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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


AREIAS ASSASSINAS / Victoria Holt
AREIAS ASSASSINAS / Victoria Holt

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

AREIAS ASSASSINAS

 

Uma pequena localidade chamada Lovat Stacy. Um mistério, Uma moça tentando descobrir esse mistério.

Espantada com o desaparecimento de sua irmã, a arqueóloga Roma, Caroline Verlaine dirige-se a Lovat Stacy onde entra em contato com os estranhos membros da família Stacy. Gente estranha, modos estranhos, um passado tenebroso e um futuro incerto.

Envolvida pela personalidade complexa e problemática de Napier Stacy, e pela gentileza de Godfrey, Caroline não desiste de seu objetivo e tenta desvendar o mistério de Roma. Por que teria a arqueóloga desaparecido? Um acidente ou um assassinato? Porquê? Quem seria o assassino? Conheceria os planos de Caroline? Essas as perguntas que se faz a moça na sua busca ininterrupta. Porém, nada a ajuda. Os fantasmas de Pietro Verlaine, Beau e Isabelle a perseguem. A enigmática Alice e os demais personagens do romance a levam a viver emoções descontroladas.

Quem seria na verdade Alice, de maneiras estranhas e um profundo conhecimento do que se passava? E Napier? Teria ele superado a tragédia da morte de seu irmão, Beau? E Sybil? Seria tão louca quanto pretendia ser? Ou somente uma pessoa sensível e sofrida? Qual seria o futuro de uma família com um passado tão negro? Por que teria Roma morrido? Teria descoberto o que não podia?

É com medo e tensão que Caroline descobre que, por causa de sua determinação em saber a verdade, seria ela a próxima vítima. Porém, vítima de quem?

 

 

Estou imaginando onde começar a minha história. Deveria ser no dia em que vi Napier e Edith casando-se, numa pequena igreja em Lovat Mill? Ou quando estava sentada no trem, começando a minha jornada para descobrir a verdade sobre o desaparecimento de minha irmã Roma? Houve tanta coisa importante antes desses acontecimentos significativos; talvez devesse escolher a segunda alternativa, porque foi nela que fiquei inapelavelmente envolvida.

Roma - minha prática e segura irmã - tinha desaparecido. Houve inquéritos; houve hipóteses; mas nenhum sinal de seu paradeiro foi revelado. Eu acreditava que a solução do mistério fosse encontrada onde ela fora vista pela última vez e estava disposta a descobrir o que lhe tinha acontecido. Roma ajudara-me num período difícil de minha vida. Sentada neste trem estava uma mulher desiludida - de coração partido, eu diria, uma sentimental, o que na realidade não era. De fato, era uma cínica - assim afirmava para mim mesma. A vida com Pietro fizera-me assim. Aqui estava sem Pietro, como um pedaço de lenha levado pela água, - perdida e sem objetivo - somente com a menor das rendas, que era imperativo aumentar de qualquer maneira, quando, pelo que parecia ser um golpe de sorte, me foi dada essa oportunidade.

Quando ficou claro para mim que deveria fazer alguma coisa se quisesse comer adequadamente e ter um teto para dormir, tentei dar aulas particulares. Consegui algumas, mas o que ganhava não era suficiente. Acreditava que podia arranjar uma turma, no tempo devido, e talvez descobrir um jovem gênio que faria a minha vida valer a pena; mas até aqui meus ouvidos estiveram numa verdadeira rebelião contra a claudicante interpretação de Os Sinos Azuis da Escócia, isto porque nenhum Beethoven jamais se sentou no banco de meu piano.

Era uma mulher que achava a vida amarga - não agridoce, como são todas as vidas; a doçura tinha desaparecido, dando lugar ao amargor. Equilibrada, sim, e experiente; o largo anel de ouro no terceiro dedo de minha mão esquerda era a evidência disso. Jovem demais para ser amarga? Tinha 28 anos, geralmente considerada jovem para ficar viúva.

O trem seguia pelo campo de Kent, aquele "Jardim da Inglaterra", que se tornaria subitamente rosa e branco, com cerejeiras, ameixeiras e macieiras floridas, passando campos de cevada e silos, entrando num túnel para sair momentos depois no incerto sol de uma tarde de março. O litoral de Folkstone a Dover estava assustadoramente branco, contrastando com o mar cinza-esverdeado, e algumas nuvens cor de chumbo apressavam-se pelo céu, impelidas por um irritante vento oeste. As ondas batiam violentamente contra os rochedos, onde os borrifos de água brilhavam como prata.

Talvez, como o trem, eu estivesse saindo de um túnel escuro e vindo para o sol.

Esta era uma espécie de observação que faria Pietro rir. Ele observaria que eu estava sendo romântica sob aquela falsa fachada de frivolidade.

Este brilho incerto do sol, notara-o uma vez, com uma insinuação de crueldade, no vento e no sempre imprevisível mar.

Naquele tempo, sofria a dor familiar, a espera, a frustração; e o rosto de Pietro apareceu do passado, como a dizer: "Uma vida nova? Você quer dizer uma vida sem mim. Pensa que escapará de mim alguma vez?"

Não, era a resposta para aquilo. Nunca. Você sempre estará aqui, Pietro. Não há escapatória, nem mesmo na sepultura.

Túmulo, disse para mim mesma, com petulância, soaria muito melhor. Muito mais dramático. Isso era o que Pietro teria dito - Pietro, meu amante e rival, aquele que encantava e amava, aquele que escarnecia, que inspirava e destruía. Não havia escapatória. Estaria sempre ali, na sombra - o homem com e sem quem era impossível ser feliz.

Entretanto não estava fazendo esta viagem para pensar em Pietro. O objetivo era esquecê-lo. Precisava pensar em Roma.

Agora devo falar alguma coisa sobre os acontecimentos que me levaram a este momento, como Roma veio para ficar em Lovat Mill e como encontrei Pietro.

Roma era dois anos mais velha do que eu e éramos as únicas filhas. Nossos pais tinham sido arqueólogos dedicados, para quem a descoberta de relíquias antigas era mais importante do que serem pais. Freqüentemente desapareciam em escavações e sua atitude em relação a nós era de vaga benevolência, o que era, pelo menos, discreto, e portanto mal recebida. Mamãe tinha sido uma espécie de fenômeno, coisa rara naqueles dias para uma mulher tomar parte em explorações arqueológicas. Foi através de seu interesse pelo assunto que encontrou papai. Casaram-se, sem dúvida, esperando uma vida de explorações e descobertas. Começaram a aproveitar, até que isto foi interrompido, primeiro, pela chegada de Roma, e depois, por mim. Nosso aparecimento podia não ser exatamente o que eles queriam, porém estavam dispostos a cumprir seu dever perto de nós. Em tempos passados mostravam-nos fotografias de pedras e armas de bronze, descobertas na Bretanha, e era esperado que demonstrássemos o mesmo interesse que a maior parte das crianças sentiriam por um quebra-cabeça. Logo ficou claro que Roma realmente sentia esse interesse. Meu pai desculpou-me a pouca idade. - Ela virá a se interessar - dizia. - Afinal, Roma é dois anos mais velha. Olhe, Caroline, uma terma romana completa. Quase intacta. O que você pensa disso, hem?

Roma já era sua favorita. Não deliberadamente. A paixão pela arqueologia lhe era nata - não tinha de fingir. Talvez, embora ironicamente, para alguém tão jovem tentaria lançar meu próprio valor aos olhos de meus pais. Tanto como um colar remendado na Idade do Bronze. Não exatamente. Não para ser comparada com um mosaico de assoalho romano. Uma pedra da Idade da Pedra? Talvez para eles fosse moderadamente comum. - Eu desejava - costumava dizer a Roma - que tivéssemos pais mais comuns. Gostaria que, de vez em quando, se zangassem... talvez até que nos batessem - para o nosso bem, claro, que é como todos os pais se desculpam a eles próprios. Isso seria muito interessante.

Roma, na sua maneira de ser, retorquia: - Não seja tola. Você ficaria furiosa se eles lhe batessem. Espernearia e gritaria. Conheço você. Só quer o que não tem. Quando ficar um pouco mais velha, papai vai levar-me numa escavação.

Seus olhos brilhavam. Mal podia esperar por esse dia.

- Eles estão sempre nos dizendo que devemos crescer para fazer trabalho útil.

- Bem, assim faremos.

- Isso significa uma coisa só. Temos de crescer para ser arqueólogas.

- Temos sorte - declarou Roma. Ela sempre fazia declarações. Estava convencida de que o que dizia era certo. De fato, ela nada dizia até ter certeza. Assim era Roma.

Eu era a excêntrica, a frívola que gostava de jogar com as palavras, mais do que com relíquias do passado, que via as coisas engraçadas quando devia vê-las sérias. Realmente, não me ajustava à minha própria família.

Eu e Roma íamos freqüentemente ao Museu Britânico, com o que meu pai estava de acordo. Convenceram-nos de que nos divertiríamos lá, ficando claro que estaríamos entrando em lugar sagrado. Lembro-me de caminhar pelas pedras sagradas, de meu nariz apertado contra o vidro frio, para examinar as armas, cerâmicas e pedrarias. Roma ficava extasiada. Mais tarde ela usaria colares de contas excêntricas, geralmente turquesas cortadas de maneira tosca, pedaços de âmbar e cornalinas mal furadas - seus ornamentos sempre pareciam pré-históricos, como se tirados de uma caverna muito antiga. Talvez por isso ficassem tão bem nela.

Então descobri meu próprio interesse. Desde que me lembro, sempre me interessei por sons. Adorava o gotejar da água, o barulho das fontes, o clop-clop dos cascos de cavalos na estrada, os pregões de vendedores ambulantes, o vento na pereira de nosso pequeno jardim cercado, na casa perto do museu, os gritos das crianças, os pássaros na primavera e o breve latido de um cachorro. Podia ouvir a música mesmo no pingar de uma torneira, coisa que desesperava os outros. Quando tinha cinco anos, podia arrancar um acorde de piano e passava horas empoleirada no banco. Minhas mãos de bebê gordo emergiam de seus braceletes, explorando o milagre do som. - Se isso a mantém calma... - encolhiam os ombros as babás.

Quando meus pais notaram minha paixão ficaram moderadamente satisfeitos. É claro que não era arqueologia, mas era um substituto valoroso; e em vista do que aconteceu, estou envergonhada de dizer que tinha tido todas as oportunidades.

Roma satisfazia meus pais. Mesmo seus feriados escolares eram passados com eles nas escavações. Eu tinha aulas de música e ficava em casa, a cargo da governanta, praticando piano. Melhorava constantemente e os melhores professores eram contratados para mim, apesar de não estarmos em boas condições financeiras. O salário de papai era quase insuficiente, pois ele gastava uma grande parte do que recebia em suas escavações. Roma estudava arqueologia e os nossos pais diziam que ela iria muito mais longe do que eles tinham sido capazes de ir, pela descoberta somada ao conhecimento, não só do passado, mas de modernos métodos de trabalho.

Costumava ouvi-los conversar todos juntos. Era ininteligível para mim, porém não me sentia mais uma intrusa, porque todos diziam que obteria sucesso com minha música.

As minhas aulas de música eram uma alegria para mim e para os meus professores. Sempre que via dedos tremulantes ao piano lembrava-me daqueles dias de descoberta - a primeira satisfação de puro abandono e prazer. Tornei-me tolerante com a minha família. Compreendia como se sentiam com suas pedras e bronzes. A vida tinha alguma coisa para oferecer-me. Dava-me Beethoven, Mozart e Chopin.

Aos 18 anos fui para Paris estudar. Roma estava na universidade e passava suas férias nas escavações. Eu pouco a via. Sempre fomos boas amigas, nunca íntimas, nossos interesses eram inteiramente diferentes.

Conheci Pietro em Paris, latino impetuoso, metade francês e metade italiano. Nosso professor tinha uma casa muito grande perto da Rua de Rivoli, onde nós, estudantes, morávamos. Madame, sua esposa, dirigia o lugar como uma pensão, o que significava que estávamos todos juntos, debaixo do mesmo teto.

Dias felizes aqueles em que perambulávamos pelo bosque e nos sentávamos do lado de fora dos cafés, conversando sobre o futuro. Cada um de nós acreditava que éramos os escolhidos e que nossa fama ecoaria um dia pelo mundo. Pietro e eu éramos dois dos alunos mais promissores, ambiciosos e decididos. Nossas emoções foram primeiro estimuladas pela rivalidade, entretanto logo ficamos completamente fascinados um pelo outro. Éramos jovens. Paris na primavera é um perfeito cenário para os namorados, e eu sentia que até aquela época nunca tinha vivido. O arrebatamento e o desespero que experimentava eram a verdadeira essência da vida, eu me dizia. Sentia pena de todo aquele que não estava estudando em Paris e apaixonado por um colega.

Pietro era um músico completo e dedicado. Meu coração sabia que ele me superava e isto o fazia ainda mais importante. Era diferente de mim. Eu simulava um desapego que não sentia; mesmo sabendo disto desde o princípio, estava tão envolvida e tão decidida quanto ele; o fato de que eu pudesse disfarçar isto o irritava ao mesmo tempo que o fascinava. Era absolutamente sério em sua dedicação, e eu podia fingir ser petulante sobre a minha. Raramente ficava perturbada, ele raramente era alguma coisa senão isso e a minha serenidade era um desafio constante a ele, pois o seu humor mudava a toda hora. Podia ser inspirado para uma grande alegria, que tinha suas raízes em sua confiança e sua genialidade; e podia, a qualquer momento, mergulhar em desespero, porque duvidava de seus completos e invulneráveis dons. Como tantos outros artistas, era implacável e incapaz de refrear sua inveja. Quando eu era elogiada, ele se fechava dentro de si, zangado, e procurava dizer alguma coisa para me ferir; mas, quando eu fazia alguma coisa má e precisava de conforto, era o mais compassivo dos companheiros. Ninguém podia ser mais bondoso nessas horas e foi esta compreensão absoluta, esta simpatia completa que me fez amá-lo. Se ao menos o tivesse visto, tão claramente, como vejo este fantasma constantemente a meu lado!

Começamos a disputar. - Excelente, Franz Liszt! - clamaria, quando tocou uma das Rapsódias Húngaras, dedilhando o piano, lançando sua cabeça leonina para trás, numa boa imitação do mestre.

- A inveja é a ruína de todo o artista, Caro.

- E daquele com quem estou familiarizada.

Ele admitiu isso. - No fim das contas, - assinalou ele - desculpas devem ser feitas para o maior artista de todos nós. Você descobrirá isso a tempo.

Ele estava certo. Eu descobri.

Dizia que eu era uma excelente intérprete. Podia fazer malabarismos ao piano, mas um artista era um criador.

Respondi: - Então foi você que compôs a peça que acabou de tocar?

-Se o compositor pudesse ouvir minha interpretação, saberia que não tinha vivido em vão.

- Vaidade - zombei.

- Ao contrário, a segurança do artista, querida Caro. Era apenas brincadeira. Pietro acreditava em si. Ele vivia

para a música. Eu estava constantemente espicaçando-o. Cultivava nossa rivalidade, mas isto devia ser porque, inconscientemente, sabia que tinha sido esta mesma rivalidade que o atraíra em primeiro lugar. Não queria dizer que, amando-o, não lhe desejasse todo o sucesso do mundo. Estava realmente pronta para desistir de minhas ambições, para seu bem - como o estava provando. Contudo, nossas discussões eram uma forma de amar e às vezes parecia-me que seu desejo de se mostrar superior era uma parte essencial de seu amor por mim.

Não adianta dar desculpas. Tudo que Pietro falou sobre mim era verdade. Era uma intérprete, uma apresentadora hábil ao piano. Não era uma artista, porque artistas não se permitem que outros desejos e impulsos os dispersem. Eu não trabalhava; num ponto vital de minha carreira vacilei, fracassei e minha carreira promissora foi uma daquelas que nunca acontecem. Enquanto eu sonhava com Pietro, Pietro sonhava com o sucesso.

Minha vida tornou-se desorganizada repentinamente. Mais tarde responsabilizei o azar pelo que aconteceu. Meus pais foram para uma escavação na Grécia. Roma deveria ter ido com eles, pois, então, já era uma arqueóloga completamente dedicada; entretanto, escreveu-me dizendo que tinha uma missão em Wall e que não poderia acompanhar nossos pais. Se ela tivesse ido eu não estaria viajando para Lovat Mill, porque nunca pensaria que houvesse alguma coisa significativa lá. Meus pais morreram num acidente ferroviário a caminho da Grécia. Fui aos funerais. Eu e Roma estivemos juntas por alguns dias na velha casa junto ao Museu Britânico. Eu estava chocada, mas a pobre Roma tinha vivido sempre com os nossos pais e ia sentir amargamente sua falta. Estava filosófica como sempre. Eles morreram juntos, disse ela, teria sido mais trágico se um deles tivesse ficado sozinho. Eles tiveram uma vida feliz. A despeito de sua dor providenciou tudo que tinha de ser feito e depois voltou para o trabalho em Wall. Ela era prática e precisa, nunca se envolvia emocionalmente como eu fazia. Disse que venderia a casa, a mobília e os rendimentos seriam divididos entre nós. Não havia muito, porém minha parte possibilitar-me-ia completar minha educação musical. Devia ficar agradecida por isto. A morte perturba sempre. Voltei para Paris, sentindo-me confusa e inquieta. Pensava muito em meus pais e estava agradecida pelo muito que casualmente tinha aceito. Posteriormente, diria que foi devido a minha perda que me comportara assim. Pietro esperava-me, estava controlado agora, era superior a todos do grupo; estava formando-se entre nós a grande lacuna que separa o artista verdadeiro dos meramente talentosos.

Pediu-me em casamento. Dizia que me amava, tinha pensado muito enquanto estivera ausente e quando me vira tão profundamente chocada pela morte de meus pais seu grande desejo fora proteger-me - fazer-me feliz outra vez. Casar com Pietro! Passar minha vida inteira com ele! Isso enchia-me de altivez, mesmo enquanto tristemente pranteava meus pais.

Nosso mestre estava ciente do que se passava, uma vez que nos observava atentamente. Ele resolveu que neste ponto, enquanto eu poderia, sem dúvida, ir longe na minha carreira musical, Pietro seria uma estrela brilhante no céu da música, e agora compreendo que ele se tenha perguntado se esse casamento iria ajudar ou atrapalhar Pietro em sua carreira. E a minha? Naturalmente uma artista talentosa deve ocupar o segundo lugar perante um gênio.

Madame, sua esposa, era mais romântica. Arranjou uma oportunidade de falar comigo a sós.

-           Então você o ama? - disse ela. - Ama-o o suficiente para se casar?

Respondi categoricamente que o amava.

- Espere um pouco. Você sofreu um grande choque. Precisa de tempo para pensar. Compreende o que isso pode significar para a sua carreira?

- Que quer dizer? Será bom para nós, sendo ambos artistas.

- Que músico! - lembrava-me ela. - Ele é como todos os artistas. Insaciável. Conheço-o bem. É um grande artista. O maestro acredita que ele é um gênio que temos aqui. Sua carreira, minha querida, ficará em segundo plano e é perigoso para um artista aceitar um segundo lugar. Se você casar com ele, correrá o risco de ser somente uma boa pianista... muito boa, sem dúvida. Mas talvez seja o adeus aos sonhos dos grandes sucessos, da fama e da fortuna. Você já pensou nisso?

Não acreditava nela. Era jovem e estava apaixonada. Poderia ser difícil para duas pessoas ambiciosas viverem juntas em harmonia, mas nós venceríamos onde os outros tinham fracassado.

Pietro riu quando lhe contei a advertência de Madame e eu ri com ele. Nossa vida iria ser maravilhosa, assegurou-me.

-Trabalharemos juntos, Caro, para o resto de nossas vidas!

Assim, casei-me com Pietro e rapidamente percebi que não devia ter desprezado o aviso de Madame tão depressa. Não me importava. Minha ambição mudara. Não mais sentia a necessidade do sucesso. Tudo que queria era para Pietro; e durante alguns meses fiquei certa de que tinha alcançado meu objetivo na vida, que era estar com Pietro, trabalhar com Pietro e viver com Pietro. Mas como podia ter sido tão idiota, pensando que a vida podia ser tão simplesmente documentada com papéis que tinham sido assinados sob o dito: casaram-se e viveram felizes para sempre.

O primeiro concerto de Pietro decidiu seu futuro. Foi aclamado, e aqueles foram dias maravilhosos de realização, mas não foi fácil viver com ele depois, quando ele foi de sucesso em sucesso. Exigia serviço, era o artista e eu apenas o bastante entendida para ser avisada de seus planos, para ouvir seus recitais.

Estava alcançando sucessos que iam além de seus grandiosos sonhos. Agora posso ver que ele era muito jovem para resistir a atenção que recebia. Era inevitável que houvesse aquelas que o abrandariam com adulação - mulheres, bonitas e ricas. Contudo ele sempre me queria lá, nos bastidores, aquela para quem ele sempre podia retornar, aquela que era quase uma artista, entendia as constantes necessidades do ego artístico. Ninguém estava mais junto dele do que eu. Além do mais amava-me à sua maneira.

Se tivesse um temperamento diferente talvez nos déssemos bem, mas humildade é uma qualidade que nunca teve. Mostrei-lhe que não era submissa, e logo me arrependi de ter desistido de minha carreira. Voltei a praticar. Pietro ria-se de mim. Pensava que alguém poderia esquecer a Musa e tê-la de volta assim que quisesse? Como ele estava certo! Tivera minha chance e a jogara fora; agora, não poderia ser mais do que uma competente pianista.

Brigávamos constantemente. Disse que não ficaria mais com ele. Pensei em deixá-lo, sabendo que nunca o faria; e ele também fazia o mesmo insensatamente. Preocupava-me com a sua saúde, pois a estava estragando e eu sabia que ele não era muito forte, tinha notado alguma falta de ar que me alarmava; porém, quando a mencionava, ele mudava de assunto.

Pietro estava dando concertos em Viena, Roma, Londres e Paris e estava começando a ser comentado como um dos maiores pianistas da atualidade. Recebia a fama como natural e inevitável, tornando-se cada vez mais arrogante. Olhava com desprezo os que escreviam sobre ele. Gostava de ver-me colando recortes no álbum. Este era meu verdadeiro lugar em sua vida - sua favorita dedicada que jogara fora sua carreira para favorecer a dele. Mas como tudo mais o álbum tinha função contraditória, pois a mais leve crítica podia provocar-lhe grande fúria, fazendo latejar suas têmporas e deixá-lo sem respiração.

Trabalhava muito, celebrava o sucesso de seus concertos até tarde da noite e levantava-se cedo para praticar. Andava rodeado de bajuladores. Era como se precisasse deles para conservar viva a crença em si mesmo. Eu o criticava, não compreendendo sua juventude, e quando o sucesso desta grandeza vem cedo demais, é mais uma tragédia do que uma bênção. Era uma vida artificial... uma vida inquieta; e durante esse tempo aprendi que não podia ser feliz com Pietro, mas também não conseguia encarar a vida sem ele.

Fomos a Londres para apresentar uma série de concertos, tendo então a oportunidade de ver Roma. Ocupava um pequeno apartamento perto do Museu Britânico, onde trabalhava enquanto não estava nas escavações.

Era a mesma, resoluta, cheia de senso prático, balançando suas estranhas pulseiras pré-históricas. Usava uma corrente desigual, parecendo cornalinas, em volta do pescoço. Referia-se a nossos pais de uma maneira triste, apesar de rude e perguntava-me sobre os meus afazeres. Notava que ela achava muito estranho eu ter desistido de minha carreira, depois de ter gasto tanto tempo e energia com ela - tudo por causa de meu casamento. Mas Roma nunca fora de criticar ninguém. Era uma das pessoas mais compreensivas e tolerantes que conhecia.

- Fico feliz em estar aqui na sua chegada. Uma semana mais, e estaria longe. Num lugar chamado Lovat Mill.

- Um moinho?

- Isso é simplesmente o nome do lugar. Na costa Kent... não longe do Campo de César; é realmente maravilhoso. Descobrimos o circo e estou certa que há muito mais para descobrir, porque, como você sabe, esses circos eram invariavelmente construídos fora das cidades.

Eu não sabia, mas reprimia fazer comentários sobre isso, Roma continuou - Foi um bocado difícil conseguir sua permissão.

- Verdade?

- Esse Sir William Stacy possui a maior parte das terras nos arredores... um cavalheiro complicado, posso assegurar-lhe. Fez um barulho por causa de seus faisões e de suas árvores. Conheci-o pessoalmente. "O senhor imagina que as árvores e os faisões sejam mais importantes que a História?", perguntei. Finalmente convenci-o e ele deu seu consentimento para escavarmos. É realmente uma casa muito antiga... ou melhor, um pequeno castelo: Ele tem muita terra, logo pode ceder-nos um pouco.

Não prestava atenção porque estava ouvindo o segundo movimento de Beethoven, Concerto Número Quatro, para Piano, que iria ser tocado por Pietro aquela noite. Perguntava-me se compareceria ou não ao concerto. Sofria horrores quando ele se apresentava, executando mentalmente cada nota, receando que ele pudesse fracassar. Como se alguma vez isso tivesse acontecido. O único medo dele era não se apresentar em sua melhor forma.

- Um lugar antigo e interessante - dizia Roma. - Acho que Sir William está esperando secretamente que achemos algo importante em suas propriedades.

Ela continuou falando sobre o lugar, o que tencionava fazer lá, e de vez em quando fazendo observações sobre os moradores da Casa Grande - eu não a escutei. Como podia saber que aquela seria sua última escavação e que era imperativo aprender indo sobre o lugar?

Morte! Como vem até nós quando menos a esperamos. Ataca no mesmo sentido numa breve sucessão. Nunca pensara na morte até que meus mais morreram inesperadamente.

Eu e Pietro voltamos de Londres para Paris. Nada de diferente aconteceu aquele dia. Não houve nada para avisar-me. Pietro preparava-se para tocar algumas Danças Húngaras e a Rapsódia Número Dois. Ele era ultra-sensitivo, principalmente antes de uma apresentação. Sentei-me na fila da frente. Ele estava sempre consciente da minha presença. Às vezes tinha a impressão de que ele tocava para mim, como se dissesse: - Veja, você nunca poderia atingir este padrão. Você era somente a apresentadora de habilidades ao piano. - E assim foi aquela noite.

Então dirigiu-se ao camarim e teve um colapso. Não morreu imediatamente, só ficamos juntos mais dois dias. Permaneci sempre junto dele e acho que estava consciente de minha presença ali, pois seus olhos escuros olhavam dentro dos meus, meio zombeteiros, meio amorosos, como se dissessem que tinha vencido outra vez. Então, morreu. Eu estava livre da escravidão para lamentar aquelas amadas correntes.

Roma, como boa irmã que era, deixou suas escavações e veio a Paris para o funeral, o que era um grandioso acontecimento. Músicos do mundo inteiro prestaram-lhe tributos e compareceram para lhe render homenagens. Pietro nunca fora tão famoso em vida como o era na morte. E como isso era divertido!

O tumulto era grande, levando-me a um desolamento quase insuportável.

Querida Roma! Como foi dedicada àquela altura! Demonstrou claramente que faria qualquer coisa por mim. Fiquei profundamente tocada com isso. Quantas vezes me sentia aborrecida quando a ouvia discutir seu trabalho com meus pais. Nunca mais sentiria isso. Era um conforto pertencer a uma família tão unida. Eu era agradecida a Roma.

Consolou-me, mais do que podia imaginar. - Venha para a Inglaterra - disse ela. - Venha ver as escavações. Nossos achados superaram as expectativas! Uma das melhores vilas romanas fora de Varulamium.

Sorri-lhe, desejando dizer-lhe o quanto a apreciava. - Eu não seria útil, - protestei - só um estorvo.

- Que bobagem! - Ela era outra vez a irmã mais velha e iria tomar conta de mim, quer eu quisesse ou não. - Você vem de qualquer maneira.

Assim, fui a Lovat Stacy, onde encontrei conforto junto de minha irmã. Orgulhava-me dela quando me apresentava aos amigos nas escavações, porque era claro o respeito que tinham por ela. Falava comigo com aquele entusiasmo que lhe era próprio; e porque estava muito contente em sua companhia e com aquela afeição que ela sempre tinha tentado não demonstrar, mas que era evidente, tornei-me ligeiramente interessada no trabalho. Aquelas pessoas eram tão fervorosas que era impossível não ser afetada. Havia uma cabana pequena não muito longe da vila romana, a qual Roma usava com permissão de Sir William. Eu a dividia com ela. Era primitiva: tinha duas camas, uma mesa, algumas cadeiras e pouco mais. O cômodo debaixo estava em desordem com as ferramentas de arqueologia - pás, forcados, picaretas, colheres de pedreiro e foles. Roma estava encantada com o lugar porque, segundo ela, ficava muito perto do lugar de trabalho. Os outros estavam espalhados pelos arredores, alojados em cabanas ou na estalagem.

Levou-me para ver os achados e mostrou-me o pavimento dos mosaicos, que era o deleite de sua vida; apontou os desenhos geométricos de giz branco e arenito vermelho. Insistia que examinasse as três termas que haviam descoberto, informando-me que a casa tinha pertencido a um nobre de algum valor. Ali era o tepidarium, o calidarium e o frigidarium. Os termos latinos rolavam-lhe pela língua, numa espécie de êxtase, e eu me sentia viva outra vez, quando via seu entusiasmo.

Passeávamos juntas. Sentia-me mais amiga do que nunca de minha irmã. Levou-me a Folkslone, para ver o Campo de César, ao morro do Pão de Açúcar e à Fonte de St. Thomas, na qual os peregrinos, em seu caminho para o relicário de St. Thomas e a Becket, paravam para beber. Juntas subimos mais ou menos 400 pés, até ao cume do Campo de César, e nunca mais a esquecerei, em pé, com o vento desordenando seus suaves cabelos, seus olhos brilhantes de prazer à medida que indicava os trabalho de remoção de terra. Era um dia claro e, enquanto olhava através das 20 milhas do mar translúcido e sereno, podia perfeitamente imaginar a terra que fora do gaulês César. Não foi difícil mentalizar as legiões em marcha.

Em outra ocasião fomos ao castelo de Richborough - uma das relíquias mais importantes da Bretanha romana. Roma dizia-me: "Rutupiae", como costumava chamá-lo.

-Claudius fez desta terra o principal ponto de desembarque para as legiões vindas da Bolonha. Estas paredes dão uma boa idéia da formidável fortaleza que isto deve ter sido.

Ela experimentava grande prazer em mostrar-me as adegas, os celeiros e as reminiscências dos templos. Era impossível não compartilhar de seu entusiasmo, à medida que apontava estas maravilhas para mim, os restos de paredes sólidas de pedras de Portland, o baluarte, o portão e a passagem subterrânea.

-Você deve fazer arqueologia como hobby - disse-me, meio pensativa e esperançosa. Ela realmente acreditava que se quisesse acharia nisso o derivativo de que tanto precisava. Queria dizer-lhe que ela já era uma compensação. Que os seus cuidados comigo, sua afeição tinham-me ajudado muito, fazendo-me sentir que não estava só.

Uma pessoa não podia, contudo, falar tais coisas com Roma; ela gritaria: - Bobagem! - caso eu tentasse agradecer-lhe. Porém prometi a mim mesma que futuramente me interessaria mais por ela, pelo seu serviço, mostrar-lhe-ia como era feliz por ter uma irmã.

E tentando induzir-me ao esquecimento, colocou-me para ajudar na restauração de um mosaico que tinha sido encontrado no lugar. Era um serviço especializado, por isso minha tarefa estava meramente limitada a ir buscar os pincéis e soluções que fossem precisos. Tratava-se de um disco amarelado, onde havia uma espécie de gravura que devia ser restaurada. Era um trabalho muito delicado mover os pedaços, segundo Roma, mas quando estivesse pronto teria um lugar no Museu Britânico. Achei fascinante o cuidado e a atenção que envolviam a restauração e fui entusiasmando-me novamente, conforme os pedaços eram fixados juntos.

Então descobri Lovat Stacy, a casa grande que dominava a vizinhança e que pela gentileza de seu dono fora permitido a Roma e seus amigos fazer escavações. Quando cheguei a ela, prendi minha respiração com surpresa. O grande portão da torre dominava a paisagem, que consistia de uma torre central ladeada por duas torres octogonais mais altas. Conforme olhava para estas ameias ficava impressionada pelo aspecto agressivo, de poder e de força. Janelas altas e estreitas davam para fora da torre. Pelo portão podia ver as altas paredes de pedra ao redor. Levando ao portão havia um caminho com paredes de pedra de ambos os lados, nas quais cresciam líquen e musgo. Estava encantada e pela primeira vez desde a morte de Pietro parei de pensar nele por uns poucos minutos e experimentei uma quase irresistível urgência de subir, passar pelo portão e ver o que havia no outro lado. Ao subir o caminho vi gravadas no portão carrancas malignas, cruéis, parecendo gente; não hesitei. Era como se me avisassem para não entrar e parar enquanto era tempo. Ninguém entra na casa das pessoas simplesmente por curiosidade.

Voltei para a cabana, entusiasmada com o que vira.

- Isto é Lovat Stacy - explicou Roma. - Agradeço a Deus por não terem construído a casa sobre a vila.

- Gostaria de saber sobre as pessoas que moram numa casa como aquela.

- Meus entendimentos foram com Sir William, o velho. Ele é lorde, o amo, logo, era o único que podia dar a permissão que nós queríamos.

Querida Roma! Nada saberia através dela. Ela só conhecia a vida em termos de arqueologia. Mas encontrei Essie Elgin.

Quando estava começando minha carreira musical, fui enviada a uma escola de música, onde a Srta Elgin fora minha professora. Passeando pela pequena cidade de Lovat Mill, a mais ou menos uma milha de distância das escavações, encontrei-me com Essie na rua principal. Por segundos olhamo-nos desnorteadas e, então, ela disse naquele sotaque escocês:

- Não acredito! Como este mundo é pequeno! É Caroline?

- Não tão pequeno, Essie.

-O que você está fazendo aqui? - ela queria saber. Contei-lhe. Ela lamentou profundamente o que acontecera

com Pietro. - Uma tragédia horrível - disse ela. - Ouvi-o em Londres quando esteve lá pela última vez. Fui especialmente para assistir ao concerto. Que mestre!

Ela olhava-me tristemente. Sabia o que estava pensando a meu respeito, como toda professora pensa do aluno que não preencheu suas expectativas.

- Venha a minha casa - disse ela.

- Bateremos um papo.

Então acompanhei-a e ela me contou que linha vindo para Lovat Mill porque queria ficar junto ao mar e ainda não estava preparada para perder sua independência, tinha uma irmã mais nova, que morava a três ou quatro milhas de Edinburgh, que desejava que ela fosse morar lá. Reconhecia que já era o momento, mas estava gozando o que chamava de seus últimos anos de liberdade.

-Ensinando? - Perguntei.

Sorriu contrafeita. - A que ponto a gente chega, minha cara! Tenho minha casinha e ela é agradável. Dou algumas aulas a jovens senhoras de Lovat Mill. Não é muito para viver, mas a situação melhorou depois que peguei as mocinhas da casa grande.

- A casa grande? Quer dizer Lovat Stacy?

- O que mais? É a nossa casa grande. Com a graça de Deus há lá três senhoritas a quem ensino música.

Essie Elgin nasceu tagarela e ela não precisava ser muito persuasiva. Compreendia que a minha carreira era um assunto penoso; assim, tagarelava alegremente sobre seus alunos da casa grande.

- Que lugar! Há sempre um drama acontecendo, devo-lhe dizer. Brevemente haverá um casamento. É o que Sir William quer. Quer ver aqueles dois casados. Então ele ficará feliz.

- Que dois? - Perguntei.

- O Sr. Napier e a jovem Edith... apesar de ela não ter Idade suficiente. Eu diria 17. Claro, algumas pessoas aos 17... mas Edith não... Oh, não, não Edith.

- Edith é a filha da casa?

- Bem, de certo modo, pode ser. Ela não é filha de Sir William. Oh, é uma casa complicada, nenhuma das jovens é parente. Edith está sob a proteção de Sir William. Mora com a família há cinco anos... desde que perdeu o pai. Sua mãe morreu quando ela era um bebê e cresceu com governantas e criados. Seu pai era grande amigo de Sir William. Tinha muitos bens no caminho de Maidstone... mas quando morreu venderam tudo e Edith foi a única herdeira. Ela tem uma grande herança e é por isso... Bem, seu pai deixou Sir William como seu tutor e ela veio para Lovat Stacy, vivendo lá como se fosse filha de Sir William. Agora, é claro que trouxe Napier para se casar com ela.

- Napier deveria ser...

- O filho de Sir William. O punido! Ah, aí está uma história para você. Depois tem Allegra, que tem algum parentesco com Sir William, pelo que eu ouvi. Ela fala dele como seu avô. Comporta-se como uma pequena tártara! A Sra Lincroft, a governanta, dirige o lugar; é a mãe de Alice. Aí estão minhas três alunas: Edith, Allegra e Alice. Alice é somente a filha da governanta, porém é-lhe permitido juntar-se às outras para as lições. Está sendo educada como uma dama.

-E esse... Napier? - disse eu. - Que nome esquisito!

-Oh, algum nome de família. Eles são pessoas originais para nomes de família... nomes que se juntaram aos seus pelo casamento, segundo ouvi. Sua história é singular. Nunca soube o que há de certo e errado nela, mas seu irmão Beaumont morreu... Beaumont é um outro nome de família. Foi morto e Napier acusado disso, mandado embora. Agora volta para casar-se com Edith. É uma condição, assim entendi.

-Como foi condenado?

- As pessoas aqui não falam muito sobre os Stacys - disse ela amargamente. - Têm medo de Sir William. Ele também é um pouco tártaro, e a maior parte delas são seus dependentes. Duro como pregos, dizem. Deve ter sido quem mandou Napier embora. Gostaria de saber os mínimos detalhes desta história, mas não posso falar sobre isso com as meninas.

- Eu estou muito atraída pela casa. Há alguma coisa ameaçadora nela. À distância pareceu-me muito bonita, porém quando cheguei perto daquele portão... xi...

Essie riu. - Você está deixando sua imaginação ir longe demais - disse ela. Depois pediu-me que tocasse alguma coisa para ela. Sentei-me ao piano e era como nos velhos tempos, quando eu era uma garota, antes de ter ido aprofundar meus estudos, antes de conhecer Pietro, e antes de jogar fora minha carreira.

-Ah,- disse ela. - Você tem um bonito toque. Quais são seus planos?

Sacudi a cabeça.

-Oh, vamos - disse ela. - Ainda é tempo. Volte para Paris e veja se pode recuperar o que jogou fora.

-De onde parei, antes de meu casamento?

Ela não respondeu. Talvez soubesse que apesar de ser uma pianista competente, apesar de poder ser uma boa professora, faltava-me a divina chama. Pietro a tinha tirado de mim? Não; se a tivesse, nunca teria trocado a minha carreira pelo casamento.

Ela disse: - Pense sobre isso e volte quando quiser.

Voltei para a pequena cabana pensando em Essie e nos velhos tempos; entretanto, de vez em quando pensaria na casa grande, habitada por figuras vagas e sombrias que eram somente nomes para mim e, ainda assim, era como se participasse um pouco de suas vidas.

Lembro-me intensamente daqueles dias; sentada na cabana, observando os hábeis dedos dos restauradores emergirem dos mosaicos, e dos passeios à casa de Essie para tomar chá e tocar piano. Acho que Essie queria persuadir-me a fazer um esforço para reencontrar o meu caminho; para não vir a encontrar-me numa situação igual à dela.

Disse-me um dia: - O casamento é sábado. Você gostaria de ir?

Assim, fui à igreja e vi o casamento de Napier e Edith. Caminharam pela nave principal da igreja - ela polida e frágil, ele magro e triste. Apesar disse pude notar seus olhos azuis, assustadores, e seu rosto moreno.

Estava sentada ao fundo da igreja quando eles passaram e o órgão tocava a marcha nupcial de Mendelssohn. Senti uma grande emoção ao vê-los passar, ou melhor dizendo, quase uma advertência. Mas não era isso. Talvez sentisse a incongruência da combinação. Aqueles dois não combinavam, e isso estava claro. A garota parecia tão jovem, tão delicada, e teria eu realmente visto apreensão em seu rosto? Pensava: ela está com medo dele. E lembrava-se do dia em que eu e Pietro nos casamos, como rimos juntos, como provocamos um ao outro, e como nos amávamos. Pobre criança, pensei. Ele também não parecia feliz. Qual era a sua expressão? De resignação, aborrecimento... cinismo?

-Edith está uma noiva linda - disse Essie. - Ela vai continuar com suas lições depois da lua-de-mel. Sir William também o quer.

-Verdade?

-Oh, sim. Sir William faz tudo pela música... agora. Apesar de ter havido um tempo em que nem a queria em casa. Edith tem talento. Nada em especial, mas toca bem e seria uma pena parar.

Voltei com Essie para tomar chá e ela falava de suas alunas de Lovat Stacy, de sua música... como Edith era boa, Allegra preguiçosa e Alice aplicada.

-Pobre Alice, tinha de sê-lo. Você entende, ela não pode perder uma oportunidade dessas.

Roma concordava com Essie, que eu devia regressar a Paris e continuar com a minha música. - Posso ver - dizia ela. - A única coisa certa para você é terminar os seus estudos. Embora não esteja inteiramente segura de Paris. Ela mexia em suas turquesas quase impacientemente e decidiu não mencionar meu casamento. - Se você achar que é impossível... podemos tentar outra coisa.

-Oh, Roma, - exclamei - você é tão boa. Não sei como dizer-lhe quanto me tem ajudado.

- Bobagem! Retorquiu asperamente.

- Estou imaginando como é bom ter uma irmã.

-Naturalmente nós nos confundimos em horas como esta. Você deve vir aqui mais freqüentemente.

Sorri e beijei-a. Então voltei a Paris. Foi tolice ter feito isso. Devia saber que não suportaria viver num lugar cheio de recordações de Pietro. Só serviu para me mostrar como Paris era diferente sem ele e que tinha sido muita ingenuidade minha pensar que poderia recomeçar tudo outra vez. Nada seria o mesmo, porque a base onde devia construir o meu futuro pertencia ao passado.

Como estava certo Pietro quando dissera que não bastava acenar para a Musa e esperar que ela retornasse, depois de ter desertado dela.

Estava em Paris há uns três meses quando chegou a notícia do desaparecimento de Roma.

 

Foi terrível. A escavação estava terminada. Preparavam-se para empacotar as coisas e partir dentro de alguns dias. De manhã, Roma supervisionara a partida e à tardinha desapareceu. Não havia sinal dela. Era como se tivesse sumido no ar.

Um grande mistério. Não tinha deixado nota alguma, desaparecera simplesmente. Voltei para a Inglaterra sentindo-me desnorteada, melancólica e profundamente deprimida. Lembrava-me constantemente de como fora boa para mim e o quanto me ajudara na minha dor. Durante aquelas semanas difíceis em Paris repetira pára mim mesma que sempre teria Roma, e que durante o meu infortúnio descobrira um novo relacionamento com minha irmã.

Fui inquirida pela polícia. Pensaram que Roma perdera a memória e devia estar vagueando pelo país; depois sugeriram que ela poderia ter ido tomar banho e se afogado, visto que a costa era perigosa naquele ponto. Aderi à primeira sugestão; era mais confortável, embora não conseguisse imaginar Roma em estado de amnésia. Cada dia esperava por notícias. Nenhuma vinha.

Alguns de seus amigos levantaram a hipótese de que ela, recebendo notícias repentinas de um projeto secreto, partira para o Egito ou algum lugar parecido. Tentava forçar-me a aceitar esta confortante teoria, mas sábia que não se coadunava com Roma, precisa e prática. Alguma coisa deve tê-la impedido de comunicar-me o que acontecera. Alguma coisa? O que poderia impedi-la a não ser a morte?

Dizia para mim mesma que estava obcecada pela morte porque perdera meus pais e Pietro em tão pouco tempo. Eu podia perder Roma também.

Estava desditosamente infeliz e, passado pouco tempo, voltei a Paris para desfazer-me de tudo, pois não poderia continuar mais lá. Regressei a Londres, aluguei um quarto numa casa em Densington e anunciei que era professora de piano.

Talvez por ser impaciente com o medíocre não fosse boa professora. No fim das contas, tinha tido sonhos para mim própria, e tinha sido esposa de Pietro Verlaine. Eu não estava ganhando para o meu sustento. Meu dinheiro estava diminuindo alarmantemente. Cada dia esperava notícias de Roma. Sentia-me sem esperanças, porque não sabia o que fazer para achar minha irmã. E, então, surgiu a minha oportunidade.

Essie escreveu dizendo-me que viria a Londres e que gostaria de ver-me.

Percebi que ela estava agitada desde que chegara. Nascera prestativa para os outros. Não me lembro de vê-la fazer projetos para si mesma.

- Vou deixar Lovat Mill - disse ela. - Não tenho andado muito bem ultimamente e acho que está na hora de ir para a companhia de minha irmã. - É uma grande decisão - repliquei.

- Oh sim, uma longa decisão; mas vim para lhe dizer o seguinte: que acha da idéia de ir para Lovat Mill?

- Ir... - gaguejei.

- Para Lovat Stacy. Ensinar as jovens. Agora escute. Tive uma conversa com Sir William. Ele ficou um pouco irritado quando lhe contei os meus planos. Você compreende, ele quer que Edith continue com as aulas... e as outras também. Além do mais costumavam fazer audições musicais anos atrás e, segundo disse, gostaria de revivê-las agora que há uma jovem dama na casa. Foi idéia dele contratar uma professora residente, que ensinaria as meninas, tocaria para o seu prazer e o de seus convidados, de vez em quando. Mencionou este assunto comigo quando lhe disse que ia partir; logo pensei em você e disse-lhe que conhecia a viúva de Pietro Verlaine, uma pianista competente. Se você concordar ele gostaria que lhe escrevesse e tudo seria arranjado.

Perdi a respiração. - Espere um momento - disse eu.

-Agora você vai bancar a modesta e dizer: isso é demasiadamente repentino! Algumas das melhores coisas da vida o são, e a gente tem que decidir-se depressa ou então perdê-las. Se você disser não, Sir William procurará outra. Quando lhe disse que você iria, ele ficou ansioso.

Estava vendo tudo claramente: as escavações, a pequena cabana, a casa grande e aqueles dois caminhando juntos pela nave principal da igreja. E Roma, claro... Roma, de quem era preciso não esquecer.

Disse bruscamente: - Você acredita que Roma esteja viva?

Seu rosto enrugou-se e, com o olhar perdido, respondeu: - Eu... Eu não acredito que ela tivesse partido sem dizer nada a ninguém.

Então ela foi raptada... ou está em algum lugar sem poder avisar. Quero descobrir... devo.

Ela balançou a cabeça.

- Não contei para Sir William que você é irmã dela. Ele está aborrecido com os acontecimentos. Houve muita publicidade. Dizem que ele declarou que nunca devia ter permitido fazerem escavações. Aquilo provocou muita confusão e, quando sua irmã desapareceu... - Ela encolheu os ombros. - Assim, não contei que você era irmã de Roma Brandon, simplesmente disse que era Caroline Verlaine, viúva do grande pianista.

- Logo, deveria ir lá... incógnita quanto a meu parentesco com Roma?

- Honestamente, acho que ele não a aceitaria se soubesse quem é você. Pensaria que tinha outras razões para ir lá além das de ensinar.

-Se eu for, - disse eu - ele estará certo.

Queria pensar no assunto; por isso, Essie e eu demos um passeio nos jardins de Kensington, onde Roma e eu constumá vamos soltar nossos barquinhos quando crianças. Aquela noite sonhei com Roma.

-Faça alguma coisa, Caro.

Deve ter sido este sonho que me fez decidir definitivamente que deveria ir para Lovat Stacy.

Vendi os pucos móveis que tinha à proprietária dos aposentos. Guardei o piano num depósito e fiz minhas malas.

Finalmente encontrara um objetivo na vida. Pietro estava perdido para sempre, mas tentaria encontrar Roma

 

O trem tinha parado em Dover Priory, onde desceu muita gente. Era uma parada de cinco minutos, o suficiente para apanhar a correspondência. Enquanto as últimas pessoas que tinham deixado o trem passavam pela roleta, percebi uma mulher correndo na plataforma, acompanhada de uma garota de aproximadamente 12 ou 13 anos. Ao passar viu-me, visto que eu estava com a cabeça do lado de fora da janela; então, parou, voltou, abriu a porta e as duas entraram no vagão.

Ela e a garota fitaram-me, dos pés à cabeça, enquanto se sentavam à minha frente. A mulher suspirou e disse: - Oh, fazer compras sempre me cansa tanto...

A garota respondeu, mas notei que ambas me estudavam com curiosidade. Por quê? Gostaria de saber. Pareceria tão estranha? Então ocorreu-me que depois de Dover Priory o trem passava por estações menores e que possivelmente as pessoas que viajavam naquele trem, depois daquele lugar, se conhecessem. Nesse caso, eu seria imediatamente considerada uma estranha.

A mulher colocou alguns pacotes a seu lado e, quando um deles caiu, justamente no meu pé, apanhei-o, possibilitando, assim, um início de conversa entre nós.

-Estes trens são tão fatigantes - disse a mulher. - A gente fica toda suja. Vai até Ramsgate?

- Não, vou descer em Lovat Mill.

- Oh, verdade! Nós também. Graças a Deus já estamos perto... mais uns 20 minutos e estaremos lá... desde que cheguemos na hora. Que coincidência estar indo para lá! Mas, claro, ultimamente temos tido muitas visitas. Sabe, aquele pessoal que encontrou as ruínas romanas.

- Oh, sim?

- Imagino que não está ligada a eles?

- Oh, não. Vou para uma casa chamada Lovat Stacy.

- Valha-me Deus! Então deve ser a pessoa que vai ensinar música para as meninas.

-Sim.

Ela estava maravilhada. - Bem, quando a vi, ocorreu-me isso. Compreende, há tão poucos estranhos! Além do mais, ouvimos dizer que viria hoje.

- A senhora pertence à família?

- Não... não. Moramos em Lovat Mill... quase fora, claro. Na casa pastoral. Meu marido é o pastor. Somos amigos dos Stacys. Na verdade, as meninas têm aulas com o meu marido. A casa fica mais ou menos a uma milha da nossa. Sylvia assiste as aulas com elas, não é Sylvia?

- Sim, mamãe - respondeu Sylvia, numa voz muito calma. Pensei que não seria improvável que a mãe dirigisse a família - inclusive o pastor.

Sylvia parecia bastante humilde, mas havia alguma coisa na linha de seu queixo e na posição de seus lábios que desmentia sua humildade, levando-me a pensar que a submissão podia se evaporar com a ausência da mãe.

- Creio que o pastor lhe perguntará se poderá dar aula a Sylvia ao mesmo tempo que às meninas Stacy.

- Sylvia está interessada em música? - Dei um sorriso para Sylvia, que olhava para a mãe.

- Ela vai interessar-se - disse aquela senhora, firmemente.

Sylvia sorriu quase recatadamente e atirou para trás a trança que estava em seu ombro direito. Notei seus dedos um pouco espatulados, que não me pareciam como os de uma pianista. Já podia ouvir a execução atrapalhada de Sylvia ao piano.

-Estou tão alegre por a senhora não ser uma daquelas arqueólogas... Fui totalmente contra deixá-los invadir Lovat Stacy.

- A senhora não aprova esse tipo de descoberta?

- Descoberta! -retorquiu ela. - Para que servem essas descobertas? Se tivéssemos de saber das coisas que estavam lá elas não estariam escondidas, estariam?

Esta lógica assombrosa ia inteiramente contra a minha educação, porém era visível que aquela mulher robusta estava esperando uma resposta e, como não quisesse antagonizar-me com aquela mulher, porque poderia dizer-me muito sobre Lovat Stacy, sorri, murmurando uma apologia íntima para meus pais e Roma.

-Eles vieram aqui para perturbar tudo. Valha-me Deus! Ninguém podia mover-se sem esbarrar neles. Baldes, enxadas... cavando a terra, arruinando completamente vários acres do parque... E com que fim? Para descobrir ruínas romanas! Há muitas espalhadas pelo país, disse ao pastor. Nós não os queremos aqui. Uma dessas pessoas teve um fim estranho... ou talvez não tenha sido um fim. Há quem diga que ela desapareceu.

Um calafrio percorreu-me a espinha. Senti que podia denunciar meu parentesco com a pessoa desaparecida, e isso era algo que eu estava determinada a não fazer. Disse, rapidamente: - Desaparecida?

- Oh, sim. Foi tudo muito estranho. De manhã ela estava lá... depois ninguém mais a viu. Desapareceu durante o dia.

- Onde ela foi?

- Isto é o que muita gente gostaria de saber. Chamava-se... qual era o nome dela, Sylvia?

Os dedos espatulados de Sylvia apertaram-se, revelando sua tensão. Por um momento pensei que estivesse perturbada porque sabia alguma coisa sobre o desaparecimento de Roma; entretanto, constatei que ela tinha medo da mãe, particularmente quando esta lhe fazia uma pergunta que não sabia responder.

-Chamava-se Srta Brandon... Srta Roma Brandon.

A mulher assentiu. - Isso mesmo. Uma dessas mulheres pouco femininas... Cavando! Subindo! Muito pouco natural, diria eu. Provavelmente foi castigo por intromissão. Há quase uma superstição, por isso dizem que foi esse o motivo. Qualquer coisa que lhe tenha acontecido foi porque ela se intrometeu. Uma espécie de maldição. Acho que devia ser uma lição para essa gente.

- Já partiram todos? - Perguntei.

- Oh,sim, sim. Eles estavam de partida quando isso aconteceu. É claro que a ocorrência os atrasou. Na minha opinião ela estava tomando banho e foi arrastada pela corrente. Um hábito muito imodesto, banhar-se. A coisa mais fácil é ser carregada pelo mar. Uma espécie de sentença. As pessoas deviam ser mais cuidadosas. Mas os moradores locais lhe dirão que foi uma forma de vingança. Um desses deuses romanos ou alguém que não gostava que sua casa fosse perturbada por intrometidos. Eu e o pastor tentamos explicar-lhes que isso era asneira, embora ao mesmo tempo parecesse ser uma severa forma de justiça.

- Encontrou alguma vez essa... mulher desaparecida?

- Encontrá-la! Oh, não. Nós não encontrávamos aquela gente, apesar de eles serem um pouco amistosos com algumas pessoas da casa grande. Sir William é um pouco excêntrico, compreende, eles são uma família muito importante e, é claro, somos amigos. Pessoas de nossa posição cuidam de unir-se numa pequena comunidade; e por causa das meninas estamos constan-iemente nos vendo. A propósito, acho que não perguntei seu nome.

-É Caroline Verlaine, Sra Verlaine.

Observei-a ansiosamente, desejando saber se me ligaria a Roma. Essie assegurara-me que Sir William não sabia que Roma era minha irmã, embora tivesse havido muita publicidade na época de seu desaparecimento. Afinal, ela era cunhada de Pietro; ele era famoso e isso deve ter sido publicado. Senti-me ridiculamente aterrada, apesar de não haver necessidade de aborrecer-me. Era evidente que meu nome nada significava para a senhora do pastor.

- Quer dizer que é viúva? - disse ela. - Francamente, esperava alguém muito mais velho.

- Sou viúva há um ano.

- Ah, triste, triste. - Fez uma pequena pausa, em sinal de pesar. - Sou a Sra Rendall... e esta, claro, a Srta Rendall.

Inclinei-me em reconhecimento da apresentação.

- Ouvi dizer que tem muitos diplomas e coisas da mesma espécie.

- Tenho alguns.

- Deve ser muito agradável:

Baixei a cabeça para esconder meu sorriso.

-Achará Allegra distraída. O pastor sempre diz que ela nunca se concentra em matéria alguma mais de poucos segundos. É um erro educá-la. A filha da governanta a mesma coisa... É vergonhoso. Uma família complicada... nenhuma delas é parente. É muito estranho Sir William permitir que Alice compartilhe de tudo, embora seja uma menina sossegada. Realmente, não se deve fazer exceções. Ela é tratada como os outros... Permitimos que Sylvia seja amiga delas. - Encolheu os ombros. - É muito difícil, mas uma vez que Sir William as aceita, o que podemos fazer?

Sylvia parecia vigilante, escutando com atenção. Pobre Sylvia! Devia ser uma dessas garotas que só falam quando lhes dirigem a palavra. Mais uma vez senti-me agradecida a meus pais.

- E quem é exatamente Alice Lincroft?

- A filha da governanta. Compreende, a Sra Lincroft é uma governanta de gabarito. Está com a família desde antes de seu casamento. Era dama de companhia da Sra Stacy, depois partiu e voltou quando ficou viúva... voltou com Alice. A criança tinha dois anos na ocasião; sendo assim, passou a maior parte de sua vida em Lovat Stacy. Seria horrível se ela não fosse tão calma. Não dá problema, ao contrário de Allegra. Porém, isso foi um erro flagrante. Um dia essa garota ainda vai causar problemas. Freqüentemente comento isso com o pastor e ele concorda comigo.

- E a Sra Stacy?

- Já morreu há muito tempo... antes de a Sra. Lincroft voltar como governanta.

- Existe uma outra jovem a quem vou ensinar.

A Sra Rendall sorriu afetadamente. - Edith Cowan, ou melhor, Edith Stacy, agora. Devo dizer que é muito esquisito. Uma mulher casada... pobrezinha.

- Porque ela é casada? - Instiguei.

- Casada! Devo dizer que foi um arranjo muito estranho. Foi o que disse ao pastor e continuarei a dizer. É evidente porque Sir William preparou esse casamento.

- Sir William? - disse. - O que diz o jovem casal sobre isso?

- Minha querida jovem senhora, quando passar um dia em Lovat Stacy aprenderá que, em negócios, a última palavra é sempre a de Sir William. Ele tomou Edith sob sua custódia e depois decidiu trazer Napier para casar com ela. - Ela baixou a voz. - Claro, - disse, desculpando sua indiscrição - muito breve pertencerá à casa; assim, mais cedo ou mais tarde descobrirá tudo. Somente o dinheiro de Cowan faria Sir William trazer Napier de volta.

- Oh? - Tentei fazê-la prosseguir, mas acho que compreendeu ter sido demasiadamente comunicativa. Então recostou-se no assento, os lábios enrugados, mãos entrelaçadas no colo, parecendo uma deusa vingativa. Enquanto o trem balançava, eu procurava um jeito de induzir a eloqüente mulher a posteriores indiscrições, porém Sylvia disse, timidamente: - Estamos quase chegando, mamãe.

- Realmente - clamou a Sra Rendall, firmando-se e juntando os pacotes. - Oh, querida, estou pensando se esta é a lã certa para as meias do pastor.

- Tenho certeza que sim, mamãe. A senhora escolheu-a...

Eu estudava a garota profundamente. Seria uma pequena irônica? Contudo, a mãe pareceu nada notar. - Aqui, - disse ela para a garota - leve isto.

Eu também me levantei e retirei as malas da grade. Sabia que a Sra. Rendall tinha os olhos nelas, avaliando-as, tal como fizera comigo.

-Acho que está sendo esperada - disse, dando um empurrão em Sylvia; depois seguiu a filha na plataforma, virando-se continuamente: - Ah,sim, lá está a Sra Lincroft. - Chamou-a num tom agudo e penetrante: - Sra Lincroft, aqui está a pessoa que procura.

Eu tinha descido e ficado com as duas malas ao meu lado. A esposa do pastor acenou para mim, para a mulher que se apróximava e desapareceu com Sylvia.

-E a Sra Verlaine? - Era uma mulher alta e esbelta, deveria ter uns 30 anos. Havia um ar de beleza desaparecida, fazendo-me lembrar, imediatamente, das flores que tinha entre as páginas dos livros. Um grande chapéu de palha amarrado no queixo, com um véu colorido; seus olhos eram de um azul-desmaiado, seu rosto um pouco magro, pois ela era muito esbelta. Vestia-se de cinza, mas em sua blusa havia flores de milho azuis, salientando-lhe a cor dos olhos. Certamente, não havia nada de especial nela.

Disse-lhe quem eu era.

-Sou Amy Lincroft, - respondeu - a governanta de Lovat Stacy. A charrete está lá fora. Suas malas serão mandadas depois para casa.

Fez sinal para um carregador; deu-lhe instruções e em poucos minutos passávamos a roleta em direção ao pátio da estação.

- Notei que ficou conhecendo a esposa do pastor.

- Sim, por coincidência, ela adivinhou quem eu era.

A Sra.Lincroft sorriu. - Pode ter sido planejado. Ela sabia que a senhora estaria no trem; naturalmente, quis encontrá-la antes de nós.

-Sinto-me lisonjeada por tê-la inspirado a fazer isso. Tínhamos chegado à charrete. Subi e ela pegou as rédeas.

-Fica a umas boas duas milhas da estação, quase três. - Notei seus pulsos delicados e os longos dedos finos. - Espero que goste do campo, Sra Verlaine.

Respondi-lhe que estava acostumada a viver em cidades; logo, isso seria algo que tinha de descobrir.

- Cidades grandes? - perguntou ela.

- Cresci em Londres. Vivi com meu marido no exterior, e quando ele morreu voltei para Londres.

Ficou em silêncio; como ela também era viúva, imaginei que estivesse pensando no marido. Tentei imaginar como ele teria sido e se ela fora feliz. Achei que não.

Era bastante diferente da mulher do pastor, que conversara sem parar, contando-me tanto em tão pouco tempo. A Sra Lincroft parecia quase misteriosa.

Falou-me vagamente de Londres, onde morara por algum tempo, e do vento este, que era uma característica daquela costa.

-Nós recebemos a pior parte dele. Espero que não sinta frio, Sra.Verlaine. Entretanto, a primavera está quase chegando e, aqui, ela é maravilhosa. O verão também...

Perguntei-lhe sobre as minhas alunas e ela confirmou que ensinaria a Alice, sua própria filha, bem como a Allegra e Edith, a Sra Stacy.

- Achará a Sra. Stacy e Alice boas alunas. Allegra não é totalmente ruim, só muito impetuosa e talvez um pouco dada a fazer travessuras. Creio que gostará de todas.

- Estou ansiosa por encontrá-las.

- Isso acontecerá logo, pois elas também desejam conhecê-la.

O vento era penetrante e eu imaginava sentir o cheiro do mar. Quando passávamos pelas ruínas a Sra Lincroft disse:

- Isto foi descoberto recentemente por arqueólogos que estiveram aqui. Sir William deu-lhes permissão para fazerem escavações. Arrependeu-se, pois o fato trouxe uma multidão para ver as ruínas; além disso, houve um acontecimento infeliz. Deve ter ouvido sobre o caso. Na ocasião, foi um escândalo. Uma arqueóloga desapareceu, e...imagino...que não se ouviu mais nada a respeito.

- A Sra. Rendall mencionou isso.

- Na época não se falou noutra coisa... Houve muitos curiosos. Foi muito desagradável. Eu vi a jovem uma vez. Veio conversar com Sir William.

- Então, ela desapareceu? - disse eu. - A senhora tem alguma idéia de como tudo aconteceu?

Ela sacudiu a cabeça negativamente.

- Uma jovem tão equilibrada. Ninguém podia imaginar que fizesse tal coisa.

- Que...coisa?

- Partir, sem dizer nada a ninguém. Deve ter sido isso que aconteceu.

-Mas é evidente que ela não faria tal coisa, sem avisar a irmã.

-Oh...Ela tem uma irmã?

Enrubesci ligeiramente. Como fora idiota. Se não tomasse cuidado iria comprometer-me.

-Ou o irmão, ou os pais - continuei.

-Sim, admitiu a Sra Lincroft. Claro que ela faria isso. É muito misterioso.

Percebi que demonstrara interesse excessivo; então, mudei de assunto rapidamente.

-Sinto o cheiro de mar.

-Oh sim, a senhora o verá agora mesmo, e a casa também. Atônita, prendi a respiração, pois lá estava ela, tal e qual eu a lembrava - aquele imponente portão com seus ornatos, colunetas e traves arqueadas.

-É magnífico - disse eu.

Ela parecia satisfeita. - Os jardins são maravilhosos. Costumo fazer um pouco de jardinagem. Acho...repousante.

Mal a podia ouvir. Uma grande excitação tomara conta de mim. Esta casa fazia-me vibrar, embora me amedrontasse. As torres guarnecidas com suas fortificações pareciam um aviso para aquele que negligentemente penetrasse pelo portão. Imaginava flechas, óleo em ebulição sendo atirados daquelas altas torres nos inimigos da mansão.

A Sra. Lincroft percebeu o efeito que a casa exercia em mim e sorriu. - Estou inclinada a pensar que nós, que moramos aqui, tomamos tudo isto como garantia - disse ela.

-Estava imaginando como a gente se sente, vivendo numa casa assim.

-Descobrirá breve.

Um caminho coberto de areia, cercado por uma parede coberta de musgo, conduzia diretamente ao portão da casa. Foi um momento emocionante quando passamos sob o arco e o porteiro olhou pela abertura da guarita onde ele se alojava para ver quem chegava. Neste momento, pensei se não haveria alguém nos observando.

A Sra Lincroft parou a charrete num pátio pavimentado.

- Há dois pátios, - disse-me - o inferior e o superior. - Ela apontou para as quatro enormes paredes que o cercavam.

- Estes são principalmente os alojamentos dos empregados.

- Ela acenou em direção da passagem abobadada, onde vislumbrei escadas de pedra. Os aposentos das meninas ficam sobre aquela entrada e os da família no pátio superior.

- É imensa! - disse.

Ela riu-se. - A senhora ainda não viu quanto... Os estábulos são aqui. Logo que descer, chamarei um dos lacaios e depois a levarei lá dentro para apresentá-la aos outros. Suas malas chegarão logo; nesse ínterim, vou servir-lhe um chá. Então iremos à sala de estudos, onde se encontrará com as meninas.

Ela dirigiu a charrete para os estábulos, deixando-me, em pé, no pátio. Havia um silêncio assustador e, agora que estava sozinha, sentia-me retroceder ao passado. Calculava a idade daquelas paredes que me cercavam. Quatro séculos...cinco séculos? Olhei para cima; duas horríveis carrancas projetadas das paredes pareciam ameaçar-me. As esculturas góticas que emergiam das fontes jorrando água eram excessivamente delicadas, em contraste com a excentricidade daquelas figuras grotescas. As portas - quatro delas eram de carvalho, ornadas com cravos maciços. Olhei para as janelas, com suas vidraças opacas, e pensei nas pessoas que viviam atrás delas.

Enquanto estava ali completamente fascinada, tive consciência outra vez daquele sentimento de repulsa. Não podia entender isso, mas sentia que deveria fugir, voltar para Londres, escrever para meu professor em Paris e implorar-lhe uma outra oportunidade. Talvez fosse a expressão diabólica daquelas imagens, projetando-se das paredes. Talvez fosse o silêncio. Aquela atmosfera dominante do passado fazia-me pensar que estava sendo atraída do presente século para uma época anterior.

Revivi a figura de Roma, entrando por aquele portão para o pátio, solicitando uma entrevista com Sir William e perguntando-lhe se seus parques e suas árvores eram mais importantes do que a História. Pobre Roma! Se ele não tivesse permitido ela estaria viva hoje?

Parecia que a casa estava viva, que aquelas grotescas carrancas não eram simples figuras de pedra. Haveria um vulto na janela, em cima da segunda entrada? Talvez nos aposentos das meninas, que a Sra Lincroft tinha mostrado. Mas, seria a coisa mais natural que minhas alunas estivessem interessadas em conhecer sua nova professora de música, para ter uma idéia dela, antes de encontrá-la.

Que me lembrasse, nunca estivera antes numa casa tão antiga. Seriam as circunstâncias de minha vinda que me faziam sentir assim? - Roma - murmurei. - Onde está você, Roma?

Imaginava que as carrancas riam-se atrás de mim. Sentia como se alguma coisa me dissesse para não ficar ali, que, se o fizesse, seria envolvida numa situação misteriosa. E com este pensamento tive a certeza de que o enigma do desaparecimento de Roma estava escondido em algum lugar daquela casa.

Isso era um capricho absurdo, admiti, numa voz igual à de Roma. Como ela teria rido de tal idéia.

Pietro comentaria que o romantismo, sempre vivo em mim, interferia no meu equilíbrio, dando-me um ar de frivolidade.

A Sra. Lincroft apareceu, demonstrando tanta satisfação que a ilusão se desvaneceu.

Na verdade, continuei comigo mesma, vim aqui não só para resolver o mistério de Roma, como também para garantir um sustento adequado e um teto. Uma vez admitira que isto seria o fim de minhas grandes ambições e vi esta oportunidade como uma prática; a mais sensata e razoável, que poderia resolver a minha situação.

A Sra. Lincroft atravessou a segunda entrada, sobre a qual ficavam as janelas da sala de estudos. Parei para ler a inscrição.

-Dificilmente entenderá - disse ela. - É inglês medieval. "Tema a Deus e honre o rei."

Ela sorriu e disse: - Tenha cuidado com os degraus. São inclinados e gastos em alguns lugares. - Havia 12 degraus dando para o pátio superior. Este era largo e rodeado por altas paredes cinzentas. Notei janelas iguais com vidraças opacas, carrancas e desenhos intrincados na cabeça das fontes.

-Por aqui - disse a Sra. Lincroft, abrindo uma pesada porta.

Estávamos num salão de aproximadamente 60 pés de comprimento com um teto abobadado e quatro janelas abertas. Apesar de as janelas serem largas, as vidraças eram pequenas e espessas, produzindo sombras escuras, embora ainda fosse dia. Num canto estava um estrado, onde ficava o grande piano e, no outro, uma galeria de trovadores. Havia uma estante junto da galeria e duas arcadas, através das quais vislumbrei uma passagem escura, bem como uma coleção de armas nas paredes e, ao fundo da escada, uma armadura.

-           O salão não é muito usado atualmente - disse a Sra. Lincroft. - Antigamente davam-se bailes aqui...e havia audições musicais. Porém, desde a morte da Sra. Stacy e desde que...Bem desde então, Sir William tem dado poucas festas. Um jantar ocasionalmente...mas é claro que usaremos o salão agora que há uma jovem senhora em casa. Creio que também haverá audições musicais.

-Espero que sim.

Tentei imaginar-me sentada ao grande piano. Podia ouvir o riso de Pietro. - Finalmente, uma concertista. Pela porta detrás, alguém diria... Não, pelo portão do castelo.

Quando a Sra. Lincroft se dirigiu para as escadas coloquei minha mão no corrimão entalhado e reparei os dragões e as criaturas de aparência feroz gravadas ali.

-Estou certa de que nenhum animal jamais se pareceu com estes.

A Sra. Lincroft deu um sorriso calmo e eu continuei: - Fico pensando por que eles sempre querem espantar as pessoas. Aqueles que gostam de assustar os outros, na maior parte das vezes, são medrosos. Essa é a resposta. Eles devem ter sido muito amedrontados...por isso essas criaturas de aparência feroz.

- Como dizem, planejadas para inspirar terror nos corações dos invasores...

- Estou certa de que o fazem com o maior sucesso. São as longas sombras...tanto como aquelas gravuras que são realmente fantásticas para serem verdadeiras, que dão uma sensação de ameaça.

- É sensível à atmosfera, Sra. Verlaine. Verá que não há fantasmas na casa. A senhora é supersticiosa?

-Isso é algo que todos negam até serem postos à prova.

-A senhora não devia estar aqui, num lugar como este, onde circulam histórias das gerações que viveram entre estas paredes seculares. Um criado vê a sua própria sombra e jura ter visto um fantasma. Fácil de acontecer, Sra. Verlaine, numa casa como esta.

-Acho que não terei medo de minha própria sombra.

- Eu encontrei um lugar nesta casa a tempo.

Ela estremeceu ligeiramente, como que afastando as memórias do passado. - Vamos primeiro à sala de estudos, onde mandarei servir o chá. Estou certa que está na hora.

Tínhamos alcançado uma galeria, onde estavam pendurados vários retratos, e notei alguns tapetes na parede, que pretendia examinar mais tarde, porque seus temas pareciam os mais intrigantes.

Ela abriu a porta e disse: - A Sra. Verlaine está aqui. Entramos num aposento imponente, onde estavam as três jovens.

Elas faziam um quadro interessante, uma sentada perto da janela, outra à mesa e a terceira, em pé, com as costas voltadas para a lareira, ornada com dois cães de bronze.

A que estava sentada perto da janela caminhou em minha direção e eu a reconheci imediatamente, pois já a vira caminhando pela nave principal da igreja junto com seu noivo. Ela parecia tão encabulada - estava insegura como agora. Imaginei-a em sua nova posição de dona de casa; e, sem dúvida, era incoerente pensar nela como tal. Parecia uma criança.

-Como vai, Sra. Verlaine? - Falou como se tivesse ensaiado as palavras dezenas de vezes. Quando sua frágil mão apertou a minha, senti pena e desejo de protegê-la. - Estamos satisfeitas por ter vindo - continuou de maneira formal.

Seus cabelos eram o que lhe dava charme. Tinham a cor de milho de agosto,e pequenos cachos aninhavam-se em sua testa e nuca. Era a única coisa que lhe dava vida.

Disse-lhe que estava feliz em estar ali e ansiosa para começar o meu trabalho.

-Eu também, para trabalhar com a senhora - disse ela, com um doce sorriso. - Allegra! Alice!

Allegra deixou a lareira e caminhou em minha direção. Seu cabelo escuro, grosso e encrespado estava amarrado com uma fita vermelha. Seus olhos eram pretos e insolentes, sua pele tendia para o pálido.

-Então a senhora veio para ensinar-nos música - disse ela.

- Espero que esteja ansiosa por aprender - respondi, um pouco áspera, pois a minha associação com as alunas, tal como o aviso da Sra. Rendall, disse-me para esperar problemas com esta.

- Deveria estar? - Oh, sim, ela iria ser problema.

- Se você deseja aprender piano, sim.

- Acho que não desejo aprender coisa alguma...pelo menos coisas ensinadas por professores.

- Talvez quando ficar mais velha e mais esperta mudará de opinião. - Então pensei que travar uma batalha verbal tão rapidamente seria um mau sinal.

Desviei o olhar para a terceira jovem, que estava sentada à mesa.

-Venha, Alice - disse a Sra. Lincroft.

Alice foi à minha frente e fez uma recatada reverência. Calculei que ela deveria ter a mesma idade de Allegra - aproximadamente 12 ou 13 anos; entretanto, sendo menor, parecia mais jovem. Ela irradiava polidez e usava um avental pregueado sobre um vestido de gabardina cinza; seu cabelo castanho-claro estava puxado para trás de seu rosto, muito severo, preso com uma tira de veludo azul.

- Alice será uma boa aluna - disse sua mãe, ternamente.

- Tentarei ser - respondeu Alice, com um sorriso encabulado.

- Mas Edith, digo, a Sra. Stacy é ótima aluna.

Sorri para Edith, que corou um pouco e disse: - Espero que a Sra. Verlaine também pense assim.

A Sra. Lincroft disse a Edith: - Pedi para que o chá fosse servido aqui. Desejava saber se gostaria de ficar e...

-Claro - disse Edith. - Gostaria de conversar com a Sra. Verlaine.

Notava que todos estavam um pouco embaraçados pelo novo status que Edith tinha adquirido na casa desde o casamento.

Quando o chá chegou, percebi que era servido como na sala de estudos de nossa casa - num grande bule de barro marrom e o leite num jarro chinês. A mesa foi coberta com uma toalha onde foi colocado pão, manteiga e biscoitos.

- Talvez queira contar à Sra. Verlaine como tem progredido em seus estudos - sugeriu a Sra. Lincroft.

- Estou ansiosa por ouvir.

- A Srta. Elgin recomendou-a, não recomendou? - disse Allegra.

- Isso mesmo.

- Então você costuma ser uma boa aluna.

- Claro.

Ela encolheu os ombros, rindo, como se a idéia de ser uma boa aluna fosse incoerente. Estava começando a entender que Allegra gostava de aparecer. Mas era Edith que me interessava - não só porque estava curiosa sobre sua vida, como por ser ela, uma jovem, a senhora desta grande casa, mas porque ela tinha talento. Podia sentir isso pela maneira como mudava ao falar sobre música. Vibrava e tornava-se quase confidencial.

Enquanto conversávamos uma criada veio avisar que Sir William estava chamando a Sra. Lincroft.

- Obrigada, Jane - disse ela. - Por favor, diga-lhe que irei dentro de poucos minutos. Alice, assim que acabar o chá mostre o quarto à Sra. Verlaine.

- Sim mamãe - disse Alice.

Logo que a Sra. Lincroft saiu a atmosfera mudou subitamente. Compreendi o que isso significava. A Sra. Lincroft dera-me a impressão de ser uma mulher extremamente requintada; havia uma certa firmeza nela, porém não me parecia pessoa de impor sua personalidade a uma jovem - particularmente a alguém tão impetuoso, como Allegra aparentava ser.

Allegra disse: - Esperávamos alguém mais velho. A senhora não é tão velha para ser uma viúva.

Três pares de olhos estudavam-me atentamente. Eu disse: - Realmente, fiquei viúva poucos anos depois de casada.

- Por que morreu seu marido? - insistia Allegra.

- Talvez a Sra. Verlaine prefira não falar sobre isso - sugeriu Edith, calmamente.

- Que bobagem - retrucou Allegra. - Todos gostam de falar sobre a morte.

Ergui as sobrancelhas. - É verdade - continuou a irreprimível Allegra. - Olhe para Cook. Ela irá até aos mais horríveis detalhes de seu drama quando a gente lhe pergunta, e às vezes mesmo sem ser perguntada. Ela sente prazer com isso. Logo, é bobagem dizer que as pessoas não gostam de falar sobre a morte, porque elas gostam.

-Talvez a Sra. Verlaine seja diferente de Cook - acrescentou Alice, numa voz tão fraca que mal se podia ouvir. Pobre Alice, pensei, sendo filha da governanta não é bem aceita entre elas, embora lhe seja permitido compartilhar de suas aulas.

Virei-me para ela e disse: - Meu marido morreu de um ataque cardíaco. É algo que pode acontecer a qualquer hora.

Allegra olhou para suas companheiras, como se esperasse vê-las sucumbir.

-Claro, - prosseguiu - há vezes em que os sinais de um ataque são iminentes. Pessoas que trabalham demasiado, que se aborrecem...

Edith disse timidamente: - Talvez devêssemos mudar de assunto. Gosta de ensinar, Sra. Verlaine? Tem ensinado a muita gente?

- Gosto de ensinar quando meus alunos correspondem, e tenho ensinado a alguns alunos.

- Como é que alguém corresponde? - Perguntou Allegra.

-Amando o piano? - sugeriu Edith.

É exatamente isso - disse. - Se a gente gosta de música, se gosta de dar o prazer que a música nos dá aos outros, tocaremos e adoraremos fazê-lo.

- Mesmo que não se tenha tal talento? - perguntou Alice, ansiosamente.

- Se você não tem talento para começar, poderá trabalhar muito e, pelo menos, adquirir habilidades. Porém, acredito que vocês todas nasceram com o dom da música. Proponho que comecemos nossas aulas amanhã. Ouvirei uma de cada vez e verei qual a que tem talento.

- Por que veio para aqui? - perguntou Allegra. - O que fazia antes?

- Ensinava.

- E os seus alunos? Não vão sentir sua falta?

- Não havia muitos.

- Bem, nós só somos três. Este não é um lugar de muita sorte para as pessoas.

- O que quer dizer?

Allegra olhava de maneira conspiratória para as outras.

-Houve umas pessoas que vieram escavar as nossas terras. Elas eram...

- Arqueólogas - interferiu Alice.

- Isso mesmo. Dizem que é errado perturbar os mortos. Eles gostam de repousar em paz e não querem que escavem os seus túmulos e seus lares. Dizem que lançam uma maldição que recai sobre quem os perturbar. Acredita nisso, Sra. Verlaine?

- Não, é uma superstição. Se os romanos construíram casas bonitas é porque queriam que nós soubéssemos o quanto eram inteligentes e adiantados.

- Sabia - disse Alice, rapidamente - que eles conservavam as casas aquecidas através de canos cheios de água quente? Quem nos contou foi a jovem senhora que morreu. Ela ficava satisfeita quando lhe perguntávamos sobre os romanos.

- Alice sempre tenta agradar a todos - disse Allegra.

-Sendo filha da governanta, sente que tem de agir assim.

Ergui as sobrancelhas a esta grosseria e olhei para Alice, fazendo-a entender que eu não fazia distinção.

- Agradando essa...essa arqueóloga, você pretendia mostrar-se interessada? - Sugeri.

- Mas nós estávamos interessadas - disse Alice - e a Srta. Brandon ensinou-nos muito sobre os romanos que viveram aqui. Quando ouviu falar na maldição ficou assustada e foi dominada por ela.

- Ela disse-lhe que estava assustada?

- Acho que foi isso que ela quis dizer. Ela disse: "De qualquer jeito estamos envolvidos com a morte. Logo, não é surpresa haver essa maldição."

- Ela quis dizer que não a surpreenderia haver um boato sobre a maldição.

- Talvez ela acreditasse - sugeriu Allegra. - É como ter fé. As pessoas da Bíblia foram curadas porque tinham fé. No caso, a fé teve efeito contrário e a Srta. Brandon desapareceu por causa dela.

- Então, você acha que se não tivesse acreditado na maldição ela não desapareceria? - Perguntei.

Houve um silêncio na sala de estudos. Então Alice disse:

-Talvez posteriormente eu pensasse que ela estava assustada. É fácil coisas como esta quando algo acontece.

Evidentemente, Alice era uma garota esperta, a despeito de sua humildade, ou talvez por causa dela. Podia imaginar como Allegra a tratava quando estavam a sós. Acho que devia ser uma vida de humilhações sem conta - o parente pobre a quem é dado um teto e aparentemente privilégios iguais, fazendo em troca serviços domésticos leves, e aceitando desfeitas daqueles que se julgam seus superiores. Senti-me cativada por Alice e acho que ela também.

-Alice é cheia de imaginação, ironizou Allegra. - Parson Rendall diz isso sempre que ela escreve um ensaio.

Alice corou e eu disse: - Isso é muito honroso, estou realmente desejosa de ensinar-lhe piano.

O lacaio veio anunciar que minhas malas tinham chegado e estavam no quarto amarelo, que tinha sido preparado para mim.

Agradeci-lhe e Alice disse, prontamente: - Gostaria que a levasse até lá, Sra. Verlaine?

Eu admiti que seria agradável.

Ela levantou-se e as outras a observaram. Decidi que mostrar quartos a pessoas era uma tarefa de empregados de categoria, da classe a que Alice pertencia.

Ela disse polidamente: - Quer seguir-me, Sra. Verlaine? -e começou a subir a escada.

-Este tem sido seu lar durante muito tempo? - disse eu.

- Na realidade nunca conheci outro. Mamãe voltou para aqui quando eu estava com dois anos.

- Sem dúvida, é impressionante.

Alice colocou a mão no balaústre e olhou para as figuras gravadas lá. - É uma casa antiga encantadora, não é, Sra. Verlaine? Não gostaria nunca de sair daqui.

-Talvez mude de idéia quando ficar mais velha. Talvez se case, e isso se torne coisa mais importante para você do que ficar aqui.

Ela voltou-se e olhou para mim, de maneira espantada. - Espero ficar nesta casa e ser uma espécie de companhia para Edith.

Ela suspirou, virando-se e subindo as escadas. Havia um ar de resignação nela e eu a imaginei primeiro como uma jovem, depois como uma mulher de meia-idade e uma velha - nem da família, não pertencendo ao rol dos servos; chamada nos momentos de crise na família. Pequena Alice, para o aceno e chamado de todos, sem nenhuma importância, exceto quando alguma tarefa desagradável tinha de ser feita.

Ela virou-se subitamente e sorriu. - No fim das contas é o que quero. - Encolheu os ombros. - Eu amo esta casa. Há tantas coisas interessantes nela...

- Estou certa que sim.

- Sim - disse ela, quase suspirando. - Há um quarto onde se supõe que um rei se hospedou. Acho que foi Charles I, durante a Guerra Civil. Suponho que estava com medo de ir para o Castelo de Dover; então, ele veio para cá. Agora é a suite nupcial. É tida como mal-assombrada, mas o Sr. Napier não liga para isso. A maioria das pessoas ligaria. Edith liga. Edith está aterrorizada...mas ela está sempre assim. Porém, Napier acredita ser para seu bem fazê-la encarar o que teme. Tem de aprender a ser corajosa.

- Conte-me sobre isso - disse, na esperança de ouvir mais a respeito de Napier e sua esposa; contudo, ela se limitou a descrever o quarto.

- É um dos maiores da casa. Eles devem ter dado o melhor para o rei, não devem? Há uma lareira de tijolo que, segundo o pastor, tem um arco e câmara. O pastor é muito entendido em antigüidades... casas antigas, móveis... qualquer coisa antiga.

Caminhamos por uma galeria semelhante à do andar térreo, onde Alice parou e abriu uma porta.

-Este é o quarto que mamãe escolheu para a senhora. É chamado o quarto amarelo por causa da cor das cortinas e do tapete. A colcha também é amarela. Olhe.

Ela abriu a porta. Vi as minhas malas no assoalho e percebi imediatamente as cortinas amarelas na grande janela, os tapetes e a colcha numa cama de quatro colunas. O teto era alto e um candelabro pendia dele; mas havia sombras escuras no quarto, pois, como na maior parte das janelas da casa, esta tinha vidraças opacas, cor de chumbo, que impediam a entrada da luz. Era grandioso, para quem tinha vindo apenas ensinar música. Imaginei como seria o quarto de Napier - aquele que fora ocupado pelo rei.

-Há um gabinete muito pequeno. Mas será seu quarto de vestir. Gostaria que a ajudasse a desfazer as malas?

Agradeci-lhe e disse-lhe que me arranjaria.

-A vista é linda - disse ela, indo até à janela. Eu atravessei o quarto e fiquei ao lado dela. Olhei para o gramado, para o bosque e para o mar longínquo, quebrando suas ondas no rochedo.

- Gosta, Sra. Verlaine? - disse, observando-me.

- Acho que é encantador.

- É lindo - tudo isso. Mas por aqui dizem que esta é uma casa azarada.

- Por quê? Por causa da senhorita que desapareceu misteriosamente quando...?

- A senhorita quer dizer a mulher das escavações. Na realidade, ela não tinha nada a ver com a casa.

- Mas você a conhecia e ela trabalhou nas terras junto desta casa.

- Eu não estava pensando nela.

- Então há alguém mais?

Alice assentiu. - Quando o filho mais velho de Sir William morreu, todos disseram que foi... mau agouro.

-Mas há Napier.

-Napier era seu irmão. O outro chamava-se Beaumont. Beau, para todos. O nome ia-lhe bem, porque ele era bonito. Depois morreu...e Napier foi mandado embora. Ficou longe, até voltar para se casar com Edith. Sir William e a Sra. Stacy nunca superaram isso.

-Como ele morreu? Foi um acidente?

-Pode ter sido; mas também pode não ter sido. - Ela colocou os dedos nos lábios. - Mamãe proibiu-me de falar sobre isto.

Não podia instigá-la agora; não obstante, ela acrescentou: - Acho que é por isso que chamam esta casa de azarada. É assombrada por Beau. Porém, não sei se eles querem dizer que ele é um fantasma que vagueia pela noite ou se apenas não o podem apagar da memória. De qualquer jeito é uma espécie de assombração, não é? Mamãe ficaria zangada se soubesse que mencionei o fato. Por favor, não lhe conte; promete esquecer o assunto?

Ela parecia tão patética, suplicando-me desta maneira, que lhe disse que não mencionaria nada; então, mudou de assunto imediatamente.

Ela disse: - Está claro hoje. Não suficientemente claro para ver a costa da França, mas poderá ver as areias de Goodwin se os seus olhos forem muito bons. Bem, a senhora não poderá ver exatamente as areias, mas notará as ruínas. - Ela apontou e eu olhei na direção que ela indicou.

-Posso ver algo parecido com destroços.

-É isso mesmo - é tudo que pode ver. São mastros de navios que há muito foram tragados pelas areias. Já ouviu falar sobre as areias, Sra. Verlaine? Areias movediças... Os barcos caem nelas e não podem sair. Eles se tornam presa de uma garra tão feroz que nada os poderá soltar, e aos poucos começam a afundar nas areias. - Ela olhava para mim.

-Horrível! - disse eu.

-Não é? Os mastros estão sempre lá para nos lembrar. Poderá vê-los facilmente num dia claro. Há um farol para alertar os navios, que fica brilhando durante a noite. Porém alguns deles ainda caem nas areias movediças.

Retirei-me da janela e Alice falou: - Naturalmente quer desfazer as malas agora...Espero que jante comigo e com minha mãe. Perguntarei a ela qual será o programa. Imagino que Sir William a mandará chamar. Voltarei dentro de uma hora.

Então saiu do quarto e eu comecei a desfazer as minhas malas. Meus pensamentos saltavam da Sra. Lincroft para sua filha e para Allegra, que muito provavelmente iria causar-me problema; para a frágil Edith, que era a mulher de Napier; para o fantasma de Beau, aquele que sofrera um acidente e que se acreditava, de uma maneira ou de outra, ser a assombração do lugar.

Mentalmente, ouvi a água batendo contra os rochedos e vi os mastros emergindo das areias traiçoeiras.

Em 15 minutos aprontei-me e decidi examinar o local. Percorri o meu quarto, observando os detalhes. O pano que forrava as paredes era de brocado e devia estar lá há anos, porque se achava um pouco esmaecido em alguns lugares. A alcova abobadada, os tapetes e os candeeiros na parede. Então fui à janela e olhei através dos jardins para a mata e o mar. Procurei os mastros dos navios afundados, mas não consegui vê-los.

Tinha que esperar aproximadamente três quartos de hora; assim, resolvi dar uma olhada nos jardins. Estava certa de que voltaria na hora.

Vesti um casaco, dirigi-me ao saguão e saí para o pátio superior. Passando sob uma arcada desci um lance de escadas de pedra; à minha frente havia um terraço, dando para o gramado cercado de flores que provavelmente ficaria glorioso na próxima primavera e verão. Plantas de rocha cresciam na pedra - moitas de flores brancas e azuis. O efeito era encantador.

Não havia árvores, a não ser feixes espessos que pareciam estar ali há séculos; entretanto, os arbustos eram numerosos. No momento um estava coberto de flores amarelas em forma de sino, a cor do sol, pensei - mas isto era o início da primavera, e outra vez imaginei o colorido que haveria mais tarde.

Abri caminho entre os arbustos e fui até uma arcada de pedra, coberta de hera. Atravessei-a, chegando a um jardim murado, onde havia um pequeno lago com lírios aquáticos ladeados com dois bancos. Era encantador e imaginei-me vindo aqui no tempo quente de verão nos intervalos das aulas. Deveria ter algumas horas livres, pois estava planejando um programa para as meninas; apesar de pretender ensinar uma de cada vez todos os dias, parecia que ainda teria tempo livre. Havia aquela sugestão de tocar para Sir William. Qual seria o resultado disso tudo? Toda sorte de possibilidades se me apresentavam. Via-me naquele salão, tocando para uma grande audiência.

Vagueava fora dos jardins murados quando comecei a voltar. Atravessei o terraço, passando por poderosos alicerces, e olhei para aquelas paredes cinzentas, sacadas antigas e aquelas carrancas odiosas. Pensei como seria fácil perder-me.

Tentando achar o caminho para os pátios fui parar nos estábulos. Quando passava por um assento de pedra, que deve ter sido usado pelas senhoras da casa durante séculos, pois estava muito gasto, Napier Stacy saiu dos estábulos, trazendo um cavalo. Senti-me embaraçada por ter sido pega vagueando, o que gostaria de ter evitado, porém era tarde, ele já me tinha visto.

Ficou calado, olhando para mim de maneira enigmática, imaginando quem ousaria invadir os seus domínios. Alto, esbelto, pernas afastadas, belicoso e arrogante. Imediatamente pensei na frágil Edith casada com tal homem. Pobre criança! Eu não gostava dele, das espessas sobrancelhas escuras sobre aqueles brilhantes olhos azuis. Eles não tinham o direito de ser tão azuis - pensei, sem lógica - naquele rosto sombrio. Seu nariz era longo e ligeiramente proeminente, sua boca muito fina, como se estivesse escarnecendo do mundo. Oh, certamente não gostava dele.

- Boa tarde - disse, em tom de desafio. Era a atitude adequada para enfrentar aquele homem.

- Acho que não tenho o prazer... - disse a última palavra cinicamente, demonstrando que queria dizer o contrário - ou seria a minha imaginação?

- Sou a professora de música. Acabei de chegar.

- Professora de música? - Fez um movimento com aquelas negras sobrancelhas. - Oh, agora me lembro. Ouvi algo a respeito. Então...veio inspecionar os estábulos?

Fiquei confusa. - Não tinha planejado fazê-lo. Nem tive a intenção de vir aqui. - Disse eu bruscamente.

Ele balançou-se nos calcanhares e mudou de atitude. Não tive certeza se para melhor ou para pior.

Acrescentei: - Não vejo mal algum em dar uma volta por aqui.

- Alguém sugeriu que havia algum mal numa ação tão inocente?

- Pensei que talvez o senhor... - Prossegui, e ele aguardou, gozando, sim, gozando a minha confusão. Continuei ousadamente. - Pensei que tivesse objetado.

- Não me lembro de ter feito isso.

- Bem, se não se importa continuarei com o meu passeio.

Afastei-me; e, ao fazê-lo, passei por trás do cavalo. Num segundo Napier Stacy estava a meu lado. Segurou meu braço com força e puxou-me violentamente, enquanto o cavalo escoiceava. Seus olhos azuis brilhavam como fogo. Seu rosto mostrava-se cheio de desprezo. - Valha-me Deus, não sabe fazer coisa melhor do que isso?

Olhei-o, indignada; ele ainda agarrava o meu braço e o seu rosto estava tão perto do meu que podia ver o branco de seus olhos e o brilho de seus dentes.

-Quem é o senhor... - Comecei eu.

Mas ele logo me silenciou. - Minha boa mulher, não sabe que nunca se deve passar por trás de um cavalo? Podia levar um coice mortal, ou ficar, num segundo, muito ferida.

-Eu...Eu não fazia idéia.

Ele desprendeu sua garra de meu braço e acariciou a cabeça do cavalo. Sua expressão mudou. Como era gentil! Como achava muito mais atraente um cavalo do que uma intrometida professora de música! Então, voltou-se para mim. - Se eu fosse a senhorita não viria aos estábulos sozinha.

-Senhora - disse eu, com dignidade. - Sra Verlaine - e esperei para ver o efeito que a minha condição de casada lhe causaria; contudo, ficou claro que o fato não lhe importava.

- Pelo amor de Deus, não volte aos estábulos se for para proceder dessa maneira idiota. Quando o cavalo escuta barulho atrás, naturalmente se defende, dando coices. Nunca mais faça isso.

- Suponho - disse-lhe friamente - que queira que lhe agradeça...

- Lembro-lhe. Para o futuro tenha um pouco de senso prático.

- O senhor é muito bondoso, agradeço-lhe por preservar a minha vida, mesmo que desajeitadamente.

Sorriu levemente, mas não esperei por mais. Comecei a voltar, horrorizada por estar tremendo.

Ainda sentia suas mãos e imaginei que iria ficar manchada por vários dias. Foi muito perturbador. Como poderia prever que seu desgraçado cavalo iria dar coices? Senso prático, disse ele... Ora, havia gente que se interessava mais por seres humanos do que por cavalos. Como tinha mudado a expressão de seu rosto quando se voltara para o cavalo! Não gostava dele. Lembrei-me de Edith, em seu casamento, vindo pela nave principal da igreja de braço dado com ele. Ela tinha medo. Que espécie de homem era ele, que assustava uma garota? Esperava não ter de vê-lo muitas vezes. Tirá-lo-ia de minha cabeça. Pietro o desprezaria à primeira vista. Aquela completa...o que era...virilidade, masculinidade - teria irritado Pietro. Um Filisteu, comentaria Pietro - uma criatura sem sensibilidade.

Contudo não conseguia tirá-lo do pensamento.

Encontrei o caminho de meu quarto. Lá, sentei-me à janela, olhando para fora, não a água verde-acinzentada, mas o desprezo naqueles olhos azuis.

Então a Sra. Lincroft veio a meu quarto dizer-me que Sir William queria me ver.

Assim que fui apresentada a Sir William notei a semelhança entre ele e Napier. Os mesmos olhos azuis penetrantes, o nariz comprido, os lábios finos e alguma coisa mais sutil - aquele olhar desafiante contra o mundo, que era baseado em arrogância.

No caminho a Sra. Lincroft explicara-me que Sir William estava meio paralítico, devido a um ataque cardíaco que tinha sofrido há um ano atrás. Isto significava que ele se movia com grande dificuldade. Eu estava começando a colocar as coisas nos seus devidos lugares e imaginei que o enfarte, provavelmente, teria sido uma outra razão para Napier voltar.

Ele estava sentado em sua cadeira de rodas e a seu alcance tinha uma bengala, com um cabo revestido com o que imaginei ser lazulita, e usava um robe com golas e punhos de veludo.

Era evidentemente muito alto e parecia-me infinitamente patético que tal homem fosse incapacitado, pois naturalmente já fora forte e viril como seu filho. Cortinas pesadas de veloir estavam puxadas e ele, sentado contra a luz, como se estivesse determinado a evitá-la. O tapete era espesso, anulando o barulho de meus passos.

A mobília, - o grande relógio de ouropel, a escrivaninha de tartaruga e madrepérola, as mesas e as cadeiras - tudo era pesado, dando um efeito deprimente.

A Sra Lincroft disse em sua voz calma mas autoritária: - Sir William, esta é a Sra. Verlaine.

-Ah, Sra. Verlaine. - Havia uma ligeira hesitação em sua voz, que me comoveu. Talvez fosse devido a meu recente encontro com seu filho, ou da grande mudança que a doença trouxe para aquele homem. - Por favor, sente-se.

A Sra. Lincroft colocou imediatamente uma cadeira em frente de Sir William, tão perto que compreendi que sua visão estava falhando também.

Sentei-me e ele disse: - Tem boas qualificações, Sra. Verlaine. Estou satisfeito. Acho que a Sra. Stacy tem algum talento e gostaria que fosse desenvolvido...Imagino que ainda não teve tempo de descobrir...

-Não - respondi. Mas já conversei com as jovens. - Ele assentiu. - Quando soube quem era fiquei imediatamente interessado.

Meu coração acelerou-se. Se ele soubesse que eu era irmã de Roma, adivinharia o porquê de minha vinda.

-Nunca tive o prazer de ouvir seu marido tocar.

É claro que estava se referindo a Pietro. Como eu estava nervosa!

-Ele era um grande músico - disse eu, tentando esconder a emoção que sentia ao se falar dele.

-Achará a Sra. Stacy bem menos dotada.

- Há muito poucas pessoas vivas que possam ser comparadas a ele - disse, com orgulho; então ele inclinou a cabeça, num breve sinal de respeito a Pietro.

- De vez em quando pedir-lhe-ei que toque para mim. E talvez ocasionalmente para os nossos convidados. Isso fará parte de seus deveres.

-Compreendo.

- Agora gostaria de ouvi-la tocar. - A Sra. Lincroft estava subitamente a meu lado.

- Há um piano na sala vizinha - disse ela. Lá encontrará a peça que Sir William deseja ouvir:

A Sra. Lincroft puxou uma pesada cortina, atrás da qual estava uma porta. Abriu-a e eu a segui. A primeira coisa que notei foi um magnífico piano. Estava aberto, com uma peça de música em cima. A sala era decorada com as mesmas cores da que tinha deixado; e havia a mesma indicação de que o dono não queria muita luz.

Fui para o piano e olhei a música. Conhecia todas as notas de cor. Era Pour Elise, de Beethoven, na minha opinião uma das mais bonitas peças já escritas. A Sra. Lincroft fez-me um sinal; sentei-me ao piano e toquei. Estava profundamente comovida, pois a peça trazia-me recordações da casa em Paris e de Pietro. Ele comentara sobre esta peça: - Romântica...assustadora...misteriosa. Você não pode errar numa peça como esta. Com ela pode enganar-se e pensar ser uma grande pianista.

Assim, ao tocar, esqueci o velho homem triste na sala ao lado, o homem descortês nos estábulos. A música exercia esse efeito em mim. Sou duas pessoas - a artista e a mulher. A última é pratica, um pouco grosseira em seu desafio com o mundo, porque ela tinha sido ferida e não pretendia sê-lo outra vez, silenciando suas emoções, seus sentimentos, fingindo que eles não existem porque ela tem medo deles.

Mas a artista é toda emoção, toda sentimento; quando toco, penso que estou sendo levada para longe do mundo, que tenho senso especial, possuindo um entendimento comum negado às pessoas comuns. E à medida que ia tocando senti que esta sala, que tinha sido escura e triste por muito tempo, ficara subitamente viva outra vez e que tinha revivido alguma coisa que há muito estava esquecida. Na imaginação, sim. Mas, música não é coisa mundana. Os grandes artistas tiraram sua inspiração da influência divina... e apesar de eu não ser grande, era pelo menos uma artista.

Acabei de tocar e a sala voltou ao normal. A magia tinha desaparecido. Senti que nunca fizera melhor justiça a Elise e, se o mestre tivesse superado sua surdez e a tivesse ouvido, não teria ficado descontente.

Havia silêncio. Permaneci sentada, esperando. Então, como nada aconteceu, levantei-me e passei pela porta, puxando a cortina para o lado. Sir William estava recostado em sua cadeira, com os olhos fechados. A Sra. Lincroft, que estivera a seu lado, veio de mansinho a meu encontro.

-Foi muito bem - sussurrou. - Ele ficou muito emocionado. Acha que poderá encontrar o caminho para seu quarto sozinha?

Eu disse que sim e saí, desejando saber se a música tinha tocado tanto Sir William a ponto de ficar doente. Pelo menos a Sra. Lincroft sentiu que devia ficar com ele. Que conforto ela devia ser para ele - muito mais do que uma simples governanta! Não admirava que ele quisesse recompensá-la, dando à sua filha, Alice, toda vantagem de educação e de instrução.

Pensando em Sir William, na Sra. Lincroft, e, é claro, no meu encontro com Napier Stacy, não achei o caminho de volta tão facilmente como imaginara. A casa era enorme; havia muitos corredores e escadas parecidos; contudo, era quase incompreensível que me tivesse perdido.

Assim que pisei naquele quarto, sabia que havia algo estranho nele. Tinha um ar estudado de simplicidade, dando a impressão de que seu ocupante tinha partido há pouco. Um livro estava aberto na mesa. Aproximei-me e vi uma coleção de selos, um chicote sobre a cadeira e, na parede, havia uma fotografia de soldados em vários uniformes. Sobre a lareira tinha um retrato de rapaz. Fui até lá olhá-lo, pois era um estudo fascinante. Seu cabelo era castanho, seus olhos azuis, seu nariz comprido, como o de um falcão, e a boca curvava-se num sorriso. Era um dos rostos mais lindos que já vira. Claro que sabia quem era ele. Era o lindo irmão que tinha morrido, e eu tinha entrado no quarto que fora dele. Eu estava arrepiada, porque sabia que não tinha o direito de entrar neste sacrário de santos. Como achei difícil desviar minha atenção daquele rosto na tela. O retrato estava pintado de tal maneira que os olhos pareciam seguir a gente, não importa para onde. Quando mudei de posição, fixando-me no retrato, os olhos azuis observaram-me, às vezes ficando tristes num momento e sorrindo no outro.

-Ah, ah - ouvi um alto riso, compassado, dando-me calafrios na espinha. - Está olhando para Beau?

Virei-me e por um momento pensei que fosse uma criança atrás de mim. Então, notei que de jeito algum era uma criança. Devia ter uns 70. Mas usava um traje azul esmaecido de cambraia e, em volta da cintura, uma tira de cetim. Seu cabelo era branco, porém usava uma fita azul de cada lado. A saia pregueada ficaria muito melhor em Edith do que naquela mulher.

- Sim, - disse ela - você está procurando Beau. Sei que está, por isso não negue.

- Sou a nova professora de música.

- Eu sei disso. Sei de tudo que se passa nesta casa. Mas isso não prova que não esteja procurando Beau, prova?

Estudei-a cuidadosamente; ela tinha um rosto em forma de coração e devia ter sido muito bonita em sua juventude.

Certamente era muito feminina e decidira manter essas qualidades; o vestido e os laços evidenciavam isso. Tinha olhos azuis brilhantes, faiscando-lhe por entre rugas, numa espécie de travessura, e um pequeno nariz achatado, como o de um gatinho.

- Eu acabei de chegar - expliquei-lhe. Estava tentando...

- Procurar Beau - terminou ela. - Eu sei que acabou de chegar e queria encontrá-la. Evidentemente você já ouviu falar de Beau? Todos ouviram falar dele.

- Desejava saber se você era suficientemente delicada para apresentar-se a si mesma.

- Claro, claro. Que falha a minha! - Riu forçadamente.

-Pensei que tivesse ouvido falar de mim, assim como ouviu falar de Beau. Sou a Srta. Sybil Stacy, irmã de Sir William, e tenho vivido nesta casa toda minha vida; assim, vejo e sei tudo que se passa.

- Isso deve ser agradável para a senhora.

- Ela olhou para mim atentamente. - Você é uma viúva -disse ela. - Então é uma mulher experiente. Foi casada com aquele homem famoso, não foi? E ele morreu. Isso foi triste. A morte é sempre triste. Nós também tivemos mortes nesta casa...

Seus lábios tremeram e pensei que ela fosse chorar. De repente ficou alegre como uma criança. Mas agora Napier voltou; casou com Edith; virão crianças. Tudo será melhor. As crianças vão fazer chegar tudo a seus lugares. Ela olhou para o retrato. Talvez até Beau se vá.

Seu rosto enrugou-se.

- Ele está morto, não está? - Perguntei gentilmente.

- Os mortos nem sempre partem, partem? Às vezes decidem ficar. Não podem separar-se daqueles com quem viveram. Às vezes é por amor; às vezes por ódio. Beau ainda está aqui. Não pode descansar. A vida era muito boa para ele. Ele tinha tudo. Beleza, charme e era brilhantemente inteligente. Quando tocava piano provocava lágrimas. Logo, não gostaria de partir desta vida que era perfeita para ele, gostaria?

-Talvez tenha achado uma perfeição maior.

Ela sacudiu a cabeça e bateu os pés, num gesto infantil.

- É impossível. Beau não poderia ser mais feliz em nenhum outro lugar... nem na terra nem no céu. Por que Beau tinha de morrer, você sabe?

- Porque chegou a sua hora - sugeri. - Acontece assim de vez em quando. Pessoas jovens morrem. - Pietro, Roma, pensei. Senti meus lábios tremerem.

- Oh, ele era bonito. - disse ela. Levantou seus olhos para o retrato, como se estivesse diante de algum deus. - Aquele era ele...em vida. O retrato parece falar com a gente. Nunca esquecerei aquele dia. Sangue...sangue...

Seu rosto tremeu e eu disse: - Por favor, não pense nisso. Deve-lhe ser muito triste.

Aproximou-se de mim. Toda dor já tinha deixado seus olhos azuis, que faiscavam com aquele jeito travesso, mais alarmante do que seu pesar.

-Fizeram autópsia. O médico insistiu. Disse que a culpa não fora de Napier. Eles estavam brincando com os revólveres - como fazem os meninos. "Mãos ao alto ou eu atiro!", disse Napier. E Beau respondeu: "Eu atiro primeiro." Pelo menos foi o que Napier nos contou. Mas ninguém estava lá para ver. Eles estavam numa sala de armas. Então Beau arrancou o revólver e Napier atirou. Napier disse que ambos pensaram que os revólveres não estavam carregados. Mas você sabe, eles estavam.

- Que acidente horrível!

- Nada foi igual, desde então.

- Mas foi um acidente.

- Está muito segura, Ca...

- Caroline Verlaine.

- Eu devia lembrar-me. Nunca esqueço um nome. Nunca esqueço um rosto. É uma pessoa segura. E ainda não tem um dia de permanência aqui.

- Claro que não sei de nada, - disse eu - mas posso imaginar que duas crianças brincando juntas tenham um acidente. Não é a primeira vez que acontece.

Ela suspirou. - Napier tinha ciúmes de Beau. Todos sabiam disso. Nem podia ser de outra forma. Beau era tão bonito - ele sabia fazer de tudo. Costumava desafiar Napier de várias maneiras.

-Então não devia ser tão maravilhoso - disse eu, asperamente. Gostaria de saber por que queria proteger Napier.

Eu desejava por justiça para o menino e não para aquele arrogante homem dos estábulos.

- Só de brincadeira. Ele era tão brincalhão... Napier, bem, ele era muito diferente.

- De que forma?

- Difícil. Tinha sua própria vida. Estava sempre sozinho. Não gostava de praticar piano.

- Eles sempre admiraram música nesta casa.

- A mãe dele tocava piano maravilhosamente. Tão bem quanto você. Oh, sim, acabei de escutá-la. Podia acreditar que ela voltara. Isabella podia ter sido uma grande pianista, segundo ouvi dizer. Mas parou de estudar quando se casou. William não deixou que ela continuasse. Queria que ela tocasse só para ele. Você entende?

- Não - respondi. - Acho que ele devia ter permitido que ela prosseguisse com os estudos. Quando se tem talento não se deve jogar fora.

- A parábola dos talentos - falou, com os olhos resplandecentes de prazer. - Era o que Isabella pensava. Ela era... reservada.

Senti simpatia por Isabella. Abandonara a carreira pelo casamento, como eu fizera.

Senti aqueles olhos juvenis penetrarem em mim.

Então, voltou-se mais uma vez para o retrato. Vou contar-lhe um segredo, Caroline. Aquilo é trabalho meu.

-Então a senhora é uma artista.

Ela colocou as mãos para trás e confirmou com um gesto.

- Que interessante!

- Oh, sim, eu pintei aquele quadro.

- Quanto tempo antes de sua morte ele posou para a senhora?

- Posar? Ele nunca posaria para coisa alguma. E para que eu desejaria isso? Eu o conhecia. Podia vê-lo claramente então, como o vejo agora. Não precisava que ele posasse. Só pinto as pessoas que conheço.

- Isso é uma ótima qualidade.

- Gostaria de ver mais das minhas pinturas?

- Estou muito interessada.

- Isabella era muito inteligente, mas não era a única. Agora venha a meus aposentos. Tenho uma suite própria. Houve uma época em que devia tê-la deixado. Ia casar-me. - Seu rosto tremeu e eu pensei que ela fosse cair em pranto. – Porém não me casei e, assim, continuei aqui. Tenho o meu lar e as minhas pinturas...

-Sinto muito - disse eu.

Ela sorriu. - Talvez a pinte um dia. Será quando aprender a conhecê-la. Então verei como pintá-la. Agora venha comigo.

Estava fascinada com esta estranha mulherzinha. Ela fez uma pirueta e vi suas chinelas de cetim preto aparecendo debaixo de sua saia azul. Havia travessura em seu sorriso. Como eu disse, ela parecia uma garota travessa, intrigando-me a maneira como ela combinava a sua face enrugada com aquele jeito, e ainda assim um pouco sinistra, Pensava no que iria ver em seus aposentos e se ela era realmente responsável pelo retrato do Beau.

Subimos e fomos por corredores. Ela olhou para mim por cima do ombro, dizendo: - Agora você está perdida, não está? - numa maneira de criança atrevida.

Admiti que estava, contudo afirmei que acharia o caminho em três tempos.

-Tempo... disse ela baixinho. - Talvez. Mas o tempo não ensina nada, ensina? O tempo cura, dizem eles, mas nem tudo que dizem é verdade, é?

Como não queria entrar em discussão não tentei discordar dela, e sorrindo ela prosseguiu.

Finalmente, chegamos ao que ela chamava de suite. Estávamos numa das torres e, alegremente, ela mostrava-me os aposentos.

Eram três cômodos na torre grande. - E um círculo - ela apontou. - Um cômodo leva ao outro. Em qualquer direção que caminhe volta sempre onde começou. Não é original? Quero mostrar-lhe meu estúdio. Dá para o norte. A luz é muito importante para uma pintora. Entre, e verá alguns de meus trabalhos.

Entrei. As janelas eram maiores neste quarto do que nos outros e a luz do norte era forte. Sua aparência jovem era severamente contestada naquele quarto; os lacinhos, a túnica azul com a tira de cetim, as chinelas não eram o bastante para esconder as rugas e as manchas castanhas nas mãos que pareciam garras. Entretanto, ela não perdera nada de sua animação. Os aposentos eram decorados com simplicidade; em cada um havia uma porta dando para o outro; nas paredes havia vários quadros e as telas estavam arrumadas num canto; na mesa estava uma palheta; num cavalete, uma pintura inacabada de três jovens. Reconheci imediatamente Edith, Allegra e Alice. Ela seguiu meu olhar.

-Oh - disse ela. - Venha e olhe.

Cheguei mais perto. Ela observava ansiosamente as minhas reações. Examinei o quadro. Edith com seu cabelo dourado, Allegra com seus cachos escuros e grossos e Alice circunspecta, com uma fita branca segurando seu longo cabelo castanho-claro.

- Você as reconhece?

- Claro, estão muito parecidas.

- Elas são jovens, seus rostos não dizem nada, dizem?

- Juventude... inocência... inexperiência...

-Não dizem nada, mas se as conhecer bem pode ver nos seus rostos que elas refletem o mundo. Isso é um dom de artista, você não acha? Saber o que estão tentando esconder.

-Isso faz o artista mais assustador.

- Uma pessoa a ser evitada. - Seu sorriso era fixo e juvenil. Olhou para mim, com aqueles olhos de criança, e senti-me sem graça. Estaria tentando descobrir meus segredos? Estaria vendo a minha vida tempestuosa com Pietro? Tentaria penetrar em meus motivos? O que aconteceria se ela descobrisse que eu era irmã de Roma?

- Tudo dependeria, observei - se alguém tiver alguma coisa para esconder...

- Todos têm algo a esconder, não têm, Caroline Verlaine? Pode ser uma única coisa, mas será um segredo próprio. Pessoas mais velhas são mais interessantes do que as mais novas. A natureza é uma artista. A natureza revela toda espécie de coisas nos rostos das pessoas que talvez elas preferissem esconder.

-A natureza também apresenta coisas agradáveis.

-Você é uma otimista. Posso perceber isso. É como a senhorita que veio aqui escavar.

Minha inquietação aumentou. - Como... - Comecei.

Ela prosseguiu: - William não queria que perturbassem o lugar, mas ela era tão persistente... Esta não o deixaria em paz se ele não dissesse sim. E eles vieram aqui procurar ruínas romanas. Nada tem sido o mesmo desde então.

- A senhora encontrou-se com essa senhorita?

- Oh, sim. Eu gostaria de saber o que lhe aconteceu.

- Ela foi a única que desapareceu?

Ela concordou vivamente, com seus olhos perdidos entre as rugas.

- Sabe por quê? - disse ela.

- Não.

- Intrometidos. Eles não gostam deles.

- Quem?

- Os mortos, os que partiram. Eles não partem todos juntos. Eles voltam.

- Quer dizer - os romanos?

-Os mortos. Você pode sentir todos à sua volta. Chegou mais perto de mim e murmurou: - Acho que Beau não gostou da vinda de Napier. Na realidade, sei que não. Ele me disse.

-Beau disse-lhe!

-Em sonhos. Nós éramos íntimos... Ele era o meu menino. Aquele que deveria ter tido. Retratei-o... exatamente como Beau. Era ótimo quando Napier não estava perto. Foi certo e apropriado tê-lo mandado embora. Por que deveria Beau partir e ele ficar? Não seria limpo. Não era direito. Mas agora voltou e isso é mau, eu lhe digo. Um momento. - Ela foi até o lugar das telas e tirou uma. Colocou-a na parede e eu suspirei, com horror. Era o retrato de um homem. O rosto era malvado, o nariz de falcão fora acentuado, os olhos foram estreitados, a boca estava curvada repulsivamente. Eu reconheci Napier.

- Reconhece-o? - Perguntou.

- Não é realmente como ele - disse eu.

- Pintei-o depois de assassinar o irmão.

Senti-me indignada. Pelo garoto, disse para mim mesma, furiosamente.

Ela estava observando o meu rosto e riu.

-Compreendo, você vai tomar o lado dele. Você não o conhece. Ele é malvado. Tinha ciúmes do irmão, do bonito Beau. Queria o que Beau possuía, por isso o matou. Ele é assim, eu sei disso. Os outros também.

-Estou certa de que há alguns que...

Ela interrompeu-me. - Como pode ter certeza? O que sabe? Você acha que William o trouxe e o casou com Edith... William também é um homem duro, como todos os homens desta casa... exceto Beau. Beau era bonito. Beau era bom. Ele morreu. - Ela virou-se. - Desculpe-me, eu ainda sinto. Nunca o esquecerei.

-Compreendo. - Virei as costas ao retrato de Napier. - Foi muita bondade sua mostrar-me os quadros. Estava tentando voltar para meu quarto. Devem estar precisando do mim.

Ela assentiu. - Espero que algum dia veja mais de meus quadros.

- Gostaria - disse eu.

- Breve? - Pediu, como uma criança.

- Se a senhora me convidar.

Ela concordou, feliz, e tocou a campainha. A empregada chegou e ela pediu para conduzir-me a meus aposentos.

Quando cheguei lá, Alice esperava-me. Ela disse: - Vim para dizer-lhe que jantará comigo e com mamãe esta noite e que virei apanhá-la às 7 horas.

- Obrigada - respondi.

- Parece assustada. Sir William foi gentil com a senhora?

- Sim. Toquei para ele. Acho que gostou. Mas perdi o caminho e encontrei a SrtaStacy.

- Alice sorriu, compreensiva. - Ela é um pouco - estranha. Espero que não a tenha aborrecido.

- Levou-me a seu estúdio,

Alice ficou surpresa. - A senhora deve ter despertado o interesse dela. Ela mostrou-lhe os quadros?

- Sim. Vi um seu com a Sra Stacy e Allegra.

- Viu? Ela não nos disse que nos estava pintando. Está bom?

- Está parecidíssimo.

- Gostaria de vê-lo.

- Naturalmente ela o mostrará a vocês.

- Às vezes é um pouco excêntrica. Isto porque teve uma desilusão no amor. A propósito, notou alguma coisa estranha em nossos nomes, Sra. Verlaine?

- Seus nomes?

- Nós três... suas alunas.

- Alice, Edith e Allegra. Allegra é original.

- Oh, sim, mas os três juntos... Eles dão um poema. Eu gosto de poesia; e a senhora?

- Gosto de alguma - respondi. - A que poema está-se referindo?

- É o de Longfellow. Posso dizer o pedaço de que gosto? - Sei-o de cor.

- Por favor.

Ela ficou a meu lado com os braços para trás e com os olhos baixos enquanto recitava:

De meu quarto vejo na luz

Descendo a ampla escada

A grave Alice, a feliz Allegra,

Edith e sua cor dourada.

Um murmúrio e um silêncio

Fazem-me ver com certeza

Que juntas já pensam e tramam

Contra mim uma surpresa.

Ela ergueu os olhos brilhantes para mim e disse: - Vê, a feliz Allegra, Edith, com cabelo dourado, e eu sou a circunspecta, não sou? Somos nós.

- E você está pensando em pegar alguém de surpresa?

Ela sorriu.

Depois disse, séria: - Espero que todos nós nos surpreendamos um dia, Sra Verlaine.

 

Aquela noite jantei com a Sra Lincroft e Alice. A própria Sra Lincroft fazia a comida, pois tinha uma pequena suite de sala e quarto. Ela explicou: - Quando a família recebia visitas, achava que era mais fácil cozinhar aqui e agora continuo a fazê-lo. Evita problemas com os criados e gosto disso. Agora que está aqui poderia fazer suas refeições comigo, Sra Verlaine. Alice nos acompanhará quando não jantar com a família. Sir William, muito gentilmente, a convida de vez em quando. Ele é capaz de sugerir que a senhora lhes faça companhia ocasionalmente.

Foi uma refeição agradável e bem preparada. Alice sentou-se conosco. Eu sempre pensarei nela como "a circunspecta Alice".

A Sra Lincroft falou sobre Sir William e de sua mudança desde que tivera o enfarte, há pouco menos de um ano.

-Sua esposa costumava tocar piano para ele. Quando o Sr. Napier voltou para casa, acho que ele se lembrou dos velhos tempos e foi por isso que resolveu trazer a música novamente para casa.

Eu estava quieta, pensando o quanto Sir William deve ter gostado de sua mulher, uma vez que tinha banido a música de casa, depois da morte dela.

-Temos tido mudanças - continuou a Sra Lincroft. - E, claro, agora que o Sr. Napier e Edith estão casados, haverá muito mais. - Fia sorriu. A criada que nos servia tinha ido para a cozinha. Ela acrescentou: - Será como numa casa normal. E um alívio saber que o Sr. Napier tomou a seu encargo a gerência da imobiliária. É muito eficiente, um cavaleiro de primeira classe. Na verdade ele anda a cavalo para todo lado. Tem tomado conta de tudo... magnificamente. Mesmo Sir William tem de concordar com isto.

Esperei, mas ela pareceu notar que havia falado demais.

-Aceita mais um pedaço de torta?

Agradeci e recusei, enquanto a cumprimentava pela excelência da mesma.

- Anda a cavalo, Sra Verlaine? - ela perguntou então.

- Eu e minha irmã freqüentamos uma escola de equitação e cavalgávamos ocasionalmente na hípica. Morando em Londres não tínhamos as oportunidades de cavalgar que o interior nos teria oferecido, e além do mais, nós duas tínhamos interesses maiores a nos absorver.

- Sua irmã também era artista?

- Oh,não... não... - Houve uma pausa de expectativa. Vi como seria fácil trair minha identidade e imaginei como reagiriam se soubessem que minha irmã era a mulher que havia desaparecido tão misteriosamente.

Acrescentei, desajeitadamente: - Meu pai era professor. Minha irmã ajudava-o em seu trabalho.

-Vocês devem ser uma família muito esclarecida - disse ela.

-Meus pais tinham idéias avançadas sobre educação; embora moças, fomos educadas como se fôssemos rapazes. A senhora compreende, não havia rapazes na família. Talvez, se tivesse havido, tivesse sido diferente!

Então Alice disse: - Gostaria de ser educada assim, Sra Verlaine, como a Sra e sua irmã. Acho que gostaria mais de estar com ela do que conosco.

-Ela está morta. - Repliquei, subitamente.

Pensei que Alice fosse fazer mais perguntas, mas a Sra Lincroft silenciou-a com o olhar. Então, ela disse: - Oh, sinto muito. Isso é triste. - Houve uma pequena pausa de simpatia à qual quebrei, perguntando se as meninas eram boas amazonas.

- O Sr. Napier determinou que Edith o será. Ele a leva para andar a cavalo todas as manhãs. Espero que ela esteja progredindo.

- Não está, interveio Alice. - Está pior, porque agora está amedrontada.

- Amedrontada? - repeti.

- Edith é tímida e o Sr. Napier está tentando fazê-la audaciosa - explicou Alice. - Acho que Edith preferia montar o velho Silver ao maravilhoso cavalo que o Sr. Napier preparou para ela.

A Sra Lincroft voltou a olhar para sua filha; eu gostaria de saber se as maneiras severas de Alice significavam que ela era dominada.

Depois que a refeição terminou fiquei conversando com a Sra Lincroft, mais ou menos uma hora. Então, como ela sugerisse que eu estava cansada, fui deitar-me, mas dormi inquietamente. Meus pensamentos confusos sobre a experiência daquele dia mantiveram-me acordada; contudo, convenci-me de que, uma vez acostumada à rotina, eu me acalmaria.

 

O café da manhã foi trazido ao meu quarto numa bandeja. Quando terminei, Edith bateu à porta, perguntando se podia entrar.

Estava muito bonita num traje de amazona, azul-escuro, com um boné preto.

-Vai andar a cavalo? - Perguntei.

Ela respondeu tão desanimada que mal se podia ouvir. Descobri que ela era incapaz de esconder seus sentimentos. - Ainda não, - disse ela - só irei mais tarde; como talvez não tenha tempo de me trocar, gostaria de conversar com a senhora sobre minhas aulas.

-Claro.

- Então eu a levarei à casa pastoral, onde as outras estão lendo suas lições. A senhora deve desejar combinar as suas com as do pastor, não deseja? Espero não desapontá-la, Sra Verlaine.

- Acho que você não o fará. Posso ver que gosta realmente de piano.

- Adoro tocar. Isso... isso me ajuda quando estou... - Esperei, e ela terminou desajeitadamente. - Quando estou um pouco deprimida.         

-Fico feliz. Devemos começar imediatamente?

Ela me levou à sala de estudos, que era um pequeno apartamento, ao qual ela se referia como sendo a sala de música. Nela achava-se um piano.

Tocou para mim e conversamos sobre o seu progresso. Rapidamente, percebi seu grau de adiantamento. Seria uma boa aluna - estudiosa e aplicada; seu talento era frágil, mas real. Edith encontrava grande prazer em sua música, porém nunca seria uma grande artista. Isso eu já esperava, logo deveria saber como trabalhar com ela.

Falando em música animou-se.

-           Compreende, - disse ela confidencialmente - esta é a única coisa que realmente tenho feito bem.

-E eu acho que se sairá muito bem se trabalhar com afinco.

Ela ficou contente e sugeriu que fôssemos para a casa pastoral.

-São apenas 15 minutos a pé. Importa-se de ir andando ou gostaria de ir de charrete?

Disse que andar seria delicioso, e nós partimos.

O Sr. Jeremy Brown deve estar ensinando às meninas esta manhã. Ele sempre o faz. - Corou ligeiramente. - Ele é o pastor-ajudante - acrescentou.

- Também foi seu professor?

Ela assentiu e sorriu. De repente ficou séria. - Desde o meu casamento não tenho tido mais aulas. O Sr. Brown é um ótimo professor. Acho que gostará dele e do pastor.

Chegamos à casa pastoral. Uma maravilhosa casa antiga de pedras cinzentas. Ao lado ficava a igreja, com sua alta torre também cinzenta.

A Sra Rendall cumprimentou-me como a uma velha amiga, dizendo que me levaria à sala do pastor. Olhou para Edith inquisidoramente. Notei que as pessoas estavam incertas sobre como tratar Edith, visto que Edith não parecia nem uma garota nem uma mulher casada.

-Edith disse: - Não se preocupe comigo, Sr. Rendall. Irei para a sala de estudos e ficarei um pouco com as meninas.

A Sra Rendall ergueu os ombros, como se sugerisse que achava o procedimento de Edith um pouco impróprio. Depois disse que me levaria para ver o pastor.

A sala do pastor era encantadora, com grandes janelas que davam para um gramado bem cuidado que se estendia até o cemitério da igreja. Via túmulos a distância, e achei que aquilo deveria ser um pouco sobrenatural ao luar. Mas não tive muito tempo para contemplações, pois o pastor já se estava levantando de sua cadeira, com os óculos mal equilibrados em sua testa. Seus escassos cabelos grisalhos eram penteados para a frente, escondendo a careca, e tinha um ar de ingenuidade, bastante interessante, contrastando com a aparência autoritária de sua esposa.

- Este é o pastor Arthur Rendall - disse a Sra Rendall cerimoniosamente.

- Arthur, a Sra Verlaine.

- Encantado... encantado! - murmurou o pastor. Ele não olhava para mim, mas para a mesa, e eu entendi o porquê desta atitude quando a Sra Rendall berrou: - Na sua testa, Arthur.

- Obrigado querida, obrigado - Ele pegou os óculos e colocou-os no lugar, olhando para mim.

- É um grande prazer dar-lhe as boas-vindas - disse. - Fico muito contente com a decisão de Sir William em prosseguir com a educação das meninas.

- Preciso saber qual será o melhor horário de aulas para elas, uma vez que não as quero sobrecarregar.

- Oh, nós combinaremos - disse o pastor, com um sorriso feliz.

- Por favor, sente-se, Sra Verlaine - interferiu a Sra Rendall. - Francamente Arthur... deixar a Sra Verlaine assim de pé! Estou certa de que o pastor gostaria de falar-lhe sobre Sylvia. Anseio que ela também continue com sua música.

- Tenho certeza de que tudo se arranjará facilmente - disse eu.

Então, o pastor explicou-me o horário das aulas. Decidimos que eu daria as lições na casa pastoral, onde havia um bom piano, já usado anteriormente por minhas alunas.

Edith, Allegra e Alice poderiam praticar em Lovat Stacy e Sylvia na casa pastoral. Assim tudo se arranjaria.

A Sra Rendall deixou-nos enquanto planejávamos as coisas; então, o pastor disse: - Não sei o que faria sem minha querida esposa. Tão eficiente... - como que se desculpando pela sua subserviência. Depois, terminados os planos, começou a falar sobre as antigüidades dos arredores e de como fora emocionante a recente descoberta de alguns restos romanos.

- Eu freqüentemente tomava parte nas escavações - disse-me. - Sempre fui bem recebido lá. Ele olhava inquieto para a porta; então, lembrei-me das observações de sua esposa e mentalizei o pastor fazendo secretas visitas às escavações.

- De fato, eu sempre achei que alguma coisa de interessante seria descoberta aqui. O anfiteatro foi encontrado há bastante tempo e, como sabe, eles eram geralmente construídos fora das cidades... logo pareceu-me plausível que haveria achados não muito longe

Isso lembrava-me intensamente Roma. Meu coração começou a bater mais depressa, quando perguntei: - O senhor conheceu a arqueóloga que desapareceu tão misteriosamente?

-Oh, aquilo foi um acontecimento horrível... e tão extraordinário! Sabe, não me surpreenderia se ela tivesse ido para algum lugar distante... no exterior... algum projeto.

-Mas se tivesse havido outro projeto não se saberia? Ela não iria sozinha. Estas coisas são geralmente organizadas pelo Museu Britânico. Teria sido formada uma equipe.

Fiquei confusa e ele disse: - Vejo que está muito bem informada, Sra Verlaine, mais do que eu.

- Estou certa que não é o caso. Mas eu realmente desejaria saber sobre este desaparecimento.

- Uma jovem tão prática, murmurou o pastor. Isso é que torna o caso mais estranho.

- O senhor deve ter conversado muito com ela, devido ao interesse comum pelas ruínas. Acha que ela era o tipo de mulher que...?

- Que tiraria a sua própria vida? - O pastor pareceu-me chocado. - Isso foi sugerido. Um acidente? Deve ter sido isso. Mas ela não era do tipo que sofreria um acidente... como esse. Estou perplexo. E continuo afirmando que ela foi para outro lugar. Um chamado urgente, sem tempo para explicações...

Verifiquei que ele não queria que eu perturbasse sua agradável solução do mistério. Concluindo que ele nada me poderia adiantar sobre Roma, aceitei seu convite para visitar os arredores da igreja.

Saímos de casa e atravessamos o jardim, tomando um caminho entre os túmulos até à igreja, através da varanda, onde estavam pendurados os quadros de aviso. A costumeira atmosfera fria nos saudou. O pastor orgulhava-se das janelas com vitrais, as quais, segundo ele, tinham sido doadas à igreja por membros da família Stacy. Os Stacy eram os senhores dos arredores; os benfeitores de quem todos dependiam.

Levou-me ao altar, onde poderia admirar a beleza de seus entalhos.

-São realmente originais. - Disse-me ele, radiante de orgulho.

Na parede, notei uma placa de mármore, posta num nicho sobre o qual havia uma estátua com roupas compridas e mãos entrelaçadas.

Abaixo, lia-se:

Nos deixou, mas não foi esquecido

Beaumont Stacy

Morto em...

Enquanto tentava ler a data escrita em algarismos romanos, o pastor disse:

- Ah! Sim. Triste, muito triste.

- Morreu muito jovem. Disse eu.

- Aos 19. Uma tragédia.

Os olhos do pastor estavam enevoados. Ele levou um tiro... acidentalmente, do seu irmão. Era um rapaz muito bonito. Gostávamos muito dele. Ah, foi há tanto tempo... Agora que Napier está de volta tudo ficará bem novamente.

Já estava acostumada com o otimismo do pastor, portanto fiquei imaginando se acontecera realmente assim. Estava na casa há apenas um dia, mas já tomara consciência de uma estranha melancolia, um ar remanescente de tragédia do passado.

- Que horrível para o irmão.

- Um terrível engano, culpá-lo. Exilá-lo daquela maneira... - O pastor balançou a cabeça e ficou triste. Mas logo se animou: - De qualquer modo, agora ele está de volta.

- Que idade tinha Napier... quando isso aconteceu?

- Mais ou menos 17, diria eu. Tenho a impressão que ele era dois anos mais novo do que o irmão. E bastante diferente. Beaumont tinha charme. Era inteligente. Todos gostavam dele. E então... Bem, rapazes nunca deviam brincar com armas. Tudo pode acontecer. Pobre Napier, tive pena dele. Disse a Sir William que poderia ser muito prejudicial condená-lo daquela maneira. Ele não me ouviu. Simplesmente não podia suportar a presença de Napier depois do que aconteceu. Então Napier partiu.

- Uma tragédia horrível! Eu pensaria que depois de ter perdido um filho daria o dobro de valor ao outro.

- Sir William é um homem raro. Amava Beaumont cegamente, e Napier fazia-o lembrar da tragédia.

- Muito, muito estranho - disse eu, sem conseguir tirar os olhos daquela estátua, mãos postas para rezar, olhos levantados para o céu.

- Fiquei muito contente quando soube que Napier ia voltar. E agora que está casado com Edith Cowan tudo irá melhorar. Uma vez cheguei a pensar que Sir William faria de Edith sua herdeira. Teria havido uma grande confusão se isso tivesse acontecido. Ele gostava muito dos pais de Edith, por isso fez dela sua protegida. De qualquer modo, essa foi a solução mais feliz. Edith herdará... através de seu casamento com Napier.

O pastor estava radiante como um mago que tivesse virado sua varinha mágica e colocado tudo nos seus devidos lugares.

Neste momento uma criada apareceu à porta da igreja para dizer que o pastor-ajudante estava chamando o pastor para tratar de uma questão urgente e que o estava esperando na sala de visitas.

Eu disse ao pastor que gostaria de dar uma olhada na igreja, sozinha. Ele deixou-me.

- Quando voltar a casa a Sra Rendall ficará contente se puder oferecer-lhe um refresco. Então a senhora terá a oportunidade de encontrar-se com o meu ajudante e conversar com ele sobre as aulas.

Ao ficar só, voltei-me para a estátua na parede e pensei no jovem rapaz que aos 19 anos tinha sido morto por seu irmão. Mas, ao mesmo tempo, mentalizei seu irmão, sendo banido aos 17 anos, por causa do acidente. Como puderam tratar assim um filho, mesmo tendo gostado muito do outro, a não ser quê ... Oh! não, deve ter sido um acidente. Voltei-me e caminhei em direção ao cemitério. O silêncio que me rodeava tocou-me profundamente. Lá estava eu, em pé, entre aqueles monumentos aos mortos, e vi pelas inscrições em alguns que estavam lá há mais de 150 anos - alguns até mais. Eram tão velhos que pareciam não se poderem mais manter eretos e alguns dos nomes escritos já estavam apagados. Fiquei imaginando se o rapaz estava enterrado ali. Deveria estar e eu não teria dificuldades em achar seu túmulo, pois os Stacy, provavelmente, teriam o mais suntuoso dos mausoléus.

Olhei em volta e lá estava a sepultura, maior do que todas as outras. Barras de ferro a cercavam e, quando vi o nome Stacy, percebi ser aquele o túmulo da família. Havia estátuas de anjos em mármore e espadas esculpidas nos quatro cantos, como se fossem para guardar a sepultura contra os intrusos, um portão à entrada do túmulo. Atrás das grades estavam escritos numa grande placa os nomes daqueles que estavam enterrados ali, assinalando suas datas de nascimento e de morte. O último da lista era Beaumont Stacy.

Quando ia voltando, pensei em Isabella Stacy, a mãe de Beaumont e de Napier. Ela estava morta, mas onde estava seu nome? Não estava na placa. Certamente deveria ter sido enterrada ali.

Estudei a lápide mais uma vez. Dei uma volta pelo túmulo. Olhei ao redor, pensando que poderia resolver aquele mistério, ali mesmo no cemitério. Desejava ardentemente saber onde ela estava enterrada.

Enquanto me dirigia à casa pastoral lembrei-me de que aquele mundo estranho do qual eu havia entrado estava ocupando a minha mente tanto quanto o desaparecimento de Roma.

 

A Sra. Rendall esperava-me no saguão da casa pastoral.

- Fiquei pensando no que lhe tinha acontecido; eu disse ao pastor para tomar conta da senhora.

- Pedi-lhe para que me deixasse dar uma olhada na igreja, sozinha.

- Sozinha! - A Sra. Rendall ficou surpresa, mas aliviada: - Espero que tenha gostado de nossas janelas, são umas das melhores do país.

Eu disse que realmente eram e acrescentei que tinha visitado o cemitério e visto o túmulo dos Stacy. - A Sra Stacy não está enterrada lá? Não vi nenhuma menção a ela.

A Sra Rendall ficou assustada, o que era difícil de acontecer, tenho certeza.

-Puxa, Sra. Verlaine, - disse ela, com um quê de aspereza - a senhora é um verdadeiro detetive.

No momento, tive certeza de que ela suspeitava de que eu não viera somente para ensinar música.

- Estava interessada em ver qualquer coisa que se relacionasse com a família - disse eu, calmamente.

- Isto é bom - respondeu ela. - Digo-lhe que a Sra. Stacy não foi enterrada naquele túmulo, com certeza sabe que os suicidas não são enterrados em lugares consagrados.

- Suicidas! - gritei.

Ela assentiu com seriedade; depois, seus lábios tomaram uma expressão de reprovação. - Logo depois da morte de Beaumont ela se matou. Foi lamentável. Dirigiu-se à mata com uma arma...e morreu do mesmo jeito...só que no seu caso não foi um acidente.

- Que tragédia horrível!

- Ela não podia suportar a vida sem Beaumont. Adorava aquele rapaz. Acho que o caso perturbou sua cabeça.

- Então foi uma tragédia.

- Isso mudou tudo na casa. Beaumont e a Sra Stacy mortos e Napier banido. Toda culpa foi posta nele.

- Mas foi um acidente.

A Sra. Rendall concordou pateticamente. - Ele sempre foi propenso a fazer alguma. Um rapaz mau...tão diferente do irmão. Foi como se não acreditassem ter sido um acidente. Mas o sangue fala mais alto e Sir William não queria que o patrimônio da família se perdesse. Mesmo tendo pensado em deserdar Napier uma vez. Contudo, ele voltou e casou-se com Edith, que era o desejo de Sir William. Logo, parece que finalmente Napier está pronto para satisfazer seu pai... por causa da herança, claro.

-Espero que ele seja feliz - disse eu. - Deve ter sofrido muito. O que quer que tenha feito; tinha apenas 17 anos e bani-lo de casa daquele jeito parece-me um castigo terrível.

A Sra. Rendall fungou: - Claro que se Beau tivesse vivido Napier não teria herdado nada. É um ponto de vista.

Senti-me indignada, embora não pudesse entender por que teimava em defender alguém com quem tinha antipatizado tanto à primeira vista; a não ser que o fizesse por causa de meu senso de justiça. Decidi que Sir William era um pai esquisito e estava pronta a desgostar dele, como não gostava do filho.

Não disse nada, e a Sra. Rendall comentou que talvez quisesse ir até a sala de estudos para encontrar o Sr. Jeremy Brown.

A sala de estudos era um cômodo de bom comprimento e teto baixo. Assim como na casa grande, as janelas tinham vidraças cor de chumbo que, embora bonitas, deixavam entrar pouca luz.

Foi agradável a cena que vi quando a Sra Rendall empurrou a porta sem bater. Acho que raramente avisa as pessoas que está chegando. As garotas rodeavam a grande mesa. Edith estava com elas, inclinada sobre os trabalhos. No grupo havia um quarto membro: Sylvia. E, sentado à cabeceira da mesa, um jovem muito discreto.

-Trouxe a Sra Verlaine para conhecê-lo - anunciou a Sra Rendall. O rapaz levantou-se e veio em nossa direção.

Este é o nosso pastor-ajudante, Sr. Jeremy Brown - continuou a Sra. Rendall.

Apertei-lhe a mão, que tinha um jeito de quem pedia desculpas. Mais um, pensei, dominado por esta formidável senhora.

-O que está lecionando esta manhã? - perguntou a Sra Rendall. - Latim ou Geografia?

Percebi os mapas espalhados na mesa, ao lado dos cadernos. Edith estava mais feliz do que nunca.

A Sra Rendall resmungou e disse: - A Sra Verlaine vai ensinar música às meninas. As lições serão individuais, Sra Verlaine?

- Sim, acho a idéia excelente. - Sorri para o pastor-ajudante. - Se o senhor concordar.

- Oh, sim, sim, sem dúvida - disse ele. Então notei uma expressão feliz nos olhos de Edith.

Como os jovens se traem! Então descobri que havia uma ligação amorosa - mesmo que leve - entre Edith e Jeremy Brown.

Como dissera a Sra Rendall, eu era uma detetive.

No dia seguinte, entreguei-me à rotina. Havia as refeições com a Sra Lincroft, estando Alice quase sempre presente; as lições de piano eram, algumas delas, dadas na casa pastoral, o que me era conveniente, pois ensinava a uma enquanto as outras tinham suas aulas com o pastor ou Jeremy Brown. Havia também Sylvia a ser considerada. Era uma aluna medíocre, mas tentava esforçar-se. Acho que temia a reação da mãe diante de um fracasso.

As quatro interessavam-me porque elas eram muito diferentes. Não sabia se eram elas ou o seu relacionamento mútuo. Talvez fosse por causa de sua formação diferente. Na realidade a única formação normal era a de Sylvia, se bem que sua mãe superprotetora e dominante poderia exercer uma influência prejudicial sobre ela.

Allegra e Alice iam toda a manhã às 8 e meia para a casa pastoral, onde as aulas começavam às 9. Uma hora mais tarde eu me dirigia para lá; algumas vezes Edith acompanhava-me, sob o pretexto de querer caminhar; entretanto, eu achava que a razão era outra. Isto me deu a oportunidade de conhecê-la melhor.

Tinha uma natureza gentil e ingênua, dando-me a impressão muitas vezes de que desejaria confiar em mim. Esperei que o fizesse, mas por alguma razão retraía-se sempre que tencionava dizer-me alguma coisa importante.

Suspeitei de que ela temia o marido mas, na casa pastoral com Jeremy Brown, seu jeitinho sofria mudanças e ela parecia bastante feliz, como uma criança que arrebata uma prenda proibida, mas irresistível. Talvez estivesse muito curiosa a respeito da vida dos outros. Repreendi-me. Estava ali para ver o que tinha acontecido com Roma e deveria descobrir, portanto, tudo que pudesse sobre as pessoas com quem lidava. Porém, o que tinha o relacionamento de Edith, seu marido e o pastor-ajudante a ver com Roma? Não, isso era apenas curiosidade de minha parte e não, realmente, preocupação, mas ainda assim...

Apenas posso dizer que minha vontade de saber era muito profunda para ser apagada e notava que Edith seria minha melhor fonte de informações, pois ela era sincera e fácil de decifrar.

Quando se ofereceu para me levar a Walmer e Deal, duas cidades parecidas, que ficavam a poucas milhas da costa, fiquei muito feliz com o convite. Saímos pela manhã, quando as outras jovens tinham ido para a casa pastoral.

Era um adorável dia de abril, e havia uma leve brisa soprando. Os arbustos eram um bosque de glória dourada. Embaixo da sebe vislumbravam-se violetas silvestres e begônias. E porque era primavera, aspirava o cheiro da terra e o mais suave calor do sol. Estava extasiada. Não sabia exatamente por que, exceto que os arbustos floridos, as canções dos pássaros e os raios do sol pareciam oferecer alguma promessa. Sentia a febre da primavera, fazendo acreditar-me que havia algo simbólico no despertar da natureza para uma nova vida. De vez em quando o canto de um pássaro cortava o ar. Não havia sinal de gaivotas, cujo canto melancólico era um sinal de que o tempo estava nebuloso. - Elas vêm para a terra quando vai chover - comentou Edith. - Logo, talvez sua ausência fosse sinal de bom tempo. Disse que nunca vira tão magnífico arranjo de urzes. Edith perguntou-me se conhecia o velho ditado: "Quando as urzes florescem, é tempo de beijos".

Sorriu e, com muita graça, continuou. - É uma piada, Sra Verlaine, porque a urze floresce o ano inteiro em algumas partes da Inglaterra.

Estava alegre e parecia gostar de apresentar-me o campo. Mais do que nunca compreendi que era uma mulher de cidade grande. Os parques de Londres, as Tuilleries e o Bois de Boulogne tinham sido meu campo. Mas este era diferente e eu identificava-me com ele.

Parou a charrete e disse-me que se olhasse em volta veria as ameias do Castelo de Walmer. - Havia três castelos, - disse ela - uns distando poucas milhas dos outros; agora, só restam dois deles. Sandow é uma ruína. Foi o mar bravio que o levou. Entretanto, os Castelos de Deal e Walmer estão em perfeitas condições. Se olhar de cima verá que foram construídos no formato das rosas Tudor. São castelos pequenos... Na realidade fortificações para proteger a costa e a navegação em Downs, que fica a quatro milhas da costa de Goodwins.

Olhei as pedras arenosas e cinzentas do castelo - a casa do guarda das cinco portas, depois novamente para o mar.

- Está olhando para os destroços de Goodwins? - perguntou Edith. - Hoje é possível vê-los. - Apontou e eu os vi - aqueles mastros patéticos, nada mais do que pontos a distância.

- As areias são chamadas de Tragadoras de Navios - disse Edith, estremecendo. - Eu os vi uma vez. Meu... meu marido levou-me para vê-los. Ele achou que devia ir, para vencer o medo que tenho das coisas. Depois, acrescentou um pouco apologeticamente: - Ele tem razão.

- Quer dizer que você esteve lá!

- Sim, ele disse que era bastante seguro... no tempo certo.

- E como foi?

Ela quase fechou os olhos: - Desolador - disse. E continuou rapidamente: - Na maré alta toda a areia é coberta pelo mar; mesmo o ponto mais alto fica, mais ou menos, sob 2 metros e meio de água. A gente nem nota que estão lá. Por isso são tão perigosas.

- E quando você as viu... - Interpelei.

- Na baixa-mar - disse ela. Notei que não queria falar naquilo, porém não podia se conter. - É a única hora propícia para vê-las, não é? Se estivessem submersas não as veríamos, apenas saberíamos que estavam lá. Seria ainda mais horrível, não acha, Sra Verlaine? As coisas que não podemos ver são mais assustadoras do que as que se vêem.

- Sim, - concordei - é verdade.

- Mas... a maré estava baixa, assim pude ver as areias... belas areias douradas, que se encapelavam. Havia buracos fundos, cheios de água; a areia movia-se, tomando formas estranhas, algumas como monstros, como garras, esperando aprisionar alguém que por ali passasse. As gaivotas sobrevoavam o local. E seus gritos eram como lamentos. Oh, era aterrorizante, desolador, deprimente. Dizem que as areias são mal-assombradas. Conversei com um dos guardas do farol e ele contou-me que, quando está de vigia, algumas vezes ouve lamentos de cortar o coração, vindos das areias. Os outros disseram-lhe que era o vento e as gaivotas, mas ele não tinha tanta certeza. Coisas terríveis têm acontecido lá, logo parecia que...

- Imagino que, num lugar como aquele, qualquer um criaria as mais incoerentes fantasias.

- Sim, mas há algo cruel em relação às areias, mesmo o meu marido contou-me coisas sobre elas. Diz que quanto mais a gente se debate mais afunda. Há muito tempo atrás não havia farol. Agora que há, dizem ser a maior ajuda dos navegantes. Se pudesse ver aquelas areias, Sra Verlaine, acreditaria nisto.

- Eu já acredito.

Ela puxou as rédeas levemente, e os cavalos continuaram. Pensava em Napier, trazendo-a para ver as areias. Imaginei sua relutância. Ele deve ter rido de sua covardia e se convencido de que tinha de ensiná-la a ser corajosa, quando na verdade, o tempo todo, estava apenas tentando satisfazer um sádico desejo de magoá-la.

Ela mudou de assunto e começou a contar que quando era criança seu pai costumava trazê-la a Lovat Stacy. Então aquele lugar parecia-lhe uma espécie de Eldorado.

- Tudo era excitante - disse ela. - Claro que Beau ainda era vivo.

- Você lembra-se dele?

- Oh, sim, a gente nunca se esqueceria de Beau. Era como um cavaleiro... um cavaleiro em uma armadura brilhante. Vi um desenho assim num livro. Parecia-se demais com Beau. Eu tinha apenas quatro anos, ele costumava pôr-me sobre um cavalinho e segurar-me. - Seu rosto iluminou-se... - Assim eu não ficava com medo. "Não há nada a temer", dizia ele. "Nada enquanto eu estiver aqui."

Pobre Edith, ela não podia ter sido mais clara, dizendo que estava comparando os dois irmãos.

- Quer dizer que você gostava muito de Beau...

- Todos gostavam dele. Era tão agradável, nunca ficava de mau humor. - Uma vez mais seu rosto ficou sombrio. Então, Napier freqüentemente se irritava, era impaciente com sua simplicidade e inexperiência.

- Beau estava sempre rindo - continuou. - Ria de tudo. Parecia ter 3 metros de altura e eu era muito pequena. De repente paramos de vir a Lovat Stacy e eu fiquei muito triste. Depois disso, quando voltei aqui, estava tudo mudado.

- Mas, quando vinha aqui, seu marido também estava.

- Oh, sim, ele estava aqui. Mas nunca se importou comigo. Não me lembro bem dele. Muito tempo depois meu pai voltou a trazer-me, porém nenhum dos dois estava mais aqui. Tudo estava diferente. Alice e Allegra moravam na casa e nós ficávamos juntas, apesar de elas parecerem muito mais novas do que eu.

-Pelo menos você tinha alguém com quem brincar.

-Sim - parecia triste. - Acho que papai estava preocupado comigo. Sabia que não viveria muito mais tempo, por isso combinou com Sir William que ele seria meu tutor. Assim, quando ele morreu, vim para Lovat Stacy.

Pobre Edith, não tinha tido nenhuma participação na decisão de seu destino!

-Bem, agora que é a senhora da casa, deve sentir-se orgulhosa.

- Eu sempre adorei a casa - concordou ela.

- Deveria ficar feliz, agora que tudo está bem.

Uma observação tola, pois evidentemente ela não era feliz e as coisas, nem de longe, estavam bem.

Tínhamos ido até ao mar, que batia levemente nos seixos.

- Júlio César desembarcou aqui - disse Edith, parando a charrete por uns momentos, enquanto apreciávamos o local.

- Não parece muito diferente agora - continuou. - Não podia ser, podia? É claro que não havia castelos. Fico imaginando o que ele pensou quando viu a Bretanha pela primeira vez.

- De uma coisa pode estar certa, ele não deve ter tido muito tempo para apreciar o cenário.

À nossa frente surgiu a cidade de Deal, com as filas de casas quase na praia; no porto havia muitos barcos, tão perto das casas que suas velas pareciam invadi-las.

Edith disse que os barcos à vela menores eram usados para abastecer os navios grandes que ancoravam nos Downs. Passamos pelo castelo de Deal, de forma circular, e vimos os quatro baluartes, as aberturas para vigias, a ponte levadiça, as entradas com ameias e as portas espessas.

Era uma vista confusa, naquela linda manhã de primavera. Vários barcos de pesca haviam acabado de chegar e os pescadores vendiam peixes. Um deles carregava lagostas, outro emendava suas redes. Tive a oportunidade de ver várias espécies de peixe; o cheiro deles e das algas marinhas misturavam-se com o ar do mar.

Edith tinha vindo fazer compras e levou-me a uma estalagem, onde deixou a charrete. Disse-me que talvez eu quisesse explorar a cidade, um pouco, enquanto ela procurava as lojas. Concordei, porque senti que ela queria ficar só. Passei uma

hora agradável, perambulando por ruas com nomes encantadores: Rua Dourada, Rua Prateada, Rua do Golfinho... Passeei pela praia até as ruínas do Castelo de Sandoen. Sentei-me num banco colocado em lugar conveniente, onde as pedras, gastas pela erosão, formaram uma alcova natural. De lá, olhei para o mar calmo e vi os mastros naquelas areias tragadoras de navios. Lembrei-me de como uma mudança repentina poderia ocorrer.

Quando cheguei à cavalariça para encontrar-me com Edith ela não estava; então, sentei-me do lado de fora e esperei por ela. Preocupada em não chegar atrasada, voltara 10 minutos mais cedo; entretanto, tinha sido uma manhã agradável e eu estava contente.

Então vi Edith. Ela não estava só. Jeremy Brown acompanhava-a, fazendo-me pensar se eles não teriam marcado um encontro. Um pensamento de que tinha sido convidada somente para evitar suspeitas passou por minha cabeça.

Acho que se despediam quando Edith me viu. Não havia dúvida de que ela ficara um pouco desconcertada.

Levantei-me e fui ao encontro deles. - Cheguei cedo - disse. - Receei que a distância fosse maior.

Jeremy Brown explicou com seu sorriso franco: - O pastor está dando as aulas esta manhã. Acha que deve fazê-lo de vez em quando. Eu tinha de dar dois telefonemas... por isso estou aqui.

Gostaria de saber por que ele sentiu necessidade da explicação.

- Encontramo-nos casualmente - disse Edith, desajeitada, num jeito de quem não estava acostumada a contar mentiras.

- Deve ter sido agradável. - Notei que ela não carregava embrulhos. Talvez tivesse posto as compras na charrete.

- A senhora devia provar nossa cidra - disse ela. - É muito boa.

Olhou para o pastor-ajudante inquisidoramente, que disse: - Sim, também tenho sede. Vamos tomar um copo. - Ele sorriu para mim. - Não é muito forte, espero que a senhora também tenha sede.

Disse que gostaria de provar a cidra e, como o sol estivesse agradável e o vento não incomodava, decidimos sentar-nos do lado de fora.

Quando Jeremy Brown entrou na estalagem, Edith sorriu para mim quase desculpando-se, mas eu evitei seus olhos. Não queria que pensasse que tinha dado um sentido especial a seu encontro com Jeremy.

De fato, suas maneiras é que sugeriam algo estranho naquilo.

O pastor-ajudante voltou e logo após três canecas foram trazidas. Era agradável estar ali, sentada ao sol. Falei a maior parte do tempo. Expliquei onde estivera, como tinha achado a cidade encantadora, e fiz todo tipo de perguntas sobre os barcos que vira no porto. Ele sabia muito sobre a história local, o que acontece freqüentemente com pessoas não nativas. Falou

do contrabando existente e de quantos barcos tinham 12 metros de comprimento e cabina; que tinham velas enormes para ajudá-los a escapar dos barcos da alfândega, assim trazendo a salvo seus contrabandos de brandy, sedas e tabaco. Muitas das antigas estalagens tinham sótãos secretos, onde armazenavam a mercadoria até que não houvesse mais perigo.

Tais atividades de maneira alguma eram raras ao longo da costa.

Eu achava aquilo tudo muito estimulante, sentada negligentemente ao sol, enquanto Edith resplandecia de prazer, conversando e rindo tanto que me parecia estar vendo surgir uma outra personalidade.

Por que não podia ser sempre assim?

Naquela mesma manhã recebi a resposta; pois quando estávamos sentados ali, conversando, houve um barulho de cascos de cavalo no pátio que ficava por perto e uma voz disse:

-Voltarei dentro de uma hora. - Uma voz bem conhecida fez Edith empalidecer. E meu coração bater mais depressa.

Edith quase se levantou quando viu Napier aparecer. Ele nos viu imediatamente.

-Que surpresa - disse ele, olhando friamente para Edith. - É um prazer inesperado. - Então ele me viu. - A Sra Verlaine também...

Permaneci sentada e disse, indiferente: - Edith e eu viemos juntas. Encontramo-nos aqui com o Sr. Brown. - Desejava saber por que senti necessidade de lhe dar explicações.

-Espero que não esteja atrapalhando a festa.

Eu não respondi, mas Edith disse, aturdida: - Não é exatamente uma festa. Nós apenas...

-A Sra Verlaine acabou de explicar-me. Espero que não façam objeções se eu me sentar e tomar um copo de cidra.

-Ele olhou para mim. - É excelente, Sra Verlaine. Mas acho que estou repetindo o que a senhora já sabe. - Acenou para o garçom, que se vestia como um monge, com um robe longo, escuro, amarrado à cintura com cordões, e pediu-lhe um copo de cidra.

Sentou-se à minha frente, ficando Edith de um lado e o pastor-ajudante do outro. Então percebi que ele estava consciente do embaraço dos dois fazendo-me pensar se conheceria a causa.

- Surpreende-me vê-lo aqui. Pensei que estivesse sobrecarregado de trabalho. Embora sentar-se ao ar livre e tomar cidra também seja uma maneira muito agradável de trabalhar, não acha, Sra Verlaine?

- Todos temos nossos momentos de lazer e procuramos aproveitá-los da melhor forma possível.

- Certo, tenho certeza de que a senhora sempre faz isso. Ainda assim, devo confessar que fico feliz em vê-los à toa. O que acham dos arredores?

- Fascinantes - disse eu.

- A Sra Verlaine esteve explorando tudo, até Sandown -disse o pastor-ajudante.

-O quê? Sozinha?

O pastor-ajudante enrubesceu; Edith baixou os olhos.

- Eu tinha que fazer umas compras...

- Mas é claro. A Sra Verlaine não quis visitar nossas lojas. E por que deveria? A senhora morou em Londres, portanto deve achar nossas lojinhas pouco merecedoras de sua atenção. Com Edith é diferente. Está constantemente por aí para visitar... -calou-se e sorriu de Edith ao pastor-ajudante... - as lojas! O que comprou esta manhã?

- Não consegui achar o que queria.

- Não?! - Olhou com um ar de surpresa para o pastor-ajudante.

- N...não. Queria algumas fitas para combinar...

- Ah! - disse ele. - Compreendi.

Eu interferi. - É difícil combinar cores.

- Nestas cidadezinhas, claro. - E eu pensei: ele sabe que ela veio encontrar Jeremy e está com raiva. Será que ele se importa? Ou quer apenas que eles se sintam embaraçados? E por que me criticar por eu ter vindo de Londres? Por que estaria com raiva de mim?

- Bem, Sra Verlaine, o que achou da cidra?

- É excelente.

Tomou a dele, colocou o copo na mesa e levantou-se. - Sei que me desculparão, por deixá-los. Tenho negócios. Vieram a cavalo?

Edith sacudiu a cabeça, negativamente. - Viemos de charrete.

-Ah, sim, claro. Queria levar os pacotes com você. E você? - perguntou, virando-se para o pastor-ajudante.

-Vim na charrete do vigário.

Ele assentiu. - Ótima idéia. Você vai ajudar a levar os pacotes. Oh, mas claro, o encontro foi casual, não foi? Por uns instantes seus olhos fixaram-se em mim.

-Au revoir - disse ele, retirando-se. Ficamos em silêncio. Não havia nada a dizer.

Edith estava tão nervosa quando voltamos para a casa que por uma ou duas vezes pensei que iríamos cair no abismo.

Que situação horrível! Senti pena daquela garota a meu lado. Como poderia ela suportar as conseqüências da tragédia para a qual se encaminhava? Gostaria de protegê-la, mas não conseguia ver como.

Sentei-me ao lado de Allegra na sala da casa pastoral enquanto ouvia, com sofrimento, a sua interpretação de escalas.

Allegra não se esforçava para aprender. Pelo menos Edith tinha algum talento, Sylvia temia seus pais e Alice era, por natureza, aplicada. Contudo Allegra não possuía nenhuma dessas virtudes. Ela não se dobraria para ninguém.

Bateu nas teclas violentamente, virou-se e sorriu, desajeitada, para mim.

- Vai contar a Sir William que não tenho jeito e que se recusa a continuar a ensinar-me?

- Mas eu não acho que você não tenha jeito e tampouco me recuso a continuar ensinando-lhe.

- Então está com medo de não ter bastante trabalho aqui, se perder uma de suas alunas?

- Isso não me tinha ocorrido.

- Por que disse que eu tenho jeito?

-Porque nenhum caso é sem esperanças. Você tem ido mal unicamente por culpa sua.

Ela olhou-me com interesse. - A senhora não se parece nem um pouco com a Srta Elgin - disse ela.

- E por que deveria parecer?

- Ambas ensinam música.

Encolhi os ombros, impaciente, e pegando uma partitura coloquei-a sobre o piano. - Agora - disse eu.

Ela sorriu. Tinha uma beleza provocante. Embora tivesse cabelos escuros, quase pretos, seus olhos eram vivos, atraentes e realçados por abundantes cílios negros.

Sem dúvida era a mais bonita da casa, mas uma beleza sufocante, com a qual se tinha de tomar cuidado. Ela tinha consciência disso; usava um colar de contas de coral em volta do pescoço. As contas eram alongadas, enfiadas juntinhas, parecendo espigas.

Ela sorriu e disse: - Não tente ser como a senhorita Elgin porque a senhora não é. A senhora já viveu.

- Bem, - disse delicadamente - ela também.

- A senhora sabe o que quero dizer por viver. Eu pretendo viver. Creio que serei como meu pai.

- Seu pai?

Ela tornou a rir. Foi um riso irônico, que já o associava a ela.

- Ninguém lhe contou a respeito de meu nascimento? A senhora já conhece meu pai. O Sr. Napier Stacy.

- Você quer dizer que ele...

Ela assentiu cinicamente, gozando meu ligeiro embaraço.

- É por isso que estou aqui. Sir William dificilmente abandonaria sua própria neta, abandonaria? - A ironia continuou em seu rosto, mas o medo se fez sentir. - Ele não o faria. Não importa o que fizesse. Quer dizer, sou neta dele, não sou?

- Se o Sr. Stacy é realmente seu pai, certamente, isso é verdade.

- Diz isso como se duvidasse, Sra Verlaine. Não devia fazê-lo, porque o próprio Napier me reconhece como sua filha.

- Nesse caso, - disse eu - devemos aceitar o fato.

- Eu sou i-le-gí-ti-ma. - Pronunciou a palavra vagarosamente, como se saboreasse cada sílaba. - E minha mãe... quer saber sobre ela? Era meio cigana, veio aqui para trabalhar... na cozinha. Acho que me pareço com ela, embora seja mais clara. Ela era mais cigana. Partiu depois que eu nasci. Não podia viver numa casa. - Começou a cantar numa voz bastante agradável e rouca:

- Ela partiu numa caravana de ciganos...

Olhou-me para ver o efeito de suas palavras; satisfeita, pois eu devo ter feito uma expressão de surpresa com a última revelação sobre o caráter de Napier.

- Tenho sangue de cigano, mas também sou uma Stacy. Nunca desistirei de meu leito macio nem de meus sapatos altos, não que eu já possa usá-los. Mas os terei, usarei jóias em meus cabelos, irei a bailes e nunca, nunca... nunca nunca sairei de Lovat Stacy.

- Fico feliz - disse friamente - que você aprecie sua casa. Agora vamos tentar esta peça. É simples. Comece devagar e tente sentir o que a música diz.

Ela fez uma careta e virou-se para o piano. Mas não prestava atenção, seus pensamentos estavam longe; e os meus também. Eu pensava em Napier; o mau rapaz que trouxera tamanha tragédia para sua casa, que teve de ser mandado embora.

-Sempre desejei saber - disse Allegra, a propósito de nada - o que terá acontecido com a mulher que desapareceu.

Estávamos tomando chá na sala de estudos - eu e as quatro garotas, pois Sylvia estava presente.

Quase deixei cair minha xícara. Tinha tentado fazer com que as pessoas falassem de Roma e mesmo assim ficava chocada quando a mencionavam sem que eu o esperasse.

- Que mulher? - perguntei, ingenuamente.

- A mulher que veio para desenterrar coisas - disse Allegra. - Agora não têm mais falado sobre o caso.

- Houve época - aparteou Sylvia - em que não se falava em outra coisa.

- Bem, não é todo dia que as pessoas desaparecem - disse casualmente. - O que acham que aconteceu?

Sylvia disse: - Mamãe diz que foi arranjo deles, só para fazer publicidade. Algumas pessoas são assim.

- Mas por quê? - perguntei.

- Para ficarem famosos.

- Mas ela não permaneceria escondida. Como poderia isso torná-la importante?

- É o que minha mãe diz - insistiu Sylvia.

- Alice escreveu uma história sobre o assunto - disse Edith.

- É muito boa - disse Allegra. - Faz arrepiar os cabelos... pelo menos o faria se isso fosse possível. O seu já se arrepiou, Sra Verlaine?

Disse-lhe que não me lembrava de ter-me acontecido.

- A Sra Verlaine lembra-me a Srta Brandon - disse Alice. Meu coração bateu mais depressa.

- Como? - perguntei. - De que modo?

- Sendo exata, como poucos o são - explicou Alice. - A maioria das pessoas diria: "Não, o meu nunca se arrepiou, ou sim, já se arrepiou". A senhora diz que não se lembra se isto lhe aconteceu ou não, muito exato. A Srta Brandon era assim. Dizia que tinha de sê-lo naquele tipo de trabalho.

- Parece que vocês conversavam muito com ela.

- Algumas vezes - disse Alice. - O Sr. Napier também o fazia. Estava muito interessado. Ela mostrava-lhe os achados freqüentemente.

- Sim, - disse Sylvia - minha mãe notou isso.

- Sua mãe nota tudo... principalmente coisas desagradáveis - disse Allegra.

- O que não era agradável no interesse do Sr. Napier sobre as ruínas romanas? - perguntei.

Todos silenciaram, embora Allegra tenha aberto a boca para dizer alguma coisa.

De repente, Alice disse: - É muito bom interessar-se por ruínas romanas. Eles tinham catacumbas, sabia, Sra Verlaine?

- Sim.

- Claro que sabia! - repreendeu Allegra. - A Sra Verlaine sabe muitas coisas.

- Um labirinto de passagens - disse Alice, extasiada. - Os cristãos costumavam esconder-se nelas e seus inimigos não conseguiam encontrá-los.

- Ela escreverá uma história sobre isso - comentou Allegra.

- Como poderia descrevê-las, se nunca as vi?

- Mas você escreveu sobre o desaparecimento da Srta Brandon - comentou Edith. - É uma ótima história. Deveria lê-la, Sra Verlaine.

- É sobre os deuses raivosos transformando-a em outra coisa - explicou Sylvia.

- Eles o faziam - atalhou Alice, impaciente. - Transformavam as pessoas em estrelas, árvores, touros e arbustos quando eles ficavam ofendidos; logo, parece natural que transformassem a Srta Brandon em uma outra coisa.

- Em que a transformaram em sua história? - perguntei.

- Aí é que a história é original - disse Edith. - Nós não sabemos. Alice não nos diz. Na história os deuses, por vingança, transformaram-na em algo, mas Alice não conta em quê.

-Você pode transformar a Srta Brandon no que quiser.

-Dá uma sensação engraçada - disse Allegra. - Imagine a Srta Brandon transformada em algo e nós não sabemos em quê...

-Oh... emocionante! - gritou Sylvia.

-Nem mesmo sua mãe sabe em quê - disse Allegra, brincando. Depois falou: - E se for a Sra Verlaine?

Quatro pares de olhos estudaram-me atentamente.

-Pensando bem - disse Allegra, zombando - ela até se parece com ela.

-O que quer dizer? - perguntei.

-Talvez seja o jeito de falar. Alguma coisa... Agradava-me perceber que Edith se sentia bem comigo.

Parecia-me razoável que ela se apegasse a mim. Embora tivesse quase a mesma idade das outras, eu havia sido casada e isso deve ter-nos aproximado. Aparentava ser uma criatura desprotegida e eu queria ajudá-la.

Uma tarde perguntou-me se sabia cavalgar. Expliquei-lhe que costumava fazê-lo de quando em quando, mas estava longe de ser uma boa amazona; então, ela convidou-me a sair a cavalo com ela.

-Mas eu não tenho roupas adequadas.

-Eu lhe emprestarei algumas. Não somos tão diferentes de corpo, somos?

Eu era mais alta e não tão magra; contudo, ela insistiu que uma de suas roupas me ficaria bem.

Ela estava pateticamente ansiosa. Por quê? Eu sabia a causa. Ela não era uma boa amazona, queria melhorar e o conseguiria, praticando. Poderíamos sair juntos; assim, quando saísse com o marido, estaria mais acostumada a se portar na sela.

Eu aceitei - com algum receio. Ela me levou a seu quarto, onde experimentei um traje de montar - saia comprida, jaqueta verde-oliva e um boné preto. - Está elegante - disse ela, com prazer. Eu também não fiquei descontente. - Estou tão feliz. - Seus olhos estavam resplandecentes. - Podemos sair a cavalo freqüentemente, não podemos?

- Bem, eu vim aqui para ensinar música.

- Não o tempo todo. A senhora precisa fazer algum exercício. - Ela torcia as mãos: - Oh, Sra Verlaine! Estou tão feliz que esteja aqui...

Eu não supunha que ela o assentisse tão ardentemente. Tinha certeza de que não era uma grande afeição que ela sentia por mim. Edith notara meu interesse pelas pessoas, tinha fé na minha experiência e queria poder confiar em alguém. Pobre Edith, era uma esposa muito preocupada.

Fomos até aos estábulos e um dos cavalariços escolheu-nos os cavalos.

Expliquei que não tinha muita prática. - Minha prática de andar a cavalo restringe-se à escola de montar de Londres, embora ocasionalmente freqüentasse a Hípica.

-Bem, a senhora fica com Honey. Ela é tão meiga quanto o nome.

-E a Sra Stacy, madame? Suponho que levará Vênus. Edith disse, nervosa: - Não, acho que não. Gostaria de uma montaria tão meiga quanto Honey.

Quando saímos do estábulo, Edith disse: - Meu marido gosta que eu saia com Vênus. Diz que Sugar-Plum... - ela bateu na boca quando disse este nome -... é para crianças praticarem. As meninas aprendem nela. Sua boca é quase invisível; mas eu me sento bem nela.

-Assim você poderá apreciar o seu passeio.

- Agrada-me sair com a senhora. Às vezes penso que jamais serei uma boa amazona. Receio que seja uma grande decepção para meu marido.

- Bem, cavalgar não é a única coisa da vida, é?

- Não... não. Acho que não.

- Você abre o caminho. Conhece-o melhor do que eu.

- Iremos a Dover. A vista é magnífica. O castelo contra o horizonte, e depois aquela descida para o porto.

- Ótima idéia - disse eu.

Era um dia maravilhoso; descobri coisas no campo que nunca havia notado antes. Estava encantada com o lindo tom arroxeado das urtigas e as primaveras amarelas nas campinas.

-Daqui podem-se ver as ruínas romanas. Basta olhar para trás.

Eu o fiz, pensando em Roma.

- Acho que teríamos sabido se tivessem descoberto o que aconteceu com aquela mulher - disse Edith. - É horrível, não é... pensar que alguém... simplesmente desapareceu. Gostaria de saber se havia alguém que... que a queria fora do caminho.

- Não podia haver - disse eu, violentamente.

Parei de olhar para as ruínas e continuamos, mantendo-nos no caminho costeiro.

O mar tinha um verde transparente, quase não havia nuvens, estava tão claro que se podia ver o esboço da costa francesa.

-Que lindo - disse eu. Quando nos aproximávamos de Dover, mostrou-me uma casa mal-assombrada na estrada.

Uma senhora de cinza sai dessa casa cada vez que escuta o tropel de cavalos. Dizem que fugia, quando apareceu uma carruagem. Ela fez-lhe sinal; mas o cocheiro não a viu e ela foi atropelada e morta. Ela fugia do marido, que tinha tentado envenená-la.

- Acha que aparecerá quando ouvir os nossos cavalos?

- Só aparece à noite. As coisas mais horríveis acontecem à noite, não acha? Embora digam que a arqueóloga sumiu em plena luz do dia.

Não respondi. Lembrava-me de quando estivera ali com Roma olhando o magnífico castelo. A chave e a fortaleza de toda a Inglaterra, como era chamado. Há 800 anos que estava lá, a despeito do tempo, um austero aviso para os invasores. Imponentemente construído sobre aquela encosta gramada, era uma obra de arte em pedras cinzentas dominada pela torre de homenagem, guardando o canal. A torre retangular de homenagem e a Torre de Constantino, defendidas pelas pontes levadiças, as torres medievais, em forma de semicírculos, o profundo fosso, o poderoso contraforte e as sólidas paredes - tudo tão impressionante que deles não se podia tirar os olhos.

- E tão poderoso, não é? Tão magnífico! - disse Edith, quase timidamente.

- Sim, magnífico - respondi eu.

Aquela é a Torre de Peverel, com sua passagem abobadada, e lá do outro lado, mais para o nordeste, está a Torre de Avranches. Aquela era a plataforma usada pelos arqueiros para lançar suas flechas. Na Torre de São João há armadilhas e plataformas, com todo o tipo de maquinismos para derramar chumbo derretido e óleo fervente.

Ela estremeceu. - É horrível, mas fascinante.

Mostrei a Edith a ruína de um farol romano, mais velho que o próprio castelo. Pharos, era como Roma o chamara.

- Oh sim - disse Edith. - Sem dúvida, isto é um país romano.

- Não é todo britânico?

- Sim, mas foi aqui que eles chegaram primeiro. Imagine! Aquele farol usado para guiá-los no mar. - Ela riu, um pouco agitada. - Eu não tinha pensado nos romanos até que tudo aquilo foi descoberto em nosso parque.

Quando olhamos para a frente vimos um cavaleiro subindo em nossa direção. Eu o reconheci um segundo mais ou menos antes de Edith. Percebi que ela tinha a vista fraca; assim, pude testemunhar a mudança nela.

Ela foi ficando pálida e, depois, corou profundamente.

Napier tirou o chapéu e disse: - Que prazer inesperado!

- Oh! - disse Edith. Era uma exclamação de desmaio. Ele sabia disso, pois como resposta dirigiu-lhe um olhar sarcástico.

- O que lhe deram para montar? - perguntou ele. - O velho Dobbin do jardim da infância?

- E... é Sugar-Plum.

- E a Sra Verlaine? Oh! Por que não me disseram que queriam cavalgar? Eu teria providenciado melhores montarias.

- Eu não sou nenhuma amazona, Sr. Stacy. Esta égua é ótima. Asseguraram-me que era meiga como o seu nome, e é disto que eu gosto.

- Oh, não! A senhora está errada. Devo insistir para que monte um verdadeiro cavalo.

- Acho que o senhor não entendeu. Eu raramente estive sobre a sela de um cavalo.

- Uma omissão que precisa ser retificada. Andar a cavalo é um prazer que deve ser disputado freqüentemente. É um exercício excelente.

- Na sua opinião. Talvez outras pessoas achem satisfação em coisas diferentes, mais a seu gosto.

Edith parecia inquieta. Perdera sua autoconfiança imediatamente.

-Estavam voltando para casa? - perguntou ele. - Então voltaremos juntos.

A volta não foi agradável como a vinda, pois ele não se contentava em apenas conduzir seu cavalo através dos caminhos. Ia a meio galope e nós o seguíamos. Quando seu cavalo começou realmente a galopar, o meu o acompanhou e não sei se teria conseguido pará-lo, caso o quisesse. Eu sabia do medo que Edith estava sentindo. De repente fui possuída de um ressentimento contra aquele homem que a fazia tão infeliz.

Estávamos junto à casa mal-assombrada e Napier olhou para Edith para ver o efeito que o fato lhe causaria. Ela tinha tentado conservar-se a meu lado, por isso sabia o quanto estava nervosa. Ele também notara que a estava apavorando. Ele a levava para passear num cavalo que ela temia. Podia perfeitamente imaginá-lo, galopando desenfreadamente e ela tendo de segui-lo.

Ocorreu-me um terrível pensamento. Podia ser a visão da casa mal-assombrada, - ruindo agora - de onde dizem que sai a senhora de cinza. Seu marido tinha tentado envenená-la. O que aconteceria se Napier quisesse ver-se livre de Edith? Ele era um ótimo cavaleiro, poderia levá-la a lugares perigosos, durante os passeios. O que poderia fazer se ele partisse a galope para um lugar desses e o cavalo dela o seguisse, sem que fosse capaz de controlá-lo?

Que pensamento tenebroso, e ainda...

Eu havia continuado e ele estava a meu lado. Então disse: - Se praticasse daria uma boa amazona, Sra Verlaine. Ou melhor, diria que se sairia bem em qualquer coisa na qual se empenhasse.

-Estou lisonjeada por ter tal opinião a meu respeito.

Edith chamava. - Por favor, esperem por mim. - Sugar-Plum tinha parado para comer um pedaço de folhagem. Ela puxava as rédeas, mas o cavalo não lhe obedecia. Estava como se um espírito mau o tivesse possuído, ansioso por desconcertar Edith, como seu marido o fazia.

Napier virou-se e sorriu.

Pobre Edith, estava mortificada. Odiei o homem a meu lado.

Então ele disse: - Sugar-Plum, venha.

E, mansamente, Sugar-Plum soltou a folhagem e começou a trotar em direção à voz, como se dissesse: "Vê como sou obediente".

-Não devia montar este cavalo - disse Napier. - Devia montar Vênus.

Edith parecia que ia chorar.

Eu o odeio, pensei. É um sádico. Adora magoá-la.

Parecia ter adivinhado meus pensamentos, pois disse: - Devo encontrar um melhor também para a senhora, não importa o que diga. Esse tem sido muito mal acostumado pelas crianças.

O prazer tinha-se esvanecido. Fiquei feliz ao ver Lovat Stacy.

Meu antagonismo em relação a Napier Stacy fez-me consciente de minha aparência - algo que tinha esquecido desde a morte de Pietro. Eu me vi imaginando o que aquele homem devia pensar de mim. Uma mulher que já havia passado sua primeira mocidade, uma mulher que, sendo uma viúva, já tinha alguma experiência da vida. Alta, magra, cor pálida, mas saudável, que Pietro certa vez comparara a uma magnólia. Isso agradara-me tanto que guardava a lembrança na memória. Eu tinha um nariz ligeiramente arrebitado, a contrastar com meus grandes olhos escuros, que poderiam ficar quase pretos quando nervosa ou enlevada pela música. Tinha cabelos castanhos, grossos e lisos. Não era nenhuma beleza, mas por outro lado era bastante atraente. Isto me satisfazia, e as cores de certas roupas faziam maravilhas em mim. Como Elgin me disse certa vez: "Usava o que me favorecia".

Pensava nisso enquanto escolhia um vestido malva-claro, uma das cores que mais me assentava. Vesti um casaco cinza. Ia dar uma volta. Havia muita coisa em que queria pensar.

Minha posição aqui era uma delas. Eu não havia voltado a tocar para Sir William nem havia sido sugerido que o fizesse para seus convidados; as aulas não ocupavam todo o meu tempo. Desejaria saber se eles decidiriam que eu não valia o que comia.

A Sra Lincroft dissera-me que Sir William tinha planos, mas ele não estava passando muito bem, desde que eu chegara; contudo, quando ele melhorasse um pouco, eu ficaria mais ocupada.

Não queria pensar muito sobre Napier Stacy. O assunto, dizia a mim mesma, era desagradável; entretanto, pensei muito sobre o meu relacionamento com Edith. Roma estava constantemente em minha mente. Queria continuar com as minhas investigações, porém receava tornar-me suspeita. Mesmo assim, temia ter manifestado meu interesse por ela muito claramente.

Pensando nela fui até às ruínas. Vaguei por ali, minhas lembranças dela eram tão vivas que quase podia vê-la, ali, a meu lado. O lugar estava deserto. Imaginei que as descobertas de Roma tinham sido de menor importância comparadas com as muitas do país, e depois da agitação inicial poucas pessoas vinham vê-las. Olhei para as termas e os restos das fornalhas que as aquecia e podia ouvir a voz de Roma e seu tom de orgulho quando mostrava aquelas coisas.

-Roma - murmurei. - Onde está você, Roma? Podia retratá-la tão claramente - seus olhos iluminados com entusiasmo e seus exóticos colares sobre o vestido escuro.

Não podia ter ido a lugar algum sem me dizer. Só podia estar morta.

-Morta! - suspirei. Cenas de nossa infância passaram por minha cabeça. Querida Roma, sem nenhuma malícia, seu único defeito era uma certa tolerância piedosa para com aqueles que não sabiam apreciar as maravilhas da arqueologia.

Dirigi-me à cabana onde ela havia morado durante as escavações. Tinha ficado ali com ela, e não vira nenhuma das pessoas com quem agora me tornava tão familiar; tampouco eles me haviam visto... pelo menos assim esperava. Se alguém me tivesse visto, certamente me reconheceria e eu o teria sabido. Quando estivera ali, havia muitos estranhos remexendo tudo. Por que um deles seria reconhecido?

A cabana parecia mais abandonada do que nunca. Empurrei a porta; não estava fechada. As tábuas do assoalho rinchavam. Por que estava surpresa que não estivesse trancada? Não havia nada a proteger.

Lá estava o aposento familiar... aquela mesa à qual me sentara, assistindo a restauração de um mosaico. Umas escovas, picaretas e pás estavam jogadas por ali. Um velho fogão a óleo, - no qual Roma cozinhava ocasionalmente - um grande barril no qual guardava parafina. Havia o bastante para mostrar que um arqueólogo estivera ali.

E Roma saíra um dia daquela cabana e nunca mais voltara.

Onde, Roma, onde?

Tentei imaginar para onde ela teria ido. Teria saído para um passeio? Nunca andava apenas por andar... apenas para ir de um lugar para o outro. Teria ido nadar? Ela nadava pouco; na verdade não tinha tempo para fazê-lo.

O que teria acontecido naquele dia, quando ela já tinha feito as malas e saído da cabana?

A resposta estava em algum canto e era mais provável que a achasse ali do que em qualquer outro lugar.

Comecei a subir as escadas que levavam para o quarto. Elas mudavam de direção e, no alto, havia uma pesada porta, dando para uma saleta que precedia o quarto. Este tinha uma janelinha com vidraças opacas, lembrando-me de como era escuro ali, mesmo ao meio-dia. Eu tinha dormido naquele quarto, numa cama de campismo, e Roma numa outra, na saleta.

Abri a porta e olhei. As camas não estavam mais lá. Roma devia tê-las removido antes de sair.

Estremeci. As paredes eram grossas e estava frio.

Ainda assim, na cabana, sentia-me perto de Roma. Continuei a murmurar seu nome: - Roma! Roma, o que aconteceu naquele dia?

Pensei nela, de pé, diante daquela janelinha, olhando para o campo.

Estivera completamente absorvida pelo seu trabalho. Falara-me a respeito enquanto se lavava na água que tinha sido aquecida no velho fogão. Em que teria ela pensado naquele último dia? Na partida? Nos novos planos?

Então, deve ter vestido seu casaco austero, uma saia discreta, uma blusa, seu único enfeite sendo um colar com contas cornalinas ou turquesas de formas originais... e depois saído para o ar fresco, o qual ela adorava. Deve ter andado pelas escavações, e além, até o... limbo.

Fechei os olhos. Podia visualizá-la tão claramente. Onde? Por quê?

A resposta poderia estar na cabana.

Então ouvi um som, vindo do pavimento térreo. Senti-me gelar e um arrepio percorreu minha espinha. Pensei nas palavras de Allegra: -Já ficou com os cabelos em pé? - Imediatamente tomei consciência da situação isolada da cabana. Um pensamento tomou conta de mim: você veio descobrir o que aconteceu com Roma. Talvez possa aprender, se o mesmo lhe acontecer.

Um passo. Um estalo no chão. Alguém estava na cabana.

Olhei para a janela. Sabia que era muito pequena e que não poderia escapar por ela. Mas, por que sentir este medo, só porque mais alguém resolvera visitar aquela cabana vazia?

Talvez estivesse imaginando coisas; mas parecia que Roma estava ali... avisando-me.

Encostei-me na parede, ouvindo. Meu súbito terror era o resultado de uma imaginação febril. Era porque Roma tinha morado naquele lugar, porque seu espírito parecia ainda vagar como os daqueles que têm mortes violentas. Sim, era o espírito de Roma avisando: perigo.

Depois ouvi passos na escada. Alguém se dirigia àquele aposento. Decidi que ousadamente iria ao encontro de quem quer que ali estivesse; então, enfiei minhas mãos trêmulas nos bolsos e passei para a saleta.

Quando o fiz, a pesada porta abriu-se. Napier apareceu diante de mim: parecia muito grande, naquele lugar tão pequeno; meu coração começou a bater descompassadamente. Ele sorriu, completamente consciente de meu medo.

- Eu a vi vindo para a cabana - disse ele. - Fiquei pensando que interesse podia ter nela. - Como eu não respondesse, ele prosseguiu. - Parece surpresa em ver-me.

- E estou. - Esforçava-me, procurando o meu autocontrole, perguntando-me por que tinha sido tão estúpida e mais idiota ainda por me ter traído. O homem era um insolente, pensei. Gostava de assustar as pessoas. Era por isso que tinha vindo à cabana e subido as escadas.

-Pensou que fosse a única interessada em nossos tesouros do passado? - disse aquelas palavras como se tivessem letras maiúsculas, como se soubesse que o fantasma de Roma estivesse naquele lugar, e zombasse dele.

-Longe disso. Sei que há muitos interessados.

-Mas não os Stacy. Sabia que, primeiramente, meu pai tentou impedir que os trabalhos se realizassem?

- E ele podia?

- Ele foi persuadido. E assim... em nome da cultura...

-Que bom para a posteridade que ele tenha sido persuadido.

Seus olhos brilharam um pouco. - O triunfo do conhecimento sobre a ignorância.

-Precisamente.

Tentei passar por ele em direção da porta e, embora não tenha exatamente barrado minha passagem, não se moveu, de modo que teria de esbarrar nele para chegar a ela. Hesitei, não desejando trair minha vontade de escapar.

- O que a fez vir até aqui? - perguntou.

- Curiosidade, suponho.

- É muito curiosa, Sra Verlaine?

- Tão curiosa como a maioria das pessoas.

-Costumo pensar - continuou - que curiosidade é um pouco maligna. Afinal, é realmente uma virtude estar interessado em seres humanos. Concorda?

-Virtudes, se levadas a excessos, podem tornar-se vícios.

-Estou seguro de que está certa. Sabia que uma das arqueólogas viveu nesta cabana?

- Oh?

- A que desapareceu.

- O que aconteceu com ela?

-Não aceito a versão de que algum deus romano na sua fúria varreu-a da face da terra; a senhora aceita?

Deu um passo em minha direção.

-Sabe, faz-me lembrar a tal arqueóloga.

Ele manteve os olhos em meu rosto, e por um momento pensei: ele sabe. Sabe por que vim aqui. Seria fácil descobrir que eu era irmã de Roma, a mulher de Pietro Verlaine... Poderia, até mesmo, ter sido mencionado pela imprensa. Talvez ele soubesse que eu tinha vindo para descobrir o que está atrás do desaparecimento de Roma. Talvez...

Os estranhos pensamentos que aparecem numa cabana isolada, quando se está sozinha com um homem... um homem que tinha matado seu irmão...

Eu disse: - Eu o faço lembrar dela?

- A senhora não se parece com ela. Ela não era uma mulher bonita. - Eu enrubesci. - É claro que não quero dizer... - Ele ergueu as mãos, embaraçado. Ele queria dizer-me que eu tinha concluído que era bonita. Como ele gostava de humilhar! - Ela tinha um ar de dedicação, de que ela é que estava certa.

- Compreendo; e eu tenho essa aparência?

- Eu não disse isso, Sra Verlaine. Simplesmente disse que me fazia lembrar aquela infeliz senhora.

- O senhor a conhecia bem?

- A dedicação era óbvia. Não era necessário intimidade para notá-la.

Eu perguntei, nervosa: - O que aconteceu com ela?

- Está perguntando a minha teoria?

- Se não tem nada melhor a oferecer...

- Por que acha que teria?

- O senhor a conhecia. O senhor a viu. Talvez tivesse alguma noção do tipo de mulher que era...

- Ou é... disse ele. - Não precisamos falar dela no passado. Não estamos certos de que ela tenha morrido. Estou inclinado a pensar que saiu em algum projeto. Mas há um mistério. Talvez haja sempre um mistério. Há muitos mistérios insolúveis no mundo, Sra Verlaine. E este... talvez seja um aviso para que deixemos o passado em paz.

- O que todos os arqueólogos, tenho certeza, irão ignorar.

- Pelo seu tom, posso perceber que os aprova. Quer dizer que acha certo investigar o passado?

- Evidentemente; o senhor não concorda que os arqueólogos estão fazendo um trabalho valioso?

Ele sorriu cinicamente, com um jeito que eu começava a odiar.

- Então o senhor não aprova? - disse eu, com raiva.

- Não disse isso, Na verdade não estava pensando nos arqueólogos. Vejo que está ficando obcecada por aquela mulher. Eu simplesmente perguntei se achava bom investigar o passado. Passado todos nós temos. Não são prerrogativas dessas ruínas sujas.

- Nossos passados individuais são nossas próprias preocupações, acho eu. Apenas o passado histórico deve ser revelado.

- Ótima distinção, mas quem faz o passado histórico senão os indivíduos. Eu estava sendo impertinente, um hábito bastante comum em mim. Sugeri que tanto a senhora quanto eu deveríamos esquecer o passado. Ah! Acha-me indelicado. Não devia ter dito isso. Não se diz estas coisas em sociedade. Só se diz: que lindo dia, Sra Verlaine! O tempo não está tão frio quanto estava ontem! Depois discutimos o tempo das últimas semanas, e tivemos uma conversa agradável e tranqüila. Mas poderíamos não ter dito nada. Quer dizer que a senhora não gosta de franqueza?

- O senhor tira conclusões apressadas, não é? Por franqueza entendo que aqueles que se orgulham de usá-la geralmente empregam o termo para seu monólogo. Existe um outro termo para outras pessoas - rudeza.

Ele riu, seus olhos iluminaram-se. - Provar-lhe-ei que não é meu caso, falarei francamente a meu respeito. O que ouviu falar de mim, Sra Verlaine? Já sei. Eu assassinei meu irmão, foi isso que escutou.

- Ouvi que foi um acidente.

- Isso é o que dizem comumente, em termos diplomáticos.

-Não estava tentando ser diplomática, apenas falando francamente. Ouvi dizer que foi um acidente fatal. Sei que foi assim.

Ele ergueu os ombros e virou a cabeça para o lado.

- E - disse eu - apesar de eles serem profundamente deploráveis, deveriam ser esquecidos.

- Isso não foi um acidente qualquer, Sra Verlaine. A morte do herdeiro da casa - lindo, charmoso, adorado. Baleado fatalmente pelo seu irmão, que se tornou o herdeiro da casa e não era nem bonito nem charmoso e nem adorado.

-Talvez pudesse transformar-se... se tivesse tentado. Ele riu com tanta amargura que minha opinião sobre ele mudou um pouco naquele momento. Era cruel, era sádico, porque estava tirando sua vingança num mundo que o tinha tratado tão mal. Lamentava por ele.

Disse, quase gentilmente: - Ninguém devia ser condenado pelo que foi feito acidentalmente.

Ele se aproximou de mim - aqueles olhos tão brilhantemente azuis olhavam dentro dos meus. - Mas como pode ter certeza de que foi um acidente?

-Mas é claro que foi - disse eu.

-Tais sentimentos manifestados com tanta ênfase por uma jovem mulher são muito lisonjeadores.

Abri o casaco para olhar para o relógio pendurado no meu vestido.

-São quase 3 e meia.

Movi-me em direção à porta, mas ele permaneceu em sua posição entre mim e ela.

- A senhora - disse ele - sabe muito sobre nossa família. Contudo eu sei muito pouco a seu respeito.

- Não acredito que lhe importasse saber. Quanto ao resto, sei muito pouco, além do que o senhor acabou de dizer-me. Estou aqui na qualidade de professora de música, não como biógrafa da família.

- Seria muito interessante se estivesse aqui como biógrafa. Talvez sugira isso a meu pai. Que crônica espetacular seria capaz de produzir: A morte de meu irmão... - por que não? - mesmo o desaparecimento da arqueóloga. Tudo aconteceu nos arredores.

- Professora de música é a minha profissão.

- Mas a senhora tem um interesse vital em tudo que nos diz respeito. Está fascinada pelo desaparecimento da mulher, simplesmente porque ela desapareceu aqui.

- Não...

- Não? Estaria interessada igualmente se ela tivesse desaparecido em qualquer outro lugar?

- Mistérios são sempre intrigantes.

- Muito mais do que um tiro, concordo, Isso pode suscitar dúvidas quanto aos motivos.

- Acidentes não têm motivo. Eles simplesmente acontecem.

- Então convenceu-se de que realmente foi um acidente? Talvez mais tarde mude de idéia, quando escutar o que certas pessoas têm para contar-lhe.

Ele embaraçava-me. Gostaria de saber porque minha opinião era tão importante para ele. Meu desejo de ir embora tinha-me deixado. Queria ficar e conversar com ele. De uma estranha maneira fazia lembrar-me Pietro, que às vezes se amargurava, entrando em desespero por causa de algumas críticas de seu trabalho nas quais ele não acreditava.

Devo ter-me enternecido pensando em Pietro, pois Napier continuou: - Estive ausente durante muito tempo, Sra Verlaine. Estive na propriedade de um primo na Austrália. Por isso, deve perdoar-me se eu macular seu inglês diplomático. Gostaria de contar-lhe minha versão sobre o acidente. Quer ouvir-me?

Eu assenti.

-Imagine dois rapazes. Beaumont tinha quase 19 anos, eu tinha quase 17. Tudo que Beaumont tinha era perfeito; tudo que eu fazia era suspeito; ou quase isso. Ele era uma ovelha branca; eu era a ovelha negra. A ovelha negra tornou-se reservada - cresceu tão preta como as pessoas pensam que é... assim, essa ovelha negra ficou cada vez mais negra, até que um dia pegou um revólver e atirou em seu irmão.

Se ele tivesse demonstrado emoção eu me teria sentido mais feliz; mas ele falou com calma e sangue-frio. Então, um pensamento veio à minha mente: Não tinha sido um acidente.

- Aconteceu há muito tempo... - comecei, inquietamente.

- Há acontecimentos na vida que nunca poderão ser esquecidos. Seu marido morreu. Ele era muito famoso. Eu sou, como a senhora salientou, um filisteu, sem refinamento; mesmo assim já ouvi falar em seu falecido marido. E a senhora também é talentosa. - Seus olhos observaram meu rosto e disse, zombeteiramente: - Deve ter sido idílico.

Enquanto ele falava, vi Pietro, seus olhos cheios de raiva por causa de alguma desconsideração a seu talento; escutei sua voz assustando-me, e pensei: este homem sabe o que foi meu casamento e está tentando estragar minhas lembranças. Ele é cruel. Gosta de destruir. Quer mutilar meu sonho... e quer ferir Edith. Ele poderia ferir-me, se quisesse, mas eu era superior a ele, exceto quando escarnecia meu casamento.

-Não devia ter dito isto - disse ele, sugerindo que compreendia o que eu estava sentindo. Era como se estivesse descortinando meu passado, como se escutasse o sorriso irônico de Pietro. - Eu lhe fiz lembrar o que talvez prefira esquecer.

A suavidade de sua voz era mais cortante do que suas ironias, porque tinha consciência de seu cinismo.

-Eu disse: - Realmente preciso ir. Tenho aulas a preparar.

- Eu a acompanharei até a casa - disse-me.

- Oh... não há necessidade.

-Eu vou para lá, a menos, claro, que prefira que eu não a acompanhe.

-Não vejo razão para isso.

-Obrigada, Sra Verlaine. Meu coração agradece, enternecido.

Abriu a porta e ficou ao lado, para que eu descesse as escadas. O tolo sentimento de inquietação continuava comigo.

Ele irritara-me com sua quase confissão de que tinha morto seu irmão. Parecia glorificar-se com isso. Não estava certa. O homem era um enigma. Mas isso não me dizia respeito. Ele tinha estado ali quando Roma estivera. Conhecera-a, falara com ela. "Faz-me lembrar dela, Sra Verlaine", ele tinha dito.

Respirei mais facilmente quando deixamos a cabana.

Quando passamos pelas ruínas disse, quase subitamente: - Nós não ouvimos muito sobre a família. Creio que os pais foram mortos num serviço de arqueologia.

- O quê?

- Nossa dama misteriosa, claro. Surpreenderia a senhora se ela tivesse entrado num estado de amnésia? Sabe, o fato atraiu a atenção para as descobertas. As pessoas vêm ver o lugar onde a dama desapareceu, não as ruínas da ocupação romana.

Eu disse suavemente: - Não devia pensar que ela tinha tal intenção. Tenho certeza disso.

- Mas como pode estar certa?

- Eu... eu não penso isso dessas pessoas.

- Tem um coração bondoso e pensa o melhor de todos. É um conforto ter uma pessoa assim por perto.

Ele começou a falar das descobertas e eu concluí que ele entendia do assunto. Mencionou particularmente o pavimento de mosaicos. As cores eram tão brilhantes como qualquer coisa que tinha sido encontrada na Bretanha, pensava ele.

Eu disse, sem pensar: - Uma aplicação de óleo de linhaça e exposição ao sol fazem milagres. - Eu estava conscientemente citando Roma. - Embora as cores ficassem mais brilhantes ainda se fossem expostas a um sol tropical.

-Que conhecimento do assunto! - Um outro passo em falso. De certo modo este homem me irritava. Ele estava sorrindo e eu percebi o brilho de seus dentes e seus olhos azuis realçando aquele rosto moreno. - A senhora não é uma arqueóloga secreta, é?

Eu ri, mas desajeitadamente.

-Não está aqui em missão secreta, está? - Ele insistiu. Não sairá às escondidas durante a noite para escavar os alicerces de nossa casa?

Eu pensei: Será que ele sabe? E se souber, o que fará? Ele matou seu irmão. O que sabe ele sobre o desaparecimento de Roma?

Eu disse, o mais calmamente possível: - Se tivesse alguma noção de arqueologia, descobriria que eu não sei praticamente nada sobre o assunto. Todos sabem que sol e óleo de linhaça restauram a cor.

-Nem todos. Eu não sabia disso. Raramente estou bem informado.

A casa surgiu, imponente, diante de nós.

-Uma coisa minha família tinha em comum com os romanos disse ele. - Eles sabiam como escolher um bom lugar para morar.

-É maravilhoso - disse eu, enternecida pela paisagem.

-Fico feliz por aprovar a nossa residência.

-Deve orgulhar-se de pertencer a tal casa.

-Preferiria dizer que a casa nos pertence. Está pensando nas histórias que aqueles tijolos contariam, se pudessem falar? É uma romântica, Sra. Verlaine. - Pietro, outra vez! Seria

tão visível assim, mesmo eu tendo feito tudo para abafar esse romantismo, desde que perdera Pietro? - Mas, de fato, -continuou ele - é uma graça os tijolos não falarem. O que eles

dissessem poderia ser muito chocante. Mas a senhora pensa o melhor das pessoas, não pensa, Sra. Verlaine?

-Eu tento... até que o pior seja provado.

-Uma filósofa, tanto quanto uma artista. Que combinação!

-O senhor está rindo-se de mim.

-Às vezes é muito agradável rir. Mas não posso esperar que sua atitude caridosa se estenda até a mim. Quando a marca da besta é tão claramente definida, os mais bondosos filósofos devem aceitá-la.

-A marca da besta... - repeti.

-Oh, sim, foi colocada em mim quando matei meu irmão. Ele levou a mão à testa. - Está aqui...ninguém deixa de vê-Ia. A senhora a verá, se olhar. E, se não a vir, haverá muitos a apontá-la.

Eu disse: - Não devia falar dessa maneira. O senhor é muito amargo.

-Eu? - Ele abriu seus grandes olhos e riu. - Não...somente realista. A senhora verá. E uma vez que a marca da besta é colocada num homem...ou numa mulher...só um milagre pode removê-la.

O sol brilhava na água, era como se um gigante espalhasse diamantes sobre ela. Através daquela deslumbrante faixa de água só podia ver os mastros de Goodwins. Olhei para as pequenas cidades, a distância; as casas pareciam cair dentro do mar.

Nenhum de nós falou.

Ele deixou-me no patio e eu subi para meu quarto, sentindo-me perturbada pelo encontro.

Mais tarde, tendo meia hora de folga, fui para os jardins. Tinha tido uma oportunidade de explorá-los e, apesar de admirar os terraços e a grande área florida, meu lugar favorito era um pequeno jardim murado que eu tinha descoberto no primeiro dia. Uma verde trepadeira cobria uma das paredes e eu imaginei-a salpicada de escarlate com a vinda do outono. Dentro daquelas quatro paredes havia paz e eu sentia necessidade de estar sozinha para pensar, pois Napier Stacy tinha-me perturbado mais do que eu queria admitir.

Estava sentada olhando para as açucenas há alguns segundos quando percebi que não estava sozinha.

A Srta. Stacy estava perto dos verdes arbustos no fim do jardim, tão quieta que não notara a sua presença. Ela usava um vestido verde, parecendo fazer parte do arbusto. Senti uma misteriosa sensação ao perceber que ela já me observava há alguns segundos.

-Boa tarde - gritou ela, alegremente. - Eu sei que este é o seu lugar predileto. - Ela caminhou ligeiramente em minha direção, erguendo o dedo e sacudindo-o para mim. Então, vi os laços verdes em seu cabelo, da mesma cor do vestido.

Ela deve ter notado meu olhar, pois tocou-os ligeiramente.

-Sempre que faço um vestido novo, mando fazer laços iguais. Tenho laços para todos os vestidos. - Um ar de satisfação apareceu em seu rosto, como se me convidasse a comentar sobre sua vivacidade. Seus movimentos eram tão juvenis que fiquei chocada quando ela se aproximou e pude notar as manchas marrons em seu pescoço e em suas mãos e as rugas em volta dos olhos azuis. De fato, agora ela parecia mais velha do que realmente era.

- Você mudou desde que chegou aqui - disse ela.

- Oh? Será possível? Em tão pouco tempo?

Ela sentou-se a meu lado. - É tranqüilo aqui. É um jardinzinho maravilhoso, não acha? Mas é claro que acha. Não viria aqui se não achasse, viria? A gente tem a impressão de estar isolada do mundo. Mas não estamos, sabia?

-Claro que não.

-Você não imaginaria isso. Você é muito inteligente. Acho que entende de muitas coisas, tão bem quanto de música.

-Obrigada.

-E...estou feliz que tenha vindo. Estou realmente decidida a pintar o seu retrato.

-É muita bondade sua.

- Oh, mas pode não ser bondade. - Ela riu. - Alguns artistas não são bondosos. Pelo menos é o que alguns pensam... porque os artistas pintam o que vêem e eles podem ver alguma coisa que não agrade à pessoa retratada.

- Pelo menos, eu me interessaria em saber o que a senhora vê em mim.

Ela assentiu: - Ainda não. Tenho de esperar mais um pouco.

-Nós só nos encontramos uma vez.

Ela começou a rir. - Mas eu a tenho visto muitas vezes. Estou muito interessada em você.

-Bondade sua.

-Mais uma vez, pode não ser bondade. Tudo depende... Ela apertou as mãos como uma garota que está guardando um segredo para si mesma. Aqui estava um outro membro da casa que me fazia sentir desajeitada.

- Eu a vi hoje - disse ela, sacudindo a cabeça várias vezes. - Com Napier, acrescentou. Fiquei feliz por não ter ficado vermelha e traído meu embaraço.

- Nós nos encontramos acidentalmente...nas ruínas romanas - disse eu, e só então percebi o quanto era tola em estar quase me desculpando. Ela fez umas três ou quatro piruetas, o que eu concluí ser para mostrar sabedoria.

- Você está muito interessada nessas ruínas, Caroline Verlaine.

- Quem não estaria? Elas são de interesse nacional.

Ela virou-se para mim e observou-me recatadamente por baixo daquelas pálpebras enrugadas. - Mas algumas pessoas na nação estão mais interessadas do que outras. Nisso deve concordar comigo.

-Inevitavelmente.

Levantou-se e apertou as mãos. - Eu posso mostrar-lhe algumas ruínas muito mais perto. Gostaria de vê-las?

-Ruínas? - perguntei.

Ela apertou os lábios e sacudiu a cabeça.

- Venha. - Ela estendeu a mão e eu nada pude fazer a não ser segurá-la. Estava fria e era macia. Larguei-a tão logo me foi possível.

- Sim, - disse ela - nós temos algumas ruínas aqui. Você deve vê-las, uma vez que está interessada em todos nós.

Ela caminhou ligeiramente para o portão de barras de ferro, abriu-o e, com uma expressão conspiradora, pendurou-se nele, como uma velha fada.

-Ruínas - murmurou ela. - Sim, você pode chamá-las de ruínas. Apesar de desta vez não serem romanas, Mas, por que os Stacy não deveriam ter as suas ruínas, se os romanos as tiveram? - Ela deu uma gargalhada.

Passei pelo portão, ela fechou-o e ficou a meu lado; depois, caminhou à minha frente para mostrar-me o caminho, virando-se para sorrir-me, em seu jeito de menina.

Havia um caminho através das árvores e, enquanto a seguia, pensava se ela não seria mais do que ligeiramente louca.

Finalmente, vi o objeto daquela visita. Parecia uma torre circular branca; ela correu na frente.

-Venha, Caroline - chamou ela. - Estas são as ruínas. Corri atrás dela e vi que a torre era só armação e que por dentro as paredes estavam enegrecidas pelo fogo. Não era grande - somente uma parede circular. O teto tinha sido destruído parcialmente, por isso era possível ver-se o céu.

-O que é isso? - perguntei.

- Uma casca - respondeu em tom sepucral. - Uma armação queimada.

- Quando foi queimada?

- Há pouco tempo atrás. - E acrescentou, significativamente: - Desde que Napier voltou.

- O que quer dizer com isso?

- Era uma pequena capela no bosque...uma linda capelinha construída em homenagem a Beaumont.

- Quer dizer uma espécie de memorial?

Seus olhos iluminaram-se. - Como é inteligente, Caroline! Era um memorial, um memorial a Beau. Depois de Beau ter sido assassinado, seu pai mandou construir esta capela; assim, ele ou qualquer um de nós poderia vir aqui e ficar em silêncio para pensar em Beaumont. Estava construída há anos, depois...

-Pegou fogo - acrescentei.

Ela aproximou-se de mim e murmurou: - Depois que Napier voltou para casa.

- Como foi que aconteceu?

- Travessura. Não...travessura não...maldade.

- A senhora quer dizer que alguém fez isso de propósito? Por que o fariam? Com que fim?

- Porque odiavam Beau. Porque não podiam suportar que Beau fosse bonito e bom. Foi por isso.

- Está sugerindo que... - Eu hesitei e ela disse recatadamente: - Devia terminar, Caroline. Estou sugerindo o quê?

- Que alguém tenha feito isto propositadamente. Não vejo por que alguém faria isso.

- Há muita coisa que você não pode ver. Eu gostaria de dizer-lhe, de avisá-la.

-Avisar-me?

Outra vez aquela tola inclinação de cabeça.

- Napier pôs fogo na capela quando ele voltou porque nós gostávamos de vir aqui e pensar em Beaumont. Ele não podia suportar isso. Assim, livrou-se dela como se livrou de Beaumont.

- Como pode ter certeza disso? - perguntei, quase furiosamente.

- Eu me lembro muito bem. Uma noite...tinha acabado de escurecer. Podia sentir o cheiro de fogo de meu quarto. Fui a primeira a descobrir. Saí de casa, embora a princípio não soubesse de onde vinha o cheiro. Depois, eu vi... e corri... corri para a mata, onde ficava a linda capela... as faíscas voavam...foi terrível. Chamei todos, mas era demasiado tarde para salvá-la. Agora é só uma casca, nada mais do que uma casca.

-Deve ter sido um lugar muito agradável - disse eu.

- Agradável! Era lindo. Uma sensação de paz e de calma. Meu maravilhoso Beau estava ali. Ele estava. Era isso que Napier não podia suportar. Foi por isso que ele a destruiu.

- Não há nenhuma evidência... - Comecei e calei-me, acrescentando rapidamente: - Tenho algum serviço a fazer, por isso acho que devo voltar.

Ela riu. - Parece que gosta de defendê-lo. Você está começando a tomar o seu partido.

Eu disse friamente: - Não é meu hábito tomar partidos, Srta. Stacy.

Ela riu outra vez e disse: - Mas a gente sempre faz o que não deve fazer, não faz? Você é uma viúva. De certo modo eu também sou. - De repente seu rosto pareceu mais envelhecido. - Eu compreendo. E ele... bem, certas pessoas são atraídas pela maldade.

Eu disse, asperamente: - Realmente eu não compreendo, Srta Stacy, e acho que já devia estar trabalhando. Obrigada por mostrar-me a ruína,

Voltei-me e caminhei rapidamente. Achei a conversa dela não só detestável como desconfortável.

Dois dias mais tarde aconteceu uma coisa perturbadora.

Dirigia-me à sala de estudos à procura de Edith e, quando ia abrir a porta, ouvia-a gritar, angustiada. Parei e, quando o fiz, ela gritou: - E se eu não o fizer, você contará. Oh...como você pode.

Não era somente a implicação das palavras, mas o tom de agonia como foram ditas que me chocava.

Hesitei, sem saber o que fazer. Não estava com vontade de brincar de intrometida. Tinha chegado recentemente àquela casa, por isso talvez estivesse dramatizando uma situação. Todas aquelas jovens davam-me a impressão de serem mais do que simples garotas.

Aquilo foi o que imaginava no momento, mas como gostaria de ter sido corajosa e de ter entrado no aposento. Em vez disso retirei-me silenciosamente.

Edith estava brigando com alguém na sala de estudos, alguém que a estava ameaçando.

Só meia hora mais tarde dei aula a Edith. Ela tocou tão mal que eu achei que não estava fazendo progresso algum.

Mas, é claro que ela estava agitada.

 

Sentei-me no aposento próximo ao de Sir William e toquei para ela. Primeiro Pour Elise e, depois, alguns Noturnos de Chopin. Creio que neste ambiente tocava melhor, porque estava sugestionada pela atmosfera receptiva, pois sabia que tinha pertencido a alguém que amara a música. Pietro riria de minha fantasia. Um artista não precisa de atmosfera, me diria ele.

A imagem de Pietro desapareceu de minha mente. Pensava em Isabella, que tinha sido mãe de Napier e, amando a música, podendo ter sido uma grande pianista, desistira de sua carreira pelo casamento. Oh, nós estávamos em harmonia. Mas ela teve dois filhos, dando mais amor a um do que a outro. Quando seu bem-amado filho morreu, pegou um revólver e foi para a mata...

Toquei durante uma hora. Parei e fui para a porta. A Sra. Lincroft, que estava com Sir William, acenou-me para que me sentasse. - Sir William gostaria de falar-lhe - disse ela.

Sentei-me a seu lado e ele virou-se vagarosamente para mim.

-Sua interpretação é muito tocante - disse ele.

A Sra. Lincroft retirou-se do aposento na ponta dos pés e deixou-nos a sós.

-Lembra-me - prosseguiu ele - da interpretação de minha esposa. Não estou certo, porém, que ela fosse tão boa.

-Talvez ela tivesse menos prática.

- Sem dúvida. Seus deveres aqui... Concordei novamente. - Sim, claro.

- Que acha de suas alunas?

- A sra. Stacy tem algum talento.

- Um talento fraco, hem?

- Um talento razoável. Acho que encontra grande alegria no piano.

- Compreendo. E as outras?

- Elas podem tocar adequadamente.

- E isso é uma boa coisa a fazer.

-Muito boa.

Nós nos calamos e eu imaginava se ele teria adormecido e se eu deveria retirar-me de mansinho.

Estava para fazê-lo, quando ele disse: - Espero que se sinta bem aqui, Sra. Verlaine.

Assegurei-lhe que sim.

-Se precisar de alguma coisa, peça à Sra. Lincroft. Ela dirige tudo.

- Obrigada.

- Conheceu minha irmã?

- Sim.

- Provavelmente achou-a um pouco estranha.

Eu não sabia o que responder, mas ele continuou: - Pobre Sybil, quando era jovem teve um amor infortunado. Ia casar-se, mas não deu certo. Nunca mais foi a mesma. Ficamos aliviados quando começou a interessar-se pelas coisas da casa, porém Sybil nunca pôde fazer nada muito sensato. Tornou-se obcecada. Provavelmente ela lhe falou sobre os assuntos de minha família. Conta a todos. Não deve tomar o que ela lhe falou muito a sério.

-Ela me falou, sim.

-Pensei nisso. A morte de meu filho afetou-a profundamente. Como a todos nós. Mas no caso dela...

Sua voz arrastava-se. Ele estava claramente pensando naquele dia em que Beaumont morrera... e depois, quando sua esposa levou o revólver para o bosque. Uma dupla tragédia. Eu estava penalizada por ele. Também tinha pena de Napier.

Sir William estava falando de Napier e sua voz quase falhava de emoção. - Agora que meu filho casou nós nos divertiremos mais um pouco do que no passado. Como sabe, Sra Verlaine, gostaria que distraísse meus convidados.

-Ficaria encantada. O que sugere que toque?

-Isso será decidido mais tarde. Minha esposa costumava tocar para os nossos hóspedes...

- Sim - disse gentilmente.

- Agora a senhora fará o mesmo, e será como...

Ele parecia não se ter apercebido de que parará de falar.

Inclinou-se para a frente e tocou uma sineta. A Sra Lincroft apareceu tão rapidamente que me deu a impressão de que ficara à porta, escutando.

Compreendi o que era esperado de mim e saí.

Estava começando a me sentir viva outra vez - não exatamente feliz, mas interessada no que me rodeava. Uma curiosidade ardente crescia dentro de mim e o centro dela era Napier Stacy, como Pietro tinha sido o centro de tudo em Paris. Então, tinha sido amor; agora era ódio. Não, essa era uma palavra muito forte. Desamor. De uma coisa estava certa, os meus sentimentos por Napier Stacy nunca seriam moderados. Desamor podia facilmente mudar-se em ódio. Ele sofria por causa daquele medonho acidente e meu coração recusava-se a acreditar que fora algo mais do que um acidente - mas isso não era motivo para atormentar sua indefesa mulher. Ele tinha sido ferido, por isso encontrava satisfação em ferir os outros. Eu o desprezava; não confiava nele; não gostava dele, embora lhe fosse grata por despertar minhas emoções outra vez. Talvez nenhuma emoção fosse melhor do que este violento desamor.

Nas últimas semanas tenho pensado menos em Pietro. Havia algumas horas que não pensava nele. Estava chocada porque estava sendo infiel à sua memória.

Uma tarde - durante meu tempo livre - decidi fazer um longo passeio sozinha, para pensar sobre a minha transformação, e os meus passos guiaram-me para o mar. Era um dia claro e soprava um vento fresco. Senti prazer em encher meus pulmões com aquele ar re vigor ante.

Para onde estou indo? - perguntei a mim mesma. Não ficaria sempre em Lovat Stacy. Na verdade, minha posição ali parecia insegura. Ensinava música a três garotas, mas nenhuma delas, exceção feita a Edith, com talento musical. Ela era uma mulher casada, que breve teria família. A idéia pareceu-me incoerente. Napier, pai... e pai das crianças de Edith. Mas eles eram casados, logo, por que não? E, quando ela se tornasse mãe, continuaria as aulas de música? Tocaria para os convidados de Sir William - mas, ninguém conserva uma pianista com a premissa de audições eventuais. Não, a minha situação era muito insegura e breve seria dispensada. E depois? Eu era sozinha no mundo. Tinha pouco dinheiro. Não era uma jovem. Não deveria planejar o futuro? Mas como poderia alguém saber o que o futuro lhe reserva? Uma vez pensara que eu e Pietro viveríamos juntos pelo resto da vida... É claro que ninguém sabe, entretanto pessoas inteligentes planejam o seu futuro para não lhes acontecer como às virgens imprudentes (da Bíblia), sem óleo em suas lâmpadas.

Tomara um caminho tortuoso e tinha vindo dar numa praia arenosa. Perto erguia-se um rochedo, rígido e branco, impedindo que se visse Lovat Stacy, pois o mesmo projetava uma espécie de plataforma sobre a minha cabeça. O melancólico grito de uma gaivota quebrou a paz e então ouvi uma voz chamar-me.

-Sra Verlaine, Sra Verlaine, para onde vai?

Virei-me e vi Alice, correndo em minha direção; seus cabelos castanhos flutuavam atrás dela.

Corria para mim, esbaforida, ligeiramente enrubescida.

-Vi-a dirigir-se para cá - disse, ofegante. - E corri para avisá-la de que é perigoso.

Olhei, incrédula, para ela.

-Oh, sim, é perigoso, - ratificou - é perigoso. Olhe. - Ela acenou com os braços. - Estamos numa pequena caverna. O mar entra aqui e, muito antes de a maré subir, poderia ficar presa. Então, o que faria?

Colocou os braços para trás e olhou para o rochedo. - Compreende, não poderia voltar por aquele caminho. A senhora seria arrastada. Não deveria vir aqui, a não ser com a maré baixa.

- Obrigada por avisar-me.

- Agora está tudo bem, mas mais 10 minutos e não estaria. Vamos, Sra Verlaine?

Voltamos pelo mesmo caminho e, quando contornei uma rocha, vi como a maré estava perto. Ela estava certa, esta parte da praia deveria ser inteiramente interditada.

- Vê? - disse ela.

- Sim, vejo.

- Pode ser perigoso. Muita gente se afogou aqui.

- Gostaria de saber se teria sido isso que aconteceu a Ro...à arqueóloga.

- Bem, acho que podia ser uma explicação. A senhora está muito interessada nela, não está?

- Certamente, é impressionante quando alguém desaparece.

- Sim, claro. - Ela estendeu a mão para ajudar-me na rocha.

- Podia ser uma resposta - disse ela. - Ela veio aqui e afogou-se. Sim, acho que pode ser uma resposta.

Olhei para a água e imaginei-a subindo. Roma não era uma boa nadadora Podia ter sido carregada pelo mar.

-Penso que seu corpo seria jogado à praia.

-Sim - concordou Alice. - Mas suponho que às vezes os corpos são carregados para alto-mar. As pessoas devem tomar cuidado. Particularmente aquelas que são novas no lugar.

-Eu tomarei - disse, sorrindo. Ela pareceu-me aliviada, o que foi gentil da parte dela.

-Quer continuar seu passeio sozinha? - perguntou Alice.

- Você quer acompanhar-me?

- Se a senhora quiser.

- Ficaria muito satisfeita com a sua companhia.

Seu sorriso era maravilhoso, e isso me agradou. Pensei cm como Allegra lhe fazia lembrar sua posição de filha da governanta.

- Ela caminhava tranqüilamente a meu lado e apontava para algumas flores na sebe.

- Não é maravilhosa aquela azul, Sra. Verlaine? O Sr. Brown dá-nos aulas sobre isso, traz-nos aqui para passear; assim, nós podemos ver as flores de que fala. Não acha uma boa idéia?

-Excelente.

-É aula de botânica. Edith adora-a. Agora ela não vai mais. Às vezes acho que ela gostaria de continuar com as lições. Porém uma mulher casada dificilmente poderia ir à casa pastoral para tomar aulas, poderia? Oh, olhe, Sra. Verlaine, há um andorinhão. A senhora o vê? Gosto de sair ao anoitecer. Assim posso ver uma coruja. O Sr. Brown falou-nos sobre elas. Elas emitem um ruído, como as rodas de fiar, e caçam mariposas nos campos.

-Você parece gostar de suas aulas de botânica.

-Ah, sim, mas agora nem tanto. Depois que Edith parou, o Sr. Brown não se interessa igualmente por elas.

Senti outra vez aquela inquietação e lembrei-me de minhas suspeitas.

As gaivotas estão vindo para a terra, Sra. Verlaine. Isso é sinal de tempestade no mar. Elas vêm às centenas e, quando as vejo, penso nos marinheiros no mar. - Começou a cantar, em sua voz modelada e clara de menina:

-Senhor, escutai-nos quando vos rogamos

Por aqueles que estão em perigo no mar...

Ela estremeceu. - Deve ser horrível afogar-se. Dizem que a gente relembra a vida enquanto se afoga. Acha que é verdade, Sra. Verlaine?

- Não sei, e detestaria pôr isso à prova.

- O problema é que as pessoas que morreram afogadas não nos puderam dizer se isso é verdade - comentou ela, pensativa. - Se elas voltassem...Mas dizem que só voltam os que morreram violentamente. Eles não conseguem descansar. Acredita nisso?

- É claro que não.

- Os empregados acham que Beaumont volta.

- Sim, pensam. Pensam que ele voltará - Oh, eles pensam isso? Agora que o Sr. Napier está aqui.

- Mas por quê?

- Porque ele está zangado com a volta de Napier. Napier matou-o, por isso ele quer que Napier seja banido.

- Acho que Beaumont tinha um bom caráter; logo, não lhe assenta bem querer punir o irmão pelo que foi um acidente.

- Não, claro que não - disse ela, vagarosamente. - Mas talvez ele seja obrigado. As pessoas que morrem, como ele, têm de assustar os outros. Acha isso possível?

- Acho isso um amontoado de bobagens.

- Então, como explicar as luzes na capela arruinada? Dizem que é assombração. E há luzes lá. Eu as vi.

- Você as imaginou.

- Não concordo. O meu quarto fica bem no alto da casa, em cima da sala de estudos. De lá posso ver a grande distância, e eu vi luzes. É verdade, eu vi.

Fiquei em silêncio e ela prosseguiu, seriamente: - A senhora não me acredita. Pensa que imaginei. Se voltar a vê-las posso mostrar-lhe? Mas talvez a senhora não queira vê-las.

- Se existissem, gostaria - disse eu.

- Então, hei de mostrá-las à senhora.

Sorri. - Estou muito surpresa com você, Alice. Pensei que era uma menina objetiva.

- Oh, eu sou, Sra. Verlaine, mas se há alguma coisa na capela não seria muito prático fingir que não há, seria?

- A coisa mais pratica seria tentar descobrir a causa.

- A causa é que Beaumont não pode descansar.

- Ou alguém fazendo uma brincadeira. Vou esperar e ver as luzes; depois, compreenderei a causa delas.

- Realmente, a senhora é muito objetiva, Sra. Verlaine, - disse Alice.

Admiti e mudei de assunto, falando sobre música e músicos, durante todo o caminho de volta.

-Devo dizer - disse a Sra. Rendall - que achei isso muito inconveniente. Depois de tudo que fizemos...estou surpresa. Pelo que respeita ao pastor...

Suas faces gordas balançavam de indignação à medida que caminhava em direção à porta da casa pastoral. Tinha vindo dar uma aula de piano a Sylvia, enquanto Allegra e Alice estavam com o pastor-ajudante.

A Sra. Rendall continuou na mesma cantilena, durante alguns minutos, antes que eu descobrisse a causa de sua indignação.

- Ele é um pastor-ajudante tão bom, e o que pensa que vai fazer naquele lugar estranho? Não posso imaginar. Às vezes há trabalho mais útil para se fazer em casa. Acho que está na hora de alguns jovens responsáveis o fazerem.

- Não me diga que o Sr. Brown vai partir!

- É isso mesmo que ele está pretendendo. Não tenho idéia do que vai acontecer. Vai para uma vila da África catequizar pagãos! Bela coisa! Disse-lhe que, provavelmente, acabaria sendo servido como jantar.

- Suponho que ele pense ser sua vocação.

- Vocação! Disparates! Ele pode ter vocação para trabalhar aqui em casa. Por que ir para tão longe? Eu disse-lhe: "Se os canibais não o matarem, o calor o fará, Sr. Brown". Eu não medi minhas palavras. Disse-lhe, na cara, que a culpa seria só dele.

Pensava no jovem tranqüilo e em Edith, desejando saber se a decisão de partir teria alguma relação com os seus sentimentos por ela. Sentia pena pelos dois. Eles pareciam duas crianças desamparadas.

- Disse ao pastor para conversar com ele, bons ajudantes são raros e o pastor está muito sobrecarregado. Na verdade, pensei dizer-lhe que o Bispo podia ajudá-lo. Se o Sr. Brown dissesse ao Bispo que precisava ficar...

- O Sr. Brown está muito ansioso para ir? - perguntei.

- Ansioso?! O jovem idiota está decidido. Imagine que desde que ele participou ao pastor sua decisão fica cada dia mais triste. Não posso imaginar como pode ter tido uma idéia tão idiota. Justamente quando o pastor... e eu... muito mais útil.

- A senhora pode persuadi-lo?

- Tentarei - respondeu ela, firmemente.

- E o pastor?

- Minha querida Sra Verlaine, se eu não puder persuadi-lo, ninguém poderá.

E Edith? - perguntei-me, quando voltava para casa.

Quando a vi aquela manhã, notei como ela estava desolada. Ela tropeçava na peça de Schumann, tocando várias notas falsas.

Pobre Edith - tão criança e tão amargamente golpeada pela vida. Gostaria de ajuda-la.

Depois de ter tocado para Sir William, a Sra. Lincroft entrou na sala e avisou-me que ele queria falar comigo.

Coloquei a cadeira ao lado dele e ele comunicou-me que marcara a data da audição para os seus convidados.

- Acho que poderia tocar por um hora, Sra. Verlaine. Eu escolherei as músicas. Avisá-la-ei com antecedência, se achar necessário.

- Gostaria de que fizesse isso.

Ele concordou. - Minha esposa ficava nervosa numa ocasião como esta. Compreende, ela sentia-se feliz, mas só depois. Ela nunca seria capaz de apresentar-se em público. Era diferente do círculo familiar.

- Sempre se fica nervoso antes de uma audição. Meu marido ficava e ele... - era um gênio.

Ele fechou os olhos, o que significava que eu deveria sair. A Sra. Lincroft dissera-me que ele se cansava com facilidade e o médico a avisara de que ao menor sinal de fadiga ele precisava ficar em repouso absoluto.

Assim, levantei-me e fui embora. A Sra. Lincroft entrou quando eu saí. Sorriu, simpaticamente. Tinha a impressão de que ela me apreciava, o que me deixava satisfeita.

O serão musical era sem dúvida um grande acontecimento. As garotas só falavam nele.

Allegra disse: - Será como nos velhos tempos...antes de eu nascer.

- Bem, - disse Alice, circunspecta - saberemos como era antes de estarmos aqui.

- Não saberemos, - contradisse Allegra - porque será diferente. A Sra. Verlaine tocará no lugar da Sra. Stacy. E, naquela altura, ninguém tinha sido baleado nem cometido suicídio, nem colocado a cigana com problemas.

Eu fingi não ouvir.

Elas estavam agitadas, porque, apesar de não participarem do jantar, tinha-lhes sido permitido ir ao salão para me ouvir tocar, o que aconteceria entre 9 e 10 horas da noite.

Estavam muito satisfeitas porque iriam usar vestidos novos, próprios para a ocasião.

Eu decidira-me por um vestido que não usava desde a morte de Pietro. Só o tinha usado uma vez, na noite de seu último concerto. Um vestido especial, para uma ocasião especial. Era de veludo cor-de-vinho - uma saia rodada e um corpete justo, tão delicadamente colorido, tão bem feito que parecia uma flor. Pietro vira-o numa vitrina da Rua St. Honoré e o comprara para mim.

Pensei nunca mais usá-lo. Guardara-o numa caixa e nunca mais o olhara, até agora. Tinha convencido a mim mesma de que seria muito doloroso olhar para ele. Contudo, ao saber que iria tocar para aquelas pessoas, pensei que seria a ocasião ideal para usá-lo, e que ainda me daria a confiança de que precisava.

Tirei o vestido da caixa, estendendo-o na cama. Como me fez lembrar... Pietro vindo ao palco, aquela saudação quase arrogante, a rápida procura por mim, achando-me e sorrindo, confortado porque eu estava lá, porque ele sabia que compartilhava de todo triunfo e cuidava tão profundamente de sua carreira quanto ele próprio. Ao mesmo tempo me diria: - Você nunca poderia fazer isto.

Enquanto pensava naquela noite tive vontade de jogar-me sobre o veludo macio e chorar pelo passado.

Ponha-o de lado. Esqueça isso. Use outra coisa.

Mas não. Eu iria usar aquele vestido e nada me convenceria do contrário.

Enquanto olhava para o vestido, a Srta. Stacy abriu a porta vagarosamente, olhando para dentro.

-Oh, aí está você. - Ela trepou na cama. Seus lábios formaram um "O". - É maravilhoso. É seu, o vestido?

Eu assenti.

- Não pensei que possuísse algo tão grandioso.

- Tenho-o há muito tempo.

- Ah, desde que seu famoso marido era vivo. Concordei.

Ela olhou para mim e disse: - Os seus olhos estão brilhando. Vai chorar?

-Não - respondi. E depois, para desculpar minha emoção, acrescentei: - Vou usá-lo no concerto.

Ela concordou, com uma mesura, e eu percebi sua solidariedade.

-Eu também sofri - disse ela. - De algum modo foi a mesma coisa.

Depois, foi até à cama e apalpou o veludo.

-Laços iguais ficariam muito bonitos em seus cabelos -disse ela. - Acho que usarei um vestido novo de veludo. Não desta cor, apenas azul-pó. Não acha que ficará bonito?

-Muito - respondi.

Ela sacudiu a cabeça e saiu, pensando, tenho a certeza, no vestido de veludo azul-pó que usaria e nos laços para combinar.

Poucos dias depois Sir William piorou e a Sra. Lincroft estava aborrecida. Durante um dia e uma noite ela quase não saiu de seu quarto e, quando a pude ver, disse-me que ele melhorara um pouco.

-Temos de tomar cuidado - explicou. - Um outro enfarte poderá ser fatal e, é claro, ele é vulnerável.

Estava profundamente emocionada, fazendo-me pensar em como ele tinha sorte de ter tal governanta que ao primeiro sinal podia tornar-se uma enfermeira de primeira classe.

Ao comentar isso, ela virou-se ligeiramente para esconder sua emoção. - Nunca esquecerei o que ele tem feito por Alice-disse ela.

Parecia tão tocada pelos seus sentimentos que mudei de assunto bruscamente, dizendo: - Suponho que o jantar será cancelado?

- Oh, não. - Ela refez-se, imediatamente. - Sir William acabou de dizer que não deseja isso. Todos os arranjos têm de continuar. Na realidade, ele chamou o Sr. Napier e disse-lhe isso. - Ela franziu as sobrancelhas. - Fiquei alarmada, porque o Sr. Napier sempre o aborrece. A culpa não é dele - prosseguiu, rapidamente. - É uma questão de ponto de vista. Ele se mantém a distância tanto quanto pode. Mas nesta ocasião procedeu muito bem.

- É uma pena... - comecei.

- Brigas de família são horríveis - disse ela. - Ainda penso naquele tempo... - Sua voz desapareceu. - Creio que quando houver crianças... Sir William está ansioso para que haja crianças.

Bateram à porta e Alice entrou. Sorriu, recatadamente, e disse: - O Sr. Napier deseja vê-la, Sra Verlaine. Está na biblioteca.

- Agora? - perguntei.

- Ele disse que quando lhe convier.

Ela demorava-se; eu queria que ela fosse embora, para pentear meu cabelo antes de ir para a biblioteca. Não queria que Alice me visse fazendo isso. Era uma menina muito observadora.

-Espera tocar diante de todas aquelas pessoas, Sra. Verlaine?

-Bem...Acho que de certo modo sim.

Eu estava dando uma olhada furtiva para o meu cabelo, em desordem. Quisera tê-lo arrumado no alto da cabeça, porque me daria mais altura e um ar de dignidade também. Alisei o meu vestido. Preferia estar usando o alfazema, que tinha uma listra branca. Seria mais adequado. Comprara-o numa das boutiques perto da Rua Rivoli. Pietro gostava que eu usasse roupas bonitas - depois que ele ficou famoso, claro. Mesmo antes eu sempre soube tirar partido das roupas, em contraste com Roma.

Agora olhava para o meu vestido de gabardina. O corte era bom, o vestido era prático, mas possuía-os melhores; desejava ter sido avisada sobre esse encontro.

Era óbvio que não podia trocar de vestido, mas poderia pentear o cabelo. Fiz isso, enquanto Alice ainda estava ali.

- A senhora parece satisfeita - comentou ela.

- Satisfeita?

- Bem...mais do que isso. Diferente.

Sabia que tinha traído a agitação de ir para a batalha, pois era o que parecia, tendo um encontro com Napier Stacy.

Passei por Alice e desci até à biblioteca. Estivera neste cômodo só uma vez, tendo ficado impressionada pela sua forma. Havia um desenho de arcos, dividindo as pilastras, que eram coroadas com um friso e uma cornija. O teto esculpido era o mais intricado da casa e as armas de Stacy, Beaumont e Napier, entrelaçadas, faziam um padrão complicado.

Uma parede estava completamente coberta por uma peça de tapeçaria muito esquisita, o que me interessou imediatamente, não só pelo seu fino entrançado de lã e seda como também pelo tema -Júlio César desembarcando naquelas praias. Quando a Sra. Lincroft me mostrou aquele aposento, disse-me que tinha sido começado logo depois que a casa foi construída e que tinha sido colocado de lado durante mais de uma centena de anos. Então, um membro da família tendo cometido uma desobediência na corte, foi mandado para exílio; descobrindo o trabalho inacabado, mandou completá-lo do exílio. Numa casa como esta, sempre acontecem pequenos incidentes ligados ao passado.

As outras três paredes estavam cobertas com livros, alguns de couro, em estantes fechadas com vidro. Havia tapetes persas no chão de parquete, os mesmos bancos nas aberturas das janelas e uma pesada mesa de carvalho rodeada de cadeiras.

Havia um ar de solenidade na biblioteca. Não podia entrar lá sem pensar nas inúmeras conferências de família feitas ali, durante séculos. Aqui, não tinha dúvida, Napier tinha sido interrogado depois de balear seu irmão.

Napier estava sentado à mesa; levantou-se, quando entrei.

- Ah,- disse ele. - Sra. Verlaine! - Aquelas luzes pareciam entrar em seus olhos, fazendo-os mais azuis do que nunca. Ele estava esperando fazer-me passar um quarto de hora da maneira mais inconfortável possível. - Por favor, sente-se. - Sua voz era adocicada. Perigosa, pensei.

- Suponho que tenha imaginado que lhe quero falar sobre a sua apresentação. Os afinadores afirmaram-me que o grande piano do salão está em perfeitas condições; assim, tudo correrá bem. Estou certo de que irá deleitar-nos.

- Obrigada. - Tão polido, pensei. Onde quererá chegar? - Já tocou no palco, Sra. Verlaine?

- Não a sério.

- Compreendo. Não tinha ambição para fazê-lo.

- Sim, - disse eu - grande ambição. - Ele ergueu as sobrancelhas e eu prossegui, rapidamente. - Não tão grande, aparentemente.

- Quer dizer que falhou, não alcançando o padrão pedido?

- Quero dizer justamente isso.

- Então sua ambição não era bastante forte.

- Eu me casei - disse, o mais friamente possível.

- Mas essa não é a resposta. Há gênios casados.

- Nunca disse que era um gênio.

Seus olhos ardiam. - Desistiu de sua carreira pelo casamento - disse ele. - Mas seu marido foi mais afortunado. Ele não teve de desistir da carreira.

Estava sem palavras. Tinha medo de que, falando, minha voz traísse minha emoção.

Como detestava este homem!

Ele prosseguiu falando. - Escolhi as peças que tocará para nós. Estou certo de que concordará com a minha escolha. Grandes favoritas...Tenho certeza de que lhes fará justiça.

Não respondi. Estava pensando em Pietro e em tantas cenas do passado. O egoísmo de Pietro, meu ressentimento, meu sacrifício do qual me lembrava continuamente.

Por que este homem tinha de trazer tudo de volta tão vivamente?! Não ficaria ali para ser atormentada. Apanhei as músicas que ele tinha posto na mesa.

Eu disse: - Obrigada, Sr. Stacy.

Dei uma olhada nas folhas em minha mão. Danças Húngaras, a Rapsódia N.° 2. Músicas que Pietro tocara em seu último concerto!

Senti-me como se estivesse em choque. Não podia mais ficar naquele cômodo. Virei-me. A tapeçaria de Júlio César parecia rodar diante de mim. Apalpei a maçaneta da porta e saí.

Ele sabe, pensei. Escolheu estas peças deliberadamente. Queria brincar com os meus sentimentos; queria escarnecer de mim; fazer com que me traísse; queria divertir-se, como um garoto faz quando aprisiona aranhas numa bacia, olhando sua reação.

De certo modo ele zombou de Edith. Agora sua atenção estava voltada para mim. Evidentemente eu o interessava. Por quê? Será que ele sabia mais de mim do que eu acreditava ser possível?

Ele se encarregara de descobrir o que Pietro tocara naquela noite. Talvez tivesse sido publicado em algum jornal. O que mais saberia ele a meu respeito?

No dia anterior ao jantar Alice veio comunicar-me que Edith estava doente. Fui visitá-la em seu quarto.

Era o apartamento onde Charles I ficara alojado durante a guerra civil. Um aposento precedia o quarto principal, que era de Napier, enquanto Edith ocupava um maior. Nele havia uma cama, sobre a qual estava uma cúpula sustentada por quatro colunas, gravadas com flores. A cabeceira era ornamentada com figuras douradas e as cortinas eram de veludo azul. Era uma cama muito elaborada. Lembrei-me de que era o quarto nupcial. Uma porta conduzia a outro cômodo - o quarto onde ficara alojado um rei. - Tanto quanto podia ver, parecia menos ornamentado. A cama entalhada tinha quatro colunas e, ao lado, havia duas escadas de madeira, usadas para subir nela.

Este quarto fora feito nos dias da guerra civil; contudo, a mobília era de um período posterior e mais elegante.

Pela primeira vez entrava na suite nupcial. Estava embaraçada por imaginar Napier aqui com Edith e como poderia ser o relacionamento deles, com tanto medo da parte dela e tanto desprezo da parte dele.

Havia uma cômoda junto à parede e, sobre ela, um espelho, com uma armação dourada. Notei a escrivaninha de madeira acetinada e com colunas torneadas. Aquele devia ser o aposento mais elegante da casa, contrastando com a austeridade do quarto que a ele se ligava.

Minha rápida observação sobre o quarto devia terminar em poucos segundos, pois fora ali ver Edith.

Ela estava sentada naquela cama ornada, parecendo débil e desamparada com seus maravilhosos cabelos louros penteados em duas trancas, que lhe caíam pelos ombros.

- Sra. Verlaine, sinto-me horrível.

- O que há de errado? - Perguntei.

Ela mordeu o lábio. - É que amanhã à noite serei hostess e haverá pessoas tão terrificantes! Não posso enfrentá-las.

- Por que deveriam ser terrificantes? São somente convidados.

- Mas eu não sei o que dizer. Preferia não ir. - Ela olhava para mim, na esperança de que eu encontrasse uma desculpa para a sua ausência.

- Você se acostumará a isso. Não adianta querer evitar esta vez, se terá de enfrentar a próxima. Tenho certeza de que não será tão ruim.

-Pensei que a senhora poderia fazer isso para mim.

-Eu?! - Estava atônita. - Nem vou ao jantar! Simplesmente tocarei para os convidados.

-A senhora faria isso melhor do que eu.

-Obrigada, - disse eu - mas não sou a dona desta casa, apenas trabalho aqui.

-Pensei que poderia falar com Napier...

- E sugerir-lhe que eu tomasse o seu lugar? Naturalmente você deve compreender que isso é impossível.

- Sim, acho que sim - disse Edith. - Espero sentir-me melhor. Mas estou certa de que ele a escutaria.

- Se alguém tiver de falar com seu marido deverá ser você, que certamente o fará melhor do que ninguém.

-Não - disse Edith, pondo a mão momentaneamente sobre os olhos. Depois acrescentou: - Ele a nota realmente, Sra. Verlaine... e não nota muitas pessoas.

Ri, mas um terrível embaraço tomou conta de mim. Ele estava interessado em mim. Por quê?

Retruquei, severamente. - Você devia levantar-se e sair para um passeio. Pare de amofinar-se. Quando tudo passar, concluirá que não havia motivo para se aborrecer.

Edith tirou as mãos dos olhos e encarou-me seriamente.

Como era criança! Minhas palavras tinham-na impressionado um pouco.

-Tentarei - disse ela.

 

O grande salão estava silencioso. Havia o piano no estrado. Flores seriam trazidas das estufas. Tulipas e cravos, pensava eu. As cadeiras já estavam arrumadas. Era como uma sala de recitais... única, com as armaduras montando guarda na escada; as armas nas paredes; brasões dos Stacy entrelaçados aos dos Napier e Beaumont.

Eu me apresentaria ali, no meu vestido de veludo cor-de-vinho, como naquela trágica noite.

Não, diferente. Não seria uma espectadora; desta vez eu estaria lá, naquele estrado.

Sentar-me-ia ao piano. Não pensaria em Pietro. Pietro estava morto. Se ele estivesse aqui eu teria medo de falhar, de ganhar a sua crítica. Estaria consciente de sua presença, de seus ouvidos, esforçando-se para perceber uma nota falsa - a falta de segurança... e eu saberia que, enquanto ele tremia por mim, ainda esperava que fizesse uma apresentação menos perfeita do que a dele.

Eu toquei. Não tinha tocado estas peças desde então. Dissera a mim mesma que não suportaria. Mas agora tocava e estava envolvida pela emoção que o mestre sentia quando compunha.

Estava lá, em toda sua glória, aquela inspiração que vinha de alguma coisa que não era deste mundo. Era maravilhoso. E, enquanto tocava, não mais via o longo cabelo de Pietro flutuando na agitação de uma interpretação criadora. Para mim a música significava o mesmo daqueles dias, antes de conhecer Pietro. Eu era exaltada enquanto tocava.

Quando acabei, tudo voltou vivamente; podia vê-lo, fazendo reverência à audiência, parecendo um pouco cansado. Nunca tinha ficado assim depois de uma interpretação...não logo depois. Aquela aparência veio após ele ter deixado o palco, quando os agitadores e bajuladores tinham saído, quando estávamos a sós. Então, a conseqüência do esforço feito aquela noite começou a aparecer.

Vi-o recostando-se na cadeira do camarim... Pietro... nunca mais tocaria.

Por um momento, pensei que ele tivesse voltado, que ele estava ali, junto de mim. Se alguma coisa podia evocar a volta dos espíritos, certamente seria aquela música.

A Srta. Stacy estava sentada numa das cadeiras. Usava um vestido rosa-pálido e pequenos laços cor-de-rosa em seu cabelo.

-Senti arrepios no meio da música - disse ela. - Você toca divinamente.

Eu não respondi. Ela prosseguiu. - Fez lembrar-me dos velhos tempos. Isabella costumava ficar nervosa...você não estava. Depois, ela costumava chorar em seu quarto. Não ficava

satisfeita com a interpretação, pois sabia que podia fazê-lo mehor se tivesse prosseguido com seus professores. Ao escutá-la, pensei: não me surpreenderia se isso trouxesse os fantasmas.

É como costuma ser. Suponha que Isabella não possa descansar. Suponha que ela voltasse... Bem, o salão pareceria como naquelas noites quando ela tocava...tudo o mesmo...só alguém diferente ao piano. Não é excitante, Caroline? Não acha que isso traria os fantasmas de volta?       

- Se eles existissem, sim. Mas eu não acredito.

- É perigoso dizer isso. Podem estar escutando.

Não respondi. Fechei o piano. Estava pensando: sim, seria uma ocasião para fantasmas. Não pensava no fantasma de Isabella Stacy, mas no de Pietro.

 

A imagem do passado ressurgia de meu espelho - em veludo vermelho e naquela orquídea. Ficava-me bem como nenhum outro vestido. Pietro não dissera isso, mas seus olhos o fizeram.

Ele ficara atrás de mim e colocara suas mãos em meus ombros, olhando para nós dois no espelho. Aquela imagem ficaria guardada para sempre em minha memória.

-Você parece digna de mim... - dissera ele, com sua candura típica. Ri para ele e disse que, se ele pensava isso, é porque realmente deveria estar muito bem.

Nós tínhamos ido juntos à sala de recitais e deixei-o para tomar meu lugar no auditório.

Mas o que adiantava lembrar isso? Não devia pensar nele esta noite. Esfreguei as mãos, massageando os dedos. Eles eram flexíveis e adequados, pensei. Esta noite eles teriam uma mágica especial, e ninguém iria roubá-la deles, nem mesmo o fantasma de Pietro.

Estava satisfeita por não ter sido convidada para o jantar. A Sra Lincroft achara um descuido de Napier não ter sugerido isso, pois tinha certeza de ser essa a vontade de Sir William. Respondi que preferia não ir.

- Compreendo, - disse ela - deseja ficar perfeitamente tranqüila para a sua apresentação.

Eu imaginei os convidados. Amigos de Napier ou de Sir William? Os de Napier raros, pois ele não tinha ficado bastante tempo em casa para fazer muitos amigos. Desejaria saber como se sentiria um exilado ao voltar... Deveria ser um pouco como eu me sentia esta noite. De certo modo eu me exilara. Hoje, subiria naquele estrado e as pessoas me escutariam tocar. Seria uma audiência sem críticos, bem diferente das audiências de Pietro. Não havia nada a temer.

Às 9 horas fui para o grande salão. Sir William estava lá, em sua cadeira de rodas, conduzido pela Sra Lincroft, que usava uma saia longa cinzenta de chifon com blusa azul. Ela não era da família mas, como eu, uma espécie de empregada graduada. Fez-me lembrar disto, assim que a vi.

Sir William chamou-me e disse-me lamentar que eu não me tivesse juntado a eles no jantar. Respondi que preferia repousar antes da apresentação. Ele inclinou a cabeça, em sinal de compreensão.

Napier veio até mim; Edith estava com ele. Ela parecia muito bonita, mas estava bastante nervosa. Sorri-lhe, tranqüilizando-a.

Então a família sentou-se e eu dirigi-me ao estrado.

Primeiramente toquei as Danças, como Pietro fazia; enquanto meus dedos tocavam as teclas e aqueles sons mágicos saíam, esqueci-me de tudo, a não ser do prazer que eles me davam. Enquanto prosseguia na execução via imagens evocadas pela música e aquele maravilhoso estado de exaltação tomou conta de mim. Esqueci que estava tocando para estranhos, num salão baronial, e que perdera Pietro. Nada mais havia além da música.

O aplauso foi espontâneo; sorri para a audiência, que continuava aplaudindo. Examinei-os. Percebi Sir William, profundamente tocado; Napier sentava-se aprumado, aplaudindo com o resto; Edith, a seu lado, sorria, quase feliz, e em algum lugar no fundo do salão, Allegra e Alice - Allegra pulava em sua cadeira, em seu arrebatamento, e Alice estava circunspecta. Senti sua alegria não tanto pela música, mas pelo meu sucesso.

O aplauso decresceu e eu recomecei a tocar a Rapsódia. Esta era a peça de Pietro, contudo não me importei. Para ela sempre se abria um mundo de cor e deleite. Sentia inúmeras emoções diferentes enquanto tocava e o mesmo acontecia a ele. Uma vez dissera-me que durante uma parte da Rapsódia sempre se imaginava numa cadeira de dentista removendo um dente, o que nos tinha feito rir. - É dor - gritara ele. - Dor absoluta e, depois, a satisfação total.

Eu sofria, regozijava, e nada mais havia para mim a não ser música; quando cheguei ao fim sabia que nunca tocara tão bem.

Levantei-me. Os aplausos foram ensurdecedores.

Napier estava a meu lado, dizendo-me: - Meu pai deseja falar-lhe.

Segui-o até à cadeira de rodas de Sir William. Havia lágrimas nos olhos do velho homem.

-Preciso dizer-lhe, Sra Verlaine: foi espetacular. Além das minhas expectativas.

-Obrigada, obrigada.

-Seremos requisitados para repetir isto freqüentemente, acredito. Faz-me lembrar...

Ele não continuou, e eu disse: - Compreendo.

- Todos querem cumprimentá-la.

- Acho que vou retirar-me.

- Ah, sim. Exausta. Eu sei. Bem, nós compreendemos isso.

Napier olhava-me, mas não podia ler a expressão de seus olhos.

- Triunfante... - sussurrou ele.

- Obrigada.

- Espero que tenha aprovado a escolha das peças.

- Foram magníficas.

Ele inclinou a cabeça, sorrindo, e as pessoas começaram a aproximar-se para dizer-me o quanto gostaram de minha apresentação. Durante algum tempo não pude escapar. Estava ciente da presença da Srta Stacy - laços cor-de-alfazema no cabelo, parecendo agitada e transfigurada, como se tivesse sido tocada pelos fantasmas que, segundo ela, nos visitariam aquela noite. Vi a Sra Lincroft mandar as meninas para os seus aposentos. Recebi os cumprimentos e várias pessoas mencionaram meu marido. Poucos o tinham ouvido tocar, mas conheciam a sua fama.

Isto foi antes de eu poder escapar.

 

Eu meu quarto não parava de olhar minha imagem. A cor pálida de minha pele contra o suntuoso veludo cor-de-vinho lembrava a magnólia.

- Consegui - murmurei. - Pietro, consegui.

- Numa casa de campo, para uma audiência sem críticos. O que sabem eles de música?

- Eles a amam!

- Ah! Eles ficariam satisfeitos com Essie Elgin. Ela o teria feito igual. Exercícios, minha querida Caro.

E eu não queria nada senão estar com Pietro, brigar com ele... qualquer coisa, mas com ele.

Meu rosto estava queimado. Sentia-me sufocada naquele quarto. Impulsivamente, saí, chegando ao jardim, através da escada dos fundos.

Era uma noite quente de junho. Uma noite perfeita, pois a lua cheia estava alta. Fui para meu jardim cercado e sentei-me. Estava possuída de um desejo veemente de voltar àqueles dias, quando eu e Pietro nos sentávamos e conversávamos do lado de fora dos cafés em Paris. Poderia ter reunido a música e Pietro. Como teria sido melhor para nós dois. Se eu ficasse mais perto dele. Ele me teria respeitado. Devia ter cuidado melhor dele, salvaguardado sua saúde. Não devia ter-lhe permitido subjugar-me.

Cobri meu rosto com as mãos, desejando revivê-lo.

Fiquei algum tempo com a cabeça enterrada em minhas mãos; e, de repente, gritei, assustada, pois escutara um movimento a meu lado. Alguém estava sentado perto de mim.

-Espero não tê-la assustado - disse Napier.

Afastei-me. Era a última pessoa que queria ver. Ia levantar-me, mas ele segurou meu pulso com a mão firme. - Não vá - disse.

-Eu... Eu não o ouvi chegar.

-Estava absorvida em seus pensamentos - disse ele. Estava horrorizada. Acreditava haver sinais de lágrimas em meu rosto e, se ele as visse, seria intolerável.

Parecia diferente, mais doce. Aquilo devia prevenir-me.

- Vi-a dirigir-se para cá e quis falar-lhe.

- Viu-me?

- Sim, estava um pouco aborrecido com os convidados de meu pai...

- Espero que não lhes tenha falado isso.

- Não em muitas palavras.

- O senhor é...

- Por favor, continue. Sabe que não precisa escolher as palavras referindo-se a mim. Sei perfeitamente o que pensa.

- Bem, eu penso que é um pouco... grosseiro?

- O que mais esperava, sendo educado como fui? Mas chega de falar de mim. A senhora é muito mais interessante.

- Certamente não acha ninguém tão interessante como o senhor mesmo?

- No momento, por mais que isto a surpreenda, acho.

-Ele virou-se de repente para mim e continuou: - Vamos deixar de ironias. Vamos falar seriamente.

- Por favor, comece.

- Nós temos algo em comum, a senhora e eu. Já pensou nisso?

- Não posso imaginar o quê.

- Então não está pensando seriamente. Os nossos passados, claro. Aquilo que temos de esquecer. A senhora, esta noite...

-Subitamente ergueu a mão e acariciou meu rosto, com ternura. - Está lamentando o seu gênio. Não está certo, ele está morto. Tem de esquecê-lo. Tem de recomeçar. Quando vai aprender isso?

- E o senhor?

- Também tenho muito que esquecer.

- Tenta?

- Sim, sim.

- Aquelas peças que toquei...

- Eu sei, escolhi-as deliberadamente.

- O senhor sabia!

- Li nos jornais. As últimas que ele tocou.

- Que bondade relembrar-me!

- Mas, esta noite, a senhora afastou-se um degrau de sua dor. Sabia? Encarou a vida. Aposto que nunca tocou aquelas peças depois que ele morreu.

- Não. Não até esta noite.

- Agora irá tocá-las freqüentemente. É um sinal de que mudou um pouco.

- Então, escolheu-as para meu bem?

- Não acreditará se eu disser que sim. Acreditará se eu disser que as escolhi para desconcertá-la.

-Acredito - disse eu - que deveria crer no que me disser esta noite.

Ele virou-se subitamente para mim. Queria provocá-lo e ainda afastá-lo. Não podia entender o que lhe acontecera. Estava diferente. Eu estava diferente. Estava insegura de mim mesma.

Senti que não devia permanecer ali. Havia alguma coisa demoníaca naquela noite - aquela lua, aquele jardim - e nele.

- Por que esta noite? - perguntou-me.

- Acho que irá falar a verdade.

Ele levantou as mãos; pensei que fosse tocar-me, mas retraiu-se. Então disse: - Escolhi aquelas peças deliberadamente. Queria que as tocasse porque é melhor encarar a vida e não fugir dela.

- E o senhor está fazendo isso? Ele assentiu.

- É por isso que lembra a todos que baleou seu irmão?

- Vê, - disse ele - é verdade que temos algo em comum. Temos de escapar do passado.

- Por que deveria eu querer escapar dele?

- Porque continuará sofrendo se não o fizer. Porque construiu um mundo que se torna mais rosado a cada ano, e bastante diferente do que foi a realidade.

- Como sabe o que foi a realidade?

- Sei muito sobre a senhora.

- O quê?

- O que me disse.

- Parece muito interessado em mim.

- E estou. Não imaginava isso?

- Pensei que estivesse longe de ser notada.

Então ele riu-se e era o velho riso zombeteiro, desprezível. Subitamente, ele disse: - Você está fascinada por este lugar.

Admiti.

- E os outros, como se sentem aqui?

- Eu sempre acho gente interessante.

- Mas nós somos um pouco diferentes, não somos?

- É comum às pessoas acharem-se diferentes.

- Já viu alguém que matou o irmão?

- Não.

- Isso me faz único?

- Acidentes podem acontecer a qualquer um.

- Está determinada a desmentir a opinião geral de que não foi um acidente?

-Estou certa de que foi.

-Agora deveria pegar a sua mão...assim... e levá-la aos lábios. - Ele o fez. - Devia beijá-la, em sinal de gratidão.

Seus lábios queimaram minha pele, o beijo foi ardente e assustador. Retirei a mão o mais casualmente que pude.

-Deveria? - perguntou ele.

-Claro que não. Não há nada para agradecer. A mim parece uma explicação lógica. Um acidente.

- A senhora é sempre tão lógica?

- Tento ser.

- Dispensando simpatia a quem merece?

- Não, a quem deve ser dispensada.

-É claro que sabia que fui mandado para a Austrália... para um primo de meu pai. Ele não suportava a minha presença... meu pai, quero dizer, depois do acidente. Minha mãe suicidou-se. Dizem que foi por causa da morte de meu irmão. Duas mortes nas minhas costas. Bem, a senhora pode entender isso, não pode? Eu era uma péssima lembrança. Assim, fui para a casa do pai de meu primo, que era um pastor, a umas oito milhas ao norte de Melbourne. Pensei que iria ficar lá até o fim de minha vida.

-E o senhor estava contente de fazer isso?

-Nunca. Era a este lugar que eu pertencia e, quando tive a oportunidade de voltar, não hesitei. Aceitei a proposta de meu pai.

-Bem, agora voltou e tudo está bem.

-Está, Sra Verlaine? - Ele chegou-se para mais perto de mim. - Como parece estranho, estar sentado neste jardim enluarado, conversando seriamente com a Sra Verlaine... Eu sei o seu nome; é Caroline, Caro, como a chamava o seu gênio.

-Como pode saber isso?

-Li. Saiu no jornal, sabe? Dizem que seu marido falou-lhe ao chegar ao camarim. Tudo que pôde dizer foi: "Está tudo bem, Caro".

Senti meus lábios tremerem. Explodi: - Deliberadamente, está tentando...

-Machucá-la? Quero que enfrente a realidade... Caro. Quero que encare os fatos e depois lhes vire as costas. Isto é o que nós dois temos a fazer.

Havia um estranho tremor em sua voz e eu virei-me para ele. Ele levantou as mãos, como se dissesse: "Ajude-me". E eu quis dizer: "Nós nos ajudaremos mutuamente". Porque, estranhamente, naquele momento, eu acreditava nele. Eu estava feliz - feliz por estar ali, cora ele, no jardim enluarado, cuja magia tinha mandado o diabo embora.

Subitamente ele pegou minhas mãos e eu não as retirei. Ficamos sentados, olhando um para o outro, e eu sabia que alguma coisa tinha crescido entre nós e que nenhum de nós podia negar.

De repente fiquei com medo, com medo de minhas emoções e das dele. Levantei-me.

Eu disse: - Está um pouco frio, acho que devia voltar para casa.

Ele mudara; a arrogância o tinha abandonado. Ou me enganara a mim mesma? Estaria o luar brincando conosco?

Sentia-me insegura de tudo, menos de uma coisa: tinha de fugir dele.

 

Jantei com Alice e sua mãe. Voltei para meu quarto, para preparar minhas lições. Não via Napier desde a noite de minha apresentação e foi muito difícil para mim acreditar que não tinha exagerado de algum modo a cena no jardim enluarado. Estivera agitada naquela noite; e ele, claro, tinha tomado consciência disso. Não devia esquecer de que ele era marido de Edith, e que podia muito bem ser um galanteador, pois lá estava Allegra para prová-lo. Como eu fora idiota aquela noite! E verdade que eu não me demorara no jardim mas, pensando bem, estou certa de que estive a ponto de enganar-me. Imaginava se ele pensava naquela cena com divertimento... Precisava esquecer e concentrar-me no trabalho.

Bateram à porta. Era Alice. Parecia assustada, fora de sua habitual seriedade.

-A senhora pediu-me para dizer-lhe. Eu vi a luz na capela. Disse-me para avisá-la...

-Onde? - perguntei, dirigindo-me para a janela.

-Pode vê-la melhor de meu quarto - disse ela. - Venha. Ela conduziu-me até à sala de estudos, que ficava junto

ao quarto de sua mãe e ao dela. Subimos uma escada espiral e levou-me para o quartinho, com cortinas elegantes e uma pequena cama coberta com uma colcha de chita - um quarto que refletia a personalidade de Alice. Dirigiu-me para a janela e ficamos, lado a lado, olhando para a escuridão da mata.

-A senhora poderia vê-la de seu quarto - explicou ela. - Mas daqui pode ver que ela está realmente na capela.

Uma quase lua cheia lançou uma firme claridade à cena. Não havia vento.

- Que noite tranqüila e clara... - disse eu.

- O tipo de noite em que os fantasmas aparecem - murmurou Alice.

Dei uma olhada para ela. Seus olhos cinzentos estavam maiores; sua pequena figura, tensa.

-Você não está com medo? - perguntei.

Ela estremeceu. - Não sei. Acho que ficaria se visse... o fantasma de Beau.

- A senhora não ficaria - assegurou ela. -

Não tenha medo, Alice.

- Mas ele... anda.

- Os mortos não andam, estou certa disso.

- Se eles se zangarem, se há alguém que eles odeiam... se alguém puser fogo no santuário...

- Alice, - disse eu - você está deixando sua imaginação dominá-la.

- Mas a luz existe, Sra Verlaine.

- Talvez você tenha pensado que viu uma luz.

- Eu a vi várias vezes. Há uma luz na capela. Não é imaginação.

- Podia ser alguém na estrada.

- Fica muito longe. Tenho certeza de que é mesmo na capela... Olhe! Pode vê-la desta janela. Move-se em volta da capela e depois desaparece, já a vi mais de uma vez, desde que o Sr. Napier voltou.

- Pode haver muitas explicações. Pessoas podem encontrar-se lá.

- Quer dizer amantes?

- Qualquer pessoa. Por que deveriam sê-lo?

- É um lugar sagrado. Além do mais, seria pecado e, se as pessoas estivessem pecando, não mostrariam luzes para se traírem, mostrariam? Olhe! Olhe! Lá está.

Ela tinha razão. Vi a luz claramente. Era como se estivesse presa à janela, que me lembrava ter visto na ruína queimada.

Fixei os olhos, sem poder reprimir inteiramente um arrepio. Quem estava lá? Quem tinha ido à ruína na mata depois do escurecer com o fim de assustar? Estava decidida a descobrir.

Alice murmurou: - É o fantasma de Beau.

- Não, não... isso é absurdo. Mas pode ser alguém fingindo ser.

- Mas quem seria? Quem... ousaria?

Não respondi, e disse: - Gostaria de ir comigo até lá agora?

Ela afastou-se de mim. - Oh... não, Sra Verlaine. Ele ficaria zangado. Faria alguma coisa horrível conosco. Ele poderia...

- Quem?

- Beau.

Eu disse: - Não acredito nisso. Beau está morto e quem está mostrando aquela luz está muito vivo. Quero saber quem é. Você não quer?

Ela baixou os olhos e ergueu-os para o meu rosto. - Sim, quero, mas poderia acontecer-nos alguma coisa terrível se fôssemos até lá.

- O que acha que poderia acontecer-nos?

- Poderíamos ser transformados numa pedra. Poderia transformar-nos numa daquelas figuras do altar. Algumas vezes me parecem já terem sido gente.

- Oh, Alice! - repreendi...

Ela deu-me um sorriso nervoso. - Sei que sou tola, mas ficaria assustada. - Ela parecia acreditar que eu iria sozinha, pois pegou em minha mão e gritou: - Sra Verlaine, por favor, não vá. Por favor... por favor!

Fiquei agradecida por ela se preocupar tanto comigo. Disse-lhe, gentilmente: - Mas Alice, isto é o tipo de coisa que devia ser investigada. Não deve ser permitido a ninguém pregar peças dessa natureza.

- Sim, mas não vá, Sra Verlaine. Talvez alguma de nós possa ir com a senhora. Mas não agora, por favor.

- Está bem, Alice, mas não aceito esta idéia de um fantasma, compreende? Estou certa de que acharemos uma explicação lógica se a procurarmos.

- Acha mesmo?

- Eu certamente o farei.

- Que alívio.

- Agora, Alice, acho que devia esquecer essa luz.

- Sim - ela suspirou. - De qualquer modo, vou pensar nisto durante a noite e não serei capaz de dormir.

- Tem um bom livro para ler?

Ela assentiu. - É Evelina. É fascinante, Sra Verlaine, sobre as aventuras de uma jovem senhora da sociedade.

-Bem, Alice, acho que você gostaria de ser uma jovem senhora de sociedade.

Ela sorriu e eu estava satisfeita, pois percebia que o medo e as imaginações mórbidas provocadas pela luz da capela estavam quase desfeitas. - Bem, - disse ela - posso sonhar com isso, Sra Verlaine, apesar de ser uma coisa que nunca irá acontecer. Allegra está sempre me lembrando que, apesar de eu viver numa casa grande e gozar de alguns privilégios da família, sou somente a filha da governanta.

- Não ligue, Alice. O que importa é o que você é realmente.

- A senhora acha?

- Estou certa disso. Agora volte para Evelina e não pense mais naquela luz misteriosa que, estou certa, não será mistério por muito tempo.

- A senhora não gosta de mistérios?

- Quem não deseja resolvê-los?

- Muita gente não se importa. Talvez sejam iguais a mim e imaginem que pode acontecer alguma coisa. Porém a senhora quer saber. Como o que aconteceu com a Srta Brandon.

- Creio que muita gente gostaria de saber.

- Mas acho que nunca saberão.

- Ninguém pode estar certo do que será descoberto.

- Não. - Ela estava pensativa. Então, disse: - Isso é que torna tudo excitante, não é?

Concordei e voltei para meu quarto.

 

Eu não estava realmente tão indiferente à misteriosa luz como fizera acreditar a Alice. Não havia dúvida de que alguém estava pregando peças; era alguém que pretendia que o lugar fosse assombrado e desejava guardar a memória de Beaumont Stacy viva. Como se fosse necessário. Não, esta dificilmente seria a resposta. Quem quer que fosse, insinuava - estava certa - que o fantasma de Beaumont estava revoltado com o retorno de Napier.

Era idiota, infantil, miserável e vingativo. Eu estava mais zangada do que a situação o exigia.

Napier, indubitavelmente, tinha seus inimigos, isto não me surpreendia.

Retornando a meu quarto fui para a janela e olhei para os campos. A lua tinha minguado desde a noite de meu concerto. Pensei no jardim enluarado e em Napier, que estava tentando esquecer o passado, e desejava saber quem estava disposto a querer que ele não o fizesse. Quem iria para a mata balançar uma luz na esperança de que se acreditasse que seu belo irmão tinha voltado porque estava descontente? Era infantil. Mas também ela uma maneira de conservar a história viva.

Olhei através dos gramados para a mata. Alice estava certa, não era fácil ver a ruína daqui, uma vez que ela ficava mais alta. De fato eu não podia ver a capela - só manchas escuras de abetos da mata.

A capela tinha sido destruída pelo fogo depois que Napier voltara. Quem teria feito aquilo? Seria a mesma pessoa que agora assombrava, balançando uma luz no escuro?

Senti vontade de aplacar o fantasma, de parar com essa criancice. Queria saber como seria Napier se não tivesse mais de viver na sombra do passado. Justamente porque quando nos encontramos no jardim eu não estava no meu estado normal, agora prontificava-me a favorecê-lo com toda sorte de qualidades que ele, inegavelmente, não possuía.

- Instinto maternal, querida Caro - diria Pietro. Ele havia zombado disto em mim certa ocasião, quando ficara ansiosa por ele ter caminhado durante horas na chuva, relembrando alguma cadenza que não o satisfizera. (Cadenza é uma passagem virtuosística, frequentemente baseada em temas expressos anteriormente na obra musical, na qual o solista tem oportunidade de mostrar sua técnica)

- Não que eu queira combater isso, Caro. Mas você deve fazê-lo discretamente. Preocupe-se comigo, mas não me deixe saber. Seja discreta. Pequenas atenções devem ser realizadas de modo que não sejam notadas. Eu ficaria desgostoso com uma mulher possessiva e barulhenta.

Vá embora, Pietro. Deixe-me sozinha. Deixe-me esquecê-lo. Deixe-me escapar.

Podia escutar sua voz irônica em meus ouvidos. - Nunca, Caro. Nunca.

Então, momentaneamente, esqueci Pietro, pois vi uma sombra emergindo da plantação. Durante alguns segundos esta figura ficou ao luar, e eu reconheci Allegra.

Ela corria pelo gramado, conservando-se junto à sebe; depois desapareceu dentro de casa.

Allegra - perguntei-me. Seria ela o fantasma que estava assombrando a capela na mata?

Estudei-a de perto enquanto ela tropeçava no estudo de Czerny.

-Realmente, Allegra! - murmurei.

Ela sorriu para mim, desajeitadamente, e então resmungou para o livro, fez uma pausa e prosseguiu.

Quando chegou ao fim da peça suspirou e pôs as mãos no colo. Eu também suspirei. Então ela começou a dar gargalhadas.

- Eu lhe disse que não adiantaria, Sra Verlaine.

- Você não se concentra. Porque não pode ou não quer?

- Eu tento - disse, olhando para mim, desafiadoramente.

- Allegra, - disse eu - você sempre vai à ruína no bosque depois de escurecer?

Ela fitou-me e deu-me uma rápida olhada antes de voltar-se para o teclado. - Oh, Sra Verlaine, eu... eu ficaria apavorada. Sabe que é mal-assombrada, não sabe?

- Sei que alguém mostra uma luz, lá.

- Às vezes há uma luz lá. Eu já a vi.

- Você sabe quem está pregando essa peça?

- Oh... sim. Acho que sim.

- Quem é, Allegra?

- Dizem que é o fantasma do tio Beau.

- Eles dizem. Quem são eles?

- Quase todo mundo.

- Mas, o que diz você, Allegra?

- O que deveria dizer?

- Diria que é alguém pregando uma peça?

- Oh, não, Sra Verlaine, eu não diria isso.

- Mas você pensa?

Ela olhou-me, verdadeiramente alarmada. - Não a estou entendendo.

-Havia uma luz na capela a noite passada e Alice chamou-me à atenção para isso. Um pouco mais tarde vi você entrar em casa.

Ela mordeu os lábios e baixou os olhos.

- Você admite, Allegra, que saiu a noite passada? Ela concordou.

- Então...

- A senhora não pode pensar que eu...?

-O que penso é que se alguém está fazendo uma brincadeira idiota, Sir William gostaria de sabê-lo.

Ela estava apavorada. - Sra Verlaine, posso dizer-lhe onde estava. Tomei o lenço da Sra Lincroft emprestado e esqueci-o na casa pastoral, por isso voltei para pegá-lo. Se a Sra Lincroft sentisse falta dele, contaria a meu avô, por isso fui apanhá-lo.

- Viu o pastor, o Sr. Brown ou a Sra. Rendall, quando chamou?

- Não, mas vi Sylvia.

- Por que não deixou lá até amanhã, quando iria lá?

- A Sra Lincroft descobriria e ela disse que se eu tomasse emprestado alguma coisa mais, sem pedir, contaria a meu avô. - Era escarlate - acrescentou, insinuante. - Eu adoro escarlate.

Voltei-me para as folhas de estudos de Czerny.

-Vamos tentar isso - disse eu. Tinha decidido que não acreditaria em Allegra e que iria vigiá-la.

Não perdi tempo para falar com Sylvia. Sylvia era a que via menos. Parecia-me um pouco manhosa. Não tinha certeza do que me dera essa impressão. Talvez porque na presença da mãe demonstrava ser muito recatada para mudar logo que a senhora Rendall não estivesse presente. Não estava sendo correta com ela, repreendi-me a mim mesma. Pobre criança! Quem não ficaria intimidada com a formidável Sra Rendall, particularmente alguém que estivesse debaixo do seu controle, como sua filha?

Sylvia era uma aluna aplicada, e eu sentia que ela fazia o possível, um possível pobre, era verdade, mas tudo o que era capaz de fazer.

- Você viu Allegra a noite passada? - perguntei-lhe, depois que ela havia martelado suas escalas.

- Allegra? Por quê?...

- Ela veio vê-la? - insisti. - Tente lembrar-se. Eu desejo saber particularmente.

Sylvia olhou para as unhas roídas. Parecia que estava pensando desesperadamente o que deveria responder.

- Se a tivesse visto a noite passada lembrar-se-ia, não?

- Oh, sim - disse Sylvia. - Ela veio à casa pastoral.

- Ela sempre vem à noite?

- Não.

- O que dizem seus pais quando ela vem?

- Eles não sabem...

- Então é uma visita secreta?

- Bem, foi - foi o lenço. Compreende? Allegra tomou-o emprestado. Era da Sra Lincroft, e ficou com medo de que ela descobrisse e contasse a Sir William, por isso veio apanhá-lo; eu a deixei entrar e ninguém ficou sabendo que ela veio.

Então era verdade. A história conferia, e se Allegra esteve na casa pastoral não podia ter estado na capela quando a luz apareceu.

Eu devia procurar o meu trocista em qualquer outro lugar.

Jantei com a Sra Lincroft e Alice; esta última saiu, deixando-me com sua mãe.

-Não vá ainda - disse a Sra Lincroft. - Fique e lhe farei um café.

Observei-a fazendo o café. - Gosto de fazê-lo eu mesma - disse ela. - Sou muito exigente com o meu café e chá.

Observei-a mover-se no aposento - uma mulher elegante, numa saia longa, que a favorecia, - cinzenta desta vez - uma blusa de chiffon muito feminina, da mesma cor, com botões decorativos cor-de-rosa. Ela movia-se silenciosamente e com graça e eu pensei que devia ter sido bonita na mocidade. Ela não era velha, mas um pouco madura. Tomei consciência de seu ligeiro ar de cansada e fiquei imaginando como teria sido o falecido Sr. Lincroft.

Quando o café ficou pronto ela trouxe a bandeja de bronze para uma pequena mesa e sentou-se perto de mim.

-Espero que esteja a seu gosto, Sra Verlaine. Sem dúvida, sabe o que é um bom café, tendo morado na França.

Eu admiti que era verdade.

- E ficar viúva tão jovem!

- A senhora sabe o que isso significa...

- Oh, sim... - Esperei por confidencias, mas elas não vieram. A Sra Lincroft era uma das poucas mulheres que não falavam sobre si. - Já está conosco há algumas semanas - prosseguiu. - Espero que já esteja adaptada.

- Acho que sim.

- Começa agora a conhecer alguma coisa da família. A propósito, como está achando Edith?

- Creio que está bem.

A Sra Lincroft concordou. - Há uma mudança nela. Já notou? Então não a tem visto muito. Ela vai ter uma criança.

-Oh.

Há sinais - espero que tudo dê certo. Isso fará feliz a todos. Se for menino... espero que seja um menino... assim, Sir William ficará resignado.

-Estou certa de que será um acontecimento feliz.

A Sra Lincroft sorriu. Isso mudará tudo. O passado será esquecido.

Concordei.

- Vou rezar para que seja um menino e um que se pareça com Beaumont. Sir William gostaria que a criança se chamasse Beaumont. Porque se houvesse outro Beaumont na casa o fantasma seria completamente esquecido.

- É pena que não se tenha esquecido há mais tempo.

- Ah, mas ele era um rapaz encantador. Se tivesse sido um pouco menos bonito, um pouco menos charmoso, teria sido mais fácil. A única maneira de esquecer é substituí-lo, e isso pode ser feito por um neto.

-Já existe Allegra.

-A filha natural de Napier! Mas só faz lembrar a Sir William uma ocorrência infortunada.

-Não é culpa dela.

-Não, na verdade. Porém sua presença não deixa Sir William esquecer. Houve um tempo em que pensei que Sir William a mandaria embora.

-Ele parece gostar de mandar as pessoas embora - disse eu.

A Sra Lincroft fitou-me. Podia ver que ela achava atrevimento de minha parte criticá-lo.

-Devia entender que a presença de Allegra podia ser penosa para ele.

-Deve ser triste para a garota, se ele der essa impressão.

Outra vez criticara Sir William e ela disse, muito brevemente: - Allegra sempre foi uma criança difícil. Talvez tivesse sido melhor não ser educada aqui.

-Deve ter sido duro para ela. Uma mãe que a abandonou, um pai que não conhecia e um avô que não a aceita.

A Sra Lincroft encolheu os ombros. - Fiz o que pude, - disse ela - não é fácil com uma garota como Allegra. Se fosse mais parecida com Alice... - Ela olhou para mim, ansiosa.

- Acha Alice obediente?

-Acho-a uma menina encantadora. Inteligente e com boas maneiras.

A Sra Lincroft recuperou seu bom humor. - Ah, - suspirou ela - gostaria de que Allegra fosse mais parecida com ela. Temo que aquela menina seja um pouco mão-leve. - Imediatamente pensei no lenço. - Oh, nada criminoso, - prosseguiu a Sra Lincroft, rapidamente - mas ela está apta a pensar que a propriedade de outras pessoas pode ser tomada emprestada sem primeiro pedir permissão, contanto que ela o devolva.

-Ela parece ter medo do avô.

-Naturalmente o teme. Também Edith. Mas ela é tão humilde! Não que isso seja necessariamente um defeito, mas ela é muito assustada. Assusta-se com tudo: trovão, relâmpagos... Far-lhe-á um bem enorme ter uma criança.

Eu disse: - Em sua opinião, qual o fundamento sobre o que falam da luz da capela?

Ela encolheu os ombros. - Todos os criados estão falando nisso. Penso que alguém deseja manter o passado vivo.

- Mas, por quê?

- Alguém que inveje Napier. Ou, talvez, seja só por travessura.

- Acho que uma ruína sugere um fantasma.

- A luz apareceu antes de a capela ter virado ruína. Assim que Napier voltou. E, depois, uma noite pegou fogo. Desde então a luz tem aparecido freqüentemente.

- O que pensa Napier sobre isto?

Ela olhou para mim atentamente: - A senhora provavelmente deve saber tanto quanto eu.

Então esta mulher enigmática tinha conhecimento de que Napier não me era indiferente - nem eu a ele. Fiquei desajeitada e mudei de assunto. Mencionei os jardins e ela estava pronta para falar das flores que eram sua paixão. Assim, a conversa prosseguiu fácil, até deixá-la. Isso foi depois de anoitecer. Eu estava assistindo uma penosa audição com Allegra ao piano, quando Alice chegou.

-Pensei que devia estar aqui quando chegasse a minha vez - disse ela. Sentou-se no banco da janela enquanto eu terminava a aula com Allegra. De repente, chamou. - Lá está ela outra vez. Eu a vi.

Allegra levantou-se do piano e correu para a janela. Eu a segui.

-É a luz outra vez - disse Alice. - Eu a vi claramente. Esperem um minuto. Olhem! Lá está ela!

E a luz apareceu realmente. Brilhou por um minuto, permaneceu fixa como um farol e depois tudo ficou escuro.

- A senhora a viu, Sra Verlaine?

- Sim, eu a vi.

- Ninguém pode dizer que não está lá, pode? -continuou Alice.

Sacudi a cabeça, mantendo os olhos fixos na mata. Então ela apareceu outra vez. Brilhava muito, através da escuridão; demorou-se alguns segundos e depois desapareceu.

Percebi o profundo suspiro de alívio de Allegra, a meu lado. Senti que lhe devia desculpas, pois tinha suspeitado dela e agora estava completamente excluída.

Decidi que iria descobrir a verdade. Uma noite, ao escurecer, esgueirei-me de casa, atravessei o gramado e fui até à mata.

Ao chegar lá, hesitei, sentindo um impulso quase irresistível de voltar. Era tão sobrenatural! Contudo, muitos daqueles acontecimentos fantasmagóricos nada significariam à luz do dia e acompanhada; a gente seria mais audaciosa do que sozinha, no escuro. A idéia de ir à capela - que fora a minha primeira intenção - e esperar lá, agora parecia-me alarmante. Parei debaixo de uma das árvores e espreitei por entre as trevas.

Provavelmente seria um esforço desperdiçado, disse para mim mesmo. Fantasmas não vêm por encomenda. É claro que isso era uma desculpa. Então perguntei-me por que não voltava e pedia à Sra Lincroft ou a Alice para acompanhar-me. Elas pensariam que eu estava ansiosa para provar que alguém estava fazendo uma brincadeira. Não podia esquecer a observação da Sra Lincroft sobre Napier. Um pensamento rápido ocorreu-me. E se Roma tivesse ido à capela alguma noite? E se tivesse visto algo que não fosse para ser visto? O pensamento provocou-me um calafrio. Podia imaginar a ação de Roma, determinada a resolver o mistério.

- Fantasmas! - Podia ouvir sua voz estridente, dizendo: "Que bobagem idiota!" Teria ela violado as ordens de Sir William, pois a permissão para escavar em suas terras não se estendia até ali. Contudo, ela não era de esperar permissão quando desejava fazer alguma coisa. Mas fantasmas! Como se ela se importasse com eles! "O que têm as luzes da capela a ver com arqueologia?" - podia ouvir sua voz perguntando.

Comecei a andar cautelosamente através da mata. Agora podia ver a mancha escura que era a ruína. Aproximei-me e toquei a pedra fria. Só daria uma olhadela e depois iria embora. No final das contas, poderia esperar a noite inteira. Voltaria mais tarde, acompanhada. Sem dúvida, Allegra e Alice gostariam de compartilhar da descoberta.

Então, repentinamente, ouvi um sussurro sibilante. É a brisa nas árvores, disse para mim. Mas não havia brisa. Era, indubitavelmente, o som de vozes. Vinham da capela e faziam-me tremer, dos pés à cabeça.

Meu impulso foi voltar correndo mas, se o fizesse, desprezaria a mim mesma. Estava à beira de descobrir, por isso devia continuar.

Num esforço para acalmar-me, caminhei até à entrada, onde fora a porta, com os ouvidos atentos o tempo todo.

Vozes outra vez - duas; uma mais alta, outra mais baixa... E elas murmuravam juntas.

Então ocorreu-me um pensamento. Estes dois não vieram assombrar a capela. Eles escolheram a capela para desfrutar de alguns momentos juntos.

A voz de Edith: - Você não deve ir.

E a outra voz respondia: - Minha querida, é o único caminho. Quando eu partir você me esquecerá. Deve tentar ser feliz...

Não desejando ser indiscreta naquela terna conversa de amantes, fui-me embora.

Edith tinha escolhido a capela para encontrar seu amante e esta devia ser uma das últimas vezes que eles se encontrariam, pois Jeremy Brown partiria dentro de poucos dias para a África.

Caminhei sossegada pela mata, pensando que aquela seria a melhor solução. A capela era um lugar de encontro de amantes. Teriam eles agitado a luz para manter as pessoas longes? Eu dificilmente podia acreditar que eles fizessem isso. Mas quem acreditaria ser Edith uma esposa infiel? Quando alguém investiga debaixo da superfície, encontra o que menos suspeitou. Por um momento relembrei Alice, declamando à minha frente:

...que juntos já pensam e tramam contra mim uma surpresa.

Estava quase saindo da mata, mas as árvores ainda eram muito espessas em minha volta, quando, de repente, se agigantou uma figura atrás de mim. Virei-me violentamente e, naquele momento, veio-me o absurdo de acreditar que estava a ponto de encarar o fantasma de Beaumont.

Era Napier; eu o enxerguei quase imediatamente e meu alívio foi evidente.

- Desculpe se a apavorei.

- Fiquei momentaneamente paralisada, isso foi tudo.

- Você parece ter visto fantasmas. Dizem que um anda por esta mata.

- Não acredito nisso.

- Você acreditou há pouco atrás. Confesse.

- Por um segundo.

- Creio que está um pouco desapontada. Gostaria de encontrar um fantasma, não gostaria? O fantasma de meu irmão, pois ele é o único que assombra este lugar, segundo dizem.

- Se o defrontasse face a face, eu lhe perguntaria muito severamente que bem ele pensava estar fazendo aqui.

Ele sorriu. - Você é audaciosa - disse. - Está na mata à noite e ainda desafia o fantasma. Ousaria ir à ruína agora e repetir o que acabou de dizer?

- Diria lá o que disse aqui.

- Então, desafio você.

Na pálida luz da lua percebi o brilho de seus olhos e o cínico torcer de seus lábios. Pensei nos amantes na ruína e em qual seria sua reação se os encontrasse lá.

Queria muito saber a resposta disto, mas estava absolutamente certa de que teria de evitar que ele fosse à ruína, a qualquer custo. Convencera-me de que Edith e Jeremy Brown eram duas crianças inocentes que tinham sido envolvidas em circunstâncias fortes demais para eles; o fato é que ele estava disposto a renunciar a ela; indo embora, provava isso. Senti uma necessidade urgente de proteger e preservar o seu segredo; assim, eu disse: - Não aceito o seu desafio.

Ele sorriu ironicamente para mim. Resolvi deixar que ele pensasse que eu era uma covarde. O que importava era que Edith não se expusesse.

-Mas quem sabe o que descobrirá se for? - perguntou ele.

- Não tenho medo de fantasmas.

- Então, por que não vai lá comigo... agora? Voltei-me mas, quando caminhava, ele veio e segurou o meu braço.

- Está com medo de alguma coisa? Confesse.

- Está frio.

- Com medo de pegar um resfriado?

Meu impulso foi deixá-lo mas, se o fizesse e ele fosse à capela e encontrasse os amantes, o que faria? Sabia que devia tentar impedi-lo. Assim, permaneci parada; ele também; ficou a meu lado, olhando para os jardins e a casa.

Finalmente falou: - Você não devia ter medo. Nem ninguém. Sou eu aquele que voltou para assombrar.

-Que bobagem!

- Ao contrário - uma vez que aceite a existência de fantasmas fica perfeitamente lógico. Eu o expulsei de sua casa, Ele não aceita o meu retorno. Você segue o raciocínio.

- Tudo pertence ao passado - disse, impacientemente. - Isso devia ser esquecido.

- Pode alguém esquecer por que quer?

- Não é fácil, mas pode tentar.

- Você é um bom exemplo.

- Eu?

-Você tem muito que esquecer...também. - Aproximou-se de mim. - Não compreende que isso nos dá muita coisa em comum?

- Tanto assim? - disse eu. - Pensaria que temos muito pouco em comum.

- Pensaria... Pensaria, realmente. Sabe, vou ser muito corajoso e contradizê-la.

- Acho que não precisa de muita coragem.

- Se vou provar que estou certo vou necessitar de uma certa dose de tolerância.

- Por quê?

- Porque deverá aturar minha companhia de vez em quando, para dar-me a chance de provar a minha afirmação.

- Dificilmente posso acreditar que deseje a minha companhia.

- Nesse ponto, devo contradizê-la outra vez.

Estava alarmada. Afastei-me um pouco dele. - Não compreendo - disse eu.

- É muito simples, você me interessa.

- Que extraordinário!

- Certamente outros a acharam interessante. Uma pessoa pelo menos. Estou-me referindo a seu gênio.

Eu disse, asperamente: - Desejaria que não se referisse a ele dessa maneira. Ele era realmente um gênio, e não precisa usar o seu deboche, simplesmente porque...

- Simplesmente porque me faltam os talentos que eram dele. É isso que quer dizer. Que figura pobre devo ser, comparado com ele!

- Nem por um momento pensei em compará-lo.

Eu estava inquieta. O que queria ele dizer? Seria isto urna espécie de namoro invertido? Estava como uma cena de uma farsa francesa que eu e Pietro tínhamos visto uma vez na Comédia Francesa. Sua esposa estava com o amante no bosque e ele conversando comigo, de uma maneira enigmática.

Devia ir para casa e deixá-lo. Mas se ele fosse à capela... Talvez isso fosse uma desculpa e eu quisesse ficar. Talvez estivesse repelindo só uma parte e muito fascinada com a outra.

Os assuntos complicados deste pessoal não me diziam respeito, pensei. Ainda assim, estava desesperadamente com pena de Edith e sabia que a pior coisa que lhe podia acontecer era ser encontrada numa situação comprometedora com seu amante. Este homem não se importava com ela; mas o que faria ele, se soubesse que ela o traía? Edith teria uma criança que seria repudiada... e a casa assistiria a outra tragédia.

-           Você deve perdoar-me, - disse ele, numa voz macia e acariciante - se eu sou muito bruto. Compreende, eu tinha 17 anos quando atirei em meu irmão e quando minha mãe se suicidou. Ele quase saboreava as palavras, pensei, falando vagarosamente. - Depois fui para o outro lado do mundo. Era uma vida diferente, a gente vivia... duro. A gente não desfrutava da companhia de senhoras como você.

- E sua vida atual? - disse eu.

- Edith é uma criança - disse ele, menosprezando-a. Mas eu não permitiria que ela fosse desconhecida. - Ela é jovem ainda. Isso é uma coisa que todos nós fomos, um dia, e que se apaga rapidamente.

- Nós não temos nada em comum. - Era a segunda vez que ele usava aquela frase. Pensei, com horror: ele está comparando-nos. Está dizendo que me prefere. Pensei na mãe de Allegra - a cigana selvagem. - Como lhe teria feito a corte?

- O interesse entre pessoas casadas cresce com os anos - disse eu, afetadamente.

- Você tem um ponto de vista ideal sobre o casamento. Significa que desfrutou um perfeito, não?

- Sim - disse eu, ferozmente. - Sim!

- Gostaria de tê-la encontrado antes.

- Para quê?

- Para ver como o casamento a modificou. Você era uma estudante de música, ansiosa pela fama. Creio que todos são. Você tinha nas mãos todas as glórias do inundo. Juraria que ouvia o aplauso de audiências arrebatadas quando se sentava ao piano.

- E você, qual foi a sua experiência antes...

Parei e ele terminou para mim. - Antes de desferir o tiro fatal? Oh, inveja, ruindade, ódio, crueldade...

- Por que quer que pense que você era perverso?

- Porque prefiro dizer-lhe eu do que esperar que os outros o façam... Caroline.

Afastei-me dele.

-           Ah, ofendi-a. Não devia chamá-la pelo primeiro nome. "Sra Verlaine, como vai? Que dia bonito está hoje! Vai chover." Assim é que deveria conversar com você. Que estúpido! Estúpido mesmo! Na Austrália nunca conversávamos, parecia que nunca havia tempo. Costumava pensar como era em casa - era bom, e teria continuado a ser, se Beau tivesse vivido. Podia falar com ele, era arguto, divertido; sabia como gozar a vida. Por isso, diziam que eu o invejava. Inveja é o pior dos sete pecados capitais, sabia?

- Está terminado. Pelo amor de Deus, por que não pode dizer que está tudo acabado?

- Pela mesma razão por que você não pode esquecer o passado. Não precisa dizer-me. Você pensa nele 0 tempo todo. Você o fantasia. Foi um idílio perfeito. Assim o crê e continua acreditando. Pelo menos eu tento ver as coisas como elas são.

- Você teve um acidente...

- Escute. Teriam acreditado nestas coisas sobre mim se tivesse sido diferente? Não, eu tinha mostrado meu caráter desagradável, meu mau humor, minha impulsividade... Se Beau me tivesse baleado, acredite-me, eles logo diriam que foi um acidente.

- Você ainda o inveja - disse eu.

- Invejo? Vê como isso me ajuda a conhecer a mim mesmo? Conversando com você.

- Poderia ser muito agradável, - disse eu - se você pusesse o passado de lado. Se começasse outra vez.

- E você? - perguntou ele.

- Eu também. Estou tentando reconstruir a minha vida.

-Você conseguirá - disse ele. E depois acrescentou, pensativo. - Talvez ambos consigamos.

Não podia enfrentar seus olhos, tinha medo do que poderia descobrir. - Agora preciso ir embora.

-Boa noite - disse eu. E caminhei apressadamente, através dos gramados, para casa. Ele resolveu caminhar a meu lado, e à medida que os montes de pedra se agigantavam à nossa frente pensava em Edith, na mata, com seu amante, enquanto eu estava aqui com seu marido.

Eu também desejava saber se alguém nos vira juntos.

 

Na outra vez que fui à casa pastoral encontrei a Sra Rendall num estado de grande indignação. Jeremy Brown tinha partido e o pastor estava mais sobrecarregado do que nunca. Ele realmente não sabia como coordenar as aulas das garotas e cumprir seus deveres de pastor, até conseguir um novo pastor-ajudante; por isso, ela queria que eu explicasse à Sra Lincroft que até resolver isso o pastor não podia ensinar às meninas.

Disse-lhe que falaria com a Sra Lincroft sem demora, e perguntei se as meninas podiam voltar comigo agora; assim, seu marido poderia retornar de uma vez ao seu trabalho na igreja. - Podia dar-lhes a aula de música em Lovat Stacy - disse eu.

Ela ficou um pouco mais calma. - Venha e tome um copo de vinho de bagas de sabugueiro. Acho que não as perturbaremos esta manhã, até a senhora falar com a Sra Lincroft e ser feito um novo arranjo sem demora.

Olhei para o meu relógio. Ainda tinha 10 minutos antes da primeira aula de piano.

A Sra Rendall levou-me para a sala de visitas, abriu um armário e tirou uma garrafa de vinho rotulada com sua nítida caligrafia.

-           Um dos melhores licores que já fiz, - disse ela com satisfação - apesar de meu gim de ameixa ser esplêndido. É mesmo o melhor, eu penso. De qualquer maneira, talvez prefira o sabugueiro.

Disse que aceitava; ela colocou vinho em dois copos e deu-me um, enquanto me contava como ela própria sempre fazia os vinhos, pois não se podia confiar em empregados hoje em dia. Um copo de vez em quando fazia muito bem ao pastor e ela sempre insistia para que ele o tomasse quando tinha suas dores no peito.

-           Melhor do que o remédio de qualquer médico - disse ela, com orgulho, saboreando a fermentação e observando-me para ver se demonstrava apreciação adequada, o que fiz.

- Sim, - resumiu, satisfeita - algum arranjo tem de ser feito... temporariamente.

- Quer dizer que eles devem empregar uma preceptora temporariamente?

- Acho que não será necessário. Elas não satisfazem, em nossos dias. A Sra Lincroft foi preceptora em determinada época, acredito. Estou certa de que conseguiu, até nos mudarmos para aqui.

- A Sra Lincroft parece eficiente em qualquer serviço.

- Uma mulher inteligente. Não se iluda com isso. Ela dirigia aquela casa, mesmo quando a Sra Stacy era viva. Alguns diziam que Sir William era um admirador dela. Na verdade... mais do que deveria ser.

- Sem dúvida, ele apreciava seu talento.

A voz da Sra Rendall ficou mais alta e desagradável. - Talento de verdade! Não obstante, ela foi embora por algum tempo, voltando com Alice, e retomou seu velho cargo - dirigindo a casa e estando à disposição para o que fosse necessário. Evidentemente, agora ela é quase a senhora da casa, com Alice morando lá como um membro da família.

- Seria difícil para alguém notar a diferença do padrão social das garotas.

- E por que não dizer? Alice é filha da governanta e eu sou uma das que pensa que é um pouco estranho misturá-la com Edith. Allegra é diferente, eu sei, mas é neta de Sir William. Permiti a Sylvia ser amiga de Alice. Que mais podia fazer?

- A senhora não podia fazer nada, se queria que Sylvia fosse educada com as outras.

- Exatamente, mas isso não altera os fatos... A propósito, como está indo Sylvia em suas lições?

- Temo que ela tenha pouco talento para o piano.

- Nos meus tempos, se as pessoas não tivessem talento apanhariam até consegui-lo.

- Receio ser impossível incutir talento, à força, numa criança que não o tenha.

- Eu a teria punido se soubesse que não estava estudando. Não seria necessário bater. Uns poucos dias a pão e água, Sra Verlaine, e essa criança aprenderia a tocar piano. Nunca vi tanto apetite. Está sempre com fome.

- Ela está crescendo.

- Espero que me comunique, quando ela não fizer os deveres que lhe marcar.

- Ela se esforça muito - disse eu, rapidamente.

Olhei para o relógio preso em minha blusa. - Está realmente na hora de dar a primeira aula. - Levantei-me. - Falarei com a Sra Lincroft logo que chegar a Lovat Stacy.

 

A Sra Lincroft resolveu o caso admiravelmente. Ela orientaria as tarefas e daria uma olhada na sala de estudos até chegar o novo pastor-ajudante.

- Se puder ajudar-me, Sra Verlaine, eu ficaria agradecida - disse ela.

- Será um prazer ajudá-la, - respondi. Mas lembrei-lhe que não fora treinada como professora.

- Valha-me Deus, Sra Verlaine - respondeu ela. - Nem eu. Quantas preceptoras o foram? Geralmente elas são pessoas educadas, empobrecidas, que são obrigadas a ganhar a vida de qualquer maneira. E eu diria que a senhora teve uma educação melhor do que a maioria. Seu pai não era um professor?

- Oh, sim... sim.

- Devo dizer que a senhora, seus irmãos e suas irmãs foram melhor educadas do que a maioria.

- Eu só tinha uma irmã.

Ela percebeu rapidamente que eu tinha usado o imperfeito. - Tinha? - inquiriu ela.

- Ela não está... mais conosco.

- Oh, querida, sinto muito. Agora me lembro de ter mencionado isso. Como estava dizendo, é óbvio que é bem educada e, se puder ajudar-me até o pastor-ajudante chegar, ficarei muito agradecida.

Eu disse que faria o possível.

 

Edith não viera para a sua lição. Olhei para o meu relógio. Cinco... 10 minutos atrasada.

Sylvia estava com Allegra e Alice na sala de estudos.

Hesitei em ir ao quarto de Edith. Desde meu encontro com Napier, naquela noite perto da capela, eu o tinha evitado, e estava relutante de ir ao quarto que ele partilhava com Edith; somente depois de se passarem cinco minutos decidi que devia sobrepor minha objeção.

Bati a porta e recebi um débil pedido para entrar.

Edith estava deitada, com rosto pálido e os olhos ansiosos, debaixo do dossel em forma de cúpula. - Oh, querida, - disse ela, quando me viu. - Minha aula! Esqueci-me.

-Edith, o que há?

-Aconteceu a mesma coisa ontem de manhã. Sinto-me tão doente!

-Talvez devesse ir ao médico.

Ela olhou-me miseravelmente. - Vou ter um bebê - disse ela.

- Isso é assunto para júbilo.

- Oh, a senhora foi casada, mas nunca teve filhos.

- Não - disse eu.

Ela olhou-me seriamente e observou: - Parece triste com isso.

- Eu adoraria ter tido filhos.

- Mas é horrível, Sra Verlaine. Ouvi a cozinheira contar como foi quando sua filha nasceu. Foi terrível!

- Você não devia ouvir tais histórias. As mulheres têm filhos todos os dias.

Ela fechou os olhos. - Eu sei - disse.

-Você será muito feliz.

Enterrou a cabeça no travesseiro e, pelo movimento de seus ombros, percebi que chorava.

-Edith - disse eu. - Edith, está acontecendo alguma coisa, além disso?

Ela virou a cabeça violentamente para olhar para mim.

- O que mais devia estar errado? - perguntou.

- Queria saber se poderia fazer algo para ajudar.

Ela ficou silenciosa e pensei no que ouvira na capela. Além disso havia alguma coisa mais que eu escutara e que me levara a imaginar que ela estava sendo chantageada.

-Como podia ser? Ela era rica, era verdade; não obstante, duvidava de que tivesse o controle de seu dinheiro. No momento devia ter passado para a posse de seu marido - uma reflexão desagradável.

Coitadinha de Edith, casada com Napier devido ao seu dinheiro, enquanto ela estava apaixonada por Jeremy Brown, que partira por achar que era a única solução para sua triste e pequena história de amor.

Mas antes de ele partir tinham consumado seu amor. O resultado seria a criança que ela estava carregando? Suspeitei de que esse devia ser o caso, pois ela era tão jovem, tão incapaz de dirigir sua vida... Senti um grande desejo de protegê-la e queria que ela soubesse.

Edith, - disse eu - se puder fazer alguma coisa para ajudar... por favor, deixe-me... se achar que é possível.

-Não sei o que dizer... o que fazer, Sra Verlaine. Sinto-me desnorteada.

Peguei sua mão e apertei-a; seus dedos uniram-se aos meus; estava certa de que ela tirara algum conforto de minha presença.

Então ela pareceu ter chegado a alguma decisão, fechou os olhos e murmurou: - Só quero descansar um pouco.

Compreendi. Ela confidenciaria qualquer outra coisa, apenas agora não estava preparada para fazê-lo.

-Se quiser falar comigo outra hora... - comecei.

Ela disse: - Obrigada, Sra Verlaine - e fechou os olhos. Não queria forçar confidencias. Lamentava por ela. Se algum dia vi uma garota assustada, essa era Edith.

Sir William estava jubiloso. Mandou-me chamar para tocar para ele e, antes de fazê-lo, pediu-me para sentar-me um pouco a seu lado.

-Estou certo de que já ouviu as novidades - disse. - Estamos todos felizes.

Ele parecia mais jovem e muito melhor do que antes.

- Sua apresentação foi um sucesso, - prosseguiu - temos de fazer outra. A senhora é uma ótima pianista, quero dizer, excelente.

- Oh, não. Está exagerando - protestei. - Porém, estou encantada que tenha agradado ao senhor e a seus amigos.

- É bom voltar a ter música nesta casa. Creio que a Sra Stacy ainda continuará a praticar durante algum tempo.

- Talvez não queira continuar com as aulas depois de a criança nascer.

-Nós lhe pediremos para ensinar a ele.

Ri e disse-lhe que alguns anos se passariam antes disso.

-Nem tantos... não foi Haendel que foi descoberto tocando no sótão, aos quatro anos? A música está na família, Sra Verlaine. A avó da criança podia ter sido uma grande pianista. Ela era, como a senhora diria, muito boa.

Sim, pensei, a atmosfera desta casa estava mudando. Ele podia referir-se à esposa sem embaraço. E isto tudo porque Edith iria dar a luz a uma criança, uma criança que podia não ser o neto deste homem.

Tinha admitido a possibilidade das dúvidas que estavam ocupando a minha mente há algum tempo. Pobre Edith, que dilema para ela! O que aconteceria se confessasse ao marido... Minha imaginação tomava conta de mim. Podia prever uma terrível tragédia caindo sobre Edith. Escutara sua voz apavorada quando falava com um chantagista. Aparentemente parecia inocente. Ela era inocente, estava certa disso. A vida é que era cruel.

Sir William ficou em silêncio por um momento e eu perguntei-lhe se gostaria que tocasse agora para ele.

Respondeu que sim. As peças estavam no piano, pois ele já as selecionara.

Eram peças leves e alegres; dentre elas estava algumas de Mendehsohn, Canções sem Palavras. Lembrei-me particularmente de Canção da Primavera, música alegre e leve, cheia de promessa de juventude.

Estava tocando há uma hora quando apareceu a Sra Lincroft. Ela entrou devagarinho no aposento e fechou a porta atrás dela.

- Ele adormeceu - murmurou ela. - Está tão contente! - Sorriu, como se o contentamento de Sir William fosse dela; então, pensei no que a Sra Rendall tinha insinuado sobre o relacionamento entre os dois.

- É tão agradável... tão inesperado - continuou, falando calmamente. - Pessoalmente pensei que Edith não fosse forte bastante, mas freqüentemente estas garotas de aparência delicada são as que têm filhos. Depois, Napier... tem mostrado claramente que ele... Bem, o que quero dizer é que dificilmente podia ser chamado de um marido devotado. Entretanto, sabe que Sir William espera que ele lhe dê um herdeiro. Ele foi trazido com esse fim.

Eu disse, um pouco indignada: - Para dizer melhor, um touro reprodutor.

A Sra Lincroft parecia chocada com a minha indelicadeza; por isso, fiquei um pouco envergonhada. Não havia necessidade de ser tão veemente. Napier voltara para casa por sua própria vontade, sabendo o que o esperava.

- Pelo menos ele deve cumprir seu dever - disse a Sra Lincroft.

- E parece que tem cumprido.

- Isso o coloca em situação estável aqui.

- Mas certamente, como filho de Sir William, seu único filho...

- Sir William lhe deixaria a casa e uma parte considerável de sua renda em qualquer parte, se ele não tivesse voltado. Mas ele voltou... naturalmente, ele voltou. Ele sempre foi ambicioso, sempre quis ser o primeiro. Era por isso que tinha ciúmes de Beau. Bem, agora acabou tudo. Ele aceitou o acordo do pai e quando a criança nascer Sir William será mais bondoso com Napier, tenho certeza.

-Sir William é um homem duro.

A Sra Lincroft parecia angustiada. Tinha esquecido meu lugar, outra vez. Por que queria defender aquele homem?

-As circunstâncias o fizeram assim - disse friamente. Notei um tom em sua voz que me dizia que eu estava mostrando um fraco gosto, tendo opinião diferente da do meu patrão. Ela era uma mulher estranha; entretanto, eu estava profundamente impressionada pela absoluta devoção que tinha a duas pessoas: Sir William e Alice. Parecia lamentar sua frieza para comigo, porque prosseguiu, num tom de voz diferente: - Agora Sir William está encantado com as novidades. Assim que nascer o menino tudo começará a ir bem nesta casa. Tenho certeza disso.

-Que acontecerá se não for menino?

Ela pareceu-me um pouco assustada. - É tendência da família ter meninos. A Srta Sybil Stacy foi a única filha durante várias gerações. Sir William terá uma criança chamada Beaumont - então, acho que ficará muito contente.

- E os pais da criança? eles podem ter idéias diferentes sobre o nome do bebê?

- Edith ficará muito satisfeita de realizar o desejo de Sir William.

- E Napier?

- Minha querida Sra Verlaine, ele não pode fazer objeção.

- Não entendo por quê. Ele deve querer esquecer esse doloroso acidente.

- Ele nunca iria contra os desejos de Sir William. Se o fizer, pode significar ser mandado embora outra vez.

- Quer dizer que, cumprindo seu dever, tornando-se pai de uma criança e trazendo um Beaumont de volta à família pode ser mais uma vez despedido?

- Está com um estranho humor hoje, Sra Verlaine. Diferente do habitual.

- Estou ficando interessada demais nos assuntos da família. Por favor, perdoe-me.

Ela inclinou a cabeça e disse: - A permanência de Napier aqui depende de Sir William. Acho que ele sabe disso.

Olhei para meu relógio; a velha desculpa de preparar a aula estava em meus lábios. Não queria ouvir mais nada. Imaginava-o corajoso e franco. Não gostava de pensar nele submetendo-se à vontade do pai para salvar a sua herança.

No caminho de meu quarto encontrei Sybil Stacy. Tive a impressão de que ela estava rondando, esperando para interceptar-me.

- Alô, Caroline, - disse ela - como vai?

- Muito bem; e a senhora?

-Há muito tempo que não me vê, não é? Mas não há muito tempo que eu a vi. Eu a vi conversando com Napier... Na verdade, eu a vi várias vezes. Uma vez, vi você chegar depois do crepúsculo.

Senti-me indignada. A mulher estava espionando-me! Ela parecia perceber isso e divertia-se.

-Está muito interessada na família, não está? Acho que é muita bondade sua. Descobri que é uma pessoa muito bondosa, Caroline. Se vou pintá-la, tenho de observá-la, não tenho?

-Pinta todas as pessoas que vêm trabalhar aqui?

Ela balançou a cabeça. - Não sem razão. Só quando são interessantes para pintar. Acho que você será. Venha ao meu estúdio agora. Disse que viria, não disse? Afinal, não viu muito quando esteve lá antes.

Eu hesitei, mas ela colocou sua mão em meu braço, com um gesto de menina. - Por favor, por favor. - Então, ela juntou as mãos e, como estava muito perto, vi seu rosto na áspera luz do dia, pensando, mais uma vez, como eram grotescos os laços azuis no cabelo branco; como era patético o sorriso infantil, contrastando com aquele rosto enrugado.

Ela me fascinava, como todos nesta casa pareciam fazê-lo; deixei que me conduzisse ao estúdio.

O retrato das três garotas ainda estava no cavalete. Meus olhos dirigiram-se imediatamente para ele; ela ficou a meu lado, movendo-se um pouco com satisfação.

- Está muito parecido - disse ela.

- Está muito bom.

-Mas o tempo ainda não marcou seus rostos. - Ela fez uma cara feia, como se tivesse alguma coisa contra o tempo. - Isso torna o trabalho do artista difícil. Não se pode ler nada em seus rostos, pode?

Concordei. - Parecem jovens e inocentes.

-Contudo, todos nascemos em pecado.

- Algumas pessoas procuram ter uma vida boa, a despeito disso.

- Oh, você é uma otimista, Caroline. Sempre acredita no melhor das pessoas.

-Não é melhor do que acreditar no pior?

-Não, se o mal está presente - seu rosto enrugou-se. - Eu costumava ser como você. Acreditava... acreditava em Harry. Você parece perplexa. Não sabe quem é Harry. Ele era o homem com quem iria casar-me. Vou mostrar-lhe uma fotografia dele... duas fotografias dele, posso? No momento, estou trabalhando em Edith.

Olhei para ela fixamente. Ela tropeçou numa pilha de telas e eu tinha a certeza de que seus passos eram silenciosos. Imaginei-a observando às escondidas as indas e vindas das pessoas naquela casa - inclusive as minhas. Por que ela observava? Só para descobrir os nossos motivos secretos, a fim de recordá-los em seu quarto na tela. O pensamento inquietou-me; e ela o sabia e se divertia. Debaixo da atitude infantil estava um caráter que ela queria esconder.

-Edith! - meditou ela. - Veja Edith no retrato com as garotas. Estão encantadoras aí. Agora olhe para esta... - Ela pegou uma tela e colocou-a no cavalete, cobrindo uma do trio.

Era uma figura dificilmente reconhecível; um retrato de Edith em adiantado estado de gravidez, seu rosto contorcido numa expressão entre medo e astúcia. Era horrível.

- Você não gosta dele...

- Não, - disse eu - é desagradável.

- Sabe quem é?

Sacudi a cabeça, negativamente.

- Oh, pensei que fosse honesta.

- Faz lembrar Edith, mas estou convencida de que ela nunca se parecerá com isto.

- Ela parecerá. Está muito assustada agora. E cada dia ficará mais. Ela vai sentir medo até o dia que morrer.

- Espero que ninguém tenha visto este retrato.

- Não. Eu o mostrarei mais tarde, talvez.

- Contudo, mostrou-o a mim.

- Isso é porque você está tão interessada quanto eu. Você também é uma artista. Escuta música onde os outros não. Não é verdade? Escuta-a no soprar do vento, nas árvores e no correr da água do regato. Eu encontro o que quero no rosto das pessoas. Nunca pinto paisagens. Nunca me importei com elas, sempre com pessoas. Quando criança pegava um lápis e esboçava a nossa aia. William dizia que era estranho. Mas eu ainda não tinha o mesmo dom. Foi somente depois de Harry... - Seu rosto tremeu e eu pensei que ela fosse chorar. - Às vezes sinto uma urgente vontade de pintar alguém. Ainda não tive vontade de pintar você, mas sei que virá, por isso estou vigiando você... como o leão vigia sua presa. Porém, os leões nunca comem até terem fome, comem? - Ela chegou-se perto de mim e riu na minha cara. - Ainda não estou com fome de você, mas vou ficar. - Ela ergueu a mão e deu um sorriso seráfico.

- Estou em contato... com... poderes. As pessoas não entendem!

- Ela tocou a cabeça. - Sabe o que dizem no povoado? Dizem que não regulo bem - não todos. Isso é o que falam de mim. Sei disso. Os criados dizem, William diz e o mesmo diz essa Sra Lincroft. Estou melhor do que eles porque estou em contato... em contato com poderes que eles não conhecem.

Senti uma sensação de claustrofobia; ela continuou agarrando meu braço, colocando seu rosto de criança pequena junto ao meu... e eu concordava com aqueles que diziam que ela não regulava bem.

Dei uma olhada no relógio e disse: - Está na hora... estou esquecendo...

Ela tinha um reloginho esmaltado preso na blusa cor-de-rosa. Olhou para ele e, depois, abanando o dedo para mim, disse:

-Você só tem de dar aula a Sylvia daqui a meia hora. Assim, tem 20 minutos.

Estava espantada que ela soubesse tanto sobre a minha rotina.

-E - prosseguiu ela - você preparou suas aulas ontem, a tarde toda.

Senti-me muito inquieta.

- Agora que não há pastor-ajudante na casa pastoral - comecei.    

- Estão todos trabalhando nas tarefas que a Sra Lincroft lhes passou. Que mulher inteligente ela é! - Começou a rir.

-Sei como é esperta - educando sua filha aqui. Esta deve ter sido uma de suas condições. Ela pensa no futuro de Alice.

-É natural que queira o melhor para a filha dela.

-Oh, muito natural. Aí temos a Srta Alice, educada em Lovat Stacy, como se ela fosse filha da casa, para todo mundo.

-Ela é uma boa menina, esforça-se muito.

Sybil concordou, séria. - Mas é em Edith que estou interessada, agora.

-Bem, espero nunca vê-la com esta aparência.

-Chocada, chocada, chocada! - Apontava para mim e cantava travessamente, a garotinha outra vez. Em seguiria, seu rosto ficou rígido. - Eles vão chamar a criança de Beaumont.

Pensam que podem substituí-lo, simplesmente chamando-o por esse nome. Eles nunca conseguirão. Nada trará Beaumont de volta. Meu querido menino... nós o perdemos.

- Sir William está encantado com a idéia de ter um neto.

- Um neto. - Ela começou a rir, reprimidamente. - E chamá-lo de Beaumont!

- Todos estão um pouco precipitados. A criança ainda não nasceu e já presumem que vá ser um menino.

- Eles nunca poderão substituir Beaumont - disse ela, furiosamente. - O que está feito está feito.

- É uma pena que isso não possa ser esquecido - disse eu.

- Napier pensa assim. E você tomou seu partido, claro. - Ela acusava, zombava.

- Estou aqui há muito pouco tempo e, como não tenho ligação com a família, não me cabe tomar partido.

- Mas você o toma assim mesmo. Oh, sim, eu talvez a pinte, Caroline, mas não agora - esperarei um pouco. Alguém já- lhe contou sobre Harry?

- Não.

- Devia saber! Não gosta de saber tudo sobre nós? É claro que devia saber a respeito de Harry.

- Ele era o homem que a senhora ia esposar?

Ela concordou e franziu o rosto. - Pensei que ele me amasse... e amava. Tudo estaria certo, porém eles o impediram. Levaram Harry para longe de mim.

-Quem?

Ela balançou os braços, vagamente. - William impediu; meu irmão. Ele era meu guardião, porque nossos pais estavam mortos. Ele disse: "Não. Espere. Não case até chegar aos 21 anos. Você é muito jovem". Eu tinha 19 anos. Não era tão jovem para estar apaixonada. Devia ter visto Harry. Era tão bonito, tão inteligente, tão engenhoso! Costumava fazer-me rir com suas ironias. Era maravilhoso. Era muito aristocrata, mas não tinha dinheiro; por isso, William disse que eu era muito jovem. William pensa muito em dinheiro. Acha que é a coisa mais importante do mundo. Ele castigou Napier através de dinheiro, compreende? "Vá embora... você foi banido. Não herdará nada." Depois, desejou um neto; convoca Napier a voltar e, humilhadamente, Napier o faz. A isca é... dinheiro!

- Deve ter sido alguma coisa mais.

- Que mais poderia ser, Caroline Verlaine?

- O desejo de agradar um pai de corrigir-se, de esquecer velhas inimizades.

- Você é uma sentimental. Ninguém acreditaria olhando para você... exceto eu, claro. Você olha tão friamente para o mundo... pelo menos parece. Debaixo dessa aparência posso ver uma sentimental como... como Edith.

- Não há mal em ter sentimentos.

- Desde que não se esconda a verdade com eles. É como derramar melado sobre um pudim de sebo. Não se poderá ver nada além do melado.

- Estava contando-me sobre Harry.

- Oh... Harry! Tinha dívidas. Sangue azul não paga dívidas, paga? Mas dinheiro paga. Eu tinha o dinheiro. Talvez William não quisesse que ele saísse da família. Acha que essa foi a razão? Você não pode saber isso, pode? William disse: "Espere". Ele não me daria o seu consentimento até aos 21 anos. Dois anos para esperar. Então ficamos noivos. Fizemos um jantar festivo para celebrar. Isabella estava lá. Naquela época ela ainda não era casada com William. Havia uma orquestra no lugar do piano. Nós dançamos, Harry e eu, e ele disse: "Dois anos passarão rápido, minha querida". Realmente passaram, mas perdi Harry, pois ele encontrara outra moça com mais dinheiro do que eu, que podia pagar suas dívidas sem demora, e parecia que a necessidade estava apertando. Ela era tão bonita quanto eu, porém tinha muito mais dinheiro.

- Talvez tenha sido melhor.

- O que quer dizer com "tenha sido melhor"?

- Uma vez que era o dinheiro que ele queria, não teria sido um bom marido.

- Isso foi o que tentaram dizer-me. - Ela bateu o pé.

- Isso não é verdade. Ele me teria amado muito. Teríamos sido felizes se me deixassem desposá-lo no princípio. Teria tido meus próprios filhos... - Seu rosto franziu-se, estava como uma criança, gritando por um brinquedo cobiçado. - Mas não,- gritava furiosamente - eles me impediram. William impediu-me. Como ousou ele?! Sabe o que disse? "Ele é um caçador de dotes. Ficará melhor sem ele". Parecia afetado e virtuoso, como se Harry fosse mau e ele bom. Ele... bem, podia contar-lhe...

Eu estava olhando para ela com tanta tristeza que ela sorriu e sua veemência foi desaparecendo. - Você tem um coração bondoso, Caroline, e sabe o que é perder um amante, não sabe? Você sofreu bastante, não sofreu? É por isso que converso

com você. Tinha um anel, um lindo anel de opala. Mas dizem que opalas dão azar. Harry não me avisara, eu marquei a data do casamento, os presentes começaram a chegar; então, um dia, chegou a carta. Ele não podia enfrentar-me, por isso escreveu-me. Tinha casado há meses. Devia ter desafiado meu irmão e partido com ele a primeira vez que me pediu. William quebrou meu coração, Caroline. Eu o odeio. Também odiei Harry por algum tempo. Peguei o anel de opala e joguei-o no mar; depois, peguei meus pincéis e pintei o rosto de Harry nas paredes. O rosto de Harry... horrível... horrível... horrível, mas isso confortava-me.

- Sinto muito - foi tudo o que pude dizer.

- Você sente, realmente. - Sorriu para mim, tristemente.

-Mas não que as coisas devam ser esquecidas. Eu nunca esquecerei Harry, também nunca esquecerei Beau. Meu querido Beau... senti-me mais feliz quando ele nasceu. Chegou na hora certa. Ele sempre queria a tia Sybil. Deixava-o usar minhas tintas e ele gostava disso. Estava sempre comigo, era naturalmente bronzeado e muito bonito. Beau. Nós o chamávamos assim porque seu nome era Beaumont. Mas também significa algo mais. Significa que ele era lindo.

- Assim, a senhora teve a sua consolação.

- Até aquele dia... o dia em que foi assassinado.

-Foi um acidente. Podia ter acontecido a qualquer dos dois garotos.

Ela sacudiu a Cabeça, furiosamente. - Mas ele era Beau... meu adorado e lindo Beau. - Virou-se para mim, de repente:

-Há alguma coisa nesta casa... alguma coisa má. Eu sei.

-Uma casa não pode ser má - disse eu.

-Pode, se as pessoas que moram nela o são. Há pessoas fracas e más nesta casa. Tenha cuidado.

Disse que teria. Então, percebi que ela iria começar um ataque a Napier e que, se o fizesse, seria obrigada a defendê-lo; por isso, disse que precisava ir.

Ela consultou o relógio e concordou.

-Volte outra vez - disse ela. - Venha conversar comigo. Gosto de falar com você. Não esqueça - um dia tenho de pintar o seu retrato.

Alice caminhava a meu lado no jardim, onde viera para fazer exercício. Chovera a manhã inteira e agora o sol saíra; as flores emanavam um perfume delicioso e as abelhas já estavam ocupadas nos galhos de alfazema.

Alice falava-me sobre o prelúdio de Chopin, que ela teve alguma dificuldade em dominar, e eu tentava explicar-lhe que o efeito da simplicidade geralmente era mais difícil de obter.

- Como adoraria sentar-me ao piano e tocar como a senhora; parece ser tão fácil para a senhora!

- E devido aos anos e anos de prática - disse-lhe. - Você não praticou durante muitos anos e já progrediu tremendamente.

- Sir William sempre pergunta pelas nossas aulas? - perguntou.

- Sim, ele tem feito isso.

- Ele me menciona?

- Menciona todas.

Ela ficou vermelha de satisfação. De repente, com o rosto quase grave, disse: - Edith adoeceu outra vez, esta manhã.

- Creio que às vezes acontece, quando se espera um filho, ficar doente de manhã; com o tempo ela se sentirá melhor.

- É uma boa coisa. Todos estão felizes com o bebê. Dizem que isso vai melhorar tudo.

- O que vai melhorar tudo? - Era Allegra que estava a meu lado.

- Nós estávamos falando sobre o bebê - explicou Alice.

- Todos estão falando sobre ele. Até parece que antes nunca alguém teve um bebê. Afinal, eles são casados, não são? Por que não deviam ter um bebê? Todos têm. É para isso que se casam... ou quase isso.

Allegra olhava-me, dissimuladamente, como se esperasse alguma censura.

- Fez o seu exercício? - perguntei, friamente.

- Ainda não, Sra Verlaine. Vou fazê-lo mais tarde. Esteve uma manhã horrível, agora o sol saiu, mas deve chover outra vez. Olhe para aquelas nuvens. - Ela sorria para mim, travessa-mente. De repente seu rosto ficou sombrio. - Estou cansada de ouvir sobre esse bebê. Meu avô mudou. Isso foi o que me disse um dos lacaios, esta manhã. Ele disse: - Srta Allegra, esse menino fará grande mudança em seu avô. Será como se Beau tivesse voltado.

- É isso mesmo - disse Alice. - Será como se o Sr. Beau tivesse voltado. Eu desejava saber se depois não haverá mais luzes na capela.

- Há uma explicação perfeita para as luzes da capela - disse eu. E como elas olhassem curiosas para mim, acrescentei: - Estou certa.

Allegra ficou silenciosa, mostrando sua exasperação, com o rosto contorcido. - Todo este barulho me dá náuseas. Por que esse alarde? Talvez seja uma menina, e isto os satisfaça. Parecem esquecer que estou aqui. Nunca fizeram este barulho por minha causa. Sou filha de Napier e Sir William é meu avô. Agora ele mal olha para mim e, quando o faz, seu rosto mostra desgosto.

-Oh, não, Allegra - disse eu.

-Oh,sim, Sra Verlaine. Para que fingir? Costumava pensar que era por Napier ser meu pai. Mas não é isso, porque este novo bebê será de Napier e eles estão alegres por causa disso.

Correu na nossa frente e começou a despedaçar uma rosa.

-Allegra, - avisou Alice - essa é uma das favoritas de seu pai.

-Eu sei. É por isso que estou fazendo isso.

-Essa não é a melhor maneira de aliviar seus sentimentos - disse eu.

Allegra deu-me um sorriso amarelo. - E um caminho, Sra Verlaine. O melhor disponível no momento.

Allegra arrancou outra das preciosas flores e estava resolvida à destruição.

Sabia que não adiantava protestar e que, se não tivesse audiência, pararia. Então saí do pátio e comecei a caminhar pelos gramados.

Há algum tempo atrás a Sra Lincroft sugerira que acompanhasse as meninas quando fossem andar a cavalo; por isso, encomendei um traje de amazona de Londres, visto que odiava pedir roupas emprestadas, e certamente as de Edith não me assentariam bem. Admiti ser extravagância, mas depois de adquiri-la andava muito mais a cavalo do que tinha previsto.

Meu traje era quase azul-escuro - não azul-marinho. Tinha um corte maravilhoso e logo que o vi não lamentei o dinheiro que nele gastara. As garotas asseguraram-me que ficava muito bem com ele, e estavam constantemente a elogiar minha roupa nova.

Tendo feito a sugestão, a Sra Lincroft continuou: - Não sei como lhe dizer o quanto estou feliz em tê-la aqui, Sra Verlaine. É uma grande ajuda para todos nós, agora que estamos com esse serviço extra. Ficarei satisfeita quando o novo pastor-ajudante chegar. Contudo, teremos de esperar até que a Sra Rendall o considere apto para ajudar nas aulas.

Disse-lhe que contribuía com muito pouco e que gostava muito do serviço; além do mais, tinha pouco que fazer.

Na realidade estava contente com a mudança dos acontecimentos, não só porque me mantinha ocupada, como também porque me sentia merecedora do meu salário. Além do mais, ficava com as meninas mais tempo, aprendendo, assim, a conhecê-las melhor... Allegra, Alice e Sylvia. Via pouco Edith - tinha desistido de andar a cavalo, apesar de, eventualmente, pedir uma aula de piano, porém, mesmo nessas ocasiões, parecia distante de mim, como se lamentasse o impulso que quase a levara a confiar em mim.

Uma tarde, quando passeava a cavalo com as três mais jovens, vi Napier cavalgando em nossa direção.

-Ele disse: - Alô! Gostando do passeio?

Notei que evitava olhar para Allegra - e ela para ele. Sua boca formava linhas que demonstravam mau humor, com o que já me acostumara. Por que não gostava dela? Estaria pensando em sua mãe, por quem deve ter sentido alguma afeição em certa época? Como seria ela? Exatamente, o que teria sentido por ela? E o que me interessava isso? Estava ali para ensinar Allegra, a quem gostaria de ajudar, se possível. Uma garota que suportava tanto ressentimento estava armazenando problemas.

-Está um dia maravilhoso - disse eu. E pensei que constatação comum fizera do óbvio. Entretanto, disse-o como se tivesse acabado de descobri-lo.

Estava consciente dos três pares de olhos, observando Napier e a mim; sem dúvida, atentos para o meu desconforto.

-Vou acompanhá-la - disse Napier, virando o cavalo e cavalgando um pouco à nossa frente no caminho estreito. Enquanto estudava suas costas retas, a posição de sua cabeça erguida, notei que Allegra tinha tomado conhecimento de tudo que ele falara, até a inflexão de sua voz. Pobre Allegra! Tudo que precisava era de afeição; e ela não tinha nenhuma. Quanto ao pai de Sylvia, era terno e carinhoso; contudo, sua mãe devia ser uma grande ditadora. Sobre a devoção da Sra Lincroft por Alice, não havia dúvida. Realmente, Allegra era a mais infortunada delas. Devia tentar fazer alguma coisa por ela.

Virei-me para falar-lhe e vi que ela estava tentando empurrar Sylvia da cela.

-Allegra, - disse eu, asperamente - por favor, não faça isso.

-Sylvia estava aborrecendo-me - retorquiu Allegra.

Napier ignorou as meninas e disse-me: - Estou alegre de ver como anda bem a cavalo. - Nós emergimos do caminho estreito e ele trouxe seu cavalo para junto do meu.

- Nunca pensei que gostasse tanto de exercícios ao ar livre!

- E tudo que você faz, faz bem.-Seus olhos desmentiram o respeito em sua voz.

- Quisera estar certa disso.

- Mas você tem certeza. É por isso que é bem sucedida. Tem de confiar em você mesma, antes de esperar que os outros o façam... mesmo os cavalos. Esse cavalo sabe que é montado por uma amazona decidida.

- Você faz isso soar muito simples.

- A teoria sempre o é. A prática é que não.

- Parece profundo. Aplica isso em sua vida?

- Agora me pegou, Caroline. Claro que não. Como a maior parte das pessoas, sou muito bom para dar conselhos... Mas é verdade, deve admiti-lo. Sei o que está pensando. Sonhava ser a maior pianista do mundo; entretanto, está aqui, ensinando música a quatro alunas indiferentes - assim creio eu.

- Meus assuntos não comportam análise tão detalhada.

- Ao contrário, eles são um ótimo exemplo.

- Dificilmente lhe interessariam.

- Você está intencionalmente incompreensiva, Caroline Verlaine.

Tive o impulso de voltar e esperar as meninas. Isso parecia-me o passo certo, mas não tinha a intenção de fazê-lo.

- Você sabe muito bem - continuou ele, olhando para mim desafiadoramente - que o seu passado é de meu maior interesse.

- Não posso imaginar por quê.

- Você está enganando-se a si mesma, mas a mim não engana.

Estávamos olhando o mar. O castelo mostrava claramente seu estilo Tudor. Embaixo havia seixos, onde rolavam as ondas, fazendo um barulho surdo, um alegre murmúrio.

Havia uma fila de casas, que aparentavam estar caindo no mar. Barcos de pesca estavam parados nos seixos; o cheiro de mar pairava no ar, misturando-se com. o de algas.

Eu disse asperamente: - A gente poderia imaginar que aquela fila de casas está atualmente no mar.

-O mar está invadindo... rapidamente. Em 100 anos serão destruídas e aquela rua estreita, cercada de casas de cada lado, não será mais uma rua estreita, será aberta ao mar. As casas ficam inundadas continuamente. Podíamos traçar um paralelo. Você e eu somos como aquelas casas, o passado é como o mar: ameaçando envolver-nos... impedindo a nossa liberdade e realização.

- Não imaginava que se entregasse a tais observações fantasiosas.

- Ah, mas há muita coisa que você não sabe a meu respeito, Caroline.

- Não tenho dúvidas sobre isso.

- E você não mostra grande curiosidade em saber.

- Se quisesse que eu soubesse não vacilaria em contar-me.

-Mas isso lhe tiraria o prazer de descobrir. Voltando às minhas fantasias poéticas; estava pensando que uma barragem salvaria aquelas casas.

-Então, por que não a constroem?

Ele encolheu os ombros. - Custaria muito e as pessoas não gostam de mudanças. É muito mais fácil seguir o curso natural das coisas até que algo aconteça. Sei que, algum dia, olharão para a cidade, e não mais verão aquela fila de casas, porque o mar as terá levado. Entretanto uma barragem as teria salvo. Caroline, você e eu temos de construir essa barragem... metaforicamente, quero dizer. Temos de nos proteger contra a invasão do mar do passado.

Virei-me para ele e disse: - Como?

- Isso é o que temos de descobrir. Temos de lutar... Temos de livrar-nos dessas mãos atadas... temos de quebrar as correntes...

- As suas metáforas estão ficando um pouco confusas - disse, sentindo a necessidade de trazer um pouco de claridade à conversa que eu sabia muito bem estar cheia de insinuações.

Ele deu uma gargalhada.

-Está bem, está bem. Falando claramente... Acho que você e eu podíamos ajudar-nos mutuamente a esquecer.

Oh, como ele ousava! Achava que podia seduzir-me, como à mãe de Allegra? Uma viúva, meditava eu. Jogo fácil. Seria esta a sua intenção? Talvez devesse fugir. Estremeci interiormente, ao imaginar meu retorno ao quarto em Kensington, procurando alunos. Não, eu não era uma garota ingênua. Podia cuidar de mim. Mostrar-lhe-ia que, se pensava divertir-se à minha custa, estava enganado.

Olhei para trás. As meninas, com Allegra na frente, vinham guardando distância entre mim e Napier.

Galopei e elas seguiram-me. Aspirei o ar e contemplei o mar, que mandava vagas vãs contra o cintilante rochedo.

- Desejaria saber o que Júlio César disse quando viu isto pela primeira vez - disse Allegra.

- Aqueles pobres bretões antigos! - suspirou Alice. - Imagine-os. - Seus olhos estavam arregalados de horror, e mesmo a presença de Napier não pôde acalmá-la. - Devem ter visto os barcos chegar e corrido amedrontados. Eles eram os únicos que estavam assustados. Os romanos chegaram, viram e conquistaram.

- E construíram casas aqui - disse Allegra, decidida a não ficar por fora. - E se não o tivessem feito a Srta Brandon nunca teria vindo aqui e desaparecido.

- Como a memória dessa mulher continua viva - murmurou Napier.

Alice continuou, como se estivesse hipnotizada. - Eles construíram aqui uma cidade, suas vilas e suas termas.

- Afortunadamente, não debaixo de Lovat Stacy - prosseguiu Allegra. - Porque, se o fizessem, ela teria querido jogar nossa casa no chão para encontrar as ruínas.

- Dificilmente acredito que isso lhe tivesse sido permitido - disse Napier.

Sylvia, que tinha permanecido indiferente, murmurou: - Talvez não pedisse permissão. Segundo minha mãe, essas pessoas não pedem. Talvez estivesse tentando fazer isso quando...

Napier suspirou, como se estivesse chateado, e começou a mover-se. Nós o seguimos e, repentinamente, ele estava outra vez perto de mim.

- Você ainda está pensando na mulher desaparecida? - ele acusava-me. - Interessa-se muito por ela! Admita!

- O mistério intriga-me.

- Você gosta de tudo claramente terminado, com Finis escrito no fim.

- Se for possível. Mas será sempre assim?

- Claro que não. Nunca nada está terminado. O que aconteceu há 100 anos atrás ainda tem seu efeito hoje. Mesmo se construirmos a barragem ainda ouviremos o barulho dele ao longe.

- Oh, Sra Verlaine... Caroline...

Virei-me para olhar as garotas; elas ainda conservavam distância.

Eu disse: - Os mastros estão visíveis hoje.

- E - prosseguiu ele - há outra analogia para você. Talvez melhor do que a barragem.

- Por favor, poupe-me - disse, com um traço de sua própria zombaria.

- Poupar um castigo... dizem que estraga a criança.

- Esquece-se de que não sou uma criança.

- Nós somos crianças em alguns aspectos. Sim, isso é muito melhor do que a barragem. Estou tentando dizer-lhe que não sou o filisteu que você imagina. Tenho meus vôos de fantasia. Você e eu somos como aqueles barcos. Estamos presos nas areias movediças do passado. Nunca escaparemos. Porque estamos bem presos, presos por nossas memórias e pela opinião dos outros.

- Isso é muito fantasioso.

- Você olha para eles à noite? Vê o intermitente brilho do farol, num aviso para os marinheiros? Afastem-se, aqui estão as areias movediças. Não cheguem perto...

- Sr. Napier Stacy, - disse eu - recuso-me a acreditar que o que aconteceu comigo tenha qualquer ligação com as areias de Goodwin.

- Porque você é uma otimista, e aquelas areias vencem o otimismo. Elas são malévolas... tão douradas e bonitas... tão traidoras! Já as viu de perto? Deve permitir que a leve lá um dia.

Eu tremia.

- Seria perfeitamente seguro. Tenha certeza disso.

- Obrigada - disse eu.

- Isso significa precisamente: "Não, obrigada". - Ele riu alto. Talvez tenha de persuadi-la a mudar de idéia... sobre isso c outras coisas. Você muda de idéia facilmente, Caroline? Estou certo que sim. Você é muito sensível e adere a uma opinião conforme os argumentos.

- Se tomasse uma opinião errada e ela fosse confrontada com a verdade, ficaria ansiosa para retificá-la.

- Eu sabia disso.

Eu disse: - Acho que nos afastamos muito. Devíamos voltar agora. - Virei meu cavalo e fui encontrar as meninas.

-Está na hora de voltar - disse, e elas, obedientemente, viraram seus cavalos. Seguimos juntos por algum tempo. Napier estava silencioso; em poucos momentos elas ficaram novamente para trás. Ele falava da distante fazenda que alcançaríamos e que era de propriedade da família Stacy.

Rapidamente percebi que ele se importava com ela. Como devia ter esperado por isso, quando estivera fora do país! Gostaria de saber como se sentira quando era jovem, sabendo que Beaumont a herdaria. Deve ter tido inveja de seu irmão. Inveja, o implacável pecado que leva a muitos outros... talvez ao assassinato.

-           Agora estamos fazendo aperfeiçoamentos na fazenda. Até há pouco o dinheiro era difícil.

Até o casamento de Edith, quando a fortuna dos Cowan passou para os Stacy, pensei. Pobre Edith, talvez tivesse casado com Jeremy Brown se não fosse tão rica; teria sido esposa de um pároco e viveria feliz para sempre.

E agora, que espécie de futuro teria com Napier? Que futuro teria qualquer mulher com tal homem? Algumas seriam capazes de aceitá-lo. Outras o achariam, de certo modo, repulsivo.

Desviei prontamente esta linha de pensamentos.

- Muitas casas precisam ser consertadas. Estamos arrumando isso gradualmente. Já era tempo de fazê-lo. Poderia mostrar-lhe, se aceitasse sair comigo a cavalo um dia destes.

- Sou a professora de música.

- Isso não é razão para não ver a fazenda, é? Poderia encontrar algum amigo gênio escondido em uma das casas da fazenda.

- A Sra Stacy está interessada nela?

- Seu sorriso ficou um pouco triste. - Nunca consegui descobrir pelo que ela se interessa.

- Afinal... - Ia dizer-lhe ser dela a fortuna que seria usada para melhorar a fazenda, porém isso pareceu-me ir longe demais. Talvez o desse a perceber, pois ele ficou ligeiramente carrancudo. Chamei as meninas novamente. Não queria que pensassem que estava passeando a cavalo com Napier. O que interessava éramos nós, queria deixar isso bem claro.

- Venham.

- Sim, Sra Verlaine - respondeu Alice, e elas juntaram-se a nós.

- As ruínas não estão nítidas? - disse ela, iniciando uma conversa polida.

- Muito - respondi. Acenei para Allegra ficar do lado de Napier, mas ela hesitou, mal-humorada, e eu não quis forçá-la; então, virei meu cavalo e nós continuamos. Em pouco tempo chegamos a uma casinha com um lindo jardim de frente, onde o joio crescia.

Escutei a voz aguda de Sylvia. -Isto é dos Brancot. Seu jardim está uma desgraça. O capim cresceu e danificou as flores e os vegetais. Tem havido queixas.

- Coitado do Sr. Brancot - disse Alice, gentilmente. - Ele está tão velho! Como pode cuidar do jardim? Não é direito esperar isso dele.

- É uma regra que os usufrutuários cuidem de seus jardins, minha mãe disse.

A única vez que Sylvia se encorajava era quando mencionava sua mãe.

Prosseguimos e, de repente, notei que elas já tinham se afastado. Mantinham distância, porque achavam que nós a desejávamos, e o que isso significava tornava-me inquieta.

Poucos dias depois aconteceu um acidente muito perturbador.

Quando saía de casa encontrei a Sra Lincroft com Alice; entravam na charrete.

-Estamos indo fazer compras. Precisa de alguma coisa? Pensei um pouco e lembrei-me de que precisava de um

retrós de algodão azul.

-Por que não vem conosco? Assim poderá escolher a cor exata.

Quando seguíamos, relembrei a pequena loja que Roma e seus amigos usavam e que eu e minha irmã tínhamos visitado uma vez. Na verdade, era uma casa um pouco maior do que a cabana e na janela da pequena sala de visitas as mercadorias eram dispostas, parecendo enchê-la completamente. Roma dissera que a loja era uma dádiva celeste e os salvara de ir a Lovat Mill quando precisavam de alguma coisa. Era dirigida por uma mulher e, de tudo que me lembrava, era que ela Talava muito e tinha a silhueta em forma de oito.

Descemos à loja, onde feixes de fogos de artifício estavam presos contra a parede ao lado de uma grande lata de parafina, cujo cheiro permeava na obscuridade. Havia biscoitos, queijos, Frutas, bolos e pães, como se fosse uma loja de capelista. Supus que ela devia fazer bons negócios, pois muitos dos vizinhos não iam a Lovat Mill fazer compras.

Assim que entrei, a lembrança de Roma voltou-me. Pensei nela, ali de pé, pedindo cola, escovas, ou pão e queijos, em sua voz animada.

A Sra Lincroft fez as suas compras e eu pedi o meu retrós de algodão; e quando a mulher roliça, a quem a Sra Lincroft se dirigia como sendo a Sra Bury, trouxe a bandeja das linhas, olhou para mim e disse: - O seu pessoal voltou?

Aterrada, compreendi imediatamente. Ela me reconhecera.

A Sra. Lincroft disse: - Ela é a Sra Verlaine, que ensina música para as meninas.

- Oh... - Um longo suspiro de espanto. - Foi impressão minha. Podia jurar... pensei que fosse um deles... Eles estiveram aqui por pouco tempo... sempre vindo por isto ou por aquilo.

- A Sra Bury fala do pessoal que trabalhou nas ruínas romanas - explicou Alice.

- Isso mesmo - explicou a Sra Bury. - Porque você é a imagem vivida da outra. Podia jurar... Ela não vinha muito aqui... uma ou duas vezes... mas eu não esqueço um rosto. Por um minuto pensei: Eles voltaram. Este é um azul bonito. É claro, depende...

Enquanto punha a mercadoria que escolhera num saquinho de papel marrom, ela ria-se para si mesma. - Palavra... por um minuto pensei... podia jurar que você era um deles.

Pegou o dinheiro e deu-me o troco.

- Sabe - disse ela. - Eu não seria a única a não dizer nada, se eles quisessem voltar e descobrir mais. Há quem não goste disso. Mas eles sempre estiveram aqui. Alguns não gostam que retalhem a terra, mas é bom para os negócios. Bem, há toda espécie de gente no mundo. A que desapareceu era engraçada. Nunca soubemos o que lhe aconteceu. Acho que saiu nos jornais e eu não vi. Contudo, se foi assassinato...

- Nós nunca saberemos - disse a Sra Lincroft, terminando a conversa. - Obrigada, Sra Bury.

- Eu é que agradeço. - Seus olhos quentes seguiram-me e eu sabia que ela estava tentando relembrar uma certa tarde em que Roma foi à sua loja levando uma companheira com ela.

- Tive que interrompê-la, caso contrário nunca se calaria - disse a Sra Lincroft.

Fiquei muito agitada com o reconhecimento da Sra. Bury. Pensava na reação dos Stacy se descobrissem que eu era irmã de Roma. Quando muito, daria a impressão de ser bastante astuta. Minha única desculpa seria dizer que eu pensara que seu desaparecimento estava ligado com a casa e seus habitantes, o que dificilmente poderia agradá-los.

Talvez fosse melhor confessar agora. Podia imaginar-me dizendo a Napier.

Queria ficar sozinha, longe de casa, para pensar sobre o assunto; e que melhor solidão do que cavalgar pelos caminhos estreitos do campo?

Fui aos estábulos e, quando já estava quase pronta para sair, Napier entrou. Quando desmontou atirou um saco no chão, que caiu com barulho. Olhei, um pouco, surpresa, e ele disse: - E só uma enxada, uma pá e algumas coisas de jardinagem.

-Esteve trabalhando com elas?

-Parece surpresa. Há muitas coisas que posso fazer. Ponho minhas mãos em todo tipo de serviço no sítio.

-Suponho que sim - disse eu.

- Agora você está querendo dizer: "Isso não é da minha conta". Por favor, não. Gosto de pensar que o que eu faço lhe interessa.

- Isso - disse friamente - me deixa mais perplexa do que nunca.

- Você diz isso, mas sabe que há uma explicação perfeitamente simples. Estou ansioso por sua aprovação; logo, devo contar-lhe o que estive fazendo.

- Não é necessário, e desculpe-me, se insinuei que gostaria de saber.

- Você insinuou isso muito claramente. Isso é o que é estimulante em você. Sempre quer saber. Se há uma coisa que não posso suportar é a indiferença. Agora, prepare-se para uma grande surpresa. Estive ajudando os Brancot no jardim. Ah, isto interessa a você.

-Eu... eu acho que é extrema bondade de sua parte. Ele curvou-se. -É agradável aquecer-me no calor de sua aprovação.

-Evidentemente, você poderia mandar um dos jardineiros.

-Sim, podia.

- Seus usufrutuários pensarão que você é o mais raro dos proprietários, trabalhando em seus jardins.

- Um usufrutuário - um jardim. Eu não o fiz como proprietário. - Ele pulou para a sela. - Esta é uma ótima oportunidade para deixá-la escapar. Nós vamos passear juntos.

-Eu só tenho uma hora livre.

Ele riu novamente e, como eu não pudesse fazer mais nada a não ser sair, ele seguiu-me, sob o sol brilhante.

Enquanto dirigíamos nossos cavalos pelos caminhos estreitos, ele me disse: - Sobre os Brancot... sim, podia mandar um dos jardineiros, mas o velho Brancot não aceitaria isso. Há pessoas maldosas pelos arredores. Muito conscientes de sua perfeição. Uma é a mulher do nosso querido pastor. Ela acredita na justiça. Não importa o desconforto dos outros, justiça deve ser feita. Ela diria que se o velho Brancot não pode cuidar do jardim, devia mudar-se para uma casa sem ele; porém, ele tem vivido naquela casa a vida inteira.

- Compreendo.

- E a sua opinião sobre mim? Melhorou um pouco?

- Claro.

Ele olhou-me zombeteiramente. - Quem sabe eu fiz isso para ganhar a sua aprovação e não para o velho Brancot?

-Acho que não há dúvida sobre isso.

-Você não me conhece, eu tinha motivos ulteriores. Meus caminhos são desonestos. Deve acautelar-se comigo.

-Isso pode perfeitamente ser verdade.

-Estou feliz por você pensar assim, pois por essa razão você se interessará mais por mim.

Não havia dúvida onde queria chegar. Devia mostrar-lhe bem claramente que estava cometendo um erro. Eu não fugiria só porque o dono-da-casa... -bem, ele ainda não o era, enquanto Sir William vivesse - estava tentando atrair minha atenção. Eu lhe mostraria que não faria progressos comigo. Pela primeira vez ocorreu-me que ele pudesse querer afastar-me.

Tínhamos chegado a um trecho apertado e ele começou a galopar. Seguiu e quando, finalmente, puxou as rédeas, eu não estava longe dele.

Parei o cavalo e juntos olhamos para o mar, lá embaixo. Adiante fica o castelo de Dover, cinzento, inexpugnável e magnífico; erguido como uma sentinela, guardando os rochedos, como sempre o fez durante centenas de anos. Dubris, - Como Roma o chamava - o portão da Inglaterra; e lá havia as ruínas dos faróis. Roma outra vez, o que tanto a encantara, o que era conhecido como a "gota do diabo", construído, em pedra arenosa, e tijolos romanos, pelo gral romano, que segundo minha irmã resistiu ao tempo aproximadamente dois milhões de anos. Longe, para oeste, havia a maravilhosa formação conhecida como o acampamento de César. Invisível agora, mas lembro-me de ter passeado com minha irmã ao longo da costa, verificando com satisfação a evidência da ocupação romana.

Os pensamentos de Napier não estavam com os romanos, pois virou-se para mim e disse: - Devemos falar francamente.

Fui trazida ao presente. - Depende do que queira significar com isso.

- Não é a franqueza sempre desejada?

- Não, nem sempre.

-Seu marido não gostaria que continuasse a lamentá-lo.

-Como pode saber? - perguntei, furiosamente.

-Se ele realmente quisesse isso seria mais fácil para você esquecê-lo. Isso mostraria claramente que não valia a pena lembrá-lo.

Eu estava zangada, - talvez sem motivo - pois ele me fazia olhar o que eu não queria ver. Claro que Pietro gostaria de que eu o lembrasse para o resto da vida.

Então lembrei-me de algo mais. Havia uma moça na pensão em Paris que estava condenada, com uma doença incurável. Ela tinha um namorado e a rápida visão de seus rostos veio até mim. Eles estavam em meu quarto na pensão e nós tomamos café juntas. Falávamos de amor e ela declamou um poema que disse ter dado a seu namorado para ler quando ela morresse, caso ele se lembrasse dela e ficasse triste.

Não chores mais por mim, quando estiver morta,

Depois que ouvires o áspero surdo sino,

Avisando ao mundo que eu desapareci...

...pois eu te amo tanto

Que em teus doces pensamentos seria esquecida,

Se pensando em mim, isto te fizesse infeliz.

Meus olhos encheram-se de lágrimas; tentei piscar, mas ele as tinha visto.

- Ele era um homem egoísta - disse ele, brutalmente.

- Ele era um artista.

- E você, não?

-Faltava-me algo. De outra maneira não teria desistido. Ele inclinou-se para mim: - Caro... não. Caro não... era assim que ele a chamava. Caroline, você tem esquecido, às vezes... desde que chegou aqui.

-Não - disse firmemente. - Eu nunca esqueço.

- Você não está dizendo a verdade. Você esquece de vez em quando, e o esquecimento cresce cada vez mais.

- Não, não - insisti.

-Sim, Caroline, sim - prosseguiu ele. - Há alguém que faz você esquecê-lo. Por que você não estava aqui quando eu voltei. Antes...

Olhei-o friamente, piquei meu cavalo e afastei-me dele. Ele veio para meu lado.

-Você está com medo - disse, acusadoramente.

- Está enganado - respondi. Estava horrorizada por achar que minhas mãos estavam tremendo. Nunca mais passearia sozinha com ele.

- Sabe, eu não estou. Qual o sentido em fingir que as coisas são como elas são?

-Às vezes é necessário aceitar.

-Eu nunca aceitaria. - Sua voz era clara. - Nem você devia, Caroline.

Ele cortou com o chicote alguns arbustos próximos. - Deve haver um caminho - disse ele.

Nesse instante, ouvi o grito de Allegra, chamando-nos, por entre os arbustos. Virei-me e vi as três jovens.

-Vínhamos caminhando há algum tempo - disse Alice, quase apologeticamente. - Então Allegra pensou tê-la visto.

- Não deveriam ter um lacaio com vocês? - perguntei. Alice olhou para Allegra, que disse: - Eu os desafio. Napier não falou nada. Parecia não ter percebido as garotas.

- Está na hora de voltar - disse.

Cavalgamos para casa, Napier e eu na frente, as garotas guardando aquela pequena distância discreta atrás de nós, que tanto perturbava.

-É uma linda história - disse Alice. - Senti que conhecia todas as pessoas... especialmente Jane.

Tinham lido Jane Eyre. - A Sra Lincroft tinha-lhes passado a tarefa de lê-lo e de escrever um ensaio sobre o livro, comparando-o com outros.

A Sra Lincroft disse-me: - Sir William não passou bem à noite e está um pouco mal-humorado esta manhã. Acho que devia ficar um pouco com ele. Poderia ir à sala de estudos mais ou menos por uma hora?

Concordei, prontamente agradecida por ter alguma coisa para fazer. Estava perturbada por minha conversa com Napier. Ele estava muito interessado em mim, disso não tinha dúvida; do que duvidava era da profundidade de suas emoções. Sabia muito pouco sobre ele, mas tinha de admitir que, se ele fosse livre, ficaria ansiosa para conhecê-lo melhor; não fosse por Edith eu estaria pronta a deixá-lo mostrar-me se era possível esquecer o passado.

-Já terminaram suas lições? - perguntei.

Alice colocou três folhas à minha frente. Allegra tinha feito meia página e Sylvia simplesmente uma.

-Devo deixar isto para a Sra Lincroft ver, - disse eu -uma vez que foi ela quem passou a lição.

- Discutíamos o livro e seus personagens juntas - explicou Alice.

- Gostei dele - disse Allegra.

- Allegra gostou da parte do fogo, não foi? - disse Alice, e Allegra concordou, repentinamente mal-humorada.

- De que mais você gostou? - perguntei-lhe.

Ela sacudiu os ombros e disse: - Realmente, gostei do fogo. Foi bem feito para eles. Ele não devia tê-la trancado, devia... e ele ficou cego.

- Jane era muito boa - disse Alice. - Fugiu quando soube que ele era casado.

- Então ele ficou muito transtornado, - disse Sylvia - mas foi bem feito para ele, não foi? Não contou a ela que era casado.

- Eu queria saber se realmente ela sabia e fingia não saber - sugeriu Allegra,

- O autor nos teria dito se ela soubesse - acentuei eu.

- Mas ela é o autor - disse Alice. -Jane escreve o livro. Ela diz: eu... eu. Ela deve ter querido fingir.

- E não quis contar-nos - disse Sylvia, triunfante.

- Até partir, quando se descobriu que ele tinha uma esposa louca. - Os olhos negros de Allegra fixavam meu rosto.

- Era a única coisa certa a fazer, não acha, Sra Verlaine?

-disse Alice.

Três pares de olhos observavam-me. Questionantes? Acusadores? Advertindo-me?

Poucos dias mais tarde, quando jantava com a Sra Lincroft e Alice, a campainha começou a tocar violentamente na sala de estar.

Ela olhou, apavorada. - Oh, querida, o que estará errado? -disse ela. Olhou para o relógio na prateleira. - Eles deviam estar no meio do jantar. Continue, Sra Verlaine. As omeletes devem ser comidas imediatamente.

Deixou-me com Alice, que continuou a comer. Eu fiz o mesmo.

- Ele geralmente não chama durante o jantar - disse Alice, depois de uma ligeira pausa. - Gostaria de saber por que o fez hoje. Às vezes penso o que faria ele sem minha mãe.

- Estou certa de que ele conta com ela.

- Oh, sim - concordou Alice, em sua maneira formal. Ele estaria quase perdido sem mamãe. - Ela olhava-me ansiosamente: - Acha que ele aprecia isso, Sra Verlaine?

- Estou certa que sim.

- Eu também. - Ela parecia satisfeita e voltou à omelete.

Depois de uns momentos, disse: - Sir William também é muito bom para mim. Ele se interessa, minha mãe é boa governanta, ela não passa de uma governanta. Algumas pessoas lembram isso. A Sra Rendall, por exemplo.

- Eu não me aborreceria por isso.

- Não, você não deve, porque é esperta e sensível. - Ela suspirou. - Acho que minha mãe é tão fina quanto a Sra Rendall. Não, acho que minha mãe é mais fina.

- Estou feliz que você a aprecie, Alice.

A porta abriu-se e a Sra. Lincroft entrou, parecendo nitidamente aborrecida.

-Viram Edith?

Alice e eu olhamos, espantadas, uma para a outra.

- Ela está atrasada para o jantar. Eles pararam de se servir. Isto não é hábito dela. Onde poderá estar?

- Deve estar em seu quarto - disse Alice. - Devo ir ver, mamãe?

- Não, acabe seu jantar. Oh, querida, isso é alarmante.

- Provavelmente foi dar um passeio e esqueceu-se da hora - sugeri.

- Deve ser isso - comentou a Sra Lincroft. - Mas devo dizer que isso não é hábito dela. Sir William está realmente aborrecido. Ele detesta atrasos, como Edith sabe.

- Seu jantar está esfriando, mamãe - disse Alice, ansiosamente.

- Eu sei, mas preciso ver se a encontro.

- Talvez tenha pego a charrete e ido visitar alguém - disse eu.

-Não sozinha - disse Alice. - Ela tinha medo de cavalos.

Nós estávamos assustadas, a Sra Lincroft e eu. Foi o emprego da palavra "tinha".

A Sra Lincroft disse, asperamente: - Sim, ela tem medo de cavalos, sempre teve. Quisera saber onde procurá-la.

Parecia um escândalo, pensei, só porque ela estava atrasada para o jantar. Mas nunca o fizera antes. - Por que não teria saído para visitar um amigo e se esquecido do tempo? - sugeri.

- Ela não sai para visitar amigos. Quem iria visitar? Espero que tenha saído para um passeio... sentado-se em algum lugar e adormecido. Ela tem andado um pouco distraída ultimamente. É isso. Ela voltará logo, e estará em má situação com Sir William.

Mas ela não voltou, e começamos a aceitar que Edith tinha desaparecido, como Roma.

 

Nunca esquecerei a crescente tensão na casa à medida que as horas passavam e Edith não aparecia. Napier estava sossegado - o mais calmo de todos. Dizia que devia ter havido um acidente e que brevemente descobriríamos o melhor.

Ele organizou uma busca, consistindo dele mesmo e de mais cinco criados, e foram em direções diferentes, dois para cada lado. Nós procuramos na casa, nas grandes adegas, nas despensas, copas, nos alpendres, de cuja existência eu não tinha idéia, até então. Com Allegra e Alice procuramos nas águas-furtadas: teias de aranha empoeiradas agarravam-se às nossas roupas e até mesmo ao nosso rosto, enquanto aranhas corriam depressa, escondendo-se, assustadas e perturbadas pela inesperada intromissão.

Alice segurava a vela alto e seu rosto mais iluminado tinha qualidades etéreas; seus olhos estavam enormes com a excitação.

-Acha que está escondida em um dos baús? - perguntou Alice.

-Escondida? De quê?

-De quem? - disse Allegra, em tom de histeria. Abrimos os baús; o cheiro de naftalina; peças de roupa fora de moda; camisolas, sapatos, chapéus; mas nada de Edith.

Do alto a baixo da casa, nas adegas, onde o vinho de Sir William era trasfegado, engradado em ordem de idade e excelência. Mais teias de aranha; uma barata ocasional, correndo apressadamente pelas lajes de pedra; mas ainda nada de Edith.

Estávamos todos reunidos na sala, uma estranha e silenciosa companhia; os criados, de olhos arregalados. Nada igual tinha acontecido desde o dia em que trouxeram a Sra Stacy da mata... e um pouco antes disso o belo Beau foi morto pela mão de seu irmão.

Mas ninguém admitia uma tragédia ainda. Edith estava perdida - nada mais. Ela tinha, dizia a Sra Lincroft, saído para um passeio e machucado o tornozelo. Estava caída em algum lugar. Eles a achariam.

Porém voltaram, um por um, e nenhum deles encontrara Fdith.

Esperamos a noite inteira. Os homens tinham saído outra vez. Ouvi-os chamando o nome de Edith; soava sobrenatural, no ar da noite.

A Sra Lincroft tinha feito café e insistia para que os homens o tomassem antes de saírem novamente. Objetiva como sempre, estava decidida a manter o nosso ânimo. Edith seria encontrada, insistia, e continuava assegurando-nos de que assim seria.

-Não deveriam as meninas ir para a cama? - perguntei. Com um aceno ela dirigiu meu olhar para a direção delas. Alice e Allegra estavam sentadas no banco da janela, quase dormindo.

-É melhor não perturbá-las - disse ela.

Assim nós as deixamos e falamos, murmurando, do que faríamos depois. Sir William estava sentado atrás, numa cadeira que a Sra Lincroft tinha acolchoado com almofadas.

Ela disse-lhe: - Sir William, acha que devemos avisar a polícia?

-Ainda não. Ainda não - disse ele, furioso. Eles a encontrarão. Eles precisam.

Sentamo-nos e esperamos; e, quando Napier voltou sem ela, não podia tirar os olhos de seu rosto, embora não pudesse ler o que estava escrito lá.

Edith tinha partido e ninguém sabia para onde. Era o grande mistério de Lovat Mill. Nada mais se falava.

Agora sabíamos que ela não estava pela vizinhança, pois uma busca completa fora feita e não havia nem sinal dela. Sua criada pessoal fora ao guarda-roupa e nada faltava, a não ser a roupa que ela usava aquele dia.

Como o dia seguinte se passou sem notícias dela, Sir William concordou que a polícia fosse informada. O oficial de polícia, Jack Withers, que ficava na corporação próxima, veio ver-nos. Fez perguntas, tais como: quando a tínhamos visto pela última vez e se era hábito dela sair para passear sozinha. Quando lhe foi revelado que ela esperava uma criança, Jack pareceu muito inteligente, e disse que as senhoras em tais condições freqüentemente tinham idéias esquisitas na cabeça. Esta foi a resposta ao mistério. A Sra Stacy, segundo ele, tinha somente colocado uma idéia estranha na cabeça.

Sir William estava inclinado a aceitar esta opinião, porque - eu tinha certeza - ele assim' o desejava.

No dia seguinte piorara e a Sra Lincroft estava ocupada com ele. O médico veio e disse que choques como estes não eram bons para um homem em seu estado de saúde.

-Se pelo menos Edith voltasse, melhoraria imediatamente - disse a Sra Lincroft.

Saí, procurando Edith. Não acreditava que ela tivesse partido numa estranha fantasia. Só acreditava que ela tivesse saído para um passeio e sofrido um acidente.

Deve ter sido assim quando Roma desapareceu. E que coincidência misteriosa, duas mulheres desaparecerem no mesmo lugar!

Estava com medo, medo de alguma coisa sombria e inatingível, fragmentos de pensamentos iam e vinham em minha mente.

Meus passos levaram-me às ruínas da capela, onde Edith se encontrava com seu amante. Fiquei lá - aquelas paredes sobrenaturais cercando-me, olhando através da brecha, onde a luz era mostrada. Seria um sinal de seu amante avisando-a? Não. Eles eram muito simples, um par sem complicações. Eles nunca deviam encontrar-se em tal situação. Deviam encontrar-se em circunstâncias mais felizes, apaixonarem-se e casarem-se. Edith teria sido uma boa esposa de um pastor - gentil, bondosa; ela escutaria com simpatia os problemas dos paroquianos de seu marido; mas, em vez disso, tinha sido forçada a uma tragédia que era demais para ela.

-Edith - murmurei. - Roma! Onde estão vocês? Pensamentos assustadores vieram à minha mente. O rosto

de Napier junto ao meu, tocando-me com paixão. - Deve haver um caminho - dissera ele.

E Roma... o que acontecera a Roma? O que tinha Roma a ver com Edith?

Alguma coisa, insistia eu. Deve ser alguma coisa. Duas pessoas não podiam desaparecer... neste mesmo lugar. Napier podia ter-se interessado por Roma.

Ali, eu tinha admitido isso. Realmente eu admitia que Napier sabia alguma coisa sobre o desaparecimento de Edith. Era absurdo. Edith tinha tido um acidente. Ela estava caída em algum lugar qualquer.

-Edith! - Minha voz soava fina e sem préstimo. - Onde está você, Edith?

Nenhuma resposta... só o eco de minha voz.

Saí da mata. Era um lugar maldito. Pensamentos horríveis i ornavam conta de mim. Caminhei através dos jardins para a estrada, para as ruínas romanas e para a cabana vazia, onde tinha vivido com Roma. Quem sabe Edith tinha ido lá? Por que não? Suponhamos que Jeremy Brown tenha vindo vê-la? Suponhamos que ele tenha voltado para vê-la, antes de sair da Inglaterra, tenha dito adeus e quando ele foi embora tia tivesse caído das escadas e esteja lá, fraca, pedindo socorro. Aquelas escadas eram perigosas.

Estava fazendo com que a história combinasse com os meus desejos. Qualquer coisa, mas que Napier...

Abri a porta da cabana. - Edith... Edith, você está aí?

Não houve resposta. Nenhum corpo caído no fundo das escadas. Subi-as. Fui de um pequeno quarto para o outro. Nada!

Ao voltar para casa passei pela pequena loja. A Sra Bury estava na porta.

Ela acenou-me um cumprimento.

- Que coisa horrível! - disse ela. - Agora a Sra Stacy...

- Sim - disse eu.

Ela olhava-me de tal maneira que me deixava sem graça!

-Onde poderá estar ela? Dizem que teve um acidente e está caída em qualquer lugar.

-Parece a explicação lógica.

Ela concordou. - Que coisa interessante. Isso faz lembrar-me da senhorita... Qual era o nome dela? - Ela sacudiu a cabeça em direção às ruínas romanas. - Foi uma coisa interessante. Ela saiu, não saiu?... e nós nunca mais ouvimos falar dela. Agora é a Sra Stacy. Sabe de uma coisa? Não acho isso certo... coisas perturbadoras como esta. - Ela sacudiu a cabeça uma vez mais. - Calculo que teremos encrenca.

-Acho que sim.

-Era bom para os negócios. Então, muita gente veio visitar as ruínas. Temos mais pessoas aqui, agora, do que tínhamos antes. Acho que há um verdadeiro velho para dobrar em Lovat Stacy.

Eu assenti.

- Sabe, podiajurar que já a vi antes.

- Já disse isso.

-E com ela... também. Você não a esqueceria tão rapidamente. Um tipo vivo, sabe? Cheia de si. "Quero isto... Quero aquilo", como se todos devêssemos curvar os joelhos por ela ter vindo aqui e nos dito que tínhamos ruínas romanas.

Eu sorri.

- Oh, sim, podia jurá-lo.

- Dizem que todos nós temos sósias.

- Você tem, minha querida. Você tem.

Comecei a voltar e ela disse: - Simpática, aquela Srta Edith. Sempre tive pena dela; de qualquer jeito, espero que esteja bem.

-Eu também.

Senti seus olhos em mim, enquanto caminhava pela estrada.

Quando passava pelo portão da casa Sybil Stacy veio em minha direção. Usava um chapéu salpicado com margaridas e fitas azuis.

- Oh, Caroline - gritou. - O que pensa disso?

- Não sei o que pensar.

Ela sorriu tristemente. - Eu sei.

-Sabe?

Ela assentiu, como uma garotinha que tem um segredo e não é capaz de guardar.

-Pensavam que iam substituir Beau. Como se pudessem fazê-lo. - Seu rosto corou; separou um pouco os pés e ficou à minha frente, belicosa por um momento. - Claro que isso não podia acontecer. Eles o chamariam Beaumont. Só há um Beau. Ele cuidaria disso... e eu também.

-A Sra também?

Ela estava amuada - a garotinha outra vez. - Eles o chamariam Beaumont, mas para mim, ele nunca o seria. Eu o chamaria Nap, Nap, Nap, Nap. - Seu rosto enrugou-se. - Nada foi igual depois que Beau morreu... e nunca será.

Senti-me bastante perturbada em ouvi-la, por isso fiz um gesto em direção à casa; entretanto, ela segurou-me o braço. Suas mãos delgadas eram como garras; senti-as queimando através do tecido da minha manga.

-Ela não voltará - disse ela. - Ela se foi para sempre. Virei-me para ela, quase furiosa. - Como pode saber? Ela olhou-me astutamente e trouxe seu rosto para junto do meu; assim, as rugas ficaram mais visíveis e o sorriso mais sinistro.

-Porque realmente eu sei - disse ela.

Afastei-me um pouco dela. - Se sabe de alguma coisa devia ter dito à polícia ou a Sir William ou...

Ela sacudiu a cabeça. - Eles não me acreditariam.

-Quer dizer que sabe mesmo onde está Edith?

Ela assentiu, sorrindo.

- Onde? Por favor, diga-me... Onde?

-Ela não está aqui. Ela nunca estará aqui. Ela se foi para sempre.

-A senhora realmente sabe alguma coisa!

Outra vez aquele assentimento esperto, aquele sorriso astuto. - Sei que não está aqui. Sei que nunca estará. Sei disso porque... Sei de algumas coisas. Eu sinto isso. Edith partiu. Nunca mais a veremos novamente.

Senti-me impaciente, pois por momentos acreditei que ela tivesse alguma informação concreta.

Murmurei qualquer desculpa e entrei em casa.

Depois desse dia houve uma revelação assustadora. A Sra Rendall veio a Lovat Stacy arrastando Sylvia com ela. A garota estava em lágrimas e claramente relutante e alarmada. A Sra Rendall era sua militante usual.

Eu estava com a Sra Lincroft no salão e nós estávamos falando de Edith, como todos o faziam a esta altura, querendo saber o que mais podia ser feito para resolver o mistério. Isto aconteceu dois dias depois de seu desaparecimento. Jack Withers tinha feito muitas perguntas sobre a família e, como não descobrisse nada, opinou para que o caso passasse a autoridades superiores, mas Sir William foi contra isso.

A Sra Lincroft explicava: - Ele não suporta o resultado da publicidade. O velho caso de Beau será relembrado e a história de que há uma maldição nesta casa será revivida. Ele acredita que Edith voltará para casa mais cedo ou mais tarde e quer dar-lhe a oportunidade de fazê-lo tranqüilamente. Quanto menos barulho, mais rápido o assunto será esquecido... logo ela estará de volta.

Foi então que a Sra Rendall irrompeu perto de nós, empurrando Sylvia na nossa frente.

- A coisa mais horrível e assustadora! Achei que deviam saber, sem demora. Levem-me a Sir William.

-Sir William está transtornado com este caso, Sra Rendall, por isso tive de chamar o Dr. Smithers - falou a Sra Lincroft. - Sir William está dormindo agora, sob o efeito de um sedativo. As ordens do Dr. Smithers são de que seu descanso não deve ser perturbado em tais ocasiões.

A Sra Rendall franziu os lábios e olhou para a Sra Lincroft arrogantemente, que recebeu essa atitude com fortaleza. Apostava que ela estava acostumada com isso.

- Então esperarei - disse a mulher do pastor. - Porque isto é da maior importância. É sobre a Sra Edith Stacy,

- Talvez devesse neste caso... ou a Jack Withers.

- Quero falar com Sir William.

A Sra Lincroft disse: - Ele é um homem doente, Sra Rendall, e se fizesse o favor de me falar...

- Se é de vital importância... - comecei. Mas a Sra Rendall cortou-me logo; ela não iria ser mandada por uma governanta ou por uma professora de música, seu modo o insinuava. Embora, ao mesmo tempo ela ansiasse por contar o que descobrira.

- Muito bem - ela disse, afinal. - Sylvia veio-me com a história mais chocante! Devo dizer que nunca teria acreditado, não dela. Mas ele... Claro, ele deixou o pastor em dificuldade, e qualquer um que fizesse isso - depois de tudo que fizemos por ele... assim, não me surpreendeu. Mas quem imaginaria que nós tínhamos tal perversidade... tal depravação em nosso meio?

A Sra Lincroft disse: - Quer dizer o pastor-ajudante, o Sr. Brown. O que fez ele?

A senhora Rendall virou-se para a filha, pegou-a pelo braço e sacudiu-a. - Diga-lhes, diga-lhes o que me contou:

Sylvia engoliu e disse: - Eles costumavam encontrar-se e ela desejava ser casada com ele.

Fez uma pausa e olhou suplicante para sua mãe.

- Continue, criança!

- Eles costumavam encontrar-se à noite... e ficou assustada quando...

Sylvia olhou apelantemente para sua mãe, que disse: - Em todos os meus anos de esposa de pastor, em todas as paróquias que servi, nunca soube de uma perversidade tão desenfreada! E isso tinha de ser com um pastor-ajudante nosso! Sabe, eu nunca gostei dele. Eu disse ao pastor, ele pode confirmar se é verdade. Eu disse: não confio nele. E quando foi embora, dizendo que ia ensinar os pagãos, estava pensando em partir com a esposa de outro homem!

A Sra Lincroft ficou pálida e balbuciou: - Quer dizer que Edith e o Sr. Brown fugiram juntos... fugiram para casar-se?

-É isso mesmo que quero dizer. E Sylvia sabia... - Seus olhos apertaram-se; ela observava a filha ameaçadoramente, eu nunca vira uma garota tão assustada como Sylvia. O que faria aquela mulher, eu queria saber rapidamente, para inspirar tamanho horror? - Sylvia sabia e não disse nada... nada...

- Pensei que não devesse - gritou Sylvia, apertando e desapertando as mãos; pondo os dedos na boca e roendo as unhas.

- Pare com isso - disse a Sra Rendall, firmemente. - Devia ter-me contado logo.

- Eu pensei que era fazer fofoca. - Sylvia olhava suplicante para mim, e eu disse, rapidamente. - Acho que fez o que pensou ser certo, Sylvia. Não queria contar fofocas e agora veio e contou o que sabia. Isso é certo.

A Sra Rendall observava-me, com espanto. A professora de música tirando a autoridade que ela tinha sobre a filha? Mas estava consciente da gratidão de Sylvia e decidi que se tivesse a oportunidade de ajudá-la, eu o faria. Tal mãe podia torcer o caráter de uma pessoa jovem. Pobre Sylvia! Seu problema não era menos agudo do que o de Allegra.

A Sra Rendall lançou seu olhar belicoso em sua direção. - Ainda não ouviu tudo. Continue, Sylvia.

- Ela ia ter um bebê... e... estava assustada porque...

- Continue Sylvia, por causa de quê?

 

- Porque - disse Sylvia, olhando para mim e baixando os olhos de repente. - Porque era filho do Sr. Brown e todos pensavam que fosse... não era.

- Ela lhe contou isso? - disse a Sra Lincroft, incrédula. Sylvia assentiu. - A você e não às outras?

Sylvia sacudiu a cabeça, afirmativamente. - Foi um dia antes dela fugir. Alice estava escrevendo um ensaio e Allegra estava tendo sua aula de piano; nós estávamos sozinhas; de repente, ela começou a chorar e contou-me. Disse que não ia ficar aqui. Ela ia fugir com...

-Com aquele canalha! - gritou a Sra. Rendall.

-Então,- continuou a Sra Lincroft - ela simplesmente saiu de casa sem levar nada com ela. Como foi ela? Como chegou até a estação?

Sylvia engoliu em seco e olhou para a janela. - Ela disse que ele estava esperando por ela. Eles iam embora e queriam que ninguém os procurasse. Ela nunca voltará. Disse para não lhes contar. Ela me fez jurar para não contar nada a ninguém, até se passarem dois dias e eu jurei na Bíblia, por isso não contei. Mas o tempo passou e eu não podia mais guardar isto só para mim, por mais tempo.

Ela tagarelou a última parte do discurso inexpressivamente, quase como se o tivesse decorado - o que provavelmente o fizera, pois se isso era verdade deve ter sido um esforço para a pobre garota abrigar tal segredo em face das perguntas a que foi submetida.

A Sra Lincroft também parecia pensar assim; aparentando estar muito aborrecida, disse: - Vou imediatamente ver se Sir William está acordado. Se estiver, acho que devia ver a senhora e Sylvia imediatamente, Sra Rendall.

Foi chocante, foi escandaloso, mas coisas escandalosas tinham acontecido por ali antes.

Ainda assim foi a explicação mais plausível. Mulheres jovens casadas não saem de suas casas e simplesmente desaparecem sem deixar nenhum sinal. Têm de estar em algum lugar. E Edith tinha contado à filha do pastor que estava planejando fugir com o seu amante. Quem teria acreditado nisto? A jovem senhora Stacy e o ajudante do pastor! O pastor, guia de todas as pessoas! Bem, sabia-se que estas coisas acontecem.

- As mais quietas são as piores - disse a Sra Bury para mim. Ela tinha formado o hábito de aparecer miraculosamente à porta toda a vez que eu passava; e quase sempre ela. sacudiria a cabeça para mim e me diria que eu era a imagem viva de uma daquelas pessoas das escavações. Ela nunca esquecia um rosto.

- E casada com ele - dizia ela. - Sinto pena dele. Simpática, a garota. A Srta Edith não era como a Srta Allegra. Esta merecia que alguém lhe desse umas boas palmadas. Mas a Srta Edith e a Srta Alice - sempre polidas e com boas maneiras, todas duas. Tive pena dela, casá-la assim. Foi o dinheiro. Bem, dinheiro não é tudo, é? Se ela não fosse rica não se teria casado com aquele Sr. Nap... e ela podia ter-se apaixonado e casado com o Sr. Brown, tudo certo e respeitável.

Era o ponto de vista do vilarejo. Estavam todos com pena da pobre Edith e do Sr. Brown. Relembravam; tinha sido um jovem tão simpático, mais acessível do que o pastor, nunca intrometendo-se nos negócios e dando conselhos desnecessários, como a mulher do pastor.

Sir William estava profundamente afetado com as novidades. Eu não o vi porque não tocava para ele desde o acontecido.

-A Sra Lincroft confiou-me: ele está suportando mal. A idéia de um neto fez milagres, nele, deu-lhe um novo interesse, e agora ela partiu e, de qualquer maneira, parece que a criança não seria dele. Isso o mudou; diz que nunca mais a quer nesta casa. Ele não quer encontrá-la e não quer mais falar dela. Deseja esquecer isso. Ele quer que seja como se Edith nunca tivesse estado aqui. Não quer que seu nome seja mencionado e quer que as investigações terminem.

- Mas - protestei eu - não é possível comportar-se como se nada houvesse, como se uma coisa tão importante como essa nunca tivesse acontecido. Napier está aqui e a finalidade de sua volta foi casar com Edith.

- É o desejo de Sir William - disse a Sra Lincroft, como se isso explicasse tudo.

A revelação de Sylvia trouxe uma mudança radical. O assunto para a maioria estava encerrado. Edith fizera o que outras fizeram, diante de um casamento indesejável - fugira com seu amante.

Ninguém sabia em que navio o Sr. Brown tinha ido para a África.

-Eu nunca lhe perguntei - disse a Sra Rendall. - Não queria tomar parte em seus planos levianos. E parece que deve deixar a igreja, meu Deus; se vamos deixar esta espécie de gente ficar, onde chegaremos?

Napier foi a Londres, onde passou uma semana tentando descobrir algumas novas notícias do paradeiro de Jeremy Brown; voltando depois de uma semana com a notícia de que um Sr. e Sra Brown tinham viajado para a África no S.S. Cloverine, não se sabia se estes eram Jeremy e Edith. Seria possível saber-se mais, quando o navio chegasse ao seu destino, através da Sociedade Missionária.

Assim Napier voltou, menos apreensivo do que tinha ido, e eu o evitava; estava aliviada porque ele me evitava também. Havia épocas em que pensava que teria sido melhor se tivesse partido em silêncio, enquanto ele estava em Londres, desaparecendo tão irrevogavelmente como Edith e Roma parecem tê-lo leito.

Contudo, no minuto seguinte, lembrava a mim mesma que tinha de resolver o enigma do desaparecimento de Roma, e o feito de Edith contribuiu ainda mais para isso. Não corria perigo com Napier Stacy, assegurei a mim mesma, nem com qualquer outro homem. Claro que se a causa do desaparecimento de Edith era sua fuga com seu amante, não estava de maneira alguma ligado com o de Roma, embora ainda fosse uma coincidência que duas mulheres tivessem desaparecido no mesmo lugar.

A crença na fuga fortaleceu-se quando Alice e Allegra fizeram suas confissões à Sra Lincroft.

Allegra admitira que tinha visto os amantes encontrando-se, mais de uma vez. Não disse nada a ninguém porque pensou que seria fazer fofocas. Alice admitiu que uma vez carregou uma nota dela para seu amante.

Edith tinha partido. Todos estavam prontos a acreditar que ela tinha partido com seu amante. Mas eu não estava completamente convencida. Continuava pensando em Roma.

 

Durante as semanas seguintes, quando continuava a evitar Napier, ocorreu-me que todos estavam aceitando a explicação do desaparecimento muito facilmente, e eu estava espantada com essa atitude. A Sra Lincroft estava unicamente interessada em cuidar de Sir William. Talvez tenha sido a Sra Lincroft quem compeliu todos a aceitarem a explicação, porque queria que o assunto fosse colocado de lado e esquecido - pela saúde de Sir William, claro. Entretanto, as jovens estavam sempre cochichando sobre isso; freqüentemente ouvia o nome de Edith quando chegava perto delas; então, elas olhavam para mim, embaraçadas, e falavam de qualquer coisa.

Na vila prosseguiram falando do desaparecimento de Edith; mas também estavam convencidos de que ela tinha ido com seu amante. A história era enfeitada à medida que o tempo passava.

Ouvi a Sra Bury murmurando para uma das freguesas: - Dizem que ela deixou uma nota, dizendo que não podia mais viver com aquele Nap.

Era espantoso como os rumores que nada tinham de verdade podiam começar.

- É a maldição da casa - escutei a Sra Bury dizer em outra ocasião. - Sabe, deveria ter sido do Sr Beau pelo direito. O Sr. Napier veio e tomou o lugar dele. Oh, eu sei que ela fugiu com o pastor-ajudante. É o que eles chamam predestinação... parte da maldição, sabe?

Sempre que alguém da casa aparecia calavam-se as línguas agitadas. Uma vez vi as três garotas na loja da Sra Bury e adivinhei que falavam sobre a maldição de Lovat Stacy e do desaparecimento de Edith. Havia um ar de conspiração a volta de todos.

Pensava muito em Napier e na conversa em que dissera não me ser indiferente. Desejava saber o quanto foram sinceras aquelas palavras. Ele parecia autêntico, mas isso podia ter sido um método de aproximação. Eu era uma mulher, uma viúva com experiência da vida. Ele não era livre para me fazer declarações honestas - não mais agora do que então. Contudo, ele me fizera uma espécie de declaração e, se eu fosse esperta, pararia de pensar nele. Na verdade eu estava esforçando-me, além de minhas próprias forças, e talvez ele também estivesse. Porém continuava... ele me dera um novo interesse na vida, pois eu não pensava mais em Pietro a toda hora do dia. Era como ver uma luz opaca no fim de um túnel escuro, através do qual alguém lutara muito tempo, e tivesse medo do que podia encontrar na luz...

Prometera a mim mesma que jamais seria envolvida outra vez. Se tivesse de visualizar uma outra vida, casamento, crianças, um lar próprio, veria meu marido como uma figura simbólica. Eu o admiraria, mas nunca lhe daria o poder de ferir-me, como Pietro o tinha feito. Ainda que morresse e me deixasse sozinha, ou na nossa vida em comum. Sim, agora eu admitia as feridas, a falta de carinho, a falta de ternura, a cruel dissipação de minha carreira pela dele.

Esta aceitação era nova, - tinha de encará-la - tinha admitido isso devido a meu relacionamento com Napier. Mas crianças... eu ansiava por elas. Com elas poderia construir uma nova vida. Devia libertar-me do passado, mas Napier estava acorrentado a ele tanto quanto estivera quando Edith estava em casa.

Sua memória estava mais viva do que se fosse ela própria. Suas roupas ainda estavam no guarda-roupa e seu quarto continuava como ela o tinha deixado. Agora havia o quarto de Beau e o de Edith; mas o de Edith não seria santuário, como o de Beau. Estou certa de que tão logo a Sra Lincroft consiga fazer Sir William melhorar, alguma coisa será feita.

Então o novo pastor-ajudante chegou e todos tinham algo mais para conversar. A fuga de Edith com o Sr. Brown ainda era um tópico da conversa, mas atualmente não mais de primordial importância. O Sr. Godfrey Wilmot substituiu-a.

A Sra Rendall veio a Lovat Stacy para falar à Sra Lincroft e a mim sobre o Sr. Wilmot. Ela estava visivelmente encantada com ele.

- Que grande fortuna! Estou contente agora que nos livramos daquele... daquele... bem, não importa, o Sr. Wilmot está aqui agora. Homem encantador! O pastor tem tomado grande afeição por ele.

Pobre pastor, pensei, evidentemente ele não ousa fazer nada mais.

-Oh, sim - continuou a Sra Rendall - não tenho dúvida de que concordarão que temos um achado no Sr. Wilmot. Que homem encantador! - Ela sorriu para nós e murmurou: - Ele tem 30. De boa família. Ele é sobrinho de Sir Laurence, o juiz. E claro que houve tempo em que teve uma vida muito boa. A razão de ainda não tê-la é porque decidiu entrar para a igreja tardiamente. Temo que não o tenhamos durante muito tempo. - Ela sorriu recatadamente. - Porém, vou fazer o melhor para torná-lo feliz, para que ele não nos queira deixar. Devem vir à casa pastoral para conhecê-lo. Ele está satisfeito com a perspectiva de ajudar as meninas na instrução.

A Sra Lincroft disse que estava ansiosa por conhecer o novo pastor-ajudante e que era muito bom que ele satisfizesse tão completamente as exigências da Sra Rendall.

-Creio - disse a Sra Rendall, recatadamente - que a deserção do Sr. Brown foi uma bênção disfarçada.

As garotas trouxeram notícias inflamadas do Sr. Wilmot.

-Tão bonito! - suspirou Allegra. - Ele nunca quererá casar com Sylvia.

Sylvia corou, parecia zangada.

Vim em seu socorro. - Talvez Sylvia não queira casar com ele.

-Ela não tem escolha - retorquiu Allegra. - Nem ele, se ficar. A Sra Rendall já se decidiu.

-Isso é bobagem - disse eu. Alice e Allegra trocaram olhares.

- Pelo amor de Deus - gritei. - O pobre homem acaba de chegar.

- Apesar disso, a Sra Rendall acha-o maravilhoso - murmurou Alice.

- A chegada de uma nova personalidade neste lugar tem virado a cabeça de todo mundo.

Era verdade, aquele povo estava falando do novo pastor-ajudante. - Muito diferente do Sr. Brown. - Ouvi dizer que seu pai era um lorde ou qualquer coisa assim. E ele tem uma aparência muito boa... e maneiras elegantes.

Estes eram os comentários que ouvia por toda a vila, antes de conhecê-lo, e a esta altura apressava-me em travar conhecimento com este modelo. Pelo menos, veio ofuscar o brilho do desaparecimento de Edith. Não que Edith estivesse esquecida. Quando vi o oficial de polícia na vila parei para conversar com ele.

-O caso ainda não está encerrado, Sra Verlaine; até ser definitivamente provado que ela fugiu com aquele jovem, manteremos os nossos olhos abertos.

Desejei saber o que estavam fazendo mas, quando lhe perguntei, ele pareceu-me ligeiramente misterioso.

-Venha para a sala de visitas - a Sra Rendall cumprimentou-nos. - O Sr. Wilmot está com o pastor em seu escritório.

Nós a seguimos para a sala de visitas, onde estava Sylvia, em pé, perto da janela.

-Por favor, sente-se, Sra Verlaine, e vocês também. - Ela acenou para as meninas. - Sylvia, não fique aí tão desarrumada. - Olhos maternais ansiosos perscrutavam Sylvia. - Como parece desalinhada! Essa fita no cabelo está positivamente suja. Vá e mude-a imediatamente.

Vi Allegra e Alice trocarem olhares, e ocorreu-me quão observadoras e críticas eram as jovens.

-Não ande assim - disse a Sra Rendall para Sylvia, que saía desapontada. - E endireite os ombros. - Acrescentou, exasperada: - Garotas!

Falou vagamente sobre a saúde de Sir William e sobre o tempo, até Sylvia voltar, usando uma fita azul.

-Hum! - disse sua mãe. - Agora vá dizer ao pastor e ao Sr. Wilmot que a Sra Verlaine está aqui.

Ela olhava especulativamente sua filha; eu talvez pensasse assim por causa dos comentários das meninas. Em poucos momentos o pastor entrou na sala de visitas acompanhado do Sr. Wilmot, que realmente era um jovem com uma aparência extremamente boa - um pouco mais alto do que a média e com uma expressão cândida e encantadora. Tinha dentes perfeitos, brancos, o que era muito evidente quando sorria, e maneiras simples. Era um contraste com o humilde Sr. Brown.

-Oh, Sr. Wilmot! - Nunca ouvira o tom da voz da Sra Rendall tão recatadamente gentil. - Quero apresentá-lo à Sra Verlaine. O senhor quererá falar com ela sobre o horário das aulas. Ela está ensinando piano às meninas.

Ele dirigiu-se a mim. - Sra Verlaine? - disse ele. - É um nome muito famoso.

Ele pegou a minha mão; seus olhos quentes, castanhos, olharam dentro dos meus.

-O senhor refere-se a meu marido - disse eu.

-Ah, Pietro Verlaine... que artista! - Sua expressão ficou nublada. Estaria lembrando-se que eu era viúva? - Iluminou-se de repente. - Por quê? - prosseguiu. - Conheci sua irmã. Foi aqui...

Fui incapaz de controlar minha expressão. Estava descoberta. Devia acontecer, mais cedo ou mais tarde. Pietro era muito conhecido; e, em seus círculos, também o era Roma. Alguém algum dia me ligaria a ela.

Deve ter notado minha expressão de medo, pois disse, rapidamente: - Talvez esteja enganado...

-Minha irmã está morta - ouvi-me a mim mesma.

A Sra Rendall disse: - Que tristeza! - Virou-se para o Sr. Wilmot. - O pai da Sra Verlaine era um professor. É triste que sua única irmã tenha morrido... não há muito tempo atrás, creio eu.

O Sr. Wilmot veio, nobre e magnifícamente, em meu socorro. - Claro. Lamento muito, Sra Verlaine, por introduzir um assunto que lhe deve ser doloroso.

Eu não respondi, mas acho que meus olhos expressaram minha gratidão.

- O Sr. Wilmot está muito interessado em nossa vila - disse a Sra Rendall, maliciosamente.

- Oh, sim - disse o novo pastor-ajudante. - Acho as ruínas romanas bastante fascinantes.

- Elas foram, creio eu, uma das razões por que decidiu vir para aqui.

Ele sorriu com charme. - Elas são somente uma atração a mais. - Virou-se para mim. - Sou um arqueólogo amador, Sra Verlaine. Houve um tempo em que quis fazer disso a minha profissão... depois... mais tarde do que o habitual... decidi entrar para a Igreja.

-Que sorte a nossa - falou a Sra Rendall. - Gostaria de que persuadisse Sylvia a mostrar um pouco de interesse por nossas ruínas, Sr. Wilmot.

-Posso tentar - disse, sorrindo.

O pastor disse: - Ah... muito interessante! - E pude ver como estava satisfeito, pois agora que o novo pastor-ajudante mostrara interesse pelas ruínas a Sra Rendall tinha descoberto como elas eram fascinantes.

-Acho que nossas aulas não vão coincidir - disse, trazendo a conversa para o assunto objeto do encontro.

-Estou certo que não.

Tomei consciência imediatamente de seu interesse e não estava surpreendida. Ele devia querer saber por que eu estava Tão ansiosa para que ele não traísse meu parentesco com Roma.

Tinha dado aula de piano para Sylvia e estava atravessando o jardim da casa pastoral, voltando para Lovat Stacy, quando escutei chamarem-me; era o Sr. Wilmot, correndo atrás de mim com um sorriso insinuante.

- Passei uma tarefa para as meninas - disse ele. - Tinha de falar-lhe.

- Sobre minha irmã?

Ele assentiu. - Eu só a encontrei uma ou duas vezes. Ela a mencionou na ocasião. Estava preocupada com o seu casamento. Pensava que não seria bom para a sua carreira.

-Obrigada por ter ficado calado - disse eu.

Seu olhar brilhante encontrou o meu. - Eles não sabem de seu parentesco, evidentemente.

Neguei com a cabeça. - Deixe-me explicar. Sabe que minha irmã... desapareceu.

- Sim. Foi essa uma das razões por que não resisti em aceitar a oportunidade de vir aqui. Isso... e as descobertas. E você?

- Vim aqui para ensinar piano às meninas e tentar descobrir o que aconteceu com minha irmã.

- E decidiu manter o parentesco em segredo?

- Talvez tenha sido bobagem minha, mas temia que não me aceitassem se o soubessem. Roma veio aqui, apesar de eles não a quererem nem a seu grupo. Depois trouxe publicidade desagradável com o seu desaparecimento. Queria descobrir o que aconteceu a minha irmã... por isso eu vim aqui.

Ele suspirou profundamente. - Como estou feliz que me tenha parado a tempo! Sabe, eu podia ter mencionado o fato se tivesse ouvido seu nome antes de encontrá-la.

-Sim. É difícil permanecer anônimo, depois de ter sido casada com um homem tão famoso.

Ele concordou. - E muito intrigante.

- É horrivelmente misterioso. E agora desapareceu Edith também.

- Oh, aquele infeliz romance! Ela fugiu de seu marido, segundo ouvi.

- Eu não estou certa. Tudo que sei é que ela desapareceu e Roma também desapareceu.

Ele olhou para mim, astutamente. - Compreendo seus receios. Gostaria de saber se há alguma coisa que eu possa lazer.

- Pelo menos alguém sabe quem eu sou... - comecei.

- Pode estar certa de que ninguém o saberá através de mim.

- Fico-lhe agradecida.

Ele sorriu. - Eu vi pânico em seu rosto. Devemos conversar sobre isso. Como arqueólogo... estritamente amador... poderei ser útil. Incidentalmente eu sou admirador de música. Toco órgão.

Virei-me e vi a cortina da sala de visitas mover-se lentamente. Estávamos sendo observados pela Sra Rendall, tinha certeza, lia deveria estar desejando saber por que seu atraente pastor-ajudante tinha saído para conversar comigo.

 

Em pouco tempo eu e Godfrey Wilmot tínhamos ficado amigos. Era inevitável. Nosso amor comum pela música uniu-nos de qualquer maneira, mas o fato de ele saber quem eu era tornou ainda maior esse laço. Sentia-me extremamente agradecida pela maneira hábil com que me tirara de uma situação desagradável.

Encontramo-nos nas ruínas e falamos sobre Roma, enquanto vagávamos pelos arredores.

- Ela teria sido um dos nossos arqueólogos dirigentes, se ela tivesse...

- Vivido - disse concisamente. - Acho que encarei a certeza de que Roma está morta.

- Pode haver outras explicações.

- Não conheço nenhuma. Roma nunca teria partido sem me avisar. Estou certa disso.

- Então, o que lhe terá acontecido?

- Ela está morta. Eu sei disso.

- Acha que foi um acidente?

- Parece a explicação mais lógica, pois quem desejaria matar Roma?

- Isso é o que nós temos de descobrir.

Senti-me atraída por ele, quando disse "nós", daquela maneira. Eu disse, impulsivamente: - É bondade sua fazer seu o meu problema.

Ele riu repentinamente. Tinha o sorriso mais contaminante que conhecia.

- Também é bondade sua permiti-lo. Devo dizer que é uma situação intrigante. Teria sido um acidente?

- É claro que há uma possibilidade. Mas onde está ela? Isso é o que quero saber. Haveria algum sinal dela. Pense nisso. Ela esteve aqui neste lugar... empacotando as suas coisas... Saiu para um passeio e nunca voltou. O que podia ter acontecido?

-Podia ter ido nadar e ter-se afogado.

-Não ficaria sinal nenhum? Além dela nunca ter nadado muito bem, era um dia frio. Não ficaria algum vestígio?

Ele disse: - A alternativa é: alguém escondeu as marcas.

- Por quê?

- Porque não queria que fosse descoberto.

- Mas por quê... Por que, por quê? As vezes penso que alguém assassinou Roma. Mas por quê?

- Algum arqueólogo ciumento. Alguém que soubesse que ela tinha descoberto um segredo que ele - ou ela - queria que fosse seu ou sua descoberta.

-Oh, isso é demasiado fantasioso!

-Há coisas como o ciúme profissional. Neste campo como nos outros.

-Oh, mas não é possível.

- Pessoas que cavam o passado são tidas como um pouco loucas por muita gente.

- Entretanto, alguém deveria explorar toda a possibilidade. Ela saiu daquela cabana para... desaparecer... Vamos pensar sobre isso.

Ficamos silenciosos por um momento; depois, eu disse: - E há Edith.

- A senhora que fugiu com seu amante?

- É a idéia geral.

Ele me lembrava Roma - aquela completa absorção, aquela pausa repentina para examinar uma certa peça de piso que chamava a sua atenção. Então ela a explicaria um pouco.

-A arqueologia tem feito muito progresso nos últimos anos - explicava-me. - Antes disso era pouco mais que uma caça a um tesouro. Lembro-me quando ataquei meu primeiro túmulo. Foi em Dorset. Agora tremo só em pensar como era descuidado e que verdadeiro tesouro eu podia ter destruído.

Contei-lhe sobre os meus pais e a atmosfera em que fora criada. Tudo soava quase divertido quando lhe relatava - riamo-nos freqüentemente.

Subitamente ele disse: - Há um motivo repetido nestes mosaicos. Queria saber o que isto significa. É uma pena que estejam tão danificados. Gostaria de saber se é possível limpá-los um pouco. Acho que sua irmã e o seu grupo o teriam feito, se fosse possível. Que pena, o tempo destrói as cores. Estas pedras devem ter sido brilhantes originariamente. Por que está rindo?

-Você faz-me lembrar Roma. Fica completamente... absorvido, no meio disto.

Ele deu um sorriso franco e atraente. - Não esqueça, - disse ele - nós estamos procurando pistas.

-Jovens viúvas, - disse Allegra - dizem que são fascinantes.

As garotas estavam na sala de estudos em Lovat Stacy e Sylvia tinha vindo para uma aula de piano. Caminhei para avisar Allegra de que estava na hora de sua aula. Ela nunca era pontual. Elas estavam sentadas na mesa e olharam- me firmemente quando entrei.

- Estávamos falando sobre viúvas - disse Allegra, quando entrei.

- Você devia estar pensando em sua lição. Fez o seu exercício?

- Não - respondeu Allegra.

- E você Alice? E você Sylvia?

- Sim, Sra. Verlaine.

- Elas são boas meninas - zombou Allegra. - Sempre fazem o que lhes dizem.

- É freqüentemente mais inteligente - disse. - Agora Allegra.

Allegra mexeu-se na cadeira. - A Senhora gosta do Sr. Wilmot, Sra. Verlaine?

- Gostar dele? Claro que gosto. Acho que ele é um ótimo pastor-ajudante.

- Acho que ele gosta da senhora. - Ela lançou um olhar fulminante para Sylvia. - Ele não gosta de você nem um pouco-Acha que você é uma garotinha tola. Não concorda, Sra. Verlaine? Provavelmente, contou-lhe o que pensa sobre Sylvia.

- Não concordo, e ele nunca mencionou Sylvia para mim. Estou certa de que ele gosta muito dela. Pelo menos ela tenta com suas lições, que é mais do que algumas pessoas fazem.

Allegra irrompeu a rir, e Sylvia e Alice pareciam embaraçadas.

-Claro que ele não gosta de garotinhas tolas. Gosta dc viúvas.

-Vejo que está tentando retardar sua lição. É inútil. Agora... venha.

Allegra levantou-se. - Tudo o mesmo, - disse ela - viúvas são atraentes. Tenho certeza disso. É porque já tiveram um marido e o perderam. Ficarei muito feliz quando tiver tido um marido.

-Que bobagem!

Encaminhei-me para a sala de música consciente dos três pares de olhos estudando-me.

Quão freqüentemente, perguntei a mim mesma, aqueles três pares de olhos me observariam, quando eu estivesse desprevenida?

Nas largas escadas que davam para o salão dei de cara com Napier. - Quase não vejo você agora - desde que Edith partiu.

- Não - concordei.

- Quero falar com você.

- O que quer dizer-me?

- Nada aqui. Não nesta casa. Sua voz diminuiu, para um suspiro. Vá a cavalo até Hunters Knoll, esta tarde. Encontrarei você lá às 2 e meia.

Estava quase protestando, mas ele disse: - Estarei esperando lá - e continuou a andar.

Estava ciente do silêncio da casa sobre nós e gostaria de saber se alguém nos tinha visto trocar algumas palavras.

Ele esperava por mim.

- Então você veio - foram suas primeiras palavras.

- Acha que não devia?

- Não tinha certeza. O que você tem pensado estas últimas semanas?

- Querendo saber, principalmente, o que aconteceu com Edith.

- Ela fugiu com seu amante. - Foi uma fria constatação do fato. Ele não mostrou nem rancor nem emoção.

- Acredita nisso?

- Em que mais posso acreditar?

- Podia haver outras explicações.

- Esta parece a mais lógica. Há uma coisa que lhe quero dizer... suponho, porque não quero que pense demasiado mal de mim. Quando me casei com ela acreditava que podíamos fazer alguma coisa de nosso casamento. Quero que saiba que eu realmente tentei... Acredito que ela também. Mas simplesmente não foi possível.

Fiquei silenciosa e ele continuou: - Suspeitava de que ela estava apaixonada pelo pastor-ajudante. Não a condeno. Estou certo de ser o único culpado. Mas não quero que você pense que fui insensível... calculista... não completamente assim, de qualquer modo. Ela não podia suportar a vida aqui. Entendo isso. Assim partiu. Vamos começar daqui.

Estava feliz que ele tivesse comentado isso, pois eu acreditava nele. Ele não tinha sido mau para ela como primeiramente pensara. Ele lutara, talvez de modo desajeitado, com uma situação impossível.

- O que desejava dizer-me?

- Que não me devia evitar como o tem feito.

- Tenho? Não o fiz conscientemente. Simplesmente não o tenho visto. Também poderia dizer que me tem evitado.

- Se o fiz, você sabe a razão. Mas agora nós temos este Sr. Wilmot.

- O que tem ele?

- Ele é, segundo todos dizem, um jovem muito atraente.

-A Sra Rendall parece pensar assim e ela não é fácil de agradar. - Falei alegremente, mas ele não penetrou no meu humor.

- Ouvi dizer que vocês dois ficaram logo bons amigos.

- Ele está interessado em música.

- E vocês descobriram uma paixão pela arqueologia.

- Assim, também, a Sra. Rendall.

Ele estava determinado que nenhuma alegria devia entrar em nossa conversa.

- Sem dúvida, ele é encantador.

- Não duvido.

- Você devia conhecê-lo.

- Nós nos conhecemos há pouco tempo, mas devo dizer que ele seria um companheiro encantador.

- Espero que não faça nada... irrefletidamente... comprometa-se.

-O que quer dizer?

-Acho que não devia ser impulsiva, Caroline. Tenha paciência.

Ambos escutamos o som de ferraduras de cavalos e quase imediatamente três amazonas apareceram: Allegra, Alice e Sylvia.

Eu pensei: viram-me sair e seguiram-me.

Allegra confirmou isso. Ela gritou: - Vimo-la sair, Sra. Verlaine, e quisemos vir com a senhora. Importa-se?

Alice tinha errado os estudos de Czerny e olhava-me, ansiosa.

-Nada mal, mas ainda há muito que melhorar. Ela concordou, entristecida.

Bem, - prossegui, consolando-a - você realmente trabalha e está progredindo.

- Obrigada, Sra. Verlaine. - Olhou para as suas mãos e disse: - As luzes começaram outra vez.

- O quê?

- As luzes na capela. Eu as vi a noite passada. É a primeira vez... desde que Edith... partiu.

- Bem, se eu fosse você, não me importaria tanto com isso. .

- Eu não me preocupo. Só me sinto um pouco amedrontada.

- Nenhum mal lhe acontecerá.

- Realmente parece existir uma maldição na casa, não parece?

- Certamente que não.

- Mas houve todas aquelas mortes. Começou quando o Sr. Napier atirou em Beau. Acha que Beau nunca lhe perdoou?

- Que bobagem! Estou surpresa com você, Alice. Pensei que tivesse mais juízo.

Alice parecia envergonhada. - É o que todos dizem... isso é tudo.

- Todos? - repeti.

- Os criados dizem isso. Dizem isso na vila. Vêem a luz e dizem. Dizem que nunca haverá paz até que o Sr. Napier vá embora outra vez. Acho que é maldade, não acha? Quero dizer, isso faria o Sr. Napier infeliz se escutasse... e acho que eleja escutou, porque parece infeliz. Mas talvez esteja pensando em Edith.

- Sua cabeça parece estar cheia de bobagens - disse. - Não admira que você não tenha feito progresso com sua música.

- Mas a senhora disse que estava fazendo progresso, Sra. Verlaine.

- Mais progresso - acrescentei.

- Então acha que não é Beau que está assombrando a capela?

- Claro que não.

- Eu sei o que a Sra. Verlaine pensa. - Era Allegra, chegando para a aula, pontualmente, pela primeira vez. Acha que sou eu, pregando peças.

- Espero que nunca tenha feito uma coisa tão idiota.

- Mas a senhora suspeita de mim, não suspeita? Sabe o que sou eu? Sou um objeto de suspeita.

- Sei que não é Allegra - disse Alice. - Vi a luz quando Allegra estava comigo.

Allegra fez uma careta para mim.

- Nós lhe mostraremos - disse ela.

- E agora, - disse eu - talvez queira mostrar-me se fez o exercício corretamente.

A oportunidade de "mostrar-me" veio um pouco mais cedo, para a minha tranqüilidade. Uma tardinha eu estava em meu quarto quando Allegra irrompeu nele. Ela estava excitada. - Agora, Sra. Verlaine. Alice e eu vimos a luz há um momento atrás.

Alice estava na porta. - Posso entrar, Sra. Verlaine? Dei-lhe permissão e as duas garotas ficaram na minha frente.

-Há um momento atrás - gritou Allegra. - Podíamos vê-la de sua janela, mas é melhor pela de Alice.

Segui-as pelas escadas até ao quarto de Alice. Ela acendeu uma vela e segurou-a. Ficou assim alguns momentos, até eu dizer: - Abaixe a vela, Alice, senão porá fogo nas cortinas.

Obedientemente ela abaixou e acendeu uma outra.

Enquanto estava fazendo isso, Allegra pegou a manga de meu vestido e murmurou: - Olhe, lá está.

E lá estava. A luz piscava momentaneamente e depois desaparecia.

-Vou ver quem está lá - disse.

Alice segurou minha manga, seus olhos agonizavam. - Oh, não, Sra. Verlaine.

-Alguém está pregando peças, estou certa disso. Quem é voluntário e quer vir comigo?

Alice olhava para Allegra, com seu rosto visivelmente empalidecido. - Ficaria apavorada - disse ela.

- Eu também - concordou Allegra.

- Até descobrirmos quem está fazendo essas brincadeiras vocês continuarão apavoradas.

Dirigi-me para a porta. Não ia admitir que eu própria me inquietasse. Uma idéia repentina tomou conta de mim e sobressaltou-me. O que aconteceria se realmente houvesse alguma coisa misteriosa na casa? Nesse momento experimentei o que pode ser chamado de advertência e era como se a própria Roma me estivesse avisando.

-Tome cuidado. Você sabe como sempre foi impulsiva. Ela dissera isso em várias ocasiões e eu podia ouvir distintamente sua voz em minha mente.

Agora eu tinha um amigo, um aliado. Não seria inteligente recrutar a ajuda de Godfrey Wilmot antes de tentar descobrir a razão daquele estranho fenômeno?

Uma das velas apagou-se repentinamente, sendo seguida imediatamente pela outra; o quarto ficou quase na escuridão.

Alice disse, em voz aguda: - É um sinal, Sra. Verlaine. É um aviso, as duas velas apagaram-se quando não havia corrente.

- Você as soprou.

- Eu não, Sra. Verlaine.

Virei-me para Allegra. - Ela também não - declarou Alice. - Devem ter-se apagado por conta própria. Coisas estranhas acontecem nesta casa, sabe? É por causa do que aconteceu há anos atrás. Foi um aviso. Não devemos ir à ruína. Alguma coisa de terrível nos aconteceria se fôssemos lá.

Enquanto acendia as velas notei que suas mãos estavam tremendo.

-Alice, você está deixando que sua imaginação tome conta de você novamente.

Ela concordou, tristemente. - Não posso fazer nada, Sra. Verlaine. As idéias vêm. Quisera que não... então penso o que possa ser; às vezes fico assustada.

- Você devia viver em qualquer casa pequena onde nunca nada acontecesse - disse Allegra.

- Não, não. Eu quero viver aqui. Não me importo de me assustar de vez em quando, contanto que more aqui.

Ela virou-se para a janela e ficou olhando para fora.Tui ficar ao lado dela.

Nós duas observávamos a mata; mas a luz não mais apareceu.

As velas queimavam vagarosamente e Alice virou-se, olhando-as com satisfação.

-Vê, está tudo certo agora! Foi um aviso. Oh, Sra. Verlaine, nunca vá sozinha à ruína no escuro.

Eu disse: - Gostaria de saber o fundo deste assunto estúpido.

Contudo estava aliviada, pois acreditava não ter sido Allegra; e então ocorreu-me que devia ser um dos criados acenando para alguma criada.

Encontrei Godfrey na cabana. Devido a seu interesse pela arqueologia, estava freqüentemente lá, e nós tínhamos feito da cabana nosso lugar de encontro.

Sentei-me nas escadas e ele empoleirou-se na mesa, enquanto conversávamos sobre Roma. Contei-lhe de sua satisfação naquele lugar, porque ficava perto das ruínas, e como, quando eu estivera ali, tentara introduzir um pouco de conforto doméstico.

- Não - disse - que se pudesse cozinhar muito, mas havia um fogão a óleo que ela guardava no alpendre. Cheirava horrivelmente, mas talvez isso fosse devido ao tambor de parafina que ela guardava lá. - Oh, que alívio falar de Roma!

- O que pode ter acontecido? - perguntou. - Vamos pensar em todas as possibilidades. Vamos explorá-las uma a uma.

- Isso é o que tenho feito desde que soube. Exploro e rejeito. O que foi isso? - Estava certa de que o cômodo tinha escurecido de repente. Eu e Godfrey tínhamos as costas viradas para a pequenina janela. Era tão pequena que a cabana estava sempre escura, mas naquele momento tinha ficado um pouco mais escura.

- Alguém está na janela - murmurei.

Num segundo ou dois estávamos à porta, mas não vimos ninguém.

- Por quê? - disse Godfrey. - Você está realmente assustada.

- E por pensar que estou sendo observada... quando estou desprevenida.

- Bem, quem quer que seja não pode estar longe.

Nós verificamos em volta da cabana, mas não achamos sinal de ninguém.

-Deve ter sido uma nuvem passando na frente do sol - disse Godfrey.

Olhei para o céu. As nuvens eram raras.

-Ninguém podia desaparecer tão depressa - prosseguiu ele. O desaparecimento de Roma naturalmente fez você ficar nervosa.

Estava preparada para admitir isso. - Não terei um momento de paz até saber onde ela está - disse eu.

Ele concordou. - Vamos sair deste lugar. Vamos dar uma volta lá fora. Poderemos falar mais facilmente lá.

Assim, nós saímos e conversamos. Depois de uns momentos, eu disse: - Não olhamos no alpendre. Alguém podia estar escondido lá.

- Se tivéssemos, teríamos provavelmente encontrado seu velho fogão a óleo.

- Mas eu tenho um pressentimento estranho...

Não terminei, podia perceber que ele estava pensando que eu tinha imaginado a sombra na janela.

Alguns dias mais tarde notícias espantosas foram reveladas. Encontrei-me com Godfrey na cabana, conversamos um pouco e depois passeamos pelo lugar.

Godfrey estava cada dia mais certo de que a resposta do desaparecimento de Roma seria encontrada, a qualquer preço, naquele lugar. Adorava examinar minuciosamente as termas e os pavimentos, procurando, segundo ele, por provas. Porém sabia que ele se deleitava, estudando-as. Contei-lhe sobre a luz e que me ocorrera a idéia de que Roma podia ter ido lá investigar.

Mas Roma desaparecera durante a tarde. A luz não podia estar em evidência então. Mas se ela tivesse ido dar um passeio à tarde e, voltando no escuro, tivesse visto a luz e resolvido investigar?

-É possível - concordou Godfrey. - Devemos ir à ruína uma noitinha, esperar o brilho da luz.

Achei que seria um pouco comprometedor, em vista das observações que as garotas tinham feito; e acreditava que a Sra. Rendall estivesse observando-me com atenção e suspeitando de que eu estivesse querendo conquistar o pastor-ajudante.

Entretanto, não comentei isso e, quando nos despedimos, não estávamos mais perto de resolver o mistério do desaparecimento da morte de Roma do que antes.

Voltei para Lovat Stacy e, quando escutei passos atrás de mim, virei-me e vi-me frente a frente com Napier. Ele parecia muito cansado e tenso.

- Acabei de chegar de Londres - disse ele. - Há novidades.

- De Edith? - disse.

- Ela não está com Jeremy Brown.

- Não... - Olhei espantada para ele.

- Jeremy Brown chegou no este da África - sozinho.

- Mas...

-Nós estávamos errados, - disse ele - suspeitando que Edith fugisse com um amante. Ela não faria tal coisa.

-Então o quê?

Ele olhou para mim inexpressivamente. - Quem poderá dizer? - murmurou.

Mas havia aqueles que tinham o que dizer. O segredo espalhou-se rapidamente e a vila comentava sobre o caso. O pastor recebeu uma carta de Jeremy Brown, dizendo que chegara bem e estava absorvido pelo trabalho. Assim, isso foi a confirmação posterior de que estava sozinho. Edith não tinha ido com ele. Então, onde estava Edith?

Os olhos voltavam-se mais uma vez para Lovat Stacy. Aquela casa azarada que muitos diziam ser mal-assombrada.

E por que era mal-assombrada? Porque um homem tinha matado seu irmão. Chamavam-na de a maldição de Caim. E, por ter matado seu irmão, sua mãe tinha-se suicidado; agora, a sua esposa tinha desaparecido. Onde podia ela ter ido?Quem podia dizer? Mas talvez houvesse alguém que pudesse.

Quando a mulher sofria alguma desgraça, a primeira pessoa suspeita era o marido.

Estava ciente do monte de suspeitas contra Napier e isso me perturbava profundamente, tanto mais que isso o abalava.

Havia uma feroz especulação em todo o lugar. Notei isso pelo jeito com que evitavam Napier. A expressão da Sra. Lincroft mudava quando falava dele; seus lábios apertavam-se. Sei que imaginava o que o desaparecimento de Edith causara a Sir William e o condenava por isso.

As garotas estavam discutindo o assunto constantemente, apesar de não falarem muito comigo sobre o caso. Gostaria de saber que interpretação elas estavam dando.

Allegra dissera, numa ocasião: - Se Sir William morrer e for pelo choque do desaparecimento de Edith... a história se repetirá. Sabe, Beau morreu e depois sua mãe...

Eu retorqui asperamente: - Quem disse que Edith está morta?

-Não - gritou Alice. - Ela voltará.

-Espero que sim - disse eu, ardentemente; e como esperava isso! Desejava que Edith voltasse mais do que tinha desejado qualquer coisa desde que Pietro morrera. Tentava construir toda a espécie de motivos para o seu desaparecimento. Amnésia? Por que não? Ela estava vagueando em qualquer lugar porque tinha perdido a memória. Bem que poderia ser. Não queria que Napier fosse um assassino. E se Edith tivesse sido assassinada?...

Eu simplesmente não aceitaria isso. Mas, e Roma?

A estranheza disso - a extrema coincidência - golpeava-me novamente. Duas jovens mulheres tinham desaparecido exatamente da mesma maneira. Ambas saíram, sem dizer nada, não levando nada como elas.

Era horrível, assustadoramente sinistro.

Preciso saber. A minha determinação era duplicada; e ao mesmo tempo pensava nas duas - não havia duas mulheres tão diferentes: pobre Edith, com sua ineficácia; débil e assustada Edith! E Roma? Decidida, corajosa, a mulher que sabia exatamente aonde ia, o que queria... exceto talvez numa ocasião.

-Tenha cuidado, Caro. - Era a voz de Roma, acautelando-me. - Isso pode ser assassinato.

Mas eu não aceitaria isso, seria assassinato se os outros fossem. Eu podia sentir a parede da suspeita crescendo tão rápida como um bambu no matagal.

Quisera não ter ouvido a discussão de Sir William e Napier. Tinha subido para tocar para Sir William outra vez, porque a Sra. Lincroft decidira que minha música o acalmava.

Não fui ao aposento de Sir William, mas direto para o do piano, pois a Sra. Lincroft dissera que ele podia estar dormindo e que gostava de acordar ouvindo-me tocar.

Quando entrava ouvi o som de vozes alteradas: a de Sir William e a de Napier.

- Quisera que você estivesse fora daqui.

- E eu posso assegurar-lhe que não tenho a intenção de voltar - dizia Napier.

- Você irá se eu quiser, e deixe-me dizer-lhe que não haverá nada para você.

- Está errado. Tenho o direito de ficar aqui.

- Escute-me. Onde está ela? O que lhe aconteceu? Fugir com um pastor-ajudante. Sabia que ela nunca faria isso. Onde está ela. Diga-me?

Devia ter ido embora, mas não pude. Sentia-me demasiado, envolvida. Tinha de ficar ali. Tinha de escutar.

-Por que acha que eu deveria saber?

- Porque você não a queria. Casou-se com ela por ser o único jeito de voltar. Pobre criança!

- O senhor foi o único que a sacrificou, não foi? Do modo que insistiu no casamento e me condenava por isso. Eu fiz o possível para que o casamento fosse bem sucedido.

- Casamento! Não estou falando de casamento! Estou-lhe perguntando o que fez com ela?

-Está louco? Está sugerindo?...

- Assassinato... - gritou Sir William. - Beau... sua... sua mãe...

- Meu Deus! - gritou Napier. - Não pense que me vai fraudar na minha herança com suas mentiras.

-Onde está ela? Eles a acharão, e então...

Não podia suportar mais. Fui para a porta e saí em silêncio para o meu quarto.

Senti-me doente de medo.

Sir William acreditava que seu próprio filho tivesse assassinado Edith.

-Não era verdade - suspirei. - Não acreditaria nisso.

E naquele momento prometi a mim mesma resolver o mistério do desaparecimento de Edith tal qual o de Roma. Era da maior importância para mim.

Não podia suportar a suspeita.

Na vila cochichavam: - E lógico, ele se casou com ela. Queria se ver livre dela, uma vez que já tinha conseguido o seu dinheiro. Há uma maldição em Lovat Stacy... e haverá sempre durante o tempo que aquele homem perverso estiver lá.

Via Sybil de vez em quando; o olhar astuto de conhecimento e a costumeira timidez estavam mais grotescos de que o usual.

Queria saber como iam as investigações secretas. Tinha sido descoberto que Edith não estava com Jeremy Brown. O que mais descobririam?

Por que devia um marido livrar-se da esposa? Havia muitas r azoes. Porque ele não a amava. Porque agora tinha o seu dinheiro. Porque agora tinha voltado para a sua família e tinha sido reintegrado na herança do pai... Fiz uma pausa aí, lembrando a discussão que escutara. Sir William odiava Napier. Por que se agarraria a tal sentimento não natural? E agora Edith tinha desaparecido, eles tinham brigado amargamente. Talvez Sir William deserdasse seu filho; o banisse, como fizera anteriormente.

Por que teria isso acontecido?

Napier não amava Edith. Não fazia segredo disso. E durante as últimas semanas... pensei nas conversas que tivemos juntos e fiquei horrorizada. Teria eu me enganado sobre suas insinuações? Teria ele realmente me dito que se fosse livre se casaria comigo?

Era uma situação assustadora. Pensava nos três pares de olhos observando-me. Quão profundamente enredada estava eu nisso?

Ao mesmo tempo tinha um grande desejo de provar a esse pessoal que estavam errados sobre Napier. Queria gritar:

-Não é verdade. Ele está sendo caluniado agora como o foi antes. Por causa do acidente em sua juventude vai ser condenado para sempre?

O que tinha acontecido comigo? Agora a coisa mais importante em minha vida era provar que Napier era inocente.

A Sra. Lincroft olhou mal-humorada para mim, à mesa.

-Isto transtornou Sir William terrivelmente - disse ela.

-Estou muito preocupada com ele. Desejo ardentemente que apareçam novidades de Edith.

- O que acha que lhe possa ter acontecido? - perguntei seriamente.

- Não ouso pensar. - Ela evitou o meu olhar. - Tenho muito receio de que ele tenha um novo enfarte. Seria melhor se Napier fosse embora.

- Se ele fosse embora, - ponderei - pessoas maliciosas diriam que ele estava fugindo.

Ela assentiu; depois, falou: - Ele não terá grande escolha. Sir William esteve falando em mandá-lo para a família do procurador. Adivinha o que isto pode significar?

-Ele parece sempre julgar e condenar sem evidência. Ele estava ansiando por um neto e agora...

- Talvez Edith volte.

- Mas onde está ela?

Eu expus minha teoria favorita de amnésia.

-É bondade sua tomar tal interesse pelos assuntos da família, Sra Verlaine, mas não se envolva demasiadamente.

-Envolver! - repeti.

Ela olhou para mim, decididamente, por alguns segundos, e seu procedimento mudou num curto período de tempo. A mulher gentil que sempre imaginara apagou-se, dando lugar a uma outra personalidade completamente estranha a todas as coisas que conhecia dela. Mesmo sua voz era diferente. - Às vezes não é inteligente interessar-se pelos assuntos de outras pessoas. Alguém pode dar-se mal.

- Mas naturalmente que estou interessada. Uma jovem esposa... uma aluna minha... desaparece. Certamente não espera que eu encare isso como uma ocorrência diária.

- Pode não ter sido uma ocorrência diária no ponto de vista de qualquer um. Mas ela desapareceu; nós não sabemos onde... ainda. Talvez nunca saibamos. As autoridades estão tentando descobri-la pelas redondezas. Já lhe ocorreu, Sra. Verlaine , que se o que algumas pessoas pensam for verdade, sua curiosidade poderá pô-la em perigo?

Estava espantada. Não tinha idéia de que tinha traído minha determinação de descobrir a verdade.

-Perigo? Que espécie de perigo?

Houve uma pausa. A mudança tinha ocorrido novamente. Era a Sra. Lincroft que conhecia desde a minha chegada a Livat Stacy, um pouco indefinida. - Quem pode dizer? Mas se eu fosse a senhora manter-me-ia reservada.

Eu pensei: ela está avisando-me. Quererá dizer que eu não devo envolver-me com um homem suspeito de ser o interessado no desaparecimento de sua esposa? Ou quererá dizer que, interferindo, estou correndo perigo de vida?

-No que respeita a perigo, - prosseguiu ela - tenho sido um pouco veemente, acho. Este assunto será esclarecido mais cedo ou mais tarde. Edith voltará. - Ela acrescentou, com convicção forçada: - Estou certa disso. - Estava quase falando, mas ela apressou-se: -Sir William disse-me que apreciou muito Schubert a outra noite. Sua interpretação leva-o para um sono profundo, que é justamente do que ele precisa.

Ela sorriu, agradecida. Qualquer um que pudesse acalmar Sir William era seu amigo.

O desastre aconteceu dois dias mais tarde. Fui ao aposento próximo ao de Sir William; a Sra. Lincroft estava lá. Ela murmurou-me: - Ele está um pouco indisposto hoje. Está dormitando em sua cadeira. Como está escuro! Hoje choveu o dia inteiro. Pensei que fosse melhorar um pouco, mas agora está mal como sempre.

Sir William escolheu as peças que seriam tocadas por mim. Relanceei o título da folha que era de Beethoven - Sonata ao Luar.

Acho melhor acender as velas - disse a Sra. Lincroft.

Concordei e, quando ela terminou, sentei-me ao piano. Ela saiu de mansinho.

Enquanto tocava pensei em Napier, sentindo uma indignação crescente pelo modo como fora acusado antes de qualquer prova.

Terminei a Sonata e, para surpresa minha, a próxima peça era Dança Macabra, de Saint-Saens, uma escolha rara, pensei. Comecei a tocá-la, pensando em Pietro, que trazia sempre alguma coisa macabra ao tocar esta peça. Ele dizia que ao tocá-la via a música como uma espécie de flautista delirante, que em vez de atrair as crianças para o lado da montanha trazia as pessoas de suas covas para dançar à sua volta... a dança da morte.

Lá fora estava cada vez mais escuro e a luz das velas mal dava, mas eu não precisava ler a música.

E então, de repente, não estava mais só. A princípio pensei que minha música tivesse, na verdade, provocado um fantasma, pois uma figura na entrada da porta aparecera, como um cadáver.

-Vá-se embora... Vá embora... - gritava Sir William. Ele estava olhando fixo para mim, como uma pedra. Por que... voltou?

Levantei-me e, quando o fiz, ele gritava com horror, caindo em seguida ao chão.

Freneticamente chamei a Sra. Lincroft, que não estava longe.

Ela olhou para mim, desanimada.

-O que aconteceu?

-Estava tocando a Dança Macabra - comecei.

Não terminei, pois pensei que ela fosse desmaiar.

Então ela se refez novamente: - Devemos mandar chamar o médico - disse.

 

Sir William estava, na realidade, muito doente. Tinha tido outro enfarte e havia vários médicos com ele. Pensou-se que não se recobraria.

Contei-lhes que estava tocando; subitamente, olhei para a porta e o vi. Como ele mal podia andar, deve ter feito um grande esforço para fazer isso, disseram os médicos. Provavelmente fora a causa do enfarte.

Após um dia ou dois acreditou-se que ele não iria morrer e a Sra. Lincroft estava muito aliviada.

Ela disse-me: isto significa que Napier ficará depois de tudo. Estou certa de que Sir William não se lembra do que aconteceu a Edith. Ele está um pouco confuso sobre todas as coisas e continua preso ao passado.

Naquele mês de julho choveu durante vários dias e o céu estava nublado. Sybil Stacy veio falar comigo em meu quarto. Tive de acender as velas, embora fosse dia. Sybil usava um vestido cor de malva, ornado com laços pretos e laços cor de malva no cabelo. Tinha escolhido uma cor que nunca a vira usar antes.

-Luto - murmurou.

Eu levantei-me precipitadamente da mesa onde preparava minhas lições.

Ela sacudiu o dedo para mim. - Por Edith, disse ela.

- Mas como pode estar certa?

- Tenho certeza. Ela teria voltado se não estivesse morta. Além do mais tudo indica isso, não acha?

- Não sei o que pensar, mas prefiro imaginar que está viva e que um dia voltará. - Virei-me para a porta, como se a esperasse. Sybil virou-se também e observou, na expectativa. Então sacudiu a cabeça. - Não, ela não pode voltar. Ela está morta. Pobre criança. Eu sei disso.

- Não pode estar certa - repeti.

- Coisas estranhas estão acontecendo nesta casa - continuou. - Não sente isso?

Sacudi a cabeça, negando.

- Não está dizendo a verdade, Caroline. Você também o sente. Você é sensível, eu sei. Colocarei isso em meu quadro quando pintá-lo. Coisas estranhas estão acontecendo e você sabe.

- Eu desejo... oh, como desejo que Edith volte!

- Ela viria, se pudesse. Ela sempre foi muito humilde. Faria o que os outros quisessem. Você sabe o que aconteceu a William, não sabe?

- Receio que esteja muito doente.

- Sim, e tudo porque ele se levantou para ver quem estava locando.

- Ele sabia que eu estava tocando.

- Oh, não, ele não sabia, Caroline. Aí é que você se engana. Ele pensou que fosse outra pessoa.

- Como poderia ele? Eu toco freqüentemente para ele.

- Ele escolhe as músicas, não escolhe?

- Sim.

-Eu sei. Ele escolhe as peças que gosta de ouvir, peças que lhe fazem lembrar coisas agradáveis. E agora, por causa do que aconteceu, Napier ficará. Acredito que Napier teria de partir mas, devido ao que aconteceu... Logo, o que é bom para Napier é mau para Sir William. Dizem que a carne de um homem é o veneno de outro. Oh, que verdade! Que verdade! Escute a chuva! Chove no dia de St. Swithin. Sabe o que isso significa, Caroline? Quarenta dias e quarenta noites de chuvas... e tudo porque choveu no dia de St. Swithin.

Ela apagou as velas. - Gosto da escuridão - disse. - Isso harmoniza bem todas as coisas, não? Diga-me: o que estava tocando quando Sir William chegou à porta?

-A Dança Macabra

Ela estremeceu. - A Dança da Morte. Bem, foi perto, não foi? Para Sir William. Uma peça que inspira medo. Não achou estranho que ele a escolhesse?

-Sim, estranhei.

- Acharia muito mais estranho se soubesse que foi a última coisa que Isabella tocou naquele dia. Ela sentou-se ao piano a manhã inteira e tocou-a várias vezes. E William disse: - Pelo amor de Deus, pare de tocar essa coisa fúnebre! Então ela parou, foi para a floresta e suicidou-se. Desde então nunca foi tocada nesta casa... até que você se sentou ao piano e a tocou.

- Estava com as músicas que ele escolheu para eu tocar para ele.

-Sim, mas ele não a pôs lá. - Oh, então quem pôs?

- Isso nos contaria muito. Foi alguém que queria que Sir William a ouvisse... para pensar que era Isabella que voltara para assustá-lo. Foi alguém que queria que ele se levantasse da cadeira e visse você tocando lá... pois estava escuro, não estava... tão escuro como agora. Alguém que queria que ele caísse e se ferisse. Alguém que queria dizer a ele que sabiam...

- Quem podia fazer tal coisa? Foi cruel.

- Coisas mais cruéis têm acontecido nesta casa. Quem acha que faria isso? Alguém com medo de ser mandado embora, e que não seria, se Sir William estivesse morto - porque ele podia ter morrido - você sabia? Por outro lado, poderia ser alguém mais...

Eu estava profundamente perturbada. Desejava que ela fosse embora, queria ficar só, com meus pensamentos.

Ela pareceu sentir isso. De qualquer modo, já dissera o que tinha vindo fazer.

-Como podemos estar certos, Caroline? - perguntou. E sacudindo a cabeça tristemente, ela se foi.

Sylvia veio para a sua aula com duas tranças enroladas em volta da cabeça - um artifício para crescer. Pelo amor de Deus, pensei, sua mãe estará realmente tentando pegar Godfrey Wilmot para marido de sua filha? Pobre Sylvia, parecia mais consciente. De fato, quase sempre o fora. Deu-me a impressão de que a tinham mandado fazer alguma coisa desagradável, e que não teria paz enquanto não cumprisse o seu dever.

Ela tinha 16 anos - um ano menos da idade convencionada para usar o cabelo para cima.

Ela continuou sua lição como um papagaio. O que podia dizer eu? Somente isso: - Tente dar mais um pouco de expressão, Sylvia. Tente sentir o que a música está dizendo.

Ela olhava, embaraçada. - Mas ela não diz nada, Sra. Verlaine.

Suspirei. Sem dúvida, pensei, agora que Edith tinha partido, meu emprego não valia a pena. Podia ter feito de Edith uma pianista competente. Alguém para encantar os convidados que viriam a suas festas. Podia tê-la ensinado a tirar conforto e prazer da música, mas Sylvia, Allegra e Alice...

Suas mãos estavam em seu colo, aqueles dedos espatulados, com as unhas dolorosamente tentando crescer. Agora mesmo levara a mão aos lábios, desistindo logo, ao provar os amargos alões que sua mãe a fazia passar nos dedos.

-O problema é que você está muito distraída. Você não está pensando em música. Está pensando em qualquer coisa mais.

Seu rosto iluminou-se, de repente. - Estava pensando na história horrível que Alice escreveu. O Sr. Wilmot diz que seus ensaios têm realmente valor. Alice diz que quer escrever como Wilkie Colins... aquelas histórias que fazem a gente tremer.

- Ela devia mostrar-me alguma de suas histórias. Gostaria de vê-las.

- As vezes ela as lê para nós. Faz-nos sentar à luz de uma vela em seu quarto e representa. É assustador. Ela também poderia ser uma atriz. Porém, diz que o que mais deseja é escrever sobre pessoas.

- Como era essa história?

- É sobre uma jovem que desaparece. Ninguém sabe para onde foi. Mas antes de ela desaparecer, alguém cavou um buraco na mata que ficava perto da casa onde ela vivia. Algumas crianças, que viram o buraco e quase caíram nele quando brincavam, observaram e viram um homem. Ele as viu olhando e disse que estava cavando uma armadilha para pegar leões que havia naquele lugar. Elas não acreditaram, porque as pessoas não cavam armadilhas para leões, atiram neles. Claro que só podia dizer isso para as crianças. Para os adultos ele disse que iria ajudar alguém a lavrar seus campos. Ele assassinara a moça e enterrara-a na mata, mas todos pensaram que ela fugira com seu amante.

- Não é uma história muito saudável - disse.

- Faz arrepiar o cabelo - disse Sylvia.

Certamente fazia arrepiar os meus, porque, subitamente, me lembrara de que vira Napier entrando nos estábulos com as ferramentas de jardinagem, dizendo que estivera ajudando o Sr. Brancot a cuidar do jardim.

Na próxima vez que fui cavalgar sozinha, dirigi meu cavalo para a casa do Sr. Brancot. O jardim parecia mais limpo do que quando o vira a última vez. Parei o cavalo e fiquei olhando o jardim.

Tive sorte, pois enquanto procurava uma desculpa para chamar, o velho Sr. Brancot apareceu.

- Boa tarde - disse.

- Boa tarde, senhorita.

- Sra, Sra. Verlaine. Sou professora de música em Lovat Stacy.

Oh, sim. Ouvi falar da senhora. Está gostando desta parte do país?

-Acho-a muito bonita.

Ele concordou, satisfeito. - Não gostaria de deixá-la, - disse - nem que me pagassem um milhão de libras.

Respondi que também não tinha a intenção de fazê-lo e acrescentei que seu jardim estava bem cuidado.

- Oh, sim - respondeu. - Agora parece ótimo.

- Muito melhor do que da última vez que o ví. Tem sido cuidado desde então!

- Capinado e plantado - disse ele. - Agora é fácil mantê-lo em ordem.

- Deve ter dado muito trabalho. Fez isso sozinho?

Ele deu um largo sorriso e murmurou: - Bem, aqui entre nós, eu tive um pouco de ajuda. Não vai acreditar, mas uma tarde o Sr. Napier veio aqui e deu-me uma ajuda.

Senti-me ridiculamente feliz. Temia que ele dissesse que tinha feito tudo sozinho.

Quando voltava, lembrei-me da conversa que tivera com Sylvia. Naturalmente as garotas interessavam-se por tudo que acontecia e, como estavam na adolescência, viam tudo com olhos imaturos, nem sempre interpretavam as coisas corretamente. Por que Alice teria escrito tal história? Qual a distância entre a imaginação e os fatos? Teria ela visto alguém cavando na mata? Ou o teria imaginado? Talvez ela ou uma das garotas tinha visto Napier entrar em casa com as ferramentas de jardinagem e isso fora o suficiente para inflamar a imaginação de Alice. A ruína na mata e a luz tinham tornado o lugar próprio para o mistério. - Alguém cavando na mata? Cavando o quê? A imaginação imediatamente preenchera a resposta: - uma sepultura.

Seria isso que Alice tinha calculado? Talvez quisesse divulgar o caso e tenha tido medo. Ela era uma criança tímida, tinha certeza que sua mãe lhe incutira a necessidade de as duas manterem um bom comportamento para conservarem seus lugares em Lovat Stacy. Allegra relembrava constantemente a Alice sua condição social, de filha da governanta, e a necessidade de não se tornar uma importuna. Malvada Allegra! Contudo, ela também se sentia insegura com a sua posição; logo, não se devia julgá-la muito asperamente.

Decidi que Alice vira Napier com as ferramentas de jardinagem e sentiu que deveria contar o fato; mas, como temia ofender, escreveu uma história largamente fantasiosa, dizendo alguma coisa do que ela achava que devia ter contado. Alice desejava lazer o melhor, dizer o que sabia; porém, como eram somente suspeitas, não ousou mencionar o fato abertamente. Essa era a resposta.

Mas, suponhamos que Edith tivesse sido enterrada na mata. E Roma? Onde estava Roma? Elas tinham de estar em algum lugar.

Se alguém tivesse cavado uma sepultura na mata, não teriam ficado marcas? A grama ainda não estaria inteiramente crescida, por isso não seria difícil encontrar sinais de terra remexida.

Isso estava ficando não só sinistro, como horrendo. Lembrava-me do aviso da senhora Lincroft, de certo modo insidioso. - Não interfira. Interferência pode colocá-la em perigo.

Edith tinha sido assassinada e, se o assassino soubesse de meu propósito de descobri-lo, então eu estava em perigo. Porém não podia fazer nada. Tinha de achar uma resposta.

Tendo alcançado a mata, desmontei e amarrei o cavalo numa árvore.

Olhei a meu redor. Como estava silencioso! Quão sobrenatural! Através das árvores podia vislumbrar a ruína e, instintivamente, dirigi-me para ela.

O brilho do sol através das árvores mudava a cor do chão. Pensei mais uma vez: claro que, se a terra tivesse sido mexida recentemente, se veria.

Olhei para a grama que crescia.

Se alguém quisesse cavar uma sepultura, este seria o lugar ideal para isso. Aqui as pessoas podiam esconder-se no meio das árvores; e se alguém fosse descoberto com a enxada na mão? - Oh, estive ajudando a cavar as terras...

-Não! - disse, surpreendendo-me por ter falado alto e veementemente.

Enquanto andava na ruína pus minha mão cautelosamente nas pedras das paredes. Um dia, prometi a mim mesma, virei aqui quando as luzes aparecerem e descobrirei quem está fazendo a brincadeira. Entrei pelo buraco onde tinha sido a porta e fiquei lá, olhando para o céu, através do teto estragado. Meus passos faziam um ligeiro barulho ao pisar nas telhas quebradas e o som assustava-me. Sim, mesmo à luz do dia eu estava um pouco receosa.

Senti como se aquelas paredes cinzentas escurecidas pelo fogo me fechassem. Virei-me rapidamente e saí.

Se alguém tivesse cavado um buraco, devia tê-lo feito perto daquelas paredes, pois, por ser um lugar com fama de mal-assombrado, era evitado por todos; talvez fosse o lugar ideal para se cavar a sepultura de uma vítima. E a luz? Seria para deixar as pessoas longe dali? Senti que devia achar uma razão para todos aqueles estranhos acontecimentos.

Observei a terra perto da parede. Havia um pedaço sem grama. Ajoelhei-me para examiná-la mais cuidadosamente. E então., um estalar sob a terra; uma sombra agigantando-se sobre mim.

-Procurando alguma coisa?

Respirei com dificuldade, levantei-me e olhei para Napier. Sua voz era zombeteira, embora houvesse uma seriedade em seus olhos nunca vista - sabia que ele estava zangado.

-Eu... eu não ouvi você chegar.

-O que está fazendo no chão? Rezando? Ou deixou cair alguma coisa?

Eu disse: - Meu broche...

Ele tocou o camafeu em meu pescoço. -? Está aí... seguramente preso.

-Oh, pensei...

Estava fazendo uma má figura, mas não podia dizer-lhe que eu - como os demais - suspeitava que ele assassinara a esposa. Eu não suspeitava, corrigi asperamente. Queria provar que ele era inocente de todas as calúnias.

Ele permanecia com aquele sorriso irônico, não me ajudando nada, em meu embaraço.

- Eu a vi, de longe, na cabana dos Brancot.

- Eu não vi você.

- Eu sei. Brancot disse-me que você o cumprimentou pelo jardim e que ele lhe contou da minha ajuda. Lembra-se de ter-me visto voltar com a enxada?

- Lembro.

Ele riu. - Bem, é corajosa, vindo a este lugar. Tem uma reputação demoníaca!

- Em plena luz do dia? - disse, recobrando minha calma.

- Bem, quando se está só.

- Mas eu não estou.

- Se pensar melhor, verá que é o medo de não estar só que apavora o pessoal.

- Quer dizer que têm medo de fantasmas?

- Pareceu-me muito assustada quando cheguei e a encontrei ajoelhada. Talvez ainda esteja um pouco inquieta agora.

Ele tomou meu pulso com um sorriso zombeteiro. - Um pouco depressa demais, acho - comentou ele.

- Admito ter ficado assustada. Você chegou inesperadamente!

- Você procurava o broche, não? O primeiro lugar a olhar deveria ser seu pescoço. - Colocou as mãos em meu broche e aproximou-se de mim. Prendi a respiração... Toda simpatia parecia ter desaparecido. Ele sabia o que se passara em minha mente e parecia odiar-me por isso.

- Gostaria de que fôssemos francos - disse, em tom de censura, retirando suas mãos.

- Claro.

- Você não tem sido, tem? Veio aqui porque pensou que Edith estava enterrada neste lugar?

- Ela deve estar em algum lugar.

- E você pensa que alguém a matou e a enterrou aqui?

- Não acho que essa seja a resposta.

- Tem uma outra sugestão?

Eu disse: - Acho muito estranho duas pessoas terem desaparecido nestas redondezas.

- Duas? - disse ele.

- Você esqueceu a arqueóloga?

 

- Ela também desapareceu, claro. - Deu um passo atrás e encostou-se na parede da capela. - Acha que ela também está enterrada aqui, e por isso resolveu descobrir o assassino?

- Como posso saber? Porém, creio que todos nos sentiríamos melhor se soubéssemos a resposta para essas perguntas.

- Exceto o assassino. Você não acha que ele se sentiria muito mal?

- Não acho que ele, ou ela, se sinta mais feliz agora.

- Por que não?

- Pode alguém matar e ser feliz?

-Se um homem se sente como o mais importante, e os outros não contam, não veria motivo por que não eliminar uma pessoa, como faria com uma mariposa ou uma vespa.

-Acha que há pessoas assim?

-Receio que haja. Imagino o nosso assassino rejubilando-se. Ele venceu. Ganhou o que se propôs a ganhar e o resto nem mesmo sabe quem é ele. Ele zombou de todos. Vamos caminhar pela mata, e examinar a terra para as sepulturas das vítimas. Importa-se de fazer isso?

Eu disse: - Tenho o que fazer. Devo voltar para casa.

Ele sorriu, como se não acreditasse, e voltamos para os cavalos. Segurou o meu enquanto eu montava, depois pulou para a sela e voltamos lado a lado.

Fui direto para meu quarto, olhando-me no espelho. Esperava não demonstrar minhas emoções em meu rosto, pois nem eu mesma as reconhecia.

Estava com um medo terrível. Não aceitaria as possibilidades que se introduziam em minha mente. Não acreditaria nelas porque não estava disposta.

 

Godfrey Wilmot procurava constantemente ficar comigo Sozinho. Não era fácil, pois a Sra Rendall fazia com que não tivéssemos muitas oportunidades.

Devo admitir um certo prazer em aborrecê-la, esperando que isso melhorasse o mau humor que me atacara. Estava tentando tirar Napier de meus pensamentos e nada melhor do que Godfrey para ajudar-me a fazer isso. Ele conhecia minha identidade; amava a música e interessava-se profundamente pelo assunto que tinha escravizado minha irmã e meus pais e que, de certo modo, fora responsável por suas mortes. Além disso, sentia conforto em ver minha amizade crescer com um homem encantador, franco e livre daqueles complexos que, enquanto pareciam envolver-me numa espécie de encanto, podiam tornar-me inquieta e extremamente apreensiva.

Certamente eu não tentava evitar Godfrey. Costumávamos rir-nos da atitude da Sra. Rendall, planejando como anular os esforços que ela fazia para evitar que ficássemos a sós.

Às vezes encontrávamo-nos na igreja, onde Godfrey ia praticar órgão. Eu entrava furtivamente enquanto ele tocava, e isto foi o que aconteceu no dia de meu desagradável encontro com Napier na mata.

A igreja era um lindo modelo da arquitetura do século XIV, com suas torres de pedra cinzenta e as paredes cobertas de líquen. Fiquei na porta, escutando os tons plenos do órgão;

estava emocionada porque Godfrey tocava magistralmente. Não querendo perturbá-lo, fiquei muito quieta, enquanto contemplava o vidro colorido da janela; aquele, dedicado a Beau; o banco dos Stacy, a lista dos pastores gravada na parede, desde o primeiro, em 1347, até Arthur Rendall, em 1880. O cheiro úmido e bolorento da idade era mais aparente quando a igreja estava vazia - eu imaginava as gerações vindo aqui para o culto. Pensei em Beau e Napier sendo batizados na pia batismal, em Sybil sonhando em subir ao altar para o seu casamento. Quando a música acabou, fui até ao órgão.

- Estou satisfeito por ter vindo. Andava um pouco preocupado com você.

- Preocupado comigo? Por quê?

- Ocorreu-me que pudesse estar expondo-se a perigos.

- O que faz você dizer isso?

- São as novas sobre a Sra. Stacy. Quando pensávamos que ela tivesse partido com seu amante, procurar sua irmã parecia um projeto razoavelmente seguro. Porém, se houver uma ligação entre os dois desaparecimentos, alguém deve ser responsável por eles. Não se pode fazer desaparecer duas pessoas sem as matar. Imagino que temos um perigoso assassino em nosso meio. Ele não deve ficar muito satisfeito com alguém que interfira em seus assuntos. E pode ser que quando não esteja satisfeito com as pessoas, ele... as elimine.

- Então, você me marcou como a próxima vítima?

- Deus me livre. Mas você deveria tomar cuidado.

- Compreendo o que quer dizer. Tem alguém em mente?

- Oh, sim.

- Quem?

- O marido, claro.

- Isso não é claro demais?

- Meu Deus, isto não é uma adivinhação. É a vida real. Quem quereria eliminar a Sra. Stacy, a não ser o marido?

- Podia haver outros.

- Pense nas razões. Ela era rica. Ele conseguiu o dinheiro. E, principalmente, não estava ansioso por desposá-la.

- Se ele já tinha o dinheiro, por que assassiná-la?

- Ele estava visivelmente enjoado dela.

- Não estou gostando desta conversa. É cruel. Não temos o direito de falar assim.

- Mas temos de ser práticos...

- Se isso implicar em caluniar pessoas inocentes...

- Mas como sabe que ele é inocente?

- Não se deve presumir que alguém é inocente até ser provado culpado?

- Você está falando da Justiça britânica. Nós não somos juizes... só detetives amadores. Temos de verificar todas as possibilidades.

- Nesse caso, posso acusá-lo, e você a mim.

- Claro. Mas onde estão os motivos?

- Posso pensar em algum. Você pode ser um primo disfarçado, querendo herdar Lovat Stacy; então, matou Edith e espera que seu marido seja acusado pelo crime e enforcado, o que fará de você o herdeiro.

-Nada mau - disse ele. - Nada mau mesmo. E você deseja casar-se na família Stacy; por isso, matou Edith, deixando o caminho livre para você.

- Vê, você pode arquitetar um caso para qualquer um.

- E sua irmã? Onde entra sua irmã?

- Isso é que temos de descobrir.

Foi então que notei estar sendo observada. Olhei inquieta ao meu redor. Godfrey não notara nada. O que era? Não podia dizer. Só uma estranha sensação - uma intuição que a gente tem, avisando que em qualquer lugar escondido alguém observa... maliciosamente.

O que havia comigo? Não podia explicar esta estranha sensação a Godfrey. Era tão absurda! Não havia nada. Não via nada, simplesmente sentia. Além do mais, na cabana, ele pensara ler sido imaginação minha.

-Tenha cuidado - disse ele. Não se esqueça de que pode haver um assassino entre nós.

Olhei por cima de meu ombro e estremeci.

- O que há? - perguntou.

- Oh... nada.

-Assustei você. Ótimo! Eu pretendia isso. Tem de ser muito cuidadosa no futuro.

Pensei na conversa com Napier na mata e meu coração recusava-se a aceitar as deduções que minha mente insistia em apresentar-me.

- Estou decidida a descobrir o que aconteceu com minha irmã - disse eu, furiosamente.

- Nós dois descobriremos - assegurou-me. - Mas, sejamos cautelosos. Trabalharemos juntos. Um deve passar para o outro qualquer pista que descobrir.

Não lhe contei nada sobre a história de Alice, que me tinha perturbado tanto, nem sobre meu encontro com Napier.

Ele prosseguiu: - Não posso deixar de pensar que a resposta esteja nas escavações. É por causa de sua irmã. Ela foi a primeira. Acho que encontraremos a resposta lá.

Deixei-o explicar - qualquer coisa, contanto que parasse com as suspeitas sobre Napier.

Fomos interrompidos repentinamente por uma pessoa tossindo atrás de nós.

Sylvia vinha pela nave principal, em direção ao órgão.

-Mamãe mandou-me procurá-lo, Sr. Wilmot. Ela está chamando-o para tomar chá.

As meninas convidaram-me para sair a cavalo com elas. Respondi-lhes que ficaria encantada e que sairíamos na primeira oportunidade.

- Há ciganos no Prado Três Acres - disse Allegra. - Uma delas falou comigo, disse que se chamava Serena Smith. A Sra. Lincroft não ficou muito satisfeita quando lhe contei.

- Não ficou satisfeita porque sabe que Sir William não ficará - disse Alice, rapidamente, em defesa de sua mãe.

Allegra cavalgava um pouco na frente e virou-se para trás, dizendo: - Vou vê-los.

- Minha mãe disse que são uma desgraça para o lugar - disse Sylvia.

- Claro! - retorquiu Allegra. - Ela odeia tudo que é interessante. Eu gosto de ciganos. Tenho sangue deles.

- Eles vêm freqüentemente aqui? - perguntei, relembrando a reação da Sra. Lincroft, diante da novidade.

- Acho que não - respondeu Alice. - Eles vagueiam pelo país, nunca ficam muito tempo num lugar. Imagine, Sra. Verlaine! Deve ser emocionante não acha?

-Eu tenho certeza de que prefiro ficar num lugar. Seus olhos cresceram, sonhadores, e eu gostaria de saber se ela iria escrever uma história sobre os ciganos. Eu veria alguma de suas histórias um destes dias. Se ela não tiver, talento para a música pode ser que o tenha para a literatura. Lia muito, era extremamente esforçada e sem dúvida tinha imaginação. Talvez devesse falar com Godfrey sobre ela.

Allegra falou para andarmos rápido e nós saímos a galope. Logo depois, alcançamos o acampamento.

Havia, mais ou menos, quatro coloridas caravanas no campo, conhecido como Prado Três Acres. Mas não havia sinal de ciganos.

- Não chegue muito perto - falei para Allegra.

- Por que não, Sra Verlaine? Eles não nos farão mal.

-Podem não gostar de ser incomodados. Deve respeitar a vida particular deles.

Allegra olhou espantada para mim. - Eles não têm vida particular, Sra Verlaine. Quem vive em caravana não espera tê-la.

Alguém deve ter ouvido o som de nossas vozes, pois uma mulher saiu de uma das caravanas e veio em nossa direção.

Não sabia definir o que era, mas ela tinha um vago ar de familiaridade. Senti que já a vira antes, embora não soubesse aonde. Ela era roliça e seus grandes seios quase lhe saltavam da blusa. Sua saia estava rasgada na bainha e seus pés descalços. Brincos enormes, dourados, estavam pendurados em suas orelhas. Seu riso quebrou o silêncio e, apesar de rouco e alto,

sugeria que ela achava a vida alegre. Tinha os cabelos cacheados em coque e, em seu estilo roliço e sensual, era bonita.

- Alô - ela chamou. - Vieram ver os ciganos?

- Sim - disse Allegra.

Seus dentes brancos brilharam. - Você admira os ciganos, você aí no cavalo preto. Posso lhe dizer por quê? Porque você é quase uma cigana.

- Quem lhe disse?

-Ah... Alguém devia ter dito? Eu lhe direi seu nome. É um bonito nome. É Allegra.

- Você está dizendo minha sorte?

- Passado, presente e futuro.

- Acho - disse eu - que nós devemos ir.

As garotas ignoraram-me e o mesmo fez a cigana.

-Allegra da casa grande. Abandonada por sua mãe. Não se importe, minha querida. Há príncipe encantado e muito dinheiro esperando por você.

-É verdade? - disse Allegra. - E... as outras?

-Deixe-me ver... Há a senhorita do presbitério e a outra da casa grande, embora não pertença exatamente a ela. Dê-me sua mão, querida.

Eu disse: - Nós não temos dinheiro.

-Não necessito do dinheiro de tal família, madame. Deixe-me ver...

Alice estendeu-lhe a mão, que parecia muito branca e pequena, na mão morena da cigana.

- A... - disse a cigana. - Alice. É isso.

- Você é maravilhosa - suspirou Allegra.

-Pequena Alice, que vive na casa grande e que não pertence totalmente a ela, mas pertencerá um dia, pois alguém muito importante vai descobrir o que ela é.

-Oh! - gritou Alice. - É maravilhoso.

- Acho que devemos voltar - disse eu novamente. A cigana observou-me, pondo as mãos nos quadris.

- Apresente-me a senhora - disse, insolentemente.

- Ela é a professora de música - começou Allegra.

-Oh, não poderá dizer-lhe... a ela também? - gritou Alice.

-A professora de música. Trá-lá-lá... - disse a cigana.

-Tenha cuidado, senhora. Tenha cuidado com um homem de olhos azuis...

-E Sylvia - gritou Alice.

O rosto de Sylvia franziu-se e ela parecia que ia fugir.

-Ela é a filha do pastor e toma aulas conosco - explicou Allegra.

-Você não precisa contar - repreendeu Alice. - Ela sabe.

A audaciosa cigana virou-se para Sylvia. - Você sempre faz o que sua mãe quer, não faz, patinho?

Sylvia corou e Allegra murmurou: - Ela sabe... São poderes especiais. Os ciganos os têm.

Eu disse: - É tudo muito interessante, mas agora temos de voltar.

Allegra começou a protestar, mas eu acenei para Alice virar seu cavalo e ela o fez, obedientemente.

-Está certo - disse a cigana. - Qualquer dúvida, volte. Alice e eu tínhamos começado a nos afastar do acampamento. Sylvia seguiu-nos, mas Allegra demorou-se.

Estava pensando: era possível ser aquela mulher a mãe de Allegra? A semelhança era assustadora. E se fosse? Então, seria por isso que ela sabia quem eram as meninas.

Desarrumada, voluptuosa, sensual como era agora; ela deve ter sido muito atraente há 15 anos atrás, quando não devia ter mais do que 15 anos.

Queria eu realmente envolver-me nos assuntos de Lovat Stacy? - perguntei-me, quando voltávamos para casa.

Mais uma vez a Sra Rendall veio a Lovat Stacy, encontrando a Sra Lincroft no salão. Eu estava com a Sra Lincroft na ocasião, mas a Sra Rendall nem notou minha presença.

-É uma desgraça - disse. - Os ciganos estão aqui. Lembro-me da última vez que vieram. Sujam os caminhos e os campos. Estão em todos os lugares com cestos e cavilhas... Disse ao pastor: - Alguma coisa tem de ser feita e, quanto mais cedo, melhor. - Acontece que a terra é de Sir William e só ele lhes pode dar ordem para partir. Esse, Sra Lincroft, é o motivo por que vim ver Sir William... Por favor, diga-lhe que estou aqui e leve-me a ele o mais depressa possível.

- Desculpe, Sra Rendall, mas Sir William está muito doente. Ele descansa no momento.

- Descansando! A esta hora! Certamente ele deseja saber que os ciganos estão aqui. Ele odeia que eles fiquem em suas terras. Acho que ele deixou isso muito claro.

Levantei-me para sair, mas a Sra Lincroft fez-me sinal para ficar.

- Desculpe, Sra Rendall, - disse ela, com a maior firmeza - mas Sir William está realmente mal, para ser aborrecido com esses assuntos. Acho que deveria falar com o Sr. Napier Stacy. Como a senhora sabe, ele é que está dirigindo tudo agora.

- O Sr. Napier Stacy?! - gritou a Sra Rendall. - Certamente que não. Quero ver Sir William, e lhe agradecerei se o avisar de que estou aqui.

- Ele não me agradecerá, Sra Rendall, nem o médico, cujas ordens são para que Sir William não seja incomodado.

- Eu e o pastor decidimos que alguma coisa deve ser feita.

- Então deveria falar com o Sr. Napier Stacy sobre o assunto.

A Sra Rendall lançou olhares venenosos para mim e a Sra Lincroft e saiu pisando duro.

Dois dias mais tarde encontrei um envelope selado dirigido a mim, em meu quarto. Abri-o e li: "QUERIDA C,

venha à cabana hoje, às 6h30m. Tenho uma coisa importante a dizer-lhe.

G.W."

Conciso! Pensei. E sem rodeios. Era a primeira vez que recebia uma carta de Godfrey. Aposto que ele pensou em 6 e 30 como uma hora conveniente, pois, assim, teríamos a possibilidade de conversar tranqüilamente antes de voltarmos - ele para a casa pastoral e eu para Lovat Stacy - para jantar.

Saí furtivamente de casa, chegando lá uns minutos antes da hora do encontro. Tudo estava muito calmo e não vi ninguém no caminho. Então ocorreu-me que aquela era uma das horas mais sossegadas, quando o dia ainda não terminara e a noite também não começara.

Entrei na cabana; Godfrey não estava lá. Então, subi aos aposentos superiores para ver sua chegada.

Fiquei na janelinha de vidraça pesada e olhei para as ruínas, pensando em Roma, visualizando uma centena de cenas de nossa infância, tentando imaginar tudo que sabia dela e o que ela poderia ter feito no dia que desapareceu.

O tempo passava vagarosamente. Já se tinham passado cinco minutos e Godfrey não aparecia. Isso não era próprio dele, pois descobrira que era a mais pontual das pessoas.

Sorri ao imaginá-lo saindo da casa pastoral e sendo detido pela Sra Rendall.

O tempo se passava - 10 minutos atrasado. Muito impróprio dele! Não pressenti o perigo, até sentir aquele horrível cheiro acre de queimado. Mas, então, pensei que fosse alguma coisa lá fora. Tentei abrir a janela, mas a fechadura estava enferrujada, e eu não podia movê-la. Então ouvi o crepitar das chamas, percebendo que o fogo não era lá fora, mas dentro da cabana.

Corri para a porta que dava para as escadas - ela estava fechada, apesar de tê-la deixado aberta. Virei a maçaneta, porém não consegui abrir a porta.

Então todo o horror da situação tomou conta de mim. A porta estava trancada. Alguém estivera ali, depois que eu entrei, ou me seguira, subira as escadas, enquanto eu olhava na janelinha, e trancara-me... e depois essa pessoa pôs fogo na cabana.

Bati com força na porta. - Deixe-me sair! - gritei. - Quem está aí? - Corri para a janela e tentei abri-la desesperada-mente. Não consegui, mas não adiantaria nada se conseguisse. Eu nunca me atiraria dela. Havia uma vassoura encostada no canto. Tentei quebrar aquelas vidraças pesadas, porém não era fácil fazê-lo.

Agora havia uma nuvem de fumaça no cômodo e eu comecei a tossir e a cuspir. Podia sentir o calor debaixo de meus pés. Isto não era acidente. Alguém tinha deliberadamente me trancado e colocado fogo na cabana.

Godfrey! - pensei. Mas não... nunca; contudo, o bilhete tinha vindo dele. Tinha sido induzida ir ali para encontrá-lo. Não podia acreditar. Godfrey não.

Apanhei a vassoura e, possuída de um horror total, despedacei uma das pequenas vidraças.

- Socorro! - gritei. - Fogo!... Fogo!...

Não houve resposta para a minha suplica - só silêncio lá fora.

Fui para a porta... aquela porta pesada, salpicada de pregos, que tanto tinha agradado a Roma. Martelei-a. Virei a maçaneta e sacudi-a. Mas o fato horrível permanecia. Eu estava trancada numa cabana em chamas. Trancada!

Corri novamente para a janela e gritei. Voltei para a porta e sacudi-a. Agora, quase não podia ver, pois a fumaça era tão densa que me sufocava.

Então meu coração pulou de alegria, pois escutara um grito lá embaixo.

Eu gritei: - Aqui! Estou aqui em cima!

Então o calor e a fumaça eram demais para mim... sentia a sufocação superar-me.

Subitamente, senti que não estava mais só. Alguma coisa envolvia meu rosto. Mãos urgentes puxavam-me.

-Rápido! Corra! Corra comigo! Eu não posso carregá-la! Era a voz de Alice. As mãos de Alice... e eu estava sendo arrastada por um calor quase insuportável.

Estava deitada ao ar fresco e ouvia vozes.

-Está tudo bem! Está tudo bem!

Presumo ter sido levada numa carruagem, pois ouvia vagamente o distante clop-clop das ferraduras de cavalos.

Se não fosse Alice, Deus sabe o que lhe teria acontecido - disse a Sra Lincroft.

Eu estava na cama; o médico viera ver-me, dando-me um sedativo, e a Sra Lincroft ordenara que eu tinha de repousar.

Alice sentada ao lado de minha cama, como um anjo bom, decidira que, se tinha salvo a minha vida, tinha de continuar a protegê-la.

-Tudo que tem a fazer é descansar - disse sua mãe.

-Teve um choque desagradável.

Obedeci e fiquei pensando no bilhete de Godfrey e em Roma, saindo da cabana para nunca mais voltar... e como eu fora induzida a ir até lá para ser trancada - eu podia ter morrido.

Godfrey! - pensei, vendo seu rosto e o de Napier... os dois estavam em pé à minha frente, sorrindo para mim. - Não confie em nenhum - dizia uma voz em minha mente.

-Em nenhum mesmo.

Alice murmurou: - Está tudo bem agora, Sra Verlaine. Está tudo acabado. Está sã e salva, em sua cama.

Alice era a heroína do momento. Ela mesma parecia glorificar-se. Mas não era só isso; suas sobrancelhas estavam um pouco chamuscadas, e sua mão esquerda um pouco queimada, por ter apagado as chamas de meu vestido.

-Ela demonstrou admirável presença de espírito - disse a Sra Lincroft, com os olhos cheios de lágrimas. - Estou muito orgulhosa de minha menina.

Alice disse: - Não fiz nada que uma outra pessoa não pudesse fazer. Eu ia à casa pastoral pegar meu livro de história. Precisava dele para fazer minha tarefa. Que bênção tê-lo esquecido esta manhã! Vi que a cabana pegava fogo, então corri para lá... e ouvi a senhora gritar...

John Downs, um dos jardineiros de Lovat Stacy, também estava nas redondezas. Ele escutou Alice gritar e correu para a cabana, mas ele teria chegado muito tarde para salvar-me, apesar de ter ajudado Alice a retirar-me do lugar.

- Exatamente na hora - todos diziam isso.

- Palavra de honra que a Sra Verlaine teve sorte em escapar! Quanto à jovem Alice, merece uma medalha.

Eu estava em choque, por isso fiquei de cama vários dias, embora não estivesse machucada. Tinha escapado milagrosamente das chamas. Alice tinha salvo minha vida.

Ela ficou a meu lado durante esses dias, como se me guardasse. Eu acordaria de meus pesadelos e a encontraria, serena, a meu lado. Ela estava visivelmente encantada por me ter salvo. Quem não estaria?

Mas havia outros assuntos a considerar.

As pessoas vieram ver-me, entre elas Napier e Godfrey. Os olhos de Napier impressionaram-me, mesmo depois de ele partir. Parecia muito assustado e lembrar-me dele era como um remédio. Godfrey também veio... Ele também se interessava mas, quando o vi, lembrei-me de que fora por causa de seu bilhete que eu tinha ido à cabana.

Sentou-se perto de minha cama e eu disse-lhe: - Por que mandou-me aquele bilhete?

-Que bilhete? - perguntou.

-O bilhete pedindo-me para encontrá-lo na cabana. Ele olhava desesperadamente à sua volta.

-Foi um choque terrível para a Sra. Verlaine - disse a Sra. Lincroft. - O médico disse que ela deve descansar durante alguns dias. Ela tem... pesadelos. Qualquer um teria.

Godfrey parecia desnorteado e, quando o imprensava sobre o bilhete, mudava de assunto.

Em menos de uma semana já estava recuperada, embora ainda sonhasse com a cabana e, quando deslizava para o inconsciente, freqüentemente me imaginaria trancada no pavimento superior da cabana, enquanto embaixo um monstro se escondia para me destruir. Costumava gritar com estes pesadelos e acordava suando frio.

O médico disse que isso era natural. Tinha tido um choque horrível, porém meus pesadelos diminuíram. Nesse ínterim devia tentar não pensar no que me acontecera na cabana.

Procurei o bilhete e não o encontrei; então, pedi novamente uma explicação a Godfrey.

- Eu não escrevi tal bilhete - declarou ele.

- Mas eu o vi. Foi por isso que fui até à cabana. Ele balançou a cabeça.

Eu prossegui, nervosa: - Estava endereçado a mim, e tanto quanto me lembro dizia: "Querida C. Venha à cabana hoje às bh30m. Tenho uma coisa importante para lhe dizer. G.W."

- Eu nunca escreveria tal bilhete.

- Então quem escreveu?

Ele olhou para mim, horrorizado. - Onde está o bilhete? -? perguntou.

- Não sei, devo tê-lo deixado no meu quarto. Devo tê-lo colocado no bolso. Não consigo achá-lo, agora.

- Uma pena! - disse ele. - Mas você conhece minha letra!

- Foi o primeiro bilhete que você escreveu para mim. É claro que já vi sua letra, mas não me ocorreu que você não o tivesse escrito.

-Caroline, se alguém forjou minha caligrafia...

- Se? - perguntei. - Está querendo dizer que não havia bilhete?

- Não... não... claro que não. - Ele estava um pouco embaraçado. - Mas... se... quero dizer, alguém mandou esse bilhete para apanhar você na cabana.

- Essa dedução é óbvia.

- O que significa isso?

-Pode significar - disse eu - que estou marcada para ser a próxima vítima.

- Caroline!

- Bem, deveria ser, mas Alice...

Ele concordou. - Mas minha querida Caroline, é... é assustador!

- Concordo com você - disse eu, friamente, pois não podia perdoar-lhe por ter ligeiramente insinuado que eu imaginara o bilhete. - Roma... Edith... e agora eu. Onde está a ligação? Será que a pessoa responsável pelos desaparecimentos sabe que a estou tentando descobrir?

- Mas quem sabe que você está fazendo isso? - perguntou. - Eu sou o único. Você não pensa que eu...

Ri, tornando-me mais séria imediatamente. - Mas Godfrey, alguém está tentando matar-me. O que devo fazer?

- Vá embora! - Eu imaginei minha vida solitária, longe de Lovat Stacy, sem saber o que se passava naquela casa, que se tornara a base de minha existência. Sabia que, apesar do acontecido, não desejava isso.

- Não irei embora - disse, veementemente. - Tomarei cuidado especial da próxima vez que receber um bilhete, sugerindo um local de encontro. Insistirei em confirmá-lo na presença de testemunhas.

-Pelo amor de Deus, faça isso.

- Godfrey, gostaria de saber como aquela nota chegou até mim...

- E com a minha caligrafia, pelo menos com as minhas iniciais.

Uma sensação de frio fazia-me tremer incontrolavelmente. Onde estava o bilhete? Tinha certeza de que não o destruíra. Acreditava tê-lo deixado no quarto. E ainda havia o mistério da porta trancada. Alice disse ter sido difícil abrir a porta; até pensou que houvesse alguma coisa estranha na maçaneta.

-Estava tão assustada que não prestei atenção a isso. Só sabia que tinha de tirar a Sra. Verlaine. Forcei a porta. Não me lembro claramente. Assim que entrei na cabana disse para mim mesma: tenho de salvar a Sra. Verlaine... e nem mesmo me lembro de ter subido as escadas correndo.

Todos disseram que era compreensível em tais circunstâncias e que a porta se teria enguiçado depois de toda aquela chuva. Achando difícil abri-la, assumi que estava trancada, o que logicamente não podia ser. Eu estava em pânico, era a opinião geral, embora ninguém dissesse isso. Acreditara-me trancada numa cabana em chamas; isso era o bastante para colocar qualquer um em pânico.

E a causa do fogo? Roma usava óleo para cozinhar e havia um tambor no alpendre, que evidentemente ainda tinha restos. A teoria era que algum vagabundo dormira na cabana e deixara um cigarro ou charuto ardendo em qualquer lugar. Incêndios podiam começar facilmente.

- Vagabundo - disse Godfrey. - E a resposta. Lembra-se daquele dia em que você pensou ter visto uma sombra na janela? Poderia ser um e se escondeu no alpendre quando saímos.

Era uma explicação plausível, mas, ainda assim, não acreditava nela. Estava certa de que o incidente tinha sido inteligente e diabolicamente planejado.

Se dissesse isso para o pessoal, diriam que a imaginação estava tomando conta de mim. Godfrey pensava assim, tinha certeza; e se ele, que sabia que eu era irmã de Roma e que estava ali para investigar o seu desaparecimento, pensava assim, muito mais rapidamente o pensariam os outros, não sabendo do motivo especial de minha permanência ali.

Eu sabia disso, mas se não fosse Alice eu teria morrido queimada - assassinada como minha irmã e Edith o tinham sido antes, agora tinha certeza.

 

Levei algumas semanas para recuperar-me totalmente do choque. Todos se interessavam mais por mim, o que era lisonjeiro; entretanto, não podia esquecer que, no meio das pessoas que me perguntavam tão solicitamente pela minha saúde, uma tentara matar-me. Porém, guardei estes pensamentos para mim; pretendia aceitar a teoria do vagabundo descuidado que tinha começado o fogo, provavelmente no alpendre, há horas, e por um capricho do destino expandira-se, abrangendo a parte inferior da cabana depois de cinco ou 10 minutos que eu tinha entrado e subido as escadas. A porta também não tinha sido trancada, meramente encostada. Essa era a teoria consoladora.

Evitava Napier. Não suportava olhar para seu rosto, pois tinha medo de ler nele alguma coisa que eu receava. Continuava pensando em nosso encontro na mata e isso conturbava meus sonhos.

A Sra Lincroft sugeriu que reduzisse um pouco meus afazeres.

-Assim se recuperará mais depressa - disse ela. - Foi um choque horrível. Não prejudicara as meninas se faltar um pouco às suas aulas. De qualquer modo podem praticar.

Eu própria achava grande alívio no piano. Sentava-me lá, esquecida do tempo, tocando Chopin e Schumann e tentando parar meus pensamentos, quando imaginava estar trancada na cabana. Um dia ouvi as garotas discutirem o fogo. Allegra, com os cotovelos apoiados na mesa, olhava sonhadoramente para o espaço. Escutava-as enquanto ordenava minha música.

- Espero que escreva uma história sobre o fogo - disse Allegra.

- Eu a lerei para você quando estiver pronta.

- Tudo sobre uma intrépida salvação - disse Sylvia. - Também gostaria de fazer uma intrépida salvação.

- Eu sei - zombou Allegra. - Você gostaria de salvar o Sr. Wilmot de uma cabana em chamas. Vai ter de achar outra... porque aquela já não serve.

-É esquisito - disse Sylvia. - Mamãe estava dizendo que é esquisito...

-Bem, - ironizou Allegra - então deve ser.

- ... que tenha havido dois incêndios. O da capela e o da cabana. São dois, não são?

- Sua matemática está melhorando - disse Allegra. - Grau 10, para um cálculo correto.

- Eu só estou dizendo que é uma coincidência, isso é tudo. Dois incêndios e duas mulheres desaparecidas. Isso é muito estranho.

-Duas mulheres? - indagou Allegra.

-Não me diga que se esqueceu da arqueóloga! - disse Alice.

Sylvia sussurrou: - E quase houve três.

- Mas a Sra. Verlaine não desapareceria - ponderou Alice.

- Suponha que ninguém soubesse que ela tinha ido à cabana e ela fosse encontrada lá. Então haveria três mulheres.

-Mas eles teriam achado... restos - disse Alice. Fizeram silêncio ao notarem minha presença.

Estava perto do túmulo Stacy, no cemitério, quando Godfrey veio a meu encontro. Agora não mais nos encontrávamos na igreja durante a prática de órgão; tínhamos sido descobertos, por isso a Sra. Rendall pegara o hábito de mandar chamá-lo ou sentar-se perto e apreciar a música.

-Sylvia sempre adorou música de órgão - dissera a Sra. Rendall. - Acho que seria melhor ela estudar órgão do que piano. Evidentemente, ela não está fazendo grande progresso, embora se esforce muito. Talvez a falha não seja de Sylvia... se há gente mais interessada noutras coisas, não é surpresa que os alunos sejam prejudicados.

Mas, desde o incêndio sua atitude - como a de todos - era mais gentil em relação a mim. Por causa do interesse de Godfrey em mim, tornara-me seu alvo de ataque e, porque nós sabíamos isso e conhecíamos a razão, as possibilidades de crescimento de nossa amizade eram acentuadas.

Enquanto ele caminhava pelas sepulturas e o sol batia em seu cabelo, pensei em como tinha boa aparência - na verdade não era bonito, mas havia um grande charme em sua expressão, que tinha certeza lhe vinha do caráter. Como era afortunada em ter encontrado tal amigo! Não havia dúvida de que a amizade entre nós estava crescendo a grandes passos.

O incidente do incêndio unira-nos ainda mais e eu achava emocionante o seu interesse por mim. Ele estava particularmente perturbado, pois eu tinha ido à cabana em resposta ao bilhete que eu supusera ter vindo dele. Na minha opinião, isto era o aspecto mais espantoso do caso. Tinha sido induzida à cabana.

Não disse a ninguém sobre o bilhete a não ser a ele, apesar de ele ter achado que o choque me fizera imaginá-lo, a primeira vez que ouviu falar nele. Agora estava perturbado. Convenci-o a não dizer nada, pensando que a pessoa que o escreveu fosse trair seu conhecimento de algum modo. Mas ninguém o fez.

Godfrey encorajava-me constantemente a partir, por causa da visível insegurança. Podia tirar umas férias e ficar com sua família. Eles ficariam encantados em hospedar-me.

-E Roma? - perguntei.

-Roma está morta. Eu sinto isso. E se está, nada que você faça a trará de volta.

-É uma coisa que tenho de descobrir, não importa... Compreendeu, mas continuava muito desassossegado.

Também eu. Desenvolvera um hábito de olhar constantemente para trás, sempre que estava sozinha. Toda noite verificava se minha porta do quarto estava trancada. Pelo menos tinha mais cuidado.

Godfrey sorriu, assim que me viu. - Escapei do cão de guarda - disse ele. - Acham que fui tocar órgão. Daqui a pouco descobrem que estou escondido entre as sepulturas com a professora que falhou em tornar Sylvia Rendall numa Clara Schumann.

- Parece feliz esta manhã.

- São as boas notícias.

- Pode saber-se?

- Claro que pode. Ofereceram-me uma residência.

- Então, vai partir.

- Parece assustada! E encantadoramente lisonjeiro. Não antes de seis meses. Ah, agora você parece aliviada. Igualmente lisonjeiro. Muita coisa pode acontecer em seis meses.

- Já contou à Sra. Rendall?

- Ainda não. Temo que, quando o fizer, o pastor aponte as armas. Ninguém sabe ainda. Quis contar a você primeiro. Apesar, é claro, de ter de falar hoje com o pastor. Tenho de lhe dar tempo necessário para achar um substituto. E, se achar antes, retirar-me-ei, agradecido.

- A Sra. Rendall nunca permitirá isso.

Ele sorriu. - Você não perguntou por detalhes.

- Ainda não tive muita oportunidade. Por favor, conte-me.

- É a paróquia mais encantadora do país... não muito longe de Londres, onde se pode ir sempre. Um lugar ideal. Eu o conheço bem. Um tio meu teve essa residência, antes de sua diocese. Passei muito da minha infância lá.

- Sem dúvida, parece ideal.

- Isso eu lhe asseguro. Gostaria de que você a visse.

-E quanto tempo pensa permanecer lá, antes de se tornar bispo?

Ele olhou repreensivamente para mim. - Você faz-me sentir um homem ambicioso.

Virei a cabeça para o lado. - Alguns nascem para as honras, outros ganham-nas e outros nada conseguem.

- A citação não está totalmente correta, mas o significado está claro. Você acredita que algumas pessoas nascem com uma estrela na testa?

- Talvez. Mas é possível conseguir uma estrela se não se nasceu com uma.

- Muito esforço é poupado quando ela já existe. Pensa que a vida é muito fácil para mim.

-Creio que a vida é como a fazemos.

- Alguns de nós temos sorte. - Seus olhos pararam numa estátua de anjo.

- Não precisamos ir muito longe. O pobre Napier Stacy, cuja vida tem sido perturbada desde o terrível acidente, que podia ter acontecido a qualquer garoto. Apanhou o revólver, que por acaso estava carregado, e matou seu irmão. Se aquele revólver não estivesse carregado, sua vida teria sido diferente. Fantástico, não é?

- Afortunadamente o acaso não é sempre tão cruel.

- Não. Pobre Napier!

Estava como ele, dispensando um pensamento a Napier em sua presente elação (dicionário:Elevação, sublimidade. Altivez.)- pois ele estava entusiasmado. Ele olhava para o futuro com ânsia e eu não o condenava. No momento ele estava contente em estar ali, divertir-se com a trama da Sra. Rendall, - como podia ela pensar que Sylvia seria uma esposa conveniente para tal homem - falar comigo e estar envolvido no mistério de dois estranhos desaparecimentos.

Mas era mais do que isto. Ele estava pensando em mim tão seriamente quanto eu nele.

Santo Deus! Creio que ele está considerando pedir-me para compartilhar dessa vida agradável. Não imediatamente, claro. Godfrey nunca seria impulsivo. Talvez essa fosse a razão de seu sucesso. Mas algo existia entre nós. No momento uma amizade afetuosa, alimentada por nossos interesses comuns e o nosso desejo de resolver um mistério. Sabia que a vida estava oferecendo-me a chance de construir alguma coisa.

-Gostaria de que você fosse ver o lugar qualquer dia destes - continuou, afetuosamente. - Gostaria de sua opinião.

- Eu também espero que o mostre para mim... um dia.

- Pode estar certa de que o farei.

Podia ver o lugar em minha mente. Uma casa graciosa com um lindo jardim. Meu lar? Minha sala de visitas daria para o jardim, e lá teria um grande piano. Tocaria freqüentemente mas não profissionalmente. A música seria o meu prazer e a minha satisfação, não precisaria ensinar alunos sem talento novamente.

Teria filhos. Podia vê-los... crianças bonitas, com rostos calmos e felizes - os meninos parecidos com Godfrey e as meninas comigo, quando adolescente, sem as marcas da dor. Queria filhos agora como um dia quis assombrar o mundo com a minha música. O desejo de ser famosa no palco dos concertos tinha desaparecido. Agora queria felicidade, segurança, um lar e uma família.

E, apesar de Godfrey ainda não estar seguro para fazer uma declaração e eu ainda não estivesse pronta para lhe dar uma resposta, era como se realmente tivesse chegado ao fim daquele túnel escuro e olhasse para os caminhos ensolarados, espalhados à minha frente.

Quando a Sra Rendall soube das novidades sobre Godfrey não ficou deprimida. Seis meses era muito tempo e, como dissera Godfrey, muita coisa podia acontecer. Sylvia cresceria, e mudaria de patinho feio num cisne. Entretanto, devia prestar mais atenção na sua aparência. A Srta. Clent foi chamada para fazer um novo guarda-roupa para Sylvia. A Sra. Rendall só via uma razão para seus planos falharem. Uma certa aventureira intrigante, segundo ela, tinha os olhos na presa.

Eu estava em evidência pelas garotas, cujas observações, às vezes ingênuas, às vezes insidiosas, tornavam-me ciente do que me era atribuído. Eu e Godfrey ríamos muito de tudo isto e, às vezes, sentia que ele achava natural. Em ocasião oportuna escapuliríamos dessa amizade, uma vez que a Sra. Rendall estava convencida de que eu era uma intrigante.

As vezes surpreenderia Alice com os olhos fixos em mim.

Ela começou a bordar uma fronha.

-Sua? - perguntei. Ela sacudiu a cabeça, misteriosamente.

Era muito trabalhadora, sempre que tinha um momento de folga tiraria o trabalho que carregava numa sacola, bordada em lã - feita por ela mesma.

Eu sabia que a fronha era para mim, pois ela fora suficientemente ingênua em perguntar minha opinião.

-Gosta deste modelo, Sra. Verlaine? Seria fácil fazer uma outra.

-Eu gosto muito dela, Alice.

- Alice apegou-se muito à senhora, desde... - começou a Sra. Lincroft.

- Desde o incêndio - sorri. - É porque ela salvou a minha vida. Acho que fica extremamente satisfeita sempre que olha para mim.

A Sra. Lincroft virou-se, para esconder sua emoção. - Estou tão feliz porque ela estava lá, tão... tão orgulhosa...

-Eu sempre lhe serei agradecida - disse eu, gentilmente. As outras também começaram a fazer fronhas.

-É muito bom - disse Alice, olhando para mim quase maternalmente - ter um bom suprimento de tudo.

O trabalho de Alice era perfeito e limpo como ela própria. O de Allegra rapidamente ficou sujo. De qualquer modo não acreditava que ela o terminasse. Quanto ao de Sylvia, o dela também não era um sucesso. Pobre Sylvia, forçada a ajudar a encher o baú do enxoval para um provável noivado com o homem que sua mãe lhe escolhera.

Eu as observava, suas cabeças inclinadas no trabalho - sentia afeição por todas elas. Elas se tornaram parte de minha vida. Sempre achava sua inesperada conversa divertida e nunca estúpida. Alice estava lamentando, desanimada, porque Sylvia espetara o dedo e fizera uma mancha de sangue na fronha.

- Você nunca ganharia a vida bordando - reprovou ela.

- Também não gostaria.

- Mas devia gostar - disse Allegra. - Suponha que estivesse morrendo de fome e que a única maneira de ganhar a vida fosse bordando. O que faria?

- Morreria de fome - disse Sylvia.

- Eu vou-me embora com os ciganos - disse Allegra. - Eles nem trabalham nem tecem.

- Isso seria "sombra e água fresca". Os ciganos trabalham. Eles fazem cestos e cabides de pano.

- Isso não é trabalhar. É divertido.

- Quer dizer... - Alice fez uma pausa, com esforço - figuradamente.

- Não tagarele - repreendeu Allegra. - Eu não bordaria. Seria uma cigana.

- As pessoas que fazem camisas ganham muito pouco dinheiro - disse Alice. - Elas trabalham à luz de vela, dia e noite, e morrem de tuberculose porque não conseguem ar fresco e alimento.

- Que horrível!

- É a vida. Thomas Hood escreveu um poema maravilhoso sobre isso.

Alice começou a declamá-lo, numa profunda voz sepulcral:

Costure, costure, costure.

Na pobreza, fome e sujeira

Costurando ligeiro e com firmeza

Uma mortalha tão bem quanto uma camisa

- Mortalha! - gritou Allegra. - Isto não são mortalhas, são fronhas.

- Bem, - disse Alice, friamente - eles não pensavam que estavam costurando mortalhas, mas sim camisas.

Interrompi-as, dizendo: - Que conversa macabra! Não é hora de colocar sua fronha de lado e vir para o piano?

Alice dobrou seu trabalho, jogou seu cabelo para trás e levantou-se obedientemente.

Lovat Stacy era realmente visitado pela cigana Serena Smith. Freqüentemente a via perto de casa e uma ou duas vezes a vi vagueando pelo jardim. Ela não fazia isso furtivamente, mas como se tivesse o direito. Cada vez me convencia mais de que ela era a mãe de Allegra. Isso por causa de seu ar de dona e de insolência.

Um dia, ao entrar em casa, ouvi sua voz - aguda e carregada.

-Você não gostaria de ir contra mim, gostaria? - dizia ela. - Há pessoas aqui que não gostariam de que eu contasse algumas coisas sobre elas, e você mais do que ninguém. Assim é que eu vejo as coisas. Portanto não haverá mais dessas conversas: "Mandem os ciganos embora". Os ciganos estão aqui para ficar... compreende?!

Houve um silêncio e senti o coração doer: Napier, oh, Napier. Que problema você arranjou! Como pôde se envolver com uma mulher como esta?!

Depois a voz, novamente. - Oh, sim. Amy Lincroft... Amy Lincroft. Eu poderia deixar escapar alguns segredos seus e de sua preciosa filha, não? E você não gostaria disso.

Amy Lincroft. Não Napier!

Eu estava quase indo embora quando Serena Smith saiu. Ela corria e seu rosto estava corado e os olhos faiscavam. Como se parecia com Allegra! Allegra, num capricho de maldade!

-Macacos me mordam - gritou ela - se não é a senhora da música! Escutando atrás da porta, hem, senhora... ou o buraco da fechadura? - Ela irrompeu a rir e eu nada pude fazer, a não ser entrar no salão.

Ninguém estava lá e eu desejava saber se a Sra. Lincroft tinha escutado as observações dela. Deve ter. Mas devia estar muito embaraçada para falar-me.

No jantar a Sra. Lincroft estava tão calma e fria como sempre. - Espero que goste da maneira que fiz o bife, Sra. Verlaine. Alice, leve este caldo de carne para Sir William. Quando você descer estarei pronta para servir.

Alice levou a fina bandeja e eu disse que ela era uma menina muito obediente.

-É um grande conforto para mim que seja assim - disse a Sra. Lincroft. Meus pensamentos foram imediatamente para as palavras da cigana e eu gostaria de saber se algum dia houve um Sr. Lincroft ou se Alice era o resultado de um deslize de juventude. Isso podia ser verdade, pois nunca a ouvira mencionar um senhor Lincroft.

A Sra. Lincroft parecia ler meus pensamentos, pois ela disse: - Gostaria muito de que a Sra. Rendall não interferisse com os ciganos. Eles não estão fazendo mal.

- Evidentemente, ela parece decidida a afugentá-los.

- Se, pelo menos, fosse tão gentil e pacífica como o marido, a vida seria muito mais agradável para nós.

-E para o pastor e Sylvia, particularmente. A Sra. Lincroft concordou.

-Acho que já sabe quem é Serena Smith. Escutou alguma coisa sobre a história da família.

-Quer dizer que ela é a mãe de Allegra?

A Sra. Lincroft concordou. - É uma desgraça! Não sei por que lhe foi permitido vir aqui pela primeira vez. Ela trabalhou na cozinha. E depois, claro, envolveu-se com Napier...Allegra foi o resultado. Isso tudo aconteceu depois da morte de Beaumont, quando Napier se preparava para partir. Ela ficou aqui até a criança nascer; depois, foi-se embora.

-Pobre Allegra!

-Eu voltei e cuidei dela a tempo... Foi bom para mim, uma vez que pude trazer Alice comigo.

-Sim - disse eu, compreensivamente.

-E agora voltou... pronta para causar problema, a menos que permitamos aos ciganos ficarem. Eles nunca ficam muito tempo. Mas aquela mulher intrometida tem tentado pôr um fim nisso. Sabe, acredito que ela goste de criar problemas.

A esta altura, a Sra. Lincroft parecia realmente perturbada. Havia uma ruga entre seus olhos e mordia os lábios, baixando os olhos enquanto o fazia.

Alice voltou; estava um pouco corada e seus olhos pareciam dançar.

-Ele está tomando a sopa, mamãe. Disse que está muito boa e que ninguém a faz melhor do que a senhora.

- Então ele está um pouco melhor.

- E tudo graças a você, mamãe - disse Alice.

-Venha para a mesa, minha querida, e eu a servirei. Pensei como era agradável ver a afeição entre aquelas duas.

Sir William melhorara um pouco, pois no dia seguinte a Sra. Lincroft disse-me alegremente que ele tinha expressado o desejo de me ouvir tocar. Nada lhe tinha sido dito sobre o incêndio. Não havia necessidade de aborrecê-lo, disse a Sra. Lincroft, e eu concordei com ela. Não tinha estado no aposento próximo ao dele, desde aquela ocasião infeliz, quando tocara a Dança Macabra. Qualquer lembrança daquele dia seria desastrosa para ele. Contudo, era um bom sinal que ele tivesse pedido para tocar para ele.

- Alguma coisa leve e calma, que tenha tocado para ele antes - disse a Sra. Lincroft. - Ele não escolheu. Ainda não está bom. Mas a senhora saberá.

- Schumann - disse eu.

-Estou certa de que tem razão. E nada muito longo... Fiquei um pouco nervosa ao lembrar-me daquela ocasião, mas logo que comecei a tocar senti-me melhor. Depois de meia hora parei e, quando voltava do piano, espantei-me ao ver alguém no aposento - uma mulher de costas, usando um chapéu com um laço preto e rosas. Estava olhando a fotografia de Beau e por um momento pensei que aquela era a verdadeira Isabella. Então escutei uma risada e Sybil virou-se para mim.

-Assustei você? - murmurou.

Admiti que sim. - Se Sir William a tivesse visto, - disse eu - poderia ter...

Ela sacudiu a cabeça. - Ele não pode deixar a cadeira. Além do mais, foi a sua música que o chocou.

-Só toquei o que foi escolhido.

-Oh, eu sei. Eu sei. Não a estou condenando, Caroline. - Ela riu. - Então você pensou ter induzido minha cunhada a sair do túmulo com a sua música? Confesse.

-A senhora tencionou que eu pensasse isso, não?

-Não, claro que não. Não queria assustá-la. Simplesmente nem pensei nisso. Coloquei meu chapéu porque pensei em ir ao jardim. E vim aqui em vez disso. Estava envolvida em sua música. Agora você está bem. Eu não a assustei, assustei? Você é muito calma, sabe, mesmo agora, depois do que aconteceu na cabana. É como a Sra. Lincroft. Ela tem de ser fria, tem medo de se trair. Você tem de ser calma pela mesma razão?

-Não entendo nada do que quer dizer.

-Não? William está dormindo agora, logo está perfeitamente salvo. Sua música acalma-o. Tem encantos para acalmar um peito selvagem. Ele não é selvagem agora, mas já o foi. Venha a meu estúdio, quero mostrar-lhe uma coisa. Comecei a pintá-la.

-Isso é muita bondade sua.

-Bondade. Eu não sou bondosa. Não o faço por bondade. É porque você está ficando envolvida...com a casa. Eu tenho observado.

- Vim aqui tocar para Sir William.

- Mas ele está dormindo. Venha, olhe.

Fui até à porta e olhei para o quarto. Ela tinha razão. Ele estava quase dormindo.

-Você o acordará se continuar tocando.

Ela levou a mão ao meu braço...aquela pequena e delicada mão, com dedos de artista, que uma vez ganhou uma aliança e a jogara ao mar.

-Vamos - persuadiu-me ela. Então eu fui.

No estúdio, imediatamente reconheci a pintura como um retrato meu, embora me chocasse um pouco. Pareceria eu, realmente, tão fria e terrena como ela me tinha pintado? As feições eram minhas, o nariz ligeiramente arrebitado, grandes olhos e longo cabelo escuro. Nos olhos havia um toque de romantismo do qual Pietro zombara. Mas notava uma aparência de sofisticação que eu não acreditava possuir.

Ela observava o meu vago descontentamento com um certo prazer malicioso.

- Você a reconhece - ela acusava-me.

- Oh, sim, claro. Não pode haver dúvida de quem seja. Ela virou a cabeça para o lado e olhou-me astutamente.

- Você sabe, - disse ela - você está começando a mudar. A casa está fazendo isso em você. Faz alguma coisa a todos. Uma casa é uma coisa viva, não concorda, Caroline?

Eu disse que ela era feita de tijolos e argamassa e não via como isso podia ser.

-Você está sendo deliberadamente obtusa. As casas são vivas. Pense no que elas vêem. Alegrias, tragédias... - Seu rosto enrugou-se.

Estas paredes viram-me chorar e chorar, até não ter mais lágrimas... e depois viram-me erguer como uma fênix e achar uma razão para ser feliz outra vez com a minha pintura. Isso é o que acontece às vezes com os grandes artistas, Caroline. E eu sou uma artista... não só uma pintora. Sybil! E por isso que meus pais me deram esse nome de batismo. Sabe o que significa uma mulher inteligente?

Disse que sim.

- Bem, eu observo e aprendo... assim fico mais sabida. Aquela Sra. Rendall... acho que devia pintá-la. Mas ela é muito transparente, não é? Todos podem ver o que ela parece. Não precisa que a gente diga. As outras pessoas são menos transparentes. Amy Lincroft, por exemplo. Ah, ela é uma muito profunda. E agora ela está preocupada... sinto isso. Ela acha que eu não sei. Mas se trai com as mãos. Elas apanham as coisas e as deixam cair. Ela disfarça, conservando seu rosto impassível... disfarça muito bem. Com Amy Lincroft são as mãos. Ela está com medo. Vive apavorada. Tem um segredo... um segredo terrível e é uma mulher assustada. Vive com medo e pensa que sabe como escondê-lo, reprimindo-o. Mas não me chamaram Sybil à toa, logo, eu a conheço.

- Pobre Sra. Lincroft, estou certa de que ela é uma boa mulher.

- Você vê o que está na superfície. Não é uma pintora. É somente uma pianista. Porém, não viemos aqui para falar da Sra. Lincroft, viemos? Lincroft! Viemos para falar sobre você. Gosta desta pintura?

-Estou certa de que tem grande mérito.

Ela riu novamente. - Você me diverte. Sabe que não lhe perguntei se tem mérito. Eu disse: você gosta dela?

- Eu... eu não estou certa.

- Talvez não seja você hoje... mas você amanhã.

- O que quer dizer?

-Estou pintando-a como você se tornará, Caroline. Muito auto-suficiente... muito senhora da casa pastoral... que está aprendendo a ser esposa de bispo. Com muito sucesso... ajudará o marido em tudo, e todos dirão: "O querido bispo é tão afortunado! Deve muito à sua eficiente esposa".

-Acho que andou tomando algumas lições dos ciganos.

-Conversadora inteligente! Nunca se atrapalha! Isso é muito vantajoso para o querido bispo, sabia? - Ela amuou-se. - Eu não gosto muito da esposa do bispo, Caroline Verlaine. Mas isso não importa, pois não terei de vê-la, terei? Posso imaginá-la no café da manhã, sorrindo para seu marido através das toalhas de mesa e guardanapos. Oh, isto durante anos e anos, e ela dirá: "Como era o nome do lugar em que nos conhecemos? Lovat Alguma Coisa? Pessoal tão excêntrico! Gostaria de saber o que lhes aconteceu, a todos". E o bispo franzirá as sobrancelhas e tentará recordar, mas não será capaz. Mas ela sim. Ela irá para seu quarto sozinha e pensará, pensará, e haverá uma dor, porque...porque... Mas você não quer que eu prossiga.

Ela deu uma gargalhada e retirou a tela do cavalete, expondo a das três garotas.

-Pobre Edith! Eu desejaria saber o que ela parece agora. Porém, é bom relembrar como eram juntas. Um momento! Tenho um outro quadro seu.

- Meu? Como trabalha rápido!

- Só quando minhas mãos são conduzidas.

- Quem as guia?

-Se lhe disser que sou guiada pela inspiração, intuição e gênio, não acreditaria, acreditaria? Não queria mencionar isso. Aqui está você outra vez.

Ela colocou um quadro no cavalete que reconheci como sendo eu, embora estivesse bastante diferente da outra. Meu cabelo fluía, solto, havia uma expressão de enlevo no rosto, meus ombros erguiam-se, nus, de um verde-esfumaçado. Era bonito. Respirei com dificuldade e não podia tirar os olhos dele.

Ela gabou-se com prazer e, pressionando as palmas das mãos, ficou na ponta dos pés, como uma criança.

- Gosta dele?

- É um retrato maravilhoso. Mas não me pareço com ele.

-Tampouco se parece com a mulher do outro.

Olhei de um retrato para o outro e ela murmurou: - Eu lhe disse... eu lhe disse... - Então continuou: - Esta mulher é feliz e triste... ela vive. A outra é calma e cresce cada vez mais satisfeita à medida que os anos passam. As vacas são contentes em mastigar o alimento. Sabia disso, Caroline? Elas colocam a cabeça para baixo e vêem a rica e verdejante grama. É tudo que elas pedem porque não vêem nada mais.

- Bem, qual sou eu? Não posso ser as duas.

- Mas nenhuma de nós é uma pessoa. Eu podia ter sido uma esposa e mãe, se Harry não me tivesse enganado e se não tivesse encontrado uma garota mais rica; ele poderia ainda me enganar, mas eu não saberia, saberia? Nós não sabemos tanto quanto acreditamos. Concorda comigo? Se não, você concordará algum dia. Dois caminhos estão abertos para você, Caroline. Você escolherá. Já escolheu uma vez antes. Oh, Caroline, você não é tão sabida como finge ser. Uma vez teve de fazer uma grande decisão... e não escolheu sua música. Você estava certa ou errada? Só você pode dizer, porque o que acredita ser certo é que o será para você. Talvez acredite que tenha sido tola uma vez. Você é feliz. A segunda chance não é dada a todos nós. Desta vez deve fazer a escolha certa. Eu nunca tive uma segunda chance... - Seu rosto enrugou-se. - Eu chorei e chorei... - Chegou-se perto de mim. - Acho que escolherá segurança desta vez, Caroline. Sim, acho que sim.

Ela perturbava-me, estava certa de que ela era louca, contudo... Parecia ter um misterioso dom de ler meus pensamentos, pois ela disse: - Claro que sou louca, Caroline. Minha decepção tornou-me biruta, mas há sempre compensações. As pessoas cegas descobrem-nas. Elas se tornam filósofas. Assim, por que os loucos não as deveriam descobrir? A alguns é dado poderes especiais, perspicácia especial. Eles, às vezes, vêem o que. os outros não vêem. Isso é um pensamento agradável, não? Há sempre compensações.

-Acho que é uma filosofia confortante.

Ela riu alto. - Tão diplomática! Sim, acho que será a esposa do bispo. Isso mostra que você mudou, não mudou? A esposa do bispo teria escolhido a música.

Sua expressão mudou novamente; ficou astuta e malevolente.

-Mas, - disse ela - pode ser que nem isso seja, se você se intrometer. Você é uma intrometida. - Ela estava com seu jeito infantil outra vez, levantando um dedo repreendedor. -Admita. Sabe o que acontece àqueles que tentam saber demais quando há pessoas perversas em volta? Você devia saber, não?

Ela ficou de pé no centro, balançando-se como um mandarim, uma figura incongruente. Seu feminino chapéu florido sombreando-lhe o rosto enrugado e um ar de sabedoria astuta aparecendo em seus olhos.

Visualizei-a escrevendo aquela nota, subindo ao meu quarto, escondendo-se no alpendre, esperando, espalhando o óleo que fora deixado no tambor pelo assoalho.

Mas por quê?

Como podia saber que segredos escondia aquela velha casa e como cada membro desta família estava interessado nela?

Roma, pensei, o que descobriu você?

Sybil perturbara-me mais do que eu queria admitir.

Todos tinham decidido que um entendimento estava crescendo entre mim e Godfrey Wilmot e, de certo modo, era verdade. Podia sonhar se queria um futuro calmo e o teria; mas, quando o fazia, não era Godfrey que via, mas as minhas crianças. É natural, disse para mim mesma. Toda mulher quer filhos; e, quando ela se encontra numa idade madura e nunca os teve, então a espera é de fato muito desejável. Todavia... Mas por que deviam existir algumas dúvidas? Eu era feliz, como Sybil dissera. Tinha uma segunda chance. Ou poderia ter, se tomasse cuidado e não me intrometesse.

Quando estava com Godfrey o tempo passava rápido e agradável; entretanto, havia ocasiões em que não desejava sua companhia. Gostava de ficar sozinha com meus pensamentos e um de meus lugares favoritos era o pequeno jardim cercado. Talvez por ser uma pequena observadora, Alice sabia disso; por esta razão, entrou no jardim cercado naquela tarde e perguntou-me, numa voz séria, se estava me perturbando.

- Claro que não, Alice - disse eu. - Fez o seu exercício?

- Sim, Sra. Verlaine. Vim falar com a senhora.

- É muito simpático de sua parte. Sente-se um pouquinho, Este jardim é muito agradável.

- A senhora adora-o, não, Sra Verlaine? Freqüentemente a vejo aqui. Tão calmo e pacífico! Espero que faça um jardim em sua nova casa.

- Minha nova casa?

- Quando se casar.

- Minha querida Alice, já fui casada uma vez e não estou empenhada em fazê-lo novamente.

- Mas a senhora se casará breve. - Ela aproximou seu rosto do meu e eu podia ver as sardas em seu nariz. - Acho que será muito feliz.

- Obrigada, Alice.

- Acho o Sr. Wilmot um homem encantador. Estou certa de que será um bom marido.

- Como pode julgar um bom marido?

- Mas é fácil dizer neste caso. Ele é rico e bonito... de outra maneira a Sra Rendall não o desejaria para Sylvia. E ele é honesto, não seria cruel para a senhora como alguns maridos são.

- Seu conhecimento me surpreende, Alice.

- Oh, bem - disse ela, modestamente. - Eu morei aqui com Edith e Napier. Ele não era bom para ela. Vê, tenho um exemplo à mão.

- Como pode ter certeza de que ele não era bom para ela?

- Ela costumava chorar muito. Disse-me que ele era cruel para ela.

- Ela lhe disse isso?

- Sim, ela costumava fazer-me muitas confidencias. Isto porque nós crescemos juntas.

- Você tem idéia por que ela se foi embora?

- Foi para fugir dele. Acho que foi para Londres, ser governanta.

- O que lhe deu essa idéia? Você pensou que ela fugira com o Sr. Brown, lembra-se?

- Todos pensavam assim. Mas isso foi tolice. Ela não podia ter fugido com ele, podia? Assim como uma mulher casada não poderia fugir com o Sr. Wilmot, porque ele é um pastor-ajudante, e pastores-ajudantes não fogem com quem não se possam casar.

- Então você pensa que ela foi embora por conta própria. Oh, Alice, como se ela pudesse! Você se lembra de Edith? Ela nunca seria capaz de se sustentar em seus próprios pés.

-Sabe, Sra Verlaine, se um tigre entrasse neste jardim, nós correríamos como nunca corremos antes. Nós temos reservas especiais de força. Nossos corpos as abasteceriam. Não é interessante? E é verdade, eu li isso em algum lugar. É a precaução da natureza. Isso é que é. Bem, Edith precisou tanto de ir embora que a natureza lhe deu forças para fazer isso.

-Que pequena pretensiosa você é?

-Pretensiosa - repetiu. - Nunca ouvi essa palavra antes. Gosto dela. Pretensiosa. Soa-me como um pedaço de terra fértil.

-Se sabe alguma coisa sobre Edith, deveria contar, Alice.

- Só sei que ela foi embora. Acho que não será encontrada, porque ela não o deseja. Queria saber o que estará fazendo agora. Provavelmente ensinando algumas crianças... numa casa como Lovat Stacy. Não é estranho, Sra Verlaine?

- Muito estranho para acreditar - disse eu. - Estou certa de que Edith não faria tal coisa. Seria errado e perverso.

- Mas enquanto ele tiver uma esposa Napier não será capaz de casar-se com mais ninguém. Escrevi uma história sobre isso, Sra Verlaine. Há uma mulher que é casada com um homem mau e como não pode escapar dele, foge e esconde-se. Assim, ela não tem marido e ele não tem esposa e, enquanto ela estiver escondida, ele não poderá se casar com outra. É seu grande sacrifício. Ela ficará escondida até ficar velha. E, então, ela ficará sozinha porque não terá nenhum neto. Esse foi seu grande sacrifício.

-Você deve deixar-me ler alguma de suas histórias, Alice.

-Oh, elas não são boas. Tenho de melhorá-las muito. Posso contar-lhe um segredo, Sra Verlaine. Provavelmente eu a chocarei.

-Não me choco facilmente.

-O Sr. Lincroft não era meu pai.

- O quê?

- Sir William é meu pai. Oh, é verdade. Ouvi-os conversar, minha mãe e Sir William. É por isso que estou aqui... morando nesta casa. Sou o que eles chamam filha natural. Acho que é uma coisa agradável de ser... de qualquer modo. E como Allegra. Ela também é uma. Não é estranho, Sra Verlaine? Haveriam de ser duas. Duas filhas naturais... na mesma casa, crescendo juntas.

- Alice, você está romanceando outra vez.

- Não, não estou; depois de ouvi-los, perguntei à minha mãe e ela admitiu isso. Ela amava Sir William e ele a ela... Ela foi embora porque pensou que era errado ficar aqui.

Ganhou-me e casou com o Sr. Lincroft... para me dar um nome. É por isso que me chamo Alice Lincroft, mas, na verdade, sou Alice Stacy. Sir William gosta muito de mim. Creio que um dia me legitimará. Pode-se fazer isso, sabia? Vou escrever uma bonita história sobre uma garota cujo pai a legitimou, mas estou reservando-a. Vai ser a melhor que já escrevi.

Quando olhei para o rostinho mais sério, pude acreditar que assim seria.

A meada dos acontecimentos crescia mais e mais, emaranhada com todas as novas ocorrências.

Tinha chovido pesadamente o dia inteiro. As garotas tinham voltado da casa pastoral, todas molhadas, e a Sra Lincroft insistia em que tirassem todas as suas roupas e colocassem umas secas.

Quando vi sua eficiência, pensei que forte senso de dever ela tinha e acreditava que ela estava tentando reparar seu mau procedimento. Imaginei-a vindo para aquela casa, uma companhia para Isabella - uma criatura adorável, deve ter sido, com aquela calma, graça e beleza. Que amargas tensões devem ter havido com Sir William apaixonando-se por ela e ela por ele. E Isabella? Pobre e trágica Isabella, ter repentinamente tomado conhecimento do fato!

Não admira que eu sentisse tristeza em seu quarto.

E quando a Sra Lincroft ia ter a criança, resolveu partir, mas talvez fosse tarde demais - casou com o Sr. Lincroft para a segurança da criança. Espantava-me que o Sr. Lincroft tivesse morrido para que a Sra Lincroft pudesse voltar a Lovat Stacy depois da morte de Isabella!

Tinha sempre a impressão de que ela estava vivendo no passado; havia uma aura de "tempos passados" em torno dela. Estava naquelas blusas de chiffon e nas longas saias que a favoreciam - os cinzentos, os azuis, os sombrios... eles eram confusos, indefinidos... espectral, pensei, e ri da palavra.

Depois do chá dei uma aula de música para as garotas.

- Pobre Sylvia! Ela está faltando às aulas - disse Alice.

- Um fato pelo qual ela ficará agradecida à chuva - disse Allegra. - Escute-a... chove copiosamente. Todos os ciganos devem estar em suas caravanas, fazendo cabides e cestos, tão rápido quanto possam. É por isso que eu não seria uma cigana. Odiaria fazer cestos.

- Você detesta trabalhar de qualquer jeito. Tudo que gosta de fazer é deitar-se ao sol.

-Quem tenta escapar à ambição E deitar-se ao sol por vocação... -cantou Alice. - A resposta é Allegra. Mas você escapa à ambição? Não acho que o faça realmente. Qual é sua ambição? Eu sei a da Sra Verlaine.

-Qual? - perguntei.

-Morar numa casa adorável, longe daqui... com um marido e 10 crianças.

-Não é uma ambição muito original.

-Acho que também é a minha, de certo modo, morar sempre numa casa como esta. Só não estou certa sobre o marido. Não sei o que penso sobre eles. Ainda sou muito jovem.

-Ah! - riu Allegra. Ela está fingindo.

- Não estou - disse Alice. - Escutem a chuva. Ninguém sairia com um tempo destes. Nem mesmo os fantasmas.

- E justamente do tempo que eles gostam - contradisse Allegra. - Não concorda, Sra Verlaine?

-Eu não acredito neles, de modo algum.

- O fantasma estará na capela hoje à noite, Sra Verlaine. Alice estremeceu.

- Eu vou observar - falou Allegra.

- Você não pode observar a noite inteira - Alice relembrou-lhe.

- Não, mas eu ficarei olhando. Será fácil ver o brilho da luz, porque está muito escuro.

- Agora vamos discutir alguma coisa tangível - sugeri.

-Alice, gostaria de ouvi-la tocar aquele minueto novamente. Você não estava de todo mal a última vez. É claro que há muita oportunidade para melhorar.

Alice levantou-se com vivacidade e sentou-se ao piano. Enquanto olhava aqueles dedos cuidados, arrancando a melodia, pensava que as duas garotas eram boas uma para a outra porque eram muito diferentes. Alice era uma grande ajuda reprimindo a rudeza de Allegra, e Allegra pondo um freio na afetação de Alice. As duas filhas naturais.

Na manhã seguinte os aguaceiros eram intermitentes e evidentemente o tempo mais brilhante estava a caminho. De manhã preparei-me para sair com as meninas para a casa pastoral.

-Eu estava certa, Sra Verlaine - disse Allegra, enquanto caminhávamos. - Nós vimos a luz, não vimos, Alice?

Ela assentiu. - Estava muito brilhante, Sra Verlaine, por causa do escuro.

-Alice queria vir dizer-lhe, mas não o fizemos porque a senhora não acredita.

- Era uma charrete ou qualquer coisa na estrada - disse.

- Oh, não, Sra Verlaine. A estrada não passa ali.

- Então, quem quer que esteja pregando peças em uma noite como essa deve estar em sua senilidade.

- Ou morto. A chuva não perturbaria os mortos, perturbaria?

- Bem, temos um bocado de serviço esta manhã. Penso que pegarei primeiro Sylvia.

Tínhamos chegado à casa pastoral e, quando subíamos o caminho, a Sra Rendall apareceu à porta, braços enlaçados, numa atitude pouco usual.

- Sylvia - disse, olhando para mim - não estará disponível para as lições hoje. Ela não está bem. Na verdade, mandei chamar o médico.

- Lamento escutar isso - disse. - Espero que fique boa logo.

- Não posso entender o que está errado. Tremendo e espirrando... é um resfriado. - Ela virou-se e nós a seguimos para a casa pastoral. - Ah! - Seu tom amaciou, porque Godfrey vinha descendo as escadas. - As alunas estão aqui - acrescentou. - Eu estava justamente explicando que a querida Sylvia vai passar uns poucos dias na cama.

-Ordens do doutor? - perguntou Godfrey.

- Minhas. Ela saiu ontem para levar alguma sopa para a pobre Sra Cory. Disse-lhe que chovia demasiado, mas ela insistiu, dizendo que não importava que ela ficasse ensopada, o importante era a Sra Cory tomar a sua sopa.

- Que santinha ela é! - disse Godfrey, rapidamente, e a Sra Rendall sorriu com calor.

- Ela foi educada a pensar nos outros. Hoje em dia, tantas pessoas... - Ela lançou-me um pernicioso olhar e eu quis irromper a rir e podia ver que Godfrey faria o mesmo.

Eu disse-lhe que, como Sylvia não estaria disponível para a lição, não havia motivo para ficar. Podia dar as de Alice e Allegra em Lovat Stacy. Este arranjo pareceu agradar à Sra Rendall, que sorriu quase graciosamente para mim.

No caminho de casa pensei na pobre Sylvia e desejava saber se ela teria pego um resfriado indo à mata iluminar as paredes arruinadas.

Ela nunca teria coragem. Ou teria? Era uma garota estranha - aquela de quem sabia menos. Godfrey estava inclinado à beira do túmulo dos Stacy. Na mesma tarde meu passeio levara-me até lá. Tínhamos adquirido o hábito de estar lá em certas horas do dia, em caso de um de nós aparecer. A grama crescia longa entre as sepulturas e havia árvores que davam uma certa solidão.

- Como vai a enferma? - perguntei.

- Pobre Sylvia! Não muito bem. O médico diz que sua temperatura é muito alta e tem de ficar na cama por poucos dias.

- Acha que deve ser o resultado de ter tomado chuva?

- Terá um resfriado por vários dias. Ela freqüentemente fica resfriada, pobre criança.

- O que pensa de Sylvia?

- Eu não penso nada.

- Que vergonha, depois de todos os esforços da mãe dela! Desejava saber qual o efeito que tudo isto lhe causa.

- Isto? - disse ele. - Você quer dizer sua mãe?

- Sim. Sylvia sempre parece tão assustada! Você acha que alguém que é tratada como ela pode afirmar-se de alguma maneira?

- Estou certo de que ela gostaria de se afirmar, se pudesse.

- Que tal indo à ruína e balançando a lanterna em volta?

- Como o fantasma, você quer dizer? Mas os fantasmas são tão anônimos! Então onde está a glória?

- Sabendo que as pessoas têm medo de ir lá, por causa dela. Sabendo que ela está tornando todos inquietos.

Ele encolheu os ombros. - Não posso entender onde está a glória.

Senti-me um pouco impaciente com ele. - Claro que não. Você nunca quis chamar a atenção das pessoas. Você é tão... tão normal.

Ele irrompeu a rir. - Você fala como se houvesse alguma coisa desonrosa nisso.

- Não demasiado desonroso. Mas gostaria de entender Sylvia.

- Isso é fácil. Ela é um rato-menina com um grande gato-mãe sempre esperando no buraco para pegá-la.

- Eu ri. - Mais um cão de fila do que um gato. E que estou certa de que ambos estamos errados por trocar o seu sexo. A fêmea das espécies é sempre mais implacável do que o macho.

- Acredita nisso?

- No caso do pastor e sua esposa... sim. Mas quero pensar em Sylvia. Sabe que não me surpreenderia se ela fosse a pessoa que está fazendo a assombração? Rato frustrado... procurando expressão própria... procurando forma para sua personalidade... procurando uma chance de ganhar poder. É isso: poder. Ela, que é incomodada tantas vezes, agora tem a oportunidade de incomodar os outros. Isto se ajusta. Além do mais, como ficou doente? Por sair na chuva, quando ela ainda tinha um resfriado.

- Espere um momento - disse Godfrey, pensativo. - Quando voltei a noite passada, depois de ter ido visitar a Sra Cory...

- A mesma que anteriormente recebera a sopa através da generosidade de Sylvia?

- A mesma. Quando voltei de visitá-la e pendurei as minhas roupas no cabide, vi as botas de Sylvia lá, e estavam ensopadas.

- Ela também estivera fora. Poderia tê-lo feito sem que seus pais o soubessem?

- Sim, se ela se tivesse recolhido à cama cedo, como deve tê-lo feito pretextando resfriado - e esgueirando-se depois.

- Começamos a perceber algo - disse eu.

- Então é Sylvia, tentando afirmar-se, não tentando mandar Napier embora. Na próxima oportunidade eu pego essa garota.

- Sr. Wilmot! Sr. Wilmot... - era a voz da Sra Rendall, chamando docemente, contudo, de qualquer modo, autoritária.

- É melhor ir tomar o chá com ela - disse. - Pois se não o fizer ela o procurará até achá-lo.

Ele sorriu e foi embora.

Fiquei algum tempo olhando o memorial de Beau, pensando que ficaria contente se ficasse provado que era Sylvia, tentando afirmar-se.

Enquanto me movia através da longa grama uma voz gritou: - Alô! - E a cigana materializou-se na minha frente. Na verdade ela estivera deitada na grama e eu desejava saber se ela teria escutado minha conversa com Godfrey.

-De onde vem? - perguntei.

Ela sacudiu a mão. - Tenho o direito, não tenho? Este lugar é livre para os mortos e igualmente para os vivos... professores de música e ciganos.

-Você apareceu tão de repente!

- Estava querendo falar com você.

- Comigo?

- Parece surpresa. Por que não? Gosto de saber o que acontece lá em cima. - Ela virou a cabeça em direção a Lovat Stacy. - Gosta de trabalhar lá? Uma vez trabalhei na cozinha. A cozinheira que tinham botou-me para correr... eu sempre faltava quando havia coisas para descascar. Nunca pude suportar descascar coisas. Preguiçosa, boa para nada, assim me chamava aquela velha cozinheira. - Ela piscou para mim. - Mas eu achei algo melhor para fazer do que descascar coisas.

- Estou certa de que achou - disse, friamente, e virei-me para partir.

- Ei! Não tão depressa. Não quer conversar comigo sobre aqueles lá de cima... sobre Nap, para começar?

-Não creio que me diga alguma coisa que eu não saiba.

-Deu uma gargalhada. - Sabe? - disse ela. - Gosto de você... de certo modo. Você me lembra a mim mesma. Oh, isso faz você sentar-se e escutar-me, não faz? Como pode uma professora de música de alta classe ser igual a uma cigana? Não me pergunte. Pergunte a Nap.

-Se me dá licença, tenho serviço a fazer...

-Mas eu não quero dar licença. Não sabe que é rude despachar uma senhora quando ela lhe quer falar? Conte-me sobre Allegra. Ela é bastante bonita, não é? Um bocado diferente daquela Alice. Não trocaria Allegra por Alice nem por uma casa de dinheiro. Agora tenho quatro... meninas... todas meninas. É uma coisa interessante. Alguns têm meninas e não podem ter meninos. Essa sou eu. Tenho visto sempre nas cartas. Será uma menina outra vez, eu digo, e acontece. Mas Allegra... ela toca bem piano, toca? Sabe, ela é a minha imagem quando tinha a idade dela. Só que eu tinha mais percepção do que ela tem. Tinha que ter. Eu era uma mulher na idade dela. Por que, então, eu vim trabalhar na cozinha?... O que me fez fazer isso? Não gostaria de saber? Oh, não gostaria de saber! Mas calculo que pode adivinhar... embora deva adivinhar errado.

Não tinha vontade de continuar esta conversa; assim, assumi um ar de indiferença e olhei de relance para o meu relógio.

Ela chegou-se mais perto de mim e disse: - Vi você e o senhor da casa pastoral agora mesmo. Muito simpático e amigável. Ouvi a conversa, pois o vento soprava de lá. Boa sorte. Por que não aproveita essa boa sorte e vai embora enquanto pode? Você já foi avisada, sabe? Não pode aceitar um sugestão?

- De que está falando?

- Eu saberia, depois de ter quase sido morta naquela cabana. E teria sido, não fosse por Alice. Calculo que Amy Lincroft ficou muito orgulhosa de sua filha aquele dia. - Ela riu alto. - Oh, muito orgulhosa.

- Se sabe de alguma coisa, ficaria contente se me co