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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


AS MARIONETES / Lou Carrigan
AS MARIONETES / Lou Carrigan

 

 

                                                                                                                                                

  

 

 

 

 

 

“Cícero”, o diminuto chihuahua, começou a ladrar daquele seu modo agudo, irritante, e Peggy, a fiel empregadinha da espiã mais perigosa de todos os tempos, olhou-o um tanto zangada.

— Quieto, “Cícero”! Não é momento de armar escândalo.

Acabou de colocar sobre a cama o vestido de noite a ser usado por Brigitte Montfort, perdendo-se um instante na contemplação daquela maravilha da alta costura parisiense.

Claro! Não havia nenhuma outra mulher mais elegante que sua ama. E tinha um gosto tão refinado... Desviou o olhar para a porta do banheiro, do qual vinha uma alegre bulha aquática.

Olhou novamente o chihuahua, que não tinha cessado de ladrar daquele modo algo ridículo.

— Vai ficar quieto ou não, bobinho? — repreendeu-o.

Ele simplesmente continuou ladrando e, do banheiro, chegou a voz de Brigitte: — Que há com o “Cícero”, Peggy?

— Não sei, Miss Montfort. Parece muito nervoso, mas não compreendo por que...

Logo compreendeu. “Cícero” aumentou a força de seus latidos quando dois homens apareceram, de súbito, na porta do quarto. Ela abriu a boca, mas nem sequer atreveu-se a fechá-la quando viu o revólver na mão direita de cada um.

Levando o index da mão esquerda aos lábios, um deles lhe recomendou silêncio.

Peggy, muito pálida, ficou completamente imóvel. O cãozinho parecia prestes a se fazer em pedaços, tão furiosas eram seus latidos e estremecimentos...

 

 

 

 

— Peggy, por favor — ouviu-se novamente a voz de “Baby": — faça esse bichinho se calar. Ou então, leve-o para a cozinha.

 

Peggy engoliu em seco, mas nem assim pôde pronunciar uma só palavra. Um dos homens fez-lhe o gesto de afastar-se enquanto o outro se encaminhava para o banheiro. Chegou diante da porta, que estava apenas encostada, e nela apoiou a mão esquerda, começando a empurrá-la, lentamente. O outro homem aproximou-se, sorrindo com ironia e assentindo com a cabeça.

 

Por fim, Peggy esteve em condições de reagir, passado o susto inicial. Sem dúvida, tinha que avisar sua patroa, que bem merecia isso e muito mais, sempre tão amável e generosa... Ainda que lhe metessem uma bala na cabeça, tinha que avisá-la.

 

— Miss...

 

Justamente quando ela começava a gritar, a porta do banheiro, tão suavemente empurrada para dentro por um dos homens, levou em sentido contrário um empurrão violento, chocando-se contra o rosto do homem, que foi projetado para o centro do quarto, esbarrando no outro, fazendo-o perder o equilíbrio. O primeiro ainda não tinha caído no chão nem o segundo se reequilibrado, quando a porta do banheiro tornou a abrir-se e uma... espécie de pantera escorrendo água envolta numa toalha apareceu, saltando diretamente sobre o que estava desequilibrado e aplicando-lhe um tremendo pontapé na boca do estômago. Ele ficou como que partido em dois, dobrado para frente, posição em que o joelho de Baby entrou em contato brusco com seu nariz. Com um grito, o coitado retrocedeu, rolando como uma bola e caindo de cabeça, depois de ter perdido a arma.

 

Enquanto isso, o outro começava a levantar-se, ao mesmo tempo em que tentava erguer as mãos, pedindo paz...

 

Demasiado tarde: a pantera de cabeleira negra empapada já estava no ar, praticamente voando para ele, com os dois pés para frente, juntos. Mas as pernas se abriram e a cabeça do privilegiado encontrou-se entre as duas coxas mais bonitas do mundo... Então, a pantera girou, derrubando-o de bruços.

 

A pressão da espetacular “tesoura” aumentou em tomo de seu pescoço, imobilizando-o. Uma molhada mãozinha agarrou-lhe o dedo mínimo da mão direita, puxando-o com força. Dando um grito de dor, o homem abriu a mão, soltando o revólver, que passou de imediato ao poder de Baby. Ela apertou mais ainda as pernas, apontando a arma para o outro homem, que, já de pé, com as mãos no nariz, cambaleava torpemente.

 

— Pare de dançar — disse-lhe, com frieza. — Ou, pelo menos, faça-o direito.

 

O infeliz tirou as mãos da cara, enquanto o outro, cada vez mais sufocado, rosto vermelho, batia freneticamente no chão, como um judoca que aceita a derrota.

 

— Espere, Baby... — arquejou o que estava de pé. — Não se precipite, por Deus... Foi uma brincadeira.

 

— E agora tenho que rir? — perguntou ela, em tom gélido.

 

— Garanto-lhe que é uma brincadeira... Fomos enviados por Mr. Cavanagh.

 

Brigitte entrecerrou as pálpebras, fixando-o. Olhou depois para Peggy e, com a mão esquerda, fez-lhe sinal para apanhar a arma do que estava de pé. A empregadinha apressou-se a obedecer e, só então, ela separou seus joelhos.

 

Levantou-se. A toalha se soltara, de modo que a susteve com a mão esquerda sobre o peito, ao mesmo tempo em que a apertava sob as axilas.

 

— Peggy — disse —, um dia você aprenderá que, quando eu estou em casa, o “Cícero” não ladra sem um motivo fundado. Sabe qual é esse motivo?

 

— Sim, sei... — tartamudeou a lourinha. — Estes homens abriram a porta com... com uma gazua...

 

— Exato. Isto significa que você não tinha colocado o fecho de segurança. De nada lhe valeram as experiências anteriores?

 

— De-desculpe, Miss Montfort... Mas, se são da CIA, se foram enviados por Mr. Cavanagh... Oh, claro que isso deve ser mentira!

 

— Asseguro que não — disse o que estivera a ponto de ser estrangulado, olhando para Brigitte. — Foi tudo uma brincadeira...

 

— Veremos isso — disse Brigitte, sorrindo. — E se foi uma brincadeira, admitirão, sem dúvida, que das mais estúpidas, além de perigosa: eu bem podia ter liquidado os dois. Como vai esse nariz? — perguntou ao outro.

 

— Mal... Mas parece que não quebrou nada por dentro.

 

— Pois você teve sorte... — resmungou o do pescoço. — Agora sei muito bem o que uma pessoa sente ao ser estrangulada. Mmm... Somos Johnny e Johnny, Baby.

 

— Dois Johnnies muito bobos, meu querido. Vocês podem explicar que brincadeira foi esta?

 

— Mr. Cavanagh nos mandou buscá-la. Há trabalho para você em perspectiva. Nós ingressamos recentemente no Grupo de Ação e, tanto ouvimos falar em você, que tudo dos pareceu um... exagero. Assim, quisemos demonstrar que não era difícil surpreender a agente Baby.

 

— Uma ideia idiota, claro, mas não inverossímil. Têm vocês alguma explicação para o fato de Mr. Cavanagh mandar buscar-me por dois Johnnies desconhecidos?

 

— Bem, você sabe: ele quer que todos os do Grupo de Ação servindo em Washington conheçam Baby. E, como somos novos lá...

 

— De acordo. Suponho que estejam lamentando a brilhante ideia de me apanhar desprevenida.

 

Os dois agentes da CIA trocaram um olhar. Finalmente, olharam para ela, sorrindo.

 

— Não lamentamos nada. Vale a pena conhecer você, seja como for. E como acontece com todos os Johnnies do mundo, somos seus fãs.

 

— Muito obrigada! — riu Brigitte. — Seus rádios de bolso estão na onda do Setor Nova Iorque?

 

— Claro.

 

— Coloquem-se de costas para mim... Oh, cale-se de uma vez, “Cícero” querido!

 

Imediatamente o chihuahua emudeceu. Baby aproximou-se de um dos obedientes espiões, pelas costas, meteu-lhe a mão no peito e tirou-lhe o radinho. Recuou uns passos e comprimiu o botão de chamada.

 

— Alô... — ouviu.

 

— Sou eu, Johnny.

 

— Oh, a maravilha em forma de mulher!... Não precisa dizer, foi visitada por dois rapazinhos desconhecidos que se dizem enviados de Mr. Cavanagh. É isso?

 

— É.

 

— Pois está certo. Recebemos aqui na floricultura o aviso de que a agente Baby abandonará Nova Iorque, em helicóptero, rumo à Central, às dez da noite. Por que há de ser sempre tão desconfiada?

 

— Por que não sou nenhuma boba.

 

— Aposto que esses dois são muito simpáticos.

 

— Isso, são. Ciao, Johnny. Um beijo.

 

— Ciao. Uma dentada. Vejamos em que entaladela metem você esta vez. Cuide-se. Outra dentada.

 

Rindo, Brigitte fechou o radinho, colocou-se diante dos espiões e devolveu-o ao dono.

 

— Tudo em ordem — admitiu. — Visto-me em três minutos e meio, e seguimos para o Aeroporto John Kennedy. É possível que logo isto mude e construam um heliporto neste edifício para poupar-me trabalho. Bem, rapazes: quando uma dama vai se vestir, os cavalheiros se afastam. Ou não?

 

Os dois encaminharam-se para a porta, murchos. De lá, viraram-se e novamente olharam a estupenda jovem enrolada numa toalha colorida.

 

— Bom... Quanto à brincadeira...

 

— Por quem me tomam, queridos? Por mim, Mr. Cavanagh não vai saber nada a respeito desta tolice. Em troca de uma promessa que vocês não esquecerão jamais. De acordo?

 

— Que promessa?

 

— A de que não tornarão a fazer brincadeiras com a espionagem. Nunca mais se permitam semelhante tolice, nem comigo nem com ninguém. Espionagem é coisa muito séria. Prometido?

 

— Prometido.

 

— Ótimo. Assim, poderei esperar que vocês durem muitos anos. Peggy, sirva alguma coisa aos meus Johnnies.

 

— Pois não, Miss Montfort.

 

Os dois agentes e a empregadinha saíram do quarto.

 

Pouco depois, estavam no suntuoso living, saboreando o delicioso uísque que Peggy lhes servira e olhando para todos os lados, deslumbrados.

 

— Fizemos um papel ridículo, me parece — murmurou um deles.

 

— Bem, sempre resultou numa vantagem. Aprendemos alguma coisa e isso vale um pouco de pancada... Ela é um bocado jovem.

 

— Quem? Baby?

 

— Não. Minha avó. Estamos falando de quem, afinal? Eu pensava que fosse mais velha, menos bonitas, mais... mais...

 

— Dura?

 

— Isso. Mas parece um anjo... Você viu que olhos, que lábios, que mãos, que pernas, que...?

 

— Vi tudo — sorriu o outro. — E para falar a verdade, também eu pensava que exageravam ao falar dela. Imaginei que fosse meio masculina, com músculos de mulher de circo e até mesmo um bigode... No entanto, é a mais encantadora bonequinha que já vi na vida!

 

— Sim... — suspirou seu companheiro. — É divina!

 

— Exato: divina, essa é a palavra! Oh, quando ela sorri, hem? Você reparou? Parece uma menina ingênua... E dizem que adora os seus Johnnies! Imagine: nos adora!

 

— Quantos anos deve ter?

 

— Que importância tem isso? Vinte e dois, vinte e três...

 

— Não pode ser! Há quatro, quando iniciamos nosso curso preliminar na CIA, ela já era famosa entre todos os agentes secretos do mundo... Não me diga que conseguiu isso aos dezoito anos!

 

— Puxa... Você tem razão: não pode ser... Mas que importa? Ela é encantadora e basta.

 

— Não basta. É muito mais que encantadora: é sensacional!

 

— Mais que sensacional: estupenda sob todos os aspectos!

 

— É um contrabandista de homens, pode-se dizer.

 

Imagine um tipo de quarenta anos, louro, atraente, algo sardento, com aspecto esportivo... Você vai ver.

 

Apareceu na pequena tela pendente da parede, em cores, a pessoa exatamente descrita acima. A voz prosseguiu, na sala em penumbra: — Um mercenário. Chama-se Marlon de Koven. Durante algum tempo, esteve a serviço de diversos países, lutando na África. Agora dispõe de um pequeno exército de mil e duzentos homens bem armados, que lhe obedecem cegamente. Para esses mil e tantos homens, Marlon de Koven é quase um deus. Leva-os por toda a África e tornou-se um perigo não só do ponto de vista militar, mas também político.

 

— Devo matá-lo?

 

— Não ainda, Baby. Entretanto, acho que você mesma tomará essa decisão... no momento oportuno.

 

— No momento oportuno? — ouviu-se novamente a voz de Brigitte, na sala às escuras.

 

— Sim. Mudemos agora a imagem. Veja este outro homem. É o coronel Xav Mathieson, Chefe de Estado de Atlânfrica, que, como o nome indica, é um país da costa atlântica da África, sob o equador. Qual a sua opinião?

 

Deixou-se de ouvir a voz de Mr. Cavanagh e, durante uns segundos, o silêncio foi completo. Na tela, via-se o rosto de um homem moreno, de grandes olhos inteligentes que pareciam fatigados. Testa alta, maxilar forte. O uniforme assentava-lhe admiravelmente. Também ele aparentava uns quarenta anos.

 

— Não sei... — murmurou Brigitte, por fim. — Li pouco sobre Xav Mathieson e seu país. Entendo que ele é considerado um bom governante. Soube tirar partido da independência de Atlânfrica. Prefiro não dar opinião, no momento, chefe.

 

— De acordo. Como sabe, Xav Mathieson governa a terça parte do que, até faz pouco mais de dez anos, foi um grande território colonial de certo país europeu. Toda a colônia foi emancipada e então se dividiu em três pequenos países, após algumas escaramuças praticamente locais. As três novas nações da costa atlântica da África são Atlânfrica, que o coronel Xav Mathieson agora governa; a República Omogo, cujo presidente é Kero Dambatu; e Costa Coral, dirigida com relativo acerto por seu Primeiro-Ministro Orville Neville. Dos três países, os Estados Unidos importam brilhantes e diamantes em bruto... e queremos conservar esses fornecedores de pedras preciosas. Não só pelo material em si, mas para preservar as boas relações existentes até agora.

 

— Compreendo. Há algo perturbando isso que convém aos Estados Unidos?

 

Após uns segundos de silêncio, soou novamente a voz de Mr. Cavanagh, mas não respondendo à pergunta de Baby.

 

Outra imagem, agora de um homem negro, forte, cabelos crespos, lábios grossos e dentes branquíssimos exibidos em amplo sorriso, apareceu na tela.

 

— Este é Kero Dambatu. Um nacionalista pouco menos que feroz. Tão ferozmente nacionalista, que pode chegar a ser um homem perigoso, ou, pelo menos, muito pouco conveniente de conservar nessa parte da África. Digamos que não está muito contente com o fato de ter a antiga colônia se dividido em três partes, em três países.

 

— Devo entender, que esse Kero Dambatu preferia um país só... sob sua autoridade?

 

Também não houve resposta por parte de Cavanagh.

 

Novamente mudou a imagem e quem apareceu foi um homem branco, barbado, de olhos pequenos e expressão irascível. Tinha entre quarenta e cinco e cinquenta anos. Era o menos simpático de todos, até agora.

 

— Este é Orville Neville, Primeiro-Ministro de Costa Coral. Um homem facilmente irritável e a quem não agrada a vizinhança de Atlânfrica e da República Omogo. Especialmente a desta última. Parece que não tem simpatia pelos negros, embora nos três países mencionados a maioria da população seja negra, naturalmente. Achamos que Orville Neville seria mais sorridente se pudesse fazer desaparecer Kero Dambatu, eliminando assim um dirigente negro. Os negros são bons para trabalhar, não para governar, é o que pensa Neville.

 

— Pior para ele. Este posso eliminar por gosto pessoal, se está de acordo, chefe.

 

— Veremos. Você ficou me fazendo perguntas, Brigitte, e não respondi porque não sei ao certo o que pode ocorrer. De maneira que lhe deixarei as mãos livres, como sempre aliás. O que você fizer, estará bem feito, nós todos sabemos disso muito bem.

 

— Obrigada. Mas não estou entendendo. Que devo fazer, em suma? Ir a Atlânfrica, à República Omogo, a Costa Coral...?

 

— Não será necessário. Desta vez, não vai viajar. Os quatro homens estão aqui, em Washington.

 

— Os quatro?

 

— Sim, sim... Marlon de Koven, Xav Mathieson, Kero Dambatu e Orville Neville. De Koven, o chefe mercenário, está hospedado no “Crichton Palace”. Os outros se alojaram em suas respectivas embaixadas. E tidos eles foram convidados para a festa de Gertrude Forsythe, na qual serão exibidas as joias da coleção “Arco-íris”. Já ouviu falar dela?

 

— Mmm... Sim, mas não dei muita importância. Afinal, é uma nova coleção de diamantes.

 

— Compreendo seu ponto de vista. Entretanto, essa coleção é internacionalmente famosa. Todas as pedras são provenientes das minas de Atlânfrica, país do qual Gertrude Forsythe é originária. Parece que a exposição será uma espécie de propaganda de Atlânfrica, mas, muito cortesmente, Mrs. Forsythe convidou os chefes dos países vizinhos ao seu, talvez considerando que, afinal de contas, as três nações têm excelentes minas e que o que se obteve numa delas poderia eventualmente ser obtido em qualquer das outras duas... Em suma, Gertrude Forsythe convidou uns quantos amigos, a imprensa, os governantes dos países vizinhos de Atlânfrica... Será uma festa com o grande incentivo de uma exibição de joias fabulosas.

 

— E nossas quatro personagens se encontrarão lá. Isso já ocorreu antes?

 

— Nunca. Eles jamais estiveram juntos.

 

— E que deve sugerir-me a presença desse mercenário que dispõe de mais de mil homens armados?

 

— Acha o Conselho que ele foi convidado por insistência de um dos três governantes.

 

— Que deseja contratá-lo?

 

— É possível.

 

— Entendo. Não obstante, para isso não teria sido necessário convidá-lo a nenhum lugar. E um encontro em local mais discreto seria preferível, não lhe parece?

 

— É isso o que nos surpreende, Baby. Por que reuniram-se os quatro? Três governantes e o comandante de um pequeno exército de combatentes profissionais... Que estão tramando todos juntos... ou em separado? Seja o que for, você averiguará. E para seu governo, não esqueça que aos Estados Unidos interessa conservar a paz nesses três países, que admitem o comércio e o intercâmbio de ideias políticas conosco. Não queremos que esse equilíbrio, esse estado de coisas, seja perturbado.

 

— Acho razoável — sorriu Brigitte na penumbra.

 

— Não há mais fotografias para ver?

 

— Há. A coleção “Arco-Íris”. Veja... Temos vários slides... Observe que pedras maravilhosas! Dois desses diamantes têm mais de quinhentos quilates. E são todos belíssimos. Muitos foram batizados, mas não me lembro dos nomes... Depois lhe entregarei uma lista, com as fotografias... Então, lhe agradam?

 

Na tela haviam aparecido formosos diamantes, cheios de luz interior, com irisações fantásticas. Mas Brigitte encolheu os ombros e replicou: — Gosto de pedras assim quando adornam uma bonita senhora, em certos momentos. Como presente, como uma amável frivolidade, acho-as aceitáveis. Tenho algumas parecidas e dei gritos de entusiasmo quando as ganhei. Mas não faria o menor sacrifício por um diamante. E até deixam de agradar-me quando se tornam motivo de discórdia.

 

— Creio que estamos de acordo. Bem, já viu todas as fotos. Trouxe seu... equipamentos completo na maletinha?

 

— Naturalmente.

 

Cavanagh acendeu a luz.

 

— De que cor é a peruca, desta vez? — perguntou, sorrindo.

 

— Loura.

 

— Bem. Será conveniente que se prepare agora mesmo. Vai conhecer uma pessoa e não interessa que essa pessoa saiba que Baby é Brigitte Montfort.

 

Ela assentiu com a cabeça. Colocou a maleta sobre a mesa de Cavanagh. Virou um quadro e apareceu um espelho, diante do qual começou a transformar-se: pequenos aros dentro do nariz, microlentes de tom esverdeado, pequenas almofadas de espuma na boca, peruca loura... Quando se virou para o chefe dos agentes de ação da CIA, este assentiu satisfeito, fazendo, além disso, um gesto de admiração.

 

— Está bem assim? — sorriu a nova Brigitte.

 

— Esplêndido. Depois lhe tiraremos umas fotos e será feita a documentação adequada. Embora não vá sair de Washington, todas as precauções devem ser tomadas. Como gostaria de se chamar?

 

— Mmm... Que tal Cleópatra?

 

— Não — sorriu Cavanagh.

 

— Dalila?

 

— Tampouco.

 

— Lili Connors?

 

— Está melhor! Seu humor me encanta, Baby. Agora vamos ver um homem que se chama Ronald Mills e está esperando numa sala contígua a esta. Mr. Mills trabalha numa companhia chamada “General Insurance”, das mais importantes do país. Dita companhia fez o seguro da coleção “Arco-íris” e, visto que esta vai ser exibida, foi destacado seu “agente de segurança” mais hábil para protegê-la. Sabendo disso e considerando que Mills nos deve alguns favores, conseguimos que admitisse um ajudante nesse encargo específico de vigiar a coleção “Arco-Íris”.

 

— E esse ajudante sou eu.

 

— Claro. Mills não é tolo e compreendeu de imediato que essas joias não despertam o menor interesse à CIA, mas que pretendemos algo bem diverso para vigiá-las. Quando lhe disse que levaria uma mulher como ajudante, perguntou-me logo se se tratava de Baby. Disse-lhe que não, mas ignoro se o convenci.

 

— Não é de confiança esse Mr. Mills?

 

— É. Mas não vejo necessidade de que saiba que vai trabalhar com Baby, pois nesse caso compreenderia que o assunto é muito importante e talvez se... inquietasse demasiado. É vivo e valente de um modo razoável, mas não possuí a espécie de nervos que nos convém.

 

— Então, talvez fosse melhor não o meter nisto — observou Brigitte.

 

— Preferimos fazer assim. Poderíamos ter conseguido um convite para você, mas se algo ocorrer não queremos que o nome de Miss Montfort apareça entre os convidados.

 

— Estão me cuidando muito, não?

 

— Querida, só existe uma Baby, para desgraça da CIA.

 

Bem, vamos ver Mr. Ronald Mills.

 

— Como é ele? — sorriu Brigitte. — Atraente?

 

Ronald Mills não era atraente. Longe disso. Baixinho, grosso, tinha pouco cabelo e uma cara feia. Era isto, simplesmente: feio. Entretanto, após olhar atentamente seus pequenos olhos escuros e sua grande boca sorridente, Brigitte achou que a fealdade até não lhe ia mal.

 

Ronald Mills, que estava fumando e lendo um jornal, levantou-se quando apareceram Brigitte e Cavanagh. Ele a olhou de cima a baixe, atirou o cigarro num cinzeiro, bateu com a mão direita fechada na palma da esquerda, lançou um assobio e estendeu-lhe a destra gorducha.

 

— Toque! — exclamou. — Morria de vontade de conhecer a agente Baby!

 

Brigitte pôs-se a rir, aceitando-lhe a mão, que se revelava maciça, forte e agradável. Cavanagh franziu a testa e murmurou: — Apresento-lhe Miss Lili Connors, Mills. Ela será a ajudante de que falamos.

 

— Muito bem, muito bem... Se algum dia eu estiver mal de vida, Já sei como obter alguns dólares: chantageando a CIA com a ameaça de revelar à espionagem inimiga o nome de agente Baby. Lili Connors. Como está, Baby?

 

— Muito bem — tornou a rir Brigitte. — Não lhe pergunto o mesmo porque é e vidente: são, alegre, feliz...

 

— Não é mesmo? Uma bela manhã, há alguns anos, ocorreu-me ao sair da cama uma ideia curiosa. Estava farto de trabalhar num escritório relativamente importante. Fazia frio, tinha dormido mal, sentia-me cansado, aborrecido, nauseado e fracassado. Pensei no escritório e disse comigo: “rapaz, você está bancando o imbecil, só se vive uma vez e deve-se dar um jeito para que esta única vida seja o mais agradável possível. Assim, desisti do emprego, gastei minhas economias passando uma temporada de dez semanas em Miami Beach, depois lancei-me à procura de um trabalho divertido e bem remunerado.

 

— Encontrou-o?

 

— Bom... não me desagrada isso de vigiar joias alheias. A “General Insurance” assombrou-se quando solucionei uns dois casos e resolveu me dar uma pistola, dez mil dólares a mais por ano, despesas pagas e um carro formidável. Além disso, não tenho horário fixo, não recebo ordens a cada momento, nem me preocupa a possibilidade de que dentro de uma semana não tenha um centavo ou me transforme num milionário. Que mais posso pedir?

 

— Suponho que mais nada — riu ainda Brigitte.

 

— Não é mesmo? Bem, Baby, podemos...

 

— Mr. Mills, meu nome é Lili Connors.

 

— Como? Ah, sim... Claro. Pois bem, Lili, creio que podemos dedicar-nos a estudar o assunto. Mrs. Forsythe teve a gentileza de facilitar-me ontem uma planta de sua casa; assim tive tempo de pensar na distribuição e características dos alarmes. Vou lhe mostrar tudo, para ver se merece sua aprovação. Caso contrário, aceitarei suas críticas, pois quatro olhos veem melhor que dois e...

 

— Mr. Mills, sei que é especialista em alarmes, como em procurar e localizar ladrões de joias. Portanto, deixarei tudo isso a seu critério. De acordo?

 

— Se prefere assim...

 

— Prefiro. Em troca, lhe pedirei duas coisas. Primeira, não esqueça que meu nome é Lili Connors. Segunda, limite-se às suas funções de vigilante das joias asseguradas pela sua companhia. Está bem, Mr. Mills?

 

Este olhou para Cavanagh, para Brigitte, depois novamente para Cavanagh e Brigitte.

 

— Está bem — murmurou, pestanejando lentamente.

 

— Miss Connors irá buscá-lo em seu hotel amanhã cedo, Mr. Mills — disse Cavanagh. — Irão juntos à casa de Mrs. Forsythe e se dedicarão a instalar os alarmes que lhe parecerem convenientes. Depois, como é natural, lá permanecerão até que, no domingo à noite, os convidados se retirem. Durante os dois dias em que as joias permanecerão expostas, limite-se a seu trabalho, tal como lhe aconselhou Miss Connors.

 

— Okay. Devo partir agora?

 

— Será retirado de Langley tão discretamente quanto foi trazido.

 

— Obrigado... Não acha que Miss Connors deveria saber como funcionará todo o sistema de alarme?

 

— Bastará que Miss Connors veja como funcionam seus aparelhos para saber a que ater-se, não se preocupe. Vou insistir mais uma vez, Mills: não interfira no trabalho de Lili. Faça o seu e esqueça todo o resto.

 

— Bem, bem... — resmungou Mills. — Não sou nenhuma criança para precisar de tantas recomendações. Mais alguma coisa?

 

— Não. Já se conheceram, ela irá buscá-lo no hotel amanhã... e isso é tudo.

 

— Toque! — disse novamente Mills. — Já que me mandam embora, eu vou. Até amanhã, Lili. Às onze?

 

— Às nove — sorriu Baby.

 

— Às nove... Que horror! Enfim... já disse antes que não tenho horário fixo. Adeus!

 

Quando ficaram sozinhos, Cavanagh olhou para Brigitte, que parecia muito pensativa.

 

— O que acha dele? — perguntou-lhe.

 

— Não me agrada.

 

— Não lhe agrada? É um homem honrado e leal, Brigitte... E esperto, embora não pareça. Destemido também. Sabe usar um revólver, persegue ladrões de joias, é um investigador particular dos mais inteligentes...

 

— Não me agrada — repetiu ela. — Mas num sentido diverso do que supõe, chefe. Ronald Mills é simpático, vivo, sagaz, bem que notei. Mas não me agrada... É essa espécie de homem que, quando se mete a espião, aparece degolado em menos de uma semana.

 

Às nove da manhã em ponto, Miss Lili Connors passou pelo hotel onde estava hospedado Ronald Mills. E nem sequer teve que perguntar por ele. Mills a esperava no vestíbulo, corretissimamente vestido, escanhoado e recendendo a água de colônia.

 

— Bom dia, minha linda amiga! — saudou ele, alegremente. — Dormiu bem?

 

— Sempre durmo bem — sorriu Brigitte. — E você?

 

— Idem. Como um menino cansado de brincar. Veio em seu carro?

 

— Não. Num táxi.

 

— Ótimo. Tenho o meu no estacionamento do hotel, já carregado com todo o equipamento, de modo que podemos ir diretamente à vila da Mrs. Forsythe. Diga-me uma coisa: que leva nessa maletinha? Armas?

 

— Por favor! Que ideia faz você dos espiões? Levo apenas alguns produtos de beleza e uma camisola de dormir.

 

— Ah, sim? — espantou-se Mills. — Não vai armada?

 

— Só um pouquinho. O imprescindível para uma espiã como eu.

 

— Bem Assim será, se você o diz. Vamos. Permita-me que leve a male...

 

— Não, obrigada. Pesa demais para você.

 

— Como?

 

Rindo, Brigitte indicou a saída do hotel. Minutos mais tarde, Mills ao volante do grande carro, abandonavam o estacionamento. Brigitte acendeu um cigarro e virou a cabeça para o agente de segurança da “General Insurance”.

 

— Tem à mão a planta de casa de Mrs. Forsythe?

 

Sem responder, Mills sacou-a de um bolso interno do paletó, entregando-a. Durante cinco minutos, a espiã internacionalíssima estudou atentamente a planta. Não havia dúvida de que se tratava de uma formosa casa, rodeada de jardins. Tinha piscina, quadra de tênis, diversas pérgulas.

 

Havia indicações da garagem e das duas saídas pelos jardins, uma bem cm frente à casa e outra que devia levar a uma pequena porta traseira.

 

— Que lhe parece? — perguntou Mills.

 

— Uma casa grande, luxuosa e comum.

 

— Comum?

 

— Quero dizer que nada tem de extraordinário, nem de diferente com relação a outras da mesma categoria. Entendo, naturalmente, que sua proprietária seja riquíssima.

 

— Naturalmente, milionária — assegurou Mills.

 

— Ontem me esqueci de lhe fazer uma pergunta. Em quanto está avaliada a coleção “Arco-Íris”?

 

— Bem, é uma preciosa coleção. E só por isso, apesar do risco, minha companhia concordou em segurá-la. É uma espécie de publicidade para a “General Insurance”. Em caso de roubo, claro, seria uma publicidade ruinosa. A coleção completa está avaliada em sete milhões de dólares. Não acha assombroso?

 

— As cifras não me impressionam, Mills. Quanto a “General Insurance” teria que pagar se essas joias desaparecessem?

 

— Foi firmado um contrato por cinco milhões. Como compreenderá, estamos dispostos a adotar todas as medidas de precauções possíveis.

 

— Lógico. Seremos somente você e eu?

 

— Sim. Compreenderá quando lhe explicar todos os sistemas de alarme e segurança. Sou um especialista nessas instalações... Ninguém no mundo conseguiria jamais roubar as joias. A “General Insurance” tem a patente de um sistema de alarme eficientíssimo. A coleção “Arco-íris” está absolutamente garantida.

 

Brigitte limitou-se a sorrir amavelmente.

 

— Quantos criados há na casa?

 

— Oito, ao todo. Um mordomo, um chofer, um jardineiro, uma cozinheira, dois copeiros e duas arrumadeiras.

 

— Todos de absoluta confiança da Mrs. Forsythe?

 

— Suponho que sim. Você está me fazendo muitas perguntas e eu ainda não lhe fiz nenhuma.

 

— Pois faça alguma.

 

— Posso? Bem... O que a CIA procura nesse assunto?

 

— Distração.

 

— Distra...?! Está de gozação comigo?

 

— Isso seria uma crueldade, Mills.

 

Ele riu, parecendo realmente divertido.

 

— Há! Há! Essa é muito boa! Vamos passar bons momentos, você e eu, Lili!

 

— Sem dúvida — sorriu Baby.

 

Vinte minutos depois, chegavam à casa de Gertrude Forsythe, em Wisconsin Avenue, situada de costas para Dumbarton Oaks Park. Havia um enorme portão de ferro, que lhes foi aberto pelo jardineiro, o qual aceitou rindo uma brincadeira de Mills, a quem já conhecia da véspera.

 

Formosos jardins, uma agradável alameda... Por fim, a casa, de aspecto imponente, branca, com colunas. O mordomo, que recebeu o simpático Mills com um sorriso, inclinou-se formalizado quando este lhe apresentou Miss Lili Connors como sua ajudante, prevenindo-o de que ela poderia circular livremente por toda a propriedade, já que ambos iam dedicar-se a instalar os alarmes e sistemas de segurança. Os dois empregados que esperavam atrás do mordomo encarregaram-se dos grandes volumes que Mills trouxera na parte traseira do carro e levaram-nos ao salão onde as joias seriam exibidas.

 

— Obrigado... — agradeceu Mills. — Se alguma vez se cansarem deste emprego, procurem-me: eu os contratarei para transportar meu equipamento.

 

Os dois homens riram e retiraram-se. O mordomo perguntou: — Deseja alguma coisa, Mr. Mills?

 

— Não, amigo.

 

— Se desejar, utilize a campainha — indicou o cordão da mesma.

 

— Está bem. E a Mrs. Forsythe?

 

— Não se levantou ainda. Mas recomendou-me que lhe desse todas as facilidades.

 

— Ótimo. É tudo por ora, Sims. Obrigado.

 

Ficaram ambos sozinhos no salão. Ao centro deste, vazias, as vitrines onde seriam expostas as peças da coleção “Arco-Íris”, sobre veludo azul. Tudo estava preparado.

 

Faltava apenas instalar o sistema de alarme... e as joias.

 

— Onde estão os diamantes? — perguntou Brigitte.

 

— No cofre, que fica no escritório particular da Mrs. Forsythe.

 

— Não estariam melhor na caixa-forte de um banco, ou algo assim?

 

— Hum... Gostaria de ver alguém capaz de abrir o cofre de Mrs. Forsythe sem pôr a casa abaixo.

 

Brigitte tornou a sorrir amavelmente e aproximou-se da grande janela que dava para o jardim, a um lado da casa.

 

Abriu o postigo central, assomou a cabeça e esteve uns segundos olhando para todos os lados. Virou-se, fechou a janela e contemplou Mills, que estava tirando seus aparelhos, com grande cuidado, absorto no trabalho.

 

— Vamos colocar já tudo isso? — perguntou-lhe.

 

— Oh, só daqui a uma hora... Tenho que fazer uns ajustes, antes.

 

— Então, irei dar uma volta por aí.

 

— É o que pensa fazer? — olhou-a estupefato. — Não quer que lhe vá dizendo como funcionam estes aparelhos?

 

Ela aproximou-se, olhou tudo aquilo e sorriu como um anjo.

 

— Complicado demais para mim, Ronald. Não creio que pudesse aprender tão depressa. Precisaria de uns dois ou três dias, pelo menos.

 

— Dois ou três dias? Minha querida e encantadora jovem, se eu não lhe explicasse como funcionam meus brinquedos, você não aprenderia nem em dois ou três anos!

 

— Claro... Pois, por isso mesmo, não vale a pena você se incomodar. Até já. Oh... Uma coisa, Ronald: segundo entendi, todas as coleções de joias famosas têm sua duplicata. É este o caso da “Arco-Íris”?

 

— Naturalmente.

 

— E... onde está a duplicata?

 

— Também no cofre, é lógico. Quando Mrs. Forsythe quer usar suas joias, geralmente recorre às imitações. É perigoso andar por aí com um colar, por exemplo, avaliado em setecentos ou oitocentos mil dólares.

 

Para isso há as duplicatas. E todos sabem que quem usa a duplicata da joia tem o original, evidentemente. É uma medida de segurança.

 

— Compreendo. Bom, continue trabalhando... Não demoro. Oficialmente, vou dedicar-me a inspecionar todas as entradas e saídas da casa.

 

— Está bem. Faça seu trabalho, enquanto faço o meu.

 

— É exatamente esse o trato. Não esqueça.

 

Abandonou o salão e deteve-se perto da porta, olhando a seu redor todas as portas que davam para o grandioso vestíbulo. Depois olhou a branca escadaria que levava ao primeiro andar. Em cima, uma das empregadas limpava um pequeno lustre próximo à escada. Olhou com curiosidade para Brigitte, mas prosseguiu com seu trabalho.

 

Durante quinze minutos esteve percorrendo as dependências da planta baixa da casa, examinando as janelas, as saídas aos terraços... Por fim, entrou no escritório particular de Gertrude Forsythe e fechou a porta. Ninguém a tinha visto.

 

A primeira coisa que fez foi ir à janela e examiná-la.

 

Depois ficou de costa para esta, olhando para todos os lados.

 

Indubitavelmente, Gertrude Forsythe tinha bom gosto... e muito dinheiro. Havia formosos tapetes, quadros magníficos, móveis de estilo. Seu olhar fixou-se numa espécie de pequena cômoda de madeira mais escura, com gavetas. Foi a ela e passou as mãos pelas bordas. Nada. Tentou depois abrir uma gaveta e não pôde. Sorrindo, foi puxando as gavetas, até que, súbito, toda a parte da frente do móvel se abriu, tal como a capa de um livro. E atrás apareceu a superfície brilhante, maciça, do cofre.

 

Após um olhar à porta, Brigitte abriu sua maleta e sacou um pequeno tubo, cuja extremidade mais fina introduziu no ouvido. Depois aproximou a cabeça à porta do cofre, até a extremidade mais larga do tubo entrar em contato com o aço.

 

Em seguida pôs-se a girar o disco da combinação...

 

Cinco minutos mais tarde continuava girando o disco, ouvindo os sons metálicos do mecanismo especial dentro da porta de aço. Pequenas gotas de suor apareceram em sua testa, enquanto seus olhos, cada vez mais inquietos, olhavam de quando em quando para a porta do escritório. Afastou-se um pouco, suspirou, olhou uma vez mais para a porta. A toda a pressa, tirou o pequeno tubo do ouvido, jogou-o na maleta, fechou esta e foi à janela. Estava alcançando-a quando a porta do escritório se abriu suavemente. Fingiu não ouvir, enquanto examinava com grande atenção a janela e os caixilhos.

 

— Que faz aqui? — ouviu.

 

Virou-se, simulando sobressalto. Ainda no umbral, uma dama contemplava-a com a testa franzida. Alta, esbelta, elegante, impecável em sua toilette matinal. Devia ter entre quarenta e cinco e cinquenta anos, mas conservava-se admiravelmente. Olhos claros, cabelos muito discretamente mantidos em seu tom castanho-claro natural, boca pequena mas voluntariosa... Tinha um ar senhorial e agradável. Junto a ela, um pouco mais atrás, uma bonita jovem que se lhe assemelhava de maneira extraordinária; mãe e filha, qualquer um compreenderia. Ao lado da jovem, um homem alto, sério, elegantíssimo, de cabelos brancos e olhos escuros, amáveis. Usava barba, também quase completamente branca.

 

Seu aspecto geral era impressionante. Parecia ter uns sessenta anos. Na mão esquerda trazia um estojo que, obviamente, continha um violino.

 

— Meu nome é Lili Connors, senhora... — disse Brigitte.

 

— Sou ajudante de Mr. Mills.

 

— Sim, foi o que imaginei... Mas, que está fazendo em meu escritório?

 

— Bem... Entendo que o cofre está aqui e quis verificar que sistema de alarme convinha colocar na janela para...

 

— Já existe um sistema de alarme nessa janela, que é ligado durante a noite ou em certos momentos convenientes.

 

Assim foi sugerido pela “General Insurance” e assim se fez.

 

— Eu sei. Entretanto, estava estudando a possibilidade de mudar esse sistema, senhora. Temos outros mais aperfeiçoados... Oh, suponho que estou falando com Mrs. Forsythe , claro.

 

— Com efeito. E...?

 

— Se está de acordo, consultarei Mr. Mills a respeito da conveniência de modificar esse sistema. Submeteremos o novo à sua aprovação, naturalmente.

 

Gertrude Forsythe olhou-o fixamente.

 

Por um, murmurou: — Não gostei de sua intromissão em meu escritório particular, Miss Connors e lhe agradeceria que não o tornasse a fazer. Entretanto, admito que talvez seja interessante estudar a mudança do sistema de alarme. Falaremos disso com Mr. Mills, segunda-feira. Pode retirar-se.

 

— Obrigada — sorriu levemente Brigitte.

 

Pouco depois, reuniu-se com Mills no salão. Ele ergueu a cabeça e olhou-a distraído.

 

— Logo poderemos começar a instalar isto. Como foi de passeio?

 

— Bem. Embora Mrs. Forsythe pareça ter-se aborrecido um pouco comigo. Chegou ao seu escritório quando eu estava examinando a janela e não gostou de minha presença. Disse-lhe que você me mandara examinar todas as entradas da casa e que lhe sugerirei trocar o sistema de alarme de sua janela por outro mais moderno e eficiente.

 

— Compreendo. Você parece um pouco enfadada, não? Certamente não gosta que a repreendam.

 

Brigitte arqueou as sobrancelhas, divertida.

 

— O que Gertrude Forsythe possa me dizer, Mills, não tem para mim a mínima importância. Se estou enfadada é comigo mesma, por não ter colocado um microfone naquele escritório logo que entrei lá. Se o tivesse feito, agora podíamos ouvir a conversa dela com a filha e um bonitão de barba branca.

 

— Ah, sim... Ontem estava aqui também. Creio que é um famoso violinista profissional, que viaja pelo mundo. Chama-se... Murray. Sim, Charlton Murray. Ouça — olhou vivamente para Brigitte: — talvez esse violinista seja um espião, hem?

 

— Tudo é possível, Ronald — sorriu ela. — Se é, não demoraremos a saber. Mas, por enquanto, terei que resignar-me a não ouvir a conversa; assim, vou ajudá-lo...

 

— Afinal — dizia o magnífico personagem da barba branca —, não sei o que pensar. Xav Mathieson nunca me pareceu o homem ideal para isso, Gertrude.

 

— Por que não? — protestou Mrs. Forsythe.

 

— Não sei... Estranho que ele esteja disposto a fazê-lo. É um homem íntegro, consciencioso, inteligente... Surpreende-me, isso é tudo.

 

— Também poderia surpreender a qualquer um que eu esteja disposta a ajudar Xav Mathieson; no entanto, é uma verdade.

 

— Por outro lado — interveio sua filha, a bela Flora Forsythe —, também eu tenho parte nisto e, francamente, Charlton, prefiro que seja Mathieson o escolhido. Não me agradaria chegar a essa espécie de... situação com Orville Neville. E muito menos com Kero Dambatu.

 

— Realmente — quase riu Charlton Murray —, casar com Dambatu não seria nada agradável. E menos agradável me pareceria ainda com Orville Neville. É um homem muito brusco e antipático. Quanto a Xav Mathieson é o oposto, mais jovem que os outros, educado, amável... Sim. Surpreende-me que ele se tenha decidido, Gertrude.

 

— Se quiser, posso mostrar-lhe sua carta, na qual o deixa entender bem claramente.

 

— Gostaria de lê-la, sim.

 

— Pois isso é fácil — disse Flora.

 

Foi até ao móvel simulado, que ocultava o cofre, e abriu a parte da frente...

 

— Enquanto isto — perguntou Murray —, o que diz Marlon De Koven sobre o assunto?

 

— De Koven? Que vai dizer? Estará ao lado de quem lhe pagar. Se Xav Mathieson lhe paga, a coisa não admite discussões. E como tudo está previsto e preparado, Mathieson poderá pagar os serviços de Marlon De Koven. Estará se esforçando para encontrar dificuldades, Charlton?

 

— Não... Claro que não! Afinal de contas, minha parte não vai ser exatamente das mais fáceis, de modo que um aumento de dificuldades quase me faria desistir.

 

— Desistir... você? — riu Gertrudes Forsythe. — Não acredito!

 

— Bom... — sorriu Murray. — Estou envelhecendo, querida. As coisas são menos fáceis aos sessenta que aos quarenta. De qualquer modo, não espero falhar em nenhum ponto. Tudo é arriscadíssimo, porém, o que se deve fazer será feito... Vem ou não essa carta, Florrie?

 

— Um momento...

 

— Que há? — estranhou Gertrude. — Não pode abrir o cofre?

 

— Parece que o mecanismo está desarranjado...

 

— Ah!

 

— Você está um pouco errada, filhinha — sorriu Gertrude. — Espero que seja muito mais hábil com Xav Mathieson.

 

— Não se preocupe — riu a jovem. — Quando ele menos esperar, já estará casado comigo! Aqui tem a carta...

 

Entregou-a a Charlton Murray, que, após olhar o envelope com displicência, dele tirou um papel e desdobrou-o. Quando acabou de ler, tornou a colocá-lo no envelope e estendeu este a Flora, ficando pensativo, sob o olhar atento das duas mulheres.

 

— E então? — perguntou Gertrude.

 

— Se eu tivesse escrito esta carta — disse Murray —, não sei o que seria de mim agora. Como é possível que um homem tão inteligente e moderado como Xav Mathieson a tenha redigido?

 

— Ainda não se convenceu? — surpreendeu-se Gertrude.

 

— Oh, sim, completamente... Esse Xav Mathieson não é mais que um ingênuo, coitado. Guarde-a bem, Florrie, pois enquanto a tivermos seremos os vencedores.

 

A jovem foi novamente guardar a carta no cofre, sorrindo.

 

— Não quer ver a coleção “Arco-Íris” agora, Charlton?

 

— Para quê? Quanto menos a veja, melhor. Sou dos que se deslumbram diante da beleza... E convém ter a vista em perfeitas condições.

 

As duas sorriram.

 

— Já que você fala em beleza, Charlton, acho que sempre foi muito exigente. Por isso não se casou. Ou terá sido porque as mulheres não o impressionam?

 

— Me impressionam, muito... quando são impressionantes. Sou um sibarita, Gertrude, não o esqueça. Sou um artista, um sensível. E gosto da perfeição. As mulheres são como os diamantes: há muitos, mas imperfeitos em sua maioria. E pergunto-me: para que quero eu um diamante imperfeito?|

 

— Com essas ideias, você morrerá solteiro.

 

— Temo que sim. Em primeiro lugar, creio que já estou muito velho para pensar seriamente numa mulher. E em segundo, sei que não existe aquela que eu desejaria. Oh, este é um assunto idiota entrei nós, não lhes parece?

 

— Tem razão — admitiu Gertrude, levantando-se. — Podemos ir ver como está ficando o sistema de alarme e segurança. Garante Mills que é absolutamente impossível alguém roubar as joias uma vez que estejam no salão. Afirma, inclusive, que estarão mais garantidas lá do que no cofre.

 

— O otimismo de Mr. Mills é comovedor — sorriu Murray. — Mas quando mostra tal segurança, deve ter seus motivos. Vamos ver suas instalações.

 

Saíram os três do escritório e, pouco depois, entravam no salão.

 

Ronald Mills, que estava no alto de uma escada, colocando um aparelho no ângulo formado pela parede e o teto, apressou-se a descer e vir a eles, sorrindo amavelmente.

 

— Bom-dia, Mrs. Forsythe ; Miss Forsythe, Mr. Murray... Vêm contemplar a obra de arte?

 

— Bom-dia, Mr. Mills. Diga-me: chama obra de arte uma instalação de alarme?

 

— De alarme e segurança — especificou ele. — É claro que a considero uma obra de arte. Tudo o que é bem feito pode ser chamado assim; a meu ver.

 

— Mr. Mills tem razão — sorriu Murray. — Como funciona tudo isto?

 

— Bom... É bastante complicado, Mr. Murray. É preciso considerar que são quatorze aparelhos, ao todo. É um equipamento especial, que usamos para as grandes ocasiões. E não há dúvida de que a coleção “Arco-íris” o merece. Lembro-me de um caso de roubo de joias que estavam asseguradas por outra companhia. Foi há dois anos, em...

 

— Mr. Mills — sorriu suavemente Gertrude Forsythe —, ainda não respondeu à pergunta de Mr. Murray.

 

— Bem... Há duas câmaras de televisão a luz normal e outras duas a luz infravermelha. Além disso, há dispositivos que farão baixar redes metálicas especiais, que fecharão a porta e a janela quando uma única pedra preciosa for tirada de seu lugar. Existe, também, um sistema de gases narcóticos. Justamente, dentro de alguns minutos montarei as grades; são como uma rede que intercepta as saídas e que...

 

— Mas, como funciona tudo? — pareceu impacientar-se Gertrude Forsythe.

 

— Sinto muito, senhora, acredite, mas os sistemas de segurança da “General Insurance” são absolutamente secretos. Pelo menos, não estou autorizado a revelá-los.

 

— Mr. Mills, sou uma segurada importante, parece-me, e, dadas as circunstâncias...

 

— Perdão. Perdão, senhora... A “General Insurance” fará todo o possível para que ninguém lhe roube sua coleção de diamantes, e, se tal chegasse a suceder, lhe pagaria a soma estipulada. Mas, compreenda, nossos sistemas de segurança perderiam boa parte de sua eficiência se divulgássemos sem funcionamento.

 

— Acha que eu o divulgaria? — Gertrude pronunciou o queixo.

 

— Não, absolutamente... — Mills enrubesceu.

 

— Estou certíssimo de sua discrição, senhora. Mas a “General Insurance” também está certa da minha.

 

— Boa resposta! — riu Charlton Murray. — Afinal de contas, o que importa é a segurança da coleção.

 

— Sobre isto não cabe a menor dúvida — disse Mills. — Uma vez tudo instalado, ninguém que desconheça o sistema poderia sair daqui. Talvez entrasse, mas não sairia.

 

— É um consolo. Quando poderemos trazer a coleção para colocá-la nas vitrines?

 

— Oh, quando queira... Agora, se acha conveniente. Assim posso tomar com exatidão certas medidas e pesos. E não se preocupe por seus diamantes, Mrs. Forsythe : insisto em que estarão mais seguros aqui do que em qualquer outro lugar, sob meu controle.

 

— Se eu fosse você — riu Murray —, me apressaria em trazer a coleção para cá, Gertrude.

 

— Acha mais prudente? — hesitou a Mrs. Forsythe.

 

— Por completo! — exclamou Mills. — Se essas joias não forem roubadas no trajeto de seu escritório até aqui, não o serão mais. E uma vez tudo terminado, os controles a transistores ficarão a cargo de minha ajudante, Miss Connors, ou ao meu próprio, por turno. Não há o menor perigo.

 

— Pois faremos a transferência imediatamente. Flora querida, ajude-me. E você também, Charlton.

 

Charlton Murray, que estivera olhando atento a silenciosa e muito ocupada Miss Connors, ergueu a cabeça, pestanejou e assentiu. Ao mesmo tempo, Lili Connors deixava de interessar-se pelo aparelho que estava ajustando para olhar Gertrude Forsythe.

 

— Posso ajudá-la em alguma coisa, senhora? — ofereceu-se.

 

Gertrude abriu a boca, com expressão não exatamente amável, mas Murray adiantou-se na resposta: — Claro que pode, Miss Connors. Supomos que seja uma agente de segurança tão capaz como Mr. Mills, e nos sentiremos mais tranquilos com sua colaboração. Além disso, presumo que gostaria de ver bem de perto os diamantes e, se possível, tocar em alguns. Acertei?

 

— Bem — sorriu a loura e linda garota —, é claro que gostaria. Mas minha intenção...

 

— Compreendemos sua amável intenção e aceitamos sua ajuda. Venha... — tomou-a pelo braço, muito cortesmente.

 

— Será minha escolta particular.

 

As Forsythe olharam-no um tanto perplexas, mas não fizeram nenhum comentário. Foram os quatro ao escritório e Gertrude abriu o cofre... enquanto os olhos de Miss Connors permaneciam fixos nos movimentos de seus dedos girando o disco da combinação. Em poucos segundos, a sólida porta de aço ficou aberta, e mãe e filha começaram a retirar os estojos, que foram deixando sobre a mesinha redonda. Ainda segurando-a por um braço, Murray levou Brigitte à mesinha e abriu um dos estojos. Um milhão de irisados reflexos pareceu explodir, com fantástica beleza, partindo de três enormes diamantes.

 

— Estes são os mais famosos... — sorriu Murray. — E os de maior valor, claro. Chamam-se “Hélios”, “Niágara” e “Africano”... Agradam-lhe, Miss Connors?

 

— Que maravilha! Se me agradam? Daria qualquer coisa por um deles apenas!

 

— Qualquer coisa?

 

— Qualquer. Só que — riu deliciosamente — receio não ter nada para dar que possa valer um destes três diamantes.

 

— Quem sabe? — sorriu Murray.

 

— Charlton, será melhor que comecem a levá-los para o salão. Os restantes Flora e eu levaremos em seguida — disse Gertrude.

 

— Sim, sim. Veja, Miss Connors: cedo-lhe o privilégio de levar “Hélios”, “Africano” e “Niágara” para o salão. Eu levarei estas outras caixas...

 

Pelo meio-dia, todas as joias estavam em suas respectivas vitrines, refulgindo intensamente. O alarme e o sistema de segurança tinham sido instalados por Mills, o qual afirmou que a partir daquele momento ninguém poderia tocar em nenhum daqueles diamantes sem que, um décimo de segundo mais tarde, simultaneamente, funcionassem todos os sistemas...

 

— Não obstante — concluiu —, se desejar fazer algum arranjo final na disposição das gemas, Mrs. Forsythe , será suficiente que me diga, pois desligarei tudo.

 

— Não, não... Está bem assim. Creio que é hora de almoçar. O senhor e Miss Connors poderão fazê-lo na copa.

 

— Pois não — enrubesceu Mills.

 

— Suponho que tenha trazido seu smoking?

 

— Sim, claro.

 

— E espero, Miss Connors — olhou-a com displicência — que disponha de um vestido de noite?

 

— Não... Não trouxe. Pareceu-me...

 

— Pareceu-lhe... quê? É natural que, durante a noite de hoje e a de amanhã, esteja conosco nos salões, ao lado de Mr. Mills. Espero de ambos a indumentária adequada, de modo que ninguém pense que são dois vigias de minhas pedras.

 

— Irei ao meu hotel buscar o traje adequado, senhora.

 

— Muito bem. Vamos, filhinha... Ainda temos muitas coisas que fazer antes que cheguem nossos convidados. Você vem, Charlton?

 

— Estava pensando — sorriu Murray — que poderia acompanhar Miss Connors a seu hotel e ajudá-la a trazer o vestido de noite. É estranho que não tenha pensado nisso.

 

— Pensei que esta noite não contariam com minha presença... — murmurou Brigitte. — Segundo entendo, hoje só virão amigos pessoais e amanhã será a festa oficial, quando receberão mais convidados para o jantar, jornalistas, fotógrafos... Julguei que apenas amanhã deveria estar presente... de um modo visível.

 

— Sim, está bem... — Gertrude fez meia volta. — Vamos, Flora.

 

— Eu a levarei ao seu hotel — insistiu Murray.

 

— Não, não... Agradeço-lhe, Mr. Murray, mas não quero incomodá-lo. Vou no carro de Mr. Mills.

 

— Não é incômodo nenhum. Muito ao contrário.

 

— De qualquer modo, não. Obrigada.

 

— Bem... Como queira. Até logo.

 

Murray foi atrás das Forsythe e Mills, menos satisfeito que de hábito, resmungou: — Essa mulher nos trata como empregados, não acha, Lili?

 

A espiã olhou-o fixamente.

 

— Quer um bom conselho, Ronald? — perguntou.

 

— Um bom conselho? Bem, por que não? Qual é?

 

— Diga que está indisposto e deixe esta casa, declarando que mandará um substituto.

 

— Como? — ele ficou estupefato.

 

— Você me ouviu. Eu me encarrego de conseguir o substituto.

 

— Um agente da CIA?

 

— Exato.

 

— Isso quer dizer que me considera inapto para situações especiais, hem?

 

— Não mude as coisas. Só lhe dei um conselho e gostaria que o seguisse.

 

— Pois não penso em fazer isso... — resmungou Mills. — Nada acontecerá com os diamantes, mas se acontecer, espero poder lhe mostrar que não sou nem idiota nem inútil. Nunca me dediquei à espionagem, claro, mas posso muito bem...

 

— Até logo, Ronald.

 

Chegou ao fundo da garagem subterrânea, deteve o carro, saltou e, após olhar ao redor, foi direta à outro dos carros ali estacionados. Entrou na parte traseira, sentando-se ao lado de Mr. Cavanagh, que a olhava seriamente. Ao volante daquele carro estava outro homem, que se virou e piscou um olho para Brigitte, a qual, após retribuir a piscadela, apontou com um dedo para cima.

 

— Chame — disse.

 

Cavanagh abriu a comunicação do radinho de bolso que já empunhava.

 

— Chefe? — ouviu de imediato.

 

— Ela foi seguida, Floyd?

 

— Não. Chegou de acordo com o combinado, lentamente e num momento de pouco trânsito. Ninguém a seguiu, tenho certeza.

 

— Está bem, Floyd. É só.

 

Cavanagh fechou o rádio e olhou Brigitte, a qual estava aceitando um cigarro que Johnny lhe estendia já aceso.

 

— Você ouviu: não a seguiram.

 

— Melhor. Entretanto, pareceu-me prudente avisá-lo pelo rádio de bolso. Esse homem, Charlton Murray, é... Bom, talvez eu esteja enganada, mas temo que se trate de pessoa muito suspicaz. Inclusive, ofereceu-se para trazer-me. Não me surpreenderia demasiado que se interessasse no hotel de Ronald Mills por descobrir se lá também se hospeda Miss Lili Connors.

 

— Estamos nos ocupando disso — murmurou Cavanagh.

 

— Dentro de uns minutos, você constará como hospedada no mesmo hotel que Mills.

 

— Talvez eu esteja exagerando, mas não confio nem em minha sombra.

 

— Prefiro que faça assim, Baby. Diga-me: obteve algum dado, chegou a alguma conclusão, ouviu algo...?

 

— Estiveram a ponto de surpreender-me tentando abrir o cofre, mas pude dar um jeito. Não consegui nada. Lá só se fala da coleção “Arco-Íris”, que eu saiba. Mas não perco a esperança de poder abrir aquele cofre e ver se nele encontro algo interessante. Que me diz de nossos quatro personagens?

 

— Marlon de Koven dedicou-se esta manhã a passear por Washington; foi de The Mall ao Capitólio. Esteve admirando, por fora, o Museu de História Natural e Tecnologia, a Galeria Nacional de Arte, o Museu de História Natural... Contemplou longamente o monumento a Washington. Depois voltou ao hotel. Kero Dambatu não saiu da Embaixada da República Omogo e, ao que parece, esteve resolvendo assuntos oficiais. O mesmo com respeito a Orville Neville, de Costa Coral, Xav Mathieson, de Atlânfrica, visitou Arlington e depositou flores na sepultura de John Kennedy. Fez a declaração de que sempre o admirou profundamente. Também já voltou à sua embaixada.

 

— Parece o mais sensível, não?

 

— Hum.

 

— Nada mais? — sorriu Brigitte.

 

— Nada mais.

 

— Então, já não vale a pena se ocupar deles. Seu próximo passo será ir à casa de Gertrude Forsythe para o fim de semana, de modo que ficam por minha conta. Compre-me alguma roupa, duas maletas...

 

— Tudo está praticamente resolvido, não se preocupe. Para todos os efeitos, miss Lili Connors, ocupa um apartamento no mesmo hotel que Ronald Mills.

 

— Vou agora comprar algo de que necessito com certa urgência. A respeito de Charlton Murray, o violinista, vejam se descobrem alguma coisa sobre ele. Mas não me chamem.

 

Eu chamarei, quando puder.

 

— Está bem. Tome cuidado: poderia ser muito desagradável se esses políticos viessem a saber que estão sendo vigiados. Na verdade, acho que nos excedemos. Teria bastado vigiar Marlon De Koven.

 

— Com o que — sorriu Brigitte —, teríamos ido parar na casa das Forsythe, de qualquer modo, pois De Koven não se entrevistará com ninguém fora dessa reunião. Tudo vai bem, não receie. E minha impressão pessoal é de que estão tramando algo, certamente. Algo em que, sem dúvida, Gertrude Forsythe é parte muito interessada. Espero saber algo mais esta noite, quando já estiverem lá tão curiosos convidados. Bem... Adeus, chefe. Adeus, Johnny O primeiro a chegar, às cinco horas, foi Xav Mathieson, num grande carro preto, do corpo diplomático de Atlânfrica.

 

Gertrude Forsythe, com sua filha, saiu a recebê-lo ao pé da branca escada, estendendo ambas as mãos com expressão cordialíssima, carinhosa inclusive...

 

De uma janela, a agente Baby pôde contemplar à vontade, diretamente, aquele Chefe de Estado. Nele destacavam-se a testa ampla, o queixo forte e os olhos inteligentes, de expressão fatigada. Alto, atlético, bem trajado, era um tipo imponente, sólido, tranquilo, como se nada o pudesse alterar.

 

Da mesma janela, presenciou a chegada dos outros três convidados. O último e sem dúvida mais impressionante, foi Marlon de Koven. Com seus cabelos louros, longos e alvoroçados, seu sorriso simpático e seu aspecto esportivo, parecia um milionário em férias; e, naturalmente, ninguém poderia pensar tratar-se de um homem que se vendia, com seus soldados, a quem melhor pagasse por seus serviços de natureza militar.

 

Kero Dambatu era, entretanto, o mais espetacular, com sua cabeleira branca destacando-se no rosto negríssimo.

 

Vestia-se à europeia com bastante correção, mas usava uma bengala estranhamente colorida e parecia ameaçar partir a cabeça de quem não entendesse suas palavras, brandindo-a a cada instante em todas as direções.

 

O mais desagradável era Orville Neville, de Costa Coral.

 

 

Seus olhos pequenos e simiescos moviam-se incessantemente, como se por sistema desconfiasse do mundo que o rodeava. Sua feia barba grisalha dava-lhe ao rosto um aspecto sinistro, inquietante.

 

Todos foram recebidos pelas Forsythe, e à medida que chegavam iam sendo levados a seus aposentos pelos serviçais. Por fim, sabendo que todos tinham chegado sem novidade, Brigitte retirou-se a seu quarto, na parte traseira da planta baixa.., quer dizer, onde se alojavam os empregados.

 

Uma atitude muito pouco amável por parte de Gertrude Forsythe, certamente. Mas, na verdade, não seria Brigitte Montfort quem se sentisse mortificada ou humilhada pelo que lhe pudesse fazer outra mulher.

 

Recorreu ao radinho de bolso e apertou o botão de chamada. A voz de Cavanagh: — Alô.

 

— Sou Baby, chefe. Os convidados já estão aqui.

 

— Eu sei. A partir deste momento, você se encarrega deles. Nós não achamos conveniente aproximar-nos da casa.

 

Mas se algo acontecer, não hesite em chamar.

 

— Assim farei. Souberam alguma coisa de Charlton Murray?

 

— Nada especial. É um violinista bastante famoso, que vive de seus recitais. Já gravou inúmeros discos. É só, por enquanto, mas continuamos interessando-nos por ele.

 

— Qual é sua nacionalidade?

 

— Ah, sim... É inglês. Por quê?

 

— Perguntava-me se não seria de Atlânfrica.

 

— Não, não... Inglês mesmo. De Atlânfrica são as Forsythe. Uma família há muito tempo estabelecida no continente negro.

 

— Bem. Tudo resolvido quanto o hotel?

 

— Naturalmente. E ninguém já se apresentou perguntando por você. Baby, esses quatro homens e Gertrude Forsythe devem ter algo muito importante a dizer-se... Quero que você se inteire de sua conversa.

 

— Para isso estou aqui. Não se preocupe, querido chefe: de um ou de outro modo, conseguirei que as coisas sigam o curso que convém aos Estados Unidos, sem prejuízo para nenhuma das partes, claro. É só. Tornarei a chamar quando houver novidades.

 

A última frase foi dita em voz baixa e às pressas.

 

Guardou agilmente o rádio e levantou-se... ao mesmo tempo que batiam na porta do quarto.

 

— Sou eu, Lili — ouviu.

 

Sorrindo, abriu a porta e fez sinal a Ronald Mills para que entrasse.

 

— Francamente — ele entrou resmungando —, não é grata a impressão que me oferece a hospitalidade da Mrs. Forsythe , Lili. Nunca antes me alojaram no setor dos empregados.

 

— Realmente se preocupa por isso, Ronald?

 

— Não, não... Os empregados são pessoas iguais a mim, naturalmente. Mas eu sou, para todos os efeitos, um convidado da casa. Por que não me dar um quarto em cima? E também a você, claro?

 

— Esqueça isso. Evidentemente Mrs. Forsythe prefere que fiquemos aqui. Viu os convidados?

 

— Sim... Vi-os chegar. Às seis descerão todos para ver a coleção “Arco-Íris”. Foi-lhes concedida prioridade sobre os convidados e jornalistas que virão ao coquetel de amanhã.

 

— Quanta coisa — murmurou Brigitte.

 

— Como?

 

— Refira-me às... disposições de Gertrude Forsythe.

 

— Continuo sem entender.

 

— Estou dizendo que ela organizou coisas demais, Ronald. Primeiro, nós chegamos e instalamos o alarme. Depois, chegam seus convidados preferenciais. Amanhã, os outros convidados, ou seja, os que só assistirão à festa. Em compensação, os que já chegaram passarão aqui o fim de semana. Por quê? Qual a necessidade disso? Todos estão alojados em Washington, exceto Charlton Murray. É lógico que convide Charlton para sua casa, mas... por que os outros quatro, que dispõem de esplêndidas acomodações nesta cidade?

 

— Bom... Não sei. O que você acha?

 

— Ainda não sei o que achar.

 

— Certamente, é uma simples amabilidade da Mrs. Forsythe , que deseja obsequiar seus amigos.

 

— Certamente. Entretanto, vejo o movimento de todos nós como o de... marionetes manejadas por um hábil artista.

 

— Marionetes? Ouça, você está me assustando, menina... Por que fala assim? Tenta por acaso me dizer que os diamantes não estão seguros, ou coisa parecida?

 

— Oh, os diamantes... — sorriu Brigite. — Não creio que devamos nos preocupar com eles. Enfim, Ronald, continue com seu trabalho, continuarei com o meu.

 

— Okay. Bem, já lhe disse que às seis todos os convidados descerão para contemplar as joias. Naturalmente, nós dois devemos estar por perto. Foi o que vim dizer. Está preparada?

 

— Eu estou sempre preparada, Ronald.

 

Às seis menos dez, viu passeando pelo jardim quatro homens que identificou imediatamente: eram os que tinham chegado acompanhando Xav Mathieson, Orville e Kero Dambatu. Os guarda-costas. Dois deles eram de Mathieson e, logicamente, cada um dos outros trabalhava para Neville e Dambatu. O guarda-costas de Kero Dambatu era um negro forçudo, gigantesco, de cara meio achatada. O de Orville Neville era um branco franzino, de aspecto triste, como se algo lhe produzisse um constante pesar; entretanto, de imediato, Brigitte catalogou-o como o mais perigoso dos quatro. Naturalmente, todos estavam armados, mas se entre eles havia um autêntico pistoleiro, esse era o guarda-costas de Orville Neville. Os de Xav Mathieson eram um branco e um negro, ambos de aspecto muito agradável, tranquilos, repousados, como seu chefe. Sem dúvida, os quatro deviam viajar com seus patrões na qualidade de “secretários”, ou coisa parecida. Entretanto, percorriam o jardim e olhavam para toda parte com a atenção de quem quer conhecer bem um terreno no qual nunca se sabe o que pode sobrevir.

 

Pareciam não prestar atenção uns aos outros, mas não havia dúvida quanto ao fato de que cada um não perdia seus colegas de vista.

 

— Tudo está pronto — disse Mills. — Desliguei os sistemas para que não haja nenhuma espécie de contratempo quando entrarem os convidados. Vamos avisar Mrs. Forsythe , Lili.

 

Brigitte afastou-se da janela, sorrindo, e olhou para todos os lados, movendo graciosamente a cabeça.

 

— Você é um artista, Ronald. Aposto que ninguém conseguiria roubar um só diamante sem seu consentimento.

 

— Consentimento que não penso dar — riu Mills, satisfeito.

 

Saíram ao grande vestíbulo, no qual, pela porta da frente, entravam naquele momento os “secretários” de Xav Mathieson. Atrás vinha o gigantesco negro que protegia Kero Dambatu. Por fim, com sua expressão triste, apareceu o franzino guarda-costas de Orville Neville. Ali ficaram, fumando, contemplando os quadros e os lustres de cristal pendentes do teto.

 

As Forsythe, com Charlton Murray, estavam no escritório particular de Gertrude, conversando com muitas tranquilidade.

 

— Tudo pronto, senhora — anunciou Ronald Mills.

 

— Obrigada. Espero que não ocorra nenhum contratempo com meus convidados, Mr. Mills.

 

— Não, não... Desliguei todos os sistemas, naturalmente.

 

— E como se faz isso? — perguntou Flora Forsythe.

 

— Querida — sorriu Gertrude —, Mr. Mills já nos advertiu que se trata de segredo profissional. O importante é que não ocorra nenhum incidente com a coleção. E nisso ele está tão interessado como nós, custaria à “General Insurance” nada menos que cinco milhões de dólares... Oh, aí vêm os convidados...

 

O primeiro a entrar foi Xav Mathieson, que sorriu muito cordialmente, dirigindo a Flora um olhar logo captado por Brigitte. Olhar significativo, sem dúvida. Atrás de Mathieson, seguido de Orville Neville, entrou Marlon De Koven e, por último, Kero Dambatu. Mrs. Forsythe acolheu-os com efusão, apressando-se a apresentá-los a Mr. Ronald Mills e Miss Lili Connors.

 

— Oficialmente — acabou esclarecendo —, são amigos convidados também para o fim de semana. Mas, na realidade, são funcionários da “General Insurance”, que arca com o risco de segurar a coleção “Arco-íris”. Dedicam-se a vigiá-la, para que nada ocorra.

 

— Nesse caso — sorriu Marlon De Koven —, será melhor que eu não pretenda roubar-lhe a coleção, Mrs. Forsythe.

 

— Oh, por favor... — protestou esta. — As precauções não visam os senhores, mas os convidados que virão amanhã. Serão muitos e haverá tantos jornalistas que nunca poderíamos saber com certeza sé não haveria alguém... indevido na festa. Por isso, missConnors e Mr. Mills estarão com outros tantos convidados.

 

— Isso será bastante conveniente, claro — aceitou com indiferença Kero Dambatu.

 

— Sentem-se, sentem-se, por favor... Justamente, estava pedindo a Mr. Murray que nos tocasse alguma coisa. Tenho certeza de que lhes agradará muitíssimo ouvi-lo.

 

Dambatu e Neville não pareciam sentir o menor interesse por isso... nem por se mostrar corteses. Porém Xav Mathieson e Marlon De Koven foram muito mais corretos.

 

— Excelente — celebrou o último. — Um pouco de boa música nos tornará mais aptos a apreciar esses famosos diamantes.

 

— E naturalmente — acrescentou Mathieson —, a música sempre será mais formosa que os diamantes.

 

— O senhor é muito amável — inclinou-se Charlton Murray.

 

Tirou seu violino da caixa. Brigitte sentara-se numa pequena cadeira e olhava de um para outro com um ingênuo sorriso de menina encantadora nos lábios. Todos tinham ficado em silêncio e, após uns segundos de espera, Charlton Murray começou a tocar... Kero Dambatu fez o possível para conter um bocejo e Neville olhou o teto, enquanto dava puxões na barba. De Koven sorria, muito divertido; sem dúvida, à sua maneira, vivia um momento agradável, o que se explicava plenamente: um mercenário como ele, convidado junto com três governantes. Ronald Mills ouvia a música com agrado. Xav Mathieson repartia sua atenção entre o som e Flora Forsythe. Gertrude parecia estar-se deleitando com a arte de Murray, mas seus olhos iam de um a outro de seus convidados; e neles havia uma expressão contida de regozijo irônico. Aparentemente, era quem mais se divertia, e mais uma vez Brigitte teve a impressão de que aquela mulher se deleitava em manipular umas quantas marionetes. Como se só ela fosse capaz de mover os fios que faziam atuar seus convidados...

 

Charlton Murray finalizou seu breve solo, deixando o ar vibrante com as últimas notas da música cigana de Pablo Sarasate. Brigitte começou a aplaudir, seguida de Mathieson, De Koven... Neville e Dambatu também aplaudiram, este fazendo grandes esforços para não bocejar.

 

— Esplêndido, Charlton... Realmente esplêndido! — elogiou Gertrude Forsythe. — E agora, cavalheiros, vamos ver a coleção. Quero que todos apreciem devidamente o obséquio que penso fazer-lhes.

 

Brigitte quase se assustou. Olhou para Mills, que também estava perplexo. Do que falava aquela mulher? Tinha realmente dito que pensava presentear seus convidados com a coleção “Arco-íris”?

 

Saíram todos do escritório. No vestíbulo continuavam olhando os quadros os “secretários” dos três homens de Estado. E novamente Brigitte captou aquele regozijo nos olhos de Gertrude ao olhá-los...

 

— Ouviu isso? — murmurou Mills a seu lado. — Se não estou maluco, ela disse...

 

— Ssst. Não seja mal-educado, Ronald.

 

— Mas se ela disse...

 

— Ssst.

 

Chegaram à porta do salão onde estavam expostos os diamantes e Mills abriu-a, ficando de um lado. Brigitte ficou do outro, como fazendo guarda. Pouco depois, todos admiravam a fabulosa coleção avaliada em sete milhões de dólares o segurada em cinco. Houve comentários admirativos, as gemas foram longamente contempladas e inclusive tocadas pelos convidados... Marlon De Koven disse dois ou três gracejos, que apenas fizeram sorrir Gertrude Forsythe.

 

— Bem, Mrs. Forsythe — falou Orville Neville de um modo algo brusco —, afinal de contas estas pedras não constituem por si mesmas uma meta para nenhum de nós, segundo entendo. O que realmente nos interessa a todos, e estamos esperando conhecer, é sua proposta geral. De acordo, cavalheiros?

 

Kero Dambatu assentiu imediatamente. Xav Mathieson murmurou algumas palavras de aprovação. Todos estavam olhando para Gertrude, que finalmente aquiesceu com a cabeça.

 

— Tinha pensado em comunicar-lhe minhas ideias... depois do jantar, mas, em vista de sua impaciência, não vejo motivo para demorar mais. Por outro lado, talvez seja melhor assim, já que, durante o jantar, poderemos prosseguir com a conversa... Peço a gentileza de me esperar em meu escritório.

 

O impaciente Dambatu iniciou a marcha para lá. Só Mrs. Forsythe ficou no salão, olhando com forçada amabilidade para Brigitte e Mills.

 

— Espero que me desculpem... Tinha planejado que jantassem conosco esta vez, mas como durante a refeição trataremos de um assunto que meus convidados de nenhum modo aceitariam compartilhar com estranhos...

 

— Não se preocupe — quase resmungou Mills. — Miss Connors e eu jantaremos na copa, Mrs. Forsythe. Já a conhecemos.

 

— Ótimo. Até logo, então. Embora, na verdade, já que o resto da noite a conversa será de caráter privado, não considero conveniente a presença de ambos. Agradeço sua compreensão. Vai colocar novamente em funcionamento os dispositivos, Mr. Mills?

 

— Sem dúvida.

 

Saíram os três do salão e Mills fechou a porta. Gertrude ficou ao seu lado, olhando-o.

 

— Então, Mr. Mills?

 

— Já está feito, senhora.

 

— Como? — pasmou ela. — Tornou a ligar o sistema de segurança?

 

— Exato.

 

— Mas... como o pôde fazer? Não vi nada... Oh, mais uma vez desculpe-me. Não tornarei a fazer perguntas — sorriu. — Até logo.

 

Afastou-se, atravessando o vestíbulo, sem fazer o menor caso dos “secretários” dos três governantes. Ronald Mills soltou um grunhido.

 

— De qualquer modo, pouco me importa... — disse. — Estou certo de que será muito mais agradável jantar com você, Lili. Compreendeu o processo que empreguei para ligar novamente o sistema de alarme?

 

— Desculpe, Ronald, mas estou com pressa.

 

Tentou dirigir-se a seu quarto, mas Mills a reteve por um braço.

 

— Um momento. Creio que deve ouvir-me, Não prestou muita atenção às instalações e seria conveniente que tivesse pelo menos uma ideia geral de...

 

— Peço-lhe, Ronald: tenho pressa.

 

— Mas deveria saber...

 

— Depois me explicará.

 

— Creio que seria melhor agora, pois se acontecer que...

 

— Ronald — cortou Brigitte —, seu sistema de segurança funciona eletronicamente, claro. Uma das câmaras de televisão não é o que parece, mas sim o controle geral do circuito que você montou no salão. Esse circuito entra em funcionamento, ou se detêm, mercê do controle remoto que você exercer sobre ele por meio de um pequeno aparelho que traz no bolso direito da calça; pode parecer uma piteira, um isqueiro, ou qualquer coisa assim. Ao ser posto em marcha o circuito, a porta fica ligeiramente bloqueada. Para abri-la, é preciso empurrar um pouco mais forte que o normal. Quando isso acontece, as câmaras de televisão põem-se em marcha.

 

Ao ser completamente aberta a porta, baixara as redes de aço que a obstruem e à janela. Quando essas redes baixam, soa o alarme. Se alguém está dentro e tenta sair, recebe uma descarga elétrica forte bastante para que desista de seu propósito. O mesmo ocorre com quem quiser entrar. Por último os gases narcóticos são expelidos por baixo de outra das câmaras de televisão. Desculpe, mas tenho o que fazer.

 

Afastou-se rapidamente para o fundo do vestíbulo, deixando Ronald Mills cravado no chão, pálido, feições alteradas, como petrificado de espanto.

 

Esquecendo completamente Mills, Brigitte chegou a seu quarto, apanhou a maletinha, saiu e segundos depois alcançava o jardim, pela porta de trás. Já era noite fechada e fazia bastante frio, mas estava insensível a tudo o que não fosse seu objetivo. Dirigiu-se em linha reta para a parte frondosa do jardim, virou à direita, rodeou a casa e ajoelhou-se entre uns arbustos a um lado da alameda. Com precipitação perfeitamente controlada, tirou da maleta o tripé de alumínio para câmara fotográfica e, em menos de quinze segundos, montou seu extraordinário fuzil. Meteu pela boca do tubo um microfone-dardo, apontou para a janela do escritório particular de Gertrude Forsythe e disparou. Não se ouviu nada. Imediatamente, sacou o receptor, pôs em marcha o mecanismo de gravação e colocou numa orelha a diminuta peça auricular.

 

—... nos propondo uma união, se bem compreendi.

 

— Com efeito — replicou Gertrude Forsythe, sentada numa poltrona, como uma rainha. — Algo parecido, Mr. Neville.

 

Olhou-o. Depois olhou Xav Mathieson, Kero Dambatu e, por último, Marlon de Koven. Todos eles, assim como Flora e Murray, estavam sentados diante dela, formando um semicírculo.

 

— A ideia não é má — disse Mathieson.

 

— Não é má? — replicou asperamente Dambatu.

 

— Devo dizer-lhe, Mr. Mathieson, que a mim não parece nada boa. Ou talvez eu não a tenha entendido bem. Por que unir nossos três países?

 

— Isso seria conveniente para todos — assegurou Mathieson.

 

— Os senhores bem sabem — disse Gertrude — que existem várias federações no mundo...

 

— E nenhuma delas é um sucesso, diria eu — cortou Neville.

 

— Senhor Neville, individualmente, cada um dos países sob a direção dos senhores não vale grande coisa. Além disso, devido a certos temores e suspeitas absurdas, uns estão dificultando a vida dos outros. É ou não é verdade?

 

— É a senhora quem o diz — grunhiu Neville.

 

— Digo e sustento. Vejamos: tanto Costa Coral como a República Omogo e Atlânfrica têm uma só coisa que lhes permite relacionar-se com outros países, obter divisas, ser tomadas em conta... Refiro-me aos diamantes. Se as coisas continuam como até agora, chegará o momento em que os senhores três se aborrecerão por algo que no fundo não terá grande importância, e, muito possivelmente, recorrerão às armas. No mesmo momento em que começarem a guerrear entre si, seus três países estão destinados à mais absoluta ruína em poucos meses. As minas deixarão de funcionar e a consequência será a derrocada geral. Está de acordo?

 

Orville Neville resmungou alguma coisa, mas não teve outro remédio que ceder ante a lógica de Gertrude.

 

— Bem... Suponho que aconteceria algo assim — murmurou.

 

— Pois eu lhes estou oferecendo uma solução para seus problemas.

 

— Por que o faz? — perguntou prontamente Dambatu.

 

— O senhor está esquecendo que Atlânfrica é minha pátria. Quero o melhor para ela. E estou há muito tempo procurando uma solução... que finalmente creio ter encontrado: transformar os três países numa federação, por enquanto, o que seria o primeiro passo para unificá-los definitivamente.

 

— Com um só governante? — deslizou Neville.

 

— Evidentemente.

 

— E quem seria esse governante? — perguntou Dambatu.

 

— Bem... De início, creio que, enquanto a federação se estivesse... aperfeiçoando, cada um dos senhores poderia continuar na chefia de seu atual país. Talvez por um ano ou dois, no máximo. Depois seria eleito o Presidente da Federação, dentre os senhores três.

 

— Está sugerindo que o Mr. Dambatu poderia chegar a ser o Presidente da Federação? — perguntou Neville, com frieza.

 

— Por que não, Mr. Neville? Qualquer dos senhores três poderia sê-lo: o mais capacitado, simplesmente.

 

— Não vou aceitar! — explodiu Neville. — Da maneira nenhuma poria meu país nas mãos de...!

 

— Acalmem-se — sorriu Gertrude. — Pressinto que estou à beira do fracasso, cavalheiros. E o único motivo é que os senhores pensam mais em si mesmos, em suas ideias pessoais, que no bem de suas respectivas pátrias. Isto lhes parece digno?

 

— Todo temos ambições pessoais — replicou Dambatu.

 

— Mas não devemos levá-las ao extremo de sobrepô-las às nossas ambições patrióticas, Dambatu — disse sossegadamente Xav Mathieson. — Primeiro, a pátria; depois, cada um ocupará a posição que mereça.

 

— Fala assim, Mathieson, porque espera ser eleito Presidente da Federação — disse Neville, com simplicidade.

 

— Por que temos de enganar-nos? Embora sejamos políticos aceitáveis, os três, você é o que tem mais... fachada. Bastaria vê-lo, para que o povo se colocasse de seu lado. O Mr. Dambatu é negro, de modo que não teria muitos votos dos cidadãos brancos. Quanto a mim, é sabido que não simpatizo demasiado com os negros, de modo que posso despedir-me dos votos destes. Entretanto, você, com seu porte elegante, seu encanto pessoal e sua maneira de tratar igualmente bem a todos, seria eleito por brancos e negros. E se estou dizendo alguma tolice, que alguém me corrija.

 

Todos ficaram silenciosos durante uns segundos; por fim, Gertrude Forsythe ergueu suas mãos senhoriais.

 

— Esta não é a maneira de enfocar a questão... — murmurou. — Devemos ser realistas a todo custo. Os senhores devem pensar em minha sugestão com honradez e espírito patriótico.

 

— Formosas palavras... — riu Neville. — Mas são apenas isso: palavras.

 

— Há vários detalhes mais que deveriam ser considerados — disse Dambatu: — muita gente não estaria de acordo com a nova situação e não tenho a menor dúvida de que ocasionaria muitas dificuldades.

 

— Pensei nisso — admitiu Gertrude. — E aí é onde intervém o Mr. De Koven, que todos os senhores conhecem ou, pelo menos, já ouviram mencionar na África. Suponhamos, Mr. Dambatu, que, com efeito, houvesse alguma inconformidade, pequenas revoltas... Está certo. Isso é praticamente inevitável. Entretanto, não nos devemos preocupar demasiado: qualquer pequeno problema de tipo... revolucionário que surja, será facilmente resolvido por De Koven e seus mil e duzentos homens, que o esperam na África.

 

— Esclareça isso um pouco melhor — pediu Neville.

 

— Com muito gosto. Como bem sabem, ofereci-lhes minha coleção “Arco-Íris” que, vendida na Europa, não lhes proporcionaria menos de seis milhões de dólares. Com esse dinheiro, seria formada uma espécie de... Guarda Nacional, constituída por Marlon De Koven e seus homens. Quando alguém quisesse desenvolver atividades prejudiciais à Federação, seria tratado da forma merecida. Opino que muito poucas pessoas se atreveriam a enfrentar o pequeno exército de Marlon De Koven.

 

— A paz pela força das armas? — ironizou Neville.

 

— A paz e a prosperidade de três países a qualquer custo, Mr. Neville — disse Gertrude. — Três países que logo seriam um só, em paz e boa harmonia. Afinal de contas, os que caíssem seriam os que não estivessem de acordo com que sua pátria progredisse da melhor forma possível.

 

— Essas são palavras muito duras... — murmurou Neville. — Sobretudo, numa mulher.

 

— Estou lhes oferecendo minha coleção “Arco-Íris”. Estou-lhes demonstrando que não pretendo prosperidade só para Atlânfrica, que é atualmente minha pátria. Faço um sacrifício... Que cada um faça o seu. Creem que eu esteja querendo ganhar alguma coisa? Creem que ganharei mais de seis milhões de dólares? Creem que tenho alguma necessidade de complicar minha vida?

 

O silêncio agora foi mais longo, reflexivo. Por fim, Orville Neville moveu lentamente a cabeça.

 

— Tudo isto exigirá uma série de importantes conferências — disse. — Há muitos fatos que deveriam ser esclarecidos, de início.

 

— E qual é a dificuldade, Mr. Neville?

 

— Não sei... muito complicado, creio eu.

 

— Complicado? Senhor Neville, a única coisa impossível de terminar é aquela que nunca se começou.

 

— De qualquer modo — disse Dambatu — eu estou de acordo com o Mr. Neville. Há muitíssimos detalhes que deveriam ser elucidados.

 

— Pois que os senhores os elucidem. Não me parece impossível que três homens inteligentes se ponham de acordo. Bem... Por minha parte, não tenho muito mais que dizer, mas poderemos prosseguir com esta conversa durante o jantar. Até lá, se me dão licença, tenho que dar alguns telefonemas relacionados com a festa de amanhã. Espero-os na sala de jantar às sete e meia. Está bem, senhores?

 

Neville foi o primeiro a abandonar o escritório e Xav Mathieson o último, após olhar hesitante para Gertrude Forsythe. Quando ele saiu, Murray foi fechar a porta, voltou à sua poltrona e acendeu um cigarro.

 

— Não aceitarão — disse, expelindo a fumaça.

 

— Isso é o de menos — sorriu Gertrude: — contamos com Xav.

 

— Hum... Sim, você tem a carta em seu cofre, mas... Não sei. Continuo pensando que Xav Mathieson não é o mais indicado. Acho que Neville ou Dambatu estariam melhor.

 

— Pois eu prefiro Xav — disse Flora. — Me agrada. E acho que minha opinião deve ser levada em conta. Além disso, é quem governa Atlânfrica, um requisito básico. Ou não, Charlton?

 

— Sim... Isso é verdade. Bem, durante o jantar teremos uma impressão mais completa do que cada um pensa. De qualquer modo, contamos com meu violino.

 

— E ao que dizem — riu Gertrude —, a música amansa as feras! Agora vou me ocupar dos últimos detalhes para amanhã. Quero que tudo esteja perfeito para quando chegue o momento. Flora querida, por que não dá uma volta pela cozinha para ver como vai aquilo por lá?

 

— Agora mesmo. Você vem, Charlton?

 

— Creio que irei ao meu quarto, afinar o violino. Não gostaria de dar uma nota em falso durante o possível recital desta noite. Até logo...

 

Flora e Charlton saíram do escritório. Gertrude dirigiu-se ao telefone...

 

O som do disco girando chegou nitidamente ao ouvido de Baby, do mesmo modo que toda a conversa mantida no escritório.

 

— Alice? É você, querida?... Gertrude, sim... Como vai? Estou lhe telefonando para... Sim, sim, a festa de amanhã... Que bom! Conto com você, então? Esplêndido! Alegro-me que você venha, pois certamente é a última oportunidade que terá de ver a coleção “Arco-Íris”... Sim, é que penso desfazer-me de todos os diamantes dentro de umas semanas... Não, não! — ouviu o riso de Gertrude. — Não enlouqueci, garanto! É uma questão patriótica, simplesmente. Tenho esperança de que minha pátria será maior dentro de pouco e penso ajudar... Não lhe posso dizer mais nada sobre isso, querida, pois é assunto de alta política. Você logo saberá. Mas sinto-me muito feliz porque terei contribuído para o bem-estar de uma porção de gente... Oh, sim, conte com isso... Como? Os Garfield? Mas claro! Vou juntamente telefonar para eles agora... E para os Pendleton, os Andrews... Todos, como sempre! Será uma festa...

 

Clic.

 

Brigitte Montfort cortou a recepção e, lentamente, pensativa, guardou o aparelho em sua maleta.

 

Enquanto devolvia ao tripé seu aspecto normal, tinha as sobrancelhas contraídas. E também quando ficou sentada no chão, olhar fixo na janela iluminada do escritório de Gertrude Forsythe.

 

Sem nenhuma dúvida, as ideias e sugestões dadas por Gertrude Forsythe aos três governantes não podiam ser mais altruístas e generosas, mas, sem saber por que, “Baby continuava vendo mentalmente um bom número de pessoas transformadas em marionetes, movendo-se na ponta de fios manejados pela aristocrática senhora.

 

— Sou desconfiada demais... — murmurou para si mesma. — Por que não admito o que ouvi, simplesmente?

 

Devido às últimas frases de Gertrude, de Flora, de Murray?

 

Decerto parecem um pouco enigmáticas. E essa carta que está no cofre... — Teria que dar-lhe uma olhadela para acabar de compreender a situação...

 

Eram quase onze horas quando a agente Baby se deteve debaixo da janela do escritório de Gertrude Forsythe. E três minutos depois conseguia levantá-la, entrando com toda a naturalidade. Qualquer pessoa que não tivesse conhecimento do dispositivo de alarme o teria feito soar, mas a espiã internacional tomara providências para que tal não acontecesse.

 

Durante uns minutos, manteve-se imóvel, acostumando-se à escuridão e escutando a música do violino de Charlton Murray, no salão principal da casa. Parecia que todos estavam muito tranquilos, depois do prolongado jantar em que deveria ter debatido coisas bem interessantes... Talvez a música, além de amansar as feras, pudesse também exercer sua influência benéfica sobre as pessoas.

 

Por fim, aproximou-se do móvel que escondia o inexpugnável cofre. Que não se mostrou tão inexpugnável esta vez. Combinando os conhecimentos de seu mecanismo adquiridos na primeira tentativa e os movimentos que observara da mão de Gertrude, quando esta o abrira durante a tarde, dez minutos depois pôde puxar a espessa porta de aço.

 

Devolveu à sua maletinha o pequeno estetoscópio em forma de tubo e tirou uma lanterna cujo feixe de luz dirigiu ao interior do cofre. Sem pressa, metodicamente, começou a examinar seu conteúdo, deixando todas as coisas onde as havia encontrado: dinheiro, joias diversas, a duplicata da coleção “Arco-Íris”, títulos de propriedade, ações de algumas companhias americanas, convites antigos... Por fim, o que estava procurando: a carta escrita por Xav Mathieson a Gertrude Forsythe. Imediatamente, todo o resto deixou de ter importância.

 

Tirou a carta do envelope, abriu-a e lançou sobre ela a luz da lanterna. Leu:

 

Atlanville, 27 de novembro de 1969.

 

Prezada Mrs. Forsythe : Dentro de três semanas, espero estar em Washington para resolver pequenos assuntos em nossa embaixada e, naturalmente, terei oportunidade de visitá-la e à sua filha, da qual guardo a mais viva recordação, desde que nos conhecemos aqui, em Atlanville, quando da visita anual de ambas à pátria.

 

Além da satisfação pessoal dessa entrevista que espero com grande interesse, poderei explicar-lhe alguns pontos de meu programa político, pois entendo que está disposta a apoiar-me, pelo menos economicamente. E bem sabemos que, hoje em dia, o aspecto econômico é de grande importância em Atlânfrica, sobretudo para um Chefe de Estado que, como eu, não dispõe nem dispôs jamais de fortuna pessoal. A respeito de minha atitude, devo dizer-lhe que não penso deter-me nem ceder diante de nada contanto que consiga o que todos desejamos para nosso país. Naturalmente, em meus planos intervém Costa Coral e a República Omogo.

 

Sei que se interessa bastante por esta questão e oxalá encontre um meio de resolvê-la.

 

Entrementes, asseguro-lhe que meus planos de unificação dos três países terão prosseguimento, custe o que custar. Estou disposto a tudo em benefício de Atlânfrica. Falaremos de todo este assunto em minha próxima visita.

 

Até lá, peço-lhe apresentar minhas saudações afetuosas à sua filha, e aceitem ambas a expressão de meu maior respeito.

 

Atenciosamente, Xavier T. Mathieson

 

Durante quase um minuto, apagada a lanterna, Baby ficou refletindo sobre o sentido daquela carta. Qual sua verdadeira significação? Em princípio, que Xav Mathieson era um grande patriota, disposto a não hesitar diante de nada.

 

Mas... que era nada? Até onde, realmente, estava ele disposto a chegar? Na verdade, aquela carta podia ser interpretada de muitas maneiras, a menos que seu signatário fizesse algo capaz de definir claramente sua atitude.

 

Encolheu os ombros. Colocou a carta no chão, estendida, e sacou a pequena câmara fotográfica, já equipada com flash... Ergueu-se subitamente, tensa. Num instante, devolveu a carta ao cofre, fechou este e o móvel que o continha, apanhou a câmara e deslizou para trás do grande sofá. Estava ainda se acomodando ali, pistolinha empunhada, quando a porta do escritório se abriu e a luz foi acesa. A voz de Flora Forsythe chegou a seus ouvidos: —... muitíssimo, mas às vezes prefiro algo diferente de escutar música de violino. Não está de acordo, Xav?

 

— De pleno acordo. Embora deva admitir que Charlton Murray é um violinista excelente, há horas para música e horas para... outros assuntos.

 

— O mesmo penso eu... — sussurrou Flora, — sente-se aqui ao meu lado.

 

O sofá recebeu o peso de duas pessoas e Baby encolheu-se, olhando para os lados à procura de um esconderijo melhor. Se ocorresse a Xav ou Flora olhar por sobre o encosto, ela seria vista. Além disso, sobressaltada, constatou que podia enxergá-los em um espelho de parede.

 

Estavam sentados lado a lado e Flora olhava com doce sorriso seu acompanhante, que parecia um tanto inquieto. Se de onde se encontrava ela via os dois, isso queria dizer que também eles poderiam vê-la, estendida atrás do sofá e armada de pistola, se olhassem para o espelho. De longe, como antes, vinha a música do violino de Murray.

 

— Algo o preocupa, Xav?

 

— Não...

 

— Talvez esteja surpreendido por eu trazê-lo aqui, onde não seremos incomodados por ninguém.

 

— Não, sinceramente, eu estava desejando isso mesmo. Queria lhe dizer algo... a sós.

 

— O quê?

 

— Quando cheguei, esta tarde, minhas ideias estavam bem claras, embora minhas esperanças não fossem muitas. Agora que estas se tornaram maiores, minhas ideias... Já não são tão claras.

 

Flora Forsythe tomou-lhe a mão, rindo.

 

— Não estou entendendo, Xav! — exclamou. — Poderia explicar-se melhor?

 

— Sim, creio que poderei. Desde que você esteve em Atlanville, não a esquecerei mais e devo confessar que esta minha visita aos Estados Unidos foi principalmente por sua causa.

 

— Por minha causa?

 

— Exato. Não tinha esperança de que você correspondesse aos meus sentimentos, Flora, mas durante estes momentos que estivemos juntos acreditei que... Bem, você foi tão amável comigo dizendo que se lembrava de mim todos os dias... Algo muito formoso e que eu não esperava. Embora esta minha impressão talvez não seja de todo exata.

 

— Xav, para que tantos rodeios para dizer que gosta de mim e tem a impressão de que é correspondido?

 

— Bem, eu...

 

— Pois eu lamento.

 

— Pelo espelho, Brigitte viu Xav Mathieson empalidecer...

 

— Você... lamenta? — perguntou ele, voz velada.

 

— Sim. Lamento não poder corresponder... a menos que você esteja disposto a se casar comigo imediatamente.

 

— Flora!

 

— Quando digo imediatamente, digo dentro de quatro ou cinco semanas. Oh, Xav, como homem você é um pobre tolo, por muito hábil que seja como Chefe de Estado. Acaso não fiz todo o possível para demonstrar que também o amo?

 

Brigitte Montfort, sorrindo, via pelo espelho o casal abraçado, beijando-se. Bem, sempre há um capítulo feliz em toda história, inevitavelmente. Compreendeu que devia aproveitar a ocasião para afastar-se do sofá. Silenciosa, ágil e flexível como uma gatinha, deslocou-se para trás de uma confortável poltrona, mais ao fundo, e ali ficou, pernas cruzadas sobre o tapete. Se alguém estava por completo alheio à possível presença de pessoas a seu redor, não havia dúvida de que só podiam ser Xav Mathieson e a doce Flora Forsythe. Durante uns minutos, Baby ouviu suspiros e longos silêncios que delatavam novos beijos. Flora emitiu também uns quantos gemidos, breves palavras de leve resistência... Num dos silêncios, Brigitte assomou a cabeça e viu a mão de Mathieson sobre o busto da jovem. Tornou a esconder-se rapidamente. Assim é a vida: enquanto uns trabalham, outros passam o melhor possível.

 

— Xav... Precisamos voltar ao salão — É verdade. Perdoe-me, querida, eu me esqueci de todos... Vamos dizer à sua mãe e aos outros que nós...

 

— Não, não... Ainda não, Xav. Ainda não.

 

— Por quê?

 

— Talvez os senhores Dambatu e Neville pensassem coisas estranhas. Está sendo discutido um assunto tão importante — Não vejo que relação possa ter um assunto político com nossos assuntos pessoais. Mas se você prefere assim, daremos a notícia em outra ocasião.

 

— Será melhor, querido. Vamos...

 

Um novo silêncio muito significativo. Depois rumor de pés, passos lentos, outro silêncio, um novo suspiro... A porta se abriu, a luz foi apagada, a porta se fechou... e Baby se viu novamente sozinha imersa na escuridão. Teve que esperar uns minutos para novamente distinguir o contorno dos móveis. Com paciência, resignada àquela perda de tempo, dedicou-se outra vez a abrir o cofre. Tirou a carta de Xav Mathieson a Gertrude Forsythe e fotografou-a três vezes, inundando o escritório com o rápido lampejo do flash.

 

Por fim, após deixar tudo como havia encontrado, foi à janela, que tomou a abrir sem que soasse o alarme. Fechou-a por fora.

 

Olhou ao redor e disse consigo que tudo estava em paz.

 

Um pouco mais tarde, tendo entrado em casa pela porta dos fundos, no escuro, ia acender a luz do seu quarto quando ouviu, quase junto a ela, uma respiração mal contida.

 

Deixou cair a maleta e desfechou uma tremenda cotovelada naquela direção. Sentiu o forte impacto, ouviu o gemido de seu visitante, o rumor de sua queda e o de sua tentativa de levantar-se, arquejando. Logo chegou até lá e arremessou um golpe seco de caratê, com a mão direita, à altura do ventre do homem, enquanto preparava a esquerda para lançá-la quando ele se inclinasse... Mas o indivíduo caiu para trás e, compreendendo o risco que significava perder contato com ele caso tivesse um revólver na mão, Brigitte arremeteu.

 

Caiu em cima do homem, que ofegava como um fole, e passou às suas costas, prendendo-lhe as virilhas com as pernas e passando o braço direito por sua garganta, enquanto o esquerdo, fazendo alavanca com a mão direita, comprimia-lhe a nuca.

 

— Quieto... — disse ela. — Se fizer um movimento, quebro-lhe o pescoço. Entendido?

 

Sentiu entre os braços o aceno afirmativo da cabeça do visitante.

 

— Agora, vamos levantar... Para isso lhe soltarei as pernas, mas continuarei com a chave de pescoço. Posso parti-lo como um graveto, não esqueça. Já! De pé!

 

— Li... Lili, sou... sou... — pôde por fim bafejar o homem.

 

— Ronald! — ela quase gritou.

 

Levantou-se rapidamente, acendeu a luz e olhou o pobre agente de segurança, que, sentado no chão, fazia esforços para recuperar o fôlego. Ajudou-o a pôr-se de pé e a caminhar até à cama, em cuja beira o deixou sentado.

 

— Você está maluco? Eu teria podido matá-lo, Ronald...

 

— É... eu... eu bem vi...

 

— Mas... por que estava no escuro?

 

— Porque... sou um imbecil...

 

Brigitte afastou-se e voltou com um copo d’água.

 

— Beba um pouco. E espero que tenha aprendido a lição: nunca se deve entrar no quarto de uma dama sem licença.

 

Olhou-o sorridente, enquanto ele bebia a água, quase se engasgando no princípio. Deixou o copo na mesinha de cabeceira, suspirou e levantou-se.

 

— Você não é uma dama — disse —, é... é uma pantera. E depois disso, espero que não continua negando que é Baby.

 

— O assunto não merece ser discutido. Diga-me que faz no meu quarto?

 

— Vi você sair há pouco e compreendi que espiaria por aí. Fiquei à sua espera, para que me dissesse o que havia descoberto.

 

— Você está falando sério?

 

— Estou. Não sei, eu... sinto-me inquieto. Com uns pressentimentos estranhos. Isso já me aconteceu algumas vezes antes. É uma sensação esquisita... E por isso quis vê-la, para que me dissesse se do seu lado tudo estava bem. Sei que pode lhe parecer uma bobagem, mas essa sensação é como... como...

 

— Como se você tivesse na cabeça um pequeno órgão que se recusasse a aceitar o que seus olhos veem e seus ouvidos ouvem, pondo-o de sobreaviso?

 

Ronald Mills olhou-a espantado.

 

— Você... você também?

 

— Eu também — admitiu Brigitte. — Ronald, vou insistir num ponto: abandone esta casa. Agora mesmo.

 

— Não penso fazer isso.

 

— Seria melhor para todos. Lembra-se do que eu disse das marionetes?

 

— Sim, lembro-me...

 

— Alguém está movendo uns fios que, por sua vez, fazem mover os personagens de um assunto que ainda não compreendo bem. Mas uma coisa lhe asseguro: as joias, em si mesmas, não têm a menor importância no caso. O que importa são as marionetes. Aceite meu conselho e parta o quanto antes. O que possa acontecer aqui está fora dos fatos que você costuma enfrentar.

 

— Não sei... Não posso partir assim, de repente...

 

— Pois faça-o amanhã cedo. De acordo?

 

— Vou pensar. Soube de alguma coisa?

 

— Nada que lhe diga respeito.

 

— Você não é muito amável comigo... Que vai fazer agora?

 

— Dormir.

 

— Pois eu não sei se poderei conseguir isso...

 

— Tente, De qualquer modo, essa é a diferença entre você e eu. Vá dormir, descanse... e amanhã cedo diga que está indisposto, vá ver Mr. Cavanagh e ele mandará um homem mais... adequado. Boa-noite.

 

Abriu a porta do quarto e Mills saiu ao corredor. De lá, olhou-a, — Não disse que tenciono partir, Lili.

 

— Oh, pois eu, em seu lugar, faria isso agora. Adeus.

 

Fechou a porta, suspirou e foi ao lavatório. Diante do espelho, começou a remover seu disfarce. Em poucos segundos, ficou transformada em Brigitte Montfort, que bem pouco se parecia com Lili Connors. Despiu-se e, metendo-se na cama, apagou a luz da mesinha de cabeceira. Analisando tudo com calma, nada do que acontecera até agora parecia ter qualquer significado especial. A única coisa concreta era que estavam tentando a união de três países, evitando possíveis guerras, revoltas... Tudo parecia justo e conveniente.

 

Mas não conseguia livrar-se daquela impressão de que todos estavam desempenhando seu papel numa peça de marionetes.

 

Acordou de repente, sobressaltada, sentando-se na cama.

 

De fato. Com toda clareza ouvia soar a campainha de alarme da instalação de segurança colocada por Mills.

 

Pulou da cama, enfiou o vestido em menos de três segundos, empunhou a pistolinha e precipitou-se para fora do quarto.

 

Claro, ninguém reagira com a mesma rapidez que ela. Nem sequer Ronald, cuja porta estava fechada. Empurrou-a fortemente e entrou, acendendo a luz.

 

— Ronald, o alarme...!

 

Calou-se bruscamente. Mills não estava no quarto. Fez meia volta e saiu correndo dali, lançando-se a toda a velocidade pelo corredor, no qual ainda não havia aparecido nem um só dos criados. Quando chegou ao grandioso vestíbulo, sentiu a presença de alguém à sua direita e ouviu a exclamação de sobressalto. Virou a cabeça, viu Gertrude Forsythe e Charlton Murray quase no fim da escada, mas não lhes fez o menor caso, pois também acabava de ver Ronald Mills...

 

Estava estendido de bruços na entrada do salão onde se encontravam os diamantes, o corpo quase todo para dentro, através da porta escancarada. Sem necessidade de entrar lá, Baby viu as vitrines totalmente vazias: a coleção “Arco-Íris” tinha sido roubada.

 

Mas isso importava bem pouco. Sentiu o cheiro do gás narcótico, percebeu que as câmaras de televisão estavam funcionando... A rede metálica da janela do salão estava baixada, fechando aquela saída, mas não fora baixada a da porta, já que ambas as folhas desta estavam abertas de par em par, impedindo-o. Tapando a boca e o nariz com a mão esquerda, ela colocou a pistola na axila, agarrou um pé de Ronald Mills e puxou-o para fora do salão. Às suas costas, já ouvia numerosas exclamações, passos precipitados... Acabou de retirar Mills, virou-o... e viu o orifício em sua garganta, pelo qual brotava o sangue com relativa abundância. O alegre e simpático agente da “General Insurance” devia ter ouvido, horas antes, os conselhos da mais eficiente, astuta e intuitiva espiã de todos os tempos.

 

Endireitou-se, justamente quando Gertrude Forsythe e Charlton Murray chegavam junto a ela. Sem lhes dar atenção, olhou para a porta principal, que estava encostada, e dispôs-se a correr para lá...

 

— Quem é você? — gritava Gertrude. — Você o matou! Matou Mr....

 

Murray estendeu as mãos para ela, com a evidente intenção de subjugá-la, mas Brigitte empurrou-o, quase derrubando-o, e precipitou-se para a porta, após olhar de relance a escada, pela qual desciam Flora Forsythe, Xav Mathieson, Marlon De Koven e os guarda-costas de Kero Dambatu e Orville Neville. O gigantesco negro protetor de Dambatu trazia um revólver na mão esquerda, mas quando saiu de seu assombro e quis apontá-lo para aquela mulher desconhecida de longos cabelos negros e magníficos olhos azuis, ela já saíra da casa pela porta da frente.

 

Deteve-se um instante, olhando para todos os lados. Só para se perguntar por onde ela própria escaparia da casa se fosse perseguida. Sem hesitar, continuou correndo para a esquerda, lá onde o jardim estava mais próximo; quer dizer, onde antes e melhor poderia se esconder quem tivesse saído correndo.

 

E acertou.

 

Logo ao alcançar as primeiras árvores, tropeçou em algo caído no chão e esteve a ponto de perder o equilíbrio.

 

Prestou atenção “àquilo”, que resultou ser o corpo de Orville Neville, de bruços. Estava de pijama e robe.

 

Perto de sua mão direita, uma pistola com silenciador. Sem hesitar, ouvindo à retaguarda o rumor das pessoas que a perseguiam, virou o corpo de Neville e, à luz da casa, viu o orifício sangrento em sua garganta. O mesmo que vira na de Ronald Mills.

 

Ergueu-se, deu mais uns passos e, sempre à luz da casa, viu outro corpo no chão, ao pé de uma árvore. Quando chegou junto a ele, já sabia que era o cadáver de Kero Dambatu. E não se surpreendeu ao ver o orifício sangrante em sua garganta. Também Kero Dambatu estava de pijama e chambre, mas não parecia ter arma alguma...

 

Novamente endireitou-se, voltando-se sem pressa para as pessoas que chegavam correndo, tendo à frente o enorme “secretário” de Dambatu, que ao ver seu protegido no chão, cara para cima e olhos muito abertos, lançou um rugido de fúria e arremessou-se contra Brigitte, brandindo o revólver.

 

Ela ergueu a perna direita, dobrada, desferindo um tremendo pontapé que alcançou o negro em pleno ventre, detendo-o em seco. Era a luta da Bela e da Fera... só que a Bela sabia lutar muito melhor que a Fera. Girando sobre a ponta do pé esquerdo, ela aproveitou para lançar outro golpe ao queixo do inclinado negro, cuja cabeçorra foi atirada para trás. Quando voltou para frente, ele tinha caído de joelhos.

 

Enquanto isso, chegou o pequeno e sinistro “secretário” de Orville Neville, navalha na mão, e sem mais explicações atacou Baby com uma cutilada... longa... porém mal dirigida. Seu braço foi parado no ar por duas mãos que o torceram violentamente para trás. Com um grito, e no intento de evitar a fratura, ele atirou-se de bruços e, já no chão, recebeu um calcanhar na nuca que o privou instantaneamente do conhecimento.

 

O negro, outra vez de pé, saltava a mão limpa contra a surpreendente adversária, sem tempo para apanhar o revólver que deixara cair. Brigitte agachou-se quando o colossal negro estava praticamente em cima dela, encostou nele um ombro e endireitou-se de súbito, atirando-o para trás. Ele descreveu uma curva e foi bater de cabeça no tronco de uma árvore. Resvalou para o chão e permaneceu imóvel.

 

Enquanto isso, Xav Mathieson, que tinha apanhado o revólver do negro, apontava-o para Baby.

 

— Quieta! — ordenou. — Já basta!

 

— Mr. Mathieson... — arquejou ela. — Sou Lili Connors, deixe-me explicar-lhe... Estes dois brutos não me deixaram falar, mas o senhor...

 

Marlon De Koven chegou também, empunhando a arma que ela vira junto ao cadáver de Orville Neville. Atrás dele, as Forsythe e alguns criados. Todo mundo de pijama ou camisola e roupão...

 

— Lili Connors? — exclamou De Koven. — Esta mulher está louca! Devemos chamar a ¨polícia!

 

— Senhor De Koven, não se precipite. Asseguro que sou Lili Connors. Solucionarei tudo isto, esteja certo.

 

— Você? Vamos, caminhe para a casa... E cuidado com o que faz!

 

— Não farei nada. Não reconheceu minha voz? Basta me deixar ir ao meu quarto colocar a peruca loura e o resto do disfarce. Estão complicando as coisas! Três homens morreram e eu sou a pessoa mais indicada para...

 

— É a voz de Miss Connors, sem dúvida... — disse Charlton Murray. — Não perdemos nada se a ouvirmos. Ela cuidará de tudo, já que Mr. Mills está morto.

 

— De acordo. Vamos ver se ela nos prova que é Lili Connors. De qualquer modo, insisto em que é preciso chamar a polícia — resmungou De Koven. — Não quero complicações neste país. Caminhe para a casa, Miss... Connors. Ou que nome tenha. E será melhor que me entregue essa pistolinha.

 

Assentindo com a cabeça, ela entregou a pequena pistola de coronha de madrepérola, não só porque o mercenário sabia cobri-la muito bem com a arma de Neville, como porque desejava esclarecer as coisas. Tudo havia mudado: de um assunto político importante virava um roubo de joias comum com três assassinatos... Alguém continuava movendo as marionetes?

 

— Aí tem — disse, entregando a pistola a Charlton Murray. — É melhor que também esteja armado. Vamos para a casa. — Olhou para todos os que estavam reunidos no jardim e dirigiu-se ao governante de Atlânfrica: — Onde estão seus acompanhantes, Mr. Mathieson?

 

— Meus...? — ele olhou ao redor e mostrou-se perplexo. — Devem estar na casa...

 

— Pois serão os únicos. Parece que todo mundo marcou encontrou no jardim.

 

— É verdade... — murmurou Murray. — Só faltam o Sr. Potters e o capitão Obulu. E me parece estranho. É

 

impossível que não tenham ouvido o alarme.

 

— Talvez estejam... investigando algo na casa — opinou Xav Mathieson.

 

— Veremos — disse De Koven. — Vamos. Procure seus amigos, Mr. Mathieson, enquanto o Mr. Murray e eu daremos a Miss Connors a oportunidade de nos demonstrar que o é.

 

Já antes que Brigitte Montfort terminasse sua caracterização, as Forsythe, De Koven e Charlton Murray estavam convencidos de que aquela jovem loura de olhos azuis era Miss Connors ainda sem alentes de contato.

 

— Formidável... — acabou sorrindo o mercenário. — Mas um tanto inexplicável, não lhe parece Miss Connors?

 

Por que toda esta pantomima do disfarce?

 

— Medidas de segurança, Mr. De Koven.

 

— De segurança! — exclamou Gertrude. — Fala de segurança? Roubaram minha coleção e diz que...!

 

— Encontraremos as joias, senhora — interrompeu secamente Baby. — Mas quanto mais tempo perdermos, pior... Encontrou-os, Mr. Mathieson?

 

Este acabava de aparecer na porta do quarto, muito pálido, com ar de absoluta perplexidade. Moveu negativamente a cabeça.

 

— Não... Não se encontram na casa. Não compreendo isto.

 

— Pois há duas teorias a respeito, Mr. Mathieson — disse Brigitte. — Uma delas, que talvez seus amigos estejam mortos ou feridos em algum lugar do jardim. Outra, que talvez eles tenham levado a coleção “Arco-Íris”.

 

Mathieson lançou uma exclamação.

 

— Que está dizendo? — gritou. — Nem Jack Potters nem o capitão Obulu fariam jamais semelhante coisa!

 

— Sugiro que alguém dê uma busca no jardim — insistiu Baby.

 

— Eu mesmo o farei! Eles têm que estar aí fora... talvez mortos!

 

— Xav — murmurou Flora —, irei com você. E todos os criados... Daremos uma busca completa no jardim.

 

— Flora, você não pode acreditar que tenham sido eles...

 

— Claro que não — sorriu docemente a jovem.

 

— Oh, tudo se esclarecerá, não se preocupe. Você vem, mamãe?

 

As Forsythe e Mathieson saíram do quarto de Miss Connors, justamente quando os guarda-costas de Kero Dambatu e Orville Neville, atendidos pelos criados, já apareciam. Ficaram olhando sérios para Brigitte, um tanto desconcertados, intuindo a verdade.

 

— Ajudem o Mr. Mathieson — disse Charlton Murray. — E não toquem nos cadáveres. Na verdade, Miss Connors, creio que será conveniente avisar a Polícia.

 

Baby ficou pensativa, enquanto os dois guarda-costas se retiravam. Por fim, assentiu. Sacou o radinho da maleta e fez a chamada.

 

— Sou Lili — disse rapidamente.

 

— Alô, Lili — responderam.

 

— O chefe não está?

 

— Está dormindo. Aconteceu alguma coisa? São três horas da...

 

— Roubaram a coleção “Arco-Íris” e foram assassinados Ronald Mills, Kero Dambatu e Orville Neville.

 

— Santo Deus!

 

— Quanto tempo vocês tardarão a vir?

 

— Não sei... Vou acordar imediatamente o chefe.

 

Digamos vinte minutos.

 

— Está bem. É só.

 

Fechou o rádio, guardou-o na maleta e estendeu a mão a Charlton Murray que estava pálido.

 

— Pode devolver minha pistola, Mr. Murray?

 

— Sim... Sim, claro.

 

Jogou-a dentro da maleta, que fechou. Virou-se para De Koven e sorriu ao ver a expressão suspicaz deste, cujas pálpebras estavam apertadas.

 

— Mais alguma dúvida, Mr. De Koven? — perguntou-lhe.

 

— Vejo que é uma... policial muito singular.

 

— Eu sei. Não acham que nós também deveríamos fazer alguma coisa, senhores?

 

Saiu do quarto, seguida pelos dois homens. Chegou junto ao cadáver de Ronald Mills, ajoelhou-se a seu lado e olhou-o. Depois para as vitrines vazias do salão. Como era possível aquilo? Em poucos segundos, tinham eliminado Mills, recolhido as joias, saindo para o jardim e liquidado Kero Dambatu e Orville Neville, cuja rapidez em lançar-se atrás do ladrão se podia considerar como verdadeiramente prodigiosa, já que inclusive tinha excedido a da própria Baby... Moveu negativamente a cabeça, repelindo aquela explicação dos fatos. Era impossível. Não teria ocorrido tudo aquilo nos seis ou sete segundos que ela tardara a chegar ali desde que soara o alarme. Completamente impossível.

 

Contudo, não há truque impossível para umas marionetes bem manejadas.

 

Levantou-se e olhou ao redor, lentamente, procurando algum detalhe revelador. Porém tudo estava igual, nada havia mudado. Só uma coisa sobrava ali, sobre o formoso consolo no fundo do grande vestíbulo: o violino de Charlton Murray. Mas isto podia ter uma explicação. Murray ali o deixara antes de retirar-se para dormir; talvez o tivesse esquecido conversando com algum outro convidado...

 

— Lembro-me agora — disse de súbito — que o monitor em circuito fechado ainda estará funcionando no quarto de Mr. Mills. Vou desligá-lo. Enquanto isto, seria conveniente que ajudassem os outros a procurar os amigos do Mr. Mathieson.

 

— Quer ficar sozinha na casa? — perguntou Marlon De Koven, sarcástico.

 

— Não seja absurdo. Dentro de quinze minutos haverá aqui tantos investigadores, que não tenho por que incomodar-me. Que poderia encontrar eu sozinha numa casa tão grande como esta?

 

De Koven deu de ombros e dirigiu-se para a porta.

 

— Se eu lhe puder ajudar em alguma coisa... — ofereceu-se Murray.

 

— Não, obrigada. Vá com o Mr. De Koven. E, por favor, insista em que nada seja tocado.

 

Esperou que os dois tivessem saído. Imediatamente, a toda a pressa, apanhou o estojo com o violino de Charlton Murray e encaminhou-se para os fundos da casa. Entrou no quarto de Mills, onde, efetivamente, estava funcionando o monitor de televisão em circuito fechado, oferecendo a imagem do salão, agora deserto. Abriu o estojo... e ficou decepcionada. Continha somente o violino e o arco. Tirou o instrumento do estojo e sopesou-o, agitando-o. Vazio. Um olhar ao forro de veludo acolchoado convenceu-a de que era impossível ocultar debaixo dele a coleção “Arco-Íris”.

 

Deixou o violino e apanhou o arco... Súbito, empalideceu.

 

Volteou o arco entre as mãos. Apalpou-o, mantendo-o de lado em relação a seu peito. Seus finos dedos percorreram-no, apertando-o suavemente... até que, com suave estalido, na ponta do arco apareceu velozmente manchado de sangue, o longo estilete; não menos de trinta centímetros de comprimento.

 

O violino.

 

A música para amansar as feras.

 

As marionetes começaram, de imediato, a dançar de um modo compreensível para a agente Baby. Os detalhes da comédia começaram a formar sentido... Estava tão absorta em tirar suas conclusões, que tardou uma fração de segundo a mais para dar-se conta de que estava soando o alarme em seu bem treinado cérebro. Empunhou o arco do violino como se fosse um estoque, começou a virar rapidamente e...

 

Cloc!

 

Sua cabeça ressoou, encheu-se de luzes coloridas...

 

Cloc!

 

Foi tudo.

 

— Isso é tudo? — perguntou Cavanagh Johnny assentiu com a cabeça.

 

 

— Lamento, chefe.

 

— É impossível. Se ela tivesse partido, nos avisaria pelo rádio de bolso, informaria de suas intenções. Alguém está jogando sujo. Baby tem que estar nesta casa.

 

— Revistamos tudo... — murmurou Johnny — Inclusive a adega. Tudo, chefe. Baby não está. Tampouco encontramos sua maletinha. Apenas o resto das coisas que ela trouxe para cá, o que comprou. A impressão é de que partiu rapidamente, sem dizer a ninguém e sem que ninguém a visse. E se me permite, direi que não acho isso surpreendente.

 

— Sei muito bem que ela pode sair de qualquer lugar sem ser vista nem pela luz — grunhiu Cavanagh. — E essas pessoas que há na casa não teriam a menor possibilidade de vê-la ou detê-la. A mim também pouco isso surpreende, mas sim o fato de não ter chamado pelo rádio de bolso.

 

Ambos ficaram em silêncio. Mais agentes da CIA, que estavam na casa, moviam-se tão discretamente que não incomodavam em absoluto a Polícia, da qual pareciam fazer parte. O próprio Cavanagh chamara esta, para que se incumbisse da parte criminal do assunto, uma vez dadas as indispensáveis explicações ao tenente Sanderson. Na verdade, ninguém na casa tinha ideia de que alguns dos integrantes daquele grupo chegado em vários carros eram da CIA.

 

Mais dois deles entraram na casa, reunindo-se com seu chefe. Ambos mostravam-se frustrados.

 

— Nem rasto dela, chefe. Nada. Mas isso não deve...

 

— Surpreender-nos, já sei — completou Cavanagh. — Entretanto, deve existir uma pista. Baby não pode desaparecer diante de nosso nariz, em plena Washington. É absurdo.

 

— Talvez ela chame mais tarde — murmurou Johnny.

 

— O que ela pode estar esperando? São seis e meia da manhã; há mais de três horas que nos chamou...

 

— Aí vem o tenente Sanderson — disse um dos agentes.

 

O policial plantou-se diante de Cavanagh. Era um homem alto, robusto, com cara de poucos amigos, sobrancelhas espessas, olhar penetrante.

 

— Ainda não apareceu a sua agente? — perguntou.

 

— Não.

 

— Todos a procuraremos, mais tarde. Bem... A respeito do ocorrido, os enviados da “General Insurance” e eu formulamos uma teoria que, em princípio, nos parece correta. Interessa-lhe ouvi-la?

 

— Resumida, por favor, tenente.

 

— Está bem. Vejamos... Ao que parece, os dois acompanhantes de Xavier T. Mathieson tiveram algo a ver com o roubo da coleção “Arco-Íris”. Não foram encontrados, mas há pegadas que poderiam ser deles, perto do gradil, justamente na parte do jardim onde foram encontrados os cadáveres de Dambatu e Neville. Assim, a teoria dos investigadores da “General Insurance” e da Polícia é esta: o tal Jack Potters e o capitão Obulu, que deviam ter preparado isto antecipadamente para apoderar-se das joias no valor de sete milhões de dólares, foram buscar Ronald Mills em seu quarto e obrigaram-no a ir com eles ao salão. Obrigaram-no também a desligar o sistema de alarme e, deste modo, puderam apoderar-se tranquilamente de todos os diamantes. Depois o mataram e foram embora... Quer dizer, não o mataram instantaneamente, mas deixaram-no moribundo. Nestas condições, a única coisa que ocorreu a Ronald Mills foi lançar-se contra a porta do salão, à qual fora ligado novamente o alarme, que soou. Mas, enquanto isto, Kero Dambatu e Orville Neville talvez tenham ouvido algo e vieram ver. Desceram ao vestíbulo, chegando a tempo de presenciar a fuga dos assassinos de Mills. Como justamente então este devia atirar-se contra a porta, abrindo-a e fazendo soar o alarme, os dois não alertaram ninguém, pois já era desnecessário, e lançaram-se atrás dos ladrões e assassinos... com tão pouca sorte que também foram assassinados. Depois os assassinos pularam a grade e escaparam, enquanto nesta casa reinava a confusão. O que acham?

 

— Não sei... — resmungou Cavanagh. — Parece razoável. Que diz Xav Mathieson?

 

— Está arrasado. Se entendo alguma coisa de pessoas, esse homem terá que se refazer do golpe. E não está fingindo, asseguro-lhe. É a própria imagem da desolação. Seus planos políticos...

 

— Ele já me explicou isso horas atrás — disse Cavanagh. — E tudo foi corroborado pelas Forsythe, mãe e filha, bem como por Charlton Murray e Marlon De Koven.

 

Também os secretários de Neville e Dambatu, que tinham sido postos por seus chefes ao corrente da sugestão da Mrs. Forsythe , corroboraram tudo. Parece que não se pode culpar ninguém de nada... Exceto os dois acompanhantes de Mathieson, claro. Mas não o próprio Mathieson.

 

— Eu também vejo assim as coisas. Quanto à sua agente, ninguém a viu sair. Mandou De Koven e Murray ao jardim...

 

— Também sei isso — cortou Cavanagh.

 

— Há uma coisa que não encaixa — disse um dos Johnnies. — Os senhores Neville e Dambatu estavam de chinelos e talvez não pudessem correr muito. Mas, algumas das poucas pegadas claras que deixaram no jardim indicam que foram lá caminhando, não correndo, como seria lógico em quem persegue alguém.

 

— Já pensamos nisso... — sorriu ironicamente Sanderson. — Está claro que devem ter corrido, no princípio, mas quando os assassinos desapareceram nos arbustos do jardim, diminuíram a marcha e lá chegaram caminhando, com precauções... que não lhes serviram de nada. Foram muito valentes talvez, mas pouco hábeis. Morreram da mesma forma que Mills, ou seja, com a garganta atravessada por um... florete, ou algo assim. Arma silenciosa, muito conveniente. Em resumo, demos ordem para que Jack Potters e o capitão Obulu sejam detidos. Alguma sugestão, Mr. Cavanagh?

 

— Nenhuma, tenente. Obrigado.

 

— Quer falar com alguém da casa, fazer alguma pergunta...?

 

— Não, não... Espero que me mantenha ao corrente de qualquer novidade. Quanto ao desaparecimento de Miss Connors, talvez ela mesma resolva a situação. E como já não temos mais nada a fazer aqui, no momento, vamos embora.

 

Estendeu a mão a Sanderson. Depois dirigiu-se para a porta, seguido de seus homens. Já todos no carro, Cavanagh pensativo, cenho cerrado.

 

— Afinal, conseguimos saber o que se pretendia com essa estranha reunião em casa de Gertrude Forsythe... — murmurou. — Era o que interessava e o motivo pelo qual enviamos Baby. Parece que não nos devemos preocupar mais com esse aspecto, pois as decisões sobre a República Omogo, Costa Coral e Atlânfrica não vão prejudicar os Estados Unidos. Até aqui, muito bem. Mas... por que Baby não responde? Já uma vez aconteceu assim e, embora tudo tenha terminado satisfatoriamente, uma pessoa não pode ter sempre tanta sorte... Torne a chamá-la.

 

Johnny recorreu ao rádio de bolso e esteve insistindo durante alguns minutos, até que, desesperançado, olhou para seu chefe, que fez um gesto de resignação.

 

— É suficiente... — murmurou Cavanagh. — Temos de aceitar de uma vez que, seja por qual motivo for, Baby não pode responder.

 

— Com certeza — Johnny sorriu um tanto crispadamente —, ela aparecerá a qualquer momento, com a coleção “Arco-Íris”.

 

— Ao diabo esses diamantes! Que nos importam? Se a “General Insurance” tem que pagar cinco milhões de dólares à Mrs. Forsythe , que os pague... Não é de nossa conta.

 

Para nós, a única coisa que interessa é que Baby não esteja em apuros...

 

Amarrada de pés e mãos, uma forte mordaça tapando-lhe a boca, estendida no chão um tanto úmido, completamente às escuras... Não havia a menor réstia de luz, nem parecia que tivesse possibilidade de romper ou soltar aquelas cordas, nas quais já tinha dado vários puxões, em vão. O que mais a intrigava era a forma do solo. Parecia curvo, côncavo. Cada vez que tentara deslocar-se para a direita ou a esquerda, tinha voltado, rolando, ao mesmo lugar. Com o que seus árduos esforços por encontrar uma saída, ainda que por meio de reptações, de nada serviram.

 

Assim, decidiu mudar diametralmente a direção de sua marcha reptante. E, súbito, seu rosto chocou-se com alguma coisa... Algo frio e duro, que não pôde identificar, no momento. Em seguida, aproximando a face daquilo, teve uma ideia do que se tratava. Com esta ideia e sentindo calafrios, tornou a utilizar a face como único recurso para o tato... Com efeito. Sentiu o contato de cabelos. Tinha junto à cabeça a de outra pessoa. Um homem, pois os cabelos eram curtos... e muito crespos. A revelação chegou de imediato: era a cabeça do capitão Obulu, um dos “secretários” de Xav Mathieson. A cabeça... e em continuação o corpo, naturalmente. Logo compreendeu que Jack Potters também devia estar ali, naquele estranho lugar de solo côncavo. E

 

compreendeu tudo, absolutamente tudo, quase ao mesmo tempo. As alusões a Xav Mathieson; a carta que este havia escrito e que Gertrude Forsythe considerava um trunfo; o roubo dos diamantes; o porquê e como das mortes de Orville Neville e Kero Dambatu... Tudo.

 

E, súbito, compreendeu que, desde que despertara, seu olfato revelava-lhe onde estava: numa adega. E dadas as características daquele solo côncavo, a conclusão seguinte foi mais fácil: estava dentro de um grande tonel.

 

Insistiu ainda algumas vezes em soltar os pés ou as mãos, para novamente compreender que só conseguiria se machucar e se cansar. E já que, por terem-na deixado viva ali, estava bem claro que mais cedo ou mais tarde alguém quereria falar com ela, decidiu esperar.

 

Várias horas depois, viu diante dela um curvo raio de luz.

 

Em seguida, aquela curva transformou-se num grande círculo de cor esbranquiçada. Não era uma luz excessivamente intensa, mas teve que fechar os olhos, depois de tantas horas de escuridão completa. Quando os abriu, viu três silhuetas dentro do círculo de luz; só as via dos joelhos para cima, o suficiente porém: Gertrude, Flora e Charlton Murray, o estojo do violino sob o braço esquerdo.

 

— Parece que já suporta a luz — disse Gertrude Forsythe.

 

Murray deixou o estojo na borda do tonel e entrou.

 

Chegando junto de Brigitte, tirou-lhe a mordaça com um puxão seco.

 

— Temos algumas perguntas a lhe fazer, Miss Connors.

 

Ela olhou para trás e viu os cadáveres do capitão Obulu e de Jack Potters. Depois encarou Murray, que sorria friamente.

 

— Pois faça.

 

— Quem é você realmente? Eu a vi brigando com Van Ridon e Menzies, os secretários de Neville e Dambatu, e achei... algo completamente fora do comum. Além disso, tenho sua maleta, com todo um estranho conteúdo, que inclui um gravador com o qual pôde conseguir certa conversa. Também compreendo que é muito esperta, pois se interessou pelo estojo do meu violino... Não é uma jovem normal, eu diria. Quem é?

 

— Trabalho para a CIA. De acordo com a “General Insurance” e Ronald Mills, vim aqui para saber exatamente qual era o motivo de uma reunião de governantes que incluía um mercenário.

 

— Compreendo... Você ouviu, Gertrude?

 

— Ouvi. Parece que soube fazer bem seu trabalho, Miss Connors, inteirando-se de parte dos meu planos...

 

— Parte? Eu diria que me inteirei do plano completo.

 

— Impossível... — riu acidamente Gertrude. — Só sabe quatro coisinhas sem importância. De qualquer modo, isso não me preocupa, pois não poderá contá-las a ninguém.

 

— Já contei pelo rádio ao meu chefe.

 

— Oh, não... — sorriu Murray. — Não teve tempo. Por outro lado, se soubesse tudo, as coisas teriam sido diferentes. Não, não... você não pôde contar nada a ninguém.

 

— Não contou nem poderia, já que ignora o fim de tudo — afirmou Gertrude.

 

— Não ignoro nada... — insistiu Brigitte. — A única coisa que talvez desconheça é seu objetivo final, mas não os planos que levam a ele.

 

— Por que não deixa que ela diga umas quantas bobagens? — riu Murray. — Se na verdade é tão esperta, que demonstre. Adiante, mocinha. Nós a ouvimos.

 

— Pois bem. Querem que Xav Mathieson seja o Presidente da Federação que lhes convém formar com a República Omogo, Costa Coral e Atlânfrica. Para isso, eliminaram Orville Neville e Kero Dambatu, e contam com Marlon de Koven, que com seus mil e duzentos homens bem treinados e armados dominará qualquer intento de rebelião, ou possivelmente ocupe as capitais da República Omogo e de Costa Coral. Quando Xav Mathieson voltar à África, convocará uma reunião com os políticos dos três países e proporá a Federação. Se esta for aceita, melhor. Do contrário, De Koven intervirá no assunto. De um ou de outro modo, Mathieson será o Presidente da Federação. Quanto às mortes de Neville e Dambatu, não poderão acusá-lo, embora tenham sido obra de seus... secretários, pois a polícia americana deixará bem claro que foi uma traição de Jack Potters e do capitão Obulu não relacionada com política, mas por simples roubo. E como nunca serão encontrados, já que estão aqui, mortos, todos pensarão que eles souberam se esconder bem. Enquanto isso, a generosa Mrs. Forsythe , futura madrinha política de Xav Mathieson, entregará todo o dinheiro que lhe pagar a “General Insurance” à Federação, demonstrando assim sua solidariedade com o futuro genro. Só que, evidentemente, Mrs. Forsythe não terá perdido grande coisa, uma vez que a coleção “Arco-Íris” continua em seu poder. É um bom plano, que para pôr em prática ela não hesitou em sacrificar, por meio de Murray aqui presente e que deve ser um assassino profissional, nada menos que cinco pessoas, por enquanto...

 

— Já chega — cortou Gertrude, muito pálida — Charlton, acabe o que...

 

— É extraordinário — murmurou o violinista. — Deixe que continue, Gertrude. O que mais, Miss Connors? Como sabe que temos os diamantes?

 

— Forjaram um bom plano. Suponho que tenham feito Jack Potters e o capitão Obulu descer até aqui dizendo que Mathieson queria vê-los em segredo, ou algo parecido. Mataram os dois e nos meteram neste tonel. Depois, possivelmente, Mrs. Forsythe marcou encontro com Kero Dambatu e Orville Neville no jardim, muito confidencialmente, fazendo-os ter esperanças de que ia se apoiar neles. Convocou-os separadamente, dizendo-lhes que comparecessem de robe, pois se alguém os visse vestidos poderia estranhar. Disse também que fossem armados, pois temia alguma reação violenta de Xav Mathieson; mas só Neville compareceu armado. Primeiro chegou um, muito sigilosamente, e Charlton Murray o matou. Depois chegou o outro, que teve a mesma sorte. Voltaram para a casa e foram ao quarto de Ronald Mills. Mrs. Forsythe disse a Mills que queria ver algo no salão e precisava que os sistemas de segurança fossem desligados. Mills assim fez e, em seguida, Murray o matou. Entraram no salão, recolheram todos os diamantes e os esconderam, tiraram o mecanismo de controle a distância do bolso do pijama de Mills e ligaram novamente o sistema de alarme, depois de fechar a porta. Abriram a da casa, empurraram o cadáver de Mills contra a porta do salão e correram para a escada a fim de simular logo em seguida que a desciam. Por isso, quando cheguei, vi-os descer antes de todos. Assim, tudo saiu perfeito para vocês. Naturalmente, Mr. Mathieson não sabe nada disso. É mais uma marionete no assunto.

 

— Uma marionete? — exclamou Murray. — Reconheço que é fantástica, Miss Connors! Tudo exato. Inclusive isso de chamar Mathieson de marionete...

 

— Ele é a marionete principal. Na verdade, todos temos sido marionetes nas mãos de Mrs. Forsythe: De Koven, Dambatu, Neville, Obulu. Potters. Van Ridon, Menzies, os políticos que intervirão mais adiante para ratificar o ato que unirá os três países, Mills, eu mesma e, sobretudo, Mathieson... Todos fomos manejados como simples marionetes. O único que talvez resista um pouco é Xav Mathieson, justamente, mas quando se der conta já será tarde. Por dois motivos: seu casamento com Flora Forsythe e a carta que escreveu à mãe dela com data de vinte e sete de novembro...

 

— O que sabe dessa carta? — quase gritou Gertrude.

 

— Eu a li, senhora. Seu cofre não é forte o bastante para mim. Fotografei-a também. E agora compreendo por que a consideram um trunfo. Normalmente, é a carta de um homem muito patriota a uma dama que está disposta a lutar pelo progresso de seu país. Mas, depois dos assassinatos de Dambatu e Neville, se a senhora mostrasse essa carta a alguém, Mathieson seria imediatamente acusado de conspiração e do assassinato desses dois personagens. Quem quer que saiba da morte de ambos, leia essa carta e se lembre das circunstâncias em que foram assassinados, chegará infalivelmente à conclusão de que tudo foi um plano de Xav Mathieson. Escrevendo tal carta e se tornando seu genro, ele será a maior marionete de toda essa comédia... O que espera conseguir, Mrs. Forsythe?

 

Murray e as duas mulheres estavam mudos de assombro.

 

Por fim, o violinista murmurou: — É prodigioso... Gertrude, estamos diante de uma jovem positivamente extraordinária!

 

— Sim, mas como ela mesma disse, é apenas uma das marionetes. E já não nos serve para nada. Mate-a. Esperamos você lá em cima. Venha, filhinha.

 

Brigitte ouviu os passos de ambas subindo a escada; depois, o ruído da porta ao se fechar. Sem dúvida, Cavanagh e os Johnnies haviam estado ali, na adega inclusive, mas não podia censurá-los por não descobrir aquela... tumba. Já tinha visto que a parte da frente do grande tonel estava aberta para fora e era bem espessa para conter vinho, o qual devia sair normalmente quando se abria a torneira. Fechado o tonel, quem poderia supor que não estivesse totalmente cheio de vinho? Não havia dúvida de que Gertrude Forsythe preparara tudo muito bem para receber suas marionetes...

 

Olhou para Murray, que tinha apanhado seu estojo e o abria. Tirou o arco, apertou-o e o longo estilete apareceu.

 

— O que Gertrude Forsythe espera conseguir, Murray? — perguntou. — Não posso saber?

 

— Por que não? — murmurou o violinista. — Poder, é o que ela quer. E riqueza. Riqueza ilimitada. Conseguirá o poder dominando Xav Mathieson...

 

— E se Mathieson não se deixar dominar por ela?

 

— Nesse caso, ela publicaria a carta.

 

— Ainda assim, creio ter compreendido a personalidade desse homem: não aceitará as condições que ela lhe impuser. Mesmo que isso signifique sua ruína.

 

— Ele obedecerá. Não por medo pessoal, mas porque sabe muito bem que, se for eliminado, a Federação soçobrará, sua pátria será dominada por ideias às quais sempre se opôs tenazmente. Nós também conhecemos a integridade de Xav Mathieson e nisso nos baseamos. Ele aceitará tudo, contanto que não deixe o país nas mãos de políticos incapazes. Na sombra, Gertrude terá muito poder e nacionalizará definitivamente as minas de diamantes, das quais ficará com a maior parte, porém Mathieson aceitará isso... como mal menor para Atlânfrica, para a Federação inteira.

 

— Compreendo. Bem... Chegou a minha hora?

 

— Parece que sim.

 

— Uma última pergunta, Murray: o que você ganha com tudo isso?

 

— Eu? — parecia surpreso. — Bom... é óbvio, não?

 

— Óbvio? Não para mim. Diga: o que ganha?

 

— Dinheiro, ora essa... Muito dinheiro.

 

— Mais do que necessita?

 

— Claro.

 

— E daí? Vai viver melhor que agora, talvez? Entendo que você ande pelo mundo como violinista de certa fama, porém exercendo eventualmente atividades de assassino profissional. É assombroso, mas já me habituei a aceitar tudo nesta vida. Suponho que ganhe mais dinheiro assassinando do que tocando violino. Agora, não terá mais necessidade de assassinar. Já é um tanto velho para isso, um dia podem falhar seus reflexos... Assim, espera viver confortavelmente com o que Gertrude Forsythe lhe dê por sua colaboração. Isso faz sentido. Mas... é bom ser uma marionete no teatro de Gertrude?

 

— Isso não funciona comigo.

 

— Não? Por quê? Você é para ela algo especial ou... um empregado?

 

— O que está pretendendo com essa conversa?

 

— Salvar minha vida. Posso oferecer muito mais do que ela. Tenho alguns milhões de dólares e posso fazer de você um homem capaz de gozar os últimos anos de sua vida.

 

— Quanto está me oferecendo... exatamente?

 

— Tudo o que você quiser de mim.

 

— Não pode me dar mais do que já tive ou que possa ter de qualquer outra mulher, em qualquer momento.

 

— Julgava-o mais sensível, Charlton — disse Baby, docemente. — Pensei que pudesse perceber a diferença entre as mulheres em geral e uma mulher. Sinto por nós dois... Por favor: não seja desastrado ao me degolar.

 

— Matou-a, Charlton?

 

— Claro — Charlton Murray ocupou uma poltrona do escritório particular de Gertrude Forsythe. — Era uma jovem corajosa. A única coisa que pediu foi que a degolasse limpamente.

 

— Por que demorou tanto? Para matar uma mulher...

 

— Fiquei conversando com ela. Era muito inteligente. Segundo ela, Xav Mathieson nunca aceitará o papel de marionete. A propósito, onde está ele?

 

— Foi à embaixada. Afinal, para que seguir adiante com este trágico fim de semana? Além disso, ele terá que resolver muitos assuntos. Alguns policiais o acompanharam.

 

— Vi outros no jardim. Ficarão aqui um ou dois dias, talvez.

 

— Que fiquem dez anos. Nunca encontrarão aqueles cadáveres no tonel. E não precisamos tirá-los de lá jamais. Por que você disse isso de Xav Mathieson?

 

— Quem disse foi ela.

 

— Ele fará o que eu determinar... — sorriu Flora. — Do contrário, vai se arrepender.

 

— Claro — sorriu Murray; olhou o relógio. — Bom, são oito da noite. Vou ao meu quarto limpar o arco do violino e me vestir para o jantar.

 

— Você parece cansado — sorriu Gertrude.

 

— Querida, já tenho sessenta e quatro anos. Depois de uma noite e um dia como esses, não posso ter o aspecto de um jovem de trinta. Assim, depois do jantar vou imediatamente para a cama. Não estou para brincadeiras.

 

— É. É melhor que se cuide.

 

— Pode estar certa de que o farei. Marlon De Koven também partiu?

 

— Também. Estará em seu hotel esperando as últimas instruções e que a polícia deixe de importuná-lo. Parece que sabem muito sobre ele, mas não podem fazer nada aqui nos Estados Unidos. Pelo menos, oficialmente. Não creio que tenha problema em voltar à África em uma semana. Vai tudo bem, Charlton.

 

— Naturalmente... — sorriu este. — Suas marionetes não podem falhar. Até já.

 

— É você, Charlton? Com tanta luz, não enxergo nada.

 

— Sim, sou eu.

 

Charlton Murray deslizou pelo tonel até chegar junto a Lili Connors, que jazia estendida de lado e com os olhos fechados, sem se atrever a abri-los. Ficou junto dela até que conseguisse fazê-lo.

 

— Que horas são e que dia é hoje? — perguntou ela. — Quanto tempo se passou?

 

— Somente vinte e quatro horas. Hoje é domingo. São sete e meia da noite.

 

— Bem... Trouxe o violino?

 

— Não.

 

— Desistiu de me matar?

 

— Desde ontem estou pensando nisso... Enganei-a. Disse que você já estava morta.

 

— Você não me matou... — disse debilmente Brigitte. — Mas morro se continuar aqui dentro, sem luz, sem comer nem beber. E as cordas me machucam. Solte-me...

 

— Não. Só as pernas, como ontem. Você não precisa ter as mãos livres para... me convencer.

 

— Ficarei aqui enquanto você quiser — declarou ela. — Mas, por favor, solte-me.

 

— Não me atrevo a fazê-lo. Desconfio de você, Lili.

 

— Por quê?

 

— Não sei... Você me parece muito perigosa.

 

— Estamos perdendo tempo, Charlton. Solte-me. Sairemos os dois daqui, levaremos os diamantes, eu tenho muito dinheiro... Ou os diamantes estão com Gertrude Forsythe?

 

— Estão nesta adega. E também sua maleta.

 

— Solte-me, então, pegue os diamantes e vamos. Você pode tirá-los de onde estão?

 

— Não quero soltá-la!

 

— Desamarre as pernas, pelo menos. Preciso caminhar, Charlton.

 

Ele hesitou, mas por poucos segundos. Desamarrou as pernas dela e a ajudou a se levantar e sair do tonel. De pé no chão da adega, ela vacilava, como se fosse cair. Murray segurou-a por um braço, preso ao outro pelo pulso, atrás do corpo.

 

— Quero mexer um pouco as pernas... Não vem ninguém?

 

— Por ora não. As duas estão ocupadas. Caminhe, se quiser... Eu a ajudo.

 

— Trouxe comida?

 

— Não.

 

— Tem que me trazer algo para comer! Você quer me matar de fome?

 

— Calma... Esta noite mesmo lhe trarei alguma coisa.

 

— Bem — Brigitte deteve seu caminhar incerto e suspirou profundamente. — Qual é o esconderijo? Outro tonel?

 

— É. Há um vazio... — indicou-o. — Tem um fundo falso, onde estão os diamantes e sua maletinha.

 

— Tudo preparado... — murmurou ela. — Quase não sinto as pernas. Por favor, Charlton, esfregue-as um pouco. Ajude-me a sentar. Assim... Obrigada.

 

Murray começou a esfregar-lhe as pernas, enquanto ela olhava para todos os lados, embora nada de especial houvesse para ver. Uma adega, simplesmente. Vez por outra, estremecia. Estava muito pálida.

 

— Sente frio? — perguntou Murray.

 

— Muito. Ajude-me a levantar...

 

Ele obedeceu e o joelho de Baby atingiu-o com violência no ventre. Dobrou-se para frente, como quebrado em dois. O golpe seguinte foi outra joelhada, agora em pleno rosto, que o derrubou de costas. Rolou pelo chão e, quando tentava se levantar levou um pontapé no fígado. Lívido, sem fôlego, ficou ajoelhado, a cabeça apoiada no chão.

 

Outro pontapé atirou-o novamente de costas. Brigitte saltou sobre ele e cruzou as pernas em torno de seu pescoço.

 

Vinte segundos mais tarde levantava-se, cambaleando.

 

Respirou fundo, para recuperar o fôlego. Depois se aproximou das prateleiras cheias de garrafas e, virando-se de costas, segurou uma entre os dedos. Bateu-a contra a parede e ficou segurando só o gargalo. Em breve tinha as mãos livres, as cordas cortadas com a aresta do gargalo.

 

Empunhou a alavanca de abrir caixas de garrafas e atacou o tonel onde, segundo o estrangulado Murray, estavam os diamantes e sua maletinha. Certo... estava tudo lá. Jogou no chão a bolsa que continha os diamantes, alguns dos quais se espalharam pelo cimento, pegou a maleta, abriu-a e sacou o radinho.

 

— Alô! — ouviu o grito de esperança.

 

— Johnny?

 

— Baby! — a voz de Johnny vibrava de excitação. — Onde você está? Eu e mais vinte companheiros vigiamos essa maldita casa, mas...

 

— Calma... — sorriu ela. — Vocês estiveram bem perto de mim sem poder me ver. E continuam perto, o que agradeço. Por onde anda Mr. Cavanagh?

 

— Aqui mesmo! — soou a voz do próprio Cavanagh. — Não dormi todo esse tempo esperando sua chamada! O que temos que fazer?

 

— Pouca coisa, chefe. Ouça...

 

Gertrude Forsythe ergueu o olhar para a porta de seu escritório quando ouviu as pisadas.

 

— Charlton, onde esteve esse tempo todo...? — lançou uma exclamação e levantou-se de um salto, branca. — Não!

 

— Sim, Mrs. Forsythe. Sou eu: Lili Connors. Como está, Florrie?

 

Mãe e filha olhavam-na de olhos arregalados, mas Brigitte não pareceu reparar em seu assombro. Indicou o telefone.

 

— Vai fazer uma chamada, senhora. Para Marlon De Koven.

 

— Não é possível... Onde está Charlton?

 

— Não faça perguntas idiotas. Morreu. Nem pense em chamar os empregados. Já me viram e se convenceram de que devem ficar de longe. Ligue para De Koven e diga...

 

— Não direi nada! Não vou ligar!

 

— Ela está desarmada — murmurou Flora Forsythe.

 

Enquanto dizia isso, apanhou uma tesoura e lançou-se contra Brigitte, que não se mexeu. Simplesmente, no último instante, travou Flora com um golpe de caratê no peito, que a fez cair de costas, como morta. Gertrude deu um grito e passou ao ataque. Baby sorriu tão friamente, que com isso quase deteve a enfurecida mulher. Mas Gertrude já estava lançada, braço erguido, e desferiu um golpe violento de cima para baixo... Duas delicadas mãos cravaram-se em seu pulso, deram um puxão e ela foi cair de bruços no sofá. Quando ia se mexer, foi agarrada pelos cabelos e teve o rosto calcado contra o assento, sufocando.

 

— Senhora, eu não preciso de armas para dominar as duas. Não são nada para mim. Agora, telefone para o “Chrichton Palace” e chame De Koven. Entendido?

 

A mulher tentou mexer a cabeça para assentir. Brigitte soltou-a.

 

— Antes recupere o fôlego. Quero que Marlon De Koven não perceba nenhuma diferença em sua voz. Se perceber, cravarei a tesoura na garganta de sua filha. Não estou brincando. Saiba que Charlton Murray era um principiante comparado a mim. Está tudo bem claro?

 

Enquanto esperava que Gertrude se recuperasse, Brigitte tornou a usar o radinho e, dois minutos depois, Mr. Cavanagh e meia dúzia de agentes da CIA surgiam no escritório, todos olhando muito atentos para ela, que os saudou com um aceno de mão.

 

— Embora esfomeada, estou bem. Agradeço a todos. Fez o que pedi, Mr. Cavanagh?

 

— Sem dúvida. Aqui a tem — entregou-lhe uma maleta, que ela sopesou, sorrindo. — Correto?

 

— Correto. Algum de vocês pode me preparar um sanduíche na cozinha?

 

Seis agentes da CIA se chocaram fortemente contra a porta do escritório, querendo sair todos ao mesmo tempo.

 

Brigitte indicou um.

 

— Você, Johnny, por ser o mais simpático.

 

Com um largo sorriso nos lábios, ele saiu do escritório mais feliz do que ninguém.

 

Brigitte olhou para Gertrude Forsythe.

 

— Disposta?

 

— Sim... Estou disposta. O que devo dizer a De Koven?

 

— Só algumas palavras, marcando um encontro com ele em...

 

Marlon De Koven mandou que o chofer parasse, pagou a corrida e apeou. Cenho carregado, olhou para a entrada do East Potomac Park. Não lhe agradava o local, mas quando se pretende embolsar cinco milhões de dólares, é preciso conformar-se com os pequenos inconvenientes; Meteu as mãos nos bolsos do sobretudo e resolveu entrar no parque.

 

Fazia um frio intenso, realmente incômodo, mas se Gertrude Forsythe considerava aquilo necessário... Afinal de contas, não valia a pena complicar a vida. Falaria com ela, e de boa vontade.

 

Viu em seguida o carro das Forsythe. O grande naturalmente. Foi direto ao veículo e, sempre seguindo as instruções de máxima discrição, abriu a porta e entrou rapidamente, na parte de trás.

 

— Senhora Forsythe, aqui me tem...

 

Calou-se bruscamente, rosto alterado. Sentia a boca seca.

 

— Continue, De Koven — disse Lili Connors.

 

— Você... tinha desaparecido...

 

— Sou um fantasma — sorriu ela. — E apresento-lhe outros dois: meu chefe, Mr. Cavanagh, e Johnny, um de meus companheiros.

 

De Koven olhou para o assento dianteiro, no qual dois homens estavam virados para ele, olhando-o fixamente. Um tinha cerca de cinquenta anos; o outro, pouco menos de trinta. Mas ambos o contemplavam como se pudessem matá-lo em questão de segundos.

 

— Bem... Não compreendo...

 

— Quanto a mim, De Koven, devo admitir que meu nome não é Lili Connors. Sou a agente Baby da CIA. Já ouviu falar de mim?

 

O mercenário empalidecera tanto que seu rosto parecia o de um morto. À pequena luz recém-acesa no interior do carro, podia-se ver com perfeita clareza a enorme alteração de suas feições.

 

—Acho que sim, que já ouviu falar de mim — tomou a sorrir Brigitte. — Bem... Parece que está tudo entendido, então. Saiba que as Forsythe confessaram todo o plano, o qual você não conhecia a fundo. Aqui, nesta maleta — bateu nela com um pé —, está a confissão de ambas, gravada, que vou levar a Xavier Mathieson, junto com um pequeno presente. Charlton Murray morreu de morte natural... Quero dizer que é natural a morte de um cavalheiro a quem estrangulam, de acordo? Quanto a Gertrude e Flora Forsythe, cidadãs de Atlânfrica, serão entregues amanhã de manhã à embaixada desse país, com o qual os Estados Unidos desejam paz duradoura e harmoniosas relações políticas e comerciais, para que lá sejam julgadas pela criminosa intenção de atentar contra esta harmonia e paz... intenção que era sua também, Marlon De Koven. Embora ignorando todos os pequenos detalhes dos planos de tais senhoras, você é um mercenário sem escrúpulos, que teria causado muitas mortes e um caos total nos três países que em breve devem constituir, inevitavelmente, uma Federação amiga dos Estados Unidos. Quanto ao fato de que essa Federação seja ou deixe de ser amiga dos Estados Unidos, devo dizer, sinceramente, que não é coisa que me preocupe demais. Mas me preocupa a paz que Xavier Mathieson deseja e que você, sob as ordens de Gertrude Forsythe, teria perturbado com seus... assassinatos em massa. Resumindo, De Koven, você pertence à classe de pessoas que eu considero não aptas a viver entre seres humanos. Compreende?

 

— Não... Não compreendo...

 

— Eu acho que sim. Não pode ser mais claro: acabo de condená-lo à morte.

 

— Você não pode!

 

Plop... Plop... Plop...

 

Marlon De Koven foi empurrado pelos três projéteis contra a porta do carro, depois pendeu para frente, ficando caído de bruços entre o assento de trás e o encosto do da frente. Brigitte olhou para Cavanagh e Johnny, que por sua vez a olhavam fixamente, um tanto impressionados.

 

— Suponho que não tenham se assustado — sorriu ela.

 

Johnny engoliu em seco, com certa dificuldade.

 

— Faço... a chamada agora...?

 

— Sim, por favor, Johnny.

 

Ele acionou seu rádio de bolso e, ato continuo, ouviu-se uma voz: — Alô.

 

— Baby já terminou aqui. Como vai isso?

 

— Ele ficou muito surpreso, mas espera por ela.

 

— Bem. É só.

 

O agente da CIA fechou o radinho e olhou para Brigitte, que indicou o cadáver de Marlon De Koven.

 

— Meta-o no porta-malas, Johnny. E já sabe que tem que incinerá-lo, sem explicações, amanhã cedo. Mas, no momento, vamos ver o amável cavalheiro que me espera. Sei muito bem que não lhe agradará ouvir a gravação da conversa das Forsythe e Charlton Murray, mas... terá que aceitá-la.

 

— E se você estiver enganada a respeito dele? — perguntou Cavanagh.

 

— Não. Não estou enganada. Já conheci muitos homens e sei o que se pode esperar de cada um deles... Por isso tenho conseguido sair de tantos apuros. Bem, o que esperamos? Meu anfitrião já deve estar impaciente. E eu também. Quero que ele escute esta gravação o quanto antes...

 

Xav Mathieson deteve a marcha do pequeno gravador e cravou o olhar na jovem que tinha à sua frente. Sem a peruca loura, sem as lentes de contato. Ele a via como quando fora detida no jardim da mansão das Forsythe: cabelos negros, brilhantes olhos azuis... Sem dúvida, nunca encontrara mulher mais bela em sua vida.

 

— E então? — perguntou Miss Connors.

 

— Não vou lhe ocultar que isto destrói minha vida no sentido afetivo — disse Mathieson, com voz louca. — Mas se está perguntando se cumprirei meu dever, não tenha nenhuma dúvida. As Forsythe serão enviadas por esta embaixada a Atlânfrica e julgadas com o devido rigor. Que mais posso dizer-lhe?

 

— Prosseguirá com seus planos a respeito da Federação, Mr. Mathieson?

 

— Não vejo motivo para trocá-los... Quero apenas o bem de minha pátria. E dentre em breve ela será grande. Três países que formarão um só... como foi no princípio.

 

— Marlon De Koven morreu. Não o poderá ajudar militarmente.

 

— Eu estava em desacordo com essa espécie de ajuda, mas tinha que aceitá-la como mal menor.

 

— Achei que a guerra não o desagradava.

 

— Detesto guerra. Quero coisa muito diferente para minha pátria.

 

Baby levantou-se, pegou a maleta que tinha a seus pés e colocou-a sobre a mesa de escritório, à qual estava sentado Mathieson.

 

— Aqui dentro estão os diamantes da coleção “Arco-íris”, com os quais poderá fazer o que quiser. Além disso, há dez milhões de dólares. Estou certa de que lhes saberá dar um destino adequado. E se está pensando que os Estados Unidos e a CIA pretendem comprá-lo, mister Mathieson, esqueça-o. Estes milhões ganhei-os pessoalmente não faz muito e concordou-se em emprestá-los ao senhor.

 

— É simplesmente um empréstimo? — perguntou ele, esperançado.

 

— Simplesmente. Não é compra, nem coação, nem suborno... Apenas um empréstimo pelo prazo de vinte anos. A essa altura, a Federação Atlânfrica poderá devolvê-lo.

 

— Parece que lhe devo tudo isto, Miss Connors... Como poderei retribuir sua generosidade e compreensão?

 

— Seguindo à risca o caminhou que traçou — estendeu-lhe a mão. — Adeus, Mr. Mathieson. Lamento que nem tudo tenha saído bem.

 

O Presidente de Atlânfrica passou a língua pelos lábios e assentou com a cabeça.

 

— Nem sequer sei seu verdadeiro nome...

 

Brigitte Montfort dirigiu-se para a porta da sala, abriu-a e virou-se, cravando o límpido olhar azul nos olhos de Xav Mathieson.

 

— Isso não tem grande importância, meu amigo. Digamos que sou alguém que não aceita marionetes nos postos de responsabilidade. Nem mentiras. Nem fraudes.

 

Nem guerras. Nem ambições ilegítimas... Quem sou eu? Isso eu mesmo já me perguntei algumas vezes. Mas se algum dia quiser realmente saber quem sou, Mr. Mathieson, terá apenas que trair a confiança que deposito em sua pessoa. Faça isso... e asseguro que saberá muito bem quem sou eu.

 

— Não penso em traí-la, nunca.

 

— Ótimo — sorriu divinamente Baby. — Nesse caso, lembre-se de mim como uma linda e graciosa marionete de olhos azuis, simpática, generosa... Puxa, Mr. Mathieson, o que mais pode pedir?

 

 

                                                                                                    Lou Carrigan

 

 

 

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