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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


AS COLINAS OCAS / Mary Stewart
AS COLINAS OCAS / Mary Stewart

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

AS COLINAS OCAS

 

Um menino nasceu,

Um rei do inverno.

Antes do negro mês

Ele nasceu,

E fugiu no mês sombrio

Para se abrigar

Com os pobres.

 

Ele virá,

Com a primavera,

 No verde mês

E no mês dourado.

E brilhante Será a chama

Da sua estrela.

 

A ESPERA

Uma cotovia cantava lá no alto. A luz brilhava de encontro às minhas pálpebras fechadas e, com ela, o canto, como um longínquo dançar de águas. Abri os olhos. Sobre mim o céu, com o seu cantor invisível perdido na luz e no azul de um dia de primavera. Por toda parte havia um cheiro doce de nozes, que me lembrava ouro, e luz de velas e jovens amantes. Algo que não cheirava tão bem mexeu-se ao meu lado e uma voz jovem e áspera falou:

— Senhor?

Virei a cabeça. Estava deitado na relva, num buraco entre as moitas de tojo. As moitas estavam em flor, eram chamas douradas e cheirosas ao sol da primavera. Ao meu lado, ajoelhava-se um menino. Teria uns doze anos, estava sujo, com o cabelo emara­nhado, e vestia uma roupa grosseira e marrom; sua capa, feita de peles mal costuradas, apresentava uma dúzia de rasgões. Tinha um bastão numa das mãos. Mesmo sem o cheiro que dele emanava, eu saberia a sua ocupação, pois à nossa volta as suas cabras pastavam entre as moitas de tojo, podando os brotinhos verdes.

Quando me movi, ele se ergueu depressa e se afastou um pouco, espiando, meio desconfiado e meio esperançoso, por entre a cabelei­ra imunda. Quer dizer que ainda não me roubara. Olhei o bastão pesado que segurava, imaginando, vagamente, por entre as névoas de dor, se conseguiria me defender, mesmo desse jovem. Mas, apa­rentemente, ele apenas esperava uma recompensa. Apontava para algo além das moitas.

— Peguei o cavalo para o senhor. Está amarrado ali. Pensei que estivesse morto.

Ergui-me sobre um cotovelo. À minha volta, o dia rodava e me atordoava. As flores de tojo fumegavam como incenso ao sol. A dor se espraiava, vagarosamente, e, com ela, na mesma onda, a lem­brança.

— O senhor está muito machucado?

— Nada de importante, a não ser minha mão. Daqui a pouco estarei bem. Diz que pegou o meu cavalo. Você me viu cair?

— Vi. Eu estava logo ali. — Apontou de novo. Para além das moitas de flores amarelas, a terra se erguia, lisa e nua, até uma elevação cortada de rochas cinzentas cobertas de plantinhas. Por trás da elevação, o céu tinha aquele ar de distância vazia e sem limite que indica a presença do mar. — Vi o senhor vir cavalgando deva­gar pelo vale, vindo da praia. Dava para ver que estava doente ou, talvez, dormindo em cima do cavalo. Aí ele falseou o pé, decerto numa toca de coelho, e o senhor caiu. Não faz muito tempo. Acabei de chegar.

Parou de falar, de boca aberta. Vi o choque no seu rosto. En­quanto estivera falando, eu estava me levantando, apoiado no braço esquerdo, até poder me sentar e, cuidadosamente, colocar a mão direita ferida no colo. Ela estava uma massa inchada coberta de sangue coagulado, através do qual o sangue fresco ainda escorria. Creio que caí sobre ela quando o cavalo tropeçou. Foi uma bênção eu ter desmaiado. A dor crescia agora, onda sobre onda, como a maré sobre o cascalho, mas a fraqueza tinha passado e a minha cabeça, embora ainda doesse, estava desanuviada.

— Santa Mãe! — O menino parecia nauseado. — Não ficou assim só de cair do cavalo, ficou?

— Não. Foi uma luta.

— Mas não tem espada.

— Eu a perdi. Não faz mal. Tenho o meu punhal e uma mão para usá-lo. Não, não tenho medo. A luta já acabou. Ninguém vai machucá-lo. Ajude-me a montar no cavalo e já vou-me embora.

Ele me deu o braço e fiquei de pé. Estávamos na orla de uma elevação alta e verde, incrustada de tojo, com árvores esparsas aqui e ali, rijas e solitárias, e que tomavam formas estranhas ao sabor do vento constante e salgado. Para além das moitas onde eu estivera caído, o terreno tomava uma inclinação íngreme, sulcada com os rastros de ovelhas e cabras. Formava um dos lados de um vale estreito e serpenteante, ao pé do qual um regato deslizava no seu leito rochoso. Não conseguia ver o que havia ao pé do vale, mas, a cerca de uma milha, para além do horizonte de grama de inverno, ficava o mar. Pela altura do local onde me encontrava, podia-se imaginar os grandes penhascos que desciam até a praia, e para além da orla do terreno, pequenos na distância, os contornos de torres se destacavam.

O castelo de Tintagel, a cidadela dos Duques de Cornwall. A inexpugnável fortaleza, que só era vencida por trapaça, ou por traição vinda de dentro. Na noite passada eu usara ambas.

Senti um arrepio. Na noite passada, na escuridão da tormenta, este fora um lugar de deuses e destino, de poder visando um fim que eu entrevia, de tempos em tempos. E eu, Merlin, filho de Ambrósio, a quem os homens temiam como profeta e visionário, não fora mais que um instrumento dos deuses no labor daquela noite.

Era para isto que me fora dado o dom da Visão e o poder que os homens achavam mágico. Desta fortaleza remota e isolada, sur­giria o Rei que livraria a Inglaterra dos seus inimigos e lhe daria tempo de encontrar-se a si mesma; só ele, na esteira de Ambrósio, o último dos romanos, deteria as ondas do Terror Saxão e, ao menos por algum tempo, conservaria unida a Inglaterra. Isto eu vira nas estrelas, ouvira no vento; os meus deuses me disseram que eu faria isto acontecer, para isto tinha nascido. Pois bem, se é que podia confiar nos meus deuses, a criança prometida já estava gerada; mas por sua causa, por minha causa, quatro homens tinham morrido. Na noite fustigada pela tormenta e dominada pela estrela-dragão, a morte parecia lugar-comum, e os deuses esperavam, visíveis, em cada esquina. Mas agora, na manhã tranqüila após a tormenta, o que havia para se ver? Um jovem com a mão ferida, um Rei com a sua luxúria apaziguada e uma mulher cuja penitência apenas começava. E, para todos nós, a hora de recordar os mortos.

 

O menino trouxe o cavalo. Ele me olhava curiosamente, a des­confiança de volta ao seu rosto.

— Há quanto tempo está aqui com as cabras? — perguntei.

— Um alvorecer e um alvorecer.

— Viu ou ouviu algo ontem à noite?

A desconfiança transformou-se em medo. Suas pálpebras des­ceram e ele olhou fixamente para o chão. A sua fisionomia ficou fechada e inexpressiva.

— Já esqueci, meu senhor.

Apoiei-me no cavalo, encarando-o. Vezes sem conta deparara com este ar estúpido, este resmungo seco e inexpressivo; é a única armadura ao alcance dos pobres. Falei suavemente:

— O que quer que tenha acontecido ontem à noite, é algo que eu quero que você se lembre, não que se esqueça. Ninguém lhe fará mal. Diga-me o que viu.

Ele me olhou por talvez mais uns dez segundos de silêncio. Eu não podia adivinhar o que estava pensando. O que via certa­mente não era alentador: um moço alto com uma das mãos esmagada e ensangüentada, sem capa, as roupas manchadas e rasgadas, o rosto (eu não tinha dúvidas) cinzento de cansaço e de dor e da borra amarga do triunfo da véspera. Mesmo assim o rapaz anuiu, de re­pente, e começou a falar:

— Ontem à noite, na escuridão, ouvi cavalos passando por mim. Quatro, acho eu. Mas não vi ninguém. Depois, de madruga­da, mais dois a segui-los, a galope. Pensei que iam todos para o castelo, mas de onde estava, lá em cima nas rochas, não vi tochas na casa da guarda do topo do penhasco, nem na ponte que dá para o portão principal. Eles devem é ter descido para o vale. Depois que clareou o dia, vi dois cavaleiros vindo de lá, da praia abaixo do castelo na rocha. — Ele hesitou. — E depois o senhor.

Falei lentamente, prendendo-o com o olhar:

— Ouça e lhe direi quem eram os dois cavaleiros. Ontem à noite, na escuridão, o Rei Uther Pendragon veio por este caminho, comigo e com mais dois outros. Ele dirigiu-se a Tintagel, mas não pelo caminho da casa da guarda e da ponte. Desceu ao vale, à praia, e depois subiu pelo atalho secreto na rocha e entrou no castelo pelo portão traseiro. Por que balança a cabeça? Não acredita?

— Senhor, todo mundo sabe que o Rei brigou com o Duque. Ninguém poderia entrar, muito menos o Rei. Mesmo que encontras­se a porta traseira, ninguém ousaria abri-la para ele.

— Eles a abriram ontem à noite. Foi a própria Duquesa Ygraine quem recebeu o Rei em Tintagel.

— Mas. . .

— Espere — falei. — Vou contar-lhe como tudo aconteceu. O Rei foi transformado por artes mágicas num sósia do Duque, e os seus companheiros em sósias dos amigos do Duque. Quem os deixou entrar no castelo, pensou estar introduzindo o próprio Duque Gorlois com Brithael e Jordan.

Sob a sujeira do seu rosto, o menino empalideceu. Eu sabia que para ele, como para a maioria dos habitantes deste país selvagem e perseguido, as histórias de mágicas e encantamento seriam tão bem aceitas quanto as de amores reais e violência nas altas camadas. Ele gaguejou:

— O Rei... o Rei esteve no castelo ontem à noite com a Duquesa?

— Esteve. E a criança que nascerá será filha do Rei. Uma pausa longa. Ele umedeceu os lábios.

— Mas... mas quando o Duque descobrir...

— Não descobrirá — disse eu. — Está morto.

Ele levou a mão imunda à boca, o punho cerrado contra os dentes. Seu olhar correu da minha mão ferida às manchas de san­gue na minha roupa, destas à bainha sem espada. Parecia querer fugir, mas não ousou sequer. Falou, sem fôlego:

— O senhor o matou? Matou o nosso Duque?

— É claro que não. Nem eu nem o Rei desejávamos a sua morte. Ele foi morto em batalha. Ontem à noite, sem saber que o Rei já viajava secretamente para Tintagel, o Duque saiu da forta­leza de Dimilioc para atacar o exército do Rei e foi morto.

Ele mal parecia ouvir. Gaguejava:

— Mas os dois que eu vi hoje de manhã... Era o Duque, voltando de Tintagel. Eu o vi. O senhor acha que não o conheço? Era mesmo o Duque com seu criado Jordan.

— Não. Era o Rei com seu criado Ulfin. Eu lhe contei que o Rei ficara igual ao Duque. A mágica enganou você também.

Ele começou a se afastar de mim.

— Como é que sabe estas coisas? O senhor. . . o senhor disse que estava com eles? Esta mágica... quem é o senhor?

— Eu sou Merlin, o sobrinho do Rei. Chamam-me Merlin, o feiticeiro.

Ainda recuando, ele parará contra uma parede de tojo. Olhou para um e outro lado, tentando decidir para onde ir. Estendi-lhe a mão.

— Não tenha medo. Não lhe farei mal. Tome, pegue isto. Pe­gue, nenhum homem sensato tem medo de outro. Digamos que é uma recompensa por pegar o meu cavalo. Agora, me ajude a mon­tá-lo e eu vou-me embora.

Ele fez um semi-movimento na minha direção, pronto para pegar e fugir, mas conteve-se e virou a cabeça, rápido como um animal selvagem. Notei que as cabras já não pastavam, e olhavam para o leste, orelhas em pé. Então, ouvi o barulho de cavalos.

Tomei as rédeas do meu animal com a mão sadia, e procurei o garoto para me ajudar. Mas ele já corria, batendo nas moitas para espantar as cabras à sua frente. Chamei por ele e, quando olhou por sobre o ombro, atirei-lhe o ouro. Ele o apanhou e correu declive acima, as cabras fugindo à sua volta.

A dor me atingiu de novo, triturando-me os ossos da mão. As costelas quebradas me espetavam e queimavam os flancos. Senti o suor porejar no corpo e, à minha volta, o dia de primavera tremulou e desfez-se em névoa de novo. O barulho dos cascos que se acer­cavam parecia martelar junto com a dor nos meus ossos. Encostei-me à sela do meu cavalo e esperei.

Era o Rei cavalgando novamente para Tintagel, desta vez em direção ao portão principal, à luz do dia e com uma companhia de homens seus. Vinham a meio galope pela estrada gramada de Dimilioc, em grupos de quatro, cavalgando descontraídos. Por sobre a cabeça de Uther, o estandarte do Dragão tremulava vermelho e dou­rado à luz do sol. O Rei era o Rei novamente, já não tinha o cabelo e a barba grisalhos, como no disfarce, e a argola real brilhava no seu elmo. Sua capa escarlate caía por sobre as ancas lustrosas do baio. Sua fisionomia era calma, fixa; um ar sombrio, cansado, mas, apesar de tudo, satisfeito. Pois ia para Tintagel, e Tintagel, com tudo que nele havia, agora lhe pertencia. Para ele, isto era um final.

Encostado ao meu cavalo, eu os via chegar.

Era impossível para Uther não me ver, mas nem olhou na minha direção. Notei os olhares curiosos da tropa, que me reconhecia. Não havia um que não suspeitasse do que acontecera na véspera em Tintagel, e do papel que eu desempenhara na realização dos desejos do Rei. Talvez as almas mais simplórias do séqüito do Rei esperas­sem que ele fosse grato; que me recompensasse; ou, ao menos, que me reconhecesse e cumprimentasse. Mas eu, que lidara com reis a vida toda, sabia que, quando há culpa e gratidão juntas, a culpa deve ser distribuída em primeiro lugar, para que nem um pouco dela possa aderir ao próprio Rei. O Rei Uther somente entendia que, graças às falhas da minha previsão, o Duque de Cornwall morrera na hora em que ele, Rei, estava na cama com a Duquesa. Ele não via a morte do Duque como a ironia amarga por trás da máscara sorridente que os deuses usam quando querem dominar os homens. Uther, que não entendia de deuses, via apenas que, se tivesse espe­rado mais um dia, teria obtido o que queria, com honra e às claras. A sua ira contra mim era bem genuína, mas, mesmo que não o fosse, ele precisava ter alguém para culpar; não importa o que real­mente sentisse a respeito da morte do Duque (e, para ele, ela fora uma porta aberta milagrosamente para o seu casamento com Ygraine), em público precisava demonstrar remorso. E eu era o sacrifí­cio público a este remorso.

Um dos oficiais, Caio Valério, que ia ombro a ombro com o Rei, inclinou-se e disse algo, mas Uther fingiu não ouvir. Valéria olhou-me com ar de dúvida, depois, com um dar de ombros e um meio aceno para mim, seguiu seu caminho. Eu os vi seguir, sem nenhuma surpresa.

O ruído dos cascos foi diminuindo estrada abaixo, em direção ao mar- Sobre a minha cabeça, entre uma e outra batida de asas, o canto da cotovia cessou, e ela desceu do silêncio brilhante para descansar na grama.

Não muito longe uma pedra sobressaía na relva. Levei o cavalo até lá e, de cima da pedra, consegui alcançar a sela. Guiei o animal para noroeste, para Dimilioc, onde se encontrava o exército do Rei.

 

Os lapsos de memória podem ser uma bênção. Não me lembro de ter chegado ao acampamento, mas, quando aflorei das névoas da fadiga e da dor, horas mais tarde, estava dentro de casa e na cama.

Quando acordei, estava escuro e havia uma luz suave e bruxuleante que podia ser luz de fogo ou de velas; era uma luz incerta, com cores e sombras, entremeada do cheiro de fumaça e, lá de longe, do som do pingar de água. Mas, até o estado de consciência assim suave e aconchegante foi demais para os meus sentidos e logo fechei os olhos e me deixei submergir de novo. Creio que, durante algum tempo, acreditei estar novamente no limiar do outro mundo, onde as visões se agitam e as vozes falam da escuridão, e a verdade se revela com a luz e o fogo. Mas, logo meus músculos pisados e doloridos e a minha mão que doía terrivelmente me fizeram ver que ainda estava neste mundo e que as vozes que murmuravam sobre mim, na escuridão, eram tão humanas quanto eu.

— Bem, por agora é só. As costelas são o pior, depois da mão, mas logo vão sarar. Estão só rachadas.

Tive a vaga impressão de que conhecia aquela voz. Pelo menos o que ele era eu sabia: manuseava os meus curativos de maneira hábil e firme, como um profissional. Tentei novamente abrir os olhos, mas as pálpebras pesavam e se grudavam, pegajosas de suor e sangue seco. O calor me subia em ondas, me pesavam os mem­bros. Sentia um cheiro doce e pesado; devem ter-me dado ópio, pen­sei, ou me entontecido com fumaça, antes de cuidarem da minha mão. Desisti e me deixei flutuar de novo; por sobre as águas escuras as vozes ecoavam, suaves.

— Pare de ficar olhando para ele e traga a bacia mais para perto. Não tenha medo, ele não é perigoso do jeito que está. — Era o doutor, de novo.

— Sei lá, a gente ouve tanta coisa! — Falavam em latim, mas com sotaques diferentes. A segunda voz era estrangeira; não germâ­nica, nem de lugar algum do Mar do Meio. Sempre fui bom em lín­guas, e, mesmo em criança, falava vários dialetos celtas, juntamente com o saxão e com um grego razoável. Mas este sotaque eu não conseguia identificar. Ásia menor? Arábia?

Os dedos hábeis viraram a minha cabeça no travesseiro, sua­vemente, e repartiram meu cabelo para limpar os ferimentos.

— Você nunca o tinha visto antes?

— Nunca. Não o imaginava tão jovem.

— Não é tão jovem. Deve ter uns vinte e dois anos.

— E já ter feito tanto! Dizem que seu pai, o Grande Rei Ambrósio, não deu um passo nestes últimos dois anos sem consultá-lo. Dizem que vê o futuro na chama de uma vela e que pode ganhar uma batalha de uma colina a uma milha de distância.

— Diriam qualquer coisa dele. — A voz do doutor era calma e prosaica. Na Bretanha, pensei, devo tê-lo conhecido na Bretanha. O latim macio tinha um reflexo do qual eu me recordava, sem saber como. — Mas, na verdade, Ambrósio dava muito valor aos seus conselhos.

— É verdade que ele reconstruiu a Dança dos Gigantes, a que dão o nome de Pedras Suspensas, próximo a Amesbury?

— É, é verdade. Quando era rapaz e servia com o exército do pai na Bretanha, ele estudou engenharia. Lembro-me dele conver­sando com Tremorinus, que era o engenheiro-chefe do exército, so­bre o levantamento das Pedras Suspensas. Mas não foi só isto que estudou. Mesmo quando bem jovem, entendia mais de medicina do que a maioria dos homens que vivem dela. Não conheço outro melhor para ter como ajudante num hospital de campanha. Só Deus sabe por que prefere ficar naquele fim de mundo em Gales. Talvez por­que ele e o Rei Uther nunca se tenham dado bem. Dizem que Uther tinha ciúmes da atenção que o Rei, seu irmão, dispensava a Merlin. De qualquer modo, depois que Ambrósio morreu, ninguém mais soube de Merlin, até esta história do Uther com a Duquesa de Gorlois, que pelo que vejo, já lhe deu bastante aborrecimento. . . Traga a bacia mais para perto enquanto eu limpo o rosto dele. Não, aqui. Está bom.

— Está me parecendo corte de espada.

— Diria que foi um raspão com a ponta. Com todo esse san­gue, parece pior do que na realidade é. Ele até que teve sorte. Mais uns centímetros e teria pegado na vista. Pronto. Já está bem limpo.

Nem ficará cicatriz.

— Ele está bem ruim, Gandar. Será que ficará bom?

— É claro. E como não? — Mesmo sob o efeito do sedativo, eu senti ser genuína a sua resposta, rápida e profissional. — Além das costelas e da mão, só tem cortes e pisaduras, e também uma boa reação ao que o tem atormentado nestes últimos dias. Agora ele precisa dormir. Passe-me aquela pomada ali, por favor. O vidro verde.

A pomada refrescou a minha face cortada. Ela tinha cheiro de valeriana. Nardo, no vidro verde... Eu fazia em casa. Valeriana, erva-cidreira, óleo de espicanardo... O cheiro me levou de volta ao musgo da beira do rio, onde a água corria brilhante e eu colhia o fresco agrião, a balsâmina, e o musgo dourado...

Não, era o barulho da água do outro lado do aposento. Ele tinha terminado e fora lavar as mãos. As vozes vinham agora de mais longe.

— O bastardo de Ambrósio, hem? — O estrangeiro ainda estava curioso. — E quem foi a sua mãe?

— Ela era a filha de um rei, do sul de Gales, de Maridunum em Dyfed. Dizem que ele herdou dela a Visão. Mas não a aparên­cia. E!e é a cara do falecido Rei, mais ainda que Uther. O mesmo colorido, os olhos negros e aquele cabelo escuro. Eu me lembro da primeira vez que o vi na Bretanha, quando ainda era um meni­no; parecia-se com algo das colinas ocas. E falava assim, também, às vezes; isto é, quando falava. Não se deixe enganar pelo seu jeito quieto; nele há mais do que apenas estudo, e sorte, e noção de opor­tunidade; há poder, e bem real.

— Então as histórias são verdadeiras?

— As histórias são verdadeiras — disse Gandar secamente. — Pronto. Já terminei. Não há necessidade de ficar com ele. Vá dor­mir. Eu vou olhar os outros pacientes e depois virei vê-lo mais uma vez antes de ir dormir. Boa noite.

As vozes esmaeceram. Outras iam e vinham na escuridão, mas eram vozes sem sangue, pertenciam ao ar. Talvez eu devesse esperar e acordar para ouvir, mas me faltou coragem. Enrolei-me no sono como num cobertor, abafando a dor e o pensamento juntos numa escuridão misericordiosa.

 

Quando abri novamente os olhos, a escuridão estava iluminada por uma suave luz de velas. Estava num quarto pequeno, com um telhado de pedra e com paredes cuja pintura, outrora viva, fora escurecida e descascada pela umidade e falta de cuidado. Mas o quarto era limpo. O chão de ardósia estava bem esfregado e as cobertas que me esquentavam eram grossas e cheiravam bem, e tinham um bonito padrão.

A porta se abriu e um homem entrou. A princípio, como ele estava contra a luz, apenas vi uma figura de estatura média, encor­pada e de ombros largos, vestindo uma túnica longa e simples e com um gorro na cabeça. Depois ele entrou na luz e eu reconheci Gandar, o médico-chefe que viajava com os exércitos do Rei. Ficou ao pé de mim, e sorriu.

— E já não era sem tempo!

— Gandar! Que bom vê-lo! Quanto tempo eu dormi?

— Desde o anoitecer de ontem, e já passa de meia-noite. Era do que estava precisando. Você estava bem ruim quando o trouxe­ram. Mas o fato de estar inconsciente facilitou muito o meu tra­balho.

Olhei para a minha mão, envolta em ataduras, sobre a coberta. Meu corpo enfaixado estava rígido e dolorido, mas a dor aguda era agora um latejar surdo. Minha boca inchada ainda sentia o gosto do sangue misturado à droga, mas eu já não tinha dor de cabeça e o corte no rosto parará de doer.

— Felizmente você estava aqui para me tratar — falei. Movi a mão para ter um pouco de alívio, mas não deu resultado. — Vai consertar?

— Com a ajuda da juventude e de carne sadia, vai sim. Havia três ossos quebrados, mas acho que está tudo limpo. — Olhou-me com curiosidade. — Como foi que aconteceu? Parecia que um ca­valo tinha pisado em você, e, depois, lhe chutara as costelas. Mas o corte no rosto foi feito por espada, certo?

— Certo. Estive numa luta. Ele ergueu as sobrancelhas.

— Se foi numa luta, ela teve regras que desconheço. Conte-me... espere, ainda não. Estou louco para saber o que houve, todos estamos, mas você precisa se alimentar primeiro. — Ele foi até a porta e chamou, e logo um criado trouxe uma tigela de caldo e um pouco de pão. A princípio não pude comer o pão, mas depois, molhando-o no caldo, consegui. Gandar puxou um banquinho para perto da cama, e esperou em silêncio até que eu tivesse terminado. Quando afastei a tigela, ele tirou-a de mim e colocou-a no chão.

— Sente-se agora com disposição para falar? Os rumores voam como dardos. Sabia que Gorlois está morto?

— Sabia. — Olhei à minha volta. — Estou mesmo em Dimilioc? O forte se rendeu, depois da morte do Duque?

— Eles abriram os portões tão logo o Rei voltou de Tintagel. Ele já tinha tido notícias da escaramuça e da morte do Duque. Parece que Brithael e Jordan, servos do Duque, foram para Tintagel tão logo o Duque caiu, para levar a notícia à Duquesa. Mas isso você sabe; você estava presente. — Parou, ao perceber as implica­ções. — Então foi isso! Você e Uther encontraram-se com Brithael e Jordan.

— Uther, não. Ele ainda estava com a Duquesa, eles nem o viram. Eu estava de guarda às portas com meu criado Cadal. Lem­bra-se dele? Cadal matou Jordan e eu matei Brithael. — Dei um sorriso amargo com os meus lábios rígidos. — É, pode me olhar assim. Ele era bem maior do que eu, como você pode ver, e por isso não lutei limpo.

— E Cadal?

— Morto. De que outro modo Brithael chegaria até mim?

— Sei. — Seu olhar fez novamente o inventário dos meus fe­rimentos. Quando falou, fê-lo secamente: — Quatro homens. Com você, cinco. Esperemos que o Rei ache que valeu o preço.

— Ele acha — eu disse. — Ou logo achará.

— Ah, sim, todos sabem disso. Dêem-lhe somente tempo de dizer ao mundo que ele é inocente da morte de Gorlois, e de enter­rá-lo com honras, para que se possa casar com a Duquesa. Ele já voltou para Tintagel, sabia? Deve ter passado por você na estrada.

— Passou — falei secamente. — A alguns metros.

— E não o viu? Ora, ele devia saber que você estava ferido. — Afinal ele entendeu o meu tom de voz. — Você quer dizer que ele o viu deste jeito e o deixou vir até aqui sozinho?

Vi que ele estava chocado, e não surpreso. Gandar e eu éramos velhos conhecidos, e ele sabia qual era o meu relacionamento com Uther, embora ele fosse irmão do meu pai. Desde o começo, Uther se ressentira com o amor do irmão pelo filho bastardo e meio te­mera, meio desprezara os meus poderes de visão e profecia. Ele falou, inflamado: — Mas foi tudo feito a serviço dele...

— Não, dele não. O que fiz, fiz cumprindo uma promessa feita a Ambrósio. Foi um legado que ele me deixou, para o seu reino.

Parei por aí. Não se falava com Gandar de deuses e visões. Ele, como Uther, lidava com as coisas da matéria.

— Diga-me, — pedi — esses rumores que você mencionou. Quais são? O que é que se pensa que aconteceu em Tintagel?

Ele deu uma olhadela por sobre o ombro. A porta estava fe­chada, mas baixou a voz.

— Fala-se que Uther já estivera em Tintagel com a Duquesa Ygraine, e que foi você quem o levou lá e deu um jeito para que ele entrasse. Dizem que você fez uma mágica que transformou o Rei num sósia do Duque para que ele pudesse passar pelos guardas e entrar no quarto de dormir da Duquesa. Ainda mais: a pobre senhora recebeu-o na cama pensando estar recebendo o marido. E que, quando Brithael e Jordan foram levar-lhe a notícia da morte de Gorlois, lá estava "Gorlois" tomando o café da manhã com ela. Pela Serpente, Merlin, do que você está rindo?

— Dois dias e duas noites — respondi — e a história já au­mentou. Bem, acho que é nisso que os homens vão acreditar e con­tinuarão acreditando. O que talvez seja melhor que a verdade.

— E qual é a verdade, então?

— Não houve mágica na nossa entrada em Tintagel, apenas disfarce e perfídia humana.

Contei-lhe tudo, então, exatamente como tinha acontecido, jun­tamente com o que eu tinha inventado para o pastor.

— Como vê, Gandar, fui eu mesmo que plantei esta semente. Os nobres e os conselheiros do Rei precisam conhecer a verdade, mas o povo achará melhor (e mais fácil) acreditar em mágicas e numa Duquesa sem culpa.

Ele ficou em silêncio durante algum tempo.

— Então a Duquesa sabia.

— Senão nós não teríamos entrado. Que não se diga, Gandar, que houve estupro. Não, a Duquesa sabia.

Ele silenciou de novo, por mais tempo. Depois disse, pesada­mente:

— Perfídia é uma palavra dura.

— É a verdadeira. O Duque foi amigo de meu pai, e confiava em mim. Nunca lhe ocorreria que eu ajudasse Uther contra ele. Sabia que eu pouco ligava para os desejos sexuais de Uther. Não podia adivinhar que os meus deuses exigiam que eu ajudasse Uther a sa­tisfazer este. Embora tivesse que fazê-lo, ainda assim foi perfídia, e nós sofreremos por isto, todos nós.

— Não o Rei. — Ele falou com segurança. — Eu o conheço. Talvez sinta apenas uma culpa passageira. Você, sim, é quem está sofrendo, Merlin, e é você quem dá à coisa o seu devido nome.

— Para você — falei. — Para os outros homens, está será uma história de magia, como os dragões que lutaram sob o meu co­mando com Dinas Emrys, e a Dança dos Gigantes, que flutuou no ar sobre a água até Amesbury. Mas você viu como Merlin, o mago do Rei, se saiu naquela noite. — Fiz uma pausa e movi a mão sobre a coberta, mas fiz que não com a cabeça à pergunta estampada em seu rosto. — Não, não, pode deixar. Já está melhor. Gandar, é pre­ciso que se saiba outra verdade sobre aquela noite. Vai haver uma criança. Encare como esperança ou como profecia, mas você verá que, pelo Natal, nascerá um menino. Ele já disse quando vai casar com ela?

— Tão logo seja decente. Decente! — Repetiu a palavra com uma risada curta, depois limpou a garganta. — O corpo do Duque está aqui, mas dentro de um ou dois dias, vão levá-lo para Tinta­gel para o enterro. Então, depois de oito dias de luto, Uther se casará com a Duquesa.

Pensei durante um momento.

— Gorlois tem um filho da primeira mulher chamado Cador. Deve ter uns quinze anos. Já se sabe o que vai ser dele?

— Ele está aqui. Lutou ao lado do pai. Ninguém sabe o que se passou entre ele e o Rei, mas o Rei anistiou todas as tropas que lutaram contra ele no combate de Dimilioc, além de confirmar Cador como Duque de Cornwall.

— É — falei. — E o filho de Ygraine e Uther será Rei.

— Com Cornwall como inimigo ferrenho?

— E se for — retruquei, cansado — quem poderá culpá-lo? O pagamento talvez seja longo demais, e pesado demais, .até mesmo' para a perfídia.

— Bem, — disse Gandar vivamente, ajeitando a túnica — o tempo dirá. E agora, meu jovem, você vai descansar mais um pouco. Quer uma bebida?

— Não, obrigado.

— Como está a mão?

— Melhor. Não há veneno nela; eu conheço quando há. Não lhe darei mais trabalho, Gandar; pare de me tratar como doente. Já estou bem, agora que dormi. Vá você para a cama e me esqueça. Boa noite.

Quando ele se foi, eu fiquei deitado escutando o barulho do mar e tentando conseguir, com os deuses na escuridão, a coragem necessária para a minha visita aos mortos.

 

Com ou sem coragem, outro dia se passou até que eu tivesse forças para deixar o quarto. Então, ao anoitecer, fui ao grande átrio onde estava o corpo do Duque. No dia seguinte, ele seria le­vado para Tintagel para ser enterrado com os seus ancestrais. Agora estava só, à exceção dos guardas, no mesmo lugar onde festejava os seus pares e onde dera as ordens para a sua última batalha.

O lugar era frio e só se ouvia os ruídos do vento e do mar. O vento tinha mudado e soprava do noroeste, trazendo a friagem e a promessa de chuva. As janelas não tinham vidros e a corrente de ar agitava as tochas nas suas armações de ferro, fazendo com que a fumaça enegrecesse as paredes. Era um lugar árido e sem conforto, sem pintura, azulejos ou madeira trabalhada; dava para se ver que Dimilioc era apenas a fortaleza de um guerreiro; acredito que Ygraine nunca tenha estado lá. As cinzas da lareira eram antigas, as achas semi-queimadas orvalhadas de umidade.

O corpo do Duque jazia num ataúde no centro do átrio, co­berto pela sua capa de guerra. Era escarlate, com uma barra du­pla de prata e com o emblema do Javali, como eu já vira em bata­lha, ao lado do meu pai. Eu a vira também com Uther quando eu o levava, disfarçado, para a casa e a cama de Gorlois. Agora as dobras pesadas caíam até o chão, e debaixo delas o corpo encolhera e achatara, uma simples casca daquele homem alto que eu conhece­ra. Tinham deixado o rosto descoberto. A carne afundara, cinzenta como sebo muito usado, deixando o rosto como um esqueleto mol­dado, parecendo apenas de longe com o Gorlois de que eu me recorda­va. As moedas sobre os seus olhos já tinham afundado na carne. O capacete de guerra lhe escondia o cabelo, mas a velha barba grisalha se destacava sobre o emblema do Javali no seu peito.

Enquanto me aproximava, pisando de leve sobre o chão de pedra, fiquei a me perguntar a qual deus Gorlois servira em vida e para qual teria ele ido na morte. Nada havia aqui que me indicasse. Os cristãos, como outros homens, colocavam moedas sobre os olhos. Recordei-me de outros leitos de morte e dos espíritos à espera à sua volta; aqui nada havia. Mas ele estava morto há três dias e talvez o seu espírito já tivesse escapado por aquele buraco na parede, por onde ventava tanto. Talvez já estivesse longe demais para que eu o pudesse alcançar e me reconciliar com ele.

Cheguei ao pé do seu ataúde, do homem a quem eu atraiçoara, do amigo do meu pai, Ambrósio, o Grande Rei. Lembrei-me da noite em que ele tinha vindo me pedir que ajudasse sua jovem es­posa, e de como ele me dissera:

— Não há muitos homens em quem eu confiaria nesta situa­ção, mas confio em você. Você é bem o filho do seu pai. — E de como eu nada dissera, apenas olhara a luz do fogo tornar seu rosto vermelho como sangue, e esperara a oportunidade de conduzir o Rei para o leito da sua mulher.

É um dom poder ver os espíritos e ouvir os deuses à nossa volta; mas é um dom tanto de trevas quanto de luz. Os contornos da morte são tão nítidos quanto os da vida. Não se pode ser visita­do pelo futuro, sem ser assombrado pelo passado; não se pode provar o conforto e a glória sem sentir o amargor e a fúria dos nossos feitos passados. O que quer que eu tenha pensado encontrar próximo ao cadáver do Duque de Cornwall, não me traria conforto nem paz. Um homem como Uther Pendragon, que matava abertamente em ba­talha e ao ar livre, pensaria nele apenas como um homem morto.

Mas eu, que ao obedecer os deuses confiara neles como o Duque confiara em mim, sabia que teria que pagar, e integralmente. E então eu viera, mas sem esperança.

Ali havia luz das tochas, luz e fogo. Eu era Merlin; eu deveria poder entrar em contato com ele; já falara com os mortos antes. Fiquei imóvel, olhando as tochas fulgurantes, e esperei.

Aos poucos, por todo o forte, os ruídos foram diminuindo e silenciando, enquanto os homens, finalmente, iam-se recolhendo. O mar sussurrava e batia sob a janela, o vento procurava arrancar as samambaias que cresciam nas reentrâncias do muro. Num canto qual­quer um rato guinchou e correu. A resina borbulhava nas tochas. Através da fumaça, eu sentia o cheiro doce e fétido da morte. A luz das tochas refletia-se pálida nas moedas sobre os olhos mortos.

O tempo se arrastava. Meus olhos doíam com a chama, e a dor, que me mordia a mão, me conservava prisioneiro do meu corpo. Meu espírito estava reduzido a nada, cego como os mortos. Eu ouvia sussurros, fragmentos de pensamentos dos guardas imóveis e sonolentos, tão sem sentido quanto o som da sua respiração, e o ranger de couro e o tinir do metal quando eles se mexiam, involuntaria­mente, de tempos em tempos. Mas, além disto, nada. O poder que eu possuíra aquela noite em Tintagel tinha-se escoado de mim jun­tamente com a força com que eu matara Brithael. Ele me abandona­ra e agora trabalhava num corpo de mulher; em Ygraine, que neste momento se deitava ao lado do Rei na sombria e castigada península de Tintagel, dez milhas ao sul. Eu nada podia fazer aqui. O ar, só­lido como pedra, não me deixava passar.

Um dos guardas, o mais próximo de mim, mexeu-se, inquieto, e a extremidade da sua lança raspou o chão de pedra. O som quebrou o silêncio. Olhei para ele, involuntariamente, e vi que me fitava.

Era jovem, rígido como a sua lança, as mãos crispadas nela. Os olhos azuis e ferozes me olhavam sem pestanejar sob espessas sobrancelhas. Com um choque que me percorreu como uma lança acertando, eu os reconheci. Os olhos de Gorlois. Era o filho de Gorlois, Cador de Cornwall, que estava entre mim e o morto, olhando-me fixamente, com ódio.

 

Pela manhã levaram o corpo de Gorlois para o sul. Logo que o enterrassem, Gandar me contou, Uther planejava voltar para Di­milioc para reunir-se às suas tropas até a hora em que pudesse casar com a Duquesa. Eu não tinha intenção de esperar pela sua volta.

Pedi provisões e o meu cavalo, e, apesar dos protestos de Gandar de que eu não estava ainda em condições de viajar, parti sozinho para o meu vale acima de Maridunum e para a minha gruta na colina, que o Rei prometera que, apesar de tudo, continuaria minha.

 

Ninguém estivera dentro da caverna na minha ausência. O que não era difícil de entender, pois o povo me temia como feiticeiro e, além do mais, todos sabiam que o próprio Rei tinha doado a colina Bryn Myrddin para mim. Desde que deixei a estrada principal junto ao moinho dágua e cavalguei vale acima para a caverna que era o meu lar, não vi ninguém, nem mesmo o pastor que costumava guar­dar o seu rebanho a pastar nos morros pedregosos.

Na região inferior do vale, os bosques eram densos; as folhas murchas dos carvalhos sussurravam, castanheiros e sicômoros dispu­tavam a luz, e, entre as faias, viam-se azevinhos pretos e brilhan­tes. Depois, as árvores rareavam e o atalho subia pelo lado do vale, com o riacho correndo lá embaixo, pela esquerda, e com elevações cobertas de grama cortada por cascalho pela direita, até atingir os penhascos que coroavam a colha. A grama ainda estava descolorida pelo inverno, mas, entre as samambaias desbotadas do ano passado, viam-se as folhas verdes das campainhas e os brotos do abrunheiro. Num canto qualquer, ovelhas baliam. Isto, e o grito de um bútio por sobre os penhascos, e o barulho das folhas mortas por cima das quais o meu cavalo exausto pisava eram os únicos sons do vale. Eu estava em casa, para o consolo da simplicidade e da quietude.

O povo não me tinha esquecido e deve ter-se espalhado a no­tícia de que eu era esperado. Quando desmontei no bosque de espinhos sob 0 penhasco, e fui guardar o meu cavalo no alpendre, encontrei ali samambaias frescas para ele se deitar e forragem num gancho próximo à porta; e quando subi ao pequeno gramado que havia em frente à minha gruta, encontrei queijo e pão fresco em­brulhados num pano limpo e um odre do vinho da região, fraco e ácido, que tinham sido deixados para mim perto da fonte.

Era uma fonte pequena, um fiozinho de água pura que saía de um buraco na rocha de um dos lados da gruta. A água descia, às vezes num fluir constante, às vezes em gotas deslizantes sobre o musgo, até uma bacia na pedra. Por cima da fonte, a estatuazinha do deus Myrddin, dos espaços alados do ar, ficava entre as samam­baias. Sob os seus pés rachados de madeira, a água borbulhava e pingava na bacia de pedra, e derramava-se na grama logo abaixo. No fundo da água clara, o brilho de metal; eu sabia que o vinho e o pão, tanto quanto as moedas arremessadas, tinham sido deixadas em oferenda tanto para o deus quanto para mim; nas mentes sim­ples do povo, eu já fazia parte da lenda da colina, o seu deus feito carne que ia e vinha mansamente como o ar e que trazia consigo o dom de curar.

Peguei a caneca de chifre que ficava sobre a fonte, enchi-a com o vinho do odre, derramei um pouco para o deus, e bebi o resto. O deus saberia se havia mais no meu gesto do que a homena­gem ritual. Eu estava cansado demais para pensar, ou para rezar; a bebida era para coragem, nada mais.

Do outro lado da entrada da gruta, oposto à fonte, havia um amontoado de pedras musgosas, onde rebentos de carvalho e tramazeira germinaram e cresciam emaranhados contra a superfície ro­chosa. No verão, os seus ramos davam uma boa sombra, mas agora, embora caindo por sobre a entrada da caverna, não a escondiam. Era um arco pequeno, regular e arredondado, como que feito a mão. Afastei os ramos pendentes, e entrei.

Bem perto da entrada, os restos de um fogo ainda estavam no fogão, com gravetos e folhas úmidas por sobre as cinzas. O lugar cheirava a falta de uso. Parecia mentira que fazia pouco mais de um mês que eu tinha ido atender ao apelo urgente do Rei para ajudá-lo no caso de Ygraine de Cornwall. Ao lado da lareira fria, estavam os pratos sujos da minha última refeição, feita às pressas pelo meu criado antes de partirmos.

Bem, agora eu teria de ser o meu próprio criado. Coloquei o odre de vinho e o embrulho de pão e queijo em cima da mesa, e virei-me para reacender o fogo. Isca e pederneira estavam à mão, onde sempre estiveram, mas eu me ajoelhei junto à lenha e estendi as mãos para a mágica. Essa foi a primeira mágica que me ensinaram, e a mais simples, fazer o fogo do nada. Ela me foi ensinada aqui nesta caverna, onde, em menino, aprendi tudo o que sei de sabedo­ria natural com Galapas, o velho ermitão da colina. Aqui, também, na caverna de cristal no mais recôndito da colina, tive as minhas pri­meiras visões, e me descobri vidente.

— Algum dia — Galapas dissera — você irá aonde nem eu com a Visão poderei acompanhá-lo.

E fora verdade. Eu o deixara e fora para onde o meu deus me impulsionara; para onde somente eu, Merlin, poderia ter ido. Mas agora a vontade do deus estava feita, e ele tinha me desertado. Lá em Dimilioc, ao lado do ataúde de Gorlois, eu me senti como uma casca vazia; cego e surdo como os homens são cegos e surdos; o grande poder se fora. Agora, embora exausto, sabia que não conse­guiria descansar sem ver se, aqui no lugar do nascimento da minha mágica, o primeiro e menor dos meus poderes ainda me pertencia. Logo tive a resposta, mas foi uma resposta que eu não queria aceitar. O sol se punha para além dos galhos da entrada da caverna, e a lenha ainda estava apagada quando finalmente desisti, suando em bicas sob a túnica e com as mãos, estendidas para a mágica, trêmulas como as de um velho. Sentei ao pé da lareira fria e comi o meu pão e queijo e bebi o meu vinho aguado, no frio crepúsculo de primavera, antes de poder ter forças para pegar a isca e a peder­neira e tentar com elas.

Até isso, uma tarefa que qualquer mulher faz diariamente e sem pensar, me custou uma eternidade e me pôs a mão ferida a sangrar. Mas, afinal, o fogo pegou. Uma fagulha surgiu na isca e veio a cha­ma, vagarosamente. Acendi a tocha nela, e, carregando bem alto a luz, fui para os fundos da gruta. Ainda havia algo que precisava fazer.

A caverna principal, de teto alto, se estendia até longe. Ergui a chama bem alto e olhei para cima. Nos fundos da caverna havia uma rocha que subia até uma saliência larga, que, por sua vez, en­trava nas sombras altas e escuras. Invisível entre estas sombras, esta­va a abertura escondida que dava para a gruta interna, a cavidade em forma de globo, forrada de cristais, onde, com luz e fogo, eu tivera as minhas primeiras visões. Se o poder perdido estava em algum lugar, só podia ser ali. Vagarosamente, duro de cansaço, subi a saliência e me ajoelhei para espiar pela entrada baixa para a ca­verna interna. Os cristais refletiram as chamas da minha tocha e a luz correu pelo globo. A minha harpa ainda estava onde eu a dei­xara, no centro do chão incrustado de cristal. A sua sombra se agi­gantava nas paredes reluzentes, e a chama refulgia no cobre do ins­trumento, mas nenhuma aragem a fez sussurrar e as suas próprias sombras abafaram a luz. Fiquei ali ajoelhado por muito tempo, olhos fixos e arregalados, enquanto à minha volta luz e sombra tremiam e batiam. Mas os meus olhos doíam, vazios de visões, e a harpa permaneceu silenciosa.

Afinal me retirei, e desci para a caverna principal. Lembro-me que fui descendo devagar e com cuidado, como um homem que não conhecesse o caminho. Enfiei a tocha sob a madeira seca que eu empilhara para o fogo, até as achas começarem a crepitar; saí para buscar a minha bagagem, arrastei-a para o conforto da luz do fogo e comecei a desfazer as malas.

 

Minha mão levou muito tempo para sarar. Nos primeiros dias doía constantemente, latejando tanto que tive medo que estivesse infeccionada. Durante o dia eu não me preocupava tanto, pois havia tarefas a serem feitas; meu criado as havia feito para mim por tanto tempo que eu mal sabia por onde começar: limpar, preparar a co­mida, cuidar do cavalo. A primavera chegou devagar ao sul de Ga­les, naquele ano, e ainda não havia pastagem na colina, por isso eu tinha de cortar e levar forragem para ele, além de ir longe demais para o meu gosto em busca das plantas medicinais de que precisava. Felizmente, comida para mim não faltava; quase que diariamente havia presentes ao pé do pequeno penhasco abaixo do gramado. Talvez o povo da região ainda não soubesse que eu já não gozava das boas graças do Rei, ou, talvez, todas as curas que eu tivesse feito pesassem mais na balança que o desagrado de Uther. Eu era Merlin, filho de Ambrósio; ou, como dizem os galeses, Myrddin Emrys, o feiticeiro da colina de Myrddin; e de outro modo, suponho, o sa­cerdote do próprio Myrddin, o velho deus da colina vazia. Os presen­tes que trariam para ele, agora traziam para mim, e em seu nome eu os aceitava.

Mas, se os dias eram cheios, as noites eram ruins. Dormia mal, menos talvez pela dor na minha mão do que pela dor das minhas lembranças: enquanto a câmara mortuária de Gorlois estivera vazia, a minha gruta estava cheia de fantasmas. Não dos espíritos dos mortos queridos, a quem eu teria dado as boas-vindas; mas os espí­ritos daqueles que eu matara passavam por mim na escuridão, guinchando como morcegos. Pelo menos, isto era o que eu me dizia. Acredito agora que estava febril; os morcegos que eu e Galapas estudávamos ainda viviam na caverna, e devem ter sido eles que eu ouvia movimentando-se na noite. Mas, nas minhas lembranças desta época, eles são as vozes dos mortos, inquietos na escuridão.

Abril passou, úmido e frio, com ventos que chegavam até os ossos. Foi a época ruim, vazia, salvo pela dor, e ociosa, salvo pelos mais ínfimos esforços para viver. Acho que comia muito pouco; água, frutas e pão preto eram a minha dieta básica. As minhas roupas, que nunca foram suntuosas, puíram sem ninguém para cui­dar delas e, depois, rasgaram-se. Um estranho que me visse pelos atalhos da colina me tomaria por um mendigo. Havia dias que eu passava agachado junto ao fogo. Minha arca de livros permanecia fechada, minha harpa deixada em seu lugar. Mesmo que a minha mão estivesse boa, não poderia tocar. Quanto à mágica, eu não ousava me testar de novo.

Mas, aos poucos, com Ygraine à espera no seu frio castelo mais ao sul, caí numa aceitação calma. Com o passar das semanas, minha mão sarou bastante bem. Fiquei com dois dedos duros e uma cicatriz do lado de fora da palma, mas o endurecimento foi melho­rando e a cicatriz nunca me incomodou. Com o passar do tem­po, as outras feridas sararam também. Acostumei-me à solidão como me acostumara ao isolamento, e os pesadelos cessaram. Coro a chegada de maio os ventos mudaram, esquentaram, e a grama e as flores brotaram. As nuvens cinzentas se foram e o vale se encheu da luz do sol. Eu ficava horas sentado ao sol, à boca da gruta, lendo ou preparando as ervas que colhera, ou, ocasionalmente e sem grande interesse, espiando o caminho que poderia trazer algum mensageiro. (Assim, eu pensava, deve ter ficado muitas vezes o meu mestre Galapas, sentado ao sol, espiando o caminho que, um dia, traria do vale um meninozinho.) Renovei o meu estoque de plantas e ervas, afastando-me mais e mais da caverna, à medida que as minhas for­ças voltavam. Eu nunca ia à cidade, mas os pobres que vinham em busca de remédios ou de cura traziam as novidades. O Rei se casara com Ygraine com o máximo de pompa e cerimônia que a situação permitia, e parecia bem alegre desde as bodas, embora se zangasse mais facilmente que antes, e tivesse crises de depressão em que o melhor era deixá-lo a sós. Quanto à Rainha, estava tranqüila, fa­zendo em tudo a vontade do Rei, mas dizia-se que tinha um ar som­brio e que chorava em segredo...

A esta altura o meu informante me olhava de esguelha e eu via os seus dedos fazerem o sinal contra a magia. Eu o deixava ir, sem perguntar mais nada. As notícias chegariam a mim, na hora apropriada.

 

Quase três meses tinham se passado desde a minha volta à Bryn Myrddin.

Certo dia em junho, quando o sol quente da manhã acabava de espantar a névoa de cima da grama, fui em busca do meu cavalo, que eu levara para pastar no gramado acima da caverna. O ar estava parado, e o céu cheio de cotovias a cantar. Por sobre o túmulo de Galapas, as folhas verdes dos abrunheiros brotavam por entre as flo­res desbotadas, e as campainhas vicejavam entre as samambaias.

Acredito que nem havia necessidade de prender o meu cavalo. Geralmente trazia comigo os restos do pão que os meus benfeitores

me davam, e o cavalo, quando me via, vinha até a ponta da corda e ficava à minha espera.

Mas não nesse dia. Com a corda esticada ao máximo, ele esta­va na beira da colina, com a cabeça erguida e as orelhas em pé, olhando para algo lá embaixo no vale. Caminhei até ele e, enquanto procurava o pão na minha mão, olhei para onde estivera olhando.

Desta altura, podia ver a cidade de Maridunum, pequena na distância, apegada à margem norte do plácido Tywy, que serpen­teava pelo largo vale verde até o mar. A cidade, com a ponte de pedra em arco, e o porto, fica bem no lugar onde o rio se alarga em dire­ção ao estuário. Havia o costumeiro amontoado de mastros para além da ponte, e, mais perto, no caminho que acompanhava as curvas prateadas do rio, um cavalo cinzento vagarosamente puxava uma barcaça cheia de cereais até o moinho. Este ficava escondido nos bosques, na confluência do riacho do meu vale com o rio; desses bosques saía a velha estrada militar que o meu pai tinha consertado, e que seguia em linha reta por cinco milhas até o quartel que ficava próximo ao portão leste de Maridunum.

Nesta estrada, a talvez milha e meia para além do moinho dágua, via-se uma nuvem de poeira onde cavaleiros lutavam. Vi o brilho de metal. Por entre a poeira, distingui o grupo. Eram quatro homens a cavalo, lutando três contra um. Este parecia querer fugir, os outros procuravam cercá-lo e abatê-lo. Afinal, em desespero, ele conseguiu livrar-se para escapar. Seu cavalo, na reviravolta, atingiu um dos outros, cujo cavaleiro caiu. Então, o homem sozinho esporeou o cavalo violentamente em direção à proteção oferecida pelo bosque. Mas não a alcançou. Os outros dois foram atrás dele; depois de um galope curto eles o alcançaram, um de cada lado, e eu os vi arrancarem-no do cavalo e jogarem-no de joelhos. Ele tentou fugir arrastando-se, mas não teve chance. Os dois cavaleiros o cercaram, com as armas faiscando, e o terceiro, aparentemente ileso, já caval­gava para se reunir a eles, quando parou abruptamente, empinando o cavalo. Levantou um braço. Deve ter dado um aviso, pois os outros dois abandonaram a vítima e os três juntos, com o outro ani­mal atrás, partiram a todo galope até se perderem de vista atrás das árvores, para o leste.

Eu logo vi o que os assustara. Outro grupo de cavaleiros vinha vindo da cidade. Devem ter visto o trio que se afastava, mas não levem ter visto o ataque, pois vinham a meio galope e não se apres­saram. Chegaram ao local onde se encontrava o homem caído (fe­rido ou morto) e não diminuíram o passo. E logo também se per­deram de vista atrás do bosque.

O meu cavalo, não encontrando mais pão, me mordiscou, depois afastou bruscamente a cabeça, com as orelhas para trás. Puxei-o pelo cabresto, arranquei a amarra do chão e desci com ele.

— Eu estava neste lugar certo dia, — falei com ele — quando um mensageiro do Rei veio ver-me e ordenar-me que atendesse o Rei nos seus desejos. Então eu tinha poder; achava que tinha o mundo nas mãos, brilhante e pequeno. Bem, pode ser que hoje nada tenha senão esta colina, mas aquele homem lá pode ser um mensa­geiro da Rainha, com a sua mensagem ainda na sacola. Com ou sem mensagem, ele precisará de ajuda se ainda estiver vivo. E eu e você, meu amigo, já estivemos ociosos por muito tempo. É hora de reco­meçar a fazer.

Selei meu cavalo, em menos do dobro de tempo em que meu criado o faria, e desci para o vale. Ao chegar à estrada do moinho, virei a cabeça do animal para a direita e esporeei.

O lugar onde eu vira o cavaleiro cair era próximo à orla do bosque, onde havia muitas moitas, samambaias e arbustos e árvores esparsas. Ainda havia cheiro de cavalos no ar, junto com o odor da samambaia e da rosa-amarela pisadas, e com o fedor de vômito. Desmontei, prendi o cavalo e me meti vegetação adentro.

Ele estava deitado sobre o rosto, encolhido no lugar para onde se arrastara e desabara, com a mão presa sob o corpo, a outra estirada, agarrando um punhado de samambaia. Um jovem, pouco encor­pado mas bem desenvolvido, com uns quinze anos, talvez, um pouco mais. Suas roupas, embora rasgadas e sujas e manchadas de sangue pela luta e pelos arranhões nos espinhos, eram de boa qualidade e eu vi um brilho de prata no seu pulso e um broche de prata perto do seu ombro. Portanto, não o tinham roubado, se é que o roubo fora o motivo do ataque. A sacola, fechada, ainda estava presa ao cinto.

Não se mexeu quando me aproximei, por isso eu o imaginei sem sentidos ou morto. Mas, quando me ajoelhei ao seu lado, vi o leve movimento da sua mão apertando mais firmemente as samam­baias, e compreendi que estava exausto demais ou ferido demais para se importar. Se eu fosse um dos assassinos voltando para li­quidá-lo, ele ficaria ali, deitado, e não resistiria.

Falei suavemente:

— Calma, não vou machucá-lo. Fique quieto, não se mexa.

Não houve resposta. Examinei-o com cuidado, à procura de fe­rimentos e ossos quebrados. Ele se encolhia ao meu toque, mas não deixou escapar um som. Logo me certifiquei de que não havia ossos quebrados. Próximo à nuca havia uma inchação sanguinolenta e um dos ombros já estava ficando roxo, mas o pior me pareceu uma porção de carne amassada e sangrenta no quadril, que achei que fosse (como na realidade era) coice de cavalo.

— Vamos, — disse eu finalmente — vire-se e beba isto. Então, ele se mexeu, retraindo-se ao toque do meu braço ao

redor do seu ombro, virando-se vagarosamente. Limpei a sujeira e o vômito da sua boca e dei-lhe de beber do meu frasco; ele engoliu gulosamente, tossiu, e depois, perdendo as forças de novo, deixou-se cair contra mim, a cabeça pendendo sobre o meu peito. Quando tornei a dar-lhe de beber, afastou a cabeça. Vi que fazia força para não gritar de dor. Arrolhei o frasco e guardei-o.

— Tenho um cavalo aqui. Você vai tentar montá-lo e vou le­vá-lo para casa e tratar de você. — Como não respondesse, conti­nuei: — Venha. Vamos tirá-lo daqui antes que eles voltem para ter­minar o que começaram.

Ele se moveu, subitamente, como se essas fossem as primeiras palavras que tivesse entendido. Vi sua mão buscar a sacola no cinto e, ao descobri-la, cair molemente. Seu corpo desabou contra o meu peito. Tinha desmaiado.

Foi melhor assim, pensei, ao deitá-lo suavemente e sair para trazer o cavalo. Não sofreria com os sacolejos da viagem e, com a ajuda dos deuses, estaria na cama e medicado antes de acordar. Ao me abaixar para erguê-lo, me detive. O seu rosto estava cheio de sujeira e do sangue dos arranhões e de um corte acima da orelha. Sob a máscara da sujeira e do sangue, a pele estava exangue e acinzentada. Cabelos castanhos, olhos cerrados, boca flácida. Mas eu o reconheci. Era Ralf, o pajem de Ygraine, que nos deixara entrar em Tintagel naquela noite e que, juntamente com Ulfin e comigo, guarda­ra o quarto da Duquesa até que o Rei se satisfizesse.

Abaixei-me, ergui o mensageiro da Rainha e coloquei o seu corpo, que por misericórdia estava inconsciente, sobre o meu cavalo que esperava.

 

Ralf não recuperou os sentidos durante a viagem até a gruta, e somente depois de estar na cama, com as feridas lavadas e medica­das, é que abriu os olhos. Olhou-me por alguns momentos, sem de­monstrar reconhecimento.

— Não me conhece? — perguntei. — Merlinus Ambrosius. Veja, você trouxe direitinho a sua mensagem. — Levantei o alforje, ainda lacrado. Mas os seus olhos, enevoados e fora de foco, não o viram, e ele virou a cabeça no travesseiro fazendo uma careta de dor ao sentir o ferimento na nuca. — Está bem, durma agora. Você está seguro.

Fiquei ao seu lado até que adormeceu, depois levei o alforje e o seu conteúdo até o meu assento ao sol. O lacre, como eu espe­rava, era o da Rainha e era eu o destinatário. Quebrei o lacre e li a carta.

Quem escrevia não era a Rainha, e sim Márcia, a avó de Ralf e confidente da Rainha. A carta era curta, mas me dizia o que eu queria saber. A Rainha estava mesmo grávida e a criança nasceria em dezembro. A Rainha, escrevia Márcia, estava feliz por estar espe­rando o filho do Rei, mas me culpava pela morte de seu marido Gorlois e, quando se referia a mim, fazia-o com amargura.

— Ela fala pouco, mas acredito que se lamenta em segredo, e que o seu grande amor pelo Rei seja sempre toldado pela culpa. Queira Deus que este sentimento não se estenda à criança. Quanto ao Rei, me parece zangado, embora atencioso e amoroso, com a se­nhora, e muitos duvidam que a criança seja dele. Ah, senhor, se eu não soubesse que ele jamais magoaria a Rainha, temeria pela criança às suas mãos. Também, Príncipe Merlin, eu lhe imploro por esta carta para pôr a seu serviço o meu neto Ralf. Temo também por ele às mãos do Rei; creio que, para ele, se o senhor o aceitar, servir a um verdadeiro príncipe é melhor do que ficar aqui com um Rei que o considera um traidor. Ele não está seguro em Cornwall. Eu lhe imploro, senhor, deixe Ralf servi-lo agora e, depois, à criança. Pois acho que entendo do que o senhor falava quando disse à minha senhora "eu vi o fogo a queimar, e nele uma coroa, e uma espada em um altar, como uma cruz".

Ralf dormiu até a noitinha. Eu tinha acendido o fogo e feito um caldo e, quando o levei para o fundo da caverna onde ele estava, vi que estava de olhos abertos, me observando. Havia reconheci­mento neles, agora, e também uma desconfiança que eu não enten­dia direito.

— Como se sente agora?

— Bastante bem, meu senhor. Eu... esta é a sua caverna? Como cheguei até aqui? Como o senhor me encontrou?

— Eu tinha subido a colina e de lá vi quando foi atacado. Algo assustou os homens, que fugiram, deixando você. Fui buscá-lo e o trouxe para cá no meu cavalo. Agora está me reconhecendo, não é?

— O senhor deixou crescer a barba, mas eu o teria reconheci­do mesmo assim. Será que já lhe falei? Não me lembro de nada. Acho que me bateram na cabeça.

— Foi isso mesmo. Como está ela?

— Uma dor de cabeça. Mas não forte. Aqui do lado — fez uma careta — é que dói mais.

— Um dos cavalos o atingiu. Mas não foi nada sério; você logo estará bem. Sabe quem eram eles?

— Não. — Ele franziu a testa, pensando, mas reparei que o esforço o cansava, e o interrompi.

— Bem, depois nós conversaremos. Agora, coma.

— Meu senhor, a mensagem.. .

— Já está comigo. Mais tarde.

Quando voltei, ele já tinha terminado o pão e o caldo e estava com melhor aparência. Não quis mais comida, mas aceitou um pouco de vinho e a cor lhe voltou às faces. Puxei uma cadeira e sentei-me ao lado da cama.

— Está melhor?

— Estou. — Ele falava sem olhar para mim. Olhava para as mãos que, nervosas, repuxavam as cobertas à sua frente. Engoliu em seco. — Ainda não lhe agradeci, meu senhor.

— Por quê? Por ter apanhado você e trazido até aqui? Era o único modo de saber as novidades que você trazia.

Ele me fitou e vi que acreditara. Compreendi então o que havia naquele olhar que me dera; tinha medo de mim. Lembrei-me daquela noite em Tintagel, do jovem que fora tão corajoso para o Rei e tão leal para mim. Mas deixei passar... Falei:

— Você me trouxe as notícias que eu queria. Já li a carta da sua avó. Sabe o que ela escreveu sobre a Rainha?

— E sobre você?

— Sei.

Ele falou secamente e olhou para o lado, taciturno, como al­guém preso injustamente e submetido a interrogatório, e que esti­vesse decidido a não responder. Pareceu-me que, fossem quais fos­sem os motivos de Márcia para mandá-lo para mim, ele próprio não tinha nenhuma vontade de ficar ao meu serviço. Do que eu deduzi que ela nada lhe contara das suas esperanças para o futuro.

— Bom, deixa estar, por enquanto. Mas me parece que alguém, seja lá quem for, quer mal a você. Se aqueles homens de hoje não eram simples assaltantes de estrada, era bom saber quem eram, e os pagou. Você não tem idéia de quem eram?

— Não — resmungou.

— Ê que também me interessa — disse eu mansamente. — É possível que eles queiram matar a mim também.

Isto o surpreendeu.

— Por quê?

— Se você foi atacado por vingança pelo seu papel em Tinta-gel, presume-se que me atacarão também. Se foi atacado por causa da mensagem que trazia, quero saber o motivo. E se eram simples ladrões, o que me parece mais provável, pode ser que ainda estejam nas redondezas, e preciso avisar os soldados no quartel.

— Ah! É, eu compreendo. — Parecia desconcertado e leve­mente envergonhado. — Mas é verdade, senhor; não sei quem eles eram. Eu... é importante para mim também. Estive pensando, todo este tempo, mas não tenho idéia. Não me lembro de nenhuma pista. Eles não usavam emblemas; pelo menos, acho que não.. . — Franziu a testa, com esforço. — Eu teria reparado nos emblemas se eles os tivessem, não é?

— Como estavam vestidos?

— Eu... mal reparei. Túnicas de couro, creio, e gorros de cota. Sem escudos, mas com espadas e punhais.

— E estavam todos a cavalo. Isto eu vi. Você os ouviu falar?

— Não que me lembre. Mal falaram, deram um ou dois gritos. Em língua inglesa, mas não sei dizer de que lugar. Não sou muito bom para sotaques.

— Nada havia que pudesse identificá-los como homens do Rei? Isto foi demais para ele. Ficou escarlate, mas respondeu franca­mente:

— Nada. Mas, seria provável?

— Creio que não — respondi. — Mas os reis são uma raça estranha, principalmente quando têm a consciência pesada. Seriam de Cornwall?

O rubor cedera, deixando-o ainda mais branco do que antes. Seus olhos estavam tristes e sombrios. Era isto que lhe doía; era este pensamento que o perseguia.

— Homens do Duque, o senhor quer dizer?

— Contaram-me, antes que eu deixasse Dimilioc, que o Rei iria ratificar o jovem Cador como Duque de Cornwall. Este homem, Ralf, nunca morrerá de amores por você. Não levará em considera­ção que você era o servo da Duquesa, obrigado a obedecê-la. Ele está cheio de ódio, que pode levá-lo à vingança. E nem poderemos culpá-lo.

Ele pareceu um pouco surpreso, mas logo ficou à vontade de­vido à minha franqueza. Tentou falar do mesmo modo:

— Poderiam ter sido homens de Cador, suponho. Mas nada havia que o indicasse. Talvez eu me lembre de alguma coisa. —

Fez uma pausa. — Mas, se Cador pretendia matar-me, poderia tê-lo feito em Cornwall. Por que vir até aqui? Para seguir-me até o senhor? Deve odiá-lo tanto quanto a mim.

— Muito mais — falei. — Mas, se ele pretendesse me matar; saberia onde me encontrar; o mundo inteiro sabe. E já teria vindo antes.

Olhou-me com ar de dúvida. Depois achou uma explicação para a minha aparente falta de medo.

— Suponho que ninguém viria até aqui, com medo da sua má­gica.

— É bom pensar que sim — concordei. Não havia necessidade de contar-lhe que as minhas defesas estavam bem baixas. — Bem, por ora, chega. Descanse de novo e você se sentirá melhor amanhã. Será que consegue dormir? Está sentindo dor?

— Não — respondeu mentirosamente. Não admitiria esta fra­queza para mim. Senti-lhe o pulso. Estava firme e forte. Deixei cair o pulso e disse:

— Você vai viver. Pode me chamar durante a noite, se precisar. Boa noite.

 

Ralf não se lembrou de mais nada, no dia seguinte, que pudesse dar uma pista da identidade dos seus atacantes, e eu me abstive, por alguns dias, de interrogá-lo mais sobre o conteúdo da carta de Már­cia. Certa noite, quando achei que estava melhor, eu o chamei. Tinha sido um dia úmido, e a noite estava fria, por isso eu tinha acendido o fogo e estava sentado ao pé dele com o meu jantar.

— Ralf, traga a sua tigela e venha comer aqui perto de mim, onde está quente. Quero falar-lhe.

Ele veio, obediente. Tinha remendado e limpado suas roupas,. e, agora, cem boa cor e com os cortes e pisaduras desaparecendo,, estava bem disposto, embora ainda mancasse por causa do ferimen­to no quadril c permanecesse silencioso e desconfiado. Veio mancan­do e sentou-se onde eu mandara.

— Você disse que sabia o que mais havia na carta da sua avó, além das notícias da Rainha? — perguntei. —- Disse.

— Então sabe que ela o mandou para o meu serviço por temer a ira do Rei. O Rei já lhe deu algum motivo para temê-lo?

Fez que não com a cabeça. Não me olhava nos olhos.

— Para temê-lo, não. Mas quando veio o aviso de um desem­barque saxão na costa sul, e pedi para ir com os seus homens, ele negou. — Sua voz estava sombria e furiosa. — Levou todos os outros que lutaram contra ele em Dimilioc. Mas eu, que o ajudei, ele despachou.

Olhei pensativo para a cabeça abaixada, para o rosto virado. "Então era esta a razão da sua atitude para comigo, do ressentimento te da raiva. Ele apenas enxergava que, por ter ajudado a mim e ao Rei, perdera a sua posição junto à Duquesa; pior, incorrera na ira do Duque, estava em desgraça como súdito, fora banido do seu lar para realizar serviços que desprezava.

— Sua avó pouco me diz, a não ser que ela acha melhor para você seguir carreira fora de Cornwall. Deixemos isso de lado por um momento; você não vai fazer nada até a sua perna sarar. Mas, diga-me: o Rei alguma vez lhe falou diretamente sobre a noite da morte de Gorlois?

Fez uma pausa tão longa que pensei que não fosse responder.

Então, disse:

— Falou. Ele me disse que eu o servira bem e. . . me agrade­ceu. Ofereceu-me uma recompensa. Eu disse que não, que o serviço já era recompensa suficiente. Ele não gostou. Queria me dar dinhei­ro, ficar quite e esquecer tudo. Aí falou que eu não poderia mais servir nem a ele nem à Rainha. Que, ao servi-lo, eu atraiçoara o meu amo, o Duque, e que um homem que atraiçoa um amo pode muito bem atraiçoar o outro.

— E daí? — perguntei. — Isso é tudo?

— Tudo? — Levantou violentamente a cabeça. Olhou-me com surpresa e desprezo. — Tudo? Um insulto como esse? E o senhor sabe que era mentira! Eu era servo da minha senhora, não do Duque de Gorlois. Não atraiçoei o Duque!

— Claro que foi um insulto. Você não pode esperar que o Rei seja justo, quando ele próprio está se sentindo um Judas. Ele tem que pôr a culpa nas costas de outros, que somos eu e você. Mas não creio que seja realmente perigoso para você. Até mesmo uma avó devotada não pode considerar isto uma ameaça.

— Quem estava falando em ameaças? — perguntou Ralf com veemência. — Não vim por estar com medo! Alguém tinha de trazer a mensagem, e o senhor mesmo viu que não era seguro!

Não era o tom de voz de um criado. Dissimulei o meu diverti­mento e falei com suavidade: — Não banque o galinho bravo co­migo. Ninguém duvida da sua coragem. Nem o Rei. Agora, fale sobre este desembarque saxão. Onde foi? O que aconteceu? Há mais de um mês que não tenho notícias do sul.

Logo e!e me respondeu, educadamente:

— Foi em maio. Desembarcaram ao sul de Vindocladia. Ali há uma baía profunda a que dão o nome de Baía do Oleiro. Não me lembro do seu nome verdadeiro. Bem, fica fora do território fe­derado, em Dumnonia, o que é contra todos os acordos que os Fe­derados fizeram. O senhor deve saber.

Concordei. É difícil lembrar agora, escrevendo sobre o passa­do, sobre a época de Uther, que hoje os homens mal recordam o nome de Federado. Os primeiros Federados Saxões foram os segui­dores de Hengist e Horsa, mercenários chamados pelo Rei Vortigern para ajudá-lo a se estabelecer no seu trono usurpado. Quando a luta terminou e os príncipes de direito, Ambrósio e Uther, tiveram que fugir para a Bretanha, o usurpador Vortigern quis despachar os seus mercenários Saxões; mas eles se recusaram a partir, exigindo territó­rio para colonizar e prometendo que, como colonizadores federados, lutariam como aliados ao lado de Vortigern. Então, em parte porque não ousava negar, .em parte porque previa que ainda precisaria deles, Vortigern deu-lhes as terras da costa, ao sul, de Rutupiae e Vindocla­dia, o pedaço chamado a Praia Saxã. Na época dos romanos tinha este nome por ser o local da maioria dos desembarques saxões; já à época de Uther, o nome adquirira um significado mais verdadeiro e lamentável. Num dia claro, dava para se ver a fumaça saxã do muro de Londres.

Desta base, e de bases semelhantes a noroeste, tinham partido os novos ataques quando meu pai era Rei. Ele matara Hengist e o irmão, e expulsara os invasores, alguns para o norte, para as terras selvagens para além do Muro de Adriano, e outros para detrás das suas antigas fronteiras, e os forçara a assinar um tratado. Mas um tratado com um saxão é como escrita na água. Ambrósio, sem confiar nas fronteiras demarcadas, levantou um muro para proteger as terras ricas que corriam paralelas à Praia Saxã. Até a sua morte, o tratado (ou o muro) os segurara; tampouco eles participaram abertamente dos ataques que vinham do norte, nos primeiros dias do reinado de Uther; mas era inquietante tê-los como vizinhos: da­vam uma cabeça de praia para qualquer navio errante, e a Praia Saxã estava cada vez mais apinhada, fazendo o muro de Ambrósio parecer uma frágil proteção. E ao longo de toda a costa leste, che­gavam invasores do Mar Alemão, uns para pilhar, violentar e voltar ao mar, outros para pilhar, violentar e ficar, comprando ou extorquindo novos territórios dos reis locais.

Era um ataque destes que Ralf estava me descrevendo.

— Bem, é claro que os Federados violaram o acordo. Uma es­quadra nova, com trinta navios, desembarcou na Baía do Oleiro, bem a oeste da fronteira, e os Federados os receberam e ainda os ajudaram. Estabeleceram uma cabeça de praia próxima à foz do rio começaram a avançar em direção a Vindocladia. Acho que se che­gassem à Colina Badon... o que foi?

Ele se interrompeu, olhando para mim. Mudara de cor. Havia assombro no seu rosto, e uma ponta de medo.

— Nada — retruquei. — Pensei ter ouvido algo lá fora, mas foi só o vento.

Ele falou, devagar:

— Por um momento o senhor ficou como aquela noite em Tintagel, quando disse que o ar estava cheio de mágica. Seus olhos ficaram esquisitos, escuros e velados, como se o senhor estivesse vendo alguma coisa para além do fogo. — Hesitou: — Foi uma profecia?

— Não. Eu nada vi. Ouvi um barulho como o de cavalos galo­pando. Devem ter sido os gansos selvagens voando. Se foi profecia, aparecerá de novo. Continue. Você falava da Colina Badon.

— Bem, os saxões não deviam saber que o Rei Uther estava em Cornwall com todo o efetivo que trouxe para lutar contra o Du­que Gorlois. Ele reuniu o exército, pediu a ajuda dos dumnonianos e foi rechaçar os saxões. — Fez uma pausa, comprimindo os lábios, «depois completou: — Cador foi com ele.

— Ah, foi? — Fiquei pensativo. — Você não soube do que houve entre eles?

— Só soube que ouviram Cador dizer que, já que ele não po­deria defender a sua parte da Dumnonia sozinho, ele lutaria ao lado do próprio Demônio, contanto que os saxões fossem expulsos da costa.

— Parece-me um rapaz sensato.

Ralf, ainda ofendido, não estava escutando. — Ele, na verda­de, não se reconciliou com Uther...

— É o que parece.

— .. .mas marchou com ele! E eu não pude! Fui a ele e à minha •senhora, implorei para ir, mas ele não me levou!

— Ora, — falei — ele não podia.

Isto o fez parar. Ficou me olhando, pronto para se zangar de novo. — O que quer dizer? Se o senhor me considera um traidor. . .

— Você tem a mesma idade que Cador, não é? Então procure demonstrar o mesmo senso comum. Pense. Se Cador foi lutar ao lado do Rei, este, para seu próprio bem, não podia levar você. A cons­ciência de Uther o incomoda quando ele olha para você, mas Cador considera você uma das causas da morte do pai. Acredita que ele toleraria a sua presença, por mais que precisasse do Rei e das suas legiões? Compreende agora por que não o levaram e, depois, o man­daram para mim?

Ele ficou calado. Falei com gentileza:

— O que passou, passou, Ralf. Só as crianças esperam que a vida seja justa; os homens têm de agüentar as conseqüências dos seus atos. Como nós dois teremos, você verá. Considere isto tudo águas passadas e aceite o que os deuses mandarem. A sua vida não acabou porque você teve que deixar a corte, ou mesmo porque você teve que deixar Cornwall.

Fez-se um silêncio maior. Então, ele apanhou as nossas duas tigelas vazias e ficou de pé.

— É, eu compreendo. Bem, já que por ora não posso fazer quase nada, ficarei aqui e o servirei. Mas não porque tenha medo do Rei, ou porque a minha avó quer me tirar do caminho do Duque Cador. É porque eu quero. E porque — engoliu em seco — acho que devo isto ao senhor. — O seu tom de voz não era nem agrade­cido nem conciliatório. Estava ali, ereto como um soldado, segu­rando as tigelas de encontro às costelas.

— Então comece a pagar a sua dívida e vá lavar a louça do jantar — falei afavelmente, e apanhei um livro.

Ele hesitou um pouco, mas não ergui os olhos e nem falei mais nada. Sem mais uma palavra, ele foi apanhar água na fonte lá fora.

 

Os ferimentos dos jovens saram depressa, e Ralf logo estava ati­vo de novo, insistindo que já não precisava de médico. A ferida no quadril, contudo, deu algum trabalho e deixou-o mancando por uma ou duas semanas.

Ao "querer" ficar comigo, ele tirara proveito de uma situação adversa, já que, de qualquer modo, ele estava preso à gruta pelo seu ferimento e pela falta do cavalo; mas me servia bem, dominando o ressentimento que porventura sentisse em relação a mim ou à sua nova situação. Ainda ficava silencioso, mas isto me agradava, e eu cuidava calmamente da minha vida enquanto Ralf se adaptava à minha maneira de ser, e nós dois nos dávamos razoavelmente bem. Não importa o que ele pensasse dos meus alojamentos na gruta, ou das tarefas domésticas que fazíamos os dois, ainda assim deixava bem claro que era um pajem servindo a um príncipe. Nos dias que se seguiram eu me vi aliviado, pouco a pouco, das tarefas a que me acostumara; sobrava-me tempo para estudar, para estocar os meus remédios, até para compor. No começo era estranho, depois reconfortante, estar desperto à noite e ouvir a respiração tranqüila do rapaz, do outro lado da caverna; logo percebi que estava dor­mindo melhor; os pesadelos desapareciam, a força e a tranqüilidade voltavam; e, se o poder ainda me fugia, eu já não desesperava da sua volta. Cada noite eu dormia do crepúsculo até o alvorecer, um sono profundo, e acordava tranqüilo para outro dia de espera.

Quanto a Ralf, embora ainda angustiado com o seu exílio, para o qual não via fim, foi sempre cortês, e, com o passar do tempo, aceitou o seu banimento com elegância, e ou perdeu ou dissimulou sua tristeza numa espécie de satisfação.

E assim passaram-se as semanas, e os campos do vale ficaram prontos para a colheita, e a mensagem chegou afinal de Tintagel. Certa noite de agosto, pelo crepúsculo, um mensageiro veio esporeando vale acima. Ralf não estava comigo. Eu o tinha mandado, à tarde, para a cabana do outro lado da colina, onde o pastor Abba morava durante o verão; eu estava tratando do filho de Abba, Ban, que era meio retardado, de um pé infeccionado; ele já estava quase bom, mas ainda necessitava de ungüentos.

Fui ao encontro do mensageiro. Ele desmontara já embaixo, e agora escalava o penhasco até a gruta. Era um homem moço, garboso e vivaz, e seu cavalo estava descansado. Deduzi, então, que a mensagem não era urgente; ele viera com calma e a passo. Eu o vi avaliar num rápido olhar a minha túnica rasgada e o meu manto gasto, mas tirou o gorro e dobrou um joelho. A saudação seria para o feiticeiro ou para o filho do Rei?

— Meu senhor Merlin.

— Seja bem-vindo. De Tintagel?

— Sim, senhor. Da parte da Rainha. — Lançou-me um olhar rápido. — Vim sem o conhecimento do Rei.

— Foi o que imaginei, já que não está usando a insígnia da Rainha. Levante-se, homem. A grama está úmida. Já jantou?

Ficou surpreso. Imagino que não era desse modo que a maio­ria dos príncipes recebia os seus mensageiros.

— Não, senhor, mas já reservei jantar na estalagem.

— Então, aproveite-o porque será bem melhor do que o que comeria aqui. Pois bem, o que o traz aqui? Trouxe carta da Rainha?

— Carta? Não, senhor, só o recado que a Rainha deseja vê-lo.

— Agora? — indaguei vivamente. — Há algo errado com ela ou com a criança que espera?

— Nada. Os médicos e as mulheres dizem que vai tudo bem. Mas, — baixou os olhos — parece que ela tem uma preocupação que quer discutir com o senhor. O mais cedo possível.

— Compreendo. — Com a voz tão neutra quanto a dele, per­guntei: — Onde está o Rei?

— O Rei planeja deixar Tintagel na segunda semana de setem­bro.

— Então, depois disto, qualquer época será "possível" para a minha visita à Rainha.

Foi franqueza demais para ele. Lançou-me um olhar, depois voltou a olhar para o chão.

— A Rainha terá prazer em recebê-lo, então. Ela me ordenou que tomasse todas as providências. O senhor deve compreender que não pode ser recebido às claras no castelo de Tintagel. — Falou com sinceridade: — O senhor sabe que muitas mãos em Cornwall podem erguer-se contra o senhor. Talvez fosse melhor ir disfarçado.

Cocei o queixo.

— Já estou um tanto disfarçado. Não se preocupe, eu entendi; serei discreto. Mas precisa contar-me mais. Que razões ela deu para me chamar?

— Nenhuma, meu senhor.

— E você não ouviu nada... mexericos das mulheres, ou coisas assim?

Fez que não com a cabeça e, vendo a minha expressão, acres­centou :

— Senhor, ela tinha urgência. Ela não disse, mas deve ser sobre a criança; que outro motivo haveria?

— Se é assim, irei. — Ele estava chocado. Abaixou novamente os olhos, enquanto eu dizia vivamente: — Bem, o que esperava? Eu não sirvo à Rainha. Tampouco ao Rei. Não precisa ficar com medo.

— A quem serve, então?

— A mim mesmo e a Deus. Mas, pode voltar e dizer à Rainha que irei. Que preparativos fez para mim?

Ficou aliviado por estar pisando em terreno conhecido.

— Há uma pequena estalagem junto ao Rio Camelo, no vale, a cerca de cinco milhas de Tintagel. O dono chama-se Caw. Ele é cornualês, mas sua mulher Maeve foi serva da Rainha, e ele nada dirá. Pode ficar lá sem medo. Eles o estão esperando. O senhor pode mandar recados para Tintagel, se quiser, por um dos filhos de Mae­ve... não será prudente acercar-se do castelo antes que a Rainha o chame. Quanto à viagem, em meados de setembro o tempo é bom e o mar, geralmente, está calmo.. .

— Se está aconselhando-me a ir por mar, perde seu tempo — falei. — Nunca ninguém lhe disse que os feiticeiros não podem cruzar as águas? Pelo menos, não com conforto. Fico enjoado só de cruzar o Rio Severa por balsa. Não, vou por terra.

— Mas a estrada principal passa pelo quartel de Caerleon. O senhor pode ser reconhecido. E a ponte em Glevum é guarnecida pelos homens do Rei.

— Está certo, vou pelo rio, mas que seja uma travessia curta. — Sabia que ele tinha razão. Ir pela estrada principal, passando por Caerleon e pela Ponte de Glevum, mesmo que não fosse descoberto, acrescentaria vários dias à minha viagem. — Evitarei a estrada mili­tar. Há um bom caminho pela costa que atravessa Nidum; irei por aí, se você puder me arranjar um barco na foz do Rio Ely.

— Pois não, meu senhor. — E assim ficou decidido. Eu iria do Ely para a foz do Uxella, na terra dos Dumnonii, e, daí, para sudoeste, pelas trilhas, evitando as estradas onde pudesse encontrar as tropas de Uther ou os homens de Cador.

— O senhor conhece o caminho? — perguntou-me. — No trecho final, é claro, Ralf o guiará.

— Ralf não estará comigo. Mas darei um jeito. Já estive naque­la região, e tenho boca para perguntar.

— Providenciarei cavalos...

— É melhor não — retruquei. — Nós não concordamos que eu deveria estar disfarçado? Usarei um disfarce que já me serviu antes. Serei um médico de olhos ambulante, e um sujeito humilde como este não terá muda de cavalos. Não tenha medo, estarei seguro, e quando a Rainha precisar de mim, lá estarei.

E'e se satisfez, e por um longo tempo ficou respondendo às minhas perguntas e contando-me todas as novidades. A expedi­ção punitiva do Rei contra os invasores da costa tinha sido coroada de sucesso, e os recém-chegados foram rechaçados para dentro dos limites estabelecidos dos saxões federados do Oeste. Ao sul, tudo estava calmo. Do norte chegavam rumores de luta mais intensa onde os invasores anglicanos, da Alemanha, haviam cruzado a costa pró­ximo ao Rio Alaunus, na terra do Votadini. Esta é a região que nós, de Dyfed, chamamos de Manau Guotodin, e foi daí que veio o gran­de Rei Cunedda, convidado há um século pelo Imperador Máximo para expulsar os irlandeses de Gates do Norte, e para estabelecer-se ali como aliado das Águias Imperiais. Suponho que estes tenham sido os primeiros federados; expulsaram os irlandeses e permanece­ram em Gales do Norte, a que chamaram de Gwynedd. Ainda estava em poder de um descendente de Cunedda; Maelgon, um rei forte e um bom guerreiro, como era necessário ser para seguir as pegadas do grande Magnus Maximus.

Outro descendente de Cunedda dominava a região Votadini; um rei moço, Lot, tão feroz e bom guerreiro quanto Maelgon; a sua fortaleza ficava próxima à costa sul de Caer Eidyn, no centro do seu reino de Lothian. Ele enfrentara e vencera o último ataque dos anglos. Ambrósio dera-lhe o comando na esperança de que, com ele, os reis do norte (Gwalawg de Elmet, Urien de Gore, os chefes de Strathclyde, o Rei Coei de Rheged) formassem uma muralha forte ao norte e a leste. Mas dizia-se que Lot era ambicioso e rixento; e Strathclyde já tivera nove filhos (que lutavam como tigres pelas partes do território) e alegremente continuava a ter mais; Urien de Gore casara-se com a irmã de Lot e ficaria firme, mas, talvez, de­mais à sombra de Lot. O mais forte de todos era, desde o tempo de meu pai, Coei de Rheged, que dominava, com mão leve, os che­fes e condes do seu reino e que os reunia, fielmente, ante a menor ameaça à soberania do Alto Reino.

Agora, contava-me o mensageiro da Rainha, o Rei de Rheged, com Ector de Galava e Ban de Benoic, juntara-se a Lot e Urien para defender o norte e, pelo menos por enquanto, tinham-no conseguido. No todo, as notícias eram alvissareiras. A colheita tinha sido boa em toda parte, portanto a fome não traria mais saxões até que o inverno fechasse os caminhos marítimos. Teríamos paz por algum tempo; tempo suficiente para Uther contornar as insatisfações cau­sadas pela sua rixa com Cornwall e pelo seu casamento, para ratifi­car as alianças que Ambrósio fizera e para fortalecer e aumentar o seu sistema de defesas.

Afinal, o mensageiro se foi. Não escrevi cartas, mas mandei notícias de Ralf para sua avó, mandei avisar à Rainha de que iria, e agradeci-lhe pelo dinheiro que ela me enviara para a jornada. O moço desceu alegremente para o vale, para o bom jantar e a boa compa­nhia que o aguardavam na estalagem. Agora, cabia-me contar a Ralf.

Foi mais difícil do que eu esperava. O seu rosto iluminou-se quando lhe falei do mensageiro, e pôs-se a procurá-lo avidamente, ficando muito desapontado quando soube que já se fora. Recebeu impacientemente os recados da avó, mas encheu-me de perguntas sobre a luta ao sul de Vindocladia, ouvindo com tanta avidez as minhas respostas, que era óbvio que a sua inatividade forçada em Maridunum aborrecia-o muito mais do que demonstrara. Quando lhe contei sobre a convocação da Rainha, ele ficou animado como eu nunca o vira desde que viera ficar comigo.

— Quanto tempo até partirmos?

— Eu não disse que "nós" partiríamos. Irei sozinho.

— Sozinho? — Era como se lhe tivesse batido. O sangue subiu-lhe às faces e ficou a me olhar de boca aberta. Afinal, disse com voz abafada: — O senhor não pode estar falando sério. Não pode.

— Não estou sendo arbitrário, creia-me. Gostaria de levá-lo, mas você está vendo que não é possível.

— Por que não? O senhor sabe que aqui tudo ficará bem; o senhor já viajou antes. E não pode viajar sozinho. Como se arran­jaria?

— Meu caro Ralf, não seria a primeira vez.

— Está certo, mas não pode negar que eu o servi bem desde que cheguei, então por que não me levar? O senhor não pode voltar para Tintagel.. . para onde as coisas estão acontecendo... e me deixar aqui! Eu lhe estou avisando... — respirou fundo, os olhos brilhando, toda sua cortesia desmoronando — .. .eu lhe estou avi­sando, meu lorde, se for sem mim, quando voltar não me encontrará aqui!

Esperei um pouco, depois disse suavemente:

— Tenha juízo, rapaz. Então não está vendo por que não posso levá-lo? A situação quase não mudou desde que você deixou Cornwall. Sabe o que aconteceria se algum dos homens de Cador o visse, e todos o conhecem lá por Tintagel. Você seria visto, e a notícia se espalharia.

— Eu sei. Mas o senhor ainda pensa que eu tenho medo de Cador? Ou do Rei?

— Não. Mas é tolice procurar o perigo desnecessariamente. E o mensageiro acreditava que ainda há perigo.

— E o senhor? Não vai estar em perigo também?

— É provável. Terei que ir disfarçado. Por que acha que deixei a barba crescer?

— Não sabia. Nem pensei. Então o senhor estava esperando que a Rainha o chamasse?

— Não esperava esta convocação — admiti. — Mas sabia que, pelo Natal, quando a criança nascer, eu terei que estar lá.

Fitou-me.

— Por quê?

Olhei-o por um momento. Estava de pé perto da entrada da gru­ta, contra o pôr-do-sol, como quando voltara da sua viagem à cabana do pastor do outro lado da colina. Ainda agarrava a cesta em que levara ungüentos, e que agora continha um pacote pequeno em­brulhado num pano limpo. A mulher do pastor, que morava no vale ao lado, mandava pão toda semana para o marido; 3 Abba sempre mandava um pouco para mim. As mãos do rapaz estavam brancas nas alças da cesta. Estava tenso, zangado e inquieto como um ca­chorro preso pelas correias. Ali eu pressentia algo mais do que sim­ples saudades de casa ou desapontamento por perder uma aventura.

— Pelo amor de Deus, — falei — ponha esta cesta no chão e entre. Isso. Agora, sente-se. Já é tempo de nós dois termos uma conversa. Quando aceitei os seus serviços, não foi porque quisesse alguém para lavar as panelas ou para trazer os presentes da mulher de Abba. Embora eu esteja satisfeito com a minha vida aqui em Bryn Myrddin, não sou tão tolo a ponto de pensar que ela satisfi­zesse você. . . nem por pouco tempo. Nós estamos esperando, Ralf, •só isto. Ambos escapamos do perigo e curamos as nossas feridas, e agora só nos resta esperar.

— Pelo parto da Rainha? Por quê?

— Porque, tão logo nasça, o filho da Rainha será entregue aos meus cuidados.

Ficou calado por um minuto inteiro antes de perguntar, intri­gado:

— E minha avó sabe disso?

— Acho que ela suspeita que o futuro da criança está nas mi­nhas mãos. Quando falei pela última vez com o Rei, naquela noite em Tintagel, ele me disse que não reconheceria a criança que nas­cesse. Acho que é por este motivo que a Rainha mandou chamar-me.

— Mas. . . não reconhecer o seu filho mais velho? Quer dizer que vai mandá-lo embora? E a Rainha concordará? Um bebê... mas não o mandariam para o senhor! Como iria tomar conta dele? E como pode saber que será menino?

— Porque tive uma visão, Ralf, lá em Tintagel. Depois que você nos deixou entrar pelo portão traseiro, enquanto o Rei estava com Ygraine, e Ulfin guardava a porta do quarto, você jogava dados com o porteiro, próximo ao portão. Lembra-se?

— Como poderia esquecer? Pensei que aquela noite nunca terminasse!

Não lhe contei que ela ainda não terminara. Sorri.

— Acho que senti o mesmo enquanto esperava, sozinho, no quarto da guarda. Foi então que eu vi — mostraram-me — por que Deus me ordenara que fizesse o que eu fiz. Mostraram-me que as minhas profecias eram, realmente, verdadeiras. Ouvi um ruído nas escadas e saí até o patamar. E vi Márcia, sua avó, descendo as escadas, vindo do quarto da Rainha, carregando uma criança. E em­bora fosse em março, senti o frio do inverno, e vi as escadas e as sombras através do seu corpo, e soube que era uma visão. Ela colo­cou a criança nos meus braços e falou: "Tome conta dele". Ela chorava. Então, ela, a criança e o frio do inverno desapareceram, foi uma imagem verdadeira, Ralf. Em dezembro eu estarei lá, esperando, e Márcia entregará o filho da Rainha aos meus cuidados.

Ficou calado por longo tempo. Estava assombrado pela visão. Mas, depois, muito prático, perguntou:

— E eu? Como é que entro nisso? Foi por isso que minha avó mandou-me ficar com o senhor e servi-lo?

— Foi. Ela não vê futuro para você ao lado do Rei. Quer que fique bem perto de seu filho.

— Um bebê? — Ele estava horrorizado, e nem um pouco lisonjeado. — Quer dizer que, se o Rei não reconhecer a criança, o senhor terá que tomar conta dela? Não entendo... ora, compreen­do por que minha avó se preocupa, e o senhor também; mas por que me meter nisso? Que futuro ela vê para mim em tomar conta de um bastardo de rei, que nem será reconhecido?

— Um bastardo de rei, não — respondi. — Um rei. Ouvia-se apenas o barulho do fogo. Eu não falara com veemên­cia, mas com certeza absoluta. Ele estava de boca aberta, abalado.

— Ralf, você veio para mim com raiva, ficou por dever, mas. serviu-me bem, e fielmente. Você não apareceu na visão, e não sei se a sua vinda, ou os ferimentos que o fizeram ficar, fazem parte do plano de Deus; desde a morte de Gorlois que não recebo men­sagens dos deuses. Só sei que, após estas últimas semanas, não esco­lheria nenhum outro para me ajudar. Não com a espécie de serviço que você tem-me prestado; com a chegada do inverno, não precisa­rei de um criado, mas de um guerreiro que seja leal, não a mim ou à Rainha, mas ao próximo Grande Rei.

Ele gaguejava, pálido:

— Eu não tinha idéia. Eu pensei... eu pensei...

— Que estava numa espécie de exílio? De certa forma, eu estava também. Eu lhe disse que era tempo de espera. — Olhei para as minhas mãos. Já estava escuro lá fora; o sol se pusera e anoite­cia. — Nem eu sei exatamente o que teremos pela frente, exceto perigo e perda e traição, e no final, alguma glória.

Ralf não se mexeu até que eu deixasse os meus pensamentos e sorrisse para ele.

— Agora entende que não duvido da sua coragem?

— Sim. Desculpe-me pelo que falei. — Esperou um pouco, observando-me, depois perguntou: — Mas o senhor não sabe, com certeza, por que a Rainha mandou chamá-lo agora?

— Não.

Inclinou-se para a frente, as mãos sobre os joelhos.

— Mas, como sabe que a sua visão do nascimento é verdadei­ra, sabe também que irá a Cornwall e voltará em segurança, não é?

— Pode-se dizer que sim.

— Então, se a sua mágica é sempre verdadeira, não será por­que eu vou junto para protegê-lo que o senhor fará a viagem em segurança?

Achei graça.

— Suponho que seja virtude, num guerreiro, nunca admitir a derrota. Mas, entenda, levar você seria correr dois riscos, em vez de um. Por sentir que estarei seguro, isto não quer dizer que você também esteja.

— Se o senhor pode disfarçar-se, eu também posso. Mesmo se for de mendigo, dormindo nas fossas... não importa o perigo.. . — Engoliu em seco, parecendo, de repente, muito jovem. — E que lhe importa se for arriscado para mim? O senhor estará seguro, como já me disse. Então a minha presença não lhe trará perigo, e é isto que importa. Deixe-me enfrentar os meus próprios riscos, por favor!

Sua voz sumiu. Novamente, apenas o barulho do fogo. Houve um tempo, pensei, não sem amargura, em que bastaria que eu olhasse para as chamas para encontrar ali a resposta. Estaria ele seguro? Ou teria eu de carregar o peso de mais uma morte? Mas a luz do fogo mostrava-me apenas um rapaz que queria tornar-se adulto. Uther já o impedira; minha consciência não me deixava fazer o mesmo.

Afinal, falei pesadamente:

— Já lhe disse, uma vez, que os homens têm que sustentar os seus próprios atos. Suponho, portanto, que não tenho o direito de impedi-lo. Está bem, você pode ir... Não, não me agradeça. Você estará detestando-me quando tivermos terminado. Será uma viagem um bocado desconfortável, e, antes de partirmos, você terá serviço, que não lhe agrada.

— Já estou acostumado. — Ele riu. Estava radiante, excitado a alegria de que me recordava de volta ao seu rosto. —. Mas, não. está querendo dizer que vai ensinar-me mágica!

— Não. Mas terei que ensinar-lhe um pouco de medicina, quer você goste ou não. Serei um médico de olhos viajante; vale por um bom passaporte e dá para pagar a viagem, facilmente, sem usar o ouro da Rainha, que levantaria suspeitas. Você será o meu assistente, e terá que aprender a lidar com os ungüentos.

Deu um sorriso largo.

— Bem, já que é preciso. . . Mas, coitados dos pacientes! O senhor sabe que não distingo uma erva da outra.

-— Não tema, você não as pegará; eu selecionarei as plantas. Você apenas as preparará.

— E, se os homens de Cador demonstrarem reconhecer-nos, experimente os meus ungüentos neles — disse animadamente. — Vai ser fácil como mágica! O eficiente assistente do doutor os dei­xará cegos...

 

Chegamos à estalagem em Camelford dois dias antes do meio de setembro.

O Vale Camel é serpenteante, com margens íngremes cobertas de árvores. A última parte da viagem foi feita pela trilha que acom­panhava o rio. As árvores eram muito juntas, e o atalho que seguía­mos era como que acolchoado de musgo e de pequenas samambaias verde-escuras, tanto que os cascos dos nossos cavalos não faziam ruído. Ao nosso lado, o rio descia por entre grandes pedras de granito que brilhavam ao sol. À nossa volta e por cima de nós, os carvalhos e as faias estavam ficando amarelos, e os cavalos amas­savam com as patas as bolotas entre as folhas mortas. Nozes amadu­reciam nas moitas; os salgueiros largavam folhas cor de âmbar nos baixios; e, por onde o sol furasse os ramos, ele luzia nas teias de aranha pesadas de orvalho.

A nossa viagem fora tranqüila. Uma vez passado Severn, e o perigo constante de sermos reconhecidos, cavalgáramos a passo e em belos cenários. O tempo, como é costume em setembro, estava quente e claro, mas com o ar revigorante, o que tornava o cavalgar um prazer. Ralf estivera sempre de ótima disposição, apesar das roupas inferiores, do cavalo de segunda (comprado com parte do ouro da Rainha) e do trabalho que fazia preparando os líquidos e pomadas que nos ajudavam a pagar as despesas da viagem. Só nos interrogaram uma vez, quando encontramos uma tropa dos homens do Rei próximo à Ponta de Hércules. Uther ainda conservava guarnecido o velho acampamento romano que havia ali, e, por puro azar, demos de cara com um grupo de reconhecimento que retornava ao acampamento pela mesma trilha que nós. Levaram-nos para o acam­pamento e interrogaram-nos, mas era simples rotina, pois, após um olhar superficial à nossa bagagem, a minha história foi aceita. Man­daram-nos embora com os nossos frascos cheios do vinho do "ran­cho", e, ainda, com uma moeda de cobre da venda de uma pomada a um soldado que estava de folga.

Achei interessante a vigilância dos soldados e gostaria de ter podido saber mais a respeito do estado de coisas no norte. Mas, se tivesse feito perguntas, teria atraído para mim uma atenção que não desejava. Logo eu saberia tudo que queria, da boca da própria Rainha.

— Viu alguém que conhecia? — perguntei a Ralf, enquanto nos afastávamos da entrada do acampamento, cavalgando a meio galope pelas charnecas.

— Não. E o senhor?

— Conheci o oficial, há alguns anos. Chama-se Priscus. Mas ele não deu mostras de ter-me reconhecido.

— Eu próprio não o teria reconhecido — comentou Ralf. — E não é só a barba. É o jeito de andar, de falar, tudo. É como aquela vez em Tintagel, quando o senhor se disfarçou em capitão do Duque. Eu o conhecera a vida toda, e juraria que o senhor era ele. É por isso que o povo fala em mágica. Eu também pensei que fosse.

— Isto é mais fácil — expliquei. — Se você está com os ins­trumentos de uma profissão, os homens atêm-se a ela, e não prestam muita atenção a você.

Eu realmente não dera muita importância ao disfarce. Compra­ra um manto novo, marrom, com um capuz que me escondia o rosto, e falava celta com sotaque da Bretanha. É um idioma parecido com o de Cornwall e seria compreendido aonde quer que fôssemos. Isto, juntamente com a barba e a minha atitude humilde de comerciante, faria com que somente os muito íntimos me reconhecessem. Nada faria com que me separasse do broche que meu pai me dera, com o criptograma real do Dragão Vermelho em ouro, mas eu o prendi por dentro da túnica, e ameaçara Ralf com os piores destinos existentes nos Nove Livros de Mágica se ele me tratasse por "meu senhor", mesmo em particular.

Chegamos a Camelford ao anoitecer. A estalagem era uma cons­trução achatada, de pedra revestida, que ficava na junção da estrada da costa com o vau do rio. Ela se situava no cimo da margem, aci­ma do nível de inundação. Ralf e eu, aproximando-nos pela trilha que acompanhava o rio, demos com ela pelos fundos. Parecia um lugar agradável e limpo. Alguém pintara as pedras de vermelho-ocre, da mesma cor da terra rica do local, e aves gordas ciscavam nos montes no limiar de um quintal varrido. Um cachorro acorrentado dormitava à sombra de uma amoreira carregada. Uma pilha de lenha estava empilhada junto ao estábulo e o estéreo estava a alguns me­tros de distância da porta dos fundos.

Calhamos de encontrar a estalajadeira, que estava nos fundos, recolhendo, junto com uma criada, a roupa de cama que arejava ao sol. À nossa chegada o cachorro correu até onde lhe permitia a cor­rente, latindo. A mulher olhou para nós, com a mão por sobre os olhos, por causa da luz.

Ela era moça, corpulenta e de aparência vigorosa, com boa cor e olhos azuis, claros e proeminentes. Os dentes estragados e o corpo cheio denotavam paixão por doces, e os vivos olhos azuis falavam bem claramente de outros prazeres. Eles agora percorriam Ralf, que cavalgava à minha frente, avaliando-o, e considerando-o provável, mas muito jovem; depois, esperançosamente, vieram a mim, para, desanimados, considerarem-me pouco provável e pobre demais para pagar. Então, quando o seu olhar retornou a Ralf, eu a vi reconhe­cê-lo. Ela enrijeceu, voltando rapidamente a olhar para mim. Ficou de boca aberta e, por um momento cheio de ansiedade, pensei que fosse fazer uma mesura, mas logo controlou-se. Mandou a criada entrar com os braços cheios de roupa de cama, fez calar o cão, que voltou rosnando para a sombra da amoreira, e veio cumprimentar-nos, sorridente, curiosa e excitada.

— O senhor é o médico de olhos? Paramos os cavalos na poeira do quintal.

— Sim, senhora. Chamo-me Emrys, e este é o meu criado Ban.

— Nós os estávamos esperando. Suas camas estão reservadas. — E, bem baixinho, ao se acercar do meu cavalo: — Seja bem-vindo, meu senhor, e Ralf, também. Ele cresceu um palmo desde a última vez que o vi. Tenham a bondade de entrar.

Desmontei e entreguei as rédeas a Ralf.

— Obrigado. É bom ter chegado, estamos ambos cansados. Ralf tomará conta dos cavalos. Agora, Maeve, antes de entrarmos, dê-me notícias de Tintagel. Vai tudo bem com a Rainha?

— Sim, senhor, graças a todos os santos e fadas. Não é preciso preocupar-se.

— E o Rei? Ainda em Tintagel?

— Sim, meu senhor, mas fala-se que partirá em breve. O se­nhor não terá que esperar muito. Estará mais seguro aqui do que em qualquer outro lugar em Cornwall. Seremos avisados do movi­mento das tropas, daqui a gente pode ouvi-las a uma milha, na es­trada. E não se preocupem com Caw, o meu marido; ele é gente do Duque, mas nada fará que possa prejudicar a senhora, e, além disso, faz tudo que eu mando. Não, nem sempre. Algumas coisas e'e não faz tanto quanto eu gostaria! — Deu de novo uma gargalhada ale­gre. Vi que Ralf sorria ao conduzir os cavalos, e Maeve, falando em voz alta sobre camas e horário de jantar, e os olhos do seu filho mais novo que precisavam ser examinados, fez-me entrar pela porta dos fundos da estalagem.

Mais tarde, ao conhecer o seu marido, vi que não precisava te­mer pela sua discrição. Era um homem seco, fechado como uma ostra. Entrou quando estávamos jantando, olhou para Ralf, cumpri­mentou-me com a cabeça, e foi servir o vinho sem dizer uma palavra. Sua mulher tratava-o, e a todos os fregueses, com a mesma bene­volência rude e franca, e providenciou para que todos estivéssemos bem servidos e confortavelmente instalados. No seu padrão, era um bom estabelecimento, e a comida, excelente.

Como era de se esperar, a estalagem estava sempre cheia, mas quase não havia perigo de sermos reconhecidos. Meu disfarce de curandeiro ambulante não apenas me assegurava uma aceitação sem despertar curiosidade como me proporcionava, e a Ralf, a justifi­cativa para os passeios pela região. Toda manhã, bem cedo, levando comida e vinho, seguíamos por um dos valezinhos estreitos e arbo­rizados que proliferavam no Vale Camel, até os morros ventosos que ficavam entre Camelford e o mar. Ralf conhecia todos os caminhos. Geralmente nos separávamos, e cada um escolhia um esconderijo de onde pudesse observar os dois caminhos pelos quais Uther e seus homens podiam sair de Tintagel. Ele podia virar para nordeste, acompanhando a costa para Dimilioc e para o acampamento da Ponta de Hércules, ou (se estivesse indo diretamente para Winchester ou para os focos de agitação ao longo da Praia Saxã) podia seguir as trilhas do vale através de Camelford e, daí, subir para sudeste para a estrada militar que passava pela espinha da Dumnonia. Aqui, nas alturas varridas pelo vento, os bosques escasseiam e há grandes ex­tensões de terra pantanosa dominadas por estranhas colinas pedrego­sas. A velha estrada romana, desmoronando-se rapidamente naquela região inóspita, mas ainda em uso, passa direto por Isca, para a re­gião mais agradável que fica por trás da Muralha de Ambrósio. Era o meu palpite que Uther seguiria este último caminho, e queria ver quem o acompanhava. Ralf e eu fizemos saber que eu estava à procura de plantas para os meus remédios, e, na verdade, eu ia para o meu ponto de encontro com ele, toda noite, com a sacola cheia de raízes e frutas que não cresciam na minha terra, e que eu estava feliz por conseguir. Felizmente, o tempo continuava bom e ninguém estranhava de nos ver sair. Estavam todos felizes por ter um médico por perto, que os tratava todas as noites, sem cobrar mais do que podiam pagar.

E assim passavam-se os dias, serenos e calmos, enquanto espe­rávamos pela partida do Rei e pelo chamado da Rainha.

Passou-se uma semana até que partisse. Ele seguiu o caminho que eu imaginara, e eu estava lá, observando.

Há um lugar onde a trilha de Tintagel a Camelford segue por cerca de um quarto de milha ao longo do sopé de uma ribanceira íngreme e densamente arborizada. Quase sempre íngreme e densa demais para penetrar-se, havia, contudo, lugares ao sol na orla do bosque, ribanceiras pedregosas cobertas de samambaias e cardos, onde sarças e grandes fetos crescem em moitas sobre as rochas. As moitas de ameixa-brava eram altas e luziam suas frutas. Algumas das ameixinhas ainda estavam verdes, mas a maioria estava pronta, com o preto sobre o azul-pálido denotando o amadurecimento. Com o extrato da fruta faz-se um remédio sem par para os intestinos: um dos filhos de Maeve sofria dos intestinos, e eu lhe prometera uma poção para tomar à noite. Apenas um punhado seria suficiente, mas as frutas estavam tão maduras e tentadoras que continuei colhendo. Se as amoras forem amassadas e adicionadas de um modo especial ao vinho de junípero, fazem uma boa bebida, rica, adstringente e poderosa. Eu mencionara isto a Maeve, e ela queria experimentar.

Minha sacola estava quase cheia quando escutei, como leve trovoada a distância, cavalos descendo a trilha abaixo de mim. Entrei rapidamente para dentro do bosque e fiquei olhando do esconderi­jo. A frente da coluna logo apareceu; em seguida o longo trem de poeira, cheio do bater dos cascos, do tinir das armaduras, do brilho colorido das flâmulas, veio vindo ao longo do sopé do declive. Uns mil, talvez mais. Fiquei imóvel na sombra das árvores e vi-os passar. O Rei ia a um corpo de cavalo na frente, e atrás dele, à sua esquerda, seguia o porta-estandarte com o Dragão Vermelho. Outras cores apareciam por entre a poeira, mas não havia vento para fazer tremular as bandeiras e, por mais que eu forçasse a vista, não pude distinguir todas. Também não vi aquela que esperava ver, embora não pudesse jurar que não estava lá. Esperei até que o último cava­leiro dobrasse a curva da estrada e fui para o meu ponto de encontro com Ralf.

Ele encontrou-me a meio caminho, arquejante.

— O senhor os viu?

— Vi. Onde estava você? Mandei que olhasse o outro caminho.

— E estava olhando. Mas não havia movimento algum por lá. Já estava voltando para cá quando os ouvi, então corri. Quase que os perco, só vi o finalzinho. Era o Rei, não era?

— Era. Ralf, deu para você distinguir as divisas? Viu alguma conhecida?

— Vi Brychan e Cynfelin, mas não havia outras de Dyfnaint que eu reconhecesse. Os homens de Garlot estavam lá, de Cernyw, também, acho, e outros que pareceram-me conhecidos, mas com toda aquela poeira não dava para ter certeza. Já tinham dobrado a curva antes que eu pudesse ver direito.

— Cador estava lá?

— Sinto muito, meu Senhor, não vi;

— Não faz mal. Se os outros de Cornwall estavam lá, ele com certeza também estava. Na estalagem saberão. E você, já se esque­ceu que não pode me tratar por "meu senhor", nem quando estamos a sós?

— Desculpe-me... Emrys. — Dava a medida do nosso novo relacionamento o fato de ter acrescentado, com uma humildade sus­peita: — E o senhor, esqueceu-se que o meu nome é Ban? — E rindo, ao desviar-se do cascudo: — Tinha que dar-me o mesmo nome do débil mental?

— Foi o primeiro nome que me veio à cabeça. É também nome de rei, do Rei de Benoic, portanto você pode escolher quem foi o seu padrinho.

— Benoic? Onde fica?

— No norte. Venha, vamos voltar para a estalagem. Não creio que a Rainha mande chamar-me antes de amanhã, mas tenho uma poção para preparar, e isto leva tempo. Tome, leve isto.

Eu tinha razão; o mensageiro veio na manhã seguinte. Ralf descera a estrada para aguardá-lo, e os dois voltaram juntos, cem a ordem de que eu deveria ir imediatamente a Tintagel para a minha audiência com a Rainha.

Não o confessara a Ralf, nem o admitira a mim mesmo, mas estava apreensivo com a minha entrevista com Ygraine. Na noite em que a criança foi concebida, em Tintagel, eu tinha certeza, a certeza de um vidente, que o menino que nasceria ser-me-ia entre­gue para criar, e que eu seria o guardião de um grande Rei. O pró­prio Uther, na sua amargura e na sua raiva pela morte de Gorlois, jurara rejeitar o "bastardo" que gerara, e, pela carta de Márcia, eu sabia que não mudara de idéia. Mas, nos seis longos meses desde a noite de março, eu não tivera notícias diretas de Ygraine, não sabia se ela pretendia obedecer ao marido, se conseguiria separar-se da criança. Repassara uma centena de vezes os argumentos que eu usa­ria, lembrando-me, com certa incredulidade, da certeza com que anteriormente falara com ela e com o Rei. Mas, então, o meu deus estava comigo. Mas, agora, amargamente, ele já não estava comigo. Às vezes, acordado durante a noite, encarava as minhas visões do passado como meras chances, ilusões, sonhos alimentados pelo desejo. Recordei as palavras amargas que o Rei me dirigira:

— Agora eu vejo bem o que é a sua mágica, este "poder" de que fala. Ê apenas impostura humana, uma tentativa de fazer a po­lítica que o meu irmão ensinou-lhe a gostar e a manejar, e a acredi­tar que era o seu mistério. Você usa até Deus para atingir os seus fins. "Ê Deus que me ordena que jaca essas coisas, é Deus que marca o preço, é Deus que determina que outro deve pagar..." Por que,

Merlin? Pela sua ambição? E quem vai pagar a Deus a dívida por seguir os seus planos? Não você. Os homens que jogam o seu jogo para você, e que pagam o preço. Mas você nada paga.

Quando eu escutava estas palavras, ouvidas bem claramente nas noites em que mais nada falava comigo, eu me perguntava se compreendera direito a minha visão do futuro, ou se tudo que eu fizera e com que sonhara não fora apenas escárnio. Então, lembrando-me dos que pagaram com a morte pelo meu sonho, achava que a morte fora mais misericordiosa do que este deserto de dúvida em que me encontrava, esperando em vão por uma palavra do menor dos meus deuses. Sim, eu paguei. Cada noite daqueles nove longos meses, eu paguei.

Mas, agora era dia, e eu logo saberia o que a Rainha queria comigo. Lembro-me de como eu me mexia irrequieto enquanto Ralf selava o meu cavalo e se aprontava. Maeve estava na cozinha, com as criadas, lavando as ameixas para a feitura do vinho. Uma panela delas estava no fogo, começando a ferver. Parecia-me uma estranha lembrança para levar comigo na visita à Rainha, o cheiro de vinho de ameixa-brava. De repente eu não consegui suportar o cheiro pungente e adocicado e, engasgado, corri para fora. Mas logo uma das moças veio correndo perguntar algo sobre a mistura, e, ao respondê-la, esqueci-me do enjôo, e já Ralf estava ao meu lado para chamar-me, e nós três (Ralf, o mensageiro e eu) nos pusemos a galopar para Tintagel na tarde fresca e macia de setembro.

 

Fazia poucos meses que não via Ygraine, mas ela mudara muito. A princípio, pensei que fosse apenas a gravidez; seu corpo, outrora esbelto, estava muito aumentado, e, embora aparentasse boa saúde, o seu rosto apresentava olheiras e vincos ao redor da boca. Mas, a mudança era mais profunda; notava-se na expressão dos olhos, nos gestos, na maneira de sentar. Antes, ela era jovem e vibrante, um pássaro selvagem debatendo-se numa gaiola; agora, estava tristonha, asas cortadas, grávida, uma criatura terrena.

Recebeu-me no quarto, um aposento longo por cima da mura­lha, com um grande nicho circular no lugar da torre, no canto no­roeste. Havia janelas na parede virada para o sudoeste, através das quais o sol entrava livremente, mas a Rainha sentava-se junto a uma das janelinhas estreitas da torre, por onde entravam a brisa fresca da tarde de setembro e o ruído eterno do mar nas rochas lá em­baixo. Nisto, ainda era a Ygraine de que me recordava. Era típico dela preferir o vento e os sons do mar, ao invés da luz do sol. Mas o quarto, apesar da luz e do ar, dava a impressão de uma gaiola: aqui a jovem esposa do velho Duque Gorlois passara os anos perdi­dos até a fatídica viagem a Londres, quando conhecera o Rei. Agora, após um breve vôo, estava presa novamente, pelo seu amor pelo Rei, e pelo peso da criança. Nunca amei mulher alguma, com uma única exceção, mas sempre tive pena delas. Agora, orando para a Rainha, jovem, bela e com o coração satisfeito, tive pena dela, como tive também medo do que ela fosse dizer-me.

Estava só. Um camareiro conduzira-me pela antecâmara onde as mulheres fiavam, teciam e mexericavam. Olhos vivos fitaram-me com curiosidade momentânea e o falatório cessou, para recomeçar após a minha passagem. Os seus rostos não demonstraram reconhe­cimento, apenas, em alguns, vi um leve desapontamento pelo apare­cimento de um sujeito tão humilde e comum. Nenhuma digressão, aqui. Para elas eu era um simples mensageiro, que a Rainha recebia na falta do Rei; nada mais.

O camareiro bateu à porta do quarto principal e retirou-se. Már­cia, a avó de Ralf, abriu a porta. Era uma mulher grisalha, com os olhos de Ralf num rosto vincado e ansioso, mas, apesar da idade, tinha a postura de uma moça. Embora me estivesse esperando, vi seus olhos pousarem em mim sem sinal de reconhecimento, depois com um lampejo de surpresa. Até Ygraine surpreendeu-se por um momento, depois sorriu e estendeu a mão.

— Príncipe Merlin! Bem-vindo. — Márcia fez uma mesura que abrangia a mim e a Rainha, e retirou-se. Aproximei-me para ajoelhar e beijar a mão da Rainha.

— Senhora.

Ela ergueu-me com delicadeza.

— Foi gentil da sua parte ter atendido tão depressa a um cha­mado tão estranho. Fez boa viagem?

— Muito boa. Estamos hospedados com Maeve e Caw, e até agora nem eu nem Ralf fomos reconhecidos. O seu segredo está a salvo.

— Eu lhe agradeço por ser tão cuidadoso com ele. Nem eu o reconheci até que falou.

Cocei o queixo, sorrindo.

— Como vê, há já algum tempo que me estou preparando.

— Nenhuma mágica, desta vez?

— Exatamente como da outra — respondi.

Ela encarou-me, os lindos olhos azul-escuros encontrando os meus do jeito que eu me lembrava, e vi que esta ainda era a mesma Ygraine de antes, franca como um homem, e com o mesmo tipo de orgulho. A calma pesada era apenas uma capa, a tranqüilidade leitosa que parece cobrir as mulheres durante a gravidez. Por baixo da calma, da placidez, estava o antigo fogo. Abriu os dedos.

— Vendo-me agora, ainda me diz que, quando falou comigo em Londres e prometeu-me o amor do Rei, não havia mágica al­guma?

— Não na artimanha que trouxe o Rei até a senhora. No que aconteceu depois, talvez.

— Talvez? — Ela ergueu a voz, e isso avisou-me. Ygraine podia ser Rainha, com um ânimo quase masculino, mas era uma mulher com quase sete meses de gravidez. Os meus temores eram meus, e deviam permanecer comigo. Hesitei, procurando as palavras, mas ela continuou, com veemência, como que procurando conven­cer-se a si mesma. — Quando me falou e disse que poderia trazer o Rei até mim, havia mágica, sei que havia. Eu a senti, eu a vi no seu rosto. Você me disse que o seu poder vinha de Deus, e que, ao obedecê-lo, eu era uma criatura de Deus, assim como você. Disse que, por causa da mágica que traria Uther até mim, o reino teria paz. Falou de coroas e altares... E agora eu sou Rainha, com as bênçãos de Deus, e espero o filho do Rei. Ousa dizer-me, agora, que me enganou?

— Não a enganei, senhora. Aquela foi uma época de visões, e uma paixão de sonhos e desejos. Já estamos livres deles, agora esta­mos sóbrios e é dia claro. Mas a mágica está aqui, crescendo dentro da senhora, e, desta vez é realidade, não visão. Ele nascerá pelo Natal, não é?

— Ele? Você parece muito certo.

— Estou certo.

Vi que ela apertou os lábios, como se estivesse sentindo dor, depois olhou para as mãos, juntas sobre a barriga. Quando falou, fê-lo calmamente, diretamente para as mãos, ou para aquilo que elas cobriam.

— Márcia me disse que mandou-lhe recados no verão. Mas já devia saber, mesmo sem que ela lhe dissesse, o que o Rei, meu senhor, pensa a esse respeito.

Esperei que continuasse, mas ela queria uma resposta.

— Ele próprio me disse — retruquei. — Se ainda pensa da mesma maneira, não reconhecerá a criança como seu herdeiro.

— Ainda pensa da mesma maneira. — Ergueu os olhos de­pressa para mim. — Entenda-me, ele não tem, nem nunca teve, a menor dúvida a meu respeito. Ele sabe que eu fui sua desde o primeiro momento em que o vi, e que, deste momento em diante, com esta ou aquela desculpa, nunca mais pertenci ao Duque. Não, ele não duvida de mim; sabe que o filho é seu. E apesar de tudo que diz — houve a sombra de um sorriso e de repente sua voz tornou-se indulgente, a voz de uma mulher falando de um filho ou de um marido bem-amado — e do muito que nega, ele conhece e teme o seu poder, Merlin. Você lhe disse que aquela noite geraria uma criança, e ele acredita na sua palavra, mesmo que não acreditasse na minha. Mas nada disso altera os seus sentimentos. Ele se culpa, e a você, e até à criança, pela morte do Duque.

— Eu sei.

— Ele diz que se tivesse esperado Gorlois teria mesmo morrido naquela noite, e eu seria Rainha e a criança teria sido concebida dentro do matrimônio, e ninguém poderia duvidar da sua paterni­dade ou chamá-lo bastardo.

— E você, Ygraine?

Ela ficou calada durante muito tempo. Virou a bela cabeça e ficou a olhar pela janela, para as gaivotas que voavam e gritavam ao vento. Eu percebi, não sei como, que a sua calma era a de um sol­dado que, tendo vencido uma batalha, descansa antes da seguinte. Senti meus nervos endurecerem. Eu não menosprezava Ygraine, se a batalha fosse comigo.

Disse, mansamente:

— Talvez o que o Rei diz seja verdade. Não sei. Mas, o que passou, passou, e o que me interessa agora é a criança. Por isso mandei chamá-lo. — Uma pausa. Esperei. Encarou-me novamente. — Príncipe Merlin, temo pela criança.

— Às mãos do Rei?

Isto foi demais, até para Ygraine. Seus olhos ficaram frios, e a sua voz.

— Isto é insolência, e loucura também. O senhor abusa, meu senhor.

— Eu? — Retruquei, também friamente. — A senhora parece esquecer-se. Se minha mãe fosse casada com Ambrósio quando ele me gerou, Uther não seria Rei agora, nem eu tê-lo-ia levado até a sua cama para gerar a criança que espera. A senhora não pode falar-me em insolência, ou loucura. Ninguém melhor que eu para saber o que se reserva na Inglaterra para um príncipe concebido fora do matrimônio e não reconhecido por seu genitor.

Ela estava tão rubra agora quanto estivera pálida antes. Seus olhos deixaram os meus, com a raiva a abandoná-los. Falou sim­plesmente, como uma menina:

— Tem razão,- eu me esquecera. Peço o seu perdão. Esquece­ra-me também do que é poder falar livremente. Aqui não há ninguém, salvo Márcia e o meu senhor, e não posso falar com Uther sobre a criança.

Eu ficara de pé todo este tempo; agora, virei-me para apanhar uma cadeira e colocá-la perto dela, no vão da torre. Sentei-me. As coisas tinham mudado entre nós, como quando um vento muda subi­tamente. Eu agora sabia que a batalha não era comigo, mas com ela mesma, com a sua fraqueza feminina. Ela me observava como uma mulher com dores observa o seu médico. Falei, suavemente:

— Bem, aqui estou. E escutando. Mandou chamar-me para me dizer o quê?

Respirou fundo. Quando respondeu, a voz estava calma, mas era um simples sussurro.

— Que, se nascer um menino, o Rei não deixará que eu o crie. Se for menina, posso ficar com ela, mas um menino gerado nestas condições não pode ser reconhecido como príncipe e herdeiro legítimo, portanto não pode ficar aqui, nem como bastardo. — Pro­curou controlar-se. — Eu lhe disse que Uther não duvida de mim. Mas, pelo que aconteceu aquela noite, a morte de meu marido, e toda aquela história de mágica, ele jura que os homens podem acre­ditar que o filho é do Duque e não dele. Diz que haverá outros filhos, dos quais ninguém duvidará da paternidade, e, entre eles, ele en­contrará o herdeiro para o Grande Reino.

Eu disse, com cuidado:

— Ygraine, sei quão doloroso para uma mulher é perder o seu filho, seja de que modo for. Talvez não exista maior dor. Mas acho que o Rei tem razão. Nesta época de violência e incerteza, ele não deve ficar aqui para ser criado como bastardo. Se houver outros her­deiros, deparados e reconhecidos pelo Rei, poderão considerar o menino perigoso para eles, e certamente serão perigosos para o me­nino. Sei do que estou falando; isto aconteceu na minha infância. E eu, como bastardo real, tive uma sorte que este príncipe talvez não tenha; eu tinha a proteção do meu pai.

Uma pausa. Ela anuiu, sem falar, olhando novamente para as mãos no seu colo.

— E se a criança precisa ir embora, — continuei — é melhor que se vá do quarto do parto, antes que você a tenha segurado. Creia-me, — prossegui rapidamente, embora e'a não se tivesse me­xido — é verdade. Estou falando como médico.

Ela umedeceu os lábios.

— Márcia diz a mesma coisa.

Esperei um momento, mas ela não disse mais nada. Comecei a falar, vi que estava rouco, e pigarreei. Minhas mãos apertaram, sem que eu sentisse, os braços da cadeira. Mas minha voz estava calma e firme quando cheguei ao âmago da entrevista.

— O Rei já lhe disse onde a criança será criada?

— Não. Já expliquei que não é fácil falar com ele sobre isto. Da última vez que o fizemos, ele disse que deliberaria; e mencionou a Bretanha.

— Bretanha? — Apesar do meu cuidado, a palavra saiu ríspida. Procurei recobrar a calma. Minhas mãos tinham-se crispado na ca­deira; procurei relaxá-las e conservá-las imóveis. Então, minhas dú­vidas tinham fundamento. Saber disso deu-me novas forças. Se era preciso lutar contra o Rei, contra Ygraine e também contra os meus deuses ambíguos, pois bem, eu lutaria. Enquanto pudesse ver o chão da luta... — Então, Uther quer mandá-lo para o Rei Budec?

— É o que parece. — Ela não parecia notar nada de estranho no meu comportamento. — Ele enviou um mensageiro há um mês. Um pouco antes que eu pedisse a você para vir. Budec é a escolha óbvia, afinal de contas.

Isto era verdade. O Rei Budec da Inglaterra Pequena era primo do Rei. Foi ele que, há uns trinta anos, tomou sob a sua proteção meu pai e o jovem Uther, quando o usurpador Vortigern assassinou o Rei Constans, seu irmão mais velho, e foi na sua capital, Kerrec, que se reuniu e treinou o exército que retomou o Grande Reino de Vortigern. Meneei a cabeça.

— Óbvia demais. Se alguém quiser fazer mal ao menino, saberá onde procurar. Budec não poderá protegê-lo o tempo todo. Além disso...

— Budec não saberá dar ao meu filho o cuidado de que ele precisa! — As palavras interromperam-me, mas a interrupção não foi feita por indelicadeza. Foi como um grito. Era evidente que não escutara uma palavra do que eu dissera. Ela lutava consigo mesma, escolhendo as palavras. — Ele está velho e, além disso, a Bretanha fica muito longe e é menos segura do que esta terra infestada de saxões. Príncipe Merlin, eu... Márcia e eu... nós achamos que o senhor. . . — Ela começou a torcer as mãos no colo. Sua voz mudou. — Não há mais ninguém em quem confiar. E Uther... não importa o que diga, Uther sabe que o seu reino, ou qualquer parte dele, está em segurança nas suas mãos. Você é filho de Ambrósio, e o parente mais chegado da criança. Todos conhecem o seu poder, e temem-no... a criança estaria segura sob a sua proteção. é você quem tem de levá-lo, Merlin! — Ela agora implorava: — Leve-o para longe desta costa cruel, e crie-o para mim. Ensine-o, como você foi ensinado, crie-o como um filho de rei deve ser criado, e quando ele estiver crescido, traga-o de volta e deixe que ele as­suma o seu lugar, como você assumiu, ao lado do próximo Rei.

Hesitou. Eu devia estar fitando-a como um idiota. Calou-se, tor­cendo as mãos. Houve um longo silêncio, preenchido pelo cheiro do vento salgado e pelos gritos das gaivotas. Eu nem me apercebera, mas tinha me levantado e estava de pé à janela, de costas para a Rainha, olhando para o céu. Abaixo das paredes da torre, as gaivotas volteavam e gritavam ao vento, e, bem lá embaixo, ao pé do negro penhasco, o mar arremetia-se e esbranquiçava-se. Mas eu nada via e ouvia. Minhas mãos firmavam-se contra o parapeito de pedra, e quando finalmente as levantei, havia um lugar pisado nelas, onde a pedra as machucara. Comecei a esfregá-las, só então sentindo a dor, e virei-me para encontrar os olhos da Rainha. Ela também já se controlara, mas havia tensão no seu rosto e, com uma das mãos, repuxava o vestido.

Falei, francamente:

— Acha que pode persuadir o Rei a dá-lo para mim?

— Não, acho que não. Não sei. — Engoliu em seco. — É claro que posso falar com ele, mas...

— Mas, se você não tem o poder de convencer o Rei, por que mandou chamar-me para pedir-me isso?

Ela ficou branca, movendo os lábios, mas não deixou de en­carar-me.

— Pensei que, se concordasse, meu senhor, poderia... faria. . .

— Eu nada posso fazer com Uther, agora. Você deve saber. — Mas, com súbita e amarga compreensão: — Ou mandou chamar-me, como da última vez, esperando uma mágica de encomenda, como se eu fosse uma velha curandeira ou um druida da roça? Ora, se­nhora ... — Parei. Vi a vacilação nos seus olhos, a palidez ao redor da sua boca contraída, e lembrei-me do que carregava dentro de si. Minha raiva morreu. Levantei a mão, dizendo suavemente: — Pois bem. Se puder ser feito, Ygraine, eu o farei, mesmo se tiver que falar com Uther para lembrá-lo da sua promessa.

— Promessa? O que prometeu-lhe ele, e quando?

— Quando mandou chamar-me da primeira vez, falando-me do seu amor por você, jurou obedecer-me em qualquer coisa, contanto que obtivesse o que queria. — Sorri. — Foi mais um suborno do que uma promessa, mas vou cobrá-la agora como jura real.

Começou a agradecer-me, mas eu a interrompi.

— Não, não, guarde os seus agradecimentos. Eu talvez não tenha sucesso com o Rei; sabe que ele gosta muito pouco de mim. Foi esperta ao mandar chamar-me secretamente, e será mais esperta ainda se não deixar que ele saiba que discutimos o caso juntos.

— Por mim não saberá-Inclinei a cabeça.

 

— Agora, pelo seu bem e pelo da criança, deixe os temores de lado. Deixe comigo. Mesmo se não conseguirmos demover o Rei, eu lhe prometo que vigiarei a criança, não importa onde seja criada. Ele estará em segurança, e será criado como convém a um filho do Rei. Isto a contentará?

— Se for preciso, sim.

Respirou fundo e moveu-se, afinal, levantando-se da cadeira e, ainda graciosa, apesar do seu volume, encaminhando-se para uma das janelas mais afastadas. Não a segui. Ficou lá um pouco, em si­lêncio, de costas para mim. Quando, finalmente, virou-se, estava sor­rindo. Chamou-me com a mão e eu fui até ela.

— Diga-me uma coisa, Merlin.

— Se puder.

— Na noite em que nos falamos, em Londres, antes de você trazer o Rei até aqui. Você falou de uma coroa, e de uma espada em um altar, como uma cruz. Tenho pensado tanto nisto... Diga-me a verdade. Foi a minha coroa que viu? Ou quis dizer que esta crian­ça, este menino que já custou tanto, será Rei?

Devia ter-lhe dito: "Ygraine, não sei. Se a minha visão foi verdadeira, se fui realmente um profeta, então ele será Rei. Mas a Visão abandonou-me, nada fala comigo na noite ou no fogo, e eu estou estéril. Só posso fazer como você, e confiar. Mas, não há re­torno. Deus não desperdiçará todas as mortes."

Mas ela me observava com os olhos de uma mulher em sofri­mento, e eu lhe respondi:

— Ele será Rei.

Ela abaixou a cabeça, e ficou em silêncio por alguns minutos, olhando a luz do sol sobre o chão, não como se pensasse, mas como se escutasse o que se mexia dentro dela. Depois, encarou-me nova­mente.

— E a espada no altar? Balancei a cabeça.

— Senhora, não sei. Ainda não apareceu. Se eu tiver de saber, ser-me-á mostrado.

Estendeu a mão.

— Só mais uma coisa... — Pelo seu tom de voz, percebi que era o que lhe importava mais. Sem saber o que seria, preparei-me para mentir. Perguntou: — Se eu perder este filho... Terei outros, Merlin?

— Já me perguntou três coisas, Ygraine.

— Não quer responder?

Eu falara apenas para ganhar tempo, mas, ao ver o lampejo de medo e dúvida em seus olhos, fiquei feliz em poder dizer-lhe a verdade.

— Eu lhe responderia, senhora, mas não sei.

— E por que não? — indagou vivamente. Dei de ombros.

— Novamente, não lhe posso responder. Além desse menino que a senhora espera, eu nada vi. Mas é provável, já que ele será Rei, que não terá outros filhos. Meninas, talvez, para consolá-la.

— Rezarei para isto — disse com simplicidade, conduzindo-me para o vão. Fez-me sentar. — Aceita uma taça de vinho comigo, antes de partir? Não fui muito hospitaleira, eu sei, depois de fazê-lo viajar tanto, mas era enorme a minha angústia de conversar. Vamos sentar-nos, agora, e me contará o que há de novo com você.

Fiquei mais um pouco, e, depois de contar-lhe as minhas escas­sas novidades, perguntei-lhe para onde fora Uther com as tropas. Contou-me que ele se dirigia não para a sua capital em Winchester, como eu supusera, mas para o norte, para Viroconium, onde convo­cara um conselho de dirigentes e reis menores do norte e do nor­deste. Viroconium é a velha cidade romana que fica na fronteira de Gales, com as montanhas de Gwynedd entre ela e a ameaça da Praia Irlandesa. Ainda era um centro de mercado e as estradas esta­vam bem conservadas. Uma vez que saísse da Península de Dumnonia, Uther poderia ir bem rápido para o norte pela Ponte de Glevum. Poderia até, se o tempo continuasse bom e o país calmo, estar de volta para o parto da Rainha. No momento, Ygraine con­tou-me, a Praia Saxã estava calma; após a vitória de Uther em Vindocladia, os invasores estavam gozando da hospitalidade das tri­bos federadas. Não havia notícias c'aras do norte, mas o Rei (disse-me ela) temia alguma ação conjunta ali na primavera, entre os pictos de Strathclyde e os anglos invasores: o encontro dos Reis em Viroconium tinha sido arranjado como tentativa de desbaratar qualquer espécie de plano de defesa unida.

— E o Duque Cador? — perguntei. — Fica aqui em Cornwall ou segue para Vindocladia para vigiar a Praia Saxã?

Fiquei surpreso com a sua resposta.

— Ele vai para o norte com o Rei, para o conselho.

— Vai mesmo? Então é melhor eu tomar cuidado. — Ao seu rápido olhar, acrescentei: — Sim, vou direto falar com o Rei. O tempo urge, e tive sorte dele estar viajando para o norte. Deve con­duzir suas tropas pela Ponte de Glevum, e assim, Ralf e eu podemos ir de balsa e chegar lá antes dele. Se o interceptar antes de Severn, ele nunca saberá que eu deixei Gales.

Em seguida, eu me retirei. Quando a deixei, ela estava nova­mente de pé à janela. A cabeça erguida, e o vento a desmanchar-lhe os cabelos escuros. Eu sabia que, chegada a hora, a criança não seria tirada de uma mulher chorosa e arrependida, mas de uma Rainha, satisfeita de vê-lo seguir o seu destino.

 

Com Márcia não se dava o mesmo. Esperava por mim na ante-câmara, cheia de perguntas, pesares, e raiva contra o Rei, que ela mal sufocava com discrição. Reconfortei-a como pude, jurei várias vezes por todos os deuses em cada santuário e colina oca da Ingla­terra que faria o máximo para ficar com a criança e protegê-la, mas, quando começou a pedir-me encantamentos para a hora do parto, e falar em amas-de-leite, deixei-a falando e dirigi-me para a porta.

Esquecendo o seu lugar na agitação em que se encontrava, se­guiu-me e agarrou-me a manga.

— Já lhe contei? O Rei diz que ela deve ser atendida pelo médico dele, um homem em quem confia para contar as coisas como foram, e para não revelar para onde o pobrezinho foi ser criado. Como se não fosse mais importante que a minha senhora fosse bem atendida! Todo mundo sabe que basta dar bastante ouro a um médico para ele entregar a própria mãe!

— É verdade — retruquei, bem sério. — Mas conheço bem Gandar e não há outro melhor. A Rainha estará em boas mãos.

— Mas, um médico militar! O que pode entender de partos? Dei uma risada.

— Ele serviu por muito tempo com o exército do meu pai na Bretanha. Onde há guerreiros, há também mulheres. Meu pai tinha um exército de quinze mil homens, aquartelados. Pode crer, Gandar tem muita experiência.

Ela teve que se contentar com isto. Estava de novo falando sobre amas-de-leite quando a deixei.

Veio à estalagem à noite, de capa e capuz, cavalgando firme como um homem. Maeve levou-a ao quarto que sua família ocupa­va, pôs todo mundo para fora, inclusive Caw, depois levou Ralf para ver a avó. Eu já estava deitado quando ela partiu.

Na manhã seguinte, Ralf e eu partimos para Bryn Myrddin, com alguns frascos de vinho de ameixa para alegrar nossa viagem. Para minha surpresa, Ralf estava tão animado quanto na vinda: talvez, depois da breve visita ao lugar da sua infância, estar ao meu serviço lhe cheirasse a liberdade. Soubera de todas as novidades pela avó; contou-mas pelo caminho; a maioria eu já soubera pela Rainha, ele acrescentara alguns mexericos da corte, que eram divertidos, mas pouco informativos, com exceção dos comentários sobre a rejeição da criança por Uther.

Ralf, para meu divertimento, que dissimulei, estava agora tão ansioso quanto Márcia para que eu ficasse com a custódia da cri­ança.

— Se o Rei recusar, que fará o senhor?

— Irei à Bretanha conversar com o Rei Budec.

— Acha que ele deixará que fique com o príncipe?

— Budec também é meu parente, não se esqueça.

— Mas será que ele se arriscaria a ofender o Rei Uther? Guar­daria segredo?

— Não sei dizer-lhe — respondi. — Se fosse Hoel, filho de Budec, as coisas seriam diferentes. Eles sempre brigaram como cães disputando a mesma cadela.

Não acrescentei que a comparação era realmente bastante pre­cisa. Ralf meneou a cabeça, mastigando (tínhamos parado para co­mer ao sol), e pegou uma garrafa.

— Quer um pouco? — Oferecia-me o vinho de ameixa.

— Pelos deuses das uvas verdes, rapaz, não! Ainda levará um ano até que esteja no ponto para beber. Espere até a época da próxima colheita para abrir.

Mas ele insistiu e desarrolhou a garrafa. Tinha um cheiro estra­nho e um gosto pior. Quando sugeri, sem maldade, que Maeve de­certo cometera um erro e dera-lhe o remédio para os intestinos, ele cuspiu tudo na grama, depois indagou-me, bem sério, do que é que eu estava rindo.

— Não de você. Vamos, deixe-me provar.. . Não há nada aqui que não devesse estar; mas eu devia estar com o pensamento longe quando me perguntaram sobre como misturar. Não, estava rindo de mim mesmo. Todos esses meses.. . esses anos, batendo à porta do céu para conseguir o quê? Um bebê e uma ama-de-leite. Se in­sistir em ficar comigo, Ralf, os próximos anos certamente trarão novas experiências para nós dois.

Ele anuiu; estava ocupado com as ansiedades do presente.

— Se tivermos que ir para a Bretanha, vamos ter de continuar disfarçados deste jeito? Durante anos? — Deu um piparote na fa­zenda grosseira da capa.

— Depende. Não exatamente assim, creio. Espere até chegar às pontes, Ralf.

Sua fisionomia expressava desapontamento pela minha maneira de falar. Os feiticeiros construíam as suas próprias pontes, ou cru­zavam para o outro lado sem elas.

— Depende do Rei, o senhor quer dizer? Precisa mesmo pro­curá-lo? Minha avó diz que, se espalharem que o bebê nasceu morto, o senhor pode pegá-lo em segredo, sem que o Rei saiba.

— Você está esquecendo que os homens precisam saber que o príncipe nasceu. Senão, não irão aceitá-lo quando Uther morrer.

— Então, o que vai fazer, meu senhor?

Balancei a cabeça, sem responder. Ele tomou o meu silêncio por recusa em contar-lhe, e aceitou-a, sem mais perguntas. Quanto a mim, estava seguindo o meu próprio conselho sobre as pontes; estava esperando para ver como cruzá-las. Já convencera a Rainha, e a pior parte do jogo estava terminada; era preciso, agora, ver a melhor maneira de lidar com o Rei. Deveria pedir o seu consentimento, di­retamente, ou dirigir-me primeiro a Budec? Enquanto terminávamos a nossa refeição, parei de pensar na Bretanha, no Rei, e, até, na criança; fiquei quieto ao sol e deixei o tempo passar. O que acon­tecera agora em Tintagel, acontecera sem que eu planejasse. Algo mexia-se; havia uma respiração brilhante no ar, a brisa de Deus a passar, invisível à luz do sol. Até para homens que não podem vê-los ou ouvi-los, os deuses existem e eu não passava de um homem. Não tinha a arrogância (ou a coragem) de testar o meu poder novamen­te, mas vesti a esperança, como um homem despido, para quem até andrajos são bem-vindos em um temporal de inverno.

 

O tempo não mudou e viajamos bem, tomando cuidado para não seguir muito de perto as pegadas de Uther; se fôssemos encon­trados a oeste dos pântanos de Uxella (ou em qualquer lugar ao sul de Severn) seria muito óbvio de onde vínhamos. Uther geral­mente ia depressa, e nada havia para detê-lo aqui na região povoa­da, por isso íamos com cautela, esperando até que o seu exército ul­trapassasse o extremo sul da travessia do Severn. Se tivéssemos sorte com a balsa e, depois de atravessarmos o Severn, fôssemos depressa para o norte, poderíamos alcançar as tropas no seu caminho para a fronteira de Gales (tendo, aparentemente, vindo de Maridunum com esse intuito) e tentar conversar com o Rei.

Quando fomos para o sul, evitamos a estrada principal e usamos os atalhos que acompanham a costa por dentro dos vales. Agora, para não nos distanciarmos demais de Uther, procurávamos seguir o mais possível em linha reta pelas serras, mas evitando a estra­da pavimentada onde estações para o correio pudessem ter sido dei­xadas guarnecidas, na esteira do exército.

Tomamos mais cuidado que anteriormente. Após deixarmos o abrigo da hospedaria de Maeve, não procuramos outras estalagens. Aliás, os caminhos que trilhávamos não tinham hospedarias, mesmo que as quiséssemos; alojávamo-nos onde fosse possível: em cabanas de lenhadores, em abrigos para ovelhas, até em pilhas de samambaias cortadas para forragem.. . e dávamos graças pelo tempo bom. Passamos por regiões selvagens. Cadeias altas de terra pantanosa, onde a urze cresce entre outeiros de granito, e a terra só presta para alimentar ovelhas e veados selvagens; mas, logo abaixo da espinha rochosa do terreno, começa a floresta. Nas terras altas as árvores crescem esparsamente, fustigadas pelo vento, e já quase nuas no começo do outono. Mais para baixo, porém, em toda depressão ou vale, a floresta é densa, as árvores enormes e bem juntas, impe­netráveis, com as plantas rasteiras formando como que uma rede de pescador. Aqui e ali, discretos até que se tropeça neles, acham-se penhascos e rochas cobertos de espinhos e trepadeiras, invisíveis e mortíferos como armadilhas de lobos. Ainda mais perigosos são os trechos de atoleiro, alguns pretos e lodosos, outros inocentes e verdes como um campo, onde um homem e seu cavalo podem afun­dar tão fácil e rapidamente quanto uma colher num prato de sopa. Há caminhos secretos por esses lugares, que os animais e os habi­tantes da floresta conhecem, mas que a maioria dos homens evita. À noite, o chão reluz com estranhas chamas dançantes e com fogo-fátuo, que os homens afirmam ser as almas dos mortos errantes.

Ralf conhecia bem a sua própria região, mas, uma vez chega­dos às florestas pantanosas por onde o Uxella e seus tributários cor­rem para o Severn, tivemos que ir com mais cautela, aceitando in­formações do povo da floresta, carvoeiros e lenhadores, e, uma ou duas vezes, um ermitão solitário ou um santo homem ofereceu-nos abrigo em sua gruta ou santuário do bosque. Ralf tinha prazer na viagem dura e nos maus alojamentos, e no perigo que nos rondava na floresta e na trilha, e na ameaça do exército tão próximo. A cada dia ficávamos mais desarrumados e mais de acordo com os nossos papéis. Os disfarces eram mais necessários aqui do que mes­mo em Tintagel: pobre do mensageiro do Rei ou do mercador que se afasta da estrada principal nestas paragens, mas os pobres são bem recebidos, andarilhos ou homens santos com nada para ser roubado, e Ralf e eu, como pobres curandeiros ambulantes, fomos bem acolhidos sempre. Em todo canto podíamos comprar comida e abrigo com um níquel de cobre e um pote de remédio. O povo dos pantanais sempre precisa de remédio, vivendo como vive, à beira de atoleiros fétidos, com malária e juntas inchadas e medo da febre. Eles erguem as suas cabanas bem no limiar das poças escumosas, ao lado da lama negra das margens, ou colocam-nas sobre estacas por cima da água estagnada. As cabanas racham e apodrecem e de­sabam todo ano, e têm que ser remendadas toda primavera, mas, na primavera e no outono, bandos de aves migratórias descem para beber, no verão as águas ficam cheias de peixes e a floresta de caça, e no inverno o pessoal quebra o gelo e fica à espera dos veados que vêm beber. Além disso, o lugar tem uma boa quantidade de rãs; já comi rã várias vezes na Bretanha e, realmente, são uma boa refei­ção. Assim, o povo dos pantanais se apega às suas cabanas fedo­rentas, e comem bem, e bebem água parada, e morrem de febre e de disenteria; tampouco temem o fogo-fátuo que infesta os pânta­nos à noite, pois são almas de seus conhecidos.

Estávamos ainda a umas doze milhas do lugar da travessia, e já escurecia, quando tivemos o primeiro indício de transtorno. As florestas de carvalho tinham dado lugar a bosques de bétulas e ala­mos, as árvores tão rentes à trilha que tínhamos que nos abaixar sobre o pescoço dos cavalos para não ser fustigados pelos galhos. Embora não tivesse chovido, o chão estava bem macio, e, de vez em quando, os cascos dos cavalos afundavam na lama negra. Logo, bem próximo, senti o cheiro do pântano, e breve avistamos, por entre as árvores que escasseavam, o brilho opaco dos atoleiros re­fletindo as últimas luzes do céu. Meu cavalo tropeçou, patinou, e Ralf, que seguia à frente, segurou a minha rédea. Depois, apontou para a frente.

À nossa frente, uma luz diferente furava o crepúsculo; a luz opaca e firme de velas. A cabana de um morador dos pântanos. Fomos em sua direção.

A casa não ficava sobre a água, mas o chão estava bem mo­lhado, e na certa inundava com mau tempo, pois a casa era colo­cada sobre paus e chegava-se a ela por uma passarela de toras ser­radas e enfileiradas por cima de um fosso de lama.

Um cão latiu. Dava para ver-se um homem, uma sombra dentro do interior da cabana fracamente iluminada, espiando para nós. Eu o chamei. Os moradores dos pântanos falam a sua própria língua, mas entendem o celta dos Dumnonii.

— Chamo-me Emrys. Sou médico ambulante e este é o meu servo. Estamos indo para a balsa em Uxella. Viemos pela floresta porque o exército do Rei está na estrada. Queremos abrigo, e po­demos pagar.

Os pobres daquela zona compreendiam bem a necessidade de manterem-se afastados das tropas em marcha. Logo fizemos um acordo, o cão foi levado para dentro da cabana e preso, e fui com cui­dado pelas toras escorregadias, deixando Ralf para cuidar dos ca­valos e prendê-los no pedaço de chão mais seco que pudesse achar. O nome do nosso anfitrião era Nidd; ele era um sujeito baixo e de aparência ágil, com cabelos negros e um tufo de barba negra. Os ombros e os braços eram muito fortes, mas mancava bastante de uma perna que fora quebrada, encanada ao acaso e deixada para fundir-se torta. Sua mulher, que não teria mais de trinta anos, tinha a cabeça branca e era curvada pelo reumatismo; parecia-se e mo­via-se como uma mulher velha, a face cheia de rugas ao redor de uma boca desdentada. A cabana era apertada e fétida, e eu teria preferido dormir ao ar livre, mas a noite estava fria, e nem eu nem Ralf desejávamos passar a noite na floresta encharcada. Quando terminamos a refeição de pão preto e caldo, aceitamos o espaço no chão que nos ofereceram e preparamo-nos para enrolar-nos nas nossas capas e descansarmos o quanto pudéssemos. Eu preparava uma poção para a mulher, e ela já adormecera, encolhida sob uma pilha de peles contra a parede oposta, mas Nidd não se juntara a ela. Ao invés disso, foi até a porta, espiando para dentro da noite, como se à espera de alguém. Ralf e eu nos entreolhamos; ele ergueu as sobrancelhas e buscou o punhal. Fiz que não com a cabeça; já escutara os passos leves e rápidos na passarela. O cão não latiu, mas abanou a cauda de encontro ao chão. A cortina de couro de veado curtido foi afastada da porta e um menino entrou correndo, com um sorriso largo no rosto imundo. Estacou quando nos viu, mas o pai falou algo em patoá, e o garoto, ainda olhando-nos com curio­sidade, largou a pilha de lenha que carregava em cima da mesa e desfez o barbante com que estava amarrada. Depois, com um olhar de desconfiança para mim, tirou de dentro da pilha uma ave morta, umas tiras de porco salgado, um embrulho que continha um par de calças de couro e uma faca afiada, do tipo que usam os soldados do Rei.

Acerquei-me da mesa e estendi a mão. O homem ficou atento, mas não se mexeu, e, após um momento, o menino deixou cair a faca na minha mão. Sopesei-a, pensativo. Depois, dei uma risada e larguei-a em cima da mesa, com a ponta para baixo. Ela ficou

balançando ao lado da ave.

— Fez uma boa caçada, hoje, não foi? Melhor do que ficar à espreita dos patos selvagens ao alvorecer. Quer dizer que o exér­cito do Rei está perto? Muito perto?

O menino apenas me fitava, com vergonha de responder, mas, com a ajuda do pai, consegui, pouco a pouco, a informação.

Não era confortadora. O exército acampara a umas cinco milhas dali. O menino ficara escondido perto da orla da floresta, esperando uma chance para roubar comida, e escutara fragmentos da conversa dos homens que foram fazer as suas necessidades no mato. Se o menino escutara direito, o corpo principal do exército prosseguiria pela manhã, mas um destacamento partiria imediatamente para Caerleon, com uma mensagem para o seu comandante. Era óbvio que iriam pelo caminho mais curto, a travessia pelo rio. E requisitariam todos os barcos disponíveis.

Olhei para Ralf, que já vestia a capa. Virei-me para Nidd.

— Infelizmente, temos de partir. Precisamos pegar a balsa antes das tropas do Rei, que certamente partirão para lá de madrugada. Temos que ir agora. Será que o menino podia guiar-nos?

O menino faria qualquer coisa pelo níquel de cobre que eu lhe dei, e conhecia todos os caminhos pelo pântano. Agradecemos ao nosso anfitrião, deixamos o pagamento e os remédios que prometê­ramos e partimos, com o menino (que se chamava Ger), à frente do meu cavalo.

Havia estrelas e lua, mas encobertas por nuvens. Eu mal en­xergava o caminho, mas o menino nem hesitava. Ele enxergava até nas sombras sob as árvores. Os animais pisam macio no chão da floresta, mas o garoto não fazia barulho algum.

Era difícil dizer, com a escuridão e o caminho ruim e tortuoso, a distância que estávamos percorrendo. Pareceu-nos um longo tempo até que as árvores começassem a rarear, e o caminho a ficar mais claro à nossa frente. À medida que a lua se tornava mais forte, as nuvens difundindo a sua luz pálida, eu enxergava melhor. Ainda estávamos no pantanal; a água brilhava dos dois lados, ilhada na escuridão. A lama do chão puxava e sugava os cascos dos cavalos. Juncos sibilavam e sussurravam à altura dos nossos ombros. O coa­xar dos sapos estava por toda parte, e, de vez em quando, ouvía­mos o ruído de algo que caía na água. De repente, com um grito e um lampejo de branco, um pássaro passou voando a um metro dos cascos do meu cavalo, e, se o menino não estivesse segurando as rédeas, eu teria sido derrubado da sala e jogado na água. Depois disso, o cavalo caminhou com cuidado, nervosamente, sobressaltando-se até com os leves sons das poças, onde o fogo-fátuo tremulava, e bolhas surgiam sob os bocados do vapor que flutuava sobre a, água. Aqui e ali, sobressaindo do atoleiro, via-se o esqueleto negro de uma árvore.

Era uma paisagem estranha, com jeito e cheiro de morte. Pelo silêncio de Ralf, percebi que estava com medo. Mas nosso guia, à frente do meu cavalo, seguia por entre as névoas e os fogos-fátuos que eram as almas de seus antepassados. O único sinal que deu foi quando, num cruzamento, deparamos com uma árvore oca, de tronco grosso, com duas vezes a altura de um homem, com um buraco escancarado na casca que tinha um tom esverdeado; com a ajuda do luar, tomava vagamente a forma de olhos, boca e toscos seios. A velha deusa das encruzilhadas, "A Que Não Tem Nome", que fica a fitar de dentro da sua árvore como a coruja, que é sua criatu­ra; à sua frente, decompondo-se com o brilho esverdeado que o povo chama de luz de feiticeiro, uma oferenda de peixe, dentro de uma casca de ostra. Ouvi Ralf inspirar, e sua mão tremeu num gesto defensivo. O jovem Ger, sem sequer olhar para o lado, res­mungou baixo a palavra, e continuou firme.

Meia hora mais tarde, do alto de um morro de terra firme, vimos o estuário largo, iluminado pelo luar, e sentimos o cheiro do sal na brisa fresca.

Perto da margem onde a balsa navegava, via-se um brilho de luz vermelha, chamas num recipiente no cais. O caminho para lá, bem claro à luz da lua, cruzava o morro próximo e descia direto para a margem. Estacamos, mas, quando me virei para agradecer ao menino, vi que já desaparecera dissolvendo-se na escuridão silen­ciosamente como um dos fogos-fátuos empalidecendo. Dirigimos os nossos cavalos exaustos na direção do brilho distante.

Ao alcançarmos a balsa, vimos que a nossa sorte nos tinha abandonado tão rápida e decisivamente quanto o nosso guia. O fogo queimava num recipiente num poste sobre o cascalho onde a balsa aportava, mas ela não se encontrava lá. Forçando os ouvidos, pensei ter escutado, acima do murmúrio das águas, o ruído de remos estuá­rio adentro. Chamei, mas sem resposta.

— Parece que ele não pretende demorar — disse Ralf, que estivera explorando. — Há fogo na cabana e deixou a porta aberta.

— Então, vamos esperar lá dentro — falei. — Não creio que as tropas do Rei partam antes do cantar do galo. Se a mensagem para Caerleon fosse tão urgente, ele a teria enviado por um correio ontem à noite. Cuide dos cavalos, depois entre e venha descansar.

A cabana do barqueiro estava vazia, mas havia restos de fogo nas pedras que serviam de lareira. Havia uma pilha de gravetos secos por perto, e logo uma língua de fogo confortadora lambeu a madeira e iluminou a turfa. Ralf pôs-se a cochilar no calorzinho, enquanto eu ficava a olhar para as chamas e a esperar a volta do barco.

Mas o que ouvi não foi o barulho da quilha sobre o cascalho; foi o som macio e distante de cascos de cavalos que vinham a meio galope.

Antes que a minha mão tocasse o ombro de Ralf para acordá-lo, ele já estava de pé.

— Depressa, meu senhor, se formos rápidos pelo cascalho.. . a maré ainda não está cheia. . .

— Não. Eles nos escutariam e, de qualquer forma, os cavalos estão cansados. Você acha que estão muito longe?

Em duas passadas chegou à porta e inclinou a cabeça para escutar.

— Meia milha. Menos. Estarão aqui em alguns minutos. Que vai fazer? Não podemos esconder-nos. Eles verão os cavalos e o terreno é descampado como um mapa na areia.

Era verdade. A estrada por onde vinham os cavaleiros ia direto da margem para o topo do morro. Dos dois lados dela, os pantanais, brilhando com água e brancos de névoa. Atrás de nós estendia-se o estuário, refletindo o luar.

— É preciso enfrentar aquilo de que não se pode fugir — disse eu. — Não, assim não — o rapaz já puxava a espada — não contra homens do Rei, e além disso não teríamos mesmo chance. Há uma maneira melhor. Pegue as sacolas, sim?

Já estava despindo a minha túnica manchada e rasgada. Ele deu-me um olhar de dúvida, mas obedeceu.

— O senhor não vai conseguir enganá-los com esse disfarce. . .

— Nem pretendo tentar. Quando o destino forçar a sua mão, Ralf, não lute. Talvez eu veja o Rei mais cedo do que esperava.

— Aqui? Mas, o senhor... ele... a Rainha...

— O segredo da Rainha estará a salvo. Já fiz planos para esta situação. Deixaremos que eles pensem que viemos do sul, de Maridunum, esperando ver o Rei.

— Mas, e o barqueiro? E se perguntarem a ele?

— Vamos arriscar. E por que perguntariam? Mesmo que per­guntem, darei um jeito. Os homens acreditam em qualquer coisa do feiticeiro do Rei, Ralf, até que ele possa atravessar o estuário numa nuvem, ou passá-lo a vau na maré baixa.

Enquanto falávamos, ele abrira um dos alforjes e tirara a tú­nica escura e as botas de couro de corça que eu usara na minha entrevista com a Rainha, enquanto eu me utilizava do balde de água perto da porta para lavar o cansaço da viagem e o fedor da cabana do pântano das mãos e do rosto. "Quando o destino força você", dissera eu a Ralf. Senti que meu sangue corria rápido e leve com a esperança de que este golpe, que imagináramos de azar, fosse o primeiro toque frio e perigoso da mão do deus.

Quando a tropa chegou, estacando no cascalho à frente da cabana do barqueiro, eu já os esperava no portal, com a luz do fogo às minhas costas e a luz da lua refletindo o dragão real junto ao meu ombro.

Nas sombras às minhas costas, escutei Ralf dar graças:

— Não são homens de Cornwall. Não me conhecerão.

— Mas conhecerão a mim — retruquei. — Aquele é o distin­tivo de Ynyr. São galeses de Guent.

O oficial era alto, com um rosto magro de gavião e uma cicatriz branca repuxando-lhe a boca. Não me recordava dele, mas olhou para mim e saudou-me.

— Pelo Corvo! Como chegou aqui, senhor?

— Preciso falar com o Rei. A que distância fica o seu acam­pamento?

Enquanto eu falava, um murmúrio agitado percorreu a tropa, cavalos inquietos, e um deles empinou como se detido nervosamente. O oficial falou ríspido por sobre o ombro, depois virou-se para mim. Eu o escutei engolir em seco antes de responder.

— A umas oito milhas, senhor.

Aqui havia algo mais que a surpresa de encontrar-me neste lu­gar deserto, e o temor que eu inspirava ao homem comum. Senti Ralf acercar-se de mim. Um olhar rápido revelou-me o brilho nos seus olhos; Ralf vibrava à menor menção de perigo.

O oficial falou, abruptamente:

— Bem, meu senhor, isto nos economizou tempo. Tínhamos ordens do Rei de procurá-lo e levá-lo a ele.

Ouvi Ralf inspirar. Pensei depressa, embora o coração dispa­rasse. Isto explicava a reação dos soldados; eles pensaram que o fei­ticeiro tivesse previsto, magicamente, os planos do Rei. Isto também resolvia o problema do barqueiro; se esta tropa era para escoltar-me, não precisariam cruzar o rio. Quando eu partisse com eles, Ralf compraria o silêncio do homem. Não me arriscaria a levar o rapaz para perto do Rei, ao alcance da sua ira.

Não havia mal em impressioná-los mais. Comentei, de maneira

agradável:

— Que bom que lhes poupei uma viagem até Bryn Myrddin.. . Onde o Rei planejava receber-me? Em Viroconium? Não creio que ele pretenda ficar em Caerleon.

— E não pretende — respondeu o homem. Vi que tentava controlar-se, mas sua voz estava rouca, e limpou a garganta. — O senhor... o senhor sabia que o Rei estava indo para o norte, para

Viroconium?

— Como não? — indaguei-lhe. Com o canto dos olhos vi que os homens assentiam e viravam as cabeças, como que a ecoar "Como não?". — Mas eu pretendia falar-lhe antes disso. Não lhe entregou uma carta para mim?

— Não, senhor. Tenho apenas instruções para levá-lo até ele.

— Inclinou-se na sela. — Creio que foi por causa do recado que recebeu ontem à noite de Cornwall. Más notícias, acho, embora não as tenha contado a ninguém. Parecia zangado. Depois, mandou bus­cá-lo.

Esperou, olhando para mim, como se eu soubesse o que continha o recado.

Eu receava que soubesse. Alguém nos reconhecera, ou tivera um palpite, e mandara avisar ao Rei. O mensageiro devia ter-nos ul­trapassado na estrada. Independente do que fosse acontecer comigo, era preciso livrar Ralf do perigo. E embora eu não temesse pela Rainha nas mãos de Uther, havia outros: Maeve, Caw, Márcia, a própria criança. . . Os pêlos da minha nuca eriçaram-se, como os de um cão que fareja o perigo. Respirei fundo e perguntei, calma­mente:

— Tem um cavalo extra? Meu animal está cansado e precisa ser conduzido. Meu criado descansará aqui, e voltará com o barco de madrugada, para aprontar a casa para mim. Na certa o Rei dar-me-á uma escolta até em casa, quando tivermos terminado os nossos assuntos.

A voz do oficial, apologética mas definitiva, sobrepôs-se ao fu­rioso sussurro de divergência de Ralf.

— Por favor, senhor, os dois devem vir. São as minhas ordens. Temos cavalos. Vamos indo?

Ergueu a mão e os homens vieram cercar-nos. Nada podia ser feito. Ele tinha as suas ordens e eu me arriscaria mais discutindo que obedecendo. Além disso, cada minuto de atraso trazia a balsa mais perto. Eu nada escutara, mas o barqueiro já devia ter visto as tochas dos soldados, e devia estar voltando.

Um soldado trouxe os cavalos, e foi levando pela mão os nossos animais. Montamos. O oficial gritou uma ordem, a tropa deu meia volta e seguiu atrás de nós.

Não estávamos a nem duzentos passos da margem quando ouvi, distintamente, às minhas costas, o ruído do fundo de um bote ras­pando o cascalho. Ninguém mais prestou atenção. O oficial estava contando-me sobre o conselho que haveria no norte, e, atrás de mim, a voz de Ralf, alegre e divertida, prometia aos soldados:

— ... odre de vinho de ameixa-brava, o melhor que vocês já provaram. Receita do meu amo. Faz parte das rações em Caerleon e vão ver o que estão perdendo. Isto é no que dá mandar mensagens para um mago, que sabe tudo que acontece, mesmo antes de acon­tecer...

O Rei já estava recolhido quando chegamos ao acampamento e fomos alojados (e vigiados) numa tenda próxima à sua. Não dis­semos nada que não pudesse ser ouvido. E, com ou sem perigo, foi o alojamento mais confortável que tivemos desde que deixamos a estalagem em Camelford. Ralf logo pegou no sono, mas eu perma­neci desperto, olhando para a escuridão vazia, escutando o vento que começara e jogava punhados de chuva contra as paredes da tenda, e dizendo a mim mesmo:

— Tem que acontecer. Tem que acontecer. O deus mandou-me a visão. A criança me foi entregue. — Mas a escuridão conti­nuou vazia, e o vento varreu as paredes da tenda e depois calou-se, e nada veio.

Virei no travesseiro a minha cabeça inquieta e vi, indistinta­mente, o brilho dos olhos de Ralf, que me observava. Mas virou-se sem falar, e logo a sua respiração relaxou-se no sono, novamente.

 

O Rei recebeu-me logo após o alvorecer, a sós. Estava armado e pronto para viajar, mas de cabeça descoberta. Seu elmo com a argola de ouro estava sobre um banquinho ao lado da cadeira, e a espada e o escudo estavam encostados à caixa que continha o altar ambulante de Mitras que sempre levava consigo. Na tenda havia muitas peles e cortinas, mas fazia frio, e por toda parte sentia-se correntes de ar. Lá fora, ouviam-se os ruídos do exército levantando acampamento, e o drapejar do estandarte do Dragão à entrada.

Cumprimentou-me secamente. Ainda estava com a expressão fria de que me recordava, sem sinal de amizade, mas também sem raiva ou inimizade. Seu olhar era frio e avaliador, sua voz esperta.

— Você e a sua visão pouparam-me trabalho, Merlin. Inclinei a cabeça. Se ele nada perguntasse, eu nada responderia.

Fui direto ao assunto:

— Que deseja de mim?

— Da última vez em que nos falamos, fui severo com você. Acho que isto foi indigno de um rei a quem tinha acabado de prestar um serviço.

— O senhor estava aborrecido com a morte do Duque.

— Quanto a isso, ele lutou contra o seu Rei. Quaisquer que fossem as circunstâncias, tentou sublevar-se, e morreu. Está acaba­do, é coisa do passado. Nós, eu e você, temos que olhar para o futuro. É o que, agora, me preocupa.

— A criança — concordei. Ele estreitou os olhos azuis.

— Quem lhe contou? Ou ainda é a Visão?

— Ralf contou-me. Quando deixou a corte, veio servir-me. Pensou um pouco, franzindo a testa, que logo relaxou quando achou que nada havia de mal nisso. Eu o observava. Era alto, de cabelo e barba avermelhados, e com uma pele clara que fazia com que parecesse mais moço. Fazia pouco mais de um ano que meu pai morrera e Uther levantara o estandarte Pendragon. Ser Rei tinha-o amadurecido: notava-se a disciplina no seu rosto, juntamente com as marcas deixadas pela paixão e pela índole. O título de rei, jun­tamente com as suas vitórias, vestia-o como uma capa.

Fez um gesto displicente com a mão e vi que Ralf não mais necessitava temê-lo. Falou:

— O passado é o passado, mas há uma coisa que preciso per­guntar-lhe. Na noite em que esta criança foi gerada, em Tintagel, ordenei-lhe que se afastasse de mim e não mais me incomodasse. Lembra-se?

— Lembro-me.

— E replicou que não mais me incomodaria, que eu não pre­cisaria mais dos seus serviços. Foi previsão ou apenas raiva?

Respondi, mansamente:

— Quando falei, falei as palavras que foram saindo. Achava que eram previsão. Tudo que disse e fiz aquela noite, imaginei que era orientado pelos deuses. Por que pergunta? Mandou chamar-me para dar uma ordem?

— Para pedir um favor.

— Como profeta?

— Não. Como parente.

— Então, como parente, eu lhe direi que não era profecia, aquela noite, nem raiva, senhor, era dor. Dor pela morte de meu servo, e pelas mortes de Gorlois e seus companheiros. Mas, como diz, o passado é passado. Se puder servi-lo, basta que ordene.

Mas, pensei, enquanto esperava que ele falasse, se não era profecia, então aquela noite não foi de Deus, e Ele nunca falou comigo.

Não, eu falara a verdade quando dissera que Uther não precisaria dos meus serviços; eu não servira a Uther, então, não o serviria, agora. Lembrei-me das palavras do outro Rei, meu pai: "Você e eu juntos, Merlin, faremos um Rei como nunca o mundo conheceu." Eram o Rei morto e o que estava para nascer que me davam as ordens.

Se houvera hesitação no meu comportamento, Uther não o no­tara. Assentiu com a cabeça, colocou o cotovelo no joelho e o quei­xo no punho, e meditou, de testa franzida.

— Eu lhe disse outra coisa, naquela noite. Disse que não reco­nheceria a criança gerada então. Falava com raiva, mas agora falo friamente, depois de pensar e me aconselhar, e ainda digo o mesmo,

Merlin.

Esperou uma resposta, que não dei. Continuou, um pouco ir­ritado.

— Não me entenda mal, não duvido da Rainha. Acredito nela quando diz que nunca mais pertenceu a Gorlois desde que ele a levou a Londres. Sei que a criança é minha, mas não pode ser meu herdeiro, nem ser criada na minha casa. Se for menina, não faz mal, mas se for menino, seria loucura criá-lo como herdeiro do Grande Reino, quando bastará que os homens contem nos dedos para dizer que o filho foi feito por Gorlois, meio mês antes do Rei casar-se com Ygraine. — Olhou para mim. — Sabe disso tanto quanto eu, Merlin. Você viveu em casas de reis. Sempre haverá os que duvi­darão da sua origem, então sempre haverá os que tentarão arrancá-lo do trono em favor de outros com "melhor pretensão", e Deus sabe que haverá pretendentes aos montes. E os melhores pretenden­tes serão os meus outros filhos. Assim, mesmo criado como bastardo na corte, o menino é perigoso. Ele pode vir a tentar ser rei pela morte dos meus outros filhos. Não seria a primeira vez que isto acontece. Não quero que a minha casa seja um campo de batalha. Preciso ter outro filho, um herdeiro que não seja posto em dúvida, concebido no casamento para a satisfação de todos e criado ao meu lado quando o reino estiver calmo e as guerras saxãs terminadas.

Que acha disso?

— O senhor é o Rei e o pai da criança.

Não foi exatamente uma resposta, mas ele assentiu como se

eu tivesse concordado.

— E ainda há mais. O menino não só é perigoso, como será vítima de perigo. Se puder ser dito que ele não é meu, que é filho de Gorlois com Ygraine, então é óbvio que é filho do Duque de Cornwall, com direito à parte das terras que agora são de Cador, depois que eu o confirmei como Duque de Cornwall. Entende? Como filho do Rei ou como filho do Duque, Cador será seu inimigo, e muitos o seguiriam imediatamente.

— Cador é leal ao senhor?

— Eu confio nele. — Deu uma risada curta. — Até agora. É moço e de cabeça dura. Quer Cornwall e nada fará que fizesse correr o risco de perdê-la... por enquanto. Mais tarde, quem sabe? E quando eu me for... — deixou em suspenso. — Não, Cador não é meu inimigo, mas há outros que são.

— Quem?

— Sabe lá Deus, mas qual o rei que não os tem? Até Ambrósio... ainda dizem que ele morreu envenenado. Você me disse que não é verdade, mas assim mesmo faço com que Ulfin prove a minha comida. Enquanto Octa e Eosa forem prisioneiros em Lon­dres, eles serão um foco para todo líder descontente que deseja al­cançar uma coroa como a de Vortigern. . . auxiliado por forças sa­xãs e ao preço de vidas e terras inglesas. Mas, que mais posso fazer? Soltá-los, para incitarem os federados contra mim? Ou matá-los, dando a seus filhos na Alemanha motivo para vingá-los com sangue? Não, Octa e seu primo são meus reféns. Sem eles, Colgrim e Badulf já teriam vindo para cá há muito, e a Praia Saxã já teria ultrapas­sado os seus limites e estaria lambendo a Muralha de Ambrósio. Estou deixando estar para ver o que acontece. Não pode dizer-me nada, Merlin? Viu ou ouviu algo?

Não estava pedindo profecias. Uther olhava de banda para as coisas do outro mundo, como um cão que vê o vento. Respondi:

— Nada, a não ser que, quando Ralf deixou sua corte para vir servir-me, foi atacado e quase morto. Os homens não usavam distintivo. — Narrei-lhe o fato. — Talvez pensassem que ele era o seu mensageiro, ou da Rainha. Soldados do quartel procuraram nos bosques, mas não encontraram sinal deles. Além disso, de nada soube. Mas, se souber, pode ficar certo de que o avisarei.

Aquiesceu, depois continuou, com vagar, escolhendo as pala­vras. Tinha um modo abrupto, quase relutante. Quanto a mim, minha mente era um turbilhão, e eu me esforçava para ficar firme e calmo. Estávamos chegando ao campo de batalha, mas a batalha seria dife­rente do que eu tinha planejado. "Eu e você", dissera ele. Não teria mandado chamar-me se eu não fosse ter alguma participação no futuro da criança.

Cobria o mesmo terreno que eu e Ygraine já cobríramos.

— ... portanto, se for menino, não poderá ficar comigo, mas, se mandá-lo embora, não poderei protegê-lo. Mas ele precisa de proteção. Bastardo ou não, é meu filho e da Rainha, e, se não tiver­mos outros filhos, um dia será declarado meu herdeiro ao Grande Remo. — Ergueu uma das mãos. — Assim, veja como eu fico. Preciso entregá-lo a um guardião que o conserve em segurança nos seus primeiros anos de vida... pelo menos até que este reino dividido esteja calmo e seguro, e nas mãos de aliados fortes e leais, e haja herdeiros meus declarados.

Esperou que eu concordasse. Assenti com a cabeça, e indaguei, de maneira neutra:

— Já escolheu o guardião?

— Já. Budec.

Então a Rainha estava certa, e a decisão fora tomada. Mas, ainda assim, mandara chamar-me. Fiquei imóvel, e comentei, de modo tão seco que parecia indiferente:

— Era a escolha óbvia.

Ele mexeu-se na cadeira, e pigarreou. Notei, com surpresa, que parecia pouco à vontade, ou, mesmo, nervoso. Parecia, até, satisfeito que me tivesse agradado a sua escolha. Isto acalmou-me. Percebi que estivera tão obcecado com o meu destino e o da criança, que vira Uther como inimigo, o que era falso. Na realidade Uther era um guerreiro lutando contra os conflitos perpétuos dentro e em volta de suas fronteiras, tentando consertar aqui uma represa, ali uma mura­lha, para impedir as águas da inundação; para ele, o problema da criança, embora algum dia pudesse ter importância vital, era, no mo­mento, um empecilho a que tratasse de assuntos de maior realce, e ele queria liquidá-lo e passá-lo adiante. Falara sem emoção, e escla­recera bem a coisa. Talvez me tivesse chamado apenas para pedir a minha opinião, como seu irmão sempre fizera. Nesse caso... Umedeci os lábios secos e forcei-me a escutar calmamente, um con­selheiro a ouvir um homem preocupado.

Ele falava novamente, algo sobre uma carta. A mensagem que chegara na véspera. Apontou para o banquinho ao seu lado, onde o pergaminho estava, amassado, como se tivesse sido jogado com raiva.

— Você sabia disso?

Peguei a carta e desamassei-a. Era curta, uma mensagem da Bretanha que fora enviada para o Rei em Tintagel e, depois, enca­minhada para cá. O Rei Budec, dizia ela, contraíra uma febre du­rante o verão. Parecia estar melhorando, quando, pelo fim de agosto, morreu subitamente. A carta terminava com protestos formais de amizade do novo rei, Hoel, "devotado primo e aliado" de Uther.

Ergui o olhar. Uther relaxara na cadeira, ajeitando uma dobra do manto escarlate sobre o braço. Tudo parecia quieto. Lá fora, o vento amainara. Os ruídos do acampamento vinham de longe, in­distintos. O queixo de Uther repousava no peito e ele me observava com um misto de preocupação e impaciência. Fui reservado:

— São más notícias. Budec era um homem bom e um bom amigo.

— Seriam mas mesmo que não tivessem destruído os meus planos. Eu já estava preparando as mensagens para enviar quando esta carta chegou. Agora, estou confuso. Já lhe contaram que estou indo para um conselho de reis em Viroconium?

— Audagus contou-me. — Audagus era o oficial que nos es­coltara desde o cais.

Estendeu uma das mãos.

— Então, pode imaginar como está atrapalhando-me cuidar deste assunto agora. Mas é preciso. Por isso mandei chamá-lo.

Dei um piparote no lacre com o indicador.

— Não vai mandar a criança para Hoel? Ele se assina seu primo e aliado devotado.

— Pode ser meu primo e aliado devotado, mas é também um bom... — Uther usou uma expressão mais própria de um soldado do que de um rei em conselho. — Nunca o apreciei, nem ele a mim. Oh, Mitras sabe que ele não faria mal a um filho meu, mas ele não é um homem como o pai, e talvez não consiga proteger o menino dos deuses inimigos. Não, não o mandarei para Hoel. Mas, para que outra corte posso mandá-lo? Veja por você mesmo. — Enume­rou alguns nomes, todos homens poderosos, reis cujas terras fica­vam a sudoeste, atrás da Muralha de Ambrósio. — Está vendo o meu problema? Se ele ficar com um dos nobres ou reis pequenos em território seguro, ainda estaria em perigo da parte de algum ho­mem ambicioso; ou, pior ainda, poderia tornar-se instrumento de traição ou rebelião.

— E daí?

— Daí, dirijo-me a você. É o único que pode conduzir-me por entre essas rochas perigosas. Por um lado, o menino precisa ser reconhecido como meu, para o caso de não haver outro herdeiro. Pelo outro, precisa ser afastado, pelo próprio bem e o do reino, e criado na ignorância da sua origem, até chegar a hora em que eu mande buscá-lo. — Virou uma das mãos sobre o joelho e indagou, com a mesma simplicidade da outra vez: — Pode ajudar-me?

Respondi-lhe com a mesma simplicidade. A confusão, o turbi­lhão de pensamento formaram um desenho, como folhas coloridas que o vento, ao cessar de soprar, deixasse cair sobre a grama, for­mando uma tapeçaria.

— É claro. Não precisa despedaçar nenhuma parte do seu reino nestas rochas. Ouça, e lhe direi como. Disse-me que "aconselhou-se". Quer dizer que outros homens sabem do seu plano de enviar o me­nino para Budec?

— Sim.

— Já falou a alguém sobre esta carta, e das suas dúvidas sobre Hoel?

— Não.

— Ótimo. Informará, então, que os seus planos continuam os mesmos, e que o menino irá para a corte de Hoel em Kerrec. Escre­verá a Hoel fazendo o pedido. Tome todas as providências para mandar o menino para lá com a ama e acompanhantes logo que o tempo permita. Deixe que saibam que eu mesmo acompanharei a criança até o seu destino.

Seu rosto estava fechado, atento, e havia nele um protesto que ele calou. Apenas indagou:

— E...?

— Além disso — continuei — preciso estar em Tintagel na hora do nascimento. Quem é o seu médico?

— Gandar. — Parecia querer dizer algo mais, mas mudou de idéia e esperou.

— Ótimo. Não estou sugerindo que eu deva assisti-la. — Sorri. — Em vista do que vou sugerir, daria margem a boatos perigosos. O senhor estará presente ao parto?

— Tentarei, mas acho difícil.

— Então, estarei presente para atestar o nascimento da crian­ça, assim como Gandar, e as damas da Rainha, e quem mais o se­nhor quiser indicar. Se for menino, a notícia ser-lhe-á enviada por meio de faróis, e o senhor o declarará seu filho com a Rainha, e, na falta de um filho legítimo, seu herdeiro até o nascimento de outro príncipe.

Ele meditou sobre o assunto, relutante em comprometer-se. Mas isto era apenas a conclusão do que ele mesmo me dissera. Final­mente, aquiesceu, pesadamente:

— Muito bem. É a verdade. Bastardo ou não, é meu herdeiro até que arranje outro. Continue.

— Enquanto isso, a Rainha permanecerá em seu quarto. Depois que ele for visto e reconhecido, o menino será levado de volta aos aposentos da Rainha e lá ficará, sob as vistas somente de Gandar e das mulheres. Gandar cuidará disto. Eu, então, sairei ostensiva­mente pelo portão principal e pela ponte. À noite, irei em segredo para o portão traseiro no penhasco e pegarei o menino.

— Para levá-lo para... ?

— A Bretanha. Não para Hoel, nem pelo navio que todos co­nhecerão. Deixe esta parte para mim. Eu o levarei para alguém que conheço na Bretanha, nos extremos do reino de Hoel. Ele estará seguro, e será bem cuidado. Tem a minha palavra, Uther.

Ele ignorou este comentário, como se fosse desnecessário que o tivesse feito. Já estava com ar mais desanuviado, feliz por ver-se livre de uma preocupação que, comparada às demais do seu reino, parecia-lhe trivial e (com a criança ainda um simples peso no ventre da mãe) irreal.

— Preciso saber para onde vai levá-lo.

— Para a ama que me criou, e a outras crianças reais, bas­tardas ou legítimas, nos berçários de Maridunum. Seu nome é Moravik e ela é bretã. Depois do saque de Vortigern, ela voltou para o seu povo. Casou-se. Enquanto o bebê estiver sendo aleitado, é o melhor lugar. Ninguém o procurará num lar tão humilde. Estará protegido, mas, o que é melhor, estará escondido e ignorado.

— E Hoel?

— Ele saberá. É preciso. Deixe Hoel comigo.

Lá fora soou uma trombeta. O sol estava esquentando, e a ten­da também. Ele mexeu-se, vergou os ombros como um homem que retira a sua armadura.

— E quando for descoberto que a criança não está no navio real e que desapareceu? O que diremos?

— Que, por temer os saxões no Mar Estreito, o príncipe foi enviado para a Bretanha com Merlin, e não pelo navio real.

— E quando descobrirem que ele não está na corte de Hoel?

— Gandar e Márcia jurarão que eu parti com a criança. Não sei quais serão os comentários, mas ninguém duvidará de mim, ou da segurança da criança sob a minha proteção. E sabe o que signi­fica a minha proteção. Suponho que falarão de mágicas e desapa­recimentos, e esperarão que a criança reapareça quando cessarem os meus encantamentos.

Ele disse, prosaicamente:

— É mais provável que digam que o navio afundou e que a criança morreu.

— Eu negarei.

— Então, não ficará com o menino?

— No começo, não. Sou conhecido.

— Mas, quem ficará com ele? Você disse que ele seria guar­dado.

Pela primeira vez, tive um segundo de hesitação. Fitei-o nos olhos.

— Ralf.

Pareceu surpreendido, depois zangado, depois reconsiderou a raiva. Falou, vagarosamente:

- É. Aí também eu estava errado. Ele será leal.

— Não há outro mais leal.

— Pois bem, estou satisfeito. Tome as providências que qui­ser. Está nas suas mãos. De todos os homens da Inglaterra, é quem melhor o protegerá. — Bateu nos braços da cadeira. — Pronto, está tudo decidido. Antes de partirmos hoje, mandarei uma men­sagem para a Rainha, informando-a da minha decisão.

Achei interessante' perguntar:

— Será que ela a aceitará? Não é uma coisa fácil para uma mulher suportar, mesmo sendo Rainha.

— Ela sabe a minha decisão, e fará o que eu mandar. Apenas numa coisa, contudo, farei a sua vontade; ela quer que a criança seja batizada como cristã.

Dei uma olhada para o altar de Mitras contra a parede da tenda.

— E o senhor? Deu de ombros.

— E que importância tem? Ele nunca será Rei. E, se for, pres­tará devoção onde for preciso, às vistas do povo. — Um olhar duro, direto. — Como fez meu irmão.

Se foi um desafio, declinei dele, indagando apenas: j

— E o nome?

— Arthur.

O nome era estranho, mas veio como o eco de algo que eu ouvira há muito tempo. Talvez houvesse sangue romano na família de Ygraine... Os Artori; devia ser. Mas, fora em outro lugar que ouvira o nome.. .

— Providenciarei — disse eu. — E agora, com a sua permissão, também escreverei para a Rainha. Ela ficará mais descansada se eu assegurar-lhe a minha lealdade.

Ele assentiu, depois levantou-se e pegou o elmo. Sorria, um fantasma frio do velho sorriso malicioso que me lançava em criança.

— Não é estranho, bastardo Merlin, que eu confie tão com­pletamente o corpo do meu filho mal concebido ao único homem do reino cuja pretensão ao trono é mais legítima do que a dele? Não está lisonjeado?

— Nem um pouco. O senhor seria um tolo se já não tivesse descoberto que não tenho a menor ambição pela sua coroa.

— Então, não desperte nenhuma no meu bastardo, ouviu? -Virou a cabeça, gritando por um criado, depois voltou-a para mim. — E não lhe ensine nenhuma mágica, também.

— Se é seu filho — falei secamente — não aceitará bem a mágica. Nada lhe ensinarei a não ser o que ele tem o direito e a necessidade de saber. Dou-lhe a minha palavra.

Com isto nos separamos. Uther não gostaria nunca de mim, nem eu dele, mas havia um tipo de frio respeito mútuo entre nós dois, nascido do nosso mesmo sangue e do amor e da dedicação que, embora de espécies diferentes, ambos déramos a Ambrósio. Eu deveria ter sabido que ele e eu estaríamos juntos nisto, como os dois lados de uma mesma moeda, e que nos moveríamos juntos quer quiséssemos, quer não. Os deuses presidem o jogo, mas são os homens que se movem sob as suas mãos para os lances e as jo­gadas.

Deveria ter sabido; mas estava tão acostumado à voz de Deus no fogo e nas estréias, que me esqueci de procurá-la nos conselhos dos homens.

 

Ralf esperava, sozinho, na tenda vigiada. Quando lhe contei o resultado da minha conversa com o Rei, ficou calado por muito tempo. Depois, falou:

— Então, tudo vai acontecer exatamente como o senhor disse. Esperava que fosse assim? Quando nos trouxeram, ontem à noite, pensei que estivesse com medo.

— E estava, mas não do modo que você imagina.

Pensei que fosse perguntar como, mas pareceu compreender. Enrubesceu e ocupou-se com as malas.

— Meu senhor, preciso dizer-lhe... — sua voz estava aba­fada. — Eu estava muito errado a seu respeito. A princípio, por­que não era um guerreiro... eu pensei...

— Que fosse um covarde? Eu sei. Olhou-me, vivamente.

— O senhor sabia? E não se importou? — Isto, obviamente, era quase tão ruim quanto covardia.

Sorri.

— Quando era criança entre guerreiros, fiquei acostumado. Alem disso, eu mesmo nunca tive certeza de possuir coragem.

Fitou-me, depois explodiu:

Mas, o senhor não tem medo de nada! Tudo que nos aconteceu nesta viagem... parecia que o senhor estava fazendo um passeio numa manhã de verão, ao invés de estar percorrendo atalhos perigosos cheios de animais selvagens e bandidos. E, quando os ho­mens do Rei nos alcançaram... mesmo sendo seu tio, não quer dizer que não fosse perigoso para o senhor. Todos sabem que não se pode contrariar o Rei. Mas, o senhor ficou absolutamente calmo, como se esperasse que ele fosse fazer a sua vontade, como todo mundo faz! O senhor, com medo? O senhor não tem medo de nada real!

— É isso que quero dizer — respondi. — Não sei quanta co­ragem é necessária para enfrentar inimigos humanos (que você cha­ma de "reais") sabendo que não vão matá-lo. Mas, saber prever é bem aterrorizante, Ralf. A morte pode não estar na esquina se­guinte, mas quando se sabe exatamente quando ela virá, e como. . . Não é um pensamento agradável.

— Então, o senhor sabe?

— Sei. Pelo menos, acho que é a minha morte que eu vejo.

Escuridão e um túmulo fechado. Ele ficou arrepiado.

— É, compreendo. É preferível lutar à luz do dia, mesmo pen­sando que se pode morrer amanhã. Pelo menos, é sempre "talvez amanhã", nunca "agora". Vai montar com as botas de couro de corça, meu senhor, ou vai trocá-las?

— Vou trocá-las, obrigado. — Sentei-me num banquinho e estendi-lhe um dos pés. Ajoelhou-se para retirar minhas botas. — Ralf, preciso contar-lhe mais uma coisa. Disse ao Rei que você esta­va aqui comigo e que iria à Bretanha para vigiar a criança.

Olhou-me petrificado.

— O senhor disse-lhe isto? E o que ele respondeu?

— Que você era leal. Ele concordou e aprovou.

Ficou de cócoras, segurando as minhas botas, sem conseguir falar.

— Ele teve tempo para pensar, Ralf, como um rei deve pensar. Também teve tempo, como os reis têm, para acalmar a sua consciên­cia. Ele agora considera Gorlois um rebelde, e o passado liquidado. Se quiser voltar ao seu serviço, ele o receberá bem, e lhe dará um lugar entre os guerreiros.

Não respondeu, limitando-se a ocupar-se das minhas botas. De­pois, ergueu-se, e foi chamar alguém para trazer os nossos cavalos.

— E ande depressa. Meu senhor e eu vamos agora para a balsa.

— Viu só? — comentei. — Agora foi você mesmo que tomou a sua decisão. E, no entanto, quem pode afirmar que não faz parte do "desenho" assim como a morte providencial de Budec? — Fiquei de pé, estirei-me e dei uma risada. — Por todos os deuses, ainda

bem que as coisas estão começando a tomar jeito. E ainda bem que uma coisa é possível, mais que todas as outras.

— Que o senhor vai ficar com a criança com tanta facilidade?

— Oh, isto também, é claro. Mas, no momento, é que vai ser possível eu raspar essa barba desgraçada!

 

Quando Ralf e eu chegamos a Maridunum, os meus planos es­tavam, o máximo possível, feitos. Mandei-o para a Bretanha pelo primeiro navio, com cartas de pêsames para Hoel e com mensagens que complementassem as do Rei. Uma das cartas, que Ralf levava ostensivamente, repetia o pedido do Rei para que Hoel abrigasse a criança durante a infância; a outra, que Ralf entregaria em segredo, avisava a Hoel que ele não seria sobrecarregado com a criança, e que nós não chegaríamos pelo navio real na data marcada. Implo­rava a sua ajuda para que Ralf pudesse tomar todas as providências para a viagem secreta que eu planejava para o Natal. Hoel, tranqüilo e preguiçoso por natureza, e pouco afeiçoado ao primo Uther, fica­ria tão aliviado, eu sabia, que iria ajudar a Ralf e a mim de todas as maneiras possíveis.

Quando Ralf partiu, eu mesmo me dirigi para o norte. Era óbvio que não poderia deixar o bebê por muito tempo na Bretanha; o refúgio com Moravik serviria por algum tempo, até que o interesse dos homens tivesse arrefecido, mas, depois, podia ficar perigoso. A Bretanha, como eu comentara com a Rainha, era o lugar onde os inimigos de Uther procurariam a criança; o fato de que ela não estava, nem nunca estivera, no anunciado refúgio da corte de Hoel, poderia fazer com que acreditassem que toda essa história de Bre­tanha fora pista falsa. Eu tomaria todas as medidas para que nenhu­ma pista os levasse à obscura aldeia de Moravik. Mas isto só valeria enquanto o menino fosse bem pequeno. Quando crescesse e come­çasse a circular, perguntas e boatos surgiriam bem facilmente; uma criança de lar pobre, tão bem cuidada e vigiada como esta seria, daria margem a perguntas, estas a rumores e estes a adivinhações da verdade.

Além disso, depois de superada a fase de amas e berçários, ele precisaria ser treinado, senão como príncipe, ao menos como um jovem nobre e um guerreiro. Bryn Myrddin, em hipótese alguma, poderia ser o seu lar; ele teria que ter o conforto e a segurança de um lar nobre. Finalmente, lembrei-me de um amigo de meu pai a quem eu conhecera bem. Chamava-se Ector, Conde de Galava, um dos nobres que lutaram sob o comando do Rei Coei de Rheged, o mais forte dos aliados de Uther no norte.

Rheged é um reino grande, estendendo-se desde a espinha mon­tanhosa da Inglaterra até a costa oeste, e desde a Muralha de Adria­no, ao norte, até a planície de Deva. Galava, que Ector dominava, fica a umas trinta milhas do mar, no canto noroeste do reino. Ali há extensões de terra selvagem e montanhosa, cheia de colinas e água e florestas agrestes; aliás, um dos nomes que possui é Floresta Agres­te. O castelo de Ector situa-se em um terreno plano no extremo de um dos extensos lagos de que esses vales estão cheios. No passado, havia aí uma fortaleza romana, uma entre as muitas na estrada mili­tar que vai de Glannaventa, na costa, para se unir à estrada princi­pal, que liga Luguvallium a York. Entre Galava e o porto de Glanna­venta, existem colinas íngremes e gargantas agrestes, fáceis de de­fender, e, para o interior, fica a bem guardada terra de Rheged.

Quando Uther pensara em criar a criança em algum castelo se­guro, pensara apenas nas terras ricas e estáveis de dentro da Mu­ralha de Ambrósio, mas, mesmo se ele não temesse pela lealdade dos nobres, eu desaconselharia essas regiões, por serem exatamente as que os saxões mais cobiçavam. Por essas terras, eu presumia, eles lutariam em primeiro lugar e com mais denodo. No norte, no cora­ção de Rheged, onde ninguém procuraria por ele, e onde a própria Floresta Agreste o protegeria, o menino cresceria com o máximo de segurança, e livre como um passarinho.

Ector casara-se há alguns anos. Sua mulher chamava-se Drusilla, de família romano-inglesa de York. Seu pai, Faustus, fora um dos magistrados da cidade que a defendera contra Octa, filho de Hengist, e que fora um dos que aconselhara o chefe saxão a se en­tregar a Ambrósio. Na época, Ector lutava no exército de meu pai. Em York, ele conhecera Drusilla, e casara-se com ela. Ambos eram cristãos, e, talvez por isso, seus caminhos e os de Uther raramente se cruzavam. Mas eu, juntamente com meu pai, já estivera na casa de Faustus em York, e Ambrósio tomara parte em longas discussões sobre a colonização das províncias do norte.

O castelo de Galava era bem protegido, fora construído no lugar do velho forte romano, com o lago à sua frente, um rio profundo de um dos lados, e as montanhas selvagens bem próximas. Era pos­sível acercar-se dele apenas por água, ou por uma das gargantas do vale, bem vigiadas e facilmente defensáveis. Contudo, não tinha jeito de fortaleza. Havia árvores por perto, pesadas de outono, e botes com pescadores onde o rio corria, profundo e calmo, por entre as planícies verdejantes. As pastagens à volta da água estavam cheias de gado, e uma aldeia ficava sob as muralhas do castelo, como no tempo da Paz Romana. Duas milhas além das muralhas do castelo, encontrava-se um monastério, e os vales eram tão retirados que, dos lugares altos, acima da linha das árvores, onde só havia grama e pedras, dava para ver-se as ovelhas de pêlo azul que nasciam em Rheged, vigiadas por um jovem pastor que enfrentava os lobos e as raposas ferozes protegido apenas por um bastão e um único cão.

Eu viajava sozinho, e discretamente. Sem a barba detestada e o pesado disfarce, ainda assim não fui notado nem reconhecido, e che­guei à tardinha, num dia de outubro claro e revigorante.

Os portões estavam abertos, dando para um quintal pavimenta­do onde homens e rapazes estavam descarregando uma carroça de palha. Os bois esperavam pacientemente, ruminando; perto deles um rapaz dava de beber a um par de cavalos suados. Cães latiam e brigavam e galinhas ciscavam no feno caído. Havia árvores no quin­tal e, dos dois lados da escada da porta principal, havia canteiros de malmequer, com as suas cores laranja e amarelo refulgindo ao sol da tarde. Parecia mais uma próspera fazenda que uma fortaleza, mas, pela porta aberta, entrevi fileiras de armas reluzentes e, de trás de um muro alto, vinham ordens e o ruído de homens trei­nando.

Parei entre os postes da entrada e o porteiro barrou o meu caminho, perguntando o que eu desejava. Entreguei-lhe um peque­no embrulho com o meu broche do Dragão e mandei que o levasse ao seu amo. Dentro de minutos, estava de volta, com o camareiro correndo atrás dele, para levar-me diretamente ao Conde Ector.

Ector quase não mudara. Era um homem de estatura média, chegando à meia-idade; se meu pai fosse vivo, seriam da mesma idade, o que lhe dava pouco mais de quarenta anos. Sua barba cas­tanha estava ficando grisalha, e era moreno, e sangüíneo. Sua esposa era mais de dez anos mais moça que ele; era alta e estatuesca, na casa dos vinte, reservada e um pouco tímida, mas com olhos azul-fumaça que desmentiam o seu modo formal e distante. Ector parecia um homem satisfeito.

Recebeu-me sozinho, num quarto pequeno com lanças e arcos encostados às paredes, e a lareira cercada de cães — veadeiros. O fogo estava alto nas achas de pinho, porque as janelas estreitas e sem vidros deixavam entrar o ar esperto de outubro, e o vento gania como um cão nas cordas dos arcos empilhados.

Apertou-me os braços num abraço de urso, exclamando:

— Merlinus Ambrosius! Mas, que prazer! Há quanto tempo, nem? Dois anos? Três? Quanta água por baixo da ponte, e quanta estrela cadente, desde a última vez, não? Mas você é muito, muito bem-vindo! Não há outro que eu receba melhor sob o meu teto. Você fez o seu nome, hein? O que tenho ouvido contar. . . Bom, agora pode contar-me a verdade. Santo Deus, rapaz, você está cada dia mais parecido com ele! Porém, mais magro, mais magro. Você parece que não vê carne fresca há um ano. Venha, sente-se ao pé do fogo que vou pedir comida antes que comecemos a conversar.

O jantar foi enorme e excelente, e valia por dez refeições das minhas. Ector comeu por três, e insistiu que eu comesse o resto. Trocávamos as novidades enquanto comíamos. Ele já soubera da gravidez da Rainha, mas eu não me detive no assunto, perguntando-lhe o que se passara em Viroconium. Ector participara do conselho, e recentemente voltara para casa.

— Sucesso? — perguntou, replicando à minha pergunta. — É difícil dizer. Muita gente compareceu. Coei de Rheged, é claro, e os demais dessas terras, — enumerou uma meia dúzia de vizinhos — menos Riocatus de Verterae que mandou avisar que estava doente.

— Você não acreditou?

— Quando acreditar no que aquele chacal disser — respondeu Ector energicamente — também serei um lambedor de cuspe. Mas, todos os lobos estavam lá, portanto os comedores de carniça não fi­zeram falta.

— Strathclyde?

— Sim, Caw estava lá. Os pictos na metade ocidental do seu território estão dando trabalho.. . aliás, quando é que não deram? Embora Caw também seja meio picto, ele cooperará com qualquer plano que o ajude a controlar o seu território, portanto foi favorá­vel à idéia do conselho. Ele ajudará, tenho certeza. O que não con­segue é controlar aquele monte de filhos que fez. Sabia que um deles, Heuil, um canalhinha que mal tem idade para levantar uma lança (assim pensavam todos), violentou uma das filhas de Morien na primavera passada, quando ia a caminho do monastério para onde seu pai resolvera que ela iria, quando do seu nascimento? Para ela, ele bem que levantou a sua lança; quando o pai soube, eles já tinham ultrapassado a fronteira e ela não estava mais em condições para nenhum monastério, mesmo um de idéias avançadas. — Abafou um risinho. — Morien reclamou, é claro, mas todos estavam debo­chando, então ele tirou o melhor partido que pôde da situação. Strathclyde teve que pagar, e ele e Morien sentaram-se em lugares opostos em Viroconium, e Heuil nem sequer compareceu. Pois é, mas eles resolveram esquecer as suas diferenças. O Rei Uther soube tra­balhar bem, e, assim, juntando Rheged e Strathclyde, metade da fronteira norte está totalmente com o Rei.

— E a outra metade? — perguntei. — E quanto a Lot?

— Lot? — Ector bufou. — Aquele fanfarrão! Ele juraria ali­ança ao Diabo e a Hecate combinados, se com isso arranjasse mais alguns acres de terra! Liga menos para a Inglaterra do que aquele cão ao pé da lareira. Ele e o seu bando de irmãos selvagens sen­tados naquela rocha fria. Só lutarão se tirarem vantagem. — Ca­lou-se, olhando para o fogo de cenho fechado, cutucando o cachorro mais próximo com o pé; o cão bocejou de prazer e repuxou as orelhas. — Mas, ele fala bem, e talvez eu o esteja caluniando. Os tem­pos mudam, e até bárbaros como Lot devem compreender que, a não ser que nos unamos, e permaneçamos unidos, será como o Ano da Inundação de novo.

Não se referia a uma inundação de verdade, mas ao ano da grande invasão do século passado, quando pictos e saxões, reunidos aos escoceses da Irlanda, derramaram-se por sobre a Muralha de Adriano com machado e fogo. Máximo era o chefe, na época, em Segontium. Ele os rechaçou e os venceu, conquistando para a Ingla­terra uma temporada de paz; e, para si mesmo, um império e uma lenda.

Falei:

— Lot é a chave da defesa que Uther está planejando, mais ainda que Rheged ou Strathclyde. Ouvi dizer (será verdade?) que há anglos plantados no Alaunus, e que a força dos federados anglicanos, ao sul de York ao longo do Abus, já duplicou desde a morte de meu pai.

— É verdade — falou pesadamente. — Para o sul de Lothian há apenas Urien na costa, e este é um outro corvo, beliscando os restos de Lot. Não, talvez eu também esteja sendo injusto com ele. Afinal, ele é casado com a irmã de Lot, é de se supor que rezem pela mesma cartilha. Por falar nisso...

— Nisso o quê? — perguntei quando ele se interrompeu.

— Casamento. — Fechou a cara, depois riu. — Se não fosse tão perigoso, até que seria engraçado. Você sabia que Uther tem uma filha bastarda, esqueci o nome, que deve ter uns sete ou oito anos?

— Morgause. Sim, lembro-me dela. Nasceu na Bretanha.

Morgause foi um escorregão de Uther com uma garota na Bre­tanha, que o seguiu até a Inglaterra na esperança de se casar, pois era de boa família, e a única mulher que se sabia com certeza que lhe dera filhos. (Sempre fora motivo de espanto e conjecturas, quer públicas quer particulares, entre as tropas de Uther, como ele con­seguia evitar uma fila de bastardos na sua esteira, como sementes caindo no sulco deixado pelo arado. Mas esta menina era a única de conhecimento público. E do conhecimento de Uther também, creio. Pois era um homem justo e generoso, e nenhuma moça sofre­rá às suas mãos dano maior que a perda da virgindade.) Ele reco­nhecera a criança, conservara a mãe e a menina numa das suas casas, e após o casamento da mãe com um nobre da sua corte, le­vara a menina para a sua própria casa. Eu a vira uma ou duas vezes na Bretanha, uma menina magra, de cabelos claros, com olhos grandes e boca apertada.

— Que há com Morgause? — indaguei.

— Uther estava dando indiretas sobre casá-la com Lot, quando ela estiver na idade.

Ergui uma sobrancelha.

— E o que Lot acha disso?

— Estava engraçada a sua reação. De cara feia com a sugestão que a bastarda de Uther servia para ele, mas falando macio, para o caso de não nascer outra filha na cama legítima do Rei. Bastar­dos, e seus cônjuges, já herdaram reinos anteriormente. Desculpe fa­lar na sua presença.

— Não é nada. Então, Lot está olhando para tão alto assim?

Assentiu.

— O mais alto possível, para o Grande Reino, escute o que lhe digo.

Fiquei pensando. Eu nunca conhecera Lot; era pouco mais velho do que eu, no começo da casa dos vinte, e, embora tivesse lu­tado sob as ordens de meu pai, os nossos caminhos não se tinham cruzado.

— Então, Uther quer amarrar Lothian, e Lot quer ser amar­rado? Sendo ou não por ambição, isto significa que Lot lutará pelo Grande Rei quando chegar a hora. E ele é o nosso principal baluarte contra os anglos e os outros invasores do norte.

— É, ele lutará. A não ser que os anglos ofereçam-lhe um suborno melhor que o de Uther.

— Fala sério? — Fiquei alarmado. Ector, apesar do seu jeitão, era um observador sagaz e poucos homens conheciam melhor as tendências das mudanças de poder ao longo das nossas costas.

— Talvez eu estivesse exagerando. Mas, no meu modo de ver, Lot é inescrupuloso e ambicioso, uma combinação que significa perigo para o chefão que não souber aplacá-lo.

— Como ele se dá com Rheged? — Estava pensando na crian­ça que ficaria aqui em Galava, com Lot a nordeste, depois dos Penninos.

— São amigos, são amigos. Tão amigos quanto dois cães enor­mes, cada um com o seu prato de comida bem cheio. Ainda não é motivo de preocupação, e talvez nunca o seja. Esqueça, e vamos

kr, — Ele próprio bebeu, depois largou o copo e limpou a boca. Então, fitou-me de modo astuto e curioso. — E agora, vamos ao que interessa. Você não veio até aqui só para jantar e bater papo com um velho fazendeiro. Diga-me, como posso servir ao filho de Ambrósio?

— É ao sobrinho de Ambrósio que você estará servindo — respondi, contando-lhe o resto. Ele me escutou em silêncio. Apesar do seu jeitão caloroso e esfuziante, nada havia de impulsivo ou precipitado em Ector. Ele fora um oficial calculista e de cabeça fria; um homem valioso em qualquer circunstância, desde uma luta feroz até um cerco longo e cuidadoso. Após um rápido olhar de sur­presa e um erguer de sobrancelhas quando falei da decisão do Rei, e que eu seria o tutor da criança, ele escutou sem mover-se e sem tirar os olhos de cima de mim.

Quando terminei, mexeu-se.

— Bem... Para começar, Merlin, deixe-me dizer uma coisa: estou feliz e orgulhoso que tenha vindo a mim. Sabe o que eu sentia por seu pai. E, para dizer a verdade, meu rapaz, — pigarreou, he­sitou, e falou, com os olhos postos no fogo — sempre me doeu o coração que fosse um bastardo. Falo isso entre essas quatro paredes, é lógico. Não que Uther tenha sido um mau Grande Rei. . .

— Bem melhor do que eu teria sido — comentei sorrindo. — Meu pai sempre dizia que Uther e eu, juntos, possuíamos as qualidades de um bom rei. Era o sonho dele que, juntos, formás­semos um. E este é ele. — Levantou depressa a cabeça. — Ah, eu sei, um bebê que ainda nem nasceu. Mas, a primeira parte aconteceu como eu sabia que aconteceria: um filho de Uther, criado por mim. Este é ele. Será um rei como nunca esse pobre país viu, e nem verá...

— Suas estrelas lhe contaram?

— Está escrito nelas, e quem escreve nas estrelas, senão Deus?

— Queira Deus seja verdade. Vai chegar uma época, Merlin, talvez não daqui a um, nem cinco, nem dez anos, mas vai chegar... em que o Ano da Inundação voltará, e queira Deus que tenhamos um rei para erguer a espada de Máximo contra ele. — Virou brus­camente a cabeça. — Que foi isso? Este som?

— O vento nas cordas dos arcos.

— Parecia uma harpa tocando. Estranho... Que foi, rapaz? Por que essa cara?

— Nada.

Olhou-me com ar de dúvida por mais um momento, depois resmungou e calou-se; atrás de nós o som cresceu, uma música fria, vinda do próprio ar. Recordei-me de como, em criança, ficava a olhar para as estrelas para escutar a música que, segundo me con­taram, elas faziam ao moverem-se. Deve ser este, pensei, o som dela.

Entrou um criado trazendo mais achas para o fogo. e o som morreu. Quando se retirou, fechando a porta, Ector tornou a falar, num tom bem diferente.

— É claro que o farei, e com muito orgulho. Você tem razão; nos próximos anos Uther não terá muito tempo para a criança, e terá dificuldades em conservá-la em segurança. Talvez em Tintagel, mas, com Cador por lá... O Rei sabe que veio procurar-me?

— Não. Nem lhe direi, no momento.

— Verdade? — Meditou por um tempo, de cenho franzido.

— Acha que ele ficará satisfeito com isso?

— É possível. Não sei. Não insistiu muito comigo sobre a Bretanha. Creio que quer envolver-se o mínimo possível. Além disso

— sorri com amargura — o Rei e eu estamos em trégua, mas não sei por quanto tempo; e longe dos olhos, longe do coração... e do pensamento. Se eu for dedicar-me a ensinar a criança, que seja a uma boa distância do Grande Rei.

— É, já soube disso, também. Não é uma atitude sábia ajudar os reis a realizarem os seus desejos. O menino será cristão?

— Assim deseja a Rainha, por isso ele será batizado na Bre­tanha, se eu puder dar um jeito. Vai chamar-se Artur.

— Você será o padrinho? Dei uma risada.

— Acho que o fato de nunca ter sido batizado tira-me do páreo.

Ele mostrou os dentes.

— Esqueci-me que é pagão. Ainda bem que o menino não o será, ou teríamos um bocado de aborrecimentos.

— Com a sua mulher? É assim tão religiosa?

— Pobre moça — comentou — só tem isso desde a morte do nosso segundo filho. E não haverá outros. Na realidade, será uma bênção de Deus acolhermos esse menino; meu filho Cei, apesar de ter apenas três anos, já é um bandidinho teimoso, mimado pelas mulheres. Será bom haver uma segunda criança. Como é mesmo que irá chamar-se? Artur? Posso discutir isto com Drusilla? Embora não haja dúvidas de que ficará tão feliz quanto eu em acolhê-lo. E ficará de boca fechada, acredite, mesmo sendo mulher. Ele estará em segurança conosco.

— Eu tinha certeza. E sem precisar que as estrelas me disses­sem. — Ele interrompeu os meus agradecimentos.

— Bem, então está tudo resolvido. Discutiremos os detalhes depois. Falarei com Drusilla hoje à noite. Ficará conosco durante algum tempo?

— Obrigado. Só o tempo de descansar, e ao meu cavalo. Quero estar em Tintagel em dezembro, e, antes, preciso estar em casa quando Ralf voltar da Bretanha. Há muitas providências a tomar.

— Que pena! Mas voltará. Estarei esperando. — Sorriu, cutu­cando os cães novamente. — Posso nomear você tutor aqui de casa, ou algo assim, que lhe permita lidar com o menino. E aproveitaria para consertar Cei. Talvez ele tenha modos com você, se tiver medo de ser transformado em sapo por desobedecê-lo.

— Os morcegos são a minha especialidade — repliquei sorrin­do. — Você é muito bom e nunca poderei saldar esta dívida. Mas, arranjarei um canto para mim.

— Escute, rapaz, o filho de Ambrósio não vai sair por aí pro­curando casa enquanto eu tiver quatro paredes e uma lareira para oferecer. Por que não aqui?

— Porque posso ser reconhecido e onde Merlin estiver, nos próximos anos, os homens procurarão Artur por perto. Não, preciso ficar escondido. Uma casa grande como esta é muito arriscada, e, com o devido respeito, quatro paredes não são sempre o melhor abrigo para gente como eu.

— Ah, entendo. Uma gruta, não é? Bem, aqui por perto há al­gumas, se conseguir expulsar os Jobos primeiro. Bem, você sabe da sua vida. Mas, diga-me, e a Rainha? Que acha disso tudo? Que mulher deixaria que lhe arrancassem o primogênito do leito onde deu à luz, e nunca mais tentar vê-lo ou dar-se a conhecer?

— A própria Rainha chamou-me em segredo e pediu-me que o levasse. Ela sofre, mas é a vontade do Rei, e ela sabe que não é apenas um capricho nascido da raiva; percebe o perigo tanto quanto ele. E é rainha antes de ser mulher. — Acrescentei, com cuidado: — Penso que o Rei e a Rainha não são do tipo de ter família. São homem e mulher feitos um para o outro e, fora da cama, são Rei e Rainha. Talvez, no futuro, Ygraine queira saber, e faça perguntas; mas, isso é com o futuro. No momento, ela se satisfaz em deixá-lo partir.

Depois disso, conversamos noite adentro, acertando os detalhes futuro. Artur ficaria na Bretanha até uns três ou quatro anos - idade, quando Ralf o levaria, numa época do ano em que fosse seguro, da Bretanha para a casa de Ector.

— E você? — perguntou Ector. — Onde estará?

— Não na Bretanha, pelo mesmo motivo que não posso ficar Vou desaparecer, Ector. É um talento que os mágicos pos­suem. E quando reaparecer, será num lugar que afaste os olhos dos homens da Bretanha e de Galava. — Quando fez mais perguntas, ri e recusei-me a explicar.

— Na realidade, os meus planos ainda não estão definidos. Bem, já o tirei da cama por muito tempo. Sua mulher deve estar imaginando quem é o homem misterioso com quem esteve trancado este tempo todo. Apresentarei as minhas desculpas pela manhã.

— E eu apresentarei as minhas agora — disse, ficando de pé. — Mas estas desculpas eu gosto de pedir. Está perdendo um bocado, sabe, Merlin... mas, você não deve saber...

— Eu sei — falei.

— Sabe? E acha que vale a pena esta vida sem mulheres?

— Para mim, vale.

— Venha por aqui, então, para a sua cama fria — disse ele,

abrindo a porta para mim.

 

O menino nasceu na véspera do Natal, uma hora antes da meia-noite.

Um pouco antes do nascimento, eu e os dois nobres indicados como testemunhas fomos chamados ao quarto da Rainha, onde Gandar a assistia, juntamente com Márcia e outras mulheres da casa. Entre estas estava Branwen, que dera à luz há pouco um natimorto; ela seria a ama-de-leite do menino. Quando tudo terminou, e o me­nino estava lavado e enfaixado, e a Rainha adormecida, despedi-me e saí do castelo pelo caminho para Dimilioc. Logo que as luzes da portaria sumiram de vista, virei o meu cavalo para o atalho ín­greme para o vale que se estende desde os campos altos acima do promontório, até a praia.

O castelo de Tintagel foi construído num promontório rochoso, numa península, um rochedo saindo do mar tenebroso, unido aos penhascos do continente por uma passarela estreita. De cada lado da passarela, os penhascos caem até pequenas angras de rocha e casca­lho que os rochedos escondem. De uma dessas sai um atalho, estrei­to e precário, e que só dá passagem na maré baixa, conduzindo, penhasco acima, até um pequeno portão nas raízes das muralhas do castelo. Este é o postigo, a entrada secreta para o castelo. Lá dentro, uma escadaria estreita de pedra leva à porta particular dos aparta­mentos reais.

A meio caminho da escadaria, ficava um patamar largo, e um quarto da guarda. Aí eu ficaria esperando até que a criança 'estivesse em condições de enfrentar o frio do inverno. Não havia guardas; há meses o Rei lacrara o postigo; a porta do quarto da guarda que dava para a parte principal do castelo fora emparedada. Esta noite, a porta traseira fora aberta, mas não havia porteiro; apenas Ulfin, o criado do Rei, e Valério, seu amigo e oficial de confiança, estavam à minha espera para deixar-me entrar. Valério conduziu-me ao quar­to da guarda, enquanto Ulfin descia o atalho para o mar para levar o meu cavalo. Ralf não estava comigo. Fora verificar se o navio bretão estava esperando, como prometera, e fora encarregado, tam­bém, de trazer cavalos e ficar de guarda toda noite na baía abaixo do atalho secreto.

Esperei dois dias e duas noites. No quarto da guarda havia um catre, e Ulfin acendera um fogo para espantar o frio, e, de tempos em tempos, trazia comida, combustível e as novidades lá de cima. Teria ficado para servir-me, se eu tivesse deixado; ainda era grato por favores do passado, e o desprazer do Rei muito o mortificara. Mas eu o despachei para o seu lugar à porta do quarto da Rainha, e fiquei esperando sozinho.

Do outro lado do patamar, na parede externa do castelo, do lado oposto do quarto da guarda, havia outra porta, dando para uma plataforma estreita, cercada por um parapeito. Nenhuma das jane­las do castelo dava para este local, e, abaixo dele, entre o muro do castelo e o mar, ficava um gramado que descia até a beirada dos precipícios. No verão o lugar ficava coalhado de ninhos de aves marinhas, mas, agora, em pleno inverno, estava vazio e coberto de geada. Lá de baixo, chegavam os ruídos incessantes do mar de in­verno.

Todo dia, ao alvorecer e ao anoitecer, eu ia até esta plataforma para ver se o tempo mudara. Mas não houve mudança durante três dias. O ar estava frio, e, lá embaixo, mal se distinguia a grama, branca de geada, na névoa espessa que envolvia todo o lugar, desde o mar invisível, abaixo dos penhascos invisíveis, até a mancha pá­lida que o sol deixava ao tentar iluminar o céu. Por baixo da coberta de névoa, o mar estava quieto, o mais quieto que conseguia ficar naquela costa raivosa. Toda meia-noite, antes de ir dormir, eu saía Para a escuridão gelada para procurar as estrelas. Mas via apenas a cobertura de névoa.

Até que, na terceira noite, o vento chegou. Um ventinho do leste, que subiu os parapeitos e entrou por baixo das portas, fa­zendo esvoaçar as chamas nas achas de bétula. Fiquei de pé, a escutar. Estava com a mão no trinco da porta, quando ouvi um ruído no silêncio do topo da escadaria. A porta dos aposentos da Rainha abrira-se e fechara-se, suavemente. Abri a minha porta e olhei para cima.

Alguém vinha descendo a escada, mansamente; uma mulher, enrolada num manto, carregando algo. Saí para o patamar, e a luz do quarto acompanhou-me, luz de fogo e sombras.

Era Márcia. Vi as lágrimas que brilhavam em seu rosto, incli­nado sobre aquilo que segurava. Uma criança, bem agasalhada con­tra o frio do inverno. Ela me viu e entregou-me o bebê, dizendo:

— Tome conta dele. Tome conta dele, pelo amor de Deus! Tomei a criança. Por dentro dos agasalhos de lã, via-se o brilho

de fazenda dourada.

— E o objeto de prova? — perguntei. Ela entregou-me um anel. Era de ouro, com uma pedra de jaspe vermelha em que o timbre do dragão estava entalhado, e eu o vira com freqüência no dedo de Uther. Coloquei-o no meu dedo, e ela fez um gesto instintivo de protesto, que logo abafou ao recordar quem eu era.

Sorri.

— É só para que não se perca. Vou guardá-lo para ele.

— Meu príncipe... — Inclinou a cabeça. Depois olhou por sobre o ombro para a escada, por onde Branwen, de capa e capuz, vinha descendo acompanhada de Ulfin, que trazia um pacote com os seus pertences. Márcia virou-se depressa para mim, e colocou uma das mãos no meu braço. — O senhor me dirá para onde o leva? — Era uma súplica, sussurrada.

Meneei a cabeça.

— Sinto muito. É melhor que ninguém saiba. Embora calada, os lábios se moviam. Empertigou-se.

— Está certo. Mas promete que ele estará em segurança? Não lhe peço como homem, nem como príncipe. Peço ao seu poder. Ele estará em segurança?

Com que, então, Ygraine nada dissera, nem a Márcia! Márcia apenas adivinhava o futuro. Mas nos dias futuros, as duas mulheres teriam uma necessidade amarga de trocar confidencias. Seria cruel deixar a Rainha só com o seu conhecimento e as suas esperanças. Não é verdade que as mulheres não saibam guardar segredo. Quando amam, pode-se confiar nelas até a morte, e além, contra todo q bom-senso e a razão. É a sua fraqueza, e a sua grande força.

Olhei Márcia bem dentro dos olhos por um momento.

— Ele será Rei. A Rainha já sabe. Mas para o bem da criança, você não dirá isso a mais ninguém.

Ela inclinou a cabeça, novamente, sem replicar. Ulfin e Bran­wen já estavam ao nosso lado. Márcia aproximou-se e, meigamente, afastou um pouco o xale que cobria o rosto do bebê. Ele estava dormindo. As pálpebras, rechonchudas, cobriam os olhos fechados como conchas pálidas. Havia uma penugem grossa sobre a cabeça. Márcia abaixou-se e beijou-o levemente na cabeça. Ele continuou a dormir, indiferente. Ela tornou a cobri-lo, depois, com mãos hábeis e suaves, ajeitou bem a trouxa nos meus braços.

— Assim. Segure a cabeça dele assim. Desça o atalho com cuidado, sim?

— Descerei.

Ela quis falar de novo, mas controlou-se, e vi uma lágrima des­lizar pela sua face e cair no xale da criança. Então, virou-se abrupta­mente, e começou a subir as escadas.

Eu mesmo carreguei o bebê atalho abaixo. Valério foi na frente, com a espada desembainhada e pronta, e Branwen, apoiada no braço de Ulfin, veio atrás. Quando chegamos embaixo, nas pedrinhas ásperas, a sombra de Ralf destacou-se da escuridão imensa dos ro­chedos, e ouvimos o seu cumprimento breve e aliviado, e os cascos dos cavalos no cascalho.

Ele trouxe uma mula, rija e segura, para a moça. Ajeitou-a na sela, e eu entreguei-lhe o bebê, que ela agasalhou na sua própria capa. Ralf, então, montou e segurou as rédeas da mula. Eu levaria a mula de carga. Desta vez eu seria um cantor itinerante, pois um tocador de harpa é requisitado para as cortes dos reis, enquanto um curandeiro não é. A minha harpa estava amarrada à sela da mula. Ulfin entregou-me as rédeas, depois trouxe o meu cavalo; ele estava descansado e ansioso para pôr-se em movimento e aquecer-se Fiz minhas despedidas e agradecimentos, e ele e Valério retomaram o caminho do penhasco. Depois de entrarem no castelo, lacrariam no­vamente o postigo.

Virei a cabeça do meu animal para o vento. Ralf e a moça já estavam com os cavalos na rampa. Vi as figuras escuras paradas acima de mim, à espera, e o oval desmaiado do rosto de Ralf, que me fitava. De repente, e'e ergueu o braço, apontando.

— Olhe!

Virei-me.

A névoa se dissipava, descobrindo um céu reluzente. Suave-lente, bem por cima do promontório do castelo, vinha a luz difusa da  lua. Afinal a última nuvem se foi, soprada pelo vento como uma ela em direção à Bretanha, e, no seu rastro, destacando-se entre as estrelas de menor brilho, surgiu a grande estrela que iluminara a noite da morte de Ambrósio, e que agora reluzia firmemente no leste pelo nascimento do Rei de Natal.

Esporeamos os nossos cavalos, e cavalgamos para o navio.

 

O vento soprou bem para a Bretanha, e avistamos a Costa Sel­vagem na madrugada do quinto dia. Aqui, o mar nunca é calmo; os penhascos, altos e perigosos, erguiam-se negros, com a luz da manhã às suas costas e os dentes do mar roendo as suas bases; mas, depois de passarmos o Cabo Vindanis, o mar ficou mais liso e tran­qüilo, e eu até consegui deixar a minha cabina para assistir a nossa chegada ao cais ao sul de Kerrec, que meu pai e o Rei Budec tinham construído há anos, quando a força invasora estava reunida aqui.

A manhã estava sossegada, com um pouco de geada e uma névoa fina cobrindo os campos. O terreno desta região é plano, com cam­pos e pantanais estendendo-se para o interior, onde o vento flagela a grama com sal, e nada cresce, durante milhas, a não ser pinho e espinhos. Regatos pequenos serpenteiam entre o lodo até as baías e angras que abundam na costa, e na maré baixa, as planícies enchem-se de mariscos e dos gritos de pássaros a vadear. Apesar da sua aparência árida, era terra rica, e fora um refúgio para Uther e Am­brósio quando Vortigern assassinara-lhes o irmão, assim como o fora para centenas de outros exilados que fugiam de Vortigern e da amea­ça do Terror Saxão. Já naquela época, encontraram partes da região habitadas pelos celtas da Bretanha. Quando o Imperador Máximo, um século atrás, marchara sobre Roma, as tropas britânicas que sobreviveram à sua derrota tinham arrastado-se até o refúgio desta terra amiga. Alguns voltaram para casa; outros ficaram para casar e colonizar; meu parente, o Rei Hoel, descendia de uma dessas fa­mílias. Os ingleses que se instalaram aqui foram em tão grande nú­mero, que deram o nome à península de Inglaterra, chamando-a de Pequena Inglaterra, já que a sua terra natal era a Grande Inglaterra. A língua falada era como a de casa, e os homens adoravam os mes­mos deuses, mas a lembrança dos deuses antigos ainda persistia, e a terra era estranha. Vi que Branwen espiava pela amurada do navio com olhos arregalados e fisionomia estranha, e até Ralf, que já estivera aqui como meu mensageiro, olhava com temor quando, ao nos aproximarmos do cais, vimos, por trás das cabanas e pilhas de tonéis e fardos, a primeira fila das pedras erguidas.

Elas situam-se nos campos da Pequena Inglaterra, fila por fila, como velhos guerreiros cinzentos esperando, ou como exércitos dos mortos. Dizem os homens que estão aí desde o começo dos tempos, ginguem sabe por que, ou como, elas vieram. Mas eu sabia que elas foram erguidas, não por gigantes, ou deuses, ou feiticeiros, mas por engenheiros humanos, cuja habilidade as canções perpetuam. Essas habilidades eu aprendi quando vivi na Bretanha, em menino, e os homens chamavam-nas de mágica. Talvez estejam certos. Uma coisa é certa: embora os homens que ergueram as pedras já sejam pó de­baixo delas, os deuses que eles serviam ainda rondam por aqui. À noite, ao passar por entre as pedras, senti os seus olhos pousados nas minhas costas.

Mas agora o sói ia alto, dourando as superfícies de granito, e lançando sombras azuis sobre a geada. O cais fervilhava; carroças esperavam para carregar, e homens e rapazes atarefavam-se em des­carregar o navio. Nós éramos os únicos passageiros, mas ninguém deu muita atenção aos viajantes nas suas roupas decentes e sóbrias; o músico com a sua harpa, sua mulher e o filho ao lado, e o criado que os servia. Ralf tirara o bebê do colo de Branwen e ajudava-a a atravessar a prancha de desembarque. Ela estava pálida e calada e se amparava nele. Notei como (tão de repente, pareceu-me) deixara de ser um rapaz para transformar-se num homem. Devia estar com dezesseis anos e, embora Branwen fosse um ano mais velha, poderia perfeitamente ser tomado como seu marido, ao invés de mim. Ele estava alegre e animado, todo elegante nas suas roupas novas. Foi o único do nosso grupo que passou bem na viagem, pensei, enquanto sentia o cais mover-se sob os meus pés como se ainda estivesse a bordo.

A escolta que ele tratara esperava por nós. Não a escolta de tropas que o Rei Hoel quisera oferecer, mas apenas uma liteira de mula para Branwen e o bebê, com o muleteiro, e um outro homem, que trouxera cavalos para Ralf e para mim. Este outro homem apro­ximou-se para cumprimentar-me. Pelo seu porte, vi que era um ofi­cial, mas não estava fardado e nada indicava que a nossa escolta vinha da parte do Rei. Aparentemente, o oficial nada sabia a nosso respeito; sabia apenas que teria de levar-nos para a cidade e alojar-nos até que o Rei mandasse chamar-nos.

Cumprimentou-me cortesmente, mas sem deferência.

— Seja bem-vindo, senhor. O Rei envia os seus cumprimentos, estou aqui para escoltá-los à cidade. Fizeram boa viagem?

—  Assim dizem, mas eu e a senhora não estamos acreditando muito.

Deu um sorriso largo.

— Bem que achei que ela estava um pouco verde. Sei como se sente. Eu também não me dou muito bem com o mar. E o senhor? Acha que pode cavalgar até a cidade? É pouco mais de uma milha.

— Posso tentar. — Trocamos amenidades enquanto Ralf ajei­tava Branwen na liteira e fechava as cortinas contra o friozinho da manhã. Mal ela se acomodou, Artur acordou e começou a chorar. Que bons pulmões ele tinha! Acho que estremeci. Vi o brilho de divertimento no olhar do oficial e perguntei, secamente: — O senhor é casado?

— Certamente que sim.

— Antigamente eu imaginava o que estava perdendo. Agora sei.

Ele riu-se.

— Sempre se pode escapar. É o melhor motivo que conheço para ser somado. Queira montar, senhor.

Ele e eu cavalgamos lado a lado para a cidade. Kerrec era um povoado de bom tamanho, metade civil e metade militar, cercado de muros e fossos, amontoado ao redor da colina central onde ficava a fortaleza do Rei. Próximo à rampa que conduzia ao portão do cas­telo, ficava a casa onde meu pai passara os anos de exílio, enquanto ele e o Rei Budec reuniam e treinavam o exército que invadiria a Inglaterra para retomá-la para ele, o rei legítimo.

E agora, talvez o seu próximo e maior rei estava aqui ao meu lado, ainda aos berros, agasalhado na liteira que o levava pela ponte de madeira que cruzava o fosso, para dentro dos portões da cidade. Meu companheiro estava calado ao meu lado. Às nossas costas, os outros iam descontraídos, conversando, o som das suas vozes, e a batida dos cascos nas pedras, e o tinir dos freios ressoando na manhãzinha parada e nevoenta. A cidade despertava. Galos cantavam nos quintais e montes; aqui e ali portas abriam-se, e mulheres davam início ao trabalho do dia. Usavam xales contra o frio, carregavam baldes ou braçadas de lenha.

Gostei que o meu companheiro estivesse calado. Olhei à minha volta e vi que o lugar mudara completamente nos cinco anos em que estivera ausente. Suponho que não se pode arrancar um exército da cidade onde ele se formou e treinou durante anos, sem deixar apenas uma concha acústica. O exército aquartelara-se, principal­mente, fora das muralhas, e há muito os acampamentos foram des­feitos e o terreno transformado em gramados. Mas na cidade, em­bora as tropas de Budec ainda permanecessem, a confusão ordeira e o ar de expectativa que caracterizavam o lugar na época do meu pai, já não existiam. Na rua dos engenheiros, onde fizera o meu aprendizado com Tremorinus, havia algumas oficinas abertas e em funcionamento, já bem cedinho, mas o ar de altos propósitos fora-se com a multidão e com o clamor, e algo como a desolação tomara o seu lugar. Ainda bem que o caminho para o nosso alojamento não passava pela casa de meu pai.

Ficamos hospedados com um casal decente, que nos deu as boas-vindas; as mulheres logo tomaram conta de Branwen e do bebê, e eu fui levado a um quarto quentinho com o desjejum servido ao lado do fogo. Um criado trouxe a bagagem e quis ficar para servir-me, mas Ralf dispensou-o, e serviu ele próprio a refeição. Convidei-o para comer comigo, e ele aceitou, alegre e animado, como se os últimos dias tivessem sido de férias; quando terminamos, convidou-me para sair e explorar a cidade. Recusei, mas dei-lhe permissão para ir. Sou um homem forte, não me canso facilmente, mas é pre­ciso mais do que uma milha em terra firme e um bom desjejum para recuperar-me do enjôo e exaustão de uma viagem marítima no inverno. Ordenei que Ralf fosse ver se Branwen e o menino estavam bem atendidos, antes de sair; quando ele se foi, fui descansar e esperar pelo chamado do Rei.

Ele veio ao entardecer. Ralf chegou, admirado, trazendo uma túnica de lã macia, tingida de azul-escuro, com as bordas trabalhadas em fios de ouro e prata.

— O Rei mandou-lhe isso. O senhor vai usá-la?

— Caro. Se não o fizesse, seria um insulto.

— Mas é roupa de príncipe. O povo vai querer saber quem o senhor é. . .

— De príncipe, não. É a túnica de honra de um cantor. Este é um país civilizado, Ralf, como o meu. Não apenas príncipes e soldados são considerados. Quando o Rei Hoel me receberá?

— Dentro de uma hora. Ele o receberá, a sós, antes que o senhor cante no átrio. Do que está rindo?

— A necessidade faz o Rei Hoel astuto. Na corte de Hoel não há muito lugar para um cantor; ele não distingue uma nota da outra. Mas até um rei com este defeito terá prazer em ouvir as novidades trazidas pelo cantor. Sendo assim, ele me receberá a sós. Depois, se os barões da sua corte quiserem ouvir-me, não terá que estar presente.

— Ele mandou esta harpa. — Ralf indicou o instrumento que estava embrulhado, perto da lamparina.

— Ele a enviou, mas não é dele; é minha. — Olhou-me, surpreendido. Eu falara mais bruscamente do que pretendia. O dia inteiro a harpa silenciosa ficara ali, intocada, mas evocando todas as minhas lembranças de felicidade. Em menino, aqui em Kerrec, eu tocara quase todas as noites na casa de meu pai. Continuei: — é a que eu tocava aqui, há muitos anos. O pai de Hoel deve tê-la guardado para mim. Acho que não foi tocada desde a última vez que a usei. É melhor que a experimente antes de partir. Quer des­cobri-la?

Uma batida na porta anunciou um servo que trazia água quente. Enquanto eu me lavava, penteava e vestia o suntuoso traje azul, Ralf descobriu a harpa.

Era maior do que a que trouxera comigo, que era de colocar sobre o joelho. Esta era uma harpa de pé, com maior alcance e um tom que chegaria a todos os cantos do átrio real. Eu a afinei com cuidado, depois corri os dedos sobre as cordas.

Recordar o amor, após um longo sono; voltar à poesia, depois de um ano no mercado, ou à juventude depois de estar resignado a envelhecer; recordar-se do que você pensava que a vida podia ofe­recer, após ter tocado a realidade com dedos enlameados e calcula-dores. Isto é a música, tocada depois de longo silêncio. A alma fle­xiona as asas, desajeitada como uma avezinha nova, e tenta voar. Tateei, dedilhando as cordas, explorando, experimentando, como um homem experimenta o terreno escuro que conheceu à luz do dia. Sussurros, sons, bandos de notas arrastadas. As cordas refletiram a luz do fogo, e transformaram-se em canção.

 

Um caçador na noite escura

Tentou lançar uma rede de ouro nos pantanais.

Uma rede de ouro, pesada como ouro.

E a maré chegou e afogou a rede,

Submergiu-a, invisível, e o caçador esperou

Agachado à beira dágua na noite escura.

 

Eles vieram, os pássaros voando na escuridão,

Às centenas, um exército real.

Pousaram nágua, uma esquadra de navios.

De navios reais, de orgulhosos mastros de prata,

Navios rápidos, ferozes em batalha,

Amontoados sobre a água, na noite escura.

 

A rede pesava sob eles, escondida, esperando para pegá-los.

Mas ele ficou quieto, o jovem caçador, com as mãos paradas

Caçador, puxe a rede. Seus filhos comerão, hoje,

E sua mulher o elogiará, caçador astuto.

 

Ele puxou a rede, o jovem caçador, puxou-a bem depressa.

Estava pesada, e ele levou-a para a margem, por entre

[os juncos.

Pesava como ouro, mas só continha água.

Continha só água, pesada como ouro,

]E uma pena cinzenta,

Da asa de um ganso selvagem.

 

Partiram, os navios, os exércitos, para dentro da noite escura.

E os filhos do caçador ficaram com fome, e sua mulher

[lamentou-se.

Mas ele, dormiu sonhando, segurando a pena do ganso

[selvagem.

 

O Rei Hoel era grande, corpulento e tinha trinta e poucos anos. Durante o tempo que eu passara em Kerrec (dos doze aos de­zessete anos), mal o vira. Ele era um lutador vigoroso e dedicado, e eu era apenas um rapazola, ocupado com os meus estudos no hospital e na oficina. Mais tarde, ele lutara com as tropas de meu pai na Grande Inglaterra, e, ali, conhecemo-nos melhor e ficamos amigos. Era um homem de grandes apetites, bem-humorado e ten­dendo para a preguiça. Desde que o vira pela última vez, ele en­gordara e tinha um ar de boa-vida, mas eu não duvidava que con­tinuava valente em batalha.

Comecei falando em seu pai, Rei Budec, e nas mudanças ha­vidas, e conversamos um pouco sobre o passado.

— Ah, foram anos bons! — De mão no queixo, fitava o fogo. Recebera-me em seus aposentos particulares, e, depois que nos ser­viram o vinho, dispensou os criados. Os cães-veadeiros deitavam-se sobre as peles aos seus pés, sonhando com a caçada do dia. Suas lanças de caça, limpas, encostadas à parede atrás da cadeira, refle­tiam a luz do fogo. O Rei distendeu os ombros maciços e comentou: — Será que esses anos voltarão?

— Os anos de lutas?

— Os anos de Ambrósio, Merlin.

— Voltarão, com a sua ajuda. — Ficou intrigado, depois surpreso, depois inquieto. Eu falara prosaicamente, mas ele compreen­dera a insinuação. Como Uther, gostava de tudo normal, às claras e comum. . .

— Quer dizer, a criança? O bastardo? Apesar de tudo, será ele o sucessor de Uther?

— Sim. Juro-lhe.

Brincou coma sua taça, desviando os olhos dos meus.

— Bem, cuidaremos que fique em segurança. Mas, por que tanto segredo? Recebi carta de Uther pedindo, às claras, que cui­dasse do menino. Ralf não acrescentou mais nada ao que havia nas cartas que trouxe. Ajudarei, é claro, no que puder, mas não quero indispor-me com Uther. Na sua carta deixou bem claro que o menino só será seu herdeiro na falta de melhor pretendente.

— É verdade. Não tema, eu também não quero que você e Uther se indisponham. Não se joga um bocado precioso entre dois cães de briga e se espera que sobreviva. Até que exista outro que Uther considere melhor pretendente, está tão ansioso quanto eu para proteger este. Ele sabe o que estou fazendo, até certo ponto.

— Ah! — Fitou-me, intrigado. Eu estava certo a seu respeito. Ele tinha boas intenções quanto à Inglaterra, mas não se furtaria de tapear um pouco o seu Rei. — Até que ponto?

— Ao ponto em que o bebê estiver desmamado, e crescido o bastante para precisar da companhia dos homens e para aprender habilidades masculinas. Quatro anos, talvez menos. Depois disso, eu o tirarei de você e o levarei de volta para a Inglaterra. Se Uther per­guntar onde está, teremos que contar, mas até que o faça... Se o fizer. Eu acho que esqueceria esta criança, se pudesse. De qualquer modo, se houver culpa, será minha. Ele entregou-me o menino para que eu o criasse como entendesse.

— Mas, será seguro levá-lo de volta? Se o enviam para cá por causa dos inimigos, não haverá perigo mais tarde?

— É um risco que teremos de correr. Quero estar perto da criança enquanto estiver crescendo. Precisa ser na Inglaterra, e em segredo. Vêm aí tempos ruins, Hoel, para todos nós. Nada mais posso prever ainda, além disso: este menino, este bastardo, como você diz, terá inimigos, mais ainda que Uther. Você chama-o de bastardo; assim o chamarão outros homens ambiciosos. Os seus ini­migos secretos serão mais perigosos que os próprios saxões. Então, é preciso que ele fique escondido até a hora de assumir a coroa, e e!e precisa assumi-la sem sombra de dúvida, e ser elevado a Rei às vistas de toda a Inglaterra.

— Ele precisa? Quer dizer que já viu coisas? — Antes que eu pudesse responder, afastou-se do terreno perigoso, e pigarreou. Bem, vou guardá-lo em segurança para você, o quanto eu possa. Diga-me o que quer, você sabe da sua vida, sempre soube. Só não quero ficar mal com Uther. — Deu a sua gargalhada. — Lembro-me de como Ambrósio dizia que o seu julgamento em assuntos de diplomacia, mesmo quando rapazola, era dez vezes o desses impe­radores de quarto de dormir. — Meu pai, naturalmente, nunca dis­sera isto; nem nunca o diria a Hoel, que também tinha reputação de ser um grande amoroso; mas, valeu a intenção, e eu agradeci. Ele continuou: — Bem, diga-me o que quer. Confesso-me intriga­do... Os inimigos de que fala; não adivinharão que ele está na Bretanha? Diz que Uther não fez segredo dos seus planos. Assim, quando chegar a hora de o navio real zarpar, e virem que você e a criança não estão a bordo, presumirão que ele foi mandado para cá e virão procurá-lo na Bretanha.

— Provavelmente. Mas, a essa hora, já estará no lugar que arranjei para e'e, e onde os nobres de Uther não pensarão em pro­curar. E já terei partido.

— E que lugar é esse? Posso saber?

— Naturalmente. É um vilarejo perto da sua fronteira norte, na direção de Lanascol.

— O quê? — Estava assombrado, e demonstrava-o. Um dos cães moveu-se e abriu um olho. — Ao norte? Perto da terra de Gorlan? Gorlan não é amigo do Dragão.

— Nem meu. É um homem orgulhoso e há uma velha rixa entre a sua família e a de minha mãe. Mas com você ele não tem rixa, não é?

— Não, nenhuma — respondeu Hoel fervorosamente, com o respeito de um guerreiro por outro.

— É o que eu pensava. Portanto, Gorlan não deverá fazer in­cursões em seu território. Além disso, quem imaginaria que eu fosse esconder a criança tão perto dele? Com toda a Bretanha para esco­lher, não iria deixá-lo ao alcance do inimigo de Uther. Não, ele estará bem. Quando o deixar, estarei com a consciência tranqüila. Mas isto não quer dizer que eu não tenha profunda dívida para com você. — Dei-lhe um sorriso. — Até as estrelas precisam de ajuda, às vezes.

— Ainda bem — replicou Hoel, com aspereza. — Nós, meros reis, gostamos de pensar que também temos papéis a desempenhar. Mas você e as suas estrelas podem facilitar um pouco as coisas para nós, talvez? Com certeza, em toda a vastidão ao norte daqui, deve haver um lugar mais seguro que os limites das minhas terras.

— É possível, mas acontece que, aí, eu tenho uma casa de confiança. A única pessoa nas duas Inglaterras que sabe exatamente o que fazer com a criança nos próximos quatro anos, e que cuidará dela como se fosse sua.

— Quem?

 Moravik, que foi minha ama. Ela é bretã, e depois que foi saqueada na guerra de Camlach, ela deixou Gales do Sul e voltou para casa. Seu pai possuía uma taverna ao norte daqui, num lugar chamado Coll. Como já estava muito velho para trabalhar, um tal de Brand tomava conta dela para ele. A mulher de Brand morrera, e logo após a volta de Moravik os dois casaram-se, para que tudo ficasse certo aos olhos de Deus. . . e não falo só dos títulos de propriedade da taverna.. . Ainda têm o lugar. Talvez você já tenha passado por lá, mas não creio que tenha entrado... fica na junção de dois riachos, com uma ponte por cima. Brand é um dos seus soldados reformados, e um bom homem... e fará o que Mo­ravik mandar. — Sorri. — Nunca conheci um homem que não o fizesse, com exceção, talvez, do meu avô.

— Sei... — ele ainda parecia em dúvida. — Conheço a al­deia, um punhado de cabanas perto da ponte, e só... Como bem diz, um lugar muito pouco provável para procurar-se um herdeiro do Grande Rei. Mas, uma estalagem? Não é arriscado? Com homens (incluindo os de Gorlan, pois estamos em trégua) indo e vindo pela estrada?

— Desse jeito, ninguém estranhará os seus mensageiros, ou os meus. Meu criado Ralf ficará para guardar o menino, e precisará estar a par das novidades e mandar mensagens esporádicas para você, e para mim.

— É, entendo. E quando você levar a criança para lá, qual será a sua explicação?

— Ninguém estranhará um harpista ambulante. E Moravik já espalhou a história da moça e do bebê. A moça, Branwen, é sobrinha de Moravik, e teve um filho do seu amo, na Inglaterra. A patroa expulsou-a de casa, mas o amo pagou-lhe a passagem para a casa da tia, na Bretanha, e deu dinheiro ao cantor ambulante e ao seu criado para que a escoltassem. Nesse meio tempo, o criado resolve deixar o patrão e ficar com a moça.

— E o cantor? Quanto tempo ficará por lá?

— O tempo que costuma ficar um cantor viajante, depois seguirei o meu caminho e serei esquecido. Quando resolverem pro­curar o filho de Uther, como o encontrarão? Ninguém conhece a moça, e um bebê é só um bebê. Qualquer casa do país tem um ou mais.. .

Ele assentiu, matutando, depois fez mais algumas perguntas. Finalmente, admitiu:

— É, acho que serve. Que quer que eu faça?

— Tem observadores nos reinos próximos? Deu uma risada breve.

— Espiões? Quem não os tem?

— Então saberá imediatamente se houver sinal de problemas, com Gorlan ou outro qualquer. E se puder entrar em contato com Ralf, em seguida e em segredo, caso seja necessário...?

— Facilmente. Pode confiar em mim. Qualquer coisa que eu puder fazer, menos guerra com Gorlan. . . — Deu a sua risada pro­funda, de novo. — Eta, Merlin, mas como é bom ver você! Quanto tempo pode ficar?

— Levarei o menino para o norte amanhã, e, com a sua per­missão, irei sem escolta. Voltarei tão logo deixe tudo bem, mas não para aqui. Pode-se aceitar que você receba um cantor viajante uma vez, mas não que o encoraje!

— Por Deus, que não! Sorri para ele.

— Se o tempo não mudar, Hoel, o navio poderia esperar por mim, por alguns dias?

— Pelo tempo que quiser. Para onde está pretendendo ir?

— Primeiro para Massilia, depois, por terra, para Roma. A seguir, para o leste.

Pareceu surpreso.

— Você? Ora, quem diria? Sempre o imaginei radicado num lugar, como as suas colinas nevoentas. Que idéia foi essa?

— Não sei. De onde surgem as idéias? Preciso sumir por al­guns anos, até que o menino precise de mim, e achei que o jeito será esse. Além disso, escutei algo. — Não lhe contei que fora apenas o vento nas cordas dos arcos. — Ultimamente, tenho desejado co­nhecer algumas das terras de que tanto ouvi falar em criança.

Ainda conversamos por algum tempo. Prometi mandar-lhe cartas com novidades das capitais orientais, e, na medida do possível, dei-lhe pontos de referência para que ele pudesse enviar notícias, suas e de Ralf, sobre Artur.

O fogo apagou, e ele gritou pelo servo. Depois que o homem veio e se foi...

— Você logo terá de ir cantar no átrio — disse Hoel. — Por­tanto, já que esclarecemos tudo, vamos deixar de lado o assunto. — Reclinou-se na cadeira. Um dos cães levantou-se e veio esfregar-se no seu joelho, pedindo um afago. Por sobre a cabeça lustrosa, os olhos do Rei brilhavam, divertidos. — Bem, ainda falta contar-me as novidades da Inglaterra. E comece pela história real do que acon­teceu há nove meses.

— E você, por sua vez, me contará a versão pública. Ele riu.

— Ora, as histórias de sempre sobre você. Encantamentos, dra­gões voadores, homens levados pelo ar e através de paredes, invi­síveis. Admira-me, Merlin, que se dê ao trabalho de vir por navio,, quando passa tão mal do estômago. Vamos lá, a história.

Já era bem tarde quando voltei ao nosso alojamento. Ralf espe­rava-me, meio adormecido na cadeira do meu quarto, ao pé do fogo. Ergueu-se de um pulo ao ver-me, e tomou-me a harpa.

— Tudo bem?

— Sim. Vamos para o norte pela manhã. Não, obrigado, não> quero vinho. Bebi com o Rei, e bebi novamente, no átrio.

— Dê-me a sua capa. O senhor parece cansado. Teve de can­tar para eles?

— É claro. — Mostrei-lhe um punhado de moedas de prata, e uma moeda de ouro. — É bom saber que se pode ganhar bem a vida, não? A moeda de ouro foi do Rei, um suborno para que eu parasse de cantar, pois, por eles, ainda estaria lá. Eu lhe disse que este era um país culto. Cubra a harpa grande. Levarei a outra co­migo amanhã. — E enquanto ele obedecia: — E Branwen e o bebê?

— Foram para a cama há umas três horas. Ela está deitada com as mulheres. Ficaram todas muito contentes de ter um bebê para tomar conta. — Fez o comentário final num tom de surpresa que me fez rir.

— Ele parou de chorar?

— Só há uma ou duas horas. E elas nem se importaram.

— E decerto vai recomeçar quando o acordarmos, de madru­gada. Agora, vá para a cama e durma o quanto puder. Partiremos ao alvorecer.

 

Há uma estrada que parte de Kerrec para o norte, a velha estra­da romana que segue em linha reta pelos pastos nus e salgados. A uma milha dos limites da cidade, para além da estação de cor­reio abandonada, avista-se a floresta à frente, como uma enorme onda que se acerca para engolir as planícies salgadas. É uma flo­resta vasta, profunda e agreste. A estrada corta-a, em direção ao grande rio que cruza a região do leste para o oeste. Quando os romanos dominavam a Gália, havia um forte e um povoado além do rio; e a estrada foi construída para servir-lhes; mas, agora, o rio marca a fronteira do reino de Hoel, e o forte é um dos baluartes de Gorlan. A floresta não pertence a nenhum dos reis; ela se estende por inúmeros quilômetros montanhosos, cobrindo o centro da penín­sula bretã. O tráfico é feito pela estrada; a terra selvagem é usada apenas por carvoeiros, lenhadores e foras-da-lei. Na época sobre a qual estou escrevendo, o lugar chamava-se Floresta Perigosa e tinha a reputação de ser encantado e assombrado. Uma vez deixada a estra­da, e tomando-se um dos muitos atalhos que cortam o amontoado de árvores, pode-se viajar por dias sem ver o sol.

Quando meu pai tinha um comando na Bretanha do Rei Budec, suas tropas mantinham a ordem na floresta, e até o rio onde termi­nava o reino de Budec e começava o de Gorlan. Árvores foram abatidas, limpando bem as duas margens da estrada, e atalhos sub­sidiários foram abertos, mas tudo isso foi negligenciado, e os arbus­tos e rebentos tomaram conta. A superfície de cascalho do caminho fora destruída pelo inverno, e, aqui e ali, havia pedaços de lama endurecida que no bom tempo viravam charcos.

Partimos num dia frio e cinzento, com o vento sabendo a sal. Mas, embora o vento trouxesse a umidade do mar, não trouxe chu­va, e a viagem foi regular. As árvores imensas, de cada lado, pare­ciam pilastras de metal a segurar o céu baixo e cinzento. Íamos em silêncio, e após algumas milhas, a vegetação rasteira crescente for­çou-nos a andar em fila indiana. Eu ia na frente, com Branwen às minhas costas, e Ralf atrás, puxando a mula de carga. Eu notara como Ralf estava tenso, como virava a cabeça para um e outro lado para observar e escutar; mas, nada víamos ou ouvíamos, senão a vida da floresta no inverno: uma raposa, um par de veados, e uma sombra que talvez fosse um lobo a se esgueirar entre as árvores. Nada mais; nem barulho de cavalos, nem sinal de homens.

Branwen não demonstrava medo. Quando olhava para trás, eu a via sempre serena, montada firmemente na mu1 a, com uma calma que não continha nem sinal de inquietude. Pouco tenho falado sobre Branwen, porque confesso que pouco me lembro dela. Recordando através dos anos, vejo apenas uma cabeça castanha debruçada sobre 3 bebê, um rostinho redondo, olhos baixos e voz tímida. Ela era uma moça quieta e, embora falasse naturalmente com Ralf, raramente me dirigia a palavra, profundamente consciente da minha pessoa, tanto como príncipe quanto como feiticeiro. Não parecia ter noção de que houvesse risco ou perigo em nossa viagem, nem estava excitada (como estaria a maioria das moças) por viajar para um novo país. A sua calma imperturbável não se devia à confiança em mim ou em Ralf; cheguei à conclusão de que era humilde e sub­missa por estupidez, e que a sua devoção pelo bebê cegava-a a tudo o mais. Era do tipo de mulher feita para ter e criar filhos, e, sem Artur, teria sofrido amargamente a perda do seu próprio bebê. Ela parecia ter esquecido isto, e passava as horas num contentamento sonhador que tornava os desconfortos da viagem toleráveis para Artur.

Lá para o meio-dia, estávamos bem dentro da floresta. Os ga­lhos se entrecruzavam acima de nós, e, no verão, teriam obstruído o céu como um escudo, mas, entre os ramos nus do inverno, divisá­vamos uma réstia de luz pálida, que era o sol tentando penetrar. Procurei um lugar abrigado onde pudéssemos sair da estrada sem deixar muitos rastros, e de repente, quando o bebê acordou e co­meçou a reclamar, vi uma falha na vegetação e virei o cavalo.

Havia um atalho, estreito e sinuoso, que dava passagem no in­verno. Entrava pela floresta por uns cem passos até dividir-se: um atalho aprofundando-se mais entre as árvores, o outro, não mais que uma trilha de veados, subindo sinuoso até a base de um espigão rochoso. Subimos a trilha, que seguia por entre pedras caídas, co­bertas de samambaias mortas e secas, depois subia, passando por pinheiros, até terminar na grama desbotada de uma pequena clarei­ra acima da rocha. Aqui, numa cavidade, o sol chegava com um leve calor. Desmontamos e estendi um pano no chão para a moça no local mais abrigado, enquanto Ralf amarrava os cavalos aos pinheiros e jogava-lhes alimento. Depois, sentamo-nos para comer. Eu fiquei na beirada da cavidade, encostado a uma árvore, de onde podia enxergar bem a estrada principal abaixo da rocha. Ralf ficou com Branwen. Fazia muito tempo desde o desjejum, e estávamos todos com fome. O bebê já estava aos berros desde quando a mula começou a subir a trilha íngreme. Agora, cessara os gritos contra o seio da moça, e sugava avidamente.

A floresta estava muito silenciosa. A maioria dos animais sel­vagens aquieta-se ao meio-dia. A única coisa que se movia era um corvo, que pousou pesadamente num pinheiro próximo e começou a grasnar. Os cavalos acabaram a sua ração e cochilavam, de cabeça baixa. O bebê ainda mamava, mas, devagar, pegando no sono. En­costei-me ao tronco da árvore. Branwen murmurou algo para Ralf. Ele respondeu, e ela riu, depois, por entre o murmúrio das duas vozes jovens, distingui outro som, longínquo. O trote de cavalos.

Ao meu sinal o rapaz e a moça silenciaram, abruptamente. Ralf levantou-se num piscar de olhos e veio ajoelhar-se ao meu lado para vigiar a trilha. Fiz sinal a Branwen para ficar onde estava. Nem pre­cisava ter-me dado ao trabalho; ela lançou-nos um olhar inquiridor, mas, então, o bebê deu um soluço, e ela o pôs contra o ombro, dando-lhe batidinhas, toda a sua atenção concentrada nele de novo. Ralf e eu ajoelhamo-nos na beira da clareira, observando a trilha lá embaixo.

Os cavalos (pelo barulho, eram dois) não podiam ser de lenhadores nem dos vagarosos carvoeiros. Cavalos a trote, na Floresta Pe­rigosa, só podia significar uma coisa: barulho. E viajantes que, como nós, carregavam ouro (para o sustento do bebê) eram presa fácil para os fora-da-lei e homens desleais. Tolhidos por Branwen e Artur, não podíamos lutar nem fugir. Nem era fácil, por causa do bebê, ficar em silêncio e deixar o perigo passar tão perto. Eu tinha deixado bem claro a Ralf que, houvesse o que houvesse, ele teria que ficar com a moça e que, ao menor sinal de perigo, caberia a mim tentar afastá-lo. Ralf protestara, amotinara-se, mas, finalmente, compreendera e jurara obedecer.

Portanto, quando dei as ordens, ele obedeceu. Sussurrei:

— Só dois, acho. Se não vierem por aqui, não nos verão. Pegue os cavalos. E, pelo amor de Deus, diga à garota para fazer o bebê ficar quieto. — Ralf assentiu e deslizou até Branwen, sussurrando-lhe algo. Ela anuiu, placidamente, trocando o bebê de seio. Ralf foi como uma sombra para os pinheiros onde estavam os cavalos. Eu esperei, de olho na trilha.

Os cavaleiros acercavam-se. Não havia outro som senão o do corvo, ainda grasnando no alto do pinheiro. Então, eu os vi. Dois cavalos, trotando em fila indiana: de má raça e mal alimentados, pisando sem cuidado e tendo que levar puxões dos cavaleiros, que os xingavam, a cada buraco ou raiz que encontravam no caminho. Os homens tinham jeito de bandidos. Estavam tão mal cuidados quanto os animais, pareciam meio selvagens, e perigosos. Vestiam unifor­mes velhos, e no braço de um deles havia um pedaço de emblema, que parecia de Gorlan. O sujeito de trás cavalgava descuidado, balançando-se na sela como bêbado, mas o da frente estava bem alerta, com a cabeça movendo-se para um e outro lado, como a de um cão farejando. Tinha um arco preparado. Através da bainha de couro Podre presa à sua coxa, vi a faca longa afiada ao máximo.

Estavam quase abaixo de mim. Iam passando. Não houvera ruído do bebê, nem dos nossos cavalos, escondidos entre os pinheiros. Só o corvo, balançando-se à luz do sol, ralhava, barulhento.

Vi o sujeito com o arco erguer a cabeça. Falou algo por sobre o ombro, num sotaque cerrado que não identifiquei. Ele sorriu, mos­trando uma fileira de dentes estragados, ergueu o arco, apontou e mandou uma flecha certeira. O corvo saiu do ramo com um grito, depois caiu, trespassado. Caiu a dois passos de Branwen e da criança, bateu as asas por uns dois segundos e ficou imóvel.

Enquanto eu me agachava e corria para os pinheiros, ouvi as risadas dos dois homens. Agora, o arqueiro viria recuperar a sua flecha. Já podia escutá-lo a forçar o cavalo pelo mato. Peguei a flecha, com corvo e tudo, e lancei-a por sobre a beira da cavidade. Caiu entre as pedras. Do atalho, o homem não podia ter visto onde a ave caíra; havia uma chance de que ele acreditasse que ela tivesse voado até ali, e não passasse dali. Vi os olhos de Branwen, assusta­dos e inquiridores, quando passei por e"a. Mas não se moveu, e o bebê continuou a dormir no seu seio. Fiz-lhe um sinal de estímulo, aprovação e aviso, ao mesmo tempo, e corri para o meu cavalo.

Ralf aquietava os animais, juntando-lhes as cabeças e abafando-lhes olhos e narinas com a sua capa. Parei ao seu lado, à escuta. Os bandidos continuavam vindo. Não devem ter visto o corvo; prosseguiam para os pinheiros, sem parar.

Tirei o freio do meu alazão das mãos de Ralf, e preparei-me para montar. O cavalo girou, pisando nos galhos secos e gravetos quebradiços. Ouvi o barulho dos animais dos bandidos, sendo freados bruscamente. Um deles falou: "Escute!", em bretão, e houve o raspar do metal quando as armas foram desembainhadas. Eu esta­va na sela, a minha arma já na mão. Virará a cabeça do alazão e estava com a boca aberta para gritar, quando ouvi novo grito vindo do atalho, e a mesma voz berrou: "Olhe, olhe lá!" Meu cavalo empinou quando algo saiu de dentro das moitas ao meu lado, passando tão perto que quase roçou-me a perna.

Era uma corça, branca contra a floresta invernal. Correu por entre os pinheiros como um fantasma, subiu até a cavidade onde estiváramos, ficou bem à vista por um momento, parada na beira­da, depois desapareceu morro abaixo, bem no caminho dos dois ban­didos. Ouvi gritos de triunfo vindos lá de baixo, o estalar de um chicote, e o ruído dos cascos dos cavalos, arrastados de volta ao atalho e chicoteados para galoparem. Os homens davam gritos de caça. Pulei da sela, joguei as rédeas do alazão para Ralf, e voltei para o meu lugar na rocha. Cheguei lá bem na hora de ver os dois voltando, a todo pano, na mesma direção em que tinham vindo. À sua frente, como um vulto de névoa por entre as árvores nuas, fugia a corça branca. Depois, as gargalhadas, os gritos de caça, o ruído dos animais fustigados ecoaram pela floresta, e desaparece­ram.

 

O rio que limita o reino de Hoel corre pelo coração da floresta. Em alguns lugares, forma gargantas entre rampas cobertas de árvores, e por toda a parte central da floresta, o terreno é cortado por vales pequenos, onde riachos tributários serpenteiam ou jogam-se no prin­cipal. Mas há um lugar quase no centro da floresta em que o rio é mais largo e manso, formando uma bacia verde onde os homens araram os campos e desbastaram as florestas para fazer pastos ao redor da aldeia de Coll, que, em bretão, quer dizer Lugar Escondi­do. Aqui, no passado, houve um acampamento romano na estrada de Kerrec para Lanascol. Tudo que restava dele, agora, era o con­torno quadrado onde a vala original fora cavada, ao lado do tribu­tário. Aí situava-se a aldeia. Em dois lados dela, o rio formava uma defesa natural, ou fosso; no resto, a vala romana fora limpa e alargada, e enchida com água. Aí dentro, havia profundos mecanis­mos de defesa, coroados por paliçadas. A ponte fora de pedra nos tempos romanos; as bases ainda permaneciam, agora ligadas por tábuas. Embora ficasse perto da fronteira de Gorlan, a aldeia só era acessível a ela pela garganta estreita formada pelo rio, onde o ca­minho se desfizera, restando apenas um atalho pedregoso semelhante ao usado por lobos e selvagens, antes da chegada dos romanos. O nome de Coll era muito apropriado.

A taverna de Brand ficava logo à entrada dos portões. A rua principal da aldeia era apenas uma ruela suja, mal pavimentada com seixos. A taverna ficava um pouco afastada da rua, à direita. Era um prédio baixo, de pedras unidas ao acaso com argamassa. As dependências, no quintal, eram simples casinholas cobertas de lama. O teto era novo, um bom trabalho de bambus entrelaçados cobertos por uma rede de cordas com pesos de pedras. A porta estava aberta, como convém a uma estalagem, com uma cortina de peles na abertu­ra para afastar o frio. Pelo buraco da chaminé, em uma das extre­midades, saía uma coluna de fumaça.

Chegamos à noitinha, quando os portões estavam sendo fechados. Por todo canto, misturado à fumaça de turfa, sentia-se o cheiro de comida cozinhando. Via-se pouca gente; as crianças já tinham entrado há muito, e os homens tinham ido jantar. Aqui e ali, espreitava um cachorro faminto; uma velha passou apressada, um xale tapando o rosto e uma galinha cacarejando debaixo do braço; um homem conduzia uma junta de bois cansados pela rua. Escutei o bater de um malho de ferreiro, e senti o cheiro de cascos ferrados.

Ralf olhou para a estalagem com ar incerto.

— Parecia bem melhor em outubro, num dia de sol. Não é lá grande coisa.

— Tanto melhor — retruquei. — Ninguém virá procurar o filho do Rei da Inglaterra num lugar desses. Agora, vá desempenhar o seu papel enquanto eu seguro os cavalos.

Ele afastou a cortina e entrou. Ajudei Branwen a desmontar e ajeitei-a num dos bancos perto da porta. O bebê acordou e come­çou a choramingar, mas Ralf já voltava, acompanhado por um ho­mem grandalhão e por um garoto. O homem devia ser Brand; fora um soldado e ainda tinha o porte militar, e vi a cicatriz de uma velha ferida nas costas de uma das mãos.

Ele hesitou, sem saber como dirigir-se a mim. Falei rapida­mente:

— É o estalajadeiro? Sou Emrys, o cantor que devia trazer a sobrinha de sua mulher com o bebê. Não nos estavam esperando?

E!e limpou a garganta.

— Claro, claro! Seja bem-vindo. Minha mulher tem estado à sua espera esta semana. — Viu o garoto parado, olhando, e falou bruscamente: — Que está esperando? Leve os cavalos lá para trás.

O garoto correu a obedecer. Brand, movendo a cabeça na minha direção e indicando a porta da estalagem num gesto que era meio convite, meio saudação, disse:

— Entrem, entrem. Estamos fazendo o jantar. — Depois, com ar de dúvida: — A gente aqui é meio durona, mas talvez...

— Estou acostumado com gente durona — respondi, tranqüi­lamente, e entrei na sua frente.

Não era época de muitas idas e vindas nas estradas, por isso o lugar não estava cheio. Havia uma meia dúzia de homens na obscuridade da sala iluminada por uma vela de sebo e pelo fogo de turfa. A conversa cessou à nossa chegada, e eu vi os olhares que se dirigiram à minha harpa e o murmúrio que correu. Nem ligaram para a moça carregando o bebê. Brand disse, um pouco depressa demais:

— Por ali. Aquela porta, por trás do fogo.

A porta fechou-se às nossas costas e lá estava Moravik, no quarto dos fundos, com as mãos nos quadris, à nossa espera.

Como todas as pessoas que a gente não vê desde a infância, ela encolhera. Quando a vira pela última vez, eu era um menino de doze anos, alto para a idade. Ela me parecia muito maior do que eu, urna criatura volumosa e de voz imponente, rodeada pela aura de auto­ridade e decisões infalíveis que trazia desde o berçário. Agora, mal chegava à minha clavícula, mas ainda tinha o volume, a voz e (como logo descobriria) a autoridade. Embora me tivesse transformado no filho favorito do Grande Rei de toda a Inglaterra, para ela ainda era, obviamente, o menininho de quem tomara conta.

As suas primeiras palavras foram características.

— E que bela hora de chegar, com os portões já fechando! Você podia ter ficado na floresta a noite toda, e muito pouco ia sobrar no dia seguinte, com os lobos e coisas piores que andam por lá! E úmido, também, não duvido... Com todos os santos, olhe para a sua capa! Tire-a já, já, e venha para junto do fogo. Preparei um jantar especial para você. Lembro-me de tudo que gosta, e nunca pensei em vê-lo de novo à minha mesa, jovem Merlin, não depois daquela noite quando o lugar pegou fogo, e só se achou de você uns poucos ossos queimados no seu quarto, na manhã seguinte. — De repente, correu para mim e me abraçou. — Ah, Merlin, Merlinzinho, que bom ver você de novo!

— E ver você, Moravik. — Abracei-a. — Parece cada vez mais moça desde que deixou Maridunum. E vou ficar devendo a você de novo, e ao seu bom marido. Nunca me esquecerei, e nem o Rei. Este é Ralf, meu companheiro, e esta — puxei a moça para a frente ,— é Branwen. com a criança.

— Ah, o bebê! Que a boa Deusa nos ajude! Fiquei tão con­tente em vê-lo, Merlin, que até me esqueci dele! Venha para junto do fogo, menina, não fique aí na corrente de ar. Venha para junto do fogo e deixe-me vê-lo. . . Ah, o carneirinho, o carneirinho lin­do...

Brand tocou meu braço, com um sorriso largo.

— E agora que ela o viu, vai esquecer do resto. Ainda bem que aprontou o jantar antes de pôr os olhos no bebê. Sente-se aqui, meu senhor. Eu mesmo vou servi-lo.

Moravik tinha feito ensopado de carneiro, gostoso e quente. O carneiro das planícies salgadas da Bretanha é tão bom quanto o que temos em Gales. Serviu bolinhos com o ensopado, e pão quente fresquinho do forno. Brand trouxe uma garrafa de vinho tinto, muito melhor do que o feito na Inglaterra. Ele nos serviu enquanto Mora­vik se ocupava de Branwen e do bebê, cujo choro só se acalmou quando Branwen deu-lhe o seio. O fogo luzia e crepitava, o quarto estava quente e cheirava a boa comida e bom vinho, a luz do fogo desenhava o formato do rosto da moça e da cabeça do bebê. Senti que alguém me observava, virei a cabeça e dei com os olhos de Ralf no meu rosto. Abriu a boca para falar, mas, neste momento, um clamor vindo da sala fez Brand largar a jarra de vinho em cima da mesa, pedir licença e sair apressado. Deixou a porta entreaberta.

Escutei vozes que se elevavam, em persuasão ou discussão. Brand respondia, calmamente, mas o clamor continuava.

Voltou, com ar preocupado, e fechou a porta atrás de si.

— Meu senhor, o pessoal lá de fora viu-o entrar, e notou que trazia uma harpa. Bem, agora, é natural, meu senhor, querem uma canção. Tentei desconversar, disse que o senhor estava cansado, que tinha feito uma viagem longa, mas eles insistem. Dizem que lhe pagarão o jantar, se a canção for boa.

— Bem, — respondi — e por que não? Ficou de queixo caído.

— Mas. . . cantar para eles? O senhor?

— Vocês não sabem de nada na Bretanha? — perguntei. — Sou realmente um cantor. E não seria a primeira vez que cantaria por dinheiro.

Do seu lugar ao lado de Branwen, Moravik ergueu os olhos depressa.

— Essa não! Das poções eu sabia, que o ermitão do moinho lhe ensinou, e até da mágica... — persignou-se. — Mas, música? Quem lhe ensinou?

— A Rainha Olwen ensinou-me as notas. — Acrescentei para Brand: — Era a mulher do meu avô, uma moça galesa que cantava como um passarinho. Depois, quando estive aqui na Bretanha com Ambrósio, estudei com um velho professor. Sabem quem é? Um velho cantor cego que viajou e tocou em todos os países do mundo.

Brand assentiu, como se soubesse de quem eu estava falando, mas Moravik olhou-me com ar de dúvida, balançando a cabeça. Suponho que quem criou um menino desde bebê, e nunca mais o viu desde que fez doze anos, não consegue acreditar que ele seja mestre em coisa alguma. Ri para eles.

— Ora, já toquei até para o Rei Hoel, em Kerrec. Não que ele seja capaz de julgar, mas Ralf também já me ouviu. Perguntem a ele, se não me acham capaz de ganhar o meu jantar.

Brand perguntou, duvidando:

— Mas, o senhor não vai querer cantar para aquela gente, não é, meu senhor?

— Por que não? Um menestrel ambulante canta onde é con­tratado para cantar. E é isso que sou enquanto estiver na Pequena Inglaterra. — Fiquei de pé. — Ralf, traga-me a harpa. Termine o vinho, e vá para a cama. Não espere por mim.

Saí para a sala pública da taverna. Estava cheia, agora; havia uns vinte homens no calor enfumaçado. Quando entrei, gritaram:

— O cantor, o cantor! — e: — Um conto, um conto!

—' Abram espaço para mim, boa gente. — Vagaram um banquinho para mim ao pé do fogo, e serviram-me uma taça de vinho. Sentei-me e comecei a afinar a harpa. Calaram-se, observando-me.

Eram gente simples, e esta gente gosta de contos maravilho­sos. Quando perguntei o que queriam, pediram este e aquele conto de deuses e batalhas e encantamentos, e afinal (creio que pensando na criança no quarto ao lado) contei-lhes a história do Sonho de Macsen. Esta é uma história de mágica, como as outras, embora o seu herói seja o comandante romano Magno Máximo, que foi bem real. Os celtas chamam-no de Macsen Wledig, e a lenda do Sonho de Macsen nasceu nos vales cantantes de Dyfed e Powys, onde cada homem diz que o Príncipe Macsen é seu, e as histórias passaram de boca em boca, de tal jeito que, se o próprio Máximo aparecesse para contar a verdade, ninguém lhe daria crédito. É uma história longa, o sonho, e cada cantor tem a sua versão. Esta foi a que eu cantei aquela noite:

Macsen, Imperador de Roma, foi caçar, e tendo ficado can­sado, deitou-se em pleno dia para dormir às margens do grande rio que corre para Roma, e sonhou um sonho.

Sonhou que seguiu o rio em direção à nascente, e chegou à mais alta montanha do mundo; e quando seguiu um rio que corria entre ricos campos e grandes bosques chegou à foz do rio, e lá encontrou uma cidade de torres e castelos ao redor de um belo porto. E, no porto, havia um navio de ouro e prata, sem ninguém a bordo, mas com as velas prontas e trêmulas ao vento leste. Atravessou uma passarela feita de osso de baleia, e o navio partiu.

E, logo, após um crepúsculo e um crepúsculo, chegou à mais bela ilha do mundo, e deixando o navio, cruzou a ilha de mar a mar. E, na costa ocidental, viu uma ilha próxima, do outro lado de um desfiladeiro estreito. E na praia onde estava havia um belo castelo, com o portão aberto. Macsen entrou no castelo e achou-se num gran­de átrio com pilastras douradas, e as paredes o ofuscavam com ouro e prata e pedras preciosas. No átrio, dois jovens jogavam xa­drez num tabuleiro de prata, e, perto deles, um velho numa cadeira de marfim esculpia as peças em cristal. Mas, Macsen não enxergava esses esplendores. Mais linda que o ouro e a prata e as pedras pre­ciosas, era uma donzela, imóvel como uma rainha numa cadeira dourada. No momento que a viu, o Imperador apaixonou-se, e erguendo-a da cadeira, abraçou-a e pediu-lhe que fosse sua esposa. Mas no momento do abraço ele acordou, e achou-se no vale perto de Roma, com os companheiros observando-o.

Macsen pôs-se de pé e contou o sonho; e mensageiros foram enviados para os quatro cantos do mundo, para encontrar o país que e visitara, e o castelo com a linda donzela. E, depois de muitos meses e muitas viagens perdidas, um homem encontrou-os e veio contar 3 seu amo. A ilha, a mais linda do mundo, era a Inglaterra, e o castelo à beira do mar ocidental era Caer Seint, em Segontium, e a ilha do outro lado do estreito era Mona, ilha dos druidas. Assim, Macsen viajou até a Inglaterra, e encontrou tudo exatamente como tinha sonhado, e pediu a mão da donzela ao pai e aos irmãos, e fê-la Imperatriz. Seu nome era Elen, e ela deu a Macsen dois filhos e uma filha, e em sua honra ele construiu três castelos, em Segontium, Caerleon e Maridunum, que se chamou Caer Myrddin em honra do deus das alturas.

Depois, por ter Macsen ficado na Inglaterra e esquecido Roma, fizeram outro imperador em Roma, que colocou seu estandarte nas muralhas e desafiou Macsen. Então, Macsen reuniu um exército de ingleses, e com Elen e os irmãos ao lado, dirigiu-se para Roma; e conquistou Roma. A partir de então, permaneceu em Roma, e nunca mais voltou à Inglaterra, mas os dois irmãos de Elen trouxeram as forças inglesas de volta ao lar, e, até hoje, os descendentes de Macsen Wledig reinam na Inglaterra.

Quando terminei, e a última nota se desfez no silêncio enfuma­çado, houve um rugido de aplausos, copos batendo nas mesas e vozes ásperas pedindo mais música, e mais vinho. Deram-me outra taça, e enquanto eu bebia e descansava para recomeçar, os homens voltaram a conversar entre si, mas baixinho, para não perturbar os pensamentos do cantor.

Ainda bem que não podiam adivinhá-los; imaginei o que fariam se soubessem que o último e mais recente descendente de Máximo estava dormindo do outro lado da parede. Esta parte da lenda, ao menos, era verdadeira; a família do meu pai descendia diretamente do casamento de Máximo com a princesa galesa Elen. O resto da lenda, como sempre acontece, era uma distorção sonhadora da ver­dade, como se um artista, refazendo um mosaico destruído, tivesse utilizado novas e brilhantes cores, deixando apenas aparecer, aqui e ali, pedaços da pintura original.

Os fatos eram estes: Máximo, espanhol de nascimento, coman­dara os exércitos na Inglaterra sob o General Teodósio, na época das invasões constantes dos saxões e pictos, e quando a província romana da Inglaterra parecia estar desmoronando. Juntos, os co­mandantes consertaram e conservaram a Muralha de Adriano, e o próprio Máximo reconstruiu e guarneceu a grande fortaleza de Se­gontium, em Gales, fazendo dela seu quartel-general. Este é o lugar que os ingleses chamam de Caer Seint; é o "belo castelo" do Sonho, e deve ter sido aí que Máximo encontrou a sua Elen galesa, e a desposou.

Depois, no ano que Ector denominou de Ano da Inundação, foi Máximo (embora seus inimigos lhe negassem o mérito) quem, após anos de luta feroz, rechaçou os saxões e construiu as províncias de Strathclyde e Manau Guotodin, estados-tampão, para abrigar em paz o povo da Inglaterra, o seu povo. Já "Príncipe Macsen" para a gente de Gales, foi declarado Imperador pelas suas tropas, e assim podia ter permanecido, não fossem os acontecimentos, do conhecimento geral, que o fizeram voltar para vingar o assassinato do seu velho general, e marchar sobre a própria Roma.

Nunca mais voltou; nisto, o Sonho diz a verdade, mas não por­que tivesse conquistado Roma e fosse governá-la. Ele foi vencido e executado, e, embora algumas das tropas britânicas que o acompa­nharam tivessem retornado e jurado lutar sob sua viúva e filhos, a curta paz tinha terminado. Com a morte de Máximo, a Inundação voltou, e, desta vez, não houve uma espada que a detivesse.

Por essa razão, nos anos negros que se seguiram, o período curto da paz vitoriosa de Máximo pareceu aos homens uma época perdida e dourada, como as que os poetas cantam. Por isso, a lenda de "Macsen, o Protetor" cresceu e cresceu até que o seu poder envolveu a terra, e, nas horas negras, os homens falavam nele como um salvador enviado pelos deuses...

Meus pensamentos retornaram ao bebê que dormia na palha. Tomei de novo a harpa e, quando se calaram, cantei outra canção.

 

Um menino nasceu,

Um rei do inverno.

Antes do negro mês

Ele nasceu,

E fugiu no mês sombrio

Para se abrigar

Com os pobres.

 

Ele virá,

Com a primavera,

No verde mês

E no mês dourado.

E brilhante

Será a chama

Da sua estrela.

 

— Pagaram-lhe o jantar? — perguntou Moravik.

— Muita bebida e três moedas de cobre. — Coloquei-as sobre a mesa, com a sacola de couro com o ouro do Rei ao lado. — Isto é para cuidarem da criança. Mandarei mais quando for necessário.

Você e Brand não se arrependerão. Você já cuidou de reis antes, Moravik, mas nunca de um rei como este será.

— Que me importam os reis? Ele é apenas uma criança, que nunca deveria ter viajado com este tempo. Devia é estar em casa, no seu quartinho, e pode dizer ao seu Rei Uther que fui eu quem disse! Ora, ouro! — Mas a bolsa de couro tinha desaparecido nas suas saias, e as moedas com ela.

— A viagem fez-lhe mal? — indaguei rapidamente.

— Que eu veja, nenhum. Ele é um menino forte, que vai flo­rescer como as minhas outras crianças. Ele já está na cama, e os dois jovens também, pobrezinhos, portanto, abaixe a voz e deixe que durmam.

Branwen e a criança estavam num catre no canto do quarto, longe do fogo. A cama ficava embaixo de um lance de degraus de madeira que conduzia a uma plataforma, como um celeiro que usam para o feno nos estábulos dos reis. E lá havia feno, e os nossos animais, trazidos do quintal dos fundos, estavam amarrados sob o celeiro. Um burrinho, que supus ser de Brand, estava lá com eles.

— Brand trouxe-os cá para dentro — disse Moravik. — Não há muito espaço, mas não quis deixá-los no estábulo. Aquele alazão poderia ser reconhecido como sendo do Rei Hoel, e haveria pergun­tas difíceis de responder. Pus você lá em cima, com o rapaz. Não é o que está acostumado a ter, mas é macio e limpo.

— Estará ótimo. Mas não me mande ainda para a cama, Mo­ravik. Posso ficar acordado conversando com você?

— Hum! Mandar você para a cama! É, sempre foi mansinho e falou macio, e sempre fez exatamente o que queria... — Sentou-se ao pé do fogo, abrindo as saias, e indicou um banquinho. — Vamos, sente-se e deixe-me olhá-lo. Santa Mãe, que mudança! Quem iria pensar, lá em Maridunum, de pobre que você era, que iria virar filho do Grande Rei, e doutor, e músico... e sei lá mais o quê!

— Mágico, você quer dizer.

— Bom, isso não me surpreendeu, você vivia fugindo para junto do velho em Bryn Myrddin. — Persignou-se e segurou um amu­leto preso ao pescoço. Eu já o vira brilhando à luz do fogo; não se podia dizer que fosse um símbolo cristão. Então, Moravik ainda cercava-se de todo talismã que pudesse encontrar. Nisto, era como a maioria da gente criada na Floresta Perigosa, com as suas lendas de assombrações, e coisas vistas ao crepúsculo e ouvidas no vento. Balançava a cabeça. — É, sempre foi um menino estranho, solitário, dizendo coisas. . . Sempre soube demais. Eu achava que era porque escutava às portas, mas acho que estava enganada. "O Profeta do Rei", é como o chamam agora. E os feitos que ouvi contar, se gente puder acreditar na metade, o que eu duvido... Vamos, con­te-me. Conte-me tudo.

O fogo já quase virará cinzas. Na sala ao lado havia silêncio; os fregueses tinham ido para casa, ou dormiam ali mesmo. Brand subira a escada há cerca de uma hora, e roncava baixinho ao lado de Ralf. Branwen e a criança dormiam imóveis, no canto próximo aos animais que cochilavam.

— E agora, isto — falou Moravik, suavemente. — Este bebê, você me diz que é filho do Grande Rei Uther que não o quer. Por que você é que tem de tomar conta dele? Pensei que houvesse outros a quem ele pudesse pedir, que pudessem fazê-lo com mais facili­dade.

— Não sei quanto a Uther — respondi — mas, quanto a mim, a criança foi um legado que me deram meu pai e os deuses.

— Os deuses? — indagou vivamente. — Isto lá é jeito de um bom cristão falar?

— Você se esquece que nunca fui batizado.

— Ainda não foi? É, eu me lembro que o velho Rei nunca deixou. Bom, não é da minha conta, só da sua. E essa criança, já foi batizada?

— Não. Ainda não houve tempo. Se você quiser, pode bati­zá-la.

— "Se você quiser"? Que conversa é essa? E de que "deuses" falava há pouco?

— Também não sei. Eles... ele... se deixará conhecer na hora apropriada. Mas, faça com que o menino seja batizado, Mora­vik. Quando deixar a Bretanha, ele vai ser criado numa casa cristã.

Ficou satisfeita.

— Logo que for possível. Ele ficará bem com o Senhor e os seus santos, deixe comigo. E já pendurei o talismã no berço e disse as nove rezas. A moça diz que ele chama-se Artur. Que tipo de nome é esse?

— Você diria Artos — respondi. É o nome que significa urso em celta. — Mas, não o chame por este nome. Dê-lhe outro nome qualquer e esqueça este.

— Que tal Emrys? Ah, sabia que você iria sorrir... Eu sempre esperei por uma criança a que eu pudesse dar o seu nome.

— Eu tive o nome de meu pai Ambrósio. — Experimentei os nomes, em latim, depois na língua celta. "Artório Ambrósio, Último dos Romanos.. . Artos Emrys, Primeiro dos Britânicos. . ." Em voz alta dirigi-me sorrindo a Moravik: — Está bem, dê-lhe esse nome.

Uma vez, há muito tempo, previ a vinda do "Urso", um rei chamado Artur, que uniria passado e futuro. Eu tinha esquecido, até agora, onde ouvira este nome antes. Batize-o com ele.

Ficou calada por alguns minutos. Seus olhos examinavam o meu rosto.

— Um legado para você, disse. Um rei como nunca houve igual. Então, ele será Rei? Jura que será Rei? — E, repentinamente: — Que cara é essa, Merlin? Fez a mesma cara há pouco, quando a moça deu de mamar ao menino. O que há?

— Não sei... — Falei devagar, fitando os restos do fogo, quase que só brasas. — Moravik, fiz o que fiz porque Deus (seja ele quem for) ordenou-me. De dentro da escuridão disse-me que o filho de Uther e Ygraine, concebido aquela noite em Tintagel, seria o Rei de toda a Inglaterra, seria grande, expulsaria os saxões das nossas praias e faria do nosso pobre país um grande todo. Nada fiz por livre vontade, mas apenas para que a Inglaterra não se perdesse na escuridão. De dentro do silêncio e do fogo, chegou-me esta certe­za. Depois, durante algum tempo, nada vi nem ouvi, e perguntei a mim mesmo se não me tinha enganado, se o meu amor por meu pai e pelo seu país me levara a imaginar visões onde havia apenas espe­rança e desejo. Mas, agora, é como o deus me disse. — Olhei para ela. — Não sei se posso fazê-la entender, Moravik. Visões e profe­cias, deuses e estrelas e vozes falando na noite... coisas turvas nas chamas e nas estrelas, mas reais como a dor no sangue, e furando o cérebro como gelo. Mas, agora... — fiz nova pausa — agora não é só a voz de um deus ou uma visão, é uma criancinha humana com pulmões poderosos, um bebê como qualquer outro, que chora, e mama, e molha os seus cueiros. As visões não levam isto em conta.

— Os homens têm as visões — disse Moravik. — As mulhe­res têm os filhos que vão cumpri-las. Esta é a diferença. E quanto àquele, — indicou o canto — veremos. Se viver (e por que não vi­verá, se é bem forte?), se viver tem uma boa chance de ser Rei. A nossa parte é fazer com que chegue a homem. Farei a minha parte como você fez a sua. O resto é com o bom Deus.

Sorri para ela. Seu senso comum tirara um peso dos meus ombros.

— Você está certa. Fui um tolo em duvidar. O que tiver q ser, será.

— E com isso, vamos dormir.

— Sim. Vou para a cama, agora. Você tem um bom marido Moravik. Alegro-me.

— Nós dois juntos vamos proteger o seu Reizinho, rapaz.

—  Tenho certeza — falei, e depois de conversarmos mais um pouquinho, subi a escada para a cama.

Sonhei naquela noite. Estava num campo que conhecia perto da cidade de Kerrec, de Hoel. Era um santuário antigo, onde certa vez eu vira um deus a caminhar. No meu sonho sabia que viera na esperança de revê-lo.

Mas a noite estava vazia. Tudo que se movia era o vento. No céu, brilhavam as estrelas indiferentes. Na sua abóbada negra, suave entre as estrelas mais vividas, ficava a longa esteira de luz que cha­mam de Galáxia. Não havia nuvens. Ao meu redor estendia-se o campo, bem como eu recordava, fustigado pelo vento e semeado com o sal do mar, com espinheiros nus ao longo dos baixios, e, soli­tária no centro, uma única pedra gigante. Caminhei para ela. À luz difusa das estrelas, eu não deixava sombra, nem havia sombra perto da pedra. Só o vento embaraçando a grama, e, por trás da pedra, o caminhar suave das estrelas, que não é movimento, mas a respiração dos céus.

A noite continuava vazia. Meus pensamentos dardejavam para a concha silenciosa e voltavam, cansados. Eu tentava, com todas as parcelas de habilidade e poder por que lutara e sofrerá, recordar-me do deus cuja mão estivera sobre a minha cabeça, então, e cuja luz me conduzira. Rezei em voz alta, mas nada ouvi. Recorri à minha mágica, meu dom de olhos e mente que os homens chamam de Visão, mas nada veio. Até a minha visão humana estava falhando, a noite e as estrelas se confundindo num borrão, como se vistas através de água corrente...

O céu se movia. A Terra estava parada, mas o céu se movia. A Galáxia estreitou-se num feixe de luz, depois congelou-se como um riacho no inverno. Uma seta de gelo... não, uma lâmina, esten­dia-se no céu como uma espada real, com grandes gemas reluzindo no cabo. Vi esmeralda, e topázio e safiras, que, na língua das espa­das, significam poder e alegria e justiça e uma morte limpa.

Por muito tempo lá ficou a espada, como uma arma recém-Polida à espera da mão que a erga e a use. Depois, moveu-se so­zinha. Não como se para uma batalha, cerimônia ou um esporte, como uma lâmina desliza para a sua bainha, assim deslizou ela, suavemente, para a pedra gigante, encaixando nela como a espada na bainha.

Então, só ficou o campo vazio, e o vento uivante e a pedra cinzenta.

Acordei na escuridão do quarto da estalagem, com uma única estrela, pequena e brilhante, aparecendo por um buraco no teto. Mais abaixo, os animais respiravam tranqüilos, e, à minha volta, os que dormiam roncavam e mexiam-se. O lugar cheirava a cavalos e a fumaça de turfa, a feno e a ensopadinho de carneiro.

Fiquei deitado de costas, imóvel, olhando a estrelinha. Não liguei muito para o sonho. Vagamente, lembrei-me que já houvera menção a uma espada, e, agora, este sonho... Mas deixei para lá. Voltaria. Eu saberia. Deus estava comigo de novo; o tempo não mentira. E, dentro de uma ou duas horas, amanheceria.

 

A PROCURA

Os deuses, todos eles, devem estar acostumados à blasfêmia até questionar as suas intenções, e indagar-se, como eu fizera, quem eram ou se realmente existiam, era a própria blasfêmia. Agora eu sabia que o meu deus estava de novo comigo, que a sua intenção estava se realizando, e, embora ainda não visse tudo claramente, sabia que a sua mão estaria sobre mim na hora certa, e que eu seria guiado, ordenado, conduzido. . . não importa de que forma. Isto ele também me mostraria. Mas não agora. O presente era meu. Os sonhos da noite desapareceram com as estrelas que os criaram. Esta manhã, o vento era apenas vento, e a luz do sol, apenas luz.

Nem olhei para trás. Não temia por Ralf ou pela criança. A Visão pode ser desagradável de possuir, mas a previsão da catástrofe livra o seu possuidor dos pequenos aborrecimentos do dia-a-dia. Um homem que já viu a sua velhice e o seu amargo fim não se preocupa com o que irá acontecer-lhe aos vinte e dois anos. Não tinha dúvidas quanto à minha segurança, nem quanto à do menino cuja espada eu vira, já por duas vezes, desembainhada e brilhando. Portanto, eu apenas me preocupei com a próxima viagem por mar, que me levou, sofrendo mas com vida, até o porto de Massilia, no Mar Interior, onde cheguei num dia claro de fevereiro que, na Ingla­terra, consideraríamos de verão.

Lá chegado, não importava quem me visse ou relatasse a minha presença. Se soubessem na terra que o Príncipe Merlin fora visto na Gália do Sul ou na Itália, talvez os inimigos de Uther me vigiassem 'r uns tempos, buscando uma pista para o principezinho desapare­ço. Eventualmente, desistiriam e buscariam alhures, mas, então, a pista já estaria fria. Em Kerrec, a visita do cantor sem importância já teria sido esquecida, e Ralf, anônimo na taverna da floresta, po­deria ir e vir, sem medo, de Coll para o castelo de Kerrec, com as notícias dos progressos do menino, as quais Hoel me transmitiria. Assim, uma vez desembarcado em Massilia, e tendo-me recobrado da viagem, iniciei os preparativos para a minha viagem para o leste. Desta vez, sem necessidade de disfarces, viajei com conforto, embora não em estilo principesco. Nunca dei importância às apa­rências; o hábito não faz o monge; mas iria visitar amigos, e não queria envergonhá-los. Assim, contratei um criado, comprei cavalos, mulas de carga e um escravo para cuidar deles, e parti para o meu primeiro destino, Roma.

A estrada que sai de Massilia é uma fita de poeira reta e castigada pelo sol que acompanha a costa, passando pelas aldeias cons­truídas por veteranos de César, cercadas de olivais e vinhedos bem cuidados. Partimos ao amanhecer, com as sombras dos nossos cava­los às costas. A estrada ainda estava orvalhada, e o ar cheirava a estrume, e a ciprestes, e a fumaça dos fogos matutinos. Galos can­tavam e cães corriam latindo atrás dos nossos cavalos. Às minhas costas os servos conversavam, em voz baixa para não me incomodar. Pareciam homens decentes; o liberto, Gaio, já servira antes e fora bem recomendado. O outro, Stilicho, era filho de um comerciante de cavalos siciliano, que se enchera de dívidas e vendera o filho para pagá-las. Stilicho era um rapazola magro, vivaz, de olhar brejeiro e ótima disposição. Gaio era solene e eficiente, muito mais cônscio da minha dignidade do que eu mesmo. Quando descobriu o meu status real, assumiu um ar pomposo que me divertiu, e impressionou tanto a Stilicho que fê-lo ficar em silêncio por uns vinte minutos. Creio que, daí por diante, foi usado com freqüência para obter ser­viço, como ameaça ou suborno. Não sei que meios os dois emprega­ram, só sei que a minha viagem foi um milagre de tranqüilidade e conforto.

Enquanto meu cavalo erguia as orelhas para o sol da manhã, senti a minha disposição adaptar-se ao brilho crescente. Era como se as dores e dúvidas do último ano estivessem ficando para trás, como a sombra do cavalo. Enquanto seguia para o leste com a minha pequena comitiva, pela primeira vez na vida eu era livre; livre do mundo à minha frente-, livre das obrigações às minhas costas. Até este momento, sempre vivera para um objetivo; procurara e depois servira meu pai, e, após sua morte, esperara com sofrimento até a chegada de Artur, para que a minha servidão recomeçasse. Agora, a primeira parte da minha tarefa estava terminada; o menino estava em segurança e, com a ajuda dos meus deuses e das estrelas, con­tinuaria assim. Ainda era moço e, olhando para o sol, solitário ou livre, eu via um mundo novo à minha frente e um período de tempo para viajar e conhecer as terras de que ouvira falar em menino.

Eventualmente, cheguei a Roma, e caminhei nos morros verdes por entre os ciprestes e conversei com um homem que conhecera meu pai com a minha idade atual. Fiquei na sua casa e perguntei-me como pudera achar a casa de meu pai em Kerrec um palácio, ou considerar Londres uma grande cidade, ou mesmo uma cidade. De­pois, fui de Roma a Corinto, atravessei os vales dos Argolid, onde cabras pastavam nas colinas quentes de verão e um povo mais sel­vagem que elas vivia nas ruínas de cidades construídas por gigantes. Aqui vi pedras maiores que a Dança dos Gigantes, erguidas e colo­cadas como a canção me ensinara, e mais para o leste vi terras mais vazias, com pedras gigantes ao sol do deserto, e homens que viviam como alcatéias, mas que faziam música como os passarinhos, ma­ravilhosa como a das estrelas no seu curso. Eles conheciam melhor que quaisquer outros homens os movimentos das estrelas; suponho que o seu mundo é feito dos espaços vazios do deserto e do céu. Passei oito meses com um homem perto de Sardis, na Maeonia, que calculava com absoluta precisão, e com cuja ajuda eu teria erguido a Dança dos Gigantes na metade do tempo, mesmo se ela fosse duas vezes maior. Outros seis meses passei na costa de Mysia, perto de Pérgamo, num grande hospital que atende a ricos e pobres. Aí apren­di muita novidade na arte de curar; em Pérgamo empregam a mú­sica com as drogas para curar a mente do homem com sonhos, e o seu corpo depois. Foi, na verdade, o deus quem me guiou para aprender música, em criança. E, o tempo todo, em todas as viagens, aprendi noções de idiomas estranhos, e ouvi novas canções e novas músicas, e vi deuses estranhos serem adorados, alguns em lugares sagrados, outros em profanos. Nunca se deve fugir do saber, venha de onde vier.

Durante todo este tempo, eu tinha certeza absoluta de que na Bretanha, na Floresta Perigosa, o menino crescia e vicejava em se­gurança.

Mensagens ocasionais de Ralf aguardavam-me nos lugares com­binados com o Rei Hoel. Deste modo, eu soube que Ygraine engra­xara de novo, e dera à luz uma menina chamada Morgiana. É lógico que, quando as lia, as cartas já estavam ultrapassadas, mas, no que se referia a Artur, eu tinha outra fonte de informações: via no fogo.

Foi num braseiro, acendido para evitar a friagem de uma noite romana que vi Ralf fazer a viagem pela floresta para a corte de Hoel. Viajou sozinho e sem ser notado, e quando partiu na escuri­dão nevoenta para a viagem de volta, não foi seguido. Nas profun­dezas da floresta eu o perdi, mas, mais tarde, a fumaça dissipou-se para que eu visse seu cavalo no estábulo, e Branwen a sorrir no quintal ensolarado, com o bebê no colo. Várias outras vezes eu acom­panhei as viagens de Ralf, mas sempre a fumaça ou a escuridão escondiam, como névoa, o rio, e não podia ver a taverna, ou Ralf cruzando a porta. Era como se o local estivesse protegido, mesmo de mim. Ouvira dizer que a Floresta Perigosa da Bretanha era terra encantada; posso confirmar que é verdade. Duvido que qualquer mágica menos poderosa que a minha conseguisse espiar pela mura­lha de névoa que escondia a estalagem. De tempos em tempos eu via algo, de relance. Certa vez vi o bebê brincando com uma ninhada de cachorrinhos no quintal, com a cadela a lamber-lhe o rosto e Branwen a olhar sorrindo, até que Moravik saiu ralhando da cozinha, apanhou o bebê, limpou-lhe o rosto com o avental e carregou-o para dentro. Outra vez, eu o vi montado no cavalo de Ralf que se dessedentava no bebedouro, e, outra vez, na sela, na frente de Ralf, agarrando a crina com as duas mãos, enquanto o animal trotava para a beira do rio. Nunca o vi de perto, nem claramente, mas via o suficiente para saber que estava bem e crescia forte.

Então, quando estava com quatro anos, chegou a hora de Ralf levá-lo da proteção da floresta para a do Conde Ector.

Na noite em que o seu navio partiu do Mar Pequeno de Morbihan, eu estava sob o negro céu da Síria, onde as estrelas parecem ser duas vezes maiores e mais ardentes do que na Inglaterra. O fogo para o qual eu olhava era o de um pastor, aceso contra lobos e 1 leões da montanha, e ele dera-me a sua hospitalidade quando eu e J os criados fomos surpreendidos pela noite nas montanhas acima de Berytus. O fogo era alto e vivo dentro da noite. Para além dele, eu podia ouvir Stilicho falando, a resposta murmurada do pastor, e ri­sadas abafadas pelos tons graves de Gaio, até que o rugido e o crepitar do fogo abafaram tudo. E, então, as imagens chegaram, frag­mentadas a princípio, mas claras e vividas como as visões que eu tivera, quando menino, na gruta de cristal. Vi a viagem inteira, cena por cena, na visão de uma noite, como é possível sonhar uma vida inteira entre a noite e a manhã.. .

Foi a primeira vez que vi Ralf claramente desde que o deixei na Bretanha. Mal o reconheci. Era agora um moço alto, com jeito de lutador, e com um ar de decisão e responsabilidade que lhe caía muito bem. Tinha deixado à escolha dele, ê de Hoel, se haveria' necessidade de uma escolta armada para conduzir sua "mulher" e seu "filho" até o navio; eles resolveram não arriscar, mas o nosso segredo foi bem protegido. Hoel arranjou para que uma carroça com mercadorias fosse despachada pela floresta sob a guarda de uma meia dúzia de soldados; quando foi para Kerrec e para o cais onde estava o navio, nada mais natural que o jovem e a sua família desfrutassem da proteção concedida aos fardos (dos quais nunca soube o conteúdo). Branwen foi na carroça, onde, finalmente, também foi Artur. Ele já dispensava os cuidados femininos; prefe­ria ficar com os soldados, e foi preciso que Ralf exercesse a sua auto­ridade para fazer com que fosse na carroça com Branwen, ao invés de na sela na frente da tropa. Depois que o pequeno grupo chegou ao navio e embarcou, quatro dos soldados embarcaram com Ralf, aparentemente para levar aqueles fardos preciosos ao seu destino. E, assim, o navio largou. A luz brilhava no mar iluminado pelo fogo, e o naviozinho tinha velas vermelhas enfunadas contra um céu de crepúsculo, que foram diminuindo até sumir no fogo crepitante.

Foi uma alvorada vivida, talvez apenas por força das chamas sírias, que o navio atracou em Glannaventa. Vi as amarras serem lançadas, e o grupo atravessou a passarela indo ao encontro de um Ector moreno e sorridente, acompanhado de um grupo de homens armados. Não estavam com insígnias. Tinham trazido uma carroça para a carga, que foi abandonada mal saíram da cidade, e de onde retiraram uma liteira para Branwen e Artur, após o que, o grupo partiu a toda pressa para Galava, pela estrada militar que cruza as montanhas situadas entre o castelo de Ector e o mar. A estrada sobe por duas gargantas íngremes, entre as quais fica um vale baixo e pantanoso, sempre inundado até quase o fim da primavera. A estra­da é ruim, foi destruída por temporais, torrentes e geadas de inverno, e nos lugares onde houve deslizamentos dos morros circundantes, ela desapareceu, deixando apenas vestígios dos velhos atalhos dos tempos pré-romanos. Terra selvagem, caminho selvagem, mas servia para um grupo de homens bem armados, num dia de maio. Eu os observava a trotar, a liteira a balançar entre as mulas fortes, pela madrugada e pelo dia que as chamas iluminavam, até que, com a chegada da noite, o começo da garganta escureceu com névoa, dentro qual vi o brilho das espadas que anunciavam o perigo. O grupo de Ector vinha descendo do segundo cume, diminuindo o passo num local rodeado de rochedos. Era uma descida curta daí até o vale largo e à estrada boa que conduzia à nascente onde situa­-se o castelo. Na distância, ainda iluminados pelo fim de tarde, viam-se grandes árvores, pomares e o verde macio das terras cultivadas. Mas, na garganta, entre os rochedos cinzentos e a névoa crescente, estava escuro, e os cavalos escorregaram e tropeçaram no entulho deixado por uma torrente que cruzava o caminho e que fizera des­moronar a estrada. O barulho da água deve ter abafado os demais sons. Ninguém viu os outros homens, montados e armados, à espera na obscuridade da névoa.

O Conde Ector vinha à frente, e no meio, rodeada pela tropa,  seguia a liteira, balançando-se entre as mulas, com Ralf cavalgando bem juntinho. Acercavam-se da emboscada; estavam ao lado dela. Vi Ector virar a cabeça bruscamente, depois frear o cavalo tão de repente que ele tentou empinar, mas terminou caindo, escorregando no entulho, enquanto Ector erguia o braço já de arma na mão. Os soldados, procurando cercar a liteira o melhor possível no declive, prepararam-se para lutar. No momento do ataque atordoante, vi o que, aparentemente, ninguém ainda vira; outras sombras que sur­giam detrás dos rochedos.

Creio que gritei. Não fiz barulho, mas a cabeça de Ralf levan­tou-se como a de um cão que ouve o assobio do dono. Ele berrou, ! girando o seu cavalo. Outros acompanharam-no, enfrentando o novo ataque com um vigor que arrancava chispas das espadas, como o malho do ferreiro arranca da bigorna.

Forcei a vista para tentar distinguir os atacantes na visão. Não consegui. A luta corpo a corpo, as espadas brilhantes, os gritos, os ] cavalos virando-se.. . depois os atacantes desapareceram na neblina tão subitamente como haviam surgido, deixando um de seus homens morto sobre o entulho, e levando outro a sangrar por sobre a cela. Não havia vantagem em persegui-los pelas montanhas cobertas de neblina e crepúsculo. Um dos soldados pegou o homem caído, jogando-o em cima de um cavalo. Vi Ector fazer sinal e o soldado revistou o corpo, procurando identificação, mas nada achou. Depois, a guarda formou de novo ao redor da liteira e prosseguiu. Vi Ralf, disfarçadamente, enrolar um pano no braço esquerdo, que uma espa­da conseguira acertar, apesar da proteção do escudo. Logo depois, ele inclinou-se na sela e disse, rindo, para dentro da liteira:

— Mas, você ainda não tem tamanho! Daqui a uns dois anos prometo-lhe que arranjarei uma espada que lhe sirva. — Depois, fechou bem fechadas as cortinas da liteira. Quando forcei a vista para ver Artur, a fumaça escureceu a cena e o pastor gritou para o cachorro, e eu estava novamente na colina cheirosa, e a lua surgia acima das ruínas do templo da Deusa, onde só as corujas restaram.

E assim passaram-se os anos, e aproveitei minha liberdade para viagens que descrevo alhures; aqui não há lugar para isso. Foram para mim anos leves e proveitosos, e a mão do deus pousava em mim suavemente, e me permitia ver tudo que eu pedia para ver; mas, durante todo este tempo, não houve mensagem, nem estrela andante, nada que me chamasse para voltar.

Certo dia, quando Artur estava com seis anos, e eu ensinava e trabalhava no hospital perto de Pérgamo, a mensagem chegou.

Estávamos no começo da primavera, e o dia inteiro a chuva chicoteou as rochas, escurecendo as pedras calcárias e abrindo rom­bos no caminho que conduz às celas do hospital à beira-mar. Não houve fogo para me trazer a visão, mas, naquele lugar, os deuses estão à espera em cada pilastra, e o ar é pesado de sonhos. Foi só um sonho, igual aos dos outros homens, e chegou durante um sono de exaustão.

Tinham trazido um homem, naquela noite, com a perna muito cortada, e com a vida a esvair-se pelo ferimento. Eu e o outro mé­dico de serviço trabalhamos nele por mais de três horas, e, depois, fui até à praia para lavar no mar o sangue que esguichara e endure­cera em mim. Talvez o paciente vivesse; era moço e dormia, agora, com o sangue estancado e a ferida costurada. Arranquei a minha sunga ensopada (aquele clima permite uma quase nudez para os tra­balhos mais sangrentos), nadei até ficar limpo, depois estirei-me na areia morna para descansar. A chuva tinha parado com o chegar da noite, e esta estava calma, morna e cheia de estrelas.

Não foi uma visão que eu tive, foi um sonho de olhos abertos.

Fiquei deitado, pensando, observando e sendo observado pelas estrelas. Entre elas, havia uma distante, nublada, com sua luz desmaiada e as demais, como uma lamparina vista através de um turbilhão neve. De repente, veio aproximando-se, aproximando-se, até que luz nublada apagou as demais, mais brilhantes, e eu vi as montanhas e as praias e os rios e os vales da minha terra natal. Agora, o turbilhão de neve era mais forte, escondendo os vales, e havia o ronco da trovoada por trás da nevasca, e os gritos dos exércitos, e o mar cresceu por sobre a praia, dissolvendo-a, e o sal encheu os rios e os campos verdes ficaram cinzas, e depois pretos, com as nervuras à mostra, como ossos de defuntos.

Acordei sabendo que precisava voltar. Ainda não chegara a inundação, mas estava vindo. No próximo inverno, ou no outro, ouviríamos a trovoada, e eu precisa estar lá, entre o Rei e seu filho.

 

Eu planejara voltar por Constantinopla, e cartas já me tinham precedido. Agora, teria preferido ir por um caminho mais curto, mas o único navio que consegui foi um que navegava para o norte, para j a Calcedônia, que fica em frente a Constantinopla, do outro lado do 1 estreito. Lá chegando, atrasado pelos ventos e pelo mau tempo, vi que ainda estava sem sorte; tinha acabado de perder um navio para o oeste, e o seguinte só partiria em uma semana, ou mais. Na Calcedônia aportam apenas os pequenos navios costeiros; os navios maiores usam o porto de Constantinopla. Assim, cruzei para lá, desejoso, apesar da pressa que tinha, de ver a cidade de que tanto ouvira falar.

Esperava que a Nova Roma sobrepujasse a velha em esplendor, mas achei Constantinopla uma cidade de contrastes mais vividos, com a miséria bem ao lado do esplendor, e o ar de excitação e risco que se respira numa cidade jovem em busca da prosperidade, ainda  construindo, espalhando-se, assimilando, ávida para enriquecer.

Não que as fundações fossem novas; fora a capital de Bizâncio, desde o tempo em que Bizas ali estabelecera a sua gente, há mil anos; mas havia quase um século e meio que o Imperador Constantino transferira o coração do Império mais para o leste, e resolvera construir e fortificar a velha Bizâncio, dando-lhe o seu nome.

Constantinopla fica maravilhosamente situada numa língua de terra que tem um porto natural a que dão o nome de Cornucópia de Ouro, e muito apropriadamente; nunca imaginara um tráfico de navios tão ricamente carregados como os que vi na curta travessia desde a Calcedônia. Há palácios e ricas casas, e edifícios do governo com corredores como labirintos, e os numerosos funcionários públicos andam para lá e para cá, como abelhas numa colméia. Por todo canto há jardins com pavilhões e fontes sempre jorrando; a cidade dispõe de água doce em abundância. Para o interior, a Muralha de Constantino defende a cidade, e do seu Portão Dourado parte da grande via pública de Mese, com magníficas arcadas em quase toda extensão, através de três fóruns decorados com colunas, para ter­minar no grande arco triunfal de Constantino. A imensa igreja do Imperador, dedicada à Sabedoria Sagrada, fica bem acima das mu­ralhas que beiram o mar. Era uma cidade magnífica, e uma es­tendida capital, mas não tinha o ar de Roma que meu pai mencio­nara, ou que imagináramos na Inglaterra; aqui ainda era o Oriente, i a cidade voltava os olhos para o Oriente. Até as roupas, embora os homens usassem a túnica romana, tinham jeito da Ásia, e em­bora por todo canto se falasse latim, ouvia-se grego, e sírio, e ar­mênio nos mercados, e, para além das arcadas de Mese, dava para supor-se que se estava na Antióquia.

Não é lugar fácil de imaginar, para quem nunca passou das costas britânicas. Acima de tudo, era um lugar excitante, com um ar cheio de promessa. Era uma cidade que antecipava, enquanto Roma, Atenas, e até Antióquia pareciam recordar; e Londres, com seus templos desmoronados, torres remendadas e homens sempre em guarda com as mãos nas espadas, parecia remota, selvagem como as geleiras dos nórdicos.

Meu anfitrião em Constantinopla era parente de meu pai, dis­tante, mas não tão distante que o impedisse de receber-me como pri­mo. Ele descendia de um tal Adean, cunhado de Máximo, que fora oficial de Máximo e seguira-o na expedição final a Roma. Adean fora ferido nos arredores de Roma e deixado por morto, mas fora salvo e tratado por uma família cristã. Mais tarde, casara-se com a moça da casa, convertera-se e, embora nunca servisse com o Imperador Oriental (tendo-se satisfeito com o perdão conseguido por intercessão do sogro), seu filho serviu com Teodósio II, fez fortuna, e foi recompensado com uma esposa de ascendência real e uma esplêndida casa perto da Cornucópia de Ouro.

Seu bisneto tinha o mesmo nome, mas pronunciava-o à moda bizantina: Ahdjan. Dava para notar-se que era descendente de cel­tas, mas parecia, por exemplo, com um galés que tivesse ficado sem sangue por ter-se estirado demais em direção ao sol. Era alto e magro, com o rosto oval e a tez pálida, e os olhos negros e retos que aparecem em todos os seus retratos. A boca tinha lábios estreitos, também sem sangue na boca do criado da corte, de lábios apertados para guardar segredos. Mas ele tinha humor, e sabia conversar com sabedoria e entretenimento, uma raridade num país onde homens, e mulheres, discutem perpetuamente sobre assuntos do espírito em termos da carne mais que estúpida. Eu não estivera ainda nem um dia em Constantinopla, e já me recordava de algo que lera num dos livros de Galapas: "Se você perguntar a alguém quantos óbolos custa certa coisa, ele responderá dogmatizando os nascidos e não nascidos. Se perguntar o preço do pão, responder-lhe-ão que o Pai é maior que o Filho, e que o Filho é subordinado a Ele. Se você per­guntar se o seu banho está pronto, dir-lhe-ão que o Filho foi feito do nada."

Ahdjan recebeu-me muito gentilmente, num esplêndido aposento com mosaicos nas paredes e chão de mármore dourado. Na Ingla­terra, onde é frio, colocamos os quadros no chão e pesados reposteiros nas paredes e portas; mas, no Oriente, agem diferente. O apo­sento brilhava com cores; usam muito ouro nos seus mosaicos, e, por causa da superfície levemente irregular da tessela, isto dá um efeito de movimento, como se os quadros fossem tapeçarias de seda. As figuras são vividas, cheias de cor, algumas muito bonitas. Recor­dei-me do mosaico rachado lá de casa, em Maridunum, que em criança eu achava o mais belo quadro do mundo; era de Dionísio, com uvas e delfins, mas não havia uma figura inteira, os olhos do deus tinham sido mal remendados e ele parecia vesgo. Até hoje eu imagino Dionísio estrábico. Um dos lados do aposento de Ahdjan dava para um terraço, com uma fonte num largo lago de mármore, e ciprestes e loureiros cresciam em jarros ao longo da balaustrada. Logo abaixo, ficava o jardim, perfumado ao sol, com rosas, íris e jasmins (embora mal fosse abril) competindo com o perfume de cen­tenas de arbustos, e por toda parte os dedos escuros do cipreste, enfeitados com cones pequeninos, apontavam diretamente para o céu brilhante. Abaixo dos terraços, rebrilhavam as águas da Cornucópia, tão povoada de navios quanto um lago de fazenda de besouros d'água.

Havia uma carta de Ector à minha espera. Depois que Ahdjan e eu nos cumprimentamos, pedi licença, desenrolei-a e comecei a ler. O escrivão de Ector escrevia bem, em longos períodos nos quais dava a sua interpretação do que o cavalheiro realmente dissera, sem ro­deios. Mas, as novidades, que se destacavam das poesias e floreios, eram as que eu já sabia ou adivinhava. Em frases reservadas, ele me fazia saber (por causa do escrivão ele dizia "a família, Drusilla e os dois meninos") que Artur estava bem. Mas, por quanto tempo "o lugar" era seguro, Ector dizia não saber, e prosseguia com a versão dos seus informantes.

O perigo de invasão, sempre presente mas esporádico nos úl­timos anos, tornara-se bem maior. Octa e Eosa, os líderes saxões sobrepujados por Uther no seu primeiro ano de reinado, e prisionei­ros desde então em Londres, ainda continuavam presos; mas, ulti­mamente, o Rei Uther estava sendo pressionado (não apenas pelos federados, mas por alguns chefes britânicos temerosos do crescente descontentamento ao longo da Praia Saxã) para fazer um tratado e libertar os príncipes saxões. Desde que ele recusara, já houvera duas tentativas armadas de libertá-los. Foram punidas com severidade bruta1 e, agora, outras facções estavam pressionando Uther para matar os chefes saxões que saíram da linha; ele temia fazer isso por causa dos federados. Estes, firmemente abrigados ao longo da praia, e procurando avançar até Londres, de novo tentavam conseguir refor­ços de gente de fora, para invadir as ricas terras próximas à Muralha de Ambrósio. Havia rumores ainda piores: um mensageiro fora preso e, sob tortura, confessara que levava prendas de amizade dos anglos no Abus ao leste, para os reis pictos, das terras selvagens a oeste de Strathclyde. Mas, acrescentava Ector, apenas prendas; e ele, pessoalmente, não acreditava em problemas vindos já do norte. Entre Strathclyde e o Abus, os reinos de Rheged e Lothian ainda estavam firmes.

Li o resto, enrolei a carta. Falei a Ahdjan:

— Preciso ir direto para casa.

— Tão cedo? Era o que eu temia. — Fez sinal a um criado que ergueu um jarro de prata de uma bacia de neve, e serviu o vinho em taças de vidro. De onde vinha a neve, não sei; eles trazem-na à noite dos cimos dos morros, e guardam-na sob a terra, na palha. — Sinto perdê-lo, mas, quando vi a carta, percebi que eram más no­tícias.

— Ainda não são más, porém as más virão. — Contei-lhe o que podia da situação, e ouviu com gravidade. Eles entendem estas coisas em Constantinopla. Desde que Alarico, o Godo, tomou Roma, os ouvidos dos homens estão atentos à trovoada no norte. Pros­segui: — Uther é um rei forte e um bom general, mas nem ele con­segue estar em toda parte, e esta divisão de poder torna os homens incertos e temerosos. Está na hora de garantir a sucessão. — Bati na carta. — Ector diz que a Rainha está grávida novamente.

— Assim ouvi dizer. Se for menino será declarado herdeiro, não é? Má hora para um bebê herdar um reino, se não tiver um Stilicho para cuidar dos seus interesses. — Referia-se ao general que protegera o império do jovem Imperador Honório. — Existe algum, entre os generais de Uther, que possa ficar como regente em caso de sua morte?

— Ao que eu saiba, são mais capazes de matar do que de proteger.

— Então, é melhor que Uther viva, ou que permita ao filho e já tem ser o herdeiro legítimo. Ele deve estar com... sete, oito anos? Por que Uther não toma a atitude sensata e o declara herdeiro, com você como regente, se o Rei morrer durante a menoridade do menino? — Olhou-me de banda, por sobre a taça. — Ora, Merlim, não se faça de surpreso. O mundo inteiro sabe que você tirou o Menino de Tintagel e o escondeu por aí.

— E o mundo diz onde?

— Ah, diz. O mundo gera soluções como aquela lagoa ali gera sapos. A opinião geral é que a criança está na ilha de Hy-Brasil, ali­mentada por mingaus feitos por nada menos que nove rainhas. É por isso que floresce! Ou então que está com você, mas invisível. Talvez disfarçado em mula?

Dei uma risada.

— Ah, mas eu não ousaria... Isto faria o que do pai dele?

— Você ousaria qualquer coisa, acho eu. Eu estava esperando que ousasse dizer-me onde está o garoto e tudo o mais a seu res­peito... Não?

Neguei com a cabeça, sorrindo.

— Perdoe-me, mas ainda não.

Moveu a mão, graciosamente. Também entendem segredos,

Constantinopla.

— Bem, será que ao menos pode dizer-me se ele está bem e em segurança?

— Asseguro-lhe que sim.

— E será o sucessor, com você como regente?

Dei uma risada, balancei a cabeça e esvaziei a minha taça. Fez um sinal ao criado, que ficava por perto, mas não ao alcance da conversa, e ele correu a encher a minha taça. Ahdjan fez-lhe sinal para que se fosse.

— Também recebi uma carta de Hoel. Diz ele que o Rei Uther despachou homens à sua procura, e que não fala bem de você, apesar do muito que, todos sabem, ele lhe deve. Correm boatos de que o próprio rei não sabe onde o menino está escondido, e que pôs es­piões à procura. Alguns dizem que o menino morreu. Outros, que Você conserva o menino para satisfazer aos seus fins ambiciosos.

— É, — concordei afavelmente — alguns diriam isto mesmo.

— Está vendo? — Fez um gesto largo com a mão. — Tentei instigá-lo para que falasse, e nem sequer ficou zangado. Outro ho­mem protestaria, teria até medo de voltar; você não diz nada e acho que já decidiu tomar o primeiro navio de volta.

— Eu conheço o futuro, Ahdjan, é esta a diferença.

— Bem, não conheço o futuro, e é óbvio que não vai contá-lo para mim, mas posso arriscar o meu palpite quanto à verdade. O que os homens estão dizendo é a verdade retorcida; você conserva o menino porque sabe que um dia ele será Rei. Agora, isto pode dizer-me: o que fará quando voltar? Tirá-lo do esconderijo?

— Quando eu estiver de volta, a criança da Rainha já terá nascido. O que eu fizer dependerá disto. É claro que verei Uther, falarei com ele. Mas, o principal, no meu ponto de vista, é deixai que o povo da Inglaterra, seja amigo ou inimigo, saiba que o Prín­cipe Artur está vivo e bem, e que estará pronto para aparecer ao lado do pai quando chegar a hora.

— A hora ainda não é esta?

.— Acho que não. Quando chegar lá espero ver tudo com mais clareza. Com a sua licença, Ahdjan, tomarei o primeiro navio.

.— Como quiser. Sentirei perder a sua companhia.

— Eu também. Foi um acaso feliz que me trouxe a Constan­tinopla. Não viria até aqui, se não tivesse sido atrapalhado pelo mau tempo, que me fez perder o navio que devia tomar em Calcedônia.

Ele fez um comentário educado, depois ficou espantado ao per­ceber as implicações.

— Como? Quer dizer que já estava voltando para casa? Mesmo antes de ler a carta? Você sabia?

— Não os detalhes. Apenas que era hora de voltar.

— Pelos Três! — Por um momento vislumbrei o celta que havia nele, embora tivesse jurado pelo deus cristão; eles só têm outro ju­ramento em Constantinopla: "Pelo Um!", e lutam até a morte pelas suas imprecações. Depois, ele riu. — Pelos três! Como queria que você estivesse ao meu lado semana passada no hipódromo! Perdi uns mil nos Verdes. . . coisa certa, e na hora correram como vacas de três pernas. Bem, parece que o príncipe que tiver você para guiá-lo tem um bocado de sorte! Se eu tivesse tido você, hoje teria um império ao invés de um respeitável posto governamental. . . dando graças de tê-lo conseguido sem ser eunuco.

Enquanto falava, indicara o grande mosaico na parede principal às nossas costas. Eu já reparara nele, e me perguntava, vagamente, o porquê da melancolia bizantina que decora os aposentos com tais cenas, ao invés dos desenhos mais alegres encontrados na Grécia e na Itália. No corredor de entrada, vira um crucifixo em tamanho real, com as figuras carpindo ao lado, e vários emblemas cristãos. Este também representava uma execução, mas nobre, em campo de batalha. O céu era escuro, feito com lascas de ardósia e lazulita den­tro das nuvens, como ferro, e com as caras dos deuses olhando por entre elas. O horizonte mostrava uma linha de torres e templos atrás da qual o sol vermelho se punha. Parecia simbolizar Roma. A planície larga na frente das muralhas era a cena do fim da batalha; à esquerda, os vencidos, homens e cavalos mortos ou morrendo no campo coalhado de armas partidas; à direita, os vencedores, amontoados atrás do chefe coroado, e banhados num raio de luz que descia de um Cristo em atitude de bênção, acima dos demais deuses. Os pés do vencedor ajoelhava-se o outro chefe, com o pescoço exposto à lâmina do carrasco. Erguia os dois braços para o conquistador, não pedindo clemência, mas na entrega formal da sua espada.

Abaixo dele, no canto do quadro, estava escrito Max. À direita, abai­xo do vencedor, estavam impressas as palavras Theod. Imp.

— Pelo Um! — exclamei, e vi que Ahdjan sorriu; mas ele não podia saber o motivo da minha admiração. Ergueu-se, graciosamente, e acompanhou-me até a parede, obviamente satisfeito com o meu interesse.

— É a derrota de Máximo frente ao Imperador. Bom, não é?—Alisou a tessela sedosa com a mão. — O homem que o fez não conhecia bem as ironias da guerra. Apesar de tudo, pode-se dizer que houve empate, no final. Aquele sujeito à. esquerda, atrás de Máximo, é o ancestral de Hoel que levou os remanescentes do con­tingente britânico de volta. Este cavalheiro com ar de santo, derramando sangue aos pés do Imperador, é o meu trisavô, a cuja cons­ciência e bom senso para negócios devo tanto a minha fortuna quanto a salvação da minha alma.

Eu mal escutava. Estava de olhos fixos na espada nas mãos de  Máximo. Já a vira antes. Brilhando na parede às costas de Ygraine.  Alojando-se na sua bainha na Bretanha. Agora, aqui, pela terceira vez, representada na mão de Máximo nos arredores de Roma.

Ahdjan observava-me com curiosidade.

— O que foi?

— A espada. Então, era a espada dele.

— O quê? Você já a tinha visto?

— Não. Só em sonhos. Por duas vezes, já a tinha visto em i sonhos. Agora, aqui, pela terceira vez, num quadro... — Falava comigo mesmo, pensativo. A luz do sol, refletida no lago do terraço, coriscava na parede, fazendo com que a espada nas mãos de Macsen refulgisse e que as gemas no seu cabo se destacassem verdes, ama­relas e azuis. Falei, baixinho:

— Então foi por isso que perdi o navio na Calcedônia.

— O que quer dizer?

— Perdoe-me, nem eu sei bem. Estava pensando num sonho. Diga-me, Ahdjan, este quadro. . . Aquelas são as muralhas de Roma? Máximo não foi assassinado em Roma, foi?

— Assassinado? — Ahdjan perguntou compenetrado, com ar divertidos — No lado de cá da família, usamos a palavra "executa­do". Não, não foi em Roma. Acho que o artista estava sendo sim­bólico. Aconteceu em Aquiléia. Talvez você o conheça; é um luga­rejo perto da foz do Rio Turrus, na extremidade norte do Adriático.

— Os navios aportam ali?

Arregalou os olhos.

— Pretende ir para lá?

— Gostaria de ver o lugar onde Macsen morreu. Gostaria de saber o que aconteceu à sua espada.

— Isto não saberá em Aquiléia — retrucou ele. — Kynam levou-a.

— Quem?

Ele indicou o quadro.

— . O homem à esquerda. O ancestral de Hoel, que levou os britânicos de volta à Bretanha. Hoel poderia ter-lhe dito isto. — Riu-se com a minha expressão. — Você veio até aqui apenas por este tocado de informação?

— Parece que sim, — respondi — embora até este momento não o soubesse. Quer dizer que Hoel está com a espada? Que está Da Bretanha?

— Não. Há muito que se perdeu. Alguns dos homens que re­tornaram à Grande Inglaterra levaram as suas coisas com eles; su­ponho que levaram a sua espada para dá-la ao seu filho.

— E daí?

— É só o que sei. Faz muito tempo, e agora é só uma lenda de família, e a metade provavelmente nem é verdade. Será que tem tanta importância?

— Importância? — indaguei. — Nem eu sei. Mas aprendi a aprofundar-me nas coisas que encontro no meu caminho.

Ele me observava com ar intrigado e pensei que fosse fazer mais perguntas, mas, após uma curta hesitação, simplesmente comentou:

— Suponho que sim. Vamos passar para o jardim. Lá está mais fresco. Você está com cara de quem tem dor de cabeça.

— Oh, não é nada. É apenas que alguém estava tocando uma lira desafinada no terraço.

— Minha filha. Vamos descer e fazê-la parar.

Enquanto descíamos, ele falou-me de um navio que devia zar­par da Cornucópia dentro de dois dias. Conhecia o dono, e poderia arranjar-me uma passagem. Era um navio veloz, que aportaria em Óstia, onde eu facilmente acharia uma embarcação que fosse para o oeste.

— E quanto aos seus criados?

— Gaio é um bom homem. Você estaria bem servido se o empregasse. Libertei Stilicho. É seu se quiser ficar, e é um assombro com cavalos. Seria crueldade minha levá-lo para a Inglaterra; tem  sangue ralo como o de uma gazela árabe.

Mas, quando a manhã chegou, Stilicho estava à beira do cais, teimoso como as mulas com que tão bem sabia lidar, com seus pertences numa sacola e enrolado numa capa de pele de carneiro, em pleno sol bizantino. Discuti com e'e, traduzindo-lhe o clima britânico e o meu modo simples de viver, que ele poderia tolerar num país onde o sol sempre brilha, mas que seria bem duro naquela terra úmida e de ventos gélidos. Mas vendo que iria comigo, nem. que tivesse de pagar a sua passagem com o dinheiro que eu lhe dera como presente de despedida, cedi.

Para dizer a verdade, eu estava emocionado, e feliz pela sua companhia na longa viagem de volta. Embora sem o treino de Gaio para criado particular, era vivo e inteligente, e já demonstrara aptidão para ajudar-me com plantas e remédios. Seria útil; além do que,após todos estes anos ausente de Bryn Myrddin, a vida ali parecia-i me um tanto solitária, e bem sabia que Ralf jamais voltaria para mim.

 

Cheguei à Inglaterra em fins do verão. As novidades me receberam no cais, na pessoa de um dos camareiros do Rei, que me cumprimentou com enorme alívio, e com uma total ausência de sur­presa, tanto que comentei:

— Você devia estar no mesmo negócio que eu...

Ele riu. Chamava-se Lucan, e eu o conhecera quando o meti pai era Rei, e dávamo-nos bem.

— Adivinhação? Nem por isso. Este é o quinto navio que venho esperar. Eu o esperava, mas não tão cedo. Ouvimos dizer que tinha ido para o Oriente há muito tempo, e mandamos mensageiros à sua procura. Não o encontraram?

— Não. Mas eu já estava a caminho.

Assentiu, como se eu tivesse confirmado os seus pensamentos. Fora muito chegado ao meu pai, Ambrósio, e não duvidava do poder que me guiava.

— Então sabia que o Rei está doente?

— Não, isto não. Só que os tempos estavam ruins e que eu devia voltar. Uther doente? Notícias graves! Qual é a doença?

— Uma ferida infeccionada. Sabia que ele próprio estava super­visionando a reconstrução das defesas da Praia Saxã e treinando lá as tropas? Bem, deram um alarme sobre navios subindo o Tâmisa, à altura de Vagniacae, perto demais de Londres. Uma pequena esca­ramuça, nada sério, mas ele estava na frente, como sempre, levou um talho e a ferida não sarou. Isto já faz dois meses, e ainda sente dores e perde peso.

— Dois meses? O seu médico não está cuidando dele?

— Claro que sim. Gandar esteve com ele desde o começo. — E nada pôde fazer?

— Bem, — respondeu Lucan — segundo ele, o Rei está ficando bom, e nada há a temer. Assim também opinam os demais médicos consultados. Mas já os notei em conferências pelos cantos,. e Gandar parece preocupado. — Deu-me um olhar de esguelha. —Há um certo mal-estar (pode chamar até de apreensão) atingindo a corte inteira, e vai ser difícil evitar que se espalhe. Não é preciso que lhe diga, não é uma boa hora para o país se perguntar se o seu chefe está em condições de liderá-lo. Os boatos já começaram. Você sabe que o Rei não pode ter dor de barriga sem que se fale em veneno; agora falam em encantamentos e feitiços. E com alguma razão. Às vezes, o Rei parece que caminha com fantasmas. Em boa hora você voltou. .

Já estávamos na estrada que sai do porto. Os cavalos estavam selados no cais, e uma escolta à espera; isto, mais pelo cerimonial que pela segurança; a estrada para Londres é movimentada e bem protegida. Ocorreu-me que, talvez, os homens armados que nos acompanhavam faziam-no, não pela minha segurança, mas para assegurar que eu fosse ter com o Rei.

Comentei a respeito com Lucan:

— Parece que o Rei quer ter certeza da minha presença. Teve um ar divertido, mas apenas disse, com a classe do cortesão:

— Talvez ele tivesse receio que você não quisesse atendê-lo. Um médico que não consegue curar um Rei perde bastante da sua, reputação.

— Perde às vezes a vida, você quer dizer. O pobre Gandar ainda vive?

— Até agora. — Fez uma pausa, depois comentou: — Não que eu seja bom juiz disso, mas acho que não é o corpo do Rei que necessita de cura, mas, sim, a sua mente.

— Então é da minha mágica que precisa. — Ele continuou calado. Acrescentei: — Ou do filho? Baixou as pálpebras.

— Também correm rumores a este respeito.

— Suponho que sim. — Minha voz era neutra como a dele. — Uma das novidades que ouvi nas minhas viagens foi que a Rainha estava grávida de povo. Creio que deve ter dado à luz há um mês, o que é a criança?

Foi um menino, natimorto. Dizem que foi isto que perturbou o  Rei e arruinou o seu ferimento de novo. E agora há rumores de que o filho mais velho também está morto. Alguns dizem que morreu pequenino, que não há filho algum. — Fez uma pausa. Fitava as orelhas do cavalo, mas havia um leve tom de indagação na sua voz

— Não é verdade, Lucan — respondi. — Ele está vivo, um belo menino, crescendo depressa. Não tema, ele aparecerá quando for preciso.

— Ah! — Foi uma interjeição de alívio. — Então é verdade, ele está com você! Essas notícias, se não curarem o Rei, curarão ao menos o reino. Vai trazer o garoto para Londres agora?

— Primeiro preciso ver o Rei. Depois, quem sabe?

Um cortesão sabe quando se muda de assunto, por isso Lucan não fez mais perguntas, passando a falar de assuntos gerais. Contou-me em detalhes o que eu soubera pelas cartas de Ector; e este não exagerara a situação. Tomei cuidado para não perguntar demais so­bre o possível perigo no norte, mas o próprio Lucan falou nele, na guarnição dos lugares estratégicos ao norte de Rheged, ao longo da I velha linha da Muralha de Adriano, e da contribuição de Lot para a defesa do nordeste.

— Ele está enfrentando dificuldades. Não porque os ataques tenham sido fortes (o lugar tem andado quieto, ultimamente), mas porque não têm sido. Os reis pequenos não confiam em Lot; dizem que é um homem duro e sovina com os espólios, e só cuida dos próprios interesses. Quando eles vêem que ainda não há lutas, nada para ganhar, desertam-no completamente e levam os homens de volta para arar os campos. — Emitiu um som de desprezo, o mais pare­cido com um bufo permissível para um cortesão. — Idiotas, não vêem que, quer gostem ou não do seu comandante, têm de lutar, ou não terão campos para arar, ou famílias para quem ará-los.

— Mas Lot tem grande interesse nas suas alianças, especial­mente para o sul. Suponho que a aliança com Rheged está firme? Por que os seus aliados não confiam nele? Suspeitam que faz o pé-de-meia à sua custa? Ou, talvez, de algo pior?

— Não lhe posso responder. — Sua voz era inexpressiva.

— Não há outro a quem Uther possa nomear comandante no norte?

— Só se for ele mesmo. Não pode rebaixar Lot. Sua filha está comprometida com ele. Fiquei surpreso.

— Sua filha? Quer dizer que Lot aceitou Morgause, afinal.

— Não, Morgause não — respondeu Lucan. — Apesar da ga­rota ser uma beleza, creio que o casamento não foi tentador o su­ficiente para Lot. Lot é ambicioso, não se contentaria com uma bastarda quando pode ter uma princesa legítima. Falo da filha da Rainha: Morgiana.

— Morgiana? Mas, ela mal tem cinco anos!

— Apesar disso, foi prometida e você sabe que isto vale entre os reis.

— Se sei! — disse secamente, e Lucan sabia no que eu estava pensando na minha própria mãe, que me tivera com Ambrósio, sem outro laço que não uma promessa feita em segredo; e no meu pai, a que fizera daquela promessa um laço tão válido quanto um jura­mento cerimonial.

Avistamos a Muralha de Londres e o tráfico do mercado ma­tutino ficou mais denso à nossa volta. Lucan dera-me muito sobre o que pensar, e fiquei contente quando a escolta se acercou porque ele calou-se e deixou-me com os meus pensamentos.

 

Esperava encontrar Uther sob cuidados e tratando de alguns assuntos, mas ainda estava no quarto, e sozinho.

Enquanto era conduzido pelas antecâmaras até o seu quarto, notei nobres, oficiais e servos à espera, e nos aposentos cheios havia uma calma apreensiva, que falava por si mesma. Homens conferenciavam em grupos pequenos, em voz baixa e preocupada, os criados pareciam nervosos e inquietos, e nos corredores externos, onde mer­cadores e suplicantes esperavam, havia o desespero paciente de ho­mens que já desesperaram.

As cabeças viravam à minha passagem, ouvi o sussurro que me precedia, e um bispo cristão, a despeito de si mesmo, exclamou em voz audível:

— Louvado seja Deus! Agora o feitiço vai acabar!

Um ou dois homens que eu conhecia aproximaram-se para me cumprimentar e fazer perguntas, mas eu sorri, abanei a cabeça e prossegui. E, como quando se trata de reis não se pode excluir mal­dade e assassinato, observei os rostos conhecidos. Algum desses senhores armados e cheios de jóias poderia não estar satisfeito com a minha volta; alguém que esperava a queda de Uther antes do seu filho estar crescido; alguém que fosse inimigo de Artur, e portanto, meu.

Alguns conhecia bem, mas os observava com atenção, ao dirigi-lhes um rápido cumprimento. Os chefes de Gales, Ynir de Guent, Mador e Gwilin, da minha região de Difed. Não Maelgon de Gwynned, mas um de seus filhos, Cunedda. Ao lado deles, com um punhado de conterrâneos, Brychan e Cynfelin de Dyfnaint, e Nentres de Garlot, a quem eu vira cavalgar ao lado de Uther, saindo de Tintagel. Depois, os homens do norte: Ban de Benoic, um homem ande, bonitão e moreno, parecendo, como Ambrósio e eu, descendente do espanhol Máximo. Ao lado de Ban estava o seu primo da Bretanha, de cujo nome não me recordava. Depois, Cadwy e Bors, dois pequenos reis de Rheged, vizinhos de Ector; e outro vizinho, Arrak, um dos numerosos filhos de Caw de Strathclyde. Estes eu observei com cuidado, relembrando o que sabia deles. Por en­quanto, nada de importante, mas eu me lembraria, e estaria atento Rheged e Lot eu não vi; era de supor que os seus negócios no norte fossem mais relevantes que a própria saúde do Rei. Mas Urien cunhado de Lot, lá estava, um homem magro e ruivo, de olhos azuis e colorido vivo; e Tudwall de Dinpelydir, que o acompanhava; e o seu irmão de sangue, Aguisel, de cujas estranhas particularidades, le­vadas a efeito na sua fria fortaleza de Bremenium, eu já ouvira falar.

Havia outros que não conhecia, e olhei-os de relance ao passar. Mais tarde me informaria sobre eles, com Lucan ou Caio Valério, que estava perto da porta do Rei. Ao lado de Valério estava um jovem que julguei reconhecer; um rapaz de uns vinte anos, forte e queimado, com uma fisionomia levemente familiar. Não conseguia identificá-lo. Ele me fitava do seu lugar próximo à porta de Uther, mas não falou nem fez cumprimento algum. Perguntei baixinho a Lucan:

— O jovem próximo à porta, perto de Valério. Quem é?

— Cador de Cornwall.

Eu a reconhecia agora, a cara que vira pela última vez no átrio de Dimilioc, de guarda ao corpo de Gorlois. E com a mesma expressão; os gélidos olhos azuis, as sobrancelhas franzidas, a cara de guerreiro que se tornara com os anos mais parecida ainda com a do pai, e tão temível quanto a dele.

Talvez eu não precisasse procurar mais além. De todos os pre­sentes, ele tinha mais razão para odiar-me. E estava aqui, embora Lucan me tivesse contado que comandava a Praia Irlandesa. Na au­sência de Rheged e de Lot, suponho que fosse de todos ali o mais chegado a Uther, com exceção de mim mesmo.

Tinha de passar a um metro dele para poder entrar no quarto de Uther. Encarei-o deliberadamente, e ele também me encarou, mas não me saudou nem inclinou a cabeça. Os olhos azuis estavam frios e impassíveis. Bem,- pensei, cumprimentando Valério ao seu lado, veremos. Uther poderia dizer-me por que ele estava aqui. E o que ganharia o jovem Duque se o Rei não se refizesse da doença.

Lucan fora avisar ao Rei da minha chegada. Saiu do quarto e mandou-me entrar. Atrás dele vinha Gandar. Quis parar para falar com ele, mas abanou depressa a cabeça.

— Não. Ele quer que você entre imediatamente. Pela Serpente Merlin, que bom ver você! Tenha cuidado.. . Ele já está chamando. Falo com você depois?

— Claro. Ficarei agradecido.

Houve outro chamado imperativo vindo do quarto. Os olhos preocupados de Gandar encontraram brevemente os meus e ele afastou-se para deixar-me passar. O criado fechou a porta às minhas costas, deixando-me com o Rei.

 

Ele estava de pé, vestindo um quimono aberto na frente, sob o qual se via uma túnica presa por um cinto adornado com gemas, no qual estava enfiado um longo punhal. Sua espada, Falar, a espada real, estava pendurada sob o dragão dourado, na parede atrás da ca­ma. Ainda era verão, mas, durante a noite, viera um ventinho frio do norte e eu fiquei contente em ver (suponho que o meu sangue se tornara mais ralo nas minhas viagens) um braseiro aceso na lareira vazia, com cadeiras ao redor.

Ele cruzou depressa o aposento para cumprimentar-me, e vi que mancava. Enquanto respondia ao cumprimento, observei o seu rosto para ver os sinais da doença e perturbação que, disseram-me, estariam ali. Estava mais magro, o rosto com novas rugas que o faziam pare­cer mais perto dos cinqüenta do que dos quarenta que tinha na realidade. Sob os olhos, aquele repuxamento que indica dor contínua e insônia. Mas, apesar de mancar um pouco, movia-se com facilidade e com a energia inquieta de que me recordava. E a voz era a de sempre, forte, cheia de decisão arrogante.

— Aqui há vinho. Vamos servir-nos, quero falar com você a sós. Sente-se.

Obedeci, servindo o vinho e entregando-lhe uma taça. Ele pegou-a, mas largou-a sem beber, sentando-se à minha frente e fechando o quimono sobre as pernas com um gesto abrupto, quase zangado. Notei que não olhava para mim, mas para o braseiro, para o chão, para a taça, para qualquer lugar, menos os meus olhos. Falou do mesmo modo abrupto, sem indagações corteses sobre a minha viagem.

— Já devem ter-lhe contado que estive doente.

— Contaram-me que ainda estava — respondi. — Folgo em vê-lo de pé e tão ativo. Lucan contou-me da escaramuça em Vagniacae; há dois meses que foi ferido?

— Sim. Não foi grande coisa, uma lança de raspão. Mas in­flamou e levou muito tempo para sarar.

— Já está bom, agora?

— Já.

— Ainda sente dor?

— Não. — Quase cuspiu a palavra, sentando-se bem ereto na cadeira, mãos crispadas nos seus braços, e encarando-me, finalmente. Deu-me o olhar duro e azul de que me recordava, cheio de raiva e malquerença. Mas, agora, eu reconhecia que a sua atitude era a de um homem forçado, contra a sua vontade, a pedir ajuda a quem jurara jamais recorrer. Esperei.

— Como está o menino?

Se a pergunta surpreendeu-me, soube disfarçar. Embora tivesse dito a Hoel e Ector que o Rei só deveria saber do paradeiro do menino se o solicitasse, ainda assim achei prudente mandar notícias, de tempos em tempos (de tal forma que apenas o Rei as entendesse), da saúde e dos progressos do garoto. Desde a ida de Artur para Galava, as notícias iam para Hoel e, dele, para Uther; nada ia direto de Galava para o Rei. Hoel escrevera-me que, em todos estes anos, Uther nada perguntara diretamente sobre o filho. Portanto, dedu­zia-se que não sabia do seu paradeiro.

— O senhor deve ter recebido outro relatório além do último que eu vi. Ainda não chegou?

— Não. Eu mesmo escrevi a Hoel há um mês, perguntando pelo menino. Ele não respondeu.

— Talvez a sua resposta tenha ido para Tintagel ou para Winchester.

— Talvez. Ou, talvez, ele não esteja preparado para responder à minha pergunta.

Ergui as sobrancelhas.

— Por que não? É lógico que para o senhor não havia segredo. Ele alguma vez já recusou-se a responder às suas perguntas?

Respondeu friamente, tentando esconder que ficara desconcer­tado:

— Nunca fiz perguntas. Nunca houve necessidade.

Isto me contou algo mais do que já sabia. O Rei só precisou localizar Artur depois do último aborto da Rainha. Estava certo ao pensar que, se houvesse outros filhos, ele esqueceria o "bastardo na Bretanha. Também contou-me algo de que não gostei: se estava precisando de Artur agora, devia estar chamando-me para me avisar que a minha tutela estava acabada, quando na realidade ainda nem começara.

Procurando ganhar tempo, ignorei o que dissera.

— Então, pode ter certeza de que a resposta de Hoel está a caminho. De qualquer maneira, não tem importância, já que eu mesmo posso responder-lhe.

Sua fisionomia ainda estava impenetrável.

— Dizem-me que você esteve fora todos estes anos. Levou-o com você?

— Não. Achei melhor ficar afastado dele até chegar a hora de ser-lhe útil. Providenciei para que ficasse em segurança, e, de­pois que deixei a Bretanha, mantive contato. — Sorri levemente.

— Oh, nada que os seus espiões (ou de outro qualquer) pudessem ter visto... O senhor sabe que tenho os meus métodos. Não me arrisquei. Se não tem idéia do seu paradeiro, pode estar certo de que mais ninguém tem.

Vi pelo leve brilho dos seus olhos, antes que as pálpebras os escondessem, que tinha razão: mensagens e relatórios constantes dos meus movimentos lhe tinham sido entregues. Sempre que possível, mandava vigiar-me. Eu já o esperava. Reis vivem de informações. Os inimigos de Uther também devem ter-me vigiado, e talvez os informantes do Rei soubessem dizer quem eram. Quando lhe per­guntei sobre isso, meneou a cabeça. Ficou calado durante algum tempo, imerso em seus pensamentos. Não olhara novamente para mim. Pegou a taça ao seu lado, mas não para beber. Ficou brin­cando com ela, virando-a e revirando-a.

— Ele deve estar com uns sete anos.

— Faz oito no Natal e está forte e desenvolvido para a idade. Não tema por ele, Uther.

— Não? — Outro rompante, mais de amargura que de raiva. Apesar da minha calma aparente, senti um momento de violenta apreensão; se, apesar das aparências, a doença do Rei fosse, na verdade, mortal, que chance teria o menino de dirigir o reino, agora, com a metade dos pequenos reis (vi de novo o rosto de Cador) vi­sando o seu pescoço? E como saberia eu, por entre a luz e a fumaça, o que realmente pressagiava o sorriso do deus?

— Acha que não? — falou de novo o Rei. Vi que seus dedos estavam brancos, apertando a taça, e perguntei-me por que a prata frágil não se quebrava. — Quando nos falamos pela última vez, Pedi-lhe algo que, não tenho dúvidas, foi realizado fielmente, Merlin- Creio que o que lhe pedi está quase chegando ao seu fim. Não, escute-me! — E eu nada falara, nem fizera menção. Ele falava como um homem acuado, que ataca antes de estar em perigo.

— Não preciso lembrar-lhe do que foi, nem perguntar se me obede­ceu. Onde quer que esteja o menino, seja como for que o criaram, acredito que ignora o seu nascimento e a sua posição, mas que está apto a apresentar-se ante os homens como um príncipe e meu herdeiro.

O sangue escaldou-me as veias e ruborizou-me a pele.

— Está tentando dizer-me que acha que é chegada a hora? Esquecera de controlar a voz. A taça voltou com barulho à mesa. Os olhos azuis zangados voltaram a pousar em mim.

— Um rei não "tenta dizer" aos servos o que devem fazer, Merlin.

Baixei os olhos com esforço e devagar, deliberadamente, soltei a apreensão que me tolhia, como se faz com os maxilares de um cão de briga. Senti o seu olhar raivoso pousado em mim, e escutei a respiração que saía das narinas apertadas. Se Uther ficasse realmente zangado, levaria anos para eu retomar o meu lugar ao lado do menino. No silêncio que se seguiu, notei que mudava de posição na cadeira, como se estivesse desconfortável. Logo me senti capaz de erguer a vista e dizer:

— Então diga-me, Rei, se mandou chamar-me para falar sobre a sua saúde ou sobre o seu filho. Seja sobre o que for, ainda sou seu servo.

Fitou-me em rígido silêncio, depois desanuviou o rosto, e a boca tomou um ar de quase divertimento.

— Você é tudo, menos isto. Merlin. E tem razão; estou ten­tando dizer-lhe algo, referente tanto à minha saúde quanto ao meu filho. Pelo Escorpião, por que não encontro as palavras? Não o chamei para exigir meu filho, mas para dizer-lhe que, se o seu poder de curar falhar comigo, ele precisará ser Rei.

— O senhor acabou de dizer-me que está curado.

— Eu disse que a ferida está curada. A infecção se foi, e a dor, mas ficou uma doença que Gandar não consegue curar. Ele me disse que procurasse você.

Lembrei-me do que Lucan me contara sobre o Rei caminhar com fantasmas e pensei em algumas das coisas que vira em Pérgamo.

— Não me parece uma pessoa mortalmente doente, Uther.

Fala em doenças da mente?

Ele não respondeu, mas, quando falou, não parecia estar mu­dando de assunto.

— Desde que você se foi, tive mais dois filhos com a Rainha, sabia?

— Sabia da menina, Morgiana, mas só soube do natimorto hoje. Sinto muito.

— E esta sua famosa Visão não lhe disse que não haverá ou­tros? — de repente jogou a taça com força em cima da mesa. Vi que a prata tinha ficado marcada com a pressão dos seus dedos, pôs-se de pé com a violência de uma lança arremessada. Percebi que o que eu tomara por energia era uma tensão perigosa e reco­lhida, nervos e músculos retesados. As maçãs do rosto estavam fun­das como se algo o estivesse roendo por dentro. — Como se pode ser Rei se não se é homem? — Fez-me esta pergunta, depois caminhou até a janela, onde encostou a cabeça na pedra, e ficou olhan­do para a manhã.

Finalmente eu compreendia o que ele tentava dizer-me. Certa vez ele já me chamara, para, neste mesmo quarto, contar-me como estava sendo consumido por seu amor por Ygraine, mulher de Gorlois. Então, como agora, ele se ressentia de utilizar as minhas habili­dades; então, como agora, demonstrara esta mesma força intensa e retesada, como a corda de um arco pronta a partir-se. E a causa fora a mesma. Certa vez, Ambrósio dissera-me:

— Se pensasse com o cérebro, e não com o corpo, às vezes seria melhor para ele.

Até o caso com Ygraine, os violentos desejos sexuais de Uther tinham servido aos seus fins, não apenas de prazer e relaxamento corporal, mas porque os soldados admiravam a sua pujança, da qual não se gabava, mas também não escondia. Para os seus ho­mens era motivo de inveja, divertimento e admiração. E, para o pró­prio Uther, era mais que satisfação do corpo; era auto-afirmação, um orgulho que fazia parte da sua imagem de líder.

Não se moveu, nem falou. Perguntei:

— Se acha difícil falar comigo, prefere que conferencie com seus médicos primeiro?

— Eles não sabem. Apenas Gandar.

— Então com Gandar?

Mas, afinal, foi ele mesmo quem me contou, andando de um lado para o outro do quarto, mancando. Eu me erguera também e ele fez um gesto impaciente, então fiquei onde estava, longe dele, na minha cadeira perto do braseiro, sabendo que andava para e para lá para não ter de encarar-me enquanto explicava. Falou no ataque a Vagniacae e na tropa de defesa que comandara, e na escaramuça feroz sobre o cascalho. A lança o atingira na virilha, não um corte profundo, mas irregular, e a lâmina não estava limpa. Fizera um curativo e, como a ferida não o incomodava demais, não lhe dera importância; houvera novo alarme sobre um desembarque saxão em Medway, e ele para lá seguia imediatamente, sem descansar até que o perigo houvesse passado. Cavalgar não era muito confortável, nem muito doloroso, e só houve sinal de que a ferida estava inflamando quando era tarde demais. Finalmente, até Uther teve que admitir que já não agüentava montar a cavalo, e foi car­regado em liteira até Londres. Gandar, que não estivera com as tropas, veio tratar dele, conseguindo que, aos poucos, a inflamação cedesse e as cicatrizes secassem. O Rei ainda mancava levemente, mas não sentia dor, e parecia a caminho de uma recuperação total. Durante todo esse tempo, a Rainha estivera em Tintagel, esperando a hora do parto, e tão logo ficou melhor, Uther partiu ao seu en­contro. Aparentemente bem, seguiu para Winchester, onde parou com o seu grupo para uma conferência. Naquela noite, houve uma moça...

Uther interrompeu-se abruptamente, deu outra volta no quarto, parou à janela. Será que ele pensava que eu o imaginava fiel à Rainha? Isto nunca me ocorrera; onde Uther estava, sempre havia uma moça.

— E daí? — perguntei.

Afinal, surgiu a verdade. Houve a tal moça que Uther levou para a cama, como levara tantas outras para satisfazer o seu urgente desejo de momento. E achou-se impotente.

— É claro — eu ia começar a falar — que já acontecera antes, mesmo comigo. Acontece com todos nós, às vezes, mas esta não era para ser uma dessas vezes. Eu a desejava, ela era habilidosa, mas nada aconteceu, nada... Pensei que talvez estivesse cansado da viagem, do desconforto da sela (era apenas isto, desconforto), que precisasse descansar. Fiquei em Winchester, para descansar. Deitei-me de novo com aquela garota, e com outras. Mas não houve jeito, com nenhuma delas. — Deixou a janela e voltou para onde eu esta­va. — E aí chegou o mensageiro de Tintagel para dizer que a Rainha dera à luz, prematuramente, um príncipe natimorto. — Olhava para mim, quase com ódio. — O bastardo que você guarda para mim. Sempre teve certeza, não é, que ele seria Rei depois de mim? Parece que estava certo, você e a sua maldita Visão. Agora, não terei mais filhos.

Ele não teria comiseração da minha parte. Falei, simplesmente:

— Gandar é tão hábil cirurgião quanto eu. Não tenha dúvida. Eu o examinarei, se quiser, mas gostaria de falar com Gandar primeiro.

— Ele não conhece as drogas como você. Não há homem vivo que entenda tanto de medicina. Quero que você me prepare um remédio que faça voltar à vida o meu membro. Você com certeza pode fazê-lo. Essas velhas que juram saber fazer poções de amor.

— O senhor já as experimentou?

— Como poderia fazê-lo sem que todos os homens do meu exército, e todas as mulheres de Londres, soubessem que o Rei está impotente? Pode imaginar as canções e histórias se soubessem disso?

— Você é um bom rei, Uther. Ninguém debocha disto. E os soldados não debocham dos homens que os conduzem à vitória.

— E por quanto tempo poderei fazê-lo, do jeito que estou? Eu não estou doente apenas no corpo... isto me consome. Não pos­so viver como meio homem. E quanto aos meus soldados. . . gostaria de usar um cavalo castrado numa batalha?

— Eles o seguiriam nem que o senhor fosse numa liteira, como uma mulher. Se estivesse no seu estado normal, saberia disto. Diga-me, a Rainha já sabe?

— Segui de Winchester para Tintagel. Pensei que com ela... mas...-

— Entendo. — Falei casualmente. O Rei tinha dito o bastante, e sofria. — Bem, se houver uma droga que o ajude, pode ter certe­za de que eu a arranjarei. Aprendi mais dessas coisas no Oriente. Tal­vez seja apenas uma questão de tempo e de tratamento. Muitas vezes isto acontece sem que seja o fim. Ainda pode ter outro filho para suplantar o "bastardo" que eu guardo para si.

Falou bruscamente:

— Você não crê nisso.

— Não. Creio no que as estrelas me dizem, se as li correta­mente. Mas pode confiar que farei o máximo para ajudá-lo; o que acontecer, será a vontade dos deuses. Às vezes, os seus desígnios parecem cruéis; nós dois sabemos bem disso. Mas há outra coisa que vi nas estrelas, Uther; a sua sucessão não será agora. O senhor lu­tará e vencerá as suas batalhas ainda por alguns anos.

Pela sua expressão, vi que ele temia muito mais outras coisas que a própria impotência. O rosto iluminou-se, e talvez a cura do seu corpo e da sua mente já estivesse começando. Voltou à cadeira, sentou-se, tomou a taça, esvaziou-a, largou-a.

— Bem, — e sorriu pela primeira vez — agora serei o pri­meiro a acreditar nos que dizem que o profeta do Rei nunca mente. Acredito com prazer na sua palavra. . . Encha as taças novamente, Merlin, e vamos conversar. Você tem muito que me contar, e eu agora posso escutar.

Conversamos durante algum tempo ainda. Quando comecei a falar-lhe de Artur, escutou calmamente e com muita atenção; percebi, pelo modo como falava, que devia estar depositando as suas esperanças no primogênito há algum tempo, embora inconsciente­mente, talvez. Contei-lhe onde o menino estava, e, para o meu alívio, e não fez objeções; ao contrário, após algumas perguntas e tempo Para pensar, concordou.

— Ector é um bom homem. Eu mesmo poderia ter pensado nele, mas, como sabe, pretendia uma corte real e não uma como a dele. É, servirá bem. . . Galava é um bom lugar, e seguro... E, pela Luz, vou conservar os tratados que fiz lá pelo norte. O que me diz da posição do menino lá, do seu treinamento.. . também está bom. Se o sangue e o treinamento servirem para alguma coisa, ele será um bom guerreiro e um homem em quem os outros possam confiar e a quem possam seguir. Precisamos providenciar para que Ector tenha o melhor mestre-de-armas do país.

Devo ter feito um pequeno gesto de protesto porque ele sorriu de novo.

— Ora, não tema, eu também sei fazer segredo. Afinal, se ele vai ter o mais ilustre mestre do país, o Rei precisa tentar igualá-lo. Como você pretende ir para Galava, Merlin, sem que meia Ingla­terra vá atrás em busca de mágica e remédios?

Dei uma resposta vaga. Minha vinda pública a Londres já tinha servido o seu propósito; já estariam comentado que o Príncipe Artur estava vivo e bem. Não sabia ainda como ou quando eu desapareceria de novo; só conseguia pensar no fato de o Rei ter aceitado todos os meus planos e de permitir que Artur continuasse sob os meus cui­dados. Suspeitava que, como da outra vez, era uma decisão que ele tomava com alívio; uma vez que fosse para o meu lugar secreto em Galava, o Rei me esqueceria depressa, como talvez não o fizesse a boa gente de Maridunum.

Ele falava. A não ser que houvesse necessidade antes disso, dizia, só mandaria buscar o garoto quando já estivesse crescido, com uns quatorze anos, pronto para dirigir uma tropa, e então o apresentaria em público, confirmando o jovem príncipe como seu herdeiro.

— Contanto que ainda não tenha outro — acrescentou, com um lampejo do velho olhar duro, permitindo que eu me fosse para falar com Gandar.

 

Gandar estava à minha espera no quarto que me fora designado. Enquanto conversara com o Rei, minhas malas tinham sido trazidas do navio e desfeitas por meu servo Stilicho. Mostrei a Gandar as drogas que trouxera comigo, e, depois de discutirmos o caso do Rei, sugeri que ele mandasse um assistente estudar comigo o seu uso e reparo, nos próximos dias, antes que eu deixasse Londres. Se não tivesse ninguém em quem pudesse confiar para tratar do Rei com discrição, eu lhe emprestaria Stilicho.

Ante a sua surpresa, expliquei que Stilicho tinha talento para preparar as plantas secas e raízes que eu trouxera de Pérgamo. Não sabia ler, é claro, mas eu marcava os vidros e as caixas, e deixava que lidasse apenas com as inofensivas. Mas ele se mostrou digno de confiança e caprichoso. Depois, eu soube que os homens da sua raça têm esta facilidade com plantas e drogas, e que os pequenos reis da sua terra não ousam comer nem uma maçã fresca sem um provador. Fiquei feliz em arranjar um criado que me pudesse ser útil desta ma­neira, e ensinei-lhe muita coisa. Não gostaria de ter que deixá-lo em Londres, por isso fiquei aliviado quando Gandar replicou que tinha um assistente de toda a confiança, que me mandaria tão logo eu estivesse pronto.

Comecei a trabalhar imediatamente. Pedi um quartinho para Stilicho, com um fogareiro, uma mesa, e as várias tigelas e utensílios de que precisava. O quarto era ao lado do meu, sem porta de co­municação, mas eu coloquei cortinas duplas como separação. Stilicho não se acostumara com o verão britânico e conservava o seu quarto muito quente.

Depois de três dias, achei uma fórmula que talvez ajudasse ao Rei, e mandei chamar Gandar. Ele veio, ofegante, trazendo consigo, não o assistente que eu esperava, mas uma mocinha, que, depois de um momento, reconheci como sendo Morgause, a filha bastarda do Rei. Ela devia ter uns treze ou quatorze anos, era alta para a idade e realmente bonita. A maioria das mocinhas dessa idade pro­mete ter beleza; Morgause já a tinha, e até eu, que não entendo de mulheres, percebi que esta era do tipo de enlouquecer os homens. Tinha o corpo esguio como o de uma criança, mas os seios eram cheios e pontudos, e o pescoço parecia uma haste de lírio. Os olhos grandes de que eu me recordava eram verde-dourados, líquidos e claros como um regato correndo sobre o musgo, e a boquinha, com seus dentes de gatinha, curvou-se num sorriso quando me cumpri­mentou com profunda reverência.

— Príncipe Merlin. — Era a voz tímida de uma criança, quase um sussurro. Vi que Stilicho largou o seu trabalho para ficar fitando-a.

Estendi-lhe a mão.

— Já me tinham dito que você era uma beleza, Morgause. Fará um homem muito afortunado. Ainda não está comprometida? Os homens de Londres são muito vagarosos

O sorriso aumentou, formando covinhas nos cantos da boca. Nada disse. Ao meu olhar, Stilicho voltou ao trabalho, mas sem a concentração devida.

— Puxa! — exclamou Gandar, abanando-se. O suor já porejava no seu rosto largo. — Você precisa trabalhar numa estufa?

— O meu servo é natural de um lugar mais abençoado do que este. Criam salamandras na Sicília.

— Abençoado? Eu estaria morto em uma hora!

— Vou mandar que traga as coisas para o meu quarto — ofe­reci.

— Não se incomode por minha causa. Não vou ficar. Vim ape­nas apresentá-lo à minha assistente, que vai cuidar do Rei. Pode não acreditar, mas esta menina é muito habilidosa com drogas. Ela teve uma ama na Bretanha, uma sábia mulher com quem aprendeu a colher, a secar e a preparar, e, desde que aqui chegou, sempre quis aprender mais. Mas uma unidade médica do exército não me pare­ceu o lugar adequado para ela.

— Você me surpreende — comentei secamente. Morgause acer­cara-se da mesa onde Stilicho trabalhava e inclinou a cabeça gra­ciosa para ele. Uma madeixa de cabelo dourado roçou-lhe a mão. Ele marcou dois vidros ao acaso, ambos errados, antes de contro­lar-se e pegar uma faca para fazer a correção.

— Portanto, — continuou Gandar — quando ela ouviu dizer que o Rei precisava de remédios, pediu para ficar encarregada. Tem bastante prática, e o Rei consentiu. É moça, mas sabe ser discreta, e quem melhor que a própria filha para cuidar dele e guardar seus segredos?

Era uma boa idéia, e eu assenti. Gandar, embora fosse oficial­mente o médico pessoal do Rei, era o chefe das equipes médicas do exército. Até este último ferimento, o Rei pouco precisara de cuida­dos especiais, e o lugar de Gandar, havendo lutas ou apenas ameaça delas, era com o exército. Na situação atual de Uther, sua filha, felizmente tão eficiente, substituiria bem a Gandar.

— Ela é bem-vinda para aprender aqui o que puder. — Virei-me para a menina. — Morgause, tenho uma droga que acho que vai ajudar o Rei. Copiei a fórmula para você... dá para entender? Ótimo. Stilicho tem os ingredientes, se acertar marcá-los corretamen­te... Ele vai mostrar a você como misturar o remédio. Dê-lhe meia hora para tirar o seu instrumental deste banho a vapor...

— Não se incomode por minha causa — disse ela, num eco tímido de Gandar. — Gosto do calor.

— Então, vou deixá-la — falou Gandar, aliviado. — Merlin, quer vir jantar comigo à noite, ou está com o Rei?

Segui-o para o meu quarto arejado e fresco. De trás da cortina vinham o murmúrio tímido e hesitante da voz de criado e as per­guntas ocasionais da mocinha.

— Vai dar tudo certo, você vai ver — comentou Gandar. —

Não faça essa cara de dúvida.

— Garanto-lhe que não é por causa do remédio, e quanto à capacidade da mocinha, aceito a sua palavra.

— Apesar disso, será que ficaria aqui por mais alguns dias, para ver como ela está-se saindo?

— É claro. Não quero demorar-me muito em Londres, mas posso ficar mais alguns dias. Você vai estar por aqui?

— Vou. Mas ele melhorou tanto desde a sua chegada, há três dias, que acho que breve não precisará mais da minha assistência.

— Tomara que continue assim — repliquei. — Para falar a verdade, não estou muito preocupado... Não com a sua saúde em geral. E quanto à impotência, se descansar e dormir, sua mente pode parar de atormentar o corpo, e a situação melhorar. Parece até que já está acontecendo. Sabe como são essas coisas.

— É, ele vai melhorar... — deu uma olhada na direção das cortinas, e baixou a voz. — O que for preciso — acrescentou fran­camente. — Se o garanhão vai ou não voltar a funcionar, já não importa, pois temos um príncipe a salvo, crescendo, em condições de receber a coroa. Vamos arrancá-lo dessa depressão, e, com a graça de Deus e das drogas que você trouxe, ele voltará a lutar... e continuará o rei da matilha...

— Fará isso...

— Bom... — e nada mais disse. Na realidade, o Rei sarou rapidamente. Parou de mancar, dormia bem e engordou, e um dos seus camareiros me contou algum tempo depois que, embora não tivesse voltado a ser o Touro de Mitras que causava admiração aos seus soldados e não tivesse tido mais filhos, obtinha satisfação na cama, e a violência imprevisível do seu gênio declinou. Como solda­do, logo voltou a ser o guerreiro dedicado que inspirava as suas tropas e as conduzia à vitória.

Quando Gandar saiu, retornei ao quarto do rapaz para encontrar Morgause lendo o papel que eu lhe dera, enquanto Stilicho mostrava-lhe as amostras para a destilação, os pós para dormir, os óleos para massagear os músculos distendidos. Nenhum dos dois viu-me entrar, e pude observá-los em silêncio por alguns minutos. Vi que Morgause não deixava escapar nada e que, embora o rapaz a olhasse de esguelha e fugisse da sua beleza como um potro do fogo, estava indiferente a ele, como deve ficar uma princesa em relação a um escravo.

O calor do quarto estava dando-me dor de cabeça. Fui de­pressa até a mesa. Stilicho interrompeu o seu monólogo e a mocinha ergueu os olhos e sorriu.

Perguntei:

— Compreendeu tudo? Ótimo. Vou deixá-la agora com Stilicho. Se houver algo que queira saber que ele não possa explicar mande chamar-me.

Virei-me para o rapaz, para dar instruções, mas, para minha surpresa, Morgause tocou-me a manga. — Príncipe...

— Morgause?

— O senhor precisa mesmo ir? Eu... eu pensei que fosse en­sinar-me. Queria tanto aprender com o senhor.

— Stilicho pode ensinar-lhe tudo que precisa saber sobre as drogas que o Rei vai usar. Se quiser, posso ensiná-la a minorar as dores musculares, mas acho que os sais de banho bastarão.

— Ah, eu sei. Não era nisto que eu estava pensando; é fácil aprender tudo sobre o que o Rei precisa. É que... eu esperava mais. Quando pedi a Gandar que me trouxesse, pensei que... es­perava. . .

Interrompeu a frase e baixou a cabeça. A cabeleira dourada caiu como uma cortina sobre o seu rosto. Através dela, como através de chuva, vi os seus olhos observando-me, pensativos, mansos, in­fantis.

— Você esperava. . . ?

Acho que nem Stilicho, a quatro passos, ouviu a resposta sus­surrada:

— ... que pudesse ensinar-me um pouco da sua arte, senhor meu Príncipe. — Encarava-me com olhos súplices, meio esperanço­sos, meio temerosos, como uma cadelinha que estivesse esperando ser espancada.

Sorri para ela, mas senti que estava muito formal. Prefiro mais um inimigo armado que uma mocinha suplicante, com a mão no meu braço, perfumando o ar com o seu cheiro, como frutas num pomar ensolarado. Morangos, talvez abricós...? Falei rapidamente:

— Morgause, você pode aprender as artes nos livros, facil­mente. Não sabe ler? Claro que sabe, pois acabou de ler a fórmula. Então aprenda com Hipócrates e Galeno. Deixe que eles sejam o» seus mestres; foram os meus.

— Príncipe Merlin, o senhor não tem mestre nas artes a que me refiro.

O calor do quarto era excessivo. Minha cabeça doía. Devia estar de testa franzida, porque ela acercou-se com um movimento suave, como uma ave aninhando-se, e disse depressa, súplice:

— Não fique zangado comigo. Esperei tanto, e estava certa de que a chance era esta. A minha vida inteira ouvi falarem do senhor. Minha ama na Bretanha contava-me como costumava vê-lo andando pelos bosques e à beira-mar, colhendo as raízes e os agriões e as amorinhas brancas, e como o senhor não fazia ruído algum, como um fantasma, e que não tinha sombra nem num dia de sol.

— Ela contava tais histórias para causar-lhe medo. Sou um homem como os outros.

— Os outros homens também conversam com as estrelas como se fossem amigos numa sala? Ou removem as pedras? Ou seguem os druidas para o Nemet sem serem assassinados?

— Não fui assassinado pelos druidas porque o arquidruida te­mia o meu pai — respondi bruscamente. — E, quando estive na Bretanha, ainda não era homem e muito menos mágico. Era apenas um garoto, aprendendo, como você agora. Só tinha dezessete anos quando saí de lá.

Ela parecia mal ter escutado. Estava quieta, os olhos escondi­dos pelo cabelo caído, as mãos brancas e esguias dobradas sob o busto, de encontro ao vestido verde.

— Mas, agora, é um homem, meu senhor, e não pode negar que fez mágicas aqui na Inglaterra. Desde que estou aqui com meu pai, o Rei, tenho ouvido falarem do senhor como o maior feiticeiro do mundo. Vi as Pedras Suspensas, que o senhor ergueu e colocou no lugar, ouvi dizer que previu as vitórias de Pendragon e que trouxe a estrela para Tintagel, que fez o filho do Rei sumir para a ilha de Hy-Brasil. . .

— Escutou tudo isso? — Tentei usar um tom de despreocupa­do. — É melhor parar, Morgause, está amedrontando o meu criado e ele é útil demais para que eu queira que fuja.

— Não ria de mim, meu senhor. Nega que possui estas artes?

— Não, não nego. Mas não posso ensinar-lhe as coisas que quer saber. Alguns tipos de mágica podem aprender-se com qual­quer adepto, mas as artes que possuo não posso passar adiante. Não poderia ensiná-las, nem que já tivesse idade para entendê-las.

— Eu já posso entendê-las. Já tenho mágica. . . a mágica que as mocinhas podem aprender, nada mais. Quero segui-lo e aprender. Meu senhor Merlin, ensine-me a obter poder como o seu.

—  Já lhe disse que é impossível. Aceite a minha palavra. Você muito jovem. Sinto muito, menina. Acho que será sempre jovem de mais para um poder como o meu. Duvido que qualquer mulher possa ir onde vou e ver o que vejo. Não é uma arte fácil. O deus m a quem  sirvo é um patrão exigente.

— Que deus? Eu só conheço homens.

— Então, aprenda com os homens. O meu poder, não posso ensinar-lhe. O dom não me pertence.

Ela olhou-me sem compreender. Era jovem demais para compreender. A luz do fogareiro iluminava o lindo cabelo, a testa larga e inteligente, os seios fartos, as mãos pequenas e infantis. Lembrei-me que Uther a oferecera a Lot, que a rejeitara em favor da meia irmã mais moça. Imaginei se Morgause saberia disso; o que seria dela, pensei com compaixão. Continuei, suavemente:

— É verdade, Morgause. Ele empresta o seu poder para atingir os seus próprios fins. Quando o consegue, quem sabe? Se a quiser, ele a tomará, mas não entre no fogo, menina. Contente-se com a mágica que as mocinhas podem usar.

Ela começou a falar, mas fomos interrompidos. Stilicho estivera esquentando qualquer coisa numa tigela, e, decerto, estava tão atento ao que falávamos, que deixou a tigela virar, derramando um pouco do líquido nas chamas do fogareiro. Houve um chiado, e uma nuvem de fumaça com cheiro de erva ergueu-se entre mim e a ga­rota, obscurecendo-a. Através da fumaça vi as suas mãos, as suas mãos tranqüilas, movendo-se rapidamente para afastar o fumo pun­gente dos olhos. Os meus próprios estavam ardendo. A vista nublou-se, e havia um brilho... A dor na minha cabeça cegava-me. O mo­vimento das mãozinhas brancas por entre o vapor parecia tecer um encantamento. Uma nuvem de morcegos passou por mim. Em algum canto as cordas da minha harpa gemeram. O quarto encolheu ao meu redor, transformou-se num frio globo de cristal, num túmu­lo...

— Perdoe, senhor. Está doente?

Sacudi-me. Minha vista clareou. O vapor se desfizera, e o restinho dele ia saindo pela janela. As mãos da mocinha estavam tran­qüilamente dobradas, como antes; ela tinha afastado o cabelo do rosto e olhava-me com curiosidade. Stilicho tirara a tigela do fogo e olhava para mim por sobre ela, ansioso e amedrontado.

— Senhor, é uma das suas misturas. O senhor disse que não fazia mal...

— E não faz. Mas, preste atenção no que está fazendo, da próxima vez. — Olhei para a garota. — Desculpe, ficou com Não é nada, só uma dor de cabeça que às vezes eu tenho. Vem, e logo vai. Agora, preciso ir. Parto de Londres no fim da semana. Se precisar de mim até lá, atenderei com prazer. — Sorri e estendi a mão para tocar-lhe o cabelo. — Ora, não fique tão desapontada, menina. É um dom difícil para quem o possui, não serve para mo­cinhas...

Ela fez uma reverencia a minha saída, com o belo rostinho oculto de novo pela cortina de cabelo.

 

Acho que foi a primeira vez na minha vida que vi Bryn Myrddin não como o lar à espera, mas como uma simples parada numa viagem. E, tão logo cheguei a Maridunum, ao invés de aproveitar a calma do vale, a companhia dos meus livros, o tempo livre para pensar e dedicar-me à minha música e aos meus remédios, fiquei impaciente para partir, todo o meu ser impelindo-se para o norte, para onde vivia o menino que seria toda a minha vida daí por diante.

Tudo que sabia dele. além dos comentários cifrados que rece­bera de Hoel e Ector, era que era saudável e forte, mas não tão grande para a idade quanto tinha sido Cei, o filho de Ector. Cei estava agora com onze anos e eu o vira nas minhas visões com tanta freqüência quanto Artur, agora com oito anos. Vira Artur lutando corpo a corpo com o menino mais velho, andando a cavalo (num animal que, aos meus olhos de covarde, parecia grande demais para ele), aprendendo esgrima, primeiro com bastões, depois com espa­das; creio que não eram afiadas, mas eu temia assim mesmo, e ob­servava que, embora Cei tivesse a força e o maior alcance, Artur era ligeiro como a própria espada. Vi os dois pescando, escalando, correndo por perto da Floresta Agreste na tentativa vã de escapar a Ralf que (juntamente com os dois homens de maior confiança e Ector) vigiava Artur dia e noite. Tudo isto eu vi no fogo, na fumaça ou nas estrelas, e certa vez, quando nada disso havia à mão e a mensagem quis manifestar-se, numa preciosa taça de cristal que Ahdjan estava mostrando-me no seu palácio da Cornucópia de Ouro. Ele deve ter reparado na minha súbita falta de atenção, mas deve tê-la atribuído à indigestão, decorrente da lauta refeição que me servira. Isto, para um anfitrião oriental, é um grande elogio. Não tinha certeza se iria reconhecer Artur quando o visse, nem a idéia do tipo de menino que ele era. Audaz, alegre, forte... isto tinha visto, mas da sua verdadeira natureza nada sabia. As visões podem aparecer aos olhos da mente, mas é preciso sangue para prender o coração. Eu ainda nem o ouvira falar. Nem sabia como entrar na sua vida, quando chegasse às terras do norte, mas todas as noites da minha viagem de Londres a Bryn Myrddin, eu caminhava sob as estrelas, procurando respostas, e lá estava o Urso sempre à minha frente, brilhando, lembrando o norte escuro, céus tranqüilos, cheiro de pinheiros e água das montanhas.

Stilicho não teve a reação que eu esperava à vista da gruta onde morava. Quando parti para as minhas viagens, como esperava de­morar-me, arranjei quem limpasse o lugar para mim. Deixei dinhei­ro com o moleiro do Tywy, pedindo-lhe que mandasse um criado, de vez em quando; era aparente que isto fora feito, pois o local estava limpo, seco e bem provido. Havia até forragem fresca para os cava­los, e, mal desmontáramos, a garota do moinho veio ofegante pelo atalho, trazendo leite de cabra, pão fresco e cinco ou seis trutas recém-pescadas. Agradeci, e para que Stilicho não limpasse os pei­xes no poço sagrado, pedi a ela que lhe mostrasse o regato abaixo do penhasco. Enquanto vistoriava minhas garrafas e meus vidros lacrados, a fechadura da minha arca e os livros e instrumentos lá dentro, podia ouvir as duas vozes jovens tagarelando, e as risadas ao tentarem fazer-se entender em duas línguas diferentes.

Afinal, a moça foi-se embora e o rapaz trouxe o peixe já limpo e cortado, pronto para assar; ele estava feliz, achando o lugar con­veniente e confortável, como se fosse uma das casas em que ficamos nas nossas viagens. A princípio, achei que fosse por causa da com­pensação que acabara de encontrar, mas, mais tarde, soube que ele nascera e se criara numa gruta, na sua terra, onde a camada mais baixa da população é tão pobre, que os donos de uma caverna seca e bem situada são tão afortunados que têm de lutar como raposas para conservá-la. O pai de Stilicho, que o vendera como a um cachorrinho indesejado, não sentia falta dele numa família de treze pessoas; o lugar que ocupava na caverna era mais valioso que a sua presença. Como escravo, dormia nos estábulos, ou no quintal, e des­de que entrara a meu serviço, estivéramos em lugares onde, reconhe­ço, os cavalos ficavam mais bem alojados que os servos. O quarto que ocupara em Londres fora o primeiro que já tivera só para si. Para ele, minha gruta em Bryn Myrddin era espaçosa e até luxuosa, e agora parecia prometer mais prazeres que os que encontra um jovem escravo na competição acirrada dos alojamentos dos servos.

Acomodou-se muito feliz, e logo espalhou-se a notícia de que o feiticeiro estava de volta à sua colina, e o povo veio buscar remédios, pagando, como sempre, com comida e gentilezas. A moça do moinho, que se chamava Mai, aproveitava todas as oportunidade para trazer comida e até as oferendas das pessoas, que ela se prontificava a entregar. Stilicho, por sua vez, visitava o moinho todas as vezes que tinha que ir à cidade para mim. E não passou muito tempo até q«e Mai demonstrasse, de todas as maneiras que sabia, o quanto Stilicho era bem-vindo. Certa noite, como não conseguisse dormir, fui para o gramado ao lado do poço sagrado para olhar as estrelas e a lua e escutei, na quietude da noite, os cavalos movendo-se irrequietos seu abrigo sob o penhasco. A noite estava clara com as estrelas e a lua, por isso não precisei de tocha; chamei baixinho Stilicho, para que me seguisse, e desci depressa para o bosque de espinhos para ver o que estava perturbando os animais. Só quando vi, pela porta entreaberta, os dois corpos jovens copulando na palha, é que percebi que Stilicho já estava lá antes de mim. Retirei-me sem ser visto, e voltei à minha cama para pensar.

Alguns dias depois, quando contei ao rapaz que iria para o nor­te, mas que não queria que se soubesse disto e que o deixaria ali para cobrir a minha retirada, ele ficou entusiasmado, e reiterou com fervor os seus protestos de fidelidade e segredo. Tinha certeza de que podia confiar nele; além da sua habilidade com as drogas, tinha outro dom: era um excelente mentiroso. Parece que este é outro dos dons do seu povo. Meu único medo era que mentisse bem de­mais, como seu pai mercador de cavalos, e nos pusesse em dificulda­des. Mas era um risco que tinha de correr, e eu achava que ele era leal a mim e feliz com a sua vida em Bryn Myrddin, e que não iria botar isto a perder. Quando perguntou (procurando não parecer ansioso demais) quando eu partiria, respondi que estava esperando a hora, e um sinal. Como sempre, aceitou o que eu disse, sem du­vidar. Como não duvidaria de uma sacerdotisa falando no seu san­tuário (seguem a Velha Religião na Sicília) ou de Hephaistos res­pirando fogo nas montanhas. Descobri que acreditava em tudo que contavam a meu respeito, e não ficaria surpreso se eu desapare­cesse na fumaça ou tirasse ouro do ar. Suspeito de que, como Gaio, tirasse o maior proveito da sua posição como meu criado; Mai tinha pavor de mim, e não botava o pé para além do bosque de espinhos, o que condizia bem com os meus planos.

Não estava à espera de nenhum sinal mágico. Se tivesse certeza de que era seguro, teria partido para o norte logo depois que cheguei de Londres. Mas sabia que estava sendo vigiado. Uther con­tinuaria a mandar espionar-me. Nisso não havia perigo... quer dizer, não por parte do Rei; mas, se a lealdade de um espião pode comprada por um homem, também o pode ser por outro, e havia muitos outros que, nem que fosse por curiosidade, estariam vigiando-me. Refreei a minha impaciência, fiquei onde estava e continuei a cuidar da minha vida, esperando que os espiões se denunciassem.

Certo dia, mandei Stilicho à ferraria no limiar da cidade. Os dois cavalos tinham sido ferrados para a viagem a Londres, e, embora normalmente as ferraduras fossem removidas antes do inverno queria que a minha égua continuasse ferrada para a minha próxima jornada. As fivelas da sua cilha também estavam precisando de con­serto, por isso Stilicho levara os animais e ficaria na cidade tratando de algumas incumbências enquanto o ferreiro cuidasse deles.

Era um dia de geada, seco e quieto, mas com o tipo de céu que parece cortar os raios do sol e deixá-los pendurados, vermelhos, frios e baixos. Eu cruzara a colina até a cabana do pastor Abba. Seu filho retardado, Ban, cortara a mão, há dias, e a ferida tinha inflamado. Eu limpara o ferimento e colocara uma atadura com pomada, mas sabia que Ban era como um cãozinho, que arrancaria as ataduras se o incomodassem.

Não foi o caso; a atadura ainda estava no lugar, e a ferida sa­rava rapidamente. Ban, como a maioria dos débeis mentais, sarava como uma criança ou como um animal selvagem. Felizmente, porque ele era uma dessas criaturas que não podem passar uma semana sem ferir-se de alguma maneira. Depois de cuidar da mão, ainda fiquei por lá. A cabana ficava num canto abrigado do vale, e os carneiros de Abba estavam no redil. Embora estivéssemos em dezembro, já havia algumas crias para nascer. Ajudei Abba num nascimento difí­cil, para o qual o débil mental não seria de grande ajuda. O curto dia de inverno já estava findando quando deixei os carneirinhos gê­meos, limpos e adormecidos, nos joelhos de Ban, próximo ao fogo, com a ovelha-mãe de guarda nas proximidades. Despedi-me e cruzei a colina para casa. Fui pelo caminho que subia pelo meu vale, e já estava escuro quando alcancei o bosque de pinheiros acima da gruta. O céu estava limpo, a noite calma e estrelada, e a lua lançava som­bras azuis na geada. E vi outras sombras, que se moviam. Fiquei imóvel e pus-me a observar.

Quatro homens, no gramado em frente à minha caverna. Do espinheiro sob o penhasco chegavam os ruídos dos seus cavalos amar­rados. Escutava o murmúrio de suas vozes enquanto conferenciavam, bem juntos uns dos outros. Dois deles tinham espadas nas mãos. O luar ficava cada vez mais forte, e novas estrelas surgiam no céu gelado. Lá longe, no sopé do vale, um cachorro latiu. Bem sua­ve, ouvia-se o som de cascos de cavalo, chegando devagar. Os intrusos lá embaixo também escutaram. Um deles deu uma ordem em voz baixa, e o grupo virou-se e correu para o atalho que os levaria até o arvoredo.

Ainda não tinham alcançado o começo do atalho quando falei, bem acima de suas cabeças:

— Cavalheiros.

Era como se eu tivesse caído do céu numa biga de fogo. Supo­nho que dava para alarmar, serem interpelados no escuro por um homem que julgavam cavalgando vale acima a meia milha de dis­tância. Além disso, qualquer homem que vai espionar um mágico já vai meio apavorado, e pronto para acreditar em qualquer fanta­sia. Um deles gritou de medo, o chefe abafou uma praga. Seus rostos erguidos, à luz das estrelas, estavam cinzentos como a geada.

Falei:

— Eu sou Merlin. Que querem comigo?

Fez-se o silêncio, quebrado pelo ruído dos cavalos que se apro­ximavam, já mais velozmente, atraídos pelo cheiro de casa e comida. Lá embaixo, fizeram um movimento, como que para dar meia volta e correr. Mas, afinal, o chefe manifestou-se:

— Viemos da parte do Rei.

— Então deixem de lado essas espadas bobas. Vou descer. Quando cheguei até eles, vi que tinham obedecido, mas que permaneciam todos juntos, e com as mãos próximas às armas.

— Qual de vocês é o chefe?

O maior deu um passo à frente. Era educado, mas com certa truculência. Não gostara de ter demonstrado medo.

— Estávamos à sua espera, príncipe. Trazemos mensagens do Rei.

— Com espadas desembainhadas? Bem, afinal são só quatro contra um.

— Contra feitiços — respondeu o homem, abespinhado.

Sorri.

— Devia saber que eu nunca faria nada contra homens do Rei. Devia ter certeza de que seria bem recebido. — Fiz uma pausa. Eles mexiam os pés, inquietos, na geada. Um deles murmurou algo, meio praga, meio prece, no seu dialeto. Continuei: — Este não é o lugar apropriado para conversarmos. Minha casa está aberta aos visitan­tes, como vêem. Por que não acenderam o fogo e os lampiões e espe­raram por mim com conforto?

Continuaram inquietos. Trocaram olhares. Ninguém respondeu. Havia rastros na geada até a entrada da caverna. Portanto, tinham estado lá dentro.

— Bem, — disse eu — sejam bem-vindos.

Caminhei até o poço sagrado onde estava a imagem de madeira do deus, pouco visível no seu nicho escuro. Peguei no copo, derramei um pouco para ele, e bebi. Fiz um gesto para o líder. Ele hesitou, depois meneou a cabeça.

— Sou cristão. Que Deus é este?

Myrddin — respondi — o deus dos lugares altos. Esta colina era dele, antes de ser minha. Ele me emprestou, mas ainda a vigia.

Vi o movimento pelo qual estava esperando. Com as mãos às costas, os homens faziam o gesto contra o feitiço. Primeiro um depois outro, tomaram o copo, beberam e derramaram um pouco para o deus. Balancei a cabeça, assentindo.

— É bom não esquecer que os deuses antigos ainda vigiam do ar e esperam nas colinas ocas. De que outra maneira eu saberia que vocês estavam aqui?

— O senhor sabia?

— Como não? Entrem. — Dirigi-me à entrada da caverna, afastando os ramos que a cobriam. Ninguém se mexeu, salvo o chefe, que deu apenas um passo, depois hesitou. — O que há? —, perguntei. — A caverna está vazia, não está? Ou não? Quando entraram, encontraram algo errado e estão com medo de dizer-me?

— Nada estava errado — replicou o chefe. — Nós não entra­mos... quer dizer... — pigarreou, depois continuou. — Só demos um passo para além da soleira, mas... — Parou. Houve mais murmúrios e troca de olhares, e alguém disse:

— Ande, Crinas, conte-lhe. Crinas recomeçou:

— Na verdade, senhor...

Demorou muito a contar a sua história, mas, afinal, depois de muitas hesitações e incentivos, terminou-a. Ainda estávamos à boca da caverna, os soldados à minha volta, como gado desconfiado.

Tinham chegado a Maridunum há uns dois dias, e ficaram à espera de uma chance de subir à caverna sem serem observados. Re­ceberam ordens de não me abordar às claras, para evitar que outros espiões (de cuja presença o Rei suspeitava) pudessem interpretar as mensagens que eu porventura enviasse.

— E daí?

O homem limpou a garganta. Pela manhã, continuou, tinham visto a minha égua do lado de fora da ferraria, ferrada e selada. Quando perguntaram ao ferreiro onde eu estava, ele nada respon­deu; então, presumiram que eu estava na cidade, tratando de negó­cios que me manteriam ocupado até a égua ficar pronta. Imaginaram que, se alguém estivesse me seguindo, ficaria também na cidade, por isso aproveitaram a chance e vieram para a gruta.

Nova pausa. Eles nada viam na escuridão, mas tentavam perceber a minha reação. Eu nada disse, o homem engoliu em seco e prosseguiu.

A parte seguinte da história tinha um toque de verdade. Em Maridunum tinham procurado informar-se, de maneira discreta, so­bre como chegar à caverna. Deram-lhe a informação, acrescida de outras sobre o poder e a fama do seu dono. O povo do vale tinha orgulho de mim e sempre enfeitava as histórias que contava sobre o seu feiticeiro. Portanto, os homens subiram o vale já meio amedron­tados.

Como era de se esperar, encontraram a gruta deserta. No gra­mado coberto de geada não havia marcas nem pegadas. Encontraram somente o silêncio das colinas geladas, quebrado pelo gotejar do riacho. Acenderam uma tocha e espiaram pela porta; a gruta estava arrumada e vazia, as cinzas estavam frias...

— E então? — perguntei, quando Crinas interrompeu-se.

— Sabíamos que não estava aqui, senhor, mas havia algo no lugar. Quando chamamos, não houve resposta, mas escutamos um barulhinho no escuro. Parecia vir da gruta interna, onde está a cama com o lampião ao lado. . .

— Vocês entraram?

— Não, senhor.

— Tocaram em alguma coisa?

— Não, senhor — respondeu depressa. — Não ousamos.

— Ainda bem — repliquei. — E então?

— Olhamos em volta, mas não havia ninguém. E o tempo todo aquele som. Começamos a ficar com medo. As histórias. . . Um dos homens falou que o senhor podia estar ali, nos espiando, invisível. Eu falei para ele não ser idiota, mas a gente sentia...

— Uns olhos às suas costas? É claro que havia. Prossiga. Ele engoliu em seco.

— Chamamos novamente. E aí... eles desceram do teto. Mor­cegos, como uma nuvem.

Fomos interrompidos. Stilicho tinha chegado ao arvoredo e visto os cavalos dos soldados amarrados ali. Botou os nossos animais no barracão, bateu a porta e veio correndo pelo atalho e pela grama, com o punhal na mão.

Estava gritando, e a longa faca já estava em posição de ataque. Os homens prepararam-se para defender-se. Dei dois passos rápidos à frente, empurrando-os, e agarrei o rapaz pela mão que segurava a faca.

— Não é preciso. São homens do Rei. Pode guardar. — Os outros também guardaram as suas armas. — Você foi seguido, Sti­licho?

Fez que não com a cabeça. Tremia. Um escravo não é treinado Para usar armas como o filho de um homem livre. Foi só depois que pegamos a Bryn Myrddin que eu deixei que ele carregasse uma faca. Larguei-o e voltei-me para Crinas.

— Estava falando sobre os morcegos. Parece que as histórias que ouviu perturbaram-no demais, Crinas. Se incomodou os morcegos, eles os alarmaram por uns minutos, mas são somente mor­cegos.

— Mas não foi só isso, meu senhor. Os morcegos desceram do teto, no escuro, e passaram por nós; foi como uma nuvem de fumaça e o ar cheirou mal. Mas, depois que eles passaram, houve outro som. De música.

Stilicho, ao meu lado, olhava deles para mim, de olhos arregalados no escuro. Vi que faziam novamente o sinal.

— Música por todo lado — continuou o homem. — Suave, como um sussurro ecoando pelas paredes da gruta. Não tenho ver­gonha de dizer, meu senhor, saímos da gruta e não tivemos coragem de entrar de novo. Esperamos pelo senhor do lado de fora.

— Com as espadas desembainhadas contra o feitiço. Entendo. Bem, não há mais necessidade de ficar aqui fora no frio. Vamos entrar? Não serão molestados, desde que não levantem a mão contra mim ou meu servo. Stilicho, vá acender o fogo. Cavalheiros, não se vão ainda. Lembrem-se que ainda não me transmitiram a mensagem do Rei.

Afinal, depois de ameaças e incentivos, eles entraram, pisando macio e sussurrando. O chefe veio sentar-se comigo, mas os outros preferiram ficar mais longe, entre o fogo e a entrada da caverna. Stilicho foi esquentar vinho com especiarias para oferecer.

Agora, na luz, eu podia ver que não estavam usando o unifor­me das tropas regulares do Rei; não usavam insígnias nem brasão; poderiam ser tomados por soldados de qualquer pequeno rei. Tinham porte militar, e embora não demonstrassem deferência especial a Crinas, era óbvio que havia alguma diferença hierárquica entre eles.

Observei-os. O chefe estava impassível, mas os demais estavam inquietos sob o meu olhar, e um deles, um sujeito magro e pequeno, pálido e de cabelos negros, discretamente fazia o sinal.

Finalmente, falei:

— Vocês dizem que trazem mensagens do Rei. Ele entregou-lhes alguma carta?

Foi Crinas quem respondeu. Era um homem grande, claro e avermelhado, de olhos claros. Talvez tivesse sangue saxão, embora haja celtas com esse colorido.

— Não, senhor. Apenas mandou saudações e pede notícias do filho.

— Por quê?

Repetiu a minha pergunta, aparentando surpresa.

— Por que, meu senhor?

— Sim, por quê? Deixei a corte há quatro meses. Durante esse tempo, o Rei recebeu relatórios. Por que mandar vocês agora, a mim? Ele sabe que o menino não está aqui. Parece óbvio... — detive-me na palavra, olhando de um homem armado para o outro —... que aqui não estaria seguro. O Rei também sabia que eu pretendia esperar algum tempo, em Bryn Myrddin, antes de ir jun­tar-me ao Príncipe Artur. Esperava ser espionado, mas acho difícil crer que ele os enviou com tal mensagem.

Os três para lá do fogo entreolharam-se. Um grandão com a cara vermelha e manchada mexeu nervosamente no cinturão, a mão indo por si mesma para o cabo da espada. Vi que Stilicho estava de olho nele; acercou-se com o garrafão de vinho.

Crinas sustentou o meu olhar por algum tempo, depois assentiu.

— Está certo. O senhor desmascarou-nos. Não esperava safar-me com uma história dessas, não com o senhor. Mas, quando nos surpreendeu, foi só o que pude inventar na hora.

— Pois bem,"são espiões. Ainda quero saber o motivo.

Deu de ombros.

— O senhor bem sabe como são os reis. Não nos cabia dis­cutir quando fomos enviados para cá para vistoriar o lugar sem que o senhor soubesse.

Às suas costas, os outros concordavam, ansiosos.

— E não fizemos nada de errado, meu senhor. Nem entramos na gruta. É verdade.

— Não, e você já me disse por quê. Ele ergueu uma das mãos.

— O senhor tem toda a razão de estar aborrecido. Sinto muito. Não fazemos isto, normalmente, mas ordens são ordens.

— E as suas ordens foram de descobrir o quê?

— Nada de especial, fazer perguntas, olhar o lugar e desco­brir quando o senhor vai partir. — Deu-me um olhar de esguelha, para ver se eu estava engolindo. — Parece que deixou de contar muita coisa ao Rei, e ele queria descobrir. Sabia que foi seguido des­de o minuto que deixou Londres?

Outro grão de verdade.

— Imaginava que sim.

— Bem, então é isso. — Falou como se tudo estivesse expli­cado. — É o jeito dos reis, não confiam em ninguém e querem saber de tudo. Acredito que... perdoe-me por falar assim, meu senhor.. .

— Prossiga.

— Acho que o Rei não acreditou no que disse sobre o escon­derijo do jovem príncipe. Ele pensou que poderia mudá-lo de lugar, e conservá-lo escondido, como antes. Então, nos mandou para ver se em surdina, descobríamos alguma pista.

— Talvez. Querer saber é uma moléstia de reis. E, por falar nisso, houve alguma mudança no estado do Rei para torná-lo tão ansioso por notícias?

Percebi, claramente, que ele gostaria de ter pensado nisso. He­sitou, depois decidiu que, quando fosse possível, dizer a verdade era mais seguro.

— Quanto a isso, meu senhor, não temos informação, e não o tenho visto ultimamente. Mas dizem que a doença passou e que já está de volta à luta.

Isto conferia com o que me tinham dito. Fiquei sem falar por algum tempo, observando-os pensativamente. Crinas bebia, aparen­tando calma, mas olhava-me com desconfiança. Finalmente, falei:

— Bem, vocês fizeram o que lhes ordenaram e descobriram o que o Rei desejava. Ainda estou aqui, e a criança não está. O Rei precisa confiar em mim para o resto. Quanto à minha ida, eu o avi­sarei quando chegar a hora.

Crinas pigarreou.

— Não gostaríamos de levar esta resposta, senhor. — Falava alto demais, como um fanfarrão, mas não estava blefando. Os outros partilhavam do seu medo, mas sem a sua coragem; isto não me re-confortava; sabia que homens amedrontados são perigosos. Um dos soldados (o pequenino, com os olhos negros e irrequietos no rosto pálido de nervoso) puxou a manga do chefe. Escutei o murmúrio.

— Vamos. Não se esqueça de quem ele é... Chega... Não o faça ficar zangado...

Repliquei vivamente:

— Não estou zangado. Vocês estão cumprindo o seu dever, e não é sua culpa se o Rei não confia em ninguém e precisa ter cada história verificada duas vezes. Digam-lhe que... — parei, como se para pensar, e vi que esticavam o pescoço — ... seu filho está onde eu lhe disse, a salvo e passando bem, e que estou apenas à espera de bom tempo para fazer a viagem.

— Viagem? — indagou Crinas vivamente. Ergui as sobrancelhas.

— Ora, ora. Pensei que o mundo inteiro soubesse onde Artur está. O Rei, pelo menos, compreenderá.

Um dos homens falou, com voz rouca:

— Nós sabíamos, mas era só um boato. Então, é verdade sobre a ilha?

— Perfeitamente.

— Hy-Brasil? — indagou Crinas. — Com sua licença, meu senhor, isso é um mito.

— Eu disse algum nome? Não sou responsável pelos boatos. O lugar tem muitos nomes, e as histórias que contam a seu respeito dariam para encher os Nove Livros de Mágica... E cada homem que o vê, vê uma coisa diferente. Quando levei Artur para lá...

Parei para beber, como um cantor que molha a garganta antes de tocar as cordas. Os três à minha frente estavam totalmente aten­tos. Ignorei Crinas, dando à minha voz o volume e a ressonância de um contador de histórias.

— Todos sabem que o menino foi-me entregue três noites após o nascimento. Levei-o para um lugar seguro, e depois, quando a hora era propícia e o mundo estava calmo, conduzi-o para uma costa a oeste. Aí, abaixo dos penhascos, fica uma baía de areia cer­cada de rochas pontudas como presas de lobos, e nenhum bote ou nadador sobrevive à maré quebrando nelas. Para a direita e para a esquerda da baía, o mar cavou arcos no penhasco. As rochas são roxas, rosadas e turquesas à luz do sol, e, num entardecer de verão, com a maré baixa e o sol se pondo, vê-se no horizonte a terra que vai e vem com a luz. É a Ilha de Verão, que (dizem) flutua e afunda ao bel-prazer do céu, a Ilha de Vidro através da qual enxergam-se as nuvens e as estrelas, mas que é cheia de árvores e grama e riachos de água doce para quem mora nela.. .

O sujeitinho pálido inclinava-se para a frente, de boca aberta, e vi que um outro movia os ombros, sob a capa de lã, como se esti­vesse com frio. Os olhos de Stilicho saltavam das órbitas.

— ... É a Ilha das Donzelas, para onde os reis são levados no final. E há de vir um dia...

— Meu senhor! Eu mesmo já a vi! — Que o homem pálido ousasse interromper um profeta que, aparentemente, ia fazer uma profecia, demonstrava bem em que estado estavam os seus nervos. — Eu mesmo a vi! Quando era menino, eu a vi! Claro, claro como a Cassiterides num dia límpido depois da chuva. Mas parecia terra vazia.

— Não é vazia. E não está lá apenas quando os homens como você podem vê-la. Está lá também no inverno, para aqueles que sabem como encontrá-la. Mas não há muitos que podem viajar até lá, e depois voltar.

Crinas escutara imóvel, o rosto sem expressão. — Então, ele está em terras de Cornwall?

— Você também a conhece?

Não havia sinal de deboche na minha voz, mas ele respondeu bruscamente:

— Não a conheço. — Largou o copo vazio e fez menção de le­vantar-se. Sua mão dirigiu-se ao cinturão da espada. — É esta a Mensagem que devemos levar ao Rei?

Moveu a cabeça e os outros ergueram-se com ele. Stilicho largou o garrafão de vinho com barulho, mas fiz-lhe um sinal e dei uma gargalhada.

— Não seria bom para vocês se fosse só isto. Nem para mim, pois haveria novos espiões a incomodar-me. Para o bem de nós todos, vou tranqüilizá-lo. Querem levar uma carta minha para Lon­dres?

Ficou quieto por um momento, de olhos fitos nos meus. De­pois, relaxou-se, enfiando o polegar, inocentemente, no cinturão. Quando ouvi seu suspiro de alívio, percebi que estivera bem perto de interrogar-me à sua maneira.

— Com prazer, senhor.

— Então queiram esperar mais um pouco. Sentem-se de novo. Encha os copos, Stilicho.

A carta para Uther foi curta. Perguntei pela sua saúde, depois disse que, de acordo com as minhas fontes particulares de informa­ção, o príncipe estava bem. Quando a primavera chegasse, conti­nuava, eu pretendia viajar para vê-lo. Nesse meio tempo, continuaria a vigiá-lo à minha moda e a mandar notícias ao Rei.

Depois de lacrar a mensagem, levei-a à caverna exterior. Os homens conversavam entre si em voz baixa, enquanto Stilicho ron­dava com o garrafão de vinho. Interromperam-se à minha chegada e ficaram de pé. Entreguei a carta a Crinas.

— Tudo que tenho a dizer está na carta. Ele ficará satisfeito. — Acrescentei: — Mesmo que a sua missão não tenha sido cum­prida exatamente de acordo com as ordens, nada têm a temer do Rei. Podem ir, e que o deus das andanças os proteja.

Partiram, não lá muito agradecidos aos meus votos finais. An­davam depressa sobre a geada, com olhares de esguelha para as som­bras, e encolhidos sob as capas, como se a noite estivesse respiran­do nas suas costas. Quando passaram pelo poço sagrado, todos fi­zeram um sinal e não creio que o último (Crinas) tenha feito o sinal-da-cruz.

 

O ruído dos cascos dos cavalos foi diminuindo pela trilha do vale. Stilicho voltou correndo do penhasco acima do arvoredo.

— Já foram embora. — Os olhos estavam enormes, dilatados não apenas pela escuridão gelada. — Meu senhor, pensei que fos­sem matá-lo.

— É possível. Eles eram homens corajosos, e estavam com medo. É uma combinação perigosa, principalmente porque um deles era cristão.

Stilicho parecia um cachorro a jogar-se sobre um rato.

— Quer dizer que ele não acreditou no senhor?

— Exatamente. Ele tinha certeza de que não acreditava em mim, mas não apostava que fosse mentira. Arranje-me alguma co­mida, sim, Stilicho? Qualquer coisa, mas depressa, e prepare o que puder para uma viagem. Eu mesmo tratarei das roupas. A égua está pronta?

— Está, mas... o senhor vai partir esta noite?

— E o mais cedo que puder. Estava esperando por esta opor­tunidade. Eles já apareceram, e quando descobrirem que a pista que dei é falsa, já estarei longe... na ilha para lá do oeste. . . Você sabe o que fazer, já conversamos sobre isto muitas vezes.

Era verdade. Combináramos que, quando eu partisse, Stilicho permaneceria em Bryn Myrddin, apanhando suprimentos, dando a ilusão, pelo maior tempo possível, de que eu ainda estava em casa. Eu tinha feito um estoque de remédios, e já fazia algum tempo que ele mesmo misturava e receitava os mais simples ao pessoal que chegava, portanto a minha ausência não seria sentida e passaria tempo até que alguém fizesse perguntas. Talvez não ganhássemos muito tempo, mas seria o suficiente. Uma vez cruzadas as colinas mais próximas e alcançadas as trilhas do vale na floresta, eu seria bem difícil de seguir.

Stilicho assentiu, e correu para cumprir as ordens. Em pouco tempo a comida estava pronta e, enquanto eu comia, ele aprontava o que eu precisaria para a viagem. Estava cheio de perguntas, por isso deixei que falasse. Como eu falava mal a sua língua, em geral nos comunicávamos em latim, que ele falava fluentemente, mas com sotaque. Desde que deixáramos Constantinopla, dirigia-se sempre a mim, com o seu modo jovial; precisava falar com alguém e teria o crueldade insistir no silêncio respeitoso que Gaio tentara impor. Além disso, eu não sou assim. Por isso, falava avidamente, en­quanto cumpria as suas tarefas.

— Meu senhor, se o tal Crinas não acreditou na Ilha de Vidro, se precisava de informações sobre o príncipe, por que foi embora?

— Para ler a minha carta. Acha que lá encontrará a verdade. Arregalou os olhos.

— Mas, ele não ousaria abrir uma carta para o Rei! O senhor escreveu a verdade nela?

Ergui as sobrancelhas.

— A verdade? Também não acredita na Ilha de Vidro?

— Acredito. Todo mundo sabe que ela existe. — Falava a sério. — Até na Sicília sabíamos da ilha invisível no oeste. Mas, aposto o que quiser que o senhor não vai para lá, agora!

— Por que tanta certeza? Lançou-me um olhar límpido.

— O senhor? Cruzar o Mar Ocidental? No inverno? Acredito em qualquer coisa, menos nisso! Se pudesse usar mágica, em vez de navio, teríamos cruzado o Mar do Meio com mais facilidade. Lembra-se da tempestade perto de Pylos?

Dei uma risada.

— Só com a mandrágora por mágica... Lembro-me bem de­mais. Não, Stilicho, não revelei nada na carta. Aquela carta nunca chegará ao Rei. Eles não eram homens do Rei.

— Não eram homens do Rei? — Fitou-me, boquiaberto, depois voltou a debruçar-se sobre o alforje que estava arrumando. — Como sabe? O senhor os conhecia?

— Não. Mas Uther não emprega tropas para espionar; logo seriam descobertas. Essas tropas foram mandadas (como disse Crinas) para fazer perguntas nos mercados e tavernas de Maridunum, e para revistar este lugar quando estivéssemos ausentes, procurando o príncipe, ou uma pista dele. Eles nem eram espiões. Que espião teria coragem de voltar ao seu amo contando que fora descoberto, í e que a sua vítima lhe confiara uma carta, com a informação dese­jada? É possível que eles pensem que conseguiram enganar-me, mas, de qualquer forma, precisavam aproveitar a oportunidade e pôr as mãos na carta. Dou ponto a Crinas, ele pensa depressa. Até que se saiu bem. Não foi sua culpa que o outro homem o desmascarasse.

— O que quer dizer, senhor?

— O homenzinho pálido. Ouvi quando disse algo na sua língua natal. Não sei se Crinas ouviu. Expressou-se em dialeto de Cornwall. Quando falei na Ilha de Vidro, e descrevi a baía, ele a conhe­cia, e também a Cassiterides. São ilhas ao largo da costa de Cornwall, nas quais até Crinas deve acreditar.

— Cornwall? — experimentou a palavra na língua.

— De Cornwall, no sudoeste.

— Homens da Rainha, então? — Stilicho não passara todo o tempo em Londres no pequeno aposento, com Morgause. Escutava, quase tanto quanto falava, e, desde que deixáramos a corte de Uther, regalava-me continuamente com a opinião "deles" sobre todo e qualquer assunto. — Eles diziam que ela ainda estava no sudoeste, após o parto.

— É verdade. E poderia empregar gente de Cornwall para tra­balhos secretos, mas não creio. Nem o Rei nem a Rainha cercam-se muito de tropas de Cornwall, hoje em dia.

— Há tropas de Cornwall em Caerleon. Soube na cidade. Perguntei vivamente:

— Não diga! Sob o comando de quem?

— Não sei. Mas posso descobrir. — Olhava-me ansioso, mas fiz que não com a cabeça.

— Não. Quanto menos você souber, melhor. Deixe para lá. Eles pararão de vigiar-me até que consigam ler a carta, e até que arranjem alguém que saiba ler grego...

— Grego?

— O Rei tem um secretário grego — falei tranqüilamente. — Não havia por que tornar as coisas mais fáceis. E não creio que sai­bam que suspeito deles. Não terão pressa. Além disso, escrevi algo na carta que fará com que pensem que ficarei por aqui até a pri­mavera.

— Será que voltarão?

— Não creio. Que irão fazer? Voltar e dizer-me que leram a carta do Rei, e que não são homens do Rei? Enquanto julgarem que estou aqui, terão medo de fazer isso, para que eu não relate ao Rei. Não ousam matar-me, nem deixar que descubra quem são. Ficarão afastados. Por falar nisso, da próxima vez que for a Mari­dunum, procure avisar ao comandante da guarnição que fique de olho nessa gente, e diga-lhe para relatar ao Rei o que aconteceu. Eu mesmo mandarei uma mensagem ao Rei. Podemos usar os seus próprios espiões para proteger-nos dos outros... Pronto, acabei. Já arrumou a comida para eu levar? Encha o frasco, sim? Se alguém aparecer por aqui, que vai dizer?

— Que o senhor tem saído todos os dias pelas colinas e que a última vez que o vi estava indo para a cabana de Abba, e que deve estar por lá, ajudando-o com as ovelhas.

Ergueu os olhos.

— Não vão acreditar em mim.

— Por que não? Você é um mentiroso muito capaz. Cuidado, está derramando o vinho.

— Um príncipe ajudar a cuidar de ovelhas? Não é muito pro­vável.

— Já fiz coisas mais estranhas — repliquei. Acreditarão em você. Afinal de contas, é a verdade. Onde acha que arranjei as manchas de sangue na minha capa velha, hoje?

— Pensei que fosse matando alguém.

Ele estava absolutamente sério. Dei uma risada.

— Isto não acontece sempre, e, quando acontece, é geralmente por engano.

Meneou a cabeça, como se não acreditasse, e arrolhou o vinho,

— Se aqueles homens o tivessem atacado, meu senhor, teria empregado mágica?

— Nem precisaria de mágica, com o seu punhal tão a postos.

Ainda não lhe agradeci por sua coragem, Stilicho. Ficou surpreso.

— O senhor é o meu amo.

— Comprei-o por dinheiro e devolvi-lhe a liberdade com que você nasceu. Que tipo de dívida é esta?

Fitou-me sem compreender, depois disse:

— Pronto, senhor, está tudo arrumado. O senhor vai precisar das suas botas grossas e da capa de pele de carneiro. Posso aprontar

Morango enquanto se veste?

— Daqui a pouco. Venha cá. Olhe para mim. Prometi-lhe que estaria a salvo aqui. É verdade; não vi perigo, ao menos para você. Mas, quando eu estiver bem longe, se tiver medo, vá para o moinho e fique lá.

— Sim, senhor.

— Não acredita em mim?

— Acredito.

— Então, do que tem medo?

Hesitou, engolindo em seco. Depois, perguntou:

— Essa música de que falaram, senhor. O que era? Era mesmo dos deuses?

— De certo modo. Às vezes, a minha harpa fala sozinha quan­do o ar se move. Foi isso que escutaram e, como sentiam-se culpa­dos, ficaram com medo.

Olhou para o canto onde estava a harpa grande. Eu a mandara vir da Bretanha e, desde que chegara, usava-a constantemente, tendo posto a outra no seu lugar.

— Aquela? Como é possível, senhor, toda embrulhada daquele jeito?

— Não, aquela não. Aquela harpa fica muda até que eu a to­que. Refiro-me à pequenina com que viajei. Eu mesmo a fiz nesta j caverna, com o mágico Galapas a ajudar-me.

Umedeceu os lábios. Não estava muito tranqüilizado.

— Nunca mais a vi desde que chegamos. Onde o senhor a guarda?

— Ia mesmo mostrar-lhe antes de partir. Vamos, rapaz, não há por que temê-la. Você mesmo a carregou milhares de vezes. Vamos,  pegue uma tocha e venha ver.

Levei-o para os fundos do aposento principal. Eu nunca lhe mostrara a gruta de cristal e, como a minha arca com livros e a minha mesa ficavam no acesso à saliência, ele nunca subira até lá, nunca a descobrira. Agora, juntos, arredamos a mesa e, segurando a tocha bem alto, subimos à saliência nas sombras, onde se escondia gruta de cristal. Ajoelhei-me à entrada e fiz-lhe sinal para que Se acercasse.

A tocha na minha mão lançava a luz, brilhando por entre a fumaça móvel, para as paredes redondas de cristal. Aqui, em menino, tivera a minha primeira visão, na chama ondulante. Aqui eu me vira concebido, o velho Rei morto, a torre de Vortigern construída sobre a água, o dragão de Ambrósio saltando para a vitória. Agora, o globo estava vazio, apenas com a harpa e a sua sombra dentro das paredes reluzentes.

Olhei para o rosto do rapaz. Ele estava aterrorizado pelo globo vazio e pelas sombras vazias.

— Escute. — Falei alto e a minha voz moveu o ar parado e a harpa sussurrou, e a música deu voltas pelas paredes de cristal. — Ia mostrar-lhe a gruta. Se alguma vez quiser esconder-se, venha para cá. Eu o fazia, quando menino. Os deuses tomarão conta de você, e estará a salvo. Mais a salvo é impossível; na mão de Deus, na sua colina oca. Agora, vá preparar Morango. Eu mesmo descerei a harpa. Já é hora de partir.

 

Pela manhã, eu já estava a quinze milhas dali, cavalgando para o norte pela floresta de carvalhos que margeia o Vale do Cothi. Por ali não há estradas, somente trilhas, mas eu as conhecia bem e conhecia a cabana de vidreiro, bem dentro da mata. Estaria vazia nesta época do ano.

Durante metade daquele dia de dezembro, eu e minha égua compartilhamos da sua proteção. Dei-lhe de beber no riacho, coloquei a forragem que trouxera num canto da cabana. Não tinha fome. Outra coisa me alimentava: a sensação profunda de leveza e poder, que eu conhecia. A hora estava certa, e algo me esperava. Estava no caminho certo.

Tomei um pouco de vinho, agasalhei-me com as peles de carneiro de Abba e adormeci, profunda e despreocupadamente, como uma criança.

Sonhei de novo com a espada, e, mesmo durante o sonho, percebi que este vinha a mando do deus. Os sonhos comuns não são assim; são uma mistura de desejos e temores, coisas vistas e ouvidas, sentidas mas desconhecidas. Este era claro, como uma recordação.

Vi a espada de perto pela primeira vez, não enorme e ofuscante como a espada de estrelas na Bretanha, nem obscura e ígnea, como quando tremulava na parede escura do quarto de Ygraine. Era ape­nas uma espada, uma bela arma, com as jóias do punho engastadas em ouro, e a lâmina reluzente, como que ansiosa por lutar por si mesma. Algumas armas são ansiosas por lutar, outras são lutadoras obstinadas, outras relutantes; mas todas têm vida.

Esta espada tinha vida; estava desembainhada, firme na mão de um homem armado. Ele estava de pé, perto de um fogo, aparen­temente aceso no meio de uma planície escura, e era a única pessoa à vista em toda a planície. Bem para trás dele, viam-se os contor­nos obscuros de muralhas e de uma torre. Lembrei-me do mosaico que vira na casa de Ahdjan, mas, desta vez, não era Roma. O con­torno da torre era familiar, mas não conseguia lembrar-me onde a vira antes, ou se a vira apenas em sonhos.

Era um homem alto, cuja capa escura caía numa linha só, dos ombros aos pés. O elmo escondia seu rosto. Debruçava a cabeça sobre a espada que segurava. Ele a virava e revirava, como que a sopesá-la, ou a estudar as runas da lâmina. A luz do fogo refletia-se na lâmina que virava e revirava. Captei uma palavra, REI, e depois de novo, REI, e as jóias rebrilhavam nas voltas da espada. Vi que o homem trazia um círculo de ouro no elmo e que sua capa era roxa. A luz do fogo mostrou o anel no seu dedo. Era um anel de ouro com um dragão entalhado.

— Pai? Senhor? — falei, mas, como costuma acontecer em sonhos, a voz não saiu. Assim mesmo, ele levantou o rosto. Não havia olhos sob a pala do elmo. Nada. As mãos que seguravam a espada eram as de um esqueleto. O anel ficava ao redor do osso. Ele estendeu-me a espada, com as mãos de esqueleto. Uma voz, que não era a de meu pai, disse: "Pegue-a." Não era a voz de um fantasma, nem a voz que me ordenava nas visões; essas eram vozes sem vida, soavam como se o vento estivesse soprando por um chifre vazio. Esta era a voz de um homem, profunda, áspera, acostumada a comandar, um pouco irritada, como quando se está zangado, bêba­do, ou, como agora, fatigado.

Tentei mover-me, mas não consegui; tampouco consegui falar-Eu nunca temera um espírito, mas temia este homem. De dentro das sombras vazias do elmo chegou-me a voz novamente, sombria, mas com um leve toque de divertimento, que me arrepiou a pele, como se tivesse encostado no pêlo de um lobo na escuridão. Minha res­piração parou e a minha pele tremia. Ele falou, e agora, claramente eu percebia a exaustão na sua voz.

— Não precisa temer-me. Nem precisa temer a espada. Não sou seu pai, mas você descende de mim. Pegue-a, Merlinus Ambrosius. Não terá descanso até que o faça.

Acerquei-me dele. O fogo diminuíra e estava quase escuro. Es­tendi as mãos para que depositasse nelas a espada. Fiquei imóvel, embora horrorizado à idéia de tocar os dedos ossudos. Mas nada havia para tocar. Quando largou a espada, ela caiu, por entre as suas mãos e as minhas, para o chão. Ajoelhei-me, procurando na escuri­dão, mas minha mão nada encontrou. Podia sentir a sua respiração acima de mim, quente como a de um homem vivo, e sua capa tocou-me a face. Ouvi-o dizer:

— Encontre-a. Ninguém mais pode encontrá-la. — Aí meus olhos abriram-se e era dia claro, e a égua encostava em mim o seu focinho, a crina a tocar-me o rosto.

 

Dezembro não é boa época para viajar, especialmente para quem não pode usar as estradas. As matas estão abertas e sem ve­getação rasteira, mas há lugares nos vales mais remotos em que só há passagem ao longo dos rios, caminhos difíceis e tortuosos, onde as margens estão danificadas pelas inundações e pelo mau tempo. Pelo menos, não nevou, mas no segundo dia, depois que deixei Bryn Myrddin, o tempo piorou, com um vento frio com rajadas de grani­zo, e gelo pelos caminhos.

Ia devagar. No terceiro dia, perto do anoitecer, ouvi o uivo de lobos ao longe. Ficava sempre nos vales, nas florestas densas, mas, aqui e ali, quando havia brechas na floresta, avistava as colinas, cujo cimo estava branco de neve fresca. E mais estava para vir; o ar cheirava a neve, o frio mordia o meu rosto. A neve faria com que os lobos se aproximassem. Aliás, quando a noite chegou, e a flo­resta adensou-se, pensei ter visto uma sombra que se esgueirava entre os troncos, e havia ruídos na vegetação que podiam ser feitos Por animais inofensivos como raposas ou veados; mas observei que Morango estava inquieta; repuxava as orelhas repetidamente, e a pele dos costados contraía-se como se moscas estivessem pousando nela.

Eu ia olhando para os lados, e com a espada à mão.

— Mevysen, — conversava com a minha égua galesa na sua própria língua — quando encontrarmos esta grande espada que Macsen Wledig está guardando para mim, eu e você seremos realmente invencíveis. E é preciso que a encontremos. Mas, agora, estou com tanto medo dos lobos quanto você, por isso vamos indo até encon­trarmos um lugar onde possamos defender-nos com esta arma e cor a minha pouca habilidade, e aí passaremos a noite.

O lugar defensável era a casca de uma construção bem dentre da floresta. Literalmente, uma casca; era tudo que restava de uma construção pequena na forma de uma estufa, ou de uma colméia. A metade tinha desmoronado, deixando o restante como um ovo quebrado pela extremidade, com a meia cúpula virada contra o vento e oferecendo alguma proteção contra o granizo intermitente. A maior parte da alvenaria caída fora removida (provavelmente roubada), mas ainda restou o suficiente para abrigar e esconder a mim e a égua.

Desmontei e levei-a para dentro. Ela foi com cuidado por entre as pedras cobertas de limo, sacudiu-se, e logo estava acomodada com a comida, sob a curvatura seca da cúpula. Coloquei uma pedra pesada em cima da ponta da sua corda, enxuguei-a com umas samambaias arrancadas da parede, e cobri-a. Ela parecia ter perdido o medo e mastigava serenamente. Ajeitei-me como pude, com um alforje por cadeira, e servi-me do que restava de comida e vinho. Gostaria de poder acender um fogo, para aquecer-me e espantar os lobos, mas talvez houvesse outros inimigos, que não os lobos, à minha procura; assim, com a espada à mão, embrulhei-me nas peles de carneiro, comi as rações frias e cochilei, pois o perigo e o des­conforto não me deixavam dormir.

E sonhei de novo. Não, desta vez, com reis ou espadas ou estre­las movendo-se, mas um sonho semi-desperto, incerto e aos pedaços, dos deuses pequenos dos lugares pequenos; deuses de colinas e matas e riachos e encruzilhadas; os deuses que ainda assombram os seus santuários destruídos, à espera no escuro, por trás das luzes das cheias igrejas cristãs com seus rituais obstinados dos grandes deuses de Roma. Nas cidades e lugares povoados os homens esqueceram-se deles, mas nas florestas e regiões selvagens, a gente ainda deixa ofe­rendas de comida e bebida, e reza para os guardiães, desde tempos imemoriais, dos locais. Os romanos deram-lhes nomes romanos, e os ignoraram; mas os cristãos recusam-se a crer neles, e seus sacerdotes repreendem a gente pobre por apegar-se aos seus velhos costumes... e, sem dúvida, por desperdiçar oferendas que teriam melhor uso na cela de algum ermitão do que num ermo lugar sagrado da floresta. Mas a gente pobre ainda deixa as suas oferendas e, quando elas somem pela manhã, por que não acreditar que foi um deus que as levou?

Este, pensava no meu sonho, deve ser um dos tais lugares. Eu estava na mesma floresta e a abside de pedra onde eu me sentava era a mesma, como era o mesmo o muro de pedras limosas à minha frente. Estava escuro, e nos meus ouvidos ressoava o barulho dos ramos altos varridos pelo vento, na floresta. Não escutei nada acercando-se, mas, ao meu lado, a égua agitou-se e ergueu a cabeça, e deparei com olhos que me observavam do outro lado do muro.

Tolhido pelo sono, não podia mover-me. Rapidamente, e no mesmo silêncio, outros chegaram. Eram apenas sombras na fria escuridão; não lobos, mas sombras, como homens; figuras pequenas aparecendo uma a uma, silenciosas, como fantasmas, até que me encurralaram, oito delas, ombro a ombro na entrada do abrigo. Ali ficaram sem falar ou mexer-se, oito pequenas sombras, parte da floresta e da noite como as trevas ao redor das árvores. Eu apenas via (quando, por cima das árvores nuas, uma nuvem descobria mo­mentaneamente as estrelas de inverno) o brilho dos olhos atentos. Nenhum movimento, nenhuma palavra. Mas, subitamente, eu soube que estava acordado. E eles ainda estavam lá.

Não puxei a espada. Com oito contra um não se deve nem tentar e, sim, experimentar outros métodos. Nem tive essa oportunidade. Quando fiz menção de falar, um deles disse algo que se perdeu no vento, e imediatamente fui jogado contra a parede atrás de mim, amordaçado, e tive as mãos atadas às costas, firmemente. Eu fui, semi-carregado, semi-arrastado, tirado do abrigo e jogado do lado de fora, com as costas contra as pedras que formavam o muro. Um deles, a duras penas, conseguiu pôr fogo num trapo enfiado num velho chifre de boi, que fazia as vezes de archote; a luz era fraca mas, com a sua ajuda, remexeram os alforjes e examinaram a égua com cuidado e curiosidade. Depois, trouxeram a luz até onde eu estava, com dois de guarda, e, com o trapo fedorento enfiado quase na minha cara, examinaram-me do mesmo modo que à égua.

Pelo simples fato de que ainda estava vivo, deduzi que não eram ladrões; na verdade, nada retiraram dos alforjes, e embora tivessem desarmado, não me revistaram mais. Comecei a temer, ao ver balançavam as cabeças e davam exclamações de satisfação, que, realmente, estivessem estado à minha procura. Mas, nesse caso, pensei, se quisessem saber o meu destino, se tivessem sido pagos para isto, teria sido melhor me terem seguido sem serem notados. Desse modo, eu os teria conduzido à porta da casa do Conde Ector.

Os seus comentários não revelavam o que queriam comigo, mas revelaram-me algo muito importante: falavam numa língua que nunca escutara, mas que conhecia; o velho idioma dos Britânicos, que meu mestre Galapas ensinara-me.

Ele ainda tem um pouco da forma da nossa língua, mas as pessoas que o falam vivem há tanto tempo afastadas dos outros homens, que a sua fala sofreu alterações, com o acréscimo de pala­vras e a mudança do sotaque, de tal modo que é preciso estudo e bom ouvido para poder entendê-la. Eu escutava as inflexões familia­res, aqui e ali uma palavra que reconhecia como o galés de Gwynedd, mas o sotaque mudara, carregado e estranho por quinhentos anos de isolamento, com palavras sobrevivendo, já em desuso em outros dialetos, e o acréscimo de sons como ecos das colinas ocas e dos deuses e criaturas selvagens que ali habitavam.

Assim, eu soube quem deveriam ser esses homens. Eram os descendentes das tribos que, havia muito, tinham fugido para as colinas mais remotas, deixando as cidades e as terras cultiváveis para os romanos, e, depois destes, para os federados de Cunedda, de Guotodin, e que, como aves sem lar, passaram a viver nas partes altas da floresta, onde a vida era difícil, e ninguém queria competir com eles. Aqui e ali tinham fortificado uma colina, mas, se valia a pena fortificá-la, era imediatamente cobiçada por conquistadores, que, eventualmente, a conseguiam. Assim, colina por colina, os remanes­centes dos inconquistados tinham recuado, até que só sobraram para eles os penhascos, as cavernas e a terra nua que o inverno cobria de neve. Ali viviam, sem que ninguém os visse, senão por acaso, ou quando assim o desejavam. Eram eles, imaginava eu, que vinham à noite levar as oferendas colocadas nos santuários. Meu sonho semi-desperto fora bem verdadeiro. Talvez fossem apenas esses, dos moradores das colinas ocas, os que fossem visíveis.

Falavam abertamente (o mais abertamente possível para esse tipo de gente) sem saber que eu podia compreendê-los. Conservei os olhos baixos, e escutei.

— Tem que ser ele. Quem mais viajaria pela floresta numa noite como essa? E numa égua cor de morango?

— É verdade. Sozinho, disseram, numa égua avermelhada.

— Quem sabe ele matou o outro e roubou a égua? Está es­condendo-se, isto é certo. Senão não estaria sem um fogo, em pleno inverno e com os lobos tão perto.

— Não é dos lobos que tem medo. Pode apostar, é este o ho­mem que eles querem.

— E pelo qual pagam.

— Dizem que é perigoso. Não me pareceu.

— Estava com a espada à mão.

Mas não a pegou. Fomos ligeiros demais.

— Ele já nos tinha visto. Teve tempo. Você não devia tê-lo pego desse jeito, Cwyll. Não disseram para pegá-lo. Disseram para encontrá-lo e segui-lo.

— Agora é tarde. Já o pegamos. Que faremos? Devemos matá-lo?

— Llyd saberá.

— É. Llyd saberá.

Não conversaram da maneira que descrevi, mas aos arrancos, frases curtas trocadas no idioma escasso e estranho. Finalmente, dei­xaram-me entre os meus dois guardas e afastaram-se um pouco. Para esperar, supus, por Llyd.

Chegou uns vinte minutos mais tarde, com dois companheiros; três sombras que não mais faziam parte da escuridão da floresta. Os outros o cercaram, falando e apontando, até que, finalmente, pegou a tocha (quase que só um simples trapo cheirando a resina) e veio na minha direção. Os outros vieram atrás.

Formaram quase um círculo a meu redor, como antes. Llyd le­vantou bem a tocha, e vi os meus captores, não claramente, mas o suficiente para reconhecê-los. Eram homens pequenos e de cabelos escuros, com rostos rudes e vincados, a que o clima e a vida difícil deram a textura de madeira enrugada. Vestiam peles mal curtidas, calças espessas de tecido grosseiro tingido com os marrons, verdes e cores possíveis de extrair-se das plantas das montanhas. Tinham armas de várias espécies, clavas, facas, machados de pedra afiados. O que dera as ordens até a chegada de Llyd estava com a minha espada.

Llyd disse:

— Foram para o norte. Não há ninguém na floresta para ver ou ouvir. Tirem a mordaça.

— Que diferença faz? — Era o sujeito que segurava a minha espada falando. — Não entende o Velho Idioma. Olhem para ele. Nem compreende. Há pouco falamos em matá-lo, e ele nem pareceu ter medo.

— Isto apenas confirma o que já sabíamos, que é corajoso. Um homem, atacado como ele foi e amarrado como está, deve espe­rar a morte, mas não há medo nos seus olhos. Façam o que digo. Sei bastante para perguntar o seu nome e para onde ia. Tirem a mordaça. Vocês, Pwul e Areth, vão procurar material para fazer um fogo. Quero uma boa luz para poder vê-lo direito.

Um dos dois ao meu lado afrouxou o nó e soltou a minha mordaça. Cortara o canto da minha boca, e estava cheia de sangue e cuspe, mas ele botou-a na sua sacola. No seu grau de miséria, não desperdiçavam nada. Fiquei imaginando quanto "eles" tinham prometido pagar por mim. Se Crinas e seus amigos me tinham se­guido até aqui e, depois, posto esta gente a vigiar-me e descobrir para onde me dirigia, a atitude precipitada de Cwyll estragara o plano. Mas também estragara o meu. Mesmo que decidissem dei­xar-me livre, agora, para poderem seguir-me em segredo, minha via­gem era infrutífera. Mesmo prevenido, jamais conseguiria despistar estes seguidores. Eles vêem tudo que se move na floresta e enviam mensagens tão depressa quanto as abelhas. Eu já sabia que a floresta estaria cheia de observadores, mas, geralmente, eles não aparecem, e cuidam da sua vida. Agora, percebi que só atingiria Galava sem ser denunciado se conseguisse que eles passassem para o meu lado. Esperei para saber o que o chefe tinha a dizer. Perguntou vagarosamente, em mau galés:

— Quem é você?

— Um viajante. Vou para casa de um velho amigo, no norte.

— No inverno?

— Era preciso.

— De onde... — procurava as palavras — ... de onde vem?

— De Maridunum.

Aparentemente, isto conferia com o que "eles" tinham dito. Assentiu.

— É um mensageiro?

— Não. Os seus homens viram o que eu levo.

Um deles disse depressa, no Velho Idioma:

— Ele leva ouro. Nós vimos. Ouro no cinturão, e um pouco costurado à cilha da égua.

O chefe encarou-me. Não decifrei a sua expressão; era transpa­rente como um tronco de carvalho. Falou por cima do ombro, sem desfitar-me:

— Revistaram-no? — Falava na sua própria língua.

— Não, vimos o que havia na sacola quando tiramos as suas armas.

— Revistem-no agora.

Eles obedeceram, sem gentileza. Depois, mostraram o que tinham encontrado, tudo amontoado ao redor da luz débil da tocha.

— O ouro. Olhe quanto. Um broche com o dragão da casa real. Não é uma insígnia, sinta o peso, é ouro. A marca do Corvo de Mitras. E vai de Maridunum para o norte, secretamente. — Cwyll puxou a minha capa sobre a marca exposta e levantou-se. — Deve ser o homem de que os soldados falaram. Ele está mentindo. É o mensageiro. Vamos deixar que se vá e segui-lo.

Mas Llyd disse devagar, olhando para mim:

— Um mensageiro levando uma harpa, o sinal do Dragão e a marca do Corvo? E saindo sozinho de Maridunum? Não; só pode ser um homem: o mágico de Bryn Myrddin.

— Ele? — Era o homem que segurava a minha espada. Quase largou, depois engoliu em seco e segurou-a firme de novo. — Ele, o mágico? É muito moço. Além disso, já ouvi falarem no má­gico. Dizem que é um gigante, com olhos que gelam a gente até o âmago. Deixe-o ir, Llyd, e nós o seguiremos, como querem os sol­dados.

Cwyll ecoou, inquieto:

— É, deixe-o ir. Reis nada representam para nós, mas não é bom fazer mal a um mágico.

Os outros acercaram-se, curiosos e pouco à vontade.

— Um mágico? Não mencionaram isso, ou não teríamos tocado nele.

— Ele não é mágico, veja como está vestido. Além disso, se conhecesse mágica, teria feito com que parássemos.

— Estava dormindo. Até os feiticeiros têm de dormir.

— Ele estava acordado e nos viu. E não fez nada.

— Nós o amordaçamos primeiro.

— Ele agora não está amordaçado, e não está dizendo nada.

— É, Llyd, deixe-o ir, e nós receberemos o dinheiro que os soldados ofereceram. Disseram que nos pagariam bem.

Mais resmungos e acenos de cabeça. Um deles falou, pensativo:

— Ele carrega mais do que o que nos ofereceram.

Llyd estivera quieto, mas agora interrompia a conversa, muito zangado.

— E nós somos ladrões? Ou contratados para arranjar infor­mações a troco de dinheiro? Já lhes disse, não farei o que os sol­dados pediram, cegamente, apesar do seu dinheiro. Quem são eles para que nós, os Antigos, façamos o seu trabalho? Faremos o nosso. Aqui há algumas coisas que eu gostaria de saber. Os soldados nada nos disseram. Talvez este homem diga. Acho que há coisas muito importantes envolvidas. Olhem para ele; não tem jeito de mensa­geiro. É um homem de destaque. Vamos desamarrá-lo e conversar. Acenda o fogo, Areth.

Enquanto estivera falando, os dois a quem tinha dado ordens trouxeram ramos e folhas com que armaram uma pira pronta para queimar. Mas não devia haver um único graveto seco na floresta naquela noite. Embora a chuva de granizo já houvesse cessado, tudo estava ensopado, e o chão parecia esponjoso, como se estivesse molhado até o centro da Terra.

Llyd fez sinal para os dois que me vigiavam.

— Podem desamarrá-lo. E um de vocês traga comida e bebida. Um deles logo obedeceu, mas o outro hesitou, brincando com a faca. Outros acercaram-se, discutindo. Aparentemente, a autoridade de Llyd não era a de um rei, mas a de um chefe, cujos companhei­ros têm o direito de perguntar e aconselhar. Entendi fragmentos do que diziam, depois escutei Llyd dizer claramente:

— Há coisas que precisamos saber. O conhecimento delas é único poder que temos. Se não nos disser por bem, então teremos que fazer com que diga...

Areth tinha conseguido pôr a pira úmida a arder, mas não havia luz nem calor, só uma fumaça intermitente, acre e suja, que invadia todos os recantos, impulsionada pelo vento, fazendo arder os olhos e dificultando a respiração.

Já era hora que eu fizesse alguma coisa. Já soubera o suficiente. Falei, claramente, no Velho Idioma:

— Afaste-se do fogo, Areth.

Fez-se silêncio completo. Não olhei para eles, e sim para as achas fumegantes. Abstraía-me dos meus pulsos amarrados, da dor das minhas pisaduras, do desconforto das minhas roupas ensopadas. E, tão fácil quanto uma inspiração seguida por uma expiração, o poder me percorreu, livre e tranqüilo. Algo caiu na escuridão, uma flecha de fogo, ou estrela cadente. Numa chuva de fagulhas brancas que pareciam granizo em fogo, a pira acendeu-se, fulgurante. O fogo surgia por entre o granizo, ardente, as chamas enormes, douradas e vermelhas, e gloriosamente quentes. O granizo caía no fogo, chiando, e o fogo se alimentava dele, como se fosse óleo. O rugido do fogo enchia a floresta e ecoava como o galope de cavalos.

Tirei os olhos do fogo e olhei à minha volta. Não havia nin­guém. Sumiram como se fossem espíritos das colinas. Eu estava so­zinho na floresta, encostado nas rochas caídas, com as minhas roupas secando-se e desprendendo vapor, e com as cordas mordendo dolo­rosamente os meus pulsos.

Algo tocou-me as costas. A lâmina de uma faca de pedra. Des­lizou entre a pele dos meus pulsos e as cordas, cortando-as. Cede­ram. Movi meus ombros endurecidos, esfreguei os pulsos machuca­dos. Havia um corte pequeno, que sangrava, feito pela faca. Não falei nem olhei para trás, mas fiquei parado, esfregando os pulsos e as mãos.

Às minhas costas, uma voz falou. Era Llyd. Falava no Velho Idioma.

— Você é Myrddin, chamado Emrys ou Ambrósio, filho de Ambrósio, o filho de Constâncio, descendente do sêmen de Macsen Wledig?

— Eu sou Myrddin Emrys.

— Meus homens o pegaram por engano. Não sabiam.

— Agora já sabem. Que vai fazer comigo?

— Deixar que parta quando tiver vontade.

— E, entrementes, interrogar-me, forçando-me a contar assun­tos importantes que me dizem respeito?

— Sabe que não podemos forçá-lo a nada. Nem queremos. O senhor nos contará o que quiser, e partirá quando quiser. Mas po­demos protegê-lo enquanto dorme, e temos comida e bebida. Ofere­cemos com prazer.

— Então, eu aceito. Obrigado. Sabe o meu nome. Eu já ouvi o seu, mas gostaria que se apresentasse.

— Eu sou Llyd. Meu ancestral era Llyd das florestas. Todos os homens aqui descendem de um deus.

— Então, nada têm a temer de um homem que descende de um rei. Terei prazer em partilhar a sua refeição e conversar com você. Venha partilhar do calor do meu fogo.

A comida era um pedaço de lebre assada, fria, e uma bisnaga de pão preto. Tinham carne de veado fresca, conseguida no saque dessa noite; guardaram-na para a tribo, mas jogaram no fogo para assar os miúdos, junto com uma galinha preta e uns bolinhos chatos que tinham jeito, e cheiro, de ser misturados com sangue. Era fácil adivinhar onde eles e a lebre tinham sido apanhados; encontram-se em todas as encruzilhadas da região. Aquela gente não considerava blasfêmia apanhar os sacrifícios; como Llyd dissera, acham que são descendentes dos deuses, e que têm direito às suas oferendas; eu, por mim, não vejo mal nisso. Aceitei o pão, um pedaço de coração de veado e um pouco da bebida forte e doce que eles fazem com ervas e mel silvestre.

Os dez homens sentaram-se ao redor do fogo, enquanto Llyd e eu, um pouco afastados, conversávamos.

— Os soldados que queriam que eu fosse seguido. Que tipo de homens eram?

— Cinco homens, soldados bem armados, mas sem brasão.

— Cinco? Um deles ruivo, grande, de jaqueta marrom e capa azul? E outro num cavalo malhado? — Este fora o único cavalo que Stilicho pudera ver, com as suas manchas brancas visíveis na escuridão do bosque. Devia haver um quinto homem, que ficara de guarda no sopé do vale. — Que lhe disseram?

Mas Llyd estava fazendo que não com a cabeça.

— Não havia nenhum homem como o que descreveu, nem nenhum cavalo. O chefe era um homem claro, magro como uma vareta, barbudo. Disseram que ficássemos de olho num homem que viajava sozinho numa égua cor de morango, não sabiam para onde Mas que o seu amo pagaria bem para saber para onde ia.

Jogou o osso que estava roendo por cima do ombro, limpou a boca e olhou-me nos olhos.

— Eu disse que não faria perguntas, mas diga-me apenas isso Myrddin Emrys. Por que o filho do Grande Rei Ambrósio e parente de Uther Pendragon está-se escondendo sozinho na floresta, enquanto os homens de Urien o procuram, desejando-lhe mal?

— Homens de Urien?

Sua voz denotava profunda satisfação, quando falou:

— Ah! Algumas coisas a sua mágica não lhe diz. Mas, nesses vales, ninguém se mexe sem que a gente saiba. Ninguém vem aqui sem ser marcado e seguido até que a gente saiba de que se trata. Conhecemos Urien de Gore. Aqueles eram seus homens, falavam a língua de sua terra.

— Então, você pode falar-me de Urien — pedi. — Sei quem é. Um rei pequeno de uma região pequena, cunhado de Lot de Lothian. Não conheço motivo para que ele ande atrás de mim. Estou a serviço do Rei, e Urien não tem rixas comigo ou com o Rei. Ele e seu cunhado de Lothian são aliados de Rheged e do Rei. Será que Urien passou-se para outro lado? Do Duque Cador?

— Não. Continua do lado do Rei Lot.

Fiquei calado. O fogo crepitava e acima de nós a floresta mexia e agitava-se. O vento estava amainando. Eu estava pensando furio­samente. Não tinha dúvidas de que Crinas e a sua turma fossem gente de Cador; agora, parecia que houvera outros espiões do norte, vigiando e esperando, e que deram com a minha trilha. Urien, o chacal de Lot. E Cador. Dois dos mais poderosos aliados de Uther, a sua mão direita e a esquerda; e, no momento em que o Rei come­çou a falhar, mandaram espiões à procura do príncipe... O padrão desfez-se e formou-se de novo, como se fosse um reflexo na água, quando se joga uma pedra; mas, não o mesmo padrão; a pedra está lá no meio, mudando tudo. O Rei Lot, noivo de Morgiana, a filha do Grande Rei. O Rei Lot!

— Ouvi você dizer que os homens prosseguiram para o norte — falei, finalmente. — Iam diretamente prestar contas a Urien ou ainda estavam tentando achar-me e seguir-me?

— Segui-lo. Iam mais para o norte procurar sinais do senhor. Se não acharem nada, irão para o lugar em que marcamos encontro com eles.

— E vocês irão ao encontro?

Nem respondeu, deu só uma cusparada para o lado.

Sorri.

— Vou-me embora amanhã. Pode indicar-me uma trilha que os soldados não conheçam?

— Com prazer, mas para isso é preciso que eu saiba para onde se dirige.

— Estou seguindo um sonho que tive — contei-lhe. Ele assentiu. Isto faz sentido para esta gente das colinas. Guiam-se pelo ins­tinto, como animais, observam os céus e esperam presságios. Pensei durante um minuto, depois perguntei: — Você falou em Macsen Wledig. Quando ele deixou as ilhas para ir a Roma, algum dos seus foi com ele?

— Meu bisavô chefiou um grupo que foi com Macsen.

— E voltou?

— Voltou.

— Contei-lhe que tive um sonho. Sonhei que um Rei morto falou comigo, dizendo-me que antes de cuidar do vivo, eu tinha uma obrigação a cumprir. Sabe o que foi feito da espada de Macsen?

Ele ergueu a mão num sinal que eu nunca vira. Mas eu sabia o que era: um sinal forte contra mágica forte. Resmungou consigo mesmo palavras que não entendi, depois dirigiu-se a mim, com voz rouca.

— Afinal, chegou. Louvados sejam Arawn, e Bilis, e Myrddin das alturas. Sabia que era coisa importante. Senti na minha pele, como se sente a chuva caindo. Então, é isto que procura, Myrddin Emrys?

— É isto que procuro. Estive no Oriente e lá me disseram que a espada, juntamente com parte do tesouro do Imperador, voltou para o Ocidente. Acho que fui guiado até aqui. Pode ajudar-me mais um pouco?

Fez que não com a cabeça, devagar.

— Não. Nada sei sobre isto. Mas há quem pode ajudá-lo, na floresta. A história vem passando de geração em geração. É só o que posso dizer.

— O seu bisavô não disse nada?

— Não disse isso. Vou contar-lhe o que ele disse. — Começou a usar a fala cantada dos contadores de história. Sabia que usaria as palavras exatas; essa gente passa a história de geração em geração com palavras imutáveis e precisas, como o relevo de uma taça. — A espada foi largada por um imperador morto, e será erguida por um vivo. Foi trazida para casa por água e por terra, com sangue e fogo, e por terra e por água voltará para casa, e ficará escondida na pedra flutuante até que seja erguida novamente pelo fogo. Só será erguida por um homem nascido legitimamente do sêmen da Inglaterra.

A fala cantada cessou. Os outros ao redor do fogo tinham parado a conversa para escutar; vi seus olhos brilharem e as suas mãos fazerem o sinal antigo. Llyd pigarreou, cuspiu de novo e disse, aspe­ramente:

— Isso é tudo. Eu disse que não o ajudaria.

— Se tiver de encontrar a espada, — repliquei — terei ajuda não tenha dúvida. E agora, sei que estou chegando perto. Onde a canção está, a espada não pode estar muito longe. E depois que a encontrar... Acho que sabe para onde vou.

— Para onde mais iria Myrddin Emrys, em segredo e no in­verno, senão para o lado do Príncipe?

Assenti.

— Ele está para além do seu território, Llyd, mas ao alcance dos olhos do seu povo. Sabe onde é?

— Não. Mas saberemos.

— Alegro-me que assim seja. Vigiem-me, se quiserem, e quando virem para onde eu vou, vigiem-no para mim. Este será um Rei, Llyd, que dispensará aos Antigos das colinas a mesma justiça que dispensará aos reis e bispos que se reúnem em Winchester.

— Nós o vigiaremos para você.

— Então, sigo para o norte, como pretendia, à espera de orien­tação. Agora, se me permite, gostaria de dormir.

— Estará em segurança — afirmou Llyd. — Com o romper da aurora, mostraremos o seu caminho.

 

O caminho que mostraram era um atalho, nem pior nem melhor que os outros que já seguira, porém, mais fácil de acompanhar gra­ças aos sinais secretos que me ensinaram, e mais curto que a própria estrada. Havia curvas súbitas e acesso a gargantas estreitas que, sem os sinais, eu nunca suspeitaria que dessem passagem. Ia seguindo por um desfiladeiro estreito e cheio de árvores, que aparentemente dava para uma parede sólida de montanha, com o som de uma tor­rente a ecoar pelas rochas; mas sempre, quando a alcançava, en­contrava a passagem, estreita e quase sempre perigosa, mas limpa' dando para uma fenda (até então) invisível na descida íngreme a frente. Assim viajei por mais dois dias, sem ver ninguém, descansando pouco, alimentando-se, e à égua, do que os Antigos me tinham dado.

Na manhã do terceiro dia, a égua perdeu uma ferradura. Por sorte, estávamos num trecho bom, uma extensão de pasto entre um vale e outro, deserto nesta época, fácil de trilhar. Desmontei e fui conduzindo Morango pela colina, olhando para os vales abaixo de mim para ver se via sinais de uma estrada, ou a fumaça de um povoado. Sabia mais ou menos onde estava; embora a neblina e as tempestades de neve obscurecessem os cumes mais altos, tinha divisado, por entre elas, o cimo branco da grande Colina de Neve que segura o céu de inverno. Já passara por aqui, pela estrada, e re­conheci a forma das colinas mais próximas. Tinha certeza de que não precisaria andar muito para achar uma estrada, e um ferreiro.

Pensara em remover as outras ferraduras de Morango, eu mesmo, mas a viagem tinha sido bem dura, e se ela não estivesse fer­rada, já estaria manca há muito. Além disso, estávamos ficando sem comida, e nada havia para achar pelos caminhos, por causa do in­verno. Era preciso correr o risco de ser visto e reconhecido.

Era um dia gélido e claro. Lá pelo meio-dia vi a fumaça da aldeia, e, alguns minutos depois, o brilho da água no vale lá embaixo. Fui descendo com a égua. Passávamos por sob carvalhos, aqui e ali, com seus ramos de folhas secas. Logo avistei, por entre os troncos nus, o brilho cinzento do rio deslizando entre as suas margens.

Bem acima dele, parei a égua no limiar do bosque de carvalhos. Nenhum movimento, nenhum som, só o rio barulhento, que abafava  até os latidos dos cachorros na aldeia.

Tinha certeza de não estar muito longe da estrada principal. Esperava encontrar um ferreiro na junção do rio com a estrada. Ge­ralmente, acha-se um onde o rio dá vau ou onde há uma ponte. Ficando por dentro do bosque de carvalhos, conduzi Morango, sua­vemente, para o norte.

Assim viajamos por mais uma hora, mais ou menos, até que o vale fez uma curva para o noroeste, e bem à minha frente, ligando-o a um vale vizinho, vi a faixa verde que indicava uma estrada. E pude ouvir, nitidamente, no silêncio do inverno, o ruído metálico de um malho.

Não vi sinal do povoado, mas o bosque era denso na junção da estrada com o rio, e eu sabia que qualquer aldeia por aqui seria levantada numa elevação para permitir que os homens se defendes­sem. O ferreiro, no seu estabelecimento solitário à beira da água, não precisava ter medo. Esses homens são sempre úteis, e não têm nada de valor, além de se cercarem de uma aura do temor que despertam os lugares onde estradas e águas se encontram.

O ferreiro podia passar por um dos Antigos. Era um homem pequeno e curvado pelo ofício, mas com ombros imensos, braços cheios de músculos, e cobertos com um pêlo grosso como o de um urso. As mãos, largas e riscadas, eram quase tão pretas quanto 0 cabelo.

Levantou os olhos do trabalho quando a minha sombra encheu o portal. Cumprimentei-o, prendi a égua numa argola perto da porta e sentei-me para esperar, gozando do calor do fogo, que um rapa­zinho de avental de couro abanava. O ferreiro respondeu ao meu cumprimento com um olhar vivo, depois, sem pausa no ritmo de tra­balho, voltou a malhar. Estava fazendo uma lâmina de arado. Com o chiar do vapor e a diminuição dos golpes, a lâmina foi-se acinzentando e esfriando, até ficar bem afiada. O ferreiro murmurou algo para o rapaz do fole, que deixou escapar o ar, e apanhando o balde de água, saiu da ferraria. O ferreiro largou o malho, ergueu-se e esti­cou-se. Pegou um odre de vinho pendurado na parede, bebeu e lim­pou a boca. Os olhos de perito percorreram a égua.

— Trouxe a ferradura? — Quase que esperava ouvi-lo falar no Velho Idioma, mas falou mesmo em galés. — Senão vai levar muito mais tempo do que gostaria de perder, garanto. Ou quer que remova as outras três?

Sorri um sorriso largo.

— E me pagará por elas?

— Eu o faria por nada — respondeu, com um sorriso de dentes pretos.

Entreguei-lhe a ferradura.

— Coloque-a novamente e ganhará um penny.

Pegou-a e examinou-a, revirando-a nas mãos calosas. Depois, assentiu, e pegou a pata da égua.

— Vai para longe?

Parte do pagamento de um ferreiro eram as novidades que o freguês trazia. Eu já esperava por isso, e tinha uma história pronta. Ele limava e escutava, enquanto a égua ficava entre nós, quieta, cabeça baixa e orelhas relaxadas. Daí a pouco chegou o rapazinho com um balde cheio que derramou na bacia. Demorara muito e resfolegava, como se tivesse corrido. Se prestei alguma atenção, foi para imaginar que, como todo garoto, demorara demais a cumprir a ordem e tivera que se apressar na volta. O ferreiro não fez comentários, rosnou para ele voltar ao fole, e logo o fogo crepitava, e a ferradura ficou vermelha em brasa.

Suponho que devia estar mais alerta, embora só de estar aqui já estivesse me arriscando muito. E havia uma chance de que os soldados à procura do cavaleiro na égua cor de morango não tivessem passado por aqui. Mas parece que tinham.

Com o barulho do forno e do malho, não escutei que se apro­ximavam, de repente vi as sombras entre mim e a porta, e os quatro homens que lá estavam, todos armados e com as armas à mão, como se estivessem perfeitamente preparados para usá-las. Dois tinham lanças, de fabricação caseira mas absolutamente mortíferas, um se­gurava uma faca de lenhador, com a lâmina afiada, capaz de pene­trar num tronco de carvalho, e o quarto segurava, com perícia, uma curta espada romana.

O último deles era o porta-voz. Saudou-me com educação, en­quanto o ferreiro parava de malhar e o garoto ficava olhando.

— Quem é você, e para onde vai?

Respondi no seu dialeto, sem sair de onde estava sentado.

— Meu nome é Emrys, e estou indo para o norte. Tive que me desviar do meu caminho porque, como vêem, a minha égua perdeu uma ferradura.

— De onde é você?

— Do sul, onde não mandamos homens armados contra os estranhos que passam por nossas aldeias. Do que têm medo, vindo assim, quatro contra um?

Ele resmungou qualquer coisa, e os dois homens com as lanças abaixaram-nas, arrastando os pés. Mas o espadachim continuou firme.

— Você fala a nossa língua bem demais para ser um estranho. Acho que é o homem que procuramos. Quem é?

— Não sou estranho para você, Brychan — respondi calma­mente. — Você arranjou esta espada em Kaerconan, ou nós a to­mamos quando desbaratamos as tropas de Vortigern na encruzilha­da perto de Bremia?

— Kaerconan? — Baixou a espada. — Você lutou lá, com Ambrósio?

— Estive lá, sim.

— E em Bremia? Com o Duque Gorlois? — A espada agora apontava para o chão. — Espere, disse que se chamava Emrys? Não é Myrddin Emrys, o profeta que ganhou a luta para nós, depois cui­dou dos nossos ferimentos? O filho de Ambrósio?

— O próprio.

Os homens da minha raça não dobram o joelho com facilidade, mais o ato de embainhar a espada e o sorriso de prazer, com os dentes pretos à mostra, representaram a mesma coisa.

Por todos os santos, é mesmo! Não o reconheci, senhor, guardem as armas, idiotas, não estão vendo que é um príncipe, a quem não podemos magoar?

— Não se pode culpá-los por não perceberem isso! — disse eu, rindo. — Agora não sou nem príncipe nem profeta, Brychan braud. Estou viajando em segredo, preciso de ajuda... e de si­lêncio.

— O senhor terá qualquer coisa que possamos dar, meu se­nhor. — Observou o meu olhar involuntário para o ferreiro e para o garoto atento, e acrescentou depressa: — Homem algum aqui dirá uma palavra, garanto-lhe. Nem o garoto, tampouco.

O garoto anuiu, engolindo em seco. O ferreiro falou, no seu jeito áspero:

— Se tivesse sabido quem o senhor era...

— Não teria mandado o garoto correr para a aldeia com as novidades? — perguntei. — Não tem importância. Se é leal ao Rei, como Brychan, posso confiar em você.

— Todos aqui somos leais ao Rei, — falou Brychan com aspe-reza — mas, se o senhor fosse o pior inimigo de Uther, em vez de filho do seu irmão e vencedor das suas batalhas, eu o ajudaria, como fariam os meus parentes e todos os homens dessas regiões. Quem foi que salvou esse meu braço, depois de Kaerconan? Foi graças ao senhor que pude erguer esta espada contra si, hoje. — Bateu no seu cabo. Eu me lembrava do braço; um machado saxão penetrara fundo, tirando uma fatia de músculo e expondo o osso. Eu costu­rara e tratara do braço; por artes da medicina, ou pela fé que Bry­chan tinha em qualquer coisa feita pelo "profeta do Rei", o braço sarara. Grande parte da sua força estava perdida, mas ainda servia-lhe. — Quanto aos demais, — terminou ele — todos somos leais. O senhor e seus segredos estão seguros aqui. Todos sabemos que o futuro do país está em suas mãos, Myrddin Emrys. Se soubéssemos que era o "viajante" que os soldados estavam procurando, nós os teríamos detido aqui até a sua chegada... e os mataríamos a um simples aceno seu. — Lançou um olhar feroz ao seu redor, e todos concordaram. Até o ferreiro resmungou em concordância, e baixou com força o malho, como se fosse um machado sobre o pescoço de um inimigo.

Expressei-lhes o meu agradecimento. Estivera por muito temp0 longe do interior; por muito tempo estivera conversando com esta­distas, senhores e "príncipes. Já estava pensando como eles. Não eram apenas os nobres e os reis guerreiros que poriam Artur no trono e ali o manteriam; o povo da Inglaterra também, enraizado na terra, tirando dela o seu sustento, como as árvores, o colocaria ali, e lu­taria por ele. Seria a fé de todo o povo, das terras altas e das baixas, que o faria Grande Rei de todos os reinos e ilhas, da maneira completa com que meu pai sonhara, mas que não conseguira alcançar no pouco tempo que lhe fora dado. Este também fora o sonho de Máximo, o quase imperador, que vira a Inglaterra como líder das nações que lutavam do mesmo modo contra o vento frio do norte. Olhei para Brychan, com o seu braço incapacitado, para os seus companheiros, homens pobres de uma aldeia pobre que defenderiam até morrer, para o ferreiro e seu garoto esfarrapado, e lembrei-me dos Antigos, fiéis ao passado e ao futuro nas suas cavernas frias, e pensei: desta vez será diferente. Macsen e Ambrósio tentaram pela força das armas, e lançaram as fundações. Agora, com a ajuda de Deus e do povo, Artur construirá o palácio. De repente, achei que era a hora de abandonar cortes e castelos e voltar às colinas. A ajuda viria das colinas.

Brychan estava falando de novo:

— Não quer vir conosco para a aldeia, senhor? Deixe o fer­reiro terminar com a égua, e venha até a minha casa, para descansar, comer e contar as novidades. Estamos todos ansiosos para saber por que os soldados estavam à sua procura, oferecendo dinheiro, nervosos como se um reino estivesse em jogo.

— E está. Mas não para o Grande Rei.

— Ah! Eles nos queriam fazer crer que eram tropas do Rei, mas logo vi que não eram. De quem eram, então?

— Servem a Urien de Gore.

Os homens se entreolharam. O olhar de Brychan brilhava de inteligência.

— Urien, é? E por que Urien pagaria por notícias do senhor? Ou talvez estivesse pagando por notícias do Príncipe Artur?

— São a mesma coisa — concordei. — Ou logo serão. Ele quer saber para onde me dirijo.

— Para poder segui-lo até o esconderijo do menino? Está bem. Mas que lucraria Urien de Gore? É um homem de pouca impor­tância, que não vai aumentar. Ou... espere, já sei. Seu cunhado, Lot de Lothian, lucraria, não?

— Acho que sim. Já me disseram que Urien obedece a Lot. Pode estar certo de que está trabalhando para ele.

Brychan anuiu, falando devagar:

— E o Rei Lot está noivo de uma dama que provavelmente será a Rainha, se Artur morrer... E ele está pagando para descobrir onde está o menino. Meu senhor, isto tudo cheira mal.

— Também acho. Podemos estar errados, Brychan, mas sinto nos ossos que estamos certos. E talvez haja outros, além de Lot

Urien. Esses homens foram os únicos? Não passaram por aqui de Cornwall?

— Não, meu senhor. Fique descansado, se aparecerem outros não serão ajudados. — Deu uma risada curta. — Acredito mais nos seus ossos que na palavra de honra de muita gente. Tomaremos conta para que nenhum perigo o persiga até chegar ao principezinho... Se seguir algum perseguidor em Gwynedd, perderá o rastro, como acontece com o faro de um animal quando encontra água. Confie em nós, meu senhor. Somos leais ao senhor, como fomos ao seu pai. Nada sabemos desse príncipe que guarda para nós, mas se é seu, e nos diz para segui-lo e servi-lo, então, Myrddin Emrys, seremos leais a ele enquanto conseguirmos segurar espadas. É uma promessa, que por sua causa fazemos.

— Então, eu a aceitarei em nome dele, e agradeço-lhe. — Fi­quei de pé. — Brychan, seria melhor que não fosse à aldeia com você, mas há algo que pode fazer por mim, se quiser. Preciso de comida para os próximos dias, vinho para a minha garrafa, forragem para a égua. Tenho dinheiro. Pode providenciar isto para mim?

— Com facilidade, e pode guardar o dinheiro. O senhor aceitou o meu dinheiro quando curou o meu braço? Dê-nos uma hora, e traremos o que pediu, em segredo. O garoto virá conosco... o pessoal já está acostumado a vê-lo trazer provisões para a ferraria. Ele trará o que for preciso.

Agradeci de novo e conversamos ainda algum tempo, e contei as novidades do sul; depois, despediram-se. Nunca, em época alguma, nenhum deles (nem o garoto) contou a ninguém sobre a minha visita.

O garoto ainda não regressara quando o ferreiro terminou com a égua. Paguei-lhe e e1ogiei o seu trabalho. Ele aceitou como se lhe fosse devido, e, embora deva ter escutado tudo que Brychan e eu conversamos, não se mostrou impressionado por mim. Aliás, nunca achei que um homem hábil na sua ocupação, e cercado pelos ins­trumentos do seu ofício, devesse ficar impressionado por príncipes. As suas ocupações diferem, só isso.

— Para onde o senhor vai? — perguntou-me. Como eu hesi­tasse: — Não precisa ter medo de mim. Se Brychan e seus irmãos podem ficar calados, eu também posso. Trabalho para todos os ho­mens que usam a estrada, e não sou mais leal ao Rei do que qual­quer outro ferreiro que trabalhe perto de uma estrada, mas fale1 com Ambrósio uma vez. E o avô do meu avô ferrou os cavalos do próprio Imperador Máximo. — Enganou-se no motivo que causou a expressão do meu rosto. — É, pode ficar espantado. Faz muito tem­po. Mas meu avô me contou que esta bigorna passou de pai para filho desde tempos imemoriais. Dizem por aí que o primeiro ferreiro que se instalou aqui aprendeu o seu ofício com o próprio ferreiro Weland. Então, quem mais o Imperador procuraria? Olhe.

Apontou para a porta, que estava escancarada, contra a parede. Era de carvalho, parecia prata polida, o tempo e o clima deram-lhe a cor de osso, com malhas e ondulações como água cinzenta. De um gancho próximo pendia uma sacola de pregos de ferro, e um su­porte com ferros de marcar. Por toda a superfície sedosa da porta estavam as cicatrizes das marcas, que as gerações de ferreiros tinham testado.

Um A chamou-me a atenção, mas a marca era nova, ainda cha­muscada e preta. Abaixo e por baixo dela, havia um sinal que pare­cia uma ave voando; depois uma flecha, um olho, um ou dois de­senhos toscos feitos com metal em brasa pelos que matavam o tempo à espera de um serviço por terminar. Mas, num canto, distante dos demais, bem desbotadas, estavam as letras M. I. Abaixo delas uma marca profunda na madeira da porta, uma meia-lua com marcas de pregos. Era para isso que o ferreiro apontava.

— Dizem que é coice do garanhão do Imperador, mas não creio. Quando eu e os meus lidamos com um cavalo, mesmo que seja o mais selvagem, vindo das colinas, ele não escoiceia. Mas aquela, lá em cima, é verdadeira. A marca foi feita aqui, para os cavalos que Macsen Wledig levou quando foi matar o Rei de Roma.

— Ferreiro, — disse eu — esta é a única parte da sua lenda que é falsa. O Rei de Roma matou Máximo, e tomou-lhe a espada. Mas os homens de Gales a trouxeram de volta para a Inglaterra, A espada também foi feita aqui?

Demorou muito a responder e meu coração disparou enquanto esperava. Afinal respondeu, relutantemente:

— Se foi, eu nunca soube. — Obviamente, custou-lhe não au­mentar os méritos da ferraria, mas disse a verdade.

— Disseram-me — continuei — que na floresta existe um ho­mem que sabe onde está escondida a espada do Imperador. Você já ouviu falar nisso, sabe onde posso encontrá-lo?

— Não. Como saberia? Dizem que muito para o norte existe um homem santo que sabe de tudo. Mas ele mora ao norte de Deva, em outro território.

— É para onde eu ia — expliquei. — Vou procurá-lo.

— Pois se não quiser encontrar aqueles soldados, não vá pela estrada. Seis milhas para o norte há uma encruzilhada, onde a estrada para Segontium se dirige para o oeste. Ao sair, siga o rio, que o  levará direto até onde há a encruzilhada com a estrada para o este...

Mas não quero ir para Segontium. Se me afastar muito para o este...

— Deixe o rio quando ele se encontrar com a estrada de novo Saindo do vau há uma trilha que entra pela floresta, por entre aze-vinhos, e que depois fica fácil de seguir. O senhor irá para o norte sem avistar estrada alguma até chegar a Deva. Se perguntar ao bar-queiro dali pelo homem santo da Floresta Agreste, ele indicará o caminho. Siga o rio. É uma boa trilha, impossível de não achar.

Já cheguei à conclusão de que as pessoas só dizem isto quando há grande possibilidade de não se achar. Contudo, fiquei quieto, e o garoto, que chegava naquele momento com as provisões, ajudou-me a arrumá-las. Enquanto o fazíamos, sussurrou:

— Escutei o que ele disse, senhor. Não ligue para ele. A trilha é ruim e o rio está cheio. Vá pela estrada.

Agradeci e dei-lhe uma moeda pelo seu trabalho. Voltou ao seu fole, e virei-me para me despedir do ferreiro, que desaparecera num recesso escuro nos fundos da ferraria. Escutei o barulho do metal e o seu assobio, por entre dentes quebrados. Gritei:

— Já vou indo. Muito obrigado. — Prendi a respiração. Na confusão escura atrás da chaminé, as chamas tinham iluminado um novo rosto.

Um rosto de pedra; um rosto familiar, que já se encontrara em todas as encruzilhadas. Um dos primeiros Antigos, o deus das an­danças, o outro Myrddin, que se chamava Mercúrio, ou Hermes, se­nhor das estradas altas e condutor da serpente sagrada. Como eu nascera em setembro, ele era meu. Estava ali, agora, o velho Herm que antigamente ficava lá fora olhando os transeuntes, com a cabeça encostada na parede, o musgo e o limo que o cobriam já secos, cinzentos. Reconheci o rosto entalhado, a cara chata debruada de barba, os olhos ovais e saltados, como uvas, as mãos dadas por sobre a barriga, os órgãos genitais, outrora salientes, esmagados e muti­lados.

— Se soubesse que estava aí, Antigo, — falei — teria derramado vinho para você.

O ferreiro reaparecera, junto ao meu cotovelo.

— Ele recebe as suas rações, não se preocupe. Ninguém que trabalha para as estradas o negligenciaria.

— Por que o trouxe para dentro?

— O lugar dele não era aqui. Ficava no vau do rio de que lhe falei, onde a trilha que chamam de Caminho de Elen cruzava o rio Seint. Quando os romanos construíram a estrada nova para Segontium, puseram a estação de sentinelas bem na frente dele. Então, veio para cá, nunca soube como.

Falei, vagarosamente:

— No vau de que me falou? Então, é preciso mesmo que eu vá por ali. — Acenei para o ferreiro, saudei o deus. — Acompanhe-me — pedi — e ajude-me a achar o caminho... que é impos­sível não achar.

 

Ele acompanhou-me durante a primeira parte do caminho; en­quanto a trilha seguia o rio, não havia problemas. Mas lá para o fim da tarde, quando o sol nublado de inverno ia-se pondo, uma névoa baixa começou a cobrir o rio, transformando-se, com o escure­cer, numa neblina úmida e compacta. Era possível seguir o som do rio, embora a gente se enganasse, pois às vezes ele parecia alto e próximo, às vezes abafado e distante, por entre a neblina; mas, às vezes, o rio fazia uma curva que a trilha não acompanhava de perto e, desse modo, por .duas vezes eu me perdi, embrenhando-me na flo­resta, sem sinal ou barulho de rio. Finalmente, perdido pela terceira vez, larguei as rédeas e deixei que Morango buscasse o caminho, refletindo na ironia da situação. Se tivesse preferido a estrada, esta­ria perfeitamente seguro, pois escutaria se os soldados se aproxi­massem, e me ocultaria deles facilmente na floresta densa de ne­blina.

Devia haver uma lua acima da neblina baixa. Esta parecia nuvens iluminadas, não sólidas, mas com rios de vapor com trevas pelo meio, tufos de uma coisa pálida que grudava nas árvores como neve. Por entre ela, escondidas e descobertas, as árvores nuas entre­laçavam no alto os seus ramos. O chão da floresta parecia um es­pesso e silencioso tapete de veludo.

Morango continuava, sem hesitar, seguindo uma trilha invisível aos meus olhos, ou o seu próprio instinto. Aqui e ali erguia as orelhas, por algum motivo que eu não via nem ouvia, e certa vez parou e jogou a cabeça para o lado como se fosse recuar, mas antes que eu pegasse as rédeas de novo, relaxou-se e apressou o passo pelo ca­minho da sua escolha. Deixei-a em paz. O que quer que passasse por nós no silêncio da neblina não nos faria mal. Se era este o caminho (e estava certo de que era) estávamos protegidos.

Uma hora depois do anoitecer, a égua saiu do meio das árvores, caminhou cerca de cem passos em terra plana, e parou em frente a um quadrado escuro que só podia ser uma construção. Havia um bebedouro do lado de fora. Ela abaixou a cabeça, resfolegou, e co­meçou a beber.

Desmontei e abri a porta da casa. Era a estação de sentinelas e que me falara o ferreiro, vazia e meio abandonada, mas, aparen­temente, ainda utilizada por viajantes como eu. Num canto, uma pilha 'e achas chamuscadas indicava onde fora feito um fogo recentemente  e, noutro, havia uma cama feita de tábuas limpas postas sobre pedras, para evitar a friagem. Não era grande conforto, mas melhor do que muitos que eu tivera. Adormeci logo, ao som da mastigação de Morango, e dormi um sono profundo e sem sonhos até de manhã.

 

Quando acordei, de madrugada, o sol ainda não estava de fora. A égua dormitava no seu canto, relaxada. Fui ao bebedouro buscar água para lavar-me.

A névoa se fora, junto com o ar agradável. O chão estava co­berto de geada. Olhei ao meu redor.

A estação de sentinelas ficava um pouco afastada da estrada, que cortava a floresta em linha reta do leste para o oeste. Os ro­manos limparam a floresta quando fizeram a estrada, as árvores fo­ram abatidas e a vegetação rasteira ceifada por cerca de cem passos, dos dois lados do caminho pavimentado. Mas, agora, rebentos já brotavam e a vegetação rasteira era abundante; contudo, de onde eu estava, achei que vislumbrava o traçado da velha trilha que aí existia antes da chegada dos romanos. O rio, macio e tranqüilo, deslizava por cima das ruínas do caminho que cortava a estrada, através dele. Mais para longe, no limiar da terra desbastada, pude ver, escuros contra os troncos cinzentos dos carvalhos, os azevinhos que mar­cavam a minha trilha para o norte.

Satisfeito, quebrei a crosta de gelo que se formara sobre a água do bebedouro e lavei-me. Enquanto isso, às minhas costas, o sol apareceu por entre as árvores, no vermelho de uma madrugada fria. Sombras cresciam e se aprofundavam, listrando a grama dura. A geada brilhava. A luz aumentou, como a fogueira do ferreiro quando o fole soprava. Quando me virei, o sol, baixo e ofuscante, cegou os meus olhos. As árvores nuas destacavam-se pretas contra um céu que parecia um fogo florestal. O rio corria, derretido.

Havia algo entre mim e o rio, uma forma alta, maciça, contudo irreal contra o vermelho, enfiada nos arbustos na beira da estrada. Algo familiar, mas familiar noutro cenário, de escuridão, lugares estranhos e deuses estrangeiros. Uma pedra ereta.

Por um breve momento pensei ainda estar dormindo, e sonhan­do de novo. Ergui um braço para me proteger da luz e apertei os olhos, espiando.

O sol passou a copa das árvores. A sombra da floresta afastou-se. A pedra destacava-se contra a geada reluzente.

Afinal, não era uma pedra ereta. Nada de estranho, ou fora de lugar. Era um simples marco, talvez um pouco maior que o comum com a inscrição de costume para um imperador, e, por baixo, esta mensagem: A. SEGONTIO. M. P. XXII.

Quando me aproximei, vi a razão da sua altura: em vez de estar enfiada na relva, fora colocada em cima de um plinto quadrado de pedra. Uma pedra diferente. O plinto onde ficara o Herm? Afastei a grama coberta de geada. A luz do sol atingiu a pedra, mostrando uma marca que podia ser uma flecha. Então, vi o que era: os restos de uma inscrição antiga, letras borradas e gastas, parecendo uma fle­cha, cuja ponta indicava o oeste.

Afinal, pensei, por que não? Os sinais eram simples, mas as mensagens nem sempre vêm dos deuses para lá das estrelas. Meu deus já me falara de maneiras singelas como esta, e, ontem mesmo, eu dissera a mim mesmo que procurasse as coisas do poder no alto e no baixo. E aqui estavam: uma ferradura perdida, uma palavra de um ferreiro qualquer, uns riscos numa pedra. . . Tudo conspirava para me afastar da direção norte, e fazer com que eu seguisse para o oeste, para Segontium. Afinal, pensei de novo, por que não? Tal­vez a espada tivesse sido mesmo forjada naquela ferraria, tempera­da no Rio Seint, e depois da sua morte eles a levaram para a terra da sua mulher, onde ela ainda vivia com o seu filho pequeno. Em algum lugar de Segontium, a Caer Seint de Macsen Wledig, a Espada Real da Inglaterra, podia estar, esperando ser erguida em fogo.

 

Fiquei numa estalagem confortável em Segontium, no limiar da cidade, sem dar para a estrada principal. Havia alguns hóspedes, mas, de um modo geral, servia comida e bebida aos habitantes da locali­dade que iam ao mercado, ou que levavam mercadorias para o porto.

O lugar conhecera melhores dias, tendo sido construído para atender aos soldados do enorme quartel acima da cidade. Devia ter uns duzentos anos de existência; fora bem construído, em pedra, com  excelente aposento, quase um átrio, em que havia uma enorme lareira e cujo teto era cruzado por vigas de carvalho, sólidas como ferro. Ainda havia restos de bancos e mesas, manchados e queimados, e ali cortados pelos punhais de legionários bêbedos, que entalharam os seus nomes e outras coisas menos respeitáveis. Era um milagre que ainda restasse alguma coisa: um bocado da pedra fora roubada, e pelo menos uma vez a estalagem fora incendiada por invasores da Irlanda; só havia agora a parede de pedra do átrio, e as vigas escurecidas sustentavam um teto de palha, em vez de telhas A cozinha era um simples alpendre de vime mal pintado atrás da grande lareira.

Mas um fogo grande crepitava, havia um cheiro de boa cer­veja e de pão assando no forno lá fora; e um barraco com acomo­dação e forragem para a égua. Providenciei para que ela estivesse aquecida, limpa e alimentada, antes de entrar na estalagem para pedir uma cama e uma refeição para mim.

Nessa época do ano o porto estava praticamente fechado, havia poucos viajantes nas estradas e os homens não ficavam bebendo até tarde na rua, mas iam para casa dormir logo que escurecia. Nin­guém me olhou com curiosidade, ou fez perguntas. A estalagem ficou calma cedo, e eu fui para a cama e dormi profundamente.

A manhã estava bonita, um dos dias claros que dezembro às vezes joga, como ouro, entre as moedas de chumbo do inverno. To­mei cedo o desjejum, fui ver a égua, deixei-a descansando e saí a pé.

Virei para o leste, afastando-me da cidade e do porto, e seguin­do pela margem do rio onde encontrei, numa elevação a meia milha da cidade, o que restava da fortaleza romana de Segontium. A Torre de Macsen fica do lado de fora, descendo a colina. Aqui ficaram os homens do Grande Rei Vortigern quando o meu avô, o Rei de Gales do Sul, chegou de Maridunum com a sua comitiva para falar com ele. Eu, um garoto de doze anos, acompanhara-os, e foi nessa viagem que descobri pela primeira vez que os sonhos da gruta de cristal eram reais. Aqui, neste recanto quieto e selvagem do mundo, senti o poder pela primeira vez, e descobri que era vidente.

Aquela também fora uma viagem de inverno. Enquanto subia o caminho coberto de ervas daninhas que levava ao portão, no meio das torres desmoronadas, tentei rememorar as cores de capas e flâmulas e armas brilhantes, onde só havia agora, nas sombras azuis da manhã, a geada sem marcas.

As edificações estavam desertas. Aqui e ali, na alvenaria nua e caída, as marcas negras do fogo contavam a história. Via-se onde os homens arrancaram as pedras grandes, até da pavimentação das ruas para levá-las para as suas próprias construções. Cardos secos en­chiam os vãos das janelas e árvores pequenas cresciam nas paredes. Havia um poço, entupido de cascalho. As cisternas transbordavam com água das chuvas, que desciam pelos sulcos das beiradas onde os homens afiavam as espadas. Não, nada havia para ver. Nem fantas­mas havia. O sol de inverno brilhava sobre uma imensidão inútil e desmoronada. O silêncio era completo.

Lembro-me que, enquanto caminhava pelas cascas dos edifícios, estava pensando não no passado, nem da minha tarefa atual, mas, de um modo prático, como engenheiro de Ambrósio, do futuro. Estava avaliando o lugar como fazíamos Tremorinus, o engenheiro-chefe, e eu; mudando aqui, consertando ali, refazendo as torres, abandonando os blocos do nordeste para aproveitar os do oeste e sul.. . Sim, se al­guma vez Artur precisar de Segontium...

Chegara ao cimo da elevação, o centro do forte, onde ficava a casa do comandante (a casa de Máximo). Estava tão abandonada quanto o resto. A porta grande pendia de dobradiças podres, o caixilho estava quebrado e dependurado, e o lugar era perigoso. Entrei com cuidado. A luz entrava pelos buracos do teto no aposento prin­cipal, e pilhas de seixos quase escondiam as paredes, com a sua pintura descascada e escurecida pela umidade. Na obscuridade distingui uma mesa (pesada demais para retirar, difícil de cortar para lenha), e, por trás dela, tiras de couro penduradas na parede. Um general já se sentou aqui, planejando conquistar Roma, como Roma conquistara a Inglaterra. Falhou, e morreu, mas o seu fracasso dei­xara sementes que outro rei apanhara.

— Será um só país, um reino por si mesmo, — dissera o meu pai — não apenas uma província de Roma. Roma está indo, mas nós, ao menos por algum tempo, podemos ficar.

E veio a lembrança de outra voz, a voz do profeta que às vezes falava através de mim:

— E os reinos serão um Reino, e os deuses um só Deus. Seria a hora de escutar de novo essas vozes fantasmagóricas, quando de novo um general se sentasse ali. Voltei à claridade tran­qüila. Onde estaria, nesta terra abandonada, o fim da minha pro­cura?

Daqui dava para ver-se o mar, as casas pequenas do porto, e, do outro lado, a ilha de druidas que tem o nome de Mona, ou Von, e que o povo chama de Caer-y-n'ar Von. Do outro lado, às minhas costas, ficava a Colina de Neve, Y Wyddfa, onde um homem veria os deuses caminhando, se conseguisse subir e viver nas neves. De encontro a essa neve distante, destacavam-se as ruínas da Torre de Macsen. E, subitamente, vi as coisas de novo ângulo. A torre do meu sonho; a torre no quadro da parede de Ahdjan... Deixei rapidamente a casa do comandante e cruzei o portão da fortaleza na sua direção.

Ficava no meio de um monte de pedras caídas, mas eu sabia que ali perto, enfiada num cantinho do vale próximo ao portão, e dando quase que diretamente sob a torre, ficava o templo de Mitras; e meus pés se dirigiram, sem que os pudesse controlar, para a trilha que levava à porta do Mithraeum.

Havia degraus, rachados e escorregadios. No meio da descida, Um degrau se erguia verticalmente, quase impedindo a passagem, e, no fim, havia um monte de lama e cacos, cobertos da sujeira ri ratos e cães vadios. O lugar fedia a umidade e sujeira, e, talvez a sangue derramado. Na parede estragada acima dos degraus, a pedra fora clareada pelas aves que se empoleiraram nela; o estéreo já se cobria de limo. Um poleiro de gralha? Um corvo de Mitras? Uma ave de rapina? Segui com cuidado pelas lajes limosas e parei no portal do templo.

Estava escuro, mas um pouco da luz do sol me seguira, e ha­via um buraco aberto no teto, por onde entrava alguma luz, e pude enxergar um pouco. O templo estava tão imundo e abandonado quanto as escadas que levavam a ele. Só a força do teto abobadado impedira o lugar de desmoronar sob o peso da colina acima dele. O mobiliário já desaparecera, os braseiros, os bancos, as estátuas; tal qual as ruínas lá em cima, esta era uma casca sem ocupantes. Os quatro altares menores estavam quebrados e destruídos, mas o altar central estava lá, fixo e maciço, com a sua dedicatória enta­lhada, MITHRAE INVICTO, mas, acima do altar, na abside, ma­chado, martelo e fogo tinham apagado a história do touro e dos deus conquistador. Tudo que restava da figura da morte do touro era um pedaço de trigo, lá num cantinho, o entalhe vivido e novo, miraculosamente preservado. O ar me doía nos pulmões, acre com o cheiro de algum fungo.

Pareceu-me apropriado fazer uma oração para o deus que se fora. Falei alto, e o eco da minha voz voltou, não como eco, mas como resposta. Estava enganado. O lugar ainda não estava vazio. Fora um lugar santo, e a santidade fora arrancada; mas algo ainda se prendia àquele altar frio. O cheiro acre não era de um fungo. Era de incenso apagado, de cinzas frias, de orações reprimidas.

Eu já fora seu servo. Aqui só havia eu. Caminhei devagar para o centro do templo, e estendi as minhas mãos abertas.

Luz, cor e fogo. Túnicas brancas e cantos. Chamas que subiam como sopros de luz. O berro de um touro moribundo e o cheiro de sangue. Lá fora, o sol quente e uma cidade alegre a receber o seu novo rei, e o som de risos e de pés a marchar. À minha volta o incenso pesado e doce, e uma voz que falava, através disso tudo, calma e suave:

— Derrube o meu altar. Já é hora de derrubá-lo.

Eu estava tossindo, e o ar à minha volta estava grosso de poeira, e o barulho do estrondo ainda ecoando pelas paredes do quarto abobadado. O ar tremia e tinia. Aos meus pés estava o altar, jogado de costas sob a curva da abside.

Eu fitava, ainda tonto e com a visão turva, o buraco que ele abrira no chão. O eco cantava na minha cabeça; as minhas mãos, estendidas duras para a frente, estavam imundas, com um corte san­grento numa delas. O altar era pesado, de pedra maciça, e nunca, no meu juízo perfeito, teria posto as mãos nele; mas aqui estava ele, aos meus pés, com o eco da sua queda morrendo no teto, seguido do murmúrio da alvenaria que se acomodava, quando a pavimenta­ção desmoronada começou a deslizar para o buraco onde antes fi­cava o altar.

Havia algo nas profundezas do buraco; uma beirada dura e reta, um canto nítido demais para ser de pedra. Uma caixa. Ajoe­lhei-me para pegá-la.

Era de metal, muito pesada, mas a tampa ergueu-se com faci­lidade. Quem a enterrara preferiu confiar na proteção do deus, e não numa fechadura. Dentro dela, as minhas mãos encontraram uma lona podre, que se rasgou; por baixo dela, um invólucro de couro. Algo longo, esguio e flexível; aqui estava, finalmente. Removi o invólucro, suavemente, e segurei a espada nas mãos.

Há cem anos tinham-na colocado ali aqueles homens que re­tornaram de Roma. Ela brilhava nas minhas mãos, reluzente, pe­rigosa e bonita como no dia em que fora feita. Era por isso, pensei, que nesses cem anos tinha-se tornado uma coisa lendária. Era fácil acreditar que o velho ferreiro Weland, que já era velho antes de os romanos chegarem, tivesse feito esta última peça antes de desapa­recer, junto com os outros deuses pequenos dos bosques, regatos e rios, nas colinas enevoadas, deixando os vales populosos para os deuses brilhantes do Mar do Meio. Podia sentir o poder da espada percorrendo as minhas palmas, como se as estivesse colocando dentro da água atingida por um raio. "Aquele que tirar esta espada de sob esta pedra é o Rei legítimo de toda a Inglaterra..." As palavras soavam claras como se fossem faladas, nítidas como se estivessem gravadas no metal. Eu, Merlin, único filho de Ambrósio Rei, tirara espada da pedra. Eu, que nunca dera ordens numa batalha, nem comandara uma tropa; que não cavalgava um garanhão, mas sim um animal castrado ou uma égua. Eu, que nunca possuíra uma mulher. Eu, que não era um homem, e sim olhos e voz. Um espírito, dissera eu certa vez, uma palavra. Nada mais.

A espada não era para mim. Ela teria que esperar. Enrolei de novo a bela espada nos seus envoltórios sujos e ajoelhei-me para recolocá-la no lugar. Notei que a caixa estava mais ferrada do que eu supunha, e que havia outros objetos dentro dela.

A lona apodrecida deixava ver a forma de uma taça de boca larga como as que vira nas minhas andanças para leste de Roma, brilhando na obscuridade. Parecia de ouro avermelhado, incrustada de esme­ralda. Ao seu lado, semi-embrulhada, reluzia uma cabeça de lança A beira de um prato aparecia, coberta de safiras e ametistas.

Inclinei-me para colocar a espada no lugar. Antes que pudesse fazê-lo, subitamente, a tampa da caixa caiu, com estrondo. O ba­rulho despertou novamente os ecos, e produziu uma cascata de pedras vindas da abside e das paredes destruídas. Aconteceu tão depressa que, em um minuto, a caixa e o buraco tinham desaparecido sob o cascalho.

Fiquei ali, ajoelhado, sufocado pela nuvem de poeira, com a espada embrulhada presa nas mãos sujas e ensangüentadas. O resto do entalhe tinha desaparecido da abside. Era só uma parede curva e nua, como a parede de uma gruta.

 

O barqueiro do Deva conhecia o homem santo de quem o fer­reiro falara. Parece que morava nas colinas acima da fortaleza de Ector, no limiar da grande extensão de terra montanhosa que cha­mam de Floresta Agreste. Embora eu achasse que já não necessitava da orientação do ermitão, não faria mal conversar com ele, e a sua ceia (uma capela, disse o barqueiro) ficava no meu caminho, e ele talvez me hospedasse até eu achar a melhor maneira de apresentar-me no castelo de Ector.

Quer fosse porque a posse da espada trazia poder, quer não, o fato é que viajei rápida e facilmente, sem mais sustos. Uma semana depois de ter deixado Segontium, a égua e eu íamos tranqüilos pela margem verde de um lago calmo e largo, dirigindo-nos para uma luz pálida que se destacava no crepúsculo, alta como uma estrela entre as árvores da outra margem.

Demos uma longa volta ao redor do lago, e já era noite escura quando a égua, cansada, chegou a uma clareira e avistei, contra a escuridão macia e viva da floresta, a cunha do teto da capela.

Era um edifício pequeno e oblongo encostado às árvores, do outro lado de uma grande clareira. Os pinheiros formavam uma parede alta e escura, o céu era um teto de estrelas, e, para alem dos pinheiros, por todos os lados, via-se o brilho dos cumes cobertos de neve, que cercavam este nicho nas colinas. Num dos lados da clareira, numa bacia de rocha musgosa, havia um laguinho parado escuro; uma daquelas fontes que afloram silenciosamente, renovando-se sempre sem fazer ruído. O ar estava tremendamente frio e com cheiro de pinheiros.

Degraus quebrados e cobertos de musgo levavam à porta da capela. Ela estava aberta, e lá dentro havia luz. Desmontei e segui com a égua. Ela bateu com o casco numa pedra, fazendo barulho. Quem quer que morasse neste lugar solitário devia ter vindo investigar, mas não houve nenhum som, nenhum movimento. A floresta estava parada. Lá em cima, as estrelas pareciam mover-se e respirar, como fazem no ar invernal. Retirei a cabeçada da égua e deixei-a bebendo no poço. Embrulhei-me na minha capa, subi os degraus musgosos e entrei na capela.

Era pequena, oblonga e com um teto alto; uma construção es­tranha para encontrar-se no coração da floresta, onde o mais pro­vável era achar uma cabana mal feita, ou uma gruta, ou uma habi­tação feita entre as pedras. Mas, esta fora construída como santuário, um lugar santo para servir de moradia para um deus. O chão era de lajes de pedra, limpas e inteiras. No centro, em oposição à porta, ficava o altar, atrás do qual havia uma cortina grossa de material trabalhado. O altar estava coberto por um pano grosseiro e limpo, em cima do qual estava o lampião aceso, de fabricação caseira, mas que proporcionava uma luz forte e firme. Fora enchido com óleo recentemente, e o pavio estava aparado e não fumegava. Perto do altar, no degrau, havia uma tigela de pedra, das que são usadas para sacrifícios; fora muito bem areada, e continha água doce. Do outro lado, havia um pote tampado de metal escuro, furado, do tipo que os cristãos usam para queimar incenso. O ar da capela ainda guardava, muito de leve, o cheiro adocicado. Três candeias de bron­ze, de três braços, jaziam apagadas de encontro à parede.

O resto da capela estava vazio. Quem a conservava, quem acendera o lampião e queimara o incenso, dormia noutro lugar.

Gritei:

— Há alguém aqui? — e esperei que os ecos subissem até o teto e morressem. Nenhuma resposta.

Meu punhal estava na mão; fora parar ali sem que eu tivesse consciência disso. Já me encontrara nessa espécie de situação, e ela significava uma única coisa; mas isso fora na época de Vortigern, na época do Lobo. Um homem como esse ermitão, morando sozinho num  lugar solitário, confiava na proteção desse lugar, do deus e da sua santidade. Devia bastar, e bastava no tempo do meu pai. Mas as coisas tinham mudado nos poucos anos desde a sua morte. Uther não era nenhum Vortigern, mas, às vezes, parecia que estávamos voltando aos tempos do Lobo. Os tempos eram selvagens e violentos repletos de alarmas de guerra; porém, mais que isso, religiões è lealdades mudavam com tanta rapidez que mal se podia acompanhar Havia homens que não hesitariam em matar em cima de um altar Mas eu não imaginava que eles existissem em Rheged, quando o escolhi para refúgio de Artur.

Tive uma idéia; dei a volta no altar e afastei a cortina. Estava certo; havia um lugar atrás da cortina, um cantinho semicircular que era usado como depósito; a luz do lampião mostrava um amon­toado de banquinhos, vidros de óleo e vasilhas sagradas. Nos fundos uma portinha estreita fora aberta na parede.

Entrei. Aqui, obviamente, morava o encarregado do lugar. Um quarto pequeno e quadrado fora construído no final da capela, com uma janela baixa e reentrante, e outra porta que dava, presumivel­mente, para a floresta. Fui tateando na escuridão e empurrei a porta. Lá fora, a luz das estrelas mostrava o muro de pinheiros próximos, e, num canto, um alpendre onde estava estocado combustível. Nada mais.

Deixando a porta escancarada, observei o quarto. Uma cama de madeira onde se empilhavam peles e cobertores, um banquinho, uma mesa pequena com um copo e um prato contendo os restos de uma refeição comida pela metade. Peguei o copo; estava cheio pelo meio de vinho fraco. Em cima da mesa uma vela queimara até o fim. O cheiro da vela ainda estava no ar, misturado ao do vinho e ao das cinzas na lareira. Toquei o sebo da vela; ainda estava mole.

Voltei à capela. Fiquei perto do altar e chamei de novo. Havia duas janelas altas na parede, uma de cada lado; davam para a flo­resta, e não tinham vidros. Se ele não estivesse muito longe, na certa me ouviria. Mas, novamente, não houve resposta.

E então, grande e silenciosa como um fantasma, uma grande coruja branca entrou pela janela e passou em frente à luz. Vi o bico cruel, as asas macias, os olhos grandes, cegos e sábios, e ela sumiu, silenciosa como um espírito. Era apenas a dillyan wen, a coruja branca que assombra todas as torres e ruínas da região, mas a minha pele ficou arrepiada. Do lado de fora veio o pio da coruja, longo, triste, terrível, e, em seguida, como um eco, o som de um homem gemendo.

Sem os gemidos eu só o teria encontrado de dia. Sua roupa e seu capuz eram pretos, e estava de cara para baixo sob as árvores do limiar da clareira, para além da fonte. A jarra que caíra da sua mão mostrava o que ele tinha ido fazer. Abaixei-me e virei-o com cuidado.

Era um velho, magro e frágil, com ossos quebradiços como os de um passarinho. Verifiquei que não havia nenhum quebrado e carreguei-o nos braços para dentro. Tinha os olhos semi-abertos mas estava inconsciente; um dos lados do seu rosto estava repuxado' como se o artesão tivesse passado a mão no barro, de repente bor­rando o contorno. Coloquei-o na cama, bem agasalhado. Havia gra­vetos perto da lareira, e uma pedra entre as cinzas. Trouxe mais combustível, acendi o fogo, e quando a pedra estava quente tirei-a enrolei-a num pano e coloquei-a aos pés do velho. Nada mais podia fazer por ele, no momento, então fui espiar se a égua estava bem preparei uma refeição para mim, e acomodei-me perto do fogo Dará ficar de vigília.

 

Cuidei dele durante quatro dias, e ninguém apareceu, salvo as criaturas da floresta e os veados selvagens, e, à noite, a coruja branca que parecia estar esperando para levar o seu espírito para casa.

Não pensei que fosse ficar bom; o rosto estava encovado e acinzentado, com a coloração azul ao redor da boca que têm os mori­bundos. Às vezes ficava quase consciente, parecia saber que eu esta­va ao seu lado. Então ficava inquieto, preocupado, achava eu, com o santuário. Procurava falar com ele e acalmá-lo, mas parecia não entender, então eu afastava as cortinas que separavam o quarto do santuário, para que visse a lamparina acesa sobre o altar.

Foi uma época estranha para mim, de dia cuidando da capela e do seu guardião, de noite tirando cochilos e vigiando o doente, esperando que os seus resmungos fizessem sentido. Havia um pe­queno estoque de comida e vinho no local e, com a carne-seca e as passas que trouxera, eu estava bem de provisões. O velho se ali­mentava de vinho morno misturado com água e de um tônico que eu preparara para ele com os remédios que trazia.

Não ousava abandonar o local para pedir ajuda ou para procurar mais comida. Havia o bastante para mim, e o velho mal podia engolir. Todas as manhãs ficava admirado de ver que ele ainda sobrevivia. Assim fiquei, cuidando do lugar durante o dia, e, à noite, de vigília ao seu lado, ou na capela, onde o cheiro de incenso ia desaparecendo, e o perfume dos pinheiros entrava e fazia tremular a chama da lamparina.

Recordo-me daqueles dias como uma ilha em águas correntes. Ou corno uma noite de sonho que traz descanso e ímpeto, durante dias difíceis. Eu devia estar impaciente para seguir viagem, para encontrar Artur, para falar novamente com Ralf, para combinar com o Conde Ector qual a melhor maneira de aparecer na vida de Artur, sem nos denunciar. Mas não me incomodava com nada. A floresta o santuário sereno, a espada escondida na palha do alpendre, tudo me prendia ali, calmo e à espera. Nunca se sabe quando os deuses vão chamar ou vir, mas, às vezes, seus servos sentem a sua proxi­midade, como agora.

Na quinta noite, quando fui levar a lenha para o fogo, o ermitão falou lá da cama. Olhava para mim, deitado nos travesseiros e não tinha força para levantar a cabeça, mas seus olhos estavam firmes e desanuviados.

— Quem é você?

Larguei a lenha e fui até a cama.

— Chamo-me Emrys. Estava de passagem pela floresta e dei com o santuário. Encontrei-o perto do poço e trouxe-o para a cama.

— Eu... me lembro. Fui apanhar água... — Recordava-se com esforço, mas seu olhar era inteligente, e a fala, um pouco labo­riosa, mas inteligível.

— O senhor adoeceu — expliquei. — Não se preocupe. Vou dar-lhe de beber, depois deve descansar. Tenho aqui uma bebida que vai fazer-lhe bem. Fique descansando, sou médico.

Ele bebeu, e logo ficou com melhores cores, respirando melhor. Perguntei se sentia dor, os lábios disseram um "não" mudo, e ficou ali deitado, quieto, olhando para a lamparina do outro lado da porta. Aumentei o fogo, ajeitei melhor os travesseiros para facilitar-lhe a respiração, e sentei-me para esperar com ele. A noite estava silenciosa; só se ouvia o piar da coruja branca, bem perto. Pensei: "Não terá que esperar muito, minha amiga."

Lá para a meia-noite o velho virou a cabeça nos travesseiros e perguntou de repente:

— Você é cristão?

— Sirvo a Deus.

— Tomará conta do santuário para mim quando eu me for?

— O santuário será cuidado. Confie em mim.

Assentiu, satisfeito e ficou quieto. Mas eu sentia que algo ainda o preocupava; ele pensava. Aqueci mais vinho, acrescentei o tônico e dei-lhe de beber. Agradeceu-me cortesmente, mas seu pensamento estava longe, e os olhos voltaram para a porta do santuário.

— Se quiser — falei — posso ir buscar um sacerdote cristão-Mas é preciso ensinar-me o caminho.

Fez que não com a cabeça, e fechou de novo os olhos. Dep01 perguntou, fracamente:

— Está escutando?

— Só estou escutando a coruja.

— Não, ela não. Os outros.

— Que outros?

— Ficam pelas portas. Às vezes no verão eles gritam como passarinhos, ou como revoadas nas colinas distantes. — Mexeu a ca­beça no travesseiro. — Será que agi mal em impedir que entrassem?

Compreendi o que queria dizer. Lembrei-me da tigela de sacri­fício, do poço lá fora, das candeias apagadas dos nove sagrados, de urna religião mais antiga. E parte do meu pensamento estava com a sombra branca que flutuava lá fora nos ramos da floresta. O lugar, eu pressentia, fora sagrado desde tempos imemoriais. Perguntei, sua­vemente:

— De quem era o santuário, Padre?

— Era chamado de lugar das árvores. Depois, de lugar da pedra. Depois, teve outro nome... mas, agora, na aldeia, chamam-no de capela do mato.

— Qual era o outro nome? Ele hesitou, depois respondeu:

— Lugar da espada.

A minha nuca ficou arrepiada, como se a espada tivesse me tocado.

— Por que, Padre? O senhor sabe?

Ficou calado por um momento, avaliando-me. Depois, fez um sinal mínimo de assentimento, como se tivesse chegado a uma con­clusão satisfatória.

— Vá até o santuário e retire o pano do altar.

Obedeci, colocando a lamparina no degrau fronteiro ao altar, e retirando o pano que o cobria até o chão. Mesmo sob a cobertura de pano, dava para ver-se que o altar não era do tipo que os cristãos usam, mas, da altura da cintura de um homem, e com formato ro­mano. Agora eu via que era isso mesmo. Ele era gêmeo do de Segontium, um altar de Mitras, com a frente quadrada e as beiradas trabalhadas. E o entale já estava quase todo desmanchado. Distin­gui as palavras INVICTO e MITHRAE na parte de cima, mas, no painel de baixo já não havia palavras, pois uma espada fora enta­lhada por cima delas, com o cabo, como se fosse uma cruz, marcan­do o centro do altar. O resto das letras fora removido, e a lâmina da espada entalhada em alto-relevo entre elas. Não era trabalho Perfeito, mas nítido, e tão familiar aos meus olhos quanto o cabo já era familiar às minhas mãos. Percebi, então, que a espada na pedra era a única cruz existente na capela. E, sobre ela, a dedicatória a Mitras Inconquistado. O resto do altar estava despido.

Voltei para junto do velho. Seus olhos esperavam e perguntavam. Indaguei:

— O que faz aqui a espada de Macsen, entalhada como uma cruz no altar?

Ele fechou e abriu os olhos, de leve. Respirou fundo.

— Então, é você! Você foi enviado! Já era hora. Sente-se, que eu vou contar. — Obedeci, e ele começou, com firmeza, mas com esforço. — Tenho pouco tempo para contar-lhe. Sim, é a espada de Macsen, a quem os romanos chamavam Máximo, que foi Imperador da Inglaterra antes da chegada das saxões, e que casou com uma princesa britânica. A espada foi forjada ao sul daqui, dizem que com ferro encontrado na Colina da Neve, num lugar com vista para o mar, e temperado com água que corre da colina para o mar. É uma espada para o Grande Rei da Inglaterra, feita para defender a Ingla­terra contra seus inimigos.

— Por isso, não foi de valia quando a levou para Roma?

— Foi um milagre que ela não se tivesse partido nas suas mãos. Depois que ele foi assassinado, trouxeram a espada para a Inglaterra, e está à espera do Rei que possa encontrá-la e erguê-la.

— Sabe onde está escondida?

— Isso eu nunca soube, mas quando era menino e vim para cá servir aos deuses, o sacerdote do santuário me contou que ela fora levada para a terra onde fora feita, para Segontium. Ele me contou a história que aconteceu neste lugar, anos antes do seu tempo... Foi... foi depois que o Imperador Macsen morreu em Anquiléia, perto do Mar Interior, e os britânicos sobreviventes voltaram para casa. Vieram pela Bretanha, desembarcaram aqui no oeste, tomaram a estrada que passa pelas colinas e passaram por aqui. Alguns eram devotos de Mitras, e quando viram que este lugar era sagrado, espe­raram pela meia-noite de verão e rezaram. Mas a maioria era cristã, e quando viram que os outros tinham terminado, pediram a um pa­dre que os acompanhava que rezasse uma missa. Mas não havia cruz nem cálice, só o altar. Confabularam, foram buscar nos cavalos o tesouro incomensurável que tinham trazido. No meio do tesouro es­tava a espada, e uma xícara grande, um gral do tipo grego, larga e funda. A espada ficou contra o altar como uma cruz, beberam no gral e todos os homens ficaram com o espírito satisfeito. Deixaram ouro para o santuário, mas não quiseram deixar a espada e o gral. Um deles pegou cinzel e martelo e fez o altar como está. Depois, partiram com o tesouro e nunca mais voltaram.

— É uma história estranha. Nunca a escutei antes.

— Nenhum homem a escutou. O guardião do santuário jurou pelos deuses antigos e pelos novos que só contaria o fato ao seu su­cessor. Só soube da história quando chegou a minha vez. — Fez unia pausa. — Dizem que um dia a espada voltará para servir de cruz. Por esta razão tenho tentado deixar o santuário vazio, como vê. Tirei as luzes e as tigelas de ofertório, joguei a faca torta no lago. A grama cobriu a pedra. Expulsei a coruja que tinha o seu ninho no telhado, tirei as moedas de prata ê cobre do poço e dei-as aos po­bres. — Nova pausa, tão grande que pensei que ele tinha morrido. Mas abriu os olhos de novo. — Fiz bem?

— Como posso saber? O senhor fez o que achava certo. Nin­guém pode fazer mais.

— Que vai fazer? — perguntou.

— O mesmo.

— E não contará a ninguém o que lhe contei, a não ser àquele que deve saber?

— Prometo.

Ficou quieto, ainda com ar preocupado, os olhos fixos em algo passado e longínquo. Depois, imperceptível, mas defini­tivamente, como um homem entrando num riacho gelado que tem de atravessar, tomou uma decisão.

— O altar ainda está descoberto?

— Está.

— Então acenda as nove candeias e encha a tigela com vinho e óleo, e abra as portas que dão para a floresta e leve-me para onde eu possa ver a espada de novo.

Sabia que, se o erguesse, ele morreria nos meus braços. A res­piração estava trabalhosa no peito magro e fazia o corpo frágil tre­mer. Virou a cabeça nos travesseiros, sem forças.

— Depressa. — Quando hesitei, ele teve medo. — Preciso vê-la. Faça o que digo.

Pensei no santuário, com todas as santidades antigas removidas; e na espada, escondida junto com o ouro do Rei no teto de palha do estábulo lá fora. Mas era tarde demais até para isto. — Não posso erguê-lo — disse-lhe — mas fique calmo. Trarei o altar aqui para o senhor.

— Mas, como... ? — começou ele, mas interrompeu-se, com ar de admiração, e sussurrou: — Traga depressa, então, e deixe que eu me vá.

Ajoelhei-me ao lado da cama, sem olhar para ele, fitando o coração rubro do fogo. As achas caídas formavam uma caverna in­candescente, cristais reluziam num globo de fogo. Ao meu lado, a respiração laboriosa ia e vinha, como o pulsar doloroso do meu próprio sangue. Pulsava nas minhas têmporas, magoando-me. No fundo da minha barriga a dor crescia e queimava. O suor escaldante escorria pelo meu rosto, os meus ossos chacoalhavam no seu invólucro de carne, enquanto eu construía aquele altar para ele, grão por ao, polegada por polegada, na parede escura e nua. Ele ergueu-se devagar, sólido, eclipsando o fogo. A superfície da pedra luzia no escuro, a luz tocava nela e tremulava, como se ela flutuasse sobre  água iluminada pelo sol. Depois, uma a uma, acendi as nove chamas que flutuavam junto com a pedra como luzes de âncora O vinho transbordava na vasilha, o incenso fumegava. INVICTO, escrevi, e procurei, suando, a outra palavra. Mas só apareceu está única palavra, INVICTO, e então a espada destacou-se da pedra como de dentro de uma bainha rasgada, e a lâmina era de ferro branco cheio de runas na luz bruxuleante, por baixo do cabo refulgente e da inscrição na pedra: AO INCONQUISTADO...

Era de manhã, e os primeiros pássaros estavam aparecendo. Lá dentro, tudo estava quieto. Ele estava morto, partira suavemente, como a visão que eu tinha criado para ele das sombras. Caminhei, endurecido e dolorido, até o altar, como um fantasma, para cobri-lo e acender a lamparina.

 

A ESPADA

Quando prometi ao moribundo que alguém cuidaria da capela não tinha pensado em mim mesmo. Havia um monastério num doa vales próximos ao castelo do Conde Ector, e não seria difícil achar nele alguém que se dispusesse a morar na capela e cuidar dela. Isto não significava que eu fosse passar adiante o segredo da espada; ele era meu e o fim da história estava nas minhas mãos.

Mas, com o passar dos dias, reconsiderei a minha decisão de procurar os irmãos. Tive de ficar inativo, e pude pensar.

Enterrei o corpo do velho bem na hora, pois a neve chegou no. dia seguinte, grossa, macia e silenciosa, envolvendo a floresta, iso­lando a capela e bloqueando os caminhos. Para falar a verdade, eu estava satisfeito em ficar; havia bastante comida e lenha, e a égua e eu precisávamos de descanso.

Por mais de duas semanas houve neve; perdi a conta dos dias, mas o Natal e o começo do ano chegaram e se foram. Artur estava com nove anos.

Fui forçado a cuidar do santuário. Suponho que o próximo guar­dião lutaria, como tinha feito o velho, para que o lugar pertencesse ao seu Deus, mas eu o entregaria a qualquer deus que o reclamasse. E o deixaria aberto para quem quisesse usá-lo. Guardei o pano do altar, limpei as três candeias de bronze, coloquei-as sobre o altar e acendi as velas. Nada podia fazer quanto à pedra e à fonte até que a neve derretesse. Também não achei a faca curva, e fiquei satis­feito; não abriria a porta com prazer a essa Deusa. Conservei a água benta na vasilha de sacrifício, e queimava incenso pela manhã a noite. A coruja branca ia e vinha ao seu bel-prazer. De noite eu achava a porta da capela por causa do frio e do vento, mas nunca a trancava, e de dia ela ficava sempre aberta, com as luzes refletindo-se na neve.

Logo depois do começo do ano, a neve derreteu e as trilhas da floresta cobriram-se de lama. Permaneci na capela. Tivera tempo para pensar, e achei que a mesma mão que me guiara até Segontium, conduzira-me à capela. Que melhor lugar para ficar perto de Artur sem chamar atenção? A capela era o esconderijo perfeito. O lugar e seu guardião seriam respeitados. O "santo homem da floresta" seria aceito sem restrições. Comentar-se-ia que havia um novo santo homem, mais jovem, mas o povo se lembraria que cada ermitão que morria era sucedido por seu ajudante, e, dentro em pouco eu seria apenas "o ermitão da Floresta Agreste", de fato e de direito. E com a capela por lar e por curato, poderia ir à aldeia buscar provisões, conversar com as pessoas, saber das novidades e fazer com que o Conde Ector soubesse que me instalara na Floresta Agreste.

Uma semana depois do começo do degelo, antes que me ar­riscasse a andar com Morango pelas trilhas cobertas de lama, tive visitas. Dois moradores da floresta: um homem pequeno, atarracado e moreno, vestido com peles de veado mal curtidas e fedorentas, e uma menina, sua filha, vestida com lã grosseira. Tinham a cor escura e os olhos negros, como o povo das colinas de Gwynedd, mas o rosto da menina estava contraído e acinzentado sob o queimado da pele. Ela sofria, mas em silêncio, como um animal; não se mexeu nem fez ruído quando o pai tirou os trapos que envolviam o seu pulso e o antebraço inchados e enegrecidos pela peçonha.

— Prometi que o senhor a curaria — disse ele com simplici­dade.

Não fiz comentários, mas peguei a mão dela, falando gentilmen­te no Velho Idioma. Ela se retraiu, amedrontada, até que eu expli­quei ao homem, que se chamava Mab, que precisava aquecer água e desinfetar a minha faca no fogo; aí ela deixou que ele a levasse para dentro. Cortei o abscesso, limpei e atei o braço. Levou muito tempo, e a menina não deu um ai, mas ficou mais e mais pálida, sob a sujeira, por isso, quando terminei de pôr ataduras limpas no braço, amornei vinho para os dois, e ofereci-lhes as minhas últimas passas secas e bolinhos de cereal. Eu mesmo os fizera, procurando imitar o que vira meu criado fazer tantas vezes. A princípio eram quase intragáveis, mesmo molhados no vinho, mas, ultimamente, eu tinha aprendido o jeitinho, e fiquei contente em ver que Mab e a garota comeram com prazer e pediram mais. Da mágica e das vozes dos deuses para os bolinhos de cereal; talvez esta fosse a menor das minhas habilidades, mas eu me sentia tão orgulhoso dela quanto das outras.

— Como é que soube que eu estava aqui? — perguntei a Mab.

— A notícia correu pela floresta. Não, não fique assim, Myrddin Emrys. Não contamos a ninguém. Mas seguimos todos os que pela floresta, e sabemos de tudo que se passa.

— Sei. O seu poder. Já me tinham contado. Talvez precise dele enquanto estiver cuidando da capela.

— E!a é sua. O senhor acendeu as candeias de novo.

— Conte-me as novidades, então. Ele bebeu e limpou a boca.

— O inverno tem sido tranqüilo. As costas estão confinadas pelas tempestades. Houve lutas no sul, mas já acabaram e as fron­teiras estão intactas. Cissa velejou para a Alemanha. Aelle ficou com os filhos. No norte não há nada. Gwarthergydd brigou com o pai Caw, mas aquela turma nunca está em paz. Ele fugiu para a Irlanda, mas isso não quer dizer nada. Dizem também que Riagath está com Niall na Irlanda. Niall e Gilloman banquetearam-se juntos, e há paz entre eles.

Era um simples relato de fatos, narrado sem expressão ou com­preensão, como se tivesse sido decorado. Mas eu entendi. Os saxões, a Irlanda, os pictos do norte; ameaças por todos os lados, mas so­mente ameaças, por enquanto.

— E o Rei? — perguntei.

— Não é mais o mesmo homem. Antes era corajoso, agora é zangado. Os seus seguidores o temem.

— E o filho do Rei? — Esperei pela resposta. Quanto, real­mente, saberia esta gente?

Os olhos negros eram insondáveis.

— Dizem que ele está na Ilha de Vidro, mas, então, o que faz aqui na Floresta Agreste, Myrddin Emrys?

— Cuido do santuário. Vocês são bem-vindos aqui. Todos são bem-vindos.

Ficou quieto por algum tempo. A menina estava acocorada perto o fogo, olhando-me, aparentemente sem medo. Já terminara de comer, mas vi que surrupiara alguns bolinhos, escondendo-os nas do­bras do vestido. Sorri para mim mesmo.

Falei para Mab:

— Se eu precisar mandar uma mensagem, será que o seu povo leva para mim?

— Com prazer.

— Mesmo para o Rei?

— Daríamos um jeito para que chegasse até ele.

— Quanto ao filho do Rei, — continuei — você diz que o seu povo vê tudo que se passa na floresta. Se a minha mágica al­cançar o filho do Rei no seu esconderijo e fizer com que ele venha até mim, pela floresta, ele estará em segurança?

Fez o estranho sinal que eu vira os homens de Llyd fazerem e assentiu.

— Ele estará em segurança. Trataremos disso. O senhor não prometeu a Llyd que seria tão nosso rei quanto rei dos das cidades do sul?

— Ele é o Rei de todos — respondi.

 

O braço da garota deve ter sarado direitinho, pois ele não a trouxe de novo. Dois dias mais tarde, um faisão fresco apareceu na minha porta, junto com um odre de hidromel. Eu, por minha vez, limpei a neve que havia em cima da pedra, e pus um copo no lugar adequado acima da fonte. Nunca vi ninguém chegar perto, mas re­conheci os sinais, e, quando deixava nova leva de bolinhos na porta dos fundos, ela desaparecia durante a noite, e uma oferenda a substituía. . . um pedaço de carne de veado, talvez, ou uma coxa de lebre.

Logo que os caminhos ficaram desimpedidos, selei Morango e segui para Galava. O caminho descia as margens de um regato, e seguia ao longo da margem norte de um lago. Este era um lago menor do que a vasta extensão de água em cuja cabeceira achava-se Galava; tinha pouco mais de uma milha de comprimento por um terço de milha de largura, e era margeado pela floresta em todos os lados. No meio dele, mais para o lado da margem sul, havia uma ilha, que não era grande, mas que era coberta de árvores, como que um pe­daço da floresta que tivesse sido arrancado e jogado dentro das águas tranqüilas. Era uma ilha rochosa, e as árvores subiam em direção aos rochedos que se erguiam no centro dela. Os rochedos eram cinzentos, contornados pela neve que ainda restava, e tinham a aparência de tor­res de um castelo. Naquele dia parado eles pareciam ter polimento. A ilha nadava no seu próprio reflexo, com as torres refletidas parecendo afundar, profundamente, no centro tranqüilo do lago.

Da outra margem desse lago o regato renascia, já como um pequeno rio, aumentado pelas águas da neve, correndo rápido entre juncos claros e pântanos escuros, entremeados de salgueiros e amieiros, na direção de Galava. Cerca de uma milha depois, o vale alargava-se, e os pântanos eram substituídos por terras cultivadas e fazendolas, com as casas dos colonos buscando a proteção das mura­lhas do castelo. Para além das torres de Ector, que se destacavam entre as árvores nuas, ficava o grande lago, que se estendia até onde a vista podia alcançar, misturando-se com o céu escuro.

Cheguei em primeiro lugar a uma fazenda um pouco afastada da margem do rio. Não era do tipo de fazenda que encontramos no sul ou sudoeste, à moda romana, mas do tipo que era comum aqui no norte. Era um amontoado de construções circulares, a casa prin­cipal e os barracos para os animais, tudo dentro de um grande cír­culo irregular cercado por uma paliçada de pedra e madeira. Quando entrei pelo portão, um cachorro acorrentado jogou-se na minha di­reção, latindo. Um homem, com aparência de dono, apareceu na porta de um celeiro e ficou olhando. Segurava uma podadeira. Parei e gritei um cumprimento. Ele acercou-se com ar de curiosidade, mas também com a desconfiança que todos sentem no interior com a chegada de um estranho.

— Para onde vai, estranho? Para o castelo do Conde, em Ga­lava?

— Não. Vou ao lugar mais próximo em que possa comprar comida... carne e cereal e um pouco de vinho. Venho da capela lá na floresta. Você a conhece?

— Quem não a conhece? Como vai passando o velho Prosper? Não o vemos desde antes da nevada.

— Ele morreu pelo Natal. Ele persignou-se.

— Estava com ele?

— Estava. E agora tomo conta da capela. — Não entrei em detalhes. Seria ótimo que ele presumisse que eu já estava lá há algum tempo, ajudando o guardião da capela. — Chamo-me Myrd­din — falei. Decidira usar o meu nome, em vez de "Ermys". Myrddin era um nome bem comum no oeste, e não seria ligado ao desapare­cido Merlin; por outro lado, se Artur ainda se chamasse "Emrys", causaria estranheza o aparecimento de um estranho com o mesmo nome, que passasse a usufruir da companhia do menino.

— Myrddin? De onde é?

— Tomei conta de um santuário na colina em Pyfed, durante algum tempo.

— Sei. — Seus olhos me avaliaram, consideraram-me inofensivo, e assentiu. — Bem, cada um com a sua ocupação. Vai ver que as suas orações nos ajudam, ao seu modo, tanto quanto a espada do Conde na hora do aperto. Ele já sabe da mudança lá em cima?

— Não vi ninguém desde que cheguei. A neve caiu logo ar a morte de Prosper. Que espécie de homem é esse Conde E

— Um bom senhor e um homem bom. E a sua senhora é tão boi quanto ele. Nada lhe faltará enquanto eles se ocuparem da florestal

— Ele tem filhos?

— Dois garotos simpáticos. O senhor os verá quando o tempo melhorar. Cavalgam pela floresta quase todos os dias. Com certeza o Conde vai mandar chamá-lo quando voltar; ele está fora, com filho mais velho. Esperam que volte no começo da primavera. Virou a cabeça e chamou, e uma mulher apareceu na porta da casa — Catra, este é o novo homem lá da capela. O velho Prosper morreu no meio do inverno; você adivinhou que ele não durava até começo do ano novo. Tem pão sobrando, e um odre de vinho? Bom homem, aceita comer conosco enquanto não sai a nova fornada?

Aceitei, e eles foram gentis e arranjaram tudo de que eu precisava: pão, cereal, e um odre de vinho, sebo de carneiro para fazer velas, óleo para os lampiões e ração para a água. Paguei tudo e Fedor (era esse seu nome) ajudou-me a arrumar os alforjes. Não fiz mais perguntas, mas escutei todas as notícias locais que ele contou, e, satisfeito voltei ao santuário. A notícia chegaria a Ector, e o nome também} ele seria a única pessoa a ligar imediatamente o novo ermitão da Floresta Agreste com o Myrddin que sumira no inverno da sua colina gelada em Gales.

Desci de novo no começo de fevereiro, desta vez até a aldeia! onde vi que todos sabiam da minha vinda e já me aceitavam como parte do lugar, como eu previra. Se tivesse procurado ficar na aldeia ou no castelo, ainda seria o "estrangeiro" ou o "estranho", alvo de comentários incessantes, mas os homens santos eram uma classe à parte, geralmente nômades, e o povo os aceitava naturalmente, um alívio ver que nunca vinham à capela; ainda a temiam. A maioria era cristã, e procurava a comunidade de frades próxima, mas velhas crenças custam a morrer, e acho que me respeitavam m' que ao próprio abade.

A mesma aura de santidade antiga prendia-se à ilha do lago.Perguntara a um dos homens das colinas sobre ela. Disse que chamava Caer Bannog, que significa Castelo nas Montanhas, e diziam que era assombrada por Bilis, o rei-anão do outro mundo. Tinha a fama de aparecer e desaparecer à vontade, flutuando invisível, vezes, como se fosse feita de vidro. Ninguém chegava perto de e embora as pessoas pescassem no lago durante o verão, e os animais mais pastassem na margem ocidental, onde o rio corria para o vale, ninguém ousava aproximar-se da ilha. Certa vez, um pescador, ficara preso numa tempestade, foi forçado a levar o seu barco lá e a passar uma noite na ilha. Quando voltou para casa no dia seguinte, estava louco, e dizia que passara um ano num grande cas­telo feito de ouro e vidro, onde criaturas estranhas e terríveis vi­ciavam um tesouro incomensurável. Ninguém ousou ir procurar o tesouro, porque o pescador morreu, delirando, em menos de uma se­mana. Ninguém mais pôs o pé na ilha, e embora (assim diziam) desse para se ver claramente o castelo num entardecer bonito, ele desaparecia quando algum bote se aproximava, e era sabido por todos que a ilha afundaria sob os pés de quem pisasse na praia.

Essas histórias nem sempre devem ser desacreditadas. Eu pen­sava sempre nela, nesta outra "ilha de vidro" que achara quase à minha porta, e imaginava se a sua reputação faria dela um bom es­conderijo para a espada de Macsen. Ainda se passariam alguns anos até que o jovem Artur pudesse erguer a espada da Inglaterra, e entrementes, não era seguro nem apropriado que ela permanecesse escondida no teto de um barracão na floresta. Às vezes eu me admi­rava que ela ainda não tivesse tocado fogo na palha. Se era mesmo a espada Real da Inglaterra, e Artur o Rei que deveria erguê-la, pre­cisava ficar num lugar santo e assombrado, como o santuário onde eu a encontrara. E, quando o dia chegasse, o próprio menino teria de achá-la, como eu o fizera. Eu era o instrumento do deus, não a sua mão.

Assim, pensava na ilha. E um dia, tive a certeza.

Descera à aldeia novamente em março, para as minhas provi­sões mensais. Quando voltava, ao longo da margem do lago, o sol estava se pondo, e uma névoa leve cobria a superfície da água. Fazia a ilha parecer distante e flutuante, fantasmagórica e pronta a sub­mergir sob um pé descuidado. O sol poente iluminava os rochedos, que pareciam erguer-se em chamas entre as árvores escuras. Nesta luz, as estranhas formações rochosas pareciam torres altas, o cimo de um castelo iluminado pelo sol, que surgia acima das árvores. Fiquei olhando, lembrando-me das lendas; de repente, freei Morango bruscamente e olhei fixamente. Lá estava de novo a torre dos meus sonhos, a Torre de Macsen, acima da névoa flutuante, intacta e feita de crepúsculo. A torre da espada.

Levei a espada para lá no dia seguinte. Agora a neblina estava espessa e me escondia de alguém que pudesse estar observando.

A ilha ficava a menos de duzentos passos da margem sul do lago. Dava pé para a égua, na altura do peito. O lago estava calmo ' silencioso como um espelho. Não fizemos mais barulho que os veados selvagens, e vimos apenas um par de patos e uma garça que voava devagar na neblina.

Deixei a égua pastando e carreguei a espada por entre as árvo­res até alcançar o sopé dos rochedos. Acho que sabia o que ia en­contrar. O entulho ao pé dos rochedos estava cheio de moitas e arvorezinhas, e entre os seus ramos ralos pude ver uma abertura que dava para uma passagem estreita que descia para dentro dos rochedos. Tinha trazido uma tocha. Acendi-a e desci depressa pela passagem íngreme, e encontrei-me numa profunda gruta interna aonde não chegava a luz.

À minha frente, um lençol dágua, negro e parado, inundava metade da gruta. Para além da água, de encontro ao fundo da gruta, ficava um bloco de pedra baixo; não sabia se era natural, ou se a mão do homem tinha estado ali, mas ela tinha o formato de um altar, e num dos lados havia uma cavidade redonda. A cavidade estava cheia de água, que parecia vermelha como sangue à luz fumacenta da tocha. Aqui e ali, a água pingava do teto. Quando atingia a superfície do laguinho, a água se quebrava fazendo o barulho de uma corda de harpa sendo tocada, e o seu eco ia sumir nos recantos afastados que a luz da tocha iluminava. Mas, quando pingava em cima da pedra, não tinha formado depressões, como seria de espe­rar-se, mas formara pilastras, que se encontravam com os pingentes de pedra que desciam da rocha sólida. O lugar era um templo, com pilastras de mármore claro e chão de vidro. Até eu, que estava aqui por direito e protegido pelo poder, fiquei todo arrepiado.

"Por terra e por água ela voltará para casa, e ficará escondida na pedra flutuante até ser erguida novamente pelo fogo." Assim fa­laram os antigos, que teriam reconhecido, como eu, este lugar; como o reconheceram os pescadores mortos que voltaram louvando os átrios do Rei da escuridão. Aqui, na antecâmara de Bilis, a espada ficaria em segurança até a chegada do jovem que tem o direito de erguê-la.

Atravessei o laguinho. Agora podia ver como a passagem escura continuava, por trás da mesa de pedra, até que o teto encontrasse a superfície da água, e o caminho desaparecesse abaixo do nível do lago. Continuei a caminhar pelo laguinho. O chão inclinou-se e a água ficou mais funda. As ondinhas batiam contra a rocha, e os ecos percorriam as paredes e terminavam entre as pilastras. A água estava gelada. Coloquei a espada, ainda embrulhada como eu a en­contrara, na mesa de pedra. Voltei pelo mesmo caminho. O lugar ressoava com ecos. Fiquei imóvel, eles diminuíram até um murmú­rio, depois cessaram. Até a minha respiração parecia alta demais, uma intromissão. Deixei a espada na sua espera silenciosa, e voltei de­pressa para a luz do dia. As sombras abriram-se para dar-me pas­sagem.

 

Abril chegou, quando se esperava Ector de volta. Na primeira semana do mês choveu e ventou, parecia inverno, e a floresta rugia como o mar, e as correntes de ar faziam as nove velas do santuário tremular e fumegar. A coruja branca observava do seu ninho no te­lhado, onde chocava os ovos.

Certa vez, acordei com o silêncio da noite. O vento amainara, os pinheiros sossegaram. Levantei-me, vesti a capa e fui para fora. A lua estava alta, e, ao norte, a Ursa Menor parecia tão perto e brilhante que dava vontade de tocar, mas a gente tinha medo de se queimar. O meu sangue corria leve e livre; meu corpo sentia-se recém-lavado, como a floresta. Dormi pouco o resto da noite, como um apaixonado, e ao alvorecer levantei-me, comi qualquer coisa e fui selar Morango.

O sol brilhava no céu claro, e a sua luz derramava-se na cla­reira. A chuva da véspera ensopava a grama e os brotos novos de samambaia; ela pingava dos pinheiros, e se evaporava, enchendo o ar do perfume de pinho. Para além dos pinheirais, as montanhas circundantes erguiam-se brancas para o céu.

Tirei a égua do alpendre, e já ia selá-la quando ela parou de pastar e ergueu as orelhas. Segundos depois, ouvi o que ela ouvira, o som de cascos a galope, o que era perigoso numa trilha sinuosa coberta de raízes e de ramos pendentes. Larguei a sela e esperei.

Um cavalo negro, a galope e com rédea curta, saiu de dentro da floresta, parou a três passos de mim, e o garoto que estava gru­dado às suas costas como uma sanguessuga deslizou para o chão, tudo num movimento só. O cavalo suava e espumava. As narinas deixavam ver o vermelho. O galope firme e a parada precisa tinham sido obra de um perfeito controle. Nove anos de idade? Na sua idade eu cavalgava um pônei gordo que tinha que ser instigado a trotar.

Segurou as rédeas, competentemente, em uma das mãos e dominou o cavalo, que queria passar por ele para chegar à água. Fez isso distraído; sua atenção estava concentrada em mim. — O senhor é o novo homem santo?

— Sou.

— Prosper era meu amigo.

— Sinto muito.

O senhor não tem muito jeito de ermitão. Está mesmo cuidando da capela, agora?

— Estou.

Mordeu os lábios pensativo, fitando-me. Estava avaliando-me Senti os meus músculos se retesarem sob o seu olhar, como nunca acontecera antes, para controlarem os nervos e as pulsações. Espe­rei; sabia que, como sempre, o meu rosto nada revelava. Ele devia estar vendo apenas um homem de aparência inofensiva, desarmado selando um cavalo insignificante para uma viagem de rotina em bus­ca de suprimentos.

Chegou a uma decisão.

— Não contará a ninguém que me viu?

— Por que, quem o está procurando?

Abriu a boca, surpreso. Tive a impressão de que deveria ter dito "pois não, senhor". Virou a cabeça, vivamente. Eu também ouvi. Era um cavalo que chegava, sobre a terra musgosa. Depressa, mas não tão depressa quanto o cavalo negro esporeado.

— O senhor não me viu, lembra-se? — Vi a sua mão dirigir-se para a sacola, e parar a meio caminho. Sorriu, e fiquei surpreso; até agora, tinha-se parecido muito com Uther, mas aquele rosto ilu­minado lembrava o de Ambrósio, e os olhos negros também eram de Ambrósio. Ou meus.

— Desculpe. — Falou educadamente, mas bem depressa. — Garanto-lhe que não estou fazendo nada errado. Não muito errado. Logo deixarei que me alcance. Mas ele não me permite cavalgar do jeito que gosto. — Dispõe-se a montar.

— Se anda desse jeito por essas trilhas, não posso culpar o seu seguidor. Precisa mesmo ir? Vá esconder-se lá dentro. Eu arran­jo um lugar para o seu cavalo descansar.

— Eu sabia que o senhor não era um homem santo — disse ele em tom de elogio, e, jogando-me as rédeas, desapareceu pela porta dos fundos.

Levei o cavalo negro para o barracão e fechei a porta. Fiquei ali por uns momentos, respirando fundo, como se tivesse emergido de águas turbulentas, acalmando-me. Dez anos, esperando por isto. Derrubara as defesas de Tintagel para Uther, e matara o seu capitão Brithael, com a pulsação menos agitada que agora. Bem, aqui estava ele, e veríamos no que ia dar. Fui para a beirada da clareira para encontrar Ralf.

Estava sozinho, e furioso. Seu alazão subia a trilha a meio ga­lope, com Ralf abraçado ao seu pescoço. Tinha uma arranhão fino numa das faces, feito por algum galho.

O sol iluminava a clareira e deve tê-lo ofuscado. Pensei que por um momento fosse atingir-me, mas, ele me viu e parou brusca­mente o animal.

— Ei, senhor! Viu um menino passar por aqui há alguns mi­nutos?

— Vi. — Falei suavemente, e segurei a rédea. — Espere um momento...

— Saia do caminho, idiota! — O alazão, sentindo as esporas, empinou violentamente, arrancando a rédea da minha mão. Na mesma hora Ralf falou, assombrado: — Meu senhor! — e puxou o cavalo para o lado. Os cascos deixaram de me atingir por centí­metros. Ralf deslizou da sela com a mesma leveza que o jovem Artur e procurou beijar minha mão. Retirei-a depressa.

— Não. E levante-se, homem. Ele está aqui, tome cuidado com o que faz.

— Santo Cristo, meu senhor, eu quase o atingi! O sol estava nos meus olhos. . . não podia ver quem era!

— Foi o que imaginei. Mas uma acolhida um tanto grosseira para o novo ermitão, não, Ralf? Esses são os modos costumeiros do norte?

— Meu senhor. . . meu senhor, desculpe-me. Eu estava zanga­do... — e francamente: — Só porque ele me tapeou. E mesmo quan­do enxerguei o diabinho não consegui alcançá-lo. Então eu. . . — Afinal, o que eu tinha dito chegou até ele. Interrompeu-se e afastou-se, olhando-me da cabeça aos pés como se não pudesse acreditar nos seus olhos. — O novo ermitão? O senhor? O senhor é que é o "Myrddin" do santuário?. . . Mas, claro! Que idiota que eu sou, nun­ca liguei o nome ao senhor... E nem a mais ninguém... Não ouvi uma única suposição de que ele pudesse ser Merlin. . .

— E tomara que nunca ouça. Sou apenas o guardião do san­tuário, e é só o que serei enquanto for necessário.

— O Conde Ector já sabe?

— Ainda não. Quando é que ele deve voltar para casa?

— Na próxima semana.

— Conte-lhe, então.

Ele assentiu, depois riu, a surpresa dando lugar à excitação e ao contentamento.

— Pelo Crucifixo, mas como é bom revê-lo, senhor! Está bem? -orno tem passado? Como chegou até aqui? E agora. . . o que vai acontecer agora?

As perguntas vinham aos borbotões. Levantei a mão, sorrindo.

— Olhe, falaremos depois. Daremos um jeito. Agora, desapareça por cerca de uma hora e deixe-me travar conhecimento com o garoto.

— Certo. Duas horas está bem? Ele vai dar-lhe um bocado d crédito por isso... eu geralmente não sou despistado com facilidade — Olhou ao redor da clareira, só com os olhos, sem mexer a cabeça. O lugar estava calmo ao sol matutino, e um tordo cantava. — Onde está ele? Na capela? Então, o senhor deve dar-me umas indicações erradas, para o caso dele estar espiando.

— Com prazer. — Virei-me e apontei para uma das trilhas que saíam da clareira. — Aquela serve? Não sei onde vai dar, mas deve bastar para fazer você sumir.

— Se não me matar — respondeu resignadamente. — Tinha que ser aquela, não é? Normalmente, diria que foi um palpite ruim mas conhecendo o senhor...

— Asseguro-lhe de que foi uma escolha ao acaso. Sinto. É assim tão perigosa?

— Bem, se for procurar Artur por ali, vou demorar um bocado. — Pegou as rédeas, fazendo gestos de agradecimento para que o nosso observador invisível pudesse ver. — Não, meu senhor, falando sério...

— Myrddin. Não seu senhor, agora, nem de mais ninguém.

— Myrddin, então. Não, é uma trilha ruim, mas dá passa­gem ... com dificuldade. Além do mais, é o tipo do caminho que aquele filhote de diabo teria escolhido... Já lhe disse, nada que o senhor faz é por acaso! — Deu uma risada. — Que bom tê-lo de volta! Sinto que me tiraram um peso das costas. Esses últimos anos têm sido bem cheios, pode crer!

— Eu acredito.

Ele montou, fez uma saudação, e dei um passo atrás. Cruzou a clareira a meio galope, depois o ruído dos cascos foi diminuindo trilha acima, até que desapareceu.

O menino estava sentado na beira da mesa, comendo pão e mel. O mel escorria pelo seu queixo. Ficou em pé quando me viu, limpou o mel com as costas da mão, lambeu a mão e engoliu.

— O senhor achou ruim? Tinha muito e eu estava morto de fome.

— Sirva-se. Há alguns figos secos naquela vasilha da prate­leira.

— Agora não, obrigado. Estou satisfeito. Vou dar água à Es­trela. Ouvi Ralf indo embora.

Enquanto conduzíamos o cavalo até a fonte, ele me disse:

— Dei-lhe o nome de Estrela por causa da estrela branca na sua testa. Por que sorriu?

— Porque quando eu era mais moço que você tive um pônei chamado Aster, que quer dizer Estrela em grego. E, igual a você, fugi de casa certo dia, fui para as colinas e dei com um ermitão que morava sozinho (numa gruta, não numa capela, mas também era lugar solitário) e ele deu-me bolinhos de mel e frutas.

— Quer dizer que fugiu?

— Não de verdade. Só por um dia. Queria ficar sozinho. Às vezes a gente precisa.

— O senhor entendeu? Foi por isso que mandou Ralf embora

e não lhe disse que eu estava aqui? Quase todos teriam contado logo para ele. Acham que preciso ser pajeado — falou Artur ressentido. 0 cavalo ergueu o focinho, bufou para tirar os pingos das narinas e se afastou da água. Cruzamos de novo a clareira. — Ainda não lhe agradeci. Muito obrigado. Ralf não vai ficar mal, acredite. Eu nunca conto quando consigo enganá-los. Meu guardião ficaria zan­gado, e eles não têm culpa. Ralf voltará para cá e eu irei com ele. E não se preocupe; não deixarei que ele lhe faça mal. Além disso, Ralf sempre acha que a culpa é minha. — O sorriso maroto, de novo. — E é mesmo. Cei é mais velho que eu, mas quem tem as idéias sou sempre eu.

Chegáramos ao barracão. Ele pensou em me dar as rédeas, de­pois, como antes, parou no meio do gesto, conduziu o cavalo para dentro e amarrou-o. Eu olhava da porta.

— Como é o seu nome? — perguntei.

— Emrys. E o seu?

— Myrddin; e, por estranho que pareça, Emrys. Mas é um nome comum lá na minha terra. Quem é o seu guardião?

— O Conde Ector. É o Senhor de Galava. — Largou o que fazia, com o rosto vermelho. Sabia que ele estava esperando pela pergunta seguinte, a pergunta inevitável, mas não a fiz. Passara doze anos tendo de contar a cada homem que falava comigo que era o filho ilegítimo de um pai desconhecido; não pretendia forçar o me­nino a esta mesma confissão. Mas havia diferenças. Ele já tinha melhores defesas do que eu tinha com o dobro da sua idade. E como o bem protegido filho adotivo do Conde de Galava, ele não tinha que viver, como eu vivera, com a pecha de bastardo. Mas as dife­renças entre mim e esta criança eram mais profundas: eu me con­tentara com muito pouco, ignorando o meu poder; esse menino só Se contentaria com o máximo.

— Quantos anos tem você? — perguntei. — Dez? Ele ficou satisfeito.

— Acabei de fazer nove.

— E já sabe andar a cava1o melhor do que eu.

Ora, o senhor é só... — Interrompeu-se e enrubesceu. Só comecei a trabalhar como ermitão no Natal — repliquei m suavidade. — Já andei muito por aí.

— Fazendo o quê?

— Viajando. Até lutando, quando era preciso.

— Lutando? Onde?

Enquanto conversávamos, demos a volta pela porta da frente da capela, e subimos os degraus. Eram íngremes e cobertos de musgo e fiquei surpreso com a leveza com que ele os galgou. Era um menino alto e forte, com ossos que prometiam muito vigor. Havia um outro tipo de promessa; ele puxara a Uther e seria um belo homem Mas a primeira impressão que Artur dava era a de rapidez de movimentos controlada, como a de um dançarino ou de um hábil espadachim. Aí havia algo da inquietação de Uther, mas não era bem a mesma coisa; ela provinha de uma profunda harmonia interna. Um atleta falaria em coordenação, um arqueiro de visão firme, um escultor de mão segura. Nesse menino, tudo se fundia em uma im­pressão de vitalidade flamejante, mas controlada.

— Em que batalhas esteve? Era moço no tempo das Grandes Guerras? Meu tutor diz que terei de esperar até fazer quatorze anos para poder guerrear. Isso não é justo, porque Cei é três anos mais velho e eu ganho dele na proporção de três para um. Bem, dois para um, talvez... Oh!

Quando entramos na capela, o sol às nossas costas projetou para a frente as nossas sombras, escondendo o altar. Ao nos mo­vermos, a luz o alcançou, a luz forte da manhã, incidindo direta­mente sobre a espada entalhada, fazendo com que a lâmina se des­tacasse nítida e brilhante das sombras na pedra.

Antes que eu pudesse falar, ele já correra para a frente para agarrar o cabo. Sua mão encontrou a pedra, com um choque que lhe percorreu o braço. Ficou assim por alguns segundos, como que era transe, depois arriou a mão e deu um passo para trás, fitando o altar.

Falou sem olhar para mim.

— Que coisa estranha! Parecia de verdade. Eu pensei: "Lá está a espada mais bela e mortífera do mundo, e é para mim". E, o tempo todo, não era real.

— Ah, mas é real — repliquei. Por entre os raios de sol ofuscantes, vi o menino, aureolado, virar-se para mim. Atrás dele, o altar reluzia com o fogo gelado. — É muito real. Algum dia ela vai estar neste mesmo altar, à vista dos homens. E aquele que ousar tocá-la e erguê-la. . .

— O quê? O que ele fará, Myrddin?

Pisquei, afastei o sol dos olhos e controlei-me. Uma coisa e ver o que está acontecendo em outro lugar qualquer da Terra; outra bem diferente é ver o que ainda não surgiu do céu. Esta última, que os homens chamam de profecia, e que eu pareço possuir, e como ser atingido nas entranhas pelo chicote de Deus, que chamamos de relâmpago. Mas, embora a minha carne sofresse com ele, eu o ben­dizia, como as mulheres bendizem as últimas dores do parto. Nessa visão, eu vira o que iria acontecer aqui nesse mesmo lugar; a espada, o fogo, o jovem Rei. A minha pesquisa pelo Mar do Meio, a jornada dolorosa para Segontium, o recebimento das tarefas de Prosper, a dissimulação da espada em Caer Bannog.. . agora eu tinha certeza de que entendera a vontade do deus. De agora em diante, era só esperar.

— O que eu farei? — a voz continuava a perguntar.

Acho que o menino não teve consciência da modificação da pergunta. Ele estava sério, atento, ansioso. A ponta do chicote tam­bém o tinha atingido. Mas ainda não era a hora. Vagarosamente, procurando afastar as palavras perigosas, expliquei o que ele podia compreender.

— O homem entrega a espada ao seu filho. Você terá que achar a sua. Mas, quando chegar a hora, poderá pegá-la, à vista de todos os homens.

A visão se afastou, e pude voltar à manhã clara de abril. Lim­pei o suor do rosto e inspirei fundo. Parecia que era pela primeira vez. Puxei o cabelo úmido para trás e sacudi a cabeça.

— Eles ficam amontoados à minha volta — falei, com irrita­ção.

— Quem fica?

— Aqueles que velam por este lugar. — Os seus olhos me fi­tavam, à espera de maravilhas. Desceu devagar os degraus do altar. A mesa de pedra atrás dele era só uma mesa, em que havia uma espada toscamente entalhada. Sorri para ele. — Tenho um dom, Emrys, que pode ser útil e muito poderoso, mas que às vezes é inconveniente, e é sempre um bocado desagradável.

— Quer dizer que vê coisas que não existem?

— Às vezes.

— Então é um mágico? Ou um profeta?

— Digamos que um pouco de cada. Mas esse é o meu segredo, Emrys. Eu guardei o seu.

— Não contarei a ninguém. — Só isso, nem promessas nem juramentos, mas eu sabia que ele o faria. — Quer dizer que você estava prevendo o futuro? Que significava?

— Não se pode ter certeza. Eu mesmo não tenho sempre cer­teza. Mas uma coisa é certa: um dia, quando você estiver pronto, vai achar a sua própria espada, e será a mais bela e mortífera do mundo. Mas agora, neste momento, quer me arranjar um pouco de água? Há um copo ao lado da fonte.

Ele veio correndo. Agradeci e bebi, depois devolvi o copo.

— E quanto aos figos secos? Ainda está com fome?

— Estou sempre com fome.

— De outra vez que vier, traga a sua merenda. Pode chegar aqui num mau dia.

— Trarei comida para o senhor, se quiser. É muito pobre? Não tem cara. — Avaliou-me de novo, com a cabeça inclinada. — Pelo menos, não fala como se fosse. Se quiser alguma coisa, posso tentar arranjar para o senhor.

— Não se incomode. Tenho tudo de que preciso, agora, respondi.

 

Ralf retornou, com os olhos cheios de indagações, mas formu­lando apenas as apropriadas à situação.

Voltou cedo demais para o meu gosto. Havia nove anos para repassar, e conclusões a tirar. Voltou também cedo demais para o gosto do menino, que recebeu Ralf com cortesia e escutou em silên­cio as reprimendas. Deduzi pela expressão de Artur que somente a minha presença o salvara de algo mais que palavras iradas. Ele vivia sob disciplina rígida; devia saber que os reis são criados mais se­veramente que as demais pessoas, mas não sabia que a regra se apli­cava a ele. Como seria criado Cei, e que pensaria Artur da discri­minação? Quando Ralf acabou de ralhar, ofereci-lhe vinho para acal­má-lo, e fui servi-lo humildemente.

Quando foi pegar os cavalos, falei rapidamente para Ralf:

— Diga ao Conde Ector que prefiro não ir ao castelo. Ele compreenderá. Os riscos são muito grandes. Ele poderá sugerir um lugar para nos encontrarmos em segurança. Costumava vir aqui?

— Nunca veio quando Prosper estava aqui.

— Então, eu descerei quando receber o seu recado. Ralf, não temos muito tempo, mas diga-me só isto: desconfia de que alguém tenha suspeitado quem é o menino? Não houve ninguém rondando o castelo, nada de suspeito?

— Nada. Continuei, devagar:

— Eu vi uma coisa quando você o trouxe da Bretanha. Vocês foram atacados perto do desfiladeiro. Por quem? Viu?

Ele ficou olhando para mim.

— Quer dizer lá perto das rochas, entre Mediobogdum e aqui? Lembro-me bem. Mas como é que o senhor soube disso?

— Vi no fogo. Eu os observava sempre. Que foi, Ralf? Por que essa cara?

— Foi uma coisa esquisita — respondeu devagar. — Nunca me esqueci. Naquela noite, quando nos atacaram, pensei tê-lo ouvido gritar o meu nome. Um aviso, claro como uma trombeta, ou o la­tido de um cão. E, agora, o senhor diz que estava olhando. — Mexeu os ombros como se tivesse sentido um arrepio, depois deu uma risada. — Já me esquecera do que é capaz, meu senhor. Acho que vou ter que me acostumar de novo. Ainda nos observa? Às vezes, isto pode ser meio de mau jeito.

Dei uma risada.

— Não os observo mais. Acho que pressentiria o perigo, se houvesse algum. No mais, deixo tudo em suas mãos. Mas, diga-me, descobriu quem os atacou naquela noite?

— Não. Não usavam brasão. Matamos dois deles e nada en­contramos que os identificasse. O Conde Ector achou que eram mal­feitores ou ladrões. Eu também acho. E nunca houve mais nada des­de então, nada mesmo.

— Era o que eu pensava. E, agora, nada deve ligar Myrddin, o ermitão, a Merlin, o feiticeiro. O que estão comentando sobre o novo homem santo da capela da mata?

— Somente que Prosper morreu e que Deus mandou um subs­tituto na hora certa, como sempre. Que o substituto é moço e com jeito de quieto, mas que não é tão quieto como parece.

— Que querem dizer com isto?

— Não tem duplo sentido. É que nem sempre o senhor se conduz como um humilde ermitão.

— Não? Não sei por que; é o que sou normalmente. Preciso tomar mais cuidado.

— Acho que o senhor acredita mesmo nisso. — Ele sorria, divertido. — Não se preocupe, eles só acham que o senhor é mais santo que a maioria. Este lugar sempre foi assombrado, e agora pa­rece que é mais. Falam num espírito que tem a forma de um enorme pássaro branco e que voa em cima dos rostos dos homens que se aventuram pela trilha... as coisas de sempre sobre assombrações, tolices da roça, em que não se pode acreditar. Mas há duas semanas  sabia que uma tropa vinha vindo para cá, proveniente de Alauna, e que uma árvore bloqueou a trilha, caindo sem aviso, e não havia vento soprando?

Não sabia. Alguém se machucou?

— Não. E eles seguiram por outro caminho.

— Sei.

Ele me fitava com curiosidade.

— Os seus deuses, meu senhor?

— Pode chamá-los assim. Não imaginava que ia ser tão bem protegido.

— Então o senhor sabia que uma coisa dessas ia acontecer''

— Não, até que você me contasse. Mas, sei quem o fez, e por quê.

Ele franziu a testa, pensativo.

— Mas se foi feito de propósito... Se eu trouxer Emrys para cá de novo...

— Emrys estará a salvo. E será o seu salvo-conduto também Ralf. Não tenha medo deles.

Notei que tremeu ao ouvir a palavra "medo", depois assentiu. Parecia ansioso, até tenso. Perguntou:

— Quanto tempo acha que ficará aqui?

— É difícil dizer. Tudo depende da saúde do Grande Rei. Se Uther tiver uma recuperação total, talvez o menino fique aqui até completar quatorze anos, quando estará pronto para encontrar-se com o pai. Por que, Ralf? Não pode resignar-se à obscuridade por mais alguns anos? Ou é muito exaustivo tomar conta do jovem ca­valeiro?

— Não. . . quer dizer, sim. Mas não é por isso que... — Gaguejava ruborizado.

Perguntei divertido:

— E quem é ela?

Não compreendi a sua cara fechada até que perguntou, depois de uma pausa:

— O que mais o senhor viu quando olhava Artur no fogo?

— Meu caro Ralf! — Não era o momento apropriado para dizer-lhe que as estrelas tendem a espelhar apenas o destino dos reis e a vontade dos deuses. Respondi, mansamente: — A Visão não costuma levar-me para além das portas dos quartos de dormir. Adi­vinhei. O seu rosto é transparente como uma cortina de gaze. E pre­cisa lembrar-se de chamá-lo de Emrys até quando está zangado.

— Desculpe. Não quis dizer. . . Não que houvesse algo que o senhor não pudesse ter visto. . . quero dizer, eu nunca entrei no quarto de dormir dela... quero dizer, ela é.. . Ora, mas que in­ferno, eu devia saber que o senhor já estaria a par. Não quis ser insolente. Esqueci que o senhor não encara as coisas como os outros homens. Nunca sei onde estou pisando, com o senhor. O senhor esteve fora tanto tempo... Os cavalos estão chegando. Ele também selou o seu. Não disse que não ia descer hoje?

— Não pretendia. Deve ser idéia de Emrys.

E era. Logo que nos avistou à porta, Artur gritou:

— Trouxe também o seu cavalo, senhor. Não quer nos acom­panhar um pouco?

— Se formos na minha velocidade, não na sua.

— Podemos ir andando, se quiser.

— Oh, não quero sujeitá-los a isso. Mas vamos deixar Ralf ir na frente, está bem?

A primeira parte da descida era íngreme. Ralf ia à frente e Artur atrás dele, e o cavalo preto pisava muito firme, mesmo, pois Artur ficou o tempo todo com a cabeça virada para trás, conver­sando comigo. Parecia que era o garoto que tinha nove anos para recuperar; eu nem precisava fazer perguntas; todos os detalhes, pe­quenos e grandes,-da sua vida saíram aos borbotões, e no final eu sabia tudo sobre a casa do Conde Ector, e sobre o lugar que ele ocupava nela... sabia até mais que o menino.

Afinal, saímos de dentro dos pinheiros, e chegamos a um bos­que de carvalhos e castanheiros onde já se cavalgava com mais fa­cilidade, e, meia milha adiante, alcançávamos a trilha fácil que con­tornava o lago. Caer Bannog, iluminada pelo sol, flutuava acima do seu segredo. O vale alargava-se à nossa frente, e logo deparamos com a linha de salgueiros que indicava o rio.

Parei o meu cavalo no ponto onde o rio deixava o lago. Quan­do me despedia deles, o menino perguntou depressa:

— Posso voltar breve?

— Venha quando quiser. . . quando puder. Mas prometa-me uma coisa.

Fez um ar desconfiado, que significava que pretendia cumprir o que quer que prometesse.

— O quê?

— Que não virá sem Ralf ou outro acompanhante. Não fuja da próxima vez. Esta floresta não se chama Floresta Agreste sem razão.

— Ah, sei que dizem que é mal-assombrada, mas não tenho medo do que mora nas colinas, não depois que vi. . . — Interrompeu-se, e mudou de direção sem titubear — não com o senhor aqui. E se forem lobos, tenho o meu punhal, e os lobos não atacam de dia. Além disso, lobo nenhum alcança Estrela.

— Eu estava pensando em outro tipo de animal selvagem.

— Ursos? Javalis? — Não, homens.

— Ah! — A sílaba correspondia a um dar de ombros. Era coragem, é claro; aqui também havia bandidos, como em todo lugar, mas era também inocência. Assim o Conde Ector o criara. A cabeça mais vulnerável e procurada do reino, e o perigo era só uma palavra para ele.

— Está bem — continuou — prometo. Fiquei satisfeito. Os guardiães das colinas ocas podiam vigiá-lo para mim, mas protegê-lo já era outra história. Para isso era preciso o poder de Ector, e o meu.

— Minhas saudações ao Conde Ector — disse a Ralf, e vi que ele entendeu os meus pensamentos. Separamo-nos. Fiquei olhan­do enquanto cavalgavam pela relva ao longo do rio, o cavalo negro ansioso para correr, o alazão de Ralf inquieto ao seu lado, e o garoto falando e gesticulando. Finalmente, conseguiu o que queria, pois, de repente, Ralf esporeou o alazão que partiu a galope. O cavalo preto, esporeado uma fração de segundo depois, seguiu atrás dele como uma flecha. Quando as duas figuras velozes iam desaparecer por trás de uns vidoeiros, a menor virou-se na sela, e acenou. Tinha começado.

 

Ele voltou no dia seguinte, trotando comportadamente clareira adentro, com Ralf logo atrás. Artur trazia de presente ovos, bolinhos de mel, e a informação de que o Conde continuava ausente, mas que a Condessa achava que a influência de um homem santo seria muito benéfica, e que ele poderia vir ver-me sempre. O Conde me encontraria quando voltasse.

Foi Artur quem deu o recado, não Ralf, e não viu nada demais nele, só as precauções habituais de um guardião que ele achava severo demais.

Quatro ovos estavam quebrados.

— Só mesmo Emrys — falou Ralf — podia imaginar que con­seguiria trazer ovos montado nesse potro selvagem.

— Ele saiu-se muito bem, pois só quebrou quatro.

— É, só mesmo Emrys faria isto. Nunca fiz uma viagem mais tranqüila desde a última vez que escoltei o senhor.

Depois, deu uma desculpa qualquer e foi embora. Artur lavou a crina do cavalo que estava suja dos ovos, depois veio ajudar-me a comer os bolinhos de mel, e bombardear-me com perguntas sobre o mundo que havia fora dos limites da Floresta Agreste.

Alguns dias mais tarde, Ector retornou a Galava, e tomou as providências para encontrar-me.

Já devia estar-se comentando que o garoto Emrys fora duas ou três vezes à capela na mata, e era lícito esperar-se que o Conde Ector ou a sua senhora quisessem conhecer o novo encarregado picou combinado que Ector e eu nos encontraríamos, por acaso, na fazenda de Fedor. Fedor e sua mulher eram de absoluta confian­ça. As outras pessoas apenas veriam o novo ermitão vindo buscar as provisões de costume, e o Conde, que ia passando e aproveitou a oportunidade para travar conhecimento com ele.

Fomos para uma salinha pequena e enfumaçada, o nosso anfi­trião deu-nos um pouco de vinho, e deixou-nos a sós.

Ector pouco mudara, só estava com a barba e os cabelos mais grisalhos. Quando, após os cumprimentos iniciais, eu fiz este co­mentário, ele riu.

— Não é de surpreender. Você bota um ovo de cuco dourado no nosso ninho tranqüilo, e quer que eu continue despreocupado? Não, não, homem, estou só brincando. Drusilla e eu queremos muito bem ao menino. Não importa o que o futuro nos reserve, estes anos foram bons, e se fizemos um bom trabalho, foi porque trabalhamos com material de primeira.

Começou a contar a sua administração. Cinco anos é muito tem­po, e muito havia que contar. Quase não falei, só escutei. Algumas coisas eu já sabia, ou porque vira no fogo, ou porque o menino me contara. Mas o que realmente se destacava da narrativa de Ector era a afeição profunda que ele e a mulher dedicavam ao pupilo. Não apenas eles dois, mas o resto do pessoal da casa, que não tinha a menor idéia de quem era realmente, era profundamente afeiçoado a Artur. Minha impressão dele fora correta: tinha coragem, inteli­gência viva e pronta, e um enorme desejo de se destacar. Não tinha a cabeça fria e nem era cauteloso (os mesmos defeitos do pai. . .)

— Mas, que diabo, quem quer que um guri seja cauteloso? Isto ele vai aprender da primeira vez em que for magoado, ou quan­do conhecer um homem em quem não possa confiar — falou Ector com aspereza, dividido entre o orgulho que sentia pelo menino e o que sentia pela sua atuação como guardião.

Quando toquei neste assunto, e comecei a agradecer pelo que havia feito, interrompeu-me abruptamente.

— Bem, ao que me consta, está muito bem instalado por aqui. Que bela chance teve de aparecer na Capela Verde bem na hora de substituir o velho Prosper!

— Chance? — perguntei.

— Ai, ai, já estava esquecendo com quem estava falando! Faz muito tempo que não temos um feiticeiro por aqui. Bem, para um simples mortal como eu parecia só chance. Seja lá o que for, foi a melhor coisa; você não poderia ter ficado no castelo, pois temos lá um sujeito que o conhece bem: Marcelo, casado com a irmã de Valério. É o meu mestre-de-armas. Talvez eu não devesse tê-lo contratado, sabendo que você deveria voltar, mas ele é um dos melhores oficiais do país, e Deus sabe que vamos precisar do máximo, aqui no norte. Também é o melhor espadachim do país. Pelo bem do menino, não quis perder esta oportunidade. — Olhou-me vivamente — Do que está rindo? Isto também não aconteceu por chance?

— Não, — respondi — foi Uther. — Contei-lhe da conversa que tivera com o Rei sobre o treinamento de Artur. — É bem típico de Uther ter mandado um homem que me conhecia. Bem, mas ele não pode pensar em duas coisas ao mesmo tempo. . . Está certo vou ficar afastado. Você pode arranjar um bom motivo para deixar o menino ir visitar-me?

— Já espalhei por aí que ouvi falar de você, e que você é um homem culto e viajado, e que pode ensinar aos meninos coisas que o Abade Martin e os padres não podem. Todos saberão que eu os autorizei a procurarem-no sempre que tiverem vontade.

— "Os"? Pensei que Cei já não necessitasse de tutor.

— Ah, ele não iria para aprender! — A voz do pai denotava um orgulho meio pesaroso. — Ele é como eu, o meu Cei só pensa nas artes de batalha. Nunca será o espadachim que Artur promete ser, mas é tenaz e esforçado. Ele não voltará a segunda vez se tiver que aprender coisas em livros, mas, sabe como são os meninos, o que um quer, o outro também quer, e mesmo que eu quisesse, não conseguiria afastá-lo daqui, depois de tudo que Artur lhe contou. Artur não fala noutra coisa desde que cheguei, até disse a Drusilla que era seu dever sagrado vir todo dia ver se você tinha bastante comida. É, pode rir. Você botou feitiço nele?

— Que eu saiba, não. Gostaria de ver Cei novamente Era um bom menino.

— Não é fácil para ele — explicou Ector — saber que o garoto, apesar de três anos mais novo, é quase tão bom quanto ele, e que provavelmente o sobrepujará quando forem homens. E quando eram menores era sempre: "Deixe Emrys ter tanto quanto você. . . ele é o filho adotivo, é um convidado." Talvez tivesse sido mais fácil se houvesse outros. Foi muito difícil para Drusilla, sem poder favore­cer nem um nem outro, mas tendo que demonstrar a Cei que ele era o filho verdadeiro, sem que Artur se sentisse alijado. Cei trata bem o outro menino, embora sinta um pouco de ciúme, mas não haverá o que temer no futuro, garanto-lhe. Mostre-lhe a quem deve ser leal, e nada o modificará. Ele é como o pai: um cachorro lerdo, mas quando morde não larga. — Continuou a conversar, e eu escuta­va, recordando a minha infância tão diferente, um bastardo e un1 intruso naquela corte. Eu era quieto e não demonstrava nenhum ta­lento que pudesse despertar inveja, enquanto Artur sobressaía entre outros meninos, como um jovem dragão numa ninhada de salamandras.

Afinal, Ector suspirou, bebeu e largou o copo. .— Mas isto são águas passadas. Cei fica ao meu lado, agora, entre os homens, e Bedwyr faz companhia a Artur. Quando falei no plural, não estava me referindo a Cei. Temos outro menino conosco. Trouxe-o de York. Chama-se Bedwyr e é filho de Ban de Benoic. Conhece-o?

— Conheço.

— Ele pediu-me que ficasse com Bedwyr por um ou dois anos. Soube que Marcelo estava aqui, e queria que Bedwyr aprendesse com ele. Tem mais ou menos a mesma idade de Artur, por isso não me incomodei com a sugestão de Ban. Você gostará de Bedwyr. Um menino tranqüilo; não demasiado inteligente, segundo ò Abade Martin, mas um bom garoto, e parece gostar de Emrys. Cei pensa duas vezes antes de se meter com esta dupla. Bem, então fica assim. Vamos torcer para que o Abade Martin não queira travar a roda! — Será que o faria? — Bem, o menino é cristão. Prosper aparentemente serviu a Deus, nestes últimos anos, mas todos sabem que a Capela Verde acolheu outros deuses que não o verdadeiro Cristo, em outras épo­cas. O que faz você lá em cima, na floresta?

— Eu acredito em honrar o deus que se me apresenta — res­pondi. — Isto é ser sensato e cortês. Às vezes, acho que nem os deuses ainda decidiram. A capela fica aberta, e entra quem quer.

— E Artur?

— Numa casa cristã, Artur honrará o Deus de Cristo. O que ele fará num campo de batalha já é outra coisa. Ainda não sei qual o deus que dará a espada ao menino, e não creio que Cristo tenha sido grande coisa como espadachim. Mas veremos. Posso ser­vir-lhe mais vinho?

— Como? Ah, sim. — Ector piscou, umedeceu os lábios e mudou de assunto. — Ralf me contou que você fez perguntas sobre a emboscada de Mediobogdum, há cinco anos. Eram apenas ladrões. Por que pergunta? Acha que há alguém interessado, agora?

— Tive problemas na viagem para o norte. Ralf disse que por aqui não houve nada.

— Nada. Já fui duas vezes a Winchester e uma vez a Londres, e ninguém fez uma única pergunta, o que certamente teria aconteci­do se houvesse suspeitas de que o menino estava aqui pelo norte.

— Lot nunca se aproximou ou demonstrou interesse?

Um olhar ligeiro.

— Ah? ele! Bem, da parte dele nada me surpreenderia. Alguns dos problemas que temos tido por aqui teriam sido evitados, se de­terminado cavalheiro desse mais atenção aos assuntos do seu reino em vez de estar procurando cortejar um trono.

— Então, é isto que comentam. Ele está atrás do lugar do Rei e não de um lugar ao lado do Rei?

— Seja lá o que for, ele e Morgiana estão comprometidos; vão se casar quando a menina fizer doze anos. Não há jeito de desman­char essa união agora, nem que Uther quisesse.

— E você não está satisfeito?

— Ninguém está, aqui, nesta região. Dizem que Lot tem aumen­tado continuamente as suas fronteiras, e nem sempre pela força. Tem havido reuniões. Se e!e estiver com muito poder na época do declínio de Uther, talvez voltemos aos tempos do Lobo. Os saxões chegando a cada primavera, queimando e violando até o Caminho Penino, e os irlandeses vindo juntar-se a eles, e mais do nosso povo fugindo para as montanhas e para o pouco conforto que encontram por lá.

— Quando foi a última vez que viu o Rei?

— Há três semanas. Quando esteve em York, mandou chamar-me e fez perguntas sobre o garoto.

— Que tal está ele?

— Está bem, mas não tão afiado quanto antes. Dá para en­tender?

— Perfeitamente. Cador de Cornwall estava com ele?

— Não. Ainda estava em Caerleon. Dizem que...

— Em Caerleon? — indaguei vivamente. — O próprio Cador esteve lá?

— Esteve — respondeu Ector, surpreso. — Pouco antes de você sair de casa. Não sabia?

— Devia ter sabido — comentei. — Mandou um grupo de homens armados revistar a minha casa em Bryn Myrddin, e vigiar os meus movimentos. Despistei-os, acho, mas não imaginava estar sendo vigiado por dois grupos ao mesmo tempo. Urien de Gore também tinha gente em Maridunum, e me seguiram até Gwynedd. — Contei-lhe sobre Crinas e a gente de Urien, e ele escutou, de testa franzida. Perguntei: — Não ouviu falar em nada disso por aqui. Eles não fariam perguntas abertamente, mas esperariam, vigiariam e escutariam.

— Não. Eu teria sido avisado se aparecessem estranhos. Vo« deve tê-los despistado. Fique tranqüilo, os homens de Cador na0 virão para estes lados. Ele está agora em Segontium, sabia?

— Quando estive lá, ele estava sendo esperado. Sabe se pre­tende fazer de Segontium o seu quartel-general, agora que Uther no­meou-o chefe das Defesas da Praia Irlandesa? Falou-se em sitiá-lo?

— Falou-se, sim, mas acho que não vai dar em nada. Seria uma tarefa que consumiria mais tempo e dinheiro do que Uther pode gastar, agora. Acho que Cador vai guarnecer Segontium e as fortalezas da fronteira, e vai instalar o seu quartel-general no inte­rior, de onde pode dirigir as suas forças para os pontos de ataque. Talvez em Deva. Rheged está em Luguvallium. Fazemos o possível.

— E Urien? Está firme lá no leste, onde é o seu lugar?

— Bem instalado na sua rocha — falou Ector, com satisfação sombria. — E uma coisa é certa. Até que Lot se case com Mor­giana, na presença de todos os bispos do reino, e que haja prova positiva da consumação, ele não moverá um dedo para derrubar Uther, nem deixará que Urien o faça. E nem ele vai encontrar Artur. Se não sentiram o cheiro do menino nesses nove anos, não há de ser agora que vão pegar a pista. Fique descansado. Quando Mor­giana estiver com doze anos, pronta para ser levada para a cama, Artur estará com quatorze, a idade em que o Rei prometeu mostrá-lo ao reino. Essa será a hora de lidar com Lot e Urien, mas, se a hora for antecipada, será pela vontade de Deus.

Com isso, nos separamos, e eu voltei sozinho para o santuário.

 

Depois disto, Artur vinha ver-me duas ou três vezes por semana, às vezes com os dois meninos, mas, geralmente, só com Bedwyr. Cei era um menino louro e grande, parecido com o pai, que tratava Artur com um misto de proteção e afeição fanfarrã que devia ser irritante, às vezes, para o garoto mais novo. Mas Artur parecia gostar do seu irmão de criação e queria partilhar com ele das alegrias que encontrava nas visitas que me fazia. Cei apreciava as histórias de lugares distantes que eu contava, e as histórias de lutas., conquis­tes e batalhas, mas logo se cansava de discutir o modo como os Povos viviam e governavam seus países, e as lendas e crenças que Artur adorava ouvir. Com o passar do tempo, Cei foi deixando de vir, acompanhando o pai, segundo me contavam os outros dois, nos Aportes ou nos negócios; às vezes caçava, patrulhava, visitava os vizinhos com o Conde Ector. Depois do primeiro ano, eu raramente via Cei.

Bedwyr era completamente diferente, um menino sossegado idade de Artur, meigo e sonhador como um poeta, e um seguidor inato. Ele e Artur eram como os dois lados de uma mesma maçã. Bedwyr acompanhava o outro com devoção canina; não procurava esconder o seu afeto por Artur, mas nada havia de efeminado nele apesar das maneiras meigas e dos olhos de poeta. Era um menino sem atrativos, com o nariz achatado em alguma briga, e mal conser­tado, e a cicatriz de uma queimadura na face. Mas tinha o caráter firme e bom, e Artur lhe queria bem. Como filho de Ban, um rei pequeno, Bedwyr era superior em status a Cei, e, segundo os meni­nos imaginavam, pertencia a uma esfera completamente diferente da de Artur. Mas isto nunca preocupou nem a Bedwyr nem a Artur, um oferecia devoção, o outro a aceitava.

Certo dia, perguntei-lhes:

— Conhecem a história de Bisclavaret, o homem que virou lobo? — Bedwyr, sem responder, foi buscar a harpa e colocou-a ao meu lado. Artur, deitado na cama, com o queixo apoiado na mão e os olhos brilhantes à luz do fogo (era uma tarde fria, no fim da primavera), falou impaciente:

— Deixe pra lá, não precisa a música. Conte a história. — Bedwyr acomodou-se ao lado dele, sobre as cobertas, e eu dedilhei as cordas e comecei.

Era uma história impressionante, que Artur escutou satisfeito, mas Bedwyr foi ficando cada vez mais quieto, e os seus olhos foram ficando maiores. Já estava escurecendo quando voltaram para casa, acompanhados por um criado parrudo. Artur, quando ficou sozinho comigo no dia seguinte, contou que Bedwyr tivera pesadelos durante a noite.

— Mas, sabe, Myrddin, quando estávamos voltando para casa ontem, e a história ainda estava fresca nos seus ouvidos, vimos algo deslizar por entre as árvores, e pensamos que fosse um lobo, e Bedwyr botou-me entre ele e Leo. Eu sabia que ele estava com medo, mas disse que era o seu dever proteger-me, e suponho que seja, porque ele é filho de um rei e eu...

Interrompeu-se. Nunca pisara neste terreno delicado. Fiquei ca­lado e esperei.

— ... sou seu amigo.

Conversei com ele, então, sobre a coragem e o momento passou. Lembro-me do que disse depois sobre Bedwyr. Lembrei-me muitas vezes, nos anos que se seguiram, quando a amizade nunca arrefeceu, nas situações mais delicadas.

Ele disse, com toda a seriedade, como se, aos nove anos, tivesse certeza:

Ele é o companheiro mais corajoso, e o melhor amigo do mundo.

 

Ector e Drusilla fizeram com que Artur soubesse o que podia sobre o seu pai e a Rainha. Ele sabia, como todo mundo no país, que havia um jovem herdeiro à espera (na Bretanha, na Ilha de Vidro, na torre de Merlin) da sucessão. Ele mesmo me contou a história que corria sobre "o estupro de Tintagel". A lenda estava, cada vez mais, enriquecida. Agora, contava-se que Merlin transpor­tara o grupo do Rei, com cavalos e tudo, para dentro da fortaleza, e para fora no dia seguinte, tudo invisível.

— E contam — terminou Artur — que um dragão ficou enras­cado a noite toda nas torres, e que no dia seguinte Merlin montou nele e saiu voando, deixando um rastro de fogo.

— Não diga! É a primeira vez que ouço isto.

— Conhece a história? — perguntou Bedwyr.

— Conheço uma canção que está bem próxima da verdade. Quem me contou foi um homem que esteve em Cornwall.

Ralf estava presente, escutando, divertido. Fiz-lhe uma pergunta muda e ele fez que não com a cabeça. Ele não tinha dito a Artur que morara em Tintagel, e ninguém podia adivinhar. Falava com sotaque do norte.

Assim, contei aos meninos a verdade (e quem a conhecia me­lhor?) sem os enfeites de fantasia que o tempo e a ignorância tinham acrescentado. A história já era bem fantástica por si mesma; a von­tade de Deus e o amor humano juntos na noite escura sob a luz da grande estrela, e a semente plantada que faria nascer um grande Rei.

— Assim, fez-se a vontade de Deus, e a do Rei, e os homens, como sempre, cometeram erros e morreram por causa deles. E, pela manhã, o feiticeiro foi embora sozinho cuidar da sua mão que­brada.

— Nenhum dragão? — indagou Bedwyr.

— Nenhum dragão — respondi.

— Prefiro o dragão — disse Bedwyr com firmeza. — Vou con­tinuar a acreditar no dragão. Ele ter ido embora sozinho é muito decepcionante Um feiticeiro de verdade não teria feito isto, não é,

— Claro que não — respondeu Ralf, ficando de pé. — Vamos indo, já está escurecendo.

Não lhe deram atenção.

— O que não entendo mesmo — falou Bedwyr — é que um rei possa se arriscar tanto por uma mulher. Ser fiel aos seus pares é muito mais importante que a posse de qualquer mulher. Eu nunca me arriscaria a perder nada de realmente importante por este mo­tivo.

— Nem eu — disse Artur, lentamente. Ele estivera meditando sobre o assunto. — Mas acho que compreendo, apesar disso. A gente tem que levar o amor em consideração.

— Mas não se pode arriscar a amizade por causa dele — apres­sou-se a dizer Bedwyr.

— Claro que não — replicou Artur. Ele falava em termos ge­rais, enquanto Bedwyr referia-se a uma amizade, um amor.

Ralf recomeçou a falar, mas neste momento uma sombra pas­sou silenciosa em frente à luz do lampião. Os meninos nem ligaram, era só a coruja branca que entrara pela janela e ia para o seu poleiro no teto. Mas a sua sombra passou por cima da minha pele como uma mão gelada, e eu tremi.

— Que foi, Myrddin? — perguntou logo Artur. — É só a co­ruja. Você parece que viu um fantasma!

— Não foi nada. Não sei.

Eu não sabia, mas agora sei. Estávamos falando em latim, como de hábito, mas a palavra que ele empregou para a sombra sobre a luz foi celta: guenhwyvar.

 

Eu também contava a eles a história do seu país, fatos recentes, Ambrósio e a sua guerra contra Vortigern, e como ele unificara os reinos, e se tornara o Grande Rei, e trouxera a justiça para todos, pelo uso da espada, e que, por alguns anos, os homens puderam cuidar da sua vida em paz, sem serem molestados; se o fossem, poderiam recorrer à justiça do Rei, que era igual para o rico e para o pobre. Para muitos, isto era História; mas eu estivera presente, e por dentro, ao lado do Grande Rei, e, em certos casos, fora o arquiteto dos acontecimentos. Isto, é claro, eles não poderiam saber. Eu só dissera que estivera com Ambrósio na Bretanha, e na batalha de Kaerconan, e nos anos da reconstrução. Eles nunca pergunta­ram como ou por que estive lá, e acho que era por delicadeza, para que não tivesse de confessar que fora um humilde assistente dos en­genheiros, ou, talvez, um escrivão. Mas ainda recordo as perguntas de Artur sobre o Conde da Inglaterra (que era como Ambrósio se chamava, então), como ele reunira, treinara e equipara o seu exercício, como ele o enviara pelo Mar Estreito para a terra dos Dumnonii onde estabelecera a sua posição de Grande Rei, antes de partir para o norte para derrotar Vortigern em Doward, e destroçar o imenso exército saxão em Kaerconan. Eu tinha que descrever para ele cada detalhe da organização, planejamento e estratégia de que me recordava, e cada escaramuça a que eu me referia era revivida pelos dois meninos, debruçados sobre mapas desenhados na poeira. — Dizem que logo vai haver guerra — falou Artur — e sou muito moço para poder ir. — Lamentava abertamente, como um cão que tem que ficar em casa num dia de caçada. Faltavam três meses para o seu décimo aniversário.

 

As visitas não eram só para discutir guerras e altos destinos, é claro. Havia dias em que os meninos brincavam como cachorrinhos, correndo e lutando, apostando corrida pelas margens do rio, nadando no lago e assustando os peixes, ou subindo as colinas com Ralf para caçar lebres ou pombos. Às vezes eu os acompanhava, mas não gostava de caçar. Era diferente quando eu pegava a vara de pescar do velho ermitão e ia para as margens do lago. Passávamos horas felizes, Artur pescando, com mais vontade do que sucesso, e eu ob­servando e conversando. Bedwyr não gostava de pescar, e acompa­nhava Ralf nessas ocasiões, mas Artur preferia ficar comigo, mesmo nos dias em que o vento ou o mau tempo impediam a pesca, em vez de ir com Ralf e Bedwyr divertir-se na floresta.

Agora eu me recordo que não parava para pesquisar o motivo disto. O menino era toda a minha vida, o meu amor por ele parte do cotidiano, e eu ficava feliz em aceitar tudo que vinha dele, tomando como presente dos deuses o fato de que o menino parecia gostar de ficar ao meu lado, acima de tudo. Dizia a mim mesmo que ele precisava escapar da casa adotiva, das atitudes de um irmão mais velho que estava sendo preparado para uma posição que ele nunca poderia almejar, e que apreciava a chance de estar com Bedwyr num mundo de imaginação e feitos audazes, a que ele gostaria de perten­cer. Não me permitia atribuir o seu comportamento ao amor, e se tivesse adivinhado a natureza daquele amor, nada poderia ter feito na época.

Bedwyr ficou em Galava por mais de um ano, voltando para casa no outono anterior ao décimo primeiro aniversário de Artur. Ele deveria voltar no verão seguinte. Depois que ele partiu, Artur lamentou-se por uma semana, ficou quieto por mais uma, e depois recobrou de estalo o seu bom humor, e voltou a vir visitar-me, apesar "o mau tempo, com mais freqüência do que antes.

Não tenho idéia dos motivos que Ector alegava para deixar que ele viesse tão freqüentemente. Provavelmente, não precisava de mo­tivos: o menino tinha por hábito cavalgar diariamente, a não ser quando o tempo estava proibitivo, e se não quisesse dizer aonde ia nada lhe era perguntado. Como era de se esperar, logo se soube quê ele vinha muito à Capela Verde, onde vivia o sábio, mas se alguém pensou duas vezes no assunto, foi para elogiar o bom senso do meni­no que queria privar com um homem culto.

Nunca tentei ensinar Artur do modo que o meu mestre Galapas me ensinara. Ele não se interessava pela leitura ou por cálculos, e não tentei forçá-lo; quando fosse Rei ele se utilizaria de outros ho­mens para estas artes. A sua educação formal era ministrada pelo Abade Martin e outros da comunidade. Percebi nele um pouco da minha queda para línguas, e descobri que, além do celta da região onde morava, guardava noções do bretão que aprendera com a ama, e Ector, preocupado com o futuro, procurara modificar o seu so­taque nortista, para que os britânicos de toda parte pudessem enten­dê-lo. Decidi ensinar-lhe o Velho Idioma, e fiquei surpreso ao ver que ele já sabia o suficiente para entender uma frase dita devagar. Quando perguntei onde o aprendera, pareceu surpreso e respondeu:

— Aprendi com o povo das colinas, é claro. São os únicos que ainda o falam.

— E já falou com eles?

— Ah, já. Quando era pequeno, certa vez saí com um dos sol­dados, que caiu do cavalo e machucou-se, e dois deles vieram aju­dar. Pareciam saber quem eu era.

— Pareciam?

— É. Depois, eu os via sempre, aqui e ali, e aprendi a falar um pouquinho como eles. Mas queria aprender mais.

Nada lhe ensinei das minhas outras habilidades, música e medi­cina, todo o conhecimento que eu adquirira sobre as feras e os pás­saros e os animais selvagens. Não precisaria delas. Ele só se inte­ressava pelas feras para caçá-las e sabia tanto quanto eu sobre os hábitos dos veados selvagens, dos lobos e dos javalis. Também não fiz com que partilhasse muito do meu conhecimento de máquinas; outros homens as fariam e montariam para ele; ele só precisaria saber usá-las e isto lhe fora ensinado, junto com as demais artes da guerra, pelos soldados de Ector. Mas, como Galapas fizera comigo, eu lhe ensinei a fazer e a ler mapas, e mostrei-lhe o mapa do céu.

Certo dia, ele perguntou:

— Por que você olha para mim, às vezes, como se eu lhe lem­brasse alguém?

— Eu faço isso?

— Você sabe que sim. Quem é? .— Eu mesmo, um pouco.

— Que quer dizer? — Ergueu a cabeça do mapa que estava estudando.

.— Já lhe disse que quando tinha a sua idade ia sempre para as colinas visitar o meu amigo Galapas. Estava me lembrando da primeira vez que me ensinou a ler um mapa. Ele me obrigava a tra­balhar muito mais que eu a você.

— Sei. — Não disse mais nada, mas ficou abatido. Por que será que imaginava que pudesse contar-lhe algo sobre a sua origem? Ocorreu-me então que esperava que eu pudesse "ver" as coisas que quisesse. Mas nunca pediu que eu o fizesse.

 

Não houve guerra naquele ano nem no ano seguinte. Depois do décimo segundo aniversário de Artur, na primavera, Octa e Eosa conseguiram, finalmente, escapar da prisão, e fugiram para o sul, refugiando-se atrás das fronteiras dos saxões federados. Comentou-se que foram auxiliados por senhores que se diziam leais a Uther. Não se podia culpar Lot diretamente, nem Cador; ninguém sabia quem eram os traidores, mas os comentários fervilhavam, e só faziam aumentar a inquietação que se espalhava pelo país. Parecia que a união forçada dos reinos, promovida por Ambrósio, iria se desman­telar. Cada um dos reis menores, seguindo o exemplo de Lot, au­mentava as suas fronteiras. E Uther, que já não era mais aquele guerreiro brilhante que fora temido e admirado, dependia demais da força dos seus aliados, e se fazia de cego ao poder que eles esta­vam acumulando.

O resto do ano foi relativamente calmo, apenas com as escara­muças habituais nos dois lados da Muralha de Adriano, e os desem­barques de verão na costa leste que, dizia-se, os seus defensores não fizeram muita força para repelir. As tempestades no Mar Irlan­dês mantiveram a paz no oeste, e Cador iniciara as fortificações em Segontium. O Rei Uther, sem dar atenção aos que diziam que qual­quer problema que houvesse começaria no norte, permanecia entre Londres e Winchester, concentrando as suas energias no patrulha-mento da Praia Saxã e na proteção à Muralha de Ambrósio, com a sua força principal a postos para atacar onde quer que os invasores violassem as fronteiras. Na verdade, não havia muito que o atraísse para o norte; os rumores de uma grande aliança entre os invasores não passavam de rumores mesmo, e os ataques pequenos ao longo da costa sul continuaram o ano todo, fazendo com que o Rei ali permanecesse para enfrentá-los. A Rainha deixou Cornwall e mudou-se com toda a sua comitiva para Winchester. Sempre que podia, o Rei ia vê-la. Observou-se que ele não procurava mais outras mulheres como antes, mas não se falou em impotência; as mulheres que sabiam do seu problema devem ter achado que era apenas uma fase pas­sageira da sua doença e nada disseram. Quando se descobriu que ele agora passava todo o seu tempo livre com a Rainha, falou-se que tinha feito voto de fidelidade. Assim, embora as moças sentissem a falta do amante, os cidadãos que tinham que trancar as filhas quando o Rei aparecia ficaram muito satisfeitos, e teceram-lhe elogios por acrescentar esta virtude aos seus poderes de guerreiro.

Ele parecia ter recobrado perfeitamente estes últimos, embora se falasse do seu humor instável e de súbitas crueldades no trata­mento dispensado aos inimigos derrotados. Mas isto tudo parecia sinal de força, numa hora em que se necessitava de força.

Quanto a mim, tinha desaparecido sem maiores problemas. Se, às vezes, as pessoas se perguntavam por onde eu andaria, uns diziam que eu cruzara novamente o Mar Estreito para continuar as minhas viagens, outros que eu me escondia, solitário, para dedicar-me aos estudos. Os boatos sobre a minha pessoa vinham de todas as partes do país, segundo me contavam Ralf, Ector, e até Artur, inocente­mente. Diziam que, logo que o Rei ficou doente, Merlin tinha vindo imediatamente num navio dourado com velas escarlates, fora ao palácio para curá-lo e depois desaparecera no ar. Depois, fora visto em Bryn Myrddin, mas ninguém o vira pelo caminho. (E eu trocara de cavalo nos lugares de costume e ficara todas as noites numa taverna pública.) E desde então, comentava-se, o feiticeiro Merlin tem aparecido e desaparecido, aqui e ali, por todo o país. Tinha curado uma mulher doente perto de Aquae Sulis, e, uma semana mais tarde, fora visto na Floresta Caledônia, a quatrocentas mi­lhas de distância. O exército de lendas crescia, inventadas por pes­soas ociosas que almejavam a importância que essas "notícias" lhes conferiam. Às vezes, como já acontecera antes, curandeiros ambu­lantes e pseudo profetas diziam-se "um outro Merlin", ou, até mes­mo, fingiam ser eu; assim, despertavam a confiança dos pacientes, que não me desmereciam se ficavam bons. Se o doente morresse, as pessoas diziam:

— Não era Merlin, afinal de contas; a mágica dele teria dado certo. - E como a esta altura o falso Merlin já teria sumido, a minha reputação sobrevivia à impostura. Desse modo, conservei o meu segredo sem nada perder. E o encarregado tranqüilo da Capela Verde não despertou a mínima suspeita.

De tempos em tempos mandava recados para tranqüilizar o Rei. Eu tinha medo que ficasse impaciente e mandasse chamar o menino antes do tempo, ou que, inadvertidamente, deixasse os que o vigia­vam perceber sobre o Conde Ector ou sobre mim mesmo. Mas ele não o fez. Ector, conversando comigo a esse respeito, imaginava que o Rei não quisesse o menino ao seu lado em Londres por temer alguma traição, ou por ainda ter alguma esperança de ter outro filho.

Acho que não era nem uma coisa nem outra. Ele estava era assoberbado pelos problemas, pelas traições e pela falta da saúde a que estava acostumado; além disso, a Rainha adoeceu naquele inverno. Ele não tinha tempo para pensar no jovem estranho que estava esperando para conseguir aquilo que a ele, Uther, estava custando tanto conservar.

Quanto à Rainha, durante todos esses anos, muitas vezes eu me perguntei o motivo do seu silêncio. Ralf nunca deixara de manter contato com a avó, que servia a Ygraine, e por intermédio dela fazia chegar à Rainha as notícias do filho. Mas Ygraine, apesar de amar a filha Morgiana, e que teria amado o filho, conseguia encarar com aparente indiferença o uso dos seus filhos como simples ins­trumentos da política real. Morgiana e Artur eram para ela simples afirmações do seu amor pelo Rei, e, depois que nasceram, ela pôde voltar-se novamente para o marido. Mal vira Artur, e satisfazia-se em saber que um dia reapareceria na hora em que o Rei precisasse. Morgiana, a quem dedicara todo o amor materno de que era capaz, ia ser mandada (sem sequer olhar para trás, escrevera Márcia a Ralf) para o leito nupcial que traria o senhor dos reinos do norte para o lado de Uther, nas lutas que se aproximavam. Quando eu tentara fazer Artur entender o amor sexual abrasador que obcecara Uther e Ygraine, dissera apenas metade da verdade. Primeiro, ela era de Uther; depois, era Rainha; e, embora desse à luz príncipes, importava-se tanto quanto o gavião quando os filhotes voam. Para ela, era melhor que fosse assim; e para Artur também. Ele tinha tudo o de que precisava com Ector e a sua meiga esposa.

Não mantive contato com Bryn Myrddin, mas Ector deu um jeito e me arranjou notícias de lá. Stilicho casara com Mai, a ga­rota do moleiro, e a criança fora um menino. Enviei um presente em dinheiro, junto com as minhas felicitações e uma ameaça dos piores feitiços se ele ou alguém da' sua nova família tocasse nos livros e instrumentos que ficaram na gruta. Depois, esqueci-me deles.

Ralf também se casou durante o meu segundo verão na Floresta Agreste. O seu motivo não foi o mesmo de Stilicho; ele cortejou a moça por longo tempo, e só foi para a cama com ela depois de um casamento cristão. Mesmo se eu não soubesse que a moça era virtuo­sa e que Ralf estava atrás dela como um potro contido há mais de um ano, eu o teria adivinhado pela aparência tranqüila e a força resplandecente que passou a demonstrar, com o passar das semanas. Ela era uma linda moça, alegre e boa, e entregou-lhe toda a sua devoção, juntamente com a sua virgindade. Quanto a Ralf, era um moço normal, e tivera os seus casinhos, mas, depois do casamento, nunca mais os teve, embora fosse um belo rapaz; nos anos que se seguiram teve muito prestígio com o Rei, e não faltou quem o qui­sesse usar como trampolim para o poder, além de para o prazer. Mas Ralf não era do tipo de se deixar usar.

Acredito que em Galava houvesse quem achasse estranho que um cavalheiro tão capaz ficasse tomando conta do filho de criação de Ector, quando até o jovem Cei se reunia ao pai e às suas tropas quando havia algum alarma, mas Ralf era genioso e autoconfiante, e, além disso, alegava estar obedecendo às ordens do Conde. Talvez, se a sua esposa o atormentasse, tivesse sido difícil para ele, mas ela logo engravidou e achava ótimo tê-lo em casa ao seu lado. Ralf se aborrecia um pouco, é verdade, mas confessou-me, quando estáva­mos a sós, que se pudesse ver Artur no lugar que lhe cabia por di­reito, ao lado do Grande Rei, estaria satisfeito com a sua atuação na vida.

— O senhor me disse que os deuses estavam nos dirigindo, aquela noite em Tintagel — disse ele. — Não entendo de deuses como o senhor, mas não conheço nenhum outro jovem mais digno de tomar da espada do Grande Rei quando ele tiver de largá-la.

Tudo parecia confirmar isto. Quando ia à aldeia buscar supri­mentos, ou à taverna buscar mexericos, escutava um bocado sobre "Emrys", o filho de criação de Ector. Desde aquela época a sua personalidade era do tipo que acumula lendas, como certas pedras acumulam limo.

Certa vez, ouvi um homem dizer, na taverna lotada:

— Olhe, se me dissessem que ele tinha sangue do Dragão, que era bastardo do Grande Rei falecido, eu acreditaria.

Houve acenos de concordância, e outro falou:

— E por que não? Ele podia ser filho ilegítimo de Uther, não podia? Sempre me surpreendeu que não houvesse mais outros por aí. Ele era bem chegado às mulheres, antes que esta doença o fi­zesse ficar com medo do inferno.

Outro retrucou:

.— Se houvesse mais, ele os teria reconhecido.

— Ah, isto é verdade — falou o primeiro sujeito. — Ele nunca teve mais vergonha que o touro da fazenda, e por que teria? Dizem que a garota que teve na Bretanha, a tal de Morgause, tem muito prestígio na corte, e o acompanha para todo lado. Só sabemos desses, das duas garotas e do príncipe que está sendo criado em alguma corte estrangeira.

Então, como acontecia com freqüência atualmente, a conversa passou a ser sobre a sucessão, sobre o jovem Príncipe Artur que estava crescendo na corte estrangeira para a qual Merlin o tinha transportado, secretamente.

Eu não podia adivinhar por quanto tempo mais ele conseguiria permanecer escondido. Vendo-o cavalgar pelas trilhas da floresta, mergulhar lutando com Bedwyr nas águas do lago, no verão, beber o que eu lhe ensinava do mesmo modo que a terra absorve a chuva, admirava-me que ninguém enxergasse o que eu enxergava, a realeza que se desprendia dele, brilhando como brilhava na visão momentâ­nea da espada no altar de pedra.

 

Depois, veio o ano que até hoje tem o nome de Ano Negro. Foi o ano seguinte ao décimo terceiro aniversário de Artur. O chefe saxão Octa morreu em Rutupiae, de uma infecção que contraiu no seu longo cativeiro; mas o seu primo Eosa foi para a Alemanha en­contrar-se com Colgrim, filho de Octa, e não deve ser difícil imagi­nar o que deliberaram. O Rei da Irlanda cruzou os mares, mas não para a Praia Saxã, onde Cador esperava por ele em Deva, e Maelgon de Gwynedd por trás das fortificações feitas às pressas de Segontium; das praias de Rheged as suas velas foram vistas quando ele desembarcou em Strathclyde, e foi bem recebido pelos reis pictos. Estes tinham um acordo com a Inglaterra desde os tempos de Macsen, e que fora renovado com Ambrósio; mas ninguém podia adi­vinhar a resposta que dariam às atuais propostas irlandesas.

Mas havia outros problemas, mais próximos e imediatos. Foi um ano de fome. A primavera foi longa, fria e úmida, as inunda­ções cobriram os campos na época do plantio do milho. O gado adoecia em todo o sul, e em Galapa até os resistentes carneiros de lã azul das colinas morreram, com os pés apodrecidos que os impediam de procurar alimento. A geada inutilizou as sementes das frutas, e o milho que cresceu apodrecia nos campos estagnados. No norte ouviam-se estranhas narrativas. Um druida enlouquecera e ata­cara Uther por ter afastado o país da Antiga Religião; e um bispo cristão o denunciara como pagão de um púlpito na igreja. Falava-se num atentado contra a vida do Rei, e na maneira pavorosa com que o Rei punira os responsáveis.

Assim passaram-se a primavera e o verão, e, com a chegada do outono, o país parecia destruído. Gente morria de fome. Falava-se que o país fora amaldiçoado; mas ninguém tinha certeza se era Deus que estava zangado porque ainda se faziam sacrifícios nos ve­lhos santuários, ou se eram os deuses antigos das colinas e dos bosques que se estavam vingando por terem sido abandonados. O certo é que havia uma influência maligna sobre o país e que o Rei estava doente. Nobres reuniram-se em Londres exigindo que Uther nomeasse o seu herdeiro. Mas, segundo contou-me Ector, Uther ainda não tinha certeza de quem era amigo ou inimigo; apenas afirmava que seu filho estava vivo e bem, e que seria apresentado aos nobres na próxima Páscoa. Entrementes, sua filha Morgiana fizera doze anos, e partiria para o norte para casar-se no Natal.

Com a chegada do outono, o tempo mudou, e teve início uma temporada seca e agradável. Já era muito tarde para servir de aju­da às colheitas ou ao gado moribundo, mas o sol abençoado ainda chegou em tempo de amadurecer as poucas frutas que as tempesta­des da primavera e a deterioração do verão tinham deixado nas árvores. Na Floresta Agreste, a neblina infiltrava-se pelos pinheiros de manhãzinha, e o orvalho de setembro fazia com que ela rebrilhas-se. Ector saiu de Galava para encontrar-se com Rheged e seus aliados em Luguvallium. O Rei da Irlanda voltara para casa, e ainda havia paz em Strathclyde, mas a linha de defesa ao longo do Estuário de Ituna, de Aluana até Luguvallium, ia ser guarnecida e falava-se em Ector para comandante. Cei acompanhou o pai. Artur, a três meses do seu décimo quarto aniversário, mas parecendo ter dezesseis anos e, segundo Ralf, um notável espadachim, ficou visivelmente abor­recido, e tornava-se mais calado a cada dia. Passava todos os dias na floresta, às vezes comigo (embora não tanto quanto antes), mas, segundo Ralf, a maior parte das vezes caçando ou correndo como louco a cavalo pelos piores caminhos.

— Se o Rei não tomar logo uma iniciativa — disse-me Ralf este menino vai matar-se. Parece pressentir que há algo para ele no futuro, que e'.e não sabe o que é, mas que não lhe dá paz. Tenho medo que quebre o pescoço antes que isto aconteça. Aquele seu novo cavalo, Canrith, eu mesmo não gostaria de montá-lo, é a pura verdade. Não sei o que deu no Ector para dar o cavalo para ele; acho que foi para amenizar o seu sentimento de culpa.

Acho que tinha razão. O garanhão branco foi presente de Ector para Artur quando ele levou Cei para Luguvallium. Bedwyr também fora, embora sendo da mesma idade que Artur. Ector deve ter tido a maior dificuldade para explicar para Artur por que ele não podia ir. Mas até que Uther se manifestasse, nada podíamos fazer.

Chegou a lua cheia de setembro que chamam de lua da colhei-ta. Ela brilhava sobre os campos apodrecidos, servindo apenas para iluminar os ladrões que saqueavam as fazendas mais distantes, e as tropas que iam constantemente de uma para outra região de perigo.

Eu não conseguia dormir. Minha cabeça doía, os fantasmas se acercavam como que a trazer visões; mas nada veio à luz ou tomou forma; nada falou. Era como sentir a ameaça dos trovões, tão perto quanto as minhas cobertas, mas sem o relâmpago para rompê-la, e sem a chuva que limpa o céu. Quando afinal amanheceu, um dia cinza e nevoento, eu me levantei, peguei um pouco de pão e um punhado de azeitonas, e desci até.o lago da floresta para ver se me lavava das canseiras da noite.

Era uma manhã calma, tão parada que mal se podia dizer onde a névoa terminava e a superfície do lago começava. A água encon­trava-se com o cascalho da praia sem som e sem movimento. Às minhas costas a névoa envolvia a floresta, cujos perfumes ainda esta­vam adormecidos. Parecia pecado quebrar a calma e mergulhar nas águas virgens, mas o seu frescor gelado apagou os resquícios da noite mal dormida, e depois de sair da água, enxugar-me e vestir-me, comi a minha refeição com prazer, e acomodei-me com a vara de pes­car para esperar os peixes matutinos, torcendo por uma brisa que agitasse o espelho das águas.

Afinal, o sol apareceu, desbotado por entre a neblina, mas não trouxe nenhuma brisa consigo. Os cimos das árvores emergiam da escuridão, e do outro lado do lago a floresta escura erguia-se, nu­blada, em direção às colinas esfumaçadas. A água floria com a névoa, como uma pérola.

Nada quebrava o espelho das águas; nem sinal de brisa che­gando. Já tinha decidido ir-me embora quando escutei algo que se aproximava depressa pela floresta às minhas costas. Não era um cavaleiro; tinha um passo muito leve, e vinha rápido demais pelo matagal.

Fiquei como estava, meio virado e à espera. Um arrepio subiu-me pelas costas e lembrei-me da noite insone. Doíam-me os dedos; lotei que estava apertando a vara de pescar com tanta força que quase me feria. A noite inteira eu pressentira isto. A noite inteira isto parecia que ia acontecer. A noite inteira? Se não me enganava estivera esperando por isto durante quatorze anos.

A cinqüenta passos de onde eu estava, apareceu um veado Ele me viu imediatamente, e parou de chofre, de cabeça alta, pronto para correr em outra direção. Era branco. Por contraste, a sua galhada parecia bronze polido, e os olhos vermelhos como granadas Mas, ele era real; havia manchas de suor na sua pele branca e o pêlo grosso da barriga e do pescoço estava grudado de umidade Um bocado de lisimáquia amarela tinha ficado presa ao seu pesco­ço, como um colar. Ele olhou por cima do ombro, depois deu um salto com as pernas duras para dentro dágua, e com mais dois pulos já estava bem mais no fundo, e começando a nadar lago adentro.

O espelho dágua partiu-se, as águas encresparam-se. O barulho feito teve eco num outro que veio de dentro da floresta. Era outro animal que se aproximava, apressado.

Eu me enganara ao pensar que nada cruzaria a floresta com tanta rapidez quanto um veado em fuga. O cão branco de Artur, Cabal, surgiu por entre as árvores no mesmo lugar em que surgira o veado, e jogou-se nágua. O próprio Artur, montado em Canrith, apareceu em seguida.

Ele deteve o seu animal na praia, fazendo com que empinasse. Segurava o arco já em posição. Virou o garanhão de lado, e pro­curou mirar, sem desmontar. Mas o veado nadava bem abaixado, só a sua cabeça aparecia acima dágua, como uma cunha que se afastava com rapidez, com os cornos como ramos a segui-lo sobre a superfície. O cão, nadando ferozmente, o acompanhava. Não adian­taria atirar no animal agora, ele estava muito no fundo. Artur abai­xou o arco, e virou o garanhão para voltar à margem. Um minuto antes de esporeá-lo, me viu. Gritou qualquer coisa, e veio ao meu encontro pelo cascalho.

Estava excitado, tinha o rosto afogueado.

— Você o viu? Branco como a neve, com uma cabeça de im­perador! Nunca tinha visto um assim! Vou dar a volta. Cabal estava se aproximando, vai segurá-lo até que eu chegue lá. Desculpe se es­traguei a sua pescaria.

— Emrys... Parou, impaciente:

— Que é?

— Olhe. Ele está indo para a ilha.

Ele virou-se para olhar para onde eu apontava. O veado tinha desaparecido na neblina, e o cão com ele. Não havia sinal deles, só as ondinhas que chegavam até a praia.

— Para a ilha? Tem certeza?

— Absoluta.

— Com todos os diabos do inferno! — praguejou com raiva.

— Que azar desgraçado! Eu pensei que já era meu quando Cabal o seguiu tão de perto. — Puxava as rédeas, hesitante, fitando o lago nublado, enquanto o garanhão se mexia, impaciente. Suponho que temia a ilha tanto quanto qualquer outra pessoa criada no vale. Tomou uma expressão decidida e falou, refreando Canrith brusca­mente: — Vou até a ilha. O veado eu já perdi, acho (era bom demais para ser verdade), mas, pois sim que vou perder Cabal! Foi Bedwyr quem me deu, e não pretendo perdê-lo nem para Bilis nem para ninguém, neste mundo ou no outro. — Enfiou dois dedos na boca e assobiou estridentemente. — Cabal! Aqui, Cabal, aqui!

— Não adianta, não vai conseguir com que ele volte.

— Não. — Inspirou fundo. — Bom, que é que se vai fazer, tem que ser mesmo a ilha. Se a sua mágica for tão longe, Myrddin, faça com que me acompanhe, agora.

— Ela sempre o acompanha, você sabe disso. Vai nadar até lá?

— Ele vai — falou Artur, um pouco ofegante, forçando o ga­ranhão relutante a entrar nágua. — É muito longe para dar a volta. Se o animal for para os penhascos e Cabal for atrás...

— Por que não leva o barco? É mais rápido e você pode trazer Cabal nele.

— É, mas o desgraçado sempre precisa ser preparado.

— Já o preparei hoje. Ele está pronto.

— Está? Mas que sorte! Você ia sair, então? Quer vir comigo?

— Não. Eu fico. Vá, Emrys, vá procurar o seu cachorro. Por um momento, cavalo e cavaleiro ficaram imóveis. Artur

ficou me olhando, com um misto de temor e reflexão espelhados no rosto, que logo desapareceram, engolidos pela sua enorme impa­ciência. Saltou do cavalo e entregou-me as rédeas. Tirou a flecha do arco e pô-la ao ombro, e correu para o barco. O barco era primi­tivo, de fundo chato, e, normalmente, ficava na praia de uma baiazinha cheia de juncos situada um pouco mais abaixo. Com um único empurrão colocou o barco nágua, e entrou nele. Eu fiquei no cas­calho, segurando o cavalo, olhando-o. Ele tirou o barco do raso impelindo-o com uma vara, depois pegou nos remos e começou a remar.

Tirei o pano enrolado que estava atrás da sela do cavalo, jo­guei-o por cima das suas costas escaldantes, fui amarrá-lo em um lugar onde ele pudesse pastar, e voltei para o meu lugar na margem do lago.

O sol já estava alto, e esquentando bem. Um pássaro passou voando. Moscas de asas de gaze dançavam sobre a água. Um perfume

de hortelã selvagem estava no ar, e um mergulhão saiu de dentro de um punhado de miosótis aquáticos. Uma libélula pequenina, de corpo escarlate, grudava-se a um junco. A névoa. movia-se suave­mente sob o sol, como fumaça a desprender-se do espelho dágua inquieta e mutável como os fantasmas da noite, como a fumaça do fogo encantado.. .

A praia, a libélula escarlate, o cavalo branco que pastava, a floresta nublada às minhas costas sumiram, também se transforma­ram em fantasmas. Eu fiquei de olhos fixos e arregalados na nuvem de pérola silenciosa e intransponível.

 

Ele remava com força, o queixo sobre o ombro, ao acercar-se da ilha. Ela apareceu primeiro como uma forma bruxuleante de sombra, transformando-se depois numa praia cheia de árvores de ramos pendentes. Por trás das árvores, nubladas e irreais, destaca­vam-se as formas das rochas, como um grande castelo situado num penhasco. Uma linha de prata brilhante marcava o encontro da praia com a água, delimitando a ilha da sua imagem. As árvores nubladas e as torres altas do penhasco flutuavam imponderáveis sobre a água, como fantasmas na névoa fantasmagórica.

O barco seguia em frente. Artur olhava por sobre o ombro, chamando o cachorro.

— Cabal! Cabal!

O grito ecoava por cima da água, subia até os penhascos e morria. Não havia sinal nem do cão nem do veado. Ele debruçou-se de novo sobre os remos, fazendo o barquinho correr pela água.

O fundo dele encontrou o cascalho. Artur pulou fora. Puxou o barco e subiu pela orla estreita de grama. A luz estava mais forte, agora que o sol estava mais alto, e se refletia na névoa branca e na água branca. Os ramos de vidoeiro e de sorveira-brava pendiam sobre a praia, pesados de umidade. As sorvas eram vermelhas como chamas, e brilhantes. A grama era pintalgada de margaridas e ve­rônicas e pequenos morriões amarelos. As margens estavam cober­tas de dedaleiras, que sobressaíam entre as filas de amoras-bravas. O cheiro forte e adocicado das ulmárias, embotadas pelo outono, enchia o ar.

O menino afastou os ramos pendentes, enfiou-se pelas sarças, e ficou de pé sobre a grama florida, estreitando os olhos para espiar os rochedos lá em cima. Gritou de novo, e novamente o som ecoou e morreu. A névoa subia cada vez mais alto, já deixando ver a parte inferior das rochas, banhadas numa luz clara mas incerta. De re­pente ele se enrijeceu, de olhos fitos lá em cima. A meio caminho do topo dos rochedos, o veado corria com facilidade por uma trilha que parecia apenas um sulco na rocha, parecendo leve como um pouco de névoa que se tivesse desprendido do todo.

Artur subiu correndo pela rampa. Os seus pés não faziam ruído na relva espessa. Enfiou-se pelo meio das samambaias altas, desfolhando-as, e saiu no sopé do rochedo.

Parou, olhando ao redor. Ele estava meio assombrado, como antes. Não tinha medo, mas parecia saber que qualquer movimento seu iria desencadear coisas cujo fim não podia prever. Inclinou o pescoço, perscrutando os altos rochedos. Nem sinal do veado, mas as rochas pareciam, .mais do que nunca, um castelo coroado pela luz do sol.

Inspirou fundo, sacudindo a cabeça como se tivesse saído de dentro dágua, e chamou de novo, mas suavemente.

— Cabal? Cabal?

Muito próximo dele, quebrando o silêncio encantado, veio o la­tido do cachorro. Era um latido meio excitado, meio amedrontado. Vinha do rochedo. O garoto olhou vivamente à sua volta. E então, por trás da cortina verde das árvores, viu a gruta. Deu um passo para a frente e escutou de novo o latido de Cabal, que não era de medo nem de dor, mas de um animal farejando.

Sem mais hesitação, Artur lançou-se na escuridão da gruta.

Mais tarde, ele não soube explicar exatamente como achou o caminho. Acho que deve ter acendido a tocha que eu tinha deixado lá, mas não se lembra disso. Talvez, o que se lembra é que seja a verdade: diz que por todo canto havia uma luz difusa e incerta, que parecia refletida na superfície polida do laguinho da gruta de pilas trás.

Do outro lado do laguinho brilhante, estava a espada em cima da mesa. Um fio de água escorrera e pingara da rocha que ficava em cima, sobre o couro que envolvia a espada, que, embora ainda protegendo o metal, tinha endurecido com a cal do pingar constante, através dos anos. A crosta endurecida deixava ver apenas as formas da espada, esguia e comprida, e o cabo que parecia uma cruz.

Ainda parecia uma espada, só que de pedra, formada ao acaso pela pedra calcária gotejante. Talvez ele se recordasse da outra espada, na Capela Verde, ou talvez, por um momento, o futuro se

descortinasse aos seus olhos. Com um movimento rápido e instinti­vo demais para ser controlado, pegou no cabo.

Falou comigo, como se eu estivesse ao seu lado. Aliás, creio que estava tão perto dele, na realidade, quanto o cachorro branco que gania à beira do laguinho.

— Eu a puxei, e ela saiu da pedra direitinho. É a espada mais linda do mundo. Vou chamá-la de Caliburn.

A névoa já abandonara a floresta, sugada pelo sol. Mas ainda permanecia sobre a ilha, que flutuava invisível no seu mar de pé­rola.

Não sei quanto tempo se tinha passado. O sol estava quente, iluminando o lago entre as colinas. Os meus olhos doíam com o brilho das águas. Pisquei os olhos, me mexi e estiquei os membros endurecidos.

Houve um movimento às minhas costas; um tropel repentino, como se o garanhão se tivesse soltado. Virei-me rapidamente.

A trinta passos, macio como uma nuvem, Cador de Cornwall vinha saindo do bosque, montado num cavalo cinzento, com uma tropa às suas costas.

 

O meu primeiro pensamento foi de raiva por não ter sido avisado. Não estava pensando apenas no povo da colina que vigiava Artur; mas até para mim, Merlin, não houve o menor sinal que indicasse perigo, e a visão que me impedira de ver e ouvir a chegada da tropa só parecia trazer luz e a realização final de todas as promessas. O fato de Artur não ter sido encontrado comigo diminuía um pouco a minha raiva; e também me proporcionava uma tênue esperança de que Cador não me reconhecesse no ermitão, e que prosseguisse a sua viagem antes que o menino voltasse da ilha.

Tudo isto me passou pela cabeça no tempo que levou para Cador erguer a mão para fazer parar os homens atrás dele, e para eu apanhar a vara de pescar e ficar de pé. Já com uma mentira qualquer engatilhada, virei-me humildemente para enfrentar Cador, que veio vindo até parar o seu animal a dez passos de mim. E aí, toda a esperança de não ser reconhecido desapareceu, pois vi Ralf amordaçado no meio da tropa, com um soldado de cada lado.

Fiquei ereto. Cador inclinou a cabeça, numa saudação tão pro­funda quanto a que teria feito ao Rei.

— Prazer em encontrá-lo, Príncipe Merlin.

— Não diga! — Eu estava furioso. — Por que prenderam o meu servo? Ele não lhe pertence. Solte-o.

Ele fez um gesto, e os soldados soltaram Ralf, que arrancou a mordaça da boca.

— Você está ferido? — perguntei.

— Não. — Ele também estava zangado, e amargo. — Sinto muito, senhor. Atacaram-me quando eu vinha pela floresta. Quando me reconheceram, pensaram que o senhor pudesse estar por perto. Amordaçaram-me para que não pudesse dar nenhum aviso. Queriam pegá-lo desprevenido.

— Não se sinta culpado. Não foi sua culpa. — Eu já me con­trolara, buscando o tempo todo os restos da visão que se desvane­cera. Onde estaria Artur agora? Ainda na ilha, com Cabal e a sua espada maravilhosa? Ou já no caminho de volta, pela neblina? Mas eu apenas enxergava o que estava ali, em plena luz do sol, e sabia que o encanto tinha-se partido e que ele estava fora do meu alcance.

Virei-me para Cador.

— Que maneira estranha de fazer as coisas, Duque! Por que prendeu Ralf? Poderia ter-me encontrado sempre que quisesse vir para esses lados. A floresta é livre para todos, e a Capela Verde fica aberta dia e noite. Eu não teria fugido do senhor.

— Então, o senhor é o ermitão da capela da mata?

— Sou.

— E Ralf lhe serve?

— Ele me serve.

Ele fez sinal aos seus homens para permanecerem onde estavam, e aproximou-se mais de onde eu estava. O garanhão branco relinchou e saltou quando o cavalo cinzento passou por ele. Cador parou ao meu lado, de sobrancelhas levantadas:

— E aquele cavalo? É seu? Que escolha estranha para um ermitão!

Respondi ferinamente:

— O senhor sabe que não é meu. Se prendeu Ralf na floresta, deve ter visto também um dos filhos do Conde Ector. Andavam a

cavalo juntos. O garoto veio aqui para pescar. Não sei quanto tempo vai demorar; às vezes demora mais de meio dia. — Afastei-me da água, de modo decidido. — Ralf, espere por ele aqui. E quanto ao senhor, Duque, se tinha tanta urgência em ver-me que até tratou mal o meu servo, quer acompanhar-me até a capela para conversarmos em particular? Talvez possa dizer-me o que o traz tão para o norte com os homens de Cornwall, além da sua caçadazinha particular.

— É a guerra que me traz; a guerra e as ordens do Rei. Acho que o senhor não está tão isolado aqui ao ponto de ignorar as amea­ças de Colgrim. Mas foi uma feliz oportunidade para mim vir para estes lados. — Sorriu, e acrescentou de maneira agradável: — e esta não foi uma caçadazinha particular. O senhor não sabia, Príncipe Merlin, que têm andado à sua procura pelos quatro cantos do país?

— Sabia, mas não tinha vontade de ser encontrado. Quer acompanhar-me, Duque? Ralf ficará esperando pelo menino...

— O filho do Conde Ector, não é? — Não fez nenhum movi­mento para afastar-se da margem da água. Estava à vontade sobre o cavalo, ainda sorridente. Parecia calmo e confiante. — O senhor não espera que eu o acompanhe e deixe Ralf esperando por este... filho do Conde Ector? Sem dúvida alguma para fazê-lo desaparecer por mais alguns anos? Creia-me, príncipe...

De dentro do lago veio o latido de Cabal, o aviso de um cão de caça alerta ao perigo. E a voz de Artur, que mandava que se calasse. O ruído dos remos que faziam o barco correr com força

pela água.

Cador virou o animal de frente para o ruído, e, sem me conter, eu me movi com ele. Devia estar com uma expressão muito som­bria, pois dois oficiais esporearam seus animais para a frente.

— Faça com que parem — falei vivamente, e ele lançou-me um olhar e depois ergueu a mão. Os homens pararam de chofre, já com as lanças prontas. Falei baixinho, apenas para os ouvidos de Cador.

— Se não quiser que Ector pule ao seu pescoço, com Rheged inteira a apoiá-lo (e Colgrim aparecendo para terminar com as so­bras), deixe Ralf e o menino partirem. O que o senhor tiver que dizer, poderá dizer a mim. Quanto à minha vida, Duque Cador, o Rei tomará satisfações por ela.

Ele hesitou, olhando do lago nublado para o lugar onde estavam os soldados. Eles estavam alertas. Acho que não me tinham reconhe­cido, nem sabiam qual era a presa que seu Duque procurava caçar hoje; mas notaram o seu interesse pelos ruídos dentro da neblina, e, embora permanecessem no limiar do bosque, as lanças mexiam-se como juncos ao vento.

— Quanto a isso... — começou Cador, mas foi interrompido.

O barco saiu de dentro da neblina e veio vindo para o raso. Segundos antes que encalhasse, já Cabal, rosnando, tinha saltado para fora em direção à praia. Um dos oficiais virou o cavalo e puxou a espada. Cador ouviu o barulho, e gritou qualquer coisa. O homem hesitou, e o cão, agora em silêncio, veio para a margem e avançou em Cador. O cavalo cinzento empinou. O cachorro safou-se e mor­deu a ponta do teliz, arrancando um pedaço.

Às minhas costas, Artur gritou para o cachorro e procurou en­calhar depressa o barco. Ralf veio à frente, com a intenção de se­gurar o cachorro, mas os soldados ao seu redor cruzaram as lanças à sua frente, tolhendo-o. Cabal largou o teliz rasgado e virou-se, rosnando, para atacar os homens que seguravam Ralf. Um deles co­locou a lança em riste, outros desembainharam as espadas. Cador deu uma ordem. As espadas foram erguidas. O Duque ergueu, não a sua espada, mas o seu chicote, e fez voltear o cavalo, quando o cachorro preparava-se para pular.

Eu dei um passo à frente debaixo do chicote, agarrei a coleira do cão e joguei todo o meu peso de encontro a ele. Mal conseguia segurá-lo. Artur gritou ferozmente: