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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


AS AREIAS DO TEMPO / Sidney Sheldon
AS AREIAS DO TEMPO / Sidney Sheldon

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

AS AREIAS DO TEMPO

 

A terra romântica do flamenco e Dom Quixote, de señoritas de aparências exóticas, com travessas de casco de tartaruga nos cabelos, é também a terra de Torquemada, da Inquisição espanhola e de uma das mais sangrentas guerras civis da história. Mais de meio milhão de pessoas morreram nas batalhas pelo poder entre os republicanos e os rebeldes nacionalistas da Espanha. Em 1936, entre Fevereiro e Junho, foram cometidos 269 assassinatos políticos, e os nacionalistas executaram, em média, mil republicanos por mês, sem permissão para o lamento. Foram incendiadas e destruídas 160 igrejas, e freiras foram arrancadas à força de conventos, "como se fossem prostitutas num bordel", escreveu o duque de Saint-Simon, a respeito de um conflito anterior entre o governo espanhol e a igreja. Sedes de jornais foram saqueadas, e greves e motins tornaram-se endêmicos em todo o país. A guerra civil terminou com a vitória dos nacionalistas, sob o comando de Franco; depois da sua morte, a Espanha tornou-se uma monarquia.

A Guerra Civil, que se prolongou de 1936 a 1939, pode estar oficialmente encerrada, mas as duas Espanhas que lutaram nunca se reconciliaram. Hoje, outra guerra continua a assolar a Espanha, a guerra de guerrilha travada pelos bascos para recuperarem a autonomia que tinham sob a República e perderam com o regime de Franco. A guerra está sendo travada com atentados a bomba, assaltos a bancos para financiar os atentados, assassinatos e distúrbios.

Quando um membro da ETA, um grupo guerrilheiro basco clandestino, morreu num hospital de Madri, após ser torturado pela polícia, os distúrbios subsequentes em todo o país levaram à demissão do diretor-geral da polícia espanhola, cinco chefes de segurança e duzentos altos funcionários policiais.

Em 1986, em Barcelona, os bascos queimaram a bandeira espanhola em público; em Pamplona, milhares de pessoas fugiram apavoradas quando nacionalistas bascos entraram em conflito com a polícia, numa sucessão de motins que se espalhava por toda a Espanha e ameaçaram a estabilidade do governo. A polícia paramilitar retaliou com a maior violência, disparando a esmo contra casas e lojas de bascos. O terrorismo continua, e é mais violento que nunca.

Esta é uma obra de ficção. E, no entanto...

 

 

                   Pamplona, Espanha - 1976

Se o plano falhar, todos nós morreremos. Ele repassou-o mentalmente pela última vez, sonhando, avaliando, à procura de defeitos. Não encontrou nenhum. O plano era ousado e exigia um cálculo do tempo cuidadoso, em frações de segundos. Se desse certo, seria um efeito espetacular, digno do grande El Cid. Se falhasse...

Bom, o tempo de se preocupar já passou, pensou Jaime Miró, filosófico. É tempo de ação.

Jaime Miró era um mito, um herói para o povo basco e um anátema para o governo espanhol. Tinha mais de um metro e oitenta de altura, rosto forte e inteligente, corpo musculoso e olhos escuros, taciturnos. Testemunhas tendiam a descrevê-lo como mais alto do que era, mais moreno do que era, mais impetuoso do que era. Eraa um homem complexo, um realista que compreendia as enormes desigualdades contra si, um romântico disposto a morrer por aquilo que acreditava.

Pamplona era uma cidade enlouquecida. Era a última manhã da corrida de touros, a Fiesta de San Fermín, a celebração anual realizada de 7 a d14 de julho. Trinta mil visitantes enxameavam a cidade, procedentes do mundo inteiro. Alguns estavam ali apenas para observar o perigoso espetáculo da corrida de touros, outros queriam provar sua coragem, correndo na frente dos animais em disparada. Todos os quartos de hotel há muito que estavam ocupados, e universitários de Navarra dormiam em vãos de portas, saguões de bancos, automóveis, na praça central, e até mesmo nas ruas e calçadas da cidade.

Os turistas lotavam os cafés e hotéis, assistindo aos ruidosos e pitorescos desfiles de papiel-mâché e escutando a música das bandas que desfilavam. Os participantes dosdesfile usavam mantos violeta, com capuzes verdes, vermelhos ou dourados. Fluindo pelas ruas, as procissões pareciam rios de arco-íres. A explosão de fogos de artifício pelos fios dos bondes aumentavam o barulho e a confusão geral.

A multidão comparecia à tourada no final da tarde, mas o evento mais espetacular era o encierro – a corrida matutina dos touros que lutariam mais tarde naquele mesmo dia.

Dez minutos antes da meia-noite, na véspera, os touros eram levados dos corrales de gas, pelas ruas escuras da parte inferior da cidade, atravessando o rio por uma ponte, até o curral da base da Calle Santo Domingo, onde pemraneceriam durante o resto da noite. De manhã seriam soltos para correr pela estreita Calle Santo Domingo, fechada por barricadas de madeira em cada esquina, até alcançarem os currais na Plaza de Hemingway, onde ficariam até a tourada, à tarde.

Da meia-noite até as seis horas da manhã, os visitantes permaneciam acocorados, bebendo, cantando e fazendo amor, excitados demais para dormirem. Os que participariam da corrida de touros usavam o lenço vermelho de San Firmín em volta do pescoço.

Às quinze para as seis da manhã, as bandas cmeçavam a circular pelas ruas, tocando a música vibrante de Navarra. Às sete horas em ponto um rojão voava pelo ar, a fim de anunciar a abertura dos portões do curral. A multidão era dominada por uma expectativa febril. Momentos depois um segundo rojão era disparado, um aviso à cidad de que os touros já estavam correndo.

O que se seguia era um espetáculo inesquiecível. Primeiro vinha o som. Começava como um tênue e distante sussurro no vento, quase imperceptível, depois ficava cada vez mais alto, até se transformar numa explosão de cascos batendo, e subitamente seis bois e seis touros apareciam. Cada um pesando cerca de setecentos quilos, avançavam pela Calle Santo Domingo como expressos mortíferos. Por dentro das barricadas de madeira instaladas em cada esquina, para manter os touros confinados a uma única rua, havia centenas de jovens ansiosos e nervosos, decididos a provar sua bravura enfrentando os animais enfurecidos.

Os touros corriam da extremidade da rua, passavam pela Calle Laestrafeta, a Calle de Javier, passvam por farmácias e lojas de roupas, pelo mercado de frutas, a caminho da Plaza de Hemingway, e soavam gritos de olé da multidão frenética. Com a chegada dos animais, começava uma debandada desesperada para escapar dos chifres afiados e cascos letais. A repentina realidade de morte se aproximando faziam com que alguns participantes corressem para a segurança dos vãos de portas e saídas de incêndio. Eram acompanhados por escárnios de cobardon. Os poucos que tropeçavam e caíam no caminho dos touros eram logo puxado para um lugar seguro.

Um menino e o avô escondiam-se atrás de uma barricada, ofegantes com a emoção do espetáculo, que ocorria tão perto dali.

- Olhe só para eles! – exclamou o velho. – Magnífico!

O menino estremeceu.

- Tengo miedo, abuelo.

O velho passou o braço por seus ombros.

- Sí, Manuelo. É assustador, mas também maravilhoso. Já corri com os touros uma vez. Não há nada igual. Você testa a si mesmo contra a morte, e isso faz com que se sinta um homem.

Em geral, levava dois minutos para os animais galoparem pelos novecentos metros cda Calle Santo Domingo até a arena; no momento e que os touros entravam no curral, um terceiro rojão devia surgir no céu. Naquele dia o tercediro rojão não explodiu, posi ocorreu um incidente que nunca antes acontecera nos quatrocentos anos de história da corrida de touros de Pamplona.

Enquanto os animais avançavam pela rua estreita, meia dúzia de homens, vestidos nos trajes pitorescos da feria, mudaram a posição das barricadas. Os touros foram obrigados a deixar a rua exclusiva e ficaram à solta no coração da cidade. O que, um momento antes, fora uma comemoração feliz se transformou no mesmo instante num pesadelo. Os animais frenéticos atacaram os espectadores atordoados. O menino e o avô foram dos primeiros a ,morrer, derrubados e pisoteados pelos touros. Violentas chifradas atingiram um carrinho de bebê e maram a criança indefesa, derrubando a mãe para ser esmagada. A morte pairava no ar por toda parte. Os animais colidiam com espectadores desprotegidos, derrubando mulheres e crianças, enfiando os chifres compridos e fatais nas pessoas, barracas de comida e estátuas, arrastando tudo que tinha o azar de se encontrar pela frente. Todos gritavam desesperados, na tentativa de escapar dos animais enfurecidos.

Um furgão verlelho brilhante apareceu de repente, à frente dos touros que se viraram para atacá-lo, seguindo pela Calle de Estrellas, a rua que levava ao Cárcel, a prisão de Pamplona.

 

O cárcel é um prédio de pedra, de dois andares, janelas gradeadas, aparência assustadora. Há guaritas nos quatro cantos, e a bandeira espanhola, vermelha e amarela, tremula por cima da porta. Um pequeno portão se abre para o pátio do prédio. O segundo andar consiste de celas, em que estão os presos condenados à morte.

No interior da prisão, um corpulento guarda, com o uniforme da Polícia Armada, conduzia um sacerdote de hábito preto pelo corredor do segundo andar. O guarda carregava uma submetralhadora. Ao perceber a expressão inquisitiva nos olhos do sacerdote à visão da arma, o guarda explicou:

- O cuidado nunca é demais aqui, padre. Temos a escória da terra neste andar.

O guarda pediu ao padre que passasse por um detector de metais, muito parecido com os usados nos aeroportos.

- Desculpe, padre, mas os regulamentos...

- Não tem problema, meu filho.

No momento em que o padre passou, uma cirene estridente irrompeu no corredor. Subtamente, o guarda contraiu a mão que empunhava a submetralhadora.

O padre virou-se e sorriu para o guarda, murmurando:

- A culpa é minha. – Removeu uma pesada cruz de metal que pendia do pescoço numa corrente de prata e entregou-a ao guarda. Quando tornou a passar, o detector permaneceu em silêncio. O guarda devolveu a cruz e os dois continuaram a jornada pelas profundezas da prisão.

O mau cheiro no corredor, perto das celas, era opressivo. O guarda estava com o ânimo filosófico.

- Está perdendo seu tempo aqui, padre. Estes animais não têm almas para serem salvas.

- Ainda assim, meu filho, devemos tentar.

O guarda sacudiu a cabeça.

- Posso lhe garantir que os portões do inferno estão à espera para acolher os dois.

O padre olhou surpreso para o guarda.

- Dois? Fui informado que havia três que precisavam de confissão.

O guarda deu de ombros.

- Poupamos um pouco do seu tempo. Zamora morreu na enfermaria esta manhã. Infarto.

Eles alcançaram as celas mais distantes.

- Chegamos, padre.

O guarda destrancou a porta de uma cela, depois recuou cauteloso, enquanto o padre entrava. Tornou a trancar a porta e ficou parado no corredor, alerta a qualquer sinal de problema.

O padre aproximou-se do vulto estendido no imundo catre da prisão.

- Seu nome, meu filho.

- Ricardo Mellado.

O padre fitou-o atentamente. Era difícil dizer com o que o homem parecia. O rosto estava inchado e esfolado, os olhos quase fechados. Através de lábios grossos, o homem murmurou:

- Fico contente que tenha podido vir, padre.

- Sua salvação é o dever da igreja, meu filho.

- Eles vão me inforcar esta manhã.

O padre afagou-lhe o ombro, gentilmente.

- Foi condenado a morrer pelo garrote.

Ricardo Mellado levantou os olhos, atordoado.

- Não!

- lamento muito. As ordens foram dadas pelo primeiro-ministro pessoalmente. – O padre pôs a mão na cabeça do preso e entoou. – Dime tus pecados.

 - - Pequei muito em pensamento, palavra e ação, padre, e arrependo-me de todos os pecados

- Ruego a nostro padre celestial para La salvación de tu alma. Em El nombre Del Padre, Del Hio y Del Espiritu Santo...

O guarda, escutando do lado de fora da cela, pensou: uma perda de tempo estúpida. Deus cuspirá no olho deste.

O padre acabou.

- Adiós, meu filho. Que Deus receba sua alma em paz. – O padre encaminhou-se para a porta da cela. O guarda abriu-a, depois recuou, a arma apontada para o preso. Depois de trancar a porta, o guarda deslocou-se para a cela seguinte. Abriu a porta e disse:

- Ele é todo seu, padre.

O padre entrou na segunda cela. O homem também fora brutalmente espancado. O padre fitou-o em silêncio por um longo momento.

- Qual é o seu nome, meu filho?

- Felix Carpio. – Era um homem corpulento e barbudo, com uma cicatriz recente e lívida na face, que a barba não conseguia esconder. – Não tenho medo de orrer, padre.

- Isso é ótimo, meu filho. Ao final, nenhum de nós é poupado.

Enquanto o padre ouvia a confissão de Carpio, ondas de som distante, a princípio abafadas, depois se tornando mais altas, começaram a reverberar pelo prédio. Era a trovoada de cascos e os gritos da multidão em fuga. O guarda prestou atenção ao barulho, sobressaltado. Os sons aproximavam-se depressa.

- É melhor se apressar, padre. Alguma coisa estranha está acontecendo lá fora.

- Já acabei.

O guarda abriu a porta da cela, o padre saiu para o corredor. A porta foi trancada de novo. Havia um estrépito rumoroso na frente da prisão. O guarda virou-se para espiar pela janela estreita e gradeada.

- Que barulho será esse?

O padre disse:

Parece que alguém deseja uma audiência conosco. Pode me emprestar isso?

Emprestar o quê?

- Sua arma, por favor.

Enquanto falava, o padre aproximou-se do guarda. Em silêncio, removeu o topo da cruz que pendia do escoço, revelando um estilete comprido. Num movimento rápido, mergulhou o estilete no peito do guarda.

- Saiba, meu filho – murmurou quando tirava a submetralhadora das mãos do guarda agonizante -, que Deus e eu decidimos que você não precisa mais dest arma. – fazendo devotamente o sinal-da-cruz, Jaime Miró acrescentou: - In nomine Patris...

O guarda caiu no chão de cimento. Jaime Miró tirou-lhe as chaves e abriu rapidamente as portas das duas celas. Os sons na rua tornavams-se mais intensos.

Ricardo Mellado pegou a submetralhadora.

- Você dá um padre e tanto. Quase me convenceu. – Ele tentou sorrir, com a boca inchada.

Eles pegaram vocês de jeito, não é mesmo? Mas não se preocupe. Todos pagarão por isso. O que aconteceu com Zamora? – Jaime Miró passou os braços pelos dois homens e ajudou-os a avançarem pelo corredor.

- os guardas espancaram-no até a morte. Pudemos ouvir os seus gritos. Levaram-no depois para a enfermaria e disseram que ele morreu de infarto.

Havia uma porta de ferro trancada à frente.

- Esperem aqui – disse Jaime Miró.

Aproximou-se da porta e informou ao guarda do outro lado.

- Já acabei aqui.

O guarda abriu a porta.

- É melhor se apressar, padre. Há um distúrbio ocorrendo lá fora... – Não concluiu a frase.

Enquanto o estilete penetrava no corpo, o sangue esguichou pela boca do guarda. Jaime fez sinal para os dois homens.

- Vamos.

Felix Carpio pegou a arma do guarda e começaram a descer. A cena lá fora era um caos. A polícia corria de um lado para outro, freneticamente, na tentativa de descobrir o que acontecia e controlar as pessoas que, aos berros, no pátio, debatiam-se para fugir dos touros enfurecidos. Um dos touros investira contra a entrada do prédio, esganando a entrada de pedra. Outro dilacerava o corpo de um guarda uniformizado no chão.

O furgão vermelho encontrava-se no pátio, o motor ligado. Na confusão, os três homens passaram quase despercebidos e aqueles que os viram escapar estavam ocupados demais em salvar aspróprias vidas para tomarem alguma providência. Em silêncio, Jaime e seus companheiros embarcaram na traseira do furgão, que logo partiu acelerado, dispersando os pedestres desesperados pelas ruas apinhadas.

A Guardia Civil, a Polícia rural Paramilitar, em uniforme verde e quase preto de couro enverninzado, tentava em vão controlar a multidão histérica. A Polícia Armada, guarnecendo as capitais provinciais, também era impotente diante da confusão generalizada. As pessoa sprocuravam fugir em todas as direções, na tentativa desesperada de escapar dos touros enfurecidos. Os touros representavam menos perigo que as próprias pessoas, que se pisoteavam na ânsia de velhos e mulheres sendo derrubados sob os pés da multidão desabalada. Jaime olhou consternado para o espetáculo atordoante.

- Não foi planejado para acontecer assim! O furgão deveria estar à espera nas barricadas para controlar os touros! – Olhava desolado para a carnificina, mas não podia fazer coisa alguma para detê-la. Fechou os olhos para não ver.

 

O furgão chegou aos arredores de Pamplona e seguiu para o sul, deixando para trás o clammor e a confusão da multidão em pânico.

Para onde estamos indo, Jaime? – perguntou Ricardo Mellado.

- Há uma casa segura perto de Torre. Ficaremos lá até escurecer e depois seguiremos em frente.

Felix carpio estremecia de dor.

Jaime Miró observou-o, com uma expressão compadecida.

- Chegaremos num instante, amigo – murmurou gentilmente.

 Ele não conseguia tirar da cabeça a vena  terrível de Pamplona.

 

Meia hora depois, eles se aproximavam da pequena aldeia de Torre e contornaram-na, seguindo para uma casa isolada nas montanhas. Jaime ajudou os dois homens a saltarem da raseira do furgão.

Vocês serão apanhados à meia-noite – informou o motorista.

- Avise a eles para trazerem um médico – disse Jaime. – E livre-se desse furtão.

Os três entraram na casa. Era uma casa de fazenda, simples e confortável, com uma lareira na sala de estar e vigas no teto. Havia um bilhete na mesa. Jaime Miró leu-o e sorriu para a frase de recepção: Mi casa es su casa. Encontrou garrafas de vinho no bar e serviu bebida para os três.

- Não há palavras para lhe agradecer, amigo. A você – brindou Ricardo Mellado.

Jaime levantou o copo.

- à liberdade.

Um canário cantou de repente numa gaiola. Jaime foi até lá e observou sua agitação por um momento. Depois abriu a gaiola, tirou o passarinho gentilmente e levou-o para uma janela aberta.

- Voe para longe, pajarito – murmurou. – todas as criaturas devem ser livres.

 

                   Madri

O primeiro-ministro Leopoldo Martínez estava possesso. Era um homem pequeno, de óculos, todo o corpo tremia enquanto falava.

- Jaime Miró deve ser detido! – gritou, a voz alta e estreidente. – Estão me entendendo? – Olhou furioso para a meia dúzia de homens reunidos na sala. – Estamos à procura de um único terrorista, e todo o exército e a polícia são incapazes de encontrá-lo.

A reunião estava ocorrendo no Palácio Monclo, residência e local de trabalho do primeiro-ministro, a cinco quilômetros do centro de Madri, na Carretera de Galícia, uma estrada sem placas de identificação. O prédio era de alvenaria, verde, com sacadas de ferro batido, jenalas verdes e guaritas em cada canto.

Era um dia quente e seco, e através das janelas, até onde a vista podia alcançar, colunas de ondas de calor elevavam-se como batalhões de soldados fantasmas.

- Ontem Miró converteu Pamplona num campo de batalha. – Martínez bateu como punho na mesa. – Assassinou dois guardas e tirou dois dos seus assassinos da prisão. Muitos inocentes foram mortos pelos touros que ele soltou nas ruas.

Por um momento ninguém disse nada. Ao assumir o cargo, o primeiro-ministro declarara, presunçoso:

- Meu primeiro ato será acabar com esses grupos separatistas. Madri é a grande unificadora. Transforma andaluzes, bascos, catalães e galegos em espanhóis.

Fora excessivamente otimistas. Os bascos, fervorosos em sua independência, tinham outras idéias, e a onda de atentados a bomba, assaltos a bancos e manifestações de terroristas da organização ETA (Euzkadi Ta Azkatazuna) continuara sem cessar.

O homem à direita de Martínez na reunião disse calmamente:

- Eu o encontrarei.

Era o coronel Ramón Acoca, o chefe do GOE, Grupo de Operaciones Especiales, criado para perseguir os terroristas bascos. Acoca era um gigante de sessenta e poucos anos, rosto marcado por cicatriz, olhos frios e implacáveis. Fora um jovem oficial sob o comando de Francisco Franco durante a guerra civil e ainda fanaticamente devotado À filosofia de Franco: “Somso responsáveis apenas perante Deus e a História.,”

Acoca era um oficial brilhante e fora um dos assessores em que Franco mais confiara. O coronel sentia saudade da disciplina de punho de ferro, a punição rápida daqueles que questionavam ou desobedeciam à lei. Passarta pelo turbilhão da guerra civil, com sua aliança nacionalista de monarquistas, generais rebeldes, latifundiários, a alta hierarquia da Igreja e os falangistas fascistas de um lado, e as forças do governo republicano, incluindo socialistas, comunistas, liberais e separatistas bascos e catalães no outro. Fora um terrível período de destruição e morte, uma loucura que atraíra homens e material bélico de uma dúzia de países, deixando um saldo de mortos assustador. E agora os bascos voltavam a lutar e matar.

O coronel Acoca comandava um grupo eficiente e implacável de antiterroristas. Seus homens trabalhavam em operações clandestinas, usavam disfarces e não eram divulgados ou fotografados, por medo da retaliação.

Se alguém pode deter Jaime Miró, é o coronel Acoca, pensou o primeiro-ministro. Mas havia um problema: quem vai deter o coronel Acoca?

A entrega do comando ao coronel não fora ideia do primeiro-ministro. Ele recebera um telefonema no meio da noite em sua linha particular. Reconhecera a voz no mesmo instante.

- Estamos muito preocupados com as atividades de Jaime Miró e seus terroristas. Sugerimos que ponha o coronel Ramón Acoca no comando do GOE. Entendido?

- Entendido, senhor. Será imediatamente providenciado.

A voz pertencia a um membro do OPUS MUNDO. A organização era uma cabala secreta que incluía banqueiros, advogados, dirigente de poderosas corporações e ministros do governo. Corria rumores de que tinha enormes recursos À sua disposição, mas era um mistério de onde procedia o dinheiro ou como era usado e manipulado. Não era considerado saudável fazer muitas perguntas a respeito.

O primeiro-ministro pusera o coronel Acoca no comando, de acordo com as instruções, mas o gigante mostrara-se um fanático incontrolável. Seu GOE criara um reinado de terror. O primeiro-ministro pensou nos terroristas bascos que os homens de Acoca haviam capturado perto de Pamplona. Foram julogados e condenados à morte. O coronel Acoca insistira para que fossem executados pelo bárbaro garrote vil, a gargantilha de ferro com um espigão que era apertada aos poucos, até que partia a vértebra e cortava a medula espinhal das vítimas.

Jaime Miró tornara-se uma obsessão para o coronel Acoca.

- Quero sua cabeça – disse o coronel Acoca. – Cortemos sua cabeça, o movimento basco morre.

Um exagero, refletiu o primeiro-ministro, embora devesse admitir que havia um fundo de verdade. Jaime Miró era um líder carismático, fanático em relação à sua causa, e por isso perigoso.

Mas À sua maneira, concluiu o primeiro-ministro, o coronel Acoca é igualmente perigoso.

Primo Casado, o Diretor-Geral de Segurança Pública, estava falando:

   - Excelência, ninguém podia prever o que aconteceu em Pamplona. Jaime Miró é...

Sei o que ele é – interrompeu o primeiro-ministro, bruscamente. Quero saber onde ele – virou-se para o coronel Acoca.

está. – Estou em sua lista – disse o coronel Acoca, a voz provocando um calafrio pela sala. – Gostaria de lembrar a Vossa Excelência que não estamos lutando contra um homem apenas. Mas sim, contra todo o povo basco. Eles fornecem alimentos, armas e abrigo a Jaime Miró e a seus terroristas. O homem é um herói para eles. Mas não se preocupe. Muito em breve ele será um herói enforcado. Depois que eu lhe oferecer um julgamento justo, é claro.

Não nós, eu. O primeiro-ministro especulou se os outros haviam notado. Sem dúvida, ele pensou nervosamente, alguma coisa precisará ser feita em relação ao coronel muito em breve.

O primeiro-mninistro levantou-se.

- Isso é tudo por enquanto, senhores.

Todos levantaram-se para sair. À exceção do coronel Acoca, que ficou. Leopoldo Martínez começou a andar de um lado para o outro.

- Malditos bascos. Por que não podem ficar satisfeitos em ser apenas espanhóis? O que mais querem?

- São ávidos por poder – disse Acoca. – Querem autonomia, sua própria língua e poder...

- Não enquanto eu ocupar este cargo. Não permitirei que destruam a Espanha. O governo lhes dirá o que podem e o que não podem fazer. Não passam de uma ralé que...

Um assessor entrou na sala.

- Com licença, Excelência. O bispo Ibáñez chegou.

- Mande-o entrar.

   Os olhos do coronel contraíram-se.

- Pode estr certo de que a Igreja encontra-se por trás de tudo isso. É tempo de lhes ensinarmos uma lição.

A Igreja é uma das grandes ironias de nossa história, pensou o coronel Acoca, amargurado.

   No campo da Guerra Civil, a Igreja Católica ficara do lado das forças nacionalistas. O Papa apoiara o generalíssimo Franco, e com isso lhe permitira proclamar que lutava do lado de Deus. Mas quando as igrejas, mosteiros e padres bascos foram atacados, a Igreja retirara seu apoio.

- Deve conceder mais liberdade aos bascos e catal~es – exigira a Igreja. E deve suspender as execuções de padres bascos.

O generalíssimo Franco ficara furioso. Como a Igreja ousava fazer exigências ao governo?

Iniciara-se então uma guerra de atritos. Mais igrejas e mosteiros foram atacados pelas forças de Franco. Freiras e padres foram assassinados. Bispos foram postos sob prisão domiciliar, e sacerdotes por toda a Espanha foram multados por fazerem sermões considerados sediciosos pelo governo. Só quando a Igreja o ameaçou de excomunhão, é que Franco interrompeu os ataques.

A maldita Igreja!, pensou Acoca. Voltara a interferir após a morte de Franco. Ele virou-se para o primeiro-ministro.

- É tempo do bispo ser informado sobre quem manda na Espanha.

O bispo Calvo Ibáñez era magro, aparência frágil, uma nuvem de cabelos brancos turbilhando em torno da cabeça. Olhou os dois homens através do pince-nez.

O coronel Acoca sentiu a bílis subir pela garganta. A mera visão de clérigos deixava-o doente. Eram traidores levando seus estúpidos cordeiros para o matadouro.

O bispo ficou parado, à espera de um convite para se sentar. O que não aconteceu. E também não foi apresentado ao coronel. Era uma desfeita deliberada.

O primeiro-ministro olhou para Acoca, em busca de orientação. O coronel disse, bruscamente:

- Recebemos algumas informações desagradáveis. Dizem que rebeldes bascos estão realizando reuniões em mosteiros católicos. Também há informações de que a igreja está permitindo que mosteiros e conventos guardem armas para os rebeldes. – Havia ódio em sua voz. – Ao ajudarem os inimigos da Espanha, vocês também se tornam inimigos da Espanha.

O bispo Ibáñez fitou-o por um momento, depois virou-se para o primeiro-ministro Martínez.

- Com todo respeito, Excelência, somos todos filhos da Espanha. Os bascos não são seus inimigos. Tudo o que pedem é liberdade para...

- Eles não pedem! – bradou Acoca. – Exigem! Circulam pelo país saqueando, assaltando bancos e matando policiais... e ainda ou^as dizer que não são nossos inimigos?

- Reconheço que houve excessos indesculpáveis. Mas às vezes, quando se luta por aquilo que se acredita...

- Eles não acreditam em coisa alguma, a não ser em si mesmos. Não se importam com a Espanha. É como disse um dos nossos grandes escritores> “Ninguém na Espanha se preocupa com o bem comum. Cada grupo se interessa apenas por si mesmo. A Igreja, os bascos, os catalães. Cada um diz que se fodam os outros.”

O bispo sabia que o coronel citara errado Ortega Y Gasset. A citação inteira incluía o exército e o governo; mas, sabiamente, não disse nada. Tornou a se virar para o primeiro-ministro, À espera de uma discussão mais racional.

- Excelência, a Igreja católica...

O primeiro-ministro achou que Acoca já fora longe demais...

- Não nos interprete mal, bispo. Em princípio, é claro, este governo está dando toatl apoio À Igreja Católica.

O coronel Acoca interveio outra vez:

- Mas não podemos permitir que seus mosteiros, conventos e igrejas sejam usados contra nós. Se continuar a permitir que os bascos guardem armas e realizem reuniões neles, terão de arcar com as conseqüências.

- Tenho certeza de que a sinformaçõs de que recebeu estão equivocadas – declarou o bispo, suavemente. – Mas pode estar certo de que ordenarei uma investigação imediata.

- Obrigado, bispo. Isso é tudo que pedimos.

Martínez e Acoca ficaram observando o bispo se retirar. Depois, o primeiro-ministro perguntou:

- O que acha?

- Ele sabe o que está acontecendo.

O primeiro-ministro suspirou. Já tenho problemas suficientes nesse momento sem criar uma crise com a igreja.

- Se a igreja é a favor dos bascos, então está contra nós. – A voz do coronel Acoca era mais enérgica agora. – Eu gostaria que me concedesse permissão para dar uma lição ao bispo.

O primeiro-ministro foi contido pela expressão de fanatismo nos olhos do coronel. Tornou-se cauteloso.

- Tem mesmo informações de que a Igreja está ajudando os rebeldes?

- Claro, excelência.

Não havia como determinar se o homem dizia mesmo a verdade. O primeiro-ministro sabia o quanto Acoca odiava a Igreja. Mas também fosse bom que a Igreja sentisse o gosto do açoite, desde que o coronel Acoca não fosse longe demais. O primeiro-ministro Martínez ficou imóvel por um instante, pensativo.

Foi Acoca quem rompeu o silêncio.

- Se as igrejas estão abrigando terroristas, então elas devem ser punidas.

Relutante, o primeiro-ministro anuiu com a cabeça.

- Por onde vai começar?

- Jaime Miró e seus homens foram vistos em Ávila ontem. Provavelmente estão escondidos no convento local.

O primeiro-ministro se decidiu:

- Reviste-o.

Essa decisão desencadeou uma série de acontecimentos que sacudiu toda a Espanha Espanha e abalou o mundo.

 

                   Ávila

O silêncio era como uma nevasca amena, suave e aconchegante, tão tranquilizante quanto o sussurro de um vento de verão. O convento Cisterciente da Estrita Observância ficava nos arredores da cidade murada de Ávila, a mais alta da Espanha, 112 quilômetros a noroeste de Madri. O convento fora construído para o silêncio. As regras haviam sido adotadas em 1601, e permaneciam inalteradas ao longo dos séculos: liturgia, exercício espiritual, reclusão rigorosa, penitÊncia e silêncio. Sempre o silêncio.

O convento era um conjunto simples de prédios de pedra, em torno de um claustro, dominado pela igreja. Ao redor do pátio central as arcadas abertas permitiam que a claridade se espalhasse pelos largos blocos de pedra do chão, onde as freiras deslizavam sem fazer barulho. Havia quarenta freiras no convento, rezando na igreja e vivendo no claustro. O convento de Ávila era um dos sete que restavam na Espanha, um sobrevivente das centenas que haviam sido destruídos na Guerra Civil, num dos periódicos movimentos anti-igreja que dominaram o país ao longo dos séculos.

O Convento Cisterciense de Terceira Observância era devotado exclusivamente a uma vida de orações. Era um lugar sem estações ou tempo, e aquelas que ali ingressavam se tornavam para sempre isoladas do mundo exterior. A vida cisterciense era contemplativa e penitencial; o ofício divino era recitado todos os dias e a clausura era completa e permanente.

Todas as irmãs se vestiam de forma idêntica, e seus trajes, como tudo o mais no convento,, eram caracterizados pelo simbolismo de séculos. O capuche, o manto e capuz, simbolizavam inocência e simplicidade, a túnica de linho representava a renúncia às coisas do mundo e mortificação; o escapulário, pequenos quadrados de lã usados sobre os ombros, indicava a disposição para o trabalho árduo. Uma touca, uma cobertura de linho disposta em dobras por cima da cabeça, e em volta do queixo, lados do rosto e pescoço, completava o uniforme.

 

Dentro dos muros do convento havia um sistema de escadas e passagens internas ligando o refeitório, sala comunitária, celas e capela, predominando por toda parte um ambiente de amplitude fria e limpa. Janelas de treliça com um vidro grosso davam para o jardim murado. Cada janela era guarnecida com barras de ferro e ficava acima da linha da visão, a fim de que não houvesse distrações externas. O refeitório era amplo e austero, as janelas tinham persianas e cortinas. As velas nos castiçais antigos projetavam sombras evocativas nos tetos e paredes.

 

Em quatrocentos anos dentro dos muros convento, nada mudara, exceto os rostos. As irmãs não tinham pertences pessoais, pois desejavam ser pobres, emulando a pobreza de Cristo. A própria igreja era desprovida de ornamentos, salvo por uma cruz dew ouro maciço, de valor inestimável, antigo presente de uma rica postulante. Por estar tão em desacordo com a austeridade da ordem, era mantida num armário do refeitório. Uma cruz de madeira simples pendia no altar da igreja.

As mulheres que partilhavam suas vidas com o Senhor viviam juntas, trabalhavam juntas, comiam juntas e rezavam juntas, mas nunca se tocavam e se falavam. As únicas exceções permitidas eram quando ouviam a missa ou quando a reverenda madre superiora Betina lhes falava na privacidade de sua sala. Mesmo então, uma antiga linguagem de sinais era usada ao máximo possível.

A reverenda madre era uma religiosa com cerca de setenta anos, expressão inteligente, jovial e dinâmica, glorificad na paz e alegria da vida do convento, uma vida consagrada a Deus. Protetora irredutível de suas freiras, sentia muita angústia quando era necessário impor a disciplina, mais do que aquela que estava sendo punida.

As freiras circulavam pelos claustros e corredores de olhos abaixados, mãos cruzadas dentro das mangas, na altura do peito, passando e repassando por suas irmãs sem qualquer palavra ou sinal de reconhecimento. A única voz do convento era a dos sinos – os sinos que Victor Hugo chamou de “A Ópera dos Campanários”.

As irmãs vinham de muitos díspares e de muitos países diferentes. Pertenciam a famílias de aristocratas, camponeses, soldados... Chegaram ao convento como ricas e pobres, instruídas e ignorantes, miseráveis e exaltadas, mas alie RAM todas iguais aos olhos de Deus, unidas em seu desejo de casamento entorno de Jesus.

As condições de vida no convento eram espartanas. No inverno o firo era cortante, e uma luz pálida filtrava-se pelas janelas gradeadas. As freiras dormiam plenamente vestidas em enxergas de palha, cobertas por mantas ásperas de lã, cada uma em sua pequena cela, mofiliada apenas com uma cadeira de pau, de encosto reto. Não havia lavatório. Um pequeno jarro de barro e uma bacia ficavam no chão, no canto da cela. Nenhuma freia tinha permissão para entrar na cela da outra, a exceção da reverenda madre Betina. Não havia nenyhum tipo de recreação, apenas trabalho e orações. Havia áreas de trabalho para tricotar, encadernar livros, fiar e fazer pão. Havia oito horas de oração diárias: matinas, laudes, primas, terças, sextas, nonas, vésperas e completas. Havia ainda outras devoções: bênçãos, hinos e litanias.

Matinas eram as orações que se fazia quando metade do mundo estava dormindo e a outra metade absolvida no pecado.

Laudes, o ofício do amanhecer, seguia-se às matinas, o nascer do sol clamado como a figura de Cristo, triunfante e glorificado.

Terças aconteciam às nove horas da manhã, consagrada por Santo Agostinho ao Espírito Santo.

Sextas eram às onze e meia, para extinguir o calor das paixões humanas.

Nonas eram recitadas em silêncio às três horas da tarde, a hora da morte de Cristo.

Vésperas era o serviço vespertino da igreja, como laudes fora a oração do amanhecer.

Completas eram as últimas horas canônicas dos ofícios divinos. Uma forma de orações noturnas, um preparativo para a morte e também para o sono, encerrando o dia com uma declaração de submissão amorosa: “Manus tuas, Domine, commendo spiritum meum. Redemisti nos, domine, deus, veritatis.”

Em algumas ordens a flagelação fora abolida, mas sobrevivia nos conventos e mosteiros Cistercienses de clausura. Pelo menos uma vez por semana, e às vezes todos os dias, as freiras puniam seus corpos com a disciplina, um açoite de trinta centímetros de comprimento, de corda fina, encerado, com seis pontas nodosas que provocavam uma dor angustiante; era usado para espancar as costas, pernas e nádegas. Bernard de Vlairvaux, o ascético abade dos Cisterciences, advertira: “O corpo de Cristo está aniquilado... nossos corpos devem se acostumar com a semelhança do corpo de nosso senhor.”

Era uma vida mais austera do que em qualquer prisão, mas as irmãs viviam em êxtase, como jamais ocorrera no mundo exterior. Haviam renunciado ao amor físico, bens pessoais e liberdade de opção, mas ao abrir mão dessas coisas também renunciaram À ganância e competição,, ódio e inveja, a todas as pressões e tentações que o mundo interior impunha. No interior do convento reinava uma paz absolua e o inefável sentimento de alegria pela união com Deus. Havia uma serenidade indescritível dentro dos muros e nos corações das mulheres que ali viviam. Se o convento era uma prisão, tratava-se de uma prisão no Éden de Deus, com o conhecimento de uma eternidade feliz para as que escolheram livremente ingressar e permanecer ali.

 

A irmã Lucia foi despertada pelo repicar do sino do convento. Abriu os olhos, surpresa e desorientada por um momento. A pequena cela em que dormia estava escura, uma escuridão desoladora. O tom do sino avisava-lhe que eram três horas da madrugada, quando o oício das vigílias começava, enquanto o mundo ainda continuava mergulhado nas trevas.

Droga! Esta rotina ainda vai me matar, pensou irmã Lucia.

Recostou-se no catre, pequeno e desconfortável, desesperada por um cigarro. Relutante, saiu da cama. O pesado hábito que usava até para dormir roçava contra sua pele sensível como lixa. Pensou em todas as lindas roupas de estilista penduradas em seu apartamento em Roma e no chalé em Gstaad.

Irmã Lucia podia ouvir o movimento suave e farfalhante das freiras, reunindo-se no corredor. Negligente, ela arrumou a cama e também saiu para o extenso corredor onde freiras entravam em fila, olhos abaixados. Lentamente, todas começaram a se encaminhar para a capela.

Parecem um bando de pinguins idiotas, pensou irmã Lucia. Não conseguia entender por que aquelas mulheres haviam renunciado deliberadamente às suas vidas, desistindo de sexo, belas roupas e boa comida. Sem essas coisas, que motivo existe para continuar a viver? E as malditas regras!

Quando irmã Lucia entrara no convento, a reverenda madre Betina avisara-lhe:

- Deve andar com a cabeça baixa. Mantenha as mãos cruzadas por dentro do hábito. Dê passos curtos. Ande devagar. Nunca deve fazer contato visual com qualquer das outras irmãs ou olhar para elas. Não pode falar. Seus ouvidos são apenas para escutar as palavras de Deus.

- Está bem, reverenda madre.

Durante o mês seguinte, Lucia recebera as instruções.

- As que vieram para cá não tinham a intenção de se juntarem às outras, mas sim habitar a sós com deus. A solidão do espírito é essencial para uma união com Deus. É salvaguardada pelas regras do silêncio.

- Está bem, reverenda madre.

Deve sempre obedecer ao silêncio dos olhos. Fitar as outras nos olhos a distrairia com imagens inúteis.

- Está bem, reverenda madre.

- A primeira lição que aprenderá aqui será retificar o passado, expurgar os velhos hábitos e inclinações seculares, apagar todas as imagens do passado. Fará penitência de purificação e mortificação para se despojar da vontade e amor próprios. Não basta se arrepender das ofensas passadas. Quando se descobre a beleza infinita e a santidade de Deus, quer se compensar não apenas por seus pecados, mas também por todos os pecados que já foram cometidos.

Está bem, santa madre.

- Deve lutar contra a sensualidade, o que João da Cruz chamou de “a noite dos sentidos”.

Está bem, santa madre.

- Cada freira vive em silêncio e solidão, como se já estivesse no céu. Nesse silêncio puro e precioso, pelo qual tanto anseia, ela é capaz de escutar o silêncio infitino e possuir Deus.

Ao final do primeiro mês, Lucia recebera os votos iniciais. Tivera de cortar os cabelos no dia da cerimônia. Fora uma experiência traumática. A reverenda madre cuidara disso pessoalmente. Convocara Lucia à sua sala e fizera um sinal para que se sentasse. Postara-se às costas e, antes que Lucia percebesse o que estava acontecendo, ouvira o barulho da tesoura e sentira alguma coisa puxando-lhe os cabelos. Começara a protestar, mas compreendera subitamente que aquilo só poderia melhorar o seu disfarce. Poderei deixá-lo crescer de novo mais tarde, pensara. Enquanto isso, ficarei parecendo uma galinha depenada.

Ao voltar para o cubículo lúgubre que lhe fora designado, Lucia pensara: Este lugar é um ninho de serpentes. O chão consistia de tábuas soltas. A enxerga e a cadeira de encosto reto ocupavam a maior parte do espaço. Sentira-se ansiosa por ler um jornal. Não há a menor possibilidade, refletira. Naquele lugar nunca tomavam conhecimento dos jornais, muito menos escutavam rádio ou viam televisão. Não havia qualquer ligação com o mundo exterior.

Contudo, o que mais afetara os nervos de Lucia era o silêncio desolador. A única comunicação era feita através de sinais com as mãos, e aprendê-los a levara à loucura. Quando precisava de uma vassoura, devia deslocar a mão direita estendida da direita para a esquerda, como se tivesse varrendo. Quando a reverenda madre estava inssatisfeita, unia os dedos mínimos três vezes, na frente do corpo, os outros dedos comprimidos contra as palmas. Quando Lucia se mosrava lenta na execução do seu trabalho, a reverenda madre comprimia a palma da mão direita contra o ombro esquerdo. Para censurar Lucia, ela coçava a própria face, perto do ouvido direito, com todos os dedos da mã direita, num movimento para baixo.

Pelo amor de Deus, pensou Lucia, parece que ela está coçando uma morddida de pulga!

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Elas chegaram à capela. As freiras rezaram silenciosamente; contudo, os pensamentos de irmã Lucia se concentravam em coisas mais importantes do que Deus.

Mais um ou dois meses, quando a polícia parar de me procurar, sairei deste hospício.

Depois das orações matutinas, irmã Lucia marchou com as outras para o refeitório, violando furtivamente os regulamentos, como fazia todos os dias, ao estudar os rostos das companheiras. A sua única diversão. Ela achava incrível pensar que nenhumas das irmãs sabia como as outras pareciam.

Sentia-se fascinada pelos rostos das freiras. Algumas eram jovens, algumas velhas, outras bonitas, e feias. Não podia compreender por que todas pareciam tão felizes. Havia três rostos que Lucia achava particularmente interessantes. Um era o da irmã Teresa, que parecia ter cerca de sessenta anos. Estava longe de ser bonita, mas possuía uma espiritualidade que lhe proporcionava um encanto quase sublime. Parecia estar sempre sorrindo interiormente, como se estivesse por dentro de algum segredo maravilhoso.

Outra freira que Lucia considerava fascinante era a irmã Graciela, uma mulher de beleza extraordinária, com trinta e poucos anos. Tinha a pele azeitonada, feições refinadas, olhos que pareciam poços negros luminosos.

Ela poderia ter sido uma estrela de cinema", pensou Lucia. Qual é a sua história? Por que se enterraria num lugar como este?"

A terceira freira que lhe atraía o interesse era a irmã Megan. Olhos azuis, sobrancelhas e pestanas louras. Tinha vinte e poucos anos, rosto viçoso e franco.

"O que ela está fazendo aqui? O que todas essas mulheres estão fazendo aqui? Ficam trancafiadas por trás desses muros, dormindo numa cela mínima, uma comida horrível, oito horas de orações, trabalho árduo e muito pouco sono. Devem ser loucas... todas elas."

Estava em situação melhor do que as outras, porque teriam de ficar ali pelo resto de suas vidas, enquanto ela sairia dentro de um ou dois meses. Talvez três", pensou. Este é um esconderijo perfeito. Eu seria uma tola se fosse embora de forma precipitada. Dentro de poucos meses a polícia vai pensar que morri. Quando sair daqui e pegar meu dinheiro na Suíça, talvez escreva um livro a respeito desse hospício.

 

Poucos dias antes, a reverenda madre pedira à irmã Lucia que fosse ao escritório para buscar um papel; enquanto estava ali, ela aproveitara para começar a revistar os arquivos. Infelizmente, fora surpreendida no ato de bisbilhotar.

- Fará penitência com a Disciplina - decidira a reverenda madre Betina.

Irmã Lucia baixara a cabeça humildemente e sinalizava:

- Sim, reverenda madre.

Lucia votara à sua cela, e minutos depois as freiras passando pelo corredor puderam ouvir o som terrível do açoite assoviando pelo ar e caindo várias vezes. O que não podia saber era que a irmã Lucia estava açoitando a cama. Essas malucas podem ser sadomasoquistas, mas eu não vou entrar nessa." Elas estavam sentadas no refeitório, quarenta freiras, em duas mesas compridas. A dieta Cisterciense era rigorosa vegetariana. Como o corpo ansiava por carne, o seu consumo era proibido. Muito antes do amanhecer, era servido uma xícara de chá ou café e um pedaço de pão seco. A refeição principal era feita às onze horas da manhã e consistia de uma sopa rala, uns poucos legumes, e de vez em quando um pedaço de fruta.

A reverenda madre tinha instruído Lucia:

- Não estamos aqui para agradar a nossos corpos, mas sim para agradar a Deus.

Eu não serviria este desjejum a meu gato", pensou irmã Lucia. "Estou aqui há dois meses, e aposto que já perdi uns quatro ou cinco quilos. É a versão divina de uma dieta rigorosa."

Quando o desjejum terminou, duas freiras levaram bacias de lavar louça para as extremidades das mesas. As irmãs em cada mesa levaram seus pratos para a irmã com a bacia, que lavou cada um, enxugou com uma toalha e devolveu à outra irmã. A água foi ficando cada vez mais escura e gordurosa.

E elas vão viver assim pelo resto de suas vidas", pensou irmã Lucia, repugnada. Mas não posso me queixar. Ainda é melhor do que uma sentença de prisão perpétua..." Ela seria capaz de trocar sua alma imortal por um cigarro.

 

A meio quilômetro dali, pela estrada, o coronel Ramón Acoca e duas dúzias de homens cuidadosamente escolhidos do "GOE", o Grupo de Operaciones Especiales", preparava-se para atacar o convento.

 

O coronel Ramón Acoca possuía os instintos de um caçador. Adorava a perseguição, mas era o ato de matar que lhe proporcionava uma satisfação visceral. Confidenciara certa vez a um amigo: "Tenho um orgasmo quando mato. Não faz diferença se é um cervo, um coelho ou um homem... Há alguma coisa em tirar a vida que faz com que uma pessoa se sinta como Deus."

   Acoca trabalhava no serviço de informações militares e alcançara uma reputação de ser brilhante rapidamente. Era destemido, implacável e inteligente, uma combinação que atraíra a atenção de um dos auxiliares diretos do general Franco.

Ingressara no estado-maior de Franco como tenente, e em menos de três anos alcançara o posto de coronel, uma façanha sem precedentes. Recebera o comando dos falangistas, o grupo especial usado para aterrorizar os opositores a Franco.

Fora durante a guerra que Acoca recebera a visita de um emissário do "OPUS MUNDO"

- Quero que compreenda que estamos lhe falando com permissão do general Franco.

- Claro, Senhor.

- Estamos observando-o há algum tempo, coronel. E estamos satisfeitos com o que vemos.

- Obrigado, Senhor.

- De vez em quando, temos certas missões que são digamos assim... confidenciais. E muito perigosas.

- Eu compreendo, senhor.

- Temos muitos inimigos. Pessoas que não compreendem a importância do trabalho que realizamos.

- Posso imaginar, senhor.

- Às vezes elas interferem em nossos planos. Não podemos permitir que isso aconteça.

- Claro que não, senhor.

- Creio que poderíamos usar um homem como você, coronel. Acho que nos compreendemos.

- Claro, senhor. Eu me sentiria honrado em prestar qualquer serviço.

- Gostaríamos que permanecesse no exército. Isso será valioso para nós. Mas de vez em quando vamos designá-lo para atuar em nossos projetos especiais.

- Obrigado, senhor.

- Nunca deve falar sobre isso com ninguém.

- Nunca, senhor.

O homem deixar Acoca nervoso. Havia alguma coisa nele que era extremamente assustadora.

 

   Com o tempo, o coronel Acoca fora convocado a realizar algumas missões para o OPUS MUNDO. Como fora avisado, todas eram perigosas. E absolutamente confidenciais.

Numa dessas missões, Acoca conhecera uma linda moça, de excelente família. Até aquele momento, todas as suas mulheres tinham sido prostitutas ou vivandeiras. Acoca sempre as tratava com um desdém brutal. Algumas chegaram a se apaixonar por ele, atraídas por sua força. Essas recebiam o pior tratamento.

Mas Susana Cerredilla pertencia a um mundo diferente. O pai era professor na Universidade de Madri, e a mãe, uma advogada. Susana tinha 17 anos, corpo de uma mulher e o rosto angelical de uma Madona. Ramón Acoca jamais conhecera ninguém como aquela criança-moça. Sua gentil vulnerabilidade despertara-lhe uma ternura que jamais imaginara poder sentir. Apaixonou-se loucamente por ela, e o sentimento foi recíproco, por razões que nem os pais nem Acoca compreendiam.

A lua-de-mel fora como se Acoca tivesse conhecido outra mulher. Conhecera o desejo, mas não a combinação de amor e paixão era algo que nunca experimentara antes.

Três meses depois do casamento, Susana informava-lhe que estava grávida. Acoca sentira a maior emoção. Para aumentar sua alegria, fora destacado para um posto na linda aldeia de Castiblanco, no país basco. Era o outono de 1936, quando a luta entre republicanos e nacionalistas se tornava mais ferrenha.

Numa tranquila manhã de domingo, Ramón Acoca e a sua esposa tomavam café na Plaza da aldeia quando subitamente surgiram vários manifestantes bascos.

- Quero que vá para casa – dissera Acoca à esposa. - Vai haver problemas.

- E você?

- Vá logo, por favor, ficarei bem.

Os manifestantes estavam começando a escapar ao controle.

Com alívio, Ramón Acoca observara Susana afastar-se da multidão, a caminho de um convento na outra extremidade da praça. E no momento em que ela chegava, a porta do convento se abrira de repente e bascos armados, escondidos no interior, saíram com as armas disparando. Acoca vira impotente a esposa cair sob uma saraivada de balas. Fora nesse dia que jurara vingança contra os bascos. A Igreja também fora responsável.

E agora ele estava em Ávila, diante de outro convento. "Desta vez eles morrerão.

 

Dentro do convento, na escuridão antes do amanhecer, irmã Teresa segurava a Disciplina com a mão direita e açoitava o próprio corpo com violência sentindo as pontas nodosas cortarem-na, enquanto recitava em silêncio o Miserere. Quase soltou um grito alto, mas o barulho não era permitido, e por isso ela reprimiu os gritos. "Perdoa-me, Jesus, por meus pecados. Sê testemunha que puni a mim mesma, como tu foste punido, e que me infligi ferimentos, como ferimentos te foram infligidos. Deixa-me sofrer, como tu sofreste."

Ela estava quase desmaiando de dor. Flagelou-se por mais três vezes e depois arriou, agoniada, sobre o catre. Não arrancara sangue. Isso era proibido.

Estremecendo contra a agonia que cada movimento provocava, irmã Teresa guardou o açoite na caixa preta e largou-a num canto. Estava sempre ali, uma lembrança constante de que o menor pecado devia ser pago com a dor.

A transgressão de irmã Teresa ocorrera naquela manhã, quando virava uma

esquina do corredor, olhos baixos, e esbarrara em irmã Graciela. Sobressaltada, fitava o rosto da irmã Graciela. Irmã Teresa imediatamente comunicara a infração, e a reverenda madre Betina franzira o rosto em desaprovação, fizera o sinal da Disciplina, deslocando a mão direita de ombro para ombro, três vezes, a mão fechada, como se empunhasse o açoite, o polegar sob o indicador.

Deitada em seu catre, irmã Teresa não conseguira tirar da cabeça o rosto de extraordinária beleza da jovem que contemplara. Ela sabia que, enquanto vivesse, nunca se falariam e nunca mais tornaria a fitá-la, pois o menor indício de intimidade entre as freiras era punido com rigor. Num clima de rígida austeridade moral e física, não era permitido qualquer tipo de relacionamento. Se duas irmãs trabalhavam lado a lado e pareciam desfrutar da companhia silenciosa uma da outra, a reverenda madre logo as separava. As irmãs também não tinham permissão para sentar ao lado da mesma pessoa à mesa por duas vezes consecutivas. A Igreja delicadamente chamava a atração de uma freira por outra de "uma amizade particular", e a penalidade era rápida e severa. Irmã Teresa assumira a punição por violar a regra.

Agora o requinte do sino chegou aos ouvidos de irmã Teresa como se soasse muito longe. Era a voz de Deus, repreendendo-a.

 

Na cela ao lado o som do sino ressoou pelos corredores dos sonhos da irmã Graciela, misturando-se com os rangidos lúbricos das molas da cama. O mouro avançava em sua direção, nu, a virilidade intumecida, as mãos se estendendo para agarrá-la. Irmã Graciela abriu os olhos, instantaneamente desperta, o coração disparado num frenesim. Olhou à volta, apavorada, mas estava sozinha na pequena cela e ouvia-se apenas o repicar tranquilizador do sino.

Irmã Graciela ajoelhou-se ao lado da cama. Jesus, agradeço por me livrar do passado. Agradeço pela alegria que sinto por estar aqui, à Sua luz. Deixe-me experimentar apenas a felicidade do Seu ser. Ajude-me, meu Amado, a ser sincera ao Seu chamado. Ajude-me a aliviar o pesar do Seu sagrado coração.

Ela levantou-se e arrumou a cama com cuidado, depois juntou-se à procissão de freiras que se encaminhavam em silêncio para as matinas na capela. Podia sentir o cheiro familiar de velas acesas e as pedras gastas sob os pés metidos em sandálias.

No início, assim que entrara para o convento, irmã Graciela não compreendera quando a reverenda madre lhe dissera que uma freira era uma mulher que renunciava a tudo, a fim de possuir tudo. Tinha 14 anos na ocasião. Agora, 17 anos depois, aquilo era evidente para ela. Na contemplação, possuía tudo, pois a contemplação era a mente respondendo à alma, as águas que corriam em silêncio. Seus dias eram preenchidos por uma paz maravilhosa.

"Obrigada por me deixares esquecer, Pai. Obrigada por ficares do meu lado. Eu não poderia enfrentar o terrível passado sem Ti. Obrigada... Obrigada... Obrigada..."

Quando as matinas acabaram, as freiras voltaram às suas celas para dormir até às laudes, o nascer do sol.

 

Lá fora, o coronel Ramón Acoca e seus homens avançaram rapidamente pela escuridão. Ao chegarem ao convento, o coronel disse:

- Jaime Miró e seus homens estarão armados. Não corram riscos. - Olhou para a fachada do convento, e por um instante viu outro convento, com guerrilheiros bascos saindo, e Susana tombando sob uma saraivada de balas. E acrescentou: - Não se preocupem em capturar Miró vivo.

 

Irmã Megan foi despertada pelo silêncio. Era um silêncio diferente, comovente, um ímpeto apressado de ar, um sussurro de corpos. Havia sons que ela nunca ouvira antes, em seus 15 anos no convento. Foi subitamente invadida por uma premonição de que havia algo muito errado.

Levantou-se sem fazer barulho na escuridão e abriu a porta de sua cela. Era inacreditável, mas o longo corredor de pedra estava cheio de homens. Um gigante com uma cicatriz no rosto saía da cela da reverenda madre, puxando-a pelo braço. Megan ficou chocada. Estou tendo um pesadelo", pensou. Estes homens não podem estar aqui.

- Onde o estão escondendo? - perguntou o coronel Acoca.

A reverenda madre Betina tinha uma expressão de horror atordoado.

- Psiu! Este é um templo de Deus. Está profanando-o. - Sua voz era trêmula. - Devem se retirar já.

O coronel apertou-lhe o braço com mais força e sacudiu-a.

- Quero Miró, irmã.

O pesadelo era real.

Outras portas de celas começaram a ser abertas e mais freiras apareceram, com expressões de total confusão. Nunca houvera coisa em sua experiência que as preparasse para aquele acontecimento extraordinário.

O coronel Acoca empurrou a reverenda madre para longe e virou-se para Patrício Arrieta, um dos seus ajudantes principais:

- Revistem tudo. De alto a baixo.

Os homens de Acoca começaram a se espalhar, invadindo a capela, o refeitório e as celas, acordando as freiras que ainda dormiam e forçando-as rudemente a se levantarem e seguirem pelos corredores até à capela. As freiras obedeciam sem dizer nada, mantendo mesmo nessa hora o voto de silêncio. Para Megan, a cena era como um filme sem som.

Os homens de Acoca estavam imbuídos de um senso de vingança. Todos eram falangistas e lembravam muito bem que a Igreja se virara contra eles durante a Guerra Civil e apoiara os legalistas contra seu amado líder, o Generalíssimo Franco. Aquela era a oportunidade de uma desforra. A força e o silêncio das freiras deixavam os homens ainda mais furiosos.

Ao passar por uma das celas, Acoca ouviu um grito lá dentro. Olhou e viu um dos seus homens arrancando o hábito de uma freira. Ele seguiu em frente.

 

Irmã Lucia foi despertada por gritos de homens. Sentou-se em pânico. A polícia me descobriu", foi seu primeiro pensamento. Preciso sair daqui imediatamente. Mas não havia meio de sair do convento, a não ser pela porta da frente.

Levantou-se apressada e espiou pelo corredor. A visão com que seus olhos defrontaram era espantosa. O corredor não estava cheio de guardas, mas sim de homens em trajes civis, armas em punho, destruindo lampiões e mesas. A confusão era total, enquanto eles corriam de um lado para outro.

A reverenda madre Betina estava parada no centro do caos rezando em silêncio, enquanto contemplava a profanação de seu amado convento. Irmã Megan foi para seu lado e Lucia se apressou em ir para junto das duas.

- Oh que dia... o que está acontecendo? - perguntou Lucia. – Quem são eles? - Eram as primeiras palavras em voz alta desde que ingressara no convento.

A reverenda madre pôs a mão direita sob sua axila esquerda, três vezes, o sinal para esconder. Lucia fitou-a, incrédula.

- Pode falar agora! Vamos sair daqui, pelo amor de Deus! E é mesmo pelo amor de Deus!

Patrício Arrieta aproximou-se de Acoca.

- Já procuramos por toda parte, coronel. Não há sinal de Jaime Miró ou de seus homens. –

Procuremde novo - insistiu Acoca, obstinado.

Foi neste momento que a reverenda madre lembrou-se do único tesouro que o convento possuía. Dirigiu-se à irmã Teresa e sussurrou:

- Tenho uma missão para você. Pegue a cruz de ouro e leve-a para o convento em Mendavia. Precisa tirá-la daqui. Depressa!

Irmã Teresa tremia tanto que sua touca adejava em ondas. Olhava fixamente para a reverenda madre, paralisada. Passara os últimos trinta anos de sua vida no convento. A perspectiva de sair dali estava além da imaginação e fez o sinal de não posso." A reverenda madre estava frenética.

- A cruz não deve cair nas mãos desses homens de Satã. Faça isso por Jesus.

Uma luz surge nos olhos de irmã Teresa. Ela empertigou-se, fez o sinal de "por Jesus." Virou-se e seguiu apressada para a capela.

Irmã Graciela aproximou-se do grupo, olhando atordoada para a confusão desvairada do lugar.

Os homens estavam se tornando cada vez mais violentos, quebrando tudo pela frente. O coronel Acoca observava-os com uma expressão de aprovação. Lucia virou-se para Megan e Graciela.

- Não sei o que vocês duas estão pensando, mas eu vou sair daqui. Vocês vêm comigo?

Elas fitaram-na, aturdidas demais para responderem.

Irmã Teresa aproximou-se delas, apressada, carregando alguma coisa envolta por uma lona. Alguns homens conduziam mais freiras para o refeitório.

- Vamos logo - insistiu Lucia.

As irmãs Teresa, Megan e Graciela hesitaram por um momento, depois seguiram Lucia para a porta da frente. Ao virarem a extremidade do comprido corredor, perceberam que a enorme porta fora arrombada. Um homem seguiu de repente na frente delas.

- Estão indo para algum lugar? Podem voltar. Meus amigos têm planos para vocês.

Lucia disse:

- Temos um presente para você.

Ela pegou um dos pesados castiçais de metal que ficavam nas mesas dos vestíbulos, e sorriu. O homem ficou perplexo.

- O que pode fazer com esse castiçal?

- Isto! - Lucia bateu com o castiçal na cabeça do homem, e ele caiu no chão, inconsciente.

As três freiras ficaram horrorizadas.

- Depressa! - Disse Lucia.

Um instante depois, Lucia, Megan, Graciela e Teresa estavam no pátio da frente, correndo para o portão, sob a noite estrelada. Lucia parou.

- Vou me separar de vocês. Eles vão procurá-las, e por isso é melhor saírem daqui o mais depressa possível. - Virou-se e começou a sair para as montanhas, que se elevavam ao longe, muito acima do convento. Eu me esconderei na Suíça. É muito azar. Aqueles filhos da mãe destruíram uma cobertura perfeita.

Enquanto subia pela encosta, Lucia olhou para baixo. Lá de cima, podia avistar as três irmãs. Por mais incrível que pudesse parecer, continuavam paradas na frente do portão do convento, como três estátuas vestidas de preto. Pelo amor de

Deus!", pensou. Saiam logo daí, antes que eles as peguem! Depressa!

 

Elas não podiam se mexer. Era como se todos os seus sentidos tivessem permanecido paralizados por tanto tempo que agora se encontravam incapazes de absorver o que lhes acontecia. As freiras olhavam para os pés. Tão atordoadas que não podiam pensar. Haviam passado tanto tempo enclausuradas por trás dos portões de Deus, apartadas do mundo, que agora, fora dos portões protetores, viam-se dominadas por sentimentos de confusão e pânico. Não tinham a menor ideia que rumo seguir ou o que fazer. Lá dentro, a vida toda era organizada para elas. Haviam sido alimentadas, vestidas, instruídas sobre o que fazer e quando fazer. Viviam pelas regras. Agora, subitamente, não havia mais regras. O que Deus queria delas? Qual seria o Seu plano? Ficaram paradas, juntas, com medo de falarem, com medo de olharem uma para a outra.

Hesitante, irmã Teresa apontou para as luzes de Ávila, ao longe, e fez sinal de "por ali." Indecisas, elas começaram a se encaminhar para a cidade.

Observando-as do alto da colina, Lucia pensou: Não suas idiotas! Este será o primeiro lugar em que eles vão procurá-las. Ora, o problema é de vocês. Já tenho os meus. Ficou parada por um instante, observando as freiras se encaminharem para a perdição, direto para o matadouro. Merda.

Lucia desceu a encosta, tropeçando em pedras soltas, correu atrás das irmãs, o hábito incômodo diminuindo a velocidade.

- Esperem um instante! - gritou. - Parem!

As irmãs pararam e se viraram. Lucia aproximou-se correndo, a respiração ofegante.

- Estão indo pelo caminho errado. O primeiro lugar que irão procurar vocês será na cidade. Devem se esconder em algum outro lugar.

As três irmãs fitaram-na em silêncio. Lucia acrescentou, impaciente:

- As montanhas. Subam para as montanhas. Sigam-me. - Virou-se e começou a voltar para as montanhas. As outras ficaram olhando e depois de um instante partiram no seu encalço, uma a uma.

De vez em quando Lucia olhava para trás, a fim de se certificar que as outras a seguiam. Por que não posso cuidar da minha própria vida?" pensou. "Elas não são responsabilidade minha. E é mais perigoso se ficamos juntas. Continuou a subir, cuidando para que as outras não a perdessem de vista.

As irmãs encontraram a maior dificuldade na escalada, e cada vez ficavam mais lentas, Lucia parava e esperava por elas. Vou me livrar delas amanhã.

- Precisamos andar mais depressa - exortou Lucia.

 

   A batida chegara ao fim no convento. As freiras atordoadas, os hábitos amarrotados e manchados de sangue, estavam sendo embarcadas em caminhões fechados, anônimos.

- Leve-as de volta para o quartel-general em Madri - exortou o coronel Acoca. - E mantenha todas no isolamento.

- Sob que acusação?

- Esconder terroristas.

- Pois não, coronel. - Patrício Arreta hesitou por instantes. - Quatro freiras estão desaparecidas.

Os olhos do coronel Acoca tornaram-se frios.

- Encontre-as.

 

O coronel Acoca retornou a Madri e foi se reportar ao primeiro-ministro.

- Jaime Miró escapou antes de chegarmos ao convento.

Martínez balançou a cabeça.

- Eu já soube. - Não pôde deixar de especular se Jaime Miró alguma vez estivera no convento. De uma coisa estava certo. O coronel Acoca estava perigosamente escapando ao controle. Houvera violentos protestos pelo brutal ataque ao convento. O primeiro-ministro escolheu as palavras com todo cuidado:

- Os jornais estão me criticando pelo acontecido.

- Os jornais estão transformando esse terrorista num herói - retrucou Acoca, impassível. - Não podemos permitir que nos pressionem.

- Ele está causando muito embaraço ao governo, coronel. E as quatro freiras... se elas falarem...

- Não se preocupe. Não podem ir longe. Eu as pegarei, e encontrarei Miró.

O primeiro-ministro já decidira que não podia mais correr riscos.

- Coronel, quero que providencie para que as 36 freiras sejam bem tratadas, e estou ordenando que o exército participe da busca a Miró e os outros. Vai trabalhar com o coronel Sostelo.

Houve uma pausa longa e perigosa.

- Qual de nós estará no comando da operação?

Os olhos de Acoca eram frios. O primeiro-ministro engoliu em seco.

- Você, é claro.

 

Lucia e as três irmãs viajaram pelo início da manhã, seguindo para o norte, na direção das montanhas, afastando-se de Ávila e do convento. As freiras, acostumadas a se movimentarem em silêncio, quase não faziam barulho. Os únicos sons eram o farfalhar dos hábitos, o retinir dos rosários, o estalido ocasional de um graveto quebrado e as respirações ofegantes, enquanto subiam cada vez mais.

Chegaram a um platô na montanha Guadarrama e avançaram por uma estrada esburacada, margeada por moretas de pedra. Passaram por campos com ovelhas e cabras. Ao nascer do sol, já haviam percorrido vários quilômetros e se encontravam num bosque, nos

arredores da pequena aldeia de Villacastín.

Vou deixá-las aqui", decidiu Lucia. Seu Deus pode cuidar delas agora. Sem dúvida, Ele cuidou muito bem de mim", pensou, amargurada. A Suíça está mais longe do que nunca. Não tenho dinheiro nem passaporte, estou vestida como um agente funerário. A esta altura, aqueles homens já sabem que escapámos. Ficarão à nossa procura até nos encontrarem. Quanto mais cedo eu sair daqui sozinha, melhor.

Mas nesse instante aconteceu uma coisa que a levou a mudar de planos.

Irmã Teresa avançava entre as árvores quando tropeçou e o embrulho que guardava com tanto cuidado caiu na terra. A lona se abriu, e Lucia descobriu-se a olhar para uma cruz de ouro, grande, lavrada com requinte, faiscando aos raios do sol nascente.

É ouro de verdade", pensou. "Alguém lá em cima está mesmo cuidando de mim. Aquela cruz é um maná. Um autêntico maná. A minha passagem para a Suíça."

Lucia observou irmã Teresa pegar a cruz e tornar a enrolar a lona, com todo cuidado. Sorriu satisfeita. Seria fácil tomá-la. As freiras fariam qualquer coisa que ela mandasse.

 

A cidade de Ávila estava em alvoroço. As notícias do ataque ao convento haviam se espalhado depressa, e o padre Berrendo foi escolhido para uma confrontação com o coronel Acoca. O padre tinha mais de setenta anos, com uma fragilidade exterior que não condizia com a força interior. Era um pastor afetuoso e compreensivo para com seus paroquianos. Naquele momento, porém, sentia uma fúria incontrolável.

O coronel Acoca deixou-o à espera por uma hora, depois permitiu que o levassem até sua sala.

Padre Berrendo foi logo dizendo, sem qualquer preâmbulo:

- Você e seus homens atacaram um convento sem a menor provocação. Foi um ato de loucura.

- Procurámos apenas cumprir o nosso dever - retrucou o coronel, num tom ríspido. - O convento abrigava Jaime Miró e seu bando de assassinos. Com isso, as próprias irmãs foram responsáveis pelo que aconteceu. Estão detidas para interrogatório.

- O senhor encontrou Jaime Miró no convento? - perguntou o padre, irritado.

O coronel Acoca respondeu suavemente:

- Não. Ele e seus homens escaparam antes da nossa chegada. Mas vamos encontrá-lo, e se fará justiça.

A minha justiça", pensou o coronel Acoca, selvagemente.

 

As freiras avançavam devagar, com seus trajes inadequados para o terreno acidentado. As sandálias eram finas demais para proteger-lhes os pés contra o terreno pedregoso, e os hábitos ficavam presos a tudo. Irmã Teresa descobriu que nem sequer podia dizer o seu rosário. Precisava das duas mãos para evitar que os galhos lhe batessem no rosto.

À luz do dia, a liberdade parecia ainda mais aterradora do que antes. Deus expulsara as irmãs do Éden para um mundo estranho e assustador, retirando Sua orientação, em que elas haviam se apoiado por tanto tempo. Descobriram-se num território inexplorado, sem mapas e sem bússola. Os muros que as protegeram do mal por tantos anos haviam desaparecido, e sentiam-se desprotegidas e expostas. O perigo rondava por toda a parte, e não mais dispunham de um refúgio. Eram alienígenas. As vistas e sons eram fascinantes. Havia o zumbido dos insetos e o canto dos pássaros, o céu muito azul, tudo investindo contra seus sentidos. E havia algo mais que era desconcertante.

Ao fugirem do convento, Teresa, Graciela e Megan evitaram com todo o cuidado olhar uma para a outra, atendo-se instintivamente às regras. Agora, no entanto, cada uma se descobria a estudar avidamente os rostos das outras. Além disso, após tantos anos de silêncio, encontravam dificuldades para falar; e quando falavam, as palavras eram hesitantes, como se isso fosse novo e desconhecido. Suas vozes soavam estranhas nos próprios ouvidos. Apenas Lucia parecia desinibida e segura, e as outras se submeteram automaticamente à sua liderança.

- É melhor nos apresentarmos. Sou a irmã Lucia - apresentou-se ela.

- Sou a irmã Graciela. A de cabelos escuros, beleza excepcional.

- Sou a irmã Megan. A jovem loura, com olhos azuis deslumbrantes."

- Sou a irmã Teresa.

A mais velha do grupo. Cinqüenta anos? Sessenta?"

Enquanto paravam no bosque para descansar, perto da aldeia, Lucia pensou: "Elas são como aves recém-nascidas, caídas dos ninhos. Não durariam cinco minutos sozinhas. Ora, azar delas. Vou partir para a Suíça com a cruz."

Lucia foi até à beira da clareira em que se encontravam e olhou através das árvores para a pequena aldeia lá em baixo. Poucas pessoas andavam na rua, mas não havia sinal dos homens que invadiram o convento. Agora", pensou Lucia. Esta é a minha oportunidade." Ela virou-se para as outras.

- Vou descer até a aldeia para tentar arrumar comida. Esperem aqui. - Acenou com a cabeça para irmã Teresa. - Venha comigo.

Irmã Teresa ficou confusa. Durante trinta anos obedecera apenas às ordens da reverenda madre Betina, e agora, subitamente, aquela irmã assumira o comando. "Mas o que está acontecendo é a vontade de Deus", pensou. "Ele escolheu-a para nos guiar e assim ela

fala com Sua voz.

- Devo levar esta cruz para o convento em Mendavia o mais depressa possível.

- Está bem. Quando chegarmos lá embaixo, pediremos para nos informarem o caminho.

As duas começaram a descer a encosta para a aldeia, Lucia atenta a qualquer perspectiva de problema. Não havia nenhuma.

Vai ser muito fácil, pensou ela.

Chegaram aos arredores da aldeia. Uma placa informava: VILLACASTíN. À frente ficava a rua principal. À esquerda, uma rua pequena e deserta.

Ótimo, pensou Lucia. Não havia ninguém para testemunhar o que estava prestes a acontecer. Ela entrou pela rua secundária.

- Vamos por aqui. Haverá menos possibilidade de alguém nos ver.

Irmã Teresa balançou a cabeça e seguiu-a, obediente. A questão agora era como lhe tirar a cruz.

"Eu poderia agarrar a cruz e correr", pensou Lucia, "mas ela provavelmente gritaria e atrairia muita atenção. É melhor dar um jeito para que fique quieta."

Um pequeno galho de uma árvore estava caído no chão, à sua frente. Lucia parou, inclinou-se para pegá-lo. Era pesado. Perfeito.

Esperou que irmã Teresa a alcançasse.

- Irmã Teresa...

A freira virou-se para fitá-la. No momento em que Lucia começava a levantar o porrete, uma voz de homem disse, surgindo do nada.

- Deus esteja com vocês, irmãs.

Lucia virou-se, pronta para correr. Um homem se encontrava parado ali, usando um hábito marrom comprido e capuz de frade. Era alto e magro, rosto aquilino, a expressão mais santa que Lucia já vira. Os olhos pareciam luzir com uma quente luz interior, a voz era suave e gentil.

- Sou o frei Miguel Carrillo.

A mente de Lucia estava em disparada. Seu primeiro plano fora interrompido. Mas agora, subitamente, tinha outro melhor.

- Graças a Deus que nos encontrou - murmurou.

Aquele homem seria sua garantia de fuga. Saberia o meio mais fácil de deixar a Espanha.

- Viemos do convento Cisterciense perto de Ávila - explicou Lucia. – Ontem à noite ele foi invadido por alguns homens. As freiras foram levadas. Mas nós e outras duas conseguimos escapar.

Quando o frade respondeu, a voz estava impregnada de raiva:

- Venho do mosteiro de San Generro, onde estive durante os últimos vinte anos. Fomos atacados anteontem - suspirou. - Sei que Deus tem algum desígnio para todos os seus filhos, mas devo confessar que no momento não compreendo qual possa ser.

- Esses homens estão à nossa procura - disse Lucia. - É importante que saiamos da Espanha tão depressa quanto possível. Sabe como se pode fazer?

Frei Carrillo sorriu gentilmente.

- Acho que posso ajudá-las, irmã. Deus nos reuniu. Leve-me para o lugar em que estão as outras.

Em poucos minutos Lucia levou o frade para o bosque e anunciou:

- Este é o frei Carrillo. Ele passou os últimos vinte anos num mosteiro. Veio para nos ajudar.

As reações ao frade foram diferentes. Graciela não ousou fitá-lo diretamente, Megan estudou-o com olhares rápidos e interessados, e Irmã Teresa considerou-o como um mensageiro enviado por Deus para levá-las ao convento em Mendavia.

Frei Carrillo disse:

- Os homens que atacaram o convento estão sem dúvida à procura de vocês. Mas ficarão atentos a quatro freiras. A primeira coisa que devem fazer é trocar de roupa. -

- Não temos outras roupas - lembrou Megan.

Frei Carrillo deu-lhe um sorriso beatífico.

- Nosso Senhor tem um vasto guarda-roupas. Não se preocupe, minha criança. Ele nos proverá. Vamos para a aldeia.

 

Eram duas horas da tarde, o momento da siesta, e frei Carrillo e as quatro freiras desceram pela rua principal da aldeia, alertas a qualquer sinal dos perseguidores. As lojas estavam fechadas, mas os restaurantes e bares se encontravam abertos, e deles saía uma música estranha, estridente e dissonante. Frei Carrillo percebeu a expressão espantada norosto de irmã Teresa e explicou:

- Isso é rock and roll. Uma música bem popular entre os jovens hoje em dia.

Duas moças estavam paradas na frente de um bar e ficaram olhando para as freiras, que também olharam, aturdidas com suas estranhas roupas. Uma delas usava uma saia tão curta que mal cobria as coxas, a outra estava com uma saia mais comprida, só que aberta nos lados. As duas usavam blusas de tricô muito justas sem mangas.

É como se estivessem quase nuas", pensou irmã Teresa, horrorizada.

Um homem estava na porta, com um suéter de gola rolê, um casaco de aparência estranha, sem gola, e um pendente de brilhante no pescoço.

Cheiros estranhos receberam as freiras quando passaram por uma bodega. Nicotina e uísqui.

Megan olhava fixamente para alguma coisa no outro lado da rua. Ela parou.

- O que houve? Qual é o problema? - perguntou frei Carrillo.

Ele virou-se para olhar. Megan observava uma mulher carregando um bebê. Quantos anos haviam passado desde a última vez em que vira um bebê ou mesmo uma criança pequena? Desde o orfanato, há 14 anos. O choque súbito fez com que Megan compreendesse o quanto sua vida estivera distante do mundo exterior.

Irmã Teresa também olhava para o bebê, mas pensava em outra coisa. "É o bebê de Monique." A criança no outro lado da rua começou a gritar. "Está chorando porque eu o abandonei. Mas não, isso é impossível. Aconteceu há trinta anos." Irmã Teresa virou-se, os gritos do bebê ressoando-lhe nos ouvidos. Eles seguiram em frente.

Passaram por um cinema. O cartaz na marquise anunciava: "Três amantes", e as fotografias mostravam mulheres sumariamente vestidas, abraçando um homem com o peito nu.

- Ora, elas estão... estão quase nuas! - exclamou irmã Teresa.

Frei Carrillo franziu o rosto.

- Tem razão. É vergonhoso o que o cinema tem permissão para mostrar hoje em dia. Esses filmes é pura pornografia. Os atos mais pessoais e íntimos são apresentados, para todos verem. Transformam os filhos de Deus em animais.

Passaram por uma loja de ferragens, num salão de beleza, numa floricultura e numa loja de doces, todas fechadas para a siesta. As irmãs pararam diante de cada loja e olharam aturdidas as vitrines, cheias de objetos outrora familiares, agora mera recordação.

Ao se aproximarem de uma loja de roupas femininas, frei Carrillo disse:

- Parem.

As cortinas nas vitrines estavam arriadas, e um cartaz na porta avisava: FECHADA.

- Esperem aqui, por favor.

As quatro mulheres observaram, enquanto ele dobrava a esquina e desaparecia. Trocaram olhares, aturdidas. O que ele ia fazer? E se não voltasse?

Poucos minutos depois elas ouviram o barulho da porta da frente sendo aberta. Frei Carrillo ali estava, com uma expressão radiante. Gesticulou para que entrassem.

- Depressa!

Depois que todas estavam dentro da loja, ele trancara a porta, Lucia perguntou:

- Como pôde...?

- Deus provê uma porta dos fundos, assim como a porta da frente - respondeu, solenemente.

Mas havia uma insinuação maliciosa em sua voz que fez Megan sorrir.

As irmãs correram os olhos pela loja, assustadas. Era uma cornucópia multicolorida de vestidos e suéteres, sutiãs e meias, sapatos de salto alto e chapéus. Artigos que não viam há anos. E os estilos pareciam muito estranhos. Havia bolsas e charpes, estojos de maquilagem e blusas. Era coisa demais para absorver. As freiras ficaram imóveis, atordoadas.

- Devemos nos apressar antes que a siesta acabe e a loja seja reaberta - advertiu frei Carrillo. - Sirvam-se. Escolham o que acharem melhor.

Lucia pensou: Graças a Deus que posso outra vez me vestir como uma mulher. Ela encaminhou-se para um cabideiro com vestidos e começou a examiná-los. Encontrou uma saia beje com uma blusa de seda castanho-amarelada para acompanhá-la. "Não é belenciaga, mas servirá por enquanto." Apanhou também uma calcinha, um sutiã e um par de botas confortáveis. Foi para trás de um cabideiro, despiu-se e em poucos minutos estava pronta para partir.

As outras demoraram a escolher suas roupas.

Graciela pegou um vestido branco de algodão que ressaltava os cabelos escuros e a pele morena, além de um par de sandálias.

Megan pegou um vestido de algodão estampado que descia abaixo dos joelhos e sandálias de saltos baixos.

Irmã Teresa teve a maior dificuldade para escolher um traje. A variedade de opções era desconcertante. Havia sedas e flanelas, tweeds e couro... algodão, sarja e veludo... vestidos axadrezados e listrados de todas as cores. E todos pareciam... "sumários", foi a palavra que lhe veio à mente. Durante os últimos trinta anos cobrira-se decentemente com os hábitos pesados de sua vocação. E agora lhe pediam que os removesse e pusesse aquelas criações indecentes. Acabou escolhendo a saia mais comprida que pôde encontrar e uma blusa de algodão, de mangas compridas e gola alta.

Frei Carrillo exortou-as:

- Depressa, irmãs. Troquem logo de roupa.

Elas se entreolharam, embaraçadas. Ele sorriu.

- Ficarei à espera no escritório, é claro. - Foi para os fundos da loja e entrou no escritório. As irmãs começaram a se despir, terrivelmente inibidas pela presença das outras.

No escritório, frei Carrillo puxara uma cadeira para a porta, subira nela, e olhava pela bandeira da porta, enquanto as irmãs se despiam. Estava pensando: Qual delas vou comer primeiro?

 

Miguel Carrillo iniciara sua carreira de ladrão quando tinha apenas dez anos. Nascera com cabelos louros encaracolados e um rosto angelical, o que se tornou de valor inestimável na carreira que escolheu. Começou de baixo, furtando bolsas e pequenos objetos em lojas. À medida que se tornou mais velho, expandiu sua carreira e começou a roubar bêbados e explorar mulheres ricas. Como era muito atraente, teve um enorme sucesso. Inventou vários golpes originais, cada um mais engenhoso do que o anterior. Infelizmente, o último golpe foi sua desgraça.

Apresentou-se como frei de um mosteiro distante, Carrillo viajou de igreja em igreja, solicitando abrigo para a noite. Era sempre atendido, e pela manhã, quando abria a porta da igreja, o sacerdote descobria que todos os artefatos valiosos haviam desaparecido, junto com o bom frei.

Infelizmente, o destino o traiu. Duas noites antes, em Béjar, uma pequena cidade perto de Ávila, o padre voltou inesperadamente, e Miguel Carrillo foi surpreendido no ato de roubar o tesouro da igreja. O padre era corpulento e forte, derrubou Carrillo no chão e anunciou que ia entregá-lo à polícia. Um pesado cálice de prata caíra no chão, Carrillo pegou-o e golpeou o padre. Ou o cálice era muito pesado ou o crânio do padre muito frágil, pois o homem morreu. Miguel Carrillo fugiu em pânico, ansioso em ficar o mais longe possível do local do crime. Passou por Ávila e soube do ataque ao convento, desfechado pelo coronel Acoca e os seus agentes secretos do "GOE". E o destino quis que Carrillo se descobrisse no caminho das quatro freiras fugitivas.

Agora, ansioso na expectativa, estudou os corpos nus e pensou: Há outra possibilidade interessante. Como o coronel Acoca e seus homens estão à procura das irmãs, deve haver uma boa recompensa por suas cabeças. Vou comê-las primeiro e depois entregá-las a Acoca.

As mulheres, à exceção de Lucia, que já terminara de se vestir, estavam totalmente nuas. Carrillo observou-as vestirem desajeitadas as novas roupas de baixo. Mas logo se arrumaram, abotoando com alguma dificuldade os botões a que não estavam acostumadas, puxando os zíperes, querendo sair dali depressa, antes de serem descobertas.

Está na hora de entrar em ação, pensou Carrillo, feliz. Desceu da cadeira e voltou à loja. Aproximou-se das mulheres, estudou-as com aprovação e disse:

- Excelente. Ninguém deste mundo pensaria que vocês são freiras. Gostaria de sugerir lenços para a cabeça.

Escolheu um lenço para cada uma e observou-as a ajeitá-los em suas cabeças.

Miguel Carrillo tomou sua decisão. Graciela seria a primeira. Era sem dúvida uma das mulheres mais bonitas que já vira. "E que corpo! Como ela pôde desperdiçar tudo isso com Deus? Eu lhe ensinarei o que fazer com seus atributos." Disse a Lucia, Teresa e Megan:

- Vocês devem estar com fome. Podem ir até ao café por onde passamos e nos esperar ali. Irei à igreja e pedirei algum dinheiro emprestado ao padre, a fim de podermos comer. - Virou-se para Graciela. - Quero que venha comigo, irmã, para explicar ao padre o que aconteceu no convento.

- Eu... eu... está bem.

Carrillo acrescentou para as outras:

- Estaremos com vocês de novo dentro de pouco tempo. Sugiro que saiam pela porta dos fundos. - Observou Lucia, Teresa e Megan saírem. Depois que ouviu a porta dos fundos fechar, virou-se para Graciela. Ela é fantástica", pensou. "Talvez eu a mantenha comigo, usando-a em alguns golpes. Ela pode se tornar uma grande ajuda." Graciela olhava para ele.

- Estou pronta.

- Ainda não. - Carrillo fingiu estudá-la um momento. - Não, acho que não vai dar. Esta roupa está errada em você. Tire-a.

- Mas... por quê?

- Não combina com você. As pessoas ficarão olhando, e não quer atrair muita atenção.

Ela hesitou, depois foi para trás do cabideiro.

- Ande depressa. Não dispomos de muito tempo.

Contrafeita, Graciela tirou o vestido pela cabeça. Estava de calcinha e sutiã quando Carrillo surgiu subitamente.

- Tire tudo. - A voz dele era rouca.

Graciela fitou-o atordoada.

- Como? Não! - Ela estava gritando. - Eu... não... posso... por favor...

Carrillo chegou mais perto.

- Eu a ajudarei, irmã. - Estendeu as mãos, arrancou o sutiã, rasgou a calcinha.

- Não! - berrou Graciela. - Não deve fazer isso! Pare!

Carrillo sorriu.

- Carita, estamos apenas no começo. Garanto que vai adorar. – Seus braços fortes envolveram-na. Forçou-a para o chão e levantou o hábito.

Foi como se uma cortina na mente de Graciela se abrisse de repente. Era o mouro tentando entrar nela, dilacerando suas profundezas, os gritos estridentes da mãe. E Graciela pensou, apavorada: "Não, não outra vez. Não, por favor... não outra vez..."

Ela se debatia agora, desesperada, lutando contra Carrilo, na tentativa de se levantar.

- Mas que droga! - exclamou Carrillo.

Bateu com o punho no rosto de Graciela, e ela caiu para trás, atordoada, tonta.

Descobriu-se a retroceder no tempo.

De volta... de volta...

 

                     LAS NAVAS DE MARQUÉS, ESPANHA 1950

Graciela tinha cinco anos de idade. Suas lembranças mais antigas eram de uma procissão de homens nus entrando e saindo da cama de sua mãe. A mãe explicou:

- Eles são seus tios. Deve mostrar respeito.

Os homens eram rudes e grosseiros, careciam de afeição. Ficavam por uma noite, uma

semana, um mês, depois desapareciam. Quando partiam, Dolores Piñero procurava imediatamente por um novo homem.

Na juventude, Dolores Piñero fora uma beldade, e Graciela herdara a aparência da mãe. Mesmo quando criança, Graciela era fascinante, com malares salientes, pele azeitonada, cabelos pretos lustrosos, pestanas densas e compridas. O corpo jovem encerrava muitas promessas.

Com a passagem dos anos, o corpo de Dolores Pinero fora dominado pela gordura, e o rosto maravilhoso marcado pelos golpes amargos do tempo. Embora não fosse mais bonita, ela era acessível e possuía a reputação de ser uma ardorosa parceira na cama. Fazer amor era o seu único talento, e ela o empregava para tentar agradar aos homens, na esperança de mantê-los, tentar comprar o amor com seu corpo. Ganhava a vida muito mal como costureira, porque era indiferente a seu ofício e só contratada pelas mulheres da aldeia que não tinham condições de pagar às melhores.

Dolores Piñero desprezava a filha, pois era uma lembrança constante do único homem que ela já amara. O pai de Graciela era um mecânico, jovem e bonito, que cortejava a bela e jovem Dolores. Ansiosa, ela se deixara seduzir. Quando anunciara que estava grávida, ele desaparecera, deixando Dolores com a maldição de sua semente.

Dolores tinha um temperamento explosivo e desforrou-se na criança. Sempre que Graciela fazia alguma coisa que a desagradava, a mãe a espancava e gritava:

- Você é tão estúpida quanto seu pai!

Não havia a menor possibilidade da criança escapar à sua sessão de golpes ou gritos constantes. Graciela rezava todas as manhãs, ao despertar: "Por favor, Deus, não deixe que mamãe me bata hoje." Ou: "Por favor, Deus, faça mamãe feliz hoje." Ou: "Por favor, Deus, faça com que mamãe diga que me ama hoje."

Quando não estava atacando Graciela, a mãe a ignorava. Graciela preparava as próprias refeições e cuidava de suas roupas. Fazia o lanche que levava para a escola e dizia à professora:

- Minha mãe fez empanadas hoje. Ela sabe que eu gosto muito de empanadas.

Ou:

- Rasguei o vestido, mas minha mãe costurou para mim. Ela adora fazer as coisas para mim.

Ou:

- Minha mãe e eu vamos ao cinema amanhã.

E isso partia o coração da professora. Las Navas del Marqués é uma pequena aldeia, a uma hora de Ávila. Como todas as aldeias, por toda a parte, todo o mundo sabia da vida de todo o mundo. O estilo de vida de Dolores Piñero era uma desgraça e refletia sobre Graciela. As outras mães não deixavam que suas filhas brincassem com ela, a fim de que sua moral não fosse abalada. Graciela frequentava a escola na Plazoleta del Cristo, mas não tinha amigas, nem companheiras de brincadeiras. Era uma das alunas mais inteligentes da escola, mas as notas eram péssimas. Não conseguia se concentrar, pois estava sempre cansada.

A professora a advertia:

- Deve deitar mais cedo, Graciela, a fim de estar bem descansada para fazer seus deveres direito.

Mas a exaustão nada tinha haver com deitar tarde. Graciela e a mãe partilhavam uma casa pequena de dois cômodos. A menina dormia num sofá na sala mínima, com apenas uma cortina fina e surrada a separá-la do quarto. Como Graciela podia falar à professora sobre os sons obscenos que a despertavam à noite e a mantinham acordada, enquanto a mãe fazia amor com qualquer estranho que por acaso estivesse em sua cama?

Quando Graciela levava o boletim para casa, a mãe sempre gritava:

- Estas são as notas que eu já esperava! E sabe por que tira essas notas péssimas? Porque você é estúpida! Muito estúpida!

E Graciela acreditava, fazia o maior esforço para não chorar.

 

À tarde, depois das aulas, Graciela vagueava sozinha, andando pelas ruas estreitas e sinuosas, com acácias e plátanos, passando por casas de pedra caiadas de branco, em que os pais amorosos viviam com suas famílias. Graciela tinha muitos colegas, mas todos apenas em sua mente. Eram lindas meninas e garotos simpáticos, convidavam-na para todas as suas festas, serviam bolo e sorvete. Os amigos imaginários eram gentis e afetuosos, todos consideravam-na muito inteligente. Quando a mãe não estava por perto, Graciela mantinha longas conversas com os amigos imaginários. "Quer me ajudar com os deveres de casa, Graciela? Não sei somar, e você é muito boa nisso."

"O que vamos fazer esta noite, Graciela? Podemos ir ao cinema ou passear pela cidade e tomar uma coca-cola."

"Será que sua mãe a deixaria vir jantar conosco esta noite, Graciela?" "Acho que não vai dar.

Minha mãe se sente muito sozinha quando não estou em casa. Afinal, sou tudo o que ela tem."

Aos domingos, Graciela levantava-se cedo e vestia-se sem fazer barulho, tomando cuidado para não acordar a mãe e qualquer que fosse o tio que estivesse na cama. Depois, ia para a igreja de San Juan Baptista, onde o padre Pérez falava sobre as alegrias da

vida após a morte, uma vida de conto de fadas, com Jesus;

e Graciela sentia-se ansiosa em morrer e se encontrar com Jesus. Padre Pérez era um homem atraente, de quarenta e poucos anos. Assistia os ricos e pobres, doentes e saudáveis, desde que viera para Las Navas del Marqués, vários anos antes. Não havia segredos na pequena aldeia que ele não conhecesse. Padre Pérez conhecia Graciela como uma frequentadora assídua da igreja e também estava a par das histórias sobre o constante fluxo de estranhos que partilhavam a cama de Dolores Piñero. Não era um lar apropriado para uma criança, mas não havia nada que ele pudesse fazer a esse respeito.

Admirava-se por Graciela se sair tão bem. Era uma menina boa e gentil, nunca se queixava ou falava sobre a vida doméstica.

Graciela aparecia na igreja todas as manhãs de domingo com uma roupa limpa e arrumada, que ele sabia ter sido lavada por ela. Padre Pérez sabia que ela era

escorraçada pelas outras crianças da aldeia, e seu coração se confrangia. Fazia questão de passar alguns momentos com Graciela depois da missa, todos os domingos; e quando dispunha de tempo, levava-a um café para tomar um sorvete.

 

No inverno a vida de Graciela era uma paisagem desolada, monótona e sombria. Las Navas del Marqués ficava num vale, cercado de montanhas, por causa disso, os invernos duravam seis meses. Os verões eram mais fáceis de suportar, pois os turistas chegavam e enchiam a aldeia com risos e danças, as ruas fervilhavam. Os turistas reuniam-se na Plaza de Manuel Delgado Barredo, com seus pequenos coretos de pedra, escutavam a orquestra e observavam os nativos dançarem a sardana, a dança folclórica de muitos séculos, sempre descalços, as mãos dadas, dando voltas graciosas, num círculo colorido. Graciela gostava de observar os visitantes, sentados nos cafés de beira de calçada com seus aperitivos ou envolvidos nas compras no mercado de peixe. À uma hora da tarde a bodega estava sempre repleta de turistas, bebendo "chateo" e comendo pedaços de carne, frutos do mar, azeitonas e batatas fritas.

O mais excitante para Graciela era assistir ao passeo todos os dias, ao fim da tarde. Rapazes e moças andavam de um lado para outro da Plaza Mayor, em grupos segregados, os rapazes olhavam para as moças, enquanto pais, avós e amigos vigiavam atentos dos cafés na calçada. Era o tradicional ritual de acasalamento, mantido há séculos. Graciela ansiava em participar, mas a mãe proibia.

- Quer ser uma puta? - gritava para a filha. - Fique longe de rapazes. Eles só querem uma coisa de você. – Uma pausa e ela acrescentava, amargurada: - Sei por experiência própria.

 

Seos dias eram suportáveis, as noites eram uma agonia. Através da cortina que separava as camas, Graciela podia ouvir os sons dos gemidos, estertores e respiração ofegante, e sempre as obscenidades.

- Mais depressa... com mais força!

- Cóge-me!" - Mámame la verga!" - Mételo!en el culo!

Antes dos dez anos de idade, Graciela já ouvira todas as palavras obscenas do vocabulário espanhol. Eram sussurradas e gritadas, balbuciadas e gemidas. Os gritos de paixão epugnavam Graciela e ao mesmo tempo lhe despertavam estranhos anseios.

 

Quando Graciela estava com 14 anos, o mouro entrou em cena. Era o maior homem que Graciela já vira. A pele era de preto lustroso e a cabeça raspada. Tinha ombros

enormes, peito estufado e braços musculosos. O mouro chegou durante a noite, quando Graciela dormia. Ela só o viu pela manhã, quando ele empurrou a cortina para o lado e passou por sua cama, completamente nu, a caminho da privada nos fundos. Graciela fitou-o e quase soltou um grito de espanto. Ele era enorme, em todas as partes. Isso vai matar minha mãe", pensou Graciela. O mouro a viu.

- Ora, ora... o que temos aqui?

Dolores Piñero deixou a cama apressada e veio se postar ao seu lado.

- Minha filha - disse, bruscamente.

Uma onda de embaraço envolveu Graciela ao ver o corpo nu da mãe junto do homem. O mouro sorriu, exibindo dentes bonitos, brancos e regulares.

- Qual é o seu nome, guapa?

Graciela estava envergonhada demais com a nudez do homem para falar.

- Ela se chama Graciela e é retardada.

- Ela é linda. Aposto que você parecia assim quando jovem.

- Ainda sou jovem - respondeu Dolores em tom áspero, virando-se para a filha e acrescentou: - Vista-se ou vai chegar atrasada na escola.

- Está bem, mamãe.

O mouro ficou parado ali, contemplando-a. A mãe pegou-lhe o braço musculoso e murmurou,

insinuante:

- Vamos voltar para a cama, querido. Ainda não acabámos.

- Mais tarde - respondeu o mouro, ainda olhando para Graciela.

 

O mouro ficou. Todos os dias, ao voltar da escola, Graciela rezava para que ele

tivesse ido embora. Por motivos que não compreendia, aquele homem a deixara apavorada. Sempre era polido com ela, e nunca tentara coisa alguma, mas Graciela sentia calafrios só de pensar nele.

O tratamento que ele dispensava à mãe era bem diferente. Passava a maior parte do dia na pequena casa, bebendo sem parar. Tomava qualquer dinheiro que Dolores ganhava. Às vezes, à noite, no meio do ato de amor, Graciela o ouvia espancar a mãe. Pela manhã, Dolores Piñero aparecia com um olho roxo ou um lábio partido.

- Por que atura esse homem, mamãe?

- Você não compreendia. Ele é um homem de verdade, não um anão como os outros. Sabe como satisfazer uma mulher. - Dolores passou a mão pelos cabelos, num gesto coquete. - Além do mais, ele está perdidamente apaixonado por mim.

Graciela não acreditava nisso. Sabia que o mouro apenas usava sua mãe, mas não ousou protestar de novo. Tinha pavor do temperamento explosivo da mãe, pois Dolores Piñero parecia dominada por uma espécie de insanidade quando ficava furiosa. Numa das ocasiões perseguira Graciela com uma faca de cozinha, porque ela se atrevera a fazer um chá para um dos "tios".

 

No início de uma manhã de domingo, Graciela levantou-se para ir à igreja. A mãe saíra cedo para entregar alguns vestidos. No momento em que Graciela tirou a camisola, a cortina foi puxada e o mouro apareceu. Estava nu.

- Onde está sua mãe, guapa?

- Mamãe saiu cedo. Tinha de entregar alguns vestidos.

O mouro, contemplando o corpo nu de Graciela, murmurou:

- Você é mesmo uma beleza.

Graciela sentiu-se corar. Sabia o que devia fazer: cobrir a nudez, pôr uma saia e uma blusa, sair dali. Em vez disso, ficou parada, incapaz de se mexer. Observou o membro do mouro começar a inchar e subir diante de seus olhos. Podia ouvir as vozes ressoando em seus ouvidos: "Mais depressa... Com mais força!" Sentiu que estava prestes a desfalecer.

- Você é uma criança. Ponha logo as suas roupas e saia daqui - disse o mouro, a voz rouca.

E Graciela descobriu-se em movimento. Aproximou-se do mouro. Passou os braços pela

cintura dele, sentiu o membro duro comprimindo-se contra seu corpo.

- Não... - balbuciou. - Não sou uma criança.

A dor que se seguiu foi diferente de tudo o que Graciela já conhecera antes. Foi terrível, insuportável. Foi maravilhosa, inebriante, linda. Ela apertava o mouro com os braços. Ele a levou a um orgasmo depois de outro, e Graciela pensou: Então todo o mistério é isso. E era maravilhoso finalmente conhecer o segredo de toda criação. Ser parte da vida, saber o que era a alegria, agora e para sempre.

- Que porra vocês estão fazendo?

Era Dolores Piñero, aos gritos. Por um instante, tudo parou, ficou paralisado no tempo. Dolores Pinero estava de pé ao lado da cama, olhando para a filha e o mouro.

Graciela fitou a mãe, apavorada demais para falar. Os olhos de Dolores Piñero faiscavam com uma raiva insana.

- Sua puta! - berrou. - Sua puta nojenta!

- Mamãe... por favor...

Dolores Pinero pegou um pesado cinzeiro de ferro na mesinha-de-cabeceira e bateu com toda a força na cabeça da filha. Foi a última coisa de que Graciela se lembraria. Ela acordou numa enfermaria de hospital, grande e branca, com duas dúzias de camas, todas ocupadas. Enfermeiras corriam apressadas de um lado para outro, tentando atender às necessidades dos pacientes.

A cabeça de Graciela latejava com uma dor lancinante. Cada vez que se mexia, rios de fogo corriam por ela. Ficou deitada ali, escutando os gritos e gemidos das outras pacientes.

Ao final da tarde um jovem interno parou ao lado de sua cama. Tinha trinta e poucos anos, mas parecia velho e cansado.

- Finalmente acordou - disse.

- Onde estou? - Graciela descobriu que doía muito falar.

- Na enfermaria de caridade do Hospital Provincial de Ávila. Foi trazida ontem, em péssimo estado. Tivemos de dar vários pontos na sua testa. - O interno fez uma pausa. - O cirurgião-chefe decidiu cuidar de você pessoalmente. Disse que era bonita demais para ficar marcada por cicatrizes.

Ele está enganado, pensou Graciela. Ficarei marcada pelo resto da vida.

 

No segundo dia, padre Pérez foi visitar Graciela. Uma enfermeira arrastou uma cadeira para o lado da cama. O padre contemplou a moça linda e pálida deitada ali, e seu coração se estremeceu. A coisa terrível que acontecera com ela era o escândalo de Las Navas del Marqués, mas não havia nada que alguém pudesse fazer a esse respeito. Dolores Piñero contara à polícia que a filha machucara a cabeça ao cair. Padre Pérez perguntou então a Graciela:

- Está se sentindo melhor, criança?

Graciela assentiu, e o movimento fez com que sua cabeça doesse ainda mais.

- A polícia tem feito perguntas. Tem alguma coisa que gostaria que eu dissesse a eles?

Houve um silêncio prolongado, antes que ela balbuciasse:

- Foi um acidente.

O padre não pôde suportar a expressão nos olhos de Graciela.

- Entendo... - O que Graciela tinha a dizer era doloroso demais. - Conversei com sua mãe...

E Graciela soube de tudo no mesmo instante.

- Eu... não posso mais voltar para casa, não é mesmo?

- Infelizmente, não. Vamos conversar sobre isso. - Segurou-lhe a mão. - Voltarei para visitá-la amanhã.

- Obrigada, padre.

Depois que ele foi embora, Graciela rezou: Querido Deus, deixe-me morrer, por favor. Não quero mais viver.

Não tinha onde ir e ninguém para procurar. Nunca mais veria sua casa. Nunca mais queria ir à escola ou contemplar os rostos familiares das professoras. Não lhe restava coisa alguma no mundo. Uma enfermeira parou ao pé da cama.

- Precisa de alguma coisa?

Graciela fitou-a em desespero. O que havia para dizer?

No dia seguinte, o interno tornou a aparecer.

- Tenho boas notícias - disse, constrangido. - Já está em condições de ter alta. - Era uma mentira, mas o resto do discurso foi verdadeiro. - Precisamos do leito.

Ela estava livre para sair... mas sair para onde?

 

Quando o padre Pérez chegou, uma hora depois, estava acompanhado por outro sacerdote.

- Este é o padre Berrendo, um velho amigo meu.

Graciela   olhou para o padre de aparência frágil.

- Padre...

Ele tinha razão", pensou o padre Berrendo. Ela é mesmo linda."

Padre Pérez contara o que acontecera com Graciela. Berrendo esperava encontrar sinais visíveis do tipo de ambiente em que a criança vivera, uma dureza, desafio, autocompaixão. Mas não havia nada disso no rosto da moça.

- Lamento que tenha passado por momentos tão terríveis - disse-lhe padre Berrendo.

A frase insinuava um significado mais profundo.

Padre Pérez acrescentou:

- Graciela, preciso voltar a Las Navas del Marqués. Vou deixá-la aos cuidados de padre Berrendo.

Graciela foi dominada por um súbito sentimento de pânico. Sentiu que o último vínculo com sua casa estava sendo cortado.

- Não vá! - suplicou.

Padre Pérez pegou-lhe a mão e disse, gentilmente:

- Sei que se sente só, mas não está. Acredite em mim, criança, não está só.

Uma enfermeira aproximou-se da cama, carregando um fardo. Entregou-o a Graciela.

- Aqui estão suas roupas. Lamento, mas terá que ir embora agora.

Um pânico ainda maior dominou Graciela.

- Agora?

Os dois padres trocaram um olhar.

- Por que não se veste e vem comigo? - sugeriu padre Berrendo. - Poderemos conversar.

Quinze minutos depois padre Berrendo ajudava Graciela a sair pela porta do hospital para o sol quente. Havia um jardim na frente com flores de cores fortes, mas Graciela estava atordoada demais para notá-las.

 

Quando estavam sentados em seu escritório, padre Berrendo disse:

- Padre Pérez me contou que você não tem para onde ir.

Graciela acenou com a cabeça.

- Não tem parentes?

- Só... - Era difícil dizer. - Só... minha mãe. -

Padre Pérez disse que frequentava regularmente a igreja em sua aldeia.

Uma aldeia que nunca mais tornaria a ver.

- É verdade.

Graciela pensou naquelas manhãs de domingo, a beleza dos serviços na igreja, o quanto ansiava estar com Jesus, escapando da angústia da vida que levara.

- Graciela, alguma vez pensou em entrar para um convento?

- Não. – Estava aturdida com a ideia.

- Há um convento aqui em Ávila... o convento Cisterciense. Elas a aceitariam ali.

- Eu... não sei...

A ideia era assustadora.

- Não é para todas - disse padre Berrendo. - E devo avisá-la que é a mais rigorosa de todas as ordens. Depois de passar pelos portões e tomar os votos, faz uma promessa a Deus de nunca mais sair.

Graciela ficou em silêncio, a mente povoada por pensamentos conflitantes, olhando para a janela. A perspectiva de se isolar do mundo era terrível. "Seria como ir para a prisão." Mas por outro lado, o que o mundo tinha a lhe oferecer? Dor e desespero além de sua capacidade de suportar. Pensara muitas vezes em suicídio. Aquilo podia representar uma saída para sua angústia. Padre Berrendo acrescentou:

- Depende de você, minha criança. Se quiser, eu a levarei para conhecer a reverenda madre superiora.

- Está bem.

 

A reverenda madre estudou o rosto da moça à sua frente. Na noite passada, pela primeira vez em muitos e muitos anos, ela ouvira a voz. Uma jovem virá ao seu encontro. Proteja-a.

- Quantos anos tem, minha filha?

- 14.

Ela já tem idade suficiente. No século quatro, o papa determinara que as jovens tinham permissão para se tornarem freiras aos 12 anos.

- Tenho medo - murmurou Graciela para a reverenda madre Betina. "Tenho medo." As palavras ressoaram na mente de Betina. "Tenho medo..."

Acontecera há muitos anos. Ela estava falando com o padre.

- Não sei se tenho vocação para isso, padre. Tenho medo.

- O primeiro contato com Deus, Betina, pode ser bastante desconcertante, e a decisão de consagrar sua vida a Ele é das mais difíceis.

"Como descobri minha vocação?" especulara Betina.

Nunca fora sequer ligeiramente interessada por religião. Quando pequena, evitava a igreja e as aulas de catecismo. Na adolescência, estava mais interessada em festas, roupas e rapazes. Se perguntasse às amigas em Madri para indicarem possíveis candidatas a freiras, Betina ficaria no final da lista. Ou, mais acuradamente, nem entraria na lista. Mas aos 19 anos começaram a ocorrer eventos que mudaram sua vida. Estava na cama, dormindo, quando uma voz disse:

- Betina, levante-se e saia.

Abriu os olhos e sentou-se na cama, assustada. Acendeu o abajur na mesinha-de-cabeceira. Estava só. Que sonho estranho!

Mas a voz fora bastante real. Tornou a deitar-se, mas foi impossível voltar a dormir.

- Betina, levante-se e saia.

É o meu subconsciente", pensou. Por que eu haveria de querer sair no meio da noite?"  Apagou o abajur, mas tornou a acendê-lo um momento depois. Isso é loucura.

Mas acabou pondo um chambre e chinelas e desceu. Todos na casa dormiam.

Abriu a porta da cozinha, e nesse instante foi envolta por uma onda de medo, porque de alguma forma sabia que deveria sair para o pátio. Correu os olhos pela escuridão e divisou um brilho de luar numa geladeira abandonada, agora usada para guardar ferramentas. Betina compreendeu subitamente por que estava ali. Encaminhou-se para a geladeira, como se estivesse hipnotizada, e abriu-a. Seu irmão de três anos estava lá dentro, inconsciente.

Esse foi o primeiro incidente. Com o tempo, Betina racionalizou isso como uma experiência perfeitamente normal. Devo ter ouvido meu irmão levantar e sair para o pátio, lembrei que a geladeira estava ali, fiquei preocupada com ele, e por isso saí para verificar."

A segunda experiência não foi fácil de explicar. Aconteceu um mês depois. No sono, Betina ouviu uma voz dizer:

- Você deve apagar o fogo.

Sentou-se na cama, completamente despertada, o coração disparado. Outra vez, foi impossível voltar a dormir. Pôs o chambre e chinelos, saiu para o corredor. Não havia fumaça. Não havia fogo. Abriu a porta do quarto dos pais. Tudo estava normal ali. Também não havia fogo no quarto do irmão. Desceu e verificou todos os cômodos. Não havia o menor indício de fogo.

Sou uma idiota, pensou. Foi apenas um sonho.

Voltava para a cama no momento em que a casa foi sacudida por uma explosão. Ela e a família escaparam, os bombeiros conseguiram extinguir o incêndio.

Começou no porão - explicou um bombeiro. - E uma caldeira explodiu.

O incidente seguinte ocorreu três semanas depois. E desta vez não foi sonho.

Betina estava no pátio, lendo, quando avistou um estranho atravessando. Ele a fitou, e nesse instante ela sentiu uma malevolência irradiando-se do homem, quase palpável. Ele virou-se e foi embora.

Betina não conseguiu tirá-lo da mente.

Três dias depois, ela estava num prédio de escritório, à espera do elevador. A porta se abriu, e ela já ia entrar no elevador quando reparou no ascensorista. Era o homem que vira no pátio. Betina recuou, assustada. A porta fechou-se e o elevador subiu. Momentos depois caiu, matando todas as pessoas que estavam lá dentro.

No domingo seguinte Betina foi à igreja.

Santo Deus, não sei o que está acontecendo, e me sinto assustada. Por favor, oriente-me e diga o que devo fazer.

A resposta veio naquela noite, enquanto Betina dormia. A voz disse uma única palavra. Devoção.

Pensou a esse respeito durante o resto da noite, e pela manhã foi conversar com o padre.

Ele escutou atentamente o que Betina tinha a dizer.

- Ah, você é uma das afortunadas! Foi escolhida.

- Escolhida para quê?

- Está disposta a devotar toda sua vida a Deus, minha criança?

- Eu... eu não sei...

Mas, no final, ela acabou ingressando no convento. Escolhi o caminho certo, pensou a reverenda madre Betina, porque jamais conheci tanta felicidade...

 

E agora ali estava aquela criança maltratada a murmurar:

- Tenho medo.

A reverenda madre pegou a mão de Graciela.

- Leve o tempo que precisar para decidir, Graciela. Deus não irá embora. Pense a esse respeito, volte e poderemos conversar.

Mas o que havia para pensar? "Não tenho outro lugar para onde ir", refletiu Graciela. E o silêncio seria bem-vindo. "Já ouvi sons terríveis demais." Fitou a reverenda madre e disse:

- Terei prazer com o silêncio.

 

Isso acontecera 17 anos antes, e nesse período Graciela encontrara paz pela primeira vez. E toda sua vida era dedicada a Deus. O passado não mais lhe pertencia. Estava perdoada pelos horrores com que fora criada. Era a esposa de Cristo, e ao final

de sua vida iria se juntar a Ele.

À medida que os anos se passaram, em profundo silêncio, apesar dos pesadelos ocasionais, os sons terríveis em sua mente pouco a pouco se desvaneceram.

 

Irmã Graciela foi designada para trabalhar no jardim, cuidando dos pequenos arco-íris do milagre de Deus, jamais se cansava de seu esplendor. Os muros do convento erguiam-se acima dela, por todos os lados, como uma montanha de pedra, mas Graciela nunca se sentia aprisionada; em vez disso, sentia-se isolada do terrível mundo exterior, um mundo que jamais queria rever.

A vida no convento fora serena e pacífica. Agora, porém, os pesadelos assustadores convertiam-se em realidade. Seu mundo fora invadido por bárbaros. Expulsaram-na de seu santuário, para o mundo a que renunciara para sempre. E seus pecados ressurgiam, enchendo-a de horror. O mouro voltara. Podia sentir seu bafo quente no rosto. Enquanto lutava com ele, Graciela abriu os olhos, e era o frade quem estava por cima dela, tentando penetrá-la. E ele dizia:

- Pare de resistir, irmã. Vai gostar disso.

- Mamãe! - gritou Graciela. - Mamãe! Socorro!

 

Lucia Carmine sentia-se muito bem enquanto descia pela rua, acompanhada por Megan e Teresa. Era maravilhoso usar de novo roupas femininas, e ouvir o sussurro da seda contra sua pele. Olhou para as outras. As duas andavam nervosamente, desacostumadas às roupas novas parecendo inibidas e embaraçadas na saia e meias. Parecem que vieram de outro planeta, pensou Lucia. Certamente não pertencem a este. É como se estivessem usando cartazes que dizem: PEGUEM-ME.

Irmã Teresa era a mais contrafeita. Trinta anos no convento incutiram-lhe um profundo senso de recato, que estava sendo violado pelos eventos que não podiam controlar. Aquele mundo a que outrora pertencera agora parecia irreal. O convento, sim, que era real, e ela ansiava por voltar ao santuário de seus mouros protetores.

Megan estava consciente de que os homens a contemplavam enquanto descia pela rua e corou. Vivera num mundo de mulheres por tanto tempo que esquecera como era ver um homem, muito menos observar um a sorrir-lhe. Era embaraçoso, indecente... excitante. Os homens despertavam sensações que Megan sepultara há muito tempo. Pela primeira vez em anos, estava consciente de sua feminidade.

Estavam passando pelo bar que haviam visto na ida, e a música saíra estrondosa para a rua. Como fora mesmo que frei Carrillo chamara? Rock and roll. "Muito popular entre os jovens." E, subitamente, Megan compreendeu o que era. Ao passarem pelo cinema, o frade dissera: "É vergonhoso o que o cinema tem permissão para mostrar hoje em dia. Esse filme é pura pornografia. Os atos mais pessoais e intimos são apresentados, para todos verem."

O coração de Megan começou a bater mais depressa. Se frei Carrillo passara os últimos vinte anos encerrado num mosteiro, como podia saber sobre a música de rock ou o que o cinema exibia? Alguma coisa estava terrivelmente errada. Virou-se para Lucia e Teresa e disse, em tom de urgência:

- Precisamos voltar à loja.

Elas observaram enquanto Megan se virava correndo, depois a seguiram.

Graciela estava no chão, lutando desesperadamente para se desenvencilhar, arranhando e empurrando Carrillo.

- Mas que droga! Fique quieta! - Estava ficando sem fôlego. Ouviu um som e levantou os olhos. Viu um salto de um sapato avançando para sua cabeça e foi a última coisa de que se lembrou depois. Megan levantou a trêmula Graciela e abraçou-a.

- Calma, calma... Está tudo bem. Ele não vai mais incomodá-la.

Alguns minutos se passaram antes que Graciela pudesse falar, balbuciando, suplicante:

- Ele... ele... não foi minha culpa desta vez.

Lucia e Teresa entraram na loja. Lucia percebeu toda a situação com um rápido olhar.

- O filho da mãe!

Olhou para o vulto inconsciente e seminu no chão. Enquanto as outras observavam, Lucia pegou alguns cintos num balcão e amarrou as mãos de Carrillo nas costas.

- Amarre os pés - disse a Megan.

Megan pôs-se a trabalhar. Lucia finalmente levantou-se satisfeita.

- Pronto. Quando abrirem a loja esta tarde, ele terá de explicar o que está fazendo aqui. - Estudou Graciela atentamente.

- Você está bem?

- Eu... eu... estou. - Graciela tentou sorrir.

- É melhor sairmos daqui - disse Megan. - Vista-se. Depressa.

Quando estavam prontas para sair, Lucia disse:

- Esperem um instante.

Foi até a caixa registradora e apertou uma tecla. Havia algumas notas e cem pesetas ali. Lucia tirou-as, pegou uma bolsa no balcão e guardou as notas dentro. Viu a expressão desaprovadora no rosto da irmã Teresa.

- Pense da seguinte maneira - disse Lucia. - Se Deus não quisesse que ficássemos com este dinheiro, irmã, não o poria aqui para nós.

 

Elas estavam sentadas no café, reunidas. Irmã Teresa estava dizendo:

-   Devemos levar a cruz ao convento em Mendavia o mais depressa possível. Haverá segurança ali para todas nós.

Não Para mim , pensou Lucia. Minha segurança é aquele banco suíço. Mas uma coisa de cada vez. Preciso antes de me apoderar da cruz."

- O convento em Mendavia não fica ao norte daqui?

- Fica.

- Os homens estarão à nossa procura em cada cidade. Por isso, devemos dormir nas montanhas esta noite.

Ninguém ouvirá, mesmo que ela grite.

Uma garçonete trouxe os cardápios para a mesa e distribuiu-os. As irmãs olharam, com expressões confusas. Subitamente, Lucia compreendeu. Há muitos anos que elas não tinham opção de qualquer tipo. No convento, comiam automaticamente a comida simples que lhes era servida. Agora, defrontavam-se com uma cornucópia de iguarias desconhecidas. Irmã Teresa foi a primeira a se manifestar:

- Eu... eu quero um café e pão, por favor.

Irmã Graciela acrescentou:

- E eu também.

Megan declarou:

- Temos uma jornada longa e árdua pela frente. Sugiro que peçamos alguma coisa mais nutritiva, com ovos.

Lucia fitou-a com uma nova atenção. É nela que devo ficar de olho, pensou Lucia. Em voz alta, ela declarou:

- Irmã Megan tem razão. Deixem que eu peço por vocês, irmãs. - Pediu laranjas em fatias, tortilhas de batatas, bacon, pão, geléia e café. - Estamos com pressa - avisou à garçonete.

A siesta terminava às quatro e meia, e toda cidade despertaria. Ela queria estar bem longe antes que isso acontecesse, antes que descobrissem Miguel Carrillo na loja de roupas.

Quando a comida chegou, as irmãs ficaram imóveis, olhando, aturdidas.

- Sirvam-se – exortou Lucia.

Elas começaram a comer, cautelosas a princípio, depois com a maior satisfação, superando os sentimentos de culpa. Irmã Teresa era a única que estava com problemas. Levou um pouco à boca e balbuciou:

- Eu... eu... não posso... é renunciar...

Megan disse:

- Não quer chegar ao convento, irmã? Então precisa comer para manter as forças.

- Está bem, vou comer. Mas prometo que não vou gostar - declarou irmã Teresa, empertigada.

Lucia precisou fazer um grande esforço para manter a expressão compenetrada.

- Está certo, irmã. Mas coma tudo.

Depois que acabaram, Lucia pagou a conta com uma parte do dinheiro que tirara da caixa registradora. Elas saíram para o sol quente. As ruas começaram a se encher, as lojas já estavam abrindo. A esta altura, provavelmente, já encontraram Miguel Carrillo, pensou Lucia.

Ela e Teresa estavam impacientes em deixar a cidade, mas Graciela e Megan andavam devagar, fascinadas pelas vistas, sons e cheiros do lugar.

Só quando saíram para os arredores e se encaminharam para as montanhas é que Lucia começou a relaxar. Seguiram para o norte, subindo sempre, bem devagar devido ao terreno acidentado. Lucia sentia-se tentada a perguntar a irmã Teresa se não gostaria que ela carregasse a cruz, mas achou melhor não dizer nada que pudesse despertar suspeitas na mulher mais velha.

Ao chegarem a uma pequena clareira no alto, cercada por árvores, Lucia disse:

- Podemos passar a noite aqui. Pela manhã seguiremos para o convento em Mendavia.

As outras concordaram, acreditando nela.

 

O sol deslocava-se devagar pelo céu azul. A claridade estava em silêncio, exceto pelos sons confortáveis de verão. A noite finalmente caiu.

Uma a uma, as mulheres deitaram na relva verde.

Lucia ficou imóvel, a respiração leve, atenta a um silêncio mais profundo, à espera de que as outras adormecessem, a fim de entrar em ação.

Irmã Teresa estava encontrando dificuldades para dormir. Era uma experiência estranha dormir sob as estrelas, cercada por outras irmãs. Elas tinham nomes agora, rostos e vozes, e Teresa receava que Deus a punisse por esse conhecimento proibido. Sentia-se terrivelmente perdida.

Irmã Megan também não conseguia dormir. Sentia-se excitada pelos acontecimentos do dia. "Como descobrira que o frade era uma fraude?" especulou. "E onde encontrei coragem para salvar irmã Graciela?" Sorriu, incapaz de evitar alguma satisfação consigo mesma, estando ciente de que tal sentimento era um pecado.

Graciela dormia, emocionalmente esgotada pelo que passara. Remexia-se no sono, atormentada por sonhos em que era perseguida por corredores escuros e intermináveis.

Lucia Carmine mantinha-se imóvel, à espera. Assim ficou por quase duas horas, depois se sentou e deslocou-se pela escuridão, sem fazer barulho, na direção de irmã Teresa. Pegaria o embrulho e desapareceria.

Ao se aproximar de irmã Teresa, Lucia descobriu que ela estava acordada, ajoelhada, rezando. Merda! Lucia recuou apressada.

Tornou a se deitar, forçando-se a ser paciente. Irmã Teresa não poderia rezar durante a noite inteira. Precisava de dormir um pouco.

Lucia planejou seus movimentos. O dinheiro tirado da caixa registradora seria suficiente para que pegasse um ônibus ou trem até Madri. Ao chegar lá, seria fácil arrumar um penhorista. Viu-se entregando-lhe a cruz de ouro. O homem desconfiaria de que era roubada, mas isso não faria a menor diferença. Ele teria muitos clientes ansiosos em comprá-la.

Eu lhe darei cem mil pesetas pela cruz. Ela a pegaria no balcão. Prefiro vender meu corpo primeiro.

Cento e cinquenta mil pesetas."

Prefiro derretê-la e deixar o ouro escoar pelo bueiro.

Duzentas mil pesetas. Esta é minha última oferta.

Está me roubando vergonhosamente, mas vou aceitar.

O homem estenderia as mãos para a cruz, na maior ansiedade.

Sob uma condição.

Uma condição?"

Isso mesmo. Perdi meu passaporte. Conhece alguém que possa me providenciar outro?  Suas mãos ainda estariam na cruz de ouro.

Ele hesitaria, mas acabaria dizendo: Por acaso tenho um amigo que arruma essas coisas." E o negócio seria fechado. Ela estaria a caminho da Suíça e da liberdade. Lembrou-se das palavras do pai: Há muito mais dinheiro lá do que poderia gastar em dez vidas. Seus olhos começaram a fechar. Fora um longo dia.

Em seu meio sono, Lucia ouviu o repicar de um sino na aldeia distante. Provocou-lhe lembranças, de outro lugar, de outro tempo...

 

                   TAORMINA, SICÍLIA 1968

Ela era despertada todas as manhãs pelos sinos da igreja de San Domenico, no alto das

Montanhas Peloritoni, ao redor de Taormina. Gostava de acordar devagar, espreguiçando-se lânguidamente, como uma gata. Mantinha os olhos fechados, ciente que havia alguma coisa maravilhosa para lembrar. "O que era?" A questão provocava-lhe a mente, e ela reprimia, sem querer saber por enquanto, preferindo saborear a surpresa. E de repente sua mente era envolvida pela recordação, na mais intensa alegria. Era Lucia Maria Carmine, a filha de Angelo Carmine, o que era suficiente para tornar qualquer pessoa feliz no mundo.

Moravam numa villa grande, com mais criados do que Lucia, então com 15 anos, podia contar. Um guarda-costas levava-a para a escola todas as manhãs, numa limusine blindada. Cresceu com os mais lindos vestidos e os brinquedos mais caros em toda a Sicília, era a inveja das colegas da escola.

Mas era em torno de seu pai que a vida de Lucia se concentrava. A seus olhos, ele era o homem mais bonito do mundo. Era baixo e corpulento, com rosto forte e olhos castanhos tempestuosos, que irradiavam poder. Tinha dois filhos, Arnaldo e Victor, mas era a filha que Angelo Carmine adorava. E Lucia o idolatrava. Na igreja, quando o padre falava em Deus, Lucia sempre pensava no pai. Ele ia à cabeceira de sua cama pela manhã e dizia:

- Hora de levantar para a escola, faccia d'angelo..

Cara de anjo. Não era verdade, é claro. Lucia sabia que não era realmente bonita. Sou atraente, ela pensava, estudando-se objetivamente no espelho. Isso mesmo. Fascinante, em vez de bela. O reflexo mostrava uma moça com rosto oval, pele cremosa, lisa, dentes brancos, um queixo forte – forte demais? -, lábios sensuais e cheios - cheios demais? -, olhos escuros e espertos. Mas se o rosto ficava aquém da beleza, o corpo mais do que

compensava. Aos 15 anos, Lucia possuía o corpo de mulher, seios arredondados e firmes, cintura fina e quadris que se mexiam com uma promessa sensual.

- Precisamos casá-la muito cedo - costumava zombar o pai. - Muito em breve estará levando os rapazes à loucura, minha pequena virgem.

- Quero casar com alguém como você, papai, só que não há ninguém como você.

Ele riu.

- Não se preocupe. Encontraremos um príncipe para você. Nasceu sob uma estrela de sorte, e um dia saberá como é ser abraçada por um homem que lhe fará amor.

Lucia corou.

- Sim, papai.

Era verdade que ninguém lhe fizera amor... não nas últimas 12 horas. Benito Patas, um dos guarda-costas, ia sempre para sua cama quando o pai não estava na cidade. Ter Benito a lhe fazer amor dentro de casa aumentava a emoção, porque Lucia sabia que o pai mataria os dois se algum dia descobrisse.

Benito estava na casa dos trinta anos, e sentia-se lisonjeado porque a linda e jovem filha virgem do grande Angelo Carmine o escolhera para deflorá-la.

- Foi o que você esperava? - perguntou ele, na primeira vez em que se deitaram juntos.

- Foi, sim - balbuciou Lucia. - Melhor até. - Ela pensou: Ele não é tão bom quanto Mário, Tony ou Enrico, mas é melhor do que Roberto e Leo. Ela não conseguia lembrar-se do nome dos outros.

Aos 13 anos, Lucia concluiu que já fora virgem por tempo suficiente. Olhava ao redor e decidira que o afortunado seria Paolo Costello, o filho de um médico de Angelo Carmine. Paolo tinha 17 anos, alto e corpulento, o astro do time de futebol da escola. Lucia apaixonara-se perdidamente por Paolo na primeira vez que o vira. Dava um jeito de esbarrar com ele tantas vezes quanto possível. Nunca ocorrera a Paolo que os constantes encontros eram planejados com maior cuidado. Considerava a jovem e atraente filha de Angelo Carmine como uma criança. Mas num dia quente de verão, em agosto, Lucia resolveu que não podia mais esperar.

Telefonou para Paolo.

- Paolo... aqui é Lucia Carmine. Meu pai gostaria de conversar uma coisa com você e quer saber se pode encontrá-lo esta tarde na sala de sinuca.

Paolo ficou surpreso e lisonjeado. Sentia o maior respeito por Angelo Carmine, mas sequer imaginava que o poderoso mafioso sabia de sua existência.

- Terei o maior prazer. A que horas ele gostaria que eu estivesse aí?

- Às três horas.

Hora da sesta, quando o mundo estaria dormindo. O salão de sinuca era isolado, num canto da ampla propriedade, o pai estava fora da cidade. Não havia a menor possibilidade de serem interrompidos.

Paolo chegou pontualmente na hora marcada. O portão do jardim estava aberto, e ele seguiu direto para o salão de sinuca. Parou diante da porta fechada e bateu.

- Signore Carmine? Posso entrar?

Não houve resposta. Paolo conferiu o relógio. Cauteloso, abriu a porta e entrou. Estava escuro lá dentro.

- Signore Carmine?

Um vulto aproximou-se.

- Paolo...

Ele reconheceu a voz de Lucia.

- Estou à procura de seu pai, Lucia. Ele está aqui?

Ela estava bem perto agora, o suficiente para que Paolo descobrisse que se encontrava completamente nua.

- Santo Deus! - balbuciou Paolo. - O que...?

- Quero que você faça amor comigo.

– Está louca? É apenas uma criança. Vou embora. - Encaminhou-se para a porta.

- Pode ir. Direi a papai que você me estuprou.

- Não faria isso.

- Saia daqui e descobrirá.

Ele parou. Se Lucia cumprisse a ameaça, não havia a menor dúvida na mente de Paolo sobre o destino que o aguardava. A castração seria apenas o início. Voltou para junto de Lucia, a fim de tentar argumentar.

- Lucia, querida...

- Gosto quando você me chama de querida.

- Não... preste atenção, Lucia. O caso é muito sério. Seu pai me matará se disser que eu a estuprei.

- Sei disso.

Ele fez outra tentativa.

- Meu pai cairia em desgraça. Toda a minha família seria desgraçada.

- Sei disso.

Era inútil.

- O que quer de mim?

- Quero que faça tudo comigo.

- Não. É impossível. Seu pai me matará se descobrir.

- E se sair daqui, ele o matará. não tem opção, não é mesmo?

Ele entrou em pânico.

- Por que eu, Lucia?

- Porque estou apaixonada por você, Paolo! - Segurou-lhe as mãos e comprimiu gentilmente entre suas pernas. - Sou uma mulher. Faça-me sentir como tal.

Na semi-escuridão, Paolo podia ver os seios arredondados, os mamilos duros, os pelos escuros entre as pernas.

Meu Deus!", pensou Paolo. O que um homem pode fazer?"

Ela levou-o para um sofá, ajudou-o a tirar as calças e as cuecas. Ajoelhou-se e pôs o membro duro na boca, chupando gentilmente. Paolo pensou: Ela já fez isso antes. E quando estava por cima dela, penetrando fundo, as mãos de Lucia em suas costas, apertando, os quadris se comprimindo contra ele na maior ansiedade, Paolo pensou: Por Deus, ela é maravilhosa!

Lucia estava no paraíso. Era como se tivesse nascido para aquilo. Instintivamente, sabia com precisão o que fazer para agradar a ele e agradar a si mesma. Todo o seu corpo pegava fogo. Sentiu que se aproximava do orgasmo, mais e mais; quando finalmente aconteceu, ela gritou de pura alegria. Os dois ficaram imóveis depois, exaustos, a respiração difícil. Passou-se algum tempo antes que Lucia murmurasse:

- À mesma hora amanhã.

Quando Lucia estava com 16 anos, Angelo Carmine decidiu que estava na hora da filha conhecer alguma coisa do mundo. Com a idosa tia Rosa como acompanhante, Lucia passou as férias escolares em Capri, e Ischia, Veneza e Roma e inúmeros outros lugares.

- Deve ser refinada... não uma camponesa, como seu papai. Viajar vai melhorar sua educação. Em Capri, tia Rosa a levará para conhecer o Mosteiro Cartusiamo de São Tiago, a Villa de San Michele e o Palazzo a Mare...

- Pois não, papai.

- Em Veneza tem a Basílica de São Marcos, o Palácio Ducal, a Igreja de São Jorge e o Museu Academia.

- Pois não, papai.

- Roma é o tesouro do mundo. Deve visitar a Cidade do Vaticano, a Basílica de Santa Maria Maggiore e a Galeria Borghese, é claro.

- Claro, papai.

- E Milão! Deve ir ao Conservatório para um concerto. Providenciarei ingressos no Scala para você e tia Rosa. Em Florença conhecerá o Museu Municipal de Arte, e ainda há dezenas de igrejas e museus.

- Claro, Papai.

Com um planejamento cuidadoso, Lucia conseguiu não ver nenhum desses lugares. Tia Rosa insistia em tirar uma sesta todas as tardes e dormir cedo à noite.

- Deve descansar também, criança.

- Claro, tia Rosa.

E assim, enquanto tia Rosa dormia, Lucia dançou no Quisisana em Capri, passeou numa carrozza puxada por um cavalo de chapéu e plumas, juntou-se a um grupo de estudantes na Marina Piccola, foi a piqueniques em Bagni di Tiberio, tomou o "funiculare" para Anacapri, onde se juntou a um grupo de universitários franceses para drinques na Piazza Umberto I.

Em Veneza, um belo gondoleiro levou-a a uma discoteca, e um pescador levou-a a uma pescaria em Chioggia. E tia Rosa dormia.

Em Roma, Lucia tomou vinho da Apúlia e descobriu todos os restaurantes agitados em

voga, como o Marte, Ranieri e Giggi Fazi.

Onde quer que fosse, Lucia descobria pequenos bares e boates, homens românticos e atraentes, pensando sempre: O querido papai estava certo. Viajar melhorou minha educação.

Na cama, ela aprendeu a falar diversas línguas diferentes e pensou: Isso é muito mais divertido do que as aulas de línguas na escola.

 

Ao voltar para casa, em Taormina, Lucia confidenciou às amigas mais íntimas:

- Fiquei nua em Nápoles, drogada em Selerno, bêbada em Florença e fodida em Lucca.

 

A própria Sicília era uma maravilha a explorar, uma ilha de templos gregos, anfiteatros romanos bizantinos, capelas, banhos árabes e cavalos suábios.

Lucia achava Palermo atraente e animada, gostava de vaguear pelo Kalsa, o velho distrito árabe, e visitar a Opera dei Pupi, o teatro de marionetes. Mas Taormina, onde nascera, era sua cidade predileta. Era um lugar de cartão postal, no mar Jónio, numa montanha pairando sobre o mundo. Era uma cidade de butiques e joalherias, bares e lindas praças antigas, "trattorias" e hotéis pitorescos, como o Excelsior Palace e o San Domenico.

A estrada que sobe do porto de Naxos é íngreme. Estreita e perigosa. Quando Lucia ganhou um carro, ao completar 15 anos, violou todas as leis de trânsito, mas nunca foi detida pelos carabinieri. Afinal era filha de Ângelo Carmine. Para os considerados bastante corajosos ou estúpidos para perguntarem, Angelo Carmine estava no negócio imobiliário. E em parte era verdade, pois a família Carmine possuia a villa em Taormina, uma casa no lago Como, em Cernobbio, um chalé em Gstaad, um apartamento e uma imensa fazenda nos arredores de Roma. Mas Carmine também operava em negócios diferentes. Possuía vários bordéis, dois cassinos, seis navios que traziam cocaína de suas plantações na Colômbia e uma variedade de outros empreendimentos lucrativos, inclusive agiotagem. Angelo Carmine era o capitão dos mafiosos sicilianos e, assim, era apropriado que vivesse bem. Sua vida era uma inspiração para os outros, a prova animadora de que um pobre camponês italiano que fosse ambicioso e trabalhasse duro poderia se tornar rico e bem-sucedido.

Carmine começara como mensageiro para os mafiosos quando tinha 12 anos. Aos 15 tornou-se cobrador de empréstimos de agiotagem, aos 16 anos matara o primeiro homem e se estabelecera sua reputação. Pouco depois disso, casara com a mãe de Lucia, Anna. Nos anos subsequentes, Angelo Carnime subira pela traiçoeira escada corporativa até ao topo, deixando em sua esteira sucessão de inimigos mortos. Ele crescera, mas Anna permanecera a camponesa simples com quem se casara. Deu-lhe três lindos filhos, mas depois disso sua contribuição à vida de Angelo cessou. Como se soubesse que não tinha mais lugar na vida da sua família, Anna atenciosamente morreu, sendo bastante diferente para fazê-lo com um mínimo de rebuliço.

Arnaldo e Victor estavam no negócio com o pai. Desde pequena, Lucia sempre ouvira as conversas excitantes entre o pai e os irmãos, escutava histórias de como haviam enganado ou dominado seus inimigos. Para Lucia, o pai era como um cavaleiro numa armadura reluzente. Nada via de errado no que o pai e os irmãos faziam. Ao contrário, eles ajudavam as pessoas. Se as pessoas queriam jogar, por que deixar que leis estúpidas impedissem? Se os homens encontravam prazer em comprar sexo, por que não ajudá-los? E como o pai e os irmãos eram generosos ao emprestar dinheiro às pessoas que eram repelidas pelos banqueiros de coração duro. Para Lucia, o pai e os irmãos eram cidadãos exemplares. A prova disso estava nos amigos do pai. Uma vez por semana, Angelo Carmine oferecia um grande jantar na villa e... ah, as pessoas que se sentavam à sua mesa! O prefeito comparecia, assim como alguns vereadores e juízes, artistas de cinema e cantores de ópera, muitas vezes o próprio chefe de polícia e um monsenhor. Várias vezes por ano o próprio governador visitava a casa.

Lucia levava uma vida idílica, com muitas festas, roupas e jóias, carros e criados, amigos poderosos. E de repente, num mês de Fevereiro, quando tinha 23 anos, tudo terminou abruptamente.

Começou de forma bastante inócua. Dois homens foram à villa para falar com seu pai. Um deles era um amigo, o chefe de polícia, o outro seu lugar-tenente.

- Perdoe-me, padrone - disse o chefe de polícia -, mas esta é uma formalidade estúpida a que o comissário está me obrigando. Mil perdões, "padrone", mas se fizer a gentileza em me acompanhar à delegacia, providenciarei para que esteja em minha casa a tempo de desfrutar a festa de aniversário de sua filha.

- Não há problema. Um homem deve cumprir seu dever. – Ângelo Carmine falou jovialmente e sorriu. - Esse novo comissário que foi designado pelo presidente é... para usar uma expressão típica... um " cu-de-ferro", não é mesmo?

- Infelizmente, é isso mesmo. - O chefe de polícia suspirou - Mas não se preocupe. Já vimos muitos homens assim chegarem e partirem depressa, não é mesmo, padrone?

Os dois riram e seguiram para a delegacia.

 

Angelo não voltou para a festa naquele dia e também não apareceu no dia seguinte. Na verdade, nunca mais tornou a ver qualquer de suas casas. O Estado apresentou um indiciamento com uma centena de acusações contra ele, incluindo homicídio, tráfico de drogas, prostituição, incêndio criminoso e dezenas de outros crimes. A fiança foi negada. A polícia lançou uma rede em que prendeu toda a organização criminosa de Carmine. Ele contava com suas ligações poderosas na Sicília para que as acusações contra ele fossem arquivadas, mas acabou sendo levado para Roma, às escondidas, e internado na Regina Coeli, a mais notória prisão italiana. Foi metido numa cela pequena, com janela gradeada, um aquecedor, uma cama e um vaso sem tampa. Era uma afronta!Uma indignidade além da imaginação!

No começo, Carmine tinha certeza que Tommasco Contorno, seu advogado, haveria de soltá-lo imediatamente. Quando Contorno encontrou-o na sala de visitas da prisão, Carmine estava furioso.

- Eles fecharam meus bordéis e a operação de tráfico de tóxicos, sabem tudo sobre a lavagem do dinheiro. Alguém está falando. Descubra quem é e me traga sua língua.

- Não se preocupe, padrone - assegurou Contorno. - Vamos descobrir. - Seu otimismo era infundado.

A fim de proteger suas testemunhas, o Estado se recusava intransigentemente a revelar os nomes, até o início do julgamento.

Dois dias antes do julgamento, Angelo Carmine e os outros mafiosos acusados foram transferidos para a Prigione Rebibbia, a vinte quilômetros de Roma. Um tribunal próximo fora fortificado como uma casamata. Os 160 mafiosos acusados foram levados por um túnel subterrâneo, com algemas e corrente, metidos em trinta celas feitas de aço e vidro à prova de balas. Guardas armados cercaram o interior e exterior do tribunal, os espectadores foram revistados antes de poderem entrar.

Ao entrar no tribunal, Angelo Carmine sentiu o coração pular de alegria, pois o juiz que presidia o julgamento era Giovanni Buscetta, um homem que estivera na sua folha de pagamento durante os últimos 15 anos, um hóspede frequente de sua casa. Carmine sabia que finalmente haveria justiça.

 

O julgamento começou. Angelo Carmine contava com a "omertá", código de silêncio siciliano, para protegê-lo. Para o seu espanto, no entanto, descobriu que a principal testemunha do Estado era nada menos do que Benito Patas, o guarda-costas. Benito Patas estava com a família Carmine há tanto tempo, e merecia tanta confiança que tinha permissão para estar presente na sala de reuniões em que se discutiam questões confidenciais de negócios; e como os negócios consistiam de todas as atividades ilegais nos estatutos criminais, Patas tinha estado a par de muitas informações. Quando prendera Patas minutos depois de ele ter assassinado a sangue-frio e mutilado o novo namorado de sua amante, a polícia ameaçara-o com prisão perpétua. Embora relutante, Patas concordara em ajudar a polícia a condenar Carmine, em troca de uma sentença mais leve. Agora, numa incredulidade horrorizada, Angelo Carmine sentou-se no tribunal e escutou Patas revelar os segredos mais íntimos da família.

Lucia também comparecia ao tribunal todos os dias, ouvindo o homem que fora seu amante destruir o pai e os irmãos.

O testemunho de Benito Patas abriu as comportas. Depois que a investigação do comissário começou, inúmeras vítimas apresentaram-se para contar histórias de Angelo Carmine e o que os seus capangas lhes havia feito. A Máfia controlara seus negócios à força, chantageara, forçara à prostituição, assassinara e mutilara pessoas amadas, vendera tóxicos a seus filhos. A lista de atrocidades era interminável.

Ainda mais perniciosos foram os testemunhos dos "pentiti", os membros arrependidos da Máfia que resolveram falar.

Lucia teve permissão de visitar o pai na prisão. Ele recebeu-a jovialmente. Abraçou-a e sussurrou:

- Não se preocupe, faccia d'angelo. O juiz Giovanni Buscetta é meu ás secreto na manga. Ele conhece todos os truques da lei. Vai usá-los para que eu e seus irmãos sejamos absolvidos.

Angelo Carmine provou ser um péssimo profeta. O público estava indignado com os excessos da Máfia e quando o julgamento finalmente terminou, o juiz Giovanni Buscetta, um astuto animal político, condenou os mafiosos a longas sentenças de prisão. Ângelo Carmine e seus dois filhos receberam a pena máxima na lei italiana, a prisão perpétua, com um mínimo obrigatório de 28 anos.

Para Ângelo Carmine, era uma sentença de morte.

 

Toda a Itália aclamou. A justiça triunfara por fim. Para Lucia, porém, era um pesadelo além da imaginação. Os três homens que ela mais amava no mundo estavam sendo enviados para o inferno.

Mais uma vez, Lucia teve permissão para visitar o pai na cela. A mudança em Angelo Carmine, da noite para o dia, era angustiante. Em pouco tempo ele se tornara um velho. O corpo estava murcho, e a pele corada e saudável se tornara amarelada.

- Eles me traíram - lamentou-se Angelo Carmine. - Todos me traíram. O juiz Geovanni Buscetta... eu o possuía, Lucia! Tornei-o um homem rico, e ele fez esta coisa terrível comigo. E Patas! Fui com um pai para ele. O que aconteceu com o mundo? O que aconteceu com a honra? Eles são sicilianos, como eu.

Lucia pegou a mão do pai e disse em voz baixa:

- Também sou siciliana, papai. Terá sua vingança. Juro que terá, por minha vida.

- Minha vida acabou - retrucou Angelo Carmine. - Mas a sua ainda está pela frente. Tenho uma conta numerada em Zurique. O Banco Leu. Há mais dinheiro do que você poderia gastar em dez vidas. - Sussurrou um número em seu ouvido. - Deixe a maldita Itália. Pegue o dinheiro e divirta-se.

Lucia abraçou-o.

- Papai...

- Se algum dia precisar de um amigo, pode confiar em Dominic Durell. Somos como irmãos. Ele tem uma casa na França, em Béziers, perto da fronteira espanhola.

- Não esquecerei.

- Prometa que deixará a Itália.

- Prometo, papai. Mas há uma coisa que preciso fazer primeiro.

 

Ter um desejo ardente de vingança era uma coisa, encontrar um meio de consumá-lo era outra. Estava sozinha, e não seria fácil. Lucia pensou na expressão italiana Rubare il mestiere. Roubar a profissão deles. Preciso pensar na maneira como eles fazem.

 

Poucas semanas depois do pai e os irmãos começarem a cumprir as sentenças de prisão, Lucia Carmine apareceu na casa do juiz Giovanni Buscetta. O próprio juiz abriu a porta.

Fitou Lucia surpreso. Vira-a muitas vezes quando era hóspede na casa de Carmine, mas quase nunca haviam se falado.

- Lucia Carmine! O que está fazendo aqui? Não deveria...

- Vim agradecer-lhe, Meretíssimo.

Ele estudou-a desconfiado.

- Agradecer o quê?

Lucia fitou-o nos olhos.

- Por denunciar meu pai e irmãos pelo que eles eram. Eu não passava de uma inocente, vivendo naquela casa de horrores. Não tinha a menor ideia de que monstros... - Perdeu o controle e começou a chorar.

O juiz ficou indeciso, depois afagou-lhe o ombro.

- Calma, calma... Entre e tome um chá.

- Oh, obrigada.

Quando estavam sentados na sala de estar, o juiz Buscetta disse:

- Não sabia que se sentia assim em relação a seu pai. Tinha a impressão de que eram uito ligados.

- Só porque eu ignorava como ele e meus irmãos eram. Quando descobri... - Lucia estremeceu. - Não pode imaginar como é. Eu queria sair, mas não havia escapatória para mim.

- Eu não sabia. – Ele afagou-lhe a mão. - Receio tê-la julgado mal, minha cara.

O juiz Buscetta notou, não pela primeira vez, que linda jovem Lucia era. Usava um vestido preto simples, que revelava os contornos do corpo sensual. Ele contemplou os seios arredondados e não pôde deixar de observar como ela crescera.

Seria sensacional dormir com a filha de Angelo Carmine", pensou Buscetta. Ele está impotente agora para me fazer qualquer coisa. O velho filho da puta pensava que me possuía, mas eu era esperto demais para ele. Lucia provavelmente é virgem. Eu poderia lhe ensinar algumas coisas na cama.

Uma empregada idosa trouxe uma bandeja com chá e uma travessa de biscoitos. Pôs na mesa.

- Devo servir o chá?

- Pode deixar que eu sirvo - murmurou Lucia.

Sua voz era quente, cheia de promessa. O juiz Buscetta sorriu para Lucia.

- Pode ir - disse ele à empregada.

- Pois não, senhor.

O juiz observou Lucia encaminhar-se para a mesinha em que estava a bandeja e servir o chá com todo cuidado.

- Tenho a impressão de que você e eu podemos nos tornar bons amigos - comentou o juiz Buscetta, sondando.

Lucia ofereceu-lhe um sorriso sedutor.

- Eu gostaria muito que isso acontecesse, Meretíssimo.

- Por favor... Giovanni. - Giovanni. - Lucia entregou-lhe o chá. Ergueu sua xícara, num brinde. - À morte dos vilões.

Sorrindo, Buscetta também levantou sua xícara.

- à Morte dos vilões. - Ele tomou um gole e fez uma careta. O chá estava com um gosto amargo.

- Está muito...?

- Não, não. Está ótimo, minha cara.

Lucia tornou a levantar sua xícara.

- À nossa amizade. - Tomou outro gole.

Buscetta acompanhou-a.

- À... - Não terminou o brinde. Foi dominado por um súbito espasmo, sentiu que um ferro em brasas lhe espetava o coração. Levou a mão ao peito.

- Oh, Deus! Chame um médico...

Lucia continuou sentada, tomando o chá calmamente, observando-o levantar, cambalear e cair no chão. O corpo de Buscetta teve alguns estertores e depois ficou imóvel.

- Esse é o primeiro, papai - murmurou Lucia.

 

Benito Patas estava em sua cela, jogando paciência, quando o guarda anunciou:

- Tem uma visita conjugal.

Benito ficou radiante. Desfrutava de uma situação especial, como informante, com muitos privilégios, entre os quais as visitas conjugais. Patas tinha algumas namoradas, que alternavam as visitas. Especulou qual delas fora visitá-lo.

Contemplou-se no pequeno espelho pendurado na parede de cela, passou um pouco de creme nos cabelos, alisou-os para trás, depois seguiu o guarda pelo corredor da prisão, até a área em que ficavam as salas reservadas.

O guarda gesticulou para que ele entrasse. Patas avançou, na maior expectativa. Estacou abruptamente, espantado.

- Lucia! Santo Deus, o que está fazendo aqui? Como conseguiu entrar?

Ela respondeu suavemente:

- Informei-os que estávamos noivos, Benito. - Usava um vestido de seda vermelho que aderia às curvas do corpo, com um decote ousado.

Benito Patas recuou.

- Saia!

- Como quiser. Mas há uma coisa que deve ouvir primeiro. Quando o vi sentado no banco de testemunhas e falar contra meu pai e meus irmãos, eu o odiei. Queria matá-lo. - Ela chegou mais perto. - Mas depois compreendi que sua atitude era um ato de bravura. Ousou se levantar e dizer a verdade. Meu pai e meus irmãos não eram maus, mas fizeram coisas

horríveis, e você foi o único forte o suficiente para enfrentá-los.

- Acredite em mim, Lucia, a polícia me forçou...

- Não precisa explicar. Não para mim. Lembra da primeira vez em que fizemos amor? Compreendi então que estava apaixonada por você, e sempre estaria.

- Lucia, eu nunca teria feito o que...

- Querido, acho que nós dois devemos esquecer o que aconteceu. Está feito. Agora, o que importa somos eu e você. - Lucia estava bem perto agora.

Ela estava agora bem próximo, e ele podia sentir seu perfume inebriante. Sua mente se encontrava na maior confusão.

- Você... fala sério?

- Mais sério do que qualquer outra coisa que já fiz na vida. Por isso é que vim aqui hoje, para provar a você. Para mostrar que sou sua. E não apenas com palavras. - Seus dedos subiram para as alças do vestido, que um instante depois estava no chão. Lucia se encontrava nua por baixo.

- Acredita em mim agora?

Por Deus, ela era linda!

- Acredito. - A voz de Benito era rouca.

Lucia adiantou-se, seu corpo roçou contra ele.

- Dispa-se - sussurrou ela. - Depressa! - Observou enquanto Patas tirava as roupas. Quando ficou nu, ele pegou sua mão e levou-a para a cama no canto da sala. Não perdeu tempo com preliminares. Num instante estava em cima dela, abriu-lhe as pernas e penetrando-a, com um sorriso arrogante.

- É como nos velhos tempos - disse, presunçoso. - Não pôde me esquecer, não é mesmo?

- Não - sussurrou Lucia em seu ouvido. - E quer saber por que não pude esquecer você?

- Quero, sim, mi amore.

- Por que sou uma siciliana, como meu pai.

Estendeu a mão para trás e tirou o alfinete comprido que lhe prendia os cabelos.

Benito Patas sentiu alguma coisa espetá-lo por baixo das costelas e a dor súbita fê-lo abrir a boca para gritar; mas a boca de Lucia grudada na sua beijando-o. Enquanto o corpo de Benito estrebuchava por cima dela, Lucia teve um orgasmo.

Poucos minutos depois estava vestida, o alfinete de volta nos cabelos. Benito se encontrava sob o cobertor, os olhos fechados. Lucia bateu na porta e sorriu para o guarda que a abriu, a fim de deixá-la sair.

- Ele está dormindo - sussurrou.

O guarda contemplou a bela moça e sorriu.

- Provavelmente esgotou-o.

- Espero que sim - disse Lucia.

 

A pura ousadia dos dois assassinatos teve a maior repercussão na Itália. A linda filha de um mafioso vingara o pai e os irmãos, e o excitável público italiano aclamou-a, torcendo por sua fuga. A polícia, como não podia deixar de ser, assumiu uma posição diferente. Lucia Carmine assassinara um respeitável juiz e depois cometera um segundo homicídio, dentro dos muros de uma prisão. A seus olhos, igual aos crimes era o fato de Lucia tê-los feito de idiotas. Os jornais estavam se divertindo à sua custa.

- Quero a cabeça dela! - bradou o comissário de polícia para o vice-comissário. - E quero hoje!

A caçada aumentou. O alvo de toda essa atenção se escondia na casa de Salvatore Giuseppe, um dos homens de seu pai que conseguira escapar à tempestade.

No começo o único pensamento de Lucia fora o de vingança a honra do pai e irmãos. Esperava ser capturada e se preparava para o sacrifício. Quando conseguiu sair da prisão, no entanto, seus pensamentos passaram da vingança para a sobrevivência. Agora que consumara o que planejara, a vida voltara subitamente a ser preciosa. Não deixarei que me peguem, jurou a si mesma. Nunca.

 

Salvatore Giuseppe e a sua esposa fizeram o que podiam para disfarçar Lucia. Clarearam-lhe os cabelos, mancharam-lhe os dentes, compraram óculos e algumas roupas folgadas.

Salvatore estudou o resultado com olhos críticos.

- Não está mau - disse ele. - Mas também não é o suficiente. Precisamos tirá-la da Itália. Deve ir para algum lugar em que sua fotografia não esteja na primeira página de todos os jornais. Um lugar em que possa se esconder por alguns meses.

E Lucia lembrou-se: Se algum dia precisar de um amigo, pode confiar em Dominic Durell. Ele tem uma casa na França, em Béziers, perto da fronteira espanhola.

- Sei de um lugar para onde ir - anunciou ela. - Precisarei de um passaporte.

- Eu providenciarei.

 

Vinte e quatro horas depois, ela olhava para um passaporte com o nome de Lucia Roma, com uma fotografia em sua nova aparência.

- Para onde vai?

- Meu pai tem um amigo na França que me ajudará.

- Se quiser que eu a acompanhe até à fronteira... - ofereceu-se Salvatore.

Os dois sabiam que era perigoso.

- Não, Salvatore. Já fez o suficiente por mim. Devo continuar sozinha.

 

Na manhã seguinte, Salvatore Giuseppe alugou um Fiat em nome de Lucia Roma e entregou-lhe as chaves.

- Tome cuidado - recomendou.

- Não se preocupe. Nasci sob uma estrela de sorte.

O pai não lhe dissera isso?

Na fronteira italiana-francesa os carros à espera avançavam devagar, numa fila comprida. Ao se aproximar da barreira de imigração, Lucia começou a ficar cada vez mais nervosa. Estariam à sua procura em todos os pontos de saída do país. Se a

pegassem, sabia que seria condenada à prisão perpétua. "Eu me matarei primeiro", pensou. Chegou ao inspector da imigração.

- Passaporte, signorina.

Lucia entregou o passaporte preto pela janela do carro. Enquanto o pegava, o inspetor fitou-a, e Lucia reparou que uma expressão de perplexidade surgiu em seus olhos. O homem olhou do passaporte para seu rosto, novamente para o passaporte. Lucia sentiu que

o corpo se contraía.

- Você é Lucia Carmine - disse ele.

 

- Não! - gritou Lucia. O sangue esvaiu-lhe do rosto. Ela olhou em redor, à procura de um meio de escapar. Não havia nenhum. E subitamente, para sua incredulidade, o guarda sorria. Inclinou-se para ela e sussurrou:

- Seu pai foi bom para minha família, signorina. Pode passar. Boa sorte.

Lucia sentiu-se tonta de alívio.

- Grazie. - Pisou no acelerador e percorreu os 25 metros até a fronteira francesa.

O inspetor de imigração orgulhava-se de ser um conhecedor de belas mulheres, e aquela à sua frente não era certamente uma beldade. Tinha cabelos cor de rato, óculos de lentes grossas, dentes manchados, e vestia-se com desmazelo.

Por que as italianas não podem parecer tão bonitas quanto as francesas?, pensou, repugnado. Carimbou o passaporte de Lucia e acenou para que ela passasse.

Lucia chegou a Béziers seis horas depois.

 

O telefone foi atendido ao primeiro toque da campainha, e surgiu uma voz suave de homem.

- Alô?

- Dominic Durell, por favor.

- Dominic Durell sou eu. Quem está falando?

- Lucia Carmine. Meu pai disse...

- Lucia! – A voz transbordava boas-vindas. - Eu esperava por notícias suas.

- Preciso de ajuda.

- Pode contar comigo.

Lucia sentiu-se reanimada. Era a primeira boa notícia que ouvia em muito tempo, e percebeu de repente como se sentia esgotada.

- Preciso de um lugar onde possa me esconder da polícia.

- Não tem problema. Minha esposa e eu temos um lugar perfeito que poderá usar, enquanto quiser.

Era quase bom demais para ser verdade.

- Obrigada.

- Onde você está, Lucia?

- Estou...

Nesse instante o estrondo de um rádio de ondas curtas da polícia entrou na linha, e foi desligado no momento seguinte.

- Lucia...

Um alarme alto ressoou na cabeça de Lucia.

- Lucia... onde você está? Irei buscá-la.

Por que ele teria um rádio de polícia em sua casa? E atendera ao primeiro toque da campainha. Quase como se estivesse à espera da sua ligação."

- Lucia... pode me ouvir?

Ela sabia, com absoluta certeza, que o homem no outro lado da linha era um policial. Estavam à sua procura ali também. E investigavam o ponto de origem daquele telefonema.  - Lucia...

Ela desligou e afastou-se rapidamente da cabine telefónica. Preciso sair da França, pensou.

Voltou ao carro e pegou um mapa no porta-luvas. A fronteira espanhola ficava a poucas horas dali. Guardou o mapa e partiu

na direção sudeste, rumo a San Sebastián.

Foi na fronteira espanhola que as coisas começaram a sair erradas.

 

- Passaporte, por favor.

Lucia entregou ao inspetor de imigração espanhola. Ele deu uma olhada rápida

e começou a devolvê-lo, mas alguma coisa fez com que hesitasse. Estudou Lucia mais uma vez e sua expressão mudou.

- Espere um momento, por favor. Preciso carimbar o passaporte lá dentro.

Ele me reconheceu, pensou Lucia, desesperada. Observou o homem entrar no pequeno escritório e mostrar o passaporte a um colega. Os dois puseram-se a falar muito excitados. Tinha de escapar. Ela abriu a porta e saiu. Um grupo de turistas alemães, que acabaram de passar pela barreira da fronteira, embarcava ruidosamente num ônibus de excursão, perto do carro de Lucia. O cartaz na frente do ônibus dizia Madri.

- Achtung! - o guia estava chamando. - Schnell.

Olhou para o escritório. O guarda que pegara seu passaporte estava gritando pelo telefone.

Sem pensar duas vezes, Lucia encaminhou-se para o grupo sorridente sem parar, entrou no ônibus, virando o rosto ao passar pelo guia. Sentou-se no fundo do ônibus, mantendo a cabeça abaixada. Vamos logo!, ela rezou. Depressa!

Pela janela, Lucia viu que outro guarda se juntara aos dois primeiros e todos examinavam seu passaporte. Como que em resposta à oração de Lucia, a porta do ônibus foi fechada e o motor ligado. Um momento depois o ônibus partia de San Sebastián para Madri. O que aconteceria quando os guardas da fronteira descobrissem que ela deixara o carro? O primeiro pensamento seria o de que fora ao banheiro. Esperariam e finalmente mandariam alguém procurá-la. A providência seguinte seria revistar a área, a fim de verificar se ela se escondera em algum lugar. A essa altura, dezenas de carros e ônibus já teriam passado. A polícia não teria a menor ideia do rumo que ela seguira, ou em que direção viajava.

 

O grupo no ônibus estava obviamente desfrutando umas férias felizes. Por que não?, pensou Lucia, amargurada. "Não têm a polícia nos seus calcanhares. Vale a pena arriscar o resto da minha vida?", pensou a esse respeito, reconstituindo mentalmente as cenas com o juiz Buscetta e Benito.

Tenho a impressão de que você e eu podemos nos tornar bons amigos, Lucia... à morte dos vilões. E Benito Patas: "É como nos velhos tempos. Não pôde me esquecer, não é mesmo?

E ela fizera com que os dois traidores pagassem pelos pecados contra sua família. "Valeu a pena?" Eles estavam mortos, mas o pai e os irmãos sofreriam pelo resto de suas vidas. Claro que valeu a pena! concluiu Lucia.

Alguém no ônibus pôs-se a entoar uma velha canção alemã e os outros acompanharam-no: - "In Munchen ist ein Hofbrau Haus, ein, zwei, sufa...

Estarei segura por algum tempo com este grupo, pensou Lucia. Decidirei o que fazer em seguida, quando chegar a Madri.

Ela nunca chegou a Madri.

 

O ônibus fez uma parada prevista na cidade murada de Ávila, para refrescos, e o que o guia chamou delicadamente de um momento de conforto.

- Alle raus vom bus - gritou ele.

Lucia continuou sentada, observando os passageiros levantarem-se e atropelarem-se a caminho da porta do ônibus. Estarei mais segura se ficar aqui." Mas o guia notou-a.

- Saia, Fraulein! - disse. - Só temos quinze minutos.

Lucia hesitou, depois levantou-se relutante e avançou para a porta.

- Warten sie bitte!" Você não é desta excursão.

Lucia presenteou-o com um sorriso exuberante e disse:

- Não, não sou. Acontece que meu carro enguiçou em San Sebastián, e é muito importante que eu chegue logo a Madri. Por isso...

- Nein! - berrou o guia. - Isso não é possível. A excursão é particular.

- Sei disso. Mas preciso...

- Deve falar primeiro com a sede da agência em Munique.

- Não posso. Estou com pressa e...

- Nein, nein. Poderia meter-me numa encrenca. Saia logo ou chamarei a polícia.

- Mas...

Nada que ela dissesse poderia demovê-lo. Vinte minutos depois Lucia observou o ônibus partir pela estrada em direção de Madri. Estava encalhada ali, sem passaporte e quase sem dinheiro; àquela altura as polícias de alguns países a procuravam, para

prendê-la por homicídio.

Virou-se para examinar o lugar. O ônibus parara na frente de um prédio circular, com uma placa na frente que dizia ESTACIÓN DE AUTOBUSES.

Posso pegar outro ônibus aqui, pensou.

Ela entrou na estação. Era um prédio grande, com parede de mármore, alguns guichês espalhados, com uma placa por cima de cada um: SEGÓVIA... MUNOGALINDO... VALLADOLID... SALAMANCA... MADRI.

Uma escada-rolante e escada comuns levavam ao subsolo, de onde os ônibus partiam. Havia uma pastelaria onde vendiam biscoitos, bolos, balas e sanduíches envoltos de papel encerado. Lucia descobriu subitamente que estava faminta.

É melhor não comprar nada até descobrir quanto custa uma passagem de ônibus", pensou.

Quando se encaminhava para o guichê com a placa de Madri, dois guardas uniformizados entraram apressados na estação. Um deles levava uma fotografia. Foram de guichê em guichê, mostrando a fotografia aos bilheteiros.

Estão à minha procura. Aquele guia miserável me denunciou.

Uma família de passageiros recém-chegados subia pela escada-rolante. Ao se encaminharem para a porta, Lucia foi andando ao lado, misturando-se, saiu da estação.

Caminhou pelas ruas de calçamento de pedras de Ávila, fazendo um esforço para não correr, com medo de atrair a atenção. Entrou na Calle de la Madre Soledad, com seus prédios de granito e sacadas de ferro batido preto. Chegou à Plaza de La Santa e sentou-se num banco do parque, tentando imaginar o que deveria fazer agora. A cem metros dali havia várias mulheres e alguns casais sentados no parque, desfrutando o sol da tarde.

Assim que Lucia se sentou, um carro de polícia apareceu. Parou na outra extremidade da praça e dois guardas saltaram. Aproximaram-se de uma das mulheres sentada sozinha e começaram a interrogá-la. O coração de Lucia disparou.

Forçou-se a levantar devagar, mesmo com o coração batendo forte, virou-se e começou a andar na direção oposta aos guardas. A rua seguinte tinha um nome incrível: rua da Vida e Morte. Será um presságio?

Havia leões de pedra reais na praça, com as línguas de fora, e, em sua imaginação febril, Lucia sentiu que tentavam abocanhá-la. À sua frente havia uma enorme catedral, tendo na fachada um medalhão esculpido de uma moça e uma caveira sorrindo. O próprio ar parecia impregnado pela morte.

Lucia ouviu um sino da igreja e olhou através do portão aberto da cidade. À distância, no alto de uma colina, erguiam-se os muros de um convento. Ela parou, ficou olhando.

- Por que veio a nós, minha filha? - perguntou a reverenda madre Betina, suavemente.

- Preciso de um refúgio.

- E decidiu procurar o refúgio em Deus?

Exatamente.

- Isso mesmo. - Lucia começou a improvisar. - É o que sempre quis... devotar-me à vida do Espírito.

- Em nossas almas, não é o que todos desejamos, filha?

Meu Deus, ela está mesmo engolindo a minha história, pensou Lucia, feliz. A reverenda madre continuou:

- Deve compreender que a Ordem Cisterciense é a mais rigorosa de todas, minha criança. Estamos completamente isolados do mundo exterior. As palavras soavam como música aos ouvidos de Lucia.

- As que passam por estes muros devem fazer votos de nunca mais ir embora.

- Nunca mais vou querer ir embora – garantiu Lucia.

Ou pelo menos durante os próximos meses.

A madre levantou-se. - É uma decisão importante. Sugiro que volte agora e pense a esse respeito com todo cuidado, antes da decisão final.

- Já pensei a esse respeito - apressou-se Lucia em dizer. - Acredite, reverenda madre, não tenho pensado em outra coisa. - Fitou a madre prioresa nos olhos. – Quero ficar aqui mais do que qualquer outra coisa no mundo. - A voz de Lucia ressoava com sinceridade.

A reverenda madre ficou perplexa. Havia alguma coisa inquietante e frenética naquela mulher que era perturbadora. E, no entanto, que melhor motivo havia para alguém vir para o convento, onde o seu espírito poderia ser tranquilizado pela meditação e oração?

- Você é católica?

- Sou.

A reverenda madre pegou uma antiquada pena de escrever.

- Diga-me seu nome, criança.

- Meu nome é Lucia Car... Roma.

- Seus pais são vivos?

- Só meu pai.

- O que ele faz?

- Era um homem de negócios. Está aposentado. - Lucia pensou no pai, pálido e consumido na última vez em que o vira, e sentiu uma pontada de angústia.

- Tem irmãos ou irmãs?

- Dois irmãos.

- E o que eles fazem?

Lucia decidiu que precisava de toda a ajuda que pudesse obter.

- São padres.

- Maravilhoso.

A catequese prolongou-se por três horas. No final, a reverenda madre Betina disse:

- Providenciarei um leito para a noite. Pela manhã, começará a receber as instruções e, quando acabarem, se ainda tiver o desejo, poderá ingressar na Ordem. Mas devo avisar-lhe que é um caminho difícil o que escolheu.

- Pode estar certa que não tenho alternativa - declarou Lucia, solenemente.

 

A brisa noturna era quente e suave, sussurrando pela clareira no bosque. Lucia dormia. Estava numa festa, em uma linda villa, o pai e os irmãos também se achavam presentes. Todos se divertiam, até que um estranho entrou na sala e indagou:

- Quem são essas pessoas?

Então as luzes apagaram-se, um facho forte de uma lanterna incidiu em seu rosto, ela despertou e sentou-se, ofuscada.

Havia alguns homens na clareira, à volta das freiras. Com a luz em seus olhos, Lucia mal podia divisar seus contornos.

- Quem são vocês? - tornou o homem a perguntar, a voz rude e profunda. Lucia encontrava-se instantaneamente desperta, a mente alerta. Estava acuada. Mas se aqueles homens fossem da polícia, saberiam quem eram as freiras. E o que faziam no bosque à noite? Lucia resolveu correr o risco e disse:

- Somos irmãs do convento em Ávila. Alguns homens do governo apareceram e...

- Já ouvimos falar a esse respeito – interrompeu o homem.

As outras irmãs estavam todas sentadas agora, despertas e apavoradas.

- Quem... quem são vocês?

- Meu nome é Jaime Miró.

 

Eles eram seis, vestidos de calças grossas, blusões de couro, suéteres de gola rolê e sapatos de lona com solas de corda, e as tradicionais boinas bascas. Estavam fortemente armados e, ao luar fraco, tinham uma áurea demoníaca. Dois homens davam a impressão de terem sido brutamente espancados.

O homem que se apresentara como Jaime Miró era alto e magro, com olhos pretos penetrantes.

- Eles podem estar por perto. – Ele virou-se para um membro do bando. - Dê uma olhada. - Sim.

Lucia identificou a voz que respondera como feminina. Observou-a afastar-se entre as árvores, em silêncio.

- O que vamos fazer com elas? – perguntou Ricardo Mellado.

- Nada - respondeu Jaime Miró. - Vamos deixá-las e seguir em frente.

Um dos homens protestou:

- Jaime... essas são as irmãzinhas de Jesus.

- Então deixe que Jesus cuide delas – retrucou Jaime Miró bruscamente. - Temos trabalho a fazer.

As freiras ficaram de pé, à espera da decisão deles. Os homens concentravam-se em torno de Jaime Miró, argumentando com ele.

- Não podemos deixar que sejam apanhadas. Acoca e seus homens estão à procura delas.

- Também estão à nossa procura, amigo.

- As irmãs jamais conseguirão escapar sem a nossa ajuda.

- Não - insistiu Jaime Miró, decidido. - Não arriscaremos nossas vidas por elas. Já temos nossos próprios problemas.

Felix Carpio, um dos seus lugar-tenentes, interveio:

- Podemos escoltá-las por parte do caminho, Jaime. Só até elas saírem daqui. - Olhou para as freiras. - Para onde estão indo, irmãs?

Teresa respondeu, com a luz de Deus em seus olhos:

- Tenho uma missão sagrada. Há um convento em Mendavia que nos abrigará.

Felix Carpio disse a Jaime Miró:

- Podemos acompanhá-las até lá. Mendavia fica em nosso caminho para San Sebastián.

Jaime Miró virou-se para ele, furioso.

- Seu idiota! Por que não põem uma placa no caminho avisando para onde estamos indo?

- Eu só queria...

- Mierda! - A voz estava cheia de raiva. - Agora não temos alternativa. Teremos de levá-las conosco. Se Acoca as descobrisse, faria com que falassem. Elas vão nos retardar e tornar muito mais fácil para Acoca e seus carniceiros encontrarem a nossa trilha.

Lucia não prestava muita atenção. A cruz de ouro encontrava-se ao seu alcance, tentadora. Mas esses miseráveis! Você escolhe os piores momentos, Deus, e tem um estranho senso de humor.

- Está bem - dizia Jaime Miró. - Tentaremos resolver o problema

da melhor forma possível. Vamos levá-las ao convento em Mendavia e as deixaremos lá. Mas não podemos viajar todos juntos, como um circo. - Virou-se para as freiras. Não era capaz de evitar a irritação na voz. - Alguma de vocês sequer sabe onde fica Mendavia?

As irmãs se entreolharam.

- Não exatamente - respondeu Graciela.

- Então, como esperam chegar lá?

- Deus nos guiará - respondeu irmã Teresa, resoluta.

Outro dos homens, Rubio Arzano, sorriu.

- Estão com sorte. - Acenou com a cabeça na direção de Jaime. - Ele desceu para guiá-las em pessoa, irmã. Jaime silenciou-o com um olhar.

- Vamos nos separar. Seguiremos por três caminhos diferentes. - Tirou o mapa da mochila.

Os homens se agacharam ao redor, apontando os fachos das lanternas para o mapa.

– O convento de Mandavia fica aqui, a sudeste de Logroño. Seguirei para o norte, passando por Valladolid, depois subirei para Burgos. – Jaime passou os dedos pelo mapa e virou-se para Rubbio, um homem alto, com aparência de camponês. - Você vai pelo caminho de Olmedo, Peñafiel e Aranda de Duero.

- Certo, amigo.

Jaime Miró concentrou-se outra vez no mapa. Olhou para Ricardo Mellado, um homem com o rosto machucado.

- Ricardo, siga para Segóvia, depois pegue o caminho da montanha para Cerezo de Abajo, e depois Soria. Voltaremos a nos encontrar em Logroño. - Guardou o mapa. - Logroño fica a 210 quilômetros daqui. – Jaime calculou mentalmente. - Vamos nos encontrar lá daqui a sete dias. Mantenha-se longe das estradas principais.

- Em que lugar de Logroño vamos nos encontrar? - perguntou Felix.

- O Cirque Japon estará se apresentando em Logroño na próxima semana - lembrou Ricardo.

- Ótimo. Vamos nos encontrar lá. Na matinê.

- Com quem as freiras vão viajar? - indagou Felix Carpio.

- Vamos dividi-las.

Estava na hora de acabar com aquilo, decidiu Lucia.

- Se os soldados estão à procura de vocês, "señor", estaríamos mais seguras se viajássemos sozinhas.

- Mas nós não estaríamos, irmã - retrucou Jaime. - Sabem demais sobre nossos planos agora.

- Além do mais - acrescentou Rubbio -, vocês não teriam a menor chance. Conhecemos o território. Somos bascos, e os habitantes lá do norte são nossos amigos. Vão nos ajudar e nos esconder dos soldados Nacionalistas. Nunca chegariam a Mendavia sozinhas.

Não quero ir para Mendavia, seu idiota.

- Muito bem, vamos logo embora - falou Jaime Miró, relutante. - Quero estar longe daqui antes do amanhecer.

Irmã Megan escutava em silêncio o homem que dava ordens.

Era rude e arrogante, mas parecia irradiar um tranquilizador senso de poder. Jaime Miró olhou para Teresa e apontou para Tomas e Rubbio Arzano.

- Eles serão responsáveis por você.

- Deus é responsável por mim – retrucou irmã Teresa.

- Claro - respondeu Jaime, secamente. - Deve ter sido por isso que veio parar aqui.

Rubbio aproximou-se de Teresa.

- Rubbio Arzano a seu serviço, irmã. Como se chama?

- Sou irmã Teresa.

Lucia interviu no mesmo instante:

- Viajarei com irmã Teresa.

Não permitiria de jeito nenhum que a separassem da cruz de ouro. Jaime assentiu.

- Está bem. - Ele apontou para Graciela. - Ricardo, você vai com esta.

Ricardo Mellado balançou a cabeça.

- Bueno.

A mulher que Jaime enviara para fazer um reconhecimento voltou ao grupo e anunciou:

- Está tudo em ordem.

- Ótimo. - Jaime olhou para Megan. - Você vem comigo, irmã.

Megan assentiu. Jaime Miró fascinava-a. E havia alguma coisa intrigante na mulher. Era morena, aparência ameaçadora, as feições aquilinas de um predador. A boca era um talho vermelho. Havia nela alguma coisa intensamente sexual. A mulher aproximou-se de Megan.

- Sou Amparo Jirón. Fique de boca fechada, irmã, e não haverá problemas.

- Vamos partir - avisou Jaime aos demais. - Logroño, dentro de sete dias. Não percam as irmãs de vista.

Irmã Teresa e Rubbio Arzano já começavam a descer a trilha. Lucia seguiu apressada no encalço deles. Vira o mapa que Rubbio Arzano guardara na mochila. Vou tirá-lo quando ele estiver dormindo, decidiu Lucia.

A fuga através da Espanha começara.

 

Miguel Carrillo estava nervoso. Mais do que isso, Miguel Carrillo estava muito nervoso. Não fora um dia maravilhoso para ele. O que começara tão bem pela manhã, quando encontrara as quatro freiras e as convencera de que era um frade, terminara com ele derrubado e inconsciente, mãos e pés amarrados, deixado no chão da loja de roupas.

Fora a mulher do proprietário quem o encontrara. Era uma mulher idosa e corpulenta, de bigode e estourada. Fitara-o, todo amarrado no chão, e dissera:

- Madre de Diós! Quem é você? O que está fazendo aqui?

Carrillo recorrera a todo seu charme.

- Graças aos céus que apareceu, señorita. - Jamais vira alguém que fosse mais obviamente uma señorita - Estava tentando me livrar dessas correias para poder usar seu telefone e chamar a polícia.

- Não respondeu à minha pergunta.

Ele tentara se ajeitar numa posição mais confortável.

– A explicação é simples, señorita. Sou frei Gonzales. Venho de um mosteiro perto de Madri. Passava por sua linda loja quando vi dois homens arrombando-a. Achei que era o meu dever, como mensageiro de Deus, impedi-los. Entrei atrás, na esperança de persuadi-los a desistirem de seus pecados, mas eles me dominaram e me amarraram. Agora, se fizer a gentileza de me soltar...

- Mierda!

Carrillo fitara-a aturdido.

- O que disse? - Quem é você?

- Já disse. Sou...

- Você é o maior mentiroso que já conheci.

Ela fora até os hábitos que as freiras haviam descartado.

- O que é isso?

- Ah, isso... os dois jovens estavam usando esses hábitos como disfarce e...

- Há trajes aqui de quatro pessoas. Disse que eram dois homens.

- É isso mesmo. Os outros dois apareceram depois e...

Ela se encaminhou para o telefone.

- O que vai fazer?

- Chamar a polícia.

- Posso lhe garantir que isso não é necessário. Assim que me soltar, irei direto para a polícia e farei um relato completo.

A mulher fitara-o com desdém.

- Seu hábito está aberto, frei.

 

   A polícia foi ainda menos compreensiva do que a mulher. Carrillo estava sendo interrogado por quatro homens da Guarda Civil. Os uniformes verdes e quepes de verniz preto do século dezoito eram suficientes para inspirar terror por toda a Espanha, e efetuaram sua magia em Carrillo.

– Sabia que corresponde exatamente à descrição de um homem que assassinou um padre lá no norte?

Carrillo suspirou.

- Não estou surpreso. Tenho um irmão gêmio, que os céus possam puni-lo. Foi por sua causa que ingressei no mosteiro. Nossa pobre mãe...

- Esqueça.

Um gigante com cicatriz no rosto entrou na sala.

- Boa tarde, coronel Acoca.

- É esse o homem?

- Isso mesmo, coronel. Por causa dos hábitos das freiras que encontramos com ele na loja, achámos que poderia estar interessado em interrogá-lo pessoalmente.

O coronel Acoca aproximou-se do infeliz Carrillo.

– Claro que estou interessado... e muito.

Carrillo ofereceu ao coronel seu sorriso mais insinuante.

- Fico contente que esteja aqui, coronel. Estou numa missão para minha igreja, e é importante que chegue a Barcelona o mais depressa possível. Como já tentei explicar a esses simpáticos cavalheiros, sou uma vítima das circunstâncias, apenas porque tentei ser um bom samaritano.

O coronel Acoca acenou com a cabeça amavelmente.

- Como está com pressa, tentarei não desperdiçar seu tempo.

Carrillo ficou radiante.

- Obrigado, coronel.

- Vou lhe fazer algumas perguntas. Se responder com a verdade, estará tudo bem. Se Enfiou alguma coisa na mão.

Carrillo protestou, indignado.

- Os homens de Deus não mentem.mentir para mim, será bastante doloroso para você. -

- Fico feliz em saber disso. Fale-me a respeito das quatro freiras.

- Não sei coisa nenhuma sobre quatro freiras...

O punho que o atingiu na boca tinha soqueira de latão, e o sangue esguichou pela sala.

- Santo Deus! - balbuciou Carrillo. - O que está fazendo?

O coronel Acoca repetiu:

- Fale-me a respeito das quatro freiras.

- Eu não...

O punho tornou a acertar na boca de Carrillo, quebrando dentes. Carrillo estava sufocando com o próprio sangue.

- Não! Eu...

- Fale-me a respeito das quatro freiras. - A voz de Acoca era suave e afável.

- Eu... - Carrillo viu o punho levantar. - Está bem! Eu... Eu... - As palavras saíram atabalhoadas. - Elas estavam em Villacastín, fugindo do convento. Por favor, não me bata de novo.

- Continue.

- Eu prometi ajudá-las. Precisavam trocar de roupas.

– Então arrombou a loja...

- Não. Eu... é verdade... elas roubaram algumas roupas, depois me derrubaram e foram embora.

- Comentaram para onde iam?

Um estranho senso de dignidade prevaleceu subitamente em Carrillo.

- Não.

O fato de não mencionar Mendavia nada tinha haver com um desejo de proteção das freiras. Carrillo não estava preocupado com elas. Era apenas porque o coronel lhe desfigurara o rosto. Seria muito difícil ganhar a vida depois que saísse da prisão.

O coronel Acoca virou-se para os homens da Guarda Civil.

- Estão vendo o que um pouco de persuasão amigável pode fazer? Mandem-no para Madri, sob acusação de assassinato.

 

Lucia, irmã Teresa, Rubbio Arzano e Tomás Sanjuro caminharam para o noroeste, seguindo na direção de Olmedo, permanecendo longe das estradas principais e atravessando plantações de cereais. Passando por rebanhos de ovelhas e cabras; a inocência da paisagem pastoral era um irônico contraste com o grande perigo em que todos estavam. Andaram durante toda a noite, e ao amanhecer se encaminharam para um ponto isolado nas colinas.

- A cidade de Olmedo fica logo adiante – avisou Rubbio Arzano. - Pararemos aqui até ao anoitecer. Vocês duas precisam dormir um pouco.

Irmã Teresa estava fisicamente exausta. Mas alguma coisa lhe acontecia, em termos emocionais, que era muito mais desconcertante. Sentia que perdia o contato com a realidade. Começara com o desaparecimento de seu precioso rosário. Perdera-o... ou alguém o roubara? Não sabia. Fora seu conforto por mais anos que podia se lembrar. Quantas milhares de ave-marias, padres-nossos e salve-rainhas? Tornara-se parte dela, sua segurança, e agora sumira.

Perdera-o no convento durante o ataque? E houvera mesmo um ataque? Parecia tão irreal agora... Não distinguia mais o real do imaginário. Seria o bebê de Monique? Ou Deus estava lhe pregando peças? Era tudo muito confuso. Quando jovem, tudo era mais simples. Quando era jovem...

 

                   ÉZE, FRANÇA – 1924

Quando tinha apenas oito anos, a maior parte da felicidade na vida de Teresa de Fosse vinha da igreja. Era como uma chama sagrada que a atraía para seu calor. Visitava a Chapelle dês Pénitents Blancs, rezava na catedral em Mônaco e em Notre Dame Bom Voyage, em Cannes, mas comparecia cada vez mais aos serviços na igreja em Éze.

Teresa vivia num château numa montanha, por cima da aldeia medieval de Éze, perto de Monte Carlo, dando para a Côte d'Azur. A aldeia ficava no alto de um penhasco, e parecia a Teresa que lá de cima podia contemplar o mundo inteiro. Havia um mosteiro no topo, com fileiras de casas descendo pela encosta da montanha, até o azul do Mediterrâneo.

Monique, um ano mais moça do que Teresa, era a beldade da família. Mesmo quando criança, já se podia perceber que cresceria para se tornar uma bela mulher. Tinha feições delicadas, olhos azuis faiscantes e uma segurança tranquila, que se ajustava à aparência.

Teresa era o patinho feio. E os De Fosses sentiam-se embaraçados com a filha mais velha. Se Teresa fosse convencionalmente feia, poderiam enviá-la a um cirurgião plástico para diminuir o nariz, aumentar o queixo ou endireitar os olhos. Mas o problema estava no fato de todas as feições de Teresa serem um pouco tortas. Tudo parecia deslocado, como se ela fosse uma comediante que maquilava o rosto para provocar risadas.

Mas se Deus a lesara na questão da aparência, compensara ao abençoá-la com um dom extraordinário, Teresa possuía uma voz de anjo. Fora notada pela primeira vez em que cantara no coro da igreja. Os paroquianos escutaram aturdidos os tons puros e preciosos que saíam da criança. À medida que Teresa crescia, a voz se tornava mais bela. Ali, sentia que encontrara o seu lugar. Fora da igreja, no entanto, Teresa era extremamente tímida, angustiosamente consciente de sua aparência.

Na escola, era Monique quem vivia cercada de amigos, tanto meninos como meninas afluíam para o seu lado. Queriam brincar com ela, serem vistos com ela. Monique era convidada para todas as festas. Ela também era convidada, mas no seu caso era uma lembrança posterior, o cumprimento de uma obrigação social. Teresa sabia disso, e se sentia angustiada.

- Ora, Renée, não pode convidar uma das meninas De Fosse sem chamar a outra.

Seria falta de educação.

Monique sentia-se envergonhada devido à feiúra da irmã. Achava que isso, de alguma forma, refletia-se sobre ela.

Seus pais comportavam-se de maneira adequada em relação à filha mais velha. Cumpriam o dever parental de maneira escrupulosa, mas Monique era sem dúvida a filha que adoravam. O único ingrediente pelo qual Teresa ansiava estava faltando: o amor.

Era uma criança obediente, sempre disposta a agradar, uma boa aluna que adorava música, história e línguas estrangeiras, esforçava-se ao máximo na escola. As professoras, as criadas e os habitantes da cidade sentiam pena dela. Como um comerciante disse um dia, quando Teresa deixou a loja:

- Deus não estava atento quando a criou.

Onde Teresa encontrara amor era na igreja. O padre a amava, e Jesus a amava. Ela ia à missa todas as manhãs e fazia as 14 estações da cruz. Ajoelhando-se na igreja fria e abobadada, sentia a presença de Deus. Quando cantava ali, Teresa experimentava um senso de esperança e de expectativa. Sentia que alguma coisa maravilhosa estava perto de lhe acontecer. Era a única coisa que tornava a vida suportável.

Teresa jamais confidenciou sua infelicidade aos pais ou à irmã, pois não queria incomodá-los, e guardava para si o segredo de quanto Deus a amava e quanto ela amava a Deus.

Teresa adorava a irmã. Brincavam juntas no terreno que cercava o château, e ela deixava Monique vencer todos os jogos. Combinavam fazer explorações juntas, desciam pelos íngremes degraus de pedra escavados na montanha até a aldeia de Éze lá embaixo, vagueavam pelas ruas estreitas em que ficavam as lojas dos artesãos, observando-os a venderem suas mercadorias.

Quando as meninas atingiram a adolescência, as predições dos aldeões se confirmavam. Monique tornou-se ainda mais bela, e os rapazes cercavam-na, enquanto Teresa tinha pouquíssimos amigos e permanecia em casa costurando ou lendo ou indo à aldeia fazer compras.

Um dia, ao passar pela sala de estar, Teresa ouviu o pai e a mãe discutindo sobre ela.

- Ela será uma velha solteirona. Ficará com a gente por toda a nossa vida.

- Teresa encontrará alguém. Tem um temperamento muito amável.

- Não é isso que os rapazes de hoje procuram. Querem alguém que possam desfrutar na cama.

Teresa fugiu.

 

Teresa ainda cantava na igreja aos domingos, por causa disso ocorreu um evento que quase lhe mudou a vida. Havia na congregação uma certa madame Neff, tia de um diretor de emissora de rádio em Nice. Ela foi falar com Teresa numa manhã de domingo.

- Está desperdiçando sua vida aqui, minha filha. Possui uma voz extraordinária. Deveria usá-la.

- Mas estou usando. Eu...

- Não me refiro a... - madame Neff correu os olhos pela igreja -... isso. Falo de usar sua voz de forma profissional. Orgulho-me de reconhecer o talento quando o escuto. Quero que cante para meu sobrinho. Ele pode levá-la para a rádio. Está interessada?

- Eu... eu não sei...

O simples pensamento apavorava Teresa.

- Converse com sua família.

 

- É uma ideia maravilhosa - comentou a mãe de Teresa.

– Pode ser uma boa coisa para você - acrescentou o pai.

Apenas Monique apresentou restrições:

- Você não é profissional. Pode se expor ao ridículo.

O que nada tinha a ver com os motivos de Monique para tentar desencorajar a irmã. Na realidade, Monique temia que Teresa obtivesse sucesso. Monique é que sempre ocupava o centro das atenções. Não é justo, pensou. Deus não deveria ter dado a Teresa uma excelente voz. E se ela se tornar famosa? Eu ficarei em segundo plano, ignorada.

E, assim, Monique tentou persuadir a irmã a não aceitar o convite. Mas no domingo seguinte, madame Neff avisou Teresa:

- Falei com meu sobrinho. Ele está disposto a lhe conceder uma audição. Espera-a na próxima quarta-feira, às três horas.

Na quarta-feira seguinte, uma Teresa muito nervosa apareceu na emissora de rádio em Nice e procurou o diretor.

- Sou Louis Bonnet - apresentou-se ele, bruscamente. - Posso lhe conceder cinco minutos. A aparência física de Teresa confirmava seus piores receios. A tia já lhe enviara alguns talentos antes. Eu deveria dizer a ela para não sair da cozinha. Mas não faria isso. A tia era muito rica, e ele o único herdeiro.

Teresa seguiu Louis Bonnet por um corredor estreito, até um pequeno estúdio.

- Já cantou profissionalmente alguma vez?

- Não, senhor. - Teresa estava com a blusa encharcada de suor. "Por que deixei que me convencessem a vir aqui?", especulou. Estava em pânico, com vontade de fugir.

Bonnet colocou-a na frente de um microfone.

- Não tenho um pianista disponível hoje, e por isso terá de cantar uma capela. Sabe o que significa a capela?

- Sei, sim senhor.

- Maravilhoso.

Ele questionou, não pela primeira vez, se a tia seria rica o suficiente para fazer com que todas aquelas audições valessem a pena.

- Ficarei na cabine de controle. Terá tempo para uma canção.

- Senhor... o que devo...?

Ele se fora. Teresa ficou sozinha no estúdio, diante do microfone. Não tinha a menor ideia do que iria cantar.

- Basta procurá-lo - dissera a tia. - A emissora tem um programa musical todas as noites de sábado e...

Preciso sair daqui.

- Não tenho o dia todo - soou a voz de Louis de repente.

- Desculpe, mas não posso...

O diretor, no entanto, estava determinado a puni-la por desperdiçar seu tempo.

– Só algumas notas - insistiu.

O suficiente para que pudesse dizer à tia como a garota fora uma tola. Talvez isso a persuadisse a parar de enviar seus protégés.

- Estou esperando - acrescentou.

Bonnet recostou-se na cadeira e acendeu um Gitane. Mais quatro de trabalho. Yvette estaria à sua espera. Teria tempo de passar no seu apartamento, antes de ir para

casa e a esposa. Talvez até houvesse tempo para...

Foi nesse instante que ele ouviu e não pôde acreditar. Era uma voz tão pura e tão suave que provocou calafrios por sua espinha. Uma voz impregnada de anseios e desejo, que cantava a solidão e o desespero, amores perdidos e sonhos mortos, uma voz que lhe trouxe lágrimas aos olhos. Avivou nele emoções que julgava há muito mortas. Meu Deus! Onde estava ela?

Um técnico de som passava pela cabine de controle e parou, ao ouvir aquela voz,

fascinado. A porta estava aberta, e outros começaram a chegar, atraídos pela voz. Ficaram parados em silêncio, ouvindo o som pungente de um coração clamando desesperadamente por amor. Não havia qualquer outro som na cabine. Quando a canção terminou, houve silêncio prolongado, até que uma mulher murmurou:

- Quem quer que ela seja, não a deixe escapar.

Louis Bonnet passou apressado para o estúdio. Teresa preparava-se para sair.

- Desculpe por ter demorado tanto. É que eu nunca...

- Sente-se, Maria.

- Teresa.

- Desculpe. - Ele respirou fundo. - Temos um programa musical nas noites de sábado.

- Eu sei. Sempre o escuto.

- Gostaria de participar?

Teresa fitou aturdida, incapaz de acreditar no que ouvia.

- Está querendo dizer... quer me contratar?

- A partir desta semana. No início, pagaremos o mínimo, mas será uma excelente promoção para você.

Era quase bom demais para ser verdade. Eles vão me pagar para cantar.

 

- Pagar? - exclamou Monique. - Quanto?

- Não sei. E também não me importa. "O importante é que alguém me quer", quase acrescentou, mas se conteve a tempo.

- É uma notícia maravilhosa. Então você vai apresentar-se no rádio! - comentou o pai.

A mãe já começava a fazer planos.

- Pediremos a todos os nossos amigos para escutarem e mandarem cartas com elogios à sua voz.

Teresa olhou para Monique, à espera de que a irmã dissesse: Não precisam fazer isso. Teresa é muito boa.

Mas Monique não disse nada. Isso passará depressa, era o que ela estava pensando.

Estava enganada.

 

Na noite de sábado, na emissora de rádio, Teresa estava em pânico.

- Fique tranquila, pois isso é perfeitamente natural - garantiu Louis Bonnet. - Todos os artistas passam por tal momento.

Estavam sentados na pequena sala usada pelos artistas.

– Você será uma sensação.

- Acho que vou vomitar.

- Não há tempo. Entrará no ar dentro de dois minutos.

Teresa ensaiara naquela tarde com uma pequena orquestra que a acompanharia. O ensaio fora extraordinário. O estúdio em que fora realizado estava lotado pelo pessoal da emissora, que ouvira falar da moça com a voz incrível. Todos escutaram em silêncio enquanto Teresa ensaiava as canções que iria cantar no ar. Ninguém duvidava de que estavam testemunhando o nascimento de uma estrela importante.

- É uma pena que ela não seja bonita - comentou um contra-regra. - Mas, pelo rádio, quem pode saber a diferença?

 

O desempenho de Teresa naquela noite foi magnífico. Ela sabia que nunca cantara melhor. E quem sabia até aonde aquilo poderia levá-la? Talvez, se se tornasse famosa, tivesse homens a seus pés, suplicando para que casasse com eles. Como acontecia com Monique.

Monique comentou, como se lesse seus pensamentos:

- Estou muito feliz por você, mana, mas não fique muito entusiasmada. Essas coisas nunca duram para sempre.

Isso vai durar, pensou Teresa, na maior felicidade. Sou finalmente uma pessoa. Sou alguém.

Na manhã de segunda-feira houve um telefonema interurbano para Teresa.

- Provavelmente é uma brincadeira - advertiu o pai. - A pessoa se apresentou como Jacques Raimu.

O mais importante diretor artístico da França. Teresa atendeu, cautelosa.

- Alô?

- Señorita De Fosse?

– Teresa De Fosse?

- Isso mesmo.

- Sou Jacques Raimu. Ouvi seu programa de rádio na noite de sábado. É exatamente do que estava à procura.

- Eu... eu não compreendo...

- Estou encenando uma peça na Comédie Française, um musical. Começo os ensaios na próxima semana, e estava à procura de alguém com uma voz como a sua. Para ser franco, não há ninguém com uma voz como a sua. Quem é seu agente?

- Agente? Eu... eu não tenho agente.

- Pois então irei até aí pessoalmente e faremos um contrato.

- Monsieur Raimu... eu... não sou bonita.

Era angustiante dizer as palavras, mas Teresa sabia que era necessário. "Ele não deve criar falsas expectativas." Raimu riu.

- Espere até depois de eu a produzir. O teatro é faz-de-conta. A maquilagem pode fazer as mágicas mais incríveis.

- Mas...

- Estarei aí amanhã.

 

Era um sonho por cima de uma fantasia. Estrelar numa peça de Raimu!

- Acertarei o contrato com ele - declarou o pai de Teresa. - É preciso tomar muito cuidado quando se lida com essa gente de teatro.

- Precisamos comprar um vestido novo para você - sugeriu a mãe. - E eu o convidarei para jantar.

Monique não comentou nada. Considerava aquela situação insuportável. Não podia aceitar que a irmã se tornasse uma estrela. Talvez houvesse uma maneira...

 

Monique deu um jeito para ser a primeira a descer quando Jacques Raimu chegou à residência dos De Fosse naquela tarde. Ele foi recebido por uma jovem tão bonita que seu coração exultou. Ela vestia um traje branco simples que ressaltava seu corpo à perfeição.

Por Deus!, pensou ele. Esta aparência e a voz! Ela é perfeita. Será uma estrela de sucesso.

– Não tenho palavras para expressar como me sinto feliz por conhecê-la – disse Raimu.

Monique sorriu efusivamente.

- Também me sinto muito feliz por conhecê-lo. Sou uma grande admiradora sua, Monsieur Raimu.

- Ótimo. Já vi que trabalharemos juntos muito bem. Trouxe um roteiro comigo. É uma linda história de amor e eu acho...

Nesse momento Teresa entrou na sala. Usava um vestido novo, mas mesmo assim parecia desajeitada. Parou ao deparar com Jacques Raimu.

- Ahn... como vai? Não sabia que estava aqui... chegou mais cedo.

Ele olhou para Monique, inquisitivo.

- Esta é minha irmã - disse Monique. - Teresa.

As duas notaram a mudança de expressão de Raimu. Passou do choque ao desapontamento e repulsa.

- Você é a cantora?

- Isso mesmo.

Ele virou-se para Monique.

- E você...

Monique sorriu, com um ar de inocência.

- Sou a irmã de Teresa.

Raimu virou-se para examinar Teresa outra vez, depois sacudiu a cabeça.

- Sinto muito. Você é... - Ele hesitou, à procura da palavra apropriada. - ...jovem demais. E agora, se me dão licença, preciso voltar a Paris.

As irmãs ficaram paradas ali, observando Raimu encaminhar-se para a porta.

Deu certo, pensou Monique, exultante. Deu certo.

 

Foi o último programa de rádio de Teresa. Louis Bonnet suplicou que voltasse, mas ela sentia-se muito magoada.

Depois de olhar para minha irmã, pensou, como alguém pode me querer? Sou muito feia. Enquanto vivesse, jamais esqueceria a expressão de Jacques Raimu.

A culpa é minha, por ter acalentado sonhos absurdos. Essa é a maneira de Deus me punir.

Depois disso, Teresa cantaria apenas na igreja e se tornaria ainda mais reclusa.

 

Durante os dez anos seguintes, a bela Monique recusou mais de uma dúzia de pedidos de casamento. Foi cortejada pelos filhos do prefeito, banqueiros, médicos e comerciantes da aldeia. Os pretendentes variavam de jovens recém-saídos da escola a homens maduros, bem-sucedidos, na casa dos quarenta e cinquenta anos. E a todos Monique

dizia Non.

- O que está procurando? - perguntou-lhe o pai, desconcertado.

- Todos aqui são muito chatos, papai. Éze é um lugar sem a menor sofisticação. Meu príncipe encantado está em Paris.

E, assim, submisso, o pai mandou-a para Paris. Como um pensamento posterior,

também enviou Teresa. As duas moças ficaram num pequeno hotel no Bois de Boulogne.

Cada irmã viu uma Paris diferente. Monique frequentava bailes de caridade e jantares elegantes, tomava chá com rapazes da nobreza. Teresa visitava Les Invalides e o Louvre. Monique ia às corridas em Longchamp e às festas de gala em Malmaison. Teresa ia à Catedral de Notre Dame para rezar, passeava pelo caminho arborizado do canal São Martin. Monique ia ao Maxim's e ao Moulin Rouge, enquanto Teresa andava pelos Quais, parando nas livrarias e florista, entrando na Basílica de São Denis. Teresa gostou de Paris, mas para Monique a viagem foi um fracasso.

Ao voltarem para casa, Monique disse:

- Não encontrei qualquer homem com quem quisesse casar.

- Não conheceu ninguém que a interessasse? - perguntou o pai.

- Não. Houve um rapaz que me levou para jantar no Maxim's. O pai é dono de minas de carvão.

- Como ele era? - indagou a mãe, ansiosa.

- Era rico, bonito, polido e me adorava.

– Ele pediu-a em casamento?

- A cada dez minutos. Finalmente me recusei a vê-lo de novo.

A mãe ficou espantada.

- Por quê? - Porque ele só sabia falar sobre carvão: carvão betuminoso, carvão de pedra, carvão preto, carvão cinzento. Muito chato.

 

No ano seguinte, Monique decidiu que queria voltar a Paris.

- Vou arrumar minhas malas - disse Teresa.

Monique sacudiu a cabeça.

- Não. Desta vez acho que irei sozinha.

Assim, enquanto Monique ia a Paris, Teresa ficava em casa e frequentava a igreja todas as manhãs, rezando para que a irmã encontrasse um belo príncipe. E um dia o milagre aconteceu. Um milagre porque foi com Teresa que aconteceu. Seu nome era Raul Giradot.

Ele foi à igreja de Teresa num domingo e ouviu-a cantar. Nunca antes escutara nada parecido. Preciso conhecê-la, pensou.

No início da manhã de segunda-feira, Teresa foi ao armazém-geral da aldeia, a fim de comprar tecido para um vestido que queria fazer. Raul Giradot trabalhava por trás do balcão. Levantou os olhos quando Teresa entrou e seu rosto se iluminou.

- A voz! Ela ficou embaraçada.

- Como... o que disse?

- Ouvi você cantar na igreja ontem. É magnífica.

Ele era alto e bonito, olhos escuros inteligentes e faiscantes, lábios atraentes e sensuais. Tinha trinta e poucos anos, um ou dois a mais do que Teresa.

Ela ficou tão atordoada por sua aparência que pôde apenas balbuciar. Fitou-o fixamente, o coração disparado.

- O-obrigada... eu... eu queria três metros de musselina, por favor.

Raul sorriu.

- Terei o maior prazer em atendê-la. Por aqui.

Subitamente, era difícil para Teresa concentrar-se na compra. Estava consciente demais da presença do rapaz, quase sufocando, consciente de sua beleza e charme, da aura viril que o cercava. Depois que Teresa escolheu, enquanto Raul embrulhava o tecido, ela tomou coragem para perguntar:

- Você... é novo aqui, não é mesmo?

Ele olhou para ela e sorriu, e calafrios a percorreram.

- Oui. Cheguei em Éze há poucos dias. Minha tia é dona desta loja e precisava de ajuda, por isso resolvi passar algum tempo aqui.

Quanto será algum tempo?, Teresa descobriu-se a especular.

- Deveria cantar profissionalmente - comentou Raul.

Ela lembrou a expressão de Raimu ao vê-la. Não, não se arriscaria a se expor publicamente outra vez.

- Obrigada - murmurou Teresa.

Ele ficou enternecido com o embaraço e timidez de Teresa e tentou puxar conversa.

- Nunca estive em Éze antes. É uma linda cidadezinha.

- É, sim.

– Nasceu aqui?

- Nasci.

- Gosta do lugar?

- Gosto. Teresa pegou o embrulho e fugiu.

No dia seguinte ela arrumou um pretexto para voltar à loja. Passara metade da noite acordada, pensando no que diria a Raul.

Estou contente que goste de Éze... Sabia que o mosteiro foi construído no século catorze...

Já visitou Saint-Paul-de-Vence?

Há uma capela ali...

Gosto de Monte Carlo... e você? É maravilhoso saber que está perto daqui. às vezes minha irmã e eu vamos de carro ao Grand Corniche e ao Teatro Fort Antoine. Por acaso você conhece? É um teatro grande, ao ar livre...

Sabia que Nice já se chamou Nikaia? Oh, não sabia? Pois é verdade. Os gregos estiveram lá há muito tempo. Há um museu em Nice com as relíquias de homens das cavernas que lá viveram há milhares de anos. Não é interessante?

Teresa estava preparada, com tudo que ia dizer guardado na cabeça. Infelizmente, no momento em que entrou na loja e avistou Raul, tudo fugiu-lhe da mente. Limitou-se a fitá-lo fixamente, incapaz de falar.

- Bonjour - disse Raul, jovialmente. - É um prazer tornar a vê-la, Mademoiselle De Fosse.

- Merci. - Teresa sentiu-se uma idiota. Estou com trinta anos. E me comporto como uma colegial. Pare com isso.

Mas ela não podia parar.

- Em que posso servi-la?

- Eu... preciso de mais musselina. O que era a última coisa de que ela precisava.

Ela observou Raul pegar a peça de tecido. Ele colocou-a no balcão e começou a medir. - Quantos metros vai querer?

Teresa começou a responder dois metros, mas o que saiu foi outra coisa:

- Você é casado?

Ele fitou-a com um sorriso afetuoso.

- Não. Ainda não tive essa sorte.

Pois vai ter, pensou Teresa. Assim que Monique voltar de Paris.

Monique adoraria aquele homem. Eram perfeitos um para o outro. O pensamento da reação de Monique ao conhecer Raul encheu Teresa de felicidade. Seria maravilhoso ter Raul Giradot como cunhado.

No dia seguinte, quando Teresa passava pela loja, Raul avistou-a e saiu apressado.

- Boa tarde, mademoiselle. Eu ia tirar uma folga. Se está livre, não gostaria de tomar chá comigo?

- Eu... eu... está bem, obrigada.

Sentiu-se com a língua presa em sua presença, embora Raul não pudesse ser mais simpático. Fez tudo que podia para deixá-la à vontade, e logo Teresa se descobriu a contar àquele estranho coisas que nunca dissera a ninguém antes. Falaram de solidão.

- As multidões me deixam solitária - comentou Teresa. - Sempre me sinto como uma ilha num mar de pessoas.

Ele sorriu.

- Eu compreendo.

- Mas deve ter muitos amigos...

- Conhecidos. Afinal, será que alguém tem realmente amigos?

Era como se ela estivesse falando para uma imagem no espelho. O tempo passou muito depressa, e logo estava na hora de Raul voltar ao trabalho. Quando se levantaram, ele perguntou:

- Não quer almoçar comigo amanhã?

Ele estava apenas sendo gentil, é claro. Teresa sabia que nenhum homem poderia se sentir atraído por ela. Especialmente alguém tão maravilhoso como Raul Giradot. Tinha certeza que ele era gentil com todo mundo.

- Eu gostaria muito - respondeu Teresa.

Ao se encontrarem no dia seguinte, Raul disse, com um entusiasmo infantil:

- Consegui ficar de folga a tarde toda. Se não estiver muito ocupada, por que não vamos até Nice?

Seguiram pela Moyenne Corniche no carro de Raul, com a capota arriada, a cidade estendendo-se abaixo deles como um tapete mágico. Teresa recostou-se no assento e pensou: Nunca me senti tão feliz. E depois, com um sentimento de culpa: Estou feliz por Monique."

A irmã estava para voltar de Paris no dia seguinte. Raul seria o presente de Teresa para ela. Era bastante realista para saber que os Rauls do mundo não eram para ela. Já sofrera demais na vida, e há muito aprendera a distinguir o que era real ou não. O homem bonito ao seu lado, guiando o carro, era um sonho impossível que ela sequer podia se permitir.

Almoçaram no Le Chantecler, no Hotel Negresco, em Nice. Foi uma refeição magnífica, mas depois Teresa não se lembrou do que comeu. Tinham muitas coisas a dizer um para o outro. Ele era espirituoso e encantador, parecia achar Teresa interessante... realmente interessante. Perguntou sua opinião sobre muitas coisas e escutou com atenção as respostas. Concordaram sobre quase tudo. Era como se fossem almas gêmeas. Se Teresa tinha algum pesar pelo que estava prestes a acontecer, tratou de expulsá-lo da mente, determinada.

- Gostaria de jantar no "château" amanhã? Minha irmã está voltando de Paris. Gostaria que a conhecesse.

- Eu teria o maior prazer, Teresa.

 

Quando Monique chegou em casa no dia seguinte, Teresa apressou-se em recebê-la na porta. Apesar de sua determinação, não pôde deixar de perguntar:

- Conheceu alguém interessante em Paris? – Prendeu a respiração, à espera da resposta da irmã.

- Os mesmos homens chatos de sempre - anunciou Monique.

Então Deus tomara a decisão final.

- Convidei alguém para jantar esta noite - anunciou Teresa. - Acho que vai gostar dele.

Não devo nunca deixar que alguém saiba o quanto gosto dele, pensou Teresa.

 

   Naquela noite, às sete e meia em ponto, o mordono levou Raul Giradot até a sala de estar, onde Teresa, Monique e os pais esperavam.

- Minha mãe e meu pai. Monsieur Raul Giradot.

- Muito prazer.

Teresa respirou fundo.

- E minha irmã, Monique.

- Como vai?

A expressão de Monique era polida, nada mais. Teresa olhou para Raul, esperando vê-lo atordoado pela beleza de Monique.

- Muito prazer.

Apenas cortês.

Teresa continuou imóvel, a respiração presa, à espera das faíscas que surgiriam entre os dois. Mas Raul fitou-a e disse:

- Você está muito bonita esta noite, Teresa.

Ela corou e balbuciou:

- Oh, obrigada...

Tudo naquela noite foi confuso. O plano de Teresa de aproximar Monique e Raul, vê-los casar, ter Raul como cunhado... nada disso sequer começou a acontecer. Por mais incrível que pudesse parecer, a atenção de Raul concentrou-se toda em Teresa. Era como um sonho impossível que se tornara realidade. Sentia-se como Cinderela, só que era a irmã feia, e o príncipe a escolhera. Era irreal, mas estava acontecendo. Teresa descobriu-se a fazer um esforço para resistir a Raul e seu charme, porque sabia que era bom demais para ser verdade, e temia ser magoada outra vez. Durante todos aqueles anos escondera suas emoções, protegendo-se contra o sofrimento que acompanhava a rejeição. Agora, instintivamente, tentou mais uma vez fazer a mesma coisa. Mas Raul era irresistível.

- Ouvi sua filha cantar - disse Raul. - Ela é um milagre.

Teresa corou.

- Todo mundo adora a voz de Teresa - comentou Monique, suavemente.

Foi uma noite inebriante. Mas a melhor coisa ainda estava para acontecer.

Ao terminar o jantar, Raul disse aos pais de Teresa:

- Seus jardins parecem adoráveis. - Então olhou para Teresa - Você me levaria para vê-los?

Teresa olhou para Monique, tentando decifrar as emoções da irmã. Mas monique parecia completamente indiferente.

Ela deve estar cega, surda e muda, pensou Teresa.

E depois recordou todas as ocasiões em que Monique fora a Paris, Cannes e São Tropez, à procura de seu príncipe encantado, sem jamais encontrá-lo.

Então a culpa não é dos homens. É da minha irmã. Monique não tem a menor ideia do que quer.

Teresa virou-se para Raul.

- Terei o maior prazer.

Lá fora, ela não pôde abandonar o assunto.

- Gostou de Monique?

- Parece muito simpática - respondeu Raul. - Pergunte o quanto gosto da irmã dela.

E ele abraçou-a e beijou-a.

Foi diferente de tudo o que Teresa já experimentara antes. Ela tremeu nos braços de Raul e pensou: Obrigada, Deus. Oh, muito obrigada!

- Quer jantar comigo amanhã? - perguntou Raul.

- Quero, sim - balbuciou Teresa.

 

Quando as duas irmãs ficaram sós, Monique comentou:

- Ele parece gostar mesmo de você.

- Acho que sim - murmurou Teresa, timidamente.

- Gosta dele?

- Gosto.

- Tome cuidado, mana. – Monique soltou uma risada. - Não deixe que lhe suba à cabeça.

Tarde demais, pensou Teresa, desamparada. Tarde demais.

Teresa e Raul então passaram a encontrar-se todos os dias. Em geral, Monique os acompanhava. Os três passeavam juntos pelas praias de Nice, riam diante de hotéis com aparência de bolos de casamento. Almoçaram no Hotel du Cap, em Cap d'Antibes, visitaram a Capela Matisse, em Vence. Jantaram no Château de la Chévre d'Or e na fabulosa La Ferme São Michel. Uma manhã, às cinco horas, os três foram ao mercado do produto, que se espalhava pelas ruas de Monte Carlo, compraram pão fresco, legumes e frutas.

Aos domingos, quando Teresa cantava na igreja, Raul e Monique ali estavam para ouvir.

Depois, Raul abraçava Teresa e murmurava:

- Você é mesmo um milagre. Eu poderia ouvi-la cantar pelo resto da minha vida.

Quatro semanas depois de se conhecerem, Raul pediu-a em casamento.

- Tenho certeza que poderia conquistar qualquer homem que quisesse, Teresa, mas eu ficaria honrado se me escolhesse.

Por um momento terrível, Teresa pensou que ele estava escarnecendo, mas Raul acrescentou, antes que ela pudesse dizer qualquer coisa:

- Minha querida, devo-lhe dizer que já conheci muitas mulheres, mas você é a mais sensível, a mais talentosa, a mais afetuosa...

Cada palavra soava como música aos ouvidos de Teresa. Queria rir; queria chorar. Como sou abençoada por amar e ser amada, pensou.

- Quer casar comigo?

A expressão de Teresa respondia por ela.

 

Depois que Raul foi embora, Teresa correu para a biblioteca, onde a irmã, o pai e a mãe tomavam café.

- Raul me pediu em casamento! - Seu rosto estava radiante e quase tinha beleza.

Os pais ficaram aturdidos. Foi Monique quem falou.

- Tem certeza que ele não está atrás do dinheiro da família, Teresa? Aquilo soava como um tapa na cara. - Não quis ser grosseira - acrescentou Monique -, mas tudo parece acontecer depressa demais.

Teresa estava determinada a não permitir que coisa alguma destruísse sua felicidade.

- Sei que quer me proteger, mas Raul tem dinheiro. O pai deixou-lhe uma pequena herança, e ele não tem medo de trabalhar para ganhar a vida. - Teresa pegou a mão da irmã e suplicou: - Por favor, Monique, fique contente por mim. Nunca pensei em conhecer este sentimento. Sinto-me tão feliz, eu poderia morrer.

Os três abraçaram-na e disseram como estavam felizes por ela, começaram a discorrer excitados sobre os planos para o casamento.

Na manhã seguinte, bem cedo, Teresa foi à igreja e ajoelhou-se para rezar.

- Obrigada, Pai. Obrigada por me conceder tanta felicidade. Farei tudo para me mostrar à altura do Seu amor e do amor de Raul. Amém.

Teresa entrou no armazém-geral, nas nuvens e disse:

- Se não se incomoda, meu caro senhor, eu gostaria de encomendar um tecido para um vestido de noiva.

Raul riu e abraçou-a.

- Você será uma noiva maravilhosa. E Teresa sabia que ele falava sério. Era esse o milagre.

 

O casamento foi marcado para o mês seguinte, na igreja da aldeia. Monique, é claro, seria a madrinha.

Às cinco horas da tarde de sexta-feira, Teresa falou com Raul pela última vez. Ao meio-dia e meia de sábado, à espera de Raul na sacristia da igreja, já com um atraso de meia hora, Teresa foi procurada pelo padre. Ele pegou-a pelo braço e levou-a para um canto. Teresa ficou espantada com sua agitação. O coração começou a bater forte.

- Qual é o problema? Aconteceu alguma coisa com Raul?

- Oh, minha cara... - murmurou o padre. - Minha pobre e querida Teresa...

Ela começava a entrar em pânico.

- O que houve, padre? Conte logo!

- Eu... eu acabei de receber uma notícia, Raul...

- Foi um acidente? Ele está ferido?

- Giradot deixou a cidade no início desta manhã.

- Ele o quê? Deve ter acontecido alguma emergência que o fez...

- Ele partiu com sua irmã. Foram vistos quando pegavam o trem para Paris.

A sala começou a girar. Não, pensou Teresa. Não devo desmaiar. Não devo fraquejar perante Deus.

Anos mais tarde, ela só tinha uma lembrança nebulosa dos acontecimentos subsequentes. À distância, ouviu o padre fazer um comunicado aos convidados, mal percebeu o tumulto na igreja. A mãe abraçou-a e murmurou:

- Minha pobre Teresa... É demais que sua própria irmã fosse tão cruel. Sinto muito.

Mas Teresa mostrava-se subitamente calma. Sabia como endireitar tudo.

- Não se preocupe, mamãe. Não culpo Raul por se apaixonar por Monique. Aconteceria com qualquer homem. Eu já deveria saber que nenhum homem poderia jamais me amar.

- Está enganada - protestou o pai. - Você vale dez Moniques.

Mas sua compaixão estava anos atrasada.

- Eu gostaria de ir para casa agora, por favor.

Eles atravessaram a multidão. Os convidados recuaram para deixá-los passar, observando-os em silêncio.

Ao chegarem ao "château", Teresa disse calmamente:

- Por favor, não se preocupem comigo. Prometo que tudo vai acabar bem.

Subiu para o quarto do pai, pegou sua navalha e cortou os pulsos.

 

Quando Teresa abriu os olhos, o médico da família e o padre da aldeia estavam de pé ao lado da cama.

- Não! - gritou ela. - Não quero voltar! Deixem-me morrer! Deixem-me morrer!

- O suicídio é um pecado mortal - avisou o padre. - Deus deu-lhe a vida, Teresa. Só Ele pode decidir quando deve acabar. Você é jovem. Tem toda uma vida pela frente.

- Para fazer o quê? - soluçou Teresa. - Sofrer mais? Não suporto a angústia em que estou vivendo! Não aguento mais!

- Jesus suportou a dor e morreu por todos nós - disse o padre, gentilmente. - Não vire as costas a Ele.

- Precisa repousar - disse o médico, após examinar Teresa. - Já falei com sua mãe para lhe fazer uma dieta leve. - Ele sacudiu um dedo para Teresa. - Isso não inclui navalhas.

Na manhã seguinte, Teresa saiu da cama. Quando entrou na sala de estar, a mãe disse, alarmada:

- O que está fazendo de pé? O médico mandou...

- Preciso ir à igreja. Preciso falar com Deus - falou Teresa com voz rouca.

A mãe hesitou.

- Irei com você.

- Não. Devo ir sozinha.

- Mas...

- Deixe-a ir – interveio o pai.

Eles observaram a filha desolada sair de casa.

- O que acontecerá com ela? - murmurou a mãe de Teresa.

- Só Deus sabe.

 

Ela entrou na igreja tão familiar, foi até o altar e ajoelhou-se.

- Vim à Sua casa para lhe dizer uma coisa, Deus. Eu O desprezo. Desprezo-O por me deixar nascer tão feia. Desprezo-O por deixar minha irmã nascer tão bonita. Desprezo-O por deixá-la tomar o único homem que já amei. Cuspo em Você.

As últimas palavras soaram tão altas que as outras pessoas se viraram para fitá-la, enquanto ela se levantara e saía cambaleando.

 

Teresa nunca imaginara que pudesse haver tanta dor. Era insuportável. Era-lhe impossível pensar em qualquer coisa. Descobriu-se incapaz de comer ou dormir. O mundo parecia abafado e distante. As lembranças explodiam-lhe na mente, incessantemente, como cena de um filme.

Recordou o dia em que ela, Raul e Monique passeavam pela praia em Nice.

- Está um lindo dia para um mergulho - sugeriu Raul.

- Eu adoraria, mas não podemos, Teresa não sabe nadar.

- Não me importo se vocês dois forem nadar. Ficarei à espera no hotel.

E sentia-se muito satisfeita porque Raul e Monique estavam se dando tão bem.

Almoçaram numa pequena estalagem, perto de Cannes.

- A lagosta está ótima hoje. - Sugeriu o "maître."

- Eu vou querer - disse Monique.

- A pobre da Teresa não pode. Os crustáceos a deixam cheia de urticárias.

- Sinto saudade de andar a cavalo – comentou Raul quando estavam em São Tropez. - Costumava montar todas as manhãs quando estava em casa. Quer ir comigo, Teresa?

- Eu... eu não sei montar, Raul.

- Eu não me importaria de ir com você, Raul – interveio Monique. - Adoro montar.

E os dois passaram a manhã inteira passeando a cavalo.

Houve centenas de pistas, e ela não percebera nenhuma. Fora cega porque quis ser cega. Os olhares que Raul e Monique trocavam, os inocentes contatos das mãos, os sussurros e risos. Como pude ser tão estúpida?

 

À noite, quando Teresa conseguia finalmente cochilar, havia sonhos. Era sempre um sonho diferente mas era sempre o mesmo sonho.

Raul e Monique encontravam-se no trem, nus, fazendo amor, o trem passava por uma ponte sobre um desfiladeiro, que ruia, e todos no trem mergulhavam para a morte.

Raul e Monique encontravam-se num quarto de hotel, nus, na cama. Raul largava um cigarro, e o quarto explodia em chamas, os dois eram queimados até a morte, seus gritos despertavam Teresa.

Raul e Monique caíam de uma montanha, afogavam-se num rio, morriam num desastre de avião.

Era sempre um sonho diferente.

Era sempre o mesmo sonho.

 

A mãe e o pai de Teresa estavam desesperados. Viam a filha definhar, e não havia nada que pudessem fazer para ajudá-la. De repente, Teresa começou a comer. E comia sem parar. Parecia que a comida nunca era suficiente. Recuperou o peso e continuou a engordar, ficou imensa. Quando o pai e a mãe tentavam-lhe falar de seu sofrimento, ela declarava:

- Sinto-me tão bem agora. Não se preocupem comigo.

Teresa levava a vida como se nada houvesse de errado. Continuava a ir à aldeia e fazia compras, como sempre. Jantava com a mãe e o pai todas as noites, lia ou costurava. Construía uma fortaleza emocional ao seu redor, e estava determinada a não permitir que ninguém a rompesse. Nenhum homem jamais vai querer

olhar para mim. Nunca mais.

Exteriormente, Teresa parecia bem. Por dentro, afundara-se num abismo de desesperada solidão. Mesmo quando se encontrava cercada de pessoas, sentava-se numa cadeira solitária, numa sala solitária, numa casa solitária, num mundo solitário.

 

Pouco depois de um ano depois de Raul abandonar Teresa, o pai fez as malas para uma viagem a Ávila.

- Tenho alguns negócios para tratar lá - disse a Teresa. - Depois disso, porém, estarei livre. Por que não vem comigo? Ávila é uma cidade fascinante. E será bom para você sair daqui por algum tempo.

- Não, obrigada, papai.

Ele olhou para a esposa e suspirou.

- Está bem.

O médico entrou na sala de estar.

- Com licença, senhorita De Fosse. Acaba de chegar esta carta.

ANtes mesmo de abri-la, Teresa foi dominada pela premonição de algo terrível assomando à sua frene. A carta dizia.

“Minha querida Teresa:

Deus sabe que não tenho o direito de chamá-la de querida, depois da coisa terrível que lhe fiz, mas prometo recompensá-la, nem que leve a vida inteira para isso. Não sei por onde começar.

Monique fugiu e deixou-me com nossa filhinha de dois meses. Para ser sincero, sinto-me aliviado. Devo confessar que tenho vivido num inferno desde o dia em que a deixei. Jamais compreenderei por que procedi daquela maneira. Parece que fui apanhado por algum encantamento mágico de Monique, mas sabia desde o início que meu casamento com ela era um erro lamentável. Você sempre foi o amor da minha vida. Sei agora que o único lugar onde posso encontrar a felicidade é ao seu lado. Quando receber esta carta, já estarei de volta para você.

Amo você, e sempre amei, Teresa. Pelo bem do resto de nossas vidas juntos, eu lhe peço perdão. Querida..."

Ela não pôde terminar de ler a carta. O pensamento de tornar a ver Raul e a filha dele e Monique era inconcebível, obsceno.

Teresa jogou a carta no chão, histérica.

- Preciso sair daqui! Esta noite! Agora! Por favor... por favor!

Foi impossível acalmá-la.

- Se Raul está vindo para cá - disse o pai -, você deve pelo menos falar com ele.

- Não! Se me encontrar com ele, vou matá-lo! - Teresa segurou os braços do pai, as lágrimas escorriam-lhe pelo rosto. - Leve-me com você! - implorou.

Estava disposta a ir para qualquer parte, contanto que fugisse dali. E, assim, naquela noite, Teresa e o pai partiram para Ávila.

 

O pai de Teresa estava angustiado com a infelicidade da filha. Não era por natureza um homem compassivo, mas no ano que passara Teressa conquistara sua admiração com seu comportamento corajoso. Enfrentara os moradores da cidade de cabeça

erguida, e nunca se queixara. Ele sentia-se impotente, incapaz de confortá-la.

Lembrou-se de quanto consolo ela encontrara outrora na igreja e disse a Teresa, quando chegaram a Ávila:

- Padre Berrendo, o sacerdote daqui, é um velho amigo meu. Talvez possa ajudá-la. Gostaria de falar com ele?

- Não.

Teresa não queria mais nada com Deus. Permaneceu sozinha no quarto de hotel, enquanto o pai cuidava dos negócios. Quando ele voltou, Teresa continuava sentada na mesma cadeira, olhando para a parede.

- Por favor, Teresa, fale com o padre Berrendo.

- Não.

O pai ficou desorientado. Ela recusava-se a deixar o quarto do hotel e não queria voltar a Éze.

Como último recurso, o padre foi procurá-la.

- Seu pai me disse que houve um tempo em que você ia à igreja regularmente.

Teresa fitou o padre de aparência frágil nos olhos e disse friamente:

- Não estou mais interessada. A Igreja não tem nada para me oferecer.

Padre Berrendo sorriu.

- A Igreja tem alguma coisa a oferecer a todas as pessoas, minha criança. A Igreja nos dá esperança e sonhos...

- Já tive minha quota de sonhos. Agora, nunca mais.

Ele pegou as mãos e viu as cicatrizes brancas nos pulsos, tão tênues quanto uma

memória antiga.

- Deus não acredita nisso. Fale com Ele e Ele lhe dirá.

Teresa continuou sentada, o olhar fixo na parede e quando o padre finalmente saiu, ela nem sequer se apercebeu.

 

Na manhã seguinte, Teresa entrou na igreja fria e abobadada, e quase no mesmo instante foi envolvida pelo antigo e familiar sentimento de paz. A última vez em que entrara numa igreja fora para insultar Deus. Sentiu-se muito envergonhada. Fora a sua própria fraqueza que a traíra, não Deus.

- Perdoe-me - murmurou -, pois eu pequei. Tenho vivido no ódio. Ajude-me. Por favor, ajude-me. - Teresa levantou os olhos, e padre Berrendo estava sentado ali.

Quando ela terminou, o padre levou-a para seu escritório, além da sacristia.

- Não sei o que fazer, padre. Não acredito mais em coisa alguma. Perdi a fé. - Sua voz estava impregnada de desespero.

- Tinha fé quando era jovem?

- Tinha, sim. E muita.

- Então ainda a tem, minha criança. Apenas a fé real e permanente. Tudo o mais é transitório.

Conversaram por horas naquele dia.

Quando Teresa voltou ao hotel, ao final da tarde, o pai disse:

- Preciso retornar a Éze. Está pronta para partir?

- Não, papai. Deixe-me ficar aqui mais algum tempo.

Ele hesitou.

- Ficará bem?

- Ficarei, papai. Prometo.

 

Teresa e padre Berrendo passaram a se encontrar todos os dias. O coração do padre confrangeu-se por Teresa. Via nela não uma mulher gorda e desgraciosa, mas um espírito

belo e infeliz. Conversavam sobre Deus, a criação e o sentido da vida. Pouco a pouco, quase contra a vontade, Teresa recomeçou a encontrar conforto. Padre Berrendo um dia desencadeou nela uma reação profunda.

- Se não acredita neste mundo, minha criança, então acredite no próximo. Acredite no mundo em que Jesus espera para recebê-la.

E pela primeira vez desde o dia que deveria ser seu casamento, Teresa começou a sentir-se em paz outra vez. A igreja tornara-se seu refúgio, como antes. Mas precisava pensar em seu futuro.

- Não tenho para onde ir.

- Pode voltar para casa.

- Não. Jamais poderia voltar para lá. Nunca poderia encarar Raul outra vez. Não sei o que fazer. Quero me esconder, mas não tenho onde me esconder.

Padre Berrendo ficou em silêncio um longo tempo, até finalmente murmurar:

- Poderia ficar aqui.

Ela correu os olhos pela sala, aturdida.

- Aqui?

- O convento Cisterciense fica próximo. – Ele inclinou-se para a frente. - Deixe-me falar um pouco a respeito dele. É um mundo dentro do mundo, onde todas as pessoas dedicam-se a Deus. É um lugar de paz e serenidade.

O coração de Teresa começou a animar-se.

- Parece maravilhoso.

- Devo adverti-la. É uma das ordens mais rigorosas do mundo. Quem entra ali faz um voto de castidade, silêncio e obediência. E quem entra nunca mais sai.

As palavras provocaram umaemoção em Teresa.

- Não vou querer sair nunca mais. É o que tenho procurado, padre. Desprezo o mundo em que vivo.

Mas padre Berrendo ainda estava preocupado. Sabia que Teresa enfrentaria uma vida totalmente diferente de tudo o que já experimentara até aquele momento.

- Não pode haver retorno.

- Não mudarei de ideia.

 

No dia seguinte, bem cedo, padre Berrendo levou Teresa ao convento para conhecer a reverenda madre Betina. Deixou-as conversarem.

Assim que entrou no convento, Teresa teve certeza. Finalmente", pensou, exultante. "Finalmente.

Depois do encontro ela, ansiosa, telefonou para os pais.

- Eu estava muito preocupada. Quando voltará para casa? - indagou a mãe.

- Estou em casa.

 

O bispo de Ávila cumpriu o rito:

- Criador, "Senhor, envie sua bênção a esta serva, a fim de que ela seja fortalecida com a virtude celestial e possa manter uma fé total e fidelidade ininterrupta."

- Renunciei ao reino deste mundo e a todos os adornos seculares, pelo amor de Nosso Senhor, Jesus Cristo - respondeu Teresa.

O bispo fez o sinal da cruz por cima dela.

- De largitatis tuae fonte defluxit ut cum honorem nuptiarum nulla interdicta minuissent ac super sanctum conjugium nuptialis benedictio permaneret existerent conubium, concupiscerent sacramentum, nec imitarentur quod nuptiis agitur, sed diligerent quod nuptiis praenotatur." Amém.

- Amém.

- Eu te esposo com Jesus Cristo, o filho do Pai Supremo. Assim, recebe o selo do Espírito Santo, a fim de que possas ser chamada de esposa de Deus, e serás coroada para eternidade se o servires fielmente. - O bispo levantou-se. - Deus, o Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra, que concedeu te receber em núpcias, como a abençoada Maria, mãe de Nosso Senhor, Jesus Cristo... ad beatae Mariae, matris Domini nostri, Jesu Cristi, consortium... te recebe, que na presença de Deus e Seus anjos possas preseverar, pura e imaculada, mantendo teu propósito de amor e castidade, com a paciência que possas merecer para receber a coroa de sua bênção, através do mesmo Cristo, Nosso Senhor. Deus te torna forte quando frágil, fortalece quando fraca, alivia e governa tua mente com compaixão, e orienta teus caminhos. Amém.

 

Agora, trinta anos depois, deitada no bosque, observando o sol se elevar por cima do horizonte, irmã Teresa pensou: Fui para o convento por todos os motivos errados. Não estava correndo para Deus, mas fugindo do mundo. Mas Deus leu meu coração.

Estava com sessenta anos, e os últimos trinta de sua vida haviam sido os mais felizes que conhecera. E agora, abruptamente, fora lançada de volta ao mundo do qual fugira. E sua mente lhe pregava estranhas peças. O que Deus planejou para mim?

 

   Para a irmã Megan, a viagem era uma aventura. Acostumara-se às novas vistas e sons que a cercavam e sentia-se surpresa com a rapidez da adaptação.

Considerava os companheiros de jornada fascinantes. Amparo Jiró era uma mulher vigorosa, capaz de acompanhar o ritmo dos dois homens com a maior facilidade, ao mesmo tempo em que era bem feminina.

Felix Carpio, o homem corpulento de barba avermelhada e cicatriz, parecia amável e simpático.

Para Megan, no entanto, o mais irresistível do grupo era Jaime Miró. Havia nele uma força implacável, uma fé inabalável em suas convicções que fazia Megan lembrar-se das freiras no convento.

Ao iniciarem a jornada, Jaime, Amparo e Felix carregavam sacos de dormir e rifles nos ombros.

- Deixem-me carregar um dos sacos de dormir - sugeriu Megan.

Jaime Miró fitou-a surpreso e depois deu de ombros.

- Está bem, irmã. - Entregou-lhe o saco.

Era mais pesado do que Megan esperava, mas não se queixou. Enquanto estiver com eles, farei minha parte.

Megan tinha a impressão de que estavam andando por toda a eternidade, tropeçando pela escuridão, atingidos por galhos, arranhados pela vegetação baixa, atacados por insetos, guiados apenas pela luz do luar.

Quem são essas pessoas? E por que estão sendo caçadas? Como Megan e as outras freiras também estavam sendo perseguidas, ela começou a sentir uma forte ligação com os novos companheiros.

Quase não conversavam, mas de vez em quando trocaram frases enigmáticas.

- Está tudo acertado em Valladolid?

- Tudo, Jaime. Rubbio e Tomás se encontrarão conosco no banco durante a tourada.

- Ótimo. Mande um aviso para Largo Cortez nos esperar. Mas não marque data.

- Certo.

Quem são Largo Cortez, Rubbio e Tomás?, especulou Megan. E o que aconteceria na tourada e no banco? Quase chegou a perguntar, mas achou melhor não fazê-lo. Tenho a impressão de que não gostariam de muitas perguntas.

 

Perto do amanhecer, eles sentiram cheiro de fumaça no vale lá embaixo.

- Esperem aqui - sussurrou Jaime. - E fiquem quietos.

Os outros ficaram observando enquanto ele se encaminhava para a beira da floresta e desaparecia.

Megan disse:

- O que foi?

- Cale-se! - sibilou Amparo Jiró.

Jaime Miró voltou 15 minutos depois.

- Soldados. Vamos contorná-los.

Voltaram por quase um quilômetro, depois avançaram cautelosos pelo bosque, até alcançarem uma pequena estrada secundária. Os campos espalhavam-se pela frente, rescendendo a feno moído e frutas maduras.

A curiosidade de Megan prevaleceu, levando-a a perguntar:

- Por que os soldados estão atrás de vocês?

- Digamos que não pensamos da mesma maneira - respondeu Jaime.

Megan tinha de se satisfazer com isso. "Por enquanto", pensou. Estava determinada a saber mais sobre aquele homem.

Meia hora depois, quando chegaram a uma clareira resguardada, Jaime disse:

- O sol está subindo. Ficaremos aqui até o anoitecer. – Olhou para Megan. - Esta noite teremos de andar mais depressa.

Ela acenou com a cabeça.

- Tudo bem.

Jaime pegou os sacos de dormir e desenrolou-os.

Felix Carpio disse a Megan:

- Fique com o meu, irmã. Estou acostumado a dormir no chão.

- É seu - protestou Megan. - Eu não poderia...

– Pelo amor de Deus! - interveio Amparo, bruscamente. - Entre logo no saco. Não queremos que comece a gritar por causa das malditas aranhas.

Havia uma hostilidade em seu tom que Megan não podia entender. O que a está incomodando?", especulou Megan.

Ela observou Jaime ajeitar o saco de dormir perto do lugar em que ela se encontrava e depois se acomodar. Amparo Jiró deitou-se ao seu lado. Já entendi, pensou Megan.

Jaime olhou para a freira e disse:

- É melhor dormir um pouco. Temos um longo caminho pela frente.

 

Megan foi despertada no meio da noite por um gemido. Alguém parecia sentir uma dor terrível. Sentou-se. Os sons vinham do saco de Jaime. Ele deve estar passando mal, foi o primeiro pensamento.

O gemido foi se tornando cada vez mais alto, e depois Megan ouviu a voz de Amparo Jiró balbuciando:

- Oh, mais, mais! Dê tudo para mim, querido! Com mais força! Sim! Agora! Agora!

Megan corou. Tentou fechar os ouvidos aos sons, mas era impossível. Pensou como seria Jaime Miró a fazer-lhe amor.

Fez o sinal-da-cruz no mesmo instante e começou a rezar: "Perdoe-me, Pai. Faça com que meus pensamentos se ocupem apenas de Você. Faça com que meu espírito O procure, a fim de encontrar a fonte e o bem em Você."

E os sons continuaram. Finalmente, quando Megan já começava a pensar que não seria capaz de aguentar mais um instante sequer, eles pararam. Mas havia outros ruídos que a mantinham acordada. Os sons da floresta reverberavam ao seu redor. Havia uma cacofonia de acasalamento de aves, grilos, a conversa dos pequenos animais e os grunhidos dos animais maiores. Megan esquecera-se de como o mundo exterior podia ser barulhento. Sentia falta do silêncio maravilhoso do convento. Para seu espanto, sentia saudades até do orfanato. O terrível, maravilhoso orfanato...

 

                   ÁVILA 1957

Eles a chamavam de "Megan, o Terror".

Eles a chamavam de "Megan, o Demônio de Olhos Azuis".

Eles a chamavam de "Megan, a Impossível".

Ela estava com dez anos de idade.

Fora levada ao orfanato ainda quando bebê, deixada na porta de um camponês e sua mulher que não tinham condições de criá-lá.

O orfanato era um prédio austero, dois andares, caiado em branco, nos arredores de Ávila, na parte mais pobre da cidade, perto do Plaza de Santo Vicente, dirigido por Mercedes Angeles, uma autêntica amazona, com um comportamento arrebatado, que não condizia com a ternura que nutria por seus pupilos.

Megan era diferente das outras crianças, uma estranha com cabelos louros e olhos azuis brilhantes, sobressaindo no contraste com as morenas, de olhos e cabelos escuros. Desde o início, porém, Megan fora diferente nos outros aspectos. Era uma criança independente, líder, promotora de travessuras. Sempre que havia problemas no orfanato, Mercedes Angeles podia estar certa de que Megan se encontrava por trás.

Ao longo dos anos, Megan comandou protestos contra comida, tentou organizar as crianças num sindicato, encontrava maneiras inventivas de atormentar as supervisoras, inclusive algumas tentativas de fuga. É desnecessário dizer que Megan era extremamente popular entre as outras crianças. Era mais jovem do que muitas, mas todas recorriam à sua orientação. Era uma líder nata. E as crianças menores adoravam quando Megan lhes contava histórias. Possuia uma imaginação delirante.

- Quem foram meus pais, Megan?

- Seu pai era um esperto ladrão de jóias. Subiu no telhado de um hotel no meio da noite para roubar um diamante que pertencia a uma atriz famosa. No momento em que metia o diamante no bolso, a atriz acordou. Ela acendeu a luz e o viu.

- E não mandou prendê-lo?

- Não. Ele era muito bonito.

- O que aconteceu então?

- Eles se apaixonaram e se casaram. Depois, você nasceu.

- Mas por que me mandaram para um orfanato? Eles não me amavam?

Era essa sempre a parte difícil.

– Claro que amavam. Mas... morreram numa terrível avalanche quando esquiavam na Suíça.

- O que é uma terrível avalanche?

- É quando uma porção de neve desce ao mesmo tempo e enterra a pessoa.

- E papai e mamãe morreram ao mesmo tempo?

- Isso mesmo. E as últimas palavras foram para dizer que amavam você. Mas não havia ninguém para cuidar de você, por isso veio para cá.

Megan sentia-se tão ansiosa quanto as outras crianças em saber quem eram seus pais. À noite, acalentava-se até o sono, inventando histórias para si mesma: Meu pai foi um soldado na Guerra Civil. Era um capitão, e muito corajoso. Foi ferido em um combate, e minha mãe foi a enfermeira que cuidou dele. Casaram, ele voltou à frente e foi morto. Mamãe era pobre demais para me sustentar, e por isso precisou me deixar na fazenda, o que lhe partiu o coração." E ela chorava de compaixão pelo pai bravo e morto e pela mãe desconsolada.

Ou: Meu pai era um toureiro. Foi um dos maiores matadores. Era o favorito da Espanha. Todos o adoravam. Mamãe era uma linda dançarina de flamenco. Casaram, mas um dia ele foi morto por um enorme e perigoso touro. Mamãe foi obrigada a

renunciar-me.

Ou: Papai era um esperto espião do outro país...

As fantasias eram intermináveis.

 

Havia trinta crianças no orfanato, variando de recém-nascidos abandonados, até os de 14 anos. Quase todas eram espanholas, mas havia também crianças de outros países. Megan tornou-se fluente em várias línguas. Dormia junto com uma dúzia de outras garotas. Havia conversa sussurradas até tarde da noite sobre bonecas e roupas, depois sobre sexo, à medida que as garotas se tornavam mais velhas. Isso logo virou o principal tema das conversas.

- Ouvi dizer que dói muito.

- Não me importo. Mal posso esperar para saber como é.

– Vou casar, mas nunca deixarei que meu marido faça isso comigo. Acho que é obsceno.

Uma noite, quando todos dormiam, Primo Condé, um dos meninos do orfanato, entrou no dormitório das garotas. Foi até a cama de Megan.

- Megan... - Sua voz era um sussurro.

Ela despertou no mesmo instante.

- Primo? O que aconteceu?

Ele soluçava, assustado.

- Posso ficar na sua cama?

- Pode, mas fique quieto.

Primo tinha 13 anos, a mesma idade de Megan, mas pouco desenvolvido, e fora uma criança maltratada. Sofria pesadelos terríveis e acordava aos gritos no meio da noite. As outras crianças atormentavam-no, mas Megan sempre o protegia.

Primo deitou na cama ao seu lado.

Megan sentiu as lágrimas escorrerem pelas faces do menino. Abraçou-o e murmurou:

- Está tudo bem, está tudo bem... - mimou-o gentilmente, e os soluços cessaram.

O corpo de Primo comprimiu-se contra o de Megan, e ela pôde sentir o crescente excitamento dele.

- Primo...

- Desculpe. Eu... eu não pude evitar.

Sua ereção se comprimia contra ela.

- Eu amo você, Megan. É a única pessoa de quem eu gosto no mundo inteiro.

- Ainda não esteve no mundo lá fora.

- Não ria de mim, por favor.

- Não estou rindo.

- Não tenho mais ninguém, só você.

- Sei disso.

- Eu amo você.

- Também amo você, Primo.

- Megan... você... me deixaria fazer amor com você?

- Não.

Houve silêncio.

- Desculpe ter incomodado você. Voltarei para minha cama. – A voz de Primo estava impregnada de angústia. Ele começou a se afastar.

- Espere. - Megan deteve-o, querendo atenuar seu sofrimento, sentindo-se também excitada. - Primo, eu... eu não posso deixar que faça amor comigo, mas posso fazer uma coisa que o levará a se sentir melhor. Está bom assim?

- Está. - A voz de Primo era um murmúrio. Ele estava de pijama.

Megan puxou o cordão que prendia a calça e enfiou a mão por dentro. Ele é um homem, pensou ela. Segurou-o gentilmente e começou a acariciá-lo.

Primo gemeu e sussurrou:

- Ai, isso é maravilhoso - e um momento depois: - Meu Deus, eu amo você, Megan.

Ela estava com o corpo em chamas, e se naquele momento Primo dissesse: "Quero fazer amor com você", teria respondido sim.

Mas ele permaneceu imóvel, em silêncio; minutos depois voltou à sua cama.

Não houve sono para Megan naquela noite. E nunca mais permitiu que Primo voltasse à sua cama.

A tentação era muito grande.

 

De vez em quando, uma criança era chamada à sala da supervisora para conhecer os pais que pretendiam adotá-la. Era sempre um momento de grande emoção para as crianças, pois representava uma oportunidade de escapar da terrível rotina do orfanato, e ter um lar de verdade, pertencer a alguém.

Ao longo dos anos, Megan observou outros órfãos serem escolhidos. Iam para casas de comerciantes, fazendeiros, banqueiros. Mas eram quase sempre as outras crianças, nunca ela. A reputação de Megan a precedia. Ouvia seus pais em potencial conversarem.

- É uma criança muito bonita, mas ouvi dizer que tem um temperamento difícil.

- Não é a menina que levou 12 cachorros para o orfanato no mês passado?

- Dizem que é uma líder. Acho que não se daria bem com nossos filhos.

Eles não tinham a menor ideia do quanto as outras crianças adoravam Megan.

Padre Berrendo visitava o orfanato uma vez por semana. Megan aguardava ansiosa essas visitas. Era uma leitora voraz, e o padre e Mercedes Angeles providenciavam para que tivesse sempre um livro à sua disposição. Podia discutir coisas com o padre que não ousava falar com qualquer outra pessoa. Fora ao padre Berrendo que o casal de camponeses entregara Megan quando bebê.

- Por que eles não quiseram ficar comigo? Perguntou Megan.

O velho sacerdote respondeu gentilmente.

- Desejavam muito, mas eram velhos e doentes.

- Por que acha que meus pais verdadeiros me abandonaram naquela fazenda?

- Tenho certeza que foi porque eram pobres e não tinham condições de sustentá-la.

À medida que crescia, Megan tornava-se cada vez mais devota. Sentia-se atraída pelos aspectos culturais da Igreja Católica. Leu as Confissões de Santo Agostinho, as obras de São Francisco de Assis, Thomas Merton e vários outros. Ia à Igreja regularmente e gostava dos ritos solenes, missa, receber comunhão, a Bênção. Talvez, acima de tudo, adorasse o sentimento maravilhoso de serenidade que sempre a envolvia na igreja.

- Quero ser uma católica - disse ela um dia ao padre Berrendo.

Ele pegou-lhe a mão e disse, com um piscar de olho:

- Talvez você já seja, Megan, mas vamos nos certificar se é isso que realmente deseja. Crês em Deus, o Pai Todo-Poderoso, criador do céu e da Terra?

- Sim, creio!

- Crês em Jesus Cristo, Seu único filho, que nasceu e sofreu?

- Sim, creio!

- Crês no Espírito Santo, na Santa Igreja Católica, na comunhão dos santos, na

remissão dos pecados, na ressurreição do corpo e da vida eterna?

- Sim, creio!

O padre soprou gentilmente em seu rosto.

- Exi ab ea spiritus immunde. Afasta-te dela, espírito impuro, e dá lugar ao Espírito Santo, o Paráclito. - Ele tornou a soprar em seu rosto. - Megan, recebas o bom Espírito através deste sopro e recebas a bênção de Deus. A Paz esteja contigo.

 

Aos 15 anos, Megan tornou-se uma linda mulher, com cabelos louros compridos e uma pele leitosa, que a destacava ainda mais da maioria das companheiras.

Um dia ela foi chamada ao gabinete de Mercedes Angeles. Padre Berrendo aguardava-a.

- Olá, padre.

- Olá, cara Megan.

- Infelizmente, Megan, estamos com um problema - comentou Mercedes Angeles.

- É mesmo? - Ela vasculhou o cérebro, na tentativa de lembrar-se de sua última travessura.

A diretora continuou:

- Há um limite de idade para permanecer aqui, de 15 anos... e você já fez 15 anos.

Megan há muito que conhecia o regulamento, é claro. Mas relegara-o para o fundo da mente, porque não queria enfrentar o fato de que não tinha nenhum lugar no mundo para onde ir, que ninguém a queria, e seria abandonada outra vez.

- Eu... eu tenho de ir embora?

A generosa amazona estava transtornada. mas não tinha alternativa.

- Lamento profundamente, mas devemos respeitar os regulamentos. Podemos encontrar uma posição para você como criada.

Megan não sabia o que dizer.

Padre Berrendo interveio:

- Para onde gostaria de ir?

Enquanto pensava a esse respeito, Megan teve uma ideia. Havia um lugar para onde ir.

Desde os 12 anos de idade que Megan ajudava na manutenção no orfanato fazendo entregas na cidade, muitas delas ao convento Cisterciense. As entregas eram sempre

feitas à reverenda madre Betina. Megan lançara olhares furtivos para as freiras rezando ou andando pelos corredores e percebera nelas um sentimento quase irresistível de serenidade. Invejava a alegria que as freiras pareciam irradiar. Para Megan, o convento era como uma casa de amor.

A reverenda madre gostava da garota exuberante, e ao longo dos anos tiveram várias conversas demoradas.

- Por que as pessoas entram para os conventos? - perguntou Megan uma vez.

- As pessoas recorrem a nós por muitos motivos. A maioria vem para se dedicar a Deus. Mas algumas porque não têm esperança. Nós lhe damos esperanças. Outras porque se sentem desiludidas com a vida. Nós lhe mostramos que Deus é a razão. Algumas vêm porque estão fugindo. Outras porque se sentem alienadas e querem pertencer a alguma coisa.

Foi isso que lhe provocou uma reação. Nunca pertenci realmente a ninguém, pensou Megan. Esta é a minha oportunidade.

- Acho que eu gostaria de entrar para o convento.

Seis semanas depois ela tomou os votos.

E, finalmente, Megan encontrou o que procurava há tanto tempo. Não se sentia mais só. Aquelas eram suas irmãs, a família que nunca tivera, eram todas uma só sob o domínio do Pai.

 

Megan trabalhava no convento como guarda-livros. Sentia-se fascinada pela antiga linguagem de sinais que as irmãs usavam quando precisavam se comunicar com a reverenda madre. Havia 447 sinais, o suficiente para transmitirem tudo que precisavam expressar.

Quando era a vez de uma irmã varrer os corredores compridos, a reverenda madre Betina

levantava a mão direita com a palma para a frente e soprava no dorso. Se uma freira estava com febre, procurava a reverenda madre e comprimia as pontas do indicador direito e do dedo médio contra o lado exterior do pulso esquerdo. Se um pedido devia ser protelado, a reverenda madre suspendia o punho direito na frente do ombro direito e depois estendia

um pouco para a frente e para baixo. Amanhã.

Numa manhã de novembro, Megan foi introduzida nos ritos da morte. Uma freira estava à beira da morte, e um chocalho de madeira ressoou pelo claustro, o sinal para o início de um ritual inalterado desde 1030. Todas aquelas que podiam atender ao chamado foram no mesmo instante ajoelhar-se na enfermaria, para a extrema-unção e os salmos. Rezaram em silêncio para que intercedessem pela alma da irmã de partida. Para indicar que estava na

hora dos últimos sacramentos, a reverenda madre estendeu a mão esquerda, com a palma para cima, desenhou uma cruz com a ponta do polegar direito.

E, finalmente, houve um sinal da própria morte, uma irmã pondo a ponta do polegar direito sob o queixo e levantando-o ligeiramente.

Depois que as últimas orações foram ditas, o corpo ficou sozinho por cerca de uma hora, a fim de que a alma pudesse partir em paz. Ao pé da cama estava o grande círio pascal, o símbolo cristão da luz eterna, ardendo em seu castiçal de madeira.

A enfermeira lavou o corpo e vestiu a freira com o hábito, escapulário preto sobre a touca branca, meias grossas e sandálias feitas à mão. Uma freira trouxe flores frescas do jardim, e fez uma coroa. Após vestirem a morta, seis freiras levaram-na em procissão para a igreja e colocaram-na no catafalco, coberto de um lençol branco, diante do altar. Não seria deixada sozinha na presença de Deus; duas freiras permaneciam ali o resto do dia e da noite, rezando, enquanto o círio pascal bruxuleava ao lado.

Na tarde seguinte, depois da missa Réquiem, as freiras levaram-na através do claustro até o cemitério particular, murado, onde mantinham seu isolamento mesmo depois de mortas. As irmãs, três de cada lado, baixaram o corpo para a sepultura, sustentando-o por tiras de linho branco. Era um costume cisterciense que suas mortas ficassem descobertas na terra, sepultadas sem um caixão. Como último serviço prestado à irmã, duas freiras jogavam terra sobre o corpo imóvel, antes que todas voltassem à igreja para os salmos da

penitência. Por três vezes, elas suplicaram que Deus tivesse misericórdia de sua alma:

 

         Domine miserere super peccatrice.

         Domine miserere super peccatrice.

         Domine miserere super peccatrice.

 

Houve muitas ocasiões em que a jovem Megan foi dominada pela melancolia. O convento proporcionava-lhe serenidade, mas ela não tinha totalmente paz. Era como se uma parte sua estivesse faltando. Sentia anseios que há muito deveria ter esquecido. Descobriu-se a pensar nos amigos que deixara no orfanato, especulando sobre o que lhes acontecera. E se perguntando o que estaria acontecendo no mundo exterior, o mundo a que renunciara, um mundo em que havia música, dança e riso.

Megan procurou a irmã Betina.

- Acontece com todas nós de vez em quando - garantiu a reverenda madre a Megan. - A Igreja lhe chama "acedia." É uma doença espiritual, um instrumento de Satã. Não se preocupe com isso, criança. Vai passar.

E passou.

Mas o que não passou foi o anseio profundo de saber quem eram seus pais. Nunca saberei", pensava Megan, desesperada. Não enquanto eu viver.

 

                   NOVA YORK – 1976

Os repórteres reunidos, diante da fechada cinzenta do Waldorf-Astoria Hotel, em Nova York, observavam o desfile de celebridades em trajes a rigor que desembarcavam das limusines, passavam pelas portas giratórias e seguiam para o Grande

Salão de Baile, no terceiro andar. Os convidados vinham de todas as partes do mundo.

Câmaras espocavam, enquanto os fotógrafos gritavam:

- Senhor vice-presidente, quer olhar para cá, por favor?

- Governador Adams, posso tirar uma foto, por favor?

Havia senadores e representantes de vários países, magnatas do mundo dos negócios e dos artistas famosos. E todos estavam ali para celebrar o sexagésimo aniversário de Ellen Scott. Na verdade, não era tanto ela que homenageavam, mas sim a filantropia da Scott Industries, um dos mais poderosos conglomerados do mundo. O vasto império incluía empresas petrolíferas e usinas siderúrgicas, sistema de comunicações e bancos. Todo o dinheiro arrecadado naquela noite iria para obras de caridade internacionais.

A Scott Industries tinha interesse em todas as partes do mundo. Há vinte e sete anos, seu presidente, Milo Scott, morrera inesperadamente de um ataque cardíaco, e sua esposa, Ellen, assumira o comando do gigantesco conglomerado. Nos anos subsequentes, ela demonstrara ser uma brilhante executiva, pois mais do que triplicara o patrimônio da empresa.

O Grande Salão de Baile do Waldorf-Astoria era um enorme salão decorado em bege e dourado, com um palco acarpetado em vermelho num lado. Um balcão com 33 camarotes, com um candelabro sobre cada um, estendia-se em curva em todo o ambiente.

No centro do balcão sentava-se a convidada de honra. Havia pelo menos seiscentos homens e mulheres presentes, jantando em mesas reluzentes pela prataria.

Terminando o jantar, o governador de Nova York subiu ao palco.

- Senhor vice-presidente, senhoras e senhores, honrosos convidados, estamos todos aqui esta noite com um único propósito: prestar um tributo a uma mulher extraordinária e à sua generosidade altruísta ao longo dos anos. Ellen Scott é o tipo de pessoa que poderia ter alcançado o sucesso em qualquer área. Poderia ter sido uma grande cientista ou médica. Também seria uma grande política e devo dizer que se Ellen Scott decidir se candidatar à presidência dos Estados Unidos, serei o primeiro a votar nela. Não na próxima eleição, é claro, mas na seguinte.

Houve risos e aplausos.

- Mas Ellen Scott é muito mais do que apenas uma mulher brilhante. É um ser humano caridoso e compassivo que nunca hesitará em se envolver nos problemas com que se defronta o mundo atual...

O discurso prolongou-se por mais dez minutos, mas Ellen Scott não prestava mais atenção. Como ele está enganado, pensou, amargurada. Como todos estão enganados. A Scott Industries nem mesmo é minha. Milo e eu a roubamos. Eu sou culpada de um crime ainda maior do que esse. Não importa mais. Não agora. Porque em breve estarei morta.

Ela recordou as palavras exatas do médico ao ler os resultados dos exames que representavam a sua sentença de morte:

- Lamento profundamente, Srª Scott, mas receio que não haja maneira de lhe dar a notícia gentilmente. O câncer espalhou-se por todo o sistema linfático. É inoperável.

Ela sentira um súbito peso no estômago.

- Quanto tempo ainda me resta?

O médico hesitara.

- Um ano... talvez.

Não é tempo suficiente. Não com tanta coisa ainda por fazer.

- Não dirá coisa alguma a ninguém, é claro. - Sua voz era firme.

- Claro que não.

- Obrigada, doutor.

Não tinha lembrança da saída do Centro Médico Presbiteriano Colúmbia ou da viagem para o centro da cidade. Tinha apenas um pensamento: Devo encontrá-la antes de morrer.

O discurso do governador terminara.

- Senhoras e senhores, é minha honra e privilégio apresentar a Srª Ellen Scott.

Ela levantou-se, ovacionada de pé, e encaminhou-se para o palco, uma mulher magra, cabelos grisalhos, empertigada, vestida com uma elegância e irradiando uma falsa vitalidade. Olhar para mim é como ver a luz distante de uma estrela há muito morta, pensou, amargurada. Na verdade, não estou mais aqui.

No palco, ela esperou os aplausos cessarem. Estão aplaudindo um monstro. O que fariam se soubessem? Quando começou a falar, a voz estava firme:

- Senhor vice-presidente, senadores, governador Adams...

Um ano", pensava ela. Eu me pergunto onde ela está, se continua viva. Preciso encontrá-la.

Ela continuou a falar, dizendo automaticamente todas as coisas que a audiência esperava ouvir.

- Aceito com satisfação esse tributo, não para mim, mas para todos que tanto têm trabalhado a fim de aliviar o fardo dos menos afortunados do que nós...

Sua mente retrocedeu no tempo, por 42 anos, até Gary, Indiana...

 

Aos 18 anos, Ellen Dudash era empregada na fábrica de peças automotrizes da Scott Industries, em Gary, Indiana. Era uma jovem atraente e expansiva, muito popular entre os colegas de trabalho. No dia em que Milo Scott foi inspecionar a fábrica, Ellen foi escolhida para escoltá-lo.

- Já pensou nisso, Ellie? Talvez acabe se casando com o irmão do patrão, e todos nós estaremos trabalhando para você.

Ellen Dudash riu.

- É bem possível... e vai acontecer quando as galinhas criarem dentes.

Milo Scott não era absolutamente o que Ellen esperava. Tinha trinta e poucos anos, era alto e esbelto. Não é nada feio, pensou Ellen. Ele era tímido, quase deferente.

- É muita gentileza de sua parte tomar seu tempo para me mostrar as instalações. Espero não estar afastando-a do seu trabalho.

Ela sorriu.

- Espero que esteja.

Era um homem fácil de se conversar.

Não posso acreditar que estou gaguejando com o irmão do patrão. Espere só até contar tudo a mamãe e papai.

Milo Scott parecia verdadeiramente interessado pelos operários e seus problemas. Ellen conduziu-o pelo departamento em que eram fabricadas as peças de transmissão. Mostrou a sala de têmpera, onde as engrenagens eram submetidas a um processo de endurecimento, a seção de acondicionamento e o departamento de expedição. Ele parecia devidamente impressionado.

- Sem dúvida é uma grande operação, não é mesmo, Senhorita Dudash?

Ele possui tudo isso e se comporta como um garoto embasbacado. Há gente de todos os tipos.

Foi na seção de montagem que o acidente ocorreu. O cabo de um carro suspenso, levando ferro despencou. Milo Scott encontrava-se diretamente embaixo. Ellen viu o que estava para acontecer uma fração de segundo antes e, sem pensar, empurrou-o para o lado. Duas barras de ferro atingiram-na antes que pudesse escapar. Ela caiu, inconsciente.

Despertou numa suíte particular de um hospital. O quarto estava literalmente repleto de flores. Quando abriu os olhos e viu tudo, Ellen pensou: Morri e fui para o céu.

Havia orquídeas, rosas, lírios, crisântemos e flores raras que não podia identificar.

O braço direito estava engessado, as costelas enfaixadas.

Uma enfermeira entrou.

- Ah, já acordou, Senhorita Dudash. Vou chamar o médico.

- Onde... onde estou?

- Blake Center... é um hospital particular.

Ellen correu os olhos pela ampla suíte. Nunca poderei pagartudo isso.

- Estamos interceptando as ligações para você.

– Que ligações?

- A imprensa vem tentando entrevistá-la. Seus amigos têm telefonado. O Sr. Scott ligou várias vezes...

Milo Scott!

- Ele está bem?

- Como?

- Ele ficou machucado no acidente?

- Não. Esteve aqui no início da manhã, mas você ainda dormia.

- Ele veio me visitar?

- Isso mesmo. - A enfermeira correu os olhos à sua volta. - A maioria destas

flores foi enviada por ele.

Incrível!

- Seus pais estão na sala de espera. Sente-se em condições para recebê-los agora?

- Claro.

– Vou chamá-los.

Puxa, nunca fui tratada assim num hospital, pensou Ellen.

Seus pais entraram e se aproximaram da cama. Eles haviam nascido na Polônia, e tinham apenas uma noção de inglês. O pai era mecânico, corpulento e rude, na casa dos cinquenta anos, a mãe era uma camponesa simples do norte da Europa.

- Trouxe-lhe uma sopa, Ellen.

- Mamãe... eles dão comida às pessoas nos hospitais.

- Não da minha sopa. Não vão alimentar você direito no hospital. Coma tudo e ficará boa mais depressa.

- Já viu o jornal? Eu trouxe para você - comentou o pai.

Entregou o jornal a Ellen. A manchete dizia:

 

               OPERÁRIA ARRISCA A VIDA

               PARA SALVAR PATRÃO

 

Ellen leu a matéria duas vezes.

- Foi muita coragem sua salvá-lo.

"Coragem! Foi uma estupidez. Se eu tivesse tempo para pensar, teria me salvado. Foi a coisa mais imbecil que já fiz. Ora, eu poderia ter morrido!

 

Milo Scott foi visitar Ellen mais tarde, ainda naquela manhã. Trazia outro boquê de flores.

- São para você - disse, contrafeito. - O médico garantiu que ficará boa. Eu... eu não tenho

palavras para expressar como me sinto grato.

- Não foi nada.

- Foi o ato mais corajoso que já vi. Salvou minha vida.

Ellen tentou se mexer, mas o movimento provocou-lhe uma aguda dor no braço.

- Você está bem?

- Claro. - Ela sentiu o lado começar a latejar. - O que o médico disse que estava errado comigo?

- Quebrou o braço e está com três costelas fraturadas.

Ele não podia dar uma notícia pior. Os olhos de Ellen encheram-se de lágrimas.

- Qual é o problema?

Como ela podia lhe contar? Riria dela. Vinha economizando para umas férias há muito sonhadas em Nova York com algumas colegas da fábrica. Era seu sonho. Agora, ficarei sem trabalhar um mês ou mais. Lá se vai Manhattan.

Ellen trabalhava desde os 15 anos. Sempre fora independente e auto-suficiente, mas agora pensou: Se ele está mesmo tão grato, talvez concorde em pagar parte das contas do hospital. Mas não posso pedir-lhe. Começava a sentir-se sonolenta. "Deve ser a medicação." E disse, com a voz meia engrolada:

- Obrigada por todas as flores, Sr. Scott. E foi um prazer conhecê-lo.

Eu me preocuparei com as contas do hospital mais tarde.

Ellen Dudash adormeceu.

Na manhã seguinte, um homem alto e de aparência distinta entrou na suíte de Ellen.

- Bom dia, Senhorita Dudash. Como está se sentindo esta manhã?

- Muito melhor, obrigada.

- Sou Sam Norton, diretor de relações públicas da Scott Industries.

- Ah... - Ela nunca o vira antes.

- Mora aqui?

- Não. Vim de avião de Washington.

- Para me ver?

- Para ajudá-la.

- Ajudar-me em quê?

- A imprensa está lá fora, Senhorita Dudash. Como não creio que já tenha dado uma entrevista coletiva alguma vez, pensei que talvez pudesse querer alguma ajuda.

- O que eles querem?

- Basicamente, vão perguntar como e por que salvou o Sr. Scott.

- Isso é fácil. Se eu parasse para pensar, teria fugido de lá como se fosse do inferno.

Norton fitou-a aturdido.

- Senhorita Dudash... acho que eu não diria isso, se estivesse no seu lugar.

- Porquê? É a verdade.

Não era absolutamente o que ele esperava. A garota parecia não ter a menor ideia de sua situação. Alguma coisa a preocupava, e resolveu falar.

- Vai se encontrar com o Sr. Scott?

- Vou, sim.

- Poderia me fazer um favor?

- Se eu puder, claro.

- Sei que o acidente não foi culpa dele, e não me pediu para empurrá-lo para o lado, mas... - O mas veio forte e independente em Ellen levou-a a hesitar. - Ora, não importa.

"É agora", pensou Norton. "Quanto ela tentará extorquir? Será dinheiro? Um cargo melhor? O quê?

- Continue, por favor, Senhorita Dudash.

Ela falou impulsivamente:

- A verdade é que não tenho muito dinheiro, vou perder algum pagamento por causa disso e acho que não tenho condições de pagar todas as contas do hospital. Não quero incomodar o Sr. Scott, mas se ele pudesse me arrumar um empréstimo, juro que eu pagaria tudo. – Ellen percebeu a expressão de Norton e interpretou-a errada. - Desculpe. Talvez esteja parecendo mercenária. Acontece que eu estava economizando para uma viajem e... isso rruinou meus planos. - Respirou fundo. – Mas não é problema dele. Darei um jeito.

Sam Norton quase beijou-a. Há quanto tempo que não deparo com a inocência autêntica? É suficiente para restaurar minha fé no sexo feminino.

Sentou-se no lado da cama e sua atitude profissional desapareceu. Pegou-lhe a mão.

- Ellen, tenho o pressentimento de que você e eu vamos ser grandes amigos. Prometo que não precisará se preocupar com dinheiro. Nossa primeira providência será

levá-la para essa entrevista coletiva. Queremos que saia disso tudo com uma boa imagem e... - Ele parou. - Serei franco. Minha função é cuidar para que a Scott Industries saia disso tudo com a melhor imagem. Está entendendo?

- Acho que sim. Está querendo dizer que não parecia certo se eu dissesse que não estava realmente interessada em salvar Milo Scott? Ficaria muito melhor se eu dissesse algo como "Gosto tanto de trabalhar para a Scott Industries que quando vi o Sr. Milo Scott em perigo compreendi que devia tentar salvá-lo, mesmo com o risco da minha própria vida?

- Isso mesmo.

Ellen riu.

- Muito bem, se isso vai ajudá-lo. Mas não quero enganá-lo, Sr. Norton. Não sei o que me levou a proceder daquela forma.

Ele riu.

- Esse será nosso segredo. É, agora, vou deixar as feras entrarem.

Havia um grande número de repórteres e fotógrafos, de emissoras de rádio, jornais e revistas. A imprensa tencionava tirar o máximo proveito. Não era todos os dias que uma linda empregada arriscava a vida para salvar o irmão do patrão. E o fato de o patrão ser Milo Scott não prejudicava a história em nada.

- Senhorita Dudash... quando viu aquele ferro caindo, qual foi o seu primeiro pensamento?

Ellen olhou para Sam Norton com uma expressão de inocência e respondeu:

- Pensei: “Preciso salvar o Sr. Scott. Eu nunca me perdoaria se o deixasse morrer."

A entrevista coletiva prosseguiu sem maiores dificuldades.

Quando percebeu que Ellen começava a se cansar, San Norton apressou-se em encerrá-la:

- Já chega, senhoras e senhores. Muito obrigado a todos.

Depois que os jornalistas se retiraram, Ellen perguntou:

- Eu me saí bem?

- Foi maravilhosa. E agora durma um pouco.

Ela teve um sono irrequieto. Sonhou que se encontrava no saguão do Empire States mas os guardas não a deixavam subir no alto porque não tinha dinheiro suficiente para comprar um ingresso.

 

Milo Scott foi visitar Ellen naquela tarde. Ela ficou surpresa ao vê-lo. Fora informada que ele morava em Nova York.

- Contaram-me que você se saiu muito bem na entrevista coletiva. Você é uma heroína.

- Sr. Scott... preciso lhe contar uma coisa. Não sou uma heroína. Não parei para pensar em salvá-lo. Eu... eu apenas o fiz.

- Sei disso. Sam Norton me contou.

- Então...

- Há vários tipos de heroísmo, Ellen. Não pensou em me salvar, mas agiu instintivamente, em vez de se salvar.

- Eu... eu apenas queria que soubesse.

- Sam também me contou que estava preocupada com as contas do hospital.

- Bem...

- Já cuidei de tudo. E quanto à possibilidade de perder uma parte do salário... - ele sorriu: - Senhorita Dudash... acho que não sabe o quanto lhe devo.

- Não me deve nada.

- O médico me informou que você receberá alta amanhã. Poderei levá-la para jantar?

Ele não compreende", pensou Ellen. "Não quero sua caridade. Nem sua compaixão.

- Falei sério quando disse que não me deve nada. Obrigada por se encarregar das contas do hospital. Estamos quites.

- Ótimo. E agora posso convidá-la para jantar?

 

Foi assim que começou. Milo Scott permaneceu em Gary por uma semana, e viu Ellen todas as noites.

Os pais advertiram-na:

- Tome cuidado. Os patrões não saem com operárias a menos que queiram alguma coisa.

Essa foi a atitude de Ellen Dudash no início, mas Milo a fez mudar de ideia. Foi um perfeito cavalheiro em todos os momentos, e a verdade finalmente aflorou em Ellen: Ele gosta mesmo da minha companhia.

Enquanto Milo se mostrava tímido e reservado, Ellen era franca e expansiva. Durante toda sua vida, Milo estivera cercado de mulheres com a ambição ardente de entrarem para a poderosa dinastia Scott. E se empenhavam em jogos calculistas. Ellen Dudash era a primeira mulher totalmente honesta que Miro já conhecera. Dizia exatamente o que pensava. Era inteligente, atraente e, acima de tudo, uma companhia divertida. Ao final da semana, os dois estavam apaixonados.

- Quero casar com você - disse Milo. - Não consigo pensar em qualquer outra coisa. Vai casar comigo?

- Não.

Ellen também não fora capaz de pensar em outra coisa. A verdade era que estava apavorada. Os Scott encontravam-se tão próximos da realeza quanto era possível nos Estados Unidos. Eram famosos, ricos e poderosos. Não pertenço ao círculo deles. Só poderia bancar a tola. E o mesmo aconteceria a Milo. Mas ela sabia que travava uma batalha perdida. Foram casados por um juiz de paz em Greenwich, Connecticut, e viajara até Manhattan para que Ellen Scott Dudash fosse apresentada à família do marido.

Byron Scott recebeu o irmão bruscamente:

- Mas que loucura foi essa... casar com uma vigarista polonesa? Ficou maluco?

Susan Scott foi igualmente implacável.

– Claro que ela se casou com Milo pelo dinheiro. Quando descobrir que ele não tem nada, arrumaremos uma anulação. Esse casamento não vai durar muito.

Mas eles subestimaram Ellen Scott.

- Seu irmão e sua cunhada me odeiam, mas não me casei com eles. Casei com você. Não quero me interpor entre você e Byron. Se isso o deixa muito infeliz, Milo, basta dizer, e irei embora.

Ele abraçou a esposa e sussurrou:

- Adoro você... e quando Byron e Susan a conhecerem direito, também vão adorá-la.

Ellen apertou-o e pensou: Como ele é ingênuo. E como eu o amo.

 

Byron e Susan não eram grosseiros com a nova cunhada. Mostravam-se condescendentes. Para eles, Ellen seria sempre a garota polonesa que trabalhara numa das fábricas da Scott Industries.

Ellen observava e lia sobre como as esposas dos amigos de Milo se vestiam, e tratava de imitá-las. Estava determinada a se tornar a esposa apropriada para Milo Scott, e conseguiu. Mas não aos olhos de Byron e Susan. E, pouco a pouco, sua ingenuidade transformou-se em cinismo. "Os ricos e poderosos não são tão maravilhosos assim", pensou. Tudo o que querem é se tornar mais ricos e mais poderosos.

 

Ellen era muito protetora em relação a Milo, mas havia pouco que pudesse fazer para ajudá-lo. A Scott Industries era um dos poucos conglomerados de capital fechado do mundo, e todas as ações pertenciam a Byron. O irmão caçula era um empregado assalariado, e Byron nunca o deixava esquecer isso. Tratava-o de maneira vergonhosa. Milo era encarregado de todos os trabalhos sujos, e nunca recebia qualquer crédito pelo que fazia.

- Por que atura isso, Milo? Não precisa dele. Podemos ir embora. E você pode montar seu próprio negócio.

- Eu não poderia deixar a Scott Industries. Byron precisa de mim.

Com o passar do tempo, porém, Ellen veio a compreender o verdadeiro motivo. Milo era um fraco. Precisava de alguém forte para se apoiar. Ela sabia que ele nunca teria coragem suficiente para largar a companhia.

"Muito bem", pensou, irritada. "Um dia a companhia lhe pertencerá. Byron não pode viver para sempre. E Milo é o único herdeiro.

Foi um golpe para Ellen quando Susan Scott anunciou que estava grávida. O bebê vai herdar tudo.

Quando a criança nasceu, Byron declarou:

- É uma menina, mas eu lhe ensinarei como administrar a companhia.

O miserável, pensou Ellen, o coração doído por Milo. O único comentário de Milo foi:

- Não é uma criança linda?

 

O piloto do Lockheed Lodestar estava preocupado.

- Uma frente de tempestade aproxima-se. A situação não me agrada. – Acenou com a cabeça para o co-piloto. - Assuma o comando. - Então deixou a carlinga e foi para a cabine de passageiros.

Havia cinco passageiros a bordo, além do piloto e co-piloto: Byron Scott, o brilhante e dinâmico fundador, e principal executivo da Scott Industries; sua atraente esposa, Susan; a filha de um ano, Patricia; Milo Scott, o irmão caçula de Byron; e a esposa de Milo, Ellen. Voavam num dos aviões da companhia, de Paris rumo a Madri. Levar a criança fora um impulso de último minuto de Susan.

- Detesto ficar longe de minha filha por tanto tempo – ela disera a Byron.

- Tem medo que ela nos esqueça? - zombou ele. – Está bem, vamos levá-la conosco.

Com o término da Segunda Guerra Mundial, a Scott Industries expandia-se rapidamente no mercado europeu. Em Madri, Byron Scott analisaria as possibilidades de construir uma nova usina siderúgica.

O piloto aproximou-se de Byron.

- Com licença, senhor. Estamos nos aproximando de nuvens tempestuosas. A situação pela frente não parece boa. Devemos voltar?

Byron Scott olhou pela pequena janela. Voavam por uma massa de nuvens cinzentas, riscadas, a intervalos de poucos segundos, por relâmpagos.

- Tenho uma reunião em Madri est anoite. Pode contornar a tempestade?

- Vou tentar. Se não for possível, então teremos de voltar. Byron assentiu. - Está certo.

Vyron acentiu.

- Está certo..

- Podem apertar os cintos, por favor?

O piloto voltou apressado para a carlinga.

Susan não ouviu a conversa. Pegou a criança no colo, arrependida, subitamente, por tê-la trazido. Preciso dizer a Byron para mandar o piloto voltar, pensou.

- Byron...

Foram apanhados de repente pela tempestade, e o avião começou a se sacudir, à mercê das rajadas de vento. Os movimentos tornaram-se mais violentos. A chuva batia nas janelas. A tempestade acabara com toda a visibilidade. Os passageiros tinham a sensação de que viajavam num mar de algodão revolto.

Byron acionou o sistema de intercomunicação.

- Onde estamos, Blake?

- Oitenta quilômetros a noroeste de Madri, sobre a cidade de Ávila.

Byron tornou a olhar pela janela.

- Esqueceremos Madri por esta noite. Vamos voltar e sair logo daqui.

- Entendido.

A decisão veio uma fração de segundo tardia. Enquanto o piloto começava a fazer a volta, o pico de uma montanha surgiu abruptamente à sua frente. Não houve tempo para evitar a colisão. Houve um estrondo e o céu explodiu, enquanto o avião deslizava pela encosta da montanha, espatifando-se, fragmentos da fuselagem e asas espalhando-se por um elevado platô.

Depois da colisão houve um silêncio anormal, que durou pelo que parecia uma eternidade. Foi rompido pelo crepitar das chamas, que começaram a envolver o trem de aterrisagem do

avião. - Ellen...

Ellen Scott abriu os olhos. Estava deitada sob uma árvore. O marido inclinava-se por cima dela, batendo de leve em seu rosto.

Ao ver que estava viva, Milo Scott exclamou:

- Graças a Deus!

Ellen sentou-se, tonta, a cabeça latejando, cada músculo no corpo dolorido. Olhou em redor, contemplando os destroços do que fora outrora um avião, repleto de corpos humanos. Estremeceu.

- E os outros? - balbuciou Ellen, a voz rouca.

- Estão mortos.

Fitou o marido, aturdida.

- Oh, Deus, não!

Ele assentiu, o rosto contraído em dor.

- Byron, Susan, a criança, os tripulantes... todos.

Ellen Scott tornou a fechar os olhos e disse uma oração silenciosa. Por que Milo e eu fomos poupados? Era difícil pensar com nitidez. "Precisamos descer à procura de socorro. Mas é tarde demais. Estão todos mortos." Era impossível acreditar. Estavam cheios de vida apenas poucos minutos antes.

- Pode se levantar? - Eu... eu creio que sim.

Milo ajudou a esposa a ficar de pé. Houve uma vertigem terrível, e ela ficou parada, à espera que passasse. Milo virou-se e olhou para o avião. As chamas se tornaram mais intensas.

- Vamos sair daqui, Ellen. O avião vai explodir a qualquer momento.

Afastaram-se depressa e ficaram observando os destroços arderem. Um instante depois houve uma explosão dos tanques de combustível, as chamas envolveram o avião por completo.

- É um milagre estarmos vivos - murmurou Milo.

Ellen olhou para o avião em chamas. Alguma coisa pressionava-lhe a mente, mas não conseguia pensar com nitidez. Algo sobre a Scott Industries. E de repente ela soube.

- Milo?

- O que é? - perguntou ele, com o pensamento distante.

- É o destino. - O fervor em sua voz fez com que ele se virasse.

- Como?

- A Scott Industries... pertence a você agora.

– Eu não...

- Milo, Deus a deixou para você - falava Ellen com veemência. - Você viveu a vida toda à sombra de seu irmão mais velho. - Ela conseguia coordenar as ideias agora, sem se preocupar com a dor de cabeça.

As palavras saíam numa enxurrada que lhe sacudia todo o corpo.

– Você trabalhou para Byron durante vinte anos, na construção da companhia. É tão responsável pelo sucesso quanto ele, mas Byron... alguma vez lhe deu crédito por isso? Não. Foi sempre a sua companhia, seu sucesso, seus lucros. Pois agora você... você finalmente tem a oportunidade de fazer as coisas sozinho.

Milo ficou horrorizado.

- Ellen... os corpos estão... como pode pensar a esse respeito...?

- Sei de tudo. Mas não os matamos. É a nossa vez, Milo. Podemos finalmente agir. Não há ninguém vivo para reivindicar a companhia, só nós. A companhia é nossa! Sua!

De repente os dois ouviram o choro de uma criança. Ellen e Milo Scott se entreolharam, incrédulos.

- É Patrícia! Ela está viva! oh, Deus!

Encontraram a criança perto de alguns arbustos. Por algum milagre, nada sofrera.

Milo pegou-a, aninhou-a no colo, com carinho.

- Calma, calma, está tudo bem, querida - sussurrou. - Vai acabar tudo bem.

Ellen estava a seu lado, com uma expressão chocada.

- Você... você disse que ela havia morrido.

– Deve ter sido lançada para fora do avião e ficou inconsciente.

Ellen olhou em silêncio para a criança por um longo tempo, e depois disse, numa voz abafada:

- Ela devia ter morrido com os outros.

Foi a vez de Milo ficar chocado.

- O que está dizendo?

- O testamento de Byron deixa tudo para Patricia. Você passará os próximos vinte anos como seu tutor, a fim de que ela possa, quando crescer, humilhá-lo tanto quanto o pai. É isso o que você quer?

Milo ficou quieto.

- Jamais teremos outra oportunidade como essa. - Ela olhava fixamente para a criança e havia uma expressão desvairada em seus olhos que Milo nunca vira antes. Ela parecia... Ela está fora de si. Sofrendo de uma convussão.

- Pelo amor de Deus, Ellen, o que está passando?

Ela fitou-o em silêncio por um momento, o brilho desvairado desapareceu-lhe dos olhos.

- Não sei - respondeu Ellen, calmamente. Após uma pausa, ela acrescentou: - Há uma coisa que podemos fazer: deixá-la em algum lugar, Milo. Segundo o piloto, estamos perto de Ávila. Deve haver muitos turistas lá. Não há motivo que alguém associe a criança com o desastre de avião.

Ele sacudiu a cabeça.

- Os amigos sabem que Byron e Susan trouxeram Patricia.

Ellen olhou para o avião em chamas.

- Isso não é problema. Todos morreram queimados no avião. Faremos um serviço in memoriam particular aqui.

- Não podemos fazer isso, Ellen. Jamais poderíamos escapar impunes.

- Deus fez por nós. Conseguiremos escapar.

Milo contemplou a criança.

- Mas ela é tão...

- Ela ficará bem. Vamos largá-la numa bela casa de fazenda, nos arredores da cidade. Alguém irá adotá-la, e ela crescerá para levar uma vida feliz aqui.

Milo sacudiu a cabeça.

- Não posso fazer isso. De jeito nenhum.

- Se me ama, fará isso por nós. Precisamos escolher, Milo. Pode ter-me a mim ou passar o resto da vida trabalhando para a filha de seu irmão.

- Por favor, eu...

- Você me ama?

- Mais do que minha própria vida.

- Pois então prove.

 

Os dois desceram pela encosta da montanha, no escuro, com todo cuidado, fustigados pelo vento. Como o avião caíra numa área de muitas árvores, o estrondo fora abafado, e por isso os habitantes locais ainda não sabiam do acidente.

Três horas depois, nos arredores de Ávila, encontraram uma pequena casa de fazenda. Ainda não amanhecera.

- Vamos deixá-la aqui - sussurrou Ellen.

Milo fez a última tentativa.

- Ellen, não poderíamos...?

- Faça o que estou mandando!

Sem dizer nada, ele levou a criança para a porta da casa. A menina usava apenas uma camisola rosa rasgada, enrolada numa manta.

Milo contemplou Patricia por um longo momento, os olhos marejados de lágrimas, depois ajeitou-a no chão, com delicadeza. E sussurrou:

- Seja feliz, querida.

O choro despertou Asunción Moras. Por um momento sonolenta, ela pensou que fosse o balido de uma cabra ou de uma ovelha. Como escapara do cercado?

Resmungando, Asunción levantou-se da cama quente, pôs um velho chambre desbotado e encaminhou-se para a porta. Ao ver a criança aos gritos e esperneando, ela exclamou:

- Madre de Dios! - e ela chamou o marido.

Recolheram a criança, que não parava de chorar, e parecia estar ficando azul.

– Temos de levá-la para o hospital.

Envolveram a criança com outra manta, pegaram a camionete e foram para o hospital. Sentaram-se num banco no corredor comprido, à espera de atendimento. Meia hora depois apareceu um médico, que levou a criança para exame.

- Ela está com pneumonia - avisou ele.

- Vai sobreviver?

O médico encolheu os ombros.

 

Milo e Ellen Scott entraram cambaleando na delegacia da polícia em Ávila.

O sargento de plantão fitou os dois turistas enlameados.

- Buenos dias. Em que posso ajudá-los?

- Houve um terrível acidente - avisou Milo. – Nosso avião caiu numa montanha e...

Uma hora depois, uma expedição de socorro estava a caminho da montanha. Quando lá chegou, não havia nada a fazer, a não ser ver os restos carbonizados e fumegantes de um avião e seus passageiros.

 

O inquérito sobre o acidente foi conduzido de maneira superficial pelas autoridades espanholas.

- O piloto não deveria tentar voar numa tempestade tão intensa. Devemos atribuir o acidente a erro do piloto.

Não havia motivo para que alguém de Ávila associasse o desastre de avião com uma criança pequena deixada na porta de uma casa de fazenda.

Estava acabado. Estava apenas começando.

 

Milo e Ellen realizaram um serviço in memoriam particular por Byron, a esposa Susan e a filha Patricia. Ao voltarem a Nova York, realizaram outro in memoriam, com a presença dos chocados amigos dos Scotts.

- Que tragédia terrível! E a pobre Patricia...

- É verdade - murmurou Ellen, tristemente. - A única bênção é que aconteceu tão depressa que nenhum deles sofreu.

 

A comunidade financeira ficou abalada com a morte de Byron Scott. A cotação da ação da Scott Industries caiu. Mas Ellen Scott não se preocupou. Tranquilizou o marido:

- Não há problema. Tornará a subir. Você é melhor do que Byron jamais foi. Ele conteve a companhia, Milo. Agora, vamos fazê-la avançar.

Milo abraçou-a.

- Não sei o que faria sem você.

Ellen sorriu.

- Não haverá necessidade. Daqui por diante, teremos tudo no mundo que sempre sonhamos.

Ela apertou-o firme e pensou: Quem poderia acreditar que Ellen Dudash, de uma pobre família polonesa de Gary, Indiana, diria um dia "Daqui por diante teremos tudo no mundo com que sempre sonhamos?

E ela falava sério.

 

A criança permaneceu no hospital por dez dias, lutando por sua vida. Depois que a crise passou, o padre Berrendo procurou o camponês e a esposa.

- Tenho boas notícias para vocês - disse ele, feliz. - A criança vai ficar boa.

Os Moras trocaram um olhar contrafeito.

- Fico contente por ela - murmurou o camponês, evasivo.

Padre Berrendo estava radiante.

- Ela é uma dádiva de Deus.

- Claro, padre. Mas minha esposa e eu conversamos e chegamos à conclusão de que Deus é generoso demais conosco. Sua dádiva exige alimentação, e não temos condições de sustentá-la.

- Mas ela é uma criança muito bonita - ressaltou padre Berrendo. - Além disso...

- Concordo. Mas minha esposa e eu somos velhos e doentes, não podemos assumir a responsabilidade de criar uma criança. Deus terá de aceitar sua dádiva de volta.

E assim, sem ter para onde ir, a criança foi enviada para o orfanato em Ávila.

 

Milo e Ellen estavam sentados no escritório do advogado de Byron Scott para a leitura do testamento. Os três eram as únicas pessoas presentes. Ellen sentiu um excitamento quase insuportável. Umas poucas palavras num pedaço de papel fariam com que ela e Milo se tornassem ricos para sempre. Compraremos obras dos velhos mestres, uma propriedade em Southampton, um castelo na França. E isso é apenas o começo.

O advogado começou a falar, e Ellen concentrou-se nele. Meses antes, ela vira uma cópia do testamento de Byron, e sabia exatamente o que dizia:

"No caso de minha esposa e eu falecermos, deixo todas as minhas ações na Scott Industries para minha única filha, Patricia, e designo meu irmão Milo como executor testamentário, até que ela alcance a idade legal e possa assumir..."

Pois tudo isso está mudado agora, pensou Ellen, na maior emoção.

O advogado, Lawrence Gray, disse solenemente:

- Foi um terrível choque para todos nós. Sei o quanto você amava seu irmão, Milo, e aquela linda criança... - Ele sacudiu a cabeça. - Mas a vida precisa de continuar. Talvez não saiba que seu irmão havia alterado o testamento. Não vou incomodá-lo com aspectos jurídicos. Lerei apenas a parte essencial. - Folheou o testamento e encontrou o parágrafo que procurava. - Corrijo este testamento para que minha filha, Patricia, receba a quantia de cinco milhões de dólares e mais a distribuição de um milhão de dólares por ano, pelo resto de sua vida. Todas as ações na Scott Industries em meu nome ficarão para meu irmão, Milo, como uma recompensa pelos longos, fiéis e valiosos serviços

que prestou à companhia ao longo dos anos.

Milo Scott sentiu que a sala começava a balançar. O advogado levantou os olhos.

- Está se sentindo bem?

Milo tinha dificuldade para respirar. Santo Deus, o que fizemos? Nós a privamos de sua herança e não era absolutamente necessário. Mas agora podemos devolver-lhe tudo.

Virou-se para dizer alguma coisa a Ellen, mas a expressão nos olhos da esposa deteve-o.

 

- Deve haver alguma coisa que possamos fazer, Ellen. Não podemos simplesmente deixar Patricia lá. Não agora.

Estavam no apartamento na Quinta Avenida, vestindo-se para um jantar de caridade.

- É exatamente o que vamos fazer - declarou Ellen. - A menos que você prefira trazê-la de volta e tentar explicar por que falamos que morreu queimada no desastre de avião.

Milo não tinha resposta para isso. Depois de pensar por um momento, ele disse:

- Muito bem, mas vamos enviar dinheiro todos os meses, a fim de...

- Não seja tolo, Milo - falou Ellen, bruscamente. - Mandar dinheiro? E fazer com que a polícia comece a investigar por que alguém está enviando dinheiro para a criança, até nos descobrir? Não é possível. Se a consciência o incomoda, teremos o dinheiro da companhia

para dar a obras de caridade. Esqueça a criança, Milo. Ela está morta, lembra?

Lembra... lembra... lembra...

As palavras ecoaram na mente de Ellen Scott, enquanto contemplava a audiência no salão de baile do Waldorf-Astoria e concluía seu discurso. Mais uma vez foi ovacionada de pé.

Vocês estão aclamando uma morta, pensou.

 

Os fantasmas voltaram naquela noite. Ellen julgava tê-los exorcizado há muito tempo. No

começo, depois dos serviços in memoriam para Byron, Susan e Patricia, os visitantes noturnos apareciam com frequência. Neblinas tênues pairavam por cima de sua cama, e vozes sussurravam-lhe no ouvido. Despertava, o coração disparava, mas não via nada. Não contou a Milo. Ele era um fraco, poderia ficar apavorado e cometer uma loucura, algo que arriscaria a companhia. Se a verdade fosse revelada, o escândalo arruinaria a Scott Industries, e Ellen estava determinada a impedir que isso jamais acontecesse. E por isso ela sofria os fantasmas em silêncio, até que finalmente desapareceram, deixando-a em paz.

Agora, na noite do banquete, eles voltaram. Ellen acordou e sentou-se na cama, olhando em redor. O quarto estava vazio e quieto, mas ela sabia que os fantasmas se encontravam ali. O que tentavam lhe dizer? Sabiam que ela os encontraria em breve?

Ellen levantou-se e foi para a ampla sala de estar, decorada com antiguidades, da bela casa na cidade que comprara depois da morte de Milo. Correu os olhos pela aprazível sala e pensou: Pobre Milo. Não tivera muito tempo para desfrutar os benefícios da morte do irmão. Morrera de um ataque cardíaco um ano depois do desastre de avião, e Ellen Scott assumira a companhia, dirigindo-a com tanta eficiência e habilidade que projetara a Scott Industries no âmbito internacional.

A companhia pertence à família Scott, pensou. Não vou entregá-la a estranhos anônimos.

E isso levou seus pensamentos à filha de Byron e Susan. A legítima herdeira do trono que lhe fora roubado. Havia medo em seus pensamentos? Havia um desejo de fazer uma expiação antes de sua própria morte?

Ellen Scott passou a noite inteira sentada na sala de estar, os olhos voltados para o nada, pensando e planejando. Há quanto tempo fora? Vinte e oito anos. Patricia seria agora uma mulher adulta, presumindo que ainda vivia. O que se tornara sua vida? Casara com um camponês ou um comerciante da aldeia? Tinha filhos? Ainda vivia em Ávila

ou fora para algum outro lugar?

Devo encontrá-la, pensou Ellen. E depressa. Se Patricia continua viva, preciso vê-la, conversar com ela. Devo finalmente acertar as contas. O dinheiro pode converter mentiras em verdades. Encontrarei um meio de resolver o problema sem que ela descubra o que realmente aconteceu.

 

Na manhã seguinte, Ellen chamou Alan Tucker, chefe da segurança da Scott Industries. Era um ex-detetive, com cerca de quarenta anos, magro, calvo, pálido, trabalhador e inteligente.

- Quero que faça uma investigação para mim.

- Pois não, Srª Scott.

Ellen estudou-o um momento, especulando sobre o que poderia contar-lhe Não posso dizer nada, concluiu. Enquanto estiver viva, recuso-me a pôr a companhia em risco. Deixarei que ele descubra Patricia primeiro e depois decidirei como cuidar da situação."

Inclinou-se para a frente:

- Há 28 anos uma órfã foi deixada na porta de uma casa de fazenda, nos arredores de Ávila, Espanha. Quero que descubra onde ela está hoje e a traga para mim o mais depressa possível.

O rosto de Alan Tucker permaneceu impassível. A Srª Scott não gostava que seus

empregados demonstrassem emoção.

- Está bem, madame. Partirei amanhã.

 

O coronel Ramón Acoca encontrava-se num ânimo expansivo. Todas as peças finalmente começavam a se encaixar. Uma ordenança entrou na sala.

- O coronel Sostelo chegou.

- Mande-o entrar.

Não precisarei mais dele, pensou Acoca." Pode voltar para seus soldadinhos de chumbo.

O coronel Fal Sostelo entrou na sala.

- Coronel.

- Coronel.

É irônico", pensou Sostelo. Temos o mesmo posto, mas o gigante de cicatriz possui o poder para me liquidar. Ele deve estar ligado à maldita OPUS MUNDO."

Sostelo ficava indignado por ser obrigado a responder ao chamado de Acoca, como se fosse algum inexpressivo subordinado. Mas fez um esforço para não deixar transparecer seus sentimentos.

- Queria falar comigo?

- Queria sim. - Acoca apontou para uma cadeira. - Sente-se. Tenho algumas notícias para você. Jaime Miró está com as freiras.

- O quê?

- Isso mesmo. Elas estão viajando com Miró e seus homens. Ele dividiu o bando em três grupos.

- Como..., como sabe disso?

 

Ramón Acoca recostou-se na cadeira.

- Joga xadrez?

- Não.

- É uma pena. Trata-se de um jogo muito instrutivo. Para ser um bom

jogador, é necessário penetrar na mente do adversário. Jaime Miró e eu jogamos xadrez um com o outro.

Fal Sostelo ficou surpreso.

- Não compreendo...

- Não literalmente, coronel. Não usamos tabuleiro de xadrez. Usamos nossas mentes. Provavelmente compreendo Jaime Miró melhor do que qualquer outra pessoa no mundo. Sei como sua mente funciona. Tinha certeza que ele tentaria explodir a represa em Puenta la Reina. Capturamos dois dos seus homens ali e foi apenas por sorte que o próprio Miró escapou. Eu sabia que ele tentaria salvá-los, e Miró sabia que eu estava a par. - Acoca encolheu os ombros. - Não previ que ele usaria os touros para promover a fuga. - Havia um tom de admiração em sua voz.

- Dá impressão de que...

- De que o admiro? Admiro sua mente. Desprezo o homem. - Sabe para onde Miró está indo?

- Viaja para o norte. Eu o pegarei nos próximos três dias.

O coronel Sostelo estava mais aturdido do que nunca.

- Finalmente será dado o xeque-mate.

Era verdade que o coronel Acoca compreendia Jaime Miró e a maneira como sua mente funcionava, mas não era suficiente para ele. O coronel queria uma vantagem, para garantir a vitória, e a encontrara.

- Como...? –

- Um dos terroristas de Miró é um informante - explicou o coronel Acoca.

 

Rubbio, Tomás e as duas freiras evitaram as cidades maiores e seguiram por estradas secundárias, passando por velhas aldeias, com ovelhas e cabras pastando, os pastores escutavam música e partidas de futebol pelos rádios transistorizados. Era uma pitoresca justaposição do passado e presente, mas Lucia tinha outras coisas na mente.

Permanecia perto de irmã Teresa, esperando pela primeira oportunidade de se apoderar da cruz e fugir. Os dois homens estavam sempre ao lado delas. Rubbio Arzano era o mais cortês, um homem alto, simpático, jovial. Um camponês de mentalidade simples, concluiu Lucia. Tomás Sanjuro era franzido e calvo. Parece-se mais com um vendedor de sapatos do que com um terrorista. Será fácil de enganar os dois.

Atravessaram as planícies ao norte de Ávila à noite, esfriada pelos ventos que sopravam das montanhas Guadarrama. Havia um vazio assustador nas planícies ao luar. Passavam por granjas de trigo, olivais, vinhedos e milharais e pegavam batatas e alface, frutas das árvores, e ovos de galinhas nos galinheiros.

- Toda a região rural da Espanha é um vasto mercado - comentou Rubbio Arzano.

Tomás Sanjuro sorriu.

- É tudo de graça.

Irmã Teresa mantinha-se totalmente indiferente à conversa. Seu único pensamento era alcançar o convento em Mendavia. A cruz parecia cada vez mais pesada, mas estava

determinada a não permitir que lhe saísse das mãos. Muito em breve, pensou. Daqui a pouco estaremos lá. Fugimos de Getsêmane e de nossos inimigos para a nova mansão que Ele preparou para nós.

- O que disse? - indagou Lucia.

Irmã Teresa não percebera que falava em voz alta.

- Eu... nada.

Lucia examinou-a mais atentamente. A mulher mais velha parecia transtornada, e um pouco desorientada, sem saber o que acontecia ao seu redor. Acenou a cabeça para o saco de viagem que irmã Teresa carregava.

- Deve estar pesado - disse num tom de simpatia. - Não gostaria de que eu carregasse um pouco?

Irmã Teresa comprimiu a cruz contra o corpo.

- Jesus carregou um fardo mais pesado. Posso carregar este por Ele. "Se algum homem for atrás de mim, que negue a si mesmo, assuma a sua cruz diária e me acompanhe." Eu a levarei - acrescentou ela, obstinada.

Havia algo estranho em seu tom de voz.

- Está se sentindo bem, irmã?

- Claro.

 

Irmã Teresa achava-se longe de estar bem. Não conseguira dormir. Sentia-se tonta e febril. A mente escapava-lhe ao controle outra vez. Não posso ficar doente, pensou. Irmã Betina me repreenderia. Mas irmã Betina não estava ali. Era tudo muito confuso. E quem eram aqueles homens? Não confio neles. "O que querem comigo?"

Rubbio Arzano tentara puxar conversa com irmã Teresa, procurando deixá-la à vontade.

- Deve lhe parecer estranho, irmã, estar de volta ao mundo. Quanto tempo passou

no convento?

Por que queria ele saber?

- Trinta anos.

- Puxa, é um bocado de tempo. De onde veio?

Era angustiante para ela até mesmo pronunciar a palavra.

- Éze.

O rosto de Arzano se iluminou.

- Éze? Passei um verão lá, em férias. É uma cidadezinha maravilhosa. Conheço bem. Lembro-me...

Conheço bem. Até que ponto? Será que ele conhece Raul? Fora Raul que o mandara? E a verdade atingiu-a como um relâmpago. Aqueles estranhos haviam sido enviados para levá-la de volta a Éze, para Raul Giradot. Estavam sequestrando-a. Deus a puniu por abandonar o bebê de Monique. Ela tinha certeza agora que a criança que vira na praça de Villacastín era de sua irmã. "Mas não podia ser, não é mesmo? Isso acontecera há trinta anos", Teresa murmurou para si mesmo. "Estão mentindo para mim."

Rubbio Arzano observava-a, escutando seus murmúrios.

- Algum problema, irmã?

Irmã Teresa afastous-se.

- Não.

Ela entendera tudo agora. Não permitiria que a levassem de volta para Raul e o bebê. Precisava chegar ao convento em Mendavia e entregar a cruz de ouro, Deus então a perdoaria pelo terrível pecado que cometera. Devo ser esperta. Não posso deixar que percebam que sei de seu segredo. Olhou para Rubbio e acrescentou:

- Estou bem.

Seguindo em frente, através de planícies secas, crestadas pelo sol, chegaram a uma pequena aldeia em que camponesas vestidas de preto lavavam roupa numa fonte, sob um telhado, apoiado em quatro vigas antigas. A água passava por uma comprida calha de madeira, de forma que estava sempre fresca. As mulheres esfregavam as roupas em blocos de pedra e enxaguavam na água corrente.

Uma cena muito pacífica, pensou Rubbio. Lembrava-o da fazenda que deixara para trás. É assim que a Espanha era. Sem bombas, sem matanças. Algum dia voltaremos a ter paz?

- Buenos dias.

- Buenos dias. - Poderíamos beber um pouco? Viajar deixa as pessoas com muita sede.

- Claro. Sirvam-se, por favor.

A água estava fresca e revigorante.

- Gracias, Adiós. - Adiós.

Rubio detestava partir.

 

As duas mulheres e os dois acompanhantes seguiram em frente, passando por oliveiras e obreiros, o ar do verão impregnado com a fragância de uvas e laranjas maduras. Passaram por pomares de macieiras, cerejeiras e ameixeiras, fazendas ruidosas, com o barulho de

galinhas, porcos e cabras.

Rubio e Tomás na frente, conversando em voz baixa. Estão falando de mim. Pensam que não conheço seu plano." Irmã Teresa chegou mais perto, a fim de poder escutar o que diziam.

-...uma recompensa de quinhentas mil pesetas por nossas cabeças. Claro que o capitão Acoca pagaria mais por Jaime, mas não quer sua cabeça. Quer seu scojones.

Os homens riram.

Enquanto escutava a conversa, a convicção de irmã Teresa foi se tornando cada vez mais forte. "Esses homens sãoassassinos executando o trabalho de Satã, mensageiros do mal enviados para me condenarem ao inferno eterno. Mas Deus é mais forte do que eles. Ele não permitirá que me levem de volta para casa."

Raul Giradot estava ao seu lado, exibindo o sorriso que ela conhecia tão bem.

A voz!

Como?

Ouvi você cantar ontem. É magnífica.

Em que posso servi-la?

Preciso de três metros de musseline, por favor.

"Pois não. Por aqui...

Minha tia é dona desta loja e precisava de ajuda, por isso resolvi trabalhar para ela por algum tempo." "Tenho certeza que poderia conquistar qualquer homem que quisesse, Teresa, mas espero que me escolha." Ele era tão bonito... "Nunca conheci ninguém como você, minha querida."

Raul abraçava-a e beijava-a. "Vai ser uma linda noiva." "Mas agora sou esposa de Cristo. Não posso voltar para Raul."

Lucia observava irmã Teresa atentamente. Ela falava sozinha, mas Lucia não conseguia distinguir as palavras. Ela está desabando", pensou Lucia. Não vai aguentar muito tempo. Preciso de me apoderar daquela cruz o mais depressa possível.

O crepúsculo já caíra quando avistaram a cidade de Olmega ao longe. Rubio parou.

- Haverá soldados por lá. Vamos subir pelas colinas e contornar a cidade.

Saíram da estrada e deixaram as planícies, rumo às colinas, por cima de Olmega. O sol deslizava pelos picos da serra, e o céu começava a escurecer.

- Precisamos de percorrer apenas mais alguns quilômetros - garantiu Rubio Arzano, tranquilizador. - E depois poderemos descansar.

Alcançaram o topo de uma alta colina. Tomás Sanjuro levantou a mão subitamente e sussurrou:

- Esperem! Rubio adiantou-se para seu lado, foram juntos até a beira da colina e olharam para o vale lá embaixo. Havia um acampamento de soldados.

- Mierda! - murmurou Rubio. - Deve haver um pelotão inteiro. Ficaremos aqui em cima pelo resto da noite. Provavelmente eles levantarão o acampamento ao amanhecer, e então podemos seguir em frente. - Virou-se para Lucia e irmã Teresa, tentando não deixar transparecer sua preocupação. - Passaremos a noite aqui, irmãs. Não podemos fazer barulho. Há soldados lá embaixo, e não queremos que nos descubram.

Era a melhor notícia que Lucia poderia ouvir. É perfeito", pensou. "Desaparecerei com a cruz durante a noite. Não ousarão tentar seguir-me, por causa dos soldados.

Para irmã Teresa, a notícia teve um significado diferente. Ouvira os homens comentarem que alguém chamado coronel Acoca estava à procura deles. "Chamaram o coronel Acoca de inimigo. Mas esses homens são o inimigo; portanto, o coronel Acoca deve ser meu amigo. Obrigada, Deus, por enviar-me o coronel Acoca.

"O homem chamado Rubio estava lhe falando:

- Entendeu, irmã? Todos devemos ficar muito quietos.

- Entendi.

- E entendi mais do que você imagina. Eles não sabiam que Deus lhe permitia ver em seus corações malignos."

Tomás Sanjuro disse, gentilmente:

- Sei como deve ser difícil para as duas, mas não se preocupem. Daremos um jeito para que cheguem sãs e salvas ao convento.

Para Éze, é o que ele está querendo dizer. Ah, mas como ele é astuto. Fala as palavras de mel do diabo. Mas Deus está em mim, e Ele me guia." Ela sabia o que devia fazer. Mas precisava ser muito cautelosa. Os dois homens arrumaram os sacos de dormir das freiras, um ao lado do outro.

- Vocês duas devem dormir um pouco.

As mulheres enfiaram-se nos sacos de dormir, nada familiares. A noite estava excepcionalmente clara, e o céu salpicado de estrelas cintilantes. Lucia contemplou-as e pensou, feliz: "Dentro de mais algumas horas estarei a caminho da liberdade. Assim que os outros adormecerem." Ela bocejou. Não percebera como estava cansada.

A viagem longa e árdua e a tensão emocional deixaram-na exausta. Sentiu os olhos pesados. "Vou descansar só um pouco", pensou Lucia. Ela dormiu.

Irmã Teresa, deitada ao seu lado, permaneceu acordada, em sua luta contra os demônios que tentavam possuí-la, a fim de mandar sua alma para o inferno. Devo ser forte. O Senhor está me testando. Fui exilada a fim de poder encontrar o caminho de volta para Ele. E esses homens fazem de tudo para me deter. Não posso permitir."

 

Às quatro horas da madrugada, irmã Teresa sentou-se sem fazer barulho e olhou à sua volta. Tomás Sanjuro dormia a poucos passos dela. O homem alto e moreno chamado Rubio estava de vigia na beira da clareira, de costas para ela. Podia ver sua silhueta contra as árvores.

Em silêncio, irmã Teresa levantou-se. Hesitou, pensando na cruz. "Devo levá-la? Mas estarei voltando para cá muito em breve. Preciso encontrar um lugar em que fique segura até eu voltar." Olhou para o lugar em que irmã Lucia dormia. "Isso mesmo. Está segura com minha irmã em Deus", decidiu irmã Teresa.

Aproximou-se do outro saco de dormir, sem fazer barulho, e enfiou a cruz lá dentro.

Lucia não se mexeu. Irmã Teresa virou-se e afastou-se pelo bosque, fora da vista de Rubio Arzano. Começou a descer a encosta, com todo cuidado, na direção do acampamento dos soldados. A encosta era íngreme e escorregadia com o orvalho, mas Deus lhe deu asas, e ela desceudepressa, sem tropeçar ou cair, ao encontro da salvação. O vulto de um homem surgiu de repente na escuridão à sua frente. Uma voz indagou:

- Quem está aí?

- Irmã Teresa.

Ela aproximou-se da sentinela, que usava um uniforme militar e apontava um rifle para ela.

- De onde veio, velha?

Irmã Teresa fitou-o com olhos brilhantes.

- Deus me enviou.

O sentinela arregalou os olhos.

- É mesmo?

- É, sim. Ele me mandou para falar com ocoronel Acoca.

O soldado sacudiu a cabeça.

- É melhor dizer a Ele que você não é do tipo do coronel. Adiós, señora.

- Não compreende. Sou a irmã Teresa, do convento Cisterciense. Fui capturada por Jaime Miró e seus homens. - Observou uma expressão de espanto estampar-se no rosto do homem.

- Você... é do convento?

- Isso mesmo.

- O de Ávila?

- Exatamente. - Teresa estava impaciente. O que havia com o soldado? Será que não compreendia como era importante que fosse salva daqueles homens maus?

- O coronel não se encontra aqui no momento, irmã...

Era um golpe inesperado.

-...mas o coronel Sostelo está no comando. Posso levá-la a ele.

- E ele poderá me ajudar?

- Claro. Acompanhe-me, por favor.

A sentinela mal podia acreditar na sua sorte. O coronel Fal Sostelo despachara pelotões para vasculhar toda a região à procura das quatro freiras, sem o menor sucesso. Agora, uma das irmãs aparecia no acampamento e se entregava. O coronel ficaria muito satisfeito.

Chegaram à barraca em que o coronel Fal Sostelo e seu subcomandante examinavam um mapa. Os homens levantaram os olhos quando a sentinela e uma mulher entraram.

- Com licença, coronel. Esta é a irmã Teresa, do convento Cisterciense.

O coronel Sostelo ficou incrédulo. Nos últimos três dias, todas as suas energias haviam-se concentrado na descoberta de Jaime Miró e as freiras, e agora, ali na sua frente, estava uma delas. "Havia" mesmo um Deus.

- Sente-se, irmã.

Não há tempo para isso", pensou irmã Teresa. Precisava de fazê-lo compreender como a situação era urgente.

- Devemos nos apressar. Eles estão tentando me levar de volta para Éze.

O coronel ficou perplexo.

- Quem está tentando levá-la de volta para Éze?

- Os homens de Jaime Miró.

Ele se levantou.

- Irmã... por acaso sabe onde esses homens se encontram?

Irmã Teresa respondeu impaciente.

- Claro. - Ela virou-se e apontou. - Estão lá em cima, nas colinas, se escondendo de vocês.

 

Alan Tucker chegou a Ávila no dia seguinte à conversa com Ellen Scott. Fora um longo voo, e Tucker devia estar exausto, mas sentia-se estimulado. Ellen Scott não era uma mulher propensa a caprichos. Há alguma coisa estranha por trás de tudo isso, e se eu jogar minhas cartas direito, tenho a impressão de que poderá ser bastante proveitoso para mim, pensou Alan Tucker. Registrou-se no quarto Postes Hotel e perguntou ao recepcionista:

- Há algum jornal por aqui?

- Nesta mesma rua, "señor." No lado esquerdo, a dois quarteirões. Não pode errar.

- Obrigado.

- De nada.

Enquanto descia pela rua principal, observando a cidade ressuscitar depois da "siesta" da tarde, Tucker pensava na garota misteriosa que viera buscar. Só podia ser uma coisa importante. Mas importante por quê? Podia ouvir a voz de Ellen Scott.

Se ela estiver viva, traga-a para mim. Não deve falar sobre isso com ninguém.

Está certo, madame. O que devo dizer a ela?

"Diga apenas que uma amiga de seu pai deseja conhecê-la. Ela virá.

Tucker encontrou a redação do jornal. Entrou e aproximou-se de algumas pessoas que trabalhavam por trás de mesas.

- Perdone", eu gostaria de falar com o editor.

O homem apontou para uma sala.

- Ali", señor.

- Gracias. - Tucker caminhou até a porta aberta e olhou para dentro. Um homem de trinta e poucos anos estava sentado por trás de uma mesa, ocupado com seus textos. - Com licença - disse Tucker. - Posso lhe falar por um momento?

O homem fitou-o.

- Em que posso ajudá-lo?

- Estou à procura de uma señorita.

O editor sorriu.

- Não estamos todos, señor?

– Foi deixada numa casa de fazenda por aqui quando era bebê.

O sorriso se desvaneceu.

- Ah... Ela foi abandonada?

- Isso mesmo.

- E está tentando descobri-la?

- Estou.

- Há quantos anos isso aconteceu, señor?

- Há 28 anos.

O homem encolheu os ombros.

- Foi antes do meu tempo. "Talvez não seja tão fácil assim.

" - O senhor poderia sugerir alguém que seja capaz de me ajudar?

O editor recostou-se na cadeira, pensativo.

- Acho que sim. Sugiro que converse com o padre Berrendo.

 

Padre Berrendo estava sentado à sua escrivaninha, uma manta cobria-lhe as pernas finas, escutando o estranho.

Quando Alan Tucker terminou de explicar sua presença ali, padre Berrendo disse:

- Por que deseja saber sobre isso, señor? Aconteceu há muito tempo. Qual é o seu interesse nisso?

Tucker hesitou, escolhendo as palavras com todo cuidado.

- Não estou autorizado a revelar. Só posso lhe garantir que não tenciono fazer qualquer mal à mulher. Se pudesse informar-me onde fica a casa de fazenda em que foi deixada...

A casa da fazenda. Afloraram-lhe as lembranças do dia em que os Moras o procuraram, após levarem a criança ao hospital.

"Acho que ela está morrendo, padre. O que vamos fazer?

Padre Berrendo telefonara para seu amigo, Don Morago, o chefe de polícia.

- Acho que a criança foi abandonada por turistas em visita a Ávila. Poderia verificar nos hotéis e pousadas, descobrir se alguém chegou com um bebê e partiu só?

A polícia examinara as fichas de registros que todos os hotéis eram obrigados a preencher, mas nada encontraram.

- É como se a criança tivesse caído do céu - comentara Don Morago.

Não tinha a menor ideia de quanto estava próximo da solução do mistério.

 

Quando padre Berrendo levara a criança para o orfanato, Mercedes Angeles perguntara:

- Ela tem nome?

- Não sei. - Não havia uma manta ou qualquer coisa com o nome?

- Não.

Mercedes Angeles olhara para a criança nos braços do padre.

- Então teremos de lhe dar um nome, não é mesmo?

Ela acabara de ler um romance fascinante e gostara muito do nome da heroína.

- Megan... vamos chamá-la de Megan.

E 14 anos depois, padre Berrendo levara Megan para o convento Cisterciense.

 

Agora após tantos anos, aquele estrangeiro estava à procura de Megan. A vida sempre dá voltas completas, pensou padre Berrendo. De alguma forma misteriosa, deu um círculo completo para Megan." Não, não para Megan. Esse era o nome que lhe fora dado pelo orfanato.

- Sente-se, señor. Há muitas coisas para contar.

E ele contou.

Quando o padre terminou, Alan Tucker ficou em silêncio, a mente em disparada. Devia haver um motivo muito forte para o interesse de Ellen Scott por uma criança abandonada numa casa de fazenda na Espanha há 28 anos. Uma mulher agora chamada Megan, segundo o padre.

Diga a ela que uma amiga de seu pai deseja conhecê-la.

Se sua memória não falhava, Byron Scott, a esposa e a filha haviam morrido num desastre de avião, há muitos anos, em algum lugar da Espanha. Poderia haver ligação? Alan Tucker sentiu um crescente excitamento.

- Padre... eu gostaria de ir ao convento para falar com ela. É muito importante.

O padre sacudiu a cabeça.

- Infelizmente, chegou tarde demais. O convento foi atacado há dois dias por agentes do governo.

Alan Tucker ficou aturdido.

- Atacado? O que aconteceu às freiras?

- Foram presas e transferidas para Madri.

Alan Tucker levantou-se.

- Obrigado, padre. - Pegaria o primeiro avião para Madri.

Padre Berrendo acrescentou.

- Quatro freiras escaparam. A irmã Megan foi uma delas.

As coisas estavam se complicando.

- Onde ela está?

- Ninguém sabe. A polícia e o exército estão à sua procura e das outras irmãs.

- Ahn...

Em circunstâncias normais, Alan Tucker telefonaria para Ellen Scott e informaria que chegava a um beco sem saída. Mas todos os seus instintos de detetive lhe diziam que havia alguma coisa naquele caso que justificava a continuação da investigação. Ele fez uma ligação para Ellen Scott.

- Surgiu um problema, Srª Scott. - Alan Tucker relatou a conversa com o padre. Houve um silêncio prolongado.

- Ninguém sabe onde ela está?

- Ela e as outras freiras fugiram, mas não podem se esconder por muito tempo. A polícia e metade do exército espanhol estão à sua procura. Quando forem encontradas, estarei lá.

Outro silêncio.

- Isso é muito importante para mim, Tucker.

- Sei disso, Srª Scott.

 

Alan Tucker voltou ao jornal. Estava com sorte. O escritório ainda não fechara. Ele disse ao editor:

- Gostaria de dar uma olhada nos arquivos, se for possível.

- Está à procura de alguma coisa em particular?

- Estou, sim. Houve um acidente de avião aqui.

- Há quanto tempo, señor? Se estou certo...

há 28 anos. Foi em 1948.

Alan Tucker levou quinze minutos para encontrar a notícia que procurava. A manchete saltou-lhe diante dos olhos.

 

             ACIDENTE DE AVIÃO

             MATA EXECUTIVO E FAMÍLIA

 

Primeiro de Outubro de 1948. "Byron Scott, presidente da Scott Industries, sua esposa Susan e a filha de um ano, Patricia, morreram carbonizados num desastre de avião..."

Acertei na sorte grande!" Alan Tucker sentiu o pulso disparar. "Se isso é o que penso, então serei um homem rico... um homem muito rico.

 

Ela estava nua na cama e podia sentir o membro duro de Benito Patas se comprimindo contra sua virilha. O corpo dele era maravilhoso, e ela apertou mais, sentindo o calor aumentar em seu corpo, excitá-lo. Mas alguma coisa estava errada. Eu matei Patas, pensou. Ele está morto.

Lucia abriu os olhos e sentou-se, tremendo, olhando ansiosa ao redor. Benito não se encontrava ali. Ela estava na floresta, num saco de dormir. Alguma coisa se comprimia contra sua coxa. Estendeu a mão por dentro do saco de dormir e tirou a cruz envolta pela lona. Fitou-a, incrédula. Deus acaba de efetuar um milagre para mim, pensou.

Não tinha a menor ideia de como a cruz fora parar ali, e também não se importava. Finalmente conseguira-a. Tudo que precisava fazer agora era fugir dali.

Saiu do saco de dormir e olhou para onde irmã Teresa devia estar dormindo. Ela se fora. Lucia olhou à sua volta, pela escuridão, mal pôde divisar o vulto de Tomás Sanjuro na beira da clareira. Não sabia onde Rubio estava. E não tem importância. É hora de sair daqui,

pensou Lucia.

Lucia encaminhou-se para a beira da clareira oposta àquela em que se encontrava Sanjuro, abaixando-se para não ser vista.

E foi nesse instante que o pandemônio se desencadeou.

 

O coronel Fal Sostelo tinha uma decisão de comando a tomar. Recebera ordens do primeiro-ministro em pessoa para trabalhar em estrita ligação com o coronel Ramon Acoca, ajudando-o a capturar Jaime Miró e as freiras. Mas o destino o abençoava, entregando uma freira em suas mãos. Podia pegar os terroristas e ficar com todas as glórias. Foda-se o coronel Acoca, pensou Fal Sostelo. Este caso é meu. Talvez a OPUS MUNDO" passe a me usar, em vez de Acoca, com todas as suas besteiras sobre partida de xadrez e se meter na mente dos outros. Está na hora de dar uma lição ao gigante da cicatriz.

O coronel Sostelo deu ordens expressas a seus homens.

- Não façam prisioneiros. Estão enfrentando terroristas. Atirem para matar.

O major Ponte hesitou.

- Coronel, há freiras com os homens de Miró. Não deveríamos...?

- Estaremos prestando um favor a elas, ajudando-as a se encontrarem com seu Deus.

Sostelo selecionou uma dúzia   de homens para acompanhá-lo na operação e determinou que fossem fortemente armados. Subiram pela encosta sem fazer barulho, no escuro.

Quase não havia visibilidade. "Ótimo. Eles não poderão perceber

nossa aproximação." Depois que seus homens assumiram as posições, o coronel Sostelo gritou, apenas como uma formalidade:

- Larguem as armas! Vocês estão cercados! - E no mesmo instante, ele acrescentou: - Fogo! Não parem de atirar!

Uma dúzia de armas automáticas começou a disparar uma saraivada de balas pela clareira.

Tomás Sanjuro não teve a menor chance. Uma rajada de metralhadora acertou-o no peito, e ele morreu antes mesmo de o corpo bater no chão. Rubio Arzano encontrava-se no

outro lado da clareira quando o tiroteio começou. Viu Sanjuro cair, virou-se e começou a levantar a arma para responder ao fogo, mas conteve-se. A escuridão na clareira era total, e os soldados disparavam a esmo. Se respondesse ao fogo, revelaria sua posição. Para seu espanto, divisou Lucia agachada a menos de um metro.

- Onde está irmã Teresa?

- Ela... ela sumiu.

- Fique abaixada.

Rubio pegou a mão de Lucia e ziguezagueou para a floresta, afastando-se do fogo inimigo. Os tiros zumbiam perigosameente próximos enquanto corriam, mas momentos depois Lucia e Rubio já se encontravam entre as árvores. Continuaram a correr.

- Segure minha mão, irmã. Podia ouvir os soldados atrás, mas aos poucos o barulho foi diminuindo. Era impossível perseguir alguém na escuridão total da floresta.

Rubio parou para deixar Lucia recuperar o fôlego.

- Nós os despistámos por enquanto - disse-lhe ele. - Mas precisamos continuar a fugir. Lucia respirava com dificuldade.

- Se quiser descansar um pouco, irmã...

- Não. - Ela estava exausta, mas não tinha a menor intenção de deixar que a apanhassem. Logo agora, que estava com a cruz. - Estou bem. Vamos sair daqui.

 

O coronel Fal Sostelo defrontava-se com o desastre. Um terrorista estava morto, mas só Deus sabia quantos haviam escapado. Não tinha Jaime Miró, e só pegara uma das freiras. Sabia que teria de comunicar ao coronel Acoca o acontecido, e não se sentia ansioso pelo encontro.

 

A segunda ligação de Alan Tucker para Ellen Scott foi ainda mais perturbadora do que a primeira.

- Descobri uma informação muito interessante, Srª Scott - disse, cauteloso.

   - O que é?

- Verifiquei os arquivos de um jornal daqui, a fim de obter mais informações sobre a garota.

- E o que encontrou? - Ellen preparou-se para o que sabia ser inevitável.

Alan Tucker manteve a voz casual.

- Parece que a garota foi abandonada por volta da ocasião do seu desastre

de avião.

Silêncio.

Ele continuou:

- O que matou seu cunhado, a esposa e a filha Patricia.

Chantagem. Não havia outra explicação. Portanto, ele descobrira tudo.

- É isso mesmo - disse Ellen Scott, calmamente. – Eu deveria ter falado tudo. Explicarei quando voltar. Tem mais alguma notícia da garota?

- Não, mas ela não pode se esconder por muito mais tempo. O país inteiro está a sua procura.

- Avise-me assim que for encontrada.

A ligação foi cortada. Alan Tucker continuou sentado, os olhos voltados para o telefone mudo em sua mão. Ela é uma mulher fria", pensou, com admiração. "Como será que vai aceitar a ideia de ter um sócio?

 

Cometi um erro ao mandá-lo, pensou Ellen Scott. Agora terei de detê-lo. E o que farei com a garota? Uma freira! Mas não vou julgá-la até conhecê-la.

A secretária avisou pelo interfone:

- Estão todos à sua espera na sala de reuniões, Srª Scott.

- Já estou indo.

 

Lucia e Rubio continuaram a avançar pelo bosque, aos escorregões e tropeções, lutando com galhos de árvores, moitas e insetos, mas cada passo os levava para mais longe dos perseguidores.

Rubio finalmente anunciou:

- Podemos parar por aqui. Não vão mais nos encontrar.

Estavam bem alto nas montanhas, no meio de uma densa floresta. Lucia deitou-se, fazendo o maior esforço para recuperar o fôlego. Em sua mente, reconstituiu as cenas terríveis que testemunhara. Tomás fuzilado sem qualquer aviso. "E os filhos da puta tencionavam assassinar a todos nós", pensou Lucia. Só continuava viva graças ao homem sentado ao seu lado.

Ela observou Rubio, enquanto ele se levantava e fazia um reconhecimento da área em redor.

- Podemos passar o resto da noite aqui, irmã.

- Está bem. - Ela estava impaciente em continuar, mas sabia que precisava descansar.

Como se lesse seus pensamentos, Rubio acrescentou:

- Partiremos ao amanhecer.

Lucia sentiu uma pontada no estômago.

- Deve estar faminta. Vou à procura de comida. Ficará bem aqui sozinha?

- Claro. Não se preocupe comigo.

Rubio agachou-se ao seu lado.

- Por favor, tente não ficar assustada. Sei como deve ser difícil para você se encontrar outra vez no mundo, após tantos anos no convento. Tudo deve lhe parecer muito estranho.

Lucia fitou-o e disse, sem qualquer inflexão na voz:

- Farei um esforço para me acostumar.

- É muito corajosa, irmã. - Ele levantou-se. - Voltarei logo.

Lucia observou-o desaparecer entre as árvores. Era hora de tomar uma decisão, e havia duas opções: podia escapar agora, tentar alcançar alguma cidadezinha próxima, trocar a cruz por um passaporte e dinheiro suficiente para chegar à Suíça; ou podia continuar com Rubio até se distanciarem ainda mais dos soldados. A segunda opção é mais segura, decidiu Lucia.

Ouviu um barulho entre as árvores e virou-se. Era Rubio. Ele aproximou-se, sorrindo. Trazia a boina na mão, estofada de tomates, uvas e maçãs. Sentou-se no chão, ao lado de Lucia.

- Café da manhã. Havia uma galinha gorda e bonita disponível, mas o fogo que precisaríamos para cozinhá-la poderia denunciar nossa presença. Há uma fazenda aqui perto.

Lucia olhou para o conteúdo da boina.

– Parece ótimo. Estou faminta.

Ele deu-lhe uma maçã.

- Prove esta.

Terminaram de comer, e Rubio estava falando, mas Lucia, absorta em seus pensamentos, não prestava atenção.

- Disse que está há dez anos no convento, irmã?

Lucia foi arrancada de seu devaneio.

- Como?

- Passou dez anos no convento?

- Passei.

Ele sacudiu a cabeça.

- Então não tem a menor ideia do que aconteceu durante todo esse tempo.

- Ahn... não.

- Muita coisa mudou nos últimos dez anos, irmã.

- É mesmo?

- Sí." Franco morreu - disse Rubio gravemente.

- Não!

- É verdade. No ano passado. "E indicou Juan Carlos seu herdeiro."

- Pode achar muito difícil acreditar, mas o homem andou na lua pela primeira vez. É a pura verdade.

- É mesmo?

Na verdade, dois homens, pensou Lucia. Como eram seus nomes? Neil Amstrong e Buzz alguma coisa.

- É, sim. Norte-americanos. É há agora um avião de passageiros que voa mais rápido do que o som.

- Incrível!

Mal posso esperar para viajar no Concorde, pensou Lucia.

Rubio era como criança, ansioso em pô-la a par dos últimos acontecimentos no mundo.

- Houve uma revolução em Portugal, e nos Estados Unidos da América o presidente Nixon esteve envolvido num grande escândalo e foi obrigado a renunciar.

Rubio é sem dúvida muito simpático, refletiu Lucia.

Ele tirou do bolso um maço de cigarros Ducados, o forte tabaco preto da Espanha.

- Não vou ofendê-la, irmã?

- Claro que não. Por favor, fume.

Observou-o a acender um cigarro, e no momento em que a fumaça alcançou suas narinas sentiu-se desesperada para fumar.

- Importa-se que eu experimente um?

Ele ficou espantado.

- Quer experimentar um cigarro?

- Só para ver como é - apressou-se Lucia em explicar.

- Ah... claro. - Rubio estendeu-lhe o maço.

Ela pegou um e pôs entre os lábios, ele acendeu-o. Lucia inalou fundo e sentiu-se maravilhosa quando a fumaça encheu-lhe os pulmões.

Rubio observava-a perplexo.

Lucia tossiu.

- Então é esse o gosto de um cigarro...

- Acha bom.

- Não muito, mas...

Deu outra tragada, profunda, satisfatória. Só Deus sabia o quanto sentia falta de um cigarro. Mas precisava ser cautelosa. Não queria deixá-lo desconfiado. Por isso apagou o cigarro que segurava desajeitadamente entre os dedos. Passara apenas poucos meses no convento, mas Rubio estava certo. Parecia estranho se encontrar outra vez no mundo. Especulou como Megan e Graciela estariam se sentindo. E o que acontecera à irmã Teresa? Teria sido capturada pelos soldados?

Os olhos de Lucia começaram a arder. Fora uma noite longa, de muita tensão.

- Acho que vou dormir um pouco.

- Não se preocupe. Ficarei de vigia, irmã.

- Obrigada - disse ela com um sorriso. Momentos depois ela já dormia.

Rubio Arzano contemplou-a e pensou: Jamais conheci uma mulher assim." Era tão espiritual que dedicara sua vida a Deus, mas ao mesmo tempo era prática e objetiva. E se comportara naquela noite tão bravamente quanto qualquer homem. "Você é uma mulher muito especial, pensou Rubio Arzano, enquanto a observava a dormir. Irmãzinha de Jesus.

 

O coronel Fal Sostelo estava em seu décimo cigarro. Não posso adiar por mais tempo, decidiu. Respirou fundo várias vezes para se acalmar e depois discou um número. E disse, assim que Ramón Acoca atendeu:

- Coronel, atacamos um acampamento terrorista ontem à noite. Fui informado de que Jaime Miró estava lá. Achei que deveria ser informado.

Houve um silêncio perigoso.

- Pegou-o?

- Não.

- Realizou essa operação sem me consultar?

- Não havia tempo para...

- Mas houve tempo para deixar Miró escapar. - A voz de Acoca estava inpregnada de fúria. - O que o levou a empreender essa operação executada com tanta competência?

O coronel Sostelo engoliu em seco.

- Pegamos uma das freiras do convento. Ela nos levou a Miró e seus homens. Matámos um deles no ataque.

- Mas todos os outros escaparam?

- Isso mesmo, coronel.

- Onde está a freira agora? Ou será que a deixou escapar também? - O tom era sarcástico.

- Claro que não, coronel. Ela está aqui, no acampamento. Começámos a interrogá-la e...

- Não faça isso. Pode deixar que a interrogarei pessoalmente. Estarei aí dentro de uma hora. Veja se consegue mantê-la até minha chegada. - Ele bateu o telefone.

 

Exatamente uma hora depois, o coronel Ramón Acoca chegou ao acampamento em que irmã Teresa se encontrava. Estava acompanhado por uma dúzia de homens do "GOE".

- Tragam-me a irmã - ordenou Acoca.

Irmã Teresa foi conduzida à barraca do comandante, onde o coronel Acoca a aguardava.

Ele levantou-se polidamente quando ela entrou e sorriu.

- Sou o coronel Acoca.

Finalmente!

- Sabia que você viria. Deus me disse.

Ele acenou com a cabeça, amavelmente.

- É mesmo? ótimo. Sente-se, por favor, irmã.

Irmã Teresa sentia-se nervosa demais para se sentar.

- Precisa me ajudar.

- Vamos ajudar um ao outro - assegurou o coronel. - Escapou do convento Cisterciense em Ávila, não é mesmo?

- É, sim. Foi terrível. Todos aqueles homens... Eles fizeram coisas horríveis e... - Sua voz hesitou.

E coisas estúpidas. Deixamos que você e as outras escapassem.

- Como chegou aqui, irmã?

- Deus me trouxe. Está me testando, como outrora testou...

- Junto com Deus, alguns homens também a trouxeram para cá, irmã?

- Isso mesmo. Eles me sequestraram. E eu tinha de fugir deles.

- Disse ao coronel Sostelo onde poderia encontrar esses homens?

- Disse, sim. Os homens maus. Raul está por trás de tudo isso. Ele me enviou uma carta e disse...

- Irmã, o homem que procuramos em particular é Jaime Miró. Por acaso o viu?

Ela estremeceu.

- Vi, sim. Ele...

O coronel inclinou-se para a frente.

- Isso é ótimo. Agora me diga onde posso encontrá-lo.

- Ele e os outros estão a caminho de Éze.

Acoca franziu o rosto, perplexo.

- Para Éze? Na França?

Suas palavras eram um murmúrio.

- Isso mesmo. Monique abandonou Raul e ele enviou os homens para me sequestrarem por causa do bebê, a fim de que eu...

O coronel tentou controlar sua crescente impaciência.

- Miró e seus homens estão seguindo para o norte. Éze fica para o leste.

-...Não deve deixar que me levem de volta para Raul. Não quero vê-lo nunca mais. Pode compreender. Não poderia encará-lo...

O coronel Acoca interveio bruscamente:

- Não estou interessado nesse tal de Raul. Quero saber onde posso encontrar Jaime Miró.

- Já lhe disse. Ele está em Éze, à minha espera. Quer...

- Está mentindo. Acho que tenta proteger Miró. Não quero machucá-la, por isso vou perguntar mais uma vez. Onde está Jaime Miró?

Irmã Teresa fitou-o, desamparada.

- Não sei - murmurou ela, olhando ao redor, desvairada. - Não sei.

- Disse um momento atrás que ele se encontrava em Éze.

A voz do coronel era como um chicote estalado.

- É verdade. Deus me contou.

O coronel Acoca já aguentara demais. A mulher era demente ou uma atriz brilhante. De qualquer forma, ela o enojava com toda aquela conversa de Deus. Ele virou-se para Patrício Arrieta, seu ajudante-de-ordens.

- A memória da irmã precisa de algum estímulo. Leve-a para a barraca do intendente. Talvez você e seus homens possam ajudá-la a se lembrar onde está Jaime Miró.

- Está bem, coronel.

Patrício Arrieta e os seus homens que o acompanhavam haviam participado do ataque ao convento em Ávila. Sentiam-se responsáveis por ter deixado as quatro freiras escaparem. "Pois compensaremos isso agora", pensou Arrieta. Ele virou-se para irmã Teresa.

- Venha comigo, irmã.

– Está certo. - Abençoado Jesus, obrigada." - Não vão deixar que eles me levem para Éze, não é mesmo?

- Não, não vai para Éze - Assegurou Arrieta.

O coronel tem razão, ele pensou. Ela está se divertindo conosco. Mas vamos lhe ensinar outras diversões. Será que ficará deitada quietinha ou gritará?

Ao chegarem à barraca da intendência, Arrieta disse:

- Irmã, vamos lhe dar a última oportunidade. Onde está Jaime Miró?

Já me perguntaram isso antes? Ou foi outra pessoa? Foi aqui ou... tudo está confuso demais.

- Ele me sequestrou a mando de Raul, porque Monique abandonou-o, e ele pensou...

- Bueno, se é assim que você prefere... - murmurou Arrieta. - Veremos se conseguimos lhe refrescar a memória.

- Eu gostaria muito, por favor. Tudo é muito confuso.

Meia dúzia de homens de Acoca entraram na barraca, junto com alguns soldados uniformizados. Irmã Teresa fitou-os, aturdida.

- Esses homens vão me levar para o convento agora?

- Farão melhor do que isso. - Patrício Arrieta sorriu. – Vão levá-la ao paraíso, irmã.

Os homens adiantaram-se, cercando-a.

- É muito bonito o vestido que está usando - disse um soldado.

- Tem certeza que é freira, querida?

- Sou, sim. - Raul a chamava de querida. Aquele era Raul? - Tivemos de trocar de roupa para escapar dos soldados.

Mas aqueles homens eram soldados. Estava tudo confuso demais. Um dos homens empurrou Teresa para o catre.

- Não é nenhuma beleza, mas vamos ver como parece por baixo de todas essas roupas.

- O que está fazendo?

Ele estendeu a mão e arrancou a parte superior do vestido, enquanto outro homem rasgava a saia.

- Até que não é um corpo dos piores para uma velha, não é mesmo, pessoal?

Teresa gritou. Olhou para os homens à sua volta. Deus vai fulminar todos eles. Não permitirá que me toquem, pois sou seu receptáculo. Estou com o Senhor, bebendo de Sua fonte de pureza.

Um dos soldados abriu o cinto. Um instante depois, irmã Teresa sentiu mãos rudes abrirem suas pernas. Enquanto o soldado se esparramava por cima dela, sentiu sua carne dura penetrá-la e tornou a gritar.

   - Agora, Deus! Castigue-os agora! - Esperou pela trovoada e um relâmpago brilhante que destruiria todos aqueles homens.

Outro soldado subiu em cima dela. Um nevoeiro vermelho assentou-lhe os olhos. Teresa ficou à espera que Deus os fulminasse, quase inconsciente dos homens que a estupravam. Não sentia mais dor.

Arrieta estava de pé ao lado do catre. Depois que cada homem terminava com Teresa, ele perguntava:

- Já é o suficiente, irmã? Pode acabar com isso a qualquer momento. Tudo que precisa fazer é contar onde está Jaime Miró.

Irmã Teresa não ouvia. Gritava em sua mente: Fulmine-os com Seu Poder, Senhor. Extermine-os como exterminou os outros iníquos em Sodoma e Gomorra."

Por mais incrível que pudesse parecer, Ele não respondeu. Não é possível, pois Deus se encontrava em toda a parte. E quando o sexto homem penetrou em seu corpo, a epifania ocorreu-lhe subitamente. Deus não estava escutando porque não havia Deus. Ela enganara-se a si mesma durante todos aqueles anos, idolatrando um poder supremo e servindo-o fielmente. Mas não havia nenhum poder supremo. Se Deus existisse, Ele teria me salvado.

O nevoeiro vermelho dissipou-se da frente dos olhos de irmã Teresa, e ela teve uma visão nítida do que acontecia pela primeira vez. Havia pelo menos uma dúzia de soldados na barraca esperando a vez de estuprá-la. Os soldados na fila estavam de uniforme, não se dando ao trabalho de tirá-lo. Enquanto um soldado saía de cima dela, o seguinte agachou-se por cima dela e penetrou-a logo depois.

Não há Deus, mas existe um Satã, e estes são seus ajudantes, pensou irmã Teresa. E eles devem morrer. Todos eles.

Enquanto o soldado afundava nela, irmã Teresa tirou-lhe a pistola do coldre. Antes que alguém pudesse reagir, ela apontou para Arrieta. A bala acertou-lhe na garganta. Apontou então a arma para os outros soldados e continuou a disparar. Quatro deles caíram

ao chão antes que os outros recuperassem o controle e começassem a atirar nela. Por causa do soldado em cima dela tiveram dificuldade para mirar.

Irmã Teresa e seu último estuprador morreram ao mesmo tempo.

 

Jaime Miró acordou instantaneamente, despertado por um movimento na beira da clareira. Saiu do saco de dormir e levantou-se, com a arma na mão. Quando se aproximou, viu Megan ajoelhada, rezando. Ficou imóvel, estudando-a. Havia uma extraordinária beleza na imagem daquela linda mulher concentrada em suas orações na floresta, no meio danoite. Jaime descobriu-se ressentido. Se Felix Carpio não dissesse que estávamos a caminho de San Sebastián, eu não estaria com o fardo da irmã, para começar.

Era indispensável que ele chegasse a San Sebastián o mais depressa possível. O coronel Acoca e seus homens fechavam o cerco. Mesmo sozinho, já seria muito difícil escapar da rede. Com o fardo adicional daquela mulher para retardá-lo, o perigo era dez vezes maior.

Aproximou-se de Megan, irritado, a voz soou mais ríspida do que tencionava.

- Já lhe disse para dormir um pouco. Não quero que nos retarde amanhã.

Megan fitou-o e disse calmamente:

- Desculpe se o deixei zangado.

- Irmã, guardo minha raiva para coisas mais importantes. Seu tipo me cansa. Passam suas vidas escondidas por trás de muros de pedra, à espera de uma viagem gratuita para o outro mundo. Deixam meu estômago embrulhado, todas vocês.

- Porque acreditamos no outro mundo?

- Não, irmã. Porque não acreditam neste. E fogem dele.

- Para rezar por homens como você. Dedicamos nossas vidas a preces por vocês.

- E acha que isso resolverá os problemas do mundo?

- Com o tempo, sim.

- Não há tempo. Seu Deus não pode ouvir as orações por causa do barulho dos canhões e os gritos das crianças sendo dilaceradas pelas bombas.

- Quando se tem fé...

- Ora, irmã, tenho muita fé. Tenho fé naquilo por que estou lutando. Tenho fé em meus homens e nas minhas armas. Só não tenho fé nas pessoas que andam sobre a água. Se acha que seu Deus está nos escutando agora, diga a ele para nos levar ao convento em Mendavia, afim de que eu possa livrar-me de você.

Estava furioso consigo mesmo por perder a calma. Não era culpa dela que a Igreja se tivesse posto de lado, sem fazer nada, enquanto os falangistas de Franco torturavam, estupravam e assassinavam bascos e catalães. Não foi culpa dela que minha família estivesse entre as vítimas.

Ele era criança na ocasião, mas aquela lembrança ficaria gravada em sua memória para sempre...

 

Foi despertado no meio da noite pelo barulho das bombas caindo. Desciam do céu como mortíferas flores de som, plantando suas sementes de destruição por toda a parte.

- Levanta, Jaime! Depressa!

O medo na voz do pai era mais assustador para o menino do que o estrondo terrível do bombardeio aéreo.

Guernica era um baluarte dos bascos, e o general Franco decidira convertê-la numa lição: "Destruam-na."

A temida Legião Condor nazista e alguns aviões italianos desfecharam um ataque concentrado sem misericórdia. Os moradores da pequena cidade tentaram fugir da chuva de morte que caía do céu, mas não havia escapatória.

Jaime, a mãe, o pai e duas irmãs nazistas velhas fugiram junto com os outros.

- Para a igreja! - gritou o pai de Jaime. - Eles não vão bombardear a igreja.

Ele estava certo. Todos sabiam que a Igreja se postara do lado do caudilho, ignorando o tratamento brutal dispensado a seus inimigos.

A família Miró encaminhou-se para a igreja, fazendo força para abrir caminho pela multidão em pânico que tentava fugir.

O menino segurava com toda força a mão do pai e procurava não ouvir o barulho terrível à sua volta. Lembrou um tempo em que o pai não estava assustado, nem fugindo.

- Vamos ter uma guerra? - perguntou ele ao pai uma vez.

- Não, Jaime. É apenas boato de jornal. Tudo o que pedimos é que o governo nos dê um mínimo de independência. Os bascos e catalães têm direito à sua própria língua, bandeira e feriados. Ainda somos uma nação. E espanhóis nunca lutarão contra espanhóis.

Jaime era muito pequeno na ocasião para compreender, mas claro que havia mais em jogo do que a questão dos catalães e bascos. Era um profundo conflito ideológico entre o governo republicano e os nacionalistas da direita, e o que começara como uma faísca de dissidência logo se transformou numa conflagração incontrolável, que atraiu outras potências estrangeiras.

Quando as forças superiores de Franco derrotaram os republicanos e os nacionalistas já mantinham um firme controle da Espanha, o ditador concentrara sua atenção nos intransigentes bascos: "Punam-nos."

E o sangue continuara a jorrar.

Um grupo de líderes bascos criara a "ETA", um movimento por um Estado Basco Livre, e o pai de Jaime fora convidado a aderir.

- Não. Está errado. Devemos obter o que é nosso por direito através de meios pacíficos. A guerra nada realiza.

Mas os gaviões demonstraram ser mais fortes do que as pombas, e a "ETA" logo se tornara uma força poderosa.

Jaime tinha amigos cujos pais eram membros da "ETA" e escutava as histórias de seus feitos heróicos.

- Meu pai e um grupo de amigos atacaram à bomba o quartel-general da Guardia Civil - lhe diria um amigo.

Ou:

- Já soube do assalto ao banco em Barcelona? Foi meu pai. Agora eles podem comprar armas para combater os fascistas.

E o pai de Jaime insistia:

- A violência é um erro... Devemos negociar.

- Explodimos uma das fábricas deles em Madri. Por que seu pai não está do nosso lado? Ele é um covarde?

O pai dizia a Jaime:

- Não dê atenção aos seus amigos, Jaime. A atitude deles é criminosa.

- Franco ordenou que uma dúzia de bascos fossem executados sem um julgamento sequer. Vamos promover uma retaliação em escala nacional. Seu pai vai se juntar a nós?

- Papai...?

- Somos todos espanhóis, Jaime. Não devemos permitir que ninguém nos divida.

E o menino estava dividido. Meus amigos estão certos? Papai é um covarde? Jaime acreditava no pai.

E agora..., Armagedom. O mundo desmoronava ao seu redor. As ruas de Guernica estavam apinhadas por uma multidão que gritava e tentava escapar das bombas vindas do céu. Prédios, estátuas e calçadas explodiam em chuvas de concreto e sangue.

Jaime, a mãe, o pai e as irmãs chegaram à enorme igreja, o único prédio da praça que ainda se encontrava de pé. Outras pessoas batiam à porta.

- Deixem-nos entrar! Em nome de Jesus, abram a porta!

- O que está acontecendo? - gritou o pai de Jaime.

- Os padres trancaram a igreja. Não querem nos deixar entrar.

- Vamos arrombar a porta!

- Não!

Jaime olhou para o pai, surpreso.

- Não arrombamos a casa de Deus - declarou o pai. - Ele nos protegerá onde quer que estejamos.

Tarde demais, eles viram o esquadrão de falangistas aparecer vindo da esquina e abrir fogo de metralhadora, varrendo a multidão desarmada de homens, mulheres e crianças na praça. Mesmo enquanto sentia as balas se cravando em seu corpo, o pai de Jaime segurou o filho e puxou-o para baixo, para a segurança, seu próprio corpo protegendo Jaime da saraivada mortífera.

Um silêncio fantástico parecia envolver o mundo depois do ataque. O som de armas, de pessoas às carreiras e gritos desapareceu, como um passe de mágica. Jaime abriu os olhos e ficou imóvel por um longo tempo, sentindo o peso do corpo do pai por cima, como um cobertor de amor. O pai, a mãe e as irmãs estavam mortos, junto com centenas de outros. E na frente dos cadáveres estavam as portas trancadas da igreja.

 

Tarde da noite Jaime deixou a cidade, e dois dias depois, ao chegar a Bilbao, ingressou na "ETA".

O oficial de recrutamento fitou-o e disse:

- Você é jovem demais para se juntar a nós, filho. Devia estar na escola.

- Vocês serão minha escola - respondeu Jaime Miró, calmamente. - Vão me ensinar a lutar, afim de que eu possa vingar o assassinato da minha família.

Ele nunca olhou para trás. Lutava por si mesmo e pela família, seus feitos se tornaram lendários. Jaime planejava e executava ataques audaciosos a fábricas e bancos, comandava as execuções de opressores. Quando algum dos seus homens era capturado, ele conduzia missões temerárias para salvá-lo.

Ao ser informado da criação do "GOE" para perseguir os bascos, Jaime sorriu e comentou:

- Ótimo. Eles nos notaram.

Nunca se perguntou se os riscos que assumia se relacionavam de alguma forma com os gritos de "Seu pai é um covarde" ou se tentava provar alguma coisa a si mesmo e aos outros. Era suficiente que provasse sempre sua coragem e que não tivesse medo de arriscar a vida pelo que acreditava.

 

Agora, porque um dos seus homens falara demais, Jaime se descobria sobrecarregado com uma freira.

"É irônico que sua Igreja esteja agora do nosso lado. Mas é tarde demais, a menos que eles possam promover um Segundo Advento e incluam minha mãe, pai e irmãs", pensou, amargurado.

Eles andaram pela floresta à noite, o luar branco salpicava a paisagem ao redor. Evitavam as cidades principais, alertas a qualquer sinal de perigo. Jaime ignorava Megan. Ia junto de Felix, conversando sobre as aventuras passadas. Megan descobriu-se intrigada. Jamais conhecera alguém como Jaime. Era um homem seguro e confiante. Se alguém pode me levar a Mendavia, é esse homem.

 

Havia momentos em que Jaime sentia pena da irmã, até mesmo uma admiração relutante pela maneira como ela se comportava na árdua jornada. Especulava como seus outros homens estariam se saindo com as pupilas de Deus.

Pelo menos ele tinha Amparo. À noite, encontrava nela um grande conforto.

Ela é tão dedicada quanto eu, pensou Jaime. E tem ainda mais motivos do que eu para odiar o governo.

Toda a família de Amparo fora exterminada pelo Exército Nacionalista. Ela era profundamente independente e dominada por uma paixão intensa.

 

Ao amanhecer, estavam se aproximando de Salamanca, à margem do rio Tormes.

- Estudantes de toda a Espanha vêm cursar a universidade aqui - Felix explicou para Megan. - Provavelmente é a melhor do país.

Jaime não prestava atenção. Concentrava-se em seu próprio movimento. Se eu fosse o caçador, onde poria minha armadilha? Ele virou-se para Felix.

- Não vamos para Salamanca. Há um parador fora da cidade. Ficaremos lá até o anoitecer.

 

A estalagem, "o parador", era pequena, afastada do fluxo principal de turistas. Alguns degraus levavam ao saguão, guardado por uma antiga armadura de cavaleiro.

Ao se aproximarem da entrada, Jaime disse às duas mulheres:

- Esperem aqui. - Ele acenou com a cabeça para Felix Carpio e os dois desapareceram.

- Para onde eles vão? Amparo lançou-lhe um olhar desdenhoso.

- Talvez estejam à procura do seu Deus.

- Espero que O encontrem - respondeu Megan, suavemente.

Os homens voltaram dez minutos depois.

- Tudo calmo - informou Jaime a Amparo. - Você e a irmã partilharão um quarto. Felix ficará comigo. - Ele entregou-lhe uma chave.

Amparo protestou.

- Querido, quero ficar com você, não...

- Faça o que estou dizendo. E fique de olho nela.

Amparo olhou para Megan.

- Bueno. Vamos embora, irmã.

Megan entrou no parador e subiu os degraus atrás de Amparo.

O quarto era um dos doze localizados no segundo andar, ao longo de um corredor cinzento. Amparo abriu a porta, e as duas entraram. Era pequeno e desolado, escassamente mobiliado, o chão de tábuas, paredes de estuque, uma cama, um pequeno catre, uma cômoda escalavrada e duas cadeiras.

Megan olhou ao redor e exclamou:

- É lindo!

Amparo virou-se com raiva, pensando que Megan estava sendo sarcástica.

- Quem é você para se queixar...?

- É tão grande... - acrescentou Megan.

Amparo fitou-a em silêncio por um momento, depois riu. Claro que devia parecer enorme, em comparação com as celas em que as irmãs viviam.

Amparo começou a se despir.

Megan não pôde deixar de contemplá-la. Era a primeira vez em que realmente olhava para Amparo Jiró, à luz do dia. A mulher era muito bonita, de uma maneira simples. Tinha cabelos ruivos, pele branca, seios fartos, cintura fina e quadris que ondeavam a cada movimento.

Amparo percebeu que ela a observava.

- Irmã... poderia me dizer uma coisa? Por que alguém ingressaria para um convento?

Era uma pergunta fácil de responder.

- O que pode ser mais maravilhoso do que se devotar à glória de Deus?

- De imediato, posso pensar em mil coisas. - Amparo foi até a cama e sentou-se. - Pode dormir no catre. Pelo que me contaram, seu Deus não quer que fiquem muito confortáveis.

Megan sorriu.

- Não tem importância. Eu me sinto confortável por dentro.

Em seu quarto, no outro lado do corredor, Jaime Miró acomodou-se na cama. Felix Carpio tentava ajeitar-se no pequeno catre. Os dois permaneciam vestidos. A arma de Jaime encontrava-se debaixo do travesseiro, a de Felix na mesinha escalavrada ao seu lado.

- O que será que as levam a fazerem isso? - especulou Felix, em voz alta.

- Fazem o quê, amigo?

- Ficam trancafiadas num convento a vida inteira, como prisioneiras.

Jaime Miró encolheu os ombros.

- Pergunte à irmã. Eu gostaria muito que estivéssemos viajando sozinhos. Estou com um terrível pressentimento.

- Jaime, Deus nos agradecerá por esta boa ação.

- Acredita mesmo nisso? Não me faça rir.

Felix Carpio não insistiu no assunto. Não era conveniente discutir sobre a Igreja Católica com Jaime. Os dois ficaram em silêncio, cada um absorto em seus pensamentos. Felix Carpio estava pensando: Deus pôs as irmãs em nossas mãos. Precisamos levá-las a salvo a um convento. Jaime pensava em Amparo. Queria-a desesperadamente naquele momento. Aquela maldita freira. Começou a puxar as cobertas quando se lembrou que ainda havia uma coisa a ser feita.

 

No saguão pequeno e escuro lá embaixo, o recepcionista estava sentado em silêncio, à espera até ter certeza que os novos hóspedes dormiam. Seu coração batia forte quando pegou o telefone e discou.

Uma voz indolente atendeu.

- Delegacia de polícia.

O recepcionista sussurrou ao telefone para o sobrinho:

- Florian, Jaime Miró e mais três terroristas estão aqui. Não gostaria de ter a honra de prendê-los?

 

Cento e cinquenta quilômetros para o leste, numa área de bosque no caminho para Peñafiel, Lucia Carmine dormia.

Rubio Arzano estava sentado, observando-a, relutante em acordá-la. Ela dorme como um anjo, pensou.

Mas era quase manhã, hora de seguir viajem. Rubio inclinou-se e sussurrou gentilmente em seu ouvido:

- Irmã Lucia...

Ela abriu os olhos.

- Está na hora de partirmos.

Lucia bocejou e espreguiçou-se. A blusa desabotoara e parte de um seio apareceu. Rubio logo desviou os olhos. Devo me precaver contra meus pensamentos. Ela é a esposa de Jesus.

- Irmã...

- O que é?

- Eu... eu gostaria de lhe pedir um favor. - Ele estava quase corando.

- Pode pedir.

- Eu... já faz muito tempo que rezei pela última vez, mas fui criado como católico. Importa-se de dizer uma oração?

Era a última coisa que Lucia esperava.

Há quanto tempo eu não faço uma oração?, indagou-se Lucia. O convento não contava. Enquanto as outras rezavam, sua mente estava ocupada com os planos de fuga.

- Eu..., eu não...

- Tenho certeza que isso faria com que nos sentíssemos melhor. Como ela podia explicar que não se lembrava de nenhuma oração?

- Eu... ahn...

"Ei!" Havia uma de que se lembrava agora. Era pequena, ajoelhada junto a cama, o pai de pé ao seu lado, pronto para ajeitá-la na cama. Lentamente, as palavras do Salmo 23 começaram a aflorar-lhe.

- O Senhor é meu pastor. Nada me faltará. Ele me faz repousar em pastos verdejantes: leva-me para junto das águas de descanso. Refrigera-me a alma: guia-me pelas veredas da justiça, por amor do Seu nome...

As lembranças jorravam.

Lucia e o pai possuíam um mundo. E ele sentia o maior orgulho da filha. "Você nasceu sob uma estrela da sorte, faccia d'angelo."

E, ouvindo isso, Lucia sentira-se afortunada e bela. Não era a linda filha do grande Angelo Carmine?

-... Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei o mal...

O mal era representado pelos inimigos de seu pai e irmãos. E ela os fizera pagar.

- Porque estás comigo; Tua vara e cajado me sustentam...

"Onde estava Deus quando precisei de conforto e apoio?"

- Preparas-me uma mesa com óleo, minha taça transborda...

Ela falava mais devagar agora, a voz um mero sussurro. O que acontecera, especulou, com a menininha no vestido branco da primeira comunhão? O futuro parecia maravilhoso. De alguma forma, tudo saíra errado. Tudo. Perdi meu pai e meus irmãos, e a mim mesma."

No convento, ela não pensava em Deus. Mas agora, aqui fora, com aqueles camponeses tão simples...

Importa-se de dizer uma oração por nós?

Lucia continuou.

- Bondade e misericórdia me acompanharão com certeza por todos os dias da minha vida, e habitarei para sempre na casa do Senhor.

Rubio observava-a, comovido.

- Obrigado, irmã.

Lucia acenou com a cabeça, incapaz de falar. "O que está acontecendo comigo?", perguntou-se.

- Está pronta, irmã?

Ela olhou para Rubio Arzano.

- Estou, sim.

Cinco minutos depois os dois estavam a caminho.

 

Foram apanhados por um súbito temporal e abrigaram-se numa cabana abandonada. A chuva caía com violência contra o telhado e os lados da cabana.

- Acha que a tempestade vai passar algum dia?

Rubio sorriu.

- Não é uma tempestade de verdade, irmã. É o que nós, os bascos, chamamos de sirimiri. Vai passar tão depressa quanto começou. A terra está muito seca. Precisa desta chuva.

- É mesmo? - Conheço essas coisas. Sou um lavrador.

Dá para perceber, pensou Lucia.

- Perdoe-me por dizer isso, irmã, mas nós dois temos muita coisa em comum.

Lucia contemplou o empavonado camponês e pensou: Esse dia nunca vai chegar.

- Acha mesmo?

- Acho. Acredito sinceramente que, em muitas coisas, viver numa fazenda é como estar num convento.

Ela não percebeu a ligação.

- Não entendi.

- Ora, irmã, num convento se pensa muito sobre Deus e Seus milagres. Não é verdade?

- Isso mesmo.

- De certa forma, uma fazenda é Deus. Vive-se cercado pela criação. Todas as coisas que crescem da terra de Deus, quer seja trigo, azeitonas ou uvas... tudo vem de Deus, não é mesmo? São milagres e acontecem todos os dias... e como você ajuda as coisas a crescer, é parte do milagre.

Lucia não pôde deixar de sorrir pelo entusiasmo em sua voz.

A chuva parou de repente.

- Podemos continuar agora, irmã.

 

- Chegaremos ao rio Duero daqui a pouco - disse Rubio. – As cataratas Peñafiel ficam logo à frente. Continuaremos por Aranda de Duero e depois seguiremos para Logroño, onde nos encontraremos com os outros.

Você estará indo para esses lugares, pensou Lucia. E boa sorte. Eu estarei na Suíça, meu amigo.

 

Ouviram o barulho das cataratas meia hora antes de alcançarem-nas. As cataratas Peñafiel eram um espetáculo deslumbrante, as águas caindo abruptamente no rio veloz. Seu estrondo era quase ensurdecedor.

- Quero tomar um banho - disse Lucia.

Parecia que já se passara anos desde a última vez em que tomara um banho. Rubio ficou surpreso.

- Aqui?

Não, seu idiota, em Roma.

- Isso mesmo.

- Tome cuidado. O rio está cheio por causa da chuva.

- Não se preocupe. - Ficou parada, esperando pacientemente.

- Ah... vou me afastar enquanto se despe.

- Não vá muito longe - pediu Lucia.

Provavelmente havia animais selvagens no bosque.

Enquanto Lucia começava a tirar as roupas, Rubio afastou-se alguns passos, apressado, e ficou de costas.

- Não vá muito longe, irmã. O rio é traiçoeiro.

Lucia deixou a cruz embrulhada num lugar em que poderia vigiá-la. O ar frio da manhã era maravilhoso em seu corpo nu. Despiu-se completamente e entrou na água. Estava fria e revigorante. Virou-se e constatou que Rubio continuava com os olhos voltados para o outro lado, de costas para ela. Sorriu para si mesma. Todos os homens que conhecera estariam regalando os olhos.

Ela avançou mais um pouco, evitando as pedras à sua volta. Jogou água na cabeça, sentindo o rio impetuoso empurrando-lhe as pernas com força.

Perto dali uma pequena árvore estava sendo arrastada pela correnteza. Ao se virar para observá-la, Lucia perdeu subitamente o equilíbrio e escorregou, gritando. Bateu com a cabeça numa pedra ao cair.

Rubio virou-se e observou horrorizado, enquanto Lucia desaparecia nas águas tumultuosas.

 

Quando o sargento Florian Santiago desligou o telefone na delegacia de polícia de Salamanca, suas mãos tremiam.

Estou com Jaime Miró e três terroristas aqui. Não gostaria de ter a honra de prendê-los?

O governo prometera uma grande recompensa pela cabeça de Jaime Miró, e agora o bandido basco se encontrava em suas mãos. O dinheiro da recompensa mudaria sua vida por completo. Poderia mandar os filhos para uma escola melhor, comprar uma máquina de lavar roupa para a esposa e jóias para a amante. Claro que teria de partilhar uma parte da recompensa com o tio. Darei vinte por cento a ele, pensou Santiago. "Ou talvez dez por cento.

Ele estava bem a par da reputação de Jaime Miró e não tinha a menor intenção de arriscar a vida na tentativa de capturar o terrorista. Que os outros enfrentem o perigo e me entreguem a recompensa.

Continuou sentado à mesa, à procura da melhor maneira de cuidar da situação. O nome do coronel Acoca aflorou-lhe no mesmo instante na mente. Todo mundo sabia que havia uma vendeta de sangue entre o coronel e o terrorista. Além do mais, o coronel tinha todo o "GOE" sob seu comando. Isso mesmo, era a melhor maneira de agir.

Santiago pegou o telefone, e dez minutos depois falava pessoalmente com o coronel.

- Aqui é o sargento Florian Santiago, da delegacia de polícia em Salamanca. Descobri o paradeiro de Jaime Miró.

O coronel Ramón Acoca fez um esforço para manter a voz calma.

– Tem certeza?

- Tenho sim, coronel. Ele está no Parador Nacional Raimundo de Borgón, nos arredores da cidade. Passará a noite ali. Meu tio é o recepcionista. Acaba de me telefonar. Há outro homem e duas mulheres com Miró.

- Seu tio tem certeza absoluta de que é mesmo Miró?

- Absoluta, coronel. Ele e os outros estão dormindo nos dois quartos dos fundos, no segundo andar da estalagem.

- Preste muita atenção no que vou dizer, sargento. Quero que vá imediatamente para a estalagem e fique de vigia do lado de fora, a fim de impedir a saída de qualquer um. Deverei chegar aí em três horas. Não deixe que ninguém o veja. Entendido?

- Entendido, senhor. Partirei agora mesmo. - Santiago hesitou. - Coronel, sobre a recompensa...

- Quando pegarmos Miró, será toda sua.

- Obrigado, coronel. Estou muito...

- Vá logo.

- Está bem, senhor.

Florian Santiago desligou. Sentia-se tentado a ligar para a amante e lhe dar a notícia sensacional, mas isso podia esperar. Deixaria a surpresa para depois. Antes disso, tinha uma missão a cumprir. Chamou um dos guardas de plantão:

- Assuma o comando aqui. Tenho uma missão a fazer. Voltarei dentro de algumas horas.

E voltarei como um homem rico, pensou. A primeira coisa que farei será comprar um carro novo - um Seat. Azul. Não, talvez branco seja melhor.

 

O coronel Ramón Acoca desligou e ficou imóvel, deixando o cérebro trabalhar. Desta vez não queria erro algum. Era o movimento final na partida de xadrez entre os dois, embora soubesse que Miró teria sentinelas alertas para o perigo.

Acoca chamou o seu ajudante-de-ordens.

- Pois não, coronel?

- Escolha duas dúzias dos seus melhores homens. Providencie para que estejam armados com armas automáticas. Partiremos para Salamanca dentro de 15 minutos.

- Claro, senhor.

Não haveria escapatória para Miró. O coronel planejara o ataque em sua mente. A estalagem seria completamente cercada, os homens avançariam depressa, sem qualquer barulho. Um ataque de surpresa antes que o carniceiro possa assassinar mais algum dos meus homens. Mataremos todos enquanto dormem.

 

O sargento Santiago não perdeu tempo em chegar à estalagem. Mesmo sem a advertência do coronel, não tinha a menor intenção de atacar os terroristas. Mas agora, e mobediência às ordens de Acoca, permaneceu nas sombras, a vinte metros da estalagem, num ponto que tinha boa vista a porta da frente. Fazia frio, mas o pensamento da recompensa mantinha Santiago aquecido. Especulou se as duas mulheres lá dentro eram bonitas e se estariam na cama junto com os homens. De uma coisa Santiago tinha certeza: dentro de poucas horas todos estariam mortos.

 

O caminhão do exército atravessou a cidade sem alarme e seguiu para a estalagem. O coronel Acoca acendeu uma lanterna e estudou o mapa.

- Pare aqui - disse ele, a um quilômetro e meio da estalagem. - Seguiremos a pé o restante do caminho. Mantenham-se em silêncio.

Santiago não percebeu a aproximação até que a voz em seu ouvido sobressaltou-o com uma pergunta:

- Quem é você?

Ele virou-se e descobriu-se diante do coronel Ramón Acoca. Por Deus, pensou Santiago, ele tem uma aparência assustadora!

- Sou o sargento Santiago, senhor.

- Alguém saiu da estalagem?

- Não, senhor. Estão todos lá dentro, provavelmente em sono profundo a esta altura.

O coronel virou-se para seu ajudante-de-ordens.

- Quero que a metade dos homens cerquem a estalagem. Se alguém tentar escapar, eles devem atirar para matar. Os outros irão comigo. Os fugitivos estão em dois quartos nos fundos, no segundo andar. Vamos embora.

Santiago observou o coronel e seus homens entrarem pela porta da frente da estalagem, em silêncio. Especulou se haveria tiroteio. E se houvesse, pensou no perigo de que o tio pudesse morrer no fogo cruzado. Seria uma pena. Mas, por outro lado, não haveria mais ninguém com quem partilhar o dinheiro da recompensa.

Quando o coronel Acoca e seus homens chegaram ao alto da escada, ele sussurrou:

- Não corram riscos. Abram fogo assim que os virem.

- Gostaria que eu fosse na sua frente, coronel? - perguntou o ajudante-de-ordens

- Não. - Acoca queria ter o prazer de matar Jaime Miró pessoalmente.

Ao final do corredor estavam os dois quartos em que Miró e seus terroristas dormiam.

Acoca fez sinal em silêncio para que alguns homens cobrissem uma porta e seis ficaram na outra.

- Agora! - gritou.

Era o momento pelo qual tanto ansiava. Ao seu sinal, os homens chutavam as portas ao mesmo tempo e entraram correndo nos quartos, as armas levantadas. Pararam no meio dos

quartos, as armas levantadas. Pararam no meio dos quartos vazios, olhando para as camas desarrumadas.

- Espalhem-se! - berrou Acoca. - Depressa! Lá embaixo!

Os soldados revistaram todos os quartos, arrombando portas, acordando hóspedes aturdidos. Jaime Miró e os outros não estavam em parte alguma.

O coronel desceu furioso para uma confrontação com o recepcionista. Não havia ninguém no saguão.

- Alô! - ele gritou - Alô! Não houve resposta. O covarde estava se escondendo.

Um dos soldados olhava para o chão, por trás da recepção.

- Coronel...,

Acoca foi para o seu lado e olhou para o chão. O corpo amarrado e amordaçado do recepcionista estava ali, encostado na parede. Com um cartaz pendurado no pescoço. Dizia: FAVOR NÃO INCOMODAR.

 

Rubio Arzano observou, horrorizado, enquanto Lucia desaparecia sob as águas turbulentas e era arrastada pela correnteza. Numa fração de segundos, ele virou-se e saiu desesperado pela margem do rio, pulando sobre pequenos troncos e moitas. Na primeira curva do rio vislumbrou o corpo de Lucia se aproximando. Mergulhou e nadou freneticamente para alcançá-la, lutando contra a forte correnteza. Era quase impossível. Sentiu que estava sendo puxado. Lucia se encontrava a apenas três metros dele, mas parecia a quilômetros. Ele fez um último e heróico esforço, conseguiu segurar-lhe o braço, os dedos quase escorregando. Segurou-a firme, enquanto começava a voltar para a segurança da margem.

Quando por fim atingiu a margem, Rubio puxou Lucia para a relva e deitou-a, tentando recuperar o fôlego. Ela estava inconsciente e sem respirar. Rubio virou-a de barriga para baixo, montou-a e começou a massagear-lhe os pulmões. Um minuto passou, depois dois; quando já se desesperava, um jato de água saiu-lhe pela boca e Lucia gemeu. Rubio murmurou uma prece de graças.

Ele manteve a pressão, mais gentil agora, até as batidas do coração de Lucia se tornarem firmes. Quando ela começou a tremer de frio, Rubio correu para algumas árvores e pegou um punhado de folhas. Levou-as para junto de Lucia, para enxugar-lhe o corpo. Ele também estava molhado e com frio, as roupas encharcadas, mas não prestou a menor atenção a isso. Ficara em pânico, com medo de que irmã Lucia morresse. Agora, enquanto esfregava gentilmente o corpo nu com as folhas secas, pensamentos indignos afloraram-lhe à mente.

Ela tem o corpo de uma deusa. Perdoe-me, Senhor, ela Lhe pertence, e não devo acalentar esses pensamentos horríveis...

Lucia foi gradativamente despertada pela massagem suave em seu corpo. Estava na praia, a língua de Ivo deslocava-se por seu corpo. Ah, está bom", pensou. Continue. Não pare, meu querido. Sentiu-se excitada antes mesmo de abrir os olhos.

Ao cair no rio, o último pensamento de Lucia fora o de que iria morrer. Mas continuava viva e se descobriu a fitar o homem que a salvara. Sem querer pensar, Lucia estendeu as mãos e puxou Rubio. Havia uma expressão de surpresa chocada no rosto dele.

- Irmã... - protestou ele. – Não podemos...

- Psiu! - Os lábios de Lucia encontraram-se com os de Rubio, impetuosos, sôfregos, exigentes, sua língua explorava-lhe o interior da boca. Era demais para Rubio.

- Depressa! - sussurrou Lucia - Depressa! - Observou Rubio tirar nervosamente as roupas molhadas. Ele merece uma recompensa", pensou Lucia. E eu também. Ao tornar a se aproximar, hesitante, Rubio murmurou:

- Irmã, não deveríamos...

Lucia não estava com disposição para conversas. Sentiu o corpo de Rubio se unir ao seu, num ritual eterno, entregou-se às gloriosas sensações que a dominaram. E foi tudo ainda melhor por causa de seu quase encontro com a morte.

Rubio era um amante surpreendentemente bom, ao mesmo tempo gentil e impetuoso. Possuía uma vulnerabilidade que surpreendeu Lucia. E havia uma expressão de tanta ternura em seus olhos que ela sentiu um súbito aperto na garganta.

"Espero que esse camponês não se apaixone por mim. Ele está ansioso demais para me agradar. Quando foi a última vez em que um homem se empenhou tanto em me agradar?

E Lucia pensou no pai. Especulou se ele teria gostado de Rubio Arzano. E depois indagou por que especulava se o pai teria gostado de Rubio Arzano. Devo estar louca. Este homem é um camponês. Sou Lucia Carmine, a filha de Angelo Carmine. A vida de Rubio não tem nada a ver com a minha. Fomos reunidos apenas por um estúpido acidente do destino.

Rubio abraçava-a e murmurava:

- Lucia, minha Lucia...

E o brilho em seus olhos dizia a Lucia tudo o que ele sentia. Ele é tão terno, pensou ela. E depois: O que há comigo? Porque estou pensando nele assim? Estou fugindo da polícia e... Lembrou-se de repente da cruz de ouro e soltou um ofego. Oh, Deus! Como pude esquecer, mesmo que por um momento apenas? Sentou-se no mesmo instante.

- Rubio, deixei um..., um embrulho na margem do rio, lá atrás. Poderia trazê-lo para mim, por favor? E minhas roupas também?

- Claro. Voltarei num instante.

Lucia ficou sentada, à espera, frenética pela possibilidade de ter acontecido alguma coisa à cruz. E se tivesse desaparecido? E se alguém passara e a levara?

Foi com um enorme sentimento de alívio que viu Rubio voltar com a cruz embrulhada debaixo do braço. "Não devo deixar que fique longe da minha vista outra vez."

- Obrigada - disse para Rubio.

Rubio entregou-lhe as roupas. Lucia fitou-o e disse, insinuante:

- Não vou precisar disso imediatamente...

 

O sol em sua pele nua fazia Lucia sentir-se indolente e quente, e estar nos braços de Rubio era um conforto maravilhoso. Era como se tivesse encontrado um oásis pacífico. Os perigos de que fugiam pareciam a anos-luz de distância.

- Fale-me a respeito de sua fazenda – pediu Lucia.

O rosto de Rubio se iluminou e havia orgulho em sua voz.

– Era uma fazenda pequena, nos arredores de uma aldeia perto de Bilbao. Pertencia à minha família há gerações.

- O que aconteceu?

A expressão de Rubio tornou-se sombria.

- Porque sou um basco, o governo de Madri puniu-me com impostos extras. Recusei-me a pagar, e confiscaram-me a fazenda. Foi nessa ocasião que conheci Jaime Miró. Uni-me a ele para lutar contra o governo pelo que é justo. Tenho mãe e duas irmãs, um dia vamos recuperar nossa fazenda e tornarei a administrá-la.

Lucia pensou no pai e dois irmãos, trancafiados na prisão para sempre.

- É muito ligado à sua família?

Rubio sorriu, efusivamente.

- Claro. A família é o nosso primeiro amor, não acha?

É, sim, pensou Lucia. Mas jamais tornarei a ver a minha.

- Fale-me a respeito de sua família, Lucia. Antes de entrar no convento, eram muito unidos?

A conversa enveredava por um rumo perigoso. "O que posso lhe dizer? Meu pai é um mafioso. Ele e meus dois irmãos estão na prisão por homicídio.

- Éramos, sim... muito unidos.

- O que faz o seu pai?

- Ele... ele é um homem de negócios.

- Tem irmãos e irmãs?

- Dois irmãos. Trabalham com papai.

- Por que foi para o convento, Lucia?

"Porque a polícia me procura por ter assassinado dois homens. Preciso de acabar com esta conversa", pensou Lucia. Em voz alta, ela disse:

- Eu precisava escapar.

Está bem perto da verdade.

- Sentiu que o mundo era... era demais para você?

- Mais ou menos isso.

- Não tenho o direito de dizer isso, Lucia, mas estou apaixonado por você.

- Rubio...

- Quero casar com você. Em toda a minha vida, nunca disse isso a outra mulher. - Havia algo comovente e sério nele.

"Rubio não sabe jogar", pensou Lucia. "Preciso tomar cuidado para não magoá-lo. Mas a perspectiva da filha de Angelo Carmine se tornar esposa de um camponês é demais!" Ela quase soltou uma risada.

Rubio interpretou de maneira errada o sorriso no rosto de Lucia.

- Não viverei escondido para sempre. O governo terá de fazer a paz com a gente. Voltarei então para a minha fazenda. "Querida..." Quero passar o resto da vida fazendo você feliz. Teremos muitos filhos, e as meninas crescerão para serem como você...

Não posso deixá-lo continuar assim, decidiu Lucia. Preciso detê-lo agora.

Mas por algum motivo, não foi capaz. Ficou escutando Rubio descrever imagens românticas da vida que levariam juntos, descobriu-se quase a desejar que pudesse acontecer. Estava cansada de fugir. Seria maravilhoso encontrar um refúgio em que pudesse permanecer sã e salva, protegida por alguém que a amasse... Devo estar perdendo o juízo.

- Não falemos mais sobre isso agora - murmurou Lucia. - Devemos partir.

 

Os dois viajaram para o nordeste, seguindo pela margem sinuosa do rio Duero, com seus campos ondulados e árvores exuberantes. Pararam na pitoresca aldeia de Villalba de Duero para comprar pão, queijo e vinho, e fizeram um piquenique idílico numa campina relvada.

Lucia sentiu-se contente ao lado de Rubio. Havia nele uma força tranquila que lhe parecia dar força também. Ele não é para mim, mas tornará muito feliz alguma mulher afortunada", pensou ela.

Depois que terminaram de comer, Rubio disse:

- A próxima cidade é Aranda de Duero. É bem grande. Seria melhor se a contornássemos, a fim de evitar o "GOE" e os soldados.

Era o momento da verdade, a hora de deixá-lo. Lucia estivera à espera que se aproximassem de uma cidade maior. Rubio Arzano e sua fazenda eram um sonho, a fuga para a Suíça era a realidade. Lucia sabia o quanto o magoaria e não suportou fitá-lo nos olhos quando disse:

- Rubio... eu gostaria que fôssemos para a cidade.

Ele franziu o rosto.

- Pode ser perigoso, querida. Os soldados...

- Não estarão à nossa procura ali. - Ela pensou rapidamente. - Além do mais, eu... eu preciso de uma muda de roupa, não posso continuar assim.

A perspectiva de entrar na cidade perturbava Rubio, mas ele se limitou a dizer:

- Se é isso o que você quer...

Ao longe, os muros de Aranda de Duero assomaram diante deles, como uma montanha construída pelo homem.

Rubio tentou mais uma vez.

- Lucia... tem certeza que precisamos ir à cidade?

- Tenho, sim.

 

Os dois atravessaram a comprida ponte que levava à via principal, a Avenida Castilla. Passaram por uma usina de açúcar, igrejas e lojas de aves, o ar impregnado com uma variedade de cheiros. Lojas e prédios de apartamentos margeavam a avenida. Lucia avistou finalmente o que procurava... uma placa que dizia CASA DE "EMPE ÑOS" - uma loja de

penhores. Ela continuou calada.

Chegaram à praça, com suas lojas, mercados e bares, passaram pela Taverna Cueva, com um balcão comprido e mesa de madeira. Havia uma vitrola automática lá dentro, salames e fieiras de alho pendurado no teto em vigas. Lucia percebeu a oportunidade.

- Estou com sede, Rubio. Podemos entrar?

- Claro.

Rubio pegou-a pelo braço e entraram no bar.

Havia alguns homens no balcão. Lucia e Rubio foram para uma mesa no canto.

- O que vai querer, querida?

- Peça um copo de vinho para mim, por favor. Voltarei num instante. Tem uma coisa que preciso fazer. - Levantou-se e saiu para a rua, deixando Rubio perplexo.

Lá fora, Lucia voltou apressada até a Casa de "Empeños", apertando com força a cruz embrulhada. No outro lado da rua avistou uma placa preta com letras brancas que dizia: POLÍCIA. Fitou-a por um momento, o coração quase parando, depois virou-se e entrou na loja de penhores.

   Um homem encarquilhado, com uma cabeça enorme, estava atrás do balcão, mal visível.  - Buenos dias, señorita.

"- Buenos dias, señor." Tenho uma coisa que gostaria de vender. - Estava tão nervosa que precisou comprimir os joelhos com força, a fim de evitar que tremessem.

- Sí?

Lucia desembrulhou a cruz de ouro e estendeu-a.

- Estaria... estaria interessado em comprar isto?

O homem pegou a cruz, e Lucia percebeu o brilho em seus olhos.

- Posso perguntar onde adquiriu isto?

- Foi deixada por um tio que acaba de morrer. - A garganta estava tão seca que Lucia mal conseguia falar.

O homem pegou a cruz, virando-a lentamente.

- Quanto está pedindo?

O sonho se transformava em realidade.

- Quero 250 mil pesetas.

Ele franziu o rosto e sacudiu a cabeça.

- Não. Vale apenas cem mil pesetas. - Prefiro vender meu corpo primeiro.

- Talvez eu pudesse chegar a 150 mil pesetas.

- Prefiro derretê-la e deixar o ouro escorrer pelas ruas.

- Duzentas mil pesetas. É a minha última oferta.

Lucia tirou-lhe a cruz de ouro.

- Está me roubando vergonhosamente, mas vou aceitar. - Percebeu o excitamento no rosto do homem.

- Buenos, señorita." - Estendeu as mãos para a cruz, Lucia puxou-a.

- Há uma condição.

- Que condição, "señorita?"

- Meu passaporte foi roubado. Preciso de um novo, a fim de poder deixar o país para visitar minha tia doente.

Ele a estudava agora, cauteloso. Balançou a cabeça.

- Entendo...

- Se puder me ajudar a resolver o problema, a cruz é sua.

Ele suspirou.

- Não é fácil arrumar passaportes, señorita. As autoridades são muito rigorosas.

Lucia fitava-o em silêncio.

- Não sei como poderia ajudá-la. - De qualquer forma, obrigada, "señor." - Encaminhou-se para a porta. O homem deixou-a chegar lá antes de dizer:

- Momentito.

Lucia parou.

- Acabo de me lembrar de uma coisa. Tenho um primo que às vezes se envolve em questões delicadas desse tipo. É um primo "distante", espero que compreenda.

- Claro que compreendo. – Eu poderia falar com ele.

Quando vai precisar desse passaporte?

- Hoje.

A cabeça enorme balançou para cima e para baixo.

- E se eu conseguir, temos um negócio fechado?

- Quando eu receber o passaporte.

- Combinado. Volte depois das oito horas, e meu primo estará aqui. Ele providenciará

a fotografia necessária e porá em seu passaporte.

Lucia sentiu o coração disparar.

- Obrigada, señor.

- Não gostaria de deixar a cruz aqui, como medida de segurança?

- Estará segura comigo.

- Oito horas então. Hasta luego.

Ela deixou a loja. Lá fora, evitou com todo cuidado a delegacia de polícia e se encaminhou para a taverna, onde Rubio a esperava. Começou a andar mais devagar. Finalmente conseguia o que queria. Com o dinheiro da cruz, poderia alcançar a Suíça e a liberdade. Deveria estar feliz mas, em vez disso, sentia-se estranhamente deprimida. "O que há de errado comigo? Estou a caminho. Rubio me esquecerá em breve. Encontrará outra."

Recordou a expressão nos olhos de Rubio quando lhe disse: "Quero casar com você. Nunca disse isso a outra mulher em toda a minha vida."

Dane-se ele!, pensou. Ora, ele não é problema meu.

Diante da taberna, Lucia parou e respirou fundo; forçou então um sorriso e entrou para se juntar a Rubio.

 

Os meios de comunicação estavam alvoroçados. As manchetes se sucediam. Houvera o ataque ao convento, a prisão das freiras por abrigar terroristas, a fuga de quatro freiras, o fuzilamento de cinco soldados por uma das freiras, antes de ela ser alvejada e morta. As agências noticiosas internacionais estavam excitadas.

Repórteres do mundo inteiro chegaram a Madri, e o primeiro-ministro Leopoldo Martínez, num esforço para atenuar a crise, concordava em conceder uma coletiva. Quase cinquenta repórteres do mundo todo se reuniram em seu gabinete. Os coronéis Ramón Acoca e Fal

Sostelo estavam ao seu lado. O primeiro-ministro vira na manchete do Times de Londres naquela tarde:

 

         TERRORISTAS E FREIRAS

           ESCAPAM DO EXÉRCITO

           E DA POLÍCIA DA ESPANHA

 

Um repórter do Paris Match perguntou:

- Senhor primeiro-ministro, tem alguma ideia do paradeiro das freiras neste momento?

- O coronel Ramón Acoca está no comando da operação de busca - respondeu o primeiro-ministro Martínez. – Deixarei que ele responda.

- Temos motivos para acreditar que se encontram em poder dos terroristas bascos - falou Acoca. - Também lamento informar que há indício de que as freiras estão colaborando com os terroristas.

Os repórtere escreviam febrilmente.

- O que tem a dizer sobre a morte de irmã Teresa e dos soldados?

- Temos informações de que a irmã Teresa trabalhava com Jaime Miró. Sob o pretexto de nos ajudar a encontrar Miró, ela entrou no acampamento do exército e fuzilou cinco soldados antes que fosse possível detê-la. Posso assegurar que o exército e o "GOE" estão envidando todos os esforços para levar os criminosos à justiça.

- E as freiras que foram presas e trazidas para Madri?

- Estão sendo interrogadas - respondeu Acoca.

O primeiro-ministro queria encerrar a entrevista o mais depressa possível. Tinha dificuldades para manter o controle. O fracasso em localizar as freiras e capturar os terroristas faziam com que seu governo - e ele próprio – parecesse inapto e tolo, permitindo que a imprensa tirasse o máximo de proveito da situação.

- Pode nos dizer alguma coisa sobre os antecedentes das quatro freiras que escaparam, primeiro-ministro? - perguntou um repórter de Oggi.

- Sinto muito, mas não posso fornecer novas informações. Repito, senhoras e senhores, o governo está fazendo tudo ao seu alcance para encontrar as freiras.

- Primeiro-ministro, há rumores sobre a brutalidade do ataque ao convento em Ávila. Poderia fazer algum comentário a esse respeito?

Era uma questão delicada para Martínez, por ser verdade. O coronel Acoca ultrapassara em muito a sua autoridade. Mas cuidaria dele mais tarde. Naquele momento para demonstrar união, virou-se para o coronel e disse suavemente:

- O coronel Acoca pode responder a isso.

- Também já ouvi esses rumores infundados – retrucou Acoca. - Os fatos são simples. Recebemos informações confiáveis de que o terrorista Jaime Miró e uma dúzia de seus homens escondiam-se no convento Cisterciense e que estavam fortemente armados. Quando chegamos ao convento, no entanto, eles já haviam fugido.

- Coronel, soubemos que alguns dos seus homens molestaram...

- Isso é uma acusação afrontosa!

- Obrigado, senhoras e senhores - interveio o primeiro-ministro Martínez. - Serão informados de tudo e de qualquer acontecimento novo.

Depois que os repórteres se retiraram, o primeiro-ministro virou-se para os coronéis Acoca e Sostelo.

- Eles estão fazendo com que pareçamos selvagens aos olhos do mundo.

Acoca não tinha o menor interesse pela opinião do primeiro-ministro. O que o preocupava era um telefonema que recebera à meia-noite.

- Coronel Acoca?

Era uma voz que conhecia muito bem. Despertara imediatamente.

- Pois não, senhor.

- Estamos desapontados com você. Esperávamos resultados mais rápidos.

- Estou chegando perto, senhor. - Ele descobrira que suava profundamente. - Peço-lhe um pouco mais de paciência. Não vou desapontá-lo. - Prendera a respiração, à espera pela resposta.

- Seu tempo está se esgotando.

A ligação fora cortada.

O coronel Acoca também desligara e continuara sentado, frustrado. Onde está o miserável do Miró?

 

Vou matá-la", pensou Ricardo Mellado. Poderia estrangulá-la com minhas próprias mãos, jogá-la do alto da montanha ou simplesmente fuzilá-la. Não, acho que estrangulá-la me daria mais prazer."

Irmã Graciela era o ser humano mais exasperante que já conhecera. Era insuportável. No começo, quando Jaime Miró o incumbira de escoltá-la, Ricardo Mellado ficara satisfeito. Era uma freira, é verdade, mas também era a beldade mais deslumbrante que já contemplara. Estava decidido a conhecê-la melhor, descobrir por que tomara a decisão de trancafiar toda aquela beleza excepcional por trás dos muros do convento pelo resto da sua vida. Sob a saia e blusa que ela usava, Ricardo Mellado podia discernir as curvas espetaculares de uma mulher. "Será uma viagem muito interessante", concluiu ele.

Mas as coisas haviam enveredado por um rumo totalmente inesperado. Irmã Graciela recusava-se a falar-lhe. Não dissera uma única palavra desde o início da viagem, e o que mais desconcentrava Ricardo era o fato de que ela não parecia zangada, assustada ou transtornada. De jeito nenhum. Apenas se retirara para alguma parte remota de si mesmo e dava a impressão de total desinteresse por ele e tudo o que acontecia ao seu redor. Viajaram num bom ritmo, andando por estradas secundárias, quentes e poeirentas, passando por trigais, ondulando dourados ao sol, plantações de cevada, aveia e vinhedos. Contornando as pequenas aldeias pelo caminho, Berroccule e Aldeavieja, passando por campos de girassóis, os rostos amarelos acompanhando o sol.

Ao cruzar o Rio Moro, Ricardo perguntou:

- Gostaria de descansar um pouco, irmã?

Silêncio.

Aproximaram-se de Segóvia, antes de seguirem para o norte, na direção das montanhas de picos nevados das Guadarrama. Ricardo continuava a tentar puxar conversa, polidamente, mas era completamente inútil.

- Chegaremos a Segóvia em breve, irmã.

Não houve qualquer reação. "O que fiz para ofendê-la?"

- Está com fome, irmã? Nada.

Era como se ele não estivesse ali. Nunca se sentira tão frustrado em toda a sua vida. "Talvez a mulher seja retardada", pensou. "Essa deve ser a resposta. Deus lhe concedeu uma beleza sublime e depois amaldiçoou-a com uma mente fraca." Mas ele não acreditava nisso.

 

Ao chegar aos arredores de Segóvia, Ricardo notou que a cidade estava apinhada de gente, o que significava que a Guardia Civil se manteria mais alerta do que nunca. Ao se aproximarem da Plaza del Conde de Cheste, ele viu soldados patrulhando na direção dos dois. E sussurrou:

- Segure minha mão, irmã. Devemos dar a impressão de que somos dois namorados em passeio.

Ela ignorou-o.

Meu Deus!, pensou Ricardo. Talvez ela seja surda-muda.

Inclinou-se e pegou-lhe a mão, ficou aturdido com a súbita e vigorosa resistência de irmã Graciela. Ela puxou a mão como se tivesse sido picada.

Os guardas estavam cada vez mais perto. Ricardo tornou a se inclinar para Graciela e disse, em voz alta:

- Não deve ficar zangada. Minha irmã pensa da mesma maneira. Ontem à noite, depois do jantar e de pôr as crianças na cama, ela disse que seria muito melhor se os homens não se sentassem separados, fumando charutos fedorentos e contando histórias, esquecidos das mulheres. Aposto...

Os guardas passaram. Ricardo virou-se para fitar Graciela, que se mantinha impassível.

Mentalmente, Ricardo começou a praguejar contra Jaime, desejando que ele o tivesse incumbido de alguma das outras freiras. Aquela era feita de pedra, não havia nenhum cinzel bastante duro para penetrar naquele exterior frio.

Com toda a modéstia, Ricardo Mellado sabia que era atraente para as mulheres. Muitas já lhe haviam dito isso. Tinha a pele clara, alto e de boa compleição, nariz aristocrata, o rosto inteligente, dentes brancos e perfeitos. Vinha de uma das mais proeminentes famílias bascas. O pai era um banqueiro no país basco ao norte e providenciara para que Ricardo recebesse a melhor educação. Cursara a Universidade de Salamanca, e o pai aguardava ansioso que o filho se juntasse a ele no comando da empresa da família.

Ao sair da faculdade e voltar para casa, Ricardo foi trabalhar no banco, submisso, mas pouco tempo depois começou a envolver-se com os problemas de seu povo. Passou a comparecer a reuniões, comícios e protestos contra o governo, e não demorou muito a tornar-se um dos líderes da "ETA." O pai, ao saber das atividades do filho, convocou-o à sua vasta sala, revestida de madeira, para um sermão.

- Sou um basco também, Ricardo, mas também sou um banqueiro. Não podemos estragar tudo ao fomentar uma revolução no país em que ganhamos a vida.

- Ninguém pretende derrubar o governo, pai. Tudo o que queremos é liberdade. A opressão do governo aos bascos e catalães é intolerável.

O velho Mellado recostou-se na cadeira e estudou o filho.

- Meu bom amigo, o prefeito, enviou-me um aviso discreto ontem. Sugeriu que seria melhor para você não comparecer mais a comícios. Acho que deve concentrar suas energias nos negócios bancários.

- Pai...

- Quero que me escute, Ricardo. Quando eu era jovem, também tinha sangue quente. Mas há outros meios de esfriá-lo. Você está noivo de uma moça maravilhosa. Espero que tenham muitos filhos. - Acenou com a mão pela sala. - E você tem muita coisa a esperar de seu futuro.

- Mas será que não percebe...?

- Percebo mais claramente do que você, meu filho. Seu futuro sogro também está infeliz com suas atividades. Eu não gostaria que acontecesse alguma coisa que impedisse o casamento. Estou sendo claro?

- Está sim, pai.

No sábado seguinte Ricardo Mellado foi preso ao liderar uma manifestação basca num auditório em Barcelona. Recusou-se a permitir que o pai pagasse a fiança, a menos que também pagasse as fianças dos outros manifestantes detidos. O pai não concordou. A carreira de Ricardo foi encerrada, assim como o noivado. Isso acontecera cinco anos antes. Cinco anos de perigos e fugas por um triz. Cinco anos repletos com a emoção da luta por uma causa em que acreditava fervorosamente. Agora estava em fuga, escapando da polícia, escutando uma freira retardada e muda através da Espanha.

- Vamos por aqui - disse à irmã Graciela, para não tocar em seu braço.

Deixaram a rua principal e entraram na Calle de San Valentín. Na esquina havia uma loja que vendia artigos musicais.

- Tenho uma ideia – disse Ricardo. - Espere aqui, irmã. Voltarei num instante. - Entrou na loja e encaminhou-se para um jovem vendedor, parado atrás do balcão.

- Buenos dias. Posso ajudá-lo? - Pode, sim. Gostaria de comprar duas guitarras.

O jovem sorriu.

- Está com sorte. Acabamos de receber algumas Ramirez. São as melhores.

- Talvez alguma coisa inferior. Minha amiga e eu somos apenas amadores.

- Como quiser, señor. O que acha dessas? - O vendedor foi para uma seção da loja em que havia uma dúzia de guitarras expostas. - Posso vender-lhe duas Konos por cinco mil pesetas cada uma.

- Acho que não. - Ricardo escolheu duas guitarras baratas. – Estas servem muito bem.

Minutos depois, Ricardo voltou à rua, carregando as duas guitarras, com a remota esperança de que irmã Graciela tivesse desaparecido, mas ela continuava pacientemente parada ali, à sua espera. Ricardo abriu a correia de uma guitarra e estendeu para ela.

- Tome aqui, irmã. Pendure no ombro.

Ela fitou-o aturdida.

- Não precisa tocar - explicou Ricardo. - É apenas um disfarce. - Empurrou a guitarra e Graciela pegou-a, relutante.

Os dois caminharam pelas ruas sinuosas de Segóvia, passando sob o enorme viaduto construído pelos romanos séculos antes.

Ricardo resolveu tentar outra vez.

- Está vendo este viaduto, irmã? Não há cimento entre as pedras. Segundo contam, foi construído pelo demônio há dois mil anos, pedra sob pedra, sem nada para mantê-las juntas além da magia do demônio. – Fitou-a, à espera de alguma reação.

Nada.

Ela que se dane, pensou Ricardo Mellado. Eu desisto.

Os soldados da Guarda Civil estavam por toda a parte. Sempre que eles passavam por eles, Ricardo fingia estar empenhado numa conversa interessante com Graciela, cauteloso para evitar qualquer contato físico.

O número de policiais e soldados parecia estar aumentando, mas Ricardo sentia-se relativamente seguro. Estariam à procura de uma freira de hábito e um grupo de homens de Jaime Miró; não teriam motivos para desconfiar de um jovem casal de turistas carregando guitarras.

Ricardo estava com fome e tinha certeza que o mesmo acontecia com a irmã Graciela, embora ela nada dissesse. Passaram por um pequeno café.

- Vamos parar aqui e comer alguma coisa, irmã.

Ela parou e fitou-o.

Ricardo suspirou.

- Está bem. Como preferir.

Entrou no pequeno café. Um momento depois, Graciela seguiu-o.

- O que vai querer, irmã? – perguntou Ricardo após se sentarem.

Não houve resposta. Ela era irritante.

Ricardo então pediu à garçonete.

- Dois gazpachos e duas porções de chouriços.

Quando a sopa e as linguiças foram servidas, Graciela comeu o que foi posto à sua frente. Ricardo notou que ela comia automaticamente, sem desfrutar, como se cumprisse algum dever. Os homens sentados às outras mesas observavam-na, e Ricardo não podia culpá-los. Seria preciso um Goyta para captar sua beleza", pensou ele.

Apesar do comportamento taciturno de Graciela, Ricardo sentia um aperto na garganta cada vez que a contemplava e se censurava por ser um tolo romântico. Ela era um enigma, sepultada por trás de alguma muralha impenetrável. Ricardo Mellado conhecera dezenas de belas mulheres, mas nenhuma jamais o afetara daquela maneira. Havia algo quase místico em sua beleza. A ironia era que ele não tinha absolutamente a menor ideia do que havia por trás daquela fachada espetacular. Não sabia se ela era inteligente ou estúpida. Interessante ou chata? Fria ou ardente? Espero que ela seja estúpida, chata e fria, pensou Ricardo, ou eu não suportaria perdê-la. Como se algum dia pudesse tê-la. Ela pertence a Deus. Ele desviou os olhos, com receio que Graciela pudesse perceber seus sentimentos.

Quando chegou a hora de partirem, Ricardo pagou a conta e os dois se levantaram. Durante a viagem, ele notara que irmã Graciela claudicava um pouco. Terei de providenciar alguma espécie de transporte, pensou ele. Ainda temos um longo caminho a percorrer.

Começaram a descer a rua e na outra extremidade da cidade, no Manzanares el Real, encontraram uma caravana pitorescamente decorada, puxada por cavalos. As mulheres e crianças, vestindo trajes ciganos, viajavam nas traseiras das carroças.

- Espere aqui, irmã. Vou tentar arrumar uma carona para nós - avisou Ricardo.

Aproximou-se do condutor da primeira carroça, um corpulento cigano com traje típico completo, inclusive brincos.

- Buenas tardes, señor. Eu consideraria uma grande gentileza se pudesse oferecer uma carona para mim e para minha noiva.

O cigano olhou para Graciela.

- É possível. Para onde vão?

- Para a montanha Guadarrama.

- Posso levá-los até Cerezo de Abajo.

- Seria ótimo. Fico agradecido. - Ricardo apertou a mão do cigano, passando-lhe algum dinheiro.

- Embarquem na última carroça.

- Gracias.

Ricardo voltou para o lugar em que Graciela esperava, e falou:

- Os ciganos vão nos levar até Cerezo de Abajo. Viajaremos na última carroça.

Por um instante, ele teve certeza que Graciela ia recusar. Ela hesitou, depois encaminhou-se para a carroça.

Havia uma dúzia de ciganas dentro da carroça e elas abriram espaço para Ricardo e Graciela. Ao subirem, Ricardo começou a ajudar a irmã, mas ao tocar-lhe no braço, ela puxou-o bruscamente, com uma violência que o pegou de surpresa. Está bem, você que se dane. Ele vislumbrou a perna nua de Graciela quando ela subiu na carroça, e não pôde deixar de pensar: Ela tem as mais lindas pernas que já vi.

Procuraram se acomodar da melhor forma possível no chão duro de madeira, e a longa jornada começou. Graciela sentada num canto, os olhos fechados e os lábios se mexendo em oração. Ricardo não conseguia desviar os olhos dela.

 

À medida que o dia avançou, o sol tornou-se uma fornalha ardente, castigando-os, implacável, crestando a terra, o céu de um azul profundo, sem qualquer nuvem. De vez em quando, com as carroças atravessando as planícies, enormes aves a sobrevoavam. "Buitre leonado", pensou Ricardo. O abutre-leão.

Ao final da tarde, a caravana cigana parou e o líder aproximou-se da carroça da retaguarda.

- Este é o ponto máximo a que podemos levá-los. Estamos indo para "Viñuela."

Direção errada.

- Está ótimo - disse Ricardo. - Obrigado.

Ele começou a estender a mão para ajudar a irmã Graciela a se levantar, mas mudou de

ideia. Virou-se para o líder dos ciganos.

- Consideraria uma gentileza se me vendesse alguma comida para nós.

O chefe virou-se para uma das mulheres e disse alguma coisa numa língua estrangeira. Logo depois dois pacotes de comida foram entregues a Ricardo.

- Muchas gracias. – Tirou algum dinheiro.

O líder dos ciganos fitou em silêncio por um momento.

- Você e a irmã já pagaram pela comida.

Você e a irmã. Então ele sabia. Contudo, Ricardo não experimentou o senso de perigo. Os ciganos eram tão oprimidos pelo governo quanto os bascos e catalães.

- Vayan con Díos.

Ricardo ficou parado, observando a caravana se afastar e então virou-se para Graciela. Ela observava-o, em silêncio, impassível.

- Não terá de aturar minha companhia por muito mais tempo - assegurou Ricardo. - Dentro de dois dias estaremos em Logroño. Você se encontrará com suas amigas ali e partirão para o convento em Mendavia.

Não houve reação. Era como se ele falasse com um muro de pedra. Estou falando com um muro de pedra.

 

Desceram para um vale aprazível, com muitas macieiras, pereiras e figueiras. Ali perto passava o rio Duratón, cheio de gordas trutas. No passado, Ricardo pescara ali muitas vezes. Seria um lugar ideal para ficar e descansar, mas ainda havia um longo caminho a percorrer.

Ele virou-se para estudar a montanha Guadarrama, que se estendia à sua frente. Ricardo conhecia a região muito bem. Havia várias trilhas para atravessar a cadeia de montanhas. "Cabras", selvagens cabritos monteses, e lobos rondavam os caminhos, e Ricardo escolheria o caminho mais curto se estivesse viajando sozinho. Mas com a Irmã Graciela ao seu lado, ele optou pelo mais seguro.

- É melhor começarmos logo - disse Ricardo. - Temos uma longa subida pela frente.

Não tinha a menor intenção de perder o encontro com os outros em Logroño. A irmã silenciosa que se tornasse problema de outra pessoa.

Irmã Graciela estava parada, à espera que Ricardo indicasse o caminho. Ele virou-se e começou a subir. Não demorou muito para que Graciela escorregasse em algumas pedras na íngreme trilha e Ricardo instintivamente estendeu a mão para ajudá-la. Ela empurrou-lhe a mão bruscamente e recuperou o equilíbrio. Como quiser, pensou ele, furioso. Pode quebrar o pescoço.

Continuaram a subir, encaminhando-se para o majestoso pico lá em cima. A trilha foi se tornando cada vez mais íngreme e estreita, o ar frio era mais rarefeito. Seguiram para leste, passando por uma floresta de pinheiros. À frente deles ficava uma aldeia que tinha um refúgio para esquiadores e alpinistas. Ricardo sabia que encontrariam ali comida quente, calor e descanso. Era tentador. "Mas muito perigoso", concluiu. Seria um lugar perfeito para Acoca montar uma armadilha. Virou-se para irmã Graciela.

- Vamos contornar a aldeia. Pode andar mais um pouco, antes de pararmos para descansar?

Ela fitou-o e, como resposta, virou-se e recomeçou a andar.

A grosseria desnecessária ofendeu-o, e ele pensou: Ainda bem que me livrarei dela em Logroño. Por que, em nome de Deus, tenho sentimentos contraditórios em relação a isso?

 

Os dois contornaram a aldeia, caminhando à beira da floresta, e logo se encontravam outra vez na trilha, subindo cada vez mais. A respiração se tornava mais difícil, e o caminho, ainda mais íngreme. Ao contornarem uma curva, depararam com um ninho de águia vazio. Deram uma volta para evitar outra aldeia na montanha, silenciosa e pacífica ao sol da tarde, e descansaram nos arredores, parando num regato onde beberam água gelada.

Ao anoitecer, alcançaram uma área acidentada famosa por suas cavernas. A partir daquele ponto, a trilha começava a descer.

Daqui por diante será mais fácil, pensou Ricardo. O pior já passou.

Ele ouviu um zumbido distante lá em cima. Levantou os olhos, à procura. Um avião militar apareceu de repente sobre o topo da montanha, voando na direção do lugar em que se encontravam.

- Abaixe-se! - gritou. - Abaixe-se!

Graciela continuou a andar. O avião fez uma volta e começou a voar mais baixo.

- Abaixe-se! - berrou Ricardo de novo.

Pulou sobre Graciela e derrubou-a no chão, seu corpo por cima. Sem qualquer aviso. Graciela pôs-se a gritar histericamente, lutando com ele. Chutou-o na virilha, arranhando-lhe o rosto, tentava arrancar os olhos. O mais espantoso, no entanto, era o que ela dizia. Gritava uma sucessão de obscenidades que deixaram Ricardo chocado, uma torrente de palavrões que o atordoou. Não podia acreditar que tais palavras saíam daquela boca linda e inocente.

Tentou segurar as mãos de Graciela, a fim de se proteger das unhas que o arranhavam. Graciela parecia uma gata selvagem por baixo dele.

- Pare com isso! - gritou Ricardo. - Não vou machucá-la. É um avião militar de reconhecimento. Eles podem ter nos visto. Precisamos sair daqui.

Procurou imobilizá-la, até que a resistência frenética finalmente cessou. Sons estranhos e estrangulados vinham de Graciela, e Ricardo compreendeu que ela soluçava. Apesar de toda sua experiência com as mulheres, estava completamente aturdido. Encontrava-se por cima de uma freira histérica que tinha o vocabulário de um motorista de caminhão e não sabia o que fazer em seguida. Procurou tornar a voz o mais calma possível.

- Irmã, precisamos encontrar um lugar para nos escondermos e depressa. O avião pode ter comunicado a nossa presença aqui e dentro de poucas horas poderá haver soldados por toda a parte. Se quer chegar ao convento, deve se levantar e acompanhar-me. - Esperou um pouco, depois saiu de cima de Graciela e, com todo o cuidado, sentou-se ao lado, enquanto os soluços se desvaneciam.

Graciela acabou se sentando. O rosto estava sujo de terra, os cabelos desgrenhados, os olhos vermelhos de chorar, mas mesmo assim sua beleza deixou Ricardo angustiado.

- Desculpe tê-la assustado - murmurou. - Parece que não sei me comportar direito

com você. Prometo que me esforçarei para ter mais cuidado.

Ela fitou-o, os olhos pretos luminosos marejados de lágrimas. Ricardo não tinha a menor ideia do que ela pensava naquele momento. Ele suspirou e levantou-se. Graciela acompanhou-o.

- Há dezenas de cavernas por aqui - disse Ricardo. - Vamos nos esconder em uma delas durante a noite. Continuaremos a viagem ao amanhecer. - Seu rosto estava esfolado e sangrando onde ela o arranhara. Apesar do que acontecera, Graciela parecia indefesa, com uma fragilidade que o comovia, o que fazia querer dizer alguma coisa para tranquilizá-la. Mas agora era ele que permanecia em silêncio. Não podia pensar em nada para dizer.

As cavernas haviam sido escavadas por milênios de vento, inundações e terremotos, possuíam uma variedade infinita. Algumas não passavam de simples depressões na rocha, outras eram túneis intermináveis, jamais explorado pelo homem.

A um quilômetro e meio do lugar onde avistaram o avião, Ricardo encontrou uma caverna que parecia segura. A baixa entrada estava quase oculta pelas moitas.

- Espere aqui, irmã. - Passou pela entrada e dirigiu-se para o interior da caverna. Estava escuro lá dentro, apenas uma tênue claridade penetrava pela abertura. Não havia como descobrir a extensão da caverna, mas isso não importava, pois não havia razão para explorá-la.

Voltou para junto de Graciela.

- Parece um lugar seguro - comentou Ricardo após sair da caverna. - Espere lá dentro, por favor. Vou pegar alguns galhos para cobrir a entrada. Voltarei em poucos minutos.

Observou-a entrar em silêncio na caverna e especulou se ainda a encontraria ali quando voltasse. Percebeu que queria desesperadamente que ela estivesse.

 

Dentro da caverna, Graciela observou-o se afastar e então sentou-se no chão frio, em desespero.

Não posso mais aguentar, pensou ela. Onde você está, Jesus? Por favor, liberte-me deste inferno.

E era mesmo um inferno. Desde o início que Graciela lutava contra a atração que sentia por Ricardo. Pensou no mouro. Sinto medo de mim mesma. Quero este homem, mas não devo.

   Por isso, ela erguera uma barreira de silêncio entre os dois, o silêncio com que vivera no convento. Mas agora, sem a disciplina do convento, sem orações, sem a muleta da rotina rígida, Graciela descobriu-se incapaz de banir suas trevas íntimas. Passara anos combatendo os impulsos satânicos de seu corpo, tentando impedir que voltasse os sons lembrados, os gemidos e suspiros que vinham da cama da mãe.

O mouro olhava para seu corpo nu. "Você é apenas uma criança. Vista-se e saia daqui..."

"Sou uma mulher!"

Passara muitos anos tentando esquecer a sensação do mouro dentro dela, tentando expulsar da mente o ritmo dos corpos se mexendo juntos, saciando-a, proporcionando o sentimento de estar finalmente viva. A mãe gritando: "Sua sem-vergonha!"

E o médico dizendo: "Nosso cirurgião-chefe decidiu cuidar de você pessoalmente. Disse que era bonita demais para ficar com cicatrizes."

Todos os anos de orações haviam sido para se expurgar do sentimento de culpa. E haviam fracassado.

O passado ressurgira abruptamente na primeira vez em que olhava para Ricardo. Ele era bonito, bom, gentil. Quando era pequena, Graciela sonhara com alguém como Ricardo. E quando ele estava próximo, quando a tocara, seu corpo se inflamava no mesmo instante e experimentava uma profunda vergonha. Sou a esposa de Cristo, e meus pensamentos constituem uma traição a Deus. Pertenço a Você, Jesus. Por favor, ajude-me agora. Purifique minha mente dos pensamentos impuros.

Graciela tentara desesperadamente manter o muro de silêncio entre os dois, um muro pelo qual ninguém podia penetrar, à exceção de Deus, um muro para manter o demônio afastado. Mas queria mesmo manter o demônio afastado? Quando Ricardo pulara em cima dela e a empurrara para o chão, era o mouro lhe fazendo amor, e o frade tentando estuprá-la, e, em seu pânico incontrolável, fora contra eles que ela lutara. Não, admitiu para si mesma, isso não é verdade. Era contra o seu desejo mais profundo que lutara. Estava dividida entre o espírito e os anseios da carne. Não devo ceder. Preciso voltar ao convento. Ele estará aqui a qualquer momento. O que fazer?

Graciela ouviu um miado baixo no fundo da caverna e virou-se. Havia quatro olhos verdes fitando-os no escuro, avançou em sua direção. O coração de Graciela disparou.

Dois filhotes de lobo aproximaram-se, em passos macios, almofadados. Ela sorriu e estendeu a mão em direção a eles. Houve um súbito sussurro na entrada da caverna. Ricardo está de volta, pensou.

No momento seguinte uma enorme loba cinzenta voava em sua garganta.

 

Lucia Carmine parou diante da "taverna" em Aranda de Duero e respirou fundo. Através da janela, podia ver Rubio Arzano sentado lá dentro, à sua espera. Não devo deixar que ele desconfie, pensou Lucia. Às oito horas terei um novo passaporte e estarei a caminho da Suíça.

Ela forçou um sorriso e entrou na "taverna." Rubio sorriu aliviado ao vê-la, e a expressão em seus olhos, ao se levantar, provocou uma pontada de angústia em Lucia.

- Eu estava muito preocupado, querida. Passou tanto tempo fora que tive medo de que alguma coisa terrível lhe tivesse acontecido.

Lucia pôs a mão sobre a dele.

– Está tudo bem.

Apenas comprei a minha passagem para a liberdade. Estarei fora do país amanhã.

Rubio sentou-se, fitou-a nos olhos, segurando-lhe a mão. O sentimento de amor que irradiava era tão intenso que Luci asentiu-se apreensiva. Será que ele não percebe que nunca poderia dar certo? Não, ele não compreende. Por que não tenho coragem de lhe contar. Não está apaixonado por mim. Está apaixonado pela mulher que pensa que eu sou. E ficará muito melhor livre de mim.

Ela virou-se e correu os olhos pelo ambiente. Estava cheio de moradores locais. A maioria parecia observar os dois estranhos.

Um dos jovens começou a cantar e outros o acompanharam.

Um homem aproximou-se da mesa a que Lucia e Rubio se sentavam.

- Não está cantando, señor. Junte-se a nós.

Rubio sacudiu a cabeça.

- Não.

- Qual é o problema, amigo?

- É a canção. - Rubio viu a expressão de perplexidade de Lucia e explicou: - É uma antiga canção de louvor a Franco.

Outros homens começaram a agrupar-se em torno da mesa. Era evidente que haviam bebido muito.

- Foi contra Franco, señor?

Lucia viu os punhos de Rubio se contraírem. Oh, Deus, não agora! Ele não pode começar qualquer coisa que atraia a atenção. Ela murmurou, em tom de advertência:

- Rubio...

E, graças a Deus, ele compreendeu. Olhou para os homens e disse, jovialmente:

- Não tenho nada contra Franco. Apenas não conheço a letra.

- Ahn... Nesse caso, vamos todos cantarolar juntos.

Eles ficaram em silêncio, à espera que Rubio recusasse. Ele olhou para Lucia.

- Bueno.

Os homens recomeçaram a cantar, e Rubio cantarolou em voz alta. Lucia podia sentir sua tensão, enquanto fazia um esforço para manter o controle. Ele está fazendo isso por mim.

Quando a canção terminou, um homem deu um tapinha nas costas de Rubio.

- Nada mal, velho, nada mal.

Rubio permaneceu em silêncio, ansioso para que eles se afastassem.

Um dos homens viu o embrulho no colo de Lucia.

– O que está escondendo aí, querida?

Seu companheiro acrescentou:

- Aposto que ela tem uma coisa melhor por baixo da saia.

Os homens riram.

- Por que não abaixa as calcinhas e nos mostra o que tem lá?

Rubio levantou-se de um pulo e agarrou um dos homens pela garganta. Empurrou-o com tanta força que o homem voou através do bar e quebrou uma mesa.

- Não! - gritou Lucia. - Não faça isso!

Mas era tarde demais. Em pouco tempo, aconfusão espalhou-se pela "Taverna", com todo o mundo aderindo ansiosamente à briga e homens bêbados engalfinhando-se no chão. Uma garrafa de vinho espatifou o espelho por trás do balcão. Cadeiras e mesas foram derrubadas, enquanto homens voaram de um lado para o outro, aos gritos. Rubio derrubou dois homens, um terceiro avançou e acertou-o na barriga. Ele soltou um grunhido de dor.

- Rubio! - gritou Lucia. - Vamos sair daqui!

Ele acenou com a cabeça, as mãos comprimindo a barriga. Esgueiraram-se pela confusão e saíram para a rua.

- Precisamos escapar - murmurou Lucia.

Você terá seu passaporte esta noite. Volte depois das oito horas. Precisava encontrar um lugar para se esconder até lá. Ele que se dane! Por que não podia se controlar?

Os dois desceram pela Calle Santa Maria, e os ruídos da briga na "taverna" foram diminuindo gradativamente. Dois quarteirões adiante, chegaram a uma grande igreja, a Iglesia Santa Maria. Lucia subiu os degraus, abriu a porta e espreitou lá para dentro. Estava deserta.

- Ficaremos sãos e salvos aqui - disse ela.

Entraram na semi-escuridão da igreja, Rubio ainda comprimia a barriga.

- Podemos descansar um pouco.

- Está bem.

Rubio retirou a mão da barriga e o sangue esguichou. Lucia ficou desesperada.

- Santo Deus! O que aconteceu?

- Uma faca – balbuciou Rubio. - Ele usou uma faca. - Rubio arriou para o chão.

Lucia ajoelhou-se ao seu lado, em pânico.

- Não se mexa. - Tirou a saia e comprimiu-a contra a barriga de Rubio, tentando estancar a hemorragia.

O rosto de Rubio estava branco.

- Não deveria ter brigado com eles, seu idiota - disse Lucia, furiosa.

A voz dele era um sussurro enrolado:

- Não podia permitir que falassem de você daquela maneira.

Não podia permitir que falassem de você daquela maneira.

Lucia sentiu-se comovida como nunca sentira-se antes. Ficou imóvel, olhando para ele e pensando: Quantas vezes esse homem já arriscou a vida por mim?

- Não deixarei que morra - disse ela, com veemência. Levantou-se abruptamente. - Voltarei num instante. Encontrou água e toalhas onde o padre trocava de roupas, no fundo da igreja. Lavou o ferimento de Rubio. O rosto dele estava quente, o corpo encharcado de suor. Lucia pôs toalhas frias em sua testa. Os olhos de Rubio estavam fechados, parecia adormecido. Ela aninhou sua cabeça nos braços e pôs-se a lhe falar. Não importava o que dizia. Falava para mantê-lo vivo, obrigá-lo a se segurar no tênue fio da existência. Falou incessantemente, com medo de parar um segundo sequer.

- Vamos trabalhar juntos em sua fazenda, Rubio. Quero conhecer sua mãe e irmãs. Acha que elas vão gostar de mim? Quero muito que elas gostem. Eu sou muito trabalhadeira, caro. Vai ver só. Nunca trabalhei numa fazenda, mas aprenderei. Faremos com que seja a melhor fazenda de toda a Espanha.

Lucia passou a tarde falando, banhando seu corpo febril, trocando o curativo. A hemorragia quase cessara.

- Está vendo, caro? Já começa a melhorar. Eu não disse? Nós dois teremos uma vida

maravilhosa juntos, Rubio. Mas, por favor, não morra. Por favor!

Percebeu que estava chorando.

 

Lucia observou as sombras da tarde pintar as paredes da igreja através dos vitrais e se esvanecerem lentamente. O pôr-do-sol escureceu o céu e finalmente a escuridão total. Ela trocou de novo o curativo de Rubio e nesse instante, tão perto que lhe provocou um sobressalto, o sino da igreja começou a repicar. Ela prendeu a respiração e contou as badaladdas. Uma... três... cinco... sete... oito. Oito horas. Estava chamando-a, dizendo que era tempo de voltar à Casa do Empeños. Tempo de escapar daquele pesadelo e salvar-se.

Ajoelhou-se ao lado de Rubio e sentiu sua testa. Ele ardia em febre. O corpo estava encharcado de suor e a respiração era difícil e irregular. Não podia ver qualquer sinal de hemorragia, mas isso talvez significasse que ele sangrava internamente. Mas que diabo! Trate de se salvar, Lucia!

- Rubio... querido... Ele abriu os olhos, apenas meio consciente. - Preciso sair por um momento.

Rubio apertou-lhe a mão.

- Por favor...

- Está tudo bem - sussurrou Lucia. - Voltarei logo.

Levantou-se e lançou-lhe um último olhar. "Não posso ajudá-lo", pensou.

Pegou a cruz de ouro, virou-se e deixou a igreja rapidamente, os olhos cheios de lágrimas. Começou a andar depressa, encaminhando-se para a loja de penhores. O homem e seu primo estariam ali, à sua espera, com o passaporte para a liberdade. "Pela manhã, quando começarem as missas, encontrarão Rubio e o levarão a um médico. Vão tratá-lo, e ele ficará bom. Só que não sobreviverá a esta noite", pensou. Mas isso não é problema meu.

A Casa de Empeños ficava logo à frente. Estava apenas uns poucos minutos atrasada. Podia ver as luzes acesas no interior da loja. Os homens a esperavam.

Começou a andar mais depressa, depois desatou a correr. Atravessou a rua e passou pela porta aberta.

Dentro da delegacia, um guarda uniformizado estava sentado atrás de uma escrivaninha. Levantou os olhos quando Lucia entrou.

- Preciso de você! - gritou ela. -Um homem foi apunhalado! Pode estar morrendo!

O guarda não fez perguntas. Pegou um telefone e falou rapidamente. "Depois de desligar, comunicou a Lucia:

- Alguém virá falar-lhe.

Dois detetives apareceram quase que no mesmo instante.

- Alguém foi apunhalado, señorita?

- Isso mesmo. Acompanhe-me, por favor. Depressa!

- Vamos apanhar o médico no caminho - disse um dos detetives. - E depois poderá nos levar a seu amigo...

Pegaram o médico em sua casa, e Lucia conduziu o grupo à igreja. O médico foi até o corpo imóvel no chão e ajoelhou-se ao lado. Levantou o rosto um momento depois.

- Ainda está vivo, mas corre perigo. Chamarei uma ambulância.

Lucia ajoelhou-se e murmurou em silêncio: "Obrigada, Deus. Fiz tudo o que pude. Agora deixe-me escapar, sã e salva, e nunca mais tornarei a incomodá-lo."

Um dos detetives observava Lucia por todo o caminho até a igreja. Ela lhe parecia familiar. E de repente ele compreendeu por quê. Tinha uma semelhança extraordinária com o retrato na Vermelha, a circular de prioridade da Interpol.

O detetive sussurrou alguma coisa a seu companheiro e os dois se viraram para estudá-la. Então aproximaram-se de Lucia.

- Com licença, señorita. Poderia fazer a gentileza de nos acompanhar de volta à delegacia? Gostaríamos de lhe fazer algumas perguntas.

 

Ricardo Mellado encontrava-se a uma curta distância da caverna na montanha quando avistou subitamente uma enorme loba cinzenta encaminhando-se para a entrada. Ficou paralisado por um único instante, depois saiu correndo, como nunca correra em toda a sua vida. Disparou para a entrada da caverna.

- Irmã!

Na semi-escuridão, divisou a forma enorme e cinzenta saltar em cima de Graciela. Instintivamente, pegou a pistola e atirou. A loba saltou um uivo de dor e virou-se para Ricardo. Ele sentiu as presas do animal ferido lhe rasgando as roupas, sentiu seu bafo fético. A loba era mais forte do que esperava, pesada e musculosa. Ricardo tentou se desvencilhar, mas era impossível.

Sentiu que começava a perder os sentidos. Percebeu vagamente que Graciela se aproximava e gritou:

- Fuja!

Viu então a mão de Graciela levantar por cima de sua cabeça. No momento em que começava a descer, percebeu que segurava uma pedra enorme e pensou: Ela vai me matar.

Um instante depois a pedra passou por ele e esmagou o crânio da loba. Houve um último e selvagem estertor, depois o animal ficou imóvel no chão. Ricardo encontrava-se todo encolhido, lutando para respirar.

Graciela ajoelhou-se ao seu lado.

- Você está bem? - Sua voz tremia de preocupação.

Ele conseguiu balançar a cabeça. Ouviu um som de lamúria por trás e virou-se para deparar com os filhotes encolhidos num canto. Continuou deitado por mais algum tempo, para recuperar as forças. Finalmente se levantou, com alguma dificuldade.

Saíram cambaleando para o ar puro da montanha, abalados. Ricardo parou, respirou fundo, enchendo os pulmões, até a cabeça desanuviar. O choque físico e emocional do contato próximo com a morte exercera um efeito profundo sobre os dois.

- Vamos sair logo daqui. Talvez já estejam à nossa procura.

Graciela estremeceu à lembrança do perigo que ainda corriam.

 

Os dois seguiram a trilha íngreme na montanha durante uma hora. Chegaram a um pequeno córrego, e Ricardo disse:

- Vamos parar aqui.

Sem atadurase anti-sépticos, limparam os arranhões da melhor forma possível, lavando com a água límpida e fria. O braço de Ricardo estava tão rígido que sentia dificuldades para movê-lo. Para sua surpresa, Graciela disse:

- Deixe que eu cuido disso tudo.

Ficou ainda mais surpreso pela gentileza com que ela lavou os ferimentos.

De repente, sem aviso, Graciela começou a tremer violentamente, no efeito posterior do choque.

- Está tudo bem - murmurou Ricardo. - Já passou.

Ela não conseguia parar de tremer.

Ricardo abraçou-a e disse suavemente:

- Calma, calma... A loba está morta. Não há mais nada a temer.

Apertava-a e podia sentir as coxas se comprimindo contra seu corpo, os lábios macios se encontraram com os seus, Graciela abraçou-o também, sussurrando coisas que Ricardo não pôde compreender.

Era como se sempre tivesse conhecido Graciela. E, no entanto, nada sabia a seu respeito. Mas ela é um milagre de Deus, pensou Ricardo.

Graciela também pensava em Deus. "Obrigada, Deus, por esta alegria. Obrigada por finalmente me deixar sentir o que é o amor.

Experimentava emoções para as quais não tinha palavras, além de qualquer coisa que  jamais imaginava.

Ricardo observava-a, e sua beleza ainda o deslumbrava. Ela me pertence agora, pensou. Não precisa voltar para um convento. Casaremos e teremos lindos filhos... filhos saudáveis.

-Eu amo você - murmurou ele. - Nunca a deixarei partir, Graciela.

- Ricardo...

- Quero casar com você, querida. Quer se casar comigo?

- Quero... quero, sim! - respondeu Graciela, sem pensar.

E ela se viu outra vez em seus braços e pensou: Era isso o que eu queria e pensava que nunca teria.

- Viveremos por algum tempo na França, onde estaremos seguros. Esta luta acabará em breve, e voltaremos à Espanha – dizia Ricardo.

Graciela sabia que iria para qualquer lugar com aquele homem, e se houvesse perigo, haveria de partilhá-lo ao seu lado.

Conversaram sobre muitas coisas. Ricardo contou como se envolvera com Jaime Miró, do noivado desfeito e da insatisfação do pai. Mas, depois, quando esperou que Graciela falasse de seu passado, ela se manteve em silêncio.

Graciela fitou-o e pensou: Não posso contar. Ele vai me odiar.

- Abrace-me! - suplicou ela.

 

Dormiram e acordaram ao amanhecer para contemplar o sol escalar o topo da montanha, banhando as encostas com um suave clarão vermelho.

- Estaremos mais seguros escondidos por aqui hoje - comentou Ricardo. - Começaremos a viajar assim que escurecer.

Comeram os alimentos dados pelos ciganos e planejaram o futuro.

- Há oportunidades maravilhosas aqui na Espanha - falou Ricardo. - Ou haverá quando tivermos paz. Tenho muitas ideias. Abriremos nosso próprio negócio. Compraremos uma bonita casa e criaremos lindos filhos.

- E lindas filhas.

- E lindas filhas. - Ele sorriu.

- Nunca pensei que pudesse me sentir tão feliz.

- Nem eu, Ricardo.

- Estaremos em Logroño dentro de dois dias e nos encontraremos com os outros. - Segurou-lhe a mão.

- E contaremos que você não voltará ao convento.

- Não sei se vão compreender - riu Graciela. - Mas não me importa. Deus compreende. Eu adorava a vida no convento, mas... - Inclinou-se e beijou-o.

- Preciso compensá-la por muita coisa.

Ela ficou perplexa.

- Não estou entendendo.

- Todos os anos em que você esteve no convento, excluída do mundo. Diga-me uma coisa, querida... incomoda-a ter perdido tantos anos?

Como podia fazê-lo entender?

- Ricardo... não perdi coisa alguma. Acha mesmo que perdi tanta coisa?

Ele pensou a esse respeito, sem saber por onde começar. Concluiu que coisas que julgava de maior importância não teriam o menor significado para as freiras em seu isolamento. Guerras, como a guerra árabe-israelense? Assassinatos de líderes políticos, como o do presidente americano Jonh Kennedy e seu irmão, Robert Kennedy? E de Martin Luther King, Jr., o grande líder do movimento da não-violência pela igualdade negra? O Muro de Berlim? Fomes? Inundações? TERREMOTOS? Greves e manifestações de protestos contra a desumanidade do homem com seu semelhante?

Afinal, quão profundamente qualquer dessas coisas afetariam a vida pessoal de Graciela? Ou as vidas pessoais da maioria das pessoas do mundo?

- De certa forma, você não perdeu muita coisa. Mas, por outro lado, perdeu. Algo importante tem acontecido. Vida. Enquanto se manteve apartada durante todos esses anos, crianças nasceram e cresceram, namorados casaram, pessoas sofreram e foram felizes, outras morreram e todos nós aqui fora fomos uma parte do ato de viver.

– E você acha que eu nunca fui? - As palavras saíram espontâneas, antes que Graciela pudesse impedi-las. - Já fui parte dessa vida de que está falando, e era como viver no inferno. Minha mãe era uma prostituta, e todas as noites eu tinha um tio diferente. Aos 14 anos, entreguei meu corpo a um homem, porque me senti atraída por ele e senti ciúmes de minha mãe e do que ela fazia.

As palavras saíram agora numa torrente impetuosa.

- Eu também me tornaria uma prostituta se ficasse ali, para ser parte dessa vida que você considera tão preciosa. Não, não creio que eu tenha fugido de alguma coisa. Corri para alguma coisa. Encontrei um mundo seguro, que é sereno e bom.

Ricardo fitou-a horrorizado.

- Eu... eu sinto muito. Não tive a intenção...

Graciela soluçava agora, e ele abraçou-a.

- Calma, calma... Está tudo bem. Já acabou. Você era uma criança. Eu a amo.

Foi como se Ricardo tivesse lhe concedido a absolvição. Falara sobre coisas horríveis que fizera no passado e ainda assim ele a perdoava. E... maravilha das maravilhas... ainda a amava.

Ele abraçou-a com ternura.

- Há um poema de Frederico Garcia Lorca:

 

A noite não deseja vir, a fim de que você não possa vir e eu não possa ir...

Mas você virá, com sua língua queimada pela chuva salgada.

O dia não deseja vir, a fim de que você não possa vir e eu não possa ir...

Mas você virá através dos turvos sumidouros da escuridão.

Nem a noite nem o dia desejam vir, A fim de que eu possa morrer por você e por mim.

Subitamente, Graciela pensou nos soldados que os perseguiam, e imaginou se ela e seu amado Ricardo sobreviveriam por tempo para terem um futuro juntos.

 

Faltava um elo, uma pista para o passado. Alan Tucker estava determinado a encontrá-lo. Não havia qualquer referência no jornal de uma criança abandonada, mas devia ser muito fácil descobrir a data em que fora levada para o orfanato. Se a data coincidisse com o desastre do avião, Ellen Scott teria de oferecer algumas explicações bem interessantes. Ela não pode ter sido tão estúpida assim, pensou Alan Tucker. Assumir o risco de simular que a herdeira Scott morrera e deixá-la na porta de uma casa de fazenda. Perigoso. Muito perigoso. Por outro lado, a recompensa era tentadora: a Scott Industries. Isso mesmo, ela pode muito bem ter dado o golpe. Se é um segredo que enterrou, continua bem vivo e vai lhe custar caro.

Tucker sabia que precisava ser cauteloso. Não tinha ilusões sobre a pessoa com quem lidava. Estava se confrontando com o poder implacável. Sabia que precisaria dispor de todas as provas antes de fazer seu movimento.

Sua primeira providência foi outra visita ao padre Berrendo.

- Padre... eu gostaria de conversar com o camponês e a esposa em cuja casa Patricia... Megan foi abandonada.

O velho sacerdote sorriu.

- Espero que sua conversa com eles não ocorra por muito tempo.

Tucker ficou surpreso.

- Está querendo dizer...

– Eles morreram há muito tempo.

Droga! Mas devia haver outros caminhos para explorar.

- Não disse que a criança foi levada para o hospital com pneumonia?

- Isso mesmo.

Haveria registros ali.

- Que hospital era?

- Foi destruído por incêndio em 1961. Construíram outro em seu lugar. - Ele percebeu a expressão consternada de Tucker. - Deve lembrar-se, señor, que a informação que procura já tem 28 anos. Muitas coisas mudaram. "Não vai me deter", pensou Tucker. "Não quando  estou tão perto. Deve haver um arquivo sobre ela em algum lugar. Ainda lhe restava um lugar para investigar: o orfanato.

 

Tucker fazia agora relatórios diários para Ellen Scott.

- Mantenha-me informada de cada acontecimento. Quero ser avisada no momento em que a garota for encontrada.

E Alan Tucker especulava sobre a urgência em sua voz.

"Ela parece estar muito presa, por causa de uma coisa que aconteceu há tantos anos. Por quê? Mas isso pode esperar. Primeiro, preciso obter a prova que procuro.

 

Alan Tucker foi visitar o orfanato naquela manhã. Correu os olhos pela desolada sala comunitária, onde algumas crianças brincavam, fazendo barulho e falando sem parar, e pensou: Então este é o lugar em que a herdeira da dinastia Scott foi criada, enquanto aquela sacana em Nova York ficava com todo o dinheiro e poder. Pois ela agora vai partilhar um pouco comigo. Isso mesmo, formaremos uma grande dupla, Ellen Scott e eu.

Uma moça aproximou-se e perguntou:

- Em que posso ajudá-lo, señor?

Ele sorriu. Pode me ajudar a ganhar um bilião de dólares.

- Eu gostaria de falar com a pessoa encarregada.

- É a senhora Angeles.

- Ela está?

- Sí, señor. Eu o levarei à sua sala.

Ele seguiu a mulher pelo corredor principal até uma pequena sala nos fundos do prédio.

- Entre, por favor.

Ele entrou no escritório. A mulher sentada à mesa estava na casa dos oitenta. Outrora fora grande, mas o corpo encolhera, e por isso dava a impressão de que a armação pertencia a outra pessoa. Os cabelos eram grisalhos e ralos, mas os olhos se mantinham brilhantes e claros.

- Bom dia, señor. Em que posso ajudá-lo? Veio adotar uma de nossas lindas crianças? Temos muitas para escolher.

- Não, señora."Vim perguntar sobre uma criança que foi deixada aqui há muitos anos.

Mercedes Angeles franziu o cenho.

- Não estou entendendo.

- Uma menina foi trazida para cá... - fingiu consultar um pedaço de papel. -...em outubro de 1948.

- Isso foi a muito tempo. Ela não estaria mais aqui. Temos um regulamento, señor, que aos 15 anos...

- Sei que ela não está mais aqui, señora. O que desejo saber é a data exata em que foi trazida para cá.

- Lamento, señor, mas não poderei ajudá-lo.

Tucker sentiu um aperto no coração.

- Muitas crianças são trazidas para cá. A menos que saiba seu nome...

Patricia Scott, ele pensou. Mas disse em voz alta:

- Megan... o nome dela é Megan.

O rosto de Mercedes Angeles iluminou-se.

– Ninguém poderia esquecer aquela criança. Era um diabrete, e todos a adoravam. Sabia que um dia...

Alan Tucker não tinha tempo para histórias. O instinto dizia-lhe que se encontrava agora na iminência de obter uma parte da fortuna Scott. E aquela velha tagarela era a chave para isso. Devo ser paciente com ela.

- Señora Angeles... não tenho muito tempo. Tem essa data em seus arquivos?

- Claro, señor. O Estado exige que mantenhamos registros bastante apurados.

Tucker animou-se. Eu deveria ter trazido uma máquina para fotografar o arquivo. Mas não importa. Tirarei uma fotocópia.

- Posso ver esse arquivo, señora?

- Acho que não. Nossos arquivos são confidenciais e...

- Claro que compreendo e respeito sua hesitação - disse Tucker, suavemente. - Falou que gostava da pequena Megan e tenho certeza que haveria de fazer tudo o que pudesse para ajudá-la. Pois é por isso que estou aqui. Tenho boas notícias para ela.

- E para isso precisa da data em que foi trazida para cá?

– Preciso ter a prova de que se trata da mesma pessoa que penso que é. O pai morreu e deixou-lhe uma pequena herança, quero fazer com que ela a receba.

A mulher acenou com a cabeça, sabiamente.

- Entendo.

Tucker tirou um maço de notas do bolso.

- E para mostrar meu agradecimento pelo incômodo que estou causando, gostaria de contribuir com cem dólares para o orfanato.

Ela olhou para o maço de notas, com uma expressão indecisa.

Tucker tirou outra nota.

- Duzentos.

A velha franziu o cenho.

– Está bem. Quinhentos.

Mercedes Angeles ficou radiante.

- É muita generosidade sua, señor. Vou buscar o arquivo.

Consegui!, pensou ele, exultante. Santo Deus, consegui! Ela roubou a Scott Industrie. E se não fosse por mim, teria escapado impune.

Quando a confrontasse com aquela prova, Ellen Scott não teria como negar. O desastre de avião ocorrera a 1 de outubro. Megan passara dez dias no hospital. Portanto, chegara ao orfanato por volta de 11 de outubro. Mercedes Angeles voltou à sala, trazendo uma pasta de arquivo.

- Encontrei! - anunciou orgulhosa.

Alan Tucker teve de fazer um esforço para não arrancar a pasta de suas mãos.

- Posso dar uma olhada? - perguntou, polidamente.

- Claro. Foi muito generoso. - A velha tornou a franzir o cenho. - Espero que não mencione o fato a ninguém. Eu não deveria fazer isso.

- Será nosso segredo, señora.

Ela entregou-lhe a pasta.

Tucker respirou fundo e abriu-a. Em cima estava escrito: "Megan. Menina. Pais desconhecidos." E depois a data. Mas havia um equívoco.

- Diz aqui que Megan foi trazida para o orfanato a 14 de junho de 1948.

- Sí, señor.

- Mas é impossível! – Ele estava quase gritando. O desastre de avião aconteceu a 1 de outubro, quatro messes depois.

Havia uma expressão aturdida no rosto de Mercedes.

- Impossível, señor? Não estou entendendo.

- Quem... quem cuida desses registros?

- Eu mesma. Quando uma criança é deixada aqui, anoto a data e todas as informações que posso obter...

O sonho de Tucker desmoronava-se.

- Não poderia ter cometido algum erro? Sobre a data... não poderia ser 10 ou 11 de outubro?

Mercedes Angeles protestou indignada:

- señor, sei muito bem a diferença entre 14 de junho e 11 de outubro.

Estava acabado. Ele construíra um sonho sobre uma base muito frágil. Então Patricia Scott morrera de fato no desastre. Era uma coincidência que Ellen Scott estivesse à procura de uma menina que nascera mais ou menos na mesma ocasião. Alan Tucker levantou-se pesadamente e murmurou:

- Obrigado, señora.

- De nada, señor. - Observou-o se retirar. Era um homem muito simpático. E generoso. Os quinhentos dólares comprariam coisas para o orfanato. E também o cheque de cem mil dólares enviado pela gentil dama que telefonara de Nova York. Onze de outubro foi sem dúvida um dia de sorte para nosso orfanato. Obrigada, Senhor.

 

Alan Tucker estava apresentando seu relatório diário.

- Ainda não há notícias concretas, Srª Scott. Há rumores de que eles estão indo para o norte. Até onde pude descobrir, a garota continua viva.

O tom de voz mudou por completo", pensou Ellen Scott. A ameaça desapareceu. O que significa que ele esteve no orfanato. Voltou a ser um empregado. Depois que ele encontrar Patricia, isso também vai mudar."

-Volte a comunicar amanhã.

- Pois não, Srª Scott.

 

-Preserva-me, ó Deus, pois em Vós encontro refúgio. Sois meu Senhor; não há o bem apartado de Vós. Eu Vos amo, ó Senhor, minha força. O Senhor é minha rocha e minha fortaleza e meu libertador...

Irmã Megan levantou os olhos para deparar com Felix Carpio a observá-la, com uma expressão preocupada. Ela está mesmo assustada, pensou Felix. Desde que haviam iniciado a jornada que ele percebera a profunda ansiedade de irmã Megan. Nada mais natural. Ela passou só Deus sabe quantos anos trancafiada num convento, e agora é lançada subitamente num mundo estranho e aterrador. Teremos de ser muito gentis com a pobre coitada.

Irmã Megan estava realmente assustada. Rezava com afinco desde que deixara o convento.

"Perdoai-me, Senhor, pois adoro a emoção do que está acontecendo e sei que é uma iniquidade da minha parte.

Por mais que irmã Megan rezasse, no entanto, não podia deixar de pensar que era a aventura mais espantosa que já tivera. No orfanato planejara muitas vezes fugas ousadas, mas era apenas brincadeira de criança. Aquilo era real. Estava nas mãos de terroristas que eram perseguidos pela polícia e exército. Em vez de estar apavorada por isso, irmã Megan sentia-se estranhamente exultada.

 

Depois de viajarem a noite inteira, pararam ao amanhecer. Megan e Amparo Jiró ficaram de vigia, enquanto Jaime Miró e Felix Carpio debruçavam-se sobre um mapa.

- São seis quilômetros e meio para Medina del Campo - disse Jaime. - Vamos evitá-la. Há uma guarnição permanente do exército ali, seguiremos para nordeste, na direção de Valladolid. Devemos chegar lá no início da tarde.

Muito fácil, pensou irmã Megan.

Fora uma noite longa e extenuante, sem descanso, mas Megan sentia-se muito bem. Jaime estava deliberadamente exigindo o máximo do grupo, mas Megan compreendia por que ele fazia isso. Estava testando-a, à espera que sofresse um colapso. Pois ele terá uma surpresa, pensou ela.

Na verdade, Jaime Miró estava intrigado com irmã Megan. Seu comportamento não era exatamente o que ele esperava de uma freira. Encontrava-se a muitos quilômetros do convento, viajando por um território estranho, perseguida, mas mesmo assim parecia gostar da situação. Que tipo de freira é ela?, especulou Jaime Miró. Amparo Miró estava menos impressionada. Terei o maior prazer de me livrar dela, pensava. Ficava sempre junto de Jaime, e deixava a freira caminhar ao lado de Felix.

Os campos eram desertos e belos, acariciados pela suave fragância da brisa de verão. Passaram por aldeias antigas, avistaram um castelo antigo, deserto, no topo da colina.

Amparo parecia a Megan como um animal selvagem... deslizando sem esforço pelas colinas e vales, dando a impressão de que jamais se cansava.

Quando, horas depois, Valladolid finalmente surgiu ao longe, Jaime parou e virou-se para Felix.

- Está tudo acertado?

- Está.

Megan especulou sobre o que teria sido acertado, e não demorou a descobrir.

– Tomás tem instruções para fazer contato conosco na praça de touros.

- A que horas o banco fecha?

- Cinco. Haverá tempo suficiente.

Jaime acenou com a cabeça.

- E hoje deve haver muito dinheiro da folha de pagamento.

Santo Deus, eles vão assaltar um banco!, pensou Megan.

- E o carro? - perguntou Amparo.

- Isso não é problema - garantiu Jaime.

Eles vão também roubar um carro, pensou Megan. Era mais aventura que ela desejava. Deus não vai gostar disso.

 

Quando o grupo chegou nos arredores de Valladolid, Jaime advertiu:

- Fiquem no meio da multidão. Hoje é dia de tourada, e haverá milhares de pessoas nas ruas. Não vamos nos separar.

Jaime Miró estava certo sobre a multidão. Megan nunca vira tanta gente. As ruas estavam apinhadas de pedestres, automóveis e motocicletas, pois a tourada atraía não apenas turistas, mas também moradores das cidades próximas. Até as crianças nas ruas brincavam à tourada.

Megan sentia-se fascinada pela multidão, o barulho e confusão ao seu redor. Observava os rostos das pessoas que passavam e especulava como seriam suas vidas. Muito em breve voltarei ao convento, onde nunca mais terei permissão de olhar para o rosto de ninguém. Devo aproveitar ao máximo, enquanto posso.

   As calçadas achavam-se repletas de vendedores ambulantes, oferecendo bijoterias, crucifixos e medalhas religiosas, por toda a parte havia o cheiro penetrante de frituras.

Megan percebeu de repente que sentia muita fome.

- Jaime, estamos todos com fome. Vamos experimentar alguns desses bolinhos fritos - sugeriu Felix.

Felix comprou quatro bolinhos e deu um a Megan.

- Experimente, irmã. Vai gostar.

Estava delicioso. Por tantos anos, a comida não devia ser desfrutada, mas apenas sustentar o corpo para a glória do Senhor. Isto é para mim, pensou Megan, irreverente.

- É por aqui - indicou Jaime.

Eles seguiram a multidão, passando pelo parque no centro da cidade, até a Plaza Poinente, que levava à plaza de toros. O interior era uma enorme estrutura de adobe, da altura de três andares. Havia quatro bilheteiras na entrada. As placas na esquerda diziam SOL e na direita SOMBRA. Havia centenas de pessoas paradas nas filas, à espera para comprar os ingressos.

- Esperem aqui - ordenou Jaime.

Encaminhou-se para o lugar em que alguns cambistas vendiam ingressos. Megan virou-se para Felix.

- Vamos assistir a uma tourada?

- Isso mesmo, irmã, mas não se preocupe. Vai descobrir que é emocionante.

Preocupar-me?, Megan estava excitada com a perspectiva. Uma das suas fantasias no orfanato fora a de que o pai havia sido um grande toureiro. Megan lera todos os livros sobre tourada que conseguira encontrar.

- As melhores touradas são realizadas em Madri ou Barcelona - explicou Felix. - A tourada aqui será com novilleros, em vez de profissionais. São amadores. Ainda não receberam alternativa.

Megan sabia que alternativa era o prêmio conferido apenas aos grandes matadores.

- Os que veremos hoje lutam em trajes alugados, contra touros com perigosos chifres limados, que os profissionais se recusam a enfrentar.

- Por que eles fazem isso?

Felix encolheu os ombros.

- Hambre hace más daño que las cuernas. A fome é mais dolorosa que as chifradas.

Jaime voltou com quatro ingressos.

- Tudo acertado. Vamos entrar.

Megan sentia um excitamento crescente. Ao aproximarem-se da entrada, passaram por um cartaz colocado na parede. Megan parou e olhou.

- Vejam!

Havia um retrato de Jaime Miró e, embaixo:

 

       PROCURADO POR HOMICÍDIO

       JAIME MIRÓ

       500.000 PESETAS DE RECOMPENSA

       POR SUA CAPTURA, VIVO OU MORTO.

 

E, subitamente, isso fez com que Megan se lembrasse com quem viajava, o terrorista que tinha sua vida nas mãos.

Jaime estudava a fotografia. Atrevidamente, tirou o chapéu e os óculos escuros e encarou seu retrato.

- Até que é parecido. - Arrancou o cartaz da parede, dobrou-o e guardou-o no bolso.

- De que adianta? - falou Amparo. – Eles devem ter espalhado centenas de cartazes.

Jaime sorriu.

- Este em particular vai nos proporcionar uma fortuna, querida.

Ele colocou de novo o chapéu e os óculos.

Um estranho comentário, pensou Megan. Não podia deixar de admirar a tranquilidade de Jaime. Havia um ar de sólida competência em Jaime Miró que ela achava tranquilizador. Os soldados nunca o apanharão, pensou.

- Vamos entrar.

Haviam 12 espaçosas entradas para o estádio. As portas vermelhas de ferro estavam abertas, todas numeradas. Lá dentro, puestos vendiam Coca-Cola e cerveja, ao lado de pequenos banheiros. Cada seção e cada assento nas arquibancadas eram numerados. As fileiras de bancos de pedra efetuavam um círculo completo, e no meio ficava a enorme arena, coberta de areia. Havia cartazes comerciais por toda parte:

 

         BANCO CENTRAL...

         BOUTIQUE CALZADOS...

         SCHWEPPES...

         RADIO POPULAR...

 

Jaime comprara ingressos para o lado da sombra e, ao sentarem-se nos bancos de pedra, Megan olhou ao redor, admirada. Não era absolutamente como ela imaginara. Quando pequena, vira românticas fotografias coloridas da praça de touros em Madri, imensa e ornamentada. Aquela arena era improvisada. Os espectadores lotavam rapidamente as arquibancadas.

Soou um clarim. A tourada começou.

Megan inclinou-se para a frente, os olhos arregalados. Um enorme touro entrou na arena e um matador saiu de trás de uma pequena barreira de madeira ao lado, e começou a provocar o animal.

- Os picadores virão em seguida - comentou Megan.

Jaime Miró fitou-a, surpreso. Estava preocupado com a possibilidade da tourada deixá-la angustiada, o que atrairia as atenções para o grupo. Em vez disso, porém, ela parecia estar se divertindo. Estranho.

Um picador aproximou-se do touro, montado num cavalo coberto por uma grossa manta. O touro baixou a cabeça e atacou o cavalo. No momento em que cravou os chifres na manta, o picador enfiou uma bandarilha de dois metros e meio no dorso do touro. Megan observava, fascinada.

- Ele está fazendo isso para enfraquecer os músculos no pescoço do touro - explicou, recordando os livros tão amados que lera há tantos anos.

Felix Carpio piscou, surpreso.

- É isso mesmo, irmã.

Megan continuava a observar, enquanto as bandarilhas coloridas eram cravadas nas espáduas do touro.

Agora era a vez do matador. Ele avançou pela arena, segurando no lado uma capa vermelha, com uma espada oculta. O touro virou-se e desfechou o ataque.

Megan estava mais excitada do que nunca.

- Ele fará os pases agora - comentou ela. - Primeiro o pase verónica, depois o meia-verónica e por último o rebolera.

Jaime não podia conter a curiosidade por mais tempo.

- Irmã... onde aprendeu tudo isso?

Sem pensar, Megan respondeu:

- Meu pai era um toureiro... Olhem!

A ação era tão rápida, Megan mal conseguia acompanhá-la. O touro enfurecido continuava a atacar o matador. A cada vez que se aproximava, o matador desviava a capa vermelha para o lado e o touro a seguia.

Megan ficou preocupada.

- O que acontece se o toureiro for ferido?

Jaime encolheu os ombros.

– Numa cidade como esta, o barbeiro o levará para o estábulo e o costurará ali mesmo.

O touro tornou a atacar, e dessa vez o matador pulou da sua frente. O público vaiou.

Felix Carpio desculpou-se:

- Lamento que não seja uma luta melhor, irmã. Deveria assistir às grandes. Já vi Manolete, El Cordobés e Ordóñez. Eles transformam a tourada num espetáculo inesquecível.

- Li sobre eles - comentou Megan.

- Ouviu alguma vez a história maravilhosa sobre Manolete?

- Que história?

- Houve um tempo, segundo a história, em que Manolete era apenas um toureiro, nem melhor nem pior do que uma centena de outros. Estava noivo de uma linda moça, mas um dia um touro chifrou-o na virilha, e o médico que cuidou de Manolete explicou que ele ficaria estéril. Claro que Manolete amava tanto a noiva que não lhe contou nada, com medo de que ela não quisesse mais casar. Poucos meses depois do casamento, ela anunciou orgulhosa que estava grávida. Claro que Manolete sabia que não era seu filho e abandonou-a. A moça desolada cometeu suicídio. Manolete reagiu como um louco. Não tinha mais vontade de continuar a viver, por isso entrava na arena e fazia coisas que nenhum matador jamais fizera antes. Arriscava a vida constantemente à espera de ser morto; tornou-se assim o maior matador do mundo. Dois anos depois tornou a apaixonar-se e casou com a moça. Poucos meses depois do casamento, ela anunciou orgulhosa que estava grávida. E foi então que Manolete descobriu que o médico errara.

- Que coisa horrível... - murmurou Megan.

Jaime soltou uma risada.

– É uma história interessante, só não sei se tem algum fundo de verdade.

- Eu gostaria de pensar que sim - disse Felix.

Amparo escutava em silêncio, o rosto impassível. Observara o crescente interesse de Jaime pela freira com ressentimento. Era melhor a irmã tomar muito cuidado.

 

Vendedores ambulantes de avental subiam e desciam pelas passagens, anunciando suas mercadorias. Um deles aproximou-se da fileira em que Jaime e os outros se sentavam.

- Empanadas! - gritou. – Empanadas calientes!

Jaime levantou a mão.

- Aquí!

O vendedor jogou habilmente um pacote embrulhado nas mãos de Jaime. Ele entregou dez pesetas ao homem ao seu lado, para serem passadas adiante, até o vendedor. Megan observou Jaime colocar a empanada no colo e abriu com todo cuidado. Havia um pedaço de papel lá dentro. Ele leu-o e releu-o, Megan observou-o cerrar os dentes. Jaime guardou o papel no bolso e disse bruscamente:

- Vamos embora. Um de cada vez. - Virou-se para Amparo. - Você primeiro. O encontro será no portão.

Sem dizer nada, Amparo levantou-se e seguiu para o corredor. Jaime acenou a cabeça para Felix, que também se levantou e seguiu Amparo.

- O que está acontecendo? - perguntou Megan. – Algum problema?

- Estamos de partida para Logroño. - Ele levantou-se. – Fique olhando para mim, irmã. Se eu não for detido, siga para o portão.

Megan observou, tensa, enquanto Jaime saía para a passagem e se encaminhava para o portão. Ninguém parecia lhe prestar atenção. Assim que Jaime desapareceu, Megan levantou-se e começou a se retirar. Houve um clamor da multidão, e ela virou a cabeça para olhar a arena. Um jovem matador estava caído no chão, sendo escornado pelo touro selvagem. O sangue espalhou-se pela areia. Megan fechou os olhos e ofereceu uma prece silenciosa: Oh, abençoado Jesus, tenha misericórdia desse homem. Ele não morrerá, haverá de viver. O Senhor puniu-o severamente, mas não o entregou à morte. Amém. Ela abriu os olhos, virou-se e afastou-se apressada.

Jaime, Amparo e Felix esperavam-na na entrada.

- Vamos logo - disse Jaime.

Começaram a andar.

- Qual é o problema? - perguntou Felix a Jaime.

- Os soldados fuzilaram Tomás - respondeu Jaime, muito tenso. - Ele está morto. E a polícia está com Rubio. Ele foi esfaqueado numa briga de bar.

Megan fez o sinal-da-cruz.

- O que aconteceu com irmã Teresa e irmã Lucia? - perguntou, ansiosa.

- Não sei sobre a irmã Teresa. Irmã Lucia também foi detida pela polícia. - Jaime virou-se para os outros. - Temos de nos apressar. - Consultou o relógio. - O banco deve estar cheio.

- Jaime, talvez seja melhor esperar - sugeriu Felix.

- Será perigoso apenas nós dois assaltarmos o banco.

Megan escutou o que ele estava dizendo e pensou: Isso não vai detê-lo. E acertou.

Os três se encaminharam para o vasto estacionamento por trás da praça de touros.

Quando Megan alcançou-os, Felix examinava um sedã azul.

- Este deve servir - comentou ele.

Felix mexeu na fechadura por um momento, abriu a porta e enfiou a cabeça dentro. Um momento depois o motor pegou.

- Entrem – disse Jaime.

Megan ficou parada, indecisa.

- Estão roubando um carro?

- Pelo amor de Deus! - sibilou Amparo. - Pare de se comportar como uma freira e entre logo!

Os dois homens sentaram-se no banco da frente, com Jaime ao volante. Amparo entrou atrás.

- Você vem ou não? - indagou Jaime.

Megan respirou fundo e entrou no carro, ao lado de Amparo. Partiram. Ela fechou os olhos. Querido Senhor, para onde estás me levando?

- Se isso a faz sentir-se melhor, irmã - disse Jaime -, não estamos roubando este carro. Apenas o confiscamos, em nome do exército basco.

Megan começou a dizer algumas palavras, mas se conteve. Nada que argumentasse iria fazê-lo mudar de ideia. Ficou em silêncio, enquanto Jaime guiava para o centro da cidade. Ele vai assaltar um banco, e aos olhos de Deus sou igualmente culpada, pensou Megan. Fez o sinal-da-cruz e em silêncio começou a rezar.

 

O Banco de Bilbao fica no andar térreo de um prédio de apartamentos de nove andares, na Calle de Cervantes, junto da Plaza de Circular.

Quando o carro parou na frente do prédio, Jaime disse a Felix:

- Mantenha o motor ligado. Se surgir algum problema, saia daqui e vá se encontrar com os outros em Logroño.

Felix ficou aturdido.

- Mas do que está falando? Não pretende entrar aí sozinho, não é mesmo? Não pode. O

risco é grande demais, Jaime. Seria muito perigoso.

Jaime deu um tapinha em seu ombro.

- Se saem machucados, então saem machucados - disse ele com um sorriso estampado.

Jaime saiu do carro e os outros observavam-no encaminhar-se para uma loja de artigos de couro várias portas além do banco. Poucos minutos depois ele reapareceu com uma pasta de executivo. Acenou com a cabeça para o grupo no carro e entrou no banco.

Megan mal conseguia respirar. Começou a rezar.

 

     Oração é um chamado

   Oração é uma escuta

   Oração é uma morada

   Oração é uma presença

   Oração é uma lamparina acesa com Jesus

 

Estou calma e cheia de paz. Ela não estava calma nem cheia de paz.

Jaime Miró cruzou as duas portas que levavam ao saguão de mármore do banco. Logo depois da entrada, ele notou uma câmara de segurança, no alto da parede. Lançou-lhe um olhar casual e depois examinou o local. Por trás dos balcões, uma escada levava ao segundo andar, onde funcionários trabalhavam em escrivaninhas. Estava quase na hora de fechar, e o banco encontrava-se repleto de clientes ansiosos em sair logo dali. Havia filas na frente dos três caixas, e Jaime constatou que diversos clientes carregavam pacotes. Entrou numa fila e esperou pacientemente que chegasse sua vez. Ao se postar diante do guichê, sorriu para o caixa e disse:

- Buenas tardes.

- Buenas tardes, senhor. O que deseja?

Jaime inclinou-se para o guichê, tirou do bolso o cartaz dobrado. Entregou ao caixa.

- Quer dar uma olhada nisso, por favor?

O caixa sorriu.

- Pois não, senhor.

Ele desdobrou o cartaz, viu o que era, seus olhos se arregalaram. Fitou Jaime, o pânico estampado nos olhos.

- Não acha que está bem parecido? - murmurou Jaime. - Como está dito aí, já matei muitas pessoas. Portanto, mais uma não fará a menor diferença para mim. Estou sendo claro?

- Es... está sim, "senhor". Tenho família. Eu lhe suplico...

- Respeito famílias, e por isso vou lhe dizer o que quero que faça para poupar o pai de seus filhos. - Jaime empurrou a pasta de executivo para o caixa. - Quero que encha isso para mim. E depressa, discretamente. Se acredita sinceramente que o dinheiro é mais importante do que sua vida,