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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


AS HERDEIRAS / Frank Herbert
AS HERDEIRAS / Frank Herbert

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A Saga do Planeta “Duna”

AS HERDEIRAS

 

Milhares de anos à nossa frente, uma irmandade de mulheres — a Bene Gesserit — propõe-se servir à humanidade, utilizando-se de um conhecimento de alto nível alcançado, principalmente, pela ingestão da melange, uma especiaria que prolonga a vida e acentua os poderes psíquicos. Através de um ritual de iniciação — A Agonia da Especiaria — as participantes da Irmandade tornam-se Reverendas Madres, desenvolvendo seu psiquismo e adquirindo, entre outras capacidades, o acesso à Outra Memória, repositório de lembranças de todas as eras. Poderosas e manipuladoras, elas desenvolvem uma disciplina fantástica sobre o corpo e as emoções, transformando-se em autênticas “bruxas”. Mas a fonte de melange, que se tornou imprescindível à sobrevivência das Bene Gesserit, são vermes da areia, animais gigantescos, cujo hábitat é o deserto. Contando com um único exemplar da espécie, trazido às escondidas da destruição de Rakis, as Reverendas Madres tentam reproduzi-lo com tenacidade e paciência. E para isso, numa aventura ecológica às avessas, transformam, palmo a palmo, um mundo verdejante em tórrido deserto. Paralelamente, sofrem uma perseguição acirrada de outra irmandade feminina — as Honradas Madres, mulheres cruéis e selvagens cuja ira teriam provocado no passado.

O horror da guerra manifesta-se em toda a sua plenitude. Um plano tático, de alto risco, é levado a efeito pelas Bene Gesserit, o que conduz a um surpreendente questionamento sobre a vitória. E aí Frank Herbert ultrapassa um maniqueísmo aparente para atingir uma maior profundidade: procura investigar as raízes psicológicas da tirania e da violência. A manipulação das massas, já abordada em O imperador-deus de Duna, ganha maior dimensão e sutileza...

 

 

Aqueles que se propõem a repetir o passado devem controlar o ensino da História.

 

— O Código Bene Gesserit

 

Quando veio à luz o bebê-ghola do primeiro tanque axlotl Bene Gesserit, a Madre Superiora Darwi Odrade promoveu uma discreta comemoração em sua sala particular de refeições, no alto da Central. Mal amanhecia, e as duas outras integrantes do Conselho — Tamalane e Bellonda — mostraram impaciência ante a convocação, muito embora Odrade tivesse mandado servir o café da manhã por sua cozinheira pessoal.

— Não é toda mulher que pode estar presente ao nascimento de seu próprio pai — gracejou Odrade, quando as outras se queixaram de que eram ocupadas demais para se permitirem “desperdícios tolos de tempo”.

Apenas a velha Tamalane demonstrou certo divertimento disfarçado. Bellonda manteve suas feições excessivamente carnudas impassíveis, o que, no seu caso, equivalia habitualmente a uma carranca.

Seria possível, pensou Odrade, que Bell ainda não tivesse superado o ressentimento causado pela relativa opulência das instalações da Madre Superiora? Os alojamentos de Odrade eram um sinal distinto de sua posição, mas a honraria representava antes suas obrigações que uma possível superioridade em relação às Irmãs. A pequena sala de jantar permitia-lhe consultar as assessoras durante as refeições.

Bellonda olhava de um lado para o outro, numa impaciência evidente para ir embora. Muito esforço tinha sido gasto inutilmente em tentativas para penetrar a concha fria e remota em que Bellonda se fechava.

— Foi um sentimento muito estranho segurar aquele bebê em meus braços e pensar: “Este é meu pai” — Odrade disse.

— Eu ouvi da primeira vez! — A voz de Bellonda saía do estômago, num retumbante barítono, como se cada palavra lhe causasse uma vaga indigestão.

Compreendeu, entretanto, o gracejo distorcido de Odrade. O velho Bashar Miles Teg tinha, na verdade, sido o pai da Madre Superiora. E a própria Odrade reunira células (como fragmentos de unhas) para criar esse novo ghola, parte de um antigo “plano de possibilidade”, caso viessem a ter sucesso em duplicar os tanques Tleilaxu. Mas Bellonda teria preferido ser expulsa da Bene Gesserit a concordar com o comentário de Odrade sobre o equipamento vital da Irmandade.

— Acho isso frívolo neste momento — Bellonda disse. — Essas mulheres loucas em nosso encalço para nos destruir, e você querendo comemorar!

Odrade fez um certo esforço para conservar o tom suave.

— Se as Honradas Madres nos encontrarem antes de estarmos preparadas, talvez seja porque falhamos em manter o moral elevado.

Os olhos de Bellonda, fitos nos de Odrade, estavam cheios de acusação frustradora: “Essas mulheres terríveis já exterminaram dezesseis dos nossos planetas!”

Odrade sabia que era errado pensar em todos esses planetas como posses das Bene Gesserit. A mal organizada confederação de governos planetários, reunida depois da Dispersão e dos Tempos da Fome, dependia muito da Irmandade para serviços vitais e comunicações confiáveis, mas as antigas facções persistiam — CHOAM, Corporação Espacial, Tleilaxu, remanescentes do sacerdócio do Deus Dividido, até mesmo auxiliares das Oradoras Peixes e assembléias dissidentes. O Deus Dividido tinha legado à humanidade um império dividido — cujas facções, em sua totalidade, reuniram-se subitamente, em função dos violentos assaltos das Honradas Madres da Dispersão. As Bene Gesserit — fiéis à maioria de suas antigas formas — eram o alvo primordial de ataque.

Os pensamentos de Bellonda nunca se afastavam muito dessa ameaça das Honradas Madres. Era uma fraqueza que Odrade reconhecia. Às vezes, ela chegava a pensar em substituir Bellonda, mas até mesmo na Bene Gesserit havia facções, nesses tempos, e ninguém podia negar que Bell era uma excelente organizadora. Os Arquivos nunca tinham sido mais eficientes do que sob sua orientação.

Como fazia freqüentemente, mesmo sem palavras, Bellonda conseguiu concentrar a atenção da Madre Superiora nas caçadoras que as espreitavam com selvagem persistência. Isso estragou a disposição de tranqüilo sucesso que Odrade tinha esperado conseguir esta manhã. Forçou-se a pensar no novo ghola. Teg! Se suas memórias originais pudessem ser recuperadas, a Irmandade contaria, mais uma vez, com o melhor Bashar que já tivera a seu serviço. Um Bashar Mentat! Um gênio militar, cuja bravura já era matéria de mitos do Antigo Império.

Mas será que o próprio Teg teria condições de ajudá-las contra essas mulheres vindas da Dispersão?

“Pelos deuses, quem quer que sejam eles, as Honradas Madres não devem nos encontrar. Ainda não!”

Teg representava um excesso de possibilidades e imprevistos inquietantes. O mistério cercava o período anterior à sua morte, na destruição de Duna. “Ele fez alguma coisa em Gammu para acender a fúria desenfreada das Honradas Madres. Sua persistência suicida em Duna não podia ter sido suficiente para provocar essa resposta frenética.” Havia rumores, fragmentos de seus dias em Gammu antes do desastre de Duna. “Podia mover-se mais rápido que o olhar humano!” Teria ele feito isso? Outro afloramento das capacidades selvagens nos genes Atreides? Mutação? Ou apenas o mito de Teg novamente? A Irmandade tinha de aprender o mais depressa possível.

Uma acólita trouxe o café da manhã para três, e as irmãs comeram rapidamente, como se fosse necessário deixar para trás, sem demora, essa interrupção, pois perder tempo era perigoso.

Mesmo depois que as outras tinham saído, Odrade ficou sob o efeito do medo sem palavras de Bellonda.

“E de meus medos.”

Levantou-se e foi para a vasta janela que dava para os tetos mais baixos e alcançava parte do círculo de pomares e pastagens ao redor da Central. Fim de primavera, e os frutos já começando a se formar. “Renascimento. Um novo Teg nasceu hoje!” Nenhum sentimento de exaltação acompanhou o pensamento. Geralmente ela achava a vista restauradora, mas não essa manhã.

Quais são minhas forças verdadeiras? Qual é minha realidade?

Os recursos sob o comando da Madre Superiora eram formidáveis: lealdade profunda por parte daqueles que a serviam, uma força militar sujeita a um Bashar treinado por Teg (no momento, distante, com uma grande parte de suas tropas protegendo o planeta escola, Lâmpadas), artesãos e técnicos, espiões e agentes por todo o Antigo Império, inumeráveis trabalhadores que esperavam ser protegidos pela Irmandade contra as Honradas Madres, e todas as Reverendas Madres com Outras Memórias penetrando nas origens da vida.

Odrade sabia, sem falso orgulho, que representava o auge do que era mais forte numa Reverenda Madre. Se suas memórias pessoais não fornecessem a informação necessária, ela teria outras à sua volta para preencher a lacuna. Dados informatizados também, embora ela admitisse uma desconfiança natural a seu respeito.

Odrade achou-se tentada a se aprofundar em outras vidas que levava consigo como memória secundária — essas camadas subterrâneas de consciência. Talvez pudesse encontrar, nas experiências de Outros, soluções brilhantes para a difícil condição que viviam. Perigoso! Havia a possibilidade de perder-se durante horas, fascinada pela multiplicidade das variações humanas. Melhor deixar as Outras Memórias equilibradas em seu lugar, disponíveis para uso ou interferindo de acordo com a necessidade. Consciência, era esse o sustentáculo, bem como sua garra sobre a identidade.

A estranha metáfora Mentat de Duncan Idaho vinha em seu auxílio.

“Autoconsciência: o defrontar-se com espelhos que passam através do universo, reunindo novas imagens no caminho — infinitamente reflexivo. O infinito visto como finito, a semelhança da consciência transportando fragmentos percebidos do infinito.”

Ela nunca tinha ouvido nada mais próximo de sua consciência sem palavras. “Complexidade especializada”, era como Idaho o chamava.

— Nós reunimos, montamos e refletimos nossos sistemas de ordem.

Realmente era a visão da Bene Gesserit que os humanos representavam a vida projetada pela evolução para criar ordem.

“E como isso pode nos ajudar contra essas turbulentas mulheres que nos perseguem? De que ramo de evolução elas vêm? Será a evolução um outro nome para Deus?”

Suas Irmãs olhariam com desprezo essas “especulações sem proveito”.

Ainda assim poderia haver respostas na Outra Memória.

“Ahhh! Que idéia sedutora!”

Com que desespero ela desejava projetar seu self confinado nas identidades passadas, e sentir o que teria sido viver nessa época. O perigo imediato dessa tentação a gelou. Sentiu a Outra Memória multiplicando-se nas bordas da consciência. “Era assim! Não, era assim!” Como eram vorazes! Tinha-se de escolher, dando vida ao passado com prudência. E não era esse o propósito da consciência, a própria essência de estar vivo?

“Escolha uma lembrança do passado e compare-a com o presente. Aprenda as conseqüências.”

Esse era o ponto de vista das Bene Gesserit a respeito da História, as antigas palavras de Santa’ana ressoando em suas vidas: “Aqueles que não conseguem se lembrar do passado estão condenados a repeti-lo.”

Os edifícios da própria Central, o mais poderoso de todos os estabelecimentos da Bene Gesserit, refletiam essa atitude em qualquer lugar para onde Odrade se voltasse. Usiforme, esse era o conceito predominante. Em qualquer centro de trabalho Bene Gesserit, muito pouco podia dar-se ao luxo de não ser funcional, conservado por nostalgia. A Irmandade não precisava de arqueólogos. As Reverendas Madres personificavam a História.

Vagarosamente (muito mais devagar que de costume) a vista de sua alta janela produziu seu efeito calmante. A ordem Bene Gesserit era essa que seus olhos relatavam.

Mas as Honradas Madres podiam acabar com essa ordem no minuto seguinte. A situação da Irmandade era muito pior do que a que tinham sofrido sob o Tirano. Muitas das decisões que ela era forçada a tomar agora eram odiosas. Sua sala de trabalho tornava-se menos agradável por causa das ações que aconteciam ali.

“Eliminar nossa fortaleza Bene Gesserit em Palma?”

Essa sugestão estava no relatório matinal de Bellonda, esperando em sua mesa. Odrade afixou-lhe uma nota afirmativa. “Sim.”

“Eliminar, porque o ataque das Honradas Madres é iminente, e não podemos defendê-los ou evacuá-los.”

Somente o Destino e mil e cem Reverendas Madres sabiam quantas pessoas, entre acólitas postulantes e outras, seriam mortas ou teriam pior destino, em função dessa única palavra. Sem mencionar todas as “Vidas Comuns” que existiam à sombra das Bene Gesserit.

A pressão de tais decisões produzia em Odrade uma nova espécie de exaustão. Seria uma fadiga da alma? Existiria essa coisa chamada alma? Ela sentia um cansaço profundo em algum lugar inacessível à consciência. Estava cansada, muito cansada.

Até mesmo Bellonda dava sinais de tensão, e Bell deleitava-se com a violência. Somente Tamalane parecia estar acima dessa pressão, mas isso não enganava Odrade. Tam tinha chegado à idade da observação superior, uma possibilidade no caminho de todas as Irmãs, se vivessem o bastante para alcançá-la. Nada importava, então, exceto observações e julgamentos, nunca mencionados, na maioria das vezes, a não ser em certas expressões fugidias de suas feições enrugadas. Tamalane falava pouco hoje em dia, em comentários tão raros, que chegavam a ser quase ridículos:

— Comprem mais não-naves.

— Informem Sheeana.

— Revejam os registros de Idaho.

— Perguntem a Murbella.

Às vezes, emitia apenas grunhidos, como se as palavras pudessem traí-la.

E as caçadoras sempre lá fora, varrendo o espaço em busca de qualquer pista sobre a localização da Sede.

Em seus mais íntimos pensamentos, Odrade via as não-naves das Honradas Madres como corsários nesses mares infinitos entre as estrelas. Não hasteavam a bandeira negra dos piratas, mas ela estava lá, de qualquer modo. Nada de romântico a seu respeito. “Matar e pilhar! Construa sua riqueza sobre o sangue dos outros. Esgote essa energia e construa suas não-naves assassinas em locais lubrificados com sangue.”

E elas não viam que seriam afogadas em lubrificante rubro se continuassem nesse rumo.

“Deve haver pessoas furiosas lá fora, nessa Dispersão humana onde se originaram as Honradas Madres, pessoas que passam a vida com uma única idéia fixa: Peguem-nas!”

Perigoso universo esse, onde se permitia que tais idéias circulassem livremente. As boas civilizações tinham cuidado para que esses conceitos não ganhassem energia, não tivessem nem mesmo a oportunidade de nascer. Quando ocorriam, por acaso ou acidente, tinham de ser afastados rapidamente, porque tendiam a reunir as massas.

Odrade estava perplexa pelo fato de que as Honradas Madres não viam isso, ou se viam, ignoravam a idéia.

— Histeria plena — era a denominação de Tamalane.

— Xenofobia — discordava Bellonda, sempre corrigindo, como se o controle dos Arquivos lhe desse uma percepção melhor da realidade.

Ambas estavam certas, Odrade pensava. As Honradas Madres comportavam-se histericamente.

Todos os estranhos eram o inimigo. As únicas pessoas em quem pareciam confiar eram os homens sexualmente escravizados, e mesmo esses, apenas até certo ponto. Testando-os constantemente, segundo Murbella (nossa única Honrada Madre cativa), para ver se seu domínio era firme.

— Às vezes, só para provocar, elas podem eliminar alguém, simplesmente como um exemplo para os outros. — Palavras de Murbella, que forçavam uma pergunta: “Estarão elas fazendo de nós um exemplo?” — “Vejam! Isso é o que acontece àqueles que se opõem a nós!”

Murbella tinha dito:

— Vocês as provocaram. Uma vez desafiadas, elas não desistirão, até que as tenham destruído.

“Peguem os estranhos!”

Singularmente diretas. “Um ponto fraco, se fizermos o jogo certo”, pensou.

“Xenofobia levava ao extremo ridículo?”

Bem possível.

Odrade bateu pesadamente o punho na mesa de trabalho, consciente de que o ato seria visto e registrado pelas Irmãs que vigiavam constantemente o comportamento da Madre Superiora. Falou, então, em voz alta, para os onipresentes televigias e as Irmãs vigilantes por trás deles.

— Não ficaremos sentadas, esperando na defensiva! Nós nos tornamos tão gordas como Bellonda (ela que se irrite com isso) pensando ter criado uma sociedade intocável e estruturas resistentes.

Odrade passou rapidamente os olhos pela sala familiar.

— Este lugar é um de nossos pontos fracos!

Sentou-se atrás da escrivaninha pensando (entre todas as coisas!) em arquitetura e planejamento comunitário. Bem, esse era um direito da Madre Superiora!

As comunidades da Irmandade raramente se desenvolviam ao acaso. Mesmo quando se apoderavam de estruturas já existentes (como tinham feito com a velha fortaleza Harkonnen, em Gammu), faziam-no com planos de reconstrução. Queriam tubos pneumáticos para conduzir pequenos pacotes e mensagens. Linhas de luz e projetores de raios duros para transmitir palavras em código. Consideravam-se mestras em comunicação de segurança. As mensageiras das acólitas e das Reverendas Madres (que preferiam a autodestruição a traírem suas superioras) transportavam as mensagens mais importantes.

Ela podia visualizar lá fora, além de sua janela e além deste planeta, sua teia, magnificamente organizada e equipada, cada Bene Gesserit como uma extensão das outras. No que dizia respeito à sobrevivência da Irmandade, havia um núcleo intocável de lealdade. Podia haver desertores (alguns espetaculares como Lady Jessica, avó do Tirano), mas eles chegavam só até aí. A maioria das perturbações era transitória.

E tudo isso era um padrão Bene Gesserit. Uma fraqueza.

Odrade reconheceu, dentro de si, uma concordância com os temores de Bellonda. “Que eu me dane se deixar que isso me tire a alegria de viver!” Seria o mesmo que render-se ao que essas loucas Honradas Madres querem.

— São nossas forças que elas querem, — disse Odrade, olhando para os televigias do teto. “Como antigos selvagens, comendo os corações dos inimigos. Bem...nós lhes daremos mesmo o que comer! E elas só descobrirão que não podem digeri-lo quando for tarde demais!”

A não ser por alguns ensinamentos preliminares programados especialmente para acólitas e postulantes, a Irmandade não se interessava muito por conselhos e provérbios, mas Odrade tinha seu próprio lema: “Alguém tem de lavrar a terra.” Sorriu para si mesma, enquanto se debruçava sobre o trabalho, sentindo-se mais confortada. Esta sala, esta Irmandade, este era o seu jardim, e havia ervas daninhas a serem arrancadas e sementes a serem plantadas. “E fertilizante. Não se pode esquecer o fertilizante.”

 

Quando me dispus a conduzir a humanidade pelo meu Caminho Dourado, prometi-lhes uma lição que seus ossos não esqueceriam. Conheço um padrão profundo, que os humanos negam em palavras, mesmo quando suas ações o afirmam. Eles dizem que buscam segurança e tranqüilidade, condições que chamam de paz. Mesmo quando falam, criam sementes de tumulto e violência.

 

— Leto II, o Imperador-Deus

 

“Então ela me chama de Rainha Aranha!”

A Grande Honrada Madre recostou-se numa pesada cadeira colocada num estrado alto. Seu peito seco sacudia-se com risinhos silenciosos. “Ela sabe o que vai acontecer quando eu agarrá-la em minha teia! Vou sugá-la até que fique seca, isso é o que vou fazer.”

Uma mulher pequena, de feições medíocres e músculos que se crispavam nervosamente, ela dirigia seu olhar para o chão de ladrilhos amarelos iluminados pela claridade do dia, na sala de audiências. Uma Reverenda Madre Bene Gesserit jazia estendida no local, amarrada com shigafio.

Não fazia esforço algum para lutar. O shigafio era excelente para esse propósito. “Bem que poderia cortar-lhe os braços fora!”

A câmara onde estavam sentadas combinava com a Grande Honrada Madre, tanto pelas dimensões como pelo fato de que tinha sido tomada de outros. Com trezentos metros quadrados, tinha sido destinada a convocações dos Navegantes da Corporação aqui na Junção, cada Navegador com seu tanque monstruoso. A prisioneira nesse chão amarelo era um grão de poeira na imensidão.

“A pobre coitada sentiu muito prazer em dizer a forma como sua dita Superiora me chama!”

Mas ainda assim, era uma linda manhã, pensou a Grande Honrada Madre. A não ser pelo fato de que nenhuma tortura ou sonda mental funcionava com essas bruxas. Como torturar alguém que pode optar pela morte a qualquer momento? E o fazia! Elas tinham, além disso, meios de suprimir a dor. Muito ardilosos, esses primitivos.

E está carregada de shere, também. Um corpo impregnado dessa detestável droga deteriorava além do alcance das sondas, antes que pudesse ser examinado adequadamente.

A Grande Honrada Madre fez sinal a uma auxiliar, que cutucou com o pé a Reverenda Madre estendida e, a um outro sinal, afrouxou as amarras de shigafio a fim de permitir um movimento mínimo.

— Qual é o seu nome, criança? — perguntou a Grande Honrada Madre. Sua voz era áspera e rouca, tanto pela idade como por uma falsa bonomia.

— Sou chamada de Sabanda. — Voz jovem e clara, ainda intocada pela dor das sondas.

— Você gostaria de nos ver capturar um macho covarde e escravizá-lo?

Sabanda sabia a resposta adequada. Elas a tinham prevenido.

— Prefiro morrer. — Disse isso calmamente, olhando firme para a velha face cor de raiz ressecada. As estranhas pintas laranja nos olhos da velha. Um sinal de raiva. As Instrutoras a tinham avisado.

Sobre a malha vermelha, um frouxo robe cor de ouro avermelhado, com figuras de dragões negros de boca aberta, apenas enfatizava a esquelética figura que cobria.

A Grande Honrada Madre não modificou a expressão nem mesmo com um pensamento recorrente sobre essas feiticeiras: “Malditas sejam!”

— Qual era sua função nesse planetazinho sujo de onde nós a trouxemos?

— Professora dos jovens.

— Temo dizer que não deixamos nenhum de seus jovens vivo. — “Agora, por que ela sorri? Para me ofender, isso sim!” — Você ensinou os jovens a adorar a bruxa, Sheeana?

— Por que eu lhes ensinaria a adorar uma Irmã? Sheeana não gostaria disso.

— Não gostaria... Está dizendo que ela voltou à vida e que você a conhece?

— São somente os vivos que conhecemos?

Como era clara e corajosa a voz dessa jovem feiticeira. Elas tinham um notável autocontrole, mas nem isso poderia salvá-las. Estranho, entretanto, que esse culto de Sheeana persistisse. Teria de ser arrancado, naturalmente, destruído, da mesma forma que as bruxas estavam sendo eliminadas.

A Grande Honrada Madre ergueu o dedo mínimo da mão direita. Uma auxiliar, já à espera, acercou-se da prisioneira com uma injeção. Talvez essa nova droga soltasse a língua da bruxa, talvez não. Não importa.

Sabanda fez uma careta quando a injeção tocou seu pescoço. Estava morta em segundos. As criadas levaram o corpo que deveria alimentar os Futares prisioneiros. Não que eles tivessem grande utilidade. Não se reproduziam no cativeiro, não obedeciam às ordens mais comuns. Mal-humorados, à espera.

— Onde Treinadores? — um deles poderia perguntar. Ou cuspiriam outras palavras inúteis de suas bocas humanóides. Mesmo assim, proporcionavam alguns prazeres. O cativeiro também demonstrou que eram vulneráveis. Tanto quanto essas bruxas primitivas. “Nós encontraremos o esconderijo delas. É somente uma questão de tempo.”

 

Aquele que lança uma luz nova sobre o banal e o ordinário pode aterrorizar. Não queremos ver nossas idéias modificadas. Ficamos ameaçados por esse tipo de exigência. “Já conheço as coisas importantes”, é o que dizemos. Então vem o Transformador e joga fora nossas velhas idéias.

 

— O Mestre Zensufi

 

Miles Teg gostava de brincar nos pomares em volta da Central. Odrade o tinha levado lá pela primeira vez quando ele mal andava. Uma de suas mais antigas memórias: pouco mais de dois anos de idade e já consciente de que era um ghola, embora não entendesse o sentido integral da palavra.

— Você é uma criança especial — Odrade disse. — Nós o fizemos com as células de um homem muito idoso.

Embora fosse uma criança precoce, e as palavras ouvidas tivessem um som vagamente perturbador, ele estava mais interessado, na ocasião, em correr através do mato alto de verão, embaixo das árvores.

Mais tarde, outros dias de pomar juntaram-se a esse, acumulando também impressões sobre Odrade e as outras pessoas que o ensinavam. Bem cedo percebeu que Odrade gostava tanto dessas excursões como ele próprio.

Uma tarde, quando tinha quatro anos, ela lhe disse:

— A primavera é a minha estação favorita.

— A minha também.

Quando tinha sete anos, e já demonstrava uma inteligência brilhante aliada à memória holográfica que lhe tinha rendido, por parte da Irmandade, pesadas responsabilidades em sua encarnação anterior, ele, de repente, viu os pomares como um local que tocava algo muito profundo dentro de si.

Esta foi a primeira vez que realmente teve consciência de carregar lembranças impossíveis de trazer à tona. Profundamente perturbado, voltou-se para Odrade, que estava de pé, delineada contra o sol da tarde:

— Há coisas de que não consigo lembrar.

— Um dia você se lembrará — ela disse.

Ele não podia ver sua face contra a luz brilhante, e suas palavras vinham tanto da enorme sombra como de Odrade.

Nesse ano começou a estudar a vida do Bashar Miles Teg, de cujas células tinha se originado. Odrade explicara algo a respeito disso, mostrando-lhe as unhas:

— Tirei pequenos fragmentos de seu pescoço, células da pele, e elas tinham tudo o que precisávamos para dar-lhe a vida.

Havia algo de intenso a respeito dos pomares nesse ano, as frutas maiores e mais pesadas, as abelhas quase frenéticas.

— É por causa do deserto, que está aumentando lá embaixo, no sul — disse Odrade. Ela segurou sua mão enquanto caminhavam pela manhã fresca e orvalhada sob as macieiras em flor.

Teg olhou fixamente através das árvores, momentaneamente hipnotizado pelo efeito da luz do sol entre as folhas. Tinha estudado a respeito do deserto e achava que podia sentir seu peso nesse lugar.

— As árvores percebem a aproximação do fim — Odrade disse. — A vida se desenvolve mais intensamente quando ameaçada.

— O ar está muito seco — ele salientou. — Deve ser o deserto.

— Vê como algumas folhas ficaram pardas e curvadas nas extremidades? Tivemos que irrigar muito este ano.

Teg apreciava o fato de que ela nunca falava com ele de cima para baixo. Era principalmente de uma pessoa para outra. Observou o castanho retorcido das folhas. Era o deserto que fazia isso.

No fundo do pomar ouviram em silêncio os pássaros e os insetos. As abelhas que trabalhavam nos trevos de uma pastagem próxima vieram investigar, mas ele era imunizado por feromônio, como todos os que caminhavam livremente pela Sede. Elas passaram zumbindo por ele, sentiram os identificadores e foram embora para suas atividades na floração.

“Maçãs.” Odrade apontou para o oeste. “Pêssegos.” Sua atenção dirigiu-se para onde ela indicava. Ah, sim, havia cerejas a leste, além das pastagens. Ele percebeu a resina desenhando nervuras nos galhos.

— As sementes e as mudas tinham sido trazidas para cá na não-nave original, há uns mil e quinhentos anos atrás — disse ela — e tinham sido plantadas com um amoroso cuidado.

Teg visualizou mãos cavando a terra, batendo-a gentilmente ao redor das pequenas mudas, a irrigação cuidadosa, a cerca para manter o gado nos pastos selvagens que circundavam as primeiras plantações e os edifícios da Sede.

Por essa época ele já tinha começado a aprender a respeito do gigantesco verme da areia que a Irmandade tinha trazido secretamente de Rakis. A morte do verme tinha produzido criaturas chamadas trutas da areia. Era em função delas que o deserto se desenvolvia. Um pouco desta história estava ligada a relatos de sua encarnação anterior — um homem que elas chamavam de “O Bashar”. Um grande soldado morto quando as terríveis mulheres denominadas Honradas Madres destruíram Rakis.

Teg achou esses estudos ao mesmo tempo fascinantes e perturbadores. Sentia lacunas em si, lugares onde as lembranças deveriam estar. Essas lacunas desafiavam-no em sonhos. E, às vezes, em devaneio, surgiam rostos diante de si. Quase podia ouvir-lhes as palavras. E então, havia ocasiões em que sabia os nomes das coisas antes que lhe dissessem. Especialmente nomes de armas.

Coisas significativas cresciam em sua consciência. O planeta inteiro ia tornar-se um deserto, uma mudança foi iniciada porque as Honradas Madres queriam matar essas Bene Gesserit que o criavam.

As Reverendas Madres que controlavam sua vida muitas vezes se intimidavam com ele — vestidas de preto, austeras, olhos absolutamente sem nenhum branco, o azul dentro do azul. Era a especiaria que fazia isso, diziam.

Apenas Odrade lhe demonstrava algo que ele tomava por real afeição, e Odrade era alguém muito importante. Todos a chamavam de Madre Superiora, e assim ela lhe disse para chamá-la, a não ser quando estivessem sozinhos nos pomares. Então ele podia chamá-la de Mãe.

Durante um passeio matinal, num período próximo da colheita, em seu nono ano de vida, bem na terceira elevação do pomar de macieiras ao norte da Central, eles chegaram a uma depressão pouco profunda, sem árvores e com uma profusão de plantas diferentes. Odrade pôs a mão em seu ombro e segurou-o onde eles podiam admirar as alpondras negras numa trilha sinuosa, através de pequenas flores e densa folhagem. Estava numa estranha disposição de espírito. Ele sentiu isso em sua voz.

— A propriedade é uma questão interessante — ela disse. — Nós possuímos este planeta ou é ele que nos possui?

— Gosto dos cheiros daqui — ele disse.

Ela o soltou e impeliu-o gentilmente para adiante.

— Aqui nós plantamos para o olfato, Miles. Ervas aromáticas. Estude-as cuidadosamente e procure-as nos livros quando voltar à biblioteca. Oh! Pise mesmo nelas — encorajou-o, quando ele começou a evitar uma trepadeira em seu caminho.

Ele comprimiu o pé direito firmemente nas gavinhas verdes e aspirou seu aroma penetrante.

— Elas foram feitas para serem pisadas e nos darem seu aroma. As Instrutoras têm ensinado a você como lidar com a nostalgia. Disseram-lhe que ela é dirigida pelo sentido do olfato?

— Sim, Mãe. — Voltando-se para olhar o lugar onde tinha pisado, disse: — Isto é alecrim.

— Como sabe? — ela perguntou com intensidade. Ele encolheu os ombros. — Eu sei, simplesmente.

— Pode ser uma lembrança original. — Ela parecia contente. Enquanto continuavam sua caminhada no vale aromático, Odrade ficou pensativa. — Cada planeta tem seu próprio caráter, onde desenhamos modelos da Velha Terra. Às vezes é apenas um pálido esboço, mas aqui tivemos sucesso.

Ajoelhou-se e puxou um galho fino de uma planta verde-ácido. Esmagou-o nos dedos e chegou — o até o nariz. “Salva.”

Era isso mesmo, mas ele não podia dizer como sabia.

— Senti esse cheiro na comida. É como a melange?

— Melhora o sabor, mas não muda a consciência. — Levantou-se e olhou para ele do alto de sua estatura. — Marque bem este lugar, Miles. Nossos mundos ancestrais se foram, mas aqui recapturamos parte de nossas origens.

Ele sentiu que ela estava lhe ensinando algo importante.

— Por que você se perguntou se este planeta nos possuía?

— Minha Irmandade acredita que sejamos administradoras da terra. Sabe o que são administradores?

— Como Roitiro, o pai do meu amigo Yorgi. Ele diz que sua irmã mais velha será a administradora da plantação deles um dia.

— Isso mesmo. Temos uma residência mais longa em alguns planetas do que qualquer outro povo conhecido, mas somos apenas administradoras.

— Se vocês não possuem a Sede, quem a possui?

— Talvez ninguém. Minha pergunta é: como nos marcamos mutuamente, minha Irmandade e este planeta?

Ele olhou para o rosto dela e depois para suas próprias mãos. Estaria a Sede marcando-o exatamente agora?

— A maioria das marcas são profundas dentro de nós. — Ela tomou sua mão. — Venha. — Saíram do vale aromático e subiram ao domínio de Roitiro, Odrade falando enquanto caminhavam.

— A Irmandade raramente cria jardins botânicos. Os jardins devem dar suporte a muito mais do que olhos e olfato.

— Alimento?

— Sim, apoio a nossas vidas em primeiro lugar. Os jardins produzem alimento. A plantação desse vale aí atrás destina-se a nossas cozinhas.

Miles sentiu sua voz fluir para dentro dele, alojando-se entre as lacunas. Teve a percepção do planejamento para séculos adiante: árvores para substituir vigas e reter bacias hidrográficas, plantas para impedir a queda das margens de rios e lagos, para proteger o solo contra a chuva e o vento, para manter praias, e mesmo nas águas, propiciando locais para a reprodução de peixes. A Bene Gesserit também pensou em árvores para sombra e abrigo, ou para lançar formas sombreadas interessantes nos gramados.

— Arvores e plantas para todas as nossas relações simbióticas — disse ela.

— Simbióticas? — Era uma palavra nova.

Ela usou um exemplo conhecido dele — sair com os outros para colher cogumelos.

— Os cogumelos não crescem a não ser em companhia de raízes amigas. Cada um tem uma relação simbiótica com uma planta especial. Tudo o que cresce tira de outro algo de que necessita.

Como a explicação se alongasse, ele, aborrecido, chutou uma moita de capim. Viu-a, então, olhar para ele com aquele jeito inquietante. Tinha feito uma coisa ofensiva. Por que era certo pisar numa planta e não em outra?

— Miles! O mato impede que o solo seja levado pelo vento para lugares difíceis como o fundo dos rios.

Conhecia esse tom. Reprimenda. Abaixou os olhos para a planta que tinha maltratado.

— Este capim alimenta nosso gado. Alguns têm sementes que comemos no pão e em outros alimentos. Certos tipos de taquara quebram o vento.

Ele sabia disso! Tentando distraí-la, soletrou:

— Que-brar o ven-to?

Odrade não sorriu, e ele viu seu erro em pensar que podia enganá-la. Resignado, dispôs-se a ouvir a lição.

— Quando o deserto viesse — continuou ela — as uvas, com suas raízes principais enterradas a centenas de metros no chão, seriam provavelmente as últimas a desaparecer. Os pomares morreriam em primeiro lugar.

— Por que eles têm de morrer?

— Para dar lugar a uma forma mais importante de vida.

— Vermes da areia e melange.

Percebeu seu agrado por ele ter demonstrado conhecer a relação entre os vermes da areia e a especiaria de que as Bene Gesserit precisavam para sua existência. Não sabia ao certo como essa necessidade funcionava, mas imaginou um círculo: “vermes da areia, trutas da areia e melange, repetindo-se nessa ordem”. E a Bene Gesserit tomava desse círculo o que precisava.

Ele já estava cansado com todo esse ensinamento.

— Se todas essas coisas vão morrer de qualquer forma, porque tenho de voltar à biblioteca e aprender seus nomes?

— Porque você é humano, e os humanos têm esse desejo profundo de classificar, de dar rótulos a tudo.

— Por que temos de dar nome a coisas como essa?

— Porque desse modo temos o direito de reivindicar o que denominamos. Pretendemos uma posse que pode ser enganadora e perigosa.

Então ela estava de volta à “propriedade”.

— Minha rua, meu lago, meu planeta — ela disse. — Meu rótulo para sempre. O rótulo que se dá a um lugar ou a uma coisa pode nem mesmo durar o tempo de uma vida, a não ser como um apaziguante dado pelos conquistadores... ou como um som para ser lembrado com medo.

— Duna — ele disse.

— Você é rápido!

— As Honradas Madres queimaram Duna.

— Elas farão o mesmo conosco, quando nos encontrarem.

— Não se eu for o seu Bashar! — As palavras saíram sem pensar, mas uma vez pronunciadas, sentiu que poderiam conter uma certa verdade. Relatos na biblioteca diziam que o Bashar tinha feito os inimigos tremerem simplesmente pelo seu aparecimento no campo de batalha.

Como se soubesse o que ele estava pensando, Odrade disse:

— O Bashar Teg era igualmente famoso por criar situações onde as batalhas não eram necessárias.

— Mas ele combateu seus inimigos.

— Nunca se esqueça de Duna, Miles. Ele morreu lá.

— Eu sei.

— As Instrutoras já o fizeram estudar Caladan?

— Sim. É chamada de Dan em minhas histórias.

— Rótulos, Miles. Os nomes são interessantes como lembretes, mas a maioria das pessoas não faz outras conexões. História cansativa, não? Nomes — sugestões convenientes, úteis, principalmente em sua própria espécie.

— Você é da minha espécie? — Essa era uma pergunta que o perseguia, embora não tivesse sido formulada até esse instante.

— Somos Atreides, você e eu. Lembre-se disso, quando retornar a seu estudo de Caladan.

Quando voltaram pelos pomares e pastagens até a colina que lhes dava um excelente ponto de observação, com a vista da Central através dos galhos, Teg viu o complexo administrativo rodeado de plantações com uma nova sensibilidade. Manteve-a consigo enquanto desciam a alameda cercada que conduzia ao arco de entrada da Primeira Rua.

— Uma jóia viva. — Era como Odrade chamava a Central. Quando passaram sob o arco, ele olhou para o nome da rua gravado a fogo. O Galach, em elegantes linhas fluidas, no estilo decorativo das Bene Gesserit. Todas as ruas e todos os edifícios eram rotulados na mesma letra cursiva.

Olhando em volta de si na Central, as águas oscilantes na praça à frente deles, os detalhes graciosos, ele sentiu a profundidade da experiência humana. As Bene Gesserit tinham cuidado deste lugar de um modo que ele não compreendia bem. Coisas reunidas em estudos e em excursões ao pomar, coisas simples e complexas, apareceram sob nova luz. Era uma resposta Mentat latente, mas ele não sabia disso, sentindo apenas que sua memória infatigável tinha modificado e reorganizado algumas relações. Parou de repente e olhou para trás, para o caminho que tinham percorrido — o pomar lá fora, enquadrado pelo arco da rua coberta. Tudo estava relacionado. O escoadouro da Central produzia metano e fertilizante. (Ele tinha acompanhado a planta com uma Instrutora.) O metano fazia funcionar as bombas e fornecia energia para uma parte da refrigeração.

— Para onde está olhando, Miles?

Ele não sabia como responder. Mas lembrava-se de uma tarde de outono, quando Odrade o tinha levado num vôo sobre a Central num tóptero, para falar-lhe a respeito dessas relações e dar-lhe uma “visão panorâmica”. Apenas palavras, na ocasião, mas que agora faziam sentido.

— Tão próximo de um círculo ecológico fechado quanto podemos criar — Odrade tinha dito no tóptero. — As pessoas nas órbitas da Meteorologia o controlam e comandam suas linhas de fluxo.

— Por que você está aí, olhando para os pomares, Miles? — Sua voz estava cheia de imperativos contra os quais ele não tinha defesa.

— No ornitóptero você disse que era bonito, mas perigoso. — Tinham viajado apenas uma vez juntos no ornitóptero. Ela entendeu a referência imediatamente. “O círculo ecológico.” Virou-se para ela, esperando.

— Fechado — disse ela. — Como é tentador levantar altas paredes e deixar de fora a mudança. Apodrecer aqui, na auto-satisfação do nosso próprio conforto.

Suas palavras o encheram de inquietação. Sentiu que já as tinha ouvido antes... em algum outro lugar, com uma outra mulher segurando sua mão.

— Qualquer tipo de fechamento é um terreno fértil para o ódio dos estranhos. Isso produz uma colheita amarga.

Não exatamente as mesmas palavras, mas a mesma lição.

Ele caminhava devagar ao lado de Odrade, sua mão suada na dela.

— Por que está tão quieto, Miles?

— Vocês são fazendeiras — disse ele. — É realmente isso que vocês, Bene Gesserit, fazem.

Ela viu imediatamente o que tinha acontecido. O treinamento Mentat irrompendo sem que ele soubesse. Melhor não explorar isso ainda.

— Estamos ligadas a tudo que cresce, Miles. Foi uma boa percepção sua, ter visto isso.

Quando se separaram, ela para retornar a sua torre, ele para os alojamentos na escola, Odrade disse:

— Vou falar com suas Instrutoras para que coloquem mais ênfase nos usos sutis do poder.

Ele entendeu mal.

— Eu já estou treinando com armas laser. Dizem que sou bom.

— Foi o que ouvi. Mas há armas que não se podem segurar com as mãos. Apenas com a mente.

 

As regras constroem fortificações atrás das quais as mentes pequenas criam satrapias. Um perigoso estado de coisas nos melhores tempos, desastroso durante as crises.

 

— O Código Bene Gesserit

 

Escuridão infernal no quarto de dormir da grande Honrada Madre. Logno, uma Grande Dama e a ajudante mais antiga de Sua Alteza, entrou através do vestíbulo sem iluminação, como tinha sido convocada, e, vendo a escuridão, estremeceu. Essas conferências no escuro a aterrorizavam, e ela sabia que a Grande Honrada Madre tinha prazer com isso. Entretanto, não poderia ser o único motivo para a escuridão. A Grande Honrada Madre teria medo de um ataque? Muitas Altezas tinham sido depostas na cama. Não... não era simplesmente esse fato, embora isso pudesse pesar na escolha do ambiente.

Grunhidos e gemidos na escuridão.

Algumas Honradas Madres diziam, escondendo o riso, que a Grande Honrada Madre tinha a ousadia de acolher um Futar em seu leito. Logno achou possível. Essa Grande Honrada Madre ousava muitas coisas. Não tinha ela salvo algumas das Armas do desastre da Dispersão? Entretanto, Futares? As Irmãs sabiam que os Futares não podiam ser aprisionados pelo sexo. Pelo menos, não sexo com os humanos. No entanto, esse podia ser o modo como os Inimigos das Mil Faces o faziam. Quem podia saber?

Havia um cheiro de pêlo no quarto. Logno fechou a porta atrás de si e esperou. A Grande Honrada Madre não gostava de ser interrompida em nada que estivesse fazendo aí nessa escuridão protetora. “Mas ela permite que eu a chame de Dama.”

Um outro gemido, e então:

— Sente-se no chão, Logno. Sim, aí perto da porta.

“Será que ela realmente me vê ou apenas adivinha?”

Logno não tinha a coragem de testá-lo. “Veneno. Eu a pegarei com isso algum dia. Ela é cautelosa, mas pode se distrair.” Embora suas Irmãs pudessem olhar a idéia com desprezo, veneno era um instrumento de sucessão aceito... desde que o sucessor tivesse outros meios de ascendência.

— Logno, esses Ixianos com quem você falou hoje. O que eles dizem da Arma?

— Eles não entendem sua função, Dama. Eu não lhes disse o que era.

— É lógico que não.

— Sugere novamente que a Arma e a Carga sejam unidas?

— Está caçoando de mim, Logno?

— Dama! Eu nunca faria tal coisa.

— Espero que não.

Silêncio. Logno entendeu que ambas consideravam o mesmo problema. Somente trezentas unidades da Arma sobreviveram ao desastre. Cada uma podia ser usada apenas uma vez, desde que o Conselho (que detinha a Carga) concordasse em armá-los. A Grande Honrada Madre, que tinha o controle da Arma propriamente dita, possuía apenas a metade desse poder terrível. A Arma sem a Carga era apenas um tubo preto a ser manejado manualmente. Com sua Carga, podia cortar o espaço de seu alcance limitado num golpe rápido de morte sem sangue.

— Os das Muitas Faces — murmurou a Grande Honrada Madre. Logno fez um sinal com a cabeça na direção de onde o murmúrio tinha se originado, no escuro.

“Talvez ela possa me ver. Não sei o que mais ela salvou ou o que os Ixianos possam ter-lhe dado.”

E Os das Muitas Faces, amaldiçoados sejam pela eternidade, tinham causado o desastre. Eles e seus Futares. A facilidade com que quase todas as Armas tinham sido confiscadas! Terríveis poderes! “Precisamos nos armar bem, antes de retornarmos a essa batalha. Dama está certa.”

— Esse planeta, Buzzel — disse a Grande Honrada Madre. — Tem certeza de que não é defendido?

— Não detectamos nenhuma defesa. Os Contrabandistas dizem que não.

— Mas é tão rico em Pedras suaves!

— Aqui, no Antigo Império, as pessoas raramente ousam atacar as bruxas.

— Não acredito que haja apenas um punhado delas nesse planeta! É uma armadilha de algum tipo.

— Isso sempre é possível, Dama.

— Não confio em contrabandistas, Logno. Aprisione mais alguns deles e teste novamente essa coisa de Buzzel. As bruxas podem ser fracas, mas não acredito que sejam burras.

— Sim, Dama.

— Diga aos Ixianos que eles nos desagradarão, se não puderem duplicar a Arma.

— Mas sem a Carga, Dama...

— Lidaremos com isso quando for necessário. Agora, saia.

Logno ouviu um “Ssssiim” sibilante quando saiu. Mesmo a obscuridade do vestíbulo era bem-vinda depois daquele quarto, e ela correu em direção à luz.

 

Tendemos a nos tornar o que há de pior em nossos oponentes.

 

— O Código Bene Gesserit

 

“As imagens da água novamente!”

“Estamos transformando todo este maldito planeta em deserto, e eu tenho imagens de água!”

Odrade estava sentada em seu gabinete, tendo à sua volta o costumeiro tumulto matinal, e sentiu a Filha do Mar boiando nas ondas que a banhavam. As ondas tinham a cor do sangue. Sua Filha do Mar antecipava tempos sangrentos.

Ela conhecia o origem de tais imagens: o tempo anterior àquele em que as Reverendas Madres dominavam sua vida; sua infância na bela casa no litoral de Gammu. A despeito de suas preocupações imediatas, não pôde evitar um sorriso. Ostras preparadas por Papai. Seu prato preferido ainda hoje.

O que ela mais lembrava da infância eram as excursões marítimas. Algo relacionado com estar flutuando falava à sua parte mais íntima. O subir e descer das ondas, o sentido de horizontes sem limites com lugares novos e desconhecidos para além da curva do mundo aquático, a emocionante extremidade do perigo implícito na própria substância que lhe dava suporte. Tudo isso combinado para dar-lhe certeza de que ela era Filha do Mar.

Papai era mais calmo lá também. E Mamãe Sibia mais feliz, com a face voltada para o vento, o cabelo escuro esvoaçando. Um senso de equilíbrio irradiava-se desses tempos, uma mensagem tranqüilizadora falada em uma linguagem mais antiga que a mais antiga de suas Outras Memórias.

“Este é o meu lugar, meu meio. Eu sou Filha do Mar.” .

Seu conceito pessoal de sanidade vinha daqueles tempos. “A capacidade de equilibrar-se em mares estranhos. A capacidade de manter seu eu mais profundo, apesar das ondas inesperadas.”

Mamãe Sibia tinha dado a Odrade essa capacidade muito antes que as Reverendas Madres viessem e levassem sua “descendente Atreides oculta”. Mamãe Sibia, apenas uma mãe adotiva, tinha ensinado a Odrade o amor a si mesma.

Numa sociedade Bene Gesserit, onde qualquer forma de amor era suspeita, isto permaneceu como seu segredo supremo.

“No íntimo, sou feliz comigo mesma. Não me importo de estar só.” Não que alguma Reverenda Madre estivesse alguma vez só, verdadeiramente, depois que a agonia da especiaria a tivesse inundado com Outras Memórias.

Porém Mamãe Sibia e, sim, Papai também, agindo como pais pelas Bene Gesserit, tinham impresso à sua custódia uma força profunda durante aqueles anos ocultos. As Reverendas Madres limitaram-se a ampliar essa força.

As Instrutoras tinham tentado extirpar de Odrade seu “desejo profundo de afinidades pessoais”, mas acabaram por fracassar, sem saber inteiramente que o tinham feito, mas sempre com uma certa suspeita. Elas a tinham enviado finalmente a Al Dhanab (um local deliberadamente mantido como uma imitação do que havia de pior em Salusa Secundus) para que fosse condicionada num planeta de testagem constante. Um lugar pior que Duna sob certos aspectos: altos penhascos e desfiladeiros secos, ventos quentes e frígidos, umidade demais e de menos. A Irmandade tinha pensado nele como um adequado campo de provas para aqueles destinados a sobreviver em Duna. Mas nada disso tinha tocado aquele núcleo secreto dentro de Odrade. A Filha do Mar permaneceu intacta.

“E é a Filha do Mar que está me prevenindo agora.”

Foi um aviso presciente?

Ela sempre tinha tido esse “pequeno talento”, essa pequena contração que a prevenia sobre o perigo imediato para a Irmandade. Os genes Atreides lembravam-na de sua presença. Era uma ameaça à Sede? Não... a dor que ela não podia tocar dizia que eram outros em perigo. No entanto, importante.

“Lâmpadas?” Seu pequeno talento não podia dizer.

As Mestras Procriadoras tinham tentado apagar esta perigosa presciência de sua linhagem Atreides, mas com sucesso limitado. “Não podemos nos arriscar a um outro Kwisatz Haderach!” Elas sabiam desta peculiaridade em sua Madre Superiora, mas a última predecessora de Odrade, Taraza, tinha aconselhado “um cauteloso uso de seu talento”. Sua idéia era que a presciência de Odrade só funcionava para alertá-la sobre os perigos que ameaçavam a Bene Gesserit.

Odrade concordava. Experimentava momentos indesejados em que tinha lampejos de ameaças.

Lampejos. E ultimamente ela sonhava.

Era um sonho vividamente recorrente, cada sentido sintonizado com a iminência dessa coisa que ocorria em sua mente. Ela caminhava sobre um abismo numa corda bamba e alguém (não tinha coragem de voltar-se para ver quem era) vinha por trás com um machado para cortar a corda. Podia sentir o trançado áspero da fibra sob os pés descalços. Sentia um vento frio soprando, um cheiro de queimado nesse vento. E sabia que a pessoa com o machado se aproximava!

Cada passo perigoso exigia toda a sua energia. Um passo! Outro! A corda oscilava e ela esticava os braços para os lados, lutando pelo equilíbrio.

“Se eu cair, a Irmandade cairá.”

A Bene Gesserit acabaria no abismo abaixo da corda. Como tudo que vive, a Irmandade deve terminar algum dia. Uma Reverenda Madre não ousava negá-lo.

“Mas não aqui. Não caindo com a corda rompida. Não devemos permitir que a corda seja cortada. Preciso atravessar o abismo antes que venha á pessoa do machado. Preciso! Preciso!”

O sonho sempre terminava aí, sua própria voz soando no ouvido, quando acordava no quarto de dormir. Gelada. Nenhuma transpiração. Mesmo nos espasmos do pesadelo, as restrições das Bene Gesserit não permitiam excessos desnecessários.

“O corpo não precisa de transpiração? O corpo não a produz.”

Sentada em seu gabinete, lembrando-se do sonho, Odrade sentiu a profundeza da realidade por trás dessa metáfora da leve corda: “o fio delicado sobre o qual carrego o destino de minha Irmandade”. A Filha do Mar sentiu o pesadelo próximo e interferiu com imagens de águas sangrentas. Esse não era um aviso banal. Agourento. Ela desejava levantar-se e gritar:

— Dispersem-se no mato, crianças. Corram. Corram.

E como isso chocaria as vigilantes!

As obrigações de uma Madre Superiora exigiam que mostrasse um semblante adequado, encobrindo seus medos, e agisse como se nada importasse, a não ser as decisões formais diante de si. Deve-se evitar o pânico! Não que alguma de suas decisões imediatas fosse verdadeiramente trivial nesses tempos. Mas exigia-se um comportamento calmo.

Algumas de suas crianças já estavam correndo, saindo para o desconhecido. Vidas compartilhadas em Outras Memórias. O resto delas aqui na Sede saberia quando correr. “Quando formos descobertas.” Seu comportamento seria então governado pelas necessidades do momento.

Tudo o que realmente importava era seu magnífico treinamento. Essa era sua preparação mais confiável.

Cada nova célula Bene Gesserit, onde quer que fosse no fim, estava preparada, assim como a Sede: destruição total, de preferência à submissão. O fogo clamoroso iria empanturrar-se de registros e carne preciosa. Tudo que um captor poderia achar seriam escombros inúteis: cacos retorcidos salpicados de cinzas.

Algumas Irmãs da Sede poderiam escapar. Mas a fuga no momento do ataque — como era fútil!

Pessoas importantes compartilhavam a Outra Memória, de qualquer forma. Preparação. A Madre Superiora evitava isso. Uma questão de estado de espírito.

“Para onde correr? Quem poderia escapar? Quem poderia ser capturado?” Essas eram as perguntas reais. E se eles capturassem Sheeana lá embaixo, à beira do deserto, esperando por vermes da areia que poderão nunca aparecer? Sheeana e os vermes da areia: uma potente força religiosa que as Honradas Madres talvez soubessem como explorar. E se as Honradas Madres capturassem o ghola-Idaho ou o ghola-Teg? Poderia nunca mais haver refúgio, se uma dessas possibilidades ocorresse. “E se? E se?”

Deu expressão a sua frustração irada:

— Quisera que tivéssemos matado Idaho no momento em que o tivemos! Não deveríamos nunca ter criado o ghola-Teg.

Somente as integrantes do Conselho, consultoras imediatas e algumas vigilantes participavam de sua suspeita. Reprimiam-na com reservas. Nenhuma delas sentia-se realmente segura a respeito dos dois gholas, mesmo depois de terem minado a não-nave, tornando-a vulnerável ao fogo clamoroso.

Naquelas últimas horas antes de seu sacrifício heróico, teria Teg sido capaz de ver o invisível (inclusive as não-naves?) “Como ele sabia onde nos encontrar no deserto de Duna?”

E se Teg podia fazê-lo, o perigoso talento de Idaho, com suas incontáveis gerações de genes Atreides (e outros, desconhecidos) poderia também desenvolver essa capacidade. “Eu mesma poderia!”

Com um repentino e surpreendente insight, Odrade compreendeu, pela primeira vez, que Tamalane e Bellonda espreitavam sua Madre Superiora com os mesmos temores que Odrade sentia ao observar os dois gholas.

O simples fato de saber que podia ser feito — que um humano poderia ser sensibilizado para detectar não-naves e outras formas de proteção — teria um efeito desequilibrador em seu universo. Isso poria certamente as Honradas Madres em fuga. Havia incontáveis descendentes de Idaho soltos no universo. Ele queixava-se de que não era nenhum maldito garanhão da Irmandade, mas tinha atuado em seu favor muitas vezes.

“Sempre pensando que estava agindo em seu próprio interesse. E talvez estivesse.”

Qualquer descendente desta linha principal dos Atreides poderia ser dono desse talento, que o Conselho suspeitava ter vindo a florescer em Teg.

Para onde iam os meses e anos? E os dias? Uma nova estação de colheita, e a Irmandade permanecia em seu terrível limbo. A manhã já ia quase a meio, compreendeu Odrade. Os sons e cheiros da Central fizeram-se sentir. Pessoas lá fora, no corredor. Frango e repolho sendo preparados na cozinha comum. Tudo normal.

O que era normal para alguém que se demorava em imagens de água durante o trabalho? A Filha do Mar não podia esquecer Gammu, os cheiros, a substância das algas marinhas sopradas pela brisa, o ozônio que propiciava a respiração rica em oxigênio, e a esplêndida liberdade daqueles que a rodeavam, tão visível no modo como caminhavam e falavam. A conversação no mar era mais profunda, de um modo que ela nunca tinha explorado. Mesmo o bate-papo inconseqüente tinha seus elementos subterrâneos, uma elocução oceânica que fluía com as correntes submersas.

Odrade sentiu-se compelida a lembrar-se de seu próprio corpo flutuante naquele mar da infância. Precisava recapturar as forças que tinha conhecido nessa ocasião, assumir as qualidades fortalecedoras aprendidas em tempos inocentes.

Com a face voltada para a água salgada, prendendo a respiração tanto quanto podia, ela flutuava num “agora” banhado pelo mar que purgava seus desgostos. Era o gerenciamento do estresse reduzido à sua essência. Uma grande calma a inundou.

“Flutuo, logo sou.”

A Filha do Mar avisou, e a Filha do Mar restaurou. Sem nunca admiti-lo, ela precisava desesperadamente dessa restauração.

Odrade tinha olhado para seu próprio rosto espelhado numa janela do escritório na noite anterior, chocada pelo modo como a idade e as responsabilidades se combinaram com a fadiga para sugar-lhe as faces e curvar para baixo os cantos da boca: os lábios sensuais mais finos, as curvas suaves do rosto alongadas. Somente os olhos de azul dentro do azul chamejavam com sua costumeira intensidade, e ela era ainda alta e musculosa.

Obedecendo a um impulso, pressionou as teclas de projeção e fixou o olhar nas imagens acima da mesa: a não-nave pousada no espaçoporto da Sede, uma saliência de misteriosa maquinaria à parte do Tempo. Pelos anos de sua semidormência tinha causado uma depressão numa grande área na planície de aterrissagem, tornando-se quase cunhada no local. Era uma grande protuberância, seus motores funcionando num tique-taque apenas suficiente para escondê-la de pesquisadores prescientes, especialmente dos Navegadores da Corporação, que teriam um prazer singular em trair as Bene Gesserit.

Por que ela teria invocado essa imagem logo agora?

Em razão das três pessoas lá aprisionadas — Scytale, o último Mestre Tleilaxu sobrevivente, Murbella e Duncan Idaho, o par sexualmente aprisionado, ambos tão presos pelo seu mútuo vínculo como pela não-nave.

“Nada simples, nenhum deles.”

Raramente havia explicações simples para qualquer empreendimento das Bene Gesserit. A não-nave com seu conteúdo mortal poderia ser apenas classificada como um esforço dos mais importantes. Dispendioso. Muito dispendioso em energia, mesmo na sua qualidade de recurso de prontidão.

A aparência de distribuição parcimoniosa em toda essa despesa denotava crise de energia. Uma das preocupações de Bell. Podia-se senti-la em sua voz, mesmo quando se mostrava mais objetiva:

— Já estamos nos ossos, e nada para cortar! — Todas as Bene Gesserit sabiam que os olhos vigilantes da Contabilidade estavam sobre elas nesses dias, numa atitude crítica em relação à dissipação do vigor da Irmandade.

Bellonda entrou na sala em passos largos, sem se fazer anunciar, com um rolo de registros de cristal riduliano sob o braço esquerdo. Caminhava como se odiasse o solo, batendo o pé com força sobre ele, como se dissesse: Tome aí! E mais! Mais esse! Batendo no chão por ele ser culpado de estar sob seus pés.

Odrade sentiu um aperto no peito quando viu o olhar de Bellonda. Os registros foram atirados sobre a mesa com um sonoro “plaft”.

— Lâmpadas — disse Bellonda, e havia agonia em sua voz. Odrade não precisou abrir o rolo. “A água sangrenta da Filha do Mar acaba de tornar-se realidade.”

— Sobreviventes? — Sua voz soou tensa.

— Nenhum. — Bellonda despencou na cadeira-cão que mantinha ao lado da mesa de Odrade.

Tamalane entrou nesse momento e sentou-se atrás de Bellonda. Ambas pareciam atingidas.

“Nenhum sobrevivente.”

Odrade permitiu-se um estremecimento lento, que foi do peito até as solas dos pés. Não se importava que as outras vissem essa reação reveladora. Esta sala tinha visto comportamentos piores das Irmãs.

— Quem relatou?

— As notícias vieram através de nossos espiões CHOAM e tinham a marca especial. O Rabino forneceu a informação, não há a menor dúvida.

Odrade não sabia como responder. Lançou um olhar para a larga janela em arco, atrás de suas companheiras, vendo um suave alvoroço de flocos de neve. Sim, as notícias merecidamente combinavam com o inverno, que comandava suas forças lá fora.

As irmãs da Sede estavam descontentes com a súbita entrada do inverno. A Meteorologia tinha sido forçada pelas necessidades a deixar a temperatura cair precipitadamente. Não houve o declínio gradual para o inverno, nenhuma gentileza para com as coisas que crescem, que agora tinham de passar pela dormência enregelante. O frio aumentava três ou quatro graus a cada noite. Façam tudo dentro de uma semana mais ou menos, e mergulhem-nas todas no gelo aparentemente interminável.

“Frio para combinar com as notícias sobre Lâmpadas.”

Um dos resultados dessa mudança de tempo era o nevoeiro. Ela podia vê-lo dissipando-se, quando a breve lufada de neve terminou. Tempo muito confuso. Puseram o ponto de orvalho próximo à temperatura do ar, e o nevoeiro rolou para os pontos úmidos restantes. Levantava-se do chão em névoas de tule que vagavam pelos pomares sem folhas como um gás venenoso.

“Absolutamente nenhum sobrevivente?”

Bellonda sacudiu a cabeça de lado a lado em resposta ao olhar inquiridor de Odrade.

Lâmpadas — uma jóia na rede de planetas da Irmandade, terra da escola mais premiada, mais outra bola de cinzas sem vida, outra fusão endurecida. E o Bashar Alef Burzmali, com toda sua selecionada força de defesa. “Todos mortos?”

— Todos mortos — disse Bellonda.

Burzmali, o aluno favorito do Bashar Teg, morto, e nada se ganhou com isso. Lâmpadas — a maravilhosa biblioteca, os professores brilhantes, os primeiros alunos... tudo perdido.

— Até mesmo Lucilla? — Odrade perguntou. A Reverenda Madre Lucilla, vice-chanceler de Lâmpadas, tinha sido instruída a fugir ao primeiro sinal de problema, levando consigo tudo o que pudesse guardar na Outra Memória.

— Os espiões disseram que todos foram mortos — Bellonda insistiu. Era um sinal desalentador para as Bene Gesserit sobreviventes:

— Vocês poderão ser as próximas!

Como podia uma sociedade humana ser anestesiada a tal brutalidade? Era o que Odrade se perguntava. Ela visualizou a notícia, na hora do café, em alguma base das Honradas Madres:

— Destruímos outro planeta dos Bene Gesserit. Dez milhões de mortos, dizem. Isso completa seis planetas este mês, não é mesmo? Passe o creme, por favor, querida.

Quase petrificada de horror, Odrade pegou o relatório e deu uma rápida olhada. “Veio do Rabino, sem dúvida alguma.” Depôs o relatório suavemente, e olhou para suas Conselheiras.

Bellonda-velha, gorda e rubicunda. Arquivista Mentat, usando óculos para ler, agora, sem dar importância ao que isso poderia revelar a seu respeito. Mostrou seus dentes rombudos numa larga careta que dizia mais que palavras. Tinha visto a reação de Odrade ao relatório. Bell poderia brigar mais uma vez pela retaliação na mesma moeda. Podia-se esperar essa atitude por parte de alguém que era valorizado por sua violência natural. Era preciso lançá-la de volta ao hábito Mentat, onde poderia ser mais analítica.

“A seu modo, Bell está certa”, pensou Odrade. “Mas ela não vai gostar do que tenho em mente. Preciso ser cautelosa com o que digo agora. É cedo demais para revelar meu plano.”

— Há certas circunstâncias em que a violência pode aplacar a violência — Odrade disse. — Devemos considerar essa questão cuidadosamente.

“É isso! A observação evitaria a explosão de Bellonda.”

Tamalane mexeu-se levemente na cadeira. Odrade olhou para a mulher mais velha. Tam, composta aí, em sua máscara de crítica paciência. Cabelos de neve acima da face estreita: a aparência de uma sabedoria de muitos anos.

Viu, através da máscara de extrema severidade de Tam, a atitude reveladora de seu desagrado por tudo que via e ouvia.

Em contraste com a suave superfície da carne de Bell, havia uma solidez óssea em Tamalane. Ela ainda se mantinha em forma, seus músculos tão bem tonificados quanto era possível. Em seus olhos, porém, estava presente algo que desmentia isso: “uma sensação de retirada, aí, retraindo-se da vida”. Oh, ela observava ainda, mas a retirada final já fora iniciada. A afamada inteligência de Tamalane torna-se uma espécie de perspicácia, mais confiante em decisões e observações passadas do que nas coisas que ela via no presente imediato.

“Precisamos começar a preparar uma substituição. Será Sheeana, eu acho. Sheeana é perigosa para nós, mas demonstra ser uma grande promessa. E Sheeana foi iniciada em Duna.”

Odrade fixou o olhar nas sobrancelhas revoltas de Tamalane. Elas tendiam a pender num desalinho que escondia as pálpebras. “Sim. Sheeana para substituir Tamalane.”

Conhecedora dos problemas complexos que tinham a resolver, Tam aceitaria a decisão. No momento de anunciar o fato, Odrade sabia que apenas teria de chamar sua atenção para a enormidade da crise que atravessavam.

“Sentirei sua falta, maldição.”

 

Não se pode conhecer a História, a menos que se conheça como os líderes seguem seu curso.

Todo líder exige que os estranhos perpetuem sua liderança. Examinem minha carreira: fui líder e estranho. Não pensem que simplesmente criei uma Igreja-Estado. Essa era minha função como líder, e copiei modelos históricos. As artes bárbaras de meu tempo revelam-me como estranho.

Poesia favorita: épica. Ideal dramático popular: heroísmo. Dançarinos: totalmente abandonados.

Estimulantes para fazer com que as pessoas sentissem o que eu lhes tirei. E o que foi que lhes tirei?

O direito de escolher um papel na História.

 

— Leto II (O Tirano) Tradução Vether Bebe

 

“Vou morrer!”, Lucilla pensou.

“Por favor, queridas Irmãs, não deixem que isso aconteça antes que eu passe o precioso fardo que carrego na mente!”

“Irmãs!”

A idéia de família era raramente expressa entre as Bene Gesserit, mas existia. Num sentido genético, elas eram relacionadas. E em razão da Outra Memória, freqüentemente sabiam como. Não tinham necessidade de termos como “prima em segundo grau” ou “tia-avó”. Viam o parentesco como um tecelão vê o pano. Sabiam como a urdidura e a trama criavam o tecido. Uma palavra mais adequada que Família era o tecido das Bene Gesserit que formava a Irmandade, mas era o antigo instinto de Família que fornecia a urdidura.

Agora, Lucilla pensava em suas irmãs somente como Família. A Família precisava daquilo que carregava.

“Fui uma tola procurando refúgio em Gammu!”

Mas sua não-nave avariada não conseguiria arrastar-se mais longe. Que extravagância diabólica essa, a das Honradas Madres! O ódio que isso implicava a enchia de terror.

Espalhar armadilhas mortais nas vias de fuga ao redor de Lâmpadas, deixando o perímetro das Dobras do Espaço semeado de não-globos, cada um contendo um projetor de campo e uma arma laser para disparar quando em contato. Quando o laser atingia o gerador Holzmann do não-globo, uma reação em cadeia liberava a energia nuclear. Bem no campo de armadilhas, e uma explosão devastadora espalhava-se silenciosamente através da pessoa. Dispendioso, mas eficiente! Um número suficiente de explosões desse tipo, e até mesmo uma gigantesca Nave da Corporação tornar-se-ia um estropiado destroço no vácuo. O sistema de análise defensiva de sua nave tinha penetrado a natureza da armadilha somente quando já era tarde demais, mas ela tivera sorte, supunha.

Não se sentia afortunada, enquanto olhava para fora da janela do segundo andar de uma isolada casa de fazenda, em Gammu. A janela estava aberta, e a brisa da tarde carregava o inevitável cheiro de óleo, uma coisa suja na fumaça de um fogo lá fora. Os Harkonem tinham deixado sua marca oleosa tão profundamente neste planeta que talvez nunca fosse removida.

Seu contato aqui era um médico aposentado Suk, mas ela o conhecia como muito mais, algo tão secreto que somente um número limitado de irmãs partilhava disso na Bene Gesserit. O conhecimento estava numa classificação especial: “Os segredos dos quais não falamos, nem mesmo entre nós, porque isso nos faria mal. Os segredos que não passamos de Irmã para Irmã quando partilhamos nossas vidas, porque não há caminho aberto. Os segredos que não ousamos saber, até que surja uma necessidade!” Lucilla tinha esbarrado nele em função de uma observação velada de Odrade.

— Sabe de uma coisa interessante a respeito de Gammu? Existe lá uma sociedade inteira unida pela idéia de todos comerem alimentos consagrados. Um costume trazido por imigrantes nunca totalmente integrados. Isolam-se, mostram desagrado quanto à procriação fora do grupo, esse tipo de coisa. Acendem o habitual detrito mítico, naturalmente: cochichos, rumores. Serve para isolá-los ainda mais. Precisamente o que eles querem.

Lucilla sabia de uma antiga sociedade que se encaixava perfeitamente nessa descrição. Estava curiosa. A sociedade que tinha em mente chegara ao fim logo depois da Segunda Migração Interespacial. Uma consulta judiciosa aos Arquivos aguçou sua curiosidade ainda mais. Estilos de vida, descrições de rituais religiosos encobertos pelos rumores — especialmente os candelabros — e a guarda de feriados especiais, uma proscrição do trabalho nessas ocasiões. E eles não estavam apenas em Gammu!

Certa manhã, aproveitando um período incomum de calma, Lucilla entrou na sala de trabalho para verificar sua “suposição projetiva”, algo que não era tão confiável quanto um equivalente Mentat, mas que era mais que uma teoria.

— Você tem um novo encargo para mim, acho eu.

— Vejo que andou consultando os arquivos.

— Pareceu-me uma atividade proveitosa neste momento.

— Fazendo associações?

— Uma suposição. “Essa sociedade secreta em Gammu — eles são judeus, não são?”

— Você pode ter necessidade de informações especiais devido ao lugar para onde pretendemos designá-la. — Seu tom era extremamente casual.

Lucilla afundou na poltrona-cão de Bellonda, sem convite.

Odrade pegou um buril, rabiscou numa folha descartável e passou-a a Lucilla de um modo que a escondia dos televigias.

Lucilla percebeu a intenção e curvou-se sobre a mensagem, segurando-a bem atrás do escudo formado por sua cabeça.

— Sua suposição está correta. Você deve preferir morrer a revelá-la. Esse é o preço da cooperação deles, uma grande prova de confiança. — Lucilla destruiu a mensagem.

Odrade usou identificação de olhos e de palma para descerrar um painel na parede atrás de si. Removeu um cristal riduliano e entregou-o a Lucilla. Estava quente, mas ela sentiu um calafrio. O que poderia ser tão secreto? Odrade tirou o capacete de segurança de sob a mesa e girou o eixo na posição.

Lucilla deixou cair o cristal no receptáculo com a mão trêmula e puxou o capacete sobre a cabeça. Imediatamente as palavras se formaram em sua mente, e ela reconheceu sotaques extremamente antigos:

— As pessoas que chamaram sua atenção são os judeus. Eles tomaram uma decisão defensiva há eras passadas. A solução para os massacres recorrentes era desaparecer da vista do público. As viagens espaciais tornaram isso não só possível, como atraente. Esconderam-se em inúmeros planetas — sua própria Dispersão — e provavelmente têm planetas onde somente seu povo vive. Isso não significa que eles tivessem abandonado as práticas antiqüíssimas nas quais se especializaram por necessidade de sobrevivência. A antiga religião seguramente persiste, embora um pouco alterada. É provável que um rabino dos tempos antigos não se sinta deslocado diante do candelabro do Sabá de uma casa judia moderna. Mas seu sigilo é tal, que você poderia trabalhar a vida inteira ao lado de um judeu e nunca suspeitar do fato. Eles o chamam de “Cobertura Completa”, embora conheçam seus perigos.

Lucilla aceitou isso sem questionar. Isso que era tão secreto seria reconhecido como perigoso por qualquer um que ao menos suspeitasse de sua presença. “Do contrário, por que eles manteriam um segredo tão grande? Porquê?”

O cristal continuou a despejar segredos em sua consciência. — Diante da ameaça de descoberta, eles têm uma reação padrão: “Nós procuramos a religião de nossas raízes. É um renascimento, trazendo o que há de melhor em nosso passado.”

Lucilla conhecia esse padrão. Havia sempre “renovadores malucos”. Isso era garantido para aplacar a maior parte da curiosidade. — Eles? Oh, são mais um bando de restauradores! — O sistema de dissimulação (continuava o cristal) não teve sucesso conosco. Temos nossa própria herança judia bem documentada e um fundo da Outra Memória para nos revelar as razões do sigilo. Não interferimos na situação até que eu, Madre Superiora durante e após a batalha de Corrino (antiqüíssimo, de fato), vi que nossa Irmandade necessitava de uma sociedade secreta, um grupo que compreendesse nossas solicitações de ajuda. Lucilla sentiu um impulso de ceticismo. Solicitações? A antiga Madre Superiora tinha antecipado o ceticismo.

— De vez em quando fazemos exigências que eles não podem evitar. Mas eles também fazem as suas.

Lucilla sentiu-se imersa na mística dessa sociedade oculta. Era mais que ultra-secreta. Suas desajeitadas indagações nos Arquivos tinham suscitado rejeições, na maioria das vezes.

— Judeus? O que é isso? Oh, sim uma antiga seita. Procure você mesma. Não temos tempo para pesquisas ociosas sobre religião.

O cristal tinha mais a divulgar:

— Os judeus acham divertido, e às vezes espantoso, o que interpretam como sendo nossa imitação deles. Nossos registros de procriação dominados pela linha feminina para controlar o padrão de acasalamento são vistos como judeus. Você será judia somente se sua mãe for judia.

O cristal finalizou:

— A diáspora será lembrada. Guardar este segredo envolve nossa mais profunda honra.

Lucilla ergueu o capacete da cabeça.

— Você é uma excelente escolha para uma tarefa muito delicada em Lâmpadas — Odrade tinha dito, recolocando o cristal em seu esconderijo. “Isto é passado, e provavelmente morto. Veja ao que me trouxe a missão delicada de Odrade!”

Do lugar onde estava na casa de fazenda de Gammu, Lucilla percebeu que um grande carro de transporte de mercadorias tinha entrado no local. Havia um alvoroço de atividade lá embaixo. Os trabalhadores vinham de todos os lados para lançar no carro reboques cheios de verduras. Ela sentia o aroma penetrante dos talos cortados.

Lucilla não se moveu da janela. Seu anfitrião tinha lhe fornecido vestimentas locais — um longo vestido pardo de uso diário e um lenço de cabeça azul-brilhante para conter seu cabelo cor de areia. Era preciso não fazer nada que chamasse indevida atenção para si. Tinha visto outras mulheres pararem para observar o trabalho da fazenda. Sua presença aqui poderia ser tomada como curiosidade.

Era um grande carro transportador, com os suspensores funcionando sob o peso dos produtos já empilhados em seções articuladas. O operador mantinha-se de pé numa cabine transparente na parte dianteira, com as mãos na alavanca de direção, olhos dirigidos para a frente. Com as pernas bem separadas, ele se inclinava sobre a rede de suportes da rampa, encostando o quadril na barra de força.

Era um homem grande, de face escura e enrugada, o cabelo estriado de cinza. Seu corpo era uma extensão da máquina — orientando o pesado movimento. Lançou um olhar rápido, mas penetrante a Lucilla, quando passou, desviando-o a seguir para o caminho que levava à vasta área de carregamento delimitado pelos edifícios abaixo da janela.

“Embutido na máquina”, ela pensou. Isso evidenciava o modo como os humanos se adequavam às coisas que faziam. Lucilla sentiu uma força debilitante nesse pensamento. Se você se integra demasiado a uma única coisa, as outras capacidades se atrofiam. “Nós nos tornamos o que fazemos.”

Imaginou-se de repente como o operador de uma grande máquina, em nada diferente do homem da transportadora.

A grande máquina, passando por ela, fez a volta para fora do pátio, sem que o operador lhe dirigisse outro olhar. Ele já a tinha visto uma vez. Por que olhar de novo?

Seus anfitriões tinham feito uma sábia escolha deste esconderijo, pensou. Uma área escassamente povoada, com trabalhadores confiáveis na vizinhança e pouca curiosidade entre as pessoas que passavam. O trabalho duro aplacava a curiosidade. Tinha percebido a característica da área quando foi trazida para o local. Já era noite, e as pessoas caminhavam pesadamente para casa.

Pode-se medir a densidade urbana de uma área pelo momento em que o trabalho pára. Deitar cedo é uma característica de regiões fracamente povoadas. A atividade noturna revela que as pessoas permanecem inquietas, crispadas, tendo a consciência interior de outras ativas e vibrantes nas proximidades.

“O que me trouxe a este estado introspectivo?”

Há muito tempo, no primeiro retiro da Irmandade, antes das piores violências das Honradas Madres, Lucilla tinha experimentado dificuldade em aceitar a idéia de que “alguém lá fora está nos perseguindo com a intenção de nos matar”.

Massacre! Foi esse o nome que o Rabino usou antes de sair aquela manhã “para ver o que posso fazer por você”.

Sabia que ele tinha escolhido a palavra do fundo de uma antiga e amarga memória, mas nunca, desde sua primeira experiência em Gammu antes desta perseguição, Lucilla tinha experimentado um tal confinamento, em circunstâncias que não podia controlar.

“Eu era uma fugitiva, então.”

A presente situação da Irmandade apresentava algumas semelhanças com aquilo que tinham sofrido sob o domínio do Tirano, com a diferença que o Imperador-Deus obviamente (em retrospecto) nunca teve intenção de exterminar as Bene Gesserit, apenas de dominá-las. E certamente as dominou!

“Onde estará esse maldito Rabino?”

Ele era um homem grande e veemente, com óculos fora de moda. Uma face larga, queimada pelo sol. Poucas rugas, a despeito da idade que ela podia perceber em sua voz e seus movimentos. Os óculos chamavam a atenção para olhos castanhos fundos, que a olhavam com intensidade peculiar.

— Honradas Madres — ele dissera (bem aqui, neste quarto de paredes nuas do andar superior), quando ela explicou sua difícil situação.

— Oh, Senhor! Isso é complicado.

Lucilla tinha esperado essa resposta e, mais do que isso, percebeu que ele sabia.

— Há um Navegador da Corporação em Gammu, auxiliando na sua busca — disse ele. — É um dos Edrics, muito poderoso, segundo me disseram.

— Tenho sangue de Siona. Ele não pode me ver.

— Nem a mim, nem a ninguém do meu povo, pela mesma razão. Nós, judeus, nos ajustamos a muitas necessidades, você sabe.

— Esse Edric é apenas um gesto — ela disse. — Pode fazer muito pouco.

— Mas eles o trouxeram. Temo que não haja um modo de fazê-la sair do planeta com segurança.

— Então, que podemos fazer?

— Veremos. Meu povo não é inteiramente impotente, compreende?

Lucilla reconheceu sinceridade e preocupação em relação a ela. Ele falou calmamente sobre o modo de resistir aos agrados sexuais das Honradas Madres, “fazendo isso discretamente, de forma a não provocá-las”.

— Farei uns contatos discretos.

Ela sentiu-se estranhamente confortada com isso. Havia, muitas vezes, algo friamente remoto e cruel em relação a cair nas mãos das profissões médicas. Uma coisa a tranqüilizou, entretanto: o conhecimento de que os Suks eram condicionados a se manterem alertas às necessidades de outros, oferecendo compaixão e apoio. (Todas as coisas que podem desmoronar numa emergência.)

Concentrou seus esforços em recuperar a calma, focalizando a atenção no mantra pessoal que tinha obtido na “educação solo para a morte”.

“Se eu tiver que morrer, devo passar adiante minha lição transcendental. Devo partir com serenidade.”

Isso ajudou, mas sentia ainda um tremor. O Rabino tinha saído há muito tempo. Algo estava errado.

“Seria acertado confiar nele?”

Apesar de um crescente sentido de condenação, Lucilla forçou-se a praticar a candidez Bene Gesserit, enquanto revia seu encontro com o Rabino. Suas Instrutoras chamavam isso de “a inocência que acompanha naturalmente a inexperiência, uma condição freqüentemente confundida com ignorância”. Dentro dessa candidez, todas as coisas fluem. Parecia-se com o desempenho Mentat. A informação era admitida sem prejulgamentos. “Você é um espelho no qual se reflete o universo. Esse reflexo é tudo que você vivência. As imagens saltam ao encontro dos seus sentidos. Hipóteses se levantam. Importante, mesmo quando errado. É o caso excepcional, onde mais de um erro pode levar a decisões confiáveis.

— Somos seus fiéis servidores — o Rabino tinha dito.

Era uma afirmação que, com toda a certeza, alertava uma Reverenda Madre.

As explicações do cristal de Odrade se mostraram inadequadas de repente. “Quase sempre é o lucro.” Aceitava isso como um pensamento cínico, mas oriundo de uma vasta experiência. Tentativas de extirpá-lo do comportamento humano sempre se quebravam nas rochas da aplicação. Sistemas comunistas e socializantes somente mudavam os instrumentos de medir os lucros. Enormes burocracias gerenciais. A máquina de contar é que era o poder.

Lucilla preveniu-se de que as manifestações eram sempre as mesmas. Veja esta extensa fazenda do Rabino! Retiro de aposentadoria de um Suk? Ele tinha visto algo do que estava por trás do domicílio: criados, alojamentos mais ricos. E deve haver mais. É sempre a mesma coisa, não importa o sistema: os melhores alimentos, belas amantes, viagens sem limites, magníficas instalações de férias.

“É muito cansativo, para quem já viu isso tudo tantas vezes como eu.”

Sabia que sua mente estava se agitando nervosamente, mas sentiu-se impotente para impedi-lo. “Sobrevivência. O próprio alicerce do sistema de demanda é sempre a sobrevivência. E eu ameaço a sobrevivência do Rabino e de seu povo.”

Ele a tinha adulado. “Sempre tome cuidado com aqueles que nos adulam, aninhando-se em todo esse poder que se espera que tenhamos. Como é lisonjeiro encontrar multidões de criados esperando ansiosos para cumprir nossas ordens! Que total fraqueza nos vem daí.”

“O erro das Honradas Madres.”

“O que estará provocando a demora do Rabino?”

Estaria ele vendo quanto era possível conseguir pela Reverenda Madre Lucilla?

Uma porta bateu lá embaixo, fazendo estremecer o chão sob seus pés. Ela ouviu passos apressados na escada. Como eram primitivos! O Rabino entrou, trazendo um cheiro rico de melange. Deteve-se de pé, na porta, avaliando o ânimo da hóspede.

— Perdoe-me o atraso, cara senhora. Fui convocado para um interrogatório com Edric, o Navegador da Corporação.

Isso explicava o odor da especiaria. Os Navegadores eram banhados para sempre no gás laranja da melange, tendo suas feições freqüentemente anuviadas pelos vapores. Lucilla podia visualizar o pequeno “v” da boca e a saliência do nariz de um Navegador. A boca e o nariz pareciam pequenos em seu rosto gigantesco, com as têmporas pulsando. Ela sabia como o Rabino devia ter-se sentido ameaçado pela cantilena ululante daquela voz, com sua tradução simultânea mecânica para o Galach impessoal.

— O que ele queria?

— Veio à sua procura.

— Ele...

— Ele não sabe ao certo, mas tenho certeza de que suspeita de nós. No entanto, suspeita de todo mundo.

— Seguiram-no?

— Não seria necessário. Podem me encontrar quando quiserem.

— O que faremos? — Sabia que estava falando depressa demais, alto demais.

— Cara senhora... — Adiantou-se três passos, e ela viu a transpiração em sua testa e nariz. Medo. Podia sentir-lhe o cheiro.

— Bem, o que é?

— A concepção econômica que existe por trás das atividades das Honradas Madres — nós a achamos bem interessante.

Suas palavras cristalizaram os medos de Lucilla. “Eu sabia! Ele está me vendendo!”

— Como vocês, Reverendas Madres, bem o sabem, há sempre lacunas nos sistemas econômicos.

— Sim? — Isso era profundamente cansativo.

— A supressão incompleta de negociação em qualquer mercadoria sempre aumenta os lucros dos negociantes, especialmente os dos distribuidores mais antigos. — Sua voz hesitante era um aviso.

— Essa é a ilusão de pensar que se pode controlar narcóticos indesejados, interrompendo-os nas fronteiras.

O que ele estaria tentando lhe dizer? Suas palavras descreviam fatos elementares, conhecidos até pelas acólitas. Lucros extras eram sempre usados para abrir caminhos seguros através dos guardas da fronteira, muitas vezes comprando-se os próprios guardas.

“Será que ele comprou os criados das Honradas Madres? Na certa não acredita que o possa fazer com segurança.”

Esperou enquanto ele compunha seus pensamentos, obviamente formando uma apresentação que acreditava poder ter a aceitação dela.

Por que ele chamou sua atenção para os guardas da fronteira? Isso era certamente o que tinha feito. Os guardas dispunham sempre de uma racionalização imediata para trair seus superiores, naturalmente: “Se eu não fizer, alguém o fará”.

Ousou ter esperança.

O Rabino limpou a garganta. Era evidente que encontrara as palavras que queria, e tinha-as colocado em ordem.

— Não acredito que haja um meio de tirá-la de Gammu com vida. — Ela não esperava uma condenação tão rude.

— Mas os...

— A informação que carrega, esse é um outro caso — ele disse. Então era isso que estava por trás de toda essa conversa sobre fronteiras e guardas!

— Você não entende Rabino. Minha informação não é apenas um punhado de palavras e alguns avisos. — Bateu com um dedo na testa. — Aqui há muitas vidas preciosas, todas elas experiências insubstituíveis, aprendizado tão vital que...

— Ahhh, mas eu entendo muito bem, cara senhora. Nosso problema é que a senhora não entende.

“Sempre essas referências ao entendimento!”

— É da sua honra que eu dependo neste momento — ele disse. “Ahhh, a legendária honestidade e confiabilidade das Bene Gesserit, uma vez dada a nossa palavra!”

— Sabe que eu preferiria morrer a traí-los — ela disse.

Ele estendeu as mãos abertas num gesto desamparado.

— Confio nisso plenamente, cara senhora. A questão não é de traição, mas de algo que nós nunca revelamos à sua Irmandade.

— O que está tentando me dizer? — falou bem categórica, quase com a Voz (que ela tinha sido prevenida a não usar com aqueles judeus).

— Preciso exigir-lhe uma promessa. Tenho de ter sua palavra de que não se voltará contra nós em razão do que estou para lhe revelar. É necessário prometer-me que aceitará minha solução para nosso dilema.

— Às cegas?

— Somente porque lhe peço, e lhe asseguro que nós honramos nosso compromisso com sua Irmandade.

Ela lançou-lhe um olhar penetrante, tentando ver através da barreira erguida entre eles. Suas reações podiam ser lidas na superfície, mas o mistério oculto sob seu comportamento inesperado permanecia obscuro.

O Rabino esperou que a mulher atemorizada tomasse sua decisão. As Reverendas Madres sempre o deixavam embaraçado. Ele sabia qual devia ser sua escolha e tinha pena dela. Viu que ela podia ler a piedade em sua expressão. Sabiam tanto e tão pouco. Seus poderes eram manifestos. E seu conhecimento de Israel Secreto tão perigoso!

“Contudo nós lhes devemos isso. Ela não é uma das Escolhidas, mas dívida é dívida. Honra é honra. Verdade é verdade.”

A Bene Gesserit tinha protegido Israel Secreto em muitas horas de necessidade. E um massacre era algo que seu povo conhecia sem precisar de muitas explicações. O massacre era inerente à psique de Israel Secreto. E graças ao Inefável, o povo escolhido nunca esqueceria. Não mais do que poderia perdoar.

A recordação mantida viva no ritual diário (com ênfase periódica nas partilhas comunais) lançou uma auréola ardente sobre o que o Rabino sabia que devia fazer. E aquela pobre mulher! Ela também tinha caído na cilada das memórias e das circunstâncias.

“Para o caldeirão! Nós ambos!”

— Tem a minha palavra — Lucilla disse.

O Rabino voltou-se para a única porta do aposento e a abriu. Havia lá uma mulher idosa num longo vestido castanho. A um aceno do Rabino, ela entrou. Seu cabelo tinha a cor da madeira antiga, fortemente preso num coque para trás. A face chupada e enrugada era escura como uma amêndoa seca. Os olhos, porém! Azul total! E que dureza de aço revelavam...

— Esta é Rebecca, uma de nós — o Rabino disse. — Como pode ver, estou certo, ela fez uma coisa perigosa.

— A Agonia — Lucilla murmurou.

— Rebecca o fez há muito tempo atrás, e nos tem servido bem. Agora, ela a servirá.

Lucilla tinha de ter certeza.

— Sabe compartilhar?

— Nunca fiz isso, senhora, mas sei como se faz. — Aproximou-se de Lucilla enquanto falava, e parou quando estavam quase se tocando.

Inclinaram-se para frente até que as testas se tocassem. Suas mãos afastaram-se e procuraram mutuamente os ombros.

Ao se fecharem suas mentes, Lucilla lançou um pensamento projetivo: “Isto deve destinar-se a minhas Irmãs!”

— Eu lhe prometo, cara senhora.

Não podia haver fraude nessa total mistura de mentes, nessa sinceridade máxima movida pela morte certa e iminente ou pela venenosa essência da melange, que os antigos Fremem denominavam, muito adequadamente, “a pequena morte”. Lucilla aceitou a promessa de Rebecca. A selvagem Reverenda Madre dos Judeus comprometeu a vida nessa garantia. Mais uma coisa! Lucilla ofegou, quando percebeu isso. O Rabino tinha a intenção de vendê-la às Honradas Madres. O motorista do transportador de produtos era um agente, vindo para confirmar que realmente havia uma mulher com a descrição de Lucilla na fazenda.

A sinceridade de Rebeca não lhe deu saída:

— É a única maneira pela qual podemos nos salvar e manter nossa credibilidade.

Então era por isso que o Rabino a fizera pensar em guardas e intermediários. “Hábil. Muito hábil. E eu aceitei tudo, como ele sabia que eu faria.”

 

Não se pode manipular um fantoche com um único cordão.

 

— O Açoite Zensunni

 

A Reverenda Madre Sheeana estava de pé no estrado de escultura, em seu estúdio, as mãos cobertas por fresadoras em garras, como luvas exóticas. Através de seu trabalho, o sensiplaz negro na plataforma vinha tomando forma por quase uma hora. Ela sentia-se próxima da realização criadora projetada de um lugar selvagem dentro de si. A intensidade da força criativa fez sua pele tremer, e ela imaginou se as pessoas que passavam no corredor à sua direita não a perceberiam. A janela norte do estúdio tinha um brilho laranja provocado pelo pôr-do-sol do deserto.

Prester, a assistente mais antiga de Sheeana na Estação de Observação do Deserto, detivera-se na porta há alguns minutos, mas todos na estação sabiam que era melhor não interromper Sheeana quando ela estava trabalhando.

Dando um passo para trás, Sheeana afastou da testa, com as costas da mão, uma mecha de seu cabelo estriado de dourado. O plaz negro estava à sua frente como um desafio, suas curvas e planos “quase” se encaixando na forma que ela tinha sentido interiormente.

“Venho aqui para criar quando meus temores são maiores”, pensou.

Esse pensamento abafou o impulso criador, e ela redobrou os esforços para completar a escultura. Suas mãos revestidas com as limadoras mergulhavam e apanhavam o plaz, e a forma negra reagia a cada interferência, como uma onda conduzida por um vento insano.

A luz procedente da janela norte declinava, e os automáticos a compensavam, das extremidades do teto, com um brilho amarelo-acinzentado, mas não era a mesma coisa. Não era a mesma coisa!

Sheeana afastou-se do trabalho. Mais próximo... mas não o bastante. Ela quase podia tocar a forma dentro de si e senti-la lutando para nascer. Mas não estava dando certo. Um golpe rápido de sua mão direita reduziu o plaz a uma bolha negra sobre a plataforma.

Maldição!

Descalçou as fresadoras e deixou-as cair na prateleira ao lado do estrado. O horizonte, visível da janela oeste, ainda mostrava uma faixa laranja. Desfazendo-se depressa, assim como se desfazia seu impulso criador.

Andando a passos largos para a janela do pôr-do-sol, ainda teve tempo de ver a volta da última equipe de busca do dia. Suas luzes de aterrissagem eram como vaga-lumes em movimento para os lados do sul, onde uma planície temporária tinha se instalado no caminho das dunas que avançavam. Pelo modo vagaroso como os tópteros desciam, ela podia ver que não tinham encontrado nenhuma florescência de especiaria ou outros sinais de que os vermes da areia estavam afinal se desenvolvendo a partir das trutas da areia lá plantadas.

“Sou guardiã de vermes da areia que poderão nunca aparecer.”

A janela devolveu-lhe um reflexo escuro de suas feições. Podia ver onde a Agonia da Especiaria tinha deixado suas marcas. A esguia e morena menina desamparada de Duna tinha se tornado uma mulher alta e austera. Mas seu cabelo castanho ainda insistia em escapar da touca apertada na nuca. E ela podia perceber a rebeldia em seus olhos totalmente azuis. Os outros também podiam, e esse é que era o problema, fonte de alguns de seus medos.

Parecia não haver meios de interromper a Missionária em sua preparação para a nossa Sheeana.

Se os vermes gigantes se desenvolvessem — Shai-hulud retornaria! E a Missionária Protectiva da Bene Gesserit estava pronta para lançá-la sobre a humanidade que, sem desconfianças, estava preparada para a adoração religiosa. O mito tornado real... do mesmo modo que ela tentava transformar em realidade aquela escultura negra.

Sagrada Sheeana! O Imperador-Deus é seu escravo! Vejam como os vermes da areia lhe obedecem! Leto está de volta!

Isso influenciaria as Honradas Madres? Provavelmente. Elas, pelo menos, falaram muito sobre o Imperador-Deus usando o seu nome de Guldur.

Não que fosse provável que elas seguissem o comando da “Sagrada Sheeana”, a não ser na questão das explorações sexuais. Sheeana sabia que seu comportamento sexual, considerado abusivo até mesmo pelos padrões da Bene Gesserit, era uma forma de protesto contra esse papel que a Missionária tentava lhe impor. A desculpa de que ela simplesmente aprimorava os homens treinados em domínio sexual por Duncan Idaho era apenas... uma desculpa.

“Bellonda suspeita.”

A Mentat Bell era um constante perigo para as Irmãs que saíam da linha. E essa era a principal razão pela qual Bell mantinha seu poder no alto Conselho da Irmandade.

Sheeana afastou-se da janela e atirou-se sobre a colcha laranja e âmbar que cobria seu catre. Bem à sua frente havia um grande desenho em branco e preto de um verme gigante suspenso sobre uma minúscula figura humana.

“É assim que eles eram, e talvez não voltem a ser nunca mais. O que eu estava tentando dizer com este desenho? Se soubesse, talvez pudesse terminar a escultura de plaz.”

Tinha sido perigoso desenvolver uma linguagem de mãos com Duncan. Mas havia coisas que a Irmandade não podia saber — ainda não.

“Pode haver uma saída para nós dois.”

Mas para onde iriam? Era um universo cercado pelas Honradas Madres e por outras forças. Um universo de planetas dispersos, povoados principalmente por humanos que apenas queriam viver suas vidas em paz — aceitando a orientação Bene Gesserit em alguns lugares, sofrendo sob a repressão das Honradas Madres em muitas regiões, principalmente esperando governar a si mesmos da melhor forma possível — o perene sonho da democracia. E depois, havia sempre os imprevistos. E sempre a lição das Honradas Madres! Murbella revelava indícios de que as Oradoras Peixes e as Reverendas Madres in extremis formaram as Honradas Madres. A democracia das Oradoras Peixes transformara-se na autocracia das Honradas Madres! As pistas eram numerosas demais para serem ignoradas. Mas por que elas teriam enfatizado compulsões inconscientes com suas Sondas-T, com indução celular e perícia sexual?

Onde está o mercado que aceitará nossos instáveis talentos?

Este universo não mais possuía um mercado único. Podia-se circunscrever uma espécie de rede de trabalhos extremamente imprecisa, baseada em antigas concessões e acordos temporários.

Odrade tinha dito uma vez:

— Parece um vestido velho, remendado e esfiapado nas pontas.

A compacta rede comercial da CHOAM não existia mais. Consistia agora de tímidos fragmentos e algumas partes reunidas por laços muito frágeis. As pessoas tratavam essa coisa remendada com desprezo, suspirando sempre pelos bons tempos de antigamente.

“Que tipo de universo nos aceitaria simplesmente como fugitivos e não como a Sagrada Sheeana e seu consorte?”

Não que Duncan fosse um consorte. Esse tinha sido o plano original das Bene Gesserit: Liguem Sheeana a Duncan. Nós o controlamos e ele a controlará.

Murbella cortou o plano. “E foi uma boa coisa para nós dois. Quem precisa de uma obsessão sexual?” Mas Sheeana era forçada a admitir que abrigava sentimentos estranhamente confusos em relação a Duncan Idaho. A linguagem das mãos, o toque. E o que poderiam dizer a Odrade, quando ela se intrometesse? Não se, mas quando.

“Conversamos sobre maneiras de Duncan e Murbella escaparem de você, Madre Superiora. Falamos sobre o modo de recuperar as memórias de Teg. Discutimos nossa própria rebelião particular contra a Bene Gesserit. Sim, Darwi Odrade! Sua antiga aluna tornou-se uma rebelde contra você.”

Sheeana reconhecia seus sentimentos confusos a respeito de Murbella, também.

“Ela domesticou Duncan onde eu poderia ter falhado!”

A Honrada Madre cativa era um estudo fascinante... e divertido, às vezes. Havia os engraçados versos burlescos de sua autoria, afixados na parede da sala de jantar das Acólitas.

 

Ei, Deus! Espero que esteja aí.

Quero que ouça minha prece.

Essa imagem esculpida na minha prateleira;

É realmente você ou apenas eu mesma?

Bem, de qualquer modo, aqui vai:

Por favor, mantenha-me alerta.

Ajude-me a superar meus piores erros,

Faça isso por nós dois,

Como um exemplo de perfeição

Para as Instrutoras da minha seção;

Ou simplesmente pelo seu próprio Céu,

Como o pão, pelo seu próprio fermento.

Por qualquer motivo que se apresente,

Por favor, aja por mim e por você.

 

O subseqüente confronto com Odrade, apreendido pelos televigias, tinha sido uma linda coisa de se ver. A voz de Odrade estranhamente aguda:

— Murbella, você?

— Temo que sim. — Nenhuma contrição de sua parte.

— Teme? — Ainda estridente.

— Por que não? — Bastante desafiadora.

— Você graceja a respeito da Missionária. Não proteste. Era essa a sua intenção.

— Elas são umas malditas pretensiosas!

Sheeana sentia uma grande afinidade quando refletia sobre esse confronto. A rebeldia de Murbella era um sintoma. Que coisas estarão fermentando, antes que sejamos forçados a notá-las?

“Eu lutei desse mesmo jeito contra essa perpétua disciplina que a fará mais forte, criança.”

Como era Murbella, quando criança? Quais as pressões que lhe deram forma? A vida era sempre uma reação às pressões. Alguns se entregavam a distrações fáceis e eram por elas moldados: poros inchados e avermelhados pelos excessos. Baco olhando-os de esguelha. O desejo dando forma a suas feições. Uma Reverenda Madre conhecia isso por observação milenar. “Somos moldados pela pressão, quer resistamos a ela ou não.” Pressões e formas — essa era a vida. “E eu crio novas pressões pelo meu desafio secreto.”

Dado o atual estado de alerta da Irmandade em relação a todas as ameaças, a conversa de mãos com Duncan era provavelmente fútil.

Sheeana inclinou a cabeça e olhou para a bolha negra na banca de escultura.

“Mas eu não desisto. Hei de criar minha própria declaração de vida. Minha própria vida. Malditas Bene Gesserit!”

“E perderei o respeito de minhas Irmãs.”

Havia algo antigo no modo como elas eram sujeitas a uma respeitosa conformidade. Tinham ido buscar essa atitude em seu passado mais remoto, trazendo-a à tona regularmente para aperfeiçoá-la e fazer os reparos necessários, exigidos pelo tempo em todas as criações humanas. E aí estava ainda hoje, mantida numa reverência sem palavras.

“Portanto, você é uma Reverenda Madre, e por nenhum outro julgamento isso será verdade.”

Sheeana soube, então, que seria forçada a testar essa coisa antiga em seus limites, provavelmente quebrando-a. E aquela forma negra de plaz, procurando emergir desse lugar selvagem em seu interior, era somente um elemento daquilo que sabia ser imperioso fazer. Tivesse ela o nome de rebelião ou qualquer outro, a força em seu peito não podia ser negada.

 

Limite-se a observar, e deixará de compreender o que é essencial em sua própria vida. O objeto pode ser formulado deste modo: viva a melhor vida que puder. A vida é um jogo, cujas regras você aprende se mergulhar nele e jogá-lo completamente. Do contrário você se desequilibra, continuamente surpreso com as mudanças nas jogadas. Os não-jogadores sempre lamentam e se queixam de que a sorte sempre os ignora. Recusam-se a ver que podem criar um pouco de sua própria sorte.

 

— Darwi Odrade

 

— Já examinou o último informe dos televigias sobre Idaho? — Bellonda perguntou.

— Mais tarde, mais tarde! — Odrade sabia que estava se sentindo irritadiça, e que isso se manifestava na resposta que deu à pergunta pertinente de Bellonda.

Atualmente, as pressões oprimiam a Madre Superiora cada vez mais. Ela sempre tinha procurado encarar suas obrigações com uma atitude de amplo interesse. Quanto mais coisas a interessassem, tanto mais abrangente seria seu exame e isso, com certeza, lhe traria mais informações úteis. Usar os sentidos aperfeiçoava-os. Substância, isso era o que seus interesses perscrutadores desejavam. Substância. Era como ir à caça para saciar uma fome profunda.

Mas seus dias estavam se tornando cópias desta manhã. Seu gosto por inspeções pessoais era bem conhecido, mas as paredes do escritório aprendiam. Ela precisava estar onde pudesse ser alcançada. Não apenas alcançada, mas capaz de despachar comunicações e pessoas no mesmo instante.

“Maldição. Hei de conseguir tempo. Tenho de conseguir!”

Mais que qualquer outra coisa, era a pressão do tempo.

Sheeana dizia:

— Caminhamos em círculos sobre dias emprestados.

Muito poético! Mas de pouca ajuda, em face das exigências pragmáticas. Era forçoso ter o maior número possível de células Bene Gesserit dispersas antes do machado cair. Nada mais tinha essa prioridade. O tecido das Bene Gesserit estava sendo rasgado, enviado a destinos que ninguém na Sede podia conhecer. Às vezes, Odrade via esse fluxo como trapos e resíduos. Eles estavam adejando em suas não-naves, com um estoque de trutas da areia em seus porões, tradições Bene Gesserit, aprendizado e recordações como guias. Mas a Irmandade tinha feito isso há muito tempo atrás, na primeira Dispersão, e ninguém voltou ou enviou qualquer mensagem. Ninguém. Ninguém. Somente as Honradas Madres voltaram. Se elas foram Bene Gesserit algum dia, eram agora uma terrível distorção, cegamente suicida.

“Seremos, algum dia, inteiras outra vez?”

Odrade olhou para o trabalho em sua mesa: mais gráficos de seleção. Quem vai e quem fica?

Havia pouco tempo para fazer uma pausa e respirar fundo. A Outra Memória de sua predecessora, Taraza, assumiu um caráter de “Eu avisei! Vê o que eu tive de enfrentar?”

“E cheguei a perguntar um dia se haveria lugar na cúpula.”

Poderia haver lugar no topo (como ela gostava de dizer às acólitas), mas dificilmente haveria tempo suficiente.

Quando pensava na população não-Bene Gesserit, grandemente passiva, “lá fora”, Odrade às vezes sentia inveja. As ilusões eram-lhes permitidas. Que consolo. Podia-se fingir que a vida era eterna, que amanhã seria melhor, que os deuses no céu cuidavam de nós.

Afastou-se desse deslize com asco de si mesma. O olho desanuviado era melhor, não importa o que visse.

— Examinei os últimos informes sobre Idaho — disse, olhando através da mesa para a paciente Bellonda.

— Ele tem instintos interessantes — Bell disse.

Odrade pensou nisso. Os televigias por toda a não-nave deixavam passar muito pouco. A teoria do Conselho a respeito do ghola Idaho tornava-se a cada dia menos uma teoria e mais uma convicção. Quantas recordações das vidas em série de Idaho continha esse ghola?

— Tam está levantando dúvidas sobre seus filhos — continuou. — Terão talentos perigosos?

Isso era de se esperar. As três crianças que Murbella tinha dado a Idaho na não-nave tinham sido removidas no nascimento. Todas elas estavam sendo observadas com cuidado, enquanto se desenvolviam. Teriam elas essa fantástica velocidade de reação que as Honradas Madres exibiam? Cedo ainda para dizer. Era uma coisa que se desenvolvia na puberdade, segundo Murbella.

A Honrada Madre cativa aceitou a remoção de seus filhos com uma resignação irritada. Idaho, entretanto, demonstrou pouca reação. Estranho. Alguma coisa lhe daria uma visão mais ampla da procriação? Quase uma perspectiva Bene Gesserit?

— Outro programa de procriação das Bene Gesserit — ele observou com sarcasmo.

Odrade deixou fluir seus pensamentos. Seria mesmo uma atitude Bene Gesserit que elas viam em Idaho? A Irmandade dizia que ligações emocionais eram antigos detritos — importantes para a sobrevivência humana em sua época, mas não mais necessários no plano Bene Gesserit.

“Instintos.”

Coisas que vinham com o ovo e o esperma. Muitas vezes vitais e sonoras:

— Isto é a espécie falando a você, burro!

Amores... descendência... fomes... Todos esses motivos inconscientes para forçar um comportamento específico. Era perigoso imiscuir-se em tais assuntos. As Madres Procriadoras sabiam disso, mesmo quando o faziam. O Conselho debatia o assunto periodicamente e ordenava uma observação cuidadosa das conseqüências.

— Você examinou os informes. Essa é toda a resposta que consigo? — Um tom bastante queixoso, partindo de Bellonda.

A projeção de tanto interesse para Bellonda era a de Idaho questionando Murbella sobre as técnicas das Honradas Madres para promover a dependência sexual. “Por quê?” Suas capacidades paralelas tinham vindo do condicionamento Tleilaxu impresso em suas células no tanque axlotl. As habilidades de Idaho tinham se originado como um modelo inconsciente semelhante aos instintos, mas os resultados eram indistinguíveis do efeito das Honradas Madres: o êxtase, amplificado até a remoção de todo traço de razão, e o aprisionamento de suas vítimas à fonte de tais recompensas.

Murbella chegou somente até aí na exploração verbal de suas capacidades. Uma fúria residual óbvia de que Idaho a tivesse viciado com as mesmas técnicas que lhe tinham ensinado a usar.

— Murbella se fecha quando Idaho questiona os motivos — Bellonda disse.

“Sim, eu já tinha percebido.”

— Eu podia matá-lo, e você sabe disso! — Murbella tinha dito.

O informe projetado mostrara ambos na cama, nos alojamentos de Murbella na não-nave, tendo acabado de saciar seu vício mútuo. O suor reluzia na carne nua. Murbella estava deitada com uma toalha azul na testa, seus olhos verdes olhando fixamente para os televigias. Parecia encarar diretamente seus observadores. Pontinhos laranja nos olhos. Nódoas de ódio, provocadas pelo estoque residual do substituto da especiaria que as Honradas Madres usavam. Ela agora estava na dieta de melange — sem sintomas adversos.

Idaho estava deitado a seu lado, o cabelo em desalinho em volta do rosto, num acentuado contraste com o travesseiro branco sob a cabeça. Os olhos estavam cerrados, mas as pálpebras vibravam. Magro. Não estava comendo bem, apesar dos pratos tentadores que lhe mandava a cozinheira pessoal de Odrade. Os molares, muito altos, eram fortemente delineados. O rosto se tornara fundo nesses anos de prisão.

A ameaça de Murbella era sustentada por sua habilidade física, sabia Odrade, mas era psicologicamente falsa. “Matar seu amante? Pouco provável!”

Bellonda raciocinava na mesma linha.

— O que ela estava fazendo quando demonstrou sua velocidade física? Já vimos isso antes.

— Ela sabe que nós observamos.

Os televigias mostraram Murbella pulando da cama, desafiando sua fadiga pós-coito. Movendo-se com velocidade indistinta (muito mais rápida que qualquer coisa que as Bene Gesserit já tinham alcançado), ela deu um chute com o pé direito, interrompendo o golpe a um fio de cabelo da cabeça de Idaho.

A seu primeiro movimento, Idaho abriu os olhos. Observou sem medo, sem recuar.

“Esse golpe! Fatal se fosse certeiro.” Bastava que você visse essa coisa uma vez, para temê-la. Murbella movimentava-se sem recorrer ao córtex central. Como um inseto, um ataque deflagrado pelos nervos ao ponto da ignição muscular.

— Veja! — Murbella baixou seu pé e fixou o olhar no amante. Idaho sorriu.

Observando a cena, Odrade lembrou-se de que a Irmandade tinha três crianças de Murbella, todas do sexo feminino. As Mestras Procriadoras estavam entusiasmadas. Com o tempo, as Reverendas Madres nascidas desta linha poderiam igualar essa capacidade das Honradas Madres. “Dentro de um tempo que provavelmente não teremos.” Mas Odrade compartilhava o entusiasmo das Mestras Procriadoras. Que velocidade! Acrescente-se a isso o treinamento neuromuscular, os grandes recursos pranabindu da Irmandade! O que isso podia criar permanecia sem palavras dentro dela.

— Ela fez isso para nós, não para ele — disse Bellonda.

Odrade não estava certa. Murbella se ressentia da observação constante sobre si, mas estava acomodada à situação. Muitas de suas ações obviamente ignoravam as pessoas atrás dos televigias. O informe projetado mostrou-a retornando a seu lugar na cama, ao lado de Idaho.

— Restringi o acesso a essa projeção — disse Bellonda. — Algumas acólitas estão ficando perturbadas.

Odrade assentiu. “Dependência sexual.” Esse aspecto das capacidades das Honradas Madres criava murmúrios perturbadores na Bene Gesserit, principalmente entre as acólitas. Muito sugestivo. E a maioria das Irmãs da Sede sabia que apenas a Reverenda Madre Sheeana, entre elas, praticava algumas das técnicas, desafiando o temor generalizado de que isso pudesse enfraquecê-las.

“Nós não devemos nos tornar Honradas Madres!” Bellonda estava sempre dizendo isso. “Mas Sheeana representa um significativo fator de controle. Ela nos ensina a respeito de Murbella.”

Uma tarde, pegando Murbella sozinha em seus alojamentos na não-nave e obviamente descansada, Odrade tinha tentado uma pergunta direta.

— Antes de Idaho, nunca nenhuma de vocês sentiu-se tentada a, digamos, participar da brincadeira?

Murbella recuou com orgulho irritado.

— Ele me pegou por acidente!

“O mesmo tipo de raiva que ela mostrou diante das perguntas de Idaho.”

Lembrando-se disso, Odrade inclinou-se sobre a mesa e fez projetar o registro original.

— Veja até que ponto ela se zanga — Bellonda disse. — Uma proibição hipnótica contra responder a essas perguntas. Apostaria minha reputação nessa hipótese.

— É o que será revelado na Agonia da Especiaria — disse Odrade.

— Se algum dia ela chegar a isso!

— Supõe-se que o hipnotranse seja segredo nosso.

Bellonda ruminou sobre a óbvia conclusão. “Até hoje não houve Irmã que tivesse voltado da Dispersão original.”

Estava escrito bem grande em suas mentes: “Teriam as renegadas Reverendas Madres criado as Honradas Madres?” Muita coisa sugeria isso. Então por que elas recorreram à escravização sexual dos homens? A tagarelice histórica de Murbella não convencia. Tudo a esse respeito ia contra o ensinamento da Bene Gesserit.

— Temos que aprender — Bellonda insistiu. — Saber tão pouco é muito perturbador.

Odrade reconhecia a preocupação. Em que medida essa capacidade era um chamariz? Bem grande, pensou. As acólitas queixavam-se de sonhar que estavam se tornando Honradas Madres.

Com razão Bellonda se preocupava.

Criar ou provocar essas forças irrefreáveis podia construir fantasias carnais de enorme complexidade. Podiam-se conduzir populações inteiras através de seus desejos, suas projeções fantasiosas.

“Aí estava o terrível poder que as Honradas Madres ousavam utilizar.” Se escapasse a notícia de que tinham a chave do êxtase cego, a metade da batalha estava ganha para elas. A simples idéia de que essa coisa existia já era o começo da rendição. As pessoas do nível de Murbella nessa outra Irmandade podiam não compreender, mas as que estavam na cúpula... Seria possível que elas simplesmente usassem este poder sem se incomodar com sua força mais profunda ou mesmo sem suspeitar dela?

“Se esse fosse o caso, como poderiam nossas primeiras Dispersas terem sido atraídas para este beco sem saída?”

Anteriormente, Bellonda tinha oferecido sua hipótese.

Honrada Madre com a cativa Reverenda Madre feita prisioneira nessa primeira Dispersão.

— Bem-vinda, Reverenda Madre. Gostaríamos que testemunhasse uma pequena demonstração de nossos poderes. — Interlúdio de demonstração sexual seguida por uma exibição de velocidade física.

Então — retirada da melange e injeção de um substituto com base de adrenalina adicionado à droga hipnótica. Nesse transe hipotético, a Reverenda Madre seria sexualmente impressa.

Isso, aliado à agonia seletiva da retirada da melange (sugeria Bell), poderia fazer a vítima negar suas origens.

“Que os fados nos ajudem! Seriam as Honradas Madres todas Reverendas Madres? Ousaremos testar essa hipótese em nós mesmas? O que podemos aprender sobre isso com aquele casal na não-nave?”

Duas fontes de informação estavam lá, sob os olhos vigilantes da Irmandade, mas a chave ainda estava por ser encontrada.

“Homem e mulher não mais como parceiros reprodutores, não mais um consolo e um apoio um para o outro. Algo novo tinha sido adicionado. As apostas tinham ficado mais altas.”

Na projeção, Murbella disse algo que chamou a atenção total da Madre Superiora.

— Nós, Honradas Madres, fizemos isso a nós mesmas! Não podemos culpar ninguém.

— Ouviu isso? — Bellonda interpelou.

Odrade sacudiu a cabeça asperamente, querendo toda a sua atenção voltada para essa troca de palavras.

— Você não pode dizer o mesmo de mim — Idaho objetou.

— Essa é uma desculpa vazia — acusou Murbella. — Então você foi condicionado pelos Tleilaxu para pegar numa cilada a primeira Impressora que encontrasse!

— E matá-la — Idaho corrigiu. — Isso é o que eles pretendiam.

— Mas você nem mesmo tentou me matar. Não que você pudesse.

— Foi aí que... — Idaho calou-se com um rápido olhar involuntário para os televigias.

— O que ele estava a ponto de dizer? — Bellonda arremeteu. — Temos que descobrir!

Mas Odrade continuou sua observação silenciosa do par prisioneiro. Murbella demonstrava um surpreendente insight.

— Pensa que me pegou por algum acidente no qual você não estava envolvido?

— Exatamente.

— Mas há algo em você que aceitou tudo isso. Simplesmente você não acompanhou o condicionamento. Você fez o máximo que podia.

Um olhar interior velou os olhos de Idaho. Inclinou a cabeça para trás, esticando os músculos do peito.

— Essa é uma expressão Mentat — Bellonda acusou.

Todas as analistas de Odrade sugeriram isso, mas elas tinham ainda que arrancar uma admissão de Idaho. Se ele era um Mentat, por que reter a informação?

“Pelas outras coisas implícitas nessa capacidade. Ele nos teme, e com razão.”

Murbella falou com desprezo.

— Você improvisou e aperfeiçoou o que os Tleilaxu lhe fizeram. Havia algo em você que não fez nenhum tipo de queixa!

— Esse é o modo como ela lida com seus próprios sentimentos culpados — disse Bellonda. — Ela não acredita nem um pouco que seja verdade, do contrário ele não teria sido capaz de pegá-la.

Odrade franziu os lábios. A projeção mostrou Idaho divertido.

— Talvez tenha sido o mesmo para nós dois.

— Você não pode culpar os Tleilaxu e eu não posso culpar as Honradas Madres.

Tamalane entrou no gabinete e afundou-se na cadeira-cão, ao lado de Bellonda.

— Vejo que isso a interessa também. — Fez um gesto para as figuras projetadas.

Odrade desligou o projetor.

— Estive inspecionando nossos tanques axlotl — disse Tamalane. — Esse maldito Scytale tem sonegado informação vital.

— Não há falha em nosso primeiro ghola, há? — Bellonda interpelou.

— Nada que nossos Suks possam encontrar.

Odrade falou num tom suave:

— Scytale tem de conservar alguns trunfos para negociar.

Ambos os lados tinham uma fantasia comum: Scytale estava pagando às Bene Gesserit por terem-no salvo das Honradas Madres e lhe dado refúgio na Sede. Mas todas as Reverendas Madres que o estudaram sabiam que algo mais dirigia o último Mestre Tleilaxu.

“Espertos, muitos espertos, os Bene Tleilax. Muito mais espertos do que suspeitamos. E eles nos sujaram com seus tanques axlotl. A própria palavra 'tanque' — um outro de seus engodos. Nós imaginamos vasilhames de fluido amniótico, cada tanque sendo o centro de complexa maquinaria de duplicar (de modo sutil, discreto e controlável) os trabalhos do útero. O tanque está aí, muito bem! Mas vejam o que contém.”

A solução Tleilaxu era direta: use o original. A natureza já o aperfeiçoou através de eras. Tudo o que os Bene Tleilaxu precisam fazer é adicionar seus próprios sistemas de controle, seu modo pessoal de multiplicar a informação armazenada na célula.

“A linguagem de Deus”, era como Scytale a chamava. “A linguagem de Shaitan era um nome mais apropriado.”

Retroalimentação. A célula dirigida em seu próprio útero. Isso era mais ou menos o que um ovo fertilizado fazia, de alguma forma. Os Tleilaxu simplesmente o aperfeiçoaram.

Odrade deixou escapar um suspiro, provocando olhares penetrantes de suas companheiras. “Novas preocupações da Madre Superiora?”

“As revelações de Scytale me perturbam. E o que essas revelações têm feito a nós. Oh, como fugimos da “degradação”. Depois, racionalizações. “ Se não houver outro meio.” Se isto produzir os gholas de que necessitamos tanto. Poderemos encontrar voluntárias, com certeza. Foram encontradas! Voluntárias!”

— Você está distraída! — Tamalane resmungou. Lançou os olhos para Bellonda, começou a dizer algo, depois pensou melhor.

O rosto de Bellonda tornou-se suave, um acompanhamento freqüente para seus humores mais sombrios. Sua voz era pouco mais que um sussurro gutural.

— Chamo a atenção veemente sobre a necessidade de eliminarmos Idaho. E quanto àquele monstro Tleilaxu...

— Por que você faz essa sugestão com eufemismo? — Tamalane interpelou.

— Mate-o, então! E o Tleilaxu deve ser submetido a todo tipo de persuasão que nós...

— Parem com isso, vocês duas! — Odrade ordenou.

Ela pressionou as mãos sobre a testa e, olhando fixamente para a janela em arco, viu a chuva de gelo lá fora. O Controle Meteorológico estava cometendo mais erros. Não se podia culpá-los, mas não havia nada que os humanos odiassem mais do que o imprevisível. “Nós queremos “o que é natural”. O que quer que isso signifique.”

Quando tais pensamentos se apossavam de Odrade, ela suspirava por uma existência restrita à ordem que lhe agradava: um passeio ocasional nos pomares. Gostava disso em todas as estações. Uma noite tranqüila com os amigos, troca de idéias em conversas profundas, com aqueles por quem tinha simpatia. “Afeição?” Sim. A Madre Superiora tinha essa ousadia — amor à companhia, mesmo. E boas refeições, com bebidas escolhidas por seu sabor acentuado. Ela queria isso, também. Como era bom brincar com o paladar. E mais tarde... sim, mais tarde — uma cama aquecida com um companheiro gentil, tão sensível às suas necessidades como ela às dele.

A maior parte dessas coisas não era possível, naturalmente. Responsabilidade! Que palavra imensa! Como queimava!

— Estou ficando com fome — disse Odrade. — Querem que eu mande servir o almoço aqui?

Bellonda e Tamalane olharam-na com surpresa.

— São somente 11:30h — queixou-se Tamalane.

— Sim ou não? — insistiu Odrade.

Bellonda e Tamalane trocaram um olhar entre si.

— Como quiser — disse Bellonda.

Havia um ditado na Bene Gesserit — do conhecimento de Odrade, — que a Irmandade funcionava melhor quando o estômago da Madre Superiora estava satisfeito. Isso pesara na balança.

Odrade ligou o intercomunicador com sua cozinha particular.

— Almoço para três, Duana. Algo especial. Escolha você.

O almoço, quando veio, apresentava como atração principal um prato que Odrade apreciava de modo especial. Vitela ao forno. Duana realçou-o com um toque delicado de ervas, um pouquinho de alecrim para dar sabor à vitela, os legumes cozidos ao ponto. Magnífico.

Odrade saboreou cada pedacinho. As outras duas arrastavam-se na refeição, da colher à boca, mecanicamente.

“Será esta uma das razões pelas quais eu sou a Madre Superiora e elas não?”

Enquanto uma acólita tirava a mesa, Odrade voltou-se para uma de suas perguntas favoritas:

— Qual é o mexerico do momento entre as acólitas?

Ela se lembrava que em seus dias de acólita tinha dependido das palavras das mulheres mais velhas, esperando grandes verdades e conseguindo, na maioria das vezes, tagarelices a respeito da Irmã tal e os mais recentes problemas da Instrutora X. Ocasionalmente, entretanto, as barreiras caíam, e circulavam informações importantes.

— Um grande número de acólitas fala de sua vontade de sair em nossa Dispersão — disse Tamalane numa voz rascante. — Ratos em navio a pique, é o que digo.

— Tem havido um grande interesse nos Arquivos ultimamente — disse Bellonda. — As Irmãs que têm mais visão vêm buscar confirmação, se uma determinada acólita tem o sangue de Siona ou não.

Odrade achou isso interessante. Sua ancestral comum Atreides, da época do Tirano, eras atrás, Siona Ibn Fuad al-Seyefa Atreides, tinha legado a seus descendentes essa capacidade de esconder-se dos investigadores prescientes. Todas as pessoas que andavam abertamente na Sede compartilhavam essa proteção ancestral.

— Um sinal marcante? — Odrade perguntou. — Elas duvidam de que as pessoas em questão sejam protegidas?

— Querem ter a certeza — Bellonda rosnou. — E agora posso voltar a Idaho? Ele tem e não tem a marca genética. Isso me preocupa. Por que algumas de suas células não têm a marca de Siona? O que os Tleilaxu fizeram?

— Duncan conhece o perigo e ele não é suicida — Odrade disse.

— Não sabemos o que ele é — Bellonda se queixou.

— Provavelmente um Mentat, e todas nós sabemos o que isso significa — Tamalane disse.

— Compreendo por que conservamos Murbella — disse Bellonda. — Informação valiosa. Mas Idaho e Scytale...

— Basta!  — Odrade dardejou. — Cães-de-guarda podem ladrar demais!

Bellonda aceitou isso de má vontade. “Cães-de-guarda.” O termo das Bene Gesserit para o controle constante por parte das Irmãs, a fim de garantir que não se caísse na frivolidade. Muito penoso para as acólitas, mas apenas uma outra parte da vida para as Reverendas Madres.

Odrade tinha explicado isso uma tarde a Murbella, quando as duas estavam numa câmara de entrevista decorada em cinza, na não-nave. Ambas muito próximas, encarando-se frente a frente. Olhos no mesmo nível. Bastante informais e íntimas. A não ser pelo conhecimento de todos aqueles televigias ao redor.

— Cães-de-guarda — Odrade disse, respondendo a uma pergunta de Murbella. — Isso quer dizer que nos criticamos mutuamente. Não lhes dê importância maior do que têm. Raramente importunamos. Uma simples palavra pode bastar.

Murbella, demonstrando desgosto em seu rosto oval, com seus olhos verdes espaçados bem atentos, obviamente pensou que Odrade se referia a um sinal comum, uma palavra ou ditado que as Irmãs usavam em tais situações.

— Que palavra?

— Qualquer palavra, maldição. O que for apropriado. É como um reflexo mútuo. Compartilhamos um “tique” comum, que não existe para nos aborrecer. Nós o acolhemos porque nos ajuda a manter os pés no chão.

— E vocês me vigiarão se eu me tornar uma Reverenda Madre?

— Queremos nossos cães-de-guarda. Seríamos mais fracas sem eles.

— Parece opressivo.

— Não somos da mesma opinião.

— Acho repelente. — Ela olhou para as lentes cintilantes do teto. — Como esses malditos televigias.

— Tomamos conta do que é nosso, Murbella. Uma vez que se é uma Bene Gesserit, tem-se a garantia de uma manutenção para a vida toda.

— Um nicho confortável. — Seu tom era caçoísta.

Odrade falou suavemente.

— Algo bastante diferente. Você é desafiada pela vida inteira. Deve retribuir à Irmandade no limite máximo de suas capacidades.

— Cães-de-guarda!

— Estamos sempre atentas umas às outras. Algumas de nós, em posições de poder, são autoritárias às vezes, até mesmo familiares, mas somente até o ponto cuidadosamente calculado para as exigências daquele momento.

— Nunca realmente calorosas ou ternas, não?

— Essa é a regra.

— Afeição, talvez, mas não amor?

— Já lhe disse da regra. — E Odrade podia ver a reação claramente no rosto de Murbella: “Aí está! Elas vão exigir que eu abra mão de Duncan!”

— Então não há amor entre as Bene Gesserit. — Que tom triste era o seu. Ainda havia esperança para Murbella.

— Acontecem amores — Odrade disse. — Porém minhas Irmãs os tratam como aberrações.

— Então o que sinto por Duncan é aberração?

— E as Irmãs tentarão curá-la.

— Curar! Aplicar a terapia correta aos aflitos!

— O amor é considerado um sinal de decadência nas Irmãs.

— Vejo sinais de decadência em vocês!

Como se seguisse seus pensamentos, Bellonda arrastou Odrade para fora do devaneio.

— Essa Honrada Madre nunca se comprometerá conosco! — Enxugou um pouco do molho do almoço no canto da boca. — Estamos perdendo tempo, tentando ensinar-lhe nosso modo de ser.

“Pelo menos Bellonda não estava mais chamando Murbella de prostituta”, pensou Odrade. “Era um progresso.”

 

Todos os governos sofrem de um problema recorrente: o Poder atrai as personalidades patológicas. Não que o Poder corrompa; ele é magnético aos corruptíveis. Essas pessoas tendem a se embriagar com a violência, uma condição de que ficam logo dependentes.

 

— Missionária Protectiva Texto QIV (dicto)

 

Rebecca ajoelhou-se no chão de azulejo amarelo, como lhe tinham ordenado fazer, não ousando erguer os olhos para a Grande Honrada Madre sentada tão acima, tão perigosa. Por duas horas Rebecca tinha esperado aqui, quase no centro de uma sala gigante, enquanto a Grande Honrada Madre e suas acompanhantes almoçavam, servidas por atendentes obsequiosas. Ela prestou atenção às maneiras das atendentes com cuidado, e procurou imitá-las.

Suas órbitas ainda doíam, em função dos transplantes que o Rabino a tinha feito realizar há menos de um mês atrás. Estes olhos mostravam a íris azul e a esclerótica branca, não dando pista da Agonia de Especiaria do passado. Era uma defesa temporária. Em menos de um ano novos olhos iriam traí-la com seu azul total.

Ela considerava a dor nos olhos como o menor de seus problemas. Um implante orgânico alimentava-a com doses de melange, a intervalos regulares, ocultando sua dependência. O suprimento estava calculado para durar aproximadamente sessenta dias. Se essas Honradas Madres a retivessem mais do que isso, ela seria mergulhada em tal agonia, que a original pareceria branda em comparação. O perigo mais imediato era o shere, administrado junto com a especiaria. Se essas mulheres o detectassem, certamente teriam suspeitas.

“Você está indo bem. Seja paciente.” Era a Outra Memória da gente de Lâmpadas. A voz soou gentilmente em sua cabeça. O tom era de Lucilla, mas ela não podia ter certeza.

Tornara-se uma voz familiar naqueles meses, desde a Partilha, quando tinha se anunciado como “Porta-voz do seu Mohalata”. “Essas prostitutas não podem atingir nosso nível de conhecimento. Lembre-se disso para lhe dar coragem.”

A presença dos Outros Interiores, que não diminuíam em nada sua atenção sobre o que acontecia à sua volta, tinha-a enchido de respeito. “Nós chamamos isso de simulfluxo”, tinha falado o Porta-voz. O simulfluxo multiplica sua consciência.” Quando ela tentou explicar isso ao Rabino, ele reagiu encolerizado.

— Você foi contaminada por pensamentos impuros!

Eles tinham estado no estúdio do Rabino tarde da noite.

— Roubando tempo dos dias que nos cabem — dizia ele. O estúdio era uma sala subterrânea, com as paredes revestidas de velhos livros, cristais ridulianos, pergaminhos. A sala estava protegida de sondas pelos melhores dispositivos Ixianos, aperfeiçoados por seu próprio povo.

Ela tinha permissão para sentar-se ao lado de sua mesa em tais ocasiões, enquanto ele se recostava numa velha cadeira. Um globo de luz, colocado em posição baixa ao lado dele, lançava uma antiga luz amarela em seu rosto barbudo, fazendo reluzir os óculos que usava quase como um emblema do ofício.

Rebecca simulou confusão.

— Mas o senhor disse que éramos obrigados a salvar este tesouro de Lâmpadas. As Bene Gesserit não foram honestas conosco?

Viu a preocupação nos olhos dele.

— Você ouviu Levi falando ontem, sobre as perguntas que se fazem aqui. Por que a bruxa Bene Gesserit veio até nós? Isso é o que eles perguntam.

— Nossa estória é consistente e plausível — Rebecca protestou. — As Irmãs, nos ensinaram caminhos que nem a Revelação da Verdade pode penetrar.

— Não sei... Não sei. — O Rabino sacudiu a cabeça tristemente. — O que é uma mentira? O que é a verdade? Nós nos condenamos com nossas próprias bocas?

— É ao massacre que resistimos, Rabino! — Isso geralmente fortalecia a resolução dele.

— Cossacos! Sim, você está certa, filha. Tem havido cossacos em todas as eras, e nós não fomos os únicos a sentir seus pontapés e suas espadas, quando eles entravam na cidade com a morte nos corações.

Era estranho, pensou Rebecca, como ele conseguia dar a impressão de que esses acontecimentos eram de ocorrência recente e que seus olhos os tinham visto. Perdoar, nunca. Esquecer, jamais. Lídiche foi ontem. Que coisa poderosa havia na memória de Israel Secreto. Massacre! Quase tão poderoso em sua continuidade como aquelas presenças Bene Gesserit que ela carregava na consciência. Quase. Era a isso que o Rabino resistia, pensou.

— Temo que você nos tenha sido tirada — disse o Rabino. — O que foi que eu lhe fiz? O que foi que eu fiz? E tudo em nome da honra.

Ele olhou para os instrumentos que registravam, na parede do estúdio, a força acumulada à noite pelos moinhos de eixo vertical localizados em toda a fazenda. Os instrumentos diziam que as máquinas estavam zumbindo lá fora, estocando energia para o amanhã. Isso era um presente das Bene Gesserit: liberdade dos Ix. Independência. Que palavra singular.

Sem olhar para Rebecca, ele disse:

— Acho e sempre achei muito difícil essa coisa de Outra Memória. A memória deveria trazer sabedoria, mas não traz. A sabedoria está na maneira de comandarmos a memória e aplicarmos nosso conhecimento. — Voltou-se, o rosto entre as sombras, e olhou para ela. — O que é que diz essa consciência dentro de você? Isso que você considera como a presença de Lucilla?

Rebecca pôde ver que lhe agradava pronunciar o nome da Reverenda Madre. Se Lucilla podia falar através de uma filha de Israel Secreto, então ainda vivia, e não tinha sido traída.

Baixou seu olhar enquanto falava.

— Ela diz que temos imagens, sensações e sons interiores que nos vêm quando ordenados ou surgem conforme a necessidade.

— Necessidade, sim! E o que é isso, a não ser relatos dos sentidos da carne, que podem ter estado onde não deveriam, e feito coisas ofensivas?

“Outros corpos, outras memórias”, Rebecca pensou. Tendo-o experimentado, ela sabia que não podia nunca abandoná-lo por sua livre e espontânea vontade. “Talvez eu tenha realmente me tornado uma Bene Gesserit. Naturalmente é isso o que ele teme.”

— Vou lhe dizer uma coisa-disse o Rabino. — Esta “interseção crucial de consciência da vida”, como elas dizem, isso não é nada, a menos que você saiba como suas próprias decisões atingem a vida dos outros, como fios que partem de você.

— Ver nossas ações nas reações dos outros, sim, essa é a maneira como as Irmãs a consideram.

— Isso é sabedoria. O que elas procuram, segundo essa senhora?

— Influência sobre o amadurecimento da humanidade.

— Mmmmm. E ela acha que os acontecimentos estão além de seus sentidos, não além de sua influência. Isso é quase sábio. Mas maturidade... ahhh, Rebecca. Será que interferimos num plano mais alto? É um direito humano impor limites à natureza de Jeová? Acho que Leto II entendeu isso. Essa senhora em você o nega.

— Ela diz que ele era um abominável tirano.

— E era, mas houve tiranos sábios antes dele e, sem dúvida, haverá outros depois de nós.

— Elas o chamam de Shaitan.

— Ele tinha os próprios poderes de Satã. Compartilho o medo delas a esse respeito. Mais que um ser presciente, ele era um vínculo. Fixava a forma do que via.

— Isso é o que fala a Reverenda Madre. Mas ela diz que o que ele preservou foi o ideal da Irmandade.

— De novo, elas são quase sábias.

Um grande suspiro fez estremecer o Rabino que, uma vez mais, olhou para os instrumentos na parede. “Energia para o amanhã.”

Voltou sua atenção para Rebecca. Ela estava mudada, não pôde deixar de perceber. Tornara-se muito semelhante às Bene Gesserit. Era compreensível. Sua mente estava repleta de toda aquela gente de Lâmpadas. Mas elas não eram porcos gadarenos para serem jogadas ao mar, com seu diabolismo. “E eu não sou outro Jesus.”

— E o que elas lhe dizem sobre a Madre Superiora Odrade — que ela muitas vezes pragueja contra suas Arquivistas e seus Arquivos? Que coisa! Os Arquivos não são como os livros em que preservarmos nossa sabedoria?

— Então eu sou uma Arquivista, Rabino?

A pergunta o confundiu, mas também iluminou o problema. Ele sorriu.

— Vou lhe dizer uma coisa, filha. Reconheço ter uma certa afinidade com essa Odrade. Há sempre algo mal-humorado em relação aos Arquivistas.

— Isso é sabedoria, Rabino? — Com que timidez ela fez a pergunta!

— Acredite, minha filha, é. Com que cuidado o Arquivista suprime a menor parcela de julgamento. Uma palavra após a outra. Que arrogância!

— Como eles julgam que palavras devem usar, Rabino?

— Ahhh, vejo que alcançou uma certa compreensão, filha. Mas essas Bene Gesserit não atingiram a sabedoria, e é seu ideal que as impede.

Ela podia ler em seu rosto. “Ele tenta me encher de dúvidas sobre essas vidas que carrego.”

— Deixe-me dizer-lhe algo sobre as Bene Gesserit — ele disse. Nada lhe veio à mente, então. Nenhuma palavra, nenhum conselho sábio. Isso não lhe acontecia há anos. Havia um único caminho a seguir, falar com o coração.

— Talvez elas tenham caminhado por demais na estrada de Damasco sem o raio ofuscante da iluminação, Rebecca. Ouço dizer que agem em benefício da humanidade. Seja como for, não consigo ver isso nelas, nem acredito que o Tirano tenha visto.

Quando Rebecca começou a replicar, ele a interrompeu com uma das mãos erguida.

— Amadurecer a humanidade? Esse é o seu ideal? Não é o fruto maduro que é arrancado e comido?

No chão da Grande Sala da Junção Rebecca lembrava-se dessas palavras, vendo seu protótipo, não nas vidas que ela conservava, mas nas ações de suas captoras.

A Grande Honrada Madre tinha acabado de comer. Enxugou as mãos no vestido de uma atendente.

— Deixe que ela se aproxime — disse.

A dor lancetou o ombro esquerdo de Rebecca, e ela cambaleou para a frente, sobre os joelhos.

Aquela que chamavam de Logno viera por trás, furtiva como um caçador, e dera uma estocada de aguilhão na carne da prisioneira.

O riso ecoou pela sala.

Rebecca vacilou e, mantendo-se um pouco à frente do aguilhão, chegou ao pé dos degraus que levavam à Grande Honrada Madre, onde o ferro a interrompeu.

— Abaixe-se! — Logno enfatizou o comando com uma outra estocada. Rebecca caiu de joelhos, e olhou fixamente para a frente, na direção dos espelhos dos degraus. Os azulejos amarelos mostravam pequenos arranhões. De algum modo, essas falhas a reanimaram.

— Deixe-a, Logno. Quero respostas, não gritos. — E virando-se para Rebecca: — Olhe para mim, mulher!

Rebecca ergueu os olhos e encarou a face da morte. Um rosto tão medíocre e, no entanto, quanta ameaça. Feições tão... tão uniformes. Quase feiosas. Uma pequena figura. Isso aumentou a sensação de perigo que sentia. Que poderes deve ter a mulherzinha, para comandar essa gente terrível!

— Sabe por que está aqui? — A Grande Honrada Madre interpelou.

Rebecca usou seu tom mais obsequioso.

— Disseram-me, ó Grande Honrada Madre, que a senhora desejava que eu relatasse o conhecimento da Revelação da Verdade e outros assuntos de Gammu.

— Você foi casada com um Revelador da Verdade! — Era uma acusação.

— Ele está morto, Grande Honrada Madre.

— Não, Logno — As palavras eram dirigidas à assistente, que investiu com o aguilhão. — Esta infeliz não conhece nossos métodos. Agora, fique de pé aí ao lado, Logno, onde eu não seja perturbada por sua impetuosidade. Você me dirigirá a palavra somente para responder, ou quando eu ordenar, infeliz! — a Grande Honrada Madre gritou.

Rebecca encolheu-se.

O Porta-voz sussurrou em sua cabeça — “Isso era quase a Voz. Esteja em guarda.”

— Você já conheceu alguém, entre aquelas que dão a si mesmas o nome de Bene Gesserit?

“Realmente agora!”

— Qualquer um já encontrou as bruxas, Grande Honrada Madre.

— O que sabe delas?

“Então é por isso que me trouxeram aqui.”

— Somente o que ouvi, Grande Honrada Madre.

— Elas são corajosas?

— Diz-se que elas sempre evitam riscos, Grande Honrada Madre.

“Você é digna de nós, Rebecca. Esse é o padrão das prostitutas. A bolinha rola para baixo em sua própria canaleta. Elas pensam que você não gosta de nós.”

— As Bene Gesserit são ricas?

— Acho que as bruxas são pobres perto de vocês, Honrada Madre — disse Rebecca.

— Por que diz isso? Não fale apenas para me agradar!

— Mas, Honrada Madre, as bruxas poderiam enviar uma grande nave de Gammu até aqui, somente para me trazer? E onde elas estão agora? Elas se escondem de vocês.

— Sim, onde elas estão?

Rebecca deu de ombros.

— Você estava em Gammu quando um homem chamado Bashar nos pôs em fuga? — perguntou a Honrada Madre.

“Ela sabe que você estava.”

— Eu estava lá, Grande Honrada Madre, e ouvi estórias. Mas não acredito nelas.

— Acredite no que eu lhe disser para acreditar, infeliz! Que estórias você ouviu?

— Que ele se movia com uma velocidade invisível para os olhos. Que ele matou muitas... pessoas apenas com as mãos. Que ele roubou uma não-nave e fugiu para a Dispersão.

— Acredite que ele fugiu, infeliz.

“Veja como ela tem medo. Não consegue esconder o tremor.”

— Fale da Revelação da Verdade — ordenou a Honrada Madre.

— Grande Honrada Madre, eu não compreendo a Revelação da Verdade. Conheço apenas as palavras de meu Sholem, meu marido. Posso repeti-las, se desejar.

A Grande Honrada Madre considerou o oferecimento, olhando ao redor, para suas ajudantes e conselheiras, que começavam a mostrar sinais de aborrecimento. “Por que ela simplesmente não mata essa infeliz?”

Rebecca, vendo a violência dos olhos que a encaravam em tons de laranja, recolheu-se. Pensou em seu marido, em seu nome carinhoso, Shoel, agora, e suas palavras a confortaram. Ele tinha mostrado o “talento peculiar” quando ainda criança. Alguns o chamavam de instinto, mas Shoel nunca usou essa palavra.

— Confie em suas entranhas. Isso é o que meus professores sempre diziam.

Era uma expressão tão realista que, segundo ele, afastava os que procuravam “o mistério esotérico”.

— Não existe segredo — dissera Shoel. — É treino e trabalho árduo, como qualquer outra coisa. Você exercita o que eles chamam petit perception, a capacidade de detectar pequenas variações nas reações humanas.

Rebecca podia ver tais pequenas reações naquelas que a estavam olhando de cima. “Elas me querem morta. Por quê?”

O Porta-voz tinha um conselho. “Os grandes gostam de mostrar seu poder sobre os outros. Ela não faz o que os outros querem, mas o que acha que eles não querem.”

— Grande Honrada Madre — aventurou Rebecca, — a senhora é tão rica e poderosa. Certamente deve ter um lugar de criada, onde eu possa servi-la.

— Você quer entrar para o meu serviço?

“Que sorriso feroz!”

— Isso me faria muito feliz, Grande Honrada Madre.

— Não estou aqui para fazê-la feliz.

Logno deu um passo à frente.

— Então faça-nos feliz, Dama. Deixe-nos divertir um pouco com...

— Silêncio!

“Ahhh, isso foi um erro, chamá-la pelo seu nome íntimo aqui na frente dos outros.”

Logno recuou, e quase deixou cair o ferro.

A Grande Honrada Madre baixou os olhos para Rebecca, fixando-a com seus lampejos laranja.

— Você voltará à sua mísera existência em Gammu, infeliz. Não vou matá-la. Isso seria uma misericórdia. Tendo visto o que nós poderíamos lhe dar, viva sua vida sem isso.

— Grande Honrada Madre! — Logno protestou. — Temos suspeitas de que...

— Eu tenho suspeitas sobre você, Logno. Mandem-na de volta e viva! Ouviu? Acha-nos incapazes de encontrá-la, se por acaso for preciso?

— Não, Grande Honrada Madre.

— Estamos de olho em você, infeliz — disse a Grande Honrada Madre.

“Isca! Ela pensa em você como algo que lhe permitirá capturar caça maior. Que interessante. Ela usa a cabeça, apesar de sua natureza violenta. Então foi assim que chegou ao poder.”

Durante todo o caminho de volta a Gammu, confinada em alojamentos fedorentos de uma nave que um dia serviu à Corporação, Rebecca considerou sua situação. Certamente essas prostitutas não tinham esperado que ela se enganasse a respeito de seu intento. Mas... talvez tenham. Subserviência, bajulação. “Elas se regalam com essas coisas.”

Sabia que a idéia tinha vindo tanto da Revelação da Verdade de Shoel quanto das conselheiras de Lâmpadas.

— Você reúne uma porção de pequenas observações, percebidas, mas nunca levadas à consciência, — Shoel dissera. — Cumulativamente, elas lhe dizem coisas, mas não em linguagem usada comumente. A linguagem não é necessária.

Ela tinha achado isso uma das coisas mais estranhas que já ouvira. Mas isso foi antes da Agonia. Na cama, à noite, encorajada pela escuridão e pelo toque amoroso da carne, tinha agido sem palavras, mas compartilhara palavras também.

— A linguagem lhe impõe obstáculos — tinha dito Shoel. — O que você faz é aprender a ler suas próprias reações. Às vezes, podem-se descobrir palavras para descrevê-las... às vezes... não.

— Sem palavras? Nem mesmo para as perguntas?

— Você quer palavras, não é? Quais são elas? Confiança. Crença. Verdade. Honestidade.

— São palavras boas, Shoel.

— Mas não chegam ao ponto. Não dependa delas.

— Então, você depende do quê?

— De minhas próprias reações interiores. Eu interpreto a mim mesmo, não a pessoa à minha frente. Sempre conheço uma mentira, porque fico com vontade de virar as costas ao mentiroso.

— Então é assim que você faz! — Bateu em seu braço nu.

— Outros reagem de outra forma. Sei de uma pessoa que conhecia uma mentira, porque tinha vontade de colocar seu braço no do mentiroso e fazer uma caminhada com ele, confortando-o. Você pode pensar que é tolice, mas funciona.

— Acho que é muito sábio, Shoel. — Era a voz do amor. Ela não sabia realmente o que ele queria dizer.

— Meu amor precioso — disse ele, embalando-a em seu braço. — Os Reveladores da Verdade têm um Senso da Verdade que, uma vez desperto, funciona o tempo todo. Por favor, não me diga que sou sábio, quando é o amor que fala por você.

— Desculpe-me, Shoel. — Ela gostava do cheiro de seu braço, e enterrou a cabeça na dobra, fazendo-lhe cócegas. — Mas quero saber tudo o que você sabe.

Ele mudou sua cabeça para uma posição mais confortável.

— Sabe o que meu professor da Terceira Série dizia? “Não saiba nada! Aprenda a ser totalmente inocente.”

Ela estava atônita.

— Absolutamente nada?

— Você se aproxima de tudo como se fosse uma lousa limpa, nada em cima ou dentro de você. O que quer que surja é escrito lá por si mesmo.

Ela começou a perceber.

— Nada para interferir.

— Correto. Você é o selvagem ignorante original, completamente sem sofisticação, até o ponto em que volta à sofisticação última. Você a encontra sem procurá-la, pode-se dizer.

— Agora, isso é sábio, Shoel. Aposto que você era o melhor aluno que eles já tiveram, o mais inteligente e o...

— Eu achava que era uma tolice sem fim.

— Não!

— Até que um dia senti uma pequena contração. Não era o movimento de um músculo ou algo que alguém pudesse perceber. Apenas... uma contração.

— Onde era?

— Em nenhum lugar que eu pudesse descrever. Mas meu professor do Quarto Grau tinha me preparado para isso. “Tome essa coisa com delicadeza. Gentilmente.” Um dos alunos pensou que ele estava falando de suas mãos reais. Oh, como nós rimos.

— Isso foi cruel. — Tocou seu queixo, e sentiu o começo da barba escura. Era tarde, mas ela não sentia sono.

— Acho que foi. Mas quando a contração veio, eu a conheci. Nunca tinha sentido isso antes. Estava surpreso, também, porque conhecendo-a, eu sabia que tinha estado lá o tempo todo. Era familiar. Era a minha contração do Senso da Verdade.

Ela achou que podia sentir o Senso da Verdade se mexendo dentro de si. O sentimento de magia em sua voz despertou alguma coisa.

— Era meu, então — disse ele. — Pertencia a mim e eu pertencia a ele. Nunca mais haveria separação.

— Como deve ser maravilhoso. — Havia um respeito temeroso e uma inveja em sua voz.

— Não! Há muita coisa nisso que eu detesto. Ver as pessoas desta forma é como vê-las estripadas, as entranhas penduradas para fora.

— Isso é nojento!

— Sim, mas há compensações, amor. São as pessoas que encontramos, pessoas que são como lindas flores oferecidas por uma criança inocente. Inocência. Minha própria inocência responde, e meu Senso da Verdade é fortalecido. Isso é o que você faz por mim, meu amor.

A não-nave das Honradas Madres chegou a Gammu, e fizeram Rebecca descer para a Plataforma de Aterrissagem no carregamento de lixo. Lançaram-na para fora ao lado dos detritos e excrementos da nave, mas ela não se importou. “Em casa! Estou em casa, e Lâmpadas sobrevive.”

Contudo o Rabino não partilhou de seu entusiasmo.

Uma vez mais, eles sentaram-se em seu estúdio, mas agora ela se sentia mais familiarizada com a Outra Memória, muito mais confiante. Ele podia ver isso.

— Você está mais que nunca parecida com elas! É impuro.

— Rabino, nós todos temos ancestrais impuros. Tenho a sorte de conhecer alguns dos meus.

— O que é isso? O que você está dizendo?

— Todos nós somos descendentes de pessoas que fizeram coisas ruins, Rabino. Não gostamos de pensar em bárbaros em nosso passado, mas eles estão lá.

— Que conversa!

— As Reverendas Madres podem lembrar-se de todos eles, Rabino. Lembre-se, são os vitoriosos que fazem a raça. Compreende?

— Nunca a ouvi falar com tanta ousadia. O que aconteceu com você, filha?

— Eu sobrevivi, sabendo que, às vezes, paga-se um preço moral pela vitória.

— O que é isso? São palavras más.

— Más? Barbarismo não é nem mesmo a palavra adequada para certas maldades de nossos ancestrais. Os antepassados de todos nós, Rabino.

Viu que o tinha magoado, e sentiu que suas palavras eram cruéis, mas não podia parar. Sendo o homem honrado que era, como ele poderia escapar da verdade que ela lhe dizia?

Falou mais suavemente, mas suas palavras cortaram-no ainda mais fundo.

— Rabino, se o senhor compartilhasse o testemunho de algumas das coisas que a Outra Memória me forçou a saber, haveria de procurar novas palavras para definir o mal. Há ações de nossos antepassados que aviltam o pior rótulo que se possa imaginar.

— Rebecca... Rebecca... Sei de necessidades de...

— Não use desculpas a respeito de “necessidades dos tempos”. Um Rabino sabe muito bem. Quando ficamos sem senso moral? É que às vezes não ouvimos.

Ele colocou as mãos no rosto, balançando para frente e para trás na velha cadeira, que estalava dolorosamente.

— Rabino, sempre o amei e respeitei. Vivi a Agonia por sua causa. Compartilhei Lâmpadas pelo senhor. Não negue o que aprendi com isso.

Ele abaixou as mãos.

— Não nego, filha. Mas permita-me a minha dor.

— Entre todas as compreensões, Rabino, a mais imediata e importante é que não há inocentes.

— Rebecca!

— Culpado não é bem a palavra, Rabino, mas nossos antepassados fizeram coisas pelas quais é preciso pagar.

— Isso eu entendo, Rebecca. É um equilíbrio que...

— Não me diga que compreende, quando eu sei que não. — Ela levantou-se e fixou-lhe o olhar de cima para baixo. — Não se trata de um livro de contas que se põe em dia. Até que ponto do passado o senhor poderia ir?

— Rebecca, sou o seu Rabino. Não deve falar assim, especialmente comigo.

— Quanto mais longe se vai, Rabino, piores são as atrocidades e mais alto o preço. O senhor não pode ir tão longe, mas eu sou obrigada a isso.

Voltando-se, ela o deixou ignorando a súplica em sua voz, o modo doloroso como ele pronunciou seu nome. Quando fechou a porta, ouviu-o dizer:

— O que fizemos? Israel, ajude-a.

 

Redigir a História é em grande parte um processo de diversão. A maioria dos relatos históricos distrai a atenção das influências secretas que se escondem por trás dos grandes acontecimentos.

 

— O Bashar Teg

 

Quando entregue a si mesmo, Idaho com freqüência explorava sua não-nave prisão. Havia tanto que ver e aprender sobre este artefato ixiano. Era uma caverna de maravilhas.

Fez uma pausa em sua agitada caminhada desta tarde, através de seus alojamentos, e olhou para os pequenos televigias embutidos na luzidia superfície de uma porta. Elas o estavam observando.

Tinha a estranha sensação de estar vendo a si mesmo através desses olhos intrometidos. O que pensariam as Irmãs, quando olhavam para ele? O atarracado menino-ghola da há muito destruída Fortaleza de Gammu tinha se tornado um homem magro: pele morena e cabelos escuros, mais longos agora do que quando entrara nessa não-nave, no último dia de Duna.

Os olhos Bene Gesserit espreitavam por debaixo da pele. Estava certo de que elas suspeitavam que ele era um Mentat, e temia como isso podia ser interpretado. Como poderia um Mentat esperar esconder o fato das Reverendas Madres indefinidamente? Tolice! Sabia que elas já suspeitavam dele a respeito da Revelação da Verdade.

Acenou para os televigias e disse:

— Estou inquieto. Acho que vou explorar.

Bellonda detestava quando ele tomava essa atitude jocosa com referência à vigilância. Não gostava que ele andasse pela nave e não tentava disfarçar seu desagrado. Idaho podia ver a pergunta não-formulada e suas feições ameaçadoras sempre que se defrontava com ele: “Está procurando um meio de fugir?”

“É exatamente o que estou fazendo, Bell, mas não do modo que você suspeita.”

A não-nave lhe apresentava limites fixos: o campo de força exterior, que ele não podia penetrar, certas áreas de maquinaria, onde a propulsão (assim lhe disseram) tinha sido temporariamente desativada, alojamentos da guarda (ele podia ver o interior de alguns, mas não tinha permissão para entrar), o arsenal, a seção reservada ao Tleilaxu prisioneiro, Scytale. De vez em quando encontrava Scytale numa das barreiras, e eles se espreitavam mutuamente através do campo silenciador que os mantinha à parte. Então, havia a barreira da informação — seções de Registros da Nave que não respondiam a suas perguntas, e respostas que seus guardas não davam.

Dentro desses limites, havia uma existência de coisas para ver e aprender, mesmo uma existência de trezentos Anos Padrão, aproximadamente, que ele poderia esperar viver.

“Se as Honradas Madres não nos encontrarem.”

Idaho via-se como a caça que elas procuravam, dando-lhe ainda mais importância que às mulheres da Sede da Irmandade. Não tinha ilusões a respeito do que as caçadoras lhe fariam. Elas sabiam que ele estava aqui. Os homens que ele treinava em dependência sexual e que enviava para persegui-las — esses homens espicaçavam as caçadoras.

Quando as Irmãs conhecessem sua capacidade Mentat, saberiam imediatamente que sua mente continha as memórias da existência de mais de um ghola. “O original não tinha esse talento.” Elas suspeitariam de que ele era um Kwisatz Haderach latente. Veja como racionavam sua melange. Estavam visivelmente aterrorizadas em repetir o erro que tinham cometido com Paul Atreides e seu filho Tirano. Três mil e quinhentos anos de cativeiro.

Mas lidar com Murbella exigia uma consciência Mentat. Iniciava cada encontro com ela sem esperar alcançar respostas, fosse no momento ou mais tarde. Era uma abordagem tipicamente Mentat: concentrar-se nas perguntas. Os Mentats acumulavam perguntas do mesmo modo que os outros acumulavam respostas. As perguntas criavam seus próprios padrões e sistemas. Isso produzia as mais importantes formas. Você olhava para seu universo através de padrões auto-criados — todos compostos de imagens, palavras e rótulos (temporários), todos misturados em impulsos sensórios, que refletiam suas construções internas, do mesmo modo que a luz saltava das superfícies brilhantes.

O professor Mentat original de Idaho tinha formado as palavras temporárias para essa primeira tentativa de construção:

— Observe os movimentos consistentes contra sua tela interna.

Desta primeira imersão hesitante nos poderes Mentat, Idaho pôde traçar o crescimento de uma sensibilidade a mudanças, em suas observações, sempre tornando-se Mentat.

Bellonda era sua prova mais severa. Ele tinha horror ao seu olhar penetrante e às suas perguntas cortantes. Mentat sondando Mentat. Recebia suas investidas delicadamente, com reserva e paciência. “Bem, o que você está procurando?”

Como se ele não soubesse.

Usava a paciência como máscara. Mas o medo vinha naturalmente, e não havia mal nenhum em mostrá-lo. Bellonda não escondia seu desejo de vê-lo morto.

Idaho aceitava o fato de que logo as vigias veriam uma única fonte possível para as habilidades que ele era forçado a usar.

As habilidades reais de um Mentat estavam nessa construção mental que eles chamavam “a grande síntese”. Exigia uma paciência que os não-Mentats não podiam nem imaginar que fosse possível. As escolas Mentat a definiam como perseverança. Você era um rastreador primitivo, capaz de interpretar minúsculos sinais, pequenas perturbações no ambiente e de segui-las até onde elas o levassem. Ao mesmo tempo, permanecia aberto a amplos movimentos dentro e ao redor de si. Isso produzia a inocência, a postura Mentat básica, semelhante à dos Reveladores da Verdade, mas muito mais devastadora.

— Estamos abertos para o que quer que o universo faça — seu primeiro instrutor tinha dito. — Sua mente não é um computador; é um instrumento de respostas, regulado para qualquer coisa que seja mostrada pelos sentidos.

Idaho sempre reconhecia quando os sentidos de Bellonda estavam abertos. Ficava de pé, com o olhar levemente voltado para o interior, e ele sabia que poucos preconceitos habitavam sua mente. Sua defesa estava na falha básica de Bellonda: abrir os sentidos exigia um idealismo que lhe era desconhecido. Ela não fazia as melhores perguntas, e isso o intrigava. Odrade seria capaz de usar um Mentat com falhas? Isso não combinava com suas outras ações.

“Procuro as perguntas que formam as melhores imagens.”

Fazendo isso, você nunca pensava em si mesmo como inteligente, como a pessoa que tinha a fórmula para a solução. Você permanecia tão receptivo às novas perguntas como aos novos padrões. Testar, retestar, fazer e refazer. Um processo constante, nunca interrompido, nunca inteiramente satisfatório. Era sua própria pavana particular, semelhante àquela dos outros Mentats, mas levava sempre sua postura pessoal única e suas próprias etapas.

“Nunca se é realmente um Mentat. É por isso que nós o chamamos de Meta Sem Fim.” As palavras de seus professores estavam escritas a fogo em sua consciência.

À medida que ele acumulava observações sobre Bellonda, veio a valorizar o ponto de vista daqueles grandes Mestres Mentat que o tinham ensinado. As Reverendas Madres não dão os melhores Mentats.

Nenhuma Bene Gesserit pareceu capaz de libertar-se completamente do vínculo absoluto que alcançava na Agonia da Especiaria: lealdade à sua Irmandade.

Seus professores o tinham advertido contra os absolutos. Eles criavam uma falha séria em um Mentat.

— Tudo que você faz, tudo que você percebe ou diz é experimentado. Não há dedução final. Nada tem fim, até a morte, e talvez nem mesmo aí, porque cada vida cria ondulações intermináveis. A indução salta interiormente, e você se torna sensível a ela. A dedução implica as ilusões dos absolutos. Estilhace a verdade a pontapés.

Quando as perguntas de Bellonda tocavam seu relacionamento com Murbella, ele percebia vagas respostas emocionais. “Divertimento? Ciúme?” Ele podia aceitar divertimento (e até ciúme) em relação às fortes exigências sexuais dessa dependência mútua. “Será que o êxtase é assim tão formidável?”

Ele vagava pelos aposentos nessa tarde, sentindo-se deslocado, como se ainda fosse novo aí e não os estivesse aceitando como sua casa. “É a voz da emoção.”

Durante os anos de sua prisão, esses alojamentos tinham adquirido a aparência de uma habitação. Esta era a sua caverna, a antiga suíte de supercarga: grandes salas de paredes levemente curvas-quarto de dormir, biblioteca, escritório, sala de estar, banheiro de azulejos verdes com sistemas de limpeza seca e hidráulica, e um grande salão de prática, que ele compartilhava com Murbella, para os exercícios físicos.

Os aposentos tinham uma coleção única de artefatos e marcas da sua presença: a cadeira linga, colocada bem no ângulo de sua mesa de comando, e o projetor ligando-o aos sistemas da nave, os registros ridulianos na mesinha baixa. E havia as marcas da ocupação — aquela mancha escura na mesa de trabalho. Alimento derramado que tinha deixado sua marca indelével.

Dirigiu-se agitado para o quarto de dormir. A luz estava reduzida. Sua capacidade de identificar as coisas familiares aplicava-se também aos odores. Havia um cheiro de saliva na cama — o resíduo da colisão sexual da noite anterior.

“Essa era a palavra adequada: colisão.”

O ar da não-nave-filtrado, reciclado e suavizado freqüentemente o aborrecia. Nenhuma saída dessa confusão para o exterior permanecia aberta por muito tempo. Às vezes, ele sentava-se silenciosamente, fungando, esperando um leve traço de ar que não tivesse sido ajustado às exigências da prisão.

“Há um modo de escapar!”

Saiu de seus alojamentos, desceu o corredor, tomou a calha de descida rápida no fim da passagem, e emergiu no nível inferior da nave.

“O que estará acontecendo realmente lá fora, nesse mundo a céu aberto?”

O pouco que Odrade lhe contava sobre os acontecimentos enchia-o de apreensão e dava-lhe o sentimento de ter caído numa armadilha. “Sem ter para onde correr! Estarei certo em compartilhar meus medos com Sheeana? Murbella simplesmente riu.

— Protegerei você, amor. As Honradas Madres não me farão mal. — Outro sonho falso.”

“Mas Sheeana... Com que rapidez ela tinha entendido a linguagem das mãos e entrado no espírito de sua conspiração. Conspiração? Não... Duvido que alguma Reverenda Madre aja contra suas Irmãs. Até mesmo Lady Jessica voltou para elas no fim. Não peço a Sheeana que aja contra sua Irmandade, somente que nos proteja contra a loucura de Murbella.”

O imenso poder das caçadoras fazia com que só se pudesse prever a destruição. Um Mentat precisaria apenas olhar para sua violência destruidora. Elas também traziam algo mais, algo que tinha a ver com as questões da Dispersão, lá fora. O que eram esses Futares que Odrade mencionava tão casualmente? Parte humanos, parte feras? Essa tinha sido a suspeita de Lucilla. “E onde estava Lucilla?”

Num instante ele se achou no Grande Porão, o espaço de carga quilométrico, onde tinham transportado o último gigantesco verme da areia de Duna, trazendo-o para a Sede da Irmandade. A área ainda tinha o cheiro de especiaria e areia, enchendo sua mente com os tempos passados e os mortos longínquos. Sabia porque vinha com tanta freqüência ao Grande Porão, às vezes até sem pensar, como agora. Ele o repelia e atraía, ao mesmo tempo. A ilusão de espaço ilimitado, com traços de poeira, areia e especiaria trazia-lhe a nostalgia de liberdades perdidas. Mas havia um outro lado. Era aqui que aquilo sempre lhe acontecia.

“O que acontecerá hoje?”

Sem nenhum aviso, o sentido de estar no Grande Porão se desfazia. Então... a rede vislumbrada vagamente num céu incandescente. Tinha consciência de que não “via” realmente uma rede, quando a visão aparecia. Sua mente interpretava o que os sentidos não podiam definir.

“Uma rede bruxuleante, ondulando como um infinito boreal.”

Então a rede se partia, e ele via duas pessoas — homem e mulher. Como pareciam comuns e, ao mesmo tempo, extraordinários. Uma avó e um avô em roupas antigas: macacão de peitilho para o homem e um longo vestido com um lenço de cabeça para a mulher. Trabalhando num jardim de flores. Pensou que seria mais uma ilusão. “Estou vendo isso, mas não é realmente o que vejo.”

Eles sempre o viam, no fim. Ouvia suas vozes:

— Lá está ele, de novo, Marty — dizia o homem, chamando a atenção da mulher para Idaho.

— Fico pensando como ele pode ver, estando do outro lado? — Marty perguntou uma vez. — Parece impossível.

— Ele se expandiu numa camada muito fina, eu acho. Será que conhece o perigo?

“Perigo.” Essa era a palavra que sempre o arrancava da visão.

— Não está em sua mesa de comando, hoje?

Apenas por um instante, Idaho pensou que fosse a visão, a voz dessa mulher estranha, mas então compreendeu que era Odrade. Sua voz soou bem atrás de si. Ele rodopiou e viu que tinha esquecido de fechar o alçapão. Ela o tinha seguido até o Porão, espreitando-o silenciosamente, evitando a areia espalhada que poderia ter chiado sob seus pés e traído sua presença. Parecia cansada e impaciente. “Por que ela acha que eu estaria em minha mesa?”

Como se respondesse à pergunta não-formulada, ela disse:

— Encontro-o em seu console tantas vezes, ultimamente. O que está procurando, Duncan?

Ele sacudiu a cabeça sem falar. “Por que me sinto em perigo de repente?”

Era um sentimento raro, na companhia de Odrade. Entretanto podia lembrar-se de outras ocasiões. Uma vez, quando ela tinha olhado fixamente para suas mãos no campo de sua mesa de comando. “Medo associado à minha mesa. Será que revelo minha fome Mentat de informações? Por acaso adivinham que foi lá que escondi meu eu secreto?”

— Não tenho nenhuma privacidade? — Irritação e ataque.

Ela sacudiu a cabeça devagar, como quem diz: — Você pode fazer melhor que isso.

— Esta é a sua segunda visita hoje — acusou.

— Devo dizer que está com boa aparência, Duncan. — Mais circunlóquios.

— É isso que suas vigias dizem?

— Não seja mesquinho. Vim bater um papo com Murbella. Ela disse que você estaria aqui embaixo.

— Acho que você sabe que Murbella está grávida novamente. — Odrade estaria tentando apaziguá-la?

— Pelo que estamos muito gratas. Vim dizer-lhe que Sheeana quer vê-lo novamente.

“Por que Odrade traria essa notícia?”

Suas palavras trouxeram-lhe imagens da menina abandonada de Duna, que se tornara uma completa Reverenda Madre (a mais jovem de todos os tempos, era o que diziam). Sheeana, sua confidente, lá fora observando o último verme da areia gigante. Teria ele se perpetuado, finalmente? Por que o interesse de Odrade pela visita de Sheeana?

— Sheeana quer discutir o Tirano com você.

Viu a surpresa que isso produziu.

— O que eu poderia acrescentar ao conhecimento de Sheeana a respeito de Leto II? — interpelou. — Ela é uma Reverenda Madre.

— Você conheceu os Atreides intimamente.

“Ahhh. Ela está caçando o Mentat.”

— Mas você disse que ela queria discutir Leto, e não é seguro pensar nele como Atreides.

— Oh, mas ele era. Tornado mais poderoso que qualquer outro antes dele, mas um de nós, de qualquer forma.

“Um de nós!” Queria lembrá-lo de que ela, também, era Atreides. Cobrando seu interminável débito com a família!

— Assim diz você.

— Não acha que deveríamos parar com esse jogo tolo?

Foi tomado de súbita cautela. Viu que ela percebia isso. Essa detestável sensibilidade das Reverendas Madres. Olhou-a fixamente, não ousando falar, mas sabendo que mesmo isso deixava transparecer mais do que desejava.

— Achamos que você se recorda de mais que uma existência de ghola. — E como ele não tivesse dado resposta: — Vamos, vamos, Duncan! Você é um Mentat?

Pelo modo como ela falou, tanto uma acusação como uma pergunta, ele soube que a dissimulação tinha acabado. Era quase um alívio.

— E se for?

— Os Tleilaxu misturaram as células de mais de um ghola Idaho, quando o criaram.

“Ghola Idaho!” Ele se recusava a pensar em si mesmo como essa abstração.

— Por que Leto é, de repente, tão importante para você? — A resposta não representava uma fuga em admiti-lo.

— Nosso verme transformou-se em truta da areia.

— Elas estão crescendo e se propagando?

— Aparentemente.

— A menos que vocês as contenham ou as eliminem, a Sede da Irmandade poderá tornar-se um outro Duna.

— Você planejou isso, não?

— Leto e eu, juntos.

— Então você se lembra de muitas vidas. Fascinante. Isso faz de você uma pessoa semelhante a nós. — Como era firme o seu olhar!

— Muito diferente, eu acho. “Tenho de afastá-la dessa direção!”

— Você alcançou as lembranças durante seu primeiro encontro com Murbella?

“Quem teria pensado nisso? Lucilla? Ela estava lá, e podia ter adivinhado, confiando suas suspeitas às Irmãs.” Ele tinha que esclarecer o assunto mortal.

— Não sou outro Kwisatz Haderach!

— Não é? — Objetividade estudada. Ela permitiu que isso se revelasse, uma crueldade, ele pensou.

— Você sabe que não! — Ele estava lutando pela vida, e sabia disso. Não tanto com Odrade, mas com as outras que vigiavam e examinavam os registros dos televigias.

— Conte-me a respeito de suas memórias em série. — Era uma ordem da Madre Superiora. Não havia como escapar.

— Conheço essas... vidas. É como se fosse uma única existência.

— Essa acumulação poderia ser muito valiosa para nós, Duncan. Você também se lembra dos tanques axlotl?

A pergunta enviou seu pensamento para as sondagens nebulosas que o fizeram imaginar coisas estranhas sobre os Tleilaxu — grandes elevações de carne humana suavemente visíveis aos olhos imperfeitos do recém-nascido, imagens nebulosas e desfocadas, quase-memórias da emersão pelos canais do nascimento. Como isso podia combinar com “tanques”?

— Scytale nos forneceu o conhecimento para fazermos nosso próprio sistema axlotl — Odrade disse.

— Sistema? Palavra interessante. Isso significa que vocês também duplicam a produção de especiaria Tleilaxu?

— Scytale pede mais do que estamos dispostas a lhe dar. Mas a especiaria virá a seu tempo, de um modo ou de outro.

Odrade ouviu-se falar firmemente e perguntou-se se ele perceberia a incerteza. “Pode ser que não tenhamos tempo de fazê-lo.”

— As Irmãs que vocês dispensaram estão em dificuldades — disse ele, dando-lhe uma pequena prova da consciência Mentat. — Vocês estão tirando do estoque para fornecer-lhes, e as reservas podem chegar ao fim.

— Elas têm nosso conhecimento axlotl e as trutas da areia.

A possibilidade de incontáveis Dunas sendo reproduzidos num universo infinito chocou-o a ponto de silenciá-lo.

— Elas tentarão resolver o problema do suprimento de melange com os tanques, com os vermes ou ambos — disse ela. Nisso podia ser sincera. Tratava-se de uma expectativa estatística. Um entre os grupos dispersos das Reverendas Madres deveria consegui-lo.

— Os tanques — disse ele. — Tenho... sonhos estranhos. — Quase tinha dito “preocupações”.

— E bem deveria. — Em poucas palavras, ela lhe contou como a carne da mulher era incorporada.

— Para fazer a especiaria também?

— Achamos que sim.

— Repugnante!

— Não seja imaturo — ela repreendeu.

Em tais momentos, ele a detestava intensamente. Uma vez ele a censurara pelo modo como as Reverendas Madres se retraíam da “corrente comum das emoções humanas”, e ela tinha dado uma resposta idêntica.

“Imaturo?”

— E provavelmente sem remédio — ele disse. — Uma infeliz falha em meu caráter.

— Está pensando em debater moralidade comigo?

Ele pensou ter percebido irritação em sua voz.

— Nem mesmo ética. Funcionamos sob normas diferentes.

— Normas são geralmente desculpas para se ignorar a compaixão.

— Será que estou ouvindo um longínquo eco de consciência numa Reverenda Madre?

— Deplorável. Minhas Irmãs me mandariam para o exílio se pensassem que eu era dirigida pela consciência.

— Você pode ser estimulada, não governada.

— Muito bem, Duncan. Gosto muito mais quando você é abertamente Mentat.

— Não confio em seu gosto.

Seu riso soou alto.

— Como é parecido com Bell!

Ele fixou-lhe um olhar estúpido. Seu riso tinha-o mergulhado no conhecimento súbito do modo de escapar de suas carcereiras, livrar-se das constantes manipulações Bene Gesserit e viver sua própria vida. A saída não estava na maquinaria, mas nas falhas da Irmandade. Os absolutos pelos quais elas acreditavam tê-lo cercado e preso — aí estava a saída!

“E Sheeana sabe! Essa é a isca com que ela acena para mim.”

Como Idaho não falasse, Odrade disse:

— Conte-me sobre as outras vidas.

— Errado. Penso nelas como uma vida contínua.

— Sem mortes?

Ele respondeu de forma silenciosa. Memórias em série: as mortes eram tão informativas como as vidas. Morto tantas vezes pelo próprio Leto!

— As mortes não interrompem minhas memórias.

— Uma estranha forma de imortalidade — ela disse. — Você sabe que os Mestres Tleilaxu se divertiam, não sabe? Mas você, o que eles esperavam conseguir, misturando vários gholas numa só carne?

— Pergunte a Scytale.

— Bell tinha certeza de que você era um Mentat. Ela ficará encantada.

— Acho que não.

— Providenciarei para que fique. Puxa! Tenho tantas perguntas, que não sei por onde começar. — Ela o estudou, com a mão esquerda sob o queixo.

“Perguntas?” Exigências Mentat fluíram na mente de Idaho. Deixou que as perguntas que tinha feito a si mesmo tantas vezes se movimentassem, formando padrões. “O que os Tleilaxu procuravam em mim?” Eles não podiam ter incluído células de todos os gholas nesta encarnação. Entretanto... ele tinha todas as memórias. Que elo cósmico acumulou todas essas vidas num único self? Seria essa a pista para as visões que o tinham assaltado no Grande Porão? Meias memórias formaram-se em sua mente: seu corpo em fluido morno, alimentado por tubos, massageado por máquinas, sondado e questionado por observadores Tleilaxu. Sentiu respostas sussurrantes de eus semi-adormecidos. As palavras não tinham significado. Era como se estivesse ouvindo uma língua estrangeira de seus próprios lábios, mas ele sabia que era o Galach comum.

O alcance que reconhecia nas ações dos Tleilaxu enchia-o de medo e admiração. Eles investigavam um cosmo que ninguém tinha ousado tocar, a não ser as Bene Gesserit. O fato de terem sido movidos por razões egoístas não diminuía seus feitos. Os infindáveis renascimentos dos Mestres Tleilaxu eram uma recompensa digna dessa ousadia.

Dançarinos Faciais para copiar qualquer vida, qualquer mente. O âmbito do sonho Tleilaxu era tão espantoso quanto as façanhas das Bene Gesserit.

— Scytale reconhece memórias dos tempos do Muad'Dib — disse Odrade. — Vocês poderiam trocar idéias, qualquer dia.

— Essa espécie de imortalidade é um instrumento de barganha — preveniu ele. — Ele poderia vendê-la para as Honradas Madres?

— É possível. Vamos. Vamos voltar a seus alojamentos.

No gabinete, Odrade fez um gesto para que ele ocupasse a cadeira em sua mesa de comando, e Idaho se perguntou se ela ainda estava atrás de seus segredos. Ela curvou-se sobre ele para manipular os controles. O projetor opaco produziu a cena de um deserto com o horizonte de dunas ondulantes.

— A Sede da Irmandade? — ela disse. — Uma larga faixa ao longo de nosso equador.

A excitação o tomou.

— Trutas da areia, você disse. Mas há novos vermes?

— Sheeana espera-os em breve.

— Eles exigem uma grande quantidade de especiaria como catalisador.

— Nós investimos uma grande quantidade de melange lá fora. Leto lhe contou a respeito do catalisador, não foi? Que mais você se lembra dele?

— Ele me matou tantas vezes que é doloroso recordá-lo.

Ela tinha os registros de Dar-es-Balat sobre Duna, que confirmavam o fato.

— Matou-o mesmo, eu sei. Jogou-o fora quando você não era mais útil?

— Às vezes eu correspondia às expectativas e tinha direito a uma morte natural.

— O Caminho Dourado valia a pena?

“Nós não entendemos seu Caminho Dourado nem as fermentações que o produziram.” Idaho reproduziu o pensamento como resposta a Odrade.

— Interessante escolha de palavras. Um Mentat pensa nas eras do Tirano como fermentações.

— Que estouraram na Dispersão.

— Levadas também pelos Tempos da Fome.

— Acha que ele não antecipou a Fome?

Ela não respondeu, silenciada pela perspectiva Mentat de Idaho.

“O Caminho Dourado: a humanidade irrompendo no universo... nunca mais confinada a um único planeta e suscetível de um único destino. Não mais todos os ovos na mesma cesta.”

— Leto pensava na humanidade como um único organismo — ele disse.

— Mas ele nos incluiu em seu sonho contra nossa vontade.

— Vocês, Atreides, sempre fazem isso.

“Vocês, Atreides!”

— Então você já nos pagou seu débito?

— Eu não disse isso.

— Pode avaliar meu dilema atual, Mentat?

— Há quanto tempo as trutas da areia estão trabalhando?

— Mais que oito Anos Padrão.

— Com que rapidez o nosso deserto está se desenvolvendo?

“Nosso deserto! “Ela fez um gesto para a projeção.

— É mais que o triplo do que era, antes das trutas da areia.

— Tão rápido!

— Sheeana espera ver pequenos vermes qualquer dia.

— Eles costumam não aparecer antes de atingir dois metros, mais ou menos.

— É o que ela diz.

Ele falou num tom pensativo:

— Cada um como uma pérola da consciência de Leto em seu “sonho sem fim”.

— Foi o que ele disse, e ele nunca mentia sobre essas coisas.

— Suas mentiras eram mais sutis. Como as das Reverendas Madres.

— Você nos acusa de mentir?

— Por que Sheeana deseja me ver?

— Mentats! Vocês pensam que suas perguntas são respostas. — Odrade sacudiu a cabeça numa imitação de tristeza. — Ela deve aprender o máximo possível sobre o Tirano como o centro de adoração religiosa.

— Deuses das profundezas! Porquê?

— O culto de Sheeana se espalhou. Está em todo o Antigo Império e além, levado pelos sacerdotes sobreviventes de Rakis.

— De Duna — ele corrigiu. — Não pense nesse planeta como Arrakis ou Rakis. Anuvia a mente.

Ela aceitou sua correção. Ele estava totalmente Mentat agora, e Odrade esperou pacientemente.

— Sheeana falava com os vermes da areia em Duna — ele disse. — Eles respondiam. — Ele encarou seu olhar inquiridor. — De volta a seus velhos truques com a Missionária Protectiva, hein?

— O Tirano é conhecido como Dur e Guldur na Dispersão — disse ela, alimentando sua inocência Mentat.

— Você tem uma tarefa perigosa para ela. Ela sabe?

— Sabe, e você poderia torná-la menos perigosa.

— Então abra seu sistema de informação para mim.

— Sem limites? — Ela sabia o que Bell diria disso!

Ele assentiu, incapaz de se permitir a esperança de que ela concordasse. “Será que ela suspeita com que desespero eu desejo isso?” Havia uma dor no local onde ele mantinha seu conhecimento de como poderia escapar. “Ilimitado acesso à informação. Ela vai pensar que eu desejo a ilusão da liberdade.”

— Você será meu Mentat, Duncan?

— Que escolha eu tenho?

— Vou discutir seu pedido com o Conselho e lhe darei uma resposta.

“A porta de saída estará aberta?”

— Devo pensar como uma Honrada Madre — ele disse, argumentando para os televigias e as vigilantes que examinariam seu pedido.

— Quem poderia fazê-lo melhor do que alguém que vive com Murbella? — Odrade perguntou.

 

A corrupção vale-se de infinitos disfarces.

 

— Thu-Zen Tleilaxu

 

“Elas não sabem o que penso nem o que sou capaz de fazer”, pensou Scytale. “Suas Reveladoras da Verdade não podem me penetrar.” Isso, pelo menos, ele havia salvo do desastre-a arte do engodo, aprendida com seus impecáveis Dançarinos Faciais.

Ele movimentava-se suavemente por sua área da não-nave, observando, catalogando, avaliando. Cada olhar seu pesava pessoas ou lugares através de uma mente treinada para procurar falhas.

Cada Mestre Tleilaxu soubera que algum dia Deus poderia dar-lhe uma tarefa para testar seu compromisso.

“Pois bem!” Esta era uma tarefa e tanto. As Bene Gesserit, que alegavam compartilhar sua Grande Crença, juravam falso. Eram impuras. Ele não tinha mais companheiros que o purificassem em seu retorno de lugares estranhos. Tinha sido atirado no universo powindah, feito prisioneiro pelas servas de Shaitan, caçado pelas prostitutas da Dispersão. Mas nenhum desses agentes do mal conhecia seus recursos. Nenhum deles suspeitava de como Deus o ajudaria nesta situação extrema.

“Eu me purifico, Deus!”

Quando as mulheres de Shaitan arrancaram-no das mãos das prostitutas, prometendo-lhe refúgio e “toda assistência”, ele as reconhecera como falsas.

“Quanto maior o teste, maior a minha fé.”

Há apenas alguns minutos ele tinha observado, através da tênue barreira, o passeio matinal de Duncan Idaho pelo longo corredor. O campo de força que os mantinha separados impedia a passagem do som, mas Scytale via moverem-se os lábios de Idaho, e entendeu seu praguejar. “Pode amaldiçoar-me, ghola, mas nós o fizemos e ainda poderemos usá-lo.”

Deus tinha introduzido um Acidente Sagrado no plano dos Tleilaxu para este ghola, mas Deus sempre tinha desígnios mais amplos. O dever dos fiéis era encaixar-se nos planos de Deus, e não exigir que Ele seguisse os projetos humanos.

Scytale submeteu-se ao teste, renovando sua sagrada promessa. Isso foi feito sem palavras, no antigo método Bene Tleilax do s'tori. — Para se atingir o s'tori, não é necessário compreender. Ele existe sem palavras, até mesmo sem um nome.

A mágica de seu Deus era sua única ponte. Scytale sentia isso profundamente. Como o mais jovem Mestre do mais alto kehl, ele soubera, desde o início, que seria escolhido para este trabalho supremo. Esse conhecimento era uma de suas forças, e ele via isso toda vez que se olhava no espelho. “Deus concebeu-me para enganar os powindah!” Sua aparência delgada e infantil era formada de uma pele cinzenta, cujos pigmentos metálicos bloqueavam a ação perscrutadora das sondas. Sua forma diminuta confundia as pessoas que o viam, e ocultava os poderes acumulados em uma série de encarnações ghola. Somente as Bene Gesserit eram portadoras de memórias mais antigas, mas ele sabia que o mal as conduzia.

Scytale esfregou o peito, lembrando-se do segredo ali escondido, com tal habilidade que nem mesmo uma cicatriz era visível no local. Todos os Mestres carregavam esse recurso-cápsula de nulentropia preservando as células-sementes de uma multidão: Mestres companheiros do kehl central, Dançarinos Faciais, técnicos e outros, que seriam de grande atrativo para as mulheres de Shaitan... e para muitos powindah fracos! Paul Atreides e sua amada Chani estavam lá. (Oh, como tinha sido difícil revistar as roupas dos mortos para encontrar células esparsas!) O Duncan Idaho original estava lá com outros servidores dos Atreides — os Mentats Thufir Hawat, Gurney Halleck, o Fremen Naib Stilgar... criados potenciais em número suficiente para povoar o universo dos Tleilaxu.

O prêmio dos prêmios, no tubo de nulentropia, eram aqueles que ele ambicionava trazer à existência, e cuja mera lembrança fazia-o perder o fôlego: Dançarinos Faciais perfeitos! Perfeitos imitadores. Registros perfeitos da persona da vítima. Capazes de enganar até mesmo as bruxas Bene Gesserit. Nem o shere podia impedi-los de capturar a mente de outrem.

Considerava o tubo como seu máximo poder de barganha. Ninguém devia ter conhecimento dele. Por enquanto, Scytale catalogava falhas.

Estava encantado com a quantidade de lacunas existentes na defesa da não-nave. Em suas múltiplas vidas ele tinha colecionado talentos, do mesmo modo que outros Mestres, seus companheiros, colecionavam futilidades interessantes. Era sempre considerado sério demais, mas agora encontrara o tempo e o lugar para a vingança.

O estudo das Bene Gesserit sempre o atraíra. E através dos tempos, tinha adquirido um cabedal de conhecimentos sobre elas. Sabia que havia mitos e informações distorcidas, mas a fé nos propósitos de Deus davam-lhe certeza de que sua perspectiva pessoal serviria à Grande Crença, não obstante os rigores da Sagrada Prova.

Parte de seu catálogo sobre as Bene Gesserit, ele denominava “Peculiaridades”, em função da freqüente observação:

— Isso é uma peculiaridade delas!

As “peculiaridades” o fascinavam.

Era uma peculiaridade delas tolerar, nos outros, o comportamento grosseiro, que não fosse ameaçador, uma atitude que elas não aceitariam em si mesmas. “Os padrões Bene Gesserit são mais elevados.” Scytale tinha ouvido isso até mesmo por parte de antigos companheiros já falecidos.

— Temos o dom de ver a nós mesmas como os outros nos vêem — Odrade disse uma vez.

Scytale incluiu a observação entre as “peculiaridades”, mas as palavras de Odrade não estavam de acordo com a Grande Crença. Somente Deus via seu “eu” mais profundo. A ostentação de Odrade soava como arrogância.

— Elas não dizem mentiras ocasionais. A verdade lhes é mais conveniente.

Ele, muitas vezes, questionou-se sobre isso. A própria Madre Superiora citava-o como uma regra da Bene Gesserit. Ainda havia o fato de que as bruxas pareciam ter uma perspectiva cínica da verdade. Ela ousava alegar que era Zensunni. “Que verdade? De quem? Modificada de que modo? Em que contexto?”

Ambos tinham se reunido na tarde anterior, em seus aposentos na não-nave. Ele pedira “uma troca de idéias sobre problemas mútuos”, seu eufemismo para negociação. Estavam sozinhos, a não ser pelos televigias e pelas idas e vindas das vigilantes Irmãs.

Seus aposentos eram bastante confortáveis: três salas com paredes de plaz num verde repousante, uma cama macia, cadeiras adaptadas para seu tamanho reduzido.

Esta era uma não-nave ixiana, e ele tinha certeza de que suas carcereiras não suspeitavam o quanto ele sabia a seu respeito. “Tanto quanto os Ixianos.” Máquinas ixianas em toda parte, mas nenhum Ixiano à vista. Ele duvidava que houvesse um único deles na Sede da Irmandade. As bruxas eram famosas por cuidarem, elas próprias, da manutenção.

Odrade movia-se e falava suavemente, observando-o com cuidado. “Elas não são impulsivas.” Era o que geralmente se ouvia.

Fez perguntas sobre seu conforto, e pareceu preocupada com ele.

Ele olhou rapidamente à volta da sala de estar.

— Não vejo Ixianos por aqui.

Odrade franziu os lábios com desagrado.

— Foi para isso que você solicitou uma conversa?

“Naturalmente que não, bruxa! Estou simplesmente praticando minhas artes de distração. Você não esperaria que eu mencionasse coisas que quisesse esconder. Então por que eu iria chamar sua atenção sobre os Ixianos, quando sei que é improvável que haja perigosos intrusos soltos em seu malfadado planeta? Ahhh, a tão louvada ligação que nós, os Tleilaxu, mantivemos com os Ixianos por tanto tempo. Vocês sabem disso! Vocês puniram os Ix memoravelmente, mais de uma vez.”

Os tecnocratas de Ix poderiam hesitar em irritar as Bene Gesserit, pensou ele, mas seriam extremamente cuidadosos em não provocar a ira das Honradas Madres. A presença dessa não-nave indicava um comércio secreto, mas o preço deve ter sido enorme, e os circunlóquios, excepcionais.

Detestáveis essas prostitutas da Dispersão. Elas próprias poderiam precisar dos Ix, pensou ele. E estes poderiam desafiar secretamente as prostitutas, para fazerem acordos com as Bene Gesserit. Mas os limites eram apertados, e havia muitas oportunidades de traição.

Esses pensamentos o confortavam, enquanto negociava. Odrade, de humor instável, perturbou-o várias vezes com silêncios, durante os quais ela fixava-lhe o olhar naquele inquietante jeito Bene Gesserit.

O que estava em jogo era muito — nada menos que a sobrevivência para cada um deles, e sempre em questão essa coisa sutil: ascendência, controle do universo humano, perpetuação de seus próprios métodos, como o padrão dominante.

“Dê-me uma pequena abertura que eu possa expandir”, pensou Scytale. “Dê-me meus próprios Dançarinos Faciais. Meus criados, que cumpram minhas ordens diretamente.”

— É pouca coisa que tenho a pedir — disse. — Procuro meu conforto pessoal, meus próprios criados.

Odrade continuou a olhá-lo fixamente, na maneira ponderada das Bene Gesserit que parecia sempre tirar uma a uma todas as máscaras e ver profundamente dentro do outro.

“Mas tenho máscaras que você não penetrou.”

Podia perceber que ela o achava repulsivo — o modo como seu olhar detinha-se seqüencialmente em cada uma de suas feições. Sabia o que ela estava pensando. “Uma figura de elfo, com uma face estreita e olhos travessos. Bico-de-viúva.” Seu olhar desceu um pouco mais: “Boca pequena, com dentes aguçados e caninos pontudos.”

Scytale sabia que era uma figura saída das mais perigosas e inquietantes mitologias da humanidade. Odrade estaria se perguntando: “Por que os Bene Tleilaxu escolheram esta aparência física específica, quando seu controle de genética poderia proporcionar-lhes um aspecto mais imponente?”

Pela simples razão que isso a perturba, vil powindah!

Pensou imediatamente em outra “peculiaridade”: — As Bene Gesserit raramente semeiam a maldade.

Scytale tinha visto a conseqüência suja de muitas ações Bene Gesserit. “Veja o que aconteceu em Duna! Reduzido a cinzas porque vocês, mulheres de Shaitan, escolheram o solo sagrado para desafiar as prostitutas. Até mesmo os espectros de nosso Profeta elas levaram como prêmio. Todos mortos!”

E ele mal ousava contemplar suas próprias perdas. Nenhum planeta Tleilaxu tinha escapado ao destino de Duna. “As Bene Gesserit causaram isso!” E ele tinha de suportar sua tolerância — um refugiado que contava apenas com Deus para dar-lhe forças.

Ele perguntou a Odrade sobre a maldade semeada em Duna.

— Você só a encontra quando estamos in extremis.

— É por isso que atraíram a violência das prostitutas?

Ela recusou-se a discutir isso.

Um dos falecidos companheiros de Scytale tinha dito:

— As Bene Gesserit andam em linha reta. Você pode achá-las complexas, mas quando se olha atentamente, seu método se simplifica.

Esse companheiro e todos os outros tinham sido massacrados pelas prostitutas. Sua única sobrevivência jazia nas células da cápsula de nulentropia. Era tudo o que restava da sabedoria de um Mestre morto!

Odrade queria mais informação técnica sobre os tanques de axlotl. Ohhh, como ela ordenava bem suas perguntas!

Negociavam a sobrevivência, e cada partícula tinha um grande peso. O que recebera por seus pequenos e dosados fragmentos de informações sobre os tanques axlotl? Odrade levava-o para fora da nave ocasionalmente agora. Mas, tanto quanto a nave, o planeta inteiro era uma prisão para ele. Aonde poderia ir, sem que as bruxas o encontrassem?

O que elas estariam fazendo com seus próprios tanques axlotl? Ele não estava certo nem mesmo quanto a isso. As bruxas mentiam com tal facilidade!

Seria errado fornecer-lhes conhecimento, ainda que limitado? Compreendia agora que tinha lhes dado muito mais que os simples detalhes biotécnicos aos quais ele se restringira. Elas definitivamente concluíram como os Mestres tinham criado uma imortalidade limitada — sempre um substituto de ghola sendo desenvolvido nos tanques. Isso, também, estava perdido! Ele desejava gritar-lhe todas essas coisas em sua raiva frustrada.

“Perguntas... perguntas óbvias.”

Ele desviava-se de suas perguntas com prolixos argumentos sobre “minha necessidade de Dançarinos Faciais como criados, e minha própria mesa de controle do sistema da nave”.

Odrade permanecia ardilosamente inflexível, tentando obter mais conhecimentos sobre os tanques.

— A informação para produzir melange a partir dos tanques poderia levar-nos a ser mais liberais com nossos hóspedes.

“Nossos tanques! Nossos hóspedes!”

Essas mulheres eram como uma parede de plasteel. Não haveria tanques para seu uso pessoal, pensou Scytale. “Todo o poder dos Tleilaxu perdido.” Era um pensamento cheio de pesarosa autopiedade. Recobrou-se, entretanto, com a idéia de que Deus o estava testando em seus recursos.

“Elas pensam que me têm preso numa armadilha.” Mas as restrições lhe doíam. Se a possibilidade de Dançarinos Faciais como criados estava afastada, muito bem. Ele teria outros criados. Não Dançarinos Faciais.

Scytale sentia a mais profunda angústia de suas muitas vidas quando pensava em seus Dançarinos Faciais perdidos — seus escravos mutáveis. “Malditas sejam essas mulheres e sua pretensão de que compartilham a Grande Crença! Acólitas e Reverendas Madres onipresentes, sempre bisbilhotando por toda parte. Espiãs! E televigias aonde quer que se fosse. Opressivo.”

Logo que chegara à Sede da Irmandade, tinha percebido uma certa reserva em suas carcereiras, uma privacidade que se tornou intensa quando ele começou a investigar o trabalho da ordem. Mais tarde, reconheceu essa atitude como um círculo fechado, no qual elas se reuniam para enfrentar qualquer tipo de ameaça externa. “O que é nosso, é nosso. Você não pode entrar!”

Ele via nisso uma postura parental, uma perspectiva materna da humanidade:

— Comportem-se, ou nós os puniremos! — E as punições Bene Gesserit eram certamente algo a ser evitado.

Enquanto Odrade continuava a exigir mais do que ele estava disposto a fornecer, Scytale fixou a atenção numa “peculiaridade” que lhe parecia, sem nenhuma dúvida, verdadeira: “Elas não podem amar.” Com o que era forçado a concordar. Nem amor nem ódio eram puramente racionais. Ele pensava nessas emoções como uma fonte escura, ensombrecendo tudo ao redor, um jorro primitivo que se espargia sobre seres humanos desavisados.

“Como fala essa mulher!” Ele a observava, sem ouvi-la propriamente. Quais eram as falhas das Bene Gesserit? Seria uma fraqueza o fato de evitarem a música? Quem sabe teriam medo de seu efeito secreto sobre as emoções? A aversão parecia ser fortemente condicionada, mas os condicionamentos nem sempre tinham sucesso. Em suas muitas vidas ele notara que as bruxas pareciam gostar de música. Quando perguntou a Odrade, ela se tornou bastante veemente, e ele suspeitou que fosse uma demonstração deliberada para iludi-lo.

— Não podemos nos permitir distrações!

— Vocês nunca repetem grandes desempenhos musicais na memória? Disseram-me que antigamente...

— De que serve a música executada em instrumentos que não são mais conhecidos pela maioria das pessoas?

— Hein? Que instrumentos são esses?

— Onde se encontraria um piano? “Ainda essa falsa irritação.” — Instrumentos terríveis de se afinar e ainda mais difíceis de tocar.

“Que beleza de protesto.”

— Nunca ouvi falar desse... desse... piano, foi o que disse? É como o baliset?

— Primos distantes. Mas poderia somente ser afinado numa tonalidade aproximada. Uma idiossincrasia do instrumento.

— Por que você citou em especial esse... esse piano?

— Porque às vezes acho uma pena que não o tenhamos mais. Produzir perfeição a partir da imperfeição é, afinal de contas, a mais alta forma de arte.

“Perfeição a partir da imperfeição!” Ela estava procurando distraí-lo com palavras zensunni, alimentando a ilusão de que essas bruxas compartilhavam sua Grande Crença. Ele tinha sido prevenido muitas vezes a respeito dessa característica da negociação com as Bene Gesserit. Elas se aproximavam de tudo através de um ângulo oblíquo, revelando somente no último instante o que realmente queriam. Mas sabia o que estavam querendo desta vez. Odrade desejava todo o seu conhecimento e procurava não pagar nada. Mesmo assim, como eram tentadoras suas palavras.

Scytale sentiu um profundo cansaço. Suas palavras encaixavam-se tão bem na alegação de que as Bene Gesserit apenas procuravam aperfeiçoar a sociedade humana. Então ela pensava que podia ensiná-lo! Outra “peculiaridade”: — Elas se vêem como professoras.

Quando ele expressou dúvida sobre essa alegação, ela disse:

— Naturalmente nós criamos pressões nas sociedades sob nossa influência. Fazemos isso para que possamos dirigir essas pressões.

— Acho isso contraditório — queixou-se ele.

— Ora, Mestre Scytale! É um padrão muito comum. Os governos geralmente fazem isso para produzir violência contra alvos escolhidos. Vocês mesmos o fizeram! E veja aonde isso os levou.

Então ela ousa dizer que os Tleilaxu é que atraíram esta calamidade sobre si!

— Nós seguimos a lição do Grande Mensageiro — disse ela, reproduzindo, em islamiyat, as palavras do Profeta Leto II. Elas soaram estranhas em seus lábios, mas ele foi tomado de surpresa. Ela sabia como todos os Tleilaxu veneravam o Profeta.

“Mas já ouvi essas mulheres chamarem-no de Tirano!” Ainda falando o islamiyat, ela interpelou:

— Não era sua meta afastar a violência, produzindo uma lição valiosa para todos?

“Ela brinca a respeito da Grande Crença?”

— É por isso que nós o aceitamos — disse.— Ele não seguia nossas regras, mas agia em função de nossa meta.

Odrade ousava dizer que “ela” aceitava o Profeta!

Não a desafiou, embora a provocação fosse grande. Uma coisa delicada, essa visão de uma Reverenda Madre sobre si mesma e seu comportamento. Suspeitava que elas reajustavam constantemente essa perspectiva, nunca a deixando ir longe demais, em nenhuma direção. Nem amor-próprio, nem ódio a si mesmas. Confiança, sim. Uma confiança insana. Mas isso não exigia nem ódio nem amor. Apenas uma cabeça fria, todo julgamento pronto a ser corrigido, exatamente como ela dizia. Raramente se faziam elogios. “Um trabalho bem-feito? Bem, que mais você esperava?”

— O treinamento Bene Gesserit fortalece o caráter. — Essa era a peculiaridade mais conhecida na Sabedoria Popular.

Tentou iniciar uma discussão com ela sobre isso.

— As Honradas Madres não têm o mesmo tipo de condicionamento? Veja Murbella!

— Generalidades — é isso o que quer, Scytale?

“Haveria um tom divertido em suas palavras?”

— Uma colisão entre dois sistemas de condicionamento. Não seria essa uma boa forma de examinar esse confronto? — aventurou-se ele.

— E o mais poderoso sairá vencedor, naturalmente. — Seu desprezo era evidente!

— Não é assim que funciona sempre? — A irritação não estava muito controlada.

— Deve uma Bene Gesserit lembrar a um Tleilaxu que as sutilezas são um outro tipo de arma? Vocês não praticam formas de enganar? Uma fraqueza simulada, para desviar a atenção dos inimigos e levá-los a ciladas? Vulnerabilidades podem ser criadas.

“Naturalmente! Ela sabe que os Tleilaxu têm exercido a mentira por muitas eras, criando uma imagem de tolices absurdas.”

— Então é assim que vocês esperam lidar com nossos inimigos?

— Pretendemos puni-los, Scytale.

Que determinação implacável!

Coisas recentes aprendidas sobre as Bene Gesserit encheram-no de receios.

Odrade, levando-o para uma caminhada bem protegida, no frio inverno fora da nave (instrutoras corpulentas a apenas um passo atrás), parou, a fim de observar uma pequena procissão que vinha da Central. Cinco mulheres Bene Gesserit, duas delas acólitas, reconhecidas por seus trajes debruados de branco, e outras três em vestes inteiramente cinzentas, que ele ainda não conhecia. Conduziam uma carreta para um dos pomares. Soprava um vento frígido, arrancando folhas secas de seus galhos escuros. A carreta levava um fardo envolto numa mortalha branca. Um corpo? Parecia, pelo formato.

Interrogada, Odrade brindou-o com um relato das práticas funerárias das Bene Gesserit.

Quando havia um corpo para ser enterrado, isso era feito com a presteza casual que ele testemunhava agora. Nenhuma Reverenda Madre jamais teve um obituário, ou desejou rituais prolongados. Sua memória não viveria através de suas Irmãs?

Começou a argumentar que isso era irreverente, mas ela o cortou.

— Dado o fenômeno da morte, todas as ligações na vida são temporárias. Nós modificamos isso, de algum modo, na Outra Memória. Vocês fizeram algo semelhante, Scytale. E nós incorporamos algumas de suas capacidades a nossas caixas de truques. Oh, sim. Essa é a forma como consideramos esse conhecimento. Ele simplesmente modifica o padrão.

— Uma prática irreverente!

— Não há nada de irreverente nisso. Elas vão para a terra, onde, pelo menos, podem tornar-se fertilizante. — E ela continuou a descrever a cena sem lhe dar oportunidade de mais protestos.

Seguiam essa rotina que ele via agora. Uma grande escavadora mecânica, levada para o pomar, abriu um fosso adequado na terra. O cadáver, envolto no tecido barato, foi sepultado verticalmente, e plantaram uma árvore em cima. Os pomares eram dispostos em forma de grade, com um cenotáfio num canto, onde se registravam os locais dos sepultamentos. Viu o monumento fúnebre quando ela o apontou, uma forma verde e quadrada de uns três metros de altura.

— Acho que o corpo está sendo sepultado mais ou menos no 21-C — ela disse, observando a escavadora trabalhando enquanto o grupo esperava, encostado na carreta. — Esse vai fertilizar uma macieira. — Parecia perversamente feliz.

Enquanto observavam a retirada da máquina e a inclinação da carreta para fazer o corpo escorregar para dentro do buraco, Odrade começou a cantarolar. Scytale estava surpreso.

— Você disse que as Bene Gesserit evitavam a música.

— É somente uma velha canção.

As Bene Gesserit permaneciam um enigma e, mais do que nunca, ele percebeu a fragilidade das “peculiaridades”. Como se podia negociar com pessoas cujos padrões não seguiam um caminho aceitável? Bastava pensar que as entendia, e elas viravam-se numa outra direção. “Elas não tinham peculiaridades!” A tentativa de entendê-las despedaçava seu sentido de ordem. Tinha certeza de que não recebera nada de concreto nessa barganha. Um pouco mais de liberdade que, na realidade, era ilusão de liberdade. Nada do que ele realmente queria lhe era dado por essa bruxa impassível! Era uma tortura tentar dar sentido ao que ele conhecia das Bene Gesserit. Havia, por exemplo, a alegação de que elas prescindiam de sistemas burocráticos e manutenção de registros. A não ser pelos Arquivos de Bellonda, naturalmente, mas cada vez que ele os mencionava, Odrade dizia:

— Que os céus nos protejam! — Ou algo semelhante.

— Como vocês se mantêm sem funcionários nem registros? — ele perguntava agora. Estava profundamente intrigado.

— Quando é preciso fazer uma coisa, nós a fazemos. Sepultar uma Irmã? — Ela apontou para a cena do pomar, onde se usavam as pás e a terra era socada sobre a sepultura. — É assim que as coisas são feitas, e há sempre alguém por perto que é responsável por elas. Cada um sabe de si.

— Quem... quem é responsável por este insalubre...?

— Não é insalubre! É parte de nossa educação. As Irmãs fracassadas geralmente fazem a supervisão. Quem faz o trabalho são as acólitas.

— Elas não... quero dizer, não é desagradável para elas? Irmãs fracassadas, você disse. E acólitas. Isso parece mais uma punição do que..

— Punição! Ora, vamos, Scytale. Sempre a mesma cantilena. É só o que sabe dizer? — Ela apontou para o grupo funerário. — Depois do período de aprendizado, todo o nosso pessoal aceita seus trabalhos com boa vontade.

— Mas não há... ahhh, burocracia...

— Não somos tolas!

Novamente, ele não entendeu, mas ela respondeu à sua muda perplexidade.

— Com certeza você sabe que as burocracias tornam-se aristocracias vorazes, após atingirem o poder de comando.

Ele teve dificuldade em perceber seu ponto. Aonde ela quereria levá-lo?

Como ele permaneceu silencioso, ela disse:

— As Honradas Madres têm todas as marcas da burocracia. Ministra disto, Grande Honrada Mãe daquilo, algumas posições de poder e um grande número de funcionárias abaixo. Já estão repletas de apetites imaturos. Como predadores vorazes, elas não se detêm no modo como exterminam a presa. Uma estreita relação: reduza o número daqueles de quem você se alimenta e fará sua própria estrutura despedaçar-se.

Ele achou difícil acreditar que as bruxas realmente vissem as Honradas Mães desse jeito, e o dissessem.

— Se você sobreviver, Scytale, verá minhas palavras concretizadas. Grandes gritos de raiva dessas mulheres irracionais diante da necessidade de diminuir. Muito esforço novo para extorquir o máximo de cada presa. Capturem mais! Espremam-nas ainda mais! Isso significará extermínio mais rápido, apenas. Idaho diz que elas já estão no estágio de fenecimento.

“O ghola diz isso? Então ela o estava usando como Mentat!”

— De onde vocês tiraram essas idéias? Com certeza elas não vêm do seu ghola. — “Continuem pensando que ele é seu!”

— Ele simplesmente confirmou nossa suposição. Um exemplo da Outra Memória nos alertou.

— Oh! — Essa coisa de Outra Memória o incomodava. Estariam elas falando a verdade? Recordações de suas próprias múltiplas vidas eram de enorme valor. Ele pediu confirmação.

— Nós nos lembramos da relação entre um animal chamado coelho-da-neve e um gato predatório com o nome de lince. A população dos linces multiplicava-se para perseguir a população dos coelhos, e então a superalimentação reduziu os predadores a tempos de fome e uma severa e gradual supressão.

— Um termo interessante, supressão.

— Descreve bem o que desejamos para as Honradas Madres.

Quando seu encontro terminou (sem nenhum ganho para ele), Scytale achava-se mais confuso que nunca. Era esse o verdadeiro intento dessas mulheres? Maldita bruxa! Ele não conseguia ter certeza de nada do que ela dissera.

Quando retornou a seus aposentos na não-nave, Scytale ficou por um longo tempo olhando, através da barreira, para o comprido corredor onde Idaho e Murbella às vezes passavam, a caminho da sala de exercícios, que ele imaginava ser uma larga porta lá embaixo. Sempre saíam de lá suando e respirando fortemente.

Nenhum de seus colegas prisioneiros apareceu, embora ele tivesse se demorado no local por mais de uma hora.

“Ela usa o ghola como Mentat! Isso quer dizer que ele deve ter acesso à mesa de comando do sistema da nave. Com toda a certeza, ela não privaria seu Mentat dessas informações. Tenho que dar algum jeito de conseguir que nos encontremos a sós, esse ghola e eu. Sempre há a linguagem sibilante que imprimimos em todos os gholas. Não devo parecer ansioso demais. Uma pequena concessão na barganha, talvez. Uma reclamação de que meus alojamentos são acanhados. Eles podem ver como me desgasto na prisão.”

 

A educação não é substituto para a inteligência. Essa ilusória qualidade define-se apenas parcialmente pela capacidade de resolver enigmas. A definição verdadeiramente se realiza na criação de novos problemas — reflexos do que transmitem os sentidos.

 

— Texto Mentat Um (dicto)

 

Eles conduziram Lucilla para ser introduzida à presença da Grande Honrada Madre numa jaula tubular, uma jaula dentro de outra. Uma rede de shigafio confinava-a ao centro da coisa.

— Eu sou a Grande Honrada Madre — cumprimentou-a a mulher na pesada cadeira negra. “Mulher pequena, malha colante vermelho-dourado.” — A jaula é para protegê-la, caso se lembre de usar a Voz. Nós somos imunes, e essa imunidade toma a forma de um reflexo que mata. Uma boa quantidade de suas Irmãs tem morrido dessa forma. Conhecemos a Voz e a usamos. Lembre-se disso quando eu soltá-la da jaula. — Acenou para dispersar os criados que a tinham trazido. — Vão! Vão!

Lucilla olhou à volta da sala. Sem janelas. Quase quadrada. Iluminada por alguns globos luminosos prateados. Paredes verde-ácido. Um cenário típico de interrogatório. Era em algum lugar alto. Eles tinham trazido sua jaula em um nultubo pouco antes do amanhecer.

Um painel atrás da Grande Honrada Madre afastou-se para o lado com um estalido e uma jaula menor deslizou para dentro do aposento sobre um mecanismo oculto. Essa jaula era quadrada, e nela erguia-se o que ela pensou a princípio ser um homem despido, até que ele se voltou e olhou para ela.

“Futar!” Tinha uma face larga e os caninos à mostra.

— Coçar costas — disse o Futar.

— Sim, querido, eu coçarei suas costas depois.

— Quer comer — disse o Futar, que lançou um olhar penetrante a Lucilla.

— Mais tarde, querido.

O Futar continuou a estudar Lucilla.

— Você, Treinador? — perguntou.

— Naturalmente que ela não é uma Treinadora!

— Quer comer — ele insistiu.

— Mais tarde, eu disse! Por enquanto, sente aí e faça um ronrom para mim.

O Futar agachou-se em sua jaula, e um som retumbante saiu de sua garganta.

— Eles não são uma graça, quando ronronam? — A Grande Honrada Madre obviamente não esperava uma resposta.

A presença do Futar intrigou Lucilla. Ao que se sabia, essas coisas deviam caçar e matar as Honradas Madres. Entretanto, esse estava enjaulado.

— Onde o capturou? — Lucilla perguntou.

— Em Gammu — Ela não percebeu o que tinha revelado.

“E aqui é o Entroncamento”, Lucilla pensou. Ela o tinha reconhecido pela barcaça espacial na noite anterior.

O Futar parou de ronronar.

— Comer — resmungou.

Lucilla gostaria de comer alguma coisa. Eles não a tinham alimentado durante três dias e ela era forçada a suprimir as pontadas de fome. Pequenos goles de água de um garrafão deixado na jaula ajudavam, mas ele estava quase vazio. As criadas que o tinham trazido riram de seu pedido de comida.

— Os Futares gostam de carne magra!

Era a falta de melange que a incomodava mais. Começara a sentir as primeiras dores da retirada essa manhã.

“Logo terei de matar-me.”

A tribo de Lâmpadas suplicou-lhe que resistisse. “Seja corajosa. Que será de nós se a Reverenda Madre selvagem nos falhar?”

“Rainha Aranha. É assim que Odrade chama essa mulher.”

A Grande Honrada Madre continuou a estudá-la, com a mão no queixo. Era um queixo fraco. Numa face sem traços positivos, o negativo atraía o olhar.

— Vocês perderão no fim, sabe disso — falou a terrível mulher.

— Assobiando no escuro — disse Lucilla, e então teve que explicar a expressão.

A Grande Honrada Madre demonstrou um interesse polido. “Que interessante.”

— Qualquer uma de minhas assistentes a teria matado imediatamente por ter dito isso. Esta é uma das razões pela qual estamos sozinhas. Fico curiosa em saber por que você diria tal coisa.

Lucilla lançou um olhar para o Futar agachado.

— Os Futares não acontecem do dia para a noite. São criados geneticamente a partir de reprodutores selvagens, com um único propósito.

— Cuidado! — Os olhos da Grande Honrada Madre lançavam chamas laranja.

— Gerações de desenvolvimento entraram na criação dos Futares— disse Lucilla.

— Nós os caçamos para o nosso prazer.

— E o caçador se torna a caça.

A Grande Honrada Madre ficou de pé num pulo, os olhos completamente laranja. O Futar agitou-se e começou a choramingar. Isso acalmou a mulher. Devagar, ela voltou a sentar-se.

Gesticulou com uma das mãos para o Futar enjaulado.

— Está bem, querido. Logo você comerá e eu coçarei suas costas.

O Futar parou de ronronar.

— Então você pensa que viemos para cá como refugiadas. Sim. Não o negue.

— Os vermes quase sempre voltam — Lucilla disse.

— Vermes? Você se refere àquelas monstruosidades que destruímos em Rakis?

Era tentador espicaçar esta Honrada Madre e despertar sua reação dramática. Se ela fosse suficientemente amedrontada, com certeza poderia matar.

“Por favor, Irmã!” — Suplicava a tribo de Lâmpadas. — “Resista.” “Pensam que posso fugir deste lugar?” Isso as silenciou, a não ser por um débil protesto. “Lembre-se! Nós somos como a antiga boneca, que caía sete vezes e erguia-se oito.” Veio-lhe a imagem embaladora de uma pequena boneca vermelha, rosto com um sorriso de Buda e as mãos cruzadas sobre a grande barriga.

— Você está obviamente se referindo aos espectros do Deus-Imperador — disse Lucilla. — Eu tinha outra coisa em mente.

A Grande Honrada Madre levou um certo tempo considerando a observação. O laranja foi desaparecendo de seus olhos.

“Ela está brincando comigo”, Lucilla pensou. “Pretende matar-me e dar-me de comer ao seu bichinho de estimação.”

“Mas pense na informação tática que você poderia fornecer se escapássemos!”

“Nós!” Mas não havia intenção de evitar a exatidão de tal protesto. Elas tinham trazido sua jaula da barcaça quando ainda era dia. O acesso ao covil da Rainha Aranha era bem planejado em termos de dificultar a aproximação, mas o planejamento divertia Lucilla. Planos muito antigos, fora de moda. Locais estreitos nas vias de chegada, com torres de observação projetando-se do solo como cogumelos de um cinza opaco, aparecendo em lugares apropriados em seu micélio. Curvas fechadas em pontos críticos. Nenhum veículo terrestre poderia lidar com essas curvas em alta velocidade. Havia uma referência a isso na crítica de Teg ao Entroncamento, lembrou-se. Defesas sem sentido. Bastava que se trouxesse equipamento pesado, ou que se atravessassem essas instalações grosseiras de outro modo, e tudo estaria isolado. Ligados subterraneamente, é lógico, mas isso podia ser destruído por explosivos. Era só ligá-los, cortar a conexão com a fonte, e eles cairiam pouco a pouco. “Sem a preciosa energia correndo pelos tubos, idiotas!” Havia um visível senso de segurança, e as Honradas Madres o conservavam. Para sua tranqüilidade! Seus defensores devem gastar uma grande quantidade de energia em dispositivos sem utilidade, para dar a essas mulheres um falso senso de segurança.

“Os corredores! Lembre-se dos corredores.”

Sim, os corredores deste gigantesco edifício eram enormes, o que havia de melhor para alojar os colossais tanques em que os Navegadores da Corporação eram forçados a viver quando estavam em terra. Sistemas de ventilação na parte de baixo, ao longo de todos eles, para retirar e recuperar o gás melange derramado. Ela podia imaginar alçapões abrindo e fechando com estrondo, provocando reverberações incômodas. Os homens da corporação nunca pareceram incomodar-se em fazer grande barulho. Linhas de transmissão de energia para suspensores móveis eram como grossas serpentes negras dando voltas nas passagens e entrando em todas as salas que ela tinha visto. Não impediriam um Navegador de bisbilhotar em qualquer lugar que quisesse.

Muitas das pessoas que ela vira usavam orientadores de pulso. Até as Honradas Madres. Então elas se perdiam aí. Tudo isso sob um único teto gigante, com torres fálicas. As novas residentes achavam-no atraente. Totalmente isoladas do brutal ambiente externo (onde nenhuma das pessoas importantes vai, a não ser para destruir coisas ou para observar os escravos em seu divertido trabalho e lazer). Através de quase tudo ela tinha percebido uma pobreza que denotava uma despesa mínima de manutenção. “Elas não estão mudando muito. O plano de Teg é ainda preciso.”

“Vê como suas observações poderiam ser valiosas?”

A Grande Honrada Madre foi sacudida de seu devaneio.

— É possível que eu lhe permita viver. Desde que você satisfaça minha curiosidade.

— Como sabe que eu não reagiria à sua curiosidade com um jato de pura merda?

A vulgaridade divertia a Grande Honrada Madre. Ela quase riu. Aparentemente ninguém a advertira do perigo que havia quando uma Bene Gesserit recorria à vulgaridade. A motivação para isso era por certo algo infeliz. “Não posso usar a Voz, hein? Ela pensa que é o meu único recurso?” A Grande Honrada Madre tinha demonstrado, em palavras e ações, o suficiente para dar a qualquer Reverenda Madre um domínio seguro sobre ela. Os sinais do corpo e da fala sempre transmitiam mais informação do que era necessário para a compreensão. Havia informação extra inevitável para servir de exemplo.

— Você nos acha atraentes? — perguntou a Grande Honrada Madre.

“Pergunta estranha.”

— Todas as pessoas da Dispersão possuem um certo atrativo. — “Deixe que ela pense que eu já vi muitos deles, inclusive seus inimigos.” — Vocês são exóticas, no sentido em que são estranhas e novas.

— E nossa perícia sexual?

— Aí existe uma aura, naturalmente. Excitante e magnética para alguns.

— Mas não para você.

“Ataque o queixo!” Era uma sugestão da tribo. “Por que não?”

— Estive estudando o seu queixo, Grande Honrada Madre.

— Esteve? — Surpresa.

— É obviamente o queixo da sua infância, e essa lembrança da juventude deveria orgulhá-la.

“Nem um pouco satisfeita, mas incapaz de demonstrá-lo. Atinja de novo o queixo.”

— Aposto que seus amantes beijam seu queixo com freqüência — disse Lucilla.

Zangada, agora, e ainda incapaz de desabafar. “Ameace-me, sim? Avise-me para não usar a Voz!”

— Beijar queixo — disse o Futar.

— Eu disse mais tarde, querido. Agora fique quieto!

“Descontando no pobre bichinho.”

— Mas você tem perguntas que deseja fazer-me — disse Lucilla. A própria doçura. Um outro sinal de cautela para os conhecedores. “Eu sou uma das que põem açúcar em tudo. Que bom! Como é agradável estar com você! Não é lindo? Você foi tão esperta em conseguir tão barato! Fácil. Rápido. Escolha seu próprio advérbio.”

A Grande Honrada Madre levou um momento compondo-se. Percebia que fora colocada em posição desvantajosa, mas não podia dizer como. Disfarçou com um sorriso enigmático, e então:

— Mas eu disse que a soltaria. — Pressionou algo ao lado de sua cadeira e uma parte da gaiola tubular moveu-se para o lado, levando consigo a rede de shigafio. No mesmo instante uma cadeira baixa ergueu-se de um painel diretamente à sua frente, sem desviar-se nem um passo.

Lucilla sentou-se na cadeira, os joelhos quase tocando os da inquisidora. “Pés. Lembre-se de que elas matam com os pés.” Ela flexionou os dedos, percebendo que tinha mantido as mãos crispadas em punhos. Maldita tensão!

— Você precisa comer e beber — disse a Grande Honrada Madre. Apertou um outro dispositivo ao lado da cadeira. Uma bandeja veio até Lucilla — um prato, uma colher, um copo cheio de um líquido vermelho. “Exibindo seus brinquedos.”

Lucilla pegou o copo.

“Veneno? Cheire antes.”

Ela provou uma amostra da bebida. Chá estimulante e melange! “Estou faminta.”

Lucilla retornou o copo vazio à bandeja. O estimulante em sua língua tinha o forte sabor da melange. “O que ela está fazendo? Cortejando-me?” Lucilla sentiu um fluxo de alívio provocado pela especiaria. O prato continha feijões em molho picante. Ela comeu tudo, depois de experimentar o primeiro bocado para descobrir se havia aditivos indesejados. Alho no molho. Ela se deteve uma mínima fração de segundo na Memória deste ingrediente — tempero acessório da cozinha refinada, específico contra lobisomens, tratamento potente contra a flatulência.

— Acha nossa comida agradável?

Lucilla enxugou o queixo.

— Muito bom. Cumprimentos pelo seu chef. — “Nunca cumprimente o cozinheiro numa casa particular. Os cozinheiros podem ser substituídos. A anfitriã é insubstituível.” — O alho deu um toque excelente.

— Andamos estudando alguma coisa da biblioteca resgatada de Lâmpadas. — Com exultação maligna: — Vê o que perdeu? Tão pouca coisa de interesse enterrada em todo aquele blablablá.

“Será que ela quer que você seja sua bibliotecária?” Lucilla esperou em silêncio.

— Algumas de minhas assistentes acham que pode haver pistas sobre o ninho de suas Irmãs lá, ou, pelo menos, um meio de eliminá-las rapidamente. Tantas línguas!

“Ela precisa de uma tradutora? Seja estúpida!”

— O que lhe interessa?

— Muito pouco. Quem precisaria de relatos sobre o Jihad Butleriano?

— Eles destruíram bibliotecas, também.

— Não me trate com superioridade!

“Ela é mais viva do que pensávamos. Continue mostrando-se estúpida.”

— Pensei que eu é que era objeto de paternalismo.

— Ouça-me, bruxa! Você pensa que pode ser impiedosa na defesa de seu ninho, mas não entende o que é ser impiedosa.

— Acho que você ainda não me disse como posso satisfazer sua curiosidade.

— É a sua ciência que nós queremos, bruxa! — Colocou a voz num tom mais baixo. — Sejamos razoáveis. Com a sua ajuda nós poderíamos atingir a utopia.

“E conquistar todos os seus inimigos e chegarão ao orgasmo todas as vezes.”

— Você acha que a ciência detém as chaves da utopia?

— E a da melhor organização de nossos negócios.

“Lembre-se: A burocracia eleva a conformidade... Diga, em vez disso, eleva a “estupidez fatal” ao status de religião.”

— Paradoxo, Grande Honrada Madre. A ciência deve ser inovadora. Isso traz mudanças. É por isso que a ciência e a burocracia vivem numa guerra constante.

“Ela conhece suas raízes?”

— Mas pense no poder! Pense no que você poderia controlar!

“Ela não sabe.”

Os pressupostos da Honrada Madre a respeito de controle fascinavam Lucilla. Vocês controlavam seu universo; não entravam em equilíbrio com ele. Olhavam para fora, nunca para dentro. Vocês não treinavam para perceber suas próprias respostas sutis; produziam músculos (forças, poderes) para superar tudo o que fosse definido como obstáculo. Essas mulheres seriam cegas?

Como Lucilla não falasse, a Honrada Madre disse:

— Encontramos muitas coisas na biblioteca sobre os Bene Tleilaxu. Vocês se ligaram a eles em muitos projetos, bruxa. Projetos múltiplos: como anular a invisibilidade de uma não-nave, como penetrar os segredos da célula viva, sua Missionária Protectiva e uma coisa chamada “A Linguagem de Deus”.

Lucilla deu um sorriso forçado. Elas temiam que houvesse um verdadeiro deus lá fora, em algum lugar? “Dê-lhe um gostinho. Seja sincera.”

— Não nos unimos aos Tleilaxu em nada. Seu povo interpretou mal o que encontrou. Vocês se preocupam em ser paternalizadas? Como acha que Deus se sentiria a respeito? Plantamos religiões protetoras para nos ajudarem. Essa é a função da Missionária. Os Tleilaxu têm apenas uma religião.

— Vocês organizam religiões?

— Não exatamente. A abordagem organizacional da religião é sempre apologética. Nós não fazemos apologia.

— Você está começando a me cansar. Por que encontramos tão pouco sobre o Deus-Imperador?

“Ataque!”

— Talvez seu povo o tenha destruído.

— Ahhh, então vocês têm mesmo interesse nele.

“Assim como você, senhora Aranha!”

— Pensei, Grande Honrada Madre, que Leto II e seu Caminho Dourado eram objetos de estudos em mitos de seus centros acadêmicos.

“Isso foi cruel!”

— Não temos centros acadêmicos!

— Acho surpreendente seu interesse por ele.

— Interesse casual, nada mais.

“E esse Futar brotou de um carvalho atingido por um raio!”

— Nós chamamos seu Caminho Dourado de “caça aos papéis”. Ele os soprou para os ventos infinitos e disse: Vêem? Lá vão eles. Isso é a Dispersão.

— Alguns preferem chamá-la de a Busca.

— Ele podia realmente predizer o futuro? É isso que interessa a vocês?

“Na mosca!”

A Grande Honrada Madre tossiu na mão.

— Dizemos que Muad'Dib criou um futuro. Leto II o descriou.

— Mas se eu pudesse saber....

— Por favor, Grande Honrada Madre! As pessoas que exigem que o oráculo faça a predição de suas vidas realmente querem saber onde o tesouro está escondido.

— Mas naturalmente!

— Conhecer todo o seu futuro, e não ter mais nada que a surpreenda? É isso?

— Exatamente.

— Vocês não querem o futuro, vocês querem que o agora se estenda para sempre.

— Eu não diria melhor.

— E você disse que eu a aborrecia!

— O quê?

“Laranja em seus olhos. Cuidado.”

— Nunca mais nenhuma surpresa? O que poderia ser mais aborrecido?

— Ahhh... Bem! Mas não é isso que quero dizer.

— Então, temo dizer que não entendo o que vocês querem, Grande Honrada Madre.

— Não importa. Voltaremos a isso amanhã.

“Prorrogação!”

A Grande Honrada Madre levantou-se.

— Volte para sua jaula.

— Comer? — O Futar parecia melancólico.

— Tenho uma comida excelente para você lá embaixo, querido. Depois, vou coçar suas costas.

Lucilla entrou na jaula, que se fechou com um choque. A Grande Honrada Madre jogou uma almofada em sua direção.

— Use-a para proteger-se do shigafio. Vê como posso ser gentil?

O Futar em sua jaula deslizou para dentro da parede, e o espaço foi coberto pelo painel.

— Eles ficam tão agitados quando estão com fome — disse a Grande Honrada Madre. — Abriu a porta da sala e voltou-se para contemplar Lucilla por um momento. — Você não será perturbada. Recusei permissão para qualquer um que deseje entrar aqui.

 

Muitas das coisas que fazemos naturalmente tornam-se difíceis apenas quando tentamos transformá-las em matéria do intelecto. É possível saber tanto a respeito de um assunto, que isso nos torne totalmente ignorantes.

 

— Texto Mentat Dois (dicto)

 

Periodicamente, Odrade ia jantar com as acólitas e suas Instrutoras-Vigilantes, as sentinelas mais imediatas nessa prisão-mente, de onde muitas não seriam nunca libertadas.

O que as acólitas pensavam e diziam realmente informava as profundezas da consciência da Madre Superiora a respeito do funcionamento da Sede da Irmandade. Elas respondiam a partir de suas disposições e de seus pressentimentos de uma forma mais direta do que as Reverendas Madres. As Irmãs já formadas tinham se especializado em não serem vistas sob seus aspectos menos favoráveis. Não tentavam esconder o que era essencial, mas qualquer uma poderia caminhar num pomar ou junto a uma porta e ficar fora da visão das vigilantes.

Mas não as acólitas.

Ultimamente havia pouco tempo de folga na Central. Mesmo as salas de refeições tinham fluxos constantes de ocupantes, independente da hora. Os turnos de trabalho eram escalonados e tornava-se fácil para uma Reverenda Madre ajustar seu ritmo circadiano às mudanças de rotina. Odrade, entretanto, não podia perder energia com esses ajustes. No jantar, ela parou na porta do Salão das Acólitas e percebeu o súbito silêncio.

Até pelo modo como levavam o alimento à boca revelava-se alguma coisa. Aonde iam os olhos quando os pauzinhos se dirigiam para a boca? Essa que apunhalava os bocados, mastigava-os superficialmente e os engolia convulsivamente era digna de observação. Estava antecipando problemas. E aquela outra lá adiante que olhava cada porção como se procurasse veneno escondido? Uma mente criativa por trás desses olhos. Seria bom testá-la para um cargo de maior sensibilidade.

Odrade entrou no salão.

O chão assemelhava-se a um tabuleiro de xadrez, plaz preto e branco, virtualmente à prova de riscos e arranhões. As acólitas diziam que era para ser usado como um jogo pelas Reverendas Madres:

— Coloque-se uma de nós aqui e outra lá, outras ainda na linha central, o vencedor leva todas.

Odrade sentou-se perto do canto de uma mesa ao lado das janelas que davam para o lado oeste. As acólitas fizeram espaço para ela, em movimentos discretos.

Este salão era parte da construção mais antiga da Sede. Construído em madeira, com vigas em vão livre acima, traves pesadas de enorme espessura, com acabamento em negro sem brilho. Tinham cerca de 25m de comprimento sem emenda. Havia na Sede um bosque de carvalhos geneticamente preparados, buscando o sol em plantações muito cuidadas. Árvores de no mínimo 30m, sem um único galho e de mais de 2m de diâmetro. Tinham sido plantadas quando a sala fora construída, substituições para as vigas que se tornassem enfraquecidas pelo tempo. Novecentos Anos-Padrão, era o que as traves deveriam durar.

Com que cuidado as acólitas ao redor da Madre Superiora a observavam, sem ao menos parecer que olhavam diretamente para ela.

Odrade voltou-se para observar as janelas oeste ao pôr-do-sol. “Poeira novamente.” A expansão intrusa do deserto inflamava o sol da tarde fazendo-o brilhar como uma brasa distante que podia explodir a qualquer momento num incêndio incontrolável.

Odrade suprimiu um suspiro. Pensamentos como esse recriavam seu pesadelo: “O abismo... a corda bamba.” Sabia que se fechasse os olhos seria capaz de ver-se oscilar na corda. A caçadora com o machado estava mais próxima!

As acólitas a seu lado mexeram-se nervosamente, como se percebessem sua inquietação. Talvez a tivessem sentido. Odrade ouviu o movimento dos tecidos, e isso arrancou-a de seu pesadelo. Tinha-se sensibilizado quanto a uma nova nota nos sons da Central. Havia um rangido por trás dos movimentos mais rotineiros — uma cadeira arrastada às suas costas... e o abrir e fechar da porta da cozinha. Um ruído irritante de areia raspada. As equipes de limpeza reclamavam da areia e da “maldita poeira”.

Odrade atentou, lá fora, para a fonte dessa irritação: o vento sul. Um nevoeiro baço, algo entre bronze e cor de terra, cerrava uma cortina no horizonte. Depois do vento, a poeira de seus depósitos seria encontrada nos cantos dos edifícios e nas encostas dos morros. Havia no ar um aroma de sílica, um cheiro alcalino que irritava as narinas.

Voltou os olhos para a mesa, onde a refeição estava sendo servida.

Odrade viu-se apreciando essa mudança em relação às refeições rápidas em sua sala de trabalho e em seu refeitório particular. Quando comia lá, sozinha, as acólitas traziam a comida tão silenciosamente e tiravam a mesa com tanta eficiência, que ela se surpreendia em ver a refeição acabada. Aqui, comia-se em meio ao alvoroço e à conversa. Em seus aposentos, a cozinheira-chefe, Duana, às vezes entrava, dizendo:

— Não está comendo o suficiente. — Geralmente Odrade dava atenção a essas observações. As vigilantes tinham sua utilidade.

A refeição de hoje era sligoporco em molho de soja e melado, uma quantidade mínima de melange, um toque de manjericão e limão. Vagens cozidas al dente e pimentões. Suco de uva vermelho-escuro para beber. Ela provou uma porção de sligoporco com antecipação e achou-o passável, um pouco cozido demais para seu gosto. A cozinheira das acólitas não estava muito distante do ideal.

“Então por que o sentimento de estar cansada de refeições desse tipo?”

Sua hipersensibilidade identificou os aditivos. Este alimento não se destinava apenas a repor as energias da Madre Superiora. Alguém lá na cozinha tinha pedido sua lista de nutrição diária e ajustado o prato de acordo com ela.

“A comida é uma cilada”, pensou. “Mais apegos.” Ela não gostava da maneira astuciosa como as cozinheiras da Sede ocultavam as coisas que punham na comida “para o bem dos comensais”. Elas sabiam, naturalmente, que uma Reverenda Madre podia identificar ingredientes e ajustar o metabolismo dentro de seus limites. Estavam observando-a exatamente agora, imaginando o que a Madre Superiora estaria achando do cardápio.

Enquanto comia, ouvia os que estavam à sua volta. Ninguém a importunava — nem física nem vocalmente. Os sons tinham voltado quase ao que eram antes da sua entrada. A tagarelice sempre mudava o tom ligeiramente quando ela entrava, e depois continuava, num volume mais baixo.

Uma pergunta não formulada estava em todas as mentes ao seu redor: “Por que ela está aqui esta noite?”

Odrade percebeu um discreto temor respeitoso nos comensais próximos, uma reação que a Madre Superiora às vezes utilizava em seu benefício. Respeito com uma ponta de perspicácia. As acólitas murmuravam entre si (assim diziam as Instrutoras):

— Ela está com Taraza. — Elas queriam dizer que Odrade possuía sua última predecessora como Primária. Ambas constituíam um par histórico, estudo obrigatório para as postulantes.

“Dar e Tar”, quase uma lenda.

Até mesmo Bellonda (a nossa velha maldosa Bell) aproximava-se de Odrade de um modo oblíquo por esse motivo. Poucos ataques frontais, pouca gritaria em seus argumentos de acusação. Taraza era reconhecida por ter salvo a Irmandade. Isso silenciava grande parte da oposição. Taraza tinha dito que as Honradas Madres eram essencialmente bárbaras, e que sua violência, embora não pudesse ser totalmente afastada, poderia ser orientada para demonstrações sangrentas. Os acontecimentos tinham mais ou menos confirmado isso.

“Você estava correta até um certo ponto, Tar. Nenhuma de nós pôde avaliar o alcance de sua violência.”

Taraza, numa habilidade digna de um toureiro na arena, tinha representado as Honradas Madres em tais episódios de massacre, que o universo estava repleto de mordazes defensores potenciais de suas brutalizadas vítimas.

“Como poderei defender-nos?”

Não era tanto que os planos de defesa fossem inadequados. Eles podiam tornar-se irrelevantes.

“Isso, naturalmente, é o que procuro. Devemos nos purificar e ficar prontas para um esforço supremo.”

Bellonda tinha olhado a idéia com desprezo.

— Para a nossa morte? É para isso que devemos nos purificar?

Bellonda se sentiria ambivalente quando descobrisse o que a Madre Superiora planejava.Bellonda odiosa aplaudiria. A Bellonda Mentat discutiria um adiamento “até um momento mais propício”.

“Mas procurarei meu próprio caminho, independente do que pensem minhas Irmãs.”

E muitas Irmãs achavam Odrade talvez a mais estranha Madre Superiora que já tinham aceitado. Elevada mais pelo lado esquerdo que pelo direito. “A Primária de Taraza. Eu estava lá quando você morreu, Tar. Ninguém mais para recolher sua persona. Elevação por acidente?”

Muitas desaprovavam Odrade. Mas quando surgia a oposição, vinha de volta a idéia de “a Primária de Taraza — a melhor Madre Superiora de nossa história”.

Engraçado! A Taraza Interior era a primeira a rir e perguntar: “Por que você não lhes conta os meus erros, Dar? Especialmente o modo como eu a julguei erradamente.”

Odrade refletia enquanto mastigava. “Estou atrasada para uma visita a Sheeana. Tão cedo, e já o vento sul no deserto. Sheeana deve estar preparada para substituir Tam.”

A paisagem em mudança assomou a seus pensamentos. Mais que 1.500 anos de ocupação Bene Gesserit na Sede da Irmandade. “Nossas marcas por toda parte.” Não apenas em bosques, vinhas e pomares especiais. Que efeito deve estar produzindo na mente coletiva ver essas mudanças tomarem conta de sua terra familiar.

A acólita sentada ao lado de Odrade pigarreou discretamente. Teria intenção de dirigir-se à Madre Superiora? Um acontecimento inusitado. A jovem continuou a comer sem falar.

Os pensamentos de Odrade voltaram-se para sua projetada visita ao deserto. Sheeana não deve ser avisada com antecedência. “Preciso estar certa de que ela é a pessoa de que necessitamos.” Havia perguntas que ela deveria responder.

Odrade sabia o que encontraria em suas inspeções durante o caminho. Nas Irmãs, na vida animal e vegetal, nas próprias bases da Sede da Irmandade, ela veria mudanças grandes e sutis, coisas que abalariam a decantada serenidade da Madre Superiora. Até mesmo Murbella, que nunca se ausentava da não-nave, percebia essas mudanças.

Esta manhã ainda, sentada de costas para sua mesa de comando, Murbella tinha ouvido Odrade, de pé à sua frente, com uma nova atenção. Havia uma vivacidade perspicaz na Honrada Madre cativa. Sua voz traía dúvidas e julgamentos desajustados.

— Tudo é transitório, Madre Superiora?

— Esse é um conhecimento impresso em você pela Outra Memória. Não há planeta, terra ou mar, ou parte de algum deles que esteja aqui para sempre.

— Um pensamento mórbido! — Rejeição.

— Onde quer que estejamos, somos apenas administradores.

— Um ponto de vista inútil. — Hesitante, questionando por que a Madre Superiora teria escolhido esse momento para dizer tais coisas.

— Ouço as Honradas Madres falarem através de você. Elas lhe deram sonhos ambiciosos, Murbella.

— É o que você diz! — Profundamente ressentida.

— As Honradas Madres acham que podem comprar segurança infinita: um pequeno planeta, você sabe, com uma grande população subserviente.

Murbella fez uma careta.

— Mais planetas! — Odrade vociferou. — Sempre mais e mais! É por isso que elas voltam em atropelo.

— Pobre colheita neste Velho Império.

— Excelente, Murbella! Você está começando a pensar como uma de nós.

— E isso faz de mim um zero à esquerda.

— Nem isso nem aquilo, apenas seu eu verdadeiro? Mesmo aí, você é apenas administradora. Cuidado, Murbella! Pensar que se é dono de alguma coisa é como andar na areia movediça.

Essas palavras provocaram uma careta perplexa em Murbella. Algo precisava ser feito a respeito do modo como ela deixava transparecer as emoções. Ali, isso era permissível, mas algum dia...

— Então, não há nada que se possua com segurança. E daí? — Muita amargura.

— Algumas de suas palavras são corretas, mas não acho que você tenha encontrado, dentro de si mesma, um lugar para ficar o resto da vida.

— Até que o inimigo me ache e me destrua?

“O treinamento das Honradas Madres adere como cola! Mas ela conversou com Duncan na outra noite de um jeito que me diz que está pronta. O quadro de Van Gogh sensibilizou-a, eu acho. Percebi pela sua voz. Tenho de rever essa projeção.”

— Quem a destruiria, Murbella?

— Vocês nunca farão frente a um ataque das Honradas Madres!

— Eu já declarei o fato básico que nos interessa: nenhum lugar é eternamente seguro.

— Outra de suas malditas lições inúteis!

Na sala das acólitas, Odrade lembrou-se de que não tinha tido tempo de rever a projeção dos televigias de Duncan e Murbella. Quase lhe escapou um suspiro. Disfarçou-o com uma tosse. Nunca aja de modo a permitir que as jovens vejam qualquer perturbação na Madre Superiora.

“Ao deserto e Sheeana! Visita de inspeção assim que eu puder arranjar tempo para isso. Tempo!”

Novamente, a acólita sentada ao lado de Odrade pigarreou. Odrade olhou perifericamente-loira, vestido curto, preto debruado de branco-Terceiro Estágio Intermediário. Nenhum movimento de cabeça em direção a ela, nenhum olhar de soslaio.

“Isso é o que vou encontrar em minhas visitas de inspeção: medos. E na paisagem, as coisas que sempre vemos quando ficamos sem tempo:. árvores deixadas sem cortar porque os lenhadores foram embora — forçados, para a Dispersão, para o túmulo, ou talvez mesmo para os trabalhos de peonagem. Será que verei fantasias arquitetônicas tornando-se atraentes por estarem incompletas devido à ausência dos construtores? Não, não somos dadas a fantasias.”

A Outra Memória continha exemplos que ela desejava poder encontrar: antigas construções mais belas por estarem inacabadas. A falência do construtor ou um proprietário brigado com a amante... Algumas coisas eram mais interessantes por isso: velhos muros, velhas ruínas. O tempo como escultor.

“O que Bell diria se eu mandasse construir uma Fantasia no meu pomar favorito?”

A acólita ao lado de Odrade disse:

— Madre Superiora?

“Excelente! Elas raramente reúnem coragem.”

— Sim? — Quase imperceptível. “É bom que seja importante.”

Será que ela ouviria?

Ouviu.

— Estou interferindo em função da urgência, e porque conheço seu interesse pelos pomares.

“Magnífico!” Essa acólita tinha pernas grossas, mas isso não se estendia à sua mente. Odrade olhou-a fixamente, em silêncio.

— Sou a pessoa que faz o mapa de seu quarto de dormir, Madre Superiora. — Então esta era uma adepta confiável, alguém encarregado de trabalhar para a Madre Superiora. Melhor ainda.

— Terei logo o meu mapa?

— Em dois dias, Madre Superiora. Estou ajustando projeções em overlay, onde anotarei o crescimento diário do deserto.

Um breve aceno. Essa tinha sido a ordem original: uma acólita para manter o mapa atualizado. Odrade queria acordar a cada manhã e ter sua imaginação inflamada por essa vista em mudança, a primeira coisa impressa em sua consciência ao despertar.

— Coloquei um relatório em seu gabinete esta manhã, Madre Superiora. Gerenciamento dos Pomares. Talvez não o tenha visto.

Odrade tinha visto apenas a etiqueta. Vinha atrasada dos exercícios, ansiosa para a visita a Murbella. Tanta coisa dependia de Murbella!

— As plantações ao redor da Central devem ser abandonadas ou então é preciso que se tomem medidas para conservá-las — disse a acólita. — Esta é a essência do relatório.

— Repita-o palavra por palavra.

Caiu a noite e acenderam-se as luzes, enquanto Odrade ouvia. Conciso. Melhor ainda: direto e sutil. Trazia, além disso, uma nota de admoestação que Odrade reconheceu como de Bellonda. Não havia assinatura dos Arquivos, mas os avisos da Meteorologia passavam por eles, e a acólita tinha usado algumas das palavras originais.

Concluído o relatório, a acólita ficou silenciosa.

“Que devo responder?” Os pomares, as pastagens e as vinhas não eram meros pára-choques contra a intromissão de estranhos, decoração agradável na paisagem. Eram um suporte para as mesas e para o moral da Sede.

“Um suporte para o meu moral.”

Com que tranqüilidade essa acólita esperava. Cabelo loiro ondulado e face redonda. Fisionomia agradável, embora a boca fosse larga. Havia comida no prato, mas ela não comia. Mãos dobradas no regaço.

— Estou aqui para servi-la, Madre Superiora.

Enquanto Odrade compunha sua resposta, a memória interferiu — um antigo incidente em simulfluxo sobre as observações imediatas. Lembrou-se de seu curso de treinamento de ornitóptero. “Duas alunas acólitas ao meio-dia, sobre as terras úmidas de Lâmpadas.” Ela fazia par com a pior acólita que poderia ser aceita pela Irmandade. Obviamente uma escolha de gene. As Mestras Procriadoras desejavam-na por alguma característica a ser passada aos descendentes. “Com certeza não era equilíbrio emocional ou inteligência!” Odrade lembrava-se de seu nome: Linchine.

Linchine tinha gritado ao instrutor:

— Vou pilotar este maldito tóptero!

E o tempo todo, o céu e a paisagem de árvores e praias pantanosas rodopiavam em turbilhão, deixando-as atordoadas. “Era como parecia: nós duas paradas e o mundo girando.” Linchine fazendo a coisa errada a todo momento. Cada movimento criava mais e piores voltas.

O instrutor tirou-a fora do sistema desligando a chave que só ele podia alcançar. Ele não pronunciou palavra até que estivessem voando direto e em nível.

— Nunca mais vai pilotar isto, jovem. Nunca mais! Não tem as reações corretas. Elas têm que ser treinadas antes da puberdade em pessoas como você.

— Vou, sim! Vou, sim! Vou pilotar essa coisa maldita. — Suas mãos agarravam-se convulsivamente aos inúteis controles.

— Não merece confiança, moça. Vai ficar retida em terra.

Odrade respirou aliviada, compreendendo que soubera o tempo todo que Linchine poderia matá-los.

Atropelando-se em direção a Odrade no banco de trás, Linchine gritava:

— Diga-lhe! Diga-lhe que deve obedecer a uma Bene Gesserit!

Referia-se ao fato de que Odrade, vários anos à sua frente, exibia uma presença de comando.

Odrade sentou-se em silêncio, com as feições imóveis.

“O silêncio é a melhor coisa para se dizer”, alguma humorista Bene Gesserit tinha rabiscado num espelho de lavatório. Odrade achara um bom conselho naquela ocasião e em outras.

Lembrando-se da necessidade de responder à acólita na sala de refeições, Odrade se perguntou por que a antiga memória teria surgido. Essas coisas raramente aparecem sem um propósito. “Não o silêncio, agora, com certeza. Humor?” Sim! Essa era a mensagem. Odrade com seu humor (usado mais tarde) tinha ensinado a Linchine algo sobre si mesma. “Humor sob estresse.”

Odrade sorriu para a acólita a seu lado no refeitório.

— Você gostaria de ser um cavalo?

— O quê? — A resposta escapou, revelando surpresa, mas ela respondeu ao sorriso da Madre Superiora. Não havia nada de alarmante nele. Era até mesmo caloroso. Todos diziam que a Madre Superiora permitia-se afeições.

— Você não entende, naturalmente — Odrade disse.

— Não, Madre Superiora. — Ela estava ainda sorridente e tranqüila. Odrade deixou que seu olhar se detivesse no rosto jovem de modo indagador. Claros olhos azuis ainda intocados pela cor engolfante da Agonia da Especiaria. Uma boca quase como a de Bell, mas sem a maldade da outra. Músculos confiáveis, assim como a inteligência. Ela seria eficiente em antecipar as necessidades da Madre Superiora. Prova disso era sua tarefa de mapeamento e esse relatório. Sensível. Estava de acordo com sua inteligência superior. Provavelmente não chegaria às posições máximas, mas estaria sempre nas posições principais, onde suas qualidades fossem necessárias.

“Por que me sentei a seu lado?”

Freqüentemente Odrade selecionava uma determinada companhia nessas visitas ao refeitório.

Quase sempre acólitas. Elas podiam ser tão reveladoras. Os relatórios sempre chegavam ao gabinete da Madre Superiora: observações das Instrutoras a respeito de uma ou outra acólita. Mas, às vezes, Odrade escolhia um lugar sem uma razão aparente. “Como fiz esta noite. Por que esta?”

A conversação raramente ocorria, a menos que a Madre Superiora a provocasse. Geralmente uma iniciação suave, facilitando uma abordagem de outros assuntos mais íntimos. Os outros ao redor ouviam atentamente.

Nesses momentos, Odrade quase sempre assumia uma atitude de serenidade quase religiosa. Isso acalmava os nervosos. Acólitas eram.... bem, acólitas, mas a Madre Superiora era a feiticeira suprema de todas elas. O nervosismo era natural.

Alguém atrás de Odrade sussurrou:

— Hoje ela chamou Streggi às falas. — “Chamar às falas.” Odrade conhecia a expressão. Era usada em seus tempos de acólita. Então Streggi era o seu nome. “Vamos deixá-lo impronunciado, por enquanto. Os nomes têm uma certa magia.”

— Gostou de jantar hoje? — Odrade perguntou.

— Está aceitável, Madre Superiora. — Era de praxe que não se dessem falsas opiniões, mas Streggi estava confusa pela mudança na conversação.

— Cozinharam demais — disse Odrade.

— Servindo uma quantidade tão grande de pessoas, como poderiam agradar a todas, Madre Superiora?

“Ela fala o que pensa, e fala bem.”

— Sua mão esquerda está tremendo — Odrade disse.

— Estou nervosa com sua presença, Madre Superiora. E acabo de vir das práticas. Hoje foi muito cansativo.

Odrade analisou os tremores. — Eles a estão fazendo praticar a elevação do braço.

— Era doloroso no seu tempo, Madre Superiora? (Naqueles velhos tempos?)

— Tanto quanto hoje. A dor ensina, elas diziam.

Isso suavizava as coisas. Experiências compartilhadas, o jargão das Instrutoras.

— Não entendo de cavalos, Madre Superiora. — Streggi olhou para seu prato. — Isto não pode ser carne de cavalo. Tenho certeza que...

Odrade riu alto, atraindo olhares espantados. Ela colocou a mão no braço de Streggi e limitou-se a um sorriso suave.

— Obrigada, querida. Ninguém me fez rir assim em muitos anos. Espero que este seja o início de uma longa e feliz associação.

— Obrigada, Madre Superiora, mas eu...

— Vou explicar a respeito do cavalo, uma piada minha, sem nenhuma intenção de diminuí-la. Quero que você carregue uma criança em seus ombros, para transportá-la mais rápido do que suas pernas a levariam.

— Como quiser, Madre Superiora. — Sem objeções, nem outras perguntas. Perguntas havia, mas as respostas viriam a seu tempo, e Streggi sabia disso.

“Tempo mágico.”

Retirando a mão, Odrade disse:

— Seu nome?

— Streggi, Madre Superiora. Aloana Streggi.

— Fique descansada, Streggi. Vou tomar providências em relação aos pomares. Precisamos deles não só para a alimentação, mas também para manter o moral. Dirija-se ao Reescalonamento esta noite. Diga-lhes que desejo que esteja em meu gabinete às 6h, amanhã de manhã.

— Estarei lá, Madre Superiora. Devo continuar marcando seu mapa? — perguntou ela, quando Odrade se levantou para sair.

— Por enquanto, Streggi. Mas solicite ao Reescalonamento uma nova acólita e comece a treiná-la. Muito em breve você estará ocupada demais para cuidar do mapa.

— Obrigada, Madre Superiora. O deserto está se desenvolvendo muito depressa.

As palavras de Streggi deram a Odrade uma certa satisfação, dissipando a melancolia que tinha toldado a maior parte de seu dia.

O ciclo estava conseguindo uma outra oportunidade, voltando uma vez mais como era impelido a fazê-lo pelas forças subterrâneas chamadas “vida”, “amor” e outros rótulos desnecessários.

“Então ele se modifica. Ele se renova. Mágica. Que bruxaria poderia tirar-lhe a atenção deste milagre?”

Em seu gabinete, ela emitiu uma ordem para a Meteorologia, então silenciou os instrumentos em seu escritório e dirigiu-se para a janela em arco. A Sede da Irmandade brilhava num vermelho pálido dentro da noite, através das luzes da terra contra as nuvens baixas. Dava uma aparência romântica aos telhados e muros, mas Odrade prontamente a rejeitou.

Romance? Não havia nada de romântico no que ela tinha feito no refeitório das acólitas.

“Eu o fiz, finalmente. Comprometi-me. Agora, Duncan deve recuperar as memórias de nosso Bashar. Uma tarefa delicada.”

Ela continuou a olhar fixamente a noite, suprimindo os nós que sentia no estômago.

“Não apenas estou me comprometendo, como comprometo o que resta de minha Irmandade. Então é assim que a gente se sente, Tar.”

“É assim que a gente se sente e seu plano é astucioso.”

Ia chover. Odrade sentiu-o no ar, vindo dos ventiladores em volta da janela. Não era preciso ler um relatório da Meteorologia, o que ela raramente fazia atualmente. Por que se incomodar? Mas o relatório de Streggi trazia um aviso importante.

As chuvas estavam se tornando mais raras aqui, e eram consideradas uma boa coisa. As Irmãs saíam em caminhada debaixo da água, a despeito do frio. Havia um toque de tristeza no pensamento. Cada chuva que ela via trazia a mesma pergunta: “Será a última?”

As pessoas da Meteorologia faziam verdadeiros milagres para manter um deserto em expansão seco, e as áreas de plantação irrigadas. Odrade não sabia como tinham conseguido aquela chuva para cumprir suas ordens. Daqui a pouco tempo, não poderiam obedecer a comandos desse tipo, mesmo vindos da Madre Superiora. “O deserto triunfará, porque isso é o que pusemos em movimento.”

Ela abriu as vidraças centrais de sua janela. O vento nesse nível tinha parado. Apenas as nuvens moviam-se lá em cima. Ventos mais altos devastando as coisas. Um sentido de urgência no tempo. O ar estava gelado. Então elas tinham feito ajustes de temperatura para conseguir esse pouco de chuva. Fechou a janela, não sentindo vontade de ir lá fora. A Madre Superiora não tinha tempo de jogar o jogo da última chuva. Uma chuva de cada vez. E sempre, lá fora, o deserto movendo-se inexoravelmente em direção a elas.

“Isso eu posso mapear e observar. Mas, e a caçadora atrás de mim — a figura do pesadelo com o machado? Qual é o mapa que me diz onde ela está hoje à noite?”

 

A religião (emulação dos adultos pela criança) compreende mitologias passadas: especulações, pressupostos ocultos de confiança no universo, pronunciamentos feitos na busca de poder pessoal, tudo isso combinado com fragmentos de iluminação. É sempre um mandamento não formulado: Vão perguntar! Quebramos esse mandamento diariamente na subordinação da imaginação humana à nossa criatividade mais profunda.

 

— Credo Bene Gesserit

 

Murbella sentou-se de pernas cruzadas na sala de exercícios, sozinha, remendo depois da prática. A Madre Superiora tinha estado ali menos que meia hora, essa tarde. E, como quase sempre acontecia, Murbella sentia que fora abandonada num sonho febril.

As últimas palavras de Odrade, antes de partir, reverberavam no sonho: “a lição mais difícil para uma acólita é que ela deve sempre atingir seu limite. Suas capacidades a conduzirão além do que imagina. Portanto, não imagine. Estenda-se.”

“Qual é minha resposta? Que fui ensinada a enganar?” Odrade tinha feito alguma coisa para trazer à lembrança os padrões da infância e a educação das Honradas Madres. “Aprendi a enganar quando criança. Como simular uma necessidade e conseguir atenção.” Muitos “como se faz” no modelo de enganar. Ela aprendera que as pessoas grandes em sua volta eram exigentes. “Eu regurgitei na exigência. Isso era chamado de educação.” O que havia de tão notavelmente diferente no ensinamento Bene Gesserit?

— Não lhe peço para ser honesta comigo — dissera Odrade. — Seja honesta consigo mesma.

Murbella estava perdendo a esperança de algum dia arrancar toda essa mentira de seu passado. “Por que o faria?” Mais mentira!

— Maldita Odrade!

Somente depois que as palavras tinham sido ditas é que percebeu que falara em voz alta. Começou a pôr a mão na boca, mas abortou o movimento. A febre dizia:

— Que diferença faz?

— As burocracias educacionais embrutecem a sensibilidade indagadora da criança — era a explicação de Odrade. — Os jovens devem ser sufocados. Nunca os deixe serem tão bons quanto poderão ser. Isso provoca mudanças. Gaste bastante tempo em reuniões discutindo como lidar com alunos excepcionais. Não perca tempo preocupando-se com o fato de que o professor convencional se sente ameaçado pelos talentos que surgem, e os esmaga em função de um arraigado desejo de se sentir superior e seguro num ambiente que não ofereça perigo.

“Ela estava falando das Honradas Madres.”

“Professores convencionais?”

Aí estava: por trás da fachada de sabedoria, as Bene Gesserit eram naturais, sem cerimônia. Elas quase nunca pensavam sobre a maneira de ensinar: elas simplesmente o faziam.

“Deuses! Quero ser como elas!”

O pensamento a chocou, e ela levantou-se de um pulo, lançando-se num treinamento de braço e pulso.

A compreensão atingiu-a mais profundamente que nunca. Não desejava desapontar estas professoras. “Honestidade e franqueza.” Todas as acólitas ouviam isso.

— Instrumentos básicos de aprendizagem — dizia Odrade.

Distraída por seus pensamentos, Murbella levou um tombo e levantou-se, esfregando o ombro machucado.

Tinha pensado de início que o protesto Bene Gesserit devia ser uma mentira. “Estou sendo tão franca com você que preciso contar-lhe da minha inabalável honestidade.”

Mas as ações confirmaram suas alegações. A voz de Odrade persistia no sonho febril:

— É assim que você julga.

Elas tinham algo na mente, na memória, e um equilíbrio intelectual que nunca uma Honrada Madre havia possuído. Esse pensamento a fez sentir-se pequena. “Torne-se corrupta.” Era como a existência de lugares mais vivos em seus pensamentos febris.

“Mas eu tenho talento! É preciso talento para ser uma Honrada Madre.”

“Ainda me considero uma Honrada Madre?”

As Bene Gesserit sabiam que ela não estava inteiramente comprometida com a Irmandade. “Que habilidades terei eu, para que elas se interessem? Não as habilidades de enganar.”

“As ações combinam com as palavras? Existe a sua medida de confiabilidade. Nunca se limite às palavras.”

Murbella pôs as mãos no ouvido. “Cale a boca, Odrade!”

“Como uma Reveladora da Verdade separa sinceridade de um julgamento mais fundamental?”

Murbella deixou cair as mãos. “Talvez eu esteja realmente doente.” Lançou o olhar por toda a extensa sala. Não havia ninguém que pronunciasse essas palavras. De qualquer modo, era a voz de Odrade.

“Se você estiver sinceramente convencida, pode usar um mero palavrório (que palavra antiga maravilhosa; procure-a no dicionário), uma asneira completa e será acreditada. Mas não por uma das nossas Reveladoras da Verdade.”

Os ombros de Murbella curvaram-se. Começou a andar sem direção pela sala de exercícios. Não havia lugar para fugir?

“Procure as conseqüências, Murbella. É assim que se descobrem as coisas que funcionam. É disso que tratam nossas elevadas verdades.”

“Pragmatismo?”

Idaho encontrou-a nesse momento, e reagiu ao brilho selvagem de seus olhos.

— O que foi?

— Acho que estou doente. Bem doente. Pensei que fosse algo que Odrade tinha feito comigo, mas...

Ele segurou-a quando ela tombou.

— Ajudem-nos!

Pela primeira vez era grato aos televigias. Em menos de um minuto uma médica Suk estava com eles. Ela curvou-se sobre Murbella no local em que Idaho a tinha colocado, no chão.

O exame foi breve. A Suk, uma grisalha Reverenda Madre com a marca tradicional do diamante na testa, endireitou-se e disse:

— Esgotamento. Ela não está procurando encontrar seus limites, ela os está ultrapassando. Nós a poremos de volta numa classe de sensibilização antes de permitir que continue. Enviarei as Instrutoras.

Odrade encontrou Murbella na Enfermaria das Instrutoras naquela noite, reclinada na cama, com duas Instrutoras se revezando para testar sua resposta muscular. Ante um pequeno gesto, deixaram-nas sozinhas.

— Tentei evitar complicações — disse Murbella. “Franqueza e honestidade.”

— Tentar evitar complicações geralmente cria outras. — Odrade afundou-se numa cadeira ao lado da cama, e pôs a mão sobre o braço de Murbella. Os músculos tremiam sob sua mão. — Dizemos que as palavras são vagarosas, o sentimento é mais rápido. — Odrade recuou. — Que decisões andou tomando?

— Vocês permitem que eu tome decisões?

— Não seja sarcástica. — Ela ergueu a mão pára impedir qualquer interrupção. — Não levei seu condicionamento anterior em bastante consideração. As Honradas Madres deixaram-na praticamente incapaz de tomar decisões. Isso é típico de sociedades que têm fome de poder. Ensinam as pessoas a hesitarem eternamente. “As decisões trazem maus resultados”, é o que dizem. Ensinam a omissão.

— O que isso tem a ver com o meu colapso? — Ressentimento.

— Murbella! Os piores produtos do que eu estou descrevendo são quase casos únicos, não conseguem tomar decisões sobre o que quer que seja, ou deixam tudo para o último minuto, e então lançam-se sobre as soluções como animais desesperados.

— Você me disse que procurasse alcançar meus limites! — Quase choramingando.

— Seus limites, Murbella. Não os meus. Não os de Bell ou de qualquer outra. Os seus.

— Decidi que desejo ser como vocês. — Muito débil.

— Maravilhoso! Mas não acho que alguma vez tentei matar-me. Principalmente quando estava grávida.

Murbella sorriu, a despeito de si mesma.

Odrade levantou-se.

— Durma. Você vai para uma classe especial amanhã, onde trabalharemos sobre sua capacidade de entrosar suas decisões com a sensibilidade a seus limites. Lembre-se do que eu lhe disse: nós nos cuidamos.

— Pertenço a vocês? — Quase um sussurro.

— Desde que repetiu o juramento diante das Instrutoras. — Odrade desligou as luzes quando saiu. — Parem de incomodá-la. Ela precisa descansar.

Murbella fechou os olhos. O sonho febril tinha desaparecido, mas em seu lugar estava sua própria memória.

— Sou uma Bene Gesserit. Existo apenas para servir.

Ouviu-se dizendo essas palavras às Instrutoras, mas a memória dava-lhes uma ênfase que não existira na situação original.

“Elas sabiam que eu estava sendo cínica.”

O que se poderia esconder dessas mulheres?

Sentiu a mão da Instrutora em sua testa, na recordação, e ouviu as palavras que somente agora adquiriam significado.

“Estou na sagrada presença humana. Como eu, que você também esteja um dia. Suplico à sua presença que assim seja. Que o futuro permaneça incerto, porque ele é a tela que receberá nossos desejos. Portanto, a condição humana se defronta com sua eterna tabula rasa. Não possuímos mais que este momento, onde nos dedicamos continuamente à sagrada presença que compartilhamos e criamos.”

Convencional, mas ao mesmo tempo não convencional. Compreendeu que não tinha sido preparada física ou emocionalmente para este momento. Lágrimas escorreram-lhe pelas faces.

 

As leis repressoras tendem a fortalecer aquilo que proíbem. Esse é o ponto essencial onde todas as profissões legais da História basearam sua segurança de trabalho.

 

— O Código Bene Gesserit

 

Em suas agitadas visitas de inspeção através da Central (não muito freqüentes, hoje em dia, mas justamente por isso, mais intensas), Odrade procurava sinais de negligência e, especialmente, áreas de responsabilidade que estavam funcionando com exagerada suavidade.

A Vigilante Maior tinha seu próprio lema:

— Mostrem-me uma operação completamente sem problemas e eu lhes apontarei alguém que está encobrindo erros. Os verdadeiros barcos oscilam.

Ela repetia isso com freqüência, a tal ponto que se tornou uma frase que as Irmãs (e mesmo algumas acólitas) usavam para identificá-la.

— Os verdadeiros barcos oscilam. — Risinhos surdos.

Bellonda acompanhava Odrade nessa inspeção matinal de hoje, sem mencionar que “uma vez por mês” tinha se tornado “uma vez a cada dois meses”, se tanto. Esta já estava atrasada em uma semana. Bell queria usar esse tempo para preveni-la contra Idaho. E trouxera Tamalane consigo, embora Tam devesse estar examinando o desempenho das Instrutoras nesse momento.

“Duas contra uma?”, Odrade pensou. Achava que nem Bell nem Tam suspeitavam do que a Madre Superiora pretendia. Bem, isso viria à tona, como tinha acontecido com o plano de Taraza.

“A seu próprio tempo, hein, Tar?”

E assim elas iam pelos corredores, seus mantos negros num ruge-ruge de urgência, e olhos perspicazes aos quais quase nada escapava. Tudo era familiar, mas mesmo assim elas procuravam o que era novo. Odrade levava seu receptor Áudio-V pendente do ombro esquerdo, como se fosse um peso de mergulho fora do lugar. “Nos dias de hoje não se pode estar nunca fora do alcance da comunicação.”

Nos bastidores de qualquer centro Bene Gesserit estavam as instalações de apoio: hospital clínico, cozinha, necrotério, controle do lixo, sistemas de recuperação (ligados aos esgotos e ao lixo), transportes e comunicações, abastecimento da cozinha, salas de educação física, escolas para acólitas e postulantes, alojamentos pessoais para todas, centros de reunião, instalações para testes e muito mais. O pessoal mudava muitas vezes, em função da Dispersão e do movimento para novas responsabilidades, tudo conforme a sutil consciência Bene Gesserit. Mas permaneciam as tarefas e os lugares para todos.

Enquanto caminhavam rapidamente em passos largos, de uma área para outra, Odrade falava da Dispersão da Irmandade, sem tentar esconder seu desalento a respeito da “família atômica” em que haviam se transformado.

— Acho difícil contemplar a humanidade espalhando-se em um universo ilimitado — disse Tam.

— As possibilidades...

— O jogo dos números infinitos. — Odrade pisou numa guia quebrada. — Isso deve ser consertado. Estamos jogando o jogo do infinito desde que aprendemos a transpor as Dobras do Espaço.

Não havia alegria no tom de Bellonda.

— Não é um jogo!

Odrade podia avaliar os sentimentos de Bellonda. “Nós nunca vimos o espaço vazio. Sempre outras galáxias. Tam está certa. É assustador focalizar o Caminho Dourado!”

Recordações de explorações deram à Irmandade um instrumento estatístico, mas pouco mais que isso. Tantos planetas habitáveis num grupo e, entre eles, um inesperado número adicional, que podia ser formado de terra.

— O que está evoluindo lá fora? — Tamalane interpelou.

Uma pergunta que elas não podiam responder. Pergunte o que o Infinito pode produzir, e a única resposta possível é: qualquer coisa.

“Qualquer bem, qualquer mal, qualquer deus, qualquer demônio.”

— E se as Honradas Madres estiverem fugindo de alguma coisa? — Odrade perguntou. — Não é uma possibilidade interessante?

— Essas especulações são inúteis — resmungou Bellonda. — Não sabemos nem mesmo se as Dobras do Espaço nos introduzem em um universo ou muitos... ou até mesmo um número infinito de bolhas que se expandem e se contraem.

— O Tirano teria conseguido entender isso melhor do que nós? — Tamalane perguntou.

Elas pararam, enquanto Odrade observava uma sala onde cinco Acólitas Adiantadas e uma Instrutora estudavam uma projeção de estoques regionais de melange. O cristal que transmitia a informação realizava uma intrincada dança no projetor, saltando sobre seu raio como uma bola na fonte. Odrade viu o resumo final e afastou-se antes de franzir a testa. Tam e Bell não viram a expressão da Madre Superiora. “Teremos de começar a restringir o acesso às informações sobre melange. São por demais deprimentes.”

“Administração!” Tudo caía em cima da Madre Superiora. Quando se delega excessivamente às mesmas pessoas, o resultado é a burocracia.

Odrade sabia que dependia demasiado de seu senso interior de administração. Um sistema testado e revisado, que usava a automação apenas onde era essencial. “A maquinaria”, era como elas o chamavam. À época em que se tornavam Reverendas Madres, todas elas possuíam uma certa sensibilidade em relação à “maquinaria” e tendiam a usá-la sem questionamentos posteriores. Era aí que estava o perigo. Odrade fazia pressão para que fizessem um aperfeiçoamento constante (até mesmo pequenas melhoras), afim de introduzir mudança em suas atividades. Imprevisibilidade.

Nada de padrões absolutos que os outros pudessem descobrir e usar contra elas. Podia-se não ver tais mudanças no período de uma vida, mas, ao longo de espaços de tempo maiores, as diferenças com certeza seriam mensuráveis.

O grupo desceu para o térreo, ao nível da principal via pública da Central. As Irmãs chamavam-na de “O Caminho”. Tratava-se de uma piada, entre elas, referindo-se ao regime de treinamento popularmente conhecido como “O Caminho Bene Gesserit”.

O Caminho estendia-se da praça ao lado da torre de Odrade até os arrabaldes ao sul da área urbana — direto como um raio de arma laser, quase 12km de edifícios altos e baixos. Estes últimos tinham uma coisa em comum: eram bastante sólidos, visando uma possível expansão vertical.

Odrade fez sinal a um transporte aberto, com lugares vagos, e as três acomodaram-se num espaço onde podiam continuar a falar. A Fachada ostentada no Caminho tinha um apelo antigo, Odrade pensou. Edifícios como esses, com suas altas janelas retangulares de plaz isolante enquadravam os “Caminhos” Bene Gesserit durante longos períodos da história da Irmandade. No centro havia uma fileira de olmos geneticamente programados em função da altura e do perfil estreito. Os pássaros aí faziam seus ninhos, e as manhãs tornavam-se radiantes com movimentos esvoaçantes em vermelho e laranja — papa-figos e sanhaços.

“A preferência por este cenário familiar seria um padrão perigoso para nós?”

O grupo desceu na Trilha do Biriteiro, com Odrade na dianteira pensando como o humor Bene Gesserit se evidenciava em nomes curiosos. Nas ruas, então, o tom brincalhão sobressaía. Trilha do Biriteiro porque a fundação de um dos edifícios tinha baixado levemente, dando à estrutura a aparência curiosa de um bêbado. O único elemento do grupo pisando fora da linha.

“Como a Madre Superiora. Só que elas ainda não sabem.”

Seu receptor tocou quando elas chegavam à Alameda da Torre.

— Madre Superiora? — Era Streggi. Sem parar, Odrade deu sinal de que estava na linha. — A senhora pediu um relatório sobre Murbella. A Central Médica disse que ela já está pronta para recomeçar as aulas.

— Encaminhe-a, então. — Continuaram rua abaixo: só construções de um andar.

Odrade lançou um olhar rápido para os edifícios baixos de ambos os lados. Estava sendo construído um segundo andar num deles. Poderia haver uma verdadeira Alameda da Torre aqui um dia, e a piada que existia a respeito seria esquecida.

Argumentava-se que dar nomes era, de qualquer modo, apenas uma questão de conveniência, e elas poderiam aproveitar a oportunidade para tratar de um assunto que era delicado para a Irmandade.

Odrade parou abruptamente numa passagem movimentada e virou-se para as companheiras.

— O que acham da sugestão de darmos nomes de nossas Irmãs falecidas às ruas e às praças?

— Você está cheia de tolices, hoje — acusou Bellonda.

— Elas não estão mortas — disse Tamalane.

Odrade retomou a inspeção. Ela antecipara essa reação. Os pensamentos de Bell podiam quase ser ouvidos. “Trazemos as Irmãs Falecidas conosco na Outra Memória!”

Odrade não queria nenhuma discussão em público, mas achava que a idéia tinha mérito.

Algumas Irmãs morriam sem Compartilhar. As Linhas de Memória principais eram multiplicadas, mas perdia-se o fio e sua conclusão na carreira. Schwangyu, da Fortaleza de Gammu, tinha ido dessa forma, morta pelo assalto das Honradas Madres. Ficou uma série de lembranças, que lembravam suas boas qualidades... e complexidades. Hesitava-se em dizer que seus erros ensinavam mais que seus sucessos.

Bellonda acelerou o passo para acompanhar Odrade, numa reta relativamente vazia.

— Preciso falar-lhe sobre Idaho. Um Mentat, sim, mas essas múltiplas memórias... Extremamente perigosas!

Estavam passando por um necrotério, e sentiram o cheiro forte de anti-sépticos, mesmo na rua.

A porta em arco estava aberta.

— Quem morreu? — Odrade perguntou, ignorando a ansiedade de Bellonda.

— Uma Instrutora da Seção Quatro e um homem da manutenção de pomares — disse Tamalane. Tam sempre sabia.

Bellonda estava furiosa por ser ignorada, e não fazia nenhuma tentativa para escondê-lo.

— Não fuja do assunto!

— Qual é o assunto? — O tom de Odrade era muito brando. Emergiram no terraço sul e pararam num parapeito de pedra, a fim de olhar as plantações-vinhas e pomares. A luz da manhã tinha um nevoeiro empoeirado, em nada semelhante às névoas criadas pela umidade.

— Você sabe qual é! — Bellonda não se dobrava.

Odrade examinava o panorama, pressionando o corpo contra as pedras. O parapeito estava gelado. Esse nevoeiro lá fora tinha uma cor distinta, pensou. A luz do sol atravessava a poeira com um diferente espectro reflexivo. Havia mais radiância e nitidez na luz, absorvida de um modo que não era habitual. Os nimbos estavam mais cerrados. A poeira e a areia que sopravam insinuavam-se nas frinchas da mesma forma que a água, mas o rangido áspero e rascante traíam sua origem. O mesmo para a persistência de Bell. Nenhuma lubrificação.

— É a luz do deserto — Odrade apontou.

— Pare de me evitar — Bellonda disse.

Odrade preferiu não responder. A luz poeirenta era algo clássico, mas não tranqüilizador como os antigos pintores e suas névoas matinais.

Tamalane aproximou-se de Odrade.

— Belo, a seu próprio modo. — O tom remoto denunciava comparações com a Outra Memória semelhantes às de Odrade.

“Se é dessa forma que se foi condicionado a procurar a beleza.” Mas alguma coisa bem dentro de Odrade dizia-lhe que essa não era a beleza pela qual ansiava.

Na rasa planície abaixo, onde uma vez houvera vegetação, havia agora seca, e uma impressão de que a terra estava sendo esvaziada do modo como os antigos egípcios preparavam seus mortos — secos quanto à matéria essencial, preservados para a Eternidade. “O deserto como o senhor da morte, enfaixando a terra em carbonato de sódio, embalsamando nosso belo planeta com todas as suas jóias escondidas.”

Bellonda permaneceu atrás, resmungando e sacudindo a cabeça, numa recusa a olhar para aquilo em que seu planeta se transformaria.

Odrade quase estremeceu num repentino ímpeto de simulfluxo. A memória inundou-a: viu-se procurando as ruínas de Sietch Tabr, encontrando corpos de piratas de especiaria embalsamados pelo deserto, deixados onde os assassinos os tinham derrubado.

“O que é Sietch Tabr agora? Uma torrente solidificada e sem nenhuma marca de sua orgulhosa história. Honradas Madres: assassinas da História.”

— Se você se recusa a eliminar Idaho, então devo protestar contra o fato de usá-lo como um Mentat.

Bell era uma mulher tão difícil! Odrade notou que ela estava mostrando sua idade mais do que nunca. Usando óculos para ler, mesmo agora. Eles aumentavam seus olhos, dando-lhe a aparência de um peixe de grandes órbitas. O uso de óculos, e não uma prótese mais discreta, revelava algo sobre ela. Ostentava uma vaidade ao contrário, que anunciava: sou maior do que as exigências de meus sentidos enfraquecidos.

Bellonda estava definitivamente irritada com a Madre Superiora.

— Por que está me olhando dessa forma?

Odrade, surpreendida pela consciência súbita de uma fraqueza em seu Conselho, desviou a atenção para Tamalane. A carruagem nunca pára de crescer: orelhas, nariz e queixo tinham aumentado em Tam. Algumas Reverendas Madres corrigiam essas manifestações pelo controle de metabolismo ou através de cirurgia corretiva regular. Mas Tam não se curvaria a essa vaidade. “Sou desse jeito. É pegar ou largar.”

“Minhas conselheiras são velhas demais. E eu... eu deveria ser mais jovem e mais forte para ter esses problemas sobre meus ombros. Oh, maldição. Estou escorregando para a autopiedade!”

Apenas um perigo supremo: ação contra a sobrevivência da Irmandade.

— Duncan é um magnífico Mentat — Odrade falou com toda a força de sua posição. — Mas não utilizo nenhum de vocês além de suas capacidades.

Bellonda permaneceu silenciosa. Conhecia os pontos fracos de um Mentat.

“Mentats!” Odrade pensou. Eram como Arquivos ambulantes, mas quanto mais se precisava de respostas, eles recaíam em perguntas.

— Não preciso de outro Mentat — disse Odrade. — Preciso de um inventor!

Como Bellonda ainda permanecesse silenciosa, Odrade continuou:

— Estou libertando sua mente, não seu corpo.

— Insisto em uma análise, antes que você abra todas as fontes de informações para ele!

Considerando a postura habitual de Bellonda, sua reação foi suave. Mas Odrade não confiava nela. Detestava essas sessões, intermináveis apresentações de relatórios dos Arquivos. Bellonda explicava-os meticulosamente. Bellonda e suas minúcias dos Arquivos e a maçante insistência sobre detalhes irrelevantes! Quem estava interessado na preferência da Reverenda Madre X por leite desnatado em seu mingau?

Odrade voltou-lhe as costas e olhou para o céu do sul. “Poeira! Ainda teríamos que peneirar mais poeira!” Bellonda estaria flanqueada por assistentes. Odrade sentia-se entediada só de pensar.

— Nada de mais análises — Odrade falou mais asperamente do que pretendia.

— Tenho um ponto de vista — a voz de Bellonda soava magoada.

“Ponto de vista? Não somos nada mais que janelas sensíveis em nosso universo, cada uma com apenas um ponto de vista?”

Instintos e lembranças de todos os tipos... até mesmo Arquivos — nenhuma destas coisas falava por si, a não ser por intrusões constrangedoras. Ninguém carregava peso até que fosse formulado numa consciência viva. Mas quem quer que fizesse a formulação pesava na balança. “Toda ordem é arbitrária!” Por que esta informação, ao invés de outra? Qualquer Reverenda Madre sabia que os acontecimentos ocorriam em seu próprio fluxo, seu próprio ambiente relativo. Por que uma Reverenda Madre Mentat não poderia agir a partir desse conhecimento?

— Você recusa conselho? — Era Tamalane. Será que ela está aliada a Bell?

— Quando foi que recusei conselho? — Odrade deixou transparecer sua indignação. — O que estou recusando é outro carrossel dos Arquivos de Bell.

Bellonda interferiu.

— Então, na realidade...

— Bell! Não me fale de realidade! — Ela que se rale por isso! Reverenda Madre e Mentat! “Não há realidade. Somente sua ordem imposta a tudo. Um ditado básico Bene Gesserit.”

Havia vezes (e esta era uma delas) em que Odrade desejaria ter nascido numa era mais primitiva, uma matrona romana na prolongada paz dos aristocratas, ou uma vitoriana mimada. Mas estava presa pelo tempo e pelas circunstâncias.

“Presa para sempre?”

“É preciso encarar essa possibilidade.” A Irmandade poderia ter somente um futuro restrito a esconderijos secretos, sempre temendo a descoberta. O futuro dos caçados. “E aqui, na Central, poderemos não ter permissão para errar mais de uma vez.”

— Chega de inspeção! — Odrade chamou um carro particular e apressou-as de volta para seu gabinete.

“O que faremos se as caçadoras nos encontrarem aqui?”

Cada uma delas tinha seu próprio roteiro, uma pequena encenação repleta de reações planejadas. Mas toda Reverenda Madre era bastante realista para saber que seu pequeno ato poderia causar mais estorvo do que ajuda.

No gabinete, com a luz da manhã incidindo sobre tudo ao redor, Odrade afundou na cadeira e esperou que Tamalane e Bellonda tomassem lugar.

Não haveria mais essas malditas sessões de análise. Ela realmente precisava ter acesso a algo melhor que os Arquivos, melhor que qualquer coisa que já tivessem usado anteriormente. Inspiração. Odrade esfregou as pernas, sentindo os músculos tremerem. Não estava dormindo bem há dias. Esta inspeção tinha tido um efeito frustrador sobre ela.

“Um único erro poderia destruir-nos, e eu acabo de comprometer a Irmandade numa decisão sem volta.”

“Estarei sendo astuciosa demais?”

Suas conselheiras opunham-se a soluções ardilosas. Diziam que a Irmandade deveria mover-se com firme convicção, em terreno previamente conhecido. Tudo o que fizessem teria como contrapeso o desastre, que estaria à sua espera ao menor deslize.

“E eu estou na corda bamba sobre o abismo.”

Teriam ainda a oportunidade de experimentar, de testar possíveis soluções? Todas elas estavam empenhadas no mesmo jogo. Bell e Tam exibiam um fluxo constante de sugestões, mas nada mais efetivo que sua Dispersão atômica.

— Precisamos estar preparadas para matar Idaho ao menor sinal de que seja um Kwisatz Haderach — Bellonda disse.

— Vocês não têm trabalho para fazer? Saiam daqui, as duas.

Quando elas se ergueram, a sala de trabalho assumiu, aos olhos de Odrade, uma expressão de estranheza. O que estaria errado? Bellonda encarou-a com aquele terrível olhar de censura. Tamalane parecia mais sábia do que jamais fora.

“O que há com esta sala?”

O gabinete teria sido reconhecido por suas funções por qualquer dos humanos da era pré-espacial. O que produzia a sensação de estranheza? A mesa de trabalho era uma mesa de trabalho, e as cadeiras estavam colocadas adequadamente. Bell e Tam preferiam cadeiras-cão, que teriam parecido bizarras aos antigos humanos da Outra Memória. Os cristais ridulianos podiam brilhar estranhamente, com a vibração da luz fazendo-os piscar. As mensagens que oscilavam ao redor da mesa talvez causassem surpresa. Seus instrumentos de trabalho poderiam parecer incomuns ao humano de outra era que estivesse compartilhando sua percepção.

“Mas está parecendo estranho a mim.”

— Você está bem, Odrade? — preocupou-se Tam.

Odrade fez sinal para que se fossem, mas nenhuma das duas se moveu.

Estavam acontecendo coisas a sua mente que não poderiam ser atribuídas às longas horas de insuficiente descanso. Não era a primeira vez que sentia estar trabalhando em ambiente estranho. Na noite anterior, quando comia um lanche nessa mesma mesa, cuja superfície estava coberta de tarefas como agora, tinha-se achado sentada, olhando fixamente o trabalho por fazer.

Que Irmãs poderiam ser dispensadas de que cargos, para essa terrível Dispersão? Como elas poderiam aperfeiçoar as possibilidades de sobrevivência das poucas trutas da areia que as Irmãs Dispersas levavam? Qual seria a porção adequada de melange a ser distribuída? Deveriam esperar, antes de enviar mais Irmãs para o desconhecido? Esperar pela possibilidade de que Scytale pudesse ser induzido a lhes dizer como os tanques axlotl produziam a especiaria?

Odrade lembrou-se de que o sentimento de estranheza tinha ocorrido enquanto mastigava um sanduíche. Tinha-o olhado, abrindo-o levemente. “Que coisa é essa que estou comendo?” Fígado de galinha e cebola, no excelente pão da Sede da Irmandade.

Questionar suas próprias rotinas fazia parte dessa sensação incomum.

— Você parece doente — Bell disse.

— Apenas cansada — mentiu Odrade. Elas sabiam que estava mentindo, mas teriam coragem de desafiá-la? — Vocês duas devem estar igualmente cansadas. — Havia afeição em sua voz.

Bell não estava satisfeita.

— Você dá maus exemplos!

— Quem? Eu? — A caçoada não escapou a Bell.

— Sabe muito bem que sim!

— São suas demonstrações de afeto — disse Tamalane.

— Mesmo em relação a Bell.

— Não quero sua maldita afeição! Não é correto.

— Somente quando permito que isso governe minhas decisões, Bell. Somente neste caso.

A voz de Bellonda transformou-se num sussurro rouco.

— Há gente que acha que você é uma romântica perigosa, Dar. Você sabe o que isso poderia acarretar.

— Vincular-me a Irmãs por outros motivos que não a nossa sobrevivência. É isso que quer dizer?

— Às vezes você me dá dor de cabeça, Dar!

— É minha obrigação e meu direito dar-lhes dor de cabeça. Quando a cabeça não dói, nós nos tornamos descuidadas. As afeições a incomodam, mas os ódios não.

— Conheço meu defeito.

“Você não poderia ser uma Reverenda Madre se não o conhecesse.”

A sala voltou a parecer familiar, mas agora Odrade sabia a origem de seus sentimentos de estranheza. Estava pensando neste lugar como parte da história antiga, considerando-o como o faria depois que tivesse desaparecido. Como certamente aconteceria, se seu plano tivesse sucesso. Sabia o que tinha de fazer agora. Era hora de revelar o primeiro passo.

“Cuidado.”

“Sim, Tar, estou tão cautelosa quanto você.”

Tam e Bell podiam estar velhas, mas suas mentes tornavam-se alertas quando a necessidade se impunha.

Odrade fixou o olhar em Bell.

— Padrões, Bell. É nosso padrão não oferecer violência pela violência. — Ergueu a mão para impedir a resposta. — Sim, a violência gera mais violência, e o pêndulo oscila até que os seus agentes sejam destruídos.

— O que está pensando? — Tamalane interpelou.

— Talvez devêssemos pensar em atrair o touro mais agressivamente.

— Não podemos ousar. Não agora.

— Mas ousamos sentar aqui, esperando pacientemente que elas nos encontrem. Lâmpadas e outros de nossos desastres nos mostram o que acontecerá quando elas chegarem. Quando, não se.

Enquanto falava, Odrade sentia o abismo abaixo de si, a caçadora do pesadelo com o machado cada vez mais perto. Ela queria se aprofundar no sonho, voltar lá para identificar aquela que as espreitava, mas não tinha coragem. Esse tinha sido o erro do Kwisatz Haderach.

“Esse futuro não se vê, cria-se.”

Tamalane queria saber por que Odrade tinha levantado a questão.

— Você mudou de idéia, Dar?

— Nosso Teg-ghola tem dez anos de idade.

— Jovem demais para que tentemos restaurar suas memórias — disse Bellonda.

— Por que recriamos Teg, a não ser para um uso violento? — Odrade perguntou. — Oh, sim! — E como Tamalane começasse a objetar: — Teg nem sempre resolveu nossos problemas com violência. O Bashar pacífico afastaria os inimigos com palavras racionais.

Tam falou pensativamente:

— Mas as Honradas Madres podem não negociar jamais.

— A menos que nós as levemos ao extremo.

— Acho que está propondo um movimento rápido demais — disse Bellonda.

Confie em Bell para chegar a uma conclusão final Mentat.

Odrade deu um suspiro profundo e olhou para a mesa de trabalho. Tinha chegado a hora, finalmente. Naquela manhã em que retirou o bebê-ghola daquele tanque obsceno, tinha sentido esse momento esperando por ela. Mesmo na ocasião, soubera que colocaria este ghola em provação antes da hora. Não obstante os laços de sangue.

Esticando a mão, Odrade pressionou uma tecla de chamada embaixo da mesa. Suas duas conselheiras esperavam de pé, em silêncio. Sabiam que estava para dizer algo importante. De uma coisa uma Madre Superiora podia estar certa, suas Irmãs ouviam-na com imenso cuidado, uma intensidade que gratificaria alguém mais egocêntrico que uma Reverenda Madre.

— Política — disse Odrade.

A palavra, por sua carga, prendeu-lhes a atenção imediata. Quando entrava para a política Bene Gesserit, dirigindo os poderes para chegar ao topo, a pessoa tornava-se prisioneira da responsabilidade. Sobrecarregava-se de tarefas e decisões que a vinculavam às vidas daqueles que dependiam dela. Isso era o que realmente ligava a Irmandade a sua Madre Superiora. Aquela única palavra comunicou às conselheiras e vigilantes que a Primeira-entre-Todas tinha chegado a uma decisão.

Ouviram um leve ruído de alguém que se aproximava do lado de fora. Odrade tocou a placa branca no canto direito da mesa. A porta atrás dela abriu-se, revelando a presença de Streggi, que esperava as ordens da Madre Superiora.

— Traga-o — disse Odrade.

— Sim, Madre Superiora. — Sua voz era quase sem emoção. Uma acólita muito promissora, essa Streggi.

Ela saiu e voltou conduzindo Miles Teg pela mão. O cabelo do menino era bem louro, mas estriado de castanho-escuro, o que indicava que se tornaria mais escuro quando ficasse mais velho. Seu rosto era estreito, com o nariz começando a mostrar aquela angularidade de falcão tão característica dos homens Atreides. Seus olhos azuis moviam-se alertas, absorvendo tanto a sala como os ocupantes com curiosidade e expectativa.

— Streggi, espere lá fora, por favor.

Odrade esperou que a porta se fechasse.

O rapaz permaneceu olhando para ela, sem nenhum sinal de impaciência.

— Ghola Miles Teg — disse Odrade, — naturalmente você se lembra de Tamalane e Bellonda.

Ele lançou um olhar para as duas mulheres, mas continuou em silêncio, aparentemente imobilizado pela intensidade de sua inspeção.

Tamalane franziu o cenho. Desde o princípio tinha discordado de chamar essa criança de ghola. Os gholas eram criados a partir de células de um cadáver. Este era um clone, assim como Scytale também o era.

— Vou enviá-lo para a não-nave com Duncan e Murbella — disse Odrade. — Quem melhor do que Duncan para restaurar as memórias originais de Miles?

— Justiça poética — concordou Bellonda. Não apresentou objeções, embora Odrade soubesse que elas viriam assim que o rapaz saísse. “Jovem demais!”

— O que ela quer dizer com justiça poética? — Teg perguntou. Sua voz tinha uma qualidade estridente.

— Quando o Bashar estava em Gammu, restaurou as memórias originais de Duncan.

— É mesmo doloroso?

— Duncan achou que sim.

“Algumas decisões devem ser cruéis.”

Odrade achava que isso era uma grande barreira que a impedia de aceitar o fato de que se podiam tomar decisões próprias. Algo que não precisaria ser explicado a Murbella.

“Como suavizar o golpe?”

Havia ocasiões em que não se podia suavizá-lo; na verdade, era mais humano arrancar as ataduras de uma vez só.

— Esse... esse Duncan Idaho pode realmente devolver minhas lembranças de... antes?

— Não só pode, como o fará.

— Não estaremos sendo precipitadas? — Tamalane perguntou.

— Tenho estudado as estórias sobre o Bashar — disse Teg. — Era um militar famoso e um Mentat.

— E você está orgulhoso disso, não está? — Bell estava descontando suas objeções no garoto.

— Não especialmente. — Ele retribuiu seu olhar sem hesitação. — Penso nele como uma outra pessoa. No entanto, é muito interessante.

— Outra pessoa — resmungou Bellonda. Ela olhou para Odrade com mal disfarçada desaprovação. — Você está lhe dando o ensinamento profundo.

— Como o fez sua mãe.

— Eu me lembrarei dela? — perguntou Teg.

Odrade lançou-lhe um sorriso conspirador, do tipo que tinham compartilhado nas caminhadas pelos pomares.

— Lembrará, sim.

— Tudo?

— Você se lembrará de todas as coisas, sua esposa, seus filhos, as batalhas. Tudo.

— Mande-o sair! — disse Bellonda.

O menino sorriu, mas olhou para Odrade, esperando sua ordem.

— Muito bem, Miles — disse Odrade. — Diga a Streggi que o leve a seus novos alojamentos na não-nave. Eu irei mais tarde, para apresentá-lo a Duncan.

— Posso ir nas costas de Streggi?

— Pergunte a ela.

Impulsivamente, Teg correu para Odrade, ficou na ponta dos pés e beijou-a no rosto.

— Espero que minha mãe verdadeira seja como você.

Odrade deu-lhe um tapinha no ombro.

— Bastante parecida. Agora, corra.

Quando a porta se fechou atrás dele, Tamalane disse:

— Não lhe contou que é uma de suas filhas?

— Ainda não.

— Idaho lhe dirá?

— Se for indicado.

Bellonda não estava interessada em detalhes insignificantes.

— O que está planejando, Dar?

Tamalane respondeu por ela.

— Uma força punitiva comandada pelo Bashar Mentat. É óbvio.

“Ela mordeu a isca!”

— É isso? — Bellonda perguntou.

Odrade olhou ambas com dureza.

— Teg foi o melhor que tivemos. Se alguém puder punir nossas inimigas...

— É melhor começarmos a desenvolver um outro Teg — disse Tamalane.

— Não gosto da influência que Murbella poderá ter sobre ele — acrescentou Bellonda.

— Idaho está disposto a colaborar? — Tamalane perguntou.

— Ele fará o que um Atreides lhe pedir.

Odrade falou com confiança, mas sentiu que as palavras abriam sua mente para outra fonte de sentimentos estranhos.

“Estou nos vendo como Murbella nos vê! Consigo pelo menos pensar como uma Honrada Madre.”

 

Não ensinamos História: recriamos a experiência. Seguimos a corrente de conseqüências — o rastro do animal na floresta. Observe o que está por trás de nossas palavras e verá o grande alcance de comportamento social que nenhum historiador chegou a tocar.

 

— Panoplia Propheticus da Bene Gesserit

 

Scytale assobiava enquanto caminhava pelo corredor em frente a seus aposentos, no exercício da tarde. Ida e volta. Assobiando.

“Deixe que se acostumem a meu assobio.”

Assobiando, compôs uma cantilena para acompanhar o som:

— O esperma dos Tleilaxu não fala. — As palavras giravam em sua mente muitas e muitas vezes. Elas não poderiam usar suas células para cobrir a lacuna genética e aprender seus segredos.

“Terão que vir a mim com presentes.”

Odrade tinha passado para vê-lo um pouco antes “a caminho de meu encontro com Murbella”. Ela mencionava a Honrada Madre prisioneira freqüentemente, quando falava com ele. Havia um propósito nisso, mas ele não tinha idéia do que pudesse ser. Ameaça? Sempre era possível. Viria à tona eventualmente.

— Espero que não esteja com medo — Odrade tinha dito.

Estavam ao lado da máquina de refeições, enquanto ele esperava que seu almoço aparecesse. O cardápio nunca era inteiramente a seu gosto, mas aceitável. Hoje, tinha pedido frutos do mar. Sem nenhuma indicação da forma como seria servido.

— Com medo? De vocês? Ahhh, querida Madre Superiora, eu sou valiosíssimo para vocês enquanto vivo. Por que teria medo?

— Meu conselho ainda não se manifestou a respeito de suas solicitações mais recentes.

“Eu esperava isso.”

— É um erro cercear-me — disse ele. — Limita suas escolhas. Enfraquece-as.

Levara inúmeros dias planejando a composição dessas palavras. Esperou pelo efeito que produziriam.

— Depende de como se deseja empregar a ferramenta, Mestre Scytale. Há ferramentas que se quebram quando usadas inadequadamente.

“Maldita seja, bruxa!”

Ele sorriu, mostrando seus caninos aguçados.

— Testando para a extinção, Madre Superiora?

Ela fez uma de suas raras demonstrações de humor.

— Você realmente espera que eu lhe dê força? O que está querendo agora, Scytale?

“Então, não sou mais Mestre Scytale. Dê-lhe um golpe com a parte lisa da lâmina!”

— Vocês dispersam suas Irmãs, esperando que algumas escapem à destruição. Quais são as conseqüências econômicas de sua reação histérica?

“Conseqüências! Eles sempre falam de conseqüências.”

— Negociamos para ganhar tempo, Scytale. — Muito solene.

Ele refletiu silenciosamente por um momento. Os televigias estavam espionando-os. Nunca se esqueça disso! “Economia, bruxa! Quem e o que vocês compram e vendem?” Este aposento perto da máquina de refeições é um lugar estranho para negociar, pensou ele. Meu gerenciamento da economia. A atividade administrativa, a sessão de planejamento e estratégia deveria ocorrer a portas fechadas, em grandes salas com vistas que não distraíssem os ocupantes dos negócios à sua frente.

As memórias em série de suas muitas vidas não aceitariam isso. “Necessidade. Os humanos conduzem seus negócios comerciais onde podem — nos conveses dos navios, em ruas de mau aspecto, cheias de vendedores apressados, em espaçosos salões de uma bolsa tradicional, com a informação circulando à vista de todos.”

O planejamento e a estratégia poderiam vir dos altos aposentos, mas a evidência deles era como a informação comum da bolsa-visível para todos.

Então, deixe que os televigias presenciem tudo.

— Quais são suas intenções a meu respeito, Madre Superiora?

— Mantê-lo vivo e forte.

“Cuidado! Cuidado!”

— Mas não dar-me carta branca.

— Scytale! Você fala de economia e depois quer algo grátis?

— Mas minha força é importante para vocês?

— Acredite!

— Não confio em vocês.

A máquina escolheu esse momento para fazer surgir seu almoço: peixe branco passado de leve num molho delicado. Sentiu o cheiro de ervas. Água num copo alto, com um fraco aroma de melange. Uma salada verde. “Um de seus melhores esforços.” Sentiu-se salivar.

— Bom apetite, Mestre Scytale. Não há nada que possa fazer-lhe mal. Não é uma prova de confiança?

Como ele não respondesse, ela falou:

— O que tem a confiança a ver com a nossa barganha?

“Que tipo de jogo ela está fazendo agora?”

— Você me disse o que pretendem em relação às Honradas Madres, mas não disse o que pretende fazer comigo. — Sabia que estava dando uma impressão lamentosa, mas achou que era inevitável.

— Pretendo tornar as Honradas Madres conscientes de sua mortalidade.

— Assim como faz comigo!

Seria satisfação, essa expressão em seus olhos?

— Scytale. “Como era suave sua voz.” As pessoas que são assim alertadas realmente prestam atenção. Elas o ouvem. — Lançou um rápido olhar à bandeja. — Deseja alguma coisa especial?

Ele empertigou-se como pôde.

— Uma pequena bebida estimulante. Ajuda-me a pensar.

— Naturalmente. Providenciarei para que seja mandada imediatamente. — Voltou sua atenção da alcova para o aposento principal do alojamento. Ele observava onde ela se detinha, seu olhar mudando de lugar para lugar, de item para item.

“Tudo em seu lugar, bruxa. Não sou um animal numa caverna. As coisas precisam estar dispostas adequadamente, de modo que eu possa encontrá-las sem pensar. Sim, aqueles são tabletes estimulantes, ao lado da cadeira. Assim, eu uso tabletes. Mas evito o álcool, percebeu?”

O estimulante que foi mandado tinha o gosto de uma erva amarga, que ele levou um momento para identificar. Casmina. Um fortificante do sangue geneticamente modificado, originário da farmacopéia de Gammu.

Será que ela pretendia lembrá-lo de Gammu? Essas bruxas eram tão cheias de rodeios!

Ridicularizando-o sobre a questão de economia. Sentia o ferrão da zombaria enquanto fazia a volta no fim do corredor e continuava seu exercício numa rápida caminhada de retorno a seus alojamentos. Qual era a cola que mantinha unido o Antigo Império? Muitas coisas, grandes e pequenas, mas principalmente razões econômicas. Linhas de conexão geralmente consideradas como conveniências. E o que as impedia de se destruírem umas às outras? A Grande Convenção. — Se você fizer explodir qualquer um, nós nos reuniremos para explodir você.

Ele parou do lado de fora de sua porta, despertado por um pensamento. Era isso? Como poderia haver castigo suficiente para deter os ambiciosos powindah? Tinha se tornado uma cola composta de coisas intangíveis? A censura de seus companheiros? E se seus companheiros não evitassem nenhuma obscenidade? Você poderia fazer qualquer coisa. E isso significava alguma coisa a respeito das Honradas Madres. Com toda certeza.

Ansiava por uma sala de sagra, onde pudesse despir sua alma.

“O Yaghist desapareceu. Serei o último Masheikh?”

Seu peito parecia vazio. Respirar representava um esforço. Talvez fosse melhor negociar mais abertamente com as mulheres de Shaitan.

“Não! É o próprio Shaitan que está me tentando!”

Entrou em seus aposentos com uma disposição disciplinar.

“Devo fazê-las pagar. Fazê-las pagar caro. Muito, muitíssimo caro.” Cada vez que dizia a palavra caro dava um passo em direção a sua cadeira. Quando se sentou, pegou automaticamente um tablete estimulante. Logo sentiu sua mente movimentando-se a alta velocidade, pensamentos se acumulando numa ordem maravilhosa.

“Elas não sabem como conheço bem a nave ixiana. Está aqui, na minha cabeça.”

Passou a hora seguinte imaginando como registraria esses momentos, quando chegasse a hora de contar aos companheiros seu triunfo sobre os powindah. “Com a ajuda de Deus!”

Seriam palavras brilhantes, cheias de drama e das tensões de sua provação. A História, afinal, era sempre escrita pelos vencedores.

 

Dizem que a Madre Superiora não pode descuidar-se de nada — um aforismo sem sentido, até que se perceba sua outra significação: sou a serva de todas as minhas Irmãs. Elas observam sua criada com olhos críticos. Não posso perder tempo demais com assuntos de ordem geral ou trivialidades. A Madre Superiora deve dar demonstrações de ação inspirada, do contrário um sentido de inquietação se instala até nos cantos mais longínquos de nossa ordem.

 

— Darwi Odrade

 

Algo do que Odrade chamava de “meu eu servidor” caminhava com ela pelos saguões da Central esta manhã, fazendo da atividade um substituto para sua prática diária de exercícios na sala de educação física. “Um servidor desapontado!” Não gostava do que estava vendo.

“Estamos por demais enredadas em nossas dificuldades, quase incapazes de separar problemas insignificantes dos de maior importância.”

O que tinha acontecido à consciência de todas elas?

Embora algumas o negassem, Odrade sabia que existia uma consciência Bene Gesserit. Mas elas a tinham torcido e reformulado de uma forma quase irreconhecível.

Sentia-se relutante em interferir nisso. Decisões tomadas em nome da sobrevivência, a Missionária (suas intermináveis discussões jesuíticas) — todos divergiam de algo que exigia muito mais do julgamento humano. O Tirano sabia disso.

Ser humano, essa era a questão. Mas antes que se pudesse sê-lo, era preciso senti-lo nas entranhas.

Não havia respostas clínicas! Chegava a ser de uma simplicidade ilusória, cuja natureza complexa se mostrava quando aplicada.

“Como eu.”

A pessoa olhava para seu interior e encontrava quem e o que achava que era. Nada mais poderia servir.

“Então o que sou eu?”

— “Quem faz a pergunta?” — Era uma espetada da Outra Memória.

Odrade riu alto, e uma Instrutora que passava — chamada Praska — olhou-a surpresa. A Madre Superiora acenou para ela e disse:

— É bom estar viva. Lembre-se disso.

Praska deu um débil sorriso e foi cuidar de seus afazeres.

“Então, quem pergunta: o que sou?”

Pergunta perigosa. Fazê-la colocava-a num universo onde nada era inteiramente humano. Nada parecia adequar-se a essa coisa indefinida que procurava. Todos à sua volta, palhaços, animais selvagens e marionetes reagiam ao puxar dos cordões. Ela percebia os cordões que a faziam mover-se.

Continuou pelo corredor na direção do tubo que a levaria a seus aposentos.

“Cordões.” O que se originava com o ovo? “Falamos muito da mente em seu começo. Mas o que eu era, antes que as pressões do viver me dessem forma?”

Não era suficiente procurar algo “natural”. Nada de “O Nobre Selvagem”. Ela já vira muitos em sua existência. Os cordões que os dirigiam eram bem visíveis a uma Bene Gesserit.

Sentia, dentro de si, a compulsão de fazer coisas. Especialmente forte, hoje. Era uma força a que ela às vezes desobedecia ou evitava. Era uma espécie de feitor que lhe dizia: “Fortaleça seus talentos. Não deslize suavemente na corrente. Nade! O que não se usa, se perde.”

Com uma sensação ofegante, próxima ao pânico, compreendeu que mantinha sua humanidade com esforço, e chegara quase a perdê-la.

“Venho tentando seriamente pensar como uma Honrada Madre! Manipular e controlar todos os que eu puder. E tudo em nome da sobrevivência da Bene Gesserit!”

Bell dizia que não havia limites no que a Irmandade pudesse fazer para preservar a Bene Gesserit. Não deixava de haver uma certa verdade nisso, mas era basicamente uma ostentação. Existiam coisas que realmente uma Reverenda Madre não faria para salvar a Irmandade.

“Nós não poríamos obstáculos ao Caminho Dourado do Tirano.”

A sobrevivência do gênero humano tinha precedência sobre a Irmandade. “Do contrário nosso ideal de maturidade humana não teria sentido.”

Mas, oh, os perigos da liderança numa espécie tão ansiosa para que lhe digam o que fazer.

Como sabiam pouco das coisas que criavam com suas exigências. Os líderes cometem erros. E estes, ampliados pelo número dos que os seguem sem questionamento, levavam inevitavelmente a grandes desastres.

“Comportamento típico dos lemingues.”[1]

Era correto que as Irmãs a observassem com cuidado. Todos os governos precisavam ficar sob suspeita durante seu período de poder, inclusive o da própria Irmandade. “Não confiem em nenhum governo! Nem mesmo no meu!”

Estão me vigiando agora mesmo. Escapa muito pouco às minhas Irmãs. Saberão meu plano a tempo.

Era necessário fazer uma constante purificação mental para defrontar-se com seu grande poder sobre a Irmandade. “Não procurei esse poder. Foi lançado sobre mim.” E pensou: “O poder atrai os passíveis de corrupção. Deve-se suspeitar de todos os que o procuram.” Sabia que havia muita probabilidade de que tais pessoas fossem suscetíveis à corrupção, ou já estivessem inteiramente perdidas.

Fez uma nota mental para escrever e transmitir um memorando Código aos Arquivos. (Que Bell se impaciente com isso!) — Devemos conferir poder sobre nossos assuntos apenas àqueles que estiverem relutantes em aceitá-lo, e então somente sob condições que aumentem essa relutância.

“Descrição perfeita da Bene Gesserit!”

— Você está bem, Dar? — Era a voz de Bellonda da porta do tubo, ao lado de Odrade. — Você parece... estranha.

— Estava só pensando em algo que tenho de fazer. Você está saindo?

Bellonda encarou-a, quando trocaram os lugares. Odrade entrou no campo de transporte do tubo e foi levada velozmente para longe desse olhar indagador.

Chegando ao gabinete, viu sua mesa repleta de tarefas que suas assistentes achavam que só ela poderia resolver.

“Política”, lembrou, enquanto sentava-se e se preparava para assumir as responsabilidades. Tam e Bell tinham ouvido claramente no outro dia, mas suspeitavam apenas vagamente do que teriam de suportar. Estavam preocupadas e cada vez mais vigilantes. “Como deveriam.”

Quase qualquer assunto tinha elementos políticos, pensou. À medida que se estimulavam as emoções, as forças políticas apareciam de modo crescente em primeiro plano. Isso denunciava a mentira que havia na antiga tolice a respeito de “separação entre a Igreja e o Estado”. Nada mais suscetível ao fogo emocional do que a religião.

“Não admira que desconfiemos das emoções.”

Não todas as emoções, naturalmente. Somente aquelas às quais não se pudesse escapar em momentos de necessidade: amor, ódio. Um pouco de raiva, às vezes, mas sob rédea curta. Essa era a crença da Irmandade. Completa tolice!

O Caminho Dourado do Tirano tornou esse erro não mais tolerável. Deixou a Bene Gesserit numa perpétua estagnação. Não se podia servir até o Infinito!

A repetida pergunta de Bellonda não tinha resposta. — O que ele realmente queria que fizéssemos? — “Em que ações ele estava nos manipulando? (Como manipulamos os outros!)”

“Por que procurar significado onde não há nenhum?”

Caminho Dourado! Uma trilha deixada na imaginação. “O Infinito não está em lugar nenhum!” E a mente finita deve ser recusada. Aí era onde os Mentats encontravam projeções mutáveis, sempre produzindo mais perguntas que respostas. Era o ideal vazio daqueles que, com o nariz próximo ao círculo interminável, procuravam “uma única resposta para todas as coisas”.

“Procurando sua própria espécie de deus.”

Achava difícil censurá-los. A mente recuava ao defrontar-se com o infinito. O Vazio! Os alquimistas de todas as eras pareciam catadores de trapos curvados sobre as trouxas, dizendo: — Deve haver ordem em algum lugar aqui. Se eu insistir, tenho certeza de que vou encontrá-la.

E o tempo todo, a única ordem era aquela que eles mesmos criavam.

“Ahh, Tirano, seu brincalhão! Você viu isso. Você disse: — Criarei uma ordem para que a sigam. Aqui está o caminho, vêem? Não, não olhem! Esse é o caminho do Rei Nu (uma nudez visível apenas às crianças e aos loucos). Mantenham a atenção onde eu indicar. Este é meu Caminho Dourado. Não é um lindo nome? É tudo o que há e tudo o que poderá haver.”

“Tirano, você foi outro palhaço. Mostrando-nos um interminável reciclar de células a partir daquela bola de lama solitária e perdida em nosso passado comum.”

“Você sabia que o universo humano nunca poderia ser mais que comunidades e um fraco elemento de ligação entre nós quando fôssemos para a Dispersão. Uma tradição de nascimento comum tão longínqua no passado que as imagens que dela têm os descendentes estão, em sua maioria, distorcidas. As Reverendas Madres possuem o original, mas não podemos impô-lo à força àqueles que não o desejam. Vê, Tirano? Nós ouvimos você: — Deixem que peçam! Só então...”

“E foi por isso que você nos preservou, seu Atreides bastardo! É por isso que tenho de trabalhar.”

Apesar do perigo que isso representava para seu senso de humanidade, sabia que continuaria a insinuar-se nos métodos das Honradas Madres. “Preciso pensar como elas.”

O problema das caçadoras: compartilhado tanto pelo predador como pela presa. Não exatamente a agulha no palheiro. Mais uma questão de rastrear através de um terreno tomado de coisas familiares e desconhecidas. Os logros da Bene Gesserit asseguravam que as familiares causariam pelo menos tanta dificuldade como as desconhecidas, às Honradas Madres.

“Mas o que elas fizeram por nós?”

A comunicação interplanetária funcionava em favor dos que eram perseguidos. Era limitada pela economia durante milênios. Existente quase que só entre Pessoas Importantes e Negociantes. Importante significava o que sempre significara: ricos, poderosos, banqueiros, funcionários, mensageiros. Militares.

“Importante” rotulava muitas categorias — negociantes, artistas do palco, pessoal médico, técnicos especializados, espiões e outros especialistas. Não era muito diferente dos dias dos Mestres Mason da velha Terra. Principalmente uma diferença em números, qualidade e sofisticação. Os limites eram transparentes para alguns, como sempre foram.

Achou importante fazer revisões ocasionais, à procura de falhas.

A grande massa da humanidade vinculada ao planeta falava do “silêncio do espaço”, para dizer que não podiam arcar com o custo desse tipo de viagem ou comunicação. A maioria das pessoas sabia que as notícias recebidas através dessa maneira eram manipuladas por interesses especiais. Sempre tinha sido assim.

Na superfície de um planeta, o terreno e a fuga à radiação denunciada ditavam os sistemas de comunicação usados: tubos, mensageiros, linhas de luz, neurocursores e muitas trocas. O sigilo e a codificação eram importantes nos próprios planetas e não somente entre eles.

Odrade via isso como um sistema que as Honradas Madres poderiam interceptar se encontrassem um ponto de entrada. As caçadoras teriam de começar decifrando o sistema; mas, então, onde se originava a trilha que conduzia à Sede da Irmandade?

Não-naves impossíveis de serem rastreadas, máquinas ixianas, Navegadores da Corporação — todos contribuíam para o manto de silêncio entre os planetas, a não ser por uns poucos privilegiados. Que as caçadoras não tenham ponto de partida!

Foi uma surpresa quando uma idosa Reverenda Madre, de um planeta usado como castigo pela Bene Gesserit, surgiu no gabinete da Madre Superiora pouco antes da hora do almoço. Os Arquivos a identificaram: “Nome: Dortujla. Enviada anos atrás a uma punição especial por infração imperdoável.” A Memória dizia que tinha sido algum tipo de caso amoroso. Odrade não procurou saber de detalhes, mas alguns foram mencionados, de qualquer forma. (Bellonda interferindo novamente!) Tinha havido manifestações emocionais de revolta na época em que Dortujla fora banida. Tentativas infrutíferas por parte do amante para impedir a separação.

Odrade lembrou-se de comentários sobre a desgraça. — O crime de Jessica! Uma grande parte da informação valiosa era recebida através de mexericos. Em que diabo de lugar ela tinha sido colocada? Deixe! Isso não era importante no momento. As perguntas essenciais agora eram: “Por que ela está aqui? Por que arriscaria uma viagem que podia conduzir as caçadoras até nós?”

Perguntou a Streggi, quando esta anunciou sua chegada. Ela não sabia:

— Diz que só revelará seus motivos à senhora, Madre Superiora.

— Somente a mim? — Odrade quase riu, considerando o constante controle (supervisão era um termo mais adequado) sobre cada ação sua. — Essa Dortujla não disse por que está aqui?

— As pessoas que me mandaram interrompê-la, Madre Superiora, disseram que a senhora devia vê-la.

Odrade apertou os lábios. O fato de que a Reverenda Madre banida tivesse penetrado até esse ponto atiçou sua curiosidade. Com persistência, ela poderia cruzar barreiras comuns, mas estas não eram assim. A razão de sua vinda já tinha sido revelada. Outros a ouviram e passaram-na adiante. Era evidente que Dortujla não tinha usado de artifícios Bene Gesserit para persuadir suas Irmãs. Isso só lhe traria rejeição imediata. Não havia tempo para esse tipo de tolices! Então ela tinha observado a corrente de comando. Sua ação revelava uma estimativa cuidadosa, uma mensagem dentro da mensagem que trazia, fosse ela qual fosse.

— Traga-a.

Dortujla tinha envelhecido suavemente em seu longínquo planeta. Revelava sua idade principalmente em rugas não muito profundas ao redor da boca. Seu capuz escondia o cabelo, mas os olhos emergiam brilhantes e alertas.

— Por que está aqui? — O tom de Odrade sugeria que só seria aceitável algo extremamente importante.

A estória de Dortujla era bastante objetiva. Ela e três outras Reverendas Madres tinham falado com um grupo de Futares da Dispersão. Estes tinham investigado o cargo de Dortujla e pediram-lhe que levasse uma mensagem à Sede da Irmandade. Ela havia filtrado o pedido através da Revelação da Verdade, lembrando à Madre Superiora que, mesmo no exílio, podia existir algum talento. Julgando a mensagem verdadeira, e tendo suas Irmãs concordado, Dortujla agira com rapidez não destituída de cautela.

— Partida imediata em nossa própria não-nave — foi sua maneira de dizê-lo. A nave era pequena, semelhante à de um contrabandista. — Basta uma pessoa para operá-la.

A essência da mensagem era fascinante. Os Futares desejavam aliar-se às Reverendas Madres, em oposição às Honradas Madres. O tamanho da força que comandavam era difícil de avaliar, segundo Dortujla.

— Recusaram-se a dizer, quando perguntei.

Odrade tinha conhecimento de muitas estórias sobre Futares. Assassinos das Honradas Madres? Havia motivos para se acreditar nisso, mas as ações dos Futares eram confusas, especialmente nos relatos de Gammu.

— Quantos no grupo?

— Dezesseis Futares e quatro Treinadores. É assim que eles se chamavam: Treinadores. E dizem que as Honradas Madres têm uma arma perigosa, que só pode ser usada uma vez.

— Você apenas mencionou os Futares. Quem são esses Treinadores? E o que é isso a respeito de uma arma secreta?

— Deixei de mencioná-los. Parecem ser humanos, dentro de variáveis observadas na Dispersão: três homens e uma mulher. Quanto à arma, não quiseram acrescentar nada.

— Parecem humanos?

— Isso mesmo, Madre Superiora. De início, tive a estranha impressão de que eram Dançarinos Faciais. Mas nenhum dos critérios se aplicou. Feromônios negativos. Gestos, expressões — tudo negativo.

— Apenas a primeira impressão?

— Não posso explicá-la.

— E quanto aos Futares?

— Correspondem às descrições. Humanos na aparência exterior, mas com uma indiscutível ferocidade. Origem felina, eu diria.

— Assim me disseram.

— Eles falam, mas usam um Galach abreviado. Jatos de palavras, me pareceram. “Quando comer?”, “Você boa moça”, “Coçar cabeça”, “Sentar aqui?”. Parecem reagir imediatamente às ordens dos Treinadores, mas não têm medo deles. Tive a impressão de que há respeito e afeto mútuos entre Futares e Treinadores.

— Considerando os riscos, por que achou estas informações bastante importantes para trazê-las aqui?

— São pessoas da Dispersão. Seu oferecimento de aliança é uma abertura para os locais onde se originaram as Honradas Madres.

— Você deve ter-lhes perguntado sobre elas, naturalmente. E sobre as condições na Dispersão.

— Não houve respostas.

O fato, simplesmente relatado. Não se podia olhar com desdém essa Irmã banida, não importa que nuvens ela carregasse sobre o seu passado. Havia mais perguntas a fazer. Odrade observou as respostas atentamente, detendo-se na velha boca semelhante a uma fruta seca, abrindo-se e fechando-se rosada.

Alguma coisa nos anos de serviço de Dortujla, em seus longos anos de penitência, talvez a tivesse suavizado, mas deixaram o núcleo de dureza Bene Gesserit intocado. Ela falou com hesitação natural. Seus gestos eram gentilmente fluidos. Olhava para Odrade com bondade. (Aí estava a falha que suas irmãs condenavam: o cinismo Bene Gesserit posto em cheque.)

Dortujla interessava a Odrade. Era alguém que falava de Irmã para Irmã, com uma mente forte e bem constituída por trás das palavras. Uma mente temperada pela adversidade durante o tempo de seu cargo punitivo. Fazendo o que podia para compensar aquele deslize da juventude. Não fazia nenhuma tentativa de contemporizar ou de mostrar-se a par dos assuntos correntes. Um relato restrito ao essencial, deixando ver que tinha, tanto quanto possível, uma consciência das necessidades. Obediente às decisões da Madre Superiora e cautelosa em relação à perigosa visita, mas ainda assim achando que “vocês devem ter essa informação”.

— Estou convencida de que não se trata de uma armadilha.

Sua conduta estava acima de reprovação. Olhar direto, com o rosto e olhos serenos, sem nenhum intuito de ocultar nada. Uma Irmã poderia ler sua máscara para uma avaliação adequada. Ela agia com um sentido de urgência. Tinha sido tola um dia, mas não era mais.

Qual era o nome de seu planeta-castigo?

O projetor em sua mesa o forneceu: Buzzell.

Esse nome trouxe um sentimento de alerta a Odrade. Buzzell! Seus dedos oscilaram na mesa de comando, confirmando lembranças. Buzzell: principalmente oceano. Frio. Muito frio. Ilhas estéreis, do tamanho de uma não-nave. As Bene Gesserit consideraram Buzzell, um dia, um lugar de castigo. Lição objetiva: — Cuidado, menina, ou nós a mandaremos para Buzzell. — Odrade lembrou-se de outra característica, então: pedrassuaves. Buzzell era um local onde tinham naturalizado um monopedra do mar, Cholister, cuja carapaça, quando friccionada, produzia tumores maravilhosos, uma das mais valiosas jóias do universo.

Pedras suaves.

Dortujla estava usando uma delas, apenas visível junto à gola. À luz do gabinete, tomava o aspecto de uma mistura de verde-mar profundamente brilhante e malva. Era maior que uma órbita humana, exibindo-se como uma declaração de riqueza. Em Buzzell, provavelmente, dava-se pouco valor a essas pedras. Era fácil apanhá-las nas praias.

Pedras suaves. Isso era significativo. Pelo projeto Bene Gesserit, Dortujla tinha negociações freqüentes com contrabandistas. (Veja-se sua posse daquela não-nave.) Isto devia ser abordado com cuidado. Independente da discussão de Irmã para Irmã, tratava-se ainda da Madre Superiora e de uma Reverenda Madre em punição.

Contrabando. Um crime grave para as Honradas Madres e outros que não tinham se defrontado com a realidade das leis inexeqüíveis. As Dobras do Espaço não mudaram nada em relação ao contrabando; tornaram, quando muito, mais fáceis as intrusões. Minúsculas não-naves. Até que ponto era possível construí-las em tamanho reduzido? Uma lacuna no conhecimento de Odrade, imediatamente corrigida pelos Arquivos: — 140m de diâmetro.

Portanto, pequenas o bastante, pedras suaves eram uma carga que apresentava atração natural. As Dobras do Espaço constituíam uma barreira decisiva: qual o valor de um carregamento em relação ao tamanho e à massa? Podiam-se gastar muitos Solares para transportar material pesado. Pedras suaves — magnéticas para os contrabandistas. Tinham interesse especial para as Honradas Madres, também. Simples economia? Sempre um grande mercado. Tão atraente para os contrabandistas como a melange, agora que a Corporação mostrava-se liberal em relação a ela. A Corporação sempre estocara grandes produções de especiaria em depósitos dispersos e (sem dúvida) inúmeros esconderijos.

“Eles pensam que podem comprar imunidade das Honradas Madres!” Mas isso oferecia algo que poderia ser transformado em vantagem, Odrade sentia.

Em sua fúria selvagem, as Honradas Madres tinham destruído Duna, a única fonte natural conhecida de melange. Ainda sem pensar nas conseqüências (estranho, isso), elas eliminaram os Tleilaxu, cujos tanques axlotl tinham inundado o Antigo Império com a especiaria.

“E temos criaturas capazes de recriar Duna. Também temos, possivelmente, o único Mestre Tleilaxu vivo. Trancado na mente de Scytale está o meio de transformar os tanques axlotl em uma cornucópia de melange. Se conseguirmos que ele nos revele como.”

O problema imediato era Dortujla. A mulher comunicou suas idéias com uma consciência que lhe dava crédito. Tanto os Treinadores como os Futares, disse ela, estavam perturbados por algo que não queriam revelar. Dortujla tinha agido bem, não tentando usar com eles os métodos de persuasão Bene Gesserit. Não havia indicação de como o pessoal da Dispersão poderia reagir. Mas o que os perturbava?

— Alguma outra ameaça não representada pela Honradas Madres — sugeriu a exilada. Ela não arriscava outras conclusões, mas a possibilidade estava presente e devia ser considerada.

— O essencial é que eles querem propor uma aliança — disse Odrade. — Uma causa comum para um problema comum, era como se podia dizer. Apesar do Senso da Verdade, Dortujla aconselhava somente uma cautelosa exploração da oferta.

Por que ir a Buzzell, afinal? Seria porque as Honradas Madres o tinham poupado ou julgaram-no insignificante em seu furioso arrastão?

— Pouco provável — Dortujla disse.

Odrade concordava. Dortujla, não importa quão comprometida sua posição original, comandava agora uma propriedade valiosa e, muito mais importante, era uma Reverenda Madre com uma não-nave que podia levá-la à Madre Superiora. Conhecia a localização da Sede da Irmandade.

Naturalmente um conhecimento inútil para as caçadoras. Elas sabiam que uma Reverenda Madre preferia matar-se a trair esse segredo.

Problemas compreendiam mais problemas. Mas antes, um pouco de confraternização. Dortujla tinha interpretado com exatidão os motivos da Madre Superiora. Odrade mudou o rumo da conversa para assuntos pessoais.

Foi uma boa idéia. Dortujla estava claramente divertida, mas disposta a falar.

As Reverendas Madres em postos isolados tendiam a ter o que as Irmãs chamavam de “outros interesses”. Em eras anteriores eram denominados passatempos, mas a atenção que se devotava a esses interesses era em geral muito grande. Odrade achava a maioria dos interesses desse tipo tediosos, mas achou significativo que Dortujla chamasse os seus de passatempo. “Ela colecionava moedas, então?”

— De que tipo?

— Tenho duas gregas primitivas, em prata, e um perfeito óbolo de ouro.

— Autênticos?

— São verdadeiros. — Isso significava que tinha feito uma exploração pessoal na Outra Memória para autenticá-los. Fascinante. Exercia suas capacidades de um modo fortalecedor, mesmo com seu passatempo. A história interior e a exterior coincidiam.

— Tudo isso é muito interessante, Madre Superiora — disse Dortujla finalmente. — Aprecio a confirmação de que ainda somos Irmãs, e acho seu interesse em pinturas antigas um passatempo paralelo ao meu. Mas ambas sabemos dos motivos pelos quais arrisquei-me a vir até aqui.

— Os contrabandistas.

— Naturalmente. As Honradas Madres não podem ter deixado de constatar minha presença em Buzzell. Os contrabandistas não resistem a propostas vantajosas. Devemos partir do princípio de que eles tiraram proveito de seu conhecimento a respeito de Buzzell, das pedras suaves e de uma Reverenda Madre residente, com servidores. E não podemos nos esquecer de que os Treinadores me encontraram.

“Maldição”, Odrade pensou. “Dortujla é a espécie de conselheira que gostaria de ter perto de mim. Eu me pergunto quantos outros tesouros semelhantes estão lá fora, escondidos, por motivos mesquinhos? Por que tantas vezes pomos de lado nossos próprios talentos? Essa é uma fraqueza antiga, que a Irmandade ainda não exorcizou.”

— Acho que aprendemos algo valioso sobre as Honradas Madres — disse Dortujla.

Não havia necessidade de acenar em concordância. Esse era o ponto essencial do que tinha trazido Dortujla à Sede. As vorazes caçadoras vinham enxameando para o Antigo Império, matando e queimando onde quer que suspeitassem a presença das Bene Gesserit. Mas não tinham tocado Buzzell, embora devessem conhecer sua localização.

— Por quê? — Odrade perguntou, dando voz ao que tinham na mente. — Nunca destrua o próprio ninho.

— Acha que elas já estão em Buzzell?

— Ainda não.

— Mas acredita que Buzzell é um lugar que elas querem.

— Projeção primária.

Odrade simplesmente fitou-a. Então ela cultivava um outro passatempo! Vasculhava a Outra Memória, revivia e aperfeiçoava talentos aí depositados. Quem poderia culpá-la? O tempo devia arrastar-se em Buzzell.

— Uma conclusão Mentat — acusou Odrade.

— Sim, Madre Superiora. — Seu tom era muito brando. As Reverendas Madres podiam investigar a Outra Memória somente com a permissão da Sede, e unicamente se contassem com a orientação e o apoio de companheiras Irmãs. Então Dortujla permanecia uma rebelde. Seguia seus próprios desejos, do mesmo modo que agira com seu amante proibido. Bom! A Bene Gesserit precisava dessas rebeldes.

— Elas querem Buzzell intacto — disse Dortujla.

— Um mundo aquático?

— Daria um habitat adequado para servos anfíbios. Não os Futares ou Treinadores. Estudei-os com atenção.

A evidência sugeria um plano das Honradas Madres para introduzir o trabalho escravo, talvez com anfíbios, para coletar pedras suaves. As Honradas Madres podiam ter escravos anfíbios. O conhecimento que produziu os Futares poderia criar muitas formas de vida consciente.

— Escravos, um perigoso desequilíbrio — Odrade disse.

Dortujla demonstrou, pela primeira vez, uma emoção mais forte, uma reação profunda que transformou-lhe a boca numa linha apertada.

Era um padrão há muito reconhecido pela Bene Gesserit: o fracasso inevitável da escravidão e da peonagem. Criava-se um reservatório de ódio. Inimigos implacáveis. Não se tinha esperança de exterminar todos esses inimigos, nem se ousava tentar. Tempere seus esforços com a percepção certa de que a opressão tornará seus inimigos mais fortes. Os oprimidos terão sua vez, e que Deus ajude o opressor, quando esse dia chegar. Era uma faca de dois gumes. O oprimido sempre aprendia com o opressor e o copiava. Quando os papéis se invertiam, o palco estava armado para outra rodada de vingança e violência. E os lugares eram trocados repetidamente, até a náusea.

— Será que elas não vão amadurecer jamais? — Odrade perguntou.

Dortujla não possuía a resposta, mas tinha uma sugestão imediata:

— Preciso retornar a Buzzell.

Odrade considerou a observação. Uma vez mais, a exilada Reverenda Madre estava mais adiantada do que a Madre Superiora. Por muito desagradável que fosse essa decisão, ambas sabiam que era a atitude. Os Futares e os Treinadores retornariam. Mais importante, com um planeta que as Honradas Madres desejavam, havia uma grande probabilidade de que os visitantes da Dispersão tivessem sido observados. As Honradas Madres seriam obrigadas a manifestar-se, e essa manifestação poderia revelar muito a seu respeito.

— Naturalmente, elas acham que Buzzell é a isca de uma armadilha — disse Odrade.

— Eu poderia fazer saber que fui banida por minhas Irmãs — disse Dortujla. — Pode ser verificado.

— Usar a si mesma como isca?

— Madre Superiora, que tal se elas fossem tentadas a participar de uma conferência?

— Conosco? — “Que idéia espantosa!”

— Sei que a história delas não conta com negociações razoáveis, mas mesmo assim...

— É brilhante! Mas vamos tornar a idéia mais sedutora. Digamos que eu esteja convencida de que preciso levar-lhes uma proposta de sujeição da Bene Gesserit.

— Madre Superiora!

— Não tenho intenção alguma de me entregar. Mas que outra forma melhor de fazê-las falar?

— Buzzell não é um bom lugar para um encontro. Nossas instalações são muito precárias.

— Elas estão com a força no Entroncamento. Se sugerissem esse local para o encontro, você poderia deixar-se persuadir?

— Isso requer um planejamento cuidadoso, Madre Superiora.

— Oh, muito cuidadoso. — Os dedos de Odrade adejaram sobre as teclas da mesa. — Sim, hoje à noite — disse, respondendo a uma pergunta visível, e então dirigiu-se a Dortujla por sobre a mesa atulhada: — Quero que se aviste com meu Conselho e outras pessoas antes de retornar. Nós a instruiremos em detalhe, mas dou-lhe minha garantia pessoal de que terá liberdade de ação. O importante é conseguir que elas concordem com um encontro no Entroncamento... e espero que saiba o quanto me desagrada usá-la como isca.

Como Dortujla permanecesse mergulhada em seus pensamentos e não respondesse, Odrade disse:

— Elas podem ignorar nossas propostas iniciais e eliminá-la. Entretanto, você é a única isca de que dispomos.

Dortujla mostrou que ainda tinha senso de humor.

— Não gosto muito da idéia de balançar num anzol, Madre Superiora. Por favor, segure firme essa linha. — Levantou-se e, com um olhar preocupado para a mesa de Odrade, disse: — A senhora tem tanto a fazer, e temo ter ocupado seu tempo além da hora do almoço.

— Almoçaremos juntas, aqui, Irmã. No momento, você é muito mais importante do que qualquer outra coisa.

 

Todos os estados são abstrações.

 

— Octun Politicus Arquivos Bene Gesserit

 

Lucilla procurou ter cuidado em não aceitar um sentimento demasiado familiar a respeito desta sala de cor verde-ácido e da constante presença da Grande Honrada Madre. Este era o Entroncamento, fortaleza daquelas que procuravam o extermínio da Bene Gesserit. Era o inimigo. Dia dezessete.

O relógio mental infalível que se tinha instalado em sua mente durante a Agonia da Especiaria dizia-lhe que já estava adaptada aos ritmos circadianos do planeta. Despertar pela madrugada.

Nenhuma indicação de quando seria alimentada. A Honrada Madre a tinha confinado a uma única refeição por dia.

E sempre aquele Futar na jaula. Um lembrete: “Vocês ambos em jaulas. É assim que tratamos os animais perigosos. Podemos deixá-los sair, ocasionalmente, para esticar as pernas e nos dar prazer, mas depois disso, para a jaula de novo.”

Quantidades mínimas de melange na comida. Não por parcimônia com sua riqueza. Uma pequena demonstração “do que poderia ser seu, se você fosse ao menos razoável”.

“A que horas ela virá hoje?”

As aparições da Grande Honrada Madre não tinham horário preestabelecido. Aparições ao acaso para confundir a prisioneira? Provavelmente. Deveria haver outras exigências para o emprego do tempo de uma comandante. Encaixe o animalzinho perigoso no seu horário, onde for possível.

“Posso ser perigosa, senhora Aranha, mas não sou seu animalzinho.”

Lucilla sentiu a presença de dispositivos exploradores, coisas que eram mais do que um estímulo para os olhos. Eles examinavam dentro da carne, procurando armas escondidas, examinando o funcionamento dos órgãos. “Será que ela tem implantes estranhos? E quanto a órgãos adicionais, cirurgicamente acrescentados ao corpo?”

“Nada disso, senhora Aranha. Confiamos nas coisas que vêm com o nascimento.”

Lucilla conhecia o maior perigo imediato para si — que ela se sentisse inadequada ao ambiente. Suas captoras a mantinham em terrível desvantagem, mas não tinham destruído suas capacidades Bene Gesserit. Podia optar pela morte antes que o shere em seu corpo estivesse esgotado ao ponto de levá-la à traição. Ela ainda tinha sua mente... e a tribo de Lâmpadas.

O painel do Futar abriu-se, e sua jaula deslizou para fora. Então a Rainha Aranha estava a caminho. Exibindo ameaças adiante de si, como de costume. “Vinha cedo, hoje. Mais cedo do que nunca.”

— Bom dia, Futar — Lucilla falou com uma cadência alegre e melodiosa. O Futar olhou-a, mas não disse nada.

— Você deve odiar essa jaula — Lucilla disse.

— Não gostar jaula.

Ela já tinha percebido que essas criaturas possuíam certo grau de facilidade lingüística, mas seu alcance ainda a iludia.

— Imagino que ela o mantém faminto, também. Gostaria de me comer?

— Comer — Clara demonstração de interesse.

— Desejaria ser sua Treinadora.

— Você Treinadora?

— Você me obedeceria se eu fosse uma?

A pesada cadeira da Rainha Aranha ergueu-se do esconderijo no chão. Nem sinal dela, mas era de se supor que tivesse ouvido a conversa. O Futar olhou para Lucilla com uma peculiar intensidade.

— Os Treinadores mantêm vocês na jaula e com fome?

— Treinador? — Evidente inflexão de pergunta.

— Quero que você mate a Grande Honrada Madre. — Isso não seria surpresa para elas.

— Matar Dama!

— E comê-la.

— Dama veneno. — Desanimado. “Ooooh. Não é uma informação interessante?”

— Ela não é venenosa. Sua carne é igual à minha.

O Futar aproximou-se, dentro dos limites da jaula. Com a mão esquerda, baixou o lábio inferior. Havia a forte vermelhidão de uma cicatriz, com aparência de queimadura.

— Ver veneno — ele disse, deixando cair a mão.

“Imagino como ela teria feito isso?” Não havia cheiro de veneno na Honrada Madre. Carne humana e uma droga com base de adrenalina para produzir os olhos laranja em resposta à irritação... e àquelas outras respostas reveladas por Murbella. Uma sensação de absoluta superioridade.

Até onde ia a compreensão de um Futar?

— Era veneno amargo?

O Futar fez uma careta e cuspiu.

“Ação mais rápida e mais poderosa que palavras.”

— Você odeia Dama?

Ele exibiu os caninos.

— Tem medo dela?

Sorriso.

— Então por que não a mata?

— Você não Treinadora.

“É necessário o comando de um Treinador!”

A Grande Honrada Madre entrou e afundou-se numa cadeira.

Lucilla colocou a voz na cadência melodiosa:

— Bom-dia, Dama.

— Não lhe dei permissão para me chamar assim. — Voz baixa, com um início de pintas de laranja nos olhos.

— O Futar e eu estávamos tendo uma conversa.

— Sei. — Mais laranja nos olhos. — E se você o estragou para mim...

— Mas, Dama...

— Não me chame assim! — Fora da cadeira, com os olhos em chamas laranja.

— Por favor, sente-se — disse Lucilla. — Isso não é maneira de conduzir um interrogatório. — Sarcasmo, uma arma perigosa. — Disse ontem que desejava continuar nossa discussão sobre política.

— Como sabe que horas são? — Sentando-se de novo, mas com os olhos ainda flamejando.

— Todas as Bene Gesserit têm essa capacidade. Podemos sentir os ritmos de qualquer planeta depois de algum tempo no local.

— Um talento estranho.

— Qualquer um pode fazer isso. Uma questão de estar sensibilizado.

— Eu poderia aprendê-lo? — O laranja estava perdendo a força.

— Eu disse qualquer um. Você ainda é humana, não é? — “Uma pergunta ainda não inteiramente respondida.”

— Por que diz que vocês, bruxas, não têm governo?

“Quer mudar de assunto. Nossas capacidades a preocupam.”

— Não foi isso que eu disse. Não temos governo convencional.

— Nem mesmo um código social?

— Não existe essa coisa chamada código social para atender a todas as necessidades. Um crime numa sociedade pode ser uma exigência moral em outra.

— As pessoas sempre têm governo. — O laranja completamente apagado. “Por que isso a interessa tanto?”

— As pessoas têm política. Eu lhe disse ontem. Política: a arte de parecer sincero e completamente aberto ao mesmo tempo em que se oculta tanto quanto possível.

— Então vocês, bruxas, ocultam coisas.

— Não disse isso. Quando se diz “política”, isso é uma advertência para nossas Irmãs.

— Não acredito em você. Os humanos sempre criam alguma forma de...

— Acordo?

— Uma palavra tão boa quanto qualquer outra! — “Isso a irrita.” Como Lucilla não acrescentasse nenhuma outra resposta, a Grande Honrada Madre inclinou-se para a frente. — Você está escondendo coisas!

— Não é meu direito ocultar-lhe o que poderia ajudá-las a nos derrotar? — “Essa é uma boa isca!”

— Acho que sim! — Recostando-se com um olhar de satisfação.

— Entretanto, por que não divulgá-lo? Vocês pensam que os nichos de autoridade estarão sempre lá para serem preenchidos, e não sabem o que isso revela sobre minha Irmandade.

— Oh, conte-me, por favor. — “Sarcasmo pesado.”

— Vocês acreditam que tudo isso está de acordo com instintos que remontam aos tempos tribais e além. Chefes e Maiores. A Mãe Misteriosa e o Conselho. E anterior a isso, o Homem Forte (ou a Mulher), que providenciava para que todos fossem alimentados e protegidos pelo fogo à entrada da caverna.

— Isso faz sentido. “Faz mesmo?”

— Oh, concordo. A evolução das formas está claramente exposta.

— Evolução, bruxa! Uma coisa em cima da outra.

“Evolução. Vê como ela se agarra a palavras-chave?”

— É uma força que pode ser mantida sob controle, fazendo-a depender de si mesma.

“Controle! Veja o interesse que você despertou. Ela adora essa palavra.”

— Então vocês fazem leis como qualquer um!

— Regulamentos, talvez, mas não é tudo temporário?

Intensamente interessada.

— Naturalmente.

— Mas sua sociedade é administrada por burocratas que sabem que não podem aplicar a mais leve imaginação ao que fazem.

— Isso é importante? — “Realmente perplexa. Olhe sua carranca!”

— Somente para vocês, Honrada Madre.

— Grande Honrada Madre! — “Como ela é sensível!”

— Por que não permite que eu a chame de Dama?

— Não somos íntimas.

— O Futar é íntimo?

— Pare de mudar de assunto!

— Quer escovar dente — disse o Futar.

— Quieto! — “Realmente furiosa.”

O Futar sentou-se nos quartos, mas não ficou intimidado. A Grande Honrada Madre voltou seu olhar laranja para Lucilla.

— E quanto aos burocratas?

— Eles não têm vez para manipulações, porque essa é a forma pela qual seus superiores engordam. Quando não se vê diferença entre a lei e o regulamento, ambos têm a força da lei.

— Não vejo diferença. — “Ela não sabe o que está revelando.”

— As leis exprimem o mito da mudança forçada. Um futuro novo e brilhante acontecerá em função desta ou daquela lei. As leis impõem o futuro. Acredita-se que os regulamentos dêem força ao passado.

— Acredita-se? — “Ela não gosta dessa palavra, também.”

— Em ambos os exemplos, a ação é ilusória. Como designar um comitê para estudar um problema. Quanto mais pessoas no grupo, mais idéias preconcebidas serão aplicadas ao problema.

“Cuidado! Ela está pensando sobre o assunto, aplicando-o a si mesma.” Lucilla ajustou seu tom de voz ao nível mais razoável.

— Vocês vivem em função de um passado exagerado e tentam entender um futuro não identificado.

— Não acreditamos na presciência. — “Sim, ela acredita! Finalmente. É por isso que nos mantém vivas.”

— Por favor, Dama. Há sempre algo desequilibrado no limitar-se a um reduzido círculo de leis.

“Tenha cuidado! Ela não reagiu quando você a chamou de Dama.” A cadeira da Grande Honrada Madre rangeu a um movimento seu.

— Mas as leis são necessárias!

— Necessárias? Isso é perigoso.

— De que modo?

“Vá devagar. Ela se sente ameaçada.”

— As leis e as regras que são necessárias impedem as pessoas de se adaptarem. Inevitavelmente, tudo acaba por se quebrar. É como os banqueiros, pensando que podem comprar o futuro. — “O poder para mim! Os descendentes que vão para o inferno!”

— O que é que os descendentes fazem por mim?

“Não o diga! Olhe para ela. Está reagindo com a loucura habitual. Dê-lhe mais um gostinho.”

— As Honradas Madres originaram-se como terroristas. Primeiro, burocratas, e o terror como arma de sua escolha.

— Quando está em suas mãos, use-a. Mas nós éramos rebeldes. Terroristas? Isso é caótico demais.

“Ela gosta dessa palavra, caos. Define tudo que é exterior. Ela nem ao menos pergunta como você conhece suas origens. Aceita nossas misteriosas capacidades.”

— Não é estranho, Dama... — “Não houve reação; continue.”... o modo como os rebeldes logo caem nos antigos padrões, quando são vitoriosos? Não é tanto uma armadilha no caminho de todos os governos, mas uma desilusão à espera de qualquer um que chegue ao poder.

— Ah! E eu pensei que você me diria alguma coisa nova. Nós conhecemos essa: O poder corrompe. O poder absoluto corrompe absolutamente.

— Errado, Dama. Algo mais sutil, mas muito mais universal. O poder atrai os corruptíveis.

— Você ousa acusar-me de corrupção? “Observe os olhos!”

— Eu? Acusá-la? A única que pode acusá-la é você mesma. Eu simplesmente lhe dei a opinião das Bene Gesserit.

— O que não me diz nada!

— Entretanto, acreditamos que haja uma moralidade acima de qualquer lei, que deve permanecer vigilante quanto a qualquer tentativa de estabelecer um regulamento imutável.

“Você usou as duas palavras numa única sentença e ela não percebeu.”

— O poder sempre funciona, bruxa. Essa é a lei.

— E os governos que se perpetuam muito tempo sob essa crença sempre se tornam acumpliciados com a corrupção.

— Moralidade!

“Ela não é muito boa em mostrar-se sarcástica, especialmente quando está na defensiva.”

— Tentei realmente ajudá-la, Dama. As leis são perigosas para todos, sejam eles inocentes ou culpados. Não importa que a pessoa se acredite poderosa ou desamparada. Não têm compreensão humana nem dentro, nem a respeito de si mesmas.

— Não existe essa coisa chamada compreensão humana!

“Nossa pergunta está respondida. Não são humanas. Fale a seu lado inconsciente. Ela está inteiramente aberta.”

— As leis precisam sempre de interpretações. Os que agem compelidos pela lei não têm abertura para a compaixão. Não há liberdade para agir. A lei é a lei.

— É. — “Muito defensiva.”

— Essa é uma idéia perigosa, especialmente para os inocentes. As pessoas conhecem isso instintivamente, e se ressentem com essas leis. Fazem pequenas coisas, em geral em nível inconsciente, para incapacitar “a lei” e aqueles que lidam com essa tolice.

— Como ousa chamá-la de tolice? — Quase levantando da cadeira, mas voltando a sentar-se.

— Oh, sim. É a lei, personificada por todos aqueles cuja subsistência depende dela, torna-se indignada quando ouve palavras como as minhas.

— Perfeitamente, bruxa! — “Mas ela não a mandou ficar calada.”

— Mais lei — diz você. — Precisamos de mais lei! Então vocês fazem novos instrumentos de não- compaixão e, incidentalmente, novos nichos de emprego para aqueles que se alimentam do sistema.

— Sempre foi e sempre será assim.

— Errado, novamente. É um rondo, que gira e gira até que fere a pessoa ou o grupo errado. Aí vem a anarquia. O caos. — “Vê como ela pula?” — Rebeldes, terroristas, explosões crescentes de devastadora violência. Um jihad! E tudo porque vocês criaram algo inumano.

“Mão no queixo, olhe só!”

— Como foi que nos afastamos tanto da política, bruxa? Era essa sua intenção?

— Não nos afastamos nem uma fração de milímetro!

— Suponho que vá me dizer que vocês, bruxas, praticam uma forma de democracia.

— Com uma vigilância que vocês não podem imaginar.

— Tente comigo. — “Ela pensa que você vai lhe contar um segredo. Conte-lhe um.”

— A democracia é suscetível de ser afastada do caminho por fazer desfilar bodes expiatórios diante do eleitorado. Pegue os ricos, os gananciosos, os criminosos, o líder estúpido e assim por diante, as nauseiam.

— Vocês pensam como nós. — “Céus! Ela quer desesperadamente que sejamos como ela.”

— Disse que vocês são burocratas que se rebelaram. Conhecem a falha. Uma burocracia desequilibrada, mais pesada em cima do que embaixo, que o eleitorado não pode alcançar, sempre se expande até os limites de energia do sistema. Arranque essa energia dos idosos, dos aposentados, de qualquer um. Especialmente daqueles que outrora se diziam classe média, porque é aí que a maior parte da energia tem origem.

— Vocês se consideram... classe média?

— Não nos classificamos sob nenhuma forma fixa. Mas a Outra Memória nos revela as falhas da democracia. Imagino que vocês têm alguma forma de serviço civil para as “ordens inferiores”.

— Tomamos conta de nós. — “Esse é um eco desagradável.”

— Então sabem como isso dilui o voto. Sintoma principal: as pessoas não votam. O instinto lhes diz que é inútil.

— A democracia é uma idéia obtusa, de qualquer modo!

— Concordo. Propensa à demagogia. É uma doença à qual os sistemas eleitorais são vulneráveis, entretanto, os demagogos são fáceis de identificar. Gesticulam muito e falam com o ritmo do púlpito, utilizando palavras que ressoam com fervor religioso e sinceridade crente.

“Ela está rindo!”

— A sinceridade de fachada, que não tem nada por trás, exige muita prática, Dama. E a prática sempre pode ser detectada.

— Pelas Reveladoras da Verdade?

“Vê como ela se inclina para a frente? Nós a pegamos de novo.”

— Por qualquer um que interprete os sinais: Repetição. Grande esforço para manter sua atenção nas palavras. Não se deve prestar atenção às palavras. Observe o que a pessoa faz. Desse modo aprendem-se os motivos.

— Então vocês não têm uma democracia.

“Conte-me mais segredos Bene Gesserit.”

— Mas nós temos.

— Pensei que tivesse dito...

— Nós a protegemos bem, prestando atenção às coisas que acabei de descrever. O perigo é grande, mas a recompensa também o é.

— Sabe o que me revelou? Que vocês são um bando de tolas!

— Boa moça! — o Futar disse.

— Cale-se, ou eu o mando de volta para o rebanho.

— Dama não boa.

— Vê o que fez, bruxa? Estragou-o!

— Imagino que haja outros. “Ohhhh. Olhe esse sorriso.”

Lucilla harmonizou-se com o sorriso com precisão, espaçando suas respirações no ritmo das dela. “Vê como somos parecidas? Naturalmente eu tentei feri-la. Você não faria o mesmo em meu lugar?”

— Então vocês sabem obrigar a democracia a fazer o que querem. — Expressão de regozijo.

— A técnica é muito sutil, mas fácil. Cria-se um sistema em que a maioria das pessoas está insatisfeita, vaga ou profundamente.

“É assim que ela pensa. Observe seu aceno em concordância a suas palavras.”

Lucilla manteve-se no ritmo do movimento de concordância da Honrada Madre.

— Isso desenvolve sentimentos difusos de ódio vingador. Aí fornecem-se alvos para essa raiva, conforme a necessidade.

— Uma tática diversiva.

— Prefiro considerá-la uma distração. Não dê tempo para perguntas. Enterre seus erros sob mais leis. Transita-se na ilusão. É a técnica das touradas.

— Oh,sim! Isso é bom! — “Ela está quase alegre. Dê-lhe mais imagens de touradas.”

— Agite a capa. Eles arremetem, e ficam confusos quando percebem que não há toureiro por trás. Isso embrutece o eleitorado tanto quanto o touro. Menos pessoas usarão o voto inteligentemente na próxima vez.

— E é por isso que o fazemos!

“Nós o fazemos! Será que ela se ouve?”

— Aí você insulta o eleitorado. Faz com que se sintam culpados. Torna-os embrutecidos. Alimenta-os. Diverte-os! Não exagere!

— Oh, não! Nunca exagere.

— Faça-os saber que a fome os espera se não entrarem na linha. Mostre-lhes os aborrecimentos causados aos que fazem balançar os botes. “Obrigada, Madre Superiora. É uma imagem adequada.”

— Vocês não deixam que o touro pegue de vez em quando um matador?

— Naturalmente. Pum! Pegamos um! Aí você espera que o entusiasmo diminua.

— Eu sabia que vocês não permitiam uma democracia!

— Por que não quer me acreditar? “Está desafiando o destino!”

— Porque você teria de permitir votação aberta, júris, juizes e...

— Nós as chamamos de Instrutoras. Uma espécie de Júri de Todos. “Agora você a confundiu.”

— E nenhuma lei... nenhum regulamento, como quer que vocês o chamem?

— Não lhe disse que os definimos separadamente? Regulamento — passado. Lei — futuro.

— Vocês restringem essas... essas Instrutoras, de algum modo!

— Elas podem chegar à decisão que quiserem, do modo que um júri funcionaria. A lei que se dane!

— Essa é uma idéia muito perturbadora. “Ela está de fato perturbada. Veja como seus olhos estão sem expressão.”

— A primeira regra da nossa democracia: nenhuma lei que restrinja o poder do júri. Essas leis são absurdas. É assombroso como os humanos podem ser obtusos quando agem em grupos pequenos, voltados para seus próprios interesses.

— Você está me chamando de obtusa, não está? “Cuidado com o laranja.”

— Parece haver uma regra da natureza que diz que é quase impossível para os grupos que atendem seus próprios interesses agir esclarecidamente.

— De forma esclarecida! Eu sabia!

“Esse é um sorriso perigoso. Tenha cuidado.”

— Significa fluir com as forças da vida, ajustando suas ações de modo que a vida possa continuar.

— Com a maior quantidade de felicidade para o maior número, naturalmente.

“Depressa! Fomos espertas demais! Mude de assunto!”

— Esse era um elemento que o Tirano não considerou em seu Caminho Dourado. Ele não considerou a felicidade, somente a sobrevivência da humanidade.

“Dissemos para mudar de assunto. Olhe para ela! Está furiosa!” A Grande Honrada Madre afastou a mão do queixo.

— E eu ia convidá-la para fazer parte de nossa ordem, fazê-la uma de nós. Libertá-la.

“Tire-a disso! Depressa!”

— Não fale — disse a Grande Honrada Madre. — Nem abra a boca.

“Já está feito!”

— Você ajudaria Logno ou uma das outras e ela ficaria em meu lugar! — Olhou para o Futar agachado. — Comer, querido?

— Não comer boa moça.

— Então vou jogar sua carcaça para o rebanho!

— Grande Honrada Madre...

— Eu lhe disse para não falar! Você teve a ousadia de chamar-me de Dama.

Lucilla teve uma visão nublada da mulher pulando da cadeira. A porta da jaula escancarou-se, batendo com força na parede. Tentou esquivar-se, mas o shigafio restringia seus movimentos. Não chegou a ver o pontapé que lhe esmagou as têmporas.

No momento de sua morte, a consciência de Lucilla foi penetrada por um grito de raiva, a tribo de Lâmpadas dando vazão a emoções sufocadas por muitas gerações.

 

Há pessoas que nunca participam. A vida lhes acontece. Dão um jeito de arranjar-se com pouca coisa além de uma cega persistência, e resistem com raiva ou violência a tudo que poderia afastá-las das rancorosas ilusões da segurança.

 

— Alma Mavis Taraza

 

De lá pra cá, de cá pra lá. O dia inteiro, de lá pra cá. Odrade mudava de um registro dos televigias para outro, procurando, indecisa, inquieta. Primeiro olhava para Scytale, depois para o jovem Teg com Duncan e Murbella, em seguida fixava o olhar para fora da janela enquanto pensava no último relatório de Lâmpadas enviado por Burzmali.

Quando poderiam tentar a restauração das memórias do Bashar? E o ghola, uma vez reintegrado, obedeceria?

“Por que a falta de notícias do Rabino? Deveríamos iniciar a Extremis Progressiva, compartilhando entre nós o máximo possível?” O efeito sobre o moral seria devastador.

Os registros eram projetados acima da mesa, enquanto as assistentes e conselheiras entravam e saíam. Interrupções necessárias. Assine isto. Aprove aquilo. Devemos diminuir a melange deste grupo? Bellonda estava lá, sentada à mesa. Tinha parado de perguntar o que Odrade procurava e simplesmente observava com aquele olhar fixo, inabalável. Sem piedade.

Tinham discutido sobre a possibilidade de uma nova população de vermes da areia na Dispersão restaurar a influência maligna do Tirano. Esse sonho interminável em cada espectro do verme ainda preocupava Bell. Mas os números populacionais, por si só, revelavam que o domínio do Tirano sobre seu destino tinha terminado.

Tamalane tinha estado lá mais cedo, procurando um registro de Bellonda. Revigorada por um novo acervo nos Arquivos, esta lançara-se numa diatribe às mudanças de população da Irmandade e ao esgotamento de recursos.

Odrade olhou pela janela agora que o crepúsculo se espalhava pela paisagem. Estava escurecendo gradativamente, em nuances quase imperceptíveis. Quando anoiteceu por completo, ela tomou consciência das luzes lá longe, nas casas da plantação. Sabia que estavam acesas há mais tempo, mas tinha a sensação de que era a noite que as criava. Algumas se apagavam de vez em quando, conforme as pessoas se movimentavam pelos aposentos. “Onde não houver pessoas — não há necessidade de luz. Não desperdice energia.”

As luzes que piscavam tomaram-lhe a atenção por um momento. Uma variação da velha questão da árvore caindo na floresta: haveria som, se ninguém ouvisse? Odrade era partidária da idéia de que as vibrações existiam independentes de serem registradas por um sensor.

“Haverá sensores secretos seguindo nossa Dispersão? Que novos talentos e que invenções os Primeiros Dispersos usam agora?”

Bellonda já se mantivera em silêncio por tempo suficiente.

— Dar, você está transmitindo sinais que nos preocupam pela Sede da Irmandade.

Odrade aceitou a observação sem comentários.

— O que quer que esteja fazendo, está sendo interpretado como indecisão. — “Como Bell parecia triste.” — Grupos importantes estão discutindo a possibilidade de substituí-la. As Instrutoras estão votando.

— Somente as Instrutoras?

— Dar, você realmente acenou a Praska, no outro dia, e lhe disse que era bom estar viva?

— Isso mesmo.

— O que anda fazendo?

— Reavaliando. Nenhuma notícia de Dortujla?

— Já me perguntou isso uma dúzia de vezes, hoje! — Bellonda fez um gesto para a mesa de trabalho. — Você continua revendo o último relatório de Burzmali a respeito de Lâmpadas. Há alguma coisa que deixamos passar?

— Porque nossas inimigas se agarram a Gammu? Responda-me, Mentat.

— Não tenho dados suficientes, você bem sabe!

— Burzmali não era Mentat, mas sua descrição dos acontecimentos apresenta uma força persistente, Bell. Bem, afinal ele era o aluno favorito do Bashar. É compreensível que mostre características de seu mestre.

— Diga logo, Dar. O que vê no relatório?

— Ele preenche um vazio. Não completamente, mas... é torturante o modo como se refere a Gammu. Muitas forças econômicas têm ligações importantes no local. Por que esses fios não foram cortados por nossas inimigas?

— Elas estão no mesmo sistema, obviamente.

— E se fizéssemos um ataque total a Gammu?

— Ninguém quer fazer negócios em ambientes violentos. É isso que quer dizer?

— Em parte.

— Muitos dos grupos desse sistema econômico provavelmente gostariam de mudar-se. Um outro planeta, uma outra população subserviente.

— Por quê?

— Poderiam fazer previsões com mais confiabilidade. Aumentariam as defesas, naturalmente.

— Nessa aliança que percebemos, Bell, eles redobrariam os esforços para nos encontrar e destruir.

— Com certeza.

O comentário conciso forçou Odrade a afastar os pensamentos. Ergueu o olhar para as montanhas coroadas de neve, brilhando à luz das estrelas. Os ataques viriam dessa direção?

O golpe desse pensamento poderia ter embotado um intelecto menos privilegiado. Mas Odrade não precisava de nenhuma Litania Contra o Medo para manter a cabeça fria. Tinha uma fórmula mais simples.

“Encare seus medos, do contrário eles lhe subirão pelas costas.”

Sua atitude era direta. As coisas mais aterrorizantes do universo originavam-se na mente humana. O pesadelo (o cavalo branco da extinção da Bene Gesserit) possuía tanto a forma mítica como a real. A caçadora com o machado podia atingir a mente ou a carne. Mas ninguém escapava aos terrores da mente.

“Encare-os, então!”

Com o que ela se defrontava nessa escuridão? Não a caçadora sem rosto com o machado, nem a queda no abismo desconhecido (mas visível ao seu pequeno talento), mas as muito palpáveis Honradas Madres e quaisquer que fossem seus aliados.

“E não ouso usar nem mesmo seus diminutos poderes prescientes para nos orientar. Eu poderia trancar nosso futuro numa forma imutável. O Muad'Dib e seu Tirano fizeram isso e o Tirano levou 3.500 anos para nos libertar.”

Luzes móveis a meia distância chamaram-lhe a atenção. Os jardineiros estavam trabalhando até tarde, continuando a podar os pomares como se as veneráveis árvores fossem viver para sempre. Os ventiladores trouxeram-lhe um cheiro de fumaça das fogueiras onde as aparas dos pomares estavam sendo queimadas. Muito atentos a esses detalhes, os jardineiros da Bene Gesserit. Nunca se deviam deixar galhos secos soltos que pudessem atrair parasitas para as árvores vivas. Tudo limpo e arranjado. Planejado com antecedência. Conserve seu habitat. Este momento é parte da eternidade.

“Nunca se devem deixar galhos secos espalhados?”

“E Gammu? Galhos secos?”

— O que existe nos pomares que a fascina tanto? — Bellonda quis saber.

Odrade respondeu sem se voltar.

— Eles me restauram.

Há apenas duas noites ela saíra para uma caminhada lá, em meio ao tempo frio e estimulante, com um toque de neblina junto ao chão. Os pés agitavam as folhas. Um leve cheiro de adubo composto onde uma chuva esparsa tinha se instalado em depressões mais aquecidas. Um cheiro de pântano, que não deixava de ser agradável. A vida em seu fermento habitual, mesmo nesse nível.

Acima, galhos nus erguiam-se rígidos contra o céu estrelado. Na verdade, deprimente, se comparado à primavera ou à estação da colheita. Mas belo em seu fluxo. A vida uma vez mais esperando pelo chamado à ação.

— Não está preocupada com as Instrutoras? — Bellonda perguntou.

— Como será a votação, Bell?

— Muito reservada.

— As outras as seguirão?

— Há preocupação com suas decisões. Conseqüências.

Bell era muito boa nisso: muitas informações em poucas palavras. Grande parte das decisões Bene Gesserit era tomada com base num labirinto triplo: Eficácia, Conseqüências e (mais vital) Quem Pode Realizar as Ordens? Combinavam-se ações e pessoas com muito cuidado e uma atenção precisa aos detalhes. Isso tinha uma grande influência sobre a Eficácia, e esta, por sua vez, comandava as Conseqüências. Uma boa Madre Superiora podia atravessar os labirintos de decisão em questão de segundos. Havia vivacidade na Central, então. Os olhos brilhavam. E comentava-se por todo lado que “Ela agiu sem hesitação”. Isso criava confiança entre as acólitas e outras alunas. As Reverendas Madres (especialmente as Instrutoras) esperavam para avaliar as Conseqüências.

Odrade falava para seu reflexo na janela como para Bellonda.

— Mesmo a Madre Superiora precisa de tempo.

— Mas o que a prende nesse tumulto?

— Está me pressionando, Bell?

Bellonda retraiu-se na cadeira-cão como se Odrade a tivesse empurrado.

— É extremamente difícil ter paciência nos dias de hoje — ela disse. — Mas a escolha do momento certo influencia minhas escolhas.

— O que pretende fazer com nosso novo Teg? Essa é a pergunta que precisa ser respondida.

— Se nossos inimigos saíssem de Gammu, para onde iriam, Bell?

— Você os atacaria nesse lugar?

— Só um pequeno empurrão.

Bellonda falou suavemente.

— É perigoso alimentar essa idéia.

— As Honradas Madres não negociam!

— Mas seus aliados, sim, acho eu. Acha que iriam para... digamos, o Entroncamento?

— O que há de tão interessante nesse local?

— As Honradas Madres estão lá baseadas. E nosso amado Bashar mantém na memória um dossiê do lugar.

— Ohhhhhh. — Era tanto um suspiro como uma palavra.

Tamalane entrou na sala, permanecendo de pé e silenciosa até que Odrade e Bellonda lhe dessem atenção.

— As Instrutoras apóiam a Madre Superiora. — Tamalane ergueu um dedo em garra. — Por um voto!

Odrade suspirou.

— Diga-nos, Tam, a Instrutora que eu cumprimentei no corredor, Praska, qual foi sua posição?

— Votou a seu favor.

Odrade dirigiu um sorriso forçado a Bellonda.

— Espalhe espiãs e agentes, Bell. Precisamos levar as caçadoras a aceitar uma reunião conosco no Entroncamento.

“Bell deduzirá meu plano pela manhã.”

Quando Bellonda e Tamalane saíram, resmungando entre si, demonstrando preocupação na voz, Odrade dirigiu-se para seus aposentos particulares. O corredor estava guardado pelas habituais acólitas e servidoras das Reverendas Madres. Algumas acólitas sorriam para ela. Então, já sabiam da votação. Outra crise tinha passado.

Odrade passou pela sala de estar, a caminho do quarto de dormir, onde se estendeu no catre completamente vestida. Um globo luminoso banhava o aposento com um amarelo pálido. Seu olhar moveu-se do mapa do deserto para a pintura de Van Gogh, na parede ao lado do catre.

“Chalés em Cordeville.”

Um mapa melhor que aquele que marca o crescimento do deserto, pensou. “Lembre-se, Vincent, de onde vim e do que ainda posso fazer.”

O dia a tinha esgotado. Havia ultrapassado a fadiga e penetrado num lugar onde a mente prendia-se em círculos fechados.

Responsabilidades!

Elas a encurralavam, e ela sabia que podia ser muito desagradável quando assediada pelas obrigações. Forçada a gastar energia simplesmente para manter uma aparência de calma. “Bell observou isso em mim.” Era enlouquecedor. A Irmandade era cortada a cada passagem, tornada quase sem efeito.

Fechou os olhos e imaginou-se dialogando com uma Honrada Madre do alto comando. “Velha... encharcada de poder. Musculosa. Forte e com aquela ofuscante velocidade que elas possuem.” Não havia face, mas o corpo visualizado estava lá, em sua mente.

Formando silenciosamente as palavras, Odrade falou à figura sem rosto.

— É difícil para nós deixá-las cometer seus próprios erros. Os professores sempre acham isso penoso. Sim, nós nos consideramos professoras. Não tanto de indivíduos como da espécie. Oferecemos lições para todos. Estarão certas se virem o Tirano em nós.

A imagem em sua mente não deu resposta.

Como as professoras exerciam o magistério, se não podiam sair do esconderijo? Burzmali morto, o ghola Teg ainda uma incerteza. Sentiu pressões invisíveis convergindo para a Sede da Irmandade. Os cordões as prendiam com firmeza. E em algum lugar dessa teia, uma comandante sem rosto das Honradas Madres armava o bote.

Rainha Aranha.

Sua presença era conhecida pelas ações de sua força policial. Bastava que um fio dessa teia tremesse numa cilada, para que as atacantes se arremessassem sobre as vítimas enredadas em violência insana, sem ligar para o número de mortos em sua própria linha, ou quantos teriam sido chacinados.

Alguém comandava a busca: a Rainha Aranha.

“Será que ela é sã, pelos nossos padrões? Para que perigos terríveis terei enviado Dortujla?”

As Honradas Madres estavam além da megalomania. Faziam com que o Tirano parecesse um pirata ridículo em comparação. Leto II, pelo menos, tivera conhecimento daquilo que as Bene Gesserit sabiam: como se equilibrar na espada, consciente de que seria mortalmente ferido se escorregasse dessa posição. “O preço que se paga por deter tal poder.” As Honradas Madres ignoravam o destino inevitável, abatendo e açoitando à sua volta, como um gigante em paroxismos de terrível histeria.

Nada havia jamais se oposto a elas com sucesso, e elas escolheram responder agora, com a raiva assassina dos frenéticos. Histeria por escolha. Deliberada.

“Por que deixamos nosso Bashar em Duna, para usar sua lastimável força numa defesa suicida? Não se sabia quantas Honradas Madres ele matara. E Burzmali na morte de Lâmpadas. Com certeza, as caçadoras sentiram seu ferrão. Para não falar dos homens treinados por Idaho e enviados para disseminarem as técnicas de escravidão sexual das Honradas Madres. E para outros homens!”

Isso era suficiente para provocar tanta raiva? Possivelmente. Mas o que dizer das estórias de Gammu? Teria Teg exibido um talento novo que as aterrorizava?

“Se restaurarmos as memórias do Bashar, teremos de observá-lo com muito cuidado.”

Seria possível restringi-lo a uma não-nave?

O que, na verdade, provocou uma reação tão intensa nas Honradas Madres? Eles queriam sangue. Nunca dê más notícias a essa gente. Não era de admirar que suas policiais agissem com tamanho frenesi. Uma pessoa poderosa que estivesse assustada poderia matar o portador de informações desagradáveis. Nunca traga más notícias. É melhor morrer na batalha.

Os súditos da Rainha Aranha iam além da arrogância. Muito além. Não havia censura possível. Seria como repreender uma vaca por comer capim. A vaca se justificaria simplesmente olhando para você com olhos dementes, como que perguntando: — Não é isso que se espera que eu faça?

“Conhecendo as prováveis conseqüências, porque nós as provocamos? Não somos o tipo de pessoa que cutuca um objeto redondo e cinzento com uma vara e acaba descobrindo que se trata de um ninho de vespas. Sabíamos o que estávamos atacando. Ninguém questionou o plano de Taraza.”

A Irmandade defrontava-se com um inimigo cuja política deliberada era a violência histérica. — Atacaremos com fúria.

E o que aconteceria se as Honradas Madres fossem dolorosamente derrotadas? No que se transformariam suas reações histéricas?

“Tenho medo disso.”

A Irmandade teria a coragem de alimentar esse fogo?

“Temos que fazê-lo!”

A Rainha Aranha redobraria os esforços para encontrar a Sede. A violência seria intensificada em um nível ainda mais repulsivo. E então? As Honradas Madres suspeitariam de todos serem simpáticos à Bene Gesserit? Poderiam voltar-se contra seus próprios aliados? Imaginariam elas a possibilidade de ficarem sozinhas num universo vazio de vida consciente? Muito provavelmente, a idéia nunca tinha alcançado suas mentes.

“Qual é o seu aspecto, Rainha Aranha? Como você pensa?”

Murbella disse que não conhecia sua comandante suprema, nem mesmo as subcomandantes de sua Ordem Hormu. Mas fazia uma descrição sugestiva dos aposentos de uma subcomandante. O que uma pessoa chama de casa? Com quem convive para compartilhar as pequenas homilias da vida?

Muitos de nós escolhemos companheiros e ambientes que nos reflitam.

Murbella fez um curioso relato:

— Uma de suas criadas pessoais levou-me à área reservada. Exibindo-se, demonstrando que tinha acesso ao sanctum. A área comum era organizada e limpa, mas os quartos particulares estavam desarrumados: roupas espalhadas, potes de creme abertos, camas desfeitas, comida ressecada em pratos no chão. Perguntei por que não tinha limpado a desordem. Ela disse que não era seu serviço. A encarregada da limpeza era do turno da noite.

“Vulgaridades secretas.”

Essa devia ter uma mente de acordo com esse tipo de exibição.

Os olhos de Odrade se abriram e focalizaram o quadro de Van Gogh. “Minha escolha.” Produzia tensões, no longo período da história humana, que a Outra Memória não poderia criar. “Você me mandou uma mensagem, Vincent. E por sua causa não cortarei minha orelha... ou enviarei inúteis mensagens de amor àqueles que não ligam. É o mínimo que posso fazer para honrá-lo.”

O quarto de dormir tinha um odor familiar, a fragrância picante de cravos. O perfume floral preferido de Odrade. As atendentes o mantinham como um background odorífico.

Mais uma vez fechou os olhos, e seus pensamentos voltaram à Rainha Aranha. Achava que o exercício dava uma outra dimensão à mulher sem rosto.

Murbella dizia que uma comandante das Honradas Madres precisava apenas dar uma ordem para que trouxessem qualquer coisa que pedisse.

— Qualquer coisa?

E Murbella descrevia exemplos conhecidos: parceiros sexuais com deformações, doces enjoativos, orgias emocionais inflamadas por desempenhos de extraordinária violência.

— Estão sempre procurando extremos.

Relatos de espiãs e agentes recheavam as estórias que Murbella contava com uma certa admiração.

— Todos dizem que elas têm direito a governar.

“Essas mulheres evoluíram a partir de uma burocracia autocrática.”

Muita evidência o confirmava. Murbella falava de aulas de História que diziam como as primitivas Honradas Madres levaram a efeito pesquisas para adquirir domínio sobre suas populações “quando a taxação tornou-se por demais ameaçadora para as governantes”.

“Um direito de governar?”

Não parecia a Odrade que essas mulheres insistissem em tal direito. Não. Assumiam que isso não devia nunca ser discutido. Nunca! Não havia decisões erradas. Não se consideravam as conseqüências. Isso nunca acontecia.

Odrade sentou-se no catre, sabendo que tinha encontrado o insight que procurava.

“Nunca se cometem erros.”

Era necessária uma enorme inconsciência para abrigar essa idéia. Uma pequena consciência, então, observando um universo em tumulto que elas próprias criaram!

“Ohhhh, adorável!”

Chamou a atendente da noite, uma acólita de primeiro nível e pediu chá de melange com um perigoso estimulante, algo para ajudá-la a retardar as exigências de sono do corpo. Mas a um alto preço.

A acólita hesitou antes de obedecer. Retornou num momento, com uma caneca fumegante numa pequena bandeja.

Odrade tinha decidido há muito tempo que o chá de melange feito com a profunda água fria da Sede tinha um gosto que afetava o psiquismo. O estimulante amargo não permitia que ela sentisse o gosto revigorante e espicaçava-lhe a consciência. A notícia se espalharia através das observadoras. “Preocupação, grande preocupação.” As Instrutoras fariam outra votação?

Sorveu o chá lentamente, dando ao estimulante tempo para agir. “Mulher condenada rejeita seu último jantar. Bebe chá.”

Em poucos instantes pôs de lado a caneca vazia e pediu roupas quentes.

— Vou dar uma volta nos pomares. — A atendente não fez comentários. Todos sabiam que ela, muitas vezes, ia caminhar lá, mesmo à noite.

Em poucos minutos estava na passagem estreita e cercada que conduzia a seu pomar favorito, iluminando o caminho com um miniglobo ligado por um pequeno cordão ao ombro direito. Um pequeno rebanho de gado negro da Irmandade chegou até a cerca a seu lado e olhou-a enquanto passava. Ela olhou os focinhos úmidos, inalou o cheiro rico de alfafa no vapor da respiração e fez uma pausa. As vacas fungaram e sentiram o feromônio que lhes dizia para aceitá-la. Voltaram a comer a forragem empilhada junto à cerca pelos vaqueiros.

Voltando as costas ao gado, Odrade olhou as árvores sem folhas da pastagem. O miniglobo desenhava um círculo de luz amarela que enfatizava a desolação do inverno.

Pouca gente entendia por que esse lugar a atraía. Não bastava dizer que os pensamentos atribulados encontravam calma aí. Mesmo no inverno, com o gelo esmagando-se sob os pés. Este pomar era um silêncio duramente conseguido entre as tempestades. Apagou o miniglobo e deixou que os pés seguissem o caminho familiar na escuridão. De vez em quando olhava de relance para a luz das estrelas, definida pelos galhos sem folhas. “Tempestades.” Via aproximar-se uma que meteorologista algum podia antecipar. Tempestades geram tempestades. Raiva gera raiva. Vingança gera vingança. Guerras geram guerras.”

O velho Bashar tinha sido um mestre em quebrar esses círculos. O ghola teria o mesmo talento?

Que jogo perigoso.

Odrade olhou de novo para o gado, uma bolha escura de movimento e vapor, iluminado pela luz das estrelas. Tinha se juntado para provocar o calor e ela ouviu um rangido familiar quando ruminavam.

“Devo ir para o deserto, no sul. Ficar frente a frente com Sheeana. As trutas da areia desenvolvem-se. Por que não há vermes?”

Falou alto para o gado agrupado junto à cerca:

— Comam seu capim. É a sua função.

Se alguma das vigilantes tivesse oportunidade de ouvir a observação, Odrade sabia que teria que explicar-se seriamente.

“Mas esta noite eu pude ver através do coração de nossas inimigas. E tive pena delas.”

 

Para conhecer bem uma coisa, teste seus limites. É somente quando forçada além da tolerância que se revela sua verdadeira natureza.

 

— O Código Amtal

 

Não se apóie apenas na teoria quando sua vida estiver em jogo.

 

— Comentário Bene Gesserit

 

Duncan Idaho estava de pé no centro da sala de práticas da não-nave, a três passos do menino-ghola.

Muito próximos, à sua volta, havia sofisticados instrumentos de treinamento, alguns exaustivos, outros perigosos.

A criança parecia cheia de confiança e admiração esta manhã.

“Será que o compreendo melhor porque eu, também, sou um ghola? Uma suposição discutível. Esse aí foi criado de um modo muito diferente daquele que foi planejado para mim. Planejado! O termo preciso.”

A Irmandade copiara tanto quanto possível a infância do Teg original. Até mesmo um querido companheiro mais novo, no lugar do irmão há muito perdido. E Odrade lhe dando o ensinamento profundo! Como fizera a mãe de Teg.

Idaho lembrava-se do idoso Bashar, cujas células tinham produzido esta criança. Um homem pensativo, usando comentários que mereciam atenção. Com apenas um pequeno esforço lembrou-se de seus modos e suas palavras.

— O verdadeiro guerreiro compreende o inimigo melhor que o amigo. Uma cilada perigosa, quando se permite que a compreensão conduza à identificação, como acontecerá naturalmente, se for deixada sem orientação.

Era difícil imaginar a mente, por trás dessas palavras, latente em algum lugar nessa criança. O Bashar tinha sido muito perspicaz, ensinando sobre identificação nos velhos tempos da Fortaleza de Gammu.

“Afinidade com o inimigo — uma fraqueza tanto da polícia como dos exércitos. As mais perigosas são as afinidades inconscientes, fazendo com que se preserve o inimigo intacto, porque ele é sua justificativa para existir.”

— Senhor?

Como poderia essa vozinha de flauta transformar-se nos tons de comando do velho Bashar?

— O que é?

— Por que está aí, parado, olhando para mim?

— Eles chamavam o Bashar de “Velha Confiabilidade”. Sabia disso?

— Sim, senhor. Estudei a estória de sua vida.

Seria “Jovem Confiabilidade” agora? Por que Odrade desejaria suas memórias originais restauradas tão cedo?

— Por causa do Bashar, a Irmandade inteira tem estado escavando a Outra Memória, revendo suas perspectivas históricas. Elas lhe contaram?

— Não, senhor. É importante que eu saiba? A Madre Superiora disse que o senhor treinaria meus músculos.

— Lembro que você gostava de beber Danian Marinete, um conhaque muito especial.

— Sou jovem demais para beber, senhor.

— Você era um Mentat. Sabe o que isso significa?

— Saberei quando recuperar a memória, não?

Nada do respeitoso senhor. Chamando a atenção do professor pela demora indesejada.

Idaho sorriu, e recebeu de volta um sorriso aberto. Uma criança cativante. Era fácil demonstrar-lhe natural afeição.

— Cuidado com ele — dissera Odrade. — É um sedutor. — Lembrou-se da instrução de Odrade, antes de trazer o menino.

— Uma vez que todo indivíduo, basicamente, responde a seu eu — disse — a formação desse eu exige, de nossa parte, cuidado e atenção máximos.

— Isso é necessário com um ghola?

Tinham estado sentados na sala de estar, nessa noite, tendo Murbella como uma ouvinte fascinada.

— Ele se lembrará de tudo que você lhe ensinar.

— Então faremos uma edição crítica do original.

— Cuidado, Duncan. Quando se traumatiza uma criança com um acontecimento desagradável, quando se ensina a ela que não confie em ninguém, cria-se um suicida, a curto ou a longo prazo, isso não faz a mínima diferença.

— Você se esquece de que conheci o Bashar?

— Não se lembra, Duncan, do tempo anterior à restauração de suas memórias?

— Eu sabia que o Bashar podia fazê-lo, e achava que ele era a minha salvação.

— E é assim que ele o vê. É uma forma especial de confiança.

— Serei honesto com ele.

— Você pode achar que age com honestidade, mas aconselho-o a se examinar profundamente toda vez em que se vir frente a frente com a confiança dele.

— E se eu cometer erros?

— Nós corrigiremos, se for possível. — Ela relanceou os olhos para os televigias e fixou-os nele de novo.

— Sei que estará nos vigiando.

— Não deixe que isso o iniba. Não estou procurando deixá-lo constrangido. Apenas cauteloso. E lembre-se de que minha Irmandade tem métodos de cura muito eficientes.

— Serei cuidadoso.

— Talvez você se lembre que era o Bashar quem dizia: “A ferocidade com que atacamos nossos inimigos é sempre temperada pela lição que esperamos ensinar.”

— Não consigo pensar nele como um inimigo. O Bashar era um dos melhores homens que já conheci.

— Excelente. Coloco-o em suas mãos.

E aqui estava o menino na sala de exercícios, sentindo-se algo mais que impaciente com as hesitações de seu mestre.

— Senhor, faz parte da lição ficar aqui, simplesmente? Sei que às vezes...

— Fique quieto.

Teg assumiu uma atenção militar. Ninguém lhe tinha ensinado isso. Veio de suas memórias originais. Idaho ficou subitamente fascinado por esse lampejo do Bashar.

“Elas sabiam que me pegariam desse jeito.”

Nunca subestime a persuasão Bene Gesserit. Era possível encontrar-se fazendo coisas para elas sem saber que se agia sob pressão. Sutis e execráveis! Havia compensações, naturalmente. Vivia-se numa época interessante, enquanto durava a antiga maldição/bênção. No todo, decidiu Idaho, ele preferia épocas interessantes, mesmo esta época.

Ele respirou fundo.

— Restaurar suas memórias originais vai causar-lhe dor, física e mental. De certa forma, as dores mentais são piores. É meu dever prepará-lo para isso.

Ainda em posição atenta. Nenhum comentário.

— Começaremos sem armas, usando uma lâmina imaginária na mão direita. Esta é uma variação das “cinco atitudes”. Cada resposta surge antes da necessidade. Deixe cair os braços e relaxe.

Movendo-se por trás de Teg, Idaho segurou firmemente o braço do menino abaixo do cotovelo, e demonstrou os primeiros movimentos.

— Todo atacante é uma pena flutuante num caminho infinito. Quando ele se aproxima, é desviada e afastada. Sua resposta é como um sopro de ar levando a pena embora.

Idaho ficou de lado e observou enquanto Teg repetia os movimentos, corrigindo de vez em quando com um golpe forte num músculo mal posicionado.

— Deixe que seu corpo realize o aprendizado — dizia quando Teg perguntava por que ele tinha feito aquilo.

Durante um dos períodos de descanso, Teg quis saber o que Idaho queria dizer com “dores mentais”.

— Você tem limites impostos por sua natureza de ghola protegendo as memórias originais. No momento adequado, algumas dessas lembranças voltarão, inundando-o. E nem todas serão agradáveis.

— A Madre Superiora disse que o Bashar restaurou suas memórias.

— Deuses das profundezas, garoto! Por que você continua dizendo o Bashar? Era você!

— Mas ainda não conheço isso.

— No seu caso, há um problema. Para que um ghola reviva, deve haver as lembranças da morte. Mas as células que lhe deram origem não transportam essa lembrança.

— Mas o... Bashar está morto.

— O Bashar! Sim, está morto. Você deve sentir isso onde dói mais e saber que você é o Bashar.

— Pode mesmo devolver-me essa lembrança?

— Se você puder suportar a dor. Sabe o que eu lhe disse quando você devolveu-me as memórias?  Atreides! Vocês são todos infernalmente iguais.

— Você... me odiava?

— Sim, e você estava desgostoso consigo mesmo pelo que tinha feito a mim. Isso lhe dá uma idéia do que tenho de fazer?

— Sim, senhor. — Muito baixo.

— A Madre Superiora diz que não devo trair sua confiança... entretanto, você traiu a minha.

— Mas restaurei suas memórias?

— Vê como é fácil pensar em si mesmo como o Bashar? Você ficou chocado. E, voltando à sua pergunta, sim, você restaurou minhas memórias.

— É tudo o que quero.

— Assim diz você.

— A Madre Superiora disse que você é um Mentat. O fato de que eu também sou Mentat poderá ajudar?

— Pela lógica, sim. Mas nós, Mentats, temos um ditado que diz que a lógica se move às cegas. E estamos conscientes de que existe uma lógica capaz de jogá-lo fora do ninho para o caos.

— Sei o que quer dizer caos. — Muito orgulhoso de si.

— Assim você o diz.

— E confio em você.

— Ouça-me! Somos servos das Bene Gesserit. As Reverendas Madres não construíram sua ordem baseadas na confiança.

— Não devo confiar na Madre Superiora?

— Dentro de limites que você irá aprender a valorizar. Por enquanto, previno-o de que as Bene Gesserit trabalham sob um sistema de desconfiança organizada. Elas já lhe ensinaram a respeito de democracia?

— Sim, senhor. É onde se vota...

— É onde se desconfia de todos que têm poder sobre os outros! As Irmãs o conhecem bem. Não confie demais.

— Então não devo confiar em você, também?

— A única confiança que pode colocar em mim é que farei o possível para restaurar suas lembranças.

— Então não me incomodo com a dor. — Olhou para os televigias, demonstrando na expressão o conhecimento de seu propósito. — Elas se incomodam que você diga essas coisas a seu respeito?

— Seus sentimentos não dizem respeito a um Mentat, a não ser como informação.

— Isso é um fato?

— Os fatos são frágeis. Um Mentat pode se enredar neles. Excesso de informações confiáveis. É como a diplomacia. É necessário ter algumas mentiras para chegar a suas projeções.

— Estou... confuso. — Usou a palavra com hesitação, não muito seguro de que era a que desejava.

— Disse isso uma vez à Madre Superiora. Ela respondeu: — Tenho me comportado mal.

— Não é seu papel... confundir-me?

— A menos que sirva para ensinar. — E como Teg ainda se mostrasse perplexo, Idaho disse: — Deixe-me contar-lhe uma estória.

Teg imediatamente sentou-se no chão, revelando com isso que Odrade usava essa técnica freqüentemente. Bom. Ele já era receptivo.

— Em uma de minhas vidas tive um cachorro que detestava mariscos.

— Já comi mariscos. Vêm do Grande Mar.

— Sim, bem, meu cachorro detestava mariscos porque um deles teve a ousadia de cuspir-lhe no olho. O cheiro é horrível. Mas pior ainda, a cuspida veio de um inocente buraco na areia. O marisco não estava visível.

— Que é que seu cachorro fazia? — Inclinando-se para a frente, com a mão no queixo.

— Desenterrava o ofensor e o trazia para mim. — Idaho sorriu. — Primeira lição: não deixe que o desconhecido lhe cuspa no olho.

Teg riu e bateu palmas.

— Mas veja a coisa do ponto de vista do cachorro. Vá atrás de quem cuspiu! Então, recompensa gloriosa: o dono fica satisfeito.

— Seu cachorro desencavou mais mariscos?

— Toda vez que íamos à praia. Ia rosnando à procura de cuspidores e o dono os jogava fora para sempre, conchas vazias com pedaços de carne pendurados.

— Você os comia.

— Veja as coisas do ponto de vista do cachorro. Os cuspidores têm o castigo merecido. Ele tem um meio de livrar o mundo de seres ofensivos, e o dono fica satisfeito.

Teg demonstrou sua inteligência brilhante:

— As Irmãs nos consideram cachorros?

— De certa forma. Nunca se esqueça disso. Quando voltar a seu quarto, procure no dicionário o significado de lese majesté. Ajuda a entender nosso relacionamento com nossos donos.

Teg olhou para os televigias e depois para Idaho, mas não disse nada.

Idaho ergueu o olhar para a porta atrás de Teg:

— A estória era para você também.

Teg deu um pulo, voltando-se, na expectativa de ver a Madre Superiora. Mas era apenas Murbella.

Estava encostada ao lado da porta.

— Bell não vai gostar de vê-lo falar da Irmandade desse jeito.

— Odrade me deu carta branca.— Olhou para Teg. — Já perdemos muito tempo com estórias! Deixe-me ver se seu corpo aprendeu alguma coisa.

Uma estranha excitação tomou conta de Murbella quando entrou na área de treinamento e viu Duncan com o menino. Observou-o por um momento, consciente de que o estava vendo sob uma nova luz, quase Bene Gesserit. A instrução da Madre Superiora transparecia na sinceridade de Duncan ao lidar com Teg. Uma sensação estranhíssima, esta nova consciência, como se ela tivesse se afastado um pouco mais de suas antigas companheiras. O sentimento de perda era pungente.

Surpreendeu-se sentindo falta de coisas inusitadas da antiga vida. Não a caçada nas ruas, procurando novos homens para escravizar e trazer para o domínio das Honradas Madres. Os poderes derivados da criação de viciados sexuais tinham perdido o sabor sob o ensinamento Bene Gesserit e a experiência com Duncan. Reconhecia, entretanto, ter perdido um elemento desse poder: o sentimento de pertencer a uma força que nada podia deter.

Era, ao mesmo tempo, abstrato e específico. Não as repetidas conquistas, mas a expectativa da vitória inevitável que vinha em parte da droga que compartilhava com as Irmãs, Honradas Madres.

À medida que a necessidade diminuiu com a mudança para a melange, via o antigo vício sob uma perspectiva diferente. As químicas Bene Gesserit, localizando a adrenalina substituta a partir de amostras de seu sangue, podiam fornecer-lhe a droga, se ela o desejasse. Mas ela sabia que não queria mais. Uma outra retirada a atormentava. Não os homens cativos, mas o distanciamento de seus poderes. Algo dentro dela dizia que isso tinha acabado para sempre. Nunca voltaria a experimentá-lo. O novo conhecimento mudara seu passado.

Tinha rondado os corredores entre seus aposentos e a sala de exercícios esta manhã, querendo observar Duncan com o menino, temerosa de que sua presença pudesse interferir. Essa ronda era uma coisa que fazia freqüentemente hoje em dia, depois das práticas mais extenuantes com uma professora Reverenda Madre. Nesses momentos os pensamentos das Honradas Madres estavam muito presentes em sua mente.

Não podia fugir a esse sentimento de perda. Era um vazio tal, que ela se perguntava se alguma coisa poderia preenchê-lo, de algum modo. A sensação era pior do que a de estar envelhecendo. Envelhecer como uma Honrada Madre oferecia certas compensações. Os poderes dessa Irmandade tinham uma tendência para crescer rapidamente com a idade. Não era isso. Era um sentimento de perda absoluta.

“Fui derrotada.”

As Honradas Madres nunca se defrontavam com a derrota. Murbella viu-se forçada a isso. Sabia que as Honradas Madres eram, às vezes, assassinadas pelos inimigos. Mas estes sempre pagavam por isso. Era a lei: planetas inteiros devastados para pegar um ofensor.

Murbella sabia que as Honradas Madres estavam caçando a Sede da Irmandade. Por uma questão de antigas lealdades, estava consciente de que deveria ajudá-las. O ponto comovente de sua derrota estava no fato de que não desejava que as Bene Gesserit pagassem o preço lembrado.

“As Bene Gesserit são muito valiosas.”

Eram infinitamente valiosas para as Honradas Madres. Murbella duvidava que qualquer outra Honrada Madre ao menos suspeitasse disso.

Vaidade.

Esse era o julgamento que vinculava às antigas Irmãs. “E a mim mesma, quando era uma delas.” Um orgulho terrível. Tinha surgido de sua subjugação durante tantas gerações, antes de ganharem sua própria ascendência.

Murbella tinha tentado transmitir isso a Odrade, fazendo um relato minucioso da História ensinada pelas Honradas Madres.

— O escravo dá um péssimo senhor — disse Odrade.

Murbella compreendia que havia um padrão antigo que ela aceitara outrora, mas rejeitava agora, e não poderia explicar inteiramente a mudança.

“Deixei para trás todas essas coisas, que hoje seriam infantis para mim.”

Duncan, uma vez mais, tinha interrompido os exercícios. Tanto professor como aluno estavam transpirando muito, ofegantes e tentando recobrar o fôlego. Trocavam olhares estranhos entre si. “Conspiração?” O menino parecia extraordinariamente maduro.

Lembrou-se do comentário de Odrade:

— A maturidade impõe seu próprio comportamento. Uma de nossas lições — torne esses imperativos conscientes. Modifique os instintos.

“Elas têm me modificado e o farão ainda mais.”

Podia ver a mesma coisa acontecendo no comportamento de Duncan com o menino ghola.

— Esta é uma atividade que cria muitas pressões nas sociedades que influenciamos — dissera Odrade. — Que nos força a constantes adaptações.

“Mas como elas poderão ajustar-se a minhas antigas Irmãs?”

Odrade revelou um sangue-frio característico, quando defrontada com a pergunta.

“Enfrentamos ajustes importantes em função de nossas atividades passadas. Era a mesma coisa no tempo do Tirano.

“Ajustes?”

Duncan estava falando com o menino. Murbella aproximou-se para ouvi-los.

— Já conhece a estória do Muad'Dib? Bem. Você é um Atreides, e isso subentende falhas.

— Isso quer dizer erros, senhor?

— Com os diabos, é isso mesmo! Nunca escolha um caminho simplesmente porque ele lhe oferece a oportunidade de um gesto dramático.

— Foi assim que morri?

“Ele tinha feito a criança pensar em seu antigo eu na primeira pessoa.”

— Seja você o juiz. Mas sempre foi uma franqueza Atreides. Coisas atraentes, os gestos. Morrer nos chifres de um touro, como fez o avô do Muad'Dib. Um grande espetáculo para seu povo. Matéria de estórias durante gerações! Ainda se podem ouvir algumas partes das estórias, mesmo depois de eras passadas.

— A Madre Superiora me contou essa estória.

— Sua verdadeira mãe também, provavelmente.

A criança estremeceu.

— Tenho um sentimento esquisito quando você fala em minha mãe verdadeira. — Havia temor na voz infantil.

— Sentimentos esquisitos são uma coisa; esta lição é outra. Estou falando sobre algo com um rótulo permanente: “O Gesto Desiano.” Era costume falar “Atreidesiano”, mas esse nome é muito incômodo.

Uma vez mais a criança tocou o núcleo de sua consciência amadurecida.

— Mesmo a vida de um cachorro tem seu preço.

Murbella prendeu a respiração, num lampejo de como seria-uma mente adulta num corpo infantil. Desconcertante.

— Sua mãe de nascimento era Janet Roxbrough dos Lernaeus Roxbroughs — disse Idaho. — Era uma Bene Gesserit. Seu pai era Loschy Teg, um agente comercial de CHOAM. Daqui a pouco vou mostrar-lhe o quadro favorito do Bashar, de sua casa em Lernaeus. Quero que o conserve consigo e o estude. Pense nele como seu lugar favorito.

Teg acenou afirmativamente, mas a expressão de seu rosto mostrava que estava com medo.

Seria possível que o grande Guerreiro Mentat tivesse conhecido o medo? Murbella sacudiu a cabeça. Tinha um conhecimento intelectual do que Duncan estava fazendo, mas sentia lacunas nos relatos. Isso era algo que ela nunca poderia experimentar. Qual seria o sentimento de despertar para uma nova vida, mantendo intactas as lembranças de uma outra? Muito diferente da Outra Memória das Reverendas Madres, pensava.

— A mente em seu começo — era como Duncan dizia. — Despertar seu Verdadeiro Eu. Senti que estava mergulhando num universo mágico. Minha consciência era um círculo, e então um globo. Aí caí em transe, tudo a meu redor tinha uma qualidade fracamente luminosa. Nada era real. Isso passou, e achei que tinha perdido a única realidade. Minha mesa era de novo uma mesa.

Ela tinha estudado o manual Bene Gesserit “Sobre o Despertar das Memórias Originais de um Ghola.” Duncan estava divergindo das instruções. Por quê?

Ele deixou Teg e se aproximou de Murbella.

— Tenho que falar com Sheeana — disse ao passar por ela. — Deve haver um modo melhor.

 

 

XXXXXX

 

 

A compreensão imediata é geralmente uma resposta-reflexo, e a mais perigosa forma de entendimento. Lança uma tela opaca sobre a capacidade de aprender. Os precedentes de julgamento da lei funcionam desse modo, atulhando o caminho de becos sem saída. Fique de sobreaviso. Não entenda nada. Toda compreensão é temporária.

 

— Regra Mentat (adacto)

 

Idaho, sentado sozinho em sua mesa de comando, deparou-se com um lançamento que ele mesmo tinha introduzido nos Sistemas da Nave em seus primeiros dias de prisão, e achou-se inundado (aplicou a palavra depois) de atitudes e consciência sensorial daquele tempo. Era o anoitecer de um decepcionante dia na não-nave. Ele estava de volta lá, esticado entre o então e o agora, do modo em que as vidas em série de ghola ligavam esta encarnação a seu nascimento original.

Imediatamente, viu o que viera a chamar de “a rede” e o casal idoso definido por linhas cruzadas, corpos visíveis através de uma luz trêmula formada de fios coloridos-verde, azul, dourado e um prateado tão brilhante que doía nos olhos.

Percebia nessas pessoas uma estabilidade divina e algo bastante comum. A palavra ordinário veio-lhe à mente. A já familiar paisagem de jardim estendia-se por trás deles: arbustos de flores (rosas, pensou), gramados ondulantes, altas árvores.

O casal retribuía seu olhar com uma intensidade que o fazia sentir-se nu.

Um novo poder na visão! Não estava mais restrita ao Grande Porão, um ímã de compulsão crescente, puxando-o para lá tão freqüentemente que sabia que as vigilantes estavam de sobreaviso.

“Será ele um outro Kwisatz Haderach?”

Havia um nível de suspeita por parte da Bene Gesserit, além do qual ele não poderia ir, sem ser eliminado. E elas o estavam vigiando bem agora!

Perguntas, especulações preocupadas. A despeito disso, ele não conseguia desviar-se da visão.

Por que esse casal idoso parece tão familiar? Alguém de seu passado? Família?

O folhear Mentat de suas lembranças não produziu nada que se adequasse à especulação. Rostos redondos. Queixos reduzidos. Gordas papadas. Olhos escuros. A rede obscurecia sua cor. A mulher usava um longo vestido azul e verde que lhe ocultava os pés. Um avental branco manchado de verde cobria o vestido, desde o amplo colo até abaixo da cintura. Ferramentas de jardinagem pendiam das alças do avental. Carregava uma pá na mão esquerda. Tufos de cabelo grisalho escapavam do lenço verde, e espalhavam-se em volta dos olhos, enfatizando as linhas marcadas pelo riso. Tinha uma aparência de... avó.

O homem combinava com ela, como se ambos fossem criados pelo mesmo artista, para fazer um par. Macacão de peitilho sobre o estômago saliente. Sem chapéu. Os mesmos olhos escuros brilhando em reflexos. O cabelo, cortado rente, era espetado e grisalho.

Ele tinha a expressão mais bondosa que Idaho já vira. Vincos de sorriso, voltados para cima, nos cantos dos lábios, e equilibrava, na palma direita estendida, o que parecia ser uma bola de metal. A bola emitia um assobio penetrante, que fazia com que Idaho tapasse os ouvidos com as mãos. Isso não abafou o som, que diminuiu aos poucos, por si só. Ele abaixou as mãos.

“Rostos tranqüilizadores.” O pensamento despertou as suspeitas de Idaho, porque agora reconhecia a familiaridade. Pareciam um pouco com Dançarinos Faciais, até no nariz arrebitado.

Inclinou-se para a frente, mas a visão manteve a distância.

— Dançarinos Faciais — sussurrou.

A rede e o casal idoso desapareceram.

Foram substituídos por Murbella em malha de exercício de um negro reluzente. Teve que estender o braço e tocá-la, para acreditar que ela de fato estava lá.

— Duncan, o que foi? Você está todo suado.

— Acho... que é alguma coisa que esses malditos Tleilaxu plantaram em mim. Continuo vendo... Acho que são Dançarinos Faciais. Eles... eles estavam olhando para mim bem agora... — um assobio. — Doeu.

Ela relanceou para os televigias, mas não pareceu preocupada. Isso era uma coisa que as Irmãs podiam saber sem representar perigo imediato... a não ser para Scytale, possivelmente.

Agachou-se ao lado dele e pôs a mão no seu braço.

— Alguma coisa que eles fizeram com seu corpo nos tanques?

— Não!

— Mas você disse...

— Meu corpo não é simplesmente uma parte da nova bagagem para esta viagem. Tem toda a química e a substância que sempre tive. Minha mente é que está diferente.

Isso a inquietou. Conhecia a preocupação das Bene Gesserit a respeito de talentos selvagens.

— Maldito Scytale!

— Vou descobrir tudo — ele disse.

Fechou os olhos e ouviu Murbella erguer-se. Sua mão despregou-se do braço dele.

— Talvez não devesse fazê-lo, Duncan. — Sua voz soava longínqua.

“Memória. Onde eles guardavam a coisa secreta? Nas profundezas das células originais?” Até esse momento ele tinha considerado sua memória como um instrumento Mentat. Podia evocar suas próprias imagens de antigos momentos em frente de espelhos. Bem de perto, examinando uma ruga da idade. Olhando uma mulher atrás de si — dois rostos no espelho e sua face cheia de perguntas.

Faces. Uma sucessão de máscaras, diferentes perspectivas dessa pessoa chamada eu. Faces ligeiramente desequilibradas. Cabelos às vezes grisalhos, às vezes os caracóis negros de sua vida atual. Às vezes humorístico, outras grave, procurando interiormente sabedoria para enfrentar um novo dia. Em algum lugar nisso tudo uma consciência que observava e deliberava. Alguém que fazia escolhas. Os Tleilaxu tinham interferido nisso.

Idaho sentiu o sangue pulsando forte e sabia que o perigo estava presente. Era isso que ele estava destinado a experimentar... mas não pelos Tleilaxu. Tinha nascido com ele.

“Isto é o que significa estar vivo.”

Nenhuma lembrança de outras vidas, nem as coisas que os Tleilaxu lhe tinham feito modificavam em nada sua mais profunda consciência.

Abriu os olhos. Murbella ainda estava perto, mas sua expressão estava velada. “Então é assim que ela será, quando se tornar uma Reverenda Madre.”

Não gostou da mudança.

— O que acontece quando as Bene Gesserit falham?

Como ela não respondesse, ele acenou com a cabeça. “Sim. É a pior suposição. A Irmandade indo para o esgoto. E você não deseja isso, minha amada.”

Podia vê-lo em seu rosto quando ela voltou-se e o deixou.

Olhando para os televigias, ele disse:

— Dar, preciso falar com você, Dar.

Não houve resposta de nenhum dos mecanismos à sua volta. Ele não esperava, também.

Entretanto, sabia que podia falar com ela, e que Odrade teria de ouvi-lo.

— Tenho examinado nosso problema pelo outro lado — disse. E imaginou o ruído diligente dos gravadores registrando o som de sua voz nos cristais ridulianos. — Tenho penetrado na mente das Honradas Madres. Sei que cheguei lá. Repercutiu em Murbella.

Isso as alertaria. Ele tinha sua própria Honrada Madre. Mas ter não era bem a palavra. Ele não tinha Murbella. Nem mesmo na cama. Eles tinham um ao outro. Tão casados como pareciam estar as pessoas da visão. Era isso o que ele tinha visto? Duas pessoas mais velhas treinadas sexualmente pelas Honradas Madres?

— Estou pensando em outro assunto, agora — disse. — Como superar as Bene Gesserit.

Isso lançava o desafio.

— Episódios — disse. Uma palavra que Odrade gostava de usar. — É assim que devo ver o que está nos acontecendo. Pequenos episódios. Mesmo a pior suposição deve ser examinada contra esse background. A Dispersão tem uma magnitude que reduz a dimensão de tudo que fazemos.

Aí estava! Isso demonstrava seu valor para as Irmãs. Punha as Honradas Madres numa melhor perspectiva. Elas estavam de volta ao Antigo Império. Companheiras nessa redução feita pela Dispersão. Sabia que Odrade veria. Bell a faria ver.

Em algum lugar do Universo Infinito, um júri tinha dado um veredicto contra as Honradas Madres. A lei e seus administradores não tinham prevalecido para as caçadoras. Suspeitou que sua visão lhe tinha mostrado dois dos jurados. E se fossem Dançarinos Faciais, não seriam os de Scytale. Aquelas duas pessoas por trás da trêmula rede não pertenciam a ninguém, a não ser a si próprias.

 

As maiores falhas de governo nascem do medo de efetuar mudanças internas radicais mesmo quando obviamente necessárias.

 

— Darwi Odrade

 

Para Odrade, a primeira melange da manhã era sempre diferente. O corpo reagia como um esfomeado agarrando um fruto doce. Depois vinha a restauração lenta, penetrante e dolorosa.

Esse era o aspecto assustador do vício da melange.

Ficou de pé junto à janela do quarto de dormir, esperando que o efeito passasse. Notou que a Meteorologia havia conseguido mais uma chuva matinal. A paisagem fora lavada, tudo estava imerso em névoa romântica, os contornos indistintos, e reduzidos a essências, como velhas memórias. Abriu a janela. Um ar frio e úmido soprou-lhe no rosto, envolvendo-a em recordações, como alguém que veste uma roupa familiar.

Respirou fundo. O cheiro após a chuva! Recordou o essencial da vida, ampliado e suavizado por água caindo, mas essa chuva era diferente. Deixava um cheiro de pederneira que sentia no paladar.

Odrade não gostava disso. A mensagem não era de algo lavado, limpo, e sim da vida ressentida, querendo que parasse toda a chuva, e fosse trancada em algum lugar. Essa chuva não mais suavizava e trazia a plenitude. Possuía a consciência inevitável de mudança.

Odrade fechou a janela. Encontrou-se logo de volta ao cheiro familiar de seus aposentos, e o aroma constante de shere proveniente dos implantes dosados exigidos em todos que conhecessem a localização da Sede da Irmandade. Ouviu Streggi entrar, e o leve roçar dos mapas do deserto sendo mudados. “

Um som eficiente nos movimentos de Streggi. Semanas de convívio confirmaram a primeira opinião de Odrade. Confiável. Não era brilhante, mas era extremamente sensível às necessidades da Madre Superiora. Veja como seus movimentos são silenciosos. Se a sensibilidade de Streggi fosse transferida para as necessidades do jovem Teg, teriam a altura e mobilidade por ele requeridas. Um cavalo? Muito mais.

A assimilação de melange de Odrade alcançou o ponto culminante e entrou em declínio. O reflexo de Streggi na janela mostrava que estava aguardando instruções. Sabia que esses momentos eram dedicados à especiaria. Na fase em que se encontrava, deveria estar ansiosa pelo dia em que ingressasse nessa intensificação misteriosa.

“Desejo que se dê bem.”

A maioria das Reverendas Madres seguia os ensinamentos, e raramente pensava na especiaria como sendo um vício. Odrade sabia todas as manhãs exatamente o que era. Tomavam a especiaria durante o dia atendendo às solicitações do corpo, de acordo com os padrões do treinamento inicial: dose mínima, só o bastante para aguçar o sistema metabólico e levá-lo ao máximo de desempenho. As necessidades biológicas entrosam-se melhor com melange. A comida tem melhor sabor. Fora um acidente ou assalto fatal, vive-se muito mais do que sem melange. Mas é um vício.

Uma vez o corpo restaurado, Odrade piscou os olhos e observou Streggi. A curiosidade sobre o longo ritual matinal era evidente. Dirigindo-se à imagem de Streggi na janela, Odrade disse:

— Você aprendeu sobre a retirada de melange?

— Sim, Madre Superiora.

Apesar dos avisos para não espalhar o conhecimento do caráter vicioso da droga, este estava sempre presente na consciência de Odrade, e ela sentia os ressentimentos acumulados. A preparação mental como acólita (impressa com grande força na Agonia) fora corroída pela Outra Memória e pela acumulação do tempo. A advertência: “A retirada remove um elemento essencial de sua vida, e se ocorrer no final da meia-idade, pode matá-la.” Como isso era irrelevante agora.

— A retirada significa muito para mim — disse Odrade. — Sou uma dessas para quem a melange matinal é dolorosa. Tenho certeza que lhe disseram que isso acontece.

— Sinto muito, Madre Superiora.

Odrade estudou o mapa. Mostrava uma ponta mais comprida de deserto alongando-se para o norte, e um alargamento pronunciado de terras áridas para o sudeste da Central, onde Sheeana tinha sua estação. Em seguida, voltou a contemplar Streggi, que observava a Madre Superiora com mais interesse.

“Assustada com a idéia do lado mau da especiaria!”

— A singularidade da melange é raramente levada em consideração em nossa época — disse Odrade. — Todos os narcóticos antigos que os humanos usaram, exceto a especiaria, têm um fator extraordinário em comum. Todos encurtaram a vida e causaram dor.

— Assim nos disseram, Madre Superiora.

— Mas provavelmente não lhe disseram que um fato de domínio pode ser obscurecido pela nossa preocupação com as Honradas Madres. Existe nos governos uma ganância de energia (sim, mesmo no nosso), que pode jogá-la numa armadilha. Se você me servir, sentirá isso em suas entranhas, porque todas as manhãs me verá sofrer. Deixe o conhecimento dessa armadilha fatal penetrar em seu íntimo. Não se torne uma traficante insensível, presa a um sistema que substitui a vida por uma morte indiferente, como fazem as Honradas Madres. Lembre-se: podem-se cobrar impostos sobre narcóticos aceitáveis, a fim de pagar salários ou criar empregos para funcionários irresponsáveis.

Streggi pareceu confusa.

— Mas a melange prolonga nossa vida, melhora a saúde, e desperta o apetite para...

Foi interrompida pelo aspecto severo de Odrade. “Perfeitamente de acordo com o Manual das Acólitas!”

— Tem esse outro lado, Streggi, que você vê em mim. O Manual das Acólitas não mente. Mas a melange é um narcótico e nós somos viciadas.

— Sei que não é de efeito suave para todo mundo, Madre Superiora. Mas disse que as Honradas Madres não a usam.

— O substituto que usam em lugar da melange traz alguns benefícios, exceto o de evitar as agonias da retirada e a morte. É um viciador paralelo.

— E a prisioneira?

— Murbella costumava usá-lo, e agora usa melange. São permutáveis. Interessante?

— Eu... imagino que vamos aprender mais sobre isso. Notei, Madre Superiora, que nunca se refere a elas como prostitutas.

— Como as acólitas fazem? Ah, Streggi, Bellonda está sendo uma influência má. Oh, reconheço as pressões. — Streggi ensaiou um protesto. — As acólitas sentem a ameaça. Olham a Sede e imaginam que é sua fortaleza, para a longa noite das prostitutas.

— É mais ou menos assim, Madre Superiora. — Uma grande hesitação.

— Streggi, este planeta é somente mais outro lugar temporário. Hoje iremos para o sul e convenceremos vocês disso. Por favor, procure Tamalane e diga-lhe que tome as providências que já discutimos para nossa visita a Sheeana. Não comente isso com ninguém mais.

— Sim, Madre Superiora. Quer dizer que vou acompanhá-la?

— Quero você ao meu lado. Diga àquela que você está treinando que agora está encarregada de meu mapa.

Quando Streggi saiu, Odrade pensou em Sheeana e Idaho. “Ela quer falar com ele, e ele quer falar com ela.”

A análise dos televigias registrara que esses dois conversavam às vezes por sinais manuais, escondendo a maior parte dos movimentos com os próprios corpos. Parecia uma linguagem Atreides antiga de batalha. Odrade reconhecia uma parte, mas não o bastante para determinar o conteúdo. Bellonda queria uma explicação de Sheeana. — Segredos! — Odrade era mais cautelosa. — Deixe que continuem um pouco. Talvez surja alguma coisa interessante.

“O que é que Sheeana quer?”

O que quer que Duncan pensasse, dizia respeito a Teg. Criar a dor necessária para que Teg recuperasse suas memórias originais era o que Duncan não queria fazer.

Odrade notara isso, quando interrompera Duncan em sua mesa de comando no dia anterior.

— Você está atrasada, Dar. — Sem levantar os olhos do que estava fazendo. “Atrasada? A noite apenas começara.”

Vinha chamando-a de Dar com freqüência há vários anos, uma ferroada, um indício de que não gostava de viver como peixe em aquário. A ferroada irritou Bellonda, que criticou “sua infernal familiaridade”. Ele chamava Bellonda de “Bell”, naturalmente. Duncan era generoso com suas agulhadas.

Lembrando-se disso, Odrade parou, antes de entrar na sala de trabalho. Duncan dera um murro no balcão junto à mesa de comando.

— Tem de haver uma coisa melhor para Teg!

“Uma coisa melhor? O que ele está pensando?”

Um movimento no corredor do outro lado da sala de trabalho interrompeu o fluxo de pensamentos. Streggi, voltando de Tamalane. A jovem entrou na Sala de Plantão das Acólitas. “Dando instruções a sua substituta sobre o mapa do deserto.”

Uma pilha de registros do Arquivo aguardava Odrade em sua mesa. “Bellonda!” Odrade encarou a pilha. Por mais que tentasse delegar trabalho, havia sempre esse resíduo organizado que suas conselheiras insistiam em submeter à Madre Superiora. A maior parte desse novo lote era conseqüência da exigência de Bellonda de “sugestões e análises”.

Odrade manipulou a mesa de comando.

— Bell!

A voz de uma escrivã dos Arquivos respondeu:

— Madre Superiora?

— Mande Bell aqui! Quero que esteja aqui, à minha frente, o mais depressa possível para aquelas pernas gordas!

Levou menos de um minuto. Bellonda postou-se em frente à mesa de trabalho como uma acólita que tivesse sido repreendida. Todas conheciam esse tom de voz da Madre Superiora.

Odrade tocou a pilha sobre a mesa e tirou abruptamente a mão, como se tivesse recebido um choque.

— Em nome de Shaitan, o que é isso tudo?

— Achamos que era importante.

— Acha que tenho de ver tudo e qualquer coisa? Onde estão as anotações dos pontos principais? É muita negligência, Bell! Não sou uma idiota, nem você. Mas isso... vendo isso...

— Delego tudo que...

— Delega? Olhe isso aqui! O que tenho de ver, e o que posso delegar? Não tem nenhuma anotação!

— Vou providenciar imediatamente para que seja corrigido.

— E vai mesmo, Bell. Porque Tam e eu vamos hoje para o sul, uma inspeção sem avisar, e uma visita a Sheeana. E enquanto estiver fora, você vai sentar em minha cadeira. Vamos ver se vai gostar desse dilúvio diário!

— Vai ficar em contato?

— Usarei uma linha de luz e um comunicador Áudio-V todo o tempo.

Bellonda respirou aliviada.

— Sugiro, Bell, que volte aos Arquivos e deixe alguém encarregado de assumir a responsabilidade. Vocês estão começando a agir como verdadeiras burocratas. Só querem se defender!

— Os barcos de verdade balançam, Dar.

Bell, tentando ser engraçada? Nem tudo estava perdido! Odrade moveu a mão sobre o projetor e lá estava Tamalane, no Hall de Transportes.

— Tam?

— Sim? — Sem desviar a atenção de uma lista de tarefas.

— Quando podemos partir?

— Dentro de umas duas horas.

— Chame quando estiver pronta. Oh, Streggi vai conosco. Arranje lugar para ela. — Odrade apagou a projeção antes que Tamalane pudesse responder.

Odrade sabia que havia muito a fazer. Tam e Bell não eram os únicos motivos de preocupação da Madre Superiora.

“Restam-nos dezesseis planetas... e isso incluindo Buzzell, um lugar que decididamente está em perigo. Só dezesseis!” Afastou esse pensamento. Não tinha tempo para isso.

“Murbella. Será que devo chamá-la e... Não. Isso pode esperar. O novo Conselho de Instrutoras? Bell pode tomar conta disso. Dispersão de comunidades?”

A transferência de pessoal para uma nova Dispersão forçara consolidações. “Ficar à frente do deserto!” Era deprimente, e não se achava capaz de enfrentar isso hoje. “Fico sempre inquieta antes de uma viagem.”

De repente, Odrade saiu correndo da sala de trabalho e percorreu os corredores, observando o desempenho de suas protegidas, parando no vão das portas, notando o que as estudantes estavam lendo, como se comportavam nos eternos exercícios prana-bindu.

— O que está lendo? — perguntou a uma jovem acólita de segundo grau em frente a um projetor na sala semi-escura.

— Os diários de Tolstoi, Madre Superiora.

O brilho malicioso nos olhos da acólita dizia: “Tem as palavras dele diretamente na Outra Memória?” A pergunta estava ali, bem na ponta da língua dela! Estavam sempre experimentando esses gambitos tolos quando a encontravam a sós.

— Tolstoi era um nome de família! — Odrade retrucou. — Como mencionou diários, presumo que esteja se referindo ao Conde Leo Nikolaievich.

— Sim, Madre Superiora. — Envergonhada e ciente da censura. Acalmando-se, Odrade citou para a jovem: — “Não sou um rio, sou a rede.” Ele disse isso em Iasnaia Poliana quando tinha só 11 anos. Não vai encontrar essas palavras nos diários, mas provavelmente são as palavras mais importantes que jamais pronunciou.

Odrade virou as costas antes que a acólita pudesse lhe agradecer. “Sempre ensinando!”

Desceu, então, até as cozinhas principais e as inspecionou, passando o dedo nas bordas internas das panelas para ver se estavam gordurosas, notando a maneira cautelosa até do cozinheiro-chefe observando seus passos.

A cozinha recendia a bons aromas dos preparativos para o almoço. Havia o ruído revigorante de golpes de facas e coisas sendo misturadas, mas as brincadeiras pararam assim que entrou.

Contornou o longo balcão com cozinheiros atarefados e dirigiu-se à plataforma elevada do cozinheiro-instrutor. Era um homem alto e corpulento, as maçãs do rosto proeminentes, as faces tão vermelhas quanto as carnes sobre as quais presidia. Odrade não tinha dúvida alguma que era um dos grandes mestres de cozinha da História. O nome lhe assentava bem: Plácido Salat. Ocupava um lugar especial garantido nos pensamentos dela por várias razões, incluindo o fato de que treinara sua cozinheira pessoal. Visitas importantes, nos tempos antes das Honradas Madres, eram levadas para ver a cozinha e provar pratos especiais.

— Deixe-me apresentar nosso chefe da cozinha, Plácido Salat!

Seu bife plácido (com minúscula, a seu pedido) era motivo de inveja de muitos. Quase cru, e servido com um molho de ervas e mostarda picante, que não obscurecia a carne.

Odrade achava o prato por demais exótico, mas nunca dissera nada em voz alta.

Quando Salat lhe deu toda a atenção (após uma ligeira interrupção para corrigir um molho), Odrade disse:

— Estou com vontade de comer algo especial, Plácido.

Conhecia o prólogo. Era sempre assim que começava quando queria pedir seu “prato especial”.

— Talvez ostras ensopadas — sugeriu.

“É uma dança”, pensou Odrade. Ambos sabiam o que ela queria.

— Excelente! — concordou, e prosseguiu com a performance de praxe. — Mas têm de ser tratadas com carinho, Plácido, as ostras não podem cozinhar demais. Um pouco de nosso aipo em pó no caldo.

— E talvez um pouquinho de páprica?

— Prefiro sempre assim. Tome muito cuidado com a melange. Só um pinguinho, nada mais.

— Claro, Madre Superiora! — Virou os olhos, horrorizado com a idéia de usar melange demais. — É tão fácil a especiaria predominar.

— Cozinhe as ostras em caldo de mariscos, Plácido. Prefiro que você mesmo faça isso, mexendo devagar até as beiras das ostras começarem a encrespar.

— Nem um segundo a mais, Madre Superiora.

— Esquente um leite bem cremoso em separado. Não deixe que ferva! — Plácido demonstrou espanto de que alguém pudesse suspeitar de ele ferver o leite para o ensopado de outras.

— Um pedacinho pequeno de manteiga na travessa em que for servir — disse Odrade. — E despeje o caldo misturado.

— Sem vinho xerez?

— Que bom que você está, pessoalmente, tomando conta de meu prato especial, Plácido. Esqueci do xerez. — (A Madre Superiora jamais esquecia alguma coisa, e todos sabiam disso, mas era mais um passo de dança.)

— Três onças de xerez no caldo — disse ele.

— Esquente para dissipar o álcool.

— É claro! Mas não podemos esmagar os temperos. Vai querer croutons ou crackers?

— Croutons, por favor.

Sentada à mesa em uma saleta, Odrade comeu dois pratos de ensopado de ostras, recordando como a Filha do Mar costumava saboreá-lo. Papai a apresentara a esse prato quando mal conseguia levar a colher à boca. Ele mesmo fazia o ensopado, era sua especialidade. Odrade o ensinara a Salat.

Elogiou o vinho.

— Gostei de sua escolha de um Chablis como acompanhamento.

— Um Chablis com personalidade e um ligeiro sabor acre, Madre Superiora. Uma de nossas melhores safras. Realça o sabor das ostras de forma espetacular.

Tamalane a encontrou na saleta. Sempre sabiam onde encontrar a Madre Superiora quando precisavam dela.

— Estamos prontas. — Seria desagrado, aquela expressão no rosto de Tam?

— Onde vamos ficar hoje à noite?

— Eldio.

Odrade sorriu. Gostava de Eldio.

“Tam tratando bem de mim porque estou muito crítica? Talvez possa me divertir um pouco.”

Seguindo Tamalane à estação de transportes, Odrade pensou como era típico da mulher mais velha preferir viajar por tubo. Viagens na superfície a irritavam.

— Quem quer perder tempo na minha idade?

Odrade não gostava de tubos para transporte pessoal. Sentia-se tão fechada e indefesa! Preferia a superfície ou o ar, e usava tubos somente quando era urgente ser veloz. Não tinha a menor hesitação em usar tubos menores para bilhetes e mensagens. “As mensagens não se importam, desde que cheguem lá.”

Essa idéia sempre lhe trazia à consciência a rede que se adaptava a seus movimentos onde quer que fosse.

Em algum lugar, no coração das coisas (havia sempre um “coração das coisas”), um sistema automatizado traçava o trajeto das comunicações e assegurava (a maior parte do tempo) que mensagens importantes chegassem a seu destino.

Quando não havia necessidade do Transporte Privado (todo mundo o chamava de TP), podiam-se usar reproduções ou visual por meio de separadores misturados e linhas de luz. Fora do planeta era outro problema, especialmente nessa época de caça. O mais seguro era mandar uma Reverenda Madre com mensagens memorizadas ou implantes distrans. Hoje em dia todos os mensageiros tomavam doses maiores de shere. As sondas-T podiam ler até uma mente morta que não fosse protegida por shere. Todas as mensagens para fora do planeta eram criptografadas, mas algum inimigo poderia descobrir a única cobertura que as escondia. Alto risco fora do planeta. Talvez fosse por isso que o Rabino continuava calado.

“Mas por que estou pensando nisso agora?”

— Alguma notícia de Dortujla? — perguntou, quando Tamalane se preparava para entrar na roda de Transporte, onde os outros membros do grupo aguardavam. Tantas pessoas. Por que tantas?

Odrade viu Streggi mais à frente, na beira da ponte, falando com uma acólita de Comunicações. Havia pelo menos mais outras seis pessoas de Comunicações nas proximidades.

Tamalane virou-se, evidentemente irritada.

— Dortujla! Todo mundo já lhe disse que a avisaremos assim que tivermos alguma notícia!

— Só estava perguntando, Tam. Só perguntando.

Docilmente, Odrade seguiu Tamalane, entrando no Transporte “Eu deveria colocar um monitor na mente e questionar tudo que surgisse “ Havia sempre uma razão forte para as instruções mentais.

Essa era a maneira Bene Gesserit, como Bellonda lembrava com freqüência.

Odrade ficou surpresa consigo mesma, entendendo então que estava mais do que farta das maneiras Bene Gesserit.

“Que Bell se preocupe com essas coisas, para variar!” Estava na hora de flutuar, livre, de reagir como um fogo-fátuo às correntes à sua volta.

A Filha do Mar conhecia as correntes.

 

O tempo não conta a sua passagem. Basta olhar um círculo, para que isso seja evidente.

 

— Leto II (O Tirano)

 

— Veja só! Veja o que aconteceu conosco! — O Rabino gemeu. Estava sentado de pernas cruzadas no frio chão curvo, com o xale cobrindo a cabeça e quase escondendo o rosto.

A sala onde estava era sombria e ecoava pequenos ruídos de maquinaria que faziam com que se sentisse enfraquecido. Se ao menos esse barulho parasse!

Rebecca estava de pé em frente a ele, com as mãos nos quadris, um ar de frustração cansada espelhada no rosto.

— Não fique aí assim! — o Rabino ordenou. Espiou-a por debaixo do xale.

— Se se desesperar, não estaremos perdidos? — ela perguntou.

O som da voz dela o enfureceu, e levou uns momentos para afastar essa emoção indesejada.

“Ela ousa me dar instruções? Mas não foi dito por homens mais sábios que a sabedoria pode vir de uma erva daninha?” Um imenso suspiro o fez estremecer, e deixou cair o xale para os ombros.

Rebecca ajudou-o a ficar de pé.

— Uma não-sala — o Rabino resmungou. — Aqui, nos escondemos de... — Dirigiu o olhar para o teto escuro. — Melhor não dizer nada, mesmo aqui.

— Estamos nos escondendo do que não pode ser mencionado — disse Rebecca.

— A porta nem ao menos pode ficar aberta na Páscoa — ele disse. — Como é que o Estranho vai entrar?

— Não queremos certos estranhos — disse ela.

— Rebecca. — Baixou a cabeça. — Você é mais que uma provação e um problema. Essa pequena célula do Israel Secreto compartilha seu exílio porque compreendemos que...

— Pare de dizer isso! Não compreende nada do que aconteceu comigo. Meu problema? — Inclinou-se bem perto dele. — É permanecer humana estando em contato com todas aquelas vidas passadas.

O Rabino encolheu-se.

— Então você não é mais uma de nós? Agora é uma Bene Gesserit?

— Saberá quando eu for uma Bene Gesserit. Vai me ver olhando para mim mesma como eu me olho.

Ele franziu as sobrancelhas.

— O que está dizendo?

— Um espelho olha o quê, Rabino?

— Hmmmmm! Charadas... — Mas um ligeiro sorriso repuxou-lhe os lábios. Um olhar determinado voltou a seus olhos. Olhou em volta de si. Havia oito deles aqui, mais do que o espaço comportava.

“Uma não-sala!” Tinha sido montada a duras penas e contrabandeada pedaço por pedaço. Tão pequena, 12,5m de comprimento. Ele mesmo medira. O formato de um antigo barril colocado de lado, oval em corte transversal e com tampas semicirculares nas pontas. O teto se erguia a não mais de 1m sobre sua cabeça. O ponto mais alto no centro não excedia 5m e as curvas do chão e do teto faziam parecer que era ainda menos. Alimentos desidratados e água reciclada. Era com isso que tinham de sobreviver, e por quanto tempo? Um AP talvez, se não fossem encontrados. Não confiava na segurança desse invento. Aqueles ruídos esquisitos na maquinaria.

O dia já estava no fim quando se arrastaram para esse buraco. Lá fora certamente já estava escuro. E onde estava o resto de seu povo? Fugira para qualquer abrigo que pudera encontrar, cobrando dívidas antigas e compromissos honrados por serviços prestados. Alguns iriam sobreviver. Talvez sobrevivessem melhor que esse restinho aqui.

A entrada da não-sala estava escondida embaixo de um depósito de cinzas, com uma chaminé ao lado. O metal que reforçava a chaminé continha fios de cristal riduliano para repassar cenas de fora para o interior. Cinzas! A sala ainda recendia a coisas queimadas, e já começava a adquirir um cheiro de esgoto vindo da pequena câmara de reciclagem. Que eufemismo para um vaso sanitário!

Alguém se aproximou por detrás do Rabino.

— O grupo de busca está indo embora. Foi sorte termos sido avisados a tempo.

Era Joshua, que tinha construído essa sala. Era um homem baixo e esbelto, com um rosto triangular que terminava em um queixo fino. Cabelos escuros caíam sobre a testa larga. Tinha olhos castanhos bem separados, que olhavam seu mundo remoendo tudo internamente, o que criava desconfiança no Rabino. “Parece jovem demais para saber tanto sobre tudo isso.”

— Então estão indo embora — disse o Rabino. — Vão voltar. Aí não vai achar que temos tanta sorte.

— Não vão adivinhar que nos escondemos tão perto da fazenda — disse Rebecca. — O grupo de busca estava pilhando, mais que qualquer outra coisa.

— Ouçam a Bene Gesserit — disse o Rabino.

— Rabino! — Que tom de repreensão na voz de Joshua. — Não o ouvi dizer muitas vezes que abençoados são aqueles que escondem os defeitos dos outros mesmo de si próprios?

— Todo mundo agora é professor! — o Rabino disse. — Mas quem vai nos dizer o que vai acontecer agora?

Mas tinha que admitir a verdade das palavras de Joshua. “É a angústia de nossa fuga que me perturba. Nossa pequena diáspora. Mas não estamos nos espalhando de Babilônia. Estamos escondidos em... um porão de proteção contra ciclones!”

A idéia o revigorou. “Os ciclones passam.”

— Quem está encarregado da comida? — perguntou. — Devemos racionar tudo desde o começo.

Rebecca suspirou de alívio. O Rabino ficava pior nas grandes oscilações, emocional demais, ou intelectual demais. Estava sob controle de novo. Ia ficar intelectual demais em seguida. Isso teria que ser controlado também. A consciência Bene Gesserit lhe dava uma nova perspectiva das pessoas a seu redor. “Nossa suscetibilidade judaica. Olhe os intelectuais!”

Era uma idéia característica da Irmandade. As desvantagens para qualquer pessoa que confiasse muito nos feitos intelectuais eram imensas. Não podia negar toda a evidência da horda de Lâmpadas. A voz dentro de si confrontava com isso sempre que hesitava.

Rebecca quase chegara a gostar de perseguir as fantasias da memória, como as chamava. O conhecimento de épocas anteriores a forçava a negar seu próprio passado. Fora obrigada a acreditar em tantas coisas, que agora as considerava bobas. Mitos e quimeras, impulsos de comportamento extremamente infantil.

“Nossos deuses deveriam amadurecer, como nós.”

Rebecca reprimiu um sorriso. A voz dentro de si fazia isso com ela, muitas vezes — uma cutucada nas costelas, vinda de alguém que sabia que você ia apreciá-la.

Joshua voltara a seus instrumentos. Viu que alguém estava fazendo uma revisão do catálogo do estoque de alimentos. O Rabino observava isso com sua habitual intensidade. Os outros haviam se enrolado nos cobertores e estavam dormindo nos catres no lado escuro da sala. Vendo tudo isso, Rebecca reconheceu qual deveria ser sua função. “Evitar o tédio.”

“O mestre de jogos?”

“A não ser que tenha uma sugestão melhor, não tente me falar sobre meu próprio povo, Oradora.”

Seja o que for que pudesse dizer sobre essas conversas interiores, não havia dúvida de que todas as peças estavam ligadas — o passado com essa sala, essa sala com suas projeções das conseqüências. E isso era uma grande dádiva das Bene Gesserit. “Não pense no “Futuro”.

Predestinação? Então o que acontece com a liberdade que lhe é dada quando nasce?”

Rebecca encarou seu próprio nascimento sob outro aspecto. Isso a tinha lançado em um movimento em direção a um destino desconhecido. Cheio de perigos ocultos e de alegrias. Então, tinha seguido uma curva do rio e encontrado atacantes. A próxima curva poderia revelar uma cachoeira, ou um panorama de beleza pacífica. E aqui estava o encantamento mágico da presciência, o chamariz a que sucumbiram Muad'Dib e seu filho Tirano. “O oráculo sabe o que virá!” A tribo de Lâmpadas lhe ensinara a não buscar oráculos. O que era conhecido podia assediá-la mais que o desconhecido. A doçura do que é novo residia em suas surpresas. Será que o Rabino via isso?

“Quem vai nos dizer o que vai acontecer agora? ele pergunta.”

“É isso que quer, Rabino? Não vai gostar do que vai ouvir. Garanto. Do momento em que o oráculo falar, seu futuro se tornará idêntico a seu passado. Como se lamentaria em seu tédio. Nada de novo, nunca. Tudo velho, naquele instante de revelação.

“Mas não era isso que eu queria!, posso ouvi-lo dizendo.

“Nenhuma brutalidade, nenhuma selvageria, nenhuma calma felicidade nem alegria explosiva pode lhe acontecer inesperadamente. Como um trem-tubo descontrolado em seu túnel, sua vida correrá impetuosa para o momento do confronto final. Como uma borboleta presa em um carro, baterá as asas contra as paredes e pedirá ao destino que a solte. — Que o tubo mude de direção, por mágica. Que alguma coisa aconteça! Não deixe que essas coisas horríveis que vi aconteçam!”

De repente, ela viu que esse deveria ter sido o esforço penoso de Muad'Dib. A quem dirigira suas preces?

— Rebecca! — Era o Rabino chamando-a.

Foi até onde ele estava, agora junto do homem mais jovem, olhando o mundo escuro lá fora, revelado pela pequena projeção acima dos instrumentos de Joshua.

— Vem aí uma tempestade — disse o Rabino. — Joshua acha que transformará as cinzas em cimento.

— Isso é bom — ela disse. — É por isso que construímos aqui e deixamos a saída destampada quando entramos.

— Mas como saímos daqui?

— Temos ferramentas para isso — disse ela. — E mesmo sem ferramentas, sempre temos as mãos.

 

Um princípio básico guia a Missionária Protectiva: instrução propositada das massas. Isso é baseado firmemente em nossa crença de que a finalidade de um argumento deve ser a de mudar a natureza da verdade. Nessas questões, preferimos o uso do poder ao da força.

 

— O Codigo Bene Gesserit

 

Para Duncan Idaho, a vida na não-nave adquirira o aspecto de um jogo estranho, desde o advento de sua visão e percepção do comportamento das Honradas Madres. A entrada de Teg no jogo fora uma medida enganadora, não apenas a introdução de mais um jogador.

Ficou de pé junto à mesa de comando essa manhã e reconheceu elementos nesse jogo que eram um paralelo à sua própria infância ghola na Fortaleza Bene Gesserit em Gammu, com o idoso Bashar como guardião-mestre de armas.

Educação. Era uma preocupação fundamental naquela época, como ainda agora. E as guardas, em geral muito discretas na não-nave, mas sempre presentes, como em Gammu. Ou seus dispositivos de espionagem presentes, artisticamente camuflados e em harmonia com a decoração.

Havia ficado perito em iludi-las em Gammu. Aqui, com o auxílio de Sheeana, fizera da evasão uma grande arte.

A atividade ao seu redor fora reduzida a um nível baixo. Guardas não carregavam armas. Mas eram, na maioria, Reverendas Madres com algumas acólitas mais velhas. Não acreditavam que precisassem de armas.

Algumas coisas na não-nave contribuíam para dar uma ilusão de liberdade, principalmente o tamanho e a complexidade. A nave era grande, não podia determinar o tamanho, mas tinha acesso a muitos andares e corredores que se estendiam por mais de mil passos.

Tubos e túneis, canos de acesso que o conduziam em cápsulas suspensoras, calhas de descida rápida e ascensores, vestíbulos convencionais e amplos corredores com escotilhas que se abriam assobiando a um toque (ou permaneciam fechadas: Proibido!) — era todo um lugar para ser trancado na memória, tornando-se lá seu próprio terreno, privativo, de maneira muito diferente do que era para as guardas.

A energia necessária a fim de trazer a nave para o planeta e mantê-la era indício de um grande compromisso. A Irmandade não podia calcular o custo em nenhuma das maneiras usuais. O controlador da tesouraria da Bene Gesserit não lidava somente com tentos monetários. Nada de Solar ou moeda equivalente. Bancavam no povo, em alimentos, em pagamentos devidos às vezes por milênios, pagamentos esses muitas vezes em espécie — tanto materiais quanto lealdades.

“Pague, Duncan! Estamos cobrando sua promissória!”

Essa nave não era só uma prisão. Considerara várias projeções Mentat. Primeira: era um laboratório onde as Reverendas Madres procuravam um meio de anular a capacidade de uma não-nave de confundir os sentidos humanos.

“Um tabuleiro de jogo na não-nave-enigma e colméia. Tudo isso para guardar três prisioneiros? Não. Tinha de haver outras razões.”

O jogo tinha regras secretas, algumas só podia adivinhar. Mas achou tranqüilizador quando Sheeana entrou no espírito da coisa. “Sabia que ela teria seus próprios planos. Óbvio quando começou a praticar as técnicas das Honradas Madres. Polindo meus aprendizes!”

Sheeana queria informações íntimas de Murbella e muito mais — suas memórias de pessoas que havia conhecido em suas muitas vidas, especialmente memórias do Tirano.

“E eu quero informações sobre as Bene Gesserit.”

A Irmandade o mantinha em atividade mínima. Frustrando-o para aumentar as habilidades Mentat. Não estava no coração daquele problema maior que pressentia fora da nave. Fragmentos tantalizantes chegavam até ele quando Odrade o deixava vislumbrar a situação difícil da Irmandade, através de suas perguntas.

Suficiente para oferecer novas premissas? Só com acesso a dados que sua mesa de comando se recusava a mostrar.

Era seu problema também, que diabos! Estava em uma cela dentro da cela delas. Todos sem saída.

Odrade estivera em frente dessa mesa de comando numa tarde na semana anterior e afirmara com segurança que as fontes de dados da Irmandade estavam “abertas” para ele. Tinha estado ali mesmo, de costas para o balcão, encostada displicentemente, braços cruzados no peito. Às vezes sua semelhança com Miles Teg adulto era fantástica. Até com relação àquela necessidade (seria uma compulsão?) de ficar em pé enquanto falava. Também não gostava de cadeiras-cão.

Ele sabia que tinha uma compreensão muito vaga de seus motivos e planos. Mas não confiava neles. Não depois de Gammu.

Engodo e isca. Era assim que o tinham usado. Tivera sorte de não ter seguido o caminho de Duna — uma casca morta. Consumida pelas Bene Gesserit.

Quando ficava irrequieto assim, Idaho preferia esparramar-se na cadeira da mesa de comando. Às vezes sentava ali durante horas, imóvel, a mente tentando abranger as complexidades dos potentes recursos de dados da nave. O sistema podia identificar qualquer ser humano dentro dele. “Portanto tem monitores automáticos.” Tinha que saber quem estava falando, fazendo exigências, assumindo o comando temporário.

“Os circuitos de vôo desafiam minhas tentativas de romper as trancas. Desligados?” Era o que as guardas diziam. Mas a maneira em que a nave identificava quem penetrasse nos circuitos — sabia que aí estava a chave!

Será que Sheeana o ajudaria? Era perigoso confiar demais nela. Às vezes, quando ela o observava na mesa de comando, lembrava-se de Odrade. “Sheeana era discípula de Odrade.” Isso dava o que pensar.

Que interesse elas tinham em seu modo de usar os sistemas da nave? Como se fosse necessário perguntar!

No seu terceiro ano aqui, fizera o sistema esconder dados para ele, e isso com suas próprias teclas. Para frustrar a espionagem dos televigias, fez tudo abertamente. Inserções óbvias para futura recuperação, mas com uma segunda mensagem criptografada. Fácil para um Mentat e útil principalmente como um truque, explorando o potencial dos sistemas da nave. Fizera uma armadilha e mandara os dados para um depósito aleatório, sem esperança de recuperação.

Bellonda desconfiou, mas quando o interrogou, ele apenas sorriu.

“Escondo minha história, Bell. Minha série vive como ghola — todos eles até o original não-ghola. Coisa íntimas de que me lembro sobre essas experiências: um depósito para memórias pungentes.”

Sentado agora à mesa de comando, tinha sentimentos confusos. O encarceramento o exasperava. Apesar do tamanho e da riqueza de sua prisão, não passava de uma prisão. Sabia, já há algum tempo, que era bem provável que pudesse escapar, mas Murbella e seu próprio conhecimento cada vez maior da difícil situação de ambos o impediam. Sentia-se tão preso por seus pensamentos quanto pelo elaborado sistema representado pelas guardas e esse dispositivo monstruoso. A não-nave era um dispositivo, é claro. Uma ferramenta. Uma maneira de se mover invisivelmente em um universo perigoso. Um meio de esconder pessoas e suas intenções até dos prescientes em busca.

Com a perícia acumulada em muitas vidas, olhava a seu redor através de uma tela de sofisticação e ingenuidade. Os Mentats cultivavam a ingenuidade. Pensar que se sabe alguma coisa é a maneira mais segura de se tornar cego. Não era a maturidade que aos poucos ia freando a capacidade de aprender (ensinavam isso aos Mentats), e sim o acúmulo de “coisas que sei”.

Fontes novas de dados que a Irmandade lhe facilitara (se é que podia confiar nelas) despertavam perguntas. Como era organizada a oposição às Honradas Madres na Dispersão? É claro que havia grupos (hesitava em chamá-los de poderes) que caçavam Honradas Madres da mesma maneira que as Honradas Madres caçavam as Bene Gesserit. Matavam, também, se aceitasse a evidência de Gammu.

Futares e Treinadores? Fez uma Projeção Mentat: uma ramificação Tleilaxu na primeira Dispersão realizara manipulações genéticas. Aqueles dois em sua visão: seriam eles que criaram os Futares? Será que aqueles dois eram Dançarinos Faciais? Independentes dos Mestres Tleilaxu? As coisas não eram singulares na Dispersão.

Diabos! Precisava ter acesso a mais dados, a fontes potentes. As fontes atuais estavam longe de serem adequadas. Um instrumento de finalidade limitada, a mesa de comando poderia ser adaptada a necessidades muito mais amplas, mas suas adaptações estavam falhas. Precisava lançar-se como um Mentat!

“Acorrentaram-me, e isso foi um erro. Odrade não confia em mim? Ela é uma Atreides, desgraçada! Sabe o que devo a sua família.”

“Mais de uma vida e a dívida nunca foi paga!”

Sabia que estava inquieto. Abruptamente, concentrou-se nisso. Inquietação Mentat! Sinal de que estava à beira de uma revelação. Uma Projeção Primária. Alguma coisa que não lhe haviam dito sobre Teg?

Perguntas! Havia perguntas não-formuladas açoitando-o.

“Preciso de perspectiva!” Não necessariamente uma questão de distância. Pode-se adquirir perspectiva do próprio interior, se as perguntas contiverem poucas distorções.

Percebia que em alguma parte das experiências Bene Gesserit (talvez até nos Arquivos tão zelosamente guardados por Bell) jaziam as peças que faltavam. Bell apreciaria isso! Um companheiro Mentat reconheceria a excitação desse momento. Seus pensamentos eram como peças de mosaico, a maior parte à mão e pronta para ser encaixada. Não era uma questão de soluções.

Podia ouvir seu primeiro professor Mentat, as palavras retumbando em sua mente: “Arranje suas perguntas em equilíbrio e jogue os dados temporários em um ou outro lado da balança. As soluções desequilibram qualquer situação. A falta de equilíbrio revela o que procura.”

Sim! Conseguir a falta de equilíbrio com perguntas sensibilizadas era um ato de malabarismo Mentat.

Alguma coisa que Murbella dissera a noite anterior — o quê? Estavam na cama dela. Lembrava-se de ter visto a hora projetada no teto: 9:47. E pensara: “Essa projeção usa energia.”

Quase podia sentir o fluxo de energia da nave, esse cercado gigantesco recortado do Tempo. Maquinaria sem atritos para criar a presença mimética que nenhum instrumento podia distinguir do background natural. Exceto agora, quando estava de prontidão, protegida não contra os olhos, mas contra a presciência.

Murbella a seu lado: outra espécie de poder, ambos cientes da força tentando juntá-los. A energia que levava para suprimir aquele magnetismo mútuo! A atração sexual crescendo, crescendo, crescendo.

“Murbella falando.” É, era isso. Extremamente auto-analítica. Abordava sua vida com nova maturidade, Bene Gesserit — consciência exacerbada e confiança de que algo muito forte crescia em seu interior.

Todas as vezes que reconhecia essa mudança Bene Gesserit, ficava triste. “Está mais próximo o dia de nossa separação.”

Mas Murbella falava.

— Ela (Odrade era muitas vezes “ela”) fica me pedindo para avaliar meu amor por você.

Lembrando disso, Idaho deixou que se repetisse.

— Tentou o mesmo comigo.

— O que está dizendo?

— Odi et amo. Excrucior!

Apoiou-se no cotovelo e olhou para ele.

— Que língua é essa?

— Uma língua muito antiga que Leto me fez aprender uma vez.

— Traduza. — Peremptória. Seu antigo ego de Honrada Madre.

— Eu a odeio e a amo. E estou torturado.

— Você me odeia mesmo? — Incrédula.

— O que odeio é estar amarrado dessa maneira, não ser mestre do meu self.

— Você me deixaria se pudesse?

— Quero que a decisão ocorra de momento a momento. Quero ter o controle dela.

— É um jogo em que uma das peças não pode ser movida.

Era isso! As palavras dela.

Recordando, Idaho não se sentiu exultante, mas como se os olhos tivessem de repente se aberto após um longo sono. “Um jogo em que uma das peças não pode ser movida. Jogo.” Sua visão da não-nave e do que a Irmandade aqui fazia.

Havia mais ainda na troca de palavras.

— A nave é a nossa escola especial — Murbella disse.

Só podia concordar. A Irmandade reforçava suas capacidades Mentat para peneirar dados e expor o que não tinha aparecido. Sentiu onde isso poderia levar e teve um profundo medo.

“Você desobstrui os condutos nervosos. Você bloqueia distrações e devaneios inúteis.”

Você reorientou suas respostas para aquele modo perigoso que todos os Mentats eram ensinados a evitar. Pode perder-se aí.

Levavam os estudantes para ver os vegetais humanos, “Mentats fracassados”, mantidos vivos para demonstrar o perigo.

Mas como era tentador. Podia-se sentir o poder naquele modo. “Nada escondido. Tudo conhecido.”

Em meio àquele medo, com Murbella virando-se para ele na cama, sentiu as tensões sexuais tornarem-se quase explosivas.

“Ainda não. Ainda não!”

Um deles havia dito mais alguma coisa. O quê? Pensava sobre os limites da lógica como um instrumento para expor os motivos da Irmandade.

— Você procura analisá-los com freqüência? — Murbella perguntou. Extraordinário como fazia isso, dirigindo-se a seus pensamentos ocultos.

Ela negava que lia mentes.

— Só leio você, meu ghola. Você é meu, e sabe disso.

— E vice-versa.

— É verdade. — Quase em tom de brincadeira, mas encobrindo algo mais profundo e complexo.

Havia uma cilada em qualquer análise da psique humana e ele disse isso.

— Pensar que você sabe por que se comporta de certa maneira lhe dá toda espécie de desculpas para se comportar de maneira extraordinária.

“Desculpas por comportamentos extraordinários!” Mais uma peça para seu mosaico. Mais jogo, mas essas fichas eram culpa e recriminação.

A voz de Murbella era quase sonhadora.

— Suponho que se possa racionalizar quase tudo, atribuindo-o a algum trauma.

— Racionalizar coisas como queimar planetas inteiros?

— Há uma espécie de autodeterminação brutal nisso. Ela diz que fazer escolhas definidas firma a psique e dá uma sensação de identidade da qual você pode depender sob estresse. Você concorda, meu Mentat?

— O Mentat não é seu. — A voz não demonstrava força.

Murbella riu e recostou-se no travesseiro.

— Você sabe o que as Irmãs querem de nós, meu Mentat?

— Querem nossos filhos.

— Oh, muito mais que isso. Querem nossa participação voluntária em seu sonho.

“Outra peça do mosaico!”

Mas quem, além de uma Bene Gesserit, conhecia esse sonho? As Irmãs eram atrizes, sempre representando, deixando muito pouco do real transparecer através das máscaras. A pessoa real estava atrás de muros e era liberada em pequenas porções conforme necessário.

— Por que ela guarda aquele quadro antigo? — Murbella perguntou.

Idaho sentiu os músculos do estômago se contraírem. Odrade lhe trouxera um registro holográfico do quadro que guardava em seu quarto de dormir, Chalés em Cordeville, de Vincent Van Gogh. Acordando-o na cama, na hora das bruxas, no meio da noite, há quase um mês atrás.

— Você me perguntou sobre minha compreensão da humanidade, e aqui está ela. — Colocando o holograma em frente de seus olhos embaçados de sono. Sentou e olhou a coisa, tentando compreender. O que havia de errado com ela? Odrade parecia tão excitada.

Deixou o holo nas mãos dele enquanto acendia todas as luzes, dando ao quarto uma sensação de formas duras e imediatas, tudo vagamente mecânico, como era de esperar em uma não-nave. Onde estava Murbella? Tinham ido dormir juntos.

Focalizou o holo e este o tocou de uma maneira indefinível, como se o ligasse a Odrade. “A compreensão dela de sua própria humanidade?” O holo estava frio em suas mãos. Ela o tomou e colocou-o na mesinha-de-cabeceira, onde ele ficou contemplando-o, enquanto ela pegava uma cadeira e se sentava junto a sua cabeça. Sentada? Alguma coisa a impelia a ficar perto dele!

— Foi pintado por um louco na Velha Terra — ela disse, quase encostando o rosto no dele enquanto ambos olhavam a cópia do quadro. — Veja só isso! Um momento humano encapsulado.

“Em uma paisagem? É, que diabos. Ela tinha razão.” Olhou fixamente o holo. “Que cores maravilhosas!” Não eram só as cores, era o todo.

— A maioria dos artistas modernos ia rir da maneira pela qual ele criou isso — disse Odrade.

“Por que não ficava calada enquanto ele olhava o quadro?”

— Foi um ser humano com uma capacidade máxima de registro — disse Odrade. — A mão humana, o olho humano, a essência humana focalizados na consciência de uma pessoa que testou os limites.

“Testou os limites!” Outra parte do mosaico.

— Van Gogh fez isso com os materiais e o equipamento mais primitivos. — Parecia quase bêbada. — Pigmentos que um homem das cavernas reconheceria! Pintados em um tecido que poderia ter feito com as próprias mãos. Poderia ter feito os instrumentos ele mesmo, de pêlos e ramos de arbustos.

Tocou a superfície do holo e um dedo fez uma sombra sobre as árvores altas.

— O nível cultural era baixo para os nossos padrões, mas veja o que ele produziu!

Idaho sentiu que devia dizer alguma coisa, mas as palavras não vinham. Onde estava Murbella?

Por que não estava aqui?

Odrade afastou-se, e as palavras seguintes foram gravadas a fogo.

— Esse quadro diz que você não pode sufocar a coisa selvagem, a única coisa que acontece entre os humanos, apesar de tudo que possamos fazer para evitá-lo.

Idaho desviou os olhos do holo com um esforço e ficou olhando os lábios de Odrade quando falava.

— Vincent nos disse uma coisa importante sobre nossos companheiros da Dispersão.

“Esse pintor morto há tanto tempo? Sobre a Dispersão?”

— Eles fizeram coisas lá fora e estão fazendo outras que não podemos nem imaginar. Coisas loucas! O tamanho explosivo da população Dispersa garante isso.

Murbella entrou por detrás de Odrade, amarrando o cinto de um roupão branco, descalça. Os cabelos estavam úmidos do chuveiro. Então era lá onde ela tinha estado.

— Madre Superiora? — A voz de Murbella era sonolenta. Odrade falou por sobre o ombro, sem se virar.

— As Honradas Madres acham que podem antecipar e controlar todas as loucuras. Que bobagem. Não podem nem controlar isso nelas mesmas.

Murbella se aproximou do pé da cama e olhou para Idaho interrogativamente.

— Parece que entrei no meio de uma conversa.

— Equilíbrio, aí está a chave — disse Odrade.

Idaho continuou prestando atenção à Madre Superiora.

— Os humanos podem se equilibrar em superfícies estranhas — disse Odrade. — Mesmo em superfícies imprevisíveis. Chama-se “entrar em sintonia”. Os grandes músicos conhecem isso. Surfistas que costumava ver quando era criança, em Gammu, sabem disso. Algumas ondas o derrubam, mas você está preparado para isso. Sobe de novo e tenta mais uma vez.

Por qualquer razão que não podia explicar, Idaho pensou em outra coisa que Odrade havia dito:

— Não temos depósitos no sótão. Reciclamos tudo.

“Reciclagem. Ciclo. Pedaços do círculo. Peças do mosaico.”

Estava caçando ao acaso, e sabia que isso não servia. Não era o caminho Mentat. Mas, reciclagem — então a Outra Memória não era um depósito no sótão, e sim algo que consideravam reciclagem. Queria dizer que usavam o passado somente para mudá-lo e renová-lo.

“Entrar em sintonia.”

Uma alusão estranha da parte de alguém que alegava evitar a música.

Relembrando, sentiu seu mosaico mental. Havia se tornado uma confusão. Nada se ajustava em lugar nenhum. Peças aleatórias, que provavelmente não se encaixavam.

Mas se encaixavam, sim!

A voz da Madre Superiora continuou em sua memória. “Então ainda tem mais.”

— As pessoas que sabem disso vão até o âmago — disse Odrade. — Avisam que você não pode pensar no que está fazendo. Essa é a maneira certa de fracassar. É só fazer!

“Não pense. Faça.” Pressentiu anarquia. Suas palavras o jogaram de volta a outros recursos, que não o treinamento Mentat.

“Truques Bene Gesserit!” Fazia isso deliberadamente, sabendo o efeito. Onde estava a afeição que às vezes sentia irradiar dela? Poderia se preocupar com o bem-estar de alguém que tratava dessa maneira?

Quando Odrade os deixou (mal notou quando saiu), Murbella sentou na cama e arrumou o roupão sobre os joelhos.

“Os humanos podem se equilibrar em superfícies estranhas.” Movimento em sua mente: as peças de mosaico tentando encontrar afinidades.

Sentiu uma nova onda no universo. Aquelas duas pessoas estranhas em sua visão? Faziam parte disso. Sabia que era assim sem poder dizer por quê. O que era que as Bene Gesserit declaravam? “Nós modificamos modos antigos e crenças antigas.”

— Olhe para mim! — Murbella disse.

Voz? Não exatamente, mas agora tinha certeza de que ela estava experimentando e que não lhe dissera que estava sendo treinada nessa bruxaria.

Viu o olhar alienígena em seus olhos verdes que lhe diziam que ela estava pensando em suas antigas companheiras.

— Nunca procure ser mais esperto que as Bene Gesserit, Duncan. “Falando para os televigias?”

Não podia ter certeza. Era a inteligência no fundo de seus olhos que o prendia agora. Ele a sentia crescer, como se os professores soprassem um balão e o intelecto de Murbella se expandisse, assim como seu abdômen se expandia com a nova vida.

“Voz!” O que estavam fazendo com ela?

Que pergunta estúpida. Sabia o que estavam fazendo. Estavam levando-a para longe dele, fazendo dela uma Irmã. “Não mais minha amante, minha maravilhosa Murbella.” Uma Reverenda Madre, então, remota, calculando tudo que faz. Uma bruxa. Quem pode amar uma bruxa?

“Eu poderia. E sempre amarei.”

— Elas agarram você pelo seu lado cego e a usam para seus próprios fins — disse.

Podia ver que suas palavras tinham tido efeito. Ela só vira a armadilha depois de armada. As Bene Gesserit eram infernalmente espertas! Tinham conseguido atraí-la para sua cilada dando-lhe pequenos vislumbres de coisas tão magnéticas quanto a força que a unia a ele. Só podia ser enfurecedor para uma Honrada Madre.

“Nós é que apanhamos os outros em armadilhas. Eles não nos apanham!” Mas isso havia sido feito pelas Bene Gesserit. Estavam numa categoria diferente. Quase Irmãs. Por que negar? E ela queria as habilidades delas. Queria sair desse treinamento e ter o ensino total que percebia logo além das paredes da nave. Não sabia por que ainda a mantinham em treinamento.

“Sabem que ela ainda se debate na armadilha.”

Murbella deixou cair o roupão e deitou-se na cama ao lado dele. Sem tocá-lo. Mas mantendo aquela sensação armada de proximidade entre os dois corpos.

— De início era intenção delas que eu controlasse Sheeana para elas — ele disse.

— Como você me controla?

— E eu controlo você?

— Às vezes acho que você é um cômico, Duncan.

— Se não puder rir de mim mesmo estou realmente perdido.

— Rir de suas tentativas humorísticas também?

— Essas em primeiro lugar. — Virou-se para ela e segurou o seio esquerdo na palma da mão, sentindo o bico endurecer. — Sabe que eu nunca fui desmamado?

— Nunca em todas aquelas...

— Nem uma vez.

— Devia ter adivinhado. — Um sorriso esboçou-se em seus lábios e de repente ambos estavam rindo, abraçados, dando gargalhadas. No fim Murbella disse: — Dane-se, dane-se, dane-se.

— Dane-se quem? — quando parou de rir e se soltaram, forçando a separação.

— Não é quem, é o quê. Dane-se o destino!

— Acho que o destino não liga a mínima.

— Amo você e não devo fazer isso, se é que vou ser uma Reverenda Madre decente.

Detestava essas divagações tão chegadas à pena de si mesmo. “Então faça uma brincadeira!”

— Você nunca foi decente em nada. — Fez uma massagem no abdômen prenhe distendido.

— Eu sou decente!

— Essa palavra foi esquecida quando fizeram você.

Ela empurrou a mão dele e sentou-se para olhá-lo.

— As Reverendas Madres não devem nunca amar.

— Eu sei. — “Minha angústia estaria se revelando?”

Ela estava totalmente envolvida em seus próprios problemas.

— Quando eu chegar à Agonia da Especiaria...

— Amor! Não gosto da idéia de agonia associada a você de maneira nenhuma.

— Como posso evitar isso? Já estou na calha. Logo, logo vão me acelerar. Aí irei muito depressa.

Quis virar as costas, mas os olhos dela o detiveram.

— Verdade, Duncan. Estou sentindo isso. De certo modo é como a gravidez. Chega um ponto em que é perigoso demais abortar. A gente tem de ir até o fim.

— Mas nós nos amamos! — Forçando o pensamento de um perigo para outro.

— E elas o proíbem.

Ele olhou os televigias.

— Os cães de guarda estão vigiando e eles têm presas.

— Eu sei. Estou falando para elas agora. Meu amor por você não é uma falha. A frieza delas é que é. São iguaizinhas às Honradas Madres!

“Um jogo em que uma das peças não pode ser movida.”

Queria gritar alto, mas as escutas atrás dos televigias ouviriam mais que as palavras faladas. Murbella tinha razão. Era perigoso pensar que se podia burlar as Reverendas Madres.

Alguma coisa velou os olhos que estavam fixos nele.

— Que cara estranha você fez de repente. — Reconheceu a Reverenda Madre que ela poderia vir a ser.

“Desvie-se dessa idéia!”

Às vezes ele a distraía com suas estranhas memórias. Ela achava que as encarnações anteriores o tornavam um pouco semelhante a uma Reverenda Madre.

— Já morri muitas vezes.

— Você se lembra? — Sempre a mesma pergunta.

Sacudiu a cabeça, temendo dizer qualquer coisa que pudesse ser interpretada pelos cães de guarda.

“Não das mortes e do novo despertar.”

Isso ficava entorpecido pela repetição. Às vezes nem se dava o trabalho de colocá-los em seu depósito secreto de dados. Não... eram os incomparáveis encontros com outros humanos, a imensa coleção de identificações.

Essa era uma das coisas que Sheeana dizia que queria dele. — Minúcias íntimas. É o que todos os artistas querem.

Sheeana não sabia o que estava pedindo. Todos aqueles encontros vivos haviam criado novos significados. Configurações dentro de configurações. Coisas minúsculas adquiriam uma pungência que não tinha esperança de compartilhar com ninguém... nem mesmo Murbella.

“Um leve toque de mão em meu braço. Um rosto sorridente de criança. As faíscas nos olhos do atacante.”

Coisas mundanas sem conta. Uma voz familiar dizendo:

— Só quero pôr os pés para cima e desabar. Não peça para eu me mexer.

Todas se tornaram parte dele. Estavam aglutinadas ao seu caráter. A existência as cimentara inextricavelmente e não podia explicar isso a ninguém.

Murbella falou sem olhar para ele.

— Houve muitas mulheres nessas suas vidas?

— Nunca fiz a conta.

— Você as amou?

— Estão mortas, Murbella. Só o que posso prometer é que não há nenhum fantasma ciumento em meu passado.

Murbella apagou os globos luminosos. Ele fechou os olhos e sentiu a escuridão envolvê-lo quando ela se aninhou em seus braços. Abraçou-a apertado, sabendo que ela precisava disso, mas a mente se soltava por vontade própria.

Uma velha recordação produziu o dito de um professor Mentat: “A coisa mais relevante pode se tornar irrelevante no espaço de uma batida cardíaca. Os Mentats devem olhar esses momentos com alegria.”

Não sentiu alegria nenhuma.

Todas aquelas vidas em série continuavam dentro dele, desafiando as relevâncias Mentat. Um Mentat ingressava em seu universo intocado em todos os aspectos. Nada velho, nada de novo, nada fixo em adesivos antigos, nada realmente sabido. Era a rede, e existia somente para examinar o que apanhava.

“O que não escapou? Que espessura de malha eu teria usado dessa vez?”

Era esse o ponto de vista Mentat. Mas era impossível que os Tleilaxu tivessem incluído todas aquelas células ghola-Idaho para recriá-lo. Tinha que haver lacunas na coleção seriada de suas células. Já identificara muitas dessas lacunas.

“Mas não há lacunas em minha memória. Lembro-me de todas elas.”

Ele era uma cadeia ligada fora do Tempo. “É por isso que posso ver as pessoas naquela visão... a rede.” Era a única explicação que a percepção Mentat podia fornecer, e se a Irmandade adivinhasse, ficaria aterrorizada. Não importa quantas vezes ele negasse, diriam: — Outro Kwisatz Haderach! Matem-no!

“Então trabalhe para você mesmo, Mentat!”

Sabia que tinha a maior parte das peças do mosaico, mas elas ainda não se juntavam naquele Ah! Ah! conjunto de perguntas que os Mentats tanto prezavam.

“Um jogo em que uma das peças não pode ser movida. Desculpas por comportamento extraordinário.

— Querem nossa participação voluntária em seu sonho. Teste os limites!

Os humanos podem se equilibrar em estranhas superfícies. Entre em sintonia. Não pense. Faça.

 

A melhor arte imita a vida de maneira coerciva. Se imita um sonho, deve ser um sonho da vida.

Do contrário, não há lugar algum onde possamos nos ligar. Nossas tomadas não se encaixam.

 

— Darwi Odrade

 

Quando viajavam para o sul em direção ao deserto, no início da tarde, Odrade achou que o campo mudara de maneira inquietante desde sua inspeção anterior há três meses. Sentiu-se justificada em ter escolhido veículos terrestres. A vista emoldurada pelo grosso plaz que as protegia da poeira revelava mais detalhes.

“Muito mais seco.”

O grupo mais próximo a ela viajava em um carro relativamente leve — só 15 passageiros, incluindo o motorista. Suspensores e propulsão a jato sofisticada quando não estavam em contato com a terra. Capaz de 300km por hora em superfície lisa. Seus acompanhantes (numerosos demais, devido aos cuidados exagerados de Tamalane) seguiam em um ônibus que também levava roupas, alimentos e bebidas para as paradas durante a viagem.

Streggi, sentada ao lado de Odrade e atrás do motorista, disse:

— Não poderíamos arranjar uma chuvinha aqui, Madre Superiora?

Odrade cerrou os lábios. O silêncio era a melhor resposta.

Tinham saído atrasadas. Todas reunidas na ponte de embarque e prontas para partir quando chegou um recado de Bellonda. Outro relatório de desastre requerendo a atenção pessoal da Madre Superiora no último minuto!

Era uma dessas vezes em que Odrade sentia que o único papel que podia desempenhar era de intérprete oficial. Ir à beira do palco e dizer-lhes o que significava:

— Hoje, Irmãs, soubemos que as Honradas Madres destruíram mais quatro planetas nossos. Estamos ficando menores.

“Somente 12 planetas (incluindo Buzzell) e a caçadora sem face, com machado, está bem mais perto.”

Odrade sentiu o abismo abrindo-se a seus pés.

Bellonda recebera ordens de guardar essa má notícia até um momento mais apropriado.

Odrade olhou pela janela a seu lado. Qual era o momento apropriado para uma notícia dessas?

Estavam viajando em direção ao sul há pouco mais de três horas, a estrada queimada pela geada, deslizando como um verde rio à frente deles. O caminho os levava por entre colinas de carvalhos de cortiça que se estendiam até os horizontes cercados de serras. Os carvalhos cresciam como gnomos em plantações menos regulares que pomares. Fileiras sinuosas serpeavam colinas acima. A plantação original fora disposta nos contornos existentes, meios-terraços agora escondidos pelo longo capim pardo.

— Plantamos trufas aqui — Odrade disse.

Streggi tinha outra má notícia.

— Ouvi dizer que as trufas estão com problemas, Madre Superiora. Não tem chovido bastante.

“O fim das trufas?” Odrade hesitou, prestes a chamar uma acólita de Comunicações da parte traseira do veículo para perguntar à Meteorologia se era possível corrigir essa seca.

Olhou para trás, para suas acompanhantes. Três fileiras, quatro pessoas em cada fileira, especialistas para ampliar seus poderes de observação e cumprir ordens. E olhe o ônibus que os seguia! Um dos maiores veículos da Sede. Pelo menos 30m de comprimento! A poeira rodopiava ao seu redor.

Tamalane viajava lá, a mando de Odrade. A Madre Superiora podia ser irascível quando provocada, todas pensaram. Tam havia trazido gente demais, mas Odrade só descobrira isso quando já era tarde para fazer mudanças.

— Não é uma inspeção! É um diabo de uma invasão!

“Siga meu exemplo, Tam. Um pouco de drama político. Torne a transição mais fácil.”

Voltou a atenção para o motorista, o único homem no carro. Clairby, um pequeno e azedo técnico em transportes. Rosto mirrado, pele da cor de terra úmida recém-lavrada. O motorista favorito de Odrade. Rápido, seguro, e cauteloso quanto às limitações de sua máquina.

Alcançaram o topo de uma colina e os sobreiros se tornaram mais esparsos, substituídos à frente por pomares rodeando uma comunidade.

Linda essa luz, pensou Odrade. Prédios baixos de paredes brancas e telhas cor de laranja. Uma rua de acesso, sombreada por arcos, podia ser avistada bem abaixo na ladeira e, alinhada atrás dela, a alta estrutura central que continha os escritórios de supervisão regional.

A vista tranqüilizou Odrade. A comunidade tinha uma aparência luminosa, abrandada pela distância e por uma neblina que se erguia dos pomares ao redor. Ramos ainda nus aqui nessa região de inverno, mas certamente capazes de pelo menos mais uma colheita.

A Irmandade exigia uma certa beleza em suas redondezas, lembrou a si mesma. Uma maneira de se mimarem que dava suporte aos sentidos sem subtrair nada das necessidades do estômago. Conforto onde possível.... mas não demais!

Alguém atrás de Odrade disse:

— Acho que algumas dessas árvores estão começando a brotar.

Odrade olhou com mais cuidado. Sim! Pequenos pontos verdes nos ramos escuros. O inverno cometera um erro aqui. A Meteorologia, lutando para efetuar mudanças de estações, não podia evitar um erro ocasional. O deserto em expansão estava criando, muito cedo, temperaturas altas demais aqui: pequenos trechos aquecidos que faziam as plantas enfolharem e florescerem justamente em hora de uma geada inesperada. O fenecimento de plantações estava ficando freqüente demais.

Um Consultor de Campo desenterrara o termo antigo “veranico” para um relatório ilustrado com projeções de um pomar todo em flor sendo assaltado pela neve. Odrade sentira a memória se agitando com as palavras do Consultor.

“Veranico. Como era apropriado!”

Seus conselheiros compartilhando aquela pequena visão da labuta do planeta reconheciam a metáfora de um congelamento vindo de assalto nos calcanhares de um calor inapropriado: um revivescimento do tempo quente, época em que os saqueadores podiam atormentar seus vizinhos.

Relembrando, Odrade sentiu o frio do machado da caçadora. “Quando?” Não ousava procurar a resposta. “Não sou uma Kwisatz Haderach!” Sem se virar, Odrade falou a Streggi.

— Você já esteve em Pondrille?

— Não era meu centro postulante, Madre Superiora, mas presumo que seja semelhante.

É, essas comunidades eram muito parecidas: na maior parte, estruturas baixas localizadas em lotes ajardinados e pomares, centros escolares para treinamento específico. Era um sistema de seleção para Irmãs futuras, a malha cada vez mais fina quanto mais perto se chegava da Central.

Algumas dessas comunidades, como Pondrille, concentravam-se em endurecer suas aprendizes. Mandavam as mulheres por longas horas todos os dias fazerem trabalho braçal. Mãos que cavavam a terra e ficavam manchadas de frutos raramente se esquivariam a trabalhos sujos no futuro. Agora que não estavam mais dentro da poeira, Clairby abriu as janelas. Entrou uma onda de calor. O que a Meteorologia estava fazendo?

Dois edifícios na entrada de Pondrille tinham sido unidos em um andar acima da rua, formando um longo túnel. Só faltava, pensou Odrade, uma porta de ferro corrediça para imitar os portões da cidade na história pré-espaço. Cavalheiros de armadura achariam o calor sombrio dessa entrada familiar. Aberturas de televigias no alto eram certamente lugares onde os guardiões esperavam.

A longa e sombreada entrada da comunidade era limpa, ela viu. O olfato raramente era assaltado por podridão ou outros odores ofensivos nas comunidades Bene Gesserit. Nada de favelas. Poucos aleijados mancando pelas ruas. Muita carne sadia. Uma boa administração tinha o cuidado de manter feliz uma população sadia.

“Temos os nossos incapacitados, todavia. E nem todos fisicamente.”

Clairby estacionou logo antes da saída da rua sombreada e desceram. O ônibus de Tamalane parou atrás deles.

Odrade tinha pensado que o caminho de entrada aliviasse um pouco o calor, mas a perversidade da natureza tornara o lugar um verdadeiro forno e a temperatura estava ainda mais alta ali. Ficou contente em sair para a luz clara da praça central onde o suor evaporando de seu corpo lhe deu uns segundos de frescura.

A ilusão de alívio passou abruptamente quando o sol queimou-lhe a cabeça e os ombros. Foi forçada a apelar para o controle metabólico para ajustar o calor do corpo.

Água jorrava em um círculo espelhante na praça central, um espetáculo que breve teria fim.

“Deixe por enquanto. Moral!”

Ouviu suas companheiras seguindo-a, os gemidos usuais de “ficar sentada tanto tempo na mesma posição”. Uma comissão de recepção podia ser vista vindo às pressas do outro lado da praça. Odrade reconheceu Tsimpay, a chefe de Pondrille, no furgão. As acompanhantes da Madre Superiora foram até os ladrilhos azuis do chafariz da praça-todas, exceto Streggi, que ficou ao lado de Odrade. O grupo de Tamalane, também, foi atraído pela água em borbotões. Tudo parte integrante de um sonho humano tão antigo que não podia jamais ser completamente descartado, pensou Odrade.

“Campos férteis e água aberta — água clara, potável, em que se pode mergulhar o rosto para aliviar a sede.”

E na verdade algumas pessoas de seu grupo estavam fazendo exatamente isso no chafariz. Os rostos brilhavam de umidade.

A delegação de Pondrille parou perto de Odrade pisando ainda os ladrilhos azuis do chafariz da praça. Tsimpay trouxera mais três Reverendas Madres e cinco acólitas mais velhas.

Próximas à Agonia, todas aquelas acólitas, observou Odrade. Demonstrando a percepção da provação pela firmeza do olhar.

Tsimpay era alguém que Odrade via de vez em quando na Central, onde ia às vezes como professora. Estava com boa aparência: cabelos castanhos tão escuros que pareciam preto-avermelhados nessa luz. O rosto fino era quase sombrio em sua austeridade. As feições culminavam nos olhos muito azuis sob sobrancelhas grossas.

— É um prazer vê-la, Madre Superiora. — Parecia ser sincera.

Odrade inclinou a cabeça, um gesto mínimo. “Escutei. Por que está tão contente em me ver?”

Tsimpay entendeu. Apontou para uma Reverenda Madre alta, de faces encovadas, perto dela.

— Lembra-se de Fali, nossa Chefe de Pomares? Fali acaba de vir a mim com uma delegação de jardineiras. Uma queixa grave.

O rosto de Fali, marcado pelo ar livre, parecia macilento. “Trabalho excessivo?”

Tinha lábios finos e um queixo pontudo. Unhas sujas. Odrade notou isso e aprovou. “Não tem medo de cavar a terra também.”

“Delegação de jardineiras.” Então havia um escalonamento de reclamações. Deve ter sido sério. Tsimpay não era de descarregar problemas na Madre Superiora. “

— Fale — disse Odrade.

Lançando um olhar para Tsimpay, Fali começou um relatório detalhado, fornecendo até as habilitações dos líderes da delegação. Todas pessoas boas, é claro.

Odrade reconheceu o padrão. Tinha havido conferências com relação a essa conseqüência inevitável. Tsimpay comparecera a algumas delas. Como você podia explicar a seu povo que um verme de areia distante (talvez ainda não existente) requeria essa mudança? Como você podia explicar aos fazendeiros que não era questão de “só mais um pouquinho de chuva”, e sim um ponto fundamental das condições meteorológicas do planeta. Mais chuva aqui poderia significar um desvio de ventos de alta altitude. Por sua vez, isso alteraria as condições em outro lugar, causaria sirocos carregados de umidade, onde não só perturbariam, mas poderiam ser perigosos. Muito fácil produzir grandes furacões se inserissem as condições erradas. A meteorologia do planeta não era uma coisa simples para ser tratada com ajustamentos fáceis. “Como exigi em certas ocasiões.” E cada vez, havia uma equação total a ser examinada.

— O planeta dá o último voto — Odrade disse. Era um velho lembrete da falibilidade humana para a Irmandade.

— Duna ainda tem um voto? — Fali perguntou. Mais amargura na pergunta do que Odrade tinha antecipado.

— Estou sentindo calor. Vimos as folhas em seus pomares quando chegamos — disse Odrade. “Sei o que a preocupa, Irmã.”

— Vamos perder parte da colheita este ano — disse Fali. Acusação em suas palavras: “É culpa sua!”

— O que disse à sua delegação? — Odrade perguntou.

— Que o deserto tem de crescer e que a Meteorologia não pode mais fazer todos os ajustes de que precisamos.

Verdade. A resposta combinada. Inadequada, como a verdade era muitas vezes, mas era só o que tinham agora. Alguma coisa teria que ceder muito em breve. Por enquanto, mais delegações e perdas de colheitas.

— Toma chá conosco, Madre Superiora? — Tsimpay, a diplomata, interferindo. “Está vendo como está escalonando, Madre Superiora? Fali irá agora de volta para suas frutas e legumes. O seu lugar. O recado foi dado.”

Streggi pigarreou.

“Esse hábito infernal tem de parar!” Mas o significado era claro. Streggi estava encarregada do horário. “Temos de ir.”

— Saímos atrasadas — disse Odrade. — Só paramos para esticar as pernas e ver se tinham problemas que não podiam resolver sozinhas.

— Podemos tomar conta das jardineiras, Madre Superiora.

O tom enérgico de Tsimpay dizia muito mais, e Odrade quase sorriu.

“Inspecione se quiser, Madre Superiora. Olhe em toda parte. Encontrará Pondrille em ordem Bene Gesserit.”

Odrade lançou os olhos para o ônibus de Tamalane. Algumas pessoas já estavam voltando para o ar refrigerado. Tamalane estava perto da porta, ao alcance da voz.

— Ouço boas coisas a seu respeito, Tsimpay — disse Odrade. — Você pode se arranjar sem nossa interferência. Não quero de maneira nenhuma me intrometer com uma comitiva que é grande demais. — As últimas palavras bem alto para todos ouvirem.

— Onde vai passar a noite, Madre Superiora?

— Em Eldio.

— Não vou lá há algum tempo, mas ouvi dizer que o mar está bem menor.

— Os sobrevôos confirmam o que ouviu. Não é preciso avisá-las de que estamos indo, Tsimpay. Já sabem. Tivemos de prepará-las para essa invasão.

A Chefe dos Pomares Fali deu um pequeno passo à frente.

— Madre Superiora, se pudéssemos ter só...

— Diga a suas jardineiras, Fali, que têm uma escolha. Podem reclamar e esperar aqui até que as Honradas Madres venham para escravizá-las, ou podem escolher a Dispersão.

Odrade voltou para o carro e sentou-se, olhos fechados, até que ouviu as portas fecharem-se e puseram-se a caminho. Eventualmente, abriu os olhos. Já tinham saído de Pondrille e estavam na alameda vidrada, atravessando os círculos de pomares do sul. O silêncio atrás dela era carregado. As Irmãs estavam contemplando seriamente o comportamento da Madre Superiora naquela ocasião. Um encontro não satisfatório. As acólitas naturalmente captavam o estado de espírito. Streggi tinha um ar taciturno.

Esse tempo exigia atenção. As palavras não podiam mais aplacar as reclamações. Os bons dias eram medidos por padrões mais baixos. Todos sabiam as razões, mas as mudanças continuavam sendo o foco. Visível. Não se podia reclamar da Madre Superiora (não sem boa razão!), mas era possível reclamar do tempo.

“Por que tiveram que fazer o tempo tão frio hoje? Por que hoje, que tenho de estar lá fora? Bem quentinho quando saímos, mas olhe agora. E eu sem agasalho!”

Streggi queria conversar. “Bem, é por isso que a trouxe.” Mas tinha se tornado quase tagarela à medida que a intimidade corroía seu temor da Madre Superiora.

— Madre Superiora, procurei em meus manuais uma explicação de...

— Cuidado com manuais! — Quantas vezes em sua vida ouvira ou pronunciara essas palavras? — Os manuais criam hábitos.

Streggi ouvira muitas preleções sobre hábitos. As Bene Gesserit os tinham — essas coisas que o Povo preservava como “Peculiaridades das Bruxas!” Mas padrões que permitiam a outros predizer o comportamento, esses tinham de ser cuidadosamente extirpados.

— Então por que temos manuais, Madre Superiora?

— Principalmente para refutá-los. O Codigo é para noviças e outras em treinamento primário.

— E as histórias?

— Nunca ignore a banalidade das histórias registradas. Como Reverenda Madre, você reaprenderá a História a cada novo momento.

— A verdade é uma xícara vazia. — Muito orgulhosa por lembrar-se do aforismo.

Odrade quase sorriu.

“Streggi é uma jóia.”

Era uma idéia que induzia cautela. Certas pedras preciosas podiam ser identificadas por suas impurezas. Os técnicos as marcavam dentro das próprias pedras. Uma impressão digital secreta. As pessoas eram assim. Muitas vezes podiam ser conhecidas por seus defeitos. A superfície cintilante diz muito pouco. Uma boa identificação requer que se olhe no fundo para ver as impurezas. Até que estava a qualidade preciosa de um ser total. O que teria sido de Van Gogh sem impurezas?

— São os comentários de cépticos com percepção, Streggi, coisas que eles dizem sobre a História, que devem ser seus guias antes da Agonia. Depois, você será sua própria céptica e descobrirá seus próprios valores. Por enquanto, as histórias revelam datas e dizem-lhe que algo ocorreu. As Reverendas Madres procuram as coisas e aprendem os preceitos dos historiadores.

— Isso é tudo? — Profundamente ofendida. “Por que desperdiçaram meu tempo dessa maneira?”

— Muitas histórias são em grande parte inúteis porque são preconceituosas, escritas para agradar um ou outro grupo poderoso. Espere para que seus olhos se abram, minha cara. Nós somos as melhores historiadoras. Estivemos lá.

— E meu ponto de vista mudará diariamente? — Muito introspectiva.

— Essa é uma lição que o Bashar nos lembrou que devíamos manter viva em nossa mente. O passado deve ser reinterpretado pelo presente.

— Não estou certa de que gostarei disso, Madre Superiora. Tantas decisões morais.

Ahhhhh, essa jóia via até o âmago, e dizia o que pensava como uma verdadeira Bene Gesserit. Havia facetas cintilantes entre as impurezas de Streggi.

Odrade olhou de lado a acólita pensativa. Há muito tempo atrás, a Irmandade decidira que cada Irmã deveria tomar suas próprias decisões morais. “Nunca siga um líder sem fazer suas próprias perguntas.” Era por isso que o condicionamento moral das jovens tinha uma prioridade tão alta.

“É por isso que gostamos de acolher futuras Irmãs bem jovens. E talvez seja por essa razão que existe uma falha moral em Sheeana. Nós a recebemos tarde demais. O que é que ela e Duncan falam tão secretamente com as mãos?”

— As decisões morais sempre são fáceis de reconhecer — disse Odrade. — Elas existem onde você abandona o interesse pessoal.

Streggi olhou para Odrade com espanto.

— Que coragem é preciso para isso!

— Não é coragem! Nem mesmo desespero. O que fazemos, no sentido mais básico, é natural. Coisas feitas porque não existe outra escolha.

— Às vezes me faz sentir muito ignorante, Madre Superiora.

— Excelente! É o princípio da sabedoria. Há muitas espécies de ignorância, Streggi. A mais baixa é de seguir seus próprios desejos sem examiná-los. Há vezes em que o fazemos inconscientemente. Apure sua sensibilidade. Fique consciente do que faz inconscientemente. Pergunte sempre: quando fiz aquilo, o que estava procurando ganhar?

Chegaram ao topo da última colina antes de Eldio, e Odrade acolheu um momento de reflexão.

Alguém atrás dela murmurou:

— Lá está o mar.

— Pare aqui — ordenou Odrade quando se aproximaram de um amplo desvio em uma curva de onde se via o mar. Clairby conhecia o lugar e estava preparado. Muitas vezes Odrade lhe pedia para parar ali. Parou onde ela queria. O carro rangeu quando parou. Ouviram o ônibus parar atrás deles, uma voz alta lá atrás dizendo às companheiras: “Olhem só isso!”

Eldio se estendia lá embaixo, à esquerda de Odrade: edifícios delicados, alguns erguidos acima do solo em tubos delgados, o vento passando por baixo e através deles. Estava tão ao sul e abaixo da altura da Central, que era muito mais quente. Pequenos moinhos de vento de eixo vertical, brinquedos a essa distância, giravam nos cantos dos prédios de Eldio para ajudar no fornecimento de energia à comunidade. Odrade mostrou-os a Streggi.

— Pensamos nisso como uma forma de independência da escravidão a uma tecnologia complexa controlada por outros.

Enquanto falava, Odrade desviou a atenção para a direita. O mar! Era um resíduo horrivelmente condensado de sua antiga gloriosa expansão. A Filha do Mar detestou o que viu.

Vapores quentes se erguiam do mar. A púrpura indistinta das colinas secas esboçava contornos embaçados de horizonte do outro lado da água. Viu que a Meteorologia havia introduzido um vento para dispersar o ar saturado. O resultado era uma espuma de ondas crespas batendo no cascalho da praia, abaixo desse ponto de observação.

Havia uma fileira de aldeias de pescadores aqui, lembrou-se Odrade. Agora que o mar tinha recuado, as aldeias estavam mais para trás, na colina. Há tempos atrás, as aldeias haviam sido pontos coloridos ao longo da costa. A maior parte de sua população tinha sido sugada na nova Dispersão. As pessoas que haviam permanecido tinham construído uma via de transporte para tirar e pôr os barcos na água.

Aprovava isso e o lastimava. Conservação de energia. A situação como um todo, de repente, pareceu-lhe lúgubre — como uma das instalações geriátricas do Velho Império, onde as pessoas ficam esperando a morte.

“Quanto tempo até esses lugares morrerem?”

— O mar está tão pequeno! — Era uma voz do fundo do carro. Odrade a reconheceu. Uma funcionária dos Arquivos. “Uma das infernais espiãs de Bell.”

Inclinando-se à frente, Odrade bateu no ombro de Clairby.

— Leve-nos até a costa mais próxima, aquela enseada ali bem embaixo. Quero nadar no mar, Clairby, enquanto ainda existe.

Streggi e mais duas outras acólitas a acompanharam nas águas mornas da enseada. As outras passearam pela praia ou ficaram observando a estranha cena do carro e do ônibus.

“A Madre Superiora nadando nua no mar!”

Odrade sentiu a água cheia de energia a seu redor. Era necessário nadar devido às decisões de comando que tinha de tomar.

Quanto desse último grande oceano poderiam manter nesses derradeiros dias de vida temperada do planeta? O deserto estava vindo — “deserto total”, para igualar o do perdido Duna. “Se o machado nos der tempo.” A ameaça estava muito perto e o abismo muito profundo. “Diabos de talento infernal! Por que tenho de saber?”

Aos poucos, a Filha do Mar e o balanço das ondas renovaram seu senso de equilíbrio. Essa extensão de água era uma grande complicação muito mais importante que pequenos mares e lagos espalhados. A umidade se erguia daqui em proporções significativas. Energia para carregar os desvios indesejáveis da pouco controlada administração da Meteorologia. No entanto, esse mar ainda alimentava a Sede da Irmandade. Era uma via de comunicações e transporte. O transporte marítimo era o mais barato. O custo de energia tinha de ser contrabalançado com outros elementos em sua decisão. Mas o mar ia desaparecer. Isso era certo. Populações inteiras iam enfrentar novos deslocamentos.

As recordações da Filha do Mar interferiram. Nostalgia. Bloqueava o caminho de uma decisão certa. “Quando deveriam eliminar o mar?” Essa era a questão. Todas as mudanças inevitáveis e a acomodação em outros lugares dependiam dessa decisão.

“Melhor fazer isso rápido. Banir a dor para o passado. Vamos em frente com isso.”

Nadou até o mar raso e olhou para a perplexa Tamalane. A saia de Tam estava molhada de respingos de uma onda inesperada. Odrade suspendeu a cabeça acima do mar encapelado.

— Tam! Elimine o mar o mais depressa possível. Peça à Meteorologia que diagrame um esquema rápido de desidratação. Temos que incluir Alimentos e Transportes. Aprovarei o plano final após nossa revisão usual.

Tamalane virou-se sem falar. Chamou Irmãs escolhidas para acompanhá-la, lançando só um olhar para a Madre Superiora. “Está vendo! Eu tinha razão em trazer a equipe necessária!”

Odrade saiu da água. A areia molhada gemeu sob seus pés. “Muito breve será areia seca.” Vestiu-se sem se secar com uma toalha. A roupa agarrou-se à pele causando desconforto, mas ignorou isso caminhando praia acima, para longe das outras, sem olhar para o mar.

“Lembranças na memória têm de ser só isso. Coisas que se pegam e acariciam de vez em quando para evocar alegrias passadas. Nenhuma alegria pode ser permanente. Tudo é transitório. 'Isso também passará' se aplica a todo o universo existente.”

Onde a praia se tornava terreno margoso com algumas plantas esparsas, virou-se finalmente e olhou para o mar que acabara de condenar.

Só a própria vida tinha importância, disse a si mesma. E a vida não podia perdurar sem um empurrão à continuidade da procriação.

“Sobrevivência. Nossas crianças têm de sobreviver. A Bene Gesserit tem de sobreviver!”

Nenhuma criança era mais importante que o total. Aceitava isso, reconhecendo que era a espécie lhe falando das profundezas de seu próprio eu, o eu que havia encontrado pela primeira vez como Filha do Mar.

Odrade permitiu à Filha do Mar aspirar o mar pela última vez quando voltavam nos veículos e se preparavam para ir para Eldio. Sentiu que se acalmava. O equilíbrio essencial, uma vez adquirido, não precisava de um mar para ser mantido.

 

Arranque suas perguntas do solo e as raízes suspensas ficarão à vista. Mais perguntas!

 

— Mentat Zensufi

 

A Dama estava em seu elemento.

“Rainha Aranha!”

Gostava do nome que as bruxas lhe haviam dado. Aqui estava o coração de sua teia, esse centro de controle em Junção. O exterior do prédio ainda não lhe agradava. Muita complacência da Corporação no planejamento. Conservador. Mas o interior começava a adquirir uma familiaridade que a acalmava. Até podia imaginar que nunca deixara Dur, que não tinha havido Futares e a angustiante fuga de volta ao Antigo Império.

Estava à porta aberta da Sala de Reuniões, olhando para o Jardim Botânico. Logno aguardava quatro passos atrás. “Não fique mais perto de mim, Logno, ou terei de matá-la.”

Ainda havia orvalho no gramado além dos ladrilhos onde, quando o sol estava bastante alto, as criadas colocariam cadeiras confortáveis e mesas. Mandara que fosse um dia de sol e era bom que a Meteorologia cumprisse a ordem. O relatório de Logno era interessante. Então a velha bruxa tinha voltado a Buzzell. E estava zangada, também. Excelente. Era óbvio que sabia que estava sendo vigiada e visitara a bruxa suprema para pedir sua remoção de Buzzell, pedir refúgio. E fora recusada.

“Não se importam que destruamos seus membros desde que o corpo central permaneça escondido.”

Falando a Logno por sobre o ombro, a Dama disse:

— Traga-me a velha bruxa. E todas as suas acompanhantes.

Quando Logno virou-se para obedecer, a Dama acrescentou:

— E comece a fazer uns Futares passarem fome. Quero que fiquem bem famintos.

— Sim, Dama.

Outra pessoa ocupou o lugar de Logno. A Dama não virou para identificar a substituta. Sempre havia um número suficiente de assistentes para obedecerem às ordens. Uma era muito parecida com a outra, exceto quanto à questão de ameaça. Logno era uma ameaça constante. “O que me mantém alerta.”

A Dama respirou fundo o ar fresco. Ia ser um bom dia exatamente porque era isso que desejava. Colheu suas memórias secretas, e deixou que elas a acalmassem.

“Guldur seja abençoado! Encontramos o local para reconstruir nossa força.”

A consolidação do Antigo Império prosseguia conforme planejado. Não haveria muitos ninhos de bruxas intactos lá fora e assim que a Sede infernal fosse descoberta, os membros poderiam ser destruídos com calma.

E agora, Ix. Era um problema. “Talvez eu não devesse ter matado aqueles dois cientistas Ixianos ontem.”

Mas os idiotas tiveram a ousadia de exigir “mais informações” dela. Exigir! E isso depois de dizer que ainda não tinham uma solução para o rearmamento da Arma. Claro que não sabiam que era uma arma. Ou sabiam? Não tinha certeza. Então tinha sido bom matar aqueles dois, afinal de contas. Dera uma lição.

“Tragam-nos respostas, não perguntas.”

Gostava da ordem que ela e suas Irmãs estavam criando no Antigo Império. Tinha havido muitas perambulações e culturas diferentes demais, religiões instáveis demais.

“O culto de Guldur os servirá como serve a nós.”

Não sentia nenhuma afinidade mística com sua religião. Era um instrumento útil de poder. As raízes eram bem conhecidas: Leto II, que as bruxas chamavam de “O Tirano”, e seu pai, Muad'Dib. Agentes consumados do poder, todos os dois. Muitas células cismáticas nos arredores, mas podiam ser extirpadas. Guardar o essencial. Era uma máquina bem lubrificada.

“A tirania da minoria disfarçada sob a máscara da maioria.”

Isso fora o que a bruxa Lucilla tinha reconhecido. Não era possível deixá-la viva depois de descobrirem que sabia como manipular as massas. Os ninhos das bruxas tinham de ser encontrados e queimados. A perceptibilidade de Lucilla evidentemente não era um exemplo isolado. Suas ações indicavam o trabalho de uma escola. Ensinavam isso! Idiotas! Era preciso manobrar a realidade, ou tudo ficava fora de controle.

Logno voltou. A Dama conhecia o ruído de seus passos. Furtivos.

— A velha bruxa vai ser trazida de Buzzell — disse Logno. — E suas acompanhantes.

— Não se esqueça dos Futares.

— Já dei as ordens, Dama.

“Voz untuosa! Você gostaria de me dar de comer ao rebanho, não é, Logno?

— E reforce a segurança nas gaiolas, Logno. Mais três escaparam a noite passada. Estavam vagando no jardim, quando acordei.

— Disseram-me, Dama. Foram destacados mais guardas para as gaiolas.

— E não me diga que são inofensivos sem um Treinador.

— Não creio nisso, Dama.

“E está dizendo a verdade, pela primeira vez. Morre de medo dos Futares. Muito bem.”

— Acho que temos nossa base de poder, Logno. — A Dama virou-se, notando que Logno havia avançado pelo menos dois milímetros na zona de perigo. Logno viu isso também, e recuou. “Pode chegar bem perto na minha frente, onde posso vê-la, Logno, mas não nas minhas costas.”

Logno percebeu o brilho alaranjado nos olhos da Dama e quase ficou de joelhos. “Curvou definitivamente os joelhos.”

— Estou ansiosa por servi-la, Dama!

“Está ansiosa por tomar meu lugar, Logno.”

— E quanto àquela mulher de Gammu? Um nome esquisito. Qual era?

— Rebecca, Dama. Ela e alguns de seus companheiros conseguiram... ahhh, escapar temporariamente. Vamos encontrá-los. Não podem sair do planeta.

— Acha que eu devia tê-la guardado aqui, não é?

— Foi sábio de sua parte usá-la como isca, Dama!

— Ainda é isca. Aquela bruxa que encontramos em Gammu não encontrou aquelas pessoas por acidente.

— Sim, Dama.

“Sim, Dama!” Mas o som subserviente da voz de Logno era agradável.

— Ent&