essa a sua crença actual, mas Gail pensava de forma diferente.

 

Talvez não ripostou esta sem rodeios. Talvez o importante seja que não és tu, mas outra pessoa que está lá a tirar essas fotografias.

 

Deixa lá! exclamou índia, inamovível.

 

Porquê? Porque há-de ser outra pessoa a ter esse gozo? Porque estamos presas aqui nestes malditos subúrbios a limpar sumo do chão, sempre que um dos miúdos o entorna? Que, por uma vez, seja outra pessoa a ocupar-se disso. Que diferença faz?

 

Acho que é importante para as nossas famílias que estejamos aqui. Que tipo de vida levariam, se eu estivesse algures numa lata velha de dois lugares, a sobrevoar as árvores com mau tempo ou a arriscar-me a ser abatida numa guerra de que ninguém ouviu falar nem se interessa? Faria diferença para os meus filhos, muita diferença.

 

Não sei bem redarguiu Gail com um ar infeliz, enquanto recomeçavam a andar. Nos últimos tempos, tenho pensado muito nisso, no porquê de estar aqui e no que faço. Talvez seja a mudança de idade, ou algo do género, ou simplesmente o facto de recear nunca mais voltar a apaixonar-me, de olhar para um homem sem que a minha respiração acelere. Talvez esteja a ficar louca por saber que, durante o resto da minha vida, JefF e eu vamos pensar que talvez não seja bem isto o que quiséssemos, mas é o que nos resta.

 

Era uma forma depressiva de fazer o balanço de vinte e dois anos de casamento e índia sentiu pena dela.

 

Sabes que é melhor do que isso. Pelo menos assim o esperava para bem de Gail, pois seria terrível, se não o fosse.

 

Ele é boa pessoa, mas é um chato e eu sou também uma chata. A nossa vida é aborrecida. Daqui a dez anos terei quase sessenta e será ainda pior. E depois?

 

Ficarás melhor quando viajares até à Europa, este Verão aventou índia, generosa, e Gail encolheu os ombros como resposta.

 

Talvez, mas duvido. Já lá estivemos antes. Jeff vai passar todo o tempo a criticar os condutores, em Itália, a dizer mal dos carros que alugarmos e a queixar-se do mau cheiro dos canais de Veneza. Ele pouco tem de romântico, sejamos honestas.

 

índia sabia que a amiga se casara com ele há vinte e dois anos porque já estava grávida, mas perdera o bebé três meses depois. Em seguida, passara mais sete anos a tentar engravidar, ao mesmo tempo que lutava por um lugar de topo na sua firma de advogados.

 

A vida de índia fora bastante mais simples do que a de Gail e a sua decisão de desistir da carreira menos angustiante. Nove anos após o nascimento dos gémeos, a amiga continuava a interrogar-se sobre se tomara a decisão certa. Pensara que estava preparada para o fazer e era óbvio que não.

 

Talvez o facto de almoçar com outros homens e ter casos esporádicos com alguns deles, seja a minha forma de compensação pelo que Jeff nunca me dará, pelo que não é e provavelmente nunca foi.

 

índia não pôde deixar de se interrogar sobre se aquelas ligações ainda tornavam a amiga mais insatisfeita quanto à vida que levava. Talvez procurasse algo que não existia ou não estivesse ao alcance delas, talvez Gail não quisesse pura e simplesmente admitir que, para elas, essa parte da existência acabara. Uoug também não regressava do trabalho com os braços cheios de rosas para lhe oferecer, mas índia não esperava essa reacção da sua parte. Aceitava e gostava do rumo que as suas vidas haviam tomado. Tal como ele.

 

Talvez nenhuma de nós volte a apaixonar-se loucamente, ou, se calhar, atingimos a fronteira retorquiu índia de forma prática, mas Gail parecia revoltada.

 

Uma treta! Se pensasse assim, morria ripostou. Temos esse direito em qualquer idade, todos têm. É esse o motivo por que Rosalie deixou Dan Lewinson. Apaixonou-se por Harold Lieberman e é por isso que Dan não a terá de volta. Harold quer casar com Rosalie, está doido por ela.

 

Foi por isso que ele deixou a mulher? surpreendeu-se índia e Gail acenou com a cabeça. Estou mesmo por fora, certo? Como é que tudo isso me passou ao lado?

 

Porque és boa, pura e uma mulher perfeita troçou Gail.

 

Há muito que eram amigas e podiam confiar uma na outra. Aceitavam-se incondicionalmente e índia nunca a criticava por causa dos homens com quem Gail dormia, embora não aprovasse nem entendesse o que a levava a fazê-lo. A única explicação residia em que ela tinha um vazio que nada parecia preencher nem havia preenchido em todos os anos que Índia a conhecera.

 

É isso realmente o que queres? Deixar JefF pelo marido de outra? Algo seria diferente?

 

Provavelmente nada admitiu Gail. É por isso que nunca o fiz. Além disso, acho que amo o Jeff, só que ele não me excita muito. Talvez seja melhor assim retorquiu índia, reflectindo nas palavras da amiga. Já tive excitação que chegasse no passado declarou num tom firme, como se tentasse convencer-se a si própria mais do que a Gail, mas, por uma vez, esta pareceu disposta a aceitar aquelas palavras como valor adquirido.

 

Se é verdade, tens muita sorte.

 

Ambas temos vincou índia, desejando poder fazer com que ela se sentisse melhor.

 

Continuava a pensar que almoços com Dan e outros homens do género não era solução. Aonde conduziam? A motéis entre Westport e Greenwich? E daí? índia nem sequer conseguia imaginar-se a dormir com outra pessoa. Depois de dezassete anos com Doug, não queria mais ninguém. Adorava a vida que ela e o marido partilhavam com os filhos.

 

Continuo a achar que desperdiças o teu talento espicaçou-a Gail, consciente de que era essa a única fenda na armadura de índia, o único assunto sobre o qual ela se atrevia ocasionalmente a questionar-se a fundo. Devias voltar ao trabalho um destes dias.

 

Gail sempre afirmara que índia tinha muito talento e que era um crime desperdiçá-lo, mas ela insistia em que podia sempre voltar mais tarde, se quisesse. Por agora, não dispunha de tempo nem lhe apetecia fazer mais do que reportagens ocasionais. Andava demasiado ocupada com os miúdos e não queria discutir com Doug.

 

Além disso, se voltar ao trabalho, ainda acabas por ir almoçar com o Doug disse, espicaçando a outra. Achas-me estúpida?

 

Ambas riram com a sugestão e Gail abanou a cabeça com um brilho divertido nos olhos.

 

Não tens nada a temer. Doug é o único homem que conheço capaz de ser ainda mais chato do que o meu marido.

 

Vou aceitar isso como um elogio a favor dele retorquiu índia, sem parar de rir.

 

Doug não era de forma alguma excitante ou sequer divertido, mas era um bom marido e um bom pai, e isso bastava. Era sensato, decente, leal e um bom chefe de família. Além disso, por mais aborrecido que Gail o achasse, índia amava-o, e não tinha o mesmo gosto do que a amiga por intriga e romance. Há anos que desistira dessas coisas e, antes de Gail poder fazer mais comentários, o apito soou, o jogo de futebol acabou e, segundos depois, Sam e os gémeos de Gail avançaram a toda a velocidade ao encontro delas.

 

Grande jogo! elogiou Índia com um sorriso de um canto ao outro da boca para Sam e, de certa forma, aliviada por terminar a conversa. A amiga levava-a sempre a sentir-se como se tivesse de se defender e ao casamento.

 

Perdemos, mamã! retorquiu Sam, fitando-a, depois abraçou-a e apertou-a com bastante força, evitando a máquina que lhe pendia do ombro.

 

Divertiste-te? perguntou índia, beijando-o no alto da cabeça.

 

Ele ainda tinha aquele cheiro maravilhoso de rapazinho, a ar livre, sol e sabonete.

 

Sim. Foi formidável. Marquei dois golos.

 

Então, foi um bom jogo.

 

Avançaram para o carro com Gail e os filhos desta, que iam comer gelados, e Sam queria acompanhá-los.

 

Não podemos, temos de ir buscar Aimee e Jason explicou, e Sam resmungou.

 

índia acenou à amiga quando entraram para a carrinha e ela ocupou o lugar atrás do volante. Fora uma conversa interessante, pois Gail ainda não perdera, sem dúvida, a prática do interrogatório.

 

Ao ligar o motor, índia observou o filho pelo espelho retrovisor. Parecia cansado, mas feliz. Tinha a cara toda suja e dava a sensação de que penteara o cabelo louro com uma batedeira de ovos, mas só de o olhar percebeu uma vez mais porque não estava na Etiópia ou no Quénia. Nada mais precisava do que aquela carinha suja para o explicar. Que importância tinha que a sua vida fosse chata?

 

Foram buscar Aimee e Jason ao colégio e dirigiram-se a casa. Jessica acabara de entrar, havia livros espalhados em cima da mesa da cozinha e o cão ladrava e abanava a cauda como um doido. Esta era a vida como a conhecia, como optara por vivê-la e deprimia-a a ideia de estar com outra pessoa que não Doug.

 

Era isto exactamente o que desejava. Se não bastava para Gail, pior para ela. Afinal, todos tinham de fazer o que achavam melhor para si próprios. Esta era a vida que índia escolhera e a sua máquina fotográfica podia esperar cinco ou dez anos, mas, mesmo então, sabia que não deixaria Doug para partir à aventura pelo mundo. Não é possível ter as duas coisas, há anos que o dizia. Fizera uma escolha, não estava arrependida e sabia também que Doug valorizava a sua atitude

 

O que é o jantar? perguntou Jason, gritando acima dos latidos frenéticos do cão e do barulho dos irmãos. Pertencia à equipa de atletismo e estava esfomeado

 

Guardanapos de papel e gelado, se vocês não saírem da cozinha e não me derem cinco minutos de sossego gritou índia, enquanto o filho pegava numa maçã e num pacote de batatas fritas e se dirigia ao quarto para fazer os trabalhos de casa.

 

Jason era um bom miúdo, esforçava-se muito nas aulas, tirava boas notas e saía-se bem no desporto, aliás, parecia-se com Doug e nunca lhes dera problemas. Começara a descobrir as raparigas no ano anterior, mas o seu maior feito nesse campo havia sido uma série de tímidos telefonemas. Era muito mais fácil lidar com ele do que com a sua irmã de catorze anos, Jessica, que índia sempre imaginava como uma futura advogada. A filha era a porta-voz da família a favor dos oprimidos e raramente hesitava em discutir com a mãe. Na verdade, adorava.

 

Lá para fora! ordenou índia, enxotando-os a todos, inclusive o cão, ao mesmo tempo que abria o frigorífico com uma expressão pensativa.

 

Nessa semana, já tinham comido hambúrgueres duas vezes e carne assada uma, e tinha de confessar que lhe faltava inspiração. Nesta altura do ano escolar, sentia-se incapaz de pensar em jantares criativos. Chegara a altura de barbecues, cachorros e costeletas na praia, em Cape Cod. Optou por dois frangos, meteu-os no microndas e começou a descascar maçarocas, como acompanhamento, sentada à mesa da cozinha, pensando no que Gail lhe dissera nessa tarde, sonhando acordada, como era seu hábito às vezes, e tentando concluir se lamentava ou não a carreira perdida. Contudo, passados todos estes anos, continuava a achar que tomara a decisão mais correcta.

 

Estava realmente convencida de que seria impossível continuar a viajar pelo mundo como jornalista, ou mesmo fazer reportagens locais, pois isso não seria a escolha certa para os filhos. Se Gail os achava uma chatice, o problema era dela. Doug não tinha essa opinião.

 

índia sorriu, pensando nele, ao mesmo tempo que deitava o milho numa panela com água e a punha ao lume. Tirou depois os frangos do microndas, temperou-os com manteiga e ervas aromáticas e meteu-os no forno. Agora, restava-lhe cozinhar arroz, fazer uma salada e o jantar estaria pronto como por magia. Fora-se esmerando ao longo dos anos e os seus cozinhados não eram requintados, mas rápidos, simples e saudáveis. Não tinha tempo para preparar refeições complicadas, dadas todas as suas outras tarefas e já era uma sorte não os levar a comer ao McDonald’s.

 

Acabara de pôr o jantar na mesa quando Doug entrou, parecendo um pouco enervado. Salvo qualquer problema no escritório, costumava chegar às sete em ponto. De uma ponta à outra, o seu dia de trabalho durava, por regra, doze horas, às vezes um pouco mais, mas ele aguentava bem. Beijou o ar próximo da cabeça dela, pousou a pasta, tirou uma Coca-Cola do frigorífico e depois ergueu o rosto e sorriu-lhe, índia sentiu-se feliz com a sua presença.

 

Que tal foi o teu dia? perguntou, limpando as mãos a uma toalha.

 

Farripas de cabelo louro-palha emolduravam-lhe o rosto e nunca pensava muito na sua aparência. Sentia-se feliz assim. Exibia um ar saudável e clássico e a trança ficava-lhe bem. Possuía uma boa pele e parecia ter trinta e cinco anos em vez dos seus quarenta e três. Era dona de uma figura esguia e elegante, muito adequada às camisas, camisolas de gola alta e calças de ganga, que eram o seu uniforme diário.

 

Doug pousou a Coca-Cola e alargou o nó da gravata.

 

Não foi mau, nada de especial. Tive uma reunião com um novo cliente respondeu. A sua vida profissional processava-se, na maioria dos dias, sem grandes acontecimentos e quando havia problemas partilhava-os com a mulher. - O que fizeste hoje?

 

O Sam teve um jogo de futebol e tirei umas fotos para a equipa. Nada de espantoso.

 

Ao ouvir as suas próprias palavras, pensou em Gail e na acusação de monotonia que ela fizera às suas vidas. E estava certa, mas o que mais podia índia esperar? Criar quatro filhos no Connecticut pouco tinha de excitante, só que não entendia em que é que as actividades ilícitas de Gail podiam mudá-la. Iludia-se, se pensava que isso fazia diferença ou melhorava as coisas.

 

Que tal irmos jantar amanhã à noite ao Ma Petite Amie? propôs Doug, quando ela chamou os miúdos para virem comer.

 

Adoraria respondeu e, no segundo seguinte, instaurou-se o caos na cozinha.

 

No entanto, gostavam imenso de tomar as refeições juntos. Os miúdos falaram do seu dia, dos amigos, das actividades, queixando-se dos professores e da quantidade de trabalhos de casa. Aimee deu a novidade de que outro rapaz telefonara três vezes a Jessica nessa tarde, parecia «velho», tipo sénior, e a irmã fulminou-a com o olhar. Durante a maior parte da refeição, Jason tomou a diversão por sua conta, era o cómico da família e fazia comentários a propósito de tudo.

 

Depois, Aimee ajudou-a a arrumar a cozinha e Sam foi-se deitar cedo, exausto pelo jogo de futebol e feliz com os dois golos que marcara. Doug estava a consultar uns papéis do escritório, quando índia se lhe juntou finalmente.

 

Parece-me que os indígenas te mantiveram mais ocupada esta noite do que habitualmente comentou, erguendo os olhos do relatório em que se embrenhara.

 

O marido emanava uma segurança e solidez de que índia sempre gostara desde o início. Era alto e elegante, com um ar atlético, boa aparência e uma expressão juvenil. Aos quarenta e cinco anos, ainda parecia uma estrela de futebol universitário. Tinha cabelo preto e olhos castanhos, vestia fatos de tweed ou cinzentos para ir trabalhar e usava calças de bombasina e camisolas nos fins-de-semana. De forma tranquila e saudável, índia sempre o achara muito atraente, ainda que Gail pensasse que ele era um chato. Em muitos aspectos, revelara-se um marido ideal para ela, um homem sólido, estável, irrepreensível e bastante sensato no que exigia dela.

 

Sentou-se numa cadeira grande e confortável diante dele e cruzou as pernas debaixo do corpo, tentando recordar-se, por um instante, do rapaz que tinha conhecido no Corpo da Paz. Não diferia muito do homem que estava agora na sua frente, mas existira um brilho de malícia nos seus olhos, que, na altura, a encantara, quando era nova e transbordava de sonhos de risco e glória.

 

Doug já não era malicioso, mas sim decente e estável, e alguém com quem sabia poder contar. Por mais que tivesse amado o pai, não queria um homem como ele, que nunca estava presente, arriscava-se e acabara por perder a vida na tentativa de concretizar a sua ânsia de aventura. A guerra fora o escape para ele. Doug era muito mais sensato e ela gostava de saber que podia contar sempre com ele a seu lado.

 

Esta noite, os miúdos pareciam um tanto agitados. O que se passou? quis saber, pondo o relatório de lado.

 

Acho que estão excitados com o final do ano escolar. Vai fazer-lhes bem irem até a Cape Cod e saírem da rotina. Precisam de carregar baterias. Todos precisamos nesta altura do ano escolar, ela sentia-se já farta de andar a levá-los e trazê-los da escola.

 

Gostaria de poder libertar-me antes de Agosto disse Doug, passando a mão pelos cabelos e pensando no assunto, mas tinha de supervisar alguns estudos de mercado para dois novos e importantes clientes e não queria sair prematuramente da cidade.

 

Também gostaria que o fizesses retorquiu índia. Estive hoje com a Gail. Eles vão até à Europa, este Verão sabia que era inútil tentar de novo convencê-lo e era, aliás, tarde de mais para mudarem os planos de Verão. Devíamos fazer o mesmo no próximo ano.

 

Não vamos recomeçar com essa discussão. Só conheci a Europa depois de terminar a faculdade. Não vão morrer se esperarem uns anos. Além disso, é excessivamente caro para uma família do tamanho da nossa.

 

Podíamos dar-nos a esse luxo e é impossível privá-los disso, Doug.

 

Não lhe recordou que os pais a tinham levado a viajar por todo o mundo quando era bebé. O pai aceitava reportagens em sítios que achava divertidos para passar férias e levava-a e à mãe com ele. As viagens feitas haviam sido uma experiência enriquecedora e gostaria de partilhar algo assim com os filhos.

 

Adorei viajar com os meus pais acrescentou, mas ele parecia aborrecido, como sempre acontecia, quando ela trazia à baila a questão.

 

Se o teu pai tivesse um emprego a sério, nunca terias conhecido a Europa em miúda comentou Doug, num tom quase rígido, pois detestava que o pressionassem.

 

Essa afirmação não faz o mínimo sentido. Ele tinha um emprego a sério, trabalhava mais do que tu ou eu.

 

«Ou do que tu, agora», apeteceu-lhe acrescentar, mas não o fez. O pai fora um homem incansável e de grande energia, até ganhara um Pulitzer, Deus do céu! Odiava sempre que Doug fazia aquele tipo de comentários sobre ele. Era como se a carreira do pai fosse insignificante, só porque ganhara a vida com uma máquina fotográfica, algo que parecia uma simples infantilidade aos olhos do marido. Pouco importava que tivesse perdido a vida devido ao que fazia ou conquistado prémios internacionais.

 

Teve sorte e bem o sabes prosseguiu Doug. Era pago pelo que gostava de fazer, andar a observar pessoas. É um acidente fortuito, não achas? Nada que se assemelhe a ir para um escritório todos os dias, ter de enfrentar clientes e toda essa treta.

 

Não, nada mesmo respondeu com um brilho ardente nos olhos que devia tê-lo avisado de que pisava terreno perigoso, mas ele não se apercebeu. Não só estava a menosprezar o pai heróico que ela venerava, como a criticar a sua carreira, quem ela era e o que havia sido, antes de se casarem. Acho que ele fez algo muito mais difícil e chamar-lhe «um acidente fortuito» é uma verdadeira bofetada, para mim e para o meu pai e os olhos de índia deitavam chispas, quando pronunciou estas palavras.

 

O que te irritou tanto hoje? Gail fez mais uma das suas investidas?

 

Era, obviamente, o caso. Ela estava sempre a remexer as brasas e não era a primeira vez que índia fazia este tipo de discurso a Doug, só que as coisas que ele dissera sobre o pai dela haviam-na perturbado, sem nada terem a ver com Gail mas apenas com índia e com o trabalho que ela fazia, antes de se casarem.

 

Não é nada disso. Não entendo como podes minimizar uma carreira com um Prémio Pulitzer e dar essa imagem dele, como se tivesse disparado um tiro de sorte com uma Broumie emprestada.

 

Estás a ser demasiado simplista. Convenhamos, porém, que ele não estava à frente da General Motors, era um simples fotógrafo. Estou certo de que era talentoso, mas também teve provavelmente sorte. Se fosse vivo hoje, dir-te-ia decerto o mesmo. Os tipos como ele são, por norma, bastante sinceros quanto à sua carreira.


Por amor de Deus, Doug! O que estás para aí a dizer? É também o que pensas da minha carreira? Que tive apenas «sorte»?

 

Não ripostou sem erguer a voz e sentindo-se um pouco desconfortável pela discussão que levantara inadvertidamente no final de um longo dia.

 

Interrogou-se sobre se a mulher estaria apenas cansada, se os miúdos a haviam irritado ou algo do género. Ou talvez fosse a tagarelice de Gail. Nunca gostara dela e achava que exercia má influência sobre Índia com as suas constantes queixas.

 

Acho que durante uns tempos te divertiste imenso com o que fazias. Foi uma boa desculpa para estares longe, provavelmente um pouco mais do que deverias.

 

Também eu poderia ter ganho um Prémio Pulitzer, caso não desistisse. Alguma vez te ocorreu isso?

 

Os olhares de ambos cruzaram-se, índia não acreditava realmente no Pulitzer, mas era uma possibilidade, pois já se tornara notada na profissão, antes de desistir para ter filhos e ser dona de casa.

 

É o que achas? inquiriu, parecendo surpreendido. Lamentas ter desistido? É o que estás a dizer-me?

 

Não, não é isso que te disse. Nunca lamentei, mas nunca pensei no meu trabalho como uma «diversão». Encarei tudo com grande seriedade e era boa no que fazia... ainda sou...

 

Contudo, só de o olhar, via que o marido não entendia as suas palavras. Para ele, era tudo um mero jogo, algo que ela fizera para se divertir antes de se dedicar a uma vida a sério. Contudo, não fora uma «diversão» e, embora tivesse colhido muito prazer, arriscara diversas vezes a vida para tirar fotos fantásticas.

 

Estás a menosprezar tudo o que fiz, Doug. Não compreendes? insistiu.

 

Queria que ele compreendesse, era importante, pois nesse caso retiraria verdade à afirmação de Gail de que ela estava a desperdiçar a vida. Contudo, se achasse que ela abdicara de uma insignificância, em que é que a tornava? Em alguns aspectos, faria com que se sentisse um zero.

 

Acho que estás hipersensível e exageras. Só estou a dizer que ser repórter fotográfico não se assemelha a outras profissões. Não é tão sério, nem requer o mesmo género de autodisciplina e capacidade de avaliação.

 

Claro que não, mas é muito mais duro. Quando se trabalha nos sítios por onde eu e o meu pai passámos arrisca-se a vida a cada segundo e, se não se estiver sempre atento e de olho alerta, pode morrer-se a qualquer momento. É muito mais perigoso do que passar o dia num escritório, a remexer em papéis.

 

Estás a tentar dizer que desististe de uma carreira por mim? - redarguiu, parecendo, em simultâneo, aborrecido e surpreso. Levantou-se e atravessou o quarto para abrir a lata de Coca-Cola que ela lhe trouxera. Estás a tentar fazer com que me sinta culpado?

 

Não, mas mereço, pelo menos, um pouco de admiração pelo que fiz. Pus na prateleira uma carreira promissora para vir para os subúrbios e cuidar dos nossos filhos. E estás a tentar dar a ideia de que, se apenas me divertia, porque não desistir?

 

índia fitou-o com intensidade enquanto ele bebia, interrogando-se sobre o que o marido pensava da sua carreira, agora que abrira a caixa de Pandora. O que via desagradava-lhe, tratava-se de um total desrespeito pelo que fizera e tudo o que abdicara em prol dele.

 

Lamentas o «sacrifício»? inquiriu Doug sem rodeios, pousando a lata na mesinha entre os dois.

 

Não, não lamento, mas acho que mereço algum crédito. Não podes ignorá-lo mas ele fizera-o, e isso perturbara-a.

 

Óptimo. Dou-te todo o crédito. Ficas contente? Podemos descontrair-nos um pouco? Tive um longo dia no escritório.

 

No entanto, a forma como o marido pronunciou estas palavras apenas contribuiu para a irritar mais, como se ele fosse muito mais importante do que ela. Doug voltou a pegar nos papéis e mostrava-se, obviamente, determinado a ignorá-la.

 

índia fitou-o, incrédula. Ele não só menosprezara a sua carreira como a do pai, e a forma como o havia feito, magoara-a profundamente. Era uma falta de respeito que até aí nunca sentira da parte dele e que tornava os comentários de Gail não só bem reais, como válidos.

 

Nessa noite, não lhe dirigiu nem mais uma palavra até se deitarem e, antes disso, passou muito tempo no duche, a meditar. Ele magoara-a profundamente, mas não mencionou o assunto quando se meteu na cama. Tinha a certeza de que o marido se desculparia, Doug costumava saber ir ao seu encontro quando a magoava.

 

Contudo, ele não lhe dirigiu uma única palavra quando apagou a luz. Virou-lhe as costas e adormeceu, como se nada se tivesse passado. Não lhe desejou boa noite e manteve-se acordada durante muito tempo, pensando no que Doug lhe dissera e nas palavras de Gail, enquanto o ouvia ressonar.

 

A manhã seguinte foi caótica, como sempre, e teve de levar Jessica às aulas, porque ela perdera a boleia. Doug não mencionou a Índia a conversa da noite anterior e saiu, sem lhe dar tempo a despedir-se.

 

Ao arrumar a cozinha, depois de ter deixado Jessica e voltar, interrogou-se sobre se ele se sentiria arrependido. Estava certa de que lhe diria algo nessa noite. Talvez tivesse sofrido qualquer aborrecimento no escritório, no dia anterior, ou se sentisse irritado e quisesse provocá-la.

 

No entanto, Doug parecera muito calmo quando lhe falara. Irritava-a pensar que o marido nutria tão pouca consideração pelo que ela havia feito antes de se casarem. Nunca se mostrara tão insensível a esse respeito, nem tão sem papas na língua.

 

O telefone tocou no momento em que colocara o último prato na máquina de lavar a louça e se dirigia à câmara escura para revelar as fotografias que tirara no dia anterior, no jogo de futebol. Tinha prometido ao capitão da equipa que lhas enviaria rapidamente.

 

Atendeu ao quarto toque e interrogou-se sobre se seria Doug a dizer que lamentava o sucedido. Planeavam jantar fora nessa noite, num pequeno e elegante restaurante francês, e seria muito mais agradável se ele, pelo menos, reconhecesse que cometera um erro ao menosprezar a carreira dela e ao fazer com que se sentisse tão insignificante.

 

Está? atendeu com um sorriso na voz, certa de que era ele, mas a voz do outro lado do fio não pertencia a Doug.

 

Era Raoul Lopez, o seu agente. Tratava-se de um profissional muito conceituado no fotojornalismo e na fotografia e dos melhores na sua especialidade. A agência, se bem que não Raoul, havia representado o seu pai.

 

Que tal vai a mamã do ano? Ainda a tirar fotografias a Duelos ao colo do Pai Natal para oferecerem às mães?

 

No ano anterior, índia prestara-se a esta incumbência e Raoul não ficara nada satisfeito. Há anos que insistia que ela andava a desperdiçar o talento, e, de vez em quando, índia fazia um trabalho para ele, o que lhe dava esperança de que um dia pudesse voltar ao mundo real.

 

Há três anos encarregara-se de uma reportagem importante sobre crianças maltratadas no Harlem. Fizera-a de dia, enquanto os filhos estavam nas aulas, e nunca deixara de ir buscá-los. Doug não ficara nada satisfeito, mas dera permissão depois de índia ter passado semanas a discutir o assunto com ele. E, tal como no passado, fora galardoada com um prémio.

 

Estou óptima. E tu, Raoul?

 

Cheio de trabalho, como é hábito. Um pouco cansado, também, de tentar chamar à razão os «artistas» que represento. Porque será que as pessoas criativas têm tantos problemas em tomar decisões inteligentes?

 

Dava a sensação de que ele tivera igualmente uma manhã difícil e, ao ouvi-lo, índia esperava que não fosse fazer-lhe um pedido insensato. Por vezes, Raoul continuava a insistir, apesar das limitações que ela lhe impusera há anos. Também devia estar perturbado porque perdera um dos seus representados, um tipo competente e simpático, além de bom amigo, numa curta guerra santa no Irão, no início de Abril.

 

O que tens agora entre mãos? prosseguiu Raoul, num tom um pouco mais cordial.

 

Era um indivíduo nervoso e irascível, mas índia gostava dele, pois sabia sempre escolher o repórter fotográfico certo para a missão certa, quando o deixavam.

 

Carreguei a máquina de lavar louça disse com um sorriso. Corresponde à imagem que tens de mim? riu e ele emitiu um grunhido.

 

Bem de mais, receio. Quando é que esses teus filhos crescem, índia? O mundo não pode esperar eternamente.

 

Assim terá de ser.

 

Mesmo depois de crescidos, não estava bem certa de que Doug quisesse que ela aceitasse reportagens e sabia-o. No entanto, e de momento, era isto o que desejava e repetira-o a Raoul o número suficiente de vezes para o levar a acreditar. Contudo, ele nunca desistia totalmente, continuava a esperar que um dia ela recuperasse a sensatez e rugisse aos gritos de Westport.

 

Estás a telefonar para me mandares numa missão, de mula, algures para o Norte da China? acrescentou.

 

Era o tipo de surpresa que lhe fazia de vez em quando, embora também lhe propusesse, eventualmente, algo razoável, como o trabalho que ela fizera em Harlem. Índia adorara e era esse o motivo por que ainda mantinha o nome na lista dele.

 

Não exactamente, mas por lá perto respondeu, interrogando-se sobre como lhe pôr a questão.

 

Raoul sabia até que ponto era dedicada aos filhos e ao marido. Ele não tinha mulher, nem família, e nunca conseguiria entender porque se dispusera Índia a abdicar da carreira por eles. Possuía um talento como conhecera poucos e considerava um sacrilégio que tivesse desistido do que fazia.

 

Depois, resolveu mergulhar de cabeça. O máximo que ela podia responder era «não», embora esperasse desesperadamente o contrário.

 

De facto, é na Coreia. Trata-se de uma reportagem para o suplemento da Times Magazine de domingo e estão dispostos a aceitar um free-lancer, em vez de um dos seus fotógrafos. Há um negócio de adopção em Seul, que não cheira nada bem. Consta que matam as crianças que ninguém quer adoptar. É algo relativamente seguro para ti, excepto se remexeres demasiado na lama. É, porém, uma história fantástica, índia continuou. Há bebés que estão a ser assassinados e, quando o artigo for publicado no suplemento, podes vender as fotos. Alguém tem de as fazer e precisam delas para confirmar a história. Preferia que fosses tu a qualquer outra pessoa. Sei até que ponto gostas de crianças e pensei... que é perfeito para ti.

 

índia sentiu um inegável surto de adrenalina ao escutar aquelas palavras, tocavam-na como não acontecia desde a história em Harlem. Mas na Coreia? O que diria a Doug e aos miúdos? Quem lhes guiaria o carro e cozinharia as refeições? Apenas tinham uma empregada doméstica duas vezes por semana, pois há anos que ela se encarregava de tudo e era impossível passarem sem índia.

 

De quanto tempo estamos a falar?

 

«Uma semana. Talvez... talvez Gail concordasse em substituí-la.»

 

Seguiu-se uma pausa e apercebeu-se de que Raoul engolia em seco. Era um hábito que ele tinha, quando sabia que a resposta não lhe agradaria.

 

Três semanas... talvez quatro disse por fim. índia sentou-se num banco e fechou os olhos. Não havia qualquer possibilidade de fazer a reportagem e odiava que assim fosse. Tinha, contudo, de pensar nos filhos.

 

Sabes que é impossível, Raoul. Porque me telefonaste? Só para que me sentisse mal?

 

Talvez e talvez um destes dias percebas que o mundo precisa do que fazes, não só para lhe mostrares belas fotografias, índia, mas para marcares a diferença. Talvez pudesses ser tu a impedir que esses bebés sejam assassinados.

 

É injusto ripostou, acalorada. Não tens o direito de fazeres com que me sinta culpada. É-me impossível aceitar um trabalho de quatro semanas e sabe-lo perfeitamente. Tenho quatro filhos, nenhuma ajuda e um marido.

 

Então, contrata uma empregada doméstica, ou divorcia-te, céus! Não podes ficar para aí sentada e indiferente. Já perdeste catorze anos e é um milagre que alguém ainda esteja disposto a dar-te trabalho. És doida em desperdiçares o teu talento.

 

Parecia zangado e aquele tipo de discurso não agradava a índia, que logo reagiu:

 

Não perdi catorze anos, Raoul. Tenho filhos felizes e saudáveis, que são assim porque sempre estive presente para os levar todos os dias ao colégio, ir buscá-los, assistir aos seus jogos e fazer-lhes o jantar. E se tivesse corrido o risco de morrer nestes catorze anos, não poderias substituir-me.

 

É verdade concordou, parecendo um pouco mais calmo. Mas agora já têm idade bastante. Podes voltar a trabalhar, pelo menos numa coisa deste género. Já não são uns miúdos, céus! Tenho a certeza de que o teu marido compreenderia.

 

«Não, depois das palavras pronunciadas na noite anterior», pensou. Era-lhe impossível imaginar-se a dizer-lhe que ia um mês para a Coreia. Tratava-se de algo inconcebível no contexto do casamento deles.

 

Não posso fazê-lo e sabe-lo bem, Raoul. Só estás a tornar-me infeliz redarguiu num tom triste.

 

Nesse caso, talvez consigas decidir-te um destes dias, e eu prestaria um serviço ao mundo se este telefonema servisse para tal.

 

Ao mundo talvez, embora me lisonjeies. Nunca fui assim tão boa. Não estarias, porém, a prestar um serviço aos meus filhos.

 

Há montes de mães que trabalham. Eles sobreviveriam.

 

E se eu não voltasse?

 

Tinha o exemplo do seu próprio pai, que morrera quando ela tinha apenas quinze anos. E ninguém poderia dizer-lhe que tal não aconteceria, sobretudo com o tipo de reportagens em que era especialista. Aquela, na Coreia, seria suave em comparação com as que fizera antes de casar.

 

Eles sobreviveriam na mesma respondeu. Não te enviarei para sítios escaldantes, embora a Coreia não seja uma pêra-doce. Contudo, é diferente de te mandar para a Bosnia, ou algo do género.

 

Mesmo assim, não posso, Raoul. Desculpa.

 

Eu sei. Foi uma idiotice telefonar-te, mas tinha de tentar. Encontrarei outra pessoa. Não te preocupes rematou, num tom de desânimo.

 

Não me esqueças totalmente pediu com tristeza, sentindo algo que não lhe acontecia há anos relativamente a trabalhos recusados.

 

Desejava mesmo poder fazer a reportagem na Coreia e sentia-se frustrada com a recusa. Não estava ressentida, apenas extremamente desapontada. Era este o tipo de sacrifício de que falara a Doug na noite anterior e a que ele não ligara. Como se tudo o que ela havia feito com a máquina fotográfica ao longo de todos aqueles anos e o que abdicara, por ele e pelos filhos, nada significasse.

 

Um destes dias esqueço-me, se não voltares a fazer algo de importante muito em breve. Não podes ficar a tirar fotografias do Pai Natal eternamente.

 

Talvez seja possível. Arranja-me uma coisa mais perto de casa, do género daquela no Harlem.

 

Sabes muito bem que essas matérias não aparecem com frequência, e têm o pessoal da casa para as cobrir. Apenas quiseram retirar algo mais importante do artigo e tiveste sorte. Mas vou ver o que consigo suspirou. Faz-me o favor de dizeres aos teus filhos que cresçam um pouco mais depressa.

 

«E Doug? Quando cresceria, se é que tal aconteceria alguma vez?» A julgar pelo cenário da noite anterior, não compreendia até que ponto a sua carreira fora importante para ela.

 

De qualquer maneira, obrigada por teres pensado em mim. Espero que arranjes uma pessoa qualificada para o trabalho disse, preocupada com os bebés coreanos.

 

Acabei de ouvir um «não» de alguém qualificado. Volto a telefonar-te um destes dias, e ficas a dever-me uma.

 

Certifica-te de que não implica a minha presença em cima de uma árvore, no Bali.

 

Verei o que posso fazer, índia. Cuida-te.

 

Obrigada. Tu também. Depois acrescentou:

 

Lembrei-me agora que vou estar todo o Verão em Cape Cod. Julho e Agosto. Tens o número, não?

 

Tenho. Se tirares algumas fotografias fantásticas de iates, telefona-me. Vendemo-las ao Hallmark.

 

Na verdade, já o fizera algumas vezes, quando os filhos eram muito pequenos. Sentira-se feliz e Raoul ficara furioso. Considerava-a uma repórter fotográfica a sério, das que só devem tirar fotografias de alguém a esvair-se em sangue, morto, ou moribundo.

 

Deixa-te de críticas. Pagaram-me a despesa do jardim-de-infância durante dois anos, o que não é brinquedo.

 

Não tens emenda.

 

Desligaram e ela sentiu-se triste durante todo o dia por causa do telefonema, pela primeira vez, há muito tempo, tinha a impressão de que lhe faltava algo. Continuava taciturna quando, nessa tarde, encontrou Gail, no supermercado. A amiga parecia mais alegre do que o habitual, estava vestida de saia e sapatos de salto alto e, ao aproximar-se, índia verificou que se perfumara.

 

Onde estiveste? Às compras, na cidade?

 

Gail abanou a cabeça com um sorriso malicioso e sussurrou num tom de conspiração:

 

Almocei com o Dan Lewinson, em Greenwich. Ele não está tão destroçado quanto julguei. Passámos um bocado muito agradável e bebemos uns copos de vinho. É um tipo simpático e, depois de o olharmos bem, bastante atraente mesmo.

 

Deves ter bebido mais do que uns copos de vinho comentou índia, fitando-a com uma expressão infeliz, pois o simples facto de a ouvir, deprimia-a.

 

«Qual a ideia de almoçar com ele?», índia não compreendia muito simplesmente.

 

Porque estás tão em baixo?

 

Era raro ver índia naquele estado. Mostrava-se sempre animada. Era sempre ela quem levantava o moral a Gail e lhe garantia que a vida delas era uma maravilha. Agora, estava bem longe dessa imagem, enquanto conversava com Gail.

 

Discuti com o Doug na noite passada e o meu agente acabou de me telefonar, propondo-me um trabalho na Coreia. Parece que há um negócio de adopção em que matam os bebés que não são adoptados.

 

Que coisa mais horrível! Devias sentir-te grata por não teres de fazer essa reportagem exclamou Gail, com um ar revoltado. Que mórbido!

 

Adoraria fazê-la. É aparentemente um trabalho fantástico, mas iria demorar umas três a quatro semanas para conseguir a história. Respondi-lhe que não podia.

 

Nada de novo. Porque estás, afinal, com um ar de moribunda?

 

O dia anterior abalara índia como nunca acontecera até então e os comentários de Doug, acrescidos ao telefonema de Raoul, em nada haviam ajudado.

 

Esta noite, Doug fez uma série de comentários idiotas, dando a entender que a minha carreira era uma espécie de brinquedo e nada havia de extraordinário em ter abdicado dela. Há algo, no que respeita a ganhar a vida com uma máquina fotográfica, que leva as pessoas a pensarem que podiam fazê-lo, se quisessem dar-se a esse trabalho.

 

Gail esboçou um sorriso ao ouvir as palavras da amiga e não as contestou.

 

O que deu a Doug? perguntou em vez disso, pois sabia que o casal não discutia muitas vezes e índia parecia muito perturbada, ao contar-lhe o que se passara.

 

Ignoro. Não costuma ser tão insensível. Talvez tivesse tido um mau dia no escritório.

 

Talvez não entenda realmente do que desististe por ele e pelos miúdos. Era isto que índia receava ouvir e ficou surpreendida ao tomar consciência de que pensava o mesmo. Talvez devesses marcar uma posição, aceitando o trabalho na Coreia.

 

Gail tentava provocá-la, mas índia sabia perfeitamente que isso significaria ir um pouco longe de mais.

 

Porque hão-de as crianças sofrer só porque ele me magoou? Além disso, seria impossível ausentar-me durante um mês. Partimos para Cape Cod daqui a três semanas... não posso fazê-lo.

 

Bom. Talvez possas fazer o próximo.

 

Se houver um próximo. Tenho a certeza de que Raoul começa a ficar cansado de me telefonar e ouvir dizer que não aceito o trabalho.

 

Aliás, o agente já raras vezes lhe ligava. Havia poucas reportagens que se enquadrassem nas suas limitações.

 

Esta noite, o Doug vai provavelmente aparecer em casa com um braçado de flores e esquecerás tudo isto disse Gail, tentando parecer confiante.

 

Sentia pena da amiga. Índia era inteligente, bonita e talentosa e, como muitas outras, estava a ocupar a vida com barbecues e a servir de motorista. Era desperdiçar um extraordinário talento.

 

Vamos jantar ao Ma Petite Amie, e eu estava contentíssima até ele me ter irritado.

 

Bebe vinho bastante e esquecerás tudo, o que me lembra que vou novamente almoçar com o Dan na próxima terça.

 

Acho uma idiotice declarou índia sem rodeios, metendo uma embalagem de tomates no cesto. O que vais lucrar?

 

Divertir-me. Porque não? Não prejudicamos ninguém. Rosalie está apaixonada pelo Harold, Jeff nunca saberá e terá a minha atenção incondicional durante seis semanas, na Europa.

 

Aos olhos de Gail era uma justificação perfeita, o mesmo não acontecendo com índia.

 

Parece tão despropositado. E se te apaixonares por ele?

 

Essa era outra questão relevante. Se o que Gail pretendia era voltar a apaixonar-se loucamente, isso, um destes dias, podia tornar-se realidade. O que faria então? Largaria o Jeff? Pediria o divórcio? índia considerava tais riscos inúteis. Só que, nesse ponto, ela e Gail eram muito diferentes.

 

Não vou apaixonar-me por ele. Só estamos a divertir-nos. Não sejas desmancha-prazeres.

 

Se o Jeff andasse a fazer o mesmo, não te importavas?

 

Cairia de costas respondeu Gail, divertida. Ao almoço, Jeff só vai ao pedicuro ou cortar o cabelo.

 

«E se não fosse bem assim? E se ambos se enganassem um ao outro?» No seu presente estado de humor, índia achava a hipótese patética.

 

Precisas de ir cortar o cabelo, arranjar as mãos, fazer uma massagem ou outra coisa qualquer. Algo que te alegre. Não estou bem certa de que abdicar de uma reportagem sobre bebés assassinados na Coreia dê para deprimir. Antes fosse com qualquer coisa que seria uma pena perder, algo divertido... como um caso...

 

Estava a espicaçá-la, mas índia abanou a cabeça e dirigiu-lhe um sorriso calmo.

 

Como posso gostar de ti, sendo tu a pessoa mais imoral que conheço? ripostou, fitando-a com um misto de afecto e desaprovação. Se não te conhecesse e alguém me falasse de ti, diria que eras um nojo.

 

Não, não dirias. Apenas sou honesta com o que faço e o que penso. A maioria das pessoas não o é, e sabes bem que é assim.

 

Havia, sem dúvida, alguma verdade naquelas palavras, mas Gail exagerava um pouco a nível de opiniões e franqueza.

 

Gosto de ti como és, mas um destes dias vais meter-te numa grande alhada e o Jeff descobrirá.

 

Nem sequer tenho a certeza de que se importaria. Só Se me esquecesse de ir buscar-lhe a roupa à lavandaria.

 

Talvez não fosse bem assim garantiu-lhe índia.

 

O Dan diz que há dois anos que a Rosalie vai para a cama com o Harold e ele não fazia ideia até ela lhe contar. A maioria dos tipos são assim.

 

índia interrogou-se subitamente sobre se Doug suspeitaria, caso ela fosse almoçar com outro homem. Agradava-lhe pensar que sim. Era uma das muitas coisas em que acreditava quanto aos sentimentos do marido.

 

Tenho de ir andando prosseguiu Gail. Preciso de levar os miúdos a fazerem um check-up antes da viagem para a Europa. Vão acampar mal chegarmos, e ainda nem preenchi os boletins de saúde deles.

 

Talvez, se ficasses em casa, pudesses fazê-lo à hora do almoço - troçou índia, enquanto Gail lhe acenava e se dirigia apressadamente à caixa.

 

índia acabou de comprar o que precisava para o fim-de-semana. Não levava propriamente uma vida excitante, mas talvez Gail estivesse certa, a missão na Coreia seria algo muito deprimente. Desejaria regressar a casa com um punhado de bebés coreanos para os salvar de serem mortos, caso ninguém mais os adoptasse.

 

Nessa tarde, ainda estava de mau humor quando foi buscar os miúdos e voltou para casa. Contudo, Jason e Aimee haviam trazido amigos e todos faziam tanto barulho que ninguém se apercebeu de que se mantinha calada.

 

Preparou-lhes um lanche, que deixou em cima da mesa da cozinha, quando foi tomar banho. Contratara uma baby-sitter para essa noite e tencionava deixar-lhes o jantar pronto e alugar uns vídeos. Por uma vez, índia dispunha de tempo e apreciou o banho de espuma, pensando no marido. Continuava aborrecida com o que ele lhe dissera na noite anterior, mas estava certa de que isso se devia a ele ter tido um mau dia no escritório.

 

Quando Doug regressou a casa do trabalho, índia pusera um vestido preto curto, saltos altos e prendera elegantemente o cabelo louro atrás da nuca. Ele preparou uma bebida, como por vezes fazia à sexta-feira à noite, e pareceu feliz ao vê-la descer as escadas.

 

Uau, índia! Estás deslumbrante! elogiou, bebendo um gole do seu Bloody Mary. Dá a sensação de que levaste o dia todo a arranjares-te.

 

- Não propriamente. Só a última hora. Que tal foi o teu dia?

 

Nada mau. A reunião com o novo cliente correu bastante bem. Tenho quase a certeza de que vamos conseguir a conta. Vai ser um Verão muito agitado.

 

Era a terceira conta nova de que se ocupava e, nessa tarde, comentara com a secretária que seria uma sorte se conseguisse ir de férias em Agosto, mas não disse uma palavra a índia sobre o assunto, quando ela avançou ao seu encontro.

 

Estou contente por irmos sair esta noite observou índia, fitando-o com a mesma expressão triste que mostrara no supermercado ao encontrar Gail, só que Doug não se apercebeu. Acho que precisamos de uma pausa, de nos divertirmos ou algo assim.

 

Foi por isso que sugeri o jantar disse ele, sorrindo.

 

Levou o Bloody Mary para a casa de banho, a fim de tomar um duche e trocar de roupa para o jantar, e regressou meia hora depois, vestido com calças cinzentas, um blazer e uma gravata azul que ela lhe oferecera no Natal. Estava muito elegante e faziam um par deveras atraente quando pararam à saída e se despediram dos filhos. Dez minutos depois entravam no restaurante, a caminho de uma mesa de canto.

 

Era muito simpático, e fazia bom negócio aos fins-de-semana. A comida era boa e a atmosfera agradável e romântica. Tratava-se exactamente do que precisavam para ultrapassar a discussão da noite anterior e índia sorriu-lhe, quando o empregado lhes serviu uma garrafa de um vinho francês que Doug provou cuidadosamente e aprovou.

 

Então, o que fizeste hoje? interessou-se ele, pousando o copo e sabendo, antes de ouvir a resposta, que o dia dela girara à volta dos filhos.

 

Recebi um telefonema de Raoul Lopez. Ele pareceu momentaneamente surpreendido e não muito curioso. Us telefonemas do agente dela haviam rareado e eram, por regra, improdutivos. Propôs-me uma reportagem muito interessante na Coreia.

 

É mesmo do Raoul comentou Doug com um ar divertido e nada perturbado com a informação. Onde foi O ultimo lugar para onde te tentou enviar? Zimbabué? Pergunto a mim próprio porque continua a insistir.

 

Pensei em concordar fazer a reportagem. Era para o suplemento de domingo da Times Magazine, e trata-se de investigar uma rede de adopção que está a assassinar bebés na Coreia. Contudo, ele achava que levaria três ou quatro semanas e disse que me era impossível.

 

Óbvio. Não poderias ausentar-te para a Coreia, nem mesmo por três ou quatro minutos.

 

Foi o que lhe respondi mas, ao olhar para Doug, apercebeu-se de que gostaria que ele lhe agradecesse por não ir. Queria que entendesse do que ela desistira e que lhe agradaria fazer o trabalho. Disse que voltaria a tentar com algo mais próximo de casa, como a peça no Harlem.

 

Porque não retiras pura e simplesmente o teu nome da lista dele? Faz muito mais sentido. Não vale a pena receberes esses telefonemas a pedirem-te para fazeres reportagens, que recusas sempre. Surpreende-me que ele ainda se dê ao trabalho de te telefonar. O que o leva a isso?

 

Sou boa no que faço respondeu num tom calmo e aparentemente os editores ainda me procuram. É, pelo menos, elogioso.

 

Tacteava algo, pedia-lhe algo e ele não compreendia a mensagem. Pelo menos neste campo, nunca a recebia. Passava-lhe por completo ao lado.

 

Nunca devias ter aceite essa reportagem. Provavelmente ficaram com a ideia de que continuas aberta a propostas.

 

Era óbvio, pelas suas palavras, que ele queria que a porta para a sua carreira se mantivesse ainda mais fechada do que até aí. De súbito, índia ficou atraída pela ideia de a abrir, somente um pouco, caso conseguisse arranjar uma outra reportagem perto de casa, como a de Harlem.

 

Foi um grande trabalho e ainda bem que a aceitei disse, quando o empregado lhes estendeu a lista.

 

No entanto, sentiu-se repentinamente sem fome. Estava de novo perturbada, Doug parecia insensível às suas emoções, mas talvez não pudesse culpá-lo, pois nem sequer estava certa de que a compreendesse. Faltava-lhe, de súbito, algo de que desistira há catorze anos e esperava que ele o soubesse, sem precisar de explicações.

 

Não me importaria de voltar a trabalhar, um pouco que fosse, se pudesse enquadrar-se em tudo o que faço. Nunca pensei no assunto ao longo de todos estes anos. Todavia, começo a pensar que sinto a falta de estar no activo insistiu índia.

 

Donde vem essa atitude?

 

Não sei respondeu, honestamente. Ontem, estava a conversar com a Gail e ela espicaçou-me, falou no meu talento desperdiçado. Depois, o Raoul telefonou hoje e aquela reportagem pareceu-me muito aliciante.

 

A conversa que haviam travado na noite anterior deitara mais achas para a fogueira, porque ele menosprezara a carreira dela e a do pai, como se fossem diversões. Sentiu-se, de repente, como se precisasse de afirmar a sua existência. Talvez Gail estivesse certa e ela se tivesse transformado numa empregada, cozinheira e motorista. Talvez fosse altura de retirar a sua antiga carreira do armário e limpar-lhe um pouco o pó.

 

A Gail anda sempre a arranjar sarilhos, certo?... Que tal as molejas?

 

Tal como na noite anterior, Doug menosprezava as suas palavras e fazia com que ela se sentisse só, fitando-o por cima da lista.

 

Acho que continua a lamentar ter desistido da carreira. Possivelmente foi uma decisão errada prosseguiu índia, ignorando a pergunta do marido sobre o jantar e pensando que provavelmente Gail não almoçaria com Dan Lewinson se tivesse algo mais com que se ocupar, mas não o mencionou a Doug. Sou uma pessoa de sorte. Se voltar atrás, em qualquer altura, posso escolher o que fazer. Não sou obrigada a trabalhar a tempo inteiro, nem a viajar até à Coreia.

 

O que estás para aí a dizer? - Fizera a encomenda

 

Para ambos e fitava-a do outro lado da mesa, desagradado com o que ouvia. Dás-me a entender que queres voltar a

trabalhar, umdia? É impossível e sabe-lo muito bem acrescentou, sem mesmo lhe dar a oportunidade de responder àpergunta feita.

 

Não há motivo algum que me impeça de aceitar uma reportagem ocasional, se for local, certo?

 

Para quê? Só para exibires as tuas fotografias? Qual o interesse?

 

Fazia com que tudo parecesse tão vão e fútil que ela quase se sentiu embaraçada com a sugestão, mas algo na forma como ele opunha resistência a levou a insistir.

 

Não se trata de me exibir, mas sim de usar um dom que possuo.

 

Gail desencadeara aquela crise com a sua pergunta do dia anterior e, desde então, a bola começara a rolar. E a resistência de Doug conferia muito mais importância à questão.

 

Se estás assim tão ansiosa por usar o teu «dom» retorquiu ele num tom levemente desdenhoso usa-o com os miúdos. Sempre lhes tiraste fotografias fantásticas. Porque é que isso não te satisfaz? Ou é mais uma das cruzadas de Gail? Sinto o dedo dela aqui ou será que te deixaste levar pelo Raoul? Ele anda sempre à procura de ganhar dinheiro. Deixa-o servir-se de outras pessoas. Há muitos repórteres fotográficos que pode mandar para a Coreia.

 

Tenho a certeza de que encontrará algum afirmou índia num tom calmo, ao mesmo tempo que lhes punham o patê na mesa. Não estou a dizer que sou insubstituível. Apenas digo que os miúdos estão a crescer e talvez possa aceitar um trabalho de vez em quando. Não precisamos do dinheiro e o Sam só tem nove anos, Deus do céu. Os miúdos necessitam de ti, índia.

 

Longe de mim pensar em abandoná-los, Doug. Só estava a dizer que podia ser importante para mim. índia queria que ele compreendesse este ponto. Há apenas um dia vincara a Gail quão pouco lhe importava ter abdicado da carreira e agora, depois de a haver escutado e a Raoul, e de Doug a menosprezar na noite anterior, tornara» -se subitamente importante.

 

Mas ele recusava prestar atenção.

 

Porque havia de ser importante para ti? É isso que não entendo! O que há de tão essencial em tirar fotografias;

 

índia sentia-se como se estivesse a tentar escalar uma montanha de vidro, sem conseguir chegar a lado algum

 

É a forma como me expresso. Sou boa nisso vincou. Gosto e pronto.


Já te disse que nesse caso tires fotografias às crianças, ou aos amigos deles, para oferecer aos pais. Há muita coisa que podes fazer com uma máquina fotográfica, além de aceitar reportagens.

 

Alguma vez te ocorreu que talvez gostasse de algo mais importante? Que talvez queira sentir que a minha vida tem um significado?

 

Ora. Por favor! exclamou, pousando o garfo com uma expressão entediada. O que te passou pela cabeça? É a Gail. Só pode ser isso.

 

Não é a Gail retorquiu, tentando defender-se, mas sentindo-se desesperada, o problema é meu. A vida não deve ser só limpar sumo do chão, quando as crianças o entornam.

 

Agora é que pareces mesmo a Gail a falar comentou num tom de desagrado.

 

E se ela estiver certa? Faz coisas estúpidas porque se sente inútil e sem rumo. Talvez se se ocupasse com algo de que gosta, não precisasse de agir assim.

 

Se estás a querer dizer que ela engana o JefF, há anos que desconfiava. E se ele quer ser cego nesse aspecto, o problema é dele. Gail anda atrás de tudo o que usa calças, em Westport. É com isso que me ameaças? É realmente disso que se trata?

 

Doug parecia furioso quando o empregado trouxe o prato principal. A noite romântica estava em risco.

 

Claro que não apressou-se a garantir. Ignoro o que ela faz mentiu para proteger a amiga, mas, na verdade, pouco lhe interessavam as indiscrições de Gail e Doug nada tinha a ver com esse assunto. Falo de mim. Talvez apenas queira dizer que preciso de algo mais na vida do que de ti e dos miúdos. Tinha uma grande carreira antes de desistir e, por mais insignificante que o consideres talvez possa recuperar uma pequena parte para alargar os meus horizontes.

 

Não dispões de tempo para isso - objectou num tom sensato. Estás demasiado ocupada com os miúdos. Excepto se quiseres contratar baby-sitters ou deixá-los em qualquer lado. É o que tens em mente, índia? Porque não há outra maneira, e não vou permitir isso. És a mãe deles e precisam

de ti.


Compreendo, só que consegui terminar a reportagem de Harlem sem os prejudicar. Podia fazer outras do género. Duvido e não vejo qualquer sentido nisso. Foi algo que te deu prazer, mas depois cresceste e não podes voltar atrás. Já não és uma rapariguinha de vinte anos sem responsabilidades. És uma mulher adulta com uma família e um marido. Não entendo porque uma coisa tem de excluir a outra, desde que mantenha as minhas prioridades. Tu e os miúdos estão primeiro e o resto giraria à vossa volta.

 

Sentado aqui a ouvir-te, começo a interrogar-me sobre as tuas prioridades. As tuas palavras parecem-me terrivelmente egoístas. Só queres divertir-te, como a tua amiga, que anda por aí a enganar o marido, porque os filhos a aborrecem. É isso? Aborrecemos-te?

 

Parecia muito ofendido e muito irritado, índia estragara-lhe a noite, só que ele ameaçava-lhe a auto-estima e o futuro.

 

Claro que não me aborrecem. Eu não sou a Gail.

 

Mas afinal de que anda ela à procura? insistiu, ao mesmo tempo que cortava a carne com gestos violentos. É impossível que seja assim tão carente de sexo. O que tenta fazer? Embaraçar o marido?

 

Não me parece. Acho que se sente só e infeliz e tenho pena dela. Não quero dizer que a Gail proceda bem, Doug. Na minha opinião, está em pânico. Tem quarenta e oito anos, abdicou de uma carreira fantástica e nada vê de brilhante no futuro. Não consegues imaginar o que isso é. Tens um trabalho de que gostas, nunca desististe de nada. Só amontoaste.

 

É assim que te sentes? É assim que a Gail se sente? inquiriu, parecendo deveras preocupado.

 

Não propriamente. Sou bastante mais feliz do que ela. Contudo, também penso no meu futuro. O que acontecerá quando os miúdos saírem de casa? O que farei? Andarei por aí a tirar fotografias a crianças desconhecidas no parque de diversões?

 

Podes pensar nisso mais tarde. Terás filhos em casa nos próximos nove anos. Há muito tempo para elaborar uma estratégia.

 

Talvez nos mudemos de novo para a cidade e possas visitar museus.

 

«Era esse o futuro? Museus?» Só essa ideia lhe provocava calafrios. Queria um futuro bastante mais preenchido. Desse ponto de vista, dava toda a razão a Gail, dali a nove anos, índia queria fazer algo mais do que matar o tempo. Só que, nessa altura, seria muito mais difícil regressar à sua carreira, se é que Doug o permitiria, o que não seria muito viável, a julgar pelas suas palavras.

 

As crianças ainda são muito pequenas para que estejas a pensar nisso agora prosseguiu. Talvez possas arranjar trabalho numa galeria ou algo assim, quando eles forem crescidos. Para quê preocupares-te?

 

E fazer o quê? Olhar para as fotografias que outros tiraram, quando faço melhor? Tens razão. Agora, estou ocupada. E mais tarde? nas últimas vinte e quatro horas, aquela pergunta assumira um lugar de realce na sua mente.

 

Não compliques. Deixa de dar ouvidos a essa mulher. Já te disse que ela é uma revoltada. É infeliz, amarga e só arranja sarilhos.

 

Gail não sabe do que anda à procura disse índia, num tom triste. Anda em busca de amor, porque o Jeff não a excita.

 

Apercebeu-se de que talvez estivesse a confessar-lhe de mais, mas, uma vez que ele estava aparentemente a par dos devaneios dela, pouca diferença faria.

 

É ridículo andar à procura do amor na nossa idade observou Doug severo, bebendo um gole de vinho e fitando a mulher, do outro lado da mesa. Em que pensa ela?

 

Não acho que ela esteja errada, mas apenas que não encontra o seu caminho redarguiu índia, calmamente. Afirma que se sente deprimida por não se voltar a apaixonar, presumo que ela e o Jeff não são doidos um pelo outro.

 

Quem o é depois de vinte anos de casamento? - explodiu Doug, parecendo uma vez mais aborrecido, pois achara a afirmação de índia ridícula. É evidente que não se pode esperar sentir aos quarenta e cinco ou cinquenta o mesmo que aos vinte.

 

Não, mas podem sentir-se outras coisas. Se se tiver sorte, até mesmo mais do que no início.

 

Sabes bem que isso é um disparate romântico ripostou com firmeza e ela ouvia-o com uma crescente impressão de pânico

 

Achas que é disparate estar-se apaixonada depois de quinze ou vinte anos.

 

índia nem queria acreditar no que ouvia

 

Parece-me que, numa altura dessas, já ninguém está «apaixonado» Nem ninguém com um pouco de senso espera que assim seja

 

O que se pode esperar então? inquiriu Índia com um nó na garganta, pousando o copo e fitando o marido

 

Companhia, decência, respeito, alguém que tome conta dos filhos, alguém em quem se possa confiar É o que qualquer pessoa devia pretender do casamento

 

Podias arranjar uma empregada ou um cão para te darem essas coisas

 

O que achas que é de esperar. Corações, flores e cartões no Dia dos Namorados? Não me digas que acreditas nisso, índia Se assim for, saberei que passaste mais tempo a falar com a Gail do que me contaste

 

Não espero milagres, Doug, mas quero, sem dúvida, mais do que apenas «alguém em quem confiar», e tu devias desejar bastante mais do que «alguém que tome conta dos filhos. é isso o que o nosso casamento significa para ti? Estavam a avançar rapidamente para coisas específicas

 

Temos algo que funcionou muito bem durante dezassete anos e continuará assim, se não começares a balouçar o barco com essa história das carreiras, reportagens, viagens à Coreia e essa treta de se «estar apaixonado» depois de dezassete anos. Não me parece que alguém seja capaz disso, nem sequer tenha o direito de esperar que aconteça

 

índia sentiu-se como se tivesse sido esbofeteada e fitou-o, horrorizada com aquelas palavras

 

De facto, Doug, é o que espero, sempre esperei e não fazia ideia de que não pensavas o mesmo. Achava que estarias «apaixonado» por mim até morreres, ou o nosso casamento não faz sentido, tal como estou e sempre estive apaixonada por ti. O que te leva a pensar que me mantenho aqui? Porque a nossa vida é excitante? Não, não é. Por mais mundana ou aborrecida que seja por vezes, mantenho-me ao teu lado porque te amo.

 

São palavras muito agradáveis. Contudo, ninguém deve ter ilusões sobre romance nesta altura do campeonato. Estar casado com alguém não é romântico.

 

Porque não? ripostou. Já que ele destruíra a maioria dos seus sonhos numa noite, porque não ir até às últimas consequências? Que diferença faria? Podia ser, não? Talvez as pessoas não se esforcem o suficiente, nem pensem na felicidade que é ter alguém que os ame. Talvez, se Jeff se preocupasse com isso, Gail não andasse por aí a almoçar e sabe-se lá mais o quê com os maridos das outras.

 

Tem mais a ver com uma questão de integridade e moralidade da parte dela do que com o fracasso dele.

 

Não tenhas tantas certezas. Talvez ele seja apenas estúpido retorquiu índia.

 

Não. A estúpida é ela por ter tantas ilusões de adolescente sobre romance e «amo-te» nesta altura da vida. É uma treta.

 

índia manteve-se silenciosa durante um longo momento e depois acenou com a cabeça. Temia que, se pronunciasse uma única palavra sobre o assunto, acabasse por se desfazer em lágrimas ou se levantasse e saísse, mas não o fez. Deixou-se ficar sentada até ao final da refeição, falando de banalidades.

 

Já ouvira o bastante para uma vida. Numa única noite, ele pusera em causa todas as suas crenças e esmagara todos os seus sonhos acerca do significado do casamento e, mais importante ainda, sobre o que ela fazia. Ela era apenas alguém em quem podia confiar e que tomava conta dos filhos.

 

No regresso a casa, só conseguia pensar em que talvez devesse telefonar a Raoul e aceitar a reportagem na Coreia. Contudo, por mais furiosa que pudesse sentir-se com ele, ou desapontada com as palavras que ouvira, nunca faria uma coisa dessas aos filhos.

 

Foi uma noite muito agradável disse Doug quando subiram o acesso à casa e ela tentou esquecer o nó que lhe aPertava o estômago. Ainda bem que deitámos o assunto da carreira para trás das costas. Acho que agora compreendes o que sinto. Na próxima semana, devias telefonar a Raoul para que tire o teu nome da lista.

 

Era como se, depois de se ter expressado, esperasse simplesmente que ela executasse as suas ordens. O oráculo falara, índia nunca lhe conhecera esta faceta, mas também jamais o desafiara assim ao longo daqueles catorze anos.

 

Conheço a tua opinião sobre uma série de coisas pronunciou baixinho, enquanto ficavam no carro um minuto e ele desligava os faróis.

 

Não penses nesses disparates que a Gail te meteu na cabeça, índia. É o lixo que ela espalha para desculpar o seu comportamento e, se conseguir apanhar-te na onda, tanto melhor. Afasta-te dela, só serve para te perturbar.

 

Não fora, porém, Gail a perturbá-la, mas ele. Dissera coisas que sabia que não iria esquecer durante anos. Não estava apaixonado por ela, se é que alguma vez estivera. Doug encarava o amor como algo para idiotas e crianças.

 

Todos acabamos por crescer mais cedo ou mais tarde acrescentou, abrindo a porta do carro e olhando-a por cima do ombro. O problema de Gail é que nunca o fez.

 

Mas tu, sim retorquiu índia num tom triste e, tal como acontecera na noite anterior, ou no restaurante, ele não percebeu.

 

Numa única noite, Doug pusera o casamento deles em causa, atirara a carreira dela pela janela como se fosse uma insignificância e dissera-lhe que não a amava ou, pelo menos, que não estava apaixonado. À luz destes acontecimentos, ela não sabia o que pensar ou sentir, nem como prosseguir caminho, sem ficar afectada.

 

Gosto do restaurante e tu? perguntou ele, ao entrarem na casa.

 

Reinava o silêncio e índia suspeitava de que só Jessica ainda estaria acordada, os outros já deviam ter adormecido. O jantar fora demorado. Doug levara algumas horas a destruir a última e a mais querida das suas ilusões.

 

Achei que a comida foi melhor do que o habitual prosseguiu, sem atender aos danos ocasionados.

 

Doug assemelhava-se ao icebergue que atingira o Titanic. No entanto, consciente do que ele fizera, índia interrogava-se  sobre se o navio iria ao fundo. Era difícil acreditar o contrário. Ou continuaria simplesmente a ser firme, de confiança e uma «boa companheira»? Era o que ele desejava e esperava receber. Não deixava muito espaço para o seu coração, a sua alma e algo com que alimentar as suas esperanças.

 

Também achei. Obrigada, Doug agradeceu e subiu as escadas para ver como estavam os filhos.

 

Passou uns minutos com Jessica, que ainda via televisão. Tal como suspeitara, os outros haviam adormecido e, depois de dar uma olhadela aos quartos, entrou calmamente no dela. Doug estava a despir-se e fitou-a com curiosidade. Estranhava aquela sua postura.

 

Não continuas, por acaso, perturbada com toda aquela treta que a Gail te impingiu? perguntou.

 

índia hesitou um momento e depois abanou a cabeça. Ele era tão surdo e cego que não fazia ideia do que acabara de lhe fazer e ao casamento de ambos. Sabia que era inútil acrescentar mais alguma coisa, ou tentar explicar. Ao fitá-lo, sabia também que, durante toda a sua vida, jamais esqueceria aquele momento.

 

Durante as três semanas seguintes, índia viveu como se fosse um robô. Preparava o pequeno-almoço, levava os filhos ao colégio, ia buscá-los e estava presente em todas as actividades desportivas, desde ténis a basebol

 

Pela primeira vez há muitos anos, esquecia-se de levar a máquina fotográfica e, de súbito, até mesmo esse gesto lhe parecia inútil. Sentia-se como se tivesse sido mortalmente ferida

 

O espírito estava morto e seria uma questão de tempo até que o corpo o seguisse. Era como se, com as palavras que pronunciara e todas as ilusões que destruíra, Doug lhe houvesse sugado a vida, era como um pneu a esvaziar-se E agora tudo o que fazia implicava um enorme esforço

 

Encontrava Gail frequentemente, como era hábito, e sabia que a amiga continuava a ver Dan Lewmson. Almoçaram mais umas vezes e dera a entender que tinham ido para um hotel. Era fácil adivinhar o resto, mas índia não queria, de facto, saber e não fez perguntas

 

Ocultou-lhe a discussão com Doug e quando Gail se apercebeu de que ela estava deprimida, julgou que tudo se devia a ter recusado a reportagem na Coreia

 

índia nunca telefonou a Raoul Lopez para que a tirasse da lista, era agora a última coisa que queria fazer. Apenas desejava escapar para Cape Cod e tentar esquecer o que acontecera. Achava que talvez tudo melhorasse com uma certa distância entre eles, precisava de repensar nas palavras de Doug e tentar esquecer, já que ia passar o resto da vida com ele

 

No entanto, como voltar a sentir o mesmo por um homem que dissera não a amar e para quem representava apenas uma companheira apropriada. Um indivíduo que desdenhava de uma carreira de que ela abdicara a seu favor, por mais brilhante que tivesse sido, com um gesto de indiferença?

 

Agora, sempre que olhava para Doug, sentia-se como se não o conhecesse. O marido parecia não fazer ideia de que as palavras que dissera a haviam ferido daquela forma. Aos seus olhos, nada mudara; ia todos os dias para a cidade às sete e cinco e regressava a casa para jantar, falava-lhe de como lhe correra o dia e depois lia os jornais. Sempre que índia se mostrava menos inclinada a fazer amor com ele do que dantes, atribuía-o simplesmente ao facto de ela estar cansada ou ocupada. Nunca lhe ocorreu que a mulher já não quisesse ou não sabia como enfrentar a situação.

 

índia sentiu um enorme alívio quando, finalmente, partiu com os filhos de férias. Emalara tudo o que precisavam em três dias. Nunca usavam nada de chique em Cape Cod, apenas calções, calças de ganga e fatos de banho e deixavam lá a maioria das coisas, quando voltavam, no fim do Verão. Contudo, havia sempre algo mais que os miúdos queriam levar. Conseguiu evitar Doug quase durante toda a semana, pois ele teve reuniões com dois novos clientes e passou duas noites na cidade.

 

Na manhã em que partiram, ele ficou no relvado a acenar-lhes e quase se esqueceu de lhe dar um beijo de despedida. Acabou por fazê-lo de fugida e sem muita emoção e foi a primeira vez que índia não se importou.

 

Os miúdos e o cão iam na carrinha com ela, e as malas atrás, tão apertadas que foram precisos três para fechar a porta. Doug gritou-lhe ao arrancar:

 

Não te esqueças de me telefonar!

 

índia acenou com a cabeça, sorriu e afastou-se, com a sensação de que deixava um estranho para trás. O marido já lhe tinha dito que não poderia ir no primeiro fim-de-semana e, na noite anterior, acrescentara que talvez também lhe fosse impossível aparecer no 4 de Julho. Estava com demasiado trabalho por causa dos novos clientes. Achou-a muito boa desportista por não se queixar e agradeceu-lhe. Nem sequer reparara que, nas últimas semanas, desde o jantar no Ma Petite Amie, ela andava invulgarmente calma.

 

Demoraram seis horas e meia a percorrer a distância entre westport e Harwich e pararam várias vezes pelo caminho, nos McDonald’s. Os miúdos estavam todos de bom humor, mal conseguiam esperar o momento de ir até à praia e rever os amigos. Enquanto falavam nisso e no que fariam assim que chegassem, apenas Jessica reparou que a mãe parecia ausente. Ela ia no banco da frente ao lado de índia

 

Passa-se alguma coisa, mamã?

 

índia sentiu-se comovida com a atenção da filha. Doug não dera por nada, pensava, como habitualmente, nos negócios e quase parecera aliviado ao vê-los partir, a fim de poder dedicar-se a tempo inteiro aos seus novos clientes

 

Não, estou óptima Apenas cansada. Andei muito ocupada com os preparativos da viagem

 

Era um motivo plausível para o seu alheamento, queria evitar dizer à filha que estava irritada com o pai. Era a primeira vez que sentia que ela e Doug tinham um sério problema

 

Porque é que o papá não vem nas duas primeiras semanas quis saber

 

Jessica reparara que há semanas que a mãe andava muito mais sossegada do que o habitual e interrogou-se sobre se haviam brigado ou algo do género, embora os pais dessem a sensação de discutirem menos do que os outros casais

 

Anda ocupado com os novos clientes Virá no fim-de-semana a seguir e passará três semanas connosco em Agosto respondeu

 

Jessica acenou com a cabeça, colocou os auscultadores do walkman e, durante o resto da viagem, índia perdeu-se nas suas próprias cogitações, enquanto percorria o caminho familiar até Massachusetts Fazia-o todos os verões

 

Falara com Gail no dia anterior e eles iam partir nesse fim-de-semana para Paris, mas a amiga mostrava-se pouco entusiasmada. Se possível, ainda menos do que o costume. Passara uns bons bocados com Dan Lewmson e não lhe apetecia deixá-lo, sobretudo por saber que se tratava de uma relação que não sobreviveria ao tempo nem à distância. Quando ela voltasse, Dan teria prosseguido a sua vida de adaptação à nova rotina e, sem dúvida, que já estabelecera ligação com o rebanho de divorciadas esfaimadas, à espera para o devorarem

 

Tudo o que Gail tinha a oferecer-lhe eram tardes ocasionais num motel e havia muitas outras que podiam fazer o mesmo. Não lhe restavam ilusões sobre a importância que tinham  um para o outro e, só de a ouvir falar nisso, índia ficara ainda mais deprimida. Desejou-lhe boa viagem e disse-lhe que lhe telefonasse ao voltar. Talvez ela e as crianças pudessem ir passar uns dias a Cape Cod, enquanto Jeff estivesse a trabalhar. Gail respondeu que adoraria.

 

Chegaram a casa, em Harwich, ao fim da tarde, índia desceu da carrinha e esticou as pernas, detendo-se a fitar a límpida extensão de oceano azul, com uma sensação de alívio. Estar ali era mesmo o que precisava.

 

A casa era encantadora e confortável, uma antiga mansão vitoriana, e sempre a achara extremamente repousante. Tinham amigos em casas de férias próximas, alguns de Boston, outros de Nova Iorque, e índia sentia-se sempre feliz por revê-los.

 

No entanto, este ano queria passar uns dias sozinha com os filhos. Precisava de algum tempo para reflectir, organizar ideias e recuperar do choque sofrido naquele fatídico jantar. Era a primeira vez, há catorze anos, que, depois de se instalarem, não lhe apetecia telefonar a Doug, mas ele ligou nessa noite para saber se tinham chegado bem, falou com os filhos e depois com índia.

 

Fizeste boa viagem? inteirou-se e ela garantiu-lhe que sim.

 

A casa havia sido limpa nessa semana por um serviço especializado e estava em ordem. Não havia rachas, vidros partidos, nem prejuízos causados pelo Inverno. Informou-o de tudo e ele pareceu satisfeito. Ficou surpreendida ante a pergunta seguinte do marido:

 

Porque não telefonaste quando chegaram? Receei que pudesse ter sucedido alguma coisa.

 

«Porquê? Já que não queria saber de corações e flores, que importância tinha não lhe telefonar? O que poderia significar aos seus olhos? A perda de alguém de confiança para tratar dos filhos? Podia contratar uma governanta, se lhe acontecesse qualquer coisa.»

 

” Desculpa, Doug. Estivemos ocupados a arejar a casa e

a instalar-nos.

 

Pareces cansada retorquiu, compreensivo.

 

Há semanas que andava fatigada e ele nunca se mostrara atento à sua fadiga ou depressão.

 

É uma longa viagem, mas estamos todos bem tanto as crianças como a ama continuavam vivas e a salvo, tal como o cão.

 

Gostava de ter ido com vocês, em vez de ficar aqui a aturar os clientes disse, parecendo sincero.

 

Virás dentro em pouco respondeu índia num tom simpático, mas ansiosa por desligar. Nada tinha a dizer-lhe de momento, sentia-se desprovida de energia e sem nada para lhe oferecer, e Doug não entendia. Nós vamos telefonando garantiu, despreocupada, e um instante depois desligaram.

 

Como habitualmente, Doug não lhe dissera que a amava. De qualquer forma, não interessava. Tudo indicava que se tratava de uma expressão que, nesta altura das suas vidas, pouco importava aos olhos dele.

 

Voltou para junto dos filhos e ajudou-os a fazerem as camas, pois o serviço de limpeza não se encarregara deste pormenor. Depois de os deitar, esgueirou-se devagar até à sua câmara escura. Há quase um ano que não entrava lá, mas encontrou tudo na mais perfeita ordem, como a deixara.

 

Acendeu a luz e observou a parede onde se encontravam penduradas algumas das fotografias favoritas do pai. Também lá pusera uma de Doug e deteve-se a fitá-la um longo momento. O marido tinha um rosto bem-parecido e familiar, que conhecia melhor do que todos os do mundo, exceptuando os dos filhos, mas conhecera o dele há mais tempo.

 

Ao fixar os olhos na fotografia, encontrou toda a frieza que detectara nas últimas três semanas e tudo o que lhes faltava. Interrogou-se acerca do que lhe escapara antes. «Quisera acreditar que havia algo mais? Que Doug ainda a amava como quando eram jovens? Que ainda estava apaixonado por ela, como acreditara até ele afirmar que o amor era insignificante num casamento?»

 

Ainda ouvia as suas palavras, como se ele tivesse acabado de as pronunciar: companhia... decência... respeito, alguém em quem se possa confiar para tomar conta dos filhos. Perguntou a si mesma se era isto que desejava e concluiu que queria muito mais dele.

 

Desviou os olhos, pousando-os numa fotografia do pai, um homem alto e magro, de certa maneira parecido com Doug, só que havia riso nos seus olhos, entusiasmo e felicidade na sua expressão e índia imaginava-o apaixonado em qualquer idade. Morrera tão novo, apenas com quarenta e dois anos, e, contudo, tinha um ar muito mais vivo na fotografia do que Doug. Emanava algo de arrebatador.

 

índia sabia que a mãe sofrera com as suas ausências, que levara uma vida difícil, mas também sabia até que ponto ela o amava e quanto era correspondida. E como ficara inconsolável aquando da sua morte. Lembrava-se, como se fosse ontem, e como igualmente se sentira destruída ao conhecer o que acontecera pela mãe. Era incapaz de imaginar um mundo sem o pai, algures. Tornava-se difícil acreditar que ele morrera há vinte e oito anos, parecia-lhe já ter decorrido uma vida inteira.

 

Havia também fotografias da sua autoria na parede da câmara escura e observou-as cuidadosamente. Eram boas, muito boas e captavam sentimentos e emoções que faziam com que quase se assemelhassem a quadros. Fixou os rostos devastados de crianças esfomeadas e uma, sentada numa rocha, agarrada a uma boneca e chorando, enquanto uma aldeia ardia nas suas costas. Havia rostos de velhos e soldados feridos e uma mulher, rindo de alegria, segurando o bebé recém-nascido. índia ajudara a trazê-lo ao mundo e ainda se recordava desse momento. Acontecera numa casinha das proximidades de Quito, quando ela pertencia ao Corpo da Paz.

 

Eram fragmentos da sua vida, congelados no tempo, emoldurados, para que os observasse eternamente. Ainda lhe custava acreditar que tudo isso desaparecera da sua existência. Tinha feito uma permuta que sempre lhe parecera justa, mas que agora a levava a interrogar-se. «Recebera o suficiente em troca do que perdera?» Sabia que sim, ao pensar nos filhos. «Mas o que tinha além disso? E depois de eles crescerem, o que restaria?» Eram essas as perguntas para que não arranjava resposta.

 

Passou em revista os produtos químicos e o equipamento. Tomou algumas notas, após o que desligou as luzes e regressou ao quarto. Despiu-se, enfiou a camisa de dormir, apagou a luz e ficou deitada muito tempo, a escutar o ruído do oceano. Era um som calmo de que se esquecia todos os anos e depois se lembrava, ao regressar. Embalava-a até dormir, à noite, e deixava-se ficar a ouvi-lo quando acordava, de manhã. Adorava a tranquilidade e o conforto que lhe oferecia, era uma das coisas de que gostava ali.

 

Quando fechou os olhos e adormeceu, saboreou o facto de estar sozinha desta vez, apenas na companhia dos filhos, das recordações e do oceano. Pelo menos, de momento, era tudo o que desejava.

 

O sol brilhava quando acordou no dia seguinte, em Harwich, e o oceano reluzia, como que orlado de prata. Quando entrou na cozinha, os filhos já se tinham levantado e preparavam flocos. Tinha vestido uma T-shirt, calções e sandálias. Apanhara o cabelo ao alto com duas velhas travessas de tartaruga e parecia muito bonita, embora não se apercebesse.

 

O que vão fazer, hoje? perguntou colocando uma cafeteira com café ao lume.

 

Parecia disparatado fazê-lo só para si, mas gostava de se sentar à sombra, com uma chávena de café, a ler, erguendo ocasionalmente os olhos para fitar o oceano. Era um dos seus passatempos favoritos em Cape Cod.

 

Vou visitar os Boardmans decidiu Jessica.

 

Tinham três filhos adolescentes e uma filha da idade dela. Jessica conhecia-os há muitos anos, adorava-os e os rapazes despertavam-lhe um interesse muito especial, agora que dois estavam no liceu e o terceiro era caloiro na universidade.

 

Jason também tinha um amigo na rua, telefonara-lhe na noite anterior e fizera planos para passar o dia com ele. Aimee queria ir nadar para a casa de uma amiga e índia prometeu ligar e combinar tudo depois de beber uma chávena de café.

 

Sam queria passear pela praia com ela e Crockett, o labrador. Parecia-lhe um bom plano e prometeu aceder ao pedido um pouco mais tarde. Entretanto, entreteve-se com os brinquedos que ali deixara no ano anterior e estava ansioso por andar de bicicleta.

 

Às dez horas iam todos a caminho e ela e Sam desceram os degraus até à praia, com o cão atrás deles. Sam trouxera uma bola e lançava-a incessantemente para longe do cão, que

ia apanhá-la sem hesitar, mesmo quando o miúdo a atirava Para a água.

 

índia caminhava, observando-os, feliz, com a máquina fotográfica a tiracolo. Depois de ter andado com ela ao ombro  quase trinta anos, dava-lhe a sensação de fazer parte do próprio corpo. Os filhos não a imaginavam sem ela.

 

Caminharam quase um quilómetro e meio pela praia, antes de encontrarem alguém conhecido. Era o início da época e as pessoas tinham começado a chegar para as férias de Verão. Os primeiros amigos que avistaram foi um casal que ela e Doug conheciam há anos, os dois cirurgiões de Boston, Jenny e Dick Parker. Ele era um pouco mais velho do que Doug e ela, com um ou dois anos mais, andava algures na casa dos cinquenta. Tinham um filho na Faculdade de Medicina de Harvard, mas há dois anos que ele não aparecia em Cape Cod, por andar demasiado ocupado. Contudo, ambos estavam contentíssimos por o rapaz ter decidido seguir-lhes as pegadas.

 

Sorriram, mal deram pela aproximação de índia e Sam.

 

Interrogava-me sobre quando chegariam observou Jenny com uma expressão deliciada.

 

índia recebera, como habitualmente, um cartão de boas-festas deles, mas era raro falarem-se durante o Inverno. Só se viam no Verão, na praia.

 

Chegámos na noite passada explicou Índia. Mas Doug ainda vai demorar umas semanas. Tem demasiados clientes novos.

 

Que pena! exclamou Dick, pondo-se a lutar com Sam, enquanto o cão corria à volta deles, ladrando de excitação. Vamos dar uma festa no quatro de Julho e esperávamos que viessem. Terás de aparecer sem ele, e traz os miúdos. Desta vez, a Jenny obrigou-me a contratar um cozinheiro, depois de, no ano passado, lhe ter queimado todas as costeletas e hambúrgueres.

 

Mas os bifes estavam óptimos! sorriu índia, lembrando-se perfeitamente de que as costeletas tinham pegado fogo e os hambúrgueres ficado em cinzas.

 

Obrigada por te recordares agradeceu Dick, correspondendo ao sorriso. Sempre tivera um carinho muito especial por ela e pelos filhos, o que era visível na forma como brincava com Sam. Espero-vos a todos.

 

Vamos adorar. Quem mais estará? perguntou índia e Jenny mencionou os convidados, entre os quais alguns  casais conhecidos de índia e com filhos, o que seria agradável para os miúdos.

 

Também vamos receber uns amigos especiais no quatro de Julho prosseguiu Jenny e, embora isso não fosse novidade, costuma acontecer todos os verões, desta vez Jenny parecia muito ansiosa em falar deles. Serena Smith e o marido também virão.

 

A escritora? sobressaltou-se índia.

 

Serena estava permanentemente na lista de bestsellers, com os seus romances escaldantes, e índia sempre achara que ela devia ser uma pessoa interessante.

 

Andámos juntas na faculdade explicou Jenny. Fomos perdendo o contacto ao longo dos anos, embora na altura a conhecesse bastante bem. Este ano, encontrei-a em Nova Iorque. É muito divertida e gosto do marido.

 

Espera até veres o iate dele interferiu Dick, num tom admirativo. Fizeram uma viagem à volta do mundo e o barco é mesmo uma maravilha. Vão sair de Nova Iorque com meia dúzia de amigos e planeiam passar uma semana aqui. Tens de trazer os miúdos para o verem.

 

Informem-nos quando estiver aqui pediu índia, e Dick riu.

 

Acho que será desnecessário. É impossível que não o vejas. Mede cinquenta metros e tem uma tripulação de nove elementos. Vivem muito bem, mas são simpáticos. Acho que vais gostar deles. É uma pena que o Doug não esteja cá.

 

Ficará tristíssimo comentou índia delicadamente.

 

Não precisava explicar-lhes que o marido se sentia enjoado, só de olhar para um barco, mas não era esse o caso dela, e sabia que Sam ficaria excitadíssimo.

 

Tenho a certeza que ele sabe quem é o dono do iate. Está na banca internacional e chama-se Paul Ward.

 

Fora por duas vezes capa da Time nos últimos anos e índia lera algo a seu respeito no Wall Street Journal. Contudo, nunca o ligara a Serena Smith. Deveria andar pelos cinquenta e tal anos.

 

Será divertido conhecê-los. Estamos a ficar chiquérrimos por aqui este ano, não? Com escritoras famosas, grandes iates e banqueiros internacionais. Faz com que todos os outros  sejam comparativamente um pouco monótonos, não? sorriu índia.

 

O casal parecia estar sempre rodeado de gente interessante.

 

Nunca te chamaria propriamente monótona, minha querida replicou Dick com um sorriso e rodeando-lhe os ombros com o braço. Sentia-se contente com a presença dela. Partilhava a sua paixão pela fotografia, embora fosse um mero amador, mas tirara algumas boas fotografias dos filhos. Tiveste alguns trabalhos este Inverno?

 

Nada desde Harlem respondeu índia num tom triste, após o que lhe falou da reportagem na Coreia que havia recusado.

 

Teria sido duro comentou, quando ela o pôs ao corrente dos detalhes.

 

Seria impossível abandonar as crianças durante um mês. O Doug ficou louco só de ouvir falar no assunto. Não quer mesmo que eu trabalhe.

 

É um crime com um talento como o teu ripostou com um olhar pensativo, enquanto Jenny falava com Sam sobre os desportos que ele praticara nesse Inverno. Devias convencer o Doug a deixar-te avançar e não a recuar acrescentou num tom sério, e índia lembrou-se do fatídico jantar.

 

- Doug, decididamente, não partilha essa opinião confessou com um sorriso calmo ao seu velho amigo. Acha que o trabalho e a maternidade são incompatíveis e algo na sua expressão indicou a Dick que o assunto a magoava.

 

Deixa que a Jenny lhe fale. Há cerca de cinco anos sugeri que ela se reformasse e quase me matou. Eu só achava que ela andava a trabalhar demasiado, ensinando e praticando cirurgia, e esteve prestes a divorciar-se. Não voltarei a tentar até ela chegar aos oitenta rematou, fitando a mulher com afecto e uma expressão maliciosa.

 

Nem sequer nessa altura avisou Jenny com um sorriso e interferindo na conversa. Tenciono ensinar até, pelo menos, aos cem.

 

Também ela disse Dick, sorrindo a índia. Sempre se sentira atraído pela beleza e naturalidade da amiga- Ela parecia não ter a mínima consciência do efeito que produzia nas pessoas. Estava tão habituada a observá-las através de uma lente que nunca lhe ocorria que alguém a fitasse, índia falou-lhe de uma nova máquina fotográfica que comprara, explicou-lha em pormenor e prometeu que o deixaria experimentá-la, pois fizera questão de a trazer. Dick adorava visitar o laboratório dela e índia ensinara-o a usá-lo.

 

Ele sempre se sentira impressionado com o seu talento, muito mais do que Doug, que há muito deixara de o apreciar.

 

Os Parkers disseram que tinham de voltar a casa para receber uns amigos e índia prometeu ir visitá-los com Sam dali a um dia ou dois, além de os convidar a aparecerem quando quisessem.

 

Não te esqueças do quatro! recordaram-lhe, quando começou a afastar-se com Sam e Crockett, abanando a cauda atrás deles.

 

Lá estaremos prometeu com um aceno e seguiu de mão dada com o filho.

 

Dick Parker disse à mulher quanto se sentia feliz com a presença deles.

 

É ridículo que Doug não queira que ela trabalhe comentou Jenny, enquanto caminhavam pela praia, pensando no que a amiga lhes contara. índia não é uma repórter fotográfica de trazer por casa. Fez coisas fantásticas antes de se casarem.

 

Mas têm uma série de filhos ripostou ele, tentando ver os dois lados da questão.

 

Sempre suspeitara de que era assim que Doug pensava. Raramente falava das fotografias da mulher e não se pronunciava muito sobre elas.

 

” E daí? insurgiu-se Jenny, sem achar que esse fosse um motivo para que índia deixasse de aceitar reportagens, onde quer que lhe apetecesse. Podiam arranjar alguém para tomar conta dos miúdos. Ela não pode passar o tempo a fazer de ama-seca só para lhe afagar o ego.

 

Okay, «Simone». Já percebi espicaçou-a. Dá o recado ao Doug e não grites comigo.

 

Desculpa sorriu ao marido e ele rodeou-lhe os ombros com o braço. Desde os seus tempos de estudantes em Harvard que eram casados e adoravam-se. Só que odeio quando os homens tomam posições destas. É tão injusto. E se ela lhe dissesse que abandonasse o emprego e tomasse conta dos miúdos? Acharia que ela endoidecera

 

A sério? Fale-me disso, doutora Parker.

 

De acordo, de acordo, Simone de Beauvoír foi realmente o meu modelo Mata-me.

 

Ora. Sabes que te amo, embora tenhas opiniões muito firmes sobre uma série de assuntos

 

Amavas-me se não fosse assim? redarguiu ela com um brilho nos olhos, e era óbvio quanto gostavam um do outro.

 

Não a este ponto e com toda a probabilidade que já me teria farto.

 

Estar casado com Jenny Parker fora tudo menos monótono. A única coisa que Dick lamentava era não haver mais filhos. Contudo, ela sempre estivera por demais envolvida com o seu trabalho para terem mais do que um e ele sentia-se feliz com o seu único rebento. Phillip parecia-se muito com a mãe e ambos achavam que seria um médico famoso. De momento, estava resolvido a seguir pediatria e as crianças adoravam-no. Ambos concordavam com a sua decisão.

 

Enquanto caminhavam pela praia, Sam falava dos Parkers com a mãe. Adorava tê-los visto e os comentários de Dick sobre o iate não tinham sido ignorados.

 

Ouviste o que disseram sobre o barco que os amigos vão trazer no quatro de Julho? perguntou índia ao filho, e ele acenou com a cabeça. Deve ser enorme.

 

Achas que nos vão deixar andar nele? quis saber Sam, interessado, pois adorava barcos e, nesse ano, ia ter aulas de vela no clube naval.

 

Tudo indica que sim, Dick prometeu que nos levaria.

 

Os olhos de Sam brilhavam de excitação ante a perspectiva e índia estava ansiosa por conhecer Serena. Conhecia dois ou três dos seus livros e adorava-os, embora não tivesse arranjado tempo para ler os mais recentes.

 

Ao chegarem ao fundo da praia, voltaram para trás com os pés dentro de água. Sam atirava a bola ao cão e ele ia sempre buscá-la. Quando entraram em casa, os outros ainda não estavam, índia preparou o almoço e depois pegaram nas bicicletas.

 

Passaram junto às casas de amigos de longa data e cumprimentaram-nos. Gostavam de estar ali, num lugar que lhes agradava, com gente conhecida. Era o sítio perfeito para todos. Na última casa, Sam encontrou um grupo de amigos e índia deixou que ele ficasse para jantar. Pedalou de volta, sozinha, e, quando chegou, o telefone estava a tocar. Julgou que pudesse ser Doug e hesitou um momento antes de atender. No entanto, respondeu-lhe a voz de Dick Parker.

 

Os Wards acabaram de me falar anunciou, parecendo excitado. Chegam amanhã. Pelo menos ele, com uma série de amigos. Ela apanha o avião para vir passar o fim-de-semana. Quis informar-te para poderes trazer o Sam. O Paul diz que estarão aqui de manhã. Nós ligamos-te.

 

Eu digo ao Sam prometeu índia e depois foi até à cozinha fazer uma sopa para ela.

 

De facto, nenhum dos filhos veio jantar, mas, pelo menos, todos telefonaram a avisá-la, índia sentia-se descansada quanto à independência deles, era uma das coisas que mais lhe agradava em Cape Cod. Tratava-se de uma comunidade segura de gente que conhecia e em quem confiava. Quase não havia estranhos, nem sequer veraneantes ocasionais. As pessoas que tinham casa ali, gostavam por de mais do sítio para procurarem outro qualquer. Era um dos motivos por que Doug nunca queria ir até à Europa e, em alguns aspectos, era incapaz de o censurar, embora, até há pouco tempo, ansiasse por viajar com ele e os filhos. Nessa noite, quando Sam voltou a casa, informou-o da chegada do iate, na manhã seguinte:

 

Eles prometeram telefonar-nos, mal o barco apareça. Espero que não se esqueçam disse Sam, com um ar Preocupado quando ela o meteu na cama, lhe deu o beijo de boas-noites e garantiu que podia estar descansado.

 

Os outros chegaram a casa pouco depois. Preparou-lhes limonada e pipocas e sentaram-se na varanda a conversar e a rir até que todos acabaram por se ir deitar. Nessa noite, Doug não telefonou e ela também não. Era um alívio dispor de algum tempo para si própria e, quando os filhos adormeceram, refugiou-se na câmara escura.

 

Era tarde quando, por fim, regressou ao quarto e contemplou a lua cheia sobre o oceano. Havia um milhão de estrelas no céu, era uma noite perfeita num lugar que amava e, por um momento, sentiu a falta de Doug. Talvez, no fundo, fosse melhor se ele estivesse aqui, mau grado as suas recentes disputas e a perspectiva deprimente que o marido tinha do casamento.

 

índia não queria ser «alguém de confiança», odiava a ideia. Queria ser a mulher que ele amava e com quem ainda sonhava. Ainda agora lhe era difícil acreditar que ele pensava tão pouco nisso. «Talvez não atribuísse o mesmo significado que ela a certas palavras», pensou, fitando o céu nocturno e começando a sentir-se cansada. «Era impossível... não? Seria tudo assim tão seco e rígido?»

 

Desejava tanto ser mais do que «alguém de confiança» para cuidar dos filhos! Queria correr com ele pela praia de mão dada, deitar-se na areia e beijá-lo, como haviam feito quando eram jovens, na Costa Rica. Era impossível que ele se tivesse esquecido e afastado tanto dos sonhos de outrora.

 

«O que acontecera ao jovem que ele fora, quando se tinham conhecido, há vinte anos?» A época que haviam passado no Corpo da Paz tornara-se uma aberração aos olhos dele, e vinte anos haviam-no transformado numa pessoa muito diferente. Não era o mesmo homem.

 

«Crescera», segundo as suas palavras. Contudo, nesse processo, faltara-lhe algo... e ela perdera alguém que tanto amara, o bastante para haver desistido de toda uma vida. Ela também mudara, mas não o suficiente para esquecer o que fora. Era uma pena para ambos. Adormeceu imersa nestes pensamentos e só acordou de manhã.

 

Estava um dia soalheiro quando despertou e uma brisa suave agitava as cortinas da janela aberta do quarto. Espreguiçou-se, levantou-se, olhou lá para fora e, ao fixar o oceano, deparou-se-lhe o maior iate que até então vira.

 

Pessoas corriam de um lado para o outro no convés, uma série de bandeiras esvoaçava no mastro, o casco era azul-escuro e a estrutura principal prateada. Era espectacular e soube, de imediato, a quem pertencia. Não precisava que os Parkers lhes telefonassem, o barco via-se à distância. Navegava devagar na frente deles, e ela apressou-se a ir chamar Sam.

 

Anda... levanta-te... Tenho uma coisa para te mostrar! Acordou-o ao entrar no quarto e destapou-o suavemente. Já chegou!

 

O quê?

 

Sam estava ainda meio a dormir quando se levantou e seguiu a mãe até à janela, onde ela apontou para o barco.

 

Uau, mamã! Vê só! Deve ser o maior iate do mundo! Vão-se embora? inquiriu, preocupado, com medo de ter perdido o acontecimento.

 

Devem estar a dirigir-se ao clube naval.

 

Haviam içado uma vela colorida e ofereciam uma vista espectacular. O vento soprava a favor e o barco velejou rumo ao local pretendido.

 

índia agarrou rapidamente na máquina fotográfica, correu com Sam até à varanda e tirou fotografias. Anotou mentalmente que iria oferecer um conjunto a Dick Parker, depois de as revelar. O barco era, de facto, uma maravilha.

 

Podemos telefonar ao Dick? perguntou Sam, que dificilmente continha o entusiasmo.

 

Talvez seja melhor esperarmos um pouco. São oito horas da manhã.

 

E se eles regressam a Nova Iorque, antes de podermos

vê-lo?

Acabaram de chegar, querido, e o Dick garantiu que ficam toda a semana. Acho que não vais perder a oportunidade garanto. Que tal umas panquecas, primeiro?

 

Foi a única coisa em que conseguiu pensar para o acalmar e o garoto anuiu com relutância. Por fim, às oito e meia, não conseguia aguentar nem mais um instante e suplicou à mãe que telefonasse aos Parker.

 

Jenny atendeu e índia desculpou-se por os incomodar tão cedo, mas explicou a situação e ela riu ao ser inteirada da impaciência de Sam.

 

De facto, acabaram de ligar do barco. Convidaram-nos para almoçar. Vão ancorá-lo junto ao clube naval.

 

Foi o que eu disse ao Sam. Pareceu-me que era para lá que se dirigiam. Sam regressara à varanda munido de binóculos, mas o barco desaparecera agora do seu campo de visão.

 

Porque não vêm almoçar connosco? sugeriu Jenny. Tenho a certeza de que Paul não se importará. Achas que os teus outros filhos também querem vir? Posso telefonar.

 

Vou perguntar-lhes e já te digo. Muito obrigada, Jenny. Não sei se o Sam conseguirá aguentar até à hora do almoço. Talvez tenhas de vir dar-lhe um calmante.

 

Espera só até ele o ver respondeu Jenny.

 

Quando os outros se levantaram, índia falou-lhes do barco e perguntou-lhes se gostariam de ir, mas todos tinham planos e aparentemente achavam os amigos muito mais excitantes do que um iate.

 

Vocês são mesmo idiotas! opinou Sam, desdenhoso, enquanto tomavam o pequeno-almoço. índia fizera panquecas para todos e o garoto continuava sentado à mesa, embora já tivesse comido a sua parte. É o maior iate do mundo! Deviam vê-lo!

 

Como sabes? retorquiu Jason, indiferente. Os filhos dos Tiltons tinham recebido a visita de uma prima de Nova Iorque e tratava-se da rapariga mais engraçada que ele alguma vez vira. Não havia iate no mundo que se lhe comparasse e não iria perder a oportunidade de passar o dia com ela, por maior que o barco fosse.

 

A mamã e eu vimo-lo esta manhã. É tão grande... tão grande como... índia sorriu ante a exiguidade de vocabulário do filho para o descrever.

 

Aimee era a única que enjoava, como o pai, por isso não subiria a bordo, nem que a amarrassem, e Jessica já elaborara planos mais interessantes com os Boardmans. Três adolescentes, um deles caloro em Duke, e a sua melhor amiga ofereciam um programa muito melhor do que qualquer iate.

 

Sam e eu vamos lá almoçar, pois fomos convidados decidiu índia. Talvez voltem a fazê-lo e possam ir então. Vou tirar montes de fotografias. Um iate de cinquenta metros era, sem dúvida, um evento a não perder.

 

Ao meio-dia, quando ela e Sam montaram nas bicicletas para se dirigirem ao clube naval, ele estava tão excitado que mal conseguia pedalar a direito. Quase caiu por duas vezes e índia teve de lhe pedir que se acalmasse. Garantiu-lhe que o barco não iria a lado nenhum sem eles.

 

Achas que vão velejar hoje, mamã?

 

Não sei, talvez. É provavelmente difícil entrar e sair. Talvez não queiram fazê-lo. Contudo, pelo menos, vemo-lo.

 

Não te esqueças de tirar montes de fotografias recordou-lhe e ela riu.

 

Era divertido vê-lo tão feliz e excitado. Partilhar com ele aquele momento, era uma experiência interessante e sentia-se quase tão excitada como o filho.

 

Chegaram facilmente ao clube naval e percorreram a doca, sem despregar os olhos do barco, que se destacava ao fundo, com o mastro correspondendo à altura de uns dezassete andares. À primeira vista, quase parecia maior do que o clube. Havia alguns bonitos iates, mas nenhum que se lhe comparasse.

 

índia constatou, aliviada, que os Parkers já lá estavam para os receber. Teria sido embaraçoso subir a bordo e verem-se no meio de estranhos. Contudo, Sam não se importaria, nem que tivesse de rastejar pelo meio de piratas. Nada o deteria, quando percorreu o passadiço que o separava dos braÇos de Dick Parker, índia estava mesmo atrás. Haviam deixado as bicicletas na doca e ela vestia calções e uma T-shirt brancos, apanhara o cabelo na nuca e prendera-o com uma fita branca.

 

Mais parecia a irmã mais velha do que a mãe de Sam, quando avistou os Parker e lhes sorriu.

 

Viam-se algumas pessoas instaladas no convés em cadeiras confortáveis e em dois enormes e elegantes divãs forrados de azul. Por todo o lado havia membros da tripulação, vestidos com calções azuis e T-shirts brancas. No meio de, pelo menos uma meia dúzia de convidados, destacava-se um homem alto, de cabelo grisalho, mas com um ar jovem.

 

Ao aproximar-se, índia reparou que o cabelo dele fora da mesma cor do dela, apresentando-se agora com fios brancos, permeados de um louro-palha. Tinha uns olhos muito azuis, um rosto agradável e firme, vestia calções brancos e uma T-shirt vermelha que lhe moldava os ombros robustos e o corpo esguio e atlético.

 

Instantes depois, estava junto de Dick Parker. Os olhos do anfitrião cruzaram-se com os de índia e, em seguida, ele baixou-os rapidamente para Sam, esboçou um largo sorriso e estendeu-lhe a mão para o cumprimentar.

 

Deves ser o amigo do Dick disse. Porque demoraste tanto? Estávamos à tua espera.

 

A minha mãe anda devagar de bicicleta. Cai, se eu der de mais aos pedais respondeu, à guisa de explicação.

 

Sinto-me muito contente com a vossa presença declarou o anfitrião num tom amistoso e de boas-vindas, fitando Índia com um riso nos olhos.

 

Simpatizou de imediato com Sam e ficou um tanto intrigado com a mãe dele. Tratava-se de uma mulher bonita, com uma expressão inteligente e um ar divertido. Orgulhava-se indubitavelmente do filho e, ao conversar com o miúdo, concluiu que tinha bons motivos para tal. Era um rapazinho inteligente, interessado e delicado, que formulou um milhão de perguntas com todo o sentido.

 

Sam sabia mesmo qual o modelo do barco, tinha uma ideia da altura do mastro principal, baseada no seu comprimento, e conhecia o nome de todas as velas. Nutria, obviamente, uma paixão por iates, o que despertou a simpatia imediata do anfitrião.

 

Decorreram uns bons cinco minutos, antes que Paul Ward estendesse a mão a índia e se apresentasse. Nessa altura, já Sam se sentia como se fosse dono do barco. Tinha-se tornado amigo à primeira vista de Paul, e este desapareceu de imediato com ele para lhe mostrar a casa do leme.

 

Depois, Dick Parker apresentou Índia ao resto das pessoas. Ele e Jenny conheciam toda a gente e índia entabulou conversa facilmente, enquanto lhe era dado optar entre uma taça de champanhe ou um Bloody Mary. Pediu, em vez disso, um sumo de tomate e este surgiu, segundos mais tarde, num pesado copo de cristal com o nome do barco gravado. Chamava-se Sea Star, fora construído especialmente para Paul em Itália, como explicou um dos convidados, e era o segundo barco do género que Paul tivera. Viajara pelo mundo nos dois e todos comentaram que era um óptimo marinheiro.

 

O seu filho aprenderá muita coisa com ele explicou outro convidado. Quando era jovem, participou na Taça da América e jamais deixou de estar ligado ao evento. Afirma, sem cessar, que vai afastar-se de Wall Street para viajar à volta do mundo, mas acho que Serena nunca o permitirá e todos riram.

 

Ela acompanha-o para todo o lado? interessou-se índia.

 

Ansiava por começar a tirar fotografias ao barco, mas queria fazê-lo de forma discreta e esperava ter essa oportunidade mais tarde. No entanto, todos riram ante a pergunta formulada, parecia tratar-se de um gracejo e um dos convidados acabou por explicar:

 

A ideia que Serena faz de uma viagem agitada é de Cannes a Saint-Tropez, ao passo que Paul só se sente realizado quando se vê no meio de um tufão, no oceano Índico. Serena apanha o avião para se encontrar com ele em vários portos, mas não muitas vezes. Tenta convencê-lo a comprar um avião e a passar menos tempo no barco, mas não me parece que venha a conseguir respondeu-lhe uma mulher sentada na sua frente, e o homem ao lado dela acenou com a cabeça.

 

Serena odeia quando Paul faz longas viagens de barco.

Fica muito mais feliz quando atracam em Antibes ou Saint-Tropez- Ela não tem decididamente espírito de marinheiro.

 

Aos olhos de índia tornava-se difícil encarar uma viagem

no Sea Star como um problema, mas talvez a famosa escritora

enjoasse. Contudo, o desagrado de Serena pelas longas viagens  de barco parecia ser bem conhecida do grupo e inspirava meia dúzia de histórias a seu respeito.

 

Enquanto os outros iam falando, índia empunhou tranquilamente a máquina e pôs-se a tirar fotografias. Estavam tão embrenhados nas histórias que mal repararam, mas, decorridos uns minutos, alguém elogiou a máquina. Tratava-se da nova que quisera mostrar a Dick Parker e, quando o fez, ele adorou, e falou naturalmente de Índia a todos os outros:

 

O pai dela ganhou um Pulitzer explicou Um destes dias, também índia o ganhará, se regressar ao trabalho. Esteve em tantos lugares do mundo quanto Paul, mas, por regra, com armas apontadas ou ao som de disparos. Deviam ver algumas das suas fotografias acrescentou, orgulhoso.

 

Há muito que não faço nada retorquiu ela modestamente. Desisti, quando me casei.

 

Nunca é tarde para mudares declarou Jenny num tom firme.

 

Os convidados prosseguiram a conversa e decorreu meia hora até que Sam e Paul Ward reaparecessem. Os olhos do garoto brilhavam intensamente.

 

Paul mostrara-lhe tudo, até mesmo o funcionamento das velas. O barco estava totalmente computadorizado e ele podia pô-lo a navegar sozinho se o desejasse, o que fizera muitas vezes, com a tripulação por perto, pronta a ajudá-lo. Contudo, era, de facto, um excelente marinheiro e o próprio Sam se apercebera disso. Paul explicara-lhe as coisas de forma muito simples e ficara impressionado com as perguntas sensatas do miúdo, pelo que fora mesmo ao ponto de traçar alguns diagramas, para que ele percebesse melhor

 

Receio bem que tenha um verdadeiro marinheiro entre mãos elogiou Paul quando regressaram, e Sam sentou-se a beber a soda, que lhe foi servida com um guardanapo de linho E uma dependência grave Se fosse a si, estaria muito preocupada. Comprei o meu primeiro iate aos vinte anos, quando não tinha um vintém e quase tive de vender a alma para o fazer

 

Posso ajudar-te a velejar, Paul? perguntou Sam com um olhar de admiração e o anfitrião sorriu, ao mesmo tempo que o fitava e lhe passava a mão pelo cabelo. Lidava muito bem com crianças e sobretudo com Sam.

 

Ainda não sei muito bem se voltamos a sair hoje, miúdo. Que tal amanhã? Tencionávamos ir até umas ilhas. Gostavas de vir connosco?

 

O garoto ficou logo excitadíssimo com a ideia e Paul olhou para índia ao acrescentar:

 

Gostava de nos acompanhar, amanhã? Acho que Sam adoraria.

 

Tenho a certeza sorriu-lhe Índia. Mas ele não se tornará incómodo?

 

Não queria de forma alguma abusar e receava que o entusiasmo de Sam fosse um tanto excessivo.

 

Ele sabe mais sobre iates do que alguns dos meus amigos. Se a índia não põe objecções, gostava de lhe mostrar como tudo funciona. Não é muitas vezes que tenho oportunidade de «educar» um jovem marinheiro. A maior parte das pessoas que vêm a bordo estão mais interessadas no bar e no tamanho dos seus camarotes. Acho que ele aprenderá algo.

 

Seria óptimo. Obrigada agradeceu.

 

índia sentia uma estranha timidez frente a Paul. Era um homem importante e emanava poder, o que a assustava um pouco. Contudo, Sam parecia completamente à vontade com o seu novo amigo e também no meio dos convidados e da tripulação. Paul fizera com que ele se sentisse em casa e índia estava emocionada. Mostrava-lhe algo da personalidade do seu anfitrião e, minutos depois, em conversa, perguntou-lhe se tinha filhos. Achava que assim era, pela forma como se dava com um rapazinho da idade de Sam, por isso, não ficou surpreendida quando ele respondeu com um aceno de cabeça.

 

Tenho um filho, que odiou barcos durante toda a vida. Riu.Preferia ser queimado vivo a passar dez minutos a bordo de um iate. Já é adulto e tem dois filhos que, aparentemente, partilham a sua repugnância por barcos. A minha mulher assemelha-se ao meu filho. Dificilmente suporta a vida no Sea Star. Nunca tive filhos de Serena e suponho, portanto, que a minha necessidade de ensinar alguém a velejar assente no Sam. Pode vir a revelar-se uma grande responsabilidade para ele. Pegou numa taça de champanhe de um tabuleiro de prata que um empregado lhe estendia, sorriu a índia e reparou na máquina fotográfica. O Dick disse-me que é muito talentosa comentou

 

Temo bem que não. Pelo menos, de momento Limito-me a tirar fotografias muito boas dos meus filhos

 

Pelo que Dick me contou, penso que está a ser muito modesta. Confidenciou-me que a sua especialidade eram guerrilhas e zonas de guerra

 

índia soltou uma gargalhada ante a descrição dos seus primeiros anos como repórter fotográfica, mas ele não estava totalmente errado Na verdade, cumprira uma série de missões em alguns lugares perigosos.

 

Eu próprio também andei por lá, se bem que noutra actividade prosseguiu. Quando era muito novo, fui piloto da marinha e, mais tarde, antes de voltar a casar, estive ligado a aerotransportes, bem longe de sítios convencionais. Formei um grupo de pilotos voluntários, que realizavam missões de salvamento e reabastecimento. É muito provável que tenhamos estado nos mesmos lugares

 

Só de o ouvir, índia soube que gostaria de ter fotografado as suas aventuras

 

Ainda continua- perguntou, intrigada

 

Paul era um homem de muitas facetas e contrastes. Levava obviamente uma vida de luxo, mas conseguia aliá-la a uma existência plena de risco e excitação. Conhecia igualmente as muitas vitórias que obtivera em Wall Street. Tinha fama de integridade e sucesso, que o haviam transformado numa lenda

 

Desisti dessas operações há uns anos. A minha mulher levantava-lhes sérias objecções. Achava que era demasiado perigoso e ainda não tinha muita vontade de enviuvar

 

Uma atitude provavelmente sensata da parte dela

 

Nunca perdemos um único avião ou piloto confidenciou, mas não queria preocupá-la. Continuo a angariar fundos para o projecto, mas deixei de voar. Dirigimos uma série de missões na Bósnia para ajudar as crianças, quando as coisas se complicaram por lá E obviamente no Ruanda Índia achava-o imponente e fascinante. Só de lhe falar, apetecia-lhe pegar na máquina e tirar-lhe uma foto, mas sabia que não podia. Já fora muito simpático com Sam e não queria aborrecê-lo.

 

Paul prestou, em seguida, atenção a alguns dos outros convidados e, meia hora depois, conduziu-os até à sala de jantar, onde havia uma mesa impecavelmente posta, adornada com um serviço da China, cristais e linho bordado. Dirigia o barco, como se se tratasse de um hotel ou uma bela mansão. Os pormenores haviam sido pensados até à perfeição e a sua hospitalidade parecia igualar a forma como velejava.

 

índia ficou surpreendida ao ver-se à direita de Paul durante o almoço e honrada pelo lugar que ele lhe dera, que lhes permitiu que conversassem bastante. Possuía um vasto conhecimento do mundo e das artes, uma paixão pela política e uma série de opiniões vincadas e perspectivas interessantes. Emanava, em simultâneo, uma bondade e sabedoria que a atraíam. E riu, mais do que uma vez, com as histórias que ele contava.

 

Paul era também dotado de malícia e de um acutilante sentido de humor, mas, independentemente de todos os assuntos que versavam o mundo em geral, a conversa voltava sempre à navegação. Tratava-se, sem dúvida, de uma paixão. À esquerda dela, Sam envolvera-se profundamente numa conversa do mesmo género com Dick Parker. De vez em quando, o garoto dirigia um sorriso a Paul, que, numa breve tarde, se tornara o seu herói.

 

Acho que estou a apaixonar-me irremediavelmente pelo seu filho sussurrou Paul, enquanto lhes serviam o café, na sala, em chávenas de Limoges. É fantástico e sabe muito de vela. Leva-me, de facto, a desejar ter tido mais filhos.

 

índia tinha consciência de que ainda não era tarde para ele. Lembrava-se de haver lido na revista Fortune que Paul Andava pelos cinquenta e sete e Serena acabara de entrar nos Cinquenta. Dado o seu temperamento, surpreendia-a que não tivesse tido filhos dela. Sabia por um comentário de Paul, ao almoço, que estavam casados há onze anos, mas ele também mencionara quanto ela estava sempre ocupada a escrever romances e a supervisar, ao pormenor, a produção dos filmes com base nos mesmos. Era isso precisamente o que fazia em Los Angeles nesse momento. Paul descreveu-a como sendo talentosa e compulsiva no âmbito do trabalho

 

Ao almoço, Paul contara a índia que casara pela primeira vez quando ainda estava na faculdade, tinha apenas o filho que mencionara antes, ficara casado quinze anos e depois esperara mais dez antes de desposar Serena. Nessa altura, ela tinha trinta e nove anos e fora a sua primeira vez

 

Na realidade explicou Paul, ela nunca quis filhos. Foi sempre uma apaixonada pela carreira e temia que ser mãe pudesse interferir

 

Fez a confissão sem pronunciar qualquer comentário de fundo sobre a decisão da mulher. Contudo, índia pensou que talvez não se tivesse importado, uma vez que já tinha um filho quando se casara. Tratava-se de uma perspectiva interessante para índia, que desistira de uma carreira para ter quatro

 

Penso que nunca lamentou essa decisão acrescentou num tom franco E, para lhe dizer a verdade, não estou muito certo de que fosse muito boa com crianças. É uma mulher muito complexa

 

índia morria de curiosidade por lhe perguntar o que significava aquela frase, mas não se atreveu E, mau grado a sua ambiguidade, ficou com a sensação de que ele se sentia feliz ao lado da mulher

 

Foi um almoço agradável e demorado. Paul e índia abordaram uma série de questões e acabaram por voltar ao longo roteiro de viagens de ambos. Sempre que possível, ele continuava a gostar de viajar de barco até partes remotas do mundo

 

Não consigo fazê-lo tantas vezes quantas gostaria confessou, mas um destes dias tomo uma decisão. Continuo a dizer a mim próprio que vou reformar-me cedo, mas, dado Serena estar tão ligada ao trabalho, é inútil fazê-lo até dispor de mais tempo livre para mim E pelo que me é dado perceber, quando ela abrandar o ritmo, estarei numa cadeira de rodas concluiu com um sorriso trocista.

 

Espero que não disse índia

 

Também eu retorquiu, firme. E você? Vai retomar a carreira um destes dias ou continua demasiado ocupada com os seus filhos?

 

Imaginava o que quatro filhos exigiriam dela. Aos olhos de Paul era um pouco absorvente, mas índia parecia gostar. Só não falara muito do marido, o que não lhe passara despercebido

 

Não me parece que volte a trabalhar disse, pensativa. O meu marido opõe-se com todas as forças. Nem sequer é capaz de imaginar que isso me passe pela cabeça

 

Depois, e sem saber porquê, falou-lhe da missão na Coreia e da forma como Doug reagira, não compreendera porque é que ela nem sequer considerara a hipótese nem quanto se sentia desapontada por recusar. - Dá a sensação de que precisa que o arrastem para o século vinte. É um tanto idiota esperar que uma mulher desista da carreira e, independentemente da auto-estima, não esperar que ela tenha qualquer reacção a esse tipo de sacrifício e perda. Pessoalmente, não teria essa coragem

 

«Nem seria idiota a esse ponto», pensou. Paul sabia que, mais cedo ou mais tarde, o marido dela pagaria o preço pela sua atitude. Era inevitável, aprendera isso com Serena. O mero facto de lhe pedir que tirasse algum tempo para o acompanhar no barco, irritava-a, mas era compulsiva no que se referia à profissão

 

Fico com a sensação de que tem saudades da sua carreira, índia. Estou certo?

 

Queria conhecê-la melhor. Emanava uma tranquilidade e magnetismo que o atraíam e, sempre que a observava a falar com Sam, ficava emocionado pela ternura que dedicava ao filho. Havia muitas afirmações positivas que poderia ter feito sobre a mulher, mas lidar com crianças nunca fora o Seu forte e terna não era uma palavra que usasse para a descrever

 

Serena era excitante, apaixonada, determinada, forte, vistosa e inteligente, mas, em comparação com índia, dava a sensação que haviam nascido em planetas diferentes e vivido

em mundos também diferentes. Sentia-se imensamente atraído pela suavidade de Índia e pela sua subtil sensualidade, aliada a um espírito perspicaz e a um sentido de humor malicioso, sem esquecer toda a sua rectidão e franqueza. A sua relação com Serena era sempre fascinantemente complexa, e ela adorava provocá-lo, enquanto índia parecia ser uma pessoa muito mais calma, embora de modo algum «fraca». De facto esta assumiu um ar pensativo antes de responder à pergunta dele sobre se tinha saudades do trabalho.

 

Tenho, sim anuiu. Curiosamente, não foi esse o caso durante muito tempo. Andava demasiado ocupada para pensar nisso, mas agora que os miúdos cresceram sinto um vazio na minha vida, que era preenchido pelo trabalho. Ainda não sei o quê, mas penso que necessito de preenchê-lo com algo que não os filhos.

 

Era o que Doug se recusara inteiramente a ouvir, quando tentara falar-lhe do assunto. Limitara-se a afastá-la e aos seus sentimentos, pondo-a inteiramente de lado. Era esta a primeira vez que, de facto, traduzira os pensamentos em palavras e confessara a outra pessoa o que sentia.

 

Não percebo porque não pode voltar, talvez a missões mais calmas sugeriu Paul com sensatez.

 

Era mais ou menos o que dissera à mulher. Podia dirigir um filme por ano e escrever um livro de dois ou de três em três anos, era escusado fazer dois, quatro programas de televisão e cumprir um contrato de seis livros em três anos. Contudo, Serena não queria dar-lhe ouvidos e até mesmo as próprias palavras faziam com que se sentisse ameaçada e irritada.

 

Há três anos fiz um trabalho em Harlem sobre crianças maltratadas explicou índia. Foi o ideal para mim. Estava perto de casa e não corria riscos de ordem física. Tudo correu na perfeição. Só que não consigo reportagens do género com frequência, sempre que telefonam, oferecem mas de outro tipo, ou seja, daquelas que eu costumava fazer, em lugares onde há motins ou revoluções. Acho que pensam que é nisso que sou boa, mas aceitar trabalhos desse género seria demasiado duro para Doug e os miúdos.

 

Para não falar nos riscos que iria correr redarguiu Paul com um franzir de sobrolho.

 

De facto ele não tinha muitas certezas de que lhe agradasse  que a mulher arriscasse a vida por uma reportagem. O pior lugar onde Serena precisava de estar para orientar o seu negócio era o Polo Lounge do Beverly Hills Hotel ou o escritório do seu editor, em Nova Iorque.

 

-Bom. Tem de encontrar uma plataforma de equilíbrio, índia. Não pode passar a vida a privar-se desse tipo de alimento. Precisa dele, todos precisamos, é por isso que não me reformo. Por mais que me custe admiti-lo, o poder preenche-me de certa forma o ego.

 

Índia gostou de que ele fosse capaz de o confessar. Tornava-o de alguma maneira mais vulnerável, o que não era uma palavra que a maioria das pessoas usasse para descrever Paul Ward. No entanto, índia sentia-o assim. Era vulnerável nos sentimentos para com a mulher, na forma como lhe falava, nas coisas que valorizava, até mesmo na sua relação com Sam. Possuía uma grande coragem moral, sinceridade e ternura oculta. Havia muita coisa que lhe agradava nele, era um homem muito interessante.

 

Passava das três e meia da tarde quando se levantaram da mesa e Paul ofereceu-se para levar Sam no pequeno bote que mantinham a bordo e ensiná-lo a velejar. Sam ficou entusiasmadíssimo com a proposta. Paul vestiu-lhe um colete salva-vidas, deu ordens aos marinheiros para que baixassem o barquito até à água, depois desceram pelas escadas e, um momento depois, índia ficou a vê-los afastarem-se na direcção do oceano. Sentia-se apenas um tanto preocupada com o facto de o bote se poder virar, mas os amigos e a tripulação garantiram-lhe que Paul era responsável e também um excelente nadador. Além de que gostava de ver como Sam se sentia feliz.

 

Donde estava, conseguia avistá-lo a rir e a olhar para Paul. Empunhou a máquina fotográfica e tirou-lhes uma série de fotografias com a objectiva de longo alcance. Observava-lhes claramente as expressões e nunca vira duas pessoas mais felizes do que o filho e o seu novo amigo. Passava das Cinco quando voltaram relutantemente ao Sea Star e Sam vinha entusiasmado.

 

” Uau, mamã! Foi fantástico. Uma maravilha... e o Paul ensinou-me.

 

Os olhos do garoto brilhavam e Paul também parecia satisfeito. Era óbvio que a amizade dos dois se consolidara ainda mais no pequeno barco.

 

Eu sei. Vi daqui, meu querido. Tirei-vos montes de fotografias redarguiu índia.

 

Paul ofereceu-lhe um enorme sorriso, enquanto Sam ia buscar sodas. Sentia-se à vontade no barco graças à hospitalidade do anfitrião e, na sua opinião, este era agora um amigo para toda a vida. índia sabia que o filho jamais esqueceria aquele dia.

 

É um miúdo fantástico, índia. Deve orgulhar-se muito dele. É esperto, bom, íntegro e dotado de um grande sentido de humor. Como a mãe acrescentou.

 

Ao começar a conhecer Sam, Paul sentia-se como se a conhecesse melhor. Tratava-se de uma espécie de ponte entre eles, o que muito lhe agradava.

 

Aprendeu tudo numa hora a bordo de um barquito do tamanho de uma banheira? troçou, embora se sentisse emocionada com o que ele dissera sobre o filho.

 

Não há melhor lugar para aprender. Velejar revela muita coisa acerca de uma pessoa, sobretudo num bote daquelas dimensões. Ele mostrou-se muito esperto, sensato e prudente. Não precisa de preocupar-se com o seu filho

 

Mesmo assim, preocupo-me retorquiu, fitando Paul com à-vontade. Faz parte da minha missão. Não me sentiria bem se não fizesse isso.

 

É um marinheiro fantástico insistiu Paul, quase orgulhoso.

 

Também você observou ela com simplicidade. Estive sempre a observar.

 

Gostava de ver as fotografias.

 

Vou revelá-las e trago-as amanhã

 

Adorava disse Paul quando Sam regressou até junto deles com duas Coca-Colas, estendendo uma ao amigo e sorrindo à mãe. Até então, fora aquele o dia mais feliz da sua vida.

 

Ficaram uns momentos a saborear as bebidas, sentindo-se cansados, com sede e felizes. A brisa começara a soprar e Paul esforçara-se a velejar. Contudo, era difícil afirmar qual deles estava mais satisfeito.

 

Olharam na direcção do bar, onde alguns dos convidados jogavam póquer. Outros apanhavam banhos de sol, dois liam e um dormia. Fora uma tarde agradável e índia sentira-se muito bem. O relógio marcava cinco e meia quando, por fim, disse a Sam que tinham de ir embora, e o miúdo pareceu muito triste.

 

Voltarás amanhã recordou-lhe Paul. Aparece cedo, se quiseres. Faremos algumas coisas juntos, antes de velejarmos.

 

A que horas? inquiriu o garoto, o que provocou uma gargalhada em Paul e índia.

 

Será que nove horas te parece como a meio do dia? inquiriu com a sensação de que Sam estaria ali às cinco, se lhe permitissem. Digamos às oito e meia acrescentou, fitando Índia com uma expressão interrogativa. Está bem para si?

 

Óptimo. Farei a comida para os outros e organizarei tudo, antes de virmos. Eles são bastante auto-suficientes. De qualquer forma, passam todo o dia com os amigos, não sentirão a nossa falta.

 

Pode trazê-los também, se quiser. Todos os meus convidados vão passar o dia em terra. Seremos apenas os dois e Sam. Há espaço bastante para todos, se lhes apetecer.

 

Vou dizer-lhes.

 

Parecia-lhe uma pena perderem uma oportunidade destas, mas tinha quase a certeza de que não se sentiriam tentados. Não queriam passar um minuto sem os amigos e Sam era o único dos seus filhos com paixão pela vela.

 

Obrigada pelo convite e por toda a sua amabilidade agradeceu, apertando-lhe a mão, antes de se irem embora

 

e sentindo que os olhares de ambos se cruzavam por um momento.

 

Detectou qualquer coisa no dele, mas ignorava o que era--- admiração... curiosidade... amizade... sentiu apenas que lhe percorria as veias algo de indefinível e eléctrico. Depois, o momento extinguiu-se e ela e Sam montaram nas bicicletas, enquanto os convidados e a tripulação lhes acenavam. Teve a súbita sensação de que abandonava a casa, ou umas férias mágicas. No caminho de regresso, tal como o filho, o seu único desejo era dar meia volta e ver-se de novo no Sea Star o mais rapidamente possível.

 

Fora uma tarde maravilhosa em todos os aspectos e, ao pedalar atrás de Sam, tentando acompanhá-lo sem cair, não conseguia deixar de pensar em Paul. Havia algo de invulgar e profundo no homem que conhecera nessa tarde, e estava certa de que existia qualquer coisa mais para além do que tinha visto.

 

Não era em vão que lhe chamavam o Leão de Wall Street. Decerto possuía um lado duro, talvez mesmo impiedoso. Contudo, o que ela vira era algo de muito suave e atencioso, e sabia que nem ela nem Sam esqueceriam o dia que tinham vivido ao seu lado.

 

Os miúdos estavam todos em casa, quando Sam e índia regressaram da sua tarde no Sea Star e todos, que tinham também passado um dia maravilhoso, pareceram felizes ao vê-los.

 

Sam contou-lhes tudo sobre Paul, o barco, as suas aventuras no bote e eles escutaram com simpatia, mas pouca atenção. Sam tinha o mesmo interesse pelos barcos do que outros rapazinhos por tanques ou aviões, mas isso não fazia muito sentido para os outros. Enquanto falavam, índia dirigiu-se à cozinha, a fim de preparar o jantar.

 

Enquanto cozia massa, que seria acompanhada de salada e pão de alho, meteu algumas pizas congeladas no forno. Desconfiava de que iriam aparecer mais bocas e não se enganou. Às sete, quando se sentaram à mesa, surgiram duas amigas de Jason e outras duas de Aimee. Era assim que todas as famílias viviam no Verão, num ambiente descontraído e sem se importarem com quantas crianças andavam pela casa de cada um. Fazia parte da vida na praia, era natural e agradava-lhe.

 

Depois, Jessica ajudou-a a arrumar a cozinha, enquanto os outros foram brincar e, mal haviam acabado de encher a máquina de lavar louça, Doug ligou.

 

Sam foi o primeiro a chegar ao telefone e contou-lhe tudo sobre o Sea Star. Descreveu-o como se fosse ao maior paquete do mundo quando falou do tamanho, mas também relatou, com grande pormenor, todas as complexidades das velas e do sistema computadorizado que as dirigia. Era óbvio que Sam aprendera, de facto, muito sobre vela com Paul e o escutara atentamente.

 

Quando chegou finalmente a vez de índia falar com Doug, ele interrogou-a sobre todo aquele entusiasmo de Sam:

 

Porquê toda essa excitação do miúdo? O iate é realmente assim tão grande, ou trata-se de uma velha banheira ancorada no clube naval?

 

É uma banheira fantástica respondeu Índia com um sorriso, pensando no dia que tinham passado a bordo. O dono é um amigo do Dick e da Jenny. Já li coisas a respeito dele e estou certa de que tu também. Chama-se Paul Ward e é casado com Serena Smith, a escritora. Ela está em Los Angeles a trabalhar num filme e ele veio passar aqui uma semana no iate com um grupo de amigos. Talvez ainda cá esteja, quando vieres.

 

Poupa-me pediu Doug, sentindo-se enjoado só com a ideia. Sabes o que penso de barcos, mas gostava de conhecê-lo. Como é ele? Um arrogante dos diabos e um filho da mãe sob a camada de verniz?

 

Era o que Doug esperava, dado estar a par do seu poder e sucesso em Wall Street. Nunca lhe passaria pela cabeça que alguém pudesse ter poder sem perder a dignidade e o respeito pelos outros.

 

Não. Parece-me, de facto, muito humano. Foi óptimo para o Sam e até o levou a passear no bote observou índia num tom casual e aborrecida por Doug ter automaticamente pressuposto que Paul era um canalha.

 

Ouço dizer que é bastante impiedoso. Talvez estivesse somente a exibir-se para os amigos. Parece-me o tipo de indivíduo que come o seu filho e os dos outros.

 

Doug insistia no seu ponto de vista e índia não queria discutir com ele.

 

Bom, pelo menos, não comeu o nosso. Sam adorou-o.

 

Ia contar-lhe que iriam velejar com ele outra vez no dia seguinte e depois, sem qualquer razão especial, pensou melhor e nem sequer tocou no assunto.

 

E tu? Como estás? imteressou-se Doug, mudando de tema e poupando-a a que falasse mais sobre Paul.

 

De qualquer maneira não havia muito mais a dizer, à excepção de que o achava fantástico e de que ele era de opinião de que ela devia voltar o mais rapidamente possível ao trabalho.

 

Estou óptima, ocupada com as crianças. Adoro isto aqui. Os mesmos amigos de sempre. Jenny e Dick mostraram-se fantásticos como é costume e os miúdos retomaram as suas amizades. Nada de novo por estas bandas. Era o que lhe agradava aqui, o mesmo quotidiano e familiaridade, assemelhava-se a repousar a cabeça numa almofada confortável com a camisa de noite favorita. E tu? Como estás?

 

Cansado. A trabalhar. Ainda não descansei um minuto, desde que partiste. Julguei que ia conseguir, mas acho que não estarei aí no quatro de Julho.

 

Eu sei. Tinhas-me dito redarguiu num tom desprendido, pois ainda estava irritada com a conversa durante aquele fatídico jantar.

 

Não queria que nem tu nem os miúdos se sentissem desapontados acrescentou Doug num tom de desculpa.

 

Não, fica descansado. Vamos a um barbecue dos Parker.

 

Fica-te pelos bifes. É a única coisa que o Dick não incendeia. índia sorriu ante a recordação e disse-lhe que, nesse ano, haviam contratado uma cozinheira. Tenho saudades de vocês prosseguiu, Doug, falando no colectivo, e não dizendo «tenho saudades tuas-».

 

Gostaria de ouvir essas palavras, mas também não disse que sentia saudades dele, e a verdade é que não. Ainda a invadiam sentimentos contraditórios a respeito do marido desde as suas discussões antes de sair de Westport. Contudo, tinha a impressão de que ele esquecera a cena. Nunca compreendera até que ponto a havia perturbado, nem como ficara desgostosa quando ele confessara o que esperava do casamento.

 

Por vezes, sentia-se como se não soubesse o que era agora para o marido amiga, governanta, «companheira de confiança». Não pretendia ser nenhuma destas coisas, queria ser sua amante, e apercebia-se de que a realidade não era essa. Parecia-lhe ser uma funcionária contratada, um objecto que ele considerava adquirido, semelhante a um veículo que servia Para lhe transportar os filhos. Sentia-se tão importante aos olhos de Doug como a carrinha em que haviam viajado até ali. Era um vazio que os distanciava, o que nunca acontecera até então.

 

” Telefono-te amanhã prometeu ele num tom imPessoal. Boa noite, índia.

Ficou à espera que Doug lhe dissesse que a amava, ou sentia saudades, mas tal não aconteceu. Ao desligar, interrogou-se sobre se era assim que Gail chegara ao ponto em que se encontrava há vários anos, ou seja, sentindo-se usada, entediada, vazia e mal amada. De tal maneira, que tinha de se encontrar com outros homens em hotéis para ficar melhor, índia não queria chegar lá, faria tudo antes de começar a sair com os maridos de outras mulheres. Não era com essa finalidade que chegara até aqui. «Mas qual era então?», interrogou-se, dirigindo-se à câmara escura e absorta nos seus pensamentos.

 

Pegou nos produtos químicos e pôs-se a revelar o rolo, ao mesmo tempo que reflectia na conversa com o marido. Depois, ao observar as fotografias, que iam surgindo, viu o... Paul, sorrindo-lhe, à gargalhada com Sam, no bote, com o rosto simpático recortando-se no horizonte.

 

Era uma série infindável de fotografias dele, contando uma tarde mágica entre um homem e um rapazinho, o retrato de um herói, e deteve-se muito tempo, observando-as e pensando nele e em Serena. Paul servira-se de uma combinação de palavras tão estranha para a descrever! Em alguns aspectos parecia terrível e noutros uma atracção fatal.

 

índia não tinha dificuldade em perceber que ele estava apaixonado, intrigado e se proclamava feliz com a mulher. No entanto, através de tudo o que lhe contara, percebia que Serena era tudo menos fácil. Mas o que partilhavam parecia ser excitante, o que a levou a interrogar-se uma vez mais acerca da sua relação com Doug. «O que significava?» E mais importante: «Quais eram as componentes essenciais de um bom casamento?».

 

Deixara de entender. Os ingredientes que achara necessários haviam-lhe sido descritos como insignificantes e tudo o que Paul dissera de Serena, quanto à sua personalidade difícil, obstinada, agressiva por vezes, pareciam fazer com que ele a amasse, índia acabou por decidir que decifrar relações e o que as tornava funcionais a ultrapassava momentaneamente. Já não tinha as respostas de que ainda há pouco estava segura.

 

Pôs as fotografias a secar e saiu da câmara escura para ir espreitar os filhos. Sam tinha adormecido no sofá a ver um vídeo e os outros estavam a brincar lá fora, à luz da lanterna. Jessica e um amigo, um dos Boardman, comiam piza fria, na cozinha. Tudo parecia em ordem, tudo corria bem naquele seu seguro e pequeno mundo.

 

Levou Sam para a cama e conseguiu despi-lo sem o acordar. O miúdo estava exausto depois de um dia ao ar livre e de toda a excitação que vivera no Sea Star. Ao fitá-lo, pensou em Paul e nas fotografias que tirara dele.

 

Mas depois teve um pensamento ainda mais estranho, quando apagou a luz e regressou devagar ao quarto. Interrogou-se subitamente sobre o que seria fazer tudo aquilo sozinha, se ela e Doug já não estivessem casados.

 

«Qual a diferença?» Era ela que tratava de tudo, agora. Cuidava dos filhos e estava só, assumia todas as responsabilidades, desempenhava as tarefas domésticas, preocupava-se, cozinhava e limpava. Só não os sustentava. Era um pensamento horrível mas «se Doug a deixasse? Se ele morresse? A sua vida seria diferente? Iria sentir-se mais só do que agora, consciente de que não passava de uma ferramenta, um objecto aos seus olhos? O que lhe aconteceria, se o perdesse?»

 

Há uns anos, quando os filhos eram pequenos e achava que não podia viver uma hora sem ele, preocupara-se com o assunto, mas isso fora quando achava que o marido estava apaixonado por ela. Contudo, agora que tomava consciência de que não era assim e não tinha essa necessidade, o que significava realmente estar sem ele?

 

índia sentia-se culpada só de pensar no assunto, como se tivesse empunhado uma varinha mágica para o fazer «desaparecer». Esta mera ideia era uma forma de traição. Contudo, ninguém lhe conhecia os pensamentos, jamais se atreveria a passar o pensamento a palavras diante de alguém, nem sequer de Gail e muito menos de Doug.

 

Deitou-se em cima da cama e acabou por pegar num livro, mas verificou que era incapaz de o ler. Apenas conseguia ouvir o eco das próprias perguntas na mente e eram milhares. Acima de todas, havia uma que mais receava: «O que era o casamento deles aos seus olhos?» Agora que conhecia a opinião de Doug, mudava tudo, qual a subtil viragem de uma agulha que transformava uma melodia suave numa música capaz de rebentar os tímpanos.

 

Deixara de conseguir fingir que o que ouvia era música. Não era, há semanas que não o era. Talvez há mais tempo, talvez nunca o tivesse sido. Era esse o pior pensamento. Ou teria sido música suave e haviam-na perdido». Considerou essa hipótese como a mais viável. Provavelmente, acontecia a todos. Eventualmente, perdia-se a magia e acabava-se furiosa e amargurada como Gail, tentando esvaziar um oceano de solidão com uma chávena. Parecia-lhe irresolúvel. Largou o livro e foi até lá fora observar os miúdos briM car, mas verificou que tinham finalmente assentado arraiais na sala e conversavam, com a televisão por fundo. Ficou ali a olhar as estrelas, interrogando-se sobre o que aconteceria agora à sua vida. Talvez nada. Conduziria o automóvel para levar e trazer os miúdos até Sam chegar à idade de tirar a carta, ou talvez três anos antes, quando Jason pudesse levá-lo, a ele e a Aimee, e ela ficasse dispensada

 

E depois. Mais roupa para a lavandaria, mais refeições até partirem para a universidade e, em seguida, esperar que viessem passar as férias a casa. E o que lhe aconteceria e a Doug? O que diriam um ao outro. Tudo parecia subitamente tão triste e vazio. Era assim que se sentia agora vazia, triste, enganada. No entanto, tinha de continuar, como a peça de uma máquina, rangendo e prosseguindo a tarefa a que se destinava, até quebrar por completo. Não parecia um futuro muito alegre, nem atraente

 

Imersa nestes pensamentos, olhou na direcção do oceano e viu-o O Sea Star, em toda a sua glória, as luzes acesas no salão principal e nos camarotes, e luzernas vermelhas piscando no mastro, enquanto saía para um passeio nocturno. Era a coisa mais bonita que observara na vida e parecia-lhe a fuga perfeita. Uma espécie de tapete mágico, capaz de a levar até onde quisesse. Percebia por que razão Paul viajava pelo mundo inteiro. Que melhor forma havia de explorar novos sítios? Era como andar com a casa às costas, transportar o nosso pequeno e seguro mundo para todo o lado

 

De momento, índia não conseguia imaginar nada melhor e, por um mero instante, adoraria esconder-se lá, pensaria que Paul Ward era feliz em ser dono do barco. Parecia tão belo, quando deslizou, ao largo. Lamentou que Sam estivesse a dormir e não pudesse vê-lo, mas, pelo menos, voltaria a bordo de manhã, e ela sabia quanto o filho o desejava.

 

Meteu os miúdos na cama às onze e apagou as luzes do seu quarto pouco depois. De manhã, acordou Sam às sete e meia- O garoto levantou-se praticamente mal lhe tocou, ansioso por começar o dia. índia já tomara duche e vestira-se. Pusera uma T-shirt azul-celeste, umas calças de ganga brancas e calçara uns ténis azul-claros que Gail lhe comprara em França, no Verão anterior. Tinha o cabelo entrançado, com um ar de lavado e limpo, ao dirigir-se à cozinha para fazer o pequeno-almoço.

 

Prometera deixar biscoitos e salada de fruta para os outros e havia quatro caixas de flocos. Todos lhe tinham contado os seus planos na noite anterior, inclusive jantar com amigos, e sabia que ficariam bem sem ela. E, se surgisse qualquer problema, podiam ir ter com algum dos vizinhos. Paul dera-lhe o número satélite do barco, que lhes deixou para poderem telefonar em caso de emergência. Tudo estava em ordem e, às oito e meia, ela e Sam pedalavam nas bicicletas, de novo a caminho do clube naval.

 

Quando chegaram, Paul estava no convés e os convidados iam a sair. Tinham alugado uma carrinha, a fim de visitarem amigos em Gloucester. Passariam lá a noite e acenaram a índia e a Sam, ao afastarem-se. O garoto correu para o barco com um enorme sorriso e Paul rodeou-lhe os ombros com o braço.

 

Aposto que adormeceste como uma pedra na noite passada, depois de andares no bote disse-lhe a rir, e Sam acenou com a cabeça. Também eu. É um trabalho duro, mas divertido. Hoje, será mais fácil. Pensei em velejarmos até New Seabury, almoçarmos lá e regressarmos depois do jantar- Acha bem? perguntou, erguendo os olhos para índia,

que confirmou com a cabeça.

 

Parece-me um óptimo programa acrescentou com um ar feliz, e Paul quis saber se tinham tomado o pequeno-almoço.

 

Só uns flocos respondeu Sam, tão triste como se o vessem morto à fome, e a mãe sorriu.

 

Isso não é pequeno-almoço para um marinheiro anuiu o anfitrião, compreensivo. Que tal uns scones acabados de fazer? Muito melhor aprovou Sam e Paul indicou a índia onde deixarem as coisas, num dos camarotes de hóspedes.

 

índia desceu as escadas, descobriu-o facilmente e ficou surpreendida com o que viu. Era mais bonito do que um quarto de hotel. Tinha as paredes forradas a mogno e todas as gavetas e armários com maçanetas douradas. O camarote, grande e arejado, com várias escotilhas e um roupeiro enorme, dispunha ainda de uma fantástica casa de banho de mármore branco, com banheira e duche. Era mais luxuoso do que esperara e mais bonito do que a casa deles em Westport. Apercebeu-se ainda de que os quadros nas paredes tinham a assinatura de pintores famosos.

 

Pousou o saco em cima da cama e reparou que a colcha era de caxemira, com o emblema do barco. Pegou no envelope de fotografias que trouxera.

 

Quando regressou à sala de jantar, Sam atafulhava-se de scones, com o recheio de compota a escorrer-lhe pelo queixo, ao mesmo tempo que conversava com Paul sobre velejar.

 

Também quer, índia? ofereceu.

 

Não, obrigada agradeceu com um sorriso embaraçado. Até parece que não lhe dou de comer.

 

Os marinheiros precisam de um bom pequeno-almoço redarguiu Paul correspondendo ao sorriso. Que tal um café, índia?

 

Adorava o nome dela e pronunciava-o com frequência. No dia anterior quisera saber o motivo da escolha, ela explicara que o pai estava a fazer uma reportagem na índia quando ela nascera e Paul dissera-lhe quanto lhe agradava, achava-o muito exótico.

 

Uma das duas hospedeiras, que se mantinha por perto, serviu-lhe um café fumegante, numa chávena Limoges com estrelinhas azuis. Todo o serviço da China e de cristal tinha o logotipo do barco ou estrelas.

 

Passava das nove quando Sam terminou o seu pequeno-almoço e Paul convidou-os a subirem à ponte. Estava um dia fantástico e soalheiro e soprava uma ligeira brisa, o tempo ideal para velejar. Paul examinou o céu e disse algo ao capitão.

 

Ligariam o motor para se afastarem do clube naval e ergueriam as velas quando estivessem à distância necessária.

 

Paul ia mostrando tudo a Sam, enquanto se preparavam para abandonar o cais. Os marujos puxaram as amarras e largaram os cabos, gritavam entre si e voltaram a atirá-los para bordo, ao mesmo tempo que as hospedeiras desciam e se encarregavam de acondicionar os objectos móveis.

 

índia mantinha-se à distância, observando, agradada, toda aquela actividade e Sam não descolava pé de junto de Paul, bebendo-lhe as explicações. Minutos depois, tinham deixado o cais e dirigiam-se para o porto.

 

Pronto? perguntou Paul a Sam, desligando o motor enquanto baixava a quilha hidraulicamente, e se afastavam do clube naval.

 

Pronto respondeu Sam, esperando, ansioso, o momento de velejar.

 

Paul mostrou-lhe

os botões onde carregar. As velas gigantescas começaram a desfraldar-se, e colocou a bujarrona, a vela de estai, seguida pela do mastro principal, o estai de pescador e, por fim, a do mastro de mezena, no ângulo exacto. As velas desfraldaram-se num minuto e o enorme iate pôs-se subitamente em movimento. Deslizou com graciosidade e logo adquiriu velocidade. Era arrebatador, fantástico e o olhar de Sam brilhava quando fitou Paul. índia nunca vira um espectáculo tão espantoso, no momento em que deixaram o porto a uma velocidade considerável e se dirigiram a New Seabury, a todo o pano.

 

Paul e Sam iam ajustando as velas, observando os grandes mastros e o primeiro explicava a Sam o que indicavam os ponteiros, sob o olhar de índia. Os dois colocaram-se lado a lado junto ao leme e Paul deixou que o miúdo o segurasse, mantendo-se muito próximo dele, depois do que, por fim, o confiou ao capitão. Sam optou por ficar junto dele e Paul foi sentar-se com índia na cabina.

 

- Vai estragá-lo com mimos. Nunca mais gostará de outro iate. Isto é mesmo fantástico - disse ela com os olhos a brilharem, vivendo uma experiência inesquecível, que apreciava quase tanto como Sam.

 

- Ainda bem que gosta - disse Paul, parecendo satisfeito.

 

O barco era visivelmente o amor da sua vida e o lugar onde se sentia mais feliz e mais em paz, e ele confirmou isso mesmo ao concluir. Adoro este barco. Passei muito bons momentos no Sea Star

 

E também todos os que aqui estiveram, imagino. Adorei ouvir as histórias dos seus amigos

 

Tenho a certeza de que metade delas foram sobre as ameaças de Serena quanto a saltar do iate, sempre que ele se move. Não é propriamente uma maruja de gema

 

Ela enjoa? interessou-se índia, curiosa

 

Não. Só aconteceu uma vez, mas detesta velejar e barcos

 

Deve ser um desafio para si, que gosta tanto deles

 

Apenas não passamos tanto tempo juntos como devíamos. Ela dá uma série de desculpas para não estar aqui e, dado sabê-la tão ocupada, torna-se difícil objectar. Nunca sei se precisa de estar em Los Angeles ou se inventa meramente desculpas para não vir ao Sea Star. Dantes tentava convencê-la, mas agora ela aparece quando quer

 

Aborrece-se quando isso não acontece.

 

Sabia que estava a ser um tanto indiscreta, mas ele pusera-a tanto à vontade que achava poder perguntar-lhe. Além disso, sentia-se curiosa em saber como funcionavam os casamentos das outras pessoas, qual era o segredo do sucesso. Parecia-lhe subitamente muito importante, talvez aprendesse qualquer coisa de útil

 

Por vezes, sim confessou, enquanto um dos membros da tripulação lhes oferecia Bloody Marys. Eram quase onze horas. É muito só sem ela, mas estou habituado. Não se pode forçar ninguém a fazer o que não quer, e quando se força paga-se o preço, eventualmente, elevado. Aprendi isso com a minha primeira mulher. Fiz tudo ao contrário e jurei a mim próprio que, se voltasse a casar, tudo seria diferente, e foi. O meu casamento com Serena é tudo o que o meu primeiro não foi. Esperei muito tempo para voltar a casar. Queria ter a certeza de que tomava a decisão certa com a mulher certa

 

E tomou?

 

Formulou a pergunta com tanta suavidade que ele não sentiu qualquer invasão de privacidade. Contudo, e de forma inesperada, estavam a tornar-se amigos.

 

- Acho que sim. Somos muito diferentes, Serena e eu. Nem sempre pretendemos as mesmas coisas da vida, mas passamos bons momentos juntos. E respeito-a. Tenho a certeza de que é um sentimento mútuo. Admiro-lhe o sucesso, a tenacidade e a força. Tem muita coragem, mas há alturas em que me põe louco - sorriu.

 

- Desculpe estar a fazer tantas perguntas. Também me tenho interrogado bastante nestes últimos dias e não sei se conheço as respostas. Julgava que sim, mas parece que as correctas não eram as que sempre pensei que seriam. - Não acredito que isso seja bom - arriscou. Algures, no oceano, com as velas enfunadas, sentiram como se pudessem dizer tudo um ao outro.

 

- Não é - admitiu índia. Apercebeu-se de que mal o conhecia, mas sentia-se totalmente à vontade. -Já não faço ideia do que estou a fazer, de para onde vou, ou onde estive nos últimos catorze anos. Estou casada há dezassete e, subitamente, interrogo-me sobre se o que fiz com a minha vida tem sentido, se alguma vez teve. Achava que sim, mas agora não estou tão certa disso.

 

- Como assim?

 

Queria ouvir o que ela tinha a dizer, talvez até ajudá-la. Havia algo nela que o levava a desejar estender-lhe a mão, mas nada tinha a ver com atraiçoar Serena, era uma coisa separada. Sentia-se como se ele e índia pudessem ser amigos e trocar opiniões.

 

- Abdiquei do meu emprego há catorze anos. Trabalhava para The New York Times. Estava lá há dois anos, desde que regressei da Ásia, África e, antes disso... Nicarágua, Costa Rica... Peru... andei por todo o lado. Voltei, porque o Doug me ameaçou de que tudo acabaria entre nós se não o fizesse. Há mais de um ano que me esperava nos Estados Unidos e pareceu-me justo.

 

«Casámo-nos uns meses mais tarde, trabalhei em Nova Iorque durante mais dois anos e depois engravidei da nossa filha mais velha - prosseguiu. - Foi quando Doug me disse que tinha de desistir. Não queria que eu andasse por aí em becos e travessas e a perseguir gangs para conseguir uma foto de sucesso, depois de termos filhos. Foi o acordo que fizemos, quando nos casámos. Depois de eles nascerem, eu desistiria e tudo isso acabaria. Cumpri a minha parte e mudámo-nos para o Connecticut. Tive quatro filhos em cinco anos e tem sido essa a minha vida a partir dessa altura, levar e trazer as crianças e lavar fraldas.

 

E odeia a situação?

 

Não conseguia ter outra perspectiva. Era uma mulher com demasiado talento para ficar, durante catorze anos, reduzida àquelas tarefas. Era-lhe impossível compreender que um homem fosse tão cego que lhe impusesse tal coisa. No entanto, parecia que Doug o fizera.

 

Por vezes, sim respondeu-lhe com honestidade. Não era este exactamente o meu sonho, quando frequentava a faculdade. Habituei-me a uma vida muito diferente quando viajava. No entanto, há alturas em que gosto mais do que pensava. Adoro os meus filhos, estar com eles e saber que contribuo para as suas vidas de uma forma que as tornará diferentes.

 

E quanto a si? O que lucra? estreitou os olhos, fitando-a e concentrando-se nas suas palavras.

 

Obtenho uma certa satisfação. O bem-estar da companhia dos meus filhos. Gosto deles. São óptimos.

 

Você também - sorriu-lhe. E o que vai fazer, afinal? Andar de carro de um lado para o outro até não ter idade de conduzir, ou voltar agora ao trabalho?

 

É esse o problema. Surgiu-me recentemente. O meu marido é inflexível em não querer que eu trabalhe, o que causa uma grande tensão entre nós. Tivemos há pouco uma conversa séria sobre o assunto e ele foi bem claro quanto ao que espera do nosso casamento respondeu, parecendo deprimida.

 

E o que espera?

 

Pouca coisa, é esse o problema. Descreveu-me como uma empregada, uma espécie de motorista de autocarro que sabe cozinhar e cuidar das crianças. Uma companheira, foi o que disse, «alguém em quem confiar para tomar conta dos filhos», é tudo o que quer.

 

- Parece-me que não é um dos grandes românticos comentou Paul secamente, e ela sorriu.

 

Gostava de conversar com ele, fazia com que se sentisse melhor. Há um mês que andava a «cozinhar» o que Doug lhe dissera e sobretudo o que não lhe dissera.

 

- Não me deixa muitas ilusões sobre a maneira como me encara. De súbito, ao olhar para trás, tomo consciência de que é assim há muito tempo e talvez sempre o tenha sido. Uma companheira com serviço de quarto e uma boa governanta. Andei sempre tão ocupada que não me dei conta. Talvez pudesse aguentar, se regressasse ao trabalho, mas ele também não me dá essa opção. Na verdade, proibiu-me de o fazer - concluiu com um olhar intenso para Paul.

 

- É uma idiotice da parte dele. Já entrei nesse jogo uma vez. A minha primeira mulher era editora de uma revista, quando eu ainda andava na faculdade. Tinha um emprego fantástico e pergunto a mim próprio sobre se não seriam ciúmes da minha parte. Engravidou do nosso filho quando me formei e logo que arranjei emprego obriguei-a a abdicar da carreira. Nessa altura, os homens tomavam atitudes do género. Ela ficou a odiar-me e nunca me perdoou. Sentia que lhe destruíra a vida e a condenara a tomar conta do nosso filho. Ela não tinha um grande instinto maternal - prosseguiu -, nunca desejou mais filhos e acabou por não me querer. O casamento desfez-se de uma maneira dolorosa para ambos. Quando terminou, ela voltou ao trabalho, é editora da Vogue, mas continua a odiar-me. Nada mais perigoso do que cortar as asas a uma mulher. A paciente não sobrevive a esse tipo de cirurgia, pelo menos não durante muito tempo. Esse o motivo por que nunca interfiro na carreira de Serena vincou. - Pelo menos, aprendi a lição. Nunca a forcei a ter filhos. Também Mary Anne, a minha primeira mulher, não deveria ter sido mãe. O meu filho, Sean, foi criado por amas depois de ela regressar ao trabalho, entrou num colégio interno aos dez e, por fim, acabou por ficar comigo aos treze, por isso continua distanciado da mãe. Pelo menos, você saiu-se bem nesse ponto - via todo o amor que ela dedicava a Sam e tinha a certeza de que se passava o mesmo em relação aos restantes. - Não se pode forçar os outros a fazer o que não querem, nem o que não encaram naturalmente. É impraticável. Acho que todos o sabemos. Surpreende-me que não seja esse o caso do seu marido.

 

Mas foi o que eu quis durante muito tempo. Adoro a minha família, adoro ser mãe e não quero magoar agora os meus filhos voltando a trabalhar a tempo inteiro. Não posso percorrer o mundo, como dantes. Contudo, penso que eles sobreviveriam se me ausentasse de vez em quando, umas vezes no ano durante uma ou duas semanas, ou me ocupasse de reportagens próximo de casa. Sinto-me, de repente, como se tivesse desistido de quem sou e ninguém se importa, nem mesmo o meu marido. Não aprecia o sacrifício que fiz. Ignora-o e actua como se eu, antes de casarmos, me tivesse limitado a perder tempo e a divertir-me.

 

Não é o que me consta. Dick Parker diz que ganhou uma série de prémios.

 

Quatro ou cinco, que significaram muito, aos meus olhos, mas ele nem sequer deseja ouvir falar do assunto.

 

Então, o que vai fazer? O que ele quer, ou lutar? Era o que Serena faria sem hesitar um minuto, só que índia era muito diferente.

 

Ignoro a resposta a essa pergunta respondeu, olhando para Sam. O miúdo continuava felicíssimo, ao lado do capitão e não se movera uma polegada desde que haviam iniciado a conversa. Foi onde fiquei, quando vim para aqui. Doug disse-me que tirasse o meu nome da lista da agência.

 

Não o faça aconselhou Paul num tom firme. Não a conhecia bem, mas sentia que, se ela desistisse completamente, destruiria algo que lhe era importante. Era uma forma de se expressar, uma forma de comunicar, de ser e respirar. Não podia desistir de tirar fotografias e ambos o sabiam.

 

Onde está ele agora, a propósito? quis Paul saber

 

Em casa. Em Westport.

 

Ele faz alguma ideia da perturbação que lhe causou

 

Não me parece. Acho que ignora por completo

 

É idiota, como lhe disse antes. Um dia a minha mulher veio ter comigo como um furacão, depois de, durante três anos me ter atacado de diversas e insidiosas maneiras e, dando livre curso à sua fúria, dirigiu-se sem peias aos advogados. Nunca soube donde veio o súbito golpe.

 

Acho que não o faria, mas deixei de ver as coisas sob a mesma perspectiva. No espaço de um mês, sinto que a minha vida se está a desmoronar e ignoro o que fazer, dizer, pensar ou acreditar. Nem sequer tenho a certeza de saber quem ele é... ou pior, de quem sou. Há dois meses, sentia-me perfeitamente feliz no papel de dona de casa. Agora, de repente, passo o tempo na minha câmara escura, a chorar. Isso recorda-me acrescentou num impulso que lhe trouxe algo. Tinha o envelope no sofá ao lado dela e entregou-lho com um sorriso tímido. Algumas são fantásticas.

 

Paul tirou as fotografias do envelope e observou-as atentamente. Sentiu-se lisonjeado com as que ela lhe tirara e sorriu ante as de Sam. Mas surpreendeu-o, sobretudo, o seu talento, o que conseguira àquela distância, sem preparação nem aviso. Não perdera de forma alguma o jeito durante aqueles trabalhos domésticos em Westport.

 

É muito boa, índia elogiou num tom calmo. Estão óptimas.

 

Ia a devolver-lhas, mas ela disse que podia guardá-las. Apenas ficara com uma dele e de Sam, e outra em que ele estava sozinho, tirada de um ângulo interessante. Deixara-a pendurada na câmara escura.

 

Não pode continuar a desperdiçar o seu talento insistiu Paul.

 

Deve achar-me louca por lhe confessar todos estes disParates.

 

Não. Acho que pode confiar em mim e fez bem em seguir a sua intuição. Nunca direi uma palavra que possa prejudicá-la, índia. Espero que acredite.

 

Sinto-me um tanto sem jeito ao contar-lhe tudo isto, mas senti que podíamos falar... respeito a sua avaliação.

 

Acredite que também cometi os meus erros. Contudo, pelo menos desta vez não fora o caso e sabia, ssem dúvida, que o seu casamento com Serena era sólido. Agora sou feliz disse a índia. Serena é uma mulher extraordinária. Não admite idiotices da minha parte e respeito-a por isso. Talvez seja o que você precisa de fazer agora. Vá ter com ele e diga-lhe o que deseja, talvez lhe faça bem ouvir.

 

Não estou muito certa. Tentei antes de vir e não me deu ouvidos. Age como se eu aceitasse um emprego há dezassete anos. Fizemos um acordo e tenho de o cumprir. O verdadeiro problema acrescentou com os olhos cheios de lágrimas é que não estou certa de que ele me ame.

 

Provavelmente sim, mas é demasiado idiota para ter essa consciência. Contudo, se assim não for, por mais doloroso que seja para si, precisa de o saber. É demasiado jovem e bonita para desperdiçar a sua vida e a sua carreira em prol de um homem que não a ama. Acho que o sabe e por isso se sente tão infeliz. Ela acenou com a cabeça e fitou-o demoradamente. Mal a conheço, índia, mas posso dizer-lhe que não o merece.

 

O que hei-de fazer? Deixá-lo? É o que pergunto constantemente a mim própria. Tal como acontecera na noite anterior, quando tentara fingir que Doug não voltaria e ficaria só com as crianças. Como vou começar? Não posso trabalhar a tempo inteiro e tomar conta dos meus filhos.

 

Será de esperar que não tenha de trabalhar tanto, mas apenas quando quiser e nas reportagens que desejar aceitar. Deus do céu! Ele deve-lhe algo, depois de quase vinte anos. Tem de sustentá-la! exclamou, parecendo irritado.

 

Nem sequer pensei nisso. Acho que, de facto, tenho de voltar ao trilho e continuar a rolar.

 

Porquê? inquiriu Paul e, por um momento, tudo parou dentro dela.

 

Porque não?

 

Porque desistir de quem é, do que faz e do que precisa é desistir dos seus sonhos, e optar por essa atitude significa morrer. Garanto-lhe que mirrará como uma ameixa seca, ficará amarga, mesquinha e feia por dentro. Olhe bem para as pessoas que conhece e todos conhecemos. Gente amarga, mesquinha e infeliz, que foi enganada e odeia os outros por esse motivo.

 

índia interrogou-se, com uma sensação de pânico crescente, sobre se era assim que já a via. Ao detectar-lhe a expressão no olhar, Paul sorriu-lhe:

 

Não me refiro a si, mas poderia acontecer-lhe, se o permitisse. Poderia suceder a qualquer de nós. Começou a acontecer-me no primeiro casamento. Era um canalha para todos, porque me sentia infeliz, sabia que ela me odiava, odiava-a e era cobarde de mais para lho dizer ou ir-me embora. Graças a Deus que ela pôs ponto final na situação, ou teríamos acabado por nos destruir um ao outro. Pelo menos, eu e Serena amamo-nos e aprecio o que ela faz. Desagrada-me que não venha até ao barco, mas ela detesta-o e não a mim. É diferente.

 

Paul não só era inteligente e sensível, mas muito perspicaz em relação à espécie humana, e índia reconhecia-lhe essa faceta.

 

Faça algo, índia prosseguiu. Suplico-lhe. Reflicta no que quer e não receie ir atrás do sonho. O mundo está cheio de pessoas assustadas e infelizes. Não precisamos de mais ninguém. E é demasiado bonita e talentosa para tal. Não o permitirei.

 

Pelo espaço de um segundo, índia perguntou a si própria como tencionava ajudá-la. O que poderia fazer? Paul era alguém que conhecera no dia anterior e, no entanto, contara-lhe a história da sua vida e todos os problemas que descobrira recentemente no seu casamento. Tratava-se da experiência mais estranha que vivera até então, mas merecia-lhe total confiança e adorava conversar com ele. Sabia também, com todas as fibras do seu ser, que não se enganava.

 

Nem mesmo sei como se regressa donde estive há tanto tempo. O que se faz?

 

Primeiro, telefone ao seu agente e diga-lhe que quer realmente voltar a trabalhar. Depois, trata do resto. Saberá no momento exacto, se se deixar ir. Não tem de forçar nada.

 

O mero facto de o escutar dava-lhe uma sensação de liberdade e, num gesto intuitivo, inclinou-se e beijou-o na face, como o faria a um velho amigo ou a um irmão.

 

- Obrigada. Acho que foi a resposta a uma prece ou algo do género. Há um mês que me sinto completamente perdida e sem saber o que fazer.

 

Não está perdida, índia. Começa a encontrar-se. Dê tempo ao tempo e seja paciente. Não é fácil reencontrar o caminho depois de todo este tempo. É uma sorte que tenha conservado o talento.

 

«Mas ainda o teria, realmente?» Era essa a pergunta que começava a aterrorizá-la.

 

Depois, e como que apanhando a deixa, Sam correu ao encontro deles. O barco continuava a oscilar, mas ele atravessou facilmente o convés até onde se tinham sentado. Estavam quase a chegar a New Seabury e Sam queria saber se iriam ao clube naval.

 

- Vamos lançar a âncora e seguimos na lancha - explicou Paul e o miúdo pareceu excitado.

 

- Depois do almoço podemos voltar ao barco e nadar?

 

- Claro, e também andar outra vez no bote, se te apetecer.

 

Sam acenou entusiasmado com a cabeça, tudo lhe parecia uma maravilha. Ao observá-los, índia sentiu-se grata a Paul e pensou que Serena devia ser muito feliz. Paul Ward era incrivelmente humano e como se fosse um amigo de longa data. Era como se se tivessem conhecido desde sempre.

 

Dois dos membros da tripulação fizeram descer a lancha e um deles ficou para os conduzir até ao clube naval. Paul foi o primeiro a entrar, estendeu a mão a índia e Sam entrou logo atrás dela.

 

O almoço decorreu num ambiente de alegria e bem-estar e falaram de uma série de coisas. Em especial sobre velejar e Sam arregalou os olhos quando Paul contou algumas das suas aventuras à volta do mundo, inclusive um furacão que o apanhara nas Caraíbas e um ciclone no oceano Índico.

 

Depois do almoço, regressaram ao barco. Primeiro, Sam nadou e depois ele e Paul afastaram-se no bote, enquanto índia lhes tirava fotografias e ao barco. Estava a divertir-se imenso. Paul e Sam acenavam-lhe de vez em quando e, por fim, voltaram. Em seguida, Paul fez windsurf e índia tirou mais fotografias. Não era um desporto fácil e ela sentiu-se impressionada com a sua perícia.

 

Por fim, ao tomarem a direcção de Harwich, o vento amainara e resolveram usar os motores. Sam ficou um pouco desiludido, mas estava cansado depois de um longo dia e adormeceu tranquilamente na cabina. Paul e índia fitaram-no com um sorriso nos lábios.

 

Sorte a sua ter um filho assim. Gostava de conhecer os outros comentou Paul, fitando-a, entusiasmado.

 

Espero que sim, num destes dias retorquiu, ao mesmo tempo que a hospedeira-chefe lhe trazia uma taça de vinho branco.

 

Paul pedira-lhe que ficasse para jantar a bordo e ela aceitara.

 

Talvez os transformemos a todos em marinheiros.

 

Talvez. De momento, acham muito mais importante a companhia dos amigos.

 

Lembro-me de que quando o Sean tinha esta idade quase deu comigo em doido.

 

Trocaram um sorriso, quando Sam se mexeu e continuou a dormir, índia acariciou-lhe o cabelo com uma das mãos, agarrando o copo de vinho com a outra. Paul adorava vê-la com o filho. Há muito tempo que não observava ninguém tão encantador. As crianças não haviam desempenhado um papel importante na sua vida e, nessa tarde e no dia anterior, velejar com Sam era tudo o que desejara partilhar com Sean, mas ele nunca se interessara pelo iate do pai.

 

Vai estar aqui o Verão inteiro? perguntou e ela acenou com a cabeça.

 

O Doug vem passar três semanas connosco em Agosto e depois voltaremos para Westport. Acho que vamos conversar muito. Paul concordou, reflectindo e com a esperança de que ela chegasse a algumas conclusões que só lhe fariam bem e merecia. Onde estará?

 

Provavelmente na Europa. Costumamos passar o mês de Agosto no Sul de França e depois corro para Itália, em Setembro.

 

Era uma boa vida, parecia-lhe divertido e índia perguntou se Serena iria com ele.

 

Não, se tiver uma ideia melhor respondeu Paul, com uma gargalhada.

 

Chegou a hora do jantar e índia acordou Sam. O filho pareceu sonolento e confuso, mas depois dirigiu-lhe um sorriso feliz. Sonhava que estava a manobrar o Sea Star e depois

fitou Paul, o sorriso alargou-se ainda mais e contou-lhe o sonho.

 

Também sonho com ele, sobretudo quando passo muito tempo sem vir a bordo, mas isso raramente acontece.

 

Nessa tarde, confessara a índia que passava muito tempo no barco e fazia os negócios por telefone e faxes.

 

O cozinheiro preparara mchyssoise fha, massa Primavera, salada e um cheeseburger para Sam, tal como índia dissera que ele gostava, com batatas fritas. À sobremesa comeram gelado de pêssego e uns bolinhos deliciosos, que se desfaziam na boca. A refeição foi requintada e leve e conversaram como ao almoço. Depois do jantar, o capitão transportou-os devagar, a motor, até ao clube naval. Tornava-se difícil acreditar que o dia acabara. Há treze horas que estavam com Paul e tanto índia como Sam desejavam que pudessem ficar para sempre

 

Gostaria de vir tomar uma bebida lá a casa? perguntou-lhe índia, quando se encontravam no convés e todos se mostravam tristes com o findar do dia

 

Talvez fique por aqui. Tenho algum trabalho a fazer e decerto que os seus filhos vão querer estar consigo depois desta ausência de um dia. Se calhar pensam que fugiu para o mar e não regressará. Eram quase nove horas. Volta depressa, Sam acrescentou. Vou ter saudades tuas

 

Também eu.

 

Mãe e filho sentiam-se como se regressassem de umas longas férias e não de um dia de vela. Estar a bordo com Paul tivera esse dom. Fora um dia maravilhoso e índia sentia-se grata pelas coisas que ele lhe dissera. Ajudara-a e sentia-se mais calma do que há muitas semanas a essa parte e, antes de se ir embora, agradeceu-lhe.

 

Sobretudo não receie fazer o que tem de fazer aconselhou-a ternamente. Será capaz.

 

Espero que sim replicou no mesmo tom. Vou mandar-lhe algumas fotografias.

 

Paul beijou-a na face, apertou a mão a Sam e abandonaram o barco, sentindo-se cansados, satisfeitos, e conscientes de que tinham feito um amigo, índia ignorava se voltaria a vê-lo antes de ele partir, mas sabia que jamais o esqueceria. Em alguns aspectos, achava que Paul mudara a sua vida para sempre. Transmitira-lhe coragem, e à coragem aliava-se a liberdade.

 

Índia passou os dois dias seguintes ocupada com os filhos e revelou as fotografias que tirara no barco com Sam. Deixou-as para serem entregues a Paul. Ele estivera fora do barco algures com os amigos e não o viu. Depois, para sua surpresa, ele telefonou-lhe. Disse que Dick Parker lhe dera o número.

 

Como se sente?

 

Tinha uma voz profunda e forte, que lhe soou agradavelmente familiar. Haviam conversado tanto tempo que se sentia muito à vontade com ele, como se fosse um velho amigo, e era bom ouvi-lo.

 

Óptima. Ocupada. Levo os miúdos ao ténis e vou à praia com eles. O normal, nada de muito excitante.

 

Adorei as fotografias. Obrigado. Incluíra uma grande de Sam e ele sentara-se a sorrir-lhe durante muito tempo, recordando-se das horas que tinham passado juntos. Sentira-lhe a falta durante todo o dia seguinte. Como vai o meu amigo Sam? Ambos sorriram quando fez a pergunta.

 

Passa o tempo a falar de si. As nossas conversas andam todas à volta do Sea Star.

 

Os irmãos devem ter vontade de lhe bater.

 

Não. Acham que inventou tudo. Penso que não acreditam nele.

 

Talvez devesse trazê-los até aqui e mostrar-lhes.

 

Contudo, ao falarem no assunto concluíram que não havia tempo. No dia seguinte, ele tinha de ir a Boston buscar Serena. Contou que tinham planos para o 4 de Julho e regressavam logo depois a Nova Iorque.

 

E, por qualquer motivo inexplicável, índia sentiu-se triste ao ouvi-lo e sabia que estava a ser idiota. Paul tinha uma vida, um império que dirigia, todo um mundo onde precisava de voltar, uma mulher que era uma escritora internacional de bestsellers e uma estrela pelo seu próprio mérito. Não havia espaço na sua vida para uma dona de casa casada de WestPort. E que podia ele fazer? Vir almoçar com ela? Como um dos rendez-vous de Gail em Greenwich? Só a ideia provocou-lhe um estremecimento. Nada do que pensava sobre ele tinha a ver com isso.

 

Quando parte para França? perguntou num tom desprendido.

 

Daqui a umas semanas. Antes, vou mandar o barco para lá. Levará cerca de dezoito dias a chegar. Costumamos estar no Hotel du Cap por volta de um de Agosto. É a noção de Serena de uma viagem dura num país terceiro-mundista a frase foi, contudo, pronunciada sem malícia e ambos riram.

 

Era um chamamento distante do género de países onde ela e Paul tinham estado no passado, mas nada havia de errado com Cap d’Antibes e Índia sabia que adoraria lá ir.

 

Telefono-lhe antes de partir. Seria fantástico se pudesse voltar ao barco e conhecer Serena. Talvez para um pequeno-almoço ou algo do género.

 

Absteve-se de mencionar que a mulher se levantava ao meio-dia e ficava a pé até às três ou quatro da manhã, geralmente a trabalhar. Garantia que era depois da meia-noite que escrevia melhor.

 

Adorava disse índia num tom calmo. Adoraria vê-lo de novo e conhecer Serena, adoraria uma série de coisas, a maioria delas impossíveis e sem importância. Era a primeira vez que experimentava estes sentimentos em relação a um homem, desde que encontrara Doug, há vinte anos, quando estavam no Corpo da Paz, mas agora eles surgiam sob a capa da amizade.

 

Tenha cuidado consigo e o Sam pronunciou num tom de voz subitamente enrouquecido. Sentia um estranho desejo de a proteger e ao filho e ignorava porquê. Talvez fosse bom que Serena não demorasse. Telefonara-lhe nessa manhã de Los Angeles a anunciar a chegada, índia agradeceu-lhe o telefonema e, um minuto mais tarde, quando desligaram, ficou sentada a olhar para o aparelho, em silêncio. Era estranho pensar que ele estava tão perto, no seu mundo, confortavelmente inserido na sua vida no Sea Star. Uma vida a anos-luz da dela. Na verdade, embora sentissem uma empatia temperamental, as suas existências nada tinham em comum.

 

Conhecê-lo havia sido um acaso do destino que podia nunca ter acontecido, mas, para seu bem e o de Sam, sentia-se contente com o encontro.

 

Nessa noite, deixou-se ficar calmamente deitada a pensar em Paul, lembrando-se do dia que haviam partilhado, das conversas sobre a vida dela e da atitude que, na opinião dele, deveria tomar. Interrogou-se sobre se alguma vez teria coragem de seguir a sua sugestão, ou seja, dizer a Doug que desejava voltar a trabalhar, o que correspondia a pôr o seu casamento de pantanas.

 

De manhã, deu um longo passeio pela praia, ponderando em tudo isto, com o cão atrás e sem saber o que fazer. Parecia mais fácil retomar a vida que sempre tinha levado durante catorze anos, mas já não estava muito certa de que conseguiria fazê-lo. Seria como regressar ao início, uma impossibilidade, por mais que se empenhasse nela. E agora que estava consciente de que Doug não reconhecia os sacrifícios que fizera, nem mesmo sabia se era isso o que desejava. Se ele não dava o mínimo valor à sua abdicação, para quê importar-se?

 

No dia seguinte, era 4 de Julho. Os miúdos dormiram até tarde e, nessa tarde, foram como sempre até casa dos Parker. O barbecue estava no auge e todos os vizinhos tinham comparecido. Havia barris de cerveja e uma comprida mesa de bufete com a comida, que, este ano, fora encomendada.

 

Os quatro filhos estavam presentes e índia conversava com uma velha amiga quando de súbito avistou Paul, vestido com calças de ganga brancas e uma camisa azul, na companhia de uma mulher alta e bonita, cabelo comprido e uma figura espectacular. Usava grandes argolas douradas e índia achou que nunca vira ninguém tão bonito em toda a sua vida.

 

Era Serena. Parecia tão encantadora e magnética quanto

Índia imaginara. A maneira como abria caminho pelo meio das Pessoas suscitava as atenções. Estava vestida com uma saia branca curta, um top branco de alças, um colar dourado e sandálias brancas de salto alto. Parecia saída das páginas de uma revista parisiense e emanava uma elegância plena de sensualidade. Quando se aproximou, índia viu que ela usava um enorme  anel de diamantes na mão esquerda. Parou, disse qualquer coisa a Paul e ele riu, parecendo satisfeito com a sua companhia. Tratava-se de uma mulher impossível de se ignorar, esquecer ou perder-se na multidão. Todos viravam as cabeças para a admirar e alguns sabiam de quem se tratava, índia viu-a beijar Jenny e Dick e aceitar um copo de vinho branco, sem mesmo reparar quem a servia. Parecia habituadíssima a uma vida de luxo e regalias

 

Como se tivesse sentido que Índia a observava, Serena virou-se devagar e fitou-a bem nos olhos. Paul inclinou-se para lhe segredar algo e ela acenou com a cabeça e avançou devagar na sua direcção. Interrogou-se sobre o que Paul lhe dissera, talvez- «Conheci esta pobre, patética e infeliz mulher, que vive em Westport.. desistiu da carreira há catorze anos e desde então que só pensa em fraldas. mostra-te simpática. ”

 

Bastava olhar para Serena Smith e sabia-se que nunca seria mulher para abdicar da sua identidade ou carreira, ou ser tratada pelo marido como «uma companheira de confiança para tomar conta dos filhos.» Era sensual, bonita e sofisticada, tinha umas pernas elegantes e uma figura fabulosa, índia sentiu-se totalmente desajustada quando ela avançou com passo majestoso até junto dela e faltou-lhe a respiração à aproximação de Paul, que a fitou com um sorriso e lhe tocou no ombro, índia sentiu como se uma corrente eléctrica lhe tivesse percorrido o corpo.

 

índia, gostava de lhe apresentar a minha mulher. Serena Smith.. Querida, esta é a fabulosa repórter fotográfica de quem te falei e tirou aquelas belas fotografias que te mostrei. A mãe do jovem marinheiro.

 

Pelo menos, falara dela a Serena. Contudo, índia ainda se sentiu menos à vontade ao lado dela. Serena tinha o sorriso mais perfeito que alguma vez vira e parecia quinze anos mais nova do que Jenny, a sua companheira de quarto na faculdade. Só que desde os dezoito anos que esta não usava pintura e Serena maquilhava-se como um modelo.

 

Sempre tive esperança de a conhecer disse Índia discretamente, receosa de se assemelhar a uma fã envergonhada, mas sem querer parecer indiferente. Durante uns tempos li tudo o que escreveu, mas os meus filhos mantêm-me tão ocupada, que tive de parar.

 

Imagino. O Paul disse que tem dezenas deles, mas percebo porquê. O miúdo das fotografias é um encanto e aparentemente um marinheiro elogiou, revirando os olhos. Faça o que quiser, mas tire-lhe rapidamente essa mania. Não volte a deixá-lo pôr um pé num barco. É uma doença insidiosa, que destrói o cérebro. E, quando chega a uma fase adiantada, já nada se pode fazer.

 

índia achou graça à forma como ela expôs o problema e riu-se involuntariamente, sentindo-se um pouco desleal para com Paul. Tinham passado umas horas tão agradáveis com ele no Sea Star]

 

Os barcos não são o meu forte confessou Serena. O meu marido deve ter-lhe contado. índia não sabia se concordar quando Paul se afastou para ir buscar uma cerveja a um dos barris, de que Dick se encarregava.

 

Tenho de admitir que é um barco maravilhoso elogiou índia delicadamente. O meu filho Sam adorou-o.

 

É divertido durante dez minutos ripostou Serena alegremente.

 

Em seguida, deitou um olhar estranho a índia, que rezou intimamente para não corar. «E se ela adivinhasse até que ponto gosto do Paul e soubesse tudo o que lhe contei da minha vida?». Era fácil concluir que Serena não teria ficado muito contente ao ouvir a história, e tornava-se sempre difícil quantificar as conversas íntimas entre marido e mulher, Índia e Doug poucos segredos haviam escondido um do outro, no caso dela apenas as aventuras de Gail, mas por mera lealdade para com a amiga.

 

Queria pedir-lhe um favor disse Serena, parecendo POUCO à vontade.

 

índia quase adivinhava que se tratava de algo como: «Afaste-se do meu marido...»

 

Sentia-se muito culpada, ele era um homem muito interessante e passara um dia sozinha ao seu lado, dizendo-lhe

que era infeliz com o marido. Analisada em retrospectiva era uma situação embaraçosa, sobretudo se ele tivesse contado a

conversa. índia sentiu-se subitamente muito envergonhada.

 

Desde que vi as suas fotografias prosseguiu Serena, enquanto índia continuava suspensa das suas palavras queria pedir-lhe um favor, se tiver tempo. Partimos amanhã, mas ando desesperada por uma nova foto para a capa de um livro e ainda não consegui tirá-la. Tem alguma hipótese de aparecer cedo e bater algumas chapas? De manhã, estou sempre muito pálida e precisará de um bom retocador. De qualquer maneira, já me apercebi da qualidade do seu trabalho. Nunca consegui uma foto boa do Paul e você tirou-lhe dúzias, quando ele nem sequer estava a olhar. Por norma, faz umas caras horríveis e parece sempre disposto a matar alguém. Então o que me diz? Compreenderei, se não for a sua especialidade. O Paul diz que costuma lidar com zonas de guerra, revoluções e cadáveres.

 

índia riu aliviada ante todo aquele recital. Serena não parecia minimamente irritada pelo facto de ela ter estado no barco com Sam e tirado uma inacreditável quantidade de fotos do marido, e ficou tão contente que lhe apeteceu beijá-la. Talvez ele não tivesse, afinal, divulgado os seus segredos, pelo menos assim o esperava, ou talvez Serena sentisse demasiada pena dela para se importar.

 

Na verdade, há dezassete anos que não piso «zonas de guerra» e que só me tenho ocupado da equipa de futebol do Sam e dos filhos recém-nascidos dos meus vizinhos. Gostaria muito de fazer esse trabalho e sinto-me lisonjeada com o pedido. Não sou, de facto, especializada em retratos. Era repórter fotográfica e agora sou apenas mãe.

 

Nunca fui nenhuma dessas coisas e sinto-me impressionada com ambas. Se quiser aparecer amanhã às nove horas, tentarei arrastar-me para fora da cama e não entornar café por cima da camisa antes da sua chegada. Acho que algo simples, como uma camisa branca e calças de ganga, servirá. Estou farta de fotos fantasiosas. Quero algo mais real.

 

Sinto-me realmente lisonjeada com o seu pedido repetiu índia. Só espero que possa contribuir com algo útil.

 

Estava, no entanto, certa de que seria uma incumbência fácil. Ela era tão bonita, tinha um corpo tão perfeito e uma pele tão encantadora que seria difícil imaginar quaisquer problemas com a foto. índia nem mesmo achava que precisaria de muito retoque. Mal conseguia esperar pelo momento e sentia-se feliz por voltar ao Sea Star. Era uma oportunidade de rever Paul, embora Serena estivesse com ele. Era, afinal, a mulher dele e estava muito inserida no cenário.

 

As duas mulheres conversaram algum tempo sobre o filme de que Serena se ocupava, baseado no seu último romance, da viagem que fariam ao Sul de França, dentro de semanas, e até mesmo dos filhos de índia.

 

Não sei como consegue declarou Serena, num tom admirativo. Nunca me imaginei a conciliar filhos com uma carreira e sempre achei que daria uma péssima mãe, mesmo aos vinte anos. Nunca me senti tentada a ter uma criança. Paul queria outro filho quando se casou comigo, mas eu tinha vinte e nove anos e ainda menos desejo de engravidar. Era incapaz de encarar a responsabilidade, constantes exigências e toda a confusão inerente.

 

Tenho de confessar que adoro retorquiu índia, calmamente, lembrando-se dos filhos.

 

Dois deles jogavam voleibol ali perto, enquanto ela conversava com Serena, índia respeitava a franqueza dela, mas também se apercebia de que não podiam ser mais diferentes, índia era muito mais terra a terra e directa, sem qualquer tipo de artifício ou simulação. Serena era muito mais ardilosa e manipuladora e, à sua maneira, mais agressiva.

 

No entanto, índia concluiu, surpresa, que gostava dela. Esperara de certa maneira que isso não acontecesse. Contudo, agora percebia por que razão Paul a amava. Serena era tão poderosa que estar com ela assemelhava-se a montar um Puro-sangue. Era tudo menos calma e não a incomodava nada aquela fama de difícil, adorava-a mesmo. A única semelhança entre elas era a de serem as duas muito femininas, embora de formas muito diversas.

 

índia era suave nos pontos em que Serena era dura e forte e em todos os aspectos em que a outra fraquejava, mas as

nuances da personalidade de índia eram muito mais subtis, o

que intrigara Paul. Havia muito pouco mistério em Serena, que era só força, poder e controlo, ao passo que Índia era toda suavidade e bondade, e muito mais compassiva e humana. Paul apercebera-se do facto quando haviam ficado a conversar horas a fio no barco.

 

Paul, ao regressar para junto delas, deteve-se um momento a admirar os contrastes, era quase o mesmo que observar dois extremos e, caso se atrevesse, teria admitido que ambas o fascinavam de maneiras muito diferentes e por uma série de razões.

 

Quase se sentiu aliviado quando Sam apareceu e índia o apresentou a Serena. Ele apertou-lhe delicadamente a mão, mas mostrava-se pouco à vontade a falar com ela, era óbvio que a escritora não fazia ideia de como comunicar com crianças. Falava-lhe como se ele fosse um homem em miniatura e as graças que disse caíram, obviamente, em saco roto. O miúdo não fazia a mínima ideia do que significavam.

 

É muito esperto disse, quando Sam voltou para junto dos amigos. Deve sentir-se muito orgulhosa dele.

 

Sinto mesmo sorriu índia.

 

Se ele alguma vez desaparecer, saberá onde o encontrar, índia. Paul irá com ele a caminho do Brasil, no bote.

 

Ele adoraria riu índia.

 

O problema está em que os dois adorariam, mas, na idade do Paul, é patético. Os homens são mesmo crianças, não acha? São todos uns bebés. Quando muito, atingem a adolescência e, sempre que não têm o que querem, são uns fedelhos.

 

Ao escutá-la, índia conseguia pensar em Doug, mas não em Paul, que nada tinha de «fedelho». Parecia-lhe extremamente maduro e muito sensato e ficara muito agradecida pelos conselhos que lhe dera na sua última conversa

 

Falaram durante mais uns minutos e confirmaram os planos feitos para a manhã seguinte. Depois, Serena afastou-se para ir falar com Jenny, uns minutos antes de se irem embora, e índia foi ver como estavam os filhos, que pareciam divertir-se à grande.

 

Nessa noite, chegaram tarde a casa e todos se sentiam felizes e cansados. Disse então a Sam que ia visitar os Wards ao barco na manhã seguinte e perguntou-lhe se queria acompanhá-la.

 

O Paul vai estar lá? perguntou sonolento, com um bocejo, e, quando lhe respondeu afirmativamente, disse que sim-

 

Também convidou os outros a juntarem-se-lhes, mas todos preferiam ficar a dormir. O Sea Star era a paixão de Sam e estavam satisfeitos que assim fosse. Ela só se sentia desapontada por eles não terem visto o barco e sabia que, se tal acontecesse, iriam adorar.

 

De manhã, acordou Sam bem cedo e deu-lhe flocos e tosta antes de saírem, para que o filho não pedalasse até ao barco de estômago vazio. Contudo, mal chegaram, Paul esperava-os e ofereceu-lhes panquecas. Serena ainda estava na sala a beber café e ergueu os olhos, quando entraram.

 

Contrariamente ao aviso do dia anterior, índia achou que ela estava fabulosa, mesmo ao pequeno-almoço. Vestia uma camisa branca engomada e calças de ganga sem uma ruga, calçava ténis de sola de borracha e estava impecavelmente penteada. Usava o cabelo comprido e liso, que prendera com um elástico. Tinha um ar limpo e lavado, com a maquilhagem suficiente para lhe realçar as feições, sem exagerar.

 

Pronta para a acção? perguntou a índia, ao vê-la.

 

Claro sorriu índia, enquanto Sam se servia de um prato de scones recheados e Paul se sentava ao lado dele.

 

Fico a fazer companhia ao Sam prestou-se Paul, tornando-se visível que não era nenhum sacrifício e gostava muito do miúdo. Vamos dar uma volta no bote ou algo assim.

 

Que deprimente! exclamou Serena e falava a sério quando saiu para o convés, seguida de índia.

 

O resto da manhã pareceu voar. índia gastou meia dúzia de rolos e estava certa de que conseguira fotografias realmente boas. Sentia-se satisfeita por Serena ser um modelo tão fácil. A escritora conversou amavelmente e contou episódios divertidos, que lhe tinham acontecido no cenário das filmagens em Hollywood, histórias sobre escritores famosos e as coisas incríveis que haviam feito. índia gostava de a ouvir. Quando acabaram, Serena convidou-a a ficar para o almoço, com Sam, obviamente. Tinham decidido não partir nesse dia para Nova Iorque e planeavam viajar na manhã seguinte.

 

Comeram sanduíches no convés, que Serena preferia à sala de jantar, definindo-a como pretensiosa e claustrofóbica. índia achara-a tudo menos isso, mas também era agradável comer ao ar livre. Paul e Sam regressaram no bote quando as duas estavam quase a acabar.

 

Guardaram-nos alguma coisa? quis saber Paul, ao juntar-se-lhes no convés. Estamos cheios de fome! Davam, de facto, essa ideia.

 

Só raspas respondeu Serena alegremente, mas uma das hospedeiras apressou-se a receber a ordem de Paul, que mandou vir sanduíches para os dois.

 

Com batatas fritas e pickles acrescentou, lembrando-se de quanto Sam gostava de ambas as coisas.

 

Afirmou que o passeio fora óptimo e Sam apoiou a opinião com um largo sorriso. Omitiu à mãe que ambos tinham caído e Paul logo endireitara outra vez o pequeno barco, mas ela apercebera-se da situação e também de que ele resolvera o problema rapidamente.

 

Quando acabaram de comer, índia disse que tinham de voltar a casa para saber como estava a família. Além disso, queria começar a revelar as fotografias de Serena na câmara escura.

 

Envio-lhe as provas dentro de dias prometeu a Serena, quando se levantou. Para ver o que acha delas acrescentou com modéstia.

 

Tenho a certeza de que vou adorar. Se conseguir cinquenta por cento da perfeição que aplicou no Paul, vou usá-las como papel de parede do nosso apartamento. E eu sou mais bonita do que ele, com mil diabos!

 

Soltou uma gargalhada e índia acompanhou-a. Serena era uma figura e tornava-se fácil perceber porque gostava ele dela. Nada tinha de monótono. Sabia montes de pequenas histórias picantes sobre gente famosa. Quem dissera aquilo e fizera aquilo a quem. Escutá-la durante toda a manhã assemelhara-se a ouvir um colunista social dissertar sobre celebridades. Além de que não era só bonita, mas incrivelment sensual. índia gostava dela e não podia deixar de se sentir impressionada.

 

Assim agradeceu-lhe a oportunidade de lhe tirar fotografias e a Paul por ter tomado conta de Sam, enquanto estavam ocupadas.

 

- Foi ele quem tomou conta de mim - sorriu Paul, inclinando-se para dar um abraço a Sam, a que ele correspondeu entusiasmado. - Vou ter saudades tuas - acrescentou, triste por vê-lo partir, mas nem metade do que Sam se sentia. O miúdo jamais esqueceria aquelas visitas ao Sea Star. - Um destes dias farás uma pequena viagem comigo, se a tua mãe deixar - prometeu. - Gostavas?

 

- Está a brincar? - respondeu, de olhos a brilhar. Cá estarei!

 

- Prometido, então.

 

Em seguida, Paul virou-se e abraçou índia, sentindo-se como se estivesse a despedir-se de amigos de longa data, quando eles atravessaram a prancha de acesso à doca e a tripulação acenou a Sam. O rapazinho conquistara o coração de todos durante a sua breve permanência ali.

 

No caminho de regresso a casa, índia seguia imersa nos seus pensamentos e caiu da bicicleta, como era hábito quando se distraía.

 

- O que aconteceu, mamã? - perguntou Sam com uma voz um tanto ansiosa, ao ajudá-la a pôr-se de pé.

 

Contudo, índia não se magoara, e sorria ante a sua própria falta de jeito, sentindo-se idiota ante a expressão trocista do filho. O facto de terem partilhado a magia do barco aproximara-os ainda mais.

 

- Para o ano que vem, compro uma dessas bicicletas de três rodas - disse, sacudindo a poeira.

 

- Sim. Acho que deves - riu-se Sam, e depois percorreram em silêncio a distância que os separava de casa. Ambos pensavam no barco e nas pessoas que ali tinham encontrado. Sentiam-se impressionados com Paul, mas, agora que conhecia Serena, índia via-o de uma maneira muito diferente. O facto de os haver observado juntos levara-a a enquadrá-lo num casamento e a perceber o que era importante na vida dele.

 

Ao chegar a casa, dirigiu-se logo à câmara escura e quando começou a revelar as fotografias ficou encantada com o que viu, estavam fantásticas. Ficara muito bonita e índia tinha a certeza de que lhe agradariam. Havia até uma muito boa dela, ao lado de Paul, quando ele voltara do passeio no bote. Inclinara-se sobre as costas da cadeira dela e ambos tinham um ar fantástico, com o mastro por cima e o oceano em fundo. Faziam um belíssimo par.

 

Na manhã seguinte, enviou-as para Nova Iorque por correio expresso e Serena telefonou-lhe, mal as recebeu.

 

Você é um génio e eu gostava de ser assim pronunciou com voz rouca e, pelo espaço de um momento, índia não sabia quem falava, até que percebeu que se tratava da escritora e sorriu.

 

Você é muito melhor. Agradam-lhe mesmo? perguntou, encantada. Orgulhava-se delas, apesar de Serena ter sido um tema fácil.

 

Adoro-as! confirmou Serena num tom admirativo

 

Gostou daquela em que está com o Paul?

 

Não a recebi. Serena pareceu momentaneamente surpreendida, e índia ficou desapontada.

 

Bolas, devo ter-me esquecido de a mandar. Acho que a deixei na câmara escura. Eu mando-lha. É fantástica.

 

Você também. Falei com o meu editor esta manhã e vão pagar-lhe pela utilização das fotografias.

 

Não se preocupe com isso disse índia timidamente. São um presente. Sam divertiu-se tanto com o Paul que é apenas um pequeno agradecimento.

 

Não seja tola, índia, isto é negócio. O que diria o seu agente?

 

O que ele ignora não o afectará. Digo-lhe que o fiz para uma amiga. Não quero que me pague.

 

É irrecuperável, nunca mais conseguirá retomar a sua carreira, se continuar a desperdiçar talento. Gastou uma manhã inteira e depois ainda teve de revelá-las. É uma péssima mulher de negócios, índia. Devia ser eu a sua agente. Nem sequer consigo decidir-me sobre qual escolher. Estão todas tão boas! prosseguiu Serena, ansiosa por mostrá-las a Paul. Ela ainda estava no escritório. Telefono-lhe depois a dizer qual delas escolho, mas por minha vontade utilizava-as todas. Muito obrigada, mas gostava que me deixasse pagar-lhe.

 

- Para a próxima prometeu Índia, confiante e esperançada de que houvesse uma outra vez.

 

Ao desligar, fazia tenção de ir procurar a fotografia de Serena e Paul, mas esqueceu o assunto, quando Aimee apareceu com uma farpa espetada na mão e teve de a arrancar.

 

Os dias seguintes passaram a correr e Doug chegou, finalmente, para o fim-de-semana. Há quase quinze dias que não o via. Ele pareceu contente por reencontrar os filhos e sentia-se cansado depois da longa viagem. Foi nadar, como sempre fazia, antes de jantar e nessa noite todos jantaram em casa para que o pai pudesse estar com os filhos. No entanto, escaparam-se de novo para casa dos amigos, mal tiveram oportunidade. Adoravam brincar na praia, no escuro, contar histórias de fantasmas e fazerem visitas uns aos outros.

 

Cape Cod era o lugar ideal para os filhos, pensou Doug, quando os viu saírem a correr.

 

Sentia-se feliz por estar ali. Era a primeira vez que índia se encontrava a sós com ele, desde que chegara. Sentaram-se na sala de estar e ela ficou, de súbito, pouco à vontade. Pensara em tanta coisa desde a última vez que o vira, para já nem falar do encontro com Paul Ward, dos momentos que ela e Sam tinham passado no Sea Star e das fotografias que tirara de Serena. Havia tanto a contar-lhe, mas, por qualquer razão, concluiu que não lhe apetecia.

 

Sentia-se menos ansiosa do que o costume por partilhar coisas com ele, era como se agora necessitasse de guardar algo só para si.

Então, o que tens feito? inquiriu ele, como se se dirigisse a uma velha amiga que não via desde o Verão anterior.

 

Nada houvera de afectuoso ou entusiasta na forma como a acolhera e índia apercebia-se agora de que fora sempre assin- A diferença residia em que agora reparava em tudo a que dantes nunca prestara atenção e interrogou-se sobre quando as coisas tinham mudado entre eles.

 

Nada de especial. O costume. Os miúdos estão a passar um Verão divertido respondeu.

 

, ~~ Estou ansioso para poder vir no próximo mês e ficar observou, despreocupado. Tem estado um calor dos diabos em Westport e pior ainda na cidade.

 

Como vão os teus novos clientes? parecia a índia que falava com um simples conhecido.

 

Absorvem-me todo o tempo. Tenho ficado no escritório até às nove e dez da noite. Contigo e os miúdos fora, não preciso de correr para apanhar o comboio das seis. Torna-se mais fácil acabar o trabalho e índia acenou com a cabeça, achando que a conversa se tornara patética.

 

Depois de duas semanas separados, deviam ter mais coisas para falar do que dos clientes e do calor na cidade, mas Doug não lhe dissera uma única vez que tinha saudades dela ou a amava, nem ela sequer se lembrava de quando lhe dirigira uma frase do género. Agora, índia só conseguia pensar porque não esperara que ele o fizesse mais frequentemente.

 

Não conseguiu deixar de se interrogar sobre se os encontros de Paul e Serena também seriam tão desinteressantes e duvidou de que assim fosse, a escritora não teria aguentado um só minuto. Tudo nela expressava e incitava à paixão. Contudo, agora nada existia de apaixonado na relação de índia com Doug. Na verdade, há praticamente vinte anos que era assim, o que constituía uma tomada de consciência deprimente.

 

Ficaram à espera de que os miúdos voltassem, sem conversarem nada de especial, e Doug ligou a televisão. Quando Jessica regressou, apagaram as luzes e foram deitar-se, índia tomou duche, partindo do princípio de que ele queria fazer amor, mas quando apareceu, com uma camisa de noite que sabia agradar-lhe, Doug adormecera. Estava ferrado no sono, ressonando um pouco e com o rosto enterrado na almofada. Ao olhá-lo, sentindo-se de novo sozinha, apercebeu-se de que o final condizia com a noite. Era a melhor constatação daquilo a que se resumia a sua vida de casada.

 

Meteu-se calmamente na cama sem o incomodar e, nessa noite, demorou muito tempo a adormecer, chorando baixinho e desejando estar em qualquer lado, menos aqui, junto ao marido.

 

Doug e índia passaram o dia seguinte na praia. Os filhos e os amigos iam e vinham a toda a hora e, nessa noite, Doug levou-os a todos a jantar. Foram a um simpático e antigo restaurante, onde iam todos os anos, sobretudo em ocasiões especiais, e gostaram muito.

 

Quando regressaram a casa, fizeram finalmente amor, mas até nisso Doug lhe parecia diferente. Com um toque profissional, como se lhe fosse indiferente que ela tivesse ou não prazer. Só queria acabar e quando, depois, índia se voltou para lhe dizer que o amava ouviu-o ressonar. Não fora decididamente um fim-de-semana espantoso para os dois.

 

Na manhã seguinte, depois de as crianças saírem, Doug fitou-a com uma expressão estranha.

 

Passa-se alguma coisa, índia? vincou intencionalmente quando ela lhe serviu uma segunda chávena de café. Tenho-te achado estranha desde que cheguei e também não pareces a mesma ao telefone.

 

índia fitou-o, sem saber o que lhe responder.

 

Não sei. Tenho muita coisa em mente e talvez não seja esta a altura exacta para as discutir.

 

Já decidira não voltar a abordar o assunto do seu regresso ao trabalho até ele se lhes vir juntar para passar férias. Era contra o seu feitio lançar-lhe uma bomba, no momento em que o esperava a viagem de volta a Westport. Precisavam de algum tempo para debater a questão e sabia-o.

 

O que te preocupa? Algo relacionado com as crianças? ” Jess anda novamente a dar-te problemas?

Naquele Inverno, ela mostrara-se bastante agreste com a mãe e, para Doug, era difícil admitir que podia haver algo mais na vida do que os filhos.

Não. Ela está óptima e até me ajuda muito. Todos se teem portado lindamente. O problema não tem nada a ver com eles, mas comigo. Ando a pensar muito.

 

Então, desabafa pediu, impaciente, observando-a.

 

Sabes bem como odeio que faças isto. Qual é o grande mistério? Não tens um caso com Dick Parker, pois não?

 

Estava apenas a brincar, pois era incapaz de conceber que índia o enganasse e tinha razão, ela jamais o faria. Doug confiava inteiramente nela e o facto de índia achar Paul Ward atraente era algo que ele nunca saberia e que não precisava dizer-lhe, pois ela sabia que se tratava de uma atracção irrelevante, que ficaria por ali.

 

Apenas tenho ponderado muito na minha vida e no que quero fazer agora.

 

O que significa isso? Estás a pensar subir ao cimo do Evereste ou atravessar o Pólo Norte num trenó?

 

Expressava-se como se fosse inconcebível que ela alguma vez fizesse qualquer coisa de valor ou excitante e, pelo menos nos últimos catorze anos, isso era realmente verdade, com a excepção de ter criado os filhos. Tornara-se exactamente «alguém em quem se podia confiar para tomar conta deles».

 

Resolveu, então, ir ao âmago da questão.

 

Deitaste-me, de certo modo, por terra quando conversámos antes de eu vir para aqui, naquela noite, no Ma Petite Amie. Nunca me imaginei como apenas uma «companheira, alguém em quem se pudesse confiar para tomar conta dos filhos». As minhas ilusões a nosso respeito eram um tanto mais românticas.

 

Sentia-se mal só de lhe fazer esta confissão, mas fora esta frase que desencadeara tudo, juntamente com a sua teimosia de não a deixar trabalhar, a recusa de entender os seus sentimentos ou sequer ouvi-los. Mesmo assim, tinha dificuldade em expressar-lho.

 

Por amor de Deus, índia. Não sejas tão sensível. Sabes bem o que queria dizer. Apenas tentava dar-te a entender que, depois de dezassete anos de casamento, ou provavelmente mesmo depois de dez, não se pode esperar romance.

 

Porque não? retorquiu, fitando-o bem nos olhos e sentindo-se como se o visse pela primeira vez. Porque não se pode ter romance dezassete anos depois? É assim tão difícil?

 

Isso é coisa de adolescentes e sabe-lo bem. Desaparece depois de algum tempo. Uma pessoa mata-se a trabalhar para sustentar a família, apanha o comboio das seis para voltar para casa à noite e, a essa hora, já se está morto de cansaço e não se tem vontade de falar com ninguém, muito menos com a mulher. Onde está o romantismo? Consegues dizer-me?

 

Não estou a falar de cansaço, Doug. Refiro-me a sentimentos. A amar alguém e fazer com que essa pessoa se sinta amada. Já nem sequer sei se me amas.

 

Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas e ele pareceu incomodado e um pouco sobressaltado mesmo.

 

Sabes que sim. O que estás para aí a dizer é ridículo. O que esperas que faça? Que te traga flores todas as noites? parecia irritado com o que ela dissera.

 

Não, só que uma vez por ano seria simpático. Nem sequer consigo lembrar-me da última vez que o fizeste.

 

No ano passado, no teu aniversário. Ofereci-te rosas.

 

Sim, mas nem sequer me levaste a jantar fora. Disseste que podíamos fazê-lo no próximo ano.

 

Levei-te a jantar fora há uma semana, ao Ma Petite Amie. Foi aí que tudo isto começou. Afinal, não me parece grande ideia, se é este o resultado.

 

Apenas examino a minha vida e interrogo-me sobre o que me levou a desistir da carreira. Sei que foi pelos meus filhos, mas será que teria sido por um homem que me ama e aprecia o que fiz? era uma pergunta honesta e queria que ele lhe desse uma resposta honesta.

 

É então esse o problema? Queres voltar a trabalhar? Já te disse que é impossível. Quem tomará conta dos miúdos, se o fizeres? Economicamente, não faz sentido. Gastarias com uma governanta mais do que irias ganhar, e provavelmente ela não se ocuparia deles como deve ser. Se bem me recordo, índia, o teu trabalho deu-te alguns prémios, mas quase nenhum dinheiro. Que tipo de carreira é essa, então? É para uma miúda do Corpo da Paz, sem responsabilidades, nem motivação para arranjar um emprego a sério. Bom, agora tens um verdadeiro emprego: tomares conta dos nossos filhos. Se isso não te basta prosseguiu e achas que precisas de voltar a percorrer meio mundo, é bom que analises o qe estás a fazer. Estabelecemos um acordo quando regressaste a Nova Iorque. Casávamos, ficarias a trabalhar até termos filhos e depois punhas ponto final. Foi tudo muito claro e não pareceste ter qualquer problema. Agora, catorze anos depois, queres romper o acordo. Sabes uma coisa? Não tens sorte nenhuma.

 

Dava a sensação de que ele se preparava para sair tempestuosamente do quarto, mas ela não deixou. Os olhos de índia pareciam duas brasas. Doug não tinha o direito de lhe fazer isto. Nem sequer lhe dissera que a amava, desviara-se por completo do assunto.

 

Que direito te cabe de me indicares o que posso ou não fazer? Também tenho algo a acrescentar. Cumpri o nosso «acordo» o melhor que podia. Fi-lo com honestidade e paguei bem o teu dinheiro, mas agora não estou feliz. Sinto-me como se tivesse abdicado de demasiadas coisas, sem que te importasse. Aos teus olhos, eu praticava apenas um hobby insignificante, é, pelo menos, o que dizes e aparentas. Se tivesse insistido, é muito provável que agora fosse dona de um Pulitzer. Não é insignificante, Doug, é algo muito importante e foi disso que desisti para tratar dos nossos filhos.

 

Se era isso o que querias, devias ter ficado onde estavas, no raio do Zimbabué, Quénia ou Kalamazoo, em vez de regressares, casares comigo e teres quatro filhos.

 

Podia fazer as duas coisas, se me deixasses.

 

Nunca, e acho bem que isso fique bem claro, pois não quero continuar a ter este tipo de discussão. A tua carreira, como era, com ou sem esse maldito Pulitzer, acabou, índia. Entendes?

 

Talvez não seja a minha carreira que acabou, mas outra coisa retorquiu, corajosa.

 

As lágrimas corriam-lhe pelo rosto e engolia os soluços, mas Doug não cedia um milímetro da sua posição. Não precisava, tinha uma carreira, uma vida, uma família e uma mulher para tomar conta dos filhos. Tudo exactamente ao seu gosto. E para ela, o que restava?

 

Estás a ameaçar-me? ripostou, com uma expressão ainda mais furiosa. Não sei quem anda a meter-te essas ideias na cabeça, índia, se o doido do teu agente Raoul,  Gail, com as suas putices, ou se é mesmo Jenny, a fazer de terapeuta, mas, quem quer que seja, podes dizer-lhe que esqueça.

 

Tanto quanto me diz respeito, o nosso casamento assenta no cumprimento da tua parte do acordo.

 

Não se trata de um negócio, Doug. Não sou um acordo que fizeste com um cliente, mas um ser humano e estou a dizer-te que me matas emocionalmente e que vou endoidecer, caso a minha vida se limite a levar de carro Sam, Aimee e Jason todos os dias à escola. A vida é algo mais do que estar sentada em Westport, morta de tédio e à espera de te servir o jantar.

 

Soluçava ao pronunciar estas palavras, mas Doug assemelhava-se a uma pedra inamovível. Apenas se sentia furioso.

 

Nunca falaste de tédio. O que te aconteceu, com os diabos?

 

Cresci. Os miúdos já não precisam tanto de mim. Tu tens uma vida e eu também preciso de uma. Preciso de mais do que tenho neste momento. Estou só e cheia de tédio. Começo a sentir-me como se desperdiçasse a vida. Quero fazer algo inteligente para variar, outra coisa além de estar ao teu serviço. Preciso mais do que isso. Esqueci as minhas conveniências durante catorze anos. Necessito de algo mais para continuar a viver. É pedir de mais?

 

Não compreendo nada do que estás para aí a dizer. Isto é uma loucura.

 

Não, não é retorquiu, desesperada. Mas acabarei por endoidecer, se não ouvires o que te digo.

 

Eu ouço, apenas não gosto. Vieste bater à porta errada, índia.

 

Raras vezes discutiam, mas agora ela estava completamente esgotada e ele lívido. Doug não iria ceder um centímetro nesta questão e índia sabia. Era inútil.

 

Porque não tentas, pelo menos, deixar-me aceitar umas reportagens? Talvez funcione. Dá-me uma oportunidade.

 

” Porquê? Já sei como seria. Lembro-me de como era antes de sermos casados. Estavas sempre algures, no cimo de uma árvore, com telefones de campanha e a iludir atiradores. É isso que queres voltar a fazer, com os diabos? Não achas que pelo menos os teus filhos têm direito à mãe? Até onde vai

 

O teu egoísmo?

 

Até metade do teu. Que mãe será a deles, se eu não tiver auto-estima e me sentir irritada o tempo todo por estar chateada e sozinha?

 

Se é isso que queres, índia, procura outro marido.

 

Estás a falar a sério? retorquiu, fitando-o surpreendida, interrogando-se sobre se ele se atreveria a ir tão longe. Parecia muito firme. No entanto, a expressão dos olhos dela quando formulou a pergunta, moderaram-no um pouco.

 

Não sei, talvez. Preciso de reflectir no assunto. Se é, realmente, isso que queres, se estás disposta a ir além dos limites dessa maneira, talvez necessitemos de repensar o nosso casamento.

 

Não acredito que sejas capaz de nos sacrificar por não estares disposto, por uma vez, a assumir um compromisso, a tomar em consideração os meus sentimentos. Fiz tudo à tua maneira durante muito tempo e talvez seja altura de experimentar a minha.

 

Nem sequer pensas nas crianças.

 

Penso, sim, e pensei sempre. No entanto, talvez tenha agora chegado a minha vez.

 

Nunca lhe dissera nada que se parecesse, nem de longe, com estas afirmações, e agora Doug não tencionava certamente dizer-lhe que a amava. De facto, ao ouvi-la, tinha quase a certeza de que não era o caso. Como poderia? índia estava a violar o acordo que fizera com ele, a sacrificar os filhos e a afectar o casamento. Tanto quanto parecia a Doug, não havia muito amor nesta atitude.

 

índia fez uma última e desesperada tentativa para o levar a compreendê-la.

 

O que eu fazia não era apenas um emprego, Doug^ vincou. Era uma forma de arte, uma parte de mim. A forma como exprimo o que me vai na mente, no coração, na alma. Por isso, nunca deixei de andar com a máquina fotográfica, preciso dela para receber um pouco de luz. O que tu vês com os olhos, eu via com o coração e, como há muito que desisti disso, quero, agora, recuperar um pouco, como se fosse uma parte de mim de que desisti e acho que me faz demasiada falta. Talvez precise dela para ser quem sou. Não sei nem eu própria compreendo. Apenas me dei conta de que de súbito, se tornou importante.

 

No entanto, também se apercebeu de que para ele não o era, o marido não conseguia entendê-la, nem queria.

 

- Devias ter pensado em tudo isso há dezassete anos, quando casaste comigo. Nessa altura, podias fazer a tua escolha. Julguei que tinhas feito a opção certa e tu também, mas se deixaste de pensar assim, teremos de enfrentar o facto.

 

Só precisas de aceitar que preciso de algo mais na minha vida. Ar, espaço para respirar, uma maneira de me expressar e ser novamente eu... uma forma de sentir que também sou importante no mundo e não apenas tu. E preciso ainda mais de saber que me amas.

 

Não vou amar-te, se continuas com esta merda, índia. É o que acho que isto é, uma merda. És uma miúda mimada e estás a prejudicar-me e aos nossos filhos.

 

Lamento que não consigas escutar-me disse, chorando baixinho.

 

Doug abandonou a sala sem pronunciar nem mais uma palavra, sem lhe estender a mão, sem a abraçar ou dizer-lhe que a amava. Nesse momento, não o fez, e estava por demais furioso para continuar a ouvi-la mais um minuto que fosse. Em vez disso, dirigiu-se ao quarto e pôs-se a arrumar a mala.

 

O que estás a fazer? perguntou índia.

 

Vou regressar a Westport, e não venho no próximo fim-de-semana. Não vale a pena conduzir seis horas para levar com esses discursos sobre a «tua carreira». Acho que precisamos de descansar um do outro. índia não se opôs, mas sentiu-se abandonada ao ver o que o marido fazia.

 

O que te dá tanta certeza de que sabes o que é bom para nós, para mim e para os nossos filhos? Porque tens semPre de ser tu a ditar as regras?

 

” Porque é assim, índia. Sempre foi e, se não te agrada, Podes deixar-me.

 

Na tua boca parece tudo muito simples só que não era e ela sabia perfeitamente.

 

” Talvez, talvez seja mesmo muito simples, levantou-se e fitou-a com a mala na mão, e ela era incapaz de acreditar na forma como o casamento deles desabava depois de dezassete anos e quatro filhos. Aparentemente, tinha  de ser à maneira dele, não de outra qualquer. Doug nem sequer estava disposto a negociar com ela, ou a dar-se ao trabalho de dizer que a amava muito de facto, nem sequer o bastante para se importar com o que índia sentia ou precisava. Tudo girava à volta dele e do «acordo» que tinham feito e que não estava disposto a renegociar.

 

Despede-te dos miúdos por mim disse. Volto daqui a duas semanas. Talvez tenhas recuperado a razão nessa altura.

 

O marido olhava-a fixamente, mas, mesmo que quisesse, ela não estava certa de conseguir mudar. Nas últimas semanas, tomara consciência do que lhe faltava e daquilo que precisava.

 

Porque és tão teimoso? Por vezes, temos de fazer mudanças na vida, adaptarmo-nos a novas ideias e a novas situações.

 

Não precisamos de novas ideias e os nossos filhos também não. Eles só necessitam de que a mãe faça o que supostamente deve fazer por eles. E é tudo o que quero de ti.

 

Porque não te limitas a contratar uma governanta? Depois, se ela pisar o risco ou não cumprir o «acordo» despede-a simplesmente.

 

Talvez tenha de ser, se resolveres seguir as pisadas do teu pai.

 

Não sou assim tão estúpida, não estou a pedir-te que me deixes ir para zonas de guerra. Só quero fazer reportagens de algumas histórias simples.

 

Por mim, não te peço nada redarguiu num tom gelado. Só te digo que, no fim do Verão, quando voltarmos a Westport, é bom que tenhas recuperado a razão e te sintas pronta a desistir de toda esta parvoíce. É conveniente que estejas pronta a tomar conta dos nossos filhos e a cumprir a tua parte do acordo.

 

índia jamais compreendera até que ponto ele era insensível e indiferente às suas emoções. Enquanto o jogo fosse à maneira dele, tudo deslizava sobre rodas, mas era incapaz de aceitar necessidades e ideias diferentes, o que quer que alterasse a rotina. Vincara bem a sua posição, muito mais do que alguma vez o fizera, e ela odiava cada palavra ouvida. Isto é bem pior do que o tédio, era perverso.

 

Doug dirigiu-se à porta da frente e virou-se uma última vez para a olhar e pronunciar um ultimato final:

 

Falo a sério, índia. Recupera a sensatez ou virás a arrepender-te.

 

Já se arrependera, mas nada mais lhe disse quando ele partiu, deixando-se ficar, em silêncio, junto à janela da cozinha a vê-lo descer o acesso no automóvel. Não conseguia acreditar no que estava a acontecer-lhes, no que ouvira e no que se escondia por detrás disso. Continuava a chorar, quando Sam entrou. Nem sequer o ouviu atravessar a cozinha e aproximar-se por trás dela.

 

Onde está o papá? perguntou o garoto, julgando que ele fora passear pela praia com o Crockett.

 

Foi-se embora respondeu sem hesitar, enxugando os olhos quando se virou, pois não queria que ele a visse chorar.

 

Esqueceu-se de se despedir exclamou Sam, parecendo admirado.

Tinha de voltar para assistir a uma reunião.

 

Oh! Vou a casa do John, ali em frente.

 

Está em casa à hora do jantar disse-lhe, com um sorriso. Ainda tinha os olhos húmidos, mas ele não se apercebeu, apenas a viu sorrir e não prestou mais atenção. Amo-te, Sam acrescentou com ternura.

 

Claro... Eu sei, mamã. Também te amo.

 

Depois afastou-se, a porta da frente bateu e índia ficou a vê-lo a atravessar a rua até à casa do amigo. O filho não fazia ideia do que acontecera, mas índia tinha a sensação de que as suas vidas estavam prestes a sofrer uma viragem definitiva.

 

Podia ter ligado a Doug para o carro, podia ter-lhe dito

que mudara de opinião, podia ter feito uma série de coisas, mas sabia que agora era impossível voltar atrás. Só lhe restava seguir em frente.

 

Doug telefonou-lhe poucas vezes nas duas semanas seguintes, antes de voltar, e quando o fez gerou-se um clima de tensão entre os dois. Absteve-se de qualquer referência ao que acontecera e índia também.

 

Contudo, ela tinha reflectido muito no casamento e sentira-se tentada a telefonar a Raoul, o seu agente, a fim de que lhe pusesse o nome no topo da lista para trabalho local, mas resolvera esperar até ao fim do Verão. Queria analisar as hipóteses e os riscos, bem como o potencial impacto nas crianças. Precisava de falar novamente com Doug, pois havia várias coisas a clarificar, agora mais do que nunca. Não queria precipitar-se. Continuava desejosa de regressar ao trabalho, mas os riscos eram elevados e queria estar certa de saber o que fazia.

 

Doug nem sequer tentou fazer amor e mal lhe dirigiu a palavra durante todo o fim-de-semana. Comportava-se como se ela tivesse cometido uma transgressão imperdoável. E no domingo, depois de ele se ir embora, Jason fitou-a com um olhar cheio de perguntas. Era o mais chegado ao pai.

 

Estás zangada com o papá? perguntou-lhe sem rodeios, enquanto a ajudava a pôr a mesa.

 

Não. Porquê?

 

Não queria dizer nada aos filhos sobre a conversa que haviam tido. Era inútil ficarem a par do gelo que se criara entre eles, não valia a pena enervá-los. Já fora bastante duro passar o fim-de-semana com Doug, quase sem trocarem palavra.

 

Não lhe falaste durante todo o fim-de-semana.

 

Estou apenas cansada e ele tinha muito trabalho para acabar, antes de vir de férias.

 

Doug regressaria no fim-de-semana seguinte para passar três semanas e a perspectiva deixara de lhe agradar. Contudo talvez lhes fizesse bem, assim o esperava. Ainda não conseguia acreditar que ele estava disposto a acabar com o casamento só porque ela queria fazer algumas reportagens. Não lhe parecia que fosse caso disso, mas também não estava disposta a ceder, achava demasiado injusto.

 

Jason pareceu satisfeito com a resposta e saiu para se ir encontrar com amigos, tendo trazido dois deles para jantar. Contudo, até a refeição foi sossegada nessa noite, era como se todos tivessem a percepção de que algo corria mal, embora não soubessem realmente o quê.

 

Às vezes as crianças eram como os animais, que não sabem mas pressentem as coisas. Nessa noite, estava deitada quando o telefone tocou. Interrogou-se sobre se seria Doug a desculpar-se por mais um desagradável fim-de-semana pelo menos, desta vez não houvera ameaças, nem ultimatos ou reacções explosivas, apenas silêncio e depressão.

 

Levantou o auscultador, esperando que fosse Doug, e sobressaltou-se ao ouvir Paul Ward, tão nitidamente, como se estivesse ali no quarto, ao lado dela.

 

Onde está? inquiriu, surpreendida por ser ele.

 

Não imaginava para que lhe ligava, excepto se fosse regressar a Cape Cod e quisesse convidar Sam para se lhe juntar, como prometera. Sam jamais esqueceria essa promessa.

 

No barco. São quatro da manhã e estamos a chegar a Gibraltar. Decidi fazer a travessia até à Europa no Sea Star.

 

Parecia-lhe um acto de coragem, mas sabia que ele o fizera muitas vezes e que adorava. Contara tudo a Sam ao almoço, no clube naval de New Seabury.

 

Mas que excitante! exclamou Índia com um sorriso, ao ouvi-lo. Ele parecia tão feliz no barco, atravessando o oceano! Presumo que Serena não esteja consigo?

 

Paul riu ante a pergunta e ela já sabia a resposta.

 

Não. Está em Londres, numa reunião com os editores imgleses. Viajou no Concorde. E você? Como está?

 

Óptima mentiu, interrogando-se sobre se deveria contar-lhe a discussão com Doug e o ultimato que ele lhe fizera há duas semanas. Sabia que ficaria desgostoso. Que taltudo por aí?

 

Maravilhoso, calmo. Tivemos um tempo fantástico e Uma travessia sem problemas.

 

Terá de relatar tudo ao Sam.

Continuava a interrogar-se sobre o motivo do telefonema, sobretudo às quatro da manhã, hora dele. Talvez se sentisse apenas aborrecido e desejasse alguém com quem falar.

 

Estava a pensar em si. Perguntava a mim próprio como vai o seu plano de regresso ao trabalho. Voltou a abordar o assunto com o seu marido?

 

Sim. Há duas semanas suspirou. Ele deixou de me falar desde então. Esteve aqui, mas passámos um fim-de-semana gelado e não me refiro ao tempo.

 

Era agradável poder conversar com ele. Por qualquer motivo, encarava-o como um velho amigo, embora não soubesse bem porquê. No entanto, como Gail continuava na Europa, não tinha mais ninguém em quem confiar.

 

Deu-me mais ou menos a entender que, se eu voltasse ao trabalho, me deixaria. Disse que eu estava a quebrar o acordo acrescentou, desanimada.

 

Como se sente afinal, índia?

 

Bastante desmoralizada. Doug não se interessa pelas minhas emoções. Não sei, Paul... Acho que ele está a falar a sério. É uma grande decisão e talvez não valha a pena.

 

E se ceder? Como irá sentir-se? parecia interessar-se pelo que estava a acontecer-lhe, o que a tocou.

 

Acho que um pouco morta por dentro respondeu. Mas deixar afundar o meu casamento é um preço elevado por um pouco de auto-estima e alguma independência.

 

Tem de tomar essa decisão, índia. Ninguém mais pode fazê-lo por si. Sabe o que penso.

 

Sei o que Serena faria redarguiu Índia com um sorriso calmo. Quem me dera ser tão corajosa como ela.

 

E é à sua maneira, só que não o sabe.

 

Mas lá bem no fundo, índia tinha consciência de que não o era. Serena não aguentaria Doug cinco minutos que fosse, mas também não se casaria com ele. índia fizera-o e agora tinha de viver com isso. No entanto, sentia-se deprimida por deixar que ele a ameaçasse. Doug não lhe dava calor, compreensão, apoio ou afecto, e apercebia-se agora de que a situação vinha de trás. Apenas se tinham envolvido na educação dos filhos e, de súbito, tal deixara de bastar.

 

Como está o meu amigo Sam? interessou-se Paul e ambos sorriram ao pensarem no miúdo.

 

A dormir profundamente. Andou a brincar com ° amigos e falou a todos do Sea Star.

 

-Gostava que estivesse aqui comigo... E você também acrescentou num tom estranho, que lhe provocou o mesmo estremecimento de quando falava com ele.

 

Havia algo de poderoso em Paul e não sabia muito bem qual o significado das suas palavras ou o porquê do telefonema. Ele não fizera qualquer tipo de avanço e índia pressentia que tal não iria acontecer, mas sentia também que gostava dele.

 

Iria adorar a travessia continuou. De certeza. É tudo tão calmo. Era uma das coisas que mais gostava de fazer. Lia, dormia, tirava o relógio sempre que lhe apetecia, como era o caso, por isso lhe telefonara àquela hora. Contudo, pensara nela toda a noite ao contemplar o oceano e, por fim, resolvera ligar. Vamos para o Sul de França dentro de dias, mas primeiro tenho de tratar de uns negócios, em Paris. Serena vai ter comigo de avião. Paris é a medida do seu sapato e do meu também confessou, dado tratar-se de uma das suas cidades favoritas.

 

Há anos que não vou lá disse índia, sonhadora, recordando-se da última vez que a visitara. Era muito nova e ficara num albergue juvenil. Tinha a certeza de que ele se hospedaria no Ritz, no Plaza Athénée ou no Crillon. Onde vão ficar?

 

No Ritz, a Serena adora-o. Por vezes, fico no Crillon, mas ela prefere o Ritz, mas não sei muito bem qual a diferença. Não falo francês, mas ela obviamente que sim. Sinto-me sempre um idiota quando tento falar com os motoristas de táxi e negociar as minhas voltas por Paris. Fala francês, índia?

 

O suficiente para me movimentar e comer, mas não para aguentar um diálogo inteligente. Aprendi, de facto, bastante quando uma vez passei seis semanas em Marrocos, mas

todos os meus amigos franceses troçavam do meu sotaque. Pelo menos, consigo orientar-me num táxi.

 

Serena esteve um ano na Sorbonne. Fala um francês fluente.

 

Serena era uma mulher de difícil comparação em todos os aspectos, mais do que difícil impossível se ela não estava disposta a fazê-lo. Via-se que eram doidos um pelo outro.

 

A propósito, quando volta a Westport? perguntou Paul

 

Só no fim de Agosto. Não tinham muito sobre que falar, mas era agradável ouvi-lo e saber onde estava, às quatro da manhã.è nessa altura que os miúdos têm de voltar às aulas e preciso de os organizar

 

Paul riu ante a ideia, queria algo mais dela e esperava que índia tivesse coragem de se decidir

 

Quanto tempo ficará na Europa perguntou índia

 

Até ao início de Setembro, mas Serena tem de estar em Los Angeles. Acho que não se importa, arranja compromissos para não permanecer muito tempo onde quer que seja. É muito independente e sente-se sufocada, em especial no barco

 

Então, odiaria estar aqui. Limito-me a ficar estendida todo o dia na praia e só volto a casa às seis da tarde para fazer o jantar

 

Parece-me uma boa vida e os miúdos devem adorar

 

Adoram mesmo, mas a vida é muito mais divertida a bordo do Sea Star, acredite. O meu ideal de existência perfeita

 

E é, para as pessoas certas É preciso gostar mesmo de barcos, de velejar e de navegar no oceano Ou está no sangue ou não, não é um gosto adquirido. Trata-se de uma paixão que começa cedo, como no meu caso. Tinha mais ou menos a idade do Sam, quando me apercebi de quanto me agradava

 

Só soube como era maravilhoso depois de andarmos no seu barco. É uma forma fantástica de começar. Receio que me tenha estragado para sempre. Para já nem falar do Sam, que agora nunca mais vai querer nada abaixo dele

 

Vai, sim Ele é um marinheiro a sério como eu. Até do bote gostou. é esse o verdadeiro teste e ele passou com nota máxima

 

Acho que prefiro os grandes

 

Talvez seja uma boa decisão. Haverá uma série de bonitos barcos aqui, sobretudo alguns clássicos. Um destes dias, vou comprar um, mas é provável que Serena peça o divórcio, quando o fizer. Um barco já é mau, mas dois? Acho que não terei coragem de lhe dizer. Riu ante a perspectiva

 

Penso que não ficará muito surpreendida observou índia, rindo também.

 

Era tão bom ouvi-lo e falar-lhe! Se fechasse os olhos, conseguia vê-lo, de pé, no convés do Sea Star, com Sam ao lado, ou a conversar com ela na cabina, enquanto Sam falava com o capitão do iate. Tinham passado um dia tão maravilhoso a velejarem com ele!

 

Paul referiu-lhe as corridas em que iria participar na Sardenha e as pessoas que veria, entre as quais o Aga Khan.

 

É uma vergonha movimentar-se nesses círculos miseráveis, Paul troçou índia. Fica muito longe de Westport.

 

Também o Botswana e precisa de lá voltar incitou-a.

 

Paul apercebia-se de que ela necessitava de ser encorajada e espicaçada. Talvez mais do que nunca, agora que o marido a ameaçava. Era desprezível da parte dele. Paul odiava pensar que ela desperdiçava o seu talento, mas suspeitava de que Doug se sentia ameaçado. Não queria que índia tivesse uma vida mais interessante do que a dele, tornaria a sua monótona e sensaborona. Pensou se não seria uma questão de ciúmes.

 

Por vezes, pergunto a mim própria se alguma vez voltarei a ver esses lugares comentou índia num tom triste. Nem sequer à Europa consigo levar o Doug.

 

Quem me dera que estivesse aqui connosco. Sei que ia adorar. A propósito, vi a maqueta da capa do livro de Serena com a fotografia que lhe tirou. Está fantástica.

 

Ainda bem. Foi um trabalho que me divertiu sorriu índia, pensando na manhã que passara com ela.

 

Estiveram a conversar mais uns minutos e ela achou-o com uma voz cansada. Era tarde para ele.

Acho melhor ir-me deitar disse Paul, depois de falarem mais uns minutos. Temos de navegar mais um bocado. Estamos a aproximar-nos do nosso destino e o Sol não tardará a nascer.

 

índia imaginou-o no barco, falando com ela, à medida que se aproximavam de Gibraltar. Parecia-lhe extremamente exótico e muito romântico.

 

Suponho que vai dormir acrescentou. Gostava de imaginá-la na sua vida calma em Cape Cod. Parecia-lhe um local muito tranquilo e sentiu-se contente por ter lá estado, pois surgira a oportunidade de a conhecer. Pense no Sea Star e espero vê-la a bordo e ao Sam num destes dias.

 

Nada me agradaria mais.

 

Também a mim retorquiu e gerou-se um repentino silêncio entre ambos.

 

índia não sabia o que dizer a seguir. Sentia-se contente por o ter conhecido e apreciava a amizade que ele lhe oferecia, o que parecia suficiente para a proteger de qualquer idiotice de que viesse a arrepender-se. Mas ele também não acrescentou mais nada. Ambos estavam cientes da situação.

 

índia agradeceu-lhe o telefonema e desligaram um momento depois. Fez exactamente o que Paul lhe sugerira. Deitou-se em cima da cama e imaginou-o a navegar rumo a Gibraltar, a bordo do Sea Star. Reviu o barco todo iluminado, tal como quando deslizara em frente da sua casa naquela noite em que ele estivera ali, semelhante a uma ilha mágica cheia de sonhos e de gente feliz.

 

Agora, via-o na ponte, sozinho no escuro antes do romper do dia, rumo a Gibraltar. Contudo, nessa noite não sonhou com Paul, nem com a sua vida maravilhosa a bordo do Sea Star. Em vez disso, teve pesadelos com Doug, e o marido gritava-lhe, era essa a sua realidade e a única que tinha de resolver ou aguentar. Aos seus olhos, o Sea Star era apenas um sonho, uma estrela distante no paraíso de outra pessoa.

 

O clima entre eles manteve-se tenso, quando Doug chegou a Harwich para as suas três semanas de férias. Não voltaram a falar na questão de ela voltar ao trabalho, nem nas palavras desagradáveis que haviam trocado, mas a carga que estas haviam deixado continuava, igual a uma nuvem carregada. Havia alturas em que índia sentia que mal conseguia ver através dela e era como se se movesse através do nevoeiro, vivendo ao lado de um estranho.

 

Os filhos também se aperceberam da situação, mas nenhum tocou no assunto. Teria sido demasiado assustador para qualquer deles reconhecer aquele mal-estar palpável, silencioso e irresolúvel entre os pais. Assemelhava-se a um mau cheiro que pairava no ar e não podia ser ignorado. Foi somente nos últimos dias das férias em Harwich que índia abordou a questão.

 

O que vamos fazer quando regressarmos? perguntou, cautelosa.

 

Os miúdos aproveitavam os últimos momentos com os amigos. O final das férias era sempre vivido com um certo frenesim. Costumavam organizar um barbecue, mas nesse ano haviam resolvido não o fazer. O facto era por si uma tomada de posição, mas índia não discutiu a decisão de Doug, quando ele dissera que não lhe apetecia. Também a ela não. Estava cansada de fingir que tudo corria bem entre eles. Era a primeira vez que se desentendiam em dezassete anos. As sementes da discórdia lançadas à terra em Junho haviam-se transformado numa árvore, cujos ramos começavam a sufocá-los. Continuava sem saber qual a solução para o problema.

 

O que queres dizer? retorquiu Doug, fingindo não Saber ao que ela se referia.

 

Tornava-se, contudo, difícil ignorar a atmosfera de tensão entre ambos e ela queria fazer algo antes que regressassem a

casa e o problema começasse a envenenar-lhes o dia-a-dia. Já

era mau haver sacrificado o Verão, mas havia que estabelecer directrizes, antes que fosse tarde de mais.

 

Passámos um Verão bastante insípido, não achas? observou índia, fitando-o do outro lado da mesa.

 

Tinham acabado de almoçar e nenhum deles pronunciara uma só palavra.

 

Andámos os dois ocupados. Há anos assim redarguiu ele vagamente, mas ambos sabiam que era mentira, nenhum fora como este e índia esperava nunca mais viver um igual.

 

Estamos os dois perturbados e irritados. Gostava de saber qual é o ponto da situação. Não podemos continuar eternamente assim. Há que chegar a uma conclusão ou acabaremos por endoidecer.

 

Era uma solidão horrível não falarem um com o outro, não se tocarem, cada um deles isolado numa ilha, sem barco, nem ponte que os unisse, índia nunca se sentira tão sozinha em toda a sua vida, totalmente abandonada, e ele achava que ela o atraiçoara com as coisas que dissera e a insistência em voltar a trabalhar, e pedindo-lhe mais do que tinha para dar.

 

Talvez deva ser eu a perguntar-te qual o teu ponto da situação. Tudo anda à volta da tua insistência em voltares a trabalhar. É o que continuarás a ter em mente quando regressarmos a Westport?

 

No entanto, índia já não tinha tantas certezas. O preço era alto, talvez demasiado elevado. Doug afirmara que era uma quebra do acordo e ela acreditou e não estava preparada para o infringir, pelo menos agora, e talvez nunca.

 

Apenas queria dizer que estava disposta a aceitar uma reportagem de vez em quando, de preferência próximo de casa, e não uma missão de longa distância. Só quero entreabrir uma nesga da porta.

 

Essa nesga acabará por inundar as nossas vidas e afogar-nos. Sabes bem que é assim. Penso que é o que te vai na mente, Índia, e tens consciência disso.

 

Estás enganado, Doug. Recusei a reportagem na Coreia. Não quero destruir as nossas vidas, mas apenas salvar a minha.

 

Apercebera-se, porém, de que era mais do que isso. Mesmo que o marido concordasse em deixá-la aceitar um trabalho ocasional, não resolvia o problema dos sentimentos dele para com ela, da indiferença, da triste vida em comum que os esperava. Sabia que Doug não a considerava a mulher amada, mas uma ajudante necessária, uma ama para os filhos. Não havia paixão, entusiasmo ou romance no que sentia por ela. Deixara de conseguir iludir-se face ao casamento quer este funcionasse ou não.

 

Expressei-te com grande clareza o que achava do teu trabalho declarou Doug e nada mudou. O que fizeres, és tu a decidir. Se queres arriscar, vai em frente.

 

Isso é um desafio aterrador, Doug exclamou com lágrimas nos olhos. É como saltar do telhado sem saber se haverá uma rede para me apanhar, quando cair.

 

Que diferença faz? Aparentemente não te importas assim tanto. Estás disposta a sacrificar os nossos filhos, a nossa vida, o acordo que estabelecemos para fazeres o que te apetece. Se é isso o que queres, arrisca; era como se estivesse a desafiá-la.

 

Não sou assim tão estúpida, mas tens de compreender que também tu estás a arriscar. Se não te interessam os meus sentimentos, tens de entender que, mais cedo ou mais tarde, isso nos vai afectar. Na verdade prosseguiu num tom calmo, pensando nas últimas semanas e no mês anterior, tal já aconteceu.

 

Tudo indica que, de uma maneira ou de outra, estamos lixados ripostou ele, e o único sentimento que parecia restar-lhe era a raiva, sem mostrar um mínimo de compaixão por ela ou pelos seus problemas. Faz o que quiseres, índia. Aliás, nem precisas que to diga.

 

Longe de mim ser irresponsável, e nunca quis provocar uma revolução confessou, num tom triste.

 

Claro que quiseste, índia. O problema está aí, mas deixa que te diga uma vez mais com toda a clareza: não me podes ter a mim, a nossa família e uma carreira. Terás de faZer uma opção mais cedo ou mais tarde só que a escolha que ele lhe pedia iria custar-lhe o seu «eu» e era aí que residia o problema.

 

.. Acho que não deixaste espaço para dúvidas. E se eu não voltar a trabalhar? O que acontece? Passas a considerar-me maravilhosa, fabulosa e dedicada, adoras-me e ficas-me

grato para o resto da vida?

 

Índia pronunciou este pequeno discurso com amargura e lembrou-se subitamente das coisas que Paul lhe dissera sobre abdicar demasiado e o que isso acabaria por lhe trazer. Não queria tornar-se amarga, infeliz e enganada enquanto vivesse, como era o caso nesse momento.

 

Não sei do que estás a falar disse Doug com uma expressão furiosa. Acho que endoideceste por completo e gostava de saber quem te meteu essa treta na cabeça. Continuo a pensar que foi a Gail.

 

A responsabilidade cabia a uma série de coisas, uma série de gente, uma série de sonhos, de que ela finalmente se recordara e dos quais abdicara durante tanto tempo. Tratava-se de algo que Gail dissera em Junho e das coisas que Doug não dissera, das conversas com Paul e o encontro com Serena. Em causa estava também a reflexão que fizera nos últimos três meses e a frieza de Doug. Desde Julho que não lhe tocava, índia sabia que era o castigo por todas as suas palavras, e interrogou-se sobre quanto tempo duraria.

 

Ages como se esperasses uma recompensa por seres mulher e mãe. É essa a tua função, índia. Não se ganham prémios quando se leva uma vida normal. Foi esse o acordo que fizeste. Se esperas algum louvor por isto, se pretendes que te beije os pés sempre que vais buscar os miúdos ao colégio, é inútil. Não sei o que te deu, mas se queres ser uma mulher de carreira ou uma repórter fotográfica sempre em viagens, vais ter de pagar o preço.

 

Sinto-me como se já estivesse a pagá-lo por te ter falado no assunto, Doug. Há dois meses que me castigas.

 

O marido não respondeu e nos seus olhos ela só detectou gelo e raiva.

 

Acho que foste injusta, desonesta e me atraiçoaste com as tuas palavras. Nunca me disseste que algum dia voltarias a trabalhar, nunca mencionaste essa vontade e era óbvio quanto ele se sentia atraiçoado, dada a maneira como passara a tratá-la desde a primeira vez que ela abordara a questão.

 

Não sabia afirmou com honestidade. Nunca julguei que desejasse voltar e, de qualquer maneira, apenas pretendo fazer uma reportagem de vez em quando. A frase tornara-se lugar-comum entre eles.

 

É o mesmo ripostou Doug, levantando-se com um olhar crítico e que pareceu a índia revelar forte aversão por ela. Já falámos o suficiente. Decide-te.

 

índia acenou com a cabeça e, de pé, ficou a vê-lo afastar-se, durante muito tempo, sozinha na cozinha. Ao olhar pela janela, avistou os filhos a brincar na praia e interrogou-se sobre se seria assim tão terrível para eles como o marido dissera. «Seria, de facto, um choque, um golpe, uma traição?» Havia algo de pouco credível na imagem. Muitas mulheres trabalhavam, viajavam e conseguiam tomar conta dos filhos, e estes não caíam na delinquência ou na toxicodependência.

 

Afinal o que Doug queria era que ela continuasse a cumprir a tarefa para que a contratara, sem lhe oferecer compaixão ou amor. Era ele que a forçava a optar. «Mas optar entre o quê? Devia-lhe, afinal, obediência completa, como uma escrava, sendo pouco mais do que a sua governanta e companheira? Ou devia algo mais a si própria?». Sabia o que Paul teria respondido.

 

Ali de pé na cozinha, repensando no assunto, teve consciência de que não havia solução. Não lhe restava, de facto, alternativa, excepto se estivesse disposta a abdicar dele. E, de momento, continuava a parecer-lhe um preço demasiado alto a pagar por um pouco de independência.

 

Não disse uma palavra quando se dirigiu ao quarto para fazer as malas, não fez qualquer anúncio, nem o informou da decisão tomada, limitou-se a desistir. Os sonhos que acalentava tinham um custo muito alto e tomou consciência disso.

 

Nessa noite, ao jantar, mostrou-se muito calma, o que fora invulgar. Disse aos filhos que arrumassem as coisas no dia seguinte e fez tudo o que lhe cabia para fechar a casa. Nesse ano, não foi despedir-se dos Parker nem de ninguém. Limitou-se a corresponder às expectativas, ao que era a sua «funÇão», segundo as palavras de Doug, e quando chegou a altura de partir, meteu-se no carro com os outros.

 

Na viagem, pararam no McDonald’s. Fez os pedidos para os filhos e Doug, deu de comer ao cão mas nada quis para si. Quando chegaram, descarregou a carrinha e entrou em casa.

Jessica perguntou então ao pai:

 

O que tem a mamã? Está doente ou coisa do género?

 

Todos haviam reparado, mas foi ela a única que se atreveu a falar.

 

Acho que está apenas cansada respondeu Doug calmamente. Dá muito trabalho fechar a casa depois das férias.

 

Jessica acenou com a cabeça, desejosa de acreditar, mas a mãe sempre fizera isso todos os verões e nunca ficara assim. Estava tensa, pálida e infeliz e, por mais do que uma vez, Jessica vira-lhe lágrimas nos olhos, quando índia pensava que ninguém olhava. Além disso, os pais não haviam trocado uma palavra durante toda a viagem de regresso a Westport.

 

Por fim, nessa noite, índia dirigiu-se a Doug. Olhou-o quando se preparavam para se deitar e reteve as lágrimas, ao informá-lo:

 

Não vou tirar o meu nome da lista, mas não aceitarei reportagens, se telefonarem.

 

Qual é a lógica disso? Porque não ages de forma correcta? Se não vais aceitar, porquê deixares que telefonem?

 

Porque não? Seja como for, acabarão por deixar de me contactar. Apenas é bom para o meu ego quando me telefonam, pois significa que ainda me querem.

 

Doug fitou-a demoradamente e depois encolheu os ombros. Não só queria o coração dela, como o fígado e os rins. Não bastava que ela tivesse cedido, queria atingir o alvo em cheio, mesmo sabendo que ganhara. Queria certificar-se de que o assunto não voltaria a ser abordado e saber que era dono dela. E, mais importante, fazia questão de que índia o soubesse.

 

Não lhe agradeceu, não a elogiou, não lhe disse que ela fizera algo de grandioso pela humanidade ou por ele e se sentia grato. Dirigiu-se à casa de banho, fechou a porta e tomou um duche, índia já estava na cama, quando ele apareceu, meia hora depois.

 

Apagou as luzes, meteu-se na cama, aguardou uns momentos e, por fim, virou-se para ela em silêncio e percorreu-lhe, demoradamente, os dedos pelas costas.

 

Ainda acordada? sussurrou.

 

Sim.

 

Uma parte remota do seu ser ansiava por que ele lhe dissesse que a amava, que lamentava ter-se mostrado tão duro, que a protegeria e faria feliz para o resto da vida. Em vez disso, rodeou-a com o braço, tocou-lhe nos seios e índia sentiu que todo o seu corpo se transformava numa pedra. Apeteceu-lhe virar-se e esbofeteá-lo pelo que ele lhe fizera, pelo que não lhe dissera, pela indiferença mostrada ante os seus sentimentos, mas não pronunciou palavra, mantendo-se de costas voltadas, naquele silêncio.

 

Doug tentou acariciá-la por mais algum tempo, mas índia não reagiu, nem se virou para ele, como sempre acontecera. Passado algum tempo, parou.

 

Conservaram-se lado a lado, no escuro, separados por um abismo do tamanho do oceano, um oceano de tristeza, dor e desilusão. Ele derrotara-a, ganhara. Ela perdera uma parte de si própria. Tudo o que lhe restava era um emprego. Podia cozinhar para ele, limpar a casa, transportar os filhos no carro e certificar-se de que estavam bem agasalhados para suportar o Inverno. Podia perguntar-lhe como correra o dia no escritório, quando ele não estivesse demasiado cansado para responder, dar-lhe o que prometera há uns anos, para o melhor ou o pior, e, na opinião de Índia, era o pior. O melhor estava muito, muito longe dela.

 

Gail telefonara várias vezes quando índia regressou de Harwich, mas tinham-se desencontrado. Deixara-lhe mensagens no atendedor de chamadas, mas nunca estava em casa quando a amiga lhe respondeu. Haviam falado duas vezes depois de Gail voltar da Europa e esta ficou com a sensação de que algo se passava, mas índia insistiu que tudo corria bem.

 

Gail disse que a viagem à Europa fora mais divertida do que esperara. Jeff mostrara-se, de facto, mais animado do que o habitual e, por qualquer milagre, apesar das muitas horas passadas no carro, os miúdos não tinham discutido um com o outro. Fora a melhor viagem de toda a vida deles.

 

As duas mulheres só se viram pessoalmente no primeiro dia de aulas e encontraram-se, por fim, no parque de estacionamento, depois de Sam e de os gémeos de Gail terem entrado. Mas assim que a avistou, esta última apercebeu-se imediatamente de que algo de terrível acontecera nesse Verão.

 

Deus do céu! Sentes-te bem? perguntou.

 

índia não tivera tempo de entrançar o cabelo nessa manhã. Andara num frenesim, de carro, a levar Jessica e os outros miúdos, sentia-se cansada e sabia que estava com mau aspecto e despenteada.

 

Não tive tempo de me arranjar respondeu com um sorriso e passando a mão pelo cabelo louro. Estou assim tão mal?

 

Estás respondeu Gail honestamente, examinando-a com um ar preocupado. Mas não tem nada a ver com o teu cabelo. Dá a sensação de que perdeste cinco quilos.

 

E daí?

 

Nada. Só que parece que te morreu alguém. E é verdade, mas não queria falar do assunto. O que te aconteceu? Estiveste doente este Verão? insistiu Gail, verdadeiramente preocupada.

 

Mais ou menos respondeu num tom vago, tentando fugir ao olhar da outra, mas, como habitualmente, sem conseguir. A amiga assemelhava-se a um cão-polícia, quando queria saber qualquer coisa.

 

Estás grávida? No entanto, nada dava a entender que assim fosse, índia parecia infeliz e morta por dentro, tratava-se de algo muito mais grave do que o enjoo matinal. Tens tempo para um café?

 

Acho que sim anuiu índia, sem jeito.

 

Tinha umas coisas para organizar em casa, um monte de roupa para enviar para a lavandaria e uma lista de mulheres a quem precisava de telefonar para confirmar as horas de ir buscar as crianças.

 

Encontramo-nos no Caffe Late dentro de cinco minutos disse Gail.

 

Meteram-se as duas nos carros e Gail já estava a fazer o pedido quando índia apareceu. Conhecia exactamente os gostos da amiga, índia gostava do café com uma gota de leite magro e dois torrões de açúcar. Cinco minutos depois, encontravam-se sentadas numa mesa de canto, com dois bolos cobertos de chocolate a separá-las.

 

Não me disseste nada quando te telefonei de Harwich. O que te aconteceu este Verão, com os diabos?

 

Gail fitou a amiga com uma expressão preocupada. Nunca a vira tão infeliz e desanimada e esperava que não se tratasse de qualquer problema físico grave. Na idade delas, existia sempre a ameaça do cancro da mama. índia bebeu um gole do café e manteve-se um instante em silêncio.

 

Problemas com o Doug? acrescentou num momento de inspiração.

 

Talvez. Na verdade, sou eu. Não sei... A bola comeÇou a rolar em Junho e acabou por se transformar numa avalancha.

 

«Que bola? De que estava ela a falar?», pensou Gail, mas deixou-se ficar em silêncio, toda ouvidos.

Tiveste um caso em Cape Cod? arriscou passados uns ^momentos, embora achasse um absurdo.

No entanto, as pessoas eram uma surpresa constante. Por vezes, as do tipo calmo e fiel, como índia, eram as que caíam de mais alto. Se fosse essa a realidade, aparentemente não correra bem.

 

- Depois de termos falado, antes do fim das aulas - começou índia com dificuldade -, pus-me a pensar em trabalhar de novo. Foi quando recusei a reportagem na Coreia. Não sei talvez fosse isso que causou tudo o resto ignoro exactamente o que foi, mas senti vontade de fazer novamente trabalhos ocasionais, nada de especial, como o que fiz no Harlem

 

Esse foi excelente, índia Devias ter ganho um prémio. Tratou-se de uma importante peça jornalística

 

Bom De qualquer maneira, pensei que podia fazer reportagens por estes sítios em Nova Iorque desde que não fosse por tempo de mais ou muito longe. Achei que seria fácil encontrar alguém que se ocupasse das crianças nesses períodos

 

Fantástico elogiou Gail, satisfeita pela amiga, mas consciente de que havia algo mais naquela história. E depois?

 

O Doug ficou doido. Em resumo, ameaçou deixar-me, se o fizesse. Quase não nos falámos durante todo o Verão e, se queres saber, não fizemos nada declarou num tom triste, e Gail apreendeu de imediato o significado das palavras

 

Na minha opinião, está a portar-se como um idiota comentou Gail, sem rodeios

 

Podes dizê-lo. Não deixou nada por definir. Proibiu-me de aceitar qualquer reportagem. Disse que o atraiçoara, que estava a romper o «acordo» que fiz quando nos casámos, que destruiria a nossa família e ele não pactuaria. Basicamente, as minhas opções são que posso aceitar trabalho e ele me abandona ou manter-me calada, continuar a fazer o mesmo que faço há catorze anos e ficar casada É tão simples quanto isso

 

O que tens a lucrar? O que ganhas se lhe sacrificares o teu talento, só para lhe afagares o ego? Porque, na minha opinião, ele sente-se ameaçado e está a tornar-te a vida num inferno. O que te oferece em troca?

 

Nada E há mais uma coisa retorquiu Índia com os olhos cheios de lágrimas e pousando a chávena. Tivémos uma conversa estúpida em Junho. quando ele me levou a jantar fora Deu-me a entender que sou uma espécie de cavalo de carga que comprou há uns anos. Espera» que eu tome conta dos filhos dele e me limite a estar presente, mas para te falar verdade, Gail concluiu, ao mesmo tempo que as lágrimas brotavam e lhe escorriam pelas faces, nem sequer tenho a certeza de que me ame. A voz de Índia era agora um soluço

 

Talvez ame contrapôs a amiga bondosamente e cheia de pena ante tamanha infelicidade. Talvez o ignore, ou não saiba mostrá-lo. Não é muito diferente do Jeff. Ele considera-me uma parte da mobília, mas, se alguma vez me perdesse, provavelmente morria.

 

Não estou muito certa dos sentimentos do Doug. Dá a entender que me possui, mas não que me ama. De qualquer maneira, estou tão furiosa com ele que nem sequer sei se me importo. É uma sensação horrível. Sinto como se todo o meu mundo se tivesse desmoronado este Verão

 

Gail observava-a enquanto escutava, interrogando-se sobre que mais teria acontecido. Suspeitava de que havia algo mais, embora o que ouvira fosse bastante para perturbar qualquer pessoa. índia sentia-se ignorada, insignificante e não amada pelo marido

 

Disse-lhe que não aceitaria mais trabalhos, nem sequer o tipo de reportagens como a de Harlem prosseguiu. Manterei o meu nome na lista da agência, mas não aceitarei nada que me derem, não posso fazê-lo. Acho que ele me deixava. Discutimos o assunto durante dois meses e estragou-nos o Verão. Se insistir no que quero, isso destruirá as nossas vidas e não é esse o meu desejo

 

Desistes, portanto, do que queres? retorquiu Gail com o sangue a ferver-lhe nas veias, mas a teoria não lhe era desconhecida. E o que disse ele? Obrigado, ao menos?

 

Não. Parecia já esperar essa reacção Contudo, na noite em que o informei, tentou fazer amor comigo pela primeira vez, há perto de dois meses Quase lhe bati. Desde então, não voltou a tocar-me. Só não sei para onde vou, como vai ser? De súbito, todas as coisas que sempre fiz sem questionar deixaram de ter sentido. Sinto que perdi uma Parte de mim própria este Verão e não sei como a recuperar, ou se alguma vez isso acontecerá. Sinto-me como se lhe tivesse dado o coração e as entranhas

 

Ao fitá-la, Gail sentia-se verdadeiramente preocupada. Era óbvio que índia ficara destruída com o que acontecera e ignorava o que dizer para a levar a sentir-se melhor. Segundo pensava, era este o motivo que levava as mulheres a terem relações extraconjugais e a enganarem os maridos, para encontrarem alguém que as fizesse sentirem-se amadas e importantes. Gail sabia, talvez mais do que índia, que Doug arriscara muito com a posição tomada. Podia ter pensado que ganhara, mas não estava assim tão certa. A amiga sentia-se mesmo magoada.

 

Que mais fizeste este Verão, além de chorares e discutires com Doug? Divertiste-te, foste a algum lado com os miúdos, conheceste outras pessoas?

 

Estava a tentar distraí-la. Parecia ser apenas o que podia fazer agora. E, ante a pergunta, o rosto de índia iluminou-se.

 

Conheci Serena Smith respondeu, limpando os olhos e assoando-se ao guardanapo de papel. Estava com um aspecto horrível, o que confirmava o primeiro pensamento ocorrido a Gail: Doug Taylor era um idiota.

 

A escritora? interessou-se logo Gail, que lera toda a obra dela. Como conseguiste?

 

Foi companheira de quarto, na faculdade, de uma amiga minha e o marido veio até Harwich no seu iate. Sam e eu fomos passear com ele e mostrou-se maravilhoso para o miúdo. Conhecemo-lo antes de Serena chegar lá. Tirei-lhe fotografias, a ela, para a capa de um livro e pareceu bastante satisfeita.

 

Ao falar de Serena, índia lembrou-se de que trouxera a foto de Serena e Paul para Westport, mas ainda não tivera tempo de lha enviar.

 

Quem é o marido dela? inquiriu Gail, acabando de beber o café.

 

Paul Ward, um financeiro explicou, com um ar um tanto pensativo e a amiga fitou-a, boquiaberta.

 

O Paul Ward? O feiticeiro de Wall Street?

 

Acho que sim. É muito simpático. Ela teve muita sorte.

 

E também fabuloso. No ano passado foi capa da TIW por qualquer negócio importante que fechou. Deve valer miliões.

 

- Têm um iate maravilhoso, mas ela odeia o barco informou Índia com um sorriso, ao lembrar-se das conversas de ambos sobre a aversão de Serena ao Sea Star e os comentários divertidos de Paul a esse respeito.

 

Espera aí um minuto! exclamou Gail, estreitando os olhos e fitando a amiga com um crescente interesse e um brilho de suspeita. Estás a dizer-me que saíste no barco com ele, antes de ela chegar?

 

Serena estava em Los Angeles ocupada com um filme. Gail não tinha papas na língua e há anos que conhecia índia. Havia algo nos olhos da amiga que lhe chamou a atenção.

 

Estás apaixonada por ele? É isso?

 

Mostrava-se mais astuta do que índia desejaria no que respeitava a analisar-lhe os sentimentos.

 

Deixa-te de parvoíces.

 

Parvoíces, uma ova. O tipo parece-se com o Gary Cooper, Clark Gable, ou coisa assim. A Time chamava-lhe «indecentemente elegante e extremamente sedutor». Lembro-me do aspecto dele. Tu e o Sam foram passear no barco com ele?... E depois?

 

Tornámo-nos amigos. Falámos muito. É muito perspicaz quanto às pessoas. E gosta muito da mulher.

 

Ainda bem para ela. E tu? Atirou-se a ti no barco?

 

Claro que não.

 

A própria pergunta era ofensiva. Sabia que Paul jamais o faria, nem tão-pouco ela o teria permitido. Respeitavam-se mutuamente.

 

Telefonou-te?

 

Não propriamente.

 

Os olhos de índia contavam uma outra história e Gail aPercebeu-se de imediato. A amiga ocultava algo, como se guardasse qualquer segredo sobre Paul.

 

Espera aí. Ou telefonou ou não. O que é isso de «não Propriamente»? Só se for ligar e ouvir o sinal de ocupado. Sim ou não?

Espiolhava, mas queria o melhor para a amiga e índia sabia.E nada teria chocado Gail se se tratasse de uma outra história só que não era o caso., ^-Sim, telefonou-me uma vez, de Gibraltar. Estava no

barco a caminho da Europa.

 

No iate? Deve ser do tamanho do Queen Elizabeth II comentou com um ar impressionado e índia riu-se.

 

É bastante grande e uma maravilha. O Sam adorou-o.

 

E tu? Também o adoraste?

 

Também. E gostei dele. É um homem fantástico e acho que simpatiza comigo. Contudo, é casado, eu também, a minha vida está a desmoronar-se e nada tem a ver com Paul Ward, acredita.

 

Compreendo. Mas podia ter-te animado um pouco. Pediu para te ver?

 

Claro que não. De qualquer maneira, está na Europa.

 

Como sabes? Gail estava fascinada por ele e pelo facto de índia se haver relacionado com gente tão famosa.

 

Disse que ficaria por lá até ao início de Setembro.

 

Com Serena?

 

Acho que ela voltava a casa mais cedo.

 

Pediu-te que fosses ter com ele?

 

Queres deixar-te disso? Garanto-te que não há nada entre nós. Disse que gostaria que o fosse visitar um dia ao barco com os meus filhos. É um amigo e nada mais, esquece o resto. Não vou ter um caso com ninguém, apenas desisti da minha carreira, e de qualquer esperança a esse respeito, pelo meu marido. Se quisesse estragar o casamento, aceitaria uma reportagem. Não preciso de um romance para a lixar ainda mais.

 

Talvez ajudasse retorquiu Gail pensativa, embora, por uma vez na vida, não o pensasse.

 

índia não era o tipo de pessoa que sustentasse tal situação, era demasiado franca para entrar nos jogos de Gail e a amiga sabia. Respeitava-a muito e lamentava vê-la tão em baixo de forma, sem saber como a ajudar. Achava que Doug era um idiota e um insensível filho da mãe, mas, se índia queria salvar o casamento, ninguém podia fazer o que quer que fosse. Tinha de fazer o jogo dele, por muito que lhe custasse.

 

Talvez volte a telefonar-te disse Gail num tom es” perançado, mas índia limitou-se a encolher os ombros, consciente de que isso não constituía uma resposta aos seus problemas.

 

Acho que não ripostou num tom calmo. Não faz o mínimo sentido. Damo-nos muito bem, mas não é possível manter uma amizade destas. As nossas vidas são demasiado complicadas. E gosto mesmo da mulher dele, talvez lhe tire mais fotografias acrescentou, completamente acomodada à situação.

 

O Doug deixa-te?

 

Tratava-se dos limites da sua vida e que agora tinha de aguentar. Semelhantes a muros de prisão, ou condenação perpétua.

 

Talvez. Não lhe perguntei. É algo inofensivo e basta-me ir uma tarde à cidade. Seria capaz de o fazer por amizade e sem receber dinheiro.

 

Que desperdício! lamentou Gail. És uma das melhores repórteres fotográficas do país, talvez do mundo, e deitas tudo a perder! Estava mesmo irritada, sobretudo por ver índia assim tão deprimida.

 

Foi, aparentemente, o «acordo» que estabeleci com Doug quando nos casámos, embora ele não tivesse sido cem por cento claro. Prometi que abdicava de trabalhar, nunca disse que deitaria fogo a todas as minhas pontes.

Então, não o faças. Não tires o teu nome da lista. Talvez ele acabe por recuar, depois de toda esta encenação. Trata-se de uma questão do ego, de poderio e de uma série de outras coisas desagradáveis que os homens fazem para se sentirem importantes. Talvez daqui a um ano tenha outra opinião.

 

Duvido discordou.

 

Agora, era tudo muito claro, restava-lhe apenas pôr um

pé à frente do outro e fazer o que Doug esperava dela. Índia

levantou-se, os afazeres esperavam-na em casa. Ainda nem sequer fizera a cama deles antes de tomar o pequeno-almoço.

 

Nos últimos tempos, sentia-se como se tivesse chumbo nos pés

 

e tudo parecia levar mais tempo do que o habitual. Até mesmo vestir-se, e nem se dava ao trabalho de arranjar o cabelo

ou pôr maquilhagem. Era como se a sua vida tivesse acabado,

tudo lhe parecia desprovido de sentido. Regressaram devagar

aos carros e Gail abraçou-a e fitou-a durante um minuto.

 

Não ponhas Paul Ward totalmente de lado, índia. Às

vezes os homens são amigos fantásticos, mas tenho a sensação de que aqui há mais do que me confessas... ou talvez a ti própria. Há algo no teu olhar, quando falas nisso. Fora a única vez em que o rosto ganhara vida ou expressão durante toda a manhã. Não desistas, seja o que for, precisas disso

 

Eu sei assentiu índia num sussurro. Acho que ele só tem pena de mim

 

Duvido, não és propriamente uma figura patética. És bonita, inteligente, divertida, uma companhia agradável. Sente-se provavelmente atraído por ti, mas talvez seja um dos raros espécimes que é fiel à mulher. Há sempre essa possibilidade, por mais deprimente que seja acrescentou com um sorriso malicioso, e índia riu.

 

Não tens emenda. E tu? Vítimas novas para almoço ou o circuito do motel

 

As duas amigas não tinham segredos ou, pelo menos, tal nunca acontecera até este momento, mas índia não desejara confessar a atracção que sentia por Paul, era melhor guardar segredo. E, de facto, nada existia, tratava-se com toda a viabilidade de fruto da sua imaginação

 

Contudo, o telefonema de Gibraltar fora real. Talvez ele apenas se sentisse entediado ou só, depois da travessia. De qualquer maneira, poderia ter ligado a Serena e não o fizera. índia pensara repetidamente no assunto, interrogando-se sobre aquela atitude, mas, por fim, decidira que não era importante

 

Dan Lewmson tem uma namorada informou-a Gail. Harold e Rosalie vão casar-se em Janeiro, após a conclusão do divórcio, e não há mais ninguém no horizonte

 

Que coisa aborrecida. Talvez deva dar-te o número do Paul troçou e riram as duas

 

Adorava. Não leves as coisas tão a sério, miúda Alegra-te. Quando esta noite o Doug regressar a casa dá-lhe um pontapé nas canelas, que só vos fará bem. Além de que ele merece.

 

índia não discordou, disse-lhe adeus quando entrou no carro e afastou-se rumo às tarefas domésticas que a esperavam. Sentia-se, porém, melhor depois de se encontrar com Gail e descarregar um pouco. Neste momento, pouco podia fazer para mudar a vida, mas falar com alguém já era alguma coisa e tinha-a ajudado

 

Depois das aulas foi buscar os miúdos, como habitualmente, e levou Jason e Aimee às lições de ténis. Sam foi até casa de um amigo e voltou à hora de jantar. Jessica estava excitadíssima por ser caloira. Dois seniores tinham-na olhado e um deles fizera mesmo uma observação. Por sorte, Doug jantou na cidade com clientes, pois índia não se sentia com disposição para o aturar. Já estava a dormir quando o marido chegou a casa, depois de apanhar o último comboio, e se deitou ao seu lado.

 

Na manhã seguinte, Doug já fora tomar duche quando ela se levantou. Vestiu umas calças de ganga e uma sweat-shirt, não se penteou e desceu as escadas para levar o cão à rua e preparar o pequeno-almoço.

 

Colocou o Wall Street Journal e o The New York Times no lugar de Doug e pôs-se a fazer café. Enquanto deitava os flocos nas tigelas dos miúdos, olhou de relance para os jornais e viu Serena na primeira página. Sobressaltou-se ao perceber que se tratava da fotografia que lhe tirara nesse Verão. Ao desdobrar o jornal, surpreendeu-se ao vê-la no Times, com o nome dela num dos lados, e soltou uma exclamação, entornando os flocos.

 

Quando leu o cabeçalho, foi como se o ar lhe faltasse por um momento. Na noite anterior, ocorrera um desastre de avião, no voo de Londres para Nova Iorque, e o FBI suspeitava de que se devia a uma bomba colocada por terroristas, embora ninguém ainda tivesse assumido a responsabilidade. Serena ia a bordo e não havia sobreviventes.

 

Oh, meu Deus! sussurrou, deixando-se cair numa das cadeiras da cozinha, com as mãos a tremer e sem largar o jornal.

 

A notícia dizia que o avião descolara normalmente, dePois de um ligeiro atraso devido a um problema mecânico, e explodira, duas horas antes de chegar a Heathrow. A bordo seguiam trezentos e setenta e seis passageiros, entre os quais um congressista de lowa, um deputado britânico, um famoso jornalista, regressado de uma reportagem especial que fizera há uma semana em Jerusalém, e Serena Smith, uma romancista e produtora cinematográfica internacionalmente conhecida.

Naquele instante, ao olhar para a fotografia que ela própria tirara, índia só conseguia pensar nas coisas que Serena lhe dissera, nesse Verão. Fora exactamente há dois meses e índia sabia, sem sombra de dúvida, que Paul estaria devastado.

 

Ignorava o que fazer, se escrever ou telefonar, ou como tentar entrar em contacto. Imaginava como ele estaria e sentia-se pessimamente. Serena podia ter tido um feitio difícil e não gostar do seu barco, mas era uma mulher fantástica e apercebera-se, como toda a gente, de que ele a amava loucamente. O artigo dizia que ela tinha cinquenta anos e deixara vivos o marido, Paul Ward, e uma irmã, em Atlanta. Ainda estava a ler o artigo quando Sam desceu para tomar o pequeno-almoço.

 

Bom dia, mamã. O que se passa?

 

Havia flocos espalhados por toda a mesa e dava a sensação de que índia tinha visto um fantasma. Estava tão branca como a tigela vazia, na sua frente.

 

Eu... foi... estava a ler uma coisa e, em seguida, resolveu contar-lhe. Lembras-te de Paul, do Sea Star? Sabia que o filho se recordava, mas tinha de o situar. A mulher dele morreu num desastre de avião.

 

Uau! exclamou Sam, parecendo impressionado. Aposto que o Paul deve estar triste. Mas ela não gostava do barco.

 

Este facto também tinha muita importância para Sam e era óbvio que a minorava aos seus olhos, embora lamentasse o sucedido por causa de Paul.

 

Enquanto falavam, os outros desceram, e Doug apareceu com eles.

 

A que se deve toda esta excitação? inquiriu. Reinava uma atmosfera de histeria na cozinha, resultante sobretudo do aspecto de índia. Só de olhar para ela, tornava-se óbvio que algo de terrível acontecera.

 

A mulher do meu amigo Paul morreu na explosão de uma bomba informou Sam num tom dramático e os outros mostraram-se interessados.

 

Que coisa estranha! exclamou Doug, servindo-se de uma chávena de café. Paul quê?

 

Paul Ward explicou índia. É o dono do iate que visitámos este Verão. Era casado com Serena Smith, a escritora. Falara-lhe do caso e ele, recordando-se de imediato, ergueu o sobrolho.

 

Como é que ela foi atingida por uma bomba? inquiriu, um tanto surpreendido.

 

Seguia a bordo de um avião que se despenhou na noite passada, ao largo da costa britânica.

 

Doug limitou-se a abanar a cabeça com um ar de desaprovação e pegou no Wall Street Journal. Não fazia ideia de como a mulher ficara perturbada e foi-se embora dez minutos mais tarde, sem pronunciar palavra, depois de comer um scone. Não disse nada a índia e os miúdos ainda continuavam a falar do desastre quando foram recolhidos pelas respectivas boleias, índia sentiu-se agradecida por, naquela manhã, não ter de os levar.

 

Deixou-se ficar na cozinha, sem largar o jornal, recordando-se de Paul. Só conseguia pensar nele e em como devia sentir-se desgostoso. Contudo, não se atrevia a ligar-lhe. O telefone tocou, enquanto estava ali sentada. Era Gail.

 

Leste o jornal? perguntou-lhe com a respiração ofegante.

 

Acabei de ler. Ainda não acredito respondeu índia num tom vago e ausente.

 

Nunca se sabe o que vai acontecer, certo? Pelo menos, acho que ninguém sofreu. Disseram que o avião explodiu num feixe brilhante em menos de um segundo, pois foi observado por um outro aparelho que os sobrevoava.

 

Nem consigo imaginar como ele se sente. Estava tão apaixonado!

 

Gail teve vontade de responder que, mesmo assim, telefonara a Índia do barco, mas não o fez. «E quando recuperasse do choque seria um homem livre e capaz de lhe criar um interessante dilema», reflectiu. -Vais telefonar-lhe?

Acho que não devo intrometer-me respondeu India e, em seguida, lembrou-se da fotografia que tirara a Paul e a Serena. Podia mandar-lha agora. Estava óptima e talvez ele desejasse tê-la em seu poder.

 

Podias ir ao funeral. Tenho a certeza de que vão realizar uma cerimónia fúnebre dentro de dias. Talvez gostasse de te ver sugeriu Gail com o espírito prático e prestável de sempre.

 

Talvez.

 

Falaram do assunto durante mais uns minutos e desligaram. índia foi procurar a fotografia e descobriu-a no meio de uma pilha de papéis, que tencionara levar para a câmara escura. Nunca chegara a mandá-la a Serena, como tinha prometido. Deteve-se a olhá-la durante muito tempo, observando primeiro os olhos de Paul e depois os de Serena. A forma como estavam juntos, falava por si. Paul imclinava-se sobre as costas da cadeira e ela encostava a cabeça à dele, no Sea Star, com uma expressão luminosa. Tornava-se difícil acreditar que desaparecera tão repentinamente

 

Ainda devia ser mais difícil para Paul absorver tudo isto Ao pensar no assunto, índia tomou consciência de que ele ainda estava provavelmente na Europa, a bordo do Sea Star, ou num avião, de regresso a casa, depois de avisado. Não fazia ideia de como se reagia num caso destes. Contudo, quanto mais pensava, mais óbvio se tornava que não devia telefonar-lhe.

 

Em vez disso, continuou sentada à mesa da cozinha, no meio dos pratos do pequeno-almoço, e escreveu-lhe uma carta, dizendo quanto lamentava e até que ponto ele deveria ter ficado devastado. Era um bilhete curto mas ditado pelo coração. Meteu-o num envelope, juntamente com a fotografia, e dirigiu-se de carro aos correios para o enviar.

 

Durante toda a tarde sentiu-se como se estivesse debaixo de água. Não conseguia ultrapassar o que acontecera e ainda não recuperara quando foi buscar os filhos à escola.

 

Nessa noite, conseguiu pôr o jantar em cima da mesa. mas quando Doug regressou, ainda não se penteara desde manhã

 

O que te aconteceu hoje? Dá a sensação de que foste raptada.

 

Apenas me sinto perturbada respondeu com honestidade, necessitando de partilhar os acontecimentos com ele. Lamento tanto a morte de Serena Smith!

 

- Não a conhecias assim tão bem. Só a encontraste uma ou duas vezes, não? parecia desinteressado e surpreendido pela reacção dela.

 

Tirei-lhe uma fotografia para a contracapa do seu próximo livro. Foi a que publicaram no The Times, esta manhã.

 

Não me tinhas dito retorquiu, premindo os lábios.

 

Devo ter-me esquecido. O marido era louco por ela, deve estar destruído explicou Índia com um ar desgostoso.

 

Essas coisas acontecem! comentou Doug, indiferente, e começando a conversar com Jason, sem atender ao desgosto de índia.

 

Não restava simpatia ou o que quer que fosse entre eles, nada havia excepto o ressentimento do Verão, pairando como o cheiro acre do fumo após um incêndio, índia tinha a sensação de que tudo o que outrora lhes pertencera ficara, entretanto, reduzido a cinzas.

 

Nessa noite, depois de meter as crianças na cama, ligou o televisor para ver o telejornal e assistir às notícias sobre o acidente. Havia uma peça mais importante sobre a queda do avião e uma outra, mais curta, sobre Serena. Seguiram-se entrevistas com algumas pessoas, acerca do acidente, e com um porta-voz do FBI. Quando o locutor voltou a referir que Serena viajava no avião, informou que estavam a ser tomadas disposições para um serviço fúnebre numa igreja de Nova Iorque, na sexta-feira. índia continuou sentada muito tempo diante do televisor, enquanto se falava de desportos e do tempo. Contudo, pensava na sugestão de Gail de que deveria assistir à cerimónia.

 

Vens deitar-te? perguntou Doug em voz baixa.

 

índia ainda não se penteara, nem tomara duche. Agora, Parecia-lhe totalmente irrelevante face ao acidente. Absorveu-se, por completo, no que acontecera a Serena.

Daqui a pouco respondeu, distraída.

 

Dirigiu-se à casa de banho, fechou a porta e sentou-se em cima do tampo da sanita. Pensava em Paul, na mulher e na vida deles, que explodira num milhão de estilhaços sobre Quântico. Apercebeu-se de que, bem lá no fundo, reflectia no marido e no facto de já não lhe apetecer dormir com ele.

 

Odiava mesmo deitar-se na mesma cama e a situação não podia prolongar-se indefinidamente. Não fazia ideia do rumo que tomaria a sua vida, era mais fácil estar ali sentada, desgostosa pelo que acontecera a Paul e Serena, em vez de pensar nela, em Doug e no casamento destruído de ambos.

 

Demorou imenso tempo no duche e lavou o cabelo, esperançada de que ele já estivesse a dormir quando saísse. No entanto, Doug continuava bem acordado e a ler uma revista. Virou-se para a fitar com uma expressão fria.

 

Vamos continuar a fazer este jogo muito mais tempo, índia?

 

Não houve nada na maneira como se lhe dirigiu que o tornasse atraente ou convidativo, índia passara a encará-lo como o guarda de uma prisão, o que pouco contribuía para uma vida sexual satisfatória.

 

Que jogo?

 

Sabes perfeitamente ao que me refiro. Se ficasses mais tempo no duche do que tem acontecido nos últimos dias, acabarias por te derreter e ir pelo cano. Recebi a mensagem.

 

Foste tu a transmitir-ma durante todo o Verão e sentiu-se repentinamente furiosa, encurralada, cansada e deprimida. O que lhes acontecera nos últimos três meses? A sua relação transformara-se num pesadelo. Não me restaram dúvidas de que perdeste o interesse por mim, mas só até te dizer que não aceitaria mais reportagens. Então, decidiste que podias voltar a tocar-me. Não é muito enternecedor. Conseguiste o que querias e, agora, pensas que és meu dono. Bom, é verdade. Mas talvez precises de te mostrares um pouco mais subtil.

 

índia nunca lhe falara nestes termos e ambos pareceram chocados. Doug encolheu-se como se ela o tivesse esbofeteado.

 

Ajuda muito saber a tua visão das coisas.

 

Deixaste tudo bem claro. Decidiste fazer sexo mal obtiveste o que querias. Nem sequer te deste ao trabalho de me agradeceres, nem reconheceste a concessão que fiz, ou disseste que me amavas, no fundo, ela só queria saber se ele lhe dava atenção, se ainda gostava dela.

 

Insistes na mesma tecla! retorquiu Doug, com uma expressão muito irritada. Não crias propriamente uma atmosfera, no nosso quarto, que inspire esse tipo de declarações.

 

Lamento! exclamou, de olhos chispantes.

 

Estava cansada de tudo, especialmente da atitude do marido relativamente ao sexo. Agora que ele voltara a acender a luz verde, depois de a ignorar durante dois meses, criticava a sua falta de disponibilidade. Contudo, nada fazia para reparar a mágoa que lhe causara o Verão inteiro.

 

Talvez também devesses ter posto isso no nosso «acordo», sexo sempre que me apetecer e independentemente de te apetecer a ti concluiu ela.

 

Óptimo, índia, percebo. Esquece.

 

Apagou a luz e deixou-a, sentada no escuro, a espumar de raiva. Estendeu-se ao lado dela, virou-lhe as costas e, passados poucos minutos, ressonava. A discussão aparentemente não o perturbara, índia manteve-se deitada, horas a fio, odiando-o e desejando que assim não fosse. Sabia que o magoara, mas, depois de tudo o que Doug lhe dissera e fizera, bem o merecia.

 

Por fim, fechou os olhos e tentou pensar em Paul, enviando-lhe ondas positivas de compreensão e amizade. Quando adormeceu, sonhou com Serena. Esta tentava dizer-lhe algo, mas, mau grado todos os esforços, não conseguia ouvi-la. Algures, à distância, avistou Paul a chorar e sozinho. No entanto e por mais que tentasse no sonho, foi incapaz de chegar junto dele.

 

Nos dias seguintes os jornais não cessaram de publicar notícias sobre o acidente e índia leu tudo a que deitou mão. Passou horas sentada na cozinha a devorar os relatos. As investigações não tinham avançado muito. Várias acusações pendiam sobre grupos árabes, mas nenhum deles assumira a responsabilidade do atentado, embora tal facto pouca diferença fizesse relativamente às famílias das vítimas. índia nada lera nos jornais sobre Paul. Ele mantinha-se longe dos olhares indiscretos, embrenhado, sem dúvida, naquele imenso desgosto. E o coração de índia entristecia-se por ele.

 

Por fim, na quinta-feira, os jornais anunciaram que o serviço fúnebre de Serena se realizaria no dia seguinte, na Igreja de Santo Inácio. Manteve-se muito tempo com o jornal na mão e ainda reflectia no assunto quando ela e Doug subiram ao quarto para se deitarem. A atmosfera entre ambos permanecera tensa durante toda a semana. Não houvera forma de apagar as coisas que tinham dito um ao outro três dias antes, nem forma de o esquecerem. As palavras, bem como os actos, haviam causado um dano considerável. Contudo, índia achava que, pelo menos, devia falar-lhe. Era o que lhes restava.

 

Estou a pensar ir ao funeral de Serena Smith, amanhã, à cidade declarou, com um fato preto na mão Doug comprara-lho no Natal e parecia o indicado para usar na ocasião.

 

Não achas um tanto disparatado. Mal a conhecias. Porquê tanta emoção por causa de uma estranha, que apenas viste uma vez, no Verão passado?

 

Doug não entendia, mas também desconhecia os laços que a ligavam a Paul e Serena, fazia parte deles. Mas não podia explicar-lhe nada disto

 

Pareceu-me uma atitude de respeito, já que lhe tirei a fotografia.

 

Era a justificação mais lógica e Paul fora simpático Para Sam, sentia que lhe devia algo. Não tivera notícias desdeque lhe enviara a fotografia, mas também não as esperava. O que quer que estivesse a acontecer devia ocupar-lhe o tempo todo. Apenas desejava que a tivesse recebido, juntamente com a carta.

 

Só porque era famosa, não significa que a conhecesses.

 

Não, mas gostava dela.

 

Também gosto de uma série de pessoas sobre as quais leio, mas não iria ao funeral delas. Acho que devias repensar.

 

Verei amanhã como me sinto em relação a isto. Quando acordaram no dia seguinte, chovia. Estava um tempo cinzento, triste, de aguaceiros, e um vento agreste tornava os guarda-chuvas inúteis. Era o dia perfeito para um funeral e iria torná-lo ainda mais deprimente.

 

Doug não lhe dirigiu uma só palavra quando saiu para o trabalho e índia ocupou-se das crianças e de algumas tarefas matinais, mas à tarde ficou livre, o que simplificou a decisão. A cerimónia estava marcada para as quinze horas e, ao meio-dia, tomou um duche e vestiu-se. Apanhou o longo cabelo numa banana e colocou um pouco de maquilhagem. Pôs meias pretas e sapatos de salto alto e o fato assentava-lhe bem.

 

Ao olhar-se no espelho, antes de sair, percebeu vagamente porque é que as pessoas lhe diziam muitas vezes que era parecida com Grace Kelly, mas não era nela que pensava quando conduziu o carro até à estação. Pensava em Paul e em como ele devia sentir-se, o que lhe provocava um aperto no coração.

 

Deixou o carro no parque de estacionamento, apanhou o comboio das treze e quinze para Nova Iorque e chegou à cidade uma hora depois. Se possível, a chuva ainda caía com

mais força, e era difícil apanhar táxi, pelo que só se apeou no cruzamento da Rua Oitenta e Cinco com a Park Avenue

Cinco minutos antes da cerimónia e a igreja estava a deitar por fora. Viam-se homens de fato escuro e mulheres com

roupas luxuosas. Soube mais tarde que toda a comunidade literária comparecera, mas não os reconheceu, e também viera gente de Hollywood e muitos dos amigos de Paul. Quando o serviço se iniciou, com uma sonata de Bach, todas as filas estavam completas e havia pessoas de pé, nas naves laterais.

 

Tudo correu de uma forma muito digna, bonita e extremamente comovente. Depois de o agente de Serena, do editor e de um amigo de Hollywood falarem, Paul Ward dirigiu-se ao púlpito e pronunciou uma elegia à falecida esposa que provocou lágrimas em todos os presentes. Louvou todos os seus inúmeros e enormes sucessos, mas depois falou de Serena Smith, a mulher, fazendo-os rir e chorar, e pensar no que fora a vida dela. Quando se despediu, não havia um único rosto sem lágrimas na igreja. Conseguira conter-se até aí, mas soluçava quando regressou ao seu lugar, na fila da frente, e índia, ao constatar, como os ombros lhe estremeciam, desejou estender a mão e confortá-lo.

 

Paul foi o primeiro a abandonar a igreja depois da cerimónia e ninguém o deteve, quando desapareceu no interior de uma limusina, ainda a chorar. Um momento depois, índia viu que um homem mais novo, que supôs tratar-se do filho, se lhe juntou. Parecia-se muito com ele. Não se fizera uma fila para a prestação dos pêsames e todos estavam tão perturbados que a maioria debandou e desapareceu sob a chuva, enquanto índia ficava a ver a limusina, que levava Paul, afastar-se.

 

Não despregara os olhos dele durante toda a cerimónia e tinha a certeza de que não a vira. No entanto, apenas fora ali por uma questão de respeito para com os dois e para dar apoio a Paul. Talvez Doug tivesse razão, seria o mesmo se tivesse ficado a pensar nele, em casa, na sua sala de estar de Westport, mas quisera vir aqui e sentia-se contente com a decisão.

 

Apanhou um táxi e telefonou a Doug da estação. Disse-lhe que viera à cidade assistir à cerimónia e perguntou-lhe se queria que esperasse para regressar de comboio comsigo. Caso contrário, apanharia o das quatro e meia e chegaria â casa a tempo de fazer o jantar.

 

Estou atrasado, não esperes por mim respondeu asperamente. Tenho de tomar uma bebida com umas pessoas às seis. Não chegarei antes das nove. Não te preocupes em guardar-me comida. Janto a caminho de casa, ou como uma sanduíche.

 

Parecia distante e frio e índia suspeitou de que ficara aborrecido por ela ter ido assistir à cerimónia em memória de Serena. Interrogou-se sobre se estaria assim por nunca ter chegado a conhecê-la, mas, fossem quais fossem os motivos, mostrava-se tudo menos caloroso.

 

Viste gente famosa? interrogou Doug um tanto a despropósito e ela suspirou, ele não entendia, de facto, os seus sentimentos.

 

Não ia à espera de ver gente conhecida à excepção talvez dos Parker, mas não os detectara no meio da multidão, embora pudessem ter estado presentes.

 

Julguei que tivesses ido para ver todas as vedetas que a conheciam; era um comentário grosseiro e teve de se controlar para não lhe responder na mesma moeda.

 

Fui prestar homenagem a uma mulher que admirava, é tudo. É melhor ir andando ou perco o comboio. Vemo-nos em casa.

 

Até logo despediu-se e desligou. Ultimamente, Doug parecia tão insensível, tão incapaz de qualquer sintonia com ela, que se interrogou sobre se teria sido sempre assim e ela não reparara, ou se piorara depois das batalhas que haviam travado no Verão. Fosse como fosse, fazia com que se sentisse muito sozinha, mas não decerto tanto como Paul. Mantinha presente a imagem de quando ele descera do pódio, a soluçar, parecera-lhe completamente destruído e todo o seu coração se abrira para ele.

 

No regresso, só conseguia pensar em Paul e nas conversas que haviam tido no Sea Star. Ao chegar a casa, a chuva parara, as crianças estavam lá todas e pareceram felizes ao vê-la.

 

Onde estiveste, mamã? perguntou Sam, quando ela entrou e despiu a gabardina.

 

No funeral de Serena Smith respondeu com simplicidade. Foi muito triste.

 

Viste o Paul? quis saber, interessado.

 

Só à distância.

 

, Estava a chorar? Sam tinha o ávido fascínio de todos os rapazes da sua idade pela tragédia, morte e drama.

 

Sim, estava anuiu Índia. Tinha um aspecto horrível.

 

Talvez lhe escreva uma carta declarou o garoto, compassivo, e a mãe sorriu-lhe, enquanto os outros escutavam, mas sem se pronunciar. Nunca tinham conhecido Serena, e Paul era o amigo de Sam.

 

Aposto que ele ia gostar.

 

Vou fazê-lo depois de jantar prometeu o garoto, voltando a fixar-se na televisão.

 

Meia hora mais tarde, índia tinha o jantar na mesa, outra vez hambúrgueres com batatas fritas congeladas. Contudo, ninguém se queixou e tinham muito que conversar durante a refeição, o que compensou o lúgubre silêncio de índia. Não conseguia tirar da cabeça Paul, nem as recordações de Serena.

 

Ainda não despira o fato preto quando Doug chegou, às nove e meia.

 

Estás bonita elogiou, surpreendido.

 

Nos últimos tempos ela descurara bastante a aparência. Andara tão deprimida, que nem sequer ligava. Contudo, o fato que ele lhe dera era muito elegante e ressaltava-lhe a figura.

 

Que tal foi? inquiriu, referindo-se à cerimónia.

 

Triste.

 

É natural. Sobrou alguma comida? Nem sequer tive tempo de comer uma sanduíche. Estou a morrer de fome.

 

Há horas que índia deitara fora os restos dos hambúrgueres frios e não havia muita coisa no frigorífico, à excepção de umas fatias frias de peru e piza congelada. Iria abastecer-se de manhã. Doug ficou satisfeito com ovos e um scone e, pela primeira vez desde há meses, perguntou o que fariam nesse fim-de-semana.

 

Nada. Porquê? perguntou, surpreendida.

 

Pensei que talvez pudéssemos jantar fora ou algo do género.

 

As coisas tinham ido de mal a pior entre os dois e Doug começava a preocupar-se, nem mesmo ele conseguia ignorar a situação, tomara verdadeira consciência quando ela deixara de querer fazer sexo. Enquanto a decisão lhe pertencera, nada o incomodava, mas a falta de interesse dela já lhe dava que pensar. Por isso, achou que jantar fora podia ajudá-los, mas índia ficou com a sensação de que na boca dele a proposta soava a um dever custoso.

 

É escusado, se não te apetece limitou-se a dizer.

 

Não teria sugerido, se não me apetecesse. Queres voltar ao Ma Petite Amie?

 

Era o primeiro sinal de tréguas que ele propunha, mas índia não se sentia preparada e continuava com lembranças terríveis da última vez que lá tinham estado.

 

Não propriamente. Porque não vamos comer uma piza ou algo do género?

 

Que tal uma piza e depois ir ao cinema amanhã à noite?

 

Pelo menos, valia a pena tentar. Se ia passar o resto da vida ao lado dele, teria de fazer as pazes algum dia. Estava muito longe do amor por que ansiava, mas era tudo o que tinham. Sentiu-se como se fosse reconciliar-se com outros passageiros do Titanic. Por melhor que fosse o serviço, acabariam no fundo do oceano. Há algum tempo que começara a ter esta sensação.

 

Parece-me bem.

 

índia nada mais tinha a perder senão tempo, ele já lhe destruíra o coração e a autoconfiança. Acompanhá-lo ao cinema não poderia prejudicá-la assim tanto. Porque não, afinal?

 

Despiu-se depois de meter os filhos na cama e acabou por se ir deitar também, mas nessa noite Doug não fez avanÇos, a última experiência servira-lhe de lição. Teriam de começar aos poucos, com piza e cinema, depois, veriam o que acontecia. Ele imaginava que, a seu tempo e com um pouco de atenção, tudo se comporia.

 

Adormeceram sem dizerem boa noite, como se tornara «ritual, índia já quase não estranhava. Manteve-se deitada muito tempo, imersa nos seus pensamentos, ouvindo-o ressonar. Quanto mais não fosse, em vez de qualquer ternura entre ambos, era um som familiar para índia, tal como a solidão se tornara agora uma situação normal.

 

No dia seguinte ao do funeral, Doug levou Sam ao jogo de futebol e índia ficou a ajudar Jessica a arrumar o seu quarto. A filha guardara montes de velharias e índia ia carregada com um braçado de roupa usada quando o telefone tocou.

 

Supôs que seria para um dos miúdos, como era habitual, e nem se deu ao trabalho de atender. Deixou cair a roupa no chão da garagem e regressou à cozinha, onde o telefone continuava a tocar. Por fim, atendeu, exasperada:

 

Sim?

 

Está?

 

A voz masculina era desconhecida e parecia de um adulto, embora, ultimamente, os rapazes que ligavam a Jessica parecessem mais homens do que crianças.

 

Desculpe. Quem fala?

 

Paul Ward. Estou a ligar para Mistress Taylor.

 

O coração de índia deu-lhe um salto no peito ao ouvir as palavras e sentou-se na mesa da cozinha.

 

Paul... sou eu... como está?

 

Só conseguia pensar no rosto dele banhado em lágrimas, ao descer do púlpito, na igreja.

 

Entorpecido, acho. Alguém me disse que esteve lá ontem. Lamento não a ter visto.

 

A tripulação do Sea Star apanhara o avião para vir assistir ao funeral, por respeito a Paul, e uma das hospedeiras informara-o de que a vira.

 

Não esperava que me visse. Foi uma bonita cerimónia. Paul... Lamento tanto... Não sei o que dizer. Era mesmo verdade e ficara surpreendida ao ouvi-lo.

 

Recebi a sua carta... foi maravilhoso. E a fotografia -^ apercebeu-se de que ele chorava. Adoro-a. Como está. interessou-se, tentando recuperar o tom normal.

 

Desejava agradecer-lhe por ter ido e por lhe escrever, mas agora que lhe falava deixara-se levar pela emoção. Sabia quanto ela era boa e terna e aquele contacto fazia-o sentir ainda mais vulnerável e abalado.

 

- Estou bem - respondeu num tom pouco convicto.

 

- O que significa isso? Vai voltar ao trabalho?

 

- Não. Rebentou a Terceira Guerra Mundial durante o resto do Verão - confessou com um suspiro. - Não posso fazê-lo, ele foi muito claro. Não é uma questão negociável. Talvez não seja importante.

 

- Sabe que é - redarguiu, suavemente. - Trata-se do que necessita. Não abdique dos seus sonhos, índia... vai perder-se a si própria, se o fizer. Sabe-o bem.

 

Era algo que Serena jamais teria feito. Sempre fora verdadeira para si própria, independentemente do que lhe custasse e ambos o sabiam. Contudo, ela afinal não era casada com Doug Taylor, firmara um «acordo» com ele. Paul jamais lhe faria um ultimato assim.

 

- Há muito que desisti desses sonhos - vincou índia quase num sussurro, sentada à mesa da cozinha - e, aparentemente, não tenho o direito de os recuperar. Esta noite vamos jantar fora pela primeira vez há meses. A nossa vida foi um pesadelo durante todo o Verão.

 

- Lamento sabê-lo - retorquiu Paul tristemente. Sentia pena dela. índia estava a desperdiçar o seu talento e tinha essa consciência, tal como ela. - Como vai o meu amigo Sam?

 

- Óptimo. Esta manhã foi jogar futebol. Disse que ia escrever-lhe.

 

- Gostaria muito - expressou, mas em nada se assemelhava ao antigo Paul, o homem que ela conhecera no Sea Star. Parecia cansado, triste e desiludido. Acabara de perder o seu sonho e não fazia ideia de como viveria sem ele.

 

- Quanto a si? O que vai fazer agora? - interessou-se índia.

 

- Vou regressar ao barco e andar um pouco por aí. Resolvi afastar-me uns tempos do trabalho. De qualquer maneira, neste momento não seria útil a ninguém. Ainda não tracei um destino. O barco está em Itália e pensei levá-lo até à Jugoslávia e à Turquia. Não me interessa para onde vamos, desde que seja longe e só aviste água - era do que agora precisava para cicatrizar a ferida.

 

- Posso ser útil em alguma coisa? - perguntou, desejosa de que lhe ocorresse uma ideia, mas tudo o que tinha para oferecer-lhe era uma fotografia.

 

Telefone-me um dia destes pediu Paul. Gostava de ter notícias suas. Depois, a voz falhou-lhe e ela percebeu que soluçava. Sinto-me tão só sem ela! Morreu há cinco dias e quase não consigo aguentar. Às vezes, punha-me doido, mas era tão fantástica. Não há ninguém como ela chorava sem vergonha e índia desejou poder estender a mão e tocar-lhe.

 

Não, não há ninguém como Serena concordou. Mas ela não gostaria de o ver destroçado, ficaria furiosa. Tem de chorar, gritar, bater com os pés no chão, velejar no Sea Star e depois regressar e mostrar-se forte. Sabe bem que era o que ela desejaria.

 

É verdade anuiu Paul, com um sorriso por entre as lágrimas, ao pensar no assunto. Mostrar-se-ia bastante irritada. Riram ambos. Prometo-lhe uma coisa acrescentou, deixando de chorar, pois há cinco dias que o fazia e tinha a sensação de que seria assim a vida inteira. Prometo-lhe recompor-me, se me garantir que não desistirá completamente dos seus sonhos. Não pode fazê-lo, índia.

 

É impossível mantê-los em simultâneo com o casamento, é tão simples quanto isso. Não há hipótese, é assim ou nada. Talvez um dia ele ceda, mas não de momento.

 

Veja o que acontece e mantenha as suas opções em aberto durante algum tempo. Retirou o nome da lista do seu agente? perguntou, preocupado.

 

Não.

 

Óptimo. O seu marido não tem o direito de exercer chantagem, forçando-a a abdicar do seu talento.

 

Ele pode fazer o que quiser, Paul. É o meu dono, ou pelo menos acha que sim.

 

Não é, e você sabe-o bem. Não lho permita. É a única pessoa que pode permitir-lhe essa atitude.

 

Dei-lhe tudo há dezassete anos. Ele insiste em que fizemos um «acordo» e espera que o cumpra.

 

Não vou dizer-lhe o que penso das teorias dele - redarguiu Paul, voltando a parecer mais forte, o homem que ela conhecera e por quem se sentira atraída nesse Verão. Nem da atitude acrescentou.

 

Paul nem sequer conhecia Doug, mas achava que ele tratava índia muito mal. Além disso, era óbvio que ela não se sentia feliz com ele. Se assim fosse, talvez não tivesse ousado telefonar-lhe, contudo, de uma forma curiosa, como amigos, precisavam um do outro.

 

Pensei muito em si esta semana, índia. Sobre as coisas de que falámos no Verão. É estranho como pode achar-se que se tem tudo resolvido para sempre. Vivemos tão confiantes e seguros de que sabemos tudo, temos tudo, e de súbito esse tudo fica reduzido a nada num segundo. É o que sinto. Todas aquelas vidas destroçadas no avião, crianças, bebés, jovens, pessoas que mereciam viver... tal como Serena. Não me sai da cabeça que gostava de ter morrido com ela.

 

Pelo espaço de um minuto, índia não soube o que lhe responder. Por um lado, não o censurava, mas, de facto, não morrera e tinha de seguir em frente.

 

Não era assim que estava escrito. Continua aqui e ela não gostaria que desperdiçasse a vida.

 

Os terroristas fizeram explodir a minha vida e a de todos os outros.

 

Eu sei pareceu-lhe errado observar que a seu tempo ele se sentiria melhor, mas tal aconteceria, a vida era mesmo assim. Nunca esqueceria Serena, nem deixaria de a amar, mas acabaria por aprender a viver sem ela. Não tinha alternativa. Vai fazer-lhe bem viajar no Sea Star acrescentou suavemente.

 

Aimee atravessou a cozinha, voltou a sair e ela interrogou-se sobre quando Doug e Sam voltariam. No entanto, continuava sozinha.

 

Promete que me telefona? insistiu Paul, parecendo desesperadamente só, e ela assentiu com a cabeça.

 

Telefono, tenho o número.

 

Também lhe ligarei. Há alturas em que preciso de alguém com quem falar.

 

índia desejava dar-lhe a mão e sentia-se comovida por ele

ter recorrido aos seus préstimos.

 

” Ajudou-me muito este Verão confessou, sentindo o seu próprio desespero e acrescentando, como se lhe devesse

uma desculpa ou explicação: Lamento desapontá-lo.

 

Não me desaponta, Índia. Só não quero que ceda e venha a lamentá-lo mais tarde, mas não será esse o caso, verá. Mais cedo ou mais tarde, arranjará coragem para fazer o que tem de ser feito.

 

«O quê?», interrogou-se ela. «Desafiar o marido?» Se assim decidisse, sabia que o perderia e não desejava isso.

 

Ainda não cheguei aí declarou honestamente. E talvez nunca chegue.

 

Chegará um dia. Limite-se a guardar esses seus sonhos num lugar seguro e lembre-se donde os deixou.

 

Era um comentário terno e sentiu-se tocada por toda a conversa.

 

Fico contente que tenha telefonado, Paul pronunciou num tom suave.

 

Também eu, por falar consigo disse ele, parecendo sincero.

 

Quando tenciona partir? queria saber onde ele estaria agora, para poder contactá-lo.

 

Esta noite. Vou apanhar o avião para Paris e depois sigo noutro para Nice. É onde o barco me vai buscar.

 

A tripulação já seguira por via aérea nessa manhã e a distância de Portofino a Nice era curta. Paul sabia que o esperavam. Suspirou e passeou o olhar pela divisão onde se encontrava. Estava cheia de fotografias de Serena e dos tesouros que ela coleccionara durante os anos em que tinham sido casados. Era-lhe insuportável continuar ali.

 

Acho que vou vender o apartamento. Não consigo estar aqui. Aproveito ir de viagem e mando armazenar tudo.

 

Não se precipite aconselhou-o. Espere um tempo, Paul. Ainda não sabe bem o que quer fazer.

 

Não, não sei, mas apenas que quero fugir e atrasar o relógio.

 

Pode fazê-lo no Sea Star disse meigamente, no ins” tante em que Doug entrou e se colocou atrás dela. Tenha cuidado consigo e tente ser forte incitou-o, quando Doug voltou a sair à procura de qualquer coisa. Quando não conseguir, telefone-me. Estarei aqui acrescentou baixinho.

 

Eu sei. Também eu estarei sempre aqui, se precisar de mim, índia. Não se esqueça. Não deixe que ninguém a veja como propriedade sua. Não é assim. Ambos sabiam que ele se referia a Doug. É você a dona de si própria. Entendido?

 

Perfeitamente.

 

Tenha cuidado... voltou a detectar-lhe lágrimas na voz, ele estava numa montanha-russa de emoções e ela sentia muita pena.

 

Cuide de si, Paul. Não está sozinho, tente lembrar-se disso. À sua maneira, ela continua consigo.

 

É, provavelmente, a única maneira possível de a ter ao meu lado no Sea Star riu por entre as lágrimas. Mas é muito duro, quanto mais não fosse, gostava de lhe ouvir o riso. Até breve, índia.

 

Obrigada pelo telefonema agradeceu e ambos desligaram.

 

Suspirou e levantou-se, dando de caras com Doug, que se mantinha na ombreira da porta, de cenho franzido.

 

Quem era? perguntou, parecendo irritado.

 

Paul Ward. Telefonou a agradecer a fotografia de Serena que lhe mandei.

 

Dá a sensação de que o viúvo enlutado recupera muito depressa. Há quanto tempo morreu ela? Uma semana?

 

Que desagradável! exclamou, horrorizada pelo que o marido sugeria. Estava a chorar ao telefone.

 

Não duvido. É o truque mais velho que se conhece. Basta-lhe chorar um pouco, fazer com que tenhas pena dele e bingo! E tu cais, índia. Parecia que estavas a falar com um namorado.

 

Que atitude mesquinha, Doug. Paul é uma pessoa decente e sente-se destroçado com a perda dela. Apenas está terrivelmente perturbado e só, e estabelecemos uma forte amizade este Verão.

 

Aposto que sim. Sem a mulher dele presente, não é? Recordo-me de me dizeres isso na primeira vez que me falaste no assunto. Então, onde estava ela, já que a paixão era assim tão grande? Doug transbordava de veneno e desconfiança e mostrava-se pronto a acusá-la.

 

A trabalhar, Doug respondeu Índia num tom calmo. Há mulheres que o fazem

 

Foi ela quem te encheu a cabeça com toda essa treta E ele fazia parte do esquema

 

Doug ansiava deitar Paul por terra e índia sentia-se furiosa com ele. Fossem quais fossem os seus sentimentos, não fazia tenção de lhos demonstrar e, muito menos ao marido. Nem sequer tinha a certeza do que sentia exactamente e, de qualquer maneira, optara pelo caminho da amizade

 

Acho que estás a ser idiota se não percebes o jogo dele, índia prosseguiu E não quero que volte a telefonar para aqui. Parecia que estavas a falar com o teu amante

 

Não tenho nenhum amante, Doug ripostou num tom gelado e subitamente incapaz de conter a raiva, odiara cada palavra dele, mas se o tivesse, talvez me sentisse mais feliz. De qualquer maneira, Paul Ward não é esse tipo de pessoa Amava a mulher, respeitava-a profundamente e à sua carreira, uma coisa que desconheces. Suspeito de que vai chorá-la durante muito tempo

 

E quando cessar o desgosto, estarás à espera dele? É isso. Talvez te agradasse seres amante de um homem com todo aquele dinheiro

 

Enojas-me, Doug retorquiu e voltou ao quarto de Jessica para acabar de arrumar os roupeiros

 

Nem sequer lhe apetecia ver o marido e evitou-o completamente durante o resto da tarde. No entanto, o clima não melhorara entre ambos quando saíram para jantar. Nem sequer lhe apetecia acompanhá-lo, mas pensou que, se não o fizesse, arranjaria mais problemas

 

Se tivesse meditado no assunto, talvez se sentisse elogiada por Doug haver demonstrado ciúmes de Paul, mas a forma como os expressara era tão ofensiva que apenas contribuiu para ficar mais irritada. Considerava nojenta cada palavra pronunciada. Paul Ward não era, de facto, seu amante, e nunca o seria, mas apenas um grande amigo Disso tinha a certeza

 

A refeição que partilhou com Doug nessa noite foi tensa, apesar das suas intenções alegadamente positivas de a levar a sair. Contudo, o que lhe dissera nessa noite havia votado todos os seus esforços ao fracasso. Mal trocaram uma palavra, enquanto comiam, viram um filme tão deprimente que índia chorou todo o tempo e sentia-se pior do que nunca quando chegaram a casa e Doug pagou à baby-sitter. Na opinião de índia, fora uma noite desastrosa e Doug também não ficara com muito melhor impressão

 

Sentia-se desanimado quando subiu as escadas e nenhum deles desejava deitar-se. Sentaram-se, portanto, ligaram a televisão e viram um filme antigo de que os dois haviam gostado. Era indubitavelmente melhor do que o do cinema. Acabaram por ficar levantados até tarde e, à uma hora, desceram à cozinha para comer qualquer coisa

 

Lamento o que te disse hoje desculpou-se Doug repentinamente, surpreendendo-a com aqueles remorsos inesperados. Sei que ele não é teu namorado.

Espero bem que saibas retorquiu com uma expressão grave, mas depois resolveu ceder também um pouco. Também peço desculpa pelo que disse. As coisas não têm sido fáceis nos últimos tempos, pois não?

 

Tudo fora tão difícil, todas as conversas, todos os contactos

 

Acho que, por vezes, o casamento é assim disse Doug num tom triste e as palavras seguintes comoveram-na. Tenho tido saudades tuas

 

Também eu, sorriu

 

Tudo lhe parecera tão solitário sem ele Durante os últimos meses, Doug quase não lhe dirigira a palavra e o facto de se mostrar tão furioso com a sua sugestão de fazer alguns trabalhos fora tão duro para ela como a sua ausência nas férias de Verão

 

Acabaram de comer e subiram as escadas. Os miúdos estavam todos na cama e índia fechou devagar a porta do quarto nas suas costas. Prepararam-se para se deitar, Doug desligou a televisão e, quando ela voltou à cama, esperava-a acordado

 

Desta vez, quando estendeu o braço, num gesto hesitante índia não lhe virou as costas nem o repeliu. Ele abraçou-a

com ternura e fizeram amor, embora sem a paixão que ela desejaria. Doug pareceu-lhe até um tanto desajeitado, depois de tanto tempo, e nunca lhe disse que a amava. Contudo, era esta a vida que partilhavam, o «acordo» que haviam feito, e ele era o seu marido para o melhor e o pior. Era o que tinha e aquilo a que devia habituar-se.

 

índia e Doug arrastaram a relação durante os dois meses seguintes. Haviam colado os bocados, mas a cola deixara de parecer tão sólida como outrora. No entanto, os filhos mantinham-na tão ocupada que nem pensou no assunto, e tinha a certeza de que nada mudaria. Doug era quem era e vincara bem as suas expectativas. Restava-lhe continuar a viver com elas, era essa a parte difícil.

 

Encontrava-se muitas vezes com Gail nos jogos de futebol dos garotos, em reuniões de pais e em jantares. Tal como acontecera antes e, sem dúvida, voltaria a suceder, Gail tinha confessado a índia que se encontrava com outro homem e tratava-se, como habitualmente, do marido de alguém. Mas, pelo menos, parecia feliz.

 

Então? Que tal vão as coisas? perguntou uma vez a índia ao fim da tarde, enquanto se mantinham, geladas, nas bancadas. O Doug acalmou-se finalmente?

 

Bastante. Tem uma série de clientes novos e anda ocupado. Desde o Verão que não tocamos em questões melindrosas.

 

A sua vida sexual não era o que fora antes, mas, de vez em quando, faziam o possível para a reavivar. Havia partes da ligação que não tinham escapado inteiras aos golpes trocados durante o Verão, índia resignara-se ao que tinha, de preferência a lutar pelo que desejava.

 

Paul Ward voltou a telefonar? Não. Acho que está na Europa.

 

Era a primeira vez que mentia a Gail, mas tratava-se de §° que não queria partilhar com ninguém e a informação era tão explosiva, caso caísse nas mãos erradas, que decidira não confiar nela. Contudo, ele telefonara, embora não muito frequentemente.

 

voltara a ligar-lhe em Setembro e duas vezes em Outubro, sempre a horas estranhas, regra geral quando ela se encontrava sozinha em casa, à hora do jantar dele e quando supunha correctamente, que Doug estaria no escritório.

 

Nunca dissera nada de inconveniente e até agora parecera sempre desesperadamente só. Numa das vezes tinha mesmo a voz empastelada, mas Serena nem sequer há dois meses morrera e índia sabia bem quanto ele estava ainda magoado. Da última vez que lhe telefonara, o barco encontrava-se na Jugoslávia e ele não lhe pareceu melhor, ou sequer preparado para voltar.

 

Nunca falou em vê-la ou em quando regressaria, embora ela se interrogasse sobre se já estaria nos EUA na quadra festiva, a fim de ver o filho e os netos. Ou talvez isso fosse doloroso de mais. Contara-lhe antes que ele e Serena costumavam ir esquiar para a Suíça no Natal e já afirmara que não voltaria a Saint-Moritz. Não queria ver novamente os lugares onde estivera com ela, não desejava pisar os mesmos caminhos ou lembrar os sonhos que haviam partilhado.

 

Isso exclui uma série de lugares troçara índia, fazendo-o rir.

 

Para Paul estava a ser difícil reenquadrar-se. Perguntava sempre como estava ela e índia respondia-lhe honestamente. Adaptara-se à situação, embora não fosse muito feliz. Desistira, porém, de voltar a balançar o barco. Afirmava sentir-se satisfeita a fotografar os miúdos e Paul ralhava-lhe. Achava que ela devia ser mais corajosa, mas não conseguia, era muito diferente de Serena. Contudo, ele parecia gostar e retirar um certo conforto de conversar com ela.

 

índia nunca lhe perguntava o que faria a seguir, se ia ou não regressar ao trabalho. Nunca lhe perguntava nada, nem o pressionava de qualquer outra forma. Limitava-se a estar presente quando ele telefonava, com a sua voz e maneiras calmas, e era exactamente o que ele pretendia.

 

Não havia promessas de que se voltariam a encontrar, nem alusões a um caso. Paul mostrava-se extremamente circunspecto, mas sempre bom e generoso, sempre interessado no que ela estava a fazer e, quando índia lhe expressava as suas emoções, entendia-as, contrariamente a Doug.

 

Paul era, em muitos aspectos, uma dádiva na sua vida, deixou de dizer ao marido quando recebia os telefonemas. Não queria ouvir acusações de que ele queria ser ou era seu namorado. Nada tinha a ver com Gail, era uma mulher muito diferente e Paul sabia-o. Era digna em todos os aspectos e muito mais íntegra aos olhos dele do que o marido, que a havia chantageado para a forçar a agir à sua maneira.

 

Há duas semanas que índia não tinha notícias de Paul quando o telefone tocou uma tarde, pouco depois do meio-dia, na cozinha. Julgou que ele estivesse de volta a Itália e seriam seis da tarde lá, que era a hora a que costumava ligar-lhe.

 

Atendeu com um sorriso, esperando ouvir-lhe a voz e sobressaltou-se ao verificar que se tratava de Raoul Lopez. Há seis meses que o agente não lhe dava notícias, desde que ela recusara a missão na Coreia.

 

- Que tal, índia? Estás finalmente a ficar cansada dos miúdos?

 

- Não - respondeu, sentindo-se estúpida por ter deixado o nome na lista.

 

Raoul ficaria furioso quando ela recusasse mais uma missão. Doug tinha razão, devia ter retirado o nome.

 

- Esperava outra resposta. Tenho uma proposta a fazer-te - disse, parecendo excitado.

 

Acabara de receber um telefonema e pensara imediatamente nela, tratava-se de um trabalho que se lhe ajustava perfeitamente.

 

- Nem mesmo sei se devo deixar que me digas, Raoul. O meu marido ficou bastante irritado com aquilo da Coreia.

 

- Porquê, se não aceitaste? - Raoul tinha obviamente razão, mas a situação acabara por provocar três meses de discussões e quase um motim, e não queria que tal se repetisse, por melhor que fosse a proposta. - Escuta-me um minuto. Vai haver um casamento real em Inglaterra - prosseguiu com a presença de todas as cabeças coroadas da Europa. A revista que nos contactou quer alguém que saiba como se comportar. Segundo me explicaram há dez minutos, «pretendem uma verdadeira senhora», que se misture com toda aquela gente elegante. É em Londres e não arriscarias a vida. E enquanto estiveres aqui - retomou de um fôlego - tenho mais uma reportagem. Trata-se de uma rede de prostituição, algures no West End, envolvendo crianças de dez a catorze anos. Trabalharias com a polícia local e o que quer que consigas será publicado na imprensa internacional. Tem tudo para ser uma história fantástica. Podias resolver o caso numa semana, o casamento e as miúdas.

 

Oh, merda! exclamou, ao ouvi-lo e admitindo que a proposta era tentadora. Talvez pudesse vender a história do casamento a Doug, mas o que a atraía era a das prostitutas de dez anos, um ultraje que adoraria trazer a público. Porque me telefonas a desafiar-me, Raoul? Vais acabar por me destruir o casamento concluiu, suspirando

 

Porque te adoro e és a melhor. Lembra-te do que fizeste em Harlem.

 

Foi diferente, ficava a uma hora de comboio e conseguia estar em casa a tempo de fazer o jantar para os meus filhos.

 

Contrato-te uma cozinheira para o período em que estiveres ausente. Eu próprio cozinho para eles, se for preciso, mas, por favor, índia, não voltes a dizer-me que não. Tens de fazer isto. Raoul estava desesperado e ela sentia-se excitada com as reportagens.

 

Quando é? perguntou, parecendo preocupada. Talvez, se dispusesse de algum tempo, conseguisse convencer Doug, suplicar-lhe ou prometer engraxar-lhe os sapatos toda a vida, se lhe desse permissão. Ansiava por fazer a reportagem e não queria voltar a desiludir Raoul.

 

Daqui a três semanas respondeu este num tom propositadamente despreocupado, enquanto ela fazia os cálculos.

 

Três semanas? repetiu as contas e franziu o sobrolho ao verificar que não tinha errado Mas é o Dia de Acção de Graças.

 

Mais ou menos concordou Raoul, rezando para que ela aceitasse.

 

O que significa «mais ou menos»? É ou não o Dia de Acção de Graças?

 

De acordo, de acordo. É o fim-de-semana de Acção de Graças, mas precisarias estar lá na quinta-feira. Há dois eventos importantes, antes do casamento, e todos os chefes de Estado assistirão, inclusive o presidente e a primeira dama. Podias comer peru com eles ou, melhor ainda, levar o teu.

 

Odeio-te. Isto não tem graça. O Doug mata-te.

 

Eu é que o mato, se ele não te deixar fazer o trabalho. Tens de aceitar, índia. Faz-me um favor e pensa no assunto. Telefona-me amanhã.

 

Amanhã? Endoideceste? Dás-me uma única noite para dizer ao meu marido que o vou deixar e aos filhos no Dia de Acção de Graças? O que estás a tentar fazer-me?

 

A tentar salvar-te de uma vida chata e de um marido que não aprecia o teu talento. Para já nem falar de um rancho de crianças, por mais queridas que sejam, que não merecem usufruir de uma das mais talentosas repórteres fotográficas do mundo como cozinheira e motorista. Por favor, índia. Preciso disto e tu também. Só te peço que me faças isto.

 

Verei o que consigo respondeu num tom pensativo. Telefono-te amanhã... ou depois de amanhã. Se ainda estiver viva.

 

Adoro-te retorquiu, entusiasmado, e rezando para que ela acedesse. Seria perfeita para as duas incumbências. Obrigado, índia.

 

Lembra-te de te sentires culpado quando encontrarem o meu corpo abandonado no centro comercial de Westport.

 

Diz-lhe que cresça e perceba com quem está casado. Não pode manter-te enclausurada para sempre.

 

Não, mas está a tentar. Telefonar-te-ei.

 

Quando desligou, conservou-se longos minutos na cozinha e tomou consciência de que estava a tremer. Invadia-a um verdadeiro terror de falar do assunto a Doug, mas sentia-se tão entusiasmada como Raoul quanto às reportagens, sobretudo a da prostituição. Ansiava por fazê-la. «Mas como iria dizer a Doug?» Sentou-se num banco a reflectir e depois saiu e dirigiu-se ao mercado.

 

Comprou tudo o que ele mais gostava de comer e decidiu preparar-lhe um jantar fabuloso nessa noite, até mesmo com um pouco de caviar. Iria cozinhar todas as suas especialidades e pratos favoritos, servir-lhe vinho e quando passassem ao diálogo... ele matava-a. Mas, pelo menos, podia tentar.

 

Ao voltar a casa nessa noite, Doug ficou satisfeitíssimo com o cenário. Índia comprara um Chateaubriand e estava a preparar o seu molho favorito de pimenta e mostarda, batatas assadas e cogumelos recheados e salmão fumado com caviar, como entrada. Quando se sentou à mesa, com as crianças, sentiu-se como se tivesse morrido e estivesse no Paraíso.

 

Bateste com o carro, mamã? perguntou Jason, ao mesmo tempo que deitava molho por cima das batatas.

 

Claro que não respondeu, parecendo sobressaltada.

 

Porque perguntas?

 

É um jantar e pêras. Julguei que tivesses feito alguma coisa que irritasse realmente o papá!

 

Não sejas pateta!

 

Na verdade, o filho demonstrava grande esperteza, muito mais do que o pai, que não desconfiava de nada. Sentara-se confortavelmente no sofá, saciado depois do jantar, índia fizera musse de chocolate para sobremesa.

 

Que banquete! exclamou com um sorriso, quando ela veio sentar-se ao lado dele na sala, depois de arrumar a cozinha. Os miúdos estavam no andar de cima, a fazer os trabalhos. O que fiz para merecer isto?

 

Casaste comigo respondeu, sentando-se num banquinho aos pés dele e rezando para que os deuses lhe fossem favoráveis desta vez, apenas desta, desta única vez. Estava disposta a suplicar-lhe. Morria por ir até Londres, mesmo no Dia de Acção de Graças.

 

Acho que apenas tive sorte disse, recostando-se na cadeira e esfregando o estômago.

 

Também eu replicou ela meigamente. Fora a troca de palavras mais terna que haviam tido desde o Verão. Contudo, desta vez com uma segunda intenção. Doug--

 

começou, erguendo os olhos e ele tomou logo consciência de que se tratava de uma armadilha. Os olhos dela reflectiam um brilho lascivo e ele interrogou-se sobre o que seria necessário para o apaziguar. Uau! riu, ainda divertido. O Jason teria razão? Bateste com o carro ou algo do género?

 

A minha licença de condução está em ordem, o seguro intocável e o carro em perfeitas condições. Podes verificar.

 

Foste presa por roubares no mercado, talvez?

 

índia decidiu seguir em frente, tinha de ser. Precisava de telefonar a Raoul no dia seguinte, ou no outro.

 

Hoje recebi uma chamada confessou.

 

De quem? quis saber, unindo as sobrancelhas.

 

Assemelhava-se a perguntar ao pai se podia ir a um encontro aos catorze anos, só que era dez vezes mais difícil e assustador, talvez cem vezes. Sabia perfeitamente o que Doug pensava a este respeito.

 

Raoul limitou-se a responder.

 

Outra vez, não! exclamou ele, endireitando-se na cadeira e baixando os olhos na sua direcção.

 

Escuta-me. É o trabalho mais civilizado que alguma vez me ofereceram e querem uma «senhora» para o fazer. Já decidira omitir-lhe a rede de prostituição no West End. Jamais a deixaria fazer essa reportagem, mas talvez o casamento em Londres... Alguém muito importante vai desposar um membro da família real inglesa e precisam de uma pessoa para cobrir o acontecimento. Estarão presentes todos os chefes de Estado e as cabeças coroadas da Europa, o presidente e a primeira dama...

 

E tu não interrompeu-a num tom firme. Podem arranjar qualquer repórter fotográfico para o fazer.

 

Mas querem-me a mim, pelo menos o Raoul. Doug... por favor... adorava fazer este trabalho.

 

Julguei que já tivéssemos ultrapassado tudo isto. Quantas vezes vamos travar esta batalha, índia? Foi o motivo que me levou a pedir-te que retirasses o teu nome da lista. Ele vai continuar a telefonar-te. Deixa de me torturar e a ti. Tens filhos... tens responsabilidades... não podes sair porta fora e esquecer que é assim.

 

Estamos a falar de uma semana, apenas isso. Os miúdos não morrem só porque não estarei aqui no Dia de Acção de Graças. Pareceu em pânico ao pronunciar as palavras. Apenas tencionara contar-lhe esta parte mais tarde, contudo,

saíra-lhe tudo o que tencionava dizer-lhe.

 

Não consigo acreditar. Estás a perguntar-me se podes deixar-nos no Dia de Acção de Graças? O que esperas que faça? Que cozinhe o peru?

 

Leva-os a um restaurante, ou então prepararei um verdadeiro jantar de Dia de Acção de Graças antes de partir. Nem darão por isso.

 

Mesmo que não dêem, darei eu. Sabes qual é o nosso acordo. Falámos disso este Verão.

 

Eu sei, mas isto é importante para mim. Preciso de fazê-lo.

 

Então, talvez não precises de estar casada ou de ter filhos. Não vou aguentar uma mulher que não esteja presente no Dia de Acção de Graças. Até podes ir para uma zona de guerra, se tomares essa decisão.

 

Pelo menos no casamento, estarei a salvo.

 

Excepto se os terroristas resolverem pôr uma bomba, como fizeram no avião da tua amiga. Sentes-te capaz de correr esse risco? Doug estava disposto a premir todos os botões.

 

Também poderia passar o resto da minha vida em casa, na cama. Porque não? Na verdade, os Russos podem bombardear Westport, se lhes der na cabeça.

 

Porque não cresces, índia? Devias ter deitado tudo isso para trás das costas.

 

Mas não o fiz. É uma parte de mim e sempre o será. Tens de entender.

 

Não tenho nada contrapôs, irritado, ao mesmo tempo que se levantava e a deixava sentada no banquinho. Não vou concordar. Se queres ir, problema teu, mas não esperes continuar casada, se o fizeres.

 

Obrigada por explicitares tão bem as coisas, Doug agradeceu, levantando-se e olhando-o bem de frente. Sabes que mais? Não vou permitir que continues a chantagear-me. Sou o que sou, a pessoa com quem casaste. Podes estabelecer as regras que quiseres, mas não ameaçar-me prosseguiu num tom calmo e sem saber donde lhe vinham as palavras. No entanto, e subitamente, sabia o que estava a fazer e para onde ia, para Londres. Vou fazer esta reportagem.

 

Vou ficar lá uma semana e depois regresso e tomo conta dos nossos filhos, como sempre fiz, e de ti, já que vem a propósito. E sabes que mais? Sobreviveremos, não podes continuar a dizer-me o que devo fazer. Não é justo e não o permitirei.

 

Doug escutou-a sem pronunciar palavra e índia tremia de alto a baixo, quando o fitou. Depois, o marido virou costas, subiu as escadas e ela ouviu-o bater com a porta do quarto. Contudo, levara a sua avante. Atrevera-se a estender a mão e a colher o que desejava.

 

Nunca o fizera antes com ele, sentia-se aterrorizada e, em simultâneo, muito bem. Apercebia-se agora de que ele lhe fizera aquilo durante anos a fio. Fora o seu ultimato que a obrigara a regressar da Ásia há dezassete anos para se casar com ele. Vincara-lhe, sem sombra para dúvidas, que, se assim não fosse, o perderia. Dado que havia ficado sem pai quando era jovem, achara que o pior que podia acontecer-lhe era suceder o mesmo com Doug. Mas descobrira, dezassete anos mais tarde, que era pior perder-se a si própria e quase o fizera. Não acreditava que ele a deixasse e, se assim fosse, enfrentaria a situação. Esperava, porém, que tal não acontecesse.

 

Aguardou um bocado antes de subir ao andar de cima e, quando o fez, Doug estava na cama, de luzes apagadas. Contudo, não o ouvia ressonar.

 

Estás acordado? sussurrou e não obteve resposta. Pressentia que sim e verificou que acertara ao chegar mais perto. Manteve-se aos pés da cama no escuro e apercebeu-se de que ele se mexia, mas continuou sem pronunciar palavra.

 

Lamento que as coisas tenham corrido assim, Doug Prosseguiu. Gostaria muito mais que tivesses concordado em deixar-me partir. Amo-te muito... mas tenho de o fazer... Por mim. É difícil explicar.

 

Na verdade, não era, só que ele jamais compreenderia. Doug queria ditar as leis e ameaçá-la. Fora sempre esse o seu Poder, aliado ao terror de o perder, mas não podia continuar eternamente assustada.

 

Amo-te, Doug repetiu, como que para o tranquilizar e a ela própria.

 

Não obteve resposta. Um momento depois, dirigiu-se à casa de banho para tomar duche. Manteve-se debaixo do chuveiro, com a água quente a escorrer-lhe pelas costas e um sorriso estampado no rosto, com um sabor a eternidade. Tinha conseguido!

 

Tal como prometera, fez-lhes o jantar de Acção de Graças, na noite anterior. Foi uma refeição impecável e pareciam uma família unida, só que Doug se manteve de sobrolho franzido, e todos perceberam o que ele sentia em relação à viagem de índia.

 

Ela própria falara com os filhos e, depois do choque inicial, todos se mostraram excitados, sobretudo as raparigas, que acharam fantástico o facto dela ir cobrir um casamento real, mas os rapazes também não puseram objecções.

 

De facto, nenhum reagiu como Doug esperara, nenhum se sentiu abandonado ou como se ela pudesse não voltar, como acontecera com ela, quando o pai se ausentara seis meses para o Vietname e para outros lugares igualmente perigosos. Todos entenderam. Sentiam-se um pouco desapontados por a mãe não poder estar presente no Dia de Acção de Graças, mas quando souberam que lhes ia preparar um verdadeiro jantar de festa, na véspera mostraram-se felizes, contrariamente às previsões de Doug.

 

Índia partiria para Londres na manhã do Dia de Acção de Graças e o marido e as crianças teriam outro jantar festivo na companhia de amigos em Greenwich, pois os pais de Doug e índia já não estavam vivos. Apercebia-se agora do que a levava a estar tão dependente dele e da sua aprovação: não tinha mais ninguém além dos filhos.

 

Os miúdos devoraram tudo o que lhes apareceu pela frente e Jason disse que nunca comera um jantar tão bom e agradeceu. Depois, sentaram-se todos na sala a ver filmes, enquanto índia e Jessica arrumavam a cozinha. Depois, disse à filha que fosse ter com os irmãos, quando Doug se lhe juntou, parecendo muito irritado.

 

- Não te perturba deixá-los como se fossem órfãos, nas festas? - inquiriu, tentando fazer com que se sentisse culpada.

 

- Não são órfãos, Doug. Têm uma mãe que trabalha ocasionalmente e parecem compreender muito melhor do que tu.

 

Repete isso quando começarem a faltar às aulas, como forma de expressarem o seu desagrado

 

Acho que tal não sucederá retorquiu índia num tom firme

 

Gail prometera encarregar-se de levar os miúdos de carro e a baby-sitter que contratava iria lá a casa todos os dias, das três da tarde até depois do jantar, além de que Jessica dissera que a ajudaria a cozinhar. Tudo estava em ordem e deixara seis páginas escritas com instruções. O único problema era o marido, mas índia nunca se sentira com tanta força em toda a sua vida. Paul tinha-lhe telefonado nessa semana e dissera-lhe que se sentia orgulhoso dela e índia prometera ligar-lhe de Londres. O Sea Star estava na Turquia. Paul deixara bem claro que se sentia ansioso por ter mais notícias

 

Vais ter de ajustar contas comigo quando voltares, índia ameaçara Doug, como vinha a fazer há semanas

 

O marido parecia não ter hesitações nem vergonha quanto a tomar aquela atitude, mas índia recusava ouvi-lo. Nem sequer sabia muito bem o que mudara, apenas que não podia continuar a viver numa caixa, a que ele lhe construíra há catorze anos e a impedia de voar

 

Sabia melhor do que ninguém que tinha de fazer isto, por mais que lhe custasse, pois cruzar os braços ainda lhe sairia mais caro Agora, compreendia que assim era. Raoul ficara doido de alegria quando ela lhe telefonara. Iam pagar-lhe uma quantia aceitável, embora nada de fabuloso, e usá-la-ia para fazer qualquer coisa simpática com os filhos, talvez viajar com eles a qualquer lado, ou esquiar depois do Natal. Queria, obviamente, que Doug se lhes juntasse, se tivesse vontade, até esse momento, recusara

 

Deixou que os miúdos ficassem levantados até mais tarde, pois era véspera de feriado e, de manhã, antes de partir, foi a cada um dos quartos. Estavam todos a dormir, mas mexeram-se quando ela se inclinou para lhes dar um beijo e o consenso geral foi «diverte-te, mamã», quando prometeu ligar-lhes. Indicara a todos o nome do hotel e o número do£ telefone, além de deixar um papel pregado na cozinha. Organizara tudo na perfeição e ficou surpreendida ao dar-se conta de como era fácil e tudo correra tão bem. O único problema era o marido.

 

Regressou ao quarto para se despedir dele e Doug fulminou-a com o olhar. Estava acordado desde que ela se levantara, mas fingira-se adormecido. Agora, mantinha-se sentado e ambos sabiam que ele perdera algum do poder de a aterrorizar e de obrigá-la a fazer o que muito bem lhe apetecia. Não se tratava de uma mudança que lhe agradasse.

 

Telefono-te sempre que puder prometeu como se falasse a uma criança, que, na realidade era o que Doug parecia, ali sentado a observá-la, sem fazer qualquer movimento para ir ao encontro dela.

 

Não te incomodes respondeu num tom áspero. Não tenho nada a dizer-te, até voltares.

 

E depois? Vais pôr-me lá fora sob a neve? Então, Doug, sê bom desportista. Por favor, deseja-me sorte, há anos que não faço isto... é excitante para mim.

 

Mas ele não se sentia feliz por ela, mas irreversivelmente furioso e queria, além disso, assustá-la com as possíveis repercussões daquela atitude, índia não perdera totalmente o medo, mas continuava disposta a aceitar o trabalho.

 

Amo-te, Doug disse simplesmente, ao sair do quarto.

 

Na verdade, amava-o, mas interrogou-se sobre se seria correspondida. O marido não lhe respondeu e ela desceu as escadas com o equipamento fotográfico arrumado num saco que levava ao ombro, o qual pertencera ao pai. Pegou na mala e entrou no táxi que a esperava para a levar ao aeroporto.

 

Foi uma viagem curta. Pararam para recolher várias pessoas e sentiu-se independente. Era a primeira vez há muitos anos que ia a algum lado sem os filhos e a sensação de liberdade era arrebatadora.

 

Depois de fazer o check-in deu a volta ao terminal, comProu umas revistas e telefonou a Raoul para saber se havia algumas instruções de última hora, mas ele respondeu que lhe

enviaria um fax se houvesse mais informações sobre o segundo trabalho. Depois, subiu para o avião rumo a Londres.

 

Devia chegar às nove da noite e iriam buscá-la e levá-la ao baile que a rainha dava, em honra do casal, no Painted Hall da Royal Naval Academy. Tinha comprado uma saia comprida de veludo, uma blusa do mesmo tecido e um colar de pérolas. Trocaria de roupa na limusina que a esperaria no aeroporto. Tratava-se de algo muito diferente das suas antigas missões, e estava ansiosa por chegar

 

Leu e dormiu no avião, comeu uma refeição ligeira e olhou durante algum tempo através da janela, pensando nos filhos, que lhe haviam limitado a vida durante tanto tempo. Sabia que lhes sentiria a falta, mas também que ficariam bem naquela sua breve ausência. Pensou depois em Doug, nas coisas que ele lhe dissera, no poder que exercera sobre ela até então e nos motivos que o haviam impelido a isso. Parecia tão injusto, tão inútil e, agora que reflectia em tudo isso, não se sentia irritada, mas triste. Doug apenas queria controlá-la, obrigá-la a fazer o que ele desejava, e pensar nisso tornava-se deprimente

 

Estava meio adormecida quando aterraram em Heathrow e a seguir invadiu-a uma grande excitação, aliada à tomada de consciência de que abrira as asas e fizera algo que ambicionava, não por ser bom para alguém ou por ser o que esperavam dela, mas porque era o que queria fazer. Sentia-se eufórica, há anos que não visitava Londres e ansiava por rever a cidade. Que melhor maneira de o fazer?

 

O motorista que lhe tinham prometido esperava-a à saída da alfândega e seguiu rumo à cidade ao máximo de velocidade possível, enquanto ela trocava de roupa no banco de trás e se penteava o melhor que conseguia, dadas as circunstâncias. Não estava tão bem arranjada quanto desejaria, mas, ao olhar-se ao espelho, concluiu que passaria na inspecção. Além disso, a sua missão não era parecer bonita, mas tirar fotografias, ninguém ligaria ao seu aspecto

 

Ao aproximarem-se da Royal Naval Academy, avistou cadetes cá fora, com uniformes formais, empunhando mosquetes e espingardas antigas. Punham-se em sentido à entrada dos convidados e o cenário era muito imponente. Os edifícios erguiam-se a toda a volta de um enorme rectângulo relvado e a capela abobadada datava de 1779

 

Fotografou rapidamente o exterior e apressou-se a entrar na festa. Ao subir os degraus, ergueu os olhos e admirou as maravilhosas pinturas que revestiam as paredes e o tecto, um misto de Versalhes e da Capela Sistina.

 

Havia pelo menos quatrocentas pessoas a dançar e começou a tirar fotografias, praticamente assim que entrou. Era fácil descobrir os alvos: o príncipe Carlos, as rainhas dos Países Baixos, Dinamarca e Noruega, bem como o presidente da França, vários príncipes coroados e, depois, avistou a rainha Isabel II à distância, rodeada de guardas, numa amena conversa com o primeiro-ministro, o presidente francês e a mulher deste.

 

Tivera de mostrar o passe à entrada, mas meteu-o logo a seguir no bolso, passando as quatro horas seguintes a deslizar discretamente pelo meio dos grupos. Às duas da manhã, quando acabou a festa, sabia que cumprira a missão. Era a mesma sensação que a invadira há uns anos, sempre que sabia que tinha uma história, embora desta vez o tema fosse muito diferente dos que ela costumava fotografar.

 

Há horas que a rainha abandonara o local e o resto dos convidados ilustres saíram com todo o decoro, elogiando a festa e alguns ainda foram visitar a capela. Foi aqui que índia gastou o último rolo de filme, após o que entrou no carro que a esperava, seguindo de volta à cidade.

 

Tinham-lhe reservado um pequeno quarto no Claridge’s e, ao entrar no hall, com a máquina fotográfica e o saco, apercebeu-se subitamente de que estava exausta. Eram duas e meia da manhã em Londres o que correspondia a oito e meia da noite para ela, mas estava a pé há muitas horas. Assemelhava-se aos bons velhos tempos, embora, então, a sua roupa de trabalho não incluísse saias de veludo nem sapatos de salto alto. Usava, nessa altura, botas e camuflado, mas sabia que jamais se esqueceria desta noite. O Painted Hall era, sem dúvida, um dos salões mais bonitos de Inglaterra e os convidados que lá vira nessa noite traçavam o curso da história da Europa.

 

Ansiava por se despir e meter-se na cama e adormeceu mal pousou a cabeça na almofada. Só se mexeu quando ouviu tocar o telefone e não imaginava quem poderia estar a ligar-lhe àquela hora, mas, ao abrir os olhos, verificou que a luz do sol entrava pela janela. Eram dez horas de uma fria manhã de Novembro, em Londres, e tinha de estar algures ao meio-dia. Nem sequer ouvira o despertador.

 

Está? perguntou, sonolenta, espreguiçando-se e olhando em volta do quarto. Era pequeno, mas confortável e bem decorado.

 

Julguei que estaria a trabalhar.

 

E estou. Quem fala? Por um minuto julgou que fosse Raoul, embora não lhe parecesse a voz dele e, de súbito, soube. Era Paul a telefonar-lhe do barco, na Turquia. Por um minuto não o reconheci, estava morta para o mundo. Graças a Deus que me acordou.

 

Como vão as coisas? inquiriu ele, parecendo feliz em ouvi-la.

 

Muito bem. A noite passada foi fantástica. Estavam todos os que tinham rainha, príncipe, ou rei, diante do nome. E o Painted Hall é um espanto.

 

É, não é? Serena e eu fomos lá uma vez a uma festa, em honra de um homem muito simpático, um escritor de temas marítimos chamado Patrick O’Bnan, que muito aprecio. O Painted Hall é realmente uma maravilha.

 

índia tinha a sensação de que Paul estivera em todo o lado, mas até ele ficou impressionado com as pessoas presentes, quando lhe contou.

 

Acho que tirei umas fotografias óptimas.

 

Que tal a sensação de voltar a trabalhar?

 

Sorriu ao imaginá-la enfiada no quartinho do Claridge’s, quase conseguia vê-la. Consciente do que custara a índia chegar ali, sabia quanto aquela vitória representava para ela e sentia-se satisfeito por isso.

 

Fantástica. Estou a adorar.

 

índia também lhe falara na segunda reportagem e sentia-se um pouco preocupado, mas partia do princípio de que ela sabia o que estava a fazer e que a polícia a protegeria

 

Como está, Paul perguntou, achando-o mais animado, embora o Dia de Acção de Graças não tivesse provavelmente sido fácil para ele, mesmo com aquele subterfúgio de permanecer na Turquia. Interessado em aparecer Por Londres, enquanto aqui estou? Lançou a possibilidade mas sem esperar que ele aceitasse e sabia, instintivamente, que não o faria. Continuava a refugiar-se da vida real no Sea Star.

 

Não me parece respondeu honestamente. Ainda que gostasse de a ver acrescentou. De qualquer maneira, deve andar demasiado ocupada para aturar velhos amigos.

 

Era, na verdade, no que se haviam tornado nos últimos cinco meses, índia partilhara com ele todos os seus medos e as desilusões com Doug e Paul podia dizer-se que chorara no seu ombro, mais do que uma vez, desde que perdera Serena. Em pouco tempo, e separados pela distância, haviam passado por muita coisa juntos.

 

Acho que tenho medo de voltar à civilização acrescentou.

 

Continuava a ser duro de mais para ele e índia tinha essa consciência.

 

Não precisa de fazê-lo por enquanto.

 

índia sabia que ele resolvia a maior parte dos negócios por fax e por telefone e que os sócios se ocupavam do resto na sua ausência. Era preferível continuar no Sea Star, o barco parecia ser um lugar de cura.

 

Como ficaram os miúdos quando os deixou? pensara muito nela na manhã anterior.

 

Óptimos, melhor do que o Doug. Festejámos o Dia de Acção de Graças uma noite antes e ele mal me falou. Não acho que tudo isto vá resolver-se facilmente. Surgirão problemas.

 

Escude-se contra eles. O que pode ele fazer, afinal?

 

Antes do mais, pôr-me fora, retoricamente falando, ou seja, deixar-me respondeu num tom grave, parecendo, sem dúvida, preocupada.

 

Seria um idiota, se o fizesse. Contudo, ambos sabiam que o era, embora Paul o visse com mais clareza do

que ela. Penso que ele está só a fazer uma tempestade num copo de água para a assustar.

 

Talvez. No entanto, viera e estava ali agora. Acho que tenho de me vestir, senão perco a próxima festa.

 

O que é hoje? perguntou, interessado.

 

Tenho de consultar o programa, julgo que é o almoço dado pelo príncipe Carlos no Saint James’s Palace.

 

Deve ser interessante. Telefone-me a contar tudo

 

Provavelmente vou chegar tarde. Esta noite tenho de ir a outro jantar, antes do casamento.

 

Dá a sensação de que é uma reportagem bem dura. Troçava dela, mas sentia-se como o seu anjo-da-guarda. Vira-a superar toda a agonia que lhe custara chegar ali e agora queria participar na vitória. Ficarei a pé até tarde Pode telefonar-me, agora que estamos quase no mesmo fuso horário. Acho que amanhã seguimos para a Sicília. Quero passar uns tempos na Itália e depois na Córsega. Eventualmente irei também a Veneza

 

Leva uma vida dura, Mister Ward, com esse pequeno barco-casa que pode levar para todo o lado. Sinto muita pena de si.

 

Devia sentir disse ele com mais seriedade do que tencionara.

 

No entanto, e pelas conversas tidas, índia sabia quanto a solidão lhe pesava. Continuava a sentir a falta insuperável de Serena e desconfiava de que Paul bebia ou chorava até adormecer mais vezes do que confessava. Apenas tinham passado três meses desde que a perdera.

 

Telefono mais tarde prometeu num tom jovial e desligaram.

 

índia aproximou-se da janela e observou a Brook Street, lá em baixo Tudo parecia muito limpo, muito familiar, muito britânico. Sentia-se muito feliz por estar ali. Lembrou-se de que precisava de adquirir postais para mandar aos filhos. Prometera fazê-lo e, se tivesse tempo, queria ir ainda ao Hamley’s comprar brinquedos ou jogos para Sam, Aimee e Jason e qualquer coisa mais apropriada para Jessica, além de pretender dar um salto ao Harvey Nichols, entre as duas reportagens.

 

Mas primeiro tinha de trabalhar. Continuava a pensar em Paul quando se meteu na enorme banheira. Adorava falar com ele e esperava vê-lo em breve, era um amigo fantástico, mesmo à distância.

 

Passou o resto da tarde novamente ocupada a tirar fotografias à realeza. Divertiu-se imenso e descobriu que conhecia um dos outros repórteres fotográficos. Tinham trabalhado juntos uma vez, no Quénia, e há quase vinte anos que não O via. Era irlandês e muito engraçado. Chamava-se John

OMalley e convidou-a para tomar uma bebida no pub local, depois da festa.

 

Onde tens estado, com os diabos? Julguei que alguém acabara por te dar um tiro numa dessas tuas loucas reportagens disse a rir e obviamente satisfeito por vê-la.

 

Não. Casei-me, tive quatro filhos e afastei-me durante os últimos catorze anos.

 

O que te fez regressar agora? inquiriu com um sorriso de um canto ao outro da boca. Tirara todas as fotografias de que precisava e saboreava um uísque irlandês.

 

Estava com saudades.

 

És dotada declarou, convicto. Sempre soube isso a teu respeito. Nada me agradaria mais do que reformar-me, com uma mulher e quatro filhos. Claro que esta não é propriamente uma história perigosa como as antigas, excepto se alguns membros da realeza nos atacarem. Era bem possível, sabes? Se se pusessem a discutir os hors d’euvres, podia começar uma guerra aqui. E há os tipos do IRA, que são um encanto! Por vezes, tenho vergonha de admitir que sou irlandês.

 

Falaram então do atentado bombista em Setembro e índia contou-lhe que a mulher de um amigo seguia a bordo do avião.

 

Que vergonha! Odeio histórias dessas protestou ele. Penso sempre nas crianças. Matem militares, ponham uma bomba numa fábrica de mísseis, mas, por amor de Deus, poupem as crianças. Os filhos da mãe fazem sempre isso. Sempre que um país os chateia, matam inocentes. Passara algum tempo na Bosnia e odiara o que vira por lá. Crianças decapitadas ao colo das mães, fora o pior que se lhe deparara desde o Ruanda. Não te preocupes comigo, minha querida prosseguiu. Ao segundo uísque a crueldade humana é o meu tema favorito. Ao terceiro, fico romântico. Atenção, nessa altura!

 

O’Malley não mudara com os anos e era divertido conversar com ele. Apresentou-a a outro jornalista, que veio fazer-lhes companhia à mesa. Era australiano e não tão compassivo como o irlandês, embora denotasse um marcante sentido de humor nos seus comentários sobre a festa. Disse que tinham trabalhado anos antes, em Pequim, mas ela não se lembrava e o rosto dele não lhe parecia familiar.

 

Quando saíram do pub, O’Malley estava bastante tocado e ela tinha de voltar ao Claridge’s a fim de trocar de roupa, antes de seguir para a outra festa. Sentia-se satisfeita por ser a última antes do casamento. Ocorreria numa casa espectacular, em Saint James’s Palace, com criados de libré e lustres de velas.

 

Ao chegar ao hotel, à meia-noite, telefonou aos filhos. Tinham-se sentado à mesa para jantar. Falou a cada um deles e todos pareciam óptimos. Contaram que se tinham divertido em Greenwich no dia anterior, que sentiam saudades e que o pai os levara a patinar, no sábado. Contudo, quando índia pediu para passarem o telefone a Doug, ele mandou dizer que estava ocupado a preparar o jantar. Podia ter atendido com a maior das facilidades, que era o que ela sempre fazia, quando estava a cozinhar. O telefone tinha um fio enorme, que podia ser esticado. No entanto, compreendeu a mensagem. Doug afirmara que nada mais tinha a dizer e parecia decidido a manter a palavra.

 

Sentiu-se um pouco sozinha quando desligou depois de lhes falar e resolveu telefonar a Paul. Achava que ele ainda estaria a pé e não se enganou. Contou-lhe tudo sobre a festa. Era óptimo poder falar-lhe àquela hora e dizer-lhe o que estava a fazer

 

Conversaram durante muito tempo. Paul conhecia as pessoas que haviam dado a festa e quase todos os convidados, e ficou divertido ante as descrições que ela lhe fez. Fora uma noite interessante, cheia de gente aristocrática e distinta. Percebia agora porque a haviam escolhido e sentia-se lisonjeada com esse facto

 

A que horas é o casamento amanhã? inquiriu ele, por fim, com um bocejo. Estava a ficar com sono e o mar mostrara-se um pouco revolto nessa noite Mas ele nunca se importava, até gostava.

 

Às cinco.

 

O que vai fazer antes?

 

Dormir respondeu. Ainda não parara desde que tinha chegado, era como nos velhos tempos, só que de saltos altos e vestidos compridos. Na verdade, quero passar pela polícia. Deixaram-me uma mensagem e quero começar a trabalhar na outra reportagem, no domingo.

 

Nunca perde tempo, pois não, índia? Serena também fora assim, mas Paul não mencionou o facto. Estava sempre ocupada com alguma coisa, um novo livro, um novo argumento, uma revisão ou provas gráficas, e sentia-lhe imenso a falta. Telefone-me amanhã e fale-me do casamento.

 

Adorava a vida que ela levava e também a possibilidade de falar-lhe a qualquer hora do dia ou da noite, o que não podia fazer quando ela estava em Westport.

 

Ligo-lhe quando regressar ao hotel.

 

Partimos amanhã à noite. Paul gostava sobretudo de velejar de noite e ela sabia-o. Estarei no turno de vigia depois da meia-noite. Sabia que ele poderia atender na casa do leme. Gostei muito de lhe falar esta noite, lembra-me um mundo que continuo a dizer a mim próprio ter esquecido.

 

O problema dele residia em que não queria habitá-lo sem Serena, mas divertia-se com os relatos de índia.

 

Um dia voltará, quando lhe apetecer.

 

Acho que sim, mas não consigo imaginar-me sem ela disse tristemente. Fazíamos tantas coisas divertidas! Seria incapaz de repeti-las sozinho, estou velho de mais para recomeçar.

 

Não estava, mas índia sabia que era assim que Paul se sentia, achava que o facto de ter perdido Serena o envelhecera.

 

Agora até parecia o meu discurso. Se não sou velha de mais para voltar a trabalhar, também não o é para regressar ao mundo, quando o desejar.

 

Faziam catorze anos de diferença, mas nenhum deles o sentiu alguma vez. Por vezes, pareciam irmão e irmã, outras ela sentia a mesma electricidade entre eles de que se

apercebera logo de início, mas Paul nunca fez qualquer referência ao assunto. Não queria ser infiel a Serena e continuava a sentir-se culpado por não ir naquele avião com ela. Não via qualquer razão para lhe ter sobrevivido. O filho era adulto, os netos tinham uma boa vida, ninguém precisava dele agora, e foi o que disse a índia.

 

Preciso eu retorquiu num tom suave. Preciso de si

 

Não é verdade, está no bom caminho.

 

Não esteja assim tão seguro. O Doug nem sequer me falou, quando viajei. Espere até ao meu regresso a Westport, o preço vai ser elevado e sabe bem que assim será.

 

Talvez, mas não se preocupe com isso agora. Tem muito trabalho pela frente antes de enfrentar essa situação mas ambos sabiam que era uma questão de dias. Voltaria a casa na sexta-feira, pois queria passar o fim-de-semana com os filhos.

 

Telefono-lhe amanhã prometeu índia, depois do que se despediram e desligou.

 

Era estranho a forma como se sentiam bem um com o outro. Sentada ali, pensando nele, era como se tivesse conhecido Paul toda a sua vida, não somente desde o Verão. Os dois haviam percorrido um longo caminho e ultrapassado duros obstáculos, desde essa altura. Ele mais, mas o caminho dela também não se revelara fácil

 

Estava deitada na cama, antes de se deixar levar pelo sono, quando o telefone voltou a tocar. Julgou que podiam ser os filhos, ou Doug, mas era novamente Paul e ficou surpreendida ao ouvir-lhe a voz.

 

- Estava a dormir? perguntou quase num sussurro

 

Não. Apenas deitada aqui no escuro, a pensar em si

 

Só queria dizer-lhe quanto admiro a sua coragem, Índia... e como me sinto orgulhoso de si... telefonara só para lhe dizer isto.

 

Obrigada... isso é muito importante para mim, tal como ele era. É uma pessoa fantástica

 

Depois, acrescentou, com lágrimas que se repercutiam na voz:

 

Não conseguiria ultrapassar estes momentos sem

si. Nem eu murmurou. Era exactamente o que estava a pensar quando me telefonou.

 

Vamos ver-nos um destes dias, em qualquer altura em qualquer lugar. Voltarei, só ainda não sei quando.

 

Não se preocupe. Faça o que tem a fazer.

 

Boa noite despediu-se com ternura.

 

Depois de desligar, índia fechou os olhos e adormeceu com um sorriso nos lábios, pensando nele.

 

No dia seguinte, o casamento foi um evento grandioso, cheio de pompa e circunstância. Mesmo antes de revelar as fotografias, índia sabia que fizera um trabalho espectacular. A noiva estava lindíssima, com um vestido Dior, era graciosa e pequena e a cauda parecia estender-se ao longo de quilómetros. A sogra oferecera-lhe uma bonita e original tiara.

 

Tudo correu na perfeição, o casamento foi celebrado na Catedral de São Paulo, com catorze damas de honor. Parecia um conto de fadas e índia ansiava por mostrar as fotografias aos filhos. Pelo menos, poderiam ver o que ela viera fazer a Londres.

 

A recepção decorreu no Palácio de Buckingham e, desta vez, chegou cedo ao hotel. Telefonou a Paul às dez e quinze e falara com os miúdos pouco antes. Tinham acabado de vir da patinagem e estavam a beber chocolate quente na cozinha. Quando perguntou por Doug, disseram-lhe que tinha saído, mas duvidou de que fosse verdade. Era pouco provável que estivessem em casa sem ele, mas não quis insistir. Telefonou a Paul assim que desligou e este disse-lhe que estava a ler no salão principal e que só entrava de vigia à meia-noite.

 

Que tal correu? inquiriu, curioso, pois gostava de a ouvir falar sobre o trabalho.

 

Inacreditável. Um conto de fadas, deve ter custado um milhão de dólares.

 

Provavelmente anuiu com uma gargalhada e parecendo de bom humor. Serena e eu casámo-nos pelo civil. Depois comprámos chilli na rua e passámos a noite no Plaza. Foi pouco ortodoxo, mas, de facto, muito romântico. Serena estava tão decidida a não casar comigo que, quando lhe arranquei um «sim», achei que era melhor agarrar a oportunidade, sem esperar nem mais um minuto. Passou a nossa noite de casamento a enumerar o que não faria por mim, dizendo que jamais seria uma esposa às direitas e que nunca a possuiria. Cumpriu a maioria das promessas, mas acho que se esqueceu de me fazer cumprir todas as minhas. Continuava a falar dela constantemente e uma das coisas que gostava em Índia era que ela não parecia importar-se.

 

- Olhando hoje para aquela noiva e com o nosso conhecimento da vida, torna-se impossível deixar de questionar sobre se resultará ou se ficarão desiludidos. Deve ser um tanto embaraçosa esta última hipótese, depois de um casamento assim.

 

Não acho que seja muito importante. Nós ficámos satisfeitíssimos com os nossos chilli e a noite no Plaza.

 

Saiu-se provavelmente melhor do que muitos observou índia num tom triste, pois os casamentos causavam-lhe sempre uma certa nostalgia, sobretudo nos últimos tempos.

 

Você também retorquiu Paul calmamente. Sentia-se descontraído. Estava a beber um copo de vinho e a ler, quando ela telefonou. Adorava sentar-se e pegar num livro durante horas a fio.

 

Que tal o passeio hoje? inquiriu com um sorriso, sabendo como ele gostava do mar, e quanto mais agitado melhor.

 

Muito bom respondeu. Foi à polícia por causa da sua reportagem? acrescentou, mudando de assunto.

 

Passei lá duas horas antes do casamento. É um caso bastante sujo, estão a prostituir crianças de oito anos e custa até a crer que seja verdade.

 

Parece uma reportagem suja.

 

E será.

 

Tratava-se, porém, de um trabalho mais da sua área do que o casamento, embora a tivesse entristecido ver as fotografias das crianças que a rede utilizava. Planeavam fazer uma incursão dali a dois dias e tinham-na convidado a estar presente nessa altura.

 

Será perigoso para si?

Pode ser anuiu honestamente, embora jamais o tivesse admitido ao marido. Ele nem sequer sabia da reportagem, nem tão-pouco tencionava contar-lhe., Espero que não seja demasiado arriscou Paul, que não queria interferir no trabalho dela, embora lhe desagradasse a ideia de que pudesse correr perigo.

 

Têm de ser cuidadosos por causa das crianças, mas os que estão à frente da rede são duros. A polícia acha que algumas das vítimas foram vendidas como escravas pelos próprios pais.

 

Que coisa horrível!

 

índia acenou com a cabeça, como se ele pudesse vê-la, e desviaram a conversa para temas mais agradáveis. Paul falou-lhe do livro que estava a ler e dos seus planos relativos à Sicília. Sentia-se excitado com a ida a Veneza, pois nunca levara o barco até lá.

 

Não consigo imaginar nada mais belo do que estar em Veneza a bordo do Sea Star comentou ela, sonhadora, pensando nessa eventualidade.

 

É uma pena que não esteja aqui com o Sam.

 

Ele ia adorar.

 

Também você.

 

Conversaram mais um bocado e depois ele disse que precisava de ajustar umas velas e de verificar o radar. Prometeu, porém, que lhe telefonava na noite seguinte. Tinham falado no Annabelle’s, no Harry’s Bar e no Mark’s Club e de todos os sítios que ele gostava de frequentar em Londres. Contudo, sabia que decorreria muito tempo, antes que lá voltasse.

 

A partir da manhã seguinte, os seus dias de alta roda em Londres terminariam e índia passaria a trabalhar com a polícia, frequentando salas cheias de fumo, vestida de calças de ganga e bebendo café frio.

 

Nessa noite leu algum do material que lhe fora fornecido, para que se familiarizasse com o caso e com os homens que conduziam a operação. Pareciam-lhe monstros e, só de pensar que crianças da idade de Aimee estavam a ser usadas como prostitutas e escravas ficava com o estômago às voltas. Era um mundo que os seus filhos nunca conheceriam, nem podiam ter imaginado. Até a ela, como adulta, lhe parecia impensável e a Paul também.

 

No dia seguinte, teve uma reunião com a polícia, que começou ao meio-dia e ainda durava às oito da noite. Após terem delineado os planos da incursão para o dia seguinte dois dos inspectores levaram-na a jantar a um pub próximo. A conversa revelou-se interessante. Bebiam muito e deram-lhe uma série de informações secretas.

 

Quando voltou ao Claridge’s, esperava-a uma mensagem dos filhos. Tinham ido todos ao cinema e deixavam-lhe beijoS- Havia uma outra de Paul, mas, quando lhe ligou, estava ocupado. Contudo, telefonou-lhe quando ela se preparava para sair, na manhã seguinte.

 

Lamento não a ter atendido a noite passada. Enfrentámos uma tempestade, o vento soprava a cinquenta nós era óbvio, pelo tom de voz, que adorava a situação.

 

índia contou-lhe o que soubera pela polícia e também que fariam a incursão à meia-noite.

 

Pensarei em si, tenha cuidado aconselhou sobriamente.

 

Terei prometeu, pensando como era estranho estar a conversar com ele.

 

Nunca houvera qualquer referência a um romance e, todavia, às vezes ele falava-lhe como um marido. Supunha que se tratava de uma questão de hábito e também por sentir a falta de Serena. Nunca dera a índia qualquer motivo para pensar que estava interessado nela, à excepção de continuar a ligar, mas as conversas mais se assemelhavam a divagações de velhos amigos do que a uma ligação de amantes.

 

Ignoro a que horas me livrarei. Talvez às tantas da manhã.

 

Espero que não desejou Paul, que cada vez se dava mais conta do perigo que ela correria.

 

Os homens que dirigiam a rede de prostituição não iriam entregar-se facilmente e ele sentiu um medo repentino de que pudessem atacar de armas em punho e índia saísse ferida, ou algo mais grave, de todo o processo.

 

Não corra riscos, índia. Que se lixem os louros e a reportagem, se tiver de ser. Não vale a pena recomendou.

 

Mas para ela valia sempre a pena, embora não lho tivesse dito, só que agora também tinha de pensar nos filhos, não era como nos velhos tempos. Estava consciente da realidade e tencionava agir com prudência. Telefone-me seja a que horas for pediu Paul.

Quero saber que se encontra a salvo. Ficarei muito preocupado.

 

Não fique, vou com quinze polícias e uma brigada de assalto.

 

Diga-lhes que a protejam.

 

Claro.

 

Quando desligou, deu um salto ao Hamley’s para comprar uns presentes para os filhos, na sua maioria recordações, e escolheu também um par de sapatos e um chapéu engraçado para Jessica, no Harvey Nichols, voltando a tempo para o encontro com a polícia, ao meio-dia, segundo o combinado.

 

Durante horas, nada mais fez do que ouvi-los, tirar apontamentos e ver fotografias. À meia-noite, quando avançaram, estava tão preparada quanto eles. Foi logo atrás do primeiro grupo, com um colete à prova de bala que lhe tinham fornecido, e a máquina fotográfica pronta a disparar.

 

O espectáculo que se lhes deparou nessa casa de Wilton Crescent, no West End, foi mais confrangedor do que perigoso: rapariguinhas de oito, nove e dez anos, acorrentadas a paredes e amarradas a camas, chicoteadas e maltratadas, drogadas e sendo violadas por indivíduos de todas as idades e aspectos.

 

Para consternação da polícia, apanharam dois conhecidos deputados no meio de toda a cena, mas o mais importante era terem detido todos os homens e uma mulher, que dirigiam a rede. índia tirara-lhes dezenas de fotografias e das crianças também. A maioria das rapariguinhas nem sequer falava inglês, haviam sido trazidas do Médio Oriente e de outros lugares, depois de vendidas pelos pais. Foram enviadas para instituições e hospitais infantis, a fim de as examinarem e tratarem. Havia mais de trinta e índia sabia que o caso daria uma história fantástica, embora lhe doesse o coração só de as olhar.

 

Ela própria trouxera uma cá para fora, uma menina mais ou menos da idade do Sam, com queimaduras e marcas de chicote por todo o corpo. A criança chorava sem parar quando índia lhe pegou e a levou até à ambulância. Um homem gordo, enorme e horrível, com uns sessenta anos, acabara de fazer sexo com ela, quando Índia a agarrou. Tivera vontade de lhe bater com a máquina, mas a polícia avisara-a de que não lhe tocasse.

 

Está bem? perguntou Paul ansioso, quando lhe ou viu a voz.

 

Fiel à palavra dada, índia telefonara-lhe mal havia regressado, às seis da manhã. Ele passara a noite a pé, preocupado com ela.

 

- Fisicamente, sim, mentalmente, talvez não. Nem sequer sei como começar a descrever-lhe o que vi esta noite, Paul. Tenho a certeza de que jamais esquecerei.

 

- Nem o mundo, depois de verem as suas fotografias. Deve ter sido horrível.

 

- Indiscritível.

 

Contou-lhe parte do que presenciara e ele sentiu-se enojado ao ouvi-la. Lamentava que ela tivesse sido obrigada a assistir àquele espectáculo, mas supunha que vira pior noutros tempos, só que nada de tão confrangedor como as meninas que haviam sido salvas. Também havia rapazes, embora em menor número.

 

- Acha que conseguirá dormir? - quis saber, ainda mais preocupado, mas, pelo menos, índia não ficara ferida.

 

- Não me parece - respondeu com honestidade. Apetece-me andar a pé, tomar um banho, ou fazer qualquer coisa. Se me deitar, vou enlouquecer.

 

- Lamento muito.

 

- Alguém tinha de o fazer, Paul. Fui eu - e falou-lhe depois da menina que levara ao colo até à ambulância e das queimaduras de cigarro que lhe cobriam o corpinho pálido.

 

- É difícil imaginar qualquer homem a fazer coisas dessas a crianças. Já acabou a reportagem? - quis saber Paul.

 

Não obteve a resposta esperada, índia ainda não acabara.

 

Tinha de voltar nos dias seguintes para desvendar o resto.

 

! Disse, porém, que tudo estaria pronto na quinta e apanharia

o avião de regresso a Nova Iorque, na sexta. Estivera quase a perguntar-lhe se queria apanhar o avião para a Sicília e passar uns dias no barco com ele, mas sabia que era impossível.

 

Também não tinha a certeza de se encontrar preparado para a ver. De facto, era bem possível que não, mas faria um esforço caso isso pudesse ajudá-la a esquecer a história. Era realmente um universo bem distante do casamento.

 

Ficaram ao telefone durante muito tempo e o Sol nasceu em Londres, enquanto falavam. Paul sentiu-se como se estivesse ao lado dela e índia sentia-se contente por ter uma pessoa assim com quem conversar. Doug jamais compreenderia o que ela estava a sentir.

 

Por fim, disse-lhe que se metesse num banho quente, tentasse dormir um pouco e lhe telefonasse mais tarde. Depois de falarem, Paul saiu para o convés e fitou o mar, pensando nela. Era tão diferente de Serena em todos os aspectos e, todavia, emanava algo tão poderoso, tão forte e maravilhoso que o aterrorizava. Não tinha ideia do que seria deles, nem do que estava a fazer, e nem sequer queria pensar no assunto.

 

Apenas sabia que precisava de falar com ela, cada vez mais frequentemente. Não conseguia imaginar deixar de a ouvir todos os dias. índia pensava o mesmo enquanto tomava banho e se interrogava sobre onde tudo aquilo iria dar. Como seria quando regressasse a Westport? Não podia telefonar-lhe a toda a hora. Doug veria a conta e interrogá-la-ia

 

Não tinha ideia do que estava a fazer com Paul ou porquê, no entanto, sabia que precisava agora dele, era como uma droga de que se tivesse tornado dependente, sem se aperceber como acontecera. Mas a verdade é que precisavam um do outro, mais do que qualquer um deles estava disposto a admitir, ou sabia.

 

A pouco e pouco, dia após dia, embora afastados, moviam-se devagar ao encontro um do outro. «O que estavam a fazer?», interrogou-se, fechando os olhos e, ao voltar a abri-los, tomou consciência de que se tratava de mais uma pergunta para a qual não tinha resposta.

 

No Sea Star, pensando em índia, e apercebendo-se de como se sentia aliviado por ela se encontrar bem, Paul enfiou as mãos nos bolsos com uma expressão concentrada e regressou devagar à cabina.

 

Nessa semana, índia continuou a trabalhar com a polícia, apurando os pormenores da história. Tirou mais fotografias dos criminosos e mais algumas, confrangedoras, das crianças. Concluiu-se que trinta e nove haviam sido sequestradas e a maioria estava agora em hospitais, instituições e lares adoptivos. Apenas uma, raptada há dois anos, foi devolvida aos pais. As restantes tinham sido abandonadas, vendidas, dadas ou mesmo trocadas. Eram crianças perdidas e índia não conseguia imaginar como alguma vez recuperariam depois de tudo por que passaram.

 

Todas as noites contava a Paul as histórias de horror que presenciara, o que os levava a falarem sobre outras coisas, os valores de ambos, os seus medos e infâncias. Tal como ela, também ele já não tinha pais e era filho único. O pai atingira algum sucesso, mas nada que se lhe comparasse. Paul fora impelido, por estranhas forças, a superar todos os que o rodeavam.

 

Sempre que índia falava do pai e do seu trabalho, Paul não tinha dúvidas de que ela o considerava um herói, mas também estava consciente de que as suas constantes ausências a traumatizaram. Nunca haviam sido uma verdadeira família, pois ele andava sempre fora, o que fazia com que a sua própria vida familiar lhe parecesse agora muito importante, era o elo que a prendia a Doug e o motivo por que não queria perdê-lo, por que fazia tudo o que ele dizia, seguia todas as suas ordens, cumpria todas as suas expectativas. Não queria que os filhos tivessem uma vida sem pai.

 

Embora a mãe sempre tivesse trabalhado, índia nunca dera importância ao que ela fazia, era o pai que constituíra a figura central da família e cuja ausência, quando morreu, quase os destruíra. Contudo, também reconhecia que a pressão Provocada pelo estilo de vida e o trabalho dele tinha posto ein causa o casamento dos pais. A mãe nunca fizera do marido o herói que a filha o considerava, zangava-se muitas vezes com ele, e índia sabia que aquelas longas ausências haviam causado muitas dores de cabeça à mãe, razão por que se sentia muito nervosa quanto a seguir-lhe as pisadas e por que deixara que Doug a forçasse a abandonar uma vida e uma carreira que tanto significavam para ela

 

No entanto e da mesma maneira que o pai nunca conseguira abandonar a droga que era o seu trabalho e a paixão que lhe votara, também ela, embora tivesse reprimido durante muito tempo esses sentimentos, acabara por regressar e descobrira nos últimos dias até que ponto se sacrificara E, ao tirar as fotografias aos rostos devastados daquelas crianças sabia que, fosse como fosse, estava a impor uma diferença. Ao mostrar aquela dor ao mundo, através da sua objectiva e dos seus próprios olhos, contribuía definitivamente para que tais dramas não se repetissem, fazia com que as pessoas sentissem toda a agonia daquelas inocentes. Era precisamente o que o pai conseguira com o seu trabalho e por isso ganhara um merecido Pulitzer.

 

Era a sua última noite em Londres. Acabara a reportagem e partia de manhã. Não vira Paul durante a sua permanência ali, mas, de certa forma, sentia-se como se tivessem passado a semana juntos. Haviam feito descobertas um sobre o outro que ela nunca dissera, nem sonhara a seu respeito, ou suspeitara remotamente sobre ele. Paul mostrara-se de uma enorme franqueza em relação aos seus sonhos, os pensamentos mais privados e os anos passados com Serena. O retrato que pintou da falecida mulher ensinou muita coisa a índia, não só sobre ela, mas sobre Paul e as suas necessidades

 

Serena havia sido muito poderosa, tinha-o incitado em inúmeros aspectos rumo ao sucesso, e apoiara-o sempre que as dúvidas o assaltavam. Representara uma força presente atrás dele e raramente recorrera à sua ajuda, não queria depender demasiado do marido e, embora Paul fosse o seu maior amigo, receava prender-se excessivamente a ele ou a qualquer outra pessoa. Haviam sido companheiros, mas elanunca o mimara, nem a ninguém, como índia fazia com todos os que a rodeavam.

 

Paul encontrara na sua nova amiga, um manancial de calor, ternura e conforto, confiava na mão que ela lhe estendia. As duas mulheres não podiam ser mais diferentes uma da outra.

 

A bondade de Índia era o que o mantinha agora à tona de água, tal como a força que ele lhe oferecia parecia essencial à sobrevivência dela.

 

«Para onde iam?», era a pergunta que se colocava a ambos neste momento. Nessa noite, Paul telefonou antes de ela se ir embora e parecia mais só do que o habitual.

 

Liga-me quando regressar? perguntou.

 

Ela nunca o fizera, era sempre ele a telefonar. Todavia, até mesmo ele tinha consciência de que seria um pouco bizarro contactá-la regularmente para Westport.

 

Não sei se poderei respondeu honestamente, pensando no assunto, deitada na cama do seu confortável quarto do Claridge’s. Não sei muito bem se o Doug compreenderia, aliás, nem eu compreendo muito bem sorriu, desejando que ele clarificasse a dúvida.

 

Paul não podia fazê-lo, ainda estava demasiado embrenhado nas recordações da mulher para saber o que queria de índia, se é que queria alguma coisa. O mais importante entre os dois era a amizade que partilhavam e, embora Paul já não fosse casado, índia ainda o era.

 

Posso telefonar? Quero dizer... tanto como agora? quis ele saber.

 

Ambos se haviam habituado àquelas chamadas diárias. Depois de falar todas as noites aos filhos, índia ansiava pelas suas longas conversas, Mas, de volta a Westport, tudo seria diferente.

 

Acho que sim, pode telefonar-me durante o dia. A diferença horária beneficiava-os, enquanto ele estivesse na Europa. Julgo que devia sentir-me culpada por falar consigo - suspirou, pensando em Doug e no que lhe devia. Não desejaria que Doug fizesse o mesmo... que falasse com outra mulher...

 

Mas também não o trataria como ele o tem feito, pois não?

 

De facto, ambos sabiam que não o faria, sempre o apoiara e mostrara-se generosa, sensata e compreensiva. Cumprira a Cem por cento a sua parte do «acordo» a que Doug se referia constantemente. Fora ele a deixá-la ficar mal, recusando satisfazer as suas necessidades ou compreender os seus sentimentos, e dando-lhe tão pouco calor e conforto.

 

Ele não tem mau fundo, Paul... Fui feliz durante muito tempo, talvez tivesse amadurecido, ou coisa assim. Ficámos tão satisfeitos com os miúdos, ou pelo menos eu, que possivelmente deixei de prestar atenção ao que ele me dava ou não. Nunca me ocorreu dizer: «Espera aí... Preciso mais do que isto...», ou perguntar-lhe se me amava. Agora parece ser tarde de mais. Habituou-se a tão pouco que já não entende que quero mais para mim e dele. Acha-me louca.

 

Não é louca, índia, longe disso tranquilizou-a Paul. Acha que vai conseguir obter o que quer?

 

Não sei era esta a pergunta que fizera a si própria vezes sem conto. Não sei mesmo, penso que ele não me ouve.

 

É louco se não o fizer Paul tinha perfeita consciência de que ela era uma mulher que merecia ser amada.

 

Alguma vez teve problemas do género com Serena? perguntou, pois havia alturas em que ele referia quanto a mulher havia sido exigente e difícil, mas parecia não se importar.

 

Não propriamente. Quando abusava, ela dava-me a entender e quando não lhe oferecia o suficiente, dizia-me. Serena expunha muito claramente as suas necessidades e expectativas, delimitava fronteiras, e acho que isso facilitava o nosso relacionamento. Conhecia sempre o terreno que pisava e aprendi muito com ela. Estraguei por completo a minha primeira ligação, talvez como o Doug, mesmo pior. Andava tão ocupado a fazer carreira e a ganhar dinheiro que deixei morrer a relação e nem me dei conta. Pisei a minha mulher e, como lhe disse, ela ainda me odeia, e não estou assim tão seguro de que não tenha razão. Deu uma gargalhada ao pensar no assunto. Acho que Serena me treinou. Fui bastante idiota.

 

Contudo, se o fora, deixara de o ser e, nesta altura, índia já sabia que ele era não só extremamente sensível, como também dotado de uma perspicácia invulgar e capaz de a expressar.

 

O único problema reside prosseguiu em não conseguir imaginar-me a voltar a fazer tudo isto sem Serena. Tudo funcionava por causa dela, porque ela era quem era devido aos seus poderes e magia. Acho que jamais seria capaz de amar outra mulher. Eram palavras difíceis de ouvir, mas índia acreditava. Nunca voltará a existir outra pessoa igual na minha vida nem tão-pouco tentaria encontrá-la, tomara essa decisão no Sea Star.

 

Pode ser verdade neste momento, mas não sabe o que o futuro lhe reserva contrariou-o índia num tom prudente, imaginando-o na cabina. Não é assim tão velho para desistir. Talvez venha a sentir de outra forma e apareça alguém que considere importante.

 

Não estava a agir em defesa própria, era impossível pensar que, aos cinquenta e sete anos, ele fosse desistir desse aspecto da sua vida. Era tão jovem, tão dinâmico, tão digno e, nesse momento, tão só!

 

Sei que não insistiu num tom firme. Contudo, ela sabia que o tempo poderia ditar outra história.

 

Não precisa de preocupar-se com isso agora redarguiu índia, meigamente, ainda era demasiado cedo para que pensasse noutra mulher.

 

Contudo, telefonava-lhe diariamente e tinham-se tornado amigos íntimos. No tempo que passavam a conversar, havia um toque de algo mais e, embora reivindicassem a neutralidade, reagiam como homem e mulher.

 

Quando pensava no assunto, Paul insistia em que não estava apaixonado por índia, nem a desejava como mulher, eram amigos e ele queria apenas ajudá-la a libertar-se de uma situação difícil. Nunca lhe dissera tudo isto de chofre, mas achava que o seu casamento era um desastre e Doug um filho da mãe.

 

índia estava a ser explorada, ignorada e usada, e ele convencera-se que Doug não lhe atribuía a mínima importância. Se assim fosse, deixaria que ela prosseguisse a sua carreira e iria ao ponto de a ajudar. Tê-la-ia apoiado e, no mínimo, dito que a amava, mas, em vez disso, chantageava-a, ameaçava-a e fechava-a numa caixinha sem ar, para sua própria conveniência.

 

Desprezo era tudo o que Paul sentia por ele. Contudo, não queria dificultar a situação de índia, quando ela voltasse, e prometeu ser cuidadoso quando lhe ligasse.

 

Não pode convencê-lo de que somos amigos? Que sou uma espécie de irmão mais velho?

 

índia riu ante a sugestão e a ingenuidade de Paul Que homem compreenderia tal situação? Sabia, além disso, que Doug a considerava como sua propriedade. Não queria que mais nenhum homem usufruísse o que lhe pertencia, mesmo que fosse somente a nível de diálogo e conforto.

 

Sei que ele não entenderia.

 

Nem tão-pouco ela, porque os seus sentimentos por Paul estavam longe de ser o que sentiria por um irmão, iam muito mais além e tinha essa consciência. Contudo, ele não estava de forma alguma preparado para os enfrentar Quanto mais não fosse, por uma questão de lealdade para com a memória de Serena.

 

Nessa semana, confessara-lhe que sonhara com a mulher, que estava no avião com ela e se salvara E, em sonhos, ela acusava-o de não tentar ajudá-la e de ter sobrevivido, censurava-o por não ter morrido com ela. As implicações psicológicas do sonho eram fáceis de interpretar.

 

É isso o que sente? perguntara índia. Que é culpado da morte de Serena?

 

Censuro-me por não ter viajado com ela respondeu num sufoco e índia percebeu que ele chorava.

 

A culpa não é sua, Paul. Ninguém sabia que tal coisa podia acontecer.

 

Ele sentia um vincado sentimento de culpabilidade por lhe ter sobrevivido e era um dos motivos por que se mantinha escondido no Sea Star. Contudo, Índia sabia que, mais cedo ou mais tarde, Paul teria de enfrentar a realidade e de regressar ao mundo. Era ainda cedo de mais. Serena desaparecera apenas há três meses e ele ainda não estava preparado, só que não poderia esconder-se para sempre

 

Dê tempo ao tempo acrescentou ela ternamente

 

Nunca conseguirei ultrapassar tudo isto, índia in” sistiu teimosamente.

 

Conseguirá, se quiser. O que acha que Serena diria

 

Dava-me um pontapé no traseiro respondeu com uma gargalhada. Se estivesse na minha posição, já teria vendido o barco, comprado um apartamento em Londres uma casa em Paris e recebido amigos, nesta altura. Sempre me avisou de que não faria de viúva desgostosa se eu morresse, portanto de nada valia ter um ataque cardíaco por trabalhar de mais. Dizia que seria uma maçada. Sei que não era bem assim, mas reagiria muito melhor do que eu, acho que provavelmente era mais forte.

 

índia sabia que Paul também era forte, que estava apenas por de mais ligado à mulher e as correntes eram difíceis de quebrar. Continuou a dizer-lhe que conservasse as boas recordações de Serena, a alegria, os momentos divertidos que haviam partilhado, a felicidade que ela lhe proporcionara.

 

Paul ainda não encontrara uma saída. Entretanto, com índia, dispunha de um sítio onde se abrigar, uma mão para agarrar e uma alma para o confortar. Na última semana, sentira que precisava mais dela do que estava disposto a admitir e a ideia de não poder telefonar-lhe sempre que quisesse começava a perturbá-lo. O facto de saber que ela se encontrava em território adverso, preocupava-o, e ainda mais o facto de o inimigo ser o marido. Ele era apenas uma voz ao telefone, um homem com quem ela se encontrara algumas vezes no Verão passado. Não estava, de forma alguma, preparado para ser mais do que isso, mas desejava o que quer que tinham ou haviam descoberto juntos.

 

Telefono-lhe todos os dias, à hora do almoço prometeu, só que tal deixava em aberto o vazio dos sábados e domingos.

 

Ligo-lhe nos fins-de-semana retorquiu, sentindo-se um pouco culpada. Talvez consiga falar de uma cabina pública, quando levar Sam ao futebol, ou algo do género.

 

Havia algo de furtivo em todo o quadro que a perturbava, mas não queria que as suas chamadas aparecessem na conta do telefone, pois por mais inocentes que fossem, sabia que não podia justificá-las diante do marido. Tratava-se do primeiro pacto secreto que estabelecera com alguém, a primeira coisa clandestina que fizera, e, no entanto, ao interrogar-se, sabia que era algo diferente dos encontros que Gail tinha com homens nos motéis.

 

Nessa noite conversaram mais tempo do que o habitual e ambos pareciam muito sós, no final, índia sentia-se como se passasse a última noite em Londres na sua companhia. Os inspectores com quem trabalhara toda a semana tinham-na convidado para sair, mas respondeu que estava demasiado cansada e era verdade. Sentia-se feliz por ficar no quarto a falar com Paul ao telefone.

 

Na manhã seguinte, ficou surpreendida quando ele lhe ligou momentos antes de deixar o hotel. Acabara de fechar a mala.

 

Apenas queria despedir-me e desejar-lhe boa viagem de regresso a casa disse Paul, parecendo um tanto tímido. Por vezes, quando lhe telefonava, voltava a sentir-se uma criança e era uma realidade agradável. Dê um beijo ao Sam por mim.

 

Depois interrogou-se sobre se ela poderia fazê-lo, ou se o filho contaria ao pai. Viviam uma situação estranha. Eram amigos de telefone.

 

Tenha cuidado consigo, Paul repetiu índia. E obrigada...

 

Ele apoiara-a tanto, ao longo daquelas reportagens! Era o campeão da sua causa pelo regresso ao trabalho e apenas o conseguira graças a ele.

 

Não se esqueça de me mandar as fotografias. Dir-lhe-ei para onde. Tinha várias moradas de recepção de correio, bem como de contratos e documentos, que depois lhe enviavam. Estou ansioso.

 

Conversaram mais uns minutos e depois verificou-se um estranho momento de silêncio, enquanto ela contemplava os telhados de Londres através da janela.

 

Vou ter saudades suas pronunciou índia tão baixo que ele quase não a ouviu.

 

Era bom estar em qualquer parte do mundo com ele, mesmo sem o ter visto. Em Westport, sentia-se como se habitasse um outro planeta, mas, pelo menos, podia telefonar-lhe.

 

Eu já tenho retorquiu Paul, esquecido de si e de Serena. Não deixe que ninguém a perturbe; ambos sabiam a quem ele se referia e índia acenou com a cabeça-

 

Não seja tão severo para si próprio...

 

De acordo. Telefono-lhe segunda-feira.

 

Era sexta e esperava-os um longo fim-de-semana sem notícias, excepto se ela ligasse de uma cabina, índia interrogou-se, subitamente, sobre se tal seria possível. Depois de terem passado tanto tempo ao telefone todos os dias, desde que chegara, perguntou a si própria como seria não lhe falar durante alguns dias. Sentia-se só, quando pensava nisso.

 

Tinha de se apressar para apanhar o avião e desligaram. Pensou nele durante todo o caminho até ao aeroporto e, na viagem, manteve-se a olhar pela janela durante muito tempo, reflectindo nas coisas que ele lhe dissera sobre si próprio e Serena.

 

Paul estava seguro de que não voltaria a amar ninguém e uma parte dela não acreditava que assim fosse, mas uma outra interrogava-se sobre se ele estaria apaixonado por ela. Contudo, tratava-se de um pensamento idiota, eram apenas amigos. Foi o que disse sem cessar a si própria durante toda a viagem de regresso aos Estados Unidos. Não interessava o que ela sentia, apenas o que ele dissera e nada mais. Uma amizade.

 

Quando Índia entrou em casa, às cinco e um quarto da tarde de sexta-feira, os filhos estavam todos na cozinha a comer e a meterem-se uns com os outros, e o cão ladrava Ao olhá-los, sentiu como se nunca os tivesse deixado, Londres parecia-lhe um sonho, as reportagens que fizera irreais e a amizade com Paul inexistente. Era esta a sua vida, a sua realidade, a sua existência.

 

Mal a avistou, Aimee deu um berro, Jason e Sam correram na sua direcção e Jessica acenou-lhe com um sorriso de um canto ao outro da boca, enquanto conversava com um dos seus namorados ao telefone. Viu-se, de súbito, com os braços carregados de crianças e percebeu quanto lhes sentira a falta. A vida parecera-lhe tão adulta durante uma semana, tão independente, livre e excitante, mas isto era ainda melhor

 

Uau! Tive saudades vossas, malta! exclamou, abraçando-os e depois eles largaram-na e contaram-lhe os episódios de toda a semana.

 

Sam marcara por duas vezes o golo da vitória no futebol, Aimee perdera mais dois dentes e, segundo eles, Jessica tinha outro namorado. Escutou-os como sempre e, passados dez minutos de festejarem o seu regresso, todos foram para os quartos acabar os trabalhos de casa, telefonar aos amigos ou ver televisão. Às seis da tarde, era como se nunca os tivesse deixado.

 

Levou a mala para o quarto e pôs-se a olhar em volta. Nada mudara, era o mesmo seguro e pequeno mundo e os filhos haviam sobrevivido à sua ausência. Dava-lhe a sensação de que a viagem fora irreal, como um seguimento da sua imaginação.

 

Apenas se tornou realidade ao deparar-se-lhe o rosto de Doug, quando ele chegou a casa, às sete. Parecia uma nuvem carregada e apenas pronunciou um olá entre dentes, antes de se sentarem à mesa para jantar.

 

A baby-sitter ficara para a ajudar e saíra antes de ele voltar. Tinham bife, puré e feijão-verde e a cozinha parecia arrumada. índia, que ainda não despira a roupa de viagem, umas calças de lã preta e uma camisola para não apanhar frio no avião, tentou beijá-lo, mas Doug voltou costas. Não lhe ’ falava desde que ela partira, oito dias antes, na manhã do Dia de Acção de Graças, sempre que telefonara, os filhos tinham ’ dito que ele estava fora ou ocupado e nunca lhe ligara. - Que tal a viagem? - perguntou num tom formal quando se sentou e os miúdos repararam no gelo que se instaurara entre os pais.

 

- Óptima - respondeu índia despreocupada, e falou a todos do casamento.

 

As raparigas mostraram-se particularmente ansiosas por saber pormenores. Contudo, até Jason e Sam ficaram impressionados quando mencionou os reis, rainhas e primeiros-ministros, dizendo que o presidente e a primeira dama tinham estado presentes.

 

- Disseste olá por mim? - perguntou Sam com uma gargalhada.

 

- Claro - anuiu índia com um sorriso - e o presidente respondeu: «Um olá também para o meu amigo Sam.

 

Sam riu e todos estavam de bom humor, excepto Doug, ] que não abandonou a expressão irritada durante todo o jantar. O copo transbordou, por fim, quando subiram as escadas até ao quarto.

 

- Pareces ter-te divertido - observou ele num tom acusador.

 

Í Não conseguia detectar-lhe qualquer remorso, pior ainda, não lograva ver em índia qualquer indício de medo pela contrariedade que lhe causara ou as consequências que podiam advir. Contudo, essa fora uma dádiva de Paul, há muitos anos que ela não se sentia tão bem na sua pele e até mesmo orgulhosa do que conseguira. Mas ao olhar para Doug, quando ele se sentou, um ligeiro estremecimento percorreu-lhe o corpo.

 

- Fiz um bom trabalho - declarou calmamente, mas sem qualquer tom de desculpa. Lamentava sobretudo que ele

não soubesse partilhar aquelas boas sensações. - Os miúdos parecem bem.

Era o laço que os unia, a única coisa a que podiam agarrar-se,  pois no resto estavam muito afastados. Doug não lhe tocara, não a abraçara, nem a beijara, estava obviamente demasiado furioso.

 

- Mas não graças a ti - ripostou ele, aludindo ao comentário que ela fizera sobre as crianças. - É interessante que estejas disposta a fazer-lhes o mesmo que o teu pai te fez. Alguma vez pensaste nisso esta semana? - estava a tentar que se sentisse culpada, mas até agora não conseguira.- Uma semana em Londres não é o mesmo que seis meses em Da Nang ou um ano no Camboja. É muito diferente. - Acabarás por fazê-lo, índia. Trata-se apenas de uma questão de tempo. Tenho a certeza - estava a ser insuportavelmente cruel. - Nada disso. Sei muito bem o que pretendo. - Ah, sim? E o que é? Talvez devesses dizer-me. - Apenas uma reportagem ocasional como esta - respondeu simplesmente. - Anda tudo à volta da tua vaidade, certo?, e do teu ego. Não te basta estares aqui a cuidar dos teus filhos, precisas de andar pelo mundo e exibires-te; parecia que ela era uma bailarina de striptease. - Gosto do que faço, Doug, e gosto de ti e dos miúdos. Uma coisa não impede a outra. - Talvez impeça, é o que vamos ver. Tratava-se claramente de uma ameaça e a forma como ele falou irritou-a. Sentia-se cansada da viagem, para ela eram duas da manhã e Doug mostrara-se insuportável desde que chegara. - O que significa isso? Estás a ameaçar-me? - retorquiu, cada vez mais furiosa ante as palavras dele. - Sabias o risco potencial que corrias, quando nos abandonaste no Dia de Acção de Graças. - Não vos «abandonei», Doug, fiz o jantar de Acção de Graças na noite antes de me ir embora e os miúdos adoraram.

 

- Eu não, e tu sabias.

 

- Nem tudo gira à tua volta, Doug. - Era o que mudara entre eles. Pelo menos agora, também tinha de pensar em si. Porque não deixas que tudo siga o seu curso normal, como eu? Os miúdos estão óptimos, foi apenas uma semana das nossas vidas e adorei. Não consegues perceber? continuava a batalhar para que ele a ouvisse, mas, na verdade, a felicidade dela em nada lhe interessava.

 

Só vejo um estilo de vida que não me agrada, é esse o problema, índia.

 

Ante aquelas palavras, teve consciência de que se tratava de a controlar. Doug sentia-se furioso ante o que considerava a sua insubordinação e traição. Mas não queria ser controlada por ele, queria que ele a amasse e começava a pensar que não era assim, aliás há bastante tempo que tinha essa sensação.

 

Lamento que tenhas feito uma tempestade num copo de água. Porque não esperas para ver o que acontece? Se se tornar demasiado complicado, se for difícil para os miúdos, se nos impossibilitar a vida, falaremos nisso.

 

índia tentava chamá-lo à razão, mas ele não dava ouvidos. O que lhe sugeria era sensato, mas não para ele. Sem lhe dirigir nem mais uma palavra, Doug pegou numa revista e pôs-se a ler, o que colocou ponto final no diálogo. Tanto quanto dizia respeito ao marido, nem valia a pena discutir.

 

índia desfez a mala, deitou-se e desejou telefonar a Paul, mas não podia, nessa altura eram cinco da manhã para ele, onde quer que estivesse, na Sicília, na Córsega, ou rumo a Veneza. Parecia-lhe uma parte de outro tempo, um sonho distante que jamais se tornaria realidade. Era uma voz ao telefone e Doug era o que tinha de enfrentar e com quem viver.

 

No dia seguinte, foi com Sam ao jogo de futebol e ela e o marido evitaram falar-se durante o resto do fim-de-semana. Encontrou-se com Gail, que não se calou sobre as compras de Natal, e depois de ter deixado Sam em casa, índia levou os rolos a Raoul Lopez, à cidade.

 

Almoçaram, ela forneceu-lhe todos os pormenores e ele mostrou-se particularmente excitado em relação à segunda reportagem, pois apercebeu-se de que era uma matéria exPlosiva. No caminho de regresso, às quatro da tarde, fugiu ao trânsito e parou num posto de gasolina. Sabia de cor o número de Paul e trocara vinte dólares em moedas no dia anterior, no aeroporto, para uma eventualidade destas.

 

Boa noite, fala do Sea Star respondeu-lhe uma voz áspera do outro lado

 

Reconheceu-a como sendo do chefe do pessoal, cumprimentou-o e pediu para falar com Paul. Eram dez da noite e desconfiava de que ele estava provavelmente na sua cabina, a ler

 

Ele atendeu-a logo e pareceu feliz por lhe ouvir a voz

 

Olá, índia Como está?

 

Riu e olhou em volta antes de responder

 

Quase congelada, numa cabina telefónica de um posto de gasolina, no caminho de regresso a Westport. Deixei o rolo a revelar na cidade

 

Começara precisamente a nevar

 

Está tudo bem quis saber, preocupado

 

Mais ou menos. Os miúdos estão óptimos e acho que nem sequer deram pela minha falta mas, era tudo muito diferente do que fora na sua infância. Ela ficara só com a mãe, apenas se tinham uma à outra, ao passo que os seus filhos levavam uma vida estável e feliz. Doug não me falou desde que cheguei a casa, excepto para me dizer quanto errei por me afastar. Nada mudou muito por estes lados e apercebia-se de que não mudaria, esta paisagem estéril era agora a sua vida

 

Que tal ficaram as fotografias? Paul ficava sempre excitado com o trabalho dela, sobretudo agora com as reportagens que fizera em Londres

 

Ainda não sei, não quiseram que fosse eu a revelá-las. As grandes revistas tomam a seu cargo o trabalho de laboratório e de editar. Estou de fora

 

Quando as publicam?

 

As do casamento, daqui a uns dias, mas Raoul vendeu as da rede da prostituição a um sindicato internacional e portanto, só aparecem no fim do mês. Como está?

 

Começava a sentir os pés entorpecidos e tinha a sensaÇão de que a mão ficara colada ao telefone, mas não se importava. Sentia-se feliz ao ouvi-lo, era uma voz calorosa e amiga no meio da escuridão da sua vida

 

Óptimo. Começava a pensar que não me telefonaria. sentia-me preocupado fantasiara um encontro romântico dela com o marido, quando chegasse a casa, e ficou um tanto surpreendido ao aperceber-se de que a ideia o enervava.

 

Ainda não parei desde a minha chegada. Esta manhã levei o Sam ao futebol e tive de ir à cidade. Esta noite, vou com os miúdos ao cinema.

 

Tinha de fazer alguma coisa, enquanto Doug a ignorava. Seria muito mais simpático jantar com ele e contar-lhe tudo sobre Londres, mas não havia qualquer hipótese. Em vez disso, estava a telefonar a Paul de uma cabina pública, a fim de ter um adulto com quem trocar impressões.

 

Onde está? quis saber.

 

Saímos agora da Córsega e dirigimo-nos para Sul, rumo ao estreito de Messina, a caminho de Veneza.

 

Quem me dera estar aí consigo disse entusiasmada e logo se interrogou sobre o efeito da frase.

 

Contudo, ele gostara da ideia. Poderiam ter falado a noite inteira, jogado dados, ouvido música e velejado todo o dia. Era uma agradável fantasia para os dois, mas havia vários aspectos por resolver em relação a ambos.

 

Também gostaria de a ter aqui pronunciou num tom rouco.

 

Dormiu bem a noite passada?

 

Conhecedora dos problemas que ele tinha agora, era uma pergunta que lhe fazia sempre e o emocionava.

 

Mais ou menos.

 

Pesadelos de novo? Paul era perseguido pela culpabilidade de sobrevivente e as visões de Serena.

 

Algo do género.

 

Experimente beber leite quente.

 

Preferia soníferos, se os tivesse.

 

Começava a ficar ansioso, pois as noites haviam-se transformado numa longa e agitada batalha, sobretudo nos últimos tempos.

 

” Não faça isso. Tome um banho quente, ou vá até à Ponte e tome conta do leme.

 

. ” Claro, madamme troçou, mais contente do que desejava por lhe ouvir a voz. Sente-se congelada, índia? Acrescentou num tom sensual e terno. Sim, mas vale a pena riu.

 

Havia algo de muito estranho nesta sua atitude furtiva e detestava fazê-lo, mas adorava ouvir-lhe a voz e recordou-se de que aquelas conversas eram inofensivas

 

Está a nevar. Nem sequer consigo pensar que o Natal é daqui a três semanas. Ainda não fiz nada continuou ela, mas no momento em que pronunciou estas palavras, arrependeu-se, pois sabia que, nesse ano, o Natal seria muito doloroso para ele. Não iria a Saint-Moritz, como era seu hábito todos os anos com Serena.

 

Aposto que o Sam adora retorquiu calmamente. Ele ainda acredita no Pai Natal?

 

Mais ou menos. Acho que não, mas receia correr o risco e, portanto, finge que sim para estar do lado seguro; ambos riram e, em seguida, a operadora entrou em linha para pedir mais moedas. Tenho de ir embora, acabou o dinheiro lamentou-se

 

Telefone-me quando quiser. Ligo-lhe na segunda-feira confirmou índia?

 

Parecia prestes a dizer algo importante e ela sentiu um baque no coração. Havia alturas em que se sentiam muito próximos dos limites e ela ignorava o que fazer quando lá chegassem ou, pior ainda, os transpusessem.

 

Sim? arriscou.

 

Mantenha o queixo bem erguido

 

índia sorriu ante as palavras, entre o alívio e o desapontamento. Continuavam em território seguro, mas ela interrogou-se sobre se ali permaneceriam eternamente. Por vezes, tornava-se muito confuso analisar o que sentia. Era casada com um homem que parecia não lhe dar importância e ligava de uma cabina telefónica a outro que se encontrava a muitos quilómetros, preocupando-se com o facto de ele dormir ou não bem De forma inexplicável, era como se estivesse casada com dois homens sem ter uma verdadeira relação com nenhum deles

 

Falo-lhe em breve prometeu, envolta nas nuvens de vapor gelado que invadiam a cabina.

 

Obrigado pelo telefonema agradeceu Paul. Ambos desligaram e permaneceram imóveis muito tempo. Ela pensando no que fazia, dando-se a todo este trabalho para lhe ligar, e ele incitando-a a tal. Ao afastarem-se dos telefones, sentiam-se os dois confusos e felizes por terem falado um com o outro.

 

Quando regressou a Westport, todos a esperavam para começar a jantar e discutiam o filme a ver. Doug estava ocupado com uns documentos que trouxera para casa e não lhe dirigiu palavra, nem lhe perguntou onde tinha ido. Ao olhá-lo, e quando se sentou ao lado dele para jantar, índia sentiu um estremecimento de culpa. «Como se sentiria, se Doug andasse a telefonar a uma mulher, de cabinas?», interrogou-se. «Mas não era bem assim», tranquilizou-se. «Paul era um amigo, um confidente, um mentor», e tomou consciência de que o verdadeiro problema não residia no que Paul lhe fornecia, mas no que Doug não lhe dava.

 

Por fim, o marido resolveu acompanhá-los ao cinema e dirigiram-se a um daqueles enormes complexos que passavam nove filmes diferentes. Ele e os rapazes optaram por algo violento e ela e as raparigas pelo último filme de Julie Roberts. Quando regressaram a casa estavam todos felizes e de bom humor.

 

Malgrado todo o stresse entre ela e Doug, foi um bom fim-de-semana. índia concluiu que tinha de seguir determinados padrões para conseguir sobreviver à solidão. Desde que não discutissem e ele não ameaçasse deixá-la, era um fim de semana decente. Longe, porém, da perfeição e, como prometera, Paul ligou-lhe na segunda-feira.

 

Falou-lhe sobre o filme que haviam visto e do telefonema de Raoul, nessa manhã, a informá-la de que as revistas estavam entusiasmadas com as suas fotografias. Interessou-se pelos sonhos que ele tivera. Paul respondeu-lhe que dormira bem na noite anterior e, em seguida, informou-a de que o livro de Serena estava prestes a sair, aquele com a fotografia de índia na contracapa. Entristecia-o pensar no assunto, era como se ela ainda estivesse ali, quando de facto desaparecera, índia acenava com a cabeça, num total entendimento.

 

Passado algum tempo, ela e Paul desligaram, tendo abordado diversos temas. Nessa tarde, foi buscar os miúdos e fez algumas compras de Natal. Durante as duas semanas seguintes. Paul telefonou para saber as últimas novas, dizer-lhe onde  estava e em que pensava. Começava a recear o Natal e falava mais sobre Serena

 

índia centrava toda a atenção nas suas conversas, e depois nos filhos, quando estava com eles Lidava o melhor que podia com Doug, embora ele continuasse a tratá-la com indiferença desde a fase anterior ao Dia de Graças e se tivesse erguido como que uma parede de vidro a separá-los no quarto Viam-se, mas não se tocavam, nem se aproximavam um do outro. Tinham-se tornado meros companheiros de quarto

 

índia continuava a ter expectativas em relação ao casamento, mas ignorava quais os cordéis a puxar. Mostrava-se disposta a fazer concessões, a um nível racional o que para ela implicava não recusar possíveis trabalhos. No entanto, talvez, com sorte, fossem capazes de passar um Natal pacífico. Assim o esperava, pelos filhos

 

Referiu o assunto uma ou duas vezes a Gail e parecia tão deprimida quanto ela a esse respeito. Contudo, além de um caso que pudesse animar índia e apimentar as coisas, a amiga não tinha mais sugestões que a ajudassem. Ainda não lhe mencionara as suas conversas com o financeiro, conservara-as como o mais obscuro dos segredos. Apenas ela e Paul o sabiam, o que os tornava conspiradores e aliados

 

Acabara, na realidade, de falar com ele, no dia em que Doug irrompeu pela casa, mais cedo do que o habitual e lhe pediu que subissem ao quarto. Não fazia ideia do que o enfurecera tanto, quando ele pousou a pasta na cama, a abriu e lhe atirou uma revista aos pés, com um gesto brusco

 

Mentiste-me acusou, enquanto ela o fitava sem compreender, pensando apenas nos telefonemas a Paul e não havia, realmente, mentido, só os omitira. Não era, porém, isso que o havia perturbado, desconhecia-os inteiramente. Disseste-me que ias a Londres fazer a cobertura de um casamento, exclamou, apontando para a revista que lhe atirara e ela apercebeu-se de que o marido tremia de raiva ante o que vira

 

Fiz a cobertura de um casamento insistiu, parecendo surpreendida e um tanto assustada, pois nunca o vira tão furioso em todos os anos que o conhecera. Mostreias fotografias.

 

A reportagem saíra na semana anterior e as fotos estavam fantásticas. Os miúdos tinham adorado, mas Doug negara-se a vê-las.

 

Então, o que é isto? perguntou, apanhando a revista do chão e agitando-lha diante do rosto, ao mesmo tempo que ela percebia o que se passara: a segunda reportagem devia ter sido publicada. Tirou-lhe a revista das mãos, examinou-a e acenou com a cabeça.

 

Fiz uma outra reportagem enquanto lá estava admitiu num tom calmo, mas com as mãos trémulas.

 

Tinham publicado a peça mais cedo do que esperava. Tencionara dizer-lhe, mas o momento exacto nunca surgira e agora ele enfrentava-a, pálido de morte. Era óbvio que perdera o controlo e não só por ela ter feito uma reportagem sem lhe dizer, mas pelo tema em causa.

 

É o pior lixo que vi em toda a minha vida. Como pudeste tirar fotografias destas e assinar com o teu nome? É pura pornografia, uma sujeira total e sabes bem que sim! Um nojo!

 

É um nojo, e terrível... mas não há nada de pornográfico nelas. É uma peça sobre crianças violentadas. Queria que as pessoas sentissem exactamente o mesmo que tu quanto ao que aconteceu, pretendia que se sentissem enojadas e ultrajadas.

 

Ele provara realmente que ela fizera um bom trabalho, só que não se sentia enojado com os criminosos, mas com ela por ter feito a reportagem, o seu ponto de vista era distorcido.

 

Acho que és perversa por teres participado, índia. Pensa nos teus filhos, como se sentirão quando souberem que fizeste esta reportagem. Terão tanta vergonha de ti, como eu. Ela jamais se apercebera de quanto ele era mesquinho, limitado e arcaico, e tornava-se deprimente ouvir aquele seu discurso.

 

”Espero que não retorquiu calmamente e que

compreendam, ao contrário de ti que quis ajudar a impedir

que crimes terríveis voltassem a acontecer. É esse o meu trabalho e não só tirar fotografias em casamentos. Na verdade,

enquadra-se muito mais na minha maneira de ser do que fazer a cobertura de festas.

 

Acho-te uma pessoa muito doentia ripostou friamente.

 

- E eu julgo que o nosso casamento é muito mais doentio do que eu, Doug. Não compreendo a tua reacção.

 

Enganaste-me. Nunca te teria deixado ir fazer uma coisa destas e é esse, sem dúvida, o motivo por que não me contaste. Foste traiçoeira, índia.

 

Por amor de Deus, Doug. Cresce. Lá fora há um mundo real feito de perigos, tragédias e pessoas terríveis. Se ninguém as denunciar, o que vai impedir essas pessoas de me atingirem, ou a ti ou aos teus filhos? Não compreendes?

 

Só compreendo que me mentiste para tirares fotografias de uma enorme sujeira, prostitutas adolescentes e velhos nojentos. Se é isso o que queres da vida, vai, índia, mas não quero participar e não te acompanho, se é esse o mundo em que queres viver.

 

É a mensagem que me passas constantemente retorquiu, fitando-o, sem querer acreditar no que ouvia. Não havia uma sombra de orgulho, elogio, nenhum reconhecimento pelo que ela podia ter conseguido com a sua reportagem. Nem sequer a vira ainda, mas sabia que se lhe provocara esta reacção seria decerto tão poderosa quanto ela desejara. Julguei que ultrapassasses a situação, pudesses mesmo «perdoar-me» por querer um pouco mais da vida do que ir buscar o Sam ao jogo de futebol, mas começo a pensar que nada vai mudar e me punirás pelo que encaras como ofensas.

 

Não és a mulher com quem casei, índia acusou, e ela fitou-o com uma expressão triste.

 

Sou sim, Doug, agora sou exactamente essa mulher, aquilo em que quiseste que me tornasse. E tentei, Deus sabe que tentei. Acho, porém, que podia ser as duas pessoas, a que desejas e aquela que sempre fui, a que era antes de casar contigo, mas não o permitirás. Apenas queres matar essa pessoa, só te interessa o que podes fazer de mim.

 

Quero o que me deves retorquiu.. Pela primeira vez em dezassete anos, depois do que ele acabara de lhe dizer, sentiu que não lhe devia nada.

 

Devo-te tanto quanto tu a mim, Doug. O que devemos um ao outro é sermos bons para os nossos filhos e viver felizes. Nenhum de nós deve um ao outro a infelicidade de nos forçarmos a ser o que não podemos, ou, pior ainda, de nos privarmos do que nos faz sentir melhor, como seres humanos. Que tipo de «acordo» é esse? Nada de bom.

 

Expressou-se com tristeza e tudo na forma como o olhava dava a entender que se sentia derrotada.

 

Vou-me embora daqui declarou Doug, furioso. Estava enraivecido com tudo o que ela lhe dissera e com a reportagem que fizera em Londres. Tornara-o infeliz nos últimos seis meses e ele cansara-se. Aos olhos dele, índia quebrara todos os acordos a que acedera ao casar-se.

 

Estou farto das tuas merdas acrescentou, tirando uma mala do cimo do roupeiro, abrindo-a em cima da cama e pondo-se a atirar coisas lá para dentro.

 

Nem sequer se importava com o que lá metia, limitando-se a pegar em braçadas de gravatas, peúgas desirmanadas e na roupa interior que encontrava nas gavetas.

 

Vais divorciar-te de mim? perguntou índia, num tom triste.

 

Era uma péssima época do ano para o fazer, embora nenhuma fosse especialmente indicada para decisões desse género.

 

Ainda não sei respondeu, fechando a mala com um estalido seco. Vou ficar num hotel, na cidade. Pelo menos, não terei de fazer este maldito percurso todos os dias para voltar a casa e ouvir queixar-te sobre a tua carreira e como fui injusto para contigo. Para que casaste, afinal?

 

Com algumas palavras deitara pela janela todos os anos que ela lhe havia incansavelmente dedicado e aos filhos. Com um único gesto, estava disposto a desperdiçar dezassete anos do seu casamento. Contudo, índia não tinha ideia do que fazer para o impedir, ou mudar as coisas. Não podia desistir de tudo só para lhe agradar, pois acabaria por causar tanto mal como o que ele estava a provocar agora. Além disso não discordava inteiramente dele, os últimos seis meses haviam sido um pesadelo.

 

Doug desceu pesadamente as escadas e saiu, sem lhe dirigir uma palavra ou aos filhos, que viam televisão na sala, batendo com a porta com força. Índia olhou pela janela e viu-o afastar-se no carro. Começara a nevar.

 

As lágrimas corriam-lhe devagar pelas faces, quando pegou na revista que ele abandonara no chão. Deixou-se cair pesadamente numa cadeira, examinou-a e percebeu que era o seu melhor trabalho, fazendo com que a peça de Harlem, por comparação, parecesse um conto de fadas. Esta reportagem era brutal, tudo aquilo por que estas crianças haviam passado notava-se-lhes nos olhos e nos rostos. Ao folheá-la, índia apenas conseguia pensar que estava satisfeita por a ter realizado, independentemente do que Doug pudesse pensar

 

Passou uma noite longa e solitária, pensando no marido e interrogando-se sobre onde estaria, pois não lhe telefonou a indicar o hotel onde decidira ficar. Manteve-se acordada toda a noite, a pensar nele e em tudo o que acontecera desde Junho. Tinha a sensação de que estavam separados por uma montanha do tamanho do Evereste e não fazia ideia de como escalá-la

 

Às três da manhã, deu uma volta na cama, voltou a consultar o relógio e verificou que já eram nove horas em Veneza. Foi com um peso no coração que marcou o número, pediu para falar com Paul e sentiu-se aliviada ao ouvi-lo

 

Está bem? perguntou ele, parecendo preocupado. Mas que voz! Sente-se doente, índia?

 

Mais ou menos.

 

Começou a chorar, mal pronunciou estas palavras. Era estranho ligar-lhe por causa de Doug, mas precisava de um ombro onde se encostar. Além disso, dificilmente poderia telefonar a Gail, às três da manhã, em Westport

 

Doug abandonou-me esta noite, a todos nós. Está num hotel, na cidade explicou.

 

O que aconteceu?

 

A reportagem sobre as crianças de Londres já foi Publicada. Está óptima, é a melhor que fiz em toda a vida. Achou-a um nojo, chamou-lhe pornografia, afirmou que eu era perversa em cobrir uma coisa do género e, por isso, não me quer. Disse que lhe menti, e é verdade suspirou mas, se lhe tivesse contado a verdade, nunca me deixaria ir em frente. E a verdade, Paul, é que, mesmo depois de tudo isto, sinto-me satisfeita por haver feito o trabalho.

 

Hoje mesmo irei a um dos hotéis daqui para comprar a revista, tratava-se de uma publicação internacional e tinha a certeza de que a encontraria. Quero vê-la.

 

Em seguida, abordou o problema imediato dela:

 

O que vai fazer em relação ao seu marido?

 

Não sei. Esperar, ver como reage, não sei o que hei-de dizer aos miúdos. Se se acalmar, parece-me estúpido contar-lhes, caso contrário, terão de saber, mais cedo ou mais tarde, recomeçou a chorar. Faltam apenas nove dias para o Natal... Por que tinha de se comportar assim nesta altura? Vai estragar-lhes a festa.

 

Fê-lo porque é um safado respondeu Paul, num tom que ela nunca lhe ouvira e magoa-a, desde o dia em que a conheci. Ignoro como era antes, índia, mas estaria inclinado a apostar que o seu casamento só funcionou tanto tempo porque fez todas as concessões; ela apenas recentemente começara a ter essa perspectiva. Pelo que me disse, desde o último Verão que a trata como lixo e o que ouvi nos últimos meses devia chegar para levá-la a abandoná-lo, quer ele o deseje ou não. Estava furioso com o que ela lhe contara. O seu contributo com esta reportagem foi muito importante e sabe-o, é uma pessoa fantástica, uma óptima mãe e estou certo de que foi uma boa esposa. O seu marido não tem o direito de a tratar assim. É uma mulher decente, talentosa, boa e ele não a merece.

 

índia sentia-se como se assistisse à passagem tempestuosa de um comboio expresso, ao ouvi-lo.

 

Estou farto de a ouvir contar como ele a magoa Prosseguiu Paul, que estava lívido. Não tem esse direito e talvez hoje tivesse tomado a atitude certa, que a longo prazo Será uma bênção para si e os miúdos.

 

Contudo, ela ainda não tinha essa certeza, continuava a Sentir o choque, a perda e a vergonha do que Doug lhe dissera- Jamais esqueceria a expressão do rosto dele ao sair de rompante do quarto.

 

Quero que me escute, índia pediu Paul. Vai ficar bem. Tem os seus filhos e o seu trabalho, ele será obrigado a sustentá-la. Não será abandonada, não é como quando morreu o seu pai, é muito diferente

 

Sabia, porque ela lhe contara, que o pai não lhes deixara um cêntimo, quando morrera. Nada tinham e a mãe vira-se obrigada a aceitar trabalhos extraordinários para sobreviverem. Nunca se queixou, mas, durante muito tempo, haviam sentido medo de morrer de fome.

 

Não vai ter problemas. Os seus filhos ficarão bem, você também e apoiar-se-ão uns aos outros.

 

No entanto, se Doug se fosse embora, deixaria de ter um marido e há quase vinte anos que a sua identidade se lhe ligara por completo. Sentia-se como se lhe houvessem arrancado uma parte de si própria, deixando-a com uma ferida aberta, por mais infeliz que a tivesse tornado

 

Não ia ser fácil. «Talvez fosse mais fácil desistir da carreira, encarquilhar-me e morrer por dentro, aceder ao que ele queria», dizia de si para si. Contudo, até ela sabia que não acreditava nisso Agora, só se sentia assustada, mas Paul estava a ajudar. A própria raiva que demonstrava para com Doug levava-a a ver com maior clareza.

 

Também fez com que se interrogasse por um momento sobre se Paul gostaria mesmo dela. Contudo, ele não se pronunciou a esse respeito. Falavam quase todos os dias sobre o que quer que lhe ocorresse, partilhavam os segredos mais íntimos, mas nunca trocaram uma palavra sobre o futuro, e esta não parecia a altura mais indicada para perguntar.

 

- Sabe onde ele está? perguntou Paul, enquanto ela se assoava.

 

Não faço ideia, não telefonou a dizer-me.

 

Acabará por fazê-lo. Talvez seja preferível. Acho que devia ligar a um advogado. índia não se sentia preparada para tomar esta atitude. Havia uma hipótese de Doug se acalmar e voltar e podiam caminhar de mão dada, rumo ao futuro. Acha que consegue dormir um pouco imquiriu compassivo. Desejou estar próximo para a consolar, ela parecia uma criança assustada.

 

Não me parece - já eram quatro da manhã

 

Tente, antes de os miúdos se levantarem. Telefono-lhe de manhã.

 

Obrigada, Paul agradeceu com os olhos novamente cheios de lágrimas. Sentia-se aturdida por tudo o que acontecera, mas ele entendia.

 

Tudo se irá resolver disse-lhe num tom confiante, acreditando mais na vida dela do que na dele.

 

Quando desligaram, índia deixou-se ficar deitada, reflectindo nele, em Doug e em tudo o que acontecera nos últimos seis meses. No escuro da noite, apenas conseguia pensar que agora ficaria sozinha.

 

No barco, Paul fitava tristemente o mar, pensando nela e na forma como o marido a maltratava. Sentia-se preocupado com ela, desejava poder dizê-lo a Doug e também que não voltasse a aproximar-se dela. Contudo, sabia que não tinha esse direito.

 

Passado algum tempo, foi de lancha a Cipriani e encontrou a revista com as fotos. Observou-as no salão, estavam sensacionais e, na sua opinião, Doug era doido em levantar-lhe objecções. Paul sentia-se orgulhoso por ela e ligou-lhe algumas horas depois para lhe dizer isso mesmo.

 

Gosta mesmo delas? retorquiu índia, incrédula e agradada.

 

Doug ainda não telefonara e ela continuava descalça e de camisa de noite, na cozinha, a fazer café. Os miúdos ainda dormiam.

 

Nunca vi algo de tão comovente ou impressionante. Chorei ao ler tudo aquilo.

 

Também eu confessou.

 

No entanto, Doug apenas tivera olhos para a rede de prostituição e, de certa maneira, associara-lhe índia.

 

Conseguiu dormir? inquiriu, com a mesma preoCupação.

 

” Não muito. Mais ou menos uma hora. Adormeci por volta das sete.

 

Tente fazer uma sesta, hoje. Está de parabéns por esta história, índia.

 

Obrigada agradeceu.

 

Falaram mais uns minutos e depois desligaram. Raoul telefonou-lhe um pouco mais tarde e disse-lhe essencialmente o mesmo que Paul.

 

Se não ganhares um Pulitzer por esta reportagem, índia, eu próprio inventarei um prémio para ti. Nunca vi nada com tanta força em fotografia

 

Obrigada

 

O que acha o teu marido? quis saber, seguro de que isto o convenceria, finalmente, a deixá-la fazer o trabalho em que era tão talentosa e a que dava tanta importância

 

Deixou-me

 

Estás a brincar interrogou Raoul, passado um grande bocado

 

Não, não estou Saiu de casa na noite passada

 

É doido Devia passear-te aos ombros

 

Não era preciso

 

Lamento, índia

 

Parecia falar do coração. Sempre gostara dela e nunca entendera a posição que o marido tomara em relação à carreira da mulher

 

Também eu admitiu num tom triste

 

Talvez volte, depois de se acalmar

 

Espero que sim respondeu, mas sem saber realmente o que esperava

 

Além disso, a sua relação com Paul estava a assumir proporções cada vez mais complicadas. Já não sabia se queria continuar com Doug ou se podia pensar que ela e Paul conseguiriam superar os respectivos desgostos e encontrarem-se um ao outro. A esperança, por mínima que fosse, começava a tornar-se apelativa

 

Contudo, ele nunca lhe dera a entender que havia possibilidade, por remota que fosse, de tal acontecer e na maioria das vezes duvidava de que existisse. Não podia trocar um casamento de dezassete anos por uma vaga fantasia com um homem que jurava que não voltaria a olhar para uma mulher na sua vida e estava decidido a passar o resto dos seus dias num veleiro. O que quer que tivesse com Paul era muito importante, mas apenas um fio a que se agarrar. Na verdade era mais amizade do que romance

 

Depois de falar com Raoul, conseguiu levar o dia a bom porto com os filhos e disse-lhes que Doug tivera de sair à cidade para se encontrar com uns clientes. No fim-de-semana não teve notícias dele nem de Paul e, na segunda, telefonou a Doug para o escritório.

 

Como estás? perguntou num fio de voz.

 

Continuo a pensar da mesma forma, se é o que queres saber respondeu, num tom tenso. Nada se alterará, excepto se mudares, índia e ambos começavam a pensar que era improvável.