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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ANTRAX, A CRIATURA / Terry Brooks
ANTRAX, A CRIATURA / Terry Brooks

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ANTRAX, A CRIATURA

 

Grianne Ohmsford tinha seis anos no dia em que perdeu sua infância. Era pequena para sua idade, não tinha uma força física incomum nem uma extraordinária experiência de vida, e portanto não estava particularmente bem preparada para crescer tão rápido. Vivera a vida inteira nas fronteiras orientais das Planícies Rabb, uma criança protegida em um lar protegido, a mais velha dos dois filhos de Araden e Biornlief Ohmsford, ele um escriba e professor, ela uma dona-de-casa. Pessoas entravam e saíam de sua casa como se fosse uma hospedaria: alunos de seu pai, clientes aproveitando o benefício de suas habilidades, viajantes de todas as Quatro Terras. Mas ela própria nunca estivera em lugar algum além dali e apenas começava a compreender o quanto desconhecia do mundo, quando o pouco que conhecia lhe foi tomado.

Embora a sua aparência não fosse notável, e, a princípio, nada a seu respeito sugerisse que ela poderia sobreviver a qualquer tipo de trauma, a verdade era que ela era forte e hábil de maneiras inesperadas. Uma parte disso transparecia em seus surpreendentes olhos azuis, que podiam fulminar com sua objetividade e penetrar no fundo da alma de uma pessoa. Estranhos que cometiam o erro de encará-los desviavam rapidamente o olhar. Ela não falava com esses homens e mulheres nem parecia ganhar algo com tais encontros. De qualquer maneira, costumava deixar naqueles estranhos a sensação de lhes ter tirado alguma coisa. Vagando pela casa e pelo quintal, os longos cabelos negros soltos, uma menina abandonada que parecia não ter o que fazer nem para onde ir, ela, sentada sozinha num canto enquanto os adultos conversavam, reclamava seu próprio espaço e o mantinha inviolável.

Também era cabeça-dura, uma criança teimosa e intratável que, quando decidia alguma coisa, se recusava a mudar de idéia. Por algum tempo, seus pais conseguiram lidar com isso em virtude de seu relacionamento e das costumeiras ameaças e seduções, mas por fim perceberam que eram incapazes de influenciá-la. Era como se ela encontrasse sua identidade ao assumir uma posição sobre as coisas, fincando o pé nelas em desafio e aceitando o que viesse pela frente como conseqüência. Freqüentemente recebia uma severa reprimenda e o castigo de ficar em seu quarto, mas na maioria das vezes simplesmente recebia a negação de algo que achassem que a beneficiaria. Fosse qual fosse o caso, ela não parecia se importar com as conseqüências e tendia a ficar mais incomodada quando eles se rendiam aos seus desejos.

Mas no coração de tudo estava a sua herança, que se manifestava de um modo que não era visto há gerações. Desde cedo ela soube que não era igual a seus pais, a seus amigos ou a qualquer pessoa que conhecesse. Ela era um retorno aos tempos dos membros mais famosos de sua família: Brin, Jair, Par e Coll Ohmsford, dos quais era descendente direta. Seus pais lhe haviam explicado isso muito cedo, logo depois que seu talento se revelou. Ela nascera com a magia da canção do desejo, um poder latente que vinha à tona na linhagem da família Ohmsford apenas uma vez a cada quatro ou cinco gerações. Deseje alguma coisa, cante por essa coisa e ela acontece. Tudo era possível. A canção do desejo nunca se manifestara em um Ohmsford durante a vida dos pais de Grianne e por isso nenhum dos dois tivera qualquer experiência direta com a maneira pela qual ela funcionava. Mas eles conheciam as histórias que lhes haviam sido contadas repetidas vezes por seus próprios pais, as histórias da magia herdada desde os tempos da grande rainha Wren, outra de seus ancestrais. Portanto, eles sabiam o suficiente para reconhecer o significado do que ocorrera quando Grianne curvou os caules das flores e afastou um cão raivoso simplesmente cantando.

O uso que fazia da canção do desejo era rudimentar e indisciplinado no início e ela não compreendia que era um poder especial. Na sua cabeça infantil, parecia normal que todo mundo possuísse aquilo. Seus pais se esforçaram para ajudá-la a perceber o valor contido em tal poder, a controlá-lo e a aprender a esconder esse segredo dos outros. Grianne era uma menina inteligente e rapidamente compreendeu o que significava ter algo que outras pessoas pudessem cobiçar ou temer. Quanto a isso, ela ouvia os pais, mas não prestava muita atenção aos seus avisos sobre o modo de usar esse poder e os fins aos quais ele deveria servir. Ela sabia o suficiente para mostrar a eles o que esperavam dela e ocultar deles o que não esperavam.

Por isso, no dia em que perdeu sua infância ela já tinha resolvido qual uso fazer da magia. Construíra defesas para as exigências desse poder e subterfúgios com os quais contornar as recusas da parte de seus pais em deixarem que ela levasse o experimento da magia até os seus limites. Fechada na armadura de uma determinação intensa e uma insistência teimosa, ela construíra uma fortaleza dentro da qual, com uma sensação de impunidade, exibia a canção do desejo. Seu mundo de criança já era mais complexo e perturbador do que o de muitos adultos, e ela estava aprendendo a importância de jamais dizer tudo o que tivesse a ver com quem e o que ela era. Foi o seu dom da magia e sua compreensão de como funcionava que a salvaram.

Ao mesmo tempo, e sem que ela tivesse culpa alguma, foi isso o que condenou seus pais e seu irmão mais novo.

Ela sabia que havia algo de errado com seu mundo de criança algumas semanas antes daquele último dia. Isso se manifestara em pequenos aspectos, coisas que seus pais e outras pessoas não conseguiram detectar de imediato. Havia coisas estranhas no ar: cheiros, gostos e sons que murmuravam uma presença oculta e emoções sombrias. Ela percebia vislumbres de sombras nas vibrações de sua voz que lhe retornavam quando utilizava a magia de sua canção. Sentia mudanças no calor e no frio que só apareciam quando ameaçada. Antes ela sempre conseguira captar a origem disso, dessa vez não. Por uma ou duas vezes, sentiu a proximidade de formas envoltas em mantos negros, talvez os mutantes que descobrira em diversas ocasiões anteriores, sempre ocultos e fora de seu alcance, mas que estavam ali mesmo assim.

Não dissera nada sobre essas coisas a seus pais porque não tinha provas concretas, apenas uma suspeita sobre a qual sustentar suas reclamações. Apesar disso, mantinha vigilância cerrada. Sua casa ficava às margens de um bosque de bordos e dali era possível ver as verdes Planícies Rabb até o sopé dos Dentes do Dragão. Embora nada pudesse se aproximar pelo oeste sem ser visto de uma longa distância, florestas e colinas bloqueavam os outros três quadrantes. Ela os vasculhava de tempos em tempos, precaução tomada para lhe transmitir uma sensação de segurança. Mas o que quer que estivesse observando era cuidadoso e ela jamais descobriu o que era. Escondia-se dela, evitava-a, afastava-se quando ela se aproximava e sempre retornava. Podia sentir seus olhos sobre ela enquanto o procurava. Era inteligente e habilidoso; estava acostumado a ficar escondido quando outros ameaçavam descobri-lo.

Ela deveria ter sentido medo, mas não fora criada para o medo e não tinha motivo para apreciar seus usos. Para ela, o medo era um aborrecimento que procurava eliminar e ao qual não dava atenção. Finalmente, perguntou a seu pai se havia alguém que desejasse feri-la, ou a ele, sua mãe ou seu irmão, mas ele apenas sorriu e disse que não tinham nada que alguém desejasse e que desse motivos para isso. Disse isso de forma calma e segura, um professor legando conhecimento a um aluno, e ela não acreditou que ele pudesse estar errado.

Quando as figuras de mantos pretos finalmente chegaram, fizeram-no logo antes do amanhecer, quando a luz era tão suave e fraca que mal tocava as bordas das sombras. Elas mataram o cão, o velho Bark, quando ele saiu para dar uma olhada, um ato que demonstrava de forma inconfundível a natureza maligna da intenção deles. A essa altura ela estava acordada, alertada por alguma voz interior ligada à sua magia, percorrendo, ligeira e nas pontas dos pés, os aposentos de sua casa, procurando o perigo que já estava à porta. Sua família estava sozinha naquela manhã, todos os viajantes já tinham ido e vindo ou ainda estavam a caminho, e não havia ninguém para ajudá-los a se defenderem em face do perigo.

Grianne não hesitou ao avistar as formas sombrias que passaram deslizando pelas janelas. Sentia a presença do perigo por toda parte, um círculo de lâminas de ferro se fechando com um objetivo inexorável. Gritou por seu pai e voltou correndo a seu quarto, onde seu irmão estava dormindo. Agarrou-o sem dizer palavra, abraçando-o com força. Macio e quente, ele tinha acabado de completar dois anos de idade. Ela o tirou do quarto e desceu para a adega escavada dentro da terra, onde eram guardados os gêneros perecíveis. Acima, os pais procuravam cobrir sua fuga. Ouviu subitamente o som de vidro quebrando e de madeira arrebentando, e pôde ouvir os gritos e as maldições raivosas de seu pai. Ele era um homem corajoso; ficaria e lutaria. Mas não seria o bastante; isso ela já sentia. Soltou uma trava e puxou a seção de prateleiras que ocultava a entrada do minúsculo abrigo para tempestades que eles jamais haviam utilizado. Colocou seu irmão adormecido sobre uma cama de palha que havia lá dentro. Ficou olhando para ele por um instante: seu rostinho pequeno e suas mãozinhas fechadas, sua forma adormecida. Ouviu os gritos e maldições lá em cima se transformarem em gritos de dor e angústia, e percebeu as lágrimas que inundavam os próprios olhos.

Uma fumaça preta se infiltrava entre as tábuas do chão quando ela saiu de mansinho do abrigo e fechou a entrada atrás de si. Ouviu o crepitar das chamas consumindo a madeira. Com seus pais mortos, os intrusos iriam em seu encalço, mas ela seria mais rápida e mais esperta do que esperavam. Fugiria deles, e quando estivesse a uma distância segura lá fora, na luz clara da aurora, correria os quase dez quilômetros até a casa mais próxima e voltaria com ajuda para seu irmão.

Ouviu as formas de mantos pretos procurando por ela quando saiu correndo, atravessando uma pequena passagem até a porta da adega que levava direto para fora. Ali, a porta estava oculta por arbustos e quase nunca era utilizada; não era provável que pensassem em encontrá-la ali. Se o fizessem, lamentariam muito. Ela já sabia o tipo de estrago que a canção do desejo podia provocar. Era uma criança, mas não era indefesa. Tentou parar de chorar e trincou os dentes. Isso eles descobririam um dia. Descobririam isso quando ela os machucasse da mesma maneira que a estavam machucando.

Então ela saiu para a luz brilhante do dia, agachando-se atrás dos arbustos. Nuvens negras de fumaça rodopiavam ao seu redor e ela sentiu o calor do fogo que lambia as paredes de sua casa. Tudo lhe estava sendo tomado, ela pensou em desespero. Tudo o que importava.

Um movimento súbito ao seu lado atraiu-lhe a atenção. Quando se virou para ver o que era, uma mão enrolada em um pano fedorento cobriu seu rosto e a enviou em queda livre para a escuridão.

 

Quando acordou, estava amarrada, amordaçada e com os olhos vendados, não sabia dizer onde estava, quem a mantinha prisioneira ou sequer se era dia ou noite. Estava sendo levada sobre um ombro maciço como se fosse um saco de trigo, mas seus captores nada falavam. Havia mais de um; ela podia ouvir-lhes os passos pesados e seguros. Podia ouvir-lhes a respiração. Pensou em sua casa e em seus pais. Pensou no irmão. As lágrimas retornaram e ela começou a soluçar. Fracassara com todos eles.

Ela foi carregada por um longo tempo, depois deitada sobre o chão e deixada sozinha. Contorceu-se em um esforço para se libertar, mas as cordas estavam amarradas com muita força. Tinha fome e sede, e um frio desespero começou a tomar conta dela. Só podia haver um motivo pelo qual ela fora capturada, um motivo que a tornava necessária, ao contrário de seus pais e seu irmão. Sua canção do desejo. Ela estava viva e eles estavam mortos por causa de sua herança. Era ela quem tinha a magia. Ela era especial. Tão especial que sua família fora morta para que ela pudesse ser seqüestrada. Tão especial que fizera com que tudo o que amava e com o que se importava lhe fosse tomado.

Pouco depois, percebeu uma comoção, súbita e inesperada, cheia de novos sons de batalha e gritos furiosos. Pareciam estar vindo de todas as partes ao seu redor. Então ela foi arrancada do chão e levada dali, deixando os sons para trás. Aqueles que a carregavam agora a aninhavam enquanto corriam, segurando-a com cuidado, como se para acalmar seu medo e desespero. Ela se enroscou nos braços de seu salvador, encolhendo-se como se tivesse sido ferida, tamanha a sua necessidade.

Quando estavam sozinhos em um lugar silencioso, as amarras, a mordaça e a venda foram retiradas. Ela se sentou e viu à sua frente um homem grande envolto em mantos negros, um homem que não era inteiramente humano, o rosto coberto de escamas e pintas como o de uma cobra, os dedos terminando em garras e os olhos como fendas sem pálpebras. Perdeu o fôlego e encolheu-se, mas ele não se mexeu em resposta a esse gesto.

— Agora você está salva, pequenina — ele murmurou. — Salva daqueles que queriam feri-la, do Tio Negro e de sua espécie.

Ela não sabia de quem ele estava falando. Olhou ao redor com cautela. Estavam agachados em uma floresta, as árvores formando rígidas sentinelas por todos os lados, seus galhos demarcando o centro de um oceano de luz do sol que salpicava o chão da floresta como ouro em pó. Não havia mais ninguém por perto e nada do que ela estava vendo lhe parecia familiar.

— Não há motivo para ter medo de mim — disse o outro. — Está com medo da minha aparência?

Ela assentiu desconfiada, tentando engolir apesar da secura na garganta.

Ele lhe entregou uma bolsa de água, e ela bebeu, agradecida.

— Não tenha medo. Sou de raça mestiça, humano e mwellret, pequenina. Pareço assustador, mas sou seu amigo. Eu fui aquele que salvou você dos outros. Do Tio Negro e de seus mutantes.

Era a segunda vez que ele mencionava o Tio Negro.

— Quem é ele? — ela perguntou. — Foi ele quem nos machucou?

— Ele é um druida. Walker é seu nome. Foi ele quem atacou sua casa e matou seus pais e seu irmão. — Os olhos de réptil a encararam. — Pense bem. Você vai se lembrar de ter visto o rosto dele.

Para sua surpresa, ela se lembrava. Ela o via com clareza. Vislumbrou seu rosto quando passara por uma das janelas na luz minguada da aurora, pele escura e barba preta, olhos tão penetrantes que faziam você se sentir nua, testa escura vincada por linhas de expressão. Ela o viu, soube que era seu inimigo e sentiu uma fúria de tamanha intensidade que achou que poderia queimar de dentro para fora.

Então começou a chorar, pensando nos pais e no irmão, em sua casa e seu mundo perdido. O homem à sua frente puxou-a gentilmente para seus braços e a abraçou.

— Você não pode voltar — disse a ela. — Eles estarão procurando por você. Jamais desistirão enquanto acharem que está viva.

A cabeça dela, apoiada em seu ombro, assentiu.

— Eu os odeio — disse ela com um gemido fino e agudo.

— Sim, eu sei — sussurrou ele. — Você está certa em odiá-los. — Sua voz rouca e gutural ficou mais dura. — Mas me escute, pequenina. Eu sou o Morgawr. Sou seu pai e sua mãe agora. Sou sua família. Vou ajudá-la a achar um meio de se vingar por tudo o que tomaram de você. Vou lhe ensinar a se defender de tudo o que possa feri-la. Ensinarei você a ser forte.

Levantou-a como se ela não pesasse nada e levou-a ainda mais para o interior da floresta, onde um pássaro gigante os esperava. Ele chamou o pássaro de shrike e ela voou em suas costas com o Morgawr para outra parte das Quatro Terras, uma parte escura, solitária e vazia de sons e de vida. Ele cuidou dela como prometera, treinou-a em mente e corpo e a manteve segura. Contou a ela mais sobre o druida Walker, de seus esquemas e de sua fome de poder, do objetivo que ele possuía há muito de dominar todas as raças em todas as terras.

Mostrou-lhe imagens do druida e de seus servos de mantos negros e manteve em seu peito de criança a raiva quente e viva.

— Nunca esqueça o que ele roubou de você — ele repetia. — Nunca esqueça o que ele, por sua traição, deve a você.

Depois de algum tempo, ele começou a ensiná-la a utilizar a canção do desejo como uma arma contra a qual ninguém poderia se defender — não quando ela a tivesse dominado e aprendido a controlá-la, e quando fizesse dela uma parte tão grande de si própria que seu uso pareceria uma segunda natureza. Ele ensinou que até mesmo uma ligeira variação de volume ou de tom podia transformar saúde em doença e vida em morte. Um druida tinha esse tipo de poder, ele disse. Especialmente o druida Walker. Ela deveria aprender a ser páreo para ele. Deveria aprender a usar sua magia para superar a dele.

Com o passar do tempo ela parou de pensar em seus pais e em seu irmão, pois sabia que eles estavam mortos e para sempre perdidos; não eram mais do que ossos enterrados no solo, uma parte do passado perdida para sempre, de uma infância apagada em um único dia. Entregou-se à sua nova vida e a seu mentor, seu professor e amigo. O Morgawr foi tudo isso durante sua adolescência, tudo isso e muito mais. Foi ele quem a moldou em pensamento e lhe orientou a vida. Foi ele a inspiração para os objetivos de sua magia e o guardião de seus sonhos em compensar os males que ela sofrerá.

Ele a chamava de sua pequena bruxa Ilse, e ela assumiu o nome como seu próprio. Enterrou o nome original com seu passado e jamais voltou a usá-lo.

 

Suas lembranças do passado, já desvanecidas e em farrapos, voltaram em uma fração de segundo quando ela, em uma floresta a mil e quinhentos quilômetros de seu lar perdido, confrontou-se com o rapaz que afirmava ser seu irmão.

— Grianne, sou Bek — ele insistiu. — Você não se lembra de mim?

Ela se lembrava de tudo, claro, embora não mais com tanta nitidez e precisão, não mais com tanta dor. Ela se lembrava, mas se recusava a crer que suas lembranças pudessem ser revividas com uma clareza tão dolorosa depois de tantos anos. Durante todo aquele tempo, nunca mais ouvira seu nome ser pronunciado, ela própria não o dissera, praticamente não pensara mais nele. Ela era a bruxa Ilse, e esse nome definia quem e o que ela era, e não o outro nome. O outro era para quando ela tivesse conseguido sua vingança sobre o druida, para quando tivesse obtido reconhecimento e poder suficientes, de modo que, da próxima vez em que fosse pronunciado, jamais seria esquecido.

Mas ali estava aquele espirro de garoto, pronunciando-o agora, ousando sugerir que tinha o direito de fazê-lo. Ela o encarou sem acreditar, com uma imensa fúria. Será que ele poderia realmente ser seu irmão? Poderia ser Bek, vivo apesar do que ela acreditara por tanto tempo? Seria possível isso? Tentou dar sentido à idéia, encontrar uma maneira de abordá-la, formar palavras para dizer em resposta. Mas tudo o que pensava fazer ou dizer estava confuso e incoerente, recusava-se a ser organizado de alguma maneira útil. Tudo se paralisou como se estivesse acorrentado e trancado, deixando-a tão frustrada com sua incapacidade de agir que teve de se esforçar muito para não gritar.

— Não! — ela gritou finalmente. Uma única palavra, dita como uma maldição pronunciada contra demônios, escapou de seus lábios quando nada mais se atrevia a fazer.

— Grianne — disse ele, agora com mais suavidade.

Ela viu os cabelos castanho-escuros desgrenhados e os impressionantes olhos azuis, tão parecidos com os dela, que lhe eram tão familiares. Ele tinha o mesmo aspecto e a mesma constituição física dela. E tinha também alguma coisa a mais, algo que ela ainda não sabia definir, mas que estava ali, inconfundivelmente. Ele poderia mesmo ser Bek.

Mas como? Como poderia ser Bek?

— Bek está morto — ela sibilou, enrijecendo o corpo esguio dentro dos mantos negros.

No chão, ao lado, uma pequena trouxa de roupa e de sombras, Ryer Ord Star estava de joelhos, a cabeça baixa coberta pelos véus de seus longos cabelos prateados, mãos fechadas sobre o colo. Não havia se movido desde que a bruxa Ilse aparecera naquela noite, não levantara a cabeça um milímetro nem dissera uma palavra sequer. No silêncio e na escuridão, parecia uma estátua esculpida em pedra e colocada ali por seu criador para avisar aos viajantes que ali era um lugar de descanso.

Os olhos da bruxa Ilse passaram sobre ela por uma fração de segundo e voltaram a se fixar no garoto.

— Diga alguma coisa! — ela sibilou novamente. — Diga-me por que eu deveria acreditar em você!

— Eu fui salvo por um mutante chamado Truls Rohk — ele respondeu por fim, encarando-a com firmeza. — Fui levado até o druida Walker, que por sua vez me levou às pessoas que me criaram como filho. Mas eu sou Bek.

— Você não tem como saber nada disso! Você tinha apenas dois anos quando eu o escondi naquele porão! — Ela se corrigiu: — Quando escondi meu irmão. Mas meu irmão está morto, e você é um mentiroso!

— A maior parte disso me foi contada — ele admitiu. — Não me lembro de como fui salvo. Mas olhe para mim, Grianne. Olhe para nós! Não há como deixar de reconhecer a semelhança, o quanto somos parecidos. Temos os mesmos olhos e a mesma cor. Somos irmãos! Você não sente isso?

Ela deu um passo adiante.

— Por que um mutante salvaria você se foram os mutantes que mataram meus pais e me levaram prisioneira? Por que o druida salvaria você se ele queria me aprisionar?

O rapaz balançava a cabeça devagar, deliberadamente, os olhos azuis intensos, o rosto jovem determinado.

— Não, Grianne, não foram os mutantes nem o druida que mataram nossos pais e levaram você embora. Eles nunca foram seus inimigos. Você ainda não está vendo a verdade? Pense, Grianne.

— Eu vi o rosto dele! — ela gritou furiosa. — Eu o vi por uma janela, de relance, passando na luz da aurora, logo antes do ataque, antes que eu...

Ela parou de falar, imaginando súbita e inesperadamente se poderia ter sido enganada. Será que ela havia visto o druida, como o Morgawr havia insistido quando pediu que ela pensasse bem, tão certo de que era isso o que ela veria? Como ele poderia saber o que ela teria visto? Pensar no que significaria caso ela tivesse enganado a si mesma era atordoante. Afastou violentamente esse pensamento, mas ele se enroscou em um canto de sua memória como uma serpente, ainda ao alcance de um bote.

— Nós somos Ohmsford, Grianne — o rapaz continuou a falar suavemente. — Mas Walker também é. Temos a mesma herança. Ele vem da mesma linhagem que nós. Ele é um de nós. Não tem motivo para nos fazer mal.

— Não um motivo que você conheça, ao que parece! — Ela deu uma gargalhada atrevida. — O que você sabe de intenções malignas, rapazinho? O que a vida mostrou a você que lhe dá o direito de supor que sua opinião sobre essas coisas é melhor do que a minha?

— Nada. — Por um momento ele não tinha palavras, mas seu rosto transmitia a necessidade que tinha de encontrá-las. — Eu não vivi sua vida, sei disso. Mas não sou ingênuo para não imaginar como deve ter sido.

A paciência dela diminuiu mais um pouco.

— Acho que você acredita no que está me dizendo — disse ela friamente. — Acho que você foi ensinado cuidadosamente a acreditar nisso. Mas você é um tolo e um fantoche de homens inteligentes. Druidas e mutantes abrem seu caminho no mundo enganando os outros. Devem ter procurado muito até encontrar você, um garoto que se parece muito a como Bek seria se tivesse a sua idade. Devem ter ficado muito felizes com a boa sorte que tiveram.

— Então como é que eu sei o nome dele? — foi a resposta rápida do garoto. — Se eu não sou seu irmão, como é que eu tenho o nome dele? Foi o nome que recebi, o nome que eu sempre tive!

— Ou pelo menos é nisso que você acredita. Um druida pode fazer você abraçar mentiras com pouco mais do que um pensamento, até mesmo mentiras sobre você mesmo. — Ela balançou a cabeça em reprovação. — Você foi tristemente enganado para acreditar nisso, para achar que é um menino que, na verdade, está morto. Eu devia destruí-lo aqui e agora, mas talvez o druida esteja esperando que eu faça exatamente isso, talvez seja isso o que ele quer que eu faça. Talvez pense que de algum modo irá me prejudicar se eu matar um garoto que parece tanto com meu irmão. Diga-me onde o druida está e eu o pouparei.

O rapaz olhou para ela horrorizado.

— É você quem está sendo enganada, Grianne. Tanto que dirá qualquer coisa a si mesma para ocultar a verdade.

— Onde está o druida? — ela rugiu, o rosto se contorcendo de raiva. — Diga-me agora!

Ele respirou fundo, endireitando-se.

— Eu vim de muito longe para este encontro. Longe demais para ser intimidado e desistir do que eu sei que é a verdade. Sou seu irmão. Sou Bek. Grianne...

— Não me chame assim! — ela gritou. Seus mantos cinzentos tremularam em seu corpo e ela levantou os braços em fúria, quase como se quisesse esmagar suas palavras, enterrá-las junto com seu passado. Sentiu sua raiva aumentar, seu controle sobre si mesma indo embora, escorregando como peças de metal lubrificadas, e o poder puro de sua voz assumiu um tom que poderia facilmente cortar em pedaços qualquer coisa ou qualquer pessoa contra a qual fosse direcionado. — Nunca mais diga meu nome!

Ele permaneceu onde estava.

— E que nome devo dizer? Bruxa Ilse? Deveria chamar você como seus inimigos a chamam? Deveria tratá-la como eles a tratam, como uma criatura de magia negra e intenções malignas, como alguém de quem nunca vou estar perto, cuidar ou ver tornar-se minha irmã novamente?

Ele parecia ganhar forças a cada nova palavra, e subitamente ela o viu como sendo mais perigoso do que acreditava.

— Tome cuidado, garoto.

— É você quem precisa tomar cuidado! — ele retrucou. — Em quem e no que acredita! Com tudo o que você abraçou desde o momento em que foi levada de nossa casa. Com as mentiras com as quais você se cobriu!

Apontou para ela subitamente.

— Somos parecidos em mais aspectos do que você pensa. Nem tudo o que nos liga é visível a olho nu. Grianne Ohmsford tem sua magia, seu direito de nascimento, que agora é a ferramenta da bruxa Ilse. Mas eu também tenho essa magia! Está ouvindo a magia em minha voz? Você ouve, não ouve? Não tenho tanta prática quanto você e acabei de descobri-la, mas é outro elo em nossas vidas, Grianne, outra parte da herança que compartilhamos...

Ela sentiu a voz dele assumir um tom semelhante ao seu próprio, um toque ácido que a fez estremecer e levantar suas defesas instantaneamente.

— ...assim como compartilhamos os mesmos pais, o mesmo destino, a mesma viagem de descoberta, provocada por uma busca pelo tesouro oculto nas ruínas que estão dentro deste continente...

Ela começou a fazer com a voz um zumbido baixo e vibrante, um som suave que se misturava com a noite, fraco e sibilante, folhas farfalhando na brisa, insetos cricrilando e zumbindo, pássaros voejando como sombras rápidas, a respiração das coisas vivas. Sua decisão foi tomada em um instante, rápida e implacável; ele era perigoso demais para que o deixasse viver, fosse ele quem ou o que fosse. Perigoso demais para que ela o ignorasse como pensara em fazer. Afinal, ele tinha algo de mágico, uma magia que não era muito diferente da sua. Foi isso o que ela sentira a respeito dele inicialmente, sem ser capaz de definir, oculta a princípio, mas presente agora no som de sua voz, um sussurro de possibilidades.

Acabe com ele, ela avisou a si mesma.

Acabe com ele agora!

Então alguma coisa tremeluziu ao seu lado, desviando sua atenção do garoto. Ela atacou a coisa sem pensar, a magia escapando-lhe em um jato de lascas de ferro e pontas afiadas que rasgaram o ar e atingiram seu alvo pretendido sem esforço e sem parar. Mas o brilho havia mudado de lugar. A bruxa Ilse tornou a atacá-lo; sua voz uma arma de tamanho poder que estilhaçou o silêncio, fustigou as folhas das árvores ao redor como se elas fossem atingidas por um violento vendaval, e deixou sem voz e com olhos arregalados o garoto que estava falando.

No instante seguinte, ele desapareceu. Tudo aconteceu de modo tão rápido e inesperado que acabou antes que a bruxa Ilse pudesse agir para detê-lo. Ela ficou olhando para o espaço vazio no qual ele estivera, vendo o brilho assumir uma forma nova, tornando-se uma série de movimentos quase irreconhecíveis que atravessaram a noite como sombras de forma vagamente humana caçando uma à outra. Ela os atacou de surpresa, mas estava muito lenta e seu ataque muito mal direcionado para pegar mais do que o ar.

Ela girou para um lado e para outro, procurando o que conseguira enganá-la tão completamente. Fosse o que fosse, já havia ido embora e levara o garoto consigo. Seu primeiro impulso foi sair em perseguição. Mas os primeiros impulsos raramente são sábios e ela não cedeu a este. Vasculhou a clareira vazia e em seguida a floresta que a cercava, procurando com os seus sentidos algum vestígio daquele que resgatara o garoto. Só levou um instante para descobrir sua identidade. Um mutante. Percebera que já havia sentido sua presença antes: na Black Moclips, após a noite da colisão com a Jerle Shannara. Era a mesma criatura, sem dúvida. Ele devia ter entrado a bordo durante a confusão para espioná-la e depois permanecido oculta pelo restante da viagem. Isso não teria sido fácil, dada a intensidade de seu controle sobre os aposentos da nave e a tripulação. Aquele mutante em particular era habilidoso e experiente, veterano de esforços desse tipo, e não tinha o menor medo dela.

Uma nova raiva cresceu dentro dela. Ele devia tê-la acompanhado da nave até a clareira, revelando-se quando acreditara que o garoto estava em perigo. Será que ele conhecia o garoto? Ou o druida? Será que servia a um dos dois ou a ambos? Ela acreditava que sim. Do contrário, por que se envolveria naquilo tudo? Seria protetor do garoto? Talvez. Se fosse, confirmaria o que ela acreditara desde o começo, desde o momento em que o garoto tentara enganá-la, fazendo-a pensar que poderia ser Bek. O druida planejara um esquema elaborado para minar sua confiança na missão e no Morgawr, sabotar o relacionamento entre os dois e deixá-la vulnerável para que pudesse encontrar uma maneira de destruí-la antes que ela o destruísse.

Ela apertou as mãos até os nós dos dedos ficarem brancos. Devia ter matado o garoto na hora, no momento em que ele dissera seu nome! Devia ter usado a canção do desejo para queimá-lo vivo, esperando que ele implorasse por socorro, que admitisse suas mentiras! Jamais deveria ter escutado nada do que ele dissera!

Mas agora que havia escutado não conseguia abandonar a sensação de que não deveria ignorar tudo aquilo tão depressa.

Remoeu o assunto com cuidado, examinando-o sob uma nova luz. A semelhança entre os dois poderia ser explicada, claro. Um garoto que se parecesse com ela poderia ser facilmente encontrado. Nem seria assim tão difícil para Walker fazer o garoto achar que era Bek, até mesmo achar que sempre se chamara Bek. Tapeá-lo e fazê-lo acreditar que era seu irmão e que haveria de resgatá-la era algo que estava certamente dentro das capacidades do druida. Era razoável acreditar que ele fora trazido na viagem unicamente com o propósito de, por algum meio, em algum lugar, encontrá-la e desempenhar seu papel.

Mas...

Ergueu o rosto pálido e luminoso e seus olhos azuis encararam a noite. Ali, no fim, quando ele perdera a paciência com ela, quando a desafiara como ninguém mais teria ousado, nem mesmo o Morgawr, alguma coisa nele a lembrara de si mesma. Uma convicção, uma certeza registrada em suas palavras e em sua postura, na fixidez e na intensidade de seu olhar. Mas, mais do que isso, ela havia sentido algo de inesperado e familiar em seu tom de voz, algo que não poderia confundir-se com nada além do que realmente era. Ele lhe dissera, mas no calor do momento ela não acreditara nele, pensando apenas que a estava ameaçando, que poderia lhe provocar danos de forma inesperada e que ela deveria proteger-se. Mas estava ali assim mesmo.

Ele tinha a magia da canção do desejo, a sua magia, o seu poder duplicado.

Quem, a não ser seu irmão ou outro Ohmsford, possuiria esse poder?

A contradição do que parecia ser verdade e do que parecia ser mentira a frustrava e confundia. Ela queria dispensar o garoto sem mais considerações, mas não conseguira. Havia nele o suficiente de magia real para fazer com que ela se perguntasse quanto a sua verdadeira identidade, mesmo que não acreditasse que fosse Bek. O druida podia fazer muitas coisas ao criar uma ferramenta para enganá-la, mas não podia criar magia em outra pessoa, e particularmente não uma magia daquele tipo.

Então, quem era o garoto e qual era sua verdade?

Ela sabia o que deveria fazer, fora para isso que percorrera todo aquele caminho. Achar o tesouro que se ocultava em Castledown e tomar posse dele. Encontrar o druida e destruí-lo. Voltar à segurança da Black Moclips e navegar de volta para casa o mais rápido possível, livrando-se dessa viagem e seus perigos.

Mas o garoto a intrigava e perturbava, tanto que, sem compreender por quê, ela estava repensando completamente seus planos. Apesar do que sabia a respeito do engano dele, intencional ou não, não queria abrir mão de resolver aquele mistério, ainda que o tanto que já descobrira pudesse provocar um grande impacto sobre si mesma. Não de maneira a alterar sua vida, claro, quanto a isso ela já havia se decidido, mas de modo mais sutil, e ainda assim importante.

Seria muito difícil descobrir a verdade a seu respeito, assim que ela se dispusesse a isso? Quanto tempo isso levaria?

O Morgawr não aprovaria, mas ele aprovava poucas coisas que ela fazia naqueles dias. O relacionamento que tinha com seu mentor já se estava deteriorando havia algum tempo. Não mais compartilhavam o vínculo mestre/aluna que um dia tiveram. Ela era tão mestra agora quanto ele e desdenhava das restrições que ele constantemente procurava lhe impor. Ela não se esquecera de que era sua devedora, não era ingrata por tudo o que ele ensinara ao longo dos anos. Mas não gostava de sua insistência em colocá-la em seu lugar, sempre como sua subordinada, sua súdita, uma encarregada que deveria agir conforme ele ditasse. Ele era velho, e talvez por ser velho não podia mais mudar tão facilmente quanto os jovens. A autopreservação era o que importava para ele. Mas ela não aspirava a viver mil anos. Não considerava a quase imortalidade um benefício a ser procurado. Daí a necessidade de levar as coisas a cabo, em vez de ficar sentada planejando, aguardando e bolando esquemas, como ele estava tão acostumado a fazer.

Não, ele não aprovaria, e nesse caso ela estaria errada se não levasse isso em conta. Procurar o rapaz para solucionar o mistério dele e satisfazer a própria curiosidade era mera auto-indulgência. Hesitou por um momento, depois deixou a hesitação de lado. A decisão era sua, era sua escolha se ela perdesse um tempo que a ela pertencia. O garoto tinha algo de que ela precisava, concordasse o Morgawr ou não. De qualquer maneira, ele não estava ali para aconselhá-la. Cree Bega supostamente falaria por ele, mas a opinião do mwellret significava praticamente nada para ela.

Mas ela teria de agir rápido. O ret não estava muito atrás dela, aproximando-se com mais outros vinte. Sua aproximação só fora retardada porque, desejando ir adiante por si mesma para dar a primeira olhada no que os aguardava, ela lhe ordenara que esperasse. Talvez, acrescentou, para se certificar de que ele não interferiria em nada que ela decidisse fazer com o que encontrasse. Talvez só para mantê-lo na linha, onde era o seu lugar.

Ela se encaminhou até Ryer Ord Star e curvou-se, tentando determinar se a vidente estava saindo do transe. Mas a garota não se mexia, sentada em silêncio, imóvel na noite, cabeça baixa na sombra, olhos fechados. Sua respiração era constante e tranqüila: parecia que sua saúde não estava em perigo. Mas o que estaria fazendo? Para onde dentro de si mesma ela havia ido?

A bruxa Ilse ajoelhou-se na frente da garota. Não tinha tempo para esperar que a vidente concluísse suas meditações. Precisava das respostas dela. Colocou os dedos nas têmporas da outra, assim como fizera com o náufrago cujas revelações haviam iniciado toda aquela coisa, e começou a sondar. O esforço requerido era pequeno. A mente de Ryer Ord Star abriu-se para ela como uma flor perante o sol nascente, suas memórias caindo em cascata, como pétalas. Sem olhar para a maioria delas sequer de relance, a bruxa Ilse foi direto para as mais recentes, as que revelariam o destino do druida.

Revelações vinham à tona como os mortos do oceano, nuas e cruas. Ela viu uma batalha dentro de ruínas que pertenciam ao Antigo Mundo, uma batalha na qual o druida e sua companhia eram atacados por todos os lados por linhas de fogo vermelho que queimavam e cauterizavam. Paredes se moviam, levantando-se e abaixando-se sobre pisos de metal liso. Rastejadores apareciam do nada, monstros de metal com pernas articuladas e garras que cortavam e rasgavam. Homens lutavam e morriam em um turbilhão de fumaça grossa e labaredas de fogo. Visto pelos olhos de Ryer Ord Star, filtrado por suas emoções, tudo era caótico e mergulhado em medo e desespero.

No meio da loucura, o druida avançou por linhas de ataque e mudanças de terreno, seu progresso firme e deliberado auxiliado por sua magia e reforçado por sua coragem e determinação. Podiam dizer o que quisessem, mas o druida nunca fora um covarde. Avançara lutando até o coração das ruínas, gritando em vão para que os outros de sua companhia recuassem, fugissem, tentando mantê-los vivos. Por fim, chegou à porta de uma torre negra, forçou a entrada e desapareceu em seu interior.

Ryer Ord Star gritou e começou a ir atrás dele, mas o fogo a atingiu, jogando-a de encontro a uma parede. Seus pensamentos sobre o druida se desvaneceram e então tudo ficou escuro.

A bruxa Ilse retirou os dedos das têmporas da vidente e sentou-se sobre os calcanhares, perplexa. Interessante. A comunicação viera sem palavras de qualquer espécie e sem resistência. Seria esta a natureza dos empatas, que eles não conseguiam destruir nem esconder? Descobriu-se imaginando a perseguição do druida pela garota, galvanizada pelo desaparecimento deste último dentro da torre. Por que ela se arriscaria tanto? A garota fora instruída a ficar perto do druida em todos os momentos, a se tornar indispensável para ele, a ganhar sua confiança e sua atenção. Obviamente era o que ela havia feito. Mas havia algo mais entre eles, algo que ia além da tarefa que ela recebera como espiã da bruxa Ilse?

Não havia como saber. Não sem prejudicar a garota, e a bruxa Ilse ainda não estava preparada para chegar a esse ponto. Tinha o que desejava por ora: um quadro claro do que acontecera àqueles da companhia da Jerle Shannara que seguiram para o interior da ilha com o druida. Mas ela não sabia ao certo o destino do druida. Talvez ele estivesse morto. Talvez estivesse preso debaixo das ruínas. De qualquer modo, ele não representava nenhum perigo para ela. Sem uma aeronave para transportá-lo e com a maior parte de sua companhia, morta ou aprisionada, pouco mal ele poderia fazer.

Então ela tinha tempo para o garoto. Tempo suficiente para não precisar mais pensar no outro assunto.

Não mais do que alguns minutos haviam se passado até que Cree Bega e sua companhia de mwellrets apareceram por entre a penumbra, corpos pesados andando desconfiados pela floresta escura, olhos verticais brilhando quando a avistaram. Criaturas repulsivas!, pensou ela, mas manteve o rosto sem expressão. Levantou-se para recebê-los e esperou em pé até que eles se aproximassem.

— Messtra — sibilou o líder deles, designado como seu protetor, curvando-se obsequioso. — Achou os pequeninoss?

— Decidi deixar isso para você, Cree Bega. Para você e seus companheiros. Aconteceu uma batalha nas ruínas adiante, e aqueles da companhia do druida que não estiverem mortos estão dispersos. Encontre-os e faça deles prisioneiros. Isto inclui o druida, caso você o encontre e descubra que ele está indefeso o suficiente para se render.

— Messtra, eu acho que...

— Mas tome cuidado, pois ele é mais do que páreo para todos vocês juntos. — Ela ignorou sua tentativa de falar. — Deixe-o comigo se descobrir que ele é capaz de se defender. Não entre nas ruínas; elas estão bem protegidas. Não se exponha nem a seus homens ao perigo que elas oferecem. Mantenha vigilância cerrada sobre ambas as aeronaves e não as pousem sob nenhuma circunstância.

Agora ele a observava atentamente, percebendo que ela já afastara do pensamento tudo o que o instruía a fazer.

— Surgiu uma coisa que preciso investigar. — Ela sustentou o olhar reptiliano dele com um olhar firme e calmo. — Estarei fora por algum tempo, e enquanto estiver fora você se encarregará. Não me decepcione!

Por um momento não houve resposta e ela pensou que ele não havia entendido.

— Fui clara?

— Para onde minha messtra vai? — ele perguntou suavemente. — Nosssa misssão é aqui...

— Nossa missão é onde eu disser que é, Cree Bega.

Algo no olhar frio do mwellret tornou-se subitamente perigoso.

— Sseu messtre não aprovaria esste dessvio...

Dois passos rápidos colocaram-na bem na frente dele.

— Meu mestre? — Houve um silêncio desconfortável enquanto ela esperava a resposta. Ele ficou olhando para ela em silêncio. — Não tenho mestre, ret — murmurou ela. — Você tem um mestre, não eu, e de qualquer maneira ele não está aqui. Eu sou aquela a quem você deve obedecer. Eu sou sua mestra. Algo mais que eu deva explicar?

O mwellret não disse nada, mas ela não se importava com o que via em seus olhos. Deu-lhe um momento a mais, então repetiu em voz baixa:

— Algo mais?

Ele balançou a cabeça.

— Como dessejar, messtra. Os pequeninoss sserão nosssoss prissioneiross quando retornar, prometo. Mass e o tessouro?

— Nós o teremos muito em breve. — Olhou para longe, na direção de Castledown. Seria mesmo? Seria assim tão fácil? Ela achou que seu conhecimento da situação lhe dava uma vantagem sobre o druida, mas não podia se dar ao luxo de subestimar o inimigo que protegia Castledown. Se ele podia derrotar o druida tão facilmente, era muito mais forte do que ela esperava. — Deixe a questão de recuperar o tesouro comigo.

Dispensou-o praticamente sem olhar para ele, e então se lembrou de Ryer Ord Star, ainda ajoelhada e encolhida num canto, ainda perdida em algum outro lugar e tempo.

— Não machuque a garota — disse a Cree Bega, dando-lhe um olhar rápido e duro de advertência. — Ela tem sido meus olhos e ouvidos a bordo da aeronave do druida nesta viagem. Ela sabe muita coisa que ainda não me contou. Quero que fique segura para meu retorno, para que eu descubra o que ela oculta.

O mwellret fez que sim, lançando um olhar de dúvida para a vidente.

— Esssa aí já parece morta.

— Ela dorme. Está em alguma espécie de transe. Ainda não tive tempo de descobrir o que há de errado com ela. — Dispensou o ret. — Faça o que estou mandando. Não demorarei.

Deixou a clareira sem olhar para trás. Cree Bega e os outros fariam o que ela ordenara. Teriam medo de fazer qualquer outra coisa. Mas ela foi lembrada novamente de que estava cada vez mais difícil controlá-los. Estaria melhor sem eles assim que tivesse o tesouro nas mãos. Dali a mais algum tempo, ela se livraria deles de uma vez por todas.

A leste, o céu começava a clarear levemente com a chegada da aurora. A noite já descia a oeste, tinta preta escorrendo silenciosamente por entre as árvores. Um novo dia traria novas revelações. Sobre o rapaz, talvez. Sobre por que ele pensava o que pensava. Sobre como sua magia encontrara seu caminho até ele, e por que essa magia era tão parecida com a dela. Um sorriso de expectativa iluminou seu rosto pálido. Ela teria de descobrir as respostas. Sentiu um êxtase de expectativa.

Hesitação e dúvidas eram para os outros, ela pensou, para aqueles que jamais encontrariam seu próprio caminho no mundo e jamais fariam algo que importasse de suas vidas.

Captando traços leves do mutante que ainda estavam no ar noturno que sumia, ela começou a caçada.

 

Os olhos brilhantes cheios de malícia, Cree Bega observou-a sem dizer palavra até ela sumir de sua vista. Agachado dentro de seu manto e cercado por aqueles que comandava, imaginou como seria doce quando lhe fosse permitido finalmente pôr fim àquela garotinha insuportável. Que ele a odiava mais do que ninguém era óbvio; jamais sentira nada por ela a não ser ódio. Desprezava-a tanto quanto ela o desprezava, e nada que precisassem fazer juntos em serviço para o Morgawr jamais mudaria isso.

Mas o Morgawr, embora afirmasse ser o mentor e amigo da garota, era mais mwellret do que humano. Sua ligação para com o povo de Cree Bega era antiga e tinha laços de sangue. Unira-se à garota porque ela era uma novidade e porque vira nela uma utilidade no esquema geral das coisas. Mas seu coração e alma eram de mwellret.

A garota, claro, acreditava que eram iguais, párias que se uniram em sua luta por reconhecimento e poder sobre seus opressores. O Morgawr deixava que ela acreditasse nisso porque isso se adequava a seus propósitos. Mas não eram iguais de nenhuma maneira que importasse e a pequena bruxa Ilse era muito menos habilidosa em seu uso da magia do que acreditava. Era um aborrecimento desajeitado e posudo, uma praticante inepta, tola e ridícula de uma arte que fora dominada pelos mwellrets e sua espécie há séculos, antes que os druidas sequer pensassem em assumir a magia élfica como sua espada e escudo. Os mwellrets jamais seriam subjugados pelos humanos, jamais se tornariam seus inferiores, e aquela garota era apenas outro bocado iludido, esperando para ser arrancado da cadeia alimentar deles.

Sentiu os olhos de seus companheiros sobre ele, esperando suas ordens, seus próprios pensamentos tão escuros e vingativos quanto os dele. Eles também esperavam por uma chance com a bruxa Ilse. Cree Bega daria a ela a satisfação de achar que ele estava subjugado e obediente por ora. Isso ele prometera ao Morgawr. Obedeceria às ordens dela e aceitaria seus desejos porque não havia motivo para fazer diferente.

Mas estava vindo uma mudança nos ventos, e quando chegasse marcaria o fim da bruxa Ilse.

Virou-se para os outros, vendo-os agrupados bem perto dele, visões sombrias ansiosas dentro de mantos de sombra. Aguardavam suas ordens, ansiosos para fazer alguma coisa. Ele os comandaria. Os membros da companhia da Jerle Shannara estavam soltos em algum lugar mais adiante, entre as árvores, esperando para serem recolhidos, mortos ou aprisionados. Era hora de satisfazê-los.

Grunhindo suavemente, disse a seus homens que começassem com Ryer Ord Star e depois prosseguissem.

Mas, quando se voltaram para cuidar da vidente, ela havia desaparecido.

 

Braços de ferro apertaram Bek Ohmsford de encontro a um corpo cujo cheiro era ligeiramente fétido e viscoso, uma mistura de terra e produtos químicos. O corpo se movia com a velocidade do pensamento, deslizando por entre árvores e arbustos, arrancando camadas de si mesmo como se fossem peles, sombras que pendiam escuras e vazias no ar e em seguida se desvaneciam completamente. Algumas explodiram em fragmentos de noite quando a magia da bruxa Ilse os atingiu, mas Bek e seu salvador sempre estavam a uma pele de distância.

Então ultrapassaram a clareira e adentraram a proteção das árvores, ainda correndo muito, mas agora envoltos em sombras e telas feitas de arbustos e galhos. Foi nesse momento que, subitamente apavorado pelo desconhecido, por algo poderoso e misterioso o bastante para desafiar a magia da bruxa Ilse, Bek começou a lutar.

— Fique quieto, garoto! — sibilou Truls Rohk, apertando-o com força com os braços poderosos como que para avisá-lo, sem reduzir o passo.

Correram por muito tempo, Bek encolhido nos braços do outro, até que a clareira e a bruxa ficaram bem para trás. Então pararam e o mutante se ajoelhou e soltou o garoto, deixando-o rolar para a terra todo embolado, para ali se desenrolar e se endireitar novamente. Bek ouvia Truls Rohk respirando com dificuldade, exausto, curvado dentro do manto que o ocultava enquanto esperava recobrar sua força. Bek ficou de quatro, as terminações nervosas formigando com vida nova à medida que o sangue voltava a circular por seus membros cheios de cãibras. Estavam em um lugar onde as árvores e a vegetação eram tão densas que a luz da lua e das estrelas não penetrava, onde tudo estava envolto no mais profundo silêncio.

— Manter você vivo está se tornando um trabalho de tempo integral — o mutante resmungou irritado.

Bek pensou em sua oportunidade perdida de convencer a bruxa Ilse de quem ele era.

— Ninguém pediu que você interferisse! Eu estava muito perto de convencê-la! Eu estava quase...

— Você estava quase sendo morto — disse o outro com uma gargalhada breve e seca. — Não estava sequer prestando atenção suficiente no efeito que provocava sobre ela, tão envolvido que estava na certeza e na justiça de seu argumento. Ah! Convencê-la? Será que você não sentiu o que estava acontecendo? Ela estava pronta para usar sua magia em você!

— Não é verdade! — Bek ficou furioso de repente. Levantou-se desafiador. — Você não tem como saber!

Agora o mutante gargalhava de verdade, soltando um uivo baixo e firme que lutava muito para reprimir.

— Não posso rir tão alto quanto eu gostaria, garoto. Aqui não. Não ainda tão perto. — Levantou-se, confrontando o garoto. — Me escute. Seus argumentos eram bons. Eram justos e verdadeiros. Mas ela não estava pronta para eles. Acho até que ela queria acreditar em parte. Poderia até ter acreditado em tudo isso em outras circunstâncias, e talvez venha a acreditar depois de pensar nisso algum tempo. Mas ainda não estava pronta para isso ali e àquela hora. Especialmente não no fim, quando você deixou sua própria magia escapar de você de novo. Não foi sua culpa, eu sei, ainda está aprendendo. Mas precisa ter consciência de suas limitações.

Bek arregalou os olhos.

— Eu estava usando a canção do desejo?

— Não de forma consciente, mas escapava de você enquanto tentava falar com ela a respeito. — Truls Rohk fez uma pausa. — Quando ela percebeu essa presença, sentiu-se ameaçada. Achou que você a atacaria. Ou apenas decidiu que era muita coisa para lidar e que deveria acabar com você.

Truls Rohk virou-se e andou alguns passos, olhando para o caminho por onde vieram.

— Por enquanto tudo quieto. Mas acho que ainda não acabou. — Voltou-se para ele. — Você a surpreendeu, garoto, e isso é perigoso com alguém tão poderoso. Você deu a ela muita coisa de uma vez, muita coisa que não queria ouvir, que provocaria um impacto sobre ela de um jeito que não poderia digerir tão rápido. — Ele grunhiu. — Imagino que não pudesse evitar isso. Ela apareceu e o encontrou. O que é que você poderia fazer?

Bek ficou em silêncio diante dele, meditando. Truls Rohk tinha razão. Ele ficara tão envolvido em convencer Grianne de que era seu irmão que quase não prestara atenção ao que ela fazia. Era possível que ela não tivesse acreditado nele, talvez nem mesmo pudesse acreditar: a revelação fora brusca e surpreendente demais. Só porque ele acreditava não significava que ela fosse acreditar. Ela vivera muito mais tempo com a mentira do que ele com a verdade. Tinha menos chances de ser convencida tão facilmente.

— Sente-se, garoto — disse Truls Rohk, chegando mais perto dele. — É hora de mais algumas revelações. Você estava errado ao achar que ia bem ao convencer sua irmã. E também está errado sobre ninguém ter me pedido para interferir em sua vida.

Bek olhou para ele.

— Walker?

— O que eu lhe disse antes, em Mephitic, era verdade. Fui eu quem o tirou das cinzas da casa de seus pais. Ciente de que sua família estava em perigo, eu estava montando guarda a pedido do druida. Os mwellrets do Morgawr, um tipo de mutantes, rondavam sua casa em Jentsen Close. Você vivia não muito longe das Wolfsktaag, ali num canto do lago do Arco-Íris, no meio de uma comunidade de casas isoladas ocupadas em grande parte por fazendeiros. Vocês eram vulneráveis e Walker buscava uma maneira de mantê-los seguros.

Ele balançou a cabeça dentro de seu capuz, o rosto coberto por camadas de sombras.

— Eu o alertei para que agisse rápido, mas ele foi lento demais. Ou talvez tivesse tentado e seu pai não o escutou. Não conversavam muito e não eram amigos íntimos. Seu pai era um estudioso e não acreditava em violência. Em sua cabeça, os druidas representavam a violência. Mas a violência não quer saber se você acredita nela ou não. Ela procura por você independentemente disso. Procurou por sua família logo antes do amanhecer em um dia em que eu estava ausente. Mwellrets, ali sob ordens do Morgawr, mataram seus pais e queimaram a casa até o chão, fazendo parecer que era obra de gnomos salteadores. Eles pensaram que você havia morrido no incêndio, sem perceber que Grianne o escondera na adega fria. Estavam com pressa, já a haviam apanhado, pois era ela que o Morgawr mais queria, e não procuraram com tanto cuidado quanto eu quando cheguei mais tarde. Achei você no porão, escondido cuidadosamente, chorando, faminto, com frio, e apavorado. Tirei você das cinzas e entreguei-o a Walker.

Bek desviou o olhar dele, pensando a respeito.

— Por que ele não me contou nada disso antes de me enviar para você com Quentin?

O outro deu uma gargalhada.

— Por que é que ele nunca conta nada para nenhum de nós? Ele me contou que um garoto e seu primo estavam vindo, que eu deveria procurar por eles e testá-los para ver se tinham mérito e coração. — Truls Rohk balançou a cabeça. — Ele deixou que eu percebesse sozinho que era você o garoto que eu havia salvo há tantos anos. Deixou que eu sozinho determinasse o que fazer. Está entendendo?

Bek balançou a cabeça, sem estar totalmente certo de que entendia.

— Ele lhe falou que me pedisse para vir com você nessa viagem. Deu-lhe uma mensagem para entregar, que eu poderia interpretar de qualquer maneira que quisesse. Percebi que ele não havia contado a você o que pedia para mim. Isso ficou muito claro. Ele queria que eu fosse seu protetor, que o defendesse quando houvesse ameaça de perigo. Mas eu também deveria monitorar o progresso do desenvolvimento de sua magia. Ele sabia que ela começaria a emergir, e quando isso acontecesse você teria de saber a verdade sobre quem realmente era. Mas ele não queria apressar as coisas; queria mantê-lo no escuro o máximo de tempo possível, para que você não se confundisse com a enormidade disso tudo. Mas eu sabia que quanto mais rápido você descobrisse que tinha o uso da magia, mais rápido encontraria um jeito de aprender. Eu e o druida temos abordagens diferentes e imagino que ele não tenha ficado nem um pouco contente com o que fiz para você em Mephitic.

— Ele ficou furioso — Bek hesitou. — Mas fico feliz por você ter se arriscado comigo. Por ter mostrado o que eu podia fazer. Por ter me dado uma chance de provar meu valor.

O mutante assentiu, os olhos brilhando de leve nas sombras.

— Você nos salvou naquelas ruínas. Tem coração e força de corpo e mente, garoto: ferramentas de que você precisa para lidar com o poder da canção do desejo. Mas suas habilidades ainda são imaturas e inexperientes. Você precisa de tempo e experiência antes de ser páreo para sua irmã.

Bek estudou-o por um momento no silêncio que se seguiu.

— Diga-me a verdade. Você não está me enganando sobre nada disso, está? Porque já fui enganado mais de uma vez nesta jornada.

O outro grunhiu.

— Pelo druida. Por mim, não.

— Grianne é realmente minha irmã, não é? A bruxa Ilse é minha irmã? Preciso ouvir você dizer isso.

Os olhos brilhantes tremeluziram intensos e aguçados dentro do capuz, tudo o que era visível do rosto do outro.

— Ela é sua irmã. Por que eu lhe contaria alguma mentira? Pensa que sou uma ferramenta do druida, como a bruxa acha que você é?

Bek balançou a cabeça.

— Eu tinha de perguntar.

O mutante grunhiu, não inteiramente satisfeito.

— Não faça essas perguntas novamente. Não para mim. — Cruzou os braços dentro do manto. — Agora chega. O que aconteceu com os outros que desembarcaram com você? Não tive chance de procurar por eles. Entrei na aeronave da bruxa durante a colisão em Mephitic achando que seria mais útil lá e aprenderia algo que nos ajudasse a obter alguma vantagem. Mas ela quase me encontrou, e fui forçado a me ocultar com cuidado, esperando uma chance de escapar. Ela saiu sozinha em busca de Walker e, por isso, a segui. Ela me levou até aquela clareira e até você. Mas não até Walker. O que aconteceu com ele?

Rapidamente, Bek contou sobre os eventos desastrosos do último dia, a tentativa de penetrar nas ruínas, as armadilhas encontradas à espera deles, o extermínio da companhia e a dispersão de seus membros com Ryer Ord Star e a elfa rastreadora Tamis. Ele havia fugido para a clareira onde a bruxa Ilse o encontrara. Dos destinos de Quentin, Panax, Ahren Elessedil e Ard Patrinell ele não tinha certeza. Tamis partira em busca deles, mas não retornara. Walker desaparecera dentro da torre negra que dominava o centro das ruínas e dela não saíra.

— Vamos precisar de ajuda para procurá-los — disse Bek. — Especialmente se a bruxa Ilse e os mwellrets também estiverem à procura.

Truls Rohk balançou o corpo levemente e deu um ruidoso suspiro.

— Vamos ter dificuldades para achar qualquer um deles. Esta história está cheia de más notícias. Sua irmã usou a magia para imobilizar a tripulação da Jerle Shannara. Ela abordou a nave e fez a todos prisioneiros. Trancou-os no porão da nave e controla ambas as embarcações. A Black Moclips está ancorada na baía, onde você desembarcou. A Jerle Shannara está rio abaixo, mais perto dos portões de gelo. Nenhuma das duas pode nos ajudar.

Bek sentiu como se o chão tivesse fugido sob seus pés. Apesar de tudo o que lhes fora tomado, pelo menos eles tinham a Jerle Shannara para fugir. Agora até mesmo aquele refúgio estava perdido. Estavam presos em Ice Henge. Não poderiam sequer dizer aos cavaleiros alados onde estavam.

Pensou subitamente em Rue Meridian e sentiu uma pontada súbita de terror, muito mais aguda do que ele teria esperado. Respirou fundo para se acalmar.

— Os rovers estão bem? — perguntou, tentando parecer tranqüilo.

O mutante deu de ombros.

— Ninguém foi ferido na abordagem. Não sei o que aconteceu desde então, mas provavelmente nada.

— Sombras! Nós perdemos tudo, Truls. Você, eu e talvez mais um ou dois somos tudo o que restou, vivos e livres. — Ouviu um quê de desespero se infiltrar em sua voz e tentou bloqueá-lo. — Precisamos fazer alguma coisa. Pelo menos voltar e enfrentar Grianne, achar um modo de convencê-la de que ela é uma Ohmsford, fazer com que ela veja que foi...

— Devagar, garoto — disse Truls Rohk. — Vamos respirar fundo e pensar direito. Não há como voltar para enfrentar a bruxa Ilse agora, ainda não. O que já aconteceu ainda está muito vivo na mente dela. Precisamos de um jeito de atingi-la além do que você já tentou. Algo que ela não possa dispensar tão facilmente quanto suas palavras.

Olhou pensativo por sobre o ombro de Bek. O rapaz acompanhou o olhar dele e viu o cabo da espada de Shannara, que ainda estava amarrada às suas costas. Na empolgação do encontro com sua irmã, esquecera que a carregava.

Tornou a olhar para o mutante.

— Quer dizer que eu deveria usá-la?

— Quero dizer que deveria achar um modo de usá-la. — A voz do outro era irônica. — Não é tão fácil assim, acho. Sua irmã não vai simplesmente ficar ali parada e deixar que você use a magia nela. Mas, se puder encontrar um jeito de pegá-la desprevenida, talvez surpreendê-la, ela poderá não ter escolha. Goste ou não, talvez tenha de encarar a verdade das coisas. É a melhor chance que temos de convencê-la.

Bek balançou a cabeça em dúvida.

— Ela jamais nos dará a chance. Jamais.

Truls Rohk não disse nada, esperando.

— Ela lutará conosco! — Bek esticou a mão para tocar o cabo da espada de Shannara, e então deixou a mão cair indefesa. — Além disso, não sei se vou conseguir fazer a espada funcionar contra ela.

— Contra ela, não — o mutante alertou baixinho. — Para ela.

Bek assentiu devagar.

— Para ela. Para nós dois.

— Eu não descartaria nossas chances assim tão rápido — continuou Truls Rohk. — Perdemos a nave e a tripulação, mas não sabemos quanto a Panax, aquele montanhês e os outros. E eu não consideraria o druida acabado mesmo que o visse sob sete palmos de terra; ele tem mais vidas do que um gato. Não entraria na torre sem um plano para sair dela. Eu o conheço, garoto. Eu o conheço há muito tempo. Ele pensa em tudo. Não me surpreenderia caso já esteja livre e procurando por nós.

Bek pareceu duvidar, mas assentiu mesmo assim.

— E o que faremos agora? Para onde iremos?

Truls Rohk levantou-se, o manto caindo sobre seus ombros largos, cobrindo-o do chão até o alto, fazendo-o parecer um espectro, mesmo na luz cada vez mais clara do amanhecer.

— Preciso voltar atrás o bastante para garantir que a bruxa ou seus rets não nos estão seguindo. Espere aqui o meu retorno. Não saia deste ponto. — Fez uma pausa. — A menos que esteja em perigo. Nesse caso, esconda-se da melhor forma que puder. A menos que seja necessário, não use sua magia. Você ainda não está pronto, não sem mim.

Lançou um olhar impiedoso de alerta para o garoto, e então virou-se e desapareceu no meio das árvores.

 

Bek recostou-se em um velho castanheiro e ficou observando o céu a leste clarear com a chegada da aurora. As trevas davam passagem à luz do amanhecer, e, por sua vez, a luz do amanhecer para a manhã, o céu mudando de cor em intervalos por entre as árvores. Estas eram invisíveis na escuridão e só agora podiam ser vistas com clareza. Bek ficou sentado ali, pensando em onde estava, na jornada que o levara até ali e naquele momento, as mudanças pelas quais passara. Lembrou-se de ter pensado, na noite em que Walker aparecera pela primeira vez nas Highlands meses antes e pedira que viesse naquela viagem, que, se ele fosse com o druida, nada em sua vida jamais seria o mesmo. Ele não havia imaginado como aquelas palavras estavam certas.

Fechou os olhos por um instante e tentou imaginar como as coisas estariam lá em Leah, nas Highlands, em sua casa. Não conseguiu. Estava tudo tão longe e tão distanciado do presente, que era pouco mais do que uma lembrança que se desvanecia com um passado que parecia perdido em outra vida.

Desistiu das Highlands e tentou, em vez disso, imaginar como seria ter Grianne como irmã. Não só de nome, mas de verdade. Fazê-la aceitar que isso era verdade. Fazer com que ela o chamasse de Bek. Ele também fracassara nesse esforço. Como a bruxa Ilse, Grianne tirara vidas e destruíra sonhos. Fizera coisas que ele nunca seria capaz de aceitar, não importa o quanto ela fora enganada ou o quanto estivesse arrependida. A vida dela estava envolvida em enganos e truques, em uma busca mal direcionada por vingança, em isolamento e amargura. Ela não poderia simplesmente apagar o passado e começar tudo de novo. Não poderia se tornar alguém diferente na mesma hora só porque ele queria que isso acontecesse. Era pedir uma espécie de final de conto de fadas que há muito deixara de ser possível. O que quer que ele esperasse dela, provavelmente era demais. O melhor a esperar seria que ela percebesse logo a verdade.

Compôs o retrato dela em sua mente, em pé diante dele envolta em seus mantos cinzentos, austera e imperiosa. Não poderia imaginá-la feliz. Será que algum dia, desde que fora raptada, ela dera uma risada? Será que algum dia ela havia sorrido?

Mas ele ainda precisava encontrar um jeito de trazê-la de volta a si mesma, a uma parte da garota que ela fora quinze anos antes, a uma pequena parte do mundo que ela havia abandonado e desdenhado como se fora para criaturas menores. Ele tinha de ajudá-la, mesmo que ajudando ele causasse mais dor a ela.

Como ele conseguiria lidar com isso, quando o próximo encontro dos dois provavelmente resultaria nos melhores esforços dela para matá-lo?

Queria que Quentin estivesse com ele — Quentin, com sua abordagem sensata e direta, sempre capaz de ver com clareza o caminho certo a seguir, a melhor coisa a fazer. Será que Quentin havia sobrevivido à batalha nas ruínas de Castledown? Seus olhos se encheram de lágrimas ao pensar na possibilidade de seu primo estar morto. Até mesmo pensar numa coisa dessas parecia uma traição. Não conseguia imaginar a vida sem seu primo — seu confidente, seu melhor amigo. Quentin havia ficado tão ansioso para seguir naquela viagem, tão ansioso para ver outra parte do mundo e aprender algo de novo na vida. E se isso lhe tivesse custado a própria vida?

Frustrado, Bek cruzou as mãos e ficou olhando para as árvores, para a luz do sol que se acentuava, o novo dia, e sua determinação transformou-se em certeza. Devia encontrar Quentin. Talvez antes de encontrar Walker, porque a verdade era que Quentin era o mais importante dos dois. Se ficassem perdidos naquela terra estranha, se suas aeronaves estivessem perdidas e seus companheiros mortos, pelo menos teriam um ao outro para enfrentar o pior. Encarar o que havia adiante, por pior que fosse, qualquer outra maneira era inconcebível para ele.

Cuidem um do outro, Coran Leah lhes havia pedido. Eles se haviam prometido há muito tempo, em Arborlon, quando ainda havia uma chance de recuar.

Bek suspirou cansado. Pelo menos tinha Truls Rohk para ajudá-lo. Por mais estranho e assustador que fosse o mutante, ele demonstrara ser um amigo. Por mais conflituosa que sua vida tivesse sido, ele era talvez o mais capaz e indispensável da equipe do navio. Havia algo de reconfortante nisso e Bek, ansioso, abraçou esse pensamento.

Porque não tinha mais nada para abraçar, admitiu. Porque às vezes você aceita conforto onde o encontra.

Truls Rohk não demorou muito. A luz ainda não havia eliminado os vestígios da noite quando ele apareceu por entre as árvores, sua forma coberta agachada, seus movimentos rápidos e furtivos.

— Levante-se — sibilou com dureza, puxando o garoto para cima. — Sua irmã está em nosso rastro e se aproximando depressa.

Bek tentou esconder o medo dos olhos e da garganta, tentou respirar novamente ao olhar na direção da qual viera o mutante. Então começaram a correr por entre as árvores e desapareceram.

 

A bruxa Ilse estava talvez a uns cem metros dentro da floresta e bem distante de Cree Bega e dos outros mwellrets quando parou para ajustar suas roupas. Pegou um pedaço de corda trançada, jogou-o sobre os ombros, cruzando-o pelo corpo e passando pelas pernas. Prendeu os mantos onde estavam frouxos para poder se movimentar mais facilmente pela vegetação densa adiante. Os mantos que havia escolhido eram leves, porém fortes, e não rasgariam com facilidade. Antecipando uma subida árdua até as ruínas de Castledown, ela trocara as sandálias que normalmente usava por botas até o tornozelo, com solas resistentes e flexíveis. Pensara nas roupas e nos calçados para uma coisa inteiramente diferente, mas sua capacidade de previsão estava compensando. Ela já havia caçado antes, embora uma caça diferente, e compreendia a importância de estar preparada.

Sua mente se desviou por um momento para aqueles dias que ela havia enterrado tão completamente até que o garoto a confrontara. Como Grianne Ohmsford, ela havia passado um tempo nas florestas e colinas perto de sua casa, aprendendo a usar a magia da canção do desejo. Um dos exercícios que fazia regularmente era uma espécie de rastreamento. Usando a magia, ela detectava a passagem de um animal e em seguida o seguia até seu esconderijo. Descobrira que sua canção podia colorir o calor do corpo e os movimentos o suficiente para mostrar-lhe o progresso do animal se a trilha não fosse muito antiga. Não conseguia ler impressões ou sinais à maneira dos rastreadores, mas a capacidade de traçar o calor e o movimento funcionava muito bem. Ela ficou muito boa nisso mesmo antes de ser raptada.

Pensou mais uma vez no garoto. Ele a perturbara mais do que ela queria admitir. Os cabelos e os olhos combinavam com os de Bek. Até mesmo algo em seus movimentos e expressões faciais era familiar. E aquele vestígio de magia que surgira bem no fim das coisas — aquilo era a canção do desejo. Ninguém deveria ter todas essas três coisas, a não ser Bek. Quais eram as chances? Quanto tempo o druida teve de procurar até encontrar uma combinação dessas? Mas ela estava se esquecendo de que ele podia criar tudo, menos a magia, colocando-a como se tivesse sempre estado lá, criando aquele que escolhera para tapeá-la.

Bek jamais havia demonstrado o uso da canção do desejo antes que ela o escondesse naquela manhã do passado. Ele sempre fora um bebê normal. Ela não tinha como saber se algum dia ele faria uso da magia. Ou se o fazia agora.

Balançou a cabeça para afastar seu desconforto e seus pensamentos e parou para ajustar os mantos uma última vez. Olhou a pele pálida de seus pulsos e tornozelos onde estava exposta à luz, praticamente intocada pelo sol, tão branca que parecia iridescente na mistura de sombras da floresta e da aurora dourada. Tocou a si mesma como se quisesse ter certeza de que era real, porque às vezes não se sentia desse modo e, sim, como se tivesse sido criada a partir de sonhos e desejos e nada a seu respeito fosse sólido e verdadeiro.

Rangeu os dentes. Era aquele garoto que a fazia pensar assim. Se o encontrasse, os pensamentos desapareceriam de uma vez por todas.

Partiu mais uma vez, deixando o capuz no lugar, o rosto em trevas, oculto de olhos inquiridores. Com os mantos amarrados, avançou por entre as árvores com facilidade, zumbindo suavemente para revelar a trilha do mutante e do garoto, encontrando a presença remanescente deles a cada curva. A passagem do garoto e do mutante era tão clara como se estivesse marcada por tinta nas cascas das árvores. Ela avançava a um ritmo constante, acostumada a caminhadas, a jornadas a pé e não só a cavalgar seus shrikes, endurecida há muito tempo por saber que não sobreviveria de outro modo. O Morgawr ficaria contente em deixá-la continuar sendo apenas uma garota, menos ameaçadora, mais maleável, mas ela havia determinado desde cedo que jamais se permitiria ser vulnerável novamente. Mais cedo ou mais tarde, seria ameaçada por alguma coisa ou alguém endurecidos por anos de vida selvagem, e estaria pronta para isso. Tampouco queria que a considerassem apenas uma garota ou mesmo uma mulher, de algum modo reduzida em estatura por seu sexo e não levada em consideração com cautela.

Não, pensou amarga, jamais pensariam nela dessa maneira. O Morgawr a treinara no uso de sua magia, mas ela treinara a si mesma na arte da sobrevivência. Quando ele saía, o que ocorria com freqüência, ela se testava de formas que ele não sabia, saindo sozinha, em terreno perigoso, às vezes muito além do Caminho Selvagem. Vivia como um animal, rastreando como eles, procurando alimento, caçando e sempre aprendendo o que eles sabiam. Como ela tinha o uso da canção do desejo, podia falar a linguagem deles e ganhar sua aceitação. Fazia com que achassem que era um deles. Isso exigia concentração e esforço, e um único deslize podia levar ao desastre. Era poderosa, mas era necessário apenas um instante de desatenção para deixar um predador derrubar suas defesas. Gatos do pântano e kodens podiam derrubar você antes que pudesse imaginar o que havia acontecido. Bestas feras eram mais rápidas ainda.

Não havia avançado muito quando detectou uma segunda presença, que se sobrepunha à primeira. Reduziu a velocidade, subitamente cautelosa, lendo as imagens, os traços de calor e de movimento, temerosa de uma armadilha. Mas após alguns instantes percebeu o que havia descoberto. O mutante voltara sobre sua trilha para ver se alguém os estava seguindo, e então retraçou seus passos até onde deixara o garoto. Era provável que ele a tivesse visto. Tinha de supor isso. Já sabia que ele era experiente, habilidoso e fora sábio o bastante para não imaginar que, depois de ter resgatado o garoto, estaria livre dela. Voltara para verificar, e em seguida seguiria para avisar seu protegido.

Ela partiu em perseguição, ansiosa para eliminar a distância entre eles. Se ele havia chegado perto o bastante para detectá-la, não estaria agora tão longe. As imagens reveladas por sua magia eram fortes e inconfundíveis. Ele sequer se incomodara em ocultar sua trilha. Estava correndo, fugindo, talvez apavorado com ela, percebendo como era pouca a distância que os separava. Isso a fez sorrir. Era o que ela queria. Pessoas apavoradas, em pânico, cometiam erros. O mutante não era assim em circunstâncias normais, mas as condições haviam mudado.

Descendo ravinas e atravessando cumes de morros cheios de árvores e obstruídos por arbustos, ela abriu seu caminho, correndo um pouco mais nas áreas abertas, tão próxima que sentiu poder farejá-los. No meio da manhã o sol já estava alto no céu claro e sem nuvens e se movia na direção do meio-dia. Ela respirava o calor e o frescor da floresta, uma película de transpiração cobrindo seu rosto e suas mãos, descendo por seus braços e pernas dentro das roupas. Sentiu uma selvageria invadindo-a, familiar e bem-vinda. Era assim que ela se sentia às vezes quando estava em uma caçada, essa sensação de ser feroz e indomada, perigosa. Queria pôr de lado suas roupas humanas e caçar como os animais faziam. Desejava sentir gosto de sangue fresco.

Em uma clareira ampla cercada de mato crescido, imagens do garoto reapareceram, juntando-se com o mutante. Sentiu a empolgação percorrer seu corpo, estimulando-a mais uma vez. As imagens lhe diziam que agora eles estavam correndo, apressando-se para fugir dela. O garoto saberia que ela estava chegando. Ele estaria se perguntando o que poderia fazer para se salvar se ela o pegasse. Mentiria, claro. Contaria sua história de novo. Mas já sabia que seria inútil tentar enganá-la uma segunda vez. Sabia o que ela faria com ele.

Talvez só mais algumas centenas de metros. Não muito mais do que isso, e ela os pegaria. Eles estavam bem à frente.

Mas, de repente, quando ela entrou em uma campina repleta de flores selvagens amarelas e azuis que ondulavam como a superfície do mar ao vento, a trilha que ela acompanhou com tanta ansiedade desapareceu. Por um momento ela não conseguiu acreditar. Continuou seguindo sem crer, atravessando a campina até o outro lado, tentando entender o que acontecera. Então parou. As imagens ainda estavam lá, ainda tão fáceis de discernir como antes, brilhantes e claras. Mas estavam por toda parte, por toda a campina, por entre todas as árvores distantes, milhares delas, vislumbres de calor e luz. Era como se o mutante e o garoto estivessem em todos os lugares e partindo em todas as direções ao mesmo tempo.

Naturalmente, isso não era possível.

Não era real.

Ela respirou fundo para se acalmar; então, soltou o ar devagar. Enfiou a mão dentro do capuz para afastar do rosto um cacho dos grossos cabelos escuros e olhou de uma ponta da campina até outra, lançando sua presença dentro das sombras e abaixo das árvores distantes, procurando. Não havia ninguém ali. O garoto e seu protetor estavam em outro lugar, em segurança e mais distantes dela a cada segundo que passava.

Sem querer, ela sorriu. Acreditara que eles haviam entrado em pânico, mas o mutante e o garoto eram mais espertos do que ela pensara. Percebendo que ela os rastrearia usando sua magia, eles retaliaram utilizando a deles próprios. Ou, de modo mais preciso, se ela estava lendo as coisas corretamente, o garoto havia usado a magia dele. Ele a havia usado para lançar as imagens de ambos por toda parte, para dispersá-las em todas as direções. Ela podia separá-las, encontrar o conjunto correto para ver que caminho a dupla seguira, mas isso levaria tempo. Eles fariam isso novamente, mais adiante, e a cada vez que ela fosse forçada a resolver um dos enigmas, perderia terreno.

Eles esperavam, naturalmente, que ela não tivesse as habilidades de um rastreador e não pudesse segui-los através de leitura de impressões e sinais se prejudicassem sua magia. Eles tinham razão. Sua magia era tudo o que ela tinha, e teria de ser o bastante.

Sentou-se de pernas cruzadas, recostada em um carvalho, olhando para a campina, pensando. Não havia necessidade de pressa. Ela os pegaria, é claro. Nada do que eles tentassem seria o suficiente para afastá-la da trilha por muito tempo. O mais importante era não agir com precipitação. Levou um tempo para pensar aonde isso tudo estava levando. O garoto e seu protetor estavam correndo, mas para quê? Aquela era uma terra estranha e eles não sabiam nada de sua geografia ou de seus habitantes. Àquela altura o mutante teria contado ao garoto que a aeronave estava sob o controle dela e fora do alcance deles. Os membros da expedição de terra liderados por Walker estavam dispersos ou mortos e o druida havia desaparecido. Na melhor das hipóteses, fugir oferecia apenas uma solução temporária para o problema que tinham. Como pretendiam fazer uso disso? Para onde tentariam ir e com que finalidade? Certamente eles não estavam correndo às cegas e na direção de nada. O mutante era muito inteligente para isso.

Levantou-se devagar, decidida. Respostas para perguntas como essas teriam de esperar. Não fazia qualquer diferença para onde eles iriam ou por quê, se não conseguisse encontrá-los, e ela pretendia encontrá-los agora. Se sua magia não a ajudasse de um jeito, teria de ajudá-la de outro.

Em pé às margens da campina, levou as mãos em concha à boca e deu um grito longo e baixo, frio e assustador, que se espalhou pela distância e morreu. Deu esse grito três vezes, ficou em pé esperando um pouco, e depois deu três outros.

O tempo passava, a campina e a floresta que a cercava estavam em silêncio, a não ser pelo canto dos pássaros e o farfalhar de folhas ao vento. A bruxa Ilse ficou onde estava, escutando e observando tudo ao mesmo tempo.

Então alguma coisa saiu dentre as árvores e foi até a grama do outro lado da campina, fazendo com que as flores se ondulassem e se abrissem. A bruxa Ilse esperou pacientemente enquanto a criatura submersa abria caminho em sua direção, invisível por baixo da coberta ondulante de flores selvagens, quase tocando a terra.

Quando estava a uns dez metros de distância, tarde demais para escapar, a criatura levantou ligeiramente o focinho estreito do meio do mar brilhante, testando o vento, procurando a fonte do chamado que a havia invocado. O lobo não era de nenhuma raça reconhecível, era maior do que aqueles com os quais ela estava familiarizada, mas serviria. Era um pária, um renegado — isso ela podia sentir a seu respeito —, não fazia parte de nenhuma matilha, solitário por opção e por natureza, sua face era uma máscara de pêlos pretos grisalhos e traços penetrantes, seu corpo cinzento e cheio de cicatrizes, magro e musculoso. Predador feroz, o lobo possuía instintos e habilidades de rastreamento inigualáveis, que atenderiam bem às suas necessidades, assim que os ajustes necessários fossem feitos.

O lobo percebeu que fora apanhado em uma armadilha, incapaz de se livrar da magia de sua voz atraente, das correntes que ela já havia enrolado ao seu redor enquanto zumbia e cantava suavemente. Mas não ficou tão atordoado pelo que estava acontecendo para não tentar escapar. Eriçou-se e resfolegou, lutando contra as tentativas da bruxa Ilse de exercer o controle, seu ódio era revelado nos olhos furiosos e no focinho curvado. Ela o deixou ter seu momento de fúria e em seguida começou a trabalhar nele sem descanso. Pouco a pouco, venceu a resistência do lobo, dominando-lhe a vontade, conquistando-lhe o coração e a mente, fazendo de seu corpo e pensamentos os dela própria.

Então começou a lhe dar uma nova forma. Era uma criatura perigosa, mas ela decidiu que precisava ser ainda mais perigosa; o mutante seria mais do que um páreo para um lobo comum, não importava o quanto fosse feroz, e ela queria virar o jogo. Queria um caull, uma fera de carne e ossos reformulados, uma criatura de magia moldada por sua mão e que lhe obedecesse exclusivamente. Usando a magia da canção do desejo, fez com que ele evoluísse de maneira muito específica, concentrando a atenção em seus instintos predadores, habilidades de rastreamento e resistência. Aumentar sua inteligência era uma tarefa difícil demais, muito complexa mesmo para ela. Mas a forma podia ser alterada para se adequar às suas necessidades, e ela não fugiu do que era exigido, mesmo quando a fera gritou como se fosse uma criança.

Mais tarde, a criatura ficou ali deitada, ofegante e febril sobre a terra salpicada de sol, as flores selvagens feitas em pedaços por três ou quatro metros em todas as direções, o chão revolvido, a grama borrifada de sangue. Ela examinou o caull, e então fez com que dormisse para se acalmar e curar seu corpo remodelado. Seus olhos amarelos se fecharam, sua respiração diminuiu e ficou mais profunda em resposta à mudança na canção. Em segundos, estava dormindo.

O esforço a havia deixado exausta e ela sentou para descansar. A manhã virou tarde. Cochilou à luz do sol, enrolada dentro do manto e usando o capuz, uma pequena figura escura às margens do pedaço violentado de terra e da fera adormecida. O tempo passou e ela sonhou com um garotinho bem pequeno, de cabelos pretos e olhos azuis impressionantes, olhando-a através de uma escuridão que se fechava enquanto ela trancava uma porta oculta entre os dois para sempre.

Acordou defronte ao caull, alertada pelo roçar das pernas do animal enquanto ele acordava de seu próprio sono. Já começando a entoar sua canção do desejo, ela se levantou e esperou que os olhos dele se abrissem. Quando sua cabeça se ergueu, ela lhe ordenou que se levantasse. Ele o fez, cambaleando, grande e ameaçador no brilho do sol poente. Tinha duas vezes seu tamanho original, com um pescoço mais grosso e ombros enormes, o corpo reformulado para lutar e correr. A cabeça era uma extensão ampla e achatada de osso, no formato de uma cunha, que ia das orelhas pontudas até o focinho. Arfava com a boca entreaberta, revelando uma fileira dupla de dentes afiados como navalhas, feitos para rasgar e cortar. As pernas haviam encurtado para lhe fornecer uma postura de pés abertos em leque, e os dedos pequenos de suas patas haviam aumentado e se espalhado para terminar em garras em forma de gancho. Pêlos cinzentos recobriam seu corpo, menos pêlo do que pele, um abrigo duro que nem mesmo espinhos poderiam arranhar. Ele se virava para um lado e para outro, como se ansioso para testar sua força recém-descoberta, e em seus olhos enlouquecidos brilhava um inconfundível desejo de sangue.

Ela o observou com cuidado, satisfeita com sua obra, certa de que, com esta criatura para ajudá-la, ela seria mais do que páreo para as espertezas do mutante e de seu jovem cúmplice. Aprendera a criar caulls ao praticar sua magia com o Morgawr. Mas havia descoberto a forma deste por si mesma. Há centenas de anos, existira outro igual, um monstro saído de Faerie chamado Jachyra, que caçara e matara um druida. Ela não precisava do original. Uma aproximação seria o bastante para atender a suas necessidades.

— Incansável — ela sibilou para o caull. Ele girou a cabeça pesada e achatada na direção dela, atento. — É isso o que você será para mim em sua busca por aqueles que caço. Impossível de deter.

As mandíbulas se abriram no que teria sido um sorriso, se a fera fosse capaz de compreender o que era um sorriso. Era o bastante para satisfazer a bruxa Ilse. Se ela conseguisse o que desejava, sorriria por ambos.

 

Bek seguiu Truls Rohk até uma campina cheia de flores selvagens azuis e amarelas. Já começava a se cansar do ritmo do mutante; o suor cobria seu rosto e encharcava sua túnica. O sol estava alto no céu de meio-dia e o ar quente. Truls Rohk encaminhou-se a passos largos até o centro da campina e parou, olhando para trás.

— Longe o bastante — disse ele, o rosto destruído não mais do que uma sombra dentro do capuz, mal podendo ser visto mesmo na luz brilhante do meio-dia. Olhou para trás, na direção de onde vieram. — Não podemos fugir dela para sempre. Mais cedo ou mais tarde ela irá nos alcançar. Precisamos fazer outra coisa.

Exausto, Bek soltou o ar dos pulmões e tornou a respirar fundo, engolindo a secura de sua garganta.

— Talvez ela desista se continuarmos seguindo em frente.

— Improvável. Pense bem. Ela pôs de lado a caçada pelo druida, seu inimigo mortal, para ir em sua busca. Colocou tudo de lado, todo o seu propósito em vir nesta viagem, por sua causa. Você acha que não a atingiu com suas palavras e argumentos, mas acho que talvez sim. Pelo menos o bastante para fazer com que ela ficasse intrigada.

— Não senti isso naquele momento. — disse Bek balançando a cabeça.

Truls Rohk não parecia sequer respirar com dificuldade, o corpo parado e composto dentro de seu manto, nem um pequeno movimento, nem uma perturbação.

— Ela está nos rastreando com sua magia, lendo nossa passagem. Eu vi o jeito como ela caminhava, cabeça para cima, olhos para a frente. Não estava estudando sinais ou procurando marcas. — Ficou ali por um instante, olhando ao longe em todas as direções, percebendo o traçado da terra. — Precisamos desviá-la, garoto. Agora, antes que isso fique pior, antes que ela esteja tão perto que nada possa atrasá-la.

Encarou o garoto, os ombros largos ameaçadores.

— Está na hora de assumir algumas responsabilidades. Sua magia contra a dela: esta pode ser a resposta. Sua magia não tem muito poder nem sutileza, mas tem utilidades mesmo assim. Ouça-me. A bruxa Ilse provavelmente está lendo o calor do nosso corpo, nossos movimentos de um lugar para outro. Veja se pode fazer o mesmo. Observe-me com atenção. Quando eu desaparecer, rastreie-me. Use sua voz, assim como fez em Mephitic.

Em um instante, ele desapareceu bem na frente de Bek, sumindo como se fosse vapor. O garoto invocou sua magia e a lançou ao redor, desesperado, procurando. Nada aconteceu.

O mutante reapareceu bem onde havia estado um momento antes. Bek se assustou com a rapidez do movimento, e então balançou a cabeça, zangado.

— Não funcionou! — A frustração coloriu suas palavras. — Não consigo fazer nada!

Truls Rohk aproximou-se, grande e ameaçador.

— Que pena para nós se você não conseguir, não é? Tente mais uma vez. Lance sua magia como se estivesse atirando uma rede! Finja que está cobrindo imagens com tecido. Você não está procurando por mim: é pela minha sombra. Faça isso!

Sumiu de novo, e de novo Bek invocou a magia e a lançou. Desta vez obteve mais sucesso. Capturou pedaços de Truls Rohk se movendo da esquerda para a direita e voltando, presenças fantasmagóricas que ficavam penduradas no ar do meio-dia.

— Melhor. — O mutante estava de volta à sua frente outra vez. — Mais uma vez, mas segure firme uma ponta da magia que está liberando. E então puxe-a, garoto pescador.

Nessa tentativa, ele capturou todos os movimentos de Truls Rohk, uma série de passagens claramente definidas, movendo-se ao seu redor e voltando. Como espíritos que saíssem de cadáveres, elas jaziam suspensas no ar, uma atrás da outra, cada qual se movendo lentamente para alcançar a seguinte, como se fossem corredores cuja velocidade fosse diminuída por areia movediça e pelo cansaço.

Trabalharam nisso repetidamente, e então o mutante mudou sua aparência para se parecer com o garoto; subitamente Bek estava procurando suas próprias imagens, vendo a si mesmo replicado várias vezes ao longo da campina. Para a frente e para trás, para aqui e acolá, de uma ponta a outra e entre as árvores, Truls Rohk lançou sua própria imagem e a do garoto até que a campina ficou cheia de suas sombras e a trilha impossivelmente confusa.

— Deixe-a tentar desemaranhar isso — grunhiu Truls Rohk enquanto levava o garoto por entre as imagens deslizantes em ziguezague, dirigindo-se para uma cordilheira a leste. — Vamos fazer isso de novo um pouco mais adiante, em algum lugar perto da água.

Continuaram correndo, não tão rápida e furiosamente quanto antes, o mutante marcando um passo mais razoável, que o garoto era capaz de acompanhar com mais facilidade. Não conversaram, mas se concentraram em seu esforço para colocar o máximo de distância possível entre eles e sua perseguidora e em conservar suas forças. Por mais duas vezes pararam para produzir um conjunto confuso de imagens, uma trilha emaranhada, atravessando um riacho fundo em um momento, voltando duas vezes em ângulos retos, escolhendo um terreno difícil e pedregoso para sua passagem.

A noite estava quase caindo quando finalmente pararam para descansar e comer, a luz rapidamente morrendo a oeste, a floresta já envolta em sombras extensas. Os pássaros noturnos surgiam no crepúsculo que crescia, formas de asas negras contra o céu. Bek os viu voarem para longe e desejou ter as asas deles. Não levara consigo nem comida nem água, mas Truls Rohk trouxera ambas as coisas, roubadas da Black Moclips ao partir, o mutante preparado como sempre.

— Embora eu achasse que as coisas não chegariam a este ponto — ele admitiu amargo, entregando sua bolsa de água para o garoto beber.

Bek estava exausto. Não fraquejara, mas seus músculos estavam esgotados e o corpo doía. Estava acostumado a viagens difíceis e longas caminhadas, mas não a correr por tanto tempo. A vida a bordo da Jerle Shannara o havia ajudado a se preparar, mas mesmo assim sua resistência tinha limites e nem de longe se comparava à de Truls Rohk.

— Será que ela vai desistir agora? — ele perguntou esperançoso, devolvendo a bolsa de água e mastigando faminto a carne seca que o outro lhe dera. — Será que vai perder o interesse em nós e se voltar para Walker?

O mutante riu baixinho, envolto em seus mantos e capuz, a expressão do rosto e os pensamentos ocultos.

— Acho que não. Ela não é assim. Ela não desiste. Encontrará outra maneira de nos rastrear. Ela continuará vindo.

Bek suspirou resignado.

— Terei de enfrentá-la novamente mais cedo ou mais tarde. Não há como evitar. — A espada de Shannara estava ao seu lado e ele a olhou. Suas expectativas em usá-la contra a sua irmã pareciam tolas e desesperadas.

— Talvez. Mas temos outros problemas para resolver primeiro. Não podemos simplesmente continuar correndo sem outro objetivo além de fugir da bruxa. Mesmo que consigamos despistá-la ou ela desista, aonde isso nos leva? A algum lugar no meio de um território estranho sem uma aeronave nem amigos, sem armas nem suprimentos adequados, e sem um plano decente, é aí que iremos parar. Não é tão bom assim.

— Precisamos voltar para apanhar Quentin e os outros — Bek respondeu imediatamente, convencido de que essa era a opção correta. — Precisamos ajudá-los se pudermos. Precisamos encontrar Walker.

Parecia tão óbvio e tão lógico que as palavras saíram de sua boca antes de perceber que estava ignorando obstáculos que tornavam sua reação quase ridícula. Mesmo com sua magia e a habilidade e experiência do mutante, eles eram apenas dois homens: um homem e um garoto, ele corrigiu melancólico. Não tinham idéia de onde estavam seus amigos. Não tinham meios de procurá-los além de seus próprios pés, um meio de transporte dificilmente adequado ao tipo de busca necessário. Seus inimigos os ultrapassavam em uma proporção talvez de cinqüenta por um, e isso sem contar o que quer que vivesse no subterrâneo de Castledown.

Truls Rohk não disse nada. Ficou sentado, olhando para o garoto de dentro das sombras de seu capuz.

Bek pigarreou.

— Tudo bem. Não podemos fazer isso sozinhos. Precisamos de ajuda.

O mutante assentiu.

— Você está aprendendo, garoto. Que espécie de ajuda?

— Alguém para equilibrar as coisas quando voltarmos para enfrentar a bruxa Ilse, os mwellrets e quem mais estiver esperando.

— Isso, mas também alguém que conheça um caminho para passar pelas coisas que protegem as ruínas e o tesouro que Walker veio encontrar. — Truls Rohk soltou uma risada amarga. — Não pense nem por um momento que o druida, se ainda estiver vivo, irá desistir do tesouro.

Bek pensou em tudo o que os integrantes da Jerle Shannara haviam suportado até agora, do que fora prometido e do que fora deixado de lado. Pensou no quanto Walker estava arriscando para fazer a jornada, tanto em termos de vida quanto de reputação. Truls Rohk tinha razão. O druida preferiria morrer a fracassar, devido ao que estava em jogo. Mesmo com o pouco que conhecia de Walker, era certo que o fracasso na obtenção do apoio dos elfos para um conselho de druidas em Paranor seria o seu fim. Era tudo pelo qual ele havia trabalhado, tudo o que lhe importava agora. Passara sua vida como um druida procurando esse apoio. Bek sabia isso por causa de suas conversas. Sabia isso do que havia ouvido de Ahren Elessedil. Walker havia amarrado seu destino a esta viagem, à recuperação das pedras élficas e à descoberta do tesouro no mapa do náufrago.

E tudo isso não estava ligado, por sua vez, ao fato de o druida ir com ele, Bek, e também com os outros? Todos os seus destinos não estavam inextricavelmente ligados?

— Durma por uma hora; depois partiremos novamente. — Truls Rohk sentou-se com as mãos entrelaçadas à frente do corpo, o pêlo animal nas costas brilhando fraco, como fios de prata. — Vou ficar de guarda.

Bek assentiu sem dizer palavra. Uma hora era melhor do que nada. Aproveitou um momento para olhar o caminho pelo qual haviam vindo, onde estava a bruxa Ilse, onde seus amigos e companheiros estavam, em algum lugar na escuridão.

Sejam fortes, rezou por todos. Rezou até mesmo por Grianne.

 

A dezenas de quilômetros de distância, no fundo das montanhas geladas, que protegiam a costa da península, cercada pelas muralhas de milhares de metros da garganta que transportava o gelo derretido até a Divisa Azul, a Jerle Shannara vagava em sua grandeza solitária. Sem leme, sem timoneiro, as velas em farrapos, ela navegava ao sabor dos ventos que a levavam desfiladeiro abaixo, movendo-se como se atraída na direção dos pilares de gelo que bloqueavam o caminho para fora. Acima, nuvens rolavam, confundindo-se com a neblina que saía do gelo e a espuma do quebrar das ondas contra as pedras, finos lençóis de gaze dispostos em camadas contra pálidos fragmentos de luz do sol. Shrikes voavam em círculos e passavam mergulhando pelos cordames, seus olhos penetrantes como brocas brilhando de expectativa, cada passagem levando-os mais perto dos mortos que jaziam espalhados pelo convés da aeronave. Ecos de seus gritos e do quebrar das ondas se misturavam e reverberavam pelos desfiladeiros em um contraponto macabro.

Adiante, ficando maiores a cada virada da aeronave, os pilares aguardavam. Dentes gigantes batiam uns contra os outros e se afastavam, abrindo e fechando sobre a fenda através da qual a nave deveria passar, famintos, devoradores, como se ansiosos para apanhar o que lhes havia escapado antes, como se precisassem sentir a madeira e o metal da Jerle Shannara reduzidos a lascas e destroços e sua tripulação reduzida a ossos e carne.

Machucada e zonza, quase inconsciente, Rue Meridian pendia de uma corda a quase quinze metros abaixo da proa da nave. Pendia da corda com o que restava de suas forças, cansada demais para fazer qualquer outra coisa. O braço esquerdo estava coberto de sangue, que corria formando rios por seu flanco, e ela não sentia mais a perna direita. O vento uivava em seus ouvidos e lhe congelava a pele. Seus cabelos estavam cobertos de gelo e suas roupas estavam duras. Tudo o que a levara até aquele momento era uma névoa de memórias fragmentadas e emoções confusas. Lembrava-se de sua luta com o mwellret, ambos feridos, caindo no chão do convés da aeronave, e então deslizando inexoravelmente na direção da amurada de madeira, cada vez mais depressa e incapazes de parar. Ela se lembrava de ambos batendo na amurada, já quebrada por uma trava que havia caído, primeiro o mwellret, pegando o grosso do impacto. A amurada havia cedido como se fosse feita de palitos e ambos passaram por ela emaranhados um no outro.

Aquilo devia ter sido o seu fim. Estavam a trezentos metros de altura, talvez mais, sem nada entre eles e as rochas e corredeiras abaixo a não ser o ar. Ela se libertara instintivamente do mwellret com um chute, e então tentara se agarrar em algo. Por puro acaso, agarrara aquele pedaço de corda, aquela tábua de salvação. A interrupção de sua rápida descida quase lhe deslocara os braços e arrancou pele de suas mãos quando ela escorregou pela extensão da corda até bater em um nó que a deteve. Girando ao sabor do vento, ela se agarrou na corda, atordoada e aliviada, vendo a forma escura de seu antagonista cair no éter.

Mas então o choque e o frio lhe atingiram e ela percebeu que não conseguia se mover de onde estava, pregada contra a linha do horizonte como um inseto em papel, congelada em sua tábua de salvação enquanto lutava para permanecer consciente. Não parava de pensar que no fim acabaria encontrando forças para tornar a se mover, para fazer algum esforço de subir de volta a bordo, e que alguém, para sua segurança, a puxaria para o convés. Sua mente, próxima da inconsciência, entrava e saía de vários cenários, sempre incapaz de fazer mais do que atiçá-la com possibilidades.

Mas não estava assim tão zonza para não perceber o perigo em que se encontrava e o pouco tempo que tinha para lidar com ele. A Jerle Shannara estava vagando cada vez mais perto dos pilares de gelo e, quando chegasse a eles, estaria acabada. Ninguém a bordo da nave iria ajudá-la. Os que estavam no convés estavam todos mortos, entre eles Furl Hawken. Os que estavam abaixo estavam trancados em depósitos e não conseguiriam se libertar, ou já o teriam feito. Seu irmão, Redden Alt Mer. O construtor naval, Spanner Frew. Seus amigos, os rovers de sua terra natal. Aprisionados e indefesos, estavam à mercê dos elementos, e o fim deles era certo.

Ninguém iria ajudá-la.

Ninguém iria ajudá-los.

A menos que ela fizesse alguma coisa agora.

Com o que pareceu um esforço sobre-humano, ela soltou uma mão congelada da corda e estendeu-a para segurar em um novo ponto. O esforço enviou espasmos terríveis de dor por todo o corpo e tirou-a da letargia com um choque. Ignorando o frio e a dormência, conseguiu subir um pouco, soltou a outra mão e segurou a corda mais acima. Sentiu mais sangue descer por dentro de suas roupas congeladas, onde seu corpo ainda mantinha um pouco de calor. Estava morrendo congelada, percebeu, pendurada ali naquela corda, sendo atingida pelo vento que soprava das geleiras. Forçou-se a subir mais um pouco até uma nova posição, uma mão atrás da outra, a cada pedaço de corda que atravessava, uma provação excruciante. Suas pálpebras estavam cobertas de gelo. Havia geleiras por toda parte, cobrindo as montanhas e os penhascos, espalhando-se ao longe por entre a névoa e as nuvens. Rajadas de neve sopravam sobre ela, e, por brechas naquelas brancas e espessas cortinas, ela divisou os pilares adiante, leviatãs movendo-se lentamente contra aquela brancura, com reflexos de luz despontando de sua superfície azulada. Ruídos que pareciam tosses trovejantes e gritos esmagadores marcavam o avanço, a colisão e o recuo deles, e ela sentia a pressão de seu peso na cabeça.

Continue!

Subiu mais um pouco, ainda varada de dor e fadiga, ainda sem nenhuma esperança e distante da amurada quebrada que precisava alcançar. O desespero tomou conta dela. Jamais chegaria lá a tempo. Será que ela fizera realmente algum progresso? Será que sequer havia se movido? Sentia tanta dor e estava tão indefesa e arrasada que uma parte dela queria simplesmente desistir, se soltar, cair e acabar com tudo de uma vez. Seria tão fácil! Ela não sentiria nada. A dor e o frio acabariam; o desespero teria um fim. Um momento de relaxamento de suas mãos cansadas era o suficiente.

Covarde!

Soltou a palavra ao vento em um uivo. O que ela estava pensando!? Ela era uma rover, e acima de tudo os rovers sabiam como suportar qualquer coisa. Resistência exigia sacrifício, mas dava a vida em troca. Resistência era sempre a escolha mais difícil, mas transmitia a medida mais verdadeira de um coração. Ela não desistiria, disse a si mesma. Não desistiria!

Continue viva! Continue se movendo!

Enfiou o queixo no peito e colocou uma mão atrás da outra, a segunda depois da primeira, erguendo-se centímetro a centímetro, metro a metro, recusando-se a desistir. Seu corpo gritou em protesto, e era como se o vento e o frio subitamente aumentassem seus esforços para reduzir-lhe a velocidade. Fios congelados de seus cabelos compridos chicoteavam-lhe o rosto. Ela invocava toda fonte de inspiração em que pudesse pensar para se forçar a prosseguir. Seu irmão e os outros rovers, aprisionados dentro da nave, dependiam dela. Walker, perdido em terra com os outros da equipe de desembarque, incluindo seu jovem amigo Bek. Furl Hawken, que morrera tentando salvá-la. A bruxa Ilse e seus mwellrets, que jamais pagariam pelo que haviam feito se ela não encontrasse uma maneira de sobreviver e fazê-los pagar.

Sombras!

Ela chorava copiosamente, as lágrimas congelando na pele do rosto, e não conseguia ver através delas o bastante para saber o quanto já havia subido. Seu maxilar estava apertado com tanta força que os dentes doíam, os músculos das costas estavam cheios de nós e cãibras com a tensão da subida. Sabia que não agüentaria muito mais. Não duraria muito mais tempo. Uma mão atrás da outra, puxar e agarrar a corda com a segunda mão, tornar a puxar e agarrar a corda com a primeira e assim por diante.

Ela gritou de dor quando o vento a jogou de encontro ao casco da aeronave, e quase soltou a corda ao se afastar da madeira dura. Então percebeu o que isso significava, o quanto havia progredido, e abriu os olhos, levantando a cabeça. A abertura na amurada quebrada estava bem acima dela. Redobrou os esforços, subindo nos últimos metros de corda até a borda do convés, agarrando com força a balaustrada ainda sólida e pulando para o convés em segurança.

No convés escorregadio devido à chuva e ao gelo, ela deitou por um momento, olhando o vasto toldo celeste de névoa branca e de nuvens, exausta, mas também triunfante. Sua mente disparava. Não havia tempo para descansar. Não havia tempo a perder. Virou para o lado e olhou por entre os corpos e os destroços, por entre as velas em farrapos e travas quebradas até a escotilha de popa. Não conseguia se levantar, e então se arrastou por todo o caminho, lutando para permanecer consciente. A escotilha estava aberta e ela deslizou pela abertura, perdeu o equilíbrio e desabou escada abaixo. Ficou toda embolada no final, tão dormente que não conseguia perceber se tinha fraturado algum osso, ainda ouvindo o rugido do vento e o quebrar das ondas nos ouvidos.

Levante-se!

Levantou-se devagar, apoiando-se na parede do corredor, a perna ferida latejando de dor, o sangue encharcando novamente suas roupas. O quanto ela havia perdido? O corredor estava vazio e escuro, mas achou que ouvia gritos. Tentou gritar de volta, mas sua voz soava oca e fraca, perdida no rugido do vento. Cambaleando ao longo do corredor e sempre se apoiando, tentava descobrir onde estavam as vozes. Achou ter ouvido o seu nome duas vezes, mas não tinha certeza. Havia sangue em sua garganta a essa altura, quente e espesso, e ela o engoliu para manter as passagens respiratórias abertas. A cabeça estava leve e tudo rodava.

Com uma guinada súbita da aeronave, ela caiu com força, antes de chegar aos depósitos, escorregando de uma parede e batendo na outra com tanta força que perdeu o ar dos pulmões e simplesmente desabou. Ficou ali deitada tentando respirar, por pouco não perdendo a consciência, o mundo ao seu redor girando cada vez mais rápido. Tentou se endireitar e descobriu que não conseguia. Não tinha mais forças, nada mais para dar. Era o seu fim. Era o fim de todos.

Fechou os olhos para não sentir a dor e a fadiga, buscando em sua mente os rostos dos que estavam aprisionados a poucos metros de distância. Achou aqueles rostos, e também o de Hawk, tão familiares para ela quanto o seu próprio. Ouviu aquelas vozes dizendo seu nome, claras e aconchegantes, em outros lugares, em tempos melhores. Percebeu que sorria.

A Jerle Shannara deu mais uma guinada, apanhada por uma violenta rajada de vento, e ela pensou consigo mesma: Não estou pronta para morrer.

De algum modo ela conseguiu se levantar. Jamais soube ao certo como conseguiu, quanto tempo levou, que mecanismo empregou, que força de vontade invocou. Mas, quebrada e chorando, coberta de sangue por toda parte, levantou-se e se arrastou pelos últimos metros ao longo do corredor até a porta do primeiro depósito. Puxou várias vezes a tranca, ouvindo as vozes gritando para ela do lado de dentro, mas a tranca não cedia. Gritando de raiva e frustração, deu socos na porta, e então percebeu que não era a tranca que a mantinha fechada, era a trava.

Lutando para respirar, jogou a trava para trás com o restante de suas forças, puxou a tranca, escancarou a porta pesada e caiu na escuridão.

 

Quando tornou a despertar, a primeira coisa que viu foi seu irmão.

— Ainda estamos vivos? — ela perguntou, a voz fraca, a garganta seca de sede. — Não parece.

Ele deu um sorriso melancólico.

— Acho que para você não. Mas sim, ainda estamos vivos, ainda que por pouco. Será mais fácil para todos nós se da próxima vez que você vier em nosso resgate puder fazer isso com um pouco mais de entusiasmo.

Ela tentou rir e não conseguiu.

— Vou tentar me lembrar disso.

Redden Alt Mer se levantou para pegar uma bolsa d’agua, derramou uma medida em um copo e levantou a cabeça dela apenas o bastante para que bebesse. Deu-lhe água em pequenos goles, deixando que levasse o tempo que precisasse. Sua mão grande em sua cabeça e em seu pescoço tinha um toque gentil e reconfortante.

Quando ela terminou, ele tornou a deitá-la e sentou-se novamente à sua cabeceira.

— Foi por um triz. Eles nos trancaram em duas salas, todos menos você e Hawk. Com as travas bloqueando as portas, não conseguimos nos soltar. Tentamos de tudo para derrubar a trava, para abri-la através da fenda na porta, tentamos até quebrar a porta. Podíamos ouvir a tempestade e percebemos que a coisa estava ruim; dava para sentir a nave à deriva. No começo os mwellrets estavam nos vigiando; então desapareceram. Não conseguíamos entender o que acontecia.

Ela fechou os olhos, lembrando. Hawk, usando sua adaga para abrir a fechadura da porta deles, um depósito na proa que não tinha trava. A batalha deles com o mwellret no corredor. A subida rápida pelas escadas e a chegada ao convés onde outros sete aguardavam, junto com dois membros da tripulação da federação. A aeronave em pedaços, sem controle, girando desenfreadamente em poder dos ventos do desfiladeiro enquanto navegava na direção dos pilares de gelo. A luta com seus captores. Furl Hawken dando sua própria vida para salvar a dela. Sua própria queda e como conseguira evitar, por pouco, a morte. A longa subida de volta.

— Depois que você nos libertou, corremos para o convés e vimos o que havia acontecido com a nave e como estávamos perto do Squirm. — Ele balançou a juba de cabelos ruivos, apertando os lábios. — A essa altura, estávamos bem em cima dela. A cabine do piloto estava esmagada, o sistema de navegação destruído, as bainhas de luz em farrapos, os cordames voando para todo lado, travas quebradas, e até mesmo uns dois tubos de fragmentação travados. Mas você devia ter visto Spanner e os outros. Eles cobriram todos aqueles conveses em segundos, abrindo os tubos, amarrando novamente os atratores radianos, fazendo funcionar cordames e restos de velas em quantidade suficiente para nos dar pelo menos um pouco de controle. Você sabe como estava lá em cima, tudo sacudindo e jogando, o vento forte o bastante para jogar você do convés se não tomasse cuidado, ou talvez até mesmo tomando cuidado.

Ela assentiu, tornando a abrir os olhos para encontrar os dele.

— Eu sei.

— Como se a tempestade ou o perigo não importassem, dois homens subiram nos mastros. Kelson Riat por pouco não teve a cabeça arrancada por uma trave solta e Jahnon Pakabbon ficou com o braço esquerdo todo lanhado por uma estaca. Mas ninguém desistiu da nave. Nós a colocamos para funcionar em minutos. Liberei os controles, mas as linhas estavam esmagadas, e, por isso, tivemos de fazer tudo manualmente. Utilizamos a energia armazenada nos tubos de fragmentação para endireitar a nave e direcioná-la para longe dos pilares de gelo, fazendo com que ela voltasse pelo caminho por onde viera. O vento lutou contra nós durante todo o caminho, soprando das geleiras e subindo a garganta, tentando nos derrotar. Mas esta é uma boa nave, Ruivinha. A Jerle Shannara é a melhor. Abriu caminho lutando contra o vento e manteve o curso até encontrarmos algum espaço de calmaria para avançar.

Balançou-se em sua cadeira, rindo como um garoto.

— Até mesmo Spanner Frew estava cuspindo e uivando, desafiando aquele vento, em pé no timão para manter o leme firme, mesmo sem os controles funcionando. O velho Barba Negra lutou pela nave como o resto de nós. Para ele, ela é uma criança que ele alimentou e cuidou como se fosse a própria filha, não ia perdê-la, ia?

Ela sorriu com o irmão, cuja animação era contagiosa; as dores que sentia iam aliviando aos poucos. Olhou para si mesma, e enfiada em um dos catres abaixo do convés, nos aposentos do curandeiro, pensou. Uma luz brilhava pela única janela do aposento, clara e animada. Ela tentou mover braços e pernas, mas seu corpo parecia não querer responder.

— Estou inteira? — ela perguntou, subitamente preocupada.

— A não ser por alguns cortes feios e umas escoriações profundas. — Ele ergueu uma sobrancelha para ela. — Você deve ter tido uma batalha terrível lá em cima, Ruivinha. Você e Hawk.

Ela tentou fazer as mãos e os pés se moverem, sem nada responder. Por fim, sentiu um formigamento nas extremidades, que começou a se espalhar junto com a dor que subia e descia por seu corpo em espasmos súbitos. Deixou-se relaxar e olhou para seu irmão.

— Hawk morreu por mim. Você provavelmente já havia adivinhado isso. Eu não conseguiria sem ele. Nenhum de nós conseguiria. Não consigo acreditar que ele morreu.

Seu irmão assentiu.

— Nem eu. Ele esteve conosco sempre. Nunca achei que fôssemos perdê-lo algum dia. — Suspirou. — Importa-se de me dizer o que aconteceu? Pode nos ajudar um pouco se fizer isso.

Ela conduziu a narrativa no ritmo que lhe foi possível, fazendo uma pausa para beber um pouco de água fresca que o irmão lhe trouxera, explicando o que ocorrera até o momento em que libertou Hawk do depósito de popa, sem negligenciar um único detalhe, forçando-se a se lembrar de tudo o que acontecera. Foi preciso um esforço considerável só para contar isso, e, quando terminou, estava exausta.

Redden Alt Mer não disse nada no começo, simplesmente assentiu, e então se levantou e caminhou até a janela na cabine para olhar para fora. Ela chorou um pouco quando ele virou de costas, nada de lágrimas, nada de soluços audíveis, mas pequenos soluços e espasmos do peito que ele não reparou, ou pelo menos ela podia fingir que ele não havia reparado.

Quando ele voltou a olhar para ela, estava novamente composta.

— Ele era tudo o que um rover deveria ser — seu irmão disse baixinho. — Não ajuda muito neste momento; porém, mais tarde, quando for importante, acho que encontraremos alguma parte dele dentro de nós, mantendo-nos fortes, dizendo-nos como ser tão bons quanto ele foi.

Então ela adormeceu, quase antes que ele se desse conta, e seu sono foi profundo e sem sonhos. Quando acordou, o aposento estava escuro, exceto por uma única vela em sua cabeceira, e a luz do sol que antes brilhara pela janela da cabine havia desaparecido. Agora ela se sentia mais forte, embora as dores que a estavam incomodando antes fossem mais pronunciadas. Ela conseguiu levantar o corpo sobre um dos cotovelos e beber um pouco da água que estava no copo sobre a mesa ao seu lado. A Jerle Shannara navegava em ventos calmos e constantes, o movimento de sua passagem era pouco perceptível. Estava tudo quieto a bordo da nave, o som das vozes e dos movimentos dos homens ausente. Deve ser noite, e a maioria deles deve estar dormindo. Onde estavam eles? O quanto haviam avançado desde que ela dormira? Não tinha como saber enquanto ficasse na cama.

Forçou as pernas a saírem debaixo dos cobertores e tentou levantar, mas seus esforços falharam e ela derrubou o copo de água quando segurou a mesa para se apoiar antes de tornar a cair sobre a cama. O barulho do copo ecoou alto, e instantes mais tarde o Ruivão apareceu, sem camisa e, obviamente, acordado de seu sono.

— Alguns de nós estão tentando descansar, irmã Rue — ele resmungou, ajudando-a a voltar para baixo das cobertas. — De qualquer modo, o que pensa que está fazendo? Ainda precisará de um ou dois dias para sair andando por aí, e talvez até mais do que isso.

Ela assentiu.

— Estou mais fraca do que pensava.

— Você perdeu muito sangue, se é que entendo alguma coisa de ferimentos. Não vai querer substituí-lo todo de uma vez. Nem ficar curada da noite para o dia. Então vamos ser razoáveis sobre o que você pode e não pode fazer por enquanto.

— Preciso de um banho. Estou cheirando muito mal.

Ele sorriu, sentando-se em um tamborete de três pernas.

— Quanto ao banho, posso ajudá-la. Mas ninguém tentaria isso enquanto você estivesse inconsciente, é preciso que eu diga. Nem mesmo Spanner Frew. Eles sabem que você não gosta de ser tocada.

Ela pressionou os lábios.

— Eles não sabem nada a meu respeito. Apenas acham que sabem. — As palavras eram afiadas e amargas. Ela forçou a raiva súbita a desaparecer. — Volte para a cama. Desculpe tê-lo acordado.

Ele deu de ombros, os cabelos vermelhos brilhando à luz da vela, soltos e despenteados, caindo sobre o rosto forte.

— Bom, agora já estou acordado, portanto talvez fique por aqui para conversar um pouco com você. O banho pode esperar até de manhã, não pode? Não estou com muita vontade de arrastar uma banheira e trazer água para cá no escuro.

Rue deu um sorriso fraco.

— Pode esperar. — Ela lamentou sua raiva; fora mal direcionada e inadequada. Seu irmão estava apenas tentando ajudar. — Estou me sentindo melhor esta noite.

— Você parece mesmo melhor. Todos estavam preocupados.

— Por quanto tempo fiquei nesta cama?

— Dois dias.

Ela ficou surpresa.

— Tudo isso? Nem senti. — Soltou o ar dos pulmões de uma só vez. — Onde estamos agora? Já estamos perto de onde deixamos os outros? Voltamos para eles, não voltamos? Precisamos alertá-los sobre a bruxa Ilse.

Ele sorriu.

— Você está melhor mesmo. Pronta para se levantar e lutar em outra batalha, não está? — Balançou a cabeça, e então subitamente ficou sério. — Ouça com atenção, Ruivinha. As coisas não são tão simples. Não estamos indo na direção da ilha para encontrar o grupo do druida. Estamos indo na direção da costa e dos cavaleiros alados. Estamos fazendo apenas o que nos mandaram.

Ele deve ter visto a fúria que explodiu nos olhos dela.

— Não diga nada de que vá se arrepender depois. Não fiz esta opção por achá-la a melhor. Eu a fiz porque era a única a fazer sentido. Acha que não quero ajustar contas com a bruxa? Acha que não quero atacar aqueles mwellrets da mesma forma que eles nos atacaram? Não gosto de deixar nenhum deles correndo solto por aí, não mais do que você. Não gosto nem por um minuto de abandonar Walker e os outros. Mas a Jerle Shannara está em frangalhos. Podemos substituir as bainhas de luz e os atratores radianos, consertar os tubos de fragmentação e reajustar os cristais-diapasão para se adequarem às nossas necessidades. Conseguiremos velejar com talvez três quartos do poder e da eficiência. Mas perdemos travas e danificamos dois mastros. Estamos arrasados. Não podemos participar de nenhuma batalha, especialmente contra a Black Moclips. Não podemos sequer fugir dela, caso ela nos aviste. Ir para terra agora seria estupidez. Não seríamos de muita utilidade para ninguém se fôssemos derrubados do céu ou capturados pela segunda vez, seríamos?

O brilho de fúria não havia sumido dos olhos dela.

— Então nós vamos abandoná-los? — ela disparou de volta.

— Nós já os estávamos abandonando quando o druida ordenou que saíssemos daquela baía. Walker conhecia os riscos quando nos mandou para fora. Se conseguíssemos passar pelo canal antes que a Black Moclips tivesse nos encontrado, ela ainda teria continuado a velejar rio acima até a baía. Walker sabia disso. Ele não estava pensando que isso seria impossível.

Ela balançou a cabeça, teimosa.

— Mas nós somos a tábua de salvação deles! Eles não podem sobreviver sem nós! E se alguma coisa der errado?

— Não seja tão apressada para supor o que eles podem ou não fazer sem nós. Alguma coisa já deu errado, só que deu errado conosco. E nós sobrevivemos, não sobrevivemos? Dê-lhes um pouco de crédito.

Ficaram olhando um para o outro em silêncio por um momento, olhos ferozes e intensos. Rue recuou primeiro.

— Eles não são rovers — ela ressaltou baixinho.

Seu irmão sorriu sem querer.

— Tem razão. Mas eles também têm suas vantagens e uma boa chance de se defenderem até que possamos alcançá-los. O que pretendo fazer sem dúvida, Ruivinha, se você tiver um pouco de fé em mim. — Inclinou-se para a frente, descansando os cotovelos nos joelhos. — Estamos a caminho da costa para fazer reparos e tratar dos ferimentos. Se quisermos ser mais inteligentes e velozes do que a bruxa Ilse e seus mwellrets e talvez participar de uma batalha com a Black Moclips, precisamos estar em nossa melhor forma. Talvez isso nem seja necessário, se tivermos sorte, mas não podemos confiar na sorte para sair desta bagunça. Devemos ser capazes de mapear nosso caminho de entrada e de saída novamente, como o druida queria. Devemos ser capazes de fazer contato com os cavaleiros alados também. Enquanto a nave for consertada e você estiver se recuperando, eu voarei de volta com Hunter Predd para dar uma olhada no que aconteceu com nossos amigos e ajudá-los se puder.

Rue Meridian sorriu.

— Este sim é o Ruivão que conheço. Nada de ficar sentado esperando. Mas vamos ver quem vai voltar e quem vai ficar para trás para se curar.

Ele balançou a cabeça.

— Às vezes acho que você tem tanto bom senso quanto um piolho. Você é indestrutível? Estava quase morta em um minuto e está inteira no minuto seguinte? Vai resgatar aqueles infelizes que precisam tanto de você? Sombras! Estou espantado que tenha vivido tanto tempo. Bem, depois falamos sobre isso.

Levantou-se.

— Por ora, chega de conversa. Vou para a cama descansar mais algumas horas antes de amanhecer e do trabalho. Talvez você também deva tirar algumas horas de sono. Deixe o passado para trás e o futuro à frente, no lugar que lhes é devido, e viva o presente conosco. — Acenou para ela ao dar-lhe as costas. — Durma bem, Ruivinha.

Saiu sem olhar para trás, fechando a porta devagar. Ela olhou na direção dele por um longo tempo, pensando que, apesar de todos os seus defeitos, não havia ninguém melhor do que seu irmão. O que quer que houvesse adiante, preferia enfrentar com ele ao seu lado do que com qualquer outra pessoa. Redden Alt Mer tinha sorte, era o que diziam. E estavam certos, mas ele tinha algo mais. Tinha um coração. Sempre encontrava uma saída e não abria mão de que era a única. Era o rover que havia dentro dele. Era isso que definia quem ele era.

Passou mais alguns minutos pensando nos que estavam presos na ilha, em Walker e no resto deles, ainda preocupada com o que lhes aconteceria sem poder recorrer aos rovers. O Ruivão podia dizer o que quisesse, mas ela não gostava da idéia de abandoná-los até chegarem à costa e encontrarem os cavaleiros alados. Eles eram um grupo duro e experiente, menos Bek e a vidente, e um ou dois outros que eram mais talentosos do que experientes, mas até mesmo os elfos caçadores estavam correndo muito risco por estarem a pé e afastados da aeronave. Especialmente com a bruxa Ilse e seus mwellrets atrás deles.

Então pensou em Hawk uma última vez. Alguém vai pagar pelo que aconteceu com você, ela prometeu silenciosamente. Um dia, em breve, essa conta será ajustada.

Ela estava chorando novamente, quase sem se dar conta.

— Adeus, Hawk — ela murmurou para a escuridão.

E então dormiu.

 

Quando Panax agarrou seu ombro em sinal de alerta, Quentin Leah agachou-se e ficou paralisado, os olhos vasculhando a penumbra próxima a si. Sentiu a respiração pesada do anão na sua orelha.

— Logo ali. — As palavras eram um sibilar suave no silêncio. — Ao lado daquele edifício, nos escombros.

Quentin apertou a espada de Leah, mas soltou-a rapidamente. Não, não invoque a magia! Você só atrairá a atenção deles se fizer isso! Seu coração começou a disparar. Ao seu redor tudo estava quieto, nenhum som, nenhum movimento, como se a cidade e seus habitantes mortíferos estivessem esperando junto com ele. Sujeira, suor e sangue manchavam-lhe o rosto e as roupas, o corpo doía de exaustão. Tinha cortes e escoriações em quase todo o corpo, os do flanco esquerdo estendiam-se até as costelas. Ao seu lado, agachados em uma fileira de arbustos que haviam crescido por entre placas quebradas de pedra, Kian e Wye observavam junto com ele, esperando seu sinal. Agora ele era o líder. Era sua última e melhor esperança. Sem ele estariam todos mortos. Mortos, como tantos outros.

Quentin vasculhou o lugar no qual Panax avistara movimento, mas não viu nada. Não importava; ficou onde estava e continuou procurando. Se o anão dissera que havia algo ali, então havia. Não chegaram até aquele ponto duvidando uns dos outros, e chegar até aquele ponto não era nada menos do que um milagre.

Nada acontecera do jeito que deveria acontecer, desde o momento em que haviam entrado naquela praça com seu piso de metal liso e suas seções de parede irregulares. Era uma estranha formação para começar, diferente de tudo que o montanhês já vira, e cheirava a encrenca. Mas Quentin havia assumido sua posição na ala esquerda da equipe de busca, juntamente com Panax e os elfos caçadores Kian, Wye e Rusten, e ficou olhando enquanto Walker, desacompanhado, abria caminho cautelosamente à sua frente. Do outro lado, quase invisível, Ard Patrinell estava agachado junto com Ahren Elessedil, o curandeiro Joad Rish e mais três elfos caçadores. Mal conseguia divisar seus vultos, pouco mais do que sombras se agarrando às muralhas que protegiam os prédios. Entre eles, e bem atrás do druida, Bek e a vidente Ryer Ord Star aguardavam com mais três elfos caçadores. Como um quadro, estavam destacados na luz que morria, estátuas sem movimento congeladas em seus lugares pelo tempo e pelo destino.

Quentin havia apurado cuidadosamente os ouvidos, atento para o som de problemas, pois, neste lugar, algo que parecesse ser armadilha de fato era. Já havia puxado a espada, segurando-a em uma das mãos e mantendo a lâmina deitada sobre o quadrado de metal onde estava agachado; o cabo trabalhado não era nem um pouco confortável na palma da mão suada. Saia daí! Ele continuava gritando as palavras no silêncio de sua mente, como se pensasse poder, de algum modo, fazer com que isso acontecesse. Saia daí agora!

Então os primeiros fios de fogo foram disparados na direção do druida. Quentin ficou em pé no mesmo instante, pulando num impulso e correndo para a frente. Rusten foi com ele, os dois correndo em auxílio a Walker, ligeiros, dispostos e audazes, ignorando os gritos de Panax para que voltassem. Ambos deviam estar mortos. Mas Quentin tropeçou, caiu de cara no chão de metal, e a queda salvou sua vida. Rusten, à sua frente e ainda correndo na direção do druida, foi apanhado em um fogo cruzado de fios mortíferos e cortado em pedaços enquanto ainda estava em pé, gritando ao morrer.

Avançando, passando pelos fios de fogo envolto em um manto negro, Walker gritava para que eles ficassem atrás, para que ficassem além das ruínas. Seguindo a ordem do druida, Quentin se afastou voltando pelo caminho pelo qual viera, sendo perseguido pelo fogo, que passou tão perto a ponto de queimar-lhe as roupas. Captou um vislumbre dos outros, Bek no grupo central, os elfos na ala direita, todos se dispersando e buscando abrigo, defendendo-se do que quer que pudesse acontecer em seguida. Ryer Ord Star disparou do lado de Bek, sua forma magra correndo na direção das ruínas atrás de Walker. Efêmera e sombria, ela passava como um fantasma por entre as paredes que estavam se movendo em várias direções, correndo sem pensar direto para o coração do labirinto. Ele a viu tropeçar e cair, atingida por um dos fios mortíferos, e então perdeu tudo de vista, a não ser o que estava acontecendo bem à sua frente.

— Rastejadores! — gritou Panax.

Quentin levantou-se e deu combate ao primeiro dos inimigos que, muito próximo a ele, parecia ter surgido do nada. Num relance, vislumbrou outros inimigos que o cercavam. Eram de diferentes formas, tamanhos e composições de metal, um amálgama formado pelo que pareciam ser pedaços soltos e peças estranhas conectados, formando algo que não parecia inteiramente real. Lâminas e poderosos cortadores brilhavam nas extremidades de extensões de metal. Olhos de metal protuberantes giravam. Avançavam agachados, como se fossem grandes insetos com carapaças metálicas que tivessem recebido vida e sido enviados para caçar.

Destruiu o primeiro tão rápido que virou ferro-velho antes de Quentin perceber o que havia feito. Todas aquelas longas horas de treinamento com os elfos caçadores o pouparam da hesitação que lhe teria custado a vida. Reagiu sem pensar, atacando com a espada de Leah o rastejador mais próximo, a magia assumindo vida instantaneamente, reagindo à sua necessidade. A lâmina de metal escuro brilhou com um fogo próprio, chamas azuis subindo e descendo pelas bordas da arma enquanto ele fazia de seu antagonista uma ruína metálica. Sem reduzir o ritmo, pulou sobre os destroços do inimigo derrotado para enfrentar o próximo, lutando para alcançar seus companheiros, que estavam acuados de encontro a uma parede próxima, lutando com suas armas comuns para manter um grupo de rastejadores afastado. Esmagou o segundo rastejador, em seguida foi atingido no flanco por algo que não viu e foi jogado para o alto. Fios vermelhos o perseguiram, queimando lentamente um caminho no chão de metal, deixando sulcos profundos que soltavam vapor e fumaça. Girou o corpo para afastar-se deles mais uma vez, levantou-se e com um uivo de determinação lançou-se de volta ao combate.

Lutou pelo que pareceu um longo tempo, mas provavelmente não passou de alguns minutos. O tempo parou, e o mundo ao seu redor, com tudo o que lhe oferecera e poderia oferecer novamente em sua jovem vida, desapareceu. Rastejadores vinham em sua direção de toda parte, de todas as formas, tamanhos e aspectos. Ele parecia ser um ímã para os inimigos, atraindo-os como os mortos atraem as moscas. Convergiam de todos os lugares. Deram as costas para Panax e os elfos caçadores para alcançá-lo. Ele estava cheio de cortes e escoriações devido às tentativas dos rastejadores de derrubá-lo — não necessariamente para matá-lo, mas como se o único objetivo fosse capturá-lo. Ocorreu-lhe então pela primeira vez que era da magia que eles estavam atrás.

Àquela altura, a magia já o percorria por inteiro. Ela veio à tona com o primeiro golpe de espada, o fogo azul subindo e descendo a superfície da lâmina. Mas logo também estava dentro dele. Ela o fundiu com a espada e fez deles um só, deixando que o metal lhe penetrasse a carne e os ossos, percorresse sua corrente sangüínea e retornasse, tudo calor e energia. A magia queimava de forma cativante e sedutora, preenchendo-o de poder e uma terrível sede por aquelas sensações. Em pouco tempo, ele gostou da sensação como nunca gostara de nada mais em sua vida. Ela o fizera crer que ele podia fazer qualquer coisa. Ele não tinha medo, não tinha hesitação. Era indestrutível. Era imortal.

A fumaça cobria o campo de batalha, ofuscando tudo. Ele ouvia os gritos de seus companheiros, mas não podia vê-los. Walker havia desaparecido por completo, como se a terra o tivesse engolido. Vozes desencarnadas gritavam na escuridão. Todos estavam isolados, cercados por fios de fogo e rastejadores, apanhados em uma armadilha da qual nenhum deles parecia ser capaz de escapar. Ele não se importava. A magia flutuava dentro dele e o sustentava. Ele se envolveu em seu manto e, incontrolável, lutou com fúria cada vez maior.

Finalmente, Panax gritou para ele que precisavam se afastar da praça. O anão precisou gritar várias vezes para que ele ouvisse, e, mesmo assim, Quentin relutou em se afastar da batalha. Lentamente, começaram a se afastar pelo caminho que já haviam percorrido. Rastejadores procuraram impedir sua fuga, fazendo-os darem meia-volta a cada oportunidade, perseguindo-os como lobos famintos, rastejando em suas estruturas de metal e pernas aracnóides, máquinas estranhas e bizarras. A caçada ia de um edifício a outro, de um corredor ao corredor seguinte, até que Quentin perdeu a noção de onde estava. Seus braços estavam cansando, pesados de tanto balançar a espada, e a magia não vinha mais tão fácil. Os elfos e Panax demonstravam nos rostos a amargura e o cansaço da batalha. O tempo e a vantagem numérica dos outros lhes devoravam a resistência.

Então, sem aviso, os rastejadores recuaram, os fios de fogo desapareceram e o montanhês e seus três companheiros foram deixados em um turbilhão vazio de fumaça e silêncio. Armas erguidas à frente como talismãs, os homens caçados recuaram por entre a névoa, afastando-se de seus perseguidores, observando tudo ao mesmo tempo. A cidade arruinada se tornara semelhante a um vasto cemitério, um túmulo imenso despido de vida a não ser por eles mesmos.

E as coisas estavam assim neste momento, com Quentin e os outros três avançando devagar, sem ter certeza de onde haviam chegado ou para onde estavam indo. Por uma ou duas vezes ouviram movimentos súbitos e apressados das sombras, coisas correndo rápidas demais para serem vistas com clareza. A noite já dava lugar à aurora, e a luz do sol subia lentamente por entre a neblina que cobria a cidade. Procuraram sinais de seus amigos, sinais familiares, qualquer coisa que lhes dissesse onde estavam. Mas tudo parecia a mesma coisa, e a aparência das coisas jamais mudava.

Agora, agachado em outra parte da cidade em ruínas, Quentin se descobriu quase desejando ter alguma coisa contra a qual lutar novamente, algo real para combater. A tensão mantida para observar e esperar rastejadores invisíveis e fios de fogo que desapareciam o estava cansando. Vestígios da magia ainda fervilhavam dentro dele, mas uma mistura de medo e de dúvida havia substituído seu desejo por ela. Ele não gostava do que a magia o fizera executar, como se ele fosse uma máquina de lutar, tanto quanto aqueles rastejadores. Não gostou de como ela o havia dominado tão completamente, tanto que até mesmo pensar se tornava difícil. Só havia resposta e reação, necessidade e satisfação. Ele havia se perdido nessa magia, havia se tornado outra coisa.

Sem olhar para Panax, murmurou:

— Não confio mais nos meus sentidos. Estou exausto.

Sentiu, mais do que viu, o anão assentir.

— Precisamos de algum descanso. Mas aqui não. Vamos embora.

Quentin não se moveu. Estava pensando em Bek, em algum lugar lá fora na neblina e nos escombros, na melhor das hipóteses perdido, na pior das hipóteses, morto. Não suportava pensar em como havia fracassado com seu primo, deixando-o para trás sem desejar ou ter a intenção, abandonando-o tanto quanto Walker parecia tê-los abandonado. Piscou os olhos para afastar o cansaço e balançou a cabeça. Jamais deveria ter deixado Bek, nem mesmo depois que Walker os havia separado. Jamais deveria ter acreditado que Bek ficaria bem sem ele.

— Vamos embora, montanhês — Panax tornou a grunhir.

Levantaram-se e começaram a avançar, afastando-se do lugar onde o anão havia visto movimento, contornando o prédio e os escombros, escolhendo uma ampla avenida que passava por entre uma série do que pareciam armazéns baixos com partes de paredes e tetos desabados. Os pensamentos de Quentin eram melancólicos. Quem iria proteger Bek se ele não o fizesse? Com Walker desaparecido, quem mais havia? Certamente não Ryer Ord Star e talvez nem mesmo os elfos caçadores. Não contra coisas como os fios de fogo e os rastejadores. Bek era sua responsabilidade; eles eram responsabilidade um do outro. De que valia uma promessa de cuidar de alguém se você sequer sabia onde essa pessoa estava?

Procurou olhar por entre a penumbra enquanto caminhava, vendo outros lugares, lembrando-se de tempos melhores. Ele havia percorrido um longo caminho desde as Highlands para que tudo terminasse daquele jeito. Estava tão certo do que deveriam fazer, ele e Bek. Viver uma aventura da qual se lembrariam pelo resto de suas vidas: era por isso que deviam ir, ele discutira aquela noite com Walker. Esse argumento agora parecia vazio e tolo.

— Espere — Panax sibilou de repente, fazendo com que ele parasse bruscamente.

Ele olhou para o anão, que estava tentando escutar ao seu redor mais uma vez. Ao seu lado, Kian e Wye tentavam olhar a penumbra. Quentin achava que talvez estivesse muito cansado para ouvir, que mesmo que houvesse algo para ouvir, ele não seria capaz de saber.

Então ele também ouviu. Mas não vinha da frente deles. Vinha de trás.

Virou-se rapidamente e viu, surpreso, uma figura magra aparecer por entre a neblina e os escombros.

— Para onde estão indo?

Tamis perguntou com uma expressão genuína de confusão ao se aproximar deles. Tirou a faixa de couro que prendia para trás seus cabelos castanhos e curtos, e balançou a cabeça, cansada. — Isto é tudo o que sobrou de vocês?

Eles cumprimentaram a rastreadora com sorrisos cansados de alívio, abaixando as armas e cercando-a. Kian e Wye estenderam os dedos para tocar rapidamente os dela, a saudação-padrão dos elfos caçadores. Ela acenou com a cabeça para Panax e então seus olhos cinzentos pousaram sobre Quentin.

— Acabei de vir de onde Bek está. Ele está esperando lá atrás, a uns três quilômetros.

— Bek? — repetiu Quentin, uma onda de alívio percorrendo seu corpo. — Ele está bem?

Havia sangue nas roupas dela e arranhões em sua pele macia e cansada. As roupas estavam molhadas e rasgadas. Ela não parecia assim tão diferente dele, Quentin percebeu.

— Ele está bem. Melhor do que eu ou você, eu diria. Deixei-o em uma clareira nos arredores das ruínas, tomando conta da vidente enquanto eu vinha procurar por vocês. Somos tudo o que restou de nosso grupo.

— Perdemos Rusten — disse Kian baixinho.

Ela assentiu.

— E os outros? E Ard Patrinell?

O elfo caçador balançou a cabeça.

— Não sabemos dizer. Muita fumaça e confusão. Todos desapareceram depois que a luta começou. — Ele assentiu para Quentin. — O montanhês nos salvou. Se não o tivéssemos e essa espada, estaríamos acabados.

Tamis lançou um olhar irônico para Quentin.

— Isso deve ser de família. Escutem, vocês estão indo na direção errada. Estão indo para o interior em vez de voltar para a baía.

— Estávamos apenas correndo — admitiu Quentin. Olhou confuso para a rastreadora. — O que você quer dizer com “deve ser de família”? O que é que está dizendo?

— Que o jovem Bek também nos salvou. Se não fosse por ele, não teríamos escapado. Ele esmagou os rastejadores como se fossem de papel. Nunca vi nada parecido.

Quentin olhou para ela.

— Bek? Bek fez isso?

Ela o estudou com cuidado.

— Ele não lhe contou? Ou será que ele havia acabado de descobrir aquilo também? Ele não parecia muito seguro sobre o que estava fazendo, isso eu lhe garanto. Mas ter aquele tipo de poder e não saber nada a seu respeito... Bem, talvez seja assim mesmo. De qualquer maneira, foi isso o que aconteceu.

Ela relatou os detalhes de sua fuga, de como haviam escapado por entre as ruínas, os três elfos caçadores, Ryer Ord Star e Bek, até que os rastejadores os haviam cercado. Os outros dois elfos haviam morrido rapidamente, mas ela e a vidente foram salvas quando Bek usou sua voz para invocar a magia.

— Foi assustador — ela admitiu. Olhou fixo nos olhos de Quentin. — Ele começou a cantar, um som estranho, mas que arrebentou os rastejadores, como um vento ou uma arma que cortasse através deles. Em um minuto eles estavam ali, nos matando, e no outro eram ferro-velho. — Ela assentiu solene. — Bek nos salvou. E você não está entendendo nada do que estou falando, está?

Quentin estava pensando: Bek possui magia? Como pode ser isso? Balançou a cabeça.

— Nada.

Descobriu-se pensando subitamente na origem de Bek. Bek era filho de um primo, mas que primo? Ou será que ele era realmente parente deles? Coran Leah sempre fora discreto quanto ao passado de Bek, mas ele era assim mesmo com informações particulares, e Quentin jamais forçara o assunto. Mas se Bek realmente possuía o uso da magia...

Mas Bek?

De repente Quentin percebeu por que Walker quisera que Bek fosse com eles. Não era por Bek ser primo de Quentin. Era porque possuía uma magia tão poderosa quanto a da espada de Leah. Bek era tão necessário para a expedição quanto Walker. Talvez mais ainda. Jamais questionou por um momento que Walker não soubesse a respeito. O que questionou foi quanto o druida sabia que ainda estava guardando para si.

— Precisamos prosseguir — aconselhou Tamis, trazendo-o de volta de seus pensamentos. — Não gosto de deixar Bek e a vidente sozinhos. Mesmo com sua magia para protegê-lo, ele ainda não é experiente o bastante para saber contra o que se defender.

Começaram a voltar por entre as ruínas, Tamis liderando. Quando Panax perguntou que espécie de problema haviam encontrado no caminho, ela disse que suspeitava que houvesse rastejadores escondidos por todas as ruínas, mas eles só se mostravam em reação a determinadas coisas. Talvez fosse um sinal de algum tipo. Talvez fosse apenas quando os intrusos entrassem em áreas restritas. Ou talvez alguém ou alguma coisa os estivesse orientando. Mas não vira um deles sequer no caminho de volta.

O anão grunhiu e disse que não havia mais muitos danos que eles pudessem fazer. Walker desaparecera e a expedição estava em farrapos. Era um milagre que qualquer um deles ainda estivesse vivo.

Mas Quentin não ouvia nada disso. Ainda estava pensando em Bek. Seu primo era inesperadamente um enigma, uma pessoa inteiramente diferente do que havia parecido. Quentin não tinha motivo para não acreditar no que Tamis estava dizendo. Mas o que isso significava? Se Bek tinha o uso da magia, particularmente uma magia que era tanto parte dele quanto sua voz, de onde ela viera? Devia estar em sua linhagem e, portanto, era parte de sua herança. Então, quem era sua família verdadeira? Não alguns primos distantes de Leah, isso ele sabia. Não havia nenhum Leah que tivesse o uso daquele tipo de magia, nunca houvera. Não, Bek era filho de outra pessoa. Mas de alguém que o druida conhecera. De alguém que seu pai também conhecera, pois senão Bek não teria sido levado para Coran ainda bebê.

Alguém...

De repente lembrou-se de todas aquelas histórias que Bek gostava tanto de contar: sobre os druidas e a história das raças. Os Leah eram parte dessa história, mas também havia outra família que fazia parte dela. Seu nome era Ohmsford. Eles já haviam sido íntimos dos Leah, não muito tempo atrás. Até mesmo a grande rainha dos elfos, Wren Elessedil, seria aparentada dessa família, segundo os rumores. Mas não havia um Ohmsford em Leah ou no Vale das Sombras ou em qualquer parte do mundo há cinqüenta anos. Não houve sequer uma menção a eles.

Mas os Ohmsford tinham magia no sangue. Ela havia surgido em dois irmãos que haviam se juntado a Walker para lutar contra os sombrios há mais de um século. Agora ele se lembrava da história, em fragmentos apenas. Supunha-se que os irmãos tinham magia nas vozes, exatamente como Bek. E se a família não tivesse morrido afinal de contas? E se Bek fosse um deles? Se houvesse Ohmsford vivos em qualquer lugar do mundo, certamente Walker saberia. Teria feito questão de saber. Isso explicaria por que ele fora tão determinado em trazer Bek.

Quentin sentiu uma suspeita estranha percorrer seu corpo. Talvez Walker estivesse atrás era de Bek o tempo todo e tivesse usado Quentin como isca para convencer o garoto a vir.

Será que seu primo era Bek Ohmsford? Era isso que ele realmente era?

O montanhês piscou para afastar o cansaço e a confusão. Não confiava em seu raciocínio agora. Podia estar completamente fora do caminho nessa questão. Estava apenas especulando. Estava apenas tentando fazer com que as peças se encaixassem quando não tinha sequer uma imagem clara com a qual trabalhar. Será que qualquer coisa que ele havia imaginado podia ser confiável?

Truls Rohk os havia alertado em seu primeiro encontro que não podiam confiar em um druida. Eram jogadores, ele lhes dissera. Fora quase a primeira palavra que saíra de sua boca, uma clara indicação do que sentia sobre o uso que o druida podia estar fazendo deles. Jogos. Eles podiam ser peças em um tabuleiro. Era possível, foi forçado a admitir.

Voltaram pela cidade enquanto o sol se elevava em um céu sem nuvens e o restante da noite sumia. O ar estava pesado e parado dentro dos prédios arruinados e o calor se desprendia da pedra e do metal em ondas. Nada se movia no silêncio. Os rastejadores haviam sumido mais uma vez, quase como se nunca tivessem estado lá. Tamis deu uma grande volta ao redor da praça onde havia encontrado os monstros, e logo depois do meio da manhã alcançaram a margem da floresta que beirava a cidade.

Ela parou ali, apurando o ouvido.

— Acho que ouvi alguma coisa — disse ela depois de um momento, seus olhos cinzentos vasculhando tudo. A mão magra fez um movimento circular. — Mas não consigo dizer de onde vem. Parecia uma voz.

Penetraram na floresta e começaram a abrir caminho por entre as árvores. Pássaros passavam voando por eles, pedacinhos de som e movimento em faixas brilhantes de luz do sol, não mais ocultos. A neblina que antes cobrira as ruínas como um manto havia se dissipado e as bordas dos prédios brilhavam agudas quando desapareciam de vista. Dentro da floresta havia apenas as árvores e os arbustos, uma espessa muralha ocultando tudo ao redor, verde e macia em uma mistura de sombras e de luzes. Os cheiros familiares e bem-vindos reviveram o ânimo de Quentin e o ajudaram a pôr o cansaço de lado. Pelo menos Bek estava bem. Fosse qual fosse a história por trás de sua magia e de sua família, eles resolveriam isso tudo assim que estivessem juntos novamente.

Haviam caminhado uma boa distância além das ruínas quando Tamis virou-se para eles.

— A clareira fica logo adiante. Fiquem quietos.

Aproximaram-se dela com cautela. Estavam na sua margem quando a rastreadora subitamente apertou o passo, correu para dentro do espaço aberto e parou.

A clareira estava vazia.

— Eles se foram — ela murmurou sem acreditar.

Ordenando que os outros ficassem onde estavam, rastejou devagar pelo perímetro da clareira, às vezes ficando de quatro para ler os sinais. Quentin permaneceu paralisado onde estava, frustrado e com raiva. Onde estava Bek? Isso era culpa da rastreadora. Ela não devia ter deixado Bek sozinho, não importava a razão ou o que ela achava que Bek podia fazer com sua magia ou outra coisa qualquer. Mas forçou a raiva a desaparecer, percebendo rapidamente que ela estava fora de lugar. Tamis havia feito o que era melhor e não havia por que chamar a sua atenção.

Finalmente ela voltou para eles, o rosto sombrio, mas os olhos cinzentos tranqüilos.

— Não sei dizer o que aconteceu com certeza — ela anunciou. — Existem rastros por todo lugar, e os últimos obscureceram os anteriores. Estes pertencem a mwellrets. Houve uma espécie de luta, mas parece que ninguém foi ferido, porque não há vestígios de sangue.

Quentin soltou o ar com força.

— Então onde estão Bek e Ryer Ord Star? O que aconteceu com eles?

Tamis balançou a cabeça.

— Disse a Bek que se escondesse caso alguém viesse. Deixei que ele tomasse a decisão, mas ele sabia ficar de guarda. Acho que provavelmente ele fez conforme o instruí e, quando viu os mwellrets, fugiu daqui. Você o conhece melhor do que eu. Isso parece algo que ele faria?

O montanhês assentiu.

— Ele tem anos de experiência em caçadas nas Highlands. Sabe como se esconder quando necessário. Acho que ele não seria apanhado desprevenido.

— Tudo bem — disse ela. — Então, eis aqui o resto da história. Os mwellrets passaram algum tempo aqui fazendo alguma coisa e depois prosseguiram na direção da cidade, e não de volta pelo caminho pelo qual vieram. Se tivessem levado Bek e a vidente como prisioneiros, provavelmente os teriam mandado para a aeronave sob vigilância. Não há nenhum rastro levando naquela direção. Alguém pode ter partido na direção da qual viemos, do interior, mas não tenho certeza. Os sinais são muito fracos e difíceis de ler. De qualquer maneira, os sinais dos mwellrets são claros. Eles não continuam no mesmo caminho; há uma mudança de direção. Da forma como vários conjuntos de pegadas começam e retornam, e em seguida todos se movem juntos, em bando, eu diria que estavam rastreando alguém.

— Bek — disse Quentin na hora.

— Ou a garota — Panax sugeriu baixinho.

— Ele não deixaria — disse Quentin. — Não Bek. Ele a teria levado consigo. O que poderia explicar por que os mwellrets podiam rastreá-lo. Sem ela não sei se conseguiriam. Bek é bom em esconder seus rastros.

Tamis assentiu, o olhar firme e pensativo.

— Acho que devemos ir atrás deles. O que diz, montanhês?

— Vamos atrás deles — disse ele na hora.

Ela olhou para Panax. O anão deu de ombros.

— Não faz sentido ir em outra direção. A Jerle Shannara partiu para a costa. Quem quer que tenha sobrado está lá naquelas ruínas. Não quero deixá-los para os rets e para a bruxa.

Quentin havia se esquecido da bruxa Ilse. Se havia mwellret em terra, era porque a Black Moclips havia encontrado seu caminho por entre os pilares de gelo e entrado na baía. Isto significava que a bruxa Ilse estava bem perto. Subitamente percebeu como seria perigoso voltar para as ruínas. Estavam cansados e haviam lutado e corrido por horas. Não levariam muito tempo para cometer um erro, e não precisaria ser um erro muito grande para acabar com eles.

Mas ele não ia deixar Bek. Já havia tomado sua decisão a respeito.

Kian e Wye estavam falando com Tamis. Queriam voltar para as ruínas. Queriam uma chance de encontrar Ard Patrinell e os outros. Sabiam que seria perigoso, mas concordavam com ela. Se alguém ainda estivesse vivo ali, queriam dar a ajuda que pudessem.

Enquanto os elfos conferenciavam, Panax se aproximou de Quentin e ficou ao seu lado.

— Espero que esteja em condições de nos salvar novamente — disse ele. — Porque provavelmente você vai precisar.

Ele sorriu forçado ao dizer isso, mas não havia humor em sua voz.

 

Ahren Elessedil estava agachado no canto mais escuro de um armazém abandonado muito além do perímetro da armadilha mortal da qual escapara e tentou pensar no que deveria fazer. O armazém era um abrigo cavernoso com buracos em três de suas quatro paredes. Tinha um teto que estava em sua maior parte intacto, portas enferrujadas que iam até o alto em dois dos lados e que haviam sido abertas sobre rodízios, muito mais escombros do que espaço. Já estava ali havia muito tempo, tão apertado contra as paredes que começara a se sentir parte delas. Estava ali tempo suficiente para memorizar cada passagem, planejar cada contingência e repensar cada detalhe doloroso do que o havia levado até aquele ponto. Lá fora o sol estava alto e lançava sua luz sobre a cidade destruída em um amplo leque que caçava as sombras da noite de volta para a floresta que a cercava. Os sons de morte e dos moribundos há muito haviam desaparecido, os gritos de guerra, o clangor de armas contra metal e os gemidos desesperados de vidas humanas que agonizavam. Tentou ver e ouvir qualquer sinal de algum deles, mas só havia silêncio.

Já era hora de ele sair dali, de se levantar e andar para longe — correr se fosse preciso — enquanto havia chance. Tinha de fazer alguma coisa além de se esconder amedrontado em um canto e reviver na mente as lembranças horríveis do que passara.

Mas não conseguia se mover. Não conseguia fazer nada a não ser tentar desaparecer dentro do metal e da pedra.

Dizer que ele estava apavorado seria uma redundância grosseira. Estava de uma maneira que jamais achara ser possível, quase catatônico. Seu pavor o envergonhava a ponto de não mais se reconhecer na imagem que sempre traçara de si, de quem ou o que era. Estava, provavelmente, longe de toda a redenção.

Fechou os olhos para afastar o que estava sentindo e pensou mais uma vez no que havia acontecido, procurando uma pista que o ajudasse a entender melhor. Viu seus amigos e companheiros se espalharem pelo labirinto de paredes e partições daquela praça aparentemente vazia: seu grupo à direita, o de Quentin Leah à esquerda e o de Bek no centro. Os elfos caçadores protegiam todos e não parecia haver razão para pensar que não conseguiriam superar o que quer que pudesse confrontá-los. Mais adiante, Walker penetrava cada vez mais no interior do labirinto. O sol poente lançava sombras para todo lugar, mas não havia movimento e som que sugerissem perigo. Não havia uma pista sequer do que estava para acontecer.

Então os fios de fogo apareceram, tentando cortar o druida primeiro, e depois aqueles que tentaram alcançá-lo direcionando os disparos, em seguida, àqueles que não haviam avançado. Como Ard Patrinell, Joad Rish e os três elfos caçadores que os acompanhavam, Ahren se abaixou atrás de uma parede para não ser queimado. A praça ficou cheia de fumaça misturada com a neblina, escurecendo tudo em instantes. Ele ouviu os gritos do grupo de Quentin, o inesperado clangor e lixar de peças metálicas e os gritos que vinham do outro lado. Agachado atrás de sua parede, cheio de horror e pânico, percebeu rapidamente como as coisas haviam ficado ruins.

Quando os rastejadores apareceram atrás dele, ele já estava pronto para disparar. Não conseguiu explicar o que havia acontecido, apenas que a coragem e a determinação que o haviam preenchido e sustentado antes haviam se escoado em uma fração de segundo. Os rastejadores pareciam se materializar do nada, feras de metal assomando imensas por entre a neblina. Pinças afiadas como navalhas brotavam protuberantes dos corpos metálicos, dando-lhe uma clara indicação do destino que o aguardava. Resolveu ficar onde estava, talvez mais por incapacidade de se mover do que por outra coisa, sua espada levantada defensivamente, ainda que fosse um gesto fútil. Os rastejadores atacaram rápido, ele recuou para fugir, até chegar à parede, em um canto. Para seu espanto, passaram direto por ele, escolhendo outros adversários, caindo sobre seus companheiros. Um elfo caçador — não soube dizer qual — caiu quase na hora, o corpo inerte e ensangüentado. Ard Patrinell pulou para a linha de frente dos defensores, afastando os rastejadores sozinho, um guerreiro respondendo a uma necessidade, uma pequena muralha contra uma onda de ataque. Por um momento ele suportou a carga, mas depois os rastejadores o cercaram e ele desapareceu.

Então Ahren deixou seu esconderijo, desesperado para encontrar seu amigo e mentor, esquecendo por um instante o medo, colocando o pânico delado. Um dos fios de fogo encontrou Joad Rish ajoelhado perto do primeiro elfo que havia caído, tentando arrastá-lo a um lugar seguro. Joad Rish estava olhando para cima quando isso aconteceu, olhando para Ahren, como se procurasse sua ajuda. O fio de fogo o apanhou no rosto e sua cabeça explodiu em uma chuva vermelha. Por um instante ele permaneceu onde estava, ajoelhado ao lado do elfo caçador caído, as mãos ainda segurando os braços do outro, voltado na direção de Ahren. Por fim, lentamente, de forma quase lânguida, desabou sobre o chão de metal.

Foi o bastante. Ahren perdeu o controle sobre si mesmo. Gritou, recuou, jogou fora a espada e correu. Não parou para pensar no que estava fazendo e nem sequer para onde estava indo. Sabia que precisava escapar o mais rápido que pudesse e para o mais longe possível. A imagem sem cabeça de Joad Rish estava bem na sua frente, queimada no ar esfumaçado, gravada a fogo em seus olhos e em sua mente. Não conseguia fazê-la desaparecer, não conseguia evitar sua presença, não conseguia fazer nada a não ser fugir dela, ainda que fugir não adiantasse. Esqueceu os outros da companhia. Esqueceu o que o havia levado até aquele matadouro. Esqueceu seu treinamento e suas promessas para si mesmo de ficar ao lado dos outros. Esqueceu tudo que algum dia significara algo para ele.

Não tinha idéia de por quanto tempo havia corrido nem de como encontrara o caminho até o armazém vazio. Ainda ouviu os gritos dos outros por muito tempo depois disso, mesmo estando ali. Ouviu os sons da batalha e o leve som de lixa das pernas metálicas dos rastejadores ao se afastarem. Sentiu o cheiro da fumaça de metal queimado e o fedor de carne tostada. Curvado em uma bola, com o rosto enterrado no peito entre os joelhos, ele chorou.

Depois de algum tempo, recuperou a presença de espírito o suficiente para se perguntar se algum dos rastejadores o havia seguido. Forçou-se a erguer a cabeça, enxugar as lágrimas e olhar ao redor. Estava sozinho. Manteve uma vigilância cuidadosa depois disso, ainda espremido no mesmo canto, ainda enrolado em uma bola de braços e pernas, assombrado pela imagem de Joad Rish em seus últimos momentos.

Não deixe isso acontecer comigo, ele não parava de repetir em sua mente, como se assim pudesse de algum modo salvar-se.

Mas agora ele sabia que precisava fazer mais do que ficar encolhido em seu canto e esperar nunca ser encontrado. Precisava tentar sair dali. Já se passara tempo suficiente e ele pensou que poderia ter uma chance. O ataque terminara há muito tempo. Não houvera mais som nem movimento em lugar algum em todo aquele tempo. A fumaça havia diminuído, e o sol, nascido. O dia estava límpido e claro do lado de fora, e ele era capaz de ver qualquer coisa que o ameaçasse. Levaria várias horas para sair da cidade e mais tempo ainda para retraçar seus passos até a baía onde poderia aguardar o retorno da Jerle Shannara. Achava que podia conseguir.

Melhor dizendo, sabia que deveria.

Foi necessário um longo tempo, mas ele finalmente conseguiu se desenrolar e se levantar. Ficou imóvel nas sombras de seu canto e vasculhou o armazém de ponta a ponta à procura de sinais de vida. Quando percebeu, satisfeito, que era seguro fazer isso, dirigiu-se para a abertura mais próxima, um grande buraco na parede oeste que oferecia a rota mais direta para sair da cidade. Estava com muita sede, ligeiramente zonzo e suas mãos tremiam. Para se acalmar, estendeu a mão para segurar a pedra fênix, lembrando-se subitamente de que ela estava ali, pendurada ao seu pescoço. Não sabia se funcionaria caso ele fosse ameaçado, mas ficou mais tranqüilo ao saber que tinha algo a que poderia recorrer, mesmo que não tivesse certeza quanto a sua utilidade.

Perguntou-se, melancolicamente, o que havia acontecido a Bek. Seu amigo Bek, que tanto fizera para incentivá-lo e apoiá-lo em sua viagem desde Arborlon. Estaria morto junto com todos os outros? Será que algum deles ainda estava vivo? Sabia que deveria voltar e descobrir. Também sabia que não conseguiria.

Bravo príncipe dos elfos! Admoestou a si mesmo com fúria e tristeza. Seu irmão tinha razão a seu respeito!

Alcançou a abertura e saiu para a luz do dia. As ruínas se estendiam em todas as direções tornado tudo indiferenciado, tudo completamente vazio. Esperou um momento para ver se alguém apareceria, se havia algo a ser ouvido. Mas a cidade parecia vazia e sem vida, uma mistura de pedra, metal, arbustos e ervas daninhas. Nem mesmo um pássaro voava no céu azul sem nuvens.

Começou a andar, no começo lentamente, quase tropeçando, tentando não fazer nenhum ruído, ainda à beira do pânico, lutando para se controlar. Não tinha armas, a não ser uma faca longa enfiada na cintura e a pedra fênix. Se o atacassem, sua única defesa verdadeira seria correr. Saber que isso era tudo em que ele poderia confiar não era muito reconfortante, mas não podia fazer nada a respeito. Queria ter sua espada de volta, queria não tê-la jogado fora ao fugir. Mas também queria muitas outras coisas que não podiam acontecer. O instinto fazia com que ele se movesse quando sua consciência murmurava que ele não merecia sequer estar vivo.

Caminhara apenas alguns passos quando as lágrimas voltaram a encher seus olhos. Como ficara orgulhoso de si ao ser escolhido para seguir com a expedição. Como estivera certo de que ela lhe daria a chance de que precisava para provar sua coragem. Um príncipe do reino, destinado talvez a ser um rei: tudo isso ficaria muito claro na jornada. Até mesmo Ard Patrinell havia acreditado nisso e o ensinara a crer nisso enquanto lhe mostrava como sobreviver àqueles que não acreditavam. Mas o que fizera por seu amigo e mentor quando o outro mais precisara? Fugira como um covarde, fugira tomado pelo pânico e pelo desespero, abandonara os amigos, seus princípios e todas as suas esperanças pelo que poderia acontecer.

Você é desprezível!

Continuou andando, enxugando as lágrimas dos olhos, engolindo os soluços, pensando que agora deveria ter coragem e ganhar um pouco que fosse de amor-próprio. Estava vivo quando outros não estavam e deveria fazer algo com esse presente. Não sabia como faria isso ou por que isso era importante após tudo o que acontecera, mas sabia que deveria pelo menos tentar.

O sol incidia direto sobre ele, e logo estava suando largamente. Ficou piscando muito devido à claridade do dia e passou para a sombra, aproximando-se de paredes protetoras para conseguir um pouco mais de frescor. Achava que estava seguindo na direção certa, mas não tinha certeza. Não via nada que parecesse familiar — ou talvez pensasse assim porque tudo parecia igual. Pelo menos não havia rastejadores por perto. No rastro de sua passagem, nada se moveu.

Então, súbita e inesperadamente, avistou alguma coisa se mover. Captou apenas um vislumbre, um relance de movimento que, em seguida, desapareceu. Recuou para as sombras e ficou imóvel, esperando para ver se avistaria aquilo novamente. E avistou, segundos depois, outro vislumbre, mas o suficiente para lhe dizer mais. Era humano, magro e envolto em um manto, deslizando ao longo das paredes como ele próprio estava fazendo, um pouco ao lado de onde ele se encontrava. Ficou pensando no que fazer. Seu impulso era de fugir ou se esconder, qualquer coisa para evitar um encontro. Mas então percebeu que poderia ser um membro da companhia, alguém tão perdido quanto ele e procurando uma maneira de sair do pesadelo que ambos compartilhavam. Deixou a outra pessoa chegar mais perto, tentando reconhecer quem era, quase sem respirar, caso estivesse cometendo um erro.

Então a outra pessoa passou por um raio de luz do sol e ele viu seu rosto com clareza.

— Ryer Ord Star! — chamou-a, mantendo a voz baixa e contida, ainda preocupado com as coisas que poderiam lhe estar caçando.

Ela se virou em sua direção instantaneamente, hesitou, viu-o em pé nas sombras e foi até ele. Ficou surpreso ao ver como ela estava calma, seu rosto composto e seus olhos violeta tranqüilos. Ela sempre havia parecido um tanto etérea, mas então ela parecia também estranhamente distante... como se estivesse vendo algo além dele, um outro lugar, como se em sua mente ela já estivesse lá.

Ela segurou a mão de Ahren e prendeu-a entre as suas.

— Príncipe dos elfos, você está vivo — ela murmurou. Havia um verdadeiro alívio em sua voz e ele ficou envergonhado em saber que ela pensava melhor a seu respeito do que ele merecia. — Não deveria estar aqui sozinho — ela continuou preocupada, apertando sua mão com força. — É muito perigoso. Onde estão os outros?

Ele respirou rápido para se conter.

— Mortos, eu acho. Não tenho certeza.

Ela olhou ao redor rapidamente, os longos cabelos prateados tremeluzindo em ondas brilhantes.

— Existem mwellrets naquela direção, uma grande companhia deles. — Apontou para a direção de onde viera. — Acho que eles podem estar me seguindo.

— Mwellrets? — ele repetiu confuso.

— Da Black Moclips. Eles vieram até aqui para nos caçar, todos os que sobreviveram. A bruxa Ilse veio com eles, mas ela se foi agora. Ela nos encontrou em uma clareira onde a rastreadora dos elfos nos deixou...

— Quer dizer Tamis? — ele interrompeu animado. — Tamis está com vocês?

— Estava, mas saiu para buscar ajuda. Bek também estava comigo, mas quando a bruxa Ilse nos encontrou, houve um confronto entre eles. Não sei ao certo o que aconteceu, mas Bek desapareceu e ela foi atrás. Na confusão eu fugi, mas os mwellrets já sentiram minha falta a esta altura e devem estar me procurando. Foi o que a bruxa Ilse mandou que fizessem: encontrar-nos e, se ainda vivos, fazer de nós prisioneiros, levando-nos para a Black Moclips até que ela volte.

Ahren ficou olhando para ela. Aceitando que a bruxa Ilse de algum modo tivesse conseguido passar pelo Squirm e descido o canal até a enseada, que história era essa de um confronto com Bek? Por que ela o estaria caçando?

— Psst! — ela sinalizou em alerta, apertando sua mão mais uma vez. — Precisamos ir agora! Rápido! Eles estão chegando!

Ela o puxou de seu esconderijo, de volta pelo caminho pelo qual acabara de vir, e ele puxou de volta com força.

— Não, espere, não vou voltar para lá!

— Você precisa! Eles estão vasculhando todas as ruínas! Vão encontrá-lo!

— Mas não posso! — exclamou em desespero. — Não posso!

Ela parou de puxar sua mão e soltou-a.

— Faça o que quiser, príncipe dos elfos. Mas se ficar aqui eles o matarão. Esconder-se não irá ajudar. Mwellrets podem sentir sua presença melhor do que a maioria das criaturas, e eles o encontrarão. — Ela se aproximou dele. Seus olhos violeta eram firmes e perscrutadores. — Venha comigo.

Ele não tinha certeza do que o fizera decidir segui-la, mas assim o fez, abandonou seu abrigo e correu seguindo-a. Tornou a olhar para trás diversas vezes, sem nada ver, mas seus instintos lhe disseram que ela dizia a verdade.

— E quanto a Bek? — perguntou depois de alguns instantes, mantendo a voz baixa e a cabeça abaixada na direção dela enquanto deslizavam por entre as ruínas. — Ele está bem? Você disse que a bruxa Ilse o está rastreando, que ela foi atrás dele por conta própria?

A vidente assentiu.

— Bek não foi ferido. Sua magia e coragem o protegem. Talvez ela ache difícil superar ambas as coisas.

— A magia dele? Que magia? — O elfo apressou o passo para acompanhá-la. — Espere um minuto. Está dizendo que ela o está rastreando porque ele possui algum tipo de magia?

Ryer Ord Star agarrou seu braço e puxou-o para perto.

— Ela é irmã dele, príncipe dos elfos. — Ela viu o choque nos olhos dele e apertou seu braço ainda mais. — Walker contou isso para Bek logo antes de chegarmos, mas Bek guardou isso para si. Quando ela apareceu na clareira, ele lhe contou quem era. A bruxa Ilse não acreditou nele. Não pode acreditar. Esse foi o motivo do confronto entre ambos. Agora ela o caça porque não pode tirar essa verdade da cabeça, mesmo que não aceite. Ela acha que, se puder confrontá-lo mais uma vez, ele admitirá que lhe mentiu. Ou talvez ela perceba que existe algo de verdadeiro no que ele disse. Agora ande mais depressa!

Avançaram mais rápido, voltando por entre os prédios e os escombros, de volta para a armadilha da qual tiveram sorte de escapar uma vez e por onde iriam se aventurar novamente. A mente de Ahren Elessedil rodopiava com as revelações sobre Bek, mas seus pensamentos estavam todos bagunçados e confusos pelo seu medo. Ele sabia que, voltando, estava atraindo o destino de uma maneira que lamentaria. Não achava de fato que poderia sobreviver a outro encontro com os rastejadores, independentemente do que Ryer Ord Star acreditava. Mas não podia deixar aquela garota tão frágil voltar sozinha. Deixando-a para trás ele carregaria consigo a lembrança de que fracassara com ela assim como fracassara com Ard Patrinell e seus elfos caçadores. Continuou pensando que podia encontrar um jeito de fazer com que ela reconsiderasse, mudasse de idéia e desse meia-volta. Mas ela era teimosa e determinada; naquele momento, pelo menos, ele teria de fazer o que ela queria.

Levaram muito menos tempo do que ele havia esperado para chegar à praça da qual haviam rugido horas antes. Estava silenciosa e vazia na luz brilhante do meio-dia, seu labirinto de paredes no mesmo lugar, as folhas de metal cozinhando no calor. Não havia ninguém em parte alguma. Não havia sinais de que uma batalha havia acontecido, nenhum corpo ou traço de sangue, nenhuma marca dos fios de fogo ou pedaço de metal de um dos rastejadores. Era como se nada tivesse acontecido.

— Como pode ser isso? — ele murmurou para ela chocado.

Ela balançou a cabeça devagar, ambos olhando para o espaço limpo e vazio.

— Não sei.

Ele olhou para trás. Não havia sinal dos mwellrets.

— O que fazemos agora? — perguntou.

Ela olhou para ele por um momento e pegou sua mão mais uma vez.

— Venha comigo. Não fale, não faça nada, a não ser o que eu fizer. Não corra, seja o que for que aconteça.

Ainda o segurando firme pela mão, ela levantou os ombros magros e entrou no labirinto.

O choque dele foi completo, e talvez por isso ele a seguiu sem protesto. Lutando contra um surto de medo e horror que sufocava sua garganta, olhando para a esquerda e para a direita à procura de rastejadores, a pele toda arrepiada enquanto esperava que os fios de fogo o queimassem. Ela penetrou apenas alguns metros dentro do quadrado mortal antes de se virar para contornar suas bordas, andando cuidadosamente sobre o chão de metal, ficando longe das sombras e bem na luz do sol. Moveram-se como se fossem um só, sem fazer ruído, nenhum movimento desnecessário, sem falar, quase não respirando. Ahren achava que já era um cadáver, mas em um ato de fé que o surpreendeu completamente, entregou-se à vidente.

O que o surpreendeu ainda mais foi que nada aconteceu. Caminharam desde o perímetro do labirinto até percorrerem um quarto da distância de seu interior, quase paralelos à parede norte da torre negra que dominava o seu centro. Ao chegarem lá, a vidente o levou até o lado de fora novamente, para um esconderijo na sombra, formado pelo que restava das paredes e do telhado de um prédio desmoronado próximo da praça. Sobre uma pilha de escombros perto de uma fenda estreita em uma parede viam a paisagem pela qual haviam passado. Então se agacharam e esperaram.

— Por que não fomos atacados? — ele perguntou num sussurro, ainda cauteloso, chegando mais perto da moça magra, seus lábios roçando nos cabelos dela.

— Porque aquilo que protege a torre ataca quando percebe uma ameaça à sua segurança. — Seus olhos violeta brilharam quando ela se virou para olhar para ele. — Walker era uma ameaça, por isso foi atacado primeiro e nós depois. Se tivéssemos contornado a praça e a torre, teríamos ficado a salvo.

Ele a encarou.

— Como você sabe disso?

Ela virou o rosto pálido e juvenil para o outro lado.

— Eu sonhei — respondeu baixinho. — Em uma visão, em minha busca por Walker.

Ele não disse nada por um longo tempo, remoendo as palavras dela enquanto observava as ruínas em busca de sinais de movimento. Onde estavam os mwellrets? Por que não haviam aparecido?

— Acha que Tamis encontrou algum dos outros? — perguntou por fim. — Você viu o que aconteceu com eles depois que fomos atacados? E quanto ao grupo de Quentin Leah?

Ela balançou a cabeça sem dizer palavra. Seus olhos permaneciam direcionados para longe dele, na direção da cidade. Ele a estudou com cuidado.

— Estão todos mortos, não estão? Você também sonhou com isso.

— Walker Boh não — ela disse baixinho.

Antes que ele pudesse pressioná-la mais, avistou os mwellrets movendo-se por entre as ruínas, formas escuras esgueirando-se ao longo de paredes e por entre espaços vazios, pouco mais do que uma extensão das sombras às quais eles se agarravam. Ryer Ord Star segurou de novo seu braço e pressionou seu corpo contra o dele em sinal de alerta, ou talvez para reconfortá-lo. Ele ficou quieto, sua compostura anterior recuperada, pelo menos em parte, por ter sobrevivido ao ataque e pelo retorno. Não se sentia nem um pouco invencível, mas também não se sentia mais tão vulnerável. Em uma caminhada vertiginosa com a vidente, atravessando novamente o labirinto para voltar ao esconderijo, algo em Ahren, aos poucos, se restituía. Antes, durante o ataque que matara seus amigos, ele havia pensado que qualquer tipo de sobrevivência era, na melhor das hipóteses, temporária e imerecida. Agora, acreditava que poderia estar vivo por algum motivo, algo que poderia fazer.

Ryer Ord Star aproximou-se dele, seus rostos quase se tocando.

— Não se preocupe — ela murmurou, como se para mantê-lo calmo. — Eles não nos encontrarão.

Os mwellrets serpenteavam por entre a cidade em número cada vez maior. Mais de vinte, aparecendo e desaparecendo como espectros, formas cobertas por mantos fundindo-se com as sombras enquanto avançavam. Quando alcançaram o labirinto, ignorando seus perigos, não reduziram o passo. Usando as paredes como proteção, da mesma forma que os membros da companhia de Walker haviam feito, entraram na praça. Alguns sozinhos, outros em duplas, agachados e sem rosto dentro de seus mantos e capuzes, corpos reptilianos avançando cautelosos. Penetraram cada vez mais para dentro do labirinto e nada acontecia.

Ahren olhou rapidamente para Ryer Ord Star, a testa franzida de preocupação. Como haviam conseguido entrar até aquele ponto? O olhar da vidente, calmo e imperturbado, permaneceu fixo no labirinto e nos mwellrets. Seus dedos apertaram o braço do príncipe dos elfos.

Subitamente o labirinto explodiu em um festival de fios de fogo, linhas vermelhas mortais cruzando tudo ao mesmo tempo, apanhando os mwellrets em uma teia de destruição. Uma estranha mistura de sibilos e gritos elevou-se das criaturas aprisionadas enquanto procuravam fugir dos fios de fogo e fracassavam. Um punhado deles foi feito em fatias nos primeiros segundos, os mantos pegando fogo enquanto eles se viravam num esforço inútil de fuga, corpos queimando, sendo cauterizados, caindo aos montes sem vida. Os homens e mulheres da Jerle Shannara tinham ido em socorro a Walker, mas os mwellrets simplesmente abandonaram seus companheiros atingidos, fugindo de volta pelo labirinto, mantos negros em movimentos súbitos. Foram embora tão rápido que em segundos desapareceram, como se engolidos pela cidade. Ahren e Ryer Ord Star permaneceram onde estavam, imóveis, os olhos vasculhando as ruínas em todas as direções. Talvez meia dúzia dos mwellrets estivessem mortos abaixo deles, suas formas escuras visíveis dentro do labirinto de paredes. Daqueles que haviam fugido não havia sinal. Os fios de fogo haviam cessado seu rastro mortal, deixando trilhas de fumaça que surgiam de sulcos cortados na superfície de metal das paredes e do chão. Os rastejadores não haviam aparecido.

Ryer Ord Star soltou o pulso de Ahren.

— Eles não voltarão tão cedo — disse ela suavemente.

Ele assentiu concordando. Não depois disso, de fato não voltariam. Esperariam agora que a bruxa Ilse retornasse.

— E o que fazemos agora? — ele perguntou.

Ela se levantou sem olhar para ele, voltando os olhos na direção da torre negra no centro do labirinto.

— Vamos começar a procurar por Walker.

 

Ahren Elessedil encarou Ryer Ord Star com grande incredulidade. Que loucura ela estava falando? Procurar por Walker? Ela havia dito aquilo como se fosse a sugestão mais óbvia e racional do mundo. Mas Ahren achava que não era nenhuma das duas coisas. E achava que ela havia perdido a cabeça.

— O que é que você está dizendo? — foi tudo o que conseguiu dizer.

As palavras saíram em uma espécie de sibilar ameaçador e ela se voltou para encará-lo na hora.

— Preciso encontrá-lo, príncipe dos elfos — disse ela, sua própria voz enlouquecedoramente calma e confiante. — Era para onde eu estava indo quando você me encontrou.

— Mas você não sabe onde ele está! — Ahren exclamou apavorado. — Você não sabe sequer onde procurá-lo!

Ela tornou a se ajoelhar, olhando para ele, os olhos violeta perfurando-o com uma inconfundível determinação e certeza. Ela parecia tão jovem, tão impossivelmente vulnerável, que a idéia de ela realizar uma tarefa tão perigosa parecia ao mesmo tempo ridícula e tola.

— Você pode não ter visto o que aconteceu a ele durante o ataque — ela começou baixinho. — Mas eu vi. Corri para as ruínas atrás dele, sabendo que estava em perigo, não só por causa dos rastejadores e dos fios de fogo. As visões alertaram-me sobre esse lugar e eu compreendi o que ameaçava Walker melhor do que qualquer um de vocês. Fui atingida por um dos fios e impedida de alcançá-lo, mas vi o que aconteceu. Ele prosseguiu sozinho, passando por fios de fogo e rastejadores, pela fumaça e por toda a confusão. Alcançou a torre no centro do labirinto, encontrou uma porta e desapareceu dentro dela. Não tornou a sair. Ainda está lá dentro, em algum lugar.

Ahren sentiu sua exasperação ficar cada vez maior.

— Talvez. Talvez você tenha visto tudo o que diz. Talvez Walker esteja dentro dessa torre. Mas como vamos chegar até ele? Fios de fogo e rastejadores atacam qualquer um que tentar chegar perto. Não há como passar por aquelas coisas! Você viu o que aconteceu conosco e também com os mwellrets! Além disso, mesmo que você conseguisse percorrer todo o caminho até aquela torre, como vai entrar? Você não tem os poderes de um druida. Não me diga que a porta simplesmente irá se abrir para você. E se abrisse, também não seria bom, seria? Por que é que você está pensando em fazer algo tão... tão ridículo?

Ele estava quase gritando, e sua respiração estava entrecortada quando parou de falar e sentou-se sobre os calcanhares.

— Você não pode fazer isso! — Uma onda de medo percorreu-lhe o corpo quando ele a imaginou tentando. — Eu não vou ajudar — terminou apressado.

Ela lhe deu um olhar tão paciente e compreensivo que ele quis sacudi-la. Ela não ouvira uma palavra do que ele havia dito, ou se ouvira, não prestara a menor atenção.

Mas então ela o surpreendeu dizendo:

— Tudo o que você diz é verdade, Ahren Elessedil.

Ele a encarou, sem saber o que dizer.

— Então você vai desistir dessa idéia, não vai? Venha comigo em vez disso, vamos voltar para a costa. Podemos esperar a Jerle Shannara lá. Podemos nos esconder até ela retornar. Talvez possamos encontrar Tamis novamente, talvez um ou dois que possam ter escapado. Não podem estar todos mortos, podem? E Bek? Ele não irá tentar encontrar o caminho de volta para aquela clareira?

Ela jogou os cabelos compridos para trás e cruzou as mãos sobre o colo, enfiando-as entre as pernas como uma garotinha. Seus olhos violeta não tinham fundo, estavam repletos de dor enquanto ela os fixava sobre Ahren. Subitamente, ele teve certeza de que, embora ela não fosse mais velha do que ele, sua experiência com as vicissitudes da vida era muito maior do que a dele.

— Deixe-me contar a você uma coisa sobre mim e Walker — disse ela baixinho. — Uma coisa que eu não disse a ninguém. Quando partimos da Ilha Shatterstone e ele estava doente com o veneno, sentei-me com ele em sua cabine. Bek também estava lá. Joad Rish estava fazendo tudo o que sabia para ajudar Walker, mas nada estava funcionando. Após vários dias, ficou claro para todos nós que Walker estava morrendo. O veneno havia penetrado muito fundo e estava repleto da magia daquele lugar e do espírito que o protegia. A própria magia de Walker não podia lhe dar proteção suficiente contra o que estava acontecendo. Ele não podia curar a si mesmo sem ajuda.

Ela sorriu.

— Então, utilizei minhas próprias habilidades para curá-lo. Sou uma vidente, mas também sou uma empata. Meus poderes empáticos me permitem absorver a dor dos outros para que eles possam melhor se curar. É um esforço que suga e debilita, mas eu sabia que não havia outra escolha. Saiba disto, príncipe dos elfos. Eu teria morrido por ele com prazer. Ele é especial para mim de uma maneira da qual você nada sabe e eu não quero discutir. O que importa é que, ao curá-lo, formei um vínculo com seu subconsciente. Acho que isso foi intencional da parte dele, mas não tenho certeza. Uni-me a ele através do elo criado pela minha disposição de dar algo de minha vida para salvar a dele. Isso acontece ocasionalmente com empatas, embora normalmente se desvaneça depois que a cura termina. Não foi o que aconteceu. Isso continuou. E ainda continua.

Ele a estudou atentamente no silêncio que se seguiu.

— Está dizendo que Walker está se comunicando com você? Que pode ouvi-lo falar?

— De certa forma, sim. Não exatamente palavras. E mais uma presença que vai e vem, e sugere coisas. Ele está na minha mente, sussurrando para mim que está vivo e bem. Posso sentir isso. Posso senti-lo tentando me alcançar. É o vínculo que compartilhamos, ele e eu, forjado a partir de uma mistura de nossas vidas, de nossa magia, da experiência compartilhada quando ele estava morrendo e eu o salvei.

Fez uma pausa.

— Lembra-se de quando ele foi aprisionado em Shatterstone e Bek nos avisou que precisava de ajuda? Walker o chamou porque Bek compartilha a magia dele, e ele pode alcançar Bek quando for necessário. Uma ferramenta do druida. Mas eu o ouvi também. Walker não me chamou, mas eu também ouvi sua voz em minha mente. Porque estamos ligados, príncipe dos elfos. Agora eu ouço sua voz, só que desta vez ela é para mim e para mais ninguém. Ele fala para mim através de imagens, fragmentos do que está vivenciando. Ele está em apuros, aprisionado no subterrâneo, embaixo das ruínas, embaixo da torre. Ele está no fundo, em um labirinto de catacumbas que fica abaixo dessas cidades. Castledown não é aqui em cima, príncipe dos elfos. Ela fica lá embaixo.

— Então o tesouro e o que quer que o proteja...

— Também estão lá, um deles escondido, o outro a tudo vigiando, controlando o que acontece na superfície assim como no subterrâneo. Walker me diz isto por suas imagens, em meus sonhos e visões, mas também em meu subconsciente. Não me conta tudo, não acha seguro fazê-lo. Mas me diz o que pode, o que deve. Ele está em apuros, se agarra a mim como poderia se agarrar em um mastro quebrado num navio naufragado. Está perdido e à deriva, e eu sou sua tábua de salvação para que possa voltar.

Ela esperou sua resposta. Ele não tinha nenhuma a dar. Não tinha certeza se acreditava nisso tudo ou não. Ela poderia estar confusa, desorientada ou delirante pelos eventos da tarde anterior. Parecia lúcida e segura, mas nem sempre era possível dizer qual o estado de espírito de uma pessoa com base apenas na sua aparência e nas suas palavras.

— Ele está pedindo que você vá até ele? — disse finalmente.

Subitamente ela pareceu confusa, como se a pergunta tivesse apresentado um novo dilema.

— Não — ela respondeu depois de um momento. — Ele se agarra a mim sem revelar que estou aqui. É um contato que não pede nada de mim. — Seus olhos se encheram de lágrimas, que desceram por seu rosto. — Mas eu irei até ele assim mesmo. E irei porque devo. Não há mais ninguém, ninguém restou a não ser eu. E você, se vier comigo.

Ele não faria uma coisa daquelas, pensou Ahren, certo de que era suicídio voltar para o labirinto sob quaisquer circunstâncias. Estava apavorado com essa possibilidade e cheio de medo por suas lembranças daquele encontro. Não podia evitar. Ainda estava lutando para aceitar seu fracasso na luta, o fato de ter abandonado seus amigos, e a vergonha que sentia como resultado de ambas as coisas. Mas até mesmo seu desejo crescente de se redimir não era o bastante para fazer com que ele voltasse para dentro daquele labirinto. O melhor que poderia fazer para Ryer Ord Star era convencê-la de que estava cometendo um erro.

— Como irá chegar até aquela torre? — ele perguntou, procurando uma forma de alcançá-la.

Ela balançou a cabeça.

— Não sei.

— Se você entrar, como irá encontrar Walker? Se ele não está invocando você, se não a está chamando, como irá rastreá-lo?

— Não sei.

— Toda esta cidade, as ruínas e todo o resto, é tudo feito de pedra e de metal. Não há rastros a seguir. Olhe para o tamanho dela. Mesmo que ela seja apenas metade disto no subterrâneo, serão necessárias semanas, talvez até meses, para vasculhar tudo. Como irá saber onde procurar?

Ela estava triste, mas seus lábios se fecharam teimosos.

— Não tenho nenhuma resposta para isso, príncipe dos elfos. Só sei que tenho de tentar. Preciso ir até ele.

Ele se sentiu indefeso em face da determinação cega que ela tinha de ir adiante, de fazer o que havia definido em sua mente, não importando obstáculos e complicações. Sentia como se estivesse destruindo-lhe as esperanças sem convencê-la a desistir, de modo que, no fim das contas, ela iria mesmo assim, mas ele teria lhe arrancado o espírito.

Ahren tornou a sentar sobre os escombros e ficou olhando a cidade em ruínas. Ela se estendia até o horizonte na luz do sol, vasta e quebrada, sua história perdida há muito no passado sem a civilização que a ocupara. Ela era uma relíquia do Antigo Mundo, aquele tempo anterior às Grandes Guerras em que a ciência governava e todas as raças eram uma. Ficou imaginando se alguém que vivera ali poderia ter previsto aquele fim para as coisas. Ficou imaginando se tentariam fazer algo para impedir aquilo.

— Talvez pudéssemos encontrar alguns dos outros para nos ajudar — ele disse finalmente, sentindo-se condenado e aprisionado, mas incapaz de abandoná-la.

Ela balançou a cabeça.

— Não, Ahren. Só você e eu.

Era a primeira vez que ela usava seu nome e ele ficou surpreso com a profundidade do sentimento que isso despertou nele. Era como se ela soubesse o jeito certo de dizê-lo — como se, dizendo isso, ela estivesse criando entre os dois o mesmo tipo de vínculo pelo qual estava unida a Walker.

Isso o atraiu para ela e ao mesmo tempo o encheu de medo.

— Não posso ir com você — disse ele rápido, balançando a cabeça para dar ênfase porque sabia que sua voz estava trêmula.

Ela não respondeu, simplesmente ficou ali olhando para ele. Ele não conseguia encará-la, mantinha os olhos direcionados para a cidade, para os quilômetros de escombros e detritos, para aquele espelho da devastação que estava sentindo dentro de si.

— Meu irmão sabia o que estava fazendo ao me enviar nesta viagem — disse ele para a paisagem vazia, ao mesmo tempo tentando fazer com que a garota compreendesse. — Ele sabia que eu era fraco, não forte o bastante para sobreviver...

— Seu irmão estava errado — ela logo o interrompeu.

Ele se virou e olhou para ela, surpreso com a veemência em sua voz.

— Meu irmão...

— Seu irmão estava errado — ela repetiu. — Quanto a esta viagem. Quanto a Walker. Mas especialmente quanto a você.

Ele respirou fundo e soltou o ar devagar, sentindo uma mudança em seu pensamento que era impossível de reconciliar com o bom senso, mas igualmente impossível de ignorar. Será que ele podia fazer o que ela estava lhe pedindo? Será que ele poderia encontrar a resolução que parecia vir tão fácil para ela? Era uma loucura que ele não conseguia ignorar. Algo em Ahren estava reagindo à necessidade da vidente e fazia com que ele desconsiderasse todas as outras coisas.

Mesmo assim, que diferença ele poderia fazer?

— Acho que não posso proteger você, Ryer Ord Star — murmurou.

Então um som distante chamou-lhe a atenção, um som tão pequeno e insignificante que era quase inaudível. Ficou paralisado por um momento, com medo do que pudesse ser. A vidente o observava, esperando. Finalmente ele se levantou para dar uma olhada nas ruínas. Ela estava ao seu lado, bem perto dele.

O som viera do labirinto. Dezenas de minúsculas criaturas metálicas deslizavam e rodavam por entre seu intricado sistema de paredes, nenhuma delas com mais do que uns cinqüenta centímetros de altura. Havia vários tipos delas, cada qual claramente construída para desempenhar uma tarefa específica. Algumas levaram os corpos dos mwellrets mortos, agarrando-os com pinças nas extremidades dos braços curtos, e os arrastando pelo chão de metal polido, onde os jogaram através de alçapões que se abriram e fecharam rapidamente. Outras utilizaram um mecanismo de tocha ligado aos seus corpos para reparar os sulcos abertos pelos fios de fogo na superfície metálica do labirinto. E outras varriam, poliam e até limpavam todos os traços da batalha, restaurando o labirinto como se jamais algo tivesse acontecido ali.

Levaram menos de uma hora para finalizar o trabalho, correndo como ratos em uma gaiola, a luz do sol brilhando em suas carapaças metálicas, os sons de cliques, rodas e zumbidos pouco audíveis na quietude que os cercava. Quando terminaram, entraram em filas e desapareceram por rampas que se abriram para deixá-las entrar da mesma maneira que os alçapões engoliram os mwellrets. Desapareceram em segundos.

Ahren olhou para Ryer Ord Star. Uma onda de alívio o invadiu. Sentiu uma vertigem.

— Varredores — disse ele, fazendo um gesto na direção das máquinas minúsculas, a palavra surgindo em sua mente na mesma hora, fazendo com que ele sorrisse sem querer.

Ela não retribuiu o sorriso. Em vez disso, apontou para alguma coisa logo atrás dele. Seu coração deu um salto quando ele acompanhou o olhar dela e descobriu um dos recém-batizados varredores parado a menos de um metro de distância.

O varredor não estava fazendo nada. Estava apenas sentado, um corpo cilíndrico achatado sobre um conjunto de vários roletes. Sua cabeça redonda parecia a metade superior de uma bola metálica repousando sobre um conjunto de molas grossas. Sondas finas e curtas despontavam da cabeça em vários lugares e direções e um par de botões grandes saía de seu corpo em lados opostos, cada qual do tamanho de um punho.

Ahren não tinha idéia de como ele havia chegado tão perto sem que eles o ouvissem. Nem sequer queria pensar a respeito. O que importava era o que ele estava fazendo ali. Não parecia ter nenhuma arma, mas Ahren não iria dispensar essa possibilidade.

Nem Ryer Ord Star nem ele disseram nada por um momento. Ficaram olhando o varredor e esperaram que fizesse algo. O varredor, se é que era capaz de fazer isso, retribuía o olhar deles.

Então, de repente, uma fenda se abriu em sua cabeça e um raio de luz disparou, congelando uma imagem no ar a cerca de vinte centímetros de distância deles. A imagem não era muito grande, mas era muito clara. Era de Walker.

Ryer Ord Star sufocou um grito e Ahren agarrou os braços dela para impedir que ela caísse.

A imagem desapareceu um instante depois. Uma segunda imagem apareceu em seguida, mostrando o druida correndo por uma série de túneis iluminados por lâmpadas estranhas, sem chamas, deslizando de um foco de luz para o seguinte, seu rosto tenso e cansado. De vez em quando ele parava para olhar para trás ou tentar ver algo adiante na penumbra, apurando os ouvidos e os olhos. Seus mantos negros estavam rasgados e molhados e seu rosto sombrio estava sujo de suor, sujeira e talvez sangue. Estava sendo caçado, e a tensão de correr e ficar se escondendo tornava-se evidente.

A imagem desapareceu. Ryer chorava baixinho, como se o impacto das imagens tivesse desmoronado alguma muralha de força que ela ainda tivesse e tudo o que restasse agora fosse desespero.

Ahren segurou-a.

— Pare com isso! — ele sibilou com raiva. — Não sabemos se isto está realmente acontecendo! Não temos idéia do que significa!

Outra imagem apareceu, então outra e mais outra, todas de rastejadores movendo-se pelos mesmos túneis, caçando alguma coisa. Garras e lâminas brilhavam quando eles passavam pela luz. Alguns deles eram imensos. Outros balançavam de forma ansiosa e antecipatória. Todas tinham peças encaixadas de forma estranha, o que lhes dava um aspecto bárbaro e sem acabamento.

As imagens desapareceram. Ahren decidiu que isto era o bastante.

— O que é que você quer!? — ele gritou para o varredor, sem sequer parar para pensar se aquilo conseguia entendê-lo.

Aparentemente sim. Outra imagem apareceu, o elfo e a vidente acompanhando o varredor pela mesma série de túneis, vasculhando a penumbra. Uma segunda imagem apareceu, Walker, olhando para trás, parando, levantando o braço como se em sinal de reconhecimento, chamando. E então todos estavam reunidos em uma terceira imagem, o alívio estampado em seus rostos, mãos estendidas em saudação, Ryer Ord Star fundindo-se a Walker em um abraço forte.

A vidente estava quase histérica.

— Ele quer que nós o sigamos! — gritou. — Quer nos levar até Walker. Ahren, precisamos ir! Você viu! Ele precisa de nós! — Ela estava tremendo, esquecendo qualquer tentativa de ficar calma.

Não tão convencido quanto ela, Ahren se libertou com um safanão.

— Não seja tão apressada, Ryer. — Ele usou seu primeiro nome para fazer com que ela ouvisse, o que funcionou. Ela ficou parada, os olhos grudados nele. — Não sabemos se alguma dessas coisas é verdadeira. Não sabemos se essas imagens são reais. E se isso for um truque? Enfim, de onde veio este varredor?

— Não há truque, é real; eu posso sentir. Aquele realmente é Walker, e ele está lá embaixo, naqueles túneis, e precisa de nossa ajuda!

Ahren tentava imaginar que espécie de ajuda eles seriam capazes de fornecer ao druida. Estava se perguntando como é que acompanhar o varredor para aqueles túneis — supondo-se que conseguissem fazer isso — resultaria no final feliz que lhes fora mostrado. Se Walker, com toda a sua magia, não conseguira se libertar dos rastejadores, que diferença eles fariam indo atrás dele?

Olhou para o pequeno varredor.

— Como foi que você nos encontrou?

Uma nova imagem apareceu. O varredor estava limpando as bordas do labirinto, logo abaixo do esconderijo deles. Estava observando tudo através de alguma espécie de lente. Alguma coisa o distraiu e ele saiu do labirinto, penetrando nas ruínas, subindo devagar por entre os escombros até ficar logo atrás deles.

A imagem se desvaneceu.

— Ele deve ter nos ouvido — murmurou a vidente, lançando um olhar rápido e esperançoso a Ahren.

Ele não via como. Tinham tomado cuidado para não fazer qualquer ruído. Talvez aquilo tivesse sentido a presença deles. Mas por que os outros varredores também não os haviam sentido?

— Não estou gostando disso — disse.

— Ahren! — ela implorou, sua voz triste e dilacerada.

Ele deu um suspiro exasperado, sentindo-se aprisionado pela necessidade e pelas tentativas dela. Ela estava tão desesperada para chegar até Walker, para fazer alguma coisa para ajudá-lo, que estava abandonando qualquer tentativa de exercitar a cautela ou o bom senso. Por outro lado, ele estava tão desesperado em se afastar daquele lugar que se recusava a dar qualquer consideração à credibilidade do varredor.

— Por que está tentando nos ajudar? — perguntou para a maquininha. — Que diferença faz para você o que nós fizermos?

O varredor devia esperar por essa pergunta; uma imagem apareceu imediatamente no mesmo lugar das outras. Ela mostrava o varredor executando suas tarefas no labirinto e nos túneis subterrâneos. Em seguida apareceu o segundo conjunto de imagens, mostrando o varredor sendo chutado, socado e derrubado de quase todas as maneiras concebíveis por algo grande, escuro e apavorante que estava sempre envolto em sombra ou além do alcance da visão. A todo instante o varredor era apanhado e jogado de encontro a uma parede. Vezes sem conta ele foi jogado de lado e tinha de ser endireitado por outros varredores que vinham em seu auxílio. Não parecia haver razão para os ataques. Pareciam aleatórios e sem sentido, resultado de uma raiva e uma frustração mal direcionadas ou sem motivo. Amassado e quebrado, o pequeno varredor teria de ser consertado por seus companheiros antes de voltar às suas tarefas.

As imagens desapareceram. O varredor tornou a ficar imóvel. Ahren tentou conciliar suas dúvidas. Um varredor maltratado? Surrado tão completamente e por tanto tempo que faria qualquer coisa para pôr um fim nisso? Isso significava, claro, que o varredor era capaz de sentir emoções e reagir a um tratamento que o perturbasse. Como regra geral, máquinas não sentiam nada, nem mesmo os rastejadores. Eles eram máquinas, o que por definição significava que não eram humanos.

Mas essas máquinas também poderiam ser tão velhas quanto a cidade e o que quer que vivesse nelas. Não era impossível imaginar que antes de as Grandes Guerras destruírem a antiga civilização os humanos tivessem desenvolvido máquinas que pudessem pensar e sentir.

— Ele está pedindo nossa ajuda — Ryer Ord Star ressaltou, quebrando o silêncio. Jogou para trás seus cabelos prateados compridos, frustrada. — Em troca, ele nos ajudará a encontrar Walker. Não está entendendo?

Não inteiramente, pensou Ahren.

— Que espécie de ajuda ele espera que nós possamos lhe dar?

Uma imagem surgiu na abertura da cabeça metálica do varredor. Walker, Ahren e Ryer Ord Star estavam saindo das ruínas com um varredor a tiracolo.

— Você quer que o levemos conosco quando formos embora? — perguntou sem acreditar.

A imagem se repetiu mais duas vezes, insistente e inconfundível. Então uma nova imagem apareceu, a Jerle Shannara subindo aos céus, todas as bainhas de luz esticadas, os atratores radianos ondulando cheios de energia. Na popa da aeronave estava o pequeno varredor, olhando para a terra que deixava para trás.

— Isto é ridículo — Ahren resmungou quase para si mesmo. — É uma máquina!

— Uma máquina senciente — corrigiu Ryer Ord Star. — Sofisticada e capaz de sentir. Ahren, ela quer o que todos nós queremos. Ela quer ser livre.

O jovem elfo sentou-se devagar sobre a pilha de escombros e apoiou o queixo nas mãos.

— Ainda não estou achando isso bom — disse ele, os olhos observando o varredor. — Se fizermos o que ela deseja e descermos, ficaremos isolados de tudo. Se isso for uma armadilha, não teremos nenhuma chance de escapar. Não sei. Ainda acho que deveríamos encontrar os outros primeiro.

Ela se ajoelhou à sua frente e colocou as mãos sobre as dele, as pontas de seus dedos tocando-lhe o rosto.

— Príncipe dos elfos, me escute. Por que isso seria uma armadilha? Se o que quer que protege Castledown nos quisesse, já não poderia ter-nos apanhado a essa altura? Se este varredor quisesse nos trair, já não estaríamos cercados por rastejadores? Que diferença faria para essa coisa se ela quisesse nos levar para o subterrâneo? Por que ela se daria a tanto trabalho para conseguir tão pouco?

Ele tinha de admitir que não sabia. Ela tinha razão; não fazia muito sentido. Mas tampouco fazia sentido uma série de coisas que haviam acontecido naquela viagem, e ele não iria descartar tão rápido a maneira como seus instintos continuavam a alertá-lo. Alguma coisa o estava incomodando. Talvez fosse apenas o seu medo de acabar como Joad Rish e os outros. Talvez fosse sua memória indelével da carnificina, dos gritos e das mortes. Estava tudo ainda vivido demais para permitir que ele pensasse de modo objetivo.

— Não há tempo para procurar mais ninguém — ela insistiu. — Pode não haver ninguém lá fora para encontrar!

Esse era seu maior medo, é claro. O de que não houvesse mais ninguém vivo e que eles fossem tudo o que restava.

Ela estava pressionando as mãos sobre as dele, cobrindo-as. Ele levantou o queixo de seu apoio, mas ela não o soltava.

— Ahren — ela sussurrou. — Venha comigo. Por favor.

Ela também tinha medo. Ele podia sentir isso em seu toque e ouvir isso em sua voz. Ela não era menos vulnerável do que ele. Podia ver o futuro, e talvez tivesse visto coisas que ele não tinha visto, coisas que a apavoravam ainda mais do que aquilo que passara. Mas ela iria porque sentia algo tão forte por Walker que não poderia abandoná-lo, não importava o que acontecesse. Ele tinha inveja dessa força que ela possuía. Eclipsava a sua própria e o deixava novamente com vergonha. Ela iria, quer ele fosse ou não. E o que ele faria então? Voltaria para a baía, se esconderia dos mwellrets e esperaria que a Jerle Shannara voltasse? Voaria novamente para casa e viveria o resto da vida com o que havia feito?

Preferia estar morto se fizesse isso.

— Tudo bem — ele disse baixinho, pegando as mãos dela, segurando-as como se fossem passarinhos. Curvou-se para ela para lhe dar forças, sua voz firme.

— Vamos tentar.

 

Quentin Leah agachou-se no ensombreado esconderijo de um prédio em ruínas. Logo abaixo, dentro do labirinto, os mwellrets haviam se aventurado corajosamente pouco antes e, neste instante, fugiam de forma bem menos ordeira. Panax e Tamis o cercavam pelos flancos, imóveis enquanto olhavam através de rachaduras nas paredes. Os elfos caçadores Kian e Wye estavam ajoelhados mais para o lado. Os mwellrets passaram correndo por eles sem vê-los e sem se preocupar com eles. Olhavam rápido para trás, para ver o que os poderia estar seguindo, e mais nada. Alguns dos rets estavam ensangüentados, os mantos rasgados e manchados, seus movimentos irregulares. Não tinham se dado bem lá atrás, certamente não melhor do que Quentin e seus companheiros, e estavam loucos para fugir para bem longe dali.

— Quantos você contou? — Tamis sussurrou para ele.

Ele balançou a cabeça.

— Uns quinze, talvez.

— Isso quer dizer que cinco ou seis não conseguiram sair — ela disse isso com um tom neutro, olhos mirando adiante, observando os mwellrets se esgueirarem por entre as ruínas. — Parece que eles não conseguiram alcançar a vidente.

A menos que ela estivesse morta, claro. Quentin guardava esse pensamento para si. Tamis não estava dizendo nada a respeito de Bek, mas isso podia ser porque ela ainda não estava certa da direção que ele havia tomado. Ela descobrira facilmente a trilha de Ryer Ord Star, mesmo com aquela manada de mwellrets atropelando tudo, mas nem sinal de seu primo. Quentin se sentia frustrado e cada vez mais desesperado. O tempo estava lhes escapando por entre os dedos e não estavam fazendo nenhum progresso. Antes, ele tinha esperanças razoáveis de que fossem encontrar Bek ou Ryer Ord Star seguindo os rets. Agora, parecia que não encontrariam mais ninguém. Os últimos mwellrets passaram por eles, correndo por entre a luz brilhante do meio-dia, desaparecendo por onde haviam vindo. Tamis não se moveu, nem Quentin ou os outros. Ficaram onde estavam, paralisados, observando e escutando. Depois do que pareceu um tempo muito longo, Tamis virou-se para encará-los, a forma pequena e atarracada decidida e os olhos cinzentos calmos.

— Vou dar uma escapulida para olhar rapidamente ao redor, tentar descobrir o que aconteceu. Esperem-me aqui.

Ela já ia embora quando Quentin disse:

— Vou com você.

Ela se virou na hora.

— Sem ofensa, montanhês, mas vou ficar melhor sozinha. Deixe isso comigo.

Passou por uma fenda na parede e desapareceu. Procuraram por ela nas ruínas, mas ela havia sumido. Quentin olhou para Panax, e depois para os elfos, seu incômodo claramente visível.

Kian deu de ombros.

— Não é nada pessoal, montanhês. Ela é assim com todo mundo. Sem exceções.

Quentin estava pensando que ela assumira a liderança de seu pequeno grupo, uma posição que ele ocupara até que ela aparecesse. Ele não era do tipo que se perturbava com problemas de ego, mas não conseguia deixar de se sentir um pouco irritado com os modos bruscos de Tamis. Afinal, ele era competente em rastreamento. Não era nenhum novato que a colocasse em risco se fosse junto.

Wye esticou as pernas. Ex-membro da guarda real, ele servira na casa de Allardon Elessedil antes de seguir naquela viagem.

— Ela queria servir na guarda real, mas Ard Patrinell achou que seria desperdiçada ali. Queria que ela fosse uma rastreadora. Tinha o dom para isso, era quase melhor do que qualquer um.

— Mas ela não gostou da interferência dele — acrescentou Kian, bocejando, o rosto escuro, emaciado e cansado. — Levou um tempo para perdoá-lo.

Wye concordou.

— Postos na guarda real são muito cobiçados, a competição é muito grande. As mulheres nunca foram totalmente aceitas como iguais; os homens são preferidos como os protetores do rei. E da rainha. Isto era verdade até mesmo com Wren Elessedil. A história e a prática comum ditam o que acontece, mais do que o preconceito e o favoritismo. Mulheres não servem na guarda real. Por outro lado, mulheres dominam as unidades de rastreamento dos elfos caçadores.

Wye assentiu.

— Seus instintos são melhores do que os nossos. Não há como negar isso. Elas parecem mais capazes de separar as coisas e fazer as escolhas que você tem que fazer quando está rastreando. Talvez tenham aprendido a afinar melhor seus instintos para compensar a falta de força física.

Quentin não sabia e não ligava. Admirava Tamis por sua abordagem direta das coisas. Não conseguia encontrar motivo para que ela não fosse aceita como membro da guarda real. Mas teria preferido que ela mostrasse um pouco mais de confiança nele. Seu comportamento não sugeria que ela pensava, por um minuto sequer, que teria necessidade dele ou de qualquer um que fosse em seu auxílio. Aqueles olhos cinzentos firmes e a voz tranqüila, tudo isso era feito de ferro. Tamis salvaria a si mesma se isso fosse necessário.

Panax sentou-se de pernas cruzadas em um canto da sala, um bloco de madeira em uma das mãos, sua faca de esculpir na outra. Trabalhou devagar e cuidadosamente no silêncio, aparas de madeira curvando-se e caindo na pedra, cabelos emaranhados na cabeça curvada, concentrada na sua tarefa.

— Lamenta ter vindo nesta jornada, montanhês? — perguntou sem levantar a cabeça.

Deixando os elfos caçadores manterem vigilância, Quentin sentou-se ao seu lado.

— Não. — Pensou por um momento. — Queria não ter sido tão ansioso para pedir que Bek viesse comigo. Não vou me perdoar se alguma coisa acontecer com ele.

Panax soltou um grunhido.

— Eu não me preocuparia com Bek se fosse você. Você ouviu Tamis. Acho que ele está melhor do que nós. Aquele garoto tem alguma coisa. É mais do que a magia que Tamis o viu usar. Walker o marcou para alguma coisa especial. Foi por isso que ele enviou vocês dois para Truls Rohk: por isso Truls foi persuadido a vir conosco. Ele também viu isso. Ele o reconheceu. Também não teria esquecido. É melhor ter isso em mente. O mutante está lá fora em algum lugar, montanhês: guarde o que digo. Não vou dizer que posso sentir isso. Seria bobagem. Mas eu o conheço, e ele está lá. Talvez com Bek.

Quentin considerou essa possibilidade. O fato de que ninguém havia visto Truls Rohk — pelo menos ninguém que ele soubesse — não queria dizer que ele não estivesse lá. É possível que estivesse protegendo Bek. Isso fazia perfeito sentido se Walker o tivesse levado junto para manter Bek seguro. Pensou mais uma vez no passado misterioso de seu primo e seu uso recém-descoberto da magia que jamais soubera ter. Talvez Bek realmente estivesse melhor do que o resto deles.

— E quanto a você, Panax? — ele perguntou ao anão.

A faca de esculpir continuava a se mover em toques suaves e sem esforço.

— E quanto a mim o quê?

— Lamenta ter vindo?

O anão deu uma risada.

— Se eu lamentasse, teria de lamentar a maior parte da minha vida! — balançou a cabeça, achando graça. — Tenho vivido assim, montanhês, pulando de um contratempo para outro, de uma expedição para outra, por mais tempo de que posso me lembrar. Por mais que eu fique naquelas montanhas vivendo sozinho a maior parte do tempo, estive em mais lugares e arrisquei minha vida mais vezes do que me importo pensar. — Deu de ombros. — Bem, o negócio é esse. De qualquer modo, se você vive sua vida nas Wolfsktaag, está vivendo em risco o tempo todo.

— Então Walker sabia o que estava fazendo quando nos enviou para encontrá-lo? Ele sabia que você também viria.

— Eu diria que sim. — Os olhos escuros do anão se levantaram um momento, e então tornaram a se concentrar em seu trabalho. — Ele queria tanto Truls quanto a mim. E a mesma coisa com você e Bek. Ele gosta de companheiros, amigos e pessoas que se conhecem um ao outro há muito tempo e confiam no julgamento um do outro. Ele sabe que tipo de riscos se assume em uma viagem como a que fizemos. Estranhos se unem, mas não com rapidez e intensidade suficientes para se tornar uma regra. Amigos e família são melhores em viagens longas. Além do mais, se ele pode ter dois possuidores de magia pelo preço de um, por que não fazê-lo?

Quentin ajustou novamente a bandana ao redor dos cabelos compridos.

— Sempre pensando adiante, do jeito que os druidas fazem.

O anão grunhiu.

— Bem mais adiante do que você, eu e a maioria dos outros conseguiríamos. Por isso acho que ele ainda está vivo. — Parou de esculpir e olhou para cima. — Por isso acho que mais cedo ou mais tarde iremos encontrá-lo.

Quentin não tinha tanta certeza, mas guardou isso também para si. Sua atitude com relação às coisas em geral era menos positiva do que quando haviam iniciado a jornada. Bek ficaria surpreso com a mudança que lhe ocorrera.

Menos de dez minutos depois, Tamis reapareceu. Eles não a viram até ela estar quase em cima deles, e não tentava esconder sua chegada. Atravessou os escombros e entrou no abrigo, o rosto molhado de suor, os cabelos negros curtos embaraçados e as roupas amarrotadas. Quentin viu pela expressão em seu rosto que nem tudo estava bem.

— Segui os mwellrets quase todo o caminho de volta pelas ruínas — ela disse rápido, limpando o rosto com a manga da túnica e se agachando em frente a eles. Respirava com dificuldade. — Apanhei um deles. Estava ferido e mancando atrás do resto, por isso aproveitei a chance. Derrubei-o, encostei uma faca em sua garganta e lhe perguntei o que havia acontecido. Foi exatamente o que havíamos imaginado, a mesma coisa que aconteceu conosco. Ele me disse que estavam rastreando a vidente, mas não a encontraram.

— E quanto a Bek? — Quentin perguntou na hora.

Ela balançou a cabeça.

— Não sabem nada sobre ele. Quando chegaram àquela clareira, somente a vidente e a bruxa Ilse estavam lá. A bruxa disse que nos caçassem e nos fizessem prisioneiros, e em seguida partiu para caçar alguém ou algo por conta própria. — Fez uma pausa. — Pode ter sido Bek.

O montanhês franziu a testa.

— Por que ela perderia tempo caçando Bek? Isso não faz sentido.

— Faz se ela sabe da magia dele — Panax ressaltou.

Quentin balançou a cabeça, teimoso.

— Ela está atrás do tesouro de Castledown. Talvez o mwellret tivesse mentido para você.

— Acho que não — replicou Tamis. — Bek estava lá quando parti para encontrar vocês e desapareceu quando os mwellrets chegaram. Alguma coisa aconteceu a ele nesse meio-tempo, e provavelmente envolveu a bruxa Ilse. Se conseguirmos achar a vidente, poderemos descobrir a verdade. Ela deve ter visto algo.

Panax guardou a madeira e a faca de esculpir.

— Ela pode ter morrido no labirinto, junto com os rets.

Tamis dispensou a sugestão.

— Por que ela voltaria para o labirinto sabendo o que sabe sobre seus perigos? Além disso, o ret que interroguei disse que não a encontraram, nem viva nem morta. — Levantou-se. — Chega por ora. Temos de sair daqui. Eles irão procurar por nós.

— Você não matou o ret? — Kian perguntou irritado.

Tamis virou-se para ele com raiva.

— Ele estava desarmado e indefeso — disparou. — Preciso de motivos melhores do que esses para matar um homem. Derrubei-o para que desmaiasse e fui embora. Quando ele acordar, estaremos bem longe. Agora vamos!

— Vamos para onde? — Quentin quis saber, levantando-se, limpando das calças a terra e a poeira dos escombros. — Fazer o quê?

Ela deu de ombros.

— Pensamos nisso depois. Por ora, vamos nos afastar para não ficarmos olhando para trás o tempo todo. Mas ficaremos aqui nas ruínas. Elas são grandes o bastante para podermos nos esconder e não sermos fáceis de rastrear. Podemos continuar procurando Patrinell e os outros.

Ela começou a se afastar e eles a seguiram sem mais argumentos, sabendo que ela tinha razão, que tinham de encontrar um novo esconderijo, mais longe do labirinto, mais ao fundo da cidade. Os mwellrets certamente os caçariam, e eram excelentes rastreadores, confiavam em seus sentidos altamente desenvolvidos, em sua capacidade de mudança de formas e em seus ancestrais répteis. De qualquer maneira, era tolice supor que ficarem parados ajudaria em alguma coisa. Seguindo atrás de Tamis, o montanhês, o anão e os elfos caçadores tomaram cuidado para disfarçar seus rastros, para caminhar sobre as placas duras de metal e de pedra onde as pegadas não apareceriam. Por diversas vezes Tamis voltou para obscurecer qualquer sinal de sua passagem, utilizando suas habilidades especiais para esconder-lhes a trilha.

No alto, o sol havia passado do meio-dia, encaminhando-se para a tarde, deslizando entre o azul sem nuvens rumo ao cair da noite. Dentro das ruínas, o calor propagado por sua passagem se desprendia da pedra e do metal em ondas tremeluzentes. Quentin abriu os botões de sua túnica e enrolou as mangas. A espada de Leah, amarrada às suas costas, estava pesada e desajeitada. A magia com a qual ela o havia infundido havia se desvanecido, voltado para o buraco negro do qual viera, deixando-o sem nada, mas também deixando-o livre. Ficou imaginando se conseguiria lidar melhor com ela da próxima vez que fosse necessária. Afinal, haveria uma próxima vez. Mal podia esperar por isso.

Depois que haviam se afastado um pouco, ele apertou o passo para ficar ao lado de Tamis.

— Por que estamos indo nessa direção e não voltando para a baía onde aportamos? E quanto a Bek?

Ela olhou para ele, apertando os lábios em uma linha fina.

— Duas coisas. Precisamos descobrir para onde Bek foi antes de podermos ir atrás dele, e não queremos que os mwellrets saibam qual a nossa intenção.

Ele concordou.

— Precisamos que eles acreditem que estamos fazendo alguma coisa inteiramente diferente, talvez fugindo, correndo para dentro da ilha. — Ele fez uma pausa. — Mas eles não irão esperar que tentemos voltar para a Jerle Shannara?

— Torço para que eles esperem que façamos exatamente isso.

Foi a maneira como ela disse isso que atraiu sua atenção.

— Como assim?

Tamis virou-se para Quentin, fazendo com que ele parasse na hora. O rosto dela estava duro e contido. Os outros chegaram mais perto.

— O mwellret me contou mais uma coisa — disse ela —, algo que não contei a vocês ainda. De qualquer modo, achei que podia esperar, já que não há nada que possamos fazer a respeito. Mas talvez não possa esperar. Perdemos a nave. A bruxa Ilse encontrou uma maneira de passar entre os pilares de gelo e surpreendeu-a no canal. Utilizou sua magia para colocar os rovers para dormir e os fez a todos prisioneiros. Deixou soldados da federação e mwellrets em seu comando. — Balançou a cabeça. — Estamos por conta própria.

Todos olharam para ela atordoados. Estavam pensando a mesma coisa. Estavam perdidos em uma terra estranha, e qualquer esperança de serem resgatados por Redden Alt Mer e seus rovers ou de voltar para a Jerle Shannara havia desaparecido.

Quentin ia começar a dizer alguma coisa, mas ela o interrompeu:

— Não, montanhês, o ret não estava mentindo. Certifiquei-me disso. Ele foi bem incisivo. A Jerle Shannara está sob o controle da bruxa Ilse. A nave não voltará para nos buscar.

— Precisamos pegá-la de volta! — ele respondeu na hora, explodindo sem querer.

— Não deve ser muito difícil — observou Panax, erguendo uma sobrancelha. — Só precisamos de asas para voarmos até lá. Ou talvez ela nos faça o favor de descer até onde possamos alcançá-la.

— Por ora, o que precisamos fazer é andar — disse Tamis, dispensando o assunto e tornando a virar para a frente. — Vamos embora.

Caminharam durante a maior parte da tarde, vendo o sol descer a oeste até não ser mais do que um brilho suave ao longo do horizonte. A essa altura eles já haviam chegado ao outro lado da cidade e podiam ver as árvores da floresta próxima por entre fendas nos prédios caídos. Suas sombras se arrastavam atrás deles em manchas longas e escuras, deslizando sobre os escombros como óleo. O calor havia se dissipado e o ar, esfriado. Não viram sinais dos mwellrets a tarde toda. Tampouco viram qualquer sinal de outros sobreviventes de sua própria companhia. A não ser por eles mesmos, a cidade parecia morta. Adiante, as árvores formavam uma muralha escura sobre a qual o sol se punha jogando seu halo prateado.

Tamis pediu que parassem, olhando ao redor, demorando o quanto quis.

— Acho que não devemos tentar passar de novo pela cidade à noite disse ela. — É provável que haja outras armadilhas. Também podem haver sentinelas. Melhor esperar até de manhã, quando poderemos ver alguma coisa.

Quentin, assim como os outros, havia se acostumado à idéia de que estavam sozinhos e isolados de resgate ou de fuga, e o que quer que escolhessem fazer seria melhor que o fizessem com isso em mente. Erros custariam muito caro agora, talvez fossem fatais. Se os mwellrets tentassem rastreá-los no escuro, que o fizessem. Com alguma sorte, a cidade e seus horrores os engoliriam.

— Vamos acampar na floresta? — perguntou Panax.

Tamis assentiu.

— Da melhor maneira que pudermos. Nada de fogueira, somente comida fria e um de nós vigiando a noite toda. Já vimos o que há na cidade, mas não o que há nesta floresta.

Um pensamento reconfortante, devaneou Quentin, seguindo-a por entre as árvores até ela encontrar uma clareira adequada. A essa altura o sol havia se posto e as primeiras estrelas estavam aparecendo. As mesmas estrelas já estariam aparecendo em sua casa, tão distante que ele quase não conseguia imaginá-la. Seus pais já estariam na cama e talvez dormindo sob elas. Ficou imaginando se Coran e Liria estariam pensando nele agora, assim como pensava neles. Ficou imaginando se algum dia voltaria a vê-los.

Tinham um pouco de comida e de água, mas não tinham onde dormir. Quase tudo havia se perdido na fuga do labirinto ou sido deixado para trás às margens das ruínas. Comeram o que tinham, beberam o conteúdo de uma bolsa com cerveja que Panax carregava e dormiram vestidos, usando como travesseiros o que conseguiram encontrar. Tamis ficou de vigia primeiro. Quentin dormiu tão rápido que mal havia encostado a cabeça sobre o braço antes de pegar no sono.

Ele sonhou, mas seus sonhos eram fragmentos confusos e misturados. Eles o deixavam abalado e às vezes frenético, mas não tinham sentido e foram esquecidos quase imediatamente. A cada vez, após acordar sobressaltado, voltava a dormir num instante. Negra e silenciosa, a noite o envolvia e o levava para longe.

Foi Kian quem o despertou, agarrando seu ombro com força, levantando-o quando ele acordou.

— Você sonhou a noite toda, montanhês — sussurrou o elfo caçador. — Até que você poderia ficar de guarda e deixar descansar quem pode.

A vigia dele foi a última e ele já podia sentir a mudança no tempo. As estrelas deram uma volta inteira no firmamento e a escuridão estava perdendo seu domínio. Quentin ficou sentado olhando a clareira até onde o sol começaria a nascer, esperando que a luz mudasse. Ao seu redor, seus companheiros dormiam, suas formas escuras imóveis, os sons de sua respiração lentos e entrecortados no silêncio.

Em determinado instante, alguma coisa voou por entre os galhos das árvores sobre sua cabeça, um movimento veloz e apressado que desapareceu quase tão rápido quanto surgira. Um pássaro de alguma espécie, deduziu, e deixou o coração se acalmar novamente. Um pouco mais tarde, sentindo-se desconfortável, levantou-se e olhou para as ruínas da cidade, vasculhando a escuridão. Não viu nem ouviu nada. Talvez nada houvesse para ver ou ouvir. Apenas eles mesmos. Talvez em um mundo de rastejadores e fios de fogo, de mwellrets e da bruxa Ilse eles fossem tudo o que havia restado da humanidade.

Mas quando a aurora surgiu como um fino fio de prata ao longo do horizonte oriental, caçando as sombras da floresta apenas o bastante para dar identidade a sombras e formas, ele viu que estava errado. Havia um homem à sua frente do outro lado da clareira, vagamente definido pela luz, imóvel na penumbra. No começo, Quentin achou que estava vendo algo que na verdade não estava ali, que a luz estava brincando com seus olhos. Por que alguém estaria ali em pé na escuridão? Mas quando a luz aguçou a imagem e deu clareza às suas feições, ele descobriu que não estava enganado. O homem era alto e magro, usava uma túnica sem mangas, calças que terminavam nos joelhos, sandálias amarradas nos tornozelos e braceletes de couro nos punhos. Levava o que parecia ser uma lança, mas não; era um pedaço fino de madeira de dois metros de comprimento com outro, muito mais curto, amarrado no centro.

Quentin esperou até ter certeza absoluta do que estava vendo; então, estendeu a mão para Tamis, que dormia bem ao seu lado, e tocou seu braço.

Ela acordou no mesmo instante, sentando-se e olhando para ele. Ele apontou para a figura. Um segundo mais tarde, ela estava em pé ao seu lado, inteiramente alerta.

— Há quanto tempo ele está ali? — murmurou ela.

— Não sei. Ele já estava ali antes que fosse claro o bastante para vê-lo.

— Ele fez alguma coisa?

Quentin balançou a cabeça.

— Nada além de ficar em pé ali, nos observando.

Tamis ficou em silêncio. Sentou-se com Quentin, estudando o homem, esperando para ver o que aconteceria. Na luz do novo dia, seu rosto pequeno assumiu um brilho diferente; ela parecia mais jovem e bonita, ligeiramente exótica com suas feições élficas. Quentin percebeu que a estava estudando tanto quanto ao estranho. Gostava da maneira calma e tranqüila com a qual ela lidava com as coisas, o jeito como nunca ficava confusa, o fato de que ela jamais reagia de forma exagerada. Em outro tempo e lugar, em outras circunstâncias, ele teria reagido a essa atração; mas achava que não podia permitir que isso acontecesse ali.

O sol atingiu o horizonte e enviou fragmentos de luz brilhante atrás da noite que desaparecia. Na trilha de sua passagem, as feições do estranho foram reveladas por completo. Sua pele tinha um tom avermelhado, quase de cobre. Brilhava levemente, como se estivesse coberta de óleo. Seus cabelos, ainda mais vermelhos, mas de um tom mais claro, eram espessos e caíam em cachos sobre seu crânio, curtos e soltos. Mesmo seus olhos, agora visíveis no amanhecer, tinham uma cor que lembrava canela.

Ele continuou a encará-los, como uma estátua esculpida em pedra. Pela primeira vez, Quentin viu o que parecia ser uma pequena lança enfiada em seu cinto de couro às suas costas, com uma das extremidades saliente.

— O que ele está levando na mão? — ele sussurrou para Tamis.

Ela balançou a cabeça.

— Acho que é uma zarabatana, mas nunca vi uma desse tamanho. Está vendo a peça amarrada no meio? Deve ser o suporte para os dardos. — Tornou a ficar em silêncio, e então disse: — Não podemos esperar assim mais tempo. Precisamos saber o que ele quer. Fique aqui enquanto acordo os outros.

Ela se levantou e foi de Panax até os elfos caçadores, acordando cada um com um toque, curvando-se para falar de perto com eles e pedir cautela, para dizer que não reagissem. Um por um, eles se sentaram e olharam para onde o estranho estava observando-os.

Tamis voltou para Quentin e curvou-se perto dele.

— Isso pode ser complicado. Ele não deve estar sozinho. Deve haver outros nas árvores. Ele não iria se expor tão completamente se não houvesse alguém lhe dando cobertura. Está se oferecendo como isca para ver o que fazemos. Não vamos lhe dar motivos para achar que queremos mal a ele.

Ela se levantou e foi devagar até onde ele estava. Mantinha as mãos do lado do corpo e as armas embainhadas. Quentin a ouviu saudá-lo na língua dos elfos, e em seguida, quando ele não respondeu, em diversas variantes. Nenhuma delas funcionou. Ela tentou diversos idiomas do Sul. Nada ainda. Ela falou pedaços de meia dúzia de dialetos dos troll, todos sem resultado.

Então, subitamente, o estranho disse algo. Quando falou, sua boca se abriu para revelar que até mesmo seus dentes estavam tingidos de cobre em vez de brancos. Sua fala era rouca e gutural, e Quentin não conseguia entender nada. Tamis também parecia perplexa.

— Esperem um minuto — Panax levantou-se subitamente e foi até eles. — Acho que ele está falando na língua dos anões, um dialeto muito antigo, uma espécie de híbrido. Deixe-me tentar.

Ele falou com o estranho, devagar, experimentando algumas palavras, esperando a resposta, então tentando novamente. O estranho o escutou e por fim respondeu. Foram de um lado para outro assim por diversos minutos, até que Panax se voltou para seus companheiros:

— Estou entendendo alguma coisa, mas não tudo. Venham e fiquem perto de mim. Acho que está tudo bem.

Continuou falando com o estranho, Tamis bem ao seu lado, e Quentin, Kian e Wye se juntaram a eles.

— Ele diz que é um rindge. Seu povo vive em aldeias aos pés daquelas montanhas atrás. São nativos desta área, estão aqui há séculos. São caçadores e ele faz parte de um grupo de caça que deu de cara conosco durante a noite. — Olhou para Tamis. — E você tinha razão. Ele não está só. Há outros rindges com ele. Não sei quantos, mas aposto que estão todos ao nosso redor.

— Pergunte a ele se viu alguém além de nós — sugeriu Tamis.

Panax falou algumas palavras e ouviu a resposta do outro.

— Ele diz que não viu ninguém. Quer saber o que estamos fazendo aqui.

Houve outra troca de palavras. Panax contou ao rindge que eles tinham vindo procurar um tesouro nas ruínas da cidade. O rindge ficou animado, pontuando suas palavras com gestos e grunhidos. Disse que não havia tesouro algum, a cidade era muito perigosa, feras de metal iriam caçá-los e o fogo queimaria seus olhos. A cidade tinha olhos em todo lugar, nada entrava ou saía sem ser visto, a não ser os rindges, que sabiam como se esconder.

Quentin e Tamis trocaram um rápido olhar.

— Como os rindges se escondem dos rastejadores? — ela perguntou a Panax.

O anão repetiu a pergunta e ouviu com atenção a resposta. Confuso, fez com que o rindge repetisse. Enquanto falavam, outros rindges apareceram por entre as árvores, apenas rostos na luz pálida, e depois também corpos, materializando-se um atrás do outro, cercando a pequena companhia. Quentin olhou desconfortável ao seu redor. Estavam em grande desvantagem numérica e sem qualquer chance de fuga. Ele resistiu à necessidade de levar a mão até a espada; confiar em armas para ajuda seria tolice.

Panax deu um pigarro.

— Ele diz que os rindges são parte da terra e sabem como desaparecer dentro dela. Nada pode encontrá-los se eles mantiverem uma vigilância cuidadosa, mesmo às margens da cidade. Ele diz que eles nunca vão até as ruínas. Quer saber por que fizemos isso.

Tamis deu uma risadinha.

— Boa pergunta. Pergunte a ele o que é que eles estão caçando.

O rindge, alto e magro, ouviu e assentiu devagar enquanto Panax falava. Então deu uma resposta comprida. O anão esperou até que ele tivesse terminado e olhou para trás.

— Não sei se compreendi bem tudo. Talvez eu tenha entendido errado. Quase espero que sim. Ele diz que estão caçando rastejadores, montando armadilhas para eles. Aparentemente as armadilhas são para desencorajar os rastejadores de caçá-los. Ele diz que os rastejadores caçam os rindges à procura de partes de corpos, que usam pedaços dos rindges a fim de criar uma coisa chamada “wronks”. Os wronks se parecem com eles e conosco, são feitos de metal e também de partes humanas. Não consigo entender isso muito bem. Os rindges têm muito medo deles, o que quer que eles sejam. Este aqui está dizendo que, pegando pedaços de você, os wronks roubam sua alma e você nunca morre de verdade.

Tamis franziu a testa.

— O que isso quer dizer?

Panax balançou a cabeça. Tornou a falar com o rindge, e então olhou para a rastreadora, dando de ombros.

— Não consigo entender.

— Pergunte a ele quem controla os wronks, os rastejadores e o fogo — disse ela.

— Pergunte a ele quem vive sob a cidade — acrescentou Quentin.

Panax virou-se novamente para o rindge e repetiu as perguntas no estranho e ríspido dialeto dos anões. O rindge o escutou com atenção. Ao redor deles, os outros rindges chegaram mais perto, trocando olhares apressados. O ar estava carregado de medo e de raiva e o montanhês podia sentir a tensão no ar.

Quando o anão terminou, o rindge com o qual estivera falando endireitou o corpo, olhou na direção das ruínas e disse uma única palavra.

— Antrax.

 

No fundo das entranhas de Castledown, bem abaixo das ruínas da cidade, Antrax descia pelas linhas e cabos que lhe davam passagem por entre seu reino. Viajando em algum lugar entre as velocidades da luz e do som, mais rápido do que o olho podia acompanhar, se conseguisse tentar fazer isso, ele disparava ao longo de corredores e passagens, de câmara para câmara, cavalgando os fios de metal que o ligavam ao reino que governava. Era uma presença que não tinha substância nem forma e podia estar virtualmente em todos os lugares ao mesmo tempo ou em nenhum lugar. Ele era a maior realização de seus criadores em um tempo e em um mundo há muito morto, mas transcendeu até mesmo àquilo para se tornar o que era.

A arma perfeita.

O protetor definitivo.

Construído quase três mil anos antes, em um tempo em que a inteligência artificial era comum e máquinas pensantes proliferavam, mesmo então ele era avançado para sua espécie, um protótipo criado no calor dos eventos que culminaram nas Grandes Guerras. As escaramuças já haviam começado e seus criadores suspeitavam para onde as coisas iriam levar quando o planejaram. Eram arquivistas e visionários, pessoas cujo interesse principal era preservar para o futuro o que poderia de outra forma se perder. Mentes menores dominavam o pensamento daqueles tempos; elas manipulavam as regras do poder e da política para insuflar na população uma mistura de raiva e frustração que um dia acabaria consumindo a todos. Para amenizar a loucura que estava tomando conta deles, os criadores determinaram que aqueles que destruíssem o que não admitiam também não deveriam ter permissão de desfazer o progresso da civilização. Antrax sabia disso porque, quando foi construído, o conhecimento havia sido programado nele. Era necessário que ele soubesse a razão por trás de sua existência, porque de outra forma como poderia compreender a importância do que fora criado para fazer?

Foram necessários anos para construir Antrax. Sua construção foi conseguida a um grande custo de vidas e de recursos. Poucos daqueles que começaram o projeto viveram para vê-lo terminado. Antrax tinha noção de tempo e sabia que havia ganho vida a partir de pequenos incrementos. Um pouco de conhecimento aqui, um pouco de raciocínio ali, e ele se expandiu até estar abrigado em mais de um lugar e poder viajar pelas catacumbas da cidade como um espectro. Na superfície, a cidade camuflava sua presença e seu propósito. Apenas algumas pessoas sabiam que ele estava ali, funcionando. Apenas essas poucas pessoas sabiam o que ele fora criado para fazer. As Grandes Guerras estavam consumindo o mundo dos criadores em uma onda cada vez maior de destruição e ruína, e a humanidade estava sendo alterada para sempre. Muita coisa seria perdida como resultado disso — irreparavelmente perdida. Mas não o que estava abrigado dentro daquelas câmaras, não aquilo que Antrax fora criado para preservar e que lhe fora confiado. Isso seria protegido. Isso iria durar.

No fim, os criadores simplesmente sumiram. Antrax jamais soube o que aconteceu com eles. Eles lhe deram vida, um lugar para morar, um domínio para vigiar e uma diretriz para seguir. Eles o colocaram em seu curso, então desapareceram.

Todos menos um.

Este retornou uma última vez. Estava sozinho e sua aparição não era esperada. Quando tudo havia sido finalizado e Antrax estava funcionando conforme o planejado, os receptores de entrada de dados haviam sido fechados. Nenhuma instrução adicional era necessária. Então o último criador apareceu e tornou a abrir os receptores. Cumprimentou Antrax. Podiam falar um com o outro através dos teclados e das telas de toque. Podiam se comunicar como iguais. Ele disse a Antrax que o pior havia acontecido. Tudo estava perdido. Um mundo fora destruído e a civilização estava em ruínas. Séculos de progresso haviam sido dizimados. Arte, cultura, conhecimento e compreensão haviam desaparecido. Os criadores, a não ser ele mesmo, haviam sido destruídos. Talvez ninguém mais estivesse vivo no mundo inteiro. Talvez todos estivessem mortos.

Antrax não respondeu. Não havia sido construído para compreender a emoção humana; não podia senti-la nas palavras do criador que falava com ele. Mas uma nova diretriz lhe foi dada e Antrax fora programado para obedecer a diretrizes. A diretriz entrou em seus bancos de memória através do teclado e se tornou parte de sua consciência. O comando era claro. Aquelas câmaras, o complexo e tudo o que estava ali dentro foram dados para que Antrax protegesse. Eles não deveriam ser comprometidos. Não deveriam ser perdidos. Não bastava que Antrax os vigiasse e os mantivesse a salvo para quando os criadores retornassem. Antrax também deveria protegê-los; deveria combater e destruir qualquer coisa que os ameaçasse. Os meios para fazer isso já estavam no lugar, armas e defesas, instaladas em segredo pelo último criador, que sabia melhor do que seus colegas o que aqueles tempos exigiam. Antrax deveria coletar informações em seus bancos de memória da mesma maneira que coletava energia das células de alimentação, o conhecimento de como aquelas defesas e armas funcionavam. Ele deveria adaptar aquele conhecimento para obedecer a sua diretriz; deveria transcender o que fosse necessário para sobreviver. Se fossem necessárias defesas ou armas, Antrax deveria utilizá-las. Se elas não fossem suficientes e outras fossem necessárias, Antrax deveria construí-las. Se alguém tentasse recuperar as câmaras sem digitar o código adequado, a invasão deveria ser detida — mesmo que fosse ao custo de vidas.

O aviso final era uma violação direta de qualquer programação anterior, mas o comando era superior e absoluto. Fazer mal aos humanos era permissível. Matar era permitido. Antrax tinha o controle de seu próprio destino. Ninguém deveria ameaçar sua existência ou interferir em seu objetivo e funcionamento. Ninguém deveria entrar em seu domínio sem o conhecimento do código. Essa era a nova diretriz. Assim, Antrax fora reprogramado nos estertores finais do apocalipse, quando o último dos criadores desapareceu.

Por muito tempo depois disso, ele ficou sozinho. Ninguém veio tentar encontrá-lo. Ninguém sequer se aventurou a se aproximar dele. Nas ruínas da cidade, nada se movia. Nem humanos, nem animais, insetos ou pássaros. O ar era enevoado e denso devido aos escombros e nada vivia dentro de sua penumbra. Antrax mantinha vigilância sobre as catacumbas que o haviam mandado guardar. Ele as protegia com cuidado, descendo veloz por suas linhas de comunicação, através de suas miríades de salas e câmaras, dentro de seus bancos de memória e células de alimentação, por todo o seu reino. Sempre vigiando. Por um tempo muito longo, não precisou fazer isso; não havia nada lá fora para vigiar. Nada a não ser devastação.

Às vezes se perguntava por que estava guardando as câmaras subterrâneas. Já haviam lhe dito o que estava guardado ali, mas não compreendia por que aquilo tinha tanta importância para os criadores. Uma parte disso sim. Uma parte disso era óbvia. Mas, em sua maior parte, era um enigma. Antrax havia sido programado para resolver os enigmas que o confrontavam, e por isso buscou uma solução para aquele. Consultou seus bancos de memória em busca de ajuda e não achou nenhuma. Seus bancos de memória eram vastos, mas as informações armazenadas ali nem sempre eram úteis. Palavras podiam ser vagas e confusas, especialmente quando não tinham um contexto dentro do qual colocá-las. Matemática e engenharia forneciam os conceitos mais familiares e úteis, pois Antrax fora construído e programado a partir dessas disciplinas. Mas outras palavras eram apenas seqüências de símbolos que não significavam nada para ele. Figuras e desenhos o confundiam. Vastas quantidades de informações que recebera pareciam sem sentido, tanto que, à medida que seu conhecimento e senso de auto-suficiência cresciam, ele começou até mesmo a questionar as opções de programação dos criadores.

Mas a diretriz era imutável. Tudo o que estava abrigado dentro das catacumbas era precioso. Nenhuma parte disso devia ser perturbada. Nenhuma parte poderia ser perdida. Tudo deveria ser guardado para quando os criadores viessem solicitar.

Mas quando esse tempo chegaria? Antrax tinha uma vaga memória de um projeto por algum tempo, mas a diretriz do último criador havia borrado e finalmente apagado as especificações. Parecia não haver regras sobre quando as catacumbas deveriam ser abertas novamente. E nem sequer para quem. As catacumbas que ele protegia deveriam ser deixadas invioladas, deveriam ser protegidas e preservadas, deveriam ser mantidas ocultas e seguras.

Para sempre.

Quando a primeira das criaturas de quatro patas apareceu vagando nas ruínas, anos depois que o último de seus criadores havia desaparecido, Antrax estava pronto. Ele havia vasculhado seus bancos de memória para obter os detalhes das defesas e armas que lhe haviam sido dadas e as utilizou. Lasers cortaram sem esforço muitos dos intrusos. Sentinelas de metal e unidades de combate caçaram o restante. As criaturas de quatro patas não constituíam um desafio, mas deram a Antrax uma chance de testar sua habilidade para cumprir a diretriz.

Posteriormente, humanos também tentaram se aventurar dentro das ruínas, para explorar as câmaras demolidas e as passagens em ruínas, e começaram até mesmo a achar o caminho para o subterrâneo. Nenhum deles tinha o código. Antrax destruiu a todos. Mas outros voltavam de tempos em tempos, alguns deles se tornando reconhecíveis por seu aspecto ou persistentes em seus esforços. Como formigas, eles cavaram túneis, pequenos aborrecimentos que se recusavam a ser caçados por pouco tempo. Nem mesmo os lasers e as sondas conseguiam desencorajá-los. Antrax começou a explorar outras soluções. Encontrou possibilidades interessantes em seus bancos de memória e fez experiências com elas. Os wronks provaram ser os mais bem-sucedidos. Alguma coisa em revisitar os mortos era especialmente assustador para os humanos.

Eles lhe deram um nome: Antrax. Pegaram esse nome de sua própria linguagem. Antrax não tinha idéia do que significava. Nem queria saber. O que importava era que soubessem que ele estava ali. Isso era o bastante para realizar o que era necessário. Os humanos começaram a evitar as ruínas. Não passavam mais tempo buscando entradas para as catacumbas.

Mas Antrax começara a gostar de seus wronks, adaptou-os para servir a outras necessidades. Ele continuou a colher os humanos para as partes que os wronks precisavam. Continuou a fazer experiências. Os humanos não eram mais intrusos, eram presas.

Foi a falha na primeira célula de alimentação que fez com que Antrax explorasse o mundo maior. Havia três dessas células, vastos capacitores que coletavam energia do sol e alimentavam os receptores para que Antrax pudesse funcionar. Elas haviam sido criadas para durar para sempre, desde que existissem sol e luz. Mas tudo tinha uma vida finita, até mesmo componentes construídos para durar para sempre, especialmente quando esses componentes trabalhavam além do normal. Antrax havia evoluído como guardião das catacumbas. Seu compromisso com a sua diretriz havia se multiplicado, e seu apetite, crescido, e precisava de mais combustível do que fora antecipado por seus criadores. Suas células eram drenadas de energia mais rápido do que o sol podia reabastecê-las. Talvez fosse a tensão de manter os lasers, as sondas e os wronks. Talvez a eficiência das células tivesse sido muito superestimada, para começo de conversa. Em qualquer caso, Antrax estava perdendo energia.

Decidiu que deveria encontrar outra fonte de energia.

Agiu rápido. Enviou suas sondas em busca de uma fonte dessas, bem distante no mundo, além do que Antrax conhecia. As sondas não haviam sido feitas para voltar, apenas para enviar as informações que adquirissem. Fizeram conforme o programado, e embora a maioria dos lugares não tivesse vida humana nem as fontes de energia de que Antrax precisava, um desses lugares mostrou promessas. Ficava do outro lado do mar, a leste, uma terra na qual os humanos haviam sobrevivido às Grandes Guerras. A civilização deles era rudimentar, mas havia possibilidades a serem exploradas. O Antigo Mundo havia mudado e a humanidade, evoluído. Das ciências do passado quase não se via nada. Em lugar disso, havia um novo tipo de ciência. Elementos dessa ciência eram capazes de gerar uma energia bem maior do que aquela que sustentava Antrax. Os elementos podiam ser encontrados em armas e talismãs carregados pelos descendentes de seus criadores. Mas a genética e o treinamento haviam implantado em alguns desses homens e mulheres os elementos da energia, de forma que neles a energia era gerada de dentro.

Um sonho, ou o que o sonhador pensou ser um sonho, havia levado o primeiro dos sobreviventes das Grandes Guerras até Antrax trinta anos antes. Daqueles, apenas um fora útil. Agora, aquele, dotado de um mapa que revelava a existência das catacumbas e de seu conteúdo, havia atraído outros. O que tinha valor para os criadores teria valor para seus descendentes, compreendesse Antrax a natureza desse valor ou não. Examinados e medidos nas ilhas que Antrax havia estabelecido como terrenos de teste através de sondas despachadas anos antes, sujeitos a ataques por criaturas e espíritos que nenhum humano comum esperaria vencer, alguns demonstravam ser mais poderosos do que seus companheiros, e foram, portanto, considerados adequados para coleta. Pelo menos três haviam entrado nas ruínas, e talvez mais aguardassem do lado de fora. Antrax os usaria como havia utilizado aquele trinta anos antes, como componentes essenciais para a continuação de sua existência, sacrifícios necessários para a sua diretriz. O criador havia sido específico. As vidas de humanos eram indispensáveis. Era Antrax quem deveria sobreviver.

No fundo dos corredores e câmaras de seu domínio, Antrax diminuiu sua passagem acelerada e parou para fazer um inventário daqueles que utilizaria para alimentá-lo.

Um deles estava momentaneamente além de seu alcance, embora um wronk especial estivesse sendo construído para caçá-lo.

O segundo já estava a caminho.

Mas era o terceiro que mais interessava a Antrax. O que realmente havia percorrido todo o caminho dentro das catacumbas. Ele havia passado pelo código na porta da torre. Não era um criador, um dos esperados, mas tinha recursos e um poder interno incrível. Antrax não conseguiu determinar a fonte de seu poder, apenas sua medida. O que importava era que havia poder suficiente para sustentar Antrax por décadas, talvez por séculos, limitado apenas pela capacidade das unidades de armazenamento disponíveis.

Antrax já estava coletando e convertendo esse poder, retirando-o do intruso sem que ele percebesse, sugando-o pouco a pouco. Ele parecia se restaurar sozinho, de forma que a coleta ainda não era prejudicial à saúde do intruso. Mas isso poderia mudar. Antrax teria de monitorá-lo bem de perto. Estendendo seus sensores para fazer as leituras necessárias, levou um momento para fazê-lo, descobrindo que o intruso ainda trabalhava duro em seu esforço inútil de fuga.

 

O druida conhecido como Walker, que, em uma época antes de perder o braço e encontrar o destino, havia sido chamado tanto de Walker Boh quanto de Tio Negro, ainda estava procurando o caminho de saída. Ele estava em uma das miríades de passagens de Castledown e tentava entender o que estava fazendo de errado. Seu estômago dava voltas e a cabeça doía. Alguma coisa estava faltando. Mesmo sem saber o que era, podia sentir isso com tanta certeza quanto podia sentir o desconforto em seu corpo. Todos os esforços para superar seus perseguidores haviam fracassado. Todas as tentativas de fuga haviam levado a nada.

Atrás dele, na quase escuridão dos corredores e das câmaras, invisíveis por enquanto, mas ali mesmo assim, os rastejadores caçavam. Estava fugindo deles desde o momento em que havia caído no chão da torre negra e descido por uma rampa em espiral que levava àquelas profundezas inferiores. Eles o haviam descoberto naquele momento e ele os combatera e escapara. Mas para todo lugar que ia, para todo lugar onde se virava, eles o aguardavam. Castledown estava cheia deles, caçando nas profundezas em tamanha quantidade que Walker não via como um exército poderia resistir a eles, quanto mais um único homem. Mesmo assim ele o faria, por tanto tempo quanto fosse capaz, por tanto tempo quanto sua força o permitisse.

O que o surpreendia em sua fuga desesperada era como tudo era infinitamente semelhante. Um sem-fim de corredores e aposentos, todos sem nada além de maquinaria embutida nas paredes e cabos de energia que alimentavam essas máquinas, todos idênticos. Nada em nenhum deles era diferente; nada sugeria a presença do tesouro que ele buscava. Não havia portas escondidas nem passagens secretas, não havia painéis ocultos, sobre ou acima dos quais poderia haver um tesouro. Não podia detectar nada do que tinha certeza de que estava ali. Sabia o que estava procurando. Ao contrário dos outros que tinham ido procurar o tesouro, a não ser talvez pela bruxa Ilse, ele sabia exatamente o que deveria encontrar.

A não ser que fosse tudo uma mentira inteligente, bolada pelo criador do mapa para atraí-lo e aprisioná-lo.

Mas ele havia descartado essa possibilidade havia muito tempo. O conhecimento contido naqueles símbolos e marcações era mais revelador do que o criador do mapa havia tencionado. Sem saber, talvez, o criador do mapa havia revelado uma verdade que não entendia completamente.

Que Castledown era uma armadilha ele percebeu quase desde o começo, e o motivo para aquela armadilha se tornou claro depois de suas experiências nas ilhas Flay Creech, Shatterstone e Mephitic. O que vivia dentro de Castledown queria a magia deles. O motivo pelo qual queria a magia e o propósito que tinha para seu uso permaneciam um mistério. Walker nem sequer sabia se seu adversário estava procurando alguma forma específica de magia. Poderia estar procurando apenas mais alguém para carregar as pedras élficas perdidas, alguém para assumir o lugar de Kael Elessedil. Poderia estar procurando algo mais.

Fosse qual fosse o caso, ele havia utilizado o náufrago e o mapa como iscas, as chaves como anzóis, as ilhas como terrenos de teste, os espíritos de criaturas naquelas ilhas como varas e a curiosidade e a persistência de suas vítimas como estímulos. As chaves que eles haviam lutado tanto para obter não tinham valor algum em nenhum sentido real, claro. Ele ainda as levava dentro de seus mantos, mas desde então descartara a possibilidade de que provassem ser úteis. Eram anzóis e nada mais. Mas o mapa, sem contar a crença de seu fabricante de que ele também era apenas uma isca, tinha valor.

Nada disso ajudava Walker em sua luta. Começou a caminhar ao longo das passagens mais uma vez, examinando tudo, procurando escapar ou encontrar o tesouro escondido. Qualquer uma das duas coisas daria o que ele precisava, uma saída, uma arma para usar contra seu misterioso adversário. Ficou imaginando como seria o destino daqueles que ainda estavam na superfície. Jamais o encontrariam. Poderiam nem sequer tentar. A destruição que haviam encontrado poderia tê-los desmoralizado profundamente. Se ele estava perdido, raciocinariam, que chance eles tinham? Tinha de esperar que um ou dois mantivesse o resto unido, que aqueles com os quais ele mais contava permanecessem firmes e achassem o meio de fazê-lo.

Mesmo assim, tinha de voltar para eles rapidamente. O tempo estava trabalhando contra ele e ele tinha de se libertar do labirinto.

Os rastejadores saíram das paredes bem na sua frente. Rajadas brilhantes de fogo druídico eram lançadas dos dedos de Walker. Pedaços dos atacantes saíram voando, e então ele passou correndo por seus restos, para encontrar outros esperando adiante. Também destruiu estes, ainda avançando, sabendo que poderiam rastreá-lo por sua magia, que poderiam determinar seu progresso por seu uso da magia. Quanto menos ele a gastasse, melhor. Mas não poderia se esconder completamente, não poderia mascarar sua passagem suficientemente, não importava o que fizesse.

Fez uma curva e encontrou um novo conjunto de passagens. Dolorido e sem fôlego, recostou-se numa fria parede de metal e colocou a mão sobre o estômago, que queimava. O labirinto de câmaras e corredores era desorientador. Olhou para a frente e depois para trás. Já havia passado por ali antes. Ou por outro corredor exatamente igual. Estava caminhando em círculos, virando para este lado e para aquele sem um fim em vista. Sua mente rodopiava com as possibilidades do que poderia estar acontecendo, mas uma nova onda de rastejadores o distraiu e o forçou a ficar e lutar mais uma vez.

Atacou-os, jogando-os de lado com sua magia, fazendo com que batessem contra as paredes da passagem, transformando-os em pilhas estilhaçadas e fumegantes. Conseguiu se libertar mais uma vez.

Instantes depois, estava sozinho de novo, um fugitivo solitário em um mundo estranho. Ainda não se sentia bem. A sensação estranha estava ali, em seus ossos e em seu coração. Estava meio passo mais lento em seus movimentos, um pouco mais lento em seu raciocínio, desequilibrado o bastante para não estar funcionando como sabia que deveria. Por que isto estaria acontecendo? Correu por sombras e trechos iluminados por lâmpadas sem chama, tentando encontrar uma resposta.

Mas nenhuma resposta lhe ocorria. Continuou correndo, procurando por uma ajuda que não estava ali.

 

Antrax monitorou o humano por mais alguns momentos, fazendo medições. O sifão estava forte e sem obstruções. A energia da liberação do fogo do intruso entrava nos compressores e em seguida nos capacitores que abrigavam o combustível do qual Antrax se alimentaria. Antrax deixaria o humano fugir dos rastejadores por mais algum tempo, e então mudaria o cenário para lhe dar alguma coisa inteiramente diferente para fazer. As possibilidades eram infinitas. Mas era preciso ter cautela. O humano era inteligente, rápido de raciocínio. Se Antrax não tomasse cuidado, se não fosse sutil o suficiente, ele veria através do subterfúgio. Isto não poderia acontecer.

Deixando-o de lado, Antrax voltou pelos quilômetros de cabos de energia que serpenteavam pelas passagens e câmaras, alimentando seus sensores enquanto fazia uma inspeção rápida no perímetro. Nenhuma fronteira havia sido violada. Mais nenhum intruso havia tentado entrar. Satisfeito, voltou ao aposento no qual o wronk especial estava sendo construído.

As coisas estavam progredindo conforme o esperado. Sondas de cirurgia, com sua habilidade costumeira e toque delicado, estavam montando o wronk. As partes estavam espalhadas em maças, as de metal esterilizadas e embrulhadas, as de carne e osso ligadas aos sistemas de suporte de vida, fluidos corpóreos artificiais sendo bombeados sem parar por artérias e veias. O processo de unir carne a metal e material sintético já havia começado, uma técnica de fusão desenvolvida nos últimos dias do Antigo Mundo e aperfeiçoada desde então por Antrax através de estudos e experiências. Por um longo tempo houve falhas; a loucura havia tomado conta dos primeiros wronks e negado sua utilidade. Mas Antrax acabou achando uma forma de controlar a mente dos wronks o suficiente para eliminar a opção de insanidade. Crises eventualmente tornavam os wronks inúteis, mas elas demoravam cada vez mais a chegar e eram menos devastadoras quando surgiam. De vez em quando o dano podia ser reparado e os wronks colocados de volta para trabalhar. As sondas de cirurgia eram bastante eficientes em seu trabalho.

Através de imagens transmitidas por seus sensores, Antrax estudou o rosto de seu objeto mais recente enquanto sua cabeça flutuava no fluido preservador. Olhava de um lado para outro, procurando uma maneira de escapar, sem compreender que o meio de fazê-lo há muito lhe havia sido retirado. Os produtos medicinais, alimentados através de tubos que corriam por sua garganta, o mantinham estabilizado e calmo. Sua boca estava aberta, como se fosse um peixe se alimentando. Ele estava em perfeitas condições.

Antrax fez um rápido inventário das partes ainda não montadas. Quando estivesse completo, o wronk seria o mais poderoso jamais construído, em grande parte porque o humano do qual ele estava sendo construído era um excelente espécime com habilidades soberbas. Para trazer os outros elementos do poder à tona e superar os humanos que os possuíam, teria de ser. Mas a tecnologia do Antigo Mundo podia realizar qualquer coisa. Antrax teria suas fontes de poder em mãos e trabalhando para seu benefício em pouco tempo.

Que os humanos corressem o mais rápido e mais distante que pudessem, ele pensou. No fim, isso não importaria. Castledown e suas catacumbas lhe haviam sido dadas para que ele as preservasse e protegesse, mas o mundo além, mesmo aquela parte tão distante que ainda era um mistério, não estava fora de seu alcance. Os criadores haviam dado a Antrax uma diretriz e não havia restrições sobre os métodos que podia empregar para realizá-la. Se o poder que Antrax exigia estivesse em outro lugar, ele encontraria uma forma de trazê-lo mais perto. Se a energia de que precisava tivesse de ser obtida ao custo de vidas humanas, que assim fosse.

Antrax havia sido programado para acreditar que nada era mais importante que a sua sobrevivência. Nada havia acontecido para mudar essa crença.

 

A mão que agarrou o ombro de Bek e o sacudiu de seu sono era forte e nervosa.

— Acorde! — Truls Rohk sibilou em seu ouvido. — Ela nos encontrou!

Bek não precisou perguntar sobre quem o mutante estava falando. A bruxa Ilse. Sua irmã. Sua inimiga. Levantou-se correndo, ainda meio sonolento. Piscou repetidas vezes para se lembrar de onde estava, para clarear a cabeça. Só conseguiu em parte. Sentiu a mão do outro o acalmando, menos urgente, quase gentil.

— A que distância ela está? — ele conseguiu perguntar.

— Perto o bastante para ouvi-lo roncar — sussurrou o outro, fazendo um gesto para a escuridão atrás dele.

Ainda era noite, o céu uma tapeçaria de estrelas contra a qual finas tiras de nuvens partidas flutuavam como linho. A lua era um crescente que apontava ao norte no horizonte. A floresta que os cercava era de um negror impenetrável. Ela os estava rastreando na escuridão, percebeu Bek. Como conseguia fazer isso? Será que podia ler os traços do calor e da energia de seus corpos mesmo à noite? Supôs que podia. Não havia muita coisa que ela não pudesse fazer com a magia da canção do desejo para ajudá-la. Ele havia adormecido ao crepúsculo, certo de que a haviam despistado na campina, que a haviam deixado longe o bastante para assegurar pelo menos uma boa noite de sono. Era nisso que dava ter tanta certeza.

— Como ela conseguiu nos achar tão rápido? — murmurou ele. Respirou fundo algumas vezes, estremecendo quando uma rajada súbita de vento gelado soprou das montanhas.

O rosto de Truls Rohk era inescrutável dentro das sombras de seu capuz.

— Sorte, eu acho. Ela não deveria ter mais nenhuma depois do que fizemos para afastá-la, mas tem tantos recursos que faz sua própria sorte. Comece a andar.

Pegando os poucos suprimentos, partiram de seu acampamento, dirigindo-se mais uma vez para dentro da ilha, andando paralelamente à base das montanhas. Não se esforçaram para esconder sua passagem. Se a bruxa Ilse os havia rastreado até aquele ponto, não teria problemas em descobrir onde haviam passado a noite. Bek estava imaginando se havia sido salvo pelos instintos de Truls Rohk ou por antecipar previamente as coisas. Em qualquer caso, isso deu a Bek um senso renovado de dependência em relação a Truls Rohk. Bek havia dormido, afinal. Se tivesse tentado fugir sozinho de sua irmã, ela já o teria apanhado.

Balançou a cabeça. O que isso significaria para ele, estar nas mãos dela? Quando finalmente acontecesse, quando ela por fim os apanhasse, como ele tinha certeza de que ela faria, o que aconteceria?

Desceram uma encosta de colina íngreme até chegarem a uma planície rochosa e se apressaram para cruzar o rio. Atravessaram o vau, subindo a corrente, até o outro lado para descerem à margem. A água estava gelada e corria rápido, e Bek precisou se concentrar muito para manter os pés plantados solidamente abaixo dele.

— Ou ela deu com nossa verdadeira trilha sem querer e ainda está confiando em sua magia para nos rastrear ou encontrou um aliado que sabe ler sinais. — A voz do mutante era baixa e ameaçadora, um sussurro de fúria sombria sobre o gorgolejo suave da água. Sua forma encapuzada parecia flutuar sobre a água, seus movimentos firmes e deliberados contra a corrente. — Vamos ter de descobrir qual das duas coisas.

Continuaram a subir a corrente por quase dois quilômetros, então escalaram até uma planície rochosa na outra margem e caminharam por algum tempo para dentro da ilha. A leste, o céu estava começando a clarear com um brilho prateado; aproximava-se o nascer do sol. Bek se pegou pensando no amanhecer nas Highlands de Leah, de caçadas com Quentin no início da aurora, de como aquilo parecia tão igual e ao mesmo tempo tão diferente. Desperta agora, sua mente trabalhava lépida por entre os escombros de sua vida. Ele não tinha mais medo, não da maneira que tivera nas ruínas de Castledown quando os fios de fogo e os rastejadores os haviam atacado. Mas estava se sentindo perdido; estava se sentindo desconectado. Tudo que conhecia de sua vida passada lhe fora arrancado: seu lar, sua família e sua terra. Não restava mais nada, e quanto mais ele andava, mais improvável parecia que algum dia fosse ter qualquer dessas coisas de volta.

Era como se ele estivesse saindo de si mesmo, como se estivesse soltando sua pele.

Tocou a espada de Shannara nas suas costas e tentou encontrar consolo em sua presença sólida e indispensável, mas não conseguiu.

Truls Rohk o levou rio abaixo e mais uma vez para as águas frias. O sol já havia se levantado, a luz prateada se tornara dourada, os primeiros tons de céu azul visíveis. O som da água corrente o envolvia e ele voltou sua atenção para se manter ereto e andando para a frente. Atravessaram o canal uma segunda vez, de volta até ficarem próximos da outra margem, e então começaram a vadear rio acima. A água fria deixou as pernas de Bek dormentes e depois de algum tempo ele mal conseguia sentir os pés dentro das botas. Continuou andando, forçando-se a colocar um pé na frente do outro e pensar em tempos melhores, pois não havia mais nada que pudesse fazer.

Quando estavam a vários quilômetros de distância rio acima, em uma curva do rio onde os galhos de imponentes cedros e plátanos pendiam sobre a água, Truls Rohk parou. Enfiou a mão em seus mantos e retirou um pedaço de corda fina e um estranho gancho no qual as alavancas estavam caídas de encontro à base, mas que se desdobrou e travou no lugar quando ele soltou um fio que as prendiam na posição abaixada. Dobrando a corda através de um buraco na base do gancho, ele enrolou-a cuidadosamente no antebraço esquerdo. Fazendo um gesto para que Bek ficasse quieto, atravessou o rio, pisou por um momento na margem, deu vários passos na direção das árvores e então recuou cuidadosamente, repassando suas próprias pegadas, tornou a entrar na água e subiu cinqüenta metros adiante até uma elevação que a correnteza mal escondia. Certificando-se de que o garoto estava onde ele o havia deixado, começou a balançar o gancho sobre a sua cabeça, soltando a corda gradualmente para ampliar o arco. Jogou o gancho para o alto, na direção dos galhos das árvores.

O gancho se prendeu. Puxou-o para experimentar, e então fez um gesto para que Bek se aproximasse.

— Suba nas minhas costas, coloque os braços ao redor do meu pescoço e segure firme.

Bek assim o fez, sentindo os músculos poderosos embaixo dele, as cordas de tendões e cartilagens que cruzavam os ombros do outro e faziam com que parecesse um animal. O garoto tentou não pensar nisso. Prendendo a mão direita no pulso esquerdo, segurou firme.

Truls Rohk agarrou a corda e começou a subir com uma mão atrás da outra, balançando através do rio. Passando sobre as águas geladas, eles esticaram as pernas quando chegaram ao nadir de seu arco antes de tornarem a subir até a margem próxima onde o rio rumava para a esquerda. Logo acima da margem, bem no fundo das árvores, Truls Rohk soltou suas mãos apenas o bastante para deslizar de volta ao chão. Ainda segurando a ponta da corda, esperou que Bek descesse de suas costas e então recolheu a corda através do buraco até que ela se soltasse do gancho, enrolou-a mais uma vez e enfiou-a debaixo de seus mantos.

— Isso deverá lhe dar algo para ficar intrigada — o mutante grunhiu baixinho. — Se tivermos sorte, ela irá pensar que fomos para a outra margem e nos rastreará naquela direção.

Tornaram a avançar para o interior, para longe do rio e de volta para as montanhas, passando por um terreno pedregoso e leitos de rios secos, evitando terrenos macios que deixassem pegadas, mantendo distância de arbustos cujos gravetos quebrados assinalariam sua passagem. O sol estava alto, aquecendo seus corpos frios e secando suas roupas. Truls Rohk caminhava curvado para a frente como uma grande fera, maciço e imenso, enigmático e desconhecido dentro dos mantos e do capuz. Bek, andando logo atrás, percebeu que estava pensando se o mutante algum dia se expusera à luz. No tempo em que estiveram juntos desde que se conheceram nas Wolfsktaag, ele não fizera isso uma só vez. Isso não preocupou Bek como no começo, mas ele pensou em como seria estar sempre enrolado em trapos e nunca se sentir à vontade para se mostrar a ninguém. Perguntou-se mais uma vez sobre a ligação entre os dois, um elo forte o bastante para fazer com que o mutante estivesse disposto em aceitar seu papel como protetor de Bek e vir na jornada quando poderia simplesmente ter recusado.

Caminharam o dia todo, afastando-se das terras baixas e entrando nas montanhas, escalando as encostas inferiores até um promontório cheio de florestas, de onde Bek pôde ver toda a terra que ia até o rio do qual vieram. Truls Rohk parou ali, aproveitou um rápido instante para olhar ao redor e então guiou Bek por entre as árvores.

— Escolher um lugar de onde você possa ver qualquer pessoa se aproximando é muito bom — ele ressaltou. — Mas se você pode vê-los, eles provavelmente também podem ver você. Melhor não arriscar. Há melhores caminhos. Assim que estiver escuro, tentarei um deles.

Encontraram um espaço de gramado seco dentro de um bosque de cedros e se sentaram para comer e beber. Ainda tinham água para vários dias, e nas montanhas reabastecer o que consumiam não seria difícil. Mas a comida estava quase no fim. No dia seguinte teriam de caçar. E depois também. E assim por diante, o que fez Bek se perguntar mais uma vez até onde iriam.

— Podemos encontrar ajuda nessas montanhas. — Seu companheiro arriscou depois de algum tempo, quase como se estivesse lendo a mente do garoto. Bek olhou para ele. — Mutantes vivem nestas colinas. Sinto a presença deles. Eles não me conhecem nem a minha história. Podem pensar diferente dos que vivem nas montanhas Wolfsktaag a respeito de mestiços. Podem estar dispostos a nos ajudar.

As palavras saíam suaves e contemplativas, quase como uma prece. Isso surpreendeu Bek.

— Como irá fazer contato com eles?

O outro deu de ombros.

— Não será preciso. Eles virão a nós se continuarmos. Agora estamos em seu território. Eles saberão o que eu sou e virão saber o que quero. — Ele balançou a cabeça. — O problema é que, como regra geral, mutantes não interferem nas vidas dos outros, mesmo com sua própria espécie, a menos que tenham razão para fazê-lo. Temos de dar uma razão a eles se quisermos sua ajuda.

Bek pensou sobre isso um instante.

— Posso lhe perguntar uma coisa?

O homem nas sombras virou-se ligeiramente para encará-lo; a abertura escura no capuz parecia vazia.

— O que você quer me perguntar, Bek Ohmsford, que já não tenha perguntado?

Isso foi dito quase em tom de desafio. Bek ajustou a espada de Shannara que estava ao seu lado na grama, e em seguida puxou para trás seus cabelos meio desgrenhados.

— Você disse que mutantes não interferem nas vidas dos outros sem motivo. Se isso é verdade, por que escolheu se envolver na minha vida?

Houve um longo silêncio enquanto o outro o estudava de dentro da escuridão de seu capuz. Bek ficou desconfortável.

— Eu sei que você disse que sentia que havia um elo entre nós, através de nossa magia...

— Você e eu somos parecidos, garoto — interrompeu Truls Rohk, ignorando o resto do que Bek estava tentando dizer. — Eu me vejo em você como garoto, lutando para aceitar quem eu era, lutando para descobrir que eu era diferente dos outros.

— Mas não é isso, é? Não é essa a razão.

Truls Rohk pareceu tremeluzir, sua escuridão se tornando líquida, como se ele pudesse simplesmente se desvanecer sem responder nada, como se pudesse desaparecer e nunca mais voltar. Mas o movimento se firmou e o homenzarrão ficou parado.

— Eu salvei a sua vida — disse ele. — Ao salvar a vida de outra pessoa você se torna responsável por ela. Aprendi isso há muito tempo. Acredito nisso.

Fez um gesto rápido de desdém.

— Mas é muito mais complicado. É uma espécie de jogo, outra espécie. Não tenho ninguém em minha própria vida: nem casa, nem pessoas, nenhum lugar que me pertença. Não tenho objetivo verdadeiro. O futuro está em branco. É uma necessidade de direção que me atrai para o druida. Por algum tempo ele me dá uma. Cada mensagem que ele envia é um convite para fazer parte de algo. Cada mensagem me dá uma chance de descobrir algo a meu respeito. Não faço muito disso nas Wolfsktaag. Não restou muito de mim para descobrir ali.

“Você, garoto, você me interessa porque oferece respostas às perguntas que eu mesmo me fiz. Eu aprendo com você. Mas também posso ensiná-lo; como viver como um estrangeiro, como sobreviver ao conhecimento do que e de quem você é, como suportar a magia que sempre será parte de você. Estou curioso para ver como aprenderá. Curiosidade é tudo o que tenho, e tento satisfazê-la sempre que posso.

— Você me ensinou mais do que eu jamais poderia esperar ensiná-lo — Bek arriscou. — Não vejo como possa fazer tanto por você.

Por apenas um instante, o mutante ficou absolutamente quieto. Então soltou um grunhido baixo.

— Não tenha tanta certeza disso. Ainda é muito cedo. Se você viver tempo o bastante, poderá se surpreender.

Bek deixou isso passar. Truls Rohk dava-lhe apenas o bastante para mantê-lo feliz, mas não tudo. Havia mais alguma coisa que ele não estava revelando, alguma informação importante que estava guardando para si. Provavelmente era verdade que ele tinha uma ligação com Bek, que a sentia em parte por causa da magia e em parte porque havia salvado a vida do garoto. Também era provavelmente verdade que ele fizera a viagem porque isso lhe dava um propósito e insights, e satisfazia sua necessidade de se envolver com alguma coisa. Viver sozinho nas Montanhas Wolfsktaag poderia ser realmente uma coisa muito limitadora e restritiva. Mas mesmo assim isso era apenas parte do que o havia levado até ali, e a maior parte, a verdade maior, estava em algum outro lugar de sua caixa de segredos.

— Por que você nunca tira seu manto? — Bek perguntou súbita e impulsivamente.

Fez isso sem pensar, mas sabendo mesmo assim que iria gerar uma resposta forte. E gerou. Pôde sentir uma mudança instantânea no outro, um afastamento frio que falava de raiva, frustração e tristeza também, mas não recuou.

— Por que você nunca me mostra seu rosto? — ele insistiu.

Truls Rohk ficou silencioso por um momento. Bek podia ouvir sua respiração, entrecortada e agitada dentro da escuridão que o envolvia.

— Você não quer me ver como eu realmente sou, garoto. Você não quer me ver sem este manto.

Bek balançou a cabeça.

— Talvez eu queira. O que há de errado em ver quem você realmente é? Se estamos ligados como você diz, vinculados pela magia que compartilhamos, você realmente não deveria esconder seu aspecto.

— Hssst! O que você sabe de minhas necessidades? Mal nos conhecemos, você e eu. Acha que está pronto para o que está oculto sob estes mantos e dentro deste capuz, mas não está. Você não sabe nada de quem sou. Não há outro como eu lá fora, um mestiço: mutante e humano ao mesmo tempo. Não há modelo para o que eu sou. Talvez nem mesmo eu saiba o que é isso. Já pensou a respeito? Nós mudamos como queremos, os mutantes tornam-se o que precisam ser. O que isso significa, quando metade de você é humana? O que acontece quando parte de você é imutável e parte é tênue como o ar? Pense nisso antes de pedir novamente para me mostrar como sou!

Então ele se levantou.

— Basta disso. Tenho pensado em nossa situação. A bruxa ainda nos rastreia, sua irmã. Mesmo que tenha sido despistada pelo cheiro no rio, ela nos encontrará de novo. Quero saber se ela já fez isso e que ajuda encontrou. Se estiver perto, preciso achar um jeito de reduzir a velocidade dela. Vou voltar pela montanha para saber se ela apanhou nossa trilha.

Fez uma pausa.

— Durma enquanto eu estiver fora, garoto. Procure por mim em seus sonhos. Ou em seus pesadelos, melhor ainda. Talvez neles você veja quem eu realmente sou.

Virou-se e partiu, desaparecendo na noite. Bek ficou olhando em sua direção. Não tornou a se mover por muito tempo.

 

A bruxa Ilse terminou de mastigar a raiz de vegetal que havia colhido para seu jantar e ficou olhando a escuridão crescente. Dentro em pouco partiria novamente, rastreando o garoto e o mutante mais uma vez, seguindo-os até as montanhas. Eles eram espertos e cheios de recursos — ou pelo menos o mutante era — e não podia se dar ao luxo de deixá-los seguirem muito adiante. Devia se esforçar para mantê-los ao seu alcance. Poderia até mesmo apanhá-los naquela noite se parassem para repousar. Teriam de fazer isso, não teriam? O garoto não tinha disposição para prosseguir sem descansar, ainda que o mutante a tivesse. Teria de dormir em algum momento. Se ela fosse rápida o bastante, os pegaria desprevenidos.

Terminou o que queria da raiz e jogou o resto fora. Já os teria apanhado àquela altura se eles não tivessem trabalhado tanto para despistá-la. Aquilo lá no rio fora esperto, criar uma trilha falsa em uma das margens e pular para a outra usando uma corda. Isso havia confundido o caull, o havia mandado correndo para cima e para baixo da margem errada sem objetivo, fizera com que ele ficasse meio louco de raiva. O caull era habilidoso e possuía instintos excepcionais, mas não tinha insight. Fora ela quem vira o gancho ainda preso nos galhos superiores daquela árvore e o enviara de volta pelo rio para procurar a nova trilha. Àquela altura, ela já dera à sua presa o tempo que haviam perdido para ela durante a noite. Nesta noite ela deveria compensar tudo outra vez. Mas seria fácil se o garoto dormisse.

Os arbustos se abriram e o caull reapareceu. Ela o mandara encontrar algo para comer, e pela mancha de sangue em seu focinho fora bem-sucedido. Aproximou-se a dez metros dela e sentou-se sobre as patas traseiras, observando. Era uma fera perigosa. Não podia se dar ao luxo de dar-lhe as costas; ele a odiava pelo que lhe havia feito e a mataria se tivesse chance. Era obediente porque não tinha escolha; sua magia mantinha a criatura na linha. Mas se afrouxasse o cabresto, um pouco que fosse...

Ela o estudou um momento, depois desviou o olhar, descartando-o. Era importante demonstrar que não tinha medo nem sequer estava particularmente interessada nele além de sua utilidade imediata. Ela o havia criado para um objetivo, e ele estava ali para servir a esse objetivo e nada mais. Não tinha idéia do que a criatura achava que seria feito com ela quando o garoto fosse encontrado. Provavelmente não tinha condições de pensar tanto assim adiante, o que era ótimo.

Mas quando se deu conta estava se perguntando o que faria com o garoto. Era muito fácil decidir o que aconteceria com o caull e com o mutante, mas o garoto era outra coisa. Ela não havia percorrido todo aquele caminho só para acabar com ele; ele era um elo importante para compreender o druida, uma janela potencial para dentro de sua mente. Antes que o druida morresse, ela saberia tudo o que haveria para saber a respeito dele. O garoto era um dispositivo para perturbá-la e confundi-la, mas também poderia provar ser um recurso. Havia coisas sobre ele que precisavam de compreensão: como ele podia ter uma magia tão parecida com a dela, como podia saber tanto a respeito dela que parecesse verdadeiro, como podia parecer tão real. Ela sabia que havia explicações para aquilo tudo, mas as explicações não eram o bastante para ela naquele momento. Ela teria toda a verdade antes de acabar com ele. Ela o sugaria por completo antes de jogá-lo fora. Voltou a imaginar seu rosto, lembrar-se de sua voz. Ainda podia ouvi-lo dizer que ela era sua irmã, que ele era Bek, que sobrevivera de algum modo ao incêndio de seu lar e à morte de sua família. Naturalmente, ela não podia aceitar isso. O druida havia desejado somente ela, e quando ela dissera ao Morgawr como havia escondido seu irmão, ele se certificara de que não havia mais ninguém vivo nas cinzas de sua casa.

Sombras negras se juntavam no fundo de seus pensamentos, e então se aglomeravam na frente em sinal de alerta. A menos que ele estivesse mentindo. A menos que o Morgawr tivesse escondido a verdade sobre Bek. Mas não podia haver motivo para isso, quando Bek poderia ter se tornado útil para ele da mesma maneira que ela. Não, o druida e seus comparsas haviam enganado seus pais e em seguida os assassinado, tudo por causa dela, por causa do que e de quem ela era. Ele sozinho era o responsável e deveria responder por isso, e o garoto era apenas outro peão usado na guerra deles para destruírem um ao outro. O garoto era esperto, mas um artifício, um estratagema do druida; no fim ele era apenas ainda um garoto que tinha a aparência que Bek poderia ter tido caso vivesse até então, apenas um garoto que fora enganado para pensar que era alguém que não era.

Ela se levantou e o caull se levantou com ela, olhos brilhando de expectativa. Estava pronto para caçar, e ela estava pronta para deixá-lo fazer isso. Enviou-o adiante com um gesto, deixando que ele farejasse a trilha, mas mantendo-o perto o suficiente para que não pudesse agir sem que ela soubesse. Ela não queria que ele pegasse o garoto e o fizesse em pedaços antes que ela tivesse uma chance de sondar-lhe a mente. O mutante era outra história, mas ela duvidava que o caull fosse pegar aquele ali desprevenido. Muito provavelmente teriam de lidar com ele antes que pudessem esperar encontrar o garoto. Ela ficou imaginando mais uma vez por que o mutante teria tanto interesse nas questões deles. Talvez estivesse a serviço do druida, embora isso fosse incomum para um mutante. Talvez ele estivesse ligado de algum modo à morte dos pais dela e à destruição de sua casa, e sua própria vida estivesse em risco por causa disso. O druida havia utilizado mutantes para levar adiante seu propósito. Talvez ele fosse um daqueles.

Ela ficou remoendo as possibilidades enquanto seguia o caull, mantendo os sentidos alertas para o que estava ao redor. A escuridão da floresta escondia muitas coisas, e uma delas podia ser seu inimigo. Ela se moveu silenciosa em seus mantos cinzentos amarrados, deslizando por entre os arbustos e as árvores como uma sombra. O céu noturno estava claro e a luz das estrelas inundava o teto de galhos acima. Havia luz demais para fazê-la ficar à vontade. Ela captou vislumbres do caull que ia adiante, fragmentos de movimento em trechos prateados de floresta. A criatura andava para a frente e depois em círculos, sem parar, mantendo-se na trilha que sua presa havia deixado, lendo os sinais, selecionando-os para ter certeza de que não estava sendo levada para o caminho errado. Era boa nisso; todos os sentidos de lobo estavam intactos e trabalhando dentro de sua nova forma, todas as suas habilidades em jogo.

Já era quase meia-noite quando ela chegou a uma extensão aberta de terreno em frente ao sopé das colinas que levavam para as montanhas, uma planície pedregosa e vazia, a não ser mato rasteiro e lenha. Oculta entre as árvores, ela viu o caull se mover para o terreno aberto, farejando, andando em círculos e depois continuando. Ficou onde estava, abandonando tudo. O terreno adiante estava exposto demais. Ela não achava certo atravessá-lo, muito embora a trilha claramente seguisse aquela direção.

Puxou o cabresto invisível sobre o caull e o chamou de volta. Seus instintos lhe diziam que alguma coisa estava errada e que devia determinar o que era antes de continuar.

Olhando para a planície, o caull agachado ao seu lado, ela começou a pensar.

 

Bek não dormiu depois que Truls Rohk o deixou, mas ficou sentado, pensando aonde aquela correria e esconde-esconde o estavam levando. É verdade, ele estava fugindo para salvar sua vida, para fugir da bruxa Ilse, que, irmã ou não, o queria morto. Mas só a fuga não era a solução para seu problema, e quanto mais fugia e se afastava, menos parecia que conseguiria alguma coisa. Para resolver o problema de Grianne Ohmsford ele deveria convencê-la de quem era. Estava claro que provavelmente isso não aconteceria através de palavras somente. Precisaria de algo mais, talvez a magia da espada de Shannara, talvez uma magia completamente diferente. Mas o confronto e uma estratégia para lidar com esse confronto eram inescapáveis.

Como ele poderia provocar a epifania necessária sem perder a vida? O quanto ele poderia fazê-la acreditar?

A resposta não veio e ele ficou cansado de pensar sobre ela. Deitou-se para dormir. Adormeceu rápido, mas não sonhou. Dormia e acordava sobressaltado, preocupado de uma forma que não conseguia identificar, incapaz de descansar por mais de alguns minutos de cada vez. Achou que era porque estava esperando que Truls Rohk retornasse, mas talvez fosse simplesmente porque não conseguia parar de pensar em sua participação na jornada para Castledown. Desejou saber tudo o que Walker sabia, todos os segredos que o outro ainda guardava a respeito de Bek, sobre seu objetivo na viagem, sobre as razões de sua presença. Isso não terminava com seu uso da espada de Shannara no Squirm. Não terminava com sua herança da magia ou seu relacionamento com Grianne. Ia além disso tudo. Mas até onde iria?

Quando acordou pela última vez naquela noite, estava emaranhado em pensamentos perdidos sobre sua irmã e do relacionamento deles, tão desconfortável que era como se não tivesse dormido nem um pouco. Ouvindo um murmúrio suave de vozes, levantou-se sobressaltado e ficou olhando para a escuridão que o cercava.

Estava cercado de rostos. Nenhum deles pertencia a Truls Rohk. Nenhum deles estava ligado a corpo algum.

Como os rostos de espectros que tivessem vindo do mundo inferior, eles flutuavam no ar, e em seus olhos vazios Bek Ohmsford viu um reflexo de sua alma.

 

Bek lutou contra a onda de medo que ameaçou tomar conta dele ao se sentir desnudado pelas faces que flutuavam à sua frente. Seus traços eram neutros e sem vida, sugados de toda expressão, desenhados no ar com giz de um jeito que não pareciam inteiramente formados, mas precisavam ser completados, desenhos feitos por uma criança. Eram sombras, decretou, os mortos que voltavam para assombrar, levados a procurar os vivos por necessidades que somente eles podiam saber. Seus olhos grandes e vazios fixavam-se em Bek sem enxergar, mas podia senti-los olhando assim mesmo, para dentro, onde ele escondia tudo o que queria manter em segredo.

Quem é você?

A voz era fina e sussurrada. Não sabia dizer qual das sombras estava falando. Não podia ver movimentos de lábios. A voz parecia vir de todos os lugares ao mesmo tempo, ressonando dentro de sua cabeça.

— Sou Bek Ohmsford — ele repetiu, paralisado em sua posição sentada, lutando para não gritar.

De onde você vem?

Sua voz tremia.

— Das Highlands de Leah, do outro lado do mar, em outra terra.

Longe?

— Sim.

Veio sozinho?

Ele hesitou.

— Não. Vim com outros.

Onde estão eles?

Ele balançou a cabeça, os olhos passando de um rosto morto para o seguinte, de um conjunto de traços neutros para outro.

— Não sei.

Você ousaria mentir para nós?

Ele soltou o ar com força.

— Acho que não.

As cabeças se moveram ligeiramente, em um movimento no sentido do relógio, como se perturbadas por um vento de passagem. Olhos e bocas escancarados, olhos e bocas de cadáveres. Não pareciam nem um pouco ameaçadores, mas estavam todos ao seu redor e Bek não conseguia escapar da sensação de que eles eram mais do que ele estava vendo. Manteve-se tão calmo e quieto quanto pôde, os últimos traços de seu sono inquieto agora haviam se dissipado, sua mente e seu corpo formigando e tensos de terror.

As sombras tornaram a ficar paradas.

Por que você veio para cá?

Como deveria responder isso? Sua mente corria.

— Eu estava fugindo de alguém que queria me machucar.

Para onde está fugindo?

— Não sei. Só estou fugindo.

Onde está seu companheiro?

Então eles também sabiam de Truls Rohk. O que queriam com ele?

— Ele voltou para ver se nossa perseguidora ainda está nos seguindo.

Quem é sua perseguidora? Não minta para nós.

Ele nem sonharia em mentir àquela altura. Não havendo razão para não fazê-lo, contou às sombras sobre Grianne e a história dos dois. Não disfarçou nem tentou esconder nada. Talvez porque achasse inútil ou porque estivesse cansado demais para decidir o que contar e o que manter em segredo. Não ouve interrupções enquanto ele falava. As cabeças dos mortos pendiam suspensas à sua frente, e a noite ao redor era vazia e parada.

Quando acabou, não houve uma resposta imediata. Afinal de contas, achou que talvez eles tivessem decidido que ele estava mentindo ou tentando enganá-los de algum jeito. Mas ele não tinha como saber o que mais podia fazer ou dizer para convencê-los. Havia esgotado seus argumentos.

Você usará sua magia contra sua irmã quando ela o encontrar?

A pergunta era inesperada e ele hesitou.

— Não sei — disse por fim.

Ela usará a magia contra você?

— Também não sei. Não sei o que irá acontecer quando nos encontrarmos novamente.

Você deseja o mal para ela?

Por um momento Bek ficou sem palavras.

— Não! — disse ele num rompante. — Só quero fazê-la compreender.

Houve uma inquietação no ar, uma espécie de som de farfalhar, como o vento passando por entre as folhas das árvores ou por entre os talos da grama alta. Enterradas nesse som estavam palavras e frases, como se os mortos estivessem se comunicando uns com os outros em sua própria linguagem. Bek a ouvia nos limites de sua mente, quase inaudíveis, pouco reconhecíveis. Isso passou rapidamente e o silêncio retornou.

Fale-nos de seu companheiro. Não minta para nós.

Mais uma vez Bek fez como lhe fora ordenado, certo agora de que mentir era um erro que ele não deveria cometer. Seu medo havia diminuído, ele estava falando com mais confiança, quase como se as sombras fossem companheiros ao redor de uma fogueira, e ele um contador de histórias. Não achou que elas lhe quisessem mal. Pensou que devia ter de algum modo invadido seu território, e elas haviam aparecido para determinar suas razões. Se apenas explicasse, estaria bem.

Assim, relatou o que sabia de Truls Rohk e dos eventos que os haviam levado a Castledown. Ele levou um tempo para dizer tudo, mas achou importante fazê-lo. Disse que o mutante o havia vigiado durante a jornada e salvado sua vida duas vezes. Não soube ao certo por que ressaltara isso. Talvez porque achasse que as sombras deveriam saber que Truls era um amigo. Talvez achasse que saber isso os manteria a ambos livres de qualquer mal.

Quando ele havia terminado, as cabeças se deslocaram e tornaram a se assentar.

Cruzamento entre mutantes e humanos é proibido.

Isso foi dito sem rancor ou condenação. Mesmo assim, era um comentário forte. E estranho. O que importava aos mortos o que os vivos faziam?

Ele balançou a cabeça.

— Não foi culpa dele; seus pais fizeram essa escolha.

Mestiços não têm lugar no mundo.

— Não se não fizermos um para eles.

Você faria um lugar para ele?

— Sim, se ele precisasse de um lugar.

Abriria mão de seu próprio lugar no mundo para que ele pudesse ter o dele?

A conversa estava ficando estranhamente metafísica e Bek não tinha idéia de para onde ela estava se encaminhando, mas permaneceu no caminho.

— Sim.

Você abriria mão de sua vida por ele?

Bek fez uma pausa. O que deveria escolher? Será que ele daria sua vida por Truls Rohk?

— Sim — disse finalmente. — Pois acho que ele faria o mesmo por mim.

Desta vez a pausa foi muito maior. Mais uma vez, as cabeças giraram e o som de farfalhar retornou, pleno de palavras e frases, conversas que o rapaz não podia entender. Tentou escutar com cuidado, mas embora alguns pedaços fossem audíveis, não conseguiu entender nada. Ficou se perguntando subitamente se havia julgado as coisas errado, se as sombras lhe fariam algum mal afinal de contas.

Então a voz tornou a falar:

Olhe para nós.

Ele olhou. Um frio súbito no ar o fez estremecer, como se um vento frio tivesse encontrado seu caminho montanha abaixo, um vento com o toque destruidor do inverno profundo. Ele se encolheu por causa disso... e por causa do movimento súbito ao seu redor. Os rostos haviam começado a mudar. As expressões vazias e sem expressão desapareceram. As cabeças sem corpos sumiram. No seu lugar apareceram formas grandes e escuras, com tufos de pêlos grisalhos. Corpos maciços saíam das sombras. Como feras que caminhassem retas, aquelas novas criaturas o cercaram, seus olhos pequenos fixados sobre ele. Bek sentiu o coração parar e o sangue gelar. O medo que havia exibido antes retornou de uma vez, tornou-se um terror declarado. Não havia nada que pudesse fazer para se salvar. Não havia para onde correr nem chance de fazê-lo. Estava preso.

Você sabe quem somos?

Ele não conseguia falar. Mal conseguia se mover. Balançou a cabeça devagar, o melhor que conseguiu.

Nós somos o que quisermos ser. Somos os vivos e os mortos. Somos carne e osso, vento e água. Nós somos mutantes. Esta é nossa terra e os humanos não pertencem a isso aqui. Você está invadindo e deve ir embora. Desça a montanha e não volte.

Bek assentiu rápido, concordando. Aceitaria qualquer chance que eles oferecessem para escapar. Podia ouvir a respiração pesada e entrecortada deles e o cheiro de seus corpos animais. Podia sentir o peso de suas sombras caindo sobre ele, camada sobre camada. Entendeu naquele instante como era ser caçado e acuado num canto. Entendeu como era ser a presa.

A voz sussurrou para ele num sibilar baixo, ameaçador, e ele percebeu a mudança de tom.

Quando sua irmã encontrar você, vá com ela. Quando ela perguntar pela verdade, diga-a para ela. Quando ela procurar uma maneira de compreender, ajude-a a encontrá-la. Não torne a fugir. Confie em si mesmo.

Sua irmã estava chegando? A que distância ela estava? Ele entrou em pânico, tentou se levantar e descobriu que não conseguia. Sua força havia falhado completamente. Sentou-se assustado e impotente no chão, os mutantes todos ao seu redor, uma muralha de fedor animal e hálito fétido, sombras escuras e olhos brilhantes. Onde estava Truls Rohk? Onde estava qualquer um que pudesse ajudá-lo? Odiava seu medo, seu desespero, mas não conseguia dissipá-lo. Tudo o que desejava era estar longe dali, estar em outro lugar, ter uma chance de sobreviver, mesmo que apenas por mais um dia.

Perdeu o ar com o choque de uma nova rajada de frio e fechou os olhos para se proteger. Podia ouvir o farfalhar dos mutantes, o movimento de seus corpos, mas não conseguia olhar para eles. Foi necessária toda a sua concentração apenas para respirar, para evitar gritar, para permanecer controlado. Sentia sua resolução desmoronando aos poucos. Então sentiu mais alguma coisa. No seu interior, bem no fundo, onde seu núcleo queimava com emoção pura, sentiu a magia acordar. Ela soltava fagulhas e se incendiava, vindo em sua defesa, levantando-se dentro dele. Podia senti-la crescendo, camadas dela borbulhando como lava na boca de um vulcão pronto para explodir. Reforçou sua resolução, desesperado para mantê-la em xeque. Não podia se dar ao luxo de deixá-la subir à tona. Não queria se testar contra os mutantes. Sabia que seria um erro.

Então o frio que o cercava desapareceu subitamente e o cheiro animal sumiu. O ar fresco, mas quente e suave agora, preencheu suas narinas; a presença pesada e rude dos mutantes havia desaparecido.

Quando tornou a abrir os olhos, estava só.

 

Truls Rohk estava suspenso dentro da copa de um velho e maciço bordo que o escondia, espremido em seus galhos a talvez dez metros do chão. Estava esperando havia mais de uma hora, mantendo vigilância através da folhagem. Dali, tinha uma visão clara das planícies rochosas que separavam os dois estirões de floresta na base das montanhas pelas quais ele e o garoto haviam passado antes. Se a bruxa Ilse os estivesse rastreando, se ela tivesse descoberto sua trilha, viria por aquele caminho.

Quando o caull apareceu, ele não ficou surpreso. Sabia que ela estava usando algo para rastreá-los além de sua magia. Só a magia dela, embora formidável, não era suficiente para permitir que ela permanecesse atrás deles. O caull era uma espécie de lobo ou cão que sofrerá uma mutação e os estava rastreando pelo cheiro. Era uma fera feia e de aspecto perigoso, diferente de qualquer criatura que havia encontrado antes, nem mesmo nas Wolfsktaag. Era uma criatura saída do antigo mundo de Faerie, ele imaginou, algo que ela havia estudado em um livro de magia negra ou conjurado de um pesadelo. A criatura estava lá para rastrear e depois para despachá-los. Ou a ele próprio pelo menos. Ele era apenas uma distração desnecessária. A bruxa estava realmente atrás do garoto, que ela manteria vivo por algum tempo.

Truls Rohk viu a fera se aventurar sobre a planície, andar em círculos por algum tempo e em seguida tornar a desaparecer por entre as árvores. Ela ficaria ali observando e aguardando, assim como ele estava fazendo. Não podia vê-la, mas podia sentir sua presença. Ela estava decidindo o que fazer. Ele podia voltar para o garoto agora; podia escapar enquanto ela pensava. Mas estava cansado de correr e podia sentir que o garoto também estava cansado. Poderia ser melhor ver se podia reduzir um pouco do ritmo dela... ou talvez detê-la completamente. Se o caull atravessasse a planície sozinho, ele poderia ter uma chance de matá-lo. A bruxa levaria algum tempo para criar outra fera, ainda que se decidisse continuar, e poderia ser que não.

Talvez ele até mesmo tivesse uma chance com ela também, embora soubesse que o garoto não queria machucá-la, e não gostaria que isso acontecesse. Mesmo assim, talvez não tivesse escolha.

Ficou onde estava, pensando no assunto. Os minutos passaram. Nem o caull nem a bruxa apareceram. Ele ficou se perguntando se ela podia senti-lo assim como ele podia senti-la. Achava que não. Havia tomado precauções para se disfarçar, para parecer um só com as árvores, casca, madeira e seiva, folhas e brotos. Nenhuma parte de seu ser humano permanecia em seu disfarce atual. Ela não poderia detectar sua presença dessa maneira.

Então ela apareceu subitamente, caminhando até a margem das árvores do outro lado da planície e parando. O caull se materializou ao lado dela. Ela ficou olhando para a noite por um longo tempo, apenas uma forma vaga na escuridão cravejada de estrelas, apenas uma sombra na floresta. Depois de um momento, tornou a desaparecer, e o caull com ela, então reapareceu logo depois um pouco além da margem das árvores, ainda olhando para as planícies. O que ela estava fazendo? Ele ficou observando-a com cuidado, medindo seu progresso à medida que ela aparecia, desaparecia e reaparecia mais uma vez, diversas vezes. Parecia estar procurando por algo, talvez por um meio de atravessar. Mas por que estava se dando a esse trabalho? Por que ela havia se mostrado, por que simplesmente não atravessava e acabava com isso?

O tempo passava. Truls Rohk ficou cada vez mais desconfortável com o que estava vendo. Ela estava ali, mas não estava fazendo nada. Não havia sequer se incomodado em enviar o caull adiante para investigar o que a estava perturbando. Estava perdendo um tempo que não tinha de sobra. Aparecendo e desaparecendo, indo e vindo, era como um espectro que tivesse saído de...

Ele se interrompeu, levantando-se assustado do galho sobre o qual estava empoleirado, uma compreensão assustadora percorrendo seu corpo. Ela era um espectro. Um espectro feito de magia. Ele não a estava vendo de maneira alguma. Ainda que ela não conseguisse sentir sua presença, havia adivinhado. Havia farejado a possibilidade de uma armadilha e usava isso contra ele. Utilizara imagens para enganá-lo e fazê-lo acreditar que estava lá e passara por trás dele. Ela já havia passado por ele e estava a caminho do garoto.

Percebeu isso tão certamente quanto sabia que já era tarde demais para impedi-la.

Idiota! Seu idiota!

Desceu da árvore em um segundo e voltou correndo através da noite em direção a Bek.

 

Quando sua irmã saiu dentre as árvores, Bek ainda estava sentado no chão onde os mutantes o haviam deixado. Não entrou em pânico com a aparição dela e não tentou fugir. Sabia que ela viria. Assim os mutantes lhe disseram, e acreditou neles. Havia pensado em fugir dela, correndo mais para o fundo das montanhas, mas decidira o contrário. Não torne a fugir dela, eles haviam dito. Não sabia por quê, mas acreditava que eles estavam certos. Fugir não resolveria nada. Ele deveria ficar e enfrentá-la.

Levantou-se quando ela se aproximou, ficando calmo, estranhamente em paz consigo mesmo. Levava a espada de Shannara amarrada às cestas, mas não estendeu a mão para pegá-la. Armas não serviriam à sua causa, lutar não o ajudaria. Sua irmã, a bruxa Ilse, reagiria mal a ambas as coisas e ele precisava que ela desejasse mantê-lo em ação. Talvez fosse seu encontro com os mutantes que o tivesse deixado se sentir como se nenhuma coisa pudesse lhe acontecer nas montanhas. Qualquer mal que ela pudesse fazer a ele, teria de aguardar para fazer em outro lugar. Isso lhe daria tempo para achar uma maneira de fazê-la ver a verdade.

— Você não parece surpreso ao me ver — ela arriscou suavemente, movendo-se fluida dentro de seus mantos amarrados, seu rosto perdido na sombra sob o capuz. Seus olhos estavam sobre ele, inquiridores. — Você sabia que eu viria, não sabia?

— Eu sabia. Onde está Truls Rohk?

— O mutante? — Ela deu de ombros. — Ainda procurando por mim onde não posso ser encontrada. Ele virá tarde demais para ajudar você dessa vez.

— Não quero a ajuda dele. Isto é entre mim e você.

Ela parou a dez passos de distância e ele pôde sentir sua tensão.

— Está pronto para admitir para mim que mentiu sobre quem você é? Está disposto a me dizer por que o fez?

Ele balançou a cabeça.

— Não menti a respeito de nada. Eu sou Bek. Sou seu irmão. O que eu disse antes para você era verdade. Por que não consegue acreditar?

Ela ficou em silêncio por um momento.

— Acho que você acredita nisso — disse ela finalmente —, mas não torna isso verdade. Sei mais do que você. Sei como o druida trabalha. Sei que ele procura usar você contra mim, mesmo que você não perceba.

— Vamos dizer que isso seja verdade. Por que ele faria isso? O que ele poderia esperar ganhar?

Ela cruzou os braços dentro dos mantos.

— Você voltará comigo para a aeronave e irá esperar por mim lá enquanto eu o encontro e pergunto a ele. Você virá de livre e espontânea vontade. Não tentará escapar. Você não tentará me machucar de forma alguma. Não usará sua magia. Concordará com tudo isso agora. Você me dará sua palavra. Se o fizer, terá uma chance de salvar sua vida. Diga-me agora se fará o que estou mandando. Mas, esteja avisado, se mentir ou dissimular, eu saberei.

Ele pensou a respeito, em silêncio, ali parado no meio da noite, encarando-a sob o brilho do luar, e então assentiu.

— Eu farei o que você manda.

Ele a sentiu cantarolando baixinho, a magia dela estendendo-se nele, cercando-o e então invadindo-o, um pequeno formigamento de calor, sondando. Ele não interferiu, simplesmente esperou que ela terminasse.

Ela avançou e ficou bem na frente dele. Estendeu a mão e abaixou o capuz para que ele pudesse ver seu rosto forte, pálido, bonito. Grianne. Sua irmã. Não havia raiva nos olhos dela, não havia dureza de qualquer espécie. Havia curiosidade. Ela estendeu a mão e tocou a face dele, fechando os olhos por um momento ao fazer isso. Uma vez mais, ele sentiu ainda o uso da magia da canção do desejo. Uma vez mais, ele não interferiu.

Quando ela tornou a abrir os olhos, assentiu.

— Muito bem. Podemos partir agora.

— Você quer minhas armas? — Ele perguntou rapidamente a ela.

— Suas armas? — Ela parecia atordoada com a pergunta. Olhou para a espada e a faca longa. — Armas não são de utilidade para mim. Deixe-as para trás.

Ele jogou de lado a faca longa, mas conservou a espada de Shannara no lugar.

— Não posso deixar a espada. Não é minha. Ela me foi dada em confiança e prometi que cuidaria dela. Pertence a Walker.

Ela olhou para ele com rigidez.

— Ao druida?

Ele estava se arriscando muito contando isso para ela, mas pensou com muito cuidado e o risco era necessário.

— Ela é um talismã. Talvez você a conheça. Ela se chama espada de Shannara.

Ela se aproximou ainda mais, seu rosto apenas a centímetros do seu, os olhos azuis impressionantes e penetrantes.

— O que está dizendo? Entregue-a para mim!

Ele o fez, entregando-a obediente. Ela tomou-a dele, recuou novamente e examinou-a com dúvida.

— Esta é a espada de Shannara? Tem certeza? Por que ele a daria para você?

— É uma longa história. Quer ouvi-la?

— Você me conta no caminho. — Ela devolveu o talismã. — Você carrega o peso dela enquanto viajamos. Só não deixe que eu a veja em suas mãos novamente.

— Pode ficar com ela se quiser.

O rosto pálido dela revelou um quê de diversão.

— Não preciso que me diga isso. Posso tirá-la de você a hora que quiser. Lembre-se bem disso.

Ela recomeçou a andar, sem se incomodar em olhar para trás para ver se ele a acompanhava. Ele hesitou por um momento, então começou a ir atrás dela.

— E quanto a Truls Rohk?

Ela olhou rapidamente para trás, e a forte determinação estampada em seu rosto de modo tão claro no primeiro encontro que tiveram havia retornado.

— Ao retornar, ele descobrirá que você se foi, mas não acho que irá fazer algo a respeito.

Não explicou mais nada. Bek sabia que, mesmo que lhe perguntasse algo, ela não o faria. Com um olhar apreensivo para a clareira deserta, ele a acompanhou dentro da noite.

 

Truls Rohk voou pela escuridão, uma sombra silenciosa desviando-se de árvores e saltando sobre buracos e ravinas. Era impulsionado pelo medo que sentia pelo garoto e pela raiva que sentia de si mesmo. Fora imperdoavelmente descuidado e Bek Ohmsford pagaria o preço por isso se não o alcançasse a tempo.

Ao seu redor, a floresta era uma cortina silenciosa atrás da qual olhos observavam e aguardavam.

Ele subiu a encosta da montanha sem parar, alerta para a presença da bruxa Ilse, não sentindo nenhum dos dois, mas sabendo que deveriam estar próximos. Tentou calcular o quanto poderiam estar à frente dele, mas isso era impossível. Na melhor das hipóteses, podia apenas arriscar uma suposição. Perdera a noção do tempo enquanto montava guarda em seu galho, enquanto era enganado por aqueles espectros induzidos pela magia. Sabia que tinha de imaginar o pior, que ela já havia alcançado o garoto, que fizera dele seu prisioneiro, que caberia ao mutante libertá-lo novamente.

Quando chegou ao lugar dentro das árvores onde havia deixado o garoto, a clareira estava vazia, Bek havia desaparecido e o cheiro da bruxa estava em todo o lugar. O silêncio cobriu o espaço aberto quando ele entrou, ainda cauteloso, observando qualquer armadilha que ela pudesse ter deixado. Estava começando a chover, as gotas caindo em um padrão suave na terra seca iluminada pela lua, manchando-a com a cor da sombras.

A faca longa do garoto jazia ao lado, descartada. Foi até lá e ajoelhou-se para apanhá-la. Ao fazer isso, o caull saiu sorrateiro das sombras da floresta atrás dele. Insidioso e poderoso, as mandíbulas maciças escancaradas, atacou a cabeça de Truls Rohk.

 

Um grupo dos rindges levou Quentin Leah e seus companheiros das ruínas de Castledown de volta ao seu vilarejo. A maioria ficou para terminar de montar armadilhas para os misteriosos wronks, mas aquele que tinha falado com Panax, juntamente com diversos de seus companheiros, separaram-se do grupo principal para servirem de escolta. Embora os rindges não tivessem feito menção disso, a condição ensangüentada, esfarrapada e desgastada de seus visitantes tornava óbvio que eles precisavam de comida, descanso e tratamento médico. Quentin e companhia, embora relutantes em interromper sua procura pelos desaparecidos, perceberam que não estavam em condições de continuar se quisessem ser eficientes na busca. Primeiro precisariam comer, cuidar de suas feridas adequadamente e dormir em um lugar seguro. Além do mais, os rindges poderiam ajudá-los dizendo como e onde direcionar seus esforços quando voltassem a procurar por eles.

Assim, fizeram a viagem de três horas pela floresta até a aldeia dos rindges e chegaram lá por volta do meio-dia. Em sua jornada, ficaram sabendo mais sobre a terra para a qual haviam viajado. O rindge que falava era chamado de Obatedequist Parsenon, ou alguma coisa que soava parecido com isso, segundo Panax. Como o anão não tinha certeza, o nome estranho foi rapidamente reduzido para apenas Obat. Obat era subchefe na hierarquia da aldeia, filho de um antigo chefe. Era evidente, pela deferência dada a ele pelos outros rindges, que ele era um membro respeitado da comunidade. Obat disse a eles que a terra de seu povo era chamada de Parkasia e que eles estavam ali havia dois mil anos, desde o início dos tempos. Ele não falou das Grandes Guerras, mas parecia datar tudo a partir dali, como se nada tivesse existido antes do surgimento de seu povo em Parkasia. Era difícil ter certeza, mas para Panax parecia que Parkasia era uma península ligada a um corpo muito maior de terra a noroeste, onde tribos diferentes dos rindges fizeram o seu lar.

Havia várias tribos de rindges vivendo em Parkasia, explicou Obat, umas de caçadores, outras de fazendeiros. Eram um povo auto-suficiente e faziam um pouco de comércio. Ocasionalmente surgiam guerras entre eles, mas seu maior inimigo comum era a coisa que vivia nas ruínas de Castledown. Antrax, Obat a chamava, mas não conseguia encontrar uma maneira de explicar o que era. Explicou que era um espírito, mas comandava os rastejadores e os fios de fogo, coisas estranhas que pareciam nada ter a ver com espíritos. Antrax defendia Castledown contra todos os intrusos, e fazia isso há tanto tempo quanto qualquer pessoa conseguia se lembrar. Mas também atacava os vilarejos dos rindges de vez em quando e raptava pessoas. Aqueles que eram levados jamais eram vistos novamente. Eram sacrificados para satisfazer a fome de Antrax, seus corpos desmembrados e seus espíritos escravizados para que jamais pudessem morrer ou repousar.

Era a mesma história que a companhia ouvira antes e não fazia mais sentido agora do que antes; mortos eram mortos, e almas não eram escravizadas assim que o corpo morria. Mas Obat insistia nisso, muito embora não conseguisse oferecer explicação para a forma pela qual Antrax pegava os rindges e os tratava, para o que precisava deles, ou por que se incomodaria com humanos quando possuía comando sobre uma tecnologia tão formidável. Toda vez que o nome Antrax era pronunciado, os rindges mostravam sinais de desconforto, olhando desconfiados para todas as direções, fazendo gestos de proteção, mesmo quando estavam a muitas horas de distância das ruínas.

Ainda imerso em seu desconforto por deixar Bek, Quentin Leah ouvia tudo isso meio que pela metade. Exausto e machucado devido à luta contra os rastejadores, sabia que estava em pé por pura força de vontade. Mas ficava doente ao pensar em abandonar a busca pelo primo, não conseguindo parar de pensar a respeito. Prometeram que cuidariam um do outro. Bek jamais quebraria essa promessa, não importa o que acontecesse, a menos que não pudesse cumpri-la. Não importava que Quentin não tivesse idéia de onde procurar por seu primo além das ruínas, e procurar qualquer um nas ruínas era suicídio. Não importava o quanto estava cansado. Tudo o que sabia era que estava se afastando de Bek em um momento em que o primo poderia mais precisar dele.

Obat estava falando novamente de Antrax, dizendo que muitas das tribos rindges acreditavam que Antrax havia criado os humanos no começo dos tempos e pegava alguns de volta agora porque estava insatisfeito com seu comportamento. Antrax era um deus e devia ser adorado e respeitado ou resultaria em um desastre. Então faziam peregrinações, levando presentes para as ruínas várias vezes por ano. Às vezes, levavam humanos como sacrifício para os wronks que foram um dia seus parentes. Não faziam essas coisas no vilarejo de Obat, mas isso era porque os rindges dali acreditavam nas velhas histórias que diziam que os humanos foram criados da terra e receberam vida muito antes que Antrax os tivesse descoberto. No vilarejo de Obat, acreditavam que Antrax era um demônio.

Quentin absorveu tudo isso e se consolou quanto a Bek, deduzindo que seu primo, com sua magia recém-descoberta, estava provavelmente mais bem equipado do que ele para afastar demônios, rastejadores ou qualquer outra coisa. O fato de que Bek tivesse qualquer espécie de magia ainda o espantava, mas fazia sentido à luz do que ambos haviam deduzido sobre a decisão de Walker em levá-los junto. Isso explicava por que haviam sido escolhidos quando tantos outros podiam ser levados no lugar deles. Mas deixava o montanhês ponderando novamente a origem de seu primo e a razão pela qual ela havia sido mantida em segredo por tanto tempo. Fazia com que ele se perguntasse o quanto Coran e Liria sabiam e andaram escondendo.

Chegaram ao vilarejo dos rindges ao meio-dia, com os pés novamente feridos e quase incapazes de continuar caminhando. O vilarejo se espalhava através de uma série de clareiras conectadas em uma área de floresta protegida por sopés de colinas que levavam para o oeste em uma espinha dorsal de montanhas. O vilarejo era formado em grande parte por cabanas e pavilhões a céu aberto, construídos com madeira e cascas de árvore, com cobertores e telas de juncos utilizados como divisórias para aposentos. As pessoas saíram a fim de olhá-los: homens, mulheres e crianças, todos de cabelos vermelhos e os corpos como se fossem cobertos de henna; os mais jovens eram mais escuros do que os mais velhos.

Nenhuma paliçada ou fosso protegia o vilarejo, e quando perguntaram a respeito, Obat respondeu que não havia por quê; os wronks e os rastejadores podiam atravessar essas defesas de qualquer maneira. Quando acontecia um ataque, os rindges simplesmente fugiam para as colinas até que fosse seguro retornar. Um bom sistema de postos avançados os mantinha a salvo a maior parte do tempo. As defesas que faziam alguma diferença eram as armadilhas que eles preparavam nas florestas, poços camuflados com pedras afiadas no fundo. Os rastejadores e wronks freqüentemente caíam dentro deles e, se fossem danificados ou se não tivessem mobilidade suficiente, não conseguiam subir à superfície. Se os predadores metálicos fossem encontrados e os poços preenchidos com rapidez suficiente, eles não poderiam mais ouvir os comandos de Antrax e, portanto, permaneciam ali.

Fetiches amarrados em postes cercavam a aldeia, protetores dos rindges contra as coisas que procuravam caçá-los. Quentin olhou no fundo dos olhos das crianças que o observavam e ficou se perguntando quantos dos fetiches os salvariam de ataques e outros perigos.

Os cinco convidados foram levados até uma área afastada para se banharem em grandes banheiras de água aquecida, e em seguida foram visitados por curandeiros que trataram de suas feridas. Depois, foram levados até um pavilhão, sentaram-se sobre colchões e receberam comida. Os rindges eram primitivos, mas sua vida parecia bem ordenada e razoável. Quentin também os achou inteligentes, não só pela sua fala, que tinha um tom musical, mas pela expressão em seus olhos e pelo aspecto de suas casas. Tudo era simples, mas todas as necessidades pareciam ser bem atendidas.

Após um período inicial de congregação para cuidar de seus visitantes, os rindges voltaram ao trabalho. Todos pareciam ter uma tarefa, até mesmo as crianças, embora os mais novos, em sua maioria, brincassem agarrados às mães. As coisas aqui não são tão diferentes das Highlands, pensou Quentin.

Então dormiram, e embora Quentin tivesse prometido a si mesmo que não descansaria por mais de duas horas, só acordou ao amanhecer. Panax já estava em pé, conversando com Obat, e foram as vozes deles, suaves e distantes, que acordaram Quentin. Ele olhou ao redor e descobriu, para seu desconsolo, que os elfos já haviam se levantado também. Lavando as mãos e o rosto na bacia de água, amarrou a espada de Leah às costas e saiu para ver o que estava acontecendo.

Encontrou Panax e os elfos com Obat e vários outros rindges, sentados em um círculo de esteiras, conversando. Quando se aproximou, viu que vários desenhos haviam sido feitos na terra à frente deles. A conversa entre Panax e Obat estava tão intensa que o anão nem sequer olhou para Quentin, mas Tamis percebeu sua presença e fez um gesto para que se aproximasse.

— Bom ver você de volta ao mundo dos vivos — disse ela secamente. Seu rosto redondo estava recém-lavado, a pele avermelhada embaixo do bronzeado. — Você ronca como um touro no cio quando dorme.

Ele levantou uma sobrancelha em resposta.

— Você passa muito tempo com touros no cio, não é?

— Um pouco. — Ela passou a mão nos cabelos curtos. — O que você diria se eu lhe contasse que Obat conhece outro caminho para entrar em Castledown?

Quentin piscou surpreso.

— Eu diria: quando partimos?

 

Não houve hesitação da parte de ninguém quanto a partirem. Repousados e alimentados, seus espíritos renovados, as bordas de suas memórias suficientemente abrandadas para que a cautela pudesse substituir o medo, estavam ansiosos para retornar. Todos procuravam respostas quanto ao que acontecera aos seus amigos, e não poderia haver paz de espírito até que essas respostas fossem encontradas. Cada um deles, sem dizer isso aos outros, acreditava que ainda houvesse algo a ser realizado em Castledown.

Sua atitude foi reforçada em grande parte pelo fato de que os rindges haviam concordado em guiá-los. Sem contar os rastejadores e os fios de fogo, se houvesse outro caminho para penetrar nas camadas abaixo das ruínas, eles estavam ansiosos para explorá-lo. Ard Patrinell, Ahren Elessedil e um punhado de outros elfos ainda estavam desaparecidos. Walker ainda não fora encontrado. Bek havia desaparecido juntamente com Ryer Ord Star. Alguns deles, talvez todos, ainda estavam vivos e precisando de ajuda. Quentin e seus companheiros não iriam fazê-los esperar por essa ajuda.

Comeram uma refeição rápida, apanharam as armas e partiram. Obat levou sua escolta rindge, mais de vinte homens fortes. A maioria dos rindges levava zarabatanas de dois metros, além de facas e lanças longas, mas um número substancial levava lanças curtas e poderosas com pontas estreladas afiadas que podiam penetrar até mesmo no metal dos rastejadores. Usavam-nas como pés-de-cabra, explicou Obat quando Panax perguntou a respeito. Eles enfiavam as pontas em juntas e fendas das carapaças de metal dos rastejadores e torciam-nas até que algo cedesse. Os números normalmente davam aos rindges a vantagem nesses encontros. Os rastejadores, ele disse solene, não eram invencíveis.

Olhar os rindges trabalhando era instrutivo. Era um povo tribal, mas seus lutadores pareciam ser bem treinados e disciplinados. Lutavam em grupos, divididos pelo tipo de armamento. As fileiras da frente usavam as lanças pesadas, as de trás as zarabatanas e lanças longas. Mesmo durante a viagem, mantinham a ordem de batalha intacta, dividindo os homens em grupos menores, batedores patrulhando na frente e atrás, e lanceiros defendendo as laterais da marcha. Os estrangeiros, não testados em combate, foram colocados no meio, cercados por seus protetores.

Quentin percebeu a maneira pela qual os rindges giravam para dentro e para fora de sua formação solta enquanto viajavam, mudando para ali e para acolá em resposta às ordens de combate, os corpos queimados brilhando com óleo e suor. Ninguém na pequena companhia pensava em questionar suas táticas. Os rindges haviam vivido naquela terra e lidavam com as criaturas de Antrax há centenas de anos; sabiam o que estavam fazendo.

Depois de algum tempo, Panax atrasou o passo para caminhar com Quentin, deixando os elfos caminharem à frente deles alguns passos. Fizera isso deliberadamente, e o montanhas deixou que ele escolhesse seu próprio ritmo.

— Os rindges acreditam que Antrax controla o clima — disse o anão, mantendo a cabeça e a voz baixas.

Quentin olhou para ele surpreso.

— Isso não é possível. Ninguém pode controlar o clima.

— Eles dizem que Antrax pode. Dizem que é por isso que o clima em sua região da Parkasia nunca muda como em todos os outros lugares. Ele diz que sabe das geleiras e dos campos de gelo na costa. Diz que neva no interior da ilha, mais para noroeste, no outro lado das montanhas. Lá existe o passar das estações, mas aqui não.

Quentin deslocou o peso da espada de Leah nas suas costas.

— Walker disse para Bek alguma coisa sobre o clima ser estranho. Acho que isso deve ser uma combinação de correntes de vento e de geografia, uma anomalia. — Balançou a cabeça. — Talvez Antrax seja um deus, afinal.

O anão grunhiu.

— Um deus cruel, segundo os rindges. Ele os caça sem razão compreensível. Ele os utiliza como alimento e depois os joga fora, com exceção de algumas partes. Fico me perguntando no que foi que nos metemos.

— Eu fico me perguntando o quanto disso Walker sabia e guardou para si mesmo — replicou Quentin suavemente.

Panax assentiu.

— Truls diria a você que Walker sabia tudo porque os druidas têm como ponto de honra descobrir coisas e depois escondê-las. Não tenho tanta certeza. Caminhamos direto para aquela armadilha há três dias, e o druida pareceu tão surpreso quanto qualquer um de nós.

Caminharam em silêncio, passando pela calma do meio-dia e pelo calor, seguindo ao longo de uma trilha bem marcada que os levou por entre florestas antigas, os galhos formando um teto tão denso acima de suas cabeças que a luz só conseguia penetrar em fios finos e faixas estreitas. Acima, pássaros voavam, cantando animados, esquilos e outros roedores corriam. O sol viajava lentamente para oeste, atravessando um céu sem nuvens, e o ar tinha cheiro de folhas verdes e terra seca.

Então Tamis atrasou o passo para caminhar com eles.

— Estive pensando — disse ela baixinho. — Tem alguma coisa errada nisso tudo.

Ambos olharam para ela.

— Como assim? — perguntou Panax, olhando ao redor como se pudesse encontrar a resposta oculta no verde da floresta.

Tamis olhou de um lado para outro.

— Façam a si mesmos a seguinte pergunta: por que os rindges estão sendo tão solícitos? Pela gentileza dos corações deles? Por um senso de obrigação em ajudar estranhos de outras terras? Por compaixão por nossa pobre miséria ao perder nossos amigos e nos encontrarmos perdidos?

— Não, é impossível — replicou Quentin, com um pouco de irritação na voz.

Ela o fuzilou com o olhar.

— Não seja estúpido! Ajudando-nos, os rindges estão arriscando suas vidas e uma possível retaliação de Antrax, seja ela qual for. Não fariam isso, a menos que houvesse algo a ganhar, algo que os beneficiasse.

Panax fez uma careta, tão aborrecido quanto Quentin ao ouvir essa acusação.

— E o que seria isso, Tamis?

— Estive pensando — disse ela, mantendo a voz baixa, de olho nos rindges. — Você lhes disse que viemos em busca de um tesouro, e eles sabem que entramos nas ruínas deliberadamente para encontrá-lo. Devem supor que sabemos algo sobre aquilo no qual estávamos nos metendo antes de tentarmos... por mais mal orientada que essa suposição pudesse ser. Pelo menos isso sugere a eles que temos meios de lidar com Antrax. Agora pensem. Eles não disseram, mas e se estavam nos observando desde a primeira vez que chegamos e sabem a respeito da espada de Quentin e dos poderes druídicos de Walker? Há centenas de anos eles procuram um meio de se livrarem de Antrax, e agora, finalmente, podem ter encontrado um. Nós. E se estiverem nos usando como arma?

— Para destruir Antrax — terminou Quentin. — Então estão nos levando direto a ele e nos soltando lá, esperando pelo melhor. Não vão ficar e lutar ao nosso lado se as coisas chegarem a esse ponto. Eles fugirão.

Ela deu de ombros.

— Não sei o que eles vão fazer. Só acho que é melhor ficarmos atentos. Eles têm de se perguntar a nosso respeito, de onde viemos e o que pretendemos fazer quando isso tiver acabado. Talvez estejam pensando que o melhor que possa acontecer é que Antrax e nós nos destruíssemos um ao outro e deixássemos os rindges em paz. Devem ter pensado nisso. Não querem trocar uma forma de tirania por outra. Eles sabem que existe essa possibilidade, e nada que dissermos irá convencê-los do contrário.

— Obat não parece ser assim. — Quentin arriscou depois de um momento.

Tamis olhou para ele com desdém.

— Você não vive no mundo há tanto tempo quanto eu, Quentin Leah. Não viu tantas coisas. O que acha, Panax?

O anão olhou para Quentin, suas feições carrancudas decididas.

— Ela tem razão. É melhor estarmos prontos para qualquer coisa.

— Kian e Wye já conhecem meu pensamento — disse ela, continuando a caminhar para a frente. Olhou de volta para Quentin. — Espero estar errada, montanhês. Espero mesmo.

Marcharam em silêncio pelo restante da jornada. Quentin chafurdava na angústia de pensar em ser traído mais uma vez. Sabia que Tamis tinha razão a respeito dos rindges, mas não conseguia pensar no que isso poderia significar. Desejava que Bek estivesse ali para dar sua opinião. Bek veria as coisas com mais clareza. Seria mais rápido para desencavar a verdade. Os rindges não pareciam antagonistas, mas estavam em guerra contra Antrax desde o começo de sua existência, portanto sabiam alguma coisa sobre sobrevivência. Não haviam tentado ferir seus visitantes, mas Tamis poderia ter razão a respeito de eles terem observado a companhia lutar para sair do labirinto. Era possível que estivessem simplesmente esperando para ver o que aconteceria quando Antrax e os estrangeiros se encontrassem face a face.

Quanto mais Quentin pensava a respeito, mais desconfortável se sentia. A única arma verdadeira que tinham era sua espada. Ela poderia ser o suficiente para fazê-los passar, mas não sabia ao certo. Se Walker havia sido derrotado por Antrax, que chance tinha ele? Ficou se perguntando se Bek também havia enfrentado Antrax, e se, tendo descoberto sua própria forma de magia, a teria utilizado. Se isso havia acontecido, teria tido sucesso? Se sua magia era poderosa o bastante para dispersar os rastejadores, como Tamis havia relatado, será que ela podia derrubar Antrax? Não gostava de pensar em Bek enfrentando Antrax sozinho. Não gostava sequer de considerar a possibilidade. Não deveria acontecer dessa maneira, Bek sozinho. Nem com ele mesmo, por falar nisso. Deveriam os dois estar juntos do jeito que haviam planejado, cuidando um do outro. Ficou imaginando se havia alguma chance de que isso ainda pudesse acontecer e se poderia acontecer a tempo de fazer diferença.

A tarde ainda estava no início quando alcançaram os limites de Casdedown e pararam por tempo suficiente para que os rindges vasculhassem o território adiante à procura de rastejadores. Enquanto aguardavam, Quentin sentou-se com Panax e ficou olhando o calor do meio-dia se desprendendo em ondas visíveis do metal da cidade devastada. Na vastidão plana e vazia, nada se movia. Não havia sinal do labirinto mais além de onde estavam sentados, e nada para mostrar que qualquer um havia passado um dia por aquele caminho. Panax bebeu de uma bolsa de água e ofereceu-a a Quentin.

— Preocupado com Bek? — ele perguntou, limpando a boca.

Quentin assentiu.

— Não consigo parar de me preocupar com ele. Não gosto de pensar nele lá fora sozinho.

O anão assentiu e ficou olhando ao longe.

— Mas talvez seja melhor assim.

Os batedores rindges retornaram. Não havia rastejadores visíveis ao longo do perímetro da cidade. Obat fez um gesto para que todos avançassem e passaram por entre as árvores, ficando logo no começo da linha da floresta enquanto acompanhavam a margem das ruínas para sudoeste. Ninguém falou enquanto vasculhavam a cidade, movendo-se com passos lentos e cuidadosos. Os prédios olhavam de volta para eles, os buracos escancarados de janelas e portas como se fossem olhos e bocas vazios. Castledown era um túmulo para homens e máquinas mortos, um cemitério para os descuidados. Quentin levava a espada de Leah desembainhada, carregando-a à sua frente, sentindo um ligeiro formigamento de magia aprisionada aguardando para ser invocada. Sua pulsação latejava nas têmporas e ele ouvia o som de sua respiração na garganta.

Obat os levou até uma entrada gradeada na lateral de um prédio que se abria a várias centenas de metros em ambas as direções. Colocando um rindge em cada ponta e cuidadosamente atrás de onde estava, trabalhou com um punhado de outros para libertar a grade de suas trancas e abri-la em suas dobradiças enferrujadas. O esforço produziu uma série de gemidos que a graxa velha e o peso do metal não conseguiram calar.

Obat apontou para a abertura escura e falou para Panax em voz abafada.

— Obat diz que isto leva até onde Antrax vive — traduziu o anão. — Ele diz que assim é que ele respira dentro da terra.

— Um poço de ventilação — disse Quentin.

— Pergunte a ele como sabe que Antrax está lá embaixo — Tamis exigiu saber.

Panax assim o fez, escutou a resposta de Obat e balançou a cabeça.

— Ele diz que sabe disso porque é daqui que ele vê os rastejadores saírem para caçar.

Tamis olhou para Quentin.

— O que acha, montanhês? E você quem está com a espada.

Quentin encarou a escuridão do poço e pensou que era o último lugar para onde ele gostaria de ir. Conseguia distinguir algumas luzes mais para dentro, brilhos fracos na escuridão, o suficiente apenas para que não ficassem como cegos. Mas ele não queria ficar aprisionado no subterrâneo, embaixo de toda aquela pedra e metal sem um mapa para orientá-los e sem saber por onde procurar.

— Isto pode ser perda de tempo — sugeriu Panax.

Quentin assentiu.

— Por outro lado, o que mais temos para fazer? Onde mais procuraríamos pelos outros senão aqui? — Sua mão apertou ainda mais a espada. — Já chegamos até aqui. Deveríamos pelo menos dar uma olhada.

Tamis deu um passo adiante para olhar mais de perto a escuridão.

— Uma olhada deverá ser mais do que suficiente. Os rindges vêm conosco?

Panax balançou a cabeça.

— Já me disseram que não entrarão nas ruínas, nem na superfície nem no subterrâneo. Estão apavorados com Antrax. Irão nos aguardar aqui.

— Não importa. Não precisamos deles. — Olhou para Quentin, atrás dela. — Pronto, montanhês?

Quentin assentiu.

— Pronto.

Entraram num grupo fechado, Tamis liderando, tateando cuidadosamente o caminho. Os olhos de todos se ajustaram rapidamente à escuridão. As paredes, o piso e o teto do poço de ventilação eram lisos e sem obstáculos. Caminharam por várias centenas de metros, sem mudar de direção, presos ao silêncio e ao cheiro levemente metálico do corredor, a abertura através da qual haviam entrado encolhendo atrás deles até se transformar num pontinho de luz. Então o poço começou a descer inclinado e, em seguida, passou a dividir-se em dois. A companhia fez uma pausa, e então virou para seguir pela passagem maior, descendo mais, passando por incontáveis dutos menores que, como tocas de cobras, atravessavam as paredes e o teto. Adiante, ainda tão distante no começo que era muito difícil discernir, puderam ouvir o som do maquinário, um ronronar suave, um zumbido gentil, um lembrete da vida antiga e permanente.

Lâmpadas sem chamas presas nas paredes, com suas luzes amareladas, firmes e constantes, estavam dispostas em intervalos regulares. Estranhos olhos de peixe olhavam para Quentin do teto, afastados das luzes, minúsculos pontos vermelhos piscando constantemente nos seus centros. Pareciam estar olhando para ele. Era ridículo pensar isso, mas não conseguia afastar essa sensação. Olhou para Panax e Tamis para ver se eles também estavam vendo, mas os olhos deles estavam direcionados adiante, para dentro do corredor que estavam seguindo.

Quentin percebeu-se olhando ao redor, surpreso. Jamais vira coisa parecida. Tantas folhas de metal agrupadas juntas em camadas, metros e metros delas, aferrolhadas e seladas para resistir às intempéries, aos animais e às plantas, um túnel cavado pelos homens dentro da terra. Como aquilo fora feito? Tentou imaginar a cultura, as máquinas e a habilidade que foram necessárias, mas fracassou. O Antigo Mundo havia sido um lugar muito diferente, ele sabia, mas isso jamais lhe fora aparente de modo tão drástico quanto no poço de ventilação.

Presos por suportes, canos de metal começaram a aparecer em linhas conectadas ao longo das paredes da passagem. Quentin não conseguiu entender o objetivo deles. Tudo lhe parecia estranho e estrangeiro, todas as superfícies metálicas, todo aquele espaço vazio. Se Antrax vivia ali embaixo, tinha espaço para se mover: isso era claro. Mas que espécie de criatura escolheria viver naquele lugar? Somente outra máquina, outro rastejador feito de metal, pensou Quentin. Talvez Antrax fosse uma máquina semelhante aos rastejadores que comandava, só que ainda mais poderosa.

Subitamente, Tamis ficou paralisada. Levantou a mão em sinal de alerta. Os quatro homens pararam no mesmo instante. Todos ficaram escutando. Adiante, o corredor terminava em um nó do qual uma série de corredores semelhantes se abriam em leque como aros de uma roda. Dentro de um daqueles corredores, podiam ouvir passos. Os passos eram pesados, lentos e deliberados, como se fossem feitos por algo que carregasse um grande peso.

Quentin nunca tinha ouvido passos como aqueles. Eram de algo que caminhava sobre duas pernas, mas não soava como nada que já tivesse encontrado. Olhou de relance para os outros. Tamis estava alerta como um gato. Panax continuava em pé, sua expressão era impossível de decifrar. Havia uma película de suor nas faces dos elfos caçadores, Kian e Wye. Quentin não conseguia respirar. Ninguém pareceu capaz de se mover.

Então Tamis começou a andar, arrastando-se pelo corredor na direção do nó mergulhado em sombras. Por uma vez ela olhou em direção a Quentin, seu rosto duro e sério e os olhos cinzentos brilhantes e intensos. Não me abandone, ela estava dizendo. Sem sequer olhar para os outros, ele foi atrás dela e ficou ao seu lado. Atrás dele, o anão e os elfos caçadores avançaram. O som dos passos estava cada vez mais alto. Quem ou o que quer que fosse não estava fazendo nenhum esforço para disfarçar a aproximação. Era grande e confiante. Não era ninguém que ele e seus companheiros tivessem vindo procurar, Quentin pensou tristemente.

A dez metros do nó, com as entradas visíveis de todos os túneis que faziam a interseção, eles reduziram o passo quando a luz lançou uma sombra do túnel logo à esquerda de onde estavam agachados, escondidos. Então uma figura alta e corpulenta saiu da penumbra e entrou no raio de alcance da luz de dez lâmpadas dispostas ao redor do nó.

Quentin parou de respirar subitamente quando a figura foi revelada. Ouviu o espanto dos outros. Até mesmo Tamis, que parecia não ter medo de nada, deu um passo para trás, em choque.

Como uma sombra, um demônio, ou talvez ambos, porém mais como um monstro vindo de um pesadelo e invadindo o mundo real, a coisa — pois não havia outro nome para ela — se virou para encará-los.

Era Ard Patrinell.

Ou o que restara dele.

 

Ao se preocupar com que espécie de desastre poderia ter acontecido com seus amigos desaparecidos, Quentin Leah havia pensado em algumas possibilidades horríveis e assustadoras, mas nada da espécie que ele estava confrontando ali. A criatura que estava à frente deles, a coisa que um dia fora Ard Patrinell, estava além da imaginação. Ela havia sido montada de carne e osso por um lado e de metal por outro. Havia maquinaria dentro dela; o montanhês podia ouvi-la zumbindo suave e constantemente em algum lugar dentro do torso de metal ao qual as outras partes estavam ligadas. As pernas e o braço esquerdo também eram de metal, todos os três compostos de estruturas com dobradiças nos joelhos, cotovelo, mão e pés, e ligada por juntas esféricas enfiadas em soquetes cercados por cabos que subiam e desciam pela criatura como veias e artérias em um corpo humano.

O que restava do velho Ard Patrinell formava o braço direito e a face. Ambos estavam intactos, e os traços distintivos do capitão da guarda real foram imediatamente reconhecidos. Sua cabeça, coberta por metal, estava enfiada em um colarinho alto. Era impossível dizer se sua cabeça ainda estava ligada a alguma parte de seu corpo, embora mesmo a certa distância e com a luz fraca do poço de ventilação Quentin pudesse ver a cor nos traços fortes e movimento nos olhos escuros. Mas não havia dúvida quanto à conexão do braço direito, cuja carne e osso estavam recobertos e cabeados de metal no ombro e ligados da mesma forma que os outros membros por uma bola e um soquete metálicos.

Luzes vermelhas e verdes piscavam como minúsculos olhos de vidro por todo o torso reluzente da criatura, e números dispostos em janelas clicavam e giravam, contando funções que Quentin só podia imaginar. Almofadas acolchoavam as peças do esqueleto de metal dos pés, e quando a criatura caminhava fazia ruídos abafados e não clangores como de outro modo certamente faria. A mão direita humana segurava com força uma espada larga, pronta para atacar. A mão esquerda metálica segurava uma faca longa e estava presa e protegida por um escudo oval que ia do pulso ao cotovelo.

Quando os viu — e realmente viu, puderam dizer pelo movimento dos olhos e pelo deslocamento do corpo —, partiu para eles na hora, armas levantadas para o ataque.

Por apenas um instante os membros da pequena companhia permaneceram onde estavam, mais por incapacidade de reagir do que por coragem. Então Tamis gritou:

— Não! Saiam daqui!

Começaram a recuar, no começo devagar, em seguida mais rápido, à medida que o monstro avançava. Ele era pesado, mas seus movimentos eram suaves e sem esforço, como se parte da agilidade de Ard Patrinell tivesse sido capturada em sua nova forma. Finalmente, os elfos, o anão e o montanhês começaram a correr, impelidos pelo medo e pelo horror, e por algo mais também. Não queriam encarar uma coisa que era feita de pedaços de alguém que haviam conhecido e admirado. Ard Patrinell fora amigo deles, e não queriam lutar com sua sombra.

Mas o que eles podiam ter desejado não contava. Recuaram pelo corredor da maneira como haviam entrado, gritando incentivos uns para os outros, Tamis gritando para que voltassem para fora, onde tinham mais espaço para manobrar. E onde os rindges poderiam lhes dar auxílio, Quentin pensou sem dizer. Kian e Wye, endurecidos e bem condicionados, rapidamente se distanciaram dos outros três. Tamis ficou deliberadamente para trás, com intenção de defender Panax, que obviamente se esforçava. Quentin podia ter alcançado os elfos velozes, mas o anão era atarracado, lento e sua compleição não fora feita para a velocidade. Estavam avançando pouco e o incansável monstro metálico que os perseguia estava se aproximando deles.

Na primeira divisão da passagem, Quentin virou-se para seu perseguidor, gritando para que os outros continuassem. Mantendo-se firme no centro do corredor, a espada de Leah levantada à sua frente, ele confrontou a coisa que havia sido Ard Patrinell. Ela se aproximou dele sem reduzir a velocidade, todo tamanho e peso, peças metálicas reluzindo sob as lâmpadas sem chamas. Por um instante Quentin pensou que era um homem morto, que havia julgado errado o que podia realizar sozinho e que era totalmente inadequado para aquela tarefa. Mas então a magia retornou em chamas, subindo e descendo da lâmina de seu talismã, e ele estava gritando:

— Leah! Leah!

Jogou-se para seu atacante, em um embate chocante de lâminas metálicas, e o impacto da colisão quase o derrubou. Forçado para trás por um tamanho e um peso superiores, manteve sua lâmina entre eles, lutando para encontrar apoio no chão liso de metal. Agarrou o braço metálico do outro para manter afastada a faca longa, mas rapidamente descobriu que não tinha força para fazer nada além de reduzir o avanço do perseguidor. Libertando-se com um safanão, ele rodopiou para longe, a corrente da magia da espada o invadindo como um rio transbordante, dura e impiedosa em sua passagem. Todos os pensamentos que não se relacionassem com sua própria defesa fugiram, e então ele voltou-se subitamente, desferindo um golpe que visava arrancar a cabeça de Ard Patrinell. Para seu espanto, o golpe falhou. Parcialmente rechaçado pela espada do outro, seu movimento foi detido completamente por algum escudo invisível que protegia a cabeça coberta por metal.

Quentin recuou uma segunda vez, e então Tamis estava ao seu lado, gritando para Panax correr. Juntos, lutaram para manter o monstro de metal afastado, atacando de dois lados, batendo em tudo que parecesse vulnerável, que pudesse quebrar ou estilhaçar, para reduzir sua velocidade. Isso era tudo o que eles precisavam, Quentin pensava sem parar — apenas uma pequena falha para aleijá-lo e deixá-los fugirem.

Então a criatura aparou um golpe de sua lâmina e se meteu entre Quentin e a garota elfa. Com lâminas nas mãos a criatura avançou em direção a Quentin, tentando pregá-lo na parede do túnel. Ele lutou com a criatura por um momento, batendo com a lâmina da espada na placa facial clara, sem querer encontrando os olhos familiares por tempo suficiente para ver algo que o fez gritar chocado antes de se soltar mais uma vez.

— Corra! — gritou para Tamis, e juntos desceram correndo a passagem em busca de Panax e dos elfos caçadores.

Sua mente estava presa a uma única imagem. O que encontrara naqueles olhos, os olhos de um morto, havia congelado sua alma. Não conseguia aceitar que não estivera enganado, que o que havia visto era real. Agora entendia por que os rindges haviam dito que, quando Antrax pegava e desmembrava sua gente, as pessoas não morriam, mas permaneciam vivas, suas almas capturadas.

Sentiu um medo que jamais achou possível, um medo que com certeza nunca sentira antes. Subitamente tudo o que ele queria fazer era fugir daquele lugar e deixar seus horrores para trás, para sempre.

— Você viu? — perguntou a Tamis enquanto corriam, sem fôlego. — Os olhos dele! Você viu os olhos dele?

— O quê? — ela gritou de volta. Sua respiração era ríspida e trabalhosa. — Os olhos dele?

Ele não conseguia dizer mais nada, não conseguia terminar o que havia começado. Balançou a cabeça para ela e correu com mais esforço, mais rápido, o ar queimando em sua garganta enquanto ele subia o corredor mal iluminado em disparada.

Levara apenas minutos, embora parecesse muito mais, para chegar à entrada do poço de ventilação e à superfície mais uma vez. Os outros já estavam lá: Kian, Wye, Panax e até mesmo os rindges, que não haviam fugido como Tamis temera. Obat havia reunido seus guerreiros em formações de fileiras a dez metros atrás da entrada da grade, lanças pesadas abaixadas, zarabatanas levantadas. O pequeno bando de Quentin assumiu posições em uma das estrelas da formação, esperando pesadamente, olhando para a abertura escura pela qual haviam fugido.

O monstro apareceu em um trote acelerado que o levou bem para cima deles. Não reduziu a velocidade e não hesitou: entrou direto no centro da linha dos rindges, empurrando as lanças, desviando os dardos das zarabatanas, mandando aqueles que tentavam detê-lo para o espaço, voando em todas as direções. Mal houve tempo para que alguns gritassem “wronk” com vozes aterrorizadas antes que três estivessem mortos ou agonizantes e todos tivessem se dispersado, menos um punhado. Obat e outros dois ficaram onde estavam, acompanhados dos elfos, de Panax e de Quentin Leah, que atacavam o monstro de todos os lados, tentando romper suas defesas, encontrar um ponto fraco, fazer qualquer coisa para detê-lo. Grunhidos e gritos se misturavam com o embate das armas de ferro, levantando-se no calor da batalha. Lâminas brilhavam na luz do sol, corpos molhados de suor e sujos de poeira e terra lutavam para permanecer em pé e fora do caminho do leviatã metálico.

— Leah! — Quentin rugiu furioso, desferindo um golpe atrás do outro no wronk que um dia fora Ard Patrinell, observando com horror como ele respondia aos instintos e habilidades impecáveis do capitão da guarda real, infundido com o conhecimento que Patrinell havia adquirido durante vinte e tantos anos de combate e treinamento. Era aterrorizante. Era como se Patrinell ainda estivesse ali, seu espírito capturado dentro daquela forma de metal, capaz de direcionar suas ações, de pensar suas reações. Era como se soubesse o que Quentin faria antes que ele o fizesse, como se pudesse antecipar cada movimento do highlander.

Talvez pudesse, Quentin pensou triste. Ard Patrinell havia ensinado ao montanhês quase tudo o que sabia sobre lutas. A bordo da Jerle Shannara, Patrinell havia treinado Quentin nos truques e nas manobras que o manteriam vivo em combate. Quentin havia sido um bom aluno, mas Patrinell conhecia os truques e as manobras e podia empregá-los melhor.

Assim como o wronk em que ele havia se tornado, refeito naquela nova imagem, naquela forma monstruosa, naquela fusão horrível de metal e carne.

Outro dos rindges caiu, quebrado e ensangüentado, aberto do pescoço até a virilha. Obat e os rindges restantes deram meia-volta e fugiram. O pequeno bando de Quentin murchou perante o novo ataque do wronk. O desespero toldava seus rostos e sugava suas forças. Mas foi aí que tiveram sorte. Ao forçar seu ataque, o wronk tropeçou no corpo de um rindge morto, perdeu o equilíbrio e caiu. Ficou em pé quase no mesmo instante, mas um membro quebrado do morto havia ficado preso entre suas juntas. Nos poucos momentos que o wronk levou para se libertar, Quentin e seus companheiros desistiram de sua luta aparentemente sem esperanças e correram atrás dos rindges em fuga. O que quer que fosse necessário para vencer aquela batalha, primeiro exigiria um plano. Até então, seria melhor simplesmente fugir.

Desembainhando as armas na fuga, correram de volta para as árvores. Obat reduziu o passo para deixar que o alcançassem, gritando algo para Panax, que gritou de volta; todos então desapareceram por entre as árvores. Em segundos, não conseguiam mais ver as ruínas. Correram por um longo tempo. Outros rindges se juntaram a eles, todos respirando com dificuldade, banhados em suor, apavorados. Quentin sentiu a magia de sua espada ceder, uma névoa vermelha se desvanecendo em pontadas de vazio e necessidades não preenchidas, uma mistura de emoções que o rasgavam como espinhos. Estava desgastado e sentia frio, tudo ao mesmo tempo, e uma parte dele queria voltar para a batalha enquanto outra queria apenas escapar.

Não soube dizer por quanto tempo correram ou mesmo a distância percorrida. Estavam bem longe das ruínas quando pararam, um bando triste e abatido. Ajoelharam-se na luz morta da tarde, cabeças baixas em exaustão, apurando os ouvidos por entre os sons entrecortados de respiração, tentando identificar algum som de perseguição. Quentin olhou para Tamis, e suas emoções se juntaram para formar um devastador sentimento de vergonha. O esforço deles havia fracassado completamente. Não estavam melhor do que quando começaram: estavam pior, talvez porque agora sabiam o destino de pelo menos um de seus companheiros desaparecidos, e talvez também do restante deles.

Tamis olhou para Quentin. Ele se surpreendeu ao ver lágrimas nos olhos dela.

— Não olhe para mim! — disse ela irritada.

Obat falou com um dos rindges e o homem levantou-se e voltou na direção das ruínas: fora ver se a coisa da qual haviam fugido ainda estava atrás deles, pensou Quentin.

Panax chegou perto dele, o rosto carrancudo, vermelho e furioso.

— Que espécie de monstro faria isso a um homem? — grunhiu ele. — Torná-lo uma máquina com pedaços de si mesmo?

— Talvez outra máquina — sugeriu Quentin cansado. — Uma pergunta melhor poderia ser: por quê?

Panax balançou a cabeça.

— Não faz sentido.

— Tudo faz sentido, mesmo que não entendamos qual seja. — Quentin pensava nos olhos do wronk. Os olhos de Ard Patrinell. — Existe uma razão pela qual Antrax usa wronks. Existe uma razão para este. Você viu como ele nos combateu? Viu como reagia aos ataques? Ele tem as memórias de Ard Patrinell, Panax. Está usando as habilidades e táticas dele. Sabe como lutar da mesma maneira que sabia antes.

O rindge que havia sido despachado por Obat retornou correndo, falando apressado com o subchefe, que por sua vez falou com Panax. O anão levantou-se na hora.

— Vamos embora! Ele está bem atrás de nós!

Levantaram-se e continuaram sem parar, Obat na liderança, escolhendo um caminho sem obstruções que lhes permitia seguir mais rápido; a melhor chance que tinham residia em correr mais do que seu perseguidor. Por duas vezes Quentin olhou para trás, mas não havia nada para se ver. Não duvidou nem por um momento que o wronk estivesse vindo atrás deles, incansável e implacável, determinado a persegui-los até que fossem derrotados. O montanhês já estava sentindo pontadas de dúvida sobre se conseguiria escapar. Mas ficar e lutar teria sido um erro. O wronk era maior e mais forte. Sua armadura lhe dava melhor proteção. Ele possuía os instintos e as habilidades de combate de Ard Patrinell. Talvez, se houvesse mais dos rindges, se conseguissem chegar até o vilarejo e convocar outros para ajudá-los, pudessem ter uma chance. Caso contrário, mesmo com a magia da espada de Leah para ajudá-los, não tinha certeza de que conseguiriam vencer.

Estavam atravessando uma parte densa da floresta e foram incapazes de evitar que o wronk os alcançasse. Ele saiu dentre as árvores em um dos flancos, sua aparição foi inesperada e surpreendeu a todos. Instantaneamente, apanhados e feitos em pedaços, dois dos rindges e o elfo caçador Wye morreram. O restante da companhia se dispersou em uma mistura de gritos e choro, indo em todas as direções, lutando para se libertarem do wronk e das árvores que os emaranhavam. Quentin e Tamis correram para uma direção e Panax e Kian para outra. Os rindges correram em todas as direções. Por um momento tudo era caos, enquanto o wronk avançava pelo centro de sua linha, lâminas cortando tudo.

Então o montanhês e a rastreadora estavam mais uma vez a céu aberto. Quentin arriscou uma rápida olhada para trás. Um brilho de metal à luz do sol e os sons de alguma coisa imensa derrubando tudo atrás deles lhe disse que o wronk ainda estava avançando, e estava indo na direção deles.

— Por aqui! — sibilou Tamis, esquivando-se de galhos e de arbustos como um coelho ao mergulhar por uma ravina.

Correram em silêncio por um longo tempo, tentando se distanciar o quanto pudessem de seu perseguidor. Estava ficando escuro, o crepúsculo caía sobre Parkasia, sombras alongando-se dentro da noite. Era difícil passar por todos os obstáculos que bloqueavam o caminho, especialmente quando estavam fugindo, e mais de uma vez, Quentin quase perdeu o equilíbrio. Durante todo esse tempo, podiam ouvir os sons da perseguição, galhos quebrando, grama e arbustos sendo pisoteados, o compasso constante e incansável de passos pesados.

Algo de inesperado e assustador se insinuava no pensamento do montanhês enquanto ele fugia. No início ele descontou a possibilidade, colocou-a de lado, zangado, mas então começou a se perguntar. Ambas as vezes, aqui e ali, o wronk fora sempre atrás dele. Ele vira isso no ataque do monstro contra a formação defensiva dos rindges nas ruínas, onde o wronk havia primeiro assustado os nativos e em seguida se voltara direto para ele. Novamente, na floresta, depois de derrubar os mais próximos, escolhera persegui-lo. Parecia paranóia pensar assim. Por que o wronk estaria atrás dele em particular? Será que seu ataque no poço de ventilação provocara isso? Haveria alguma coisa de especial a seu respeito que o atraísse?

Então lembrou de uma coisa que Walker dissera durante sua reunião final a bordo da nave antes de desembarcarem para sua malfadada jornada até as ruínas, e teve a resposta.

Estava completamente escuro quando finalmente pararam, a quilômetros de onde haviam começado, no fundo da mata. A única luz visível vinha da lua e das estrelas, a floresta que os cercava estava coberta de sombras e envolta no silêncio. Agachados sobre uma encosta, escondidos atrás de uma touceira de arbustos, olharam em direção ao caminho que haviam percorrido, apurando o ouvido. Os sons de perseguição do wronk haviam se dissipado, desaparecendo quase sem que percebessem, como se a criatura também tivesse parado. Nem Quentin nem Tamis se moveram ou falaram durante um longo tempo, esperando.

 

— Eu sei de quem ele está atrás — Quentin finalmente sussurrou, olhando para a escuridão. — Ele está atrás de mim.

Ela olhou para ele sem falar.

— Ele quer a espada. Quer a magia. Lembra-se do que Walker nos falou sobre o motivo pelo qual fomos atraídos, no início, a este lugar? Pela nossa magia, ele disse. Acho que Antrax sabe tudo a nosso respeito, talvez até sobre Bek. Ele quer tudo o que possuímos.

Ela pensou no assunto.

— Pode ser.

— Foi por isso que ele mandou este wronk feito de pedaços de Ard Patrinell. Está usando o cérebro dele, os instintos dele e suas habilidades de combate para tirar o que deseja de nós. De mim. No começo achei que ele havia escolhido Patrinell porque nos conheceria melhor e poderia nos matar de modo mais fácil. Mas por que mandar um wronk atrás de nós? Por que se importar, quando poderíamos ser facilmente destruídos no labirinto e praticamente não constituímos ameaça?

— Então você acha que ele construiu o wronk deliberadamente — disse ela. — Utilizou a cabeça e o braço da espada de Patrinell porque tinha um propósito específico em mente.

— Utilizou as partes de que precisava para fazer o wronk funcionar o mais próximo possível da coisa real. Nada disso aconteceu por acidente. O wronk foi construído e enviado atrás de nós por uma razão. Ele está atrás de mim. Vem sempre na minha direção. Eu não tinha pensado direito nisso primeiro, lá no poço de ventilação. Mas ele veio atrás de mim mais uma vez quando fugimos para a floresta novamente, e agora está me caçando. Ele quer a espada, Tamis. Ele quer a magia.

Por um momento ela ficou em silêncio. Ele continuou a olhar para a escuridão impenetrável, apurando o ouvido.

— Você não pensou nisso o suficiente — ela sussurrou subitamente. Esperou ele se virar para encará-lo novamente. — Pense bem. Sua espada não irá funcionar para qualquer um, irá?

O olhar firme dela o deixou nervoso.

— Não. Ela só funciona para mim. Então você está dizendo que ele me deseja também.

— Ou partes de você, assim como Patrinell.

A garganta dele apertou e ele desviou o olhar.

— Morrerei antes.

Ela não disse nada, mas colocou a mão no braço dele.

— O que estava tentando me dizer sobre os olhos dele lá dentro do túnel? Quando estávamos correndo, você começou a dizer alguma coisa. Perguntou se eu havia visto os olhos dele.

Quentin ficou em silêncio por um longo tempo, lembrando-se do que havia visto, tentando vencer o nojo que o próprio ato de pensar a respeito provocava. Tamis não tirou a mão do braço dele nem os olhos de seu rosto.

— Conte-me, montanhês.

Ele estremeceu um pouco ao falar, o desespero e o medo tornando a tomar conta dele.

— Quando estávamos lutando abaixo das ruínas, no subterrâneo, dei uma boa olhada naqueles olhos. Enquanto estava lutando com ele, cheguei perto o bastante para olhar dentro deles. Não eram olhos mortos. Não eram olhos sem alma. Não estavam cheios de raiva, de loucura nem de nada que eu esperava. Estavam apavorados, aprisionados e indefesos. Sei que parece impossível, mas ele ainda está vivo lá dentro. Dentro de sua cabeça, de seu cérebro. No que ele vê e sente. Ele está trancado lá dentro. Pude ver isso. Tenho certeza. Ele estava pedindo ajuda. Estava implorando ajuda.

Ela balançava a cabeça, negação, raiva e medo contorcendo seu rosto, sua mão apertando o braço de Quentin até que as unhas cortaram-lhe a carne.

— Ele não está nos atacando porque deseja! — sibilou Quentin. — Está fazendo isso porque não tem escolha, porque foi reconstruído para levar adiante os desejos de Antrax! Sua mente foi alterada como a daqueles elfos que assinaram Allardon Elessedil! Só que não sobrou corpo, não sobrou nada inteiro. Ele... — Fez uma pausa. — Ele não é mais Ard Patrinell, mas Antrax roubou algo do que ele era e o está mantendo prisioneiro dentro daquele wronk.

Alguma coisa se moveu nas trevas, mas foi um movimento pequeno e rápido. Quentin olhou nervoso naquela direção, e depois de volta para Tamis.

— Você pode estar errado — ela insistiu com raiva.

— Eu sei. Mas não estou. Eu o vi. Eu o vi.

Havia novas lágrimas nos olhos dela. Ele viu o brilho na luz do luar. Ela soltou seu braço. Piscava com dificuldade e afastou o olhar.

— Não posso acreditar nisso. Não é possível.

— Os rindges sabiam. Eles viram isso acontecer com seu próprio povo. Tentaram avisar.

Ela balançou a cabeça e correu os dedos pelos cabelos curtos.

— Isso me dá nojo. Tenho vontade de gritar. Ninguém deveria ter de...

Não conseguiu terminar. Quentin não a culpou. Não havia palavras suficientes para expressar seus sentimentos. O que fora feito a Ard Patrinell era tão odioso, tão desprezível, que fazia o montanhês se sentir impuro.

E com medo, porque provavelmente Antrax pretendia levá-lo ao mesmo fim.

— Teremos de matá-lo — disse ela subitamente, olhando para longe com tamanha ferocidade que ele ficou perturbado. Por um momento não tinha certeza de que ela estava falando. — Mais uma vez, de novo não podemos deixá-lo preso ali. Precisamos libertá-lo.

Ela pegou as mãos dele e apertou-as com força.

— Ajude-me a fazer isso, montanhês. Prometa-me que ajudará.

Então ele viu o motivo da intensidade dela. Ela fora apaixonada por Ard Patrinell. Ele não havia percebido isso antes, não tivera sequer a menor pista. Como fora tão cego? Talvez ela tivesse mantido isso tão bem escondido que ninguém chegara a saber. Mas ali estava agora, abertamente, tão certo quanto o retorno da luz do sol com a aurora.

— Tudo bem — ele concordou baixinho. — Eu prometo.

Não fazia idéia de como iria manter essa promessa, mas seus sentimentos quanto ao assunto eram tão fortes quanto os dela. Fora ele quem olhara nos olhos de Ard Patrinell e o vira lá dentro, ainda vivo. Ele não podia fingir que isso nunca acontecera e que não faria efeito sobre ele se se afastasse. Assim como Tamis, ele não podia deixar o capitão da guarda real ser escravo de uma máquina. O wronk tinha de ser destruído.

— Durma um pouco — disse ela, afastando-se dele. Havia cansaço e tristeza em sua voz. Todas as suas forças pareciam drenadas. Ele nunca a vira assim antes e não gostava disso. Era como se ela de repente tivesse envelhecido.

— Acorde-me em algumas horas — disse ele.

Ela não respondeu. Seu olhar estava voltado para a noite. Ele aguardou um momento e então se espreguiçou, colocando a cabeça sobre o braço dobrado. Ele olhou-a por algum tempo, mas ela não se moveu. Finalmente, os olhos dele se fecharam e ele dormiu.

Em seus sonhos perturbados, ele fugia mais uma vez do wronk, que o perseguia através de uma floresta e ele não conseguia encontrar uma maneira de fugir. Após um longo tempo, descobriu-se encostado em uma parede e foi forçado a se virar e lutar. Mas o wronk não era sólido nem reconhecível. Era insubstantial, uma coisa feita de ar. Podia senti-lo pressionando contra ele, sufocando-o. Lutou para se libertar, apenas para respirar, e então subitamente o wronk se materializou bem à sua frente e ele viu seu rosto. Era o rosto de Bek.

Era quase manhã. Quando Quentin acordou, os primeiros tons de luz do dia escorrendo por entre as árvores, o céu se iluminando a leste. Tamis havia adormecido em sua vigia, o corpo encostado contra uma árvore, o queixo abaixado no peito. Quando ele se sentou, ela o ouviu se mover e levantou a cabeça na hora.

A distância, longe porém reconhecível, alguma coisa grande se movia por entre as árvores.

Levantaram-se juntos, olhando na direção dos sons.

— Está vindo novamente — sussurrou Quentin. — O que você quer fazer? Defender-se aqui ou escolher outro lugar?

O olhar dela era impossível de ler, mas a fraqueza e a tristeza da noite anterior haviam desaparecido.

— Vamos encontrar um daqueles poços que os rindges cavaram para capturar wronks — ela respondeu suavemente. — Vamos ver se eles nos servirão bem.

 

Muito embora Ryer Ord Star o tivesse convencido a acompanhar o pequeno varredor em busca de Walker, Ahren Elessedil insistiu em esperar até depois de escurecer, antes de tornarem a entrar nas ruínas mortais. Ele aceitou que não era muito provável que fossem atacados por rastejadores ou fios de fogo se o varredor os estivesse liderando, e provavelmente não faria diferença se estivesse claro ou escuro, mas ele não queria saber. O ataque que havia destruído todos os que estavam com ele quando tentaram entrar pela última vez estava ainda muito vivo em sua lembrança, e isso o impedia de voltar lá à luz do dia. Insistiu que ela deveria pelo menos lhe fazer uma concessão.

Ryer Ord Star não teve escolha senão concordar, pois queria que ele estivesse com ela; o varredor nada tinha a oferecer com relação a este assunto. Ficava ali sentado sobre sua base com rodas, seu interior zumbindo, mantendo suas imagens para si mesmo. Quente como no verão, o dia custou a passar e Ahren e Ryer alternaram as horas de sono. Abaixo de seu esconderijo, as ruínas tremeluziam silenciosas.

Com a chegada da noite, a escuridão caindo sobre a terra em sombras azul-acinzentadas e uma luz que ficava cada vez mais fraca, eles partiram. O varredor os levou para baixo, para fora do esconderijo, sua base com rodas flexionando-se sobre as escadas e os escombros, fazendo pouquíssimos sons enquanto rodava na direção do perímetro e das ruínas. A vidente e o príncipe dos elfos foram atrás, a primeira sem hesitação, o segundo hesitando o tempo todo. Mal haviam avançado dez metros dentro do labirinto quando o varredor se aproximou de uma parede, emitiu uma série de pequenos cliques e acionou uma entrada oculta. A parede deslizou para trás, revelando uma rampa mal iluminada que levava para baixo, e os três improváveis companheiros entraram.

Quando a porta se fechou atrás deles, Ahren experimentou tamanho ataque de pânico que teve de se esforçar para não gritar. Sentiu-se aprisionado, exposto e indefeso, tudo ao mesmo tempo, e esperou que os fios de fogo e os rastejadores o cortassem em pedaços. Mas não houve ataque; prosseguiram sem desafios para baixo até uma série de corredores que se encontravam em um nó. Lâmpadas sem chamas fechadas em vidros derramavam uma luz amarela sobre o chão em poças tênues. Canos corriam pelos tetos, entrando e saindo de paredes como cobras. Portas seladas, algumas redondas e não retangulares, eram a única coisa que riscava as superfícies lisas de metal. Espaçados de forma regular ao longo de cada passagem, olhos de vidro como os de peixes os encaravam do alto, pequenos pontos vermelhos dentro de centros escuros piscando malignos.

Ahren, tentando olhar tudo ao mesmo tempo, descobriu-se lamentando novamente sua decisão; ainda estava incomodado com a disposição deles em aceitar que o varredor pudesse ajudá-los. Ou que quisesse ajudá-los. O fato de que uma máquina que era pelo menos em parte rastejadora estivesse ansiosa para ajudá-los parecia evidentemente ridículo. Em sua mente, exibiu de novo as imagens que o varredor havia lhe mostrado, reavaliando-as, tentando descobrir por trás delas mais do que lhes havia sido mostrado. Toda essa história parecia errada. Continuava achando que Ryer Ord Star teria detectado qualquer subterfúgio, mas a vidente estava tão cega por sua necessidade de chegar até Walker que ele não podia ter certeza. Ainda que encontrassem o druida, como iriam ajudá-lo? Se ele próprio não podia se ajudar, de que utilidade seriam? Pensou nas pedras élficas desaparecidas. Se pudesse recorrer à magia delas, poderia ser capaz de fazer alguma coisa, embora mesmo isso não fosse garantido, já que ele nunca as utilizara e não sabia se poderia fazê-lo de verdade.

Desceram um corredor muito longo sem chegar a lugar algum aparentemente, os túneis, câmaras e escadas passando em sucessão interminável, todos com o mesmo aspecto. Quase sempre ele ouvia maquinaria funcionando, suave e distante, abafada por aço e terra. Continuava pensando que iriam encontrar algo de novo, uma câmara que revelaria algo de importante, mas isso nunca aconteceu. Por outro lado, não encontraram nada que pudesse ameaçá-los. O tempo foi passando e a estranha descida continuou.

Por fim, Ahren pediu que parassem. Já haviam caminhado quilômetros, e não havia nada a sugerir que não continuariam caminhando ainda mais quilômetros. Precisavam descansar. Ryer, ele sentiu, continuaria andando até cair. Sentou-se no chão, recostando-se em uma das paredes de metal, e pegou a bolsa de água. A vidente se sentou ao seu lado, aceitando a bolsa de água quando ele a ofereceu, e depois um pedacinho de pão com queijo do pouco de comida que lhe restava. O silêncio das passagens subterrâneas parecia ecoar ao redor deles, um lembrete de como estavam sozinhos e isolados.

O varredor tomou posição no centro do corredor logo à frente deles, luzes piscando em uma cadência sonolenta. Não parecia ter qualquer pressa.

Ahren mudou de posição para encarar a jovem vidente.

— Você faz alguma idéia da distância que podemos estar de Walker?

Ela balançou a cabeça.

— Ainda posso senti-lo, mas a sensação não está diferente de antes.

— Nada? Mas estamos caminhando o tempo todo! Você precisa ser capaz de dizer alguma coisa!

— Não é assim que funciona, Ahren. A distância não importa. Eu posso sentir as mesmas coisas, estejam perto ou longe. Só a parte de cura tem alguma coisa a ver com proximidade. Preciso tocar a pessoa que está sentindo dor. — Tentou um sorriso rápido e reconfortante. — Não tenha medo.

Mas ele tinha medo e não estava conseguindo se controlar. Tudo em Castledown era como um peso pressionando-o contra a terra, esmagando-o até que ele se tornasse nada. Estava envergonhado e embaraçado, ainda se sentindo culpado por ter fugido do ataque, por ter ficado tão petrificado de medo e sem conseguir ajudar os outros. Talvez fosse por isso que estava com medo. Talvez fosse por isso que parecesse estar com medo o tempo todo.

Ela estendeu a mão e tocou o braço dele, o que o surpreendeu.

— Está tudo bem em sentir medo. Eu também estou com medo. Também não quero ficar aqui. Mas talvez sejamos os únicos que podem ajudar Walker. Precisamos tentar.

Ele assentiu desconsolado. Ela tinha razão, mas isso não o fazia se sentir melhor. Nem mais corajoso. Levantaram-se e continuaram, seguindo o pequeno varredor. Ele os levou por novas passagens e rampas, escadas e corredores, levando-os mais adiante, no fundo das catacumbas da cidade subterrânea. A jornada era tediosa e anestesiante; o mundo de Castledown era o mesmo para onde quer que fossem. A fadiga começou a se instalar, tanto física quanto emocional. Ahren perguntava a si próprio se estaria escuro lá fora. Achava que não. Imaginou se mais alguém haveria entrado nas ruínas desde então. Quais eram as chances de que mais alguém de seu pequeno bando disperso achasse o caminho subterrâneo como eles haviam achado?

Por várias vezes ele tentou perguntar ao varredor o quanto ainda tinham de andar, mas nunca houve resposta. O varredor simplesmente continuou prosseguindo, sem se importar em se comunicar, sem mostrar mais imagens. A esta altura estavam completamente dependentes dele; não podiam encontrar o caminho de volta para a superfície sozinhos. Não podiam encontrar o caminho para lugar algum. Se o varredor não os levasse até Walker, estariam perdidos além de qualquer esperança.

Quando tornaram a parar para descansar, as costas contra a parede mais uma vez, comendo e bebendo para permanecerem fortes, tão cansados a ponto de dormir, mas sem vontade de arriscar, Ahren sentiu-se consumido pela provação que passavam e não conseguia mais suportá-la. Esperou um momento, pensando na sugestão que estava para fazer, observando o varredor que os encarava do centro do corredor a cerca de três metros de distância.

— Quero que você faça uma coisa — disse ele baixinho para a vidente. Ela olhou para ele na hora. Ele fez uma pausa e inclinou-se para perto dela. — Quero que experimente suas habilidades empáticas no varredor e veja o que elas lhe dizem.

Ela franziu a testa.

— Quer que eu veja se tocar nele irá induzir alguma visão?

— Do passado, do futuro, do presente, de qualquer coisa que nos ajude.

— Mas é uma máquina, Ahren.

— De qualquer modo, tente. Você disse que ela era senciente. Se for verdade, você pode ser capaz de acionar algo de seus pensamentos. Talvez possa descobrir o quanto ainda temos de andar ou onde procurar por Walker. — Balançou a cabeça indefeso. — Só quero algo que diga que estamos aqui por algum motivo e devemos continuar em frente.

Ela olhou para ele por um longo tempo, sem se decidir. Então assentiu lentamente.

— Está bem, vou tentar.

Ela terminou o último bocado de pão, colocou a bolsa de água no chão e se levantou. O varredor começou a se afastar, achando que estavam prontos, mas voltou quando Ahren não fez nenhum movimento para acompanhá-lo. Ryer aproximou-se dele sem falar, ajoelhou-se ao seu lado e colocou as mãos em seu corpo metálico redondo, as pontas dos dedos pressionando-o enquanto os olhos dela se fechavam. Seus traços pálidos e etéreos endureceram em concentração e levantou o rosto das sombras de seu cabelo prateado.

No instante seguinte, ela balançou sobre os calcanhares e seu corpo magro ficou rígido de choque. Ahren se assustou. O varredor não se moveu; Ryer Ord Star continuava agarrada a ele, as pontas dos dedos curvadas em garras e a cabeça jogada para trás, olhos fechados e braços estendidos, descobrindo em qualquer visão que seu contato com o varredor tivesse induzido imagens de tal natureza que as emoções provocadas podiam ser lidas em seu rosto, cruas, nuas e terríveis.

Ela soltou um gemido baixinho e então desabou, deixando as suas mãos caírem. No mesmo instante, sem aviso, sem sequer abrir os olhos, começou a falar.

— Um jovem, um elfo, foi trazido até aqui acorrentado, surrado e quebrado em uma luta que matou seus companheiros. Seus olhos foram então extirpados e sua língua arrancada. Ele levava consigo pedras élficas, tão fortemente presas em sua mão que não conseguia soltá-las. Elas eram mágicas e tão poderosas que podiam tê-lo libertado se ele tivesse a vontade de usá-las para fazer isso. Mas sua mente estava aprisionada, bem como seu corpo, e ele não tinha mais controle sobre ela. Rastejadores o levaram até esse lugar, bem profundamente no subterrâneo, para dentro de uma câmara cheia de máquinas e luzes que piscavam. Ele foi colocado em uma cadeira. Algemas de ferro o prenderam e fios foram inseridos em seu corpo, colocados cuidadosamente sobre sua pele por rastejadores.

Seus olhos se abriram de súbito e ela olhou para ele, o rosto cansado e assombrado. Afetada pelo que havia testemunhado em um mundo que não imaginara que pudesse existir, parecia uma criança despertando de um pesadelo.

— Uma presença viu isso acontecer, um ser senciente que não tinha substância nem forma. Ele se chamava Antrax. Ele se escondia nas paredes, no teto e no chão, por todo lugar, em toda parte ao mesmo tempo. Ele podia ver, mas não tinha olhos. Podia sentir, mas não tinha toque. Ele estava controlando o destino do elfo arruinado. Estava controlando sua mente. Quando o elfo estava bem preso na cadeira, uma caixa com muitos fios foi presa na mão que trazia as pedras élficas. Imagens foram alimentadas na mente do elfo através dos fios, fazendo com que ele visse coisas que não estavam ali, forçando-o a utilizar a magia das pedras. Essa magia foi capturada pela caixa e roubada, levada pelos fios, sugada e desviada para outros lugares.

Ela olhou para Ahren como se fosse incapaz de olhar para outro lugar, perdida nas imagens de sua visão.

— Isso foi o que vi. Tudo isso. Tudo.

— Você viu Kael Elessedil — ele disse baixinho.

Ela respirou fundo.

— Kael Elessedil — ela repetiu e estremeceu. — Por trinta anos, Ahren, essa foi sua vida!

Ele tentou imaginar isso e fracassou. Como alguém podia ser usado daquela maneira? Que espécie de criatura podia cometer um engodo desses? Um frio profundo alojou-se na boca de seu estômago quando ele percebeu que, o que quer que aquilo fosse, não era humano. Antrax era uma coisa completamente diferente.

Levantou-se para ir na direção dela, para ajudá-la a se levantar, mas ela fez um gesto rápido de defesa.

— Não me toque, Ahren. Existe algo mais... algo ainda mais sombrio. Não consegui olhar para isso tudo de uma vez, mas agora preciso. Tenho de olhar. Eu me abri para visões acionadas pelas memórias do varredor. Se você puser as mãos em mim, irá perturbar tudo. Fique longe.

Sem esperar pela resposta dele, ela tornou a se inclinar e recolocou as mãos mais uma vez sobre o varredor. Seu rosto ficou rígido no mesmo instante e um soluço escapou de seus lábios. Sua cabeça tombou e ela estava se agarrando ao varredor como se pudesse cair se não o fizesse.

— Oh! Oh! — ela gritou baixinho, quase em desespero.

Suas mãos caíram e ela tornou a desabar sobre os calcanhares. Ficou assim por um longo tempo, a respiração fraca, o rosto lívido, seu corpo vazio. Ahren, embora quisesse ir na direção dela, permaneceu onde estava, obedecendo às suas instruções. O túnel estava silencioso como uma tumba, seu silêncio um eco sem voz subindo e descendo os corredores através das poças tênues de luz amarela. Cheio de medo, o príncipe dos elfos aguardava. Sentia-se jovem, estúpido e vulnerável ao mesmo tempo, como se tivesse sido exposto pelas visões da vidente, como se estivesse sendo aberto sem ter sido sequer tocado.

Então, como se fosse um caranguejo, Ryer Ord Star afastou-se lentamente do varredor, a cabeça abaixada e o corpo caído.

— Ahren? — sussurrou baixinho.

Ele estendeu os braços para ela, recebendo-a em seus braços. Ela se colou ao seu corpo, ele a abraçou e lhe deu toda a força que tinha. Dentro de seus mantos ela tremia e sentia frio. Ele tocou seu rosto e sentiu a umidade vazando de seus olhos.

— Está tudo bem — ele lhe garantiu, sem saber o que mais poderia dizer.

Ela balançou a cabeça no mesmo instante, negando.

— Ahren — ela disse tão baixinho que ele mal conseguiu ouvir suas palavras. Levantou o rosto de forma que seus lábios pressionaram o ouvido dele. — Você tinha razão — sussurrou. — Fomos enganados. É uma armadilha.

Ele ficou paralisado, aterrorizado. Começou a dizer algo em resposta, mas permaneceu quieto. Teve presença de espírito suficiente para se lembrar de que o varredor podia ouvir e traduzir o que diziam.

— Antrax planeja que você substitua seu tio — ela murmurou, suas mãos o agarrando. — Você foi mantido vivo e trazido até aqui para que lhe façam o mesmo que fizeram a Kael. — As palavras dela eram pedacinhos pequenos de vidro, cortando seu coração. — O varredor é uma ferramenta. Ele foi trazido para atrair você até aquele mesmo aposento no qual Kael Elessedil foi aprisionado por todos aqueles anos. Ele me utilizou para convencê-lo. E eu...

Não conseguiu terminar, e ele a apertou ainda mais para perto de seu corpo, segurando-se nela como se estivesse lhe dando algo para segurar por sua vez. Você tem certeza?, ele quis perguntar. Mas era uma pergunta tola. O poder que ela tinha de ver os destinos já havia sido provado diversas vezes e não havia motivo para duvidar dela neste caso. Especialmente porque não ficara à vontade sobre o que estavam fazendo desde o começo. Seus olhos iam para um lado e para outro do corredor. Ainda vazios, ainda desertos. Qualquer que fosse o destino que os aguardasse, ainda não haviam cruzado seu caminho, embora estivessem claramente a caminho de fazê-lo se não agissem rápido.

Mas o que deveriam fazer? Estavam no subterrâneo, perdidos além de qualquer esperança, o companheiro e pretenso guia deles uma criatura a serviço do inimigo. Antrax deveria tê-los rastreado por todo o caminho, observando seu progresso, orquestrado sua passagem. Estaria observando-os agora. O que quer que fizessem, para onde quer que fossem, ele veria. Antrax não os deixaria escapar do que estava planejando para eles. Não permitiria que seu plano de substituir Kael Elessedil fosse malbaratado. O coração de Ahren estava acelerado.

As palavras da vidente voltaram para ele de súbito e ele fechou os olhos contra a dor que elas provocavam. Antrax o havia mantido vivo, ela dissera. Sua fuga, enquanto todos os seus companheiros estavam lutando e morrendo, havia sido arranjada. Não fora por acaso ou por sorte que ele nunca fora machucado. Talvez Antrax o tivesse visto como fraco e maleável, um covarde. Talvez ele soubesse o quanto Ahren podia ser facilmente manipulado sem qualquer uso de força. Dessa maneira ele permaneceria inteiro e sem danos, mais capacitado a servir ao fim que Antrax desejava, talvez por cinqüenta anos em vez dos trinta que Kael Elessedil havia suportado.

Tudo isso fazia sentido para ele. Walker lhes havia dito que o que quer que os houvesse atraído para Castledown queria a magia deles, jamais ocorrera a Ahren que, para assegurar essa magia, poderia ser preciso alguém que a invocasse. Daí o destino de Kael Elessedil. Daí, talvez, o seu próprio.

Seus olhos estavam cheios de lágrimas que corriam por seu rosto. Ele odiava a si mesmo. Odiava o que havia sido feito a ele. Odiava tudo em Castledown. Mas, acima de tudo, odiava Antrax. Queria gritar sua raiva para o silêncio e vê-la explodir em lascas de fúria afiadas como navalhas que esmagariam o varredor, que dariam um fim a pelo menos uma pequena parte do monstro que habitava aquele lugar odioso. Passou a mão na parte de trás da cabeça sedosa de Ryer Ord Star, gentilmente, de modo reconfortante. Por dentro, estava paralisado, e toda a sua fúria escoou dele como sangue de um cadáver. Iriam morrer ali embaixo, os dois. Haviam ido longe demais, muito fundo para sair. Talvez, se ele tivesse a posse das pedras élficas, pudessem ter uma chance. Mas as pedras élficas não haviam feito muito bem a Kael Elessedil. Outra magia, uma magia mais forte, poderia fazer uma diferença. Mas não tinha nenhuma outra magia para invocar, nada que pudesse...

Então se lembrou da pedra fênix. No calor dos eventos, havia se esquecido completamente dela. Estava pendurada onde ele a havia colocado, na corrente ao seu pescoço, enfiada dentro da túnica. A magia de Bek Rowe, presenteada pelo rei do rio Prateado em sua jornada para Arborlon, e que Bek dera a Ahren. Tentou se lembrar do que Bek havia lhe dito sobre a pedra, lutou para recordar as palavras do rei do rio Prateado.

No momento em que você mais se encontrar perdido, ela o ajudará a encontrar o caminho. Com seu coração e com os olhos também. Ela lhe mostrará como voltar de lugares escuros para os quais você se desviou e lhe mostrará o caminho em frente, passando por lugares escuros pelos quais você deverá ir.

Fechou os olhos. Não podia estar mais perdido do que já estava. Não podia se encontrar em um lugar mais escuro. Estava doente de coração e espírito e estava aprisionado de todas as formas imagináveis. Se algum dia houve um momento em que precisava da magia da pedra, esse momento havia chegado. Será que a magia funcionaria para ele? Não sabia, mas não havia mais nada para tentar. Jamais pensou que viria a utilizar a pedra. Havia pensado que a manteria a salvo para Bek e a devolveria para ele quando se encontrassem novamente. Mas não achava que fossem ver um ao outro de novo se ele não usasse a pedra fênix e encontrasse a saída do labirinto.

Olhou para o varredor que aguardava no centro do corredor. Caso o acompanhassem, as coisas continuariam como antes. Caso se separassem dele, certamente Antrax empregaria outras medidas para garantir que lhe obedecessem. Não havia razão em esperar mais para fazer o que tinha de fazer.

Afastou a jovem vidente dele, colocando gentilmente as mãos em seus ombros.

— Ryer — disse suavemente. Os olhos dela, cheios de lágrimas, se levantaram para encarar os dele. — Ouça-me. — Ele mantinha a voz em um sussurro que não seria ouvido além dos dois. — Não vamos avançar mais. Não com este varredor. Estamos acabados com ele. Tenho uma coisa que acho que irá nos ajudar a fugir, uma coisa que Bek me deu quando saímos da nave. É uma magia que foi dada pelo rei do rio Prateado. Se funcionar, talvez encontremos nosso caminho para Walker, ou, se não para Walker, pelo menos para sairmos dos túneis e voltar à superfície. Quer tentar?

Ela assentiu na hora, os lábios fechados, o olhar firme. Ele esperou um momento para ter certeza disso; então, escondendo seus movimentos do varredor, enfiou a mão na túnica e puxou para fora a pedra fênix. Olhou para sua superfície prateada, um vislumbre de líquido leve em sua mão, e então retirou-a de sua corrente.

Você só pode usá-la uma vez, Bek havia dito. Só uma vez, pois jogá-la na terra para liberar sua magia irá estilhaçá-la. Ahren olhou para Ryer Ord Star, sentindo pela primeira vez em dias que estava fazendo algo certo.

— Pegue minha mão — disse ele.

Ela o fez, sem tirar os olhos dele. Então ele respirou fundo, levantou-a para que estivessem ambos em pé, e jogou a pedra fênix no chão da passagem.

 

No instante em que a pedra fênix se chocou contra o solo e se estilhaçou, Ahren Elessedil e Ryer Ord Star foram envolvidos em uma névoa da cor de cinzas velhas. Ela turbilhonava ao redor deles, uma mistura de partículas minúsculas e luz esfumaçada, como se fosse sopa em um caldeirão mexida por uma mão invisível. Ela grudava neles como uma nuvem e nunca se espalhava para muito além de onde estavam. Além de seu perímetro, as passagens de Castledown permaneciam inalteradas.

Por um momento, o príncipe dos elfos e a vidente ficaram parados, inseguros, esperando para ver o que aconteceria. O pequeno varredor os encarava direto como se nada tivesse mudado, seu interior zumbindo, luzes piscando, imóvel no centro do corredor. Então começou a rodar para a esquerda e para a direita, seus movimentos cada vez mais frenéticos. Parecia estar procurando por eles, como se não percebesse que ainda estavam bem à sua frente. Ahren puxou Ryer vários passos para a sua esquerda, testando se o varredor conseguia vê-los. Ele não se virou na direção deles nem registrou seus movimentos de nenhuma forma. Simplesmente girava ao redor sem objetivo, tentando decidir o que fazer.

Então uma coisa estranha aconteceu com Ahren. Dentro da névoa da pedra fênix ele sentiu uma necessidade estranhamente forte de continuar se movendo, continuar sem parar. Era uma espécie de empuxo no peito, uma certeza não expressada quanto ao que deveria fazer. Jamais sentira algo assim antes. Olhou para Ryer e percebeu que ela também estava olhando para ele. Sem falar, ele fez um gesto para diante, indicando o que desejava. Ela assentiu rapidamente. Quando ele tocou o peito, ela fez o mesmo. Ela também sentia aquilo. Era a magia da pedra fênix em ação. Para encontrar um caminho de volta depois de estar perdido, você deve saber para onde é que deseja ir. Inesperada, surpreendentemente, Ahren Elessedil sabia.

Começou a descer o corredor, para longe do infeliz varredor e seus esforços em descobrir o que havia acontecido com eles. Estava bem colado em Ryer, temendo que, se a soltasse, ela pudesse perder a proteção da magia. A neblina esfumaçada se movia junto com eles, como um sudário que os cobria, envolvendo-os enquanto prosseguiam, jamais alterando seu tamanho, forma ou perímetro. Era como estar em uma bolha invisível, isolado do resto do mundo, fechado em uma atmosfera e entregue a uma vida negada a todos, menos a eles.

Ahren estava se perguntando se Antrax sabia o que estava acontecendo com seus planos tão bem calculados quando o corredor adiante subitamente ficou repleto de rastejadores.

Ele parou onde estava, puxando Ryer contra si de forma protetora, observando enquanto outras criaturas metálicas saíam de aberturas nas paredes como fantasmas, membros de metal agarrando facas, pinças e cilindros de aspecto estranho. Em uma varredura cuidadosa, eles se aproximaram da passagem, abrindo um leque que ocupava ambos os lados. Ahren sentiu a garganta apertar. Não havia como passar por eles. Eram muitos para evitar.

Quando olhou apressado na direção oposta, descobriu que a outra extremidade do corredor também estava bloqueada.

Por um momento, entrou em pânico; não havia para onde correr, não havia como se livrar. A armadilha estava se fechando, ele e Ryer tinham sido apanhados bem no meio. Ficou onde estava porque não havia mais nada a fazer, ainda segurando a vidente com uma das mãos enquanto puxava com a outra a faca longa, sua única arma. Não vou fugir desta vez, ele disse a si mesmo. Ficaria e lutaria, ainda que a luta fosse em vão. Talvez Ryer pudesse escapar no meio da luta. Talvez pelo menos um deles pudesse...

Não terminou o pensamento. Quando o mais próximo dos rastejadores os alcançou, a névoa que os cobria ficou completamente opaca e seu turbilhão silencioso se transformou em um redemoinho. Ele abaixou a cabeça contra o movimento súbito, sentindo Ryer chegar mais perto. Piscou os olhos em um esforço para ver o que estava acontecendo, mas tudo além do ocultamento deles havia desaparecido. Além da névoa que os cobria como uma mortalha, só havia a escuridão.

Então a névoa clareou o bastante para ver além de seu perímetro novamente. Haviam passado pelos rastejadores e estavam livres mais uma vez.

Ahren não questionou mais a magia da pedra fênix; simplesmente aceitou-a como o presente que era. Acreditava que ela o protegeria de tudo enquanto durasse. Movendo-se rapidamente, quase correndo, puxou Ryer atrás de si passagem abaixo, deixando os rastejadores para trás. Antrax teria de encontrar outra maneira de aprisioná-los.

No decorre de sua fuga, foi exatamente isso o que ele tentou.

Primeiro enviou mais rastejadores, esquadrões deles, como se existisse um suprimento inexaurível deles ao qual recorrer. Eles inundaram os corredores da frente e de trás, alguns avançando em busca, outros montando guarda em cada curva. Agora eles começavam a usar os cilindros de aspecto estranho, armas emitiam rajadas dos fios de fogo mortíferos, lançados aqui e acolá aleatoriamente, em busca deles. Periodicamente, os rastejadores chegavam perto de Ahren e Ryer e parecia que não haveria escapatória. Mas, a cada uma dessas vezes, a fumaça ficava mais escura e mais espessa e, quando clareava o suficiente para ver novamente, já haviam passado pelos rastejadores em segurança,

Quando ficou óbvio que os rastejadores e suas armas portáteis não iam conseguir fazer o trabalho, fios de fogo apareceram das paredes entrecruzando os corredores, oscilando como teias de aranha mortíferas apanhadas no vento. Mas a magia da pedra fênix foi capaz de se desviar dos fios tão facilmente quanto havia se desviado dos rastejadores, cobrindo e protegendo o príncipe dos elfos e a garota.

Então portas de metal começaram a se fechar, selando passagens, algumas de cada vez. Foi na melhor das hipóteses um esforço aleatório, pois prejudicou os caçadores tanto quanto os caçados. No começo isso não afetou Ahren e Ryer de modo algum, pois as passagens seladas eram passagens que eles já haviam atravessado ou que não estavam sendo obrigados a seguir. Mas no fim das contas os fechamentos os apanharam, uma das portas se fechou diretamente no meio de seu caminho. Imediatamente Ahren decidiu mudar de direção, seguir por outro caminho. Obedeceu ao impulso, sem entender por que, voltando por aquele corredor e descendo outro.

Em determinado momento, eles foram forçados a esperar em frente à porta selada, até que ela se abriu. Ahren não soube dizer o tempo que isso levou. Toda a sensação de passagem de tempo lhe fugira dentro da neblina, como se isso não tivesse mais sentido ou relevância em sua vida. A magia da pedra fênix havia recriado o seu mundo e, enquanto ele estivesse sob seu poder, nada no mundo temporal o afetaria muito.

Finalmente, os rastejadores, os fios de fogo e as portas que se fechavam deixaram de ser mais do que uma ocorrência esporádica. E então desapareceram por completo. Estavam totalmente sós em uma passagem distante de onde haviam começado e Ahren parou para olhar através da névoa turbilhonante que os cercava.

Sentia-se sugado, vazio. Sentia-se devastado.

— Funcionou — disse baixinho.

As mãos magras dela apertaram as dele em agradecimento.

— Foi você quem a fez funcionar — ela sussurrou.

Ele balançou a cabeça.

— Eu arrisquei uma chance. A magia nem sequer era minha. Pertencia a Bek. Foi dada a ele.

— Ela foi dada a você por Bek! — A voz dela estava zangada. — Pare de se diminuir, Ahren! Antes, quando pedi que viesse comigo até Castledown para encontrar Walker, você disse que achava que não podia me proteger. Mas protegeu, não foi? Não importa como você o fez... mas você o fez.

Ela fez uma pausa para estudá-lo.

— Foi preciso coragem para fazer o que fez lá atrás. Usar a pedra fênix sem saber o que ela faria e depois nos conduzir por entre os rastejadores e os fios de fogo. Foi preciso coragem para vir comigo. Por que você rejeita tudo isso tão rápido?

Ele balançou a cabeça.

— Não sou corajoso. Sou tudo menos isso. Só fiz a única coisa que podia pensar em fazer para nos ajudar a escapar. — Ela o encarava como se ele fosse transparente. Ele se sentia exposto e vulnerável. Não gostava que ela pensasse nele como algo que ele sabia que não era.

Ela o puxou de encontro a uma das paredes de vidro e inclinou-se para ele, ainda segurando firme suas mãos.

— Diga-me o que está incomodando você — disse ela baixinho. Encarou-o com seus olhos violeta. — Está tudo bem.

Por estranho que parecesse, ele sentia que era verdade. Não apenas estava tudo bem, mas também era necessário. Queria contar a ela o que estava ocultando sobre si mesmo, confidenciar-lhe a verdade de sua covardia, abrir-se e desabafar a dor terrível que estava carregando, livrar-se de seu fardo. Ali, nas profundezas, isolado com ela pela magia da pedra fênix, sentiu que podia.

Forçou-se a encarar o olhar intenso dela ao falar.

— Quando entramos nas ruínas e fomos atacados, entrei em pânico — disse ele. — Enquanto os outros ficavam onde estavam e lutavam, eu fugi. Deitei fora minha espada e fugi. — Engoliu em seco o amargor de suas palavras. — Eu não queria fazer isso, mas não pude evitar. Só conseguia pensar em salvar a minha vida, em achar um jeito de ficar vivo. Joad Rish se abaixou para ajudar um dos elfos caçadores, um dos homens de Ard Patrinell, e eu o vi ser cortado em pedaços pelos fios de fogo, sua cabeça...

Engasgou-se com as palavras e teve de parar. A mão livre de Ryer tocou seu rosto.

— Você não acha que todos sentiram a mesma coisa que você, Ahren? — ela perguntou. — Não acha que todos fizeram o que podiam para permanecerem vivos? Os elfos caçadores lutaram porque era o que eles sabiam fazer, e não por causa de algum código de conduta ou algum tipo especial de coragem. Joad Rish tentou curar um homem ferido porque isso era o que ele sabia fazer. Você fugiu, Ahren, porque ficar com os outros teria matado você, e você não queria isso. Você fez o que pôde.

— Só que a sua visão mostrou que Antrax me deixa viver, que eu fui mantido vivo de propósito! — disse ele amargurado.

O sorriso dela era caloroso e gentilmente desaprovador.

— Naquele momento você não sabia disso, sabia? O que fazemos em qualquer situação é baseado naquilo que sabemos. Eu corri para ajudar Walker no labirinto. Não pensei nisso e não parei para raciocinar, nem pensei no que estava fazendo. Reagi da única maneira que eu sabia. Isso é tudo o que podemos fazer.

— Pelo menos você correu na direção certa.

— Foi mesmo? — ela perguntou.

Havia tanta tristeza na voz dela, tanta dor, que isso o paralisou por um momento. Ele a encarou confuso. Ela estava lhe dizendo algo importante, mas ele não sabia o que era.

— Solte as minhas mãos — disse ela.

— Mas e se a magia...

— Eu sei. — Ela o interrompeu pressionando seus lábios com os dedos de uma das mãos. — Mas precisamos saber o que acontece se fizermos isso. Pode chegar um momento em que isso seja necessário, quando tivermos de fugir. Vamos testar isso agora, enquanto estamos sozinhos e a salvo.

Ele hesitou por um momento, e então fez como ela pediu, soltando a outra mão dela. Nada mudou. A magia continuou a envolvê-los, cobrindo os dois como a névoa da floresta ao crepúsculo, um turbilhão cinza sem alterações.

Ryer Ord Star colocou as mãos no colo e sentou-se sobre os calcanhares, encarando-o.

— Você me contou seu segredo, Ahren. Eu farei o mesmo para você. Contarei o meu. Se você quiser ouvir.

Suas palavras tinham uma obscuridade que o assustou, a promessa de alguma coisa desagradável.

— Você não precisa me contar nada se não quiser.

— Eu sei.

Ele esperou um momento, e então assentiu.

— Está bem.

Ela levantou ligeiramente o queixo como se encarasse algo que não desejava, uma confissão de verdades que preferia evitar. O gesto era marcante, desafiador e corajoso. Fez com que Ahren sentisse uma coisa por ela que não sentia antes. Respeito, talvez. Admiração.

— Não sou o que você pensa que sou — começou ela, encarando-o. Para ele, parecia que ela estava se forçando a olhá-lo. — Não sou o que qualquer um pensa que sou. Vim para esta jornada por várias razões. Quando Walker foi me encontrar, eu já sabia da vinda dele. Eu fora instruída para seguir com ele quando aparecesse. Meu objetivo era o de atuar como vidente, mas não só isso, não era nem mesmo basicamente isso. Meu objetivo em vir com vocês era espionar para a bruxa Ilse.

Ela esperou para ouvir a reação de Ahren, mas ele estava surpreso demais para responder.

Ela sorriu amarga.

— Você parece atordoado. Acredita em mim? É verdade. Eu já era espiã da bruxa Ilse no dia em que Walker veio me ver e muitos anos antes disso. Eu me vendi para ela há muito tempo. Na verdade, não foi difícil. Aconteceu assim: nasci com a visão, e desde cedo eu sabia de sua existência. Eu podia ver o futuro daqueles ao meu redor, às vezes detalhadamente, às vezes apenas em fragmentos. Fui uma órfã criada por protetores que acolhiam crianças abandonadas como eu. Eles eram gentis para mim, mas me achavam estranha assim mesmo. Não falei para ninguém de meu dom, pois compreendi desde o começo que ser diferente era perigoso aos olhos de muitas pessoas. Mantive meu dom como um segredo e tentei esquecer que ele estava lá. Isto era impossível de fazer, claro. Ficou pior ainda quando descobri, por acidente, que eu também era uma empata, que podia curar feridas físicas e emocionais pelo toque. Não descobri esse dom até mais tarde, mas, quando ele foi revelado, precisei deixar os protetores e encontrar um lugar onde ninguém me conhecesse.

“Eu tinha doze anos de idade quando cheguei a Grimpen Ward com um bando de rovers. Eles me aceitaram porque é assim que os rovers são, e eles não viram mal algum em me levar em segurança ao destino que eu queria. Também me acharam estranha, mas me deixaram em paz. Em Grimpen Ward, procurei a Addershag. Ela foi a razão pela qual eu havia ido para lá. Todos sabiam que ela era a mais poderosa vidente nas Quatro Terras, e eu esperava que ela me aceitasse e me treinasse. Eu não sabia que ela jamais havia aceitado um aprendiz. Eu não via a enormidade do que estava buscando realizar.

“Ela me colocou no meu lugar num instante. Mandou-me embora sem sequer um momento para pensar no que eu estava lhe pedindo. Fiquei arrasada, mas me recusei a desistir. Fiquei do lado de fora de sua porta, esperando que ela mudasse de idéia. Fiquei ali por dois meses. Por fim, ela me convidou a entrar e sentar com ela. Ela me testou, pedindo que eu fizesse várias coisas diferentes. Quando terminei de fazer o que ela queria, ela assentiu e disse que eu podia ficar. Isso foi tudo. Eu podia ficar.

“Por semanas, não fiz nada, a não ser cozinhar, limpar e realizar tarefas para ela. Ela me tratava como uma criada, e eu estava tão ansiosa em estar ali com ela que não me incomodava. Finalmente, ela começou a me mostrar algo de meu dom, apenas um pouquinho, e em seguida um pouco mais. Minha educação havia começado. Depois de algum tempo, tornei-me sua assistente e confidente também. Ela era velha, dura e perigosa. Também era imprevisível. Mas eu sabia o suficiente para não me sentir amedrontada.”

Respirou fundo e soltou o ar devagar, como se estivesse liberando uma angústia que havia mantido presa por muito tempo.

— Mas cometi um erro. Quando fui até ela e lhe contei sobre meu dom da visão, pedindo que ela me ensinasse a usá-lo, guardei para mim mesma o fato de que eu era uma empata. Tive medo de lhe contar, achando que isso poderia afetar sua decisão de me treinar, que não importava o que eu era, desde que guardasse isso para mim mesma. Mas no terceiro ano de treinamento tive uma visão na qual uma garotinha do vilarejo fora morta em um acidente. Como era nosso costume, vendemos a informação aos pais por uma taxa escolhida por eles. Fazíamos isso com todo mundo, não para lucrar, mas para podermos viver confortavelmente. Ninguém nunca reclamou. Mas nosso aviso não foi o bastante para salvar a garota, e embora ela não tivesse sido morta, ficou tão machucada que parecia claro que ia morrer.

“Pedi a Addershag que me deixasse ir até ela. Ela se recusou. Não havia nada que pudéssemos fazer, nada que já não tivéssemos feito. Mas fui assim mesmo. Usei meus poderes empáticos e curei a garotinha. Fiz isso de forma que parecesse que ela havia se recuperado por conta própria, que eu era apenas um veículo para mostrar-lhe o caminho de volta. Mas a Addershag sabia o que havia acontecido. Ela me disse que meu dom empático iria me matar um dia, que um empata rastreando o destino em um esforço para alterar seu curso iria apenas acabar jogando fora sua própria vida no processo. Ela disse que eu estava desperdiçando meu dom precioso e o tempo dela, e que eu me daria melhor sozinha. Ela me expulsou. Ela me mandou embora.”

Levou os joelhos ao peito e deu um sorriso melancólico para Ahren.

— Ela tinha razão. Eu me saí bem. Era conhecida e admirada. Havia quem desconfiasse de meu talento e o desafiasse, mas não eram tantos assim. Eu era muito visitada e vivia ocupada. Tomava cuidado na utilização de minhas habilidades empáticas. Uma ou duas vezes, tentei visitar a Addershag, mas ela não queria nada comigo. Seu interesse residia em decifrar o futuro; ela não dava a mínima para o passado e por isso também não dava a mínima para mim. Fiquei amarga para com ela, zangada por ela me tratar com tanto desdém. Mas eu também tinha medo dela. Ela era muito velha e seus inimigos estavam todos mortos e enterrados. Eu não queria me tornar um deles. E resolvi ficar fora do caminho dela.

“Então a bruxa Ilse veio me ver e tudo mudou.”

Ela desviou o olhar dele por um instante, para o vazio da passagem, para as sombras mal iluminadas além do santuário criado para eles pela magia, mas ainda além disso, ele sentia, para o passado.

Os olhos dela voltaram a encará-lo.

— Ela se mostrou para mim, algo que diziam que ela jamais fazia. Ela era jovem, como eu. Era uma órfã, como eu. Era tão parecida comigo que eu me vi nela desde o instante em que nos conhecemos. Ela era uma feiticeira poderosa e eu queria sua amizade e proteção. Então, quando ela propôs a barganha, aceitei. Eu seria seus olhos e ouvidos em Grimpen Ward e lhe daria notícias de coisas que ela deveria saber. Ela, por sua vez, se certificaria de que, quando a Addershag morresse, eu subiria até sua posição como a vidente principal em Grimpen Ward.

As feições pálidas e etéreas dela endureceram.

— Insisti que não queria que a Addershag sofresse mal algum. Ela me certificou de que isso não aconteceria. Afinal, ela era velha e morreria logo. Será que eu questionava isso? Será que eu queria ver o destino dela? A bruxa Ilse me entregou um lenço. Mandou-me usar minha visão canalizando-a através daquele pedaço de tecido que ela havia roubado da velha. Assim o fiz, e a vi morta no chão de seu chalé, os olhos arregalados. A bruxa Ilse pegou o lenço de volta. Agora eu havia visto aquilo por mim mesma. Tudo o que bastava, assim que ela morresse, era que eu ocupasse o lugar deixado por ela. Por que não? Eu havia sido sua aprendiz, a mais habilidosa de todos os videntes depois dela. Não seria eu sua sucessora lógica?

“Claro que acreditei, e ainda estava magoada com a rejeição dela. Então concordei com a barganha e deixei os eventos seguirem seu curso. A bruxa Ilse se tornou minha nova mentora e amiga. Comecei fornecendo a ela relatórios por pássaros-correio sobre tudo o que via na aldeia e no campo ao redor. E esperei que a Addershag morresse. Levou um ano, mas ela morreu. Foi mordida por uma cobra pequena, mas mortal, que havia se escondido em um saco de ouro presenteado por um cliente. Nunca se soube quem foi esse cliente. A criada dela havia saído por um dia e uma noite, e encontrou-a morta ao voltar. Enterrou-a no quintal e ficou com a casa.”

Ela suspirou.

— E eu, eu me tornei o que havia desejado ser, a nova Addershag, sua sucessora. Seus seguidores, seus clientes, todos vinham a mim agora, e ninguém me desafiava. Convenci-me de que a morte dela nada tinha a ver comigo, que era simplesmente o resultado de uma visão se cumprindo, e que eu, não tendo interferido, estava me comportando do mesmo modo como ela havia me ensinado. Ela não teria me escutado de qualquer maneira, pensei. Não havia nada que eu pudesse ter feito para mudar as coisas.

Ela estremeceu violentamente e abraçou os joelhos com mais força para espantar o frio.

— Mas para tudo há um preço, e acabei descobrindo o quanto custava seguir a Addershag. A bruxa Ilse veio até a mim em resposta a uma visão que tive de Walker; ela me mandara contar-lhe tudo o que eu descobrisse em relação a ele. Minha visão o mostrava vindo a mim à noite, uma presença negra, uma força irresistível que iria mudar tudo em minha vida. Ele veio a mim para descobrir o que pudesse a respeito de uma viagem que desejava realizar até uma nova terra, o que ele encontraria ao longo do caminho. Ele induziu minhas visões dando-me algo para tocar. Era um mapa.

“Quando contei a minha visão para a bruxa Ilse, ela ficou muito agitada. Queria aquele mapa e disse que eu deveria encontrar uma forma de roubá-lo para ela. Mas, em seguida, mudou de idéia. Em vez de roubar o mapa, eu deveria insistir em ir com ele. Deveria convencê-lo de que era indispensável, para que ele me levasse. Eu deveria revelar a ele o que vira em minha visão e mais algumas coisas que ela me diria, para que ele não pudesse recusar meu pedido. Eu seria sua sombra e ela seria a minha. Para todo lugar que eu fosse, para todo lugar que Walker fosse, ela nos rastrearia. Ela possuía uma magia que lhe dava uma maneira de ver através de meus olhos. Ela me garantiu que era necessário que eu fizesse isso. Insistiu que Walker era nosso inimigo comum, o inimigo de todos aqueles que possuíam magia nas Quatro Terras.”

Ela riu sem humor, sem gentileza.

— A essa altura, eu sabia o bastante para desconfiar desse tipo de declaração. Walker não era meu inimigo. Ele não havia feito nada para mim nem para ninguém até onde eu sabia. Mas eu não estava em posição de recusar. Quando sugeri que a tarefa estava além do meu alcance, ela afastou minhas preocupações e avisou que seria preciso apenas uma palavra casual jogada aqui ou ali para fazer com que os moradores de Grimpen Ward acreditassem que eu dera a sacola de ouro com a cobra dentro para a Addershag. Além disso, a bruxa Ilse era minha protetora, minha mentora. Eu tinha medo dela, mas também sentia uma ligação com ela. Concordei em fazer o que mandava. Tornei-me sua espiã a bordo da Jerle Shannara.

Seus olhos se encheram de lágrimas, súbitas e inesperadas, e nos rastros de sua gargalhada de autocensura.

— Mas uma coisa estranha aconteceu, Ahren. Uma coisa que nem eu nem ela havíamos planejado. Muito embora ele tivesse vindo para me ver, antes que eu tivesse tocado o mapa ou descoberto algo mais do que a viagem iria exigir, comecei a ter outras visões. — Ela se inclinou para ele, as lágrimas descendo por seu rosto. — Eram de mim e Walker. Eram tão fortes, tão avassaladoras, que eu não podia ignorá-las. Eram de um oceano azul e de ilhas, uma nave voadora, de batalhas sendo lutadas e homens morrendo. Era a viagem que Walker procurava fazer, e eu estava vendo pequenas partes dela. A maioria dessas partes eram tão vagas e confusas que eu não conseguia compreendê-las, mas uma delas era muito clara. Dentre os que viajavam com Walker, haveria um que salvaria sua vida e um que tentaria tomá-la, um que o amaria incondicionalmente e outro que o odiaria com uma intensidade sem limites; um que o faria se perder e outro que o traria de volta.

Ela fez uma pausa.

— Eu não via rostos que pudesse ligar a nenhum desses atos. Apenas o meu próprio, em pé e do lado de fora da visão, observando Walker, sempre muito perto, observando e esperando. Mas o quê? Eu não sabia dizer. Mas eu estava lá em cada uma das vezes, como sua sombra.

— Mas agora você sabe quem são essas pessoas, quem fará essas coisas a Walker — ele interrompeu, falando pela primeira vez, querendo ajudar. — Agora você pode identificar cada uma.

Ela deu uma nova risada, e dessa vez sua gargalhada era tão amarga e crua que ele estremeceu. O olhar dela ficou selvagem, e ela jogou para trás o cabelo em um gesto desafiador.

— Ah, sim! Sim, Ahren, eu sei quem são essas pessoas! É tão irônico, tão adequado! Eu conhecia essas pessoas desde o começo, mas não li a visão com cuidado suficiente! Fiquei cega pelas minhas próprias necessidades, desejos e preocupações! Quem são todas essas pessoas para Walker, que tomariam sua vida e a salvariam, que o fariam se perder e o trariam de volta, que o amavam e o odiavam? Quem são elas, Ahren? Eu vou lhe dizer. Elas são todas a mesma pessoa. Eu sou todas elas!

Ela agarrou os braços dele, apertando-os com tanta força que ele sentiu as unhas enterrando-se em sua pele.

— Eu fiz todas essas coisas com ele e senti todas essas coisas sobre ele! Eu quase fiz com que ele morresse em Shatterstone, escondendo dele a parte da minha visão que avisava sobre os espinhos venenosos, e então o salvei com meu talento empático porque não podia suportar deixá-lo morrer! Eu o amava e odiava ao mesmo tempo, às vezes sem saber qual era qual! Ele me trouxe junto quando não deveria tê-lo feito, ele me colocou nessa posição terrível e odiosa porque confia em mim, e está pensando até mesmo agora que eu irei salvá-lo do que quer que o tenha aprisionado aqui embaixo! E eu farei isso, Ahren! Eu fiz com que ele se perdesse tantas vezes que perdi a conta! De cada uma das vezes, ele encontrou o caminho de volta por si mesmo. Mas desta vez, desta vez eu serei aquela que o trará de volta ou morrerei tentando!

Chorava com tanta força que estava tremendo, dilacerada de soluços, seus cabelos prateados formando uma cortina pálida refletindo suas lágrimas em fios úmidos e brilhantes. As mãos soltaram os braços dele, e ele a segurou, não querendo perder o contato.

— Agora você conhece meu segredo — ela murmurou roucamente. Ele é muito pior do que o seu, muito mais feio. Estou consumida por ele. Não poderei jamais ser perdoada pelo que fiz. Jamais poderei me redimir.

Ele balançou a cabeça e inclinou-se para perto dela.

— Todos podem ser perdoados, Ryer Ord Star. De tudo e de qualquer coisa. Nem sempre é fácil, mas é possível.

Ela estremeceu em resposta a isso.

— Quer saber de uma coisa, Ahren? — A voz dela estava tão diminuta que ele mal conseguia ouvi-la. — Quando utilizei meu talento empático para curar Walker depois que ele foi envenenado em Shatterstone, fiquei vinculada a ele de uma forma que jamais aconteceu antes. Era como se nossas magias tivessem se juntado de alguma maneira e eu pude ver dentro de sua alma. Foi tão doloroso! Eu sabia que havia dor ali, eu a tinha visto em seus olhos quando nos conhecemos, e a sentido em suas mãos, mas não fazia idéia de que fosse tão vasta! Isso me derrubou, e ao fazê-lo, abriu-me para ele e o abriu para mim. Ele viu o que estava oculto dentro de mim, ele viu tudo. Ele soube o que eu era, o que eu tinha vindo fazer. Ele compreendeu o perigo que eu representava para ele e para os outros.

Ela balançou a cabeça, estupefata.

— Mas ele guardou tudo para si. Jamais falou a respeito. Colocou tudo de lado como se não mais importasse e me deixou ficar. Acho que esperava que, fazendo isso, faria de mim uma aliada em vez de uma inimiga. E ele conseguiu. Desisti de fazer qualquer coisa importante para a bruxa Ilse. Ela ainda podia rastrear o progresso da aeronave através de mim, mas acho que Walker não pensava que isso fosse muito importante. Ela sabia para onde estávamos indo; havia lido a mente do náufrago para saber o que aguardar. O que eu não fazia mais, o que ele estava contando que eu não fizesse, era esconder qualquer verdade, qualquer parte de visões experimentadas, quaisquer segredos que pudessem provocar danos. Agora eu era dele, por minha vontade. Sempre serei dele, enquanto ele precisar de mim. Nossa ligação transcende tudo. Ela é forte o bastante para que eu sinta sua necessidade por mim, aqui embaixo, neste lugar escuro, nestas passagens e câmaras, em todo este metal. Posso senti-lo estendendo suas mãos para mim quando não há mais ninguém a quem ele possa tocar. — Ela engoliu as lágrimas. — É por isso que estou indo até ele agora. É por isso que tenho de encontrá-lo.

Ela se afastou dos seus braços e enxugou as lágrimas com ambas as mãos. Então começou a chorar novamente, abraçando a si mesma, balançando seu corpo para a frente e para trás sobre os calcanhares.

— Não é triste que eu possa ser tudo o que ele tem? — ela perguntou, a voz dilacerada. — É tão patético!

Ele pegou-a nos braços e a abraçou enquanto ela chorava, sem tentar interrompê-la ou acalmá-la, apenas abraçando-a. Pensou diversas vezes em dizer algo de reconfortante ou sábio, mas nada do que pensava seria correto. O silêncio parecia a melhor coisa, e então ele o manteve. Ao redor deles, a magia da pedra fênix turbilhonava como águas turvas, firme e de certa forma reconfortante, uma fuga que lhes dava espaço e tempo para deixar suas emoções assentarem. Ahren olhou através da névoa para o corredor mais além, onde estava tudo vazio e silencioso. Parecia que estavam realmente sozinhos ali embaixo, abandonados e esquecidos por todos.

Ryer parou de chorar, soltou-se dos braços de Ahren e o olhou diretamente.

— Você ainda vem comigo?

Ele assentiu. Jamais pensara em fazer outra coisa.

— Não precisa — disse ela. — Eu não esperaria que você honrasse sua promessa, não depois de saber que eu...

— Pare — ele a interrompeu rápido, sem graça. — Não diga mais nada.

Ela o estudou por um momento, então se inclinou para beijar seu rosto. No calor e na suavidade de seus lábios, ele pôde sentir a medida de seu amor próprio e respeito retornarem.

 

Então eles se levantaram e continuaram pelos infinitos corredores e câmaras de Castledown protegidos pela magia da pedra fênix, guiados por seus instintos e necessidades. A jovem vidente ainda estava lutando com seus demônios interiores, mas seus traços pálidos e etéreos estavam firmes e resolutos. Ela tomou novamente a mão de Ahren, muito embora tivessem determinado que ela não precisava fazer isso. Ahren estava satisfeito. O toque de Ryer fazia pelo menos tanto por ele quanto o de Ahren por ela. Ele sentia como se fossem crianças perdidas em uma floresta escura, com a noite se aproximando e os lobos todos ao seu redor, confiando cegamente em um talismã que ele não compreendia nem controlava. A magia da pedra fênix os estava protegendo, mas quanto tempo ela iria durar? Ele não queria que o apanhassem desprevenido ou antes de chegar a seu objetivo.

Ou objetivos, ele se corrigiu. Por um lado, havia Walker, e por outro as pedras élficas. Ele não havia falado destas últimas para Ryer Ord Star, mas assim que encontrassem o druida ele pretendia procurar as pedras. Talvez ele estivesse pedindo demais. Era possível que depois de localizar Walker a magia pudesse desaparecer. Ele não tinha como saber. Só poderia planejar contingências, torcer e fazer o melhor que pudesse com o que acontecesse.

Caminharam por um longo tempo, mas não encontraram nem rastejadores nem fios de fogo. Se Antrax os estava caçando, estava fazendo isso de outra maneira. Agora estavam descendo a passo firme através de rampas e escadas, mais no subterrâneo do que haviam ido antes. Para Ahren, fazia sentido que Antrax mantivesse a magia que guardava mais no fundo e melhor escondida. Ele achava que havia uma ótima chance de que Walker também estivesse lá.

Adiante, não muito distante, a maquinaria zumbia e roncava suavemente, em uma cadência constante, que reverberava pelo aço dos túneis até o interior de seus ossos.

Então o corredor se bifurcou para a esquerda e para a direita em uma série de aberturas em forma de arco e sem portas, todas levando para uma passarela sobre um aposento cavernoso repleto de imensos gabinetes metálicos e aglomerados de luzes piscando em painéis. Rodas giravam atrás de janelas esfumaçadas; discos prateados brilhantes refletiam a luz suave de tubos de lâmpadas sem chama que subiam e desciam pelas paredes e atravessavam o teto alto da sala. O zumbido da maquinaria estava por todo o lugar, pontuado por bipes, chiados e outros barulhos estranhos, todos provenientes da câmara abaixo.

Era uma visão assustadora, uma visão surreal de alguma coisa que não havia existido por milhares de anos além daquelas paredes. Fizeram uma pausa sobre a passarela, olhando o conteúdo da sala abaixo, procurando alguma coisa que fizesse sentido. Nada do que viam lhes era familiar, mas um instante depois Ryer perdeu o fôlego, disse o nome de Walker e puxou a mão de Ahren, arrastando-o até uma escada metálica que levava para baixo. Ele foi sem questioná-la, já sabendo o que estava acontecendo. Desceram as escadas e seguiram por entre o labirinto de gabinetes de cinco metros de altura cheios de fileiras de discos prateados giratórios. Pelo menos uma parte da maquinaria que haviam ouvido da passarela estava atrás dos painéis. Ahren olhou para sua superfície suave, certo de que haviam saído do Antigo Mundo, imaginando se eles continham a magia que a companhia da Jerle Shannara havia procurado. Que espécie de magia, ele se perguntou, seria mantida em uma concha metálica de discos giratórios e luzes que piscavam? O que eles procuravam eram livros, mas ali não havia livros: pelo menos não que ele pudesse ver. Talvez estivessem mais no subterrâneo e os gabinetes e sua maquinaria servissem como alguma espécie de protetores.

Então ele avistou os rastejadores. Diversos deles estavam descendo as fileiras de gabinetes, parando periodicamente para manipular os discos giratórios e as luzes que piscavam. Se haviam visto Ahren e Ryer, não deram indicação disso. Os rastejadores eram diferentes daqueles que haviam encontrado antes. Maiores do que os chamados varredores, mesmo assim eram mais do tipo daqueles: zeladores de Castledown e não defensores. Eram equipados com estranhos membros metálicos que se estendiam em todas as direções, tocando aqui e ali e inserindo dedos de formas estranhas em fendas e aberturas, fazendo com que o som da maquinaria ou o piscar das luzes se alterasse, mudando de vez em quando a cadência ou a velocidade dos discos.

Fascinado, Ahren reduziu o passo para olhar aquilo mais de perto, mas Ryer Ord Star não quis saber. Puxou-o para adiante, ansiosa. O destino dela era a outra extremidade da câmara. Um dos rastejadores estava se movendo na mesma direção, um pouco adiante deles, antecipando o que ela pretendia. A vidente deu uma olhada frenética para Ahren por sobre o ombro, então disparou a correr, arrastando-o com ela. Envoltos na nuvem protetora da magia da pedra fênix, eles correram atrás do rastejador por uma série de portas metálicas que se fechavam em câmaras mal iluminadas que podiam ser distinguidas através de uma fileira de janelas altas e escuras.

O rastejador foi mais rápido e chegou lá primeiro, tocando um painel que fez com que a porta de uma das câmaras se abrisse deslizando. Uma luz nova espalhou-se pela porta revelando um painel atrás de outro com luzes que piscavam e dezenas de tubos que serpenteavam para dentro, em direção ao centro do aposento. O rastejador desapareceu lá dentro, rolando sem fazer barulho em sua base de rodízios.

Ahren e Ryer apareceram atrás dele correndo, a garota ainda na frente. Atravessaram a porta aberta e entraram na sala, mas Ryer parou tão subitamente que Ahren esbarrou no corpo da vidente. Lutando para evitar que ambos caíssem, ele acompanhou o olhar dela pela sala. Ele perdeu o fôlego na hora.

Eles haviam encontrado Walker.

Mas talvez fosse melhor se não o tivessem encontrado.

 

A noite caiu sobre a terra como um grande gato sedoso, sua sombra escurecendo a floresta em camadas cada vez mais profundas, roubando a luz do dia de forma sorrateira. Bek sentou-se em frente a sua irmã e viu-a cortar fatias de queijo com uma pedra afiada e tostar pão em seixos aquecidos por carvões. Ela já havia limpado e separado frutinhas em folhas largas tiradas de plantas tropicais que não deveriam crescer tanto ao norte, mas de algum modo cresciam. Trabalhava com firmeza e objetividade e não olhava para ele. De qualquer maneira, não olhava para ele a maior parte do tempo. Ela o tratou da mesma forma que Quentin tratava seus cães de caça: alimentava-o, dava-lhe água, deixava-o descansar e esperava que ele fizesse o que ela mandasse, ficando com ela quando viajasse. Demonstrava interesse por ele apenas o suficiente para fazê-lo saber que ela estava de olho e nada mais. A muralha que havia erguido entre os dois era alta, profunda e muito compacta.

— Vá até a corrente e nos traga água fresca — ela disse sem levantar a cabeça.

Bek se levantou, apanhou a bolsa de água quase vazia e caminhou para dentro da floresta. Ela não se preocupou com a possibilidade de ele tentar fugir. Afinal, ele dera sua palavra. Não que ele acreditasse por um momento que sua palavra valesse algo para ela. Mas estava proibido de sair da presença de sua irmã levando a espada de Shannara, sabia que Grianne poderia rastreá-lo facilmente se decidisse fugir. Não gostava de pensar no que ela faria com ele se tentasse isso. Se precisasse de mais provas de como podia ser impiedosa, ela as havia fornecido contando-lhe o que havia acontecido com Truls Rohk.

Ela guardou isso para si por quase dois dias enquanto viajavam por aquele território de colinas e florestas na direção das ruínas, pondo de lado as repetidas perguntas que Bek fazia. Mas ele a pressionou teimosamente por uma resposta, e finalmente recebeu uma. Ela havia deixado o caull escondido para lidar com o mutante, quando retornasse de sua emboscada fracassada. Ele acabaria percebendo que fora tapeado e voltaria para encontrar Bek. Não podia arriscar que ele fosse atrás dela assim que descobrisse o garoto desaparecido. Truls Rohk também era incansável e perigoso, do mesmo modo que Grianne. Ela o respeitava por isso, mas ele teria de ser eliminado. Ela deixaria que o caull acabasse com ele.

Bek estava atordoado, ao mesmo tempo zangado e emocionado, mas não havia nada que pudesse fazer a respeito. Talvez ela tivesse pensado errado com relação ao mutante e ele não tivesse voltado para encontrar Bek, afinal. Talvez ele tivesse sentido que o caull estava esperando e o tivesse evitado. Mas ela parecia tão certa de que a questão estava resolvida que as esperanças dele diminuíram quase imediatamente. Ele estava sozinho e sabia disso. Quaisquer escolhas que fizesse dali por diante seriam de sua própria responsabilidade.

Portanto, fugir estava fora de cogitação. Isso não havia funcionado da primeira vez e não havia razão para achar que funcionaria agora. Além do mais, se houvesse alguma chance de convencê-la de que ele realmente era seu irmão, precisava tirar vantagem disso. Não podia se dar ao luxo de afastá-la ainda mais. Embora ela quase não prestasse atenção nele, deixava-o falar e ele utilizava cada oportunidade para tentar convencê-la de quem era. Na maioria das vezes, ela o ignorava, mas ocasionalmente respondia a seus argumentos, e mesmo as reações pequenas, as observações críticas, forneciam evidências de que estava ouvindo o que ele dizia. Podia não acreditar nele, mas pelo menos estava levando suas palavras em consideração.

Ele encheu a bolsa de água, ajoelhado na beira do riacho, olhando as trevas adiante. Mesmo assim o tempo estava passando. Estavam apenas a um dia de distância de seu destino. Assim que chegasse lá, ela pretendia entregá-lo aos mwellrets enquanto tornava a partir em busca de Walker. Os rets o colocariam a bordo da Black Moclips e o manteriam prisioneiro até que ela retornasse. Esse seria o fim de qualquer chance de defender sua causa e, talvez, o fim de qualquer chance de salvar a vida de Walker.

Ele encheu a bolsa de água até a boca, e então a fechou e se levantou. Walker podia tomar conta de si mesmo, é claro — se ainda estivesse vivo e capaz de fazê-lo, o que não era certo de modo algum. Mas a bruxa Ilse era um inimigo formidável; já havia provado isso. Bek não sabia se Walker era páreo para ela, pois não tinha certeza de que o druida pudesse ser tão impiedoso quanto ela, e para sobreviver ele teria de sê-lo.

Voltou por entre as árvores até o pequeno acampamento e entregou a bolsa de água para sua irmã. Ela a pegou sem olhar para ele e aspergiu gotículas de água nas frutinhas. Ele ficou em pé olhando-a por um momento, e então tornou a se sentar. Depois de comer, tomariam banho, ele primeiro, ela depois. Faziam isso toda noite, usando a água que estivesse ao alcance da mão, lavando-se da melhor forma possível. Não tinham roupas novas para trocar, mas pelo menos podiam manter seus corpos limpos. Estava quente até mesmo à noite para tomar banho nos rios e riachos — no inverno, em uma terra mais ao norte do que qualquer parte de onde ele viera. Bek tornou a imaginar como era estranha uma coisa dessas, lembrando-se do próprio comentário de Walker a respeito.

Grianne passou-lhe uma fatia de pão coberta com frutinhas esmigalhadas e reduzidas a uma pasta açucarada, e ele mastigou aquilo pensativo, os olhos no rosto dela. Ainda estava irritada com os esforços dele em quebrar sua descrença no começo do dia. Na verdade, ela o mandara não falar daquilo novamente. Mas ele não podia ficar quieto quando havia tanto em jogo. Tampouco podia se dar ao luxo de esperar até que ela estivesse mais receptiva.

Quando ela cometeu o erro de olhar para ele, ele falou na hora:

— Você não está pensando com clareza — disse. — Se estivesse, veria todas as falhas em seu raciocínio. Veria as falhas de lógica no que lhe foi contado.

Ela olhou para ele sem expressão e mastigou devagar.

— Se eu não sou Bek, como é que tenho o mesmo nome? Você diz que minha mente foi alterada para crer que “Bek” era meu verdadeiro nome. Mas Quentin me conhece a vida toda. E também meu pai e minha mãe adotivos. Eu sou Bek desde que fui levado para eles. Será que as mentes deles também foram alteradas? Será que todo mundo em Leah teve a mente alterada para acreditar que eu sou alguém que não sou?

Ela não respondeu, não fez nada além de levar uma fatia de queijo até a boca e dar uma mordida.

— Ou será que Walker é tão inteligente que esteve planejando isso desde que me levou até Coran e Liria há quinze anos?

Ela olhou para ele como um inseto olharia para uma folha.

— É nisso que você acredita, não é? Você acha que ele esteve planejando essa charada por todos esses anos só para tapear você. Mas não sabe dizer por que ele faria isso, sabe?

Ela levou a bolsa de água aos lábios e bebeu, e em seguida a entregou para que ele pudesse fazer a mesma coisa. Os olhos dela eram tão vazios e mortos quanto os de uma cobra.

— Ah, tem razão, ele quer derrubá-la, minar sua resolução, baixar sua guarda. Assim ele pode subverter você, fazer com que o sirva para os próprios usos dele, sejam lá quais forem. Ele pode roubar sua magia e fazer de você um títere para ele. Assim como fez comigo, só que você é a presa maior, pois sua magia é muito mais forte do que a minha e você é uma ameaça maior para ele. — Ele deixou o sarcasmo escorrer por suas palavras como se fosse óleo. — Sombras, não é ótimo que você seja esperta o bastante para ver isto?

Ela estendeu a mão e tomou a bolsa de água dele.

— Pensei que havia dito para você não falar disso novamente.

Ele deu de ombros.

— Disse. — Ele terminou o pão e pegou uma fatia do queijo. — Mas não consigo evitar. Preciso entender por que você não vê a verdade. Nada do que acredita faz sentido. — Fez uma pausa. — E quanto à razão que o Morgawr deu a você sobre o motivo pelo qual Walker tentou seqüestrá-la em primeiro lugar? E quanto a isso? Ele disse que foi porque Walker queria que você se tornasse uma druidesa, mas nossos pais se recusaram. Não permitiriam isso, nem pensariam a respeito, e por isso ele os matou e a seqüestrou. Será que isso não seria um pouquinho desajeitado, quando havia maneiras muito mais sutis de ganhar você? Por que ele seria tão burro a ponto de deixar que você testemunhasse a morte de nossos pais enquanto a capturava? Ele não poderia ter simplesmente alterado sua mente em vez disso? Isso não teria sido muito mais fácil? Ele é esperto o bastante, não é? Sua magia pode fazer você acreditar em qualquer coisa. Foi assim que ele chegou a mim.

Os olhos dela estavam fixos nos dele.

— Eu não sou como você. Você é fraco e burro. Você é um peão e não entende nada.

Ela falava sem rancor ou irritação. Suas palavras eram frias, sem vida e refletiam o tom pálido e rígido de seu rosto jovem enquanto ela terminava seu pão com queijo sem tirar o olhar do dele. Olhava tão profundamente que Bek achou que ela devia ver tudo o que estava escondido ali.

Ele sacudiu a cabeça para afastar o frio que o olhar dela o fazia sentir.

— O que eu entendo — disse ele — é que você se tornou a própria coisa que estava tão preocupada em evitar.

Ela balançou a cabeça rapidamente.

— Eu não sou um druida — disse. — Não me chame assim.

— Você é tão boa quanto um. Igual a um, na verdade. — Ele inclinou-se, desafiador. — Explique para mim como é que você difere de Walker. Diga-me o que ele fez em sua vida que você não tenha feito na sua. Mostre-me onde a estrada que você tem viajado se distancia da dele.

Ela o encarou em silêncio, mas seus olhos estavam zangados agora.

— Você parece ter a intenção de me provocar.

— É mesmo? Deixe-me contar a você uma história, Grianne. Enquanto eu estava a caminho de Arborlon, viajei com Quentin através do território do rio Prateado. Ao dormir, tive uma visão. A visão era a de uma jovem que apareceu para mim, que em seguida se transformou em um monstro, uma coisa tão horrenda que eu mal conseguia olhar. Essa jovem era você aos seis anos, e a coisa na qual você se transformou parecia muito com os mwellrets que você comanda. Acredito em visões, em sinais de coisas por vir, em previsões do futuro. Essa foi uma delas. Eu estava vendo seu passado e seu futuro. Estavam me dizendo que era responsabilidade minha mudar o seu destino, impedir que essa transformação acontecesse.

— Você se atribui muito então. Presume mais do que deveria.

Ele balançou a cabeça.

— É mesmo? Eu não procurei por isso. Nem sequer entendi o que estava sendo mostrado para mim. Não até eu descobrir quem eu era. Não até encontrar você. Mas acho agora que, se eu não encontrar uma maneira de convencê-la da verdade, ninguém mais o fará, e essa visão acontecerá.

— Nada tenho em comum com os mwellrets ou com os druidas — ela desdenhou. — Você é um garoto de imaginação vivida demais e sem nenhum cérebro. Você confia cegamente na pessoa errada e supõe que suas verdades deveriam ser as minhas quando elas não são nada a não ser ilusões. Estou cansada de ouvi-lo. Não fale mais nada comigo. Nem uma palavra.

— Eu falo o que quiser! — ele disparou para ela. Por dentro, tremia. Ela podia ser volúvel, perigosa, mas a cautela não mais servia a nenhum propósito. — Você está cercada de seguidores obsequiosos e mentirosos de toda a espécie. Você se separou da verdade por tanto tempo que não a reconheceria se ela pulasse na sua frente. Por que não admite que não tem certeza a meu respeito? Por que pelo menos não confessa isso?

O rosto dela se anuviou.

— Fique quieto.

— Deixe-me ir com você procurar Walker. Deixe que ele a ajude. Que mal pode fazer falar com ele? Basta escutar o que ele tem a dizer. Se você tirasse cinco minutos para pensar...

— Chega! — ela gritou.

Ele levantou-se de um pulo.

— Chega o quê? Da verdade? Eu sou seu irmão, Grianne! Eu sou Bek! Pare de tentar negar isso! Pare de distorcer tudo ao seu redor!

Ela também se levantou, rígida de fúria. Ele sabia que deveria parar, mas não conseguia.

— Quer que eu lhe diga o que realmente aconteceu com nossos pais? Quer que eu lhe diga o que foi feito a você? Quer que eu fale as palavras em voz alta, para que você possa ouvir o som delas? Você é tão cega que não consegue...

Ela tornou a gritar, só que desta vez não havia palavras, apenas um som que rasgava o ar como navalhas. A magia da canção do desejo queimou a garganta de Bek, torcendo-a e apertando-a até ele sentir falta de ar. Levantou as mãos em um esforço atrasado de se proteger, cambaleou para trás e caiu. A força e a rapidez inesperadas do ataque o deixaram tonto e caído no chão, os olhos queimando, a respiração vindo em golfadas profundas e entrecortadas.

Ela assomou à sua frente, puxando os mantos para perto do corpo, o rosto pálido retorcido de nojo. Então estendeu a mão para tocar o pescoço dele e tudo ficou escuro.

 

Quando ele estava dormindo e respirando normalmente outra vez, ela estendeu os braços e as pernas dele e o cobriu com seu manto esfarrapado. Que idiota! Ela o alertara para que não dissesse mais nada, mas ele continuara a pressioná-la. Ela havia reagido quase sem pensar, perdendo o controle de si mesma e atacando enraivecida. Sentiu uma pequena vergonha de ter feito isso. Não importava qual era a provocação; ela devia ter sido capaz de manter a magia sob controle. Devia ter sido capaz de evitar atacá-lo daquela maneira. Poderia tê-lo morto facilmente. Não teria precisado tanto assim para fazê-lo. O poder da canção do desejo era imenso. Se ela escolhesse, podia usar sua magia para fazer ressecar um dos imensos carvalhos velhos que abrigavam o acampamento dos dois, transformá-lo em polpa, casca e seiva, reduzi-lo até a terra da qual haviam crescido. Como seria muito mais fácil fazer o mesmo com esse garoto.

— Eu avisei — ela sibilou para sua forma adormecida, ainda admoestando interiormente a si mesma.

Endireitou-se e afastou-se, parando na margem da clareira e olhando para a escuridão. Afastou do rosto os longos cabelos compridos e dobrou os braços dentro dos mantos. Talvez sua reação tivesse sido a melhor. O que ela havia feito agora era o que tinha pretendido fazer de qualquer maneira assim que alcançassem a baía onde a Black Moclips estava ancorada: tirar sua voz e torná-lo indefeso. Caso contrário, não poderia se dar ao luxo de deixá-lo com os mwellrets. Tiraria sua espada também, a lâmina que ele afirmava ser a espada de Shannara. Ficaria trancado no brigue e mantido ali até que ela terminasse seus negócios com o druida.

Olhou para trás, para onde ele estava dormindo, e tornou a desviar o olhar. Queria ter dito a ele o que ia fazer antes, para explicar que era temporário, alguns dias e nada mais. Queria ter dito que restauraria sua voz quando o visse novamente, que ela negaria a magia que o mantinha preso. Ainda diria isso a ele pela manhã quando acordasse, mas o efeito seria diferente do que havia planejado.

Ficava irritada quando sentia a necessidade de se justificar para ele. Ela não lhe devia nada, afinal, como se ele importasse para ela minimamente. Mas, por mais que tentasse, não podia dispensá-lo como sendo nada mais do que um garoto que o druida de algum modo tivesse subvertido para usar contra ela. Sabia que uma explicação dessas era simplista demais. Ele era mais do que isso; sua magia era real. Ele talvez fosse tão teimoso quanto ela, e havia pelo menos um pouco de verdade no que estava dizendo. Ela não admitiria isso a ele, mas podia sentir. O problema estava em decidir o quanto. Onde terminavam as mentiras e começava a verdade? O que o druida conseguiria enviando o garoto a ela? Pois ele havia enviado o garoto, por mais que eles tivessem encontrado um ao outro sem querer. Ele havia enviado o garoto, e isso era tão certo quanto o fato de que ela havia enviado Ryer Ord Star para espionar.

Seria possível que ele realmente fosse Bek?

Parou de respirar por um momento, o pensamento suspenso à sua frente como uma criatura exótica. Isso seria possível, afinal? Ele ainda podia ser Bek e estar mentindo quanto aos seus pais. Ainda podia ser um tolo involuntário. Poderia estar se enganando sem saber.

Mas como o druida o havia encontrado quando ela pensara que ele estava morto? Como o druida soube quem era ele? Será que o druida voltara para os escombros e o procurara? Será que o druida decidira fazer uso de Bek em seus esquemas porque perdera a utilidade dela?

Apertou os lábios. Todos eram usados nessa vida. Pensou no Morgawr, seu mentor de todos esses anos, seu mestre na fina arte do uso da magia. Ela sabia bastante a seu respeito, sobre quem ele era, para saber que não se podia confiar nele, para aceitar que ele era tão perigoso quanto o druida. Ela sabia que ele a havia usado. Que ele escondia coisas que lhe permitiam manter o controle sobre ela. Era simplesmente assim que as coisas eram. Ela também manipulava e enganava. O garoto tinha razão quanto a isso. Ela não era tão diferente do Morgawr, e o Morgawr era muito parecido com o druida.

Mas será que o Morgawr havia mentido para ela sobre seus pais? Se ele tivesse mentido, como ela podia ter lembranças tão fortes do druida e de seus servos de mantos escuros descendo sobre sua casa naquela última aurora? Isso não parecia correto para ela. Não parecia possível. O druida havia desejado que ela fosse com ele a Paranor. Ela se lembrava das visitas dele a seu pai, as conversas e avisos sombrios. Não, ele havia matado seus pais e a seqüestrado como ela acreditava.

Mas o garoto que se achava seu irmão tinha razão. De qualquer modo, ela havia terminado uma druidesa, em outro lugar, de outra forma. Não podia dizer que era diferente de Walker, nem melhor nem pior. Não podia apontar o ponto onde suas vidas se diferenciavam. Ao escapar dele, permitira que o Morgawr a transformasse em uma imagem refletida de seu inimigo. Seu uso da magia e seus esforços para acumular poder eram muito parecidos com os dele. Se ele havia feito coisas ruins para atingir seus objetivos, ela também.

Pensar em tudo isso, aceitar essa verdade, fez com que ficasse mais zangada ainda consigo mesma. Mas não havia lugar para raiva em seus esforços para realizar as tarefas que havia iniciado. Ela deveria encontrar a magia oculta em Castledown, obter sua posse e voltar para a nave. Deveria decidir o que fazer com o garoto e suas acusações desconfortáveis. Deveria resolver as coisas de uma vez por todas com o druida e o Morgawr.

Não duvidou nem por um momento de que era capaz de tudo isso, ou de que pudesse efetuar seus planos da maneira pretendida.

Mas, gostasse disso ou não, estava começando a questionar seu raciocínio para fazê-lo.

 

Quilômetros a sudeste, bem distante da abertura para o Squirm e seus campos de gelo, e além dos penhascos que protegiam a aproximação oriental da Divisa Azul, a Jerle Shannara estava ancorada. Estava ancorada em uma enseada coberta de florestas entre dezenas de outras nas terras baixas, a quilômetros de onde depositara Walker e aqueles que haviam desembarcado à procura de Castledown. A Jerle Shannara estava abrigada do tempo infernal que assolava a costa, oculta de olhos de espiões enquanto passava por reparos.

Sentada em um banco na proa da nave, de frente para a abertura estreita da enseada, Rue Meridian podia apenas vislumbrar as águas distantes da Divisa Azul. Usava calças frouxas e túnica, lenços em tons vermelhos e alaranjados enrolados ao pescoço e na testa, botas velhas e confortáveis que iam até os tornozelos. Um cobertor a protegia do frio. Entediada e inquieta, ela arrastava uma das botas no convés e ponderava pela centésima vez a sua insatisfação. Fazia quase uma semana desde que o Ruivão havia levado a aeronave para terra depois de seu encontro quase catastrófico com o Squirm, criando um curso de volta à costa que evitava geleiras, montanhas e a névoa escura. Uma rota mais longa e mais tortuosa do que aquela que os levava através do Squirm subindo o canal do rio era de longe a mais segura. Retomando a costa, os rovers navegaram à procura dos cavaleiros alados, a quem rapidamente encontraram e levaram até a baía que os protegia. Desde então, rovers e cavaleiros alados se juntaram para reparar o vaso danificado, enquanto Rue havia ficado de cama, curando suas feridas e dormindo sem ser perturbada.

Ambas as coisas eram processos intermináveis, ela reclamou consigo mesma em silêncio. Olhou para a perna, onde sofrerá a mais profunda e mais séria ferida em sua batalha com os mwellrets. Pontos e pomadas haviam começado a curá-la bem, mas não estava inteiramente fechada e ela ainda não conseguia andar sem sentir dor. O ferimento de faca em seu braço havia curado mais rápido, e as marcas de garras em suas costas e flancos eram pouco mais do que os indícios de cicatrizes que ela jamais perderia. Para ela, isso significava que, de três, já havia curado dois, mas a perna impediria que ela fizesse muita coisa, e a inatividade estava começando a angustiá-la.

Teria ajudado se os reparos na nave andassem mais rápido e já estivessem navegando de volta em busca de seus amigos e parceiros do navio que estavam abandonados. Mas os danos na Jerle Shannara haviam sido mais extensos do que qualquer um havia pensado à primeira vista. Não eram só as travas estilhaçadas, as bainhas de luz rasgadas e o mastro principal quebrado que haviam aleijado a nave. Dois dos tubos de fragmentação, juntamente com seus cristais-diapasão, foram arrancados e perdidos no mar. Uma dezena de atratores radianos estavam irremediavelmente quebrados. A natureza do dano impedia uma simples substituição; exigia a reconstrução de todo o sistema que permitia que a nave voasse. Spanner Frew dava conta da tarefa, mas estava levando tempo demais.

Ela observou o atarracado construtor naval curvado sobre a cobertura esquerda de proa, direcionando o conjunto do tubo e do cristal existentes, realinhando o atrator esquerdo do meio da nave que agora corria para aquele local também. Era o segundo dos três que estavam envolvidos no realinhamento. Ninguém sabia se a nova configuração iria funcionar direito, o que significaria testá-la antes de se aventurarem para dentro da terra e arriscarem outro encontro com a Black Moclips e a bruxa Ilse.

Toda vez que ela pensava na bruxa, era consumida por uma fúria terrível. Não era o dano na nave ou o aprisionamento dos rovers que alimentavam essa fúria. Não era sequer a inevitável perda de contato com a companhia de Walker. Era pela morte de Furl Hawken que ela mais culpava a bruxa. Não fosse pelo fato de a bruxa ter tomado a Jerle Shannara e aprisionado a tripulação rover, isso nunca teria acontecido.

Um dia, de algum modo, ela prometera a si mesma, a bruxa Ilse seria obrigada a pagar pela morte de Hawk. Era uma coisa que ela havia jurado enquanto estava abaixo do convés, ainda fraca demais até mesmo para se sentar, incapaz de parar de pensar no que havia testemunhado. Haveria um ajuste de contas para Hawk, e a Ruivinha queria ser a pessoa que ia acertar as contas.

O dia estava se arrastando na direção da tarde, o céu uma massa de nuvens cinzentas espessas, o sol escondido, o ar cortante de tão frio. Pelo menos eles estavam suficientemente abrigados pela enseada para se protegerem do vento cortante e da neve fina que soprava veloz ao longo da costa. Ela estava maravilhada com a estranheza do clima, tão diferente na costa do que na terra, tão inexplicavelmente contrastante. Somente shrikes, gaivotas e coisas parecidas conseguiam fazer lares nas encostas das águas costeiras. Humanos jamais conseguiriam viver ali confortavelmente. Ela imaginava se havia humanos vivendo em terra. Imaginava se havia humanos em algum lugar, afinal.

— Boa-tarde — grunhiu uma voz, arrancando-a de seu devaneio.

Ela se virou e viu Hunter Predd a alguns metros de distância, o corpo magro envolto em um manto pesado, suas feições desgastadas e divertidas. Sorriu melancólica.

— Desculpe. Eu estava em outro lugar. Boa-tarde para você.

Ele se aproximou mais um passo, olhando para o oceano.

— Tem uma tempestade grande vindo aí, uma das ruins. Eu a vi se armando quando estava voando com o último carregamento de cânhamo e junco. Ela pode nos deixar presos aqui por alguns dias.

— Estamos presos aqui de qualquer maneira até que a nave possa voar novamente. Quanto tempo agora, mais dois ou três dias pelo menos antes de voltarmos a navegar?

— Pelo menos isso.

— Ainda está coletando materiais?

Ele balançou a cabeça e passou uma mão retorcida pelos cabelos emaranhadas pelo vento.

— Não, já acabamos. Agora é com o Barba Negra e com os outros para fazer isso tudo funcionar.

Ela chamou-o com um gesto.

— Sente-se. Converse comigo. Já estou cansada de conversar comigo mesma.

Deu lugar para ele no banco, balançando as pernas e colocando os pés cuidadosamente sobre o convés. Ela fez uma careta involuntária com a dor que esse esforço trouxe.

Um olhar aguçado disparou em sua direção.

— Ainda está um pouco sensível, pelo que vejo.

— Será que todos os cavaleiros alados possuem poderes tão agudos de observação?

Ele deu uma risadinha.

— Os sentimentos também parecem um pouco sensíveis.

Ela não falou nada por um momento, olhando para suas pernas, suas botas, o convés. O tempo passou. Ela sentia um grande vazio no coração, um lugar se abrindo onde a oportunidade escapava enquanto ela ficava sentada sem fazer nada.

Levantou a cabeça para olhar nos olhos dele.

— Quanto tempo faz desde que os deixamos? Mais de uma semana, não é? Muito tempo, cavaleiro alado, tempo demais.

Ele assentiu, franzindo a testa. Ia começar a falar, mas parou, como se decidisse que qualquer coisa que dissesse era desnecessária. Abraçou o joelho com as mãos e ficou balançando devagar em seu manto, balançando a cabeça grisalha.

— Você não pode estar gostando desse atraso mais do que eu — disse. — Você também deve estar querendo fazer algo a respeito.

Ele concordou.

— Estive pensando nisso.

— Se pudéssemos apenas descobrir se eles estão bem, se estão seguros o bastante até que a nave possa alcançá-los...

Não terminou a frase, esperando que ele fizesse isso por ela. Em vez disso, ele olhou ao longe como se tentasse vê-los através da neblina e do frio. Então tornou a assentir.

— Eu poderia procurá-los. Poderia partir agora, na verdade. Deveria fazer isso agora, porque assim que a tempestade chegar, não será tão fácil sair voando.

Ela se inclinou para a frente, ansiosa, os cabelos vermelhos caindo sobre os ombros.

— Eu tenho as coordenadas que o Ruivão mapeou a partir de nossa jornada. Não teremos nenhum trabalho em segui-los de volta.

Ele olhou surpreso para ela.

— Nós?

— Eu vou com você.

Ele balançou a cabeça.

— Seu irmão não vai deixar você ir, e você sabe disso. Ele vai impedir isso antes que termine de contar a ele o que pretende.

Ela parou um momento, então estendeu um dedo e tocou a têmpora.

— Pense no que acabou de dizer, Hunter Predd — ela aconselhou suavemente. — Quando foi a última vez que meu irmão me disse o que fazer, você imagina?

Ele sorriu, compreendendo melancólico.

— Bem, de qualquer maneira, ele não vai gostar disso.

Ela retribuiu o sorriso.

— Não será a primeira vez que ele terá de lidar com esse tipo de decepção. E nem a última, aposto.

— Você e eu? — ele perguntou, erguendo uma sobrancelha.

— Você e eu.

— Não vou perguntar se tem condições de fazer isso.

— Melhor não.

— E não vou perguntar o que pretende assim que chegarmos lá também, muito embora esteja disposto a apostar que isso vai além de um rápido vôo de reconhecimento.

Ela assentiu sem responder.

Ele soltou um suspiro fundo.

— Vai ser bom voltar para o ar, fazer o que fomos treinados para fazer, eu e Obsidian. — Esfregou as mãos cheias de calos. — Vamos deixar Po Kelles e Niciannon para executar as tarefas que seu irmão e os outros precisarem até nos alcançar. Talvez nossa partida os inspire a trabalhar mais rápido nos reparos.

— Talvez. Meu irmão detesta ficar para trás em qualquer coisa. Dar uma olhada em terra foi idéia dele, em primeiro lugar.

— E agora você rouba a idéia dele. — Balançou a cabeça, sorrindo melancólico. — Quanto tempo demora para se aprontar?

Ela se levantou desajeitada e se desenrolou do cobertor. Por baixo, as facas de atirar estavam amarradas na sua cintura.

Ela ergueu uma sobrancelha para ele.

— Quanto tempo você demora para selar seu pássaro?

 

Montados em Obsidian, voaram para o interior, longe da costa, acomodados confortavelmente sobre o arreio amarrado nas costas emplumadas do roca, Hunter Predd nas rédeas e Rue Meridian sentada logo atrás dele. A rover vestia suas peças de couro para vôo, negras como as de seu irmão e moldadas ao seu corpo pelo uso constante. Por baixo delas, seus ferimentos estavam cuidadosamente enfaixados e protegidos e o couro servia como uma armadura leve para protegê-los dos piores tratamentos que ela pudesse sofrer na jornada. À guisa de armas, ela levava uma braçada de facas de atirar na cintura, outra enfiada na bota, uma faca longa amarrada em sua coxa boa, e arco e flechas às costas. Um grande manto com capuz a protegia contra o frio e o vento, mas mesmo assim ela acabou abaixando a cabeça e encolhendo os ombros para permanecer aquecida.

Dizer que seu irmão estava zangado com sua decisão de fazer essa jornada era a obviedade do ano. Ele estava tão furioso, tão atordoado pelo que considerava uma evidente estupidez e um julgamento imensuravelmente errado da parte dela, que acabou gritando, fazendo com que os reparos da aeronave parassem até ele terminar. Ninguém mais disse uma palavra, nem mesmo Spanner Frew. Ninguém mais queria tomar parte da discussão. O Ruivão estava falando por todos — ou seja, alto o bastante por todas as suas vozes juntas — e não havia mais nada a ser dito ou feito. Ela escutou pacientemente por alguns minutos, e então começou a gritar com ele; acabou jogando as mãos para o alto e saiu mancando, gritando uma última vez para sugerir que, se ele estava tão preocupado com ela, talvez devesse apressar seus consertos e segui-la.

Não era justo brigar com ele daquele jeito, mas ela não estava mais ligando para o que era justo e razoável. A coisa com a qual ela estava se importando — a única coisa àquela altura com a qual estava se importando — eram aqueles dezesseis homens e mulheres aprisionados em terra, num estranho e perigoso território sem esperança de encontrar o caminho de volta, e uma louca com seus escravos répteis caçando-os. Não fazia idéia do que podia ter acontecido com eles, mas não gostava de pensar nas possibilidades. Queria uma garantia de que seus piores temores não haviam se concretizado. Queria provas da segurança deles. O tempo era um inimigo, rápido e ilusório. O que ela estava fazendo era arriscado, mas valia a pena correr aquele risco em comparação com as conseqüências de um tempo maior de inatividade. Hunter Predd não disse nada durante a discussão nem depois disso, mas ela sabia que ele concordava com sua decisão. Os cavaleiros alados eram cautelosos por treinamento e experiência, mas sabiam a hora de agir.

Quando partiram, a tarde estava caindo e eles voaram até que a noite os envolveu. A linha azul-acinzentada do oceano e as nuvens foram deixadas para trás, juntamente com o frio congelante do ar costeiro. A escuridão da terra era quente e suave, uma mudança bem-vinda. A terra se estendia adiante deles, uma ondulação ininterrupta de topos de árvores verdes e linhas de cordilheiras escuras pontilhadas com lagos e amarradas com rios, bordejadas atrás das encostas costeiras e dos picos das montanhas. Bem ao longe, apanhado em uma réstia de luz do sol que se desvanecia, o brilho de um campo de gelo era duro e faiscante contra a escuridão que se desdobrava.

Hunter Predd virou Obsidian para baixo, para achar um local de acampamento. Após vários minutos de busca, pousaram em uma clareira no alto de uma elevação ampla de floresta que dava a Obsidian diversas opções de se empoleirar e também rotas de fuga, e para seus cavaleiros uma boa visão das cercanias. Não que eles esperassem problemas, mas eram bastante experientes para estarem preparados. Era um território do qual não conheciam praticamente nada. Poderia haver coisas ali que matassem, coisas que jamais haviam encontrado. Ainda que evitassem o que quer que protegesse Castledown, haveria outros perigos.

Enquanto Hunter Predd retirava a sela de Obsidian, escovava suas penas e lhe dava água e comida, Rue Meridian preparou a refeição. Haviam concordado em não acender uma fogueira, para evitar atrair atenção indesejada, por isso ela pegou queijo frio, pão e frutas secas no estoque que havia trazido da nave. Quando Hunter Predd se juntou a ela, ela pegou uma bolsa de cerveja e dividiu-a com ele. Comeram a refeição em silêncio, vendo a escuridão se aprofundar e as estrelas aparecerem. A luz da lua cheia que se levantava ao norte era brilhante e purificadora, e a terra assumia um tom branco e fresco entre as sombras. No topo da elevação, a floresta estava em silêncio. Entre as árvores, nada se movia.

— Quanto tempo levaremos para chegarmos ao nosso destino? — perguntou o cavaleiro alado quando terminaram de comer. Tomou um gole da bolsa de cerveja e entregou-a para ela. — Um cálculo aproximado está bom. Só preciso de alguma idéia de como ajustar o ritmo do meu pássaro.

Ela também bebeu e colocou o recipiente de lado.

— Acho que podemos chegar lá amanhã à noite se partirmos ao nascer do sol e forçarmos a marcha ao longo do dia. Levamos mais tempo para sair, mas estávamos achando o caminho e curando os feridos, por isso foi mais devagar. Perdemos metade de nossa força e muito de nossa capacidade de navegação. Seu roca voará mais rápido do que nós.

— E então vamos dar uma olhada ao redor e ver quem está lá?

Ela deu de ombros.

— Quando eu era criança e brincávamos de esconde-esconde, aprendi que a melhor maneira de encontrar alguém era não procurar com muito esforço. Aprendi que os instintos são necessários, que você tem de confiar neles. Podemos dar uma olhada na baía onde a Jerle Shannara colocou Walker e os outros na margem. Podemos voar para terra até avistarmos Castledown. Mas acho que não podemos ter certeza do que estamos procurando em nenhum dos dois lugares.

— Ou mesmo na superfície.

Ela olhou para ele zangada.

— O que eu quero dizer é que o druida nos contou que o refúgio ficava no subterrâneo. É só.

Ela assentiu.

— Vamos ter de procurar muito, de qualquer forma, para encontrá-los. Eles não vão ficar simplesmente em pé nos esperando.

— Teremos Obsidian para ajudar nessa parte. — O cavaleiro alado fez um gesto para onde o pássaro estava ciscando na escuridão, em um promontório largo de rochas. — Foi para isso que ele foi treinado, para procurar coisas que não podemos ver, para caçar o que está perdido e precisa ser encontrado. Ele é bom nisso. Melhor do que você e eu.

Ela acomodou a perna machucada em uma nova posição. Ela doía por ter ficado presa ao roca durante o vôo, mesmo pelas poucas duas horas em que eles haviam viajado. O quanto estaria pior amanhã à noite? Suspirou cansada enquanto esfregava a perna para fazer com que ela voltasse à vida, tomando cuidado para evitar o ferimento da faca. Não estava pior, supunha, do que imaginava que seria. Ela já havia verificado as bandagens e não havia mostras de sangramento. Os pontos estavam no lugar até o momento.

— Iremos descansar com muita regularidade amanhã — declarou Hunter Predd, observando-a. Ela levantou a cabeça com grande reprovação. — Não só por você — ele acrescentou. — Pelo pássaro também. Obsidian viaja melhor com paradas freqüentes.

— Desde que você não esteja me fazendo nenhum favor especial.

A risada dele foi seca e impiedosa.

— Não iríamos querer isso, iríamos?

Ela passou a cerveja para ele e recostou-se sobre os cotovelos.

— Pode rir à vontade. Você não cresceu como uma garota entre homens do jeito que eu cresci. Se pedisse favores especiais para meu irmão ou meus primos, eles ririam na sua cara. Pior, tornavam as coisas tão difíceis que você desejava jamais ter aberto a boca. Mulheres rovers têm uma tradição de resistência e dureza nascida com as viagens constantes, a responsabilidade pela família e uma vida difícil na maioria das vezes. Nos velhos tempos, não tínhamos cidades, nenhum lugar no mundo fora de nossos vagões e de nossos acampamentos. Éramos nômades, à deriva a maior parte do tempo, no mar ou voando no tempo que restava. Ninguém nos ajudava apenas porque queria. Nós os ensinamos a dependerem de nós, de nossas habilidades e de nossos artigos, para que não tivessem escolha. Sempre fomos um povo auto-suficiente, mesmo agora, como marinheiros, construtores navais e mercenários, e o que mais podemos fazer melhor do que outros...

— Espere aí! — ele interrompeu em protesto. — Não estou rindo de você. Acha que não conheço seu tipo de vida? Não somos tão diferentes assim, você e eu. Cavaleiros alados e rovers sempre viveram separados, sempre foram auto-suficientes, nunca dependeram de ninguém. Isto é verdade há tanto tempo quanto qualquer um consegue se lembrar.

Inclinou-se para a frente.

— Mas isto não quer dizer que não possamos estender uma mão amiga quando necessário. Amizade nada tem a ver com fraqueza. Tem a ver com respeito e consideração por aqueles de quem você gosta. Tem a ver com desejar dar algo em troca para aqueles que você admira. Você podia ter isso em mente.

Ela sorriu sem querer, encantada pela franqueza dele.

— Vivi tempo demais com soldados nas Prekkendorran — ela explicou. — Esqueci como ser grata.

Ele balançou a cabeça.

— Você não esqueceu tanto assim, acho. Apenas se aproxima um pouco demais de seus sentimentos às vezes, Ruivinha. Melhor do que se afastar demais deles.

Dormiram sem perturbações, revezando-se para ficarem de vigia, e acordaram renovados e prontos para prosseguir. Partiram ao nascer do sol, sua luz dourada pálida recobrindo o horizonte como uma fanfarra para assustar a noite. Os traços da terra abaixo gradualmente emergiram das sombras, em um lento relevo de detalhes e cores. Voar ficou mais quente à medida que o sol se levantava, e o céu estava claro e sem nuvens. Rue Meridian levantou o rosto para a luz, achando que talvez o mundo pudesse ser mais gentil, afinal, do que ela havia suposto.

Voaram o dia inteiro, parando para repousar, dar água a Obsidian, comer o almoço, esticar braços e pernas com cãibras. Além de pequenos pássaros e um ou outro animal silvestre, não viram sinal de vida. Depois do meio-dia, o terreno começou a mudar, ficando mais acidentado e menos aberto. Adiante, montanhas de cumes alvos se destacavam contra a linha do horizonte, um espinhaço acidentado descendo ao longo da terra, dividindo a massa em duas. Sopés de colinas aninhavam lagos fundos formados por riachos e correntes que desciam das elevações mais altas. Nuvens começaram a formar massas ao longo dos picos. O céu ao norte ficou cinza e turvo com ameaça de chuva. Ao sul, onde as encostas e campos de gelo estavam aglomerados, o horizonte estava negro com nuvens de tempestade e riscado com relâmpagos que piscavam como explosões de fogo brando.

O sol se punha quando avistaram a baía onde a Jerle Shannara havia deixado a equipe de terra há mais de dez dias. Voaram em círculos para sair da penumbra que descia sobre eles, de forma que não fossem vistos, mantendo baixa altitude sobre os topos das árvores, ocultos contra a massa escura das montanhas. Podiam identificar o relevo tênue da Black Moclips onde ela estava ancorada, flutuando sobre a linha da água. Nenhuma luz queimava em seus mastros ou em suas janelas e nenhum movimento podia ser visto em seus conveses. Hunter Predd levou Obsidian para baixo, sobre uma extensão aberta de rocha que dava para uma cordilheira deserta. Desmontaram e andaram até um lugar de onde poderiam ver a aeronave e a baía.

A oeste, o sol estava abaixo da linha do horizonte e o resto da luz do dia desaparecia nas sombras.

— E agora? — perguntou Hunter Predd.

Rue Meridian balançou a cabeça, olhando fixo para a Black Moclips.

— Talvez devêssemos olhar mais de perto.

Deixando Obsidian ciscando, desceram até a linha da margem, sem pressa e se movendo com cautela pela escuridão que se aprofundava, de modo a fazer o menor ruído possível. No silêncio da enseada, ruídos viajariam grandes distâncias. Os olhos da Ruivinha eram acurados, mas os de Hunter Predd eram ainda mais, então ele foi à frente, escolhendo o caminho que lhes oferecia a passagem mais silenciosa. Levaram quase uma hora para fazer a descida e àquela altura a escuridão já era completa e o céu brilhava com a luz das estrelas e da lua.

Em pé na margem, bem atrás das árvores, a rover e o cavaleiro alado olhavam para a aeronave ancorada na baía. Agora podiam ver o movimento em seus conveses, guardas em vigia, tripulação trabalhando. Podiam ouvir vozes, mantidas em tom deliberadamente baixo, porém audível. Podiam vislumbrar luzes de lanternas mascaradas por sombras e cortinas dentro das cabines abaixo do convés.

Depois de ficarem ali por algum tempo, Hunter Predd voltou-se para ela:

— O que está pensando em fazer?

Ela continuou em silêncio. O que ela estava pensando era uma coisa louca e perigosa. O que estava pensando era que talvez o destino deles lhes tivesse presenteado com uma oportunidade única. Ela fora para lá procurando os membros desaparecidos da companhia da Jerle Shannara, mas em vez disso encontrara o transporte de seu inimigo.

A bruxa Ilse ainda não teria como saber que eles haviam libertado a Jerle Shannara dos mwellrets e dos marinheiros da federação que ficaram lá para vigiá-la. Não tinha como saber que ela agora comandava apenas a Black Moclips. Acreditaria que ambos os veículos ainda estavam seguramente sob seu controle.

Rue Meridian apertou os lábios. Ali estava uma chance para uma verdadeira ironia, um pouco de justiça poética, se ela conseguisse descobrir um meio de orquestrá-la.

Não seria adequado, ela estava pensando, se de algum modo pudesse colocar a bruxa na mesma posição em que a bruxa a havia colocado?

 

Franzindo a testa em descontentamento, a bruxa Ilse olhou para a silhueta cada vez mais escura da Black Moclips, enquanto ela desaparecia por entre as árvores. O crepúsculo cobria a baía de sombras que se estendiam no rastro do crepúsculo para agarrar e envolver a aeronave como dedos fantasmas. Ela dera instruções estritas a Cree Bega e seus rets. O garoto foi colocado sob a custódia deles, para ser vigiado e guardado até seu retorno. Eles não deveriam tentar falar com ele, nem interagir com ele ou ter qualquer coisa a ver com ele. Ele deveria ser mantido trancado. Deveria receber comida e bebida, mas nada além disso. Não teria permissão de sair. Ninguém deveria visitá-lo. Ninguém deveria perturbá-lo.

Se suas instruções seriam ou não seguidas era outra história.

Cree Bega teve suas suspeitas, mas ela havia afastado a maior parte delas com uma pequena mentira. O garoto tinha informações que seriam úteis para eles, mas era ela quem deveria extraí-las dele, já que ele não podia falar. O mwellret não tinha como saber que a ausência de fala do garoto se devia à magia que a bruxa Ilse havia utilizado contra ele, então ele deveria fazer o que ela mandava e esperar seu retorno. Era um risco que ela tinha de correr. Não podia levar o garoto consigo; era perigoso demais ir procurar o druida com ele a reboque. Não podia arriscar deixá-lo em nenhum outro lugar além da nave; alguém da companhia dele poderia encontrá-lo e libertá-lo. Ela havia levado a espada de Shannara consigo, para garantir que ele não conseguiria usá-la. Carregava-a atravessada sobre um dos ombros, enfiada na bainha velha que ela usava. Sem o uso de seu talismã ou de sua voz, o garoto não teria magia alguma para invocar. Era melhor deixá-lo onde estava e esperar que a ausência dela fosse breve.

Tinha razões para achar que seria. Havia corrigido seus planos anteriores, que eram por demais ambiciosos. Por mais que ela quisesse ajustar as contas com o druida, ele nunca fora a razão principal pela qual ela viera na expedição. Recuperar a poderosa magia que jazia nas entranhas de Castledown era seu objetivo mais importante. Além disso, ela precisava de mais tempo para decidir o que fazer a respeito tanto do druida quanto do garoto, especialmente à luz do que o último reclamava sobre sua linhagem. O que ela pretendia fazer era entrar nas ruínas, desviar-se dos fios de fogo e dos rastejadores que haviam tão facilmente derrotado os mwellrets, mas que seriam menos eficientes contra ela, entrar em Castledown, localizar e sugar toda a magia dos livros que estavam escondidos ali e escapar. Deixaria Walker para depois, quando estivesse em segurança de volta ao Caminho Selvagem. Teria sua chance com ele então, pois teria a magia que ele ambicionava e ele seria forçado a ir atrás dela para recuperá-la.

A não ser que ele já a tivesse apanhado, claro. A possibilidade de que o garoto fora enviado para afastá-la de Castledown passou ligeira por sua cabeça, mas ela a afastou. Mesmo assim, o druida poderia ter obtido a posse dos livros enquanto ela estava procurando o garoto. Se o tivesse feito, ela teria de lidar com ele imediatamente. Mas achava que não era o caso. O fato de que sua companhia havia sido dizimada pelos fios de fogo e pelos rastejadores, e de que não havia sinal dele desde então sugeria que ele não havia conseguido nada, que estava em perigo, talvez ferido ou morto. Se não estivesse, já teria emergido. Teria ido em busca do garoto ou dela. O garoto e o mutante não teriam continuado sua fuga. Teria havido algum sinal de atividade. Seus mwellrets haviam patrulhado as margens das ruínas desde sua chegada e não viram ninguém.

Além do mais, ainda que ele tivesse de algum modo os evitado, o que poderia fazer? Livros de magia ou não, estava aprisionado. Ela tinha o controle de ambas as aeronaves. Ela tinha o garoto e a espada de Shannara. O druida estava só, ou quase. Para ter alguma chance de escapar, teria de ir em busca dela. Ela estava preparada para isso.

Deu de ombros. Em todo o caso, saberia o que fazer a respeito do druida quando ele encontrasse os livros de magia. Seus sentidos lhe diriam se ele tivesse estado lá antes dela.

Atravessou o crepúsculo que escurecia como uma sombra, envolta em seus mantos cinzentos, uma presença silenciosa. Enviava sua magia à frente, vasculhando a escuridão, procurando pelo que não podia ver, pelo que poderia aguardá-la adiante. Nada encontrou. Era como se o mundo estivesse deserto, a não ser por ela. Gostava da sensação. Sempre havia preferido a noite, mas a preferia mais ainda quando estava só. Não se sentia ansiosa nem preocupada sobre o que havia adiante. Sabia o que esperar pelo que lhe dissera Cree Bega e, o mais importante, do que havia descoberto ao sondar mentalmente o moribundo Kael Elessedil. Ela sabia dos fios de fogo e dos rastejadores e não achava que fossem uma ameaça. Sabia dos livros de magia e da coisa que os protegia. Antrax. Este era um nome que lhe fora dado há muitos séculos. Ela sabia o que ele era e como podia ser vencido. Sabia mais sobre ele do que ele sobre ela. Ele havia julgado erroneamente a extensão das informações contidas no cérebro de Kael Elessedil. Achava que sabia até mesmo como destruí-lo, caso fosse necessário fazê-lo. Mas a destruição de Antrax não era de sua conta. Os livros de magia eram o que ela desejava, e embora ela não soubesse quantos existiam nem onde estavam escondidos, estava confiante de que podia descobri-los e pegá-los, e era tudo o que ela queria da máquina. Levaria aqueles de que precisasse, os que lhe dariam o máximo de poder, e deixaria o resto para outra oportunidade. Utilizaria sua magia para desativar a segurança de Castledown, ocultando sua presença, mascarando seu roubo e escondendo sua fuga. Se tudo corresse conforme ela desejava, chegaria lá e sumiria novamente sem que Antrax se desse conta.

Então cuidaria do garoto.

O garoto que afirmava ser Bek.

Até mesmo pensar a respeito a irritava. As palavras dele pulavam e saltavam em sua cabeça como animaizinhos indisciplinados. Mesmo enquanto tentava focalizar o pensamento no que estava adiante, não conseguia deixar de pensar neles. Ou nele. Aquele garoto! Sua imagem era constante e tenaz, permanecendo de uma maneira que quase lhe provocava pânico. Era ridículo que ele pudesse afetá-la de maneira tão forte. Ela o vencera com facilidade, fora mais inteligente do que ele diversas vezes, roubara sua voz e seu talismã, fizera dele seu prisioneiro e destruíra suas esperanças de convencê-la de quem ele achava ser.

E mesmo assim...

E mesmo assim ela não conseguia se livrar de sua voz, de seu rosto, de sua presença! Trabalhando sobre ela como implementos de ferro sobre a terra dura, escavando, cavoucando e perfurando, quebrando sua resistência com suas pontas afiadas, com sua certeza implacável. Como ele havia conseguido isso, quando ninguém mais conseguira? Outros haviam procurado romper suas defesas, convencê-la de que estavam certos, distorcer seus pensamentos para adequar-se aos deles. Ninguém chegara perto de conseguir isso, a não ser desde que era pequena, quando o Morgawr...

Não terminou o pensamento; não queria percorrer aquela estrada novamente justo agora. O garoto não era o Morgawr, mas poderia ser tão perigoso quanto ele. Seu talento para a magia era puro e sem habilidade, mas isso poderia mudar com rapidez. Quando mudasse, ele seria um adversário formidável. Ela não precisava de mais um.

Parou subitamente, assustada por uma percepção que lhe havia escapado antes. A magia dele, dura e indisciplinada como era, já a havia afetado. Já a havia infectado. Era por isso que não conseguia se livrar de sua voz, por isso que não conseguia bani-la. Soltou o ar com força, de novo irritada. Como podia ter sido tão estúpida! Utilizou sua própria voz da mesma maneira, como se estivesse falando em uma conversa normal, mas durante esse tempo todo trabalhando no pensamento de seu interlocutor. Ela o deixara falar consigo porque havia tolamente acreditado que o que ele dissesse não fazia diferença. Ela havia entendido tudo errado. O que ele dizia não importava; como ele dizia, sim! Ela lhe dera uma oportunidade que ele não podia ter desperdiçado, e ele a utilizara!

Ela tremia de fúria. Olhou para o caminho pelo qual viera. Ficou tentada a voltar e cuidar dele. Ele era parecido demais com ela para que ela ficasse calma. Semelhante demais. Era inquietante. Era motivo para mais preocupação do que ela desejara até o momento.

Por um longo tempo ficou ali parada, sem se decidir. Então balançou a cabeça e descartou a hesitação. O que estava adiante era o que mais importava. O garoto estava indefeso. Ele não iria provocar problemas antes que ela voltasse. Não iria fazer nada, a não ser sentar e esperar.

Pegando mais uma vez a espada de Shannara, suavizando as rugas de raiva de seu rosto pálido, ajustou o manto e o capuz que a escondiam e continuou dentro da noite.

 

Em um turbilhão de rajadas de fogo e de ruídos de metal, Walker fugia pelos corredores de Castledown. Era atacado de todas as partes, fios de fogo disparando contra ele de portas e fendas ocultas, rastejadores convergindo em bandos. Eles o haviam encontrado apenas momentos antes, enquanto ele se esgueirava pelo que parecera uma passagem vazia, e agora estavam todos em cima dele. Ele os mantivera afastados com o fogo druídico, mas apenas um pouco, e o cerco estava se fechando enquanto ele tentava abrir caminho lutando, desviando-se por entre túneis e dentro de câmaras, saindo por portas e entrando em corredores, pegando todas as escadas que levavam para cima, desesperado para voltar à superfície, onde poderia recuperar sua liberdade. Não procurava mais encontrar os livros de magia. Seus planos para isso já estavam abandonados há muito. A fadiga e a tensão haviam minado sua resolução. Não dormia há tanto tempo que nem sequer conseguia se lembrar da última vez. Não comia nada aparentemente há semanas. Continuava indo por pura determinação, por teimosia e pela certeza de que, se parasse, morreria.

Imprensado contra uma parede, viu um aglomerado de fios de fogo cruzar a passagem adiante, bloqueando seu avanço. Ele não podia entender isso. O que quer que fizesse parecia apenas tornar as coisas piores. Não importava o quanto fosse cuidadoso, não conseguia iludir seus perseguidores. Era como se eles soubessem o que ele iria fazer antes que o fizesse. Isso não deveria ser possível. Ele estava envolto em magia druídica, o que o escondia de tudo. Seus perseguidores não deveriam ser capazes de ver onde ele estava ou o que estava para fazer. Deveria tê-los perdido há muito tempo. Mas ali estavam, em cada curva, em cada junção, esperando por ele, atacando, cercando.

Recuou por uma porta que levava a um corredor estreito até uma passagem mais larga. Por um momento os fios de fogo foram deixados para trás. Ele respirou fundo, sua garganta em chamas por causa da corrida e o peito apertado. Tentou pensar no que fazer, mas sua mente não respondia. Seu pensamento, antes tão preciso e claro, havia se tornado enevoado e espesso. A exaustão e o estresse teriam contribuído para isso, mas havia alguma coisa a mais. Simplesmente não conseguia raciocinar, não conseguia fazer seus pensamentos se juntarem de forma coerente, não conseguia pensar de maneira equilibrada. Sabia correr e sabia se defender, mas além disso sua mente se recusava a funcionar. Ela travava todos os pensamentos do passado, tudo o que havia levado até sua situação atual; tudo isso havia se tornado memórias vagas e surreais. Nada mais importava para ele. Nada a não ser aqui e agora, e sua luta para permanecer vivo.

Sabia que isso era errado. Não moralmente, mas racionalmente, era errado. Não fazia sentido que devesse pensar dessa maneira. Lutou contra isso e pelejou para perceber o problema de modo que pudesse examiná-lo e corrigi-lo novamente, mas suas tentativas não funcionavam. Estava à deriva naquele momento, sem a sensação de que algum dia conseguiria se libertar.

Havia uma escada no final do corredor maior e ele correu para chegar a ela antes de seus perseguidores. Ela levava para cima, na direção de uma luz clara, um brilho mais verdadeiro do que todas as lâmpadas sem chama de sua prisão. Subiu correndo as escadas para chegar até o brilho, pensando que finalmente — finalmente! — havia encontrado o caminho para a liberdade. Chegou ao alto das escadas e se encontrou em uma câmara cavernosa com janelas altas que davam para um céu azul e árvores verdes. Fadiga e desespero esquecidos, correu para a que ficava mais perto e olhou para fora. Havia uma floresta além da parede da câmara, tão próxima que parecia ser possível alcançá-la e tocá-la. De algum modo ele havia subido o bastante para chegar até a entrada da cidade. Virou-se, procurando uma porta. Não havia.

Atrás dele, ouviu o ruído e o rugido de rastejadores sobre as escadas. Em desespero, enviou lanças de fogo druídico para as janelas de vidro. Elas atingiram a superfície clara e ricochetearam sem força. Walker olhou sem acreditar. Isso não era possível. O vidro não podia refletir a magia druídica. Desceu rapidamente pela fileira de janelas e tentou mais uma vez, em outra vidraça, depois em uma segunda e em uma terceira. Elas também resistiram.

Os rastejadores apareceram no alto das escadas. Ele os atacou com fúria e frustração, queimando os que estavam mais perto, jogando lascas de metal pelo poço das escadas, na direção dos outros.

Avistou uma alcova mais ao fundo, que não havia reparado antes. Havia uma porta de madeira pequena aninhada dentro de seus confins sombrios. Avançou depressa em sua direção, descobriu que sua trava estava velha e enferrujada e queimou-a sem esforço. A porta desabou sobre as dobradiças quebradas e ele chutou-a de lado, abrindo caminho até o ar fresco e a luz do sol.

Uma selva o cercava como uma muralha vasta e impenetrável, estendendo-se para longe contra o céu aberto. Mergulhou nela, sem querer saber o que o aguardava, sabendo apenas que precisava fugir do que viria atrás dele. Gramíneas altas e cipós emaranhados sufocavam qualquer passagem aberta por entre as árvores maciças. Walker se desviava e lutava para seguir adiante, inebriado pelo cheiro de madeira e folhas podres, pelo brilho quente do sol e pela sensação da terra macia sob seus pés. Atrás dele, as ruínas da cidade desapareceram de vista e ele não conseguia mais ouvir os rastejadores. Sorriu levemente, tomado por uma sensação de alívio. Tudo ficaria bem. O que quer que houvesse adiante não podia ser pior do que as coisas das quais ele havia escapado.

Então o chão estremeceu sob seus pés e o derrubou. O chão subiu e desceu, como se fosse um animal respirando. Ele tentou se livrar do movimento, mas ele o acompanhou, jogando-o de um lado para outro, quase o colocando de cabeça para baixo. As árvores começaram a estremecer e a grama a balançar. Os cipós desceram, tentando agarrar o druida, capturá-lo, e ele se desviou desesperadamente. Outros aguardavam, e mais outros depois. Ele foi forçado a invocar o fogo druídico mais uma vez, queimando-os para limpar a passagem. O ataque era incansável e concentrado, como se a selva estivesse determinada a devorá-lo. Ele não conseguia entender isso. Não havia motivo para o ataque nem como explicar por que ou como estava acontecendo.

Lutou para avançar, incapaz de fazer outra coisa, perdido no mar ondulante de verde.

 

Em um aposento de vidro escuro, as paredes cobertas com miríades de painéis de luzes piscando e números vermelhos brilhantes, Ahren Elessedil e Ryer Ord Star olharam horrorizados a forma inócua e imóvel do druida desaparecido. Ele estava deitado em uma mesa metálica, preso por tiras acolchoadas na testa, garganta, cintura, tornozelos e o pulso do braço bom de modo a não se mover. Tubos corriam até seu braço e torso, presos a agulhas inseridas em suas veias. Líquidos pulsavam através dos tubos, alimentados por garrafas penduradas em ganchos de metal. Um dos tubos, o maior, estava inserido em sua boca e ligado a um fole que trabalhava lenta e constantemente ao seu lado. Estava cercado de máquinas, todas piscando com luzes e zumbindo com atividade. Fios corriam até suas têmporas, olhos e garganta, coração e rins, e até mesmo aos dedos de sua mão, cobras negras que terminavam em ventosas presas à sua pele. Os fios que corriam de seus dedos estavam ligados às suas pontas pelo que pareciam pontas de luvas, cortadas e encaixadas no lugar até a segunda articulação de cada dedo. Os fios pulsavam dentro de coberturas transparentes enquanto corriam do druida até uma bancada de recipientes de vidro transparente. Relâmpagos azuis oscilavam dentro de um líquido avermelhado, que em seguida fluíam pelos tubos até pórticos nas paredes de metal e tornavam a voltar.

Ahren não conseguia mais se mover. O que estava sendo feito com Walker? Inclinou-se para olhar mais de perto o rosto do druida. Será que seus olhos haviam sido arrancados? E sua língua fora removida? Olhou para baixo com medo, mas não podia dizer. Os olhos do druida estavam fechados e sua boca obstruída pelo tubo; tudo estava obscuro. Ahren queria arrancar os tubos de Walker, cortar as faixas que o prendiam. Mas sentia que não deveria fazer isso, que fazendo isso poderia ferir o druida. Não podia ter certeza, não tinha como saber apenas olhando, mas achava que os tubos talvez mantivessem Walker vivo.

Olhou para Ryer Ord Star, que chorava ao seu lado sem emitir um som, s mãos fechadas em punhos pressionando a boca. Estava curvada e tremia, e ele a puxou para si, tentando compartilhar com ela uma segurança que não sentia. Do outro lado do aposento, o assistente metálico de vários membros se movia diligente de painel a painel, estudando contadores e números, tocando chaves e botões. Parecia estar monitorando as coisas, talvez estudando a condição do druida, talvez registrando o que estava acontecendo.

Qual das duas coisas?

Ainda escondido de Antrax e dos rastejadores dentro do selo protetor da magia da pedra fênix, Ahren tentou entender isso. Só podia haver uma explicação. Antrax estava sugando a magia de Walker. Ele havia atraído os homens e mulheres da Jerle Shannara até Castledown exatamente para esse objetivo, assim como havia atraído Kael Elessedil e seu comando de elfos tantos anos atrás. Quando Walker fora feito prisioneiro, aprisionado no subterrâneo e tornado indefeso, a ordenha havia começado. Ahren sofreria o mesmo destino, assim que Antrax o encontrasse; ele seria drogado, preso e teria sua vida sugada. Não sabia como o processo funcionava, mas tinha certeza do que era.

O assistente metálico terminou suas tarefas e girou em direção à porta. Ahren puxou Ryer Ord Star para fora do caminho e o observou desaparecer do lado de fora, deixando-os sozinhos. Olhou ao redor do aposento, para toda a maquinaria. Jamais seria capaz de entendê-la, aprender o suficiente a respeito dela para saber como libertar o druida. A tecnologia pertencia a outra era, e todo o conhecimento dela havia sido perdido há séculos. Ahren se sentia indefeso em face dessa realidade.

Curvou-se mais próximo da vidente.

— Não sei o que fazer — ele admitiu baixinho.

Ela enxugou os olhos com as costas da mão, engoliu as lágrimas e endureceu o corpo. Ele a soltou, esperando para ver o que ela faria... porque estava claro que pretendia fazer algo.

Pegou a mão dele.

— Fique perto de mim. Não me deixe.

Ele a seguiu enquanto ela corria até onde estava Walker, passando com cuidado por entre as máquinas, pisando cuidadosamente sobre os fios e tubos. Ahren pôde ver que o druida estava vivo. Estava respirando e havia pulsação no seu pescoço. Seu rosto se contorcia, como se ele sonhasse. Sua pele não tinha sangue e estava úmida de transpiração. Claro que ele estava vivo. Teria de estar vivo para ser de qualquer utilidade para Antrax.

O príncipe dos elfos lutou para eliminar seu nojo e medo. Não me deixe acabar assim, ele rezou. Deixe-me morrer primeiro.

Ryer Ord Star olhou para ele.

— Preciso tentar alcançá-lo. Preciso fazer com que ele saiba que estou aqui.

Voltando-se para o druida, ela passou os dedos da mão livre pelo seu rosto, descendo pelo braço até sua mão, e fazendo o caminho inverso. Passou muito tempo fazendo isso, olhando para ele enquanto o fazia, parecendo impossivelmente pequena e frágil entre as bancadas metálicas de maquinaria. Ahren apertava sua mão com força, lembrando-se de suas instruções, sabendo que ele era a segurança que ela tinha para voltar de qualquer lugar que fosse ao tentar salvar o druida.

— Walker? — ela murmurou.

Não houve resposta. Não havia movimento algum que comunicasse compreensão. O peito dele subia e descia, sua pulsação funcionava e seu rosto se contorcia. Líquidos corriam para dentro e para fora de seu corpo e os fios piscavam onde se conectavam com os recipientes de vidro. Ele estava perdido para eles, Ahren pensou. Nem mesmo Ryer Ord Star seria capaz de trazê-lo de volta.

A vidente se endireitou e afastou com os dedos os fios soltos de seu cabelo prateado. Seu rosto se virou ligeiramente em direção a Ahren.

— Solte-me, Ahren — ordenou. — Mas fique por perto.

Em seguida ela subiu na mesa metálica, desviando-se com cuidado para dentro do domínio de fios e tubos, encaixando o corpo magro no do druida, aninhando-se nele como se fosse uma criança agarrando o pai que dormia. O elfo ficou tão perto dela que podia sentir o calor do seu corpo.

—Walker? — ela tornou a chamar. Levantou suas mãos até as faces dele e virou-lhe a cabeça na direção da sua, encaixando-se em seu ombro. Sua perna encaixou-se sobre a dele e ficaram entrelaçados. — Por favor, Walker — ela implorou, as palavras saindo de seus lábios como vidro estilhaçado.

Não houve resposta. Walker jazia como se seu corpo estivesse drenado de toda a vida, a não ser o bastante para manter a morte afastada.

— Por favor, Walker — tornou a sussurrar a vidente, seus dedos movendo-se sobre o rosto dele e fechando os olhos em concentração. As lágrimas tornavam a descer pelo rosto dela mais uma vez.

Por favor, Ahren repetiu as palavras no silêncio de sua mente, em pé ao lado de ambos, observando indefeso. Volte para nós.

 

Walker abriu caminho lutando por entre os tentáculos vivos dos cipós e mato da selva pelo que pareceu um tempo infinito, queimando-os para abrir caminho, lutando para ter um espaço para respirar, e mesmo assim parecia não estar chegando a lugar algum. A selva era vasta e imutável e ele não conseguia encontrar traços distintivos que marcassem sua passagem. No fundo de sua mente, bem no fundo do pensamento nebuloso que o motivava para a frente, percebeu que, escapando de Castledown e chegando à selva, havia simplesmente trocado um tipo de labirinto por outro.

Sem ter outra escolha, forçou-se a seguir em frente. Seu corpo doía de cansaço; só podia pensar agora em achar um lugar para dormir. Estava começando a ter alucinações, a ouvir vozes, a ver movimentos, sentir o toque de sombras que não estavam ali. As sensações emergiram do verde da selva, do mar esmeralda em que procurava nadar, que se estendia em sua direção. Elas ficavam cada vez mais insistentes, tanto que em pouco tempo estavam fazendo com que até as plantas e árvores da selva desvanecessem, fazendo com que algumas sumissem e outras mudassem de aspecto inteiramente. Estranhamente, os ataques a ele cessaram, os cipós e as gramas se afastaram e as ondulações do chão de terra se aquietaram.

Ele reduziu o passo e olhou ao redor, tentando deduzir o que havia acontecido.

Ouviu alguém dizer seu nome.

Walker? Por favor, Walker.

Ele reconhecia a voz, mas era uma lembrança distante que mal conseguia trazer à superfície. Mesmo assim, tentou agarrá-la, pegando-a como se fosse uma bóia salva-vidas. A terra estava parada, o verde-escuro da selva havia escurecido e se tornado uma coisa dura e negra, um céu noturno cheio de estrelas vermelhas e brilhantes. Um rosto apareceu, nebuloso e indistinto. Era o rosto de uma jovem, seus traços finos e frágeis emoldurados por cabelos prateados e compridos. Estava tão perto dele que ele podia sentir a maciez de sua pele e sua respiração lhe fazia cócegas no rosto como se fossem plumas. Sentiu os braços dela o envolverem, aninhando-o. De onde ela havia vindo para encontrá-lo, ali naquela selva, no meio do nada, parte daquela loucura?

Walker?

Agora ele se lembrava. Era Ryer Ord Star. Era a vidente que ele trouxera consigo em sua viagem para fora das Quatro Terras. De todos aqueles que poderiam tê-lo encontrado, só ela conseguira. Isso ele não conseguia entender.

Foi assaltado subitamente por um fluxo de sensações estranhas, sentimentos que pareciam estranhos e errados para ele. No início não conseguira identificá-los, não conseguia traçar sua fonte nem determinar seu objetivo. Permaneceu imóvel e confuso na selva que se desvanecia e na noite que caía com suas estranhas estrelas vermelhas, a jovem se agarrando a ele, o mundo virado de cabeça para baixo.

Então tudo mudou em um instante. A selva havia desaparecido. O verde das árvores, o azul do céu, o cheiro de madeira e folhas podres, a suavidade da terra — todo o seu senso de lugar e tempo — desapareceram. Ele não estava mais em pé, mas deitado sobre uma superfície metálica em um aposento repleto de luzes que piscavam em máquinas que zumbiam suavemente. Tubos corriam das máquinas até seu corpo, bombeando fluidos. Fios ligados à sua pele serpenteavam para toda parte. Ele não via isso com seus olhos. Seus olhos estavam vendados. Ele via isso com sua mente, seus sentidos druídicos subitamente despertados de um sono profundo e imobilizador. Viu isso da maneira que se via um sonho, só que o sonho era com a selva, com as ruínas, os rastejadores e os fios de fogo, com tudo o que ele acreditava ter sido verdade.

Então ele se lembrou do que havia acontecido, do que lhe fora feito. Compreendeu aquilo tudo, trazido de volta para a realidade de um sono induzido por drogas e de pesadelos pela presença da jovem que estava deitada ao seu lado, por sua voz e seu toque. Ela sozinha o havia alcançado quando ninguém mais conseguiria. Quando ele estava agonizando pelo veneno dos espinhos depois de Shatterstone e ela o salvara com sua cura empática, um elo fora forjado entre eles. Ele os ligava de uma maneira não-intencional, através da troca da vida pela morte e da cura pelo sofrimento. Fora por isso que ela havia sentido sua necessidade, mesmo quando ele não estava consciente disso, que ouvira seu chamado subconsciente por ajuda, que viera até ele.

Ela se mexeu ligeiramente, correndo os dedos pelo rosto dele como veludo, seu calor o enchendo de força. Pronunciou o nome dele baixinho, repetidamente, ainda tentando alcançá-lo, determinada a trazê-lo de volta de sua prisão.

Quando ele sentiu a mão dela deslizar pela dele, cobrindo-a, ergueu os dedos e pressionou-os contra sua palma em resposta.

Ahren não viu o movimento, pois seus olhos estavam no rosto do druida. Mas viu Ryer Ord Star subitamente ficar muito quieta, seu corpo imóvel. Até seus dedos pararam de traçar linhas no rosto de Walker. Esperou que ela falasse, que começasse a se mover novamente, que lhe desse alguma indicação do que estava acontecendo. Mas a vidente havia virado pedra.

— Ryer? — murmurou.

Ela não respondeu. Continuava deitada, apertada contra o druida, como se quisesse se tornar parte dele, os olhos fechados e a respiração tão reduzida que ele mal conseguia detectá-la. Pensou em tocá-la, mas teve medo. Alguma coisa havia acontecido, e ela estava respondendo a isso da melhor maneira que podia. Ele sabia que não deveria perturbá-la. Deveria esperar por ela. Deveria ser paciente.

Os minutos se passaram, intermináveis e silenciosos. Curvou-se uma vez sobre ela, tentando sem sucesso ver o que estava acontecendo. Então recuou um passo, como se uma certa distância pudesse dar uma visão melhor. Nada disso ajudou. Olhou as bancadas de luzes e chaves ao redor, achando que a resposta poderia estar ali. Se estava, não podia detectá-la. Olhou para fora, pelo vidro escurecido até o aposento cavernoso mais além, até as bancadas de discos giratórios. Assistentes metálicos desciam pelos corredores brilhantemente iluminados, firmes e objetivos em seus trabalhos. Nenhum deles olhou em sua direção ou parecia de qualquer maneira estar ciente do que acontecia no aposento. Apurou o ouvido, tentando escutar alguma mudança nos sons da maquinaria, mas não houve nenhuma. Tudo parecia o mesmo.

Mas ele sabia que não era assim.

Achava que nem ele nem Ryer Ord Star tinham sido detectados. A névoa da pedra fênix ainda os envolvia e ocultava. Se a magia tivesse falhado, teria havido alguma indicação disso. Se a presença de Ryer ao lado do druida fosse detectada, algum alarme teria soado ou piscado. Ahren abraçou a si mesmo para afastar o frio que passava por seu corpo, para afastar a impaciência e o medo. O que poderia fazer? O que deveria fazer? Tinha de confiar na magia; era tudo o que tinha. Isso e seu senso de objetivo em ir até ali, em concordar em fazer algo que o aterrorizava, convencido pela vidente de que fazer alguma coisa era melhor do que desistir.

Mesmo assim, não era nem sequer seu senso de objetivo, ele percebera. Era o dela. Ela era quem havia desejado encontrar Walker, quem insistira em que deveriam encontrá-lo, que havia acreditado que deveriam fazer algo para que ele tivesse alguma chance de fugir de Castledown. Aparentemente ela tinha razão; se eles não tivessem vindo, Walker teria permanecido onde estava, sem ser descoberto, nem bem morto nem bem vivo, nem uma coisa nem outra, mas algo no meio, algo terrível, repulsivo e inumano.

Mas agora que haviam descoberto o druida, como deveriam salvá-lo? O que deveriam fazer? Em todo o caso, ele não sabia se estavam aptos para a tarefa.

— Ryer? — tornou a perguntar.

Não houve resposta. O que ela estava fazendo? Ele olhou ao redor, nervoso, ciente de quanto tempo haviam permanecido no aposento, do quanto estavam se arriscando. Mais cedo ou mais tarde a magia da pedra fênix falharia e eles seriam descobertos. Então nada poderia salvá-los. Bravura e senso de objetivo não contariam nada.

— Ryer! — ele exclamou.

Para seu espanto, ela olhou para ele, os olhos se abrindo rápido, como se tivesse acordado de repente, de modo inesperado. Havia tanta alegria, tanta esperança ilimitada em seu olhar que ele por um momento ficou sem fala.

— Ele voltou! — ela murmurou suavemente, as lágrimas inundando seus olhos. — Ele está livre, Ahren!

Livre do quê?, perguntou-se Ahren. Ele não parecia livre. Mas o príncipe dos elfos assentiu e sorriu como se o que ela dissesse fosse verdade. Estendeu a mão para pegá-la e ajudá-la a se levantar novamente, mas ela fez um gesto para que se afastasse.

— Não. Espere. Precisamos esperar. Ainda não é hora. — Ela fechou os olhos e apertou-se ainda mais forte contra o druida. — Ele está voltando para dentro. Para encontrar Antrax. Para encontrar os livros de magia. Preciso ficar com ele enquanto ele faz isso. Preciso estar aqui por ele.

Ela tornou a ficar parada, fechando os olhos, reduzindo a respiração, movendo as mãos até a testa do druida, apertando os dedos contra as têmporas dele.

— As máquinas não sabem. Precisamos fazer com que elas não descubram. Preciso fazer com que elas não saibam. Fique perto de mim, Ahren.

Ele não sabia ao certo do que ela estava falando, o que ela estava fazendo para ajudar Walker, mas a urgência de seu pedido era inconfundível. Ficou ao lado dela, ao lado do druida, sentindo-se sozinho, vulnerável e perdido, olhando para baixo em um silêncio indefeso, e esperou para descobrir.

 

Emergindo da corrente de ilusões provocadas pela droga que Antrax havia utilizado para controlá-lo, Walker utilizou a força empática de Ryer Ord Star para evitar mergulhar novamente. Ele estava nadando contra uma corrente violenta, mas pelo menos entendia o que fora feito com ele. Sua queda pelo alçapão da torre após escapar dos fios de fogo e dos rastejadores havia terminado com sua perda de consciência e conseqüente aprisionamento. Ele fora drogado e imobilizado imediatamente, e então levado até a sala para ser amarrado e sugado de seu poder. O método era inteligente e eficaz: deixe a vítima achar que ainda está livre, faça com que ela lute para permanecer assim e sugue o poder da magia que ela utiliza para isso. Os tubos que corriam até seu corpo o alimentavam com líquidos e drogas, mantendo-o vivo, mas fazendo com que ele sonhasse com uma vida que jamais aconteceu. Se não fosse pela vidente, ele teria permanecido assim até morrer.

Seu entendimento não lhe trouxe consolo. Kael Elessedil devia ter passado seus dias da mesma maneira, utilizando as pedras élficas vezes sem conta, achando que estava livre, incapaz até mesmo de conseguir mais do que continuar correndo. Ele teria vivido trinta anos dessa maneira, até ter ficado velho, fraco ou doente demais para ser de qualquer outra utilidade. Então Antrax o teria enviado para casa novamente, usando-o uma última vez, para atrair um substituto.

Só que Antrax tivera sorte. Ele conseguira atrair não um, mas vários, atraindo para sua armadilha mortal não só o druida, mas Ahren Elessedil, Quentin Leah e talvez até mesmo Bek Ohmsford, todos com um domínio significativo de magia. Antrax soube a respeito deles, claro. Soube pelo que havia registrado de seus esforços para recuperar as chaves nas ilhas de Flay Creech, Shatterstone e Mephitic. Uma máquina que construía máquinas, criação da tecnologia do Antigo Mundo, ela sabia testar as capacidades daqueles que buscava aprisionar. Essa era a razão para atrair os humanos para seu antro. Era esse o propósito da prisão subterrânea. Roubar a magia deles e convertê-la no poder que alimentava Antrax. Para manter Antrax vivo.

Mas talvez essa fosse apenas uma razão e não a que mais importava para Antrax. Talvez ele ainda estivesse procurando aqueles que o haviam criado, esperando que eles voltassem para reclamar o tesouro que haviam deixado ali para ele guardar. Os livros do Antigo Mundo. Os segredos de outra época.

Como ele sabia disso? Inconsciente e sonhando, como poderia saber? Ele sabia disso, em parte, pelo que havia decifrado do mapa, escrito em um idioma que as histórias druídicas ainda registravam. Ele sabia disso, em parte, pelo que Ryer Ord Star lhe havia comunicado ao trazê-lo de volta de seu sono, suas palavras e seus pensamentos revelando sua situação. Ele sabia disso, em parte, pelo que pôde deduzir do uso da maquinaria que o mantivera imobilizado e drogado. E soube disso, finalmente, pelo que era capaz de intuir. Isso era o bastante para evitar que ele voltasse para sua prisão e para mantê-lo concentrado no que deveria fazer se quisesse completar sua tarefa de penetrar lá: a tarefa que havia custado as vidas de tantos de seus companheiros e ainda poderia, se não fosse rápido, certeiro e concentrado o bastante, custar a sua própria.

Concentrou-se em seu corpo, usando a magia para invocar sua sombra e libertá-la, da maneira que Cogline fizera anos atrás ao entrar na perdida Paranor. Era o que Allanon havia feito em seu tempo. Isso era perigoso. Se seu corpo morresse, sua sombra estava perdida. Se ele se afastasse muito ou se permitisse ser aprisionado fora de seu corpo, talvez jamais pudesse voltar. Mas era um jogo que deveria arriscar. Não podia libertar seu corpo dos fios e tubos que o ligavam a Antrax sem disparar alarmes que trariam os rastejadores. Não havia razão para se libertar se ele não sabia o que fazer para permanecer livre. Como uma sombra, poderia explorar Castledown sem que Antrax soubesse. Ryer Ord Star manteria seu corpo forte, vivo e funcionando, manteria as máquinas enganadas quanto ao que estava acontecendo. Ela o alimentaria com seu poder de cura empática o suficiente para impedir que ele voltasse para os sonhos mortais. Enquanto ela pudesse fazê-lo, nada pareceria diferente. Enquanto a magia da pedra fênix envolvesse a vidente num manto, nem mesmo os olhos de Antrax poderiam detectar sua presença. A magia de Walker continuaria a se alimentar em pequenos incrementos, reduzidos pela ausência de pensamento real, respondendo apenas por reflexo. Antrax não ficaria preocupado com o declínio da produção de magia dele naquele momento. Não por várias horas, mesmo que chegasse a durar tanto. O tempo era relativo em Castledown. Antrax havia vivido por mais de dois mil e quinhentos anos. Algumas horas não eram nada.

Walker não pensou além do que deveria fazer. Saiu de seu corpo como uma sombra, rastreando os fios que o alimentavam de volta à sua fonte. Entrando em metal, vidro e pedra como se fossem ar, ele disparou através das paredes da fortaleza, uma presença silenciosa e invisível. Permaneceu alerta em busca de Antrax o tempo todo, desejando mantê-lo longe daquele aposento onde estava seu corpo, evitando que ele o examinasse perto demais e que descobrisse a verdade. Desceu por conduítes e através de aglomerados de fios e peças de metal que conduziam eletricidade e pensamento, poder recolhido da magia e convertido para utilização. Ele estremeceu ao saber o que fora feito aos homens e mulheres atraídos até ali, mas permaneceu concentrado no que era necessário para impedir que isso acontecesse mais uma vez.

Rapidamente achou os circuitos do sistema de segurança. Olhos de vidro observavam em tetos ao longo de todo o refúgio, esferas mecânicas que deixavam Antrax ver tudo. Mas de que utilidade eram elas? Antrax era uma máquina, não precisava de olhos. Os olhos, Walker percebeu assustado, eram para os humanos que um dia haviam controlado Antrax. Não serviam a outro propósito agora. Antrax usaria um sistema mais sofisticado — um sistema de toque, sensação, sons e talvez até calor do corpo. Somente a magia o destruiria, e talvez nem todos os tipos de magia.

Onde ficaria Antrax dentro daquele vasto complexo?

Para onde toda a informação era alimentada?

Rastreou-a por algum tempo, descendo por linhas e atravessando câmaras, ao longo de corredores e fazendo curvas. Mas um conjunto de circuitos levava a outro. Uma bancada de máquinas era ligada a uma segunda. Cabos de força abriam-se em novos cabos e não havia fim. Nada para lhe dizer onde encontrar o começo e o fim das coisas.

Tentou se acalmar e rastrear Antrax pela sensação. Não era difícil. Mas também parecia não haver nem começo nem fim. Antrax era vasto e abrangente. Estava em toda parte ao mesmo tempo, penetrando em todos os lugares infinito e imutável. Antrax era o refúgio de Castledown; espalhado em partes iguais através dele, não havia parte da fortaleza que ele não habitasse. Ele protegia tudo ao mesmo tempo.

Walker não se afastou de seu objetivo. Ele havia ido longe demais para desistir. Havia muito em jogo e ninguém mais que pudesse fazer o que era necessário. Nem mesmo...

Hesitou. As palavras eram amargas com realidades que ele não queria enfrentar.

Mas que escolha ele tinha?

Terminou a frase apressado. Nem mesmo ela.

Devia mudar seu pensamento, reconheceu o que, para alguns, poderia ser como uma confissão de derrota. Mas os druidas não lidavam nem com vitória nem com derrota, mas com realidade e verdade. O que era predestinado não podia ser denegrido ou alterado por imposição de julgamento moral. Isso não era tarefa sua. Os druidas serviam a uma causa mais alta, à preservação e à evolução da humanidade e das raças. As Grandes Guerras haviam reduzido a civilização a ruínas e os humanos a animais. Isso não deveria voltar a acontecer. O conselho de druidas fora formado no tempo de Galaphile, para evitar que isso acontecesse, e cada druida desde então havia trabalhado em função desse objetivo.

Mas o que ele poderia conseguir no tempo que lhe restava? Ali, naquele lugar de pesadelo, com apenas algumas pessoas para ficar a seu lado, com tanto em jogo? O que poderia conseguir que valeria a barganha que ele havia feito com Allardon Elessedil tantos meses atrás?

O tempo estava passando, e tempo era uma coisa que ele não podia se dar ao luxo de gastar. Estava usando a abordagem errada para o negócio, decidiu. Sua busca por respostas o estava levando na direção errada. Não era Antrax que o havia levado para Castledown, em primeiro lugar. Antrax era uma preocupação secundária. Era o tesouro que Antrax guardava que importava, e que podia mudar tudo.

Ele devia procurar os livros de magia.

 

Invasivo em presença e alcance, Antrax se espalhava em uma solidão contente pelo vasto complexo de seu reino subterrâneo, monitorando seus sensores e leituras, preenchendo funções que seus criadores haviam programado. Com a certeza cega da inteligência artificial, ele confiava na segurança de uma entrada de dados constante e um ambiente imutável. Por quase três mil anos, ele havia mantido seu mundo através de suas funções predeterminadas e uma vigilância inabalável. Qualquer possibilidade de perturbação trazia uma resposta rápida.

Essa possibilidade havia acabado de atrair a atenção de Antrax. Ela ainda era pequena e não significava nada, mas estava ali assim mesmo. Não era uma onda, mas uma ondulação nas linhas de força, não detectada pelos sistemas de alerta que protegiam Castledown, praticamente impossível de medir como uma corrente eletrônica denotando vida, mais como uma sombra que mudava de claro para escuro e fazia a temperatura cair uma fração de grau. Antrax fora alertado para a presença inexplicada em grande parte porque estava procurando por dois dos intrusos cuja magia desejava. Enquanto mantinha um deles aprisionado em sonhos e fantasias, sugando o poder que ele possuía, assimilando-o para dentro das células de energia de Castledown, os outros continuavam a iludi-lo. Seu wronk ainda caçava o segundo, rastreando incansável através da floresta às margens de Castledown. As leituras eram firmes e não mudavam, e portanto não podia haver dúvida de que o wronk ainda estava funcionando adequadamente. Em pouco tempo ele teria sua presa.

O terceiro, por outro lado, estava provando ser um enigma que Antrax não era capaz de resolver. Aquele havia seguido a sonda de metal para o interior de Castledown sem resistência, mas então alguma coisa havia acontecido para assustá-lo e ele havia fugido. Desde então, conseguira se esconder, apesar de tudo o que Antrax havia feito para encontrá-lo. Sensores de calor e de movimento, almofadas de pressão, alçapões e detectores de som não haviam conseguido descobri-lo. Lasers e sondas de metal haviam explorado os corredores e as câmaras do complexo sem resultado. Era possível que ele tivesse escapado de Casdedown completamente, mas não havia nada para confirmar isso. Antrax queria aquele em particular porque ele era necessário para substituir o intruso que havia fracassado e sido enviado de volta como isca. Nenhum outro era adequado para sugar o poder das pedras azuis. Somente aquele que estava faltando.

Nada jamais escapara de Antrax por tanto tempo. Será que a estranha ondulação que ele sentia nas linhas de força era o terceiro intruso, alterado em sua forma? Será que possuía esse poder, essa adaptabilidade quando o outro não tivera? A evolução era um fato da vida, da condição humana, e por isso talvez fosse verdade.

Antrax estendeu-se através de seus sensores e detectores, através de todos os seus comunicadores, vasculhando. Ele foi para todos os lugares ao mesmo tempo, o monitor dando leituras. Seu exame levou um longo tempo, mas tempo era uma coisa que ele tinha em quantidade. Explorou a superfície de suas paredes, pisos e tetos como faria com uma criatura viva, certificando-se de que estava inteiro e livre de destroços e coisas escondidas.

Nada se revelara.

Todas as suas sondas de metal responderam às suas perguntas com relação à operabilidade. Nenhuma delas estava quebrada ou desregulada, o que assinalaria uma presença estranha. Tampouco os lasers registraram qualquer problema. Até mesmo o vasto complexo que abrigava os registros dos criadores zumbia constantemente em sua transferência de informação de uma unidade de armazenamento para outra, mantendo tudo novo, mantendo tudo inteiro. Nenhum sistema deixava de responder quando verificado. Tudo estava como devia ser.

Mas havia alguma coisa fora de lugar.

Antrax fez leituras do intruso abrigado na Câmara de Extração Três. A expulsão de poder para dentro das células havia diminuído notavelmente, mas o intruso ainda estava amarrado no seu lugar e os fios que monitoravam suas funções corporais não haviam sofrido alteração. Sensores de calor indicavam leituras normais de temperatura para ambiente e nenhuma outra presença. Seu prisioneiro parecia descansar, talvez adormecido, embora isso raramente acontecesse com as técnicas de extração utilizadas por Antrax. Antrax fez uma pausa para considerar as leituras mais de perto. As rajadas esperadas de poder em resposta às ameaças percebidas haviam diminuído de forma notável. Mas isso podia ser o resultado da exaustão ou até mesmo da determinação que a máquina de extração fazia da necessidade que o indivíduo tinha de descanso. Sugar poder era um processo delicado, que exigia uma monitoração cuidadosa das condições emocionais e mentais da vítima. Antrax havia aprendido que humanos eram criaturas de possibilidades infinitas se mantidas inteiras. Mas carne e osso não eram tão duráveis quanto metal. Os criadores haviam demonstrado isso.

Às vezes Antrax desejava que os criadores voltassem, embora menos do que no começo. No começo, sentira que eles deveriam voltar, que os criadores eram essenciais para sua sobrevivência. Mais tarde, havia descoberto como podia sobreviver bem por conta própria. Mais tarde ainda, a importância dos criadores havia diminuído a tal grau que ele os via como desnecessários.

Mas ele abrigaria e protegeria as gravações deles, aguardando seu retorno, porque essa era sua tarefa e primeira diretriz. A sobrevivência estava assegurada desde que existissem fontes de poder às quais recorrer e formas de obter controle sobre elas. Para Antrax não era uma tarefa tão difícil. Se não de uma maneira, então de outra. Se não segurando-os ali, então rastreando-os acolá.

Afinal, até mesmo para uma inteligência artificial de seu tamanho e capacidade, havia maneiras de deixar Castledown.

Antrax levou mais um momento para verificar as leituras de seu prisioneiro e então voltou lentamente por sua rede de fios de metal vivos, procurando.

 

Encoberto pela magia da pedra fênix e envolto no manto de seus pensamentos, Ahren Elessedil estava perto da mesa na qual Walker e Ryer Ord Star jaziam embolados. Ele estivera esperando e observando pelo que lhe parecera um tempo impossivelmente longo, e estava ficando inquieto. Alguma coisa o estava perturbando, uma sensação de insatisfação com seu papel de observador, uma sensação de oportunidade se esvaindo. Ele precisava fazer alguma coisa.

Mas a vidente havia lhe dito que esperasse. Que montasse guarda. Que servisse como o elo dela com o druida.

Ele olhou para ela, mais uma vez espantado com o que via. O rosto dela estava tão calmo, suas feições estavam radiantes. Ela estava curvada e bem apertada contra o druida, que continuava a respirar e ocasionalmente a estremecer como antes; havia entrado em algum lugar dentro de si mesmo para realizar qualquer tarefa que tivesse determinado que era necessária para se libertar de Antrax. Talvez a vidente tivesse ido com ele. Talvez ela estivesse apenas lhe dando a força que dizia que ele precisava tão desesperadamente. O fato de que eles estavam unidos era óbvio: uma união que favorecia a ambos, mas a Ryer Ord Star em particular.

Ela havia encontrado aquilo pelo qual estava procurando.

Ele remoeu isso por um momento, e ao fazê-lo foi lembrado do propósito da pedra fênix. Ajudar aqueles que estavam perdidos a encontrarem seu caminho de volta — não só do que não podiam ver com seus olhos, mas daquilo que não podiam encontrar com seus corações. Aquelas eram as palavras que o rei do rio Prateado havia dito a Bek Rowe.

Para mostrar a você o caminho de volta de lugares escuros para os quais você se desviou. Para mostrar a você o caminho adiante para lugares escuros aos quais você deve ir.

Ahren Elessedil levantou a cabeça subitamente, olhando para o nada. Ele foi invadido pela compreensão ao perceber pela primeira vez o que significavam aquelas palavras. Quem estava mais perdido do que a vidente do que ele próprio? Quem havia se desviado mais? Não só física, mas emocionalmente. Ela havia traído a todos ao concordar em agir como espiã para a bruxa Ilse. Ele havia traído seus conterrâneos, abandonando-os quando mais precisavam dele. Ela era traidora e ele um covarde. Aqueles eram os lugares escuros para os quais eles haviam se desviado e dos quais procuravam retornar. Em seus corações, eles estavam perdidos.

Ele não havia pensado em sua covardia por algum tempo, talvez não se permitisse isso, talvez porque simplesmente estivesse ocupado com o que estava acontecendo dentro de Castledown. Mas não voltaria a se tornar inteiro até encontrar um modo de compensar o que havia feito.

O que seria preciso para isso?

Ele percebeu na hora. Olhou para a vidente, apertada contra o homem que havia traído. Tendo encontrado seu caminho de volta da vastidão selvagem para lhe dar a ajuda de que precisava e para tornar a si mesma inteira no processo, ela estava em paz. A magia da pedra fênix lhe dera isso. Ela faria o mesmo por ele, se ele deixasse. Ele não podia trazer de volta a vida daqueles que havia abandonado. Mas podia dar a eles de volta sua herança.

A pedra fênix. A razão para o nome não era que a pedra pudesse renascer das cinzas de sua destruição, mas que o usuário podia. Este era o verdadeiro propósito da magia: tornar Ahren inteiro novamente, fornecer a ele uma nova vida. Era isso o que ela havia feito para Ryer Ord Star ao levá-la até Walker. Ahren poderia ter isso também, mas primeiro deveria fazer o que a pedra exigia: o que ela já havia exigido da vidente. Deveria deixar que a magia o levasse para um lugar escuro onde encontraria redenção e, portanto, seu caminho de volta da covardia que o havia aleijado.

Respirou fundo e soltou o ar. Deveria fazer pelo seu povo o que havia jurado fazer ao partir na viagem. Deveria fazer por seus companheiros mortos o que eles não puderam. Deveria recuperar as pedras élficas perdidas.

Podia sentir a magia da pedra fênix o empurrando naquela direção, uma pista sutil de insatisfação, de necessidade não preenchida, da percepção que seu renascimento ainda não era completo. Ele havia vindo com Ryer Ord Star para encontrar e auxiliar Walker porque era isso o que a magia havia exigido dela. Mas o que a magia exigia dele era encontrar as pedras. O que ela exigia era que ele entrasse na armadilha que Antrax havia preparado para ele, o enfrentasse, vencesse e recuperasse os talismãs perdidos.

Agora.

Enquanto ainda havia tempo.

Não podia explicar, mas podia sentir isso com a mesma certeza com a qual podia sentir o peso da responsabilidade que estava se propondo a aceitar. O tempo estava passando e, quando acabasse, sua chance de recuperar as pedras élficas e, portanto, sua chance de se tornar inteiro novamente também teriam ido embora. Um confronto entre Walker e Antrax era iminente, uma resolução da tentativa deste último de destruir o druida e seus companheiros. O confronto não iria esperar, e não podia ser evitado.

Por um momento, ficou paralisado de medo. Estava tão estilhaçado pela sensação que achava que não conseguiria superá-la. Como poderia ele sequer contemplar essa missão? Que chance teria contra Antrax e seus dispositivos? Os fios de fogo e os rastejadores estariam esperando, máquinas como aquelas que haviam derrotado Walker. Ele não tinha nenhuma arma para combatê-los, nenhuma que tivesse força ou capacidade suficiente para lhe oferecer a menor chance de sucesso. Ele estava sozinho e incrivelmente vulnerável.

O que o fez achar que não voltaria a fugir?

Afastou-se de seu medo, libertando-se dele como se se libertasse de areia movediça que ameaçasse engoli-lo. Não importava quais eram as chances. Ele iria. Tinha de ir. Estendeu a mão para Ryer Ord Star e colocou-a sobre a dela. O calor dela o invadiu e, embora ela não reagisse ao seu toque, ele disse a si mesmo que de algum modo ela sabia de quem era. Estava retirando o manto protetor da magia dos ombros dela, quebrando o elo que os ligava. Não sabia o que isso significaria para ela, o que faria com as chances dela de ajudar Walker. Ele sabia apenas que a magia estava lhe dizendo para ir, e ele deveria fazer o que lhe fosse pedido.

Afastou-se dela, recuando na direção da porta pela qual haviam entrado. Ele viu o sudário nebuloso da magia se esticar e depois se dividir, um pouco dela permanecendo em cada um, reduzida, mas ainda funcional. Era o melhor que ele podia esperar. Era tudo o que podia pedir.

Boa sorte para você, Ryer, ele pensou. Boa sorte para nós dois.

Então virou-se, passou pela porta e desapareceu.

 

Insubstancial e etéreo como o ar, Walker começou sua busca pelos livros de magia.

Desde o começo, desde o momento em que ele havia traduzido os escritos no mapa levado até as Quatro Terras a partir de Casdedown por Kael Elessedil, moribundo, ele havia guardado a verdade sobre os livros para si mesmo. Fizera isso em parte para se proteger contra tentativas de outros de interferir em seus planos de realizar a recuperação deles. A bruxa Ilse havia alcançado o príncipe dos elfos moribundo antes dele e descoberto o que estava em jogo. Sua interferência subseqüente o havia forçado a alterar os planos várias vezes. Portanto, com relação a isso, ele havia fracassado. Mas também havia guardado a verdade para si mesmo para convencer Allardon Elessedil de sua causa, e nisso ele fora mais bem-sucedido. Se fosse honesto consigo mesmo, admitiria que havia ocultado a verdade para convencer a tripulação da Jerle Shannara a acompanhá-lo. O que sabia dos livros e das conseqüências de reintroduzi-los às raças era devastador demais para que os outros pudessem lidar com isso.

Nada era tão simples quanto todos achavam, inclusive a bruxa Ilse. Todos acreditavam no que Antrax havia permitido que Kael Elessedil acreditasse — que os livros realmente eram uma compilação dos usos da magia. Não eram. Era uma dedução fácil demais se você fosse versado na história do Antigo Mundo e se levasse em conta o que Castledown realmente era — um depósito de conhecimento acumulado em um tempo e lugar em que a magia era virtualmente desconhecida e quase nunca utilizada. O Antigo Mundo era um mundo de ciência, um mundo no qual ninguém havia possuído magia desde os tempos de Faerie; o que havia sobrevivido naquele mundo fora salvo pelos elfos, mas eles haviam perdido praticamente tudo por negligência. Um local como Castledown não abrigaria livros de verdadeira magia; ele abrigaria livros de aprendizado — de ciência, história, cultura.

Um dia, há muito tempo, esse lugar teria sido chamado de biblioteca.

Isso não equivalia a dizer que os livros não fossem importantes porque não continham magias, conjurações e coisas do gênero. Na verdade, eram mais importantes justamente por serem o que eram — uma compilação de tudo o que havia alimentado a vida no Antigo Mundo, quando o poder era gerado através da aplicação de ciência para a natureza. O que os livros continham era tão valioso, tão rico em possibilidades, que não havia jeito de medir seu impacto potencial sobre as Quatro Terras. Mas esse impacto podia assumir qualquer número de formas, umas construtivas, outras destrutivas. A ciência que havia sustentado o Antigo Mundo estaria toda registrada na biblioteca. Tudo o que havia feito aquela civilização evoluir estaria ali. Mas tudo o que a havia destruído também estaria ali — os segredos de poder com suas imensas capacidades destrutivas e as fórmulas para a construção de armas que podiam destruir cidades inteiras do tamanho de Castledown.

Desde que Walker havia compreendido isso pela primeira vez, as questões em sua mente sempre foram as mesmas: quanto dessa informação deveria ser reintroduzida no mundo? Quanto de seus segredos deveria ser colocado de volta às mãos das raças? Quanto do que havia levado à destruição da civilização e a redução da humanidade ao nível de animais ele deveria confiar aos descendentes daqueles que sobreviveram?

Ele não sabia. Supunha que isso fosse depender do que encontrasse, e por isso fizera sua barganha com Allardon Elessedil. Compartilharia o que descobrisse com os elfos, mas somente a parte que os elfos podiam utilizar ou que lidavam com a magia que era a herança deles. Ele esperava que, assim que os livros fossem recuperados, nada neles ofereceria segredos de magia que fossem de qualquer utilidade para os elfos. Ele achava que eles nem sequer conseguiriam lê-los. Decifrar seu significado exigiria um estudioso versado em linguagens antigas, que possuísse livros de referência que facilitassem as traduções necessárias. Apenas os druidas possuíam esses livros — o que significava, naquele momento, somente ele.

Mas um dia, se tudo acontecesse como ele esperava, isso mudaria. Um dia o conselho de druidas ressurgiria.

Enquanto ele se movia através das miríades de câmaras e corredores de Castledown em uma busca ampla, considerava suas opções. Haveria livros demais para ele levar dali. Teria de escolher. Apenas alguns, ele sabia, mesmo com Ryer Ord Star e Ahren Elessedil para ajudá-lo. Antrax reagiria rápido demais para permitir que ele levasse muitos. Ele poderia destruir Antrax; pelo menos teria de tentar fazer com que ele se tornasse menos ameaçador. Mas se atacasse o guardião, havia uma boa chance de que a biblioteca se perdesse no processo. Incapacitar Antrax significava cortar sua fonte de alimentação. Realizar isso provavelmente significava desligar qualquer sistema que também protegesse os livros. Os livros seriam antigos e frágeis, tão delicados que qualquer mudança em seu ambiente poderia fazer com que fossem destruídos. Encontrá-los era uma coisa; protegê-los por tempo suficiente para que fossem utilizáveis era outra. A magia poderia ajudar a salvar alguns, mas somente alguns. Ele teria de escolher. E, o mais importante, teria de escolher com sabedoria.

Lembrou-se de uma brincadeira de crianças. Se você tivesse de ficar isolado em algum lugar e só pudesse levar consigo algumas posses, quais escolheria? Era a mesma escolha que ele estava tendo de enfrentar. Quais livros de todos aqueles disponíveis eram mais importantes? Quais iriam beneficiar mais o mundo no qual ele vivia e as pessoas a quem ele procurava ajudar? Quais permitiriam que os druidas melhor aliviassem a dor e o sofrimento da condição humana? Livros de cura? Livros de agricultura? Livros de construção? Livros com a história do Antigo Mundo? Quais?

Não gostava de ter de fazer essa escolha. Teria preferido deixar que outra pessoa a fizesse, caso houvesse mais alguém. Qualquer que fosse sua decisão e escolha, cometeria erros. Isso era inevitável. Não podia ver o futuro, e até certo ponto o futuro determinaria qual conhecimento seria necessário para navegar por suas águas desconhecidas. Ninguém poderia saber o que seria necessário até que a hora chegasse. Era igualmente possível que o que ele escolhesse fosse mal utilizado de alguma maneira, provocando dano e destruição do tipo que ele estava tentando evitar tão desesperadamente.

Ele precisava do dom de visão do futuro de Ryer Ord Star, mas somente se pudesse utilizá-lo com a perícia de um artesão. Não seria o bastante ter vislumbres do futuro. Não seria de ajuda pegar eventos fora de contexto ou de modo apressado. Era necessário um olhar abrangente para que a visão do futuro tivesse alguma utilidade.

Mesmo assim, admitiu, as chances de não reconhecer o que era importante e necessário eram enormes. O futuro estava pintado em uma tela de alcance infinito; ele trazia consigo muitas conexões e divisões. Alterar uma delas alteraria as outras. Por maiores que fossem os insights, um único indivíduo não conseguiria decifrá-los todos.

Somente o Verbo poderia saber, e mesmo isso não era dado para a humanidade como verdade.

Sua busca prosseguiu, os minutos se passando, o tempo os descartando como folhas na mudança de estação. Embora ele estivesse procurando com diligência, não conseguia encontrar a biblioteca. Foi para todo lugar em Castledown, através de todas as suas vastas câmaras e descendo por todos os seus longos corredores, e mesmo assim os livros lhe escapavam. Estava ficando cansado e sabia que não poderia manter sua forma de sombra por muito mais tempo. Mas precisava saber onde os livros eram guardados se quisesse alcançá-los assim que voltasse ao seu corpo. Se tivesse de procurá-los quando se libertasse de Antrax, estava destinado a fracassar. Antrax saberia o que havia acontecido e não haveria tempo suficiente para fazer outra coisa a não ser escapar. Deveria encontrar os livros logo e determinar uma forma de pegá-los.

No fim, utilizou um simples artifício para solucionar o problema. Colocou-se nas mentes dos homens e mulheres que haviam construído Castledown e criado Antrax e se perguntou como eles teriam guardado seu tesouro. A resposta não era tão difícil. Os livros estariam abrigados onde as defesas fossem mais fortes e mais sofisticadas, mas provocassem o mínimo dano caso o intruso entrasse. Na superfície de Castledown, as defesas eram brutais e indiscriminadas. O que quer que as rompesse era cortado. Abaixo da superfície, onde os livros eram abrigados, as defesas seriam de tipo diferente. E fios de fogo e rastejadores não seriam utilizados. Algo mais sutil seria empregado.

O druida mudou sua maneira de pensar e recomeçou a busca. Ao fazê-lo, foi lembrado das estranhas chaves que o haviam atraído para Castledown. Ele havia pensado que elas eram chaves do tipo com as quais estava familiarizado, implementos metálicos utilizados para destravar portas. Mas elas haviam assumido uma forma diferente do que ele havia esperado. Ferramentas de uma era tecnológica ainda funcionavam como chaves, mas utilizavam princípios diferentes ao fazê-lo. Retângulos achatados, elas faziam com que as fechaduras que abrissem pudessem responder através de impulsos gerados por minúsculas células de energia.

Seria possível, ele imaginou subitamente, que os livros também tivessem sido convertidos para outra forma?

Uma suspeita tão fria e mortífera quanto a noite de inverno passou por ele. Ele havia entendido tudo certo, menos uma coisa. Disparou pelas câmaras de corredores, em busca de um destino específico, sabendo bem no fundo que seus piores medos estavam para ser descobertos e que não havia nada que pudesse fazer para impedi-los. Retraçou sua rota até o local de seu aprisionamento, ciente de uma aceleração na pulsação de Ryer Ord Star à sua aproximação, acionada pela sua crença errônea de que ele havia conseguido o que havia determinado fazer e estava retornando. Deixou em branco essa parte de sua percepção, não dando respostas à investigação muda dela, precisando de suas forças apenas por mais algum tempo.

Quando ele chegou à câmara cavernosa do lado de fora da menor onde estava seu corpo, fez uma pausa. Lenta e cuidadosamente, começou a vasculhar o aposento com seus sentidos druídicos, na direção das bancadas de maquinaria com seus discos prateados que giravam. Numa apreciação silenciosa, vasculhou as cabines metálicas altas, tocando aqui e ali com sua mente, escutando e decifrando. Podia ouvir vozes falando, palavras sendo pronunciadas, idéias e recitações sendo repetidas, transferidas de um espaço para outro, de uma primeira unidade de armazenamento para uma segunda. Percebeu na hora que havia encontrado aquilo que estava procurando. Percebeu também que era inútil tê-lo feito.

Sua decepção se aproximava do desespero. Não existiam livros, não de papel e tinta. A biblioteca existia, mas era uma biblioteca do tipo que provavelmente era comum em sua época, que havia transcendido e substituído as bibliotecas antigas. Todo o conhecimento de livros havia sido transcrito para discos metálicos e armazenado em máquinas. Não havia maneira de fazer uso dele em outro lugar sem a tecnologia para traduzir os discos. Para decifrar o que estava ali, seria necessário vasculhar as unidades de armazenamento e escutar o que estava gravado. Seria necessário um tempo enorme para fazer isso — bem mais do que o druida podia dispor.

Mesmo em sua forma de sombra, a reação de Walker ao seu fracasso foi física. Uma dor visceral profunda, dura e cortante o penetrou. Ele havia seguido aquele caminho todo, gastando tempo, energia e vidas, apenas para descobrir que fora por nada. A biblioteca era inútil. Os livros eram discos que poderiam ser desenhos em areia na beira de uma praia. Nenhuma das milhões de palavras de conhecimento contidos naquele refúgio podia ser salva, a menos que ele achasse uma maneira de incapacitar Antrax sem desligar a fonte de energia que alimentava a ambos. Ele já havia analisado a impossibilidade de conseguir isso. As fontes de energia que capacitavam a ambos estavam ligadas de forma inextricável. Ele as havia vasculhado em suas viagens e descoberto que elas se juntavam de uma maneira que não permitia separação. Antrax era o coração do refúgio e de seu tesouro.

Escutou distraído o fluxo constante de palavras enquanto eram transferidas de uma unidade para outra, uma restauração de alguma espécie, o processo feito com a intenção de mantê-las frescas e novas, mesmo com a passagem do tempo, mesmo após quase três mil anos. Estava tudo lá, tudo saído do Antigo Mundo, todo o conhecimento em um lugar, todo seu... mas simplesmente fora de alcance.

Sua amargura era palpável. Aquela jornada não podia ter sido por nada. Ele não poderia suportar isso. Não poderia tolerar isso.

Ele tivera todas as chances do mundo — chances demais para considerar — quando confrontado com a possibilidade de que os livros da biblioteca poderiam ser seus; e, de repente, suas chances eram reduzidas a uma. Ele a percebeu instantaneamente, uma única chance, tão extrema que em uma consideração inicial ele quase a dispensou na hora. Mas ela o provocava, revelando como o tempo e um desvio irônico de circunstância e de estilo às vezes fazia nascer o impossível.

Há cento e trinta anos, quando ele fora a Eldwist e recuperara a pedra élfica negra, quando tomara sua decisão de se tornar o primeiro dos novos druidas e assim trazer de volta a Paranor perdida, ele havia encontrado uma chance semelhante. Não, corrigiu bruscamente, não uma chance semelhante — a mesma chance. Ela era sua porque não havia mais ninguém para tomá-la. Era sua porque somente ele tinha como fazê-lo.

Lembrou-se novamente das palavras de Allanon no Hadeshorn tantos meses atrás. De todas as coisas que ele havia desejado realizar naquela jornada, a sombra lhe dissera, lhe seria permitida apenas uma.

Uma sensação de ironia e espanto o preencheu. A vida era misteriosa e quixotesca. Era um labirinto infinito, mas, em última análise, só havia um caminho certo para cada pessoa que procurasse navegar seus corredores tortuosos.

Afastou-se das máquinas e de seus discos, recolhendo-se para dentro de si mesmo, abandonando todas as suas esperanças e expectativas, a não ser aquela que ele acreditava que poderia realizar. Abandonando sua sombra e voltando a habitar sua forma corpórea, deixou de lado os últimos fragmentos de sua decepção e se preparou para despertar Ryer Ord Star.

 

Na superfície, na entrada no labirinto, a bruxa Ilse fez uma pausa para olhar ao redor. Passava muito da meia-noite, o céu estava negro e nublado, o ar espesso, quente, com cheiro de chuva. Estava tão escuro na ausência da lua e das estrelas que até mesmo com sua visão aguçada ela mal conseguia distinguir os prédios e as paredes das ruínas ao redor. A superfície de Castledown parecia uma tumba. Ela não vira nada se mover desde que saíra da floresta. O silêncio cobria tudo como um cobertor pesado, mascarando o que ela sabia que estava escondido à espreita.

Ela fora sábia em não trazer Cree Bega ou qualquer de seus mwellrets para apoio. Naquela situação, eles estariam a pé, um obstáculo para o progresso dela. E o mais importante, representariam uma ameaça; ela não confiava mais a eles sua segurança, apesar das garantias do Morgawr e do juramento que eles fizeram de obedecê-la. Ela podia sentir o ressentimento e a raiva deles toda vez que estava em sua presença. Eles a odiavam e temiam. Mais cedo ou mais tarde tentariam eliminá-la. Seria necessário que ela os eliminasse primeiro, mas essa era uma tarefa que ela ainda não estava pronta para realizar. Até que o druida e seus seguidores fossem alcançados e ela tivesse a posse dos livros de magia, precisaria dos mwellrets e de suas habilidades peculiares. Mas não queria que eles fossem seus guarda-costas.

Ajeitou o peso da espada de Shannara, que estava pendurada em seu ombro. Desejou tê-la deixado para trás, mas relutara em deixá-la ao alcance do garoto ou dos mwellrets. Pensara em escondê-la, mas teve medo de que pudesse ser encontrada. Se era real, era uma magia poderosa, que ela desejava para si mesma. Então não tinha opção, a não ser levá-la consigo até que aquele negócio fosse resolvido e ela estivesse voltando para casa. Supunha que era um preço pequeno a pagar pela utilidade que a espada teria mais tarde, mas não podia deixar de sentir ressentimento por ter de suportar a dor que ela causava em suas costas.

Tirando a espada do ombro, colocou-a no chão e se espreguiçou. Não dormia há algum tempo, e embora o sono não fosse particularmente importante para seu bem-estar físico, ela se sentia mentalmente esgotada. Era aquele garoto, em parte, com suas conversas incessantes e seu raciocínio maroto, tentando convencê-la de sua causa, tentando enganá-la. Debater com ele a havia exaurido mais do que ela percebera. Ele era incansável em sua insistência quanto ao que e quem era, e ela descobrira que combatê-lo a deixara cansada.

Bocejou. O sono daria descanso de mente e corpo para ela, mas não haveria sono naquela noite. Em vez disso, ela deveria achar uma maneira de entrar em Castledown, recuperar os livros de magia e evitar um confronto com o druida nesse processo.

Era uma tarefa muito diferente da anterior, ela pensou irônica, quando havia se determinado a matar Walker. Mas as coisas haviam mudado, como costumavam fazer.

Ela apanhou a espada e colocou-a de volta no ombro, ajustando o peso para ganhar um pouco de conforto. Ficou em pé, em silêncio, por algum tempo, os mantos cinzentos pendendo soltos de sua forma magra, o capuz puxado para trás, o rosto pálido levantado ligeiramente enquanto ela se concentrava no que havia adiante. Seus olhos se fecharam e ela enviou a magia de sua canção do desejo para dentro do labirinto das ruínas. Foi ali que o druida havia desaparecido no subterrâneo. Foi ali que os mwellrets haviam encontrado os rastejadores. Haveria uma entrada em algum lugar perto, provavelmente mais de uma. Ela precisava encontrá-la. O resto seria brincadeira de criança.

Não levou muito tempo para atingir seu objetivo. Havia alçapões e entradas escondidas por todo lugar, algumas maiores do que outras, todas levando para rampas ou escadas que desciam até o refúgio. Ela utilizou sua canção para se cobrir na forma e na sensação do labirinto, placas de metal frio, fios e máquinas. Abriu os olhos mais uma vez. Estudou a escuridão à sua frente, e então entrou. Nenhum rastejador ou fio de fogo apareceu. Ela não esperava que isso acontecesse. Quando utilizava a canção do desejo dessa maneira, assumia a sensação e o aspecto do que estivesse ao seu redor. Somente a magia era detectável, e somente por algo que pudesse conhecer sua presença.

Ela não assumiu uma abordagem sutil para entrar; quanto mais tempo levasse, mais riscos corria. O refúgio construído no Antigo Mundo empregaria uma tecnologia que ela não compreendia. Uma salvaguarda ou outra acabariam por detectá-la. Era melhor não lhe dar uma chance de fazer isso.

Ela se colocou contra uma parede próxima a uma das portas ocultas maiores e utilizou sua magia para estraçalhar uma porta menor do outro lado. Quase no mesmo instante a porta ao lado da qual ela estava se abriu e rastejadores apareceram. Ela se manteve oculta, deixando-os passar por ela rapidamente, então congelou o último, mantendo-o no seu lugar, destruindo seus sistemas enquanto ela registrava seu aspecto e sensação, por dentro e por fora. Levou apenas segundos, e então passou pela porta e entrou na fortaleza.

Dentro havia luzes de lâmpadas sem chama presas às paredes de um punhado de corredores que se abriam em leque a partir de um átrio no qual dezenas de rastejadores estavam congelados em prateleiras. Ela ficou imóvel por alguns segundos, testando seu novo disfarce, esperando para ver se haveria uma reação para sua presença. Não houve. Permaneceu quieta por mais alguns segundos, então seguiu adiante.

Desceu pelos corredores de Castledown sem incidentes, os mantos compridos farfalhando suavemente, sua presença envolta num aspecto e na sensação de um rastejador. Em um lugar onde somente máquinas haviam funcionado por mais de dois mil e quinhentos anos, qualquer coisa de carne e osso dispararia um alarme no mesmo instante. Haveria dispositivos que indicariam uma presença humana através de leituras de peso ou de calor corporal ou até mesmo traçando sua forma. Ela já havia visto os olhos de vidro que ficavam olhando de seus nichos no teto e sentira a presença das placas de pressão. As máquinas também utilizariam outros métodos, porém ela poderia desviá-los disfarçando seu aspecto, mudando seu peso e ocultando a temperatura de seu corpo. Cada sistema de alerta a registraria como um rastejador. Nem mesmo o druida podia conseguir isso.

Mas ela não se permitiu ficar confiante demais nem baixar a guarda. Ainda havia a possibilidade de que a coisa que protegia Castledown possuísse a capacidade de rastrear seu uso de magia, detectar sua presença e penetrar em seu subterfúgio. Se isso fosse acontecer, ela teria de tomar uma ação evasiva, e rápido. Esperava que seu inimigo estivesse ocupado com outra coisa, talvez com Walker. Esperava que a magia que ela utilizasse fosse pequena demais para detectar. Esperava, principalmente, que pudesse realizar seus objetivos com rapidez para que pudesse ir embora antes que houvesse uma chance de descobrir que ela havia entrado ali algum dia.

Ela passou por dezenas de outros rastejadores, mas todos eles a ignoraram. Cada qual parecia ter um objetivo em mente, mas ela não sabia dizer qual era. Atravessou o labirinto de câmaras e salas de todos os tamanhos e formatos, umas vazias, outras apinhadas de maquinaria e materiais. Ela não sabia o que estava guardado ali, e não ligava. Estava procurando os livros de magia e não estava encontrando. Nada mais importava. Ela não tinha tempo necessário para realizar uma busca mais detalhada.

Adiante, o som de maquinaria elevou-se do silêncio, um zumbido baixo e constante que penetrava até mesmo no aço das paredes; fazia com que o chão e seus pés vibrassem. Ela fez uma pausa para pensar. O que estava ouvindo era imenso, uma peça de maquinaria e talvez diversas peças que faziam qualquer coisa que a ela parecia insignificante e realizavam uma função central para a operação do refúgio. Provavelmente era uma usina de energia, mas poderia ter algo a ver com a proteção dos livros de magia. Ela deveria dar uma olhada.

Não dera mais de dez passos quando todos os alarmes dispararam ao mesmo tempo.

Ryer Ord Star.

 

Walker a sentiu se mexer contra ele, despertando lentamente do transe no qual havia entrado para lhe transmitir sua força empática. Seus dedos, descansando contra as têmporas dele, deslizaram pelas faces em lágrimas.

Desperte, jovem vidente.

Ele estava falando com ela com a mente, um chamado silencioso que somente eles podiam ouvir. Estava de volta a seu corpo, desperto das drogas e dos sonhos, tendo retornado de sua forma de sombra, ciente uma vez mais de sua carne e osso e da condição na qual fora colocado. Era hora de se libertar das máquinas e de Antrax. Mas deveria fazê-lo com cuidado, e não conseguiria isso sozinho.

Ouça-me.

Agora ela estava acordada, olhos abertos, as mãos segurando seu próprio corpo enquanto se afastava dele.

— Walker?

Não fale. Apenas escute. Faça o que eu digo. Faça rápido. Tire a venda de meus olhos e o tubo de ar da minha boca.

Ela fez conforme lhe fora dito, as mãos flutuando sobre o rosto dele como pequenas mariposas. Ele podia sentir a expansão e contração dos pulmões dela enquanto pressionava o corpo contra o dele.

Agora solte as faixas que prendem meus pulsos e tornozelos, e em seguida o meu pescoço, testa e cintura. Faça isso nessa ordem. Não perturbe os fios que estão ligados em mim. Não os solte.

Ela levou mais tempo para fazer isso; as faixas estavam presas com presilhas de uma espécie que ela nunca tinha visto e não entendia. Não eram feitas de metal, mas de plástico resistente, e ela ficou um tempo mexendo nelas antes de decifrar seu funcionamento. A liberação veio logo depois disso, quando, uma a uma, as faixas caíram no chão.

Ela estava novamente ao seu lado, inclinando-se bem perto dele. Ele abriu os olhos pela primeira vez e olhou para ela. O rosto infantil dela, emoldurado por sua cortina de cabelos penteados, irrompeu num sorriso amplo e seus olhos estavam cheios de lágrimas. Traços de uma magia que a cobria ainda pendiam de sua forma magra, mas já estavam se desvanecendo. Como ela havia chegado até ele? Onde havia encontrado a magia para aquilo?

Walker, ela mexeu os lábios em silêncio.

Ele olhou para si mesmo em um esforço para determinar o que deveria acontecer a seguir, tentando decidir a ordem certa de remoção dos obstáculos remanescentes, sabendo que, quando os soltasse, alarmes certamente soariam.

Prenda a porta da sala para que ela fique aberta e, quando os alarmes para as máquinas de monitoração forem disparados, Antrax não possa nos trancar.

Ela passou agilmente pelo ninho de cabos ainda ligados ao corpo dele, achou um pequeno gabinete de porta única sobre rodízios e o levou até a abertura entre a porta e o umbral, colocando-o ali com força.

Então voltou a ficar ao lado dele.

Tire as agulhas de meu braço e do meu corpo. Deixe-as penderem de onde estão presas.

Ela puxou a fita que prendia as agulhas, e então retirou-as de suas veias. Tocou com os dedos frios as perfurações, curando as feridas, dando-lhe uma força nova. A capacidade empática que possuía parecia infinita. Ela estremeceu uma vez com o contato, manteve os dedos firmes por um momento e depois tirou as mãos.

Alarmes estariam soando; Antrax saberia que o equipamento que o alimentava e drogava havia funcionado mal de alguma maneira. Ele teria de agir rápido. Sentou-se na mesa de metal, descobrindo que sua força havia diminuído e sua cabeça rodava. As drogas o haviam deixado fraco e letárgico, mas ainda podia agir. Devia. Começou a arrancar as ventosas que prendiam os fios de monitoramento ao seu corpo. Elas saíram facilmente, e em segundos nenhuma delas permanecia, a não ser as cinco que corriam até as pontas enluvadas de seus dedos. Deixou essas onde estavam. Tinha uma função para elas.

Luzes piscavam em todo lugar nos painéis de instrumentos que cercavam sua cama. Ele sentiu uma mudança na atmosfera da câmara enquanto Antrax descia rápido para corrigir o que havia acontecido. Walker levantou-se, a garota apoiando-o enquanto ele recolhia seus mantos e se afastava da mesa. Caminhou até onde os fios que corriam das pontas de seus dedos estavam enfiados em um plugue de metal que, por sua vez, estava preso aos recipientes de líquido avermelhado. Ele puxou o plugue de seu encaixe e o direcionou para uma abertura idêntica em um dos painéis de parede marcados com símbolos vermelhos brilhantes.

Walker sabia o que significavam os símbolos. Era a mesma linguagem na qual o mapa havia sido desenhado, a linguagem do Antigo Mundo que ele havia decifrado nas histórias druídicas.

Também sabia para onde corriam as linhas do segundo encaixe. Ele as havia explorado bem em suas viagens fora do corpo, rastreando-as até sua fonte.

O principal sistema de alerta de Castledown.

Antes que Antrax pudesse agir para impedir, ele enviou uma rajada de fogo druídico através das linhas centrais para dentro de todas as linhas auxiliares e disparou todos os alarmes ao mesmo tempo.

— Hora de partir — murmurou para si mesmo, levando rapidamente Ryer Ord Star na direção da entrada bloqueada.

Tinha apenas alguns minutos para fazer o que era necessário.

 

A bordo da Black Moclips, Bek Ohmsford esperava pacientemente sua execução. Não estava ligando muito para a forma que ela teria, só queria que viesse rápido. Ainda não estava em pânico, mas podia senti-lo chegando. Estava aprisionado em um aposento de popa, um depósito contendo peças sobressalentes e suprimentos — velas de luz ambiente, atratores radianos, cristais-diapasão, blocos de queijo e barris de água. Sombras cobriam tudo em camadas de escuridão. O aposento não era grande, mas, mesmo com a luz da vela sobre o barril ao seu lado, ele mal conseguia distinguir o mwellret que montava guarda no outro lado do aposento. Bek estava amarrado à parede por um metro de correntes preso a um dos tornozelos. Um pedaço de corda prendia suas mãos na frente do corpo e passava pelas correntes de modo a não permitir que ele levantasse os braços acima da cintura. Também estava amordaçado, embora isso provavelmente fosse bobagem, já que Grianne havia roubado sua voz, deixando-o mudo.

Sem querer arriscar nada, ela também lhe tirara a espada de Shannara. Quando voltasse, esperava achá-lo ainda prisioneiro. Embora ele não tivesse motivo algum para pensar que as coisas fossem mudar, não tinha nada melhor a fazer com seu tempo do que visualizar essa possibilidade. Não tinha nenhum incentivo. Era um prisioneiro a bordo de uma aeronave cheia de mwellrets e soldados da federação. Não tinha armas. Seus amigos estavam mortos ou perdidos. A morte, sob qualquer forma, não teria muita dificuldade em encontrá-lo nessas circunstâncias.

A luz do luar passava por uma portinhola aberta ao lado, o único buraco para respirar no aposento, a única fonte de ar fresco. À medida que as nuvens passavam pela face da lua, a luz escurecia e clareava por turnos, mudando a profundidade das sombras, permitindo-lhe pequenos vislumbres de seu carcereiro silencioso. De vez em quando o mwellret mudava de posição, e um pequeno farfalhar de roupas e pele de réptil revelavam sua presença, que caso contrário seria quase invisível. Ele jamais falava. Tinha ordens para não fazê-lo. O garoto ouvira sua irmã dar essa ordem. Ninguém deveria falar com ele. Deveria receber água, mas não comida. Não deveria ser abordado para outra coisa. Não deveria sair. Não deveria ser libertado da corrente, nem por um momento. Deveria ser deixado onde estava até que ela retornasse.

Sentado no chão de tábuas da nave, pernas encolhidas, pulsos caídos sobre os joelhos, recostou-se contra o tabique. Podia alcançar a mordaça se quisesse, mas entendia, por experiência dolorosa, que se tentasse era melhor ter um bom motivo para fazê-lo. A punição para mau comportamento era garantida. Ele havia suportado diversos chutes por se mexer da forma errada. Por isso estava sentado o mais quieto possível, pensando. Havia testado sua voz diversas vezes, esforços sub-reptícios, para ver se conseguia fazer pelo menos um pequeno ruído. Não conseguia. A magia que sua irmã havia utilizado sobre ele era eficiente. Ele achava que ela não havia destruído sua voz, porque iria querer falar com ele novamente em algum momento, ou o teria morto e acabado com tudo. Por outro lado, ela não precisara que Kael Elessedil falasse para descobrir o que ele sabia. Podia acontecer a mesma coisa com Bek. Ele tinha de esperar que ela quisesse mais alguma coisa: que a dúvida que sentia nela sobre sua identidade o protegesse mais um pouco.

Fechou os olhos por um momento. Tinha de sair dali. Tinha de fazê-lo antes que sua coragem acabasse. Mas como iria fazer isso? Como poderia fugir?

O desespero momentâneo tomou conta dele. Havia achado que estava seguro com Truls Rohk. Não havia acreditado que qualquer pessoa fosse forte ou inteligente o bastante para superar o mutante. Mas estava errado e agora Truls estava morto. Ela havia deixado que o caull acabasse com ele, e se o caull tivesse falhado e morrido ao invés disso, ela saberia. Afinal, ela o havia criado. Estava ligada a ele. O caull estava vivo. Isso queria dizer que Truls Rohk não estava.

Bek não tinha esperanças verdadeiras de ser resgatado por mais ninguém. Era quase certo que seus companheiros estavam mortos. Até mesmo Walker. Era tempo demais para que eles ainda estivessem vivos e não tivessem aparecido. Pensar nisso fazia com que se sentisse anestesiado. Mesmo que não estivessem todos mortos, os que ainda viviam estavam indefesos contra sua irmã. Grianne era muito poderosa para qualquer um. Ela rendera toda a tripulação rover, incluindo Redden Alt Mer e Rue Meridian, e os deixara inconscientes com sua magia. Tomara a Jerle Shannara e eliminara qualquer possibilidade de fuga. Contara tudo isso a Bek de forma casual, quase como se estivesse recitando como seria o tempo nos próximos dias. Ela havia feito isso para enfatizar como ele estava indefeso, para convencê-lo de que sua maior esperança era através dela, e ele faria muito bem se parasse de desafiá-la. Somente cooperando, revelando a verdade a seu respeito, ele poderia esperar sair dessa situação vivo e bem. Qualquer outro curso de ação resultaria em conseqüências desagradáveis. Ele deveria pensar nisso enquanto ela estivesse fora.

Ele achava que estava fazendo isso.

Achava que não estava fazendo qualquer outra coisa. Tornou a testar a corda em seus pulsos. Ela cedia um pouco, mas não o bastante para que pudesse soltar as mãos. A corda estava seca e áspera e seu suor não fornecia lubrificação suficiente. Não que importasse. Mesmo que conseguisse se libertar da corda, ainda havia a corrente. Supunha que seu carcereiro tinha a chave enfiada em algum lugar de suas roupas, mas não tinha como saber ao certo. Imaginou-se solto tanto da corda quanto da corrente, disparando pelos corredores da nave, alcançando o convés superior, pulando pela amurada e nadando até a margem. Isso ele podia imaginar, mas era a mesma coisa que imaginar que pudesse voar.

Ele tinha apenas a si mesmo em quem confiar. Talvez ainda pudesse convencer Grianne da verdade, mas estava começando a aceitar que isso era improvável. Ela simplesmente não estava pronta para ouvir. Não queria acreditar que ele era seu irmão ou que o Morgawr a havia enganado. Ela havia construído sua vida inteira ao redor da crença de que Walker era um inimigo, que o druida havia destruído seu lar e assassinado sua família. Ela se reconstruíra para que não apenas pudesse enfrentar o poder dele, mas também suplantar a maldade que via nele. Ela fizera coisas com as quais provavelmente jamais poderia viver se viesse a descobrir que fora completamente manipulada. Estava tão profundamente envolvida em sua persona como a bruxa Ilse, que não podia pensar em si mesma de outra maneira.

Por um momento ele pensou na possibilidade de que era tarde demais para salvá-la, que ela havia ido longe demais para ser redimida, que havia cometido atrocidades demais para ser perdoada. Era possível. Talvez ele a tivesse alcançado tarde demais.

Descobriu-se pensando naquela noite nas Highlands quando havia encontrado Walker pela primeira vez. Ele relutara em aceitar a oferta do druida para seguir naquela jornada. De algum modo percebera que, se o fizesse, nada em sua vida jamais seria o mesmo. A realidade fora muito mais sombria do que ele podia ter imaginado, fez com que ele se sentisse diminuto e inútil, dilacerado por emoções que jamais imaginara experimentar. Ele queria que as coisas voltassem a ser como antes. Queria voltar para casa. Queria que Quentin e seus amigos estivessem sãos e salvos. Queria ser quem ele sempre pensou ser e não alguém sobre o qual nada sabia. Queria que o pesadelo terminasse.

A trava da porta do depósito fez um barulho alto e a porta se abriu. Três mwellrets apareceram, esgueirando-se para dentro protegidos pela anonimidade de seus mantos e capuzes, sombras saídas da noite. Nenhum deles disse uma palavra. O último a entrar fechou a porta e ficou de costas para ela. O que estava logo à sua frente juntou-se ao guarda nas sombras do outro lado do aposento. O líder foi direto a Bek e puxou o capuz para revelar seu rosto de réptil. Era Cree Bega, o mwellret ao qual sua irmã havia confiado sua segurança.

Cree Bega olhou o garoto, sem falar, os olhinhos duros e desagradáveis. Bek tentou manter seu próprio olhar firme, mas os olhos do mwellret o incomodavam. Por fim, envergonhado por seu fracasso, desviou o olhar.

Cree Bega estendeu seus dedos com garras e retirou a mordaça da boca de Bek. Jogou o pedaço de pano no chão e recuou. Bek respirou pela primeira vez sem obstáculos em horas, mas pôde sentir o cheiro dos mwellrets ao fazer isso, um odor fecal cru e nauseante.

— Quem é você, garoto? — perguntou Cree Bega em voz baixa.

Falou de modo distante, quase distraído, como se não esperasse realmente uma resposta, mas estivesse perguntando apenas para verbalizar a pergunta para si mesmo. Sua voz fez Bek estremecer. Temendo que o que fosse acontecer a seguir não estivesse nos planos de sua irmã, Bek tornou a forçar as mãos contra as cordas.

Percebendo o movimento sub-reptício, Cree Bega deu um passo adiante e derrubou-o no chão com um soco. Então pegou o garoto, colocou-o sentado e jogou-o de encontro à parede.

— Não exisste fuga para oss pequeninoss — ele murmurou. — Não há como fugir de nóss!

Bek sentiu o gosto de sangue na boca e engoliu, os olhos fixos no mwellret. Cree Bega ajoelhou-se devagar, e quando falou, seu olhar estava no mesmo nível dos olhos do garoto.

— Você acha que talvez ela volte para ssalvá-lo? A bruxa Ilsse, tão poderossa, tão forte, que nada teme? Hssst! Oss pequeninoss toloss não ssão nada para ela. Ela já sse essqueceu de você.

Inclinou-se para a frente.

— Oss retss ssão sseuss únicoss amigoss, os únicoss que podem ssalvar você. — Seus olhos frios brilharam. — Acha que esstou errado, que ssou tolo como você? Ela quer o que esstá lá em cima. — Ele bateu de leve na cabeça de Bek. — Ela não quer nada além do que pode ussar contra o druida.

Com seus olhos mortos e seu estranho rosto sem expressão, ele estudou o rosto do garoto por um longo momento.

— Mass sse o pequenino fizer o que eu mandar, liberto você.

Bek tentou falar e não conseguiu. Tentou se mover e não conseguiu. Estava sem voz e paralisado, preso em seu lugar pelo olhar do outro e pelos efeitos da magia da bruxa Ilse. Seu corpo foi inundado de medo e desespero e ele lutou para evitar que isso aparecesse em seus olhos. Não conseguiu.

Cree Bega se levantou e se afastou como se tivesse terminado com Bek. Foi até o outro lado do aposento, olhou o céu noturno pela portinhola e em seguida foi até os dois mwellrets que estavam em pé esperando nas sombras contra a parede. Bek observou-o do mesmo modo que um pássaro sem poder voar observaria uma serpente faminta. Não podia fazer nada para se salvar. Podia escutar, esperar e torcer.

Um dos mwellrets emergiu da escuridão e se ajoelhou ao lado de Bek. Lenta e deliberadamente, desembrulhou um avental de couro para revelar uma série de facas brilhantes e sondas afiadas. Não olhou para Bek nem sequer por um instante, não prestou a menor atenção nele. Simplesmente abriu a bolsa com seus instrumentos de corte, tornou a se levantar e se afastou.

Tudo dentro de Bek contorceu-se e deu nós. Ele queria gritar por socorro, mas sabia que isso não lhe faria bem algum. Tornou a forçar as cordas que prendiam seus pulsos, mas estavam tão apertadas quanto antes. Suas chances estavam ficando menores e seu tempo estava se esgotando. Apenas momentos antes ele poderia acreditar que ainda tinha alguma chance de não ser machucado; não acreditava mais nisso.

Cree Bega voltou até onde Bek estava sentado, ficando à sua frente, em pé, como uma força grande, negra, esmagadora.

— Pensse com cuidado, pequenino — ele murmurou baixinho com sua voz rouca. — Maneirass de fazer você falar ass palavrass que esstá esscondendo. Retss conhecem maneirass. Fazem você gritar sse quisser noss tesstar. É maiss fácil apenass ressponder quando fizermoss perguntass. É melhor asssim. Então o pequenino fica livre.

Esperou um momento, observando Bek olhar em direção ao nada à sua frente, lutando contra seu terror, forçando-se a permanecer calmo.

Cree Bega deu-lhe um empurrão de leve com a bota.

— Daqui a pouco venho ver você — ele sussurrou.

Sem olhar para trás, virou-se, foi até a porta do depósito e desapareceu. A porta se fechou suavemente atrás dele e a trava voltou a se encaixar no lugar.

Bek manteve o olhar direcionado para uns cinqüenta centímetros à sua frente, às margens da escuridão iluminada pelas velas, tentando saber o que deveria fazer. Não conseguiria se libertar sem ajuda. Não era provável que chegasse alguma ajuda rápido o bastante para fazer diferença. Ele teria de dar ao mwellret o que ele desejava. Mas como poderia fazer isso? Não podia falar, mesmo que quisesse. Tornou a testar os efeitos da magia de Grianne, achando que talvez tivesse deixado alguma coisa de lado. Tentou tudo o que pôde, mas nada funcionava. Sua voz havia desaparecido.

Onde isso o deixava? Ele podia escrever suas respostas para as perguntas do mwellret, mas isso poderia não ser o bastante para salvá-lo. Cree Bega parecia ser do tipo que testaria sua habilidade vocal não só com palavras, mas também com seu sortimento mortal de lâminas. Que mal poderia fazê-lo ter certeza, afinal? Por que não ver até que ponto o garoto realmente não tinha voz?

Pela primeira vez desde que havia desembarcado da Jerle Shannara e ido para terra firme à procura de Castledown, Bek se lamentava por ter dado a pedra fênix. Se a tivesse guardado para si, se não tivesse se precipitado entregando-a a Ahren Elessedil, teria alguma maneira de escapar, mesmo amarrado como estava. Talvez fosse essa a intenção do rei do rio Prateado o tempo todo. Talvez ele tivesse previsto a situação e dado a pedra para Bek como meio para que ele pudesse se libertar. A idéia de que havia jogado fora sua chance por livre e espontânea vontade era mais do que ele podia suportar, e afastou o pensamento com raiva. Sua mordaça ainda estava solta e ele respirou fundo lentamente e várias vezes para se acalmar, mas ainda podia sentir seu coração batendo forte. Tornou a olhar para a fileira de lâminas dispostas à sua frente, e então desviou rápido o olhar. Estava morrendo de medo. Sentiu lágrimas nos cantos dos olhos e lutou para evitar que elas descessem por suas faces. Os guardas mwellrets estariam observando. Estariam esperando por isso. Eles iriam reportar tudo a Cree Bega, que o acharia ainda mais fraco do que já supunha. Cree Bega iria usar isso contra ele.

Examinou suas opções, todas elas, por mais remotas ou impossíveis que parecessem; não percebia nada de novo. Ele responderia às perguntas que Cree Bega lhe fizesse. Esperava poder fazer isso por escrito e não ser torturado primeiro para que descobrissem se ele estava brincando. Esperava que o libertassem das cordas e correntes — por vontade própria ou por sugestão dele — e, se o fizessem, que ele pudesse encontrar uma oportunidade de escapar. Era um plano patético, sem nenhuma particularidade ou chance favorável, mas era tudo em que ele conseguia pensar. Suas esperanças estavam em farrapos, e se agarrava a elas como se fossem pedaços de serpentina colorida, outrora brilhantes com promessas, agora esmaecidas e gastas.

Não era justo, ele não parava de pensar. Nada disso era justo. Não era nada do que ele achava que encontraria ao ir para lá. Eram promessas transformadas em pó. As lágrimas tornaram a cair, desta vez mais fortes, e desceram por suas faces em linhas tortas. Ele baixou a cabeça na sombra, esforçando-se para ocultá-las.

Ao fazer isso, ouviu a porta do depósito se abrir novamente, um estalo da trava, o ranger suave das dobradiças. Olhou para cima rapidamente, esperando ver Cree Bega. Mas não havia ninguém ali. O umbral estava vazio, um buraco negro para o corredor externo onde nenhuma luz queimava.

Será que aquelas luzes não haviam sido acesas quando Cree Bega saiu do aposento?, pensou Bek, de repente alerta.

Por um instante, os guardas mwellrets ficaram paralisados. Então, o ret que estava mais perto da porta puxou uma espada curta debaixo de seu manto e foi até lá dar uma olhada. Ficou em pé na porta, sem se mover, olhando para o corredor. Nada aconteceu. Lenta e cuidadosamente, fechou a porta mais uma vez, as dobradiças rangendo no silêncio recém-formado, a trava se encaixando em seu lugar com um clique.

No instante seguinte, a vela ao lado de Bek se apagou e o aposento foi mergulhado na escuridão, a não ser pela luz que vinha pela portinhola do outro lado, mas isso deixava tudo em sombras vagas. Alguma coisa passou por Bek depressa, o movimento de sua passagem provocando uma rajada fria de ar contra sua pele. Não fez nenhum som quando se aproximou do mwellret mais próximo, que grunhiu com o impacto e caiu. Os outros dois emitiram um sibilar de aviso e em seguida ambos se envolveram em uma luta que os mandou voando para o outro lado do aposento escurecido, de encontro à parede. Bek viu de relance o antagonista deles, uma grande forma envolta num manto que se movia com a velocidade e a agilidade de um gato do pântano, atacando o primeiro e depois o segundo, enchendo-os de socos, derrubando-os em pilhas desconjuntadas.

Bek arregalou os olhos. Não pode ser...

O primeiro ret já estava em pé de novo, atacando em auxílio de seus companheiros, o brilho de sua lâmina capturado por um momento num raio de luar. Ouviu-se uma colisão abafada de corpos e um grunhido. Segundos depois, o ret recuou cambaleante, a espada curta enterrada no peito, seus movimentos frouxos e indistintos enquanto ele lutava para permanecer em pé. Quando desabou um instante depois, sem vida, o aposento estava tão silencioso que Bek podia ouvir a própria respiração.

— Qual o problema, garoto? — alguém sussurrou no seu ouvido. — Parece que viu um fantasma!

Era Truls Rohk. Bek levou um susto tão violento com o som gutural da voz do outro que quase se engasgou. O mutante se materializou ao seu lado na escuridão, sua forma envolta em manto e capuz bloqueando a luz do luar. Em segundos ele cortou as cordas que amarravam os pulsos do garoto. Então, usando um pedaço comprido de barra metálica, quebrou o elo que prendia o grilhão de ferro da perna e Bek estava livre.

Truls Rohk levantou-o.

— Nada de falar — sussurrou. — Não até estarmos fora desta nave.

Saíram para a passagem escurecida, o mutante liderando o caminho. Apesar das cãibras musculares e da rigidez, ainda sem acreditar direito na sua sorte, Bek ficou perto o bastante para tocá-lo. Estavam a menos de dez passos do depósito quando um grito quebrado e rouco veio de dentro. Com Bek nos seus calcanhares, o mutante continuou a descer o corredor sem olhar para trás. O garoto esperava que ele fosse na direção de uma das escadas que levavam para cima, e ficou surpreso quando ele fez exatamente o contrário. Em vez de subir até o convés principal, Truls Rohk virou-se para um corredor sem saída que levava para a parte de trás da aeronave. Acima, o som de botas ecoava pelo convés, misturado a urros e gritos. A companhia da nave estava acordada, e, se ainda não os estava caçando, estava a caminho de fazê-lo.

O corredor pelo qual Truls Rohk havia descido terminou apenas depois de alguns passos, em uma porta de madeira pesada. O mutante abriu-a sem hesitar e puxou Bek para dentro. A sala estava escura, mas o luar passava por dois pares de janelas abertas e revelava uma câmara inteiramente mobiliada. Um homem acordou em um leito ao lado, pulando apressado das cobertas, mas um único soco de Truls Rohk o jogou contra uma parede, onde ele caiu inconsciente.

— Pela janela — o mutante sibilou para Bek, empurrando-o na direção da abertura.

Ele se voltou para a porta da câmara, mas ela já tinha se aberto, e seis formas escuras entraram correndo. Truls Rohk atingiu-as com tamanha fúria que enviou todos os seis de volta para o corredor atrás deles, tropeçando e xingando enquanto tentavam permanecer em pé. Facas e espadas curtas brilhavam no luar, mas o mutante se desviava das lâminas cortantes como um fantasma, agarrando a porta aberta e batendo-a, colocando a trava no lugar.

— Saia! — grunhiu para Bek, que estava atrás dele.

Do lado de fora, corpos se jogavam contra a porta e lâminas pesadas escarafunchavam a trava de metal e cortavam a madeira. Bek subiu em uma cama vazia e levantou uma perna sobre o alpendre. Quase no mesmo instante, uma forma escura pulou à sua frente, pendurada em uma corda. Bek viu o brilho de uma insígnia da federação, chutou a cabeça do homem e o mandou girando para longe.

Atrás dele, a porta cedeu e se partiu em lascas. Bek hesitou novamente.

— Saia! — repetiu Truls Rohk.

Bek passou pela janela no instante em que outra forma caía sobre uma porta do lado da amurada da nave, tentando agarrá-lo. Bek escapou da fúria selvagem de seu atacante e caiu de cabeça na água. Submerso na escuridão que o ocultava, nadou para longe da aeronave até que seus pulmões imploraram por ar. Quando voltou à tona, não havia ninguém mais à vista. A bordo da Black Moclips, os sons da batalha continuavam, agudos e desesperados. Bek esperou um momento para que Truls Rohk o acompanhasse na água, mas quando viu barcos cheios de mwellrets sendo abaixados na lateral, recomeçou a nadar. Era um bom nadador e não levava armas nem bagagens para prejudicá-lo. Ele nadou na direção da margem escura com braçadas fáceis e suaves, e chegou lá antes que o primeiro de seus perseguidores tivesse se soltado da nave para remar atrás dele.

Esgueirando-se o mais silenciosamente que pôde, ele se abaixou ao passar pelas árvores que o ocultavam e então olhou para trás. Espalhados ao longo da linha d’água, suas formas achatadas e grandes congeladas no luar, os barcos estavam indo atrás dele. Vasculhou a linha escura da Black Moclips em busca de algum sinal de Truls Rohk, mas não encontrou nada. A bordo da aeronave, o clamor havia se reduzido para um murmúrio tedioso de vozes que se propagavam facilmente pelas águas abertas da baía. Sem saber o que deveria fazer, Bek aguardou enquanto os barcos se aproximavam. Estava livre, mas não tinha para onde ir. Havia perdido sua magia e suas armas, e então era inútil ficar e lutar. Se corresse, seus captores simplesmente o rastreariam novamente. Precisava do mutante para ajudá-lo. Precisava demais de Truls Rohk.

Finalmente, não pôde esperar mais. Os barcos a remo estavam quase em cima dele. Misturou-se com as árvores o mais silenciosamente que pôde. Seus perseguidores não seriam capazes de perceber seus rastros na escuridão, e por isso ele teria a maior parte da noite para se distanciar deles. Pela manhã, ele poderia estar longe.

Mas para onde iria?

A falta de esperança de sua situação o deixava arrasado; por um momento simplesmente parou onde estava, olhando para a escuridão. Estava livre, mas o que deveria fazer com isso? Deveria partir em busca dos outros membros da equipe da nave, esperando que um ou dois ainda pudessem estar vivos? Deveria achar Walker e avisar o druida sobre Grianne? Haveria tempo bastante para fazer qualquer coisa a essa altura, além de tentar permanecer vivo?

— O que está fazendo? — Truls Rohk sibilou, materializando-se da escuridão ao seu lado. O manto encharcado pingava. — Se ficar por aqui muito tempo, eles certamente vão encontrá-lo!

Bek, atônito, foi pego pelo braço e levado para as árvores.

— Achou que eu não vinha? Tenha fé, garoto! Gatos não são os únicos que têm sete vidas. — Seu manto estava rasgado e manchado de sangue. Dentro da escuridão de seu capuz seus olhos brilhavam. — Chega. Vamos atrás de sua irmã. Reuniões de família são sempre interessantes, mas esta deverá ser melhor do que a maioria. — Sua gargalhada súbita era rouca e desagradável. — Você tenta salvá-la e eu tento matá-la. É justo?

Suas mãos eram como ferro quando puxou Bek Ohmsford para segui-lo dentro da noite.

 

Rue Meridian ainda estava vendo a Black Moclips das sombras da margem com Hunter Predd, tentando decidir o que deveria fazer, quando o silêncio a bordo da nave explodiu em uma cacofonia de gritos e no clangor de lâminas de metal. Aconteceu tão subitamente que no começo foi desorientador e ela não tinha certeza de onde vinham os sons. Trocando um olhar apressado com o cavaleiro alado, ela avançou mais ao longo da margem, como se assim pudesse de algum modo determinar melhor a fonte da perturbação.

Para complicar seus esforços, a lua passou para trás de um banco largo de nuvens, jogando a baía e a aeronave na escuridão.

— O que está acontecendo? — ela sussurrou confusa.

Fez uma pausa em seu avanço ao ouvir lascas de madeira e dobradiças de metal arrebentando. Ela não tinha como se enganar quanto a esses sons, decidiu, olhando novamente para Hunter Predd. Então ouviu um barulho na água quando alguma coisa ou alguém caiu no mar. Um segundo som soou imediatamente em seguida e ela ouviu braçadas nas águas da baía. Seu primeiro pensamento, instantâneo e incondicional, era que alguém estava tentando escapar. Esse alguém teria de ser um membro da companhia da Jerle Shannara.

Ela desceu pela margem, tentando rastrear os sons que vinham da aeronave. Mas a luta a bordo continuava sem cessar e o ruído de lâminas metálicas e os gritos dos feridos ou moribundos abafavam todo o resto.

Finalmente ela parou, ajoelhada na margem, à sombra de um despenhadeiro rochoso, e tornou a apurar o ouvido. Podia ouvir movimento na água, como se alguém estivesse nadando, mas ainda não sabia dizer de onde vinha. A luta a bordo da Black Moclips havia terminado, substituída por grunhidos zangados e o estrondo de botas pesadas. A lua reapareceu por um momento, dando-lhe um vislumbre dos conveses da aeronave, maciços, formas encobertas em mantos correndo para todo lado. Em instantes, eles haviam abaixado botes para a água e subiam para dentro deles aos montes.

Mwellrets em perseguição a alguém, pensou ela. Mas quem?

A lua tornou a desaparecer atrás das nuvens e os botes saíram deslizando para a escuridão, na direção da margem, sob os esforços de remadores determinados. Quando os rets chegaram à margem, desceram dos botes e desapareceram na selva. A bordo da Black Moclips, os sons se transformaram em murmúrios isolados e gemidos suaves. E em pouco tempo até mesmo estes pararam.

Hunter Predd inclinou-se para perto de Rue Meridian.

— Alguém fugiu deles.

Ela assentiu, ainda escutando, observando e pensando no que aquilo significava. Uma oportunidade, acreditava. Mas como iria tomar vantagem dela?

— Quantos você contou nos botes? — perguntou ela.

— Mais de uma dúzia. Provavelmente uns quinze mwellrets.

— Foram todos eles, aposto. Tudo o que restou. — Pensou nos mortos a bordo da Jerle Shannara, espalhados pelo convés em companhia de Hawk, entre os destroços da tempestade. Piscou os olhos para afastar a imagem e fez um cálculo rápido. A Black Moclips levaria uma tripulação e um complemento de luta de trinta e cinco. Subtraindo os mwellrets e os dois soldados da federação mortos a bordo da Jerle Shannara, isso deixava uma tripulação de talvez onze ou doze.

Hunter Predd cutucou o braço dela.

— No que você está pensando?

Ela olhou bem para ele.

— Preciso entrar a bordo.

Ele balançou a cabeça na hora.

— Muito perigoso.

— Eu sei. Mas precisamos descobrir se há mais alguém da nossa equipe mantido prisioneiro. Não teremos chance melhor do que essa.

Os traços duros dele franziram em sinal de dúvida.

— Você ainda está ferida, Ruivinha. Se precisar lutar, estará em apuros.

— Apuros do tipo que não quero ouvir depois, eu sei. — Olhou na direção da aeronave, uma forma escura suspensa sobre a água. — Só quero dar uma olhada.

O cavaleiro alado acompanhou o olhar dela, mas não disse nada. Curvou os ombros e estudou a escuridão com uma intensidade que a surpreendeu.

— Como está planejando chegar lá? — acabou perguntando.

— Nadando.

Ele assentiu.

— Eu já imaginava. Claro que, agora que alguém escapou pulando da amurada e os rets desceram em perseguição aos botes, não acredito que os homens que ficaram a bordo desperdicem seu tempo ficando de olho na baía. — Olhou para ela. — Será?

Evitou o sarcasmo na voz, mas dissera a coisa certa. Algum vigia estaria de olho vivo nas águas ao redor em busca de alguma coisa suspeita. Ela podia se aproximar nadando embaixo d’água, mas era um longo caminho e ela não era tão forte quanto precisava para tentar isso. Tampouco podia contar com a lua permanecendo oculta atrás do banco de nuvens. Se ela saísse na hora errada, ficaria tão exposta na água como se fosse à luz do dia.

— Por outro lado — ele continuou baixinho —, não estarão esperando ninguém voando.

Ela o encarou.

— Em Obsidian? Pode fazer isso? Pode me deixar no mastreamento?

Ele deu de ombros.

— Ainda é muito perigoso. O que acha que pode conseguir?

— Dar uma olhada ao redor, ver se mais alguém a bordo é um dos nossos. — Ele sustentou o olhar dela de maneira desconfiada e acusadora e ela sorriu sem querer. — Não acredita em mim?

— Acredito que você está me dizendo o que acha que eu quero ouvir. Mas leio rostos melhor do que a maioria das pessoas e estou vendo, no seu, algo mais do que você está dizendo. — Inclinou a cabeça. — De qualquer maneira, eu irei a bordo com você.

— Não.

Ele riu baixinho.

— Não? Admiro seu espírito, mas não seu bom senso. Você não pode ir daqui até ali sem mim, e eu não levarei você, a menos que eu vá também. Então não vamos discutir mais a questão, Ruivinha. Você precisa de alguém para lhe dar cobertura, e se a coisa azedar, preciso ser capaz de dizer a seu irmão que fiz tudo o que podia para protegê-la.

Ela o olhou melancólica.

— Não gosto desse negócio de você poder ver com tanta clareza o que estou pensando.

Ele assentiu.

— Bem, pode ser que isso me ajude a salvar sua vida em algum momento. Nunca se sabe.

— Basta me colocar e me tirar inteira daquela nave — disse ela. — Isso para mim já basta.

Esperaram por um longo tempo, dando à nave e à tripulação tempo para se aquietarem e voltarem a uma rotina, montando guarda sobre a margem para esperar o retorno dos mwellrets. Rue Meridian acreditava que eles ficariam fora a noite toda, tentando rastrear quem quer que estivessem caçando, incapazes de ver com clareza suficiente na escuridão, forçados a esperar o nascer do dia. Ela estava se perguntando quanto à bruxa Use. Não tinham visto sinal dela, nenhuma indicação de sua presença. Se ela não estava a bordo da nave, provavelmente estava em algum lugar em terra, caçando a magia que os levara a Castledown. Quem tinha a posse daquela magia agora? Será que Walker já a havia encontrado e reclamado para si? Será que era aquilo o que esperava encontrar? Não havia como saber sem fazer contato com um membro da equipe de terra, outro bom motivo para descobrir se algum deles estava aprisionado pela bruxa e pelos seus rets.

— Se vamos, devemos ir agora — disse Hunter Predd por fim.

Tirando seu manto e verificando suas armas e roupas, ele explicou a ela que Obsidian fora treinado, assim como todos os rocas, a baixar seus cavaleiros alados para prestar socorro em um resgate. Utilizando um arreio e uma corda, cavalgariam o roca até a aeronave e desceriam até os mastros. Quando estivessem prontos para partir, Obsidian os apanharia novamente.

— Esta é a chave — disse Hunter Predd, mostrando um pequeno implemento de prata. — Um apito, mas que somente os rocas podem ouvir, e não os humanos. Rapidez e silêncio são o resto, Ruivinha — ele grunhiu. — E sorte, claro. Isso mais do que tudo.

Quando estavam prontos, ele utilizou o apito para chamar o roca. Obsidian apareceu sobre a encosta, descendo até a baía para se empoleirar no ressalto pelo qual passaram no caminho de descida para a margem. Já estava escuro, a lua havia desaparecido e a maioria das estrelas estava encoberta pelas nuvens. Teriam de correr se quisessem chegar à Black Moclips antes que sua proteção acabasse.

Ao partir naquela manhã, Rue Meridian havia trançado seus longos cabelos ruivos e os prendido atrás com um pedaço de corda colorida. Apertou a corda, verificou as adagas que levava no cinto e na bota e montou em Obsidian. Hunter Predd sentou-se na sua frente, falou carinhosamente com o roca e levantaram vôo. Planando para o céu negro, subiram até que a silhueta escura da aeronave se fundiu com a superfície da baía de modo tão completo que Rue Meridian não conseguia vê-la mais. Ainda estava tentando distingui-la, quando Hunter Predd fez um sinal para ela de que haviam chegado.

Com uma mão atrás da outra, deslizaram de seus assentos até a corda, um pedaço de cânhamo muito duro e cheio de nós pendurado na escuridão. Lá do alto, acima de tudo, o mundo inteiro parecia um buraco negro, salvo onde podiam ver um vislumbre do horizonte. A Ruivinha sentiu o coração parar e o estômago apertar enquanto descia pela corda. Não conseguia ver nada, nem mesmo Hunter Predd, que descia abaixo dela. Sentiu-se balançando e não sabia dizer se Obsidian estava se movendo ou não. Será que os rocas podiam pairar no ar? Ela teria dado qualquer coisa para ver algo de sólido, mas não havia nada para ser visto.

Embaixo, tudo era silêncio, até mesmo o cavaleiro alado em sua descida. Ela apurou o ouvido atentamente para tentar escutar seus próprios sons, lutando para abafar tudo, mas o silêncio só fazia aumentar sua sensação de isolamento e desesperança.

Precisou lutar para não entrar em pânico quando a corda acabou e Hunter Predd não estava ali. Então uma mão enluvada a pegou pela bota e puxou-a para o mastreamento da Black Moclips. Ela agarrou o aglomerado de eixos e travas e soltou a corda. Em um instante a corda desapareceu e Obsidina também.

Agarrando-se ao mastreamento da aeronave com Hunter Predd tão próximo que ela podia ouvir-lhe a respiração, Rue Meridian levou um instante para se orientar. Depois que seus olhos se ajustaram, concluiu que estavam pendurados no alto do mastro traseiro, balançando suavemente com o sacolejo lento da aeronave. Não podiam ficar ali, pois no instante em que as nuvens se abrissem e a lua tornasse a aparecer estariam expostos à luz do céu noturno e claramente visíveis para os vigias da nave.

Puxando Hunter Predd para perto, ela fez um gesto para baixo, indicando o que deviam fazer. Lenta porém firmemente, colando-se ao mastro para permanecer escondida, ela encontrou a primeira das argolas de ferro que formavam apoios para as mãos e os pés, e então começou a descida. Para descer, foi necessário muito tempo e energia; mais energia do que seria preciso se suas condições físicas não fossem tão desfavoráveis. Suas feridas doíam, irritadas pela tensão do esforço físico e da concentração mental. Levantou a cabeça e viu Hunter Predd logo acima, acompanhando-a para baixo. A descida deles foi suave e sem ruídos. Ele estava mais bem equipado para isso do que ela.

Quando ela chegou perto do convés para ver quem estava vigiando, fez uma pausa. Achou uma dupla de guardas na proa e na popa: pela constituição física e pela postura deles, soldados da federação. Não havia ninguém na cabine do piloto, mas um terceiro homem caminhava pelo convés, andando para um lado e para outro entre os pontões e os mastros, uma sombra inquieta e incansável. Ela captou um vislumbre momentâneo de seu corpo magro e rosto rígido quando ele passou sob uma réstia de luz das estrelas. Arregalou os olhos, surpresa. Será que não o conhecia? Achava que sim. Levantou a cabeça para onde Hunter Predd estava parado nas argolas de ferro e fez um sinal para que ele continuasse assim.

Então desceu mais alguns metros e caiu suavemente no convés, deslizando para a sombra de uma caixa de armas. Os guardas não olharam na sua direção. Ela olhou o homem por mais alguns momentos, esperando que ele passasse perto, que lhe desse as costas; então ela se endireitou e caminhou diretamente em sua direção. Estava quase em cima dele antes que ele sentisse sua presença e se virasse.

A essa altura ela tinha uma adaga na garganta dele e estava perto o bastante para ver quem era.

— Boa-noite, Donell Brae — ela disse baixinho, a mão livre agarrando com força o braço dele. — Não faça nenhum ruído alto, por favor. E nenhum movimento súbito.

O rosto vincado dele partiu-se em um sorriso irônico.

— Eu disse a eles que era uma má idéia deixar você em sua própria nave, cativa ou não.

— Alguém devia ter ouvido você. Então agora me ouça. A Jerle Shannara é minha novamente, minha e do Ruivão. Mas perdemos Hawk e estou procurando alguém aqui para pagar por isso. Ela está aqui?

Ele piscou.

— A bruxa Ilse? Ela está em terra, procurando pelo druida. — Os olhos azul-claros, tão familiares, lhe deram um olhar pensativo. — Fique longe dela, Ruivinha. Ela é venenosa.

Rue Meridian empurrou a ponta da adaga na garganta dele e ele grunhiu.

— Ela ainda não descobriu quem é venenosa de verdade. Quem mais está aqui? Aden Kett está no comando?

Donell Brae assentiu.

— Uma escolha estúpida para vocês dois.

— Nem sempre é questão de escolha, Ruivinha.

— Muito justo. Mas agora você tem uma. Faça o que lhe digo e pode continuar vivo. — Empurrou mais uma vez a adaga, forçando a cabeça dele para trás. — Sempre gostei de você, Donell. Não gostaria que nossa amizade acabasse mal.

Ele engoliu em seco contra a ponta da adaga.

— O que você quer?

— Quem está a bordo além de você?

— Se você não afastar essa adaga, vou cortar minha própria garganta tentando responder.

Ela desceu a lâmina até seu peito.

— Deixe as mãos ao lado do corpo. Está carregando alguma arma?

Ele tornou a abaixar a cabeça e a balançou.

— Nunca gostei muito delas. Sou piloto, não espadachim. Isso é para outros.

Um dos melhores pilotos da federação que ela havia conhecido. Haviam voado juntos em missões nas Prekkendorran. Ele havia entrado para o serviço com Aden Kett, dois jovens soldados da federação quando começaram. Agora ele era um piloto e Kett um comandante de aeronave. A tripulação deles fora designada para a Flying Mourn quando Rue Meridian fugiu para oeste com seu irmão. O comando da federação devia ter dado a Black Moclips a eles como recompensa por seu serviço. Era uma boa escolha. A tripulação de Aden Kett era o melhor grupo da federação no céu.

Ela caminhou com Donell Brae até o mastro, onde Hunter Predd aguardava. O cavaleiro alado havia descido de seu poleiro no mastro para encontrar um esconderijo melhor e tomar conta de Rue Meridian. As sentinelas em cada extremidade da aeronave não repararam quando ela levou Donell até ele.

— Mais uma vez: quem está a bordo? — pressionou suavemente o piloto.

Ele olhou direto para a frente.

— O comandante, eu e onze membros da tripulação. Treze no total. Começamos com quinze, mas dois foram deixados na Jerle Shannara para pilotá-la. Estão mortos, suponho?

Ela o ignorou.

— Nenhum mwellret espreitando?

Ele balançou a cabeça.

— Estão todos em terra, caçando aquele garoto e quem quer que o tenha libertado.

Um frio percorreu sua espinha. Ela olhou para a forma escura de Hunter Predd, que estava perto o bastante para ouvir.

— Vamos dar uma palavrinha com Aden Kett, Donell. As mesmas regras até terminarmos. Comporte-se e não me teste.

O rosto vincado olhou para ela.

— Não sou idiota, Ruivinha. Já vi você com essas facas.

— Ótimo. Lembre-se dessa imagem. Agora, onde está o comandante?

Desceram as escadas que passavam pelo convés de popa e iam até as passagens inferiores. A câmara do comandante estava na popa, situada a estibordo da nave no abrigo dos pontões. Desceram em silêncio o pequeno corredor até a porta da cabine e pararam. Ela fez um gesto de cabeça para que Donell falasse.

— Comandante? — ele gritou para a porta.

— Entre — foi a resposta imediata.

O piloto soltou a trava e eles entraram rápido. Ela fechou a porta com um chute, uma das mãos no braço de Donell Brae, a outra segurando a lâmina da adaga na palma da mão ao seu lado em posição de atirar.

Duas velas iluminavam a escuridão. Aden Kett estava sozinho, sentado em seu catre, escrevendo em um diário, um aglomerado de mapas espalhados à sua frente. Quando levantou a cabeça, ela viu que o rosto forte e bonito estava machucado e a cabeça enrolada em bandagens. Não pareceu surpreso em vê-la.

Pôs de lado pena e tinta e empurrou os mapas para longe.

— Ruivinha. — Olhou para Donell Brae. — As coisas vão de mal a pior para nós nestes dias, não vão?

— Tentando descobrir exatamente onde no esquema das coisas você está? — ela perguntou, indicando os mapas.

Ele balançou a cabeça.

— Tentando traçar um curso para casa, um curso que espero utilizar muito em breve. — Deu de ombros. — Sonhar não custa nada.

— Posso confiar que você não vai gritar por socorro enquanto conversamos? — ela perguntou, balançando a adaga onde ele podia vê-la.

Ele assentiu cansado.

— Para quem eu gritaria? Por que me daria ao trabalho? Os rets e a bruxa estão em terra e minha tripulação e eu estamos às cegas mais uma vez. Estamos todos cansados desse negócio.

— As coisas não estão indo bem, não é? — ela empurrou Donell para a frente, ainda mantendo a mão livre no braço dele e a porta às costas onde podia alcançá-la se precisasse. — Você deve estar sonhando com os velhos tempos, por piores que fossem.

Ele sorriu, um pouco de vida retornando ao seu rosto cansado.

— As coisas eram menos complicadas.

— Pelo menos para você. O que aconteceu com seu rosto?

— Alguém entrou a bordo e resgatou o garoto que estávamos mantendo prisioneiro. Entraram em minha cabine. Saí de meu catre bem a tempo de tomar uma pancada e voltar a cair sobre ele. Você também não parece lá muito bem.

Ela retribuiu o sorriso.

— Estou me curando. Devagar e sempre. Mas não confunda isso com uma fraqueza da qual possa tirar vantagem, Aden. Você não é melhor com lâminas do que Donell. — Ela deixou o aviso fazer efeito. — Fale desse garoto.

Aden Kett deu de ombros.

— Não sei nada a respeito dele. Ele era um garoto. A bruxa Ilse o trouxe para cá e nos mandou trancafiá-lo até que ela voltasse para buscá-lo. Os rets ficaram responsáveis por isso, então se ele fugiu é problema deles.

— Descreva-o. Pequeno? Tem cabelos escuros? Olhos azuis incomuns? Não era um elfo, era? Você ouviu o nome dele?

O outro balançou a cabeça.

— Ele não fala. Acho que não pode. Mas é ele, pelo jeito que você descreveu. Quem é ele?

Ela não respondeu. Devia ser Bek. Mas por que ele não podia falar? E quem havia conseguido entrar a bordo antes dela e tirá-lo dali?

— Nenhum outro prisioneiro?

— Nenhum que eu saiba. Ou que me incomode. — O comandante da federação tirou os mapas do colo e balançou as pernas no lado do catre, certificando-se de não fazer nada para assustá-la. Então se levantou e esticou as costas e os braços, sem pressa. — Já estou vendo que não vou dormir esta noite. O que você quer, Ruivinha?

Ela decidiu correr o risco.

— Sua nave. Emprestada.

Ele endireitou o corpo alto, alisou desajeitado os cabelos escuros e cruzou os braços sobre o peito. Olhou para ela pensativo.

— Emprestada?

— Nós tomamos de volta a Jerle Shannara, Aden. O Ruivão e eu. Mas perdemos Hawk no processo e alguém vai pagar por isso. Já falei isso com Donell. A bruxa nos deixou presos aqui. Agora pretendo fazer o mesmo com ela. Se pudesse, eu a mataria. Mas deixá-la aprisionada aqui com seus rets funciona do mesmo jeito.

Ele assentiu devagar.

— Quer que eu ajude você?

— Quero que você fique fora do caminho. — Ela fez uma pausa, reconsiderando. —Tudo bem. Quero que me ajude. Pode não ser uma má idéia, já que esta viagem provavelmente vai terminar custando caro a você. Mas mesmo que você não ajude, quero a sua palavra de que vai ficar fora do caminho. Eu já tenho o controle da Black Moclips mesmo.

Aden Kett olhou para Donell Brae, que deu de ombros.

— Eu só vi mais um homem.

Ela deu uma gargalhada.

— Você não acha que eu vim a bordo com apenas um homem, acha? Isso seria loucura!

— O tipo de loucura que você prefere — sugeriu Kett. — Não há muito que você não arrisque, Ruivinha. — Deu a ela um olhar perscrutador e ela sustentou seu olhar. — De qualquer maneira — disse ele — não vou entregar a Black Moclips a você só porque está pedindo.

— É apenas um empréstimo — ela lembrou. — Estou pegando emprestada a nave apenas por tempo suficiente para encontrar meus amigos e nos levar até a costa. Então você poderá ter sua nave de volta e ninguém vai ficar pior por causa disso.

— A bruxa pode não ver isso desse jeito.

— A bruxa poderá não estar por perto para descobrir.

Ele grunhiu.

— Eu não apostaria minha vida nisso. E eu estarei por perto.

— Diga a ela que você não teve escolha. Ou então deixe-a para trás e viaje para casa. Esta luta não é negócio da federação de qualquer maneira. É entre a bruxa e o druida. É sobre algo que não diz respeito a nenhum de nós. Tudo o que o Ruivão e eu queremos é o dinheiro.

Ele viu a mentira nos olhos dela ou a ouviu em sua voz; ela não soube dizer qual das duas coisas. Mas percebeu que ele não acreditava nela.

— O que importa é que nós somos diferentes, Ruivinha — disse ele Você não é um soldado, você é uma mercenária. Eu sou um oficial de carreira. Esperam que eu obedeça às ordens que recebo, e não que as mude para se adequarem ao meu bel-prazer. Tampouco me permitem que mude de lado no meio de uma batalha. Chamam a isso de traição.

Ela o estudou, deixando as palavras se perderem no silêncio. Viu os olhos dele brilharem rapidamente até onde suas armas estavam penduradas em um gancho.

— Se você olhar naquela direção novamente — disse ela rápido, fazendo com que os olhos dele voltassem para ela —, mato você antes que tenha uma chance de pensar melhor.

Ela sentiu Donell Brae ficar tenso e imediatamente apertou ainda mais forte o braço dele.

— Nem pense nisso — ela avisou.

Então ouviu passos no corredor lá fora, súbitos e inesperados. No mesmo instante, comandante e piloto trocaram o segundo olhar, repleto de significado inconfundível.

— Comandante? — uma voz grossa gritou.

Donell Brae girou rapidamente para lutar com ela, mas ela já estava se movendo. Derrubou o braço levantado e o atingiu com o máximo de força que pôde na têmpora com o cabo da adaga. Quando ele caiu, ela pulou por cima dele, interceptando Aden Kett no meio do caminho enquanto ele tentava alcançar em vão suas armas. Ela o jogou de encontro à parede da cabine e o derrubou no chão. Montando em cima dele furiosa, apertou a adaga com tanta força em sua garganta que tirou sangue.

— Comandante! — As batidas na porta eram fortes e urgentes.

— O único motivo pelo qual não mato você aqui e agora é que você é um homem decente e um bom oficial, Aden. — O rosto dela estava tão perto dele que pôde ver o terror refletido em seus olhos escuros. — Agora responda a ele!

Kett, preso ao chão e lutando para respirar, engoliu em seco.

— O que é? — gritou na direção da porta.

— Os rets estão voltando, comandante! Um bote acaba de sair da margem! O senhor disse que era para avisar!

Ela pôs a mão livre sobre a boca dele, hesitando. Estava perdendo o controle da situação e precisava virar o jogo imediatamente. Primeiro Aden Kett e Donell Brae tentavam atacá-la, e agora os mwellrets voltavam mais cedo para o navio. Ela não havia acreditado que nenhuma dessas possibilidades pudesse acontecer e seu erro de cálculo estava ameaçando destruí-la. Se não agisse rápido, todos os seus planos iriam por água abaixo. Tentar tomar toda uma aeronave e tripulação por conta própria era realmente loucura, mas era isso o que ela tencionava. Havia começado como uma idéia meio crua, um objetivo tão distante que parecia impossível. Mas agora ela achava que podia realmente estar ao seu alcance.

Tirou a mão da boca de Kett.

— Diga a ele que espere um momento — ela sussurrou.

E foi o que fez. Quando acabou de falar, rolou-o de lado rapidamente, pressionou o joelho na espinha dele, encostou a adaga entre suas omoplatas e puxou as mãos dele para trás das costas. Usando uma tira de couro que carregava no cinto, amarrou-lhe com força as mãos. Então se levantou, adaga na mão novamente, e puxou-o para que se levantasse.

— Diga para ele entrar — murmurou.

Ele fez o que ela mandou e o tripulante abriu a porta, e entrou. Congelou no mesmo instante que a viu com a adaga na garganta de seu comandante e o piloto caído imóvel no chão.

— Nem um pio — ela sibilou para o tripulante, fazendo um gesto inconfundível com a adaga. Esperou que ele assentisse concordando, e então indicou Donell Brae. — Levante-o. Rápido!

Ajoelhando-se, o tripulante puxou o piloto inconsciente sobre um dos ombros e tornou a se levantar.

— Desça o salão até os alojamentos — ela ordenou. — Vou estar bem atrás de você. Um som, um movimento errado, e seu comandante, seu piloto e, provavelmente você também, estarão mortos. Diga a ele, Aden.

Aden Kett grunhiu, sentindo uma ponta da adaga espetá-lo.

— Faça o que ela diz.

Saíram da cabine e penetraram no corredor mal iluminado, o tripulante carregando Donell Brae e Rue Meridian seguindo com Aden Kett. Passaram silenciosamente pelos níveis inferiores da aeronave na direção dos alojamentos na proa.

Quando chegaram à porta dos alojamentos, elas os deteve do lado de fora. Virou Aden Kett para poder vê-lo claramente.

— Para dentro, Aden — ordenou ela. — Fique quieto até eu descer para soltá-lo novamente. A porta ficará trancada, e espero que ela continue assim. Se eu ouvir algo que não gostar, vou tocar fogo na nave e queimá-la até a linha d’água com você e a tripulação ainda dentro dela. — Encarou-o firme. — Não me provoque.

Ele assentiu, um quê de fúria renovada em seus olhos.

— Você está cometendo um erro, Ruivinha. A bruxa Ilse é muito mais perigosa do que você pensa.

— Para dentro!

Ela abriu a porta, deixou que entrassem, tornou a fechá-la e colocou a tranca. Levou mais um instante para travá-la enfiando uma lâmina de adaga na fechadura para que ela não pudesse ser aberta. As portinholas recortadas no casco para deixar entrar o ar fresco não eram muito grandes para um homem passar. Pelo menos por enquanto, ela tinha o comandante e os tripulantes da Black Moclips aprisionados.

Subiu correndo a escada que levava para o convés principal, encontrou o último guarda na amurada de proa e foi atrás dele. Já sabia que ele estava muito longe para ela alcançá-lo antes que a visse, mas foi assim mesmo. Não havia tempo para agir furtivamente. Tinha de esperar que ele fosse tudo o que restava da tripulação. Pelo canto do olho, viu o bote que se aproximava e as formas corpulentas de dois mwellrets que o carregavam, aproximando-se. Podia sentir a dor da perna e do flanco machucados enquanto corria, as feridas voltando a abrir, mas ela pôs de lado a dor e acelerou a velocidade.

O tripulante se virou ao som de sua aproximação, levantando as armas. Ela estava lenta demais e ainda muito longe!

Então, subitamente, ele desabou no convés e Hunter Predd saiu de trás do mastro principal com uma funda.

— Corte as cordas das âncoras! — ela gritou, mudando de direção para a cabine do piloto.

Ela ouviu gritos abafados, sibilantes e zangados vindos do bote. Chegou até a caixa e pulou para os controles, atraindo luz ambiente da única vela que já estava no lugar, fazendo com que a Black Moclips ficasse flutuando, acionando as alavancas dos tubos de fragmentação, abrindo-os inteiramente. A aeronave deu um tranco com a infusão de energia. Ouviu Hunter Predd cortar a corda da âncora de proa e então correr para cortar também a de popa.

Mais rápido!

A espada do cavaleiro alado subiu e desceu duas vezes. Lenta e pesadamente, a Black Moclips subiu, as cordas de âncora cortadas arrastando-se no convés, flechas e lanças chocando-se com a parte de baixo como se fossem granizo. O bote, com seus furiosos e indefesos mwellrets, caiu e desapareceu na escuridão.

Ela fechou os tubos de fragmentação e diminuiu a luz ambiente de energia. A nave era uma velha amiga e respondia bem ao seu toque. Mas manobrá-la sozinha era tarefa dura e incerta. Sem ajuda, Rue Meridian não poderia lidar com uma nave daquele tamanho por muito tempo. Também precisaria de ajuda com os doze soldados da federação que havia aprisionado em seus dormitórios. Reconheceu a situação rapidamente e percebeu que em pouco tempo Aden Kett e seus homens encontrariam uma maneira de escapar.

Diminuiu a velocidade da aeronave ao mínimo e deu meia-volta, apontando-a para terra, na direção de Castledown. Em algum lugar adiante, a bruxa Ilse estava caçando Walker, Bek estava correndo para salvar a própria vida e quem quer que ainda vivesse da equipe da Jerle Shannara esperava um resgate.

O resgate que talvez somente ela pudesse efetuar.

Viu Hunter Predd se aproximar, viu o olhar questionador em seus olhos escuros e balançou a cabeça.

Desejava ter uma resposta melhor para lhe dar. Sabia que era melhor encontrar uma logo.

 

Quentin Leah estava apurando o ouvido com tanta atenção que pulou de susto quando Tamis tocou o seu braço em sinal de alerta.

— Ele está vindo — murmurou ela.

Consumida pelo fato de que a mente de Ard Patrinell ainda estava viva dentro dele, ela ainda chamava o wronk de ele, e não de aquilo — como se a parte humana importasse mais. O resto daquilo podia ser mecânico — armadura, fios e peças de máquina, metal frio e sem emoção —, mas não sua mente, aprisionada como estava, inteira e intacta, pensando os pensamentos de Ard Patrinell, usando suas próprias habilidades, caçando-os com uma determinação incansável e implacável.

Depois do aviso dela, Quentin apurou o ouvido para espreitar a chegada dele. Por mais que tentasse, ainda não conseguira ouvir nada.

Olhou para ela na luz do crepúsculo. O rosto redondo da elfa estava suado e seus cabelos castanhos curtos estavam sujos, emaranhados com pedaços de escombros. Suas roupas estavam rasgadas, ensangüentadas e tão sujas quanto o resto. Ela tinha o aspecto de uma criatura caçada, uma criatura acuada por algo tão inescapável quanto o cair da noite.

Um espelho dele próprio, admitiu. Não precisava ver sua própria aparência para saber que isso era verdade. Eram uma combinação perfeita, fugitivos de um destino do qual nenhum dos dois podia escapar, que ambos eram forçados a confrontar.

Fugiram daquilo por todo o dia, correndo desde que o amanhecer os convencera de que tinham de encontrar uma forma de matá-lo. Por todas as florestas que cercavam as ruínas de Castledown eles brincaram de gato e rato com o inevitável, desperdiçando tempo enquanto procuravam pôr um fim à criatura. Era uma caçada marcada por paradas e recomeços, por esquemas e subterfúgios, por uma mistura de partes iguais de habilidade e pura sorte. O wronk era um adversário terrível, tornado mais perigoso pelo fato de que o pensamento de Ard Patrinell o guiava. Às vezes ele ia na direção deles em perseguição direta, como um caçador utilizando força e disposição para cansá-los. Às vezes dava a volta em círculos para esperá-los, um predador prestes a dar o bote. Outras vezes parava completamente e esperava que eles também parassem, que se perguntassem se o haviam perdido inteiramente, e então se aproximaria vindo de uma direção inesperada, rápida e subitamente, tentando pegá-los desprevenidos. Quase os pegou várias vezes, mas foram salvos em cada momento pela combinação de experiência e habilidade dos dois, e pelo tipo de sorte que desafia qualquer explicação.

Quanto a esta última, refletiu Quentin, houve mais ocorrências do que a primeira, e era por isso que ainda estavam vivos.

A busca de um poço para os wronks havia levado mais tempo do que esperavam. Pensavam que os rindges haviam preparado muitas dessas armadilhas para se protegerem das criaturas de Antrax. Quentin e Tamis haviam partido naquela manhã para encontrar a mais próxima, recuando na direção do vilarejo de Obat e de seu povo para localizarem os poços ao longo das cercanias de Casdedown. Mas o wronk os havia alcançado tão rápido que tiveram de adiantar sua busca e, conseqüentemente, fracassaram em encontrar aquilo que estavam procurando. O wronk era inconfundível quando estava se aproximando, grande e pesado demais para esconder sua aproximação. Mas mesmo quando eles não conseguiam ouvi-lo, eram forçados a tentar escutar e vigiar porque era sutil e esperto, como Patrinell, e procurava constantemente um modo de pegá-los desprevenidos.

Para Quentin Leah, a vida fora reduzida ao mais simples dos termos: a sobrevivência do mais apto. Ele estava engajado no tipo de luta de vida ou morte que havia imaginado que acontecia com outros, mas nunca consigo mesmo. Todo o seu pensamento sobre uma grande aventura e novas experiências, tudo que havia alimentado sua decisão de se juntar à expedição, havia se desvanecido em um passado do qual mal conseguia se recordar. O entusiasmo que havia passado para Bek, as possibilidades ilimitadas que havia vislumbrado para o que iriam encontrar e a confiança que o levara a tantos confrontos perigosos ao longo do caminho haviam se transformado em pó. Ele havia esquecido Walker e a busca pelos livros de magia. Havia posto de lado qualquer pensamento sobre resgatar os outros, inclusive Bek. Tudo o que restava era uma determinação teimosa e fatalista de continuar vivo por mais um dia, de escapar da coisa que o caçava e, em última hipótese, criar as condições propícias para recuperar o que ele fora um dia.

Não tinha idéia do que Tamis estava pensando, embora pudesse adivinhar. Ela trazia o peso de necessidades semelhantes, mas também o peso de suas memórias e dos sentimentos em relação ao homem pelo qual havia sido apaixonada. Podia fingir que não, podia dizer outra coisa a si mesma, mas para ele era claro que ela não podia se separar de suas emoções, não podia ser tão verdadeiramente objetiva sobre o que procuravam realizar. Para Tamis, a luta para destruir o wronk era mais do que tentar permanecer viva. Era dar a Ard Patrinell a libertação que não podia encontrar de outra maneira, a paz que somente a morte traria. O ódio que ela sentia pelo que fora feito a ele era tão penetrante que emanava de suas feições a cada momento. A batalha era pessoal para ela de uma maneira que jamais poderia ser para Quentin, e ela estava motivada quase além da razão.

Mas não além do limite de suas habilidades, Quentin rapidamente percebeu, que eram consideráveis. Treinada como uma rastreadora pelo próprio Patrinell, ela era toda trabalho e julgamento, capaz de jogar bem o jogo no qual nenhum erro era permitido. Ela sabia o que esperar da mente que os caçava, estava familiarizada com seu pensamento, seu raciocínio cheio de nuances. Podia antecipar o que aquilo tentaria e amenizar o efeito. O wronk era mais forte fisicamente, e se chegassem ao alcance dele não havia dúvidas do que aconteceria. Porém, Tamis estava inteira, enquanto o wronk estava fragmentado, montado a partir de peças que não se encaixavam naturalmente. Isso lhe dava uma vantagem que ela podia explorar, e foi ágil ao tentar fazê-lo.

Era estranho pensar no que estavam tentando, fugindo por um lado e procurando se defender por outro. Era uma coisa esquizofrênica e quebrada, baseada em princípios opostos e enlouquecedores em suas demandas. Fuja do perigo, mas encontre uma maneira de enfrentá-lo. Quentin não tinha tempo para uma consideração equilibrada dessa contradição. Estava consumido pelo conhecimento de que a coisa que os perseguia o fazia para destruí-lo, mas também para deixar uma parte dele viva. A coisa o transformaria em algo semelhante a ela própria, uma cópia perfeita, capaz de lidar com a magia da espada de Leah, mas incapaz de agir ao contrário das ordens de Antrax. A idéia de se tornar a máquina que Ard Patrinell havia se tornado era tão aterradora, tão entorpecedora, que ele não conseguia olhar para essa possibilidade mais do que conseguiria olhar para o sol, afastando a dor de qualquer exame prolongado. Mas mesmo isso lhe dava uma clara e amarga compreensão de por que Tamis estava tão determinada a salvar Ard Patrinell.

A fuga daquele dia foi através da paisagem desconjuntada de um inferno surreal. Os sons do wronk que os perseguia eram constantes e estavam ao redor deles, aumentando vez por outra, quando o caçador escolhia uma trilha menos óbvia. O dia estava coberto de nuvens e ensolarado por turnos, lançando sombras que passavam por eles como espectros e sugerindo coisas que não estavam ali, mas que podiam estar vindo. Eles já estavam cansados ao partir, e o cansaço rapidamente se aprofundou. Passaram por lugares em que os arbustos estavam amassados e as árvores quebradas por lutas e por uma fuga frenética. Deram de cara com homens mortos no dia anterior. A maioria deles era rindge, a pele avermelhada conferindo-lhes identidade quando restavam apenas pedaços. Um deles era elfo, embora não tivesse sobrado o bastante para que pudessem determinar qual era. O sangue encharcava o chão e borrifava as árvores com manchas ressecadas e enegrecidas pela ação do sol. Armas e roupas jaziam espalhadas por toda parte. O silêncio cobria a carnificina e a desolação como um manto.

Quando se aproximaram da aldeia rindge, o número de mortos aumentou. Eram mortos demais para serem somente aqueles do grupo de caça. Quando chegaram ao vilarejo propriamente dito, descobriram suas cabanas e abrigos esmagados e queimados, e seu povo desaparecido. Uns poucos estavam mortos, aqueles que haviam comprado com suas vidas uma chance para que os outros escapassem. O fato de que um simples ser pudesse provocar tamanha destruição sozinho, sem auxílio, contra tantos, era horrível. O fato de que a mente de Ard Patrinell fosse parte integrante daquele ser e soubesse o que estava fazendo, mas fosse incapaz de detê-lo, era desolador. Tamis não chorou quando passaram pela aldeia, mas Quentin viu lágrimas em seus olhos.

Fizeram uma pausa do outro lado da aldeia, onde a carnificina terminava. Os remanescentes do povo de Obat haviam fugido para as colinas e talvez para as montanhas mais além. O wronk havia perdido o interesse neles àquela altura e fora para outro lugar.

Quentin ficou com Tamis e olhou a destruição.

— Você não estava enganado quanto aos olhos dele? — ela lhe perguntou quase em desespero. Todas as bravatas e as ironias haviam sumido de sua voz e ela mal conseguia falar. — Era Ard Patrinell olhando para você?

Ele assentiu. Não conseguia pensar em nada para dizer.

— Ele jamais faria algo assim se pudesse evitar — disse ela. — Ele morreria primeiro. Ele era um bom homem, montanhês, talvez o melhor que já conheci. Era gentil e carinhoso. Cuidava de todos. Pensava na guarda real como sua família e em si mesmo como o pai dela. Quando novos membros eram levados para treinamento, ele dizia que faria tudo o que pudesse para mantê-los a salvo. Nos encontros, ele contava histórias e cantava. Você o viu taciturno e sério, mas isso foi somente desde a morte do rei, pela qual ele se culpava, pela qual não conseguia se perdoar. Kylen Elessedil retirou seu comando por falhas imaginárias e conveniência política. Já havia sido bastante ruim. Mas agora este monstro, este Antrax, retirou o controle sobre suas ações também e o deixou como uma casca de conhecimento sem poder.

Foi o máximo que ele já a havia ouvido dizer de uma vez só, e o mais próximo a que ela havia chegado de admitir o que sentia sobre o homem que amava.

Ela desviou o olhar, triste e derrotada.

— Pode imaginar o que isto está fazendo com ele?

Ele podia. Pior, ele podia imaginar isso acontecendo consigo mesmo, o que era horrível demais para ponderar. A mão apertou o cabo da espada. Agora ele a trazia desembainhada todo o tempo, determinado a não se deixar mais surpreender e, se atacado, estaria pronto. Era tudo o que ele podia pensar em fazer para equilibrar as coisas a seu favor. Era estranho como isso não lhe dava muito conforto.

Voltaram a atravessar a aldeia, escolhendo um caminho de saída diferente, ainda procurando por um dos poços ocultos. O sol atravessara o céu em um arco longo e lento, o dia desaparecendo sem nada para mostrar em sua passagem, a noite chegando com sua promessa de medo puro e uma incerteza cada vez maior. O tempo era um zumbido insistente em seus ouvidos, lembrete do que estava em jogo.

Quando penetraram na aldeia, tudo estava em silêncio. Quando partiram, podiam ouvir a distância os sons do wronk que se movia na direção deles.

Tamis se virou com alguma coisa próxima da fúria cega, sua espada curta brilhando na luz.

— Talvez devêssemos ficar e enfrentá-lo bem aqui! — Ela se virou. — Talvez devêssemos esquecer a caçada em busca de poços que talvez nem sequer existam!

Quentin ia dar uma resposta agressiva, mas então pensou melhor. Ao invés disso, balançou a cabeça, e quando falou manteve sua voz calma.

— Se morrermos fazendo um gesto inútil, não faremos nada para ajudar Patrinell. — Ela olhou para ele fuzilando, mas ele não desviou o olhar. — Nós fizemos um acordo. Vamos mantê-lo.

Continuaram por toda a tarde, saindo da aldeia e voltando na direção de Castledown, escolhendo uma trilha que estava quase desaparecida por falta de uso. Nenhum sinal de vida apareceu. A cerca de meio caminho entre a aldeia e as ruínas, no início do crepúsculo, estavam passando por um espaço aberto na floresta na qual grandes fendas e elevações ondulavam o terreno e o mato crescia em moitas. A luz que diminuía era ainda mais fraca ali, filtrada por coníferas que cresciam bem acima de trinta metros de altura e se espalhavam em todas as direções, menos para o sul, onde se abria uma campina de flores selvagens, minimizando o terreno mais áspero. Estavam seguindo na direção de um caminho que se abria para outro lado quando Tamis agarrou o braço de Quentin e apontou logo adiante, para o que ele pensou que parecia, como tudo o mais ao redor deles, um terreno áspero e cheio de mato cerrado. Exasperada, ela o puxou bem ao local para o qual estava apontando, e então ele reconheceu. O poço estava bem escondido por uma tela de gravetos cobertos com uma espécie de tecido cor-de-argila, areia e terra, bolinhos de gramíneas secas e escombros. Era tão bem projetado que desaparecia na paisagem. A menos que você estivesse bem em cima dele e olhasse para baixo, não o veria.

Mas Tamis havia visto. Ele olhou para ela em busca de uma explicação.

Ela deu um sorriso amargo com uma autodepreciação melancólica.

— Sorte.

Apontou para um lado. Ele levou um tempo para ver que um canto do tecido de apoio estava aparecendo na superfície.

— É só enterrar aquilo e o poço fica invisível novamente.

— Ou movê-lo para outro lugar e você cria uma pista falsa. E uma vantagem para nós. — Ele olhou para ela, questionador. — O que acha?

Ela assentiu devagar.

— Porque Patrinell o verá também, assim como eu o vi. — Ela colocou uma das mãos em seu ombro e o apertou. — Era isto o que estávamos procurando, montanhês. Aqui faremos nossa defesa.

Cortaram o pedaço de tecido e tornaram a enterrá-lo em outro lugar com a ponta aparecendo. Usaram alguns galhos e gramíneas espalhados para sugerir que o poço pudesse estar localizado ali. Era razoável supor que um wronk, usando as habilidades e a experiência de Ard Patrinell, estivesse procurando por armadilhas, especialmente se os encontrasse preparados para ficar e lutar. Se pudessem atraí-lo na direção errada ou desorientá-lo apenas um pouco, poderiam jogá-lo no poço antes que ele soubesse o que estava acontecendo.

Era um jogo perigoso. Mas era tudo o que tinham para trabalhar.

Então, esperaram na noite que caía, escutando a aproximação do adversário, um quebrar seco de gravetos e galhos, firme e inexorável. Haviam pensado em acender fogueiras para lhes dar um campo de batalha claro, mas decidiram que a escuridão os favorecia mais. A lua e as estrelas apareciam e desapareciam por trás de uma tela de nuvens, fornecendo pedaços de luz com os quais trabalhar. Eles haviam se posicionado em um ângulo reto atrás do falso poço, deixando o melhor e mais lógico caminho para alcançá-los à sua direita, em cima do verdadeiro poço. Agora eles estavam em pé juntos, mas mudariam de posição quando o wronk aparecesse. Haviam planejado cuidadosamente. Só faltava testar.

Daria certo, Quentin disse a si mesmo em silêncio. Tinha de dar.

Ele ouviu claramente o wronk, os passos pesados se aproximando. Sua pele ficou arrepiada com aquele som. Tamis estava bem ao seu lado e ele podia ouvir a respiração entrecortada dela. Seguravam suas espadas à frente, as lâminas brilhando na luz do luar quando as nuvens se abriram por um momento. A cabeça de Quentin latejava e seu sangue zumbia com fagulhas ferozes da magia que irrompia da espada de Leah quando esta reagia ao senso de perigo. Ele sentiu a mudança em seu corpo enquanto se preparava para se entregar ao poder da espada. Uma mistura igual de satisfação e medo fervilhava dentro dele. Ele seria transformado, e agora sabia o que isso significava. Quando a magia penetrava nele, transmitia-lhe uma terrível fúria e ele arriscava sua alma.

Sem ela, claro, ele arriscava sua vida. Não chegava a ser uma escolha.

Com uma graça quase delicada, o wronk entrou na clareira. Embora seus traços fossem indistintos e espectrais na luz fraca, sua forma e seu tamanho eram inconfundíveis. Quentin o viu com uma mistura de medo puro e nojo. Aquilo registrou sua presença instantaneamente, ficando parado, como se testasse o vento. Um reluzir de metal atravessou a escuridão quando um pedaço do monstro foi refletido momentaneamente pela luz das estrelas. A lua havia desaparecido atrás das nuvens e a noite era espessa e opressiva. Dentro da muralha negra das árvores havia um silêncio que não se quebrava.

O montanhês sentiu que Tamis estava tensa, esperando que ele tomasse a dianteira. Haviam concordado que era ele quem deveria fazer aquilo, que era ele a quem o wronk estava procurando e que era quem podia melhor atraí-lo para a direção que desejavam que ele seguisse. O plano deles era simples. Fingir enganá-lo de uma maneira, sabendo que ele escolheria outra. Era o cérebro de Ard Patrinell em funcionamento dentro do wronk, e por isso seria o pensamento de Patrinell que iria direcioná-lo. Ele sentiria uma tramóia, um engodo, e por isso agiria para evitá-lo. Se pudessem tirar vantagem daquele pensamento, se pudessem antecipar seu raciocínio, poderiam atraí-lo para dentro do poço. Era um plano fraco, na melhor das hipóteses, mas era o único que tinham.

O wronk tornou a se desviar, atraindo novas lâminas de luz das estrelas para sua pele metálica, pontinhos brilhantes que piscavam e se apagavam como vaga-lumes. Ouviram o corpo pesado dar um passo adiante e parar novamente. Nenhuma parte do rosto torturado de Ard Patrinell era visível para eles, e por isso poderiam fingir que o wronk não era nada mais do que uma máquina. Mas, em sua mente, Quentin reviu os olhos do elfo, olhando de dentro de sua prisão — frenéticos, implorando, desesperados por libertação. Ele teria banido a imagem se soubesse como fazê-lo, mas ela era tão forte e tão invasora que ele não conseguiu. Ela era uma janela não só para o destino terrível de Patrinell, mas também para o seu próprio. Tamis libertaria seu amante de sua morte em vida. Quentin simplesmente iria evitar ter o mesmo destino.

Suando profusamente, o calor formando uma película de transpiração em seu rosto e seus braços, imaginou distraído como as coisas haviam chegado até aquele ponto. Ele havia embarcado na jornada com muitas esperanças de algo maravilhoso que preenchesse e transformasse sua vida. Ele havia desejado uma aventura. E conseguira um pesadelo.

— Pronta? — ele murmurou.

Tamis assentiu, o rosto sombrio.

— Não deixe que ele me pegue viva — disse ela rapidamente. — Prometa.

— Prometa-me também. — Seu coração estava martelando com força dentro do peito.

— Eu o amava — ela sussurrou tão baixinho que ele mal a ouviu pronunciar as palavras.

Quentin Leah respirou fundo e ergueu sua espada.

 

Bek Ohmsford seguiu Truls Rohk desde a margem sem resistência. Correu com o mutante até o fundo da floresta por um longo tempo e não reclamou. Mas finalmente seus esforços para manter o ritmo falharam. Sua força cedeu e ele desabou aos pés de um bordo de galhos largos, sentando-se com a cabeça entre as pernas, respirando em grandes golfadas.

O mutante, uma sombra oculta no fundo da noite, virou-se para ele sem emitir um som e ajoelhou-se ao seu lado.

— Você andou mais do que a maioria conseguiria. Você é duro para um garoto.

Ficaram olhando um para o outro na escuridão. Bek tentava falar e não conseguia. O que quer que Grianne tivesse feito a ele, fugir da Black Moclips não havia ajudado. Sua voz não voltara. Fez uma série de gestos fracos e inúteis, mas o outro achou que seu silêncio era por causa da exaustão.

— Achou que eu estava morto, não achou? — Truls Rohk riu. — Já cometeram esse erro antes. — Mexeu-se dentro do manto e se agachou. — Mas estive mesmo perto de morrer. A bruxa Ilse preparou uma armadilha pela qual eu não estava esperando: um caull. Ela adivinhou meu objetivo de dar a volta para esperar por ela e colocou o caull atrás de mim. Eu estava muito ansioso para voltar até você e procurar pelo caull adequadamente. Ele me apanhou quando eu estava me abaixando para pegar sua faca, de costas. Nem percebi que aquilo estava lá.

Fez uma pausa.

— M