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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ANJO NEGRO / V. C. Andrews
ANJO NEGRO / V. C. Andrews

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ANJO NEGRO

 

REGRESSO A CASA

Em meu redor, a casa erguia-se, escura, misteriosa e solitária. As sombras sussurravam segredos e incidentes que era melhor permanecerem no esquecimento, e prenunciavam perigos, nada dizendo, porém, da segurança e estabilidade que eu tanto almejava. Era a casa da minha mãe, da minha mãe já falecida. O lar pelo qual ansiara quando vivera na cabana de montanha dos Willies, o lar que preenchera os meus sonhos de criança, imaginando toda a felicidade que ali me aguardava quando nele fosse viver. Ali, naqueles aposentos, que os sonhos tornados realidade enchiam de uma espécie de arco-íris, eu encontraria o pote de ouro do amor familiar um tipo de amor que nunca conhecera. E desfrutaria de preciosidades como a cultura, o conhecimento e a educação, com os quais me resguardaria do mal, do desprezo e do escárnio. Assim esperei, como uma noiva, que todas essas maravilhas aparecessem para me enfeitar; porém, não foi o que aconteceu. Sentada na sua cama, senti as vibrações do seu quarto despertar os pensamentos perturbadores que enchiam sempre os cantos mais recônditos e sombrios do meu cérebro.

Porque teria a minha mãe fugido de uma casa assim?

Nessa noite fria e invernosa, já lá iam tantos anos, a minha avó levara-me a visitar um cemitério, revelando-me então, nessa altura, que eu não era a filha mais velha da Sarah, e mostrando-me a campa da minha mãe. Da minha mãe, uma linda jovem chamada Leigh, que fugira de Boston.

Pobre avó... com a sua ignorância e ingenuidade. Como fora confiante, acreditando que o Luke, o filho mais novo, mais cedo ou mais tarde provaria ser suficientemente valoroso para reabilitar o nome escarnecido e ridicularizado dos Casteel. "Escumalha", tinha a impressão de ouvir a badalar como sinos de igreja no meio da escuridão que me rodeava.

"não valem nada, nunca nenhum deles terá préstimo para o que quer que seja..." ao ponto de eu levar as mãos aos ouvidos para abafar o som.

Um dia, eu seria o orgulho da minha avó, apesar de esta já ter morrido. Um dia, quando completasse os meus estudos, voltaria aos Willies, ajoelhar-me-ia diante da sua campa e dir-lhe-ia todas as palavras que a tornariam mais feliz do que alguma vez se sentira em vida. Eu não tinha a menor dúvida de que a minha avó, que estava no céu, me sorriria, certa de que pelo menos uma Casteel fizera o liceu, depois a faculdade...

Que ignorante e inocente eu era por ali chegar munida de tais esperanças...

Aconteceu tudo muito depressa: a aterragem do avião, a minha tentativa desesperada para abrir caminho por entre a multidão que enchia o aeroporto, até chegar junto da passadeira rolante da bagagem, toda aquela movimentação mundana que eu imaginara muito simples mas depressa vira que não o era. Apesar de depressa localizar as minhas duas malas azuis, que pareciam tão espantosamente pesadas, não deixei de me sentir assustada. Olhei em volta, atrapalhada e receosa. E se os meus avós não aparecessem? E se tivessem mudado de ideias e já não quisessem receber a neta desconhecida no seu mundo seguro e abastado? Tinham passado sem mim todo aquele tempo... Porque não continuarem assim para sempre? De modo que esperei, convencendo-me, à medida que os minutos passavam, de que não viriam.

Nem mesmo ao ver um casal extraordinariamente elegante avançar na minha direcção, envergando a roupa mais rica que eu alguma vez vira, fui capaz de me mover, de acreditar que, quem sabe, afinal de contas Deus iria conceder-me algo mais além de agruras.

O homem foi o primeiro a sorrir, a mirar-me dos pés à cabeça com muita atenção. Nos seus luminosos olhos azuis surgiu uma luz brilhante que fazia lembrar a de uma chama de vela vista através do vidro de uma montra de Natal.

- Deves ser a Heaven Leigh Casteel - cumprimentou o homem louro e sorridente. - Reconhecer-te-ia em qualquer lado. És tal e qual a tua mãe, com excepção do cabelo escuro.

O meu coração saltou em resposta, esmorecendo logo a seguir. Lá estava a minha maldição, o cabelo escuro. De novo, os genes do meu pai a prejudicarem o meu futuro.

- oh, por favor, por favor, Tony - sussurrou a bela mulher ao seu lado -, não me recordes o que perdi...

Ali estava, portanto, a avó dos meus sonhos. Dez vezes mais bonita do que eu alguma vez imaginara. Calculara que a mãe da minha mãe fosse uma velhinha gentil de cabelos grisalhos. Nunca me passara pela cabeça que alguma avó pudesse ter o aspecto daquela beldade de casaco de peles, botas altas cinzentas e luvas compridas no mesmo tom. O cabelo, de um louro de tom claro e brilhante, penteado para trás, revelava o seu rosto escultural e isento de rugas. Não duvidava da sua identidade, não obstante a sua espantosa juventude, pois era demasiado parecida com a imagem que eu via todos os dias ao espelho.

- Vem, vem - disse-me ela, fazendo sinal ao marido para que pegasse nas minhas malas e se apressasse. - Detesto locais públicos. Poderemos conhecer-nos uns aos outros quando estivermos sozinhos.

O meu avô pôs-se imediatamente em movimento, pegando nas minhas duas malas, enquanto a minha avó me puxava pelo braço; não tardei a entrar apressadamente dentro de uma limusina que nos aguardava, com motorista fardado.

- Para casa - ordenou o meu avô ao motorista, sem sequer olhar na sua direcção.

Sentei-me no meio dos dois e, a certa altura, a minha avó sorriu, finalmente. Abraçou-me com meiguice e beijou-me, murmurando palavras que escapavam, parcialmente, ao meu entendimento.

- Desculpa termos sido tão abruptos nesta recepção, mas não dispomos de muito tempo - disse a minha avó. Temos muitos quilómetros para percorrer daqui até casa, querida Heaven. Esperamos que não fiques triste por não te mostrarmos Boston hoje. E esse homem bonito que vai ao teu lado chama-se Townsend Anthony Tatterton. Eu chamo-lhe Tony. Alguns dos seus amigos tratam-no por Townie, só para irritá-lo, mas aconselho-te a não fazê-lo.

Como se eu algum dia fosse capaz de tal!

- Eu chamo-me Jillian - continuou a minha avó, mantendo a minha mão firmemente segura entre as suas, enquanto eu continuava encantada com a sua juventude, beleza e com o som da sua voz doce e sussurrante, tão diferente de qualquer outra que já ouvira. - O Tony e eu tencionamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para tornarmos a tua visita agradável.

"Visita?". Eu não viera em visita, mas sim para ficar! Para ficar para sempre! Não tinha para onde ir! O meu pai ter-lhes-ia dito que eu só ia visitá-los? Que outras mentiras lhes enfiara na cabeça?

Olhei ora para um, ora para outro, profundamente receosa de me debulhar em lágrimas que o instinto dizia-me não serem de bom gosto. Porque presumira eu que umas pessoas cultas da cidade haveriam de querer uma neta rústica como eu? Senti um nó formar-se na garganta. E quanto aos meus estudos universitários? Quem, a não ser eles, os pagaria? Mordi a língua para não chorar ou dizer algo que não devia. Talvez conseguisse trabalhar e estudar ao mesmo tempo... Sabia escrever à máquina...

Dei-me conta, completamente siderada, dentro daquela limusina negra, do enorme engano deles.

Antes de poder recobrar do choque, o marido da minha avó começou a falar com uma voz baixa e ligeiramente rouca, utilizando palavras que eram inglesas mas estranhamente pronunciadas.

- Acho melhor que saibas desde já que eu não sou o teu avô biológico. A Jillian casou primeiro com o Cleave VanVoreen, que faleceu há cerca de dois anos, e o Cleave é que foi o pai da tua mãe, a Leigh Diane VanVoreen.

Mais uma vez embasbacada, senti-me mirrar. Ele era o tipo de pai que eu sempre desejara, um homem brando e de fala suave. A minha desilusão foi tão devastadora que nem pude deleitar-me totalmente com a alegria que imaginara vir a ter quando soubesse o nome completo da minha mãe. Voltei a engolir em seco e mordi a língua com mais força ainda, afastando a imagem de que aquele homem bom e bonito era do meu sangue e tentando imaginar, com grande dificuldade, como teria sido o Cleave VanVoreen. Que espécie de apelido era aquele? Nunca conhecera ninguém nas colinas da Virgínia Ocidental com um nome de família tão estranho como VanVoreen.

- Sinto-me muito lisonjeado por ficares com esse ar tão desiludido ao saberes que não sou o teu avô biológico - observou o Tony, esboçando um pequeno sorriso de satisfação.

Intrigada pela sua voz e entoação, olhei interrogativamente para a minha avó. Esta corou sem que eu soubesse porquê, e o afluxo de cor tornou o seu rosto ainda mais bonito.

- Sim, querida Heaven, eu sou uma dessas mulheres modernas e desavergonhadas que são incapazes de suportar um casamento insatisfatório. O meu primeiro marido não me merecia. No início do nosso casamento eu amava-o, pois dedicava-me muito do seu tempo. Infelizmente, durou pouco. Negligenciou-me em troca dos seus negócios. Talvez tenhas ouvido falar na Companhia dos Navios a Vapor VanVoreen. O Cleave orgulhava-se imensamente dela. Os seus tolos barcos e navios exigiam toda a sua atenção. Portanto, nem os fins-de-semana e feriados me dedicava. Comecei a sentir-me solitária, tal como aconteceu com a tua mãe...

- Jillian, repara nesta rapariga! - interrompeu-a o Tony. - Já viste os olhos dela? São incrivelmente azuis, tal qual os teus e os da Leigh!

A minha avó inclinou-se para a frente e lançou-lhe um olhar frio e admoestador.

- Claro que ela não é exactamente igual à Leigh! Há também algo mais além da cor do cabelo. Algo nos seus olhos... algo que não é, bem, tão inocente.

Oh! Tinha de me acautelar. Devia cuidar mais com o que os meus olhos pudessem revelar. Nunca, nunca eles deveriam imaginar, sequer, o que se passara entre o Cal Dennisson e eu. Se descobrissem, desprezar-me-iam, tal como acontecia com o Logan Stonewall, o meu namorado de infância.

- Sim, claro que tens razão - concordou o Tony com um suspiro. - Nunca existiram duas pessoas exactamente iguais.

Os dois anos e dois meses que"eu passara em Candlewick, nos arredores de Atlanta, com a Kitty e o Cal Dennison, não me haviam dado o tipo de sofisticação de que necessitava naquele momento, ao contrário do que eu pensara anteriormente. A Kitty tinha trinta e sete anos quando morrera e considerara a sua idade avançada intolerável. E agora tinha ali a minha avó, muito mais velha do que a Kitty, mas com um ar muito mais jovem e seguro que esta. Na verdade, eu nunca vira uma avó com uma aparência tão juvenil como aquela. E nos montes, as avós atingiam essa fase em idades muito precoces, sobretudo quando casavam aos doze, treze ou catorze. Dei comigo a tentar imaginar quantos anos a minha avó teria.

Eu faria dezassete anos em Fevereiro. A minha mãe tinha apenas catorze quando eu nascera; o mesmo dia em que morrera. Se ainda fosse viva, teria trinta e um anos. Eu estava bastante bem informada e, segundo todos os factos de que me inteirara relativamente aos membros de sangue azul de Boston, sabia que só casavam depois de terminarem a sua educação. Os maridos e os bebés não eram considerados tão essenciais na vida das jovens de Boston como acontecia às da Virgínia Ocidental. Aquela avó devia ter, no mínimo, uns vinte anos quando casara pela primeira vez. Naquele momento andaria, portanto, pelo final da casa dos cinquenta. Imaginem! A mesma idade em que eu me lembrava melhor da avó. A avó com o seu longo cabelo branco ralo, os ombros encurvados e a marreca de velhinha, a artrite nos dedos das mãos e nas articulações das pernas, a escassa roupa surrada e escura, os sapatos gastos.

"Oh, avó, pensar que um dia foste tão linda como esta mulher."

O escrutínio intenso e demorado a que submeti a minha juvenil avó fez surgir duas pequenas lágrimas brilhantes nos cantos dos seus olhos azuis, cor de centáurea, tão parecidos com os meus. Lágrimas que tremularam sem cair.

Encorajada pelas suas escassas lágrimas estáticas, consegui falar:

- Avó, que foi que o meu papá lhe disse acerca de mim?

Fiz a pergunta com uma voz tremulamente baixa e assustada. O meu pai contara-me que falara com os meus avós e que estes receber-me-iam em sua casa. Mas que mais lhes dissera? Ele sempre me desprezara, culpando-me pela perda de Angel, a sua esposa. Ter-lhes-ia o meu pai dito tudo? Nesse caso, eles nunca chegariam a gostar de mim, muito menos a amar-me. E eu precisava de alguém que me amasse como eu era... com todas as minhas imperfeições.

Os brilhantes olhos azuis desviaram-se de mim, totalmente desprovidos de expressão. Incomodava-me ver como ela conseguia torná-los impenetráveis, como se soubesse ligar e desligar todas as suas emoções. Não obstante a frieza do olhar e as lágrimas que desafiavam a gravidade, quando falou fê-lo com voz doce e afável:

- Querida Heaven, importas-te de não me tratar por avó? Tenho tido um empenho enorme em conservar a minha juventude e sinto que vou obtendo sucesso nas minhas diligências... De modo que ser chamada "avó" em frente de todos os meus amigos, que me imaginam vários anos mais nova do que na realidade sou, deitaria a perder todos os meus esforços. Sentir-me-ia muito humilhada por ser apanhada numa mentira. Confesso que minto sempre acerca da minha idade, às vezes até mesmo aos médicos. Portanto, peço-te que não fiques magoada ou ofendida por te pedir que, daqui em diante, me trates apenas por... Jillian.

Novo choque, mas naquela altura já me começava a habituar a eles.

- Mas... mas... - gaguejei. - Como é que lhes vai explicar a minha existência? E de onde vim? E o que estou a aqui a fazer?

- Oh, minha queridinha, por favor, não fiques com esse ar tão triste! Em privado, talvez em ocasiões esporádicas, poderás chamar-me... Oh, não! Pensando melhor, isso não resultaria. Se eu te permitisse... descuidavas-te e tratavas-me por avó sem querer. Portanto, o melhor é cortarmos já o mal pela raiz. Sabes, querida, não se trata propriamente de mentir. As mulheres têm de fazer o que está ao seu alcance para criarem a sua própria mística. Sugiro-te que comeces desde já a mentir sobre a tua idade. Nunca é cedo de mais. E apresentar-te-ei simplesmente como minha sobrinha, a Heaven Leigh Casteel.

Levei alguns momentos a interiorizar a ideia e a encontrar a pergunta seguinte.

- Tem alguma irmã cujo apelido seja igual ao meu... Casteel?

- Ora essa, não, claro que não. Mas as minhas duas irmãs já se casaram e divorciaram tantas vezes que é impossível alguém recordar-se de todos os apelidos que tiveram. E tu não tens de inventar nada, não é? Dizes apenas que não queres falar nos teus antecedentes. E se alguém for suficientemente rude para insistir, dizes a essa pessoa detestável que o teu querido paizinho te levou para a sua terra natal... Como é que disseste que se chamava?

- Winnerrow, Jill - elucidou o Tony, cruzando as pernas e passando meticulosamente os dedos por um dos vincos impecáveis das suas calças cinzentas.

Nos Willies, a maioria das mulheres competia entre si para ver quem se tornava avó mais cedo! Era motivo de ostentação, de orgulho. Ora, a minha própria avó fora-o aos vinte e oito anos, embora esse primeiro neto não chegasse a completar um ano de idade. Mas, ainda assim... Aquela avó parecia ter, aos cinquenta anos, oitenta ou mais.

- Está bem, tia Jillian - aquiesci, mais uma vez em voz sumida.

- Não, querida, não é tia Jillian, mas apenas Jillian. Nunca gostei de títulos: mãe, tia, irmã ou esposa. Basta o meu nome próprio.

O marido, que ia ao meu lado, riu-se.

- Nunca ouviste palavras mais verdadeiras, Heaven, mas a mim podes chamar Tony.

Desviei o olhar sobressaltado para ele. Vi-o sorrir maliciosamente.

- Se ela quiser pode tratar-te por avô - declarou Jillian friamente. - Afinal de contas, querido, ter laços familiares ajuda, não é?

Havia ali um fluxo de correntes subterrâneas que eu não conseguia entender. Olhava ora para um ora para outro, pelo que prestei muito pouca atenção ao caminho que o carro levava até as rodovias se alargarem em auto-estradas, altura em que vi uma placa a indicar que seguíamos para norte. Insegura relativamente à minha situação, esbocei nova tentativa para descobrir o que o meu pai lhes dissera no seu telefonema interurbano.

- Muito pouco - respondeu o Tony, enquanto a Jillian baixava a cabeça e dava a impressão de fungar... Eu não saberia dizer se de uma constipação ou da emoção. De vez em quando levava delicadamente o lenço de renda aos olhos. – O teu pai parecia um sujeito muito simpático. Disse que tinhas acabado de perder a tua mãe, um desgosto que te fizera mergulhar numa depressão profunda, e nós, naturalmente, pusemo-nos à disposição para ajudar no que fosse necessário. O facto de a tua mãe nunca ter entrado em contacto connosco, ou dito onde estava, sempre nos entristeceu. Cerca de dois meses depois de ter fugido, escreveu-nos um postal onde nos disse que se encontrava bem mas, depois disso, nunca mais deu notícias. Fizemos os possíveis por descobrir o seu paradeiro. Chegámos mesmo a contratar detectives. O postal estava tão manchado que era quase ilegível e a gravura era de Atlanta, não de Winnerrow, na Virgínia Ocidental. - Fez uma pausa e cobriu a minha mão com a sua. - Querida menina, estamos ambos muito contristados por saber da morte da tua mãe. Também sentimos muito a tua perda. Se ao menos pudéssemos ter sabido do seu estado antes de ser demasiado tarde! Poderíamos ter feito tanto para tornar os seus últimos dias mais felizes... Creio que o teu pai se referiu a... um cancro...

Oh, oh!

Que horror o meu pai ter mentido!

A minha mãe morrera logo cinco minutos após o meu nascimento, pouco depois de me dar o nome. A mentira abjecta do meu pai esfriou-me o sangue e fê-lo esvair-se até aos meus tornozelos, deixando-me um buraco doloroso no peito, ao ponto de me sentir agoniada. Não era justo alicerçar um futuro feliz em mentiras! Mas a vida nunca fora justa para mim. Porque haveria de esperar algo diferente naquela altura? "Maldito sejas, pai, por não contares a verdade!" Quem morrera há dias fora a Kitty Dennison! A Kitty, a mulher a quem ele me vendera por quinhentos dólares! A Kitty, que tão cruel fora com o seu banho a escaldar, o seu feitio temperamental e os acessos inesperados de violência que tinha antes de a doença lhe roubar as forças.

Desesperadamente ali sentada, com os joelhos juntos e as mãos no colo a retorcerem-se uma à outra de nervosismo, para não as cerrar em punhos, raciocinei que, afinal de contas, se calhar o meu pai fora muito esperto em sair-se com aquela mentira.

Se ele lhes tivesse dito a verdade, que a minha mãe morrera há todos aqueles anos, quem sabe se eles se sentiriam tão dispostos a ajudar uma pacóvia que crescera habituada a privações e à ausência de uma mãe...

Depois foi a vez de Jillian me consolar.

- Queridíssima Heaven, um dia destes, muito em breve, sentar-nos-emos as duas para eu te fazer uma lista imensa de perguntas acerca da minha filha - sussurrou com voz enrouquecida, deixando escapar um soluço e esquecendo-se de limpar as lágrimas. - Neste momento estou demasiado perturbada e comovida para escutar algo mais. Por favor, querida, deixa o resto para depois.

- Mas eu gostaria de saber mais agora - declarou o Tony, apertando a minha mão, que ainda mantinha entre as suas. - O teu pai disse que estava a telefonar de Winnerrow e que ele e a tua mãe viveram a maior parte da sua vida nessa cidade. Gostavas dessa cidade?

Ao princípio, a minha língua recusou-se a formar palavras. Porém, ao ver que o silêncio se prolongava e se tornava desconfortavelmente denso, encontrei, por fim, uma resposta que não seria propriamente mentira.

- Sim, gostava bastante de Winnerrow.

- Óptimo. Detestaríamos saber que a Leigh e a filha tinham sido infelizes.

Permiti que os meus olhos se encontrassem com os dele por breves instantes, antes de os desviar de novo e fixá-los, sem ver, na paisagem que se ia desenrolando.

- Como foi que a tua mãe conheceu o teu pai? - perguntou ele.

- Por favor, Tony! - exclamou a Jillian aparentemente muito perturbada. Não me ouviste acabar de dizer que me sentia demasiado comovida para ouvir os pormenores? A minha filha morreu e não me escreveu durante todos estes anos! Como queres que esqueça e perdoe semelhante comportamento? Esperei sempre por uma palavra e um pedido de perdão! Magoou-me muito, ao fugir! Chorei durante meses! Detesto lágrimas. Tu sabes bem, Tony! - Soluçou com violência, como se a sua garganta não estivesse habituada a tal, levando, mais uma vez, o pequeno lenço de renda aos olhos. - A Leigh sabia que eu era emotiva e sensível, mas não se importou. Nunca gostou de mim. De quem ela gostava era do Cleave. E a verdade é que contribuiu para a morte do pai, que nunca conseguiu recompor-se depois de ela fugir... Portanto, acabei de tomar uma decisão: não permitirei que a Leigh me roube a felicidade e arruine o resto da vida com mágoas!

- Ora, Jill, nem por um momento imaginei que permitisses que a tristeza te desse cabo da vida. Além disso, não podes esquecer que a Leigh viveu dezassete anos da sua vida com um homem que adorava. Não é verdade, Heaven?

Continuei a olhar inexpressivamente pela janela lateral. Santo Deus, como poderia eu responder sem prejudicar as minhas possibilidades? Se soubessem - o que, obviamente, não acontecia -, talvez mudassem de atitude para comigo.

- Parece que vai chover - observei com nervosismo, olhando para fora do automóvel.

Encostei-me às costas do banco elegantemente forrado a cabedal, e tentei descontrair-me. A Jillian fazia parte da minha vida há menos de uma hora, mas eu já adivinhara que ela não queria saber dos problemas de ninguém, nem meus nem da minha mãe. Mordi o lábio inferior com mais força, esforçando-me por não mostrar as minhas emoções mas, a certa altura, o meu orgulho regressou, de armas e bagagens. Endireitei as costas, engoli as lágrimas, fiz desaparecer o nó que tinha na garganta, empertiguei os ombros e, para grande surpresa minha, a minha voz soou alta, forte, honesta e sincera:

- Os meus pais conheceram-se em Atlanta e apaixonaram-se profundamente um pelo outro à primeira vista. O meu pai apressou-se a levar a minha mãe para junto da família que tinha na Virgínia Ocidental, de modo a ela poder ter um sítio decente onde passar aquela noite. A sua casa não ficava exactamente em Winnerrow, era mais nos arredores. Casaram na igreja, numa cerimónia adequada, com flores, testemunhas e um sacerdote e, mais tarde, partiram em lua-de-mel para Miami. E, quando regressaram, o meu pai mandou fazer mais uma casa de banho na casa, só para agradar à minha mãe.

Silêncio!

Era um silêncio de morte que se prolongava interminavelmente... Acreditariam eles nas minhas mentiras?

- Foi um gesto simpático, realmente - murmurou o Tony, fitando-me de maneira estranha. - Algo que nunca me ocorreria, uma casa de banho nova, mas prático, muito prático.

A Jillian ia com a cabeça virada para a janela, como se não desejasse ouvir quaisquer pormenores acerca da vida de casada da filha.

- Quantas pessoas viviam com os teus pais? - continuou o Tony.

- Só os avós - respondi, na defensiva. - Adoravam a minha mãe, ao ponto de só a tratarem por Angel. Era Angel isto, Angel aquilo. O que ela fazia estava sempre bem. Teriam gostado da minha avó. Morreu há alguns anos, mas o avô continua a viver com o... papá.

- Em que dia e mês nasceste? - quis saber o Tony. Tinha dedos fortes e compridos, e as suas unhas brilhavam.

- A vinte e dois de Fevereiro - respondi, dando a data certa mas o ano errado: a data de nascimento da Fanny, um ano depois de mim.

- Ela estava casada com o papá há mais de um ano acrescentei, achando que pareceria melhor do que um nascimento que tivesse lugar logo oito meses após o casamento, o que poderia ter dado a conhecer a necessidade incontrolável que os meus pais tinham tido de não esperar...

E só depois de as palavras me saírem é que me dei conta do que acabara de fazer.

Caíra numa ratoeira. Agora eles pensariam que eu tinha apenas dezasseis anos. Nunca mais poderia falar-lhes dos meus meios-irmãos, o tom e o Keith, e das minhas meias-irmãs, a Fanny e a "Nossa" Jane. E eu que tencionara seriamente recorrer à ajuda dos meus parentes para reunir de novo a família debaixo do mesmo tecto! Deus me perdoasse por só ter pensado em assegurar o meu próprio lugar!

- Tony, estou cansada! Tu sabes que tenho de repousar entre as três e as cinco se quero estar em forma para o jantar desta noite. - A sua expressão toldou-se por momentos, antes de explicar rapidamente. - Querida Heaven, não te importarás que o Tony e eu passemos algumas horas fora de casa hoje à noite, pois não? Tens uma televisão no teu quarto, e no primeiro andar há uma biblioteca maravilhosa com milhares de livros. - Inclinou-se para me depositar um beijo leve na face, sufocando-me com o seu perfume, que já enchia o espaço fechado. - Teria cancelado, mas esqueci-me por completo e só esta manhã é que me dei conta de que chegarias...

Senti um formigueiro na ponta dos dedos, talvez por tê-los fechados com tanta força. Já estavam a arranjar desculpas para não ficarem comigo. Nos montes, ninguém seria capaz de deixar um hóspede sozinho numa casa estranha.

- Não tem importância - retorqui debilmente. - Também me sinto um pouco cansada.

- Estás a ver, Tony, ela não se importa. Bem te disse. Depois compensar-te-ei, querida Heaven, a sério. Amanhã irei andar a cavalo contigo. Sabes montar? Se não souberes, eu ensino-te. Nasci num rancho de cavalos e a minha primeira montada foi um garanhão...

- Jillian, por favor! A tua primeira montada foi um pequeno pónei tímido.

- Óh, que desmancha-prazeres tu és, Tony! Francamente, que diferença faz? Apenas soa melhor dizer que se aprendeu com um garanhão do que com um pónei. E o Scuttles era um querido, um verdadeiro amorzinho.

Agora que já sabia que ela tratava tudo e todos por "querido", já não parecia tão simpático. E, no entanto, quando me sorriu e fez uma festa na face com a sua mão enluvada, eu tremi, tão carente estava de afecto. Aquilo que eu mais desejava era que ela gostasse de mim, que chegasse a amar-me, e eu iria esforçar-me para que isso acontecesse muito, muito rapidamente!

- A única coisa que preciso que me digas é que a tua mãe foi feliz - sussurrou-me a Jillian.

- Ela foi feliz até ao dia da sua morte - declarei, sem, na realidade, mentir.

Segundo os meus avós, a minha mãe fora loucamente feliz, apesar de todas as agruras por que tivera de passar num casebre ventoso e miserável nos montes e um marido que não podia dar-lhe nada daquilo a que estava habituada.

- Então não preciso de ouvir mais nada - disse a Jillian em voz baixa, envolvendo-me com um braço e puxando-me a cabeça para a gola de pele macia do seu casaco.

Que reacção teriam se soubessem a verdade acerca de mim e da minha família?

Limitar-se-iam a sorrir e a pensar que eu em breve partiria e, portanto, que diferença fazia?

Não podia permitir que soubessem a verdade. Tinham de me aceitar como alguém do seu meio; eu tinha de fazer com que precisassem de mim, facto de que eles ainda não tinham consciência. E não me iria assustar, deixando que se apercebessem da minha vulnerabilidade.

E, no entanto, eles falavam um tipo de inglês diferente do meu. Tinha de escutar com muita atenção; até mesmo palavras conhecidas soavam estranhas com o seu sotaque. Porém, eu estava decidida a fazer com que depressa me aceitassem no seu mundo, tão diferente de tudo o que eu já conhecera. Era esperta, aprendia depressa, de modo que arranjaria maneira, mais cedo ou mais tarde, de encontrar o Keith e a "Nossa" Jane.

O perfume que inicialmente achara delicado, começara a sufocar-me com a sua forte essência de jasmim, fazendo-me sentir atordoada e completamente alheada da realidade. Lembranças da Sarah, a minha madrasta, começaram a passar-me pela mente. Oh, se a Sarah pudesse ter tido, ao menos uma vez na vida, um frasco do perfume da Jillian! Ou uma caixa do pó-de-arroz sedoso que ela usava.

A chuva, que eu já antevira, principiou com chuviscos dispersos que, em segundos, se transformaram em lençóis de água a tamborilar no asfalto. O motorista abrandou a velocidade e deu a impressão de se tornar mais cuidadoso, e nós três, que nos encontrávamos do outro lado da barreira de vidro, calámo-nos e remetemo-nos aos nossos próprios pensamentos. Eu só pensava em ir para casa, ir para casa. Ir para onde tudo era melhor, mais bonito, onde, mais cedo ou mais tarde, me sentiria verdadeiramente bem-vinda.

O meu sonho estava a concretizar-se demasiado depressa para que eu pudesse absorver todas as sensações. Queria provar e saborear aquela primeira viagem para onde quer que eles me levavam e, mais tarde, quando estivesse sozinha, reflectir sobre as impressões recolhidas. "Sozinha, esta noite, numa casa estranha." Surgiram, porém, pensamentos mais alegres. Oh, assim que pudesse escreveria ao tom a falar da minha linda avó! Ele jamais acreditaria que uma pessoa tão velha pudesse parecer assim tão jovem. E a minha irmã Fanny ficaria cheia de inveja! Se ao menos pudesse telefonar ao Logan, que se encontrava a poucos quilómetros de distância, no enorme dormitório de uma faculdade qualquer... No entanto, eu fora suficientemente crédula e ingénua para cair na teia de sedução montada pelo Cal Dennison. O Logan já não me queria. Se telefonasse para ele certamente desligar-me-ia o telefone na cara.

A certa altura, quando o motorista virou à direita, a Jillian começou a perorar interminavelmente sobre os planos que tinha para em breve, me distrair.

- Nós fazemos sempre do Natal um acontecimento especial. Todos nós participamos, por assim dizer...

Agora sabia o que ela estava a dizer-me, à sua maneira... Contava comigo para passar ali o Natal. E estávamos ainda no princípio de Outubro... Porém, o Outubro sempre fora um mês agridoce: o adeus ao Verão e a tudo o que era luminoso e alegre; a espera do Inverno e de tudo o que era frio, sombrio e escuro.

Porque me ocorreriam tais pensamentos? O Inverno numa casa rica e opulenta dificilmente poderia ser frio e desolado. Haveria fartura de combustível, lenha ou até mesmo aquecimento eléctrico, o que providenciaria calor suficiente. Quando o Natal chegasse e partisse, eu já teria enchido aquela casa solitária de tanta alegria que ninguém desejaria ver ir-me embora. Não, não desejariam. Precisariam de mim... Oh, Deus fizesse com que precisassem de mim!

Os quilómetros foram passando e, de repente, como que para melhorar o meu estado de espírito e fortalecer a minha confiança, um sol brilhante espreitou por entre as nuvens lúgubres. As árvores vestidas com as cores vivas do Outono iluminaram-se, e eu acreditei que, afinal de contas, Deus iria proteger-me. O meu coração encheu-se, subitamente, de esperança. Iria adorar a Nova Inglaterra. Parecia-se tanto com os Willies... Só não tinha os montes e as cabanas.

- Não tardaremos a chegar - observou o Tony, tocando-me ao de leve na mão. - Olha para a tua direita e espera que surja uma aberta entre as filas de árvores. A primeira visão que se tem de Farthinggale Mannor é inesquecível.

Uma casa com nome! Impressionada, virei-me para o Tony e sorri.

- É assim tão grandiosa como o nome dá a entender?

- Ainda mais - respondeu-me ele melancolicamente. - O meu lar é muito importante para mim. Foi construído pelo meu tetravô, e todos os primogénitos que o herdam contribuem para a sua conservação e melhoria.

A Jillian deixou escapar um som desdenhoso, como se sentisse desprezo pela sua casa. No entanto, eu sentia-me entusiasmada, ansiosa por saber mais pormenores que me impressionassem. Cheia de expectativa, inclinei-me para a frente e fiquei à espera da clareira no meio das árvores. Não tardou a surgir. O motorista enveredou por uma estrada particular cujo início era marcado por portões altos em ferro forjado, e na arcada superior lia-se, em letras belamente desenhadas, "Mansão Farthinggale".

Fiquei de boca aberta só de ver o portão, com os seus duendes, fadas e gnomos a espreitar por entre as folhas de ferro.

- Os Tatterton referiam-se afectuosamente ao nosso lar ancestral como "Farthy" - informou o Tony com voz nostálgica. - Nos meus tempos de menino costumava achar que não havia no mundo casa mais bonita do que aquela onde eu morava. Claro que existem muitas que são superiores a Farthy, mas não para mim. Quando fiz sete anos, o meu pai mandou-me para Eton porque achava que os Ingleses percebem mais de disciplina que as nossas escolas privadas. E nisso tinha razão. Em Inglaterra, eu não fazia outra coisa senão sonhar com o meu regresso a Farthy. Sempre que sentia saudades de casa, o que acontecia frequentes vezes, fechava os olhos e imaginava o cheiro dos abetos e dos pinheiros e, acima de tudo, a maresia do oceano. Depois regressava à realidade, desgostoso, com vontade de sentir o ar frio e húmido da manhã no rosto, desejando com tanto ardor a minha casa que chegava a doer fisicamente. Aos dez anos, os meus pais desistiram de Eton, caso contrário eu andaria sempre cheio de saudades, e permitiram-me que voltasse e... Oh, que dia feliz foi esse!

Eu não tinha dificuldade em acreditar nas suas palavras. Nunca vira uma casa tão bela e enorme, feita de pedra cinzenta, ao ponto de fazer lembrar um castelo, o que provavelmente fora intencional, segundo me parecia. O telhado era vermelho e alto, formando torreões e pequenas pontes vermelhas que davam acesso a zonas mais altas do telhado que, de contrário, teriam ficado inacessíveis.

A certa altura, Miles abrandou o andamento do carro, detendo-o suavemente em frente dos amplos degraus que conduziam à porta arqueada da frente.

- Vem - convidou o Tony, mostrando um entusiasmo súbito. - Deixa-me ter o prazer de te apresentar Farthy. Adoro ver o ar de espanto no rosto daqueles que a vêem pela primeira vez, pois assim é como se eu próprio voltasse a vê-la de novo.

E com Jillian a seguir-nos com ar muito pouco entusiasmado, subimos lentamente a vasta escadaria de pedra. Ladeando a porta da entrada, estavam urnas enormes contendo graciosos pinheiros japoneses. Eu mal conseguia reprimir a ansiedade que sentia em ver o interior. Era a casa da minha mãe. Em breve estaria dentro dela. Em breve veria os aposentos em que vivera, e os objectos que lhe haviam pertencido. "Oh, mãe, estou finalmente em casa!"

 

A MANSÃO FARTHINGGALE

Dentro da casa de pedra, assim que despi o casaco, virei-me lentamente, de respiração suspensa, olhos muito abertos, a olhar, a olhar, dando-me conta, demasiado tarde, de que reagir daquela maneira diante dos bens dos outros era provinciano e de mau tom. A Jillian fitava-me com ar de censura, e o Tony, de prazer.

- É tudo o que imaginaste que seria? - perguntou-me este.

Sim, era mais do que me atrevera a esperar! E, no entanto, reconheci-a pelo que era, o objecto dos meus anseios de montanhesa, do meu imaginário juvenil.

- Tenho de me despachar, querida Heaven - lembrou a Jillian, falando subitamente com ar muito animado. - Olha em volta o que te apetecer e fica à vontade no castelo do rei brinquedo. Lamento não poder ficar para testemunhar as tuas primeiras impressões, mas tenho de me apressar para fazer a minha sesta. Tony, mostra a tua Farthy à querida Heaven, depois acompanha-a aos seus aposentos. - Dirigiu-me um breve sorriso implorante que me apagou do coração parte da mágoa que sentia por ela já estar a negligenciar-me. - Querida menina, perdoa ter de me apressar para ir tratar das minhas obrigações incessantes. No entanto, mais tarde, ver-me-ás o suficiente para te fartares da pessoa chata que eu sou. Além disso, acharás o Tony dez vezes mais interessante. Tem uma energia sem limites. Não mantém nenhum regime de saúde ou beleza e veste-se num ápice - Lançou-lhe um olhar estranho, simultaneamente de irritação e inveja. - Ainda bem que alguém aqui em casa é assim.

Jillian aparentava agora uma boa disposição que parecera ter perdido, como se a sua sesta e o seu regime de beleza e a perspectiva de uma festa mais tarde lhe dessem mais alento do que aquele que eu lhe poderia proporcionar. Subiu as escadas com rapidez e graciosidade, sem olhar para trás sequer uma vez, enquanto eu me deixava ficar a ver, completamente deslumbrada.

- Vem, Heaven - disse o Tony, oferecendo-me o seu braço. - vou mostrar-te a casa antes de ires para os teus aposentos. Ou será que precisas de te refrescar ou algo do género?

Levei uns segundos até perceber ao que ele se referia e depois corei.

- Não, estou bem.

- Óptimo. Isso significa que dispomos de mais tempo para passar um com o outro.

Levou-me então a ver a enorme sala de estar com o seu imponente piano que, segundo contou, o seu irmão Troy utilizava quando aparecia...

- Embora lamente dizer que o Troy encontra poucos motivos para vir a Farthy. Ele e a minha mulher não se dão muito bem. Acabarás por conhecê-lo.

- Onde está ele agora? - perguntei mais por delicadeza do que por qualquer outra razão, já que as salas, com as suas paredes e pisos de mármore exigiam quase toda a minha atenção.

- Não sei bem. O Troy vem e vai. É muito inteligente. Sempre foi. Formou-se aos dezoito anos e depois disso tem andado pelo mundo.

Formado aos dezoito anos? Ora essa, que espécie de cérebro teria aquele Troy? E eu que, com dezassete anos, ain-da tinha um ano de liceu pela frente! Foi então que, inesperadamente, comecei a sentir um forte ressentimento contra esse tal Troy e todas as suas benesses, a tal ponto que não quis ouvir falar mais dele. Fiz votos para nunca vir a conhecer alguém tão brilhante que me fizesse sentir uma insignificante, eu que me considerara sempre uma boa aluna.

- O Troy é muito mais novo do que eu - disse o Tony, fitando-me com desprendimento. - Quando era pequeno estava tantas vezes doente que eu o considerava uma verdadeira dor de cabeça. Depois de a nossa mãe morrer, seguida, um pouco mais tarde, do nosso pai, o Troy passou a considerar-me uma espécie de pai, não apenas um irmão mais velho.

- Quem pintou os murais? - perguntei, para mudar de assunto.

Nas paredes e no tecto da sala de música viam-se murais requintados exibindo cenas de contos de fadas... Bosques sombreados, com a luz do Sol a infiltrar-se por entre a folhagem, caminhos serpenteantes a desaparecerem de vista numa cadeia montanhosa no cimo da qual se viam castelos... O tecto abobadado executava um arco no alto, obrigando-me a inclinar a cabeça para poder olhar para cima. Oh, como era maravilhoso ter um céu pintado por cima, cheio de pássaros a esvoaçar e com um homem a voar num tapete mágico e mais outro castelo místico semioculto pelas nuvens. O Tony soltou uma risada.

- Fico contente em ver-te tão deslumbrada com os murais. Foram ideia da Jillian. A tua avó foi uma célebre ilustradora de livros infantis. Foi nessa altura que a conheci. Um dia, tinha eu vinte anos, voltava de um jogo de ténis, ansioso por tomar um duche e voltar a sair antes que o Troy me visse e exigisse ter-me a seu lado para não ficar sozinho... quando vi, no alto de umas escadas, as pernas mais bem-feitas que alguma vez se me deparara. E quando essa criatura encantadora desceu e eu lhe vi o rosto, pareceu-me irreal. Era a Jillian, que viera a acompanhar uma decoradora sua amiga, e foi ela quem sugeriu os murais. "Cenários de histórias de fadas para o rei dos fabricantes de brinquedos", foi assim que ela pôs a questão, e eu concordei imediatamente em género, número e grau. Era, também, uma maneira de ela aqui voltar.

- Porque lhe chamava ela rei dos fabricantes de brinquedos? - perguntei, sinceramente espantada. Um brinquedo era um brinquedo, embora a boneca que a minha mãe exibia no retrato fosse realmente mais do que um simples brinquedo.

Aparentemente, eu não poderia ter feito uma pergunta ao Tony que mais lhe agradasse.

- Minha querida menina, então tu imaginaste que eu fabricava vulgares brinquedos de plástico? Os Tatterton são os reis dos fabricantes de brinquedos, mas o que fazemos destina-se a coleccionadores, pessoas ricas que não conseguem crescer e esquecer a infância em que não puderam encontrar algo no seu sapatínho de Natal ou nalguma festa de aniversário. E tu ficarias admirada se soubesses a quantidade de pessoas ricas e famosas que não tiveram oportunidade de ser crianças e que, portanto, agora, em plena meia-idade ou até mesmo velhice, não descansam enquanto não obtêm aquilo com que sempre sonharam. De modo que compram as antiguidades do momento, as valiosas peças de colecção feitas pelos nossos artesãos, os melhores do mundo. Quando tu entras numa Loja de Brinquedos Tatterton, penetras num reino de fadas. Também escolhes a época que quiseres, quer seja no passado ou no futuro. Estranhamente, os ricos preferem o passado. Temos uma lista de espera de cinco anos para castelos de pedra construídos à escala, com os fossos, as pontes levadiças, o campo de actividades, as acomodações do pessoal da cozinha, os aquartelamentos para cavaleiros e escudeiros, os estábulos para o gado, carneiros, porcos, galinhas. Aqueles que podem montam os seus próprios reinos, ducados ou o que quer que seja, e povoam-nos com as pessoas adequadas, criados, camponeses, cavalheiros e damas. E nós inventamos jogos bastante complicados que os mantenham ocupados durante horas e horas. É que os ricos e abastados aborrecem-se muito depressa com tudo, Heaven. Entediam-se tão incessantemente que a partir de certa altura viram-se para as colecções, quer sejam de brinquedos, quadros ou mulheres. Vendo bem, este tédio é uma maldição para todos aqueles que têm tanto que já não sabem o que adquirir... e tentam preencher o vazio.

- Há pessoas capazes de pagar centenas de dólares por uma galinha de brinquedo? - perguntei, deixando transparecer um enorme espanto na minha voz.

- Há pessoas capazes de pagar milhares de dólares para possuir o que mais ninguém tem. Portanto, as peças de colecção dos Tatterton são únicas e esse tipo de trabalho manual é muito caro.

Saber que havia pessoas no mundo com tanto dinheiro para gastar assustava-me, e impressionava-me. Que diferença fazia possuir o cisne de marfim e olhos de rubi único, ou o par único de galinhas esculpidas nalguma pedra semipreciosa? O que um potentado rico pagava pelo seu jogo de xadrez exclusivo chegaria para matar a fome a um milhar de crianças esfaimadas dos Willies durante um ano!

Que poderia eu dizer a um homem cuja família emigrara da Europa e trouxera consigo a sua arte, começando imediatamente a fazer fortuna? Como não me ocorriam palavras, voltei-me para algo mais familiar.

A ideia de a Jillian pintar fascinou-me.

- Foi ela que pintou estes? - perguntei, admirada e profundamente impressionada.

- Fez os esboços originais e depois entregou-os a vários artistas jovens para os finalizarem. Embora tenha de admitir que ela vinha verificar o seu trabalho todos os dias, e cheguei mesmo a apanhá-la, uma vez ou duas, de pincel na mão. - A sua voz suave adoptou um tom sonhador. - Nesse tempo, usava o cabelo muito comprido, chegava-lhe até ao meio das costas. Num minuto, parecia uma mulher-criança em miniatura, no outro, uma mundana. Era senhora de uma beleza rara e, como é evidente, tinha noção do facto. A Jillian conhece o poder da beleza e eu, aos vinte anos, não tinha grande jeito para disfarçar os meus sentimentos.

- Oh... Mas então, que idade tinha a Jillian? - perguntei com uma certa ingenuidade.

O Tony soltou uma gargalhada curta, dura e inconfundivelmente amarga.

- A Jillian avisou-me desde logo que era demasiado velha para mim, mas isso só serviu para me interessar ainda mais. Gostava de mulheres mais velhas. Pareciam ter mais para oferecer do que as raparigas tolas da minha idade... Portanto, quando ela me disse que tinha trinta anos, embora eu ficasse um tanto surpreendido, continuei a querer vê-la constantemente. Apaixonámo-nos, apesar de ela ser casada e teruma filha, a tua mãe. Mas nada disso constituía impedimento para que não desfrutasse de todo o divertimento para o qual o marido nunca tinha tempo.

O facto de o Tony ser dez anos mais novo de que a Jillian, tal como acontecia com o Cal em relação à Kitty Dennison, a sua mulher, era uma coincidência, sem dúvida.

- Imagina a minha surpresa quando um dia descobri, estava já casado com ela há seis meses, que a Jillian tinha quarenta e não trinta.

Ele casara com uma mulher vinte anos mais velha?

- Quem lhe disse? Ela?

- A Jill, minha querida, raramente fala da idade de quem quer que seja. Quem me atirou essa informação à cara foi a Leigh, a tua mãe.

A ideia de a minha mãe ter traído a sua própria mãe, num assunto tão importante, incomodava-me.

- A minha mãe não gostava da sua própria mãe?

O Tony deu-me uma palmadinha afectuosa na mão, sorriu esfuziantemente e em seguida afastou-se noutra direcção, fazendo-me sinal para que o acompanhasse.

- Claro que a Leigh gostava da Jillian. Sentia-se infeliz com o que acontecera ao pai... e odiava-me por ter afastado a tua mãe dele. Apesar de tudo, como acontece com a maioria da gente nova, depressa se adaptou a esta casa e a mim, e ela e o Troy não tardaram a tornar-se grandes amigos.

Eu escutava com metade da atenção, pois parte de mim extasiava-se com os luxos daquela casa esplendorosa; depressa descobri que dispunha de nove salas no piso de baixo e de duas casas de banho. As acomodações dos criados ficavam por trás da cozinha, formando uma ala própria. A biblioteca era austera e senhorial, repleta de livros encadernados. Era aí que o Tony tinha o seu gabinete de trabalho, que me mostrou só de passagem.

- Tenho a impressão de que sou um pouco tirano em relação ao meu gabinete. Não gosto de ninguém por lá, a não ser que tenha sido eu a convidar. Nem sequer me agrada que os criados limpem o pó quando não estou presente para supervisionar esse trabalho. Compreendes, a maioria das criadas considera a minha organização uma perfeita desarrumação e dispõe-se imediatamente a arrumar os meus papéis, a colocar de novo os livros que tenho abertos nas prateleiras, e eu depois vejo-me aflito para encontrar aquilo de que preciso. Pode-se perder um tempo imenso a procurar o que se quer.

Nem por um minuto pude imaginar aquele homem de ar bondoso como um tirano. O meu pai é que era um tirano, com os seus berros, os seus punhos violentos, o seu temperamento turbulento, apesar de naquela altura, ao lembrar-me dele, as lágrimas me assomarem aos olhos contra minha vontade. Houvera tempos em que eu necessitara muito do seu amor, que ele me negara completamente, dedicando apenas um pouco ao tom e à Fanny. E se por acaso nutrira algum pelo Keith e pela "Nossa" Jane, eu nunca dera por isso...

- És uma rapariga desconcertante, Heaven. Ora pareces radiante de alegria, ora sobem-te lágrimas aos olhos e dás a impressão de estar infelicíssima. Pensas na tua mãe? Deves conformar-te com o seu desaparecimento e consolares-te com a ideia de que teve uma vida feliz. Nem todos podemos dizer o mesmo.

Mas fora tão curta... embora eu não exprimisse os meus pensamentos. Teria de ter muita paciência até ganhar um amigo naquela casa. Ao olhar para o Tony, tive o pressentimento de que o veria muito mais do que a Jillian. Sabia que nessa altura lhe pediria ajuda, quando ele gostasse de mim o suficiente para...

- Pareces cansada. Anda, vamos instalar-te para poderes descontrair e repousar um pouco. - Então, sem mais delongas, voltámos para trás e em breve chegávamos ao segundo andar. O Tony abriu teatralmente uma porta dupla. - Quando casei com a Jillian, mandei redecorar dois quartos para a Leigh, que nessa altura tinha doze anos. Como queria agradar-lhe, dei-lhe aposentos femininos sem ser infantis. Espero que gostes...

Tinha a cabeça voltada de maneira a eu não poder ver-lhe os olhos.

A luz do Sol que entrava pelas persianas em tom de marfim era enevoada e débil, conferindo à sala de estar um aspecto estranho e irreal. Em comparação com as salas que vira em baixo, aquela era pequena; ainda assim, tinha o dobro do tamanho de qualquer aposento onde eu já tivesse vivido. As paredes estavam forradas por um delicado tecido sedoso cor de marfim, entretecido com motivos subtilmente orientais em verde, violeta e azul, e os dois pequenos sofás exibiam o mesmo tecido, sendo as almofadas dos assentos em azul-claro, a condizer com o tapete chinês que cobria o soalho. Tentei imaginar-me instalada naquela sala, aninhada em frente da pequena lareira, mas não fui capaz. A roupa áspera arranharia um tecido tão delicado. Teria de ter muito cuidado para não deixar dedadas nas paredes, nos sofás e nos numerosos candeeiros. Depois, comecei a rir. Ali eu não viveria nos montes, nem trabalharia na horta ou esfregaria soalhos, como fizera na cabana e em casa da Kitty e do Cal Dennison, em Candlewick.

- Anda, vem ver o teu quarto - chamou o Tony, seguindo à minha frente. - Tenho de me apressar para ir vestir-me para a festa que a Jillian não quer perder. Tens de a desculpar. Planeou ir, antes de saber da tua vinda e além disso a mulher que nos convidou é a sua melhor amiga e pior inimiga. - Deu-me um beliscão por baixo do queixo, divertido com a minha expressão, e em seguida dirigiu-se para a porta. - Se precisares de alguma coisa, serves-te do telefone que ali está e pedes a uma criada que te traga aquilo de que precisas. Se preferires comer na sala de jantar, ligas para a cozinha e dás ordens nesse sentido. A casa está à tua disposição. Diverte-te!

Saiu e fechou a porta antes de eu poder replicar. Olhei à minha volta, examinando a linda cama dupla de quatro colunas e dossel arqueado de renda pesada. Azul e marfim. Como aquelas duas dependências lhe deviam ter assentado bem... A espreguiçadeira era em cetim azul, enquanto as outras três cadeiras do quarto condiziam com as da sala. Fui até ao quarto de vestir e à casa de banho, fascinada com todos aqueles espelhos, os candelabros de cristal, a iluminação oculta que permitia ver nos amplos espaços fechados dos armários. Em cima do toucador comprido alinhavam-se fotografias emolduradas. Não tardou que me sentasse a olhar para a linda menina instalada nos joelhos do pai.

Aquela criança tinha de ser a minha mãe! E aquele homem, o meu verdadeiro avô! Excitada e trémula, peguei na pequena moldura de prata.

Nesse preciso momento bateram suavemente à porta do quarto.

- Quem é? - perguntei.

- Beatrice Percy - respondeu uma austera voz feminina. - Mister Tatterton mandou-me cá acima ver se eu podia ajudar a menina a desfazer as malas e a arrumar as suas coisas. - A porta abriu-se, e uma mulher alta, em uniforme de criada, entrou no meu quarto. Sorriu-me inexpressivamente.

- Todos me tratam por Percy. A menina também pode fazê-lo. Serei a sua criada pessoal enquanto cá estiver. Tenho formação que me qualifica para tratar do seu cabelo e das suas unhas, e se o desejar irei preparar-lhe imediatamente um banho de imersão.

Aguardou pela minha resposta com ar ansioso.

- Normalmente tomo banho antes de me deitar, ou então opto por um duche quando me levanto - declarei, com embaraço.

Não estava habituada a falar de questões íntimas com desconhecidas.

- Mister Tatterton ordenou-me que cuidasse de si.

- Obrigada, Percy, mas neste momento não preciso de nada...

- Há algum alimento que não aprecie, ou que não possa comer?

- O meu apetite é óptimo. Posso comer de tudo e não sou nada esquisita.

Não, de esquisita eu não tinha nada, caso contrário teria morrido de fome.

- Deseja que lhe traga o seu jantar aqui acima?

- Conforme lhe der menos trabalho, Percy.

A criada franziu quase imperceptivelmente o sobrolho, como se se sentisse constrangida diante de uma patroa tão tolerante.

- Os criados estão aqui para tornarem a vida de quem se encontra nesta casa o mais confortável possível. Quer jante aqui ou na sala de jantar, estaremos à sua inteira disposição.

Imaginar-me a jantar sozinha na enorme sala de jantar do piso de baixo, sentada àquela mesa compridíssima, rodeada de todas aquelas cadeiras vazias, provocou-me uma sensação de solidão.

- Então, se não se importa, traga-me algo de comer aqui acima, por volta das sete horas.

- Sim, menina - retorquiu a criada, aparentemente aliviada por poder servir-me e retirando-se em seguida.

E eu que me esquecera de lhe perguntar se conhecera a minha mãe!

Retomei de novo a inspecção aos aposentos que haviam pertencido à minha mãe. Tinha a impressão de que tudo permanecera tal qual como no dia em que fugira, embora tivesse sido arejado, limpo e aspirado recentemente. Comecei a pegar nas fotografias emolduradas uma a uma, examinando-as pormenorizadamente, numa tentativa para descobrir o lado da minha mãe que escapara completamente aos meus avós. Tanta fotografia! Como a Jillian estava bonita, sentada junto da filha, com o marido dedicado atrás. Na orla da fotografia estava escrita em letra infantil, já desbotada e desvanecida, a seguinte frase: "O papá, a mamã e eu."

- Ao abrir uma gaveta, deparou-se-me um gordo álbum de fotografias. Virei lentamente as páginas pesadas, ficando a olhar para as fotografias de uma menina em crescimento, que a passagem dos anos ia tornando cada vez mais bonita. Havia imagens de festas de aniversários coloridas, aos cinco, seis, sete, até aos treze anos. Leigh Diane Van Voreen escrevera o seu nome vezes sem conta, como se se deleitasse em fazê-lo. "Cleave VanVoreen, o meu pai"; "Jillian VanVoreen, a minha mamã"; "Jennifer Longstone, a minha melhor amiga"; "Winterhaven, o meu futuro colégio"; "Joshua John Bennington, o meu primeiro namorado. Talvez o único."

Ainda não chegara ao meio do álbum e já sentia inveja daquela linda rapariga loura, dos seus pais ricos e da sua roupa fabulosa. Ela tivera idas ao jardim zoológico, a museus e, até, a países estrangeiros, enquanto eu precisara de me contentar com gravuras do Parque de Yellowstone que encontrava em revistas sujas do National Geographic ou em textos da escola. Ao ver a Leigh com os pais num barco a vapor, rumo a não sabia que porto distante, senti um aperto na garganta. Ali estava ela, a Leigh VanVoreen a acenar animadamente a quem lhe tirava a fotografia. Mais imagens da Leigh a bordo do navio, a nadar ou com o pai a ensiná-la a dançar ou a mamã a tirar fotografias. Em Londres, em frente do Big Ben, ou a assistir à mudança da guarda defronte do Palácio de Buckingham.

A certa altura, durante a fase de mudança da minha mãe da infância para a adolescência, perdi grande parte da comiseração que sentia por aquela rapariga que morrera demasiado nova. Ela experimentara, na sua curta vida, dez vezes mais alegria e divertimento do que eu conhecera ou viria a conhecer nos próximos vinte anos da minha vida. Desfrutara de um pai a sério durante os seus anos mais importantes, um homem bom e gentil, a julgar pelo ar que aparentava nas fotografias, que lhe aconchegava os lençóis na cama ao deitar, dizia as orações em conjunto com ela e lhe ensinava como eram as pessoas. Como é que eu fora capaz de pensar que o Cal Dennison me amava? Como poderia eu esperar que o Logan voltasse a querer-me, quando era mais que certo que me veria do mesmo modo que o meu pai?

Não, não, tentei dizer a mim mesma. Quem ficara a perder com o facto de o meu pai não me ter amado fora ele, não eu. Eu não ficara irremediavelmente traumatizada. Um dia, eu daria uma boa esposa e mãe. Limpei as minhas lágrimas de fraqueza e ordenei-lhes que nunca mais aparecessem. De que servia a autocomiseração? Eu nunca mais voltaria a ver o pai. Não queria voltar a vê-lo.

Prestei, de novo, atenção às fotografias. Nunca me apercebera de que as meninas podiam usar roupa tão bonita, quando, aos nove, dez e onze anos, o meu sonho era possuir algo dos saldos baratos do Sears. E a Kitty ensinara-me a recorrer ao K Mart. Examinei as fotografias que mostravam a Leigh montada num reluzente pónei castanho, com a sua roupa de equitação a realçar a sua tez branca e os cabelos muito louros. E, junto dela, o pai. Sempre ao seu lado.

Vi a Leigh em fotografias de colégio, orgulhosa da sua figura que começava a ganhar formas. A sua postura dizia-me que era orgulhosa, permanentemente rodeada de amigos e admiradores. A partir de certa altura, porém, o pai desaparecia abruptamente das fotografias.

O sorriso de felicidade da Leigh acompanhou o desaparecimento do pai. O seu olhar passou a mostrar-se perturbado e os seus lábios perderam a capacidade de sorrir. Via-se a mamã com um novo companheiro, um homem muito mais jovem e bonito. Percebi de imediato que aquele indivíduo muito bronzeado e louro era o Tony Tatterton, então com vinte anos. Era estranho, mas a linda e radiosa menina que até pouco antes sorrira espontânea e confiantemente para a máquina fotográfica, não era capaz de esboçar nem mesmo um sorriso falso. A partir dali apareceria apenas ligeiramente afastada da mãe e do novo homem desta.

Virei rapidamente a última página. Oh, oh, oh! Cenas do segundo casamento da Jillian. A minha mãe aos doze anos, envergando um vestido de dama de honor, cor-de-rosa, até aos pés, com um arranjo de rosas nas mãos e, ao seu lado, um rapazito muito novo, que tentava sorrir, embora a Leigh VanVoreen não fizesse o menor esforço nesse sentido.

O menino devia ser o Troy, o irmão mais novo do Tony. Era uma criança esguia, de cabelo escuro e uns olhos enormes que não deixavam transparecer felicidade.

Já fatigada e emocionalmente esgotada, tive vontade de fugir ao conhecimento de todos aqueles factos que caíam sobre mim com tanta rapidez. A minha mãe não gostara nem confiara no padrasto! Como poderia eu fazê-lo naquele momento? No entanto, era imperioso que eu ficasse e obtivesse a licenciatura universitária que representava todo o meu futuro.

Cheguei-me à janela e fiquei a olhar para o caminho circular que serpenteava a perder de vista. Vi a Jillian e o Tony, em trajes de noite, a entrarem num belo carro novo que ele conduzia. Daquela vez não iam de limusina... Seria por não quererem que o motorista ficasse à espera?

Quando o automóvel desapareceu de vista, senti-me muito só.

Que havia de fazer até às sete da tarde? Já sentia fome. Porque não o dissera à Percy? Que se passava comigo para ficar tão acanhada e vulnerável quando decidira ser forte? Ficara demasiado tempo fechada no avião, no carro, ali, disse a mim mesma. Desci então ao piso de baixo e tirei o meu casaco azul de dentro de um armário que continha uma meia dúzia de casacos de pele pertencentes à Jillian. Depois dirigi-me para a porta da frente.

 

POR TRÁS DO LABIRINTO

Caminhei depressa e raivosamente, sem saber para onde ia, ciente apenas de que sentia intensamente o "cheiro a maresia", como o Tony lhe chamara. Voltei várias vezes para trás, a fim de poder admirar Farthy do exterior. Tanta janela para limpar! Janelas altas e enormes. Como manteriam eles todo aquele mármore assim impecável? Ao recuar lentamente, tentei descobrir quais eram as janelas dos meus aposentos. De repente fui contra algo e, ao virar-me rapidamente deparou-se-me não uma parede mas uma sebe tão alta e interminável que mais parecia um muro. Fascinada com o que imaginava ser, segui-a até descobrir que tinha razão! Tratava-se de um labirinto inglês. Entrei nele com um certo deleite infantil, sem imaginar, nem por um instante, que corria o risco de me perder. Encontraria a saída. Sempre fora boa a resolver puzzles. Não era por acaso que, nos testes de inteligência, o tom e eu soubéramos sempre como orientar os nossos ratos em direcção ao queijo ou os nossos piratas até ao tesouro.

Como aquele lugar era bonito, com as suas sebes altas atingindo os três metros e desenhando ângulos rectos perfeitos, e que tranquilidade! O gorjeio dos pássaros no jardim soava distante e desvanecido. Até os guinchos lamurientos das gaivotas que revolteavam no alto estavam abafados longínquos. Quando me virei para ver se ainda divisava a casa reparei que esta desaparecera... Onde estaria? As sebes altas não deixavam passar o calor do Sol em declínio. Em breve este ficaria reduzido a um frio desagradável. Acelerei os passos. Talvez devesse ter avisado a Percy de que ia dar uma volta. Olhei de relance para o meu relógio. Eram quase seis e meia da tarde. Dali a meia hora, alguém levar-me-ia o jantar ao quarto. Iria eu perder a primeira refeição que tomaria na minha sala de estar privativa? E alguém pegaria fogo, sem dúvida, aos troncos de lenha que vira na lareira. Seria agradável ficar sentada em frente da minha lareira exclusiva, aninhada numa poltrona elegante, a provar iguarias que não comeria em nenhum outro lado. Virei mais uma esquina e vi-me diante de mais um beco sem saída. Voltei para trás. Dessa vez fui pela direita. Naquela altura, porém, já dera várias voltas e perdera a orientação, ficando sem saber por que caminhos já passara. Foi então que me lembrei de tirar um lenço de papel do bolso do casaco; rasguei-lhe um pedaço, que amarrei a um ramo da sebe. Pronto, a partir dali já disporia de um ponto de referência.

O Sol, que descia no horizonte, incendiava o céu com cores intensas, lembrando-me de que em breve desapareceria, substituído por um manto de frio mais intenso. Mas o que era aquela zona civilizada de Boston comparada com um ermo como os Willies? Depressa descobri que um casaco comprado em Atlanta não fora concebido para quem vivia a norte de Boston!

Oh, aquilo era um disparate! Eu vestia o melhor casaco que alguma vez tivera, comprado para mim pelo Cal Dennison. Tinha uma pequena gola em veludo azul que, ainda há um mês atrás, eu considerara elegante.

Eu, que costumava deambular pelos montes aos dois e três anos de idade sem nunca me perder, desnorteada por um labirinto idiota, concebido para divertir as pessoas! Não podia entrar em pânico. Devia estar a cometer algum erro. Deparou-se-me, pela terceira vez, o pedaço de papel cor-de-rosa que adejava ao vento. Tentei concentrar-me... Visualizei o labirinto, o lugar por onde entrara, mas todas as faixas entre as sebes pareciam iguais e eu receava abandonar o conforto proporcionado pelo meu bocado de lenço de papel rasgado, que ao menos me dizia que já ali estivera três vezes. Detive-me, hesitante, tentando escutar o som da rebentação da costa... Porém, não ouvi as ondas a bater nas rochas mas sim um toque-toque contínuo. Era alguém a martelar. Havia gente por perto. Deixei que os meus ouvidos me orientassem.

A noite caiu, rápida e pesadamente, e a névoa rodopiava no solo, onde o ar frio encontrava a terra mais quente e não havia vento para a fazer subir e espalhar-se. Continuei a seguir o som do martelar. A certa altura assustei-me com o barulho de uma janela a fechar-se estrondosamente! Acabaram-se as marteladas! Fiquei aturdida com o silêncio e com o que ele significava de assustador. Eu poderia ficar a deambular por ali durante toda a noite e ninguém saberia. Quem se lembraria de me ir procurar no labirinto do jardim? Oh, porque me pusera eu a caminhar de costas? O hábito que eu trouxera dos montes parecia-me, naquele momento, estúpido.

Cruzando os braços sobre o peito à maneira da avó, voltei na esquina seguinte à direita, depois de novo à direita, nunca mais voltando a virar à esquerda até, de súbito, me ver no exterior do labirinto! Não voltara ao sítio por onde entrara, sem dúvida, visto não reconhecer nada, mas qualquer lado era preferível a continuar no interior do puzzle. Estava demasiado escuro e enevoado para ver a casa. Além disso, diante de mim estendia-se um carreiro de lajes claras que reluzia fracamente na escuridão. Senti o cheiro dos pinheiros altos que o nevoeiro e a noite tornavam indistintos e foi então que avistei uma pequena casa de pedra baixa, com telhado de telhas inclinado, no meio de um aglomerado de pinheiros. Fiquei tão surpreendida que deixei escapar um pequeno grito.

Oh, como era bom ser rico! Ter dinheiro para desperdiçar! Aquela casa pertencia a um livro de histórias, não ali. A rodeá-la, estendia-se um cercado de madeira torto, que não protegia contra nada, servindo de ponto de apoio a um roseiral que eu mal distinguia. Descobrir tudo aquilo à luz do dia teria sido encantador... Contudo, era noite, de modo que a minha imaginação levantou voo e senti-me assustada. Parei e analisei a situação em que me encontrava. Podia dar meia volta e voltar para trás. Olhei de relance por sobre o ombro, e vi que o nevoeiro ficara ainda mais cerrado e já nem sequer conseguia ver o labirinto!

O cheiro acre a madeira queimada mostrou-me que o fumo devia estar a sair pela chaminé. Devia ser, com certeza, a casa do jardineiro! Imaginei um velhote sentado lá dentro, junto da mulher, prestes a iniciar uma refeição simples que, sem dúvida, agradaria mais ao meu apetite do que os pratos requintados preparados numa cozinha que o Tony nem se dera ao cuidado de me mostrar.

A luz que passava pelas janelas não se projectava no exterior, recaindo sobre o carreiro para iluminar os meus passos. Era uma luz difusa, ansiosa por desaparecer. Dirigi-me para as janelas quadradas antes que, também elas, sumissem no meio da névoa.

Ao chegar diante da porta da casa, hesitei antes de me fazer anunciar.

Bati três ou quatro vezes na porta sólida, cuja aspereza magoou as mãos. Ainda assim, ninguém respondeu. Havia alguém ali dentro! Eu tinha a certeza! Impaciente porque, quem quer que fosse, fazia de conta que não me ouvia, e agora confiante no facto de ser um membro mais ou menos importante da família Tatterton, rodei a maçaneta e entrei numa sala iluminada apenas pela luz proveniente de uma lareira acesa.

Dentro da casa estava muito quente. Fechei a porta e deparou-se-me um jovem, sentado, de costas para mim. Via pelas pernas magras e compridas, envoltas no tecido preto justo das calças, que era alto. Tinha os ombros largos e as chamas arrancavam reflexos acobreados ao cabelo castanho e revolto. Fiquei a olhar para aquele cabelo, pensando que era aquela a cor com que eu sempre imaginara que o Keith ficaria quando fosse um homem. Um cabelo espesso, ondulado, que chegava à nuca, revirado para fora, tocando-lhe ao de leve no colarinho da camisa branca fina que fazia lembrar a de" um artista ou poeta, com as mangas muito largas.

O jovem voltou-se ligeiramente, como se o meu olhar prolongado o tornasse ciente da minha presença. Já conseguia ver-lhe o perfil. Sustive a respiração. Não era apenas a beleza. O pai, com o seu jeito forte, sensual e selvagem, era um homem bem-parecido, e Logan, com a sua teimosia inata, possuía uma beleza clássica; aquele indivíduo era belo de maneira diferente, de uma maneira especial de que nunca me dera conta antes, e a imagem do Logan veio-me à lembrança, enchendo-me de culpa. Mas o Logan fugira de mim. Deixara-me sozinha no meio do cemitério, à chuva, incapaz de compreender que, por vezes, uma rapariga de quinze anos não sabia como lidar com um homem que se tornara seu amigo. Excepto cedendo, para que a sua amizade não morresse.

No entanto, o Logan pertencia ao passado e era bem possível que eu nunca mais voltasse a vê-lo. Portanto fiquei a olhar para aquele homem, profundamente intrigada pela maneira inesperada como o meu corpo reagira só de eu o ver. Bastara virar o rosto na minha direcção para me atrair imediatamente... como se dirigisse a sua ânsia para mim... como se me dissesse que esta também passaria a ser minha! Também me alertava para que avançasse devagar, que fosse cuidadosa e mantivesse a distância. Eu encontrava-me numa fase da minha vida em que aquilo de que menos precisava era de arranjar um romance. Já me fartara de homens forçando-me ao sexo sem que estivesse preparada para tal. E no entanto ali estava, trémula, sem saber o que faria quando ele se voltasse completamente para mim, quando bastava o seu perfil para me excitar daquele modo. Disse a mim mesma, cinicamente, que era provável que lhe visse algum defeito quando me encarasse de frente, sendo talvez essa a razão que o levava a dar-se a tantos cuidados para manter o rosto oculto nas sombras. Ele continuou sentado, meio de costas. Ainda assim irradiava sensibilidade, como o poeta romântico ideal deveria fazer... Ou talvez se assemelhasse antes a um antílope selvagem, imóvel e à escuta, alerta, pronto a fugir se eu me movesse demasiado repentina ou agressivamente.

Já sabia, concluí. Ele tinha medo de mim! Não me queria ali. Um homem como o Tony jamais teria continuado sentado. O Tony levantar-se-ia, sorriria e inteirar-se-ia da situação. Devia tratar-se de um criado, um jardineiro ou trabalhador eventual.

A própria posição em que se encontrava, a maneira como inclinava a cabeça deu-me a perceber que ele estava à espera, possivelmente vendo-me, até, pelo canto do olho. Uma das suas sobrancelhas ergueu-se interrogadoramente mas, ainda assim, continuou imóvel. Pois bem, ele que continuasse ali sentado sem saber do que se tratava, pois assim eu dispunha de uma oportunidade magnífica para o examinar.

Voltou a virar-se um pouco mais, de martelo pronto a desferir novo golpe, e vi-lhe então o rosto um pouco melhor, reparando que as suas narinas tremiam e se agitavam, dando-me a perceber que respirava tão violenta e rapidamente como eu. Porque não falava? Que se passaria com ele? Seria cego, surdo?

Os seus lábios esboçaram o início de um sorriso ao baixar o martelo para bater delicadamente numa fina folha de metal prateado brilhante, como que para alisar as pequenas protuberâncias da sua superfície. O martelo minúsculo foi fazendo toque-toque, toque-toque.

Comecei a tremer, sentindo-me ameaçada pela relutância que ele tinha em, pelo menos, me cumprimentar. Quem era ele para me ignorar? Que faria a Jillian na minha situação? Certamente não se deixaria intimidar por aquele homem! Mas eu não passava de uma reles pacóvia Casteel e ainda não aprendera a ser arrogante. Tossi ao de leve e de propósito. Nem assim ele se apressou a virar e a fazer-me sentir bem-vinda. Dei comigo a pensar que o achava o jovem de aspecto e maneiras mais estranhas que jamais encontrara.

- Desculpe - disse eu em voz baixa, tentando imitar o tom sussurrante da Jillian. - Ouvi-o a martelar quando andava perdida no labirinto. Lá fora está tão escuro e enevoado que não sei se conseguirei encontrar o caminho de volta para a casa principal.

- Sei que não é a Jillian - retorquiu o jovem sem olhar para mim -, caso contrário ainda não se teria calado um minuto, falando-me de mil coisas que não me interessam. E como não é a Jillian, não tem nada a fazer aqui. Lamento, mas estou ocupado e não tenho tempo para atender visitas indesejadas.

Fiquei aturdida pelo facto de ele querer que eu me fosse embora tão rapidamente, mesmo antes de verificar quem eu era. Que espécie de homem seria? Olha para mim, apeteceu-me gritar! Eu não era feia, apesar de não ser a Jillian! Ele que virasse a cabeça e falasse comigo pois eu não tardaria a ir-me embora, tanto me fazendo que voltasse, ou não, a vê-lo! Quem eu amava era o Logan, não aquele desconhecido com os seus modos indiferentes! O Logan, que um dia me perdoaria por algo a que eu não conseguira escapar.

Franziu a testa, enrugando-a.

- Por favor vá-se embora. Saia e não diga uma palavra.

- Não, não me irei embora enquanto não me disser quem é!

- Quem é que deseja saber?

- Primeiro diga-me quem é.

- Por favor, está a fazer-me perder tempo. Retire-se imediatamente e deixe-me terminar o meu trabalho. Esta casa é particular, é a minha casa. Terreno proibido para os empregados da Mansão Farthinggale. Agora, ponha-se a andar.

Antes de se virar novamente de costas, lançou-me um olhar rápido e perscrutador que não demorou em nenhum dos aspectos do meu rosto ou figura, aqueles que faziam com que os outros homens ficasssem a mirar.

Fiquei profundamente agitada! Ser examinada superficialmente e depois atirada para o lado como se não fosse merecedora de umas simples boas maneiras, doía... Que estúpida eu era com o meu orgulho de pacóvia! Sempre fora demasiado orgulhosa, o que me fizera sofrer muitas vezes desnecessariamente, quando teria sido muito mais fácil não ligar a algo desprovido de verdadeira importância. Porém, esse mesmo orgulho voltou a erguer-se bem alto e indignado, como acontecia sempre que alguém como ele olhava de cima para baixo para alguém como eu! Esforcei-me por antipatizar com ele. Certamente não passava de um criado. Um empregado colocado numa casa de jardineiro para recuperar pratas antigas! Precipitando-me ao tirar aquela conclusão improvável, perguntei com modos completamente alheios aos da Jillian:

- É empregado da casa? - Acerquei-me dele para o obrigar a olhar-me no rosto e ver-me realmente. - O jardineiro ou alguém contratado pelo dono da casa?

Ele mantinha a cabeça inclinada sobre o seu trabalho.

- Por favor, a menina está em minha casa, não sou eu que estou na sua. Não sou obrigado a responder às suas perguntas. Quem eu sou não lhe importa. Agradeço que saia e me deixe em paz. Não é a primeira mulher a dizer que se perdeu no labirinto, acabando por vir ter aqui. Encontrará um carreiro que contorna o exterior das sebes e a levará até ao sítio onde ele principia. Uma criança seria capaz de o seguir, mesmo no meio do nevoeiro.

- Viu-me chegar!

- Ouvi-a chegar.

Não sei o que me fez gritar.

- Eu não sou nenhuma criada daqui! - Desatei a falar com o sonoro sotaque provinciano do meu pai e da Fanny, surpreendendo-me a mim mesma. - A Mansão Farthinggale pertence à minha a... aos meus tios, que me convidaram para vir para cá.

Porém, todos os receios ocultos na minha mente me aconselhavam a fugir, a fugir o mais depressa possível.

Foi então que o jovem me olhou de frente, ao ponto de eu ver e sentir todo o impacto da sua virilidade como nunca me acontecera com nenhum outro homem até então. Os seus olhos escuros estavam envoltos em sombras ao mirarem-me, dessa vez lentamente, começando pelo meu rosto, descendo pelo meu pescoço, o meu peito ofegante, cintura, ancas, pernas, depois de novo para cima, devagar, muito devagar. E quando chegaram aos meus lábios de tiveram-se, para depois mergulharem, longa e profundamente, nos meus olhos. Antes de ele desviar o olhar, que ficara levemente desfocado, senti-me desfalecer. Oh, eu estava a afectá-lo, bem podia ver; ele vira algo que o fizera cerrar os lábios e fechar os punhos. Desviando-se de mim, pegou de novo no maldito martelo, fazendo menção de prosseguir o seu trabalho e não permitir que nada interferisse nele! Voltei a falar alto, com o sotaque próprio dos Casteel, sonoro e furioso:

- Pare! Porque não é capaz de ser educado comigo? É o meu primeiro dia aqui e os meus anfitriões foram jantar fora, deixaram-me sozinha com os criados e eu não sei o que hei-de fazer para me distrair. Preciso de alguém com quem falar E eles não me disseram que havia uma pessoa como o senhor a viver na propriedade.

- Como eu? Que quer dizer?

- Jovem como o senhor. Quem é?

- Eu sei quem a menina é - retorquiu ele, como que relutante em falar. - Preferia que não tivesse vindo. Não tencionava conhecê-la. Mas não é demasiado tarde. Basta sair pela porta com as duas mãos estendidas para diante, que cinquenta passos à frente encontrará a sebe. Assim que a sentir, é só manter a mão esquerda rente à verdura enquanto caminha para a esquerda; depressa encontrará a casa grande. A biblioteca dispõe de uma óptima colecção de livros, se gostar de ler. E se assim não for, também lá tem uma televisão. E na terceira prateleira do armário, a contar do fundo, encontrará álbuns de fotografias. Diverti-la-ão. E se tudo isto falhar, o cozinheiro é muito simpático e adora conversar. Chama-se Ryse Williams, mas nós tratamo-lo por Rye Whiskey.

- Quem é o senhor? - gritei, enfurecida.

- Para dizer a verdade, não vejo o que isso possa interessar-lhe. No entanto, já que faz tanta questão em saber, chamo-me Troy Langdon Tatterton. O seu "tio" é o meu irmão mais velho.

- Está a mentir! - exclamei. - Se é quem diz ser e está aqui, eles ter-me-iam informado!

- Não acho necessário mentir sobre insignificâncias como a minha identidade. Talvez eles nem sequer saibam que me encontro aqui. Afinal de contas, sou maior de idade. Quando venho para a minha cabana e local de trabalho, não tenho o hábito de avisá-los. Nem de lhes dizer quando parto.

- Mas... mas porque não vive na casa grande? - insisti.

Sorriu fugazmente.

- Tenho as minhas razões para preferir ficar aqui. Terei de lhas explicar?

- Mas aquela casa tem tantos quartos, enquanto este lugar é tão pequeno... - murmurei, bastante embaraçada, a tal ponto que baixei a cabeça e senti-me perfeitamente infeliz. Ele tinha razão, evidentemente. Que direito tinha eu de querer saber das suas razões?

Dessa vez, colocou o seu pequeno martelo num nicho escavado na parede, onde se encontravam outras ferramentas impecavelmente arrumadas. Quando olhou para mim, os seus olhos sombrios, profundamente sérios, aparentavam tristeza e algo mais que escapava ao meu entendimento.

- Que sabe sobre mim?

Os meus joelhos dobraram-se e eu sentei-me num pequeno sofá em frente da lareira. Ao ver-me fazer aquilo, suspirou, como se tivesse preferido que eu saísse porta fora; porém, eu não queria acreditar que era essa a sua verdadeira vontade.

- Sei o que o seu irmão me contou, que não foi muito. Disse que era muito inteligente e que se formou em Harvard aos dezoito anos.

Ele levantou e veio estirar-se numa poltrona ao lado da minha, esboçando um gesto com a mão, que dava a entender que nada daquilo tinha a menor importância.

- Não fiz nada de importante com a minha chamada grande inteligência. Portanto, é como se tivesse nascido com um QI de cinquenta.

Fiquei de boca aberta ao ouvi-lo declarar algo tão contrário àquilo em que eu acreditava. Quando se possuía estudos, tinha-se o mundo na palma da mão!

- Mas formou-se numa das mais notáveis universidades do mundo!

Fi-lo sorrir, finalmente.

- Vejo que está impressionada. Ainda bem. Agora a minha educação ganhou algum valor, pelo menos vista através dos seus olhos.

Fez-me sentir jovem e ingénua... Uma tola...

- Que faz com os seus conhecimentos além de martelar em metal como uma criancinha?

- Touché - declarou ele com um sorriso que o tornava duas vezes mais atraente, e Deus sabia que já me atraía o suficiente.

Verificar como a minha inteligência se deixava dominar pelo meu lado físico envergonhava-me. Fiz recair a minha ira sobre ele.

- Só tem isso a dizer? - perguntei intempestivamente.

O que eu fiz, com os meus modos rudes, foi tentar insultá-lo!

Não se mostrou ofendido, levantando-se e voltando para a mesa para pegar de novo no pequeno martelo irresistível...

- Porque não me diz quem eu sou? - desafiei. - Já que sabe tanto, diga qual é o meu nome.

- Só um momento, por favor - retorquiu delicadamente - Tenho de fazer uma série de armaduras em miniatura para um coleccionador muito especial que adora este tipo de objectos. - Ergueu um bocado de prata com a forma de um g Estes bocadinhos minúsculos irão ter orifícios em cada uma das pontas e, quando se prenderem uns aos outros com pequenos parafusos, a malha ficará maleável, permitindo todos os movimentos a quem a usar, ao contrário do que aconteceu com as armaduras que vieram mais tarde.

- Mas o senhor não é um Tatterton? A empresa não é sua? Porque gasta as suas energias em algo que outros podem fazer?

- Quer saber tanta coisa! Mas responderei a essa pergunta, pois já muitos ma fizeram anteriormente. Gosto de trabalhar com as mãos e não tenho mais nada em que me ocupar.

Porque estaria eu a tornar-me tão detestável aos seus olhos? O Troy era como uma figura de fantasia que eu criara há muito; naquele momento estava ali, em carne e osso, à espera de que eu o descobrisse. E agora que o tinha à minha frente, levava-o a antipatizar comigo.

Ao contrário do Logan, que parecia forte e confiante como o rochedo de Gibraltar, o Troy tinha um ar muito vulnerável, tal como eu. Não dissera uma palavra de crítica ao meu comportamento desagradável e, no entanto, eu sabia que estava magoado. Fazia lembrar um violino cujas cordas tinham sido demasiado esticadas, prontas a tanger ao menor toque descuidado.

Então, sem que eu tentasse interromper o que ele fazia, pôs de lado o seu martelo e voltou-se para mim, sorrindo-me convidativamente.

- Tenho fome. Aceita as minhas desculpas por ter sido tão malcriado e fica a fazer-me companhia no lanche, Heaven Leigh Casteel?

- Sabe como me chamo!

- Claro que sei. Também tenho olhos e ouvidos.

- Foi... a Jillian que lhe falou de mim?

- Não.

- Então, quem?

O Troy olhou de relance para o relógio de pulso e pareceu ficar surpreendido com as horas.

- Espantoso. Pensei que ainda só tinham decorrido uns minutos desde que comecei a trabalhar esta manhã. - Falava em tom de desculpa. - O tempo passa sempre tão depressa que fico admirado com a maneira como os minutos correm e o dia depressa chega ao fim. - Exibia um olhar parado e pensativo. - Claro que tem razão. Estou a desperdiçar a minha vida com algo que não são mais do que brinquedos imaginativos. - Passou as mãos pelo cabelo, desmanchando as ondas que depressa voltaram ao seu jeito habitual. - Alguma vez costuma achar a vida demasiado curta? Achar que, antes de concretizar metade do que tem em mente, já será velha e fraca e a morte baterá à porta?

O Troy não devia ter mais de vinte e dois ou vinte e três anos.

- Não! Isso nunca me passou pela cabeça.

- Tenho inveja de si. Sempre achei que travava uma corrida louca contra o tempo, e contra o Tony. - Sorriu-me então, deixando-me completamente deslumbrada. - Muito bem, fique. Não se vá embora. Gaste o meu tempo.

Eu já não sabia que fazer. Apetecia-me ficar; no entanto, sentia-me embaraçada e assustada.

- Ora, deixe-se disso - instigou o Troy -, tem o que queria, não é? Eu sou inofensivo. Gosto de estar na cozinha, apesar de não ter tempo para preparar mais do que umas sanduíches. Não tenho horas para comer. Faço-o quando tenho fome. Infelizmente queimo calorias com a mesma velocidade com que as ingiro, portanto estou sempre com fome. Resumindo, Heaven, iremos ter a nossa primeira refeição juntos.

Naquele preciso momento deveriam estar a servir o meu jantar na Mansão Farthinggale, mas eu esqueci-me do facto no entusiasmo de acompanhar aquele homem até à sua cozinha, que mais parecia uma daquelas que instalam nos iates, com tudo à mão e muito eficiente. Começou a abrir portas e a colocar pão, manteiga, alface, tomates, presunto e queijo em cima da mesa. Assim que tirava o que pretendia dos armários, fechava-lhes a porta com a testa, já que tinha ambas as mãos cheias, mas não antes de eu lançar uma olhadela ao conteúdo. Todas as prateleiras estavam impecavelmente arrumadas e muito cheias. O Troy tinha ali comida suficiente para alimentar cinco crianças da família Casteel durante um ano... a comerem com fartura. Enquanto preparava as sanduíches, fazendo questão em que eu não ajudasse, visto ser sua convidada, e pedindo-me apenas que conversasse com ele para o distrair, parecia simultaneamente satisfeito por me ter ali e, ao mesmo tempo, pouco à vontade e cerimonioso. Como eu tinha dificuldade em falar, sugeriu-me que pusesse a mesa. Fi-lo rapidamente, aproveitando a circunstância para dar uma vista de olhos mais pormenorizada à casa. Vista do interior, não era tão diminuta como parecera do exterior. Dispunha de alas laterais, que deitavam para outras divisões. era a casa de um homem, escassamente mobilada.

Senti-me mais à vontade enquanto punha a mesa, como sempre me acontecia quando ficava ocupada. Como era estranho estar ali com ele assim, numa casa isolada, com a escuridão e o nevoeiro a separar-nos do resto do mundo. Atrás de mim, o fogo crepitava e as faúlhas chiavam pela chaminé acima. Tinha o rosto quente e ruborizado. Agora que as sanduíches o mantinham atarefado, eu sentia-me demasiado encalorada e vulnerável. A pessoa ocupada parecia sempre controlar melhor a situação do que a que ficava a ver. Olhei demasiado demoradamente o rosto dele, observando os reflexos fluorescentes que a luz arrancava aos seus cabelos; fitei demasiado longamente o seu corpo, admirada com a intensidade com que o meu reagira à visão do dele. Enchi-me de "culpa e vergonha. Como poderia eu sentir-me assim perante um homem, depois do que o Cal me fizera?

Reprimi as minhas emoções, calquei-as bem fundo. Não precisava de nenhum homem na minha vida, sobretudo naquela altura!

- O jantar está na mesa, minha senhora - anunciou o Troy timidamente, sorrindo-me.

Afastou a cadeira para eu me sentar, e a seguir retirou o guardanapo branco de cima de uma bandeja de prata com seis sanduíches. Seis! Enfeitavam-nas salsa e rabanetes recortados em forma de rosa; colocados em cima de ninhos feitos de salsa, estavam ovos muito apimentados e, em volta, queijos de vários tipos, bolachas sortidas e uma taça de prata cheia de maçãs vermelhas reluzentes. Maçãs polidas. Tudo aquilo quando tencionara comer sozinho?

Ora, nos Willies, aquela comida teria dado para a avó, o avô, o tom, a Fanny, o Keith, a "Nossa" Jane... para todos nós nos alimentarmos durante uma semana!

A seguir trouxe duas garrafas de vinho: uma de tinto, outra de branco. Vinho! A bebida que o Cal mandara vir para mim nos restaurantes, no tempo em que eu vivera com ele e a Kitty em Candlewick. E fora o vinho que me deixara tonta, levando-me a aceitar o que, de outro modo, poderia ter sido evitado.

Não! Não podia dar-me ao luxo de cometer outro erro. Pus-me de pé num salto e agarrei no meu casaco.

- Desculpe mas não posso ficar - declarei. - De qualquer modo não queria que eu desse pela sua presença aqui... Portanto, farei de conta que não o vi!

Saí rapidamente porta fora e corri em direcção à sebe, apesar de estar uma noite tão negra que assustava. O nevoeiro húmido junto ao solo revolteava entre as minhas pernas e eu ouvi o Troy chamar por mim.

- Heaven, Heaven!

Que nome estranho a minha mãe escolhera para me dar, pensei pela primeira vez na vida. Não era de pessoa, sim de um lugar; depois, as lágrimas vieram-me aos olhos e comecei a chorar. A chorar por nenhuma razão.

 

PARA O BEM E PARA O MAL

- Devo alertar-te - disse o Tony na manhã seguinte, ao pequeno-almoço, enquanto a Jillian dormia no primeiro andar. - O labirinto é mais perigoso do que parece. Eu, no teu lugar, deixava a sua exploração para aqueles que possuem mais experiências nesse tipo de empreendimento.

Pouco passava das seis da manhã e a madrugada assemelhar-se-ia tremendamente ao crepúsculo se não fossem os bolinhos de mirtilos mornos e as saborosas iguarias expostas no buffet. O mordomo encontrava-se no seu posto, ao lado da série de recipientes de prata contendo os acepipes, pronto a entrar em acção para nos servir aos dois, que estávamos sentados a uma mesa que teria dado para oito. Eu não me sentia bem em mim. Era assim que eu sonhara que iria ser. A provinciana que eu fora estava ao meu lado, tremendo de deleite, deliciando-se dez vezes mais do que aquela em que eu me tornara... desconfiada, nervosa, temendo cometer algum acto demasiado grosseiro para que o Tony ou a Jillian me desculpassem. Quanto ao Troy, eu tencionava nunca mais voltar a vê-lo. Era demasiado perigoso.

Provei, hesitante, cada um dos pratos que o Curtis colocou à minha frente; era, sem dúvida, o pequeno-almoço mais fantástico que alguma vez tomara na vida e, de certeza, o que mais me satisfizera. Ora, com aquele género de alimentos dentro de mim, proporcionando-me tanta energia, teria sido capaz de correr até à escola. Depois, ocorreu-me o pensamento sarcástico de que a comida sabia-me tão bem porque não tinha tido trabalho nenhum a prepará-la. E não precisaria de arrumar a cozinha.

- Curtis, pode retirar-se, que nós faremos tudo sozinhos - ordenou o Tony, repentinamente.

Eu estava convencida de que o Tony era o homem mais dependente do mundo, incapaz de se servir sozinho. Curiosamente, dava a impressão de se comprazer em ter o Curtis sempre ao pé, atento ao seu menor sinal para fazer o que fosse preciso. Depois de o mordomo se retirar, inclinou-se para a frente.

- Que tal achas o pequeno-almoço?

- Uma delícia - respondi, com entusiasmo. - Nunca provei ovos que soubessem tão bem.

- Minha querida, acabaste de provar uma das iguarias deste mundo: trufas.

Contudo, eu não vira nada parecido com uma trufa, fosse o que fosse.

- Não importa - disse o Tony ao ver que eu ficava a olhar para o que restara dos meus ovos, mal passados e servidos sobre panquecas finas e douradas. - Agora é tempo de me falares de ti. Ontem, a caminho daqui, pareceu-me ver um certo ar de zanga nos teus olhos. Porque ficavas tão indignada sempre que tocávamos no nome do teu pai?

- Não dei por isso - murmurei, corando e desejando gritar a verdade e, ao mesmo tempo, receosa de falar de mais. Quem estava mais presente nos meus pensamentos era o irmão dele do que o meu pai; era do Troy que me apetecia falar. E no entanto não podia perder de vista os meus planos, os meus sonhos, assim como o bem-estar do Keith e da "Nossa" Jane. Eu sabia que o primeiro passo na sua salvação não era pôr a minha em risco.

De modo que comecei, a princípio cautelosamente, a construir uma nova infância para mim, baseada em meias verdades; as únicas mentiras que disse foram as de omissão.

- Portanto, como vê, a mulher que morreu de cancro não foi a minha verdadeira mãe mas sim uma madrasta chamada Kitty Dennison, que tomou conta de mim quando o meu pai adoeceu e eu não tinha ninguém com quem ficar.

O Tony deixou-se ficar sentado, sem conseguir libertar-se do choque que o conhecimento de que a minha mãe morrera no dia em que eu nascera lhe causara. A sua expressão tornou-se melancólica, triste. A seguir veio a raiva, dura, fria e amarga.

- Queres dizer que o teu pai mentiu? Que outra razão poderia justificar a morte por parto de umA mulher jovem, forte e saudável como a tua mãe, senão a negligência? Ela estava no hospital? Santo Deus, hoje em dia as mulheres não morrem a dar à luz!

- Ela era muito nova - sussurrei eu -, talvez demasiado nova para sobreviver à provação. Vivíamos numa casa razoável, mas o trabalho de carpintaria do pai nunca era fixo. Às vezes, as nossas refeições não eram muito nutritivas. Não sei dizer se ela foi examinada regularmente pois as pessoas que vivem nos montes não acreditam muito nos médicos. Preferem tratar dos seus próprios problemas. Para dizer a verdade, as velhotas como a minha avó eram mais respeitadas do que as que tinham consultório na cidade com um letreiro de médico à porta.

Iria o Tony virar-se contra mim, tal como acontecera com o meu pai?

- Gostaria de que não me culpasse pela morte dela, como o meu pai faz...

O Tony desviou os olhos azuis e pousou-os nas janelas que subiam até ao tecto, ladeadas de cortinados de veludo rosa, debruados a dourado.

- Porque foi que ontem ficaste calada, confirmando as mentiras do teu pai?

- Tinha um receio louco de que me rejeitassem se soubessem do meu passado lamentavelmente pobre.

A ira inesperada e fria que o acometeu mostrou-me imediatamente que aquele homem não era outro Cal Dennison, fácil de enganar.

Apressei-me a continuar, agora indiferente ao tipo de impressão que estava a causar.

- Como acha que me senti quando soube que o Tony e a Jillian só contavam comigo de visita? O meu pai disse-me que os meus avós estavam muito contentes por eu ir viver com eles. Depois, descubro que só cá viria de visita! Agora não tenho para onde ir. Ninguém me quer, ninguém! Tentei perceber porque mentia o meu pai daquela maneira, pensando, talvez, que ficariam preocupados com o meu bem-estar se me imaginassem de luto pela morte recente da minha mãe. E de certo modo ainda o estou. Sempre tive muita pena de não a ter conhecido. Não queria fazer ou dizer algo que alterasse a vossa vontade em me receber, mesmo que por pouco tempo. Por favor, Tony, não me mande embora! Deixe-me ficar! Este é o único lar que tenho. O papá está muito mal com uma doença de nervos que em breve o levará deste mundo. Porém, antes de isso acontecer, quis mandar-me para junto da família da minha mãe.

O olhar severo e penetrante do Tony pousou em mim, em profunda reflexão. Eu encolhi-me por dentro, receosa de que o meu rosto revelasse as minhas mentiras. O meu orgulho caíra por terra, e eu estava disposta a pôr-me de joelhos, se preciso fosse, para implorar e chorar. Comecei a tremer dos pés à cabeça.

- Que nome dão os médicos a essa doença de nervos que o teu pai tem? - perguntou o Tony.

Que sabia eu sobre doenças de nervos? Nada! Os pensamentos passaram-me vertiginosamente pela cabeça, até me trazerem à lembrança algo que vira uma vez na televisão, em Candlewick. Um filme triste.

- Já houve um jogador famoso de futebol que morreu com ela. Tenho dificuldade em pronunciar o nome dessa doença específica de nervos. - Tentei não parecer demasiado vaga. - É uma espécie de paralisia e termina em morte...

O Tony estreitou os olhos, desconfiado.

- Quando falei com ele ao telefone, não me pareceu minimamente doente.

- Quem vive nos montes tem a voz forte. Falam todos muito alto, para se fazerem ouvir.

- Quem toma conta dele, agora que a tua avó morreu e, se bem te ouvi dizer, o teu avô está senil?

- O meu avô não está bem senil! - Irritei-me. - Acontece apenas que não aceita a morte da minha avó e faz de conta que ela continua viva. Isso não é loucura, apenas necessidade de companhia.

- Eu diria que imaginar que os mortos estão vivos e conversar com eles é uma verdadeira senilidade - declarou o Tony secamente e sem emoção. - E já reparei que umas vezes tratas o teu pai por papá e, outras, por pai. Porquê?

- Papá, quando gosto dele - sussurrei. - Pai, quando não gosto.

- Ah...

Mirou-me com interesse acrescido.

Falei em tom queixoso, como se tivesse o jeito da Fanny para representar.

- O meu pai sempre me culpou pela morte da minha mãe e por isso nunca me senti muito à vontade com ele nem ele comigo. Ainda assim, ele gostaria de me ver amparada, em memória da minha mãe. E o papá sempre poderá arranjar alguma mulher dedicada que cuide dele até ao fim da vida.

Fez-se um silêncio prolongado, durante o qual o Tony pareceu reflectir cuidadosamente sobre a informação que eu acabara de lhe dar.

- Um homem capaz de merecer a dedicação de uma mulher apesar de estar às portas da morte, não pode ser assim tão mau, não é, Heaven? Eu duvido que pudesse contar com alguém que fizesse o mesmo por mim.

- A Jillian! - exclamei de imediato.

- Ah, sim, a Jillian, evidentemente.

Olhou para mim com ar ausente, ao ponto de me fazer sentir afogueada e inquieta. Estava a analisar-me, a pesar os prós e os contras a meu favor. Pareceu prolongar-se indefinidamente, mesmo depois de fazer um pequeno sinal e o Curtis aparecer, não sei de onde, para levantar a mesa e voltar a sumir. Até que, por fim, falou.

- Imagina que nós os dois fazemos uma combinação. Não contaremos à Jillian que a tua mãe morreu assim há tanto tempo, pois isso magoá-la-ia demasiado. De momento, fizeste-a imaginar que a filha teve dezassete anos de felicidade ao lado do teu pai, e é uma pena desfazer-lhe essa ilusão. Ela é uma pessoa emocionalmente instável. Nenhuma mulher consegue ser estável quando toda a sua felicidade depende de se manter jovem e bela, pois isso não pode ser eterno. Mas enquanto ela ainda consegue ter um certo controlo sobre a juventude, embora talvez seja breve, nós os dois devemos fazer os possíveis para mantê-la feliz. - Os seus olhos perscrutadores estreitaram-se, antes de prosseguir. - Se eu te der um lar e tudo o que lhe é inerente... roupa adequada, estudos, e mais ainda... conto com uma retribuição. Estás disposta a dar-me o que te pedir?

Aguardou com ar pensativo, enquanto eu ficava a olhar para ele. A primeira ideia que me veio à cabeça fora a de que eu vencera. Iria ficar! Depois, ao vê-lo observar-me tão atentamente, tive a sensação de que era um enorme gato gordo e eu um ratito enfezado sobre o qual ele se preparava para saltar.

- Que tenciona pedir-me?

O Tony sorriu breve e rigidamente, divertido.

- Fazes bem em perguntar e ainda bem que tens o sentido da realidade. É provável que tu própria já tenhas descoberto que tudo tem o seu preço. Não me parece que te vá pedir algo que não seja razoável. Primeiro, exigirei total obediência da tua parte. Quando eu tomar decisões sobre o teu futuro, não as porás em questão. Aceitá-las-ás sem discutir. Gostava muito da tua mãe e lamento que tenha morrido, mas não permitirei que a tua entrada na minha vida me traga complicações. Entende desde já que, se me causares problemas ou perturbares a minha esposa, mandar-te-ei de volta para o lugar de onde vieste sem a menor mágoa, pois considerar-te-ei uma imbecil, e os imbecis não merecem uma segunda oportunidade.

Fitou-me com fixidez. Permaneci calada.

- Para te dar uma ideia das decisões que tomarei por ti, comecemos pela minha escolha do colégio e da faculdade que frenquentarás. Também decidirei que roupa usarás. Desprezo a maneira como as raparigas hoje se vestem, dando cabo da melhor parte da sua vida com roupa vulgar e espalhafatosa e o cabelo despenteado e mal cuidado. Vestir-te-ás como as meninas o faziam no tempo em que eu andava em Yale. Inspeccionarei os livros que lês e os filmes que vês. Não que vá ser antiquado... Acho apenas que, quando se enche a cabeça de lixo, se abafam os maravilhosos ideais e ideias que a maioria de nós tem quando é novo. Terei a última palavra sobre os jovens com quem sairás e quando o farás. Esperarei sempre que sejas delicada comigo e com a tua avó. A Jillian estabelecerá as suas próprias regras, tenho a certeza. Mas de momento vou já indicar-te algumas. A Jillian dorme todos os dias até ao meio-dia. É o seu "sono de beleza", como lhe chama. Nunca a incomodes. A Jillian não gosta de estar junto de pessoas tristes e enfadonhas. Portanto, não as trarás a esta casa. Tão-pouco falarás de assuntos desagradáveis na sua presença... Sempre que tiveres problemas relacionados com o colégio, a saúde ou a vida social, falarás deles comigo, em particular. Será bom nunca te referires à passagem dos anos, assim como a factos ocorridos em tempos ou a histórias tristes lidas nos jornais. A Jillian conseguiu condicionar-se de modo a viver como uma ostra, enfiando a cabeça na areia sempre que surgem problemas com outras pessoas. Quando for necessário, caberá a mim trazê-la à realidade... não a ti.

Ali sentada àquela mesa comprida, tive quase a certeza de que o Townsend Anthony Tatterton era um homem cruel e impiedoso que me utilizaria, tal como, sem dúvida, se servia da Jillian, para qualquer fim que tivesse em vista.

Ainda assim não tencionava recusar a sua oferta para me aceitar ali e mandar-me estudar. Ansiava profundamente pelo dia em que teria o meu diploma universitário... De repente, apenas isso se tornara importante.

Levantei-me e tentei falar com voz firme.

- Mister Tatterton, eu sempre soube que o meu futuro estava aqui em Boston, onde posso frequentar as melhores escolas e preparar uma vida melhor para mim do que a minha mãe teve nos montes da Virgínia Ocidental. Aquilo que mais desejo é terminar o liceu e ir para uma faculdade importante que me faça ter orgulho em mim mesma. Tenho uma necessidade desesperada de melhorar a minha auto-estima. Quero um dia regressar a Winnerrow e mostrar a todos os que me conheceram pobre, aquilo em que me tornei..., contudo, não sacrificarei a minha honra ou a minha integridade para alcançar nenhum desses objectivos.

O Tony sorriu como se me achasse ridícula por me referir a honra e a integridade.

- Fico contente em saber que te preocupas com esses aspectos, embora já o soubesse pelos teus olhos. No entanto, esperas muito de mim. Eu só te peço obediência.

- Tenho a impressão de que por trás do seu pedido único ocultam-se muitas exigências.

- Sim, é possível - concordou o Tony, sorrindo agradavelmente. - Compreendes, eu e a minha mulher temos influência no círculo que frequentamos e não queremos que nada manche a nossa reputação. Poderão aparecer aqui membros da tua família a embaraçar-nos. Sinto que tu e e o teu pai não se davam bem, mas no entanto tens tendência a defendê-lo, assim como ao teu avô. E, com base naquilo que já sei sobre ti, possuis uma grande capacidade de adaptação. Desconfio que, a seu tempo, tornar-te-ás ainda mais bostoniana que eu próprio, que nasci aqui. Mas não quero ver pacóvios da tua família por cá, nunca. Nem nenhum dos amigos que deixaste na Virgínia Ocidental.

Oh! Aquilo era pedir demasiado! Eu planeara, mais tarde, depois de conquistar a sua confiança e aprovação, contar-lhe toda a verdade! Falar-lhe que o meu pai tivera sífilis naquele Outono terrível em que a Sarah dera à luz um nado-morto deformado, a avó morrera e a Sarah fora-se embora, deixando-me a mim e a mais quatro filhos seus naquela cabana, entregues a nós mesmos. E depois, ele vendera-nos naquele Inverno horrível, vendera-nos a todos por quinhentos dólares cada um! E como poderia alguma vez convidar o tom, ou a Fanny, muito menos o Keith e a "Nossa" Jane, a visitar-nos... quando encontrasse estes dois últimos.

- Sim, Heaven Leigh, quero que cortes os teus laços familiares, esqueças os Casteel e te tornes uma Tatterton, como a tua mãe devia ter feito. Fugiu de nós. Dirigiu-nos uma única carta, uma única! Alguma vez alguém referiu, lá onde vivias, a razão pela qual ela não escrevia para casa?

Senti-me à beira de uma explosão de nervos. Ele devia saber bem melhor do que a avó, o avô ou até mesmo o meu pai!

- Como é que eles poderiam saber, a não ser que ela lhes dissesse? - retorqui com um certo ressentimento. - Segundo o que ouvi, ela nunca falava da sua casa, excepto para dizer que viera de Boston mas que nunca mais lá voltaria. A minha avó calculava que era rica pela roupa que trazia com ela e uma caixinha de veludo com jóias, e também por ter maneiras muito elegantes.

E, por alguma razão, não fiz qualquer referência ao retrato da boneca vestida de noiva que tinha escondida no fundo da única mala que possuía.

- Ela disse ao teu pai que nunca mais voltaria? - perguntou o Tony naquele tom de voz estranhamente tenso que dava a entender que ficara afectado. - A quem mais disse ela?

- Ora, não faço ideia. A avó costumava dizer que era bom ela poder voltar para o lugar de onde viera antes que os montes a matassem.

- Que os montes a matassem? - perguntou o Tony, inclinando-se para a frente e fitando-me com dureza. - Eu imaginava que o que lhe tirara a vida haviam sido os maus cuidados de saúde.

A minha voz ganhou uma entoação que me fez lembrar a minha avó quando falava em tom de assombração para me impressionar.

- Há quem diga que só quem nasceu e cresceu nos nossos montes é que pode ser feliz lá. Há por lá sons que ninguém consegue explicar, como o de lobos a uivar à lua, embora os naturalistas digam que os lobos-pardos já desapareceram faz muito tempo da nossa área. E, no entanto, nós ouvimo-los. Temos ursos, linces e leões-da-montanha, e os nossos caçadores voltam com histórias que falam de indícios da existência de lobos-pardos nos nossos montes. Não importa que vejamos ou não os lobos, pois à noite o vento traz os seus uivos e gritos até nós, acordando-nos. Acreditamos em toda a espécie de superstições, costume que me esforcei por ignorar. Manias tolas como as de uma pessoa ter de se virar três vezes para trás ao entrar em casa, para que os demónios não a sigam. No entanto, os forasteiros que vão viver para os nossos montes adoecem facilmente e às vezes não chegam a curar-se. Por vezes, não há nada de errado com eles, simplesmente começam a andar calados, perdem o apetite, ficam muito magros e acabam por morrer.

O Tony apertou de tal modo os lábios que em volta destes formou-se uma linha branca.

- Nos montes? Winnerrow fica nos montes?

- Winnerrow fica num vale, aquilo a que a gente dos montes chama "fundão". Toda a vida me esforcei para não falar com eles. Mas o vale não é diferente das vertentes. Ali, no vale e nas vertentes, o tempo parece ter parado, mas não da maneira como o fez com a Jillian. As pessoas envelhecem rapidamente, demasiado rapidamente. Ora, a minha avó nunca teve uma caixa de pó-de-arroz, muito menos pintou as unhas.

- Não me contes mais nada - disse o Tony algo impacientemente. - Já ouvi o suficiente. Agora, diz-me, por que razão quereria uma rapariga inteligente como tu voltar para um sítio como aquele?

- Pelas minhas próprias razões - respondi teimosamente, erguendo a cabeça e sentindo as lágrimas a assomarem-se aos olhos.

Naquele momento não lhe podia contar como desejava erguer o apelido dos Casteel e conferir-lhe algo que, até então, nunca tivera: respeitabilidade. Fá-lo-ia pela minha avó.

Continuei de pé e ele sentado. Durante o que pareceu uma eternidade, o Tony manteve as mãos elegantes, de unhas muito bem cuidadas, a servirem de apoio ao queixo, não proferindo palavra até, de repente, as baixar e tamborilar irracionalmente sobre a impecável toalha branca do pequeno-almoço, enervando-me.

- Sempre admirei a franqueza - declarou a certa altura, com um olhar tranquilo e imperscrutável. - A franqueza é sempre a melhor atitude a tomar quando não se tem a certeza se uma mentira surtirá ou não mais efeito. Ao menos, apresentaste o teu caso e, se falhares, sempre conservarás a tua "integridade." - Exibiu um sorriso breve e divertido. Cerca de três anos depois de a tua mãe fugir daqui, a agência de detectives que contratei para a encontrar descobriu-lhe, finalmente, o paradeiro em Winnerrow. Disseram-lhes que ela vivia nos arredores e que quem morre no campo muitas vezes não chega a constar nos registos da cidade. Mas muitos residentes de Winnerrow recordavam-se de uma linda rapariga que casara com o Luke Casteel. Os meus detectives tentaram encontrar o seu túmulo para se inteirarem da data do óbito, mas nunca descobriram nenhuma lápide com o nome dela gravado na pedra... Mas eu há muito sabia que ela não voltaria. Cumpriu a sua palavra...

Estaria a ver-lhe lágrimas nos olhos? Tê-la-ia ele amado ao seu jeito?

- Poderás dizer, a bem da verdade, que ela amou o teu pai, Heaven? Por favor, pensa bem nesta questão. É importante.

Como poderia eu saber o que ela sentira excepto pelo que me tinham contado? Sim, a avó dissera que sim, que ela o amara... Porque ele nunca lhe mostrara o seu lado cruel e odioso!

- Pare de me fazer perguntas sobre a minha mãe! - exclamei, incomodada ao ponto de perder a compostura. Toda a vida senti que me culpavam pela sua morte e agora o senhor também está a tentar acrescentar-lhe algo mais! Conceda-me a minha oportunidade, Tony Tatterton! Serei obediente. Estudarei com afinco. Fá-lo-ei orgulhar-se de mim!

Que teria ele ouvido na minha voz que o fez meter a cabeça entre as mãos? Por minha vontade ele detestaria, tanto quanto eu, o meu pai, por ter morto a minha mãe. Teria gostado de que ele se empenhasse comigo numa vingança conjunta. E foi dessa expectativa que fiquei à espera, tremendo.

- Juras acatar as minhas decisões? - perguntou, erguendo rapidamente o olhar para mim e fitando-me com insistência.

- Juro!

- Nesse caso nunca mais voltarás ao labirinto ou a procurar oportunidades de visitar o Troy, o meu irmão mais novo.

Sustive a respiração.

- Como é que soube?

Sorriu.

- Porque ele me contou, menina. Ficou muito entusiasmado contigo, com as parecenças que tens com a tua mãe, daquilo que consegue recordar dela.

- Porque não quer que eu volte a vê-lo?

O Tony sacudiu a cabeça, franzindo o sobrolho.

- O Troy tem os seus próprios problemas, problemas esses que poderão ser tão fatais como a doença do teu pai. Não quero que fiques contaminada... Não que o que ele tem seja contagioso...

- Não compreendo - declarei desamparadamente, muito perturbada por saber que o Troy poderia estar doente... e às portas da morte.

- Claro que não compreendes, ninguém compreende o Troy. Já viste homem mais bonito? Não, claro que não! Não tem uma aparência notavelmente saudável? Claro que tem. E no entanto pesa menos do que devia. Desde que nasceu, tinha eu dezassete anos, que anda sempre doente. Portanto, faz como te digo. Para teu bem, deixa o Troy em paz. Não podes salvá-lo. Ninguém pode.

- Que quer dizer com essa de eu não poder salvá-lo? Salvá-lo de quê?

- Dele próprio - respondeu o Tony concisamente, agitando a mão para dar o assunto por encerrado. - Muito bem, Heaven, senta-te. Falemos do que nos interessa. Eu proporcionar-te-ei um lar, vestir-te-ei como uma princesa, mandar-te-ei para os melhores estabelecimentos de ensino e, em troca de tudo isto, pouco terás de me dar. Um... Como já te disse nunca falarás de nada à tua avó que a incomode. Dois... Não te encontrarás com o Troy às escondidas. Três... Nunca mais te referirás ao teu pai, nem pelo nome nem por referência. Quatro... Farás o possível por esquecer os teus antecedentes e concentrar-te-ás apenas no teu progresso. E, quinto... A troco de todo o dinheiro que vou investir em ti e para teu benefício, dar-me-ás o direito de tomar todas as decisões importantes na tua vida. Concordas?

- Que... que tipo de decisões importantes?

- Concordas ou não concordas?

- Mas...

- Muito bem, não concordas. Estás com dúvidas. Prepara-te para partir a seguir ao dia de Ano Novo.

- Mas eu não tenho para onde ir! - exclamei, desconcertada.

- Tens estes dois meses para te divertires, antes de te ires embora. Mas não penses que nessa altura já não serás obrigada a partir por já teres conseguido convencer a tua avó a dar-te o dinheiro suficiente para tirares um curso superior, pois ela não controla o dinheiro que o Cleave lhe deixou... Quem o faz sou eu. Dispõe de tudo o que deseja, cuido de que nada lhe falte, mas não tem jeito nenhum para lidar com o dinheiro.

Eu não podia concordar com algo tão exorbitante como ele tomar decisões por mim! Não podia!

- A tua mãe tencionava frequentar um colégio para raparigas que é o melhor desta zona. Todas as meninas de famílias importantes vão para lá, na esperança de encontrarem o jovem certo com quem possam casar mais tarde. Também conto que encontres o teu "príncipe encantado" por lá.

Há muito que eu encontrara o meu "príncipe encantado", o Logan Stonewall. Mais cedo ou mais tarde, o Logan viria buscar-me. Perdoar-me-ia. Perceberia que eu fora uma vítima das circunstâncias...

Do mesmo modo que o Keith e a "Nossa" Jane o eram. Mordi o lábio inferior. A vida oferecia muito poucas oportunidades como a que o Tony me estava a propor. Ali, naquela casa enorme, com os negócios a exigirem a sua presença frequente na cidade, raramente nos veríamos. E o Troy Tatterton não fazia falta nenhuma na minha vida, sobretudo porque um dia eu voltaria a ver o Logan.

- Ficarei. Aceito as suas condições.

O Tony dirigiu-me o seu primeiro sorriso afectuoso.

- Óptimo. Eu sabia que tomarias a decisão certa. A tua mãe optou pela errada, ao fugir. E agora, para simplificar o que poderá intrigar-te e para que não precises de andar a bisbilhotar, a Jillian tem sessenta anos, e eu, quarenta.

A Jillian tinha sessenta anos!

E a avó morrera apenas com cinquenta e quatro, parecendo ter noventa! Santo Deus, como aquela verdade era triste! Fiquei sem saber que fazer ou dizer, sentindo o meu coração a bater violenta e aceleradamente. Depois, porém, senti um alívio que me invadiu e inundou, permitindo-me respirar, descontrair e esboçar, até, um sorriso trémulo. No fim, tudo acabaria por dar certo. Um dia, eu voltaria a reunir o tom, a Fanny, o Keith e a "Nossa" Jane debaixo do meu próprio tecto. Mas isso poderia esperar até eu me tornar senhora do meu futuro.

- Winterhaven tem uma lista de espera muito extensa. No entanto, mexerei uns cordelinhos para te meter lá dentro; ou seja, se fores boa estudante. Terás de te submeter a um teste para determinarem o teu grau de aprendizagem. Há raparigas, em todo o mundo, a querer frequentar Winterhaven. Nós dois iremos às compras juntos e deixaremos a Jillian entregue às suas tarefas pessoais. Precisarás de mais roupa quente, casacos, botas, chapéus, luvas, vestidos, tudo o que for necessário. Representarás a família Tatterton, e nós temos um determinado padrão de vida ao qual não podemos fugir. Terás uma mesada para conviver com as tuas amigas e comprar o que te apetecer. Não te faltará nada.

Eu ficara como que em transe, presa na sua encantadora fantasia de riquezas, onde eu podia comprar o que me apetecesse, e na educação universitária que, sempre tão distante, de repente ficara próxima, ao meu alcance.

- Como era essa mulher chamada Sarah, com quem o teu pai casou pouco depois da morte da Leigh?

Porque quereria ele saber?

- Era dos montes. Alta, magra e tinha o cabelo castanho-avermelhado brilhante e os olhos verdes.

- O aspecto dela não me interessa, o que eu quero saber é como era de feitio.

- Gostei muito dela até se voltar contra... - Ia a dizer "nós", mas parei a tempo. - Gostei dela até fugir de casa, ao descobrir que o meu pai estava a morrer.

- Deves riscar o nome da Sarah dos teus lábios e da tua memória. E esperar nunca mais voltares a vê-la.

- Não sei onde a Sarah se encontra - apressei-me a dizer, sentindo-me estranhamente culpada, com vontade de defendê-la, pois tentara, apesar de ter fracassado...

- Heaven, se alguma coisa aprendi nestes quarenta anos foi que as sementes que não prestam acabam sempre por germinar.

Fitei-o com maus presságios.

- Volto a repetir, Heaven. Se te tornares membro desta família, tens de desistir do teu passado. De quaisquer amigos que possas ter tido. De quaisquer primos, tias ou tios. Os teus objectivos serão superiores aos de qualquer professorazita que se enterra nos montes onde nada evoluirá até as pessoas que lá vivem decidirem fazê-lo. Viverás de acordo com os padrões dos Tatterton e dos VanVoreen, que não são cidadãos vulgares, mas sim excepcionais. Nós temos um compromisso, não apenas de palavras mas também de acções, a que ambos os sexos ficam obrigados.

Que espécie de homem seria ele para estar com tamanhas exigências? Frio, malévolo, pensei, esforçando-me intensamente por esconder os meus verdadeiros sentimentos, embora a minha vontade fosse revoltar-me e enfurecer-me, dizendo-lhe o que pensava verdadeiramente de restrições tão cruéis.

De modo que adivinhei, ou pelo menos foi o que pensei na altura, o que levara a minha mãe a fugir. Fora aquele homem impiedoso e autoritário! Depois, fazendo jus à verdadeira Casteel reles que eu era, um pensamento insinuou-se furtivamente no meu cérebro. Nem mesmo o Tony Tatterton seria capaz de ler os meus pensamentos. Não saberia das cartas que eu escreveria ao tom e à Fanny. Se ele queria ser um ditador, pois bem, que o fosse. Eu jogaria as minhas próprias cartadas.

Inclinei humildemente a cabeça.

- Como quiser, Tony.

Depois, empertiguei-me e subi as escadas. Os meus passos iam acompanhados por pensamentos amargos. Quanto mais as coisas mudavam, mais ficavam na mesma. Eu era indesejada, até mesmo ali.

 

WINTERHAVEN

O Tony tomou conta da minha vida logo no dia a seguir, como se nem eu nem a Jillian tivéssemos algo a dizer sobre o assunto. Estabeleceu horários que incluíam todos os minutos do meu dia e roubou-me parte do entusiasmo que eu poderia ter sentido se ele tivesse agido com mais calma no seu processo de transformar uma serva de copa em princesa. Eu precisava de tempo para me habituar a estar rodeada de criados por todos os lados; tempo para aprender a movimentar-me numa casa de concepção quase tão complicada como o labirinto do jardim. Não gostava que a Percy preparasse o meu banho e escolhesse a minha roupa, não me deixando decidir sobre a matéria. Não me agradava a ordem que, implicitamente, determinava que eu não podia servir-me do telefone para ligar a qualquer membro da minha família.

- Não - declarou o Tony terminantemente, desviando os olhos da página do jornal onde vinham os câmbios que estivera a analisar. - Não precisas de te despedir outra vez do tom. Disseste-me que já o tinhas feito.

Sentia-me atordoada por acontecimentos que se sucediam demasiado rapidamente para eu os controlar e, quando murmurava algumas palavras de queixa, o Tony fitava-me com surpresa.

- Porque dizes que ajo com demasiada rapidez? É o que tu queres, ou não? Foi para isso que vieste para cá, não? Bem, agora dispões daquilo com que sonhaste, do melhor que há. Terás de começar imediatamente as aulas. E se achas que estou a fazer-te andar demasiado depressa, é assim que a vida é. Não está no meu feitio ir devagar ou cuidadosamente e se queres que nos dêmos bem será melhor adaptares-te ao meu ritmo.

Ao vê-lo sorrir-me, esforcei-me por não me sentir ressentida.

Enquanto a Jillian passava as manhãs a dormir e outras quantas horas nos seus "rituais de beleza secretos", o Tony levava-me a pequenas lojas onde roupa e sapatos custavam pequenas fortunas. Não perguntou, nem uma vez, o preço de camisolas, saias, vestidos, casacos, botas, nada! Assinou facturas com o ar descuidado de quem nunca tem falta de dinheiro.

- Não - retorquiu-me ele quando lhe perguntei, num sussurro, se podia ter sapatos com as cores a condizer com todos os fatos.

- Bastam cores como o preto, castanho, creme, azul e um par em tons de cinzento e vermelho, até precisares dos brancos de Verão. Deixarei alguns dos teus desejos por satisfazer. Ninguém deve ver todos os seus sonhos concretizados de uma só vez. Vivemos de sonhos, sabes, e quando deixamos de os ter, morremos. - Uma sombra toldou-lhe o olhar. - Eu cometi uma vez o erro de dar demasiado e cedo de mais, nada recusando. Desta vez não será assim.

No princípio dessa tarde voltámos para casa com o banco de trás do carro atafulhado de embrulhos contendo roupa suficiente para três raparigas. O Tony parecia não se dar conta de que já dera demasiado e cedo de mais. Eu, que toda a vida sonhara com roupa cara e bonita, sentia-me aturdida. Mas ele achava que eu ainda não tinha o suficiente. Certamente comparava o meu guarda-roupa ao da Jillian.

A maneira como, muitas vezes, a Jillian me ignorava ou me inundava de entusiasmo, era dolorosa para mim, pois nunca me sentia à vontade na sua presença. Era frequente ter a sensação de que ela preferiria que eu nunca tivesse aparecido. Noutras alturas, via-a tranquilamente sentada no sofá do seu quarto, entretida com uma das suas eternas paciências solitárias, olhando, de vez em quando, na minha direcção.

- Jogas às cartas, Heaven?

Reagi, ansiosa e prontamente, ao desafio, feliz por vê-la disposta a gastar tempo comigo.

- Sim, faz já muito tempo um amigo ensinou-me a jogar gin rummy.

O mesmo amigo que também me presenteara com um baralho de cartas por estrear, que pedira "emprestadas" na loja do pai.

- Gin rummyl - perguntou a Jillian com ar vago, como se nunca tivesse ouvido falar no jogo. - Só conheces esse?

- Eu aprendo depressa!

Começou, nesse mesmo dia, a ensinar-me a jogar brídege, a sua modalidade preferida. Explicou-me os pontos de cada face de carta, forneceu-me explicações pormenorizadas sobre quantos eram necessários para responder ao lance de abertura do parceiro; depressa percebi que teria de comprar um livro sobre brídege e estudar à parte, pois a Jillian ia demasiado depressa.

No entanto, ela estava a gostar de me ensinar e, ao longo de toda a semana, rejubilou diante das minhas derrotas. Até que chegou o dia fatídico em que nos vimos sentadas diante do nosso pequeno tabuleiro computorizado que faria a partida com um, dois ou três jogadores (ou absolutamente nenhum - apenas contra si próprio) e, para profundo desgosto da Jillian, eu ganhei.

- Oh, tiveste apenas sorte! - exclamou, levando as mãos às maçãs do rosto. - Depois de almoço faremos nova jogada e aí veremos quem ganha.

A Jillian estava a começar a precisar de mim, a querer a minha companhia, a gostar de mim. Era a primeira vez que tomávamos uma refeição juntas além dos jantares servidos na sala de jantar. Era uma das mulheres mais ricas do mundo e, certamente, uma das mais belas; no entanto, almoçava minúsculas sanduíches de pepino ou agriões e beberricava champanhe.

- Mas estes almoços não são nem saudáveis nem nutritivos, ou até mesmo satisfatórios, Jillian! - exclamei depois do nosso terceiro almoço juntas. - com toda a franqueza, mesmo depois de comer seis das suas sanduíches em miniatura, continuo com fome, além de não ser grande apreciadora de champanhe.

Ergueu as sobrancelhas delicadas em sinal de exasperação.

- Que tipo de comida tu e o Tony ingerem quando almoçam juntos?

- Oh, ele deixa-me escolher entre o que houver. Na verdade encoraja-me a provar alimentos que nunca experimentei antes.

- Ele estraga-te com mimos, tal como fazia com a Leigh.

A Jillian deixou-se ficar sentada durante um longo momento de cabeça baixa sobre a refeição frugal e depois agitou a mão, como que pondo o assunto de parte.

- Se há algo que me desagrade verdadeiramente prosseguiu - é ver uma jovem comer como se estivesse sempre esfomeada... E tu tens noção, Heaven, de que só assim é que sabes alimentar-te, não é verdade? Enquanto não souberes controlar a necessidade de tanta comida, acho melhor não voltarmos a almoçar juntas. E quanto estivermos na sala de jantar, esforçar-me-ei por reparar o menos possível nos teus hábitos alimentares.

A Jillian cumpria o que prometia. Nunca mais voltou a convidar-me para jogar brídege com ela. Não voltámos a partilhar outro almoço e, quando nos sentávamos na elegante sala de jantar com o Tony, era a este que ela dirigia todas as suas observações. E quando não podia deixar de me dizer algo, não virava a cabeça na minha direcção. Como eu desejava imensamente agradar-lhe, tentei evitar servir-me pela segunda e terceira vez e colocava apenas pequenas porções no prato. Comecei a andar permanentemente com fome, de modo que dei em roubar na enorme cozinha onde Ryse Williams, o corpulento cozinheiro-chefe, me deu as boas-vindas ao seu domínio.

- Ora esta, rapariga, és tal qual a tua mãe. Santo Deus, nunca vi uma filha tão parecida com a mãe... Apesar de teres o cabelo escuro.

Passei muitas horas naquela cozinha reluzente, cheia de tachos e panelas de cobre e milhares de utensílios próprios que eu nunca vira, a ouvir Ryse Williams contar histórias sobre os Tatterton, e embora tentasse, várias vezes, levá-lo a falar sobre a minha mãe, ele mostrava-se sempre incomodado e atarefava-se com os seus cozinhados. O rosto moreno e liso empalidecia e mudava rapidamente de assunto. Mas um dia, um dia não muito longínquo, Rye whiskey contar-me-ia tudo o que sabia, pois eu já desconfiava, pelas suas expressões de constrangimento e embaraço, que ele sabia muito.

Escrevi ao tom, na privacidade do meu quarto, a falar do assunto. Até ali já lhe dirigira três cartas, alertando-o para que não me respondesse até eu poder indicar-lhe um endereço "seguro". (Magoava-me pensar o que ele estaria a imaginar.) Nessas cartas, descrevi a Mansão Farthinggale, a Jillian, o Tony; porém, não disse uma palavra sobre o Troy. Este não me saía da cabeça. Demasiadamente. Queria voltar a vê-lo, mas sentia receio. Tinha mil perguntas para fazer ao Tony sobre o irmão, mas ele ficava de má catadura sempre que eu abordava o tema do homem que vivia na casa por trás do labirinto. Tentei, por três vezes, falar do Troy à Jillian, que virou a cabeça e esboçou um sinal de indiferença com a mão.

- Oh, o Troy! É pessoa que não interessa. Esquece-o. Sabe demasiado sobre tudo para conseguir apreciar as mulheres.

E apesar de pensar excessivamente no Troy, resolvi que era tempo de escrever a carta mais difícil àquele que pertencia verdadeiramente ao meu futuro, a fim de saber se ele me permitiria regressar de novo ao seu.

No entanto, como poderia eu escrever a alguém que um dia me amara e confiara em mim e que depois me repudiara? Faria bem em ignorar o que havia desencadeado o fim da nossa relação? Deveria discutir o assunto abertamente? Não, não, decidi, teria de me encontrar com o Logan e ver a sua expressão antes de entrar em mais pormenores em relação ao Cal Dennison.

Por fim consegui escrever algumas palavras que não me pareciam adequadas.

"Querido Logan,

Estou finalmente a viver com a família da minha mãe, como sempre desejei. Em breve irei para um colégio particular de raparigas chamado Winterhaven. Se ainda sentes algo por mim, o que espero, tenta, por favor, perdoar-me. Talvez então possamos começar de novo.

com amor,

Heaven"

O remetente que pus no envelope era o da posta-restante que, em segredo, abrira na véspera, enquanto o Tony comprava roupa para si próprio numa loja da mesma rua. Mordisquei a ponta da minha caneta antes de resolver enfiar a única folha de papel dentro do envelope, fazendo-o com uma pequena oração. Se o Logan ainda gostasse o suficiente de mim, poderia poupar-me, com a sua força e fidelidade, a muitas agruras.

Tive oportunidade para despachar as minhas cartas logo no dia a seguir. Disse ao Tony que precisava de ir aos lavabos, depois escapuli-me pela porta das traseiras da loja e corri até um marco de correio, onde enfiei as cartas. Feito isto, suspirei de alívio. Estabelecera contacto com o meu passado. O meu passado proibido.

Depois voltámos para Farthy, que eu já começara a considerar como um lar, agora que possuía objectos pessoais. Todas as manhãs levantava-me cedo, ia nadar com o Tony na piscina interior e, depois de me secar e vestir, tomava o pequeno-almoço na sua companhia, tendo-me já acostumado ao Curtis, o mordomo, ao ponto de conseguir ignorar a sua presença quase tão bem como o Tony, até precisar de algo.

Raramente via a Jillian, que permanecia metade do dia no seu quarto, antes de o abandonar, passando por nós rapidamente, com um ar adorável, a caminho do seu cabeleireiro ou de algum almoço social (onde eu esperava que comesse algo mais substancial do que minúsculas sanduíches acompanhadas com champanhe).

Quanto ao Tony, partia para Boston logo a seguir ao pequeno-almoço, para conduzir os seus negócios na Companhia de Brinquedos Tatterton. De vez em quando telefonava-me do escritório e convidava-me para almoçar com ele nalgum restaurante elegante, onde eu me sentia como uma princesa. Adorava a maneira como as pessoas voltavam a cabeça à nossa passagem, como se fôssemos pai e filha. "Oh, pai, se ao menos tivesses metade dos modos do Tony..."

Depois vieram os dias difíceis, os dias surpreendentes, em que eu tinha de sair de carro com o Tony todas as manhãs, bem cedo, aproveitando a sua ida para o trabalho para ficar em frente de um edifício, de escritórios de aspecto austero, onde era suposto submeter-me a testes para ser admitida em Winterhaven.

- Os primeiros testes facultar-te-ão a entrada em Winterhaven - explicou o Tony. - Os outros determinarão se estás apta, ou não, a frequentar as melhores universidades. Espero que tenhas notas altas, não medianas.

Certa tarde, sentei-me junto da Jillian, no quarto desta, a vê-la maquilhar-se e cheia de vontade de lhe falar como a uma mãe, ou até mesmo como a uma avó; porém, mal referi os testes difíceis que tinha feito naquele dia, ela ergueu impacientemente a mão direita.

- Por amor de Deus, Heaven, não me aborreças com conversas sobre estudos! Eu detestava livros e a Leigh não sabia falar de outra coisa. Seja como for, não sei que diferença faz, pois as raparigas bonitas como tu são arrebanhadas do mercado com tanta rapidez que raramente dão uso aos ensinamentos que receberam.

Ouvi-la proferir aquelas palavras fez-me arregalar os olhos de espanto... Em que século viveria a Jillian? Nos dias de hoje, ambos os membros do casal trabalhavam. Depois, olhando de novo para ela com mais percepção, convenci-me de que sempre tivera como ponto assente o facto de a sua beleza lhe conseguir uma fortuna, o que se revelara verdade.

- Além disso, Heaven, quando finalmente entrares para esse malfadado colégio, tenta não trazer para casa as amigas que por lá fizeres... Ou, se achares que isso não pode deixar de ser, avisa-me com três dias de antecedência para eu poder fazer outros planos para mim.

Deixei-me ficar sentada, sem fala e profundamente magoada.

- Nunca me deixará fazer parte da sua vida, pois não? - perguntei com voz lamentosamente sumida. - Quando eu vivia nos Willies pensava que, quando finalmente conhecesse, a mãe da minha mãe, a senhora gostaria muito de mim, precisaria de mim e quereria que formássemos uma família amiga e unida.

A Jillian fitou-me com um ar muito estranho, como se eu fosse alguma raridade de circo.

- Família amiga e unida? De que estás a falar? Eu tive duas irmãs e um irmão e nunca nos demos bem. Passávamos a vida a barafustar uns com os outros. E já te esqueceste do que a tua mãe me fez? Não tenciono permitir que conquistes o meu afecto para depois eu voltar a ter um desgosto quando te fores embora.

O modo como me olhava, com as ténues sobrancelhas ligeiramente erguidas, deu-me a entender que não seria preciso nada de extraordinariamente grave para me afastar daquela casa... e da sua vida. A Jillian queria viver tal qual como antes da minha chegada. Eu não estava a representar absolutamente nada para ela. Nunca me sentira tão deprimida.

Porém, compensava largamente a falta de entusiasmo e interesse da Jillian. Passei nos meus testes, o primeiro obstáculo a vencer, com pontuações muito elevadas. A partir dali, o Tony só precisou de olear todos os mecanismos necessários para a administração de Winterhaven me fazer passar à frente das centenas de outras raparigas que compunham a lista de espera.

Encontrávamo-nos no seu elegante escritório quando me deu a notícia, observando-me atentamente.

- Fiz tudo o que pude para te meter em Winterhaven. Agora é a tua vez de mostrares o que vales. Tiveste notas muito altas nos testes e irás para a classe das mais adiantadas. Mas temos de te inscrever já na faculdade, juntando as tuas notas ao pedido de entrada. Winterhaven é um colégio altamente académico. Far-te-ão trabalhar. Proporcionar-te-ão professores inteligentes. Recompensam as suas melhores estudantes com o que consideram útil para elas, como é o caso de determinadas actividades sociais que poderás apreciar ou não. Se chegares ao topo das listas académicas, levar-te-ão a chás onde travarás conhecimento com as pessoas que são verdadeiramente importantes na sociedade bostoniana. Irás a concertos, óperas e peças de teatro. Lamento que o desporto não seja tido em linha de conta em Winterhaven. Praticas algum em especial?

Quando vivia nos Willies estudava muito para ter boas notas. Depois de caminhar, todos os dias, cerca de doze quilómetros para ir para a escola e outros tantos para voltar para os montes, não me restava tempo ou energia para praticar desporto. Quando chegava a casa, tinha roupa para lavar, a horta para cuidar e era preciso ajudar a Sarah e a avó. A vida com os Dennison, em Candlewick, não fora muito melhor, pois a Kitty considerara-me sua escrava. E o Cal só quisera ter uma companheira de folguedos dentro de casa.

- Que tens? Não respondes? Gostas de desporto?

- Ainda não sei - sussurrei, mantendo os olhos baixos. - Nunca tive possibilidade de os praticar.

Apercebi-me demasiado tarde que, em relação ao Tony, pessoa muito observadora, manter o olhar desviado não era suficiente. Também tinha de conservar uma expressão facial calma e impassível. Olhei-o de relance e reparei que tinha um brilho de piedade nos olhos, como se adivinhasse bastante mais sobre os meus antecedentes miseráveis do que aquilo que lhe contara. No entanto, nem num milhão de anos ele seria capaz de imaginar todo o horror que era ser pobre. Apressei-me a sorrir, antes que ele soubesse demasiado.

- Sou muito boa nadadora.

- Nadar faz bem à figura. Espero que este Inverno continues a utilizar a nossa piscina coberta.

Constrangida, acenei afirmativamente com a cabeça.

Do piso de cima chegava até nós o leve bater das chinelas de cetim da Jillian, entregue ao complicado regime de beleza que antecedia o início do seu dia. Quando se tratava de uma festa, os preparativos eram de outro tipo, sendo o mais demorado e enfadonho aquele a que se submetia antes de se deitar.

- Já disse à Jillian que fico? - perguntei, mantendo o olhar fixo no tecto.

- Não. com a Jillian não é necessário ser muito específico nem dar grandes explicações. A sua capacidade de atenção é muito limitada. Bastam-lhe os seus próprios pensamentos. Deixaremos simplesmente que aconteça.

O Tony recostou-se e juntou as mãos debaixo do queixo. Naquela altura, já eu sabia que aquela era a sua linguagem gestual para demonstrar que a situação estava sob o seu controlo.

- A Jillian habituar-se-á a ver-te por aqui, a dar pelas tuas idas e vindas aos fins-de-semana, do mesmo modo como tu já nem reparas no barulho das ondas a bater na costa. Insinuar-te-ás, a pouco e pouco, nos seus dias, no seu consciente. Conquistá-la-ás com a tua doçura, com a tua vontade de lhe agradar. Mas nunca te esqueças de que não deves entrar em competição com ela. Nunca lhe dês motivos para desconfiar de que troças das suas tentativas para disfarçar a idade. Pensa antes de falar, de agir. A Jillian tem toda uma corte de amigos que sabem como realizar o jogo da "idade" tão bem como ela, mas depressa verás que os ultrapassa a todos. Fiz-te uma lista dos seus amigos e respectivas esposas e filhos, assim como dos respectivos passatempos, do que gostam e detestam. Estuda-a bem. Não te mostres demasiado em agradar. Sê esperta e elogia apenas quem o merecer. Se falarem sobre questões de que nada sabes, fica calada e escuta atentamente. Se soubesses a quantidade de gente que aprecia um bom ouvinte, ficarias admirada. Mesmo que não digas nada de especial, se pronunciares as frases certas tais como "conte-me mais", considerar-te-ão uma conversadora brilhante.

Esfregou a palma das mãos, mirando-me dos pés à cabeça.

- Sim, agora que já estás vestida como deve ser, serás aceite. Ainda bem que não tens de te livrar de um desses horríveis dialectos regionais.

No entanto, estava a pôr-me em pânico com a longa lista de amigos da Jillian, que representavam obstáculos que eu tinha de vencer. Cada palavra sua dava a impressão de me afastar cada vez mais dos meus irmãos e irmãs. Iria eu ficar sem eles agora que alcançava uma vida estável para mim? Nem a Fanny nem o tom poderiam passar por amigos meus de Boston, por causa do forte sotaque com que falavam. Depois também era eu que, se viesse a sentir-me demasiado vulnerável, poderia ser impelida a cometer algum erro. Só havia uma pessoa do meu passado que não levantaria desconfianças ao Tony: o Logan, com o seu aspecto sadio e bem-parecido e os olhos sinceros e firmes. O Logan, porém, não era pessoa para disfarçar as suas origens. Era um Stonewall e tinha orgulho em sê-lo, não se envergonhando, como eu, do meu apelido e dos meus antepassados.

O Tony observava-me. Agitei-me, na poltrona de abas.

- Agora, antes que a Jillian desça e nos interrompa ao falar do sítio aonde vai e do que leva vestido, examina este mapa da cidade. O Miles levar-te-á ao colégio às segundas-feiras de manhã e eu irei buscar-te às sextas-feiras, por volta das quatro horas da tarde. Posteriormente, quando tiveres idade, poderás ir tu mesma a guiar de um lado para o outro. Que automóvel gostarias de receber, digamos, no teu décimo oitavo aniversário?

Fiquei tão entusiasmada ao pensar em ter um carro só para mim que estremeci e fui incapaz de responder durante todo um longo minuto.

- Ficaria grata por qualquer um que quisesse oferecer-me - respondi com um sussurro.

- Ora, deixa-te disso. O teu primeiro automóvel é um grande acontecimento. Tornemo-lo especial. Vai pensando nisso. Repara nos carros que circulam. Passa por lojas de automóveis e observa os que estão expostos. Aprende a saber discriminar e, acima de tudo, desenvolve o teu próprio estilo. Afirma-te nas tuas preferências pessoais.

Eu não fazia a menor ideia do que ele pretendia dizer; ainda assim, seguiria o seu conselho e tentaria saber "discriminar". Deixei-me ficar sentada, ainda entusiasmada com a ideia de vir a ter carro próprio, enquanto o Tony abria um mapa da cidade em cima da secretária.

- Aqui está Winterhaven - declarou, apontando com o dedo para um local sobre o qual traçara um círculo vermelho. - E isto aqui é Farthy.

Chegou até nós o bater destacado dos saltos dos sapatos da Jillian na escadaria de mármore. O Tony começou a dobrar o mapa. Quando a Jillian chegou à porta da biblioteca, já ele o guardara numa gaveta. O perfume que ela usava fez-se sentir na sala antes de entrar. Òh, como ela parecia mundana e confiante ao deslizar para dentro do aposento, sorrindo para mim e para o Tony, envergando o seu fato de saia e casaco em crepe de lã preto, com pele de marta na gola e nas mangas. Por baixo do casaco entrevia-se uma blusa de chiffon preto que brilhava. A pele e os cabelos muito claros da Jillian contrastavam deslumbrantemente com todo aquele tom negro. Fazia lembrar um diamante tendo por fundo veludo negro.

O impacto da impressão recebida talvez me tenha feito inalar o ar demasiado depressa. O cheiro adocicado do seu perfume floral não só encheu as minhas narinas como também deu a impressão de invadir os meus pulmões, fazendo-me engasgar, quase sufocar, antes de eu me entregar a um paroxismo de tosse que me fez estremecer violentamente o corpo e ficar com o rosto muito vermelho.

- Que tosse é essa, Heaven? - perguntou a Jillian, dando imediatamente meia volta para me fitar com um olhar alarmado. - Estarás a ficar constipada? Será gripe? Se for, agradeço que não te aproximes de mim! Detesto estar doente! E não tenho jeito para gente que esteja mal, fico impaciente! Nunca sei o que dizer ou fazer. Nunca estive doente um dia da minha vida... excepto quando a Leigh nasceu.

- Dar à luz não é considerado doença, Jill - corrigiu o Tony com voz serena e paciente.

Pusera-se de pé quando a mulher entrara. Eu não sabia que os homens o faziam com as esposas nas suas próprias casas. Fiquei então impressionada que estremeci com o deslumbramento de viver com pessoas com maneiras tão elegantes.

- Estás perfeitamente deslumbrante, Jillian - declarou o Tony. - Não há cor que te assente melhor que o preto.

A Jillian gostou, aparentemente, do que viu nos olhos do marido. Esqueceu-se dos meus micróbios e voltou-se para ele. Dando a impressão de deslizar, entrou nos braços que ele lhe abria, rodeando-lhe ternamente o rosto com as mãos enluvadas.

- Oh, querido, como o tempo passa. Tenho sempre a impressão de que nos vemos muito pouco. Ultimamente, sempre que preciso de ti, não estás por cá. Não tarda que o Natal chegue com as suas exigências e eu já saturada do Inverno e de planear festas. - Fez deslizar as mãos dele do rosto para a cintura. - Amo-te muito, querido, e quero-te todo só para mim. Não seria maravilhoso termos outra lua-de-mel? Por favor, tenta descortinar uma maneira de fugirmos ao tédio e à tristeza que será ficarmos nesta casa detestavelmente fria até Janeiro.

Deu-lhe dois beijos e depois continuou, em voz muito branda:

- O Troy pode encarregar-se dos negócios, não pode? Estás sempre a gabar o génio dele para o trabalho. Portanto, dá-lhe uma oportunidade de mostrar o que vale.

Estranhamente, senti o coração acelerar ao ouvir o nome do Troy, apetecendo-me, ao mesmo tempo, gritar em protesto. Eles tinham de ficar! Não podiam deixar-me sozinha, a passar as férias num colégio estranho, com colegas que ainda nem conhecia!

E tudo o que a Jillian estava a fazer ao Tony trouxe-me à lembrança a Kitty, que soubera exactamente como manobrar o Cal, o marido, ao sabor dos seus desejos! Seriam todos os homens assim tão dependentes da sua vida sexual para perderem o controlo do bom senso quando uma mulher bonita os lisonjeava? Oh, era certo que o Tony não parecia o mesmo homem que, ainda há pouco, apoiara o queixo nos dedos juntos. Observava a Jillian com suave intensidade, e esta conseguira, de uma forma subtil e misteriosa, apoderar-se das rédeas do marido, ficando ela no controlo. A facilidade com que a via obter o que queria do Tony, assustava-me.

- Verei o que se pode fazer - disse o Tony indolentemente, tirando do ombro do fato um longo cabelo louro. Fê-lo balançar cuidadosamente sobre um cesto de papéis, antes de o deixar cair. Aquele gesto insignificante fez-me compreender que nunca nenhuma mulher seria capaz de controlá-lo... Ele apenas lhes permitia ter essa ilusão.

Desprendeu-se brandamente das mãos com que a Jillian se prendera à lapela do seu casaco.

- A Heaven e eu tencionamos comprar a roupa que falta para o colégio hoje à tarde. Seria muito agradável vires connosco, seria um dia em grande, jantaríamos e poderíamos ir ao teatro ou ao cinema...

- Ohhh... - murmurou a Jillian, fitando-o nos olhos com ternura -, não sei...

- Claro que sabes - observou o Tony. - Os teus amigos podem passar sem ti. Afinal de contas, há anos que os conheces, enquanto a Heaven ainda tem muito para nos mostrar.

A Jillian ficou imediatamente enfastiada. Os seus olhos azuis desviaram-se para mim, como se tivesse esquecido a minha presença.

- Oh, querida, não te tenho ligado muita atenção, pois não? Porque é que um de vocês não me avisou a tempo? Realmente adoraria ir às compras contigo e com o Tony, mas pensei que já tinham terminado e fiz planos. Agora é demasiado tarde para cancelar. E se não aparecer no meu clube de brídege, aquelas mulheres traiçoeiras ainda me fazem em pedaços, o que não acontecerá se eu não faltar.

Fez menção de se aproximar de mim e beijar-me, mas lembrou-se, a tempo, da minha tosse. Estacou por um momento, aparentemente intrigada por algo. O que lhe chamou a atenção foi a minha cabeleira, que era difícil de controlar.

- Estás a precisar de um bom cabeleireiro - murmurou com ar distraído, baixando a cabeça para remexer no fundo da sua bolsa. Tirou desta um pequeno cartão. - Cá está, querida, é deste homem que precisas. É um génio em matéria de cabelos. O Mário é a única pessoa a quem permito que toque no meu. - Olhou de relance para um espelho de parede, levando a mão ao penteado, que ajeitou. - Nunca sejas atendida por uma cabeleireira. Os homens apreciam muito mais a beleza de uma mulher e parece saberem exactamente aquilo que é necessário para a realçar.

Lembrei-me da Kitty Dennison, que tivera um salão de cabeleireiro. A Kitty considerara-se a melhor em tudo e, na minha modesta opinião, tinha muita habilidade. No entanto, o seu cabelo grosso e arruivado fazia lembrar a cauda de um cavalo quando comparado com as madeixas sedosas da Jillian.

A Jillian sorriu e lançou mais um beijo ao Tony antes de flutuar porta fora, cantarolando a mesma melodia sem sentido que lhe saía quando se sentia feliz.

Os olhos do Tony estavam sombrios ao aproximar-se de uma janela para ver a Jillian afastar-se no automóvel conduzido pelo Miles, o jovem e bem-parecido motorista.

Ainda de costas para mim, principiou:

- Um dos aspectos que mais aprecio no Inverno é a neve e a prática do esqui. Estava a pensar em ensinar-te esse desporto quando a época começasse, tendo assim companhia. A Jillian não aprecia exercícios esforçados, os quais podem quebrar-lhe algum osso e provocar-lhe dor. O Troy gosta de esquiar, mas está sempre ocupado com as suas próprias idas e vindas.

Aguardei, ansiosa, que continuasse. O Tony pôs de parte o Troy e voltou à Jillian.

- A Jillian desiludiu-me com a sua falta de entusiasmo por tudo o que seja ao ar livre. Quando a conheci, fazia de conta que apreciava o golfe e o ténis, a natação e o futebol. Usava lindos fatos de ténis, embora eu nunca lhe visse uma raqueta na mão, e nem lhe passasse pela cabeça correr atrás de uma bola e ficar transpirada.

Naquele momento específico a visão da Jillian no seu fato preto era tão vívida que não fui capaz de a censurar por não querer prejudicar a sua perfeição frágil que, sem dúvida, não seria eterna. Eu não duvidava nem receava, limitava-me a não perder de vista um sonho que haveria de concretizar-se... e, se acreditasse com suficiente convicção, um dia a Jillian acabaria por olhar de verdade para mim, os seus olhos sorririam sinceramente e diria que me perdoava por ter posto termo à vida da minha mãe...

Duas semanas depois de chegar a Boston, estava inscrita em Winterhaven. Não voltara a ver o Troy mas era nele que pensava quando o Tony me abriu a porta do carro para eu sair e me indicou, com um gesto amplo, a elegante escola que era Winterhaven, aninhada no seu pequeno campus privativo de árvores despidas, cuja desolação as sempre-vivas atenuavam. O edifício principal, que era revestido por rijas tábuas de madeira pintada de branco, brilhava ao sol do princípio da tarde. Eu contara com uma construção em pedra ou tijoleira, não daquele género.

- Tony - exclamei -, Winterhaven faz lembrar uma igreja!

- Não cheguei a dizer-te que já o foi? - perguntou o Tony com um brilho divertido nos olhos. - Os sinos da torre anunciavam o passar de cada hora e os carrilhões tocavam melodias ao cair da noite. Às vezes, tem-se a impressão de que, quando o vento sopra de feição, aqueles sinos se ouvem em~toda a Boston. Imaginação, presumo.

Fiquei impressionada com Winterhaven, a sua torre com sinos, a série de edifícios mais pequenos, no mesmo estilo do principal.

- Estudarás inglês e literatura em Beecham Hall - informou o Tony, apontando para o edifício branco à direita do maior. - Todas as casas têm nomes e, como podes ver, formam um semicírculo. Ouvi dizer que existe uma passagem subterrânea que liga as cinco construções, para ser utilizada nos dias em que a neve dificulta a deslocação no exterior. Ficarás instalada no edifício principal, onde se encontram os dormitórios e os refeitórios, assim como a sala das assembleias... Quando entrarmos, todas as raparigas que ali se encontram mirar-te-ão da cabeça aos pés e formarão uma opinião. Portanto, mantém a cabeça bem erguida. Não lhes dês a impressão de que te sentes vulnerável, desajustada ou intimidada. A família VanVoreen vem do tempo de Plymouth Rock.

Naquela altura eu já sabia que VanVoreen era um apelido holandês, muito antigo e respeitado... mas eu nunca fora uma VanVoreen mas sim uma reles Casteel da Virgínia Ocidental. Os meus antecedentes perseguiam-me, lançando longas sombras que ameaçavam obscurecer o meu futuro. Bastar-me-ia cometer um erro para ter aquelas raparigas, dotadas de antecedentes "correctos", a troçar da minha verdadeira identidade. Nesse momento, pensei nas imperfeições que sempre achara em mim, ao ponto de me sentir ansiosa e começar a suar. Vestia demasiada roupa, camadas de roupa nova, uma blusa debaixo de uma camisola de lã, uma saia de lã e, por cima de tudo isso, um casaco de lã, que custara mil dólares! Cortara o cabelo num estilo moderno; portanto, usava-o agora mais curto do que nunca e, naquela manhã, os espelhos tinham-me mostrado que estava muito bonita. Mas então porque tremia?

Era por causa dos rostos que espreitavam das janelas, tinha de ser. Eram todos aqueles olhos a fixarem-se em mim, a observarem a recém-chegada. Vi o Tony fitar-me de relance antes de se apear e dar a volta ao automóvel para me abrir a porta.

- Mas que vejo eu? Vá, Heaven, apela ao teu orgulho. Não tens nada de que te envergonhar. Basta manteres o sangue-frio e pensares antes de responder para tudo correr bem.

No entanto, eu sentia-me demasiado em evidência, ali de pé, enquanto o Tony tirava as doze peças da minha bagagem do banco de trás e do porta-bagagens, de modo que virei-me e comecei a ajudá-lo.

- Que explicação deu à Jillian sobre isto? - perguntei-lhe, agarrando com ambas as mãos na minha malinha de cosméticos, a transbordar de materiais que eu nunca usara até ali.

O Tony sorriu, como se a Jillian fosse uma criança fácil de controlar.

- Na verdade, foi muito simples. Ontem à noite, disse-lhe que ia fazer por ti o que ela gostaria que eu fizesse por uma filha sua. A Jillian fechou a boca e afastou-se. Mas não fiques demasiado confiante pelo facto de ela estar mais ou menos resignada em ter uma neta que se intitula sobrinha. Ainda precisas de a conquistar. E quando ganhares aceitação neste colégio e junto dos seus amigos, ela quererá que fiques, que fiques eternamente, como tu tão poeticamente dizes.

Era muito estranho estar diante da concretização do segundo passo do meu sonho, ciente de que o primeiro ainda não se realizara totalmente. A minha avó de verdade ainda não me aceitara completamente. Sentia-se ludibriada porque eu viera lembrar-lhe o que queria esquecer... Mas um dia gostaria de mim. Eu iria fazer por isso. Um dia daria graças a Deus por eu ter transformado num dos objectivos da minha vida a minha intenção de ficar junto dela.

- Anda, Heaven - chamou o Tony, interrompendo os meus pensamentos, enquanto um empregado do colégio vinha buscar a minha bagagem num carrinho de mão. - Entremos e enfrentemos os dragões. Todos nós temos de dar cabo de uns quantos ao longo da nossa vida. Na sua maioria, são criados pela nossa imaginação. - Agarrou-me na mão e puxou-me pelos degraus íngremes acima. - Já te disse que estás linda? O teu novo corte de cabelo fica-te muito bem, Heaven Leigh Casteel. Estás uma rapariga muito bonita. Desconfio que também és bastante inteligente. Não me desiludas.

O Tony transmitiu-me confiança. O seu sorriso deu-me forças para subir aquela escadaria como se eu não tivesse feito outra coisa, ao longo da vida, senão frequentar colégios particulares ricos. Quando me vi dentro do edifício principal e olhei em volta, estremeci. Esperara algo semelhante a um elegante vestíbulo de hotel, mas o que tinha na minha frente era austero. Estava tudo muito limpo e os soalhos apresentavam-se impecavelmente encerados. As paredes, muito brancas,, exibiam frisos intrincadamente trabalhados em tom mais escuro. Para atenuar a rigidez das paredes brancas e espalhadas por aqui e ali, em cima de mesas e ao lado de cadeiras de costas altas de aspecto pouco cómodo, viam-se fetos envasados e outras plantas domésticas. Dali, via-se uma sala de recepção que era um pouco mais acolhedora, com uma lareira, sofás e cadeiras forradas em tecido de algodão estampado, cuidadosamente dispostas.

O Tony não tardou a conduzir-me ao gabinete da directora, uma mulher robusta e afável, que nos presenteou a ambos com um sorriso rasgado e simpático.

- Bem-vinda a Winterhaven, Miss Casteel. É uma honra e um privilégio ter uma neta do Cleave VanVoreen no nosso colégio. - Piscou conspirativamente o olho ao Tony. - Não se preocupe, querida, eu manterei a sua identidade secreta, não direi a ninguém quem realmente é. Referirei apenas que o seu avô era um homem notável. Um privilégio para quem, de entre nós, o conheceu.

Acolheu-me, por breves instantes, nos braços maternais, antes de me afastar e mirar.

- Tive oportunidade de conhecer a sua mãe, quando Mister VanVoreen a trouxe cá para se inscrever. Lamento muito que já não esteja entre nós.

- Agora passemos à fase seguinte - urgiu o Tony, olhando de relance para o relógio. - Tenho um compromisso para daqui a meia hora e faço questão em acompanhar a Heaven ao seu quarto.

Soube bem tê-lo ao meu lado enquanto descíamos as escadas altas, sentindo os passos suavizados por uma passadeira verde-escura. Ao longo da parede alinhavam-se retratos emoldurados de antigos professores, atraindo ocasionalmente o meu olhar atónito. Como todos pareciam frios, puritanos... e como os seus olhos se assemelhavam, dando a impressão de poderem ver, mesmo então, todo o mal naqueles que passavam.

Por trás de nós, ou melhor, a toda a nossa volta, ouviam-se ténues e inúmeras risadas femininas. Contudo, sempre que olhava para trás, não via ninguém.

- Cá estamos! - exclamou a Helen Mallory alegremente, abrindo uma porta que dava acesso a um lindo quarto. É o melhor quarto do colégio, Miss Casteel. Escolhido para si pelo seu "tio". Quero que saiba que poucas alunas podem dar-se ao luxo de dispor de um quarto privativo, ou mesmo de o desejarem, mas Mister Tatterton fez questão. A maioria dos familiares acha que as raparigas novas preferem ficar em grupo, mas ao que parece não é o que acontece consigo.

O Tony entrou no quarto e passou uma vista de olhos por todos os pormenores, abrindo gavetas de cómodas, inspeccionando o guarda-roupa amplo, sentando-se nas duas poltronas antes de se instalar a uma secretária de estudante e sorrir-me.

- Bem, que tal achas, Heaven?

- É uma maravilha - sussurrei, olhando, completamente deslumbrada, para as prateleiras de livros que em breve esperava encher. - Não contava com um quarto só para mim.

- Do bom e do melhor - brincou o Tony. - Não foi o que te prometi? - Pôs-se de pé e acercou-se rapidamente de mim, inclinando-se para me depositar um beijo na face. Boa sorte. Trabalha bastante. Se precisares de alguma coisa, liga para o meu escritório ou lá para casa. Já disse à minha secretária para passar sempre as tuas chamadas. Chama-se Amélia.

Dito isto, puxou da sua carteira e, para grande surpresa minha, colocou-me várias notas de vinte dólares na mão.

- Dinheiro de bolso.

Fiquei pregada no mesmo sítio com o dinheiro na mão, vendo-o sair porta fora. Verifiquei, admirada, que sentia um baque no coração e uma sensação de enjoo no estômago. Assim que a Helen Mallory teve a certeza de que o Tony já não nos podia ouvir, a sua expressão perdeu a brandura, os seus modos maternais desapareceram, e examinou-me com um olhar duro e calculista, analisando-me, calculando o meu carácter, as minhas fraquezas e pontos fortes; a julgar pelo seu ar desdenhoso, não me considerou à altura das suas expectativas. O facto não devia ter-me chocado; no entanto, foi o que aconteceu. Até mesmo o seu tom de voz baixo e macio ganhou rudeza e aumentou de volume.

- Contamos com que as nossas alunas tenham excelente aproveitamento académico e obedeçam religiosamente às nossas regras, que são muito rígidas. - Tirou-me o dinheiro da mão sem a menor cerimónia e contou rapidamente as notas. - Guardar-lhe-ei este dinheiro no cofre, de onde pode retirá-lo às sextas-feiras. Não gostamos que as nossas alunas tenham dinheiro no quarto, onde pode ser roubado. A sua posse cria muitos problemas.

Os meus duzentos dólares desapareceram dentro do seu bolso.

- Quando a sineta tocar às sete da manhã dos dias de semana - prosseguiu -, terá de se levantar e vestir o mais rapidamente possível. Se tomar banho ou duche na véspera à noite, não precisará de o fazer de manhã. Sugiro-lhe que adopte esse hábito. O pequeno-almoço é às sete e meia, no piso principal. Encontrará tabuletas a indicar-lhe os vários destinos.

Tirou um pequeno cartão do bolso da saia de lã escura, que me entregou.

- Tem aí o seu horário de aulas. Fui eu própria a organizá-lo, mas se o achar demasiado difícil de seguir, basta falar comigo. Nós aqui não temos favoritismos. Terá de conquistar o respeito dos seus professores e colegas. Há uma passagem subterrânea que liga os edifícios entre si. Só deverá utilizar esse túnel nos dias em que estiver muito mau tempo. Caso contrário, irá lá por fora, onde o ar fresco lhe fará bem aos pulmões. Chegou cá durante a hora de almoço, mas o seu tutor disse que almoçaram antes de vir.

Fez uma pausa, olhando para o topo da minha cabeça enquanto esperava pela minha confirmação.

Só depois de a ter é que se virou e olhou para as doze dispendiosas peças de bagagem. Pareceu-me ver desprezo no seu rosto... Ou talvez inveja, não saberia dizer.

- Em Winterhaven ninguém ostenta a sua riqueza usando roupa cara - continuou. - Espero que tenha isso presente. Até há bem poucos anos, as nossas alunas eram obrigadas a andar de uniforme. Isso tornava tudo mais simples. Mas as raparigas protestaram e os patronos do nosso estabelecimento deram-lhes razão, de modo que agora usam o que lhes apetece. - Voltou a fitar-me com olhar distante e cauteloso. - O almoço é servido ao meio-dia para as duas classes mais atrasadas e as restantes alunas comem ao meio-dia e meia. Deve apresentar-se pontualmente a todas as refeições, caso contrário, ficará sem elas. Foi-lhe atribuída uma mesa, mas só mudará de lugar se as ocupantes de alguma outra a convidarem para junto delas ou lhes pedir que façam ao contrário. Cada estudante servirá às mesas uma semana em cada semestre. O serviço é rotativo e a maioria das estudantes não levanta objecções.

Aclarou a voz a fim de poder prosseguir.

- Não queremos que as nossas alunas guardem alimentos nos seus quartos ou levem a cabo festas secretas à meia-noite. Tem autorização para ter um rádio, um gira-discos ou um leitor de cassetes, mas não uma televisão. Se for apanhada com bebidas alcoólicas, e isso inclui a cerveja, receberá uma repreensão. Três repreensões num semestre e será expulsa, reembolsando-se apenas um quarto das propinas. A hora de estudo é das sete às oito da noite. Das oito às nove podem ver televisão na nossa sala de convívio. Não verificamos as vossas leituras mas não aprovamos a pornografia, de modo que receberá uma repreensão se lhe encontrarmos algum material desse tipo. Algumas das nossas alunas gostam de se entreter com jogos como o brídege e o gamão, mas as apostas em dinheiro não são permitidas. Se for encontrado dinheiro nalguma mesa de jogo, todas as participantes receberão castigos e repreensões. Oh, já me esquecia de informar que todas as repreensões são acompanhadas de castigos condizentes. Determinamo-los de acordo com as faltas. O seu sorriso passou de azedo a afectuoso. - Espero que nunca seja necessário castigá-la, Miss Casteel. E as luzes apagam-se às dez em ponto.

Dito isto, deu meia volta e saiu do quarto.

E não me dissera onde ficava a casa de banho!

Mal a vi pelas costas, inspeccionei o quarto à procura de uma casa de banho, começando por uma porta à qual ela não se referira. Estava fechada à chave. Sentei-me a ler o horário das aulas. Aula de inglês às oito, em Elmhurst Hall. Porém, a necessidade de ir à casa de banho tornou-se imperiosa.

Deixei todas as malas no chão do quarto, saindo pelo corredor em busca de indicações. Os sussurros e as risadinhas que anteriormente ouvira haviam desaparecido. Sentia-me completamente sozinha no segundo andar. Tentei três corredores antes de, por fim, avistar uma pequena placa metálica que dizia "Lavabos".

Empurrei a porta de balanço e entrei numa vasta divisão onde se viam lavatórios brancos alinhados ao longo de toda uma parede, com espelhos em frente. O pavimento era em mosaicos pretos e brancos. As paredes, em cinzento-claro, amenizavam todo aquele branco e preto; quando saí de um dos reservados, de tive-me a observar o que me rodeava. Num outro compartimento havia doze banheiras, ao lado umas das outras. A seguir havia outra sala com chuveiros alinhados em pequenos espaços individuais sem porta, com excepção de um. Por trás de portas envidraçadas, viam-se prateleiras com centenas de toalhas brancas impecavelmente dobradas. Decidi, naquele mesmo instante, passar a tomar duches, não banhos de imersão.

Antes de sair dos lavabos, apalpei a terra das plantas envasadas e, como a achei ressequida, reguei-as a todas com um pouco de água, hábito que ganhara quando vivera com a Kitty Dennison.

Voltei ao meu quarto e desfiz rapidamente as malas, arrumando cuidadosamente a minha linda roupa interior na cómoda. A seguir, dei nova vista de olhos ao meu horário. Às duas e meia da tarde deveria apresentar-me no Sholten Hall para a minha aula de sociologia. A primeira aula que teria em Winterhaven.

Não tive grande dificuldade em encontrar o Sholten Hall, de modo que, envergando a fatiota que o Tony me sugerira para a minha primeira aula, só hesitei em frente da porta da sala; depois, sustendo a respiração e erguendo bem a cabeça, empurrei-a e entrei. Tive a impressão de que estavam à minha espera. Todas as raparigas se viraram na minha direcção, e os quinze pares de olhos fixaram-se em todos os pormenores da minha roupa, antes de se deterem no meu rosto; depois voltaram a desviar-se para a professora, que se encontrava sentada à sua secretária.

- Entre, Miss Casteel. Temos estado à sua espera. - Olhou de relance para o seu relógio. - Por favor, amanhã tente ser pontual.

Somente as carteiras da frente estavam desocupadas e eu senti que era o centro de todas as atenções ao dirigir-me para a mais próxima, na qual me sentei.

- Chamo-me Powatan Rivers, Miss Casteel. Miss Bradley, agradeço que forneça a Miss Casteel os livros de que precisamos para esta aula. Espero, Miss Casteel, que tenha vindo equipada com as suas próprias canetas, lápis, cadernos, e tudo aquilo de que precisa...

O Tony dera-me tudo o que era necessário, de modo que pude acenar afirmativamente com a cabeça e aceitar os livros de sociologia, que coloquei em cima do meu material impecavelmente arrumado. Sempre tivera muito orgulho nos livros e na diversidade de objectos que fazem parte da vida escolar e, pela primeira vez na minha vida, dispunha de tudo quanto um estudante poderia desejar.

- Gostaria de falar um pouco de si aos seus colegas, Miss Casteel?

A minha mente ficou completamente em branco. Não! O que eu menos queria era colocar-me em frente da classe e contar-lhes o que quer que fosse!

- É costume, Miss Casteel. As nossas caloiras fazem-no. Especialmente aquelas que provêm de outras áreas do nosso vasto e belo país. Ajuda todos nós a compreendê-la melhor.

A professora aguardou com expectativa, enquanto todas as raparigas se inclinavam para a frente, fazendo-me sentir os seus olhos cravados nas minhas costas. Levantei-me cheia de relutância, dei os poucos passos que me levaram até à frente da sala e foi então que, ao ver as outras raparigas, me apercebi do erro em que o Tony caíra ao escolher o tipo de roupa para eu usar! Ninguém andava de saias! Todas tinham calças ou blue jeans e, na parte de cima, camisas ou blusões descuidados e largueirões. O coração caiu-me aos pés, pois aquele era o género de roupa que todos os jovens costumavam usar na escola em Winterhaven! Eu contara que ali, naquele colégio elegante, as coisas fossem mais delicadas e bonitas.

Tive de passar várias vezes a língua pelos lábios, que tinham ficado ressequidos. As minhas pernas traíram-me e começaram a tremer. Recordei as instruções do Tony.

- Nasci no Texas - principiei com voz trémula e hesitante. - Mais tarde, aos dois anos, mudei-me para a Virgínia Ocidental com o meu pai. Fui criada lá. O meu pai adoeceu e a minha tia convidou-me a ir viver com ela e o marido.

Voltei apressadamente para o meu lugar e sentei-me. Miss Rivers aclarou a voz.

- Miss Casteel, antes da sua chegada, deram-me o seu nome para eu o inscrever nos nossos registos. Importa-se de nos contar a origem do seu extraordinário nome próprio?

- Não compreendo o que quer saber...

- As meninas estão interessadas em saber se tem algum parente com esse nome...

- Não, miss Rivers, puseram-me um nome igual ao daquele lugar para onde todos nós esperamos ir mais tarde ou mais cedo...

Atrás de mim, várias raparigas começaram a bichanar. O olhar de miss Rivers endureceu.

- Muito bem, Miss Casteel. Desconfio de que só na Virgínia Ocidental é que há pais com ousadia suficiente para desafiar os poderes supremos. E agora abramos o nosso livro oficial do governo na página duzentos e doze e prossigamos a lição de hoje. Miss Casteel, como este semestre iniciou as suas aulas mais tarde, contamos que se ponha em dia até ao final da semana. Todas as sextas-feiras farão um exame para provar o que aprenderam. E agora, meninas, comecemos a aula de hoje com a leitura das páginas duzentos e doze a duzentos e quarenta e dois, e quando terminarem, fechem os livros e guardem-nos dentro das carteiras. Iniciaremos então o debate.

O ensino era mais ou menos o mesmo em todo o lado, como depressa descobri. Páginas para ler, perguntas no quadro para copiar. Excepto que aquela professora estava muito bem informada sobre a maneira como o nosso Governo funcionava, mostrando-se igualmente bem inteirada sobre aquilo que não estava bem. Escutei-a com interesse, dominada pela paixão que manifestava por aquele tema e quando, de repente, se calou, senti vontade de aplaudir. Era fantástico que soubesse tanto acerca da pobreza! Sim, no nosso país rico e abundante havia pessoas que iam para a cama com fome. Sim, milhares de crianças eram privadas de direitos que lhes deviam ser inerentes: o direito de dispor de alimentos suficientes tanto para o corpo como para o espírito; roupa suficiente para não passar frio; habitação que as abrigasse das intempéries; repouso suficiente em camas confortáveis, para que não se levantassem com olheiras depois de dormir no chão duro, sem cobertores suficientes; e, acima de tudo, pais com idade e capacidade de discernimento suficientes para lhes proporcionar tudo isso.

- Portanto, como é que começamos a corrigir tudo o que está errado? Como é que sustemos a ignorância, quando os ignorantes não parece importarem-se com o facto de os filhos ficarem prisioneiros, ou não, nas mesmas circunstâncias miseráveis? Como agir para que aqueles que se encontram em lugares de chefia olhem pelos carenciados? Reflictam sobre isso esta noite e, se encontrarem soluções, transponham-nas para o papel e apresentem-nas amanhã na aula.

O dia acabou por passar sem problemas. Nenhuma das raparigas me abordou para fazer perguntas, embora todas me fitassem, desviando apressadamente o olhar quando este se cruzava com o meu. Às seis horas dessa tarde, sentei-me a uma mesa redonda coberta por uma impecável toalha branca, e vi no centro da mesa um pequeno jarro em prata contendo uma única rosa vermelha. Uma das raparigas de serviço tomou nota do que eu pedi depois de consultar uma pequena ementa, e afastou-se a fim de atender uma das outras mesas, onde jovens, em grupos de quatro ou cinco, tagarelavam animadamente, fazendo o refeitório ressoar com as vozes alegres. Eu era a única rapariga na sala com uma rosa vermelha na mesa e só quando me apercebi do facto é que reparei num pequeno cartão junto da flor, que dizia: "Boa-sorte. Tony."

Todos os dias, de segunda a sexta, havia uma rosa vermelha na minha mesa. E todos os dias aquelas raparigas ignoravam a minha existência. Que erro estaria eu a cometer além de vestir um tipo de roupa diferente? Não trouxera jeans, calças, camisas ou camisolões velhos comigo. Tentei sorrir, corajosamente, às jovens que olhavam para mim, na esperança de atrair a sua atenção. Mal reparavam nos meus esforços; todas faziam de conta que não me viam! Foi então que imaginei o que acontecera. Fora traída pelas minhas ideias sobre a fome na América. A paixão que eu tinha pelo tema da pobreza dera-lhes mais informações sobre mim do que eu alguma vez poderia fazer. Eu estava excessivamente bem informada. Ficara demasiadas noites acordada em certa cabana nos montes a tentar encontrar respostas para salvar todos os pobres do mesmo destino miserável dos seus antepassados.

Recebi um "bom" pelo meu trabalho sobre a pobreza na América. Um começo muito auspicioso. Porém, traíra-me. Agora, todos estavam a par dos meus antecedentes, caso contrário, eu não poderia saber tanto sobre a matéria. Desejei mil vezes não ter sido tão factual e ter optado por uma solução como a de uma outra rapariga, que sugeriu: "Todos os ricos deviam adoptar, pelo menos, uma criança pobre."

Sozinha no meu lindo quarto, na minha cama estreita, escutava as risadinhas que chegavam dos outros quartos. Sentia o cheiro a torradas e a queijo fundido; ouvia o entrechocar de copos de vidro, de talheres e das gargalhadas "enlatadas" das comédias ao vivo da televisão. Nenhuma das raparigas tomou a iniciativa, nem uma vez, de bater à minha porta fechada a convidar-me para participar numa das festas proibidas. Tão-pouco alguma delas foi interrompida por professoras iradas com a quebra das regras.

A julgar pelas histórias fantásticas que ouvira, a maioria daquelas jovens já passeara fartamente por todo o mundo, sentindo-se já entediadas com cidades que ainda me faltava conhecer. Três delas tinham sido expulsas de colégios particulares na Suíça devido a romances amorosos, duas tinham sido afastadas de escolas americanas por tomarem bebidas alcoólicas, duas outras por se drogarem. Todas diziam palavrões piores do que aqueles que eram habituais nos pacóvios embriagados dos bailaricos de celeiro, e eu ia recebendo, através da parede, um género diferente de educação sexual, dez vezes mais chocante do que tudo o que a Fanny alguma vez fizera.

Depois, certo dia, quando eu me encontrava nos lavabos, no único cubículo que tinha porta, ouvi-as falar sobre mim. Não me queriam na "sua" escola. Eu não era do seu "nível".

- Ela não é quem faz de conta que é - sussurrou uma voz que eu aprendera a reconhecer como pertencendo à Faith Morgantile.

Não pretendia passar por outra pessoa que não fosse uma rapariga em busca de educação. Fiquei, portanto, cheia de ressentimento. Só esperava que, quando a minha provação chegasse, eu conseguisse sobreviver com a dignidade e o orgulho intactos.

De modo que ali, em Winterhaven, não obstante os meus antepassados VanVoreen, os meus laços com os Tatterton, a minha roupa excelente, o meu elegante corte de cabelo, os sapatos bonitos e as boas notas para as quais trabalhava afincadamente, eu era, como sempre me acontecera, uma estranha, desprezada e escarnecida. E o pior era que eu, logo desde o princípio, me traíra a mim mesma e ao Tony.

 

ESTAÇÕES EM MUDANÇA

Foi o Tony quem me foi buscar naquela primeira sexta-feira, encontrava-me eu no cimo da escadaria da frente de Winterhaven, rodeada de quinze raparigas que se fingiam muito amigas só para ele ver. Observaram-no enquanto estacionava o carro, soltaram variadas exclamações de admiração, ficaram de boca aberta, sussurraram e interrogaram-se, uma vez mais, por onde andaria o Troy.

- Quando é que nos convidas para ir a tua casa, Heaven? - perguntou a Prudence Carraway, a quem todos tratavam por Pru. - Ouvimos dizer que é perfeitamente fabulosa!

Ainda o Tony não saíra do carro para me abrir a porta, já eu descia as escadas para fugir àquelas raparigas.

- Até segunda, Heaven! - entoou um coro de vozes, a primeira vez que alguém, além das professoras, pronunciava o meu nome.

- Bem - observou o Tony sorrindo para mim e arrancando -, ao que vejo já fizeste muitas amigas. Isso é óptimo. Mas detesto os trapos desmazelados com que aquelas raparigas se vestem para as aulas. Porque farão tanto esforço para parecerem feias durante os melhores anos das suas vidas?

Percorremos vários quilómetros sem que eu proferisse uma palavra.

- Então, Heaven, fala-me do colégio - incitou o Tony. - As tuas caxemiras fizeram sucesso? Ou troçaram de ti por usares o tipo de roupa que as mães compram para elas mas que deixam em casa ou trocam por trapos em segunda mão?

- Elas fazem isso? - perguntei, sinceramente espantada.

- Foi o que ouvi dizer. Em Winterhaven, desafiar as professoras e contrariar os pais ou quem tiver autoridade é uma espécie de causa. É como uma das festas que se realizam em Boston para adolescentes, em que estes se esforçam por asseverar a sua independência.

Portanto, ele soubera exactamente, ao escolher todas as minhas saias, camisolas, blusas e camisas, o que me estava a fazer, ou seja, que eu sobressairia de entre as minhas colegas, tornando-me diferente. Ainda assim, continuei a abster-me de comentários.

Os seus modos fizeram-me perceber que não queria que eu me queixasse sobre algo que se tivesse passado. Eu fora atirada às feras e agora cabia-me a mim vencê-las. Não me incentivou a continuar a usar o que me comprara. Deixou nas minhas mãos desistir ou lutar contra a enorme pressão. Ao aperceber-me do facto, decidi jamais referir nenhuma das minhas dificuldades ao Tony. Enfrentá-las-ia sozinha, fossem quais fossem.

O Tony conduziu com rapidez até à Mansão Farthinggale e estávamos quase a chegar quando deixou cair a bomba.

- Surgiram-me uns negócios urgentes na Califórnia, de modo que partirei para lá domingo de manhã. A Jillian irá comigo. Se não estivesses já no colégio, levar-te-íamos connosco. Assim, o Miles levar-te-á à escola na segunda-feira de manhã e irá buscar-te na sexta à tarde. A Jillian e eu tencionamos voltar deste sábado a uma semana.

A notícia deixou-me de rastos! Não me apetecia nada ficar sozinha numa casa cheia de empregados que mal conhecia. Esforcei-me por não deixar que o Tony visse as lágrimas que, inesperadamente, me saltaram aos olhos. Que haveria de errado comigo para as pessoas me abandonarem com tanta facilidade?

- A Jill e eu compensaremos a negligência desta semana no dia de Acção de Graças e no Natal, que estão para breve - disse com o encantador ar de alegria que raramente exibia. - E eu dou-te a minha palavra de honra que vamos àquele concerto dos Pops quando eu voltar.

- Não precisa de se preocupar comigo - retorqui com determinação, não querendo que ele me achasse um empecilho, como acontecia com a Jillian. - Sei como me entreter.

O que, de facto, não correspondia à realidade. A Mansão Farthinggale ainda me intimidava. O único empregado com quem estava à vontade era o Rye whiskey. Mas se o visitasse demasiadas vezes na sua cozinha, talvez também se tornasse frio e indiferente. Quando chegasse a casa na sexta-feira à tarde e terminasse os meus trabalhos de casa, como me distrairia?

A manhã de sábado chegou, por fim, à Mansão Farthinggale, com os criados a correrem agitadamente de um lado para o outro no esforço de ajudarem a Jillian a preparar a bagagem para a viagem de uma semana. Ao encontrá-la no corredor do piso de cima, precipitou-se para mim a rir, abraçou-me e beijou-me, fazendo-me acreditar que talvez eu estivesse enganada, e ela, na verdade, gostasse e precisasse de mim. Depois desatou a bater palmas como uma criança radiante enquanto descíamos as escadas que iam dar à sala de estar.

- É uma pena não poderes vir connosco, mas quem pediu uns meses de escolaridade foste tu. Por isso deitaste a perder todos os planos deliciosos que eu tinha para ti.

Uns meses de escolaridade? Estaria ela a planear mandar-me embora? Não se importaria comigo nem um bocadinho? Ir até à Califórnia teria sido a concretização de mais um dos meus sonhos, mas naquela altura já me cansara daqueles que tivera quando era nova, ingénua e tola.

- Eu ficarei bem, Jillian, não se preocupe comigo. Esta casa é maravilhosa, e tão grande que ainda não tive possibilidade de a conhecer em pormenor.

Nem a Jillian nem o Tony me estavam a ligar a menor atenção e eu sentia-me tão magoada no meu íntimo que tive vontade de retribuir um pouco na mesma moeda; portanto, precipitei-me e fui estúpida: resolvi ir visitar o Logan.

- Além disso - acrescentei -, esta tarde tenciono ir a Boston.

- Que planos fizeste para esta tarde? - perguntou a Jillian. - Francamente, Heaven, então tu não sabes que o sábado é o nosso dia, a altura em que podemos estar todos juntos?

Até ali ainda não dera por nada disso pois só convivera com pessoas muito mais velhas do que eu, cujos temas de conversa nada tinham a ver comigo. Sentira-me tão necessária como um candeeiro ao meio-dia.

- Achei que hoje à noite podíamos dar uma espécie de festa de despedida naquele pequeno cinema encantador que restaurámos há pouco, mesmo à direita da piscina. Podíamos passar um filme antigo. Detesto as fitas modernas. A maneira como mostram pessoas despidas a fazer amor embaraça-me. Para tornar tudo mais agradável, até não seria má ideia convidarmos alguns amigos.

Porém, a Jillian não devia ter falado em convidar terceiros. Estes só viriam estragar o carácter especial da nossa última noite juntos em toda a semana.

- Desculpe, Jillian, mas realmente pensei que hoje à noite preferisse recolher cedo, para estar repousada quando chegasse à Califórnia. Eu estarei bem e, se chegar a casa cedo, ainda cá encontrarei os seus convidados.

- Onde vais? - perguntou o Tony secamente. Estivera a dar uma vista de olhos pelo jornal da manhã; naquele momento olhava por cima deste com um ar muito desconfiado. - As únicas pessoas que conheces em Boston somos nós e os poucos amigos mais velhos que te apresentámos... Ou terão as raparigas de Winterhaven passado a considerar-te como amiga? Isso parece improvável. - Ergueu uma sobrancelha. - Ou será que tencionas encontrar-te com algum rapaz?

Como acontecia sempre que me magoavam, o meu orgulho corria imediatamente para a linha da frente. Claro que fizera muitas amigas em Winterhaven... Ou pelo menos sê-lo-iam mais cedo ou mais tarde.

- Uma das minhas colegas convidou-me para a sua festa de aniversário. Vai ser no Red Feather.

- Como se chama ela?

- Faith Morgantile.

- Conheço o pai. É um malandro, embora a mãe não pareça má pessoa... Ainda assim, o Red Feather não é o tipo de lugar que eu escolheria para a festa de anos de uma filha minha.

Continuou a mirar-me da cabeça aos pés, até eu sentir o suor a despontar-me nas axilas.

- Não me desiludas, Heaven - advertiu, voltando ao seu jornal. - Ouvi falar do Red Feather e das festas que lá dão. Os teus dezasseis anos tornam-te demasiado nova para começares a beber cerveja ou vinho ou de te lançares nalguma das iniciativas dos outros adultos que começam por brincadeiras inofensivas. Lamento mas não acho boa ideia tu ires.

O coração caiu-me aos pés.

O Red Feather ficava bastante perto da Universidade de Boston, onde o Logan Stonewall estudava.

- Além disso - continuou o Tony, que ainda não se calara -, dei ordens ao Miles para que não saísse contigo do recinto da propriedade antes de segunda-feira de manhã. Os empregados satisfarão todas as tuas necessidades. Se te fartares de estar dentro de casa, sempre podes dar uma volta por aí.

Nesse momento, a Jillian ergueu a cabeça, como se apenas tivesse ouvido a menção à volta fora de casa.

- Não vás às cavalariças! - exclamou. - Quero ser eu a apresentar-te os meus cavalos... os meus magníficos árabes. Fá-lo-emos quando eu voltar.

Há dias e dias que o prometia. Eu já deixara de acreditar nela.

Fora minha intenção escapulir-me e ir ao encontro do Logan, mas não poderia ser por ali. E se eles reunissem os amigos e passassem o filme, nunca dariam pela minha falta, nunca.

Os convidados começariam a chegar por volta das quatro da tarde para aquilo que a Jillian designou com o seu "Arranque para a festa da Califórnia". Eu sabia que ela continuava a pôr-me à prova, e muita coisa dependia da maneira como eu me saísse com aquele grupo em particular, visto incluir pessoas com maior influência que as outras que eu já conhecera até ali. Nessa altura, o Tony adiantou um dado. Todos tinham de ter um par na festa, o que me deixava de parte.

- Gostaria de te apresentar um jovem meu conhecido disse o Tony.

- Vais simpatizar com ele, querida - acrescentou a Jillian com a sua voz sussurrante, enquanto um homem extremamente bem-parecido lhe fazia um novo penteado.

Empoleirei-me numa cadeira delicada a observar as maravilhas que o cabeleireiro conseguia fazer com um pente, uma escova e a sua laca.

- Chama-se Ames Colton e tem dezoito anos. O pai foi eleito para o parlamento o ano passado. O Tony está convencido de que o John Colton acabará por chegar à Casa Branca.

Ouvir aquilo trouxe-me à lembrança o tom e o seu desejo de, um dia, também chegar à Casa Branca.

Porque não teria o tom respondido nem sequer a uma das minhas cartas? Estaria o meu pai a impedi-lo de o fazer? Ou ter-se-ia o tom desinteressado, agora que me sabia rica e muito bem entregue? O meu sustento sempre me fora dado pela minha família, razão para não me fazer desistir. Naquele momento sentia todos esses laços de afecto tornarem-se cada vez mais ténues e com tendência para desaparecer.

- Sê simpática com o Ames - sugeriu a Jillian com um toque de autoridade na voz. - E por favor esforça-te por não fazeres ou dizeres algo que nos embarace diante dos nossos amigos.

Era a primeira festa a sério da minha vida. Levei um belo vestido comprido novo até aos pés, de um azul-intenso, com o corpete bordado a pérolas azuis. Detive-me à porta, ladeada pela Jillian e pelo Tony. Este envergava um fraque e a Jillian um vestido branco refulgente, que me deixou deslumbrada.

- Não te esqueças de sorrir muito - aconselhou o Tony, quando os primeiros convidados começaram a entrar, acompanhados pelo Curtis.

O Ames Colton era razoavelmente simpático, muito ao contrário do Logan. Não tão excitante como o Tony. Na verdade, achei-o demasiado delicado para o meu gosto, e embaraçadoramente impressionado para uma pessoa como eu que estava meio morta de medo e tinha coisas a esconder. Se por acaso fiz algo de certo nessa noite, não consegui lembrar-me mais tarde. Deixei cair o guardanapo, e o meu garfo foi parar ao chão duas vezes! Quando me faziam perguntas sobre o meu passado e sobre os meus planos para continuar naquela casa, gaguejava. Como poderia eu responder se a Jillian estava sempre a olhar para mim com um ar receoso?

Para dar festas como aquela eram necessários muitos pratos e grande quantidade de talheres; a certa altura, quando a refeição chegou ao fim, o Curtis trouxe-me um tabuleiro de prata com uma pequena e elegante taça em cima. Aguardou em silêncio, enquanto eu ficava a olhar para o que parecia ser água com uma fatia de limão. Fiquei sem saber que fazer. Desesperada, ergui o olhar para o Tony, depois corei ao reparar no seu ar divertido e sarcástico. Vi-o então mergulhar, muito lentamente, a ponta dos dedos na água e depois limpá-los, ao de leve, no seu guardanapo.

Consegui chegar ao fim da noite sem cometer algum erro importante que denunciasse os meus antecedentes; apenas dei a conehcer a minha inexperiência social. Quando me pediam um parecer sobre alguma questão política, não sabia que dizer. Não tinha opinião formada sobre o estado da economia da nação. Não lera nenhum dos recentes best-sellers de Hollywood que contavam tudo; tão-pouco fora ao cinema recentemente. Esbocei sorrisos em vez de dar respostas e dei desculpas para fugir a assuntos e, na minha opinião, não fiz senão figura de parva.

- Saíste-te muito bem - observou o Tony, entrando no meu quarto estava eu a escovar o cabelo. - Todos comentaram sobre as tuas parecenças com a Jillian, o que não é de estranhar, já que as suas duas irmãs mais velhas são iguaizinhas a ela, embora não tão "bem conservadas" como ela, por assim dizer. - Assumiu uma expressão séria. - Agora diz-me, o que achaste dos nossos amigos?

Como poderia eu dizer o que pensava exactamente? Em certos aspectos, pareciam pessoas como quaisquer outras, apesar da roupa e do vocabulário cuidado. Algumas falavam demasiado e acabavam por revelar o pouco que tinham por dentro. Outras só ali estavam para causar boa impressão e tinham tão pouco para dizer quanto eu. Depois havia outras que tinham ido para comer e beber e contar mexericos sobre quem não podia ouvi-las.

- Se eles tivessem tocado violino, banjo e batido com os pés e vestissem roupa velha e coçada, poderiam perfeitamente passar por gente dos Willies - respondi eu com franqueza. - Aquilo que dizem é que as torna diferentes. Lá na terra de onde eu vim ninguém se importa com a política nem com a economia da nação. Poucas pessoas lêem algo mais além da Bíblia e de fotonovelas.

Pela primeira vez desde que o conhecera, o Tony riu com verdadeiro prazer e, ao sorrir, fê-lo com ar de aprovação, o que me animou consideravelmente.

- Quer então dizer que não ficaste impressionada com a roupa fina e os charutos caros. Isso é bom. Tens opiniões formadas, o que também é positivo. E dou-te toda a razão: não há homem de sucesso que não tenha as suas falhas.

Continuei sentada em frente do meu toucador, desejando, mais uma vez, ter tido um pai assim. O Tony compôs um ar sério antes de falar.

- Há pouco ouvi o boletim meteorológico a prever a nossa primeira queda de neve a sério. Contamos apanhar o avião no domingo bem cedo, antes de a tempestade se desencadear. Heaven, tem cuidado contigo durante a nossa ausência.

A preocupação do Tony enterneceu-me. O meu pai nunca dissera nada do género, como se pouco se importasse com o que pudesse acontecer-me.

- Desejo-vos uma boa viagem aos dois - disse, sentindo um nó na garganta.

- Obrigado. - O Tony sorriu de novo. Em seguida aproximou-se de mim e deu-me um beijo na testa, demorando um pouco a sua mão sobre o meu ombro. - Tens um ar muito adorável e fresco, aí sentada com essa tua camisa de dormir azul-clara. Não permitas que nada nem ninguém o arruine.

Nessa noite dormi pouco. A festa revelara-me o grande fosso existente entre os amigos da Jillian e do Tony e as pessoas no seio das quais eu fora criada. Éramos todos americanos; no entanto, dava a impressão de que nascêramos em mundos diferentes. E todo aquele desperdício de comida! Comida suficiente para alimentar dez das famílias que viviam nos montes!

O Ames Colton ter-me-ia telefonado no domingo se eu o tivesse encorajado a tal; porém, eu não o queria perto de mim. Ainda não desistira de me encontrar com o Logan.

De manhã cedo, ouvi o motor da limusina que se afastava, levando o Tony e a Jillian. Tentei adormecer novamente. Às seis horas continuava desperta, de modo que esperei que os criados se levantassem. Estes, no entanto, encontravam-se demasiado afastados para que eu os ouvisse a abrir o chuveiro, encher a banheira ou fazer correr a água na sanita das casas de banho. Por mais que cheirasse o ar não sentia o odor do bacon a fritar na cozinha e o aroma do café não chegava até tão longe. Bem, reflecti, se me sentisse demasiado só, sempre tinha o Rye whiskey.

As sete da manhã, a casa tinha um aspecto sombriamente vazio e solitário. Enquanto me vestia, senti o ar, tentando detectar algum rasto do perfume da Jillian, que ficava sempre a pairar nos corredores de cima. O pequeno-almoço que tomei na mesa imensa foi solitário, piorado pela presença do Curtis que, perto do buffet, estava preparado para se precipitar para mim e satisfazer algum desejo meu, quando o que me apetecia, na realidade, era ficar sozinha.

- Deseja mais alguma coisa, miss? - perguntou o Curtis, como se lesse os meus pensamentos.

- Não, obrigada, Curtis.

- Gostaria de algum prato em especial ao almoço e ao jantar?

- Qualquer coisa serve.

- Nesse caso direi ao chefe para preparar uma das ementas habituais de domingo.

A comida, desde que chegasse a horas, em quantidade suficiente, e com o seu habitual sabor delicioso, deixara de ter a importância que tivera ao princípio. O sumo de laranja espremido de fresco já deixara de me extasiar. As bananas ou os morangos frescos a acompanhar os cereais tinham deixado de ser novidade. No entanto as trufas, que o Tony adorava salpicar abundantemente sobre as minhas omeletas, continuavam a deliciar-me.

Fui até à biblioteca e deixei-me ficar, durante muito tempo, à janela, espraiando o olhar até ao labirinto. O vento começou a soprar com mais força e a assobiar ao de leve, fazendo com que os ramos das árvores arranhassem a casa. Por trás de mim, a lareira que crepitava, acesa, tornava a biblioteca onde eu tencionava passar o dia extremamente confortável... se não conseguisse encontrar forma de visitar o Logan. Este não respondera à minha carta, mas eu sabia em que dormitório vivia. Já experimentara a porta da garagem e verificara que estava fechada à chave. O Cal Dennison ensinara-me a guiar durante as ausências da mulher.

O Logan é que devia ter vindo ter comigo, pedindo-me explicações sobre o que acontecera com o Cal Dennison. Mas não, afastara-se rapidamente no meio da chuva, deixando-me no meio do cemitério, sem sequer me dar a possibilidade de explicar que o Cal fora, para mim, como um pai, o pai que eu sempre desejara ter. E para o conservar como meu pai e meu amigo eu seria capaz de qualquer coisa! Qualquer coisa!

Por cima das paredes do labirinto via-se subir uma fina cortina de fumo em espiral. Significaria que o Troy se encontrava na casa de pedra naquele dia? Sem pensar duas vezes, corri para o armário do corredor, calcei as minhas botas e vesti um casaco quente. Escapuli-me discretamente pela porta da frente, de modo a que nenhum dos empregados comunicasse ao Tony que eu quebrara a minha promessa e fora visitar propositadamente o seu irmão.

Dessa vez, foi fácil atravessar o labirinto; o que custou mais foi deter-me em frente da porta do Troy e bater. Este mostrou-se, mais uma vez, relutante em me deixar entrar, levando tanto tempo a atender que por pouco não dei meia volta e me fui embora. Então, de repente, a porta abriu-se e o Troy apareceu, não me sorrindo por me voltar a ver mas fitando-me, antes, com tristeza, como se lamentasse alguém condenado a cometer sempre o mesmo erro.

- Quer dizer que voltou - disse o Troy, afastando-se para o lado e fazendo-me sinal para que entrasse. - O Tony assegurou-me de que não voltaria a aparecer por aqui.

- Vim pedir-lhe um favor - disse eu, embaraçada pela sua indiferença. - Preciso de ir à cidade hoje e o Tony deu ordens ao Miles para que não me levasse a lado nenhum. Se eu pudesse utilizar o seu carro...

O Troy já se sentara e começara a manusear os pequenos objectos que tinha em cima da sua bancada de trabalho. Lançou-me um olhar surpreendido.

- A Heaven, uma rapariga de dezasseis anos? Quer ir a guiar até Boston? Conhece o caminho? Tem carta de condução? Não, parece-me que, para sua própria segurança e dos outros, o melhor que tem a fazer é manter-se afastada das auto-estradas cobertas de gelo.

Oh, como doía deixá-lo acreditar que eu ainda tinha dezasseis anos quando, na realidade, já completara os dezassete! Além disso eu conduzia bem, pelo menos na opinião do Cal. Em Atlanta, as raparigas da minha idade já podiam obter a carta de condução. Sentei-me sem esperar pelo convite, ainda de casaco vestido, e esforcei-me por não chorar.

- Andam a fazer grandes limpezas em Farthy - observei com voz sumida. - São os preparativos para todas as festividades que se aproximam. Limpam os vidros e os peitoris das janelas, esfregam e enceram os soalhos, limpam o pó e aspiram, e o cheiro a amónia chega mesmo a enfiar-se por baixo da porta da biblioteca onde eu tencionava passar o dia todo.

- São as limpezas das festas, que decorrem nesta altura do ano - observou ele, fitando-me com um ar divertido. - Tal como a Heaven, detesto as casas reviradas de cabeça para baixo. Um dos prazeres de quem vive numa casa pequena como esta é não precisar de criados que invadam a sua privacidade. Quando ponho uma coisa no sítio, sei que ficará lá até eu a mudar.

Aclarei a voz, recompus-me e em seguida voltei a abordar o objectivo da minha visita.

- Já que não me empresta o seu carro, importava-se de me levar à cidade?

O Troy servia-se de uma minúscula chave de parafusos para apertar pernas em miniatura a corpos muito diminutos. A atenção que ele dedicava àqueles bonecos!

- Porque precisa de ir à cidade?

Se eu lhe contasse a verdade, iria ele transmiti-la ao Tony mal este voltasse? Fiquei sentada, tensa, a reflectir, enquanto analisava o rosto do Troy, que era um dos mais sensíveis que eu já vira. E, como todas as experiências passadas me haviam levado a concluir, somente aqueles que se mostravam completamente insensíveis eram cruéis.

- Tenho uma confissão para lhe fazer, Troy. Sinto-me muito só. Não tenho ninguém com quem partilhar os meus sucessos, excepto o Tony. A Jillian não quer saber do que faço ou deixo de fazer. Tenho uma amiga que anda na Universidade de Boston e que eu gostaria de visitar.

O Troy voltou a olhar-me de relance, aparentemente de sobreaviso, como se alguém estivesse a querer levá-lo mas ele não desejasse que tal acontecesse.

- Não pode esperar por outro dia qualquer, quando estiver em Winterhaven? A Universidade de Boston fica perto.

- Mas eu preciso de alguém que me compreenda! Alguém que se lembre dos velhos tempos.

O Troy nada disse, limitando-se a ficar como estava, com ar pensativo, enquanto a neve batia suavemente contra os vidros das amplas janelas da sua casa de pedra. Depois sorriu, o que lhe iluminou os olhos escuros e fê-los brilhar.

- Está bem, levá-la-ei aonde quer, mas dê-me meia hora para terminar o que estou a fazer. Depois iremos... mas descanse que não direi ao Tony que está a quebrar uma das suas regras.

- Ele contou-lhe?

- Sim, claro que me contou que a proibiu de me visitar. Mas eu também não sou muito bem-vindo a Farthy, por causa da Jillian.

- A Jillian não gosta de si? - perguntei, pensando que a minha avó só podia ser louca em não gostar de uma pessoa tão extraordinária como o Troy.

- Já lá vai o tempo em que eu me preocupava muito com o que a Jillian pensava de mim. Depois descobri que, na realidade ninguém sabe ao certo o que se passa na cabeça dela. Nem sequer sei se ela capaz de gostar tanto de algo como da sua imagem. Mas é esperta. Nunca subestime a sua esperteza.

Fiquei estupefacta. E, no entanto, o Troy esclarecera muitos pontos.

- Mas porque é que o Tony não quer que nós dois nos tornemos amigos?

Dirigiu-me um sorriso melancólico e auto-escarnecedor.

- O meu irmão pensa que eu sou uma influência nociva para quem fique a gostar demasiado de mim. E, claro, eu também acho que o sou. Portanto, não se apegue demasiado a mim, Heavenly.

Ao ouvi-lo tratar-me por Heavenly, tal como o tom sempre fizera, sobressaltei-me.

- Ah, o Troy é demasiado velho para que eu goste demasiado de si! - exclamei com jovialidade. - vou num instante a casa mudar de roupa!

Antes que o Troy pudesse voltar a falar e, quem sabe, mudar de ideias, saí porta fora e corri por entre o labirinto, até chegar à casa grande. O barulho das máquinas de limpeza no seu interior disfarçaram os meus passos, permitindo-me subir as escadas sem que ninguém desse por mim. Ao chegar ao meu quarto vesti a roupa que achei que melhor me ficava. Passei um pouco de pó-de-arroz pelo rosto, apliquei um pouco de bâton e pus perfume. Agora estava pronta para me encontrar com o Logan Stonewall. Se me visse assim vestida, jamais me reconheceria.

O Troy não deu a menor importância à maneira como eu ia vestida. Conduziu descontraidamente o seu Porsche, falando pouco. Porém, eu perdera a timidez e extravasava de felicidade. Ia ter com o Logan. Apesar de este estar desiludido comigo, perdoaria e esqueceria, recordando apenas a doçura do nosso jovem romance, os tempos em que passeáramos pelos montes, nadáramos juntos no rio e partilháramos tantos planos para o nosso futuro, ao lado um do outro.

Só ao chegarmos à entrada da Universidade de Boston é que o Troy falou:

- Presumo que essa sua amiga seja antes do sexo masculino, não?

Sobressaltada, olhei para ele.

- O que o leva a chegar a essa conclusão?

- A sua roupa, o perfume e o bâton.

- Não me pareceu que tivesse dado por isso.

- Não sou cego.

- Ele chama-se Logan Stonewall. Está a tirar o curso de Farmácia, para agradar ao pai, mas o que na verdade quer ser é bioquímico.

- Espero que esteja a contar consigo.

Sobressaltei-me novamente pois, de facto, o Logan não fazia a menor ideia de que eu ia vê-lo.

Quis o acaso e a boa sorte que, mal parássemos diante do dormitório do Logan, eu o visse a passar com dois outros rapazes da sua idade. Saí apressadamente do carro para não o perder de vista.

- Obrigada por me ter trazido! - disse ao Troy pela janela. - Pode voltar para casa. Tenho a certeza de que o Logan me levará de carro.

- Ele tem carro?

Ia a pé.

- Não faço ideia.

- Nesse caso ficarei por aqui um pouco mais, a fim de ter a certeza de que tem boleia para casa. - Indicou, com a cabeça, um pequeno café. - Estarei além. Assim que tiver a certeza de que ele a leva, avise-me.

Seguiu para o café enquanto eu caminhava em direcção ao Logan, contando surpreendê-lo e deliciá-lo com o meu novo visual.

Vi-o entrar no drugstore que ficava no outro lado da rua para fazer uma compra. Agora já sem saber muito bem como agir, reparei que estava a pagar. O Logan continuava na mesma, alto, de costas direitas e ombros empertigados, sem se virar para as raparigas que passavam e que eram muitas. Aceitou o embrulho e depois encaminhou-se para uma porta lateral que o conduziria ao exterior.

- Logan! - gritei, acelerando ligeiramente a passada.

- Não saias! Preciso de falar contigo!

O Logan voltou-se para trás e olhou na minha direcção... E não é que não me reconheceu?! Olhou através de mim com uma expressão de tédio nos olhos cor de safira. Talvez fosse o penteado curto e moderno e a maquilhagem que eu aprendera a aplicar habilmente, ou, quem sabe, o casaco de pele de castor que a Jillian me oferecera, que o fizera passar o olhar duas vezes por mim sem me identificar.

E antes que eu pudesse tomar uma decisão sobre o que fazer, abriu a porta lateral, deixando o vento forte agitar a capa das revistas, e saiu para o meio da neve, caminhando com tanta rapidez que eu percebi imediatamente que já não seria capaz de o apanhar. Possivelmente, até fizera de conta que não me reconhecera.

Tomando uma atitude tola como muitas vezes me acontecia, aproximei-me do balcão do drugstore e mandei vir uma chávena de chocolate quente. Tomei a bebida quente em pequenos goles, acompanhando-a com duas bolachas de baunilha. Só depois de ver que passara tempo suficiente para uma conversa demorada e séria é que paguei a conta e preparei-me para sair.

A maneira como o Troy se levantou imediatamente, e me sorriu, foi simpática.

- Levou imenso tempo. Já estava a ver que, afinal de contas, esse homem do seu passado a levaria a casa.

Puxou uma cadeira para mim, ajudou-me a tirar o casaco de peles e eu, em seguida, sentei-me.

- Teria sido simpático trazê-lo até aqui para mo apresentar.

Baixei a cabeça.

- O Logan Stonewall é de Winnerrow e o seu irmão ordenou-me que cortasse relações com todos os meus velhos amigos.

- Eu não sou o meu irmão. Gostaria muito de conhecer os seus amigos.

- Oh, Troy - exclamei, soltando um pequeno soluço, ao mesmo tempo que baxava a cabeça e não conseguia conter as lágrimas. - O Logan olhou para mim sem me ver. Teve o descaramento de fazer de conta que nem sequer me conhecia. Fitou-me directamente nos olhos e depois voltou-se e foi-se embora.

O Troy pegou-me nas mãos enluvadas, que apertou entre as suas, e falou-me num tom de voz doce e meigo.

- Heaven, já lhe ocorreu que realmente mudou muito? Já não é a mesma rapariga que chegou aqui no princípio de Outubro. Tem um penteado diferente. Agora usa maquilhagem, o que não acontecia antigamente. E essas botas de salto alto que traz acrescentam-lhe alguns centímetros à altura. Além disso, o Logan devia ir a pensar noutros assuntos, não lhe passando pela cabeça deparar-se-lhe uma velha amiga. Tome - acrescentou, puxando de um lenço branco limpo e entregando-mo. - E quando parar de chorar... depressa, espero, pois detesto ver uma mulher debulhada em lágrimas... aí talvez possa falar-me mais do Logan.

Depois de limpar as lágrimas e guardar o lenço do Troy na minha bolsa com a intenção de o lavar e passar mais tarde, chegou nova chávena de chocolate quente. Vi tanta bondade e compreensão nos olhos do Troy que, antes que percebesse o que estava a fazer, contei-lhe tudo desde o começo, partindo da altura em que o Logan me vira no drugstore do pai e a Fanny tivera a certeza de que ele estava a admirá-la a ela, não a mim; depois seguiu-se o modo como nos encontrámos no pátio da escola em Winnerrow; como ele fizera questão em pagar o almoço a quatro crianças Casteel esfomeadas.

- E quando começámos a namorar e ele me levava de casa à escola, senti-me a rapariga mais feliz do mundo. Ele não se parecia com os tipos rudes que pairavam à volta da Fanny. Era o rapaz mais diferente que eu já conhecera, decente e respeitador. Tencionávamos casar mal eu terminasse a faculdade. E agora não me conhece! - A minha voz subiu de tom, ligeiramente histérica. - E eu que precisei de tanta coragem para tomar esta iniciativa! Terei exagerado, Troy? Estarei demasiado diferente no casaco de pele de castor que a Jillian me deu, e com jóias a mais?

- Está linda - asseverou o Troy suavemente, pegando-me nas duas mãos. - Agora coloquemos o dia de hoje em perspectiva. O Logan não contava encontrá-la, pois não? A Heaven estava aqui, longe do ambiente em que ele se habituou a vê-la. Tão-pouco esperava encontrar-se consigo vestida dessa maneira. Portanto, faça-lhe um telefonema mais tarde e conte-lhe o sucedido. Depois, podem planear um encontro e tudo correrá bem.

- Ele não me perdoará! Nunca me perdoará! - solucei veemente e apaixonadamente. - Eu ainda não lhe contei tudo. Quando o meu pai vendeu os filhos por quinhentos dólares cada, aconteceu algo de muito mau. Primeiro, o Keith e a "Nossa" Jane foram comprados por um advogado e pela sua esposa. Seguiu-se a Fanny que, vendida ao reverendo Wayland Wise e ao contrário do Keith e da "Nossa" Jane, ficou muito contente por ir viver com um homem tão abastado. Depois, apareceu um lavrador rude, chamado Buck Henry, que se acercou do tom para lhe apalpar os músculos como se fosse um animal. O meu pai e o Buck Henry obrigaram o tom a ir à força. Eu fui vendida à Kitty e ao Cal Dennison, que viviam em Candlewick, na Jórgia. A casa deles em Candlewick era a mais bonita e limpa que eu já vira e havia sempre fartura de comer. Mas a Kitty queria uma escrava para a cozinha e uma criada que lhe mantivesse a casa impecável enquanto ela dirigia a sua loja de produtos de beleza. Trabalhava cinco dias por semana e, aos sábados, dava aulas de cerâmica, o que significava que o Cal passava mais tempo comigo do que com ela. Oh, era complicado porque eu costumava achar o Cal muito melhor pessoa do que o meu pai jamais fora. Comecei a considerá-lo como o meu próprio pai, o tipo de pai que sempre desejara ter e de que necessitava. Era alguém que me fazia companhia, gostava de mim, precisava de mim. Quando me comprava roupa e sapatos novos e muitos outros objectos que eu nem imaginava que precisasse, eu ia muitas vezes para a minha cama agarrada aos vestidos.

Qual rio indomável desencadeado pelas minhas lágrimas, a minha história brotou com todos os seus pormenores horríveis. Penso que a única área que deixei por revelar foi o ano exacto do meu nascimento. E muito antes de o meu relato chegar ao fim, dei-me conta de que o Troy se esquecera dos seus planos para aquele dia; em breve dirigimo-nos para a estrada que nos levaria de volta à Mansão Farthinggale. Passou sob os altos portões de ferro arqueados da entrada, fechando-os depois com o seu controlo remoto. Em seguida, enveredou por uma estrada que eu ainda não conhecia e percorreu um caminho serpenteante que foi dar à sua casa de pedra. A tarde cinzenta de Outono trouxe-me saudades dos montes e da rapariga inocente e confiante que eu fora.

O Troy não disse uma palavra até entrarmos em sua casa, indo em seguida avivar o fogo da lareira. Depois, disse que iria preparar rapidamente uma refeição.

- O chefe de cozinha da casa grande mantém a minha despensa abastecida - observou, enquanto começava a preparar algo leve.

Naquela altura, já eram quatro da tarde e eu não almoçara. Não duvidei, nem por um momento, que o Percy comunicasse o facto ao Tony.

- Vá, não pares - incentivou o Troy, entregando-me uma tábua com vegetais crus para eu partir. - Nunca ouvi uma história como a tua. Agora fala-me mais do Keith e da "Nossa" Jane. - Começara a tratar-me por tu.

Somente nessa altura é que me apercebi de que devia ter tido mais cuidado e sido mais discreta, mas era demasiado tarde. Agora que o Logan me afastara da sua vida, que me importava? Já contara ao Troy tudo o que se passara no dia de Natal, quando o meu pai começara a vender-nos um a um. Tive de repetir a história para que ele acreditasse nela. Fui até suficientemente descuidada para deixar escapar a razão que levara o Logan a perder a confiança em mim; porém, o Troy não me fitou uma única vez, nem teceu comentários ou hesitou no que estava a fazer.

- Eu não sabia que aquelas idas ao cinema, aqueles jantares maravilhosos em óptimos restaurantes e todas as prendas que ele me dava faziam parte do jogo de sedução do Cal. Enquanto vivi com eles, ele proporcionou-me os melhores momentos, e a Kitty os piores. Costumava lamentar o Cal quando, todas as noites, a Kitty arranjava uma desculpa qualquer para lhe dizer "não", e quando, por fim, concordava em aceitar os seus avanços, o Cal sentava-se à mesa do pequeno-almoço com um ar muito feliz. Por minha vontade, o Cal andaria sempre feliz. Mas quando ele começou a tocar-me demasiado frequentemente com uma luz estranha nos olhos, e os seus beijos deixaram de ser tão paternais como até ali, eu à noite ficava deitada na minha cama a reflectir no tipo de sinais que estaria a enviar inconscientemente. Nunca lhe atribuí culpas. Atirei-as todas para cima de mim mesma, responsabilizando-me por lhe meter ideias maldosas na cabeça. Como poderia eu continuar a considerá-lo uma figura paterna e não me submeter à sua vontade?

Fiz uma pausa, recuperei o fôlego e depois continuei.

- Portanto, é como vê, não tenho ninguém! O Tony ordenou-me que afastasse a minha família da minha vida e até mesmo dos meus pensamentos. Nem sequer tem conhecimento da existência do tom, da Fanny, do Keith e da "Nossa" Jane. O tom não respondeu às minhas cartas. A Fanny está à espera de um filho do reverendo e nunca me escreve. Nem sequer sei se está contente. Mas um dia destes terei de encontrar a "Nossa" Jane e o Keith.

- Hás-de encontrá-los - declarou o Troy com aquele tipo de sinceridade que me fazia confiar nele. - Tenho muito dinheiro. Não consigo imaginar maneira melhor de gastá-lo do que ajudando-te a encontrar a tua família.

- O Cal prometeu-me o mesmo mas nunca passou disso.

Ele virou-se para mim e lançou-me um olhar de censura.

- Eu não sou o Cal Dennison nem faço promessas que não possa cumprir.

As lágrimas recomeçaram a deslizar-me pelo rosto.

- Porque haveria de o fazer? Não me conhece. Nem sequer tenho a certeza de que simpatiza comigo.

O Troy veio sentar-se à mesa, ao meu lado.

- Fá-lo-ei por ti e pela tua falecida mãe. Amanhã falarei com os meus advogados e colocá-los-ei na trilha desse tal colega deles cujo nome próprio é Lester. Devias trazer-me as fotografias de estúdio do Keith e da "Nossa" Jane de que me falaste. Os fotógrafos têm sempre a vaidade de assinar as suas fotografias nas costas. Verás que em muito pouco tempo ficarás a saber os nomes completos do casal que comprou os teus irmãos mais novos.

A esperança que me inundou deixou-me electrizada e ofegante. Foi uma esperança que não tardou a esmorecer pois o Cal Dennison fizera-me a mesma promessa e o facto é que eu não conhecia o Troy muito bem.

- Agora diz-me o que tencionas fazer quando souberes do paradeiro deles?

O que tencionava fazer?

O Tony riscar-me-ia da sua vida. Suspenderia o apoio que estava a dar à minha educação.

Naquele momento eu ia a caminho do objectivo que tinha... mas pensaria na resposta mais tarde, quando os advogados encontrassem o rapazinho e a menina que me pertenciam. Arranjaria maneira de os recuperar sem que isso significasse abdicar das minhas pretensões. Já que fora até ali, estava decidida a não voltar para trás.

Oh, se ao menos as coisas tivessem sido diferentes! Se ao menos eu tivesse podido crescer como uma rapariga normal! Senti que as lágrimas me subiam de novo aos olhos. Esforçando-me por deitar as recordações para trás das costas, respirei fundo.

- Pronto - disse -, agora já sabe tudo sobre mim. E eu que nem sequer devia estar a falar consigo. O Tony ordenou-me que o deixasse em paz, que nunca viesse a sua casa. Na verdade, disse-me, antes de se ir embora, que o Troy nem sequer cá estava. Se souber que eu quebrei uma das suas regras, recambiar-me-á para os Willies. Tenho um medo terrível de voltar para lá! Em Winnerrow não há ninguém que se importe com o que me possa acontecer. O meu pai vive algures na Jórgia ou na Florida, e o tom está a morar com ele, mas este também nunca escreve, tal como a Fanny. Não sei viver sem alguém que goste de mim ou se preocupe comigo. - Baixei a cabeça para que o Troy não visse as lágrimas que eu não conseguia conter. - Por favor, Troy, por favor! Seja meu amigo! Preciso desesperadamente de alguém!

- Está bem, Heaven, serei teu amigo. - Parecia relutante, como se estivesse a comprometer-se com algo difícil de cumprir. - Mas lembra-te de que o Tony tem boas razões para não querer que te envolvas comigo. Não o julgues demasiado duramente. Antes de decidires se eu sou o amigo de que precisas, tens de te compenetrar de que quem manda aqui é o Tony, não eu. Somos pessoas de personalidades completamente opostas. Ele é forte, enquanto eu não passo de um sonhador fraco. Se caíres no desagrado do Tony, ele pôr-te-á fora da sua vida e da da Jillian, mandando-te imediatamente para os Willies. E fa-lo-á de maneira tal que eu não terei possibilidade de te salvar ou sequer de te dar dinheiro.

- Eu não aceitaria dinheiro de si! - exclamei indignada, sentindo o meu orgulho vir ao de cima.

- Aceita-lo do meu irmão - observou o Troy secamente.

- Porque está casado com a minha avó! Porque me contou que gere o que a Jillian herdou do pai e do primeiro marido. Dinheiro que teria ido para a minha própria mãe se esta fosse viva. Acho que aceitar dinheiro do Tony é perfeitamente justificado.

O Troy virou a cabeça para o lado e eu não pude continuar a observar-lhe o rosto.

- Heaven, a tua intensidade fatiga-me. É muito mais tarde do que eu imaginava e estou cansado. Não te importas de continuar esta conversa na próxima sexta-feira, quando voltares de Winterhaven, pois não? Estarei por aqui.

Vê-lo ali tão profundamente vulnerável emocionou-me bastante. Desconfiei ainda de que tinha um medo terrível de deixar alguém como eu penetrar na sua vida bem organizada. Levantei-me com lentidão do chão, relutante em abandonar o calor aconchegante da sua casa.

- Por favor, Heaven, esta noite ainda tenho mil tarefas para executar antes de ir para a cama. E não chores por o Logan Stonewall não te ter reconhecido. Devia ser a última coisa que lhe passava pela cabeça. Dá-lhe outra oportunidade. Telefona-lhe para o dormitório. Propõe-lhe encontrarem-se num sítio qualquer onde possam conversar.

O Troy não conhecia a teimosia do Logan. Este era, tal como o seu nome indicava, uma muralha de pedra.

- Boa noite, Troy - disse-lhe da porta. - E obrigada por tudo. Esperarei, ansiosa, a próxima sexta-feira.

Fechei suavemente a porta depois de sair. Quando me esgueirei pela porta da casa grande, não encontrei nenhum dos criados e, ao passar pela casa de jantar, verifiquei que havia comida em recipientes de prata aquecidos. Eram maravilhosas fatias finas de carne, cobertas com molho francês. Antes que pudesse dar-me conta do que fazia, servi-me para um prato, e, em seguida, sentei-me à mesa a repetir a refeição da noite. Completamente sozinha, numa mesa suficientemente grande para todos os Casteel.

 

TRAIÇÃO

Na segunda semana que passei em Winterhaven, as minhas colegas não se mostraram tão distantes como na primeira. Olharam-me arrojadamente da cabeça aos pés, mirando com particular interesse o lindo vestido em malha que eu levava, pois não estava disposta a vestir roupa pouco melhor do que a que usara nos Willies. Para meu deleite, nessa mesma Segunda-feira, ao sentar-me a almoçar, vi a Pru Carraway sorrir para mim e depois convidar-me para a sua mesa. Satisfeita, agarrei nos meus talheres, prato e guardanapo e levei-os comigo.

- Obrigada - agradeci, ao sentar-me.

- Que lindo vestido cor-de-rosa - elogiou a Pru, adejando as pestanas.

- Obrigada. É cor de malva.

- Que lindo vestido cor de malva - corrigiu a jovem, enquanto as outras raparigas riam à socapa. - Tenho consciência de que não temos sido muito simpáticas contigo, Heaven - salientando, mais uma vez, o meu nome -, mas tentamos nunca dar demasiada confiança a qualquer estudante recém-chegada, até termos a certeza de que merece a nossa aprovação.

Que teria eu feito para merecer essa aprovação, interroguei-me.

- Como é que sabes tanto sobre a pobreza e a fome? - perguntou a Faith Morgan tile, uma bonita rapariga de cabelos castanhos que vestia blusão e calças brancas de aspecto limpo mas surrado.

Sobressaltei-me.

- Vocês sabem todas que sou da Virgínia Ocidental, uma zona com minas de carvão. Também vive da indústria do algodão. Os montes estão cheios de gente pobre que acha que estudar é uma perda de tempo... Portanto, é natural que eu conheça a vida das pessoas que costumam rodear-me.

- Mas descreveste as agruras da fome tão bem na tua redacção - insistiu a Pru -, que é quase como se tivesses passado por elas pessoalmente.

- Quando se tem olhos e ouvidos e um coração capaz de se condoer, não é preciso passar pelas situações.

- Que bem descreveste a questão - observou uma outra rapariga, sorrindo-me calorosamente. - Ouvimos dizer que os teus pais estão separados e que ficaste a cargo do teu pai... Não é fora do comum? Na maioria das vezes é a mãe que ganha a custódia dos filhos, especialmente tratando-se de uma rapariga.

Tentei encolher os ombros com indiferença.

- Eu era demasiado pequena para fixar pormenores do divórcio. Quando cresci, o meu pai recusou-se a falar no assunto.

Dizendo isto, dei a questão por terminada, enquanto espetava o garfo na minha salada mista e escolhia os pedacinhos de tomate e alface que era o que mais apreciava.

- Quando é que o teu pai vem visitar-te? Adoraríamos conhecê-lo.

Podem crer que gostariam de o conhecer! O Luke Casteel dar-lhes-ia um choque de morte. Eu antipatizava com a Pru Carraway, que estava sempre a tentar espicaçar-me. Sentia o poder dos seus antecedentes, da sua família, dos seus antepassados e dos amigos que ela tinha e eu não, formar uma barricada em torno dela, enquanto eu ficava indefesa, dispondo apenas das minhas capacidades e da minha roupa para me escudar. Terminei o meu almoço com entusiasmo, não deixando um pedacinho de massa e de almôndegas no prato; tive vontade de ensopar o que restava do meu pão italiano no saboroso molho de tomate, mas não me atrevi a tal. E elas observavam-me com tal fascínio que senti que estava a fazer tudo errado; mostrava demasiado entusiasmo por um alimento tão vulgar como o esparguete. Furiosa e irada com as suas insinuações, resolvi agitá-las com uma parte da verdade.

- O meu pai nunca virá ver-me pois não gostamos um do outro e ele está a morrer.

As quatro raparigas ficaram a olhar para mim de boca aberta, como se eu fosse uma aparição directamente saída de uma cena de mau gosto. Mas acabara de proferir aquelas palavras e já a ideia de o meu pai estar morto me inundava de um estranho e incómodo sentimento de culpa. Como se não me coubesse o direito de o odiar ou desejar a sua morte por ser meu pai. Não havia razão para me sentir envergonhada. Nenhuma! Ele merecia todos os pensamentos maus que eu pudesse ter sobre ele.

A Pru voltou a falar, cautelosamente:

- Temos alguns clubes privados neste colégio. Ora se tu conseguisses arranjar maneira de uma de nós sair com o Troy Tatterton... ficar-te-íamos muito gratas.

Lembranças do meu pai interpuseram-se entre mim e elas. Fui apanhada desprevenida. O meu último pedaço de pão italiano ficou a meio caminho da minha boca.

- Tenho a certeza de que não conseguiria convencê-lo - observei pouco à vontade. - É um homem com ideias muito suas e é demasiado velho e sofisticado para as raparigas de Winterhaven.

- O Troy Tatterton fez vinte e três anos apenas há duas semanas - declarou a Faith Morgantile. - Algumas das estudantes daqui têm dezoito anos, o que convém exactamente a um homem com a idade dele. Além disso vimo-lo contigo no domingo e tu só tens dezasseis.

Fiquei siderada por, numa cidade tão grande como Boston, me terem visto com o Troy!

Então era isso! A razão do seu inesperado interesse em mim! Tinham-me visto ou alguma das suas amigas reparara em mim no café com o Troy. Levantei-me. Atirei o meu guardanapo para a mesa delas.

- Obrigada por me terem convidado para a vossa mesa - disse, verdadeiramente triste, pois imaginara que pudesse torná-las minhas amigas. Eu nunca tivera outra amiga na vida além da Fanny, que fora uma espécie de cruz de família a suportar. Ao chegar à minha mesa, peguei nos livros que ali deixara e saí dignamente da sala de jantar.

A partir dessa altura, senti uma diferença nas atitudes das minhas colegas. Anteriormente tinham-me encarado com desconfiança por eu ser nova e diferente. Agora desafiara-as e, sem querer, fizera inimigas.

Logo na manhã do dia a seguir, fui a uma das gavetas da minha cómoda buscar uma linda camisola azul em caxemira para usar com a saia a condizer e, para meu profundo horror, vi que a peça de roupa ainda por estrear começara a desfiar-se! E a saia de lã que colocara em cima da cama, completamente nova, estava a perder a bainha e alguém descosera cuidadosamente os pontos que lhe prendiam uma bonita faixa pregueada na frente. Se estivesse nos Willies, teria usado a camisola e a saia como estavam, mas não ali, não ali! Não quando eu sabia que, ainda na véspera, a camisola e a saia estavam impecáveis!

Fui tirando as camisolas da gaveta e passando-as em revista! Cinco delas estavam estragadas! Corri para o armário e verifiquei as minhas saias e blusas, vendo que estavam tal qual como as deixara. Quem porventura cometera aquele acto não tivera tempo de dar cabo de tudo o que me pertencia. Nessa terça-feira de manhã não tive tempo para tomar o pequeno-almoço. Fui para as aulas apenas de saia e blusa, sem camisola. Nenhuma das raparigas usava casaco na sala de aulas, sem recear as gripes e as constipações, embora a maioria se mantivesse sentada com os braços cruzados sobre o peito e tremesse de frio de vez em quando. Winterhaven era uma instituição dirigida por espíritos rígidos e puritanos que se esforçavam para que nenhuma de nós desfrutasse de demasiados luxos. A sala de aulas não era muito mais quente do que a cabana nos montes em finais de Outubro. Passei a manhã inteira a tremer de frio, ansiando pelo meio-dia, altura em que correria ao meu quarto para ir buscar um casaco leve.

Comi o almoço com tanta pressa que por pouco não me engasguei; depois precipitei-me escadas acima, em direcção ao meu quarto; a porta nunca ficava trancada. Corri ao armário para tirar do cabide um dos três casaquinhos que o Tony escolhera para mim. Faltavam dois! O que ficara estava ensopado em água!

Seriam tão ricas e poderosas que imaginavam sair incólumes depois de destruírem o que me pertencia? Tremendo tanto de raiva como de frio, saí pelo corredor levando o casaco estendido à minha frente. Irrompi intempestivamente nos lavabos. Deparei com seis raparigas a fumar e às risadinhas. Mal entrei, fez-se total silêncio, enquanto dos cigarros se evolava um fumo denso e intoxicante. Ergui o casaco com ambas as mãos.

- Tinham de enfiar isto em água quente? - perguntei. - Não bastou darem cabo das minhas camisolas? Afinal de contas, que espécie de monstros são vocês?

- De que estás a falar? - perguntou a Pru Carraway com uma expressão de inocência nos olhos claros.

- As minhas camisolas novas estão todas desfiadas! - gritei. Sacudi o casaco e parte dos salpicos de água atingiram-nas no rosto. Recuaram e agruparam-se. - Vocês tiraram-me dois casacos e estragaram o terceiro! Acham que esta barbaridade vai ficar sem castigo?

Olhei ferozmente cada uma delas nos olhos, esperançada em amedrontá-las. O facto de não se mostrarem minimamente intimidadas por mim ou pelas minhas ameaças insignificantes, enfureceu-me ainda mais. A confiança delas aumentou, enquanto eu hesitava, sem saber como derrotá-las.

Virei-me e atirei o casaco ensopado para dentro de uma das comportas para a roupa suja. A pesada porta de metal possuía uma mola muito forte que a fechava automaticamente. Em cada um dos três pisos havia um lavabo com várias secções. O facto de haver duzentas raparigas a tomar banho diariamente fazia com que fossem utilizadas centenas de toalhas brancas. Todos os dias as criadas traziam-nas às pilhas, imaculadamente limpas, arrumando-as dentro dos armários da roupa com portas de vidro. A roupa, depois de utilizada, era atirada para dentro de comportas, descendo ao longo de calhas até à cave, onde caíam dentro de enormes cestos.

- E agora - declarei, voltando-me rapidamente para elas e tentando incutir-lhes algum temor -, encontrarão aquele casaco e comunicarão o facto à directora. Não podem apoderar-se da prova e destruí-la, pois a cave fica fora do alcance de todas vocês.

A Pru Carraway bocejou. As outras cinco raparigas imitaram-na.

- Espero que vos ponham a todas fora do colégio por destruírem propositadamente bens que não vos pertencem!

- Fazes lembrar uma advogada - observou a Faith Morgantile com voz lamurienta. - Estás a assustar-nos, sem dúvida. Que pode um casaco molhado provar? Nada além de teres sido suficientemente estúpida para o lavares em água quente.

Desconfiei que, dissesse eu o que dissesse, nada as faria aceitar culpas pelo acto cometido. Nessa altura, veio-me à lembrança o rosto meigo de Miss Marianne Deale e a sua voz suave sussurrou-me aos ouvidos: "Mais vale advogar uma causa perdida em que acreditamos do que ficar calado e nada arriscar. Nunca se sabe o efeito que as nossas palavras poderão vir a ter."

- Assim que sair daqui vou ao gabinete de Mistress Mallory - declarei com voz firme. - Mostrar-lhe-ei as minhas camisolas novas desfiadas e contar-lhe-ei tudo sobre o casaco que vocês estragaram.

- Nada podes provar - disse uma rapariguita de ar insignificante chamada Amy Luckett, agitando as mãos de maneira denunciadoramente nervosa. - Podes ter prendido as tuas próprias camisolas nalguma saliência e estragado o casaco sem querer.

- Mistress Mallory viu-me usar o casaco na segunda-feira de manhã, portanto pelo menos saberá dizer como estava. E quando o encontrarem no cesto das toalhas molhadas, isso também provará o que vocês fizeram.

- Falas como uma advogada de segunda categoria - escarneceu a Pru Carraway. - Este colégio não pode fazer nada contra nós. Há dois anos pedimos aos nossos pais para deixarem de dar donativos em dinheiro a esta escola que, sem eles, teria ido ao fundo. Nem sequer souberam apreciar o dinheirão que lhes poupámos quando deixámos de usar aqueles horríveis uniformes franceses. Quando nos unimos para defender a nossa causa, ganhamos sempre. Temos os nossos pais a apoiar-nos. Pais ricos, ricos. Pais politicamente influentes. Tu aqui não tens amigas. Não és uma das nossas. Ninguém acreditará jamais no que dizes. Mistress Mallory olhará de cima para baixo para ti e achar-te-á maldosa e desprezível, porque sabe que nunca te deixaremos entrar para o nosso círculo. Achará que foste tu mesma a dar cabo da tua roupa, só para nos atirares as culpas.

Aquelas palavras fizeram-me arrepiar! Poderia alguém acreditar em tal possibilidade? Eu não tinha experiência e conhecimento do mundo. Não frequentara colégios na Suíça nem aprendera a enfrentar situações daquele tipo. Ainda assim não pude deixar de acreditar que ameaçavam em vão, pelo que decidi fazer o mesmo.

- Veremos - declarei, voltando-me e saindo da casa de banho.

Entrei no gabinete da directora com os braços carregados de camisolas estragadas. Mrs. Mallory ergueu os olhos do que estava a fazer com ar nitidamente contrariado.

- A menina não deveria estar na sua aula de sociologia, Miss Casteel?

Deixei cair as camisolas no chão, depois peguei numa azul que fora linda e ergui-a diante dos seus olhos. Tinham puxado um fio da gola, que estava meio desmanchada.

- Não cheguei a estrear esta camisola, Mistress Mallory. No entanto, está cheia de buracos e a desfiar-se.

A directora franziu as sobrancelhas.

- Realmente devia cuidar melhor da sua roupa. Detesto ver dinheiro desperdiçado em jovens ingratas.

- Eu cuido muito bem da minha roupa. Esta camisola estava cuidadosamente dobrada e arrumada na segunda gaveta da minha cómoda, juntamente com outras que estão igualmente estragadas porque lhes puxaram fios e fizeram buracos.

A directora manteve-se calada durante um momento prolongado. Mostrei as camisolas uma a uma.

- O casaco que me viu usar na segunda-feira de manhã, foi ensopado em água quente enquanto eu estava na minha primeira aula de hoje.

Mrs. Mallory franziu os lábios. Ajustou os óculos em meia-lua que usava na ponta do nariz.

- Está a fazer acusações, Miss Casteel?

- Estou. Aqui não gostam de mim porque sou diferente.

- Se quer que gostem de si, Miss Casteel, não é a denunciar as partidas que as suas colegas pregam a todas as caloiras que o conseguirá.

- Isto é mais do que uma partida! - exclamei, estupefacta perante a sua indiferença. - A minha roupa ficou estragada.

- Ora, está a dar demasiada importância ao que parece não passar de um descuido na arrumação. As camisolas prendem-se facilmente nos fechos, tanto das saias como das malas. Basta tentar desprendê-las com um puxão e aparecem os buracos e as malhas soltas.

- E que me diz do casaco? Acha que caiu, sozinho, dentro de uma banheira de água quente?

- Não vejo nenhum casaco. Se tem mais provas, porque não as trouxe consigo?

- Atirei-o para a comporta de saída das toalhas molhadas. Poderão encontrá-lo na lavandaria.

- Por cima dessa comporta de saída há um letreiro que diz que toda a roupa para lavar deve ser enfiada na outra mais pequena.

- Mistress Mallory, era um casaco de tecido axadrezado! Poderia manchar a roupa de alguém.

- É precisamente por isso que falo. Também poderá manchar as toalhas e a outra roupa branca.

Os meus lábios começaram a tremer.

- Tinha de o pôr num sítio onde as raparigas responsáveis não o escondessem e depois afirmassem que era tudo imaginação minha.

A directora passou os dedos pela linda camisola azul com ar pensativo.

- Porque não leva estas camisolas e tenta remendá-las com agulha e linha? Devo confessar que, na verdade, não tenho vontade de encontrar o seu casaco molhado. Se o fizer, isso significa que terei de tomar medidas e interrogar todas as alunas. Já não é a primeira vez que este tipo de ocorrência tem lugar. Se ficar do seu lado, será que isso a ajudará a ser aceite aqui? Tenho a certeza de que o seu tutor lhe comprará novas camisolas.

- Quer dizer que devo conformar-me e deixá-las sem castigo?

- Não, não exactamente. Trate simplesmente do assunto sem a nossa ajuda. - Sorriu-me rigidamente. - Não deve esquecer, Miss Casteel, que embora elas queiram que pense que a desprezam e consideram inferior, não há aqui rapariga mais invejada. A Miss Casteel é muito bonita e possui um toque de frescura que é raro. Faz lembrar alguém de há cem anos atrás, tímida, orgulhosa, demasiado sensível e vulnerável. Essas raparigas vêem o que eu vejo, o que todos vêem, e sentem-se assustadas. A Miss Casteel fá-las sentirem-se inseguras sobre o que são e os valores que defendem. Além disso está sob a tutela do Tony Tatterton, um homem muito admirado e bem sucedido. Vive numa das casas mais belas e antigas da América. Compreendo que tenha tido um passado que a deixou marcada, mas não permita que ele a influencie permanentemente. Possui potencial para se tornar na pessoa que deseja. Não deixe que umas partidas tolas das suas colegas deitem por terra os melhores anos de aprendizagem que poderá ter na vida. E agora vejo, pela sua expressão, que deseja algum tipo de vingança ou compensação pela roupa que perdeu. Mas não será a roupa relativamente pouco importante para si? Não poderá ser substituída? Ou terão aquelas raparigas estragado algo de verdadeiro valor que tenha escondido no seu quarto?

Oh, oh! Não pensara nisso! Eu ocultara, no fundo do meu cesto da roupa, uma pesada caixa contendo as fotografias, emolduradas em prata, do Keith e da "Nossa" Jane! Mal voltasse para o quarto teria de verificar se continuavam lá ou haviam sido destruídas! Fiz menção de sair, mas depois voltei-me e encarei o olhar severo mas compreensivo de Mrs. Mallory.

- Tenho a impressão de que está em dívida para comigo, Mistress Mallory, por guardar o silêncio e a paz neste colégio.

A directora compôs uma expressão precavida.

- Diga-me o que acha que lhe devo?

- Esta quinta-feira à noite vai haver um baile com os rapazes de Broadmire Hall. Sei que o pouco tempo que aqui estou ainda não me permitiu juntar os louvores suficientes para merecer um convite. No entanto, é precisamente isso o que eu quero.

Mrs. Mallory fitou-me durante um bocado com as pálpebras semicerradas e depois sorriu-me, com uma expressão divertida.

- Ora, não é pedir muito. Esforce-se apenas por não causar embaraços à escola.

Os retratos dos meus dois pequeninos estavam a salvo. Voltei a guardá-los para que, quando chegasse sexta-feira, pudesse levá-los ao Troy, a fim de este os entregar aos detectives que me prometera contratar para descobrir o paradeiro dos meus irmãos mais novos.

Pensei no tom, que sempre fora o meu herói. Sabia qual seria o seu conselho numa altura em que as coisas me corriam de feição: "Não abuses da sorte", diria.

Talvez fosse o facto de morar na Mansão Farthinggale, de ter o Tony como tutor, a Leigh por avó, ainda que relutante, e o Troy por amigo, que me dava mais audácia do que o bom senso teria aconselhado. É que eu tencionava abusar da sorte! Não permitiria que aquelas raparigas fizessem pouco de mim, fosse qual fosse o preço a pagar! Olhei de relance para o espelho mais próximo e vi muito poucos vestígios da antiga Heaven Leigh Casteel na imagem de uma rapariga de cabelos escuros e brilhantes, elegantemente cortados pela altura dos ombros. Mas como proceder? Já sabia que era improvável que Mrs. Mallory fizesse algo que colocasse em risco os seus donativos em dinheiro.

Sentei-me na beira da cama, inclinei a cabeça para baixo e comecei a escovar o cabelo, de modo que este me caía como uma cortina escura em redor do rosto, diminuindo o fulgor dos três candeeiros. Ouvi o carrilhão da torre dos sinos iniciar as melodias patrióticas e de teor religioso do final do dia. Adaptei o movimento da escova ao ritmo e assim fiquei enquanto engendrava e planeava uma maneira de me vingar das seis raparigas que, ao que tudo indicava, estavam de atalaia nos lavabos, certas do que eu faria com um casaco a escorrer água que daria cabo da alcatifa verde colocada há pouco tempo, estrago que me custaria várias repreensões.

Se eu estivesse em Winnerrow, encolher-me-ia e acobardar-me-ia dentro da minha roupa surrada e demasiado pequena, dos meus sapatos em segunda mão e gastos, sentindo-me demasiado debilitada pela fome constante para lutar com eficácia. Sentia-me demasiado humilhada e envergonhada de quem era, uma reles Casteel, para descobrir a maneira certa de provar a minha individualidade e os meus méritos.

Porém, naquele momento as coisas eram diferentes. Apesar das camisolas e do casaco estragados, sentia-me cheia de coragem. Ainda estava suficientemente bem equipada para vacilar e recear como uma Casteel.

Enquanto continuava a escovar o cabelo, perdendo a conta do tempo, fui arquitectando uma ideia. Era a maneira perfeita de me vingar. Daquela vez veríamos quem ganhava. Os rapazes de Boston deviam ser, basicamente, iguais aos de todo o mundo. Eram atraídos como abelhas para a flor mais bonita e perfumada. Eu sabia que podia tornar-me nessa flor.

 

O BAILE

Nessa mesma terça-feira à noite, quando todas as restantes raparigas da minha ala tentavam, nitidamente, não fazer demasiado chinfrim, ouvi o meu nome mencionado várias vezes, sempre seguido de gargalhadas. Saber-me alvo de tantas piadas incomodou-me. Ainda assim tinha um amigo a quem telefonar. Primeiro fechei a minha porta à chave e depois liguei para o Troy. O telefone que ele tinha na sua casa de pedra tocou durante algum tempo, fazendo-me temer que não estivesse lá, já que não sabia em que outro lado encontrá-lo. Mas às tantas atendeu, com ar de quem estava muito ocupado. E, se a sua voz não se tivesse amenizado ao saber que era eu, não lhe teria feito o pedido que fiz.

- Queres que eu vá ao teu guarda-fatos e escolha o vestido de cerimónia que mais sensação causará? Heaven, tens assim tantos?

- Oh, tenho alguns, Troy. O Tony fez-me experimentar pelo menos uns dez e embora eu pensasse que só queria comprar-me dois, acabou por levar quatro. Não trouxe nenhum comigo. Pensei que só daqui a muito tempo é que ganharia suficientes louvores para ser convidada para um dos seus bailes, mas na verdade já fui.

O Troy deu a impressão de soltar um murmúrio de desagrado.

- Claro, farei o que pedes, embora não saiba muito bem o que uma rapariga de quinze anos deve levar a um desses acontecimentos sociais.

O Troy cumpriu a sua palavra, de modo que, nesse mesmo dia, já a noite ia alta, parou um carro diante de Winterhaven, e eu, que me ocultara, à espera, nas sombras que enchiam o átrio de entrada, enquanto as outras raparigas dormiam, escapuli-me pela porta da frente, deixando-a encostada graças a um pequeno livro de estudo que enfiei na abertura.

- Desculpe causar-lhe todo este incómodo, Troy - sussurrei, sentando-me no banco da frente, ao seu lado. Não me contive, aproximei-me dele e dei-lhe um beijo na face com os lábios frios. - Obrigada! Tenho muita sorte em ter um bom amigo como o Troy. Calculo que deva achar-me uma grande chata por lhe ter telefonado tão tarde. Sei que tem mais que fazer mas o facto é que precisava muito deste vestido!

- Eh! - replicou o Troy, aparentemente embaraçado com os meus excessivos pedidos de desculpa. - Não estejas demasiadamente agradecida. A verdade é que eu não tinha nada de especial para fazer. - Afastou-se ligeiramente de mim, chegando-se desse modo muito à porta do lado do motorista, o que me fez recuar de novo para o meu lugar, para o deixar à vontade. - Encontrei os quatro vestidos de que me falaste e tentei resolver qual deles trazer. No entanto eram todos tão bonitos que não consegui decidir-me. Agora poderás ser tu própria a fazer a escolha.

- Não preferiu nenhum - perguntei, desiludida, já que contara com o seu parecer de homem vivido para me elucidar sobre os gostos masculinos. - Troy, certamente há algum que ache melhor do que todos os outros, não?

- Ficarás bonita, vistas o que vestires - declarou com timidez.

Durante momentos ficámos como estávamos, com o motor em ponto morto e o vento a empurrar para os arbustos as últimas folhas secas que juncavam o chão.

Era meia-noite. Raramente as festas clandestinas que decorriam no colégio ultrapassavam as onze horas da noite. Quase parecia que as alunas de Winterhaven temiam a meia-noite e a "hora da bruxa", como lhe chamavam.

- Agora tenho de ir - disse eu, abrindo a porta e pondo uma perna de fora. - Importa-se que lhe telefone de vez em quando?

O Troy hesitou tanto tempo que saí apressadamente do seu carro.

- Desculpe por estar de novo a abusar.

- Vemo-nos na sexta-feira - disse o Troy, sem assumir mais nenhum compromisso. - Diverte-te no baile.

O seu carro baixo e escuro desapareceu de vista, deixando-me no meio do vento que premia o meu pesado roupão azul contra o meu corpo. Dessa vez, porém, ao entrar o mais silenciosamente possível no edifício principal de Winterhaven, levava comigo um enorme saco fechado contendo roupa

Ao entrar, o vento empurrou a pesada porta, fazendo com que esta se fechasse estrondosamente. Todos os vidrilhos dos candelabros de parede tiniram e a samambaia que ficava ao fundo do corredor tombou com grande aparato! Era no primeiro piso do edifício que os membros do corpo docente tinham os seus aposentos, de modo que vi aparecer uma luz amarelada pela ranhura de uma das portas fechadas. Peguei rapidamente no livro, agarrei com maior firmeza no saco fechado com a roupa, e depois corri silenciosamente escadas acima, só não podendo evitar o leve raspar do material do saco enorme contra o gradeamento do corrimão. Como os corredores mergulhados na penumbra tinham um ar fantasmagórico à noite, apenas com os candelabros de parede acesos... O silêncio que reinava fez-me olhar para trás de vez em quando, enquanto me dirigia, pé ante pé, para a segurança do meu quarto.

Apesar de tudo, ao fechar a porta à chave depois de entrar, tive a sensação incomodativa de que a minha aventura nocturna fora testemunhada por alguém.

Tinha uma centena de tarefas a executar para que o baile tivesse o resultado que eu pretendia, ou seja, tornar-me a sua figura central. Contudo, para isso, tinha de descobrir o que as outras raparigas levariam vestido. Durante o dia, todas as portas dos dormitórios ficavam abertas a fim de inspeccionarem se as camas estavam feitas e a roupa arrumada. Todas as persianas eram corridas até determinado nível, de maneira a Winterhaven ficar com uma aparência simétrica quando vista do exterior.

Muito antes de os sinos tocarem ruidosamente a despertar, do alto das suas torres, levantei-me e fui ao enorme lavabo deliciar-me com um duche antes da chegada das primeiras colegas. Até ali, o meu hábito de "deitar cedo e cedo erguer" permitira-me desfrutar da privacidade de que tanto gostava. Contudo, naquele dia, eu ainda só estava parcialmente vestida quando três ou quatro jovens de olhos ensonados entraram, cada qual envergando o seu tipo de fatiota para dormir. Embora de dia andassem com roupa deselegante e desmazelada, o que usavam de noite parecia saído directamente do Frederick's de Hollywood. Ao verem-me em cuecas e soutien ficaram paralisadas, como que estupefactas por, finalmente, me apanharem.

- Ela não usa culotes... - sussurrou a Pru Carraway à Faith Morgantile, a sua melhor amiga.

- Tinha a certeza de que eram vermelhos - retorquiu a segunda em resposta.

Tinham desatado a rir, estimuladas por alguma expressão vulnerável que me vislumbraram no rosto ou oculta nos olhos, pois nos meus tempos nos Willies desejara muito ter uns culotes brancos ou encarnados, tanto quanto um casaco novo, um par de sapatos por estrear, ou algo que me aquecesse. E enquanto as raparigas iam entrando nos lavabos, todas na companhia de uma amiga pelo menos, eu parecia uma ilha, com o mar a encapelar-se à minha volta, tão angustiada e infeliz que, bem vistas as coisas, os Willies já não me pareciam um lugar tão mau. Depois, quase a rebentar em lágrimas, agarrei no resto da minha roupa e saí daqueles lavabos cheios de vapor de água e a cheirar a pasta dentífrica e sabonete. As risadas continuaram a soar nas minhas costas.

A meio do caminho para o meu quarto, hesitei. Iria permitir que levassem a melhor sobre mim? E o meu plano? Estavam todas a tomar banho, duche, a tratarem do cabelo e da maquilhagem. A melhor altura, portanto, para entrar nos outros três quartos, cada qual partilhado por duas raparigas. Não se tratava de algo muito do meu gosto, mas tinha de ser. Depressa encontrei os meus dois casacos roubados e também tentei descobrir o tipo de vestido que as raparigas de Winterhaven levavam aos seus bailes de confraternização.

De saia e blusa debaixo de um casaco grosso, caminhei sob a neve que tombava suavemente em direcção a Beecham Hall. O campus do colégio dava a impressão de ser uma pequena aldeia, encantadora e fantástica, e para mim teria sido o paraíso na terra se ao menos pudesse enquadrar-me e desfrutar dele.

Ao chegar à aula, as raparigas viram o casaco que eu acabara de tirar do guarda-fato da Pru Carraway. Pela maneira como me miraram de alto a baixo, consideravam-me mais do que descarada por desafiá-las.

- Podia fazer com que te expulsassem por teres entrado no meu quarto sem autorização... - principiou a Pru Carraway.

- E roubado o meu próprio casaco? - perguntei. Não me ameaces, Prudence. Vê se usas de "prudência" antes de planeares o teu próximo truque destrutivo. Agora que conheço o caminho até aos teus armários e sei onde guardas as tuas guloseimas, tenta escondê-las muito bem num sítio novo.

Tirei lentamente uma barra de chocolate do bolso. Ao ver-me dar-lhe uma dentada, fitou-me com olhos arregalados. Talvez se tivesse lembrado que tivera a caixa de chocolates caros escondida por trás de uma pilha de livros com títulos como Prenhe de Paixão, O Padre e os Seus Desvarios e A Virgem e o Pecador.

Nessa terça-feira à noite, vesti-me com maior esmero que de costume. No guarda-fatos, por trás de mim, estavam pendurados os quatro vestidos que o Tony me comprara, ainda resguardados dentro do saco hermético cuja abertura só seria possível com uma chave. Podia ser cortado, mas aparentemente as raparigas de Winterhaven não dispunham de uma faca suficientemente forte para abrir caminho num material tão grosso. Pelo que eu vira nos guarda-fatos dos três quartos, as meninas de Winterhaven apreciavam muito os vestidos sem alças e justos, quanto mais brilhantes e garridos melhor. Quanto aos quatro que o Tony me escolhera, eram compridos. Um era em azul-forte (o que usara no jantar na Mansão Farthinggale), o segundo era de um carmesim-vivo, o terceiro branco e o quarto num estranho estampado floral que me levara a ficar curiosa sobre os motivos pelos quais o Tony o escolhera. Quando vivera nos Willies, ficara com a impressão de que todas as domésticas que moravam nos montes e no vale levavam vestidos estampados à igreja. Adoravam a roupa colorida, como se receassem que as cores lisas revelassem nódoas provocadas por comida descuidadamente manuseada. Foi assim que comecei a detestar qualquer tipo de estampagem, até mesmo as lindas cores claras e suaves como as do vestido que o Tony escolhera: azul, verde, violeta e rosa misturavam-se naquele vestido longo e esvoaçante, com as suas mangas compridas à boca de sino, apertadas por fitas de veludo verdes. Porém, quanto mais o via, ali pendurado, mais primaveril ele me parecia... e não se estava na Primavera. Corria agora o mês de Novembro.

No piso térreo, a comissão de festejos retirara a maioria das mesas da ampla sala de jantar. Tinham pendurado fitas coloridas e papéis festivos no tecto, e o candelabro austero fora substituído por uma enorme bola espelhada. Eu nunca imaginara sequer que aquele salão ensolarado e claro durante o dia, visto estar voltado para leste e sul, pudesse converter-se numa sala de baile bastante agradável.

Quando me dirigia para o baile, encontrei a Amy Luckett, que se deteve a olhar fixamente para mim, sustendo um pequeno grito de admiração com as mãos miúdas.

- Oh, oh - exclamou ofegante -, não sabia que poderias aparecer assim... Heaven.

- Obrigada - agradeci, reconhecendo um obscuro elogio nos seus olhos. - Pensei que fazias parte da lista de convidados.

Levou, mais uma vez, as mãos à boca.

- Eu no teu lugar não ia... - murmurou por trás das mãos.

Mas fui.

Naquele momento nada me impediria de ir, sobretudo com aquele vestido carmesim que se moldava ao meu corpo a partir da gola larga e brilhante, indo cruzar-se sobre o meu busto e dar a volta até às costas, ficando preso por duas alças em forma de cordão fino vermelho-brilhante. Deixara no quarto um casaquinho no mesmo tom, destinado a cobrir a pele que o vestido deixava à mostra. Contudo, o que eu queria era provar algo aos rapazes, raparigas e a mim própria; de modo que o modesto casaco ficou no seu lugar. Era um vestido justo, que revelava vantajosamente a minha figura. A vendedora ficara admirada ao ver que o Tony queria que eu o experimentasse.

- É mais adequado a uma pessoa um pouco mais velha, não acha, Mister Tatterton?

- Sim, realmente, é demasiado ousado. Mas os vestidos como este são difíceis de encontrar e adoro esta tonalidade de vermelho. Este nunca sairá de moda. Daqui a dez anos a minha pupila ainda poderá envergá-lo. Usado pela mulher certa, fa-la-á parecer feita de fogo líquido.

Também era assim que eu me sentia ao aproximar-me do salão de baile improvisado, de onde a música saía, ruidosa. Atrasara-me um pouco de propósito, ansiosa por causar sensação ao ser a última a chegar... e, oh, realmente o meu desejo foi satisfeito.

As alunas de Winterhaven mantinham-se num dos lados, em fila, à esquerda da porta, enquanto os rapazes ficavam do outro lado da sala, igualmente alinhados. Quando apareci à entrada, todos os rostos se voltaram para mim. Só nessa altura compreendi o que a Amy Luckett quisera dizer. Não havia uma única rapariga vestida a rigor, nem uma!

Vestiam, mais ou menos, o mesmo de todos os dias: saias e blusas ou camisolas. Saias e blusas bonitas e camisolas caras, com meias de nylon e sapatos de salto alto. Tive vontade de me enfiar num buraco no chão, tão deslocada me senti no meu vestido de noite vermelho, comprido e justo, que, de repente, me fez sentir como uma vadia... Oh, porque o teria o Tony escolhido para mim, porquê?

E todos os rapazes olhavam embasbacadamente para mim, começando a exibir sorrisos largos e sabedores. Por um momento breve ainda pensei em dar meia volta e fugir, abandonando Winterhaven para sempre. Depois, porém, como que incapaz de me virar ou escapulir, enchi-me de forças e preparei-me para o que desse e viesse, entrando dignamente na sala como se toda a vida me tivesse vestido a rigor, fazendo-o com elegância. E aquela rapaziada que, de repente, mudara de ideias em relação aos outros pares de dança, não tardou a cair sobre mim. Pela primeira vez em toda a minha vida, fui eu, e não a Fanny, a ter os rapazes todos apinhados à minha volta... implorando a primeira dança, ou então a segunda ou terceira. Antes que eu percebesse o que estava a acontecer, vi-me arrastada pelos braços de um jovem de cabelo ruivo que me fez lembrar vagamente o tom.

- Ena! Ena! - exclamou o rapaz, ofegante, tentando puxar-me embaraçosamente para mais perto de si. - Todos nós detestamos estes bailes pirosos de confraternização, mas quando tu apareceste, boneca, a coisa deixou de ser chata.

Era o vestido vermelho, claro, não eu. Tratava-se, exactamente, do tipo de vestido que a Fanny adoraria possuir. Vermelho, a cor que a aristocracia medieval atribuíra às prostitutas de rua. Vermelho, a cor ainda hoje associada a mulheres de virtude perdida. Vermelho, a cor da paixão, luxúria, violência e sangue. E eu ali, a ter de lutar para impedir que robustos corpos masculinos se esfregassem contra mim na sua ânsia de obter prazeres baratos. As voltas como andava, arrancada dos braços de um rapaz para outro, mal via os rostos das outras raparigas. O meu cabelo, que penteara no alto da cabeça, estava preso por travessas brilhantes, mas não tardei a senti-lo escorregar. Acabou por se desprender completamente e os caracóis ficaram a bater-me nos ombros. Comecei a sentir-me cansada e furiosa por os meus pares não me permitirem sentar a descansar entre as danças.

- Larguem-me! - gritei por fim, fazendo-me ouvir acima da música alta. Ao afastar-me para tentar instalar-me num dos elegantes bancos almofadados que tinham vindo das salas de estar das visitas para ali, reparei indistintamente nos professores e outras pessoas presentes na sala. Mostraram-se insistentes a oferecer-me deliciosas chávenas de ponche, pratos cheios de sanduíches minúsculas e canapés bonitos, e dedos masculinos conseguiram levar a bom termo a pretensão de me alimentarem. Achei que o chá e o ponche de fruta tinham um bocado de álcool a mais. Bastaram duas chávenas para me pôr tonta. Consegui mordiscar duas sanduíches ínfimas antes de me arrancarem as iguarias das mãos e puxarem-me de novo para a pista de dança. As vinte raparigas de Winterhaven que tinham obtido louvores suficientes para ir àquele baile não desviavam o olhar de mim um instante, mirando-me com intensidade peculiar. Porque brilhariam os seus olhos com tanta expectativa?

Eu estava a divertir-me, ou pelo menos tinha de acreditar nisso, ao ver todos os rapazes fazerem de mim o centro das suas atenções. A divertir-me à custa das outras raparigas, deixadas para trás. Porque me observariam estas sem inveja? Mesmo quando outros pares dançavam, era eu quem atraía todos os olhares. A maneira como me observavam incomodava-me. Estaria eu a comportar-me bem ou mal? Até os membros da faculdade. Até mesmo os membros do corpo docente da faculdade, que se conservavam à parte, de taça na mão, não desviavam os olhos de mim. O interesse e a curiosidade que revelavam aumentavam o meu nervosismo, quando antes me aterrorizara passar despercebida.

- Não há dúvida de que é muito bonita - elogiou o rapaz que me fazia rodopiar pela pista. - E adoro o seu vestido. O facto de usar vermelho quererá transmitir alguma mensagem?

- Não compreendo por que razão as outras raparigas não trazem vestidos de cerimónia - sussurrei ao rapaz, que parecia menos atrevido e insensível do que os outros. - Pensei que devíamos vir todas a rigor.

O rapaz retorquiu algo sobre o facto de as raparigas de Winterhaven serem irreverentes e imprevisíveis, mas eu mal o ouvi. Senti uma cólica, violenta e aguda, dilacerar-me o abdómen! Não estava na altura do meu período mensal mas, mesmo nessas ocasiões, as dores nunca eram demasiado incomodativas. A dança chegou ao fim e, antes que eu pudesse recuperar o fôlego, o meu par seguinte dirigiu-se para mim com um sorriso demoníaco nos lábios.

- Gostaria de ficar uma música sentada - declarei, dirigindo-me para um banco.

- Não pode! A menina é a estrela do baile e não deve falhar uma dança.

Mais uma vez, a mesma dor horrível na barriga quase me fez dobrar sobre mim mesma. À minha volta, tudo perdeu a nitidez. Os rostos das raparigas que me observavam distorceram-se como as imagens dos espelhos deformados das feiras. Um rapaz baixo, rechonchudo e de ar simpático, puxou-me pelas mãos.

- Por favor, ainda não dançou comigo.

E, antes que eu pudesse protestar de novo, pôs-me de pé, e eu vi-me na pista de dança, desta vez a mover-me ao som de um tipo diferente de música. Era música moderna, com batida forte. Toda a vida sonhara em me tornar tão popular que não conseguisse ficar uma dança sentada.

Naquele momento só me apeteceu fugir. Algo de pavoroso se passava no meu abdómen. A casa de banho! Precisava de ir à casa de banho!

Ao desprender-me do rapaz, fui imediatamente agarrada por outro, que começou a movimentar-se apertando-me contra si; porém, mostrava-se tão despropositado que eu virei-me para fugir. De repente, a música parou e puseram um novo disco, uma valsa lenta, do género "aconchegado", aquilo de que eu menos precisava naquele momento concreto e, mais uma vez, alguém prendera-me nos seus braços, enquanto as dores, dores horríveis, se faziam sentir cada vez mais violentas e próximas!

Empurrei violentamente o rapaz e deitei a correr. Pareceu-me ouvir rir atrás de mim... Um riso de maldade e desprezo.

Os lavabos do primeiro andar tinham sido atribuídos aos nossos convidados; portanto, foi para as escadas que lhe davam acesso que corri o mais depressa que pude. A porta estava trancada! Oh, Santo Deus! Precipitei-me para uns outros, numa ala afastada, sentindo-me em pânico por estarem tão longe. Nunca os alcançaria a tempo! E, quando lá cheguei, também estavam fechados à chave!

Naquela altura já soluçava, incapaz de entender o que estava a acontecer comigo.

Voltei rapidamente aos meus aposentos, dobrada sobre mim mesma, gemendo e arquejando violentamente. Assim que cheguei, atirei com a porta e tranquei-a. Não dispunha de sanitários no meu quarto, mas não vivera catorze anos nos Willies, detestando ter de me deslocar à horrível casinha no exterior, sem aprender a improvisar. E depois de terminar, continuei sentada, sentindo a iminência de algum segundo ataque.

Durante uma boa hora, os meus intestinos agitaram-se violentamente até me deixarem trémula e debilitada, com uma camada de transpiração a cobrir-me a pele. Entretanto, no piso de baixo, o baile terminara e as raparigas regressaram aos seus quartos, rindo, aos cochichos, excitadíssimas com algo.

Bateram à porta do meu quarto. Nunca ninguém o fazia!

- Heaven, estás aí? Não há dúvida de que foste a rainha da noite! Porque desapareceste tão depressa, como a Cinderela?

- Sim, Heaven - disse outra voz. - Adorámos o teu vestido. Estavas tão bem!

Tirei, com todo o cuidado, o frágil saco de plástico que colocara dentro do meu cesto dos papéis. Enfiei-o logo de seguida num segundo saco, prendendo fortemente a abertura com o atilho de arame forrado a plástico. Resolvera o meu problema, mas por pouco não sujara a roupa. Naquele momento, porém, tinha um saco cheio de porcaria no meu quarto e não sabia como me livrar dele. Uma das soluções era a comporta de saída da roupa suja nos lavabos; só se o plástico rebentasse é que a roupa que enchia os cestos em baixo ficaria suja.

com o saco escondido por baixo do roupão que levava dobrado sobre os braços, dirigi-me para os lavabos. Entrei rapidamente, embora não precisasse de o ter feito. As vinte raparigas que tinham ido ao baile encontravam-se na sala de convívio, onde estavam montados vários secadores de cabelo e havia pequenos toucadores dotados de luz para a aplicação de maquilhagem. Riam quase histericamente.

- Viste a cara dela? Ficou branca como um lençol! Por pouco não senti pena dela.

- Pru, que quantidade daquele material deitaste no ponche dela?

- O suficiente para lhe provocar uma descarga... uma verdadeira descarga!

- E a maneira como os rapazes colaboraram não foi maravilhosa? - observou outra rapariga cuja voz não identifiquei.

- Terá chegado a tempo à casa de banho?

- Como poderá ter chegado, se todas as portas dos lavabos estavam fechadas à chave?

A hilaridade das minhas colegas era de tal ordem que geraria electricidade suficiente para iluminar Nova Iorque inteira. No entanto, eu já me sentia suficientemente enojada. Nem mesmo nos Willies as pessoas tinham sido tão cruéis. Até mesmo os rapazes de pior índole de Winnerrow tinham respeito por algumas coisas. Enfiei o saco de plástico no bocal maior de escoamento das toalhas, imaginando que não rebentaria, pois teria toda aquela roupa molhada e húmida a atenuar a sua queda. Depois, fui tomar duche e lavar o cabelo

Servi-me do único reservado com porta que podia ser fechado do lado de dentro. Passei dez minutos a esfregar-me com o sabonete e, depois de pôr amaciador no cabelo, sequei-me com uma toalha, vesti o meu roupão de banho branco e saí. Todas as raparigas que vira na outra sala tinham-se juntado ali, aguardando o que iria acontecer a seguir. Dos lábios e dedos negligentes pendiam-lhes cigarros proibidos.

- Estás com um ar tão lavado, Heaven - exclamou a Pru Carraway, que trocara a sua roupa de colegial pelo seu baby doll transparente, com ar jovial. - Tiveste alguma necessidade especial de ficar tanto tempo debaixo do chuveiro?

- A mesma velha necessidade que tenho todas as noites desde que vim para Winterhaven... Limpar-me do ambiente que se pega à minha pele e ao meu cabelo.

- O ambiente aqui é sujo? Mais sujo do que no sítio de onde vieste?

- No sítio de onde vim há minas de carvão e descascadoras de algodão. O vento leva o pó de carvão, que suja a roupa estendida nos varais, e as cortinas têm de ser lavadas todas as semanas. A fibra de algodão invade os pulmões dos operários e até mesmo de quem vive nas redondezas. Mas desde que vim para Winterhaven não tenho feito outra coisa senão sentir a boa e sã alegria americana. Estou ansiosa por escrever a minha tese sobre a minha vivência em Winterhaven. Será muito esclarecedora para aqueles que nada sabem sobre o que se passa em escolas particulares como esta.

De repente, a Pru Carraway começou a sorrir, a sorrir com quantos dentes tinha.

- Ora, deixa-te disso, Heaven, ficaste assim tão aborrecida por causa da roupa? Pregamos sempre essa partida às caloiras. É divertidíssimo enganá-las para que se vistam da maneira errada. Faz parte da nossa iniciação. Agora, se concordares em te submeter ao próximo ritual, poderás tornar-te uma de nós e pregar as mesmas partidas à próxima caloira que entrar.

- Não, obrigada - respondi friamente, ainda bem recordada das cólicas horríveis que me tinham deixado sem forças. - Não tenho interesse nenhum em me tornar membro do vosso clube.

- Claro que tens! Toda a gente tem! Divertimo-nos imenso e temos montes de comida e bebida guardada que nem te passa pela cabeça. O próximo passo completará os nossos requisitos. Não queremos raparigas que se acobardem. - Sorriu-me cativadoramente, com mais encanto do que anteriormente imaginara que tivesse. - Basta que deslizes pela calha de escoamento da roupa suja e depois descubras a maneira de sair da cave, que fica sempre fechada à chave. Há uma saída, mas terás de descobri-la.

A pausa prolongou-se interminavelmente, enquanto eu reflectia sobre a proposta.

- Mas como é que eu sei que o cano não é perigoso?

- Ora, todas nós já passámos por ele, Heaven, cada uma de nós, e não nos aconteceu mal nenhum! - A Pru sorriu-me de novo. - Vá, sê compincha... Além disso queremos ir visitar-te neste Natal.

Sentia aumentar dentro de mim uma raiva difícil de descrever. Podiam ter-me pregado uma série de partidas, sem terem de recorrer à violência física. Lá em baixo, em cima de toda aquela roupa suja estava um saco de plástico cheio de porcaria à espera...

- Se alguém me provar que aquela passagem é segura e que existe mesmo uma saída para fora da cave... - retorqui. - Não quero ser apanhada lá em baixo de manhã, por uma das lavadeiras, que daria imediatamente parte de mim por me encontrar em zona proibida... Nesse caso, talvez eu...

- Todas nós o fizemos! - exclamou a Pru, como se considerasse a minha precaução completamente descabida. É apenas uma corrida rápida e cais sobre um monte de toalhas molhadas. Nada de especial.

- Mas quero ter a certeza de que encontro uma saída para fora da cave.

- Eu própria o farei, para te provar que não há problema nenhum. Quando me voltares a ver, perceberás que sou a única pessoa corajosa aqui, pois um dos outros membros do clube, que não a presidente, devia ter-se oferecido voluntariamente.

O destino estava traçado. O que porventura acontecesse a seguir não seria obra minha, pensei, ao ver a Pru Carraway empertigar-se cheia de vaidade e depois encaminhar-se, altaneira, para a saída mais larga da roupa suja, por onde eu atirara os meus sacos de plástico. Numa grande demonstração de coragem, fez um floreado com a mão em jeito de despedida e, dizendo "Até já", entrou na abertura redonda, cuja tampa fora levantada por uma das amigas.

Depois de a Pru desaparecer de vista, a pesada porta caiu, ajustando-se com estrondo no seu lugar. O grito agudo que ouvimos a Pru soltar em direcção às profundezas dizia-nos que a descida era divertidíssima!

Sustive a respiração. Talvez os sacos de plástico aguentassem, talvez.

De repente, mais depressa do que eu calculara, soou um tipo diferente de grito. Era de horror, nojo, angústia!

- Ela exagera sempre, não acham? - observou uma voz atrás de mim, que não me dei ao cuidado de ver a quem pertencia.

A Amy Lucket inclinou-se para me segredar:

- Desculpa o que te fizemos, Heaven, mas todas nós temos de passar por algumas provações e eu ouvi o teu tutor dizer a Mistress Mallory que não te ajudasse nem protegesse do que as outras raparigas fizessem. Parece que quer pôr o teu ânimo à prova e ver como reages.

Não sabia que pensar. Ao longe, ouvia a Pru ainda a gritar e a soluçar. Os seus lamentos começaram a diluir-se à distância, a tornar-se cada vez mais débeis. Os segundos foram passando e as raparigas presentes começaram, em voz cada vez mais alta, a fazer comentários, admiradas por a Pru demorar tanto tempo a voltar.

Por fim, a Pru Carraway apareceu. Vinha pálida, trémula, e acabara de tomar um bom banho. Até lavara o cabelo. A pele fora esfregada com tanta força que estava brilhante e ligeiramente esfolada. Fitou-me com ar frio. À minha volta, as raparigas calaram-se.

- Muito bem, provei que pode ser feito. Agora é a tua vez.

- Para ser franca não tenho interesse nenhum em pertencer ao vosso clube - declarei com uma frieza e superioridade que igualava a dela. - Brincadeira é brincadeira, mas tudo o que seja perigoso, ofensivo e fisicamente embaraçoso, é de mau gosto e foge ao bom senso. Eu seguirei o meu caminho e vocês o vosso.

As raparigas olharam todas para mim com expressão de grande choque; porém, nos olhos faiscantes da Pru Carraway brilhava algo mais: alívio por eu não ter denunciado a sua vergonha, e ressentimento e hostilidade porque, durante a sua ausência, eu tinha conseguido arranjar algumas amigas.

 

LOGAN

Nunca me tornei uma das eleitas de Winterhaven. No entanto, pelo menos a maioria das raparigas aceitara-me tal como eu era, diferente e independente, apesar de tímida e insegura. Encontrara, inconscientemente, o mesmo velho escudo que utilizara nos Willies e em Winnerrow; indiferente, aí estava o que eu pretendia ser. Elas que tentassem dar-me cabo da paciência, que me importava? Estava onde queria e isso bastava.

Quando, no dia a seguir ao baile, o Troy telefonou a saber como tinha corrido, contei-lhe que alguém me pregara uma partida horrível; no entanto, sentia-me demasiado embaraçada para lhe dizer qual fora.

- Não ficaste magoada, pois não? - perguntou-me, aparentemente preocupado. - Ouvi dizer que aí em Winterhaven essas raparigas são muito más para as caloiras, sobretudo aquelas com quem não conviveram em sociedade.

- Oh - retorqui de maneira despreocupada -, creio que desta vez o tiro saiu-lhes pela culatra.

Nessa mesma sexta-feira à noite, a Jillian e o Tony regressaram da Califórnia, mais cedo do que era esperado, cheios de animação. Trouxeram-me roupa e jóias, e o facto de eu saber que o Troy, o meu amigo secreto, estava ali perto, na sua pequena casa de pedra, representava um conforto constante e seguro. Tinha quase a certeza de que ele não desejava a minha presença lá, pois eu distraía-o das suas tarefas, e que se não fosse tão delicado e sensível às minhas necessidades ter-me-ia mandado embora.

- Como é que vocês se entretém aos sábados? - perguntou-me o Tony um dia, ao ver-me sair da biblioteca com os braços carregados de livros.

- A estudar, pois então - retorqui com uma pequena gargalhada. - Pensava que sabia muito, mas afinal pouco é. portanto, se a Jillian e o Tony não se importam, vou trancar-me no quarto a "marrar".

Ouvi-o suspirar pesadamente.

- A Jillian costuma ir ao cabeleireiro aos sábados de manhã, depois à tarde vai ao cinema com as amigas. Estava esperançado em ter a tua companhia para ir até à cidade fazer umas compras de Natal.

- Oh, não precisa de repetir o convite, Tony, pois não há nada neste mundo que eu tenha mais vontade de fazer do que visitar a loja principal dos Brinquedos Tatterton.

Por um momento, o Tony pareceu espantado. Depois um sorriso abriu-se, lentamente, no seu rosto agradável.

- Queres mesmo lá ir? Que maravilha! A Jillian nunca mostrou o menor interesse nisso. E a tua mãe, sabedora de que discutíamos frequentemente por causa dessa questão, pôs-se do lado da mãe dela e disse que era demasiado crescida para ligar a bonecos idiotas que não tinham a menor importância para o funcionamento do mundo nem melhoravam as condições sociais ou políticas... Portanto, para que serviam?

- A minha mãe fez essa afirmação? - perguntei, completamente espantada.

- Repetia as ideias da tua avó, que deseja um companheiro de folguedos, não um homem de negócios. Durante uns tempos fez linda roupa de boneca e eu tive esperança de que um dia participasse a sério nos Brinquedos Tatterton.

Pouco depois, escapulia-me para a casa de pedra do Troy, o meu lugar favorito. Bastava a presença dele para me animar. Por que razão o Logan nunca teria feito o meu pulso bater tão violentamente?

Escrevi ao tom, deitada sobre o tapete espesso que o Troy tinha em frente da lareira, implorando-lhe que me aconselhasse sobre o modo de abordar novamente o Logan sem parecer demasiado agressiva.

Quando já tinha a certeza de que o tom nunca responderia à minha última carta, recebi uma sua na minha posta-restante.

"Não entendo todos esses receios. Tenho a certeza de que o Logan ficará encantado se receber um telefonema teu e combinará um local para se encontrarem. A propósito, será que te contei, na última carta, que a nova esposa do nosso pai está à espera de um bebé?

Não tenho recebido notícias directas da Fanny, mas ainda mantenho contacto com alguns velhos amigos em Winnerrow. Parece que a esposa do reverendo foi aguardar a chegada do primeiro filho para casa dos pais dele. E tu, soubeste da Fanny ou das pessoas que ficaram com a "Nossa" Jane e o Keith?"

Não, não soubera nada. E o meu pai continuava a fazer filhos inconsequentemente, quando nunca deveria ter mandado vir mais nenhum! Não, depois do que fizera! Doía-me saber que podia proceder velhacamente e nunca receber castigo, pelo menos não o suficiente! Os dois irmãozinhos mais novos que tão importantes tinham sido na minha vida começavam a tornar-se cada vez mais distantes na minha memória, o que me assustava. Já não sentia aquela angústia lancinante por tê-los perdido, o que não podia permitir que acontecesse. O Troy dissera-me que os seus advogados de Chicago em breve iniciariam as investigações. Era preciso que eu mantivesse a chama da raiva viva, que a conservasse bem acesa e jamais deixasse que as feridas abertas pelo meu pai sarassem. O meu objectivo era ter os cinco Casteel de novo juntos, debaixo do mesmo tecto.

Tal como receara, quando, por fim, ousei telefonar ao Logan, a sua voz não transmitiu o afecto e a ternura que eu lhe conhecera quando me amara.

- Ainda bem que ligaste, Heaven - disse-me em tom frio e desprendido. - Gostaria de me encontrar contigo este sábado, mas terá de ser rápido porque tenho um teste importante na próxima semana.

Oh, maldito fosse! Maldito fosse duas vezes! O tom frio da sua voz fora como uma facada para mim; era o mesmo tom que a sua mãe costumava utilizar sempre que tinha a infelicidade de me encontrar com o seu bem-amado filho único. A Loretta Stonewall odiava-me e fizera pouco esforço para disfarçar as críticas que dirigia ao filho por este se dedicar à escória do monte. E o marido seguira-lhe as pisadas, embora algumas vezes aparentasse constrangimento pela óbvia hostilidade da mulher. Todavia, eu não iria faltar ao encontro com o Logan naquela tarde, apesar da frieza na sua voz. Gastei duas horas a preparar-me... Estava resolvida a aparecer com o meu melhor aspecto.

- Mas que imagem bonita transmites, Heaven - exclamou o Tony ao ver-me. - Adoro a cor desse teu vestido. Fica-te muito bem, embora não me recorde de o ter escolhido.

Franziu as sobrancelhas enquanto reflectia, e eu sustive a respiração, pois tratava-se de um vestido que a Jillian me dera, um que o Tony lhe oferecera mas que ela nunca usara porque não gostava do feitio e da cor ou do facto de o marido considerar o seu gosto superior ao dela.

- Num dia como o de hoje, minha querida menina, não podes levar um agasalho vulgar - declarou, dirigindo-se para um guarda-fato, de onde tirou um casaco comprido de pele de zibelina, pesado e escuro. Segurou-o de modo a eu poder enfiar os braços nas mangas. - Esta pele já tem três anos e a Jillian possui muitas outras. Portanto, se quiseres ficas com ele. E agora diz-me, onde vais? Sabes que tens de me comunicar antecipadamente os teus planos, para receberes a minha autorização.

Como poderia eu contar-lhe que tencionava encontrar-me com um rapaz do meu passado? Ele não compreenderia que o Logan era diferente, que não tinha nada a ver com Winneirow. Presumiria que se tratava apenas de um jovem qualquer de uma aldeia dos montes que ele nunca vira: rude, inculto e mal-educado.

- Fui convidada por algumas das raparigas mais simpáticas de Winterhaven para ir lanchar com elas à cidade. E não é preciso o Miles levar-me. Nem o Tony. Já chamei um táxi.

O meu coração bateu mais depressa e mais alto ao dizer uma mentira que poderia ser uma verdade. O Tony detectou algo na minha expressão ou no tom de voz que o fez semicerrar os olhos e mirar-me atentamente. Tinha um ar arguto e sofisticado, e parecia conhecer todas as manhas do mundo. Os segundos passaram, longos e intermináveis, durante os quais aqueles olhos observadores avaliaram a minha tranquilidade forçada, a minha segurança forjada, ficando aparentemente convencido, pois sorriu.

- Fico muito contente em saber que fizeste amigas em Winterhaven - disse, com prazer. - Já ouvi contar muitas histórias sobre o que aquelas raparigas fazem às caloiras e talvez devesse ter-te alertado. Mas quis que aprendesses, com a experiência, a enfrentar todo o tipo de circunstâncias difíceis.

Sorriu-me aprovadoramente, e algo me deu a certeza de que se inteirara de todos os pormenores embaraçosos relacionados com a noite do baile. Deu-me um apertão por baixo do queixo.

- Ainda bem que tens genica e sabes como lidar com as situações, sozinha. Agora já tens a aprovação delas, apesar de achares que isso não te faz a menor falta. Agora que foste aceite, podes seguir o teu próprio caminho, com a minha aprovação. Sê firme. Não permitas que te intimidem. E arranja amizades entre as raparigas... Mas, quando se tratar de rapazes, primeiro vem ter comigo. Antes de saíres com algum, terás de levar acompanhante e investigarei a família dele. Não posso permitir que andes por aí com a escória.

As palavras do Tony fizeram-me tremer ligeiramente, pois dava a impressão de que eu não poderia ter segredos para ele. Estava ainda a mirar-me com grande aprovação, quando um certo orgulho brotou dentro de mim, fazendo-me empertigar. Algo de afável e terno que se estabeleceu entre nós levou-me a aproximar-me dele e a dar-lhe um beijo na face. O Tony pareceu ficar muito surpreendido e igualmente deliciado.

- Ora, obrigado pelo gesto simpático. Se continuares assim, ainda acabo por satisfazer todas as tuas vontades.

O meu táxi chegou. O Tony ficou à porta a dizer-me adeus e eu segui para um dos locais mais frequentados pelos rapazes da Universidade de Boston, o Café Boar's Head.

Antevia todo o tipo de dificuldade para encontrar o Logan. Pensei, inclusivamente, que ele voltaria a fazer de conta que não me via ou a fingir não me reconhecer, já que eu não fizera o menor esforço para aparentar semelhanças com a velha rapariga miserável dos montes, da qual me envergonhava. Foi então que o avistei, sentado junto da janela do café. Ria e falava animadamente com uma bonita rapariga sentada à sua frente. A possibilidade de ele andar com outra pessoa nunca me passara pela cabeça, pelo menos não a sério. De modo que detive-me, sob a neve que tombava ao de leve, sem saber como proceder. O mês de Outubro já lá ia. Encontrávamo-nos naquela altura em meados de Novembro. Como teria sido agradável convidá-lo para ir à Mansão Farthinggale, onde, em frente de uma lareira acolhedora, ele e o Tony teriam oportunidade de se conhecer. Suspirei melancolicamente ao pensar que os meus desejos jamais se realizariam. Então, perante os meus olhos incrédulos, o Logan inclinou-se sobre a mesa e beijou a rapariga no rosto, terminando nos lábios, onde se deteve interminavelmente num beijo a sério... Beijando-a como nunca me beijara a mim!...

Odiava-o! Odiava-a! Maldito sejas, Logan Stonewall! És igualzinho aos outros rapazes!

Dei meia volta sem me dar conta de que a neve recém-caída era escorregadia. Não pude evitar a queda e tombei de costas, ficando inesteticamente deitada a olhar para o céu, profundamente chocada por me ter acontecido algo tão estúpido. Não me magoara. Recusei a ajuda de quantos quiseram pôr-me de pé... Nesse momento, vi o Logan sair do café a correr. As primeiras palavras que proferiu mostraram-me que, dessa vez, conhecera-me.

- Santo Deus, Heaven, que estás a fazer deitada no chão?

Sem me pedir licença para me ajudar, enfiou as mãos debaixo dos meus braços e ergueu-me. Esforcei-me por recuperar o equilíbrio, o que me obrigou a agarrar a ele, que me observava, divertido.

- Na próxima vez em que comprares botas, vê se escolhes saltos mais baixos.

A rapariga, no interior do café, observava-nos com ar furioso.

- Olá, desconhecido - cumprimentei em voz baixa e sensual, tentando esconder o meu embaraço. Larguei-o, já totalmente recomposta, e sacudi a neve do meu casaco. Lancei-lhe um olhar que o teria perfurado se pudesse. - Vi-te no café a beijar aquela que está ali a olhar para nós, com ar furibundo. Agora manda em ti?

O Logan teve a decência de corar.

- Ela não significa nada para mim, é apenas uma maneira de passar a tarde de sábado.

- Francamente! - exclamei com o tom mais gélido que consegui colocar na voz. - Tenho a certeza de que não serias tão compreensivo se me apanhasses na mesma situação.

Ficou ainda mais vermelho.

- Porque tens de tocar nesse assunto? Além disso, entre ti e o Cal Dennison houve mais do que uns quantos beijos!

- Sim, houve. Mas tu nunca entenderias como tudo aconteceu, mesmo que fosses suficientemente generoso para me dares a possibilidade de explicar.

Ali, no meio da neve que começara a cair com mais força, o Logan parecia muito forte, a linha do seu maxilar denotava firmeza e determinação. A sua aparência distinta levava muitas das mulheres que passavam a deter-se e a olhá-lo duas vezes... E ele fitava-me com o desinteresse de um desconhecido.

O vento frio sibilava nas esquinas dos edifícios e açoitava o solo com rajadas, fazendo com que o cabelo dele se agitasse violentamente no ar. Quanto ao meu, era levantado e empurrado para a frente. Reparei que respirava rápida e violentamente, tão desejosa estava de merecer de novo a aprovação do Logan. O simples facto de estar tão próxima da sua robustez e bondade fez-me perceber o quanto precisava dele. Ansiava terrivelmente por ter novamente o seu amor, o seu afecto e carinho, já que ele me amara quando eu não passava de uma pacóvia insignificante, além de que, com ele, eu não precisava de fazer de conta que era mais do que era na realidade.

- Heaven, foi simpático teres-me telefonado. Tenho tido vontade de o fazer sempre que penso em ti. Uma vez passei em frente da Mansão Farthinggale, mas fiquei tão impressionado que perdi a coragem e voltei para trás.

Nesse momento começou a ver-me, a ver-me de verdade. Os seus olhos espelharam incredulidade, iluminando-se brevemente de prazer.

- Estás tão diferente - declarou, movendo os braços como se fosse abraçar-me, antes de os deixar cair ao lado do corpo e enfiar as mãos nos bolsos, como se aí elas encontrassem um porto seguro e acolhedor. - Espero que para melhor.

O Logan examinou-me com um ar de tão profunda censura que comecei a tremer ligeiramente. Que teria eu feito de errado?

- Pareces muito rica, demasiado rica. Mudaste de penteado e usas maquilhagem.

Qual seria o problema dele? Nenhuma das minhas "melhorias" parecia agradar-lhe.

- Fazes lembrar uma dessas modelos que saem nas capas das revistas.

E isso era mau? Tentei sorrir.

- Oh, Logan, tenho tanto que te contar! Estás com óptimo aspecto! - A neve começara a congelar-me o rosto. Partículas brancas de neve fofa tinham ficado presas nos cabelos do Logan e nos meus, e gelavam-me a ponta do nariz. - Haverá algum sítio onde nos possamos sentar a conversar, onde se esteja confortável e aquecido? Talvez nessa altura deixes de olhar para mim com esse ar.

Continuei a falar de banalidades enquanto ele me acompanhava até ao interior do café, levando-me até uma mesa, onde nos sentámos e mandámos vir chocolate quente. Reparei que a rapariga continuava a fitar-nos com raiva, mas fiz de conta que não a via e o Logan imitou-me.

O Logan passeou o olhar pelo meu casaco de peles, reparando nos fios de ouro que eu trazia ao pescoço e, quando tirei as finas luvas de cabedal macio, nos anéis que tinha nos dedos.

Tentei sorrir.

Logan - principiei de olhos baixos, decidida a não desanimar -, será que não podemos deixar para trás o que aconteceu- e começar de novo?

O Logan levou muito tempo a responder, como se tentasse libertar-se de uma decisão já tomada, e cada segundo que eu passava com ele trazia-me à memória recordações dos momentos de doçura por que passáramos por nos termos um ao outro. Oh, se ao menos eu nunca tivesse permitido que o Cal Dennison me tocasse! Se ao menos tivesse sido mais forte, mais ponderada, mais conhecedora dos homens e dos seus desejos físicos! Talvez nessa altura tivesse conseguido manter à distância um homem mais velho, que era basicamente fraco e tivera a indecência de se aproveitar de uma pacóvia jovem e estúpida.

- Não sei - respondeu ele por fim, em voz lenta e hesitante. - Não consigo deixar de pensar na facilidade com que me esqueceste e ao juramento que fizemos um ao outro, mal te foste embora.

- Por favor, faz um esforço! - implorei. - Nessa altura não sabia no que estava a meter-me e sentia-me encurralada por circunstâncias que escapavam ao meu controlo...

Ergueu o queixo teimoso, parecendo tornar-se mais determinado.

- Não sei porquê, mas ao ver-te como estás hoje, com jóias caras e esse casaco de peles, não me pareces a mesma rapariga que conheci. Já não sei como lidar contigo, Heaven. Deixaste de parecer vulnerável. Dá a impressão de que não precisas verdadeiramente de nada nem de ninguém.

O meu coração contraiu-se. O que ele via não passava de uma confiança superficial proporcionada pela roupa e jóias caras. Bastava raspar a superfície para logo descobrir a pacóvia Casteel dos montes. Foi então que percebi aonde ele queria realmente chegar.

Ele gostara mais de mim quando eu despertava pena! Fora atraído pela minha vulnerabilidade, a minha pobreza, os meus feios vestidos desbotados e os meus sapatos andrajosos! Aquilo que eu imaginara que ele mais admirava em mim, a minha força interior, nem sequer tinha importância para ele naquele momento!

Fixei o olhar na camisola castanho-escura, sentindo curiosidade em saber, não sei porquê, se ainda conservaria o horroroso boné vermelho tricotado que lhe fizera uma vez. Senti que, mais uma vez, as circunstâncias fugiam ao meu controlo, mas isso não significava que desistisse sem luta.

- Logan - principiei de novo -, neste momento estou a viver com a minha avó verdadeira. Ela é tão diferente da avó dos montes como o dia da noite. Nunca imaginei que uma avó na meia-idade pudesse ter um ar tão jovem e não só fosse linda como também esplendorosa. Esta avó vive num mundo diferente daquele que conheceste nos Willies.

Quão rapidamente ele formara a sua opinião, como se nunca tivesse dúvidas sobre algo ou alguém. A certa altura pegou, por fim, na sua caneca e bebeu.

- E que tal achas o teu avô? - perguntou. - Também é jovem e fabulosamente bonito?

Tentei ignorar o sarcasmo dele.

- O Tony Tatterton não é o meu avô de verdade, Logan, mas sim o segundo marido da minha avó. O pai da minha mãe morreu há dois anos. Lamento não ter tido a oportunidade de o conhecer.

Os olhos intensamente azuis do Logan adoptaram um ar abstracto, ainda presos num ponto algures atrás da minha cabeça.

- Um dia vi-te, em meados de Setembro, a fazer compras acompanhada por um homem mais velho, que te pegava no cotovelo e guiava para onde queria ir. Tive vontade de te chamar, mas não fui capaz. Segui estupidamente os dois durante algum tempo e vi-te provar montanhas de vestidos através dos vidros das montras das lojas, exibindo-os diante daquele homem. Fiquei espantado com as mudanças que se operavam em ti consoante o que vestias. E mais, fiquei admirado ao ver como tu própria ficavas diferente! Sempre que ele te comprava algo, rias e sorrias como nunca te vi fazer antes. Heaven, eu não fazia ideia de que aquele homem jovem podia ser o teu avô. Só sentia ciúmes. Quando te amava e planeávamos o nosso futuro, queria ser eu a encher os teus olhos daquela alegria e o teu rosto daquele brilho.

- Mas eu precisava dos casacos quentes que ele me comprou, das botas, dos sapatos. E quanto aos casacos de pele, não são novos, foram-me dados pela Jillian, a minha avó, que depressa se farta da roupa e de tudo o mais. Não tenho assim tanto como pensas. E as coisas em Farthy não são assim tão maravilhosas. A minha avó mal fala comigo, sequer!

O Logan inclinou-se para mais perto, trespassando-me com o seu olhar severo.

- Mas o avô por afinidade adora ter-te por perto, não é? Saltava à vista naquele dia em que vos encontrei nas compras. A aquisição daquela roupa deu-lhe tanto gozo a ele como a ti!

Aquele ciúme feroz alarmou-me.

- Tem cuidado com ele, Heaven - prosseguiu. - Lembra-te do que aconteceu quando vivias em Candlewick com a Kitty Dennison e o marido; pode voltar a suceder.

Senti que os meus olhos se esbugalhavam de dor diante daquele ataque inesperado. Como poderia ele pensar em semelhante possibilidade? O Tony não tinha nada a ver com o Cal! O Tony não precisava de mim para lhe fazer companhia enquanto a mulher trabalhava até tarde. O Tony possuía uma esposa a tempo inteiro, uma esposa rica, atarefava-se com férias e negócios, e tanto ele como a Jillian tinham centenas de amigos com quem conviviam para se distrair. No entanto, saltava à vista que o Logan se recusaria a acreditar em mim se lhe apontasse estes factos. Abanei negativamente a cabeça, rejeitando semelhantes desconfianças, irada por ele as ter. Desiludida por ele não ser capaz de perdoar e esquecer e já não confiar em mim como outrora.

- Ainda costumas ter notícias dele? - perguntou-me agressivamente, estreitando os olhos.

- De quem? - perguntei, confundida pela reviravolta súbita nas suspeitas dele.

- Do Cal Dennison!

- Não! - exclamei. - Não sei dele desde o dia em que saí de Winnerrow! Ele não sabe onde estou! Nunca mais quero voltar a vê-lo!

- Tenho a certeza de que ele descobrirá o teu paradeiro. - O Logan falava agora com voz inexpressiva. Pegou na sua caneca, esvaziou-a e pousou-a violenta e ruidosamente em cima da mesa. - Foi bom voltar a ver-te, Heaven e saber que agora tens tudo o que desejavas. Lamento que o teu avô verdadeiro tenha morrido antes de o veres, e fico feliz por gostares tanto do teu novo avô. Reconheço que ficas muito bonita com a tua roupa e no teu casaco de peles, mas já não és a mesma rapariga por quem me apaixonei. Essa rapariga foi destruída em Candlewick.

Estupefacta e profundamente magoada, ao ponto de me sentir mortalmente ferida fiquei sem fala. De boca aberta, quis implorar-lhe que me desse outra oportunidade. As lágrimas quentes que me subiram aos olhos mal me deixavam ver. Esforcei-me por encontrar as palavras certas, mas o Logan já se levantara e dirigia para junto da rapariga que o aguardava perto da janela. Sentou-se ao lado dela, sem voltar a olhar uma vez, sequer, para mim.

Portanto, todo o cuidado que pusera na preparação para aquele encontro, na esperança de o impressionar, fora completamente em vão. Devia ter vindo com os meus farrapos, com o meu cabelo comprido desgrenhado, com olheiras de fome por baixo dos olhos... Assim talvez ele tivesse mostrado mais compaixão por mim.

Foi então que a verdade, nua e crua, de que nunca suspeitara até àquele dia, se abateu sobre mim!

O Logan nunca me amara de verdade! O Logan só sentira pena de uma vagabunda dos montes e quisera fazer recair protectoramente sobre mim a amplitude da sua generosidade! Considerara-me um caso de caridade!

Veio tudo à tona, as pastas e escovas de dentes, sabonetes e champôs tirados das prateleiras do drugstore do pai. Oh, o embaraço que sentia pela sua pena condescendente encheu-me de vergonha! Como estava arrependida por me ter permitido acreditar que ele via em mim algo admirável! Limpei impacientemente as abundantes lágrimas de raiva que me escorriam pelo rosto; depois pus-me de pé num salto, agarrei na bolsa e no casaco de peles e precipitei-me para a porta, movendo-me com maior rapidez do que ele. Vi-me imediatamente na rua, a vestir o casaco ao mesmo tempo que corria. A fugir daquele para junto de quem sempre correra!

A neve caía obliquamente, violenta e sob a força do vento. Senti o frio trespassar-me, pois ainda não conseguira vestir o casaco comprido. A minha respiração formava nuvens de vapor, ao mesmo tempo que eu tossia, soluçava e tinha vontade de morrer. Ouvi o som dos passos do Logan mesmo atrás de mim. Virei-me para trás, com o casaco a adejar ao vento, e lancei um olhar de ódio para a expressão preocupada que chegara tarde de mais ao rosto dele.

- Não precisas de voltar a ter pena de mim, Logan Grant Stonewall! - gritei ao vento, pouco me importando com quem me escutasse. - Não admira que te tenha traído inconscientemente com o Cal Dennisson! Talvez fosse o meu instinto a dizer-me quais eram exactamente os teus sentimentos por mim! Nada de amor, admiração, de amizade genuína... ou algo de que eu verdadeiramente precisasse ou quisesse para mim. Portanto, fizeste bem ao sugerir que terminássemos! Está tudo acabado entre nós! Nunca mais quero ver-te enquanto viver! Volta para Winnerrow e arranja outra pacóvia dos montes nos Willies! E abençoa-a com a tua piedade execrável!

Dei meia volta e corri até à esquina mais próxima, onde apanhei rapidamente um táxi.

"Adeus, Logan", pensei, soluçando, enquanto o carro se afastava "Foi terno e amoroso quando imaginei que me amavas por mim mesma, mas de hoje em diante nunca mais voltarei a pensar em ti!"

Até conseguira fazer com que sentisse remorsos em relação ao Troy quando nem sequer sabia da existência deste, querido maravilhoso, talentoso e belo Troy, que não tinha a menor parecença com o Cal Demimson, junto de quem nada sentira.

 

PROMESSAS

Lágrimas dolorosas ainda corriam pelo meu rosto quando o táxi passou sob os impressionantes portões negros da Mansão Farthinggale, lágrimas que mal me permitiram dizer ao motorista que virasse de maneira a ir até à pequena casa de pedra onde eu esperava encontrar o Troy.

Corria para junto do único amigo que me restava, quase cega pelas lágrimas, sofrendo como se tivesse voltado a perder todos quantos já me haviam deixado, e a dor se fosse acumulando interminavelmente. Eu tivera sempre uma parte, em mim, pequena mas confiante, que me dissera que o Logan jamais deixaria de ser meu e que, por causa disso, eu poderia sempre reconquistá-lo.

Nada era eterno! Nada estava certo! A minha desilusão era do tamanho do mundo. Nada!

- Doze dólares e quinze cêntimos - disse o motorista do táxi, aguardando impacientemente que eu limpasse os olhos e tentasse contar a quantia exacta.

No entanto, eu só tinha uma nota de vinte, que lhe enfiei na mão, saindo rapidamente do calor do banco de trás.

- Fique com o troco - disse-lhe com voz enrouquecida.

A neve, cortante como minúsculas lâminas de gelo, vergastava-me o rosto. Corri cegamente para a casa de pedra, enquanto o vento, que soprava com violência, quase me arrancava os cabelos. Sem me preocupar com a privacidade do Troy, esforcei-me por abrir a porta; o vento, porém, estava por trás de mim, dificultando a operação. Quando consegui, finalmente, abri-la e entrar, o vento fê-la bater estrondosamente logo a seguir. Obrigada a voltar à realidade pelo barulho, encostei-me a ela e tentei recuperar parte do controlo das minhas emoções.

- Quem está aí? - perguntou o Troy da sala ao lado, aparecendo, em seguida, à entrada do seu quarto, nu, com uma toalha enrolada à volta dos quadris e o corpo coberto de gotas de água. Trazia o cabelo molhado e despenteado. - Heaven! - exclamou, com uma expressão de espanto nos olhos, pelo meu súbito e intempestivo aparecimento. Levou a toalha que trazia nas mãos ao cabelo e esfregou-os vigorosamente. - Vem para aqui, senta-te, põe-te à vontade e dá-me um minuto para vestir alguma roupa.

Nem uma palavra a dizer que não estava a contar comigo, nenhuma reprimenda por aparecer sem avisar. Antes de se virar e desaparecer no interior do quarto, limitou-se a sorrir-me com preocupação.

O desespero tornava as minhas pernas pesadas, dando a impressão de que se encontravam pregadas ao chão. Eu tinha a noção de que estava a reagir com exagero, no entanto, não conseguia recuperar suficientemente o fôlego para controlar os arquejos que pareciam vir de outra pessoa que não eu. Ainda me encontrava encostada à porta, com os braços apoiados à madeira, agarrando nesta com os dedos em busca de estabilidade, quando o Troy saiu do quarto, completamente vestido, com a sua blusa de seda branca e as calças pretas justas. O cabelo, ainda ligeiramente húmido, emoldurava-lhe o rosto em ondas brilhantes. O Troy, comparado com a cor avermelhada do Logan e o bronzeado intenso, parecia extraordinariamente pálido.

Avançou para mim sem falar e, agarrando-me suavemente nas mãos, afastou-me da porta, tirando-me a bolsa do ombro antes de me despir o pesado casaco de peles molhado.

- Pronto, pronto - disse em tom tranquilo -, nada pode ser assim tão mau, pois não? Num belo dia de neve como este, com o vento a ulular lá fora e a dizer-nos que é mais sensato ficarmos dentro de casa, não há nada que saiba melhor do que uma lareira crepitante, boa comidinha e uma companhia agradável.

Instalou-se numa poltrona próxima do fogo; em seguida, ajoelhou-se para me descalçar as botas, esfregando-me os pés enregelados, envolvidos em meias de nylon, com as mãos, para os aquecer.

O meu cansaço era tão grande que fiquei como morta na poltrona, de olhos muito abertos e hirtos, até as lágrimas acabarem por parar. Senti parte do grande peso que me oprimia o peito, e que tanto me fazia sofrer, desvanecer-se. Só nessa altura é que fui capaz de olhar em volta. A única luz que reinava na sala era a que provinha do animado fogo que brilhava na lareira, projectando-se nas paredes numa dança de luzes e sombras. Enquanto reparava no que me rodeava, o Troy deixava-se estar de joelhos a olhar para mim, enquanto puxava um tamborete para mais perto. Levantou-me as pernas e pousou-as sobre ele, tapando-me até à cintura com uma manta em lã de cor viva.

- Agora são horas de comer - disse com um pequeno sorriso de aprovação ao ver-me secar a última lágrima com o meu frívolo lencinho. Todos os lenços de papel que eu trouxera na mala já tinham sido usados. - Café, chá, vinho, chá ou chocolate quente?

Ouvir mencionar a última bebida trouxe-me, de novo, lágrimas aos olhos. Alarmado, o Troy apressou-se a sugerir:

- Antes de mais nada, um golo de brandy para te aquecer. Depois, que tal um chá quente?

Sem esperar pelo meu consentimento, levantou-se e foi até à cozinha, detendo-se para ligar a aparelhagem de som estereofónica para que pudesse inundar aquela sala, que a luz da lareira iluminava, de música clássica suave. Por um breve instante veio-me à lembrança a cadência barulhenta da música folclórica de que a Kitty gostava, e estremeci.

No entanto, aquele mundo era diferente, era o mundo do Troy, onde a realidade ficava bem do lado de lá dos portões de ferro, e ali, em segurança, no meio do conforto e do calor, só havia beleza, bondade e o aroma ténue do pão acabado de fazer. Fechei os olhos e lembrei-me vagamente do Tony. Lá fora a noite caíra já quase por completo. Ele devia estar a passear de um lado para o outro e a olhar constantemente para o relógio, à espera de que eu chegasse, sem dúvida furioso porque eu não cumprira o prometido. Porém, o sono desceu sobre mim como uma bênção, apagando a imagem do Tony e todo o desespero.

Deviam ter-se passado minutos antes de eu ouvir a voz do Troy dizer:

- Vá, acorda e toma uns goles de brandy.

Ainda de olhos fechados, obedeci e entreabri os lábios, deixando o líquido quente e ardente descer até ao meu estômago; mas, de repente, pus-me a tossir, e endireitei-me de supetão devido ao sabor da bebida que nunca provara antes.

- Agora já chega - disse o Troy, afastando o pequeno cálice. Sorriu, como que divertido com a minha reacção a apenas um gole. - Não se compara com o orvalho da montanha, não é isso que me queres dizer?

- Nunca provei o orvalho da montanha - sussurrei com voz áspera -, nem nunca pretendo fazê-lo.

O rosto forte, brutal e bem-parecido do meu pai faiscou diante dos meus olhos. Um dia, um dia eu e ele encontrar-nos-íamos de novo, quando eu pudesse agir com a mesma crueldade que ele.

- Deixa-te ficar aí sentada a dormitar enquanto eu preparo o jantar. Depois poderás contar-me o que te trouxe aqui mergulhada em lágrimas.

Fiz menção de falar; porém, o Troy mandou-me calar levando um dedo aos lábios.

- Mais tarde.

Vi-o cortar o pão fresco e preparar as sanduíches com a mesma destreza que fazia com que as suas tarefas fossem leves e agradáveis.

Colocou um tabuleiro no meu colo, depois trouxe um outro, coberto por um guardanapo, com as sanduíches e o chá. Sentou-se no chão, de pernas cruzadas em frente da lareira, a comer a sua refeição. Dessa vez, mantivemo-nos em silêncio, reconfortados com a presença um do outro, enquanto ele me ia olhando de vez em quando para se certificar de que eu comia e bebia, sem me deixar cair no torpor que teimava em me dominar de novo o corpo.

A neve fustigava os vidros das janelas, embranquecendo-as com gelo. O vento competia, assobiando, com a música. Ainda assim, comparado com o que, nos Willies, entrava por entre as frinchas da cabana de madeira, aquele parecia brando e abafado. Aquela casa de pedra, seis vezes maior, era confortável e bem construída, dispondo de paredes espessas e isolamento. Na velha cabana podíamos ver o céu através das paredes.

Comecei a mordiscar na sanduíche e, antes que desse por isso, comi-a num ápice e engoli a chávena de chá fumegante. O Troy, que fizera desaparecer três sanduíches enquanto eu me encarregava de uma, sorriu-me prazenteiramente.

- Outra? - ofereceu, preparando-se para se levantar e voltar à cozinha.

Recostei-me e sacudi a cabeça.

- Chega. Só depois de provar as suas sanduíches é que percebi que podiam ser uma delícia.

- Quando se quer, pode ser uma forma de arte. Que tal uma fatia de bolo caseiro de chocolate como sobremesa?

- Feito por si?

- Não, eu nunca me meto em bolos ou tartes, isso fica ao cuidado do Rye whiskey, que me manda sempre um enorme pedaço de bolo quando os faz. Há que chegue para nós dois.

Contudo, eu estava repleta. Sacudi a cabeça, rejeitando o bolo, embora o Troy tenha engolido rapidamente uma fatia que me fez lamentar a minha decisão. Eu já aprendera que o Troy nunca oferecia a mesma coisa duas vezes. Ou se aceitava logo à primeira, ou nada feito.

- Desculpe ter irrompido pela sua casa como fiz - murmurei, sentindo-me novamente ensonada. - Devia apressar-me a voltar para a mansão Farthinggale antes que o Tony fique furioso comigo.

- Ele não está à espera que viajes com uma borrasca como esta. Calculará que te enfiaste nalgum vestíbulo de hotel e que voltarás para casa assim que puderes. Mas podias fazer-lhe um telefonema para ele ficar mais descansado.

Quando levantei o auscultador, verifiquei que as linhas estavam cortadas.

- Não te preocupes, Heaven. O meu irmão não é nenhum louco. Compreenderá.

Perscrutou lentamente o meu rosto, apercebendo-se, possivelmente, da fadiga emocional que deixava transparecer.

- Queres falar sobre o assunto?

Não, eu não queria falar sobre a rejeição do Logan; era demasiado doloroso.

No entanto, apesar da vontade e necessidade que eu tinha de o manter alheio ao meu desgosto a minha língua não me obedeceu e contou-lhe toda a história de como eu desiludira o Logan de forma importante, levando-o a não me perdoar.

- E o que é igualmente mau, ele está furioso por eu ter deixado de ser pobre e desgraçada!

O Troy levantou-se e foi pôr a louça que utilizáramos na cozinha. A seguir deixou-se cair de novo no chão, que preferia nitidamente ao seu sofá e cadeiras confortáveis; esticou-se, de costas, sobre a sua carpete espessa e macia e colocou as mãos atrás da cabeça antes de observar com ar pensativo:

- Tenho a certeza de que um dia, não muito longínquo, o Logan arrepender-se-á do que te disse hoje e voltará a dar notícias. Vocês são ambos muito jovens.

- Eu nunca mais quero ouvir falar nele. - Engasguei-me e tentei não chorar. - Para mim, o Logan Stonewall morreu!

Mais uma vez, um pequeno sorriso brincou nos lábios belamente torneados do Troy. Só depois de este se desvanecer é que desviou o rosto para o outro lado.

- Gostei que viesses até cá desabafar comigo, fosse qual fosse a razão. Não direi nada ao Tony.

- Porque é que ele não quer que eu venha cá? - perguntei, já não pela primeira vez.

Por breves instantes a sua expressão toldou-se.

- No começo, quando te conheci, não quis envolver-me na tua vida. Agora que te conheço melhor, sinto-me na obrigação de te ajudar. Quando me deito a dormir, os teus olhos aparecem à minha frente. Como é que uma rapariga de dezasseis anos pode possuir um olhar tão profundo?

- Eu não tenho dezasseis anos! - exclamei em voz enrouquecida e entrecortada. - Já tenho dezassete... Mas não se atreva a contar ao Tony.

Mal as palavras me saíram já me arrependera de as ter proferido. O Troy devia lealdade ao Tony, não a mim.

- Por que razão haverias de mentir sobre algo tão inconsequente como um ano? Dezasseis, dezassete, que diferença tem?

- No dia vinte e dois de Fevereiro farei dezoito anos - dissera-lhe, um pouco na defensiva. - Nos montes, as raparigas dessa idade normalmente já casaram e tiveram filhos.

Ao ouvir aquilo, o Troy virou o rosto para mim.

- Ainda bem que já não vives nos montes. Agora explica-me por que razão disseste ao Tony que tinhas dezasseis anos em vez de dezassete?

- Não sei. Quis impedir que a minha mãe parecesse demasiado insensata e impulsiva quando casou com o meu pai, a quem conheceu poucas horas antes de responder afirmativamente à proposta de casamento dele. A avó sempre disse que foi amor à primeira vista. Eu não percebia o que ela queria dizer, e ainda me custa a acreditar que uma rapariga vinda de uma família rica e importante como ela, e tão culta, possa ter-se apaixonado por um homem como o meu pai.

Os olhos escuros do Troy tinham a profundidade dos lagos nas florestas densas; eu poderia afundar-me neles.

O relógio do pai do Troy começou a marcar as oito da noite, e a borrasca mantinha-se. Uma caixa de música, que devia estar marcada para a mesma hora, emitiu uma melodia suave e misteriosa, ao mesmo tempo que figuras minúsculas saíam, cada uma por sua porta.

- Nunca vi um relógio assim - observei, reverentemente.

- Tenho uma colecção de relógios antigos - murmurou o Troy com ar ausente, pondo-se de lado para me observar com ar brando e compreensivo. - Quando se é rico como um Tatterton, nunca se sabe como gastar o dinheiro... E pensar que, durante todo este tempo, estavas nos Willies, a precisar do que eu poderia ter dado sem a menor dificuldade. Agora, parece-me uma obscenidade saber que eu tenho tanto enquanto outros possuem tão pouco. Também fico chocado ao verificar que nunca me lembrei de pensar na pobreza, talvez porque sempre vivi no meu próprio mundo e as pessoas que conheci tinham tanto quanto eu.

Inclinei ainda mais a cabeça, apercebendo-me naquele momento de quão diferente a vida do Troy fora da minha. E continuei sentada, mas a certa altura o olhar do Troy em mim tornou-se incomodativo de tão fixo, agitando-me e levando-me a levantar e a espreguiçar.

- Já o obriguei a perder muito tempo. Agora tenho de voltar para casa, não vá o Tony fazer-me demasiadas perguntas.

A verdade é que esperara que ele objectasse, que me dissesse que ainda era impossível sair, mas dessa vez o Troy pôs-se de pé e sorriu-me.

- Está bem. Há um caminho que eu não queria que conhecesses. Aqui, o clima é muito frio, e. quando Farthy foi construída, rodeada de celeiros e estábulos, os meus antepassados, que tinham espírito prático, prepararam-se para os grandes nevões. Mandaram escavar túneis para neles os cavalos e outros animais poderem ser tratados e alimentados. Há muito tempo, no mesmo sítio onde esta casa de pedra agora se ergue, havia um celeiro com um adega subterrânea. Ela é que torna, evidentemente, o acesso à casa grande muito fácil quando o tempo está pior. Já podia ter-te contado este pormenor, mas quis que ficasses a fazer-me companhia. - Desviou o olhar, que ficara ligeiramente vítreo, de mim. - É estranho como me sinto à vontade contigo, uma mera criança. - Fixou, uma vez mais, os olhos penetrantes em mim. - Se entrares na adega de Farthy e utilizares a porta de oeste que está pintada de verde, o túnel levar-te-á até à cave que fica por baixo desta casa. As outras portas, a azul e a amarela, não vão dar a parte nenhuma, pois o Tony mandou selar esses túneis. Achou que demasiadas passagens, por muito secretas que se mantivessem, tornavam Farthy acessível aos ladrões.

Foi buscar o meu casaco e as botas ao roupeiro das visitas e segurou na peça de vestuário para que eu enfiasse os braços; depois de o casaco me ficar bem aconchegado ao corpo, não tirou imediatamente as mãos. Estava atrás de mim; portanto, não podia ver a sua expressão. Ao virar-me, sorriu antes de me pegar na mão e conduzir-me até uma porta que ficava na cozinha e dava para umas escadas de madeira que iam ter a uma cave enorme, fria e escura. Depois de descermos, o Troy mostrou-me a porta verde de topo arqueado.

- - Vou acompanhar-te à casa grande - disse, sem me largar a mão. - Quando eu era menino, estes túneis subterrâneos metiam-me medo. Esperava sempre encontrar, a cada curva, monstros, fantasmas ou algo que eu não quisesse ver.

Compreendia perfeitamente o que ele queria dizer, apesar de me mostrar o caminho, e o calor da sua mão na minha me proporcionar segurança. Fez-me lembrar o túnel de uma mina de carvão em que eu e o tom uma vez entráramos, apesar das tabuletas a dizerem: "Perigo! Não entrar!"

O Troy só largou a minha mão quando chegámos ao fim do enregelado túnel, onde se nos deparou umas escadas íngremes e estreitas.

- Sairás no átrio da cozinha que dá para as traseiras - sussurrou-me ele. - Escuta bem antes de abrir a porta que vês ali no cimo. O Rye whiskey costuma trabalhar até tarde.

Tocou com a mão no meu rosto e perguntou:

- Que explicação vais dar ao Tony?

- Não importa. Minto bem, lembra-se? - com estas palavras, rodeei-lhe o pescoço com os braços. Porém, não o beijei. Apertei apenas a face fria contra a dele. - Sem si, não sei o que faria.

O Troy apertou-me contra si por um instante breve e excitante.

- Mas tem sempre presente que é do Logan que gostas e precisas, não de mim.

Subi as escadas a correr, magoada porque o Troy achara necessário advertir-me de que mantivesse a distância. Que haveria de errado comigo? Precisava de alguém como o Troy. Sentia uma falta desesperada da sua sensibilidade e compreensão. Havia ocasiões em que olhava para o Tony, depois obrigava-me rapidamente a esquecer o seu encanto e boa aparência. Era demasiado dominador, como o meu pai.

Começara já a fungar quando entrei no estreito corredor que ficava por trás da enorme cozinha da mansão Farthinggale. Apesar de já ser tarde, o Rye whiskey encontrava-se ali, a preparar os alimentos que seriam servidos no dia seguinte. Cantarolava para manter o ritmo do seu saco de pasteleiro, com o qual fazia bolinhos. O rapaz negro que estava ao seu lado a aprender a arte, acompanhava-o tocando batuque com as colheres. Esgueirei-me pela porta da cozinha na ponta dos pés e só depois é que acelerei a passada.

Uma hora depois, estava deitada na minha cama, a olhar para as janelas e a escutar o vento e as batidas do meu coração. Sentia grande dificuldade em adormecer, embora estivesse mergulhada em sonhos quando a porta do meu quarto foi intempestivamente aberta e a voz do Tony ribombou, fazendo-me erguer de supetão e olhos bem abertos.

- Como entraste em casa sem eu te ver? - Desorientada e amedrontada pela sua voz, sentei-me muito direita na cama, apertando a borda do lençol contra o peito. Dessa vez não me ocorreram as desculpas que, por vezes, tinha tanta facilidade em proferir; por isso, limitei-me a tremer. E desconfiava de que nem mesmo o Troy poderia proteger-me da fúria do Tony se eu a desencadeasse.

O Tony entrou a passos largos no meu quarto e acendeu o candeeiro da minha mesa-de-cabeceira. Olhou-me, do alto da sua estatura, longa e duramente.

- Onde estiveste e como conseguiste voltar de Boston? Não há uma estrada aberta ao trânsito do norte da cidade desde as três da tarde!

Enquanto eu dava voltas à cabeça, tentando fazer com que ele não visse o quão aterrorizada me sentia com a sua ira e censura, a perspectiva do que poderia vir a acontecer não me deixava falar. Deixando-me cair sobre as almofadas, olhei para o Tony com olhos esbugalhados de terror. Como parecia intimidativo e colérico ao olhar de cima para mim!

Falou com voz baixa e severa.

- Menina, não penses que me mentes e ficas impune. Fizemos um acordo, tu e eu, e eu exijo que cumpras a tua parte.

- Eu... eu... eu não cheguei a sair - gaguejei, mentindo. - Quando o táxi passou por baixo dos portões, perdi subitamente a coragem. Senti vergonha de lhe mostrar que na verdade não gostava daquelas colegas de Winterhaven e estava demasiado insegura para fingir que sim. Portanto, entrei silenciosamente por uma porta das traseiras, voltei para o meu quarto, e depois...

- E depois o quê? - perguntou o Tony friamente, estreitando os olhos com desconfiança.

- Receava que viesse inspeccionar o meu quarto. Portanto, escondi-me numa das divisões que não são usadas.

- Perdeste a coragem? - perguntou o Tony ironicamente. - Escondeste-te? Que interessante. Em que quarto te enfiaste?

Santo Deus! A facilidade com que ele poderia encurralar-me!

- no segundo quarto da ala norte, sabe, aquele que Jillian quer redecorar. O cor de pêssego. O que ela considera antiquado.

O Tony franziu ainda mais as sobrancelhas.

- E a que horas decidiste sair desse quarto e voltar para este?

Agora tentava fazer-me cair na armadilha. Podia ter ido àquele quarto durante todo aquele tempo... Duas horas atrás teria encontrado a cama vazia.

Não me lembro, Tony, realmente não. Quando estava no quarto cor de pêssego adormeci, e quando acordei e voltei para aqui, atarantada, não reparei nas horas. Limitei-me a despir e a deitar.

- E nem sequer pensaste em mim, na preocupação em que eu devia estar?

- Desculpe - sussurrei -, mas como estava em falta, não sabia como contar-lhe a verdade sem ficar malvista.

- Já ficaste malvista - retorquiu o Tony asperamente, fitando-me com olhar irado. - A Jillian e eu tivemos uma discussão terrível hoje à tarde. Ela tem horror de que os amigos desconfiem que tu és sua neta e que lhe façam perguntas sobre a Leigh.

Mexi nervosamente na fitinha que debruava o colarinho da minha camisa de noite cor-de-rosa.

O Tony dirigiu-se para a porta e deteve-se no umbral, quase bloqueando a luz que vinha do corredor.

- Heaven - disse, de costas voltadas -, eu não gosto de cobardes. Espero que nunca mais repitas a façanha de hoje.

Fechou a porta.

 

FÉRIAS, DIAS DE SOLIDÃO

Os preparativos para o dia de Acção de Graças principiaram uma semana antes.

Eu tinha uma semana inteira de férias, de sexta a segunda-feira. No andar do topo, onde ficava o reino da Jillian e do Tony, tudo decorria como de costume, mas em baixo, na cozinha, começou a chegar tamanha variedade de produtos que fiquei de boca aberta. Só havia seis convidados para o jantar; no entanto, vieram três abóboras frescas. com a Jillian, o Tony, o Troy e eu, já éramos dez. Oh, até que enfim que o Troy era incluído como membro genuíno daquela família!

- Fale-me das pessoas que vêm - pedi ansiosamente ao Rye, empoleirada num banco alto, muito atarefada a picar vegetais ou o que porventura ele achasse que eu podia fazer. Ele, porém, não era nada fácil de contentar. Bastava um sorriso ou um franzir de sobrolho seu para eu perceber se estava, ou não, a cortar os meus vegetais com "inclinação" suficiente.

- Amigos - respondeu o Rye -, do senhor e da sua esposa. Amigos importantes que vêm de propósito de avião só para comer na Mansão Farthinggale. Fico vaidoso comigo mesmo por saber que também contribuo para os atrair aqui com os belos acepipes que preparo. Mas eles não vêm só por essa razão. Mister Tatterton tem muito jeito para lidar com as pessoas, todos gostam dele. Mas também vêm ver Mistress Tatterton, para verificar até que ponto envelheceu desde a última vez em que estiveram juntos. E agora também vêm ver Mister Troy, que só aparece em ocasiões sociais muito importantes. É um mistério para eles, assim como para todos nós aqui. Não espere encontrar ninguém abaixo dos vinte. Mistress Tatterton detesta crianças nas suas festas.

O dia de Acção de Graças amanheceu luminoso, ensolarado e muito frio. Eu estava tão encantada com o facto de o Troy vir ao jantar que, de vez em quando, dava comigo a cantarolar. Envergava um vestido especial de veludo cor de vinho que o Tony me escolhera, e este ficava-me tão bem que às vezes olhava de relance para o espelho a fim de me admirar.

O Troy foi o primeiro convidado a chegar e, como eu estivera a vigiar o labirinto, fui a correr abrir a porta, antecipando-me ao Curtis.

- Boa tarde, Mister Troy. É um prazer ter, finalmente, a sua presença à nossa mesa.

O Troy ficara a olhar para mim como se fosse a primeira vez que me via. O vestido faria assim tanto efeito?

- Nunca te vi tão linda como estás neste momento - observou o Troy, enquanto eu o ajudava a despir o sobretudo.

O Curtis, ligeiramente afastado, no amplo vestíbulo, fitava-nos com ar vagamente sarcástico. Mas eu não me importei; ele não passava de uma presença, raramente era uma voz.

Pendurei cuidadosamente o sobretudo num cabide, certificando-me de que as costuras ficavam direitas e depois virei-me para o Troy e agarrei-lhe em ambas as mãos.

- Estou quase a rebentar de contentamento por ter vindo. Agora já não terei de me sentar a uma mesa com seis convidados que não conheço.

- Nem todos serão desconhecidos. Já encontraste alguns noutras festas... e há uma, especial, que vem de propósito do Texas só para te conhecer.

- Quem? - perguntei, esbugalhando os olhos.

- A mãe da Jillian, que tem oitenta e seis anos. Consta que a filha tentou disfarçar as histórias que contou sobre ti, e a tua bisavó ficou tão curiosa que telefonou a dizer que vinha, apesar da sua fractura na anca.

O Troy sorriu e levou-me até ao sofá do salão maior.

- Não fiques tão preocupada. A velhota é osso duro de roer, mas é a única pessoa que não diz mentiras atrás de mentiras.

A velha senhora atraiu-me irresistivelmente desde o momento em que entrou pela porta da frente, carregada por dois homens. Não tinha mais de um metro e meio, era uma velha franzina cujo cabelo ainda conservava boa parte do seu louro raiado de grisalho. Usava quatro anéis enormes nos dedos ossudos, um de rubi, outro de esmeralda e os outros dois de safira e diamante. As jóias que trazia tinham todas diamantes. O vestido azul-claro pendia-lhe dos ombros, largueirão, e tinha na gola deste um pesado alfinete de peito com safiras.

- Detesto roupa justa - declarou, olhando de relance para mim, que me encolhi um pouco mais para junto do Troy.

Também detestava muletas, nas quais não confiava. As cadeiras de rodas eram abomináveis. Foram-lhe buscar almofadas, xailes e mantas ao carro estacionado em frente da casa. Meia hora depois, estava confortavelmente instalada e só nessa altura é que virou os olhinhos argutos para mim.

- Olá, Troy. É um prazer ver-te, para variar - disse sem sequer olhar para ele. - Mas eu não vim de tão longe só para falar com familiares que já conheço. - Os seus olhos miraram-me atentamente, mais uma vez, dos pés à cabeça. - Sim, a Jillian tem razão. Temos aqui a filha da Leigh. Não há dúvida de que a cor dos olhos é tal qual a que eu costumava ter antes de os anos me roubarem a beleza. E a figura, é igualzinha à da Leigh, quando não a escondia dentro de alguma fatiota disforme. Nunca fui capaz de compreender como ela conseguia usar aquela roupa num Inverno tão horrível como os daqui.

Os olhinhos, rodeados de rugas, estreitaram-se ao perguntar:

- Porque morreu a minha neta tão nova?

A Jillian desceu as escadas com graciosidade, envergando um vestido roxo muito parecido com o meu, excepto que o dela tinha pedras preciosas bordadas em volta do pescoço.

- Querida mãe, que prazer voltar a vê-la. Já se deu conta de que não nos encontramos há cinco anos?

- Não tencionava cá voltar - respondeu Mrs. Jana Jankins, cujo nome me fora delicadamente dado a conhecer pelo Troy enquanto a instalavam no seu lugar.

Ao observar a Jillian com a mãe, não pude deixar de reparar na animosidade que pairava entre as duas.

- Mãe, quando soubemos que vinha, apesar da sua perna engessada, o Tony teve a bela ideia de lhe ir arranjar uma cadeira extremamente bonita que pertenceu ao presidente de Sidney Forestry.

- Achas que eu me sentava numa cadeira usada por um assassino de árvores? Nem sequer voltes a tocar no assunto. O que eu quero é saber desta rapariga aqui.

Começou então a bombardear-me com perguntas e mais perguntas, quase não me deixando responder: como é que a minha mãe conhecera o meu pai, onde é que vivêramos, se o meu pai tinha dinheiro... E se havia outros membros da família para ela conhecer.

A sineta da porta impediu-me de dizer mais mentiras. O Tony saiu do seu gabinete fazendo lembrar um manequim masculino, e a celebração do dia de Acção de Graças começou apesar de Mrs. Jana Jankins não conseguir falar mais alto do que os outros.

A certa altura, para minha aflição, a Jillian reparou em mim, que me mantivera o mais calada e reservada... e próxima de Troy... que pudera. Esbugalhou ligeiramente os olhos.

- Heaven, o mínimo que podes fazer é informares-te da cor que usarei sempre que recebermos visitas.

- vou mudar imediatamente de vestido! - sugeri, pondo-me de pé com a maior rapidez possível, embora, na verdade, adorasse aquele vestido.

- Senta-te, Heaven - ordenou o Tony. - A Jillian está a ser ridícula. O teu vestido não está adornado de pedras preciosas nem é tão requintado como o da minha mulher. Gostei de te ver com ele e quero que o uses.

Foi um jantar de Acção de Graças estranho. Primeiro, a mãe da Jillian teve de ser levada e sentada na ponta da mesa (no sítio da anfitriã, pois a cadeira do Tony ficava demasiado perto da parede) e, mal assumiu o papel de anfitriã, não permitiu que mais ninguém desse ordens. Aquela minha bisavó era rude, excessiva e sem papas na língua. Admirava-me que o Tony e o Troy parecesse gostarem tanto dela.

Ainda assim, foi uma refeição cansativa, um serão esgotante, durante o qual me fizeram mil perguntas, às quais não sabia como responder sem mentir. Quando a Jana me perguntou quanto tempo iria ficar na Mansão Farthinggale, não soube que lhe responder. Olhei esperançadamente para o Tony e vi ao lado deste uma Jillian de expressão rígida, que ficou com o garfo a meio caminho da boca e se voltou para o marido com ar feroz quando este veio em meu auxílio.

- A Heaven veio para ficar o tempo que desejar - anunciou, sorrindo-me antes de se virar para a Jillian e dirigir-lhe o seu esgar como que a dizer: "Vê se te calas." - Já começou a frequentar aulas em Winterhaven. Na verdade, saiu-se tão bem nos testes de admissão que entrou logo para o grupo das mais velhas, um ano antes do tempo. E já se candidatou à Radcliffe e à Williams para não ter de ir para muito longe ao pretender frequentar uma universidade de primeira ordem. Estamos ambos muito satisfeitos por ter a Heaven aqui. É um pouco como se a Leigh tivesse voltado, não é, Jill?

Durante todo aquele pequeno discurso, a Jillian estivera a atafulhar a boca de comida, como que para se abster de dizer o que não devia. Não respondeu, limitou-se a fitar-me com animosidade. Oh, como eu desejava que ela aprendesse a gostar de mim... A minha urgência em ter uma mãe de verdade era enorme, alguém com quem eu pudesse abrir o coração, alguém que me ensinasse a tornar-me uma mulher completa. Porém, começava a aperceber-me de que a Jillian jamais o seria. Quem sabe se não seria mais parecida com a Jana, que era rude e dominadora mas, ao menos, interessada em me conhecer.

Felizmente, a Jana teve pouca possibilidade de o fazer. Passei a refeição agitada, receosa de que começasse a fazer-me perguntas sobre o meu passado, com medo de que alguma verdade me escapasse e contradissesse o que contara ao Tony. No entanto, a refeição terminou no meio de uma conversa inofensiva sobre questões de menor importância e, pouco depois, a Jana retirou-se para o seu requintado hotel em Boston.

- Lamento não poder ficar e conhecer-te um pouco melhor, Heaven, mas nunca me senti à vontade em Farthy. - Lançou um olhar acusador à Jillian. - Além disso amanhã tenho de voltar para o Texas. Talvez um dia me queiras ir visitar.

E antes de sair deu-me um beijo em cada face, fazendo-me sentir que, pelo menos, eu era aceite por uma das mulheres da família.

No dia seguinte, de manhã bem cedo, o Tony enfiou-me na sua impressionante limusina, tapou-me as pernas com uma pesada coberta de pele e partimos rumo à Companhia de Brinquedos Tatterton, para dar início oficial à abertura da estação natalícia.

Fiquei estupefacta com a dimensão do estabelecimento. Eram seis pisos contendo apenas brinquedos! Ainda não tinham dado as dez horas e já se viam hordas de pessoas bem agasalhadas a olhar para as montras. O Tony tinha uma maneira autoritária de abrir caminho por entre a multidão de modo que, a certa altura, ele e eu não tardámos a ver-nos diante de uma montra embaciada, com o nariz frio de tanto olharmos para dentro. Cada montra debruçava-se sobre um tema diferente e eu adorei de maneira muito especial a que exibia o Tiny Tim sem o seu ganso; a certa altura abria-se uma portinha e o Scrooge aparecia.

As montras impressionaram-me de tal maneira que fiquei ofegante, qual criança presa num sonho de encantar. As vendedoras apresentavam-se fardadas em tons de vermelho, preto e branco, com muitos enfeites a dourado. Para minha surpresa, até mesmo aqueles que não tinham ar abonado, não deixavam de fazer as suas compras.

- Já não se pode medir a riqueza de uma pessoa pela maneira como se veste - observou o Tony. - Além disso, hoje em dia não há ninguém que não goste de coleccionar.

Só quando chegámos ao sexto piso é que eu espreitei para a armação especial em vidro e frisos dourados contendo as bonecas-retratos da Companhia Tatterton.

Examinei atentamente cada uma das jovens, antes de perguntar ao Tony:

- Quem é que cria as bonecas-retratos?

- Oh - respondeu ele com ar indiferente -, não são lindas? Corremos mundo à procura de jovens dotadas de características especiais e depois os nossos melhores artistas fazem uma boneca à sua semelhança. São precisos meses.

- Foi a minha mãe que serviu de modelo às primeiras bonecas, não foi?

O Tony sorriu antes de virar a cabeça para mim.

- Era a rapariga mais bonita que já vi, com excepção de ti. Mas era muito modesta e tímida, não gostava de posar. Portanto, eu perdi a oportunidade de a imortalizar.

- Quer dizer que nunca houve nenhuma boneca a retratar a minha mãe?

Senti uma angústia enorme invadir-me o coração. Porque estaria ele a mentir-me?

- Que eu saiba, não - respondeu o Tony afavelmente, desviando depois a minha atenção para outros bonecos que desejava que eu visse.

Arrastou-me para a secção histórica, onde se viam bonecas envergando fatos de outras épocas.

- Tem a certeza de que nunca nenhuma dessas bonecas foi criada tendo como modelo a minha mãe, sem a sua autorização?

- Ninguém faz nada sem a minha autorização. E agora, por favor, Heaven, mudemos de assunto. Não é muito do meu gosto.

Porque estaria ele assim? Era como se o que acontecera, ou não, no passado, não tivesse nada a ver com o presente, quando tinha... e muito!

Para mim, os acontecimentos mais importantes haviam tido lugar antes de eu nascer, criando a minha vida, modelando o meu mundo, levando-me a desejar fazer perguntas intermináveis às quais ninguém queria responder.

Depois de o Tony acabar de me mostrar o estabelecimento, foi até ao seu escritório, e eu fiquei em Boston para fazer as minhas compras de Natal.

Como era excitante comprar presentes de Natal, ter dinheiro para adquirir o que quisesse para oferecer àqueles de quem gostava. Era fantástico andar no meio das multidões que passavam alegremente diante das lojas decoradas e saber que podia entrar em qualquer delas sem me envergonhar. Já não precisava de olhar avidamente para as montras, sonhando com bens que nunca poderia possuir; naquela altura já tinha acesso a inúmeros objectos.

Ia-me tornando mais rica a cada semana que passava. O Tony depositava dinheiro numa conta-corrente que abrira para mim. E dava-me uma mesada muito generosa. Eu vivia modestamente, pouco gastava, de modo que poupava o que podia numa conta a prazo. De vez em quando, a Jillian entregava-me notas de vinte dólares como se fossem trocos.

- Ah, não fiques assim tão profundamente agradecida! - exclamava quando eu lhe manifestava a minha gratidão talvez com demasiado entusiasmo. - Não passa de dinheiro!

A conta a prazo destinava-se àquele dia maravilhoso em que eu poderia voltar a ter a minha família junto de mim. Gastava muito pouco comigo mesma. Nesse ano, quando fui às compras, fi-las para todos nós, como se estivéssemos juntos: uma linda camisola branca tricotada para o tom, juntamente com uma óptima máquina fotográfica e dúzias de rolos para que ele pudesse pedir a um amigo que lhe tirasse fotografias para me mandar. Foi fácil encontrar o tipo de casacão de lã grossa pelo qual ele tanto ansiara quando vivêramos nos Willies, e quando o caminho entre a casa e a escola era dolorosamente feito com agasalhos insuficientes. Um casaco como o que o Logan costumava usar, de cabedal verdadeiro e forrado a lã. Tinha vontade de lhe dar tudo o que ele desejara. Fiz compras para a Fanny, embora não soubesse para onde enviar as minhas ofertas. Guardei-as na última gaveta da minha cómoda, ao lado do que comprara para o Keith e para a "Nossa" Jane, prometendo a mim mesma a alegria de um dia os ver abrir os meus presentes... Um dia...

O Troy e eu encontrámo-nos na manhã de Natal bem cedo, na sua casa de pedra, muito antes de o Tony e a Jillian se levantarem. Já tinha o pequeno-almoço pronto e os presentes que compráramos um para o outro arrumados de baixo da árvore que enfeitáramos juntos.

- Entra! Feliz Natal! Estás linda, assim tão corada. Tinha receio de que te atrasasses. Fiz um pão de Natal sueco para nós, que vais achar uma delícia.

Mais tarde, abrimos os nossos presentes como duas crianças pequenas. O Troy deu-me uma camisola de lã num azul que igualava impecavelmente o dos meus olhos. Eu ofereci-lhe um elegante diário encadernado a cabedal e debruado a dourado

-,Que diabo é isto? Um diário para eu registar as minhas palavras mais ridículas ou notáveis?

Ele brincava; eu estava muito séria.

- Quero que escreva nele, começando pela primeira vez em que ouviu o Tony falar da Jillian. Tudo aquilo que lhe contaram sobre a minha mãe antes de casarem. O que ela sentia pelo meu pai, sobre o divórcio. Fale sobre a primeira vez em que a viu, sobre as palavras que trocaram. Recorde o que vestia, as suas primeiras impressões.

O Troy acenou com a cabeça, aceitando o livro com expressão estranha.

- Está bem, farei o melhor que puder. No entanto, não te esqueças de que eu tinha apenas três anos... Estás a ouvir, Heaven, três anos. A tua mãe ia nos doze.

- O Tony disse-me que o Troy teve sempre idade a mais em termos de inteligência, e a menos quando se tratava de ficar sozinho.

Ofereci-lhe outros presentes que lhe agradaram mais. Adorei o que me deu muito mais do que tudo o que o Tony e a Jillian me puseram debaixo de uma das enormes árvores de Natal colocadas diante de cada uma das janelas da frente da Mansão Farthinggale.

A Jillian, o Tony e eu fomos a uma elegante festa de Natal em casa de um dos seus amigos. Era a primeira vez que me levavam a algum lado com eles; porém, isso não foi o suficiente para impedir que me sentisse muitíssimo só nesse dia, assim como no resto da semana até ao dia de Ano Novo e na semana seguinte, que foi a que antecedeu o meu regresso ao colégio. O Tony ia para o trabalho de dia e saía com a Jillian quase todas as noites. A Jillian mal se via durante o dia, e quando às vezes a encontrava na sala de música, sozinha, não me convidava a jogar às cartas com ela. Desde a ocasião, no dia de Acção de Graças, em que o Tony anunciara publicamente que eu passaria a viver em Farthy, a Jillian afastara-se por completo de mim. Para ela, eu não passava de uma residente, não era um membro da família.

A Jillian parecia satisfeita por eu andar tão atarefada que pouco tempo tinha para partilhar do seu estilo de vida, que incluía uma actividade social ou de caridade atrás da outra. E toda a proximidade que eu imaginara ter com ela em tempos desvaneceu-se perante a conclusão de que jamais haveria intimidade entre nós. Ela nunca gostaria de mim nem desenvolveria qualquer tipo de afeição que a levasse a sentir a minha falta mais tarde. Oh, como eu naquela altura já a conhecia bem...

Sempre que me era possível, escapulia-me para visitar o Troy, o que não acontecia muitas vezes, já que eu tinha a sensação de que a Jillian, apesar de eu pouco a ver, sabia sempre do meu paradeiro exacto. Também ia a Boston frequentemente, visitar a biblioteca e os museus. De vez em quando passava pelo Red Feather e pela Universidade de Boston, na esperança de encontrar o Logan "por acaso", o que não aconteceu uma vez sequer. Talvez tivesse ido passar as férias a Winnerrow. Era nessas alturas que as lágrimas me começavam a cair, pois o Logan nem um cartão de boas-festas me mandara, nem ele nem ninguém da minha família. Às vezes, sentia que na Mansão Farthinggale havia tanta pobreza como nos Willies, apenas diferente. Nos Willies, houvera muito amor, carinho, solidariedade e alegria. Nem mesmo a sordidez da nossa cabana nos impedira de partilhar esses sentimentos. Ali só davam dinheiro, e eu, por muito que o desejasse, começava a ansiar ainda mais por amor e afecto.

Fevereiro chegou com o meu décimo oitavo aniversário, que o Tony e a Jillian acreditavam ser o décimo sétimo. O Tony encarregou-se de todos os aspectos ligados à festa de aniversário que deu em minha honra.

- Convida todas aquelas snobes de Winterhaven para as deixarmos de olhos arregalados.

Foi nessa ocasião que todas as meninas de Winterhaven tiveram a oportunidade de ficar de boca aberta perante os esplendores da Mansão Farthinggale. Fiquei sem respiração diante dos manjares fartos que haviam sido colocados em cima de uma mesa. Os presentes que me deram nesse ano deixaram-me ainda mais deslumbrada e a sentir-me estranhamente culpada. Como estaria o resto da minha família a passar?

O sucesso da festa impressionou de tal maneira aquelas raparigas tolas, que me consideraram, finalmente, suficientemente merecedora de ser tratada com decência.

No princípio de Março houve uma tempestade tão terrível que fiquei presa em casa na segunda-feira em que devia regressar a Winterhaven. O Tony e a Jillian tinham ido à cidade, proporcionando-me a oportunidade ideal de utilizar o túnel subterrâneo que ligava a Mansão Farthinggale à casa de pedra do Troy. Cheguei ofegante, depois de ter percorrido todo aquele caminho escuro e assustador, fazendo muito barulho a subir as escadas que iam dar à cave, para assim dar a conhecer ao Troy a minha chegada. Apesar de atarefado como sempre, deu a impressão de estar à espera da minha visita e levantou a cabeça do trabalho para me sorrir.

- Ainda bem que chegaste. Podes ficar de olho no pão que está no forno enquanto eu termino o que comecei.

Mais tarde, sentámo-nos em frente da lareira onde ardiam toros de lenha e eu entreguei-lhe um dos seus livros de poemas.

- Por favor, leia-mos.

O Troy não queria e tentou pôr o livro de parte, mas eu insisti. Acabou por ceder e leu. Eu apercebi-me da emoção e da tristeza na sua voz e senti vontade de chorar. Pouco percebia de poesia; no entanto, o Troy sabia juntar as palavras de uma maneira única e bela. Disse-lho.

- Isso é o que os meus poemas têm de problemático - respondeu o Troy com uma impaciência pouco habitual. Atirou o livrinho para o lado. - Tudo o que escrevo é demasiado doce e excessivamente bonito...

- Não é doce... - objectei, levantando-me com um salto para ir buscar o livro. - Mas eu não entendo o que está a tentar dizer. Adivinho algo mórbido e obscuro nas entrelinhas, embora coloque maravilhosamente as palavras. Se não me contar o que os poemas significam, ao menos deixe-me levar o livro para o ler quantas vezes forem necessárias até compreender o seu significado.

- Se fosses mais esperta não tentavas perceber. - Os olhos escuros deixaram transparecer tormento por alguns instantes. Depois a expressão abrandou. - É fantástico ter-te aqui, Heaven. Admito que escondo a minha solidão no trabalho. Agora mal posso esperar pelas tuas vindas.

E como estávamos sentados um ao lado do outro, muito próximos, obedeci a um impulso e encostei a cabeça ao seu ombro, virando o rosto para o dele com os lábios preparados para o seu primeiro beijo. As pupilas dos olhos do Troy aumentaram, enquanto eu ia aguardando, tornando-me tensa com a demora dele. Foi então que o Troy se afastou repentinamente, deixando-me atarantada.

Senti-me rejeitada, e não tardei a dar uma desculpa pouco convincente sobre uns trabalhos de casa que tinha para fazer. Perdera de novo! Não conseguia agradar minimamente a um homem! Furiosa com o Troy e comigo mesma, voltei para Farthy e fui nadar para a piscina interior de água quente. Dei vinte voltas mas nem assim fui capaz de fazer dissipar a minha raiva. Vesti-me e, ainda com o cabelo molhado, fui sentar-me a ler em frente de uma lareira enorme que fora acesa só para mim. Estirada no chão, olhei para o volume encadernado a cabedal, sentindo uma infelicidade indefinida que não me deixava concentrar nas palavras escritas.

À minha volta, os antepassados dos Tatterton seguiam todos os meus movimentos com olhos atentos. Tive a impressão de ouvir os seus lábios pintados sussurrarem que eu não pertencia ali, que tinha de me ir embora para não manchar a sua reputação com a minha ascendência Casteel! Eu sabia que era uma tolice, e no entanto a biblioteca, com as suas elegantes poltronas de cabedal, tinha um ar hostil. E quando dei por mim estava a levantar-me do chão e a dirigir-me para a escadaria e a confortável familiaridade dos meus próprios aposentos.

Quando ia a meio do corredor da minha ala, ouvi o telefone tocar ao longe. As batidas do meu coração aceleraram! Nunca ninguém me telefonava. Talvez fosse o Troy! O Logan! Talvez...

Atirei com a porta atrás de mim e corri a atender o telefone antes que desligassem.

- Heaven, és tu? És mesmo tu? - perguntou uma voz provinciana com um sotaque fanhoso.

Senti uma sensação de alívio e felicidade invadir-me.

- Sou eu, Heaven, a tua mana Fanny! E sabes que mais, sou mãe! Pari o meu bebé há duas horas! Veio antes do tempo, umas três semanas, mas a mim nunca me passou pela tola q'uma coisa ta normal pudesse doer tanto! Gritei que me fartei e as enfermeiras tentaram segurar-me e Mistress Wise mandou-me calar, se não quo mundo inteiro iria ouvir o meu berreiro... mas era fácil ela falar porque na era ela que estava a parir o meu bebé...

- Oh, Fanny, graças a Deus, telefonaste! Tenho estado tão preocupada contigo! Porque só ligaste agora?

- Ora, já te liguei umas cem vezes mas ninguém percebe patavina do qu'eu digo! Ou com quem eu quero falar. Aí, as gentes sã'chanfradas ou quê? Falam de maneira esquisita, como tu agora. Já te disse que tive uma menina?

Que entoação era aquela que lhe notava na voz? Arrependimento? Arrependimento por ter concordado em vender a criança que desse à luz ao reverendo e à esposa por dez mil dólares?

- Fanny, diz-me, estás bem? Onde te encontras?

- Claro que tou bem, muito bem. Uma vez acabado, já, passou. E ela é uma moçoilinha ta bonita, c'o cabelo preto encaracolado e tudo. E é perfeitinha. E o reverendo vai ficar contente de certeza quando a vir...

- Fanny, onde estás? Por favor, diz-me! Não é demasiado tarde para mudares de ideias! Podes recusar-te a aceitar o dinheiro e ficas com a tua menina, e quando fores mais velha não precisarás de te arrepender de teres vendido a tua própria filha! Agora escuta-me, por favor! Posso mandar-te dinheiro para apanhares o avião para Boston. O meu avô não te receberá cá em casa, mas eu poderei instalar-te numa boa pensão e fazer o que puder para te sustentar, mais à tua filha.

Estava a fazer perigar a minha situação já precária, mas fazia-o por puro instinto, sentindo umas saudades enormes da Fanny.

O silêncio total que se seguiu no outro lado do fio fez-me pensar que a Fanny estava a ponderar seriamente sobre a alternativa que eu lhe apresentara, e a resposta não se fez esperar.

- O tom falou-me do sítio onde vocês moram. Pois se me convidas a mim e ao meu bebé pr'a ir pr'a junto de ti, tens de me receber na tua própria casa qu'é grande como um palácio! com mais casas de banho qu'aquelas que se podem contar! Na me insultas a mim mais ao meu bebé com uma pensão qualquer, ou quarto de motel! É que tu na és mais que eu...

- Fanny, sê razoável. Escrevi ao tom a contar que os meus avós têm ideias excêntricas. Pois se a Jillian nem sequer deseja que as pessoas saibam que eu sou sua neta!

- Deve ser chanfrada! - concluiu a Fanny audivelmente e sem sombra de dúvida. - Ninguém pode parecer assim tão nova como tu disseste ao tom... Portanto, podes convidar-me à vontade, Heaven! Gente maluca como ela nem dará p'la diferença! Se na o fizeres, vendo o meu bebé e piro-me para Nashville ou Nova Iorque!

Nesse momento, ouvi o barulho surdo e arrastado da voz do reverendo Wayland Wise a entrar no quarto do hospital e a cumprimentar a Fanny. E esta, Deus me valesse, atirou com o auscultador para cima do descanso sem sequer se despedir!

Fiquei a ouvir o som da linha desligada, apercebendo-me de que ela não me dera a morada. No entanto, tinha a minha, assim como o meu número de telefone.

Fanny, oh, Fanny. Estava a fazer o mesmo que o nosso pai em tempos fizera: vender a própria filha. Oh, como podia ser capaz de tal! Apesar de a minha irmã ser uma rapariga egoísta e desprendida, eu sabia que viria a arrepender-se de vender a filha. Tinha a certeza. Assim como também estava certa de poder ajudá-la. Naquela altura, eu já dispunha de dinheiro e podia arranjar maneira de a sustentar mais à filha, de indemnizar os Wise pela sua devolução. Contudo, não podia convidar a Fanny para viver ali. Se o fizesse, expor-me-ia e perderia tudo o que conquistara. Acabara de saber que fora aceite em Radcliffe, e o Tony garantira-me que poderia contar com ele para prosseguir os meus estudos, além de poder escolher entre ficar na Mansão Farthinggale ou viver na área da universidade, conforme preferisse. Poderia abdicar de tudo isso pela Fanny? Não, de modo algum. A Fanny era uma rapariga confusa, racionalizei, e levaria algum tempo a dar-se conta da decisão errada que tomara. Quando tal acontecesse, viria pedir a minha ajuda. Era tão certo como eu saber que estava a nevar naquele momento. De modo que, sentindo-me vagamente aliviada por a Fanny ter tido um parto normal e por saber que um dia recorreria a mim para a ajudar a recuperar a filha, fiquei a ler até serem horas de ir para a cama.

Nessa noite, tive dificuldade em adormecer! Era tia! Tive vontade de telefonar ao tom e contar-lhe as novas sobre a Fanny. Porém, correria o risco de ser o meu pai a atender.

Telefonei ao tom logo no dia a seguir, arriscando-me a ouvir o meu pai no outro lado da linha.

- Está? - atendeu a voz do meu irmão, o que me fez suspirar de alívio. - Oh, caramba! - exclamou ao saber da novidade. - Folgo muito em saber que o parto da Fanny correu bem, mas é um horror pensar que vai mesmo vender a própria filha! É como se a história se repetisse a si mesma. Mas tu não podes arriscar o teu futuro por ela, Heaven, não podes! Fica calada em relação à Fanny e a todos nós. Um dia juntar-nos-emos todos, até mesmo o Keith e a "Nossa" Jane, agora que já puseste os tais advogados no seu encalço.

Em finais de Março, o Inverno tempestuoso começou a amainar. A neve derreteu e os indícios da Primavera encheram-me de saudades dos Willies.

O tom escreveu-me a dizer que esquecesse os montes e a nossa vida antiga: "Perdoa o nosso pai, Heaven, por favor. Ele agora está mudado, parece outro homem. E a mulher deu-lhe um filho parecido com ele, de cabelos escuros, o rapaz que a nossa mãe desejou mas não teve."

Chegado o mês de Abril consegui, pela primeira vez, abrir uma janela e escutar o som das ondas a bater sem me sentir enervada.

O Logan não fizera o menor esforço para entrar em contacto comigo e, a cada dia que passava, começara a transformar-se apenas numa recordação, embora lembrar-me mais aprofundadamente da sua indiferença ainda doesse bastante. Eu não desejava arranjar nenhum namorado e recusava a maioria dos convites para sair que me dirigiam. Ainda fui ao cinema e jantar fora com um rapaz, mas depressa este desistiu de mim ao ver que não conseguia ir além disso. Eu simplesmente não queria arriscar-me a sofrer de novo. Mais tarde, bem mais tarde, preocupar-me-ia com o amor; de momento, contentava-me em me concentrar nos meus objectivos educacionais.

O único homem que via frequentes vezes e começara a substituir o Logan no meu coração era precisamente aquele do qual era suposto manter-me afastada... o Troy Tatterton. Pelo menos uma vez por semana, na altura em que o Tony e a Jillian saíam, eu escapulia-me até casa dele e ficávamos a conversar durante horas. Era uma delícia ter alguém com quem falar, alguém que se preocupava de verdade comigo e sabia a verdade sobre a minha pessoa.

Eu bem tentei falar do Troy ao Tony; no entanto, o tópico era perigoso e trouxe imediatamente um clarão de desconfiança aos olhos dele.

- Espero bem que estejas atenta à minha advertência e te mantenhas afastada do meu irmão. Ele nunca fará nenhuma mulher feliz.

- Porque faz semelhante afirmação? Porque não gosta dele?

- Porque não gosto dele? O Troy foi sempre a maior das minhas responsabilidades e a pessoa mais importante na minha vida. Mas não é fácil entendê-lo. Tem uma vulnerabilidade comovedora que atrai as mulheres, como se elas se apercebessem de que o seu tipo de sensibilidade é raro num jovem tão bem-parecido e talentoso. Mas não esqueças, Heaven, que ele não tem nada a ver com os outros jovens. Toda a vida foi uma pessoa agitada, em busca de algo sempre fora do seu alcance.

- De que anda ele à procura?

O Tony desistiu de ler o seu matutino e franziu o sobrolho.

- Acabemos com esta conversa sem sentido. Quando chegar a altura apropriada, farei com que encontres o homem certo.

Não gostei nada de que me falasse assim. Eu é que encontraria o homem certo para mim! Detestava ouvi-lo denegrir o irmão, quando eu o achava tão digno de admiração! E que mulher não ficaria encantada por ter um companheiro dotado de tantas capacidades domésticas? A rapariga que casasse com o Troy Tatterton estaria, isso sim, cheia de sorte! O que mais admirava no meio daquilo tudo era o facto de ele nem sequer ter namorada.

Um dia, corria o mês de Maio, estava eu a vestir-me para a minha aula de ginástica enquanto, à minha volta, as minhas colegas tomavam duche, mudavam de roupa como eu a tagarelar incessantemente, quando uma ruiva chamada Clancey enfiou a cabeça no cubículo onde eu me encontrava.

- Eh, Heaven, a tua mãe afinal de contas não era filha da Jillian Tatterton e do primeiro marido? Todos comentam o facto de andares por aí a dizer que ela é tua tia quando não há ninguém em Boston que não saiba que isso não é possível. Gostaríamos de saber se esses boatos são verdadeiros.

- Que boatos? - perguntei nervosamente.

- Ora, a minha mãe ouviu dizer que a Leigh VanVoreen casou com um bandido mexicano...

Trocista, fingiu desferir um soco no estômago da melhor amiga, que viera juntar-se a ela.

Toda a área dos lavabos e do vestiário ficou em silêncio, enquanto as raparigas fechavam as torneiras e esperavam pela minha resposta. Percebi então que aquele ataque fora planeado para me apanhar de surpresa. Senti-me encurralada e aprisionada pelo silêncio hostil das minhas colegas. Elas que se tinham mostrado tão amistosas depois da minha festa de aniversário...

No entanto, dessa vez eu já estava a par de alguns truques que o Tony me ensinara: a melhor defesa era o ataque ou então aparentar indiferença e irreverência total.

- Sim, a tua mãe ouviu bem - admiti, ajeitando o laço da minha blusa branca antes de dirigir a todas o que esperava ser um sorriso encantador e confiante. - Nasci em pleno Rio Grande. Mesmo à beira da fronteira americana,. - Ergui a voz propositadamente, como que para as despachar a todas de uma só vez. - E, aos cinco anos, o meu pai ensinou-me a arrancar-lhe uvas da boca a tiro, assim como as respectivas sementes de entre a ponta dos dedos.

Servira-me de uma das fanfarronices preferidas do tom nos montes.

Ninguém proferiu palavra, nem uma única. Enfiei então os pés nos sapatos e, em silêncio, saí porta fora, atirando com esta.

Não tardou que os preparativos para o final do curso se sobrepusessem a quaisquer outras actividades em Winterhaven. Aproximava-me, finalmente, da universidade e da conquista do meu amor-próprio. Tinha vontade de que o Tony e a Jillian viessem à entrega dos diplomas, para que ouvissem chamar pelo meu nome, que figurava no quadro de honra.

Ao ler o que vinha escrito no cartão branco do convite, a Jillian ficou com uma expressão preocupada.

- Oh, devias ter-me avisado mais cedo, Heaven. Prometi ao Tony acompanhá-lo a Londres nessa semana.

A desilusão quase me fez vir lágrimas aos olhos. A Jillian nunca fizera o menor esforço para participar na minha vida. Virei a cabeça para o Tony e lancei-lhe um olhar implorante.

- Lamento, querida - disse-me em voz branda -, mas a minha mulher tem razão. Devias ter-nos alertado da data da entrega dos diplomas com bastante antecedência. Pensei que fosse em meados de Junho, não na primeira semana.

- Anteciparam o dia - sussurrei com voz embargada. - Não podem adiar a vossa ida?

- Trata-se de uma viagem de negócios, e bem importante. Mas podes crer que compensaremos a nossa negligência de outras maneiras que não através de simples presentes.

Como eu já descobrira, claro que fazer dinheiro era sempre mais importante do que as obrigações familiares.

- Correrá tudo bem contigo - disse o Tony confiantemente. - És uma sobrevivente, tal como eu, e farei com que nada te falte.

- Eu precisava da minha família, de ter alguém entre o público que me visse receber aquele diploma! - Mas recusei-me a suplicar mais.

Depois de saber que o Tony e a Jillian estariam ausentes num dos dias mais importantes da minha vida, aproveitei a primeira oportunidade para ir até à casa de pedra que ficava por trás do labirinto verdejante. O Troy era o meu consolo, o meu alívio, de modo que foi com ele que desabafei, sem reservas, a minha dor.

- A maioria das raparigas que vai receber o diploma em Winterhaven conta não só com a presença dos pais como de toda a família... Tias, tios, primos e amigos...

Nesse momento, encontrávamo-nos fora da casa de pedra, de joelhos, a deitar sementes nos canteiros de flores do Troy. Já estivéramos a tratar da sua pequena horta de legumes. Aquele trabalho, feito em conjunto, trouxe-me à lembrança tempos há muito passados, em que a minha avó e eu nos costumávamos ajoelhar sobre a terra daquela mesma maneira. Naquele caso, porém, o Troy dispunha de todas as ferramentas de jardinagem necessárias para tornar a tarefa mais simples e agradável. Os nossos joelhos protegidos por pequenas almofadas, usávamos luvas, e o Troy pusera-me um enorme chapéu de palha para que a minha pele não se estragasse com sol em excesso.

Tínhamos agora uma relação tão familiar e à vontade um com o outro que às vezes nem precisávamos de falar; bastava-nos comunicar mentalmente um com o outro para que o trabalho decorresse com muito maior rapidez. Depois de acabarmos de preparar a terra e deitar as sementes, declarei:

- Não quer dizer que não esteja profundamente grata ao Tony e à Jillian por tudo o que têm feito por mim, pois estou. Mas sempre que algo de especial acontece, sinto-me terrivelmente só.

O Troy lançou-me um olhar compreensivo, mas não me respondeu.

Bem poderia ter dito que teria muito gosto em estar presente na sessão; porém, não se ofereceu. Não apreciava lugares públicos nem cerimónias.

Na sexta-feira, dia da entrega dos diplomas, foi o Miles quem me conduziu a Winterhaven, e as raparigas reuniram-se todas para ficarem a olhar, embasbacadas, para o Rolls-Royce novo que o Tony oferecera à Jillian pelo sexagésimo primeiro aniversário. Era deslumbrantemente branco, com o tejadilho e o interior em tom de creme.

- É teu? - quis saber a Pru Carraway, com os olhos claros muito abertos e impressionados.

É meu até a minha tia Jillian voltar para casa.

Nessa manhã, quando entrei em Winterhaven, reinava uma atmosfera de excitação. As raparigas deambulavam de um lado para o outro nos mais variados graus de desnudamento, algumas ainda de rolos na cabeça; poucas eram as que moravam a pouca distância de casa, como era o meu caso. Senti um certo ressentimento e alguma amargura ao ver outras colegas apresentarem as respectivas famílias. Iria ser sempre assim? A minha família dos montes a milhares de quilómetros de distância, apenas presente nos meus pensamentos, e a de Boston a arranjar desculpas para não presenciar as minhas pequenas vitórias? Quem eu culpava era a Jillian, evidentemente.

A minha avó não tinha dificuldade em me cobrir com a sua generosidade, mas quando se tratava de me dar um pouco de si mesma e do seu tempo, eu bem poderia morrer de fome. E às vezes o Troy, depois de iniciar algum projecto novo que lhe dominasse os pensamentos, ficava completamente alheado. Oh, a autocomiseração que eu sentia nesse dia ao envergar o meu lindo vestido de seda branca com largas faixas de renda Cluny a debruar a saia comprida e as mangas enfunadas! O exacto tipo de vestido que Miss Marianne Deale me contara uma vez ter usado para receber o seu diploma de liceu. Como na altura mo descrevera em pormenor, relembrei mentalmente todos os aspectos, imaginando o Logan presente para me admirar.

Enquanto nós, as quarenta raparigas, nos alinhávamos na antecâmara a ver se as nossas túnicas pretas e os barretes respectivos assentavam impecavelmente, lancei uma olhadela pela porta enorme que abria e fechava constantemente e vislumbrei o auditório, que o brilhante sol de Junho inundava, apinhado de gente. Para mim, era como um sonho tornado realidade, depois de ter receado tanto que aquele dia nunca chegasse, de modo que as lágrimas ameaçaram inundar os meus olhos e escorrer pelas minhas faces. "Oh, espero que o tom tenha falado ao meu pai neste dia!" Se ao menos eu tivesse ali alguém...

Algumas das minhas colegas tinham dez ou mais parentes entre o público, os mais novos prontos a bater com os pés, a aplaudir delirantemente e a assobiar (o que era considerado de mau gosto mesmo em Winterhaven), mas eu não teria ninguém que batesse palmas por mim. O almoço iria ser servido no relvado, debaixo de chapéus-de-sol às riscas brancas e amarelas. Quem se sentaria à minha mesa? Se eu tivesse de comer sozinha na mesa reservada para mim, voltaria a morrer de humilhação... Mas escapulir-me-ia sem que dessem por isso e iria chorar sozinha.

O director responsável por aquele acontecimento deu o sinal, e eu, tal como as outras, endireitei os ombros, ergui a cabeça e, olhando em frente, iniciei os passos lentos e medidos que nos levariam até aos nossos lugares. Desfilámos em fila indiana. Eu era a oitava rapariga da fila da frente, pois ficáramos dispostas por ordem alfabética. Via, indistintamente, os rostos virarem-se, nenhum deles meu conhecido, à procura da rapariga da família. E se não se tivesse soerguido, talvez o meu olhar vítreo passasse por ele sem o ver. Assim, o meu coração deu um pulo ao aperceber-me de que ele não se esquecera... Preocupava-se o suficiente comigo para estar ali.

Eu sabia que ele detestava acontecimentos sociais como aquele. Desejava que a gente de Boston o imaginasse num canto qualquer afastado do mundo; no entanto, viera. Quando, por fim, chamaram pelo meu nome e eu me levantei para ir ao pódio, o Troy não foi o único a levantar-se; acompanhou-o uma fila inteira de homens, mulheres e crianças!

Mais tarde, depois de todas as finalistas estarem instaladas debaixo de toldos de cores alegres, onde o sol e a sombra faziam que estivesse simultaneamente quente e fresco, tudo muito bonito, senti uma sensação de felicidade como poucas vezes me acontecera até então, pois o Troy pedira a vários executivos da Companhia de Brinquedos Tatterton que estivessem presentes, com as respectivas famílias, fazendo de conta que eu pertencia a estas. A roupa que vestiam era de tal maneira "certa" que as raparigas ficaram a olhar, de olhos arregalados e boca aberta, para os meus parentes "pacóvios".

- Por favor, não voltes a agradecer-me - disse o Troy quando, já a noite ia alta, me conduziu a casa depois de o baile do colégio terminar e todas as raparigas ficarem a invejar o meu atraente "homem mais velho", que também era muito admirado e considerado um óptimo partido. - Pensaste mesmo que eu não vinha? - admoestou-me. - Não foi preciso grande esforço.

Fiquei calada e ele soltou uma risada antes de acrescentar:

- Nunca conheci uma rapariga que precisasse tanto de uma família. Portanto, arranjei-lhe uma bem grande. E, a propósito, eles são uma espécie de família, não é? Toda a vida trabalharam para os Tatterton. Reparaste como ficaram encantados em vir?

Sim, tinham ficado deliciados em vir. Repentinamente acanhada, fiquei em silêncio, muito feliz mas, ao mesmo tempo, perturbada com o que sentia. Tinha de reconhecer que estava a apaixonar-me pelo Troy. Seria natural o facto de dançar com o Troy ter sido dez vezes mais excitante do que quando o fizera com o Logan, quando este me ensinara os primeiros passos? Lancei um olhar furtivo ao perfil dele e tive vontade de saber o que estaria a passar-lhe pela cabeça.

- A propósito - disse o Troy sem desviar os olhos e a atenção do trânsito -, a agência de detectives que os meus advogados contrataram para descobrir o paradeiro dos teus irmãos mais novos, acham que encontraram uma pista. Têm andado à procura de um advogado em Washington chamado Lester. Existem pelo menos dez Lester e uns quarenta com a inicial "na zona da cidade de Washington, além de vinte ou mais em Baltimore. Também andam a investigar o "R" que a mulher dele usa... Portanto, é possível que já não falte muito para lhes descobrir o rasto.

A minha respiração acelerou-se. Oh, voltar a abraçar a "Nossa" Jane! Apertar o Keith contra mim e cobri-lo de beijos! Vê-los antes que se esquecessem da irmã "Hev-lee". Mas seriam eles a verdadeira razão pela qual toda eu tremia assim?

Sem poder conter-me, acerquei-me um pouco mais do Troy, de maneira a que a minha coxa se premisse contra a dele e o seu ombro roçasse no meu. Tive a impressão de que ficava tenso antes de se calar, e nessa altura saímos da auto-estrada e enveredámos pelo caminho por onde eu já passara na companhia da Jillian e do Tony. Fazia lembrar uma fita prateada a serpentear em direcção aos portões altos, arqueados e negros. Aquele percurso e a enorme casa oculta dos olhares até surgir quase de repente diante de nós eram agora o meu lar.

Ouvi o troar do mar, o bater das ondas, senti o cheiro a maresia e a excelência daquela noite intensificou-se.

- Oh, não vamos dar as boas-noites só porque já passa da uma da manhã - disse eu, pegando na mão do Troy depois de descermos do carro. - Vamos passear pelos jardins e conversar.

Talvez a noite cálida e aveludada também estivesse a exercer um certo efeito sobre o Troy, pois este não se fez rogado em me dar o braço. As estrelas pareciam tão próximas que dava a impressão de podermos tocar-lhes. O perfume inebriante encheu-me as narinas, entontecendo-me.

- Que cheiro tão agradável é este? - perguntei.

- É dos lilases. É Verão, Heavenly, ou quase.

O Troy voltara a chamar-me Heavenly, tal como o tom costumava fazer. Nunca ninguém me tratara assim desde que chegara ali, há cerca de um ano atrás.

- Sabia que hoje, depois do almoço, as minhas colegas se mostraram mais minhas amigas do que em alguma outra ocasião? Claro que queriam que eu o apresentasse a elas... mas eu não lhes fiz a vontade. Mas gostaria de saber como tem conseguido manter-se afastado do sexo oposto.

O Troy soltou uma risada e baixou timidamente a cabeça.

- Não sou homossexual, se é isso que queres saber.

Corei, embaraçada.

- Nunca imaginei que fosse! Mas a maioria dos homens da sua idade sai o mais que pode com raparigas, se é que já não estão noivos ou casados!

O Troy voltou a rir.

- Eu só daqui a uns meses é que farei os vinte e quatro anos - observou com um ar despreocupado -, e o Tony sempre me aconselhou a não me precipitar com nenhum compromisso antes dos trinta. Além disso, Heavenly, sempre fui um perito em escapar às raparigas com ideias casadoiras.

- Tem alguma coisa contra o casamento?

- Nada. É uma instituição velha e honrada destinada aos outros homens, não a mim.

O modo frio e distante como falou fez-me retirar a mão do seu braço. Estaria ele a advertir-me a que não desejasse outra situação que não a de amiga, nada mais? Seria possível que nunca nenhum homem viesse a dar-me o tipo de amor por que eu ansiava?

Toda a magia daquela perfeita noite de Verão desapareceu; as estrelas deram a impressão de mirrar, e nuvens escuras sobrepuseram-se às claras, tapando a Lua.

- Parece que vai chover - observou o Troy, olhando para o céu. - Quando eu era criança, costumava pensar que todas as minhas possibilidades de ser feliz cairiam por terra antes de terem, sequer, oportunidade de florescer. É muito difícil sentir que somos espezinhados constantemente até chegarmos à conclusão de que mais vale aceitar o que não pode ser mudado.

Que quereria ele dizer? Ele nascera em berço de ouro! Que saberia sobre o tipo de desespero por que eu passara?

O Troy deu meia volta, pisando o cascalho solto sobre o carreiro de lajes, e fazendo um certo esforço para se distanciar tacticamente de mim, do carácter especial daquela noite; deu-me novamente os parabéns, a três metros de distância; depois desejou-me uma boa noite. Afastou-se em passadas rápidas em direcção ao labirinto e à casa de pedra que ficava por trás.

- Troy - chamei, quase deitando a correr no seu encalço - porque vai já para dentro? Ainda é cedo!.E eu não estou absolutamente nada cansada.

- Porque tu és jovem Heaven, saudável e cheia de sonhos dos quais eu não posso partilhar. Mais uma vez, boa noite, Heaven.

- Obrigada por ter ido à entrega dos diplomas - disse-lhe, profundamente magoada e a tremer, porque parecia que eu fizera algo de errado mas não sabia o quê.

- Foi o mínimo que podia fazer.

E com essas palavras desapareceu no meio da escuridão. Nesse momento, as nuvens obscureceram a lua, as estrelas desapareceram rapidamente e caiu uma gota de chuva na ponta do meu nariz. Ali me deixei ficar, a meia-noite já ia longe, sentada num banco de pedra frio, no meio de um jardim de rosas deserto, deixando que a chuva que começara a cair suavemente me ensopasse o cabelo e estragasse o vestido mais bonito que tinha no guarda-fatos. Não importava, não importava. Eu não precisava do Troy, do mesmo modo como acontecera com o Logan. Subiria ao topo sozinha... sozinha.

Tinha dezoito anos e achava que o Logan nunca mais voltaria a fazer parte da minha vida. Porém, sentia uma necessidade imperiosa de romance; em breve o amor teria de florescer para mim, ou nunca seria capaz de sobreviver. "Porque não eu, Troy? Porque não?"

Sozinha no jardim, a tremer violentamente e com aquela dor no coração, o diploma que recebera deixou de parecer uma vitória importante. Era apenas um passo na direcção certa. Ainda me faltava mostrar o meu valor na universidade. Ainda tinha de fazer com que um homem se mantivesse apaixonado por mim. Fiquei a olhar para o que restava de um vestido branco que nenhuma das alunas de Winterhaven teria alguma vez esperança de adquirir.

Piedade, aí estava o que todo o homem só conseguia sentir por mim, só piedade! O Cal tivera pena de mim... e deitara por terra as minhas possibilidades com o Logan. Este apenas tivera o prazer de atenuar a minha vida miserável e cheia de privações com bens materiais! Agora que já não passava miséria nem privações, os seus ímpetos filantrópicos tinham perdido o incentivo. E o Troy... A esse, compreendia ainda menos! Nos últimos tempos tivera a impressão de vislumbrar, várias vezes, algo mais do que amizade nos seus olhos escuros.

Que sina maléfica era aquela que se sobrepunha a toda a beleza que via reflectida no espelho quando me mirava nele?

Cada vez me parecia mais com a minha falecida mãe - e com a Jillian - exceptuando o meu cabelo, o meu cabelo traiçoeiro, o meu cabelo Casteel de índio.

 

PECADO E PECADORES

No início de uma manhã de Junho, antes de o Tony e a Jillian regressarem de Londres, chegaram-me aos ouvidos os acordes melodiosos de uma composição de Chopin tocada no piano. Era o tipo de música que eu apenas ouvira na aula de iniciação musical de Miss Deale, às sextas-feiras, o género de melodia romântica capaz de me encantar e estimular, enchendo-me de uma ânsia que me atraiu escadas abaixo, para se me deparar o Troy sentado ao enorme piano de cauda. Os seus dedos longos e esguios ondulavam sobre o teclado com uma tal mestria que fiquei admirada de o mundo não ter conhecimento de tamanho talento.

Bastou-me vê-lo para me emocionar. A curva dos seus ombros, a maneira como inclinava a cabeça sobre as teclas, a paixão e o ardor que punha na sua música pareciam extremamente reveladores. Ele não podia deixar de saber que eu o ouviria. Precisava de mim, ainda que não o soubesse. Assim como eu dele. Em camisa de noite e roupão detive-me no umbral da porta a tremer e apoiei-me à madeira, permitindo que a música me persuadisse de muitos aspectos. O Troy não era feliz, como eu. Possuíamos muito em comum. Eu gostara dele desde o primeiro momento; era como o homem-fantasia que eu criara há muito, mesmo antes de o Logan aparecer na minha vida. Era um homem tão sensível que jamais poderia magoar-me. Eu achava o Troy uma pessoa excepcional, muito acima das outras, demasiado perfeito para ser real. Mas era-o.

Parecia, de certo modo, mais novo que o Logan, e dez vezes mais sensível e vulnerável, qual rapaz à espera de ser amado à primeira vista... mas não desejando sê-lo pela sua aparência, riqueza ou talentos. Ainda estes pensamentos atravessavam a minha mente já o Troy sentira a minha presença, parando imediatamente de tocar e virando-se para me sorrir com timidez.

- Espero não tê-la acordado.

Voltara a tratar-me por você.

- Não pare, por favor.

- Estou enferrujado, pois deixei de tocar diariamente.

- Porque parou?

- Não tenho piano na minha casa de pedra, como sabe.

- Mas o Tony disse-me que este piano era seu.

O Troy esboçou um pequeno sorriso enviesado.

- O meu irmão quer manter-me afastado de si. Já não me sirvo deste piano desde a sua chegada.

- Porque proíbe ele a nossa amizade, Troy? Porquê?

- Oh, não falemos nisso. Deixe-me terminar o que comecei e depois conversaremos.

O Troy tocou durante algum tempo e eu, a certa altura, comecei a sentir-me tão débil que tive de me sentar, parando só então de tremer. Enquanto ele tocava, caí numa divagação romântica, imaginando que estávamos a dançar juntos, tal como na noite em que eu recebera o meu diploma.

- Está a dormir! - exclamou o Troy quando a música acabou. - Foi assim tão mau?

Descerrei imediatamente as pálpebras. Fitei-o com ar meigo e sonhador.

- É a primeira vez que ouço música assim. Assusta-me. Porque não toca profissionalmente?

O Troy encolheu os ombros com indiferença. A sua pele, que eu vislumbrava através da fina camisa branca, brilhava com uma coloração mais intensa. O colarinho estava aberto, o que me permitia ver o tufo de pêlos escuros que tinha no peito. Voltei a fechar os olhos, perturbada por todo aquele mar de sensações que me invadira.

- Tenho sentido a falta das suas visitas - observou o Troy em voz débil e hesitante. - Sei que a magoei na noite da festa do final do curso e lamento-o, mas estava apenas a tentar protegê-la.

- É a si mesmo - sussurrei com amargura. - Sabe que eu não passo de uma reles pacóvia, e mais cedo ou mais tarde o embaraçarei a si e à sua família. Tenho andado a pensar em me ir embora. Já tenho umas boas economias que me permitirão aguentar o primeiro ano da universidade. E se arranjar emprego, poderei fazer o resto do curso.

Alarmado, o Troy disse algo que não consegui perceber muito bem, embora eu entreabrisse as pálpebras o suficiente para ver o seu ar de preocupação e alarme.

- Não pode fazer isso! O Tony, a Jillian e eu devemos-lhe muito.

- Vocês não me devem nada! - declarei intempestivamente, pondo-me de pé com um salto. - Só lhe peço que daqui em diante me deixe em paz. Não voltarei a intrometer-me na sua privacidade!

O Troy vacilou, em seguida passou os dedos compridos pela massa de cabelo ondulado. Esboçou o seu desarmante sorriso de menino.

- Recorri à música como meio de lhe pedir desculpas por tê-la deixado sozinha no jardim. É a minha maneira de confessar que passei a gostar o suficiente de si para não fazer um esforço para recuperar a sua amizade. Quando não está em minha casa, fico com a impressão de a ter lá, virando-me muitas vezes de repente na esperança de dar consigo; quando vejo que me encontro sozinho, a desilusão é enorme. Portanto, peço-lhe que comece a ir até lá de novo.

De modo que voltei à casa de pedra do Troy com ele e jantámos juntos. Porém, eu estava cansada de ficar enfiada ali dentro com ele. Sentia o impulso das minhas emoções pressionar-me de tal modo que precisava de ir para o exterior, se não, corria o risco de fazer figura de tola. Mas, antes de me retirar, estava decidida a certificar-me de que nos encontraríamos no dia seguinte. Sentia-o a abrandar diante, de mim. E se passássemos dias inteiros juntos, ele não seria capaz de lutar contra os seus sentimentos por mim. Eu podia tornar a sua vida mais alegre e feliz e já me resolvera a obrigá-lo a aceitar o meu amor.

- Troy, não poderemos antes ir lá para fora, para variar? Nas cavalariças estão magníficos cavalos árabes que só os moços da estrebaria exercitam quando o Tony e a Jillian estão fora. Ensine-me a montar. Ou venha nadar comigo para a piscina. Façamos um piquenique no bosque, tudo menos ficarmos encafuados na sua casa de pedra quando lá fora faz um tempo tão bonito. A Jillian e o Tony não tardarão a voltar e estamos proibidos de nos encontrar. Aproveitemos agora o que não poderemos fazer depois.

Os nossos olhares encontraram-se e fundiram-se um no outro. O Troy corou, o que o obrigou a virar-se ligeiramente para o lado, quebrando o encantamento que se gerara.

- Se é o que prefere fazer. Encontramo-nos nos estábulos amanhã às dez. Pode aprender na égua mais mansa que lá está.

Caí sob o feitiço de algo que escapava ao meu controlo, quase como se tivesse engolido uma poção poderosa. Na manhã seguinte, pouco depois das dez horas, encontrei-me com o Troy nas cavalariças. Este estava à minha espera, envergando roupa de montar simples. O vento despenteara-lhe o cabelo, o sol começara já a emprestar-lhe um tom saudável às faces, e a expressão vagamente entristecida que estava sempre presente nas profundezas do seu olhar, desaparecera.

- Vamos ter um dia maravilhoso! - exclamei, dando-lhe um abraço rápido antes de olhar ansiosamente para os estábulos. - Só espero que os moços das cavalariças não contem nada ao Tony.

- Eles sabem que o melhor que têm a fazer é não andar com mexericos - respondeu o Troy com ar despreocupado, aparentemente encantado com o meu entusiasmo. - Está esplêndida, absolutamente esplêndida!

Dei meia volta para me mostrar melhor, abrindo os braços e ajeitando o cabelo.

- O Tony ofereceu-me esta roupa de montar no Natal. É a primeira vez que a visto.

O Troy deu-me lições de equitação durante uma semana, mostrando-me a diferença entre os estilos inglês e ocidental. Aprender a correr contra o vento, a baixar-me para escapar às ramadas pendentes e dar com os calcanhares no flanco da minha montada quando queria parar era mais divertido do que eu alguma vez esperara (embora todas as noites me custasse a sentar). Em suma, perdi o medo que tinha dos cavalos e da sua altura impressionante.

Todas as manhãs, depois da minha lição, voltávamos à casa de pedra para almoçar, e depois o Troy mandava-me de volta à casa grande, pois dizia que precisava de trabalhar. Eu não tinha dificuldade em ver o esforço que ele fazia para não passar demasiado tempo comigo quando, na verdade, era o que realmente desejava. De modo que evitava vê-lo à tarde, esperançada em levá-lo a sentir a minha falta; de facto, pela manhã, ele mostrava um prazer tão grande em me ver que eu tinha a certeza de que, muito em breve, compreenderia que me amava.

Oito dias depois do início das minhas lições de equitação é que o Troy me considerou pronta para uma corrida mais prolongada pelos bosques que rodeavam a Mansão Farthinggale. Olhava constantemente para o céu.

- O boletim meteorológico desta manhã previa violentas tempestades com raios e trovões. Portanto, é melhor não irmos demasiado longe.

Levávamos connosco um cesto de piquenique que o próprio Troy enchera ao seu gosto, assim como uns petiscos que o whiskey mandara da casa grande para nos deliciar. Coube ao Troy escolher o pequeno morro sombreado, debaixo de uma das faias mais lindas que eu já vira. Perto, corria um veio de água gorgoleante e, lá no alto, os passarinhos saltitavam entre as ramadas que a brisa agitava docemente. O maravilhoso dia de Verão enchia-me o coração de música e alegria; o Troy ajoelhou-se para abrir a toalha aos quadrados vermelhos e brancos sobre a erva. Os nossos dois cavalos, presos a curta distância, mastigavam pacatamente tudo aquilo a que podiam deitar o dente. Atarefei-me a esvaziar o cesto de piquenique, sentindo o zumbido das abelhas e o cheiro dos trevos, enquanto ia afastando mosquitos minúsculos do rosto. A doçura do dia, a beleza do lugar iluminavam-me o olhar sempre que olhava de relance para o Troy, que não conseguia desviar o olhar fascinado do menor movimento que fazia, mesmo o mais trivial. Ajeitei os pratos e demais utensílios de plástico, sentindo-me constrangida e mudei a salada de batata, o frango e as sanduíches três vezes de sítio.

Quando, finalmente, ficou tudo impecavelmente arranjado, sentei-me sobre os calcanhares e sorri para o Troy.

- Pronto, não está bonito? Mas não avance antes de eu dizer uma oração, como a minha avó costumava fazer sempre que o meu pai não estava em casa.

Naquele dia, sentia-me tão feliz que não podia deixar de agradecer a alguém.

O Troy parecia encantado. Anuiu com olhar vago e em seguida inclinou ligeiramente a cabeça, enquanto eu proferia as palavras conhecidas.

- "Senhor, agradecemos os alimentos que temos diante de nós, as mãos carinhosas que prepararam esta dádiva, as muitas bênçãos que fazes recair sobre nós e as alegrias deste dia e de todos os amanhãs que nos queiras dar. Ámen."

Baixei as mãos levantei a cabeça, olhei para cima e reparei que o Troy me fitava com ar muito estranho.

- É a oração da sua avó?

- Sim, nós nunca tivemos bênção nem dádivas, mas a minha avó não dava a impressão de se aperceber do facto. Afirmava sempre que viriam dias melhores. Penso que, quando não se está habituado a nada, não se espera demasiado. Quando ela dizia a oração, eu costumava implorar silenciosamente a Deus que a livrasse das suas penas e sofrimentos.

Depois de ouvir a minha resposta, o Troy ficou em silêncio, pensativo, enquanto ambos nos deleitávamos com o nosso sumptuoso almoço de piquenique. O bolo amarelo com uma espessa cobertura de chocolate fora feito por mim, na própria cozinha do Troy.

- Este é o melhor bolo que alguma vez comi! - exclamou o Troy, lambendo o chocolate dos dedos. - Mais uma fatia, se faz favor.

- Não era bom podermos estar sempre juntos como agora? O Troy e eu. Eu poderia ir à universidade e morar em sua casa.

Os olhos escuros do Troy ensombraram-se de tanta dor que o dia ensolarado perdeu, repentinamente, a sua luminosidade. Ele não me amava! Não precisava de mim! Eu estava apenas a seduzi-lo, ou a tentar fazê-lo, tal como o Cal Dennison fizera comigo em relação aos seus anseios e desejos, alheando-se dos meus. Passei-lhe a segunda fatia de bolo, agora demasiado embaraçada para olhar, sequer, para ele. De cabeça baixa para que não visse o meu desgosto, desimpedi rapidamente a toalha e, em vez de lavar a louça usada, na torrente de água como inicialmente pensara em fazer mal a avistara, atirei com tudo para dentro da cesta de piquenique, onde ficou a monte, não me permitindo fechar a tampa. Furibunda, empurrei-a em direcção ao Troy.

- Aqui está a sua cesta! - exclamei com voz embargada.

A expressão estupefacta do Troy levou a pôr-me desajeitadamente de pé e a correr para a minha égua.

- vou para casa! - gritei, infantilmente. - Já percebi que não precisa de alguém como eu a intrometer-se permanentemente na sua vida! Só quer trabalho e mais trabalho! Obrigada pelos últimos dez dias e perdoe-me por ser impulsiva. Prometo não voltar a fazê-lo perder tempo!

- Heavenly! - chamou o Troy. - Pára! Espera... Não esperei. Consegui subir para cima da sela, sem me importar se o fiz bem ou mal. Bati com os calcanhares nos flancos da égua, que se precipitou para a frente, enquanto eu, cega pelas lágrimas, me sentia mais furiosa comigo mesma do que com o Troy. Fiz tudo errado. A minha égua ficou confusa e hesitante. Para corrigir os meus erros, puxei violentamente as rédeas. O animal ergueu-se, ficando quase na vertical, resfolegando e agitando as patas no ar; depois, precipitou-se para a frente, deitando a correr a galope pelo meio do bosque. Os ramos baixos vieram contra mim, uns atrás dos outros, ramos capazes de me varrer da sela e partir o pescoço, coluna, pernas. Consegui escapar a todos eles, com mais sorte do que perícia. E quanto mais me mexia na sela, mais irregular se tornava o galope da égua! Os meus gritos eram como longos lenços de seda a esvoaçar atrás de mim. Lembrei-me, quase demasiado tarde, dos conselhos do Troy sobre como me segurar a um cavalo com o freio nos dentes. Inclinei-me para a frente e agarrei-me à crina abundante e castanha. A égua descontrolada saltava ravinas e fossos, e sobre árvores tombadas por tempestades. Fechei fortemente os olhos e comecei a dizer o nome dela repetidamente, tentando acalmá-la.

A certa altura, percebi que tropeçava; fui projectada do seu lombo, indo parar a uma vala baixa, meio cheia de uma água lodosa e esverdeada, ali retida depois das chuvas. A minha égua pôs-se de pé, vacilante, relinchou, sacudiu-se e depois de me lançar um olhar descontente, virou-se e seguiu em direcção a casa, deixando-me atordoada, trémula e magoada. Eu também perdera a bota do pé esquerdo. Ali deitada de costas no meio da água fétida, olhando para o dossel de folhas e com o sol a bater-me em cheio no rosto, senti-me uma idiota.

Fora castigo de Deus, pensei sombriamente, por ter criado demasiadas expectativas! Já tinha obrigação de saber que não devia apaixonar-me pelo primeiro homem que fazia o meu sangue quente correr mais depressa, sobretudo depois do que acontecera com o Cal e da rejeição do Logan. Nunca nenhum Casteel se saíra bem alguma vez. Porque haveria eu de ter a presunção de me considerar melhor?

Ainda me passaram pela cabeça outros pensamentos tolos antes de me levantar e sacudir a água imunda do cabelo e depois limpar a lama do rosto com uma das mangas da blusa. Apareceram abelhas selvagens, se calhar atraídas pelo meu perfume ou pelo amarelo-claro da minha blusa anteriormente bonita.

- Heaven, onde estás? - ouvi o Troy chamar à distância.

"Atrasaste-te demasiado, Troy Tatterton! Agora já não te quero!" No entanto, o esforço que foi preciso para não responder, pôs-me a tremer. Não queria que ele me encontrasse, não, naquele momento. Arranjaria maneira de voltar para aquela casa enorme e solitária e nunca mais desobedeceria ao Tony para ir até casa do Troy às escondidas.

De modo que deixei-me ficar sentada na água, muito quieta, afastando com palmadas todos os insectos que, idiotamente, me achavam atraente. O tempo pareceu nunca mais terminar até ele deixar de me chamar e deambular pelo bosque à minha procura. O vento começou a soprar com mais força, agitando as folhas caídas. Juntaram-se nuvens escuras e cerradas, como parecia acontecer sempre que eu estava à beira de descobrir algo de valioso: a minha péssima sorte!

Oh, realmente estava com tanta pena de mim mesma que mal pude reprimir os soluços ainda antes de começar a chuviscar.

Nesse momento, ouvi um pequeno barulho atrás de mim e uma voz divertida exclamou:

- Sempre tive vontade de salvar uma donzela em apuros.

Virei a cabeça e vi o Troy a cerca de três metros de distância. Eu não saberia dizer há quanto tempo estava a observar-me. Tinha a roupa de montar suja em vários sítios e um rasgão enorme numa das mangas, do ombro ao cotovelo.

- Porque continuas sentada aí? Estás ferida?

- Vá-se embora! - gritei, virando a cabeça de maneira a ele não ver o meu rosto sujo de lama. - Não, não estou ferida! Não preciso de ser salva! Não preciso de si! Não preciso de ninguém]

Ele não respondeu e desceu para o fosso com água, apalpando-me as pernas em busca de alguma fractura. Tentei afastá-lo, mas ele conseguiu pegar em mim ao colo à terceira tentativa.

- Agora a sério, Heaven. Diz-me se te dói nalgum sítio.

- Não! Ponha-me no chão!

- Tens sorte em ainda estar viva. Se em vez de água e de um fundo lamacento macio tivesses batido contra terra seca, muito possivelmente estarias gravemente ferida.

- Posso andar. Por favor, ponha-me no chão.

- Está bem, se é essa a tua vontade.

Obedecendo à minha ordem, colocou-me cuidadosamente de pé. A dor aguda que senti no tornozelo esquerdo fez-me gritar de dor. O Troy agarrou imediatamente em mim.

- Precisamos de nos apressar - disse. - Não temos tempo para brincadeiras. Tive de desmontar para seguir a trilha que deixaste. Não restam dúvidas de que torceste o tornozelo, a julgar pelo inchaço, que está a aumentar.

- Isso não quer dizer que esteja incapacitada! Ainda posso andar. Não foram poucas as vezes em que percorri quase doze quilómetros até Winnerrow com algo mais a doer-me que não um tornozelo!

Nos lábios do Troy surgiu novo sorriso.

- Claro que sim, doía-te o estômago em vez do tornozelo.

- Que sabe sobre isso?

- Apenas o que me contaste. Agora pára de te debateres e porta-te bem. Se não encontrar depressa o meu cavalo, seremos ambos apanhados pela tempestade que aí vem.

O cavalo do Troy esperou pacientemente que este me ajudasse a montar na sela, em frente dele. Senti-me má e detestável quando ele se instalou atrás de mim, guiando a sua montada com habilidade, ao mesmo tempo que me rodeava protectoramente a cintura com um dos braços.

- Já começou a chover.

- Eu sei.

- Nunca conseguiremos chegar a casa antes de a tempestade rebentar em toda a sua força.

- Desconfio que não. Por isso é que me dirijo para um velho celeiro abandonado que costumava servir para guardar cereais cultivados pelos primeiros Tatterton - afirmou ele.

- Quer dizer que os seus antepassados sabiam fazer outras coisas além de brinquedos?

- Penso que todos os antepassados sempre souberam fazer mais do que uma só coisa.

- Os seus, sem dúvida, tinham criados para tratar dos trabalhos da quinta.

- É possível que tenhas razão. No entanto, fazer dinheiro para pagar aos trabalhadores rurais exige algum talento.

- Para sobreviver numa zona inóspita e cruel é necessário mais do que talento.

- Touché. Agora, fica quieta e deixa-me ver como hei-de resolver esta situação.

Afastou o cabelo molhado da testa, olhou em volta e, em seguida, orientou o cavalo rumo a leste.

O vento trazia nuvens negras de sudoeste, não tardando a seguirem-se-lhes raios coruscantes. Eu, apesar da vontade que tinha de fugir do Troy, sentia prazer em ter o braço dele à minha volta a segurar-me, até que, a certa altura, o celeiro apareceu à nossa frente.

A construção em ruínas, meio cheia de feno apodrecido, exalava um cheiro a velhice e a mofo. A penumbra permitia ver que a chuva entrava por uma centena de sítios, caindo no chão, onde formava poças de água. As aberturas deixavam ver o céu, naquele momento sulcado de raios aterradores que davam a impressão de convergir directamente para cima de nós, no alto. Deixei-me cair sobre os joelhos, enquanto o Troy se encarregava do cavalo, tirando-lhe a sela e esfregando-o até o secar com o cobertor que esta trazia; depois veio ter comigo e escolheu o lugar onde, naquele celeiro escuro e malcheiroso, o feno estava mais seco e menos apodrecido. Sentámo-nos ambos naquele local húmido e miserável.

Como se não tivesse havido nenhuma interrupção, prossegui com voz irada:

- Admira-me que gente rica como os Tatterton não tenha mandado deitar abaixo este celeiro há muito tempo.

O Troy ignorou a minha observação e, reclinando-se sobre o montículo que formara, disse com suavidade:

- Quando era menino costumava brincar neste celeiro. Tinha um amigo imaginário ao qual chamava Stu Johnson e era com ele que saltava daquele piso ali de cima. - Apontou-me. - Vinha parar precisamente a este monte de feno em que estamos sentados.

- Mas que grande disparate! - exclamei, fitando, incrédula, a altura enorme a que ficava o piso de cima. - Podia ter morrido.

- Oh, isso nem me passava pela cabeça. Na altura tinha cinco anos e necessitava muito de um amigo, mesmo que fosse imaginário. A tua mãe fora-se embora e deixara-me muito só. A Jillian passava a vida a chorar e a telefonar para o Tony, que estava longe, implorando-lhe que voltasse para casa e, depois disso acontecer, passaram a discutir todos os dias.

Agitada pelo facto de o Troy estar a recordar a minha mãe, virei-me para ele.

- Porque fugiu a minha mãe?

O Troy, em vez de responder, endireitou-se, tirou um lenço do bolso, mergulhou uma ponta na poça de água mais próxima e começou a limpar-me a lama do rosto.

- Não sei - respondeu, inclinando-se para me dar um beijo na ponta do nariz. - Era demasiado pequeno para me aperceber do que estava a acontecer. - Beijou-me a face direita, depois a esquerda, fazendo-me sentir a sua respiração quente e excitante no meu rosto e pescoço, ao mesmo tempo que falava. - Só sei que, quando a tua mãe se foi embora, prometeu escrever-me. Disse que um dia voltaria, quando eu estivesse crescido.

- Ela disse-lhe isso?

Os seus lábios encontraram os meus com suavidade. O Logan beijara-me várias vezes mas nem uma única vez a sua aproximação desajeitada e juvenil me excitara como a daquele homem, que sabia, nitidamente, como agir para me arrepiar toda. Contrariamente ao que devia ter feito, reagi com demasiada rapidez e depois recuei abruptamente.

- Não precisa de ter pena de mim e inventar mentiras.

- Eu nunca te mentiria sobre algo tão importante.

Agarrou-me a cabeça com ambas as mãos e inclinou-a para o ângulo que mais jeito lhe dava; o seu beijo seguinte foi mais intenso. Eu mal podia respirar.

- Quanto mais recordo o passado, mais me lembro do quanto amava a tua mãe.

Deitou-me suavemente no feno, apertando-me contra o seu peito, enquanto eu levantava automaticamente os braços para o rodear com eles.

- Continua. Conta-me mais coisas.

- Agora não, Heaven, agora não. Deixa-me reflectir mais acerca do que está a acontecer entre nós. Tenho feito um esforço para não me apaixonar por ti. Não quero ser mais um homem a magoar-te.

- Eu não tenho medo.

- Tens apenas dezoito anos. Eu já vou nos vinte e três.

Mal podia acreditar no que ouvira.

- O Jessie Shackleton tinha setenta e cinco anos quando casou com a Lettie Joyner, que vivia a uns quilómetros de distância, nos arredores dos Willies, e deu-lhe três filhos e duas filhas antes de morrer, aos noventa.

O Troy gemeu e enterrou o rosto nos meus cabelos molhados.

- Não me digas mais nada. Precisamos os dois de reflectir, antes que seja demasiado tarde para terminar aquilo que já começou.

Fiquei maravilhada! O Troy já me amava, sentia-se na sua voz, na maneira como me abraçava, e tentava alertar-me.

Enquanto a chuva tamborilava fortemente sobre as nossas cabeças, torrentes de água infiltravam-se pelos buracos do telhado, os trovões ribombavam e os raios sulcavam os ares, deixámo-nos ficar agarrados um ao outro sem falar, acariciando-nos com as mãos, beijando-nos de vez em quando, momentos de ternura como eu jamais experimentara.

O Troy poderia ter-me possuído naquele momento e naquele lugar, e eu não teria resistido. No entanto, conteve-se, fazendo com que o meu amor por ele aumentasse ainda mais.

A chuva caiu durante uma hora. Depois, o Troy montou-me no seu cavalo e dirigimo-nos, lentamente, para a enorme casa, cujas chaminés e torres avistámos acima do topo das árvores. Ao chegarmos aos degraus que conduziam à porta da frente, voltou a atrair-me para os seus braços.

- Não achas estranho, Heavenly, teres entrado na minha vida numa altura em que não precisava de ti nem desejava a tua presença... e que agora não consiga imaginar-me sem ti?

- Então, não imagines. Amo-te, Troy. Não tentes afastar-me da tua vida só por me achares demasiado nova. Não o sou. Nos montes, ninguém com a minha idade é considerado jovem.

- Esses teus montes são extraordinários, mas eu não posso casar, nem contigo nem com ninguém.

Aquelas palavras magoaram-me.

- Quer dizer que não me amas?

- Não foi o que eu disse.

- Se não quiseres casar comigo, não o faças. Basta que me ames o suficiente para que eu me sinta bem comigo mesma.

Levantei-me rapidamente na ponta dos pés e premi os meus lábios contra os dele, enfiando os meus dedos no seu cabelo húmido.

Os braços dele apertaram-se à minha volta, e eu pensei em todas aquelas mulheres que já deviam ter povoado os seus sonhos. Mulheres ricas, apaixonadas, belas e sofisticadas! Mulheres encantadoras, inteligentes e cultas. Cheias de jóias, à moda, espirituosas, seguras... Que hipótese teria uma pacóvia dos montes de atrair um homem como o Troy, quando elas tinham fracassado?

- Até amanhã - despediu-se ele, afastando-se e descendo os degraus. - Isto é, se a Jillian e o Tony não voltarem. Não sei o que estará a retê-los tanto tempo.

Eu também não sabia, mas o certo é que era agradável não precisar de me encontrar com o Troy às escondidas. E quanto mais pensava nisso, depois de já estar deitada, mais inquieta me sentia. Queria estar com o Troy naquele momento. Não desejava esperar mais. Chamei-o para junto de mim em pensamento, silenciosamente.

Dormitei durante horas intermináveis, sem conseguir encontrar o tranquilo esquecimento que procurava com tanto desespero. Virava-me de um lado para o outro, tentava ficar de costas, sobre a barriga. A certa altura, de repente, ouvi chamarem-me pelo nome. Abri os olhos, sobressaltada, e olhei para o relógio eléctrico que tinha na mesa-de-cabeceira. Eram duas da manhã... Ainda só passara aquele tempo? Levanteime, vesti o meu diáfano roupão verde, a condizer com a camisa de dormir, depois desci até ao vestíbulo e, sem pensar no que fazia, vi-me no labirinto, de pés descalços. A erva estava fria e húmida. Não queria imaginar o que ali estava a fazer.

A tempestade tornara a atmosfera tão límpida que o luar iluminava tudo. As sebes altas, com os seus milhares de folhas, retinham partículas minúsculas de luar, luzindo. A certa altura, vi-me diante da porta fechada da casa dele, hesitante, desejando ter a coragem de bater ou de bater e entrar. Ou a força de vontade para dar meia volta e voltar para onde devia. Inclinei a cabeça e encostei a testa à madeira; depois, fechei os olhos e, sentindo as forças abandonarem-me comecei a chorar suavemente. Nesse momento a porta abriu-se, fazendo-me tombar para a frente. Directamente para os braços do Troy.

Este não proferiu uma palavra ao amparar-me. Ergueu-me nos braços e levou-me para o seu quarto.

Ao baixar a cabeça sobre a minha, o luar banhava-lhe o rosto mas, dessa vez, os seus lábios foram mais sôfregos. Os seus beijos e carícias puseram-me em brasa, de modo que tudo aconteceu entre nós de uma maneira tão natural e bonita que não senti nenhuma da culpa e da vergonha que o facto de fazer amor com o Cal Dennison provocara em mim. Atingimos o clímax ao mesmo tempo, como se não pudesse deixar de ser assim e, quando chegámos ao fim, deixei-me ficar nos seus braços, a estremecer com os derradeiros espasmos do primeiro orgasmo da minha vida.

Quando acordámos já era madrugada e o vento entrava, húmido e frio, pelas janelas abertas. O doce pipilar matutino das aves ensonadas trouxe-me lágrimas aos olhos, antes de me soerguer para puxar pelo cobertor dobrado aos pés da cama. Os braços do Troy trouxeram-me rapidamente para trás. Encheu-me o rosto de beijos ternos e afagou-me o cabelo com a mão livre, antes de me aninhar contra ele.

- Ontem à noite estive aqui deitado a pensar em ti.

- Tive imensa dificuldade em adormecer...

- Eu também.

- Quando estava prestes a adormecer, tive um sobressalto pois pareceu-me ouvir-te chamar por mim.

O Troy deixou escapar um som abafado e apertou-me com mais força contra o seu corpo quente.

- Eu ia a sair para junto de ti quando me caíste pela porta dentro, como que em resposta a uma oração. No entanto, não devia ter permitido que isto acontecesse. Nunca quis magoar-te.

- Tu nunca poderias magoar-me, jamais! Nunca conheci um homem tão bom e meigo.

O Troy soltou uma risada baixa.

- Quantos homens já conheceste com essa tua tenra idade de dezoito anos?

- Apenas aquele de que te falei - sussurrei, escondendo o rosto quando o Troy quis perscrutar os meus olhos.

- Queres falar-me mais dele?

O Troy escutou-me sem fazer perguntas, ao mesmo tempo que me acariciava com as mãos magras, e quando cheguei ao fim, beijou-me os lábios e cada uma das pontas dos meus dedos.

- Voltaste a ter notícias desse tal Cal Dennison depois de vires morar para Farthy?

- Nunca mais quero ouvir falar nele!

com que veemência fiz tal declaração!

Tomámos a nossa primeira refeição do dia com um certo constrangimento, como se fôssemos dois adolescentes acabados de se descobrir um ao outro. Nunca comera nenhuma sanduíche de ovo estrelado e bacon ou soubera que o doce, de morango acentuava o sabor de ambos.

- Descobri este petisco por simples acaso - continuou a explicar. - Tinha sete anos e estava a recuperar de mais uma dessas maleitas infantis que costumavam atacar-me, e a Jillian ralhava comigo por ser desajeitado à mesa, quando deixei cair a torrada dentro do prato. "Fazes favor de comer isso tudo!", gritou-me ela. Foi assim que descobri que gostava de ovos com bacon...

- A Jillian costumava gritar contigo?

Senti-me profundamente admirada. Pensava que grande parte da sua má vontade comigo derivava do facto de ter uma mulher mais jovem perto dela.

- A Jillian nunca gostou de mim... Escuta... Está a trovejar outra vez. O meteorologista previu uma semana de tempestades, lembras-te?

Ouvi o leve tamborilar da chuva no telhado. O Troy apressou-se a acender um fogo para afastar o frio e a humidade da manhã, enquanto eu ficava estendida no chão, a observá-lo. A maneira ordenada como ele colocava os ramos secos divertia-me. No entanto, era quando estava descontraído que mais prazer me dava olhar para ele. Era maravilhoso o tempo obrigar-nos a ficar enclausurados na sua casa de pedra.

O fogo ardia com força, brilhante. O silêncio que reinava entre nós começou a palpitar de sensualidade. O jogo das labaredas alaranjadas nos planos acentuados do seu rosto desencadeou-me palpitações pelo corpo. Reparei que me observava a olhar para ele, analisando-me o rosto quando lhe mirava as mãos... até que, a certa altura, apoiou-se num dos cotovelos e ficou com a cara muito próxima da minha. Ia fazer novamente amor comigo. As minhas pulsações aceleraram.

Em vez de beijos, deu-me palavras.

Em vez de me abraçar, deitou-se de costas e colocou as mãos atrás da cabeça, a sua posição preferida.

- Sabes em que costumo reflectir quando é Verão? Penso que o Outono não tardará a chegar e todos os pássaros mais coloridos e bonitos ir-se-ão embora, deixando ficar os mais escuros e feios. Detesto a altura em que os dias começam a encurtar. Não durmo bem durante as longas noites de Inverno; dá a impressão de que o frio se insinua pelas paredes da casa e invade os meus ossos, fazendo-me dar voltas e voltas na cama, com pesadelos. No Inverno sonho demasiado. No Verão são só sonhos agradáveis. Apesar de te ter aqui ao meu lado, ainda me pareces um sonho.

- Troy... - protestei, virando-me para ele.

- Não, por favor, deixa-me falar. Raramente tenho alguém que me escute com tanta atenção como tu. Além disso, quero que me conheças um pouco melhor. Estás disposta a ouvir?

Acenei afirmativamente com a cabeça, algo assustada pelo tom grave das palavras.

- As noites invernosas são, para mim, demasiado longas. Dão tempo a que surjam pesadelos. Tento ficar acordado quase até de madrugada, e muitas vezes consigo. Quando assim não acontece, fico agitado e tenho de me levantar e vestir. Depois, vou até lá fora e deixo que o ar fresco afaste os pensamentos sombrios da minha cabeça. Percorro os carreiros por entre os pinheiros e só depois de ter a cabeça desanuviada, nunca antes, é que volto para casa. E no trabalho sou capaz de esquecer a chegada da noite e dos pesadelos que me atormentam.

Não pude fazer outra coisa senão ficar a olhar para ele.

- Não admira que andasses cheio de olheiras no Inverno passado - observei, perturbada por vê-lo tão melancólico em semelhante ocasião. Ele agora tinha-me a mim. - Achava que eras um workaholic.

O Troy rolou para o lado e estendeu o braço comprido para a garrafa de champanhe que pusera num balde de gelo em prata a refrescar. Deitou a bebida borbulhante em dois cálices de cristal.

- A última garrafa da melhor colheita - murmurou, voltando-se para mim e batendo ao de leve com o seu cálice no meu.

Eu habituara-me a champanhe durante o último Inverno, pois este estava sempre presente nas festas da Jillian. No entanto, ainda era suficientemente nova para me sentir tonta depois de um copo. Beberriquei o meu champanhe incomodada, curiosa sobre o motivo que o levaria a desviar constantemente os olhos dos meus.

- Que queres dizer? Por baixo desta casa tens uma adega com champanhe suficiente para o próximo meio século?

- Que prosaica! - observou o Troy. - Falei em termos poéticos. Tentava dizer-te que o Inverno e o frio trazem à tona o lado mórbido que ando quase sempre a esconder, Gosto demasiado de ti para te permitir que te envolvas a fundo nesta relação sem compreenderes quem e como sou.

- Eu sei quem e como tu és!

- Não, não sabes! Só conheces aquilo que eu te permiti que visses. - Desviou os olhos escuros para mim, ordenando-me que não pusesse em dúvida o que afirmava. - Escuta, Heaven, estou a tentar alertar-te enquanto ainda é possível afastares-te.

Abri a boca para falar e objectar, mas ele pousou os seus dedos sobre os meus lábios.

- Porque achas que o Tony te ordenou que te mantivesses afastada de mim? Acho muito difícil qualquer pessoa aguentar-se com o lado alegre e optimista que só floresce em mim quando os dias se tornam mais compridos e o calor regressa.

- Podemos sempre ir para sul! - exclamei, detestando aquele ar grave e soturno nos olhos dele.

- Já experimentei fazê-lo. Passei Invernos na Florida, na Itália, viajei por todo o mundo a tentar o que para os outros é tão fácil. No entanto, levo os meus pensamentos invernosos comigo.

Sorriu, mas eu não me senti reconfortada. Não gracejava, apesar de o seu tom de voz se esforçar por ser ligeiro. Por trás das suas pupilas havia um negrume mais denso que o de um poço sem fundo.

- Mas a Primavera volta sempre, seguida pelo Verão - apressei-me a observar. - Era o que eu costumava dizer a mim mesma quando tinha frio e fome... Quando a neve atingia quase dois metros de altura e estávamos a onze quilómetros de distância.

Os seus olhos doces e escuros acariciaram-me e inundaram-me de ternura ao fixarem-se no meu rosto. O Troy serviu-me mais champanhe.

- Gostaria de te ter conhecido nessa altura, assim como ao tom e aos outros. Poderias ter-me dado um pouco dessa tua força.

- Troy! Pára de falar assim! - exclamei indignada, assustando-me por não compreender o que lhe ia no espírito e furiosa porque naquele momento ele devia estar a beijar-me e a despir-me, não a falar. - Que estás a tentar dizer-me? Que não me amas? Bem, não me arrependo de nada do que aconteceu. Não lamentarei que me tenhas dado, ao menos, uma noite contigo! E se pensas que podes assustar-me, estás completamente enganado. Entrei na tua vida, Troy, bem dentro da tua vida. E se o Inverno te torna triste e mórbido, nesse caso iremos atrás do sol, e nessas noites apertar-te-ei com tanta força nos meus braços que nunca mais terás um único pesadelo!

Ao estender os braços para ele, senti o coração prestes a rebentar, tal era o receio de ele me rejeitar de novo.

- Não quero ouvir nada! - exclamei, premindo os meus lábios contra os dele. - Não agora, por favor, não agora!

 

JANEIRO EM JULHO

Troy tentou contar-me a sua triste história do Inverno, de fraqueza e morte. Porém, eu queria defender a nossa felicidade e paixão; portanto, abafava-lhe as palavras beijando-o com paixão, vezes sem conta. Durante três dias e três noites fomos amantes ardentes que não suportavam ficar afastados um do outro mais do que uns minutos de cada vez. Não íamos além dos jardins que rodeavam Farthy, desistíramos mesmo de cavalgar pelos bosques. Escolhíamos caminhos seguros para os nossos cavalos, sem nunca irmos demasiado longe, ansiosos por voltarmos à casa de pedra e à segurança dos braços um do outro. Até que, certo fim de tarde, já a chuva se afastara para o lado do mar e o Sol voltara a aparecer, finalmente, no horizonte, o Troy e eu encontrávamo-nos no chão, em frente da lareira acesa, abraçados. Dessa vez mostrou-se muito insistente.

- Tens de me escutar. Não tentes calar-me outra vez. Não quero arruinar a tua vida só porque há uma sombra a pairar sobre a minha.

- A tua história deitará a perder o que agora existe entre nós?

- Não sei. Dependerá de ti.

- E estás disposto a correr o risco de me perder?

- Não, espero nunca te perder, mas se tiver de ser, assim será.

- Não! - exclamei, pondo-me de pé com um pulo e correndo para a porta. - Deixa-me ter este Verão todo sem pensar no Inverno!

Saí de sua casa e penetrei no labirinto, atravessando a névoa fria que começara a acumular-se nas passagens estreitas entre as sebes. Para minha grande consternação, quase dei de caras com o pequeno grupo que se encontrava em frente das escadarias da Mansão Farthinggale a descarregar a bagagem da comprida limusina negra do Tony.

A Jillian e o Tony tinham voltado! Recuei rapidamente e voltei a entrar no labirinto. Não queria que me vissem, naquele momento, a voltar de casa do Troy.

Enquanto o motorista descarregava a bagagem, ouvi o Tony a censurar a Jillian por não me ter avisado.

- Queres dizer que não telefonaste à Heaven ontem, como prometeste?

- É verdade, Tony. Pensei várias vezes em fazê-lo mas houve interrupções, e além disso o nosso regresso inesperado far-lhe-á uma surpresa e dar-lhe-á satisfação. Sei que, na idade dela, eu teria ficado encantada com os lindos presentes que lhe trouxemos de Londres.

Mal desapareceram dentro de casa, corri para uma porta lateral, galguei as escadas que conduziam aos meus aposentos e, uma vez ali, atirei-me para cima da cama e rompi a chorar copiosamente, limpando precipitadamente as lágrimas ao ouvir o Tony bater à porta e chamar pelo meu nome.

- Já chegámos, Heaven. Posso entrar?

De certo modo sentia-me satisfeita por vê-lo de novo, tão sorridente e animado a encher-me de perguntas sobre como eu estava, como me conseguira manter satisfeita, ocupada e entretida.

Oh, as mentiras que disse teriam feito com que a minha avó desse várias voltas na sua tumba. Cruzei os dedos nas costas. Quis saber pormenores sobre a cerimónia da entrega de diplomas, repetiu que lamentava muito não ter podido estar presente. Quis saber a que festas fora, com quem, se conhecera algum jovem. Nem uma só vez se mostrou desconfiado com as mentiras que me saíam da boca. Porque não desconfiaria que a minha preferência recairia sobre o Troy? Teria esquecido todas as regras que me impusera?

- Óptimo - disse. - Ainda bem que gostaste dos programas de televisão que passaram este Verão. Eu acho a televisão uma chatice, mas enfim, não cresci nos Willies. - Dirigiu-me um sorriso esfuziante e carregado de charme, embora parecesse trocista. - Espero que tenhas tido tempo para ler alguns bons livros.

- Arranjo sempre tempo para ler.

Ao inclinar-se para me dar um abraço rápido antes de se dirigir para a porta, os seus olhos estreitaram-se.

- Eu e a Jillian queremos entregar-te todos os presentes que escolhemos cuidadosamente para ti. E agora é melhor limpares os sinais de lágrimas da cara antes de mudares de roupa para a noite. - Eu não o enganara, apenas quisera convencer-me a mim mesma de que não continuava tão arguto como antes.

No entanto, não me perguntou por que motivo eu chorara quando, na biblioteca, com a Jillian envergando um belo vestido comprido, sorria para mim ao ver-me abrir os presentes vindos de Londres.

- Gostas de tudo? - perguntou a Jillian, que me trouxera roupa, roupa e mais roupa. - As camisolas servem, não é?

- É tudo lindo e não há dúvida de que as camisolas servem.

- E que dizes aos meus presentes? - quis saber o Tony. Oferecera-me bijutaria cara e extravagante e uma caixa pesada forrada de veludo azul. - Hoje em dia já não fazem artigos de toilette como no tempo da rainha Vitória. Esse conjunto de toucador é antigo e muito valioso.

Peguei cuidadosamente na caixa que continha um pesado espelho de mão em prata, uma escova de cabelo, um pente, duas caixas de pó-de-arroz em cristal com as tampas em prata trabalhada, e dois frascos para perfume a condizer com o conjunto. Ao olhar para eles, recuei até aos meus dez anos, a altura em que abrira, pela primeira vez, a mala da minha mãe. No andar de cima, escondida no fundo de um dos meus armários estava a velha mala que a minha mãe levara consigo para os Willies e, dentro desta, um outro conjunto de toucador em prata, embora não tão completo como aquele em que eu segurava naquele momento.

De repente, senti-me indefesa, aprisionada numa cilada do tempo. O Tony já reparara, certamente, no conjunto de toucador que a Jillian me oferecera. Eu não precisava de mais nenhum. Veio-me à mente um pensamento extremamente peculiar, pois nesse instante apercebi-me de quão injusta fora em não escutar o que o Troy tinha para me contar. Injusta para ele e para mim.

Nessa mesma noite, a altas horas, muito depois do jantar e de a Jillian e o Tony se retirarem, escapuli-me por entre o labirinto, até a casa do Troy, encontrando este a andar de um lado para o outro na sala de estar, com ar taciturno. Ao ver-me, brindou-me imediatamente com um sorriso radioso de boas-vindas, o que me animou um pouco mais.

- Voltaram - informei, ofegante, fechando a porta e encostando-me a esta. - Devias ter visto todas as coisas que me trouxeram. Tenho roupa suficiente para uma dúzia de universitárias.

O Troy não pareceu escutar as minhas palavras, mas sim apenas aquilo que eu deixara por dizer.

- Porque estás assim tão perturbada? - perguntou, estendendo-me os braços, entre os quais corri a refugiar-me.

- Troy, estou pronta para ouvir o que tens a contar, seja o que for.

- Que foi que o Tony te disse?

- Nada. Fez-me algumas perguntas sobre como eu passara o tempo durante a sua ausência, mas não se referiu a ti. Achei esquisito ele não perguntar como tu estavas, se nos encontráramos. Foi quase como se não existisses, o que me assustou.

O Troy premiu, por breves instantes, a testa contra a minha, com uma expressão completamente impenetrável, mas agora que eu estava preparadíssima para o ouvir, ele parecia relutante em principiar. Beijou-me mais com meiguice do que paixão, e afagou-me os cabelos. Passou o indicador pela minha face e depois, apertando-me contra ele, virou-se para a sua ampla janela panorâmica que deitava para o mar. Rodeou-me a cintura com o braço, de maneira a que as minhascostas ficassem bem encostadas ao seu peito.

- Não me faças perguntas até eu chegar ao fim. Escuta-me com atenção, pois o que eu vou dizer é muito sério.

Quando começou a falar, senti que cada molécula do seu corpo se esforçava por obrigar-me a compreender o que até ele mesmo devia achar inexplicável.

- Não é por não te amar, Heavenly, que insisto em dizer o que tenho a dizer. Amo-te muito. Não se trata de arranjar uma desculpa para não casar contigo. É apenas uma débil tentativa para te ajudar a encontrares uma maneira de te salvares.

Eu não entendia; no entanto, já naquela altura sabia que tinha de ser paciente e permitir-lhe que fizesse o que considerava estar "certo".

- Tu possuis o tipo de carácter e força que eu simultaneamente admiro e invejo. És uma sobrevivente, e tudo aquilo que já me aconteceu mostra-me que eu não o sou. Não te ponhas a tremer. O estilo de vida forma-nos e molda-nos quando somos novos, e a mim não sobram dúvidas de que tanto tu como o teu irmão tom demonstraram ser feitos de uma matéria muito mais forte do que a minha.

Virou-me para si e fixou o olhar profundo, escuro e desesperado em mim.

Mordi a língua para não lhe fazer perguntas... Ainda era Verão; o Outono ainda nem tingira as árvores de verde-intenso. O Inverno continuava a parecer muito longe. "Eu estou aqui, se quiseres nunca mais voltarás a passar uma noite solitária..." Mas não disse nada disto.

- Deixa-me que te fale na minha meninice - continuou. - A minha mãe morreu pouco depois de eu fazer um ano. Ainda não completara dois anos, o meu pai também morria, de modo que o único parente de que me consigo lembrar na vida é o meu irmão Tony. Ele era o meu mundo, tudo para mim. Adorava-o. Para mim, o Sol punha-se quando Tony saía pela porta, e nascia quando voltava a entrar. Imaginava-o como um deus dourado, capaz de me dar tudo o que eu desejasse, se o desejasse com força suficiente. Ele tinha mais dezassete anos do que eu e ainda mesmo antes de o meu pai morrer, assumira a responsabilidade de tudo fazer para me ver feliz. Eu fui sempre uma criança doente. O Tony contou-me que a minha mãe tivera um parto muito difícil comigo. Estive sempre à beira da morte por causa de uma doença ou outra, fazendo o Tony passar muitos momentos difíceis, ao ponto de vir de noite ao meu quarto para ver se eu ainda respirava. Quando estava no hospital, o Tony visitava-me três ou quatro vezes por dia, levando-me gulodices, brinquedos, jogos e livros. Portanto, quando cheguei aos três anos, habituara-me a tê-lo quase constantemente ao meu lado. Ele era meu. Não precisávamos de mais ninguém. Até chegar aquele dia horrível em que ele conheceu a Jillian VanVoreen. Nessa altura eu nada sabia sobre ela. O Tony manteve-a sempre secreta em relação a mim. Quando, por fim, me comunicou que ia casar com a Jillian, deu-me a entender que o fazia apenas para me poder dar uma mãe nova e meiga. E também uma irmã. Fiquei simultaneamente entusiasmado e zangado. Uma criança de três anos é capaz de se sentir muito possessiva em relação à única pessoa de quem gosta na vida. Senti ciúmes. Mais tarde contou-me, a rir, que eu fiz birras terríveis. É que eu não queria que o Tony casasse com a Jillian, sobretudo depois de ela me conhecer. Eu estava doente e de cama, de modo que o Tony achou que a Jillian ficaria comovida com a imagem de um rapazinho tão frágil e lindo que iria precisar verdadeiramente dela. Ele não viu o que eu vi. As crianças parece terem um jeito especial para ver o que vai no íntimo dos adultos... Eu percebi que ela estava aterrorizada pela ideia de tomar conta de mim... Mas isso não a impediu de consumar o seu divórcio e casar-se com o Tony, mudando-se para Farthy com a filha de doze anos. Lembro-me muito vagamente do casamento, não de pormenores, apenas de impressões.

"Eu sentia-me infeliz, e a tua mãe também. Tenho outras recordações da Leigh a esforçar-se por ser uma irmã para mim e a passar muito do seu tempo livre à minha cabeceira, tentando distrair-me. No entanto, o que ficou gravado mais profundamente no meu cérebro foi o nítido ressentimento da Jillian em relação a cada momento que o Tony me dedicava a mim, não a ela.

O Troy falou durante uma hora, fazendo-me compreender toda a situação: a solidão de um menino e de uma rapariguinha, que circunstâncias alheias à sua vontade tinham atirado para junto um do outro, fazendo-os crescer numa dependência mútua... até, um dia, algo de horrendo acontecer, algo que ele jamais compreendera... A nova irmã, que ele aprendera a amar, fugira.

- O Tony estava na Europa quando a Leigh fugiu daqui. Em resposta ao apelo desesperado da Jillian, apanhou imediatamente o avião para cá. Sei que contrataram detectives para descobrir o paradeiro da Leigh, mas esta como que desaparecera da face da terra. Ambos contavam que ela fosse para o Texas, onde viviam a avó e as tias, mas isso nunca chegou a acontecer. A Jillian passava a vida a chorar e hoje sei que o Tony a culpou pelo desaparecimento da tua mãe. Soube da morte da Leigh muito antes de tu cá chegares com a notícia. Tive conhecimento no próprio dia em que aconteceu, pois sonhei com isso e tu apenas vieste confirmar que o meu sonho fora verdadeiro. São-no sempre.

"Depois de a Leigh partir, tive febre reumática e fiquei confinado à cama durante quase dois anos. O Tony ordenou à Jillian que abdicasse das suas funções sociais e dedicasse todo o seu tempo a cuidar de mim, apesar de eu ter uma ama inglesa chamada Bertie que adorava. Preferia dez vezes mais ficar sozinho com a Bertie do que com a Jillian. Esta assustava-me com as suas longas unhas e os movimentos rápidos e descuidados. Eu sentia a impaciência que ela tinha com um rapazito que não havia meio de se pôr bom.

""Nunca estive doente um único dia da minha vida", costumava dizer-me. Comecei a compenetrar-me de que era uma criança defeituosa e desajeitada, que estragava a vida dos outros... E foi aí que os meus sonhos começaram. Às vezes, eram maravilhosos, mas o mais frequente era transformarem-se em pesadelos aterradores que me levavam a acreditar que jamais seria feliz, saudável, que nunca teria nada que os outros não tinham dificuldades em conseguir... Coisas vulgares que todos esperam ter na vida assim como amigos, sair com raparigas, ficar apaixonado e viver tempo suficiente para ver os próprios filhos crescer. Comecei a sonhar com a minha própria morte... a minha própria morte em jovem. E quando fiquei mais crescido e fui para a escola afastava-me daqueles que tentavam travar amizade comigo pois receava que acabassem por me fazer sofrer se alguma vez eu me tornasse demasiado vulnerável. Só e diferente, fazia uma vida à parte... Sabia que esta não se prolongaria por muito tempo. Não permitiria que ninguém se envolvesse na minha infelicidade e saísse magoado, como acontecia comigo por saber que tinha o destino contra mim.

Incapaz de me conter, exclamei:

- Troy, não me digas que um homem com a tua inteligência acredita que tudo está nas mãos do destino?!

- Eu acredito naquilo que fui forçado a acreditar. Nada do que previ nos meus pesadelos deixou alguma vez de se concretizar.

Ventos de Verão que sopravam do lado do oceano faziam entrar frio e humidade pelas suas janelas abertas. Gaivotas e alcatrazes guinchavam lamentosamente, enquanto as ondas embatiam na costa. Eu tinha a cabeça apoiada no peito dele e ouvia, através do pijama fino, o som das batidas do seu coração.

- Eram apenas sonhos de um menino doente - murmurei, já certa de que o Troy alimentava aquelas certezas há demasiado tempo para eu naquela altura as mudar.

Não deu mostras de me escutar.

- Ninguém jamais teve um irmão mais dedicado do que eu, mas no entanto havia a Jillian, que utilizava a sua dor pela perda da filha para afastar cada vez mais o Tony de mim. Ela teve de viajar para esquecer o seu desgosto. Precisou de fazer compras em Paris, Londres, Roma e fugir às recordações da Leigh. O Tony mandava-me postais e pequenos presentes de todo o mundo, instilando em mim a decisão de um dia, assim que fosse adulto, também ver o Sara, subir as pirâmides e daí por diante. A escola não representava nenhum desafio real para mim. Atingia notas altas com toda a facilidade. Portanto, os amigos que pudesse ter afastavam-se de quem os professores consideravam uma criança-prodígio. Passei pela faculdade sem chegar a ser aceite por quem quer que fosse. Era anos mais novo e um embaraço para os rapazes mais velhos. As raparigas troçavam de mim por não passar de um miúdo. Ficava sempre de fora, a olhar, até que, aos dezoito anos, formei-me com distinção em Harvard e fui ter com o Tony logo a seguir e disse-lhe que ia conhecer o mundo tal como ele já fizera.

"Ele não queria que eu partisse. Implorou-me que esperasse até poder acompanhar-me... Mas tinha negócios a tratar e o tempo urgia, aconselhando-me a que me apressasse antes que fosse demasiado tarde. Portanto, é natural que tenha montado os mesmos camelos, passeado sobre as mesmas areias do Sara que o Tony e a Jillian e subido os mesmos degraus agrestes das pirâmides; e descobri, para grande pesar meu, que as viagens exóticas que eu fizera na minha imaginação, deitado na minha cama, superavam, de longe, os melhores passeios.

Naquela altura, já a sua voz me prendera numa laçada apertada de medo. Quando parou de falar, voltei a mim mesma com um safanão de sobressalto. Sentia-me perturbada por tudo o que deixara por dizer. Ele tinha tudo à sua disposição, uma fortuna enorme para partilhar, inteligência, boa aparência... No entanto, permitia que sonhos infantis lhe roubassem a esperança de um futuro longo e feliz! Era aquela casa, disse de mim para mim, aquela casa enorme com os seus numerosos corredores ressoantes e os quartos fantasmagóricos que ninguém usava. Não passava de um menino solitário com muito pouco com que se ocupar. No entanto, como era isso possível, quando os parentes Casteel, que tão pouco possuíam, sempre se tinham apegado tenazmente à crença de que o futuro tudo tinha?

Ergui a cabeça e tentei dizer com beijos tudo o que não sabia como expressar em palavras.

- Oh, Troy, ainda temos tanta coisa para viver... Se tivesses tido uma companhia quando viajavas, terias achado todos os lugares tão fantásticos como imaginavas. Tenho a certeza disso. Recuso-me a acreditar que todos os sonhos de conhecer o mundo que o tom e eu alimentámos, enquanto crescíamos, serão uma desilusão quando realizados.

Os olhos do Troy transformaram-se em poças escuras de floresta, abrangendo o infinito dos tempos.

- Tu e o tom não estão condenados como eu. Têm o mundo à vossa disposição. O meu será sempre ensombrado pelos sonhos que tive e se tornaram realidade, e pelo meu conhecimento dos outros que estão para acontecer. É que eu já sonhei com a minha morte muitas vezes. Já vi a lápide que me porão, apesar de nunca ter conseguido ler mais do que o meu nome gravado nela. Sabes, Heavenly, na verdade eu nunca fui destinado a este mundo. Andei sempre doente e melancólico. A tua mãe era como eu... Por isso nos tornámos tão importantes um para o outro. E quando ela desapareceu, quando eu sonhei com a sua morte e soube que o meu sonho se concretizara, não percebi porque continuei a viver. É que eu, tal como a Leigh, anseio por coisas que não podem ser encontradas neste mundo. Tal como ela, morrerei jovem. É verdade, Heaven, eu não tenho futuro. Como posso aceitar que alguém tão jovem, brilhante e adorável como tu, percorra este caminho sombrio que é o meu? Como posso casar contigo para te fazer viúva? Como poderei dar-te um filho que em breve ficará órfão, assim como aconteceu comigo? Queres mesmo amar um homem que está condenado, Heaven?

Condenado? Estremeci e apertei-me contra ele, inesperadamente arrasada pelo conhecimento devastador do tema sobre o qual a sua poesia falava: mortalidade! Insegurança! O desejo de uma morte prematura porque a vida era uma desilusão!

Mas agora eu estava ali!

O Troy nunca mais voltaria a sentir-se carente, só ou desiludido; comecei a desabotoar-lhe o casaco com paixão desesperada, enquanto os meus lábios se premiam contra os dele, até ficarmos os dois nus e transpirados, completamente dominados pela sensualidade. Mesmo que lá fora caísse neve em vez dos chuviscos ligeiros, sem dúvida a nossa ânsia ardente de nos possuirmos um ao outro vezes sem conta o conduziriam ao futuro, até ficarmos ambos tão velhos que a morte seria bem-vinda.

Nessa noite, apesar do regresso do Tony e da Jillian, fiquei junto do Troy. Não permitiria que ele se deixasse mergulhar nas suas fantasias mórbidas. Não me importaria com o Tony, ficaria com o Troy e convencê-lo-ia a casar comigo, e ao irmão não caberia outro remédio senão aceitar. Na manhã seguinte, acordei tarde, certa de que o Troy decidira, finalmente, confiar em mim e casar comigo. Ouvia-o a remexer na cozinha. O aroma do pão acabado de fazer fez-me tremer as narinas... Nunca me sentira tão viva como naquele momento, tão bonita, feminina e perfeita. Fiquei deitada com os braços cruzados sobre o peito, escutando o som dos armários da cozinha a serem abertos e fechados como se fosse a Serenata de Schubert. O bater da porta do frigorífico assemelhava-se ao bater de pratos mesmo no tempo exacto. Aquele arremedo de música punha-me os cabelos e pêlos em pé. Toda a vida procurara o que sentia naquele momento e, de repente, dei comigo a chorar de alívio por saber que a busca terminara.

O Troy ia casar comigo! Dava-me a possibilidade de colorir o resto da sua vida com um arco-íris, em vez de cinzento. Fui até à cozinha, lânguida e de olhos ensonados, cheia de uma felicidade que quase roçava o delírio. O Troy, que estava diante do fogão, virou-se para mim e sorriu.

- Teremos de informar o Tony de que tencionamos casar, e depressa.

Senti um baque de pânico no coração; porém, naquele momento, a falta do apoio do Tony já não me fazia diferença. Assim que o Troy e eu fôssemos marido e mulher, tudo correria bem... para ambos.

Nessa mesma tarde atravessámos, de mãos dadas, o labirinto até à Mansão Farthinggale e entrámos na biblioteca onde o Tony estava sentado à sua secretária. Os últimos raios de sol da tarde entravam pelas janelas, traçando faixas brilhantes no tapete colorido. O Troy telefonara-lhe a avisar que íamos a caminho, e eu tive a impressão de lhe ver no rosto uma prudência dissimulada e não um sorriso de verdadeiro prazer.

- Bem - observou o Tony ao ver-nos de mãos dadas -, ao que vejo não obedeceram ambos às minhas recomendações e agora vêm ter comigo com ar de pessoas que estão muito apaixonadas.

O Tony abrandou o meu entusiasmo, se não o do Troy, e eu soltei nervosamente a minha mão da do Troy.

- Simplesmente aconteceu - sussurrei em voz débil.

- Vamos casar no meu aniversário - declarou o Troy desafiadoramente. - No dia nove de Setembro.

- Calma aí! - ordenou o Tony com voz forte, levantando-se e apoiando a palma das mãos sobre o tampo da secretária. - Tu sempre me garantiste, Troy, depois de seres adulto, que jamais casarias! E que não querias filhos!

O Troy pegou-me na mão e puxou-me para junto dele.

- Não contava encontrar alguém como a Heaven. Ela tem-me dado esperança e inspiração para continuar, apesar das minhas convicções.

Apertei-me contra o Troy, enquanto o Tony sorria de maneira muito estranha.

- Imagino que nem valha a pena objectar e dizer que a Heaven é demasiado jovem e os seus antecedentes demasiado diferentes dos teus para se tornar uma esposa adequada.

- Exactamente - disse o Troy firmemente. - Antes de as folhas de Outono caírem, eu e a Heaven estaremos a caminho da Grécia.

Voltei a sentir um baque no coração. O Troy e eu faláramos apenas vagamente numa lua-de-mel. Eu pensara nalguma estância onde pudéssemos passar uns dias, seguindo depois para Radcliffe, onde iniciaria os meus estudos universitários. Pouco depois, para meu espanto, encontravamo-nos os três sentados num comprido sofá de cabedal a traçar planos para o casamento. Jamais me passara pela cabeça que o Tony fosse consentir naquele enlace, especialmente ao vê-lo sorrir-me repetidas vezes.

- A propósito, minha querida - disse o Tony com delicadeza -, Winterhaven enviou-te algumas cartas sem remetente que lá chegaram para ti.

A única pessoa que me escrevia era o tom.

- Agora mandemos chamar a Jillian para lhe darmos a boa-nova.

Aquilo que se notava por trás do seu sorriso seria sarcasmo? Eu não saberia dizer, pois o Tony não era pessoa que eu conseguisse ler.

- Obrigada por aceitares esta decisão tão bem, Tony. Sobretudo depois de me falares do comportamento que eu tive quando me anunciaste o teu casamento com a Jillian.

Nesse momento, a Jillian entrou na sala e sentou-se graciosamente numa poltrona.

- Que novas são estas que ouvi?... Alguém vai casar?

- O Troy e a Heaven - explicou o Tony, virando um olhar firme para a mulher, como que a ordenar-lhe que não dissesse algo que nos pudesse alarmar. - Não são notícias maravilhosas para se receber ao fim de um dia de Verão perfeito?

A Jillian não respondeu, não disse uma única palavra. Virou os olhos azul-claros para mim e eu vi que estavam inexpressivos, alarmantemente inexpressivos.

Os planos do casamento e as listas dos convidados foram feitos nessa mesma noite, e a rapidez com que o Tony e a Jillian aceitaram uma situação à qual eu acreditava irem ambos levantar grandes objecções, deixou-me sem fala. Quando o Troy e eu demos um beijo de boas-noites em frente do vestíbulo da frente, sentíamo-nos os dois emocionados com a dinâmica dos planos do Tony.

- O Tony não é maravilhoso? - perguntou o Troy. - Eu estava francamente convencido de que ele levantaria todo o tipo de objecções e, afinal, não houve nenhuma. Toda a vida quis sempre dar-me aquilo que eu desejei.

Despi-me, alheada, e só depois é que me lembrei das duas cartas que o Tony colocara em cima da minha pequena secretária. Ambas eram do tom, que tivera notícias da Fanny.

"Está a viver numa casa modesta em Nashville e quer que eu te escreva a pedir dinheiro. Podes crer que ela própria te telefonaria, mas perdeu a agenda e tu sabes que nunca teve cabeça para memorizar números. Além disso, mantém-se em contacto com o pai, sempre a implorar-lhe que lhe mande dinheiro. Não quis voltar a dar-lhe a tua morada sem antes saber se o permites. Ela poderá deitar tudo a perder para ti, Heavenly, tenho a certeza. Quer apossar-se de parte do que tu tens e não hesitará em consegui-lo pois parece que já gastou os dez mil dólares que os Wise lhe deram."

Era o que eu mais receava: a Fanny não sabia gastar dinheiro.

A carta que me escreveu a seguir trouxe-me notícias ainda mais perturbadoras:

"Não me parece que vá para a faculdade, Heavenly. Sem ti ao meu lado para me incentivar, falta-me a vontade ou o desejo de continuar a estudar. O pai está a sair-se muito bem em termos financeiros e nunca chegou a terminar o liceu. Portanto, andei a pensar em entrar para o negócio dele e casar assim que encontrar a rapariga certa. Aquela conversa de vir a tornar-me presidente deste país era só uma brincadeira para te agradar. Nunca ninguém votaria por um tipo como eu, com sotaque de pacóvio."

E nem uma palavra, nem mesmo um palpite, sobre o género de negócios em que o pai andava metido!

Li a carta do tom três vezes. Comigo estava a acontecer tudo o que havia de mais maravilhoso, enquanto o tom continuava preso numa cidade insignificante qualquer no Sul da Jórgia, a desistir do sonho de se tornar alguém importante... Não estava certo nem era justo. Eu tinha dificuldade em acreditar que o nosso pai pudesse obter sucesso em algo verdadeiramente importante. Ora, pois se eu o ouvira dizer que nunca lera um livro até ao fim, além de que levava horas a fazer as contas mais simples de somar. Que tipo de trabalho rentável poderia fazer? O tom estava a sacrificar-se para o ajudar! Era essa a conclusão a que eu chegava.

Voltei a correr pelas veredas tortuosas do labirinto que o luar iluminava, acordando o Troy, sobressaltado ao chamá-lo pelo nome.

Despertou dos seus sonhos com ar juvenilmente confuso, antes de sorrir.

- Que bom teres vindo - declarou com um ar ensonado.

- Desculpa acordar-te mas não podia esperar pela manhã. - Acendi o candeeiro da mesa-de-cabeceira e entreguei-lhe as duas cartas do tom. - Agradeço que as leias e depois me digas o que pensas.

Terminou as duas cartas em segundos.

- Não vejo nada de suficientemente alarmante para estares com essa expressão desesperada. Basta que enviemos à tua irmã o dinheiro de que ela precisa, e podemos ajudar o tom da mesma maneira.

- O tom não aceitará dinheiro de ti ou de mim. A Fanny ficará toda contente, claro. Mas é com o tom que estou mais preocupada. Não o quero enfiado lá em baixo a fazer aquilo em que porventura o nosso pai anda ocupado, a desistir da sua vida para ajudá-lo a sustentar a sua nova família.

"Troy - continuei, atrevendo-me a desiludi-lo com o meu novo plano -, tenho de ir visitar a minha família antes do nosso casamento. - Agarrei-lhe nas mãos e beijei-as repetidas vezes. - Compreendes, querido? Estou tão feliz, corre-me tudo tão bem que tenho que fazer algo para os ajudar antes de iniciar a vida maravilhosa que vou ter contigo. Sei que bastará a minha visita para os ajudar, para lhes mostrar que continuo a preocupar-me com eles, para fazer-lhes entender que podem sempre contar comigo. E podem, não é, Troy? Não te importarás de que a minha família me venha visitar depois de casarmos, pois não? Recebê-lo-ás bem na nossa casa, não é?

Esperei que respondesse, fitando-o com olhos implorantes.

O Troy retirou as mãos do meio das minhas e puxou-me para cima dele, que continuava deitado.

- Há dias que ando para te contar umas novidades minhas, Heaven. Espero que me perdoes a demora mas não suportava a perspectiva de o nosso idílio chegar ao fim, pois tinha a certeza de que, mal soubesses, irias a correr. - Beijou-me várias vezes antes de continuar. - Tive notícias dos advogados. Querida, as novas que tenho para te dar são óptimas. Agora poderás visitar toda a tua família, pois descobri o paradeiro do Lester Rawlings! Vive em Chevy Chase, em Maryland, e tem dois filhos adoptados chamados Keith e Jane!

Tive de me controlar para continuar a respirar, para não me deixar sufocar por tudo o que estava a acontecer com tanta rapidez!

- Tem calma, tem calma - tranquilizou o Troy quando comecei a chorar. - Há muito tempo, antes do casamento, para organizares tudo. Terei muito gosto em ir contigo visitar os Rawling e ver os teus irmãos mais novos. Depois, poderemos decidir sobre as medidas a tomar, se as houver.

- Eles são meus! - exclamei irracionalmente. - Tenho de voltar a tê-los debaixo do meu tecto!

O Troy voltou a beijar-me.

- Mais tarde decides o que fazer. E depois de vermos o Keith e a Jane, iremos visitar o teu irmão e o teu pai, e terminaremos a viagem passando pelo lugar onde a Fanny vive. Entretanto mandemos-lhe alguns milhares de dólares para ela se desenvencilhar até chegarmos.

Infelizmente, as coisas não iriam passar-se assim.

Enquanto eu dormia a são e salvo na minha cama na Mansão Farthinggale, achando que a partir daquele momento, o Troy e eu devíamos reprimir a nossa paixão até nos casarmos, o Troy adormeceu profundamente com todas as janelas do seu quarto abertas. De repente, começou a soprar um vento de nordeste, que depressa se transformou em chuva, granizo e rajadas ciclónicas. O pico da tempestade só me acordou às seis da manhã. Ao olhar pelas janelas do meu quarto, avistei a devastação que os relvados impecáveis tinham sofrido, naquele momento juncados de árvores desenraizadas, ramos partidos e outros detritos. E quando corri para a casa de pedra do Troy, encontrei-o febril e congestionado, mal conseguindo respirar.

Fiquei em verdadeiro pânico e telefonei ao Tony, que mandou imediatamente uma ambulância buscar o Troy para o levar para o hospital. Na altura precisa em que este se sentia mais feliz, era atacado por uma perigosa pneumonia. Tê-la-ia feito recair sobre si propositadamente, incapaz de aceitar o amor e a felicidade que merecia? Eu não permitiria que semelhante situação voltasse a repetir-se. Quando casássemos, protegê-lo-ia sempre dos seus receios piores, os quais parecia, naquele momento, terem o condão de se transformar em realidade.

- Faz-me a vontade - sussurrou o Troy no seu leito de hospital, dias mais tarde. - O pior da pneumonia já passou e eu sei que estás ansiosa por voltar a ver o Keith e a "Nossa" Jane. Não precisas de ficar por aqui enquanto recupero as forças. Quando voltares, estarei completamente bem.

Eu não queria deixá-lo, apesar de o saber alvo dos melhores cuidados, pois tinha uma enfermeira particular permanentemente junto de si, de modo que protestei repetidas vezes. O Troy, porém, incentivou-me a partir, asseverando-me de que ficaria bem, além de que algo me dizia que fosse depressa, antes que se tornasse demasiado tarde.

- Vais deixá-lo! - exclamou o Tony quando lhe disse que planeava uma pequena viagem. Não queria contar-lhe a verdade sobre a minha ida, receando que tentasse deter-me. - Numa altura em que ele precisa tanto de ti é que vais a Nova Iorque comprar o enxoval de noiva? Que palermice é essa? Heaven, pensei que amavas o meu irmão! Prometeste ser a sua salvação!

- Eu amo-o de verdade, mas o Troy faz questão em que eu não suspenda os nossos preparativos de casamento, E já está fora de perigo, não está?

- Fora de perigo? - repetiu o Tony sombriamente. - Não, ele nunca ficará fora de perigo até ao dia em que o seu primeiro filho nascer; nessa altura, talvez consiga deixar de acreditar que não viverá tempo suficiente para deixar descendentes.

- O Tony gosta do seu irmão - sussurrei, estupefacta com a dor que lhe lia nos olhos azuis. - Gosta dele de verdade.

- Sim, adoro-o. Tem sido um fardo sob a minha responsabilidade desde os meus dezassete anos. Fiz tudo o que pude para dar ao meu irmão a melhor vida possível. Casei com a Jillian, que era vinte anos mais velha, apesar de me ter mentido sobre a sua idade, dizendo que tinha trinta e não quarenta. Acreditei, com ingenuidade juvenil, que ela era o que na altura fingia ser: a mulher mais meiga, bondosa e adorável do mundo. Só mais tarde é que vim a descobrir que antipatizou com o Troy à primeira vista. Mas nessa altura já era demasiado tarde para mudar de ideias, pois apaixonara-me, apaixonara-me estúpida, louca e insanamente.

Aninhou a cabeça entre as mãos.

- Vai, Heaven, faz o que entenderes, já que isso acabará sempre por acontecer. Mas lembra-te de uma coisa. Se queres mesmo casar com o Troy, não tragas contigo nenhum dos membros da tua família dos montes. - Levantou a cabeça e fixou em mim um olhar de quem está a par de toda a verdade. - Sim, tolinha, sei tudo, mas olha que não foi o Troy quem me contou. Não sou nem ingénuo nem estúpido. - Sorriu-me de maneira diabolicamente trocista. - E mais, querida menina, sempre soube que te escapulias por entre o labirinto para ires ter com o meu irmão.

- Mas... mas... - gaguejei, confusa, atrapalhada e cheia de embaraço. - Porque não pôs um ponto final na situação?

Os lábios do Tony abriram-se num sorriso cínico.

- O fruto proibido é o mais apetecido. Eu estava esperançado de que o Troy encontrasse, finalmente, em ti, uma jovem completamente diferente de qualquer outra que já tivesse conhecido... Doce, fresca e excepcionalmente bela... Uma boa razão para viver!

- Planeou que nos apaixonássemos? - perguntei, atónita.

- Tive esperanças nesse sentido, nada mais - respondeu o Tony com simplicidade, parecendo, pela primeira vez, completamente honesto e sincero. - O Troy é o filho que nunca poderei ter. É o meu herdeiro, aquele que herdará a fortuna dos Tatterton e prosseguirá a tradição da família. Espero ter, através dele e dos seus filhos, a família que a Jillian nunca pôde dar-me.

- Mas o Tony não é demasiado velho!

Ele estremeceu.

- Estás a sugerir que me divorcie da tua avó e case com uma mulher mais nova? Se pudesse, fá-lo-ia, podes crer. Mas às vezes uma pessoa deixa-se enredar de tal modo que fica sem saída. Sou o guardião de uma mulher obcecada pelo seu desejo de permanecer jovem e gosto dela o suficiente para não a largar num mundo onde eu sei que não sobreviveria duas semanas sem o meu apoio. - Suspirou profundamente. - Portanto, parte, rapariga. Certifica-te apenas de que voltas, pois se não o fizeres, o que acontecer ao Troy fará recair sobre ti um sentimento de culpa tão terrível para o resto da vida que talvez nunca mais consigas voltar a ser feliz.

 

VENCEDORES E VENCIDOS

A segunda vez em que andei de avião na minha vida levou-me do aeroporto Logan, de Boston, ao da cidade de Nova Iorque, mudando aí de aparelho para seguir directamente para Washington. O meu verniz de sofisticação era penosamente fino. Desejava transmitir uma impressão de frieza e controlo quando, na verdade, por baixo dele dominava-me a ansiedade, sentindo pavor de errar. A azáfama e o alvoroço de La Guardia desorientavam-me. Quando cheguei à sala de embarque, os passageiros já tinham começado a sair para o avião. Queria ir sentada num lugar junto da janela, e fiquei muito grata a um jovem executivo que se levantou prestimosamente para me oferecer o seu assento. Depressa percebi que o lugar tinha um preço, pois fui alvo de numerosas perguntas e de um convite para, mais tarde, encontrar-me com ele para tomar uma bebida e fazer-lhe companhia.

- vou ter com o meu marido - disse-lhe em tom frio e proibitivo. - Além disso, não bebo.

Pouco depois, o sujeito saiu do seu lugar e encontrou outra mulher jovem e sozinha ao lado da qual foi sentar-se. Senti-me muito mais velha do que quando, em Setembro último, saíra da Virgínia Ocidental.

Entre Setembro e Agosto, ainda não se passara verdadeiramente um ano, já terminara o liceu, fora aceite na faculdade e encontrara um homem para amar, um homem que precisava verdadeiramente de mim, que não me lamentava como acontecera como o Logan. Olhei em volta, para os outros passageiros, a maioria dos quais estava vestida com bem mais simplicidade que eu, no meu fresco fato de calça e casaco azul-claro que custara mais do que os Casteel costumavam gastar em alimentação num ano inteiro.

Muito acima do solo, tendo apenas as nuvens enfunadas a rodear-me, tive a estranha sensação de despertar de um sono encantado que principiara no dia em que chegara à Mansão Farthinggale. Aquele é que era o mundo real, onde as mulheres de sessenta anos não aparentavam ter trinta. Ninguém tinha um ar enfastiado ou impecavelmente elegante, nem mesmo os que iam sentados junto de mim, na primeira classe. Havia bebés a chorar na secção turística. E dei-me conta pela primeira vez de que, desde que entrara na Mansão Farthinggale, não deixara nunca de estar sob a influência daquele lugar. Os seus tentáculos tinham chegado até mesmo a Wintherhaven, tornando-me ciente de que controlava totalmente a minha vida. Fechei os olhos e pensei no Troy, rezando, em silêncio, pela sua recuperação. Teria o Troy passado demasiado tempo da sua vida naquela casa, onde imperavam a invenção e o comércio do "faz de conta"? Naquele momento, longe da influência de Farthy, a sua casa de pedra do lado de lá do labirinto não parecia mais do que um prolongamento do que, para alguns, teria parecido um castelo de contos de fadas.

Quando cheguei a Baltimore, senti-me grata ao Tony, que telefonara para o hotel a fazer-me reservas.

Portanto, não se tratava verdadeiramente de uma viagem não programada. Não, quando tinha uma limusina com motorista à minha espera. Até naquela jornada destinada a encontrar os meus irmãos há muito perdidos, o controlo e a influência da Mansão Farthinggale continuavam a manipular os cordelinhos da Heaven Leigh Casteel.

- Terás de ser tu mesma a providenciar a visita aos Rawlings - advertira-me o Tony no começo daquela manhã -, mas tenho a certeza de que irás encontrar muito ressentimento de dois pais que não quererão que faças recuar até ao passado duas crianças que talvez se tenham ajustado muito bem ao seu novo estilo de vida. E não te deves esquecer de que agora és uma de nós, já deixaste de ser uma Casteel.

"Eu serei sempre uma Casteel", pensei, sustendo a respiração e levantando-me da mesa para ir à cabina telefónica. Imaginava mentalmente como iria ser. O Keith e a "Nossa" Jane ficariam encantados por me voltarem a ver.

"Hev...lee, Hev...lee", gritaria a "Nossa" Jane com a sua vozinha esganiçada, uma expressão de felicidade no pequeno rosto bonito. Depois correria para os meus braços abertos e choraria de alívio ao ver que eu não me esquecera deles.

Atrás dela, viria o Keith, muito mais lento e tímido, mas também me reconheceria, sentindo-se igualmente emocionado e feliz.

Nada mais conseguia planear além disso. A luta legal para tirar o Keith e a "Nossa" Jane aos pais adoptivos levaria, provavelmente, anos, segundo os advogados dos Tatterton, e o Tony não tinha vontade de me ver ganhar a causa. Dissera-me: "Não será justo impor ao Troy dois filhos que talvez venham a antagonizá-lo, e tu sabes como ele é sensível. Quando te tornares sua esposa, dedica-te a ele e aos filhos que te der."

Apertei o auscultador contra o ouvido, cada vez mais apreensiva por ninguém atender ao sinal de chamada. Teriam ido de férias? Deixei o aparelho tocar durante algum tempo, à espera que alguém atendesse. Esperava ouvir a voz doce da "Nossa" Jane, não a do Keith, isto se este continuasse a ser o rapazinho acanhado que eu conhecia tão bem.

Liguei três vezes para o número que o Troy me dera, mas não havia ninguém em casa. Mandei vir mais uma fatia de tarte de mirtilo, que me fazia lembrar as que a minha avó dos montes costumava fazer em raras ocasiões, e engoli o terceiro café.

Às três da tarde saí do restaurante. Um elevador levou-me até ao quinto piso do luxuoso hotel, precisamente o tipo de lugar requintado com que o troy e eu costumávamos sonhar, deitados nas vertentes a planear o futuro radioso que nos esperava.

Eu tencionava ficar apenas o fim-de-semana em Baltimore; no entanto, o Tony achara absolutamente indispensável que eu ficasse numa suite de quartos em vez de ocupar apenas um. Dispunha de uma linda sala de estar e, a seguir a esta, havia uma cozinha completamente equipada onde tudo era a preto e branco e muito reluzente.

As horas passaram. Eram dez da noite quando desisti dos Rawlings e liguei para o Troy.

- Ora, ora - tranquilizou-me ele -, talvez tenham levado as crianças a alguma saída especial que durasse o dia inteiro, e amanhã estarão de volta. Claro que estou bem. Na verdade, sinto-me, pela primeira vez, verdadeiramente entusiasmado com o futuro e tudo o que ele nos reserva. Tenho sido um tolo, não tenho, querida? Acreditar que o destino planeou, ainda mesmo antes de eu nascer, a minha morte para antes de chegar aos vinte e cinco anos... Felizmente entraste na minha vida a tempo de me salvares de mim mesmo.

O meu sono foi agitado por sonhos com o Troy. De vez em quando, via-o ficar reduzido ao tamanho de uma criança e afastar-se para longe de mim, chamando-me ao jeito do Keith: "Hev... lee, Hev... lee!"

No dia seguinte levantei-me cedo, aguardando impacientemente a chegada das oito horas. E, dessa vez, ao ligar atendeu uma voz feminina.

- Queria falar com Mistress Rawlings, por favor.

- Quem fala?

Disse o meu nome, referindo que desejava visitar os meus irmãos, o Keith e a Jane Casteel. O arquejo súbito que ouvi mostrou-me o choque sentido.

- Oh, não! - sussurrou a mulher, desligando logo a seguir.

Liguei de novo.

O telefone tocou durante algum tempo, até a Rita Rawlings atender.

- Por favor - implorou com voz chorosa -, não perturbe a paz de duas crianças maravilhosamente felizes que se adaptaram com grande sucesso a uma família e a uma vida novas.

- Eles são do meu sangue, Mistress Rawlings! Foram meus muito antes de lhe pertencerem!

- Por favor, por favor - suplicou. - Sei que os ama. Lembro-me muito bem da sua expressão no dia em que os fomos buscar e compreendo como deve sentir-se. Nos primeiros tempos, quando vieram viver connosco, era pelo seu nome que estavam sempre a chamar, lavados em lágrimas. Mas já há mais de dois anos que não choram por si. Já nos tratam por mãe ou mamã a mim, e papá ao meu marido. Estão óptimos, física e mentalmente... Mando-lhe fotografias, relatórios de saúde e da escola, mas, por favor, imploro-lhe, não lhes venha lembrar as agruras por que passaram quando viviam naquela cabana miserável nos Willies.

Foi a minha vez de implorar.

- Mas a senhora não entende, Mistress Rawlings! Tenho de os ver outra vez! Preciso de ter a certeza de que estão felizes e com saúde, caso contrário, eu própria não conseguirei ficar em paz. Não passou um único dia da minha vida sem que desejasse encontrar o Keith e "Nossa" Jane. Odeio o nosso pai pelo que fez... É um ódio que me consome dia e noite. Tem de me deixar vê-los, mesmo que eles não me vejam a mim.

A relutância expressa na resposta demorada teria feito desistir alguém menos persistente do que eu.

- Muito bem, já que insiste tanto. Mas tem de me prometer que se manterá escondida dos meus filhos. E, se depois de os ver, não lhe parecerem felizes, saudáveis e seguros, o meu marido e eu faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para remediar essa situação.

Nesse momento, percebi que tinha ali uma mulher forte e determinada, decidida a conservar a sua família intacta e a lutar com todas as armas para manter as crianças consigo.

Passei o sábado inteiro a percorrer as lojas, à procura dos presentes certos para dar à Fanny, ao tom e ao avô. Cheguei mesmo a comprar vários objectos para o Keith e para a "Nossa" Jane, que juntaria aos outros que guardava para o dia em que voltássemos a formar uma só família de novo.

Domingo de manhã, acordei cheia de esperança e grande entusiasmo. Às dez horas, a limusina com motorista colocada à minha disposição parou discretamente em frente de uma igreja anglicana de desenho quase medieval. Eu sabia exactamente onde as duas crianças que eu ansiava ver estariam: na sua aula de catequese. A Rita Rawlings dera-me instruções precisas sobre como encontrar a sala de aulas e o que fazer uma vez lá. "Mas se os ama, Heaven, cumpra a sua promessa. Pense nas necessidades deles, não nas suas, e mantenha-se escondida."

O interior da igreja, com os seus numerosos corredores compridos e recurvos, estava frio e escuro. Pessoas bem vestidas sorriram-me. A certa altura, num dos corredores de trás, fiquei confusa e sem saber para onde virar... Mas nessa altura ouvi crianças a cantar. E pareceu-me distinguir, acima de todas as outras vozes, a da "Nossa" Jane, como quando tentava esforçadamente imitar o timbre de soprano de Miss Marianne Deale quando esta nos entoava cânticos na única igreja, protestante, existente em Winnerrow.

As vozinhas que cantavam guiaram-me até elas.

Detive-me ao chegar diante da porta, e abri uma pequena fresta, escutando o canto litúrgico que aquelas crianças entoavam com tanto entusiasmo, acompanhadas apenas ao piano. Não tardei a entrar numa vasta sala onde, pelo menos, umas quinze crianças, com idades aproximadas entre os dez e os doze anos, estavam de pé, de pautas de música na mão, a cantar sonoramente.

As crianças de Winnerrow ter-se-iam sentido envergonhadas no meio daquele agrupamento vestido com bonita roupa de Verão em tom pastel.

As duas que eu procurava encontravam-se sentadas ao lado uma da outra, o Keith e a "Nossa" Jane, ambos a segurarem no mesmo livro de cânticos, ambos a cantar com expressão extasiada, mais pelo puro deleite de assim se exprimirem do que por fervor religioso, pensei, enquanto eu me deixava ficar no mesmo sítio a chorar silenciosamente, apesar de me saltar à vista a sua boa saúde e prosperidade. Òh, graças a Deus, eu vivera tempo suficiente para os voltar a ver.

Pernas e braços, outrora delgados, mostravam-se agora fortes e bronzeados. Rostos empalidecidos e miudinhos tinham evoluído para outros radiantes, cheios de brilho, de lábios que agora sabiam sorrir em vez de fazerem beicinho, descaídos por causa da fome e do frio. Oh, vê-los como se encontravam naquele momento desanuviou todas as sombras que eu mantivera deliberadamente na minha cabeça.

O cântico chegou ao fim. Desloquei-me silenciosamente para trás da coluna grossa e quadrada ao lado da qual me deveria sentar para passar despercebida.

As crianças sentaram-se e guardaram os livros de cânticos na bolsa presa às costas das cadeiras da frente, cadeiras que estavam vazias. As minhas lágrimas foram contidas por um sorriso, ao ver a "Nossa" Jane ajeitar cuidadosamente o lindo vestido branco e rosa. Deu-se a grandes trabalhos para fazer com que a saia curta cobrisse os joelhos bronzeados, que mantinha unidos à maneira das meninas bem-educadas. O cabelo brilhante estava artisticamente penteado de modo a cair quase até aos ombros antes de subir para o alto onde ficava preso, pendendo depois em lindos caracóis naturais. E, ao voltar a cabeça de perfil, reparei que usava uma franja impecavelmente cortada. O seu cabelo fora alvo de cuidados profissionais que o meu e o da Fanny jamais haviam conhecido aos dez anos. Oh, como estava linda! O rubor de saúde e vitalidade quase a faziam brilhar!

O Keith, sentado ao seu lado, olhava solenemente para a professora que começara a contar a história de David, o menino que matara um gigante com uma fisga. A pedra assim atirada atingira o seu alvo, porque o poder do Senhor estava em David, não em Golias. Fora sempre uma das minhas histórias preferidas da Bíblia. Porém, esqueci-me de a escutar ao passear o olhar pelo Keith, que envergava um elegante casaco azul de Verão e calças brancas compridas. Uma camisa branca e uma pequena gravata azul completavam o conjunto. Tive de me levantar várias vezes e aproximar-me para melhor poder vê-los. O Keith irradiava o mesmo tipo de boa saúde e vitalidade que a "Nossa" Jane.

Os anos que tinham decorrido desde a última vez em que os vira haviam acrescentado alguns centímetros à altura de ambos e uma expressão mais madura e característica aos seus rostos. No entanto, tê-los-ia reconhecido em qualquer lugar, pois há aspectos que o tempo não muda. O Keith olhava constantemente para a irmã mais nova para ver se esta estava satisfeita e bem, demonstrando uma considerável preocupação masculina em relação ao seu bem-estar, enquanto a "Nossa" Jane conservava os mesmos maneirismos infantis que tanta atenção lhe haviam merecido no passado. Era pouco provável que os abandonasse.

Oh, como a avó teria ficado contente se soubesse que a sua beleza não ficara permanentemente sacrificada nos montes, já que a Annie Brandywine revivia na "Nossa" Jane! E o Keith, ao lado da irmã, parecia-se mais com o avô do que com a Sarah e a sua família grande e ossuda. Eu, em tempos, achara que as olheiras escuras por baixo dos olhos de ambos jamais desapareceriam e que os pequenos rostos pálidos nunca teriam o aspecto que apresentavam naquele momento, felizes da vida.

Várias das crianças sentadas à minha frente voltaram-se para me mirar com curiosidade. Aguardei, de respiração suspensa, que vissem tudo o que desejavam ver e se virassem de novo para escutar a sua professora. Se algum dos meus irmãos mais novos olhasse na minha direcção, tencionava esconder-me rapidamente. Rezei para que ninguém fosse indagar sobre a minha permanência ali.

A história de David e Golias chegou ao fim. Assisti ao período de perguntas e respostas que se seguiu e ouvi a vozinha doce do Keith responder, hesitantemente, só depois de lhe dirigirem uma pergunta directa. A "Nossa" Jane, porém, acenava constantemente a mão pequena e bem torneada, ansiosa por apresentar a sua pergunta ou resposta. "Como é que uma pedrinha tão pequena pôde matar um gigante tão grande?" Não ouvi a resposta da professora.

Pouco depois, as crianças levantavam-se e as meninas vaidosas ajeitaram as roupas. A "Nossa" Jane agarrou-se mais firmemente à sua bolsinha branca.

O tagarelar excitado das crianças que se retiravam poderia ter abafado o que a "Nossa" Jane disse a seguir, mas os meus ouvidos estavam ávidos da sua voz.

- Despacha-te, Keith! - urgiu. - Hoje à tarde temos a festa de anos da Susan e não podemos chegar atrasados.

Segui as duas crianças adoradas a uma certa distância e vi, cheia de ciúmes, a "Nossa" Jane atirar-se para os braços da Rita Rawlings. Um pouco mais atrás da mulher, estava o Lester Rawlings, gordo e careca como sempre. Pousou uma mão possessiva no ombro do Keith antes de virar a cabeça e olhar directamente para mim. Haviam-se passado mais de três anos desde que me vira, encostada à parede daquela cabana no meio dos montes, suja, andrajosa e descalça. Eu estava muito diferente daquela maltrapilha; no entanto, deu mostras de me reconhecer. Talvez tenham sido as lágrimas que me escorriam pelo rosto a trair-me. Disse algo à mulher, que se apressou a mandar entrar as crianças para dentro de um Cadillac, sorrindo-me em seguida com simpatia sincera.

- Obrigado - agradeceu simplesmente.

Vi, pela segunda vez na minha vida, aquele advogado e a sua mulher afastarem-se num Cadillac, levando consigo duas partes de mim mesma. Fiquei a olhar para eles até os chuviscos se evaporarem em névoa e o sol aparecer, quente e brilhante, e um arco-íris dar a curva no céu; somente então é que me dirigi para o automóvel que me aguardava. "Ainda não, ainda não", advertiu-me uma vozinha interior. Podes reclamá-los mais tarde.

Ainda assim, ordenei ao motorista que seguisse o Cadillac azul-escuro, pois desejava ver a casa onde os Rawlings viviam. Dez minutos depois, o automóvel da frente virou para uma rua tranquila, ladeada de árvores, e parou em frente de um longo carreiro curvo.

- Pare do outro lado da rua - disse ao motorista, achando que a sombra densa e os troncos grossos das árvores ocultariam a limusina, caso os Rawlings quisessem ver se eram seguidos. Aparentemente não o fizeram.

A casa onde moravam era agradável, ao estilo colonial, grande mas não imensa como a Mansão Farthinggale. A tijoleira vermelha era antiga e estava parcialmente coberta de hera, e os relvados apresentavam-se bem cuidados, com flores e arbustos em plena floração estival. Na verdade, quando comparada com aquela barraca torta e empoleirada no alto de uma vertente montanhosa, era um palácio. Eu não tinha razão para lamentar. Os meus irmãos estavam muito melhor, muito melhor. Não precisavam de mim. Não, naquele momento. Há muito que tinham deixado de falar no meu nome, de ter pesadelos. Óh, os gritos que eu costumava ouvir, vindos do catre no chão, dados pelas duas crianças pequenas que um dia considerara minhas!

"Hev... lee, Hev... lee, vais a algum lado?", perguntavam, após o abandono da mãe, implorando-me, com os olhos olheirentos, que nunca os abandonasse.

- Agora deseja voltar para o hotel, miss? - perguntou meu motorista meia hora depois.

Não conseguia arranjar forças para me ir embora.

Obedecendo a um impulso, abri a porta e saí para o passeio sombreado.

- Espere por mim aqui. Voltarei daqui a pouco.

Não podia ir-me embora sem ver e saber mais, sobretudo depois do sofrimento que passara desde o dia em que nosso pai vendera os seus dois filhos mais novos.

Esgueirei-me furtivamente para dentro do quintal lateral, onde havia equipamento recreativo montado, nitidamente, para uso das crianças. Entrei silenciosamente num amplo pátio lajeado onde havia cadeiras e uma mesa protegida por dois chapéus-de-sol colocados o mais próximo possível da piscina, em forma de rim. Mantive-me o mais rente que pude à casa, ficando ao nível das várias janelas que deitavam para as traseiras, e não tardei a ser compensada pelo som de vozes infantis que saía de uma delas, aberta.

Baixei-me rapidamente atrás de potes de barro contendo arbustos e olhei pelas altas janelas de vidro que deitavam para o que não podia deixar de ser uma espécie de solário interior.

A bela divisão, que o sol inundava, tinha cadeiras e um sofá macio, com os almofadões gordos cobertos por um lindo tecido de chita às flores. Plantas de interior pendiam em profusão do tecto em vasos de macramé e o chão estava coberto por belos tapetes azuis da cor do mar. O Keith e a "Nossa" Jane encontravam-se sentados no tapete maior, a brincar com berlindes que tinham disposto no interior do principal centro oval do tapete. Ambas as crianças tinham tirado os seus fatos de ir à igreja e envergado outros, de festa. O modo meticuloso como se moviam dava a entender que tentavam manter-se limpos e arranjados para o aniversário para o qual iam.

Não pude deixar de ficar a observá-los.

A saia franzida e aos folhos da "Nossa" Jane, em organdi branco, caía de um corpete alto às pregas e apertado à direita do sítio onde os folhos se juntavam à parte de cima, de onde pendiam fitas em cetim verde-pálido que iam até à bainha da saia. Rosas minúsculas formavam um arranjo de onde as fitas saíam. A "Nossa" Jane dera-se a grandes cuidados para dispor elegantemente a saia à sua roda. O seu cabelo ruivo-dourado fora escovado para trás e apanhado no alto da cabeça, onde se encontrava preso com uma fita do mesmo cetim, em forma de laço, na ponta de cujas extremidades, a caírem-lhe pelas costas, se via uma rosinha igual às do vestido. Eu nunca vira um vestido de menina tão bonito e que tão bem assentava a quem o usava do que aquele que a "Nossa" Jane envergava naquele momento.

Mesmo em frente da minha irmãzinha, sentado de pernas cruzadas e calçando uns reluzentes sapatos brancos, estava o Keith, envergando um fato de linho branco e com um laço de cor exactamente igual à do cetim que enfeitava o vestido e o cabelo da "Nossa" Jane. O cuidado e a reflexão que tinham sido dados àquelas roupas saltava à vista.

Quando, finalmente, consegui desviar os olhos dos dois, durante tempo suficiente para reparar no interior da sala, vi uma mesa comprida com um pequeno computador em cima. Perto, estava outra mesa, com uma impressora. Ouvia-se música de um rádio. Num canto estava um cavalete, uma mesa e um tamborete. Eu sabia para quem se destinavam os apetrechos de pintura... Eram para o Keith, que herdara o talento artístico do avô! Qualquer tinta que o Keith deixasse cair ou pingasse, sujaria apenas mosaicos que podiam ser limpos com toda a facilidade. E por todo o lado se viam bonecas, como se a "Nossa" Jane não estivesse a atingir a maturidade tão depressa como as outras meninas de dez anos.

Nesse momento, para meu terror, no parapeito da janela à minha frente apareceram duas patinhas e o focinho amistoso de um cachorro. Ao ver-me de gatas, com o nariz quase esborrachado contra o vidro, pôs-se a abanar a cauda furiosamente. Ganiu, abriu a boca para ladrar duas vezes... e as crianças, que eu não contara que virassem a cabeça na minha direcção, fixaram os olhos esbugalhados de surpresa directamente em mim!

Fiquei sem saber que fazer!

O cachorro meneante começou a ladrar mais alto e eu, receosa de que os Rawlings se assustassem, pus-me rapidamente de pé e entrei pela porta, que não estava fechada à chave.

Nem o Keith nem a "Nossa" Jane falaram.

Pareciam paralisados, ali sentados no chão, em frente do círculo de berlindes coloridos.

Já era demasiado tarde para me afastar sem ser vista. Tentei sorrir confiantemente.

- Está tudo bem - disse com suavidade, detendo-me no umbral da porta. - Não farei nada que perturbe a vossa vida. Só queria voltar a ver os dois.

Continuaram a olhar fixamente para mim, com os lábios rosados entreabertos e os olhos muito abertos a ficarem cada vez mais escuros, os cor de turquesa da "Nossa" Jane a ensombrarem-se e os de tom de âmbar do Keith a adensarem-se. O cachorro saltitava à minha volta, cheirou-me os calcanhares e depois levantou-se nas patas traseiras e pousou as da frente na minha saia. Os meus irmãozinhos pareciam aterrorizados. A expressão de ambos condoeu-me.

Falei com uma suavidade imensa, pois o que menos desejava era assustá-los.

- Keith, "Nossa" Jane, olhem para mim. Certamente não se esqueceram de quem eu sou, pois não?

Sorri, ainda antevendo os gritos de alegria que soltariam quando me reconhecessem, ouvindo-os exclamar, como tantas vezes me acontecera em sonhos: "Hev...lee! Voltaste! Vieste salvar-nos!"

Porém, nenhum dos dois proferiu tais palavras. O Keith pôs-se em pé devagar, um tanto desajeitadamente, enquanto as pupilas dos seus olhos cor de âmbar iam aumentando a cada batida do coração. Olhou para a "Nossa" Jane com preocupação, ajeitou o nó do seu laço verde, fechou os lábios entreabertos, olhou novamente para mim e em seguida passou a mão pelo rosto. Toda a vida tivera aquele hábito quando se sentia desorientado ou perturbado.

A "Nossa" Jane não se deu a semelhantes hesitações. Pôs-se de pé com um salto, espalhando os berlindes por tudo quanto era sítio.

- Vá-se embora! - gritou, abraçando-se ao Keith com força. - Não a queremos aqui! - Abriu a boca para gritar.

Tinha dificuldade em acreditar no medo que ambos demonstravam, no facto de nenhum dos dois parecer reconhecer-me. Pensavam que eu era uma desconhecida, talvez uma vendedora de porta a porta, e estavam avisados de que não deveriam deixar entrar quem quer que fosse.

Estupefacta, comecei a falar e a dizer-lhes o meu nome. O nó que sentia na garganta enrouqueceu-me a voz, a tal ponto, que esta saiu-me grossa e esquisita, quase irreconhecível.

O rosto adorável da "Nossa" Jane ficou alarmantemente branco. Surgiu nele uma expressão de medo e histeria. Por um momento pavoroso, receei que vomitasse, como era frequente acontecer-lhe no passado. O Keith, a olhar para a irmã, também empalideceu. Fitou-me com os olhos a lançarem pequenos lampejos de ira. Saberia quem eu era? Tentaria recordar-se?

- Mamã! - gritou a "Nossa" Jane em voz aguda e fina apertando-se contra o Keith. - Papá...!

- Chiu! - adverti-a, levando o indicador aos lábios. - Não precisas de ter medo. Eu não sou uma desconhecida, não vos farei mal. Vocês conheciam-me muito bem, quando vivíamos nos montes. Lembram-se dos Willies?

Juro por Deus que a "Nossa" Jane empalideceu ainda mais. Parecia à beira de um desmaio.

As minhas emoções eram um turbilhão. Vacilei, sem saber que fazer. Não fora aquela a reacção que esperara neles. Contava que ficassem encantados por me ver!

- Faz muito tempo, éramos uma família que vivia nos montes e íamos e vínhamos a pé para a escola aos dias da semana, através dos bosques. Ao domingo, íamos à igreja. Tínhamos galinhas, patos, gansos e, de vez em quando, uma vaca. E nunca nos faltavam cães e gatos. Sou eu, a vossa irmã Hev...lee! Só queria ver-vos e saber que estão felizes.

Os gritos da "Nossa" Jane tornaram-se ainda mais altos-e mais cheios de pânico!

O Keith, antes de se aproximar, colocou protectoramente a irmã atrás de si.

- Não a conhecemos - declarou com a voz rouca e insegura de adolescente.

Foi a minha vez de ficar pálida. Senti as suas palavras como bofetadas... Uma, duas, três...

- Manda-a embora! - berrou a "Nossa" Jane. Era o pior momento da minha vida.

Tivera umas saudades loucas deles durante anos e anos, sonhara encontrá-los e salvá-los, e agora não me queriam.

- Vou-me embora - apressei-me a dizer, recuando pela porta aberta. - Cometi um erro terrível, desculpem. Afinal nunca vi nenhum dos dois na minha vida!

Deitei então a correr o mais depressa que os meus saltos altos permitiam, dirigindo-me para a limusina que esperava e, assim que me atirei para cima do assento de trás, comecei a chorar. A "Nossa" Jane e o Keith não tinham ficado a perder no dia em que o nosso pai os vendera. Ambos tinham saído vencedores nesse jogo de sorte ou azar.

 

APOIO FAMILIAR

Não suportaria passar nem mais uma hora naquela cidade; portanto, fui buscar as minhas coisas ao hotel, e a limusina levou-me até ao aeroporto onde apanhei o avião que estava de saída para Atlanta. Agarrava-me desesperadamente ao passado, do qual sempre desejara fugir... Não queria começar a minha nova vida com o Troy descobrindo que perdera a minha família! Iria ter com o tom e encontraria junto dele as boas-vindas por que ansiava e o irmão gentil que me prometera sempre nunca deixar de ser o meu mano do coração.

O telefone tocou três, quatro, cinco vezes antes de uma voz conhecida atender; por um momento agonizante achei que o meu pai poderia ver-me através da linha telefónica. Fiquei petrificada na cabina.

- Gostaria de falar com o tom Casteel - consegui, por fim, sussurrar com voz enrouquecida e tão diferente que fiquei confiante de que o homem que eu odiava não reconheceria a sua primogénita, da mesma maneira que nunca fizera por acolher a minha presença na sua vida com qualquer afecto. Quase podia ver o seu rosto de índio a hesitar e, por um instante dilacerante, pensei que perguntasse: "És tu, Heaven?"

Mas não o fez.

- Pode dizer-me quem fala?

Ora, ora! Alguém andava a ensinar gramática e boas maneiras ao meu pai! Engoli em seco e quase sufoquei.

- Uma amiga.

- Só um momento, por favor - disse, como se o fizesse centenas de vezes por dia para o tom.

Ouvi-o pousar o auscultador, ouvi os seus passos numa superfície dura, e depois a sua voz trovejar com o sotaque característico dos pacóvios:

- tom, tens mais uma dessas amigas anónimas ao telefone. Preferia que lhes dissesses para deixarem de ligar para aqui. Não fiques pendurado na conversa mais do que cinco minutos. Temos trabalho a fazer.

As batidas dos pés do tom a correr chegaram nitidamente aos meus ouvidos, apesar dos muitos quilómetros que nos separavam.

- Viva! - cumprimentou ofegante.

Fiquei surpreendida com a mudança que notei na voz dele. Parecia-se imenso com a do nosso pai. Tive dificuldade em falar, e o tom, ao ver que eu hesitava, impacientou-se.

- Sejas tu quem fores, acho melhor que fales, pois só posso dispor de um minuto.

- Fala a Heaven... Por favor não digas o meu nome em voz alta, para que o pai não perceba que sou eu.

O tom susteve a respiração, surpreendido.

- Eh, estupendo! Fantástico! Caramba, estou tão contente por te ouvir! O pai saiu para o pátio, para junto da Stacie e do bebé, por isso não preciso de falar baixo.

Não sabia que dizer.

O tom preencheu o espaço de constrangimento.

- Heavenly, é um puto muito giro. Tem o cabelo preto, os olhos castanho-escuros, sabes, o tipo de filho que a mãe queria dar ao pai...

Calou-se abruptamente e eu percebi logo que ele ia acrescentar: "É a imagem cuspida e escarrada do pai." Em vez disso, perguntou:

- Não dizes nada?

- Que bom o pai conseguir sempre o que quer - comentei com amargura. - Há pessoas que têm essa sorte.

- Vá, Heavenly, pára com isso! Não sejas injusta! O miúdo não é culpado de nenhum crime. É uma gracinha, até mesmo tu terias de chegar a essa conclusão.

- Que nome pôs o pai ao seu terceiro filho? - perguntei por pura vingança malévola.

- Eh! Detesto esse teu tom de voz frio. Porque não esqueces o que ficou para trás, tal como eu fiz? O pai e a Stacie deixaram o nome do bebé ao meu cuidado. Lembras-te dos nossos aventureiros preferidos, já lá vão tantos anos? Walter Raleigh e Francês Drake? Pois bem, temos um Walter Drake. Chamamos-lhe Drake.

- Lembro-me - retorqui com voz gélida.

- Acho um nome magnífico: Drake Casteel!

Mais mercadoria para o pai vender, foi o pensamento malévolo que me passou pela mente antes de mudar rapidamente de assunto.

- Tom, estou em Atlanta. Tenciono alugar um carro e ir até onde moras, mas não quero encontrar-me com o pai.

- Que bom, Heavenly, que bom! - exclamou, entusiasmado

- Não quero ver o pai quando chegar. És capaz de fazer com que ele não esteja em casa?

O tom prometeu fazer-me a vontade, mantendo o pai afastado de casa para que não nos encontrássemos, mas notei que estava magoado. Depois, deu-me instruções pormenorizadas sobre como chegar à pequena cidade onde vivia, a cerca de trinta e dois quilómetros do lugar onde um avião me deixaria, ao sul da Jórgia.

- tom - trovejou o nosso pai à distância. - Eu disse cinco minutos, não dez!

- Agora tenho de ir - disse o tom cheio de pressa. - 'Tou muito feliz por vires cá, mas já te vou dizer que fizeste uma grande asneira em empurrar o Logan pr'a fora da tua vida e pôr esse tal Troy no seu lugar! Ele na' é dos nossos. Esse Troy de que me falaste nas cartas nunca te compreenderá como o Logan, ou amará metade sequer.

Retomara o seu dialecto provinciano, como sempre acontecia quando se exaltava. Corrigi-o sem demora. Não fora eu a empurrar o Logan para fora da minha vida, mas sim este a mudar de ideias.

- Até breve, Heavenly... Vemo-nos amanhã de manhã... por volta das onze horas.

E desligou sem mais delongas.

Passei essa noite em Atlanta e no dia seguinte, de manhã bem cedo, aluguei um carro e segui para sul, recordando tudo o que, nas cartas do tom, me devia ter alertado: "Sempre pensei que nunca nada se interporia entre ti e o Logan. É de viveres nessa casa rica, tenho a certeza. Ficaste diferente, Heavenly! Pois se já nem escreves nem falas como antigamente!"

"Tu não és a Fanny", escrevera certa vez. "As raparigas como tu apaixonam-se só uma vez e nunca mudam de ideias."

Que pensaria ele que eu era? Um anjo? Uma santa sem fraquezas? Eu não era nem uma coisa nem outra; tinha a cor de cabelo errada. Era um anjo negro, uma Casteel irremediavelmente reles! A filha do meu pai! Ele é que me fizera assim! Fosse eu como fosse.

Falara com o Troy no dia anterior, à noite, e este pedira-me que tratasse rapidamente dos assuntos da minha família e voltasse para ele.

"E se conseguires convencer o tom a vir ao nosso casamento, apesar do que o Tony disse, não acharás que só temos convidados do meu lado. E talvez a Fanny também venha."

Oh, Troy não fazia ideia do que pedia quando sugerira que eu convidasse a minha irmã Fanny! No início daquela manhã, ao dirigir-me para a pequena cidade que marcara com um círculo vermelho num mapa local, passava-me pela cabeça todo o género de pensamentos estranhos. Olhei para a terra avermelhada que ladeava o asfalto da estrada e permiti-me regressar aos tempos em que vivera com a Kitty e o Cal Dennison. Pela primeira vez desde que saíra da Virgínia Ocidental, detive-me a pensar no Cal e no que poderia ter-lhe acontecido. Continuaria a viver em Candlewick? Vendera a casa que pertencera à Kitty? Teria voltado a casar? Fizera, sem dúvida, a coisa certa ao meter-me num avião para Boston, deixando-me pensar que a Kitty viveria apesar do seu tumor incurável.

Sacudi a cabeça, recusando-me a pensar no Cal quando tinha de me concentrar no meu encontro com o tom. Precisava de encontrar um meio de o convencer a abandonar o nosso pai e a prosseguir os seus estudos. O Troy pagaria as propinas, a roupa e o mais que fosse necessário. Porém, não pude esquecer o orgulho teimoso do tom, do mesmo tipo que o meu.

De repente, perdi-me nas estradas secundárias do interior. Parei numa estação de gasolina a cair de velha e pedi indicações a um homenzinho franzino de rosto avermelhado que lá encontrei. Este olhou-me como se me achasse maluca por andar toda aperaltada num dia quente como aquele. Eu levava um fato de saia e casaco fresco de Verão mas não havia dúvida de que estava cheia de calor, embora não me passasse pela cabeça aparecer com um vestidito vulgar. Tinha demasiados anéis nos dedos, e o pescoço pesava-me do excesso de colares. Queria impressionar todos, mesmo que me tomassem por excêntrica. O meu automóvel fora o mais caro que conseguira alugar.

Tive de fazer marcha atrás e dar meia volta para encontrar a estrada certa que me levaria até ao tom e à casa onde este vivia com a sua nova família. Um pouco da Florida esgueirara-se para o interior da Jórgia, conferindo à paisagem um ar vagamente tropical. Ao aproximar-me do meu destino, parei na berma da estrada para retocar a minha maquilhagem, e, dez minutos mais tarde, estacionava o meu comprido Lincoln azul-escuro em frente de uma moderna casa de rancho de piso único.

O facto de ter percorrido todos aqueles quilómetros, colocando-me de novo ao alcance da crueldade do meu pai, provocava-me uma estranha sensação de entorpecimento no peito, que me alheava da realidade. Que espécie de louca era eu? Sacudi a cabeça, olhei-me novamente no espelho retrovisor para verificar a minha aparência e depois voltei a mirar a moderna casa. Era feita de telhas de madeira de cedro vermelho. O telhado baixo projectava-se por cima das numerosa janelas largas para lhes conferir sombra, sombra de que também o telhado desfrutava devido às muitas árvores próximas; a casa estava rodeada de sebes impecavelmente aparadas, entremeadas de canteiros circulares floridos, onde não se via uma única erva daninha. Oh, não havia dúvida de que o meu pai, com aquela casa, que devia ter quatro ou cinco quartos de dormir, estava a mostrar ao mundo que se saía bem. O meu irmão tom, porém, não me dera o menor palpite sobre o que o nosso pai fazia para arranjar dinheiro que chegasse para pagar aquela casa.

Onde estaria o tom? Porque não aparecia à porta para me saudar? Por fim, cada vez mais impaciente, saí do carro e percorri o longo carreiro que ia dar à porta da frente. Receava que fosse o meu pai a atender quando tocasse à campainha, apesar de o tom ter prometido manter-nos afastados um do outro. Contudo, eu tinha razão. O meu fato, que me custara mais de mil dólares, tinha a eficácia de uma armadura. Os meus anéis, colares e brincos eram o meu escudo e a minha espada. Assim vestida, sentia-me capaz de chacinar dragões. Pelo menos, era o que eu achava.

Carreguei impacientemente na campainha da porta. Ouvi um carrilhão tocar algumas notas musicais no interior. O coração batia-me nervosamente. Sentia picadas no estômago. Nesse momento, ouvi passos a aproximarem-se. O nome do tom quase me saiu de entre os lábios quando a porta se abriu.

No entanto, não era o tom, como eu esperara e rezara para que acontecesse; tão-pouco me apareceu a figura detestável do meu pai. Em vez disso, deparou-se-me uma mulher jovem e bonita, de cabelos louros e olhos azuis luminosos, que me sorriu como se jamais tivesse sentido receio de desconhecidos ou antipatizado com alguém.

Fui apanhada de surpresa pelo ar de fresca inocência com que me apareceu do lado de dentro da porta com rede, tendo por fundo divisões frescas, mergulhadas na penumbra e a cheirar a limpo, sorrindo-me e aguardando que eu me identificasse. Vestia calções brancos e um top tricotado à mão, carregando, sem esforço num dos braços, um bebé com ar sonolento. Oh, devia ser o Drake, o tal filho parecido com o meu pai... o seu terceiro filho.

- Sim...? - perguntou ao ver que eu não proferia palavra.

Ali fiquei, embaraçada, a olhar para uma mulher e para o seu filho, cujas vidas eu não teria dificuldade em destruir se o desejasse.

E agora que me via ali, o choque sentido fez-me compreender que não fora ali só para salvar o tom; tinha um outro motivo: deitar por terra a felicidade que o meu pai encontrara. Tudo o que eu poderia ter gritado para levá-la a odiar o meu pai ficou-me preso na garganta como um nó, ao ponto de até ter dificuldade em murmurar o meu nome.

- Heaven? - perguntou a jovem, com um ar encantado. - A senhora é que é a Heaven? - O sorriso de boas-vindas alargou-se. - É a Heavenly de quem o tom está sempre a falar? Oh, que bom conhecê-la finalmente! Entre, entre!

Abriu a porta de rede e depois pousou o menino em cima de um sofá, puxando inconscientemente o top para baixo. Desviou o olhar até ao espelho de parede mais próximo, verificando a sua aparência, o que me levou a pensar que talvez o tom não a tivesse avisado de que eu chegaria por volta das onze horas. Ao traçar os meus planos, não contara absolutamente nada com aquela mulher.

- Infelizmente surgiu uma emergência e o tom teve de sair com o pai - explicou, ofegantemente, olhando agora em volta para ver se a casa estava arrumada. Levou-me do vestíbulo da entrada até uma sala de estar ampla e agradável. - Esta manhã reparei que o tom queria dizer-me algo em particular, mas o pai estava sempre a mandá-lo despachar-se. Por isso, não teve tempo. Tenho a certeza de que o segredo dele era sobre a sua visita.

Sem deixar de falar, arrumou uma pilha de revistas e dobrou rapidamente o jornal da manhã que estivera a ler.

- Heaven, faça o favor de se sentar e estar à vontade. Deseja tomar alguma coisa? vou começar a preparar o almoço para o Drake e para mim e claro que está convidada. Mas deseja uma bebida fresca para já? Está um dia muito quente.

- Pode ser uma Coca-Cola - aceitei, sentindo a garganta tão arrepanhada pela ansiedade como pela sede.

Custava-me a acreditar que o tom não tivesse esperado por mim Será que também já não queria saber de mim? Dava a impressão que nenhum dos membros da minha família tinha tanta vontade de me ver quanto eu a eles. Pouco depois, a jovem voltou da cozinha com dois copos. O menino de ar tímido, que devia ter à volta de um ano, mirava-me com enormes olhos castanhos ornados de pestanas negras. Oh, sim, era o filho parecido com o pai pelo qual a Sarah rezara na altura em que o quinto filho lhe nascera deformado e morto.

Pobre Sarah. Não era a primeira vez que sentia curiosidade em saber por onde andaria naquela altura e o que faria.

Despi o casaco demasiado quente, sentindo-me ridícula e desejando ter usado mais bom senso e menos ostentação.

A Stacie Casteel brindou-me com um dos sorrisos mais doces que eu já vira.

- Que linda que é, Heaven. Tal e qual como o tom a descreveu tantas e tantas vezes. Está cheia de sorte por ter um irmão que a admira tanto. Eu sempre quis ter irmãos e irmãs, mas os meus pais acharam que um filho chegava. Vivem a cerca de dois quarteirões daqui. Por isso, estou sempre a vê-los e eles tomam muito bem conta do meu bebé. Por acaso, o meu avô e o seu até estão a pescar neste momento, num lago aqui próximo.

O avô. Esquecera-me completamente dele. A Stacie continuou a tagarelar, ansiosa por ter alguém com quem falar da sua família.

- O Luke gostaria que fôssemos para a Flórida, para poder ficar mais perto do lugar onde trabalha, mas eu não consigo conformar-me em ir para tão longe dos meus pais. Sei que eles não farão nenhuma mudança no seu estilo de vida pois já estão velhos e acomodaram-se. Adoram o Drake.

Sentara-se à minha frente, deixando o filhinho encantador tomar um gole ou dois da sua bebida fresca. A criança estava de tal modo intimidada pela minha presença silenciosa que mal conseguia engolir. A mãe incentivou-o ao de leve com a mão.

- Drake, querido, é a Heaven, a tua meia-irmã. Não achas que o nome assenta mesmo bem numa senhora tão jovem e linda?

Os enormes olhos escuros do filho mais novo do meu pai franziram-se ao tentar decidir se eu era amiga ou não, antes de baixar a cabeça e virar-se para tentar esconder-se. Ao sentir-se seguro, espreitou-me de entre as pernas da mãe, com o polegar enfiado na boca. Como doía lembrar que era assim que o Keith costumava comportar-se, fazendo-o entre as minhas pernas, não nas da Sarah. Esta andara sempre demasiado atarefada ou fatigada para "aturar" crianças envergonhadas, que precisavam de uma atenção especial... até a "Nossa" Jane aparecer.

Apesar da decisão que eu tomara de não me afeiçoar àquela criança, dei comigo a ajoelhar-me de modo a ficar ao seu nível. Sorri-lhe.

- Olá, Drake. O teu tio tom falou-me de ti. Disse-me que gostas de barcos, comboios e aviões. Um dia destes vou mandar-te uma caixa enorme cheia deles. - Olhei de relance para a Stacie com um certo embaraço. - Os Tatterton fabricam brinquedos há séculos. Aqueles que produzem não são vendidos em lojas vulgares, mas quando eu voltar mandarei ao Drake todos aqueles com os quais puder brincar.

- Será muito simpático da sua parte - agradeceu a Stacie com mais um dos seus sorrisos arrasadoramente doces, que foram como que uma facada no meu coração, pois há muito que eu podia ter mandado brinquedos ao Drake e jamais tal ideia me passara pela cabeça.

À medida que os minutos foram passando e a Stacie ia tagarelando enquanto preparava o almoço, depressa descobri que ela amava o homem que eu odiava, que o amava profundamente .

- É o marido mais bondoso e fantástico que pode haver - declarou com entusiasmo. - Está sempre a esforçar-se o mais que pode para que nada falte à sua família. - Lançou-me um olhar implorante. - Eu sei que a Heaven não o deve ver assim, mas o seu pai teve uma vida muito difícil e, para se reencontrar, teve de se afastar daqueles montes e do seu passado como Casteel. Não é preguiçoso nem indolente. Era apenas um revoltado por achar que estava preso no que parecia um círculo vicioso de pobreza.

Nada do que dizia dava a entender que estava a par do quanto o meu pai me odiara e provavelmente ainda odiava. Não fez referência à minha mãe ou à Sarah, o que me deu a entender que não passava de mais outra Leigh Tatterton ingénua e crédula, levando-me a descobrir inesperadamente que o meu pai tinha uma predilecção pelo mesmo tipo de mulher delicada. Do mesmo modo que preferia ruivas para as ligações passageiras.

E se de vez em quando levara, ou não, morenas para a cama, era algo que eu ainda estava para saber.

Terminado o almoço de salada de atum sobre uma camada de alface fresca, acompanhada por cubos de queijo e pãezinhos quentes servidos com chá gelado, voltámos para a sala de estar. A sobremesa foi pudim de chocolate com que o Drake lambuzou o pequeno e bonito rosto.

"Nada de pãezinhos e molho", pensei com amargura.

O meu azedume acentuou-se ainda mais quando regressámos à sala de estar alegre e ensolarada. Olhei através das janelas largas que deitavam para o jardim das traseiras, cheio de plantas em plena floração, e esforcei-me por imaginar o Luke Casteel a viver numa casa agradável e moderna como aquela, sentado no belo sofá comprido que tinha na frente uma mesinha sem o menor vestígio de pó e dedadas. Plantas verdes atenuavam a monotonia de todos aqueles tons de castanho e creme acentuados com toques de turquesa. Era uma sala muito masculina, onde apenas o cesto da costura denunciava a presença de alguém mais na casa além de um homem e de uma criança.

- É a divisão preferida do seu pai - disse a Stacie, como se reparasse no ar pensativo com que eu ficara. Notava-se orgulho na sua voz. - O Luke disse-me que eu podia decorá-la como quisesse, mas eu achei melhor que tivesse uma sala onde pudesse pousar os pés onde lhe apetecesse ou deitar no sofá sem se preocupar em amarrotar os almofadões. O tom e o seu avô também adoram esta sala. - Deu-me a impressão de ir a acrescentar algo mais, pois corou e, durante um segundo ou dois, ficou com uma expressão de confusão e culpa, antes de me tocar no braço e sorrir afectuosamente. - É mesmo maravilhoso tê-la, finalmente, aqui, em casa, Heaven. O Luke fala pouco da sua "família dos montes", porque diz que dói demasiado.

Oh, claro, eu podia imaginar o quanto doía!

- Ele contou-lhe sobre a minha mãe, que tinha catorze anos quando ele casou com ela?

- Sim, contou-me que se conheceram em Atlanta e que ele a amou muito... Mas - acrescentou com ansiedade -, não fala o suficiente dela para eu poder imaginar como era a vossa vida naquela cabana dos montes. Sei que a morte prematura dela marcou-o para toda a vida. Também sei que casou comigo porque lhe faço lembrar ela e, quando à noite me ajoelho para dizer as minhas orações, peço a Deus que um dia ele deixe de pensar nela. Sei que me ama e que o tenho feito mais feliz do que no dia em que nos conhecemos, mas enquanto a Heaven não lhe perdoar e ele não for capaz de aceitar a morte da sua mãe, não será capaz de apreciar completamente a vida e o modesto sucesso que alcançou.

- Ele contou-lhe o que fez? - perguntei quase a gritar. - Acha certo ele ter vendido os cinco filhos por quinhentos dólares cada?

- Não, claro que não acho certo - respondeu a Stacie calmamente, deixando-me descoroçoada no meu ataque. - Contou-me tudo. Foi uma decisão terrível que se viu obrigado a tomar. Vocês os cinco podiam ter morrido à fome enquanto ele não recuperava a saúde. Só posso justificar a sua acção dizendo que fez o que na altura achou que era o melhor, e nenhum de vocês sofreu nenhum dano permanente, pois não?

A sua pergunta ficou a pairar no ar enquanto se sentava de cabeça baixa, esperando, calada, que eu dissesse que perdoava ao meu pai. Estaria ela convencida de que o pior que ele fizera fora a sua traição de Natal? Não, esse fora apenas o clímax! Contudo, nada do que eu pudesse dizer redimiria a sua crueldade. A esperança que, por instantes, lhe iluminara o rosto, desvaneceu-se. Olhou para o filho e ficou ainda mais triste.

- Se não é capaz de lhe perdoar hoje, não faz mal. Só espero que consiga fazê-lo um dia, num futuro próximo. Pense nisso, Heaven. A vida não nos dá muitas oportunidades para perdoar. Elas aparecem, ficam a pairar, o tempo passa e depois torna-se demasiado tarde.

Levantei-me rapidamente.

- O tom disse-me que estaria aqui à minha espera. Onde posso encontrá-lo?

- O tom pediu-me que a mantivesse aqui até ele chegar, cerca das quatro e meia. O seu pai virá um bocado mais tarde.

- Não tenho tempo para esperar até essa hora. - Tinha medo de ficar. Medo de que ela me convencesse a perdoar a um homem que eu odiava. - Ainda tenho de ir apanhar o avião para Nashville, para ver a minha irmã Fanny. Portanto agradeço que me diga onde posso encontrar o tom.

A Stacie deu-me a morada com relutância, continuando a implorar-me, com os olhos, que fosse bondosa e compreensiva, mesmo apesar de não poder perdoar. Porém, eu despedi-me cortesmente, dei um beijo ao Drake e afastei-me apressadamente daquela jovem esposa ingénua.

Tinha pena daquela mulher tão inocente, que devia ter procurado ver o que estava por baixo da superfície de um homem bem-parecido, quase iletrado, que se servia das mulheres e acabava por destruí-las. Tanto quanto eu sabia, deixara uma lista de mulheres abandonadas atrás de si: a Leigh Tatterton, a Kitty Dennison, e Deus sabia o que acontecera à Sarah depois de esta ter saído de casa, deixando-me a mim e aos seus quatro filhos. Só já quando seguia, a toda a velocidade, no meu carro alugado, em direcção à fronteira com a Florida, é que me lembrei de que devia ter feito um desvio para ir cumprimentar o meu avô.

Uma hora depois cheguei a uma cidadezinha rural onde, segundo a Stacie me dissera, o tom trabalhava diariamente durante as suas férias de Verão. Mirei desaprovadoramente os casinhotos, o supermercado modesto com o seu parque de estacionamento onde se viam escassos automóveis de último modelo estacionados. Que espécie de lugar seria aquele para o tom e as suas grandes ambições? Então eu, qual anjo vingador, decidida a fazer o que pudesse para estragar os planos que o Luke Casteel tinha para o seu filho mais velho, dirigi o meu carro luxuoso para os arredores daquela cidade insignificante e encontrei o muro alto de que a Stacie me falara.

Ela não me preparara para pormenores como a longa linha de bandeiras coloridas que adejavam ao vento quente. Agitavam-se de tal maneira que não consegui ler a mensagem que transmitiam. Ao dirigir-me para um portão, que se encontrava aberto, os insectos zumbiam-me em torno da cabeça. Ninguém tentou impedir a minha entrada numa enorme arena coberta de erva onde numerosos caminhos de terra batida se entrecruzavam. Que lugar seria aquele, pensei, sentindo o coração acelerar as suas batidas, muito desiludida por o meu irmão se contentar com... com... Foi então que me apercebi do futuro que o tom escolhera para si, só para agradar ao pai!

Os olhos encheram-se-me de lágrimas. Era um circo! Um circo pequeno, barato, grosseiro e insignificante, que devia ter grande dificuldade em sobreviver. As lágrimas começaram a escorrer-me pelo rosto. tom, pobre tom!

Enquanto ali estava, do lado de dentro do portão, sob o sol quente da tarde, ouvindo o som de muita gente a trabalhar, alguns a martelar, outros a cantar e a assobiar, uns quantos a gritar ordens e outros a responder em voz irritada, também ouvi risadas e vi crianças a correr, na brincadeira, e confesso que devia parecer muito esquisita na minha fatiota bostoniana de princípio de Outono, completamente imprópria para a Florida. Pessoas de ar esquisito e fatos bizarros deambulavam pelo recinto. Mulheres em calções lavavam a cabeça sobre tinas de água. Outras faziam de cabeleireiras. Havia roupa pendurada a secar ao sol quente. Umas quantas palmeiras proporcionavam sombra, e eu, se fosse menos preconceituosa, poderia ter achado a cena pitoresca e encantadora. Porém, não estava com disposição para achar graça ao que quer que fosse. Chegou-me às narinas um forte cheiro a animais. Uma variedade de homens, escassamente vestidos, exibindo a pele intensamente bronzeada e os músculos salientes, movimentava-se pela área erguendo bancas e bancadas com letreiros que diziam: "Cachorros-Quentes", "Hamburgers" e outros petiscos. Consertavam cartazes coloridos que faziam publicidade a um meio homem e uma meia mulher, a dançarinas, ao casal mais pequeno do mundo e a uma cobra que era metade crocodilo e metade jibóia. Não havia nenhum que não me lançasse olhares.

O tom referira-me, nas suas cartas, a que o nosso pai trabalhava em algo bonito, que toda a vida desejara fazer. Trabalhar num circo? Num circo pequeno e de segunda categoria?

Avancei, quase entorpecida de desespero, olhando para as jaulas onde leões, leopardos, tigres e outros felinos grandes e selvagens aguardavam, aparentemente, transporte para outra área. Detive-me ao lado de um dos vagões outrora utilizados para transportar animais por via férrea e olhei para o cartaz com um tigre que estava colado num dos seus lados, onde a tinta vermelha começara a sair.

Dei um salto no tempo e vi-me de novo na cabana. Talvez fosse o original do cartaz do tigre que a avó me descrevera tantas vezes, aquele que o jovem Luke roubara de uma parede em Atlanta quando fora àquela cidade, tinha então doze anos, e o tio que lá vivia se esquecera de cumprir a sua promessa de levar o seu sobrinho pacóvio ao circo.

De modo que o Luke Casteel, aos doze anos, percorrera cerca de vinte e cinco quilómetros até ao terreno, nos arredores da cidade, onde estava o circo, enfiando-se dentro da tenda sem pagar.

Agora quase cega pelas lágrimas, baixei a cabeça e servi-me de um dos meus lenços de linho para limpar o rosto. Quando voltei a olhar para cima, a primeira coisa que vi foi um homem jovem aproximar-se do sítio onde me encontrava, trazendo algo que fazia lembrar uma forquilha numa das mãos e, amparado pelo outro braço, um enorme tabuleiro cheio de carne crua. Era a hora de alimentar os grandes gatos. Os leões e os tigres, como se o soubessem, começaram a agitar as enormes cabeças peludas, exibindo dentes longos e amarelados, farejando, roendo e triturando ruidosamente os ossos, rasgando a carne em sangue que o jovem lhes enfiava por entre as barras da jaula com a forquilha. Emitiam roncos profundos com a garganta que, deduzi, serem de prazer. Oh, meu Deus! Meu Deus! Quem enfiava cuidadosamente a carne nas grades, que as patas selvagens arrebanhavam antes de os dentes se lançarem ao seu trabalho, era o meu irmão tom.

- tom - gritei, correndo em frente. - Sou eu! Heavenly!

Por um momento, voltei a ser a criança que vivera, nos montes. A roupa elegante deu lugar a um vestido andrajoso, gasto e disforme, que as repetidas lavagens com sabão barato numa tábua de metal tinham desbotado. Quando o tom se voltou lentamente para mim, esbugalhando os olhos cor de esmeralda antes de estes se encherem de deleite, eu via-me descalça e cheia de fome.

- Heavenly! És mesmo tu? Afinal das contas vieste ver-me, de tão longe!

Como acontecia sempre que se entusiasmava, o tom esquecia a boa dicção e retomava o seu dialecto provinciano.

- Oh, que dia glorioso! Aconteceu mesmo! O que eu rezei!

Largou o tabuleiro enorme, agora já vazio de carne, e abriu os braços.

- Thomas Luke Casteel - exclamei -, sabes que não deves falar dessa maneira. Será que Miss Deale e eu perdemos o nosso tempo a ensinar-te a gramática?

E corri para o seu abraço de boas-vindas, lançando-lhe os braços ao pescoço, apertando-me fortemente contra aquele irmão que era quatro meses mais novo do que eu e a quem não via desde que me fora embora.

- Oh, Santo Deus - sussurrou o tom, emocionado, com voz enrouquecida -, continuas a fazer cara feia e a corrigir-me como nos velhos tempos. - Afastou-me ligeiramente dele e mirou-me dos pés à cabeça com grande espanto. - Nunca pensei que pudesses ficar mais bonita, mas o certo é que estás mais do que isso! - Passeou o olhar pela minha roupa cara, detendo-o no relógio de ouro, nas unhas pintadas, nos sapatos de duzentos dólares, na bolsa de mil e duzentos dólares, antes de o fixar no meu rosto. Soltou um suspiro profundo e sibilante. - Caramba! Fazes lembrar uma daquelas raparigas irreais que aparecem nas capas das revistas.

- Avisei-te de que vinha. Porque pareces surpreendido por me ver aqui?

- Acho que pensei que seria demasiado bom para ser verdade - respondeu, à laia de desculpa. - Mas também acho que por outro lado, receava que viesses estragar o que o pai está a tentar conseguir. Ele não passa de um homem sem instrução, Heavenly, que faz o melhor que pode para sustentar a família; sei que a sua ocupação não significa grande coisa para a pessoa em que tu te tornaste, mas o grande sonho dele foi sempre fazer parte de um circo como este.

Eu não queria falar do meu pai. Custava-me a acreditar que o tom tivesse tomado o partido do pai. Parecia até que o meu irmão se preocupava mais com o pai do que comigo. Porém, eu não queria desistir do tom, não queria que ele se tornasse um estranho para mim.

- Pareces... pareces, bem, mais alto, mais forte - observei, tentando abster-me de dizer que o achava ainda mais parecido com o pai, quando ele sabia que eu odiava o rosto atraente deste. A magreza cadavérica desaparecera da estrutura óssea do tom. Já ali não estavam os olhos encovados e olheirentos. Tinha um ar bem alimentado, feliz e satisfeito. Nem era preciso perguntar.

- tom, acabei de ver a nova mulher e o filho do nosso pai. Ela é que me indicou este lugar. Porque não me contaste? - Olhei mais uma vez em volta, para a arena onde havia tendas à mistura com edifícios permanentes. - Que faz exactamente o pai?

No rosto do tom abriu-se um sorriso largo. Os seus olhos iluminaram-se de orgulho.

- Ele é o apresentador, Heavenly. E dos bons! Faz um trabalho formidável a chamar o público. Hoje isto parece-te sem graça, mas se ficares por aqui até à noite, verás vir gente de oitocentos quilómetros de distância para gastar o seu dinheiro a ver o número dos animais selvagens, o das raparigas e o dos anormais que participam no espectáculo. E também temos uma roda gigante - acrescentou com orgulho, apontando para a roda Ferris em que eu só naquele momento reparava. - Heavenly - prosseguiu com arroubo, agarrando-me no braço e levando-me noutra direcção -, agora o circo é o mundo do pai. Não te passava pela cabeça, e a mim também não, que o circo fosse sempre o seu sonho quando era novo. Escapuliu-se vezes sem conta dos montes para se enfiar no circo. Talvez fosse para escapar à fealdade e à pobreza daquela cabana nos montes, onde foi criado. Lembras-te do quanto ele detestava as minas de carvão, enveredando portanto pelo contrabando de bebidas alcoólicas... Também fugia do desprezo que todos sentiam pelos Casteel, que parecia não saberem fazer outra coisa senão ir parar à prisão por roubos sem importância. Os rapazes da família ao menos teriam sido admirados se fossem parar à cadeia por coisas mais ousadas e importantes, excepto o assassínio, evidentemente.

- Mas, tom, este não é o teu sonho! Não é! Não podes abdicar dos teus estudos universitários só para o ajudar!

- Ele acabará por comprar o circo ao proprietário, Heavenly, passando então ele a ser o dono. Quando descobri que era essa a intenção do pai, podes crer que fiquei com a mesma cara de espanto com que estás agora. Quis contar-te, a sério, mas também me sentia relutante, pois tinha a certeza de que só sentirias e demonstrarias desprezo pelas suas ambições. Eu agora compreendo-o melhor do que antes e quero que alcance sucesso ao menos uma vez na vida. Não o odeio como tu. Eu não sei odiar assim. Ele tenta encontrar o seu amor-próprio, Heavenly, e ainda que o que agora faz te pareça reles e insignificante, é o que ele melhor já conseguiu realizar na vida. Quando o vires, não o faças sentir-se inferiorizado.

Olhei, mais uma vez, em volta. Algumas mulheres, que tinham acabado de tomar duche nos seus minúsculos reservados das roulottes, tinham-se juntado em grupos, enroladas em toalhas, a olhar para onde o tom e eu nos encontrávamos. Nunca me sentira tão em evidência. Outras trabalhavam, envergando roupa em mau estado. Todos tagarelavam animadamente, e raparigas bonitas, nascidas já naquele meio, lançavam ao tom e a mim sorrisos curiosos. Acrobatas de aspecto vigoroso praticavam sobre lonas sujas, e havia pelo menos uma dúzia de anões a cirandar de um lado para o outro em múltiplas tarefas estranhas. Imagino que, para uma pessoa como o meu pai, aquele poderia ser um lugar ideal onde se esconder de tudo e de todos, pois ali ninguém indagaria sobre a sua proveniência e origem duvidosa. No entanto, eu sabia exactamente o que o Tony pensaria se pudesse ver o mesmo que eu, ou talvez até soubesse de tudo, sendo essa a razão pela qual me proibira de levar comigo um só Casteel que fosse.

- Oh, tom, isto aqui está bem para o pai; é muito mais seguro e lucrativo do que traficar bebidas alcoólicas. Mas não serve para ti!

Puxei-o para junto de um pequeno banco à sombra de um aglomerado de árvores de ar tropical, onde nos sentámos. Havia comida espalhada no chão e aves a alimentarem-se dela, atrevendo-se a pousar e a comer mesmo junto dos nossos pés. O calor e os cheiros faziam-me sentir débil e agoniada. As jóias que eu trazia pesavam-me incomodativamente.

- O Troy deu-me dinheiro mais do que suficiente para pagares os teus quatro anos de faculdade - principiei, ofegando. - Não tens de desistir dos teus sonhos só para o pai realizar os seus.

O rosto magro do tom corou intensamente antes de baixar a cabeça.

- Tu não compreendes. Já me candidatei à faculdade e não passei. Sempre soube que os meus sonhos nunca se concretizariam. Só queria agradar-te. Vai-te embora, tira o teu curso superior e esquece-me. Gosto da vida que levo. Apreciá-la-ei ainda mais quando o pai e eu ganharmos dinheiro suficiente para comprarmos este circo ao actual proprietário. Ora, um dia poderemos até levá-lo à Jórgia e à Florida.

Eu não conseguia fazer outra coisa senão olhar para o meu irmão, completamente estupefacta com a facilidade com que ele desistia. E, quanto mais tempo o fitava, mais vermelho ele ficava.

- Por favor, Heavenly, não me embaraces. Nunca tive um cérebro como o teu, tu é que te convenceste disso. Não possuo nenhuns talentos especiais e sinto-me contente com a vida que levo aqui.

- Espera - exclamei. - Aceita o dinheiro... Faz com ele o que quiseres, tudo o que for preciso para escapares a esta ratoeira! Abandona o pai, ele que cuide de si próprio!

- Por favor, não digas mais nada - sussurrou o tom. O pai pode ouvir-te. Está além, ao pé da tenda da cozinha.

Eu passara várias vezes o olhar por um homem alto e de ar poderoso, que tinha o cabelo preto elegantemente cortado e penteado, embora os jeans que vestia estivessem desbotados e demasiado justos e a camisa branca largueirona fosse parecida com as que o Troy tanto apreciava. Era o meu pai!

Era o meu pai, mais limpo, fresco e com um aspecto saudável como eu jamais lhe vira, e àquela distância eu não saberia dizer se envelhecera minimamente. Conversava com um indivíduo robusto de ar alegre, com cabelos brancos e envergando uma camisa vermelha e que, aparentemente, lhe dava ordens. Chegou mesmo a olhar de relance para o tom, como que a verificar por que razão ele não estava a alimentar os animais. Os seus olhos escuros e intensos passaram por mim sem se deterem, embasbacados, como acontecia à maioria dos homens quando reparavam em mim. O facto deu-me a entender que o meu pai não andava interessado em engatar rapariguinhas novas. A sua indiferença também me fez perceber que não me reconhecera. Sorriu ao tom com ar paternal e aprovador; depois, continuou a conversar com o homem da camisa vermelha.

- É Mister Windenbarron - sussurrou o tom. - O actual proprietário. Trabalhou como palhaço para os irmãos Ringling. Nesta região todos dizem que não há espaço para dois circos grandes, mas o Guy Windenbarron acha que, com a ajuda do pai, os dois podem tornar-se verdadeiramente importantes. Ele está velho, sabes, e não viverá muito mais tempo, de modo que precisa de dez mil dólares para deixar à mulher. Nós já juntámos sete mil. Portanto, já não falta muito, e Mister Windenbarron ajudar-nos-á enquanto puder. Tem sido um bom amigo para o pai e para mim.

O entusiasmo do tom fez-me sentir ligeiramente maldisposta. Só nessa altura é que me apercebi de que a sua vida prosseguira, tal como a minha, e ele encontrara novos amigos e outras aspirações.

- Volta à noite - convidou o tom, como que ansioso por me ver fora do alcance do pai -, e ouve o pai a chamar o público, assiste ao espectáculo e, quando as luzes se acenderem e a música soar, quem sabe se não experimentarás um pouco da febre do circo que tanta gente sente.

O que eu sentia era pena dele. Pena por alguém decidido a destruir-se a si próprio.

Passei o resto da tarde num quarto de motel, a tentar descansar e a reflectir sobre as minhas dúvidas. Tinha a impressão de que não havia nada a fazer para que o tom mudasse de ideias, mas ainda tinha de tentar mais uma vez.

Nessa noite, cerca das vinte e duas horas, vesti um vestido simples de Verão e parti novamente em direcção aos terrenos onde o circo estava instalado. Deparou-se-me uma espantosa metamorfose. A roda gigante girava lentamente, deslumbrando os olhos com as suas fiadas triplas de luzes coloridas. De resto, não havia edifício, tenda ou atrelado da caravana que não se apresentasse brilhantemente iluminado. As luzes, a música e as hordas de gente criavam uma espécie de magia que eu nunca imaginara. As construções modestas e mal pintadas tinham uma aparência impecável e bela. Os vagões que, de dia, exibiam amolgadelas e faltas de tinta vermelha e dourada, pareciam completamente novos. A música pairava no ar, vinda de várias fontes e, para minha grande surpresa, as centenas de pessoas provincianas, de roupa modesta, que afluíam pelos portões abertos, criavam uma atmosfera de grande excitação com as suas alegres expectativas de um bocado bem passado. Eu segui no meio da multidão, confundindo-me com ela. Reparei nas raparigas da minha idade que, abraçadas aos namorados, tinham tão pouca roupa vestida que o Tony acharia escandaloso. Pais de faces coradas levavam pela mão os mais novos, cuja vontade seria correr à vontade a descobrir o lugar; no fim dos grupos de famílias, deslocando-se com maior lentidão e dificuldade, vinham os mais idosos que estavam, nitidamente, mais habituados a passar os seus serões em cadeiras de baloiço nos alpendres.

Eu nunca fora, nos meus dezoito anos, uma única vez ao circo. A minha experiência com aquele tipo de espectáculo limitava-se à televisão, jamais tendo sentido o som, a visão, os cheiros de animais, humanos, feno, esterco, suor e, sobrepondo-se a todos eles, o aroma delicioso dos cachorros-quentes, hamburgers, gelados e pipocas que chegava de várias fontes.

Enquanto deambulava pelo terreno do circo, observando as tendas laterais, onde raparigas quase nuas e fortemente maquilhadas meneavam as ancas provocantemente e pessoas com deformidades físicas exibiam as suas misérias com uma espantosa indiferença, comecei a entender, pela primeira vez, o que atraíra o pobre rapazito de doze anos saído dos Willies... Atraíra-o de tal modo que o fizera regressar aos montes convencido de que aquele era o melhor dos mundos possíveis: melhor que as minas frias e escuras; melhor que fazer contrabando de bebidas alcoólicas e desafiar a Polícia; mil vezes melhor, tudo aquilo, que aquela miserável cabana nos montes e todas as outras como ela, onde a fama criada nunca era esquecida e os erros do passado perseguiam o seu autor até ao fim dos seus dias. Eu quase sentia pena daquele rapaz ignorante.

Óptimo para o pai, tudo aquilo, agora que já estava demasiado velho para pretender chegar mais alto. Não para o tom, nada daquilo, assim que se fartasse de sentir aqueles cheiros e sabores que um dia se tornariam entediantes. Eu não fora ali para ser seduzida.

Primeiro, precisava de um bilhete e, para o comprar, tive de ir para uma fila indiana que se formara até junto de um homem colocado em cima de um pedestal alto, que anunciava as virtudes do espectáculo de circo que decorria no interior. Não precisei de o ver para saber quem era. Metida na fila, ergui os olhos para o meu pai, vendo primeiro os seus pés calçados com botas de cabedal pretas que lhe chegavam quase aos joelhos. Depois, vinham as pernas musculosas, envolvidas em calças brancas o mais justas possível. A sua virilidade era tão evidente que me trouxe à memória os dias de escola, quando a miudagem ficava de olhos arregalados perante as fotografias de duques, generais e outros nobres que tão ousadamente se exibiam em calças parecidas com aquelas que o meu pai estava a usar. O casaco de abas de grilo era enfeitado por faixas douradas nas mangas, galões nos ombros e botões, tudo no mesmo tom, nas frentes sobrepostas. Por cima do branco impecável da gravata, via-se o mesmo rosto atraente de que me recordava, notavelmente igual. Não trazia os pecados escritos na cara, tão-pouco o tempo lhe tirara aquilo de que privara o meu avô. Não, o meu pai mantinha-se forte e poderoso como sempre, com uma aparência saudável como nunca lhe vira, mais bem arranjado, com a face tão impecavelmente barbeada que nem se lhe notava a sombra. Os seus olhos negros brilhavam, conferindo-lhe um aspecto carismático e magnético. Reparei que algumas mulheres erguiam o olhar para ele como se de um deus se tratasse.

De vez em quando, arrancava o chapéu preto da cabeça e utilizava-o em grandes floreados.

- Cinco dólares, senhoras e senhores, é tudo quanto custa entrar noutro mundo, um mundo que talvez não tenham possibilidade de ver outra vez... Um mundo onde homem e animal selvagem se desafiam um ao outro, onde lindas mulheres e homens corajosos arriscam a vida nos ares para vosso deleite. As crianças até aos doze anos só pagam dois dólares e meio. Os bebés de colo entram de graça! Venham ver Lady Godiva cavalgar o seu cavalo e saltar da sua montaria para aterrar um metro e meio acima... E aquele cabelo move-se, senhores, move-se!

E continuou a apregoar enquanto a caixa registadora, a pouca distância para a sua direita, tinia ruidosamente com a entrada do dinheiro. Eu ia-me aproximando a pouco e pouco do meu pai, enquanto o ouvia discorrer sobre os perigos que os reis da selva em breve iriam fazer correr ao seu domador, valsando ao estalar do chicote. Até ali ainda não me vira. Não tencionava permitir que tal acontecesse. Cobrira a cabeça com um chapéu de palhinha de abas largas, preso de baixo do queixo com um lenço de seda azul. E levara óculos escuros para pôr. Mas como era de noite, esqueci-me de o fazer. De repente, vi-me na frente da fila e o meu pai olhou para baixo.

- Ora, uma jovem assim não precisa de esconder os seus méritos - declarou e, inclinando-se, desatou-me o lenço e o chapéu saiu-me da cabeça. Os nossos rostos ficaram a centímetros de distância.

Ouvi-o suster subitamente a respiração.

Vi que ficara chocado. Por um momento, permaneceu sem fala, paralisado... Mas depois sorriu. Entregou-me o chapéu com o seu lenço de seda esvoaçante.

- Isso - exclamou para todos ouvirem -, uma cara assim tão bonita não deve ficar escondida...

Dito isto, passou à pessoa seguinte.

com que rapidez se recuperara da surpresa! Porque não conseguia eu fazer o mesmo? Senti os joelhos fracos, as pernas a tremer; tinha vontade de gritar, descompô-lo e dizer àquelas pessoas confiantes o tipo de monstro maléfico que ele era! Em vez disso, fui empurrada para a frente, ordenaram-me que me apressasse e, antes que percebesse o que estava a acontecer, dei comigo sentada numa bancada às manchas e com o meu irmão tom a sorrir-me.

- Caramba, aquilo é que foi, hen, a maneira como o pai te tirou o chapéu! Sem ele não lhe terias chamado a atenção... Por favor, Heavenly, põe outra cara! Não é preciso estares assim a tremer. Ele não pode magoar-te, e também não o faria.

Apertou-me por instantes contra o seu peito, como costumava fazer quando eu entrava em pânico.

- Tens aí atrás de ti uma pessoa ansiosa por te cumprimentar - sussurrou-me.

Levei as mãos, em que os anéis que pusera para impressionar o meu pai pesavam, à garganta, enquanto me virava lentamente, dando de caras com os olhos azuis descorados de um velho mirrado. Era o meu avô!

O meu avô, vestido como nunca o vira, com roupa desportiva de Verão e sapatos de cabedal nos pés. Os olhos pálidos, de expressão desconcertada, estavam cheios de lágrimas.

pela maneira como me fitava, estava a tentar, certamente, situar-me nos seus pensamentos e enquanto isso, reparei que engordara. Tinha as faces coradas de saúde.

- Oh - exclamou finalmente, ao reconhecer-me -, é a Heaven! Ela voltou p'ra nós! Tal qual prometeu! Annie - segredou, cutucando o ar ao seu lado com o cotovelo -, ela 'tá linda, na' tá, Annie?

Fez um gesto de abraço em torno da Annie que há tantos anos estava à sua direita e doeu, doeu muito ver que ele não conseguia viver sem fazer de conta de que ainda tinha a sua companheira viva. Lancei-lhe os braços ao pescoço e beijei-o na face.

- Oh, avô, é tão bom voltar a vê-lo, tão bom!

- Primeiro devias cumprimentar a tua avó, miúda, devias - admoestou.

Obedientemente, dei à figura imaginária da minha avó um abraço e beijei o ar no sítio onde teria estado o seu rosto; chorei por tudo o que ficara para trás e também por tudo o que ainda estava para vir. Como é que eu, que me submetera àquele gesto imaginário, ultrapassaria a teimosia e o orgulho que todos os Casteel tinham, fazendo com que o tom caísse em si?

A vida espalhafatosa e insignificante do circo não era para o tom, sobretudo quando eu tinha dinheiro mais do que necessário para lhe pagar a universidade. Ao olhar para o meu avô, pareceu-me vislumbrar um ponto fraco na armadura de orgulho provinciano do tom.

- Ainda tem saudades dos montes, avô?

O velho rosto patético perdeu todo o fulgor. O seu ar saudável foi ensombrado por uma melancolia dolorosa e ele pareceu encolher.

- Na' há lugar como lá, onde pertencemos. Annie está sempre a pedir-me que a leve para lá... para o sítio donde a gente veio.

 

CAÇADORES DE SONHOS

Deixei o tom e o meu avô cheia de frustração, furiosa e decidida agora a salvar a Fanny do pior de si mesma, já que não o podia fazer por mais ninguém. Num dos bolsos das calças do meu avô ficara um maço de notas que ele nem sequer se dera ao trabalho de contar.

- Quando eu me for embora entregue este dinheiro ao tom - instruí-o. - Faça com que ele o aceite e o utilize para o seu futuro.

Porém, só Deus poderia adivinhar o que um velho senil faria com tão grande quantia.

Pus-me de novo a caminho, desta vez rumo a Nashville, para onde a Fanny fora viver depois de vender o bebé ao reverendo Wayland Wise e à esposa. Assim que cheguei à cidade, meti-me num táxi e dei a morada da Fanny ao motorista, depois recostei-me e fechei os olhos. Eu parecia condenada a fracassar em tudo o que empreendia. O Troy era o único porto seguro à vista, e eu sentia uma falta dolorosa da sua força ao meu lado. No entanto, aquilo era algo que eu tinha de fazer sozinha. Nunca poderia permitir que a Fanny se intrometesse na minha vida privada, nunca.

Em Nashville, uma cidade que me pareceu graciosamente antiquada e muito bonita, o tempo estava quente e abafado. Nuvens escuras pairavam no céu enquanto o táxi onde eu seguia percorria lindas ruas ladeadas de árvores, passando em frente de ostentosas e antiquadas casas vitorianas e algumas mansões modernas cuja beleza era de tirar a respiração. No entanto, quando o táxi se deteve em frente da morada que eu dera, a casa de quatro andares, outrora possivelmente imponente, estava em mau estado, com a tinta a cair e as persianas descaídas, como deviam apresentar-se todas as habitações de uma das piores zonas daquela cidade famosa.

Os tacões dos meus sapatos soaram nos degraus inseguros, fazendo com que vários jovens estiraçados em cadeiras e balouços no alpendre virassem indolentemente a cabeça para me mirar.

- Diabos me levem! - exclamou um deles, bem-parecido, usando unicamente uns jeans e com o peito transpirado à mostra. Pôs-se de pé num salto e fez uma vénia trocista à minha passagem. - Olhem quem nos vem visitar! A alta sociedade!

- Sou a Heaven Casteel - principiei, esforçando-me por não me deixar intimidar pelos sete pares de olhos fixos em mim com aparente hostilidade. - A Fanny Louisa é minha irmã.

- É verdade - disse o mesmo jovem que se levantara -, reconheço-a das fotografias que ela passa a vida a mostrar da irmã rica que nunca lhe manda dinheiro.

Empalideci. A Fanny nunca me escrevera! Se tinha fotografias, estas deviam ter-lhe sido dadas pelo tom, para quem as enviara. Ocorreu-me então, pela primeira vez, a possibilidade de o meu irmão me ter desviado correspondência da Fanny que achasse desnecessário eu receber.

- A Fanny está em casa?

- Na' - respondeu uma bonita loura, de cigarro pendurado ao canto dos lábios cheios e vermelhos, com voz arrastada. - A Fanny 'tá convencida de que conseguiu um papel principal que devia ser p'ra mim... mas não chegará lá. Não sabe cantar, representar ou dançar nada de jeito. Eu não estou minimamente preocupada com a audição que vou ter amanhã.

Era mesmo da Fanny tentar passar à frente de alguém para arranjar trabalho; porém não o disse. Telefonara antecipadamente à minha irmã a avisá-la da minha chegada, mas ainda assim ela não tivera a delicadeza de me esperar. A minha desilusão devia ser visível no meu rosto.

- Ela ficou tão entusiasmada que o mais certo é ter-se esquecido da sua vinda - explicou outro rapaz de aspecto agradável que declarara já que eu não falava como a minha irmã.

Nessa altura já se reunira um grupo de jovens à minha volta, no alpendre, a mirarem-me com ar embasbacado e curioso; foi, pois, com alívio que consegui, por fim, escapar-me para dentro da casa, forçada por um trovão inesperado.

- Quarto quatrocentos e quatro - gritou uma rapariga chamada Rosemary.

A chuva que estivera a ameaçar começou a cair fortemente na altura em que eu entrei no quarto da Fanny, cuja porta encontrei aberta. Era uma divisão pequena mas razoavelmente acolhedora. Ou tê-lo-ia sido se a Fanny se desse ao cuidado de arrumar a roupa, limpar o pó e aspirar de vez em quando. Comecei imediatamente a fazer-lhe a cama de lavado com uns lençóis que encontrei numa gaveta. Depois de o quarto ficar mais apresentável, sentei-me numa cadeira ao pé da janela, a olhar para a tempestade sem a ver, pensando no Troy, no tom, no Keith e na "Nossa" Jane, o que foi suficiente para me fazer chorar. Como eu era imatura e estúpida em alimentar ilusões em relação ao passado, permitindo que a riqueza e a beleza da vida me ultrapassassem, por não ser capaz de controlar o destino e a vida de outros. Dali em diante, aceitaria o que me fosse oferecido e esqueceria o que ficara para trás. Ninguém estava a sofrer mais do que eu, nem mesmo a Fanny.

Premi as têmporas latejantes com as mãos. O tamborilar da chuva, os trovões e os relâmpagos que via do lado de fora da janela fizeram-me dormitar. O Troy e eu corríamos lado a lado no meio das nuvens, lutando contra vagas de névoa e cinco velhos que nos perseguiam. "Corre tu à frente", ordenou-me o Troy, empurrando-me para diante, "enquanto eu lhes troco as voltas indo noutra direcção."

Não! Não! Gritei silenciosamente no meu sonho. Porém, os cinco velhos não se enganaram. Seguiram por onde ele fugira, não por onde eu seguira!

Acordei sobressaltada.

A chuva refrescara o quarto que, até ali, estivera insuportavelmente abafado. A penumbra empoeirada do fim da tarde acentuava a paisagem, emprestando um ar romântico às casas velhas, com os seus alpendres e varandas extravagantes. Olhei em volta, para aquele quarto pobremente mobilado, e senti-me desorientada. Onde estava eu?

Antes de chegar a uma conclusão, a porta abriu-se de rompante. Ensopada até aos ossos e a queixar-se sonoramente de si para si sobre o mau tempo, a minha irmã Fanny, de dezasseis anos, atravessou o espaço estreito que nos separava, a correr, e atirou-se para os meus braços.

- Heaven, és tu! Vieste mesmo! Queres saber de mim! - Um abraço rápido, um beijo repenicado na minha cara e afastou-se de rompante, olhando para si mesma. - O raio da chuva deu-me cabo da melhor fatiota qu'eu tenho!

A Fanny virou-se e despiu o vestido vermelho ensopado, antes de se deixar cair numa cadeira para descalçar as meias botas de plástico perladas de gotas de água.

- Diabos me levem se os pés não me doem até à cintura!

Fiquei paralisada. Vi de novo a Kitty na minha frente.

Quantas vezes a ouvira utilizar aquelas mesmas palavras; mas enfim, todos os moradores dos montes e vales dos Willies utilizavam mais ou menos as mesmas expressões.

- Os malfadados agentes fizeram-me ir até lá quando tencionava ficar aqui à tua espera, e quando lá cheguei só queriam que eu me pusesse a "ler". Disse-lhes que ainda na' era capaz de ler bem. O qu'eu queria era um papel p'ra dançar ou cantar! Mas eles na' me dão outra coisa que na' sejam coisas pequenas sem palavras... e eu quando a caminhar p'ra lá há coisa d'ano e meio ou mais!

A Fanny tivera sempre o condão de se libertar das suas frustrações com grande facilidade, e foi o que voltou a fazer naquela ocasião. Dirigindo-me um sorriso esfuziante que me revelou os seus dentes pequenos, brancos e iguais, ligou o seu charme. Oh, que sorte tinham tido os filhos da família Casteel por terem dentes tão saudáveis!

- Trouxeste-me alguma coisa? Trouxeste? O tom escreveu a dizer que tens montes de massa p'ra gastar e que lhe mandaste montes de presentes p'ra ele e pró avô. Mas o avô na' precisa de pilim! Nem de presentes! Quem precisa de tudo o que possas dar sou eu!

Tornara-se mais esguia e bonita desde a última vez em que a vira, aparentemente também crescera, ou talvez a sua altura só estivesse exagerada pela combinação preta justa que vestia, fazendo-a assemelhar-se vagamente a um lápis. O cabelo preto caía-lhe em longas madeixas da cabeça; contudo, apesar de molhada e com ar desalinhado, continuava a ser suficientemente encantadora para atrair o olhar de qualquer homem.

Eu sentia-me confusa com os meus sentimentos em relação a ela... Gostava dela por ser do meu sangue, achava que tinha obrigação de a amar e proteger.

Ao tirar, um a um, os presentes caros que lhe trouxera de dentro de um enorme saco de compras em cabedal, não gostei do ar de cobiça desvairada que lhe li nos olhos. Ainda eu não lhe entregara o último embrulho do saco já a Fanny rasgava o invólucro do primeiro volume, indiferente ao papel bonito e às fitas vistosas e caras com que vinham, indiferente a tudo o que não fosse o que estava dentro. Ao ver o vestido escarlate, soltou guinchos de prazer.

- Oh, oh! Trouxeste-me mesmo aquilo de qu'eu precisava prà festa aonde vou prà semana! Um vestido de baile encarnado!

Atirando o vestido para o lado, rasgou o papel do segundo presente, deixando-se arrastar pela excitação de descobrir uma bolsa de noite enfeitada com faixas largas de vidrilhos. Os sapatos de cetim vermelhos ficavam-lhe um tudo-nada pequenos, mas arranjou maneira de os calçar; o seu belo rosto exótico ficou extasiado quando, por fim, se lhe deparou a estola branca de raposa.

- Compraste isto tudo p'ra mim? Uma pele nova só p'ra mim? Oh, Heaven, nunca pensei que gostasses de mim, mas olha qu'é mesmo! Tinhas mesmo de me gramar p'ra me dares assim tanta coisa!

Foi então que, creio que pela primeira vez, reparou bem em mim. Franziu os olhos pretos até o branco destes ficar reduzido a uma nesga fina entre as densas pestanas negras. Eu mudara muito, assim mo diziam os meus espelhos. A beleza que fora apenas superficial nos meus tempos nos Willies, intensificara-se, e um corte de cabelo fizera milagres que me haviam favorecido o rosto. O meu vestido caro ajustava-se às curvas definidas de um corpo bem delineado, e eu apercebi-me, pela maneira como a Fanny me mirava, que me vestira com cuidado especial para aquele encontro com a minha irmã.

Os olhos escuros da Fanny percorreram-me da cabeça aos pés, fixando-se depois de novo no meu rosto. Assobiou de admiração.

- Vejam-me só, a minha mana mais velha 'tá com um ar mesmo sexy!

Corei, embaraçada.

- Já não vivemos nos montes. Em Boston, as raparigas não casam aos doze, treze ou catorze... Quase poderias chamar-me solteirona.

- Falas de maneira esquisita - declarou agora com manifesta hostilidade nos olhos. - Só me trouxeste coisas! Ao avô mandaste dinheiro, e ele sem ter onde gastá-lo!

- Vê dentro da tua bolsa, Fanny.

Voltando a guinchar de prazer, abriu precipitadamente a delicada bolsinha que me custara duzentos dólares e ficou a olhar para as dez notas de cem dólares como se contasse com mais.

- Oh, Jesus Cristo na cruz! - exclamou com voz embargada, contando atentamente o dinheiro. - Olhem-me só pró qu'ela me trouxe... Salvaste-me a vida. Estava lisa... Só tinha que chegasse até ao fim desta semana. - Ergueu os olhos, onde brilhavam cintilações vermelhas do vestido, e fitou-me. - Obrigada, Heaven.

Sorriu e, ao fazê-lo, os seus dentes brilharam, alvos, contrastando com a pele morena.

- Vá, conta-me o que tens feito nessa cidade onde ouço dizer que todas as madamas usam meias azuis e os homens gostam mais de política do que de fornicar!

Nesse dia comportei-me como uma tola... descuidada, esquecida do tipo de rapariga que a Fanny era.

Talvez tenha sido porque era a primeira vez na vida da Fanny que esta me escutava com atenção. Só depois é que me dei conta de que era demasiado tarde, e amaldiçoei-me por revelar tantos aspectos que deviam ter continuado secretos, sobretudo em relação à Fanny.

Quando caí em mim, a minha irmã enrolara-se em cima da cama, apenas de calcinhas pretas e com um soutien cujo fecho, na frente, abria e fechava com movimentos ininterruptos e automáticos.

- Agora deixa-me ver se percebi patavina deste imbróglio todo... A tua avó Jillian tem sessenta e um anos e parece mais nova?... Que raio de ar é que vocês têm lá por essas bandas?

A astúcia que lhe lia nos olhos devolveu-me de novo a sanidade e pôs-me de sobreaviso.

- Fala-me do que tens feito - apressei-me a dizer. - Tiveste notícias da tua menina?

Ao que parecia, eu escolhera o tema de conversa mais indicado para lhe desviar a atenção. Atirou-se avidamente ao assunto.

- A velhota istá sempre a mandar-me fotos da minha menina. Chamam-lhe Darcy. É um nome bonito, na' achas? Tem cabelo preto... oh, caraças, é mesmo uma coisinha fofa.

Mal acabou de falar, saltou da cama e começou a remexer agitadamente numa gaveta cheia de roupa desalinhada, donde tirou um envelope castanho dentro do qual estavam vinte ou mais fotografias mostrando uma menina em vários graus de desenvolvimento.

- Vê-se mesmo de quem é filha, na' se vê? - perguntou com orgulho. - Claro que tem algumas coisas do Waysie. Poucas, mas algumas.

Waysie? Sorri ao lembrar-me do bom reverendo chamado "Waysie". Mas a Fanny não exagerava. A menina que eu vi nas fotografias era um bebé lindo. Admirava-me que uma criança nascida de uma união tão pecaminosa pudesse estar tão bem.

- É linda, Fanny, muito linda e, tal como disseste, herdou o que há de melhor nas tuas feições e nas do pai.

O rosto da Fanny contorceu-se dramaticamente. Atirou-se para cima da cama enxovalhada, sem se preocupar em afastar para o lado o vestido vermelho novo, os sapatos e a bolsa que ali deixara, e começou a gemer e a gritar, esmurrando as almofadas baratas com os dois punhos.

- Isto aqui na' presta, Heaven! Na' é nada como quando éramos novas lá prós montes! Aqueles realizadores e produtores da Opry gramam o meu aspecto mas detestam quando boto faladura! Mandam-me ter aulas de voz, voltar prà escola e aprender a falar ou ainda melhor, dizem-me qu'é melhor estudar dança p'ra na' ter qu'abrir a boca! Um dia fui a uma aula pr'aprender a ter maneiras, como eles dizem, mas doeu tanto esticar os músculos que nunca mais lá pus os cotos! Eu achava que bastava levantar as pernas pró alto, e tu sabes que na' tenho feito outra coisa na vida! Mas quando abro a goela, os tipos franzem a tromba como se lhes doessem os ouvidos! Dizem que tenho demasiado sotaque. Eu 'tava convencida que pràs cantoras de música regional isso nunca era de mais! Heaven, eles dizem que eu tenho uma cara e um corpo porreiros, mas qu'o talento é medíocre... Que querem eles dizer com isso? Se sou meio má, quer dizer que sou meio boa, por isso posso fazer melhor!

"Mas eu já na' quero saber mais disso p'ra nada! Chateia-me ouvi-los rir de mim. E agora acabou-se-me a massa toda. Houve uma altura em que ganhei tanto dele que me habituei a gastá-lo. Costumava dormir em cima dele. com medo que alguém mo fanasse. Se tu na' tivesses aparcido só me restavam quinze dele até ao fim da semana e depois tinha de me pôr à rua a ganhá-lo como pudesse.

Olhou-me de soslaio para ver qual era a minha reacção e, ao ver que não era nenhuma, endireitou-se e esfregou os olhos com os punhos para limpar as lágrimas. E, como se tivesse carregado num botão, estas sumiram e a sua expressão de desalento e frustração desapareceu. Sorriu de novo. Era um sorriso maldoso e detestável.

- Agora tu cheiras a rica, Heaven. A sério. Aposto qu'esse teu perfume custou um balúrdio. E nunca vi um cabedal ta' macio como o dessa tua mala e sapatos. Aposto que tens dez casacos de pele! E que tens centenas de vestidos, milhares de sapatos, milhões de dólares p'ra gastar! E trazes presentes que custaram uma pipa de massa. E na' te pareces comigo, nem com o tom; 'tás aí sentada com pena de mim porque tu tens tudo e eu na' tenho nada! Olha p'ra este quarto e pensa no sítio de onde vieste tu. Oh, o tom contou-me tudo o que 'tás a querer esconder-me. Na' te falta nada lá naquela mansão com cinquenta quartos e casas de banho e Deus sabe para que vos serve tanta fartura! Tu tens três quartos só p'ra ti, com quatro roupeiros cheios de roupa, malas e sapatos, jóias e peles, e na' tarda também vais prà universidade. Eu cá só tenho os pés doridos e estou pior que estragada com toda esta cidade que não sabe tratar a gente como deve ser!

Voltou a esfregar rudemente os olhos com os punhos, deixando a pele à sua volta avermelhada e com aspecto magoado.

- E ainda por cima mandaste passear o bonitão do Logan Stonewall! Se calhar nunca te passou por essa mona estúpida qu'eu se calhar o queria p'ra mim, pois na'? Tiraste-o de mim e eu tenho-te um pó por causa disso que nem imaginas! De cada vez que penso no que me fizeste, odeio-te! Mesmo quando tenho saudades tuas, odeio-te! E é tempo de fazeres mais alguma coisa por mim do que dares-me uma mancheia de notas miseráveis qu'ainda por cima na' te fazem difrença nenhuma! Estás cheia dele... Na' penses que me dás umas quantas miseráveis notas de cem, porque tens muito mais donde este veio!

Antes que eu pudesse dar-me conta do que estava a acontecer, pôs-se de pé e atirou-se a mim!

Esbofeteei-a pela primeira vez na vida. A surpresa que teve ao sentir a minha mão no seu rosto fê-la recuar e choramingar.

- Foi a primeira vez que me bateste - soluçou. - Ficaste má, Heaven Casteel, má!

- Veste a roupa - ordenei rispidamente. - Tenho fome e quero comer.

Vi-a enfiar uma diminuta saia vermelha que parecia de cabedal e uma camisola de algodão branca que lhe ficava demasiado pequena. Das orelhas furadas pendiam-lhe argolas douradas. Os sapatos de plástico encarnado de solas finas e ar estafado que calçou tinham saltos de doze centímetros, e o conteúdo da mala de plástico encarnado que deixara cair ao ver-me, estavam espalhados no chão. Vi um maço de cigarros amassado ao lado de cinco pequenas embalagens quadradas de preservativos. Desviei o olhar.

- Lamento ter vindo, Fanny. Depois de jantarmos, ir-me-ei embora.

A minha irmã manteve-se calada durante o jantar num restaurante italiano que ficava ao fundo da rua onde morava. A Fanny devorou tudo o que tinha no prato e o que deixei, embora lhe tivesse mandado vir outra dose de bom grado. De vez em quando fitava-me furtiva e calculistamente, e eu não precisei de reflectir muito para saber que planeava o passo seguinte. Ansiosa por deixá-la e voltar para junto do Troy, ainda permiti que me convencesse a acompanhá-la de novo até ao seu pequeno quarto.

- Por favor, Heaven, por favor, em nome dos bons velhos tempos, porque és minha mana e na' podes aparecer aqui e depois deixares-me entregue à minha sorte.

Mal entrámos no quarto, virou-se para mim e enfrentou-me.

- Agora espera aí! - gritou, pousando os punhos nas ancas e afastando os pés. - Quem é que tu pensas que és? Na' podes chegar aqui e pirares-te sem fazeres alguma coisa mais do que pagares-me uma refeição, roupa barata e umas migalhas de dinheiro!

Enfureceu-me. A Fanny nunca me dera uma palavra de afecto em toda a sua vida, muito menos algo material.

- Porque não me perguntas pelo tom, pelo Keith e pela "Nossa" Jane?

- Não me posso dar ao luxo de me preocupar com mais ninguém senão eu! - berrou, bloqueando-me o caminho, de maneira a eu não poder chegar à porta sem a afastar primeiro. - Estás em dívida p'ra comigo, Heaven! Se estás! Quando a mãe se pirou, quem devia ter ficado a cuidar de mim eras tu... Mas estavas-te nas tintas! Deixaste-o pai vender-me ao reverendo e à mulher, e eles agora têm a minha bebé! E tu sabias qu'eu na' devia tê-la vendido! Podias ter-me impedido, mas na' fizeste força bastante!

Fiquei de boca aberta! Eu esforçara-me ao máximo para fazer com que a Fanny reconsiderasse a sua decisão de vender a filha por dez mil dólares.

- Eu tentei, Fanny, eu tentei - disse com a paciência já esgotada. - E agora é demasiado tarde.

- Nunca é demasiado tarde! E não tentaste com força suficiente! Devias ter encontrado as palavras certas p'ra dizer e eu tiraria dali o sentido! Agora na' tenho nada! Nem dinheiro nem bebé! Quero tanto a minha menina que chega a doer! Na' consigo dormir só de pensar que 'tá com eles e que eu nunca a terei... eu que gosto tanto dela, preciso dela, quero-a comigo. Só a tive ao meu colo uma vez, pois tiraram-ma logo para a entregar à velha senhora Wise.

Aturdida pela Fanny e pelos seus irracionais arroubos de temperamento, tentei exprimir simpatia mas não era isso o que ela queria.

- Na' tentes dizer-me que devia ter tido juízo. Na' tive e agora estou a pagá-las. Portanto, aqui vai o que podes fazer com toda essa massa que tens enfiada não sei aonde... Voltas a Winnerrow e dás ao reverendo e à mulher os dez mil dólares que eles pagaram pela minha filha! Ou dá-lhes o dobro, mas compra-me a menina de volta!

Não consegui falar. O que ela pedia era impossível. Os olhos da Fanny mergulharam, incandescentes, nos meus.

- Ouviste o qu'eu disse? Tens de me comprar a minha filha e dar-ma de volta!

- Não podes estar a falar a sério! Não há possibilidade de recuperares a tua filha! Disseste-me que, quando entraste no hospital, assinaste documentos de adopção...

- Não, não assinei! Foram só uns papéis a dizer que Mister Wise podia ficar com a menina até eu ter idade suficiente para tomar conta dela.

Eu não saberia dizer se mentia; nunca fora capaz de adivinhar o que se passava na cabeça da Fanny, como o tom era. Ainda assim, tentei racionalizar.

- Não posso ir até lá e tirar a menina a uns pais que a adoram e cuidam impecavelmente dela. Tu mostraste-me as fotografias, Fanny. Salta à vista que a amam o suficiente para lhe darem tudo. E tu, que tens tu para lhe oferecer? Não posso colocar uma criança indefesa nas tuas mãos e no tipo de vida que levas. - Abri os braços, abarcando o quarto miserável, onde nem um berço caberia. - Que farias com uma criança tão pequena e a precisar de tantas coisas? Onde a deixarias enquanto fosses trabalhar? És capaz de me dizer?

- Eu na' tenho de te dizer nada! - exclamou com os olhos a faiscar antes de se encherem de lágrimas. - Ou fazes o que te digo ou sirvo-me desta massa p'ra me meter num avião e ir até Boston! E quando falar com a tua avó Jillian, que parece uma anormal de uma rapariga, hei-de contar-lhe tudo sobre a sua filha, a anjinha que fugiu de Boston. Darei com a língua nos dentes, falarei daquela cabana sem canalização, do pai e do seu contrabando, dos seus cinco irmãos na cadeia, e quando essa tal Jillian souber o que a sua anjinha passou antes de morrer, deixará de parecer tão nova. Dir-lhe-ei que o pai costumava visitar a "Casa" da Shirley ainda eles eram casados. E falar-lhe-ei dos credores, da latrina fora de casa a tresandar e da fome qu'a sua rica filhinha passou. E do lindo fim qu'ela levou depois de parir a filha em casa sem médico nenhum, só com a ajuda da avó. E quando acabar de lhe contar todas as tuas misérias, ela acabará a odiar-te... se antes disso não perder o pouco juízo que lhe resta!

Ainda estupefacta, só conseguia olhar fixamente para a Fanny, arrasada por ela poder odiar-me tanto, quando eu toda a vida fizera o melhor que podia por ela. Não sabia como enfrentar uma pessoa aparentemente tão obcecada como ela parecia estar. Passei nervosamente as mãos pelo cabelo e depois dirigi-me para a porta.

- Nã'te pires ainda, Heaven Leigh Casteel!

O seu sarcasmo, proferido com acentuado sotaque, fez-me sentir envergonhada. Oh, ela sabia bem como atingir-me nos pontos mais sensíveis, lembrando-me quem eu era e de onde viera.

Senti um frio inesperado apesar de se estar a meio do Verão, e a tempestade só refrescara o dia quente, não o esfriara.

- Farei tudo o que puder p'ra te prejudicar... a na' ser que me vás buscar a minha filha!

- Sabes que não posso fazê-lo - repeti, tão farta da Fanny e da sua voz estridente que desejei não ter vindo.

- Então que podes fazer por mim? Ha? Podes dar-me tudo o que tens? Um quarto naquela casa enorme p'ra eu poder gozar o mesmo que tu? Se gostares de mim, como 'tás sempre a dizer, hás-de querer-me ao pé de ti todos os dias.

Eu sentia cada vez mais frio. A última pessoa que precisava de ver diariamente durante o resto da vida era a Fanny.

- Lamento, Fanny - principiei em tom gélido -, mas não te quero na minha vida. Enviar-te-ei dinheiro todos os meses, o suficiente para viveres com conforto, mas nunca serás convidada para ir viver na casa onde eu estou. compreendes, o marido da minha avó fez-me prometer que nunca permitiria que nenhum membro da minha família Casteel a incomodasse minimamente, e se estás a pensar em me fazeres chantagem com a ameaça de lhe ires contar que te vim ver a ti e ao tom, esquece. É que ele pode riscar-me da sua vida sem um cêntimo, com a mesma facilidade com que pestanejas... E depois não terás um chavo... Muito menos com que comprar a tua filha.

Os olhos escuros, que faziam lembrar duas fendas, estreitaram-se ainda mais.

- Quanto me vais mandar por mês?

- O suficiente! - respondi com secura.

- Então manda o dobro do suficiente, pois quando tiver a minha menina comigo vou precisar de toda a massa que possas dispensar-me. E se me desiludires, Heaven Casteel, arranjarei maneira de chegar a ti, e estar-me-ei nas tintas p'ra que percas tudo! Seja como for, não o mereces!

O vento dos Willies entrou no quarto e gelou-me ainda mais. Tive a impressão de ouvir os lobos a uivar à distância. Pareceu-me que a neve se amontoava, alta, em torno da cabana nos montes, aprisionando-me. Fiz um esforço para me concentrar no que tinha de fazer e dizer, enquanto os segundos passavam lentamente rumo à eternidade, e as cortinas rasgadas se agitavam quarto dentro como espectros.

Nem por um momento duvidei de que a Fanny fizesse exactamente o que prometera, só para poder vingar-se por eu ter nascido primeiro e dispor do que ela considerara alguma espécie de vantagem invisível, quando nunca nada de vantajoso me acontecera até o Logan me preferir a ela..

Só nessa altura é que a verdade me atingiu em cheio no rosto. Não acreditara nela quando mo dissera. Era por causa do Logan que ela me odiava! Ela sempre o desejara mas ele nunca lhe dera importância, apesar de tudo o que a Fanny fizera para atrair a sua atenção. Cobri as faces febris com as mãos, perguntando a mim mesma o que haveria de errado com as raparigas dos montes que cresciam demasiado depressa... e determinavam, muito antes do tempo, qual o homem certo para elas, quando nenhuma de nós tinha possibilidade de o saber.

A Sarah e a sua triste escolha... Amar um homem como o Luke Casteel. A Kitty Setterton e o seu amor insano por um homem que só a usara para satisfazer as suas necessidades fisiológicas. A Fanny, porém, ali estava com os seus olhos escuros cheios de ódio, a tentar reduzir-me a pó, quando o Logan já nada tinha a ver comigo... Mas diabos me levassem se lho entregaria para que desse cabo dele!

- Está bem, Fanny, acalma-te - disse com o maior autoritarismo de que fui capaz. - Irei até Winnerrow e conversarei com os Wise sobre a possibilidade de voltar a comprar-lhes o bebé que lhes vendeste. Mas, enquanto isso, ficas aqui quietinha a pensar muito bem no que precisarás de fazer para tomares conta daquela menina e para lhe dares uma vida saudável e onde nada lhe falte. O dinheiro não chega para fazer uma boa mãe. Será preciso teres mais dedicação e carinho pela tua filha do que por ti própria. Terás de desistir das tuas aspirações ao palco e ficar em casa a tomar conta da Darcy.

- Na' tenho o qu'é preciso para ter sucesso no Opry, como sempre pensei - lamentou-se penosamente, o que me fez sentir pena dela por um momento. - Portanto, mais vale desistir. Há aqui um tipo que me pediu p'ra casar com ele e pode ser que aceite. Tem cinquenta e dois anos e não o amo, mas tem um bom emprego e pode sustentar-me a mim e à minha filha... com a tua ajuda, claro. Esperarei aqui p'la tua vinda e nessa altura já terei dado o nó mais ele. E, aqui, desta massa que me deste, na' gastarei mais qu'a que precisar.

Talvez fosse disparate ou falta de oportunidade minha tocar no assunto, mas não pude conter-me.

- Não cometas a estupidez de te ligar a um homem muito mais velho - declarei. - Arranja um rapaz mais ou menos da tua idade, depois casem e fiquem tranquilos; quando eu voltar com a tua filha, ajudar-te-ei até deixares de precisar de mim.

A Fanny fez brilhar um bonito sorriso de satisfação.

- Claro que ficaremos. Na' contarei a ninguém. Nem mesmo ao Mallory. É o tipo que me ama. Podes ir e fazer o que puderes... e ganhares... Tu ganhas sempre, não é, Heaven?

E passou mais uma vez os olhos cobiçosos pela minha roupa e pelas jóias que me habituara de tal modo a usar que já nem me lembrava que as tinha.

Contudo, não foi para Winnerrow que segui depois de deixar a Fanny deitada na sua cama em Nashville. Telefonei ao tom.

- A Fanny quer que eu lhe compre a menina para a ter de volta, tom. Serve-te de parte do dinheiro que deixei ao avô e apanha um avião até Winnerrow para vires ter comigo e irmos os dois falar com os Wise.

- Heavenly, tu sabes que eu não posso fazer semelhante coisa! Foste uma parva em dar todo aquele dinheiro ao avô, porque agora nem sequer sabe dele! Sabes que andou sempre com muito pouco no bolso... Que foi que te deu para lhe entregares assim tanto dinheiro?

- Porque tu não o aceitarias! - exclamei, à beira das lágrimas por causa da teimosia do meu irmão.

- Quero abrir o meu caminho pelos meus próprios meios, não com o dinheiro dos outros - disse o tom teimosamente. - E se fores esperta esquece a promessa que fizeste à Fanny e deixa os Wise ficar com a menina que todos pensam que é deles. A Fanny não dará uma boa mãe, nem que lhe ofereças um milhão por mês, e tu sabes que é assim.

- Adeus, tom - sussurrei com uma certa sensação de derradeira despedida.

O tempo e as circunstâncias tinham-me roubado o irmão que um dia fora o meu ídolo. Agora só tinha o Troy, que não se mostrou muito bem-disposto quando lhe telefonei.

- Gostaria que voltasses depressa, Heaven - disse-me com uma voz estranha. - Às vezes acordo a meio da noite convencido de que não passas de um sonho e que nunca mais voltarei a ver-te.

- Eu amo-te, Troy! Não sou um sonho! Assim que falar com os Wise, irei imediatamente para aí e casaremos.

- Mas pareces-me distante e diferente.

- É o vento nas linhas telefónicas. Ouço-o sempre. Ainda bem que não sou só eu.

- Heaven... - Fez uma pausa e depois disse: - Deixa estar, não quero implorar.

Esperei pelo voo seguinte que me levasse para a Virgínia Ocidental, seguindo depois para Winnerrow e, aí chegada, para a Main Street, onde o Logan morava, por cima do drugstore Stonewall.

Oh, eu estava a desafiar o destino a manifestar-se no seu pior, mas na altura não o sabia. Só sabia que queria ganhar no jogo da sorte em que me empenhara... E quem sabe se o dinheiro não conseguiria comprar de novo uma menina, que talvez no futuro ficasse grata...

 

CONTRA TODAS AS VICISSITUDES

Quando entrei na igreja, estavam a cantar. com os rostinhos inocentes erguidos, entoavam os gloriosos cânticos lítúrgicos que me trouxeram à memória o tempo da minha juventude, em que a Sarah fizera de minha mãe, em que tivera por lar a cabana nos Willies, e que o lado mais doce da minha vida fora o meu amor pelo Logan Stonewall e as horas que ambos passávamos na igreja aos domingos.

E as vozes, enlevadas na celebração do melhor momento das suas vidas que se manifestava aos domingos, soavam com espantosa limpidez naquela tarde escaldante de Verão. De vez em quando, o céu era iluminado por raios coruscantes. Entrei na igreja atrás das últimas pessoas a chegar e reparei que o ar era agitado por inúmeros leques de mão, como se o ar condicionado estivesse desligado, e vi-me de novo transportada para o tempo em que não passava de uma reles Casteel.

Oh, aquelas maviosas e sãs vozes de anjo eram as mesmas capazes de refilar, praguejar e amaldiçoar... Naquele momento, quem poderia acreditar em tal? Não qualquer estranho que não os conhecesse intimamente como todos os moradores do vale e dos montes. Sentei-me discretamente na bancada lateral do fundo e fiquei surpreendida ao verificar que havia um número considerável de habitantes dos montes na igreja, quando não era costume participarem nos ofícios nocturnos, principalmente numa noite escaldante como aquela. Os citadinos envergavam os seus melhores fatos e não se deram ao cuidado de virar a cabeça para olhar para mim, fizeram-no apenas com os olhos. Miraram a minha roupa com ar superior e uniram-se na sua hipocrisia colectiva para formar julgamentos precipitados que raramente se baseavam em factos, apenas em suspeitas e no seu instinto de rebanho.

Apesar do meu requinte, conheciam-me. Não obstante a minha roupa, não me queriam no meio deles. Não precisavam sequer de dizer uma palavra; a sua animosidade era aguda e acutilante e, se eu não estivesse tão determinada, poderia ter sido levada a afastar-me, certa de que, por muito rica e famosa que me tornasse, jamais conquistaria o seu respeito, admiração ou, o que eu desejava acima de tudo, a sua inveja. Nada mudara na ordem do que eles consideravam certo, errado ou adequado, para as pessoas como eu.

O povo dos montes continuava a sentar-se nas bancadas de trás, o dos vales ainda mantinha o seu lugar de superioridade nas do meio e aqueles que gozavam de um estatuto especial, sentavam-se mais perto de Deus, nas primeiras filas da coxia central; os que ocupavam os bancos da frente eram os que mais contribuíam para a obra de caridade ou o fundo de construção então a decorrer. Era aí que se encontrava a Rosalynn Wise, aprumada e muito bem posta, fitando, com olhos inexpressivos, o marido que naquele momento subia para o palanque. A batina preta e lustrosa assentava-lhe tão bem que parecia ter a mesma esbeltez que eu lhe conhecera quando o vira pela primeira vez, tinha eu dez anos. Porém, todos sabiam que o reverendo Wayland Wise tinha um apetite tão devorador que todos os anos ganhava, pelo menos, mais cinco quilos.

Ao entrar na igreja, fora minha intenção ocupar o meu lugar de sempre, que era também onde se estava mais ao abrigo das rajadas de ar gelado que entravam pela porta que era constantemente aberta. Para minha própria surpresa, não foi aí que fiquei. Não tardei a levantar-me e fui até à terceira fila da coxia central, com todos os olhares pousados em mim pela minha audácia, onde encontrei um banco vazio e, depois de nele me instalar, tirei um livro de cânticos da bolsa do lugar da frente, abri-o automaticamente na página duzentos e dezasseis e comecei a cantar. A cantar de verdade... com voz sonora, límpida, alta. É que todos os Casteel sabiam cantar, mesmo quando não tinham motivos nenhuns para tal.

Conseguira atrair as atenções gerais, conseguira-o de maneira chocante. Todos me fitavam, de boca aberta e olhos arregalados, estupefactos e alarmados por eu, uma Casteel, me atrever a tanto! Contudo, não tentei ignorá-los. Fixei directamente todos os olhares acusadores, e a voz não me tremeu uma única vez ao entoar um velho e conhecido cântico de que a "Nossa" Jane tanto gostava.

Enquanto cantava, quase podia captar os pensamentos deles no ar: "Aparecera mais uma reles Casteel a meter-se no seu meio santificado!" Os seus olhos escarnecedores passearam, mais uma vez, sobre o meu rosto, a minha roupa, desdenhando das jóias que eu usava em excesso só para lhes mostrar que agora tinha tudo!... Tudo!

Pela multidão perpassou um murmúrio de censura, mas eu não me importei. Dera a todos uma boa oportunidade para examinarem as minhas jóias e o meu fato caro.

No entanto, aqueles olhos mantinham-se inexpressivos e desinteressados ou, se o estavam, não se abriam desmedidamente de admiração ou estreitavam de surpresa. Para eles, havia maiores probabilidades de uma galinha vir a ter dentes do que eu tornar-me respeitável.

As mesmas cabeças que tão abruptamente se tinham voltado para me ver avançar para a frente, desviaram-se de novo ao mesmo tempo, quase fazendo lembrar um leque de rostos a virar-se. Os pacóvios que estavam ao meu lado e por trás imitaram os habitantes dos vales, ou seja, olharam ligeiramente para o outro lado. Empertiguei os ombros, sentei-me e aguardei. Aguardei pelo toque que porventura viesse através do sermão que o piedoso reverendo escolhesse fazer naquela noite específica de domingo. No ar pairava uma sensação de expectativa, um silêncio impregnado de má vontade. Constrangida, no meu banco, pensei no Logan e nos seus pais, curiosa em saber se teriam ido à igreja naquela noite. Simultaneamente esperançada e receosa em ver os Stonewall, perscrutei o mais disfarçadamente que pude à minha volta sem virar a cabeça.

Então, de repente, as cabeças voltaram a girar para um homem de idade que se arrastava pela coxia central. Mantive os olhos fixos em frente mas tal não impediu que o visse pelo canto do olho... Vinha sentar-se ao meu lado!

Era o meu avô!

O meu próprio avô, com quem estivera ainda há dois dias! O avô, que metera as notas de cem dólares no bolso, prometendo entregá-las ao tom. E que ali estava, longe da Florida e da Jórgia, a sorrir-me timidamente, mostrando o triste estado em que se encontrava a sua boca desdentada.

- Gosto muito de te ver, Heaven - sussurrou ao meu ouvido.

- Avô - exclamei em voz baixa. - Que está a fazer aqui? - Rodeei-lhe a cintura com o braço e amparei-o o melhor que pude. - Entregou ao tom o dinheiro que lhe dei?

- Não gosto de terras planas - murmurou à laia de explicação, baixando os olhos descorados que parecia esconderem lágrimas, embora eu soubesse que era frequente encherem-se de água.

- E quanto ao dinheiro?

- O tom não o quer.

Franzi a testa, sem saber como incutir algo no cérebro de um velho que não sabia separar a realidade da fantasia.

- Foi o pai que o mandou embora?

- O Luke é bom rapaz. Não faria uma coisa dessas.

Soube-me bem tê-lo ali ao meu lado, incutindo-me coragem com a sua presença. Ele não me rejeitara como o Keith e a "Nossa" Jane. O tom devia ter-lhe dito que eu ia a Winnerrow e ele conseguira ir até ali para me dar apoio moral; e não me restavam dúvidas de que o meu pai ficara com o dinheiro destinado ao tom.

Os membros da igreja voltaram-se para trás nos seus bancos e levaram um dedo admoestador aos lábios franzidos, fazendo com que o meu avô se afundasse o mais possível no seu banco numa tentativa de, obedientemente, desaparecer.

- Endireite-se - sibilei-lhe, dando-lhe uma cotovelada. - Não os deixe intimidá-lo.

O meu avô, porém, continuou na mesma posição, agarrado ao seu velho e gasto chapéu de palha, como se este fosse um escudo.

O reverendo Wise, em silêncio, empertigado e intimidante no alto do seu palanque, tinha os olhos postos em mim. A distância que se interpunha entre ele e eu devia andar à volta dos seis metros, mas ainda assim pareceu-me ler uma espécie de advertência nos seus olhos.

Devia ter iniciado o serviço mais cedo, pois não principiou com uma das suas enfadonhas orações que parecia nunca mais chegarem ao fim. Começou a falar num tom suave e coloquial que era simpático e persuasivo.

- O Inverno terminou. A Primavera chegou e partiu. Já vamos a meio de mais um Verão e não tarda que o Outono ilumine as nossas árvores, antes de a neve voltar a cair de novo... E que fizemos nós? Ganhámos terreno ou perdemo-lo? Sei que temos sofrido o pecado desde o dia em que nascemos e, no entanto, o Senhor, na sua misericórdia infinita, tem-nos mantido vivos.

"Rimos e chorámos, adoecemos e recuperámos a saúde. Alguns de nós deram à luz e outros perderam entes queridos, pois essa é a vontade do Senhor, dar, tirar, compensar perdas com dádivas, renovar para depois destruir ao sabor da natureza.

"Mas por muito grandes que tenham sido as nossas agruras, a torrente do Seu amor nunca deixou de nos acompanhar para que pudéssemos reunir-nos em lugares de adoração como este e celebrar a vida, mesmo que a morte nos cerque por todos os lados e a tragédia seja uma certeza no amanhã, do mesmo modo como hoje. Esta hora é o nosso momento de júbilo. Todos nós somos abençoados em certos aspectos e amaldiçoados noutros. Odiar, guardar rancor e julgar sem conhecer as circunstâncias é um crime comparável ao do assassínio. E embora ninguém possa saber o que nos vai no íntimo, não existem segredos para Aquele que está lá em cima.

O reverendo era como a Bíblia, ambíguo, e as suas palavras poderiam nada significar. Falava em tom monocórdico, sem jamais desviar os olhos de mim; eu, porém, vi-me obrigada a afastar os meus para não correr o risco de ficar paralisada de puro pavor, pois ele possuía esse tipo de poder hipnotizador.

A certa altura deparou-se-me, no meio dos numerosos olhares furtivos, a raiva ardente de um par de olhos verdes implacáveis que me fitavam por baixo da aba de um chapéu de palhinha verde... Mirando-me com desprezo estava a Reva Setterton, a mãe da Kitty Dennison!

Senti um arrepio gelado pela espinha. Como pudera voltar a Winnerrow sem me lembrar, sequer, da família da Kitty? Só acontecera nessa altura, em que olhei abertamente em volta para ver se o Logan ou os pais estavam presentes. Não os vi, felizmente. Levei a mão à testa, que ficara alarmantemente quente, me doía e latejava. Uma vaga de sensações que me eram desconhecidas começara a deixar-me tonta, alheada da realidade.

De repente, o meu avô endireitou-se e depois levantou-se, vacilante, pegando-me na mão para eu o imitar.

- Estás com mau aspecto - murmurou -, e o lugar da gente na' é aqui.

Eu estava tão débil que me deixei arrastar, contra vontade; apesar de velho, ele agarrou-me com tal força na mão que os anéis magoaram-me. Segui-o até ao fundo da igreja e, aí chegados, voltámos a sentar-nos. A memória avassaladora dos velhos tempos invadiu-me. Voltara a ser uma criança hipnotizada pela gente fina que vestia roupa nova e rica, impressionada pela igreja com as suas janelas altas de vidro fumado, humilhada pelo Deus que ignorava as nossas necessidades e protegia aqueles que davam dólares de esmola em vez de trocos.

A cabeça, latejante, doía-me terrivelmente. Que estava eu a fazer ali? Eu, uma maria-ninguém, um zero à esquerda, que viera bater-me contra um homem que era o gladiador campeão no coliseu de domingo de Winnerrow... Passeei desamparadamente o olhar pela igreja apinhada, na esperança de encontrar algum par de olhos amigável... Mas que fora que o reverendo dissera para que todos se virassem para me fitar?

Os rostos diluíram-se numa única bolha gigantesca com enormes olhos hostis, e toda a segurança que o amor do Troy me incutira caiu por terra. Trémula e debilitada pelo ódio que via em todo o lado, apeteceu-me levantar e fugir, arrastando o meu avô para longe, antes que os leões se escapulissem das jaulas!

Qual Bela Adormecida que de repente desperta no meio de um campo inimigo, perdi o encantamento que começara a sentir no dia em que entrara na Mansão Farthinggale. E que se intensificara quando conhecera o Troy.

Tudo isso parecia agora distante e irreal, um simples excesso da minha imaginação. Baixei os olhos para as minhas mãos e comecei a girar o anel de noivado com um diamante de nove quilates que o Troy fizera questão que eu passasse a usar mesmo que nunca casássemos. A seguir, brinquei inconscientemente com as pérolas e o pendente de diamantes e safiras, um presente especial de noivado do Troy. Era curioso ter necessidade de sentir a dureza daquelas jóias para me convencer de que ainda há poucos dias vivera numa das casas mais fabulosas e ricas do mundo.

Naquele domingo, naquela igreja, o tempo deixara de ter significado.

Fiquei mais velha e mais nova. Febril e infeliz, os meus ossos ansiavam por uma cama.

- Curvemos as nossas cabeças e oremos - instruiu o reverendo, libertando-me, finalmente, do seu olhar fixo e deixando-me respirar com mais facilidade. - Peçamos humildemente perdão, para que possamos iniciar este novo capítulo da nossa vida sem os velhos pecados, mágoas e promessas nunca cumpridas. Que cada dia nos faça respeitar aqueles que achamos que nos prejudicaram no passado, prometendo não fazer aos outros aquilo que não gostaríamos que nos fizessem a nós...

"Somos mortais vindos a este mundo para nele vivermos com humildade, sem ressentimentos nem mágoas... - e continuou a falar, aparentemente para mim.

Por fim, o sermão terminou e nada do que ele dissera era novidade para mim. Portanto, porque continuaria eu a achar que ele me advertia com os olhos para que não me manifestasse? Saberia ele que eu tinha conhecimento de que ele era o pai da linda menina que fora levada de um berçário e colocada, ainda a dormir, nos braços da sua mulher? Levantei-me, ajudei o meu avô a fazer o mesmo e dirigi-me para a porta sem esperar no meu lugar, como era suposto toda a escumalha dos montes fazer, de maneira a serem os últimos a sair e a apertar a mão santa e piedosa do reverendo.

Mal eu e o meu avô saímos para a rua enevoada de tanta humidade, ouvi um homem aproximar-se apressadamente de mim e chamar-me pelo nome. A princípio supus que fosse o Logan... Depois, o coração caiu-me aos pés. Era o Cal Dennison, de mão estendida e sorriso rasgado de contentamento no rosto.

- Heaven, querida Heaven - exclamou com voz entrecortada -, que bom voltar a ver-te! Estás linda, absolutamente espectacular... E agora fala-me de ti, do que tens feito e do que achas de Boston.

Em Winnerrow, quando fazia calor nas ruas e dentro de casa ainda estava mais quente, os residentes da cidade não tinham tendência para entrar nos quartos, preferindo antes os alpendres, que eram tão convidativos. Ouvi o tinir do gelo em jarros de limonada, enquanto ficava sem saber que dizer ao Cal Dennison, que um dia fora meu amigo e meu sedutor.

- Gosto muito de Boston - observei, dando o braço ao meu avô e encaminhando-me para o hotel onde me instalara.

Percorrer a rua principal a pé era como andar entre as fileiras do inimigo, e a última coisa que eu desejava era ser vista na companhia do Cal Dennison!

- Heaven, estás a tentar despachar-me? - perguntou o Cal, com uma camada de suor a cobrir-lhe o rosto agradável. - Por favor, não poderemos ir até um sítio qualquer tomar uma bebida e conversar?

- Estou com uma dor de cabeça terrível e ansiosa por um banho frio antes de me deitar - disse, com sinceridade.

Ao ouvir a minha desculpa, toda a sua expressão pareceu esmorecer.

- Fazes lembrar a Kitty - murmurou baixando a cabeça, enquanto eu ficava imediatamente cheia de remorsos.

Lembrei-me então de que o meu avô continuava ao meu lado.

- Onde é que o avô está instalado? - perguntei-lhe ao chegarmos diante do único hotel na cidade.

- O Luke preparou a cabana para a Annie e para mim. É lá que fico, claro.

- Avô, venha comigo para o hotel. Não me custa nada reservar-lhe um quarto só para si, com televisão a cores e tudo.

- Tenho de voltar p'ra junto da Anníe... Ela 'tá à minha espera.

Conformei-me.

- Mas, avô, como é que irá para lá?

Já começara a afastar-se, mas o espanto fê-lo deter-se, vacilante.

- Apanho uma boleia do Skeeter Burl. Ele agora é meu amigo.

O Skeeter Burl? Fora o pior inimigo que o meu avô fizera nos montes... E agora era seu amigo? Era como acreditar que os banhistas de Julho gostavam da neve de Janeiro. E como a tola que eu muitas vezes era, completamente alheia à realidade, peguei no braço do meu avô com brandura e virámo-nos na direcção do hotel.

- Avô, parece que, afinal de contas, o senhor vai passar a noite no hotel.

O meu avô mostrou-se imediatamente alarmado. Nunca dormira numa cama "alugada". Recusava-se a ir. A Annie precisava dele! Tinha animais em casa que sofreriam se ele não voltasse para tratar deles. Os olhos deslavados e chorosos adoptaram uma expressão implorante.

- Vai tu pró teu hotel, Heaven. Na' te preocupes comigo.

O desespero deu-lhe a força necessária. Arrancou o braço da minha mão e, movendo-se com maior rapidez do que eu esperaria, começou a coxear pela rua principal abaixo.

- Vai tratar dos teus negócios. Eu cá na' gosto de camas que nã'a minha!

- Ainda bem que ele se foi embora - comentou o Cal, agarrando-me no braço e levando-me para o vestíbulo do hotel, onde havia um pequeno bar. - É aqui que eu também estou instalado. Vim a Winnerrow para resolver com os pais da Kitty umas questões legais ligadas às propriedades. Têm-me feito a vida negra, afirmando que eu não contribuí em nada para os bens da filha, e que portanto não tenho o direito de ficar nem com a parte que ela me deixou.

- Podem invalidar o testamento dela? - perguntei com ar fatigado, desejando não ter tido o azar de o encontrar.

Sentámo-nos numa mesinha redonda, e o Cal mandou vir algo para comermos. Agia comigo como se nada tivesse alterado a nossa relação, e era bem possível que estivesse à espera de ir comigo para a cama. Fiquei rigidamente sentada, pouco à vontade, ciente de que teria de o desiludir mal fizesse a menor alusão a essa possibilidade.

Mordisquei a minha sanduíche de bacon, alface e tomate enquanto ouvia, meio distraída, o Cal desabafar sobre as dificuldades que estava a ter com os sogros Setterton.

- E sinto-me só, Heaven, muito só. A vida não vale a pena sem uma mulher ao lado. Tinha direito a tudo o que a Kitty me deixou, mas como a família dela contestou, precisei de contratar advogados e isso atrasou-me os negócios. Perderei metade dos bens da Kitty no tribunal e nos honorários dos advogados... Mas eles não querem saber. Estão a ter a sua vingança.

Naquela altura eu já mal conseguia manter os olhos abertos.

- Mas eles não te odeiam, Cal. Portanto, porquê tudo isso?

O Cal suspirou e aninhou a cabeça entre as mãos.

- Quem eles odeiam é a Kitty por não lhes ter deixado mais do que saudades. - Ergueu os olhos, onde brilhavam lágrimas. - Terei a sorte de certa rapariga bonita voltar para mim? Desta vez já podemos casar, Heaven, formar uma família. Ambos poderíamos terminar os estudos e ir para o ensino.

Eu sentia-me prostrada de fadiga, incapaz de resistir quando o Cal me pegou na mão e a levou aos lábios, apertando depois a palma desta contra a sua face. Foi nesse preciso instante que o Logan Stonewall entrou no café acompanhado por uma linda rapariga, puxando de uma cadeira para esta se sentar; reconheci que era a Maisie, a irmã da Kitty!

Oh, Santo Deus! Contara não ver o Logan. Tinha um ar maravilhosamente saudável mas, em relação à última vez em que o vira, parecia um pouco mais velho. O seu aspecto juvenil fora substituído por um certo cinismo, que o fazia sorrir oblíqua e maliciosamente. Teria sido eu a responsável por aquela transformação? Os seus olhos cor de safira escura encontraram os meus por breves instantes; depois ergueu a mão à laia de cumprimento. Só então é que reparou no Cal, o que lhe conferiu uma expressão de surpresa e indignação.

A partir dessa altura, fez um esforço visível para não olhar na nossa direcção. A Maisie, contudo, não era uma pessoa discreta.

- Logan, querido, aquela ali na' é a Heaven Casteel, a tua antiga namorada?

O Logan não se deu ao cuidado de lhe responder. Eu pus-me rapidamente de pé.

- Não estou a sentir-me bem, Cal. Peço-te que me desculpes. vou já para o meu quarto deitar-me.

O rosto do Cal Dennison demonstrou bem a desilusão que o invadiu.

- Lamento que estejas assim - disse, levantando-se e pegando na conta. - Permite-me que te acompanhe ao teu quarto.

Não era necessário nem eu queria que ele fosse comigo, mas estava com umas dores de cabeça horríveis e sentia uma fadiga profunda no corpo. Que se passaria de errado comigo? Apesar de todas as minhas objecções, o Cal acompanhou-me até ao vestíbulo, depois subiu comigo no elevador que nos levou até ao sexto piso, e a seguir insistiu em me abrir a porta. Eu entrei apressadamente no quarto e tentei fechá-la atrás de mim; porém, ele foi mais rápido. Antes que eu percebesse o que estava a acontecer, ele tomou-me nos seus braços e cobriu-me o rosto com beijos escaldantes de paixão.

Debati-me para me libertar.

- Pára! Não! Eu não quero! Deixa-me em paz, Cal! Eu não te amo! Acho que nunca te amei! Larga-me!

Atingi-o no rosto com o punho fechado e por pouco não lhe fazia um olho negro.

A surpresa e a fúria do meu ataque apanharam-no desprevenido. Deixou cair os braços e recuou, aparentemente à beira das lágrimas.

- Nunca pensei que te esquecesses dos bons momentos que te proporcionei, Heaven - observou, com tristeza. - Desde que voltei a Winnerrow, faz três dias, não fiz outra coisa senão desejar, rezar e sonhar em te encontrar. As pessoas daqui ouviram falar na sorte que tiveste, mas recusam-se a acreditar nela. O Logan Stonewall anda com meia dúzia de raparigas, entre elas a Maisie.

- Não me interessa saber com quem ele anda! - solucei, tentando empurrar o Cal para fora do quarto. - A única coisa que desejo é tomar um banho e meter-me na cama! Agora vai-te embora e deixa-me em paz!

O Cal resolveu obedecer. Já no corredor, olhou-me através da porta aberta com uma expressão profundamente triste.

- Eu estou no quarto trezentos e dez, para o caso de mudares de ideias. Preciso de alguém como tu. Dá a ti própria a possibilidade de voltares a amar-me.

Imagens do Cal e da Kitty juntos vieram-me à memória por breves instantes. A Kitty a negar-se aos seus avanços nocturnos. A sua voz implorante a chegar ao meu quarto do outro lado da parede... Óh, sim, ele precisara de mim! Precisara de alguém jovem, ingénuo e suficientemente estúpido para acreditar que era um amigo de verdade... Ainda assim tive pena dele ao vê-lo ali de lágrimas nos olhos.

- Boa noite e adeus, Cal - disse, com brandura, recuando de maneira a poder fechar-lhe lentamente a porta na cara. - Está tudo terminado entre nós. Arranja outra pessoa.

O clique da porta a fechar quase se sobrepôs ao soluço que soltou. Fechei a porta à chave, coloquei a corrente de segurança e corri para a casa de banho. Tinha os pensamentos em turbilhão... Porque viera eu a Winnerrow? Que ideia ridícula! Passei a mão pela cabeça. Depois de a banheira estar cheia, entrei dentro de água e sentei-me cuidadosamente. Estava um pouco quente de mais. A Kitty gostava dela quase a escaldar. Para onde fora o avô? Seria possível que regressasse àquela cabana miserável?

Depois de terminar o meu banho, não consegui tirar o meu avô do pensamento. Que fizera ele com todo o dinheiro que eu lhe dera? Tinha de ir à procura dele. Não seria capaz de dormir enquanto não tivesse a certeza de que se encontrava são e salvo na sua cabana. Quando saí do hotel, sentia a cabeça a latejar.

A rua principal estava enevoada de tanta humidade. Quase não soprava uma brisa sequer. Lá no cimo, nos Willies, o vento devia assobiar por entre as folhas das árvores, vindo das montanhas, de modo que às vezes conseguia mesmo refrescar o interior dos compartimentos minúsculos e atravancados daquela cabana miserável. Meti-me no carro alugado e atravessei a cidade. Eram dez e meia da noite. Todo o comércio, com excepção do drugstore Stonewall, fechava às dez. Mal cheguei aos arredores de Winnerrow e comecei a subir a estrada serpenteante, o meu automóvel começou a engasgar-se, aos solavancos, acabando por parar. Sem saber que fazer, apeei-me e abri o capot. Quem quereria eu enganar?

Não percebia patavina de carros. Olhei para os terrenos conhecidos que me rodeavam e que, naquela altura, assumiam contornos de pesadelo. Podia regressar ao hotel a pé e enfiar-me na cama, disse de mim para mim, e esquecer o meu avô e o dinheiro. O tom jamais aceitaria ajuda minha. E na verdade o meu avô não precisava de mim. Toda eu tremia.

Fiz várias tentativas para pôr o motor a trabalhar, mas foi em vão. O vento aumentou e trouxe consigo o cheiro da chuva prestes a cair. E não iria ser uma tempestade vulgar de Verão. A borrasca que se adivinhava iria trazer ventos ciclónicos do género dos que transportavam granizo e depois, uma boa carga de água. O vento fustigava-me o rosto, cada vez mais forte. Não tinha outro remédio senão sentar-me dentro do carro e esperar que alguém passasse e parasse para me ajudar. Todo o corpo me doía, e eu comecei a pensar se não teria sido contagiada pela doença do Troy.

Devia ali estar fazia meia hora quando apareceu um carro, inesperadamente lento, que o motorista deteve na berma, apeando-se. Ao baixar o vidro da janela, fiquei chocada ao reconhecer a figura familiar.

- Que estás aqui a fazer sozinha à meia-noite? - perguntou o Logan Stonewall.

Tentei explicar o que acontecera, enquanto o Logan me mirava com um ar desconfiado.

- Vá, eu levo-te até lá acima - disse por fim, acompanhando-me até ao seu carro, com ar severo e autoritário.

Sentei-me no banco da frente, ao lado dele, sentindo-me uma perfeita idiota e sem saber que dizer.

- Eu próprio ia ver como está o teu avô - declarou o Logan à laia de explicação, ligando o motor e avançando rapidamente.

- Ele não é da tua responsabilidade - gritei como uma criança, com voz estranha e enrouquecida.

- Faria o mesmo por qualquer pessoa daquela idade que estivesse ali em cima sozinha.

Entre mim e o Logan desceu um silêncio denso como nevoeiro. As árvores que ladeavam a estrada eram cruelmente fustigadas pelo vento e, a certa altura, o granizo começou a cair, e o Logan viu-se obrigado a parar o carro na berma e a esperar que o pior passasse. Decorreram dez minutos, durante os quais nenhum dos dois falou.

O Logan pôs o carro de novo a trabalhar e dirigiu-o para uma estrada de terra batida que não me era estranha e que não tardaria em dividir-se em duas. Tentei controlar as minhas tremuras fixando o olhar em frente.

Já lá ia o tempo em que considerara o único hotel existente em Winnerrow opulentamente majestoso; naquele momento reconhecia que estava velho e gasto. No entanto, era bem melhor do que a cabana para onde ele me conduzia! Apeteceu-me chorar! Queria uma cama confortável, lençóis lavados, bons cobertores e calor para afastar aquele frio inesperado que sentia nos ossos. Contudo, só iria dispor da cabana com a sua casinha exterior e o calor incipiente de um velho fogareiro fumacento. À medida que a civilização ia ficando para trás, em Winnerrow, senti uma sensação trágica de perda.

Em vez de chorar, desabafei sobre o Logan.

- com que então estás a fazer de bom samaritano com o meu avô, não é? Imagino que isso seja falta de alguém na tua vida de quem possas ter pena e demonstrar a tua generosidade.

O Logan lançou-me mais um dos seus olhares trocistas, e eu fitei-o tempo suficiente para me aperceber de que não detectava uma centelha que fosse do amor que um dia lhe vira nos olhos. Doía saber que o meu melhor amigo se tornara no meu pior inimigo, do tipo que me mataria com olhares duros e palavras cruéis; os punhais deixaria ele que outros me atirassem.

Recostei-me nas costas do assento e deslizei o mais possível para longe dele, jurando a mim mesma não voltar a olhá-lo, embora o escuro não me permitisse vê-lo muito bem. Algo de errado se passava com a minha visão. Sentia-me oprimida por uma tremenda sensação de irrealidade. A dor nos meus ossos espalhara-se até ao peito, por trás dos olhos e o rosto ardia-me, além de me doer. Mover-me tornava-se ainda mais difícil.

- Eu conduzo o teu avô a Winnerrow sempre que ele mo pede - disse o Logan rigidamente, lançando-me um olhar de relance. - Ele de vez em quando aparece aqui, vindo da Florida ou da Jórgia, para ir ver a sua cabana.

- Disse-me que o Skeeter Burl é que lhe dava boleia até casa...

- O Skeeter Burl levou-o algumas vezes até à igreja e desta para casa, mas foi morto num acidente de caça há cerca de dois meses atrás.

O meu avô ter-me-ia mentido? A não ser que tivesse perdido o sentido da realidade e se esquecesse. Eu não devia esquecer que o meu avô se alheara da realidade no dia em que a sua Annie morrera...

O Logan caiu noutro silêncio prolongado, secundado por mim. O mundo perdera um homem cruel quando o Skeeter Burl partira, mesmo que tenha favorecido o meu avô com uma boleia ou duas.

Recorrendo a todos os atalhos, o caminho entre Winnerrow e a nossa cabana ficava em cerca de onze quilómetros. A minha mente confusa tentou descortinar respostas.

- Porque não estás em Boston? As tuas aulas não começam em fins de Agosto?

- Porque não estás tu?

- Tenciono voltar para lá amanhã à tarde... - retorqui com ar vago.

- Se a chuva parar - declarou o Logan secamente.

A chuva caía torrencialmente. Só no princípio da Primavera é que eu vira chuva assim. Era o tipo de chuva grossa e pesada que transformava pequenos riachos em fortes caudais e estes em rios furiosos, que deitavam pontes abaixo, desenraizavam árvores e inundavam margens. Nos Willies, houvera ocasiões em que chovera durante uma semana ou mais e, quando terminara, lagos de água impediam-nos de ir a qualquer lado, até mesmo à escola.

E o Troy contava comigo no dia seguinte ao princípio da noite. Assim que voltasse para Winnerrow, telefonar-lhe-ia. Passaram mais alguns quilómetros.

- Como estão os teus pais? - perguntei.

- Óptimos - respondeu o Logan com secura, desencorajando-me de fazer mais perguntas.

- Ainda bem.

Pouco depois, o Logan saiu da via principal, e a estrada ficou então reduzida a um carreiro de terra batida, cheio de covas inundadas de água. A chuva continuava a cair com força, açoitando o vidro da frente e as janelas do meu lado. O Logan limpou o pára-brisas e inclinou-se para a frente para ver se conseguia vislumbrar algo. Nunca o vira tão determinado, tão decidido. De repente, agarrou-me na mão esquerda e olhou, por instantes, para o enorme diamante do anel que eu tinha no dedo anelar.

- Já percebi - disse, deixando cair a minha mão como se nunca mais quisesse tocar em mim.

Cerrei os lábios, fechei a mente e tentei pensar em algo que não fosse a maneira como a "Nossa" Jane e o Keith me haviam rejeitado. Aquela horrível sensação de perda pegava-se a mim como musgo velho em decomposição.

O Logan não proferiu mais palavra, dedicando toda a sua atenção ao caminho, e foi com alívio que virou para o espaço que representava o pátio da cabana nos montes que eu contara nunca mais ver.

Dessa vez, eu ia à cabana onde nascera com uma perspectiva bostoniana, agora que a minha sensibilidade fora treinada para apreciar a beleza e a boa construção, e o meu gosto cultivado para distinguir o que de melhor a vida tinha para oferecer. Por isso, deixei-me ficar sentada, preparada para me sentir horrorizada e enojada; pronta para me admirar de que alguém desejasse voltar... voltar para aquilo! Revia mentalmente a pequena construção de madeira inclinada e em risco de desmoronar, com o alpendre da frente a cair, a madeira velha com laivos prateados e manchas que escorriam das chapas do telhado; o pátio imundo cheio de mato e arbustos espinhosos, embora as poças de água da chuva escondessem o pior. Não olharia para a casinha exterior nem me preocuparia em saber como o avô conseguiria arrastar-se de um lado para o outro. De manhã, teria de falar com o reverendo. Depois voltaria para junto do Troy.

O Logan estacionava o carro e eu era obrigada a olhar, a enfrentar o horror que era saber o meu avô naquele sítio, sozinho no meio da chuva, semiprotegido por um telhado que deixava entrar água, com o fantasma da sua mulher, numa noite em que o vento soprava, enchendo a cabana de correntes de ar.

Fiquei imóvel, mal acreditando no que os meus olhos viam.

A cabana miserável desaparecera!

No seu lugar, estava uma cabana de toros de madeira, de ar robusto e bem construído, do tipo daquelas a que os homens da cidade chamam "pavilhão de caça".

A surpresa por pouco não me paralisou...

- Como? - perguntei. - Quem?

O Logan agarrou-se ao volante com força, como para se abster de me sacudir para voltar ao normal. Tão-pouco olhou para mim, enquanto estivemos sentados dentro do automóvel. E dentro da cabana havia luz. Electricidade! Fiquei siderada, achando que se tratava de um sonho.

- Segundo ouvi dizer, o teu avô não gostava nada de viver na Jórgia, onde é tudo plano e faz muito calor - explicou o Logan -, e não conhecia ninguém por lá. Sentia saudades dos montes, de Winnerrow. E segundo o que o tom me escreveu a contar, no último mês de Outubro mandaste-lhe algumas centenas de dólares para a ajuda das "figurinhas" e foi com isso que ele lançou mãos à obra. Queria voltar para onde pudesse ver a sua Annie. E, como tinha aquela quantia que lhe enviaste pelo correio, voltou para aqui. O tom também deu a sua contribuição em dinheiro, trabalha dia e noite. A velha cabana foi demolida e construiu-se esta cabana nova. Só foram precisos três meses, e hás-de ver que também é óptima por dentro. Não queres entrar para ver? Ou tencionas deixar o velhote sozinho com o fantasma que partilha a casa com ele?

De que valeria eu dizer ao Logan que tanto fazia, eu ficar ou partir, pois o avô continuaria a viver com a sua fantasma bem-amada? Mas não fui capaz de proferir essas palavras. Em vez disso, fiquei a olhar para a cabana de dois pisos. Até do lado de fora se via que era bonita por dentro. Havia dois conjuntos de janelas triplas, ao longo da frente, que permitiam a entrada do sol em profusão. Lembrei-me dos dois pequenos quartos, sempre escuros e enfumarados, sempre com insuficiência de luz ou ar fresco. A diferença que seis janelas faziam!

No entanto, eu queria ver o interior, evidentemente. Todavia, experimentava uma sensação peculiar, ora tremendo de arrepios de frio ora corando com um acesso de calor. As minhas articulações começaram a doer-me a sério; até o estômago andava às voltas.

Abri a porta do carro.

- Amanhã de manhã posso voltar para a cidade a pé, Logan - disse eu. - Não precisas de esperar por mim.

Fechei a porta, perturbada pelos velhos tempos, agora que me ajustara aos novos; corri contra a chuva fria e entrei na cabana de toros de madeira. Para meu espanto, esta, que me parecera pequena vista de fora, dispunha de uma ampla sala de estar, onde vi o meu avô de joelhos e mãos no chão, muito atarefado a mexer em lenha que esperava que ardesse na lareira de pedra que chegava o tecto, abrangendo quase uma parede inteira. A ladear a lareira, estavam dois belos cães de chaminé em bronze maciço, um bonito pára-fogo, uma grelha pesada, e ainda não se acendera um fósforo e já a casa estava quente. Colocadas em frente da lareira, em cima de um enorme tapete entrançado à mão pela minha avó com as meias de nylon que as senhoras do bazar da igreja costumavam dar-lhe, estavam as duas cadeiras de balouço de que os meus avós se costumavam servir no alpendre da velha cabana. Tinham sido trazidas para dentro de casa no Inverno.

Eram as únicas peças de mobília que restavam da construção original.

Duas cadeiras que pareciam velhas, descoradas e gastas, mas que me emocionaram como nenhuma das outras peças da mobília nova.

- Annie... Eu não te disse que ela estava cá? - declarou o meu avô cheio de entusiasmo, pousando a mão descarnada no braço da cadeira em melhor estado, onde a mulher costumava sentar-se. - Ela veio para ficar, Annie. A nossa Heaven veio para cuidar de nós em tempo de necessidade.

Santo Deus, eu não podia ficar!

O Troy estava à minha espera!

O Logan, que me seguira até dentro de casa, observava-me da porta. Tentei recompor-me e lutar contra o que quer que estava a debilitar-me. Dei uma volta pelos quatro quartos do piso térreo, apainelados a madeira. Na cozinha, olhei, admirada, para os electrodomésticos novos e modernos. Havia um lava-louça duplo em aço inoxidável e, ao lado, uma máquina de lavar louça! Uma porta dobradiça revelou uma pequena lavandaria com máquina de lavar e secar! Um frigorífico enorme de porta dupla! Mais armários do que a própria Kitty tinha na sua cozinha. Cortinas de flores nas janelas, um paninho de algodão às riscas azuis e brancas com uma fiada de malmequeres amarelos a debruar, e bolinhas brancas penduradas na franja. Numa mesa estava estendida uma toalha igual ao pano. Os mosaicos do chão eram em azul-vivo e as almofadas presas às cadeiras em amarelo. Eu nunca vira uma cozinha tão bonita e confortável.

Ora, era o tipo de cozinha com que eu costumava sonhar em criança. com lágrimas nos olhos, acariciei a superfície macia dos armários onde antes estivera uma prateleira nua, sobre a qual empilhávamos os nossos escassos pratos. E os nossos poucos tachos e panelas pendiam de pregos enfiados na parede. Eu começara a soluçar abertamente, vendo todos os utensílios que teriam feito as delícias da Sarah e da avó, já para não falar do resto de nós. E, voltando a ser a miúda pacóvia de outrora, abri as torneiras da água fria e da água quente e meti a mão debaixo... Água corrente ali, nos montes? Carreguei nos comutadores eléctricos. Sacudi a cabeça. Era tudo um sonho. Outro sonho.

Continuando, deslumbrada, encontrei uma pequena sala de jantar com uma bela janela panorâmica que de dia, não fora as árvores, desfrutaria de uma bela vista do vale. O meu sonho era cortar algumas árvores para que, no Verão, as luzes de Winnerrow brilhassem na noite como pirilampos. Naquela, nada se via além de chuva.

Um pequeno corredor por trás da salinha de jantar conduzia a uma casa de banho ao fundo das escadas e a um quarto adjacente que não podia deixar de ser do meu avô. Vi as suas "figurinhas" impecavelmente arrumadas em cima de prateleiras abertas, com espelhos por trás e pequenas luzes ocultas que acentuavam o efeito provocado pela visão da série de pequenos animais e gente excêntrica mas engenhosamente retratada. A tapar a enorme mesa de bronze do avô (não a antiga), via-se uma das melhores colchas tricotadas pela avó. Havia uma mesa-de-cabeceira com um candeeiro, duas cadeiras de descanso, uma secretária e uma cómoda. Girei várias vezes sobre mim mesma, voltei à cozinha e, ao chegar ao meio do andar, comecei a chorar com força.

- Porque choras? - perguntou o Logan atrás de mim, com voz branda e estranha. - Pensei que agora isto te agradasse. Ou habituaste-te de tal maneira a mansões imensas que uma cabana confortável nos montes te parece demasiado pobre?

- É linda e gosto imenso dela - declarei, tentando conter as lágrimas.

- Por favor, limpa as lágrimas - disse o Logan com voz enrouquecida. - Ainda não viste tudo. Há quartos lá em cima. Guarda algumas para quando subires. - E, pegando-me no cotovelo, fez-me avançar, enquanto eu procurava lenços na minha mala de mão. Sequei os olhos e assoei-me. - O teu avô tem uma certa dificuldade em subir degraus... Não que não possa fazê-lo, mas acha que esta casa simplesmente não os devia ter.

Alguém devia ter pensado em tudo. Eu, porém, sentia-me cansada, doente e a precisar de me deitar, pelo que tentei esquivar-me. O Logan tornou-se insistente, quase me empurrou escadas acima.

- Não é o tipo de cabana que desejavas quando eras uma miúda a crescer e a sentires-te privada de tudo o que era bonito? Pois bem, aqui está! Portanto, olha! E se for demasiado tarde para apreciares todo o trabalho que isto deu, lamento muito... Mas dá uma vista de olhos e aprecia tudo agora, para o caso de nunca mais aqui voltares!

No andar de cima, havia dois quartos de tamanho médio e uma enorme casa de banho dupla.

O Logan encostou-se à porta do armário.

- Pelo que o tom me escreveu, o teu pai também investiu dinheiro aqui. Talvez um dia tencione vir para aqui com a família.

Algo de profundo na sua voz fez-me virar para o olhar nos olhos e, dessa vez, vi-o realmente. Envergava roupa simples, como se já não se desse ao cuidado de ir à igreja aos domingos. Ao que parecia, não fizera a barba naquele dia, e esta, a despontar, dava-lhe um aspecto diferente, mais velho, menos bonito e perfeito.

- Agora já posso ir-me embora. - Dirigi-me para as escadas. - A casa é linda e ainda bem que o avô tem um sítio agradável onde ficar, com a despensa bem abastecida de comida.

Dessa vez, o Logan não replicou; limitou-se a descer atrás de mim, ficando depois a ver-me despedir do meu avô com um beijo na face ossuda e pálida.

- Boa noite, avô. Boa noite, avó. Amanhã volto cá para vos ver outra vez. Depois de tratar de alguns assuntos.

O meu avô acenou com a cabeça com ar ausente, os seus olhos ficaram inexpressivos e começou a remexer nervosamente na franja do xaile que pusera sobre os ombros. O xaile da minha avó!

- Foi bom ver-te, Heaven, mesmo muito bom.

Não tencionava implorar.

- Tenha cuidado consigo, avô, 'tá bem? - Falei com sotaque provinciano que não tive dificuldade em recordar. - Precisa de alguma coisa, quer que lhe traga algo da cidade?

- Agora não preciso de nada - murmurou o meu avô, olhando em volta com olhos fatigados. - Há uma senhora que vem da cidade para nos preparar as refeições. Todos os dias. A Annie diz que é muita bondade dela mas que, se estivesse melhor da vista, poderia ela mesma cozinhar.

Toquei no braço da cadeira da minha avó, que a mão dela polira de tanto uso. Inclinei-me e fiz de conta que lhe dava um beijo, o que fez brilhar os olhos do meu avô.

Ao sair para o alpendre, tropecei duas vezes. O vento e a chuva assemelhavam-se a um animal bravio, ávido de destruição. O vento era tão intenso que me cortava a respiração e a chuva cegava-me. O Logan amparou-me, impedindo que caísse pelas escadas.

Gritou-me algo aos ouvidos. O vento ululava, sobrepondo-se à sua voz. A meio das escadas vacilei e os meus joelhos cederam. O Logan pegou-me imediatamente ao colo e levou-me de novo para dentro da cabana.

 

PARTIDAS DO DESTINO

O tempo pregava-me partidas. Vi uma mulher idosa, que me fazia lembrar a minha avó. Dava-me banho e alimentava-me e estava sempre a dizer que era uma sorte morar perto, pois as pontes tinham ido abaixo e o médico não podia vir da cidade. Via o Logan constantemente, deparando-se-me ele sempre junto de mim, quer acordasse em plena luz do dia ou no meio da escuridão da noite. Via, no meu delírio, o rosto do Troy e este a chamar incessantemente pelo meu nome.

"Volta, volta", repetia sem cessar. "Salva-me, salva-me, salva-me."

Contudo, as chuvas torrenciais não paravam de cair, fazendo-me pensar, mesmo quando tinha os olhos abertos e me sentia mais ou menos racional, que fora apanhada numa espécie de purgatório, mais próximo do inferno que do paraíso. Até que chegou o dia implacável em que acordei sem a mente perturbada pela febre, e o quarto à minha volta tornou-se bem visível, dando-me então conta, estupefacta, do sítio onde me encontrava. Estava deitada numa das camas amplas de um dos quartos do andar de cima da reconstruída cabana dos montes, fraca e empalidecida, apercebendo-me de que acabara de passar por uma das doenças mais terríveis da minha vida. Eu costumava ser mais saudável do que a "Nossa" Jane; raramente sofria de algo que me obrigasse a ficar um dia, sequer, de cama.

O facto de jazer indefesa e sentir-me demasiado fraca para erguer a mão ou virar a cabeça representava uma experiência completamente desanimadora. Tão desanimadora que fechava os olhos e voltava a adormecer. Na vez seguinte, acordei a meio da noite e vi o Logan a velar por mim. Tinha a barba por fazer; parecia fatigado, preocupado e bastante atormentado. Mais tarde, já o Sol ia alto, acordei e dei com ele a passar-me um pano molhado no rosto; humilhada, tentei afastar as mãos prestimosas.

- Não - fiz por sussurrar, mas tive um tal paroxismo de tosse que não pude falar.

- Lamento muito mas a Shellíe Burl deu uma queda e torceu o tornozelo. Portanto, não pode vir hoje. Terás de te contentar comigo - disse o Logan com voz áspera e expressão solene.

Intimidada, não soube que fazer senão fitá-lo.

- Mas preciso de ir à casa de banho - sussurrei, corando de embaraço. - Agradeço que vás chamar o meu avô para me amparar.

- O teu avô não consegue subir as escadas sem ficar muito aflito da respiração e já não faz pouco para ele mesmo se manter de pé.

Dito isto, o Logan ajudou-me meigamente a levantar da cama. A cabeça andava-me à roda, e, sem ele a segurar-me, teria caído; passo a passo, amparando-me como se eu fosse uma criança pequena, levou-me até à casa de banho. Agarrei-me a um suporte de toalhas até ele fechar a porta, e em seguida deixei-me cair sobre a sanita, quase esvaída.

No decorrer dos dias seguintes, recebi uma dura lição de humildade ao ter de aceitar a ajuda do Logan para ir e vir até à casa de banho. Aprendi a engolir o orgulho e a aceitar o modo como ele me dava um banho de esponja com a maior modéstia possível, resguardando a pele que ele limpava por baixo de um lençol de flanela. Às vezes choramingava infantilmente e tentava afastá-lo com rudeza, mas esse dispêndio de energia fatigava-me de tal maneira que não tinha outro remédio senão submeter-me. Depois, dei-me conta do esforço infrutífero que era eu resistir. Precisava dos seus cuidados. De modo que, a partir daí, submeti-me sem me queixar ou lamuriar.

Tinha consciência de que eu, no meu delírio febril, chamara pelo Troy. Implorei repetidas vezes ao Logan que lhe telefonasse e explicasse por que razão eu não voltara para concretizarmos os nossos planos de casamento. Vira o Logan anuir, ouvira-o dizer que estivesse descansada que ele andava a tentar contactar com o Troy. Mas não acreditara nele. Nunca acreditara nele. Mal tive forças, bati-lhe nas mãos que tentavam meter-me uma colher de remédio na boca. Arrastei-me para fora da cama por duas vezes, numa tentativa desesperada para eu própria telefonar ao Troy, conseguindo unicamente levantar-me e ficar de tal maneira fraca que acabei por cair de imediato no meio do chão. O Logan, que estava deitado na pequena cama que improvisara ao fundo do quarto, pôs-se de pé num salto e, pegando em mim, levou-me de novo para a cama.

- Porque não consegues confiar em mim? - perguntou-me ao imaginar-me a dormir, com voz terna, afastando-me com meiguice o cabelo húmido da testa. - Vi-te com o Cal Dennison e tive vontade de o atirar contra a parede. Uma vez também te avistei ao lado desse tal Troy por quem chamas tanto, e odeio-o. Tenho sido um louco, Heaven, um perfeito louco, e agora perdi-te. Mas porque tiveste sempre de ir procurar noutro lado aquilo que eu estive tão ansioso por te dar? Nunca me deste oportunidade para ser mais do que um amigo. Mantiveste-me à distância, resististe aos meus beijos e aos meus esforços para me tornar teu amante.

Entreabri as pálpebras e vi-o sentado na beira da minha cama, de cabeça melancolicamente baixa.

- Agora sei que fui um tolo em ser tão comedido... Porque tu amas-me. Tenho a certeza de que me amas!

- Troy - gemi suavemente, vendo o Logan indistintamente e, por trás deste, no meio das sombras, o Troy, de pé, com o rosto mergulhado na escuridão. - Tenho de salvar o Troy...

Ao ouvir-me, afastou-se e levantou a cabeça.

- Volta a dormir - ordenou -, e deixa de te ralar com aquele homem. Ele deve estar bem. Falaste muito nele, mas de uma coisa eu tenho a certeza: na vida real, as pessoas não morrem de amor.

- Mas... mas tu não conheces o Troy... Não sabes como ele é... não... como eu.

O Logan virou-se para mim, alterado e com a paciência por um fio.

- Heaven, por favor! Se não deixas de resistir ao que eu estou a tentar fazer contigo, nunca mais ficarás boa. Não sou médico, mas sei bastante sobre medicação e estou a aplicar todos os meus conhecimentos em ti. Há algumas semanas atrás, trouxe ao teu avô um bom fornecimento de remédios para as doenças do frio, sem nunca me passar pela cabeça que acabarias por ser tu a precisar deles. Todas as estradas para a cidade estão inundadas. Há cinco dias consecutivos que a chuva não pára de cair. Não consigo tirar o carro para fora do pátio, porque está tudo cheio de detritos e água. Já tive de o fazer sair três vezes do meio da lama que lhe chegava aos tampões das rodas.

Submeti-me à sua medicação, pois não sabia que mais fazer. Tinha pesadelos com o Troy. Estava sempre a fugir de mim montado a cavalo e, quando chamava por ele, escapava-se ainda mais depressa. Eu seguia-o noite dentro, no meio da escuridão.

De vez em quando, vislumbrava o meu avô, com a respiração a sair-lhe em curtos haustos sibilantes, com o rosto mirrado de ancião debruçado sobre mim, com uma expressão ansiosa e passando os dedos fracos pelos meus cabelos longos e ensebados.

- 'tás com um ar macilento, Heaven. Mesmo macilento. A Annie vai fazer-te um chazinho medicinal... o seu chá de ervas. E preparou-te uma sopa. Agora come...

Por fim, chegou o dia em que a minha febre desapareceu. Os meus pensamentos aclararam-se. Apercebi-me, pela primeira vez, do horror da minha situação. Encontrava-me de novo nos Willies, de volta ao sítio onde se erguera a velha cabana. Longe do Troy, que devia estar desesperado de tanta preocupação.

Olhei debilmente para o Logan, que tirava lençóis lavados do pequeno armário da roupa de cama e vinha na minha direcção, sorrindo-me. A barba parecia fazê-lo mais velho e tinha um ar profundamente cansado.

Em criança, desejara muitas vezes adoecer só para pôr o meu pai à prova e ver se ele cuidava de mim com tanto carinho como o vira, certa vez tratar da Fanny. Mas claro que nem um copo de água ele se preocuparia em me levar.

- Vai-te embora! - solucei quando o Logan me entregou mais uma cápsula, junto com um copo com água. - O que fizeste é embaraçante! - Encolhi-me, tentando fugir ao toque das suas mãos. - Porque não telefonaste a mandar vir uma enfermeira depois de Mistress Burl torcer o tornozelo? Não tinhas o direito de fazer o que fizeste!

Impávido e sereno, o Logan não ligou a menor importância às minhas palavras. Rolou-me para o lado, forrou o colchão com um lençol de flanela e foi buscar uma bacia de água quente, várias toalhas, uma esponja e uma saboneteira.

- Não!

O Logan mergulhou a esponja na água, ensaboou-a e depois entregou-ma.

- Está bem, lava tu a cara. As linhas telefónicas foram a primeira coisa a ir abaixo. Isso aconteceu na noite em que aqui viemos. Ouvi o boletim meteorológico num rádio a pilhas. Está previsto a chuva parar hoje à noite. Só daqui a alguns dias é que as estradas voltarão a estar transitáveis, e nessa altura já deverás estar suficientemente recuperada para viajar.

Tirei-lhe a esponja das mãos e fitei-o colericamente até ele sair do quarto. Atirou com a porta atrás de si e eu, cheia de determinação, esfreguei a pele. Vesti uma camisa de dormir lavada, uma das muitas que enviara ao meu avô pelo correio, dessa vez sem a ajuda do Logan.

Nesse dia, quando o Logan trouxe o tabuleiro com sopa e sanduíches, fiz um esforço para comer. Evitámos olhar um para o outro.

- Como estão as estradas? - consegui perguntar, quando ele ia a sair com o tabuleiro vazio.

- A melhorar. Já faz sol. Não devem demorar a restabelecer a electricidade. Assim que conseguir trazer uma enfermeira para cuidar de ti, ir-me-ei embora. Assim já ficarás satisfeita. Escusas de voltar a ver-me.

- Agora estás com pena de mim, não estás? - gritei, com as poucas forças que tinha. - Agora consegues gostar de mim porque estou doente e fragilizada, mas quando estiver boa passarei a ser-te indiferente. Não preciso do teu tipo de compaixão e piedade, Logan Stonewall! Estou noiva de um dos homens mais maravilhosos do mundo. Nunca mais voltarei a ser pobre! E eu amo-o, amo-o tanto que estou desgostosa por estar aqui contigo em vez dele!

Pronto, já o dissera, da forma mais cruel possível. O Logan deteve-se, apanhado num feixe fortuito e débil de sol, para em seguida o seu rosto empalidecer profundamente e ele dar meia volta e sair porta fora.

Depois de ele sair, chorei. Chorei durante muito tempo. Chorei por tudo o que existira um dia, por todos os sonhos deixados por realizar. Porém, não tinha importância. Eu tinha o Troy. Este não sentia pena de mim. Amava-me, precisava de mim, morreria por mim.

Nessa tarde, obriguei-me a ir até à casa de banho sozinha. Tomei banho de imersão. Lavei o cabelo com champô. Dali a um dia ou dois, abandonaria aquele lugar para nunca mais voltar.

As minhas forças demoraram mais tempo a voltar do que eu esperara. Do mesmo modo que as estradas levaram mais tempo a livrar-se da água do que o Logan previra; só depois de a lama secar é que ele partiu. Aguardou pacientemente no piso térreo, até um dia o carteiro aparecer e informar que todas as estradas que iam dar a Winnerrow já estavam transitáveis para quem não se importasse de ficar meio enterrado em lama de vez em quando. Por volta das quatro da tarde daquele dia, enquanto o Logan passava pelas brasas no sofá da sala, consegui descer as escadas sozinha e ir até à cozinha ajudar a preparar uma refeição simples. O meu avô parecia muito contente. O Logan nada disse quando eu o chamei para a mesa da cozinha, embora eu sentisse os seus olhos a seguir cada movimento meu.

Eu ainda estava fraca, pálida e trémula quando o Logan me deixou em frente do único hotel de Winnerrow, e eu mudei de roupa no quarto que voltei a alugar, antes de fazer a minha chamada interurbana para o Troy. Este não atendeu do telefone da sua casa de pedra. Enquanto esperava por ouvir a sua voz do outro lado, fui-me enervando e sentindo fraca. Desliguei e experimentei outro número. Dessa vez foi um dos empregados da Mansão Farthinggale a atender.

- Sim, Miss Casteel, direi a Mister Troy que telefonou. Ele passará o dia fora.

Preocupada e desconcertada por achar que o Troy não estava onde devia, servi-me de novo do elevador e encontrei o Logan à minha espera no vestíbulo do hotel. Levantou-se delicadamente ao ver-me, mas não sorriu.

- Precisas de mim para alguma coisa?

Levei as mãos à testa. Restavam-me quatro horas até ao meu avião partir para Boston.

- Tenho de falar com o reverendo Wise. Mas posso ir sozinha. - Baixei os olhos para as suas mãos, fixando-os nelas enquanto me desculpava. - Lamento ter sido desagradável contigo. Agradeço a tua ajuda, Logan. Desejo-te muitas felicidades. Não precisas de fazer mais nada por mim. De agora em diante cuidarei de mim própria.

Senti que me fitava demoradamente, como que a querer ler o que me ia na mente. Depois, sem responder com palavras, pegou-me no braço e levou-me até ao carro que estacionara em frente e, a caminho, lentamente, tentou responder às minhas perguntas.

- O meu pai costuma ir visitar o meu avô muitas vezes?

- Creio que vem sempre que pode.

O Logan não proferiu mais palavra até me deixar na rua principal, mesmo em frente da paróquia onde o reverendo Wayland Wise vivia com a mulher e a filha pequena.

- Mais uma vez obrigada - agradeci rigidamente. - Mas não precisas de esperar.

- Quem é que te levará as malas para o carro alugado... se é que ainda está em teu poder? - perguntou o Logan com ironia.

Portanto, fez questão em esperar, e eu tentei não tropeçar nem perder o equilíbrio ao subir pelo carreiro recentemente limpo dos detritos deixados pela tempestade. Ao chegar diante do alpendre alto, virei-me e vi o Logan pacientemente à espera, de cabeça inclinada para a frente, como se a fadiga de ter velado por mim dia e noite o tivesse feito adormecer ao volante.

Bati à porta e, enquanto esperava que alguém atendesse, senti-me avassalada por uma raiva terrível que me fez desaparecer a debilidade, dando-me novas forças.

O reverendo e a mulher não teriham o direito de roubar a filha da Fanny! O sacerdote seduzira a minha irmã ainda esta era uma adolescente, menor de idade! Catorze anos. Crime de violação!

Sim, eu estava ali para trazer de volta ao seio da família pelo menos uma criança, que substituísse as duas que eu perdera. Embora eu tivesse grandes dúvidas de que devesse ser a Fanny a criá-la.

Foi a Rosalynn Wise em pessoa quem veio ver quem batia tão insistentemente à sua porta. Fez má cara ao ver-me, embora os seus olhos não denotassem surpresa. Era como se soubesse que, depois da minha visita à igreja oito dias antes, eu acabasse por aparecer por ali. Vestia, como de costume, um vestido escuro e sem graça, que a fazia parecer um pau de virar tripas.

- Não temos nada para lhe dizer - declarou à laia de saudação. - Agradeço que saia do nosso alpendre e não volte.

E, tal como fizera à Fanny no passado, preparou-se para me fechar a porta na cara, mas dessa vez eu estava preparada. Avancei e empurrei-a para o lado, entrando na casa.

- Vocês devem-me muitas explicações - declarei eu, no meu tom mais frio. (Aprendera muito bem, em Boston, a agir com superioridade.) - Leve-me até ao seu marido.

- Ele não está.

E quis impedir-me de ir mais longe.

- Saia daqui! - gritou. - A menina e a sua irmã já causaram problemas de sobra.

O rosto comprido e ossudo assumiu o ar piedoso daqueles que contactam com a escória humana.

- Ah, então agora admite que a Fanny é minha irmã. Que interessante... Que aconteceu a Louisa Wise?

- Quem é que bateu à porta da frente? - perguntou o reverendo no tom de voz vulgar que devia reservar para uso doméstico.

A sua voz conduziu-me até ao seu gabinete, onde a porta estava parcialmente aberta; entrei, apesar dos esforços da mulher em me impedir de o fazer. Naquele momento, ao enfrentar o homem mais influente de Winnerrow, desejei estar melhor de saúde, para poder dizer-lhe todas as palavras que trouxera preparadas para proferir antes de a febre mas roubar da memória.

Semierguendo-se da sua cadeira, "Waysie" Wise dirigiu-me um sorriso afável que me deixou descorçoada. Viera na expectativa de os apanhar aos dois em desvantagem. Ainda não eram dez horas da manhã; no entanto, a mulher do dono da casa encontrava-se vestida e este também. A única concessão que ele dava ao conforto doméstico eram as pantufas de veludo preto debruadas a cetim vermelho. Por alguma razão estranha, aquelas pantufas exóticas e elegantes desconcertaram-me.

- Ah! - exclamou o reverendo, esfregando as mãos, ao mesmo tempo que o seu rosto adoptava um ar inexpressivo e complacente. - Estou a ver que é um dos membros do meu rebanho de volta, finalmente, ao seu redil.

Não poderia ter encontrado palavras mais eficazes para fortalecer o meu ego conturbado. Como se aquele fosse o grande dia da minha vida, senti-me plenamente justificada e no direito de lhe dizer qual era a minha opinião sobre ele. Voltou a sentar-se na sua confortável cadeira de costas altas em frente da lareira, onde flores artificiais faziam as vezes de grelha. Escolheu cuidadosamente um charuto de entre os que enchiam uma caixinha chapeada a cedro vermelho que tinha perto de onde estava sentado; cortou-lhe a ponta, mirou-o com atenção e só depois é que o acendeu. Quanto a mim, fiquei todo esse tempo de pé.

Saltava à vista que não tencionavam convidar-me a sentar. Avancei e escolhi uma das duas cadeiras gémeas para me instalar. Cruzei as pernas e vi-o passar os olhos por elas, lembrando-me de que o Troy estava sempre a dizer que eram muito bem-feitas. Os meus sapatos eram novos.

O reverendo passeou indolentemente os olhos escuros por mim, de alto a baixo. Exprimiu grande interesse e, ao pousar o seu olhar no meu rosto, viu-se forçado a sorrir sedutoramente. Era um sorriso tão doce que não admirava que alguém tão ingénuo como a Fanny se tivesse deixado levar. Mesmo visto de perto, era um homem atraente. As feições eram correctas, tinha a pele clara e uma saúde de ferro que lhe fazia a pele corada brilhar. Chegado à meia-idade, começava a ter uns quilitos em excesso, embora eu suspeitasse que, mais tarde, depressa passaria de barrigudo a gordo.

- Sim... Acho que já a vi anteriormente - observou em tom gutural e lisonjeiro -, embora esquecer-me do nome de uma jovem tão bonita não esteja, de modo algum, nos meus hábitos.

Quando entrara naquela casa, não fazia a menor ideia de como iria abordá-lo, mas foram aquelas as palavras ideais para me proporcionarem o ímpeto de que necessitava. Ele estava com medo. Escondia-se por trás de um disfarce de inocência.

- O senhor não se esqueceu do meu nome - observei em tom delicado, balançando o meu pé e transformando o meu salto alto numa arma ameaçadora. - Nunca ninguém esquece o meu nome. Heaven Leigh distingue-se muito bem dos outros, não acha?

A tosse que tivera durante a doença alterara-me a voz, tornando-a algo diferente, ligeiramente rouca; e o tempo passado em Boston emprestara-lhe uma certa sensualidade que até a mim mesma surpreendia.

- A Fanny está muito bem, obrigada por perguntar, reverendo Wise. Manda-lhe cumprimentos.

Sorri-lhe, sentindo uma espécie de poder crescer ao ver que ficara fascinado pela minha juventude e beleza. Desconfiava que fora um alvo fácil para a capacidade de sedução da Fanny, apesar da sua condição de sacerdote.

- A Fanny está muito grata a si e à sua esposa por terem tomado conta da sua filha, mas agora desistiu da sua carreira de artista e em breve casará. Portanto, quer reaver a criança.

O reverendo não mostrou o menor indício de perturbação, embora eu ouvisse a mulher, atrás de mim, suster a respiração e começar a soluçar.

- Porque não veio a Louisa aqui para falar pessoalmente? - perguntou o reverendo com voz macia e sussurrante.

Tentei encontrar as palavras certas.

- A Fanny confia que eu diga o que ela não conseguiria exprimir sem chorar. Lamenta a sua decisão apressada em vender a filha ainda por nascer. Agora sabe que uma mulher, depois de dar à luz, nunca mais pode voltar a ser a mesma. O seu colo anseia pela filha. Mas não vos quer prejudicar, pois eu venho preparada para vos restituir os dez mil dólares.

O sorriso do reverendo não desarmou. Conseguiu mesmo mantê-lo enquanto falava.

- Para lhe ser franco não percebo do que fala. Que dez mil dólares? Que temos, a minha mulher e eu, a ver com a filha da Fanny? Temos consciência, evidentemente, de que a querida Louisa não se abstinha de favores sexuais, malnascida, e mal preparada para a vida como estava e comportando-se como uma cadela com o cio... Mas se ela quis vender a filha e agora está arrependida, só nos resta lamentá-lo...

Levantei-me, acerquei-me da secretária do reverendo e peguei numa moldura em prata que enquadrava o retrato de uma criança com cerca de quatro meses. O bebé sorria para a máquina fotográfica com os olhos escuros da Fanny, uns autênticos olhos de índio dos Casteel. A cabeleira da menina não era lisa e áspera como a da Fanny, mas sim macia e encaracolada como a do reverendo devia ter sido nos seus tempos de criança. Oh, e era linda a criança que a minha irmã tão insensatamente vendera! Rechonchuda, mãos com covinhas, um anel minúsculo num dos dedos. Uma filha acarinhada, mimada e muito querida.

O retrato foi-me repentinamente arrancado das mãos!

- Saia daqui! - gritou a Rosalynn Wise. - Wayland, porque estás aí sentado a falar com ela? Põe-na fora!

- Vim preparada para pagar pela filha da Fanny - declarei friamente. - Podem ficar com vinte mil dólares. Dez mil por terem cuidado dela. Caso contrário, chamarei a Polícia e dir-lhe-ei o que fez quando foi à nossa cabana e pagou quinhentos dólares pela Fanny. Contarei às autoridades que utilizou a minha irmã como escrava para os trabalhos domésticos, que o bom padre abusou sexualmente de uma menina de catorze anos e a obrigou a ter um filho seu porque a mulher era estéril...

O reverendo levantou-se.

Olhou-me do cimo da sua altura com olhos que se haviam transformado em dois pontos escuros e cruéis.

- Sinto ameaças na sua voz, rapariga. Isso não me agrada. Uma Casteel reles não tem o direito de me ameaçar nem com o seu tom de voz, o seu olhar feroz ou as suas palavras tolas... Conheço muito bem os da sua laia. - Retomou o seu sorriso confiante, tentando intimidar-me. - A Louisa nunca nos telefonou ou escreveu, apesar de tudo o que fizemos pela sua felicidade e bem-estar. Porém, é frequente isso acontecer com os eleitos de Nosso Senhor... Tentarem fazer de bons samaritanos e em troca receberem apenas rancor de quem lhes devia estar grato.

Entoou outras frases, citações da Bíblia que vinham a propósito, como se nada no mundo pudesse perturbar o seu equilíbrio.

- Cale-se! - gritei. - O senhor comprou a minha irmã ao meu pai. - Referi o dia e o ano. - E o meu irmão tom e eu estávamos presentes e podemos testemunhar o que se passou na nossa cabana.

Fiz uma pausa, vendo-o descalçar as pantufas de veludo e enfiar os pés em sapatos largos, antes de se sentar majestosamente à sua secretária enorme, impecavelmente arrumada. Ao instalar-se na sua cadeira rotativa, inclinou-se para a frente e apoiou o queixo sobre os dedos unidos nas pontas. Depois, desviou as mãos de modo a estas taparem-lhe a boca. Só nessa altura é que descobri que os lábios, em combinação com os olhos, é que permitiam uma leitura mais apurada dos seus pensamentos. Agora eu só tinha os seus olhos disponíveis, olhos que se mostravam imperscrutáveis.

- A menina não tem o direito de vir aqui fazer exigências. Pode usar jóias e vestuário caro, mas continua a ser uma Casteel. E entre a sua palavra e a minha... em quem acha que as autoridades acreditariam?

Consegui esboçar um sorriso confiante.

- A Darcy é a cara da mãe.

O sorriso do reverendo tornou-se untuoso e demoníaco.

- Não percamos tempo com um facto comprovado. Temos documentos que atestam que a minha mulher deu à luz uma menina no dia três de Fevereiro deste ano. De que prova legal dispõe a indicar que a Fanny tenha tido, sequer, um bebé?

O meu sorriso vacilou, depois firmou-se.

- Estrias. A sua mulher também as tem? Impressões digitais. Das mãos e dos pés. Nós, os Casteel, não somos tão imbecis como o senhor julga. A Fanny roubou uma cópia do certificado de nascimento da filha. Nesse documento, ela é referida como a mãe, não a sua esposa. O senhor mandou fazer um falso... Que acharão as autoridades desse facto?

A Rosalynn Wise, atrás de mim, gemeu.

O reverendo Wise pestanejou uma ou duas vezes. Percebi então que os apanhara! No entanto, eu mentira. Tanto quanto sabia, a Fanny não possuía nenhuma prova. Absolutamente nenhuma.

- Nenhum homem se daria jamais ao trabalho de seduzir a sua irmã promíscua! - gritou a Rosalynn Wise, mortalmente pálida, ao mesmo tempo que recuava em direcção à porta.

Ergui a cabeça bem alto.

- Isso não interessa. A questão é que o reverendo Wise se aproveitou de uma menina de catorze anos. Ele, um homem de batina, fez um filho à Fanny, sendo esta de menor idade! Uma criança que agora este venerado ministro de Deus afirma ter sido concebida no ventre da sua esposa! Qualquer exame físico provará que a sua mulher jamais deu à luz. A Fanny quer a sua menina. Eu quero que ela a recupere. Vim buscar a Darcy para a levar para casa da sua mãe.

A Rosalynn Wise gemeu como um cão espancado.

Porém, o reverendo não depusera as armas.

Os seus olhos tornaram-se mais duros e frios.

- Sei quem a menina é. A sua avó do lado materno casou com um indivíduo do clã dos Brinquedos Tatterton. Portanto, tem o apoio de milhões e pensa que pode sobrepor-se a mim. A Darcy é minha filha e lutarei de unhas e dentes para que ela permaneça aqui em minha casa e não na de uma vadia. Portanto, saia daqui e nunca mais ponha aqui os pés!

- Irei à Polícia! - gritei, sentindo a minha própria ira crescer.

- Pois vá. Cumpra todas as suas ameaças. Veja se alguém acredita em si. Não há uma pessoa nesta cidade que não saiba o que a Fanny Casteel é, foi e será sempre. Eu terei o apoio da minha congregação. Saberão compreender que aquela pecadora malvada se enfiou na minha cama e apertou aquele seu corpo lascivo e nu contra o meu, seduzindo-me, a mim que não passo de um homem, e humano... lamentável, desgraçadamente humano.

Foi o seu sorriso trocista de vitória que me fez dizer sem hesitação, apesar da sua argumentação inteligente:

- Ou me entregam a Darcy para eu a levar à Fanny ou hoje à noite entro na sua igreja, ponho-me em frente da sua congregação e conto-lhes o que se passou no dia em que comprou a Fanny para satisfazer os seus apetites sexuais! Tenho a certeza de que todos ficarão chocados e ultrajados. Podia não tê-la assediado! Acabou de admitir que sabia o que ela era antes de a trazer para sua casa... Mas não deixou de o fazer! Meteu voluntariamente a tentação dentro do seu lar e não lhe resistiu! No caso do demónio versus reverendo Wise, o demónio venceu. E eu conheço os seus paroquianos. Não lhe perdoarão!

O reverendo fitou-me com um ar pensativo, como se eu ainda continuasse a ser apenas um dos peões brancos no seu tabuleiro de xadrez, e que, mesmo que ele só pudesse mover a sua rainha negra, arranjaria maneira de me fazer frente.

- Ouvi dizer que esteve doente - observou em tom amigável e coloquial. - Não está com bom aspecto, rapariga, nada bom. E, a propósito, que acha daquela casinha agradável em que o seu avô agora vive? Acredita que as suas ofertas miseráveis chegavam para construir uma cabana de madeira tão boa? Depois de lançadas as fundações, tirei o dinheiro que faltava para o resto do meu próprio bolso por pura bondade, para que o bisavô da minha filha pudesse terminá-la. É que eu sou humano... lamentável, desgraçadamente humano.

Passaram minutos, muitos minutos, sem que o reverendo desviasse os olhos do meu rosto.

Ouvi um bebé chorar no piso de cima, como se tivesse repentinamente acordado de uma sesta. Voltei-me e vi a Rosalynn Wise com a filha da Fanny ao colo. E quando reparei nos olhos chorosos, na boquinha vermelha a fazer beicinho, nos caracóis escuros e na pele muito branca, senti-me profundamente enternecida pela sua beleza. Também me emocionou ver a sua mãozinha fortemente agarrada aos dedos da única mãe que conhecia. Foi então que a minha ira começou a abrandar e compreendi que a Fanny estava a servir-se da Darcy unicamente como instrumento de vingança. Que estava eu a fazer ali, perturbando aquela criança e a sua mãe? E o reverendo não se calava, enchendo-me os ouvidos precisamente com aquilo em que eu não queria pensar.

- Eu pressentia que um dia a Heaven Casteel viria ter comigo. Costumava sentar-se numa das bancadas do fundo e fixar esses seus olhos azul-claros em mim, questionando cada palavra minha. Eu podia ver, pelo seu rosto, que queria acreditar, precisava de acreditar e esforçava-se muito por fazê-lo. E, no entanto, eu não conseguia dizer as palavras certas para a convencer de que há um Deus, um Deus bom e caridoso. De modo que comecei a analisar todos os meus sermões de acordo com a sua reacção a eles... E houve uma vez em que pareceu que eu tinha, finalmente, tocado no seu espírito. Depois veio o dia em que a sua avó morreu e eu orei sobre a sua sepultura e também sobre a da criança da sua madrasta que não chegou a nascer; senti-me um perfeito fracasso. Eu sabia que nunca a alcançaria, porque a Heaven não quer ser alcançada. Procura controlar o seu próprio destino quando isso é completamente impossível. Não aceita qualquer ajuda da parte dos homens e também da parte de Deus.

- Não vim aqui para ouvir um sermão sobre o que pensa de mim - declarei, com secura. - O senhor não me conhece.

O reverendo veio postar-se à minha frente. As suas pálpebras reduziram-lhe os olhos a meras fendas, fazendo-os brilhar.

- Está enganada, Heaven Leigh Casteel. Eu conheço-a muito bem. A menina pertence ao tipo mais perigoso de mulher que o mundo jamais conheceu. Transporta consigo as sementes da sua própria destruição e de todos aqueles que a amarem. E muitos o farão pelo seu lindo rosto ou pelo corpo sedutor. Mas a Heaven traí-los-á a todos porque acredita que todos o fizeram primeiro em relação a si. É uma idealista do género mais horrivelmente trágico: a idealista romântica. Nascida para destruir e autodestruir-se!

Fixou os olhos solenes, odiosos e compadecidos em mim, trespassando-me com eles como se lesse a minha mente.

- Agora passarei a falar da Darcy, a minha filha. Eu trouxe a sua irmã para minha casa com a melhor das intenções, esperançado em ajudar, ao livrar o seu pai de mais uma boca para alimentar em tempo de grandes dificuldades para ele. Vejo pela sua expressão que se recusa a acreditar nisso. A Rose e eu fizemos aquilo que pensámos que Deus desejaria de nós. Adoptámos legalmente (e temos documentos assinados pela sua irmã) a criança que a sua irmã deu à luz. E já que quer saber toda a verdade, se o seu pai não nos tivesse pressionado para que ficássemos com a Fanny, eu tê-la-ia escolhido a si! Sabia? Não! A si! Agora pergunte-me porquê.

Ao ver que eu me limitava a mirá-lo com profunda incredulidade, ele próprio respondeu.

- Queria analisar de perto a sua resistência a Deus...

Ao vê-lo contemplar-me com expressão séria e compassiva, com olhos largamente experientes em ocultar segundas intenções, percebi então que eu não estava à altura de enfrentar alguém tão esperto como o reverendo Wayland Wise. Não admirava, pois, que este se tivesse tornado no homem mais rico da nossa região. Apesar de me dar conta de todas as jogadas que ele utilizava para ganhar o respeito de quem era demasiado ignorante para percebê-lo, vi que ficara tão enredada na teia como qualquer mosca estúpida.

- Por favor, cale-se!

Inundada por um sentimento de culpa, percebi que perdera tudo. O tom já tinha um objectivo na vida e não precisava de mim. O Keith e a "Nossa" Jane, apesar da sua pouca idade, eram suficientemente espertos para se manterem afastados de uma irmã destrutiva. O meu avô, a viver aonde mais desejava, perto da sua Annie, numa cabana de montanha dez vezes melhor do que tudo aquilo a que jamais imaginara ter o direito de esperar, perderia a sua casa.

A minha febre pareceu regressar. Deixei-me cair pesadamente numa cadeira. Senti um acesso de nervos subir-me da cintura à cabeça, provocando-me picadas atrás das orelhas. A Fanny não precisava daquele bebé. Pois se ela se recusara a fazer algo pelo Keith e pela "Nossa" Jane, como poderia eu esperar que fosse uma boa mãe para a sua própria filha? A cabeça latejava-me com uma dor mais aguda. Quem era eu para tentar tirar aquela criança à única mãe que alguma vez conhecera? Saltava à vista que o seu lugar era ali, com os Wise, que a amavam e estavam em posição de lhe dar tudo do bom e do melhor. Que teria uma Casteel a oferecer àquele bebé em comparação com aquele lar feliz? Queria ir-me embora dali o mais depressa possível. Levantei-me, trémula, e olhei para a Rosalynn Wise.

- Não ajudarei a Fanny a tirar a criança de si, minha senhora - disse-lhe. - Lamento ter vindo aqui. Não voltarei a incomodar-vos.

E, com as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto, virei-me para a porta e saí a correr da sala, ouvindo o reverendo dizer atrás de mim:

- Deus abençoá-la-á por isso.

 

O LEVANTAR DOS VENTOS

O Logan levou-me ao aeroporto mais próximo e ficou a fazer-me companhia até anunciarem o meu voo. Fitou-me solenemente nos olhos e voltou a dizer-me que procedera bem ao deixar a filha da Fanny entregue à Rosalynn Wise.

- Fizeste bem - disse-me pela primeira vez quando lhe dei conta das dúvidas que me assaltavam quanto à lógica do meu raciocínio. - A Fanny não é do tipo maternal e tu sabe-lo tão bem como eu.

No fundo, eu alimentara a esperança de levar a menina comigo para a Mansão Farthinggale, esperançada de que a sua doce inocência e beleza convencesse o Troy a criá-la como filha. Pensamento tolo e idiota. Que imbecil eu fora em tentar, sequer, concretizar essa ideia! A Fanny não merecia uma filha como a Darcy. Talvez nem eu.

- Adeus - despediu-se o Logan, sem me fitar. - Desejo-te muita sorte e felicidades.

Dito isto, deu meia volta e afastou-se antes de eu poder agradecer-lhe por ter cuidado de mim.

Olhou para trás e sorriu-me com rigidez. Entreolhámo-nos a cerca de metro e meio um do outro, antes de eu me virar e começar a dirigir-me para o avião.

Horas mais tarde, cheguei a Boston. Exausta, adoentada e ansiosa por me apanhar na cama, tomei um táxi e sussurrei a morada com voz pouco audível. A seguir caí pesadamente para o lado, sentindo-me tonta e esvaída. Fechei os olhos e pensei no Logan e no modo como me sorrira quando lhe contara como correra o encontro com os Wise. "Compreendo o motivo que te levou a tomar essa decisão. Mas não te esqueças de que se a Fanny quisesse mesmo a menina, teria arranjado uma maneira de o conseguir. Tu tê-lo-ias feito."