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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Anjo da Morte / Robin Cook
Anjo da Morte / Robin Cook

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Anjo da Morte

                 

Bruce Wilkinson passou de um sono profundo para ficar totalmente desperto tão subitamente que se sentiu avassalado por uma sensação de medo, como uma criança que acorda de um pesadelo. Não fazia ideia do que o acordara, mas calculou que tivesse sido qualquer barulho ou movimento. Pensou se alguma coisa lhe teria tocado. Deixou-se ficar muito quieto, retendo a respiração e olhando fixamente em frente, à escuta. A princípio, sentiu-se desorientado, mas à medida que se foi apercebendo das coisas que estavam no seu limitado campo de visão, lembrou-se que estava no Boston Memorial Hospital: no quarto 1832, para ser preciso. Sensivelmente no mesmo instante em que se apercebeu onde se encontrava, Bruce deu-se conta também de que era de noite. O hospital estava envolto numa pesada quietude.

Bruce já estava no hospital há mais de uma semana, tendo sido hospitalizado para ser submetido a uma intervenção cirúrgica, para lhe ser feito um bypass cardíaco. Mas cerca de um mês antes passara três semanas num dos pisos inferiores a convalescer de um inesperado ataque de coração. Consequentemente, habituara-se à rotina do hospital. Coisas como o ranger do carrinho de medicação da enfermeira a ser empurrado pelo corredor, ou o som distante de uma ambulância que chegava, ou mesmo o intercomunicador do hospital a chamar o nome de um médico, tinham-se tornado fenómenos tranquilizadores. Com efeito, só de ouvir aqueles sons familiares, Bruce conseguia muitas vezes saber que horas eram sem ter de olhar para o relógio. Todos eles significavam que havia ali à mão ajuda para qualquer emergência médica.

Bruce nunca se preocupara muito com a sua saúde, muito embora sofrésse de esclerose múltipla. O problema de visão que o fizera ir ao médico há cinco anos tinha desaparecido e Bruce havia feito um esforço consciente para se esquecer do diagnóstico, pois tendia a assustar-se com hospitais e médicos. Depois, de repente, teve o ataque de coração, com a inerente hospitalização e a necessidade de ser submetido a uma intervenção cirúrgica. Os médicos tinham-lhe garantido que o seu problema cardíaco não estava relacionado com a esclerose múltipla, mas essa afirmação pouco contribuíra para fortalecer a sua fragilizada coragem.

Naquele momento, ao acordar a meio da noite sem ouvir nenhum dos habituais e tranquilizadores ruídos do hospital, este pareceu-lhe um local aterrorizador e solitário, evocando medo e não esperança. O silêncio era intimidante, não fornecendo qualquer explicação imediata para o facto de ter acordado tão bruscamente. Bruce sentiu-se inexplicavelmente paralisado por uma sensação de agudo terror.

À medida que os segundos iam passando, a boca de Bruce começou a ficar seca, exactamente como acontecera depois de tomar os medicamentos de preparação para a operação, há cinco dias. Atribuiu isto ao medo enquanto continuava ali deitado, perfeitamente imóvel, como um animal desconfiado, com todos os sentidos a procurar detectar qualquer distúrbio. Fazia o mesmo quando era miúdo e acordava a meio da noite ao ter sonhos maus. Se não se mexesse, talvez os monstros não o vissem. Deitado de costas, não conseguia ver muito do quarto, especialmente porque a única luz era a que vinha de uma luz de vigília ao nível do chão, por detrás da sua cama. Só conseguiu ver vagamente o remate do tecto com a parede. Projectada em silhueta contra a parede via a sombra aumentada do suporte, frasco e tubos de soro. O frasco parecia estar a oscilar ligeiramente.

Tentando afastar o medo, Bruce começou a analisar as suas mensagens internas. A pergunta fundamental veio-lhe ao pensamento: estarei bem? Depois de ter sido rudemente traído pelo seu corpo ao sofrer o ataque de coração, interrogou-se se alguma nova tragédia o teria acordado. Teriam rebentado os pontos? Esse tinha sido um dos seus medos imediatamente após a operação. O bypass ter-se-ia solto?

Bruce sentia a pulsação nas têmporas; apesar de as mãos estarem a suar e de uma sensação algo desagradável na cabeça, que associou à febre, sentia-se bem. Pelo menos não tinha dores, especialmente a pressão enorme e dolorosa que sentira ao ter o ataque de coração.

Um pouco a medo, Bruce experimentou respirar fundo. Não sentiu nenhuma dor cortante, embora lhe parecesse ser necessário um maior esforço para encher os pulmões.

Na semiescuridão, uma tosse arranhada e carregada de secreções reverberou no ulterior do quarto. Bruce sentiu-se invadido por uma nova onda de medo, mas apercebeu-se rapidamente de que era apenas o seu companheiro de quarto. Talvez a tosse de Mr. Hauptman tivesse sido o ruído que o acordara, pensou Bruce, sentindo um ligeiro alívio. O velhote voltou a tossir e depois virou-se ruidosamente na cama, ainda a dormir.

Bruce considerou a hipótese de chamar a enfermeira para verificar se Mr. Hauptman estava bem, mais pela oportunidade que teria de falar com alguém do que por achar que havia realmente problema. A verdade é que Mr. Hauptman tossia constantemente daquela maneira.

A desagradável sensação febril tomou-se mais intensa e começou a espalhar-se. Bruce sentia-a no peito como um líquido quente. A preocupação de poder ter acontecido qualquer coisa de mal no “interior” voltou a invadi-lo.

Bruce tentou localizar a campainha para chamar a enfermeira, cujo fio estava entrelaçado nos ferros da cabeceira da cama. Mexeu os olhos, mas sentia a cabeça pesada. Pelo canto do olho viu um movimento rápido em staccato. Olhando para cima conseguia ver o frasco de soro. O movimento que vira era proveniente do soro a correr rapidamente. As gotas caíam em rápida sucessão e a luz de vigília reflectia-se no líquido com um brilho explosivo.

Estranho! Bruce sabia que estava a soro no caso de se verificar uma emergência e era suposto o soro correr o mais lentamente possível. Não devia estar a correr tão depressa. Bruce lembrava-se de o ter verificado antes de desligar a luz de leitura, como sempre fazia.

Tentou chegar à campainha para chamar a enfermeira. Mas não se conseguia mexer. Era como se o seu braço direito não tivesse recebido a ordem. Voltou a tentar, com o mesmo resultado.

Bruce sentiu o seu terror transformar-se em pânico. Agora tinha a certeza de que algo de terrível lhe estava a acontecer! Estava rodeado da melhor assistência médica, mas não conseguia chegar a ela. Tinha de conseguir ajuda. Tinha de conseguir ajuda imediatamente. Era como um pesadelo do qual não podia acordar.

Levantando bruscamente a cabeça da almofada, Bruce gritou pela enfermeira. Ficou surpreendido com a sua voz tão fraca. A sua intenção era gritar e apenas murmurou. Nesse mesmo instante, tomou consciência de que sentia a cabeça extremamente pesada e foi necessária toda a sua força para a manter erguida. O esforço causou uma tremura que fez estremecer a cama.

Com um suspiro quase inaudível, Bruce deixou cair a cabeça sobre a almofada, tentando controlar o pânico. Tentando de novo gritar, ouviu um silvo incompreensível, praticamente sem vocalização. O que quer que o estivesse a afectar estava a agravar-se rapidamente. Sentia como se um invisível cobertor de chumbo estivesse a cair sobre ele, esmagando-o contra a cama. As tentativas que fazia para respirar não passavam de insignificantes e descoordenados movimentos do peito. Completamente aterrorizado, Bruce compreendeu que estava a ficar sufocado.

Conseguiu de alguma forma organizar suficientemente as ideias para se voltar a lembrar da campainha para chamar a enfermeira. Com um horrível esforço ergueu o braço da cama e num gesto descoordenado, espasmódico, passou-o por cima do peito. Era como se estivesse imerso num líquido viscoso qualquer. Os seus dedos tocaram nos ferros e ele procurou em vão a campainha. Não estava lá. Com os últimos vestígios de energia, virou-se pesadamente para o lado esquerdo, rolando e batendo contra a grade de protecção. Ficou com a cara pesadamente comprimida contra o aço frio, que lhe impedia a visão com o olho direito, mas não teve força para se mexer. Via com o olho esquerdo a campainha de emergência. Estava no chão com o fio enrolado sobre si como uma cobra.

A consciência de Bruce encheu-se de pânico e de desespero, mas o peso opressivo sobre o seu corpo aumentou, impedindo qualquer movimento. No meio do seu terror calculou que alguma coisa lhe acontecera ao coração; talvez tivessem rebentado os pontos todos. A sensação de estar a sufocar intensificou-se, enquanto o cérebro de Bruce gritava pelo oxigénio que lhe dava vida. Contudo, Bruce estava totalmente paralisado, conseguindo cpenas grunhir em agonia enquanto tentava desesperadamente respirar. No entanto, no meio de tudo aquilo, os seus sentidos estavam acutilantes e o espírito dolorosamente consciente. Sabia que estava a morrer. Sentiu um zumbido nos ouvidos, uma sensação de profunda náusea. Depois, escuridão...

Pamela Breckenridge trabalhava das onze às sete há mais de um ano. Não era um turno que agradasse à maioria, mas ela gostava. Dava-lhe maior liberdade. Durante o Verão, ia à praia de dia e dormia à tarde. No Inverno, dormia durante o dia. O seu corpo não tinha problemas em adaptar-se a este horário desde que ela dormisse sete horas. Em termos de trabalho, preferia estar de serviço à noite. Havia menos agitação. Há dias que fazem que as enfermeiras se sintam polícias de trânsito, a tentar levar e trazer os doentes às suas numerosas radiografias, electrocardiogramas, análises e cirurgia. Além disso, Pamela gostava da responsabilidade de estar sozinha.

Naquela noite, ao passar pelo longo corredor escurecido, a única coisa que ouviu foram alguns murmúrios, o silvo de um aparelho de respiração assistida e os seus próprios passos. Eram 3 h 45 m. Não havia nenhum médico imediatamente disponível nem tão pouco outras enfermeiras. Pamela trabalhava com duas outras, ambas hábeis veteranas de hospital. As três tinham aprendido a lidar com qualquer número de potenciais catástrofes.

Ao passar pelo quarto 1832, Pamela parou. Na reunião dessa tarde, a enfermeira que saíra de serviço mencionara que o soro de Bruce Wilkinson estava já suficientemente baixo para se pensar em colocar um novo frasco de D5W antes da manhã. Pamela hesitou. Tratava-se provavelmente de uma tarefa que podia delegar, mas dado que estava à porta do quarto e não se preocupava grandemente com questões de hierarquia, decidiu fazê-la ela própria.

Uma tosse farfalhenta soou como uma saudação no quarto fracamente iluminado, fazendo que Pamela sentisse vontade também de tossir para limpar a garganta. Silenciosamente, aproximou-se da cama de Wilkinson. O nível do frasco estava muito baixo e ela sobressaltou-se ao ver o soro a correr a um ritmo extremamente rápido. Havia um frasco novo de D5W em cima da mesa-de-cabeceira. Enquanto substituía o frasco, Pamela sentiu qualquer coisa dura debaixo do pé. Olhou para baixo e viu a campainha. Só quando se baixou para a apanhar é que olhou para o doente, reparando que tinha a cara comprimida contra a grade lateral. Alguma coisa estava mal. Cuidadosamente, voltou Bruce de forma a ficar de costas. Em vez da esperada resistência, Bruce ficou deitado como uma boneca de trapos, com a mão direita numa posição anormal. Pamela inclinou-se mais. O doente não estava a respirar!

Com uma eficiência resultante de longo treino, Pamela carregou no botão da campainha, acendeu a luz junto da cama e afastou a cama da parede. À agreste luz artificial viu que a pele de Bruce tinha uma tonalidade cinzento-azulado, como porcelana chinesa, sugerindo que ele se tinha engasgado com qualquer coisa e asfixiado. Pamela inclinou-se imediatamente, puxou o queixo de Bruce para trás com a mão esquerda, tapou-lhe o nariz com a direita e soprou com força para dentro da sua boca. Por estar à espera de uma obstrução nas vias respiratórias, ficou surpreendida quando o peito de Bruce se ergueu sem esforço. Era evidente que se se tivesse engasgado com qualquer coisa esta já não estava na traqueia.

Procurou apanhar o pulso de Bruce: nada. Tentou detectar pulsação na carótida: nada. Tirando a almofada de debaixo da cabeça de Bruce, deu-lhe uma pancada seca no peito com a palma da mão. Depois debruçou-se novamente sobre ele e voltou a insuflar-lhe ar nos pulmões.

As duas enfermeiras entraram a correr no quarto ao mesmo tempo. Pamela disse uma palavra, “emergência”, e elas entraram em acção como uma equipa altamente eficiente. Rose comunicou rapidamente a emergência através do intercomunicador, enquanto Trudy foi buscar a resistente prancha de sessenta por noventa centímetros que utilizavam para pôr debaixo do doente durante a massagem cardíaca. Assim que Bruce ficou em cima da prancha, Rose subiu para a cama e começou a comprimir-lhe o peito. A cada quarta compressão, Pamela reinsuflava ar nos pulmões de Bruce. Entretanto, Trudy foi a correr buscar o carrinho de emergência e o aparelho de ECG.

Quatro minutos depois, quando o médico de serviço, Jerry Dono-van, chegou, Pamela, Rose e Trudy já tinham o aparelho de ECG montado e a funcionar. Infelizmente, apenas produzia um traço horizontal contínuo. Pelo lado positivo havia a assinalar que a cor de Bruce melhorara ligeiramente em relação ao anterior tom cinzento-azulado.

Jerry viu o traço contínuo no aparelho d? ECG, que indicava não haver qualquer actividade eléctrica, e, como Pamela fizera, deu uma pancada seca no peito de Bruce. Não houve reacção. Verificou as pupilas: muito dilatadas e fixas. Atrás de Jerry estava um estagiário chamado Peter Matheson, que subiu para a cama, substituindo Trudy. Um aluno de medicina desgrenhado, de cabelo comprido, estava junto à porta.

- Há quanto tempo é que está assim? - perguntou Jerry.

- Passaram cinco minutos desde que o encontrei - respondeu Pamela. - Mas não faço ideia de quando é que se deu a paragem cardíaca. Ele não estava ligado ao monitor. Tinha a pele azul-escura.

Jerry assentiu. Hesitou durante uma fracção de segundo sobre se devia ou não continuar a reanimação. Suspeitava que já se tinha verificado a morte cerebral do doente. Mas ainda não conseguira aceitar negar tratamento. Era mais fácil continuar.

- Quero duas ampolas de bicarbonato e também epine-frina - ordenou Jerry, enquanto tirava um tubo endotraqueal do carrinho de emergência. Colocando-se por detrás da cama, deixou que Pamela voltasse a insuflar as ncs pulmões de Bruce. Depois, inseriu o laringoscópio, um tubo endotraqueal e aplicou um balão móvel, que ligou à fonte de oxigénio na parede. Encostando o estetoscópio ao peito do doente e dizendo a Peter que aguardasse um segundo, comprimiu o balão. O peito de Bruce ergueu-se imediatamente.

- Pelo menos tem as vias respiratórias desobstruídas - disse Jerry, mais para si próprio do que dirigindo-se a alguém em especial.

Foram aplicados o bicarbonato e a epinefrina.

- Vamos dar-lhe cloreto de cálcio - disse Jerry, observando o rosto de Bruce a ficar gradualmente num tom normalmente rosado.

- Quanto? - perguntou Trudy, que estava atrás do carrinho de emergência.

- Cinco centímetros cúbicos de uma solução a dez por cento. - Virando-se novamente para Pamela, perguntou: - Por que é que o doente está hospitalizado?

- Cirurgia para bypass - disse Pamela. Rose tinha tirado a papeleta e Pamela folheou-a. - Está no quarto dia de pós-operatório. Tem estado a reagir bem.

- Estava a reagir bem - corrigiu Jerry. A cor de Bruce parecia quase normal, mas continuava com as pupilas muito dilatadas e o traço do ECG era ainda continuamente horizontal.

- Deve ter tido um fortíssimo ataque de coração - disse Jerry. - Talvez uma embolia pulmonar. Disse que estava azul quando o encontrou?

- Azul-escuro - Afirmou Pamela.

Jerry abanou a cabeça. Nenhum destes diagnósticos devia provocar uma cianose tão pronunciada. A sua reflexão foi interrompida pela chegada do cirurgião, tonto de sono.

Jerry descreveu sucintamente o que estava a fazer. Enquanto falava, ergueu uma seringa com epinefrina para eliminar as bolhas de ar, espetando depois a agulha no peito de Bruce, perpendicularmente à pele. Ouviu-se um estalido quando a agulha perfurou algumas faseias. O outro único ruído era o do aparelho de ECG a vomitar papel com um traço contínuo. Quando Jerry puxou o êmbolo para trás, entrou sangue na seringa. Com a certeza de que atingira o coração, Jerry injectou o líquido. Fez um gesto a Peter indicando que este devia recomeçar a comprimir o peito e a Rose para que continuasse a insuflar ar nos pulmões.

Continuava a não haver actividade cardíaca. Enquanto retirava a parte exterior do invólucro estéril que continha o eléctrodo de um pacemaker transvenoso, Jerry arrependeu-se de ter iniciado aquela charada. Sabia intuitivamente que o doente já passara a fase para aquele tipo de intervenção. Mas uma vez que começara, tinha de ir até ao fim.

- Preciso de um intercale catorze - disse Jerry. Com uma compresa com Betadine, começou a preparar o local de incisão, do lado esquerdo do pescoço de Bruce.

- Quer que eu faça isso? - perguntou o cirurgião, falando pela primeira vez.

- Creio que temos a situação sob controlo - disse Jerry, tentando transmitir maior confiança do que aquela que sentia.

Pamela começou a ajudá-lo a calçar as luvas. Preparavam-se para cobrir o doente com panos esterilizados quando uma figura apareceu à porta e afastou o aluno de medicina para entrar. A atitude do estagiário de cirurgia chamou a atenção de Jerry: aquele graxista só não fazia continência! Até as enfermeiras se endireitaram perceptivelmente quando Thomas Kingsley, o cirurgião cardíaco mais reputado do hospital, entrou no quarto.

Vestia um macaco esterilizado e era óbvio que viera directamente do bloco operatório. Aproximou-se da cama e pousou suavemente a mão no antebraço de Bruce, como se apenas por lhe tocar conseguisse descobrir qual era o problema.

- Que é que está a fazer? - perguntou a Jerry.

- Estou a colocar um pacemaker transvenoso - disse Jerry, chocado e impressionado pela presença do Dr. Kingsley. Os médicos do quadro normalmente não davam assistência a paragens cardíacas, especialmente a meio da noite.

- Temos aqui uma paragem cardíaca total, ao que parece - disse o Dr. Kingsley, passando por entre as mãos parte do já enorme ECG. - Não há qualquer sinal de qualquer tipo de bloqueio AV. A hipótese de êxito de um pacemaker transvenoso é infinitesimamente pequena. Creio que está a perder o seu tempo. - O Dr. Kingsley procurou pulsação na virilha de Bruce. Olhou de relance para Peter que nessa altura já estava a suar, e disse: - O pulso está forte. Deve estar a fazer um bom trabalho. - Voltando-se para Pamela, disse:-Tamanho oito, por favor.

Pamela deu-lhe imediatamente as luvas. O Dr. Kingsley calçou-as e pediu o bisturi.

- Importa-se de tirar o penso? - disse o Dr. Kingsley a Peter. A Pamela disse que precisava de tesouras fortes para cortar ligaduras.

Peter olhou para Jerry para obter a sua confirmação, parou de fazer massagem cardíaca e puxou os adesivos e o penso de gaze por cima do esterno do doente. O Dr. Kingsley aproximou-se da cama e passou os dedos pelo bisturi. Sem perda de tempo, enterrou a ponta do bisturi na parte superior da ferida que começara a sarar e, com um movimento decidido, levou-o até à base. Ouviu-se um estalido cada vez que cortava uma das suturas translúcidas de nylon azul. Peter saiu de cima da cama para não atrapalhar.

- Tesoura - disse o Dr. Kingsley num tom calmo, enquanto os outros observavam impressionados e em silêncio. Aquele era o tipo de cena sobre a qual já tinham lido, mas que nunca tinham visto.

O Dr. Kingsley cortou as suturas de arame que uniam o esterno cortado. Ouviu-se um forte estalido. Jerry Donovan tentou olhar para o peito de Bruce, mas o Dr. Kingsley estava a tapar-lhe a visão. A única coisa que Jerry podia ver é que não havia a menor hemorragia.

O Dr. Kingsley meteu cuidadosamente a mão, com os dedos primeiro, dentro do peito de Bruce e agarrou o vértice do coração. Com movimentos ritmados, começou a comprimi-lo, fazendo sinal com a cabeça a Rose sempre que ela devesse insuflar os pulmões. - Verifique agora o pulso - disse o Dr. Kingsley.

Peter avançou obedientemente.

- Forte - disse.

- Preciso de epinefrina, por favor - disse o Dr. Kingsley. - Mas isto não me parece estar nada bem. Creio que o doente fez paragem cardíaca há já algum tempo.

Jerry Donovan ainda pensou em dizer que tivera a mesma impressão, mas decidiu não o fazer.

- Chamem um técnico do departamento de EEG - disse o Dr. Kingsley, continuando a massajar o coração. - Quero ver se há alguma actividade cerebral.

Trudy dirigiu-se para o telefone.

O Dr. Kingsley Injectou a epinefrina, mas viu que esta não teve qualquer efeito no ECG.

- De quem é este doente? - perguntou.

- Do Dr. Ballantine - disse Pamela.

Inclinando-se, o Dr. Kingsley observou a ferida atentamente. Jerry calculou que estivesse a avaliar a reparação cirúrgica. Era do conhecimento geral no hospital que numa escala de um a dez em termos de técnica cirúrgica, Kingsley era dez e Ballantine, apesar de ser director de serviço de cirurgia cardiotoráxica, seria três.

O Dr. Kingsley olhou abruptamente para cima e fixou o aluno de medicina como se o estivesse a ver pela primeira vez.

- Como é que neste momento sabe que não se trata de um caso de bloqueio AV, doutor?

O rosto do aluno ficou branco como a cal.

- Não sei - conseguiu finalmente dizer.

- Resposta segura - disse o Dr. Kingsley com um sorriso. - Bem gostava de ter tido coragem para admitir quando não sabia qualquer coisa quando era aluno de medicina. - Voltando-se para Jerry, peguntou: -Como é que estão as pupilas?

Jerry aproximou-se e levantou as pálpebras de Bruce.

- Exactamente na mesma.

- Dê-lhe outra ampola de bicaibonato - ordenou o Dr. Kingsley. - Parto do princípio de que lhe deu cálcio.

Jerry assentiu.

Houve silêncio durante os minutos seguintes, enquanto o Dr. Kingsley massajava o coração. Depois apareceu à porta do quarto um técnico com um aparelho de EEG arcaico.

- Só quero saber se há alguma actividade eléctrica no cérebro- disse o Dr. Kingsley. O técnico colocou os eléctrodos na cabeça e ligou o aparelho. Os traços correspondentes às ondas cerebrais eram horizontais, à semelhança dos do ECG.

- Infelizmente acabou-se - disse o Dr. Kingsley, tirando a mão do peito de Bruce e descalçando as luvas. - Creio que é melhor alguém chamar o Dr. Ballantine. Obrigado pela vossa ajuda. - E saiu. do quarto.

Por instantes ninguém falou nem se mexeu. O técnico de EEG foi o primeiro a fazê-lo. Mostrando-se pouco à vontade, disse que tinha de voltar para o seu serviço. Arrumou o que trouxera e foi-se embora.

- Nunca vi nada como isto - disse Peter, olhando fixamente para o peito aberto de Bruce.

- Nem eu - corroborou Jerry. - Uma pessoa quase que fica palerma.

Os dois homens aproximaram-se da cama e espreitaram para dentro da ferida.

Jerry tossiu para limpar a garganta.

- Não sei o que será mais preciso para cortar uma pessoa desta maneira, se competência, se autoconfiança.

- Ambas - disse Pamela, tirando a ficha do aparelho de ECG. - Que tal vocês darem-nos espaço para pormos o quarto em ordem. A propósito, esqueci-me de dizer uma coisa. Quando encontrei Mr. Wilkinson, o soro estava a correr rapidamente. E devia estar a correr o mais lentamente possível. - Pamela encolheu os ombros.- Não sei se é ou não importante, mas achei que vos devia dizer.

- Obrigado - disss Jerry distraído. Não estava a ouvir. Meteu delicadamente o dedo indicador na ferida e tocou no coração de Bruce. - As pessoas dizem que o Dr. Kingsley é a um arrogante filho da mãe, mas há uma coisa da qual tenho a certeza. Se eu amanhã precisar de um bypass, quero que seja ele a fazer-mo.

- Ámen - disse Pamela, passando por entre Jerry e a cama para começar a arranjar o cadáver.

 

- Houve um novo internamento ontem à noite - disse Cassandra Kingsley, olhando de relance para o seu relatório preliminar. Sentia-se claramente pouco à vontade por ter sido posta em evidência na reunião com a equipa da manhã da enfermaria de psiquiatria, Clarkson Two. - Trata-se do coronel William Bentworth. Tem quarenta e oito anos, caucasiano, do sexo masculino, divorciado pela terceira vez, mandado internar pelo serviço de urgência no seguimento de uma discussão num bar gay. Estava completamente embriagado e insultou o pessoal do SU.

- Santo Deus!-exclamou Jacob Levine, director interno de psiquiatria, com uma gargalhada. Tirou os óculos de aros metálicos redondos e esfregou os olhos. - A sua primeira noite na psiquiatria e apanha com o Bentworth!

- Baptismo de fogo - disse Roxane Jefferson, a enfermeira-chefe negra e rigorosa da Clarkson Two. - Ninguém pode dizer que a psiquiatria do Boston Memorial é uma rotação maçadora.

- Não é propriamente aquilo a que eu chamo um doente perfeito - admitiu Cassi com um leve sorriso. Os comentários de Jacob e de Roxane faziam-na sentir-se um pouco mais à vontade e aperceber-se de que se cometesse qualquer argolada durante o seu relatório, todos a desculpariam. Bentworth não era propriamente um desconhecido na Clarkson Two.

Cassi estava a fazer o estágio da especialidade de psiquiatra há menos de duas semanas. Novembro não era a altura habitual para começar a especialidade. Cassi só decidira mudar de patologia para psiquiatria já depois do início do ano curricular, em Julho, e isso apenas fora possível por um dos estagiários do primeiro ano ter desistido. Nessa altura Cassi pensou que tivera uma sorte extraordinária. Naquele momento já não estava tão certa disso. Iniciar o estágio sem outros colegas igualmente inexperientes era mais difícil do que previra.

Os outros estagiários do primeiro ano tinham uma vantagem de quase cinco meses sobre ela.

- Aposto que o Bentworth te mimoseou com algumas palavras especiais quando apareceste - disse Joan Widiker num tom compreensivo. Joan era a estagiária do terceiro ano que estava a dirigir o serviço de consultas de psiquiatria e que simpatizara com Cassi desde o início.

- Não gostaria de ter de as repetir - admitiu Cassi, assentindo para Joan.- Para ser franca, recusou-se de todo a falar comigo, a não ser para me dizer o que achava da psiquiatria e dos psiquiatras. Mas pediu-me um cigarro, que eu lhe dei por achar que talvez o descontraísse, mas em vez de o fumar, encostou o cigarro aos braços. Até eu conseguir ajuda, queimou-se em seis sítios.

- É de facto um homem encantador - disse Jacob. - Cassi, devia ter-me chamado. A que horas é que ele deu entrada?

- Às duas e trinta da manhã - disse Cassi.

- Retiro o que disse - disse Jacob. - Procedeu muitíssimo bem. Todos se riram, incluindo Cassi. Ali não existia a competição

hostil que marcara todos os seus anos de estudo. Também não havia os comentários semi-respeitosos, semi-invejosos, que tinham envolto as suas relações no Boston Memorial desde o seu casamento com Thomas Kingsley. Cassi esperava poder recompensá-los pelo seu apoio.

- De qualquer forma - disse ela, tentando organizar as ideias -, Mr. Bentworth, ou talvez deva dizer o coronel Bentworth, do Exército dos Estados Unidos, deu entrada fortemente intoxicado com álcool, sofrendo de ansiedade alternada com um certo estado de depressão, ira fulminante, comportamento automutilante e um dossier de quatro quilos dos seus anteriores internamentos.

O grupo voltou a rir à gargalhada.

- Um ponto a favor do coronel Bentworth é que ajudou a preparar uma geração de psiquiatras - disse Jacob.

- Tive essa sensação - admitiu Cassi. - Tentei ler as partes mais importantes do dossier. Creio que é do tamanho da Guerra e Paz. Pelo menos, impediu-me de fazer papel de parva arriscando um diagnóstico. Foi-lhe diagnosticado distúrbio de personalidade-fronteira com curtos estados psicóticos ocasionais.

- O exame físico revelou múltiplas contusões no rosto e uma pequena laceração no lábio superior. O resto do exame físico foi normal, à excepção das queimaduras auto-inflingidas. Tinha cicatrizes ligeiras em ambos os pulsos. Recusou-se a cooperar num exame neurológico completo, mas tinha orientação quanto a tempo, local e a si próprio. Como este último internamento era uma repetição exacta do anterior em termos de sintomas e como nessa altura lhe tinha sido ministrado sódio amital com bons resultados, foi-lhe injectado meio grama lentamente por via endovenosa.

Praticamente no mesmo instante em que Cassi terminara o seu relatório ouviu-se o seu nome através do intercomunicador do hospital. Ia a levantar-se instintivamente, mas Joan travou-a, dizendo que o funcionário da enfermaria atenderia.

- Acha que o coronel Bentworth é um caso de risco de suicídio? - perguntou Jacob.

- Francamente, não - disse Cassi, com plena consciência de que estava a utilizar um subterfúgio. Sabia bem que a sua capacidade de avaliar o risco de suicídio era aproximadamente igual à do homem da rua. - Queimar-se com o cigarro foi um acto mais automutilador do que atrtodestruidor.

Jacob enrolou com os dedos uma madeixa do seu cabelo frisado e olhou de relance para Roxane, que estava na Clarkson Two há mais tempo do que qualquer um dos outros. Era tida como sendo uma autoridade em várias coisas. Aquela era outra das razões pelas quais Cassi gostava de estar no serviço de psiquiatria. Não tinha a estrutura rígida que havia em todo o resto do hospital, na qual os médicos estavam invariavelmente no topo. Médicos, enfermeiras, auxiliares, faziam todos parte da equipa da Clarkson Two e eram respeitados como tal.

- Tenho tido tendência para ignorar a distinção - disse Roxane -, mas suponho que exista diferença. Mesmo assim, devemos ter cuidado. Ele é um homem extremamente complexo.

- Essa é uma definição simplista - disse Jacob. - O tipo teve uma ascensão meteórica no Exército, especialmente durante as suas múltiplas campanhas no Vietnam. Foi mesmo condecorado várias vezes, mas quando observei o seu registo militar pareceu-me que morreu sempre um número desproporcionado dos seus próprios homens. Os seus problemas psiquiátricos pareceram só se revelarem quando atingiu o seu actual posto de coronel. Foi como que o sucesso o tivesse destruído.

- Voltando ao risco de suicídio- disse Roxane, dirigindo-se-a Cassi. - Creio que o grau de depressão é o aspecto mais importante.

- Não era uma depressão típica - disse Cassi, sabendo que se estava a aventurar numa área em que não estava segura. - Disse que se sentia mais vazio do que triste. Num determinado momento mostrava-se deprimido e no momento seguinte tinha um acesso de ira e de linguagem abusiva. O seu comportamento era inconsistente.

- Nem mais - disse Jacob. Esta era uma das suas frases preferidas e o seu significado prendia-se com a forma como acentuava as palavras. Naquele caso esta contente. - Se se tivesse de escolher uma palavra para caracterizar um doente com personalidade-fronteira, creio que “inconsistente” seria a mais apropriada.

Feliz, Cassi absorveu o elogio. O seu próprio ego tinha tido muito pouco com que se alimentar durante a última semana.

- Bom - disse Jacob -, quais são os seus planos para o coronel Bentworth?

A euforia de Cassi desapareceu. Nessa altura, um dos estagiários disse:

- Acho que a Cassi deve fazer que ele deixe de fumar. O grupo riu e a tensão de Cassi evaporou-se.

- Os meus planos para o coronel Bentworth - disse Cassi - são... - e fez uma pausa - que tenho muito que ler este fim-de-semana.

- Certo-disse Jacob. - Entretanto, recomendaria um curto período de forte sedação. Os casos fronteira não se dão bem com uma medicação prolongada, mas esta pode ajudá-los durante períodos psicóticos transitórios. Bom, que mais aconteceu ontem à noite?

Susan Cleaver, uma das enfermeiras psiquiátricas, continuou o relatório. Com a sua habitual eficiência, Susan resumiu todos os acontecimentos significativos ocorridos desde o fim da tarde do dia anterior. O único acontecimento fora do vulgar fora um episódio de violência física sobre uma doente chamada Maureen Kavenaugh. O marido tinha aparecido numa das suas raras visitas. O encontro pareceu correr bem durante algum tempo, mas houve uma discussão seguida de violentas estaladas dadas por Mr. Kavenaugh. O episódio ocorreu no meio da sala dos doentes e perturbou seriamente outros doentes. Mr. Kavenaugh teve de ser dominado e expulso da enfermaria. A mulher foi colocada sob sedação.

- Falei com o marido várias vezes - disse Roxane. - É motorista de camião e pouco ou nada entende do estado da mulher.

- E o que é que sugere? - perguntou Jacob.

- Creio que Mr. Kavenaugh deve ser motivado a visitar a mulher, mas apenas quando alguém estiver presente - disse Roxane. - Não creio que Maureen consiga manter o estado de remissão a não ser que se consiga que ele colabore de alguma forma na terapia, e creio que vai ser difícil obter a sua cooperação.

Cassi observou e escutou enquanto toda a equipa de psiquiatria participava. Quando Susan terminou, cada um dos estagiários teve oportunidade de discutir o caso dos seus doentes. Depois, a terapeuta ocupacional, seguida da assistente psicossocial, teve oportunidade de falar. Finalmente, o Dr. Levine perguntou se havia mais algum problema. Ninguém disse nada.

- OK! - disse o Dr. Levine. - Falarei convosco durante a visita à enfermaria.

Cassi não se levantou logo. Fechou os olhos e respirou fundo. A ansiedade provocada pela reunião da equipa tinha ocultado o seu cansaço, mas agora que a excitação terminara sentia-se completamente arrasada. Só dormira três horas. E para Cassi o descanso era importante.

Como seria bom deitar a cabeça sobre o braço ali mesmo na mesa de reuniões.

- Aposto que estás cansada - disse Joan Widiker, pondo a mão sobre o braço de Cassi. Foi um gesto caloroso e tranquilizador.

Cassi conseguiu sorrir-lhe. Joan interessava-se verdadeiramente pelos outros. Mais do que qualquer outra pessoa, arranjara tempo para tornar a primeira semana de Cassi como estagiária de psiquiatria o mais fácil possível.

- Eu aguento-me - disse Cassi. Depois acrescentou: - Espero.

- Claro que aguentas - assegurou-lhe Joan. - Na realidade, saíste-te maravilhosamente bem esta manhã.

- Achas mesmo? - perguntou Cassi. Os seus olhos verdes animaram-se.

- Em absoluto - disse Joan. - Até conseguiste arrancar uma espécie de elogio ao Jacob. Ele gostou da tua descrição do coronel Bentworth como sendo inconsistente.

- Não me faças lembrar isso - disse Cassi num tom desanimado. - A verdade é que não identificaria um caso fronteira de distúrbio de personalidade mesmo que estivesse sentada ao lado dele a jantar.

- Provavelmente, não - concordou Joan. - Nem muitas outras pessoas, desde que o doente não estivesse a atravessar um estado psicótico. Os casos fronteira podem ser compensados relativamente bem. Pensa no Bentworth. É coronel do Exército.

- Esse facto incomodou-me - disse Cassi. - Também não me pareceu consistente.

- O Bentworth perturba qualquer pessoa - disse Joan, apertando ligeiramente o braço de Cassi num gesto de apoio. - Anda, ofereço-te um café. Estás com ar de quem precisa.

- E preciso mesmo - concordou Cassi. - Mas não sei se deva perder tempo.

- Ordens do médico - disse Joan, levantando-se. Enquanto iam pelo corredor, acrescentou: -Apanhei o Bentworth no meu primeiro ano de estágio e tive a mesma experiência que tu. Portanto, sei como te sentes.

- A sério? - exclamou Cassi já mais animada. - Não quis admiti-lo na reunião, mas achei o coronel assustador.

Joan assentiu.

- Olha, o Bentworth é perigoso. É mau e é esperto. Tem forma de saber como é que há-de atingir as pessoas: descobrindo-lhes os pontos fracos. Esse poder, conjugado com a sua ira e hostilidade acumuladas, pode ser devastador.

- Fez-me sentir completamente incapaz - disse Cassi.

- Como psiquiatra - corrigiu Joan.

- Como psiquiatra - concordou Cassi.- Mas é isso que é suposto eu ser. Talvez ajude eu ler algumas histórias de casos semelhantes.

- Há muito que ler - disse Joan. - Demasiado. Mas é um pouco como aprender a andar.de bicicleta. Pode-se ler tudo sobre bicicletas durante anos, mas quando uma pessoa finalmente tenta andar numa, não consegue. A psiquiatria é tanto um processo como um conhecimento. Anda, vamos lá tomar o café.

Cassi hesitou.

- Talvez seja melhor eu voltar ao trabalho.

- Não tens nenhuma reunião de doentes marcada para agora, pois não? - perguntou Joan.

- Não, mas...

- Então vem. - Joan pegou-lhe no braço e recomeçaram a andar.

Cassi deixou-se levar. Queria estar com Joan. Era não só animador como instrutivo. Talvez Bentworth estivesse disposto a falar depois de uma noite de descanso.

- Deixa-me dizer-te uma coisa sobre Bentworth - disse Joan como se tivesse lido o pensamento de Joan. - Todos os que conheço que o trataram, incluindo eu própria, estavam convencidos de que o curariam. Mas os casos fronteira em geral, e o coronel Bentworth em particular, não se curam. Podem ficar progressivamente melhor compensados, mas não curados.

Ao passarem pelo balcão das enfermeiras, Cassi deixou ficar lá o dossier de Bentworth e perguntou por que é que fora chamada pelo intercomunicador.

- Era o Dr. Robert Seibert - disse a auxiliar. - Pediu que lhe telefonasse assim que pudesse.

- Quem é o Dr. Seibert? - perguntou Joan.

- É interno de patologia - respondeu Cassi.

- Como disse assim que pudesses, acho melhor telefonares já - disse Joan.

- Não te importas?

Joan abanou a cabeça e Cassi deu a volta ao balcão para utilizar o telefone que estava junto dos cacifos das papeletas dos doentes. Roxane dirigiu-se a Joan.

- É boa rapariga - disse a enfermeira. - Acho que vai ser bom tê-la cá. - Joan assentiu e ambas concordaram que a insegurança e ansiedade de Cassi eram resultado do seu empenhamento e dedicação.

- Mas ela preocupa-me um pouco - acrescentou Roxane. - Parece ter uma vulnerabilidade especial.

- Creio que se vai sair bem - disse Joan. - E não pode ser fraca de mais estando casada com Thomas Kingsley.

Roxane sorriu e afastou-se. Era uma mulher negra, alta e elegante, que impunha respeito pelo seu intelecto e sentido de estilo. Ainda antes de se tornar moda já usava o cabelo em pequenas tranças junto à cabeça.

Enquanto Cassi desligava o telefone, Joan observou-a com atenção. Roxane tinha razão. Cassi parecia frágil. Talvez fosse por causa da sua pele pálida, quase translúcida. Era esguia, mas graciosa, com pouco mais de um metro e sessenta. Tinha o cabelo fino, mas de tons diferentes, variando entre castanho-claro brilhante e louro, conforme o ângulo e a luz. Enquanto trabalhava usava-o apanhado, preso com pequenas travessas e ganchos. Mas devido à sua textura, este caía-lhe em leves farripas em volta do rosto. Tinha feições pequenas e um rosto estreito e os olhos eram ligeiramente rasgados para cima nos cantos, dando-lhe um ar ligeiramente exótico. Usava pouca maquilhagem, o que fazia que parecesse mais nova do que os seus vinte e oito anos. Andava sempre cuidadosamente vestida, mesmo que tivesse passado praticamente toda a noite a pé, e naquele dia usava uma das suas muitas blusas brancas de gola alta. Joan achava que Cassi parecia uma jovem senhora numa fotografia da era vitoriana.

- Em vez de irmos tomar café, que tal dares um salto comigo à patologia? - perguntou Cassi num tom entusiasmado.

- Patologia - disse Joan com alguma relutância.

- Estou certa de que lá há café - disse Cassi, como se fosse essa a razão da hesitação de Joan. - Anda lá. Talvez aches interessante.

Joan deixou-se levar pelo corredor principal até à pesada porta contra incêndios que dava para o hospital propriamente dito. Não havia portas fechadas à chave na Clarkson Two. Era uma enfermaria “aberta”. Muitos dos doentes não estavam autorizados a sair da enfermaria, mas o cumprimento dessa indicação cabia-lhes a eles. Sabiam que se ignorassem as regras se arriscavam a ser mandados para o hospital do Estado, e aí o ambiente era insignificativamente diferente e muito menos agradável.

Quando a porta se fechou atrás de si, Cassi sentiu uma sensação de alívio. Contrastando fortemente com a enfermaria de psiquiatria, no edifício principal do hospital era fácil de distinguir entre médicos, enfermeiras e doentes. Os médicos usavam fatos vulgares ou batas brancas, as enfermeiras usavam os seus uniformes e os doentes, pijamas do hospital. Na Clarkson Two toda a gente usava vestuário vulgar de ir à rua.

Enquanto Cassi e Joan se dirigiam para os elevadores principais, Joan perguntou:

- Como é que foi o teu estágio na patologia? Gostaste?

- Adorei - disse Cassi.

- Espero que não leves a mal - disse Joan a rir -, mas não te pareces nada com nenhum patologista que eu conheça.

- É sina minha - disse Cassi. - Primeiro, ninguém acreditava que eu era aluna de medicina; depois, disseram que eu parecia demasiado nova para ser médica, e ontem à noite o coronel Bentworth foi tão simpático que me disse que eu não parecia psiquiatra. Que é que achas que pareço?

Joan não respondeu. A verdade é que Cassi parecia mais bailarina ou modelo do que médica.

Juntaram-se ao grupo de pessoas que estava junto aos elevadores principais de Scherington, o edifício principal do hospital. Só havia seis elevadores, o que se veio a verificar ter sido uma falha de arquitectura. Por vezes esperava-se dez minutos por um elevador e depois parava-se em todos os andares.

- Que é que te levou a mudar de especialidade? - perguntou Joan, mas assim que fez a pergunta arrependeu-se. - Não precisas de me responder. Não era minha intenção ser intrometida. Creio que foi a minha faceta de psiquiatra.

- Não faz mal - disse Cassi num tom afável. - Na verdade foi bastante simples. Tenho diabetes juvenil. Ao escolher a minha especialidade tive de levar em consideração essa realidade. Tenho tentado ignorar o problema, mas é de facto uma limitação.

O embaraço de Joan aumentou devido à franqueza de Cassi. No entanto, por mais embaraçada que se sentisse, achou que era pior não corresponder à honestidade de Cassi.

- Nessas circunstâncias, acharia que patologia seria uma boa escolha.

- Inicialmente também achei - disse Cassi. - Mas, infelizmente, o ano passado, comecei a ter problemas de visão. Na realidade, só consigo distinguir luz e sombra com o olho esquerdo. Sabes com certeza tudo sobre retinopatia diabética. Não sou derrotista, mas se se verificar o pior, poderei exercer psiquiatria mesmo cega. Patologia já não. Anda, vamos apanhar aquele primeiro elevador.

Cassi e Joan foram empurradas para dentro do elevador. A porta fechou-se e começaram a subir.

Há anos que Joan não se sentia tão incomodada, mas achou que tinha de continuar a conversa.

- Há quanto tempo tens diabetes?

Essa simples pergunta fez Cassi recuar no tempo. Até à altura em que tinha oito anos e a sua vida começou a mudar. Até essa altura, Cassi sempre gostara da escola. Era uma criança viva e entusiástica que parecia antecipar com prazer novas experiêncis. Mas a meio da terceira classe tudo mudou. No passado, estava sempre pronta cedo para ir para a escola; depois, passou a ter de ser a mãe a obrigá-la a despachar-se. A sua capacidade de concentração diminuiu e começaram a aparecer bilhetes da professora nesse sentido. Um dos problemas principais, uma coisa que ninguém deu por isso, nem sequer a própria Cassi, era que ela tinha de ir cada vez mais frequentemente à casa de banho. Passado algum tempo, Miss Rossi, a professora, começou a recusar os pedidos de Cassi, suspeitando de que ela utilizava as idas à casa de banho para evitar trabalhar. Quando isso aconteceu, Cassi sofreu um medo horrível de não conseguir controlar a bexiga. Imaginava a cena se tivesse “um acidente” e a urina escorresse pelo banco e fizesse uma poça no chão. Este medo provocou-lhe ira e a ira, ostracismo. Os outros garotos começaram a troçar de Cassi.

Em casa, um episódio de ter molhado a cama surpreendeu e chocou quer Cassandra quer a mãe. Mrs. Cassidy exigiu uma explicação, mas Cassandra não tinha qualquer explicação para lhe dar e ficou igualmente horrorizada. Quando Mr. Cassidy sugeriu que consultassem o médico de família, Mrs. Cassidy estava demasiado agastada para concordar, convencida de que tudo aquilo se devia a perturbações de comportamento.

Castigos vários não tiveram qualquer efeito, perdeu os amigos que lhe restavam e passava a maior parte do tempo no quarto. Mrs. Cassidy começou relutantemente a pensar em consultar um psicólogo infantil.

O problema atingiu o auge no início da Primavera. Apenas meia hora depois do intervalo, Cassi começou a sentir simultaneamente uma crescente pressão na bexiga e sede. Prevendo a recusa de Miss Rossi por ser tão perto do intervalo, Cassi tentou em vão esperar que a aula terminasse. Contorceu-se na cadeira e cerrou as mãos com toda a força. A sua boca ficou tão seca que mal conseguia engolir e apesar de todos os seus esforços sentiu a passagem de uma pequena quantidade de urina.

Aterrorizada, foi em bicos de pés até junto de Miss Rossi e pediu para ir à casa de banho. Miss Rossi, sem sequer olhar para ela, mandou-a voltar para o lugar. Cassi virou-se e dirigiu-se deliberadamente para a porta. Miss Rossi ouviu a porta abrir-se e olhou.

Cassi correu para a casa de banho com Miss Rossi atrás dela. Tinha já as cuecas para baixo e o vestido para cima. Com um enorme alívio, a rapariguinha sentou-se na sanita. Miss Rossi ficou junto dela, com as mãos nas ancas, à espera, com uma expressão que dizia: é melhor fazeres, senão...

Cassi fez. Começou a urinar e continuou durante um tempo que pareceu incrivelmente longo. A expressão zangada de Miss Rossi suavizou-se.

- Por que é que não fizeste durante o intervalo? - perguntou.

- Fiz - disse Cassi num tom de queixume.

- Não acredito - disse Miss Rosi. - Não acredito de todo em ti e esta tarde depois das aulas vamos direitas ao gabinete de Mr. Jankowski.

Quando voltaram para a sala de aula, Miss Rossi mandou Cassi sentar-se sozinha. Ainda se lembrava de como se sentira tonta. Primeiro não conseguia ver o quadro. Depois sentiu uma sensação horrível em todo o corpo e pensou que ia vomitar. Mas não vomitou. Perdeu os sentidos. Quando voltou a si, Cassi percebeu que estava no hospital. A mãe estava debruçada sobre ela. Disse a Cassi que ela tinha diabetes.

Cassi voltou-se para Joan, fazendo que o seu pensamento regressasse ao presente.

- Fui hospitalizada quando tinha nove anos - disse Cassi apressadamente, esperando que Joan não tivesse dado pelo facto de ter estado a sonhar acordada. - Foi nessa altura que o diagnóstico foi feito.

- Deve ter sido um período terrível para ti - disse Joan.

- Não foi tão mau como isso - disse Cassi. - Foi de certa forma um alívio saber que os sintomas tinham uma razão física. E assim que os médicos estabilizaram as minhas necessidades de insulina, senti-me muito melhor. Quando cheguei à adolescência já me tinha habituado a injectar-me duas vezes por dia. Ah, já chegámos. - Cassi fez sinal de que iam sair.

- Estou impressionada - disse Joan com sinceridade. - Duvido que eu tivesse conseguido estudar se tivesse diabetes.

- Estou certa de que conseguias - disse Cassi num tom casual. - Somos todos muito mais adaptáveis do que imaginamos.

Joan não estava certa de concordar, mas deixou cair a questão.

- E o teu marido? Como conheço alguns cirurgiões, espero que seja compreensivo e te ajude.

- E é - disse Cassi, mas respondeu demasiado rapidamente para que o espírito analítico de Joan não o tivesse notado.

A patologia era um mundo em si, completamente separado do resto do hospital. Enquanto estagiária de psiquiatria, Joan não visitara nunca aquele piso nos dois anos que passara no Boston Memorial. Tinha-se preparado para o aspecto sombrio do século XIX do departamento de patologia da sua Faculdade de Medicina, ao qual não faltavam armários com portas de vidro cheios de frascos redondos contendo pedacinhos de horror em formol amarelecido. Mas deparou com um mundo branco e futurista composto de azulejos, fórmica, aço inoxidável e vidro. Não havia ali nem amostras, nem objectos por todo o lado, nem cheiros estranhamente repulsivos. À entrada, havia uma série de secretárias que estavam a dactilografar em máquinas de tratamento de texto e utilizando auscultadores. À esquerda havia gabinetes e ao longo do centro uma comprida mesa de fórmica com dois microscópios de cabeça dupla.

Cassi levou Joan para o primeiro gabinete, onde um jovem impecavelmente vestido se levantou imediatamente para saudar Cassi, dando-lhe um grande abraço nada profissional. De seguida, o jovem afastou Cassi para poder olhar para ela.

- Caramba, estás com óptimo aspecto - disse. - Mas espera. Não pintaste o cabelo, pois não?

- Sabia que notarias - disse Cassi a rir. - Mais ninguém notou.

- Claro que notaria. E estás com uma blusa nova. Lord and Taylor?

- Não, Saks.

- É uma maravilha - Apalpou o tecido. - Exclusivamente algodão. Muito bonita.

- Oh, desculpa! - exclamou Cassi, lembrando-se da presença de Joan e apresentando-a. - Joan Widiker, Robert Seibert, estagiário de patologia do segundo ano.

Joan apertou a mão que Robert lhe estendia. Gostou do seu sorriso atraente e sincero. Os olhos brilhavam-lhe e Joan teve a sensação de que estava a ser estudada.

- Robert e eu andámos na mesma Faculdade - explicou Cassi, enquanto Robert voltava a pôr-lhe o braço por cima dos ombros. - Acabámos por nos encontrar por acaso aqui no Boston Memorial para fazermos o primeiro ano de patologia.

- Parecem dois irmãos - disse Joan.

- Têm-nos dito isso - disse Robert, obviamente satisfeito. - Sentimos uma afinidade imediata um pelo outro por muitas razões, incluindo o facto de ambos termos tido doenças graves na infância. Cassi teve diabetes e eu febre reumática.

- E a cirurgia aterrorizava-nos a ambos - disse Cassi, o que fez que ambos se desatassem a rir.

Joan pressentiu que se tratava de um aspecto anedótico que ambos compartilhavam.

- Na realidade, não teve graça nenhuma - disse Cassi. - Em vez de nos ajudarmos um ao outro, acabámos por nos aterrorizarmos um ao outro ainda mais. Robert tem de tirar os dentes do siso e eu tenho de tirar um derrame no meu olho esquerdo.

- Vou resolver o meu problema dentro de muito pouco tempo - disse Robert num tom de desafio. - Agora já não estás cá para me atrapalhares.

- Acreditarei quando vir - disse Cassi a rir.

- E verás - disse Robert. - Mas entretanto vamos à questão. Esperei por ti para fazer a autópsia. Mas primeiro prometi chamar o interno de medicina que tentou ressuscitar o doente.

Robert aproximou-se da secretária e pegou no telefone.

- Autópsia! - murmurou Joan, alarmada. - Não estava a contar com uma autópsia. Não sei bem se quero ver uma autópsia.

- Pode bem valer a pena - disse Cassi num tom cândido, como se ver autópsias fosse uma coisa que as pessoas fizessem como divertimento. - Enquanto estive a estagiar em patologia, Robert e eu interessámo-nos por uma série de casos que denominámos MCS, ou seja, morte cirúrgica súbita. Descobrimos uma série de doentes que tinham sido submetidos a cirurgia cardíaca e que haviam morrido num período inferior a uma semana após as operações, muito embora a maioria estivesse a passar bem e que, segundo a autópsia, não tinham nenhuma causa anatómica de morte. Talvez se pudesse compreender a morte de alguns, mas contando os casos registados nos últimos dez anos, encontrámos dezassete. O caso que Robert vai autopsiar poderá somar dezoito.

Robert desligou o telefone e disse que Jerry Donovan vinha a caminho e ofereceu café aos seus convidados. Antes de o terem bebido, chegou Jerry a correr. A primeira coisa que fez foi dar um abraço a Cassi. Joan ficou impressionada. Cassi parecia ter uma relação amigável com toda a gente. Depois deu uma palmada nas costas de Robert e disse:

- Eh, pá, obrigado por me chamares.

Robert estremeceu sob o impacte da palmada e fez um sorriso forçado.

Para Joan, Jerry estava vestido como era habitual no hospital. A bata branca curta, amarrotada e enxovalhada, estava torta devido ao peso de um bloco de notas preto demasiado cheio na algibeira direita. Tinha uma série de nódoas de sangue nas calças, na parte das coxas. Comparado com Robert, Jerry parecia um varredor de matadouro.

- Jerry andou na mesma Faculdade que eu e Robert - explicou Cassi. - Só que andava mais adiantado do que nós.

- Uma distinção que ainda é dolorosamente óbvia - gracejou Jerry.

- Vamos - disse Robert. - Já tenho uma das salas de autópsia reservada há bastante tempo.

Robert saiu primeiro, seguido de Joan. Jerry afastou-se para deixar Cassi passar e depois colocou-se ao lado dela.

- Não adivinham quem eu tive o prazer de ver actuar ontem à noite - disse Jerry, ao passarem junto à mesa dos microscópios.

- Nem tento - disse Cassi, à espera de uma graça pesada.

- O teu marido! O Dr. Thomas Kingsley.

- Ah, sim? - disse Cassi. - Que é que um curandeiro como tu estava a fazer no BO?

- Não estava - disse Jerry. - Encontrava-me no piso de cirurgia a tentar ressuscitar o doente que vamos autopsiar. O teu marido atendeu o alerta de emergência. Fiquei impressionado. Creio que nunca vi ninguém agir com tanta determinação. Abriu o peito do tipo e fez uma massagem de coração aberto ali mesmo na cama. Fiquei estarrecido. Diz-me uma coisa, o teu marido também é assim impressionante em casa?

Cassi deitou um olhar aborrecido a Jerry. Se o comentário tivesse sido feito por qualquer outra pessoa teria provavelmente respondido torto. Mas estava à espera de graças pesadas e ali estava uma. Porquê arranjar aborrecimentos? Decidiu não lhe ligar importância.

Ignorando a reacção menos do que positiva de Cassi, Jerry continuou:

- O que me impressionou mais não foi o acto em si de abrir o peito do tipo, mas a decisão de o fazer. É uma decisão irreversível. É uma decisão que não sei como é que alguém a pode tomar. Passo horrores só para decidir se hei-de ou não pôr um doente a antibiótico.

- Os cirurgiões habituam-se a esse tipo de coisas - disse Cassi. - É o tipo de decisão que acaba por se tornar estimulante. De certa maneira, gostam disso.

- Gostam? - repetiu Jerry num tom de incredulidade. - É difícil como o diabo acreditar que seja assim, mas suponho que é isso que acontece; senão não tínhamos cirurgiões. Talvez a maior diferença entre um interno e um cirurgião seja a capacidade de tomar decisões irreversíveis.

Entrando na sala de autópsias, Robert pôs um avental de borracha preta e calçou luvas de borracha. Os outros agruparam-se à volta do cadáver exangue, cujo peito ainda estava aberto. Os bordos da ferida tinham escurecido e secado. À excepção de um tubo endotra-queal que lhe saía abruptamente da boca, o rosto do doente estava sereno. Tinha os olhos fechados.

- Dez contra um que foi embolia pulmonar - disse Terry num tom confiante.

- Aposto um dólar - disse Robert, ajustando a altura de um microfone cujo braço estava preso ao tecto e era comandado por um pedal. - Foste tu próprio que me disseste que o doente estava inicialmente muito cianosado. Não creio que encontraremos sinais de embolia. Mais, se o meu palpite estiver certo, não descobriremos absolutamente nada.

Iniciando a sua observação, Robert ditou para o microfone:

- Trata-se de um homem caucasiano bem desenvolvido e bem nutrido, pesando cerca de oitenta e dois quilos e com um metro e setenta e cinco de altura, aparentando a idade indicada de quarenta e dois anos...

Enquanto Robert ia descrevendo os outros sinais visíveis da intervenção cirúrgica a que Bruce Wilkinson fora submetido, Joan fitava Cassi, que ia calmamente bebendo o seu café. Joan olhou para a sua própria chávena. Só a ideia de o beber- dava-lhe uma volta ao estômago.

- Estes casos de MCS têm sido todos iguais? - perguntou Joan, tentando não olhar para a mesa onde Robert estava a ordenar bisturis, tesouras e alicates para osso para abrir e eviscerar o cadáver.

Cassi abanou a cabeça.

- Não.

Alguns estavam cianosados, como este, uns pareciam ter morrido devido a paragem cardíaca, outros devido a insuficiência respiratória e outros ainda devido a convulsões.

Robert começou a fazer a habitual incisão em forma de Y, começando no cimo do ombro e ligando-a à incisão de peito aberto. Joan ouvia a lâmina a raspar contra a estrutura óssea.

- E em relação ao tipo de cirurgia? - perguntou Joan. Ouviu o som das costelas a partirem-se e fechou os olhos.

- Foram todos submetidos a cirurgia de coração aberto, mas não necessariamente pela mesma causa. Verificámos a anestesia, o tempo de ventilação e se foi ou não usada hipotermia. Não havia nenhuma correlação. É esse aspecto que é frustante.

- Bom, então por que é que estás a tentar relacioná-los?

- Boa pergunta - disse Cassi. - Tem a ver com a mentalidade de um patologista. Quando se termina uma autópsia é extremamente desagradável não ter uma causa definida de morte. E quando se depara com uma série de casos destes, é desmoralizador. O que torna a patologia recompensadora é conseguir decifrar o enigma.

Involuntariamente, os olhos de Joan fitaram de relance a mesa. Parecia que tinham aberto um fecho de correr no corpo de Bruce Wilkinson. A pele e as estruturas subcutâneas do peito e tórax tinham sido dobradas para trás como as folhas de um enorme livro. Joan sentiu uma tontura tal que o corpo oscilou.

- O conhecimento da causa da morte é importante - continuou Cassi, sem se aperceber das dificuldades de Joan. - Pode ter um benefício directo em futuros doentes se se descobrir uma causa possível de prevenção. E nesta situação descobrimos uma tendência alarmante. Os primeiros doentes pareciam ser mais velhos e estar mais doentes. Na realidade, a maioria estava em coma irreversível. No entanto, ultimamente, os doentes tinham menos de cinquenta anos e eram na generalidade mais saudáveis, como o nosso Mr. Wilkinson. Joan, que é que tens? - Cassi virou-se e finalmente reparou que a amiga parecia prestes a desmaiar.

- Espero lá fora - disse Joan. Virou-se, dirigindo-se para a porta, mas Cassi agarrou-a por um braço.

- Sentes-te bem? - perguntou Cassi.

- Isto já passa - disse Joan. - Só preciso de me sentar - e saiu a correr pelas portas de aço inoxidável.

Cassi preparava-se para ir atrás dela quando Robert lhe chamou a atenção para uma coisa. Apontou para uma contusão do tamanho de uma moeda na superfície do coração.

- Que é que achas? - perguntou Robert.

- Foi provavelmente causada durante a tentativa de ressuscitação - disse Cassi.

- Pelo menos concordamos sobre esse ponto - disse Robert, voltando a centrar a sua atenção no sistema respiratório e na laringe. Com movimentos hábeis abriu as passagens respiratórias. - Não existe qualquer tipo de obstrução. Se houvesse, podia explicar a forte cianose.

Jerry fez um pequeno ruído com a garganta e disse:

- Vais ver que foi embolia pulmonar. Tenho a certeza.

- Eu não apostaria nisso - disse Robert, abanando a cabeça. Desviando a atenção para mais abaixo, Robert examinou os principais vasos pulmonares e o coração.

- Estes são os vasos do bypass que foram suturados. - Inclinou-se para trás para que Cassi e Jerry pudessem ver.

Brincando com o bisturi que tinha na mão, Robert disse:

- OK, Dr. Donovan, é melhor pôr o seu dinheiro na mesa. - Robert inclinou-se sobre o cadáver e abriu as artérias pulmonares. Não havia qualquer coágulo. Depois abriu a aurícula direita do coração. Também aí o sangue estava líquido. Finalmente, abriu a veia cava. Verificou-se uma certa tensão quando o bisturi atingiu os vasos, mas estes também estavam limpos. Não havia qualquer coágulo.

- Merda! - exclamou Jerry, aborrecido.

- Deves-me dez dólares - disse Robert num tom de afectada satisfação.

- Que raio é que pode ter feito este tipo patear? *- perguntou Jerry.

- Não creio que o descubramos - disse Robert. - Creio que temos aqui o número dezoito.

- A encontrarmos alguma coisa, será dentro da cabeça - disse Cassi.

- Por que é que dizes isso? - perguntou Jerry.

- Se o doente estava de facto cianosado - disse Cassi - e nós não encontrámos um desvio circulatório da direita para a esquerda, o problema tem de estar no cérebro. O doente parou de respirar, mas o coração continuou a bombear sangue não oxigenado. Logo, a cianose.

- Como é que é a velha definição? - disse Jerry. - Os patologistas sabem tudo e fazem tudo, só que demasiado tarde.

- Esqueceste-te da primeira parte - disse Cassi. - Os cirurgiões não sabem nada, mas fazem tudo. Os internos sabem tudo, mas não fazem nada. Depois é que vem a parte sobre os patologistas.

- E os psiquiatras? - perguntou Robert.

- Isso é fácil - disse Jerry a rir. - Os psiquiatras não sabem nada e não fazem nada!

Robert acabou rapidamente de fazer a autópsia. O cérebro parecia normal a uma observação atenta. Não havia qualquer sinal de coágulo ou de qualquer outro traumatismo.

- Então? - perguntou Jerry, fitando a reluzente circunvolução do cérebro de Bruce. - Vocês dois, que são tão brilhantes, têm mais alguma ideia?

- Francamente, não - disse Cassi. - Talvez Robert encontre sinais de um ataque de coração.

- Mesmo que encontre - disse Robert -, isso não explica a cianose.

- É verdade - disse Jerry, coçando um dos lados da cabeça. - Talvez a enfermeira se tenha enganado. Talvez o tipo só estivesse sem cor.

- As enfermeiras que trabalham na cirurgia cardíaca são extremamente competentes - disse Cassi. - Se disseram que o doente estava azul-escuro, é porque estava azul-escuro.

- Então desisto - disse Jerry, tirando uma nota de dez dólares e metendo-a na algibeira da bata branca de Robert.

- Não precisas de me pagar - disse Robert. - Estava a brincar.

- Tretas - disse Jerry. - Se tivesse sido embolia pulmonar eu teria ficado com o teu dinheiro. - Jerry dirigiu-se para o sítio onde pendurara a bata branca.

- Parabéns, Robert - disse Cassi. - Parece que tens aqui o caso número dezoito. Comparado com o número de casos de cirurgia de coração aberto efectuados nos últimos dez anos, está quase a ter importância estatística.

- Que diabo é isso de “eu” ter mais um caso? - perguntou Robert. - Queres certamente dizer “nós” temos, não queres?

Cassi abanou a cabeça.

- Não, Robert. Tudo isto foi ideia tua desde o início. Além disso, como mudei para psiquiatria, não posso assegurar a minha parte do trabalho.

A expressão de Robert tornou-se mal-humorada.

- Anima-te - disse Cassi. - Quando publicares a tua comunicação, vais ficar satisfeito por não teres de compartilhar a autoria com um psiquiatra.

- Estava com esperança de que este estudo te fizesse vir aqui com frequência.

- Não sejas tonto - disse Cassi. - Continuarei a vir cá, especialmente quando descobrires mais casos de MCS.

- Cassi, anda - chamou Jerry num tom impaciente. Mantinha a porta aberta com o pé.

Cassi deu um beijo rápido na face de Robert e saiu apressada. Jerry tentou dar-lhe uma palmada, na brincadeira, quando ela passou pela porta. Mas Cassi não só a evitou, como conseguiu dar um puxão forte à gravata de Jerry ao passar.

- Onde é que está a tua amiga? - perguntou Jerry ao chegarem à zona principal do serviço de patologia. Ainda estava a tentar endireitar a gravata.

- Provavelmente no gabinete de Robert - disse Cassi. - Disse que precisava de se sentar. Creio que a autópsia foi demasiado forte para ela.

Joan tinha estado a descansar com os olhos fechados. Quando ouviu Cassi, levantou-se, ainda pouco segura.

- Então, que é que descobriram? - Tentou falar num tom casual.

- Não descobrimos grande coisa - disse Cassi. - Joan, sentes-te bem?

- Sofri apenas um golpe mortal no meu orgulho - disse Joan. - Devia ter tido mais senso do que me pôr a ver uma autópsia.

- Lamento imenso...-começou a dizer Cassi.

- Não sejas tonta - interrompeu Joan. - Vim de livre vontade. Mas prefiro ir embora assim que estejas despachada.

Começaram a andar em direcção aos elevadores, quando Jerry decidiu ir pelas escadas, dado que o serviço de medicina era apenas quatro andares abaixo. Acenou-lhes antes de desaparecer.

- Joan - disse Cassi, voltando a dirigir-se à amiga. - Lamento ter-te forçado a vir. Habituei-me de tal modo às autópsias durante o período em que estive a estagiar na patologia que já me esqueci de como podem ser horríveis. Espero que não te tenha perturbado muito.

- Não me forçaste a vir - disse Joan. - Além disso, a minha susceptibilidade é problema meu, não teu. É extremamente embaraçoso. Depois de quatro anos de Faculdade de Medicina seria de esperar que eu já tivesse ultrapassado o problema. Seja como for, devia ter sido franca e esperado por ti no gabinete de Robert. Mas fui idiota. Não sei o que é que estava a tentar provar.

- A princípio, custava-me a assistir a autopsias - disse Cassi -, mas tornou-se gradualmente mais fácil. É espantoso aquilo a que uma pessoa se habitua depois de o fazer vezes suficientes, especialmente quando se consegue racionalizar a questão.

Em absoluto - disse Joan, ansiosa por mudar de assunto. - A propósito, os teus amigos são uns pêssegos. Qual é a situação de Jerry Donovan? Está disponível?

- Creio que sim - disse Cassi, carregando novamente no botão do elevador. - Era casado quando andava na Faculdade, mas depois divorciou-se.

- Conheço a história-disse Joan.

- Não sei bem se anda com alguém em especial - disse Cassi. - Mas posso saber. Estás interessada?

- Não me importava de o convidar para jantar - disse Joan num tom pensativo. - Mas só se pudesse ter a certeza de que não dava o mergulho logo na primeira vez.

Só passados alguns instantes é que Cassi compreendeu o comentário de Joan e desatou-se a rir.

- Acho que o avaliaste bastante bem - disse.

- O grande macho curandeiro - disse Joan. - E Robert? - Joan baixou a voz ao entrarem no elevador. - É gay?

- Acho que sim - respondeu Cassi. - Mas nunca abordámos esse assunto. Tem sido tão bom amigo que isso nunca teve a menor importância. Costumava classificar os meus namorados quando estávamos na Faculdade e eu confiei sempre nele até encontrar o meu marido, porque ele tinha sempre razão. Mas deve ter ciúmes de Thomas, porque nunca gostou dele.

- Continua a não gostar? - perguntou Joan.

- Não sei - disse Cassi. - Esse é outro assunto sobre o qual nunca falamos.

 

- O doente está pronto e à sua espera na sala nº 3 de cateterismo cardíaco - disse uma das técnicas de raio X. Não entrou no gabinete, tendo-se limitado a meter a cabeça junto à porta. Quando o Dr. Joseph Riggin se virou para indicar que ouvira a informação, a rapariga já não estava lá.

Suspirando, Joseph tirou os pés de cima da secretária, atirou o jornal que tinha estado a ler para a estante e acabou de beber o seu café. Tirou o avental de protecção de um gancho atrás da porta e vestiu-o.

O corredor do serviço de radiologia às dez e meia da manhã fazia lembrar a Joseph um dia de saldos no Bloomingdale. Havia pessoas por todo o lado, sentadas nas cadeiras, à espera em bichas e deitadas em macas. Os seus rostos tinham uma expressão expectante e Joseph sentiu uma desagradável sensação de desmotivação. Estava a fazer radiologia há catorze anos e começava a reconhecer a si próprio que o entusiasmo desaparecera. Cada dia era como qualquer outro dia. Já não acontecia nada de empolgante. Joseph pensou se a TAC não tivesse aparecido há alguns anos se não teria abandonado a radiologia. Enquanto abria caminho para chegar à sala nº 3 tentou imaginar o que poderia fazer se deixasse a radiologia clínica. Infelizmente, não teve nenhuma ideia brilhante.

A sala de cateterismo nº 3 era a maior das cinco salas com equipamento idêntico. Tinha o equipamento mais moderno, bem como ecrãs de visionamento próprios incorporados na parede. Ao entrar, Joseph viu que as radiografias de uma outra pessoa tinham sido deixadas no ecrã. Já tinha dito aos técnicos dezenas de vezes que queria a sala arrumada e sem as radiografias do caso anterior sempre que ali fazia uma observação. Depois, como se isso não bastasse, Joseph viu que não estava lá nenhum técnico.

Joseph sentiu a pressão arterial subir. Era norma sagrada nenhum doente alguma vez ficar sozinho.

- Raios - rosnou entre dentes.

O doente estava deitado na mesa de raio X, tapado com um fino cobertor branco. Parecia ter cerca de quinze anos, rosto largo e cabelo cortado curto. Os seus olhos escuros observavam Joseph atentamente. Junto à mesa estava um suporte para soro e o tubo de , plástico passava por debaixo do cobertor.

- Olá - disse Joseph, forçando um sorriso apesar da sua irritação.

O doente não se mexeu. Quando Joseph pegou na ficha, reparou que o pescoço do rapaz era grosso e musculoso. Um segundo olhar de relance para o rosto do rapaz indicou-lhe que não se tratava de um doente vulgar. Os seus olhos tinham uma inclinação anormal e a língua, que lhe saía parcialmente por entre os lábios, era enorme.

- Bom, que é que temos aqui? - disse Joseph apreensivamente. Gostava que o rapaz dissesse qualquer coisa ou, pelo menos, desviasse o olhar. Joseph abriu o dossier e leu o relatório de internamento:

“Sam Stevens é um homem caucasiano de vinte e dois anos, musculoso, internado desde os quatro anos de idade com atraso mental não diagnosticado, agora internado para cirurgia de reparação definitiva de anomalia cardíaca congénita que se pensa ser deficiência septal...”

A porta da sala abriu-se com um estrondo e Sally Marcheson entrou apressadamente com uma pilha de cassettes nos braços.

- Olá, Dr. Riggin - exclamou.

- Por que é que este doente foi deixado aqui sozinho? Sally parou antes de chegar à máquina de raios X.

- Sozinho?

- Sozinho - repetiu Joseph, claramente zangado.

- Onde é que está a Glória? Ela devia...

- Por amor de Deus, Sally - gritou Joseph. - Os doentes não devem nunca ser deixados sozinhos. Não consegue perceber isso?

Sally encolheu os ombros.

- Só estive ausente quinze ou vinte minutos.

- E todas estas radiografias? Por que é que não estão arrumadas? Sally olhou de relance para os ecrãs de visionamento.

- Não faço ideia. Quando saí daqui não estavam lá.

Sally começou a tirar as radiografias rapidamente e a metê-las no envelope que estava em cima da bancada. Tratava-se da angiografia coronária de alguém e ela não fazia a menor ideia da razão pela qual as radiografias estavam ali.

Continuando a resmungar para si próprio, Joseph abriu o invólucro de uma bata esterilizada e vestiu-a. Ao olhar de relance para o doente, viu que o rapaz continuava sem se mexer. Os seus olhos seguiam-no sempre que ele se mexia.

Com grande barulho, Sally conseguiu meter as cassettes na máquina, tirando de seguida a cobertura esterilizada de cima da bandeja do catelerismo.

Enquanto calçava as luvas de borracha, Joseph aproximou-se do rosto do doente.

- Como é que vais, Sam? - Por qualquer razão, o facto de saber que o rapaz era atrasado mental fez que Joseph achasse que devia falar mais alto do que o habitual. Mas Sam não respondeu.

- Sentes-te bem, Sam? - gritou Joseph. - Vou ter de te picar com uma agulha pequena, está bem?

Sam parecia esculpido em granito.

- Quero que estejas muito quieto, OK? - insistiu Joseph.

Sam continuou imóvel. Joseph ia a centrar a sua atenção na bandeja de cateterismo quando a língua de Sam voltou a atrair a sua atenção. A parte que saía por entre os lábios estava gretada e seca. Ao olhar mais atentamente, Joseph viu que os lábios não estavam melhores. O rapaz parecia ter andado perdido no deserto.

- Tens sede, Sam? - perguntou Joseph.

Joseph olhou para o soro e reparou que não estava a correr. Abriu-o com um movimento rápido. Não fazia sentido o rapaz ficar desidratado.

Joseph dirigiu-se para a bandeja de cateterismo e tirou a gaze de um dos recipientes preparados para a intervenção.

Um grito agudo e desumano quebrou a quietude da sala. Joseph virou-se de imediato, com o coração na boca.

Sam arrancara o cobertor e estava a esgatanhar o braço ao qual o soro estava ligado. Começou a bater com os pés na mesa de raios X. Um grito agudo continuava a sair-lhe dos lábios.

Joseph teve suficiente presença de espírito para afastar a unidade de fluoroscopia do alcance das pernas de Sam. Depois agarrou os ombros de Sam para o forçar a deitar-se na mesa. Mas Sam agarrou-lhe o braço com tal força que Joseph soltou uma exclamação de dor. Sem possibilidade de o evitar, Joseph observou horrorizado enquanto Sam puxava a sua mão, levando-a à boca, para em seguida lhe cravar os dentes na base do polegar.

Foi a vez de Joseph gritar. Lutou para arrancar o braço da mão de Sam, mas o rapaz tinha demasiada força. Desesperado, Joseph levou o pé à mesa de raios X e empurrou-a. Tropeçou para trás e caiu, arrastando Sam consigo.

Joseph sentiu que Sam lhe largava o braço apenas para sentir de imediato as duas mãos do rapaz à volta do seu pescoço. A pressão aumentou dentro da sua cabeça enquanto o rapaz apertava. Desesperado, tentou puxar as mãos de Sam, mas estas pareciam de aço.

A sala começou a girar. Com as forças que ainda lhe restavam, Joseph deu uma joelhada na virilha do rapaz.

Quase em simultâneo, o corpo de Sam arqueou-se numa súbita contracção. Esta foi rapidamente seguida de outra e depois de outra ainda. Sam estava a ter um ataque de epilepsia e Joseph encontrava-se preso debaixo do enorme corpo em convulsão.

Sally recuperou finalmente do estado de choque e ajudou Joseph a libertar-se. Os olhos de Sam tinham desaparecido dentro da cabeça e o sangue esguichava em spray da língua ferida, formando uma mancha cada vez maior.

- Vá buscar ajuda - murmurou Joseph com dificuldade enquanto agarrava o próprio pulso para estancar a hemorragia. Via a superfície reluzente do osso por entre os bordos irregulares da ferida.

Antes de chegar alguém para ajudar, os espasmos violentos de Sam abrandaram e praticamente pararam. Quando Joseph se apercebeu de que o rapaz não estava a respirar, chegou a equipa de emergência médica. Esta trabalhou febrilmente, mas em vão. Passados quinze minutos, o Dr. Joseph Riggin foi relutantemente levado para a sua ferida ser suturada, enquanto Sally Marcheson tirava as radiografias esquecidas.

Enquanto Thomas Kingsley se esfregava, sentiu-se invadido por uma onda de excitação, como acontecia sempre que se preparava para operar. Soubera que nascera para ser cirurgião da primeira vez que ajudara numa intervenção durante o seu estágio no BO e não tardara muito para que a sua competência fosse reconhecida em todo o hospital. Agora, como o mais destacado cirurgião cardiovascular do Boston Memorial, a sua reputação era de nível internacional.

Passando as mãos por água para tirar o sabonete, Thomas ergueu-as para impedir que a água lhe escorresse pelos braços. Abriu a porta do BO com a anca. Ao fazê-lo, ouviu a conversa na sala parar e fazer-se um silêncio carregado de respeito e temor. Aceitou a toalha que a enfermeira encarregue dos cuidados preliminares de assepsia, Teresa Goldberg, lhe entregou. Por instantes os seus olhares cruzaram-se por cima das máscaras. Thomas gostava de Teresa. Tinha um corpo magnífico, que nem a volumosa bata de cirurgia conseguia esconder. Além disso, podia-lhe gritar sem que ela desatasse a chorar. Era também suficientemente inteligente para não só reconhecer que Thomas era o melhor cirurgião do Memorial, como para lho dizer.

Thomas secou metodicamente as mãos enquanto verificava os sinais vitais do doente. Depois, como um general a passar revista às suas tropas, deu uma volta à sala. Cumprimentou com um aceno de cabeça Phil Baxter, responsável pelo pulmão artificial e pelo sistema de circulação artificial, que estava atrás do seu equipamento. Este encontrava-se afinado e já ligado, pronto a assegurar a oxigenação do sangue do doente e a sua circulação pelo corpo enquanto Thomas trabalhava.

De seguida, Thomas olhou para Terence Halainen, o anestesista.

- Está tudo estável - disse Terence, apertando alternadamente o balão de respiração assistida.

- Óptimo - disse Thomas.

Pousando a toalha, Thomas enfiou a bata esterilizada que Teresa segurava em posição. Depois enfiou as mãos nas luvas especiais de borracha castanha. Como se lhe tivesse sido dada a sua deixa, o Dr. Larry Owen, professor de Cirurgia Cardíaca, desviou o olhar da cena da operação para olhar para ele.

- Mr. Campbell está pronto para a sua intervenção - disse Larry, afastando-se ligeiramente para Thomas se poder aproximar da mesa de operações. O doente estava com o tórax aberto, pronto para o famoso Dr. Kingsley efectuar o bypass. Era hábito no Boston Memorial o professor ou o director do serviço iniciar e terminar este tipo de operações.

Thomas foi para o seu lugar à direita do doente. Como fazia sempre nesta ocasião, meteu lentamente a mão na incisão e tocou no coração que batia. A superfície húmida das suas luvas de borracha não ofereceu qualquer resistência e sentiu o misterioso movimento do órgão que pulsava.

Ao tocar no coração a bater, Thomas recordou-se do seu primeiro caso como interno de cirurgia torácica. Já interviera em muitas operações, mas sempre como primeiro ou segundo assistente, ou noutra função qualquer subalterna. Mas um dia um doente chamado Walter Nazzaro foi internado. Nazzaro tinha tido um ataque de coração maciço e não se esperava que sobrevivesse. Mas sobreviveu. Não só sobreviveu ao ataque de coração, como passou no rigoroso exame a que os médicos do hospital o submeteram. O resultado do trabalho de cirurgia foi impressionante. Todos se interrogavam como é que Walter Nazzaro tinha vivido tanto tempo. Tinha oclusão da principal artéria coronária esquerda, o que provocara o ataque de coração. Tinha também oclusão da artéria coronária direita com sinais de um ataque de coração antigo. Além disso, tinha uma lesão mitral e uma lesão na válvula aórtica. E como se isso não bastasse, Walter tinha um aneurisma, ou seja, uma dilatação da parede do ventrículo esquerdo do coração como resultado do actual ataque de coração. Tinha também arritmia, tensão arterial elevada e problemas renais.

Como Walter representava um manancial em termos de patologia anatómica e fisiológica, foi apresentado em todas as conferências e todos os médicos deram opiniões diversas. O único aspecto deste caso sobre o qual todos concordavam era que Walter era uma bomba-relógio ambulante. Ninguém se mostrou disposto a operá-lo, à excepção de um interno chamado Thomas Kingsley, que argumentou que a única esperança que Walter tinha de escapar a uma sentença de morte era ser submetido a uma intervenção cirúrgica. Thomas continuou a argumentar até já estarem todos fartos de o ouvir. Finalmente, o director do serviço concordou em autorizar Thomas a fazer a operação.

No dia da operação, Thomas, que tinha estado a trabalhar num método experimental de suporte à função cardíaca, introduziu um balão de contrapulsação accionado a hélio na aorta de Walter. Prevendo problemas provocados pelo ventrículo esquerdo de Walter, Thomas queria estar preparado para os resolver. Só depois de a operação ter começado é que se apercebeu da realidade da situação. O seu entusiasmo transformou-se em ansiedade enquanto seguia o plano que tinha traçado no seu espírito. Nunca mais se esqueceria da sensação que teve quando fez parar o coração de Walter e pegou na massa muscular lesionada. Nesse instante soube que tinha o poder de restaurar a vida. Recusando-se a considerar a possibilidade de fracasso, Thomas efectuou em primeiro lugar um bypass, naquele tempo ainda um processo experimental. Depois fez uma incisão na zona dilatada do coração de Walter e suturou a lesão com várias filas de fio de seda grosso. Finalmente, substituiu a válvula mitral e a válvula aórtica.

Assim que terminou esta fase da operação, Thomas tentou desligar a máquina pulmão-coração artificial à qual Walter estava ligado. Nesta altura, sem que Thomas se tivesse apercebido, a operação estava a ser observada por um número significativo de pessoas. Ouviu-se um murmúrio de pena quando se tornou evidente que o coração de Walter não tinha força para bombear o sangue. Sem desanimar, Thomas pôs em funcionamento o dispositivo de contrapulsação que colocara antes de iniciar a operação.

Lembrar-se-ia sempre do júbilo que sentira quando o coração de Walter reagiu. Walter não só foi tirado da máquina como três horas depois da operação, já na sala de recuperação, até o suporte de contrapulsação deixou de ser necessário. Thomas sentiu como que tivesse criado vida. Este entusiasmo tornou-se uma obsessão. Durante os meses seguintes, deixou-se levar pela excitação da cirurgia de coração aberto. Meter a mão, tocar no coração, desafiar a morte com as suas duas mãos - era como se estivesse a desempenhar o papel de Deus. Não tardou a perceber que ficava profundamente deprimido quando não sentia a excitação de várias destas operações por semana. Quando começou a exercer individualmente, marcava umas duas ou três intervenções por dia. A sua reputação era tal que tinha sempre um número interminável de doentes. Desde que o hospital lhe concedesse tempo suficiente de BO, Thomas sentia-se profundamente feliz. Mas se um outro serviço ou os médicos do departamento docente a tempo inteiro tentassem diminuir o número de horas durante as quais podia operar, Thomas ficava tenso e irado, como um viciado que se vê privado da sua dose diária de droga. Precisava de operar para sobreviver. Precisava de se sentir como Deus para não se considerar um fracasso. Precisava da aprovação e do respeito das outras pessoas, da aprovação inquestionável que o olhar de Larry Owen reflectia naquele momento quando lhe perguntou:

- Já decidiu se vai fazer um bypass duplo ou triplo? A pergunta fez que Thomas regressasse ao presente.

- A incisão é boa - disse Thomas, avaliando o trabalho de Larry. - Mais vale fazermos três, desde que tenhamos suficiente veia safena.

- Temos de sobra - disse Larry com entusiasmo. Antes de abrir o peito, Larry tinha cuidadosamente retirado um pedaço da veia da perna de Mr. Campbell.

- Está bem - disse Thomas num tom de autoridade. - Vamos pôr isto a andar. A bomba está pronta?

- Está tudo a postos - disse Phil Baxter, verificando os mostradores e indicadores dos aparelhos.

- Fórceps e bisturi - disse Thomas.

Rapidamente, mas sem pressa, Thomas começou a trabalhar. Passados alguns minutos, o doente estava ligado à máquina de pulmão-coração artificiais. A técnica operatória de Thomas era eficiente e sem movimentos desnecessários. Os seus conhecimentos de anatomia eram enciclopédicos, o mesmo acontecendo com a sua sensibilidade táctil em relação aos tecidos. Fazia suturas com uma economia de movimentos precisos que maravilhava os futuros cirurgiões que o observavam. Cada ponto era dado no ponto exacto. Tinha efectuado tantas intervenções para fazer bypasses que quase podia fazer um trabalho de rotina, mas a excitação de estar a trabalhar no coração nunca deixava de o fazer vibrar.

Quando terminou e se assegurou que os bypasses estavam todos devidamente consolidados e que não havia uma hemorragia excessiva, Thomas afastou-se da mesa de operações e descalçou as luvas com um movimento brusco.

- Estou certo de que conseguirá voltar a pôr a parede torácica como estava, Larry - disse Kingsley, preparando-se para se ir embora.- Estarei disponível se houver algum problema.

Quando saiu, ouviu o suspiro audível de admiração dos médicos internos presentes.

O corredor que dava para o BO estava cheio de gente. Àquela hora do dia, a meio da tarde, a maioria das trinta e seis salas de operações ainda estavam ocupadas. Doentes que iam ou regressavam de cirurgia eram transportados em macas de rodas, por vezes rodeados por uma equipa de auxiliares. Thomas abriu caminho por entre a multidão, ouvindo por vezes o seu nome a ser murmurado.

Ao passar pelo relógio por cima da porta do departamento de abastecimento central apercebeu-se de que tinha despachado Mr. Campbell em menos de uma hora. Na realidade, tinha operado três casos de bypass nesse dia no tempo que a maioria dos cirurgiões demorava para fazer um, ou dois, na melhor das hipóteses.

Thomas disse para si próprio que podia ter marcado outra operação, embora admitisse também que isso não era verdade. A razão pela qual apenas marcava três operações era resultado da nova norma que obrigava todos os cirurgiões a assistir a uma conferência sobre cirurgia cardíaca à sexta-feira à tarde, uma iniciativa relativamente recente do director do serviço, Dr. Norman Ballantine. Thomas foi à conferência, não por ser obrigatório, mas porque estas se tinham transformado na comissão ad hoc para admissão no serviço de cirurgia cardíaca. Thomas tentou não pensar nesta situação, pois sempre que o fazia, ficava furioso.

- Dr. Kingsley - chamou uma voz áspera, interrompendo os pensamentos de Thomas.

Priscilla Grenier, prepotente directora do BO, estava a acenar-lhe com uma caneta. Thomas reconhecia que era trabalhadora e que trabalhava muito mais horas do que as exigidas pelo horário. Não era fácil fazer que as trinta e seis salas de operações do Boston Memorial funcionassem sempre sem poblemas. No entanto, não tolerava que ela se imiscuísse nos seus assuntos, coisa que parecia sempre ansiosa por fazer. Vinha sempre com alguma ordem ou indicação.

- Dr. Kingsley - disse Priscilla -, a filha de Mr. Campbell está na sala de espera e o senhor devia lá ir antes de mudar de roupa. - Sem esperar pela resposta dele, Priscilla voltou para a sua secretária.

Thomas teve dificuldade em conter a sua irritação e continuou a atravessar o hall sem ligar ao que ela dissera. Parte da euforia que sentira no BO tinha-o abandonado. Ultimamente, verificava que o prazer que sentia com cada êxito cirúrgico era cada vez mais fugaz.

A primeira reacção de Thomas foi ignorar Priscilla, mudar de roupa e ir então falar com a filha de Mr. Campbell. Contudo, o certo era que tinha de continuar com o fato esterilizado vestido até Mr. Campbell ir para a sala de recobro, isto no caso de se verificarem complicações imprevistas.

Abrindo a porta que dava para a sala de estar do serviço de cirurgia com um forte empurrão, Thomas parou junto da fila de cabides e procurou uma bata comprida que pudesse vestir por cima do fato esterilizado. Enquanto a vestia, pensou nas desnecessárias frustrações que era forçado a suportar. A qualidade das enfermeiras tinha inegavelmente decaído. E Priscilla Grenier! Parecia-lhe que apenas ontem as pessoas como ela sabiam manter-se no seu lugar. E as conferências obrigatórias de sexta-feira à tarde... Santo Deus!

Aborrecido, Thomas dirigiu-se à sala de espera. Tratava-se de uma inovação relativamente recente no hospital, que tinha sido feita aproveitando e reconvertendo uma antiga sala de arrumos. Como o número de intervenções para fazer bypasses subira em flecha, foi decidido que devia haver uma sala especial perto do BO onde os familiares dos doentes pudessem estar até esses saírem da sala de operações. Esta brilhante ideia fora da autoria de um dos administradores e tinha-se tornado numa mina de ouro para as relações públicas.

Quando Thomas entrou na sala, decorada com bom gosto, com paredes pintadas de azul-claro com esquadrias a branco, a sua atenção foi atraída por uma explosão emotiva a um dos cantos.

- Porquê, porquê? - gritava uma mulher pequena, fora de si.

- Pronto, pronto - dizia o Dr. George Sherman, tentando acalmar a mulher, que soluçava. - Tenho a certeza de que fizeram tudo para salvar Sam. Sabíamos que o coração dele não era normal. Podia ter acontecido em qualquer altura.

- Mas ele estava tão feliz no lar. Devíamos tê-lo lá deixado ficar. Por que é que eu permiti que o senhor me convencesse a trazê-lo para aqui? Disse-me que a operação envolvia um certo risco, mas nunca me disse que havia qualquer risco em relação ao cateterismo. Meu Deus.

O choro subjugou a mulher. Não se aguentou de pé e o Dr. Sherman apressou-se a agarrá-la por um braço.

Thomas correu para junto de George e ajudou-o a agarrar a mulher. O seu olhar cruzou^se com o de George, que revirou os olhos, criticando a cena. Como membro da equipa permanente de cardiologia, Thomas não tinha o Dr. George Sherman em grande conta, mas, dadas as circunstâncias, sentiu-se na obrigação de lhe dar uma ajuda. Fizeram a desolada mãe sentar-se. Esta escondeu o rosto nas mãos e os seus ombros encolhidos estremeciam enquanto continuava a chorar.

- O filho teve uma paragem cardíaca no serviço de raio X durante um cateterismo - murmurou George. - Tinha um grande atraso mental, além de outros problemas físicos.

Antes de Thomas poder responder, um padre e um outro homem, aparentemente o marido da mulher, entraram na sala. Os três abraçaram-se, o que pareceu ajudar a mulher a recuperar forças. Depois saíram todos da sala apressadamente.

George endireitou-se. Era evidente que a situação o enervara. Thomas teve vontade de repetir a pergunta que a mulher fizera sobre a razão de o filho ter sido tirado da instituição onde aparentemente era feliz, mas não teve coragem.

- Que raio de maneira de ganhar a vida - disse George num tom constrangido ao sair da sala.

Thomas observou o rosto do resto das pessoas na sala. Estas olhavam-no com um misto de empada e temor. Todas elas tinham pessoas de família a ser operadas naquele momento e a cena fora extremamente perturbadora. Thomas procurou a filha de Campbell. Estava sentada junto da janela, pálida e na expectativa, com as mãos sobre os joelhos e os dedos entrelaçados. Thomas já a vira antes no seu gabinete e sabia que se chamava Laura. Era uma mulher atraente, provavelmente com uns trinta anos, com cabelo castanho-claro fino amarrado num rabo de cavalo.

- A operação correu muito bem - disse ele num tom calmo. Em resposta, Laura pôs-se de pé num salto e atirou-se-lhe ao

pescoço, abraçando-o e encostando-se a ele.

- Obrigada - disse, desatando a chorar. - Obrigada.

Thomas estava muito direito e hirto, a recuperar daquela exibição emocional. O rompante dela apanhara-o completamente desprevenido. Apercebeu-se de que as outras pessoas estavam a observar e tentou libertar-se, mas Laura recusou-se a largá-lo. Thomas recordou que depois do êxito da sua primeira intervenção de coração aberto, a família de Mr. Nazzaro se tinha mostrado igualmente histérica nos seus agradecimentos. Nessa altura, Thomas tinha compartilhado a sua alegria. Toda a família o abraçara e Thomas tinha-os abraçado a todos. Sentia o respeito e a gratidão que sentiam para com ele. Tinha também sido uma experiência inacreditavelmente inebriante e Thomas recordou-a com profunda nostalgia. Agora sabia que as suas reacções eram mais complicadas. Muitas vezes fazia três a cinco operações por dia. A maior parte das vezes pouco ou nada sabia sobre os seus doentes, à excepção dos dados fisiológicos pré-operatórios. Mr. Campbell era um bom exemplo.

- Gostava de poder fazer alguma coisa por si - murmurou Laura, ainda com os braços à volta do pescoço de Thomas. - Qualquer coisa.

Thomas olhou para a curva das suas nádegas, acentuadas pelo vestido de seda, que lhe moldava as formas. Sentia as coxas dela perturbadoramente encostadas às suas e percebeu que se tinha de afastar.

Erguendo as mãos, afastou do pescoço os braços de Laura.

- Amanhã de manhã já poderá falar com o seu pai - disse Thomas.

Ela assentiu, subitamente embaraçada pelo seu comportamento.

Thomas deixou-a e saiu da sala de espera com uma sensação de ansiedade que não compreendia. Pensou se seria cansaço, embora anteriormente não se tivesse sentido cansado, apesar de ter passado uma boa parte da noite a fazer uma operação de emergência. Voltando a pendurar a bata branca no cabide, tentou libertar-se daquela sensação.

Antes de ir para a sala de estar de cirurgia, Thomas passou pela sala de recuperação. Os seus dois casos anteriores, Victor Marlborough e Gwendolen Hasbruck, encontravam-se estáveis e a reagir bem, mas ao olhar para o rosto deles, Thomas sentiu a sua ansiedade aumentar. Não os teria reconhecido no meio de uma multidão, embora tivesse tido o seu coração nas mãos poucas horas antes.

Perturbado e irritado pela camaradagem forçada da sala de recobro, Thomas bateu em retirada para a sala de estar do serviço de cirurgia. Não gostava particularmente do sabor do café, mas encheu uma chávena e levou-a para um dos enormes maples de couro no canto mais afastado da sala. O suplemento social do Boston Globe estava caído no chão e ele apanhou-o, mais como defesa do que pelo seu conteúdo. Thomas não estava com disposição para ser forçado a manter uma conversa de circunstância com qualquer pessoa da equipa do BO. Mas o estratagema não resultou.

- Obrigado pela sua ajuda na sala de espera.

Thomas baixou o jornal e deparou com o rosto largo de George Sherman. Tinha uma barba cerrada e àquela hora da tarde parecia ter-se esquecido de se barbear nessa manhã. Era um homem entroncado, de aspecto atlético, uns três ou quatro centímetros mais baixo que Thomas, que media um metro e oitenta, mas que, devido ao seu cabelo encaracolado, parecia ser da mesma altura que ele. Mudara já de roupa e estava vestido para sair, com uma camisa azul amarrotada que parecia nunca ter visto a superfície lisa de um ferro de engomar, gravata às riscas e um casaco de bombazina já coçado nos cotovelos.

George Sherman era um dos poucos cirurgiões solteiros. Aquilo que lhe dava um estatuto único era o facto de já com quarenta anos nunca se ter casado. Os outros homens livres eram separados ou divorciados. E George era um dos preferidos das enfermeiras mais novas. Gostavam de se meter com ele por causa da sua vida errante de solteiro, oferecendo-se para o ajudar de várias formas. George, com a sua inteligência e sentido de humor, não se importava com isto e aproveitava-se desta situação. Thomas achava tudo aquilo extremamente irritante.

- Aquela pobre mulher estava muito abalada - disse Thomas. Coibiu-se mais uma vez de fazer comentários sobre a correcção de trazer um caso daqueles para o hospital e ergueu o jornal.

- Houve uma complicação inesperada - disse George, sem se deixar intimidar. - Ao que percebi, aquela miúda gira que estava na sala de espera é filha do seu doente.

Thomas baixou lentamente o jornal.

- Não reparei que fosse particularmente atraente - disse Thomas friamente.

- Então que tal compartilhar o seu nome e número de telefone?- disse George, dando uma risada. Ao ver que Thomas não respondia, George mudou de assunto, mostrando tacto. - Soube que um dos doentes de Ballantine teve paragem cardíaca durante a noite e morreu?

- Soube disso - disse Thomas.

- O tipo era homossexual declarado - disse George.

- Isso não sabia - disse Thomas num tom desinteressado. - Não sabia que a presença ou ausência de homossexualidade fazia parte das informações de rotina necessárias para uma intervenção cardíaca.

- Devia ser - disse George.

- E por que é que acha que devia? - perguntou Thomas.

- Você vai descobrir por si - disse George, erguendo uma sobrancelha.-•Amanhã, na apresentação de casos.

- Não posso esperar - disse Thomas.

- Até logo na conferência desta tarde, amigo - disse George, dando uma palmada amigável no ombro de Thomas.

Thomas ficou a observar o homem, que se afastava com um andar emproado. Aborrecia-o que lhe tocassem e batessem daquela forma. Parecia-lhe uma manifestação tão acriançada. Ainda estava a olhar para ele quando George se juntou a um grupo de internos e de enfermeiras sentados em várias cadeiras junto à janela. O som de risos e de vozes altas pairou na sala. A verdade era que Thomas não suportava George Sherman. Estava convencido de que George era um homem que se empenhava em exibir as roupagens do êxito para cobrir a mediocridade básica da sua capacidade cirúrgica. Thomas conhecia demasiado bem tudo aquilo. Um dos males aparentemente imprevisíveis do centro médico académico era as nomeações serem mais políticas do que outra coisa. E George era um político. Tinha resposta rápida, era bom conversador e convivia facilmente. Mais importante ainda, estava totalmente à vontade no sistema burocrático de comissões da política hospitalar. Aprendera rapidamente que para ter êxito era mais importante estudar Maquiavel do que Halstead.

Thomas sabia que a raiz do problema era o antagonismo entre os médicos do corpo docente, como ele próprio, que exerciam clínica privada e ganhavam dinheiro cobrando honorários aos seus doentes, e os médicos como George Sherman, que trabalhavam a tempo inteiro para a escola médica e recebiam um vencimento em vez de honorários pelos seus serviços. Os médicos privados tinham rendimentos substancialmente mais elevados e maior liberdade. Não tinham de se submeter a uma autoridade superior. Os médicos a tempo inteiro tinham títulos mais sonoros e horários menos sobrecarregados, mas havia sempre alguém acima deles a dizer-lhes o que fazer.

No hospital havia uma situação intermédia. Usufruía do grande movimento e do dinheiro que os médicos privados lhe traziam e, ao mesmo tempo, gozava da credibilidade e do estatuto inerentes a fazer parte da escola médica da universidade.

- O peito de Campbell já está fechado - disse Larry, interrompendo-lhe os pensamentos. - Os internos estão a suturar a pele. Todos os sinais são estáveis e normais.

Atirando o jornal para o lado, Thomas levantou-se do sofá e seguiu Larry até ao vestiário. Ao passar por trás de George, Thomas ouviu-o falar em criar uma nova comissão docente qualquer. Aquele homem não parava! Como não parava a pressão que George, como director do serviço docente, e Ballantine, como director do serviço, exerciam sobre Thomas, tentando-o convencer a deixar de exercer clínica privada e a passar para o quadro permanente a tempo inteiro. Tentaram seduzi-lo oferecendo-lhe o lugar de professor catedrático, e embora tivesse havido uma altura em que isso talvez lhe tivesse interessado, agora não o atraía minimamente. Conservaria a sua clínica privada, a sua autonomia, o seu rendimento e a sua sanidade mental. Thomas sabia que se passasse a trabalhar a tempo inteiro no hospital seria apenas uma questão de tempo até lhe passarem a dizer quem podia e quem não podia operar. Não tardaria que o encarregassem de casos ridículos, como o do pobre rapaz atrasado mental da sala de cateterismo.

Tenso e irado, Thomas entrou no vestiário e abriu o seu armário. Ao despir o fato de operar, que atirou para dentro do cesto de roupa suja, recordou o corpo flexível de Laura Campbell encostado ao seu. Era uma imagem agradável, que teve o efeito de acalmar os seus nervos em franja. Desde que saíra do BO, o prazer de operar tinha-se dissipado, tornando-o cada vez mais tenso.

- Como sempre, hoje fez um excelente trabalho - disse Larry, reparando na expressão sombria de Thomas, na esperança de lhe agradar.

Thomas não respondeu. No passado, teria ficado radiante com este elogio, mas agora parecia não ter a menor importância.

- É uma pena as pessoas não poderem apreciar os pormenores - disse Larry, abotoando a camisa. - Se pudessem, teriam uma ideia completamente diferente da cirurgia. E também teriam mais cuidado a escolher quem os operaria.

Thomas continuou a não dizer nada, embora assentisse face à veracidade do comentário. Enquanto vestia a camisa pensou em Nor-man Ballantine, o velho médico simpático de cabelo; brancos que todos adoravam e louvavam. A verdade dos factos era que Ballantine provavelmente já não devia continuar a operar, embora ninguém tivesse coragem de lho dizer. Era do conhecimento geral no serviço que uma das funções do interno principal de cirurgia torácica era estar de serviço em todos os casos de Ballantine para poder ajudar o chefe quando este cometia erros. “Assim vai a medicina académica”, pensou Thomas. Graças aos internos, Ballantine conseguia resultados razoáveis e os doentes e as suas famílias idolatravam-no, apesar do que se passava quando o doente estava sob anestesia.

Thomas tinha de concordar com o comentário de Larry. Também pensou que seria infinitamente mais certo se ele, o Dr. Thcmas Kingsley, fosse chefe. Afinal de contas, era ele quem fazia a maior parte da cirurgia. Por amor de Deus, tinha sido ele, mais do que qualquer outra pessoa, que tornara o Boston Memorial o hospital de eleição para qualquer cirurgia cardíaca. Até a revista Time o afirmara.

No entanto, Thomas já não sabia bem se queria ser chefe. Em tempos, não conseguia pensar noutra coisa. Tinha sido uma das suas forças motrizes, incentivando-o a maiores esforços e a um maior sacrifício pessoal. Tinha-lhe parecido parte de uma progressão natural e os colegas tinham começado a falar nisso quando ainda era assistente. Mas isso fora há já bastantes anos, antes da cretinice administrativa ter arreganhado os dentes e mostrado até que ponto é que isso interferiria com a sua clínica privada.

Thomas parou de se vestir e o seu olhar tornou-se distante. Sentiu um vazio dentro de si. Era deprimente aperceber-se de que um dos seus tão almejados objectivos já não era potencialmente atraente, especialmente quando, por fim, esse objectivo estava ao seu alcance. Talvez já não houvesse nenhum sítio para onde ir... talvez tivesse atingido já o seu apogeu. Santo Deus, que ideia horrível!

- Lamento o que se passa com a sua mulher - disse Larry, sentando-se para apertar os sapatos. - É uma grande pena.

- A que é que se está a referir? - perguntou Thomas, pronunciando cada palavra com deliberada precisão. Ficou imediatamente ofendido por um subordinado como Larry se atrever a ser tão pessoal.

Larry, sem registar o tom da resposta de Thomas, estava inclinado a apertar os sapatos.

- Estou a referir-me aos diabetes e ao problema de visão. Ouvi dizer que tem de fazer uma vitrectomia. É terrível.

- A necessidade de cirurgia ainda não está confirmada - disse Thomas num tom irritado.

Ao ouvir o tom irado de Thomas, Larry olhou para cima.

- Não quis dizer que fosse caso assente - conseguiu explicar. - Lamento ter falado nisso. Deve ser difícil para si. Só desejava que ela estivesse bem.

- A minha mulher está óptima - disse Thomas, furioso. - Além disso, não creio que a saúde dela seja da sua conta.

- Desculpe.

Fez-se um silêncio desagradável enquanto Larry se apressou a acabar de apertar os sapatos. Thomas fez o nó da gravata e pôs água de colónia Yves St. Laurent com gestos rápidos e irritados.

- Onde é que ouviu esse boato? - perguntou Thomas.

- A um interno de patologia - disse Larry. - Robert Seibert. Larry fechou o armário e disse a Thomas que estaria na sala de

recuperação se precisasse dele.

Thomas passou um pente pelo cabelo, tentando acalmar-se. Não estava nos seus dias. Toda a gente parecia empenhada em aborrecê-lo. A ideia de que a saúde da mulher pudesse ser alvo de tagarelice entre o pessoal do hospital parecia-lhe inexplicavelmente irritante. E também humilhante.

Ao guardar o pente no armário, Thomas reparou num pequeno frasco de plástico. Sentindo uma crescente tensão interna e o princípio de uma dor de cabeça, abriu a tampa do frasco. Partiu um dos comprimidos amarelos ao meio e meteu metade na boca. Hesitou e depois meteu a outra metade. Afinal de contas, merecia-o.

Os comprimidos eram amargos e precisou de ir beber água ao aparelho automático para os conseguir engolir. Mas, quase de imediato, sentiu a sua crescente ansiedade atenuar-se.

A conferência de cirurgia cardíaca de sexta-feira à tarde tinha lugar na sala de aula Turner, do lado diagonalmente oposto do hall em relação à unidade de cuidados intensivos de cirurgia. Tinha sido doada pela mulher de um tal Mr. J. P. Turner, que morrera no final dos anos 30, e a sala tinha um tom art deco. A sala comportava lugar para sessenta pessoas sentadas, metade da escola médica em 1939. À frente havia um estrado mais elevado, um quadro negro poeirento, um suporte com antigos mapas anatómicos e um esqueleto montado de pé.

Fora devido à insistência do Dr. Norman Ballantine que a reunião das sextas-feiras se realizava na sala de aula Turner, por ser perto da enfermaria e, como dizia o Dr. Ballantine, “a razão da conferência são os doentes”. Mas o pequeno grupo de cerca de doze pessoas parecia perdido no mar de secretárias vazias e tinha um ar claramente desconfortável sentado às secretárias de linhas espartanas.

- Creio que devemos começar a reunião-disse o Dr. Ballantine, fazendo-se ouvir acima do bruá-bruá das conversas. As pessoas ocuparam os seus lugares. Estavam presentes seis dos oito cirurgiões cardíacos do quadro, incluindo Ballantine, Sherman e Kingsley, bem como vários outros médicos e administradores e uma aquisição relativamente recente, Rodney Stoddard, filósofo.

Thomas observou Rodney Stoddard enquanto este se sentava. Parecia a idade que tinha, vinte e muitos anos, apesar de estar quase completamente calvo e de o cabelo que ainda lhe restava ser tão claro que mal se via. Usava óculos de aros de arame fino e tinha uma expressão de permanente auto-satisfação. A Thomas parecia-lhe que o tipo estava a dizer: “Consulte-me sobre o seu problema porque sei a resposta.”

Stoddard tinha sido contratado por insistência da universidade. Até há pouco tempo, os médicos estavam empenhados em salvar todos os seus doentes. Mas agora, com o aparecimento de técnicas tão dispendiosas e complicadas como cirurgia de coração aberto, transplantes e órgãos artificiais, os hospitais tinham de escolher com cuidado os doentes que beneficiariam dessas operações que lhes podiam salvar a vida. De momento, essas técnicas eram limitadas pelo seu extraordinário custo e pelo espaço disponível nas sofisticadas unidades necessárias para o pós-operatório. Em geral, o pessoal docente tinha tendência para favorecer os doentes que tinham afecções multissistémicas, que nem sempre reagiam bem, enquanto os médicos que exerciam clínica privada preferiam membros da sociedade que, à excepção de uma afecção específica, fossem saudáveis e produtivos.

Enquanto olhava para Rodney, Thomas permitiu que um leve sorriso irónico lhe perpassasse o rosto. Pensou até que ponto é que Rodney se sentiria autoconfiante se tivesse o coração de um homem nas mãos. Nesse momento era necessário decidir, não discutir. No que dizia respeito a Thomas, a presença de Rodney na reunião era mais um indício do pântano burocrático em que a medicina se estava a afundar.

- Antes de começarmos - disse o Dr. Ballantine, erguendo os braços com as mãos abertas como se estivesse a acalmar uma multidão- quero ter a certeza de que toda a gente leu o artigo da Time desta semana que classifica o Boston Memorial como sendo o centro de cirurgia cardíaca de bypass. Creio que o merecemos, mas quero agradecer a todos e a cada um individualmente por nos terem ajudado a alcançar esta posição. - Ballantine bateu palmas, apoiado por George e mais algumas pessoas.

Thomas, que estava sentado perto da porta para o caso de ser chamado à sala de recuperação, ficou furioso. Ballantine e os outros médicos estavam a apropriar-se do crédito de algo que na sua maior parte se devia a Thomas e em menor grau a dois outros cirurgiões privados que acontecia não estarem presentes. Quando fora para cirurgia, Thomas pensou que poderia evitar a podridão que existia na maioria das outras profissões. Ia ser ele e o doente contra a doença! Mas quando olhou em volta da sala, Thomas apercebeu-se de que praticamente todos os presentes podiam interferir no seu trabalho devido a um irritante problema, o número limitado de camas no serviço de cirurgia e o correspondente tempo disponível de BO. O Memorial tinha-se tornado tão famoso que parecia que toda a gente queria lá fazer o seu bypass. As pessoas tinham literalmente de fazer bicha. Especialmente para serem assistidas por Thomas. Tinha estado limitado a dezanove períodos de ocupação de BO por semana e tinha um atraso de mais de um mês nas suas intervenções.

- Enquanto George distribui a escala da próxima semana - disse o Dr. Ballantine -, gostaria de recapitular esta semana.

Continuou a falar num tom monótono enquanto Thomas desviava a sua atenção para a escala. Os seus próprios doentes eram escalados pela sua enfermeira, que coligia a informação necessária e a fazia chegar à secretária de Ballantine, que a dactilografava. Incluía uma resenha médica de cada doente, uma listagem de dados de diagnóstico relevantes e uma explicação sobre a necessidade de cirurgia. A ideia era todas as pessoas na conferência discutirem cada doente e assegurar que a intervenção era necessária e aconselhável. Mas na realidade isso raramente acontecia, a não ser que se faltasse à reunião. Uma vez, estando Thomas ausente, o serviço de anestesia cancelara vários casos seus, o que deu origem a uma discussão que provavelmente ninguém esqueceria. Thomas continuou a examinar as folhas até Ballantine dizer qualquer coisa sobre mortes. Thomas olhou para cima.

- Infelizmente, verificaram-se duas mortes cirúrgicas esta semana - disse o Dr. Ballantine. - A primeira foi um caso no serviço docente, Albert Bigelow, um senhor de oitenta e dois anos que não aguentou ser retirado da máquina no seguimento de uma dupla substituição de válvulas. Tinha sido escalado como emergência. Já se sabe o resultado da autópsia, George?

- Ainda não - disse George. - Devo referir que Mr. Bigelow era uma pessoa muito doente. Tinha o fígado gravemente afectado pelo seu alcoolismo. Sabíamos que estávamos a correr um risco ao submetê-lo a cirurgia. Às vezes ganha-se, outras perde-se.

Fez-se um silêncio. Thomas comentou sarcasticamente para si próprio que à morte inoportuna de Mr. Bigelow tinha provocado uma interessante discussão. O irritante da questão era que eram doentes destes que faziam que os doentes de Thomas tivessem de ficar à espera.

Ballaotine olhou em volta e, ao ver que ninguém falava, continuou:

- A segunda morte foi a de um dos meus doentes, Mr. Wilkin-son. Morreu ontem à noite. Foi autopsiado esta manhã.

Thomas viu Ballantine olhar para George, que abanou a cabeça quase imperceptivelmente.

Ballantine tossiu para clarear a voz e disse que estes dois casos seriam discutidos na próxima conferência de mortes.

Thomas estranhou o olhar trocado pelos dois. Recordou-se então do bizarro comentário que Geoge fizera na sala de estar. Thomas abanou a cabeça.

Passava-se qualquer coisa entre Ballantine e George e Thomas sentiu um ligeiro baque de apreensão. Ballantine tinha uma posição única no centro médico. Como director do serviço de cirurgia cardíaca detinha uma cadeira por inerência de cargo na universidade e recebia o respectivo vencimento. Mas Ballantine exercia também clínica privada. Ballantine era uma herança do passado, fazendo a ponte entre o pessoal a tempo inteiro, como George, e o do quadro privado, como Thomas. Ultimamente, Thomas começara a pensar que Ballantine, cujas capacidades estavam obviamente em declínio, começava a favorecer o prestígio de ser professor sobre os lucros da clínica privada. A isso ser verdade, podia provocar problemas, pois causava desequilíbrio entre o quadro de pessoal a tempo inteiro e os médicos privados, que no passado tinham sempre privilegiado o segundo aspecto.

- Bom, queria que todos olhassem para a última página da escala que foi distribuída - disse o Dr. Ballantine. - Gostaria de frisar que houve uma profunda alteração nas escalas.

Ouviu-se o rustilhar das páginas em simultâneo. Thomas fez o mesmo, colocando as folhas no braço da cadeira. A ideia de uma alteração profunda nas escalas não lhe agradou.

A última página estava dividida verticalmente em quatro colunas, representando as quatro salas utilizadas para cirurgia de coração aberto. Na horizontal, a página estava dividida nos cinco dias da semana de trabalho. Dentro de cada quadrado estava o nome do cirurgião escalado para o dia. A SÓ nº 18 era a sala de Thomas. Na qualidade de cirurgião mais rápido e com maior número de casos, cabiam-lhe quatro casos por dia, à excepção de sexta-feira, em que apenas tinha três, devido à conferência. A primeira coisa que Thomas verificou quando olhou para a página foi a SÓ nº 18. Os olhos dilataram-se-lhe de incredulidade. A escala indicava que fora limitado a três casos por dia, de segunda a quinta-feira. Perdera quatro períodos de BO!

- A universidade autorizou-nos a contratar um novo elemento a tempo inteiro para o serviço docente - dizia orgulhosamente o Dr. Ballantine -, e estamos já à procura de um cirurgião cardíaco pediátrico. É evidente que isto representa um enorme progresso para o departamento. No sentido de nos irmos preparando para esta nova situação, alargámos o serviço docente para mais quatro casos por semana.

- Dr. Ballantine - começou Thomas, controlando-se cuidadosamente. - Pela escala parece que a totalidade dos quatro períodos adicionais para o serviço docente foi tirada ao tempo que me estava atribuído. Deverei presumir que é só para a próxima semana?

- Não - disse o Dr. Ballantine. - Essa escala mantém-se em vigor até novas instruções.

Thomas expirou lentamente antes de falar.

- Sou forçado a protestar. Não me parece de forma alguma justo ser eu a única pessoa a quem é cortado tempo de BO.

- O facto é que o doutor tem tido cerca de quarenta por cento do tempo de BO - disse George. - E este é um hospital escolar.

- Eu participo no ensino - respondeu Thomas asperamente.

- Nós sabemos - disse Ballantine. - Não deve tomar isto em termos pessoais. É muito claramente uma questão de distribuição mais equitativa de tempo de BO.

- Já estou atrasado em mais de um mês em relação à minha escala de doentes - disse Thomas. - E não há uma procura assim tão grande de casos docentes. Não há doentes suficientes para preencher todos os actuais períodos docentes.

- Não se preocupe - disse George. - Arranjaremos casos. Thomas sabia qual era a verdadeira questão. George, e a maior

parte dos outros médicos, tinham inveja do número de casos que Thomas tinha e do dinheiro que Thomas ganhava. Apeteceu-lhe levantar-se e dar um soco na cara de George. Olhando em volta da sala, Thomas reparou que os outros médicos estavam subitamente muito atarefados a arrumar os seus apontamentos, papéis e outros objectos. Não podia contar com nenhum dos presentes para o apoiar.

- Aquilo que nós temos de compreender - disse o Dr. Ballantine - é que fazemos todos parte do sistema universitário. E o ensino é um dos principais objectivos. Se se sentir pressionado por alguns dos seus doentes privados, pode levá-los para outras instituições.

A ira e a frustração que Thomas sentia tornava-lhe difícil pensar com clareza. Sabia, na verdade todos sabiam, que não podia pura e simplesmente decidir recorrer a outro hospital. A cirurgia cardíaca exigia uma equipa treinada e experiente. Thomas tinha ajudado a montar o sistema no Memorial e estava dependente dessa estrutura.

Priscilla Grenier interveio dizendo que talvez pudessem arranjar uma sala de operações adicional se adquirissem outro aparelho de coração-pulmão artificiais e conseguissem um especialista para o operar.

- É uma ideia - disse o Dr. Ballantine. - Thomas, talvez esteja na disposição de presidir a uma comissão ad hoc para averiguar da viabilidade e interesse de uma tal expansão.

Thomas agradeceu ao Dr. Ballantine, esforçando-se por falar com um mínimo de sarcasmo. Disse que a sua actual carga de trabalho não lhe permitia aceitar a oferta de Ballantine de imediato, mas que pensaria nisso. De momento, tinha de se preocupar com o facto de ter de adiar intervenções em doentes que podiam morrer antes de haver tempo de BO disponível. Doentes com noventa e nove por cento de probabilidades de viver uma vida longa e produtiva se não vissem o seu tempo de BO sacrificado a qualquer idiota escleró-tico que o serviço docente pretendia utilizar para as suas experiências!

Nesse pé, a reunião foi dada como terminada.

Esforçando-se por controlar o seu mau humor, Thomas dirigiu-se a Ballantine. É claro que George tinha chegado ao estrado primeiro, mas Thomas interrompeu-o.

- Posso falar consigo um instante? - perguntou Thomas.

- Claro - disse o Dr. Ballantine.

- A sós - disse Thomas, sucintamente.

- Eu ia já a caminho da UCI - disse George, num tom amistoso. - Estarei no meu gabinete se precisar de mim. - George deu uma palmada nas costas de Thomas antes de se ir embora.

Para Thomas, Ballantine era a imagem de Hollywood do médico, com o cabelo branco sedoso penteado para trás, com um rosto marcado pelas rugas, mas bronzeado e atraente. A única feição que de certa forma estragava o conjunto eram as orelhas. Eram grandes, segundo o padrão de qualquer pessoa. Naquele momento, Thomas teve vontade de as agarrar e puxar.

- Então, Thomas - disse o Dr. Ballantine apressadamente. - Não quero que entre em paranóia por causa disto. Tem de compreender que a universidade me tem pressionado para atribuir maior tempo de BO ao ensino, especialmente depois do artigo da Time. Esse tipo de publicidade tem feito maravilhas para o programa de subsídios. E como George referiu, tem-lhe sido atribuído um número de horas excessivo, comparado com o dos outros cirurgiões. Lamento que tenha tido conhecimento da alteração desta forma, mas...

- Mas o quê?-perguntou Thomas.

- Exerce clínica privada - disse o Dr. Ballantine. - Agora, se aceitasse trabalhar aqui a tempo inteiro, posso garantir-lhe a regência de uma cadeira como catedrático e...

- O meu título de professor assistente clínico chega-me perfeitamente - disse Thomas. Subitamente, entendeu. A nova escala era mais uma tentativa de o pressionar a desistir da sua clínica privada.

- Thomas, sabe que o director de cirurgia cardíaca que me substituir terá de trabalhar aqui a tempo inteiro.

- Então tenho de encarar este corte no meu tempo de BO como um facto consumado - disse Thomas, ignorando a insinuação de Ballantine.

- Lamento, mas é assim. A menos que consigamos arranjar outro BO, mas isso, como sabe, demora tempo.

Abruptamente, Thomas virou-se para se ir embora.

- Vai pensar em vir para cá a tempo inteiro, não vai? - disse o Dr. Ballantine.

- Vou pensar - disse Thomas, sabendo que estava a mentir. Thomas saiu da sala de aula e começou a descer as escadas.

Quando chegou ao primeiro patamar, parou. Agarrando violentamente o corrimão e fechando os olhos com toda a força, deixou que o seu corpo tremesse de pura ira. Depois, endireitou-se. Recuperara o autodomínio. Afinal de contas, era um indivíduo racional e enfrentava burocracias idiotas há tempo suficiente para saber lidar com elas. Já suspeitava que Ballantine e George estavam a preparar alguma. Agora tinha a certeza. Mas Thomas interrogou-se se as coisas ficariam por ali. Talvez houvesse mais alguma coisa para além da alteração na escala, pois continuava a sentir, sob a forma de ansiedade, que se passava qualquer outra coisa que devia saber.

 

Cassi sentia sempre uma certa apreensão quando mergulhava a tira de teste na urina. Havia sempre a possibilidade de a cor da tira se alterar, indicando que estava a eliminar açúcar. Não que um pouco de açúcar na urina fosse grave, especialmente se só acontecesse ocasionalmente. Era mais uma questão psicológica; se estava a eliminar açúcar, não estava sob controlo. Era o aspecto psicológico que a perturbava.

A luz da casa de banho era fraca, obrigando Cassi a abrir a porta do compartimento para ver bem a tira. Não mudara de cor. Como tinha dormido muito pouco na noite anterior e fizera batota comendo um iogurte de fruta nessa tarde, não teria ficado muito admirada se houvesse algum açúcar. Cassi ficou satisfeita por a quantidade de insulina que administrava a si própria e a dieta que seguia estarem equilibradas. O seu médico, o Dr. Malcolm McNery, falava-lhe de vez em quando em substituir o tratamento por injecções por um dispositivo de infusão constante de insulina, mas Cassi mostrou-se sempre renitente. Tinha relutância em alterar um sistema que parecia resultar. Não se importava de se injectar duas vezes por dia, uma antes do pequeno-almoço e outra antes do jantar. Tornara-se um hábito de tal forma rotineiro que não implicava o menor esforço.

Fechando o olho direito, Cassi olhou para a tira do teste. Tinha apenas uma vaga percepção de luz, como se estivesse a olhar através de uma parede de vidro martelado. Desejava não ter aquele problema com o olho, pois a ideia da cegueira aterrorizava-a ainda mais, em certos aspectos, do que a ideia da morte. A possibilidade da morte, essa podia-a negar, como toda a gente. Mas era difícil negar a possibilidade de cegueira, dado que o estado do seu olho esquerdo fazia que se lembrasse disso todos os dias. O problema ocorrera subitamente. Explicaram-lhe que um vaso sanguíneo rebentara, fazendo que o sangue entrasse na cavidade vítrea.

Enquanto lavava as mãos, Cassi observou-se ao espelho. A única lâmpada que existia ali favorecia-a, pensou, dando mais cor à sua pele do que aquela que sabia ter. Olhou para o nariz. Era demasiado pequeno para o seu rosto. E os olhos tinham uma inclinação ascendente pouco vulgar nos cantos exteriores, como se tivesse o cabelo puxado para trás com demasiada força. Cassi tentou olhar para si própria sem se concentrar numa única feição. Seria de facto tão atraente como as pessoas diziam? Nunca sentira que era bonita. Pensara sempre que o facto de ter diabetes se encontrava indelevelmente marcado na sua testa. Estava convencida de que a sua doença era um defeito tão marcante que todos o viam.

Nem sempre isso acontecera. No liceu, Cassi tinha tentado limitar a doença a um pequeno aspecto da sua vida. A algo que ela podia compartimentar. E embora fosse conscienciosa em relação aos remédios e à dieta, não queria dar-lhes excessiva atenção.

No entanto, esta sua forma de encarar o problema provocava aos pais, especialmente à mãe, uma compreensível preocupação. Estes achavam que a única maneira de ela conseguir manter a disciplina necessária face à doença era torná-la a sua principal preocupação. Pelo menos foi essa a forma como Mrs. Cassidy resolvera o problema.

O conflito atingiu o auge aquando do baile de finalistas.

Cassi chegou do liceu excitadíssima e entusiasmadíssima com a perspectiva do baile. Este ia realizar-se num clube local que estava na moda, seguido de um pequeno-almoço no liceu. Depois, toda a turma iria para Nova Jérsia passar o resto do fim-de-semana.

Cassi fora inesperadamente convidada para o baile por Tim Bar-tholomew, um dos rapazes mais populares do liceu. Tinha falado com Cassi várias vezes depois de uma aula de educação física a que ambos assistiam. Mas nunca convidara Cassi para sair, portanto o convit; para o baile tinha sido uma total surpresa para ela. Cassi estava quase fora de si de contentamento por ir com um rapaz tão disputado ao acontecimento social mais importante do ano.

O pai de Cassi foi o primeiro a ouvir esta boa notícia. Professor de Geologia na Universidade de Colúmbia e com um feitio bastante reservado, não compartilhou do entusiasmo de Cassi, mas ficou satisfeito por a ver feliz.

A mãe de Cassi mostrou-se bem menos entusiástica. Saiu da cozinha e declarou que Cassi podia ir ao baile, mas que tinha de vir para casa em vez de ir ao pequeno-almoço.

- Não têm comida para diabéticos nessas coisas - disse Mrs. Cassidy -, e quanto a ires passar o fim-de-semana à praia, isso está absolutamente fora de questão.

Como não esperava aquela resposta negativa, Cassi não estava preparada para a enfrentar. Lavada em lágrimas, protestou, afirmando que demonstrara sempre ser responsável em relação aos medicamentos e à dieta e que a deviam deixar ir.

Mrs. Cassidy foi intransigente, dizendo a Cassi que ela estava apenas a pensar no seu próprio bem-estar. Depois disse que Cassi tinha de aceitar o facto de que não era normal.

Cassi gritou que era normal, questão com a qual se debatera em termos emocionais durante toda a sua adolescência.

Mrs. Cassidy agarrou Cassi pelos ombros e disse à filha que ela tinha uma doença crónica até ao fim da sua vida e que quanto mais depressa aceitasse essa realidade, melhor seria para ela.

Cassandra fugiu para o quarto e fechou a porta à chave. Recusou-se a falar com quem quer que fosse até ao dia seguinte. Quando o fez, informou a mãe que tinha telefonado a Tim e lhe dissera que não podia ir ao baile por estar doente. Disse à mãe que Tim tinha ficado muito admirado porque não sabia que ela tinha diabetes.

Ao fitar o seu reflexo no espelho do hospital, Cassi forçou-se a regressar ao presente. Interrogou-se sobre até que ponto é que superara intelectualmente a sua doença. Sim, agora sabia muito acerca dela e podia citar todo o tipo de factos e de estatísticas. Mas teria esse conhecimento valido o sacrifício? Não sabia responder a essa pergunta e provavelmente nunca viria a saber. O seu olhar incidiu sobre o cabelo em desalinho.

Depois de tirar as travessas e os ganchos, Cassi abanou a cabeça. O seu cabelo fino emoldurou-lhe o rosto de forma desordenada. Voltou a prendê-lo com gestos hábeis e quando saiu da casa de banho sentiu-se refrescada.

As poucas coisas que trouxera para a noite que ia passar no hospital cabiam facilmente no seu saco de lona a tiracolo, apesar de este já lá ter uma capa grande cheia de artigos médicos. Tinha aquele saco desde o tempo em que andava na universidade e, embora estivesse enxovalhado e puído em vários sítios, era um velho amigo. Tinha um grande coração vermelho num dos lados. Quando se formara, Cassi tinha recebido como prenda uma pasta, mas preferira usar o saco de lona. A pasta parecia-lhe demasiado pretensiosa. Além disso, o saco levava mais coisas.

Cassi olhou para o relógio. Eram cinco e trinta, a altura perfeita. Sabia que Thomas estaria a dirigir-se para o seu gabinete, para atender os últimos doentes. Enquanto pegava nas suas coisas, Cassi disse a si própria que o horário regular era uma outra vantagem da psiquiatria. Como estagiária de medicina ou residente de patologia, raramente saía antes das seis e meia ou sete horas, ficando por vezes a trabalhar até às oito ou oito e meia. Na psiquiatria, podia contar em ficar livre depois da reunião de equipa da tarde, desde que não estivesse de serviço.

Saindo para o corredor, Cassi ficou inicialmente surpreendida ao vê-lo vazio. Depois lembrou-se de que era a hora de jantar dos doentes e ao passar pela sala comum viu a maioria a comer, com tabuleiros, à frente dos aparelhos de televisão. Cassi entrou no seu pequeno gabinete para ir buscar os processos que tinha estado a compilar. Tinha apenas quatro doentes, incluindo o coronel Bentworth, e passara parte da tarde a estudar os seus processos e a preencher fichas de consulta para cada caso.

Com o saco de lona ao ombro e os processos na mão Cassi dirigiu-se para o balcão das enfermeiras. Joel Hartman, que estava de serviço nessa noite, encontrava-se sentado atrás do balcão a conversar com as enfermeiras. Cassi arrumou os processos nos escaninhos respectivos e deu as boas-noites. Joel desejou-lhe bom fim-de-semana e disse-lhe que se descontraísse, pois curaria todos os seus doentes até segunda-feira. Disse que sabia exactamente como lidar com Bentworth, pois tinha estado no ROTC na universidade.

Enquanto se dirigia para o primeiro andar, Cassi sentiu que se começava a descontrair. A sua primeira semana na psiquiatria tinha sido um período desgastante e difícil, que não gostaria de ter de repetir.

Cassi seguiu pelo caminho de peões interior até ao edifício de consultas. O gabinete de Thomas era no terceiro andar. Parou junto à porta de carvalho polido, a olhar para a placa de bronze brilhante: THOMAS KINGSLEY, M. D., CIRURGIA CARDÍACA E TORÁCICA, e sentiu-se vibrar de orgulho.

A sala de espera estava decorada com extremo bom gosto, com reproduções de cadeiras Chippendale e uma grande carpete Tabriz. As paredes eram de um azul-alfazema e tinham quadros originais. A porta que dava para o gabinete estava guardada por uma secretária de mogno ocupada por Doris Stratford, enfermeira-recepcionista de Thomas. Quando Cassi entrou, Doris olhou-a por breves instantes e continuou a dactilografar, só então a reconhecendo.

Cassi aproximou-se da secretária.

- Como é que está Thomas?

- Óptimo - disse Doris, sem levantar os olhos do papel. Doris nunca olhava Cassandra nos olhos. Mas Cassi habituara-se,

ao longo dos anos, ao facto de a sua doença embaraçar algumas pessoas. Doris era obviamente uma delas.

- Importa-se de lhe dizer que estou cá? - disse Cassi. Cassi teve um rápido vislumbre dos olhos castanhos de Doris.

A sua expressão tinha uma aura de petulância. Não suficientemente nítida para dar motivo a Cassi se queixar, mas o suficiente para lhe fazer entender que a interrupção não agradava a Doris. Não respondeu a Cassi e limitou-se a carregar no botão do intercomunicador, anunciando que a Dr.a Cassidy tinha chegado. Depois, recomeçou imediatamente a dactilografar.

Recusando-se a deixar que Doris a irritasse, Cassi instalou-se no sofá forrado com um tecido cor-de-rosa e tirou do saco os artigos que queria ler sobre personalidade-fronteira. Começou a ler, mas acabou por dar por si a fitar Doris por cima da folha.

Cassi pensou por que razão Thomas tinha mantido Doris ao seu serviço. Era, sem dúvida, eficiente, mas parecia mal-humorada e irritável, de forma alguma as qualidades desejáveis num consultório médico. Era apresentável, embora não demasiado atraente. Tinha um rosto largo e cabelo castanho-pardo apanhado num carrapito. Mas tinha boa figura, isso Cassi tinha de admitir.

Baixando os olhos, Cassi forçou-se a concentrar-se no artigo.

Thomas olhou por cima da superfície polida da sua secretária para o último doente do dia, um advogado de cinquenta e dois anos chamado Herbert Lowell. O gabinete de Thomas estava decorado como a sala de espera, à excepção das paredes, que eram de um verde-floresta. A única outra diferença era que o mobiliário era Chip-pendale genuíno. Só a secretária valia uma pequena fortuna.

Thomas já tinha examinado Mr. Lowell várias vezes e revira os arteriogramas coronários feitos pelo seu cardiologista, o Dr. Wit-ting. Para Thomas, a situação era bem clara. Mr. Lowell tinha dores provocadas por angina de peito, tivera em tempos um ligeiro ataque de coração e havia provas radiográficas de circulação arterial deficiente. O homem precisava de ser operado e Thomas tinha dito a Mr. Lowell exactamente isso. Agora, Thomas queria terminar a consulta.

- É uma decisão de tal forma irreversível - dizia Mr. Lowell, nervoso.

- Mas não deixa de ser uma decisão que tem de ser tomada - disse Thomas, levantando-se e fechando o dossier de Mr. Lowell. - Lamento, mas tenho um horário muito apertado. Se tiver mais algumas perguntas, pode telefonar-me.-Thomas começou, a dirigir-se

para a porta como um vendedor inteligente a indicar que o assunto não comportava mais negociações.

- Acha aconselhável uma segunda opinião? - perguntou Mr. Lowell num tom hesitante.

- Mr. Lowell - disse Thomas -, o senhor pode obter as opiniões que quiser. Vou mandar um relatório pormenorizado ao Dr. Whitting e poderá discutir a questão com ele. - Thomas abriu a porta que dava para a sala de espera. - Na realidade, Mr. Lowell, aconselho-o a consultar outro cirurgião porque, para ser franco, não gosto de trabalhar com pessoas com atitudes negativas. Agora, vai-me desculpar, mas tenho de ir.

Thomas fechou a porta na cara de Mr. Lowell convicto de que o homem marcaria a operação de que necessitava. Sentou-se, recolheu o material de que iria precisar para a sua apresentação na apresentação de casos da manhã seguinte e depois começou a assinar os relatórios de consulta que Doris lhe deixara.

Quando Thomas saiu do gabinete com a correspondência, não ficou admirado por ver Mr. Lowell na sala de espera. Olhou de relance para Cassi, cumprimentando-a com um ligeiro aceno de cabeça, e dirigiu-se ao doente.

- Dr. Kingsley, decidi fazer a operação.

- Muito bem - disse Thomas. - Telefone a Miss Stratford para a semana e ela tratará da marcação.

Mr. Lowell agradeceu a Thomas e foi-se embora, fechando suavemente a porta ao sair.

Segurando nos artigos como se os estivesse a ler, Cassi observou o marido enquanto este revia alguns apontamentos com Doris. Tinha reparado como ele lidara habilmente com Mr. Lowell. Parecia nunca hesitar. Sabia o que devia ser feito e fazia-o. Admirara sempre a sua compostura, uma qualidade que ela própria sentia não ter. Cassi sorriu enquanto o olhar seguia as linhas angulosas do seu perfil, o seu cabelo louro-claro e o seu corpo atlético. Achava-o extremamente atraente.

Depois da insegurança que sentira durante todo o dia, ou antes, durante toda a semana, Cassi teve vontade de correr para ele e abraçá-lo. Mas sabia instintivamente que ele não gostaria desse tipo de demonstração emotiva, especialmente estando Doris presente. E Cassi sabia que ele tinha razão. O consultório não era sítio para esse tipo de comportamento. Assim, guardou o artigo na capa e meteu-a dentro do saco de lona.

Thomas acabou de tratar das questões com Doris, mas só quando estavam já fora do gabinete com a porta fechada é que falou a Cassi.

- Tenho de ir à UCI - disse num tom inexpressivo. - Podes vir ou esperar na entrada. A opção é tua. Eu não me demoro.

- Vou contigo - disse Cassi, apercebendo-se imediatamente de que o dia de Thomas não correra bem. Teve de acelerar o passo para o acompanhar. - Tiveste hoje algum problema com a cirurgia? - perguntou um pouco a medo.

- A cirurgia correu optimamente.

Cassi decidiu não fazer mais perguntas. Era difícil falar enquanto se dirigiam para o edifício Scherington. Além disso aprendera por experiência própria que normalmente era melhor deixar que fosse Thomas a dizer-lhe o que se passava quando estava aborrecido.

Quando iam no elevador, observou-o enquanto ele mantinha o olhar fixo no painel que indicava os andares. Parecia tenso e preocupado.

- Vai-me saber bem chegar a casa - disse Cassi. - Preciso de uma boa noite de sono.

- Os malucos não te deixaram dormir ontem à noite?

- Não me venhas com as tuas opiniões de cirurgião sobre a psiquiatria - disse Cassi.

Thomas não respondeu, mas surgiu-lhe um sorriso irónico no rosto e pareceu descontrair-se ligeiramente.

As portas do elevador abriram-se no décimo-sétimo andar e eles saíram. Thomas caminhou rapidamente à frente de Cassi. Embora já tivesse passado alguns anos em hospitais, Cassi tinha sempre a mesma reacção quando chegava ao piso de cirurgia. Se não era medo, era algo de muito parecido. A conotação de crise interferia com a elaborada recusa que formulara em relação às complicações da sua própria doença. O que intrigava Cassi acerca da sua reacção era o facto de não a ter no piso médico, onde havia invariavelmente doentes com complicações originadas por diabetes.

Quando Cassi e Thomas se aproximaram da UCI, vários familiares de doentes que ali esperavam reconheceram Thomas. À semelhança de uma estrela de cinema ou de rock, foi imediatamente rodeado pelas pessoas. Uma velhota esforçava-se por lhe tocar, como se fosse uma espécie de deus. Thomas conservou a habitual compostura, assegurando a todos que a cirurgia correra normalmente e que tinham de esperar por mais informações, a dar pelo pessoal de enfermagem. Libertou-se, finalmente, com alguma dificuldade, e entrou na UCI, para onde ninguém ousou segui-lo, à excepção de Cassi.

O enorme número de aparelhos, osciloscópios, ecrãs e ligaduras intensificaram os receios de Cassi. E, na realidade, os próprios doentes pareciam quase esquecidos, perdidos no emaranhado do equipamento.

As enfermeiras e os médicos pareciam dar prioridade ao cuidado com o equipamento.

Thomas foi de cama em cama. Cada doente na UCI tinha a sua própria enfermeira especializada, com quem Thomas falava, mal olhando para os doentes, a não ser que a respectiva enfermeira lhe chamasse a atenção para qualquer anomalia. Verificava visualmente todos os sinais vitais que apareciam no visor dos aparelhos. Olhou rapidamente para os gráficos de equilíbrio de fluido, viu radiografias de tórax erguendo-as contra a luz e verificou as válvulas de gás de elec-trólitos e de sangue. Cassi sabia o suficiente para perceber que pouco sabia.

Como prometera, Thomas não se demorou. Todos os seus doentes estavam a recuperar bem. Sob a direcção de Larry Owen, o pessoal de serviço resolveria os pequenos problemas que surgissem durante a noite. Quando Thomas e Cassi saíram da UCI, os familiares dos doentes voltaram a abordá-lo. Thomas disse que lamentava não ter tempo para falar com eles, mas que todos os doentes estavam a recuperar bem.

- Deve ser extremamente compensador ser alvo de tanta atenção por parte das famílias - disse Cassi enquanto se dirigiam para o elevador.

Thomas não lhe respondeu logo. A afirmação de Cassi fê-lo recordar-se do prazer que anos antes sentira quando os Nazzaros lhe tinham agradecido. A sua gratidão tinha significado muito para ele. Depois pensou na filha de Mr. Campbell. Olhou para trás, apercebendo-se de que não a tinha visto.

- Sim, é agradável sentir o apreço dos familiares - disse Thomas sem grande convicção. - Mas não é tão importante como isso. Não é de forma alguma por causa disso que faço cirurgia.

- Claro que não - disse Cassi. - Não era isso que eu queria dizer.

- Para mim o reconhecimento por parte dos meus professores e superiores foi sempre mais importante - disse Thomas.

O elevador chegou e eles entraram.

- O problema - continuou Thomas -, é que agora sou professor.

Cassi olhou para ele. Para sua surpresa, a sua voz tinha um inesperado e incaracterístico tom melancólico. Observando-o, viu que tinha o olhar perdido na distância e que sonhava acordado.

O espírito de Thomas recuara até à altura em que fizera o estágio de cirurgia torácica, uma altura de incrível excitação e aventura. Recordou-se que vivera praticamente três anos no hospital, indo ao seu modesto apartamento de duas assoalhadas apenas para recarregar energia dormindo algumas horas. A fim de atingir a excelência, tinha trabalhado mais duramente do que alguma vez achara possível. E por fim fora nomeado interno principal. Em muitos aspectos, Thomas sentia que esse fora o acontecimento mais importante da sua vida. Tinha sido o melhor de um grupo de pessoas dotadas e tão empenhadas e competitivas como ele próprio. Thomas nunca se esqueceria do momento em que cada uma delas o felicitara. Não havia dúvida, pensou, a cirurgia e a vida em geral eram mais recompensadoras e mais agradáveis nessa altura. Era agradável ver a gratidão dos familiares, mas não era substituto para aquilo.

Quando Cassi e Thomas saíram do hospital foram rudemente atingidos pela noite chuvosa de Boston. Rajadas de vento fustigavam a chuva em círculos caóticos. Às seis e um quarto já era escuro A única iluminação era a dos candeeiros da cidade que lançavam o reflexo da luz sobre a camada de nuvens baixas. Cassi pôs o braço à volta da cintura de Thomas e correram juntos para o parque de estacionamento coberto mais próximo. Uma vez abrigados, bateram os pés para sacudir a água dos sapatos e subiram depois mais lentamente a rampa de cimento. O cimento molhado tinha um cheiro surpreendentemente acre. Thomas continuava a não- agir normalmente e Cassi tentou adivinhar que é que o estaria a perturbar. Tinha a desagradável sensação de que era qualquer coisa que ela fizera. Mas não conseguia imaginar o quê. Não se tinham visto depois do trajecto para o hospital na terça-feira de manhã e nessa altura tudo parecia estar bem.

- Estás cansado por teres trabalhado ontem à noite? - perguntou Cassi.

- Sim, provavelmente estou. Mas nem sequer pensei nisso.

- E os teus casos? Correram bem?

- Já te disse que correu tudo bem - disse Thomas. - Até podia ter feito outro bypass se me tivessem autorizado a marcá-lo. Fiz três operações no tempo que George cherman levou a fazer duas e Ballantine, o nosso intrépido chefe, uma.

- Então devias estar satisfeito - disse Cassi.

Pararam junto a um Porsche 928 cor de antracite metalizado. Thomas hesitou, olhando para Cassi por cima do ombro.

- Mas não estou satisfeito. Como de costume, uma série de coisas sem importância que só serviram para me aborrecer e para dificultar o meu trabalho. As coisas parece que pioram em vez de melhorarem aqui no Memorial. Francamente, estou a ficar farto. Depois, como se isso não bastasse, na reunião de cirurgia cardíaca fui informado de que quatro dos meus períodos de tempo de BO tinham sido cortados para George Sherman poder marcar mais dos seus malditos casos de estudo. Nem sequer têm doentes de estudo suficientes para os períodos à sua disposição actualmente e ainda por cima aguentam doentes que não têm direito ao precioso espaço do hospital.

Thomas abriu a porta, entrou no carro e abriu a porta de Cassi.

- Além disso - continuou, agarrando o volante com força -, suspeito de que se passa qualquer coisa no hospital. George Sherman e Norman Ballantine andam a tramar qualquer coisa. Santo Deus! E sou eu que tenho de aguentar com esta merda!

Thomas ligou o motor, meteu a marcha atrás, depois a primeira e arrancou, com os pneus a chiar em protesto. Cassi segurou-se ao tablier para manter o equilíbrio. Quando ele meteu o cartão na ranhura da cancela automática, Cassi aproveitou para pôr o cinto de segurança. Ao prendê-lo, disse:

- Thomas, acho que também deves pôr o teu.

- Por amor de Deus - gritou Thomas. - Deixa de me chatear.

- Desculpa - disse Cassi imediatamente, já com a certeza de de que era, em parte e de alguma forma, responsável pelo mau humor do marido.

Thomas avançou pelo meio do trânsito, metendo-se à frente dos carros, cujos condutores ficavam furiosos. Cassi tinha medo de dizer qualquer coisa, não fosse ele irritar-se ainda mais. O percurso parecia uma corrida do Grande Prémio.

Quando chegaram à zona norte da cidade, o trânsito diminuiu de intensidade. Apesar de Thomas ir a mais de cem, Cassi começou a descontrair-se.

- Desculpa se te aborreci, especialmente depois de um dia irritante - disse, finalmente.

Thomas não respondeu, mas o seu rosto estava menos tenso e agarrava o volante como menos força. Cassi esteve, por várias vezes, para lhe perguntar se era por causa dela que estava aborrecido, mas não conseguiu formular a pergunta. Durante algum tempo foi a olhar para a estrada batida pela chuva que parecia avançar para eles a grande velocidade.

- Fiz alguma coisa que te tenha aborrecido? - acabou por dizer.

- Fizeste - disse Thomas num tom irritado.

Ficaram em silêncio durante algum tempo. Cassi sabia que mais cedo ou mais tarde ele falaria.

- Ao que parece Larry Owen sabe tudo acerca dos nossos assuntos médicos privados - disse Thomas.

- Não é segredo eu ter diabetes - disse Cassi.

- Não é segredo porque tu passas a vida a falar nisso - disse Thomas. - Creio que quanto menos falares nesse assunto, melhor. Não gosto de ser objecto de conversa.

Cassi não se lembrava de ter falado em nada relacionado com os seus problemas médicos a Larry, mas é claro que o problema não era esse. Tinha consciência de que dissera a uma série de pessoas que tinha diabetes, incluindo Joan Widiker, nesse próprio dia. Thomas, à semelhança da mãe, considerava que a doença de Cassi não era um assunto a discutir, nem sequer com os amigos mais íntimos.

Cassi olhou para Thomas. Os feixes de luz e sombra dos carros que vinham em sentido contrário faziam que o seu rosto ficasse na penumbra, obscurecendo-lhe a expressão.

- Creio que nunca pensei que o facto de falar dos meus diabetes com outras pessoas nos afectasse - disse Cassi. - Desculpa. Terei mais cuidado.

- Sabes como há mexericos num centro hospitalar - disse Thomas. - Mais vale não lhes dar motivo para conversa. Larry sabia mais do que o facto de teres diabetes. Sabia que talvez tenhas de fazer uma operação à vista, que é uma informação bem específica. Disse que tinha sabido pelo teu amigo Robert Seibert.

Então Cassi percebeu. Sabia que não tinha dito nada a Larry Owen.

- De facto falei com Robert - admitiu. - Mas pareceu-me natural fazê-lo. Conhecemo-nos há muito tempo e ele falou-me da intervenção cirúrgica a que vai ser submetido. Vai tirar os dentes do siso. Como teve febre reumática na infância, tem de ser internado e fazer cobertura antibiótica.

Saíram da estrada 128, virando para norte, em direcção ao oceano. Havia algumas bolsas inesperadas de nevoeiro e Thomas abrandou.

- Mesmo assim não acho que seja boa ideia falares desses problemas - disse Thomas, esforçando-se por ver melhor através do pára-brisas. - Especialmente a uma pessoa como Robert Seibert. Continuo a não conseguir perceber como é que toleras um homossexual declarado.

- Nunca falámos das preferências sexuais de Robert - disse Cassi num tom irritado.

- Não compreendo como é que podem evitar esse assunto - disse Thomas.

- Robert é um ser humano sensível e inteligente e um excelente patologista.

- Fico satisfeito em saber que tem algumas qualidades redentoras - disse Thomas, consciente de que estava a provocar a mulher.

Cassi controlou-se e não lhe deu resposta. Sabia que Thomas estava zangado e que tentava provocá-la. Sabia também que não ganharia nada se se irritasse. Depois de um breve silêncio, estendeu o braço e começou a massajar o pescoço de Thomas. A princípio este continuou rígido, mas passados alguns minutos Cassi sentiu que começava a reagir à massagem.

- Desculpa eu ter falado nos meus diabetes - disse ela - e desculpa ter falado no problema do olho.

Continuando a massajá-lo, Cassi olhou pela janela sem ver nada. A sensação gelada de medo que a invadira fê-la pensar se Thomas não estaria já farto da doença dela. Talvez se andasse a queixar demasiado, especialmente com a adicional perturbação de ter mudado de estágio. Ao pensar nisso, Cassi tinha de admitir que Thomas se tinha afastado dela nos últimos meses, agindo mais impulsivamente e com menos tolerância. Cassi jurou a si própria falar menos na sua doença. Sabia, melhor do que ninguém, a pressão a que Thomas estava sujeito e prometeu a si própria não a agravar.

Levando a mão um pouco mais acima no pescoço, Cassi pensou que seria aconselhável mudar de assunto.

- Ninguém disse nada sobre tu fazeres três bypasses enquanto os outros fazem um ou dois?

- Não. Ninguém diz nada porque é sempre a mesma coisa. Não há de facto ninguém que possa competir comigo.

- E competires com o melhor: tu próprio!-disse Cassi, sorrindo.

- Isso não! - disse Thomas. - Não me venhas com a tua pseudopsicologia.

- A competição ainda é importante nesta fase? - perguntou Cassi já num tom sério. - Não basta a satisfação de ajudares as pessoas a voltarem a ter uma vida activa?

- É uma sensação agradável - admitiu Thomas. - Mas não me ajuda a conseguir camas ou tempo de BO, mesmo que os doentes que eu proponho sejam os que mais merecem, quer do ponto de vista físico, quer sociológico. E a sua gratidão provavelmente não fará que venha a ser director, embora já não esteja certo de ser isso que quero. Para dizer a verdade, o entusiasmo da cirurgia já não dura tanto tempo como dantes. Ultimamente tenho vindo a sentir uma sensação de vazio.

A palavra “vazio” fez que Cassi se lembrasse de qualquer coisa. Teria sido um sonho? Olhou em volta no interior do carro, notando o cheiro característico do couro, escutando o ruído repetitivo dos limpa pára-brisas, deixando o pensamento vaguear. Qual era a associação? Subitamente lembrou-se - “vazio” era a palavra que o coronel Bentworth usara para descrever a sua vida nos últimos anos. Ira e vazio, fora isso que dissera.

Quando saíram da zona arborizada, mas despida de folhas, passaram a alta velocidade pelos pântanos salgados. Ocasionalmente, Cassi conseguia ter através da janela fustigada pela chuva uma breve visão da sombria paisagem de Novembro. O Outono terminara e as últimas pinceladas moribundas de cor tinham sido arrastadas dos ramos nus das árvores. O Inverno vinha a caminho e era anunciado pelo frio húmido da noite. O carro descreveu a última curva, passou ruidosamente por cima de uma ponte de madeira e entrou no caminho que dava para a casa. À luz oscilante dos faróis, Cassi via os contornos da sua casa. Tinha sido inicialmente construída no princípio do século como casa de campo de um homem abastado, com telhado de madeira, um estilo característico da Nova Inglaterra. Na década de 40, fora adaptada de forma a ser possível lá viver no Inverno. A sua implantação em extensão e as suas linhas de telhado desniveladas davam-lhe uma configuração única. Cassi gostava da casa, talvez mais no Verão do que no Inverno. O melhor era a sua localização. Situava-se directamente numa pequena enseada, com vista para o mar do lado norte. Embora ficasse quarenta minutos a norte de Boston, Cassi achava que valia a pena esse percurso diário.

Quando iam pelo caminho que dava para a casa, Cassi pensou no tempo em que começara a namorar Thomas. Tinham-se conhecido quando ela foi colocada no Memorial para fazer a rotação de medicina interna no seu terceiro ano de medicina. Um dia viu o Dr. Thomas Kingsley na enfermaria. Cercado de um grupo de internos que o seguiam como cachorrinhos, estava a examinar um caso de ataque de coração em choque cardíaco.

Cassi observara, fascinada, o Dr. Kingsley. Já ouvira falar dele e ficou admirada por ser tão novo. Achou-o extremamente atraente, mas nunca pensou que alguém tão interessante como Thomas lhe desse atenção, excepto, talvez, para lhe fazer qualquer pergunta médica embaraçosa. Se porventura Thomas dera por ela nesse primeiro dia, não manifestou a menor indicação.

Uma vez integrada na comunidade hospitalar, Cassi verificou que ele não era tão intimidante como receara. Era extremamente aplicada e, para seu espanto, viu subitamente que se tornara imensamente popular. Até aí, nunca tivera tempo para se divertir, mas no Boston Memorial o trabalho e a vida social coexistiam. Cassi viu-se activamente solicitada pela maioria do pessoal, que lhe ensinou todo o tipo de coisas, frívolas e sérias. Passado pouco tempo, alguns dos seus companheiros começaram mesmo a competir entre si pela sua atenção, incluindo um bonito oftalmologista, que não aceitava um não como resposta. Cassi nunca conhecera ninguém tão determinado e insistente, especialmente à frente da lareira da sua casa em Beacon Hill. Mas tudo isso não passava de divertimento, não assumindo uma natureza séria, até George Sherman a ter convidado para sair. Sem que Cassandra praticamente o encorajasse, mandava-lhe flores, pequenas prendas e depois, de uma forma ccmpletamente inesperada, pediu-a em casamento.

Cassi não rejeitou George imediatamente. Gostava dele, embora pensasse que não o amava. Enquanto ainda estava a pensar como é que havia de resolver aquela situação, algo mais inesperado aconteceu. Thomas Kingsley convidou-a para sair.

Cassi recordou-se da enorme excitação que sentira por estar com Thomas. Ele tinha uma aura de autoconfiança que algumas pessoas poderiam classificar de arrogância. Mas não Cassi. Achava que ele muito simplesmente sabia o que queria e tomava decisões com espantosa rapidez. Quando Cassi tentou falar-lhe nos seus diabetes pouco depois de começarem a sair juntos, ele não ligou, encarando-os como um problema do passado. Deu-lhe toda a confiança que ela não sentia desde a terceira classe.

Tinha sido difícil para Cassi enfrentar George e dizer-lhe não só que não queria casar com ele, como também que se apaixonara pelo seu colega. George recebeu esta notícia com aparente compreensão e disse que mesmo assim gostaria de continuar seu amigo. Depois disso, sempre que por acaso o encontrava no hospital, ele parecia mais preocupado com a felicidade dela do que com o facto de ela o ter trocado por outro.

Thomas era encantador, atencioso, e galanteador, muito diferente daquilo que Cassi esperara. Ouvira dizer que era famoso pelos seus casos intensos, mas curtos. Embora raramente lhe dissesse que a amava, demonstrava-o de muitas formas. Levava Cassi nas rondas de ensino com os catedráticos e mandava chamá-la ao BO para ver casos especiais. No primeiro Natal que passaram juntos tinha-lhe dado uma pulseira de diamantes antiga. Depois, na véspera de Ano Novo, pedira Cassandra em casamento.

Cassi não tencionava casar-se enquanto não acabasse medicina. Mas Thomas Kingsley era o tipo de homem com o qual nunca se atrevera sequer a sonhar. Nunca conhecera ninguém como ele e como o próprio Thomas estava em medicina, sentiu-se confiante de que não prejudicaria o seu trabalho. Cassi aceitou e Thomas ficou extasiado.

Casaram-se no relvado à frente da casa de Thomas, que tinha vista para o mar. A maioria do pessoal médico do hospital foi convidada e mais tarde foi considerado o acontecimento social do ano. Cassi lembrava-se de todos os instantes desse dia glorioso. O céu tinha um tom de azul que se assemelhava ao dos olhos de Thomas. O mar estava relativamente calmo, com pequenas ondas cobertas de espuma branca levantadas pela brisa de oeste.

A recepção fora sumptuosamente organizada e no relvado estavam espalhadas tendas de aspecto medieval encimadas por bandeiras heráldicas, que tremulavam ao vento. Cassi nunca se sentira tão feliz e Thomas parecia extremamente orgulhoso, atento aos mais ínfimos pormenores.

Quando todos se foram embora, Thomas e Cassi passearam pela praia sem dar pela água gelada que lhes molhava os pés.

Cassi nunca se sentira tão feliz e tão protegida. Tinham passado a noite no Ritz-Carlton, em Boston, antes de partirem para a Europa.

Quando regressaram da lua-de-mel, Cassi retomou os estudos, mas sempre atenta ao seu poderoso mentor. Thomas ajudou-a de todas as formas possíveis e imaginárias. Ela tinha sido sempre boa aluna, mas com a ajuda e o encorajamento de Thomas atingiu resultados que excediam os seus sonhos mais irrealistas. Ele continuou a encorajá-la a ir com frequência ao BO para observar casos particularmente interessantes e, quando ela fizera a rotação pela cirurgia, ajudara em experiências com as quais os outros alunos de medicina apenas podiam sonhar. Dois anos depois, na altura de escolher a especialidade, foi o serviço de patologia que escolheu Cassi e não o contrário.

Talvez a recordação que mais grata era a Cassi fosse a do fim-de-semana em que se licenciara. Thomas tinha-se mostrado reservado desde o instante em que acordaram de manhã, facto que Cassi atribuiu a um caso cirúrgico complicado que Thomas esperava. Durante o jantar do dia anterior, falara a Cassi num doente que estava previsto vir de avião de outro Estado. Pediu desculpa por não a poder acompanhar ao jantar comemorativo nessa tarde, depois da cerimónia, e embora Cassi tivesse ficado decepcionada, assegurou a Thomas que compreendia.

Durante a cerimónia, Thomas tinha tido um comportamento excessivamente exuberante e embaraçara Cassi seguindo-a até ao palco e tirando-lhe dezenas de fotografias com a sua Pentax. Depois, quando Cassi esperava que subitamente desaparecesse para ir operar, ele escoltou-a pelo relvado até um enorme Cadillac preto. Dentro do carro havia duas flutes e uma garrafa gelada de Dom Perignon.

Como num sonho, Cassi foi levada para o Aeroporto Logan e apressadamente metida num voo para Nantucket. Tentou protestar, dizendo que não tinha roupa e que não podia de forma alguma ir sem primeiro ir a casa, mas Thomas garantiu-lhe que tinham sido previstos todos os pormenores, o que de facto era verdade. Mostrou-lhe uma mala onde metera todos os seus produtos de maquilhagem, os seus remédios, bem como algumas peças de roupa novas, incluindo um vestido de seda cor-de-rosa Ted Lapidus que era o mais sexy que Cassi alguma vez vira.

Passaram apenas uma noite fora, mas que noite aquela! Ficaram na suite principal da mansão de um antigo comandante da marinha que fora convertida numa encantadora estalagem de campo. A decoração era do início da era vitoriana e havia uma enorme cama de dossel e papel de parede da época. Não havia televisão e, mais importante ainda, não havia telefone. Cassi teve a deliciosa sensação de total isolamento e privacidade.

Nunca se sentira tão apaixonada por Thomas nem ele tão atencioso. Passaram a tarde a andar de bicicleta pelo campo e a correr na água gelada da praia. Jantaram num restaurante francês ali perto. A mesa, iluminada a velas, ficava num recanto cuja janela dava para o porto de Nantucket. As luzes dos iates ancorados reflectiam-se na água como o brilho de pedras preciosas. Para culminar o jantar, Cassi recebeu a sua prenda de licenciatura. Estupefacta, tirou cuidadosamente da pequena caixa forrada a veludo o colar de pérolas de três voltas mais belo que alguma vez vira. À frente tinha um fecho constituído por uma esmeralda rodeada de diamantes. Enquanto Thomas a ajudava a pôr o colar, explicou-lhe que o fecho era uma herança da família, que tinha sido trazida da Europa pela bisavó.

Mais tarde, descobriram que a imponente cama de dossel do seu quarto tinha uma inesperada deficiência. Rangia impiedosamente a cada movimento. Esta descoberta provocou uma hilaridade incon-trolável, mas em nada diminuiu o seu prazer. Acabou por ser para Cassi uma outra maravilhosa recordação daquele fim-de-semana.

Os sonhos de Cassi foram interrompidos pelo sacão com que Thomas travou o Porsche à frente da garagem. Estendeu a mão e carregou no botão automático da porta situado no interior do porta-luvas.

A garagem, também um antigo telhado de madeira, estava completamente separada da casa. Havia um apartamento por cima desta, originalmente destinado aos criados, onde vivia a mãe viúva de Thomas, Patrícia Kingsley. Mudara-se para lá, saindo da casa principal, quando Thomas e Cassi casaram.

O Porsche entrou ruidosamente na garagem e, com uma aceleração final, imobilizou-se. Cassi saiu, tendo cuidado para não bater com a porta no seu Chevy Nova ao lado do qual o Porsche fora estacionado. Thomas tinha tanto apreço pelo seu carro como pelo seu braço direito. Cassi fechou a porta também com cuidado para não o fazer com demasiada força. Estava habituada a bater com as portas dos carros, hábito que constituía uma necessidade com o velho Ford da família. Thomas ficara furioso das várias vezes que ela retomara o seu hábito apesar das suas explicações sobre a sofisticada aerodinâmica do Porsche.

- Até que enfim - disse Harriet Summer, a governanta, quando Thomas e Cassi entraram no hall. Para frisar o seu desagrado, olhou ostensivamente para o relógio. Harriet Summer já trabalhava para os Kingsleys muito antes de Thomas nascer. Era o protótipo da antiga empregada de confiança de família e tinha de ser tratada como tal. Cassi depressa aprendera isso.

- O jantar será servido dentro de meia hora. Se não forem pontuais, esfriará. Esta noite dá na televisão o meu programa favorito, portanto vou-me embora às oito e meia aconteça o que acontecer.

- Seremos pontuais - disse Thomas, tirando o casaco.

- E pendure esse casaco - disse Harriet. - Não quero passar a vida a arrumar coisas.

Thomas obedeceu-lhe.

- Como está a mãe? - perguntou Thomas.

- Como sempre - disse Harriet. - Almoçou bem e está à espera que a chame para jantar, portanto despachem-se.

Enquanto Thomas e Cassi subiam as escadas, Cassi voltou a espantar-se com a mudança que se operara no marido. No hospital era agressivo e autoritário, mas assim que Harriet ou a mãe lhe pediam que fizesse qualquer coisa, obedecia.

Ao chegarem ao patamar, Thomas dirigiu-se para o escritório no segundo andar, dizendo que iria ter com Cassi dentro de alguns minutos. Não esperou que ela respondesse. Cassi não ficou surpreendida e continuou pelo corredor em direcção ao quarto. Sabia que ele gostava do escritório, uma reprodução quase exacta do seu gabinete do hospital, excepto que tinha uma vista espantosa para a pitoresca garagem e para os pântanos salgados à distância. O problema era que nos últimos meses Thomas começara a passar cada vez mais tempo ali, chegando por vezes a lá dormir. Cassi não comentara este facto, pois sabia que ele tinha insónias, mas à medida que aumentava o número de noites que passavam longe um do outro, a sua preocupação também ia aumentando.

O quarto principal era ao fundo do corredor, no lado nordeste da casa. Tinha portas envidraçadas que davam para uma varanda com uma esplêndida vista para o relvado e o mar. Ao lado do quarto, havia uma saleta virada para leste. Em dias bonitos, o sol entrava a jorros pelas janelas. Entre as duas divisões havia a casa de banho principal.

A única parte da casa que Cassi redecorara fora o quarto e a respectiva saleta. Recuperara e restaurara as peças de verga pintada de branco do alpendre que encontrara abandonadas e desperdiçadas na garagem. Escolhera um tecido alegre de chintz para as almofadas, colcha e cortinados. O quarto tinha papel de parede de padrão vertical, do estilo vitoriano; a saleta tinha as paredes pintadas de amarelo-ckro. Formava um conjunto claro e alegre, que contrariava com os tons pesados e escuros do resto da casa.

Cassi tinha passado a usar a saleta como escritório, dado que Thomas não mostrara qualquer vontade de a compartilhar. Encontrara uma secretária antiga na cave, pintara-a de branco e comprara estantes de pinho muito simples, que também pintara a condizer. Uma das estantes tinha uma dupla função: servia para esconder um pequeno frigorífico onde eram guardados os remédios de Cassi.

Depois de voltar a fazer o teste à urina, Cassi dirigiu-se ao frigorífico e tirou uma embalagem de insulina normal e outra de insulina Lente. Introduziu na mesma seringa meio centímetro cúbico de insulina U100 normal e um décimo de centímetro cúbico da U100 Lente. Sabia que se tinha injectado na coxa esquerda nessa manhã e escolheu um sítio na coxa direita. Tudo isto demorou menos de cinco minutos.

Depois de um duche rápido, Cassi bateu à porta do escritório de Thomas. Quando entrou, apercebeu-se de que Thomas estava mais descontraído. Tinha acabado de abotoar uma camisa lavada, mas vira-se com mais botões do que casas quando acabou.

- Que grande cirurgião deves ser - gracejou Cassi, resolvendo rapidamente o problema. - Conheci hoje um interno de medicina que ficou muito impressionado contigo ontem à noite. Ainda bem que ele não te viu a abotoar a camisa. - Cassi ansiava que a conversa fosse ligeira.

- Quem foi? - perguntou Thomas.

- Ajudaste-o numa tentativa de ressuscitação.

- Não foi nada de impressionante. O homem morreu.

- Eu sei - disse Cassi. - Assisti à autópsia esta manhã. Thomas sentou-se no sofá e calçou os sapatos.

- Por que raio é que assististe a uma autópsia? - perguntou.

- Porque se tratava de um caso pós-cirurgia cardíaca e a causa da morte não era clara.

Thomas levantou-se e começou a pentear o cabelo molhado.

- Não me digas que todo o serviço de psiquiatria foi assistir a esse acontecimento? - disse Thomas.

- Claro que não - respondeu Cassi. - Robert chamou-me e...

Cassi parou de falar. Só quando falou em Robert é que se lembrou da conversa que tinham tido no carro. Felizmente, Thomas continuou a pentear-se.

- Ele disse que achava que se tratava de um novo caso a incluir na série de MCS. Tu sabes. Já te falei nisso.

- Morte cirúrgica súbita - disse Thomas, como se estivesse a recitar uma lição na escola.

- E tinha razão - disse Cassi. - Não havia causa de morte evidente. O homem tinha sido submetido a uma operação de bypass pelo Dr. Ballantine...

- Eu diria que isso seria causa suficiente - interrompeu Thomas. - O velhote provavelmente fez uma sutura que apanhou o tronco da aorta. Dá cabo do sistema de condução do coração e não é a primeira vez que acontece.

- Foi essa a impressão com que ficaste quando o tentaste ressuscitar? - perguntou Cassi.

- Ocorreu-me - disse Thomas. - Parti do princípio de que se tratava de uma forma aguda de arritmia.

- As enfermeiras comunicaram que o doente estava cianosado quando o encontraram - disse.

Thomas acabou de se pentear e mostrou-se pronto para ir jantar, apontando para o corredor enquanto falava.

- Não me surpreende. Provavelmente o doente aspirou. Cassi saiu para o corredor à frente de Thomas. Já sabia, pela

autópsia, que os pulmões e os bronquíolos do doente estavam limpos, o que significava que não aspirara nada. Mas não o disse a Thomas. O seu tom indicava que não lhe interessava prolongar aquele assunto.

- Parecer-me-ia natural que o início de um novo estágio te mantivesse ocupada - disse Thomas, começando a descer as escadas. - Mesmo um estágio de psiquiatria. Não te dão trabalho suficiente?

- Mais do que suficiente - disse Cassi. - Nunca me senti tão incompetente como agora. Mas Robert e eu seguimos esta série de MCS durante um ano. Tencionávamos mesmo publicar um trabalho sobre o que descobríssemos. Depois saí da patologia, mas estou sinceramente convencida de que Robert está em vias de descobrir algo de importante. De qualquer forma, quando me chamou esta manhã, decidi arranjar tempo para assistir.

- A cirurgia é uma questão muito séria - disse Thomas.- Especialmente a cirurgia cardíaca.

- Eu sei - disse Cassi -, mas Robert já tem dezassete casos destes, talvez dezoito, se este vier a ser classificado como MCS. Há dez anos, a MCS parecia ocorrer apenas em doentes em coma. Mas ultimamente houve uma alteração. Doentes que reagiram extraordinariamente bem à cirurgia parecem estar a morrer durante o pós-operatório sem causa aparente.

- Considerando o número de casos cardíacos operados no Memorial - disse Thomas -, deves-te aperceber que a percentagem a que te referes é insignificante. O índice de mortalidade no Memorial não só está muito abaixo da média, como é igual às melhores.

- Também sei isso - disse Cassi. - Mas não deixa de ser fascinante levando em conta a tendência normal.

Thomas agarrou subitamente o braço de Cassi.

- Ouve, já é suficientemente aborrecido teres escolhido psiquiatria como especialidade para que tentes embaraçar o serviço de cirurgia com os seus fracassos. Temos consciência dos nossos erros. É por isso que fazemos conferências sobre as mortes.

- Não era minha intenção causar-te qualquer embaraço - disse Cassi. - Além disso, o estudo sobre as MCS é do Robert. Disse-lhe hoje que terá de continuar sem mim. Apenas acho que é fascinante.

- O ambiente competitivo da medicina faz sempre que os erros dos outros sejam fascinantes - disse Thomas, conduzindo Cassi com gentileza pelo arco que dava para a sala de jantar -, quer sejam erros legítimos ou actos de Deus.

Cassi sentiu um baque de culpa ao pensar na verdade da última afirmação de Thomas. Nunca pensara nisso daquela forma, mas era verdade.

Ao entrarem na sala de jantar, Harriet olhou para eles com uma expressão petulante, que indicava que se tinham atrasado.

A mãe de Thomas já estava sentada à mesa.

- Já não era sem tempo - disse na sua voz forte e áspera. - Sou uma mulher velha. Não posso jantar tão tarde.

- Por que é que não jantou mais cedo? - disse Thomas, sentando-se no seu lugar.

- Há dois dias que estou sozinha - queixou-se Patrícia. - Preciso de contacto humano.

- Então eu não sou humana, não é? - disse Harriet num tom aborrecido. - Finalmente a verdade veio ao de cima.

- Sabes bem o que quero dizer, Harriet - disse Patrícia, fazendo um gesto com a mão.

Harriet fez um trejeito e começou a servir a jardineira.

- Thomas, quando é que vais cortar esse teu cabelo? - disse Patrícia.

- Assim que tiver tempo - disse Thomas.

- E quantas vezes é que será preciso eu dizer-te que ponhas o guardanapo no colo? - disse Patrícia.

Thomas tirou o guardanapo da argola de prata e atirou-o para cima do colo.

Mrs. Kingsley meteu uma pequeníssima porção de comida na boca e começou a mastigar. Os seus olhos muito azuis, parecidos com os de Thomas, perscrutaram a mesa, seguindo os movimentos de Harriet, atentos ao menor deslize. Patrícia era uma senhora de aspecto agradável, de cabelos brancos, com uma vontade de ferro. Fumara Lucky Strikes durante anos e tinha rugas profundas à volta da boca, como raios de uma roda. Sentia-se obviamente sozinha e Cassi não parava de se interrogar per que é que aquela mulher não ia para algum lado onde pudesse ter amigos da sua idade. Cassi sabia que este pensamento era motivado pelo seu próprio interesse. Depois de mais de três anos a jantar quase todas as noites com Patrícia, gostaria de poder ter um fim de dia mais romântico. Apesar de se ressentir fortemente desta situação, Cassi nunca dissera nada. Tinha-se sentido sempre intimidada por aquela mulher e sentia relutância em ofendê-la, logo incorrendo na ira de Thomas.

Dadas as circunstâncias, Cassi dava-se regularmente bem com Mrs. Kingsley, pelo menos do ponto de vista de Cassi, e sentia de facto pena da mulher que vivia em total isolamento por cima da garagem do filho.

Quando Harriet acabou de os servir, o jantar decorreu em silêncio, ouvindo-se apenas o tilintar dos talheres nos pratos e as negativas murmuradas a Harriet, que tentava forçá-los a servirem-se pela segunda vez. Só já perto do fim do jantar é que Thomas quebrou o silêncio:

- Às minhas operações hoje correram bem.

- Não quero ouvir falar de morte nem de doenças - disse Mrs. KingsJey. Virou-se para Cassandra e acrescentou: - Thomas é igual ao pai. Está sempre pronto a discutir a sua vida profissional. Nunca falava de nada importante ou de cultural. Por vezes creio que teria sido melhor nunca ter casado.

- Não está com certeza a falar a sério - disse Cassi. - Nesse caso não teria tido um filho extraordinário como tem.

- Ah!-exclamou Patrícia numa explosão súbita. O seu riso ecoou na sala, fazendo que os candelabros Waterford vibrassem. - A única coisa verdadeiramente extraordinária que Thomas tem é a sua extrema parecença com o pai, ao ponto de ter nascido com um pé torto.

Cassi deixou cair o garfo. Thomas nunca lhe falara nisso. A imagem dele em bebé, com um pé disforme, despoletou em Cassi uma enorme sensação de pena, mas, pela expressão de Thomas, era evidente que estava furioso com a revelação feita pela mãe.

- Era um bebé maravilhoso - continuou Patrícia, indiferente à ira que o filho reprimia com dificuldade. - E foi uma criança muito bonita, uma criança maravilhosa. Pelo menos até à puberdade.

- Mãe - disse Thomas, num tom lento e inexpressivo. - Creio que já disse o suficiente.

- Ora, ora - respondeu Patrícia. - É a tua vez de estares calado. Há dois dias que estou sozinha, à excepção de Harriet, e tenho o direito de falar.

Deitando-lhe um último olhar de exasperação, Thomas inclinou-se sobre o jantar.

- Thomas - disse Patrícia depois de um breve silêncio -, por favor, tira os cotovelos de cima da mesa.

Thomas empurrou a cadeira para trás e levantou-se, com o rosto corado. Sem dizer palavra, atirou o guardanapo para cima da mesa e saiu da sala. Cassi ouvi-o subir ruidosamente as escadas. Depois, a porta do escritório fechou-se com um estrondo. Os candelabros Waterford voltaram a tilintar.

Vendo-se, como habitualmente, apanhada numa discussão entre mãe e filho, Cassi hesitou, sem saber o que seria melhor fazer. Depois de um momento de hesitação, também ela se levantou, tencionando ir ter com Thomas.

- Cassandra!-disse Patrícia num tom áspero. Depois, numa voz mais queixosa, disse: - Por favor, sente-se. Deixe a criança em paz. Coma. Sei que as pessoas que têm diabetes têm de comer.

Enervada, Cassi sentou-se.

Thomas andou de um lado- para o outro no seu escritório, resmungando em voz alta que não era justo ter de aceitar este tipo de insultos depois de um dia frustrante no hospital. Furioso, pensou por que é que Cassi tinha ficado com a mãe em vez de ir ter com ele. Esteve tentado, por instantes, a regressar ao hospital, dando largas à sua fantasia sobre a filha de Mr. Campbell e o respeito que ela estaria disposta a demonstrar-lhe. Lembrou-se do seu comentário acerca de desejar que houvesse alguma coisa que pudesse fazer por ele.

Mas a chuva fria que fustigava a janela fez que a ideia de regressar à cidade lhe parecesse ser um esforço demasiado grande. Pegou então na revista que estava por cima da enorme pilha de coisas que tinha para ler e atirou-se para cima do sofá de couro à frente da lareira.

Esforçando-se por ler, Thomas deu por si a não conseguir concentrar-se. Pensou por que é que a mãe, passados todos aqueles anos, ainda o conseguia irritar com tanta facilidade. Depois pensou em Cassi e na série de MCS com a qual estava a ajudar Robert Sei-bert. Não existia a menor dúvida no seu espírito de que esse estudo originaria uma tal publicidade que só iria em extraordinário detrimento do hospital. Também sabia que Robert apenas pretendia ver o seu nome publicado. Não se importava de atingir quem quer que fosse.

Thomas atirou com a revista que não lera para o lado e dirigiu-se para a casa de banho anexa ao escritório. Olhando fixamente para o espelho, observou os olhos. Sempre achara que não aparentava a idade que tinha, mas naquele momento não ficou tão certo disso. Tinha olheiras escuras e as pálpebras pareciam vermelhas e inchadas.

Voltando para o escritório, sentou-se à secretária, abriu a segunda gaveta da direita e tirou um frasco de plástico. Meteu um comprimido amarelo na boca e, após uma breve hesitação, outro. Foi ao bar e serviu-se de um uísque de malte puro, voltando a sentar-se no sofá de couro que pertencera ao pai. Começara já a sentir a tensão a abrandar. Debruçando-se junto à mesa, voltou a pegar na revista e tentou ler.

Mas não se conseguia concentrar. Continuava a sentir-se demasiado zangado. Recordou-se da sua primeira semana como interno principal de cirurgia cardíaca, quando tivera de enfrentar uma UCI completamente cheia e dois casos prioritários que tinham de ser admitidos. Sem camas disponíveis, toda a escala de cirurgia foi forçada a parar.

Thomas lembrou-se de como fora à UCI e observara cuidadosamente cada doente para ver se havia alguns que pudessem ser transferidos. Por fim, escolheu dois doentes em coma irreversível. Era certo que precisavam de cuidados de enfermagem especiais e permanentes que só podiam ser prestados na UCI, mas também era verdade que ambos se encontravam num estado para além de qualquer esperança de recuperação. No entanto, quando Thomas os mandou transferir, os respectivos médicos mostraram-se furiosos e o pessoal de enfermagem recusou-se a cumprir a ordem. Thomas ainda se lembrava da humilhação que sofrera quando a posição do pessoal de enfermagem prevaleceu e os doentes em estado de morte cerebral ficaram na UCI. O problema não só não ficara resolvido, como Thomas arranjara mais inimigos. Era como se ninguém entendesse que a cirurgia, esse processo de dar vida, assim como a dispendiosa UCI, se destinava a doentes que podiam recuperar e não aos mortos-vivos.

Thomas foi reforçar a bebida ao bar. O gelo diluíra o uísque e atenuara-lhe o sabor. Ao olhar para trás, para o sofá de couro cor de vinho-escuro, lembrou-se do pai, um homem de negócios, e pensou o que é que o velhote pensaria dele se fosse vivo. Thomas não fazia ideia por que é que, à semelhança de Patrícia, Mr. Kingsley nunca o apreciara nem apoiara particularmente e se mostra sempre mais pronto a criticá-lo do que a louvá-lo. Teria gostado de Cassi? Calculou que o pai provavelmente não acharia grande coisa de uma rapariga com diabetes.

Cassi sentiu-se inquieta quando Thomas saiu da mesa. Como já estava de mau humor antes de descer para jantar, temia que estivesse lá em cima a dar largas à sua fúria. Desesperada, esforçava-se por manter a conversa, mas apenas conseguia arrancar “sim” ou “não” a Patrícia, que parecia satisfeita por ter feito que Thomas se tivesse ido embora.

- Thomas tinha o pé muito torto? - perguntou Cassi finalmente, esperanda quebrar o silêncio.

- Terrivelmente torto. Exactamente como o pai, que ficou aleijado para toda a vida.

- Não fazia ideia. Creio que nunca descobriria.

- Claro que não. Ao contrário do pai, Thomas foi tratado.

- Ainda bem - disse Cassi com sinceridade. Tentou imaginar Thomas a coxear. Era-lhe difícil imaginar Thomas aleijado, mesmo em bebé.

- Tínhamos de meter o pé do rapaz num aparelho, à noite - disse Patrícia -, o que era muito aborrecido pois ele chorava e gritava como se o estivessem a torturar. - Patrícia levou o guardanapo aos lábios.

Cassi imaginou Thomas em garoto, com o pé metido num horrível aparelho. Tinha sido, sem dúvida, uma forma de tortura.

- Bom - disse Patrícia, levantando-se abruptamente -, por que é que não vai ter com ele? É evidente que precisa de algum. Não é um rapaz muito forte, apesar dos seus modos agressivos. Eu iria, mas é óbvio que ele a escolheu a si. Os homens são todos iguais. Damos-lhe tudo e eles abandonam-nos. Boa noite. Cassandra.

Estarrecida com a saída mal-educada de Patrícia, Cassi ficou sentada, sozinha, durante alguns minutos. Ouviu Patrícia falar com Harriet e depois a porta da frente fechar-se com um estrondo. A casa ficou em silêncio, à excepção do ranger do baloiço no alpendre, que o vento fazia andar para a frente e para trás.

Levantou-se e começou a subir as escadas, subitamente sorrindo da ideia de que ela e Thomas tinham compartilhado algo durante a sua infância; tinham ambos tido problemas de saúde. Ao bater à porta do escritório, Cassi pensou qual seria a disposição de Thomas. Depois da forma como se comportara no carro e de ter sido alvo das inconveniências de Patrícia, estava à espera do pior, mas quando entrou na sala ficou imediatamente aliviada. Thomas estava sentado no sofá, com uma perna por cima do braço deste, com uma bebida numa mão e uma revista na outra. Estava com bom aspecto e descontraído. E, mais importante ainda, a sorrir.

- Espero que tu e a mãe tenham mantido a cordialidade - disse, erguendo as sobrancelhas como ••e houvesse possibilidade de o contrário ter acontecido. - Desculpa a minha saída brusca, mas a velhota estava quase a pôr-me fora de mim. Não me estava a apetecer uma cena. - E Thomas piscou o olho.

- És tão previsivelmente imprevisível - disse Cassi, sorrindo. - A tua mãe e eu tivemos uma conversa extremamente interessante. Thomas, não sabia que tinhas tido um pé torto. Por que é que não me disseste?

Cassi sentou-se no braço do sofá, forçando-o a sentar-se numa posição normal. Ele não respondeu, concentrando-se na sua bebida.

- Não é que seja importante - continuou Cassi -, mas sou perita em problemas de saúde na infância. Dá-me uma certa confiança saber que compartilhámos uma experiência idêntica. Creio que nos dá uma capacidade especial de compreensão.

- Não me lembro minimamente de ter tido um pé torto - disse Thomas. - Tanto quanto sei, nunca tive. Toda essa história é uma invenção engendrada pela minha mãe. Quer-te impressionar mostrando como sofreu para me criar. Olha para os meus pés: parecem-te deformados?

Thomas tirou os sapatos e levantou os pés.

Ao olhar, Cassi teve de reconhecer que ambos os pés pareciam absolutamente normais. Sabia que Thomas nunca tivera qualquer problema em andar e que chegara mesmo a praticar desporto na universidade. Mas continuava sem saber quem é que estava a falar verdade.

- Parece mentira a tua mãe inventar uma coisa dessas. - O seu tom era mais interrogativo do que afirmativo, mas Thomas tomou-o como sendo uma afirmação.

Atirando com a revista médica para o chão, pôs-se de pé num salto, quase fazendo com que Cassi caísse.

- Olha, é-me indiferente em quem acreditas - disse Thomas. - Os meus pés são absolutamente normais, foram sempre absolutamente normais e não quero ouvir falar mais em nenhum pé torto.

- Pronto - disse Cassi, num tom contemporizador. Observou o marido com uma atenção profissional, notando que o seu equilíbrio não estava bom e que tinha necessidade de corrigir gestos simples que mostravam um certo descontrolo. E não era só isso. Também tinha a fala ligeiramente arrastada. Cassandra notara episódios semelhantes ao longo dos últimos meses, mas tinha-os ignorado. Ele tinha todo o direito de beber de vez em quando- e ela sabia que ele gostava de uísque. O que a surpreendia era o facto de ter passado tão pouco tempo desde que abandonara a mesa. Devia ter enfiado uma série de uísques uns atrás dos outros.

Acima de tudo, Cassi queria que Thomas se descontraísse. Já que a discussão do seu hipotético pé torto o perturbava, ela estava perfeitamente disposta a deixar cair o assunto, para sempre se necessário. Deslizando do sofá, pôs-lhe o braço à volta do pescoço.

Thomas esquivou-se, bebendo outro golo de uísque em jeito de desafio. Parecia agressivo e pronto a entrar em discussão. Ao olhá-lo de mais perto, Cassi notou que tinha as pupilas tão contraídas que não passavam de pequenos-pontos negros na íris azuis. Reprimindo a sua própria irritação por ter sido rejeitada, Cassi disse:

- Thomas, deves estar exausto. Precisas de uma boi noite de sono. - Voltou a erguer o braço e, desta vez, ele deixou que ela o pusesse à volta do seu pescoço. - Vem para a cama comigo - disse Cassi baixinho.

Thomas suspirou, mas não disse nada. Pousou o copo que ainda tinha uísque e deixou que Cassi o levasse pelo corredor até ao quarto. Começou a desabotoar a camisa, mas Cassi afastou-lhe as mãos e desabotoou-lha ela. Despiu-o lentamente, deixando cair a roupa num monte no chão. Assim que ele estava dentro da cama, despiu-se rapidamente e deslizou para junto dele. Era uma sensação deliciosa sentir o fresco dos lençóis lavados, o peso reconfortante dos cobertores e o calor do corpo de Thomas. Lá fora, o vento de Novembro uivava e fazia tilintar os sinos japoneses pendurados no alpendre.

Cassi começou por lhe esfregar o pescoço e os ombros. Depois, foi gradualmente descendo ao longo do seu corpo. Sentia-o descontrair-se sob os seus dedos e corresponder-lhe. Thomas reagiu e envolveu-a num abraço. Ela beijou-a e acariciou-o suavemente entre as pernas. Estava flácido.

No instante em que Thomas sentiu a mão de Cassi tocar-lhe, sentou-se e afastou-a bruscamente.

- Não creio que seja de todo justo esperares que eu te possa satisfazer esta noite.

- Estava a pensar no teu prazer - disse Cassi baixinho -, não no meu.

- Pois sim - disse Thomas num tom de total desprezo. - Não me venhas com as tuas tretas psiquiátricas.

- Thomas, não interessa se fizermos ou não amor. Lançando as pernas para fora da cama, Thomas agarrou a roupa

que estava espalhada no chão com movimentos bruscos e descoordenados.

- Custa-me a acreditar.

Saiu para o corredor e bateu com a porta com tal força que as bandeiras estremeceram.

Cassi viu-se só, envolvida pela escuridão. O uivo do vento, que momentos antes aumentara a sua sensação de segurança, fazia agora o contrário. Sentiu-se atormentada pelo antigo medo de ser abandonada. Apesar do calor dos cobertores, Cassi tremia. E se Thomas a deixasse? Tentou desesperadamente afastar esse pensamento, pois não suportava essa possibilidade. Talvez estivesse apenas embriagado. Recordou a sua falta de equilíbrio e a fala arrastada. Durante o curto espaço de tempo em que estivera com Patrícia não Lhe parecia possível Thomas ter absorvido tanto álcool ao ponto de provocar aquele efeito, mas ao pensar nisso teve de reconhecer que nos últimos três ou quatro meses se tinham verificado vários episódios semelhantes.

Voltando-se de costas, Cassi ficou a olhar para o tecto, onde uma luz exterior filtrada pelos ramos nus de uma árvore criava um desenho de sombras, como uma gigantesca teia de aranha. Assustada com a imagem, virou-se de lado, mas deparou também com a mesma sombra assustadora contra a parede em frente à janela. Estaria Thomas a tomar qualquer droga? Ao admitir esta possibilidade, Cassi reconheceu que há meses que andava a negar os seus indícios. Estava ainda provado que Thomas era infeliz com ela, que a sua vida tinha mudado drasticamente, o mesmo acontecendo consigo .própria.

Na casa de banho anexa ao escritório, Thomas fitou o seu corpo nu ao espelho. Embora detestasse reconhecê-lo, parecia de facto mais velho. E mais preocupante ainda era o seu pénis engelhado. Ao tocar-lhe, sentiu-o quase dormente e a falta de sensibilidade fez que fosse invadido por um terrível medo. Qual seria o problema com a sua sexualidade? Enquanto Cassi o acariciara, sentira necessidade de libertação sexual. Mas era óbvio que o seu pénis pensava de outra forma.

Deve ter sido por culpa de Cassi, pensou sem grande convicção, ao voltar para o escritório para se vestir. Pegando na bebida que não chegara a acabar, sentou-se à secretária e abriu a segunda gaveta da direita. Mesmo ao fundo, escondida por trás do papel de carta, havia uma série de frascos de plástico. Se queria dormir, precisava de mais um comprimido. Só um! Meteu rapidamente um dos pequenos comprimidos amarelos na boca e engoliu-o com a ajuda de um golo de uísque. Era espantoso como o efeito calmante era rápido.

 

Na manhã seguinte, Cassi tomou a injecção de insulina e depois o pequeno-almoço sem que Thomas desse qualquer sinal de si. Às oito, ficou preocupada. O seu horário normal de sábado era saírem de casa às oito e um quarto para Thomas poder ir ver os seus doentes antes da apresentação de casos e para Cassi poder pôr o trabalho em ordem.

Pousando o artigo que tinha estado a ler à secretária e apertando o cinto do robe, Cassi saiu da saleta e foi até ao corredor, ficando à escuta junto à porta de Thomas. Não ouviu o menor ruído. Bateu ao de leve à porta e esperou. Nada. Experimentou a porta. Não estava fechada à chave. Thomas estava a dormir profundamente, com o despertador na mão. Tinha-o sem dúvida desligado e voltado a adormecer de imediato.

Cassi aproximou-se e abanou-o suavemente, mas ele não reagiu. Abanou-o então com mais força e as suas pálpebras inchadas entreabriram-se, embora parecesse não a reconhecer.

- Desculpa acordar-te, mas já passa das oito. Queres ir à apresentação de casos, não queres?

- Apresentação de casos - respondeu Thomas, confuso. Depois pareceu compreender. - Claro que quero. Desço daqui a instantes para comer qualquer coisa. Saímos dentro de vinte minutos, no máximo.

- Hoje não vou ao hospital - disse Cassi no tom mais animado que conseguiu fazer, - Não estão a contar comigo na psiquiatria e tenho imensa coisa para ler. Trouxe para casa um saco cheio de artigos.

- Como queiras - disse Thomas, apoiando-se nas mãos para se sentar. - Estou de serviço esta noite, portanto não sei quando é que volto para casa. Depois digo-te.

Cassi foi à cozinha arranjar qualquer coisa para Thomas comer no carro.

Thomas sentou-se na beira da cama enquanto a sala girava à sua volta. Esperou até conseguir ver melhor, sentindo cada pulsação como uma martelada na cabeça. Primeiro foi aos tropeções até à secretária, donde tirou um dos frascos de plástico. Depois dirigiu-se para a casa de banho.

Evitando olhar para a sua imagem no espelho, Thomas tentou tirar um dos pequenos comprimidos triangulares cor de laranja do frasco. Não foi tarefa fácil, e só depois de ter deixado cair vários é que conseguiu meter um na boca e engoli-lo com um golo de água. Só então é que se atreveu a olhar para o seu rosto. Não estava tão mal como temia, nem tão mal como se sentia. Já com maior facilidade, tomou outro comprimido, meteu-se debaixo do chuveiro e abriu a água à máxima pressão.

Cassi ficou à janela da sala a observar Thomas enquanto se dirigia para a garagem. Mesmo através do vidro ouviu o ronco do Porsche quando Thomas arrancou. Pensou como seria o barulho no apartamento de Patrícia. Este pensamento fez que se apercebesse de que nunca a visitara; não a visitara uma única vez nos três anos em que ali vivia.

Ficou a olhar pela janela até ver o Porsche de Thomas afastar-se a grande velocidade e desaparecer na neblina húmida da manhã que pairava sobre os pântanos salgados. Mesmo depois de o carro já não se ver, ouviu-se o ruído surdo do motor quando Thomas meteu outra mudança. Por fim, o ruído extinguiu-se e a quietude da casa envolveu Cassi.

Olhando para as palmas das mãos, Cassi reparou que estavam suadas. A sua primeira ideia foi estar a fazer um ligeira reacção à insulina. Depois apercebeu-se de que era nervoso. Ia violar o escritório de Thomas. Achara sempre que a confiança e a privacidade eram elementos indispensáveis a uma relação íntima, mas tinha de saber se Thomas andava a tomar tranquilizantes ou quaisquer outras drogas. Há meses que andava a fechar os olhos àquela situação, na esperança de que o seu casamento melhorasse. Agora sabia que já não podia continuar passivamente à espera.

A abrir a porta do escritório de Thomas sentiu-se como um ladrão: um péssimo ladrão. O mais leve ruído na casa sobressaltava-a.

- Meu Deus - disse Cassi em voz alta -, estás a ser idiota!

O som da sua própria voz teve um efeito tranquilizador. Como mulher de Thomas, tinha todo o direito de entrar em todas as dependências da casa. Contudo, em muitos aspectos, ainda se sentia como se fosse uma visita.

O escritório estava bastante desarrumado. O sofá-cama ainda estava aberto e os lençóis e cobertores em monte no chão. Cassi olhou para a secretária, mas depois viu a porta aberta da casa de banho.

Abriu o armário dos medicamentos e deparou com as coisas de barbear, a habitual confusão de medicamentos de uso corrente, várias escovas de dentes velhas e algumas embalagens já fora de prazo de Tetracidína. Verificou todas as embalagens e recipientes, mas não encontrou nada de remotamente suspeito.

Quando já se preparava para sair da casa de banho, reparou em algo de cor no mosaico branco do chão. Baixou-se e viu-se a segurar um pequeno comprimido triangular, cor de laranja com a indicação SKF-E-19. Parecia-lhe conhecido, mas não o pôde identificar. De regresso ao escritório de Thomas, procurou nas estantes um simpósio. Como não o conseguiu encontrar, dirigiu-se à saleta para consultar o seu. Procurou rapidamente a secção de identificação de produtos. Tratava-se de Dexedrina.

Com o comprimido na mão, Cassi ficou a olhar para o mar. A cerca de meio quilómetro da costa, um barco à vela solitário avançava lentamente sobre as vagas. Observou-o durante alguns momentos, sentindo que isso a ajudava a organizar as ideias. Sentia uma estranha sensação de alívio conjugada com uma ansiedade intensificada. Essa ansiedade devia-se à confirmação do seu receio de que Thomas andasse a tomar drogas. O alívio vinha-lhe do tipo de comprimido que descobrira - Dexedrina. Cassi não se surpreendia pelo facto de um homem ambicioso como Thomas tomar ocasionalmente um estimulante para aguentar o seu ritmo quase sobre^humano. Cassi tinha consciência do enorme volume de intervenções cirúrgicas que Thomas fazia. Compreendia que podia cair na tentação de tomar um comprimido para estimular a sua atenção nas alturas em que estava exausto. Para Cassi, isso coadunava-se com a sua personalidade. Mas por mais que se esforçasse por se acalmar, continuava a sentir medo. Conhecia os perigos do abuso da Dexedrina e pensou até que ponto é que não seria ela a responsável por Thomas necessitar dessa droga e há quanto tempo é que a andaria a tomar.

Pôs o comprimido de aspecto inocente em cima da secretária e arrumou o Simpósio na estante. Arrependeu-se, por breves instantes, de ter ido ao escritório de Thomas e encontrado o comprimido. Teria sido mais fácil ignorar a situação. Afinal de contas, tratava-se muito provavelmente de um problema temporário “, se dissesse alguma coisa a Thomas, isso só faria que se aborrecesse com ela.

- Tens de fazer qualquer coisa - disse Cassi, tentando assumir uma posição determinada. Por mais ridículo que parecesse, a única pessoa que exercia qualquer autoridade sobre a vida de Thomas era Patrícia. Embora Cassi tivesse relutância em discutir aquele assunto fosse com quem fosse, pelo menos podia ter a certeza de que Patrícia defenderia os interesses de Thomas. Avaliou os prós e os contras durante breves instantes e decidiu discutir a situação com a sogra. Se Thomas andasse a abusar do uso da Dexedrina há muito tempo, alguém tinha de intervir.

Cassi decidiu que a primeira coisa a fazer era tornar-se apresentável. Despiu o robe turco e a camisa de noite e foi tomar duche.

Thomas gostava de intervir na apresentação de casos, na qual estavam presentes todos os clínicos dos serviços de medicina e cirurgia, incluindo estagiários e alunos. Naquele dia, o anfiteatro MacPhearson estava tão cheio que algumas pessoas tinham sido forçadas a sentarem-se nas escadas de acesso à zona central. Thomas atraía sempre uma multidão mesmo quando, como era o caso, dividia o seu tempo de intervenção com George.

Quando Thomas terminou a sua exposição, intitulada “Acompanhamento de longo prazo a doentes submetidos a bypass coronário”, irromperam aplausos entusiásticos em todo o anfiteatro. O número de intervenções realizadas por Thomas bastava para impressionar qualquer um e, dados os excelentes resultados, os valores estatísticos pareciam sobre-humanos.

Ao dar início ao período de resposta a perguntas da assistência, alguém numa das filas de trás gritou que gostava de saber qual o tipo de dieta que Thomas fazia para ter tanta energia. A assistência desatou a rir, pois um pouco de humor vinha bem a calhar.

Quando o riso parou, Thomas terminou, dizendo:

- Creio que, de acordo com as estatísticas que apresentei, não podem restar dúvidas quanto à eficácia do processo de bypass coronário.

Pegou nos seus apontamentos e sentou-se à mesa atrás do pódio, ao lado do Dr. George Sherman.

O assunto da comunicação de George era “Um interessante caso de Estudo”.

Thomas gemeu para si próprio de aborrecimento e olhou para a saída, impaciente por se ir embora. Tinha uma horrível dor de cabeça, que se agravara progressivamente desde que chegara ao hospital. Que assunto mais ridículo, pensou Thomas. Com crescente irritação, observou George, que se dirigiu para o estrado e soprou ao microfone para verificar se estava ligado. Como se isto não bastasse, deu-lhe algumas leves pancadas com o anel. Finalmente, começou a falar.

O caso era o de um homem de vinte e oito anos, chamado Jeoffry Washington, que tivera um ataque agudo de febre reumática aos dez anos. Tinha estado muito doente e estivera internado durante um longo período. Como consequência da febre reumática, tinha ficado com um forte sopro holossistólico, sinal de que a válvula mistral ficara gravemente afectada. Ao longo dos anos, este problema tinha-se agravado progressivamente, ao ponto de se tornar necessária uma operação para substituir a válvula.

Nessa altura, Jeoffry Washington foi levado numa cadeira de rodas para o anfiteatro e apresentado à assistência. Tratava-se de um negro franzino, mas de aspecto rude, com feições angulosas e bem definidas, olhos brilhantes e a pele do tom de um carvalho claro. Inclinou a cabeça para trás e fitou o mar de rostos que o observava.

Quando Jeoffry estava a ser levado para fora do anfiteatro, o seu olhar cruzou-se por acaso com o de Thomas. Jeoffry acenou-lhe com a cabeça e sorriu. Thomas correspondeu à saudação. Não conseguiu deixar de sentir uma certa pena do homem. Contudo, por mais trágica que a sua história fosse, era igualmente comum. Thomas já operara centenas de doentes com histórias semelhantes.

George voltou para o estrado assim que Jeoffry saiu do anfiteatro.

- A data da operação de Mr. Washington para substituição da válvula mitral já estava marcada quando, durante os exames preparatórios, se descobriu um facto interessante. Mr. Washington teve uma pneumonia pneumocística carini há um ano.

Um murmúrio excitado percorreu a assistência.

- Creio não ser necessário - disse George, sobrepondo-se às vozes abafadas- lembrar-lhes que essa doença sugere SIDA, ou seja síndroma de imunodeficiência adquirida, que de facto se veio a confirmar. Verificou-se que as preferências sexuais de Mr. Washington

o inserem no grupo de homens homossexuais cujo modo de vida levou aparentemente a uma perda de imunidade.

Thomas percebeu nessa altura o que George tinha querido dizer com o seu comentário na sala de estar do serviço de cirurgia na véspera. Fechou os olhos e tentou controlar a sua crescente ira. Era evidente que Jeoffry Washington era um exemplo do tipo de caso que fizera que o tempo de BO e o número de camas de cirurgia cardíaca tivessem sido diminuídos para os seus doentes. Thomas não era o único a sentir reservas em relação à operação de Jeoffry. Um dos estagiários levantou o braço e George reconheceu-o.

- Questiono seriamente a decisão de cirurgia cardíaca desta natureza num quadro de SIDA - disse o estagiário.

- A sua questão é pertinente - disse George. - Não posso afirmar que o quadro imunológico de Mr. Washington não seja de momento claramente anormal. A intervenção cirúrgica está marcada para a próxima semana, mas exerceremos vigilância constante quanto à sua célula-T auxiliar e aos conjuntos de células-T citotóxicas para detectarmos qualquer queda brusca. O Dr. Sorenscn, do serviço de imunologia, não considera que a SIDA seja uma contra-indicação absoluta para a intervenção cirúrgica neste momento.

Ergueram-se vários braços no meio da assistência e George começou a dar-lhes a palavra. O debate aceso prolongou a conferência para além do tempo previsto e mesmo depois de ter oficialmente terminado formaram-se grupos de pessoas, que continuaram a falar.

Thomas tentou ir-se imediatamente embora, mas Ballantine já se levantara, barrando-lhe o caminho.

- Óptima conferência - disse com um ar radiante.

Thomas assentiu. A única coisa que queria era livrar-se de tudo aquilo. Parecia que tinha a cabeça num torno.

George Sherman aproximou-se por detrás de Thomas e deu-lhe uma palmada nas costas.

- Não há dúvida de que tu e eu entretivemos os rapazes esta manhã. Devíamos ter cobrado entrada.

Thomas virou-se lentamente para olhar para o rosto sorridente de George, que se mostrava extremamente satisfeito consigo próprio.

- Para te dizer a verdade, acho que a conferência foi uma maldita farsa.

Fez-se um silêncio desagradável enquanto os dois se olharam no meio da multidão.

- OK! - disse George, finalmente. - Tens direito a essa opinião.

- Diz-me uma coisa, esse pobre diabo do Jeoffry Washington que tu exibiste ali dentro como uma curiosidade está a ocupar uma cama da cirurgia cardíaca?

- Claro - respondeu George, sentindo, por sua vez, a sua própria ira a aumentar. - Onde é que achas que estaria? Na cafetaria?

- Já chega - disse Ballantine, dirigindo-se a ambos.

- Eu digo-te onde devia estar - exclamou Thomas num tom agressivo, espetando o indicador no peito de George. - Devia estar no piso de medicina, no caso de ser possível fazer-se qualquer coisa em relação ao seu problema imunológico. O facto de já ter tido uma pneumonia pneumocística carini indica que o mais provável será morrer antes de entrar em perigo de vida por razões cardíacas.

George afastou a mão de Thomas com um movimento brusco.

- Já te disse que tens direito à tua opinião. Mas acontece que considero que Mr. Jeoffry Washington é um bom caso de estudo.

- Bom caso de estudo - troçou Thomas. - O homem está clinicamente doente. Não devia estar a ocupar uma das poucas camas de cirurgia. A cama é precisa para outros doentes. Não consegues compreender isso? É por causa de idiotices destas que tenho de pôr os meus doentes em lista de espera, doentes sem problemas clínicos, doentes que podem dar uma boa contribuição à sociedade. George voltou a afastar a mão de Thomas.

- Não me toques dessa maneira - disse asperamente.

- Meus senhores - disse Ballantine, interpondo-se entre os dois homens.

- Não sei bem se Thomas sabe o significado da palavra - disse George.

- Ouve, meu cretino de merda - rosnou Thomas, desviando-se de Ballantine e agarrando com violência a camisa de George -, estás a tornar o nosso programa numa farsa, com os casos que andas a arranjar só para preencher o chamado horário de ensino.

- É melhor largares-me a camisa - avisou George, com o rosto já congestionado.

- Basta! - gritou Ballantine, puxando o braço de Thomas.

- O nosso trabalho é salvar vidas - disse George por entre os dentes cerrados -, não fazer juízos acerca de quem merece mais. Isso cabe a Deus decidir.

- É exactamente isso - disse Thomas. - És tão estúpido que nem sequer te apercebes de que estás a fazer juízos acerca de quem deve viver. O problema é que os teus juízos não valem nada. Cada vez que me negas tempo de BO um outro doente, potencialmente saudável, é condenado à morte.

Thomas deu meia volta e saiu rapidamente da sala. George respirou fundo e ajeitou a camisa.

- Santo Deus! Kingsley é mesmo idiota.

- É arrogante - concordou Ballantine. - Mas é um excelente cirurgião. Sentes-te bem?

- Estou óptimo - disse George. - Tenho de admitir que estive prestes a bater-lhe. Sabes, acho que ele vai levantar problemas. Espero que não comece a ficar desconfiado.

- Nesse aspecto a sua arrogância será útil.

- Temos tido sorte. A propósito, já reparaste na tremura de Thomas?

- Não - disse Ballantine, surpreendido. - Que tremura?

- Tem-na de vez em quando - disse George. - Notei-a pela primeira vez há cerca de um mês, especealmente por ele ter sempre a mão tão firme. Até a notei hoje, enquanto estava a fazer a sua comunicação.

- Há muita gente que se enerva perante uma assistência.

- Claro - disse George -, mas aconteceu a mesma coisa quando estava a falar com ele sobre a morte de Wilkinson.

- Prefiro não falar no Wilkinson - disse Ballantine, olhando em volta do anfiteatro, que ia ficando lentamente vazio. Sorriu a alguém conhecido. - Provavelmente Thomas anda tenso.

- Talvez - disse George, sem estar convencido. - Continuo a achar que ele vai arranjar sarilhos.

Cassi vestiu-se com tanto cuidado para ir visitar Patrícia como se fosse a primeira vez que se iam conhecer. Escolheu uma saia de lã azul-escura, com casaco igual, para vestir com uma das suas blusas de gola alta. Quando se preparava já para sair, reparou no estado horrível das suas unhas e atrasou com agrado a visita para tirar a camada estragada de verniz e aplicar uma nova. Quando as unhas já estavam secas, decidiu que não lhe agradava o penteado. Penteou-o caído, mas voltou a apanhá-lo.

Finalmente, esgotadas as razões para atrasar mais a saída, atravessou o pátio entre a casa e a garagem. Estava uma manhã gelada. Ao tocar à campainha de Patrícia, Cassi via o vapor da sua respiração no ar. Ninguém foi à porta. Pondo-se em bicos de pés, espreitou por uma pequena janela na porta, mas apenas viu um lance de escadas. Voltou a tocar à campainha e desta vez viu a sogra a descer lentamente as escadas e espreitar através do vidro.

- Que é, Cassandra? - perguntou.

Espantada por Patrícia não abrir a porta, Cassi não disse nada durante algum tempo. Dadas as circunstâncias, não queria gritar a razão da sua visita. Finalmente, disse:

- Quero falar consigo acerca de Thomas.

Mesmo dando essa explicação, houve uma longa pausa, que deu para Cassi pensar se Patrícia a teria ouvido. Depois, ouviu correr várias fechaduras e a porta abriu-se. As duas mulheres olharam-se durante alguns instantes.

- Sim-disse finalmente Patrícia.

- Desculpe maçá-la - começou Cassi, mas não acabou a frase.

- Não me maça - disse Patrícia.

- Posso entrar? - perguntou Cassi.

- Acho que será melhor - disse Patrícia, começando a subir as escadas. - Feche bem a porta.

Cassi ficou contente por fechar a porta, ficando protegida da manhã húmida e fria. Seguiu Patrícia pelas escadas acima e viu-se num pequeno apartamento luxuosamente mobilado e decorado com veludo vermelho e rendas brancas.

- Esta sala é linda - disse Cassi.

- Obrigada! - respondeu Patrícia. - A cor preferida de Thomas é o vermelho.

- Sim? - disse Cassi, que sempre pensara que Thomas preferia azul.

- Passo muito tempo aqui - disse Patrícia - e quis que fosse uma sala quente e confortável.

- E é - admitiu Cassi, vendo pela primeira vez um cavalo de baloiço, um carro e outros brinquedos.

Patrícia, como se tivesse seguido o olhar de Cassi, explicou:

- São brinquedos antigos de Thomas. Creio que são bastante decorativos, não acha?

- Acho - disse Cassi. Achava que os brinquedos eram atraentes, mas que estavam um pouco deslocados naquela sala luxuosa.

- Quer tomar chá? - sugeriu Patrícia.

Subitamente, Cassi apercebeu-se de que Patrícia estava tão pouco à vontade como ela própria.

- Um chá seria óptimo - disse Cassi, sentindo-se ligeiramente mais à vontade.

A cozinha de Patrícia era muito funcional, com armários pintados de branco, um velho frigorífico e um pequeno fogão a gás. Patrícia pôs uma cafeteira com água ao lume e foi buscar as chávenas. Tirou um tabuleiro de madeira de cima do frigorífico.

- Leite ou limão? - perguntou Patrícia.

- Leite - disse Cassi.

Enquanto observava a sogra, que procurava uma leiteira, Cassi apercebeu-se de que a velha senhora tinha muito poucas visitas. Sentindo-se ligeiramente culpada, Cassi pensou por que é que não se tinha estabelecido uma amizade entre ambas. Tentou falar no problema de Thomas, mas o fosso que existira sempre entre ambas reduziu-a ao silêncio. Só quando já estavam sentadas na sala a beber o chá é que Cassi arranjou finalmente coragem para começar.

- A razão por que vim cá esta manhã foi para falar consigo acerca de Thomas.

- Foi isso que me disse - respondeu Patrícia num tom amistoso. A velha senhora mostrava-se bastante mais simpática e parecia estar a gostar da visita.

Cassi suspirou e pousou a chávena em cima de uma pequena mesa.

- Estou preocupada com Thomas. Creio que está a trabalhar de mais e...

- É assim desde garoto - interrompeu Patrícia. - Desde o dia em que nasceu que foi sempre um vencedor, hiperactivo ao máximo. E digo-lhe que criá-lo foi uma tarefa que exigiu vinte e quatro horas por dia de atenção. Ainda não sabia andar e já se mostrava independente.

Passei um mau bocado a discipliná-lo. Para falar verdade, no próprio dia em que o trouxe do hospital...

Enquanto ouvia as histórias da velha senhora, Cassi percebeu até que ponto Thomas ainda era o centro da atenção do mundo de Patrícia. Finalmente, percebeu por que é que ela insistira em viver onde vivia, embora estivesse tão isolada. Observando a sogra enquanto esta bebia o chá, Cassi reparou na forte parecença de Thomas com a mãe. O rosto dela era mais magro e mais delicado mas tinha a mesma angulosidade aristocrática.

Cassi sorriu. Quando Patrícia voltou a pousar a chávena, Cassi disse:

- Ao que parece, Thomas não mudou muito.

- Acho que não mudou nada - disse Patrícia. Depois, rindo, acrescentou: - Tem sido o mesmo toda a vida. Tem precisado de muita atenção.

- O que eu queria - disse Cassi - era ver se podia ajudar Thomas agora.

- Sim? - disse Patrícia.

Cassi notou que a intimidade recém-estabelecida deu rapidamente lugar à anterior atitude de suspeita. Mas avançou.

- Thomas ouve-a e...

- Claro que me ouve. Sou sua mãe. Exactamente, aonde é que pretende chegar, Cassandra?

- Tenho razões para suspeitar que Thomas pode andar a tomar drogas - disse Cassi. Sentiu um enorme alívio por ter finalmente conseguido dizer o que queria. - Há já vários meses que suspeito, mas tive esperança de que o problema se resolvesse por si.

Os olhos azuis de Patrícia assumiram uma expressão fria.

- Thomas nunca tomou drogas - disse.

- Patrícia, por favor, compreenda a minha posição. Não estou apenas a criticar. Estou preocupada e creio que o pode ajudar. Ele faz tudo o que lhe pede.

- Se Thomas precisa da minha ajuda, deve ser ele a vir ter comigo para ma pedir. Afinal de contas, ele escolheu-a a si, preferindo-a a mim. - Patrícia levantou-se. Pelo que lhe dizia respeito, o pequeno tête-à-tête terminara.

Então era assim: Patrícia continuava a ter ciúmes de filho, que crescera o suficiente para casar.

- Thomas não me preferiu a mim em detrimento de si, Patrícia - disse Cassi num tom controlado. - Procurou um tipo de relação diferente.

- Se vocês têm uma relação diferente, onde é que estão os vossos filhos?

Cassi sentiu que a sua força de vontade se esvaía. A questão de ter filhos era uma questão delicada e emocionalmente difícil para ela, pois a gravidez numa mulher com diabetes juvenil era considerada uma gravidez de alto risco. Baixou os olhos e fitou o chá, apercebendo-se de que nunca deveria ter tentado falar com a sogra.

- Nunca terão filhos - disse Patrícia, respondendo ela própria à pergunta que fizera. - E eu sei a razão. Devido à sua doença. Sabe que é trágico para Thomas não ter filhos. E ele disse-me que não têm dormido juntos ultimamente.

Cassi ergueu a cabeça, chocada por ele revelar uma questão de natureza tão íntima.

- Sei que Thomas e eu temos os nossos problemas - disse. - Mas a questão não é essa. Thomas tem tomado uma droga chamada Dexedrina e muito provavelmente já a toma há bastante tempo. Embora o faça para poder trabalhar mais, pode ser perigoso, quer para ele quer para os seus doentes.

- Está a acusar o meu filho de ser tóxico-dependente? - perguntou Patrícia num tom agressivo.

- Não - disse Cassi, sem ser capaz de dar uma explicação.

- Bom, espero bem que não - disse Patrícia. - Muitas pessoas tomam comprimidos de vez em quando. E isso é compreensível em relação a Thomas. Afinal de contas, foi expulso da sua própria cama. Creio que o verdadeiro problema é a vossa relação.

Cassi não teve força para contrapor. Ficou sentada, em silêncio, pensando se Patrícia não teria razão.

- Mais, acho que se deve ir embora - disse Patrícia, estendendo a mão e pegando na chávena de Cassi.

Sem qualquer palavra, Cassi levantou-se, desceu as escadas e saiu.

Patrícia pegou nas chávenas e levou-as para a cozinha. Tinha tentado avisar Thomas de que era um erro casar-se com aquela rapariga. Se ao menos ele a tivesse escutado.

De novo na sala, Patrícia sentou-se junto do telefone e ligou para a extensão de Thomas. Deixou ficar recado para ele telefonar à mãe assim que pudesse.

Os doentes de Thomas estavam inconvenientemente espalhados por três pisos de cirurgia. Depois da apresentação de casos, fora de elevador até ao décimo oitavo piso, para depois passar aos pisos inferiores. Ao sábado, gostava normalmente de fazer a ronda antes da conferência e antes da hora da visita. Mas naquele dia chegara ao hospital já tarde e perdera muito tempo a tranquilizar familiares nervosos. Estes seguiam-no até ao corredor e ficavam a fazer-lhe perguntas, até que ele, em desespero, lhes virava as costas para ir observar outro doente, só para de novo ser interpelado pelos familiares desse doente.

Foi um alívio chegar à UCI, onde raramente eram permitidas visitas. Ao empurrar a porta, permitiu-se pensar no lamentável incidente com George Sherman. Embora a sua reacção tivesse sido compreensível, Thomas ficara surpreendido e decepcionado consigo próprio.

Na UCI, Thomas observou os três doentes que operara na véspera. Estavam todos óptimos. Já tinham sido desentubados e tomado alimento pela boca. Os ECG, tensão arterial e outros sinais vitais eram estáveis e normais. Mr. Campbell tinha tido alguns breves períodos de ritmo cardíaco irregular, mas isso fora controlado quando um interno perspicaz descobriu que o doente estava com dilatação gástrica, que foi de imediato eliminada. Thomas tomou nota do nome do médico. Queria felicitá-lo assim que tivesse oportunidade para o fazer.

Dirigiu-se para a cama de Mr. Campbell. O homem sorriu debil-mente. Depois começou a falar.

Thomas debruçou-se sobre ele.

- Que é que di-se, Mr. Campbell?

- Preciso de urinar - disse Mr. Campbell baixinho.

- O senhor está algaliado - disse Thomas.

- Mas preciso de urinar - repetiu Mr. Campbell.

Thomas desistiu. O pessoal de enfermagem que convencesse Mr. Campbell.

Quando se preparava para sair, olhou de relance para o triste caso da cama ao lado da de Mr. Camppbell. Tratava-se de um dos desastres de Ballantine. O doente sofrera uma embolia cerebral durante a operação e estava em estado de vida vegetativa, totalmente dependente do aparelho de respiração artificial, mas com a qualidade dos cuidados de enfermagem no Memorial, era de esperar que continuasse a viver indefinidamente.

Thomas sentiu uma mão sobre o ombro. Voltou-se e ficou surpreendido ao ver que era George Sherman.

- Thomas - começou George -, acho saudável estarmos em desacordo, nem que seja para sermos forçados a examinar as nossas posições. Mas incomoda-me pensar que tenha de haver animosidade entre nós.

- Eu próprio fiquei embaraçado com o meu comportamento - disse Thomas. Era o mais longe que podia ir em termos de pedido de desculpa.

- Eu também me excedi - admitiu George. Desviou o olhar do rosto de Thomas, notando junto a que cama Thomas parara. - Pobre Mr. Harwick. Por falar em falta de camas, aqui está uma que podíamos usar.

Thomas não pôde deixar de sorrir.

- O problema - acrescentou George - é que Mr. Harwick irá ficar muito tempo, a menos que...

- A menos o quê? - perguntou Thomas.

- A menos que desliguemos a ficha, como se costuma dizer - respondeu George, sorrindo.

Thomas tentou ir-se embora, mas George impediu-o, agarrando-lhe o braço.

Thomas pensou por que é que o tipo sentiria necessidade de lhe estar sempre a tocar.

- Diz-me lá - perguntou George -, achas que tinhas coragem para desligar a ficha?

- Não, a menos que tivesse primeiro falado com Rodney Stod-dard - disse Thomas num tom sarcástico. - E tu, George? Pareces disposto a tudo para arranjares mais camas.

George riu e largou-lhe o braço.

- Todos nós temos os nossos segredos, não é? Nunca esperei que dissesses que primeiro falarias com Rodney. Essa é boa. - George deu outra das suas palmadinhas a Thomas e afastou-se, acenando uma despedida às enfermeiras da UCI.

Thomas observou-o e depois voltou a olhar para o doente, pensando nos comentários que George fizera. Ocasionalmente, doentes em estado de morte cerebral eram tirados do sistema de reanimação, mas nem os médicos nem as enfermeiras admitiam este facto.

- Dr. Kingsley?

Thomas voltou-se e deu com uma das funcionárias da UCI.

- Tem uma chamada do seu serviço.

Lançando um último olhar ao doente de Ballantine, Thomas dirigiu-se para o balcão central, pensando como é que poderia fazer que Ballantine lhe passasse os casos mais difíceis. Thomas tinha a certeza de que aquelas tragédias “imprevistas” e “inevitáveis” não aconteceriam se fosse ele a operar.

Thomas atendeu o telefone com evidente irritação. Sempre que era chamado ao telefone da rede geral era para receber más notícias. No entanto, desta vez, a telefonista apenas lhe disse que telefonasse à mãe assim que pudesse.

Perplexo, Thomas fez a ligação. A mãe nunca lhe telefonava durante o dia, a não ser por uma razão importante.

- Desculpa ter-te maçado, meu querido - disse Patrícia.

- Que é? - perguntou Thomas.

- É por causa da tua mulher.

A mãe fez uma pausa e Thomas sentiu-se completamente sem paciência.

- Mãe, tenho muito que fazer.

- A tua mulher veio visitar-me esta manhã.

Ocorreu nesse instante a Thomas que Cassi pudesse ter falado na sua impotência. Depois apercebeu-se de que era uma ideia absurda. Mas a afirmação que a mãe fez a seguir foi ainda mais alarmante.

- Insinuou que serias tóxico-dependente. Falou em Dexedrina, creio.

Thomas estava tão furioso que mal conseguia falar.

- Qu-que mais é que ela disse? - gaguejou por fim.

- Não achas que chega? Disse que estavas a abusar de drogas. Avisei-te quanto a essa rapariga, mas não me deste ouvidos. Não, achaste que eras tu que sabias...

- Terei de falar consigo esta noite - disse Thomas, desligando o telefone com o indicador.

Ainda com o auscultador na mão, Thomas esforçou-se por controlar a sua fúria. É claro que tomava um comprimido de vez em quando. Toda a gente tomava. Como é que Cassi ousava traí-lo dando tanta importância ao facto e indo contar à mãe? Abusar de drogas! Santo Deus, um comprimido ocasional não significava que fosse tóxico-dependente.

Impulsivamente, Thomas ligou para casa de Doris. Ela atendeu ao terceiro toque, um pouco ofegante.

- Queres companhia? - perguntou Thomas.

- Quando? - disse Doris entusiasticamente.

- Dentro de poucos minutos. Estou no hospital.

- Adoraria - disse Doris. - Ainda bem que me apanhaste. Já ia a subir as escadas.

Thomas desligou. Sentiu um certo medo. E se acontecesse com Doris o mesmo que tinha acontecido na noite anterior com Cassi? Sabendo que era melhor não pensar nisso, Thomas acabou de fazer a ronda apressadamente.

Doris vivia a cerca de dois quarteirões do hospital, na Bay State Road. Thomas dirigiu-se para lá a pé e durante o percurso não conseguiu deixar de pensar no que Cassi fizera. Por que é que ela o quereria provocar daquela maneira? Não fazia sentido. Pensaria de facto que ele não descobriria? Talvez estivesse a tentar vingar-se dele de uma maneira qualquer perfeitamente ilógica. Thomas suspirou. O seu casamento com Cassi não era o sonho que ele imaginara. Tinha achado que seria um casamento vantajoso para ele. Havia tanta gente interessada nela que achara que ela era uma rapariga especial. Até George se tinha apaixonado por ela, tendo-lhe proposto casamento depois de saírem meia dúzia de vezes.

A voz de Doris, distorcida com interferências, saudou-o através do intercomunicador assim que ele tocou à campainha. Começou a subir as escadas e ouviu-a abrir a porta.

- Mas que bela surpresa - exclamou, assim que ele chegou ao primeiro patamar. Vestia um fato de corrida, composto por uns calções bem curtos e uma T-shirt que mal lhe tapava o umbigo. Tinha o cabelo solto, um cabelo inacreditavelmente macio e brilhante.

Enquanto ela o conduzia para dentro e fechava a porta, Thomas olhou de relance à sua volta. Há meses que não ia lá, mas não sofrera grandes alterações. A sala de estar era minúscula, com um único sofá em frente a uma pequena lareira. Ao fundo da sala havia uma janela dupla que dava para a rua. Em cima da mesa de café havia uma garrafa de vidro e dois copos. Doris aproximou-se de Thomas e encostou-se a ele.

- Queres ditar-me alguma carta? - gracejou, passando-lhe as mãos pelas costas. O medo de Thomas acerca da sua potência desapareceu rapidamente.

- Não é cedo de mais para nos divertirmos, pois não? - perguntou Doris, encostando-se ainda mais a Thomas e sentindo-o excitado.

- Claro que não - disse Thomas, puxando-a para cima do sofá e arrancando-lhe a roupa num êxtase de excitação e de alívio face à sua reacção. Enquanto a penetrava, consolou-se com a ideia de que o problema da noite anterior era da responsabilidade de Cassi, não dele. Não lhe passou pela cabeça o facto de nesse dia ainda não ter tomado um Percodan.

As enfermeiras da unidade de cuidados intensivos de cirurgia sabiam que os problemas, sobretudo os graves, tinham uma forma estranha de se propagar. A noite começara mal, com a paragem cardíaca às onze e trinta da rapariguinha de onze anos que tinha sido operada a uma ruptura de baço nesse dia. Felizmente, tinha tudo corrido bem e o coração da rapariguinha recomeçara a bater quase de imediato. As enfermeiras tinham ficado espantadas com o número de médicos que acorreram à chamada de emergência. Em determinada altura, os médicos eram tantos que se atrapalhavam uns aos outros.

- Por que é que ultimamente há tantos médicos de serviço aqui no hospital? - perguntou Andrea Bryant, supervisora do turno da noite. - É a primeira vez que vejo o Dr. George Sherman de serviço a um sábado à noite desde que passou a médico residente.

- Deve haver muitos casos de emergência no BO - disse a outra enfermeira, Trudy Bodanowitz.

- Não pode ser por isso - disse Andrea. - Falei com a supervisora do turno da noite de lá e ela disse-me que só tinham dois casos: um caso de emergência cardíaca e uma fractura de anca.

- Então não faço ideia - disse Trudy, olhando para o relógio. Passavam alguns minutos da meia-noite. - Queres ficar com o primeiro período de descanso da noite?

As raparigas estavam sentadas no balcão central a acabar de preencher os formulários exigidos pela ocorrência da paragem cardíaca. Nenhuma delas estava especificamente encarregue de um doente, tendo como tarefa assegurar o funcionamento do balcão e efectuar os necessários registos administrativos.

- Não sei bem se iremos conseguir ter período de descanso esta noite - disse Andrea, olhando para a grande secretária em forma de U. - Isto está tudo numa confusão tremenda. Não há nada como uma paragem cardíaca logo a seguir à mudança de turno para perturbar toda a rotina.

O balcão das enfermeiras da UCI rivalizava com a cabina de voo de um Boeing 747 em termos de equipamento electrónico sofisticado. Tinham à sua frente um grande painel com ecrãs de televisão que davam indicações permanentes sobre todos os doentes internados na unidade. A maioria estava programada para determinados valores, accionando-se o alarme se estes valores se afastassem demasiado dos limites normais. Enquanto as enfermeiras conversavam, um dos traçados de ECG estava a sofrer alterações. À medida que minutos cruciais iam passando, o traçado anteriormente regular começou a ficar cada vez mais desordenado. Finalmente, soou o alarme.

- Merda - disse Trudy, olhando para o ecrã do osciloscópio, que apitava. Levantou-se e deu uma ligeira pancada na unidade, na esperança de que a causa do alarme fosse mau funcionamento eléctrico. Viu o traçado anormal do ECG e mudou para outra frequência, continuando com a esperança de que o problema fosse mecânico.

- Quem é? - perguntou Andrea, procurando ver se havia alguma actividade de emergência por parte do pessoal de enfermagem.

- Harwick - disse Trudy.

Andrea olhou imediatamente para a cama onde se encontrava o doente que constituía o desastre cirúrgico do Dr. Ballantine. Não estava lá nenhuma enfermeira, o que não era invulgar. Mr. Harwick tinha estado excepcionalmente estável durante as últimas semanas.

- Chama o interno de cirurgia - disse Trudy. O ECG de Mr. Harwick estava a piorar rapidamente sob o olhar de Trudy. - Olha para isto, ele vai fazer paragem cardíaca.

Apontou para o ecrã onde o ECG de Mr. Harwick mostrava as alterações típicas que ocorriam quer antes de paragem cardíaca, quer antes de uma degeneração por fibrilação ventricular.

- Achas que faça a chamada de emergência? - perguntou Andrea.

As duas enfermeiras olharam uma para a outra.

- O Dr. Ballantine recomendou especificamente que não o devíamos fazer - disse Trudy.

- Eu sei - disse Andrea.

- Isto faz-me sempre sentir pessimamente - disse Trudy, voltando a olhar para o ECG. - Gostava que não nos pusessem nesta situação. Não é justo.

Enquanto Trudy observava o ecrã, o traçado do ECG assumiu a forma de uma linha horizontal, apenas assinalando ocasionalmente um pequeno ponto. Mr. Harwick tinha morrido.

- Chama o interno - disse Trudy num tom zangado. Contornou o balcão da UCI e dirigiu-se para a cama de Mr. Harwick. O aparelho de respiração assistida continuava a insuflar ar para os seus pulmões, fazendo que parecesse estar ainda vivo.

- Isto de facto não entusiasma uma pessoa a submeter-se a uma intervenção cirúrgica - disse Andrea, desligando o telefone.

- Que terá acontecido? Estava tão estável - disse Trudy.

Estendeu a mão e desligou o aparelho de respiração assistida. O silvo deixou de se ouvir. O peito de Mr. Harwick baixou e ficou imóvel.

Andrea desligou o soro que lhe vinha sendo dado por via endovenosa.

- Provavelmente é melhor assim. Agora a família já pode adaptar-se à situação e prosseguir com a sua vida normal.

 

Tinham passado duas semanas desde que Thomas tivera conhecimento da visita que Cassi fizera à mãe. Embora tivessem apenas tido uma breve discussão, a tensão entre ambos tornara-se insuportável. Até Thomas se apercebera da sua crescente dependência do Percodan, mas tinha de tomar qualquer coisa para atenuar a sua ansiedade.

Ao correr pelo corredor, já atrasado para a conferência de mortes mensal, sentiu a pulsação excessivamente rápida.

A reunião já começara e o director interno de cirurgia estava a apresentar o primeiro caso, uma vítima de traumatismo que expirara pouco depois de dar entrada no banco. O interno e o estagiário não tinham notado os sinais de alerta de que a membrana que envolve o coração estava lesionada e que se verificava uma hemorragia. Como se tratava de um doente que não fora seguido por um médico específico, quem pagou as favas foi o pessoal clínico permanente.

Se o caso fosse da responsabilidade de um dos médicos privados que trabalhavam para o hospital, a discussão ter-se-ia processado em moldes muito diferentes. As questões levantadas teriam sido as mesmas, mas o médico em causa teria assegurado que o diagnóstico de hemorragia do pericárdio era extremamente difícil de fazer e que ele fizera o melhor possível.

Thomas depressa se apercebeu de que a conferência de mortes mensal servia mais para ilibar culpas do que para as atribuir, a menos que o responsável pertencesse ao quadro clínico do hospital. Os leigos poderiam pensar que a conferência de mortes servia de certa forma para controlar a actuação dos médicos, mas infelizmente não era assim, como Thomas cinicamente constatava. E o caso seguinte provou que tinha razão.

O Dr. Ballantine dirigiu-se para o estrado para apresentar o caso de Herbert Harwick. Quando terminou, um obeso interno de patologia debitou rapidamente os resultados da autópsia, mostrando também slides do cérebro do indivíduo, do qual pouco restava.

A morte de Mr. Harwick foi então discutida, mas sem ser feita qualquer referência ao facto de o traumatismo que sofrera no BO ter muito provavelmente resultado da inépcia cirúrgica do Dr. Ballantine. O sentimento geral do pessoal clínico era “aí vou eu, salvo por graça de Deus”, o que até certo ponto era verdade. O que revoltava Thomas era que ninguém se lembrava que há seis. meses Ballantine tinha apresentado um caso semelhante. A embolia por ar era uma complicação temida que por vezes se verificava, fizesse o que se fizesse, mas o facto de ocorrer tantas vezes e com crescente frequência nos casos de Ballantine era sempre ignorado.

Na opinião de Thomas era igualmente espantoso nada ser dito sobre a morte em si de Harwick na UCI. Tanto quanto era do seu conhecimento, o doente tinha estado estável durante um longo período antes da súbita paragem cardíaca. Thomas olhou para os presentes, intrigado por estes ficarem calados. Esse facto vinha reconfir-mar a sua opinião de que a burocracia e o método de tratar dos problemas em comissões não era forma de gerir uma organização.

- Se não há mais nada a discutir - disse Ballantine -, creio que podemos passar ao caso seguinte. Infelizmente, sou eu que continuo na berlinda - prosseguiu com um sorriso amarelo. - O nome do doente é Bruce Wilkinson. Tratava-se de um homem branco de quarenta e dois anos que teve um ataque de coração e que se verificou ter circulação coronária focalmente insuficiente, o que indicava ser um bom candidato a cirurgia para bypass triplo.

Thomas endireitou-se na cadeira. Lembrava-se muito bem de Wilkinson, e em especial da noite em que tentara ressuscitá-lo. Tinha bem presente a cena surrealista.

Ballantine continuou a falar monotonamente, apresentando o caso com excessiva pormenorização. O queixo do cirurgião sentado ao lado de Thomas caiu-lhe sobre o peito e o som da sua respiração pesada chegava ao estrado. Finalmente, Ballantine chegou ao fim e disse:

- Mr. Wilkinson reagiu muito bem durante o período pós-operatório até à noite do quarto dia. Foi nesse dia que morreu.

Ballantine ergueu o olhar dos papéis que acabara de consultar. O rosto, contrastando nitidamente com a sua expressão durante a discussão do caso anterior, assumira uma expressão de desafio como se dissesse: “Tentem descobrir aqui qualquer erro.”

Um interno de patologia franzino e bem vestido levantou-se da primeira fila e dirigiu-se à parte de trás do estrado. Ajustou nervosamente o pequeno microfone e inclinou-se sobre ele, achando que tinha de falar directamente lá para dentro. O resultado foi um som electrónico agudo e irritante, que fez que ele recuasse ao mesmo tempo que pedia desculpa.

Thomas reconheceu-o. Era Robert Seibert, o amigo de Cassi.

Assim que Robert iniciou a sua comunicação de patologia, todos os sinais de nervosismo desapareceram. Era bom orador, especialmente comparado com Ballantine, e organizara a exposição de maneira a apenas referir os aspectos importantes. Mostrou uma série de slides e frisou que, embora tivesse sido comunicado que o doente estava profunda e fortemente cianosado na altura da morte, não se verificara qualquer obstrução nas vias respiratórias. Apresentou em seguida uma fotomicrografia que mostrava não existir qualquer problema alveolar nos pulmões. Uma outra série de slides revelou que não se verificara embolia pulmonar. Apresentou nova séria de fotomicro-grafias que mostraram não haver sinais de aumento de tensão arterial à direita ou à esquerda no período anterior à morte. A série final de slides indicou que os bypasses estavam hábil e correctamente suturados e que não havia indícios de enfarte de miocárdio ou de ataque de coração recente.

As luzes voltaram a acender-se.

- Tudo isto demonstra... - disse Robert, fazendo uma pausa como se procurasse realçar o efeito da sua afirmação - que neste caso não existe causa de morte.

A assistência reagiu mostrando-se surpreendida. Tal afirmação era completamente inesperada. Ouviram-se mesmo alguns risos, bem como o comentário de um dos ortopedistas que perguntou se aquele era um dos caso que tinham acordado na morgue, o que provocou novos risos. Robert sorriu.

- Deve ter tido uma trombose - disse alguém atrás de Thomas.

- É uma sugestão válida - disse Robert. - Uma trombose que tenha impedido a respiração enquanto o coração bombeava sangue não oxigenado. Isso provocaria uma forte cianose. Mas significaria também uma lesão cerebral. Examinámos o cérebro milímetro a milímetro e não encontrámos o menor indício.

A assistência estava agora em total silêncio. Robert aguardou que fossem feitos outros comentários, mas ninguém falou. Então inclinou-se para a frente e falou para o microfone.

- Se me dão licença, gostaria de mostrar um outro slide. Tinha inteligentemente suscitado a imaginação da assistência. Thomas calculava o que se seguiria.

Robert apagou as luzes e ligou o projector. O slide mostrava uma compilação de dezassete casos, com dados comparados sobre idade, sexo e aspectos das respectivas histórias clínicas.

- Há já algum tempo que tenho vindo a interessar-me por casos como o de Mr. Wilkinson - disse Robert. - Este slide destina-se a mostrar-lhes que este não é um caso isolado. Eu próprio descobri quatro casos semelhantes ocorridos no último ano e meio. Ao consultar os ficheiros, descobri mais treze. Se repararem, todos eles foram submetidos a cirurgia cardíaca. Em cada um dos casos não foi estabelecida uma causa específica de morte. Denominei esta síndroma de morte cirúrgica súbita, ou MCS.

As luzes voltaram a acender-se.

O rosto de Ballantine tornara-se extremamente congestionado, assumindo uma cor vermelho-vivo.

- Que diabo é que pensa que está a fazer? - exclamou, furioso. Noutras circunstâncias, Thomas talvez sentisse pena de Robert.

A sua inesperada comunicação não se enquadrava no rígido protocolo das conferências de mortes.

Olhando em volta da sala, Thomas viu muitas expressões iradas. Era a velha história. Os médicos não gostavam de ver a sua perícia posta em causa. E tinham relutância em exercer sentido crítico em relação a si próprios.

- Estamos numa conferência de mortes, não numa apresentação de casos - dizia Ballantine. - Não estamos aqui para ouvir uma prelecção.

- Dado tratar-se da discussão do caso de Mr. Wilkinson, achei que seria esclarecedor...

- O senhor achou - repetiu o Dr. Ballantine num tom sarcástico. - Bom, para sua informação, está aqui presente como consultor. Tinha alguma coisa específica a dizer quando apresentou essa lista de mortes cirúrgicas supostamente súbitas?

- Não - admitiu Robert.

Embora Thomas preferisse ficar calado nestas reuniões, tinha de fazer uma pergunta.

- Desculpe, Robert - disse -, existia cianose profunda em todos os dezassete casos?

Robert não podia estar mais ansioso por responder a uma pergunta da audiência.

- Não - disse ao microfone. - Apenas em cinco.

- Isso significa que a causa fisiológica de morte não foi idêntica em todos os casos.

- É verdade - disse Robert. - Seis tiveram convulsões antes de morrer.

- Provavelmente devido a embolia por ar - disse um outro cirurgião.

- Não creio - respondeu Robert. - Em primeiro lugar, as convulsões ocorreram três ou mais dias depois da intervenção cirúrgica. Também seria difícil explicar essa demora. Além disso, no decurso da autópsia ao cérebro, não foi encontrado ar.

- Podia ter sido absorvido - disse uma outra pessoa.

- Se tivesse havido ar suficiente para causar convulsões súbitas e morte, devia restar o suficiente para ser detectado - disse Robert.

- E em relação aos cirurgiões? - disse o médico que estava atrás de Thomas. - Há maior incidência de algum sobre outros?

- Oito dos casos eram da responsabilidade do Dr. George Sher-man - disse Robert.

Um bruáá irrompeu ao fundo da sala. George ergueu-se, furioso, enquanto Ballantine empurrou Robert para fora do estrado.

- Se não há mais comentários... - disse Ballantine. George interveio:

- Creio que o comentário do Dr. Kingsley foi particularmente relevante. Ao frisar que houve diferentes mecanismos de morte nestes casos, indicou que não havia razão para tentar relacioná-los. - George olhou na direcção de Thomas.

- Exactamente - disse Thomas. Teria preferido deixar que George se afundasse ou se salvasse por si, mas sentiu-se obrigado a responder. - Pensei que Robert tivesse relacionado os casos devido a qualquer semelhança que tivesse descoberto nas suas mortes, mas não me parece ser esse o caso.

- O fundamento da correlação - disse Robert - foi as mortes, especialmente as que se verificaram durante os últimos anos, terem ocorrido quando os doentes estavam aparentemente a reagir bem, não existindo qualquer causa anatómica ou fisiológica para as mesmas.

- Correcção - disse George. - O serviço de patologia não descobriu nenhuma causa.

- É a mesma coisa - disse Robert.

- Não é bem - disse George. - Talvez um outro serviço de patologia tivesse descoberto as causas. Creio que esta questão recai mais sobre si e sobre os seus colegas do que sobre qualquer outra coisa. E qualquer insinuação de que houve qualquer coisa de irregular numa série de tragédias cirúrgicas com base no que referiu é uma atitude irresponsável.

- Apoiado - gritou um cirurgião ortopédico, que começou a bater palmas.

Robert desceu rapidamente do estrado. O ambiente da sala estava tenso.

- A próxima conferência de mortes será de hoje a um mês, no dia 7 de Janeiro - disse Ballantine, desligando o microfone e reunindo os seus apontamentos. Desceu do estrado e dirigiu-se para Thomas.

- Parece que conhece aquele rapaz - disse. - Quem diabo é ele?

- Chama-se Robert Seibert - disse Thomas. - É estagiário do segundo ano de patologia.

- Hei-de meter os tomates dele em formol. Quem diabo é que o idiota pensa que é para se apresentar aqui como se fosse a nossa estrela socrática?

Por cima do ombro de Ballantine, Thomas viu que George vinha direito a eles. Estava tão irritado quanto Ballantine.

- Tenho o nome dele - disse George num tom ameaçador, como se estivesse a revelar um segredo.

- Já sabemos quem é - disse Ballantine. - Só está no segundo ano de estágio.

- Espantoso - disse George. - Não só temos de aturar • filósofos, como também stagiários de patologia armados em espertos.

- Ouvi dizer que este mês houve uma morte numa das salas de cateterismo do serviço de radiologia - disse Thomas. - Por que é que não foi apresentada?

- Ah, referes-te a Sam Stevens - disse George, nervoso, a olhar para Robert, que ia a sair da sala. - Como a morte ocorreu durante o cateterismo, os tipos de medicina quiseram apresentá-la na sua conferência de mortes.

Enquanto Thomas observava a fúria do Dr. Ballantine e de George, pensou no que diriam se lhes dissesse que Cassi estivera envolvida no estudo da chamada MCS. Esperava, para bem de todos, que não descobrissem. Esperava também que Cassi tivesse senso suficiente para não continuar a dar-se com Robert. Isso só serviria para causar mais problemas.

Cassi estava deitada de costas na sala de observações totalmente às escuras e não se podia sentir mais desconfortável. Não tinha dores, mas pouco faltava, pois era forçada a não mexer o olho enquanto o Dr. Martin Obermeyer, director de oftalmologia, apontava uma luz intensa ao seu olho esquerdo. Bem pior do que o desconforto que sentia era o medo do que o médico poderia dizer. Cassi sabia que tinha desleixado o problema do olho. Esperava ansiosamente que o Dr. Obermeyer fizesse qualquer comentário tranquilizador enquanto a observava, mas ele mantinha um silêncio de mau augúrio.

Ainda em silêncio, transferiu a luz para o seu olho são. O feixe de luz provinha de um aparelho que o médico tinha preso à cabeça, semelhante à luz de um mineiro, mas mais sofisticada. Embora a luz lhe tivesse parecido brilhante vista com o olho esquerdo, quando incidiu sobre o olho são a sua intensidade foi tão forte que Cassi teve dificuldade em acreditar que não provocaria danos.

- Por favor, Cassi - disse o Dr. Obermeyer, erguendo a luz e olhando para ela por baixo da aparelhagem. - Por favor, não mexa o olho. - E carregou no olho com um pequeno estilete de metal.

Isto provocou-lhe uma certa irritação, que originou lágrimas, e Cassi sentiu-as escorrer pelo lado da cara. Pensou durante quanto mais tempo é que aguentaria o exame. Involuntariamente, agarrou o lençol que cobria a marquesa. Por instantes, sentiu que não conseguia continuar sem se mexer, mas a luz desapareceu. No entanto, mesmo depois do Dr. Obermeyer ter acendido a luz do tecto, continuava a não ver bem. O médico não era senão uma mancha nebulosa quando se sentou à secretária para escrever.

Cassi ficou preocupada ao vê-lo tão reticente. Era evidente que estava aborrecido com ela.

- Já me posso levantar? - perguntou Cassi, hesitante.

- Não percebo por que é que me pede a minha opinião - disse o Dr. Obermeyer-, já que não segue nenhuma das minhas outras indicações. - O oftalmologista não se deu ao trabalho de se virar enquanto falava.

Cassi sentou-se e passou as pernas para fora da marquesa. O olho direito estava a começar a recuperar do traumatismo provocado pela luz intensa, mas continuava com a visão enevoada devido ao medicamento que pusera para dilatar as pupilas. Observou por instantes o Dr. Obermeyer, que continuava de costas, reflectindo no comentário que fizera. Ela estava à espera que ele se mostrasse aborrecido por ela ter cancelado a última consulta, mas não esperava que estivesse assim.

Só quando acabou de escrever e fechou o dossier é que se virou para Cassi. Estava sentado num banco giratório com rodas e fê-lo deslizar de forma a aproximar-se dela.

A linha de visão de Cassi, sentada em cima da marquesa, era quase meio metro mais alta que a do médico. Via a zona brilhante no cimo da sua cabeça, onde o cabelo já lhe começara a cair. Não era um dos homens mais bem-parecidos do mundo, com as suas feições um pouco grosseiras e uma profunda ruga a meio da testa. No entanto, o conjunto não era de todo desagradável. A sua expressão denotava inteligência e sinceridade, duas qualidades que agradavam a Cassi.

- Creio que devo ser franco - começou ele. - Não há qualquer indício de o sangue no seu olho esquerdo estar a desaparecer. Na realidade, parece haver mais sangue.

Cassi tentou não mostrar a ansiedade que sentia. Assentiu, como se estivesse a ouvir o caso de um outro doente.

- Continuo a não conseguir visualizar a retina - disse o Dr. Obermeyer. - Em consequência, não sei donde provém o sangue nem se se trata de uma lesão curável.

- Mas o teste de ultra-sons... - começou Cassi.

- Provou que não há deslocamento de retina, pelo menos por enquanto, mas não mostra a origem da hemorragia.

- Talvez se esperássemos um pouco mais.

- Como o sangue não desapareceu até agora, é extremamente improvável que venha a desaparecer. Entretanto, podemos perder a única hipótese que temos de tratamento. Cassi, tenho de ver o fundo do olho. Temos de fazer uma vitrectomia.

Cassi desviou o olhar.

- Não pode ser mais ou menos daqui a um mês?

- Não - disse o Dr. Obermeyer. - Cassi, já me obrigou a adiar isto mais do que eu queria. Depois cancelou a sua última consulta. Não estou bem certo de que compreenda o que está em jogo.

- Compreendo - disse Cassi. - Só que esta altura não é nada boa para mim.

- Nunca é boa altura para uma intervenção cirúrgica - disse o Dr. Obermeyer-, a não ser para o cirurgião. Deixe-me marcar a data para resolvermos rapidamente a questão.

- Tenho de falar com Thomas - disse Cassi.

- Quê? - exclamou o Dr. Obermeyer, surpreendido. - Ainda não lhe falou nisso?

- Já - disse Cassi rapidamente. - Só não lhe disse quando seria.

- Quando é que pode falar com Thomas sobre a data? - perguntou o Dr. Obermeyer num tom de resignação.

- Rapidamente. Esta noite mesmo. Falarei consigo amanhã. Prometo. - Deslizou para o chão e agarrou-se à marquesa para se equilibrar de pé.

Cassi ficou aliviada por se ver fora do gabinete do oftalmologista. No fundo, sabia que ele tinha razão. Devia fazer a vitrectomia. Mas ia ser difícil pôr a questão a Thomas. Cassi parou ao fundo do corredor do quinto piso do edifício de consultas, o mesmo edifício onde Thomas tinha o seu consultório, ficando a olhar por uma janela para as ruas ladeadas de árvores já sem folhas naquele início de Dezembro e para os prédios de tijolo densamente agrupados.

Uma ambulância descia a Commonwealth Avenue com a sirene a apitar e as luzes a faiscar. Cassi fechou o olho direito e a cena transformou-se numa mera extensão de luz. Assaltada pelo pânico, reabriu o olho para deixar o mundo entrar. Tinha de fazer alguma coisa Tinha de falar com Thomas, apesar da dificuldade de relacionamento entre ambos desde a sua visita a Patrícia.

Cassi desejava que aquele sábado de há quinze dias atrás nunca tivesse existido. Se ao menos Patrícia não tivesse telefonado a Thomas! Mas é claro que isso seria pedir demasiado. Esperando que Thomas chegasse a casa zangado, Cassi ficara extremamente chocada quando verificou que nunca mais chegava a casa. Às dez e meia, ligou finalmente para ele. Só nessa altura é que soube que Thomas tinha tido uma operação urgente. Deixou ficar recado para ele lhe telefonar e esperou pelo seu telefonema até às duas, tendo acabado por adormecer com um livro na mão e de luz acesa. Thomas tinha ido finalmente para casa no domingo à tarde e, em vez de se zangar, recusou-se terminantemente a falar com ela. Com uma calma intencional, levou toda a sua roupa para o quarto contíguo ao seu escritório.

O método do silêncio provocava uma tensão insuportável a Cassi. As poucas palavras que trocavam eram meras banalidades. A pior altura era o jantar e por várias vezes, alegando estar com dores de cabeça, Cassi fazia um jantar ligeiro no seu quarto.

Passado uma semana, Thomas tinha finalmente explodido de raiva. O motivo que despoletou a sua raiva foi insignificante: Cassi tinha deixado cair um copo Waterford no chão da cozinha. Thomas avançou para ela, a gritar, acusando^a de ter sido traiçoeira e manipuladora nas suas costas. Como é que Cassi ousara ir ter com a mãe e acusá-lo de tomar drogas em excesso?

- É claro que de vez em quando tomo um comprimido - disse Thomas, baixando finalmente a voz. - Quer para me ajudar a dormir, quer para me ajudar a estar acordado quando perdi uma noite. Vê se és capaz de me dizer o nome de um único médico que nunca tenha tomado qualquer droga das suas! - E apontou-lhe o indicador com um gesto irritado para frisar melhor a sua informação.

Como a própria Cassi já tinha ocasionalmente tomado um Va-lium, não teve coragem para o desmentir. Além disso, a sua intuição dizia-lhe para ficar calada e deixar Thomas dar largas à sua ira.

Já num tom mais controlado, Thomas perguntou-lhe por que raio é que tinha ido ter com Patrícia. Cassi sabia, melhor do que ninguém, como a mãe já o aborrecia sem ser preciso ninguém dar-lhe de mão beijada um motivo potencialmente tão preocupante como aquele.

Pressentindo que Thomas já esgotara o seu azedume, Cassi tentou explicar. Disse que quando encontrou o comprimido de Dexedrina tinha ficado tão assustada que erradamente pensara ser Patrícia a pessoa que melhor poderia ajudá-lo no caso de ele estar com problemas.

- E nunca disse que eras toxicodependente.

- A minha mãe disse que tinhas dito - contrapôs Thomas num tom agressivo. - Em quem é que devo acreditar? - E lançou as mãos no ar num gesto de extremo aborrecimento.

Cassi não respondeu, embora se tivesse sentido tentada a dizer que se Thomas não sabia a resposta tendo vivido quarenta e dois anos com Patrícia, nunca viria a saber. Mas limitou-se a pedir-lhe desculpa por ter tirado uma conclusão precipitada ao encontrar o comprimido de Dexedrina e sobretudo por ter ido ter com a mãe. Chorosa, disse-lhe que o amava muito, embora admitindo para consigo própria que a aterrorizava mais a hipótese de Thomas a abandonar do que o possível problema de ele tomar drogas em excesso. Queria que a sua relação voltasse ao normal. No caso de a tensão que se estabelecera entre ambos ter sido provocada pelas suas queixas quanto aos diabetes, Cassi decidiu poupar Thomas a novos pormenores sobre os seus problemas. Mas agora o seu olho vinha sobrepor-se à sua decisão. A chegada de uma outra ambulância a apitar fez que Cassi regressasse ao presente. Por mais que não quisesse aborrecer Thomas, sabia que não tinha outra alternativa. Não podia dar entrada no hospital para ser operada sem lhe dizer, mesmo que conseguisse arranjar coragem para o fazer. Antevendo uma má reacção da parte dele, Cassi carregou no botão do elevador. Falaria com Thomas. Conhecendo-se a si própria como se conhecia, tinha medo de, se esperasse até chegarem a casa nessa tarde, não conseguir abordar a questão.

Esforçando-se por não pensar mais sobre isso não fosse mudar de ideias, Cassi dirigiu-se para o consultório de Thomas e abriu a porta. Felizmente, não havia nenhum doente na sala de espera. Doris ergueu os olhos da máquina de escrever e, como já era habitual, continuou a trabalhar sem sequer mostrar ter dado pela entrada de Cassi.

- Thomas está? - perguntou Cassi.

- Está - respondeu Doris sem parar de escrever. - Está com o último doente.

Cassi sentou-se no sofá cor-de-rosa. Não conseguia ler devido ao efeito dos pingos que pusera nos olhos ainda não ter passado. Como Doris não olhou para Cassi, esta sentiu-se à vontade para a observar. Reparou que a enfermeira tinha mudado de penteado e achou que Doris ficava melhor assim, sem o severo carrapito que costumava usar.

Passado pouco tempo, o doente saiu do consultório. Sorriu a Doris com um ar extremamente animado.

- Sinto-me óptimo - disse. - O doutor disse-me que estou totalmente recuperado. Posso fazer o que quiser.

Enquanto vestia o casaco, disse a Cassi:

- O Dr. Kingsley é o maior. Não tenha o menor receio. Voltando-se depois para Doris, agradeceu-lhe, atirou-lhe um beijo

e foi-se embora.

Cassi suspirou enquanto se levantava. Sabia que Thomas era um excelente médico. Bem gostaria ela própria de ter a capacidade de compaixão que acreditava que ele tinha para com os seus doentes.

Thomas estava a ditar para o gravador quando ela entrou. “Agradeço-te uma vez mais, vírgula, Michael, vírgula, por me teres enviado este interessante caso, vírgula, e se eu puder ser útil em mais alguma coisa, vírgula, não hesites em telefonar-me. Com os meus cumprimentos, fim de gravação.”

Thomas desligou o gravador e girou a cadeira para a frente. Olhou para Cassi com uma indiferença calculada.

- E a que é que devo o prazer desta visita? - perguntou.

- Acabei de sair da consulta de oftalmologia - disse Cassi, tentando controlar a voz.

- Muito interessante - disse Thomas.

- Tenho de falar contigo.

- Sê breve - disse Thomas, olhando para o relógio. - Tenho um doente em estado de choque cardiogénico que tenho de ir ver.

Cassi sentiu a sua coragem fraquejar. Precisava de qualquer indício de que Thomas não se irritaria se ela voltasse a falar na sua doença. Mas a atitude de Thomas apenas sugeria uma agressiva falta de interesse. Era como se a estivesse a desafiar a pisar uma qualquer marca arbitrária.

- Então? - perguntou Thomas.

- O oftalmologista teve de me dilatar as pupilas - disse Cassi, esquivando-se à questão essencial. - Deu-se uma certa deterioração. Estava a pensar se não podíamos ir um pouco mais cedo para casa.

- Receio bem que não - disse Thomas, levantando-se. - Tenho quase a certeza de que o doente que vou ver vai precisar de ser operado de urgência. - Despiu a bata branca e pendurou-a no cabide da porta que dava para a sala de observações. - O mais certo é ter de passar a noite aqui no hospital.

Não dissera nada acerca do olho de Cassi. Ela sabia que tinha de ser ela a falar na operação, mas não conseguia.

- Passaste a noite passada no hospital, Thomas - disse. - Estás a trabalhar de mais. Precisas de descansar.

- Há médicos que precisam de trabalhar - disse Thomas. - Não podemos ir todos para psiquiatria. - Vestiu o casaco do fato e dirigiu-se para a secretária para tirar a fita do gravador.

- Não sei se posso guiar com a visão assim tão nublada - disse Cassi. Já aprendera a não contestar as insinuações pejorativas de Thomas sobre psiquiatria.

- Tens duas alternativas - disse Thomas. - Esperar até desaparecer o efeito dos pingos ou passar a noite no hospital. Faz o que achares melhor para ti. - E Thomas dirigiu-se para a porta.

- Espera - disse Cassi, sentindo a boca seca. - Tenho de falar contigo. Achas que devo fazer uma vitrectomia?

Pronto, já o tinha dito. Cassi baixou os olhos e viu que estava a torcer as mãos nervosamente. Embaraçada, soltou-as, mas ficou sem saber onde as pôr.

- Surpreende-me o facto de ainda te interessar a minha opinião - retorquiu Thomas num tom agressivo. O seu ligeiro sorriso desaparecera. - Infelizmente, não sou cirurgião oftalmologista. Não faço a mínima ideia se deves ou não fazer uma vitrectomia. Foi por isso que te mandei ao Obermeyer.

Cassi apercebeu-se da sua crescente irritação. Era exactamente como temera. Falar-lhe no problema do olho só servia para agravar as coisas.

- Além disso - continuou Thomas - não achas que há alturas melhores para me falares desse tipo de coisa? Tenho uma pessoa a morrer lá em cima. Há meses que tens esse problema no olho e apareces-me no meio de uma urgência para me falar nele. Santo Deus, Cassi. Pensa nos outros de vez em quando, está bem?

Thomas avançou para a porta, abriu-a num rompante e desapareceu.

Em muitos aspectos, Thomas tinha razão, pensou Cassi. Não era correcto ir ao consultório dele para lhe falar no problema do seu olho. Sabia que se dizia que tinha “um doente a morrer lá em cima”, isso era mesmo verdade..

Cerrando os dentes, Cassi saiu do gabinete. Doris fingiu estar a escrever à máquina, mas Cassi calculou que tinha estado à escuta. Dirigindo-se para os elevadores, Cassi decidiu voltar para a Clarkson Two. Isso impedi-la-ia de pensar demasiado sobre a questão. Além disso, sabia que não conseguia guiar, pelo menos durante algum tempo.

Quando chegou à enfermaria a reunião da equipa da tarde ainda estava a decorrer.

Cassi tinha tratado de tudo de forma a ficar com a tarde livre e não lhe apeteceu juntar-se ao grupo. Tinha medo que, ao ver-se entre amigos, o seu frágil autodomínio cedesse e desatasse a chorar.

Grata pela inesperada oportunidade de chegar ao seu gabinete sem ninguém dar por ela, dirigiu-se rapidamente para lá e fechou a porta. Contornou a secretária de metal e fórmica, que tinha quase a mesma largura da sala, e sentou-se na velha cadeira giratória. Tinha tentado alegrar o cubículo com várias gravuras impressionistas que comprara na livraria de Harvard, mas o seu esforço não fora bem sucedido. Sob a crua luz fluorescente do tecto, o gabinete continuava a parecer uma cela de interrogatório.

Apoiando a cabeça nas mãos. Cassi tentou pensar, mas não conseguia afastar do espírito os seus problemas com Thomas. Foi quase com alívio que ouviu bater com força à porta. Antes de poder responder, William Bentworth entrou.

- Importa-se que me sente, Drª Cassidy? - perguntou Bent-worth com uma delicadeza nada habitual nele.

- Não - disse Cassi, admirada por ver o coronel entrar no seu gabinete daquela forma espontânea. Estava muito bem vestido, com calças beges e uma camisa de xadrez lavada. Até os sapatos tinham sido recentemente engraxados. O coronel sorriu.

- Importa-se que fume?

- Não - disse Cassi. Importava-se, mas era um dos sacrifícios que sentia ter de fazer. Algumas pessoas precisavam de toda a ajuda para lhes ser possível abrirem-se e falar. Nessas circunstâncias, o processo de acender um cigarro era uma muleta importante. Bentworth recostou-se na cadeira e sorriu. Pela primeira vez, os seus olhos, de um azul-vivo, pareceram cordiais e calorosos. Era um homem bem parecido, de ombros largos, cabelo escuro e espesso e feições angulosas e aristocráticas.

- Sente-se bem, doutora? - perguntou Bentworth, inclinando-se para a frente para observar o rosto de Cassi.

- Estou perfeitamente bem. Por que é que pergunta?

- Parece-me um pouco perturbada.

Cassi olhou para a gravura de Monet da garotinha com a mãe num campo de papoilas. Tentou concentrar-se. Assustava-a o facto de um doente conseguir ser tão perspicaz.

- Talvez se sinta culpada - sugeriu Bentworth, soprando delicadamente o fumo de forma a não ir para o rosto de Cassi.

- E por que é que me havia de sentir culpada?

- Porque acho que me tem evitado deliberadamente.

Cassi lembrou-se do comentário de }acob sobre as personalidades-fronteira serem inconsistentes e comparou o actual comportamento de Bentworth com a sua anterior recusa em falar com ela.

- E eu cei por que me tem evitado - continuou Bentworth. - Creio que a assusto. Peço-lhe desculpa se for este o caso. O facto de estar há tanto tempo no exército fez que me habituasse a dar ordens e creio que por vezes sou excessivamente autoritário.

Pela primeira vez na curta carreira de Cassi em psiquiatria, uma coisa que lera nos livros de consulta estava a acontecer espontaneamente entre ela e um dos seus doentes. Sabia, sem sombra de dúvida, que Bentworth estava a tentar manipulá-la.

- Mr. Bentworth... - começou Cassi.

- Coronel Bentworth - corrigiu William, sorrindo. - Dado que a trato por doutora, creio que será correcto tratar-me a mim por coronel. É um sinal de respeito mútuo.

- Muito bem - disse Cassi. - A verdade é que tem sido o senhor a impedir que fosse possível fazermos os dois uma sessão. Se bem me lembra, tentei várias vezes marcar uma reunião, mas o senhor alegou sempre ter compromissos anteriores. Acabei por perceber que as sessões de grupo são mais vantajosas para si do que conversas privadas, portanto não forcei a situação. Se quer ter uma sessão comigo, podemos marcá-la.

- Gostaria imenso de falar consigo - disse Bentworth. - Que tal agora mesmo? Tenho tempo. A doutora tem?

Cassi não estava na disposição de ceder à manipulação de Bentworth, pois achava que isso poderia vir a ter um efeito negativo na sua relação. Naquele momento não estava preparada para uma sessão e Bentworth assustava-a mesmo, apesar dos seus recém-descobertos modos encantadores.

- Que tal amanhã de manhã? - disse Cassi. - Logo a seguir à reunião da equipa.

O coronel Bentworth levantou-se e apagou o cigarro no cinzeiro que estava em cima da secretária de Cassi.

- Está bem. Com todo o gosto. E espero que aquilo que a preocupa se resolva da melhor forma.

Depois de ele sair, Cassi inspirou o ar carregado de fumo enquanto imaginava o coronel Bentworth vestido com a farda de gala. Via-o com modos encantadores e galanteadores e os seus problemas mentais pareceram-lhe fictícios. Conhecendo como conhecia a gravidade da sua doença mental, sentiu-se perturbada pelo facto de esta ser tão fácil de disfarçar.

Antes sequer de poder começar a ditar alguns apontamentos, a porta voltou a abrir-se e Maureen Kavenaugh entrou e sentou-se. Mau-reen tinha sido internada há um mês devido a uma depressão aguda recidiva. Tinha sofrido uma grave recaída quando o marido a fora visitar e lhe batera. Cassi ficou tão surpreendida por a ver fora do quarto como ficara quando William Bentworth a procurara espontaneamente. Cassi pensou se alguma droga miraculosa estaria a ser misturada na comida dos doentes.

- Vi o coronel vir cá - disse Maureen. - Pensei que tinha dito que não vinha esta tarde. - O tom da sua voz não denotava qualquer expressão ou emoção.

- Não contava vir - disse Cassi.

- Bom, já que cá está, posso falar consigo um instante? - perguntou Maureen timidamente.

- Claro que sim - disse Cassi. Tinha observado Maureen entrar no gabinete, fechar a porta e sentar-se.

- Ontem, quando falámos... - Maureen hesitou e os olhos marejaram-se-lhe de lágrimas.

Cassi empurrou a caixa de lenços de papel na direcção da mulher.

- A doutora... perguntou-me se eu gostaria de ver a minha irmã.

Maureen estava a falar tão baixo que Cassi mal a ouvia. Assentiu rapidamente, interrogando-se sobre o que é que Maureen estaria a pensar. A doente não mostrara interesse por nada desde a sua recaída, muito embora Cassi a tivesse medicado com Elavil. Na reunião da equipa, várias pessoas tinham sugerido choques eléctricos, mas Cassi argumentara contra, achando que o Elavil e sessões de acompanhamento dariam resultado. O que espantava Cassi era a percepção que Maureen tinha do seu estado, embora o facto de compreender a sua doença não lhe desse possibilidade automática de a influenciar.

Maureen admitia a sua hostilidade para com a mãe, que a abandonara a ela e à irmã mais nova logo nos primeiros anos da sua vida, e o ciúme reprimido que sentia por essa irmã mais nova e mais bonita, que fugira para se casar, deixando Maureen a viver sozinha. Em desespero, casara-se com o homem errado.

- Acha que a minha irmã me quer ver? - perguntou finalmente Maureen, com as lágrimas a correrem-lhe pelo rosto.

- Creio que sim - disse Cassi -, mas só saberemos depois de lhe perguntar.

Maureen assoou-se. Tinha o cabelo oleoso, a precisar de ser lavado. O seu rosto estava macilento e vincado e apesar da medicação continuava a perder peso.

- Tenho medo de lhe perguntar - admitiu Maureen. - Não creio que ela me venha ver. Por que é que havia de vir? Por que é que havia de fazer isso por mim? É inútil.

- O facto de pensar na sua irmã é muito bom sinal - disse Cassi num tom carinhoso.

Mauren deu um profundo suspiro.

- Não me consigo decidir. Se lhe telefonar a 'perguntar se me quer vir ver e ela me disser que não, tudo se agravará. Quero que seja outra pessoa a telefonar-lhe. A doutora pode telefonar-lhe?

Cassi corou. Pensou na sua própria indecisão em enfrentar Thomas. Conhecia bem a sensação de dependência e impotência com que Maureen se defrontava. Também ela queria que fosse outra pessoa a tomar as suas decisões. Fazendo um enorme esforço, Cassi tentou concentrar-se na mulher que estava sentada à sua frente.

- Não me cabe a mim entrar em contacto com a sua irmã - disse Cassi. - Mas é uma coisa sobre a qual podemos falar. Em relação a ver a sua irmã, acho que é boa ideia. Por que é que não voltamos a falar disso amanhã? Creio que tem uma sessão marcada para as duas.

Maureen concordou e tirando mais alguns lenços de papel da caixa, foi-se embora, deixando a porta aberta.

Cassi ficou sentada a olhar para a parede vazia durante algum tempo. Tinha a certeza de que a sua identificação com um dos seus doentes era indício da sua inexperiência.

- Estás aqui? Por que é que não foste à reunião de equipa? - perguntou Joan Widiker, que, ao passar pelo corredor, voltou rapidamente atrás ao ver Cassi no gabinete.

Cassi olhou para ela, mas não respondeu.

- Que se passa? - perguntou Joan. - Estás com cara de caso. - Entrou no gabinete de Cassi e cheirou o ar. - Além disso, não sabia que fumavas.

- Não fumo - respondeu Cassi. - Mas fuma o coronel Bent-worth.

- Veio falar contigo? - disse Joan, erguendo as sobrancelhas. - Estás a ter mais êxito do que pensas. - Fez uma pausa, sentando-se em seguida.

- Queria dizer-te que saí com o tal Jerry Donovan. Já falaste com ele?

Cassi abanou a cabeça.

- Não correu lá muito bem. A única coisa que ele queria... - Joan parou a meio da frase. - Cassi, que é que tens?

Os olhos de Cassi encheram-se de lágrimas, que começaram a correr-lhe pela cara abaixo.

Como temera, a mera presença de uma amiga fizera ceder o seu autodomínio. Finalmente quebrou por completo e escondendo a cara entre as mãos desfez-se em pranto.

- O Jerry Donovan não se portou tão mal que justifique isso - disse Joan, na esperança de que um pouco de humor ajudasse. - Além disso, não cedi. Continuo virgem.

O corpo de Cassi estremecia com o seu soluçar. Joan contornou a secretária e pôs o braço por cima dos ombros da amiga, ficando em silêncio durante algum tempo. Como interna de psiquiatria, não tinha a habitual reacção negativa da maioria das pessoas face ao choro. Pela intensidade da emoção de Cassi, Joan calculou que ela precisasse desse escape.

- Desculpa - disse Cassi, recorrendo aos lenços de paoel exactamente como Maureen fizera. - Não era minha intenção reagir desta forma.

- Ao que parece, precisavas disso. Queres falar? Cassi respirou fundo.

- Não sei. Parece-me tudo tão inútil. - Assim que proferira a palavra. Lembrou-se de que Maureen tinha dito a mesma coisa.

- Que é que é tão inútil? - perguntou Joan.

- Tudo - respondeu Cassi.

- Dá-me um exemplo - disse Joan, num desafio. Cassi afastou as mãos da cara manchada pelas lágrimas.

- Fui hoje ao oftalmologista. Quer operar-me, mas não sei se deva deixar.

- Que diz o teu marido a isso? - perguntou Joan.

- Parte do problema está aí. - Mal acabara de dizer isto, Cassi já se arrependera. Conhecia bem Joan e, sensível e inteligente como era, aperceber-se-ia do problema no seu conjunto e Cassi parecia ainda ouvir Thomas a dizer-lhe para não discutir os seus problemas de saúde com ninguém.

Joan tirou o braço de cima dos ombros de Cassi.

- Creio que precisas de falar com alguém. Como consultora oficial do serviço, estou à tua disposição. Além disso, os meus honorários são acessíveis a qualquer bolso.

Cassi conseguiu fazer um sorriso amarelo. Sabia intuitivamente que podia confiar em Joan. Precisava da visão de outra pessoa, pois Deus sabia como estava a sair-se mal com a sua.

- Não sei se fazes ideia de qual é o regime de trabalho de Thomas - começou Cassi. - Trabalha mais do que qualquer outro médico que conheço. Até parece que está a fazer o estágio. Ontem à noite ficou no hospital. Esta noite vai ficar no hospital. Não tem disponibilidade...

- Cassi - disse Joan educadamente. - Não gosto de interromper, mas deixa-te de desculpas. Já falaste ao teu marido na operação?

Cassi suspirou.

- Tentei falar-lhe nisso esta tarde, mas escolhi mal o sítio e a ocasião.

- Ouve - disse Joan. - É raro eu fazer juízos de valor. Mas no que respeita a conversares com o teu marido sobre uma operação à vista, não existe sítio ou ocasião errada.

Cassi reflectiu sobre esta afirmação. Não estava bem certa se concordava ou não.

- Que é que ele disse? - perguntou Joan.

- Disse que não era cirurgião oftalmologista.

- Ah, quer livrar-se dessa responsabilidade.

- Não - disse Cassi num tom veemente. - Thomas teve o cuidado de me mandar ao melhor oftalmologista.

- Continua a parecer-me que reagiu com demasiada indiferença. Cassi baixou o olhar, fitando as mãos, pensando que Joan era

demasiado inteligente. Tinha a clara sensação de que Joan iria levar aquela conversa mais longe do que ela gostaria.

- Cassi, está tudo bem entre ti e Thomas? - perguntou Joan. Cassi sentiu que os olhos voltavam a marejar-se de lágrimas.

Tentou não chorar, mas só conseguiu em parte.

- Essa é uma forma de resposta - disse Joan num tom firme. - Queres falar sobre isso?

Cassi mordeu o lábio inferior, que tremia.

- Se acontecesse alguma coisa à relação que tenho com Thomas, não sei se conseguiria continuar a viver - disse. - Acho que a minha vida ficaria desfeita. Preciso desesperadamente dele.

- Já me apercebi de que sentes isso mesmo. E também penso que no fundo não queres falar do problema. Tenho razão?

Cassi assentiu. Sentia-se dividida entre o medo que tinha de Thomas e o remorso de rejeitar a manifestação de amizade de Joan.

- OK! - disse Joan. - Mas antes de me ir embora acho que se impõem alguns conselhos. Talvez seja presunção da minha parte dizer isto e não é de todo um conselho profissional, mas tenho a sensação de que devias tentar tornar-te menos dependente de Thomas. Acho que não te atribuis o mérito que mereces. E esse tipo de dependência pode de facto prejudicar uma relação a longo prazo. Bom, basta de conselhos que não foram pedidos.

Joan abriu a porta do gabinete de Cassi, mas parou.

- Disseste que Thomas ia passar a noite no hospital?

- Creio que tem uma operação de urgência - disse Cassi, preocupada com o conceito de dependência. - Quando isso acontece, prefere cá dormir do que perder quarenta minutos no caminho até casa.

- Óptimo! - disse Joan. - Por que é que não dormes esta noite em minha casa? Tenho um sofá-cama na sala e o frigorífico cheio.

- E à meia-noite já saberias todos os meus segredos - disse Cassi, tentando gracejar.

- Dou-te a minha palavra de honra de que não farei nada para isso - disse Joan.

- Seja como for, não posso - disse Cassi. - Agradeço-te o convite, mas há sempre a hipótese de Thomas não ter de operar e nesse caso irá para casa. Dadas as circunstâncias, quero lá estar. Talvez consigamos conversar.

Joan sorriu-lhe com amizade.

- Estás mesmo apanhada. Bom, se mudares de ideias, telefona-me. Ainda vou ficar no hospital durante mais uma hora ou isso.

Voltou a abrir a porta e desta vez foi-se mesmo embora.

Cassi ficou a olhar para a gravura de Monet, tentando decidir se seria seguro guiar. Tranquilizou-a notar que a sua visão melhorara consideravelmente; o efeito dos pingos estava finalmente a passar.

Thomas sentiu as mãos tremerem ao abrir a porta do seu gabinete e abrir a luz. O relógio na secretária de Doris indicava que eram quase seis e meia. Lá fora já estava a ficar escuro, tornando longínqua a recordação das noites de Verão, em que havia luz do dia até às nove e meia. Fechou a porta e estendeu o braço, ficando assustado ao ver que a sua mão, habitualmente tão segura, estava a tremer violentamente. Como é que Cassi tinha coragem para o pressionar estando ele já tão tenso?

Dirigiu-se para a secretária, abriu a segunda gaveta e tirou um dos pequenos frascos de plástico. O facto de a tampa ter protecção contra abertura por crianças, aliado à sua agitação, tornaram-lhe impossível abri-la. Teve de se controlar para não atirar com o maldito frasco para o chão e pisá-lo com os pés. Finalmente, conseguiu tirar um dos comprimidos amarelos. Pô-lo na língua, apesar do seu gosto amargo, e dirigiu-se para a pequena casa de banho, que ainda tresandava ao perfume de Doris.

Dispensando o copo, Thomas inclinou-se e bebeu directamente da torneira. Voltou para o gabinete e sentou-se à secretária. A sua ansiedade parecia estar a aumentar. Voltando a abrir a gaveta com violência, procurou o mesmo frasco de plástico. Desta vez não conseguiu abrir a tampa. Bateu com o frasco na mesa, mas o resultado foi fazer uma marca na superfície de madeira e magoar o polegar.

Fechando os olhos, Thomas disse a si próprio que tinha de se controlar. Quando voltou a abri-los, lembrou-se de que para abrir a tampa tinha de acertar as duas setas indicadas.

Mas não tomou outro comprimido. Trouxe ao seu espírito a imagem de Laura Campbell. Não havia razão nenhuma para estar sozinho.

“Gostava que houvesse qualquer coisa que pudesse fazer por si”, dissera ela. “Qualquer coisa!”

Thomas sabia que tinha o seu número de telefone no dossier do pai, ostensivamente para utilização numa emergência. Mas não seria aquilo uma emergência? Thomas sorriu. Além do mais, tinha inúmeras formas de disfarçar as suas intenções no caso de ter interpretado mal as insinuações dela.

Thomas foi buscar o dossier de Mr. Campbell e marcou rapidamente o número de Laura, esperando que estivesse em casa. Ela atendeu ao segundo toque.

- Fala o Dr. Kingsley. Desculpe maçá-la.

- Aconteceu alguma coisa? - perguntou Laura num tom preocupado.

- Não, não - tranquilizou Thomas. - O seu pai está a reagir muito bem. Lamento que esteja com icterícia, mas é uma daquelas complicações aborrecidas. Foi pena não nos termos podido antecipar, mas passará depressa. Bom, a razão por que lhe estou a telefonar é por o seu pai ir certamente ter alta em breve; pensei que gostaria de discutir a situação comigo.

- Sem dúvida - respondeu Laura. Diga-me só quando. Thomas enrolou o fio do telefone.

- Bom, essa é também uma das razões por que lhe telefono. Imagina certamente como estou sobrecarregado de trabalho. Mas acontece que estou à espera de ser chamado para uma operação e estou neste momento sozinho no meu consultório. Pensei que talvez quisesse cá vir.

- Dentro de meia hora está bem? - perguntou Laura.

- Creio que sim - disse Thomas. Sabia que tinha tempo mais do que suficiente.

- Até já - disse Laura.

- Só mais uma coisa - disse Thomas. - Para entrar no edifício de consultas a esta hora tem de passar pelo hospital. Aqui as portas são fechadas às seis.

Thomas desligou. Sentia-se muito melhor. A ansiedade dera lugar à excitação. Abrindo a gaveta da secretária, guardou o frasco dos comprimidos. Depois telefonou para o departamento de cateterismo para saber do doente que se encontrava em estado de choque cardiogénico. Como previa, o doente ainda estava à espera que lhe fosse feito a cateterismo. Fosse qual fosse o resultado, calculou que teria algumas horas livres.

Thomas recebeu Laura à porta do seu gabinete e fez um gesto para que entrasse. Ficou satisfeito por ver que trazia um vestido de seda fina e colado ao corpo. Era bege-claro, quase da cor da pele. Thomas via-lhe o leve contorno das cuecas.

Não disse nada durante alguns instantes, estudando a melhor forma de a abordar no caso de se ter enganado quanto às insinuações dela para não se verificar uma situação embaraçosa. Começou por voltar a tranquilizá-la quanto ao estado do pai, dizendo que em breve teria alta. Depois falou nos cuidados a longo prazo de que Mr. Campbell precisava de ter e, sob o pretexto das limitações que teria em termos de exercício físico, abordou a questão sexual.

- O seu pai falou-me nisso antes da operação - disse, observando a expressão de Laura. - Sei que a sua mãe faleceu há alguns anos! se este assunto a embaraça...

- De maneira nenhuma - disse Laura com um sorriso -, já sou adulta.

- Claro - disse Thomas, deixando que o seu olhar passasse pelo vestido dela. - Isso é bem evidente.

Laura voltou a sorrir e afastou os cabelos, presos num rabo de cavalo, que lhe caíam sobre os ombros.

- Um homem como o seu pai tem necessidades sexuais - disse Thomas.

- Como médico, estou certa de que saberá isso melhor do que muitos - disse Laura. Tinha descruzado as pernas e inclinara-se para a frente. Via-se bem que não usava soutien por baixo do vestido de seda.

Thomas levantou-se da cadeira e contornou a secretária. Já tinha a certeza que Laura não fora ter com ele para falar do pai.

-Compreendo essas necessidades demasiado bem, pois a minha própria mulher tem uma doença crónica e debilitante.

Laura sorriu.

- Gostava de poder fazer qualquer coisa por si. - Levantou-se e encostou-se a Thomas. - Faz alguma ideia do que possa ser?

Thomas levou-a para a sala de observações suavemente iluminada. Lentamente, ajudou-a a despir o vestido, tirando depois ele próprio a sua roupa, dobrando-a e colocando-a cuidadosamente numa cadeira. Quando se voltou para ela, ficou satisfeito por ver que a sua erecção era total.

- Que acha? - perguntou, abrindo as mãos com as palmas voltadas para cima.

- Uma maravilha - disse Laura numa voz rouca, estendendo-Lhe os braços.

Preocupada por ter de guiar, Cassi ficou satisfeita por o trajecto até casa ter sido agradavelmente simples. A parte mais difícil tinha sido o percurso a pé da garagem até casa, pois esquecera-se como anoitecia depressa em Dezembro.

A casa estava assustadoramente escura, em especial as janelas, que brilhavam como pedaços de ónix polido. Ao entrar, Cassi encontrou um bilhete de Harriet explicando como deveria aquecer o jantar. Sempre que Thomas telefonava a Harriet dizendo que não ia para casa, ela saía mais cedo. Apesar do feitio desagradável de Harriet, Cassi teria preferido não estar sozinha.

Percorreu a casa, acendendo as luzes, na esperança de a tornar mais alegre. Achava a enorme e velha casa, com as suas vastas divisões, desagradavelmente fria e os seus passos ecoavam nos corredores vazios. Era suposto o aquecimento estar regulado para 25°C, mas Cassi via o bafo da sua respiração.

No andar de cima, a saleta estava bastante mais quente, quase confortável. Instalara na casa de banho principal um aquecedor a quartzo adicional e ligou-o. Depois de fazer o teste de açúcar no sangue. Cassi injectou-se com a habitual dose de insulina e foi tomar duche.

Tentou não pensar demasiado. A descarga emocional que sofrera tinha-a deixado esgotada e não resolvera nada. Sabia que Joan tinha razão quanto à sua dependência e isto fez que se recordasse da forma como se identificara com Maureen Kavenaugh. Exactamente como a sua doente, Cassi sentia-se sem esperança, tímida e temerosa. Pensou também se lhe faltaria capacidade para agir sobre a sua própria vida, mesmo compreendendo o problema que enfrentava. Depois, com um clarão de súbito horror, Cassi teve consciência da intensidade da sua recusa em enfrentar a realidade. Uma das razões pela qual suspeitara que Thomas estava a tomar drogas em excesso tinham sido as pupilas. Ultimamente, e com muita frequência, as pupilas de Thomas não passavam de meros pontos, do tamanho da cabeça de um alfinete, mas a Dexedrina causava dilatação de pupilas! A contracção das pupilas era causada por outras drogas. Outras drogas nas quais Cassi nem sequer queria pensar.

Cassi sentiu as palmas das mãos a começar a transpirar. Não sabia se isso se devia ao súbito horror que sentira ou à insulina. Rezando para que os seus receios fossem infundados, forçou-se a ir até ao corredor e a entrar no escritório de Thomas.

Acendeu a luz e ficou imóvel, recordando com o olhar todos os pormenores da sala. Recordou também, contra vontade, as consequências da sua anterior visita e combateu o impulso de fugir dali.

O armário dos medicamentos da casa de banho estava exactamente como há duas semanas atrás: numa confusão. Não continha nada que levantasse suspeitas. Ajoelhando-se no chão, Cassi procurou debaixo do lavatório. Nada. Depois revistou o armário das toalhas. Nada.

Sentindo um ligeiríssimo alívio, Cassi voltou para o escritório. Para além da secretária e do sofá de couro, havia um sofá-cama, ladeado por duas mesas baixas com candeeiros, um genuflexório, uma parede com estantes de livros em toda a sua extensão, um armário-bar e um contador antigo com pés em forma de garra. O chão estava coberto por um enorme tapete Tabriz.

Cassi dirigiu-se para a secretária. Era um imóvel imponente, que ela sabia ter pertencido ao avô de Thomas. Ao estender a mão e tocar na superfície fria, teve a mesma sensação de estar a fazer uma maldade que sentira em criança quando ia espiolhar o quarto dos pais. Encolhendo os ombros, abriu a gaveta do meio. Uma caixa com divisórias estava atafulhada de elásticos, clips e quejandos. Abriu a gaveta ao máximo e levantou os molhos de papéis que havia ao fundo. Não havia ali nada de invulgar. Satisfeita, Cassi preparava-se para fechar a gaveta quando pensou ouvir uma porta a bater. Espreitou pela janela e viu as luzes acesas no apartamento de Patrícia por cima da garagem. Não tinha ouvido o barulho de um carro, mas não era de admirar. Com as persianas corridas, os ruídos lá de fora não se ouviam facilmente dentro de casa. Viu que a porta da garagem estava fechada. Tê-la-ia fechado? Não se lembrava. Instantes depois, ouviu passos no corredor. O pânico fez que se formasse um nó no estômago. Era evidente que Thomas viera para casa. Se a apanhasse no escritório depois do incidente com Patrícia, ficaria furioso. Olhou à sua volta em desespero, pensando se conseguiria escapar dali pelo quarto contíguo, que não era usado. Mas antes de poder fazer qualquer movimento, a porta abriu-se.

Era Patrícia. Ficou tão surpreendida por ver Cassi ali como Cassi de a ver a ela. As duas mulheres fitaram-se, incrédulas.

- Que está a fazer aqui? - perguntou finalmente Patrícia.

- Ia fazer-lhe a mesma pergunta - retorquiu Cassi, ainda de pé atrás da secretária.

- Vi acender-se a luz daqui. Como é natural, pensei que afinal Thomas tinha vindo para casa. Como mãe dele, creio ter o direito de o visitar.

Cassi assentiu inconscientemente, como se concordasse. Na realidade, irritava-a o facto de Patrícia ter uma chave da casa e não se coibir de lá ir sempre que queria.

- Já apresentei a minha razão - disse Patrícia. - Qual é a sua?

Cassi sabia que devia muito simplesmente responder que estava na casa dela e que podia entrar em qualquer dependência que quisesse. Mas não o fez. O seu sentimento de culpa impediu-a.

- Não é difícil de calcular - disse Patrícia num tom de desdém-, embora isso me aborreça. A revistar as coisas dele enquanto ele está no hospital a salvar vidas! Que tipo de mulher é você?

A pergunta de Patrícia ficou no ar como electricidade estática. Cassi não tentou sequer responder. Ela própria se tinha começado a interrogar sobre que tipo de mulher era.

- Acho que deve sair imediatamente desta sala - disse Patrícia rispidamente.

Cassi não objectou. Passou pela sogra de cabeça baixa. Patrícia saiu logo atrás dela e fechou a porta. Sem olhar para trás, Cassi desceu as escadas e dirigiu-se para a cozinha. Ouviu a porta da frente fechar-se e calculou que Patrícia se fora embora. A sogra diria a Thomas que encontrara Cassi no seu escritório. Era inevitável.

Olhou com desagrado para o jantar que Harriet deixara em cima do fogão, mas sabia que depois de tomar a sua dose habitual de insulina necessitava de uma certa quantidade de calorias. Forçando-se a comer a comida requentada, decidiu voltar ao escritório e terminar a sua busca. Como já tinha sido apanhada, não tinha mais nada a temer a não ser o que viesse a encontrar.

Ainda havia a possibilidade de Thomas aparecer, mas Cassi estava de sobreaviso quanto ao ruído do Porsche. Para não ter de voltar a enfrentar Patrícia, Cassi fechou os pesados cortinados junto às janelas e recorreu à luz da lanterna, como um ladrão a sério. Foi direita à secretária e começou a revistar as gavetas laterais, da superior à última. Não teve de procurar muito. No fundo da segunda gaveta, dentro de uma caixa de papel de carta, Cassi encontrou uma série de frascos de plástico de medicamentos. Alguns estavam vazios, mas a maior parte cheios. Todos eles tinham a mesma indicação: de terem sido receitados pelo Dr. Allan Baxter. As datas eram todas dos últimos três meses.

Além da Dexedrina, havia duas outras qualidades de comprimidos, e Cassi tirou cuidadosamente um de cada. Voltou a guardar os frascos na caixa de papel de carta e fechou a gaveta. Desligou a lanterna, voltou a abrir os cortinados e dirigiu-se rapidamente para a sua saleta. Quando consultou o Simpósio e comparou os comprimidos com as respectivas referências, apercebeu-se de que as suas suspeitas eram fundadas.

- Santo Deus!-exclamou em voz alta. - Tomar Dexedrina para o cansaço é uma coisa, mas tomar Percodan e Talwin já é completamente diferente.

Pela segunda vez nesse dia, Cassi desatou a chorar. Desta vez não tentou sequer controlar os soluços. Atirou-se para cima da cama e chorou convulsivamente.

Apesar do seu interlúdio com Laura, Thomas decidiu visitar Doris como planeara. Estava profundamente decepcionado por o doente em estado de choque cardiogénico ter sofrido novo ataque de coração e não poder ser submetido a cirurgia de imediato. Não tencionava de todo estragar o resto da noite com o longo percurso até casa.

Doris carregou no botão para abrir a porta da rua assim que ele tocou à campainha. Ao chegar ao segundo patamar, Thomas viu que ela estava a espreitar maliciosamente à porta. Quando a abriu, apercebeu-se por que é que ela ficara lá dentro. Vestia uma camisa de noite curta, preta e transparente, que fechava à frente e entre as pernas com uma fita, cobrindo a mesma parte do corpo do que um fato de banho.

- Glenlivet com Perrier - disse Doris, dando um copo a Thomas e encostando-se-lhe, antes de ele sequer poder tirar o casaco.

Thomas pegou no copo com uma das mãos e passou a outra pelas nádegas de Doris. A única luz acesa na sala era a de um candeeiro a petróleo de design escandinavo que envolvia a sala em tons quentes de dourados. A mesa de café estava posta para jantar, com uma garrafa de vinho já aberta ao lado.

Quando Doris foi para a cozinha, Thomas telefonou para o serviço de atendimento do hospital. Deu o número de telefone de Doris, recomendando que se destinava apenas a ser utilizado pelo médico do serviço de cirurgia torácica de plantão. Não devia ser dado a mais ninguém e, no caso de qualquer dúvida devia ser a própria telefonista a telefonar-lhe.

 

- Tenho de me pôr a andar - disse Clark Reardon. - A minha mulher não quer que eu vá tarde. - Clark tinha puxado uma cadeira de metal para se sentar junto da cama de Jeoffry Washington.

- Gostei de te ver - disse Jeoffry. - Obrigado por teres vindo. Foi mesmo bom ver-te.

- Não há problema- disse Clark, pondo-se de pé. Estendeu a mão e, quando Jeoffry estendeu a dele, deu-lhe uma palmada amigável.

- Quando é que sais daqui? - perguntou Clark.

- Já não falta muito. Uns dois dias. Não tenho a certeza. Ainda estou com esta coisa do soro - Jeoffry levantou o braço esquerdo para mostrar o tubo de plástico em espiral. - Tive uma inflamação qualquer nas pernas depois da operação. Pelo menos foi isso o que o Dr. Sherman me disse, portanto começaram a dar-me antibióticos. Foi chato nos primeiros dias, mas já estou melhor. O melhor de tudo foi quando me tiraram o monitor cardíaco. Digo-te que o apito daquela merda quase me pôs maluco.

- Há quanto tempo é que cá estás?

- Nove dias.

- Não é mau.

- Agora já não é. Mas digo-te que no princípio estava com um medo dos diabos. Mas não tinha outra alternativa. Disseram-me que morreria se não fosse operado. Que é que uma pessoa pode fazer?

- Nada! Volto cá amanhã à tarde e trago-te os livros que pediste. Queres mais alguma coisa?

- Queria que me trouxesses um pouco de erva.

- Tem juízo.

- Estava a brincar.

Clark afastou-se e acenou-lhe da porta antes de desaparecer no corredor.

Jeoffry observou o quarto. Estava satisfeito por não tardar a ir-se embora. A outra cama no quarto semi privado estava vazia. O seu companheiro tivera alta nesse dia e ainda não entrara um novo doente. Jeoffry tinha pena de estar sozinho, especialmente agora que Clark se fora embora e não tinha nada que o animasse. Era de opinião que o hospital não era sítio para uma pessoa estar sozinha. Havia lá demasiadas máquinas e tratamentos assustadores a enfrentar sem apoio.

Jeoffry ligou o pequeníssimo aparelho de televisão incorporado na cabeceira da cama. Perto do fim da segunda comédia, Miss DeVries, uma enfermeira cheia de genica, entrou no quarto. Fingindo que tinha uma surpresa deliciosa para Jeoffry, insistiu para ele fechar os olhos e abrir a boca. Ao fazê-lo, Jeoffry já calculava o que o esperava e tinha razão. Era um termómetro.

Voltou dez minutos depois para tirar o termómetro e lhe dar um comprimido para dormir. Jeoffry tomou o comprimido com a água que tinha na mesinha-de-cabeceira enquanto a enfermeira verificava o termómetro.

- Tenho temperatura? - perguntou Jeoffry.

- Toda a gente tem temperatura - disse Miss DeVries.

- Como é que me pude esquecer disso - disse Jeoffry. Já tinham tido aquela conversa. - Pronto, tenho febre?

- Essa informação é confidencial - respondeu Miss DeVries. Jeoffry não conseguia perceber por que é que as enfermeiras

nunca lhe diziam se tinha ou não temperatura; correcção, febre. Diziam sempre que isso só interessava ao médico, o que era uma idiotice. O corpo era dele.

- E esta coisa do soro? - perguntou Jeoffry quando Miss DeVries já ia a caminho da porta. - Quando é que me tiram isto para eu poder tomar um duche a sério?

- Não tenho qualquer informação sobre isso. - E acenou ao sair. Jeoffry virou a cabeça e olhou para o frasco de soro. Observou

durante alguns instantes a queda regular de cada gota no pequeno recipiente. Virando-se de novo para a televisão que estava a dar o noticiário da noite, suspirou. Seria um alívio quando lhe tirassem aquilo. Recomendou a si próprio não se esquecer de falar nisso ao Dr. Sherman de manhã.

Ao ouvir o primeiro toque do telefone, Thomas sentou-se, sem saber muito bem onde estava. Ao segundo toque, Doris voltou-se para o olhar na penumbra do apartamento.

- Atendes tu ou queres que seja eu a atender? - A voz de Doris estava roufenha de sono. Soergueu-se na cama e apoiou-se num cotovelo.

Thomas olhou para ela. Tinha um aspecto grotesco, com o cabelo espesso espetado à volta da cabeça, como se tivesse sido atingida por mil volts de electricidade. Os olhos pareciam dois buracos negros. Só passados instantes é que ele se lembrou quem ela era.

- Eu atendo - disse Thomas, levantando-se com dificuldade. Tinha a cabeça extremamente pesada.

- Está no canto ao pé da janela - disse Doris, deixando-se cair sobre a almofada.

Aos apalpões, Thomas seguiu a parede até chegar à porta do quarto, que estava aberta. Na sala, a grande janela deixava entrar um pouco mais de luz.

- Dr. Kingsley, fala Peter Figman - disse o médico de serviço à cirurgia toráxica quando Thomas atendeu. - Espero que não se importe que eu lhe telefone, mas como me pediu que o informasse de quaisquer urgências enviadas para cirurgia, decidi fazê-lo. Temos um caso de apunhalamento no peito que deve estar quase a chegar.

Thomas apoiou-se na pequena mesa do telefone. O frio da sala ajudou-o a organizar as ideias.

- Que horas são?

- Passa um pouco da uma da manhã.

- Obrigado - disse Thomas. - Vou já para aí.

Quando Thomas saiu do hall do prédio de Doris para a rua, o vento gelado de Dezembro provocou-lhe um arrepio. Aconchegando melhor as lapelas do sobretudo ao pescoço, dirigiu-se para o Memorial. De vez em quando, súbitas lufadas de vento varriam a rua, atirando com papéis e outros detritos contra os seus pés, forçando-o a virar-se e a dar alguns passos para trás. Ficou satisfeito quando virou a esquina e viu o complexo de edifícios que constituíam o Boston Memorial.

Dirigindo-se para a entrada principal, passou pela garagem, à esquerda. Era uma estrutura de betão, aberta dos lados. Embora estivesse sempre superlotada durante o dia, àquela hora estava quase deserta. Ao olhar para admirar o seu Porsche, reparou num outro carro conhecido. Era um Mercedes 300 turbo, a diesel, verde ervilha. Só havia uma pessoa em todo o hospital com tão mau gosto. O carro pertencia a George Sherman.

Thomas estava já praticamente à porta do hospital, ainda a remoer o absurdo de pintar um carro tão bom com aquela horrível cor, quando se interrogou sobre a razão de George lá estar. Voltou-se para olhar novamente para o carro. Não havia dúvida de que era o carro dele.

Não era possível confundi-lo com qualquer outro. Thomas olhou para o relógio. Era 1h15m da manhã.

Thomas foi directo ao BO, mudou de roupa e, quando ia a passar pela sala de estar do serviço de cirurgia, viu uma das enfermeiras do BO a fazer malha. Perguntou-lhe se George Sherman tinha alguma intervenção naquela noite.

- Que eu saiba, não - disse a enfermeira. - Não houve nenhum caso de cirurgia torácica, excepto o apunhalamento que o doutor vai operar.

Thomas encontrou Peter Figmari' junto à SÓ nº 18 a esfregar as mãos. Era um tipo franzino, com cara de bebé, com ar de ainda não precisar de fazer a barba. Thomas já o vira várias vezes, mas nunca tivera oportunidade de trabalhar com ele. Era tido como sendo inteligente, dedicado e tendo boas mãos.

Assim que viu Thomas, Peter lançou-se numa apresentação detalhada do caso. O doente tinha sido apunhalado durante um jogo de hóquei no Boston Garden, mas a sua condição era estável, apesar de terem surgido algumas complicações com a sua tensão arterial ao dar entrada no banco. Tinha sido submetido a análises para determinação do grupo sanguíneo e prescrita uma transfusão de oito unidades de sangue, embora ainda não a tivesse recebido. A ideia inicial fora de que a faca teria lacerado um dos vasos principais.

Enquanto Thomas ouvia estes pormenores, tirou uma máscara cirúrgica de uma caixa que estava na prateleira por cima do lavatório. Preferia as máscaras antigas, que apertavam na parte de trás do pescoço, às actuais máscaras moldadas, que eram presas com um elástico que passava pela parte de trás da cabeça. No entanto, naquela noite, teve dificuldade em apertar as filas. Depois, a máscara escorregou-lhe por entre os dedos e caiu ao chão. Praguejou entre dentes e tirou outra da caixa. Quando Thomas levou a mão à caixa, Peter reparou que a mão do colega mais velho tremia ligeiramente.

Peter interrompeu a apresentação.

- Sente-se bem, Dr. Kingsley?

Com a mão dentro da caixa, Thomas virou lentamente a cabeça para olhar directamente para Peter.

- Por que diabo é que me pergunta se me sinto bem?

- Pensei que não se estivesse a sentir lá muito bem - disse Peter timidamente.

Thomas tirou a máscara da caixa com um movimento brusco, arrancando sem querer uma segunda máscara, que foi cair dentro do lavatório.

- E que razão tem para pensar que eu possa não me estar a sentir lá muito bem?

- Não sei, tive apenas um palpite - disse Peter evasivamente. Estava arrependido de ter falado.

- Para sua informação, sinto-me perfeitamente bem - disse Thomas, não fazendo o menor esforço para disfarçar a sua ira. - Mas há uma coisa que não tolero aos internos, que é insolência. Espero que entenda.

- Entendo - disse Peter, ansioso por pôr ponto final àquela questão.

Deixando o interno a acabar de se esfregar, Thomas empurrou a porta da SÓ.

“Caramba”, pensou Thomas, “será que o rapaz não entende que fui acordado de um sono profundo; toda a gente tem uma ligeira tremura até conseguir acordar por completo.”

A SÓ fervilhava de actividade. O doente já estava completamente anestesiado e o pessoal médico interno auxiliar estava a preparar o seu peito para a intervenção. Thomas foi estudar as radiografias. Nessa altura, com as costas viradas para a sala, ergueu a mão. Tinha uma ligeira tremura, mas já tivera tremuras piores. “Quando aquele espertalhão fizer a rotação pela cirurgia cardíaca é que vai ver como elas lhe cantam”, pensou Thomas com uma certa satisfação.

Tomou o seu lugar atrás dos outros médicos e observou atentamente o início da operação. Estava pronto para intervir se necessário, mas, honra lhe fosse feita Peter era um bom cirurgião técnico. Thomas interrogou todos os internos presentes sobre a possibilidade de uma hemopericardite. Nenhum deles, incluindo Peter, considerara essa hipótese, apesar de isso ter sido discutido na última conferência de mortes. Quando Thomas teve a certeza absoluta de que se tratava de uma operação de rotina e que não apresentaria dificuldades, levantou-se e espreguiçou-se, dirigindo-se para a porta.

- Estarei à vossa disposição se houver alguma complicação. Estão a fazer um bom trabalho.

Quando Thomas saiu, fechando a porta atrás de si, Peter Figman olhou para cima e murmurou:

- Creio que o Dr. Kingsley bebeu um copo a mais esta noite.

- Acho que tens razão - disse um interno auxiliar.

Thomas sentiu-se invadido por uma súbita sonolência enquanto estava sentado na SÓ. Fora o medo de dormitar que fizera que se fosse embora. A caminho da sala de estar do serviço de cirurgia, respirou fundo várias vezes. Não se lembrava quantos uísques é que bebera com Doris. Teria de ter mais cuidado de futuro.

Infelizmente, a sala estava ocupada por duas enfermeiras no seu intervalo para café. Tencionava esticar-se no sofá, mas decidiu que utilizaria um dos divãs do vestiário. Ao passar pela janela olhou lá para fora e viu uma luz acesa num dos gabinetes do edifício Scherington, que ficava em frente ao bloco onde estava. Ao contar as janelas a partir do fim, Thomas apercebeu-se de que se tratava do gabinete de Ballantine. Olhou para o relógio que havia por cima da máquina de fazer café. Eram quase duas da manhã! Ter-se-ia o contínuo esquecido de a apagar?

- Desculpem - disse Thomas às duas enfermeiras. - No caso de me chamarem da SÓ, estarei no vestiário. Se tiver adormecido, importam-se de me acordar?

Ao passar pelas portas de vaivém que davam para o vestiário, pensou se a luz no gabinete de Ballantine estaria relacionada com o facto de o carro de George Sherman ainda se encontrar na garagem. Havia algo de estranho naqueles dois factos.

A sala sem janelas com os dois divãs não estava completamente às escuras, pois entrava luz proveniente da sala de estar através do pequeno corredor que dava para o vestiário. Como habitualmente, os divãs não estavam ocupados. Thomas suspeitava que era a única pessoa que alguma vez os usara.

Meteu a mão na algibeira da bata e encontrou o pequeno comprimido amarelo que lá pusera. Partiu-o rapidamente em dois. Meteu uma metade na boca, deixando-a dissolver-se sobre a língua. A outra metade voltou para a algibeira no caso de vir a precisar dela mais tarde. Antes de fechar os olhos pensou quanto tempo teria antes de o chamarem.

Às 2h45m da manhã, a caixa de escadas parecia mais a de um mausoléu do que de um hospital. A longa extensão vertical funcionava como uma espécie de chaminé e ouvia-se o uivo surdo do vento vindo algures das entranhas do edifício. Quando a figura nas escadas abriu a porta do décimo oitavo andar, ouviu-se um silvo de ar, como se tivessem aberto um recipiente fechado a vácuo.

Vestido com a indumentária habitual do hospital, o homem não receava ser visto, mas preferia não o ser. Verificou cuidadosamente se o corredor estava deserto em toda a sua extensão antes de fechar a porta atrás de si. Ouviu-se o mesmo ruído de sucção quando esta se fechou.

Com uma mão metida na algibeira da bata branca, o homem dirigiu-se silenciosamente pelo corredor até ao quarto de Jeoffry Washington. Parou à porta e esperou alguns instantes. Não se ouvia qualquer ruído no balcão das enfermeiras. O único ruído era o som distante e abafado dos monitores cardíacos e dos aparelhos de respiração assistida.

O homem entrou rapidamente no quarto, fechando lentamente a porta que dava para o corredor. A única luz era a da casa de banho, cuja porta estava ligeiramente aberta. Assim que os seus olhos se adaptaram à penumbra, tirou a mão da algibeira, empunhando uma seringa cheia. Tirou a protecção da agulha, meteu-a na outra algibeira e dirigiu-se rapidamente para a beira da cama. Nesse instante ficou gelado de estupefacção.

A cama estava vazia!

Abrindo os maxilares o mais que pôde, Jeoffry Washington bocejou com tanta força que lhe vieram as lágrimas aos olhos. Abanou a cabeça e atirou a revista Time de há três semanas atrás para cima da mesa baixa. Estava sentado na sala de estar dos doentes em frente da sala de tratamentos. Levantou-se, empurrou o suporte do frasco de soro à sua frente e foi em direcção ao balcão das enfermeiras, que estava na penumbra. Esperava que um pequeno passeio pelo corredor o ajudasse a vencer a insónia, mas não resultara. Não estava com mais sono do que quando andava às voltas na cama.

Pamela Breckenridge observou-o através do vão aberto da sala de arquivo. Há duas noites consecutivas que se habituara a vê-lo aparecer por ali. Para poupar dinheiro, passara a trazer a ceia de casa em vez de ir à cafetaria, e Jeoffry aparecia sempre quando se preparava para comer.

- Será possível dar-me outro comprimido para dormir? - perguntou ele.

Pamela engoliu o que tinha na boca e disse à enfermeira auxiliar que desse outro Dalmane a Jeoffry. O Dr. Sherman tinha escrito na papeie dele “repetir l X “ à frente da indicação inicial.

Como se estivesse num bar, Jeoffry aceitou o comprimido e o pequeno copo de papel com água que a enfermeira auxiliar lhe deu por cima do balcão. Meteu o comprimido na boca e bebeu a água de um trago. Santo Deus, o que ele não daria por umas passas de erva! Depois começou a lenta caminhada pelo corredor.

O corredor tornou-se mais escuro à medida que se afastava do balcão das enfermeiras. Daí a pouco, viu a própria sombra projectar-se à sua frente no chão de vinil, aumentando enquanto andava. O suporte do frasco de soro dava-lhe o ar de um profeta com um bastão. Para abrir a porta do quarto, empurrou-a com a base com rodas do suporte. Já dentro do quarto, fechou a porta com o pé. Tinha de se proteger do barulho e das luzes do corredor se queria tentar dormir.

Empurrou o suporte para junto da cama, virou-se e sentou-se, tencionando levantar as pernas e estender-se. Mas nessa altura abafou um grito.

Como uma aparição, uma figura vestida de branco saiu da casa de banho.

- Santo Deus! - exclamou Jeoffry. - Que susto que me pregou.

- Por favor, deite-se.

Jeoffry obedeceu imediatamente.

- Não esperava que aparecesse a uma hora destas.

Jeoffry observou o seu inesperado visitante puxar de uma seringa e injectar o conteúdo no frasco de soro. Parecia estar com dificuldades devido à escuridão, pois Jeoffry ouviu o frasco bater várias vezes contra o suporte.

- Que medicação é que me está a dar? - perguntou Jeoffry, sem saber muito bem se devia dizer alguma coisa, mas suficientemente intrigado quanto ao que se estava a passar para vencer a sua hesitação.

- Vitaminas.

Jeoffry pensou que era estranho estarem a dar-lhe vitaminas àquela hora, mas o hospital era um sítio estranho.

O visitante de Jeoffry desistiu de tentar introduzir a agulha na base do frasco de soro e optou por dar a injecção na borboleta do tubo de plástico junto ao pulso. Este processo era muito mais fácil e a agulha entrou rapidamente na pequena protecção de borracha. Jeoffry observou o êmbolo da seringa a avançar, fazendo que o líquido entrasse no tubo, aumentando o nível no frasco por cima da sua cabeça. Sentiu uma ligeira dor, mas achou que era do aumento da pressão no frasco de soro.

Mas a dor não desapareceu. Pelo contrário, piorou. Piorou muito.

- Meu Deus! - exclamou Jeoffry. - O meu braço! Não aguento a dor! - Jeoffry sentia uma sensação de violento calor, que começava no braço ligado ao soro.

O visitante agarrou no braço de Jeoffry para o imobilizar e abriu o sistema de conta-gotas do dispositivo de aplicação de soro de forma a este correr em fio.

A dor que Jeoffry achara ser insuportável agravou-se e estendeu-se como lava derretida até ao peito. Com a mão livre, agarrou o visitante.

- Não me toque, seu maricas de merda.

Apesar da dor, Jeoffry largou-o. Ao seu espanto juntou-se medo... um medo horrível de que algo de tenebroso se estivesse a passar.

Desesperado, Jeoffry tentou libertar o braço ligado ao soro que o intruso imobilizara.

- Que está a fazer? -disse Jeoffry aterrorizado. Ia a gritar, mas uma mão tapou-lhe abruptamente a boca.

Nesse instante, o corpo de Jeoffry sofreu a primeira convulsão, arqueando-se sobre a cama. Os olhos reviraram-se-lhe e desapareceram dentro da cabeça. Segundos depois, os espasmos aumentaram, tornando-se num ataque de epilepsia, fazendo que a cama estremecesse violentamente de trás para diante. O intruso deixou cair o braço de Jeoffry e afastou a cama da parede para reduzir as pancadas. Depois, verificou se havia alguém no corredor e correu para a caixa de escadas.

Jeoffry continuou a ter convulsões em silêncio até que o seu coração, que começara a bater irregularmente, fibrilou durante alguns segundos e parou. Passados alguns minutos, o cérebro de Jeoffry deixou de funcionar. Continuou em convulsão até os músculos esgotarem a já fraca reserva de oxigénio...

Pareceu a Thomas ter acabado de fechar os olhos nesse instante quando a enfermeira se inclinou sobre ele, abanando-o para o acordar. Virou-se no divã completamente estremunhado e olhou para o rosto sorridente da mulher.

- Precisam de si na SÓ, Dr. Kinglsley.

- Vou já - disse numa voz empastada.

Thomas esperou até a enfermeira bater rapidamente em retirada e pôs os pés no chão. Ficou imóvel durante alguns minutos para lhe passarem as tonturas. ÀS vezes, pensou Thomas, era pior dormir pouco tempo do que não dormir de todo. Já na porta, apoiou-se à ombreira para se equilibrar e dirigiu-se então aos tropeções para o seu armário. Tirou um comprimido de Dexedrina e tomou-o com água do bebedouro automático. Depois, vestiu um outro fato esterilizado, mas primeiro teve o cuidado de tirar da algibeira a metade do comprimido que aí guardara.

Quando Thomas chegou a SÓ nº 18, a Dexedrina já lhe desenevoara a cabeça. Pensou em lavar-se de imediato, mas achou que era melhor ver o que o esperava.

Os internos estavam à volta do doente já anestesiado, com as mãos enluvadas dentro da zona esterilizada. O panorama não era encorajador.

- Qual é o... - começou Thomas a dizer numa voz rouca. Ainda não falara desde que acordara, a não ser as breves palavras que trocara com a enfermeira. Tossiu para clarear a garganta. - Qual é o problema?

- Tinha razão quanto à hemopericardite - disse Peter num tom de deferência. - A faca penetrou no pericárdio e cortou a superfície do coração. Não se verifica hemorrogia, mas pensámos se não devíamos fechar a laceração.

Thomas mandou a enfermeira auxiliar pôr um banco atrás de Peter. Desse ponto mais alto podia ver a incisão. Peter apontou para a laceração e inclinou-se para o lado.

Thomas sentiu um grande alívio. A laceração não era grave, pois não atingira nenhum vaso coronário importante.

- Deixe ficar assim - disse Thomas. - As vantagens marginais de uma sutura não justificam os possíveis problemas que esta possa causar.

- Muito bem - disse Peter.

- Deixe também o pericárdio aberto - avisou Thomas. - Assim reduzir-se-ão as probabilidades de problemas com o tamponamento durante o processo pós-operatório. Servirá de ponto de drenagem, no caso de vir a sangrar.

Uma hora depois, Thomas foi do hospital ao edifício de consultas. Quando entrou no gabinete, sentia-se desagradavelmente enervado devido à Dexedrina. Não conseguia deixar de pensar e de se preocupar com a presença de Ballantine e de Sherman no hospital na noite anterior. Era óbvio que tinham tido uma reunião secreta qualquer e, ao pensar no que estariam a maquinar, sentiu a sua ansiedade aumentar. Agora sabia que não conseguiria dormir, a menos que tomasse qualquer coisa.

Raramente sentia um efeito tão violento ao tomar um único comprimido de Dexedrina, mas justificou-o devido ao seu estado geral de exaustão. Dirigindo-se para a secretária tomou outro Percodan. Depois, com medo de ter dificuldade em acordar de manhã, telefonou a Doris. Teve de deixar o telefone tocar durante muito tempo. Reconstituiu mentalmente o complicado percurso da cama até ao telefone junto à janela e pensou por que é que ela não mandava instalar uma extensão.

- Ouve - disse Thomas quando Doris atendeu. - Tens de vir para o consultório às seis e meia.

- Isso é já daqui a duas horas - protestou Doris.

- Santo Deus - gritou Thomas, furioso. - Não preciso que me digas que horas são. Achas que não sei? Mas tenho três bypasses a começar às sete e meia. Quero-te cá para assegurares de que já estou a pé.

Thomas cortou a ligação furioso, batendo com o auscultador.

- Que filha da puta mais egoísta! - exclamou em voz alta, enquanto dava murros à almofada para a ajeitar.

 

Cassi pestanejou e abriu os olhos. Pouco passava das cinco da manhã e ainda não havia luz lá fora. O despertador só tocaria daí a duas horas.

Ficou deitada durante algum tempo à escuta. Pensou que talvez algum barulho a tivesse acordado, mas, à medida que os minutos iam passando, apercebeu-se de que a causa provinha de si própria. Era o sintoma clássico de depressão.

Cassi ainda tentou virar-se e tapar a cabeça com a roupa, mas depressa percebeu que era inútil. Não conseguia voltar a adormecer. Saiu da cama com plena consciência de que acabaria o dia exausta, especialmente por Thomas a ter feito aceitar um convite para visitar os Ballantines nessa noite.

A casa estava gelada e antes de ter tempo de vestir o robe já estava a tremer. Já na casa de banho, ligou o aquecimento e pôs o duche a correr.

Quando se meteu no duche, Cassi permitiu-se relutantemente recordar a razão da sua depressão - ter descoberto os comprimidos de Percodan e de Talwin na secretária de Thomas. E Patrícia iria sem dúvida informar o filho de que Cassi voltara a revistar o seu escritório. Thomas perceberia que ela tinha andado à procura de drogas.

Cassi saiu do duche e tentou decidir o que fazer. Deveria admitir que encontrara as drogas e confrontá-lo? Seria a presença das drogas suficientemente incriminatória? Haveria qualquer outra explicação para a sua presença na secretária de Thomas? Cassie duvidava, dada a circunstância adicional das pupilas de Thomas estarem frequentemente contraídas ao ponto de não serem maiores do que uma cabeça de alfinete. Por mais que Cassi quisesse acreditar no contrário, era extremamente provável que Thomas estivesse a tomar Percodan e Talwin. Em que quantidade, Cassi não fazia ideia. Tão pouco fazia ideia até que ponto ela seria culpada disso.

Ocorreu-lhe que talvez devesse procurar ajuda. Mas a quem é que podia recorrer? Não sabia. Patrícia não era obviamente solução possível e se se dirigisse a qualquer autoridade, a carreira de Thomas ficaria destruída. Cassi sentia-se quase demasiado deprimida para chorar. Estava num beco sem saída. Fizesse ou não qualquer coisa, haveria problemas. Graves problemas. Estava consciente de que a sua relação com Thomas podia muito bem estar em jogo.

Precisou de todas as suas forças para acabar de se arranjar para ir trabalhar e fazer o longo percurso até ao hospital.

Cassi acabara de pousar o saco de lona em cima da secretária quando Joan espreitou à porta.

- Já te sentes melhor? - perguntou Joan num tom animado.

- Não - respondeu Cassi numa voz cansada.

Joan apercebeu-se da depressão da amiga. Do ponto de vista profissional, sabia que Cassi estava pior do que na véspera à tarde. Sem esperar que a convidassem a entrar, Joan entrou no gabinete e fechou a porta. Cassi não teve ânimo para objectar.

- Conheces o velho aforismo sobre o médico doente - disse Joan. - Insiste em tratar de si próprio e descobre que tem um idiota como doente. Bom, isso também se aplica ao foro emocional. Não me pareces nada bem. Vim cá para te pedir desculpa de te ter impingido as minhas opiniões ontem à tarde, mas ao olhar para ti agora vejo que fiz bem. Cassi, que é que se está a passar contigo?

Cassi ficou imóvel.

Alguém bateu à porta.

Joan abriu-a e deu com Maureen Kavenaugh, muito chorosa.

- Desculpe, a Dr.a Cassidy está ocupada - disse Joan. Fechou a porta na cara de Maureen antes de ela poder responder.

- Senta-te, Cassi - disse Joan num tom firme.

Cassi sentou-se. A ideia de ser conduzida com firmeza por outra pessoa confortava-a.

- OK! - disse Joan. - Vamos lá saber o que se passa. Sei que estás preocupada com o problema do teu olho, mas é mais do que isso.

Uma vez mais, Cassi reconheceu a pressão sedutora de uma entrevista psiquiátrica sobre o doente para que ela falasse. Joan inspirava confiança, disso não havia a menor dúvida. E Cassi tinha total garantia de confidencialidade. E em última análise, Cassi queria desespera-damente compartilhar o seu fardo com alguém. Precisava de compreensão para além de mero apoio.

- Creio que Thomas anda a tomar drogas - disse Cassi numa voz tão baixa que Joan mal a conseguiu ouvir. Observou o rosto de Joan, procurando os esperados sinais de choque, mas estes não se verificaram. A expressão de Joan não se modificou.

- Que tipo de drogas? - perguntou Joan.

- Dexedrina, Percodan e Talwin, tanto quanto sei.

- É muito frequente os médicos tomarem Talwin - disse Joan. - Quantos comprimidos é que ele está a tomar?

- Não sei. Tanto quanto sei, a sua capacidade de cirurgia não tem sido minimamente afectada. E o seu ritmo de trabalho continua tão intenso como sempre.

- Hum-hum - assentiu Joan. - Thomas sabe que tu sabes?

- Sabe que eu suspeito que toma Dexedrina. As outras, não. Pelo menos, ainda não - Cassi pensou quanto tempo Patrícia demoraria a dizer a Thomas que ela tinha estado no seu escritório.

- Existe um eufemismo para esta situação - disse Joan. - Chama-se “médico diminuído”. Infelizmente, não é tão rara como isso. Talvez devas ler sobre isso; há muito material de consulta na literatura médica, embora os próprios médicos normalmente odeiem confrontar-se com o problema. Vou-te dar alguns artigos. Mas diz-me uma coisa, Thomas tem tido simultaneamente algumas alterações comportamentais - como um comportamento social embaraçoso ou incumprimento dos compromissos assumidos?

- Não - disse Cassi. - Como já disse, Thomas está a trabalhar ao ritmo que sempre trabalhou. Mas admitiu que o trabalho lhe está a dar menos prazer. E parece ter-se tornado menos tolerante ultimamente.

- Tolerante em relação a quê?

- A tudo. Às pessoas, a mim. Até em relação à mãe, que praticamente vive connosco.

Joan não conseguiu deixar de fazer um trejeito.

- Não é tão mau como isso - disse Cassi.

- Pois claro - disse Joan, cinicamente.

As duas mulheres observaram-se uma à outra em silêncio durante alguns minutos.

Depois, Joan tentou abordar outro aspecto.

- E a vossa vida de casados? - perguntou.

- A que é que te estás a referir? - perguntou Cassi evasivamente.

Joan pigarreou.

- É frequente os médicos que tomam drogas em excesso passarem por períodos de impotência e procurarem activamente relações extra-matrimoniais.

- Thomas não tem tempo para relações extra-matrimoniais - disse Cassi sem hesitação.

Joan assentiu, começando a pensar que Thomas não parecia estar particularmente “diminuído”.

- Sabes que o teu comentário sobre o baixo nível de frustração de Thomas e o facto de estar a sentir menos prazer no seu trabalho ultimamente é sugestivo - disse Joan. - Muitos cirurgiões são ligeiramente narcisistas e sofrem de alguns efeitos secundários desta afecção.

Cassi não respondeu, mas o conceito fazia sentido.

- Bom, é uma questão a ponderar - disse Joan. - É uma ideia interessante o sucesso de Thomas poder estar a constituir um problema. Os homens narcisistas percisam do tipo de estrutura e da problemática constante que se verifica numa situação competitiva, como a do lugar de interno de cirurgia.

- Thomas de facto comentou que já não tinha ninguém com quem competir - disse Cassi, entrando no raciocínio de Joan.

Nesse preciso momento, o telefone de Cassi tocou. Joan observou a amiga levantar o auscultador e ficou satisfeita. Cassi já estava a agir de uma forma menos depressiva. Na realidade, até conseguiu dar um ligeiro sorriso ao perceber que era Robert Seibert.

A conversa foi breve. Depois de desligar, Cassi disse a Joan que Robert estava no sétimo céu, pois tinha outro caso de MCS.

- Mas que maravilha - disse Joan sarcasticamente. - Se estás a pensar em convidar-me para a autópsia, muito obrigada, mas não aceito.

Cassi riu.

- Não, na realidade eu própria recusei o convite. Tenho doentes marcados para toda a manhã, mas disse ao Robert que lá ia a cima à hora do almoço ver com ele os resultados. O facto de ter falado em horas fez que Cassi olhasse para o relógio. - Ora esta! Estou atrasada para a reunião de equipa.

A reunião correu bem. Não se tinham verificado quaisquer catástrofes ou novas admissões durante a noite. Com efeito, o interno de serviço teve o prazer de comunicar que tivera nove horas de sono sem qualquer perturbação, o que fez que toda a gente se sentisse extremamente ciumenta. Cassi teve oportunidade de discutir a questão da irmã de Maureen e houve consenso no sentido de que Cassi deveria encorajar Maureen a ela própria contactar a irmã. Todos concordaram que valia a pena correr o risco de tentar associar a irmã ao tratamento, se tal fosse possível.

Cassi também descreveu as aparentes melhoras do coronel Bent-worth, bem como a sua tentativa de a manipular. Jacob Levine achou isto particularmente interessante, mas alertou Cassi para não retirar conclusões precipitadas.

- Lembre-se de que os casos fronteira podem ser imprevisíveis - disse Jacob. tirando os óculos e apontando com eles para Cassi, para dar maior ênfase ao que dizia.

A reunião acabou cedo, dado não haver nenhumas novas admissões ou novos problemas. Cassi recusou um convite para ir tomar café, pois não queria atrasar-se para a sessão com o coronel Bentworth. Quando chegou ao gabinete, já ele estava à espera à porta.

- Bom dia - disse Cassi no tom mais bem disposto que conseguiu, abrindo a porta do gabinete e entrando.

O coronel manteve-se em silêncio enquanto a seguiu e se sentou. Cassi sentou-se no seu lugar atrás da secretária, sentindo-se pouco à vontade. Não sabia porquê, mas o coronel exacerbava a sua insegurança profissional, especialmente quando a olhava fixamente com os seus olhos azuis penetrantes, que ela acabou por perceber que lhe recordavam os de Thomas. Eram ambos do mesmo espantoso tom turquesa.

Bentworth continuava a não parecer um doente. Estava impecavelmente vestido e parecia ter recuperado por completo o seu ar de autoridade. O único indício visível de que era de facto a mesma pessoa que Cassi internara há algumas semanas eram as queimaduras, já a cicatrizar, nos braços.

- Não sei como começar - disse Bentworth.

- Talvez possa começar por me dizer por que mudou de ideias quanto a falar comigo. Até agora tem recusado ter sessões privadas.

- Quer que seja honesto?

- É sempre a melhor via - disse Cassi.

- Bom, para ser franco, quero licença para sair durante o fim-de-semana.

- Mas esse tipo de decisão é normalmente tomado pelo grupo. O principal agente terapêutico de Bentworth naquela fase era

o grupo.

- É verdade - disse o coronel -, mas os malditos e ignorantes filhos da mãe não me deixariam sair. A doutora pode sobrepor-se a eles. Sei que pode.

- E por que é que eu havia de querer sobrepor-me a pessoas que o conhecem melhor do que eu?

- Eles não me conhecem - gritou Bentworth, batendo com a mão na secretária.

O gesto súbito assustou Cassi, mas conseguiu dizer num tom calmo:

- Não consegue nada com esse tipo de comportamento.

- Jesus Cristo! - exclamou Bentworth, levantando-se e começando a andar de um lado para o outro no pequeno gabinete. Ao ver que Cassi não reagia, voltou a sentar-se.

Cassi viu uma pequena veia a latejar-lhe na têmpora.

- Por vezes acho que seria mais fácil desistir - disse Bentworth.

- Por que é que os membros do seu grupo acharam que não devia ter licença para sair durante o fim-de-semana? - perguntou

Cassi. A única coisa para a qual estava preparada para enfrentar por parte de Bentworth era um comportamento manipulador e não se deixaria levar.

- Não sei - disse o coronel.

- Tem de ter alguma ideia.

- Não gostam de mim. Isso não serve? São todos uns idiotas. Funcionários administrativos, todos eles, santo Deus!

- O seu tom parece-me bastante hostil.

- E é; odeio-os a todos.

- Trata-se de pessoas que, como o senhor, têm problemas. Bentworth não respondeu de imediato e Cassi tentou lembrar-se

do que lera sobre o tratamento de personalidades-fronteira. A acção psiquiátrica prática parecia infinitamente mais difícil do que a conceptualização. Sabia que era suposto ela desempenhar um papel estru-turante, mas não sabia exactamente o que isso significava no contexto daquela sessão.

- O que é idiota é que os odeio e no entanto preciso deles. - Bentworth abanou a cabeça como se estivesse confundido com a sua própria afirmação. - Sei que isto parece estranho, mas não gosto de estar sozinho. O pior para mim é estar sozinho. Faz que beba, e o álcool põe-me maluco. Não consigo evitá-lo.

- Que é que acontece? - perguntou Cassi.

- Sou sempre alvo de propostas. Nunca falha. Há sempre um tipo que olha para mim, pensa que sou activo e me aborda. Acabo por esmurrar o tipo até ficar num bolo. Foi uma das coisas que o Exército me ensinou. A lutar com as mãos.

Cassi recordou-se que as personalidades-fronteira e os narcisistas se empenhavam em se defender de impulsos homossexuais. A homossexualidade podia ser um tema fértil para futuras sessões, mas de momento não o queria empurrar para áreas demasiado sensíveis para ele.

- E o seu trabalho? - perguntou Cassi para mudar de assunto.

- Se quer saber a verdade, estou cansado de estar no Exército, inicialmente, gostava da competitividade. Mas agora que sou coronel, isso acabou. Já atingi o topo. E não chegarei a general, porque demasiadas pessoas me invejam. Já não existe qualquer desafio para mim. Sempre que vou para o meu gabinete, sinto a mesma sensação de vazio... assim como qual é o sentido disto.

- Uma sensação de vazio? - repetiu Cassi.

- Sim, de vazio. Sinto a mesma coisa passados poucos meses de viver com uma mulher. A princípio é uma relação intensa e entusiasmante, mas acaba sempre por azedar. Torna-se numa relação vazia. Não sei explicar melhor.

Cassi mordeu o lábio.

- A relação ideal com uma mulher devia ser de um mês - disse o coronel Bentworth. - Depois, puff, ela desaparecia e era substituída por outra. Seria perfeito.

- Mas o senhor foi casado.

- Sim, fui casado. Só durou um ano. Quase matei a gaja. A única coisa que fazia era queixar-se.

- E agora está a viver com alguém?

- Não. É por isso que estou aqui. Ela pôs-se a andar na véspera de me internarem. Só a conhecia há umas duas semanas, mas ela conheceu outro tipo e pôs-se a andar. É por isso que quero sair no fim-de-semana. Ela ficou com a chave do meu apartamento e tenho medo que me leve tudo.

- Por que não telefona a um amigo seu e lhe pede que mude a fechadura? - disse Cassi.

- Não tenho ninguém em quem possa confiar - disse Bentworth, levantando-se. - Olhe, vai-me dar. licença para sair no fim-de-semana ou tudo isto não passou de conversa fiada?

- Levantarei essa questão na próxima reunião de equipa - disse Cassi. - Discuti-la-emos.

Bentworth inclinou-se sobre a secretária.

- A única coisa que aprendi durante o tempo que estive no hospital é que odeio psiquiatras. Acham-se muito espertos, mas não são. São muito mais malucos do que eu.

Cassi aguentou o olhar dele, reparando como os seus olhos azuis se tinham tornado frios. Passou-lhe pelo espírito a ideia de que o coronel Bentworth devia ser internado. Depois apercebeu-se de que ele estava de facto internado.

Cassi bateu na ombreira da porta do minúsculo gabinete de Robert. Ele levantou os olhos do microscópio e o seu rosto abriu-se num grande e contagiante sorriso. Levantou-se de um salto para abraçar Cassi com tal rapidez que a cadeira de rodas foi parar junto da parede oposta.

- Pareces-me em baixo - disse Robert, olhando atentamente para ela. - Que se passa?

Cassi desviou o olhar. Já falara o suficiente nas últimas horas.

- Estou apenas exausta. E eu a pensar que a psiquiatria ia ser fácil!

- Então talvez, devas pedir transferência novamente para patologia - disse Robert; enquanto puxáva uma cadeira para Cassi se sentar. Lnclmando-se-para a frente, pousou as mãos nos joelhos dela.

Se qualquer outro homen tivesse feito o mesmo, Cassi teria ficado aborrecida, mas o gesto de Robert reconfortou-a.

- Que queres que te arranje? Café? Sumo de laranja? Outra coisa?

Cassi abanou a cabeça.

- Gostava que me pudesses dar uma boa noite de sono. Estou estoirada e tenho de ir logo à noite a uma festa em casa do Dr. Ballantine em Manchéster.

- Óptimo - disse Robert num tom terno. - Que é que vais levar?

Cassi fez um trejeiro de incredulidade, dizendo que tal coisa não lhe passara pela cabeça. Robert, que conhecia razoavelmente a roupa de Cassi, fez algumas sugestões. Cassi interrompeu-o para dizer que tinha lá ido para saber da autópsia e não para que ele lhe desse conselhos sobre toilettes.

Robert fingiu ter ficado magoado e disse:

- Só cá vens por razões profissionais. Ainda me lembro de quando éramos amigos.

Cassi estendeu o braço para lhe dar um abanão, mas Robert esquivou-se, empurrando a cadeira para trás, que deslizou suavemente para fora do alcance dela. Ambos riram. Cassi suspirou e apercebeu-se de que se sentia muito melhor do que durante todo o dia. Robert era como um tónico.

- O teu marido disse-te que me salvou na última conferência de mortes?

- Não - disse Cassi, surpreendida. Nunca falara a Robert na antipatia de Thomas por ele, mas esta tinha ficado clara nas poucas vezes que se haviam encontrado.

- Cometi um enorme erro. Tive a ideia maluca de que os cirurgiões cardíacos ficariam satisfeitíssimos por saber das MCS e decidi fazer uma apresentação preliminar na conferência de ontem. Foi o pior que podia ter feito. Devia ter percebido que o seu ego é tal que considerariam o estudo como uma forma de crítica. De qualquer modo, quando acabei de expor a matéria, Ballantine começou a deitar-me abaixo até Thomas o interromper com uma pergunta inteligente. Isso despoletou outras perguntas, o que evitou aquilo que poderia ter sido um desastre completo. Esta manhã fartei-me de ouvir do chefe de patologia. Parece que George Sherman lhe pediu para de futuro me manter amordaçado.

Cassi ficou impressionada e grata pela intervenção do marido. Pensou por que é que ele não lhe tinha falado nisso, mas lembrou-se que não lhe dera qualquer hipótese para o fazer. Tinha-lhe posto o problema da cirurgia à vista assim que o vira.

- Talvez tenha de retirar algumas das coisas desagradáveis que tenho dito sobre o teu marido - acrescentou Robert.

Houve um silêncio embaraçoso. Cassi não queria entrar em discussão sobre os seus próprios sentimentos naquele momento.

- Bom - disse Robert, esfregando as mãos num gesto entusiástico. - Vamos ao trabalho! Como te disse ao telefone, creio ter descoberto outro caso de MCS.

- Cianosado como o último? - perguntou Cassi, ansiosa por mudar de assunto.

- Não - disse Robert. - Anda, quero mostrar-te.

Levantou-se de um salto e arrastou Cassi para fora do seu gabinete e para uma das salas de autópsia. Um jovem negro de pele clara estava em cima de uma mesa de aço inoxidável. A habitual incisão em Y de autópsia tinha sido fechada com suturas grossas, que arrepanhavam os tecidos.

- Pedi-lhes que deixassem aqui o corpo para veres uma coisa - disse Robert, a sua voz ecoando na sala forrada a azulejos.

Largou Cassi e meteu o polegar na boca de Jeoffry Washington, puxando para baixo o maxilar inferior.

- Olha aqui.

Com as mãos atrás das costas, Cassi inclinou-se e olhou para a boca do doente. A língua, estava transformada num pedaço de carne todo mordido e disforme.

- Deu cabo da língua - disse Robert. - É evidente que teve um tremendo ataque de epilepsia.

Cassi endireitou-se, ligeiramente nauseada com o que acabara de ver. Se se tratasse de facto de um caso de MCS, aquele era o doente mais novo a quem isso acontecera.

- Creio que este morreu de arritmia - disse Robert -, mas só saberei ao certo depois de examinar o cérebro. Sabes, ver este tipo de coisas não me ajuda nada a controlar a minha ansiedade quanto à minha própria intervenção cirúrgica. - Robert olhou de relance para Cassi.

- Quando é que vais ser operado? - perguntou ela. A anterior afirmação de Robert dava a entender que a cirurgia dele era ponto assente.

Robert sorriu.

- Eu disse-te, mas tu não acreditaste que ia mesmo resolver a questão. Sou internado amanhã. E a tua?

Cassi abanou a cabeça.

- Ainda não está definitivamente assente.

- Medricas - acusou Robert com um ar de superioridade. - Por que não marcas a tua para depois de amanhã, para nos podermos visitar na sala de recuperação?

Cassi não queria contar a Robert a dificuldade que estava a ter em discutir a questão com Thomas. Relutantemente, voltou a olhar para o cadáver.

- Que idade tinha? - perguntou Cassi, indicando com um gesto o corpo de Jeoffry Washington.

- Vinte e oito - disse Robert.

- Santo Deus, era novo - exclamou Cassi. - E só se passaram duas semanas desde o último caso.

- Exacto - disse Robert.

- Sabes que quanto mais penso nisto, mais inquietantes acho estes casos?

- Por que é que achas que tenho continuado as minhas investigações? - perguntou Robert.

- Com o número de casos que já tens e com o aparente aumento de frequência, torna-se cada vez mais difícil atribuir estas mortes ao acaso.

- Concordo - disse Robert. - Desde o último caso que fiquei com insistente suspeita de que estas mortes estão muito mais relacionadas umas com as outras do que suspeitamos. O único problema dessa ideia é que aponta para um agente específico e, como o teu marido referiu, as mortes são fisiologicamente diferentes. Os factos não se ajustam à teoria.

Cassi contornou a mesa de forma a ficar do lado direito de Jeoffry Washington.

- Não te parece que está inchado? - perguntou, passando a mão pelo antebraço do cadáver.

Robert inclinou-se para ver.

- Não sei. Onde? Cassi apontou.

- O doente estava a soro?

- Creio que sim - disse Robert. - Estava a tomar antibióticos para uma flebite.

Cassi pegou no braço esquerdo de Jeoffry e olhou para o sítio onde tinha sido introduzida a agulha para aplicação de soro. Estava avermelhado e inchado.

- Só por uma questão de interesse, que tal retirares algumas secções da veia do sítio onde foi aplicado o soro?

- Faço tudo para que venhas cá a cima ver-me.

Cassi pousou cuidadosamente o braço de Jeoffry, como se este ainda tivesse sensibilidade.

- Sabes por acaso se*todos os casos de MCS estavam a soro? - perguntou Cassi.

- Não sei, mas posso averiguar - disse Robert. - Tenho ideia de que sei o que é que estás a pensar e não me agrada.

- Uma outra sugestão que gostaria de fazer é coligires os supostos mecanismos fisiológicos de morte e veres se existe algum padrão. Sabes o que quero dizer.

- Sei - respondeu Robert. - Provavelmente, posso fazê-lo ainda hoje. E retirarei as secções da veia, mas tens de me prometer que voltas cá para as veres. Combinado?

- Combinado - disse Cassi.

Quando Cassi carregou no botão do elevador no corredor junto ao serviço de patologia, apercebeu-se de que lhe desagradava profundamente a perspectiva da sessão que tinha marcada com Maureen Kavenaugh. Não havia dúvida de que a depressão de Maureen exacerbava a de Cassi. O facto de Cassi ter razões para estar deprimida, como Joan frisara, não tornara mais fácil suportar os sintomas.

O facto de Cassi sentir desagrado pela sessão com Maureen preocupava-a, porque a obrigava a admitir que como psiquiatra tinha de trabalhar com os seus próprios juízos de valor. Noutros foros de medicina, se um médico tivesse de confrontar um doente de quem não gostasse, podia concentrar-se na patologia e limitar o contacto pessoal ao mínimo. Em psiquiatria isto não era possível.

Felizmente, quando entrou no gabinete, Maureen ainda não chegara. Cassi sabia que ia ter dificuldade em concentrar-se naquilo que Maureen tinha a dizer, porque a decisão de Robert de se submeter a cirurgia levantava o seu próprio problema. Sabia que Robert tinha razão. Após alguns instantes de indecisão, marcou o número do gabinete de Thomas.

Por azar, ele ainda estava a operar.

- Não sei quando acabará - disse Doris -, mas sei que será tarde, porque me telefonou a dizer para cancelar todas as consultas da tarde.

Cassi agradeceu-lhe e desligou. Fitou sem ver a reprodução de Monet. O comentário que Joan fizera sobre o “médico diminuído” que altera as suas marcações veio-lhe à ideia, mas afastou-o do pensamento. Era evidente que Thomas tinha cancelado as consultas por ter de ficar a operar.

Os seus pensamentos foram interrompidos quando alguém bateu à porta. O rosto desanimado de Maureen assomou.

- Entre - disse Cassi no tom mais animado que conseguiu, suspeitando que os cinquenta minutos seguintes iriam ser um bom exemplo do cego que conduz outro cego.

Foi Doris, e não Thomas, quem telefonou a Cassi a meio da tarde para dizer que o Dr. Kingsley se encontraria com ela na entrada principal do hospital às seis horas em ponto. Insistiu para que Cassi fosse pontual por causa da festa nessa noite. Cassi chegou à entrada à hora, mas quando o relógio por cima do balcão de informações mostrou serem seis e vinte ficou preocupada com a hipótese de ter entendido mal o recado.

A entrada do hospital estava cheia, com bichas de pessoas a entrar e a sair. As pessoas que saíam eram sobretudo funcionários que iam a conversar e a rir, satisfeitos por o dia de trabalho ter terminado. As que entravam eram na maioria visitas, de atitude discreta e com um ar intimidado, que iam formando bicha à frente do balcão de informações para receber indicações dadas pelas voluntárias de bata verde.

Enquanto observava a multidão, o tempo ia passando, e quando Cassi voltou a olhar para o relógio eram quase seis e meia. Finalmente, decidiu telefonar para o gabinete de Thomas, mas quando se ia a dirigir para a cabina telefónica, viu a sua cabeça no meio da multidão. Parecia tão cansado quanto Cassi se sentia. Tinha o rosto obscurecido e Cassi percebeu depois que tal se devia a não ter feito a barba com cuidado de manhã. Quando se aproximou, Cassi viu também que tinha os olhos avermelhados.

Como não sabia qual seria a recepção que teria. Cassi manteve-se em silêncio. Quando percebeu que Thomas não tencionava falar ou sequer parar, meteu o braço no dele e foi rapidamente levada em direcção à porta giratória.

Lá fora, Cassi viu-se confrontada com uma mistura de chuva e neve, que se derretia no instante em que os flocos tocavam no chão. Pondo o saco ao ombro, protegeu o rosto e caminhou quase aos tropeções atrás de Thomas até à garagem.

Já dentro da garagem, ele parou e, voltando-se finalmente para Cassi, disse:

- Que tempo horrível.

- Estamos a pagar o preço de um Outono muito ameno - disse Cassi, sentindo-se encorajada por Thomas não parecer estar de mau humor. Talvez Patrícia não lhe falasse da sua ida ao escritório dele.

O motor do Porsche ressoou como um trovão na garagem. Enquanto ele verificava os instrumentos no painel do carro, Cassi pôs o cinto de segurança. Teve de fazer um esforço consciente para não dizer a Thomas para colocar o dele, especialmente devido ao mau tempo, mas, ao lembrar-se da sua atitude anterior, ficou calada.

Sempre que nevava, o trânsito em Boston tornava-se num frustrante pára-arranca confuso e o percurso para leste ao longo da Storrow Drive foi particularmente moroso. Embora Cassi tivesse vontade de falar, tinha receio de quebrar o silêncio.

- Falaste com Robert Seibert hoje? - perguntou finalmente Thomas.

Cassi voltou a cabeça. Thomas tinha os olhos fixos na estrada, embora o carro estivesse imobilizado num mar de stops vermelhos. Parecia hipnotizado pelo clic-clac do limpa pára-brisas.

- Falei hoje com Robert - admitiu Cassi, surpreendida com a pergunta. - Como é que sabes?

- Ouvi dizer que um dos doentes do George Sherman tinha morrido. Aparentemente foi uma morte inesperada e pensei se o teu amigo Robert continuaria ainda interessado naquela série de casos que andou a estudar.

- Sem dúvida - disse Cassi. - Fui falar com ele depois da autópsia. E foi nessa altura que Robert me disse como o ajudaste na conferência de mortes. Foi muito simpático da tua parte, Thomas.

- Não pretendi ser simpático - disse ele. - Estava interessado no que ele tinha para dizer. Mas foi idiota em fazer o que fez e continuo a achar que devia apanhar um apertão.

- Acho que levou mesmo um apertão - disse Cassi. Thomas sorriu quase imperceptivelmente e aproveitando uma

aberta no trânsito conseguiu entrar na auto-estrada.

- Esta última morte também é suspeita? - perguntou, enquanto acelerava o carro para cem quilómetros à hora. Thomas guiava com ambas as mãos no volante, accionando os máximos furiosamente sempre que deparava com carros que iam mais devagar.

- Robert acha que sim - disse Cassi, apertando involuntariamente as mãos. Sentia-se sempre assustada com a condução de Thomas. - Mas ainda não examinou o cérebro. Acha que o doente teve convulsões antes de morrer.

- Então não foi como no caso anterior? - perguntou Thomas.

- Não - disse Cassi. - Mas Robert pensa que as situações estão relacionadas. - Manteve propositadamente segredo sobre a sua própria participação na discussão. - A maioria dos doentes, especialmente nos últimos anos, morreram depois da fase pós-operatória mais aguda. Uma das questões de que Robert se lembrou hoje foi a de todos os doentes poderem estar a soro quando morreram. Está a verificar isso mesmo hoje. Pode ser significativo.

- Porquê? Por que é que Robert acha que estas mortes podem ser suspeitas? - perguntou Thomas num tom chocado.

- Ocorreu-lhe - disse Cassi. - Afinal de contas, houve um caso em Nova Jérsia em que foi dado algo como curare a uma série de doentes.

- É verdade, mas todos eles morreram com os mesmos sintomas.

- Bom, creio que Robert acha que tem de considerar todas as possibilidades - disse Cassi. - Sei que parece horrível e sem dúvida faz aumentar a insegurança que Robert já sente quanto à sua própria intervenção cirúrgica. - Cassi estava com esperança de poder conduzir a conversa para a sua própria operação.

- A que tipo de intervenção cirúrgica é que Robert vai ser submetido?

- Vai finalmente tirar os dentes do siso, que nunca chegaram a romper. Teve febre reumática em criança e tem de fazer profilaxia antibiótica.

- Seria idiota se não fizesse - concordou Thomas. - Embora ache que ele tenha tendências suicidas. É a única forma de explicar o seu comportamento na conferência de mortes. Cassi, não quero que tenhas absolutamente nada a ver com esse estudo sobre alegadas MCS, sobretudo se der origem a acusações ridículas. Com tudo o que se está a passar, dispenso bem mais esse problema.

Cassi fitou os carros que iam à frente enquanto o Porsche os ultrapassava inexoravelmente. O movimento monótono do limpa pára-brisas absorvia toda a sua atenção enquanto tentava arranjar coragem para abordar a questão da sua própria operação. Prometeu a si própria começar a falar assim que ficassem a par do carro amarelo que ia à frente. Mas o carro amarelo ficou para trás. Depois foi o autocarro. Mas Thomas também o ultrapassou e Cassi continuou “calada. Desesperada, desistiu, na esperança de que Thomas abordasse a questão.

Ficou exausta com a tensão em que ia. A ideia da festa em casa de Ballantine tornou-se cada vez mais desagradável. Tinha uma certa dificuldade em perceber por que é que justamente Thomas quereria ir. Odiava as funções sociais do hospital. Ocorreu a Cassi que talvez ele quisesse ir por ela. E se fosse esse o caso, era ridículo. A única coisa em que Cassi conseguia pensar era em lençóis lavados e na sua cama confortável. Decidiu falar nisso quando chegassem à passagem superior seguinte.

- Queres mesmo ir à festa .esta noite? - perguntou Cassi num tom hesitante quando passaram velozmente por baixo da passagem superior.

- Por que é que perguntas? -Thomas guinou subitamente o carro para a direita e acelerou "para ultrapassar um carro que tinha ignorado o sinal feito com os máximos.

- Se vais por minha causa^- disse Cassi-, estou exausta. Preferia ficar em casa. -"

- Raios te partam! - gritou Thomas, dando um murro no volante. - Tens sempre de pensar em ti! Disse-te há já várias semanas que o conselho de administração e os catedráticos da escola médica irão lá estar. Passa-se qualquer coisa de estranho no hospital e ninguém me diz nada. Mas suponho que aches que isso não tem importância nenhuma!

Ao ver Thomas ficar vermelho de fúria, Cassi encolheu-se no banco. Tinha a sensação de que dissesse o que dissesse só agravaria a situação.

Thomas caiu num silêncio amuado. Conduziu ainda mais perigosamente, acelerando para cento e trinta na estrada que atravessava os pântanos. Apesar do cinto de segurança, Cassi era atirada de um lado para o outro em todas as curvas apertadas. Ficou aliviada quando ele reduziu a velocidade antes de entrar no caminho que dava para casa.

Quando chegaram à porta de casa, Cassi já se resignara quanto à festa. Pediu desculpa por não ter compreendido o que esta implicava e acrescentou com ternura:

- Tu também estás com um ar muito cansado.

- Muito obrigado! Aprecio o teu voto de confiança - disse Thomas sarcasticamente, começando a subir as escadas.

- Thomas - chamou Cassi, desesperada. Sabia que ele tinha interpretado a preocupação dela como um insulto-, é necessário continuarmos assim?

- Creio que é isto que queres. Cassi tentou objectar.

- Por favor, não me faças uma cena! - gritou Thomas. Depois, numa voz mais controlada, disse: - Saímos daqui a uma hora. Tu é que estás com um aspecto horrível. Tens o cabelo todo desarranjado. Espero que tenciones fazer-lhe alguma coisa.

- Vou arranjar o cabelo - disse Cassi. - Thomas, não quero que discutamos. Aterroriza-me.

- Não estou na disposição de discutir isso agora - retorquiu Thomas irritado. - Está pronta daqui a uma hora.

Dirigindo-se apressadamente para o escritório, entrou na casa de banho a resmungar baixinho sobre o egoísmo de Cassi. Tinha-lhe dito especificamente que a festa era importante, mas ela muito convenientemente esquecera-se do que lhe dissera por estar demasiado cansada!

- Por que raio é que tenho de suportar isto? - exclamou em voz alta, passando a mão pela barba por fazer.

Tirou os apetrechos de barbear, lavou a cara e aplicou espuma. Cassi estava a tornar-se mais do que uma causa de irritação. Estava a tornar-se um fardo. Primeiro, o problema com o olho, depois, a preocupação por ele ocasionalmente tomar um cmprimido, e agora a sua ligação à actuação provocatória de Seibert.

Thomas começou a escanhoar-se com movimentos curtos e irritados. Estava a começar a sentir que toda a gente estava contra ele, quer em casa, quer no hospital. No hospital, o principal opositor era George Sherman, que estava constantemente a prejudicá-lo com aquela idiotice da suposta importância da área docente. Só de pensar nisso Thomas sentiu tal frustração que atirou a gilette para o duche com toda a força. Esta fez ricochete contra as paredes de azulejos antes de cair ruidosamente junto do ralo.

Deixando a gilette onde estava, meteu-se no duche. A água a correr costumava acalmá-lo; passados alguns minutos de estar debaixo do chuveiro começou a sentir-se melhor. Enquanto se estava a limpar, ouviu a porta do escritório abrir-se. Pensando que era Cassi, não se deu ao trabalho de olhar, mas quando saiu da casa de banho deu com Patrícia sentada no seu cadeirão.

- Não me ouviste entrar? - perguntou ela.

- Não - disse Thomas. Era mais fácil mentir. Dirigiu-se para o armário por baixo das estantes, onde passara a guardar parte da sua roupa.

- Ainda me lembro quando me levavas a estas festas do hospital - disse Patrícia num tom queixoso.

- Tenho todo o gosto que venhas-disse Thomas.

- Não. Se quisesses mesmo que eu fosse, tinhas-me convidado e não esperavas que eu te falasse nisso.

Thomas achou melhor não responder. Sempre que Patrícia estava naquela disposição de “vítima” era mais seguro não dizer nada.

- Ontem à noite vi luz aqui no escritório e pensei que tivesses vindo para casa. Em vez de ti, encontrei aqui a Cassandra.

- No meu escritório? - perguntou Thomas num tom zangado.

- Estava ali atrás da tua secretária. - E Patrícia apontou.

- Que estava a fazer?

- Não sei. Não lhe perguntei. - Patrícia levantou-se com a expressão de quem está satisfeita consigo própria. - Eu bem te avisei que ela só serviria para te arranjar problemas. Mas não! Tu é que sabias. - Saiu altivamente da sala e fechou cuidadosamente a porta.

Thomas atirou com a roupa lavada para cima do sofá e dirigiu-se para a secretária. Abriu a gaveta onde guardava os comprimidos e ficou extremamente aliviado por ver que os frascos estavam exactamente onde os deixara, atrás do papel de carta.

Mesmo assim. Cassi estava a pô-lo doido. Avisara-a para não mexer nas suas coisas. Thomas sentiu que começava a tremer. Levou instintivamente a mão à reserva de comprimidos e tirou dois: um Percodan para a dor de cabeça que sentia atrás dos olhos e um Dexe-drina para o manter acordado. Se de facto valia a pena ir à festa, o mínimo era assegurar que estaria alerta.

Cassi sentiu uma enorme alteração para pior na disposição de Thomas durante o caminho de Manchéster. Tinha ouvido Patrícia entrar em casa e calculou que fora visitar Thomas. Não era preciso ser muito imaginativa para concluir o que lhe dissera. Como Thomas já estava de mau humor, Patrícia não podia ter escolhido altura pior.

Cassi tinha feito um tremendo esforço para estar com o melhor aspecto possível. Depois de tomar a dose de insulina da tarde, que aumentou por o teste de urina mostrar algum açúcar, tomou banho e lavou a cabeça. Depois escolheu um dos vestidos que Robert sugerira. Era de veludo castanho-escuro, com mangas tufadas e corpo justo, que lhe dava um encantador ar medieval.

Thomas não disse nada sobre o seu aspecto. Na verdade, não disse absolutamente nada. Conduziu da mesma forma que conduzira no regresso do hospital, perigosa e velozmente. Cassi gostava de poder recorrer a um amigo íntimo de Thomas - alguém que se importasse realmente com ele, mas o certo era que ele não tinha muitos amigos. Por instantes, recordou-se do seu último encontro com o coronel Bentworth. Depois, reteve subitamente a respiração. Identificar-se com Maureen Kavenaugh era uma coisa, mas comparar o marido com uma personalidade-fronteira era ridículo. Cassi desviou a atenção para a janela para deixar de pensar e tentou ver através da humidade. Estava uma noite negra e assustadora.

A casa dos Ballantines dava para o oceano, exactamente como a de Thomas. Mas as semelhanças terminavam aí. A casa dos Ballantines era uma grande mansão de pedra que pertencia à família há uns cem anos. Como forma de poder suportar os gastos com a casa, o Dr. Ballantine tinha vendido parte do terreno a um construtor, mas como o terreno original era tão grande, do edifício principal não se via nenhuma outra casa. Dava a impressão de ser uma casa de campo.

Quando saíram do carro, Cassi notou que Thomas tinha um ligeiro tremor. Ao subirem as escadas, viu também que a sua coordenação de movimentos parecia afectada. Santo Deus, que é que ele tomara?

Os modos de Thomas alteraram-se assim que se juntou aos restantes convidados. Cassi observou-o estupefacta, embora soubesse que ele conseguia passar da ira a um comportamento encantador e animado. Se ao menos ainda lhe dispensasse algum do seu encanto a ela... Decidindo que era seguro deixá-lo sozinho, Cassi começou a procurar a comida. Como tinha tomado insulina, não devia esperar demasiado tempo para comer. A sala de jantar era à direita e ela dirigiu-se para a entrada, sob um arco.

Thomas estava satisfeito. Como esperava, a maioria dos accionistas do hospital e dos professores catedráticos da escola médica estava presente. Tinha-os visto por cima dos ombros do pequeno grupo de pessoas ao qual se juntara ao chegar. Estava particularmente interessado em falar com o presidente do conselho de administração. Pegando numa bebida, começou a avançar pelo meio das pessoas quando Ballantine se lhe dirigiu.

- Ah, Thomas, já chegou. - Ballantine já bebera bastante e tinha olheiras vincadas, dando-lhe ainda mais o ar de cão Basset do que normalmente tinha. - Ainda bem que conseguiu vir.

- Bela festa - disse Thomas.

- Não tenha dúvida - disse Ballantine, piscando-lhe ostensivamente o olho. - Estão de facto a acontecer coisas no velho Boston Memorial. Caramba, é entusiasmante.

- A que é que se está a referir? - perguntou Thomas, dando um passo para trás. O Dr. Ballantine tinha o hábito de deitar perdigotos quando pronunciava os “tt” depois de ter tomado algumas bebidas.

Ballantine aproximou-se dele.

- Gostava de lhe dizer, mas não posso - murmurou. - Mas acho que em breve se deve juntar a nós. Já pensou no meu convite para exercer o cargo docente a tempo inteiro?

Thomas sentiu a sua paciência evaporar-se. Não queria ouvir falar em passar a pertencer ao quadro a tempo inteiro. Não fazia a menor ideia sobre aquilo a que Ballantine se estava a referir quando dissera “estão de facto a acontecer coisas”, mas não lhe agradou. Em relação a si, qualquer alteração no seu status quo era preocupante. Lembrou-se subitamente de ter visto a luz do gabinete de Ballantine acesa às duas da manhã.

- Que esteve a fazer até tão tarde no seu gabinete ontem à noite?

O rosto satisfeito de Ballantine ensombrou-se.

- Por que é que pergunta?

- Apenas por curiosidade - disse Thomas.

- É uma pergunta estranha feita assim sem vir a propósito - disse o Dr. Ballantine.

- Estive a operar ontem à noite. Vi a luz do seu escritório da sala de estar.

- Deve ter sido o pessoal de limpeza - disse Ballantine, erguendo o copo, fitando-o. - Parece que preciso de um reforço.

- Também vi o carro de George Sherman na garagem - disse Thomas. - Pareceu-me uma coincidência estranha.

- Ah - disse Ballantine, com um gesto largo -, George anda com problemas com o carro há um mês. É qualquer coisa no sistema eléctrico. Quer outra bebida? lá tem tão pouco como eu.

- Por que não? - disse Thomas.

Tinha a certeza de que Ballantine estava a mentir. Assim que o director se dirigiu para o bar, Thomas recomeçou a procurar o presidente. Era mais importante do que nunca descobrir o que se estava a passar no Memorial.

Cassi ficou junto à mesa do bufete enquanto comia, a conversar com algumas outras mulheres de médicos. Depois de ter a certeza de que ingerira calorias suficientes para equilibrar a insulina, decidiu que era melhor ir à procura de Thomas. Não fazia ideia de que drogas tomara e estava enervada. Ia a dirigir-se para a sala de estar quando George Sherman a interpelou.

- Estás linda como sempre - disse, sorrindo-lhe calorosamente.

- Também estás com bom aspecto, George - disse Cassi. - Gosto muito mais de te ver de smoking do que com o teu velho casaco de bombazina.

George riu, ligeiramente embaraçado.

- Ando há tempo para te perguntar se gostas da psiquiatria. Fiquei admirado quando soube que tinhas pedido a transferência. Em muitos aspectos, invejo-te.

- Não me digas que atribuis alguma credibilidade à psiquiatria. Pensava que nenhum cirurgião o fazia.

- A minha mãe teve uma grave depressão pós-parto quando o meu irmão mais novo nasceu. Estou convencido de que foi o psiquiatra dela que lhe salvou a vida. Eu próprio talvez tivesse escolhido essa especialidade se achasse que podia ser bem sucedido. Mas exige uma sensibilidade que eu não tenho.

- Que disparate - disse Cassi. - Claro que tens sensibilidade. Creio que o teu único problema seria a passividade. Em psiquiatria é o doente que tem de fazer o trabalho.

George ficou calado durante instantes; enquanto Cassi lhe observava o seu rosto lembrou-se subitamente de que o podia apresentar a Joan. Eram ambos tão boas pessoas.

- Estás interessado em conhecer uma mulher atraente?

- Estou sempre interessado em conhecer mulheres atraentes. Embora poucas te cheguem aos calcanhares.

- Chama-se Joan Widiker. É estagiária do terceiro ano de psiquiatria.

- Espera aí - disse George. - Não sei bem se me aguento com uma psiquiatra. Provavelmente começa a fazer-me uma série de perguntas difíceis quando eu for buscar os meus chicotes e correntes. E eu estaria demasiado tenso. Pior do que quando andava contigo. Lembras-te da primeira vez que saímos?

Cassi riu. Como é que se poderia esquecer? George tinha-lhe batido desajeitadamente na mão durante o jantar, fazendo que entornasse linguini Alfredo no colo. Depois, na sua ânsia de limpar, entornara também a garrafa de Chianti Clássico no colo dela.

- Não quero que penses que não te estou grato - disse George. - Fiquei contente por te teres lembrado de mim e telefonarei a Joan. Mas, Cassi, queria falar-te numa coisa um pouco mais séria.

Cassi endireitou-se inconscientemente, sem saber o que esperar.

- Como seu colega, estou preocupado com Thomas.

- Sim? - disse Cassi o mais naturalmente que conseguiu.

- Trabalha que nem um louco. Uma coisa é ser-se dedicado ao trabalho, outra é estar-se obcecado. Já vi casos destes. Muitas vezes os médicos conseguem viver a mil quilómetros à hora durante anos e subitamente estoiram. A razão pela qual te estou a dizer tudo isto é para te pedir que tentes que Thomas abrande, que tenha férias, talvez. Tem andado tão tenso como uma mola. Diz-se pelos corredores que teve algumas discussões azedas com internos e enfermeiras.

As palavras de George despertaram as lágrimas que Cassi tinha reprimidas. Mordeu o lábio, mas ficou calada.

- Se conseguires que ele vá de férias, terei todo o gosto em substituí-lo nos casos que tem entre mãos se for necessário.

George ficou sobressaltado ao ver os olhos de Cassi marejados de lágrimas. Ela virou a cara para as esconder.

- Não era minha intenção preocupar-te - disse George, estendendo o braço e pondo-lhe a mão no ombro.

- Não faz mal - disse Cassi, esforçando-se para se recompor. - Estou bem. - Olhou para ele e conseguiu sorrir-lhe.

- O Dr. Ballantine e eu falámos sobre Thomas - disse George. - Gostávamos de o ajudar. Ambos achamos que uma pessoa que trabalha tanto como Thomas tem de reconhecer que existe um preço emocional a pagar.

Cassi assentiu, como se compreendesse. Apertou a mão de George com ternura.

- Se não te sentes à vontade a falar comigo, talvez possas falar com o Dr. Ballantine. Ele tem uma enorme admiração pelo teu marido. Queres o número da extensão particular do director lá do hospital?

Cassi evitou o olhar caloroso de George. Concentrando a sua atenção na carteira, tirou um pequeno bloco de notas e um lápis. Quando George lhe disse o número, assentou-o. Ao olhar para cima, o coração quase lhe parou. Deu por si a fitar directamente o olhar fixo de Thomas. Com uma percepção criada pela intimidade, apercebeu-se de imediato de que ele estava violentamente zangado. ^esse mesmo mitanxe, Geot^a assexvtou pesadamente a Nesse mesmo instante, George assentou pesadamente a mão sobre o seu ombro.

Cassi afastou-se de imediato, pedindo desculpa, mas quando chegou à porta Thomas desaparecera.

Thomas não se sentia tão zangado desde a altura em que era caloiro na universidade quando um dos seus colegas de quarto saíra com a namorada dele. Não admirava que George andasse tão estranho. Recomeçara o seu romance com Cassi e ela nem sequer tinha senso suficiente para não se mostrar interessada à frente de todos os colegas de Thomas. Sentiu o nó gelado de medo contrair-se ainda mais no fundo do estômago. A sua mão tremia tanto que quase entornou a bebida. Bebendo-a de um trago rápido, passou pelas portas envidraçadas para a varanda, sentindo com agrado o vento áspero vindo do oceano.

Num frenezim, procurou um comprimido em todas as algibeiras. A noite tinha corrido mal desde o princípio. Um dos accionistas do hospital que já fora assiduamente ao bar tinha-o interpelado para o felicitar pelo novo programa de ensino do hospital. Ao ver que Thomas se limitara a olhar para ele sem responder, o homem murmurara uma desculpa qualquer e saíra da sala. Thomas preparava-se para ir à procura de Ballantine para lhe pedir explicações quando vira Cassi.

Santo Deus, que idiota tinha sido. Agora que pensava nisso era óbvio que George e Cassi tinham um romance. Não admirava que ela nunca se queixasse por ele ficar tantas vezes no hospital. Sem lhe dar tréguas, o seu espírito atormentou-o com a ideia de que se encontravam em casa dele. A imagem de George no seu quarto fez que Thomas desse um grito de raiva. Olhando para trás, por cima do ombro, viu um casal junto às portas envidraçadas e temeu que soubessem do caso. Era evidente que estavam a falar dele. Tirou outro comprimido, engoliu-o e voltou para a sala para ir buscar outra bebida.

Desesperada para encontrar Thomas, Cassi começou a percorrer

a sala de estar, pedindo licença para passar por entre os convidados.

Ia a caminho do bar quando deu de caras com o Dr. Obermeyer.

- Que coincidência! - exclamou ele. - A minha doente mais difícil!

Cassi sorriu nervosamente. Lembrou-se de que faltara à sua promessa de lhe telefonar nesse dia.

- A menos que a minha memória me atraiçoe, devia ter marcado hoje a sua intervenção cirúrgica - disse o Dr. Obermeyer. - Falou com Thomas sobre isso?

- É melhor eu ir amanhã de manhã ao seu gabinete - disse Cassi evasivamente.

- Talvez seja melhor eu falar com o seu marido - disse o Dr. Obermeyer. - Ele está cá?

- Não - disse Cassi. - Quero dizer, está, mas não acho que seja altura...

Um tremendo grito soou na sala, fazendo parar todas as conversas e fazendo que Cassi parasse a meio da frase. Todas as pessoas se mostraram confundidas; todas, menos Cassi. Reconheceu a voz. Era Thomas! Correu para a sala de jantar e ouviu outro grito, seguido do ruído de louça a partir-se.

Abrindo caminho por entre os outros convidados, Cassi viu Thomas à frente do bufete, com o rosto afogueado de ira, com uma série de pratos partidos aos pés. George Sherman estava a olhar fixamente para ele com uma expressão de espanto horrorizado, com uma bebida numa mão e uma tira de cenoura na outra.

Enquanto Cassi os observava, George estendeu o braço e deu uma pancadita no ombro de Thomas com a cenoura, dizendo:

- Thomas, estás enganado.

Thomas afastou o braço de George, batendo-lhe violentamente no pulso.

- Não me toques! E nunca te atrevas a tocar na minha mulher. Entendes? - E abanou ameaçadoramente o dedo à frente do rosto de George.

- Thomas! - disse George num tom incrédulo. Cassi correu a interpor-se entre os dois homens.

- Que se passa contigo, Thomas? - disse, agarrando-o pelo casaco. - Controla-te!

- Controlo-me - repetiu ele, virando-se para ela. - Creio que isso se aplica mais a ti do que a mim.

Fazendo um último trejeito de desprezo, libertou-se da mão de Cassi e dirigiu-se para a porta de entrada. Ballantine, que tinha estado na cozinha, seguiu-o, chamando-o pelo nome.

Cassi pediu apressadamente desculpa a George e dirigiu-se igualmente para a porta, de cabeça baixa, para evitar os olhares curiosos.

Entretanto, Thomas encontrara já o seu sobretudo e estava a dizer a Ballantine num tom irado:

- Desculpe tudo isto, mas é duro descobrir que um colega está a ter um romance com a nossa mulher.

- Não posso acreditar - disse Ballantine. - Tem a certeza?

- Tenho, tenho a certeza - disse Thomas.

Virou-se para abrir a porta no momento em que Cassi chegou e lhe agarrou um braço.

- Thomas, que estás a fazer? - disse, controlando-se para não chorar.

Thomas não respondeu. Abotoou o sobretudo e virou-se para sair.

- Thomas, fala comigo. Que aconteceu?

Thomas puxou tão violentamente o braço que Cassi quase caiu no chão. Hesitou quando ele abriu a porta e saiu intempestivamente. Cassi apanhou-o quando ele já ia ao fundo das escadas.

- Thomas, se te vais embora, eu também vou. Deixa-me ir buscar o casaco.

Thomas estacou.

- Não quero que venhas comigo. Por que é que não ficas cá e não te divertes com o teu querido?

Confusa, Cassi ficou a observá-lo enquanto ele se afastava.

- O meu querido? O interesse foi teu em virmos. Eu não queria vir!

Thomas não respondeu. Cassi levantou a saia do vestido comprido e correu atrás dele. Quando chegou ao Porsche estava a tremer violentamente mas não sabia se era de medo ou de frio.

- Por que estás a agir desta maneira? - perguntou a soluçar.

- Posso ser muitas coisas, mas estúpido é que não sou - retorquiu Thomas rudemente, batendo com a porta do carro na cara dela. O motor arrancou com um rugido.

- Thomas, Thomas - gritou Cassi, batendo na janela com uma das mãos e tentando abrir a porta com a outra. Thomas ignorou-a e fez rapidamente marcha atrás. Se Cassi não tivesse recuado, largando o carro, teria sido deitada no chão. Olhando em silêncio, observou o Porsche desaparecer no caminho.

Envergonhadíssima, regressou à casa. Talvez se pudesse esconder num dos quartos do primeiro andar até conseguir chamar um táxi. Ao chegar à entrada, ficou aliviada por ver que os convidados estavam de novo a rir e a beber. Apenas George e o Dr. Ballantine estavam à sua espera, à porta.

- Lamento profundamente - disse Cassi, insegura.

- Não se preocupe - disse o Dr. Ballantine. - Sei que George falou consigo. Estamos preocupados com Thomas e achamos que está a trabalhar demais. Temos planos que lhe irão aliviar a carga de trabalho, mas ele tem andado tão perturbado ultimamente que não tivemos oportunidade de discutir a questão com ele. Ballantine trocou um olhar com George.

- Exactamente - concordou George. - Creio que este infeliz incidente desta noite apena serve para frisar o que dissemos.

Cassi estava demasiado perturbada e confusa para responder.

- George também me disse que lhe tinha dado o número da minha extensão particular no hospital - disse Ballantine. - Terei todo o gosto em falar consigo em qualquer altura que queira, Cassi. Olhe, por que é que não vem amanhã ao meu gabinete?

- Bom, quer juntar-se aos convidados? - perguntou Ballantine. - Ou prefere que um dos meus rapazes a leve a casa?

- Gostaria de ir para casa - disse Cassi, limpando os olhos com as costas da mão.

- Óptimo - disse Ballantine. - Só um minuto. - Virou-se e subiu as escadas até ao andar de cima.

- Desculpa - disse Cassi a George quando ficaram sozinhos. - Não sei o que é que deu a Thomas.

George abanou a cabeça.

- Cassi, se ele soubesse o que eu realmente sinto por ti teria todas as razões para ter ciúmes. Agora, sorri. Estava só a elogiar-te.

Ficou a olhar para ela com ternura até o filho de Ballantine aparecer com o carro.

Cassi não sabia o que esperar quando meteu a chave na porta de entrada. Ficou admirada por ver luz na sala de estar. Se Thomas estivesse em casa e não no hospital, achava que estaria fechado à chave no escritório. Nervosa, atravessou o hall, ajeitando o cabelo o melhor que pôde.

Mas era a sogra e não Thomas quem esperava por ela.

Patrícia estava sentada num sofá de orelhas, com o rosto obscurecido pela luz ténue da única lâmpada acesa. Cassi ouviu o ruído de um autoclismo no andar de cima.

Durante bastante tempo nenhuma das mulheres falou. Depois, Patrícia levantou-se com movimentos rígidos, com os ombros curvados como se suportasse um grande peso. Tinha o rosto pálido e as rugas à volta da boca estavam mais acentuadas. Dirigiu-se para Cassi e olhou-a nos olhos.

Cassi aguentou o olhar.

- Estou chocadíssima - disse Patrícia, finalmente. - Como é que pôde fazer uma coisa destas? Se ele não fosse o meu único filho, talvez não me fizesse sofrer tanto.

- A que é que se está a referir? - perguntou Cassi.

- E ainda por cima escolher um dos colegas de Thomas - continuou Patrícia, ignorando a mulher mais nova. - Um homem que tem constantemente tentado abalar a sua posição. Se queria arranjar um amante, por que é que não escolheu um estranho?

- Não tenho nenhum amante - disse Cassi, exasperada. - Isto é absurdo. Santo Deus, Thomas não está em si.

Observou a sogra, tentando descobrir qualquer indício de que compreendera, mas Patrícia continuou muito rígida a olhar para a nora, com uma expressão que era um misto de tristeza e de ira.

Cassi estendeu os braços para a mulher.

- Por favor - implorou-, Thomas está com graves problemas. Não o quer ajudar?

Patrícia continuou inflexível.

Deixando cair os braços, Cassi observou a sogra enquanto ela caminhava para a porta com passos vacilantes. Parecia ter envelhecido dez anos desde a última vez que a vira. Se ao menos ela a ouvisse. Mas Cassi apercebeu-se finalmente que Patrícia preferia dar cabo de si com uma mentira do que enfrentar a verdade, bem mais assustadora da tóxico-dependência de Thomas. Por muito que Patrícia criticasse Thomas, Cassi sabia que não conseguia conceber a possibilidade de haver qualquer coisa de verdadeiramente errado com o filho.

Cassi ficou na sala em penumbra durante muito tempo, depois de ouvir a porta de entrada fechar-se. Tinha chorado mais lágrimas nas últimas quarenta e oito horas do que nos últimos vinte anos. Como é que Thomas podia pensar que ela tinha um amante? Era uma ideia absurda.

Finalmente, subiu pesadamente as escadas para ir ter com Thomas. Não podia de forma alguma ir para a cama. Tinha de tentar falar com ele. Hesitou durante alguns instantes à porta do escritório. Depois bateu levemente.

Não houve resposta.

Voltou a bater, com mais força. Como não houve realmente resposta, experimentou abrir a porta. Estava fechada à chave. Resolvida a falar com ele, Cassi foi ao quarto de visitas e entrou no escritório pela casa de banho que ligava as duas dependências.

Thomas estava sentado, imóvel, no seu sofá, olhando fixamente em frente, sem que os olhos focassem nada. Se porventura ouviu Cassi, a sua expressão não se alterou. Um ligeiro sorriso marcava-lhe os cantos da boca. Mesmo quando Cassi se ajoelhou e encostou a mão à sua face, não se mexeu.

- Thomas - disse ela, baixinho. Thomas olhou finalmente para ela.

- Thomas, nunca tive qualquer affair com o George. Nunca olhei para mais ninguém desde que te conheci. Amo-te Por favor, deixa-me ajudar-te.

- Não acredito em ti - disse Thomas, arrastando as palavras, que soaram empastadas. Depois revirou os olhos e perdeu consciência, enquanto Cassi lhe segurava na mão. Ela abriu a cama e tentou fazer que ele se deitasse, mas Thomas recusou-se. Cassi ficou sentada junto dele durante muito tempo antes de regressar ao seu quarto para tentar dormir.

 

Na manhã seguinte, Cassi levantou-se e vestiu-se antes de ouvir o despertador tocar no escritório. O despertador não parava de tocar. Preocupada, correu pelo corredor e abriu a porta. Thomas estava estendido na cadeira exactamente como ela o deixara na noite anterior.

- Thomas - disse ela, abanando-o.

- Que é? - murmurou ele.

- São seis menos um quarto. Não tens de operar esta manhã?

- Pensei que íamos à festa do Ballantine - murmurou ele entre dentes.

- Thomas, isso foi a noite passada. Meu Deus, talvez seja melhor dares parte de doente. Nunca faltas. Deixa-me telefonar à Doris para ver se ela pode adiar as tuas operações.

Thomas pôs-se de pé com dificuldade. Oscilou e teve de se apoiar ao braço do sofá.

- Não, estou óptimo. - A sua voz estava ligeiramente empastada. - Com o corte que me fizeram no tempo de BO, só conseguirei voltar a marcar estas operações daqui a semanas. Este mês há doentes que já esperaram demasiado tempo.

- Então deixa que outra pessoa...

Thomas ergueu a mão tão rapidamente que Cassi pensou que ele lhe ia bater, mas ele limitou-se a dirigir-se aos tropeções para a casa de banho, batendo com a porta. Instantes depois, Cassi ouviu-o abrir o chuveiro. Quando desceu, parecia mais bem disposto, provavelmente por ter tomado um ou dois comprimidos de Dexedrina, pensou Cassi.

Bebeu rapidamente um copo de sumo e uma chávena de café e dirigiu-se para a garagem.

- Mesmo que consiga vir para casa logo à noite, chegarei muito tarde, portanto é melhor levares o teu carro - disse sem olhar para trás.

Cassi ficou sentada à mesa da cozinha durante bastante tempo antes de ela própria se pôr a caminho do hospital. Pela primeira vez, pensou, não é apenas com Thomas que estou preocupada. É com os seus doentes. Já não sei se é seguro ele continuar a operar.

Quando chegou ao Boston Memorial, Cassi decidira fazer três coisas assim que a reunião de grupo terminasse. Marcaria a data da intervenção cirúrgica ao seu olho, trataria da necessária dispensa de serviço e iria falar com o Dr. Ballantine para lhe confidenciar os temores que tinha em relação a Thomas. Afinal de contas, o problema afectava tanto o hospital como a sua vida de casada.

Joan notou a preocupação de Cassi, mas antes de ter oportunidade de lhe fazer qualquer pergunta, no final da reunião Cassi disse qualquer coisa sobre ter de ir falar com o seu oftalmologista e saiu apressadamente.

O Dr. Obermeyer interrompeu o seu trabalho assim que viu Cassi aparecer. Saiu do gabinete interior com a lâmpada semelhante à dos mineiros ainda presa à cabeça.

- Espero que tenha tomado a decisão acertada - disse. Cassi assentiu.

- Gostaria de marcar a intervenção para assim que for possível. Na verdade, quanto mais depressa melhor, antes de ter oportunidade para mudar de ideias.

- Estava à espera que me dissesse isso mesmo - disse o Dr. Obermeyer. - Até tomei a liberdade de marcar a sua intervenção como uma semiurgência para depois de amanhã. Está bem para si?

Cassi sentiu a boca seca, mas assentiu obedientemente.

- Perfeito - disse o Dr. Obermeyer com um sorriso. - Não se preocupe com nada. Trataremos de tudo. Dará entrada no hospital amanhã - disse, tocando para chamar a secretária.

- Durante quanto tempo é que ficarei impedida de trabalhar? - perguntou Cassi baixinho. - Tenho de dizer qualquer coisa ao director do serviço de psiquiatria.

- Depende do que descobrirmos, mas creio que será entre uma semana a dez dias.

- Tanto tempo? - disse Cassi, pensando no que é que aconteceria aos seus doentes.

Enquanto se dirigia lentamente para o edifício de consultas, Cassi decidiu telefonar ao Dr. Ballantine antes de perder a coragem. Foi ele próprio que atendeu o telefone e assegurou-lhe que se não tivesse de operar falaria com ela daí a meia hora.

Depois de tratar da dispensa do serviço, Cassi decidiu fazer tempo antes da entrevista com o Dr. Ballantine visitando o serviço de patologia. Podia dizer a Robert que ia ser operada e só o facto de o ver dava-lhe confiança. Mas quando chegou ao gabinete dele encontrou-o vazio. Uma das técnicas disse-lhe que Robert não iria trabalhar. Ia ser internado nessa tarde para ser operado e decidira sair para comer o que provavelmente seria a sua última refeição decente durante uma semana.

Cassi já estava no elevador quando se lembrou de Jeoffry Washington. Voltando ao laboratório, pediu as lamelas à técnica. A mulher localizou o recipiente de Jeoffry Washington sem qualquer dificuldade, mas explicou-lhe que só metade das lamelas estavam prontas. Disse ainda que cada caso demorava pelo menos dois dias a terminar e sugeriu que Cassi voltasse no dia seguinte para dispor de todos os resultados. Cassi disse que compreendia, mas que estava apenas interessada nas montagens H & E da veia, que provavelmente já estavam prontas.

De facto as lamelas que Cassi pretendia estavam prontas e foram as primeiras que viu quando abriu o recipiente. Eram um total de seis, marcadas VEIA BASÍLICA ESQUERDA, ESFREGAÇO H & E, seguidas do número de autópsia de Jeoffry Washington.

Cassi sentou-se ao microscópio de Robert, ajustou as lentes e focou a primeira lamela. Havia uma pequena estrutura circular irregular dentro de uma mancha de tecido cor-de-rosa. Mesmo sem grande aumento de imagem, Cassi viu qualquer coisa de estranho. Observando mais atentamente, identificou múltiplos precipitados brancos, muito pequenos, à volta do interior da veia. Depois examinou as paredes da veia. Pareciam absolutamente normais. Não havia qualquer infiltração de células inflamatórias. Cassi pensou se as pequeníssimas lâminas brancas teriam sido introduzidas durante o processo de montagem. Não havia forma de saber. Verificou as outras lamelas e encontrou o mesmo precipitado em todas, menos numa.

Cassi levou-as de novo para o laboratório e mostrou-as à técnica, que também se mostrou perplexa. Cassi decidiu dizer a Robert assim que descobrisse em que quarto ele estava. Olhando para o relógio, apercebeu-se de que eram horas de ir falar com Ballantine.

Ele estava a comer uma sanduíche à secretária e perguntou a Cassi se queria que mandasse buscar alguma coisa à cafetaria. Ela abanou a cabeça. Dado o que tinha para dizer, nem sabia bem se voltaria a querer comer.

Começou por pedir desculpa pela cena que Thomas fizera, mas o Dr. Ballantine interrompeu-a, assegurando-lhe que a festa tinha sido um enorme êxito e que duvidava que alguém se lembrasse do incidente. Cassi gostaria de conseguir acreditar nisso; infelizmente, sabia que era exactamente o tipo de cena escandalosa da qual ninguém se esquecia.

- Falei com Thomas várias vezes esta manhã - disse o Dr. Ballantine. - Vi-o por acaso antes de ele ir operar.

- Como é que ele lhe pareceu? - perguntou Cassi. Ainda se lembrava vividamente de Thomas inconsciente no sofá de couro e depois como fora aos tropeções para a casa de banho.

- Perfeitamente bem. Parecia estar bem disposto. Fiquei satisfeito por ver que as coisas tinham voltado à normalidade.

Para seu grande embaraço, Cassi sentiu que os olhos se lhe marejavam de lágrimas. Prometera a si própria que isso não aconteceria.

- Então, então - disse o Dr. Ballantine. - Toda a gente por vezes estoira sob pressão. Não dê demasiada importância ao incidente de ontem à noite. É perfeitamente compreensível, dado o volume de trabalho que ele tem tido. Talvez não desculpável, mas compreensível. Os colegas até comentaram que ele tem passado um número invulgarmente elevado de noites no hospital. Diga-me, minha querida, Thomas tem agido de uma forma normal em casa?

- Não-disse Cassi, baixando os olhos e fitando as mãos, que estavam imóveis no colo. Assim que começou a falar, as palavras fluíram com facilidade. Disse ao Dr. Ballantine qual tinha sido a reacção de Thomas à sua operação e confessou que a sua relação andava tensa há já algum tempo, mas que não achava que isso se devia à doença dela. Thomas sabia que ela tinha diabetes antes de se casarem e, à excepção do problema da visão, a situação clínica não se alterara. Achava que as complicações clínicas surgidas com ela não explicavam a ira de Thomas.

Fez uma pausa, começando a suar de tão ansiosa que estava.

- Creio que o verdadeiro problema é que Thomas tem andado a tomar demasiados comprimidos. Eu sei que muitas pessoas tomam ocasionalmente Dexedrina ou um comprimido para dormir, mas Thomas pode estar a tomá-los em excesso. - Voltou a fazer uma pausa e olhou para Ballantine.

- Já ouvi alguns comentários - disse Ballantine, pensativamente. - Um dos internos referiu que ele tinha uma certa tremura. Não viu que eu estava atrás dele no corredor. Exactamente que é que Thomas tem andado a tomar?

- Dexedrina para o manter acordado e Percodan e Talwin para se acalmar.

O Dr. Ballantine dirigiu-se para a janela e ficou a olhar para a sala de estar do serviço cirúrgico que ficava mesmo em frente. Voltando-se de novo para Cassi, pigarreou para clarear a garganta. A sua voz continuava calorosa.

- O facto de ter facilidade em arranjar drogas pode ser uma forte tentação para um médico, especialmente se trabalha tanto como Thomas. - Ballantine voltou para a secretária e sentou-se. - Mas a facilidade em arranjar drogas é apenas uma parte da questão. Muitos médicos têm também a sensação de que têm direito a elas. Passam todo o dia a tratar de pessoas e sentem que eles próprios merecem uma certa ajuda quando precisam. Drogas ou álcool. É uma situação extremamente comum. E dado que foram treinados para serem auto-suficientes, em vez de falarem com outro médico, automedicam-se.

Cassi ficou extremamente aliviada por o Dr. Ballantine receber a notícia sobre Thomas com tanta calma. Pela primeira vez em muitos dias sentiu-se optimista.

- Creio que o mais importante é mantermos isto entre nós - disse o Dr. Ballantine. - Se se verificarem mexericos, só servirão para prejudicar o seu marido e o próprio hospital. Aquilo que vou fazer é ter uma conversa diplomática com Thomas e ver se conseguimos resolver o problema antes de se tornar incontrolável. Como já vi situações destas antes, posso-lhe garantir, Cassi, que o problema de Thomas é um problema menor. Ele tem aguentado a habitual carga cirúrgica.

- Não está preocupado com os doentes dele? - perguntou Cassi. - Quero dizer, tem-no visto operar ultimamente?

- Não - admitiu o Dr. Ballantine.- Mas seria o primeiro a saber se se passasse qualquer coisa.

Cassi ficou com uma certa dúvida.

- Conheço Thomas há dezassete anos - disse Ballantine num tom tranquilizador. - Se alguma coisa de grave se passasse, eu sabê-lo-ia.

- Como é que vai abordar a questão? - perguntou Cassi. O Dr. Ballantine encolheu os ombros.

- Vou tocar de ouvido.

- Não lhe vai dizer que eu falei consigo, pois não? - perguntou Cassi.

- Claro que não - disse o Dr. Ballantine.

Com um ramo de íris na mão comprado na florista do hospital, Cassi percorreu o corredor do décimo oitavo piso até ao quarto 1837. A porta estava entreaberta. Bateu e espreitou. Na cama estava uma figura tapada com um lençol e segurando-o de forma a tapar a cara até aos olhos. Estava a tremer, aparentemente de terror.

- Robert!-exclamou Cassi, rindo. - Que diabo...

Robert saltou da cama, vestido com o seu próprio pijama e roupão.

- Vi-te vir - disse. Ao ver as flores, perguntou: - São para mim?

Cassi entregou-lhe o pequeno ramo. Robert arranjou-as cuidadosamente no jarro de água antes de pôr na mesinha-de-cabeceira.

Cassi olhou em volta do quarto e viu que não tinha sido a primeira. Havia uma dúzia de ramos de flores ao todo.

- Tem um certo ar de funeral - disse Robert.

- Não quero que faças esse tipo de humor - disse Cassi, dando-lhe um abraço. - Não há nada melhor do que haver muitas flores. Quer dizer que tens muitos amigos - acrescentou, sentando-se aos pés da cama.

- Nunca estive num hospital como doente - disse Robert, puxando uma cadeira como se fosse uma visita. - Não gosto. Faz-me sentir tão vulnerável.

- Habituas-te - disse Cassi. - Acredita no que te digo. Sou profissional.

- O verdadeiro problema é que sei demasiado - disse Robert. - Garanto-te que estou aterrorizado. Convenci o anestesista a duplicar a minha medicação para dormir. Senão sei que ficaria acordado toda a noite.

- Daqui a alguns dias não perceberás por que é que estavas tão nervoso.

- Isso é fácil de dizer quando se está vestido para sair como tu. - Robert ergueu o pulso, onde tinha uma pulseira de plástico com o seu nome. - Tornei-me uma estatística.

- Talvez te sintas melhor se souberes que a tua coragem me levou a tomar medidas. Vou ser internada amanhã.

A expressão de Robert transformou-se, denotando compaixão.

- Agora sou eu que me sinto idiota. Estou aqui preocupadíssimo com dois dentes, enquanto tu tens de enfrentar cirurgia oftálmica.

- Uma anestesia é uma anestesia - disse Cassi.

- Acho que fizeste bem - disse Robert. - E tenho um pressentimento de que a tua operação vai ser cem por cento bem sucedida.

- E quais são as tuas hipóteses? - troçou Cassi.

- Hum... cinquenta por cento - disse Robert, rindo. - Olha, tenho uma coisa para te mostrar.

Robert levantou-se e dirigiu-se para a mesinha-de-cabeceira. Pegou num dossier e aproximou-se de Cassi.

- Coligi os dados dos casos de MCS com a ajuda do computador. Descobri algumas coisas interessantes. Em primeiro lugar, como sugeriste, todos os doentes estavam a soro. Além disso, nos dois últimos anos, os casos verificaram-se cada vez com maior incidência em doentes que estavam em condições físicas estáveis. Por outras palavras, as mortes tornaram-se cada vez mais inesperadas.

- Meu Deus - disse Cassi. - E que mais?

- Andei às voltas com os dados, introduzindo todos os parâmetros para o nosso estudo, à excepção de cirurgia. O computador forneceu mais alguns casos, incluindo um doente chamado Sam Stevens. Morreu inesperadamente durante o cateterismo cardíaco. Era atrasado mental, mas estava em excelentes condições físicas.

- Estava a soro? - perguntou Cassi.

- Nem mais - disse Robert.

Ficaram a olhar um para o outro durante alguns instantes.

- Por fim, o computador indicou que havia uma preponderância de doentes masculinos. O que é curioso é que sempre que os dados eram suficientes, o computador indicou um número invulgarmente elevado de homossexuais!

Cassi ergueu os olhos dos papéis e olhou para o rosto amigo de Robert. A homossexualidade nunca fora referida entre eles e Cassi sentiu relutância em discuti-la.

- Fui à patologia para te ver esta manhã - disse, mudando de assunto. - Não te vi, mas encontrei algumas das lamelas de Jeoffry Washington. Quando observei as secções retiradas do local de implantação da agulha do soro, descobri um precipitado branco ao longo do interior da veia. Inicialmente, pensei tratar-se de um produto artificial, mas estava presente em todas as lamelas, à excepção de uma. Achas que pode ser significativo?

Robert apertou os lábios.

- Não - disse, finalmente. - Não me parece. A única coisa que me ocorre é que quando se acrescenta inadvertidamente cálcio a uma solução de bicarbonato se verifica um precipitado, mas isso aconteceria no frasco de soro, e não na veia. Calculo que o precipitado poderia correr para a veia, mas seria tão evidente no frasco que todos veriam. Talvez me ocorra qualquer ideia quando vir a secção, Mas por agora basta deste assunto mórbido. Conta-me como foi a festa ontem à noite. Que levaste vestido?

Cassi falou-lhe da festa. Havia a possibilidade de Robert vir a saber o que se tinha passado por mexericos no hospital, mas não quis falar nisso. Ficou muito admirada por Robert não ter reparado nos seus olhos avermelhados. Normalmente era muito observador. Mas concluiu que estava compreensivelmente preocupado com o facto de estar internado. Prometendo visitá-lo no dia seguinte. Cassi foi-se embora antes de ceder à tentação de o sobrecarregar com os seus próprios problemas.

 

Larry Owen sentia-se como uma corda de guitarra esticada ao máximo, prestes a partir-se ao menor aumento de tensão. Thomas Kingsley tinha chegado atrasado nessa manhã e ficara furioso por Larry ter esperado que ele aparecesse fisicamente antes de começar a abrir o peito do primeiro doente. Muito embora tivesse feito a incisão numa velocidade recorde, a má disposição de Thomas não se alterou. Nada satisfazia o cirurgião. Não só Larry fizera um trabalho vergonhoso, como as enfermeiras instrumentistas não lhe estavam a passar os instrumentos correctamente, os internos não estavam posicionados de forma a facilitar-lhe a acção e o anestesista era um incompetente filho da mãe. E para agravar as coisas, deram-lhe um suporte de agulha avariado, que Thomas atirara com tal violência contra a parede que se partira ao meio.

No entanto, Larry já suportara este tipo de comportamento antes. O que o estava a pôr fora de si era a capacidade cirúrgica de Thomas. Logo que começou a operar, tornou-se evidente que estava exausto. A sua coordenação de movimentos normalmente perfeita estava afectada e a sua capacidade de avaliação deficiente. E, o pior de tudo, Thomas sofria de uma tremura incontrolável. Larry quase teve um ataque de coração quando viu Thomas inclinar-se sobre o coração do doente com uma agulha tão afiada como uma lâmina e tentar dirigir o instrumento para a parte da delicada veia safena que estava a tentar suturar ao pequeníssimo vaso coronário.

Larry esperara em vão que a tremura diminuísse à medida que a manhã avançasse. Pelo contrário, piorou.

- Quer que eu suture este? - perguntou Larry por várias vezes. - Acho que da posição em que estou vejo um pouco melhor.

- Se quiser a sua ajuda, pedi-la-ei - foi a única resposta de Thomas.

Conseguiram, sem saber muito bem como, operar os dois primeiros casos, tendo os bypasses sido relativamente bem suturados e os doentes retirados do aparelho coração-pulmão. Mas Larry nem queria pensar no terceiro caso, um homem de trinta e oito anos, casado, com dois filhos pequenos. Larry tinha aberto o peito do doente e estava à espera que Kingsley regressasse da sala de estar. A pulsação do interno estava aceleradíssima e começara a suar copiosamente. Quando Thomas finalmente irrompeu pela porta da SÓ, Larry sentiu formar-se um nó de medo do estômago.

A princípio, as coisas correram relativamente bem, embora a tremura de Thomas não tivesse diminuído e o seu nível de frustração parecesse ainda mais baixo. Mas a equipa de cirurgia de coração aberto, já de pé atrás depois dos dois primeiros casos, teve cuidado para não o aborrecer de nenhuma forma. A tarefa pior coube a Larry, que tentou antecipar os movimentos descoordenados de Thomas e fazer o máximo do trabalho que ele lhe ia permitindo. O verdadeiro problema só surgiu na altura em que começaram a suturar os bypasses no lugar. Larry não conseguia ver, pois afastou a cara para Thomas aproximar o suporte da agulha do coração.

- Merda! - gritou Thomas.

Larry sentiu o estômago dar uma volta quando viu Thomas retirar a mão. do local da sutura com a agulha enterrada no dedo indicador. Inadvertidamente. Thomas puxou também um dos cateteres grandes que faziam a passagem do sangue do doente para o aparelho de circulação coração-pulmão. A cavidade começou a encher-se de sangue como se tivesse sido aberta uma torneira e segundos depois o sangue ensopava já as cobertas esterilizadas e pingava para o chão.

Desesperado, Larry enfiou a mão na cavidade e procurou aos apalpões o grampo que apertava a sutura à volta da veia cava. Felizmente, encontrou-o à primeira. Colocou-o habilmente no sítio e a perda de sangue diminuiu.

- Se eu tivesse condições capazes este tipo de problema não aconteceria - gritou Thomas furibundo, arrancando a agulha do indicador e deitando-a para o chão. Afastou-se da mesa de operações a massajar o dedo ferido.

Larry conseguiu aspirar o sangue da cavidade. Ao reinserir o cateter ligado ao aparelho, tentou pensar o que deveria fazer. Thomas não estava capaz de fazer mais operações nesse dia, no entanto era um suicídio profissional falar nisso. Finalmente, Larry decidiu que não aguentava a tensão. Assim que tamponou o local da intervenção afastou-se da mesa e foi para junto de Thomas, a quem Miss Goldberg estava a calçar novo par de luvas.

- Desculpe, Dr. Kingsley - disse Larry no tom de maior autoridade que conseguiu. - Tem sido um dia difícil para si. Desculpe se não o temos ajudado mais. O que é certo é que está exausto. Vou substituí-lo a partir daqui. Não precisa de voltar a calçar luvas.

Por instantes, Larry pensou que Thomas lhe ia bater, mas forçou-se a continuar.

- Já fez milhares destas operações, Dr. Kingsley. Ninguém o censurará por estar demasiado cansado para acabar uma delas.

Thomas começou a tremer. Depois, para intenso espanto e alívio de Larry, tirou as luvas com um gesto brusco e saiu da sala. Larry suspirou e trocou um olhar com Miss Goldberg.

- Volto já - disse Larry à equipa. De bata e de luvas postas, Larry saiu da SÓ. Esperava que algum dos cirurgiões cardíacos estivesse disponível e ficou aliviado quando viu o Dr. George Sherman a sair da SÓ nº 6. Larry chamou-o e contou-lhe discretamente o que se passara.

- Vamos - disse George. - E não quero ouvir uma palavra sequer sobre isto fora da SÓ, entende. Isto podia ter acontecido a qualquer um de nós; se este incidente se tornasse do conhecimento público seria desastroso, não só para o Dr. Kingsley como para o hospital.

- Eu sei - disse Larry.

Thomas nunca se sentira tão furioso em toda a sua vida. Como é que Larry ousara sugerir que ele estava demasiado cansado? A cena tinha sido um pesadelo. Fora o medo obsessivo de um tal desastre que o levara inicialmente a tomar ocasionalmente um comprimido para dormir. Estava perfeitamente capaz de terminar a operação e se não estivesse tão perturbado com a infidelidade de Cassi obviamente não se teria vindo embora. Furioso, atravessou a sala de estar do serviço de cirurgia e dirigiu-se para o telefone junto à máquina de café. Ligou para Doris e disse-lhe que verificasse se não havia urgências e pediu-Lhe que marcasse os pacientes dessa tarde para outro dia. Já estava atrasado e não se sentia com disposição para ver doentes. Doris ia já a desligar quando se lembrou que Ballantine tinha telefonado a perguntar se Thomas iria ao consultório.

- Que é que ele queria? - Perguntou Thomas.

- Não disse - respondeu Doris. - Perguntei-lhe qual era o assunto, no caso de ser necessário preparar o dossier de algum doente, mas ele disse que só queria falar consigo.

Thomas disse à enfermeira do balcão central que estaria no gabinete do Dr. Ballantine no caso de haver qualquer chamada para ele. Para se acalmar e aliviar a dor de cabeça que se agravara progressivamente, Thomas tirou outro Percodan do cacifo. Depois, vestiu uma bata branca de laboratório e saiu da sala de estar, interrogando-se sobre o que o esperaria. Achava que o director não o tinha chamado para falar sobre a cena com George Sherman na festa e também com certeza que não se relacionaria com o incidente com Larry Owen. Devia ter a ver com o serviço em geral. Recordou-se do estranho comentário que o accionista do hospital fizera na noite anterior e convenceu-se de que Ballantine ia finalmente falar-lhe sobre os seus planos. Havia sempre a hipótese de Ballantine estar a pensar em reformar-se e de querer discutir atribuir a chefia a Thomas.

- Obrigado por ter vindo falar comigo - disse o Dr. Ballantine assim que Thomas se sentou no seu gabinete.

Parecia pouco à vontade e Thomas mexeu-se na cadeira, um tanto inquieto.

- Thomas - começou finalmente Ballantine -, creio que devemos falar francamente. Garanto-lhe que o que dissermos não passará daqui.

Thomas cruzou as pernas, assentando o tornozelo no joelho, firmando-o com a mão quando o pé começou a tremer ritmadamente.

- Foi-me chamada a atenção para o facto de poder estar a tomar drogas em excesso.

O pé de Thomas parou de tremer. A dor de cabeça tornou-se insuportável. Embora sentisse uma onda de ira a invadi-lo, a sua expressão manteve-se inalterada.

- Quero que saiba que esse problema não é invulgar - disse o Dr. Ballantine.

- Que tipo de drogas acha que eu ando a tomar? - perguntou Thomas, fazendo um esforço titânico para controlar as suas emoções.

- Dexedrina, Percodan e Talwin - disse o Dr. Ballantine. - Uma combinação comum.

Thomas estudou o rosto do Dr. Ballantine com os olhos semicer-rados. Odiava a expressão paternalista do colega mais velho. A ironia de estar a ser julgado por aquele idiota incompetente levou Thomas à beira de uma fúria incontrolável. Felizmente que o Percodan que tomara na sala de estar começara a fazer efeito.

- Gostava de saber quem é que levou ao seu conhecimento esta ridícula mentira - conseguiu dizer num tom calmo.

- Isso não é importante. O que é importante...

- É importante para mim - disse Thomas. - Quando alguém começa a lançar este tipo deplorável de boatos, deve ser responsabilizado. Deixe-me adivinhar: George Sherman.

- De forma alguma - disse o Dr. Ballantine. - E a propósito, falei com George sobre o lamentável incidente de ontem à noite. Ele ficou estupefacto com a sua acusação.

- Pois sim! - retorquiu Thomas num tom azedo. - É do conhecimento geral que George tentou, sem êxito, casar com Cassi antes de eu a conhecer. E dei-lhe todas as oportunidades, por ficar frequentemente a trabalhar à noite...

O Dr. Ballantine interrompeu-o.

- Não me parece que isso constitua uma prova fundamentada, Thomas. Não acha que está a exagerar?

- De forma alguma - disse Thomas, descruzando as pernas e pousando o pé no chão com violência. - O senhor viu-os juntos na sua festa.

- A única coisa que vi foi uma rapariga muito bela que apenas parecia interessada no marido. Thomas, você é um homem de sorte. Espero que tenha consciência disso. Cassi é uma pessoa muito especial.

Thomas sentiu-se tentado a levantar-se e ir-se embora, mas Ballantine continuava a falar, - Creio que tem andado a trabalhar de mais, Thomas. Está a tentar fazer demasiado. Santo Deus, homem, que é que está a tentar provar? Já nem me lembro quando é que meteu dispensa da última vez.

Thomas ia a interrompê-lo, mas o Dr. Ballantine não deixou.

- Toda a gente precisa de descansar. Além do mais, tem responsabilidades para com a sua mulher. Acontece que sei que Cassi precisa de se submeter a uma intervenção cirúrgica à vista. Não acha que ela precisa que tenha tempo para lhe dar apoio?

Thomas ficou com a certeza quase absoluta de que Ballantine falara com Cassi. Por mais incrível que parecesse, ela devia ter ido contar-lhe as suas fantasias loucas sobre a sua tóxico-dependência. Como se não bastasse ter falado com a mãe dele, pensou, ainda tinha de ir falar com o director de serviço. Thomas apercebeu-se subitamente de que Cassi o podia destruir. Podia destruir a carreira que passara toda a vida a construir.

Felizmente para Thomas, o seu instinto de preservação era mais forte do que a sua ira. Forçou-se a pensar com uma lógica dura e fria enquanto Ballantine terminava.

- Gostaria de lhe sugerir que tirasse umas férias bem merecidas.

Thomas sabia que o director teria uma enorme satisfação em vê-lo fora do hospital enquanto o pessoal docente lhe cortaria o seu tempo de utilização de BO, mas conseguiu sorrir.

- Olhe, este assunto tomou proporções desmedidas - disse calmamente. - Talvez ande de facto a trabalhar demasiado, mas a única razão é por haver tanto que fazer. No que respeita ao problema da vista de Cassandra, é claro que tenciono passar algum tempo com ela depois da intervenção. Mas cabe a Obermeyer dizer-lbe como é que há-de resolver da melhor forma os seus problemas da retina.

Ballantine ia a falar, mas Thomas interrompeu-o.

- Eu escutei-o a si - disse Thomas -, agora peço-lhe que me escute a mim. Sobre essa ideia de que estou a abusar de drogas, sabe que não bebo café. Nunca me caiu bem. Portanto, é verdade que por vezes tomo um comprimido de Dexedrina. Mas não me faz mais efeito do que um café. Só que não o posso diluir com leite ou natas. Admito que pode ter implicações sociais diferentes, sobretudo se uma pessoa o tomar para fugir da vida, mas eu apenas o tomo para trabalhar mais eficientemente. E quanto ao Percodan e ao Talwin, sim. é verdade, também tomo um comprimido de vez em quando. Tenho uma certa propensão para enxaquecas desde novo. Não são frequentes, mas quando elas surgem, a única coisa que me faz efeito é o Percodan ou o Talwin. Às vezes um, outras vezes outro. E dir-lhe-ei mais outra coisa. Teria todo o gosto que o colega ou outra pessoa qualquer investigasse os meus hábitos de prescrição de medicamentos. Veriam imediatamente a quantidade destes medicamentos que receito e a quem.

Thomas inclinou-se para trás na cadeira e cruzou os braços. Continuava a tremer e não queria que Ballantine desse por isso.

- Bom! - disse Ballantine, com evidente alívio. - Parece-me uma explicação perfeitamente razoável.

- O colega sabe tão bem como eu que todos nós tomamos ocasionalmente um comprimido - disse Thomas.

- É verdade - disse o Dr. Ballantine. - O problema surge quando um médico perde o controlo do número de comprimidos que toma.

- Mas nesse caso trata-se de abuso de drogas - disse Thomas. - Nunca tomei mais de dois comprimidos em vinte e quatro horas, e isso só quando estou com enxaqueca.

- Devo dizer-lhe que me sinto muito aliviado - disse o Dr. Ballantine. - Francamente, estava preocupado. Mas trabalha demasiado. Continuo a achar que deve tirar férias.

Disso não tenho a menor dúvida, - pensou Thomas.

- E quero que saiba que todo o serviço apenas deseja o melhor para si - continuou Ballantine. - Mesmo que se verifiquem algumas alterações no futuro, continuará sempre a ser um elemento chave do nosso serviço.

- Isso é tranquilizador - disse Thomas. - Calculo que tenha sido a Cassandra que lhe falou nos comprimidos. - O tom de voz de Thomas foi casual.

- Não interessa quem me chamou a atenção - disse o Dr. Ballantine, levantando-se. - Especialmente agora, que eliminou os meus receios.

Thomas ficou então com a certeza de que tinha sido Cassi. Ela devia ter procurado na secretária e encontrado os frascos. Sentiu-se invadido por nova onda de ira.

Levantou-se, com os punhos cerrados. Sabia que tinha de estar sozinho durante algum tempo. Despediu-se, forçando-se a agradecer a Ballantine pela sua preocupação, e saiu apressadamente do gabinete.

Ballantine fitou-o atentamente. Sentia-se mais tranquilo em relação a Thomas, mas não totalmente descansado. A cena na festa tinha-o perturbado bastante e havia boatos persistentes que recentemente tinham passado a correr entre o pessoal médico. Não queria arranjar problemas com Thomas. Não naquela altura, pois podia deitar tudo a perder.

Quando a porta da sala de espera se abriu, Doris meteu rapidamente o romance que estava a ler numa gaveta num movimento rápido, feito de prática. Ao ver Thomas, pegou nas mensagens telefónicas e saiu de trás da secretária. Depois de uma tarde inteira sozinha no seu gabinete estava contente por ver outro ser humano.

Thomas agiu como se ela fizesse parte do mobiliário. Para surpresa de Doris, passou por ela sem o mais ligeiro cumprimento. Doris estendeu a mão para lhe agarrar o braço, mas não foi a tempo, pois Thomas continuou a andar em direcção ao seu gabinete como um sonâmbulo. Doris foi atrás dele.

- Thomas, o Dr. Obermeyer telefonou e...

- Não quero saber de nada - disse num tom irritado, preparando-se para fechar a porta.

À boa maneira de um vendedor porta-a-porta, Doris meteu o pé para impedir que a porta se fechasse. Estava decidida a dar as mensagens a Thomas.

- Sai daqui - gritou Thomas.

Doris recuou, assustada, enquanto ele batia violentamente com a porta.

Thomas ficou possuído pela ira que controlara durante a conversa com Ballantine. O seu olhar procurou qualquer objecto sobre o qual pudesse descarregar a sua fúria. Agarrou numa pequena jarra que Cassi lhe dera quando tinham ficado noivos e atirou-a ao chão, partindo-a em pedaços. Ao olhar para os cacos, sentiu-se um pouco melhor. Dirigiu-se para a secretária, abriu a segunda gaveta e agarrou num frasco de Percodan, deixando cair vários comprimidos em cima do tampo. Tirou um, voltou a guardar os restantes e foi à casa de banho buscar um copo de água.

Voltou para a secretária, meteu o frasco de comprimidos na gaveta e fechou-a. Começou a sentir-se mais controlado, mas continuava a não conseguir ultrapassar a traição de Cassi. Ela não percebia que a única coisa que lhe interessava era a sua cirurgia? Como' é que podia ser tão cruel ao ponto de tentar pôr em risco a sua carreira? Primeiro, indo ter com a mãe, a única que tinha de facto poder para o perturbar, depois, com George, e agora com o director do serviço. Não toleraria semelhante coisa. Tinha-a amado tanto quando se casaram. Ela era tão doce, tão delicada, tão dedicada. Por que é que ela estava a tentar destruí-lo? Não o permitiria. Iria...

Subitamente, Thomas pensou se Ballantine não estaria satisfeito com tudo aquilo. Já há algum tempo que tinha a insistente percepção de que se estava a passar algo de estranho entre Ballantine e Sherman.

Talvez tudo aquilo fizesse parte de algum plano para o prejudicar.

Thomas voltou a sentir um arrepio de medo. Tinha de fazer qualquer coisa... mas o quê?

Primeiro lentamente, depois com maior rapidez, as ideias começaram a formar-se. De repente, apercebeu-se do que podia fazer. Percebeu o que tinha de fazer.

 

Ainda perturbado pela conversa que tivera com Thomas, Ballan-tine decidiu passar pelo BO para ver se encontrava George. Sherman podia não ser um génio como Thomas, mas era um excelente cirurgião, consistente, de mão firme e um excelente administrador. O pessoal médico admirava-o e Ballantine estava cada vez mais disposto a apoiar a nomeação de George como director quando ele próprio se reformasse. Durante muito tempo, o conselho de administração do hospital tinha insistido com Thomas para passar a funcionário a tempo inteiro para ser elegível para o cargo, mas agora Ballantine até tinha dúvidas se Kingsley aceitaria.

Infelizmente, George ainda estava a operar. Ballantine ficou admirado e esperou que não tivesse havido qualquer problema. Sabia que George apenas tinha um caso para operar às sete e trinta nessa manhã e o facto de ele ainda estar no BO a meio da tarde não era bom sinal.

Ballantine decidiu aproveitar esse tempo para visitar Cassi na Clarkson Two. Embora não defendesse intransigentemente o futuro do marido dela, Ballantine queria tranquilizá-la o mais possível. Apesar de estar no Boston Memorial há muitos anos, Ballantine nunca fora à Clarkson Two; quando abriu a pesada porta contra incêndios sentiu que estava a entrar noutro mundo.

Em muitos aspectos nem sequer parecia um hospital. Parecia mais um hotel de segunda. Ao passar pela sala de estar principal, ouviu alguém a martelar num piano, bem como o som de um programa qualquer de televisão. Não havia ali nenhum dos ruídos tradicionalmente associados ao hospital, como o silvo de um aparelho de respiração assistida ou o tilintar característico dos frascos de soro nos suportes. Talvez aquilo que mais o incomodou foi o facto de toda a gente estar vestida normalmente. O Dr. Ballantine não conseguia distinguir quem eram os doentes e quem era o pessoal hospitalar. Queria encontrar Cassi, mas estava com medo de abordar uma pessoa errada.

O único sítio onde podia ter a certeza de quem era quem era o balcão das enfermeiras, e foi para lá que o Dr. Ballantine se dirigiu.

- Posso ajudá-lo? - perguntou uma mulher negra, alta e elegante, cuja placa com o nome dizia apenas Roxane.

- Estou à procura da Dr.a Cassidy - disse o Dr. Ballantine, pouco à vontade.

Antes de Roxane poder responder, Cassi meteu a cabeça pela porta da sala contígua.

- Dr. Ballantine! Que surpresa! -exclamou, levantando-se. Ballantine dirigiu-se para ela, voltando a admirar a sua beleza

frágil. Thomas devia ser louco em passar tantas noites no hospital, pensou.

- Posso falar-lhe durante alguns instantes? - perguntou Ballantine.

- Claro. Quer ir para o meu gabinete?

- Aqui está óptimo - disse Ballantine, indicando a sala vazia. Cassi afastou alguns dossiers.

- Tenho estado a fazer apontamentos sobre os meus doentes para os outros médicos utilizarem enquanto estiver ausente devido à minha intervenção cirúrgica.

Ballantine assentiu.

- A razão por que vim cá pessoalmente foi para lhe dizer que já falei com Thomas. Tivemos uma conversa muito agradável. Sinto que ele tem andado a trabalhar de mais e ele admitiu ter uma ligeira dependência da Dexedrína para se manter acordado, mas estou quase totalmente convencido de que só toma os analgésicos quando tem enxaquecas.

Cassi não respondeu. Tinha a certeza de que Thomas nunca mais tivera enxaquecas desde a sua adolescência.

- Bom - disse Ballantine num tom forçosamente jovial. - Trate de resolver o problema da vista e não se preocupe mais com o seu marido. Ele até se ofereceu para deixar que o seu registo de prescrições fosse examinado. - Levantou-se e deu uma pancadinha no ombro de Cassi.

Cassi queria desesperadamente compartilhar o optimismo do Dr. Ballantine. Mas ele não vira as pupilas de Thomas nem o seu andar inseguro. E o director não era alvo da sua disposição imprevisível.

- Espero que tenha razão - disse Cassi, suspirando.

- Claro que tenho razão - disse o Dr. Ballantine, aborrecido por o seu modo incentivador não ter resultado, preparando-se para se ir embora.

- E não referiu a nossa conversa, pois não? - acrescentou Cassi, apercebendo-se de que Ballantine estava a começar a ficar impaciente.

- Claro que não. De qualquer forma, os ciúmes de Thomas só provam que ele a adora. E com toda a razão - disse Ballantine, sorrindo.

- Obrigado por cá ter vindo - disse Cassi.

- Não é caso para me agradecer - disse Ballantine, acenando-Lhe. Dirigiu-se para a porta contra incêndios, aliviado por sair da Clarkson Two. Nunca comprendera como é que havia pessoas que queriam ir para psiquiatria.

Já no elevador, Ballantine abanou a cabeça. Detestava envolver-se em problemas familiares. Tinha tentado ajudar os dois Kingsleys. Procurara Cassi para a tranquilizar, mas ela não parecera disposta a ouvi-lo. Pela primeira vez, Ballantine começou a pôr em causa a objectividade de Cassi.

Saindo do elevador, Ballantine decidiu ver se George já tinha saído do BO.

Encontrou Sherman rodeado de vários médicos na sala de recuperação. Quando George viu o director, desculpou-se e seguiu Ballantine até ao corredor.

- Tive uma conversa muito preocupante com a mulher de Kingsley esta manhã - disse Ballantine, indo directo ao assunto. - Pensei que ela quisesse falar comigo para me pedir desculpa pelo incidente de ontem à noite. Mas não se tratava disso. Estava preocupada com a hipótese de Thomas andar a tomar drogas em excesso.

George ia responder, mas hesitou. Os internos tinham acabado de lhe descrever o comportamento de Kingsley no BO essa manhã, antes de George o ter ido substituir. Se contasse isso ao director podia causar graves problemas a Kingsley. E era sempre possível Thomas ter bebido demasiado na véspera, pois era evidente que ficara perturbado com a cena. George decidiu não falar nisso por enquanto.

- Acreditou em Cassi? - perguntou.

- Não sei bem. Falei com Thomas, que me respondeu muito pertinentemente, mas mesmo eu achei o seu comportamento invulgarmente descontrolado. - Ballantine suspirou. - Você sempre disse que não tinha interesse em ser director de serviço, mas mesmo que Kingsley aceite passar a tempo inteiro, talvez não seja a pessoa certa para o serviço depois da reorganização. Opõe-se claramente ao tipo de doentes que estamos a admitir para a área docente.

- Sim - disse George. - E não estou a ver Thomas a aceitar a ideia da cirurgia gratuita para atrasados mentais com vista a treinar novas equipas de cirurgiões vasculares.

- O ponto de vista dele não está necessariamente errado. Estes métodos dispendiosos deviam estar em primeiro lugar à disposição dos doentes com melhores hipóteses de sobrevivência a longo prazo. Mas em termos práticos, os internos raramente conseguem operar esses casos. E quanto ao hospital favorecer doentes mais produtivos para a sociedade, quem é que pode julgar tal coisa? Como você disse, George, somos médicos, não somos Deus.

- Talvez ele se acalme - disse George. - Se os nossos planos se concretizarem, vamos sem dúvida precisar dele no corpo docente.

- Esperemos - disse Ballantine. - Sugeri que ele fosse de férias com a mulher. A propósito, presumo que as acusações que lhe fez tivessem sido puramente paranóicas.

- Infelizmente, sim. Mas digo-lhe que se ela alguma vez me desse oportunidade, continuaria a lutar por ela. Aparte a sua espantosa beleza, é uma das mulheres mais carinhosas que alguma vez conheci.

- Veja se não perturba excessivamente o nosso génio - disse Ballantine, dando uma gargalhada. - Entretanto, acha que deva inspeccionar o registo de prescrições de Thomas?

- Mal não fará. Mas há outras formas de os médicos arranjarem medicamentos - disse George, pensando no colapso que Thomas tivera no BO.

- Esperemos que vá de férias depressa e que regresse como era.

- Certo - disse George, embora pessoalmente não gostasse particularmente de Thomas nesse tempo.

 

Cassi estava em estado de choque. Não conseguia acreditar na mudança que se operara em Thomas. Telefonara-lhe por volta das cinco a dizer que a operação dessa tarde tinha sido cancelada e que estava livre. Depois ofereceu-se para a levar para casa no Porsche, dizendo que ela devia deixar o carro dela no hospital.

Pela primeira vez em muitos meses, o jantar foi uma ocasião agradável. Thomas tinha-se subitamente tornado o mesmo homem encantador de outrora, o homem com quem Cassi casara. Tolerou as habituais queixas de Patrícia com um humor ligeiro e foi abertamente afectuoso para com Cassi.

Cassi estava extraordinariamente contente, embora um pouco confusa. Era difícil acreditar que Thomas tivesse esquecido os terríveis acontecimentos da noite anterior, mas observou-o espantada enquanto se apressou a fazer que a mãe regressasse ao seu apartamento e deu solicitamente um kahlua a Cassi, servindo um conhaque para si próprio. Depois, sentaram-se ambos no sofá oval à frente da lareira.

- Recebi um telefonema do Dr. Obermeyer - disse, bebendo um golo de conhaque. - Mas quando falei para ele, já saíra. Que se passa com a tua vista?

- Falei com ele hoje. Disse que a minha visão não melhorou e que tenho de ser operada.

- Quando? - O tom de Thomas era terno, enquanto fazia girar o conhaque no balão.

- O mais brevemente possível - disse Cassi num tom hesitante. Thomas aceitou a notícia com aparente bonomia e Cassi continuou.

- Creio que o Dr. Obermeyer te tentou falar porque marcou a minha operação para depois de amanhã. A menos que te oponhas, é claro.

- Opor-me? - perguntou Thomas. - Por que é que havia de me opor? A tua vista é demasiado importante para se brincar com ela.

Cassi suspirou de alívio. Tinha estado tão preocupada com a reacção de Thomas que não se apercebera de que retivera a respiração.

- Embora seja uma operação simples, não consigo deixar de estar assustadíssima.

Thomas inclinou-se para ela e pôs-lhe o braço à volta dos ombros.

- É claro que estás assustada. É uma reacção normal. Mas Martin Obermeyer é o melhor. Não podias estar em melhores mãos.

- Eu sei - disse Cassi com um leve sorriso.

- E esta tarde tomei uma decisão - disse Thomas, abraçando-a com mais força. - Assim que o Obermeyer te dê luz verde, vamos tirar umas férias. Iremos para um sítio qualquer, como as Caraíbas. O Ballantine convenceu-me de que preciso de descansar e não há altura melhor do que a tua convalescença. Que dizes?

- Acho maravilhoso. - Cassi voltou o rosto para o beijar quando o telefone tocou.

Thomas levantou-se para atender. Cassi teve esperança de que não fosse para o chamar ao hospital.

- Seibert - disse Thomas ao telefone. - Tenho muito gosto em ouvi-lo.

Cassi inclinou-se para a frente e pousou cuidadosamente o copo na mesa de café. Robert nunca lhe telefonava para casa. Aquele era o tipo de interrupção que podia enfurecer Thomas.

Mas ele estava a dizer calmamente:

- Ela está mesmo aqui, Robert. Não, não é tarde de mais. E passou o telefone a Cassi com um sorriso.

- Espero que não haja problemas por te ter telefonado para casa - disse Robert -, mas consegui ir à patologia e observar as secções da veia de Jeoffry Washington. Quando voltei para o quarto, lembrei-me onde é que já vira um precipitado como aquele. Foi quando fiz a autópsia a um homem que morrera num acidente industrial. Tinha entornado fluoreto de cálcio no colo. Muito embora se tivesse lavado, a quantidade absorvida dessa substância foi mortal. Tinha o mesmo tipo de precipitado nas veias.

Cassi baixou a voz, virando-se de costas para Thomas. Não queria que ele soubesse que continuava a seguir o estudo sobre as MCS.

- Mas o fluoreto de cálcio não é utilizado como medicação.

- É em estomatologia - disse Robert.

- Mas não é administrado internamente - murmurou Cassi. - E muito menos através de soro.

- É verdade - disse Robert. - Mas deixa-me dizer-te como é que esta vítima morreu. Teve um ataque de epilepsia e finalmente arritmia cardíaca aguda. Diz-te alguma coisa?

Cassi sabia que seis dos doentes da série de casos MCS tinham morrido com os mesmos sintomas, mas não disse nada. O fluoreto de sódio não era a única coisa que os podia provocar e não fazia sentido retirar conclusões precipitadas.

- Assim que voltar para o laboratório, poderei analisar este precipitado -disse Robert. - Verificarei se se trata de fluoreto de cálcio. Se for, sabes o que isso significa, não sabes?

- Faço uma ideia - disse Cassi com relutância.

- Significa assassínio - disse Robert.

- De que é que estiveram a falar? - perguntou Thomas quando Cassi se voltou a sentar no sofá. - O Robert fez alguma descoberta relevante em relação à série de casos de MCS? - Para surpresa de Cassi, Thomas apenas parecia curioso e não aborrecido. Decidiu que podia aflorar o progresso que Robert fizera.

- Ainda está a trabalhar nisso - disse. - Tinha começado a coligir os dados antes de ser internado. Tem um registo computori-zado que revela resultados bastante interessantes.

- Tais como? - perguntou Thomas.

- Abre uma série de possibilidades - disse Cassi evasivamente. - Não pode desprezar nenhum aspecto. Quero dizer, podem acontecer muitas coisas num hospital. Lembras-te daquelas pobres pessoas a quem foi administrado curare em Nova Jérsia? - Cassi riu nervosamente.

- Decerto que não suspeita de assassínio? - disse Thomas.

- Não, não - disse Cassi, arrependida por ter falado tanto.- Apenas notou um precipitado estranho na última autópsia que queria introduzir no computador para analisar. - Thomas assentiu e pareceu pensativo. Na esperança de o fazer recuperar o seu bom humor, Cassi acrescentou: - Robert ficou muito grato por teres inter-vido a favor dele.

- Eu sei - disse Thomas, sorrindo subitamente. - Não o fiz por ele, mas se ele insiste em interpretar a minha atitude dessa forma, por mim não há problema. Agora acho que devemos ir para a cama.

Enquanto Thomas a conduzia ternamente para o andar de cima, Cassi não teve a certeza do que acabara de ver nos seus olhos extraordinariamente azuis. Estremeceu, sem saber se seria de agradável antecipação.

 

Cassi não estivera internada num hospital desde que acabara o liceu. Agora, já depois de ter terminado o curso de medicina e tendo iniciado o estágio, era uma experiência completamente diferente, exactamente como Robert sugerira. O conhecimento que tinha de tudo o que podia acontecer tornava todo o processo muito mais assustador. Como fora para o hospital com Thomas, chegara lá demasiado cedo para ficar logo internada. Na realidade, disseram-lhe que teria de esperar até às dez horas, altura em que chegariam os funcionários que tratariam da sua admissão. Quando Cassi protestou que havia sempre pessoas a ser internadas durante a noite através do banco de urgências, a secretária limitou-se a dizer que ela teria de voltar às dez.

Depois de passar três horas improdutivas na biblioteca, demasiado nervosa para se concentrar em qualquer obra mais séria do que a revista Psycology Today, Cassi voltou ao balcão de internamento. O turno do pessoal mudara, embora a atitude fosse a mesma. Em vez de facilitarem o processo de internamento, pareciam dispostos a torná-lo o mais complicado possível, como se tratasse de um ritual. Desta vez, informaram Cassi de que, como não tinha cartão do hospital, não podia ser internada. Uma funcionária completamente desinteressada no que estava a fazer disse-lhe finalmente que fosse à secção de identificação, no terceiro andar.

Meia hora depois, munida de um cartão de identificação novo, que mais parecia um cartão de crédito, Cassi regressou ao balcão de admissão. Aí viu-se confrontada com um novo problema aparentemente insolúvel. Como no hospital usava o nome de solteira, Cassidy, dado ser este que constava no seu diploma, e como Thomas tinha feito o seu seguro de saúde no seu nome de casada, Kingsley, a secretária exigiu' que ela apresentasse a sua certidão de casamento. Cassi disse que não a tinha. Não era uma coisa que pensasse ser necessária para o seu internamento e disse que com certeza bastaria telefonar para o gabinete de Thomas para que a questão ficasse esclarecida. A secretária insistiu que tinha de introduzir os dados da certidão no computador, afirmando que ela não passava da criada do computador. Este impasse foi finalmente resolvido pelo chefe do departamento de admissões, que conseguiu de alguma forma que o computador aceitasse a informação. Finalmente, atribuíram-lhe um quarto no décimo sétimo andar e uma mulher simpática, de bata verde, com um distintivo que dizia VOLUNTÁRIA DO MEMORIAL, acompanhou Cassi.

Mas não directamente para o décimo sétimo andar. Primeiro levou Cassi ao segundo andar, para tirar uma radiografia ao tórax. Cassi protestou, dizendo que tirara uma radiografia apenas há seis semanas durante um exame de rotina e que não queria tirar outra. O responsável pelo raio X afirmou que nenhum anestesista anestesiaria fosse quem fosse que não tivesse uma radiografia e Cassi demorou mais uma hora até o chefe do serviço de anestesia telefonar a Obermeyer, que por sua vez telefonou a Jackson, chefe de radiologia. Depois de examinar a anterior radiografia de Cassi, Jackson voltou a telefonar a Obermeyer, que então telefonou ao chefe do serviço de anestesia, que por sua vez telefonou ao funcionário do serviço de radiologia, para lhe dizer que Cassi não precisava de nova radiografia.

O resto do processo de internamento de Cassi decorreu sem mais problemas, incluindo a ida ao laboratório para fazer análises de sangue e urina de rotina. Finalmente, Cassi foi depositada num quarto do hospital, impessoal, com as paredes azuis-claras e duas camas. A sua companheira de quarto tinha sessenta e um anos e uma ligadura a tapar-lhe o olho esquerdo.

- Chamo-me Mary Sullivan - disse a mulher depois de Cassi se apresentar. Parecia mais velha porque estava sem dentadura.

Cassi interrogou-se sobre que tipo de intervenção cirúrgica a mulher teria sido submetida.

- A retina caiu - disse Mary, como se se tivesse apercebido do interesse de Cassi. - Tiveram de tirar o olho e colá-la com um raio laser.

Cassi não conseguiu deixar de rir.

- Não creio que lhe tenham tirado o olho - disse.

- Tiraram, pois. Até lhe digo mais, quando tiraram a ligadura pela primeira vez, vi tudo a dobrar e pensei que o tivessem metido mal.

Cassi não estava com disposição para contra-argumentar. Desfez a mala, arrumando cuidadosamente a insulina e as seringas na gaveta da mesinha-de-cabeceira. Tomaria a habitual injecção nessa noite, mas depois disso não devia auto-injectar-se até ter autorização do interno que a seguiria, o Dr. Mclnery, para o fazer.

Depois vestiu o pijama. Parecia-lhe uma coisa absurda àquela hora do dia, mas sabia por que é que isso era uma das regras do hospital. O facto de os doentes estarem vestidos com roupa de dormir encorajava-os psicologicamente a submeterem-se à rotina hospitalar. A própria Cassi se sentiu diferente. Era agora uma doente.

Depois de tantos anos no hospital, ficou espantada como se sentia desconfortável sem o estatuto que a sua bata branca lhe conferia. O simples facto de sair do quarto que lhe tinha sido atribuído fazia que se sentisse pouco à vontade, como se estivesse de alguma forma a fazer qualquer coisa de errado. E quando chegou ao décimo oitavo andar para visitar Robert, sentiu-se uma intrusa.

Não obteve resposta quando bateu à porta do quarto 1847. Abriu silenciosamente a porta. Robert estava deitado de costas, a ressonar ligeiramente. Num dos cantos da boca tinha uma gota de sangue quase seco. Cassi aproximou-se da cama e ficou a olhar para de durante alguns instantes. Era evidente que ainda estava sob o efeito da anestesia. Como uma verdadeira profissional, Cassi verificou o frasco de soro. Estava a gotejar ritmadamente. Deu um beijo na ponta do dedo e tocou com ele na testa de Robert. Ao dirigir-se para a porta, reparou num molho de folhas de computador. Aproximou-se e olhou para a primeira página. Como já esperava, eram os dados do estudo sobre os casos de MCS. Ainda pensou em levá-los consigo, mas hesitou, com medo que Thomas os descobrisse no seu quarto. Lê-los-ia mais tarde com Robert.

Além disso, a levar a sério a nova teoria do seu amigo, aquele não era o tipo de provas que gostaria de ter no quarto na véspera da sua operação.

 

Thomas abriu a porta da sala de espera e dirigiu-se para o seu gabinete. Cumprimentou com um aceno de cabeça os doentes e amaldiçoou mentalmente o arquitecto por não ter previsto uma entrada independente. Preferia poder entrar no seu gabinete sem o verem. Doris sorriu quando Thomas passou por ela, mas não se levantou. Depois do incidente da véspera, receava provocar nele a mesma reacção e limitou-se a entregar-lhe as mensagens que anotara.

Já no seu gabinete, Thomas vestiu a bata branca que gostava de usar quando observava os seus doentes. Sentia que a bata encorajava não só respeito como também obediência. Sentando-se à secretária, passou rapidamente os olhos pelas mensagens até chegar ao telefonema de Cassi. Fez uma pausa e olhou fixamente para o papel cor-de-rosa. Quarto 1740. Thomas franziu as sobrancelhas. Era um quarto semiprivado, mesmo em frente ao balcão das enfermeiras.

Tirando o ascultador do descanso com um movimento brusco, ligou para a directora do serviço de admissões, Grace Peabody.

- Miss Peabody - disse Thomas num tom irritado. - Acabei de saber que a minha mulher deu entrada para um quarto semipri-vado. Quero que fique num quarto individual.

- Compreendo, mas de momento estamos cheios, e ela vinha com a indicação de que era uma semiurgência.

- Bom, estou certo de que conseguirá descobrir um quarto individual para ela, dado que eu acho que isso é importante. Se não, terei todo o gosto em falar ao director do hospital.

- Farei todos os possíveis, Dr. Kingsley - disse Miss Peabody, também num tom irritado.

- É exactamente isso que pretendo - disse Thomas, desligando com rudeza.

- Merda!

Odiava os burocratas de cérebro de galinha que actualmente geriam o hospital. Pareciam empenhados em criar todos os inconvenientes possíveis. Não conseguia perceber como é que alguém podia ser tão limitado ao ponto de não pôr a mulher do cirurgião mais famoso do Memorial num quarto privado.

Thomas olhou de relance para a lista de marcações que Doris pusera em cima da sua secretária e massajou as têmporas. A cabeça tinha-lhe começado a latejar.

Hesitando apenas por um breve instante, abriu com violência a segunda gaveta. Depois de três by passes e doze doentes marcados na agenda, merecia uma ligeira ajuda. Tirou um dos comprimidos cor-de-rosa e engoliu-o. Depois carregou no botão do intercomunicador e disse a Doris que mandasse entrar o primeiro doente.

As consultas correram melhor do que Thomas previra. Dos doze doentes, dois eram consultas pós-operatórias, que apenas demoraram dez minutos cada. Dos outros dez, Thomas marcou cinco casos de bypass e uma substituição de válvula. Os outros quatro doentes não eram casos cirúrgicos e nem sequer deviam ter sido mandados para ele. Despachou-os rapidamente.

Depois de assinar algumas cartas, Thomas voltou a telefonar a Miss Peabody.

- Que tal o quarto nº 1752? - perguntou Miss Peabody num tom altivo.

O quarto 1752 era um quarto privado de esquina ao fundo do corredor. As janelas davam para oeste e para norte, com uma bela vista do rio Charles. Era perfeito, e Thomas disse exactamente isso; Miss Peabody desligou o telefone sem sequer se despedir.

Thomas despiu a bata e voltou a vestir o casaco. Disse a Doris que falaria com ela depois e saiu, dirigindo-se para o edifício Scherington, passando primeiro pelo serviço de radiologia para ver umas chapas antes de ir visitar Cassi.

Quando chegou ao décimo sétimo piso ficou admirado por ver que Cassi ainda estava no quarto 1740. Abriu a porta sem bater.

- Por que é que não mudaste de quarto? - perguntou.

- Mudar de quarto? - exclamou Cassi sem perceber. Tinha estado a falar com Mary Sullivan sobre ter filhos.

- Tratei de tudo de forma a ficares num quarto privado - disse Thomas, irritado.

- Não preciso de um quarto privado, Thomas. Agrada-me a companhia de Mary.

Cassi tentou apresentar Thomas, mas ele já estava a tocar para chamar a enfermeira.

- A minha mulher vai ser tratada convenientemente - disse Thomas, olhando para o corredor para ver onde é que estava o pessoal de enfermagem. - Quando qualquer destes administradores hospitalares supostamente indispensável tem algum familiar internado neste hospital, arranjam sempre forma de os pôr num quarto privado.

Thomas acabou por criar uma situação desagradabilíssima, fazendo que a mulher se sentisse profundamente embaraçada. Cassi não tinha querido maçar as enfermeiras, pois sentia-se bem, mas praticamente todo o pessoal do piso passou quase meia hora a transferi-la para o outro quarto.

- Pronto - disse Thomas finalmente. - Este é muito melhor. Cassi teve de concordar que o quarto era muito mais alegre.

Da cama via o sol de Inverno já quase a tocar no horizonte. Embora lhe tivesse desagradado a confusão criada, ficou sensibilizada pela aparente preocupação de Thomas.

- E agora tenho boas notícias para ti - disse ele, sentando-se na beira da cama. - Falei com Martin Obermeyer e ele disse-me que daqui a uma semana já te sentirás óptima, portanto já reservei um quarto num pequeno hotel na praia de Martinica. Que achas?

- Uma maravilha - disse Cassi. A perspectiva de umas férias sozinha com Thomas entusiasmava-a, embora pudessem por qualquer razão não ser um êxito.

Ouviram bater levemente à porta que estava entre aberta e Joan Widiker espreitou para dentro do quarto.

- Entra - disse Cassi, apresentando-a a Thomas.

- Tenho muito prazer em conhecê-lo - disse Joan. - Cassi tem-me falado imenso de si.

- Joan é estagiária do terceiro ano de psiquiatria - explicou Cassi. - Tem-me ajudado imenso, sobretudo a ter mais confiança em mim própria.

- Tenho muito prazer em conhecê-la - disse Thomas, sentindo uma imediata antipatia por Joan. Percebeu que se tratava de uma daquelas mulheres que exibiam a sua feminilidade como se fosse um símbolo de privilégio.

- Desculpem aparecer sem avisar - disse Joan, apercebendo-se de que estava a interromper uma conversa entre os dois. - Só cá vim dizer a Cassi que todos os doentes dela estão a ser bem acompanhados. Todos te desejam que tudo corra bem, Cassi. Até o coronel Bentworth, o que é bastante estranho - disse Joan, rindo. - O facto de teres um problema de saúde parece ter tido um efeito terapêutico benéfico em todos eles. Talvez todos os psiquiatras devam ser submetidos a uma intervenção cirúrgica de vez em quando.

Cassi riu enquanto via o marido endireitar a bata.

- Volto cá depois - disse ele. - Tenho de ir ver os meus doentes. - Voltou-se para Cassi e deu-lhe um beijo. - Virei ver-te de manhã antes da operação. Vai tudo correr lindamente. Vê se dormes bem.

- Eu também não posso ficar mais tempo - confessou Joan depois de ele se ter ido embora. - Tenho uma consulta no piso de medicina. Espero não ter afugentado o teu marido.

- Thomas está a ser maravilhoso - disse Cassi, radiante, ansiosa por compartilhar a boa notícia. - Tem sido extremamente carinhoso e tem-me dado todo o apoio possível. Até vamos de férias depois da operação. Creio que estava enganada quanto à gravidade do problema de estar a abusar de drogas.

Joan duvidou da objectividade de Cassi, lembrando-se da dependência que ela tinha em relação a Thomas. Mas não fez qualquer menção sobre essa questão, limitando-se a dizer que ficava contente por as coisas estarem a correr bem. Desejando-lhe boa sorte, Joan foi-se embora.

Cassi ficou na cama durante algum tempo a olhar para o céu enquanto este passava de um alaranjado pálido para um violeta prateado. Não sabia bem por que é que Thomas estava tão carinhoso com ela. Mas fosse por que razão fosse, Cassi sentia-se infinitamente grata por isso.

Quando o céu finalmente escureceu, Cassi começou a pensar como é que Robert estaria. Não queria telefonar, não fosse ele ainda estar a dormir, e decidiu ir ao quarto dele ver o que se passava.

As escadas eram mesmo em frente ao seu quarto e Cassi subiu rapidamente ao décimo oitavo andar. A porta do quarto de Robert estava fechada e Cassi bateu ao de leve.

Uma voz sonolenta disse-lhe que entrasse.

Robert estava acordado, mas ainda sonolento da anestesia.

Em resposta à pergunta de Cassi, garantiu-lhe que nunca se sentira melhor na vida. A única queixa era que sentia como se tivessem andado a jogar hóquei dentro da sua boca.

- Já comeste? - perguntou Cassi, reparando que as folhas de computador estavam agora em cima da mesinha-de-cabeceira.

- Estás a gozar comigo? - perguntou Robert, erguendo o braço e mostrando^lhe o tubo de soro. - Este doente está a dieta líquida de penicilina.

- A minha operação é amanhã de manhã - disse Cassi.

- Vais adorar - disse Robert, enquanto as pálpebras resistiam ao esforço que estava a fazer para as manter abertas.

Cassi sorriu, apertou-lhe carinhosamente a mão e foi-se embora.

 

A dor foi tão intensa que Thomas quase deu um grito. Tinha tropeçado na arca antiga que Doris tinha aos pés da cama. Estava à procura da sua roupa interior na semipenumbra, mas decidiu que não queria saber se a acordasse e acendeu a luz. Não admirava não conseguir encontrar os slips. Ela tinha atirado toda a sua roupa para o outro extremo do quarto, tendo uma das peças ficado pendurada na maçaneta da cómoda.

Depois de apanhar toda a roupa, Thomas apagou a luz, dirigiu-se silenciosamente para a sala de estar e vestiu-se rapidamente. Fazendo o mínimo barulho possível, saiu do apartamento. Já na rua, olhou para o relógio. Era quase uma da manhã.

Dirigiu-se directamente para a sala de estar do serviço de cirurgia, despiu a roupa que acabara de vestir e equipou-se como se fosse operar. Ao passar pelo corredor, parou à porta da SÓ que estava a ser utilizada. Pôs a máscara e entrou. O anestesista disse a Thomas que o doente tivera uma ruptura de aneurisma no seguimento de uma tentativa de cateterismo nessa tarde.

Um dos cirurgiões internos de medicina geral estava a dirigir a operação. Thomas aproximou-se dele por trás.

- Um caso difícil? - perguntou Thomas, tentando ver para o interior da incisão.

O médico voltou-se e reconheceu Thomas.

- Terrível. Ainda não conseguimos determinar a extensão do aneurisma. Talvez apanhe o tórax. Se for esse o caso, a sua presença é uma dádiva de Deus. Está disponível?

- Claro - disse Thomas. - Provavelmente irei dormir um pouco no vestiário. Chame-me se precisar de mim.

Saiu da SÓ e dirigiu-se para a sala de estar. Estavam lá três enfermeiras que tinham acabado de dar assistência a uma intervenção. Thomas acenou-lhes e continuou em direcção ao vestiário.

O fim da tarde de Cassi foi bastante agradável. Tinha tomado a sua injecção de insulina, comido um jantar insípido, tomado um duche e ficado a ver televisão durante algum tempo. Tinha tentado ler uma revista de psiquiatria, mas desistira, apercebendo-se de que não conseguia concentrar-se. Às dez horas, tinha tomado um comprimido para dormir, mas passado uma hora ainda estava perfeitamente acordada a tentar analisar as consequências da descoberta de Robert. Se havia de facto fluoreto de sódio na veia de Jeoffry Washington, então havia um assassino no hospital. Como sabia que na manhã seguinte voltaria da SÓ sob o efeito da anestesia e totalmente vulnerável, não era de admirar que este pensamento a impedisse de dormir.

Estava a virar-se inquieta na cama, no escuro, quando ouviu um ruído. Não tinha a certeza, mas pensou tratar-se da porta.

Cassi ficou deitada de lado, a reter a respiração. Não ouviu mais nenhum ruído, mas sentiu uma presença, como se já não estivesse sozinha no quarto. Tinha vontade de se virar e olhar, mas sentiu-se irracionalmente aterrorizada. Depois ouviu, sem sombra de dúvida, novo ruído. Parecia o barulho de um objecto de vidro a bater contra a mesinha-de-cabeceira. Alguém estava mesmo atrás dela.

Foi necessário exercer toda a sua força de vontade para vencer a paralisia que o terror lhe provocara, mas forçou-se a olhar na direcção da porta.

Deu um grito abafado de horror ao dar por si a olhar para uma figura vestida de branco na penumbra do quarto. Num movimento rápido acendeu a luz da mesinha-de-cabeceira.

- Santo Deus! Assustaste-me! - disse George Sherman, levando a mão ao peito num gesto teatral de angústia. - Cassi, acabaste de me tirar dez anos de vida.

Cassi viu um enorme ramo de rosas vermelho-escuras numa jarra em cima da mesinha-de-cabeceira. Preso ao ramo estava um envelope branco com “Cassi” escrito.

- Desculpa. Acho que nos assustámos um ao outro - disse Cassi. - Estava com dificuldade em adormecer. Ouvi-te entrar.

- Bom, bem gostava que tivesses dito alguma coisa. Estava a contar que estivesses a dormir e não te quis acordar.

- Essas rosas tão lindas são para mim?

- São. Pensei que me despachasse bastante mais cedo, mas estive numa reunião até há pouco. Tinha encomendado as flores esta tarde e queria ter a certeza de que as receberia.

Cassi sorriu.

- Foi muito simpático da tua parte.

- Soube que vais ser operada de manhã. Espero que corra tudo bem.

Subitamente, pareceu aperceber-se de que Cassi estava sentada na cama de camisa de noite. Corou, despediu-se rapidamente num murmúrio e bateu em retirada.

Cassi não consegui deixar de sorrir. Lembrou-se de quando ele lhe entornara o vinho no colo. Tirou o envelope do ramo e leu o cartão, “Que tudo corra bem. Um admirador secreto.” Cassi riu. George con- j seguia ser tão bota-de-elástico. Mas também compreendia a sua relutância em assinar o seu nome depois da cena que Thomas lhe fizera em casa de Ballantine.

Duas horas depois, Cassi ainda estava acordada. Desesperada, atirou a roupa da cama para trás e levantou-se. Tirou o robe das costas da cadeira e vestiu-o, pensando que talvez pudesse ir ver se Robert estava acordado. Se falasse com ele talvez se acalmasse o suficiente para conseguir adormecer.

Se Cassi se tinha sentido deslocada a andar no hospital vestida de doente nessa tarde, naquela altura sentiu-se positivamente uma delinquente. Os corredores estavam desertos e não se ouvia o menor ruído nas escadas. Cassi dirigiu-se apressadamente para o quarto de Robert, esperando que ninguém com autoridade a visse e a mandasse de volta para o piso inferior.

Entrou rapidamente no quarto na penumbra. A única luz provinha da casa de banho, cuja porta estava ligeiramente entreaberta. Cassi não conseguia ver Robert, mas ouvia a sua respiração ritmada. Aproximou-se silenciosamente da cama e conseguiu vislumbrar o seu rosto; estava a dormir profundamente.

Preparava-se para se ir embora quando voltou a reparar nas folhas de computador em cima da mesinha-de-cabeceira. Fazendo o menor barulho possível, pegou nelas. Depois procurou às apalpadelas em cima da mesinha-de-cabeceira o lápis que lá vira nessa tarde. Os seus dedos tocaram num copo de água, depois num relógio e finalmente numa caneta.

Dirigindo-se para a casa de banho, Cassi arrancou uma das folhas de computador, encostou-a ao lavatório e escreveu: “Não conseguia dormir. Levei emprestado o material dos casos de MCS. As estatísticas sempre me fizeram sono. Um beijo, Cassi.”

Ao sair da casa de banho iluminada, Cassi teve ainda mais dificuldade em chegar à mesinha-de-cabeceira. Às apalpadelas, colocou o bilhete contra o copo de água, mas quando ia a sair a porta abriu-se lentamente.

Reprimindo um grito de medo, Cassi quase colidiu com a figura que acabara de entrar no quarto.

- Meu Deus, que é que estás a fazer aqui? - murmurou, deixando cair algumas das folhas.

Thomas, que continuava a segurar na porta, fez sinal para ficar calada. A luz proveniente do corredor incidiu sobre o rosto de Robert, mas ele não se mexeu. Certo de que ele não acordaria, Thomas baixou-se para ajudar Cassi a apanhar as folhas.

Quando se ergueram, Cassi voltou a murmurar.

- Mas que diabo é que estás a fazer aqui?

Como resposta, Thomas conduziu-a silenciosamente para o corredor, fechando a porta.

- Por que é que não estás a dormir? - perguntou num tom zangado. - Vais ser operada de manhã! Fui ao teu quarto para ver se estava tudo em ordem e dei com a tua cama vazia. Não foi difícil imaginar onde é que estarias.

- Sinto-me lisonjeada por me teres ido ver - disse Cassi com um sorriso.

- Isto não é um caso para brincadeiras - disse Thomas num tom severo. - Devias estar a dormir. Que estás a fazer aqui às duas da manhã?

Cassi mostrou-lhe as folhas de computador.

- Não conseguia dormir, portanto pensei que poderia ser produtiva.

- Isso é ridículo - disse Thomas, pegando no braço de Cassi e conduzindo-a para as escadas. - Há horas que devias estar a dormir!

- O comprimido para dormir não fez efeito - explicou Cassi enquanto desciam as escadas.

- Então devias ter pedido outro. Por amor de Deus, Cassi, devias saber isso.

Cassi parou quando chegaram à porta do seu quarto e olhou para Thomas.

- Desculpa. Tens razão. Não pensei.

- O que está feito, feito está - disse Thomas. - Mete-te na cama. Vou buscar-te outro comprimido.

Cassi ficou a observar Thomas a dirigir-se com passos resolutos para o balcão das enfermeiras durante instantes. Depois entrou no quarto. Pousou as folhas de computador na mesinha-de-cabeceira, atirou o robe para cima da cadeira e descalçou os chinelos. Sentia-se mais segura com Thomas a cuidar dela.

Quando ele voltou com o comprimido, ficou junto da cama a observá-la enquanto ela o engolia. Depois, em jeito de brincadeira, abriu-lhe a boca e fingiu verificar se de facto o engolira.

- As crianças têm de ser tratadas como crianças - disse Thomas a rir. Pegou nas folhas de computador e meteu-as dentro da última gaveta da cómoda. - Não te quero a ler isto esta noite. Tens de dormir.

Puxou a cadeira para junto da cama, apagou o candeeiro e pegou na mão de Cassi.

Disse-lhe que queria que ela se descontraísse e pensasse nas suas próximas férias. Descreveu em voz baixa as praias desertas, a água cristalina e o quente sol tropical.

Cassi escutou-o, encantando-se com as imagens descritas. Em breve se sentiu invadida por uma enorme sensação de paz. Com Thomas ao seu lado conseguia descontrair-se. Sentiu o comprimido para dormir a começar a fazer efeito e apercebeu-se de que estava a adormecer.

 

Robert estava naquele estado intermédio entre o sono e o acordar. Tivera um terrível pesadelo: estava preso entre duas paredes que se iam inexoravelmente fechando sobre si. O espaço no qual se encontrava estava a tornar-se cada vez menor. Já não conseguia respirar.

Desesperado, forçou-se a acordar. As paredes que o aprisionavam desapareceram. O pesadelo terminara, mas continuava a sentir a horrível sensação de asfixia. Era como se todo o ar tivesse sido aspirado do quarto.

Em pânico, tentou sentar-se na cama, mas o corpo não lhe obedeceu. Agitando os braços em terror, procurou desesperadamente o botão da campainha. Depois, a sua mão tocou em alguém que estava em silêncio na escuridão junto à cama. Havia alguém para o ajudar!

- Graças a Deus! - exclamou num murmúrio aflito, reconhecendo o visitante. - Passa-se alguma coisa de errado. Ajude-me. Preciso de ar! Ajude-me, estou a sufocar!

O visitante de Robert empurrou-o para cima da cama com tal violência que a seringa vazia que tinha na mão quase caiu no chão. Robert voltou a estender o braço e agarrou a bata do homem. Bateu com as pernas nos varões da cama, fazendo um ruído metálico. Tentou gritar, mas a voz saiu-lhe abafada e incoerente. Na esperança de poder silenciar Robert antes que alguém aparecesse para ver o que se passava, o homem inclinou-se sobre ele para lhe tapar a boca. Robert deu uma súbita joelhada e apanhou-o no queixo, fazendo que o homem trilhasse a língua.

Enfurecido pela dor, o homem aplicou todo o seu peso na mão colocada sobre o rosto de Robert, enterrando-lhe a cabeça na almofada. As pernas de Robert ainda deram esticões durante mais alguns minutos. Depois ficou imóvel. O homem endireitou-se e tirou lentamente a mão do rosto de Robert, como se esperasse que o rapaz voltasse a debater-se. Mas Robert já não respirava; à luz fraca do quarto, o seu rosto estava quase negro.

O homem sentiu-se exausto. Tentando não pensar, foi à casa de banho e lavou o sangue que tinha na boca. Sempre soubera que estava a agir correctamente antes de eliminar um doente. Dava vida; tirava vida. Mas a morte só era administrada em benefício de um bem maior.

O homem lembrou-se da primeira vez que fora responsável pela morte de um doente. Nunca tivera a menor dúvida de que era a coisa certa a fazer. Fora há muitos anos, no tempo em que ainda era interno assistente no serviço de cirurgia torácica e ocorrera uma crise na unidade de cuidados intensivos.

Tinham surgido complicações com todos os doentes. Nenhum podia ser transferido e todas as intervenções cirúrgicas cardíacas de relevância técnica do hospital tinham sido interrompidas. Todos os dias, ao fazer a ronda, o chefe interno, o Dr. Barney Kaufman, ia de cama em cama verificar se havia algum doente que pudesse ser transferido, mas tal nunca acontecia. E todos os dias parava junto à cama de um doente que Barney tinha apelidado de Frank “Couve”. Múltiplas embolias provocadas por uma válvula cardíaca calcificada tinham ocorrido durante a intervenção cirúrgica e Frank “Couve”, formalmente Frank Segelman, ficara em estado de morte cerebral. Estava na unidade de cuidados intensivos há mais de um mês. O facto de ainda estar vivo, no sentido de que o coração continuava a bater e os rins a funcionar, era um tributo ao pessoal de enfermagem.

Uma tarde, Kaufman olhou para Frank e disse:

- Sr. “Couve”, gostamos todos muito de si, mas importa-se de pensar em sair deste hotel? Sei que não é pela comida que cá está.

Todos se riram, excepto o homem, que continuara a fitar o rosto sem expressão de Frank. Nessa noite, já muito tarde, o homem foi à unidade de cuidados intensivos e dirigiu-se para a cama de Frank com uma seringa cheia de cloreto de potássio. Segundos depois, o ritmo cardíaco regular de Frank degenerou, revelando ondas-T em picos que de seguida se transformaram numa linha recta. Foi o próprio homem que deu o alerta, mas a equipa apenas fez uma breve tentativa de ressuscitação.

Posteriormente, todos ficaram satisfeitos, desde o pessoal de enfermagem ao cirurgião assistente. O homem quase teve de fazer um esforço para não assumir a responsabilidade da sua acção. Tinha sido tudo tão simples, limpo, definitivo e prático.

O homem teve de admitir que matar Robert Seibert não fora assim. Não sentia a mesma sensação de euforia por saber que tinha feito o que devia ser feito, sabendo que era um dos poucos que tinha coragem para o fazer. No entanto, Robert Seibert tinha de morrer. A culpa tinha sido dele ao desenterrar todos aqueles casos de MCS.

O homem saiu da casa de banho e revistou rapidamente o quarto, procurando quaisquer papéis relacionados com a investigação de Robert. Nada encontrando, dirigiu-se para a porta, entreabríndo-a ligeiramente.

Uma das enfermeiras do turno da noite vinha pelo corredor com um pequeno tabuleiro metálico na mão. Houve um horrível momento em que o homem pensou que ela poderia vir ver Robert. Mas a enfermeira entrou num outro quarto, deixando o corredor livre.

Com o coração a bater desordenadamente, o homem saiu silenciosamente do quarto. Seria desastroso ser visto naquele piso. Quando era interno, tinha todos os motivos e mais um para andar pelos corredores ou estar nos quartos dos doentes ou mesmo na unidade de cuidados intensivos a qualquer hora da noite. Agora era diferente. Tinha de ter maior cautela.

Quando se viu já em segurança nas escadas, foi invadido pelo pânico. Desceu a correr três pisos sem parar para recuperar o fôlego e continuou escadas abaixo até já ter passado o décimo segundo andar. Só então é que começou a abrandar. Parou no quinto piso e encostou-se à parede de betão a arquejar devido ao esforço. Sabia que tinha de se recompor.

Inspirando fundo, o homem abriu silenciosamente a porta que dava para o piso. Momentos depois, sentiu-se seguro, mas as ideias continuavam a atropelar-se no seu espírito. Não conseguia deixar de pensar nos dados sobre os casos de MCS, apercebendo-se de que Robert provavelmente tinha originais no seu gabinete, provavelmente numa diskette de computador. Suspirando, o homem decidiu que era melhor ir de imediato ao serviço de patologia, antes de a morte de Robert ser conhecida. A partir daí, o único problema seria Cassi, e interrogou-se sobre exactamente o que é que Robert lhe teria dito.

 

Cassandra acordou sobressaltada e deparou com o rosto sorridente de uma assistente de laboratório que a estava a chamar “Drº Cassidy” pela terceira vez.

- Tem um sono pesado - disse, quando viu que Cassi finalmente abria os olhos.

Cassi abanou a cabeça, pensando por que é que se sentiria tão drogada. Depois lembrou-se do segundo comprimido para dormir.

- Tenho de lhe tirar sangue - desculpou-se a assistente. - Foi pedida uma contagem de açúcar em jejum.

- OK! - disse Cassi num tom simpático. Estendeu o braço esquerdo, lembrando-se de que durante os próximos dez dias não seria ela própria a injectar a sua dose de insulina.

Minutos depois, apareceu uma enfermeira que introduziu habilmente uma agulha para soro na veia do braço esquerdo de Cassi e a ligou ao tubo de um frasco de D5W com dez unidades de insulina normal. Depois deu a Cassi a medicação pré-operatória.

- Isto deve ser suficiente para que se sinta bem - disse a enfermeira. - Agora tente descontrair-se. Devem vir buscá-la daqui a pouco.

Quando vieram buscar Cassi e a levaram de maca para o elevador, ela sentiu uma estranha sensação de distanciamento, como se aquilo estivesse a acontecer a outra pessoa. Ao chegar à sala de preparação, na zona do BO, só se apercebeu vagamente da profusão de macas, :nfermeiras e médicos. Nem sequer reconheceu Thomas, até ele se debruçar sobre ela e a beijar, dizendo-lhe então que ele tinha um ar idiota assim vestido para operar. Pelo menos pensou que lhe tinha dito.

- Vai tudo correr lindamente - disse Thomas, apertando-lhe carinhosamente a mão. - Estou contente por teres decidido ir para

frente com a operação. É o melhor.

O Dr. Obermeyer apareceu à esquerda de Cassi.

 “Quero que cuide muito bem da minha mulher!”, ouviu Thomas dizer. Depois devia ter adormecido. A primeira coisa de que deu conta a seguir foi ser levada de maca pelo corredor do BO até à sala de operações propriamente dita. Não se sentia nada assustada.

- Vou dar-lhe uma coisa que lhe vai fazer sono - disse o anestesista.

- Já tenho sono - murmurou ela, observando as gotas de soro a cair na pequena câmara do frasco pendurado por cima da sua cabeça. No segundo seguinte, estava profundamente adormecida.

A equipa cirúrgica actuou rapidamente. Às 8h05m os músculos do olho já estavam isolados e presos. Assim que a imobilização completa foi conseguida, o Dr. Obermeyer fez algumas incisões na esclerótica e introduziu os instrumentos de corte e aspiração. Utilizando um microscópio especial, observou a parte vítrea manchada de sangue através da córnea e da pupila. Às 8h45m começou a ver a retina de Cassi. Às 9hl5m encontrou a origem da hemorragia recorrente. Tratava-se de um único desvio anormal num novo vaso proveniente do disco óptico de Cassi. Com extremo cuidado, o Dr. Obermeyer coagulou-o e obliterou-o. Sentiu-se muito optimista. O problema não só ficava resolvido como não havia qualquer razão para o incidente se repetir. Cassi era uma mulher de sorte.

 

Thomas terminara a sua única intervenção para aplicação de bypass desse dia. Cancelara as outras duas. Felizmente a operação correra razoavelmente bem, embora tivesse voltado a ter problemas em suturar as anastomoses. No entanto, ao contrário da véspera, conseguiu acabar, mas assim que Larry Owen começou a fechar a incisão, Thomas foi imediatamente mudar de roupa. Normalmente, esperava que Larry levasse o doente para a sala de recobro, mas nessa manhã estava demasiado nervoso para ficar à espera sem nada que fazer. Decidiu ir à SÓ para ver como estava tudo a correr.

- Tudo em ordem! - gritou Larry por cima do ombro. - Estamos já a suturar a pele. O doente já não está com halotano.

- Óptimo, fui chamado para uma urgência.

- Aqui está tudo sob controlo.

Thomas saiu do hospital, coisa que raramente fazia durante um dia de trabalho, e meteu-se no Porsche. O rugido do poderoso motor fê-lo vibrar de excitação quando ligou a ignição. Depois da frustração que sentira no hospital, o carro dava-lhe uma tremenda sensação de liberdade. Na estrada não havia nada que lhe pudesse tocar. Nada!

Depois de atravessar Boston, Thomas deixou o carro numa zona de estacionamento proibido mesmo em frente a uma grande farmácia, confiante de que a placa de médico o salvaria de apanhar uma multa.

Entrou na farmácia e foi directamente ao balcão de venda de medicamentos.

O farmacêutico, com a tradicional túnica de gola subida, saiu de trás do balcão alto.

- Que deseja?

- Telefonei-lhe a encomendar uns medicamentos - disse Thomas.

- Claro, estão aqui - disse o farmacêutico, mostrando-lhe uma pequena caixa de cartão.

- Quer que lhe passe uma receita? - perguntou Thomas.

- Não, mostre-me só o seu cartão de identificação de médico. Basta isso.

Thomas abriu a carteira e mostrou-a ao farmacêutico, que se limitou a olhar de relance para o cartão perguntando: -É tudo? Thomas assentiu, guardando a carteira.

- Não é habitual pedirem essa dosagem - disse o farmacêutico.

- Acredito - disse Thomas, pegando no embrulho.

Cassandra acordou da anestesia sem saber bem o que era sonho e o que era realidade. Ouviu vozes, mas pareciam-lhe muito longínquas e não conseguia perceber o que diziam. Finalmente, apercebeu-se de que estavam a chamar o nome dela. Ouviu-as dizer que acordasse.

Cassi tentou abrir os olhos, mas verificou que não conseguia. Sentiu-se invadida pelo pânico e tentou sentar-se, tendo sido imediatamente impedida de o fazer.

- Calma, está tudo bem - disse uma voz ao seu lado.

Mas não estava tudo bem. Cassi não conseguia ver. Que tinha acontecido? Subitamente, lembrou-se da anestesia e da operação.

- Meu Deus! Estou cega! -gritou Cassi, tentando tocar na cara. Alguém lhe agarrou as mãos.

- Esteja calma. Tem os olhos ligados.

- Por que é que estou ligada? - gritou Cassi.

- Para não mexer os olhos - disse a voz num tom calmo. - Será só durante um ou dois dias. A operação correu muito bem. O seu médico disse que é uma mulher de sorte. Coagulou um vaso que lhe estava a provocar problemas, mas não quer que ele volte a sangrar, portanto tem de estar quieta.

Cassi sentiu-se um pouco menos ansiosa, mas a escuridão era assustadora.

- Deixem-me ver, só por instantes - implorou.

- Não posso. Ordens do médico. Não podemos tocar nas ligaduras. Mas posso apontar-lhe uma luz. Tenho a certeza de que a verá. Quer?

- Sim - disse Cassi, ansiosa por se poder tranquilizar minimamente. Por que é que não a tinham avisado daquilo antes da operação? Sentia-se como se tivesse sido lançada à deriva.

- Já cá estou - disse a voz.

Cassi ouviu um click e viu imediatamente a luz. Mais, viu-a igualmente bem com os dois olhos.

- Vejo-a - disse num tom entusiasmado.

- Claro que vê - disse a voz. - Está tudo a correr muito bem. Tem dores?

- Não - disse Cassi. A luz foi apagada.

- Então descanse. Estaremos aqui se precisar de nós. Basta chamar.

Enquanto Cassi se ia acalmando, foi escutando as várias enfermeiras nas suas tarefas com os doentes. Apercebeu-se de que estava na sala de recuperação e pensou se Thomas a iria lá ver.

Thomas acabou as consultas cedo. Às 2h10m restava-lhe uma consulta marcada para as 2h30m. Enquanto esperava, verificou quem é que estava de serviço no BO nessa noite para o serviço de cirurgia torácica. Ao ver que era Burgess, telefonou-lhe.

Thomas explicou que tencionava de qualquer forma dormir no hospital para estar perto de Cassi e sugeriu ficar também de serviço. Burgess poderia compensar quando os Kingsleys estivessem ausentes.

Desligou e, ao ver que ainda tinha um quarto de hora livre, decidiu visitar Cassi. Acabara de ser levada para o quarto e Thomas não percebeu se estava ou não a dormir. Estava deitada, muito quieta, com o rosto coberto por volumosas ligaduras presas com uma grossa faixa adesiva. No seu braço esquerdo ia lentamente gotejando soro.

Aproximou-se silenciosamente da cama.

- Cassi? - murmurou. - Estás acordada? Estou - disse Cassi. - És tu, Thomas? Thomas agarrou o braço dela.

- Como é que te sentes, querida?

- Bastante bem. À excepção das ligaduras. Gostava que o Dr. Obermeyer me tivesse avisado.

- Falei com ele - disse Thomas. - Telefonou-me assim que a operação acabou. Disse que as coisas correram muito melhor do que se poderia esperar. Aparentemente, só um vaso é que estava afectado. Resolveu o problema, mas como era um vaso grande, optou por te pôr ligaduras. Também não estava a contar com isso.

- Não torna as coisas mais fáceis - disse Cassi.

- Imagino - disse ele num tom compreensivo.

Thomas ficou mais dez minutos com Cassi e depois disse que tinha de voltar para o consultório. Apertou-lhe carinhosamente a mão e aconselhou-a a dormir o mais possível.

Cassi ficou admirada por ter de facto dormido e só acordar ao fim da tarde.

- Cassi? - dizia alguém.

Cassi fez um movimento brusco, sobressaltada pela voz inesperada mesmo ao seu lado.

- Sou eu, Joan. Desculpa ter-te acordado.

- Não faz mal, Joan. Não te ouvi entrar.

- Já sei que a tua operação correu muito bem - disse Joan, puxando uma cadeira.

- Parece que sim - disse Cassi. - E vou-me sentir muito melhor assim que tirem estas ligaduras.

- Cassi - disse Joan -, tenho uma coisa para te dizer. Estive toda a tarde indecisa se havia ou não de te contar.

- Que é? - perguntou Cassi num tom ansioso. A sua primeira ideia foi que um dos seus doentes se tinha suicidado. Os suicídios eram uma preocupação constante na Clarkson Two.

- É uma má notícia.

- Calculei que fosse, pelo tom da tua voz.

- Achas que consegues aguentar? Ou preferes esperar?

- Tens de me dizer já. Se não me disseres, não conseguirei deixar de me preocupar.

- Trata-se de Robert Seibert.

Joan fez uma pausa. Calculava o efeito que a notícia teria na amiga.

- Que se passa com Robert? - perguntou Cassi imediatamente. - Caramba, Joan, não me mantenhas na expectativa. - Mas no fundo sabia já o que Joan lhe ia dizer.

- Robert morreu ontem à noite - disse Joan, pegando na mão de Cassi.

Cassi ficou imóvel. Os minutos foram passando: cinco, dez, Joan não sabia ao certo. O único indício de que Cassi estava viva era a leve respiração e a força com que agarrava a sua mão. Era como se Cassi se estivesse a agarrar à sua própria vida. Joan não sabia o que dizer.

- Cassi, estás bem? - murmurou finalmente.

Para Cassi a notícia tinha sido como um golpe final. É claro que toda a gente se preocupava quando ia para o hospital, mas não com mais seriedade com que esperavam ganhar a lotaria quando compravam uma fracção. Havia uma certa hipótese, mas era tão infinitesimalmente pequena que não valia a pena pensar nela.

- Cassi, estás bem? - repetiu Joan. Cassi suspirou.

- Diz-me que é que aconteceu.

- Não sabem ao certo - disse Joan, aliviada por ouvir Cassi falar. - E não sei todos os pormenores. Aparentemente, morreu enquanto dormia. As enfermeiras disseram-me que a autopsia revelou que ele tinha uma doença de coração bastante mais grave do que alguém suspeitava. Suponho que teve um ataque de coração, mas não sei ao certo.

- Meu Deus! - disse Cassi, esforçando-se por não chorar.

- Lamento trazer-te notícias tão más - disse Joan. - Mas achei que se fosse ao contrário, eu quereria saber.

- Era um homem maravilhoso - disse Cassi. - E um amigo tão bom.

A notícia fora tão esmagadora que Cassi se sentiu subitamente esvaziada de qualquer emoção.

- Precisas de alguma coisa? - perguntou Joan, solícita.

- Não, obrigada.

Houve um silêncio que fez que Joan se sentisse terrivelmente embaraçada.

- Tens a certeza de que estás bem? - perguntou.

- Estou óptima, Joan.

- Queres falar sobre o que sentes? - perguntou Joan.

- Por enquanto não - disse Cassi. - Neste momento não sinto nada.

Joan sentia que Cassi se fechara e pôs em causa se teria de facto sido aconselhável ter-lhe falado da morte de Robert, mas o que estava feito, estava feito. Ficou durante mais alguns minutos a segurar-lhe na mão. Depois foi-se embora, parando à porta para lhe desejar boa noite.

Ao sair, parou no balcão das enfermeiras e falou com a enfer-meira-chefe. Disse que tinha ido visitar Cassi como amiga e não como profissional, mas achava que devia informá-la de que Cassi estava profundamente deprimida com a morte de um amigo. Talvez fosse aconselhável as enfermeiras vigiá-la.

Cassi ficou imóvel durante muito tempo. Não se opusera quando Joan saíra, mas agora sentia-se extremamente sozinha. A morte de Robert tinha despoletado todos os seus antigos receios de ser abandonada. Não conseguia deixar de se lembrar do pesadelo que tinha em miúda de que a mãe a mandaria de volta para o hospital trocando-a por uma criança saudável.

Em pânico, Cassi procurou o botão da campainha às apalpadelas. Esperava que alguém viesse depressa para a ajudar.

- Que é, Drº Cassidy? - perguntou uma enfermeira, entrando no quarto minutos depois.

- Sinto-me a entrar em pânico - disse Cassi. - Não aguento as ligaduras. Quero tirá-las.

- Como médica sabe que não podemos fazer isso. É contra as ordens que temos. Mas farei uma coisa - disse a enfermeira-, vou telefonar ao seu médico. Que acha?

- Não quero saber o que vai fazer - respondeu Cassi. - Não quero continuar com as ligaduras.

A enfermeira saiu do quarto e Cassi voltou a ficar mergulhada na escuridão. O tempo foi-se arrastando. Quando decidiu voltar a escutar o que se estava a passar, ouviu os sons tranquilizadores de pessoas a andar de um lado para o outro no corredor.

Finalmente, a enfermeira regressou.

- Falei com o Dr. Obermeyer - disse num tom animado. - Disse que a informasse de que passaria por cá daqui a pouco. Disse-me também que a sua operação correu fantasticamente bem, mas que é imperativo que descanse. Mandou dar-lhe outro sedativo, portanto, se não se importa, vire-se para eu lhe dar a injecção.

- Não quero outro sedativo! Quero tirar as ligaduras!

- Vamos lá - incitou a enfermeira, puxando para trás a roupa da cama.

Por instantes, Cassi hesitou entre desafiá-la e obedecer. Depois virou-se relutantemente para apanhar a injecção.

- Pronto - disse a enfermeira. - Vai ver que se vai sentir mais calma.

- Que é que me deu? - perguntou Cassi.

- Terá de perguntar ao seu médico. Entretanto, deixe-se ficar deitada e aproveite a sua convalescença. Quer que ligue a televisão? - Sem esperar que Cassi respondesse, ligou o aparelho e foi-se embora.

Cassi sentiu-se um pouco mais tranquilizada com a voz do locutor. Não tardou que o sedativo começasse a fazer efeito e Cassi adormeceu. Acordou por alguns minutos quando o Dr. Obermeyer a foi ver para lhe dizer pessoalmente que a operação tinha sido um enorme êxito. Disse-lhe que esperava que a visão do olho esquerdo ficasse praticamente normal quando tirasse a ligadura, mas que os próximos dias seriam cruciais e que ela devia ter paciência. Disse-lhe também que devia pedir que a medicassem sempre que se sentisse enervada.

Sentindo-se melhor, Cassi voltou a adormecer calmamente. Quando acordou passadas algumas horas, ouviu o murmúrio de vozes no quarto. Ao escutá-las com mais atenção, reconheceu uma delas.

- Thomas? - disse.

- Estou aqui, querida - disse ele, pegando-lhe na mão.

- Tenho medo - disse Cassi, chocada por sentir que as lágrimas lhe corriam por baixo das ligaduras.

- Cassi, por que é que estás a chorar?

- Não sei - disse Cassi, lembrando-se de que era por Robert ter morrido. Ia a contar isto a Thomas, mas começou a chorar tanto que não conseguia falar.

- Tens que te controlar. É importante para o teu olho.

- Sinto-me tão só.

- Que disparate! Estou aqui contigo. Tens uma série de enfermeiras dedicadas a tratar de ti. Estás no melhor hospital. Agora tenta descontrair-te.

- Não consigo - disse Cassi.

- Creio que precisas de outro sedativo - disse Thomas. Cassi Ouviu-o a falar com a outra pessoa que estava no quarto.

- Não quero outra injecção - disse ela.

- Mas quem é o médico sou eu e tu és a doente - disse Thomas. Mais tarde, Cassi sentiu-se satisfeita por ele ter insistido. Sentiu

que caía num sono tranquilo enquanto Thomas falava com ela.

Thomas tocou para chamar a enfermeira. Quando ela chegou, levantou-se da beira da cama e disse:

- Quero que lhe dê dois comprimidos para dormir esta noite. Ontem à noite andava pelos corredores depois de ter tomado um e não quero de forma alguma que isso aconteça hoje.

A enfermeira foi-se embora e Thomas esperou um pouco mais para ter a certeza de que Cassi continuava a dormir. Passados alguns minutos, a boca dela abriu-se e começou a ressonar de uma forma rouca, que não era habitual nela. Thomas encaminhou-se para a porta, hesitou e voltou para trás, dirigindo-se à cómoda e abrindo a última gaveta. Como esperava, ninguém mexera nos dados sobre os casos de MCS. Dadas as circunstâncias, não queria que Cassi os fosse estudar assim que lhe tirassem as ligaduras.

Pegou rapidamente nas folhas de computador e meteu-as debaixo do braço. Deitando um último olhar a Cassi, saiu do quarto, dirigiu-se para o balcão das enfermeiras e pediu para falar com a enfermeira-chefe, Miss Bright.

- Receio que a minha mulher não esteja a aguentar bem a tensão da operação - disse Thomas num tom apologético.

Miss Bright sorriu para o Dr. Kingsley. Conhecia-o muito bem profissionalmente. Era uma surpresa para ela vê-lo admitir que alguém pudesse ter uma fraqueza humana. Pela primeira vez, sentiu pena dele. Era evidente que ter a mulher no hospital também era difícil para ele.

- Teremos todos os cuidados com Cassi - disse ela.

- Não sou médico dela e não quero interferir, mas como disse à outra enfermeira, creio que, por razões psicológicas, deve ser mantida sob forte sedação.

- Tratarei disso - disse Miss Bright. - Não se preocupe.

Cassi não se lembrava de ter jantado, embora a enfermeira que lhe levou os comprimidos lhe garantisse que sim.

- Não me lembro de todo - disse Cassi.

- Isso não abona nada a favor da cozinha do hospital - respondeu a enfermeira. - Nem a meu favor. Fui eu quem lhe dei a comida à boca.

- E os meus diabetes? - perguntou Cassi.

- Está óptima. Demos-lhe um pouco mais de insulina a seguir à refeição, mas a dose normal está aqui. - E a enfermeira bateu no frasco de soro com os nós dos dedos para que Cassi ouvisse. - E está aqui a sua medicação para dormir.

Cassi estendeu obedientemente a mão direita e sentiu que a enfermeira lhe deixava cair dois comprimidos na palma da mão. Meteu-os na boca. Depois, voltando a estender a mão, pegou no copo de água.

- Acha que também precisa de um sedativo?

- Creio que não - disse Cassi. - Sinto como se tivesse passado todo o dia a dormir.

- Faz-lhe bem. A sua mesinha-de-cabeceira está mesmo aqui. A enfermeira tirou o copo da mão de Cassi e guiou-lhe a mão

por cima do varão da cama até ela tocar no copo e no jarro de água e no botão da campainha.

- Precisa de mais alguma coisa? - perguntou a enfermeira. - Está com dores?

- Não, obrigada - disse Cassi. Estava admirada por sentir tão pouco desconforto depois da operação.

- Quer que desligue a televisão?

- Não - disse Cassi, pois agradava-lhe o som.

- OK! Mas está aqui o comando. - A enfermeira levou a mão de Cassi ao botão junto à cama. - Durma bem e se precisar de alguma coisa, toque,

Depois de a enfermeira se ir embora, Cassi explorou as coisas ao seu alcance. Estendeu a mão e tocou na mesinha-de-cabeceira. A enfermeira tinha-a afastado da parede para ficar mais perto dela. Com alguma dificuldade abriu a gaveta metálica e procurou o relógio às apalpadelas. Tinha sido Thomas que lho tinha dado e Cassi pensou se não teria sido melhor depositá-lo no cofre do hospital. Não o encontrou logo. Sentiu com a mão as suas ampolas de insulina e as seringas que trouxera. O relógio estava por baixo das seringas. Provavelmente estava em segurança ali.

Cassi voltou a meter a mão debaixo da roupa. À medida que o medicamento ia fazendo efeito, apercebeu-se por que é que as pessoas eram tentadas a exceder as doses. Fazia que a realidade se tornasse longínqua. Os problemas continuavam a existir, mas à distância. Conseguia pensar em Robert, mas sem sentir a dor da perda. Lembrou-se de como ele estava a dormir serenamente na véspera. Esperava que a sua morte tivesse sido igualmente serena.

Cassi forçou-se a sair abruptamente do abismo do sono. Apercebeu-se com um sobressalto de que devia ter sido uma das últimas pessoas a ver Robert vivo. Pensou então a que horas é que ele teria morrido. Se ao menos ela lá estivesse, talvez pudesse ter feito qualquer coisa. Thomas podia certamente tê-lo salvo.

Cassi fitou a escuridão das suas pálpebras. A recordação da entrada de Thomas no quarto de Robert desenrolou-se lentamente no seu espírito. Lembrou-se do choque que sentira ao vê-lo. Thomas tinha dito que ao ver que Cassi não estava no seu quarto, partira do princípio de que tinha ido visitar Robert. Na altura aceitara essa explicação, mas agora Cassi interrogou-se por que razão Thomas a teria ido ver a meio da noite.

Cassi tentou imaginar o que é que a autópsia de Robert teria determinado, interrogando-se especificamente se teria sido encontrado um mecanismo definido para a morte. Não queria pensar nessas coisas, mas deu por si preocupada com a hipótese de Robert estar ou não cianosado ou se tinha tido convulsões na altura da morte. De repente, Cassi começou a temer que Robert pudesse ter sido candidato a constar do seu próprio estudo. Podia ser o vigésimo caso. E se a última pessoa a ver Robert vivo tivesse sido Thomas? E se Thomas tivesse voltado ao quarto de Robert depois de a deixar? E se a súbita alteração de comportamento de Thomas não fosse tão inocente como parecia?

Cassi começou a tremer. Sabia que estava a ser paranóica e sabia também como as ilusões se podiam tornar perigosamente verdadeiras para a pessoa. Tinha consciência da tensão sob a qual estivera e que tinha tomado uma enorme quantidade de medicamentos, incluindo a medicação para dormir, que começava já a sentir entorpecer a sua capacidade de raciocínio.

No entanto, o seu espírito não conseguia libertar-se daqueles horríveis pensamentos. Involuntariamente, deu por si a reconhecer o facto de que o primeiro caso de MCS ocorrera na altura em que Thomas entrara para o hospital. Cassi interrogou-se sobre se algumas das outras mortes teriam coincidido com as noites que Thomas tinha passado no hospital.

De repente, teve consciência da sua total dependência e vulnerabilidade. Estava sozinha num quarto privado, com soro a ser-lhe administrado, com os olhos vendados e sob sedação. Não tinha forma sequer de saber quando alguém entrava no quarto. Não tinha qualquer forma de se defender.

Cassi teve vontade de gritar por ajuda, mas sentia-se paralisada de medo. Encolheu-se na cama, enrolada sobre si própria. Os segundos passaram, depois minutos. Cassi acabou por se lembrar da campainha. Muito lentamente, deslocou a mão na sua direcção, quase esperando que os seus dedos deparassem com um inimigo desconhecido. Quando tocou no pequeno cilindro de plástico, carregou no botão com o polegar, exercendo continuamente pressão.

Ninguém apareceu. Pareceu-lhe esperar uma eternidade. Tinha deixado de carregar no botão e voltado a carregar várias vezes, rezando para que a enfermeira viesse depressa. Esperava a qualquer minuto que qualquer coisa de terrível acontecesse. Não sabia o quê, sabia apenas que seria algo de terrível.

- Que é? - perguntou a enfermeira num tom ríspido, afastando a mão de Cassi da campainha. - Só precisa de tocar uma vez e viremos assim que pudermos. Tem de se lembrar que temos muitos doentes neste piso e que a maioria está muito pior do que a senhora.

- Quero mudar de quarto - disse Cassi. - Quero voltar para um quarto semiprivado.

- Cassi - disse a enfermeira num tom de exasperação. - Estamos a meio da noite.

- Não quero ficar sozinha! - gritou Cassi.

- Calma, Cassi. Acalme-se. Assim que acabarmos de fazer o registo da medicação, verei o que podemos fazer.

- Quero falar com o meu médico - disse Cassi.

- Cassi, sabe que horas são, não sabe?

- Não me interessa. Quero falar com o meu médico.

- Muito bem. Vou ligar-lhe, se me prometer que fica quieta. Cassi deixou que a enfermeira lhe esticasse as pernas.

- Pronto, já decerto se sente melhor. Agora descontraia-se e eu vou telefonar ao Dr. Obermeyer.

Quando a enfermeira saiu do quarto, o pânico de Cassi já diminuíra. Apercebeu-se de que estava a agir irracionalmente. Estava a comportar-se pior do que os seus próprios doentes. Ao pensar na Clarkson Two, Cassi lembrou-se de Juan. Era a única que compreenderia e não se zangaria por ser acordada. Aos apalpões, Cassi encontrou o telefone e colocou-o em cima da barriga. Entalando o auscultador entre o ombro e a almofada, ligou para a telefonista do hospital. Depois de Cassi explicar quem era, a telefonista ligou para a Drº Widiker.

O telefone tocou durante algum tempo e Cassi começou a ficar preocupada com a possibilidade de Joan ter saído até mais tarde. Ia a desligar quando Joan atendeu.

- Graças a Deus - exclamou Cassi. - Estou tão contente por estares em casa.

- Cassi, que é que se passa?

- Estou aterrorizada, Joan.

- Com que é que estás aterrorizada?

Cassi fez uma pausa. Agora que tinha Joan em linha, apercebeu-se de como os seus temores eram idiotas. Thomas era o cirurgião cardíaco com melhor reputação na cidade.

- Tem alguma coisa a ver com Robert? - perguntou Joan.

- Em parte - admitiu Cassi.

- Cassi, escuta-me - disse Joan. - É natural que estejas perturbada. O teu melhor amigo morreu há pouco e tu foste operada. Tens os olhos vendados. Não podes deixar que a tua imaginação te ponha nesse estado. Pede à enfermeira que te dê um comprimido para dormir.

- Já tomei uma série de medicamentos - disse Cassi.

- Ou tomaste uma dose suficiente ou te deram medicamentos inadequados. Não tentes ser uma heroína. Queres que telefone ao Dr. Obermeyer?

- Não.

- Queres que faça qualquer outra coisa?

- Sabes se Robert estava cianosado quando o encontraram ou se havia indícios de ter tido convulsões?

- Cassi, não faço ideia! E não é uma coisa sobre a qual devas estar a empreender. Ele morreu. Isso é mais do que suficiente para enfrentares neste momento.

- Tens razão - disse Cassi. - Espera um instante, Joan, está aqui alguém.

- Sou a Miss Randall - disse a enfermeira. - O Dr. Obermeyer está a tentar ligar para si.

Cassi agradeceu a Joan e desligou. Mal pousara o auscultador quando o telefone tocou.

- Cassi - disse o Dr. Obermeyer -, acabei de falar com a enfermeira do piso que me disse que você estava muito angustiada. Não sei como é que a posso convencer de que está tudo a correr optimamente. A sua operação correu extremamente bem. Estava à espera de encontrar a habitual patologia de diabetes, mas não. Devia sentir-se extremamente aliviada.

- Creio que o problema são as ligaduras - disse Cassi num tom apologético. - Estou aterrorizada por estar sozinha. Queria ser transferida para um quarto com outro doente. Já.

- Creio que isso é pedir demasiado ao pessoal de enfermagem, Cassi. Talvez possamos pensar em transferi-la amanhã. Por agora estou mais interessado em que se acalme. Aconselhei as enfermeiras a dar-lhe outro sedativo.

- A enfermeira encontra-se aqui neste momento - disse Cassi.

- Óptimo. Deixe que ela lhe dê a injecção e durma. Creio que isto já era de esperar. Os médicos e as mulheres dos médicos são sempre os piores doentes. E você, Cassi, é ambas as coisas!

Cassi deixou que a enfermeira lhe desse outra injecção. Sentiu Miss Randall dar-lhe uma palmadinha no ombro. Depois voltou a ficar sozinha, mas já não se importou com isso. Um sono provocado pelo medicamento abateu-se sobre ela como uma avalanche silenciosa.

Cassi acordou de um sonho violento cheio de terríveis ruídos e de cores agressivas. Apesar do forte sedativo, uma ligeira dor latejante no olho esquerdo fê-la recordar-se de imediato de que estava no hospital.

Ficou absolutamente imóvel durante alguns instantes, esforçando-se por ouvir o mais leve ruído. Por detrás das ligaduras, cores vivas continuavam a dançar-lhe à frente dos olhos, provavelmente provocadas pela pressão das ligaduras. Cassi não ouviu nada a não ser os sons distantes e abafados do hospital adormecido. Depois pensou ter sentido qualquer coisa. Esperou e voltou a ter a mesma impressão. Era o tubo de plástico ligado ao frasco de soro. Sentiu a pulsação acelerar-se. Seria imaginação sua?

- Quem está aí? - perguntou Cassi, conseguindo finalmente coragem para falar.

Ninguém respondeu.

Cassi ergueu a mão direita e levou-a ao lado esquerdo da cama. Não estava ali ninguém. Baixou a mão e apalpou o adesivo que prendia a agulha do soro ao braço. Passou rapidamente o dedo pelo tubo de plástico e puxou-o leigeiramente. A sensação foi idêntica à que sentira antes. Alguém tocara no tubo do soro na escuridão!

Tentando controlar o medo crescente que sentia, Cassi procurou aos apalpões na mesinha-de-cabeceira a campainha. Não a encontrou. Sentiu o copo, o jarro de água, o telefone, mas mais nada. Apalpou uma zona maior, mexendo mais rapidamente a mão, sentindo aumentar a sensação de isolamento e de vulneralibilidade. A campainha não estava ali. Desaparecera.

Cassandra sentiu-se gelada pela força da sua própria imaginação. Havia alguém no quarto. Sentia a sua presença. Depois sentiu o cheiro de algo familiar. Água-de-colónia Yves St. Laurent.

- Thomas? - chamou Cassi. Soerguendo-se sobre o cotovelo direito, voltou a chamar: - Thomas!

Não houve resposta.

Cassi sentiu que estava a ficar ensopada em suor. No espaço de poucos segundos, todo o seu corpo ficou encharcado de suor. O coração, que já estava a bater rapidamente, começou a bater com violência. Cassi percebeu imediatamente o que se estava a passar. Já lhe acontecera antes, mas nunca com uma rapidez tão devastadora. Estava a ter uma reacção à insulina.

Desesperada, deitou as mãos às ligaduras, tentando meter os dedos por baixo da faixa adesiva. A mão esquerda, previamente imobilizada devido ao soro, também puxou as ligaduras.

Cassi tentou gritar, mas a sua voz não tinha força. Sentiu que a cama começava a girar. Atirou-se para o lado, contra o varão de protecção. Debatendo-se violentamente, voltou a tentar encontrar o botão da campainha, mas fez tombar inadvertidamente a mesa e o telefone; o jarro de água e o copo cairam ruidosamente no chão. Mas Cassi não ouviu. O seu corpo já estava prisioneiro de um violento ataque de epilepsia.

Carol Aronson, a enfermeira de vela no décimo sétimo piso, estava na sala de medicação a preparar um antibiótico quando ouviu o ruído distante de vidro a partir-se. Hesitou durante alguns instantes, espreitou para a sala contígua e trocou um olhar com Leonore, a outra enfermeira de serviço. Juntas, as duas mulheres saíram do balcão das enfermeiras para investigar. Tinham ambas a desagradável sensação de que alguém caíra da cama. Ainda no princípio do corredor, ouviram o ruído dos varões de protecção da cama de Cassi.

As duas mulheres correram para o quarto. Cassi continuava a ter violentas convulsões. Tinha os braços enfiados dos varões e agitava-os descoordenadamente.

Carol, que sabia que Cassi era diabética, percebeu imediatamente o que se estava a passar.

- Leonore! Dá o alerta e traz-me uma ampola de cinquenta por cento de glucose, uma seringa de cinquenta centímetros cúbicos e um frasco novo de D5W.

A enfermeira saiu do quarto a correr.

Entretanto, Carol conseguiu tirar os braços de Cassi de entre os varões. De seguida, tentou 'meter um protector de língua entre os dentes cerrados de Cassi, mas sem êxito. Desligou o soro que estava a correr rapidamente e esforçou-se por impedir que Cassi batesse com a cabeça na cabeceira da cama.

Leonore regressou ao quarto e Carol pegou no frasco de D5W, trocando-o imediatamente pelo anterior. Pôs este de lado, pois sabia que o médico havia de querer verificar o nível de insulina. Depois ajustou a abertura do soro ao máximo e transferiu a glucose a cinquenta por cento da ampola para a seringa. Ao terminar, hesitou quanto à forma de a administrar. Tecnicamente, devia esperar que chegasse um médico, mas Carol já estava há tempo suficiente em medicina de crise para saber que naquelas circunstâncias a glucose devia ser a primeira coisa a tentar, além de que mal não faria. Decidiu administrá-la. A quantidade de suor no corpo de Cassi indicava uma grave reacção à insulina.

Carol enfiou a agulha no tubo de soro e carregou no êmbolo

da seringa. Ainda não acabara de injectar todo o conteúdo quando

o efeito se deu de uma forma dramática. Cassi parou de ter convulsões e pareceu recuperar a consciência. Abriu os lábios e pareceu

estar a tentar dizer qualquer coisa.

Mas as melhoras não se mantiveram. Cassi voltou a perder a consciência e, embora não voltasse a ter convulsões, músculos isolados continuaram a contrair-se.

Quando a equipa de emergência chegou, Carol relatou o que fizera. O médico responsável examinou Cassi e começou a dar ordens.

- Quero que tirem sangue para pesquisa de electrólitos, incluindo cálcio, gases no sangue arterial e açúcar no sangue - disse ao médico estagiário. - E quero que lhe faça um ECG - disse ao aluno de medicina também presente. - Miss Aronson, que tal outra ampola de glucose a cinquenta por cento?

Enquanto a equipa trabalhava, Leonore levantou a mesinha-de-cabeceira e colocou o telefone no sítio. Com o pé, empurrou os estilhaços de vidro do jarro e do copo para um canto. A gaveta tinha caído da mesinha e Leonore meteu-a no lugar. Foi nessa altura que descobriu várias ampolas de insulina. Chocada, entregou-as a Carol, que, por sua vez, as deu ao médico.

- Santo Deus!-exclamou ele. - Ela devia injectar-se vendada?

- Claro que não - disse Carol. - Tinha insulina no soro e estava a receber um suplemento de acordo com a quantidade de açúcar na urina.

- Então por que é que aplicou insulina a si própria? - perguntou o médico.

- Não sei - disse Carol. - Talvez tenha ficado confusa com os sedativos e seguisse a sua rotina normal. Caramba, sei lá!

- Como é que se conseguia injectar vendada?

- Isso podia. Lembre-se de que já se auto-injecta duas vezes por dia há vinte anos. Não podia acertar a dose, mas injectar-se podia. Além disso, há uma outra possibilidade.

- Qual?

- Talvez tenha feito de propósito. A enfermeira do turno de dia disse que ela estava deprimida e o marido disse que ela andava a ter um comportamento estranho. Penso que sabe quem é o marido dela.

O médico assentiu. Não queria pensar que se tratava de um caso de suicídio, pois odiava casos psiquiátricos, especialmente às três da manhã.

Carol, que tinha estado a encher outra seringa com glucose enquanto falava, deu-lha. O médico injectou-a imediatamente. Como já acontecera, Cassi melhorou durante alguns minutos, mas voltou a perder a consciência.

- Quem é o médico dela? - perguntou o médico, pegando numa terceira seringa de glucose que Carol lhe estendia.

- O Dr. Obermeyer. Oftalmologia.

- Alguém lhe devia telefonar - disse o médico. - Este não é um caso para nós, internos de serviço, assumirmos.

O telefone tocou inúmeras vezes antes de Thomas estender a mão num gesto entorpecido e atender. Tinha tomado dois Per-codan antes de se deitar no seu consultório e teve uma grande dificuldade em perceber o que lhe estavam a dizer.

- Tem um sono pesadíssimo - disse a telefonista do hospital num tom bem-disposto. - Tem uma chamada do Dr. Obermeyer. Ele queria ligar directamente, mas eu disse-lhe que me tinha dado ordens estritas para o não fazer. Quer o número?

- Sim!-disse Thomas, procurando um lápis em cima da secretária.

A telefonista deu o número a Thomas, que começou a marcá-lo, mas parou. Reparou nas horas e ficou preocupado. Obviamente era por causa de Cassi. Foi à casa de banho e molhou a cara, tentando reunir as ideias.

Esperou até parte da obnubilação devida às drogas se dissipar e só então é que ligou.

- Thomas, houve uma complicação esta noite - disse o Dr. Obermeyer.

- Uma complicação? - perguntou Thomas num tom preocupado.

- Sim - disse o Dr. Obermeyer. - Uma complicação inesperada. Cassi injectou-se com uma dose excessiva de insulina.

- Ela está bem? - perguntou Thomas.

- Sim, parece estar. Thomas ficou estupefacto.

- Sei que isto deve ser um choque para si - dizia o Dr. Obermeyer -, mas ela está bem. O Dr. Mclnery, o seu interno assistente, está aqui, e graças à rápida actuação da enfermeira de vela ele diz que Cassi ficará boa. Transferimo-la para a UCI, mas apenas por precaução.

- Graças a Deus - disse Thomas, com as ideias num turbilhão. - Vou já para aí.

Assim que chegou ao hospital, Thomas correu para junto de Cassi. Parecia estar a descansar serenamente. Reparou que lhe tinham tirado a ligadura do olho direito.

- Está a dormir, mas pode ser acordada - disse uma voz ao seu lado.

Thomas virou-se e deparou com o Dr. Obermeyer.

- Quer falar com ela? - perguntou, estendendo a mão para acordar Cassi.

Thomas agarrou-lhe no braço.

- Não, obrigado. Deixe-a dormir.

- Eu sabia que ela estava perturbada ontem à noite - disse o Dr. Obermeyer num tom contrito. - Mandei-lhe dar uma dose suplementar de sedativos. Nunca esperei uma coisa destas.

- Cassi estava muito agitada quando estive com ela - disse Thomas. - Um amigo dela morreu ontem à noite e ficou muito perturbada. Não tencionava dizer-lhe o que se tinha passado, mas soube que uma das estagiárias de psiquiatria teve a falta de senso suficiente para lhe comunicar.

- Acha que foi uma tentativa de suicídio? - perguntou o Dr. Obermeyer.

- Não sei - respondeu Thomas. - Pode apenas ter ficado confusa. Está habituada a injectar-se com insulina duas vezes por dia.

- Que acha de ela ser vista por um psiquiatra? - perguntou o Dr. Obermeyer.

- O senhor é que é o médico. Não consigo ser muito objectivo. Mas se fosse a si, esperaria. É evidente que aqui está em segurança.

- Tirei-lhe o penso e a ligadura do olho direito - disse o Dr. Obermeyer. - Receio bem que as ligaduras tenham sido um factor de peso na sua reacção de ansiedade. Agrada-me poder dizer-lhe que o olho esquerdo continua sem hemorragia. Dado que acabou de ter um ataque de epilepsia, que é provavelmente a forma mais dura imaginável para testar o êxito da coagulação do vaso, creio que não temos de nos preocupar mais com novas hemorragias.

- Qual é a contagem de açúcar no sangue? - perguntou Thomas.

- Neste momento está com valores próximos dos normais, mas faremos regularmente análises. Os médicos acham que ela tomou uma dose enorme de insulina.

- Bom, já aconteceu ser descuidada no passado - disse Thomas. - Tentou sempre minimizar a sua doença, mas isto parece-me mais do que um mero descuido. Mesmo assim, é possível ela não se ter apercebido do que estava a fazer.

Thomas agradeceu a Obermeyer pelo seu excelente trabalho e saiu lentamente da UCI.

As enfermeiras olharam para ele quando passou. Nunca tinham visto o Dr. Kingsley tão deprimido e nervoso.

 

Cassi tomou consciência de onde estava por volta das cinco da manhã. Via o grande relógio de parede por cima do balcão das enfermeiras e pensou que estava na sala de recuperação. Doía-lhe terrivelmente a cabeça, o que atribuiu à intervenção cirúrgica à vista. De facto, quando tentava olhar de um lado para o outro, sentia uma dor extremamente forte no olho esquerdo. Apalpou levemente a ligadura que lhe tapava a vista operada.

- Viva, Drº Cassidy- disse uma voz à sua esquerda. Cassi virou lentamente a cabeça e deparou com o rosto sorridente de uma das enfermeiras. - Seja bem-vinda ao mundo dos vivos. Pregou-nos um valente susto.

Confusa, Cassi retribuiu-lhe o sorriso e olhou para o distintivo com o nome da enfermeira. Miss Stevens, UCI de medicina. Cassi sentiu-se ainda mais confusa.

- Como é que se sente? - perguntou Miss Stevens.

- Com fome - disse Cassi.

- Pode ser o açúcar no sangue a diminuir novamente. Tem andado aos saltos como uma bola de borracha.

Cassi mexeu ligeiramente o corpo e sentiu uma desagradável sensação de ardor entre as pernas. Apercebeu-se de que estava alga-liada.

- Houve algum problema com os meus diabetes durante a operação?

- Durante a operação, não - disse Miss Stevens, com um sorriso. - Houve na noite a seguir. Ao que parece, injectou-se com insulina em excesso.

- Eu? - disse Cassi. - Que dia é hoje?

- São cinco da manhã de sexta-feira.

Cassi sentiu-se extremamente confusa. Perdera de alguma forma a noção de um dia inteiro.

- Onde é que estou? - perguntou. - Não estou na sala de recuperação, pois não?

- Não, está na UCI. Veio para cá por ter tido uma reacção à insulina. Não se lembra de nada do que se passou ontem?

- Creio que não - disse Cassi, vagamente. Algures no seu espírito começou a recordar-se de uma sensação de terror.

- Foi operada ontem de manhã e levada para o seu quarto. Aparentemente estava óptima. Não se lembra de nada disso?

- Não - disse Cassi sem convicção. Começava-lhe a surgir imagens no meio da obnubilação do seu espírito. Lembrava-se da horrível sensação de estar prisioneira do seu próprio mundo, da sua total vulnerabilidade. Vulnerabilidade e terror. Mas terror de quê?

- Ouça - disse Miss Stevens. - Vou buscar-lhe um copo de leite. Depois tem de tentar voltar a adormecer.

Quando Cassi tornou a olhar para o relógio, passava já das sete. Thomas estava de pé ao lado da sua cama, com os olhos inchados e vermelhos.

- Acordou há cerca de duas horas - disse Miss Stevens, também de pé do outro lado da cama. - O nível de açúcar no sangue está ligeiramente baixo, mas parece estável.

- Estou tão contente por estares melhor - disse Thomas, apercebendo-se de que Cassi acordara. - Vim ver-te a meio da noite, mas não estavas completamente lúcida. Como é que te sentes?

- Bastante bem - disse Cassi. A água-de-colónia de Thomas estava a ter um efeito estranho nela. Era como se o odor da Yves St. Laurent tivesse feito parte do seu devastador pesadelo. Cassi sabia que sempre que tinha o azar de fazer reacção à insulina tinha sonhos terríveis. Mas daquela vez teve a sensação de que o pesadelo não terminara.

O coração de Cassi começou a bater mais rapidamente, agravando a dor latejante que tinha na cabeça. Não conseguia distinguir entre o sonho e a realidade. Sentiu-se aliviada quando passados alguns minutos Thomas se foi embora, dizendo:

- Tenho de ir operar. Voltarei assim que me despachar.

Ao meio-dia, Cassi já tinha sido observada pelo Dr. Obermeyer e pelo médico que a assistira e recebido alta da unidade. Levaram-na de volta para o quarto privado ao fundo do corredor, mas ela insurgiu-se tão violentamente por ficar sozinha que por fim a puseram numa enfermaria em frente ao balcão das enfermeiras. Tinha três companheiras de sala. Duas tinham fracturas múltiplas e estavam em tracção; a outra era uma mulher enorme e obesa que fora operada à vesícula e que não estava a reagir bem.

Cassi fez um outro pedido insistente. Quis que lhe tirassem o soro. O Dr. Mclnery tentou convencê-la, argumentando que ela acabara de fazer uma grave reação à insulina. Disse-lhe que se não tivesse estado a soro e não tivesse sido possível administrar-lhe o açúcar tão rapidamente, poderia ter entrado em coma irreversível. Cassi escutou-o educadamente, mas continuou a mostrar-se intransigente. O soro foi-lhe retirado.

A meio da tarde, Cassi sentiu-se francamente melhor. A dor de cabeça diminuíra, tornando-se aceitável. Estava a ouyir as companheiras de sala a descrever os seus problemas quando Joan Widiker entrou.

- Acabei de saber o que se passou - disse, preocupada. - Como é que estás?

- Estou óptima - disse Cassi, contente por ver Joan.

- Graças a Deus! Cassi, ouvi dizer que te injectaste com uma dose excessiva de insulina.

- Se o fiz, não me lembro - disse Cassi.

- Tens a certeza? - perguntou Joan. - Sei que ficaste muito perturbada com o que aconteceu a Robert...- Joan não terminou a frase.

- Que se passa com Robert? - perguntou Cassi com ansiedade. Antes de Joan poder responder, fez-se luz no seu espírito. Era como se uma peça que faltava se tivesse encaixado no puzzle. Cassi lembrou-se que Robert tinha morrido na noite a seguir a ser operado.

- Não te lembras? - perguntou Joan.

Cassi deixou cair o corpo como utn peso morto na cama.

- Já me lembro. Robert morreu. - Olhou para o rosto de Joan com uma expressão que lhe implorava que dissesse que não era verdade, que aquela ideia apenas fazia parte do pesadelo provocado pela insulina.

- Robert morreu - confirmou Joan num tom solene. - Cassi, tens estado a enfrentar a tua dor através da negação da verdade?

- Não creio - disse Cassi -, mas não sei. - Parecia-lhe duplamente cruel ter de receber aquela notícia duas vezes. Teria suprimido o conhecimento do facto ou teria a reacção à insulina feito com que ele se apagasse da sua memória perturbada?

- Diz-me uma coisa - disse Joan, puxando uma cadeira para poderem conversar com maior privacidade. As outras três mulheres fingiram não estar à escuta. - Se não te injectaste com a dose extra de insulina, como é que ela entrou no teu sistema circulatório?

Cassi abanou a cabeça.

- Não estou em estado suicida, se é isso que estás a insinuar.

- É importante que me digas a verdade - disse Joan.

- E estou - retorquiu Cassi, irritada. - Não acredito que me tenha injectado com insulina, nem sequer em estado de sonambulismo. Creio que me foi administrada.

- Por acidente? Uma dose excessiva por acidente?

- Não. Creio que foi intencional.

Joan olhou para a amiga com uma distanciação clínica. A ideia de que alguém no hospital estava a tentar fazer mal a determinado doente era uma ilusão com que Joan já deparara várias vezes. Mas não esperava aquilo de Cassi.

- Tens a certeza? - perguntou finalmente. Cassi abanou a cabeça.

- Depois de tudo por que passei, é difícil ter certezas seja sobre o que for.

- Quem é que achas que o poderia ter feito? - perguntou Joan. Colocando as mãos em concha junto à boca, Cassi murmurou:

- Creio que pode ter sido Thomas.

Joan ficou chocada. Não gostava particularmente de Thomas, mas aquela afirmação evidenciava pura paranóia. Não sabia bem como é que havia de reagir. Estava a tornar-se evidente que Cassi precisava de ajuda profissional e não apenas dos conselhos de uma amiga.

- Por que é que pensas que terá sido Thomas? - perguntou Joan, finalmente.

- Acordei a meio da noite e senti o cheiro da água-de-colónia dele.

Se Joan tivesse a menor suspeita de que Cassi era esquizofrénica, não a teria confrontado. Mas sabia que Cassi era essencialmente uma pessoa normal que ultimamente andara sujeita a uma tensão extrema. Joan achou aconselhável não deixar que Cassi consolidasse os seus padrões de pensamento ilusórios.

- Cassi, creio que o cheiro da água-de-colónia de Thomas a meio da noite é uma prova sem o menor fundamento.

Cassi tentou interrompê-la, mas Joan pediu-lhe que a deixasse acabar.

- Creio que dadas as circunstâncias estás a confundir um estado de sonho com a realidade.

- Joan, já reflecti sobre isso.

- Mais! -continuou Joan, ignorando Cassi. - A reacção à insulina inclui pesadelos. Estou certa de que sabes isso muito melhor do que eu. Creio que tiveste uma grave psicose ilusória. Afinal de contas, tens estado sob uma grande tensão, dada a tua própria operação e a triste morte de Robert. Creio que nesse estado é perfeitamente possível teres-te injectado e depois tido todo o tipo de pesadelos que agora pensas que pertencem à realidade.

Cassi escutou-a, cheia de esperança. Já no passado tivera dificuldade em distinguir o real do imaginário nos seus sonhos induzidos pela insulina.

- Mas continua a ser-me muito difícil acreditar que pudesse ter administrado a mim própria uma dose excessiva de insulina - disse.

- Talvez não tenha sido uma dose excessiva. Podes muito bem ter-te injectado com a dose normal. Podes ter pensado que eram horas da tua injecção da noite.

Era uma explicação atractiva e sem dúvida mais fácil de aceitar do que a de Thomas ter querido matá-la.

- A minha maior preocupação neste momento - continuou Joan - é se estás deprimida.

- Creio que estou um pouco, sobretudo por causa de Robert. Suponho que devia estar contente com o resultado da operação, mas nas actuais circunstâncias é difícil. Mas posso garantir-te que não me sinto autodestrutiva. De qualquer forma, tiraram-me toda a insulina.

- Foi melhor assim - disse Joan, levantando-se. Estava convencida de que Cassi não estava em estado suicida. - Infelizmente tenho duas consultas a fazer. Tenho de me pôr a andar. Toma cuidado contigo e chama-me se precisares de mim. Prometes?

- Prometo - disse Cassi, sorrindo a Joan. Era uma boa amiga e uma boa médica. Confiava na sua opinião.

- Aquela senhora é psiquiatra? - perguntou uma das companheiras de sala de Cassi quando Joan saiu.

- É - respondeu Cassi. - É estagiária como eu, mas já está mais adiantada. Acaba o estágio na próxima Primavera.

- Ela acha que a senhora é maluca? - perguntou a mulher. Cassi reflectiu sobre esta pergunta. Não era tão estúpida quanto

parecia. De certa forma, Joan pensava que ela estava temporariamente louca.

- Acha que eu estava perturbada - disse Cassi. Parecia-lhe mais fácil utilizar um eufemismo. - Pensou que eu pudesse ter tentado fazer mal a mim própria durante o sono. Se começar a fazer qualquer coisa que vos pareça estranha, chamem as enfermeiras, está bem?

- Não se preocupe. Gritarei até não poder mais.

As outras mulheres que tinham estado a ouvir a conversa corroboraram entusiasticamente.

Cassi esperava não ter assustado as três doentes, mas o facto de saber que estariam atentas ao que fizesse fazia que se centisse mais confiante. A ser verdade ter-se injectado com uma dose excessiva de insulina sem ter consciência disso, era bom ter presente uma certa preocupação.

Fechou os olhos e pensou quando seria o funeral de Robert. Esperava ter alta a tempo de poder ir. Depois pensou no projecto dos casos de MCS e pensou em que é que ficaria. Lembrando-se dos registos de computador que tirara do quarto dele, decidiu ver se alguém os poderia localizar.

Tocou para chamar a enfermeira que prometera procurá-los no quarto que Cassi ocupara anteriormente. Meia hora depois, a enfermeira regressou dizendo que as duas colegas que tinham ajudado a transferir Cassi não encontraram as folhas de computador. A enfermeira acrescentou que ela própria verificara todas as gavetas, não encontrando nada.

Talvez os registos das MCS tivessem também sido uma alucinação, pensou. Parecia lembrar-se de ter ido ao quarto de Robert buscá-las e depois de lá mesmo ter chocado com Thomas. Mas talvez tivesse sido tudo um sonho. Cassi pensou como é que podia ter a certeza. A forma mais fácil era perguntar a Thomas, mas não estava certa de o querer fazer.

Ao olhar em volta da sala, Cassi ficou satisfeita por ver que as companheiras se preparavam para jantar. O simples facto de ali estarem, fazia que se sentisse segura.

 

Thomas parou imediatamente antes da ponte sobre os pântanos. Desligou o motor e verificou se iam alguns outros carros a passar antes de abrir a porta. Saiu do carro e dirigiu-se para a ponte de madeira, em arco; os seus passos faziam um ruído cavo nas velhas pranchas de madeira. A maré estava a vazar e a corrente fluía rapidamente sob a velha ponte, fazendo remoinhos à volta dos pilares de suporte.

Thomas precisava de apanhar ar. Os dois Talwin que tomara antes de sair do consultório tinham tido um efeito decepcionante sobre a sua disposição. Nunca se sentira tão enervado. A conferência de sexta-feira à tarde tinha sido desastrosa. E ainda por cima tinham-se verificado todos aqueles problemas com Cassi.

Thomas ficou na ponte deserta durante quase meia hora, deixando-se enregelar pelo vento húmido. O desconforto que sentia foi terapêutico, tornando-lhe possível pensar. Tinha de fazer qualquer coisa. Ballantine e os seus apaniguados estavam determinados a destruir tudo o que Thomas cuidadosamente construíra. Tinha uma ampola cerrada na mão, tencionando deitá-la à água, mas não o fez, metendo-a na algibeira do sobretudo.

A pouco e pouco, Thomas começou a sentir-se melhor. Teve uma ideia, e à medida que esta ideia ia tomando forma, começou a sorrir. Depois riu alto, interrogando-se por que é que não pensara nisso antes. Com um novo surto de energia, regressou ao carro e aqueceu os dedos junto ao ventilador antiembaciante.

Depois de meter o carro na garagem, atravessou a correr o pátio até à casa. Transferiu a ampola para a algibeira do fato ao tirar o sobretudo e foi cumprimentar a mãe, sentindo-se melhor do que se sentira todo o dia.

- Estou tão contente por chegares a horas - disse ela. - Har-riet acabou de pôr o jantar na mesa. - Deu-lhe o braço e conduziu-o para a sala de jantar. Thomas sabia que a mãe estava de bom humor por o ter só para ela, mas até perguntou delicadamente por Cassi antes de se servir.

Quando Harriet voltou para a cozinha, perguntou a Thomas como é que lhe correra o dia.

- As coisas já estão melhores no hospital?

- Nem por isso - disse Thomas, sem vontade de falar na situação, que se estava a agravar.

- Já falaste com George Sherman? - perguntou Patrícia num tom de desagrado.

- Mãe, não quero falar nos problemas do hospital. Comeram em silêncio durante alguns minutos, mas Patrícia não

se conseguiu conter e voltou a falar.

- Sabes bem o que é que tens que fazer a esse homem assim que sejas director.

Thomas pousou o garfo.

- Mãe, não podemos falar de outra coisa?

- É difícil evitar este assunto - quando vejo até que ponto é que te está a perturbar.

Thomas tentou acalmar-se, inspirando fundo várias vezes. Patrícia viu que ele estava a tremer.

- Olha bem para ti, Thomas. Pareces uma mola em tensão. - Patrícia estendeu a mão para fazer uma festa no braço do filho, mas Thomas esquivou-se, afastando a cadeira para trás e levantando-se.

- Esta situação está a pôr-me fora de mim - confessou Thomas.

- Quando é que pensas que serás nomeado director? - perguntou Patrícia, observando o filho, que começara a andar de um lado para o outro como um leão enjaulado.

- Meu Deus, isso queria eu saber - disse Thomas por entre os dentes cerrados. - Mas em breve as coisas melhorarão. Senão, o departamento entrará em caos. Toda a gente parece empenhada em destruir o programa vascular cardíaco que eu criei. O Boston Memorial é famoso porque a minha equipa de cirurgia o tornou famoso. E em vez de me deixarem expandi-lo, estão constantemente a cortar o meu tempo de operação. Soube hoje que mo voltaram a reduzir. E sabes porquê? Porque Ballantine fez um acordo com o departamento docente do Memorial dando admissão gratuita aos doentes internados numa grande instituição estatal para atrasados mentais da zona oeste do Estado. Sherman foi lá e disse que era uma mina de ouro para um cirurgião cardíaco. O que não disse foi que a idade mental média dos doentes era inferior a dois anos. Alguns até são monstros, com-pletamente deformados. Estou absolutamente furioso!

- Bom, mas não irás dar apoio aos médicos internos nesses casos? - perguntou Patrícia, tentando pensar no lado positivo da questão.

- Mãe, trata-se de casos pediátricos mentalmente deficientes e Ballantine tenciona contratar um cirurgião cardíaco pediátrico a tempo inteiro.

- Bom, então isso não te irá afectar.

- Claro que afecta! - gritou Thomas. - Farão ainda mais pressão para cortar o meu tempo de BO. - Thomas sentiu a sua irritação aumentar. - Os meus doentes ficarão sujeitos a graves demoras antes de poderem ser operados ou terão de o ser noutro hospital.

- Mas com certeza que os teus doentes terão prioridade na marcação das operações, querido.

- Mãe, não compreendes - disse Thomas, fazendo um esforço para falar devagar. - O hospital não se interessa pelo facto de eu apenas aceitar doentes que não só têm boas hipóteses de sobreviver, como valem a pena salvar. Para construir a reputação do departamento de ensino, Ballantine prefere sacrificar o valioso tempo do BO para operar uma cambada de- imbecis e de deficientes. Só se eu for nomeado director é que poderei pôr termo a isso.

- Olha, Thomas - disse Patrícia -, se não te derem esse cargo, então o que tens a fazer é ires para outro hospital. Por que é que não te sentas e acabas de jantar.

- Não posso limitar-me a ir para outro hospital - gritou Thomas.

- Thomas, acalma-te.

- A cirurgia cardíaca exige uma equipa. Não compreendes isso? - Thomas atirou como guardanapo para cima do prato ainda com comida. - Irritaste-me! - gritou irracionalmente. - Venho para casa a contar com um pouco de paz e tu irritas-me! - Saiu bruscamente da sala de jantar, deixando a mãe a pensar no que é que tinha dito para o pôr naquele estado.

Enquanto percorria o corredor do andar de cima, Thomas ouvia as ondas a rebentar na praia distante. Deviam ser ondas de dois ou três metros. Adorava aquele barulho. Recordava-lhe a sua infância.

Acendeu a luz da saleta e olhou em volta. O mobiliário branco tinha um ar frio e cru. Detestava a forma como Cassi insistira em redecorar a sala. Tinha um certo ar ordinário, apesar das cortinas de renda e das almofadas de flores.

Ficou ali durante apenas alguns instantes antes de ir para o seu escritório. Com as mãos a tremer, procurou o seu Percodan. Ainda pensou em voltar à cidade para ir ter com Doris. Mas o Percodan começou a acalmá-lo. Em vez de sair para a noite gelada, serviu-se de um uísque.

 

Cassi tinha esperado acabar por se habituar à luz do oftalmologista, mas de cada vez que Obermeyer a examinava sentia sempre a mesma sensação desagradável. Tinham já passado cinco dias desde que fora operada e, à excepção da reacção à insulina, o pós-operatório correra bem e sem incidentes. O Dr. Obermeyer tinha-a ido ver todos os dias para espreitar o olho e tinha sempre dito que estava tudo a correr muito bem. Naquele dia, em que devia ter alta, foi levada ao consultório do Dr. Obermeyer para um último exame “completo”, nas palavras dele.

Para enorme alívio de Cassi, ele afastou finalmente a luz.

- Bom, Cassi, o vaso que lhe causou problemas está sarado e não voltou a sangrar. Mas não precisa que eu lhe diga isso. A sua visão melhorou espectacularmente nesse olho. Quero que faça regularmente exames de fluorescência e talvez ainda venha a precisar de tratamentos com laser no futuro, mas está absolutamente fora de perigo quanto a cegar.

Cassi não sabia bem como eram os tratamentos com laser, mas esse facto não fez diminuir o seu entusiasmo por sair do hospital. Convencida de que os seus receios quanto a Thomas tinham sido imaginários e que grande parte dos seus problemas eram pelo menos parcialmente por culpa sua, estava ansiosa por chegar a casa para tentar recompor o seu casamento.

Embora Cassi estivesse perfeitamente capaz de andar, uma voluntária de bata verde, que a acompanhou do edifício Scherington de volta ao quarto, insistiu que fosse de cadeira de rodas. Cassi sentiu-se idiota. A voluntária tinha quase setenta anos e uma respiração asmática, mas não cedeu, e Cassi teve de deixar que a mulher a empurrasse até ao quarto.

Depois de fazer as malas, Cassi sentou-se na cama à espera que lhe comunicassem formalmente a alta. Thomas tinha cancelado as suas consultas e levá-la-ia a casa por volta da uma e meia ou duas da tarde. A sua atenção carinhosa não fraquejara durante o tempo que estivera internada. Tinha sempre arranjado forma de a ir ver quatro ou cinco vezes por dia, jantando muitas vezes na sala juntamente com as companheiras de Cassi, que Thomas acabara por encantar. Também finalizara os seus planos de férias e agora, com a bênção do Dr. Obermeyer, partiriam daí a uma semana e meia.

Só a ideia das férias bastava para Cassi se sentir tremendamente feliz. À excepção da sua lua-de-mel na Europa, que Thomas interrompera para operar e dar conferências na Alemanha, nunca tinham estado sozinhos por um período superior a dois dias. Cassi estava tão ansiosa pela viagem como uma criança de cinco anos pelo Natal.

Até o Dr. Ballantine visitara Cassi enquanto esteve internada. A sua dose excessiva de insulina parecia tê-lo enervado particularmente e Cassi pensou se ele se sentiria responsável devido à conversa que tinham tido, mas quando tentou abordar a questão ele recusou-se a discuti-la.

Mas o que realmente tornara a sua hospitalização tão agradável fora Thomas. Mostrara-se tão descontraído nos últimos cinco dias que Cassi até conseguira falar com ele sobre Robert. Perguntara a Thomas se se tinha de facto encontrado com ele no quarto de Robert na noite em que ele morrera ou se tinha sonhado. Thomas riu-se e disse que a tinha lá encontrado na noite antes da operação; estava fortemente sedada e parecia não saber o que estava a fazer.

Cassi ficou aliviada por saber que nem todos os acontecimentos dessa noite tinham sido alucinações e embora continuasse a pôr em causa determinadas recordações vagas, estava disposta a atribuí-las à sua imaginação, sobretudo depois de Joan lhe ter feito compreender o poder do seu subconsciente.

- Muito bem - disse Miss Stevens, entrando no quarto para ver se Cassi estava pronta. - Estão aqui os seus medicamentos. Estas gotas são para pôr durante o dia. E este unguento é para pôr ao deitar. Também juntei alguns pensos para o olho. Tem algumas perguntas que me queira fazer?

- Não - disse Cassi, levantando-se.

Como eram ainda onze e pouco, Cassi levou a mala para o átrio e deixou-a ficar no balcão das informações. Sabendo que Thomas estaria ocupado pelo menos mais duas horas, Cassi subiu no elevador até ao piso de patologia. Uma das vagas recordações que não quisera discutir com Thomas relacionava-se com os dados sobre os casos de MCS. Lembrava-se de qualquer coisa sobre esses dados, mas as suas ideias sobre isso não estavam claras e a última coisa que queria era dar a entender a Thomas que continuava interessada no estudo.

Ao chegar ao nono andar, Cassi foi directamente para o gabinete de Robert. Só que já não pertencia a Robert. Na porta havia já uma placa de metal com um novo nome, Dr. Percey Prazer. Cassi bateu à porta e ouviu alguém gritar que entrasse.

O gabinete contrastava vivamente com o aspecto que tinha no tempo de Robert. Havia pilhas de livros, de revistas médicas e lamelas para microscópio por todo o lado. O chão estava literalmente cheio de folhas amachucadas. O aspecto do Dr. Prazer correspondia ao do gabinete. Tinha cabelo frisado, todo despenteado, que se misturava directamente com uma barba também hirsuta.

- Em que lhe posso ser útil? - perguntou, apercebendo-se da reacção de espanto que Cassi teve face a toda aquela desarrumação. O seu tom de voz não era nem amistoso nem desagradável.

- Era amiga de Robert Seibert - disse Cassi.

- Ah, sim - disse o Dr. Prazer, inclinando a cadeira para trás e colocando as mãos atrás da cabeça. - Foi uma tragédia.

- Sabe por acaso para onde foram os papéis dele? - perguntou Cassi. - Estávamos ambos a trabalhar num projecto. Tinha esperança de conseguir recuperar o material.

- Não faço a menor ideia. Quando me deram o gabinete, estava completamente vazio. Aconselho-a a falar com o director do departamento, o Dr. ...

- Conheço o director - interrompeu Cassi. - Fui estagiária neste serviço.

- Lamento, mas não a posso ajudar - disse o Dr. Prazer, deixando cair a cadeira para a frente e recomeçando a trabalhar.

Cassi ia já a sair quando se lembrou de outra coisa.

- Sabe qual foi o resultado da autópsia de Robert?

- Ouvi dizer que tinha uma grave lesão numa das válvulas cardíacas.

- E qual foi a causa da morte?

- Isso não sei. Estão à espera dos resultados sobre o cérebro. Talvez ainda não tenham terminado todos os exames.

- Sabe se ele estava cianosado?

- Creio que sim, mas não me deve perguntar a mim. Acabei de cá chegar. Por que é que não fala ao director?

- Tem razão. Obrigado por ter falado comigo.

O Dr. Prazer acenou em despedida enquanto Cassi saía do gabinete, fechando cuidadosamente a porta atrás de si. Foi à procura do director do departamento, mas ele estava numa reunião fora da cidade. Sentindo-se triste, Cassi decidiu esperar na sala de espera de Thomas até ele estar despachado. O facto de ver o gabinete de Robert já ocupado fizera-a sentir a sua morte como terrivelmente definitiva. Como não pudera ir ao funeral, Cassi tinha por vezes dificuldade em lembrar-se de que o seu amigo morrera. Agora já não teria esse problema.

Quando Cassi chegou ao gabinete de Thomas viu que a porta estava fechada à chave. Olhando para o relógio, apercebeu-se porquê. Já passava do meio-dia e era a hora de almoço de Doris. Cassi pediu ao segurança que abrisse a porta da sala de espera e instalou-se no sofá cor-de-rosa.

Experimentou folhear os números antigos das revistas New Yor-ker, mas não conseguia concentrar-se. Olhou em volta e reparou que a porta do gabinete de Thomas estava aberta. A única coisa que Cassi tinha efectivamente estado a negar durante a última semana era o problema de Thomas tomar drogas em excesso. Devido à alteração no seu comportamento, queria acreditar que ele deixara de as tomar. Mas enquanto estava ali sentada na sala de espera contígua ao seu gabinete, deixou-se levar pela curiosidade. Levantou-se, passou pela secretária de Doris e entrou no consultório.

Era uma das poucas vezes que lá entrava. Olhou de relance para as fotografias de Thomas e de outros cirurgiões cardíacos nacionalmente conhecidos que estavam dispostas nas estantes. Não conseguiu deixar de notar que não havia nenhuma fotografia dela. Havia uma de Patrícia, mas acompanhada de Thomas Sénior e do próprio Thomas, quando este ainda andava na faculdade.

Nervosa, Cassi sentou-se à secretária. Quase automaticamente, levou a mão à segunda gaveta da direita, a mesma onde encontrara os comprimidos em casa. Ao abri-la, sentiu que estava a cometer uma traição. O comportamento de Thomas tinha sido maravilhoso na última semana. No entanto, ali estavam: uma farmácia em miniatura de Percodan, Demerol. Valiutn, morfina, Talwin e Dexedrina. Imediatamente atrás dos frascos de plástico havia um molho de formulários de encomendas de uma empresa de produtos farmacêuticos de outro Estado. Cassi inclinou-se para ver melhor. O nome da empresa era Generic Drugs. O nome do médico que requisitava os medicamentos era um tal Allan Baxter, o mesmo nome que constava dos frascos que encontrara em casa.

Ao ouvir subitamente a porta da sala a fechar-se, Cassi resistiu à tentação de fechar 'bruscamente a gaveta, forçando-se a fechá-la silenciosamente. Depois, inspirando fundo, saiu do gabinete de Thomas.

- Meu Deus!-exclamou Doris, sobressaltada. - Não fazia ideia de que estivesse aqui.

- Deram-me alta mais cedo - disse Cassi com um sorriso. - Por bom comportamento.

Depois de se recompor do choque inicial, Doris sentiu-se obrigada a informar Cassi que passara toda a tarde da véspera a cancelar as consultas desse dia para Thomas a poder levar para casa. Depois olhou para dentro do gabinete e foi fechar a porta.

- Quem é o Dr. Allan Baxter? - perguntou Cassi, ignorando a tentativa de Doris de a fazer sentir-se a mais.

- O Dr. Baxter era o cardiologista que ocupava o gabinete contíguo quando nos instalámos aqui e acrescentámos as novas salas de observações.

- Quando é que ele saiu daqui? - perguntou Cassi.

- Não saiu propriamente. Morreu - disse Doris, sentando-se à máquina de escrever e centrando a sua atenção no material que tinha em cima da secretária. Sem olhar para Cassi, disse-lhe: -Se se quiser sentar e esperar, estou certa de que Thomas não tardará - e meteu uma folha na máquina, começando a escrever.

- Creio que prefiro esperar no gabinete de Thomas. Quando Cassi passou pela secretária de Doris, esta levantou

bruscamente a cabeça.

- Thomas não gosta que ninguém esteja no seu gabinete quando ele não está presente - protestou num tom de autoridade.

- É compreensível - retorquiu Cassi. - Mas eu não sou uma pessoa qualquer. Sou a mulher dele.

Cassi entrou no gabinete e fechou a porta, quase à espera que Doris fosse atrás dela. Mas a porta não se abriu e, passado instantes, voltou a ouvir o barulho da máquina de escrever.

Voltando para a secretária de Thomas, tirou rapidamente uma das notas de encomenda de medicamentos da gaveta, reparando que esta tinha impresso não só o nome do Dr. Baxter como também o número da autorização para receitar psicotrópicos. Utilizando o telefone com linha directa, Cassi ligou para o Departamento de Controlo de Psicotrópicos. Foi uma secretária que atendeu. Cassi disse quem era e que tinha uma pergunta a fazer sobre determinado médico.

- Creio que será melhor falar com um dos inspectores - disse a secretária.

Cassi esperou enquanto ela fazia a ligação. Tinha as mãos a tremer. Passado alguns instantes, um dos inspectores apareceu em linha. Cassi comunicou as suas credenciais, referindo que era médica do quadro do Boston Memorial. O inspector foi extremamente cordial e perguntou-lhe em que é que lhe podia ser útil.

- Precisava de uma informação-disse Cassi. - Queria saber se mantêm algum registo de controlo dos hábitos de prescrição dos médicos em termos individuais.

- Sem dúvida - disse o inspector. - Temos esses dados registados no computador utilizando o sistema de informação sobre Drogas e narcóticos. Mas se pretende informações específicas sobre determinado médico, lamento, mas não lhas poderei fornecer. É informação confidencial.

- Só os vossos funcionários é que têm acesso a essa informação, certo?

- Correcto, doutora. É claro que não investigamos os hábitos individuais dos médicos, a menos que recebamos informação por parte do conselho de inspecção médica ou da comissão de ética da sociedade médica que indique existir qualquer irregularidade. A não ser, evidentemente, que os hábitos de prescrição de um médico se alterem significativamente num curto período de tempo. Nesse caso, o computador fornece automaticamente o seu nome.

- Estou a ver - disse Cassi. - Portanto, não tenho forma de obter informações sobre um determinado médico.

- Lamento, mas não. Se tem alguma dúvida em relação a alguém, sugiro que ponha o problema à sociedade médica. Estou certo de que compreende por que é que a informação é confidencial.

- Acho que sim - disse Cassi. - Obrigado pela sua atenção. Cassi ia a desligar quando o inspector acrescentou:

- Posso dizer-lhe se um determinado médico está devidamente registado e se passa actualmente receitas, mas não a quantidade. Isso ajuda-a?

- Sem dúvida - disse Cassi, dando o nome do Dr. Allan Baxter e o número da sua autorização para receitar psicotrópicos.

- Espere um momento - disse o inspector. - Vou meter os dados no computador.

Enquanto Cassi esperava, ouviu a porta exterior fechar-se. Depois ouviu a voz de Thomas. Subitamente enervada, meteu o formulário na algibeira. Quando Thomas entrou no gabinete, o inspector voltou à linha. Cassi sorriu, pouco à vontade.

- O Dr. Baxter está presentemente a exercer e tem uma autorização válida.

Cassi não respondeu, limitando-se a desligar o telefone.

Thomas mostrou-se não só conversador como muito solícito durante o percurso até casa. Se porventura ficara zangado com a presença de Cassi no seu gabinete, disfarçara o facto sob uma avalanche de perguntas sobre como ela se sentia. Embora Cassi insistisse que estava óptima, Thomas fê-la esperar à porta do hospital enquanto ia buscar o carro.

Cassi sentiu-se aliviada com os cuidados que Thomas manifestava para com ela, mas estava tão perturbada com o que acabara de saber pelo Departamento de Controlo de Psicotrópicos que foi praticamente em silêncio até casa. Compreendia agora como é que Thomas conseguia arranjar os medicamentos sem levantar suspeitas. Dava o número da autorização de Allan Baxter. Apenas tinha de preencher um formulário todos os anos e enviar cinco dólares. Como tinha o número de autorização e sabia a quantidade aproximada de psicotrópicos que o Dr. Baxter receitava antes de morrer, Thomas conseguia obter uma quantidade mais do que suficiente de drogas. Provavelmente mais do que consumia.

E o facto de ele recorrer a este estratagema tornava evidente que o seu problema era mais grave do que Cassi quisera acreditar. O seu comportamento tinha sido tão normal durante a última semana que ela se forçara a ter esperança de que ele já começara a controlar a quantidade de drogas que tomava. Talvez pudessem falar sobre isso quando estivessem de férias.

- Tenho más notícias - disse Thomas, interrompendo os pensamentos de Cassi.

Cassi virou-se para ele. Viu que ele a olhara de relance por uma fracção de segundo, como se se quisesse assegurar de que ela lhe estava a prestar atenção.

- Antes de sair do BO recebi uma chamada de um hospital em Rhode Island. Vão mandar um doente para ser operado de urgência logo à noite. Tentei arranjar outra pessoa para fazer a intervenção porque queria estar contigo, mas não havia ninguém disponível. Tenho de voltar para o hospital assim que te instale confortavelmente em casa.

Cassi não respondeu. Quase se sentia satisfeita por Thomas ter de ficar no hospital, pois dava-lhe oportunidade para decidir o que faria. Talvez pudesse registar a quantidade de drogas que Thomas estava a tomar. Ainda havia hipótese de ele ter deixado de as tomar.

- Compreendes? - perguntou Thomas. - Não pude fazer nada.

- Claro - disse Cassi.

Thomas levou o carro até à porta de casa, insistindo em sair e abrir a porta para Cassi sair, gesto que já não se dava ao trabalho de ter desde as primeiras vezes que tinham saído juntos.

Assim que entraram em casa, Thomas insistiu para que Cassi fosse directamente para a saleta.

- Onde é que está Harriet? - perguntou Cassi quando Thomas lhe foi levar um jarro de água.

- Teve folga esta tarde para ir visitar a tia - disse Thomas. - Mas não te preocupes, tenho a certeza de que fez qualquer coisa para tu comeres.

Cassi não estava preocupada com isso. Podia muito bem fazer o seu próprio jantar, mas sentia-se estranha por não ter Mrs. Summers a andar de um lado para o outro enquanto tratava da casa.

- E Patrícia? - perguntou Cassi.

- Eu trato de tudo - disse Thomas. - Quero que descanses. Cassi estendeu-se no sofá e deixou que Thomas a tapasse com

uma manta. Com um livro de psiquiatria à mão, tinha muito com que se entreter.

- Queres que te arranje mais alguma coisa? - perguntou Thomas.

Cassi abanou a cabeça.

Thomas inclinou-se sobre ela e beijou-a na testa. Antes de se ir embora, pôs-lhe uma brochura de viagens no colo.

Cassi abriu-a e viu dois bilhetes de avião da American Airlines.

- Vai pensando no que nos espera enquanto eu estiver ausente. E vê se dormes bem.

Cassi estendeu os braços e envolveu o pescoço de Thomas. Abraçou-o com toda a sua força.

Thomas dirigiu-se para a casa de banho contígua, tendo o cuidado de fechar silenciosamente a porta. Cassi ouviu o autoclismo. Quando regressou, voltou a beijá-la e disse-lhe que lhe telefonaria depois da operação se não fosse demasiado tarde.

Depois de passar rapidamente pelo escritório, bem como pela sala de estar e pela cozinha, Thomas estava finalmente pronto para se ir embora.

Com Cassi de regresso a casa depois do seu internamento no hospital, Thomas sentia-se melhor do que há muitos dias não se sentia. Até estava a antecipar a operação com interesse, esperando que se tratasse de um caso que constituísse um desafio para ele. Mas antes de se meter finalmente ao caminho tinha uma última coisa a fazer: ir visitar a mãe.

Tocou à campainha e esperou que Patrícia descesse as escadas. Ela ficou satisfeita por o ver até ele lhe dizer que ia regressar de imediato ao hospital.

- Trouxe hoje Cassi para casa - disse ele.

- Bom, sabes que Harriet teve folga. Espero que não estejas a contar que seja eu a cuidar dela.

- Ela está óptima, mãe. Só quero que a deixes em paz. Não quero que lá vás esta noite perturbá-la.

- Não te preocupes. Não irei de forma alguma a um sítio onde não sou desejada - disse Patrícia, tendo como sempre a última palavra.

Thomas afastou-se sem dizer mais nada. Minutos depois, entrou no carro e após limpar as mãos num pano que tinha sempre debaixo do banco da frente, ligou o motor. Agradava-lhe a ideia da viagem de volta a Boston. sabendo que haveria muito pouco trânsito, e começou a acelerar cuidadosamente o potente carro sob o ar fresco do entardecer.

Quando chegou ao hospital, Thomas ficou satisfeito por ver que tinha lugar junto do abrigo do guarda. Saudou-o numa voz bem audível ao sair do carro. Entrou então no hospital e meteu-se no elevador, indo directamente para o serviço de cirurgia.

À medida que a tarde ia caindo, Cassi deixou que a pálida claridade de Inverno fosse desaparecendo sem acender o candeeiro. Viu o mar batido pelo vento mudar de azul-claro para cinzento-chumbo. Ainda tinha os bilhetes de avião no colo e esperava que assim que ela e Thomas estivessem longe dali pudessem discutir honestamente o problema da sua tóxico-dependência. Sabia que encarar e admitir o problema era mais de meio caminho andado para a sua solução. Tentando reagir de uma forma positiva, Cassi fechou os olhos e imaginou longos passeios na praia e o início de uma relação completamente diferente. Como ainda estava cansada da sua provação do hospital, adormeceu.

Era noite cerrada quando acordou. Ouvia o vento a bater nas portadas e o ruído regular na chuva no telhado. Fiel a si próprio, o tempo da Nova Inglaterra tivera novo volta-face. Estendeu a mão e acendeu o candeeiro de pé. Durante instantes, a luz pareceu-se encadeantemente viva e Cassi protegeu os olhos com a mão para olhar para o relógio. Ficou admirada por ver que eram quase oito da noite. Irritada consigo própria, atirou a manta para o lado e levantou-se. Não gostava de tomar a sua insulina tão tarde.

lá na casa de banho, Cassi reparou que o açúcar no sangue aumentara dois pontos. Voltando à saleta, dirigiu-se ao pequeno frigorífico e tirou o medicamento. Levando tudo o que precisava para a secretária, preparou cuidadosamente as quantidades exactas a administrar, cinquenta unidades de insulina normal e dez unidades de insulina Lente. Depois, com um gesto prático, injectou-se na coxa.

Partiu cuidadosamente a agulha, deitou a seringa para dentro do cesto dos papéis e voltou a guardar os frascos de insulina no frigorífico. Cassi arrumava sempre a insulina normal e a Lente em prateleiras diferentes como precaução para não se enganar. Depois foi buscar as gotas oftálmicas, tirou o penso do olho e conseguiu aplicar as gotas no olho esquerdo. Ia a caminho da cozinha quando sentiu a primeira tontura.

Parou, pensando que passaria. Mas não passou. Cassi sentiu as palmas das mãos começarem a transpirar. Confusa quanto à razão por que as gotas oftálmicas causariam tais sintomas, voltou à saleta para verificar o rótulo. Era, como suspeitava, apenas um antibiótico. Pousando o frasco das gotas, Cassi limpou as mãos; estavam encharcadas. Depois começou a transpirar em todo o corpo, acompanhado de uma inacreditável sensação de fome.

Foi nessa altura que Cassi percebeu que aquela reacção nada tinha a ver com as gotas oftálmicas. A sua primeira ideia foi que tinha visto mal a graduação da seringa, mas quando a tirou do cesto dos papéis confirmou que não. Verificou então os frascos de insulina, mas estes não tinham nada de estranho; eram, como sempre, U100. Cassi abanou a cabeça, interrogando-se como é que o seu equilíbrio diabético se podia ter alterado tanto.

De qualquer forma, a causa da reacção era menos importante do que tratá-la. Cassi sabia que tinha de comer sem demora. A meio caminho da cozinha, sentiu que o suor lhe escorria pelo corpo e que o coração lhe começava a bater desordenadamente. Tentou verificar a pulsação, mas a mão tremia-lhe demasiado. Não se tratava de uma reacção ligeira! Tratava-se de outro devastador incidente como o que acontecera no hospital.

Em pânico, Cassi correu para a saleta e abriu o armário. A mala de couro preto de médico que recebera quando terminara o curso estava ali, algures. Tinha de a encontrar. Desesperada, empurrou a roupa para um lado e procurou ao fundo das prateleiras. Lá estava!

Cassi tirou a mala do armário e correu para a secretária. Abriu-a e despejou tudo o que tinha dentro, incluindo um frasco de glucose em água. Com as mãos a tremer, retirou certa quantidade e injectou-se. Pouco ou nenhum efeito sentiu. Estava a tremer cada vez mais. Começava até a ter perturbações de visão.

Numa terrível agitação, Cassi agarrou em alguns pequenos frascos de soro com cinquenta por cento de glucose que também faziam parte do conteúdo da mala. Com grande dificuldade, aplicou um garrote no braço esquerdo. Depois, com a mão já em espasmos, conseguiu enterrar uma agulha com borboleta numa das veias das costas da mão esquerda. Esguichou sangue pela abertura superior da agulha, mas Cassi ignorou-o. Atenuando a pressão do garrote, ligou o tubo do frasco de soro. Quando ergueu o frasco bem acima da cabeça, o líquido translúcido empurrou lentamente o sangue para dentro da mão e começou a correr livremente.

Cassi esperou alguns instantes. Sentia-se um pouco melhor com a glucose a correr e a sua visão melhorou de imediato. Equilibrando o frasco entre a cabeça e o ombro, Cassi pôs alguns pedaços de adesivo sobre a borboleta, mas o adesivo não aderiu muito bem devido ao sangue. Depois, segurando no frasco de soro com a mão direita, correu para o quarto, pegou no auscultador e ligou o 115.

Estava aterrorizada com a hipótese de desmaiar antes de atenderem. O telefone estava a tocar do outro lado. Alguém atendeu, dizendo “115, urgência”.

- Preciso de uma ambulância...- começou Cassi, mas a pessoa do outro lado da linha interrompeu-a, dizendo:

- Está? Está?

- Consegue ouvir-me? - gritou Cassi, entrando novamente em pânico.

Cassi ouvia a pessoa do outro lado da linha a dizer qualquer coisa a um colega. Depois a ligação foi cortada.

Cassi voltou a tentar ligar, mas o resultado foi idêntico. Depois ligou para a telefonista. Verificou-se o 'mesmo terrível problema. Ela ouvia-a, mas não a ouviam do outro lado da linha.

Agarrando o segundo frasco de soro com a mão esquerda e continuando a segurar no frasco com o soro a correr acima da cabeça, Cassi correu com as pernas a tremer pelo corredor até ao escritório de Thomas.

Horrorizada, verificou que também o telefone dele estava avariado. Ouvia a pessoa do outro lado quando atendia, mas era evidente que não a ouviam a ela. Desatando a chorar, bateu com o auscultador no descanso e pegou no segundo frasco de soro.

O pânico de Cassi aumentou quando se esforçou por descer as escadas sem cair. Experimentou os telefones da sala e da cozinha sem êxito.

Combatendo uma sonolência cada vez maior, correu para a entrada. As chaves do carro estavam numa mesa lateral e ela agarrou nelas com a mão em que levava o frasco de soro ainda intacto. A sua primeira ideia foi ir de carro para o hospital local, que não ficava longe - dez minutos, no máximo. Com o soro a correr, a reacção à insulina parecia estar sob controlo.

Mas abrir a porta de entrada constituiu um esforço tal que Cassi se viu forçada a pousar o frasco de soro por instantes. O sangue voltou a misturar-se com o soro, mas desapareceu novamente quando ela ergueu o frasco acima da cabeça.

A noite fria e chuvosa pareceu reanimá-la enquanto corria para a garagem. Equilibrando o frasco de soro, conseguiu abrir a porta do carro e sentar-se ao volante. Inclinando o espelho retrovisor, Cassi enfiou nele a anilha do frasco de soro. Depois accionou a chave da ignição.

O motor reagiu, fazendo ruído, mas por mais que tentasse não pegava. Cassi tirou a chave e fechou os olhos. Estava a tremer violentamente. Por que é que o carro não pegava! Voltou a tentar, com idêntico resultado. Ao olhar para o frasco de soro, viu que estava quase vazio. A tremer, tirou a protecção do segundo frasco. Mesmo durante os poucos minutos que demorou a efectuar a troca, sentiu os efeitos. Não tinha a menor dúvida de que assim que a glucose se esgotasse perderia a consciência.

Decidiu que a sua única hipótese era o telefone de Patrícia. Saindo da garagem para a chuva, Cassi contornou o edifício e correu para a porta de Patrícia. Continuando a segurar o frasco de soro acima da cabeça, tocou à campainha.

Como acontecera da última vez que visitara Patrícia, Cassi viu-a descer as escadas. Aproximou-se lentamente da porta, espreitando desconfiada na escuridão. Quando reconheceu Cassi e a viu a segurar num frasco de soro, abriu a porta o mais depressa que pôde.

- Santo Deus!-exclamou Patrícia, vendo o rosto pálido e suado de Cassi. - Que aconteceu?

- Reacção à insulina - conseguiu Cassi dizer. - Tenho de chamar uma ambulância.

O rosto de Patrícia tinha uma expressão preocupada, mas estava aparentemente em choque e não saiu da frente de Cassi.

- Por que é que não telefonou da casa principal?

- Não pude. Os telefones estão avariados. Por favor.

Cassi avançou aos tropeções, empurrando desajeitadamente Patrícia. O movimento apanhou Patrícia desprevenida e fê-la tropeçar para trás. Cassi não tinha tempo para discutir. Precisava de um telefone.

Patrícia ficou furiosa. Apesar de Cassi não estar bem, não era necessário ser mal educada. Mas Cassi fez de conta que não ouvia as queixas da sogra e já estava a ligar para o 115 quando Patrícia chegou à sala. Para enorme alívio de Cassi, dessa vez conseguiu fazer-se ouvir. O mais calmamente que conseguiu, deu o seu nome e morada e disse que precisava de uma ambulância. O funcionário de serviço garantiu-lhe que a ambulância seguiria de imediato.

Cassi pousou o auscultador com a mão a tremer. Olhou para Patrícia, cujo rosto espelhava mais confusão do que qualquer outra emoção. Exausta, Cassi deixou-se cair no sofá. Patrícia fez o mesmo e as duas mulheres ficaram sentadas em silêncio até ouvirem a sirene aproximar-se da casa. Todos os anos de antagonismo silencioso tornaram a comunicação difícil, mas Patrícia ajudou Cassi, que já estava quase inconsciente, a descer as escadas.

Enquanto observava a ambulância a afastar-se velozmente a apitar, Patrícia sentiu por instantes verdadeira pena da nora. Subiu lentamente as escadas e ligou para o Boston Memorial. Achava que o filho devia tentar ir ter com a mulher ao hospital local. Mas Thomas estava a operar. Patrícia deixou recado para ele lhe telefonar assim que pudesse.

Thomas olhou de relance para o relógio do tablier. Eram 0h34m. A enfermeira de serviço tinha-lhe dado o recado da mãe assim que ele saíra do BO, às 23h15m. Telefonou-lhe, e ela pareceu-lhe extremamente perturbada ao contar-lhe o que se tinha passado. Criticou-o por ter deixado Cassi sozinha e insistiu para que ele fosse ao hospital local o mais depressa possível.

Thomas tinha telefonado para o Essex General, mas a enfermeira ainda não lhe sabia dizer como é que Cassi estava. Limitou-se a dizer que tinha dado entrada. Thomas não precisava que ninguém o incitasse a apressar-se. Estava desesperado por saber do estado de Cassi.

Ao chegar ao sinal vermelho no quarteirão antes do hospital, Thomas abrandou, mas não parou. Quando chegou ao arruamento de acesso ao hospital, fez a curva tão depressa que os pneus guincharam.

O balcão principal do hospital estava deserto. Uma pequena tabuleta indicava PARA QUAISQUER INFORMAÇÕES CONTACTAR o BANCO. Thomas correu pelo corredor fora.

Havia uma minúscula zona de espera e uma sala de enfermeiras envidraçada. Aí, uma enfermeira bebia café enquanto olhava para um minúsculo aparelho de televisão. Thomas bateu no vidro.

- Em que é que lhe posso ser útil? - perguntou, com um forte sotaque de Boston.

- Estou à procura da minha mulher - disse Thomas, nervoso. - Foi trazida para cá de ambulância.

- Por favor, sente-se e aguarde.

-Ela está cá? - perguntou Thomas.

- Sente-se enquanto chamo o médico. É melhor falar com ele.

Meu Deus, pensou Thomas, dirigindo-se obedientemente para a cadeira e sentando-se. Não fazia ideia do que esperar. Felizmente, não teve de esperar muito tempo. Um homem de aspecto oriental, de bata amarrotada, surgiu sob a forte luz fluorescente.

- Lamento - disse, apresentando-se como sendo o Dr. Chang. - A sua mulher já não está connosco.

Por instantes, Thomas pensou que o homem lhe estava a dizer que Cassi morrera, mas o médico continuou, dizendo que Cassi se tinha querido ir embora.

- Quê? - gritou Thomas.

- Ela é médica - disse o Dr. Chang num tom apologético.

- Que me está a querer dizer? - Thomas tentou controlar a sua fúria.

- Ela chegou cá sofrendo de uma dose excessiva de insulina. Demos-lhe açúcar e os valores estabilizaram. Depois quis ir-se embora.

- E o senhor deixou?

- Não concordei - disse o Dr. Chang. - Aconselhei-a a não o fazer. Mas ela insistiu. Obteve alta contra vontade do médico. Assinou ela própria o impresso. Posso mostrar-lhe.

Thomas agarrou os braços do homem.

- Como é que deixou que ela se fosse embora! Estava em estado de choque. Provavelmente nem estava a raciocinar claramente.

- Estava lúcida e assinou o impresso de alta. Eu não podia fazer nada. Disse-me que queria ir para o Boston Memorial. Disse que sabia que lá seria melhor assistida. Eu não sou especialista em diabetes.

- Como é que foi para lá? - perguntou Thomas.

- Chamou um táxi - respondeu o Dr. Chang.

Thomas correu pelo corredor até à porta de entrada. Tinha de a encontrar!

Meteu-se no carro, conduzindo sem a menor precaução. Felizmente, não havia praticamente trânsito nenhum. Passou rapidamente por casa e dirigiu-se para Boston. Quando chegou à garagem do Memorial eram quase duas da manhã. Parou o carro e correu para o banco.

Ao contrário do Essex General, o banco do Memorial estava apinhado de doentes. Thomas foi direito ao balcão das admissões.

- A sua mulher não deu entrada pelo banco - disse-lhe um dos funcionários.

O outro funcionário introduziu o nome de Cassi no computador.

- E também não foi internada. A indicação que dá é que teve alta esta manhã.

Thomas sentiu uma sensação de vazio no estômago. Onde é que poderia estar? Só se lembrou de um outro sítio. Talvez tivesse ido para a Clarkson Two.

Embora nunca se tivesse interrogado porquê, Thomas não gostava de ir ao piso de psiquiatria. Havia qualquer coisa ali que fazia que não se sentisse à vontade. Nem sequer lhe agradava o ruído da pesada porta contra incêndios com o seu dispositivo de vácuo.

Os seus passos ecoaram ruidosamente pelo corredor escuro. Passou pela sala comum, onde a televisão ainda se encontrava ligada, embora ninguém estivesse a ver o programa. Numa secretária, uma enfermeira, que lia uma revista médica, olhou-o como se ele fosse um dos doentes.

- Sou o Dr. Kingsley - disse Thomas. A enfermeira assentiu.

- Estou à procura da minha mulher, a Drº Cassidy. Viu-a?

- Não, Dr. Kingsley. Pensei que estava de baixa.

- Está, mas pensei que cá tivesse vindo.

- Não. Mas se a vir, digo-lhe que o doutor anda à procura dela. Thomas agradeceu-lhe e decidiu ir para o seu gabinete para tentar pensar no que devia fazer.

Assim que abriu a porta, dirigiu-se para a secretária e tirou vários Talwin. Tomou-os com alguns golos de uísque e sentou-se. Pensou se não estaria a ficar com uma úlcera. Tinha uma dor insistente logo abaixo do esterno e também nas costas. Mas as dores aguentava ele. Pior do que as dores era a crescente angústia que sentia. Era como se estivesse prestes a estilhaçar-se em milhares de pedaços. Tinha de encontrar Cassi. A sua vida dependia disso.

Thomas agarrou no telefone. Apesar da hora tardia, telefonou ao Dr. Ballantine. Cassi já tinha ido falar com ele antes e era possível que o voltasse a abordar.

O Dr. Ballantine, estonteado de sono, atendeu ao segundo toque. Thomas pediu desculpa e perguntou-lhe se tinha falado com Cassi.

- Não - respondeu o Dr. Ballantine, pigarreando para clarear a garganta. - Há alguma razão especial para que tivesse?

- Não sei - admitiu Thomas. - Ela teve alta hoje, mas depois de a levar para casa tive de regressar ao hospital por causa de uma urgência. Quando acabei de operar, tinha um recado para telefonar à minha mãe. Ela disse^me que Cassi tinha aparentemente administrado a si própria outra dose excessiva de insulina. Foi de ambulância para o hospital local, mas quando lá cheguei já ela se tinha ido embora. Não faço ideia de onde está nem em que estado. Estou louco de preocupação.

- Thomas, lamento imenso. Se ela me telefonar, entrarei imediatamente em contacto consigo. Onde é que estará?

- Telefone para o hospital. A telefonista tem o meu número. Quando o Dr. Ballantine desligou, a mulher virou-se na cama

e perguntou-lhe qual era o problema. Como era director de serviço, Ballantine não recebia muitas chamadas urgentes à noite.

- Era Thomas Kingsley - disse Ballantine, fitando a escuridão.- Aparentemente, a mulher dele está muito instável. Ele receia que ela se tenha tentado matar.

- Pobre homem - disse Mrs. Ballantine, sentindo que o marido afastava a roupa da cama e se levantava. - Onde é que vais, querido?

- A lado nenhum. Dorme.

O Dr. Ballantine vestiu o robe e saiu do quarto. Tinha uma sensação terrível de que as coisas não estavam a correr da forma como ele planeara.

 

Cassi acordou com a mesma violenta dor de cabeça que tinha tido na unidade de cuidados intensivos. A diferença agora era que tinha as ideias claras. Lembrava-se de tudo o que acontecera na noite anterior. Depois de sair do Essex General, tinha-se dirigido para Boston, pois achara que devia telefonar ao Dr. Mclnery, mas quando chegou ao hospital deixou de sentir que precisava de cuidados de emergência. Antes de conseguir enfrentar os seus receios sobre o que se tinha passado, sabia que precisava de dormir. Tinha ido para uma sala desocupada da Clarkson Two e deitara-se num divã.

Quando já estava prestes a adormecer, apercebeu-se de que tinha de descobrir alguém com quem falar sobre Thomas. Ele teria alguma coisa a ver com a segunda dose excessiva de insulina? Não entendia bem como isso seria possível, pois fora ela própria a injectar-se. Mas o facto de todos os telefones, à excepção do de Patrícia, estarem avariados parecia-lhe coincidência a mais e o seu carro nunca tinha anteriormente tido qualquer problema em pegar. E se os seus receios acerca da relação de Thomas com os casos de MCS fossem verdadeiros? E se ela não tivesse tido uma alucinação e ele fosse mesmo responsável pela morte de Robert?

Se tudo isso fosse verdade, ele tinha de estar doente, mentalmente doente. Precisava de ajuda. O Dr. Ballantine tinha-lhe dito que faria tudo o que fosse possível no caso de Thomas precisar de seguimento psiquiátrico. Cassi decidiu falar com ele de manhã. De momento estava em segurança.

Verificando a urina pela última vez, decidiu que seria melhor dormir. Estava esperançada de que Patrícia só avisasse Thomas de manhã.

Quando acordou, ainda antes de alvorecer, a enfermaria de psiquiatria ainda estava deserta. Cassi lavou-se o melhor que pode e correu para o laboratório, onde convenceu uma técnica sonolenta a tirar-lhe sangue para fazer a contagem do açúcar, mas acabou por não conseguir, dada a oposição do supervisor, que se recusou a fazer a análise por Cassi não ter consigo o seu cartão do hospital. Não se sentindo capaz de entrar em discussões, Cassi deixou lá a amostra de sangue e disse ao homem que fizesse o que a sua consciência lhe ditasse e que passaria por lá depois. Foi em seguida ao gabinete de Ballantine e pôs-se de plantão no corredor em frente à porta dele. Só passado hora e meia é que ele apareceu, vendo Cassi assim que entrou no corredor.

- Se tiver alguns minutos, gostava de falar consigo - disse.

- Claro - disse o Dr. Ballantine, virando-se para abrir a porta. - Entre. - Agia como se já estivesse à espera dela.

Cassi entrou no gabinete e ficou a olhar pela janela para evitar fitar Ballantine. Via o rio Charles e o edifício do MIT em frente. Embora não soubesse bem porquê, Cassi achou que o Dr. Ballantine tinha ficado de certa forma aborrecido ao vê-la.

- Bom, em que é que lhe posso ser útil? - perguntou ele.

- Preciso de ajuda - disse Cassi.

O Dr. Ballantine estava de pé junto à secrertária. Não lhe estava a facilitar a decisão, mas Cassi não sabia a quem mais recorrer.

- E que tipo de ajuda é que precisa? - perguntou o Dr. Ballantine, sentando-se, mas não fazendo qualquer gesto para que Cassi também se sentasse.

- Não tenho a certeza absoluta - disse Cassi lentamente. - Mas antes de tratar de qualquer outra coisa, preciso de fazer que Thomas se submeta a terapia. Sei que anda a tomar medicamentos em excesso.

- Cassi - disse o Dr. Ballantine num tom paciente. - A seguir à nossa última conversa, verifiquei os hábitos de prescrição de Thomas. Se está a errar nesse aspecto, em relação aos psicotrópicos a sua atitude é extremamente cautelosa.

- Ele não obtém os medicamentos no seu nome - disse Cassi. - Mas as drogas são apenas uma parte da questão. Penso que Thomas está doente. Mentalmente doente. Sei que estou há pouco tempo em psiquiatria, mas Thomas está realmente doente. Sei que considera que eu constituo uma ameaça para ele.

Ballantine não respondeu de imediato. Olhou para Cassi com uma expressão de surpresa e, pela primeira vez desde que a conhecera, com preocupação. A sua expressão tornou-se mais branda e pôs-lhe o braço por cima dos ombros.

-'Sei que tem estado sob uma grande tensão. E creio que o problema ultrapassa as minhas capacidades. Gostaria que se sentasse e descansasse durante alguns minutos. Creio que deve falar com uma outra pessoa.

- Com quem? - perguntou Cassi.

- Por favor sente-se - disse o Dr. Ballantine baixinho. Puxou o cadeirão de orelhas que estava ao canto, de forma a ficar à frente da secretária, de frente para a janela. - Por favor. - Pegou na mão de Cassi e incitou-a delicadamente a sentar-se. - Quero que esteja confortável.

Aquele era o Dr. Ballantine de quem Cassi se lembrava. Cuidaria dela. Cuidaria de Thomas. Grata, sentou-se no sofá de couro macio.

- Vou arranjar^lhe qualquer coisa. Café? Qualquer coisa para comer?

- Qualquer coisa para comer seria óptimo - disse Cassi. Sentia fome e calculou que o valor do açúcar no sangue ainda estava baixo.

- Muito bem. Espere aqui. Tenho a certeza de que tudo se recomporá.

O Dr. Ballantine saiu do gabinete e fechou a porta silenciosamente.

Cassi interrogou-se sobre quem é que o Dr. Ballantine ia chamar. Tinha de ser alguém com uma posição de autoridade que tivesse influência sobre Thomas, de contrário ele não lhe daria ouvidos. Cassi começou a ensaiar mentalmente o que iria dizer. Ouviu a porta abrir-se atrás de si e olhou, esperando ver o Dr. Ballantine. Mas era Thomas.

Cassi ficou estupefacta. Thomas fechou a porta, emporrando-a com a anca. Trazia nas mãos um prato com ovos mexidos e um pacote de leite. Dirigiu-se para junto dela e deu-lhe a comida. Não tinha feito a barba e o seu rosto estava pálido e triste.

- O Dr. Ballantine disse que precisavas de comer qualquer coisa - disse baixinho.

Cassi aceitou o prato automaticamente. Estava com fome, mas também estava demasiado chocada para comer.

- Onde é que está o Dr. Ballantine? - perguntou, hesitante.

- Cassi, tu amas-me? - perguntou Thomas num tom implorante.

Cassi ficou boquiaberta. Não esperava de todo ouvir aquilo.

- Claro que te amo, Thomas, mas...

Thomas estendeu a mão e tocou-lhe nos lábios, interrompendo-a.

- Se me amas, tens de compreender que estou com problemas; preciso de ajuda, mas com o teu amor sei que consigo melhorar.

O coração de Cassi deu um baque. Que lhe tinha passado pela cabeça? É claro que Thomas não tinha nada a ver com os terríveis acontecimentos da noite anterior. A doença dele estava também a pô-la maluca.

- Eu sei que consegues - disse Cassi num tom de encorajamento. Não pensava que Thomas fosse capaz de analisar tão objectivamente os seus próprios problemas.

- Tenho andado a tomar drogas - disse Thomas-, exactamente como tu suspeitavas. Reduzi esta semana, mas continuo a ter esse problema, esse gravíssimo problema. Tenho andado a enganar-me a mim próprio, a tentar negar o facto.

- Queres realmente tratar-te? - perguntou Cassi.

Thomas levantou bruscamente a cabeça. O seu rosto estava lavado em lágrimas.

- Desesperadamente, mas não consigo fazê-lo sozinho. Cassi, preciso de ti do meu lado, não contra mim.

Thomas pareceu de repente uma criança indefesa. Cassi pousou o prato e pegou-lhe nas mãos.

- Nunca pedi ajuda a ninguém - disse Thomas. - O meu orgulho sempre me impediu de o fazer. Mas sei que fiz coisas terríveis. Uma coisa levava a outra. Cassi, tens de me ajudar.

- Precisas de tratamento psiquiátrico - disse Cassi, atenta à reacção de Thomas.

- Eu sei - respondeu ele. - Só que nunca o quis admitir. Tenho tido tanto medo. E em vez de admitir o meu problema, apenas reforçava a dose de drogas.

Cassi ficou a olhar para o marido. Era como se não o conhecesse. Debateu-se com a vontade que tinha de lhe perguntar se ele tinha sido responsável pela dose excessiva de insulina ou se tivera alguma coisa a ver com a morte de Robert ou com qualquer dos casos da série de MCS. Mas não conseguiu falar-lhe nisso. Não naquele momento. Thomas estava demasiado desfeito.

- Por favor - implorou ele. - Fica do meu lado. Foi-me extremamente difícil admitir todo isto.

- Terás de ser hospitalizado - disse Cassi.

- Eu sei - disse Thomas. - Só que não pode ser aqui no Memorial.

Cassi levantou-se e pôs-lhe as mãos nos ombros.

- Concordo contigo. Não seria boa ideia seres internado no Memorial. A confidencialidade é importante. Thomas, desde que aceites tratares-te, apoiar-te-ei durante o tempo que for necessário. Sou tua mulher.

Thomas abraçou Cassi, encostando com força o rosto ainda húmido de lágrimas ao seu pescoço.

Cassi abraçou-o num gesto tranquilizador.

- Há um pequeno hospital privado em Weston, chamado Vickers Psychiatric Institute. Acho que podemos ir para lá.

Thomas assentiu em silêncio.

- Acho mesmo que devemos ir imediatamente para lá. Esta manhã mesmo. - Cassi afastou ligeiramente Thomas para poder ver o rosto dele.

Thomas fitou-a nos olhos. Os seus olhos azul-turquesa pareciam enevoados de dor.

- Farei tudo o que achares que devo fazer. Farei qualquer coisa para aliviar a tensão que sinto. Já não aguento mais.

O treino clínico que Cassi tinha fê-la vencer quaisquer reservas.

- Thomas, tens-te forçado a trabalhar demasiado. Querias tanto vencer que o processo de ganhar se tornou mais importante do que o objectivo. Creio que é um problema vulgar nos médicos, especialmente nos cirurgiões. Não deves pensar que isso só te aconteceu a ti.

Thomas tentou sorrir.

- Não estou bem certo de que compreendo, mas desde que tu compreendas e que não me deixes, isso não interessa.

- Gostava de ter compreendido mais cedo.

Cassi voltou a abraçar Thomas. Apesar de tudo, sentia que recuperara o marido. Claro que ficaria ao seu lado. Ela melhor do que ninguém sabia o que era estar doente.

- Vai tudo correr bem - disse ela. - Recorreremos aos melhores médicos, aos melhores psiquiatras. Já li algumas coisas sobre médicos diminuídos. A percentagem de reabilitação é de quase cem por cento. É apenas necessário empenhamento e vontade.

- Estou pronto - disse Thomas.

- Vamos - disse Cassi, pegando-lhe na mão.

Como dois amantes, Thomas e Cassi ignoraram a multidão que invadira o Boston Memorial. Dirigiram-se de braço dado para a garagem sob o ar luminoso do início da manhã. Cassandra continuava a conversar entusiasticamente sobre o Vickers Psychiatric Institute. Até disse a Thomas que estava a pensar num determinado psiquiatra que tinha muita experiência em tratamento de outros médicos.

Quando entraram para o Porsche, Cassi perguntou a Thomas se ele se sentia suficientemente bem para guiar. Thomas garantiu-lhe que sim. Cassi puxou o cinto de segurança e pô-lo. Sentiu, como sempre, vontade de dizer a Thomas para fazer o mesmo, mas decidiu ficar calada. Tinha a sensação de que as suas emoções estavam tão voláteis que explodiria à menor contrariedade.

Thomas ligou o 'motor e fez cuidadosamente marcha atrás, saindo do lugar onde estacionara. Depois de passarem pelo portão automático, Cassi perguntou como é que o Dr. Ballantine o tinha encontrado tão rapidamente.

- Telefonei-lhe ontem à noite quando não te consegui encontrar - disse Thomas, parando num sinal vermelho. - Tive um pressentimento de que irias ter com ele e pedir-lhe que me telefonasse assim que o contactasses.

- Ele não achou isso estranho? Que lhe disseste exactamente? O sinal mudou para verde e Thomas acelerou em direcção a

Storrow Drive.

- Disse-lhe apenas que tinhas tido nova reacção à insulina. Cassi reflectiu sobre o seu próprio comportamento. Admitiu que

as suas reacções podiam ter parecido irracionais, sobretudo a de sair do hospital contra a opinião do médico mal o nível do açúcar começara a estabilizar. Depois, escondendo-se de toda a gente.

Como sempre. Thomas conduziu sem cuidado quando chegaram a Storrow Drive, Cassi segurou-se à porta, preparada para a curva para a esquerda que os faria seguir em direcção a Weston. Mas Thomas guinou o volante para a direita, fazendo que Cassi tivesse de se agarrar ao tablier para não ir contra ele. Devia ter virado para ali por força do hábito.

- Thomas - disse -, estás a ir em direcção a casa e não a Vickers.

Thomas não respondeu.

Cassi virou-se para olhar para ele. Parecia estar a segurar no volante com uma força semelhante à do rigor mortis enquanto o conta-quilómetros indicava uma velocidade cada vez mais elevada. Cassi estendeu a mão e começou a massajar-lhe os músculos tensos do pescoço. Queria acalmá-lo. Sentia que ele se estava a enfurecer.

- Thomas, que é que se passa? - perguntou Cassi, tentando controlar o medo que a começava a invadir.

Thomas não respondeu, continuando a conduzir como se fosse um autómato. O carro entrou na rampa de acesso à auto-estrada e meteu por uma das múltiplas faixas de rodagem da Interstate 93. Àquela hora da manhã não havia trânsito naquele sentido e Thomas continuou a acelerar.

Cassi virou-se para ele tanto quanto o cinto de segurança lhe permitia. Deixou cair a mão, sem saber bem o que fazer. Nessa altura, os dedos tocaram numa coisa dura que estava dentro da algibeira de Thomas. Antes de ele conseguir reagir. Cassi meteu a mão e tirou uma embalagem encetada de insulina U500.

Thomas arrancou-lhe a embalagem da mão, voltando a metê-la na algibeira.

Cassi virou-se para a frente e fitou a estrada com o espírito num turbilhão de confusão. As ideias atropelavam-se na sua cabeça quando começou a compreender a causa da sua última reacção à insulina.

Só podia haver uma razão para Thomas ter consigo insulina U500. Era um medicamento raramente usado. Devia ter substituído a sua insulina U100 por aquela mais concentrada, forçando-a a administrar a si própria uma dose cinco vezes superior à normal. Era uma manobra fácil, pois bastava introduzir uma seringa na tampa selada da mesma forma que ela retirava a sua dose normal. Se não tivesse tido a solução de glucose à mão naquele momento estaria em coma, ou talvez pior. E o incidente no hospital? Não tinha estado a sonhar quando sentira o cheiro da água-de-colónia Yves St. Laurent. Mas porquê? Porque ela, assim como Robert, estava a analisar os dados sobre as mortes súbitas. De repente tornou-se bem claro a Cassi que o comportamento de Thomas antes de saírem do hospital tinha sido um truque. Horrorizada, apercebeu-se de que Ballantine devia ter pensado que era ela quem estava mentalmente perturbada, e não Thomas.

Cassi sentiu-se invadida por uma nova emoção: ira. Por instantes, dirigida quase tanto contra si própria como contra Thomas. Como é que podia ter sido tão cega?

Virando-se, observou o perfil anguloso de Thomas, vendo-o a uma luz bem diferente. Os seus lábios tinham um ricto cruel e o seu olhar fixo parecia anormal. Era como se Cassi estivesse com um estranho... um homem que desprezava intuitivamente.

- Tentaste matar-me - disse Cassi num tom baixo e irado, cerrando os punhos com violência.

Thomas riu de uma forma tão rude que Cassi se sobressaltou.

- Mas que percepção! Estou impressionado. Não me digas que pensastes que os telefones avariados e o facto de o teu carro não pegar era coincidência.

Cassi fitou a mancha indistinta da paisagem lá fora. Tentou desesperadamente controlar a sua ira. Tinha de fazer qualquer coisa. A cidade estava a ficar cada vez mais para trás.

- Claro que te tentei matar - exclamou Thomas. - Exactamente como me livrei de Robert Seibert. Santo Deus! Achavas que eu ficaria impávido e sereno a ver-vos destruir a minha vida?

Cassi virou bruscamente a cabeça.

- Olha - gritou Thomas -, a única coisa que quero é operar pessoas que merecem viver, não uma cambada de deficientes mentais ou de pessoas que vão morrer de outras doenças. A medicina tem de compreender que os nossos recursos são limitados. Não podemos deixar pessoas válidas com todas as hipóteses de sobrevivência à espera enquanto doentes com esclerose múltipla ou homossexuais imunodeficientes ocupam preciosas camas ou um precioso tempo de BO.

- Thomas - disse Cassi, tentando controlar a sua fúria-, quero que pares imediatamente o carro e regresses. Ouviste?

Thomas fitou Cassi com indisfarçado ódio. Sorriu cruelmente.

- Achavas mesmo que eu iria para um hospital qualquer de charlatães?

- É a tua única esperança - disse Cassi, enquanto tentava dizer a si própria que ele estava doente ao ponto da loucura. Mas a única cois-a que sentiu foi um ódio avassalador.

- Cala-te!-gritou Thomas com os olhos esgazeados e vermelho de ira. - Os psiquiatras só têm merda na cabeça e ninguém me irá julgar. Sou o melhor cirurgião cardíaco do país.

Cassi sentia a violência irracional da fúria narcisista de Thomas. Não tinha dúvidas quanto ao que lhe aconteceria, sobretudo por toda a gente estar convencida de que já administrara a si própria duas doses excessivas de insulina.

Mais adiante, Cassi viu a saída para Sommerviile a aproximar-se rapidamente. Sabia que tinha de fazer qualquer coisa. Apesar da velocidade a que iam, estendeu a mão e agarrou o volante, guinando violentamente o carro para a direita, na esperança de o conseguir fazer sair da auto-estrada.

Thomas deu-lhe uma pancada violenta na cabeça, apanhando-a de lado e atirando-a para a frente. Cassi largou o volante para se proteger. Thomas, pensando que ela ainda estava a agarrar o volante, guinou-o com toda a força no sentido inverso e o carro, que já estava sem controlo, foi lançado para a esquerda. Thomas girou desesperadamente o volante para a direita, mas o Porsche derrapou para o lado, indo embater violentamente no talude de betão, num crescendo de vidros partidos, metal torcido e sangue.

 

Cassandra ouvia alguém a chamá-la pelo nome a grande distância. Tentou responder, mas não conseguiu. Com enorme esforço, abriu os olhos. O rosto preocupado de Joan Widiker surgiu então aos seus olhos como saído de um denso nevoeiro.

Cassi pestanejou. Olhando lentamente para cima, viu o emaranhado de tubos dos frascos de soro e sangue. À sua esquerda, ouvia o sinal incessante de um monitor cardíaco. Respirou fundo e sentiu uma dor aguda.

- Não tentes falar - disse Joan. - Podes não o sentir, mas estás a recuperar extremamente bem.

- Que aconteceu? - murmurou Cassi com grande dificuldade.

- Tiveste um acidente de automóvel - disse Joan, afastando carinhosamente o cabelo da testa de Cassi. - Não tentes falar.

Como se estivesse a recordar um sonho, Cassi lembrou-se do pesadelo que fora a sua viagem com Thomas. Lembrava-se da ira que sentira e como agarrara o volante. Tinha uma vaga recordação de ter sido agredida e de se ter protegido contra o embate. Mas depois disso foi como se uma cortina tivesse caído sobre a cena. Estava em branco.

- Onde é que está Thomas? - disse Cassi, tentando soerguer-se, cheia de medo.

- Ele também ficou ferido - disse Joan, insistindo para que ela se mantivesse quieta.

Cassi percebeu subitamente de que Thomas morrera.

- Thomas não tinha o cinto de segurança posto - disse Joan. Cassi hesitou, mas depois disse a palavra em voz alta.

- Morreu? Joan assentiu.

Cassi deixou cair a cabeça para o lado. Mas enquanto as lágrimas lhe escorriam pelo rosto recordou-se da sua última conversa com Thomas. Pensou em Robert e em todos os outros. Agarrando na mão de Joan, disse:

- Pensei que o amava, mas graças a Deus...

 

(seis meses depois)

O Dr. Ballantine empurrou a porta de vaivém e entrou na sala de estar do serviço de cirurgia. Terminara o seu único caso desse dia e que não correra lá muito bem. Talvez fosse realmente altura de abrandar. No entanto, adorava operar. Adorava a sensação de triunfo que o invadia no final de cada operação bem sucedida.

Servindo-se de uma chávena de café bem quente, sentiu uma mão sobre o ombro. Virou-se e deparou com o rosto sorridente de George Sherman.

- Nem imagina com quem é que fui jantar ontem à noite - disse George.

O Dr. Ballantine olhou atentamente para o rosto cansado de George. Desde a morte de Thomas que o volume de doentes a operar vinha a sobrecarregar todo o pessoal, mas George era provavelmente o médico que mais trabalhava. Tinha adquirido maior maturidade com a pressão a que estava sujeito. Embora continuasse a ser uma pessoa sorridente e tivesse sempre uma piada a dizer aos colegas, parecia estar a tornar-se cada vez mais pensativo. Mas naquele momento olhava para Ballantine com o seu antigo sorriso malandro.

- Diga lá com quem é que jantou? - perguntou o director.

- Cassandra Kingsley.

O Dr. Ballantine ergueu as sobrancelhas numa expressão de admiração.

- Muito bem. E que tal é que vai esse romance unilateral?

- Creio que a oposição está a enfraquecer - disse George, sorrindo. - Consegui convencê-la a ir comigo às Caraíbas em Janeiro. Vai ser maravilhoso. Ela é uma pessoa fabulosa.

- E como é que está o olho dela? - perguntou o Dr. Ballantine.

- Óptimo. E não houve fractura nenhuma que não consolidasse sem o menor problema. Ela é extremamente corajosa, sobretudo por ter voltado ao trabalho tão depressa. E parece estar a fazer nome lá na Clarkson Two. Um dos responsáveis disse-me que ela tem todas as qualidades para ser interno chefe.

- Ela costuma falar em Thomas? - perguntou o Dr. Ballantine num tom mais sério.

- Por vezes. Tenho a sensação de que há uma parte da história que ninguém sabe a não ser Cassi. Ainda está confusa quanto ao que deve fazer, mas pessoalmente acho que vai deixar cair a questão.

O Dr. Ballantine deu um suspiro de alívio.

- Meu Deus, espero bem que sim. Durante o nosso último encontro pensei tê-la convencido de que dar conhecimento público da história de Thomas faria mais mal do que bem. Mas não tinha a certeza absoluta.

- Ela não quer prejudicar o hospital - disse George. - A sua principal objecção refere-se ao facto de a fiscalização interpares não funcionar. Deixam-se pessoas como Thomas continuar a destruírem-se a si próprias e aos seus doentes porque os seus colegas não tomam medidas.

- Eu sei. Pelo menos contactei o Departamento de Controlo de Psicotrópicos e sugeri que fosse obrigatório o serviço de emissão de licenças comunicar-lhes de imediato a morte de qualquer médico. Desta forma ninguém poderia utilizar abusivamente a autorização de um médico já falecido.

- É uma óptima ideia - disse George. - E irão segui-la? O Dr. Ballantine encolheu os ombros.

- Não sei. Para ser franco, não voltei a contactar o Departamento.

- Sabe, que o que me perturbou mais acerca de Thomas - disse George - foi o facto de ele parecer tão normal. Mas devia andar a tomar muitos comprimidos. Às vezes penso como é que ele se deixou chegar àquele estado. Eu próprio tomo um Valium de vez em quando.

- Também eu - disse Ballantine. - Mas não todos os dias, como aparentemente Thomas fazia.

- Não, não todos os dias - concordou George, abanando a cabeça. - Sabe que nunca percebi por que é que ele não conseguia enfrentar o facto de todo o departamento ir passar a ter pessoal apenas a tempo inteiro. Talvez os comprimidos tivessem embotado a sua percepção da realidade. Depois daquela reunião, já às tantas da noite, com os administradores do hospital, ele podia ter exigido o vencimento que quisesse. Os responsáveis financeiros estavam dispostos a tudo para o aliciar, embora pretendessem efectivamente que ele desistisse da sua clínica privada.

- Como excelente cirurgião que era, Thomas tinha dificuldade em ver para além de si próprio. Era como o protagonista de todas aquelas anedotas, sabe, sobre o médico que faz de Deus - disse o Dr. Bal-lantine.

George ficou calado durante alguns instantes, pensando que todos eles tomavam decisões que afectavam a vida dos seus doentes.

- Sobre aquela tripla substituição de válvulas que referiu a semana passada - disse George, seguindo o seu raciocínio -, que decidiu fazer?

Ballantine bebeu lentamente um golo do seu café.

- Nem sequer vou apresentar o caso. A mulher tem os rins num estado discutível; tem mais de sessenta anos e há anos que vive de uma pensão da segurança social. Algumas das objecções de Thomas acerca do