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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


AS MÁSCARAS DOS ILLUMINATE / Robert Anton Wilson
AS MÁSCARAS DOS ILLUMINATE / Robert Anton Wilson

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

AS MÁSCARAS DOS ILLUMINATE

 

                    Novos horrores em Loch Ness

                    (Especial do Express Journal)

                    INVERNESS 23 ABRIL 1914

 

                                   O CASO DOS SUICÍDIOS CONSTANTES

         O Inspetor, James McIntoch , da Polícia de Inverness, enfrenta um mistério mais terrível que qualquer um dos narrados nos contos de Poe, ou Conan Doyle, pois, produziram-se três inexplicáveis suicídios em duas semanas na região adjacente à Loch Ness: uma zona, cujos habitantes, deram em denominar recente e, insistentemente, como «habitada», e não precisamente pelo Nessie», nosso famoso monstro local, mas sim, por criaturas inclusive mais terríveis.

         O primeiro dos misteriosos suicídios foi o de Bertran Alexander Verey, de 68 anos, que disparou-se, tragicamente, na cabeça em quinta-feira passada. Segundo seus vizinhos, gozava de boa saúde, e não se encontrou nenhum motivo razoável para o ato de desesperada melancolia descoberto pelas investigações do delegado.

         A segunda vítima desta estranha praga de autodestruição foi a da cunhada de Verey, a Senhora Annie [McPherson] Verey, de 59 anos, que se arrebatou à vida ingerindo veneno iodado, nesta mesma segunda-feira. Sobreviveu a seu marido, o reverendo Charles Verey, conhecido pastor da antiga e prestigiosa Old Kirk do Lago e presidente da Sociedade para a Propagação da Verdade Religiosa.

         Hoje ocorreu a terceira inexplicável e terrível tragédia, relacionada por estranha coincidência, com os dois primeiros atos de mania melancólica. O reverendo Duncan McPherson, irmão da senhora Verey, vice-presidente da Sociedade para a Propagação da Verdade Religiosa, cortou-se a garganta com uma navalha.

         É difícil compreender, como semelhante onda de loucura contagiosa, pôde golpear a uma família dedicada aos piedosos esforços cristãos. Ao ser perguntado sobre o particular, o inspetor McIntosh, declarou à nosso repórter: «Quando se pertence à polícia durante trinta anos, e se viram tantas estranhas tragédias, descobre-se que, literalmente, qualquer um é capaz de, literalmente, tudo».

         As pessoas dos arredores diz que a zona na qual o Rio Ness une-se com o Loch Ness—onde se encontravam os lares de Verey e McPherson— está «encantada» há muitos anos. Às numerosas aparições do «Nessie», o misterioso monstro serpentino, que habita no Loch, unem-se às de um segundo monstro com asas de morcego, estranhos ruídos e luzes que se percebem de noite, vozes sussurrantes, que se escutam em pontos solitários, e uma grande variedade de aparições sobrenaturais.

         «Há muita superstição entre os aldeãos», respondeu o Inspetor McIntosh, ao ser perguntado sobre tão horríveis contos.

         Outros residentes consideraram o cepticismo do Inspetor com a velha regra de nem esposa nem cavalo, nem bigode, só desprezo e um meio sorriso.

         Malcolm McGlaglen, de 61 anos de idade, proprietário de uma granja próxima à zona «encantada», disse à nosso repórter: «A polícia está... louca. Todo homem, mulher e menino da região chama a essa zona 'Os Acres do Diabo', e ninguém quer entrar nela assim que cai a noite. 'Nessie' é a menor de nossas preocupações. De noite, isto enche-se de sons muito desagradáveis, vêem-se luzes no céu e na terra; as monstruosas criaturas que foram vistas por alguns são bastante horríveis, como de deixar o cabelo branco a qualquer um».

         Outro granjeiro, que pediu que seu nome não fosse mencionado nesta publicação, acrescentou novos e macabros detalhes à história do McGlaglen, dizendo que seu próprio filho encontrou uma das «monstruosas criaturas» faz dois anos e que ainda se acha sob atenção médica. Negou-se a descrever à criatura, alegando que «as pessoas ririam de nós».

         Robert McMaster de 43 anos, outro aldeão, resumiu a opinião da gente da região com as seguintes palavras: «Necessitamos à polícia tanto como necessitamos uma unha infectada». McMaster indicou inclusive, que tinha visto uma mulher sem cabeça, perambulando pelo Imóvel Glen Carig, ultimamente.

         «Superstições», concluiu o inspetor McIntoch; nosso repórter, entretanto, admite que lhe alegrou poder voltar para a cidade antes de que caísse a noite nos «Acres do Diabo».

         Do jornal de Sir John Babcock. 25 de Junho de 1914.

         Que classe de homem é... ou que classe de criatura sob a forma de um homem? Certamente, só me encontrei com ele duas vezes estando encarnado, mas, constituiu uma perpétua presença em minha vida há dois anos... desde que comprei o maldito Nuvens sem Água e comecei a me envolver nos assuntos da família Verey e os horrores do Loch Ness. Inclusive antes do blasfemo incidente da cruz invertida, que me fez abandonar Arles, atormentava meus sonhos, aparecendo sob as formas mais grotescas em pesadelos constantes, que se orientavam para o mais horroroso dos delírios. Uma visão, especialmente, abominável continua me assediando... ele se embelezava com um turbante e adotava a aparência do mais obeso e detestável dos Demônios Sultões, enquanto, a seu redor, dançavam e tocavam flautas uma multidão de servidores insetívoros, que só Doré, ou Goya, puderam imaginar. Como o Rei Lear gostava de gritar: «Médico, me dê algo que adoce minha imaginação!» Mas, não era fruto de minha imaginação; tratava-se da mais terrível realidade. Lembro-me ainda as últimas palavras que me dirigiu em Londres: «Seu Deus e Jesus Cristo estão mortos. Nossa magia é agora mais forte, pois os Antigos retornaram». Às vezes, minha fé se cambaleia e lhe acredito. É o horror supremo: ver, passivamente, sem maior esforço, que toda esperança desaparece; contemplar aquilo que mais temo... como alguém que estivesse à beira de um abismo e não pudesse resistir a voz sedutora, demoníaca e tentadora que sussurra «Salta, salta, salta...»

 

                           EFEITO SONORO

 

         EXTERIOR. ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DE BASILÉIA. Suíça, 1914.

         AS PRIMEIRAS HORAS DA TARDE PLANO EM MOVIMENTO

 

                            Plataforma do trem.

                            Fixamo-nos em diversas caras.

                            Três homens e mulheres de estatura normal, um homem terrivelmente grande, um miúdo, mais rostos vulgares.

                            Sons de trem. Preparativos da partida.

                            Primeira voz na multidão: «...não é um Todo-poderoso...»

                            Segunda voz: «Toma-o», disse-lhe, «e crava-o onde não brilhe a lua».

                            Era positivamente vívido.

                            Terceira voz: «Eu nunca residirei lá.»

                            O motor chia.

                            Orquestra completa: Valsa Da Viúva Alegre.

 

         Quando o expresso de Zurique deixou Basiléia na noite de 26 de junho de 1914, um estranho trio se encontrou compartilhando a cabine 23, e dois deles descobriram pouco depois que ao terceiro incomodava-lhe aquele fato.

         — Deixou de chover —aventurou o doutor suíço assim que o trem começou a mover-se. O anúncio era óbvio, mas resultava um claro intento de cercar conversação.

         — Já —replicou o russo com voz cortante, claramente desinteressado por qualquer bate-papo ocioso.

         — Já não chove —disse o inglês amigavelmente, mas, seu cortês sorriso não transcendia mais à frente de sua boca. Seus olhos estavam tão longe da humanidade como os de uma múmia.

         O doutor olhou o vazio sorriso, durante um momento, e o tentou por outros roteiros.

         — Acredito que o Arquiduque Fernando está dando uma recepção da mais cordial em sua corte —disse—. Possivelmente, a situação dos Balcãs se esfrie a partir de agora.

         O russo emitiu um som cético e, nesta ocasião, nem sequer ofereceu uma palavra.

         —Toda a política é mascarada —opinou o inglês com o mesmo sorriso educado que não alcançava seus olhos vazios e elusivos.

         O russo aventurou uma frase completa.

         —Todas as máscaras têm uma chave —sentenciou com a macabra alegria dos que planejam o apocalipse em um sótão — e os antigos romanos já sabiam: Cui bono?

         — Quem ganha? — O inglês traduziu do latim ao alemão, o idioma em que os três conversavam—. Quem a não ser o Diabo? —respondeu retoricamente mostrando um desses sorrisos insalubres que fazem que a gente se reanime molestado.

         O russo olhou ao inglês por um momento, observando os nervosos sintomas que o doutor já tinha notado.

         — O Diabo —pronunciou firmemente— é um mito muito adequado, inventado pelos verdadeiros malfeitores do mundo. —Com aquelas palavras abriu um periódico e se retirou atrás de suas páginas, indicando, claramente, que qualquer conversação que lhe dirigisse, em seguida, seria uma clara invasão de sua vida privada.

         O doutor continuou falando cordialmente.

         —Nestes dias, muito pouca gente acredita no Diabo —disse, pensando para seu foro interno: Nove de cada dez esquizofrênicos têm obsessão pelo Diabo, e oito de cada dez, geram algum tipo de variação sobre a metáfora mascarada.

         —Pouca gente —replicou o inglês com uma careta que foi fazendo-se cada vez mais mecânica e cadavérica— pode ver além de seus narizes.

         —Que bem sabe você, verdade? —aguilhoou-lhe o doutor.

         —Você é alienista? —perguntou o inglês abruptamente.

         Já está aqui outra vez, pensou o doutor: a surpreendente intuição, ou percepção extrasensorial, de que dão mostra estes tipos.

         —Sou médico —disse cuidadosamente— e trato problemas mentais e nervosos... mas não da posição do alienista tradicional.

         —Não necessito nenhum alienista —replicou o inglês amargamente, ignorando o rechaço do doutor para tal etiqueta.

         —Quem diz isso? —quis saber o doutor—. Meu pai era um ministro do Senhor. De fato, simplesmente, me interesso pela veemente convicção que demonstra a respeito da existência do Diabo em um tempo em que, quase todos os homens educados, coincidem com a opinião de nosso cínico companheiro que se defende atrás do periódico.

         Um ronco de cepticismo chegou detrás do jornal.

         —Viu alguma vez a um homem que se desvanecesse no ar, justo diante de seus olhos? — perguntou o inglês.

         —Claro que não —respondeu o doutor.

         —Então, não me diga que necessito um alienista —concluiu o inglês—. Possivelmente, o mundo o necessite... possivelmente, o próprio Deus necessite um alienista... mas, eu sei o que vi.

         —Viu desvanecer-se a um homem no ar durante um ato de magia em algum cenário? —indagou o doutor amavelmente—. É, certamente, extraordinário. Posso entender às claras por que teme que ninguém lhe acredite.

         —Burla-se de mim —disse o inglês com voz acusadora—. O vi... soube... a conspiração que controla tudo desde os bastidores. Tinha toda a evidência, e, de repente, simplesmente, desapareceu. Gente, escritórios de correio, tudo... tudo desapareceu da terra durante a noite... Durante a noite, a noite, a noite: pareceu como se as rodas do trem repetissem o ritmo das palavras.

         —Deve ter sido uma experiência terrível —insistiu o doutor cada vez mais amavelmente— Mas, não é possível que se confundiu com os detalhes devido a alguma forte impressão?    Durante a noite, a noite, a noite, repetiam as rodas.

         —Vi o que vi — disse o inglês contundente levantando-se— Perdoe-me —acrescentou, saindo do compartimento.

         O doutor jogou um olhar ao russo, ainda oculto depois do protetor periódico.

         — Ouviu o concerto do Beethoven quando esteve na Basiléia? — perguntou alegremente.

         — Tinha coisas mais importantes que fazer — disse o russo com sua costumeira voz cortante, voltando uma página com um interesse exagerado na história que estava lendo.

         O doutor renunciou. Um passageiro molesto e o outro muito pouco educado: decidiu que a viagem ia ser muito aborrecida.

         O inglês voltou com os olhos úmidos e, depois de deitar-se em seu rincão, não demorou para dormir. Láudano, ou algum outro ópio, diagnosticou o doutor: como mínimo, sintoma de uma aguda ansiedade neurótica.

         Durante a noite, a noite, a noite, insistiam as rodas. O doutor decidiu dormitar um pouco. Despertou sobressaltado, descobrindo que o russo, involuntariamente, tinha-lhe tirado do braço. Escutou então a voz do inglês:

         — Não... não... não irei ao jardim... outra vez não... Oh, Deus, Jones, essa coisa... as asas do morcego se movem... o enorme olho vermelho... Deus nos ajude, Jones...!

         — Está totalmente louco — disse o russo.

         — Um ataque de ansiedade — corrigiu-lhe o doutor — Está em meio de um pesadelo.

         — Gar gar gar gar — seguia o inglês, quase chorando em sonhos.

         O russo, com embaraço, soltou a presa do braço do doutor.

         — Suponho, que verá uma dúzia de casos como este cada semana — opinou —. Por minha parte, não estou acostumado a estas coisas.

         — Vejo-os quando saírem das visões e estiverem, totalmente, despertos — disse o doutor — Ainda são humanos e provocam simpatia.

         — Ninguém como ele provoca simpatia — cortou o russo, voltando a usar o tom cortante e retornando a seu assento.

         — O Colégio Invisível —murmurou o inglês como se se tratasse de algum estribilho esquizofrênico —. Agora o vê, agora não... no ar, no ar...

         — Está falando de uma sociedade secreta do século dezessete — explicou o doutor, surpreso.

         — Inclusive Jones — seguia murmurando o inglês—. Existia, mas já não existe... Oh, Deus, não... não terá que voltar para o jardim.

         Os subúrbios de Zurique começaram a aparecer pelo guichê.

         O doutor se adiantou e tocou o inglês no ombro com cuidadosa gentileza.

         — Só é um sonho — disse brandamente na própria língua do inglês —. Desperte e tudo acabará.

         Os olhos do inglês se abriram cheios de terror.

         — Estava sonhando — explicou-lhe o doutor—. Era um mau sonho...

         — Um montão de tolices —bramou o russo subitamente saindo de sua frieza—. Faria muito bem em esquecer-se desses demônios imaginários e começar a temer a crescente ira das classes trabalhadoras.

         — Não era um sonho —sussurrou o inglês —. Ainda estão detrás meu...

         — Jovem — disse premente o doutor—, seu medo se encontra dentro de sua própria mente. Não há nada fora dela. Tente compreendê-lo.

         — O louco você é — replicou o inglês —. Para eles, dentro e fora é o mesmo. Eles podem entrar em nossas mentes se o desejarem. E mudar o mundo se quiserem.

         — Eles? —perguntou o doutor perceptivamente—. O Colégio Invisível ?

         — O Colégio Invisível morreu —respondeu o inglês—. A Irmandade Negra que domina o mundo.

         — Zurique! —gritou o revisor—. Última parada! Zurique!

         — Escute — insistiu o doutor—. Se for ficar em Zurique uma temporada, venha para ver-me, por favor. Acredito que posso lhe ajudar. — Estendeu um cartão ao inglês.

         O russo levantou-se pigarreando cético e saiu do compartimento sem despedir-se.

         — Tome meu cartão — insistiu o doutor—. Virá para ver-me?

         — Sim — respondeu o inglês com um novo sorriso carente de sinceridade. Todavia, assim que o doutor lhes deixou a sós, ainda olhando, ausentemente, com olhos vazios ao espaço, atirou o cartão ao chão.

         Só lançou uma breve olhada no nome: Dr. Carl Gustav Jung.

         — Não necessito de um alienista —repetiu incansavelmente—. Necessito um exorcista.

NO CORAÇÃO DA METRÓPOLIS SUÍÇA

         Majestoso e cheio, Albert Einstein cruzou o opaco bar do Lorelei com uma bandeja de cor amarela em que se balançavam, perfeitamente eretas, duas jarras de cerveja. Com calças bombachas e um suéter verde, de obscurecidos tons, devido as lâmpadas de Rathskeller, vestia com esmero seu gnômico aspecto, com o cabelo cuidadoso, elegantemente, penteado e seu estudado bigode.

         — Oolf — disse o professor Einstein, colidindo quase com outro transportador de cerveja na escuridão.

         James Joyce, demarcado e pálido, levantou seus azuis olhos de bêbado, para espionar com um intenso olhar, a sombria habitação e a diminuta silhueta de Einstein que se aproximava.

         —Ah! —exclamou pensativamente, muito aturdido para articular nada mais.

         Einstein depositou com alma a ambarina carga, por toda evidência, na mesa sem congraçar Joyce; antes de sentar-se, dançou três passados dionisíacos acompanhando os acordes de um pianista torto que ocupava um rincão. Algo quase feminino na graça da dança impressionou ao Joyce, quem, uma vez mais, repetiu:

         — Ah!

         — Jeem — disse Einstein —, por que tão silencioso de repente? — sentou-se cuidadosamente, procurando provar a cadeira na velada luminosidade. Uma vez sentado, bebeu profundos e escuros goles da cerveja de cor mogno, saboreando-a. Joyce seguiu-lhe vigiando agradado, com uma impassibilidade amebóide: um Telêmaco simplificado —. Está bêbado? —perguntou-lhe Einstein.

         — Um irlandês nunca está bêbado —replicou Joyce dogmaticamente — enquanto possa cair por três lances de escadas e dar-se de cabeça no carvão sem ferir-se. Estava pensando na serpente de mar do Loch Ness. O periódico de hoje traz uma história sobre um escocês a quem chamam o Latifundiário do Boleskine e que foi por ali para escalar montanhas. Os jornalistas o perguntaram sobre o monstro e disse-lhes que «Oh, Nessie é muito real. Vi-o muitas vezes. Praticamente, é como de casa.»

         AÇÃO - SOM

         EXTERIOR: RUA DE UMA CIDADE, DE NOITE, PLANO MÉDIO

         SATAN e SIR JOHN BABCOCK encontram-se. Pés correndo um frente ao outro.

         BABCOCK aterrorizado.

         [O plano se mantém durante tão pouco tempo, que apenas se distingue uma imagem concreta; os espectadores não devem estar seguros do que viram.]

  1. O que é que Joyce encontra mais admirável em Einstein?
  2. Sua falta de igreja, de deus, de nacionalidade, de rei, de fé.
  3. O que é que Joyce encontra menos admirável em Einstein?
  4. Sua sensibilidade judia e sua negativa a beber o bastante para penetrar em mais divertidos e instrutivos estados alterados de consciência.
  5. O que é que Einstein encontra mais admirável em Joyce ?
  6. Sua falta de igreja, de deus, de nacionalidade, de rei, de fé.
  7. O que é que Einstein encontra menos admirável em Joyce?
  8. Sua gélida irrascibilidade e a incapacidade impotente de beber até alcançar deploráveis e estranhos estados de consciência.
  9. Que conspícuas diferenças existem entre o Mr. Joyce e o Professor Einstein que nunca são observadas ou comentadas por nenhum deles?
  10. Joyce escapou das normais constrições do ego, considerando, profundamente, que seus sentimentos são os de uma mulher; Einstein escapou das normais constrições do ego, considerando, profundamente, que seus sentimentos são os de um fóton. Joyce se aproxima da arte com a metodologia de um cientista; Einstein pratica a ciência com a intuição de um artista. Joyce vivia felizmente em pecado com sua amante, Nora Barnacle; Einstein vivia desgraçadamente casado com sua esposa, Mileva Einstein.

         AÇÃO - SOM

         EXTERIOR: GRANJA ESCOCESA, ESCURIDÃO, PLANO MÉDIO.

         O pequeno MURDOCH FERGUSON de 10 anos, passeando por um milharal.

         Voz do Reverendo Charles Verey [alta]:

         «Então, em 1912, ocorreu o espantoso caso do moço Ferguson... o jovem Murdoch Ferguson de 10 anos, que foi, assustado, até o ponto de perder, literalmente, a cabeça, enquanto voltava para sua casa ao entardecer.»

         EXTERIOR. O MESMO. PRIMEIRO PLANO.

         MURDOCH deixa de andar e olha com horror algo que não enfoca a câmara.

         Voz de Verey [alta]:

         «Temo que poderia lhes fazer sorrir, ao saber o que o moço diz que viu..»

         — E, qual é nossa sensação de eleição? — perguntou Joyce —. Iniludível admito-o, portanto, duplamente suspeita.

         Einstein sorriu.

         — Pensando, e pensando, e pensando, colocamo-nos em uma estranha armadilha —disse —. deixe que lhe ensine quão estranha é. —Esboçou a toda pressa, todavia, cuidadosamente, uma caixa com seus grossos dedos sobre a toalha e escreveu em seu interior velozmente—. Aqui —continuou, apresentando ao Joyce uma armadilha talmúdica.

                                               Cremos em nosso livre-arbítrio:

                                               Não temos eleição nesse assunto.

         Joyce riu.

         — Exatamente —concretizou—. Agora vou lhe mostrar o que há fora da caixa. —         Começou a desenhar e a escrever ao outro lado da toalha.

O que se encontra dentro da caixa é o conhecido:

O que se encontra fora da caixa é o desconhecido:

Quem tem feito a caixa?

         — Falávamos de socialismo quando chegamos ao bar —observou Einstein— e agora voamos, perigosamente, perto das nuvens do solipsismo. Jeem, uma vez mais, sem armadilhas; o que acredita que é realmente real?

         — A merda de cão na rua — respondeu apressadamente Joyce —. É de uma marcada cor amarela ocre e gruda às botas como um latifundiário moroso. Nenhum homem é um solipsista quando se aproxima do meio-fio para arranhar-lhe do salto. — Le bon mot de Canbronne.

         — Outro salto quântico —replicou Einstein, tornando a rir—. Bem, Freud e Jung estudam essas descontinuidades da consciência de uma maneira científica.

         Nora, Stanislaus: fizeram-no? Não o parece. Judas, santo padroeiro de irmãos e amantes. Fizera-o. Sei que o fizera.

         À cripta de San Giles: como retornar?

         O acordeonista começa uma nova melodia: Die Lorelei. Joyce observa as vagas sombras ambiguamente móveis, deslocando-se pelas paredes nuas, enquanto uma risada louca sai repentinamente em uma mesa próxima.

         — Provavelmente, nunca encontraria você em outro local, que não fora este —comentou brandamente—. Os distintos professores da Universidade de Zurique não se movem nos mesmos círculos que os professores a tempo parcial do kindergarten de adultos do Signor Berlitz em Trieste. A menos que detestem a sociedade burguesa e se sintam atraídos pelos bares mais infectos. Consegui quase toda minha educação autêntica passando em bares e casas de má reputação, como Villon.

         Um amigo do acordeonista começou a cantar ebriamente:

         — Ich weiss nicht was soll es bedeuten...

         — A minha mãe adorava essa canção — disse Einstein em voz baixa, enquanto os cantores recreavam a imagem, da infância, de Lorelei, belamente morta em seu insano abraço.

         Durante a noite, a noite, a noite.

         — A última vez que estive em Zurique —disse Joyce, seguindo o vôo de seus próprios pensamentos — faz oito ou nove anos. Nora e eu ficamos no Gasthaus Hoffnung e o nome eu adorei. Aquele ano necessitava uma Casa da Esperança. Agora retornamos outra vez, de férias, e deparo-me que mudaram o nome, por alguma inexplicável razão, a Gasthaus Doeblin... já vê, minha própria casa, Dublín. Não será algum tipo de advertência ou algo parecido?

         Nas profundidades da cripta de San Giles. E algo que se estende ao longo de muitas milhas. Fizeram-no. O guardião de meu irmão.

         —É Nora sua esposa?

         —Em todos os sentidos —Joyce o pronunciou com unção—, exceto no estritamente legal e arcaicamente eclesiástico. —Fizeram-no: sei que o fizeram. Judiando como fêmeas em

zelo. Sei. Acredito que sei.

  1. Situe, exatamente, Bahnhofstrasse no espaço-tempo
  2. Bahnhofstrasse forma parte da cidade de Zurique: a qual forma parte do cantão de Zurique: o qual forma parte da República Democrática da Suíça: a qual forma parte da Europa: a qual forma parte de um planeta de quatro bilhões quinhentos milhões de anos de idade chamado Terra: o qual realiza uma rotação sobre seu eixo polar em relação ao sol em um ciclo diurno-noturno de 24 horas; e uma revolução ao redor de uma estrela de tipo G chamada Sol em 365 dias 5 horas 48 minutos e 46 segundos: que a sua vez forma parte do Sistema Solar formado por nove planetas e miríades de asteróides: que se move junto com o Sol para a constelação de Hércules a uma velocidade de uns 20.000 quilômetros por hora: que forma parte de uma galáxia chamada, usualmente, Via Láctea: que gira sobre seu próprio eixo cada oito mil e milhões de anos: que forma parte de uma família de muitos bilhões de galáxias: que forma parte do Universo conhecido: que o professor Einstein começa a suspeitar como finito e ilimitado, curvado sobre si mesmo em quatro dimensões: de tal modo que algo com energia infinita que viajasse de galáxia em galáxia ao longo de uma imensa órbita de espaço-tempo voltaria eventualmente para o ponto de origem de sua expedição: encontraria de modo eventual a galáxia Via Láctea, a estrela de tipo G chamada Sol, o planeta Terra, o continente chamado Europa, a nação denominada a Suíça, o cantão de Zurique, a cidade de Zurique, a rua chamada Bahnhofstrasse, a Lorelei Rathskeller: onde tais pensamentos se conceberam na mente de Albert Einstein.
  3. Durante quanto tempo foram amantes James Joyce e Nora Barnacle?
  4. Durante dez anos e dez dias.
  5. Quantas vezes suspeitou James Joyce que Nora Barnacle lhe era infiel?
  6. Três mil seiscentas e sessenta vezes.
  7. Ocorrem tais suspeitas com certa regularidade?
  8. Habitualmente, ao redor de meia-noite; ocasionalmente, ao anoitecer, sempre e quando Mr. Joyce comece a beber pela tarde.
  9. Que ações suportam tais suspeitas?
  10. Nenhuma.
  11. Houve exceções nesse consistente modelo de inatividade?
  12. Sim. Em 1909, Joyce expressou suas suspeitas com tanta eloqüência e fúria, como um grande professor de língua inglesa. Quando se persuadiu de que naquela ocasião estava equivocado, sumiu novamente em seu modelo anterior de silenciosa desconfiança.
  13. Explique os motivos dessa passividade.
  14. Desejo de paz e tranqüilidade para seguir com seu trabalho literário; morbosa autocontemplação de origem, provavelmente, fantasmagórica de suas suspeitas; devoção e desconcertado amor pelo objeto, tanto de sua concupiscência, como de sua paranóia; sentido democrático de pertencer à maior ordem fraternal da Europa, os cornudos.

         O debate entre Albert Einstein (Prof. Physik.) e James Joyce (Div. Escép.) na encantada e antiga Lorelei Rathskeller, naquele memorável entardecer, enquanto o vento Föhn começava a soprar por Zurique cobriu os mais diversos e maravilhosos tópicos da epistemologia, ontologia, escatologia, semiótica, neurologia, psicologia, fisiologia, relatividade, teoria dos quanta, ciência política, sociologia, antropologia, epidemiologia e (devido à desafortunada tendência do Mr. Joyce a estancar-se no mais insano) escatologia mais que liberal. Em epistemologia, Joyce era tão quadriculado como Aristóteles, o Mestre Dos Que Sabem, enquanto Einstein se delatava por sua grande devoção para o David Hume, Mestre Dos Que Não Sabem; em troca, em ontologia, Einstein ficava perigosamente perto do ultraescepticismo que mais tarde denunciaria ao ser proposto, mais grosseiramente, pelo Dr. Niels Börh, como Interpretação de Copenhage diz: “o universo conhecido por nós é produto de nossos cérebros e instrumentos, de tal modo, que a gente é eliminado do universo atual”; mas Joyce, com cavalheiresco desdém, tanto pela consistência, como pelo sentido comum, ia inclusive além da Interpretação de Copenhage; chegando ao agnosticismo final, tentando combinar a proposição aristotélica de que “A é A”, com a não-aristotélica crítica de que “A é só A”, até que a observa tão atentamente que “A” pode converter no “B”. Em escatologia, Einstein se aferrava, obstinadamente, à posição humanista de que a ciência e a razão faziam o mundo significativamente melhor para a maior parte das espécies, Homo Sap., enquanto que Joyce, mordaz, sugeria que todos os trabalhos que apontavam um avanço foram seguidos por outros que marcavam um retrocesso. As grandes idéias de Bruno e Huxley; Zenón e Bacon; Platão e Spinoza; Maquiavel e Mach; avançavam e retrocediam pela mesa como bolas de ping-pong ideológicas, aumentando a velocidade com os verbais reversos do outro, reconhecendo uma mente de distinguível qualidade superior, e descobrindo que o último acordo entre dois temperamentos tão distintos era tão improvável, como a humanização do excremento gnóstico de jovens antes de comer. Os operários que pilhavam fragmentos daquela ontológica guerrilha, decidiram que ambos os homens deviam ser atrozmente sagazes, mas, o cavalheiro russo do trem, eles teriam declarado à ambos como peculiares exemplos de subjetivismo petite-bourgeoise; decadente idealismo imperial e predialéctico empirio-criticismo.

 

         AÇÃO - SOM

         EXTERIOR. PLANO LONGO: BAHNHOFSTRASSE.

         BABCOCK correndo. Respiração ofegante.

         INTERIOR. LAVABO DE CAVALHEIROS. PRIMEIRO PLANO.

         Einstein ante o urinário, olhando um grafite. Respiração ofegante. Pés correndo.

         Em alemão:

         NUR DER WAHNSINNIGE IST SICH ABSOLUT SICHER. FNORD?

         Dass kommst mir nicht aus dem Sinn...

 

         As vozes dos trabalhadores invocaram em Joyce a imagem de Lorelei: de ébano, com cauda de pescado e coberta de mariscos. Parecida com as velhas sereias de Homero. Movendo o pálido cabelo loiro impoluto e virginal que lhes chega pela cintura: abaixo, o poço sulfuroso. Navegam para as rochas levados pela canção, encadeados pela música. Um golpe, um gorgotear, gritos: logo, nada. Um redemoinho que gira e gira: o vazio. Uma gaivota bate as asas em um céu sem compaixão.

         E a cabeça da Serpente se eleva do Loch: Devoradores ávidos como deuses.

         Considerando cada passo, com seus olhos satisfeitos, apoiado à bengala, Joyce se aproximou do bar dignamente, pedindo por gestos outra cerveja. Brindou gravemente consigo mesmo no espelho; por cima dele, uma águia de bronze.

         Naquela ocasião, quase o conseguiu. Das profundidades, sob a cúpula de San Giles, um chiado levantou eco ao longo de muitas milhas. E algo disse o Irmão Ignácio: Oh, infernos!

         Espera.

         Janelas chiando: o vento Föhn começa a soprar.

         Quando voltaria Einstein da privada? A bexiga: um complicado funil. Se o estudante de medicina vive em mim, também o farão o sacerdote e o músico. São Jaime, em Dublin, patrão de cálices, cateteres e cantatas. Por que minha prosa é sempre simultaneamente musical, litúrgica e clínica?

         Ah: o suéter verde de Einstein.

         —Bem, Jeem —começou Einstein, sem voltar a sentar-se—. Acredito que já tive o bastante por esta noite.

         —Uma cerveja mais? —saltou Joyce esperançado—. Ein Stein, Einstein?

         Einstein sacudiu a cabeça tristemente.

         —Tenho classes pela manhã — murmurou.

         —Espero que voltemos a nos encontrar —replicou Joyce, levantando-se formal e desmazeladamente —. Sempre lhe recordarei, porque você me ensinou a linguagem dos quanta. Poderia ser a chave da impossível novela que intento começar...

         — Não entendo como a física quântica pode aplicar-se à linguagem — respondeu Einstein—, mas, se lhe ajudei, me alegro muito. De qualquer forma, a conversação resultou muito estimulante para os dois.

         Uma explosão de energia esteve a ponto de desencaixar a porta da rua e Joyce voltou para trás agilmente para evitar a colisão.

         O rosto que penetrou na escura sombra da Rathskeller foi o de um arrumado, mas desgraçado jovem, cuja pálida pele e dementes olhos, revelavam, ao mesmo tempo, uma terrível história e algum horror cósmico e monstruoso que a débil mente do homem logo podia suportar. Todos ficaram, instantaneamente, congelados de terror e abundantes calafrios correram por todos os espinhaços; muitos admitiram, posteriormente, que lhes arrepiaram os cabelos, lhes pôs a pele de galinha e lhes estremeceu a alma. O estranho, embora vestido com as melhores roupas da mais alta classe inglesa, levava um odre que poderia conter, tanto um veneno mortal, como letais cobras, ou cabeças humanas; a julgar pelo torcido sorriso que deformava seus lábios como se lutasse —o que resultava visível para todos— por restringir um iminente colapso à mera histeria. Um aura de terror, quase visível, entrou sutilmente no que fora o alegre empório da bebida; e o caolho acordeonista deixou de tocar, ficando o instrumento como morto entre suas mãos. O que pode anunciar tal intrusão?, pensou cada cérebro; e a terrível resposta chegou a todos eles: só o louco está totalmente seguro. Profanos e atemporais secretos, de proibidos eones e obscuras profundidades; de abismos de blasfemas nigromancias, pareceram deslocar-se subrepticiamente por cada rígida sombra que habitava a antiga e insana Rathskeller enquanto a porta estralava a efeitos do vento como um espírito atormentado: sllt sllt sllt. Um rumor rudimentar sussurrou imperceptivelmente.

         Aspecto de Bond Street: um inglês.

         Joyce observou com olhos totalmente azuis e abertos como a pálida cara de aspecto feminino titubeava para o bar. Dorian Gray dependurando da corda. Medo autêntico.

         — Whisky — pediu o inglês em seu próprio idioma, acrescentando, ausentemente—, bitte...

         Seus olhos pareciam desfocados, amebóides; seu próprio ser parecia flutuar, quando se afundou em um mortal maremoto que lhe levou a chocar estrepitosamente, sacudindo a sala ao alcançar o chão.

         A noite que me embebedei em Tyrone Street e Hunter me ajudou: o mesmo outra vez.

         Joyce apoiou a bengala na barra e se ajoelhou, escutando o coração do inglês. A escola médica: não perdeu tanto o tempo. Contando, escutando: o coração não ia muito depressa. Pulso: bastante rápido, nada anormal. Medo injustificado.

         Espera: volta em si.

         Os olhos loucos e atormentados do inglês olharam nos de Joyce.

         — Mein berr —murmurou—. Ich, um...

         — Descanse — pediu-lhe Joyce, rapidamente—. Falo seu idioma.

         As botas de Einstein repicaram na pesada madeira como cascos de boi: Joyce voltou.

         — O que lhe passa? —perguntou Einstein—. Algo sério?

         — Só está assustado —replicou Joyce.

         O inglês estremeceu.

         —Todo o caminho desde o Loch Ness —explicou roncamente —. Por toda a Europa até essa porta.

         — Descanse — apressou-lhe Joyce, novamente. - Loch Ness. Coincidência?

         — Perseguiu-me até essa porta —continuou o inglês—. Está fora... esperando...

         — Passou você muito medo — explicou-lhe Joyce prudentemente —. Desvaira. Descanse um pouco mais, cavalheiro.

         —Não o compreendem —disse brutalmente o inglês—. Ao voltar a esquina... pelos trilhos do trem...

         —O que é que tanto lhe assusta fora do bar? —perguntou Joyce, recordando os costumes médicos de Gogarthy: sedativo, razoável, sem temor.

         O inglês tremeu.

         — Você é irlandês —disse—. Outro inglês, diria que estou louco. Possivelmente, você tenha a suficiente imaginação para entendê-lo melhor.

         Entardecer celta: merde.

         —Sim —respondeu Joyce pacientemente—. Conte-me —

         — Em Bahnhofstrasse, justo detrás dessa porta, há um demônio do Inferno.

         O acordeonista torto se ajoelhou à suas costas.

         —Posso ajudar? —perguntou em alemão.

         —Sim —replicou Joyce—. Ajude-lhe a chegar até uma cadeira. Pode sentar-se. Eu vou sair fora.

         — Foi atacado por rufiões? —perguntou o empregado—. Dois ou três de nós podemos ir com você Y...

         —Não —cortou Joyce—. Acredito que foi atacado unicamente por sua imaginação. Mas meu amigo e eu sairemos para dar uma olhada.

         Bahnhofstrasse, banhada na débil luz amarelada das lamparinas à gás, parecia deserta àquela hora. A meia quadra de distância, uma carruagem sem cavalos: Automóvel chamam-lhes os italianos. Efetivamente, um modelo italiano: FIAT, Fabrica Italiana Automóvel Torino. O amor latino pelos códigos e as siglas. MÁFIA: Morte Alle Franconia Itália Anela. E INRI: mistério dos mistérios.

         O Föhn começou a soprar muito mais forte: longínquo, grave, quente e úmido como o beijo de um fantasma. Joyce esquadrinhou Bahnhofstrasse com olhos cansados. A um lado, os grandes bancos góticos: governantes do papel que governa os continentes. Capital do mundo da usura, isso mesmo, diria Tucker. Ao outro lado, os trilhos da ferrovia que davam nome à rua: linhas paralelas que se encontram no truque da perspectiva de um teórico infinito. Joyce olhou míope, estrabicamente, em ambas as direções; saltou, de modo involuntário, para ouvir um trovão. Uma rua molhada e vazia. Tão limpa como o temperamento suíço, tão desprovido de perguntas. O demônio do inglês estava só em sua mente.

         Todavia, esperava junto ao arco luminoso. Joyce adiantou-se, ajoelhando-se novamente e, recolhendo apenas, o fluorescente objeto. Era uma máscara de plástico adequada para uma produção teatral; ou, um baile de máscaras; o rosto de Satanás, com chifres vermelhos, barbado, semelhante ao de um cabrito.

         — Uma brincadeira...? — perguntou Einstein.

         O inglês encontrava-se na porta da Rathskeller, pálido ainda, mas, lutando por controlar-se.

         — Bem, cavalheiros —disse—, não encontraram nada, adivinho, e me consideram louco.

         Joyce sorriu.

         —Pelo contrário, —replicou— encontramos algo e não acredito que esteja louco por mínimo que fosse. —Levantou a máscara—. Receio que foi vítima de uma brincadeira bastante cruel.

         O inglês adiantou-se, olhando, sem sinais de alívio, a sorridente e desumana máscara.

         —Mais cruel do que se imagina —disse, com voz enjoada—. Morreram três pessoas de um modo atroz desde que começou este assunto. Pensa que também isso tem graça, senhor? A eterna tentação: chegando do Loch, um serpentino poder cruza a Europa para me desafiar aqui.

 

                            Quando as sombras sigilosas e deslizantes

                            Fazem surgir a todos os monstros

                            A razão se quebra avermelhada

                            Na Máscara do Diabo

 

         Onde terei lido isto? Certamente, não é do Blake. Alguma Antiga Balada? Mas escuta a fala.

         —Três mortos —insistia o inglês—. E, agora, estou convencido de que eu serei o quarto.

         A Autonomia para a Irlanda foi rechaçada pelos Lores, em março passado, depois da aprovação dos Comuns em janeiro. A única possibilidade que fica é a revolução: disparos nas ruas, gritos de mulheres, meninos mortos. Guerra sangrenta. O pesadelo do qual estou despertando. Sim: e as palavras do Padre: «Três coisas nas quais nunca deve confiar, Querido Jim, moço: o casco de um cavalo; o corno de um touro; o sorriso de um saxão». Outra rede que tenho que sobrevoar. Este homem necessita ajuda. O remédio de Inwit: compaixão.

         O Föhn, o vento da bruxaria, soprando insalubre e queimando o ar, que suavemente, os golpeia na cara ao passar.

         — Vamos —pede Joyce—. Deixe-me lhe ajudar.

         Descendo de Jerusalém ao Jericó; e sentindo-se entre ladrões. Ao botequim. Pode ser que tenha os duas moedas.

         —Sim —insistiu Einstein—. Deixe que lhe ajudemos.

         O COMENTARISTA DA RÁDIO: E agora, desde Zurique, uma história que pode cortar o fôlego. Uma fonte digna de crédito informou à Reuters News Service que Mr. James Augustine Aloysius Joyce está realizando, atualmente, um ato de caridade. Embora, não se conhecem detalhes ainda, diz-se que Joyce efetuou o amável ato com inteira gratuidade, sem ânsias de publicidade, ou popularidade e nem sequer, por interesse de ser bem visto no Céu. Mr. Joyce, um suposto escritor e o cornudo mais notável da Europa, foi expulso de seu lar em Dublín, Irlanda, faz quase uma década por seus incontáveis Pecados de Orgulho, por mais Pecados de Luxúria que os recordados nas decadentes obra de Sade e Masoch; pelo Pecado de Intemperança, por Pecados contra o Espírito Santo, e por olhar com desprezo as cruzes das igrejas. Desde então, incrementou notavelmente sua reputação de ser o mais arrogante e autocomplacente canalha de nosso século, sendo pai de dois bastardos tidos com uma mimada rameira. Notícias da súbita inclinação para a graça de Joyce parecem ter chegado à rocha do Vaticano fazendo exclamar, para ouvir tão milagroso comportamento, a sua própria Santidade o Papa: «depois de tudo, pode ser que exista alguma esperança!» Nos Céus, o Deus Pai não quis fazer comentários, mas o Espírito Santo disse a nosso correspondente que «Parece que dentro de cada Pecador há um Santo que luta por prevalecer». E agora uma palavra de nosso Patrocinador nos Céus:

 

                                      CANTORES: Pai, Filho e Espírito Santo

                                      São a quem mais necessita!

                                      O Espírito, o Pai e o Filho Celestial

                                      Eles conseguem que ocorram as coisas!

                                      Glo-ria in seu ex-cel D-e-ou!

 

         AÇÃO SOM

         EXTERIOR. MANSÃO BABCOCK, 1886. PLANO LONGO.

         Uma magnífica casa inglesa antiga. Gritos de um menino.

         Uma bicicleta na grama do pátio dianteiro.

         INTERIOR. VESTÍBULO. PLANO MÉDIO.

         SIR JAMES FENWICK BABCOCK andando.

         Novos gritos de menino detendo-se subitamente para ouvir os gritos do menino.

         DOUTOR [com o rosto do Albert Doutor: «Pode descansar já, Sir James. Seu filho Einstein, 1914] sai do dormitório e chega são.

         Vestíbulo.

         Sir John Babcock nasceu em 23 de novembro de 1886; era filho único de Sir James Fenwick Babcock, antigamente biólogo reputado que resultou relegado ao limbo científico por defender a teoria lamarckiana da evolução com preferência a darwinista. A mãe do moço foi Lady Catherine (Greystoke) Babcock, quem é descrita, nos jornais e cartas que sobreviveram, como uma excepcionalmente animada anfitriã, muito aguda e a mais inteligente advogada das heresias científicas de seu marido.

         Tragicamente, o jovem Sir John ficou órfão em 1897, à tenra idade de onze anos, quando tanto Sir James como Lady Catherine resultaram mortos em uma viagem à África com o louco primo, famoso por isso, de Lady Catherine, Lorde Greystoke. O cuidado do menino recaiu em um tio, o Dr. Bostick Bentley Babcock, médico pioneiro no emprego do éter e da anestesia. Também se recorda porque o Dr. B.B. Babcock, ao contrário de seu irmão, era um reputado darwinista, ateu e veemente laissez-faire liberal seguidor das opiniões da filosofia de Spencer; também se diz que, como estudioso e racionalista, o Dr. Babcock foi o último homem do mundo em educar a um menino órfão de modo válido. Evidentemente, o bom doutor, em privado, compartilhava essa opinião, pois contratou um pequeno exército de cuidadoras, tutores, serventes e outros factotums; com os quais se defende, estrategicamente, dos problemas de um sobrinho pubescente.

         Quando faleceu o Dr. Babcock de um súbito ataque ao coração em 16 de junho de 1904, o jovem Sir John contava dezoito anos de idade; estava terminando seu miserável e último trimestre em Eton. O testamento da família lhe explicou que era não só o único proprietário dos 20.000 acres da Mansão Babcock, mas também o beneficiário de duas heranças tal e como foram investidas, proporcionariam-lhe uma renda vitalícia de 4.000 libras anuais, sem que para isso tivesse que realizar o anti-Inglês Pecado de saquear a Capital.

         Sir John era um moço magro e de nervoso aspecto, branco de todas as brincadeiras estudantis; descrito sempre como «tímido», «camundongo de biblioteca» ou «peculiar» por seus companheiros de classe. O mesmo se sentia apenas algo menos miserável só quando passeava em completa solidão pelas zonas mais boscosas de seus 20.000 acres, recreando «verdes pensamentos em verdes sombras», como disse o Poeta; naquelas situações, parecia-lhe, especialmente quando o crepúsculo tingia de canela e ouro os ramos verde esmeralda, que uma porta a outro mundo poderia abrir-se e que por ela seria possível perceber, indefinidamente, os rápidos e tímidos movimentos das dríadas e os sulfurosos aromas da madeira de sândalo, sob a terra, nas vastas cavernas dos trasgos. Eram momentos semimágicos nos quais um véu parecia revelar um brilhante castelo que se levantasse na bruma, uma trompetista lhe chamando ao reino de romance e maravilha, de perigo e triunfo.

  1. Com que dramatis personae, móveis e acessórios estava provido o reino mágico?
  2. Escuridão e noites sem lua; colinas varridas pelo vento; sinistras gretas, insanos e deprimentes pântanos; abismos encantados, espectros sem cabeça, bruxas voadoras, sábios e inescrutáveis feiticeiros, altos elfos [a mais maravilhosa das maravilhas]; contrafeitos miúdos, alquímicos fornos, elixires, poções, drogas, ervas, pedras preciosas, sagrado Graal; diversos e variados dragões de fogo, calabouços subterrâneos, falcões malteses, tesouros perdidos, cavaleiros e paladines com armaduras brancas e negras; enigmáticos sarracenos, castas heroínas [loiras], malvadas sedutoras [castanhas]; espadas, tochas, floretes, espadins; estragados pergaminhos apenas legíveis; encantamentos hebreus, fumaças, perfume, incensos, pentáculos, painéis secretos que davam à salas ocultas; monges malignos obrigados a pendurar os hábitos; demônios cinocéfalos; princesas de sangue real, mãos de glória, filtros egípcios, talismãs constituídos por estranhas gemas; feitiços; homens lobos, vampiros, loucos servidores de Hécate; bebidas bárbaras, estranhos ungüentos; negros bacanais; elementais, familiares, raparigas [virginais, encantadoras, propensas ao desmaio] afligidas, adivinhos, astrólogos, geomantes; heróis loiros e de olhos azuis sem pecado, obscuros e bigodudos vilãos; gnomos, gobelinos; o Homem De Negro e as invisíveis legiões infernais.
  3. Que classes de aventuras e desafios encontrou realmente Sir John?
  4. Duzentos e dezessete atentados por parte de estudantes mais antigos de sedução, intimidação ou coação; para que participasse do Inexpressável Crime Contra Natura, proibido na Sagrada Escritura e na Seção 270 do Código Penal Revisado de 1888.
  5. Por quais razões se negou Sir John a participar do mencionado Crime Inexpressável?
  6. Por piedade cristã; terror ao descobrimento; medo aos gérmenes, e às vis enfermidades que transmitem; as severas advertências de tio Bentley e o Decano de Estudos que conduziram à idiotice, à loucura e à emasculação; indignação de que sempre lhe oferecessem o papel passivo [receptor]; convicção de que lhe provocaria náuseas.

         Uma vez, capturou um camundongo de campo e o sustentou entre as mãos, olhando os aterrorizados olhos e sabendo, com horror, que poderia lhe arrebatar a vida com uma pedra, tão abrupta e certeiramente como acontece com as vidas de todos os adultos aos quais amassem e que haviam perecido. Estava assustado de um modo estritamente metafísico, não porque aquelas cruéis fantasias ocorressem a ele, nem sequer porque algo primitivo e paleolítico lhe obrigasse a cometer aquele ato e a descobrir a terrível alegria do pecado consciente; não era nada de tudo aquilo, por mau que fosse, mas sim se encontrava ontologicamente apavorado; pelo conhecimento de seu próprio poder; pelo fato de que o ato era possível e de que qualquer vida podia resultar tão frágil e facilmente exterminável. Os aromas das rosas e os trevos que chegavam ao nariz, as cores belas, esmeralda e turquesa das árvores, a beleza primitiva da pura Natureza, pareceram-lhe repentinamente terríveis, como máscaras depois das quais só se camuflasse a morte e o desejo de matar. Soltou à criatura —«minúscula, lustrosa e acovardada besta pacata», disse a si mesmo— e a olhou enquanto se afastava, sabendo da mesma ameaça que conhecia o camundongo, considerando os um bilhão de anos de luta entre predadores e presas através do prisma darwiniano de tio Bentley, chorando com umas lágrimas que foi incapaz de derramar no funeral de tio Bentley, à força de intumescimento e autoconsciência, sentiu-se órfão pela terceira vez e quis arriscar-se à blasfêmia da esposa de Job: amaldiçoar Deus e morrer.

         Nunca esqueceria aquele momento; em outra ocasião, muitos meses depois, quando um professor conhecedor de sua capacidade intelectual e alarmado ante sua solidão, perguntou-lhe por suas linhas favoritas de Shakespeare, Sir John respondeu imediatamente não com os monólogos «Ser ou não ser» ou «Amanhã e amanhã e amanhã», a não ser com o amargo emparelhado de Lear :

                            Como moscas para moços lascivos, somos nós para os deuses:

                            Matam-nos por esporte.

         O preceptor ficou tão deprimido pelo desespero da voz de Sir John ao reproduzir a citação, que decidiu que o moço era «um caso sem esperança» e não efetuou nenhuma nova aproximação familiar para ele.

         Entretanto, Sir John também era consciente dos deuses, das cegas e impessoais força do universo darwiniano de tio Bentley, quem, tão impassivelmente, como assassinaram a sua mãe, a seu pai e a seu tio, davam-lhe de presente a segurança econômica que era considerada pela maioria das pessoas como uma enorme bênção em um mundo onde as três quartas partes da população estavam desesperadas para encontrar a comida diária; onde quase todos trabalhavam até uma morte que lhes chegava antes dos quarenta anos e lhes encontrava sem dentes e empobrecidos, esgotados pelo trabalho nos Escuros Moinhos Satânicos que tanto lamentasse Milton. Embora, quase todo o mundo reconhecia que os Moinhos eram necessários para o Progresso e que a grande maioria de homens e mulheres estiveram em pior estado antes da eletricidade. Ao Sir John confundia tudo aquilo e, sobretudo, confundia-lhe o que o universo desejasse dele, pois se sentia quase como seu proprietário. Enquanto se encontrava perdido naquelas elucubrações de busca filosófica, o mundo inteiro pareceu estremecer-se ao uníssono quando Plehve, Ministro do Interior russo, morreu assassinado; foi o último de uma série de insensatos e incríveis crimes. O moço escutou muitas pessoas maiores falar do incremento da violência e da falta de lei no mundo; ouviu outras pessoas, mais repugnantemente, falar de uma conspiração mundial escondida detrás daqueles violentos ataques contra os governos oficiais.

         Sir John se graduou com honras no Trinity College Cambridge, cinco anos depois, em 1909. O mundo voltou a estremecer-se depois do assassinato do Príncipe Ito, no Japão, e se voltou para falar por toda parte de conspirações mundiais e de sociedades secretas (os sionistas, diziam alguns; os jesuítas, opinaram outros), mas Sir John se limitou, momentaneamente, a escutar o ruído de fundo. Sua mente e seu coração não pertenciam a este mundo, a não ser aos dois reinos escolares conhecidos como história e mitologia. Sir John se negava a aceitar aquela distinção, pois estava, profundamente, apaixonado por outro mundo que levava tanto tempo morto que era incapaz de lhe danificar, ao contrário do mundo real, e que via ante ele como cheio de encantos e mistérios.

         Naquele ponto, Sir John leu Vril: O Poder da Raça que Vem, de Lorde Edward Bulwer-Lytton e ficou mesmerizado por sua tapeçaria de aventura, utopismo, romance, profundo conhecimento oculto e supremo saber da psicologia política. Todavia, o que mais fascinou Sir John foi o fato de que os detalhes ocultos do livro não provinham da simples fantasia, nem do mais vulgar folclore, como as novelas de Bram Stoker, mas sim derivavam, obviamente, do genuíno conhecimento da Cabala medieval e dos Rosacruzes. Nos três meses seguintes procurou e leu com crescente excitação todas as obras de Lorde Bulwer-Lytton: Reinzi, Os últimos dias de Pompeya; todas as demais novelas, os poemas, as peças de teatro, os ensaios, inclusive, os contos de fadas. Era um conjunto literário surpreendente para ter sido produzido por um homem que também editava uma revista, exercia como membro do Parlamento e fora reconhecido como um dos principais ajudantes de Disraeli.

         E Sir John, muito mais que qualquer das centenas de milhares de leitores que fizeram de Bulwer-Lytton um dos mais populares novelistas do século dezenove, ficou cativado pela tentadora pergunta que se formulava em seus livros uma e outra vez: Se grande parte do conhecimento oculto está apoiado em ensinos reais, pode alguém arriscar-se a acreditar que a tão freqüentemente mencionada a ordem dos Rosa Cruz ainda existe e comanda a força do Vril capaz de mudar à humanidade em super-humanidade?

  1. Sob que outros nomes descreveram a força do Vril, outras pessoas antes de Lorde Bulwer-Lytton?
  2. Antes: Ch'i [China, C. 3000 a.C.], prajna [filósofos hindus, C. 1500 a.C.], Telesma [H. Trismegistus, C. 350 a.C.], Vix Medicatrix Naturae [Hipócrates, C. 350 a.C.], Faculta Formatrix [Galeno, C. 170 D.C.], Baraka [sufies, C. 600 D.C.], mumia [Paracelso, C. 1530 D.C.], magnetismo animal [Mesmer, 1775 D.C.], Força Vital [Galvani, 1790 D.C.], Gestaltung [Goethe, 1800 D.C.], força OD [Reichenbach, 1845 D.C.]. Depois: força formativa etérica [Steiner, 1900 D.C.], Elan Vital [Bergson, 1920 D.C.], radiação mitogenética [Gurwitsch, 1937 a.C.], orgón [Reich, 1940 D.C.], bioplasma [Grischenko, 1944 D.C.], Boas Vibrações [anón, hippie domesticus, C. 1962 D.C.], inergia [Puharich, 1973 D.C.], a Força [Lucas, 1977 D.C.]

         Sir John contava, naquela época, com vinte e quatro anos de idade e estava romântica e dolorosamente, convencido de que um vasto abismo temperamental se estendia entre ele e seus

contemporâneos. Chateava-lhe francamente a escravidão do trabalho; as ocupações centradas em dinheiro (tinha todo o dinheiro que pudesse desejar); e se via repelido pelas indiferenças do clero anglicano; a única tradição familiar quanto às igrejas que poderia lhe haver ajudado, por aguada que estivesse, como dizia Trollope; por não interferir nem com a política de um homem, nem com sua religião; desta maneira, parecia não ter mais futuro que a jactância. Mas aquilo tampouco tinha atrativo, pois ele mesmo se considerava como um alienado e um rebelde (embora dentro dos limites do bom gosto, de acordo com a moral e o sentido comum britânico, naturalmente; era casto, pois considerava as prostitutas como vítimas da exploração social e tinha como indecente fazer proposições a uma lady; inclusive, no caso de que tivesse sabido fazê-lo). O que era pior: estava decidido a não corromper sua extravagantemente ampla independência (palavra que preferia à «herança») e rechaçava a idéia de pensar de si mesmo que era uma mariposa social ou um esbanjador. Assim, dedicar-se-ia a escrever; se sua audiência se limitava a um público que lhe lesse nos lavabos, não tinha importância. Embora não encontrasse uma alma, sempre teria um papel que desempenhar; seria «o estudioso dos Babcocks».

         Sir John se especializou em história medieval e em línguas do Próximo Oriente; sua tese doutoral, a respeito da influência da Cabala judia nas sociedades ocultistas medievais, se converteu em seu primeiro livro, Os Amos Secretos, que foi favoravelmente considerado nos poucos lugares onde se detectou sua edição. A linha mais hostil de qualquer crítica apareceu no Historical Journal da Universidade de Edimburgo, assinada pelo professor Angus McNaughton. Repreendia a Babcock, brandamente, pelo que denominava «um certo romantismo mental que conduz ao jovem e ardente autor a imaginar que algumas das sociedades secretas mencionadas em sua obra hão sobrevivido até nossa idade luminosa... uma tese que só pode encontrar-se nas novelas de Lorde Bulwer-Lytton e não em nenhuma obra que se tenha por histórica».

         Como muitos jovens autores, Babcock recebeu cada crítica como se fossem mortais feridas, e lhe mortificava o que a novelística inspiração de suas idéias tivesse aflorado tão reforçadamente. Escreveu três rascunhos de uma longa carta ao professor McNaughton para impugnar sua suscetível precisão; e o terceiro rascunho, em cinco páginas de incansáveis e pedantes nota ao pé, o enviou ao Historical Journal da Universidade de Edimburgo. Sua nota foi publicada, com uma cáustica réplica de McNaughton que começava: «As fontes do jovem Mr. Babcock são, da primeira à última, tão impressionáveis e imaturas como o próprio Mr. Babcock», e continuava argumentando que nenhum grupo autodenominado na atualidade Franco-maçons, ou Rosacruzes tinha nenhuma relação documentada com grupos de similares nomes em tempos medievais. O grupo com uma história particular melhor documentada, dizia McNaughton, era o Rito Escocês Antigo e Aceito da Franco-maçonaria do que não se podia demonstrar existência posterior a 1723. O viperino McNaughton acrescentava, maliciosamente, que a crença de Sir John em autênticos segredos ocultos detrás da superfície da Franco-maçonaria era «pueril, absurda e pretensiosa».

         O jovem Sir John o leu com audível cólera e uns quantos bramidos johnsonianos de «Cão escocês!» e «Deus maldito!». Esteve a ponto de decompor-se quando sua contraréplica que nesta ocasião continha dezessete páginas infestadas de recônditas notas ao pé (e uma aguda resposta verbal sobre «aqueles que substituem a brilhante aliteração como convincentes argumentos») foi devolvida pelo editorial da universidade com a cortante explicação de que o Journal não dispunha de espaço ilimitado para debater propostas de tão microscópica importância.

         Ali teria terminado o assunto, em recolhido anticlímax, de não ter intervindo um misterioso terceiro.

         Um tal Mr. George Cecil Jones, de Londres, escreveu ao Sir John rogando-lhe o original de sua carta ao Historical Journal e assegurando-lhe que todas suas teorias eram corretas até no caso de que os documentos que sobreviveram aos passados séculos não fossem o suficientemente completos para as sustentar. «A autêntica tradição da Franco-maçonaria Cabalística», acrescentava Jones, «pode encontrar-se viva ainda entre certas lojas maçônicas, especialmente na Baviera e Paris. Inclusive existe uma loja maçônica de verdadeiros adeptos que mantêm às escondidas herança aqui mesmo, em Londres, nesta década».

         A imediata resposta de Sir John foi uma, muito precavida, carta dirigida ao Mr. (George Cecil) Jones, pedindo-lhe, com muito tato, transmitisse-lhe o muito que Mr. Jones pudesse saber atualmente da loja maçônica supervivente de Franco-maçons Cabalísticos de Londres, que aduziam descender do Colégio Invisível dos Rosa-Cruzes (baseado pelo sábio sufi Abramelin da Arábia, o qual se transmitiu por mediação de Abraham, o Judeu, ao Christian Rosenkreuz, quem jaz enterrado na Caverna dos Illuminati que, de acordo com as investigações de Sir John, encontra-se nos Alpes, dissesse o que dissesse o cão escocês chamado McNaughton).

         A resposta, no prazo de uma semana, era uma prudente missiva que convidava ao Sir John a jantar com o Jones na primeira ocasião que visitasse Londres, para poder discutir o tema com a extensão exigida e a apropriada intimidade.

         Sir John escreveu de volta, pelo correio, que se encontraria em Londres à seguinte quinta-feira.

         Aquela semana resultou chuvosa e úmida na Mansão Babcock; Sir John logo que saiu e consumiu quase todo seu tempo em rebuscar na biblioteca as primeiras edições de antiqüíssimos panfletos Herméticos e Rosacruzes, e quebrando cabeça uma vez mais com os enigmáticos escritos dos quais ele supunha formaram parte da soterrada tradição da magia cabalística.

         Releu O Matrimônio Alquímico de Christian Rosycross, com sua estranha mixórdia de figuras alegóricas egípcias e cristãs, os enochianos fragmentos que o doutor John Dee recebeu de uma entidade supostamente sobre-humana em tempos de Isabel I, o malicioso e crítico Besta Triunfante de Giordano Bruno, os escritos de Bacon, Ludvig Prinn e Paracelso. Uma e outra vez encontrou abertas, ou veladas referências ao condenável misterioso Colégio Invisível, composto por homens e mulheres Iluminados —os Amos Secretos—, quem, supostamente, governavam todo mundo atrás dos bastidores; e uma e outra vez perguntou a si mesmo se se devia arriscar a acreditá-lo.

         Sir John sonhou com o encontro com o Jones, vividamente, em não menos de três ocasiões durante aquela semana. Em cada sonho, Jones ia embelezado como um bruxo medieval, com um chapéu bicudo e roupagens da Ordem de São Jorge cheios de estranhos glifos astrológicos, e conduzia ao Sir John até o topo de uma escura colina que dominava um edifício gótico de indeterminado caráter, a meio caminho entre uma abadia e um castelo. O forte edifício era, naturalmente —como Sir John descobriu em novos sonhos—, uma mescla de várias ilustrações que representavam a Capela Perigosa da lenda do Graal, ou a Torre Escura, a que chegou Roldan. Dentro, de acordo com o oculto saber, escondia-se quanto temia; e só triunfando naquela prova, conseguiria alcançar as metas Rosa-cruzes: a Pedra Filosofal; o Elixir da Vida, a Medicina dos Metais, a Verdadeira Sabedoria e a Perfeita Felicidade. Em qualquer caso, sempre despertava com o olhar cheio de terror quando as portas da Capela se abriam para ele e escutava no interior um zumbido como o produzido por uma miríade de monstruosas abelhas.

         Em uma ocasião sonhou com o mesmíssimo doutor John Dee, astrólogo da corte de Isabel e o maior matemático de seu tempo, constantemente associado com espíritos e anjos segundo suas próprias demandas; e Dee lhe oferecia «o bago da distração», um fruto mágico que conferia imortalidade.

         «Tomem e comam da árvore a toda pressa», dizia Dee, mas o fruto cheirava a excremento e será desagradável de ver e tocar, e quando Sir John tentava rechaçá-lo, uma segunda figura, feminina e excitantemente nua; embora com cabeça de vaca, aparecia a costas do Dee e declamava solenemente «Ignatz nunca injuria realmente», enquanto todos eles se encontravam de novo subitamente ante as portas de uma imensa e insectóide Capela Perigosa.          Sir John despertou suando.

         Todas as lendas lhe advertiam que só o valente e puro de coração sobreviveria à viagem pela Capela Perigosa; e aquilo lhe animava fortemente, pois, igual a muitos jovens introvertidos, Sir John tinha mergulhado muito em seus próprios temores embora, desgraçadamente, muito pouco nos medos de outros, por isso, de modo equivocado, suspeitava-se como atipicamente tímido e covarde; quanto à pureza de coração sabia que tinha muito que desejar: assaltavam-lhe fantasias que não eram exemplos de castidade, embora quase sempre conseguia deter tais imaginações, antes de que os piores e mais inomináveis detalhes pudessem visualizar-se com toda sua lubricidade e pecaminosa sedução. Inclusive, quando ficava apressado naquela luta bestial de seus animalísticos desejos e os detalhes de algumas imensuráveis particularidades se formavam com total e compulsiva claridade em sua mente, nunca se concedia o favor de inundar-se, voluptuosamente, na fantasia de seu mímico, ou manipular, intimamente, aquelas particularidades; por mais desejosas, monstruosas e inexprimíveis que fossem. Embora, realmente, não pudesse dizê-lo que ocorria em tais ocasiões, o certo é que resistia triunfante quase todo o tempo a que se elevassem aquelas fantasiosas visões; mas, a culpabilidade daqueles poucos, estranhos e dificilmente típicos lapsos pesavam em excesso em sua consciência e pareciam levantar uma barreira tão clara como a bicameral criatura que lhe aparecia quando tentava romper os lacres da Capela Perigosa.

         De qualquer modo, aquilo era em sua totalidade mitologia: encantamento pelo sonho, embora qualquer um poderia voltar louco se tratasse com gente que acreditava (ou dizia acreditar) que esperava vencer na Capela Perigosa e voltar de novo para mundo, tão facilmente, como alguém que consegue apartar do tabaco...

         Na quarta-feira, Sir John não pôde demorar por mais tempo seu isolamento de suspensiva indecisão. Chamou o Dorn, o guarda-florestal de Babcock, e lhe pediu uma carruagem que lhe levasse ao longo das três milhas que lhe separavam do imóvel dos Greystoke, onde devolveu uma casual visita familiar à seu tio, o Visconde Greystoke, um homem de idade; mas, musculoso que parecia possuir uma, aparentemente, inesgotável sabedoria pragmática: era o mais rico e menos excêntrico de todos os membros das famílias Babcock-Greystoke, ao menos essa era a opinião mais generalizada. Depois da habitual conversa inicial sem interesse, Sir John, finalmente, represou suas perguntas.

         — Você acredita senhor, que existem ordens secretas, ou lojas maçônicas, ou fraternidades, que sobreviveram, ao longo dos séculos, transmitindo certa ordem de conhecimento oculto ou místico que, normalmente, não é compreensível para a mente humana?

         O velho Greystoke o considerou durante uns trinta segundos.

         — Não —respondeu finalmente—. Se assim fosse, algo teria que ter ouvido.

         Sir John cavalgou as três milhas que lhe separavam de casa em profundos pensamentos. A Idade e a Sabedoria tinham falado mas, não seria aquele acaso o ponto em que a juventude devesse mostrar seu desacordo com a Idade e a Sabedoria?

         À manhã seguinte, levantou-se muito cedo e tomou o trem de Londres. Sir John confiava em sua própria educação: tais lojas maçônicas existiam, e o único modo de comprovar seus proclamas de superior sabedoria era encontrar-se com eles e ver por si mesmo o que tinham a oferecer além dos trava-línguas hebreus e os absurdos jogos de mãos das ordens maçônicas.

         Encontrou no vagão um periódico americano: uma curiosidade em si mesmo, aberto pela página das tiras cômicas, uma arte na qual Sir John nunca tinha mergulhado. Olhou-a ociosamente e descobriu que em uma seqüência aparecia um malicioso camundongo chamado Ignatz, que sempre estava arrojando tijolos a um gato chamado Krazy. Era tudo uma loucura e, pior ainda, o gato desfrutava com os impactos dos tijolos, cantarolando, contente com cada projétil que lhe alcançava a cabeça: «Cirito, sempretanfel». Evidentemente, tratava-se de algum defasado dialeto judeu-americano para expressar: «Queridito, sempre tão fiel». Sir John estremeceu. Tudo aquilo não parecia nada divertido; era uma descarada exploração da perversão chamada sadismo. Ou se tratava de masoquismo? Ou das duas coisas? Em qualquer caso, uma triste ameaça... Constituía algo totalmente típico das larvais invenções dos homínidos domésticos da Terra daquelas primitivas idades. Duros sinais sônicos produzidos pelos músculos da laringe podem gerar unidades de fala capazes de programar toda a cogitação cortical na trama proporcionada pela gramática local, com ajuda de algo que denominam, infantilmente, lógica, ou sentido comum. Sob esta clássica confusão primária de sinais com fontes e mapas com territórios, uma grande parte do sistema nervoso dos homínidos fica geneticamente determinado, quão mesmo o mais proximamente relacionado sistema nervoso do chimpanzé, ou o mais distante sistema nervoso da vaca, pelo que pode inferir-se, que são operados de modo automático. Os programas de territorialidade, estado hierárquico, ocupação, etc., funcionam mecanicamente como Êxito Relativo Evolucionário, pois, servem, adequadamente, aos mamíferos normais em assuntos normais de mamífero. Os modos de estado-domínio, discernimento erótico e rudimentar (sujeito-predicado); «pensamento» causal estão impressos, tão mecanicamente, como os reflexos territoriais dos babuínos, ou as danças de emparelhamento dos perus reais. Posto que o comportamento dos personagens só muda sob o impacto de novas tecnologias (Primeira Lei de Gillhooley), a primitiva «Revolução Industrial» começou originando impressão e confusão para liberar umas poucas mentes da mecânica repetição de seu circuito impresso (Impressão e confusão são as únicas técnicas que deixam rastro nos personagens: Segunda Lei de Gillhooley); e uma certa qualidade de especulativa melancolia penetrou no magma genético, a qual é capaz de gerar em menos de setenta anos mutações que considerem a Migração Espacial e a Extensão da Vida; mas, de todas estas coisas, o jovem Babcock não era consciente. Nem sequer podia imaginar que, ao longo de sua vida, um homem cruzaria voando o Atlântico.

         Sir John chegou a Londres antes do meio-dia e decidiu preparar-se para sua entrevista com Jones, empregando a tarde em procurar velhos materiais maçons no Museu Britânico.

         Em um panfleto alquimista isabelino, encontrou, por pura coincidência, um longo poema alegórico que lhe turvou de um modo estranho, considerando que referia o contato com pretendidos manipuladores de oculto poder. Uma estrofe em particular lhe perseguiu enquanto avançava em cabriolé, cruzando a cidade, rumo ao Simpson's Café Divan, onde lhe tinha pedido Jones que acudisse. Os cascos do cavalo pareciam repetir o estribilho:

                            Não terá que acreditar no olho humano

                            Nem sob o sol nem na sombra

                            Os arlequins que vêem e sentem

                            Só participam da Máscara do Diabo.

         Ao passar ante o Teatro Savoy, Sir John viu que a companhia de D' Oyly Carte, havia retornado com paciência. Recordou, com certo agrado, a canção de Bunthorne:

                            Se este jovem se expressa em termos muito

                            profundos para mim

                            Por que tenho que pensar que esse jovem tão

                            profundo é um jovem tão profundo?

         A zombadora melodia era um refrescante hálito de cepticismo e sentido comum britânico, pensou Sir John. Quando entrou no Simpson's, estava disposto a enfrentar-se ao enigmático Mr. Jones sem sobressaltos.

         Mr. George Cecil Jones era robusto, educado e demonstrava possuir um impecável paladar em questão de vinhos. Também semelhava ser tranqüilizadoramente normal, pois não levava chapéu de bruxo e falava de seus filhos com muita ternura; melhor ainda, era químico industrial de profissão e não um desses crentes de olhos turvos capazes de levar ao Sir John pelo caminho da Terra das Brumas. As pessoas não podiam fazer outra coisa, que simpatizar e confiar nele.

         Jones aparentava a quarentena, mas não demonstrou condescendência alguma pela juventude de Sir John; tampouco parecia abertamente impressionado pelo título de Sir John. Um singelo e categórico inglês com certa base de sentido comum e decência, concluiu Sir John. O homem levou certo tempo até esboçar o mínimo sobre o Colégio Invisível.

         — Você deve entender, Sir John, que estes assuntos estão envoltos em duros Juramentos Secretos e ameaçadoras rogativas de silêncio —concluiu Jones eventualmente—. Tudo que detectamos parece obtuso nesta livre e iluminada época — rogo-lhe, perdoe minha ironia—, mas forma parte de uma tradição que se remonta aos tempos da Inquisição, quando, naturalmente, tudo isso era, absolutamente, necessário.

         Sir John, com a franqueza da juventude, decidiu perguntar algo que continha certa prova:

         — Devo entender, senhor, que está você ligado a algum tipo de Juramento?

         — Por Deus e por tia Agnes! —disse Jones, mais divertido que ofendido—. Alguém não faz essas pergunta na primeira entrevista. Considere a paciência do pescador antes da ansiedade do jornalista... se é que quer abrir a porta dos Arcanos Ocultos.

         Atacou então o filet mignon com imbatível vigor, como se o equívoco não fosse equivalente de admissão. Sir John o compreendeu: estava-lhe provando; estimava sua altura exata em a escala evolutiva.

         — Leu você, meu livro sobre a Cabala? —perguntou a seguir, tentando um aproximação indireta—. Ou só o debate do Historical Journal ?

         — Oh, li seu livro —disse Jones—. Não perderia isso por nada do mundo. Não há nada mais comovedor e atrevido, ao menos neste planeta, que um jovem escrevendo apaixonadamente, sobre a Cabala, sem ter nenhuma experiência real sobre seus mistérios.

         Sir John detectou a pontada das palavras de Jones, mas se limitou a responder:

         —Até o momento, não me dediquei à experiência pessoal e só trabalhei com os registros históricos.

         —Mas, agora —respondeu Jones—, está interessado na experiência pessoal?

         —Possivelmente —replicou Sir John cuidadosamente, sentindo um bravo êmulo de Byron—. Principalmente, interessa-me demonstrar minha tese de que certos grupos sobreviveram ao longo dos séculos... e demonstrá-lo tão convincentemente que inclusive essa cabeça de mula do Edimburgo terá que reconhecer que tenho razão!

         Jones assentiu com a cabeça.

         — O querer demonstrar a si mesmo que tem razão, é a principal meta dos estudos —explicou brandamente—. Todavia, ao grupo de que estou falando, nem lhe interessa deixar rastros no registro histórico, nem quer a mínima publicidade. Olhe, Sir John, realmente, não lhes interessa nem o que pense o mundo em geral, nem o que considerem os pomposos asnos das universidades em particular. Seus interesses são muito diferentes.

         Sir John acreditou estar jantando com um membro do mesmo Colégio Invisível que publicou os primeiros panfletos Rosa-cruzes de 1619 e 1623. Procedeu com grande delicadeza.

         — Em sua carta —disse—, falava desse grupo, com muito cuidado, no passado. Acredito que suas palavras exatas foram: «Inclusive existe uma loja maçônica de verdadeiros adeptos que mantêm às escondidas, a herança aqui mesmo, em Londres, nesta década». Exatamente, quantos anos faz que existe essa loja maçônica?

         —Desapareceu faz exatamente dez anos, em 1900.

         —Seu nome?

         —Ordem Hermética do Amanhecer Dourado.

         Sir John exalou profundamente e tomou um sorvo de vinho.

         — Você foi menos indireto em suas respostas —disse, com agrado—. Tomo como um bom sinal. Deixe que me adiante um novo passo para o objetivo. É possível que a Ordem não desapareceu completamente faz uma década?

         —Há muitas coisas possíveis —respondeu Jones, acendendo um charuto e fazendo um gesto para que lhe servissem um pouco mais de vinho—. Antes de continuarmos, permita-me mostrar-lhe um singelo documento que devia assinar cada membro da Ordem e acatá-lo, sob os mais terríveis Juramentos. Poderá estudá-lo durante um só minuto, Sir John. — Tirou do bolso da jaqueta uma singela folha de papel normal escrita com a mais vulgar das máquinas de escrever.

         Sir John considerou o estranho documento com certo cuidado.

         Eu [o nome] invoco solenemente Aquele Que Temem Os Ventos, Senhor Supremo do Universo, com a palavra maçônica [descoberta ao candidato antes do ritual] e juro que eu, como membro do Corpo de Cristo, desde este dia e para sempre, procurarei o Conhecimento e Conversação de Meu Sagrado Anjo Guardião, para adquirir o Saber Secreto, que transcende a mera humanidade e ser um com a Altíssima Inteligência; se usar este Sagrado Saber para obter lucros materiais de qualquer tipo, ou para machucar a qualquer ser humano, serei maldito e condenado; cortar-me-ão a garganta; queimar-me-ão os olhos; meu cadáver será arrojado ao mar; serei odiado e desprezado por todos os seres conscientes, homens e anjos, após até a eternidade. Juro. Juro. Juro.

         — Muito estranhas palavras —comentou Sir John, a desgosto. Seguiremos açoitando a essa beztia timodata sempretanfel.

         —É o Juramento do Primeiro Grau, que juram os estudantes —explicou Jones—. Os Juramentos de maior nível são muito mais fortes, o advirto.

         Sir John decidiu deixar o medo para mais adiante.

         — Assinaria um Juramento semelhante com fervente consentimento — disse intrepidamente, rendendo sua virgindade espiritual antes de ter o valor de entregar a virgindade de seu corpo.

         —Muito interessante —replicou Jones, afável, recuperando o documento e voltando para guardar no bolso—. Falarei com certas pessoas. Ouvirá de nós em uns quinze dias.

         Durante o resto da velada, muito breve, Jones falou tão somente de seus queridos filhos e de sua, igualmente amada, profissão de químico industrial. Não houve nada oculto ou extraordinário em tudo isso. Em certo modo, resultou inclusive aborrecido; tanto, que Sir John chegou a lhe considerar como um dos selenitas de H.G. Wells disfarçado de humano, o que, naturalmente, era uma tolice. Entretanto, o que havia no Jones que deixasse aquela impressão?

         No trem, a caminho de casa, pela mais impossível das coincidências —o mais normal é que nem sequer viajasse no mesmo compartimento—, encontrou novamente um periódico americano e, mais estranho ainda, voltou a encontrar-se com o sádico camundongo e o gato masoquista: «Cirito, sempretanfel».

         Depois de quatro anos de treinamento no Amanhecer Dourado, Sir John se sentiu exatamente igual ao estranho gato, e quando John e Einstein se ofereceram a lhe ajudar na Bahnhofstrase, riu tola e nesciamente e disse: «Cirito, sempretanfel».

         Preparando-se para algo, Einstein escovou os resíduos amontoados no caro, mas sujo traje de Sir John e alcançou-lhe o chapéu do Bond Street animando-lhe como um ortodoxo samaritano, coisa que necessitava em grande medida. Sir John não estava delirando, não exatamente (esquecendo o fato de suas observações no Yiddish nova-iorquino), e só se sentia ligeiramente incômodo fisicamente, com o que, depois de expressar seus desejos de tomar um café, ou qualquer outro estimulante cerebral menos perturbador que o uísque, Joyce sugeriu imediatamente, como bom farrista que era, que Babcock lhe acompanhasse, ao Joyce, a sua casa (a de Joyce), que se encontrava a um tiro de pedra do ponto em que se encontravam (ou, melhor dizendo, cambaleavam-se) da Bahnhofstrasse. A proposta foi aceita com diligência e com muita gratidão verbal e os três se plantaram em meio da noite úmida e chuvosa considerando como uma completa improbabilidade, fronteiriça com os contos dos Irmãos Grimm, o encontrar um carro de aluguel àquela hora, sobre o qual Joyce, significativamente, observou que:

         — Ouvimos as badaladas de meia-noite.

         Ao que Babcock, que não queria passar por um iletrado, replicou:

         — Falstaff, verdade?

         — Sim —confirmou Joyce—. Enrique IV, Primeira Parte. —Ambos se olharam, encontrando algo misterioso ou, pelo menos, emocionalmente gratificante no compartilhado conhecimento do Bardo imortal, embora só Joyce dava a entender que a meia-noite era muito mais tarde para Falstaff, acostumado a uma economia de pôr e sair do sol, que para ele mesmo e Babcock, adequados à era industrial —Babcock estava ocupado com a prosaica questão de saber o realmente tarde que era, ansioso por saber de verdade se escutaram as badaladas de meia-noite, e quanto faria disso—, mas não expressava nenhuma de suas perguntas em voz alta, de modo que os três homens se mantiveram em silêncio durante um tempo como se nenhum deles pudesse fazer nada mais brilhante, ou dar provas de mais agudo engenho; Einstein não estava seguro das badaladas; Joyce perambulava tão cheio de cerveja que nela poderia flutuar um navio local se tivessem contado os suíços com uma hipotética armada; Babcock tinha a pele de galinha, mas, de qualquer maneira, tentaram conversar de um modo amável ou, quando menos, civilizado, embora não o conseguissem à primeira intentona, pois, tanto Joyce como Babcock se mostravam tão nervosos como um par de tubarões que fossem conscientes de permanecer a cada lado do abismo histórico e temperamental que se abria entre as mentalidades anglo-saxônios e irlandesas. Era duplamente terrível o primeiro intento de Babcock, por abrir a porta entre seus mundos, resultasse quase um torpe de macaco charlatão.

         — Como irlandês, você, naturalmente, deve ser um místico — pronunciou Babcock, colocando ao Joyce o pé quase na boca, enquanto, simultaneamente, chutava seus rincões mais sensíveis—. Você deve saber que existem grandes e invisíveis força e inteligências detrás da máscara da realidade material. Por acaso, conhece o Yeats?

         —Sim —replicou Joyce evasivamente, manobrando para evitar uns excrementos de cão, coisa que, com toda certeza, teria plasmado de ter escrito a cena e que, com segurança total, Yeats teria excluído—. Não é esse tipo ao que lhe aterra pensar que o futuro possa ser diferente do passado?

         — Nunca o considerei dessa maneira — respondeu Babcock, mostrando sua desaprovação com um franzimento do cenho ante aquela chamativa prova de engenho—. Mr. Yeats é um homem que teme que o futuro possa ser frio, cientista, materialista, sem o romantismo e mistério do passado.

         Einstein não dizia nada. Encontravam-se junto a um Automóvel FIAT, e Joyce o olhou por todas partes com uma meticulosidade que ao Babcock pareceu quase obsessiva.

         — Vêem-se mais cada ano que passa —observou Joyce—. Tenho lido ultimamente que um americano chamado Olds os fabrica, e os entrega aos clientes, a um ritmo de seis mil, ou mais, perannum. Como funciona este cachorro do inferno, tem para mim mais mistério e romantismo, que algo que possa encontrar-se no fabuloso passado que tanto deseja albergar junto a seu peito o autobiografiado herói do Mr. Yeats. Neste engenho há uma Varinha mágica, chamada embreagem, que impulsiona à mística limusine à velocidades que ultrapassam os quarenta quilômetros por hora. Eu gostaria de saber, algo mais do que sei, a respeito de física mecânica.

         — É um singelo fenômeno natural —explicou Einstein, solícito—. Mas, estou seguro de que nestas alturas não quererá ler nada sobre combustão interna. —Naquele momento, estava mais interessado em observar a seus dois estranhos companheiros, confiando em que pistas posteriores esclarecessem por que a Máscara do Diabo resultava tão terrível para o Babcock, que nos sons das badaladas de meia-noite—. Funciona mediante explosões controladas —acrescentou, confiando em que aquilo lhes bastasse.

         — Hmm. Sim, certamente —disse Babcock, com pouca certeza—. Não conduziria um nem por um milhão de libras. Ouvem-se histórias aterradoras a respeito dos acidentes. Deus nos deu o cavalo para que não tivéssemos que inventar tão perigosos engenhos. Aterra-me pensar no que será do mundo dentro de dez anos quando as ruas estiverem cheias deles.

         — Claro —comentou Joyce, embora sua progressão lógica resultasse totalmente inescrutável para o Babcock—. Se nós, igual ao Mr. Yeats, procuramos um mistério profundo, sem fim, sem fundo e sem teto, podemos tentar compreender a nossas amarras. Ou, ao primeiro, que nos encontramos pela rua, n’ est ce pas?

         Babcock meditou sobre aquele cínico conceito durante uns momentos, até que se deram conta de que outro homem se aproximava deles pela rua: um tipo singular, com uma fronte alta e shakespearina; olhos de íbis de mongólica; simiesca crueldade; e uma barba da escura, cor do aço. Tão impressionante era seu aspecto que, influenciado em certa medida pela última observação de Joyce, Babcock observou miopemente ao eslavo estrangeiro, enquanto este se encaminhava para a zona do rio Limmat comentando em voz baixa:

         — Compartilhei a cabine do trem com ele. Qualquer um pode encontrar profundos mistérios em um indivíduo como esse.

         — Maldito vento —disse Joyce, cravando o ar usando a bengala como caduceu —. Os nativos o chamam vento enfeitiçado. Quando sopra, Zurique parece voltar louca. Os que somos do norte o sentimos mais, pois esperamos que o vento seja frio e mordente. Um vento tão quente que sufoca lentamente é como uma inesperada, indesejável e suja amante que lhe mete na cama.

         Na distância, um cão uivou repentinamente com uma horrível cadência descendente, como um lobo ou um coiote.

         — Vê-o? —perguntou Joyce—. Inclusive os animais enlouquecem quando sopra o Föhn.

         — É como o incenso de sândalo branco —adicionou Einstem —. Muito espesso e carregado para resultar agradável.

         — A polícia informa — explicou Joyce com um tom opalino e místico — que demonstram que o índice de assassinatos sobe quando sopra o Föhn, e os alienistas locais dizem que o número de ataques nervosos aumenta de modo alarmante. Muito sinistro e aterrador, verdade? Mr. Yeats diria que as ondinas e os espíritos das águas tentam controlar aos elementais do ar no plano astral, sujando com tanto esterco o plano material como para que resulte impossível caminhar por ele. — Como Thoth, trocou novamente, acrescentando cinicament—: Mas, só é uma alteração da ionização do ar e pode medir-se com os adequados instrumentos científicos que tanto assustavam ao Mr. Yeats.

         Aquilo conduziu a um total embrulho que não lhes abandonou durante todo o caminho até o hotel de Joyce , durante o qual este descobriu que Babcock era um ardente admirador não só da pueril (embora elegante) poesia do Mr. William Butler Yeats, mas sim, do detestável (embora amável) Mr. Yeats em pessoa, e que era inclusive membro (junto com o Yeats) da Ordem Hermética do Amanhecer Dourado, um grupo de ocultistas londrinos, dos quais Joyce se forjou muito tempo, antes uma decididamente desfavorável opinião, considerando-lhes, friamente, como uma brincadeira de muito mau gosto. Babcock, em troca, reuniu várias observações sardônicas e pouco afortunadas lançadas en passant pelo Joyce, quem considerava o Yeats (junto com o Amanhecer Dourado, Blavatsky e todo o misticismo moderno) com um desdém que ao Babcock parecia injustificadamente venenoso. As coisas começaram a esclarecer-se ligeiramente, ao menos na alterada mente de Babcock, quando gradualmente foi emergindo o fato de que Mr. Joyce era também escritor, mas grandemente de menor êxito que Yeats, se não virtualmente desconhecido, o que, junto com a suspeita a respeito das emblemáticas Uvas Amargas e o conhecido Monstro de Olhos Verdes, o permitiu de Babcock esboçar naquele ponto quase todos, embora não todos, os fatos: pois só os loucos estão totalmente seguros das coisas.

         — Entendo —disse Babcock quando chegaram finalmente ao Gasthaus Doeblin— que você é socialista, ou anarquista, se não as duas coisas.

         — Tem ante você um terrível exemplo de desenfreado anarquismo individualista —replicou Joyce brandamente—. Aborreço a todas as nações por igual. O Estado é concêntrico, mas o indivíduo é excêntrico. Bem-vindo à casa dos horrores desta parte do Dublín —acrescentou, assinalando o pôster: GASTHAUS DOEBLIN (traduzindo, perversamente, o rótulo de acordo com seu duvidoso capricho).

         — Graças a Deus que podemos escapar desse louco vento —disse Einstein fervoroso, enquanto cruzavam o vestíbulo cheio de tapetes amarelos, rodeado por papel pintado, onde se viam palmeiras e bonitos encarapitados nelas. («Meu hoteleiro tem estranhas idéias a respeito da decoração», comentou Joyce em sotto voce.) O edifício parecia um octógono, e Joyce conduziu a Babcock e ao Einstein por sete de seus lados até chegar à Habitação 23, que contava, anunciou, «com café da manhã, no que se desfruta o melhor café expresso italiano a este lado do Trieste, pois eu mesmo o trago do Trieste».

         Caminhavam nas pontas dos pés, Babcock e Einstein imitando ao Joyce, e se detiveram enquanto Joyce abria lenta e silenciosamente, uma porta e olhava brevemente em uma desordenada habitação em que uma corpulenta e atrativa mulher dormia entre enrugados lençóis.

         — Essa deve ser a Senhora Joyce — disse Babcock.

         — Indubitavelmente — recalcou Joyce —, mas é Miss Barnacle.

         Algo mais, que ligeiramente impressionado, por aquele franco encargo de comportamento bárbaro, para morais civilizadas e os cânones da mais elementar decência, Babcock recordou a si mesmo que o arrogante irlandês era, depois de tudo, seu anfitrião e que lhe estava dando amostras de maior magnitude que as consideradas normais no grau da simples caridade: pois devia lhe ter, em primeiro lugar, por um perfeito desconhecido, em segundo, por alguém que podia estar totalmente louco, além de membro da conquistadora e provavelmente aborrecida raça inglesa, em terceiro. Dirigiram-se à cozinha e Joyce começou a preparar café, depois de depositar a Máscara do Diabo em um dos afiados entalhes do relógio de cuco.

         — Assim diz —comentou Joyce— que este amigo de rosto de cabrito lhe persegue do Loch Ness.

         — Com suas opiniões —replicou Babcock—, deve pensar você que é tudo uma fantasia e atrever-me-ia a dizer que se vá a si mesmo tão divertido como um lunático. Recordo-lhe, senhor, que já morreram horrivelmente três pessoas envolvidas neste terrível assunto.

         — Perseguidas —indagou Einstein brandamente— pelo mesmo demônio que agora persegue você? — Com dedo acusador golpeou a Máscara do Diabo sob o queixo, interpretando expertamente —: Uma mascarada em que não há ninguém sob as máscaras?

         — A máscara do diabo —respondeu Babcock com amargura.

         Aquilo fez cambalear ao Joyce, que voltou para o poema recolhido em Bahnhofstrasse, embora não podia recordar o nome do autor, nem se era acaso de seu bardo favorito da antigüidade, Anon de Ibid. Uma nova estrofe derivou espontaneamente pela superfície de seu cérebro:

 

                                      Os demônios bebem em caveiras humanas

                                      E negociam com as almas

                                      Bebendo e drogando-se e unindo-se a nós em

                                      A Máscara do Diabo

 

         Joyce descobriu (perguntando-se se o Dr. Carl Jung pagaria por estar ali tomando notas) que aquela espécie de maldita coincidência peculiar se multiplicava rapidamente durante a noite.

Refletindo em silêncio durante uns minutos, o livre pensador irlandês serviu café e começou, ausentemente, a atar um cigarro olhando, pensativamente, ao místico inglês.

         — São Tomás disse — comentou Joyce sobriamente— que o Demônio não tinha poder para ferir realmente àqueles que confiam no Senhor, embora desconfiava e temia que tivesse que pôr sua fé a prova. De fato, senhor, a fértil heresia que diz que em tais ocasiões pode ocasionar um dano real, implica falta de fé na bondade de Deus. Ah! — interrompeu-se a si mesmo —. Vejo que lhe surpreende que utilize esta linguagem. Bem, senhor, se tivesse que acreditar em algum tipo de misticismo, seria no de Tomás que é lógico, coerente e cheio de frio sentido comum, não como o dos modernos ocultistas que é ilógico, absurdo e cheio de ar quente. Mas, de momento, deixemo-lo. —Atou o cigarro e assinalou a máscara—. Que classe de demônio de saldo, de segunda mão, é aquele que necessita truques de teatro para seus sujos negócios?

         Babcock, que se sentia melhor, sorriu forçadamente para ouvir a aguda observação.

         — Você me confunde —começou—. Sou plenamente consciente de que há seres humanos envoltos neste horrível assunto, mas possuem poderes que não são concedidos ordinariamente aos meros homens, pois servem a um ser que não é humano. Evidentemente, você pensa que sou dos que se assustam ante singelos truques de teatro, como os chama, mas já enfrentei terrores que você dificilmente poderia conceber. Ocasionalmente, não me aterrorizaria pelo que tive ocasião de ver esta noite: uma figura com a cara de Satã vindo para mim subitamente na escuridão. O verdadeiramente diabólico foi que eles me encontrassem quando tomei elaboradíssimas precauções para ocultar minha pista e evitá-los.

         Joyce serve mais café silenciosamente, sem tocar o cigarro de ponta acesa que exibia na mão esquerda. Desde Loch Ness à Zurique: a mim. Os terrores que conheci na infância: os uivos dos condenados, enforcados, demônios com rosto de babuíno, escandalosas silhuetas envoltas pelas chamas. Muitos monstros civilizados. O antigo pesadelo de Zoroastro da qual o Ocidente quer despertar.

         — E, como —perguntou Joyce— morreram essas três pessoas? Com as gargantas abertas pelas garras de algum terrível monstro, como nas novelas góticas de Walpole?

         Sir John, atuando por motivos de inerente delicadeza, assumindo que devia mostrar-se agradecido pela cortesia de seu anfitrião, embora tão irado como pode estar um hóspede, reprimiu várias afiadas respostas que quase afloraram a seus lábios e se limitou a dizer:

         — Foram levadas à suicídio.

         — Por máscaras e múmias! —exclamou Joyce, sem preocupar-se com esconder a ironia de suas palavras. Então, tomando a máscara, colocou-a ante sua vermelha cara e inclinou-se ameaçador sobre a mesa—. Por truques de teatro como este? —perguntou sua voz detrás da máscara com acento dublinês.

         — Foram levados à suicídio por um livro —disse Sir John—, um livro tão vil que não deveria existir. Apenas em olhar essa louca obra literária, as três vítimas foram conduzidas ao terror e destruíram-se a si mesmos. Descobriram algo que provocou que a vida neste planeta se fizesse tão intolerável para eles que não quiseram ter nem um só instante mais de consciência.

         Einstein olhou ao jovem inglês com certa semelhança à conhecida conjetura da lança de Dario.

         — Algo no que você estava envolto? —perguntou em voz baixa—. Não se trata de algo que tenha ouvido, um rumor, ou um conto?

         — Tão real como este café, o prato, a mesa —disse Babcock secamente, assinalando os três objetos com enfáticos gestos, enquanto seus olhos recordavam em silêncio alguma terrível história de ateísmo e incontáveis loucuras que pudessem lhe saltar às costas, a qualquer momento, tempo ou lugar, como a proverbial serpente que se oculta na erva, como se não fosse judicioso que homens valentes e avisados o cortassem de raiz atuando rápida e prudentemente no momento psicológico adequado e golpeando quando o ferro estivesse ainda quente.

         Joyce e Einstein trocaram mudas olhadas cheias de significado.

         — Deixe-me lhe ensinar no que estou metido —disse Babcock, tirando algo da mala de palha - é do Express Journal de Inverness —acrescentou, tirando uns papéis presos com um clipe.          Joyce e Einstein os leram juntos.

 

                                  O CASO DOS SUICÍDIOS CONSTANTES

                                          O terror brota no Loch Ness

                                            A Polícia desconcertada

 

  1. Que parágrafo causou mais impressão ao Professor Einstein?
  2. «Outros residentes consideraram o cepticismo do Inspetor, com a velha regra de nem esposa, nem cavalo, nem bigode, só desprezo e um meio sorriso».
  3. Einstein referiu-se a esta particular confusão?
  4. Com embaraço, com temor, com certa suspeita de que o problema poderia ser causado por seu deficiente conhecimento do inglês.
  5. Foi esclarecido, ao menos, o assunto?
  6. Foi graças à concisa explicação de Joyce: «É uma sobreposição tipográfica. Parte de uma linha mesclou-se com outra coluna.»

         Einstein olhou ao Sir John com renovado interesse.

         — Conte-me toda a história — pediu, começando a carregar o cachimbo.

         Joyce assentiu, esparramando-se na cadeira como um homem invertebrado. O Föhn sacudiu a janela desde fora como se um fantasma quisesse entrar.

         AÇÃO - SOM

         EXTERIOR. MANSÃO BABCOCK. PLANO LONGO

         A bicicleta barata encontra-se em um caminho perto da casa. A bicicleta cai. Não há vento, ou outra causa evidente; simplesmente cai.

         Voz de Babcock: «...promete que nunca revelará arte ou artes, parte ou partes...»

         A Valsa de A Viúva Alegre se sobrepõe às palavras de Babcock.

  1. Com que espécie de vida animal ou vegetal estava mais sortida a Mansão Babcock?
  2. Um bando de corvos; uma exaltação de cotovias; uma nuvem de gatos; uma assembléia de perus; uma toca de raposas; uma guarda de rouxinóis; uma granja de toupeiras; uma manada de gansos; uma família de frangos; um parlamento de quinquilharias; um lago de patos; um galão de sapos; uma chiqueiro de porcos; um amuleto de patas; um murmúrio de estorninhos; um ninho de garças; um rebanho de moscas; um carinho de pombas; um amanhecer de rosas; dunas à beira mar de trutas; uma maré de gralhas; uma glória de violetas; um agulheiro de ouriços; um encanto de gatinhos; uma alucinação de glórias da manhã; um entardecer fúcsia; uma majestade de carvalhos; uma meia-noite de corvos; um meio-dia de samambaias, uma coberta de fúlicas, um pranto de salgueiros, uma risada do cosmos, uma hilaridade de gardênias, uma sauna de pessegueiros; uma tolice de grilos e um milênio de musgo.
  3. Que tipos de livros guardava Sir John na biblioteca da Mansão Babcock?
  4. Uma prevaricação da política; uma cronologia da história; um gnomo de mitologia; um esboço de teologia [incluindo uma serenidade budista, uma cosmologia hindu, uma inescrutabilidade taoísta e uma guerra cristã]; a loucura dos Alhazreds; uma fumarola de alquimistas, uma árvore dos cabalistas, uma heresia de Bruno, um montão de Llulls, uma ova de Bacon, uma mistificação rosacruz; um silêncio sufi, um Enoch de Dees; uma sabedoria dos gnósticos; e uma pequena choramingação de romance.

         A noite posterior ao encontro com o George Cecil Jones, Sir John sonhou novamente com a Capela Perigosa, nesta ocasião ia fortemente armado, em um castelo de vermelhas muralhas propriedade de um ogro devorador de homens chamado Sir Talis.

         — Devem entrar sem ser plantado — dizia o Juiz Don Nadie — para lacrimejar que as runas são vermelhas.

         O Rei Eduardo III, vestido com o convencional traje de negócios de George Cecil Jones, passeava por uma sala numinosa e incandescente, murmurando algo sobre a impotência da honestidade.

         — O bater das botas —acrescentou Je Je Commons de modo a ajudar —. A porta do vestíbulo permite sair ao Papa do Vaticano.

         — O incandescente e inquebrável — chiava uma quinquilharia gigante.

         — O sol arde dentro —murmurava o tio Bentley—. Falem e ululem!

         Sir John descobriu que estava no Templo do Rei Salomão descrito na literatura maçônica.

         — Ajoelhem ante o Thor ordena-o Sir Talis — rugia um Leão.

         — Atravessar uma névoa espessa sobre o ar — assobiava uma Águia

         — Que arda o sangue! — exclamou Sir Knott, o Todo-poderoso—. Considerem os conselhos do ódio! —Sir John, um homem só sob o sectarismo, tropeçou pela caverna da quinquilharia, cheia de esqueletos, um tripentoctócono, onde brilhava uma dúzia de amanheceres. Um pôster dizia:

                          NÃO SE MISTUREM NOS ASSUNTOS DOS BRUXOS:

                            EMPAPA-LHES E SÃO DIFÍCEIS DE ILUMINAR

         — Foi dito que o velho servente da Inveja — lia um Anjo — chorou ao fragmentar o trigo e roncou meio dormindo, sem ser roído pela umidade do rocio. Sacudiram-se em uma piscada, Jenny, a Estaca, e o Irmão Putrefação; o Hamster e, afrouxando-o, um camundongo com sete fios de bigode.

         —Esses —explicou Jones, com um gesto de seus ossos— são os que atravessam este caminho sem o Pentáculo do Valor. O que bebam, Sir Joan: amaldiçoará a perda dos ossos?

         Antes de que Sir Joan pudesse decidir a respeito da falta de literalidade da pergunta, encontraram-se nas escuras costas do Tirano, na asa lateral do Brutus Museum; na refrigerante sombra da árvore devorada pelos vencilhos; os três ovus desafiando as tesouras, e Karl Marx lendo em voz alta o que parecia ser a história secreta da Franco-maçonaria: «E Salomão era um rei matizado, e guardava sua égua na cauda de seu espinhaço roto para contar seu mel; e o SENHOR falou nele e lhe disse: Salomão, toma. E Salomão tomou; e a loucura da tumba do Salomão derramou e alagou tudo. E Sol O'Morn converteu-se em Nightres e Nighttricks, em Mars Harem e Moose Hiram, em Sir Talis; e Surd Alice, em Roy O'Range Yellagroin; e Roy O'Range Yallagroin em pequeno Motor Soprador». Naquele ponto, recorreu a dialetos russos.

         — Não sobra nada melhor para fazer que agüentar tudo isto? — perguntou Sir John, ouvindo-se si mesmo, despertando sob o sol da manhã.

         Sentou-se e encontrou-se meio sonhando, ou falando internamente.

         — Somos da mesma matéria que os sonhos — disse sua voz, ou a voz de alguém. Shakespeare, naturalmente: A Tempestade. Uma grande linha, comentada muitas vezes; mas, se alguém pensa-o, o que é que realmente quer dizer? O que quer dizer A Tempestade? Se Próspero for o próprio Shakespeare, como dizem os estudiosos, por que Próspero é mais mago que poeta? Por que se associa com fadas, elfos, o monstruoso Calibán e toda a assembléia do oculto? E «O jovem Roldan chegou à Torre Escura». O que significava aquela linha de Lear que nada tinha a ver com a trama geral? Formava parte Shakespeare do Colégio Invisível?

         Sir John tomou o café da manhã tão abundantemente como de costume e, continuando, deu um longo passeio, reafirmando-se na solidez da matéria e a realidade da terra, o céu e as árvores. Não via ameaça alguma em que lhe conhecessem como um romântico, mas não tinha intenção de converter-se em um maldito louco.

         Quando voltou para casa e ficou a ler o Times de Londres, descobriu que Stolypin, o primeiro-ministro russo, fora assassinado, o último dos brutais crimes cometidos durante a última década do século dezenove e a primeira do vinte e que pareciam um prelúdio à ascensão da anarquia em todo mundo. Tentou recordar seus pais e seus próprios sentimentos quando morreram; mas, só encontrou dor no lugar em que devia estar aquela lembrança. Se se podia contar com algum tipo de sabedoria superior, ou alto conhecimento, Sir John sentiu que a raça humana necessitava-o muito pouco. A vida, a sabedoria normal e o conhecimento ordinário, pareciam ser apenas uma singularidade apagada e uma brincadeira brutal. «Que lhes cortem a cabeça! Que lhes cortem a cabeça!» Deus parecia expressar-se em um galimatias a maior parte das vezes, como a Rainha Vermelha da Alicia. Matar-nos-á realmente por esporte?

         Sir John dedicou-se, as duas semanas seguintes, a reler e meditar sobre os panfletos clássicos dos Rosa-cruzes do século dezessete. Tudo que Jones ilustrasse tão prosaicamente se encontrava neles: o Irmão do Colégio Invisível dos Rosa-Cruzes «embelezado de acordo com a moda» do lugar em que residisse e «adaptando a isso todo seu vestuário»; embora sempre comprometido com o Colégio Invisível, não dava nenhum sinal manifesto disso, aos olhos do mundo, exceto podia curar aos doentes sem cobrar nada pelos serviços prestados.

         No ponto exato em que terminou a quinzena, Sir John recebeu um pequeno pacote pelo correio remetido do Compartimento Postal 718 do Escritório Principal de Correios de Londres. Em seu interior encontrou um panfleto intitulado «Lição de História». A autoria do mesmo correspondia a:

         Ordem Hermética do A.·.D.·.

         O coração de Sir John lhe saltou no peito; sabia o que representavam aqueles pontos piramidais em simbologia oculta: uma ordem que possuía a original Palavra Maçônica, mas a havia perdido, de modo admitido, por todas as demais ordens maçônicas. Das anônimas Muses Threnody de 1648, recordou:

         Para quantos somos irmãos na Rosa Cruz

         Temos a Palavra Maçônica e a segunda visão

         De coisas que ocorrerão e podemos ver claramente

         Com dedos trementes, Sir John abriu o panfleto e começou a ler a história secreta da Ordem Hermética do Amanhecer Dourado. Em 1875, dizia, um grande incêndio destruiu a Sede Franco-maçônica de Londres. Robert Wenworth Little —um escritor cujos livros de maçonaria eram conhecidos pelo Sir John— encontrou alguns documentos perdidos muito tempo atrás, enquanto resgatava importantes cartas e outros objetos de valor das chamas. Aqueles misteriosos papéis se encontravam redigidos em uma chave desconhecida para o Little, ou para qualquer outro franco-maçom de sua época. À força de um contínuo e meticuloso esforço e perseverança, Little, finalmente, resolveu o código, decifrando os documentos e encontrando-se em posse dos segredos do Colégio Invisível; secretos que a Franco-maçonaria ortodoxa tinha perdido muito antes. Os documentos facilitavam também o enlace com uma ordem continental que parecia possuir segredos incluso mais profundos e dava a direção de uma alta iniciada chamada Fraulein Anna Sprengel, em Ingolstadt, Baviera.

         A lição continuava explicando como Robert Wenworth Little e outros vários franco-maçons londrinos, guiados por Fraulein Anna Sprengel, fundaram a Ordem Hermética do Amanhecer Dourado, admitindo, originalmente, a seus membros só entre aqueles que haviam alcançado os mais altos graus maçons. Empregando as técnicas que lhes ensinasse Miss Sprengel e os documentos cifrados, recrearam gradualmente todo o repertório de trabalho do ocultismo cabalístico que subjazia à Ordem Rosa Cruz da Franco-maçonaria; dedicaram-se, seriamente, a estabelecer contato astral com as Altas Inteligências de outros planos para que lhes educassem e guiassem, gradualmente, na arriscada transição da simiesca domesticidade da humanidade histórica a um grau mais elevado da escala evolutiva.

         A «Lição de História» chegava a asseverar que tal contato se estabeleceu e que o Amanhecer Dourado atuava sob guias astrais. Abominavelmente, acrescentava que os estudiosos deviam cuidar-se dos diversos impostores que empregavam o nome da ordem e que criavam falsos Amanheceres Dourados dedicados ao satanismo e a magia negra. Entre os hereges, que pareciam ser aproximadamente uma dúzia —ao desagregar-se em facções o Amanhecer Dourado original o fez violentamente, coligiu Sir John—, o proprietário da Mansão Babcock sentiu-se impressionado, especialmente, por dois deles, por causa de seus relevantes papéis: MacGregor Mathers e Aleister Crowley.

  1. Eram aqueles nomes um acidente?
  2. Não. O primeiro dos indivíduos recebeu o nome do Samuel Liddell Mathers e decidiu, ao embarcar-se nos caminhos da Magia, que Samuel Mathers, Sam Mathers, S.L. Mathers, S. Liddell Mathers, eram todos eles, nomes pouco adequados e práticos para um mago; escolheu o apodo muito mais sonoro de MacGregor Mathers. O outro indivíduo, de modo similar, foi chamado ao nascer Edward Alexander Crowley e descobriu que as diversas permutações daquele apelativo eram muito prosaicas para seu futuro; depois de profundas investigações e muito pensar, chegou à conclusão de que o nome «Jeremy Taylor» parecia o mais memorável do inglês por causa de seu ritmo. Desejando fazer-se com um ritmo semelhante, rebatizou-se como Aleister Crowley.
  3. Faça uma referência da história do Amanhecer Dourado com a máxima informação possível sem ultrapassar os limites legais razoáveis e com os menores prejuízos para uma facção ou outra.
  4. «O Amanhecer Dourado é a mais influente de todas as sociedades secretas ocultas fundadas em o século dezenove. Nasceu em 1887-88, fundando-se sobre certos manuscritos cifrados descobertos em Londres que descreviam cinco rituais de iniciação... Em 1890, entretanto, a natureza do Amanhecer Dourado foi transformado, por um de seus líderes, S.L. MacGregor Mathers, quem assegurava estar em contato com os 'Amos Secretos', os invisíveis e altamente evoluídos super humanos que formam, segundo asseverações dos ocultistas, o governo secreto de nosso planeta». Francis King, Introdução ao Crowley em Cristo, C.W. Daniel CO., Londres, 1974.
  5. Facilite mais informação das origens da tradição da maçonaria mística.
  6. «Entretanto, a Maçonaria Egípcia está mais intimamente relacionada com a Loja Maçônica do Grande Oriente da França... criada originalmente pelos Illuminati de Weishaupt, estreitamente ligada com a Sociedade de Jacobinos... Um Iluminatus secreto e Jacobino foi Giuseppe Bálsamo, aliás, Cagliostro quem... legou certo Manuscrito à seus seguidores da seita Egípcia, incluindo extratos do Necronomicon original... O texto do Necronomicon... conseguido mercê aos árabes espanhóis... voltou para os persas... e permitiu enlaçar a magia babilônica e a tradição hermética do sacerdócio egípcio de Thoth». Carta do Dr. Stanislaus Hinterstoisser ao Colin Wilson, O Necronomicon, com comentários, Neville Spearman CO., Suffolk, 1978.

         Sir John refletiu durante dois dias a respeito da «Lição de História» antes de decidir-se a continuar. Escreveu ao Jones e pediu-lhe que lhe admitissem na Ordem Hermética do Amanhecer Dourado como Aprendiz.

         Daquele modo, cruzou a porta de três ferrolhos e passou de um estudante de história oculta, a um indeciso e nervoso praticante das artes ocultas, onde aprenderia em pouco tempo que, realmente, somos feitos da mesma matéria que os sonhos, e que Sir Talis era iniludível.

         Sir John foi iniciado na noite de 23 de julho de 1910: exatamente 307 anos depois do dia em que fora armado cavalheiro Sir Francis Bacon, pretendido Grande Mestre do Colégio Invisível em a Inglaterra isabelina (de acordo com os documentos do Amanhecer Dourado: que dizia contar com membros tão ilustres como Sir Richard Francis Burton, Paul Gauguin, Richard Wagner, o Rei Ludwig da Baviera, Wolfgang von Goethe, Adam Weishaupt, o Dr. John Dee, o Papa Alejandro VI, Jacob Boehme, Paracelso, Christian Rosenkreutz, Giordano Bruno, Jacques de Molay, Newton, Beethoven, Merlin, Rabelais, Virgílio, Jesus, Buda, Lao Tse, Salomão, Osiris e Krishna, entre outros). Sobre sua própria iniciação, Sir John, fazendo certo seu Juramento, nunca revelou os detalhes, nem sequer durante aquela noite em Zurique quando, com o enfeitiçado Föhn açoitando as janelas, relatou suas extraordinárias aventuras ao James Joyce e ao Professor Albert Einstein. Alguns véus nunca devem levantar-se; Babcock jamais levantaria aquele véu em especial.

         Três noites depois da iniciação, Sir John sofreu uma nova experiência sob a forma de outro sonho hermético. Era conduzido, com os olhos enfaixados, ao trono do Sul onde se abre a janela da Estrela de Prata na índiga vagabundagem da noite.

         — Quem vem? —perguntou o Giordano, Francis Bacon.

         — Alguém que vê a luz —replicou Sir John, de acordo com a tradicional fórmula maçônica que lhe revelaram antes da cerimônia.

         — A humanidade não pode discernir muita luz —disse Nightrix com voz chorosa—. Se pode adivinhar os poucos preparados que estão para receber os domesticados mamíferos.

         Houve um rasgo na rede e Sir John se encontrou de volta na Torre Alcançada Pela Luz. Sir Talis, um abarrotado cabeludo, contava o mel. Sir Joan se arrastou como em sonhos e se encontrou em uma vasta e zumbante colméia (vôo rasante, mitrais óvidos; pelos quais um homem não tem que se envergonhar) em que uns loucos se estrangulavam tentando matar-se, amaldiçoando e gritando: «Fará, bigodes, fará!» e cravando adagas, jurando, insultando, afundavam-se em um limo insalubre e fétido de cor vermelho sangue. « Cabritos!», uivavam. «Que forte é o Vril!»

         Desenrolaram um pergaminho medieval escrito em índico, nórdico, russo, irlandês, muito comprido; mas, muito submisso, dizendo:

                            NÃO CUSPIR SALVO NO URINOL :

                   PARA ELES É SUTIL E PODEM IRRITAR-SE

         Sed chiava: «Temam o esquecido!»

         — Aqueles — explicou Nud, o Allmousey (Eutaenius Microstemmus) como uma oração — são os que percorrem este caminho sem a Taça da Simpatia. Cada um deles se imagina que os demais são terríveis demônios e só pensam em sua própria autodefesa. Trágico e irônico, verdade?

         Sir John despertou repentinamente.

         — Cristo Santíssimo! — disse, sem intenções profanas—. Era aquele sonho uma visão de como se via a humanidade do ponto de vista de uma mente Iluminada?

         — Uma iniciação real nunca termina — explicou-lhe Jones cripticamente, antes da iniciação do plano físico. Sir John o compreendeu: o sonho, com sua própria linguagem, era efetivamente uma continuação da iniciação, mas em outro plano. Inclusive as máscaras empregadas na cerimônia pareciam, sob a luz da clara mensagem do sonho, uma alegoria, e não um mero fragmento teatral imaginário. As máscaras usadas na vida normal eram psicológicas, não de cartão, pois, nada valia para alguém ocultar-se, mesmo de seus semelhantes: a Sociedade era a Máscara do Diabo.

         Quando Sir John voltou a reunir-se com o Jones em casa deste último no Soho, discutiram os sonhos da Torre Escura amplamente; e Sir John, orgulhoso, expôs que tinha decifrado seu simbolismo, especialmente a alegoria das máscaras.

         — Muito certo —replicou Jones—. Todavia, é uma regra de nossa Ordem que ninguém deve conhecer, pessoalmente, mais que a um só membro. As máscaras empregadas nas iniciações ajudam a reforçar essa regra.

         — E, por favor, qual é o objetivo?

         — Marte é o deus lareira de todas as sociedades — disse Jones severamente—. A competência alcançou à primeira loja maçônica do Amanhecer Dourado de Londres. Todo mundo conhecia todo mundo, e todos caímos no egotismo transcendental —«Minha Iluminação é maior que sua Iluminação», e coisas desse estilo — e o Mal da Disputa se assentou entre nós. Não repetimos nossos enganos, Sir John, a partir de agora, exceto em emergências muito especiais, não verá ninguém da loja maçônica mais que a mim, até que alguém de grau mais elevado me substitua como seu Mestre. Se todos nos conhecêssemos, cairíamos em rivalidades.

         Aquela descentralização tão radical era uma arma de duplo fio, como não demorou para descobrir Sir John. Não só se economizava a perda de tempo e energia que haveria, possivelmente, esbanjado em perguntar se avançava mais depressa, ou mais devagar, que outros estudantes, mas sim o mistério criado por aquela carência de sociabilidade causava um sutil e novo efeito em todas as suas percepções de outros seres humanos.

         Ao princípio, se alguém fazia uma observação mais atinada que as de costume, não deixava de perguntar-se: «Será... poderia ser um de nós?» Era Shakespeare membro do Colégio Invisível? O garçom do Claridge's? Quantos membros somos? Era impossível obter uma resposta literal de Jones quanto àquele particular.

         — A pergunta implica em si mesmo a ignorância de um Aprendiz sobre a verdadeira natureza do Espaço e Tempo — era quanto Jones contribuía ao tema.

         Sir John começou a perguntar-se coisas cada vez que lia, no habitual periódico, algo relativo a uma pessoa resgatada do perigo por um Misterioso Desconhecido que imediatamente desaparecia sem aceitar agradecimento nem dar seu nome. «Outro de nós?», especulava Sir John romanticamente, vendo a protetora mão da Grande Irmandade Branca por toda parte.

         Naturalmente, como graduado de Cambridge, estava imerso, ao menos por osmose, em algo do moderno cepticismo escolar, e sabia que tudo isto podia responder exclusivamente a simples loucura gerada pelo extraordinário.

         Todavia, por outro lado, a gente não podia esperar que certos óculos especiais fossem entregues a cada membro do Colégio Invisível para que reconhecesse a outros... ou sim?

         Sir John ia descobrir que o enigma das sociedades herméticas era mais sutil que tudo aquilo. O Amanhecer Dourado, depois de tudo, era supostamente continuador da inquebrantada tradição do original Colégio Invisível dos Rosa-Cruzes, cujos membros «vestem e adotam as maneiras» do país em que residem. Sir John encontrou que inclusive as mais néscias observações, ou comportamentos ofensivos, disparavam a mesma pergunta: «Outro de nós?» Quantos Adeptos haveria, vivendo disfarçados entre a normal humanidade, ocultando cuidadosamente seu avançado estado depois de uma mascarada de urbanidade vulgar, estupidez ou conformidade? Jesus permitiu que o injuriassem, cuspissem, humilhassem e crucificassem; a literatura do Amanhecer Dourado deixava totalmente claro que um verdadeiro Adepto poderia interpretar qualquer papel ou padecer qualquer humilhação para cumprir sua especial Obra: O Louco poderia ser o Mago disfarçado.

         Sir John se encontrou devorando, simultaneamente, montões de literatura mística de todas as nações e tempos, pois Jones lhe obrigava a ler dez volumes ao mesmo tempo. Os exames escritos, que efetuavam uma vez ao mês, determinavam o que tinha compreendido, ao menos verbalmente, do lido.

         — Sou cristão — protestou Sir John em certa ocasião.

         — Não queremos fazer outra coisa de você — replicou Jones—. Mas, para avançar na Grande Obra, deve ser primeiro consciente da invisível verdade que se esconde depois da parafernália visível de todas as religiões. Em nossa Ordem, o cristão deve continuar sendo cristão; o judeu, judeu; o muçulmano, muçulmano; entretanto, seja qual for sua fé, não deve conservar nenhum sectarismo de estreita mentalidade.

         Sir John começou a compreender aquele ambíguo ecumenismo estudando certo texto budista.

         O refrão «Todos aqueles com os quais se encontre, são um Buda» começou a lhe alagar até ao desespero; não tinha sentido, embora o repetisse tão freqüentemente, de tantos modos diferentes; resultava óbvio que teria que compreendê-lo antes de enfrentar-se à compreensão absoluta do budismo. Entretanto, à sugestão de Jones, tentou ver Buda em todos os seres humanos com os quais cruzava... e compreendeu a totalidade rapidamente.

         O efeito era o mesmo que a deliberada mistificação gerada no interior do Amanhecer Dourado a respeito de quem era ou não membro. Procurar o Buda em todos os homens, como localizar mais membros da Ordem, fez que Sir John prestasse uma atenção mais próxima às pessoas as quais antes nunca prestasse, notando-se muito mais na misteriosa e adamantina individualidade, que em classificações de idade, sexo, raça, casta ou outras superficialidades. Viu em todo mundo seres misteriosos e incríveis; compreendeu, subitamente, o mais molesto dos paradoxos de Goethe, que dizia: «O que é o mais difícil de tudo? O que parece mais singelo: ver com nossos olhos o que há diante deles.»

         E compreendeu, também, a insistência de São Paulo em que «todos somos membros do Corpo de Cristo». Cada homem e cada mulher constituía uma singela faceta do espelho de diamante feito a imagem de Deus ao que chamamos humanidade. O budismo, como Jones prometeu, não debilitava seu cristianismo, mas sim o iluminava.

         Sir John pensou que tal idéia era maravilhosa e a ponderou cheio de excitação quando voltou para encontrar-se com o Jones.

         — Muito bem —disse Jones condescendente —. Você despertou, um pouco, de um dos sonhos que impedem, quão sonâmbulos percorrem as ruas se vejam uns aos outros. Isto é o princípio... só o princípio. Não deve impressionar-se por seus adiantamentos, pelo amor de Deus, ou não se moverá nenhuma polegada. Tente ver a Luz divina em qualquer objeto formoso que se cruze em seu caminho: rubis escarlates, lírios do campo, ou nas marcas avermelhadas do dorso de um caranguejo. Logo, pergunte a si mesmo onde não se encontram a consciência e a divindade.

         Com aquele esmagador, embora corajoso, bate-papo expresso com certo traçado de fogo leonino, o suave Mr. Jones ficou além de qualquer dúvida que pudesse albergar Sir John: era um verdadeiro Adepto. Sem piedade, a partir de então, Jones cevou ao Sir John com livros da Cabala pedindo-lhe que os dominasse a fundo... levando-lhe a bordo do torpedeio e ao afundamento total.

         Babcock, previamente, estudou a Cabala só como historiador, aprendendo o suficiente de sua terminologia e teoria para poder detectar sua influência dos antigos herméticos como Pico della Mirandola e Giordano Bruno, passando pelo Dr. Dee e Sir Francis Bacon, até chegar à Franco-maçonaria e ao Iluminismo. Naquelas novas sessões de estudo se encontrou ante a necessidade de dominar a totalidade da teoria cabalística do universo, milhares de vezes mais complicada que a tabela periódica dos elementos químicos que tio Bentley guardava no estudo.

De acordo com a Cabala, o cosmos era governado por correspondências simbólicas entre muitos planos de existência, visíveis e invisíveis. Aquilo parecia muito simples; mas as próprias correspondências careciam de conexões lógicas; «A Cabala transcende a lógica», recordou Sir John.

         As correspondências só podiam aprender-se mediante força bruta e repetição até que, finalmente, ancoravam-se na memória. Inclusive depois de memorizadas, as correspondências podiam não ser entendidas pelo estudioso, observou Jones amavelmente:

         - Compreender a verdade - disse - só se consegue através da intuição, ou por experiência direta, com os planos invisíveis - mediante técnicas que lhe ensinaria quando Sir John tivesse que graduar-se de Aprendiz à Neófito.

  1. Diga três concisos exemplos de lógica cabalística.
  2. [1] Todas as palavras hebréias com o mesmo valor numérico têm que ter significados equivalentes; portanto, Ach D (unidade) é igual a: A(l) + Ch (8) + D(4), quer dizer, 13, o mesmo que AHBH (amor); pois A(l) + H(5) + B(2) + H(5) somam 13; portanto, unidade é amor e amor é unidade. [2] Posto que o Sagrado e Inexpressável Nome de Deus (YHVH) é: Y (10) + H(5) + V(6) + H(5), que somam 26, e dado que o resultado o igual a 13 x 2, Deus é amor + unidade. [3] Já que 7 das 22 letras hebréias correspondem aos planetas, a proporção de 22/7 é muito importante; e, efetivamente, 22/7 é 3,1415... etc., o valor de phi, ou a relação do raio de um círculo com sua circunferência.
  3. Facilite um exemplo de lógica cabalística problemático.
  4. Posto que Deus é unidade e a primeira letra hebréia A (Aleph) é igual a 1, A simboliza a Deus.

         Mas A (Aleph) escrita em hebreu é ALP que soma 111, mostrando que Deus é uma tripla unidade; isto provoca que bons cabalistas cristãos estejam em desacordo com os cabalistas hebreus e muçulmanos. Mas 111 é também igual ao ALP, Trevas, e ASN, Morte Repentina, portanto, é Deus equivalente à Trevas e Morte Repentina?

         Sir John dedicou dias, semanas, meses, a recitar rotineiramente uma e outra vez, recorrendo aos livros cada vez que lhe falhava a memória: «Aleph é a primeira letra hebréia e significa 'boi'.

         A principal correspondência se estabelece com a carta do Louco no Tarot, a cor amarela, o elemento ar, o Espírito Santo do Novo Testamento, o Fôlego de Deus —o que será isso?—, Ruach Elohim, o Fôlego de Deus, no Velho Testamento, o caminho de Kether à Chockmah na Árvore da Vida e Oh, ah, Deus, humm...». Volta aos livros.

         «Beth é a segunda letra hebréia e significa 'casa'. A Papisa do Tarot, a cor escarlate, o planeta Mercúrio, Thoth no Egito, Hermes na Grécia, Odin nos povos Nórdicos, o caminho de Kether à Binah, o deus bonito hindu... Oh, Cristo, qual era o nome do deus bonito?» Volta, outra vez, aos livros.

         Jones se deslocava até a Mansão Babcock e examinava ao Sir John ocasionalmente.

         — Nun —dizia—, que carta é no Tarot?

         — A Morte.

         — Significado hebreu?

         — Um peixe.

         — Muito bem. O equivalente medieval do Carro no Tarot?

         — O Sagrado Graal.

         — Excelente. A letra hebréia para o mesmo?

         — Bem... isto... daleth...

         —Errôneo. Muito mal, moço. Não se permite a falta de atenção. Memorize, memorize, memorize!

         Sir John memorizava.

         — Trabalhe nas duas primeiras palavras da Bíblia —sugeriu Jones; e Sir John se encontrou procurando os significados ocultos do BRAShITH ALHIM: «No princípio, os Deuses».

         Naturalmente, por Pico della Mirandola, sabia que BRAShIT [«No princípio...»] tinha um valor numérico de 3910, o número de anos que segundo a antiga tradição transcorreram da «Queda» da humanidade (devido ao desafortunado trauma do primeiro contato com a Inteligência Superior, codificado na mitológica serpente da Gênese) ao nascimento de Jesus. Descobriu por si mesmo que ALHIM (os deuses: Deus, em singular, posto que YHVH ou Jehovah não aparecia até o segundo capítulo) continha, por permutações de temura, 3,1415, o número phi com quatro decimais. Observou que BRA as primeiras três letras, formavam mediante notarikon as iniciais de Ben, o Filho; Ruach, o Espírito Santo; e Abba, o Pai.

         —Muito bem — disse-lhe Jones quando leu o relatório—. Mas há mais, muito mais. Olhe, Agape, a palavra que significa «Amor» no Novo Testamento, tem um valor cabalístico de 93.

         Acrescentado à 3,1415 do ALHIM se obtém 3,141593, o valor de phi com seis decimais. Trabalhe nisso até que encontre as Proporções Douradas da loja Maçônica.

         Uma vez, Sir John teve a temeridade de perguntar ao Jones sobre o misterioso Sagrado Anjo Guardião ao que se pretendia invocar mediante toda sua preparação no Amanhecer Dourado.

         — Normalmente —respondeu Jones— se explica de três modos diferentes: para os Aprendizes, os Neófitos e os membros de alta classe, que ainda não o alcançaram. Em seu caso, considerando a mescla de estudo e romantismo que detecto em seu temperamento, dar-lhe-ei as três explicações simultaneamente. Uma: trata-se de uma metáfora que significa, aproximadamente, aprender a receber comunicações da própria mente inconsciente sem as habituais distorções.

         Dois: esta não é tão singela; o Sagrado Anjo Guardião lhe fala através de seu inconsciente, mas é, literalmente, um ser diferente do estado evolutivo tão longínquo de nós como podemos estar, você e eu, dos mais primitivos invertebrados.

         Três: sim, é uma metáfora, depois de tudo, mas tão afastada de nossa ordinária consciência que logo se importaria que o considerasse do ponto de vista científico de minha primeira resposta, ou dos místicos da segunda; transcende à ambas.

         Quando passar pela experiência, encontrará sua própria metáfora para descrevê-lo; dela pode surgir uma teoria científica desconhecida para o mundo, uma obra de arte, ou só uma mudança em sua vida para a santidade, a compaixão, ou algo mais tradicionalmente «religioso». Trabalhe mais e pergunte menos se quer seguir adiante.

         Finalmente, nove meses depois da iniciação, Sir John completou seu curso no mundo do misticismo e capaz de ser aprovado as provas cabalísticas de Jones facilmente. Encontrava-se totalmente confuso e começava a perguntar-se se ele, ou Jones, ou ambos, estariam um pouco loucos.

         Depois de tudo, o que tinha a ver um boi com um homem vestido de Louco, ou ambos com a cor amarela, ou o Espírito Santo? Se Thoth e Hermes eram o mesmo deus sob dois nomes, estupendo; aquilo teria certo sentido histórico. Mas que correspondência podiam ter com a palavra hebréia que significava «casa»? O que tinha a ver o planeta Vênus com a letra daleth e a deusa Deméter? Era toda a Cabala uma complicado piada judia elaborada à custa dos que tentavam compreender o supra racional mediante significados racionais?

         Quando Sir John começou a considerar seriamente este último pensamento, Mr. Jones, paternalmente, fez-lhe o primeiro exame real, justo diante de seus olhos.

         — Estará você familiarizado —começou— com as letras que aparecem na parte superior de cada crucifixo católico ocidental ortodoxo: I.N.R.I.

         — Yod Nun Resh Yod — replicou Sir John, com seus equivalentes hebreus.

         [«Eu nunca residirei lá.»]

         — Muito bem. As igrejas Católica e Ortodoxa, naturalmente, explicam tudo isto com termos infantis, para as singelas mentes das massas. Você está familiarizado com a explicação?

         — Suponho que o farão derivar do latim —disse Sir John felizmente; era muito fácil—. Iesus Nazarenus Rex Iudorum : Jesus de Nazaret, Rei dos Judeus.

         — Excelente —afirmou Jones—. Agora me vejo obrigado a lhe dizer que há um significado esotérico gnóstico nessas iniciais muito anterior à criação do esotérico que acaba de citar. Requer conhecimento cabalístico e a verdadeira faculdade da intuição para decodificá-lo. Esta tarefa deverá completar antes de subir à Neófito. Chame-me quando acreditar ter a resposta.

         Sir John dedicou uma semana a voltar-se meio louco com aquele quebra-cabeças. Ao sétimo dia, esboçou uma tabela em que, deliberadamente, listava só as mais irracionais e ilógicas correspondências, para obrigar a si mesmo, a pensar da forma metalógica dos verdadeiros cabalistas.

         A tabela era semelhante a esta:

Letra Hebréia     Correspondência Tarot       Correspondência       Correspondência                                                                               Astrológica                       Grega

Yod (mão)                             O Ermitão                  Virgem                         Cronos

Nun (peixe)                           A Morte                   Escorpião              Hades

Reh (cabeça)                        O Sol                           O Sol                           Apolo

Yod (mão)                             O Ermitão                       Virgem                     Cronos

         Tentou que sua mente derivasse pelas imagens, reconhecendo palavras e associações: mão, peixe, cabeça, mão; mão, peixe, cabeça, mão; mão, peixe, cabeça, mão... Dúzias de idéias originais e surpreendentes chegaram a sua mente (em uma ocasião, viu a evolução como um cenário preescrito...), mas nada que enchesse o vazio e ventoso sem sentido

         Tentou as correspondências astrológicas: Virgem, Escorpio, o Sol, Virgem. Uma virgem, um inseto, o Sol e a virgem novamente. Parecia de menos ajuda que mãos-pés, cabeça-mão.

         Provou com Virgo-mãos, inseto-Morte, monte-sol, Virgem-mãos. Tudo aquilo conduziu a uma linha fechada de pensamento que lhe fez duvidar novamente a respeito de se teria a pureza de coração suficiente para atravessar triunfante a Capela Perigosa.

         As correspondências gregas estavam cheias de ressonâncias de terrível imaginária. Cronos, deus do Tempo, era visualizado na horrorosa pintura de Goya; Saturno devorando seus filhos.

         Hades e o mundo dos mortos era fácil de recrear lembrando da descida de Odisseu ao mundo subterrâneo. Apolo, trouxe para a mente de Sir John, as figuras de Oscar Wilde e Lorde Alfred Douglas; e eram difíceis de assimilar. Mas, qual era o sentido da própria seqüência: Cronos, Hades, Apolo, Cronos?

         Sir John o tentou observando as imagens das cartas do Tarot:

 

         O Ermitão: um ancião com uma lanterna em meio da escuridão. O que tinha a ver com yod, a mão, exceto que necessitava uma para sujeitar a lanterna? Que correspondências haveria com os escorpiões e a virgindade?

         A Morte: um esqueleto montado em um grande cavalo branco, por cima de Rei, Bispo, Mãe e Filho. Mas que relação existia com nun, um pescado? Sim, tinha com o Hades, deus dos Mortos, naturalmente.

         O Sol: um menino nu, montado no mesmo cavalo branco, com o sol elevando-se ao fundo. O que o relacionava com resh, a cabeça? Também voltava a confirmar-se certa relação astrológica.

         E o velho Ermitão com a lanterna outra vez...

         Era a parábola psicológica sobre o caminho da iniciação? A mente do estudioso como a de um velho (tradição social), vagando pelas trevas da ignorância, guiado tão somente pela lanterna da intuição; transformava-se mediante a morte de seus aspectos condicionados às relações com o Rei (o Estado), o Bispo (a Igreja), a Mãe e o Filho (a família); renascia como o filho do sol («A menos que sejam como meninos não entrarão no Reino»); e então—e então—, por que voltar para velho que vaga pelas trevas? Tudo parecia um completo sem sentido mesmo que pensasse ter encontrado o caminho acertado, finalmente.

 

         Mão, peixe, cabeça, mão...

         Velho, morte, recém-nascido, velho...

         I.N.R.I., Jesus de Nazaret , Rei dos Judeus.

         Cronos, deus do Tempo (e da destruição); Hades, senhor dos mortos; Apolo, deus do Sol Nascente; Cronos, outra maldita vez...

         E chegou a ordem mental. Adiante. Adiante.

         Sir John tentou com a Gematria, o método cabalístico que consiste em tomar o valor numérico de uma palavra misteriosa e relacioná-lo com todas as outras palavras hebréias que tenham o mesmo número. Yod era 10; nun, 50; resh, 200; o segundo yod era 10 novamente. Total: 270. Passou vários dias com o dicionário hebreu e encontrou um só exemplo, alavancas, ou barras.

         Outro muro em branco.

         Na noite seguinte, despertou em meio de um sonho de zombadores trasgos vestidos de mel com uma frase cravada na mente: Indagar Nunca Realizar-se Importa. Estava seguro de que era alguma profunda revelação e apressou-se a plasmá-la em seu bloco de papel de notas. Pela manhã, leu-o de novo e se pôs-se a rir.

         Mas, uma hora depois, na biblioteca, ocorreu um peculiar acidente. Estava lendo o dicionário hebreu uma vez mais, procurando, ao menos, uma segunda palavra com o valor numérico de 270, quando outro livro escorregou e caiu à seus pés. Levantou-o e descobriu um tratado alquímico do século dezessete, aberto na página 270. Coincidência? O primeiro parágrafo dizia:

         O segredo da Grande Obra é dado a todos os verdadeiros cristãos com a fórmula I.N.R.I., que, adequadamente interpretada, significa: Igni Natura Renovatur Integra.

         A tradução saltou à mente de Sir John com uma deslumbrante explosão: Toda a natureza se renova com o fogo.

         Um velho, morte e renascimento... Tempo, Morte e Ressurreição... Crucificação e Redenção... o Senhor do Tempo, o Senhor do Mundo Subterrâneo e o Amanhecer Dourado. Toda a natureza se renova com o fogo. Os símbolos gregos e cristãos fluíam juntos e mesclavam-se com as cartas do Tarot. Sir John tendia para uma nova teoria da evolução, a meio caminho entre as heresias lamarckianas de seu pai e a ortodoxia darwinista de tio Bentley, sucedendo agonizantemente concreta ao experimentar a luta para sair das cavernas, os cavaleiros nômades que chutavam o deserto, as neves, as tormentas, a fome, a dor, a morte constante, morte, morte. E a luta para frente: o nascimento para a consciência, piscando levemente em tudo, resplandecendo para a iluminação ocasionalmente. Era a experiência de nascimento cósmico revivida e revivida e revivida até que a alegria e a agonia se uniam e se mesclavam inseparavelmente. Era a singela célula que nadava no oceano amniótico, recordando o ardente êxtase de sua criação: a ternura dos primeiros momentos no peito: as covas dos trasgos que imaginou, convertendo-se em coisas tão reais, como as arcaicas e obscuras forças que se moviam a seu redor; nadando no sol quente, em paz; o terror e o horror da vida novamente; o ódio e a violência; a loucura; as vítimas da Inquisição chiando ao longo dos séculos nos bancos de tortura da mais alienada Fé; os diabos e demônios desatados, pela fantasia de mentes aterradas, pela experiência de milhões; pessoas solitárias; confinamento; soldados com os braços, pernas e genitais abrasados; meninos golpeados, açoitados e deixados a morrer de fome; a morte na mesa de operações, sob o escalpelo de bêbados e sádicos médicos; a permanência dos carnavais e os bailes; enquanto, os cegos felizes, esquecem a agonia completa de seus irmãos e irmãs no inferno da desumanidade da vida do homem; mães chorando por filhos mortos ao nascer; o horror dos olhos do camundongo, que se sabe apanhado; gigantescos salões, com enormes estátuas divinas de paz e sabedoria; a eternidade das montanhas e dos oceanos; as árvores moribundas falando em silêncio, eternamente; carregando com a cruz, até a colina; aceitando a carga, desejando extirpar a dor e a agonia para sempre; redimir a cega luta e completar o nascimento planetário. Sim: o Vril se movia nele, o calor alquímico ascendia; viu mais longe, muito longe, a diminuta célula chamada John Babcock; e foi um com os bilhões de anos do singelo organismo que era a Terra. Passou um minuto ou mil anos? Sir John não sabia; tão somente sabia que o mundo completo de sua percepção fora reconstruído pelo fogo.

         AÇÃO - SOM

         EXTERIOR. VALE DAS PIRÂMIDES, EGITO. DE DIA. PLANO LONGO.

         As pirâmides, solitárias, no branco deserto ardente.

         Voz: Adoro-te, Evoe! Adoro-te, IAO!

         EXTERIOR. O MESMO. PRIMEIRO PLANO.

         Estátua de Hórus como falcão.

         A mesma voz: Risada que levanta ecos pelas tumbas dos mortos! Adoro-te, Evoe! Adoro-te, IAO!

         INTERIOR. UM QUARTO ESCURO. PRIMEIRO PLANO.

         Abre-se uma caixa de dinheiro.

         Mesma voz: Roda que sempre gira feita de estrelas e destinos! Adoro-te, Evoe! Adoro-te, IAO!

         INTERIOR. O MESMO. PLANO MÉDIO.

         LENIN abre a caixa de dinheiro e o conta. Através dele, oferecendo o dinheiro, vê-se uma silhueta ambígua.

         A Valsa de A Viúva Alegre.

         Lenin: Isto pagará alguns assuntos muito importantes.

         — Aqui está minha resposta — disse Sir John, tranqüilamente.

         Jones tomou o Diário Mágico que Babcock estendia-lhe e leu, lentamente, em sua última página:

         Igni Natura Renovatur Integra: todas as formas são temporárias e ilusórias, meras construções da imaginação. O velho Ermitão será derrubado pela Morte, mas a forma que há depois da forma, a energia vital, renascerá como um novo Menino quem, com a idade, voltará a converter-se no Ermitão. Cronos, Senhor do Tempo, conduz todos à inevitável morte e ao Hades, Senhor do Mundo Subterrâneo; mas, voltaremos para elevarmo-nos como Apolo, Senhor do Amanhecer Dourado, eleva-se cada manhã. O Cristo Crucificado é, efetivamente, uma re-narração dos mitos gregos de morte e ressurreição, como nos explicaram os historiadores racionalistas; mas, os racionalistas não compreendem que o próprio mito é recurviso por causa de sua profundidade simbólica sobre a grande verdade cósmica: a consciência, como a matéria e a energia, nem se cria, nem se destrói. Os ciclos se repetem uma e outra vez, incansavelmente, mas sempre repetem o mesmo, pois os Arquétipos Platônicos subsistem, sem mudanças, através do Tempo.

         — Não é a resposta correta — disse Jones. Estavam jantando no Claridge's, e Jones levava um panfleto, excepcionalmente, pequeno em lugar do enorme montão de livros antigos— Agora bem, como já disse, há muitas respostas corretas. Algum dia, não muito em breve, manteremos uma profunda conversação filosófica sobre tudo isto, entretanto, e de momento, terá que concluir em que a resposta é correta para você neste nível de treinamento.

         — Mas —replicou Sir John, desinflado—, senti-o, inclusive antes de compreendê-lo. A energia Vril correndo através de mim, quão mesmo através de todas as coisas. O contínuo processo de destruição e recriação... o mundo reconstruído com o fogo do Espírito Santo. Senti-o — repetiu, pouco convincentemente.

         George Cecil Jones suspirou profundamente.

         — Deu você seu primeiro passo —explicou tristemente—, mas ainda não sabe em que direção deve caminhar. Por favor, contenha sua autocomplacência e, pelo amor de Deus, dedique-se realmente aos exercícios mencionados neste folheto. Preparamos sua iniciação à Neófito, para o mês que vem mas, se não realizar estes exercícios rigorosamente, ao menos quatro vezes por dia até então, será uma falsa iniciação... uma concha vazia, uma simples interpretação. Não engane a si mesmo, dizendo-se que já chegou se ainda não sabe como viajar.

         Sir John lançou uma olhada ao título do panfleto:

                                               Projeção Astral

                                           Publicação de Classe B

                                      Ordem Hermética do A.·.D.·.

         Aplacou seu mau humor.

         — Assim agora devo praticar fora de meu corpo —disse molesto.

         Jones bebeu um sorvo de clarete.

         — Exato —replicou tranqüilamente—. E quase todo o tempo sentir-se-á como um maldito louco. E suspeitará, de novo, que somos uma banda de perturbados que conduzimos a algum tipo de Manicômio. Mas faça os exercícios, registre os resultados de cada experimento e siga assinalando seu Diário Mágico uma vez ao mês, para que lhe faça um relatório crítico, dê-lhe minha opinião... e tenha paciência, querido moço, paciência! Há algo mais que tenho que mencionar. Será necessário, temo, que realize um Juramento de celibato para os próximos dois anos. Aceitará esta condição, ou prefere abandonar a Grande Obra? Uma vez feito, deve compreendê-lo, o juramento é vinculante e gerará terríveis castigos se for violado de qualquer modo.

         Sir John controlou seus gestos com dificuldade.

         — Dobrar-me-ei à Grande Obra —disse firmemente—. Suportarei todas as provas que forem necessárias.

         — Tenho que lhe perguntar três vezes. Está completamente seguro?

         — Estou. — Sir John não titubeou.

         — Pela terceira vez. Ater-se-á a este Juramento de celibato durante dois anos completos sem reservas mentais, ou sofismas que o evitem, ou circunvalem se se fizesse muito molesto?

         — Contornar-me-ei — respondeu Sir John com firmeza.

         Jones olhou o prato vazio com, aparentemente, muitíssimo interesse, como se nele procurasse dados arqueológicos.

         — O celibato, para ser efetivo espiritualmente —disse em voz baixa, tranqüila—, deve ser total. Não... bom... os vícios solitários podem consentir-se como consolo pela falta de mulheres.

         Sir John sentiu a tensão separada de cada músculo de sua cara, pensando: O sangue sobe-me às bochechas e estou me ruborizando como um escolar imbecil. E, continuando: Não, o sangue se vai do rosto e pareço um pálido criminoso no banquinho dos acusados, sem atrever-se a levantar a vista; se por acaso Jones tinha deixado de escrutinar, obsessivamente, o prato, temendo que Jones fosse um Adepto tão avançado, que pudesse ler as mentes tão facilmente, como ele mesmo lia a etiqueta da garrafa de champagne; embora, uma vez mais, sentia-se hiperconsciente, como no primeiro incremento de calor alquímico do primeiro sentido da Rosi Crucificação, comprometido no criptograma I.N.R.I.; consciente de sua própria consciência e temeroso de seus próprios temores: voltava a enfrentar-se ao pressentimento da loucura que lhe espreitava desde seus primeiros e tímidos pecados de juventude, os mesmos que, tempo atrás, sumiam-lhe em certa ordem de paralisia histérica e, perguntando-se se a paranóia teria dado procuração dele, pensou e escutou, e, não, só o imaginou... com a sensação de que alguém na mesa do lado houvesse dito, clara, quase burlonamente, o nome daquele que estava mais intimamente conectado com seu mais vergonhoso segredo. Mas, possivelmente, a voz só tinha mencionado Carter's, outro restaurante.

         — Eu... eu... —Sir John não podia falar.

         Jones bebeu um novo sorvo de vinho.

         — Dois anos —disse com voz acalmada, como se não percebesse o nervosismo de Sir John— não é um tempo tão terrivelmente longo, já o verá. E descobrirá que as questões astrais se vão fazendo cada vez mais fáceis à medida que vá prescindindo das carnais. Confio em você, Sir John —terminou, com abrupta tibieza, batendo no ombro do jovem com certa ênfase.

         E Sir John voltou para casa duas semanas para praticar a projeção astral, sentindo-se quase todo o tempo (como Jones lhe advertiu), como um perfeito louco.

         Se a adivinhação do I.N.R.I. referia-se à transcendência do tempo, a prática da projeção astral parecia facilitar a abolição do espaço. O truque, não demorou para perceber Sir John, era estar em dois lugares ao mesmo tempo. Como aquilo parecia racionalmente impossível, o único modo de obtê-lo era ir além da razão, cultivar deliberadamente um tipo de fé que beirasse o fanatismo religioso.

         Os primeiros intentos de Sir John constituíram grotescos fracassos.

         Inclusive, após três semanas de praticar quatro vezes ao dia, o melhor que Babcock conseguiu foi chegar aos arredores de alguma máquina incrivelmente complexa com um milhão de partes móveis, cada uma delas atendida por uma boneca azul e um miúdo vermelho, que se moviam espasmódica, mecanicamente falando enquanto trabalhavam em suas incompreensíveis tarefas. «Mulligan Milligan Hooligan Halligan», murmuravam. «Mágica trágica música mística», chiavam. «Solo Simon Semper Sêmen», riam. «Diga, miolo, siga, viga», uivavam. «Sir Lion, Sir Loin, Sir Tallis, Sir Qualis», balbuciavam. Com um estremecimento, Sir John voltou para seu corpo, sua carne, seu quarto, no espaço euclídeo, descobrindo que se dormiu justo quando pensou que começava a projetar-se no plano astral.

         — Não deixe que lhe alterem essas tolices —disse Jones quando Sir John lhe mostrou o Jornal onde descrevia aquela experiência—. Alguém pode ouvir o mesmo galimatías em qualquer encontro de Ressurreição, ou em uma sessão Espírita. Não tem feito mais que abrir outra das portas da Capela Perigosa. É o reino dos que percorrem o Caminho sem a Espada da Razão. Se refletir sobre isso, recordará ter ouvido as mesmas tolices justo antes de dormir algumas noites.

         — Sim — respondeu Sir John —. Acontece com todo mundo?

         — Com efeito. A mente tem um lado racional e outro irracional —explicou Jones com amabilidade—. Ser totalmente racional é ser só meio humano. Permitir que o irracional domine é sucumbir ao fanatismo religioso, ou à enfermidade chamada histeria pelos alienistas. A Grande Obra consiste em unir o irracional e o racional em um todo harmônico, que transcenda a ambos. Até que o consiga, encontrará muitos mais sem-razões emanados das regiões irracionais.

         Ignore-os, não os tema, e concentre-se na Obra.

         Durante as semanas seguintes, Sir John encontrou o reino astral e as imagens sonhadas mesclaram-se tanto com as outras, que resultou cada vez mais difícil separar a realidade da vigília.

         Escutou muitas mensagens parecidas com: «Vá, vá, vá, terá que pintar uma raia», «O vazio, o zero, um nada, o Todo-poderoso», «Nem esposa, nem cavalo, nem bigode», «Uma cansada, cansada canção, e uma empanada, empanada garrafa», «O sangue e o vinho são vermelhos», «Yoni para o macho pensativo» e, em várias ocasiões «Babcock volta louco, Babcock volta louco, Babcock volta louco...»

         Como calmante, Sir John começou a ler poesia contemporânea, recordando que o Amanhecer Dourado só permitia leituras alheias, durante o treinamento, que estivessem limitadas à espiritualidade de mais elevada natureza. Assim, começou a estudar ao poeta místico irlandês, William Butler Yeats.

         A pergunta «Outro de nós?» voltou para sua mente, uma e outra vez, com a leitura dos poemas e acreditou que ao fim podia responder com um definitivo «sim». Não havia possibilidade de engano; a poesia de Yeats estava repleta de referências oblíquas aos ensinos do Amanhecer Dourado e suas cerimônias de iniciação.

         E então, pela mais improvável das coincidências —Sir John se sentia cada vez menos inclinado a acreditar nas coincidências naqueles dias— foi convidado a uma leitura privada em que Yeats e outros escolhidos poetas declamariam suas obras mais recentes. Sir John aceitou, sentindo-se vagamente culpado; mas, recordou que só lhe estava proibido relacionar-se com outros membros conhecidos da Ordem, e não conhecia o Yeats como membro, depois de tudo, pois se tratava de uma dedução: quase um pouco adivinhada, por sua parte.

         Uma pequena e maligna voz disse-lhe: «Não o adivinhaste, sabes». Mas a rechaçou. A oportunidade de encontrar-se com outro membro da Ordem — um famoso e que, a julgar por sua poesia, levava na Ordem ao menos uma década e, presumivelmente, estava muito avançado— era na verdade irresistível. Sir John foi à leitura, embora esta tivesse lugar em um rincão perdido de Kensington, que diziam se encontrava mais lotado de hindus, judeus e americanos que outros pontos tão indesejáveis como o mesmíssimo Soho.

         Efetivamente, o anfitrião resultou ser um americano totalmente inqualificável. Seu acento resultava indecifrável —Sir John recordou o aforismo do degenerado Oscar Wilde: «Os ingleses e os americanos têm tudo em comum, exceto a linguagem». Aquele pouco comum anfitrião estava, como todos os americanos, exageradamente seguro de si mesmo em todas as questões, de modo especial (naquele caso) em literatura e arte em geral. Seu sobrenome era Pound e seu nome um desses títulos hebreus que tanto parecem agradar aos ianques: Ezequiel, ou Ezra, ou Jeremias, ou algum outro apelativo tirado do Antigo Testamento. Levava o cabelo vermelho desordenado, e uma espessa barba também vermelha; mediria mais de seis pés e mugia quando falava, como todos os americanos. Nenhum de seus objetos parecia concordar com qualquer outro utensílio de seu adorno; se aquilo era devido à pobreza, à excentricidade, ou às duas coisas, Sir John não podia assegurá-lo.

         Inclusive o arrumado Yeats se achava, em que pese a estar bem penteado, longe do esplendor no vestir, detectou Sir John; mas, Yeats se mostrava sereno e Pound frenético; tolerante, onde Pound dogmático; e amável, onde Pound grosseiro.

         As leituras foram excessivamente miscelâneas. Pound leu certo tipo de surpreendentes poemas sem rima, piores que qualquer dos que conhecesse Sir John e, continuando, uma muito estranha tradução do Pastor» ao inglês moderno, alterada de algum modo, para incluir muitas das consonantes repetitivas e assonâncias guturais do anglo-saxão original. Uma tímida jovem chamada Hilda-algo leu algumas peças curtas, que não pareciam ser mais que traduções literais de grego clássico. E, por último, Yeats declamou suas composições, com o acostumado entusiasmo, para que Sir John, por fim, ouvisse algo que parecia poesia de verdade. Quase chorou emocionado para ouvir estas linhas:

                            O romantismo da Irlanda morre e desaparece;

                            Está com O'Leary em sua tumba

         Mais tarde, o empolado Pound serve um café fortíssimo, que Sir John nunca tinha provado e conduziu todo mundo a uma viva conversação sobre o que acabavam de escutar. A poesia inglesa, disse Pound violentamente, estava «apanhada no transe miltônico», que sarcasticamente, caricaturou como «whakty-whakty-whakty-boom! whakty-whakty-whakty-boom! Boom! whakty-whakty-whakty-boom! boom!» Experimentos como as imitações dos antigos gregos por parte de Hilda, as recreações das formas bárdicas do velho irlandês de Yeats e suas próprias adaptações do chinês, eram necessárias para ampliar o alcance do verso, afirmou o arrivista. Elevaram-se, imediatamente, várias vozes de protesto e pareceu que a sonoridade de Milton e o pentâmetro yâmbico, eram para elas tão importantes como a monarquia para os conservadores.

         — Parece-me — disse uma jovem chamada Lola, cujo acento parecia australiano—, que a poesia é invocação. Se não se invocar, não importa o estilo que se empregue: isso não é poesia.

         — A invocação —gritou Pound— é para as igrejas. A poesia deveria apresentar uma imagem concreta, com um mínimo de palavras, para que sua leitura fosse tão sutil como uma brisa de abril. O que tem de ficar é uma impressão na mente. A invocação e a repetição são tolices que se separam da intensidade ao vermelho da chama poética, que só dura um momento.

         — Oh, vamos, Ezra — protestou Yeats brandamente—. A repetição do ritmo é a essência do amor, que a poesia, consciente ou inconscientemente, sempre tenta simular.

         Antes de que Pound pudesse replicar, a jovem chamada Lola continuou descarada, sem rubor:

         — Justo no branco, Mr. Yeats. Você sabe qual considero o melhor poema moderno? «A Casa do Tesouro», do Capitão Fuller. Conhece-o? — e recitou:

                            Oh, bravo soldado da vida caindo nas areias

                            da morte! Adoro-te, Evoe! Adoro-te, IAO!

                            Oh , risada que ressoa nas tumbas! Adoro-te,

                            Evoe! Adoro-te, IAO!

                            Oh, cabra dançarina das colinas! Adoro-te,

                            Evoe! Adoro-te, IAO!

                            Oh, cobra vermelha do desejo desmascarada pelas mãos

                            das donzelas! Adoro-te, Evoe! Adoro-te, IAO!

         Sir John enrijeceu-se tão violentamente, que esteve a ponto de atirar a taça do café. Uma vez mais, a pergunta «Um de nós?» teve uma resposta afirmativa. Evoe e IAO, de acordo com os ensinos do Amanhecer Dourado, eram dois dos nomes gnósticos mais secretos para invocar à divindade. Olhou Lola com surpresa, tanto por aqueles nomes esotéricos que tinha empregado tão casualmente, como porque as jovens não falam tão abertamente do ritmo do amor. Mas, a mulher olhava ao Yeats, esperando uma resposta; seu rosto parecia aberto e inocente; Sir John não podia ver seus olhos.

         — O Capitão Fuller, certamente, tem grandes momentos —disse Yeats, com a mesma inocência, como se não fosse consciente daquelas duas palavras secretas de Poder ocultista que foram pronunciadas quase por acaso em público—. Entretanto, embora alguns versos sejam muito bons, a totalidade do poema, depois de suas trezentas estrofes, resulta um pouco cansado. Devo afirmar com a Ezra, que seria preferível a brevidade.

         — Quem... quem é o Capitão Fuller? — perguntou Sir John, tentando que sua pergunta parecesse também casual.

         — Uma grande autoridade em estratégia militar — disse Pound —. Recentemente, escreveu versos místicos, como estes últimos, todos eles condenadamente longos e retóricos para meu gosto.

         Mas Sir John recordava e seu pulso começou a acelerar-se: «Oh, cobra vermelha do desejo desmascarada pelas mãos das donzelas! Adoro-te, Evoe! Adoro-te, IAO!» O duplo significado fálico, era muito sincero, para ignorá-lo, especialmente, no contexto da observação de Yeats, sobre o ritmo da poesia comparado com o ritmo de Eros. Naquele caso, estava Lola mesclada com uma daquelas lojas maçônicas proibidas e turvas («Cultos da Sombra», que dizia Jones) que se separaram do Amanhecer Dourado, para represar-se no Satanismo? Olhou-a de novo e, naquela ocasião, pôde observar seus olhos, mas o que leu neles só parecia pertencer ao mais enigmático humor. Era amistosa, zombadora, ou, perigosamente, maligna? Ou acaso sua imaginação enfebrecia, pelo fato de que se enfrentava a um Juramento de celibato de dois anos e, pela primeira vez, sentia uma forte atração sensual, capaz de vencer tanto seu acanhamento com as mulheres, como a estrita ética vitoriana instilada nele por sua família? Era uma atração tão forte, pensou atemorizado, para romper o Juramento? Apartou os olhos para um rincão da sala, sentindo uma maré de sangue que lhe alagava o rosto, e encontrou-se de repente em pensamentos de suspeita. Yeats, obviamente, era membro do Amanhecer Dourado. Quanto outros leitores de poesia o seriam também? Seria tudo aquilo uma prova para seu Juramento? Não podia voltar a olhar a Lola e partiu da reunião assim que a cortesia o permitiu.

         Naquela noite sonhou que Lola levantava a saia para levantar as ligas e descobria-lhe olhando, grasnando em antigo saxão; ele aterrava-se (falando como um zombie ao ser açoitado por um rápido trasgo, Sid, bardo theol da baixeza. Soavam odiosas notas e apareciam restos de golem e poções fervendo; Sir Joan, intrépido, sem nervos, rapaz, idiota, cambaleava-se entre o enxame de pérolas. E o sol começou a elevar-se —quanto se elevava— e, ao chegar ao alto, ao longe, onde não alcançava a vista, o canto do galo, entre dois pensamentos, confundindo-lhe com o romance, recinto proibido, das dolorosas notas dos tijolos quebrados. Odeiem e serão esfaqueados!, bramava Shut e viu, era-o, viu, era-o, ao Odioso Deus, Baphomet, com seus pendentes úberes, a crista imensa de galo, sob o pentáculo invertido das Tentações.

         Sir John gritou ao sentar-se na cama envolto por um trovão que sacudia a habitação.

         — Você está bem, senhor? —perguntou-lhe Wildeblood, o mordomo, detrás da porta.

         — Também você o ouviu? — perguntou Sir John—. Pensei que era um sonho.

         — Deve tratar-se de um sismo, senhor. Posso ajudar-lhe, senhor?

         — Não —respondeu Sir John—. Estou bem, Wildeblood.

         Olhando pela habitação, descobriu que o espelho se quebrou. O efeito poltergeist; o típico do princípio das invasões astrais. Recordou-se o primitivo dos ensinos do Amanhecer Dourado: não deixar que o medo cresça e não chegar à conclusões. Wildeblood tinha, provavelmente, razão: devia tratar-se de um sismo.

         Todavia, não pôde voltar a dormir até a alvorada; tinha visto o rosto do Baphomet, o Deus Odioso, e sabia que sua viagem à Capela Perigosa não podia limitar-se, tão somente, aos sonhos. A terra sacudia-se, literalmente, abaixo dele; o astral e o físico interatuavam. Era «provavelmente, só um sismo», mas estava conectado, fisicamente, com a abertura real da porta entre os mundos visível e invisível.

                                   COISAS QUE GOLPEIAM NA NOITE

         AÇÃO - SOM

         Primeiro plano: Dr. Carl Jung cerca de 1909 [foto]

         Narrador de TV: «Um dos casos mais surpreendentes refere-se ao fundador da Psicologia Analítica, o Dr. Carl Jung, e a seu igualmente renomado professor, o Dr. Sigmund Freud.

         Corte a:

         Plano comprido [foto] do estudo de Freud.

         A câmara se desprende lentamente, para mostrar uma estante de livros, enquanto fala o narrador.

         Narrador de TV [voz]: «Em um argumento sobre parapsicologia em 1909, Freud e Jung perderam os estribos. Precisamente então, ouviram um súbito som de explosão procedente da biblioteca de Freud .»

         [Som explosivo.]

         Corte a:

         Primeiro plano: Freud, cerca 1909 [foto]

         Narrador: «Os dois ficaram surpresos.»

         Corte a:

         Primeiro plano: A mesma foto do Jung.

         Narrador: «Jung falou primeiro.»

         Voz de um ator [acento suíço]: «Aí», diz Jung. «Isso é um exemplo dos chamados fenômenos catalíticos.»

         Corte a:

         Primeiro plano: A mesma foto de Freud.

         Voz de um segundo ator [acento vienense]: «Oh, vamos!», exclama Freud. «Isso é merda de vaca!»

         Corte a:

         Primeiro plano: Jung.

         Primeiro ator [acento suíço]: «Não o é», replica Jung. «equivoca-se, Herr Professor. E para demonstrar meu ponto de vista, predigo que em um momento se produzirá outro grave informe!»

         Corte a:

         Plano comprido do estudo de Freud. A câmara se move lentamente pela biblioteca.

         Silêncio detestável e então: Segunda explosão.

         Corte a:

         Plano médio: O narrador de TV passeia por uma praia. No fundo, fluxo alto.

         Narrador [à câmara]: «Freud ficou tão impressionado pela segunda explosão física, que Joyce não voltou a comentar com ele a experiência. O mais estranho é que houve duas seqüelas. Em 1972, o Dr. Robert Harvie, psicólogo da Universidade de Londres, lia em voz alta a um amigo um relato deste episódio...

         Corte a:

         Primeiro plano: O Dr. Harvie [foto]

         Narrador [voz]: «...e das obras de Freud...»

         Voz vienense: «Oh, vamos, é merda de vaca!»

         Corte a:

         Plano médio: Um abajur em um rincão cai ruidosamente.

         Narrador: «...caiu ruidosamente um abajur na sala de Harvie.»

         Corte a:

         Plano médio: Uma atriz em um compartimento de um trem, lendo.

         Narrador: e em 1973, uma tal Margaret Green informou que enquanto lia a mesma passagem a respeito de Jung e Freud, em um trem, a janela estalou repentinamente com um estalo semelhante ao de uma bomba.»

         A janela explode. A atriz salta. A câmara cruza a porta com o rótulo:

         COMPARTIMENTO 23.

         Corte a:

         Plano médio: O Narrador passeia pela praia.

         Narrador: «O que podemos dizer de tais mistérios? Alguns cientistas falam de força psiônica, ou bioplasma...»

                              DE MODO QUO OPERET LEX MAGICA

         Sir John prosseguiu tenazmente seus esforços de projeção astral. Jones, enquanto isso, ampliou seus estranhos métodos de ensino. Em um de seus quinzenais encontros, mostrou ao Sir John um desenho do Punch, no qual se via um contrariado cavalheiro e um oficial de alfândegas olhando-se fixamente. O inspetor de alfândegas dizia: «Estes gatos são cães e os coelhos são cães, mas a maldita tartaruga é um inseto».

         Sim, John sorriu, inseguro.

         — Divertido — aventurou.

         —Resume todo o segredo da Iluminação —disse Jones solenemente—, se o considerar em profundidade.

         Insistiu em entregar o desenho ao Sir John quem, obedientemente, o levou a casa, pendurou-o no dormitório e o contemplou uma ou duas vezes ao dia. A Iluminação evitava-lhe. As diferentes epistemologias de sentido comum entre os viajantes e os autores das regulações alfandegárias eram, possivelmente, sintomas de confusões, ontologicamente, primitivas em qualquer parte. Mas, o que tinha a ver tudo aquilo com as questões espirituais?

         No seguinte encontro, Jones se apresentou ante o Sir John com as Obras Completas de Lewis Carroll.

         —Aqui —disse gravemente—, encontra-se a essência condensada da Sagrada Cabala.

         Sir John ruborizou-se colérico.

         —Esta vez sei que se está burlando de mim —disse—. Isto não é digno de você, Jones.

         —Assim —replicou Jones—, acredita que já sabe mais que seu Mestre?

         —Reconheço uma brincadeira, senhor, quando a tenho diante do nariz.

         Jones não perdeu a placidez.

         —Quantas vezes —perguntou—, encontrou-se com o dito: «Quando o estudante está preparado, o Mestre fala?» Quer saber por que é verdade? A porta abre-se para dentro. O Mestre está em todas partes, mas o estudante tem que ter a mente aberta para escutar a Voz do Mestre. Leia cuidadosamente, Sir John, pondere os significados ocultos, e veja se o Mestre fala-lhe por mediação desse livro.

         Sir John, sentindo-se mais idiota que nunca, levou à casa ao Lewis Carroll e o releu de ponta a cabo; e surpreendeu-se do muito que coincidia tudo aquilo com seu limitado êxito na projeção astral. Esclareceriam-se tão profundos significados à medida que progredisse na Obra?

         Poucas noites depois despertou do sonho convencido de ter compreendido o Segredo dos Segredos. Era um dos emparelhados de Carroll.

                            Pensou ter visto uma caixa descendo do ônibus;

                            Olhou de novo e viu um hipopótamo.

         O regozijo durou vários minutos. Olhou o espelho roto e encontrou-se com sua própria imagem partida em dois. O mundo feito pedaços, cristais quebrados e jóias. Aquela vez, descobriu, a expansão era psíquica: nem Wildeblood, nem os serventes escutaram a demolição.

         Saiu da cama cuidadosamente e pegou uma vela. Logo, sentou-se ante a janela, escutando os batimentos do coração, de seu próprio coração, tentando respirar normalmente, inundando-se na recém adquirida habilidade de trocar ritmicamente do ângulo agudo ao obtuso enquanto, as visões levavam-lhe por mundos de sete luas; mundos com nove sóis; pós de soma, castelos mágicos na bruma; paladines, com armaduras brancas e negras; eones de alteração rítmica do ângulo agudo ao obtuso; imensas inteligências insetívoras; vistas cada vez maiores de planetas, galáxias, todos os universos profundamente alienígenas; o Sultão dos Demônios, uivando nas trevas onde não brilha a lua. «Estes cães são gatos e este camundongo é 3,141593; mas, estas malditas ligas são incesto. Illigan Nillagain Rilligan Illagain. Coma um sapo vivo antes de tomar o café da manhã e nada pior se passará em todo o dia». Sir John fez exatamente o adequado. Da memória, profundamente concentrada, ignorando os duetos seminais e as rondas obtusas, escreveu os cinco axiomas e as vinte e três definições da Geometria de Euclides. Em meia hora tinha retornado ao espaço-tempo normal e o Senhor do Abismo das Alucinações foi vencido.

                        POSTERIORES REFLEXÕES DE JAMES JOYCE

                                  (Resulta necessária a opinião dos padres)

         Iniludível rede de coincidência: pelo menos, se não mais. Miríades de linhas do mundo, diria o Professor Einstein, mas atrás delas, invisível, intangível, a enigmática atadura de um obscuro desenho; indiferente, afiando as unhas. Dialética: Yeats, o único homem da Irlanda inteira que tentou me ajudar, me apoiar em minha carreira, embora seja o único com o que me enfrentarei até o final, pois sua visão, ou a minha, definirão o futuro de nossa literatura.

         Joyce contemplava as linhas do mundo serpenteando para seu princípio. Carma, a causa das causas. Inexplicável e incompreensível. Ligas, todo o sagrado. A rede da coincidência. Ezra, filho de Homero, o maldito.

         O mais estranho de tudo: na vida de Babcock, o episódio de Pound e Yeats não representava mais que uma subtrama, um incidente. Era Hamlet uma subtrama na vida de Fortinbras?

         I.N.R.I.: Enormes Nuvens Rasgam Invernos. A adivinhação de um moço protestante em Dublín... quantos anos atrás?

         Os inteligentes olhos de spaniel de Einstein: muito menos preparado para isto que eu, que uma vez lhe escutei quase lhe acreditando na sede dublinesa do Amanhecer Dourado. O que pensará de Yeats e Babcock e de seus amigos tentando ocultar o espaço-tempo? E a série de diga, miolo, siga, viga? O seguinte? Liga.

         Genus eutaenia, naturalmente. A velha tentação. Comem ratos, um abrigo em primavera: um homem e uma mulher, em um jardim, nus e sem vergonha. Uma dentada na maçã Y...

         Possivelmente deram duas dentadas.

         Mordam outra vez, outra vez, bite.

         O terror homossexual. A carta do velho Queensborough enviada ao clube de Wilde para provocar o julgamento por Libelo: «Ao Mr. Oscar Wilde, suposto sondomita.» Poderia haver adivinhado, cinco ou seis vezes, naqueles sonhos.

         Perguntar-se se Babcock sabia, tão bem como Queensborough, como se escrevia «sodomita».

         E o bago da distração? Alguma relação com o Salisbury? As pessoas não podem fazer tudo. Parecem harmônicos em sua totalidade edípica.

         Terá que ver, Jesus! «Minha graciosa bondade» - disse o irmão Ignatius.

                            Das profundidades da cripta de San Giles

                            Chega um grito que se estende ao longo de muitas milhas

                            «Minha graciosa bondade?»

                            Diz o irmão Ignatius

                            E algo, e algo, e sorrisos?

         Nada disso. Começar tudo de novo.

         Caçador: Odisseu em Dublin. O cornudo do tempo. Uma esposa muito sozinha. Honi soit qui mal...

         Nora, Stanislaus: Fizeram-no? Uma vez? Ou muitas vezes? Não importa. Depois de rechaçar a monogamia, posso assegurá-lo? Ninguém é uma propriedade. Não invasão da não invasiva individualidade. Não serviam. Voltar para a postura ao Byron. Mas, fizeram-no? Saberei alguma vez? Certamente, não neste mundo.

         Linhas do mundo, cruzando-se, interceptando-se, fendendo-se: a imagem geométrica de Minkowski na teoria do professor.

         Fez-o ela? Nora, baixando-as calcinhas, pondo os olhos em branco uma e outra vez e outra vez. Nela. Mais dentro, mais dentro. Judiando-a. Judiando-a, profundamente. Nela. Vagina quente, dela e não meu. Quente e úmida boca da vagina.

         Masoquismo. Basta.

         Um homem cornudo é um monstro, Iago.

         Linhas do mundo: Nora e Jim e Stanislaus, cruzando-se, interceptando-se, fendendo-se: Giorgio e Luzia fendendo-se e indo-se para novos vetores. O rio do tempo pleno de afluentes.

         Mãe, Nora, de Lorelei: tragando-se, chamando-nos à casa. Corpo humano 80, 90% salino: o mar de topázio, o sabor salgado das cavernas de seu corpo. Odisseu colocou cera nos ouvidos para enfrentar-se à obscura chamada uterina, a canção do reino submerso. O paiol de Davy Jones. Insalubre, fria e úmida é a morte do afogado. Não Wagner: ertrinken, versinken, Unbewusst, hochste, Lust. Nada disso. E a Coisa de Loch?

         Provavelmente, algum grande parente do Natrix.

         Mas, se todo o tempo for um tempo: eu em 1904 e eu aqui e agora. Ambos os reais, adamantinos, eternos. A primavera nunca alcançará o verão. Linhas do mundo. E o que se em vinte anos os nomes de Joyce e Einstein são conhecidos em toda a Europa? Também isso ficará eternamente fixado na seguinte volta das linhas do mundo.

         E os que se encontram em cabeça de nosso tempo linear, olhando para trás, para nosso futuro que é seu passado: verão exatamente o ponto para o que nos dirigimos cambaleantes. A tragédia e a alegria do manhã. Quem morrerá e quem viverá.

         AÇÃO - SOM

         INTERIOR. PRIMEIRO PLANO.

         Mapa do Império Austro-Húngaro, 1914.

         A CÂMARA passeia rapidamente em panorâmico sobre o Sarajevo.

         A Valsa de A Viúva Alegre.

         EXTERIOR. PLANO EM MOVIMENTO. RUA DE SARAJEVO.

         A CÂMARA efetua uma panorâmica desde a rua até a janela.

         Valsa de A Viúva Alegre.

         A CÂMARA visualiza através da janela: um homem está carregando uma pistola.

         Voz não identificada: «...o habitual assassino solitário, com efeito... adequadamente hipnotizado...»

         INTERIOR. PRIMEIRO PLANO

         Umas mãos carregando a pistola. Sobre a mesa um livro: Não o Todo-poderoso, em cuja capa há um olho dentro de um símbolo triangular.

         A Valsa de A Viúva Alegre.

         O COMENTARISTA DE RÁDIO: E agora outra surpreendente história de nosso correspondente em Linz. Parece que Sir John Babcock não foi o único jovem impressionável cuja vida ficasse poderosamente influenciada pelas novelas românticas de Bulwer-Lytton. Temos em nosso estúdio August Kubizek, amigo de Adolf Hitler. Poderia dizer à nossa audiência, Herr Kubizek, o que nos estava contando sobre a Ópera de Linz em 1906?

VOZ DE KUBIZEK [senil e cortada]: Bem, senhor, foi em junho de 1906, acredito. Adolfo e eu tínhamos ido escutar a Ópera de Wagner Rienzi...

COMENTARISTA: Qual era a fonte daquela Ópera, Mr. Kubicek?

KUBIZEK: Uma adaptação da novela do mesmo título de Lorde Bulwer-Lytton.

COMENTARISTA: Estava relacionada com a energia Vril?

KUBIZEK: Oh, sim, naturalmente. Tudo o que escreveu Bulwer-Lytton tinha algo a ver com o Vril e a mutação à uma super raça.

COMENTARISTA: Como afetou a ópera ao Adolf Hitler?

KUBIZEK: Foi algo extraordinário. Nunca antes tinha visto assim ao Adolf. Parecia estar, literalmente, em transe. De fato, quando saímos da Ópera, pôs-se a andar na direção equivocada... não para casa, mas em direção oposta. Comecei a correr atrás dele e lhe sacudi para lhe chamar a atenção.

COMENTARISTA: O que passou então, Herr Kubizek?

KUBIZEK: Algo incrível. Como digo, nunca vi assim antes ao Adolf... embora sim, que lhe vi igual em anos posteriores. Parecia possuído. Falava cheio de excitação, como um doente com febre alta, verstehen sie? Disse que tinha recebido uma ordem dos Poderes Superiores, através da música de Wagner; que dedicaria toda sua vida a uma missão; e que os normais seres humanos não compreenderiam.

COMENTARISTA: Uma missão que os normais seres humanos não compreenderiam... Empregou essas precisas palavras?

KUBIZEK: Como poderia esquecê-las? Naquele tempo, Adolf estava muito impressionável... Nunca lhe tinha ouvido empregar uma linguagem tão pomposa.

COMENTARISTA: Você recebeu informação que confirmasse a importância de Rienzi na vida de Hitler?

KUBIZEK.: Efetivamente. Foi em 1938. Adolf visitou a casa da viúva de Wagner e eu estava com ele. Falou-lhe da experiência de 1906. Mostrava-se muito enfático. Queria assegurar-se de que Frau Wagner entendia quão importante foi para ele. Inclusive se atreveu a lhe dizer —recordo suas palavras porque me fizeram chorar— que «Naquela hora nasceu o Nacional Socialismo.»

         AÇÃO - SOM

         EXTERIOR. PLANO IMÓVEL. PARADA EM NUREMBERG, 1936.

         Hitler passa revista a uma interminável sucessão de soldados nazistas, desfilando ao passo de ganso.

         Horst Wessel Lied sonha cada vez com maior potência.

         O passo das botas ressoa cada vez mais, até abafar a música.

         Trevas.

         As botas aturdem.

 

         Nem sequer nesta moderna evasão, a prece da loucura, podemos encontrar nenhuma esperança. Nada há mais claro que as desgraçadas vítimas de Satã que se encontram em plena posse de suas faculdades no último momento.

         Rev. Charles Verey, Nuvens sem Água.

         Os Antigos eram, os Antigos são e os Antigos serão. Depois do verão chega o inverno; e depois do inverno, o verão. Eles governaram uma vez onde agora governa o homem e voltarão a governar de novo. Não nos espaços que conhecemos, a não ser entre eles. Esperam serenos e primordiais, sem dimensões e sem serem vistos.

                                                                                                                          Necronomicon.

         Você desafio, Jesus, eu, a sacerdotisa deste rito cujo corpo é agora altar e oferenda, a que me golpeie com a iluminação se é que seu poder é maior que o de meu Senhor e Amo.

Leon Katz, Drácula: Sabbat.

         Esta, efetivamente, é uma grande muralha.

         Richard M. Nixon ante a Grande Muralha da China.

         Seria muito melhor, chegar a este ponto antes de que o sobrenatural e não científico pensamento típico, tanto de Joyce como de Babcock, resultasse inteiramente inconcebível para as reflexões disciplinadas do Professor Einstein. Um camelo negro sob uma lua crescente resultaria um presságio de algo para o Joyce ou Babcock, embora não resultasse ser mais que um mamífero domesticado em conjunção com o brilho de um satélite de uma estrela de tipo G para a ciência.

         Enquanto escutava atentamente, o maravilhoso relato de Sir John Babcock, Einstein, de modo ocasional, permitia-se um ligeiro sorriso, que se rompia em seus lábios: o reflexo de um evolutivo passado, no qual peludos ancestrais, mostravam os dentes à vista de comida; embora, como naquele caso, fora um alimento feito de pensamento puro o que inspirasse a típica careta antropóide. O maravilhoso (embora cego) processo da evolução gerou um cérebro, em seres humanos avançados, como era o caso de Einstein, capaz de procurar alimento e água na Verdade.

         A ciência, nunca se repetirá o suficiente, atua com as modernas leituras dos modernos instrumentos, permitindo, tão somente, as mais econômicas descrições do fenômeno registrado. É permissível, naturalmente, postular determinados gedanken experiments (experimentos intelectuais), deduzindo de leis conhecidas as necessárias conseqüências de situações hipotéticas. Dentro de um elevador interestelar, por exemplo, as equações gravitacionais de Sir Isaac Newton seriam obedecidas, conforme indicariam todos os instrumentos, como, quão físicos viajassem no elevador, postulariam a explicação newtoniana de suas observações. Para um físico externo ao elevador, entretanto, os mesmos dados ficariam explicados pelas leis da inércia. Esta linha de pensamento deixou o Professor Einstein, ao menos durante um tempo, divertido e perplexo; mas, determinou ficar à margem; concentrar seus poderes analíticos sobre a novela gótica em que, evidentemente, vivia Sir John Babcock; e na qual, as forças ocultas prevaleciam sobre as leis científicas.

         Podia-se ver em tudo aquilo o princípio do relativismo neurológico, quão mesmo o do relativismo físico. Igualmente a um novo Albert Einstein que rechaçou sua cidadania e ao Deus de seu povo, Sir John tinha permutado seu sistema nervoso por aqueles chamados exercícios ocultos.

         Sim: meus dois observadores tentam medir uma barra em movimento quando eles mesmos desprendam-se à velocidades diferentes. Isso é o relativismo do instrumento. Mas, suponhamos que um homem; um russo vegetariano e pacifista; e uma mulher, católica e conservadora italiana; tentassem compreender a história de Sir John. Não estaria dizendo o mesmo para nenhum dos dois. Isso é o relativismo da consciência, do próprio sistema nervoso. Todavia, o sistema nervoso, mein Gott, é o instrumento que lê outros instrumentos.

         Assim, igualmente à meus físicos dentro do elevador, nunca poderiam dizer, de dentro do elevador, se a força descendente era gravidade, ou inércia, tampouco, podem dizer duas pessoas, do interior de seus próprios sistemas nervosos, que suposta força externa proporciona os sinais que recebem. Por isso, naturalmente, o ateu e o ocultista podem argumentar eternamente, sem que nenhum deles possa convencer ao outro. Estamos presos por nossas idéias, para sempre na posição dos cinco cegos e o elefante. As regras de nosso jogo de xadrez neurológico determinam a forma, ou o contexto no qual emolduramos cada novo sinal. O jogador do outro lado, como dizia Huxley, fica fora de nossa vista.

         Estará toda a culpa naqueles sonhos? Será devido ao incidente do camundongo? Por que o camundongo do tebeo continua reaparecendo? O problema é mais de Freud que da física, essa é a verdade.

         Zwei seelen wohnen: as linhas favoritas de Papai. «Tão profundo, Albert... cada palavra vem do coração de um grande homem.»

         Pobre Papai! Sempre preocupava-se de que eu fosse um deficiente mental, porque não era como outros meninos. Por que? Bom, não o era. Porque sempre me perguntava o que se sentiria ao ser um fóton: quantos anos faz de tudo isto?

         In meiner Brust. «Tão profundo, Albert...»

         Tinha quinze anos: seria em 1879 mais quinze, o mesmo ano em que renunciei à nacionalidade alemã; sim, seria em noventa e quatro, 1894. Mais ou menos, quando li o caso de Bell na Corte Suprema americana. Schweinerei capitalista: desde 1872 (seriam... uns sete anos antes de que eu nascesse) lutando por possuir os elétrons. Sete mais quinze são vinte e dois; vinte e dois anos, então, estiveram pleiteando Alexander Graham Bell e seus competidores pela patente. Possuir elétrons, mein Gott. Todos os anos de minha vida em um escritório de patentes. O tédio da avareza. Como se alguém pudesse possuir uma lei da natureza. Königen, kirchen, dummheit und schweinerei.

         Mas, os macacos ainda continuam procurando dinheiro, bônus, patentes. Predadores mamíferos.

         Acaso nasci em um planeta equivocado? A única esperança para a humanidade: colocar todos os bilhetes, bônus e ações em uma bonita bolsa de lixo e carbonizá-la. Walpurgisnacht? «Tão profundo, Albert.» Sim: e que as massas dancem ao redor das chamas celebrando sua liberação da antiqüíssima tirania. A fênix da liberdade voa de novo.

         Ou, possivelmente, tudo isto se encontra geneticamente impresso. O predador e a hierarquia são questões dos vertebrados. Possivelmente, nasci no planeta equivocado. Biedermeier, assim me chamavam no colégio. Biedermeier: muito estúpido para mentir.

         Em francês teria sido Pierrot le Fou. Em inglês? Simple Simon. Não: melhor Honest John. Biedermeier Einstein.

         Zwei Seelen wohnen ach! in meiner Brust. Deve significar algo. Se eu fosse Hegel, suspeitaria que não quer dizer nada. Mas, de qualquer modo, Goethe sempre quer dizer algo.

         O tio Jacob ridicularizava essas leis kosher. Bom, a verdade é que Mamãe nunca teve um frango kosher. Todos fomos uns hereges. Embora só o tio Jacob se dizia abertamente ateu.

         Aquilo foi bom para mim, como os anos que fui à escola católica. Nascer judeu, ter um tio ateu e estudar na escola católica: isso abre as células cerebrais. Grande diversidade de sinais.

         Sim: quanto mais conflitivos são os sinais recebidos, maior fazemos nossa imagem do mundo para nos acomodar a elas. As pessoas tem mente pequena porque cada nação, cada igreja e quase cada família restringe os sinais. Falar de aumento das viagens (com o que também se fala de aumento das comunicações) significa que todo mundo poderá receber mais sinais conflitivos. Isso fará que os personagens agucem seu engenho... possivelmente. Impossível continuar sendo um pequeno católico italiano depois do encontro com muitos, muitíssimos, protestantes alemães. O inglês que volta da Índia não é aos 100 por 100 de sangue inglês. Sim. As viagens e as comunicações se acelerarão neste século, de modo que a gente terá que fazer-se mais inteligente.

         Se a guerra não devolver às Idades Obscuras.

         Muito claro. Mas, o pacifismo é mais básico que o socialismo, deve sê-lo. Se não encontrarmos um final para a guerra, ficará muito pouca civilização por socializar. Mas a ver quem tenta dizer aos socialistas, que Deus lhes ajude! Se todos derrubarem-se, primeiro serão franceses e alemães; e logo, socialistas. Quando o tiroteio se detenha.

         Também muito claro. Chegaremos a ver mais curva nas novas equações. Não euclídeas, convergentes. Geodésicas. Não poderão ser vistas, nem experimentadas, só conhecidas mediante as matemática. Nicht aus dem Sinn.

         Comunicações cada vez mais rápidas, para que cada Iván, Hans e Juan sejam uma mescla de sinais católicos, judeus e ateus, ou algum embrulho equivalente: obrigar-lhes a pensar e a escolher.

         Zwei Seelen wohnen... Sim. Os dois tipos de consciência, o que Freud chama consciente e subconsciente, são as duas almas das quais falava Goethe. O Amanhecer Dourado de Sir John é um jogo neurológico, mediante o qual a alma subconsciente, que eles chamam corpo astral, alcança a consciência.

         Mas, nem sequer Freud compreende a relatividade do instrumento, do próprio sistema nervoso. Encontramo-nos nesta habitação —Joyce, Sir John e eu mesmo— existindo em três realidades neurológicas diferentes, quão mesmo meus viajantes do espaço em diferentes velocidades e existindo em diferentes realidades de espaço-tempo.

         A sombra da vista e os sentidos: a relatividade do instrumento. Nur der Wahnsinnige is sich absolut sicher.

         Pergunto-me se algum psicólogo terá descoberto algo nesta linha de raciocínio.

         Se não for assim, naturalmente, haverá um pfennig de diferença se tudo isso do Amanhecer Dourado pode seguir seu caminho até os Rosa Cruzes da Idade Média, até o Adão, ou inclusive até a primeira ameba. Não terá a menor importância que Mr. Robert Wentworth Little inventasse toda a «tradição» do ar quente e outras chaves perdidas em colaboração com a enigmática Fraulein Sprengel. O fato objetivo, significante, no qual se enfoca a atenção científica, deve ser aquele que enlaça a esta organização de nosso amigo Babcock com uma sociedade secreta dedicada a projetos dos quais não sei nada, atualmente, embora ele diz que são muitos. De fato, muitos. Como todos nós, todos os dias.

         A absurda evidência da hyphoteses nonfingo de Newton: atualmente, é impossível não teorizar. A velocidade de transmissão nervosa no cérebro é tal que não podemos separar a percepção do conceptualismo. É um conceito de que estou agora mesmo falando com os seres humanos. Joyce e Babcock poderiam ser meros autômatos que se fazem passar por seres humanos, ou possivelmente, eu esteja alucinando. Quem, a não ser Poincaré e Mach, poderia compreender tudo isto? Vivemos, como diz Joyce, em uma rede de construções simbólicas criada por nossos cérebros. Os Herrdoktorprofessors não podem entender meu papel na relatividade do espaço-tempo porque eles pensam que «medida» é um fato, não um conceito de nossos cérebros.

         E isto, também: quando renunciei a minha cidadania em Milão, faz já quase dezessete anos, senti algo similar ao que o profundo psicólogo chama a experiência do renascimento: me redefini e me redescobri mesmo. Quão mesmo, quando rechacei ao Deus de meus pais. Possivelmente, ambas coisas fossem necessárias antes de que redefinisse e redescobrisse o espaço e o tempo. Renunciar ao velho tem que preceder ao descobrimento do novo.

         Assim: depois de todo este galimatías, isto é básico, estruturalmente, o que descreve Sir John: um processo mediante o qual um menino órfão e à deriva pelo mundo com o dinheiro suficiente, descobre um novo caminho para definir-se e perceber-se a si mesmo. E também, claro está, seu mundo.

         Quão mesmo eu redefini o mundo, após redefinir a mim mesmo. Um jogo de xadrez mental.

         Mas, quais são as regras desse jogo e como chegou a alcançar o estado de terror em que vive? Quem, ou o que, é o jogador que há do outro lado? Isso é o primeiro que tenho que entender: as regras do estranho jogo mental chamado Ordem Hermética do Amanhecer Dourado.

         Não tenho que perguntar «Como se sente um, sendo um fóton?», como Biedermeier Einstein faz duas décadas, em 1894, a não ser, neste caso: Como se sente um, sendo aprendiz de bruxo?

                           OS ARQUIVOS GENÉTICOS

         O primeiro Furbish Lousewart foi conservador da grande e verde Mansão Babcock. Da grande e verde Mansão Babcock foi conservador e encontraram-lhe uma terrível noite entre a morte, breves horas depois, de que acontecesse o sangrento nascimento de seu ser da matriz de sua mãe. Furbish Lousewart foi um bastardo que encontraram com belo achado.

         Daquela linhagem, do belo Furbish, diz-se que foi plantado no ventre de sua mãe pelo ajudante do Weems, um homem maior que qualquer dos que fossem armados cavaleiros pelo Round John, ou o Sagrado Javali de São Hubert, pois São Hubert era a igreja de Weems, na que atuava de ajudante. Da mãe de Furbish se diz que foi uma donzela que penava um pecado sensual com uma piedosa peregrinação à tumba de Tomás; contando um conto fabuloso a um tal Geoff, Chaucer, quem em verso, transcreveu aquele conto e o fez livro para que todos o conhecêssemos. Também dizem que serve de modelo para a formosa Sacerdotisa das cartas ciganas, chamadas Tarot, carta que antigamente mostrou à Papisa e atualmente à Alta Sacerdotisa.

         Lorde Greystoke, chamou o recém-nascido, Furbish Lousewart, por causa do encantador que os pareceu, quando lhe encontraram em um estábulo. Furbish Lousewart era o mais agradável nome que pudesse ter um amante da Alegre Inglaterra naqueles dias, quase comparável no nome vernacular de herba pedicularis, uma flor muito bela da família dos dragões; não teve outro apelativo, que o de flor bela e encantadora.

         Furbish Lousewart cresceu e se fez forte, sendo amigo da cautela, embora, desenvolvendo muitos recursos; contava com seus três filhos varões (legítimos) e sete meninos de ambos os sexos (ilegítimos); mas, aí, morreu então, na Sagrada Cruzada contra os terríveis sarracenos que possuíam a Terra Santa pela força da espada. Todo mundo diz que embora ele (F. Lousewart) impressionou mais à posteridade por seu ardente valor que pela fidelidade ao sagrado leito do matrimônio cristão, o Rev. Hon. Juiz Mr. P.J. Farmer, entendido em genealogia e questões de antiquário, disse em muitas ocasiões (para ouvidos de muitos, que gozavam de boa reputação) que o único Greystoke que sobreviveu à Cruzada foi um falso Greystoke, fruto da união de Lady Greystoke, com o patife já mencionado, Furbish. Se isto fosse certo, a nobre linhagem dos Greystoke (quem, por Papistas que fossem, diz a gente, não deixaram de ser bons anglicanos) seria de origem plebéia e bastarda. Se for verdade, ao dizer de todo o mundo, a história não deixa de ser divertida.

         Ao menos a ciência pode pronunciar-se com matemática certeza: dentro dos testículos do Visconde Greystole, na noite de 26 de junho de 1914, subtraía, exatamente, um dezesseis avos (0.0625) da informação genética que formou a palmilha neurogenética de Sir John Babcock; enquanto, que dentro do testículo do primo do Visconde Greystoke, Giacomo Celine, subtraía exatamente um quarto (0,25) da informação genética de Hagbard Celine, quem mais de dezesseis anos antes fosse a informar ao tio avô do guarda-montes de Sir John de que não havia inimigos por nenhuma parte.

             DE SOMNIIS VESTIMENTA HORRORIS

         Da ironia dos grandes horrores, a casualidade está completamente ausente, como se nos recordasse que na verdade não existem coisas tais como a falta de motivo, ou a maldade da carência de mente. O espelho destroçado de Sir John lhe inspirou, sutil e indiretamente, para que começasse a acomodar-se de algum modo ao século vinte, mas, ao mesmo tempo, os infernais terrores de séculos passados se reuniram a seu redor, mais insidiosamente que antes. A ruptura resultou só moderadamente inquietante em um princípio, embora não voltaria a olhar-se nele sem imaginar ver, em distorcida a imagem de si mesmo criada pelos vidros quebrados, algum depressivo e ameaçador símbolo do lado escuro da força do Vril que lhe teria atacado, aproveitando o ponto débil aberto em sua suscetibilidade pelos voluptuosos desejos despertados, possivelmente, deliberadamente, pela enigmática Lola e suas descaradas e casuais alusões ao ritmo do ato da cópula e a vermelha cobra do desejo. Atacava-lhe uma desagradável idéia, embora tentava livrar-se dela; seria uma loucura aceitá-la, sem melhores evidências, que a coincidência de um mau sonho com um tremor de terra, embora o insidiosamente perturbador conceito seguisse crescendo em sua mente; possivelmente, havia se encontrado com uma bruxa autêntica e o mundo medieval que tanto estudasse, cobrava vida aparente a seu redor.

         O dormitório parecia-lhe insidiosamente deprimente, sobretudo pelo espelho roto e suas loucas imagens bifocais, embora também, se detectava algo, desagradavelmente, sutil em qualquer outra parte da imensa casa: algo desagradável e inquietante, quase uma sensação de decadência e morbidez, que parecia permear o ar; algo sem nome e vago, um mero bosquejo de novas presenças e possibilidades, provavelmente criadas por sua ativa imaginação, embora parecesse de natureza nativa, virtualmente antediluviana, furtivamente lhe sugiram de odiosos segredos de tempos esquecidos, atos contra a Natureza e contra a Escritura. A invasão inclusive os móveis por aquela rudimentar presença resultava desconcertante, se se comparava a luz da cambiante atmosfera ante a Força Obscura (como ele a chamava) com a prévia ubiqüidade que enchia a Mansão Babcock de normalidade apoiada no estrito sentido comum.

         AÇÃO - SOM

         EXTERIOR. MANSÃO BABCOCK. PLANO LONGO.

         A casa quase se perde em uma paisagem de árvores escuras e sombras do crepúsculo.

         Tambores vodu.        

         EXTERIOR. MANSÃO BABCOCK. PLANO MÉDIO.

         A casa, escura e ameaçadora. A bicicleta barata em frente à entrada.

         Tambores vodu.

         Sir John se embarcou em uma campanha destinada a desterrar todo o roto mobiliário, não só o maldito espelho, mas, a totalidade da Mansão Babcock; logo, todo o lugar se animou com vendedores e operários atraídos por um amplo projeto de modernização, que incluía, por exemplo, a instalação de eletricidade em todas as habitações. Requereu muitos meses mas, finalmente, a Mansão Babcock ficou completamente adaptada ao século vinte. O maligno humor das odiosas forças desatadas contra Sir John seguiu, não obstante, atuando, enquanto sua superficial adaptação à presente avançava febrilmente pela casa, com uma crescente invasão de sua vida interna mediante os mais infernais e antigos terrores.

         Sir John continuou sonhando, freqüentemente, com a Capela Perigosa e assim uma vez encontrou-se em um imenso calabouço subterrâneo, onde multidões de pessoas rudes e estúpidas argumentavam e debatiam violentamente. «Seremos os deuses tais!», gritavam alguns. Mas outros replicavam: «Seremos os deuses quais!» E pareciam fora de si. «Não há Capela, não há Graal, isso só são contos para os meninos», murmurava o urso guerreiro da Alicia. «Os três ovus, nosso tamanho, nosso peso», cantava um Erring Go BRA de arestas branco-alaranjadas que imitava o gorjeio de um polvo pentagonal cheio de pó de soma. «Aqueles são os que cruzam o Caminho sem a Vara da Intuição. Chegam a seu destino, mas não sabem. Têm-no, mas não podem vê-lo. Mel para eles. Haverá um excremento do BRA nos bosques?»

         Quando Sir John plasmou este sonho em seu Diário Mágico, acrescentou o seguinte comentário:

         Por alguma razão que não posso compreender plenamente, despertei com a convicção de que Shakespeare foi, efetivamente, um iniciado dos Rosacruzes.

         Sinto que cada vez estou mais perto do que quis dizer quando escreveu que «somos da mesma substância que os sonhos.».

         Poucas noites mais adiante foi enrolado para jogar uma partida de bridge com o Visconde Greystoke, embora aquele era um dos passatempos idiotas que geralmente desdenhava. A duras penas suportou a primeira parte da velada: muito brandy, muitos puros e todos falando sem parar da caça da raposa, um esporte que desprezava por desumano e bárbaro. Com grande esforço, reprimiu-se para não mencionar, a infame descrição de Wilde, a respeito daquele sangrento entretenimento, como a «indigesta perseguição do inominável». Por volta das dez ocorreu algo estranho: subitamente recordou que o jogo de cartas habitual derivava do Tarot. As espadas eram as Varas da Intuição, os Corações as Taças da Simpatia, os Trevos as Espadas da Razão e os diamantes os Pentáculos do Valor: e a estrutura do maço correspondia, astrologicamente, aos signos de fogo, água, ar e terra: 52 semanas em 4 estações, 52 cartas em 4 naipes. Se os signos cabalísticos encontravam-se em todas partes, a divina essência também devia achar-se em todas partes; recordou uma vez mais, que não existiam lugares, ou tempos, onde os mundos visível e invisível não se encontrassem e se entrelaçassem; voltou a ver, em todo mundo, à Buda. O resto da velada permaneceu tão intensamente consciente que lhe pareceu que sua vida anterior não fora mais que um sonho em comparação com aquela noite; ganhou mão detrás de mão. A euforia acompanhou-lhe durante dia e meio, até que voltou a já conhecida sensação de vaga ansiedade, quando se lembrou de que muitas formas de loucura começavam com certos estados de excitação mental nos quais cada incidente e evento parecia carregado com algo mais que um significado meramente humano.

         Dois dias depois, em Londres, Sir John voltou a encontrar-se com o pomposo americano, Ezekiel (ou Ezra) Pound — possivelmente, por acidente — no Museu Britânico. Pound carregava um dicionário chinês-inglês e um lote de blocos de papel etiquetados como «Manuscrito Fenollosa» e mostrou-se efusivamente cordial. Amigavelmente, ficaram para tomar um bocado, ou almoçar juntos.

         — Yeats avança na direção correta, sob minha influência — explicou Pound, grandiloqüente, por cima das batatas com pescado —. Saiu da névoa celta e começava já a escrever poesia moderna. — Sir John encontrou aquela demonstração de auto-importância do mais hilariante, mas procurou que não o notasse na cara. Com tato, mudou de tema.

         — Por que lhe preocupam tanto as formas verbais chinesas? —perguntou timidamente.

         — O chinês — disse-lhe Pound— resultará tão importante para o século vinte, como o grego para o Renascimento—. Seguiu durante vinte minutos, desenvolvendo aquele tópico antes de que Sir John tivesse ocasião de voltar a falar.

         — Quem era a jovem que recitou ao Capitão Fuller? — perguntou, sabendo que um impulso diabólico obrigava a isso.

         Pound levantou a vista agudamente.

         — Diz que seu nome é Lola Levine e que vem da França —replicou—. Duvido. Seu francês é pior que o meu.

         — Parece australiana... — comentou Sir John.

         — Exatamente — confirmou Pund —. Não deve confiar muito nas jovens. Ouviu falar de Aleister Crowley? — indagou.

         Sir John recordava o nome, um dos líderes de uma facção renegada do Amanhecer Dourado desviada para o Satanismo.

         — Vagamente — respondeu.

         — Bem, se o que ouviu você for, provavelmente, desfavorável, como inglês educado não o mencionará — disse Pound com um penetrante olhar—. Se quiser minha opinião, Sir John, não deve interessar-se muito em Lola Levine. Dizem que é, ou que foi, uma das incontáveis amantes de Crowley. Às pessoas que se envolvem com Crowley, ou com seus amigos, ou amantes, ocorrem-lhes coisas terríveis. Ouviu falar de Victor Neuberg?

         — Um jovem poeta... Receio que não li nenhuma de suas obras.

         — Víctor Neuberg esteve muito relacionado com Crowley faz uns poucos anos — contou-lhe Pound—. Começa a recuperar-se agora, lenta e dolorosamente, de um completo desastre nervoso e mental.

         — Um desastre mental — repetiu Sir John — Quer dizer...?

         — Assim o chamaram os doutores — respondeu Pound sombrio —. Neuberg acredita que está sob a influência dos demônios.

         — Oh! —disse Sir John—. Que horrível!

         — Sim —Pound respondeu com o olhar fixo—. Essas são as coisas que acontecem com as pessoas que permanecem muito perto de Crowley, Lola Levine e seu círculo. Neuberg diz que uma vez Crowley converteu-lhe em camelo.

         — Em camelo? — exclamou Sir John.

         — Assim é — replicou Pound—. Suponho que resultaria mais tradicional, converter-lhe em sapo, mas Crowley, por isso dizem, tem um peculiar senso de humor.

         — Acredita que converteu Neuber em camelo realmente? — perguntou Sir John, ansioso por descobrir a atitude real de Pound acima de tudo aquilo.

         — Infernos, não! — Pound pôs-se a rir estrepitosamente—. O que acredito, é que se você mistura-se com um grupo como esse; pratica o ioga, a meditação, o sexo em grupo, as drogas e as ululantes invocações à Sírio, condenadamente, logo você estará acreditando o mesmo que acreditam outros lunáticos do grupo.

         Com aquela observação, acabou o almoço e separaram-se. Sir John encontrou-se perguntando se estaria preparado para assumir, mentalmente, a metamorfose de um ser humano em camelo. A idéia não parecia pertencer à verdadeira tradição do misticismo em que lhe estavam educando no Amanhecer Dourado, a não ser, ao reino do folclore, da bruxaria e dos contos de velhas fofoqueiras; em que pese a tudo, perseguia-lhe um pensamento com tanta firmeza como um agiota sem cobrar. Algo se passou ao pobre Neuberg, algo que os alienistas possivelmente, não estão preparados para compreender, ou curar. Se estivermos feitos com a mesma substância que os sonhos, as loucas forças que Macbeth, tão evocativamente, chamava «agentes negros da noite» seriam tão fortes, como qualquer outra coisa na mascarada vida social com seus tímidos decoros e decepções; também pensava em outra questão: Em tudo isto há certa lógica cabalística. O camelo correspondia à letra hebréia gimmel, contrapartida da Sacerdotisa Mascarada do Tarot, o guia do Abismo das Alucinações, até a luz indivisa da Pura Iluminação.

         Naturalmente, tratava-se só de outra coincidência — só outra coincidência —, todavia, Sir John encontrou-se com Lola Levine em Rupert Street ao longo da tarde. Não havia engano: reconheceu o escuro cabelo castanho, os estranhos olhos marrons, a excitante e voluptuosa figura que desatava a cobra do desejo. Pela graça de Deus, não lhe viu e Sir John se adiantou rapidamente, pensando em suas anáguas e em suas ligas.

         Naquela noite, entretanto, voltou a encontrar-lhe embora de um modo muito mais vigilante. Praticava o quarto exercício diário de projeção astral, de acordo com o manual de instruções do Amanhecer Dourado, e, pela terceira vez, desde que começou a praticar, alcançou um estado mental que quase acreditou real.

         [«Parecia real», disse ao Jones depois da primeira de tais experiências, «mas não posso estar seguro. Possivelmente, engano-me mesmo e só eram minhas hipóteses.»]

         [«Rogo-lhe que não se preocupe», replicou Jones. «Sempre começa como uma hipótese...»]

         Naquela ocasião, Sir John, com os olhos fortemente fechados, imaginou que sua mente astral saía de seu corpo, e olhava para baixo, à habitação — incluindo seu corpo físico—, desde algum vantajoso observatório perto do teto, de uma forma tão real que, novamente, começou a acreditar serem suas hipóteses. Seguindo as instruções, projetou-se mais acima, sobre a terra, olhando para abaixo, às suas posses, de uma grande altura e, continuando, projetando-se ainda mais acima, distinguiu a Inglaterra e outras partes da Europa. Com um colossal esforço, projetou-se ainda mais alto e viu o branco deslumbrante da luz do sol (detrás da Terra àquela hora) e os planetas Mercúrio, Vênus e Marte. Tudo ia tão bem que decidiu sair completamente do sistema solar e aproximar-se dos reino de Yesod, o primeiro plano astral.

         E assim ocorreu, igual se descrevia nos livros cabalísticos ao longo dos séculos: os dois pilares da Noite e do Dia, a Mascarada Sacerdotisa sentada em seu trono: Shekinah, a encarnada Glória de Jehovah.

         — Quem ousa se aproximar deste reino? — perguntou a Sacerdotisa; sua voz soava estranhamente familiar. (Ou, quiçá, simplesmente, estava imaginando tudo aquilo? Não seria aquela prática um simples truque para contatar com o inconsciente, mediante «sonhos» estando parcialmente consciente?)

         — Sou um que vê a Luz —respondeu Sir John, conforme à fórmula.

         — Deu as costas à Luz —replicou a Sacerdotisa agudamente, enquanto, seus olhos marrons pareciam brilhar, ou reluzir de algum estranho modo—. Rechaçou-me e aliou-se com os Irmãos Negros que odeiam e desprezam Minha criação. Noites infernais; rochas intangíveis.

         — Não, não — disse Sir John, recordando-se, freneticamente, o Primeiro Ensino [«Temer é fracassar e o prólogo do fracasso]—. Nunca lhe rechacei.

         — Rechaçou à fêmea, Minha representante na Terra; o ato de alegria e amor que é Meu Sacramento. Nunca passará esta porta até que vença seu medo pela Mulher. Temer é fracassar e o prólogo do fracasso.

         Sir John reconheceu Sua voz finalmente: era a voz de Lola Levine. Desesperadamente, afundou-se em direção à Terra, tentando manter a calma, quando um se cega pelo pânico, dizem os ensinos, não é capaz de encontrar o caminho de volta à Terra e a seu corpo carnal.

         Em meio da mais total confusão, encontrou-se brevemente em um dos planos alquímicos, onde uma Águia Branca, um Leão Vermelho, um Unicórnio de Ouro e Sir Talischlange perseguiam-lhe por um bosque mágico, no qual as árvores cantavam ritmicamente: «Pangenitor, Panphage, Pangenitor, Panphage, Pangenitor, Panphage...» A voz de Lola cantava como antecoro: «Io Pan! Io Pan Pan! Io Pan! Io Pan Pan!» De algum modo, voltou a girar para baixo, cada vez mais abaixo, atravessando umas trevas sem fim, chegando à Luz Branca do sol, ao giróvago globo da Terra, à Inglaterra, à suas propriedades, e ao dormitório em que encontrou a si mesmo sentado, suando e com o coração pulsando loucamente.

         Recitou o grande Mantra de proteção: «Cristo sobre mim, Cristo sob mim; Cristo a minha direita, Cristo a minha esquerda; Cristo diante de mim, Cristo atrás de mim; Cristo dentro de mim». Tinha as costas fria por causa do suor, enquanto o calor astral lhe abrasava a fronte; tremia. Repetiu o Mantra três vezes mais antes de voltar a encontrar-se seguro novamente.

         — Se lhe acontecer algo, particularmente glorioso, ou particularmente terrível, escreva-o enquanto possa — instruiu-lhe Jones em seu momento—. Logo, volte para uma atuação mental linear e rigorosa... e o registrado lhe resultará útil mais adiante.

         Sir John praticou em primeiro lugar um ritual de desterro, para colocar-se em um ponto seguro, e a seguir descreveu a visão cuidadosamente em seu Diário Mágico. Acrescentou:

         Se só foi meu inconsciente jogando-me alguma passada, a experiência resultaria ainda mais interessante. O coro e o antecoro que invocava à Pan, parecia sugerir que o inconsciente, pode compor poesia grega muito mais rapidamente, que minha mente consciente. E o conteúdo ideológico do cântico —Pangenitor, criador de tudo; Panphage, destruidor de tudo —, indica claramente a identidade de Pan e do deus hindu Shiva, o qual é ainda mais curioso, pois nunca fora consciente de tal identidade antes da Visão.

         Só posso concluir que o intento de reducionismo do parágrafo anterior é muito forçado e não resulta realmente convincente. Por isso sei, o que me ocorreu não responde tão somente à truques inconscientes da mente. Como meu coração não é puro, pois albergo luxúria e desejo carnal, não alcancei a verdadeira porta de Yesod. Não encontrei Sbekinah, a componente feminina de Jehovah, como seria o caso se meu coração fosse puro. Dei com Ashtoreth, a fêmea do Diabo, quem, de acordo com Sua natureza, tentou me seduzir psiquicamente. Muitos alquimistas falam de parecidos encontros com succubus, ou demônios femininos, da luxúria.

         Sir John repetiu o ritual de desterro e terminou com a projeção astral por aquela noite. Concedeu-se um pequeno gole de brandy, como calmante, e outro, inclusive um pouco mais forte, antes de ir à cama.

         Todavia, não escapamos de nossos demônios tão facilmente. Sir John sonhou muitas coisas, todas elas voluptuosas e sensuais. Vagou por haréns multicoloridos cheios de jóias, nos que Vitorianos sodomitas, vestidos de mel com cueca de pele de camelo, dedicavam-se à vis e inomináveis perversões, à obscenidades que antes só tinha encontrado nos evasivos eufemismos latinos de Krafft-Ebing. Passeou pelos jardins de seu tio, o Visconde Greystoke, onde um moreno e sibilino siciliano, chamado Giacomo Celine (que dizia estar remotamente, aparentado com os Greystokes e, por isso, com o próprio Sir John) explicava com ardor algo, totalmente, incompreensível sobre o Sexo e a Criação. «O macho é o espaço e a fêmea é o tempo», dizia Celine, «mas, naturalmente, o universo é bissexual».

         Palhaços e acrobatas cantavam «Indagar Nunca Resulta Irritante», mas Yeats e Sir John voltavam a cair na monotonia de Pound. Yeats sussurrava sugestivamente: «Os culpados são os ursos. Sempre está tão obscuro antes da tormenta». Conduziu ao Sir John a outro jardim, além de um vestíbulo com infinitos espelhos refletivos, onde a Condessa de Almaquemada lhe esperava, com uma cara muito parecida com a de Lola. Encontrava-se totalmente nua, exceto por uma liga azul com uma estrela de prata na coxa esquerda. Douradamente nua, como um sonho árabe, movia a mão esquerda revolvendo o arbusto de cabelo castanho sobre a enlouquecedora liga, fazendo-se aquela horrível coisa a si mesmo, tomando por escuro estandarte um montão de meias tão grossas como um tijolo, brilhando-lhe a cara com o mesmo inexpressivo e desumano rapto da estátua de Santa Teresa em Roma. «Para os meninos, tudo é infantil», murmurou Yeats, desvanecendo-se entre os mil reflexos dos infinitos espelhos.

         Sir John deitou-se sobre Lola, beijando a liga arrebatadamente, enlouquecido pelo anseio, o amor e o desejo, enquanto ela sussurrava: «Todas as coisas são Buda. Mal vai, a quem mal deseja». E envolvia-lhe com suas coxas, tragando-lhe, levando-lhe a um êxtase tão intenso que Sir John não podia saber se se tratava de algo divino ou diabólico.

         — Pouca coisa? Pouco caso? — cantarolava Sir Talis Saur —. Se Deus for quase Dois — acrescentou, forçando o trocadilho—, quer dizer algo? Que não é o Todo-poderoso? — Mas Sir John estava se atirando a uma prostituta em zelo, derrubando-se pelo lodo: mente, coração e alma perdidos em a Noite de Pan.

         Com o coração pulsando grosseiramente, Sir John gritou ao despertar, gemendo, com a evidência do orgasmo, escura e úmida, por baixo do pijama.

         AÇÃO - SOM

INTERIOR. PALÁCIO DE BUCKINGHAM. SALÃO DE TRONO. PLANO MÉDIO.

DISRAELI sussurrando à RAINHA VITÓRIA

VITÓRIA demonstra horror.

DISRAELI baixa ainda mais a voz.

Disraeli: «O infame moço Babcock fez uma e outra vez».

Disraeli: «E esta vez será pior que nunca. Sem mãos!»

INTERIOR. SALÃO DE TRONO. PRIMEIRO PLANO.

VITÓRIA furiosamente irritada.

Vitória: «Que descarado! Chamem à guarda! Que lhe açoitem outra vez!»

               DE FORMULA LUNAE

         — Encontrei um súcubo —disse Sir John, culpado, sabendo que a culpa era só dela.

         — Efetivamente — replicou Jones em voz baixa. Estavam jantando outra vez no Simpson's e Jones parecia estranhamente ausente e preocupado—. Foi em um sonho, ou no plano astral?

         — Em ambos — disse Sir John, começando, ou seja, o que sentia um católico ante o confessionário.

         — Você foi capaz de rechaçá-lo eficazmente?

         — Tentei-o — respondeu cansadamente Sir John.

         — Em outras palavras, não o conseguiu. —Jones parecia irritado, como se já tivesse muitos problemas e não necessitasse aquele—. Teremos que pospor sua iniciação como Neófito até que arrume o assunto —acrescentou, pensativamente—. Olhe, você tem o manual de projeção astral e nele se encontra o Ritual de Desterro do Pentagrama. Terá que praticá-lo várias vezes, essa é minha opinião, até que sinta que a presença invasora foi expulsa de você totalmente.

         Saltou-se à usual sobremesa cordial e terminou a comida com uma brutalidade não habitual, partindo com o aspecto de um homem que tem mais problemas do que pode dirigir simultaneamente.

         Sir John voltou para sua casa desacorçoado e apreensivo. O que alguém pode fazer, quando o professor indica, claramente, que seus problemas são de menor importância se os compara com as outras cargas que suporta ele mesmo? Começava a ter obscuras suspeitas e Jones não lhe tinha dado nem sequer a oportunidade de expô-las. Todavia, Sir John recordou também todas as referências lidas a respeito dos Rosacruzes Escuros, a Irmandade Negra, o grupo que se dedicava a vexar, espreitar e seduzir a todos aqueles que se embarcavam no caminho espiritual da Grande Obra. Era possível que Lola Levine e seu misterioso amo, Crowley, conspirassem para destruir o verdadeiro Amanhecer Dourado, desencadeando ataques astrais contra os novos e não muito avançados estudantes como ele mesmo?

         Sir John tentou desenvolver o Ritual do Desterro várias vezes, porém, não conseguia mais que um simulacro de representação. Não sentia nada; não percebia nada novo; descobriu que sua autoconfiança desfalecia. Finalmente, com um humor misturado de aborrecimento e nervosismo, começou a estudar um pouco os livros de Magia Negra que possuía, livros que, anteriormente, só havia considerado, ocasionalmente, com repugnância e terror. Naquele momento, obrigou-se a lê-los cuidadosa e escrupulosamente, determinado a compreender as forças que podiam lhe atacar. Depois de tudo, continuava praticando o Ritual do Desterro durante vários meses, aceitando a temperada explicação de Jones de que o objeto era desterrar de si mesmo todas as impurezas que pudessem interferir com a Grande Obra. Porém, alcançava um ponto, no qual se perguntava, se o objetivo real seria desterrar as forças, ou entidades, que o Neófito não devia conhecer, ou se sucumbir ao medo representava o fracasso.

         Leu o inominável ritual do Cabrito Negro com Mil Crias, o da feroz Serpente do Poder que podia chegar das genitálias ao cérebro, mediante proibidos excessos sexuais, o da viciada Eucaristia da Imortalidade bebida em indescritíveis ritos realizados por aqueles que querem substituir a Deus pelo Homem. Com náuseas e enjôos, começou a compreender a lógica satânica que havia detrás de todo aquele galimatías de sujeira, blasfêmia e pervertido transcendentalismo... O secreto gnóstico ensinava que Neschek, a Serpente da Gênese, possuía o número 358, o mesmo número que Messiah, por isso, a Serpente é o Messias (Todas as palavras com o mesmo valor numérico cabalístico são os nomes da mesma entidade metafísica.)

         Descobriu a interpretação maniqueísta do I.N.R.I. — Ingenio Numen Resplendet Iacchi, o verdadeiro Deus é Iacchus (Dionisio) — e a lógica, quase malvada, resultou-lhe muito clara: a lascívia e a prolongada sensualidade, para aquela enlouquecida filosofia, constituíam a essência do êxtase, que apagaria o ego e elevaria ao Homem a Deificação. Sentiu-se, literalmente, doente depois de um dia de pesquisas; tremeu ao pensar em quão lunáticos, acreditavam tais coisas e o que teria que realizar para consegui-lo.

         Sir John decidiu provar com a Invocação do Santo Anjo Guardião, embora, esta fosse considerada como arriscada para aqueles que estivessem abaixo do Grau de Mestre do Templo.

Não passou nada... exceto a invocação desatou medos maiores e a mais selvagem esperança que Sir John houvesse sentido com antecedência. Mas, possivelmente, a intensificação da emoção era tudo o que podia esperar-se da Invocação de um Aprendiz.

         Poucos minutos depois de fechar o ritual e romper o círculo, Sir John, repentinamente, sentiu o impulso de escrever. O que chegou a sua pluma não foi um relato da invocação e seus resultados, como lhe aconselhassem os ensinos de Jones, a não ser quase um diálogo platônico com a obsessiva alma de Lola Levine, a Sacerdotisa Negra:

                                     CULPA URBIUM NOTA TÉRREA

         EU: A suja, a porca filosofia, a negra perversão da civilização e a ordinária decência: como pode acreditar-se que este seja o caminho da alta sabedoria para o Super-homem?

         ELA: Não, não pensem que possuem a Sabedoria quando ainda estão presos pela Maldição Conhecida no Coração e dos Intestinos, não na Mente Verbalizada, que o Grande Tao sempre tem na Balança, pois o Excesso da Disciplinada energia do YANG é o mais, perigosamente, Explosivo: e as piores Guerras de toda a História têm caído sobre você por Ele. Ouçam-me: para obter o Equilíbrio Psíquico da Humanidade é necessário seguir o Movimento do Pêndulo do Alegre, Dionisio, até sem mente, Refúgio do YIN. O Macho deve deixar de tiranizar à Fêmea, o Racional ao Irracional, o Espírito à Carne. Devemos voltar a ser Um e Indiviso sob a Luz Branca e Enlevada do Deus Cornudo, Iacchus, pois, se não cairemos no Poço da Causa e pereceremos devorados pelos Cães da Razão. O Espírito que há sobre Mim, inclusive quando escrevo com Mão involuntária. Adoro-te, Evoe! Adoro-te, IAO!

         EU: Essa doutrina engendrou a amoralidade que destruiu a Grécia e Roma; é a plausível mentira que justifica qualquer depravação. Os opostos não tendem a unir-se, a não ser a lutar até que a Luz triunfe sobre as Trevas. A alma humana é o campo de batalha de Deus e o Demônio e eles não são Um. Deus não é o Mal; Deus não é o Demônio.

         ELA: A alma limitada pelo Sim e o Não está na Prisão e cria Pestilência. Perguntem aos Sábios Rabinos quem fez a Sagrada Cabala e verão a Poderosa Chave que deixaram aos que têm Olhos para Ver: não têm Neschek e Messiah a mesma Contagem de 358? O que significa? Em um Sinal que marca o Caminho da verdade que se estende além de toda Dualidade, além de todo Conceito, mais à frente do condenado Calabouço do Sim e do Não. Outra vez, sinto-me possuída pela inexpressiva falta de nome da Noite de Pan. Pan! Io Pan! Adoro-te, Evoe! Adoro-te, IAO!

         EU: Está louca. Toma suas imperdoáveis blasfêmias e sua vil e enganosa filosofia e suas ligas e sai de minha mente, maldita!

         ELA: A Verdade da qual falo se encontra inclusive no simbolismo da Árvore da Vida, Rosacruz. Quão mesmo o Tao é tanto o branco yang como o negro yin, em a Árvore Cabalística, igualmente, acaso Kether, o Supremo, não se manifesta tanto como Chokmah, o princípio Masculino da Luz, como Binah, o princípio Feminino das Trevas? Não diz a Bíblia, por boca de São Paulo, que a alma iluminada «não está sob a lei, a não ser sob a graça»? A Graça se dá a quão sábios estão mais à frente do Bem e do Mal, além da Mente e seus vazios Conceitos, alcançando o Encantamento da Unidade da Ausência de Mente. O Espírito volta para mover-se em Mim, e em sua Mão, e lançamos um único grito: Adoro-te, Evoe! Adoro-te, IAO!

         EU: Sim, o Diabo pode empregar a escritura para obter seus próprios fins. Mas, estes obscenos rituais, revelados como desejo carnal, são o obscuro caminho descendente, à Terra, e o caminho da verdade sobe, até chegar aos céus estrelados.

         ELA: Se, por princípio, todos somos realmente Buda, como Qualquer deles pode ser o Mal? Se toda a energia proceder da Luz Indivisível, como dizem os Cabalistas, como qualquer Desejo do Coração Humano pode estar em oposição à Luz? Você dirige-se sozinho à Loucura com falsos Dualismos, quando na verdade não faz mais que se perguntar por que não consegue a profunda Unidade mediante a Grande Obra. Falo como Mãe e Amante de todos os Homens. Sou a Matriz escura e a úmida Noite em que começou a Criação. Sou Shekinah, a glória encarnada de Jehovah. Adoro-te, Evoe! Adoro-te, IAO!

         EU: É Asthoreth, o demônio da luxúria, e desterro-lhe em nome daquele A Quem Temem Os Ventos, o Senhor do Universo, o Deus Verdadeiro Cujo Nome é.

         ELA: Não blasfeme escrevendo um nome que não pode compreender. Agora tenho que lhe deixar, por um Momento, mas não se Engane. Só Desterra a uma Metade de Si Mesmo. Em você, alma Desunida, só crescerá o louco Medo e o enlodado Ódio. Joga com essas ligas que guarda no armário desde que tinha dezoito anos.

         Sir John atirou o lápis para romper o feitiço. Era como se outro espírito diferente ao dele estivesse escrevendo por mediação dela; parecia-lhe indecente, pior que a vez que um inseguro pervertido lhe encontrou em um trem, quando tinha dezesseis anos e muito medo como para gritar e só partiu furtivamente, envergonhado; mas, aquilo era a mais vil, a mais pessoal, invasão. Sentiu-se sujo e poluto.

         Sua mente ainda se desbocava pelas heresias emanadas de Lola. «Sou o Senhor: Criei o Bem e o Mal». «Quando o Adepto cruza o Abismo, todos seus oponentes se fazem Um». «Brahman é o assassino e o assassinado». «Ouça, Israel: o Senhor Nosso Deus é Um». «ARARITA: Um em Sua origem, Um em sua Individualidade, Um em Suas permutações». O Alquimista «deve descer, a cada abismo, sumir-se nos fogos do Inferno, antes de concluir a Grande Obra». O Pecado Original constituiu o primeiro dualismo, «a Díada Maldita» denunciada por todos os cabalistas. «Tudo é Um». «Tudo é Tao». «Tudo é Buda». Os místicos de todos os tempos parecem estar por parte de Lola. 358: o Messias e a Serpente são Um. Qual era o significado (ou um significado) daqueles incoerentes sonhos sobre «tomem e comam da árvore a toda pressa»? 358: um em Suas permutações, uma em Sua origem.

         — O Diabo pode escrever todas as Escrituras do mundo —murmurou Sir John.

         Com uma prece como petição de graça, praticou a Bibliomancia: a arte de receber a guia divina abrindo a Bíblia ao azar, colocando um dedo sobre ela e lendo o versículo encontrado. Descobriu que o parágrafo eleito estava muito perto do final do Novo Testamento, pois pertencia à Epístola de São Judas. Leu com grande intensidade:

         Nuvens sem água levadas pelos ventos; árvores outonais sem fruto, duas vezes mortos, desarraigados; ondas bravas do mar, que arrojam a espuma de suas impurezas; astros errantes, aos quais está reservado o orco tenebroso para sempre.

         Certamente, era bastante detestável, e o contexto, quando Sir John o olhou, resultava inclusive mais carregado de pressentimentos:

         Como Sodoma e Gomorra, e as cidades vizinhas, que, de igual modo elas, tinham fornicado indo-se atrás carnes alheias, foram postas para castigo, sofrendo a pena do fogo perdurável.

         Também estes, deixando-se levar por seus delírios, mancham sua carne, menosprezam o senhorio e blasfemam das glórias.

         Que advertência mais clara contra Lola Levine e o infame Crowley e de todas aquelas pseudomísticas contemporâneas que tentavam exaltar a sensualidade como sagrada e o erotismo como religião! Mas, a Epístola continuava, sendo muito mais explícita e falando, diretamente, das tentações que sofria Sir John:

         Mas vocês, caríssimos, lembrem-se do predito pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo. Eles lhes diziam que ao final do tempo haveria mofadores que iriam atrás de seus ímpios desejos.

         Cada palavra era como uma chama que alimentasse a consciência de Sir John, revelando o horror do que quase triunfou sobre ele. Chorou com arrependimento e alegria: salvou-se. A comunicação direta com o Deus de seus Pais tinha chegado e Lola e suas enganosas heresias ficavam desterradas. Estava livre.

         — Nuvens sem água — repetiu—. Estéril, obscuro, sinistro... mas vazio. Mentiras, mentiras, tudo mentiras. Estou livre delas, livre!

         Em anos sucessivos recordaria aquele momento, perguntando-se como pôde ser tão cego. Os terrores reais ainda estavam ante ele e Judas «O Escuro», exercendo como oráculo, profetizava mais pelo que se podia compreender; enquanto, não passasse muito tempo e acontecessem vários estranhos eventos.

                                                   DE AURO RUBEO

         Deve repetir-se que, entre os personagens domésticos da Terra naquela época, o que eles, sonoramente, denominavam como a-Suprema-Virtude-de-não-meter-o-nariz-em-assuntos-das-autoridades era, universalmente, aceito como autêntico pivô e manancial do que, entre eles, era conhecido como viver-de-acordo-com-o-Plano-Divino-revelado-a-nós-na-igreja-aos-domingos. Jamais se formulavam perguntas epistemológica e, ontologicamente, básicas na «sociedade educada», descrita pela Inteligência Galáctica como tão-objetivamente-sem-esperança-em-sua-estupidez-como-subjetivamente-convencida-de-sua-própria-superioridade-sobre-outros-macacos-selvagens-e-domesticados. Aquela trágica e absurda condição, não encontrada em nenhum outro planeta, por mais que se buscasse no Grande Universo, foi devida por completo, à impressão em seus sistemas nervosos, do que, cientificamente, foi descrito na Enciclopédia TransGaláctica de Psicologia dos Personagens como reflexos-enlaçados-quimicamente-causadores-daquela-percepção-dos-personagens-limitados-à- «realidades»- acidentalmente-presentes-em-momentos-de-vulnerabilidade-da- impressão, o qual quer dizer, em muitos casos, que só o que causa secreção de adrenalina é percebido como visível e tangível por seus rudimentares cérebros. A ciência revelou, naturalmente, que o 99,99% do universo físico resulta invisível para seus sentidos; e que não são capazes de deduzir suas limitações perceptivas de uma parte igual dos universos mental e espiritual, devido à suas dedicações mamíferas de sobrevivência, reprodução e nutrição das criações.

     UMA MUITO CURIOSA HISTÓRIA VERDADEIRA DOS ROSACRUZES

         De Abramelin da Arábia chegou a Palavra Sagrada até o Abraham, o Judeu, quem foi chamado a sublime Tarefa dos Iluminados, devendo dominar cada Detalhe da Grande Obra, e cumprindo-a em duas estações não só para si mesmo, mas também, para todas as Pessoas daqueles tempos nos quais a Escuridão se apoderou do Ocidente. Assim foi escrito: Suum Cuique. E Abraham, chegada a Hora, passou o Segredo à muitos que o compreendiam só Em Parte e assim, finalmente, chegou até nosso Senhor, Christian Rosenkreuz (em Língua Inglesa, Christian Rosycross) quem pela Graça da Trindade compreendeu o Todo. Sis benedictus: em nome de Alá, o Piedoso, o Compassivo.

         Aquele a quem os homens chamaram Giordano Bruno, ou O Nolan, foi Mago de nossa Sagrada Ordem; e seu Ensinamento centrava-se sobre a Heliocentricidade, não somente no Sentido material, por isso os Irmãos Negros de Roma julgaram-lhe e Queimaram-lhe, cruelmente, na Estaca, mas também no sentido espiritual: no qual o Ego ou o Autoconhecimento do Homem constitui, como na Terra, não o centro da consciência, mas, meras aparências do Encanto, ou a Desilusão. E Bruno, o Nolan, ensinou a todos os homens que Devem Ler Entre Linhas que o Verdadeiro Centro da Alma é como o Sol: uma Luz Branca da qual chegou toda a vida à Terra; o que quer dizer que tudo impressiona ao Ego.

         Cagliostro adotou inumeráveis forma e nomes, e não conhecemos seu verdadeiro Nascimento humano. Mas, em muitas Terras e Tempos apareceu, sob diversos Nomes e Títulos; ainda lhe reconhecem por seus Ensinos que eram, são e serão, que o Pensamento consciente é Epifenomenológico, o Ruído da Máquina. Al-Chem-ia significa Ciência Egípcia, e a Verdadeira Ciência do Egito tem esta Origem: guardamos em nossa Casa muitas substâncias que atuam diretamente sobre o Sangue, embaralhando a Visão; mas, contamos com muitas outras substâncias da Natureza que atuam diretamente sobre o Sangue para regular a Visão. Quem tenha Ouvidos que Ouça: de magno opere. Em Nome do Pai, da Mãe e do Filho. Amém.

         E na Idade da Ciência, que Floresceu no século XIX, depois do Mago de Nazaret, a verdadeira Ordem dos Rosa-Cruzes surgiu debaixo da Terra, como uma Semente plantada que brotasse de novo: aproximava-se o Tempo de revelar o verdadeiro Segredo do Forno Cósmico e do Calor Alquímico à toda humanidade. Fizeram-se grandes preparativos, em profundo Segredo, para preparar o evento. Efetuaram-se muitos experimentos, dos quais nada sabem os homens, e um daqueles Experimentos foi a criação na Cidade de Londres da Ordem Hermética do Amanhecer Dourado, cujo Verdadeiro Nome é Comoedia Quae Pan Dictur.

                                 EXPERIMENTOS DE PROJEÇÃO ASTRAL

                                           Aumento do Calor Alquímico

         Assim, passaram dois anos. Alemanha e França quase se declararam guerra por um problema com um canoeiro em Marrocos, embora no último momento se negociou uma inesperada paz. China se converteu em uma república democrática. Amundsen alcançou o Pólo Sul e excitou a imaginação do mundo. Sir John, que cada vez se considerava mais liberal, regozijou-se quando a Câmara dos Comuns aprovou uma lei que garantia a Autonomia da Irlanda, e logo escreveu uma irada carta ao Times, quando a Câmara dos Lores a rechaçou. Um dinamarquês, chamado Niels Bohr, eletrizou à comunidade científica, ao sugerir que as descontinuidades quânticas criavam o interior do átomo do modelo de Rutherford, em forma semelhante ao sistema solar; ao Sir John divertiu que a ciência defendesse, finalmente, o tradicional provérbio hermético de que «as coisas debaixo são reflexos das coisas de cima».

         Sir John converteu-se, em muitos aspectos, em um homem novo, devido ao lento aumento do calor alquímico apoiado no celibato e na magia. Avançou desde Neófito à Zelador, de Zelador à Praticante. Treinou as asanas, posturas de Ioga que retorciam o corpo, do mesmo modo que a Cabala retorcia a alma; emergiu de tudo isso com melhor saúde, melhor autocontrole e melhor humor que nunca. Também aprendeu pranayana, uma técnica especial de respiração, que parecia vencer as emoções negativas e manter-lhe, vagamente, eufórico a maior parte do tempo. Seus estudos da Cabala, sob a implacável atenção de Jones, avançaram até tal ponto, que resultaram tão naturais para sua mente como as asanas para seu corpo; recordava dificilmente, as confusas e complicadas que lhe pareceram ambas as coisas em princípio. Suas viagens pelo plano astral ampliaram seu conhecimento de si mesmo e de outros, embora, continuava inseguro de que aquelas visões fossem reais, ou imaginárias.

         Uma noite encontrou-se com Lola Levine em um concerto, mas, não se sentiu nem apavorado, nem atraído, embora, não lhe resultasse de nenhuma ajuda o imaginar suas coxas e ligas.

         Um dia, no Soho, revolvendo as prateleiras de livros usados em uma livraria, encontrou um volume intitulado Nuvens Sem Água. Naquele tempo, já não acreditava nas coincidências: sabia que o que o ignorante denominava por esse nome, eram mais pistas ocultas que podiam ajudar ao Adepto em complexas questões espirituais uma vez decifrado seu significado. Tomou o livro e começou a folheá-lo.

         Um grupo de poemas intitulava-se «O Alquimista» e Sir John recordou, nostalgicamente, seu prematuro sentimento de total iluminação quando decifrou I.N.R.I. como a alquímica Igni Natura Renovatur Integra: todo mundo se refaz pelo fogo. Voltando às páginas, deteve-se na quinta estrofe e leu:

                                      a eterna fonte, o estranho elixir

                            Da qual o mago e o sábio viram com resignação

                                      Sua inacessibilidade.

                            Encontramo-la primeiro onde Os Deuses fazem filhos.

         Sir John observou o livro com muda surpresa. Não era possível que se referisse à perversão que sua mente, envergonhada, tinha lido naquelas palavras. Depois de tudo, não era um grimório de Magia Negra, a não ser uma coleção de poemas. Voltou a olhar o título da primeira página:

                                                   NUVENS SEM ÁGUA

              Editado a partir de um manuscrito privado pelo REVERENDO C. VEREY

                    Sociedade para a Propagação da Verdade Religiosa Impressão particular

                                  Para Circulação entre Ministros da Religião 1909

         Sir John sentiu-se contrariado. Era uma tolice de sua parte, imaginar achados satânicos em um livro editado por algum presbiteriano escocês. Mas, em qualquer caso, o que queriam dizer aquelas linhas?

         Sir John estudou algumas páginas tomadas ao acaso. Todos os poemas pareciam uma glorificação — melhor, uma santificação — do adultério. Não podia ser. De repente, encontrou-se com uma nota ao pé de página do Rev. Verey:

         Só um dicionário de latim poderá desvelar o completo horror desta asquerosa palavra.

         Sir John voltou a vista para a palavra indiretamente definida, ou, melhor dizendo, não definida ao mínimo, e a encontrou: fellatrix. Ruborizou-se; recordou: Encontramo-la primeiro onde os Deuses fazem filhos. Como podiam imprimir-se aqueles conceitos tão inomináveis?

         No soneto VIII da seqüência Alquímica, encontrou as seguintes linhas:

                                      Já enumerei todos os ingredientes

                                      Para fazer o elixir de nossa vergonha

                                      Preparando vapores que ascenderão como espiras;

                                      Arderão as borbulhas com pequenas labaredas

         O elixir da vergonha, sabia, era em teologia satânica a Eucaristia da Imortalidade; só se encontrava na região pudenda de uma mulher de estática sensualidade. Aquele livro era quase igual às primeiras meio alucinadas visões da corrupta Lola Levine que voltavam a lhe espreitar desde aquele texto impresso. Dirigiu-se ao Prólogo:

                   «Receberão em si mesmos a recompensa de seu engano».

         Assim escreveu o grande apóstolo faz quase dois mil anos; e, certamente, naqueles remotos dias, quando Satanás era visível na terra, as palavras tinham um especial e terrível significado inclusive para aqueles que —graças a Deus por sua inexpressiva piedade— banhavam-se no sangue do Cordeiro e livravam-se das amarras da morte e do inferno.

         Certamente, esta terrível história é um verdadeiro Sinal dos Tempos.

         Percorremos os últimos dias, e todas as abominações mencionadas pelo apóstolo praticam-se livremente entre nós. Não! Inclusive gabam e defendem esse espectro do mal chamado Socialismo.

         O terrível drama com que a desgraça captura a quem escreve estas horríveis suspeitas se estende de um modo, aí muito comum. Seu estudo será valioso para mostrar o desenvolvimento lógico do Ateísmo e do Amor Livre.

         Bem, aquilo ao menos explicava por que o Rev. Verey tinha editado e comentado tão libertino volume, embora não estava muito claro se realmente compreendia o que estava condenando.

         Certamente, se pensava que aqueles poemas estavam relacionados, de algum modo, com o ateísmo, equivocando-se de cabo a rabo.

         Sir John voltou para a seção chamada «O Alquimista» e procurou, cuidadosamente, para averiguar se suas especulações sobre o «elixir da vergonha» eram corretas. Encontrou a resposta no soneto X:

                                      Este vinho é soberano contra todos os pesares,

                                      Este é o vinho que bebem os reis dos anjos

         Sentiu náuseas. Se o elixir, o vinho, era o que suspeitava, as vis secreções dos órgãos da vergonha, os grandes «reis dos anjos» não eram os do céu, a não ser os do inferno. Leu um pouco mais abaixo no mesmo soneto:

                                      Uma gota levantou o Attis dentre os mortos;

                                      Uma gota deteve o movimento de Osiris;

                                      Uma gota; ante o jovem Hórus, fogem

                                      Pálidos fantasmas, Tifon... o vinho é meu e dela,

                                      Possuem-no os Deuses! Não em parcas gotas

                                      A não ser em fontes das quais o extraem

                                      Brotando em jorros de cristal e terrinas de rubi

                                      Do verdadeiro trono e capela do amanhecer.

         Não era só perversão o que ali se descrevia; era o uso deliberado de todos os vícios parisinos de iniciação ao satanismo. Sir John olhou algumas das notas do Rev. Verey a toda pressa:

         Lingan: Deus hindu [!]; o órgão masculino da geração.

         Yoni: Seu equivalente feminino. Os pobres hindus devem trabalhar com todas estas coisas vergonhosas. E nós? Que pobre e inadequado resulta todo nosso esforço missionário! Permitam-nos dar mais, muito mais, à nossos enfermos irmãos!

         Dia do Julgamento: Como poderia atrever o escritor a falar deste grande dia no qual será condenado para sempre? «que acredita não será condenado».

         Bastardos vendedores de sangue: Cristãos! Oh, Salvador! Virá à nos salvar!

         O pobre Rev. Verey, obviamente, não tinha nem idéia do que representavam aqueles poemas. Considerava-os como as fulminações anticristãs de um ateu, inclusive de um socialista. Era muito pueril para reconhecer o discurso satânico, a contrateologia que expressavam.

         Sir John voltou a ler o Prefácio, mas não encontrou chave alguma a respeito da identidade do autor daquelas infames versificações, exceto que morreu de uma «repugnante enfermidade».

         Verey acrescentava:

         Possivelmente sejamos culpados por publicar, inclusive em uma medida tão pequena como esta, tão sujas e blasfemas orgias da linguagem humana [valha a expressão], mas estou firmemente decidido [e acredito que a bênção de Deus alcança a minha obra] à despertar meus colegas de trabalho na grande vinha às realidades da vida moderna.

         Sir John centrou sua atenção em outro dos poemas e o mundo pareceu girar em um redemoinho vertiginoso enquanto lia:

                                      Assim, Lola! Lola! Lola! ri,

                                      E Lola! Lola! Lola! Desperta ecos,

                                      Até Lola! Lola! Lola! gira

                                      O mundo em um baile de tecidos brancos e negros

                                      Reluzindo com claros cinzas dourados enquanto ressoa o inferno

                                      Excessivamente, Lola! Lola! Lola! e responde o céu

                                      Excessivamente, Lola! Lola! Lola!

                                      Onde Judas perdeu as botas

                                      Toda a luz que agrupam os brilhantes diamantes

                                      E Lola! Lola! Lola! tocando

                                      Sempre e para sempre nos incautos ouvidos,

                                      E Lola! Lola! Lola! gira

                                      Minha alma pelas incautas esferas

                                      Onde Lola é Deus, sacerdotisa, hóstia e vinho...

                                      Oh, Lola! Lola! Lola! minha mística donzela!

         Podia ser certo! Era Lola Levine, a amante, que arrastara àquele louco poeta ao vício e, acima de tudo, ao satanismo? Passando às folhas rapidamente, Sir John encontrou a «Lola» poema por trás do poema, e nenhum outro nome. Mas, no primeiro soneto, achou na última linha uma frase em latim que lhe gelou o sangue nas veias:

                                                  Evoe! Iacche! consummatum est.

         Ali estava: Evoe, um dos dois nomes mais recônditos de Deus (que Sir John tinha boas razões para recordar depois de conhecer Lola Levine): Iacche, a forma vocativa de Iacchus, nome secreto de Dionisio, deus das orgias: e consummatum est, as últimas palavras da Missa.

         Todavia, aquele louco poeta, só podia referir-se à Missa negra, não à Missa católica, naquele doentio contexto de sonho dionisíaco, perversão e blasfêmia anticristã. Que torpe foi o Rev. Verey ao imaginar que aqueles poemas, meramente, registravam a destruição de um homem afastado de sua esposa legal, para cair em mãos de um amor adúltero; neles se descrevia passo a passo, a iniciação na obra do Deus Cornudo de êxtase sexual: Panurgia, o deus adorado pelos pagãos, antes de que o cristianismo o desmascarasse (o Deus deste Mundo) como Satã, adversário do invisível Deus Verdadeiro, além das Estrelas.

         Sir John comprou Nuvens Sem Água e o levou à casa para estudá-lo. Aquilo podia resultar importante. Se era verdade o que suspeitava, teria que pedir conselho ao Jones.

                                                 DE ARCANO NEFANDO

         A memória lembra antes de recordar o memorizado: recorda o inexpressivo e sempre impensável feito da apoteose [virtualmente o centro de atração: um momento tão vívido como o terror nos olhos daquele camundongo tantos anos atrás: sabendo que tal terror era o preço da consciência do universo do tio Bentley, mas com certo sentido de aborrecimento e rechaço ante a revelação final, o cataclísmico horror de um detalhe tão impensável e inexprimível que a mente duvida em reconhecê-lo (recordando, em troca, como um contínuo retrocesso do tempo; vendo a si mesmo tomando Nuvens Sem Água da prateleira; escrevendo a irritada carta ao Times sobre a Autonomia irlandesa; abrindo a Bíblia na Epístola de Judas e lendo a severa advertência contra os que rissem por último; o invasor espírito Dela, escrevendo por mediação de sua própria mão; a revelação de Ingenio Numen Resplendet Iacchi; o recente ataque em que Ela aparecia, sob a forma de um súcubo, para drenar a energia do Vril, mediante o Pecado de Onán Contra Natura; o canto do Pangenitor e Panphage; a história de Pound, sobre o pobre Victor Neuberg convertido em camelo; o trovão que rompeu o espelho, enquanto se interceptavam os universos material e astral; a leitura poética em que ela recitou «Adoro-te, Evoe! Adoro-te, IAO!»; os pequenos idiotas que cantavam «Nem esposa, nem cavalo, nem bigode»; o juramento de celibato que confirmou três vezes, ante os incansáveis olhos de Jones; a primeira ascensão do Vril ao compreender o Igni Natura Renovatur Integra; a primeira entrevista com o Jones; o debate com o MacNaughton na Historical Review; o horrível retorno à tentação de matar um camundongo e sentir a experiência do Pecado consciente; a morte de tio Bentley; a primeira impressão das cavernas, dos trasgos sob a Mansão Babcock em sua juvenil fantasia; a bicicleta rota); embora, retornando para esse estado a meio caminho entre o sonho e a lembrança no qual um detalhe se converte no epicentro do delírio e da tentação] de ver, tocar e beijar outra vez a liga azul, aquelas lascivas coxas, aquele inexpressivo mistério central de criação mediante a corrupção.

         — É o Bem e o Mal — disse Sir John atrevidamente, custando-lhe trabalho encontrar as palavras, sentindo-se intumescido e apático—. O conhecemos intuitiva e diretamente.

         —É Acima e Abaixo — dizia Lola, zombadora—. Sabemos intuitiva e diretamente... desde antes de Copérnico. Tudo é relativo, vê-o?

         Era um sonho, uma visão astral... ou a realidade? Sir John tentou recordar como havia chegado ali, àquele infame bordel parisino.

         — Não é relativo — protestou, sentindo que possivelmente só falava consigo mesmo—. Existem os Absolutos. Não devemos cometer Adultério. Não devemos desejar à esposa do próximo, ou à suas donzelas, ou suas ligas. Não devemos... — Foi impossível recordar outros Mandamentos. Drogaram-no com ópio, ou hashish?

         — Este é o Deus escondido —disse Lola enquanto o Ermitão, a Morte e o Sol, suas cartas, dançavam através de estranhos e intrincados passos—. Yod Nun Res Yod. I.N.R.I. Isis Naturae Regina Ineffabilis. Creatrix, Fellatrix: Venus Venerandum. Leo Sirtalis. Perditrix naviam, perditrix urbium, perditrix eoren, nupta bellum. Ligarius, Bragius, Penus, Coñus. Yoni soit qui mal y pense. Comê-lo com catsup. — Coisas úmidas movem-se obscuramente. Ela toma o Crucifixo inserindo entre as coxas, babando perto da mais profunda idiotice, masturbando-se, grosseiramente.

         Era um sonho, só um sonho, depois de tudo: as coisas são como as fazemos. Acendendo as recéns instaladas luzes elétricas, Sir John sentou-se e escreveu tudo aquilo, cuidadosamente, incluindo o balbuciar de latim e do francês normando. Isis Naturae Regina Ineffabilis: Isis, inefável rainha da natureza. Alguns egiptólogos diziam que a cruz Ankh, suposta origem da cruz cristã, mostrava o lingam de Osiris unindo-se ao yoni de Isis

         O significado estava claro: a Irmandade Negra, depois de dois anos, ativava-se contra ele novamente, possivelmente, devido à compra de Nuvens Sem Água, o que completava um enlace mágico. Bem, já não era um ignorante Aprendiz; converteu-se em um Praticante, armado com toda a força da magia prática, sem temor.

         Depois de tomar o café da manhã, atirou-se de cabeça ao coração daquele novo mistério. Não seria enganado por nenhum sonho falsário. O espírito que lhe perseguia não era o de Isis, embora o símbolo da «virgem mãe» fora, naturalmente, uma alegoria de ain soph, a luz ilimitada do vazio branco depois da matéria, de acordo com a Cabala. E Osiris-Jesus, o morto-e -ressuscitado filho queridíssimo da virgem, Mãe Vazia, era o próprio Homem elevando-se para a super-humanidade, pela disciplina da magia e do ioga. Entretanto, tudo aquilo constituía, ocasionalmente, uma enganosa máscara. O espírito obsessivo era carnal, sujo, uma emanação de Ashtoreth, o demônio da lascívia.

         Todavia, o acróstico continuava alterando-lhe: Yod Nun Res Yod: Isis Naturae Regina Ineffabilis. Internos Numinosos Recintos Incandescentes. Quantos códigos com quatro iniciais conteria, ou se poderia, obrigar a conter? Significa que somos feito da mesma matéria que os sonhos? Ou seria mais acertado voltar para a pragmática semântica de Humpty Dumpty: «Quando uso uma palavra, significa o que quero que signifique»? Teriam todos os homens e cavalos do rei o sentido comum necessário para voltar a reunir-se?

         Os cento e quatorze sonetos reunidos em Nuvens Sem Água, conformaram uma sangrenta história, quando Sir John teve ocasião de lê-los completos. O anônimo poeta, um homem casado, que aparentava andar pela vintena e possuidor de um título universitário, encontrava-se com a enigmática Lola, que logo contava com dezessete. Cautelosa e lentamente, a mulher seduzia-lhe, até que o homem abandonava a sua esposa, sua reputação e seu bom nome para viver em pecado com ela. Os sonetos continuavam relatando as alegrias de seu ilícito amor, embora só um estudante da Cabala poderia decifrar, depois de toda a imaginária erótica eufemística, as atuais práticas satânicas às quais o poeta parecia aludir. O corpo de Lola convertia-se tanto em Deus, como na sacerdotisa e no altar de Deus; a divindade cristã era denunciada e burlada em linhas cada vez mais amargas. O clero era descrito, vilmente, como «cegos vermes» e «piedosos porcos»: ao que o Rev. Verey acrescentava uma nota: «Pobres servidores de Deus! Podemos nos confortar em O: como nosso bendito Senhor, somos capazes de perdoar».

         O clímax chegava abrupto e surpreendente. O poeta descobre que contraiu a sífilis — «recompensa por seu engano», comentava o Rev. Verey— e some no desespero, suicidando-se com uma overdose de láudano. O Rev. Verey conclui o volume com uma advertência a respeito de que o Amor Livre e o Socialismo conduzem à incontáveis tragédias similares, que ocorrem todos os dias em Londres, uma cidade a qual parecia considerar tão imperdoável, como a própria Sodoma.

         O soneto que mais impressionou ao Sir John foi o VII da seqüência chamada «O Ermitão», falava de fatos ocorridos às poucas semanas de que Lola lhe separasse dos parentes e amigos que queriam terminar com o ilícito assunto. O poeta escrevia:

                                      Visita-lo-ei, lá onde vá,

                                      Chorando para que sofra por mim; sua carne

                                      Arder-se-á com meu contato, quanto eu lhe

                                      Envolva na rede enfeitiçada

                                      De meu delicado corpo de fogo; Oh! sentirá

                                      Meus beijos em sua boca como carvões viventes

         Nem sequer o Rev. Verey era tão ignorante em ocultismo como para não compreender aquilo ou atribui-lo ao Ateísmo e ao Amor Livre. Sua nota ao pé, explicitamente, dizia: «Este desagradável soneto parece referir-se à nefasta prática mágica das viagens mediante o duplo astral». Sir John suspirou, recordando suas próprias viagens no corpo de fogo (como se chama o duplo astral tecnicamente) e seu terrível encontro com Lola Levine, no qual ela arrastou seu corpo inconsciente ao indesejável pecado.

         Sir John ponderou tudo aquilo preocupado durante vários dias. Finalmente, decidiu que devia atuar e, cuidadosamente, escreveu uma carta ao Rev. Verey da Sociedade para a Propagação da Verdade Religiosa em Inverness, Escócia. Escolheu suas palavras cuidadosamente:

Mansão Babcock

Greystoke, Weems

23 de julho de 1913

         Querido Rev. Verey,

         Recentemente adquiri uma cópia de seu penoso e terrível livro, Nuvens Sem Água, e senti-me muito comovido pela tragédia que relata. Antes de continuar, devo lhe informar honestamente que não sou, como você é, presbiteriano; mas sou um fiel cristão e espero [e confio] ser um devoto e piedoso homem de bem. O que devo lhe dizer lhe impressionará e, possivelmente, resulte-lhe incrível, mas, rogo-lhe que pense profundamente e o considere antes de desdenhar minha obscura advertência.

         Não sei como chegaram à suas mãos os terríveis poemas, e compreendo [embora não o fartam certos fanáticos] a razão que lhe levou a imprimi-los, com um comentário que mostra os terríveis resultados da vida e filosofia celebrada pelo desafortunado poeta. Entretanto, não penso que o livro deveria ser publicado, e temo que com ele você faz um dano muito pior, que aquele contra o que queria chegar.

         Em resumo, sou estudante do cabalístico cristão e, embora aborreça com todo meu coração as perversões da Cabala empregadas pelos satanistas, vi-me na necessidade de aprender algumas de suas crenças e práticas. Achará esta carta difícil de acreditar, mas o poeta não descreve meramente um assunto de adultério; de fato, descreve —com certo código, mas de um modo claro para os estudiosos destas matérias— a horrível prática do que se denomina Tantra da Sexta Mão, ou sexo mágico; dispositivos, em resumidas contas, da Missa Negra e do Satanismo.

         Escrevo-lhe porque é óbvio que a maligna mulher que arrastou ao poeta à tão tristes caminhos [mencionada no texto só como Lola] deve ser uma iniciada de algum culto de magos negros. Tais grupos, o asseguro, não publicam seus segredos, nem sequer em código: especialmente quando o código resulta, como neste caso, transparente para um estudante de ocultismo cabalístico. Sem querer lhe alarmar desnecessariamente, acredito possível que este culto tente destruir o livro, embora sua Sociedade só o distribua entre ministros da religião, pois começa a aparecer nas livrarias de saldo [onde encontrei meu exemplar]. Inclusive é verossímil que queiram vingar-se de você.

         Se não considerar esta carta como as rabiscos de um louco supersticioso, ofereço-lhe minha amizade e ajuda, no caso de que alguma ação de magia negra seja praticada, ou tramada em seu contrário.

         Até que tenha notícias delas, só fica concluir: Que as bênções do Senhor lhe acompanhem, rodeie-se de gente e proteja-se.

         Sinceramente,

                                                                            Sir John Babcock

         Depois de enviar a missiva, Sir John começou a ter sérias dúvidas sobre se um sacerdote escocês presbiteriano poderia, ou não, acreditar na existência de lojas maçônicas satânicas no mundo moderno. Também perguntava-se se teria atuado prematuramente; mas Jones estava de férias na França e Sir John não tinha ocasião de lhe pedir conselho.

         Poucas noites depois, Sir John visitou seus primos, os Greystoke, e voltou a encontrar com o siciliano, Giacomo Celine, que parecia estar relacionado com o meridional ramo europeu da família. De algum modo, a conversação se desviou para as histórias de fantasmas quando o brandy e os charutos começaram a circular.

         — O Monge de Lewis é ainda o livro mais sangrento jamais escrito — aventurou Sir John em certo momento.

         — Mas, tecnicamente, não é uma história de fantasmas — observou o Visconde Greystoke —. É uma história de demônios.

         — Naturalmente — disse o velho Celine —. As histórias de fantasmas são agora muito piores. O Frankenstein da Senhora Shelley não é uma história de fantasma, mas acredito que, pelo menos, é tão aterradora como O Monge. E o jovem irlandês da companhia de teatro de Sir Henry Irving... qual é seu nome? Stoker... escreveu um livro mais aterrador que nenhum: Drácula. E tampouco tem nada a ver com os fantasmas. Os fantasmas são, comparativamente, inofensivos se os compara com os horrores reais que pode despertar a imaginação.

         — Isto me recorda — acrescentou o maior dos Greystoke — que há um conto que versa sobre algo mais terrível que o que aqui discutimos... e não trata de fantasmas. Os fantasmas, depois de tudo, são só humanos mortos, e os humanos já são bastante maus, tal e como os conhecemos, mas uma criatura não humana do mal pode fazer que o sangue se congele nas artérias. O não humano está limitado pelos rasgos que inclusive os fantasmas compartilham conosco.

         — Assim é —adicionou Sir John—. Qual é o nome desse conto?

         — Oh, este —replicou Greystoke, rebuscando entre as estantes —. Se quer ter uma má noite, leia-lhe antes de ir-se à cama. — aconteceu com Sir John um volume de contos intitulado O Grande Deus Pan.

                                                   DE MONSTROS

         AÇÃO - SOM

         EXTERIOR. MANSÃO BABCOCK. PLANO MÉDIO

         A bicicleta barata está no jardim. Sir John, de seis anos, aparece com uma menina, da mesma idade: ele com as calças abaixadas, ela com a saia levantada, comparando as genitálias.

         Voz de Sir John: «Oh, Deus, Jones, essa coisa...»

         EXTERIOR. MANSÃO BABCOCK, PRIMEIRO PLANO.

         Uma estátua de Pan, rindo, sobre a cabeça de Sir John.

         Tambores vodu.

         EXTERIOR. CÉU SEM NUVENS. PRIMEIRO PLANO.

         Um falcão chiando. Falcão chiando; tambores vodu.

         EXTERIOR. CÉU SEM NUVENS. PRIMEIRO PLANO.

         Os olhos da estátua de Pan se voltam e olham ao Sir John.

         Tambores vodu.

         Voz: «É o poder do mal que se oculta atrás de tudo...»

         MANSÃO BABCOCK. INTERIOR, COMEDOR. PLANO MÉDIO.

         O Dr. BENTLEY BOSTICK BABCOCK e o VISCONDE GREYSTOKE jantando. SIR JOHN, de doze anos, em um extremo da mesa.

         Voz [Dr. Bentley Bostick Babcock]: Basta com olhar os periódicos: 1900, o rei Humberto de Itália assassinado; 1901, Bogolyepov, ministro de educação assassinado na Rússia e o Presidente McKinley assassinado nos Estados Unidos; 1903, o rei Alejandro de Sérvia assassinado.»

         MANSÃO BABCOCK. INTERIOR, COMEDOR. PRIMEIRO PLANO.

         SIR JOHN escutando aos adultos com horror.

         Voz do Dr. Babcock: «Digo-lhes que há uma conspiração internacional.»

         Salto a:

         Na outra parte da habitação, em uma cadeira enorme e com respaldo GIACOMO CELINE, sorrindo para si. Está lendo Não o Todo-poderoso com o olho no triângulo desenhado na capa.

         Tambores vodu.

         Sir John se retirou à cama por volta das onze com O Grande Deus Pan e, efetivamente, passou uma má noite. Ficou rapidamente convencido de que tinha descoberto a outro membro do Amanhecer Dourado, um que sabia muitas coisas a respeito das seitas satânicas que trabalhavam em contra da Grande Obra. «Há Sacramentos do Mal, quão mesmo os há do Bem», escrevia Machen; e sua história estava ousadamente perto de descrever os sacramentos do Mal explicitamente.

         O que resultou pior para a paz espiritual de Sir John foi que Machen relatou, como ficção, uma terrível história da qual Nuvens Sem Água poderia, possivelmente, constituir um capítulo perdido, ou uma seqüela. O Grande Deus Pan falava de dois homens, Clarke e Villiers, que compartilhavam um interesse comum pelo lado valente e misterioso da vida londrina; embora Clarke e Villiers não unissem suas forças até o final da história, quando um deles encontrava, trabalhando independentemente do outro, partes da história de uma estranha e perigosa mulher, chamada «Helen» no texto. Em cada capítulo, Clarke ou Villiers achavam a uma vítima desta mulher, ou escutavam relatos a respeito de incríveis eventos que pareciam relacionar-se com suas misteriosas atividades. Quando Villiers e Clarke, finalmente, cruzam suas investigações e começam a comparar notas, quase toda a verdade começa a emergir, embora não em sua totalidade, pois Machen se mostrava muito comedido assim que a eufemismos indiretos. O que ficava claro era que «Helen» atuava em favor do Deus Cornudo, enganando a muitos homens e mulheres para levá-los a inomináveis práticas eróticas... excessos sexuais que primeiro conduziam ao êxtase e logo à perda da razão e ao suicídio.

         Quase a mesma história que a de Lola Levine; e Sir John se perguntou se, de fato, não seria a mesma.

         Que percentagem do aterrador relato do Machen seria ficção e que percentagem realidade? Por que tinha publicado Machen, inclusive como ficção, em que o pior logo que estivesse composto por vagas indiretas, tão terríveis segredos que era melhor que o mundo não conhecesse? Por que os Amos Secretos da Ordem permitiam que Machen editasse tão horrível relato? Sir John começou a pensar, sem o menor indício de humor, que obscuras advertências do Rev. Verey pressagiavam que o mundo entrava em seus últimos dias; e que o conflito entre o Bem e o Mal não demoraria para desencadear-se. Os Greystoke, que tinham conexões familiares em cada departamento do governo, pareciam preocupados, muito freqüentemente, pela possibilidade de uma guerra maior que qualquer das que tivesse conhecido o mundo...

         Sir John, a desgosto, arrastou-se da cama e leu novamente a perturbadora passagem de Nuvens Sem Água na qual o Rev. Verey dizia:

         Sem vergonha, a velha Serpente eleva a cabeça para o céu; sem vergonha, a Besta e a Mulher Escarlate cantam as blasfemas letanias de sua fornicação.

         A taça de suas abominações deve transbordar!

         É certo que os que esperamos a Chegada de nosso bendito Senhor confiamos em que este frenesi de maldade constitua um sinal seguro dos últimos dias; E logo acudirá...

         Poderia ser verdade que o verdadeiro objetivo do Amanhecer Dourado não fosse meramente elevar a mente humana para a comunicação com a divindade, a não ser treinar guerreiros de Deus para combater contra as forças de magia diabólica que ameaçavam o planeta? Por que a primeira coisa que lhe ensinaram foi aquilo de «Temer é fracassar e o prólogo do fracasso», se os membros da Ordem não deviam esperar, eventualmente, uma confrontação com os mais terríveis males, nem combater contra eles?

         Sir John celebrou um forte ritual de desterro, bebeu-se um duplo de cognac e voltou para a cama, com a mente cheia de profunda confusão. Seus sonhos não foram agradáveis.

         O Ermitão levava uma lanterna que lhe guiava por um tétrico beco de algum subúrbio de má reputação de Londres. Gravuras do Hogarth e ilustrações de Doré para o Inferno penduradas nas paredes; Oscar Wilde e Lorde Alfred Douglas subiam de um porão murmurando incoerentemente: «O amor de Jesus e João... O amor de David e Jonatán... o amor que não se atreve a dizer seu nome». O Ermitão encontrava ao Sir John no vermelho caminho de uma carruagem e uma terrível explosão o sacudia tudo. «Lançam bombas desde monoplanos!», gritava alguém. «O Anticristo chegou: Noite, o Todo-poderoso! Londres está envolta em chamas!» Umas vozes cantavam a Internacional e os saqueadores cruzavam as ruas levando ligas de cor índiga e caixas com figuras que se moviam em seu interior. «Provavelmente, trata-se de algum fenômeno magnético», dizia tranqüilizador o velho Celine. «Indagar Nunca Resulta Irritante».

         E isto é o horror, disse Eutaenia Infernalis, e isto é o Mistério que os grandes profetas expuseram à humanidade, Moisés, Buda, Lao Tse, Krishna, Jesus, Osiris e Christian Rosycross;

todos aqueles obstinados com a Verdade, e entretanto, condenados pela maldição do Thoth, sendo guardiães da Verdade, causarão a proliferação de inumeráveis mentiras: pois a Verdade não se pode expressar com as palavras dos homens.

         Lola cantava com voz clara, de cotovia, de soprano:

                                      O pranto da rameira de rua em rua

                                      Tecerá a tortuosa colcha da Inglaterra

         Sir John, de sete anos, escondido no armário. Jogavam esconderijo. A Condessa de Salisbury entra na habitação. Agacha-se na parte traseira do armário, detrás das anáguas de sua mãe. A Condessa abre a porta e lhe agarra pela garganta. Ele tenta lhe dizer que pare, mas sem fôlego, não pode falar. Sabe que é, novamente, Lola.

         — Foi um menino mau — diz Lola —, jogando com ligas azuis e com as anáguas de sua mãe.

         Joga-lhe no chão, onde o Conde Draculatalis salta sobre ele e lhe sussurra ao ouvido:

         — A verdadeira Eucaristia é a Eucaristia do sangue, a força lunar desatada sobre a terra uma vez ao mês. Toma e bebe.

         Encapuzados, caras de olhos vermelhos apunhalados pelo jardim, cantando: «Io Io Io Sabao Kurie Abrasax Kurie Meithras Kurie Phalle Io Pan Io Pan Pan Io Ischuron Io Athanaton Io Abroton Io IAO. Chaire Phalle Chaire Panphage Chaire Pangenitor. Hagios Hagios Hagios IAO!»

         Oscar Wilde, com a capa do Sherlock Holmes, examina o pênis de Sir John com ajuda de uma lupa.

         — É muito, muito comprido — exclama solenemente—, e muito, muito formoso.

         Uma forma se cristaliza no úmido ar: uma cinta de cor azul escura, com borda de ouro; um manto de veludo azul; um colar de ouro formado por trinta e seis peças; São Jorge lutando com o dragão...

         E Pan, itifálico e terrível, levantando-se em meio deles, curvando Lola seu gigantesco e infame órgão com um obsceno beijo.

         — Charing Cross, Zombador Cross! — grita o condutor—. Todos os místicos no Charing Cross!

         Mas ninguém se abaixa e Sir John descobre que leva postas as anáguas de sua mãe.

         — Só um salgadinho do cacho de uvas — rumina a prostituta, mas John Peel acende uma grande lanterna resplandecente com um raio de sol e Sir John pisca, estremecido, despertando enquanto a cálida luz do astro rei se derrama em seu dormitório. Amanheceu e a noite e os negros agentes da noite se desvaneceram no ar, no claro ar.

         Sir John logo que tomou o café da manhã.

         — Uma guerra entre as grandes potências — disse o Visconde Greystoke, extremamente preocupado, poucas semanas atrás — destruiria a civilização européia, ou nos arrojaria de novo às Idades Obscuras. — Era possível que as forças chthônicas e obscuras dos antigos cultos pagãos, que Lola e os seus tentavam lançar de novo contra o mundo, pretendessem tão terrível transformação do que fora uma era de iluminação e progresso? Ou considerava o caótico simbolismo do sonho, uma mescla febril do pior da imaginária gótica e da magia negra, muito literalmente?

         Decidiu dar um longo passeio por suas propriedades, meditando sobre uma de suas linhas favoritas do ritual do Amanhecer Dourado para o Aprendiz: «Trabalhamos igualmente sob as formas de pássaro, besta e flor através das quais a beleza se manifesta no mundo material». Seus olhos abriam-se enquanto repetia a frase uma e outra vez: cada pássaro parecia lhe recordar que Deus era bem, que inclusive naquele plano de imperfeita existência material a Divina Glória os banhava com visões espirituais. O cervo era a alegria de Deus, as árvores Sua piedade, seus arroios, interminável amor.

         Um alardeante petirrojo posou no chão junto dele e Sir John lhe olhou com afeto. Aquela criatura, descobriu repentinamente, era para ele mais alienígena que os marcianos imaginados pela fantástica ficção de H.G. Wells, consciente, como ele, com sua própria inteligência. Como podemos viver entre tantas maravilhas e ser tão cegos ante elas? Sir John recordou o Grande Salmo: «Os céus declaram a glória de Deus e a terra mostra Sua obra.»

         Viu então duas raposas copulando e se ruborizou, apartando os olhos da tentação de libidinosos pensamentos. Devemos amar a beleza deste mundo, é presente de Deus, recordou-se, mas não devemos esquecer nunca sua perdida natureza, nem deixar que nos seduza ao ver a beleza do mundo espiritual, de que tudo isto, não é mais que áspera sombra. Por obra da natureza caía no engano dos sensualistas e dos satanistas, como a «Helen» do Grande Deus Pan.

         Sir John voltou a tomar o volume assim que chegou à biblioteca e leu outros dois contos macabros de Machen, O Selo Negro e O Povo Branco. Ambos tratavam de antigas lendas celtas do povo das fadas, mas não do modo sentimental que estabelecesse Shakespeare em Sonho de uma Noite do Verão e A Tempestade, e que era copiado infantilmente por todos os escritores após. Machen seguia os conhecimentos modernos dos camponeses da Irlanda e Gales, para quem a «gente pequena» não estava composta por seres benignos, mas sim, por uma terrível raça desumana, de traços malignos, que tentavam ao homem com visões de beleza e sublime maravilha, só para lhe levar ao reino da irrealidade; trocando a quiméricas formas, formas informes; distorções do tempo e pesadelos; das quais muito poucos voltavam totalmente cordatos. Sir John, que tinha estudado aquele saber em suas investigações a respeito dos mitos medievais, descobriu que o que Machen dizia do povo das fadas, estava tão longe de contentar as crenças dos camponeses, como as encantadoras fantasias de outros narradores. Os irlandeses, lembrava-se Sir John, chamavam as fadas a «boa gente», não por amor ou respeito, a não ser por temor, pois aqueles pequenos deuses eram famosos pelos castigos que infligiam a quem os desprezavam. As fadas, Machen o tinha compreendido obviamente, eram habitantes da Capela Perigosa que, ocasionalmente, saíam do reino astral e adquiriam aparência temporária em nosso mundo material. De fato, a «Helen» do Grande Deus Pan, primeiro aparecia ao Clarke, em Gales, sob a forma de um menino que jogava alegremente com uma dessas terríveis criaturas.

         Sir John considerou longamente tudo aquilo; quando recebeu o correio diário, viu que continha uma carta do Rev. Verey, da Sociedade para a Propagação da Verdade Religiosa, Inverness, Escócia. Abriu o envelope, rasgando-o rápido e nervoso, e leu:

         Sir John Babcock

         Mansão Babcock

         Greystoke, Weems

         Querido Sir John:

         Devo lhe agradecer sinceramente, como Irmão em Cristo, o entendimento e compaixão expressos em sua recente carta. Em caso de ajuda, nossas diferenças teológicas carecem de importância —não sou um fanático à antigo uso, espero— e reconheço todos os verdadeiros cristãos [entre os quais não se incluem os condenados papistas] como iguais na Vinha de nosso Bendito Senhor.

         Para chegar ao ponto central da questão, dir-lhe-ei que não estou nem surpreso, nem me mostro incrédulo sobre suas opiniões a respeito dos vis sonetos de Nuvens Sem Água. Efetivamente, a única que me surpreende é minha própria cegueira por me negar a ver, de entrada, a completa extensão dos horrores que ali se expõem. Terá compreendido, estou seguro, minha falta, de habilidade original para aceitar o óbvio se confessar que o poeta que escreveu tão lascivos versos foi [ai!] meu pobre irmão menor, Arthur Angus Verey, cuja total depravação não me demoro em admitir, inclusive para uni-la à terrível evidência de sua apostasia e heresia.

         Também é verdade que Arthur se burlava de nossa sagrada religião, continuamente, após assistir à maldita Universidade de Cambridge [totalmente em mãos, como deve você imaginar, de homens cujos ateísmo e socialismo são cuidadosamente escondidos para não despertar o escândalo público], mas eu, Deus perdoe-me, fui tão inocente, tão indulgente com meu irmão que me neguei a admitir que a jovem rebeldia de Arthur lhe acabaria levando, mas lá do superficial Livre Pensamento dos «Intelectuais» de nosso tempo, até lhe jogar nos poços do Satanismo. Depois de seu suicídio, quando os poemas chegaram em minhas mãos por mediação do procurador de nossa família, neguei-me a entender que a brincadeira de Jesus [e do clero de nossa sagrada religião] era não só a de um cético, mas também a de um satanista. Se tiver você um irmão menor de acordado intelecto e natureza errática, possivelmente compreenda minha loucura e minha cegueira sentimental.

         Bem, senhor, estas são histórias antigas, e agora pago o preço de meu engano com interesses de usura. Não cabe dúvida de que as forças diabólicas lançaram um ataque contra minha igreja, minha família e eu mesmo. As coisas que aconteceram por aqui ultimamente fariam que os «adiantados pensadores» rissem na cara e os alienistas pretendessem me encerrar em um asilo, se estivesse tão louco como para falar de tudo isso nesta era de materialismo. A enorme Criatura com asas de morcego, em especial... não, não quero lhe alarmar, a não ser lhe tranqüilizar.

         Embora, permaneça abertamente assediado, nada temerei. «Mesmo que cruze o vale das sombras da morte, não temerei mal algum: porque Você está comigo». [Salmo 23] Em nosso mundo volta a haver coisas sem nome, não só nos esgotos de Londres, mas, inclusive aqui, no puro ar de Escócia, todavia, confio toda minha proteção na rocha da Fé e na eterna presença de nosso Senhor. Sinto muito apego sentimental por esta velha igreja e a formosa paisagem montanhesa [ao que dediquei sessenta e dois anos de minha vida] para dar meia volta e me afastar destas forças que se elevam contra o Todo-poderoso; acaso não foi claramente predita sua desgraça, quão mesmo o triunfo final de Cristo, na Revelação? Rezo; seguirei seguro, enquanto tenha fé; e não me deixarei levar pelo pânico embora tudo isto me vexe e me ameace.

         Entretanto, dou-lhe graças por sua oferta de ajuda e confio em que me recordará em suas preces.

         Sinceramente seu,

                                                                                               Rev. C. Verey

P.S.: Não considero adequado que os cristãos se mesclem com as artes judias [e por isso não cristãs] da Cabala. Possivelmente você mesmo necessite mais ajuda que eu.

         — Maldito louco! — exclamou Sir John em voz alta. Todavia, voltando a ler a carta com maior lentidão, viu-se estranhamente impressionado pela singela fé do homem e sua bravura carente de pretensões. Vexames, ataque e aquela Criatura «com asas de morcego» não fariam que resultasse muito confortável viver em uma solitária e velha igreja de Loch Ness.

         Sir John se sentou, procurando acalmar-se, e escreveu uma nova carta menos ardente e com mais tato ao Rev. Verey. Apontava que sua oferta de ajuda possivelmente parecesse um tanto presunçosa; reconhecia o poder da fé para manter longe aos agentes da escuridão e do Caos; elogiava o valor de Verey, não muito veementemente, para evitar qualquer suspeita de adulação; e logo ia direto ao importante. Explicava seu interesse nos problemas de Verey como parte de um projeto mais amplo de investigação, no que tentava descobrir o âmbito e poderes dos cultos de magia negra no mundo moderno; logo, mais retoricamente declarava que um livro sobre aquele tema, como o que confiava escrever, poderia «revelar à cristandade as atividades atuais do Antigo Inimigo, que se estava esquecendo»; rogava que lhe facilitasse detalhes específicos dos problemas que aconteciam na casa de Verey e seus arredores.

         Quando Sir John se dirigia a enviar a carta por correio, sentiu a fria dentada do ar e seu humor piorou. Não era realmente acertado, possivelmente, meter-se em nenhum tipo de assunto sem que Jones desse-lhe conselho a respeito. Se ocorria algo realmente sério, não teria modo algum de contatar com os oficiais da Ordem, exceto através do compartimento postal de Londres, o que não resolveria nada em menos de uma quinzena. Seria certamente humilhante recorrer ao Yeats. Aquilo o descobriria como um torpe principiante envolto em questões tão lôbregas que se via forçado a violar a regra sobre o contato entre membros conhecidos da Ordem para procurar ajuda. Ante o receptáculo, refletindo sobre seu mau humor, Sir John começou a pensar que se encontrava sob ataque psíquico, e que a voz que desde seu interior lhe disse que deixasse aquele assunto não era a não ser uma presença que queria lhe assustar e lhe apartar de seu verdadeiro dever. «Temer é fracassar», recordou uma vez mais, e colocou a carta na caixinha.

         Sobre ele estalou um súbito trovão.

         Coincidência, disse-se, coincidência...

         Todavia, sabia que «coincidência» era uma palavra empregada pelos loucos para defender do reconhecimento do mundo invisível que, freqüentemente, cruza e altera o universo visível.

                                           DE CAECITIA HOMINUM

         AÇÃO - SOM

         INTERIOR. COZINHA DE JOYCE. PLANO MÉDIO.

         BABCOCK conta sua história. Um trovão.

         JOYCE e Einstein escutam fascinados.

         EXTERIOR. O CÉU ANTES DE AMANHECER.

         Nuvens escuras. Outro trovão.

         INTERIOR. COZINHA DE JOYCE. PRIMEIRO PLANO.

         JOYCE apavorado. Débeis tambores vodu.

         O medo ao trovão como origem da religião: a teoria de Vico, com mais de duzentos anos de antigüidade. Os primeiros homens, agachados nas cavernas, tremendo ante o forte rugido de uma força que não podem compreender. Medo ao Senhor: o verdugo Deus de Roma e este Rev. Verey. E, da infância, a voz de Mrs. Riordan: «O trovão é a ira de Deus para os pecadores, Jimmy».

         O Signore Popper, em Trieste, perguntando por que ainda tremo ao ouvir o trovão: «Como pode um homem de tanto valor moral como você estremecer-se por um simples fenômeno natural?» Inclui-o no livro. Einstein ou Hunter, chame-lhe como lhe chamo, diz ao Stephen: fenômeno natural. F.I.A.T.

         O que responder ao Popper? «Você não se educou como irlandês católico». O bocado do saber.

         O martelo do Thor: os nórdicos o temiam. Estrondoso rumble-rumble. «A ira de Deus para os pecadores, Jimmy». Merda. O mot juste de Canbronne. Cabrónburrumm bum.

         Um pesadelo do qual a humanidade tem que despertar. Começou quando o primeiro macaco Finnegan ou Goldberg se assustou do Que Troveja Do Alto. «O medo é pai dos deuses»: Lucrecio, Panphage, efetivamente. Já o disse: não servirei. Brilhante estrela, filho da manhã, homem parecido a um falcão ascendendo do labirinto:

                                      Onde se agacham, se arrastam, e oram

                                      Eu sigo em pé, autocondenado, sem temor.

         Não: não me aterrorizarão até o ponto de que me submeta. Ao diabo com o pangenitor, a panurgia e o panphage: que o grande panchestron, Natural Phenomemon, seja-me agora e sempre muito útil.

         Tentei amar a Deus uma vez, na adolescência, e falhei. Tentei amar a uma mulher, quando quis me afastar daquelas coisas infantis, e triunfei. Leia essa adivinhação. Procuramos o mistério.

         Porém: fora do Loch Ness, percorrendo a Europa, a antiga Tentação me busca aqui. Linhas do mundo, cruzando-se, intercalando-se: Monstros cornudos: Shakespeare, eu, o verdureiro que desce pela rua. Fora do Loch. «O vigário diz 'Gracioso'?».

         Einstein ou Hunter ou lhe chamarei como as Sereias do botequim. «É o Irmão Ignatius?»

         Dois. Três. Quatro. Carrillones de Fräumünster nos dizendo que em tempo linear se passou a manhã. Hans saindo da cama da mulher do amante de sua esposa: há mais de um monstro civilizado.

         Possivelmente, vejo mais porque tenho os olhos doentes. A cegueira é a forma mais elevada de visão: outro paradoxo. Inesgotável modalidade de coisas percebidas com a dupla visão. Paradox, pun, oxymoron: e todos os touros da Irlanda estão fecundados. Ed eran duo in uno ed uno in duo, provocando guerras há oito séculos: apressado para sempre nas palavras de Dante Dois em um, um em dois. Fortes ardores: ligas azuis.

         O Evangelho segundo Joe Miller. Será Petrificado: Rocha dos Tempos. Uma frase atada para alguém que não fale latim, embora aqui fazem jogos de palavras até as putas, passando ruge com metátesis. Há linhas do mundo e linhas do mundo.

                                        DE CLAVICULA SOMNIORUM

         AÇÃO - SOM

         EXTERIOR. MONTANHAS ESCOCESAS. PLANO EM MOVIMENTO.

         A CÂMARA traça uma panorâmica por uma montanha, densamente, povoada de árvores. O filme foi editado à puxões, um efeito nervoso, que afeta a todo mundo.

         Voz de Lola [cantando]:

         «Sobre a livre montanha

         Descendo pela garganta

         Sem nos atrever a caçar»

         EXTERIOR. PRIMEIRO PLANO CURTO.

         Cara sorridente da imagem de Pan.

         Voz de Lola:

         «Por medo aos homenzinhos.»

         Tomou o Diário Mágico, a rotina cotidiana de registrar cada sonho convertida em hábito, e descobriu que não podia expressar nenhum dos fragmentos que ainda ficavam na mente do sonho da noite precedente. Escreveu:

         Um sonho muito estranho, que parece me culpar pela morte de meu pai e que embora sugira um parricídio é, simbolicamente ao menos, parte da iniciação.

         Tudo isso misturado com Mamãe Ganso e a Ordem de São Jorge.

         Quando desceu para tomar o café da manhã, encontrou-se com o correio da manhã que vinha uma carta, em apertada escritura, da Sociedade para a Propagação da Verdade Religiosa. Abriu-a imediatamente e leu:

         Querido Sir John:

         «Perde-se o orgulho ante uma queda.»

         Quão profundas se fazem cada ano que passa, as palavras da Sagrada Escritura e que débeis e inseguros meus próprios raciocínios humanos!

         Admito que, finalmente, estou verdadeiramente assustado.

         Confessar tal medo é uma humilhação maior do que você possa imaginar; ao menos, para um escocês de pura cepa como eu.

         O fornecimento da informação cronológica que me pedia: Suponho, em certo modo, que a verdadeira nuvem do mal começou a acumular-se sobre mim tão logo como imprimi o maldito volume de blasfemos versos de meu irmão. Nosso monstro local —«Nessie», como o chamam os aldeãos— nunca esteve tão ativo como nos quatro anos passados da aparição do livro. Onde, em outros tempos, a gigantesca e serpentina forma só se detectava raramente —quase sempre por pessoas cuja sobriedade era, quando menos, questionável—, na atualidade, o monstro do Loch aparece cada vez mais com maior freqüência, e é visto por muitas pessoas, e grupos de pessoas, que podem se ter como de reputação irrepreensível e caráter sincero. Como possivelmente saiba, o assunto do Nessie não constitui mais que um obscuro rumor nestas Montanhas; embora, seja grandemente discutido nos jornais do Reino Unido e, por isso ouvi, inclusive do Continente. Posto que minha igreja olhe ao Loch —está situada onde o Rio Ness se une com o Loch Ness— não resulta saudável, o asseguro, ficar acordado pelas noites perguntando o que haverá ali e por que se mostrará tão ativo ultimamente.

         Em 1912 ocorreu o espantoso caso do menino dos Ferguson: Murdoch Ferguson, de dez anos, quem literalmente, enlouqueceu quando voltava para sua casa um entardecer. Causa-me pena dizer que o moço não voltou a ser o mesmo desde aquela experiência, embora seus pais lhe levaram a consulta de muitos doutores, ainda padece freqüentes pesadelos, parece abstraído ou perdido em seus pensamentos a maior parte do tempo e se nega em sair de casa quando chega a noite. Digo-lhe tudo isto porque temo que poderia você tornar-se a rir quando souber o que o moço diz que viu. Trata-se de uma dessas criaturas que o celtas chamam o «povo diminuto» ou simplesmente «fadas». O jovem Murdoch insiste em que tinha a pele verde, as orelhas bicudas, que não mediria mais de três pés e que seus olhos brilhavam com uma estranha fosforescência de maldade. Tão terrível resultou o maligno olhar que durante toda a noite da experiência o moço foi incapaz de deixar de tremer até que o médico de cabeceira lhe deu um forte sedativo [ópio, acredito].

         AÇÃO - SOM

         EXTERIOR. GRANJA ESCOCESA. PLANO LONGO.

         MURDOCH correndo.

         Tambores vodu.

         EXTERIOR. O MESMO. PLANO MÉDIO.

         Uma pequena silhueta, de costas à câmara, vendo correr ao MURDOCH.

         Tambores vodu.

         EXTERIOR. O MESMO. PRIMEIRO PLANO.

         A pequena silhueta volta subitamente para a câmara: só vemos uns olhos brilhantes em um rosto escuro.

         A Valsa de A Viúva Alegre.

         O incidente ocorreu na garganta que há justo detrás da igreja.

         Naturalmente, em cada povo de Escócia [e da Irlanda] informa-se de dementes encontros ocasionalmente, e estou seguro de que muitos deles são, como diria um psicólogo ateu, autoinduzidos pelo engano dos velhos contos tradicionais.

         Mas o jovem Murdoch me pareceu sempre um moço de inteligência superior à normal, mente aventureira e estabilidade emocional. Agora é um caso de neurastenia, e só posso acreditar que algo terrível aconteceu-lhe naquela tarde.

         A seguir chegou o sinistro cavalheiro Oriental vestido de negro. Não é nada conclui, mas, por alguma razão, turva-me. Este personagem —que pode ser chinês ou japonês, pois há certa disputa entre os que o encontraram— chegou a Inverness um mês depois do incidente do menino dos Ferguson e a criatura encantada. Visitou, pelo menos, duas dúzias de famílias, chegando sempre de noite e em uma carruagem negra. Vestia roupa ocidental, totalmente negra, e falava certo tipo de inglês que não pertencia nem às classes altas nem às baixas: sem acento, um inglês quase mecânico ou isso disseram as testemunhas.

         Sempre perguntava como ir a minha igreja e, uma vez informado, entretinha-se um momento inquirindo coisas vãs e, aparentemente, sem importância sobre mim mesmo, minha esposa e meu irmão maior, Bertran. Ao despedir-se, aquele pagão vestido de negro sempre dizia o mesmo com seu peculiar estilo: «Mal vai a quem mal deseja». A parte mais estranha de toda esta história é que embora sempre perguntava como chegar a minha igreja, nunca se aproximou dela, por mais que visitasse as casas dos arredores durante coisa de dois meses.

         O mais estranho, não obstante, é que, embora quase todo mundo a quem visitou o Oriental viu a carruagem negra claramente, ninguém o viu pelos caminhos nem de noite nem de dia. Era como se ele e a carruagem se materializassem para cada visita e se desmaterializassem a seguir... embora saiba que isto soa como se houvesse deixado voar minha imaginação.

         [Incidentalmente, ficaria muito reconhecido se pudesse me informar acerca de se a misteriosa frase «Mal vai a quem mal deseja», tem algum sentido em magia branca ou negra, além de ser o motto da Ordem de São Jorge.]

         Sigamos: nos últimos seis meses, desde que o espectral Oriental deixou de rondar por estes lugares, recolheram-se informe a respeito de uma enorme criatura com asas de morcego, e brilhantes olhos vermelhos, que foi vista nos arredores de minha igreja, durante a noite. Acredito que, por hora, o número de pessoas que dizem ter visto a criatura é de uns vinte. Certamente, a gente pode argumentar ou tentar argumentar que, no ambiente criado pelas aparições de Nessie no Loch, a experiência do moço dos Ferguson e o bronzeado Oriental, algum tipo de histeria poderia hospedar-se na região e a gente é mais propensa aos rumores e os atropelos psicológicos.

         Ai, oxalá seja assim! Eu mesmo vi à gigantesca criatura de asas de morcego... uma vez com certeza e, outra, muito provavelmente. O último incidente foi tão somente um bato as asas e uma grande sombra... possivelmente, tão somente um falcão excepcionalmente grande. [Mas, por minha palavra de honra, nunca vi nem ouvi falar de um falcão de tal envergadura...]

         AÇÃO - SOM

         EXTERIOR. CASA DOS VEREY. PLANO SUBJETIVO. [DO PONTO DE VISTA DE VEREY]

         A CÂMARA se dirige para um poço.

         Passos.

         Voz de Verey: «A seguinte vez foi mais claro, pois tinha saído com uma lanterna para me aproximar do poço.»

         EXTERIOR. GRANJA. PRIMEIRO PLANO SUBJETIVO. [DO PONTO DE VISTA DE VEREY]

         Uma enorme criatura-falcão desce em picado para a câmara.

         Voz de Verey: «E a coisa desceu e voou a menos de um pé de minha cabeça.»

         Preocupa-me que você acrescente um detalhe mais a minha imaginação: mas o fato é que pensei ouvir sua risada dissimulada com uma voz próxima a da humanidade.

         Se não fosse por meu amor para as Montanhas, suas encostas e colinas, acredito que acessaria às insistentes demandas de minha esposa, Annie, e iria a uma zona mais urbana e menos solitária. Na atualidade, inclusive meu irmão maior, Bertran, um veterano com trinta anos de serviço no exército, onde é considerado como um homem de valor férreo, começou a mostrar-se, de acordo com Annie, e já sugeriu várias vezes que abandonemos este abominável lugar.

         Rogo-lhe que me recorde em suas orações.

                                                                                                  Rev. C. Verey

         Pode um homem converter-se em camelo? A pergunta que apenas dois anos antes parecia um completo absurdo resultava terrível ao estudá-la naquele momento, embora não deixasse de soar ridícula. O maligno «povo diminuto» cujo contato tinha o poder de interromper totalmente o funcionamento normal do cérebro humano, abolindo o espaço e o tempo que conhecemos... a Criatura tantas vezes vista no Loch Ness... uma monstruosidade com asas de morcego que ri com voz humana... Sir John releu várias vezes a carta de Verey, com crescente apreensão e desgosto.

         «A mente tem tanto um aspecto racional como irracional», disse-lhe Jones, muito tempo atrás, e Sir John havia visto muitos irracionais habitantes da Capela Perigosa para temer seu poder, embora soubesse que não deixariam acontecer a ocasião de penetrar no universo material e alterar suas leis completamente.

         Sir Walter Scott escreveu a respeito daquelas criaturas em suas famosas Cartas sobre Bruxaria, e Sir John recorreu uma e outra vez à frase de Scott sobre «a multidão que nunca descansa».

         Finalmente, foi à biblioteca em busca da passagem. Scott explicava que «encanto» significava originalmente ilusão, como sabia qualquer filólogo, e falava sobre o modo abrupto em que o encanto podia converter-se em súbito horror em mãos daquelas criaturas... como passara ao pobre moço Ferguson. Scott escrevia:

         Os jovens cavalheiros e as formosas damas se vêem si mesmos [quando o encanto permanece oculto] retorcidos e odiosos. Os majestosos salões se convertem em miseráveis e úmidas covas... todas as delícias do Elfin Elysium desaparecem ao mesmo tempo. Em uma palavra, seus prazeres se mostram totalmente insubstanciais —a atividade é incessante, mas sem fruto nem estímulo— e sua condenação parece consistir na necessidade de manter a aparência de trabalho e desfrute, embora seu esforço seja vão e seus prazeres sombrios e insubstanciais. Antigos poetas os descreveram como «a multidão que nunca descansa». Além disso do lhe incensem e inútil atarefamento em que parecem viver suas almas, têm propensão a resultar desfavoráveis e desagradáveis para os mortais.

         Sir John recordava seu primeiro contato com a «multidão que nunca descansa». A meio caminho entre o sonho e a visão astral: a imensa, incompreensível maquinaria, o incessante murmurar de frases sem sentido... «Mulligan Milligan Hooligan Halligan» e todo o resto. A Cabala referia-se a eles como entidades qlifóticas: as almas dos que morreram loucos; a teologia cristã ortodoxa simplesmente os etiquetava como demônios; no Tibet eram conhecidos como Tulpas, e, usualmente, apareciam vestidos totalmente de negro, como o misterioso «Oriental» que acudiu ao Inverness para fazer perguntas a respeito da casa de Verey; entre os índios americanos seus nomes eram aliás os avatares de Coiote, o deus brincalhão, ou do misterioso «povo das estrelas»; não pareciam formar parte da Terra, em que só lhes mencionava em horríveis contos de humor negro, constituindo apenas um mito para aqueles que não se encontraram pessoalmente com eles.

         Sir John recordou repentinamente que a palavra «pânico» se derivava do nome do deus grego Pan; e que os antigos acreditavam que qualquer encontro com Ele ou Sua coorte de sátiros e ninfas —a multidão que nunca descansa— conduzia mais à loucura que ao êxtase, ou um êxtase que concluiria na loucura.

         A antiga e tradicional balada «Thomas el Bardo» foi a sua mente, mas não lhe pareceu agradável, mas, profundamente sinistra:

                                      Não vê o caminho que serpenteia

                                      Enquanto os ventos percorrem a garganta?

                                      É o caminho ao País das Fadas

                                      Onde você e eu chegaremos esta noite.

         Tinha em mente que William Blake, o poeta, explicou sobriamente a seus amigos que uma vez viu uma procissão de fadas em seu próprio jardim; que Sir Walter Scott informava de um homem a quem descrevia como «estudioso e cavalheiro» que insistia em ter visto «anéis de fadas» — círculos de cogumelos onde a gente diz que vão a dançar— e observado neles rastros de pequenas pegadas; que o folclorista Rev. S. Baring-Gould jurava ter tido um encontro, em 1838, no qual «legiões de miúdos de uns dois pés de altura» rodearam sua carruagem enquanto brincavam de correr por toda parte rindo, até que se «desvaneceram no ar» do modo habitual; e que tão recentemente como em 1907, Lady Archibald Campbell contava o caso de um homem e sua esposa, na Irlanda, que capturaram uma «fada» e a mantiveram presa durante duas semanas antes de que escapasse.

         Pensou: Tenho que considerar todos estes casos como 'alucinações'?; e recordou os milhares, centenas de milhares de relatórios similares procedentes de todos os tempos e lugares: o Pés Grandes do Canadá, o Abominável Homem das Neves do Himalaya; as grandes criaturas aladas de milhares de tradições populares: a enorme companhia negra de desacorçoados seres (ou a incrível variedade de formas com que a «multidão que nunca descansa» pode manifestar-se ante a consciência humana, quando a membrana entre o mundo visível e o invisível se rasga temporalmente e Eles se pavoneiam e dançam e brincam e riem desde sua realidade à nossa). Recordou sua própria experiência quando o pior deles, o bissexual Baphomet, o Deus Odioso, rompeu contato com ele: o trovão que rompeu o espelho foi só uma «coincidência» ou o rasgo da membrana e a abertura da porta entre os mundos?

         Recordou também o grande ponto cego do século dezoito, a cacarejada Idade da Razão, quando a ciência, incapaz de explicar os meteoritos, declarou dogmaticamente que não existiam os meteoritos; e quando os meteoritos seguiram caindo e eram informados por granjeiros, bispos, camelôs, amas de casa; filósofos; comandantes e milhares de testemunhas independentes, incluindo entre eles distintos cientistas, os membros da Academia Francesa e a Real Sociedade Científica desprezaram todos e cada um dos informes tachando-os de brincadeiras ou alucinações; pensava, inclusive hoje continuam as atividades da multidão que nunca descansa, pois se recebem relatórios semanais de um lugar ou outro na imprensa diária e são investigados com meticuloso cuidado pela Sociedade de Investigações Psíquicas. Era impossível resistir a acreditar na carta de Verey: embora o miúdo e o pretendido «Oriental» de negro e inclusive a Coisa com asas de morcego que ria; fossem só encantos, fantasmas, ilusões, se a força, a maligna inteligência que havia detrás daqueles fenômenos era algo ao que a humanidade se enfrentava desde antes do amanhecer da história não se poderia, nunca, escapar.

         Desde suas primeiras investigações sobre magia medieval, Sir John tinha duvidado entre a crença, pretendida a crença, o cepticismo e o pretendido cepticismo. Naquele momento não podia seguir resistindo o ser um acessível crente. O Grande Deus Pan estava ainda vivo, dois mil anos depois de que a cristandade reconhece-Lhe e denunciado como o próprio demônio; e seus parentes e amigos seguiam ativos entre nós, embora se mantiveram tão invisíveis para as opiniões educadas como os meteoritos às inteligências da era de Voltaire.

         AÇÃO - SOM

         EXTERIOR. LOCH NESS, CREPÚSCULO. PLANO EM MOVIMENTO.

         Uma panorâmica das águas agitadas pela tormenta.

         A câmara parece perseguir a cada uma delas.

         Tambores vodu.       

         Algo se move na água.

         Fundido rápido.

         Corte a:

         PRIMEIRO PLANO.

         Locutor de TV [o mesmo ator da seqüência prévia de TV] senta-se a uma mesa com aspecto macabro, olhando à câmara, retrocedendo o plano lentamente até alcançar um PLANO MÉDIO.

         Narrador: « As informações a respeito de misteriosos anões humanóides se encontram no folclore e nas lendas de todo o mundo, e ainda continuam aparecendo. O que podemos deduzir de tudo isso? A ciência não pode responder, mas temos em nosso estúdio um homem que leva muitos anos dedicando ao estudo deste tema...»

         Panorâmica a:

         JOHN LEEK, um escritor sincero, com óculos, calvo e de uns quarenta e poucos anos.

         Narrador: «Mr. John Leek, autor de Este planeta espreitado, Homens de Negro e 3000 anos de Ovnis. Mr. Leek você acredita nestes Humanoides?

         [A CÂMARA se desprende a um PRIMEIRO de Leek]

         Leek: «Não é questão de crenças. É um frio fato que estas criaturas foram descritas com detalhes virtualmente idênticos por todas as sociedades históricas.»

         [Plano ao Narrador.]

         Narrador: «Você acredita que são extraterrestres?

         [Plano médio: Narrador e Leek.]

         Leek: Extraterrestres, extradimensionais, viajantes do tempo... poderiam ser muitas coisas.»

         Narrador: «Mas, basicamente são os mesmos OVNInautas citados pelos atuais contatados?»

         Leek: «Oh, sem a menor dúvida. Com a Era da Ciência, mudaram de jogo.

         Ocasionalmente, na atualidade, pretendem viajar de artefatos mecânicos, para ajustar-se à idéia de extraterrestres... mas de um ponto de vista cético, deveria dizer que as naves se movem de um modo absolutamente alheio a qualquer nave mecânica. Basicamente, manipulam nossas mentes, não nossa realidade física.»

         [Primeiro plano: Narrador.]

         Narrador: «Você tem alguma evidência concreta de que sejam as mesmas criaturas que se mencionam nas tradições folclóricas antigas?»

         [Primeiro plano: Leek.]

         Leek: «Bom, aqui tenho um desenho de uma destas Inteligências Enochianas invocada mediante as Chaves Enochianas do Dr. John Dee. O desenho foi realizado pelo Aleister Crowley, depois de invocar ao Ser. Não é idêntico aos ONVInautas registrados pelos milhares de contatados dos últimos tempos?

         [PLANO MÉDIO: Narrador e Leek.]

        

         Narrador: «E você acredita que nossas mentes vêem o que Eles desejam que vejam?»

         [PRIMEIRO PLANO: Leek.]

         Leek: «Assim é. São nossos Manipuladores. Nossa realidade é o que eles querem que seja.»

         [PRIMEIRO PLANO: Narrador.]

         Narrador: «Naturalmente, a teoria é muito interessante, Mr. Leek. Conheceremos outro ponto de vista, o do Dr. Carl Sagan, depois da mensagem de nosso patrocinador.

  1. Mencione uma fonte acadêmica que, ao menos, tente apoiar os exagerados pontos de vista de Mr. Leek.
  2. «Nos mitos de todas as raças e climas vemos sinais destas extra-cósmicas entidades que povoam as páginas do Necronomicon. No Himalaya, a lenda do Abominável Homem das Neves não morreu, mas sim ressuscita em boca dos membros mais prosaicos das expedições de montanheiros. Em certos pontos da Virginia se fala do Homem Traça —um humanóide moreno e com asas—, do qual ainda aparecem algumas informações; serpentes de mar e monstros povoam oceanos e lagos; encontros com Ovnis registram-se todos os dias». Comentário do Robert Turner, O Necronomicon, Neville Spearman, Suffolk, 1978.

                                                         TERCEIRA PARTE

         Se nosso Senhor não duvidar a respeito da realidade da posse demoníaca, quem somos nós para fazê-lo?

                                                                           Rev. Charles Verey, Nuvens Sem Água.

         A Bíblia fala do dragão... e seus anjos» [Revelação, 12:7], indicando que, junto com Lúcifer, miríades de anjos também escolheram protestar contra a autoridade de Deus... Cuidado, são perigosos, viciosos e mortais. Querem lhes ter sob seu controle e pagarão qualquer preço para lhes conseguir!

                                                   Rev. Billy Graham, Anjos: Mensageiros Secretos de Deus.

         Se Deus for tudo, como posso ser mau?

                                                                                               Charlie Manson

         Era já pela tarde do dia seguinte, 27 de junho, e o Föhn não tinha deixado de sufocar Zurique em seu úmido abraço. O assobiante vento calou em três ocasiões, quase amainando: mas por três vezes voltou para a carga, tão quente e enlouquecedor como sempre; a paciência da gente começava a quebrantar-se.

         Einstein, Joyce e Babcock estavam reunidos novamente; naquela ocasião no estudo de Einstein, onde tinham ficado às três. O professor parecia ser o mais alegre do trio, pois se tinha recuperado da longa noite anterior com a única ajuda de umas poucas horas de sonho e a estimulação intelectual de sua aula de Física do meio-dia. Joyce estava ainda um pouco desprendido, e lhe notava. Babcock, depois de jazer, espasmodicamente, em um divã do salão de Joyce durante quase toda a manhã, apenas se encontrava algo menos desesperado que a noite anterior.

         — Bem, Jeem —começou Einstein—, honestamente: o que lhe parecem as notáveis aventuras de nosso amigo?

         — Honestamente? —repetiu Joyce—. Começo a me perguntar se tais coisas são possíveis.

         Einstein não respondeu; mas seu olhar era um claro convite ao Joyce para que continuasse.

         — Em uma ocasião —comentou Joyce pensativamente—, uma feira chamada A Arábia chegou a Dublín. Eu podia passar dez horas diárias devorando toda classe de literatura romântica sobre o misterioso Oriente, os segredos dos sufis; a magia dos dervixes; Aladim; Ali Babá e coisas desse tipo. Pode imaginar o que significou para mim a palavra «a Arábia»? Minha impaciência e excitação conforme se aproximava o dia da feira eram da mesma ordem que minhas emoções, poucos anos depois, quando, nervoso, penetrei no Distrito das Luzes Vermelhas para procurar uma prostituta pela primeira vez. Pensava que um novo mundo se abriria ante mim, um mundo cheio de magia e maravilha. O que encontrei, naturalmente, foi o mais vulgar carnaval, dedicado a entreter aos faladores e esvaziar os bolsos dos mais lerdos.

         Babcock olhou confundido para ouvir o discurso; Einstein se mostrava solene. O silêncio durou até que Joyce voltou a falar.

         — Mr. William Butler Yeats e seus amigos —continuou Joyce, sem mais— viviam na Arábia. Para eles era real. Certamente, mais real que seus serventes. Avançamos todos os dias pelo mundo da experiência, mas, mentalmente, vamos tão nus como Adão no Éden. Atrever-me-ia a dizer que só temos certas idéias fixas a respeito de ir ao bar da esquina, à feira chamada a Arábia, ou ao Pólo Sul com o Amundsen. Se um ladrão de carteira entrasse nesta habitação, procuraria carteiras que saquear; se ao Sócrates fizessem passar à feira chamada Mileva — se inclinou cavalheiresco para a cozinha, onde a Senhora Einstein poderia estar escutando—, Sócrates procuraria mentes às quais pudesse perguntar. Se Mr. Yeats estivesse aqui, só veria meras sombras materiais das Eternas Idéias Espirituais conhecidas como Ciência —assinalando ao Einstein —, Arte — apontando-se a si mesmo, ironicamente— e Misticismo —marcou ao Sir John—. Vejo três pessoas com visões diferentes —concluiu abruptamente.

         — Com tudo isto — perguntou Einstein com secura—, quer dizer que as pessoas do Amanhecer Dourado não parece mais louca que o resto do mundo?

         — Estou dizendo —replicou Joyce— que posso ver o mundo do mesmo modo que Yeats e os ocultistas: como uma aventura espiritual cheia de Profecias e Símbolos. Também posso vê-lo, se prefiro-o, como me ensinaram a pensar os jesuítas quando era jovem: como um vale de lágrimas e uma rede de pecado. Ou posso considerá-lo segundo a épica homérica, ou como uma deprimente e naturalista novela de Zola. Interessa-me estudar todas as facetas.

         Sir John se inclinou para frente, repentinamente interessado.

         — Acredito que começo a compreender-lhe um pouco —disse—. Afirma que eu vivo em uma novela gótica, enquanto você prefere fazê-lo em uma de Zola.

         — Não exatamente — respondeu Joyce—. A escola de Zola é unidimensional. Eu procuro uma visão multidimensional. Quero ver o fundo das novelas góticas, das de Zola e de todas as mascaradas, para ver logo mais à frente.

         — Fascinante — confessou Einstein—. Fascinante.

         Os outros dois olharam-lhe como espectadores.

         — Sua parábola da Arábia —comentou Einstein ao Joyce—, curiosamente, traz-me para a cabeça minha parábola. Imaginem que fôssemos três físicos e que estivéssemos sentados nesta habitação. Sem que saibamos, a sala é um elevador —um elevador, Sir John— que sobe rapidamente pelo espaço exterior. Posto que ignoramos que nos achamos no interior de um elevador, mas como fomos educados para a física e sentimos curiosidade a respeito de nosso entorno, começamos a realizar experimentos. Descobrimos que todos os objetos que nos caem das mãos se chocam com o chão. Mais adiante, averiguamos que se os objetos são arrojados horizontalmente, em vez de cair de repente o fazem descrevendo uma parábola. Encontramos, de fato, que quando experimentamos e escrevemos as mais simples equações matemáticas capazes de descrever nossas observações, afastamo-nos da teoria newtoniana da gravidade. Decidimos que debaixo da sala em que nos encontramos há um planeta que «atrai» os objetos.

         — É certo? —perguntou Joyce, assombrado—. É o mais maravilhoso que me contou de todas as suas teorias.

         —Atualmente, intento demonstrá-lo —respondeu Einstein— em um documento que estou redigindo. Agora suponhamos que houvesse outro físico na sala, ou elevador, que por algum estranho processo de reorganização criativa de sentidos-datos —possivelmente de um modo semelhante aos quebra-cabeças cabalísticos das pessoas do Amanhecer Dourado—, pudesse dar o salto para outra forma de pensamento. Do exterior, conceberia a habitação como um elevador e imaginaria o cabo e a maquinaria que tão rapidamente atira ela para cima. Sentar-se-ia, realizaria seus próprios experimentos e escreveria suas próprias equações. Derivaria, eventualmente, toda a teoria da inércia tal e como se encontra na mecânica clássica. Decide, por último, que não há nenhum planeta abaixo.» Agora bem —continuou Einstein—, achamo-nos sob a hipótese de que as portas estão fechadas e não podemos sair da habitação. Como determinar quem tem a explicação correta das leis fenomenológicas que observamos: quem as atribui a que há gravidade [o planeta abaixo] ou quem as atribui à inércia [o cabo de cima, nos impulsionando através de um espaço de gravidade zero]?

         —Oh! —murmurou Babcock—. É isso uma pergunta?

         —Em certo sentido, ambas são corretas —disse Joyce firmemente—. Se ambos os sistemas de equações descrevem a situação, não há razão para preferir as de um, às do outro a não ser, por motivos estéticos. Dentro dos termos do problema, nunca poderemos ver nem ao planeta por debaixo, nem ao cabo por cima. Escolheríamos a resposta equivocada tomando como referência o ponto de vista do homem de fora.

         — Precisamente —continuou Einstein—. Qualquer sistema de coordenadas atua como a habitação da qual estou falando, de tal modo que um observador exterior não pode assegurar nada cientificamente. Do interior da habitação —dentro de qualquer sistema de coordenadas— não há modo de dizer se é a gravidade, ou a inércia, a verdadeira explicação dos fenômenos que observamos. É o mesmo que o relato de Sir John: quer dizer, não se sabe se tudo é uma série de estranhas e aleatórias coincidências e simbolismos oníricos freudianos, ou se se trata de uma série de estranhos e autênticos augúrios; tudo dependeria da interpretação do observador.

         — Precisamente — continuou Joyce —. Sobre o compartimento de estranhas coincidências, posso opinar tão bem como Sir John. Por exemplo, meu primeiro trabalho de educador foi na escola de Vico Road, em Dublin. Mais recentemente, em Trieste, tinha que passar pela Via de Giambattista, Vico duas vezes por dia, para ir a casa de um de meus estudantes de idiomas e voltar para a minha. Além disso, outro de meus estudantes se sentia fascinado pela teoria cíclica da História de Vico. Naturalmente, comecei a me interessar pela biografia e a filosofia de Vico depois de tudo aquilo e encontrei numerosos paralelismos entre minha vida e a sua, tanto que minha escritura começa a ver-se influenciada pelo Vico. Esta seqüência pode interpretar-se livremente. Agora bem, ou, Unum, os deuses dispuseram tudo para que me encontre com o nome de Vico, uma e outra vez, e assim influenciar minha escritura; ou, Duum, tudo é simples coincidência e tomei isso a sério. Não há modo de demonstrar nenhuma das duas hipóteses a um homem que se empenhe em ver a contrária.

         — Nem tanto — replicou Einstein agudamente —. Quando é possível escolher entre duas teorias, escolhemos sempre a que mais se adeqüe aos dados. Ou, desenvolveríamos uma teoria de ordem superior, que reconciliasse as diferenças entre as duas interpretações em conflito... quão mesmo tento fazer eu com a gravidade e a inércia da adivinhação. Sem o esforço de criação para que nossos conceitos encaixem em nossas percepções, nosso pensamento é só um exercício de desejo executivo.

         Um cético som de Babcock fez que Einstein lhe olhasse interessado.

         — Por mais surpreso que esteja — disse Babcock cansativamente—, manifesto-me em completo acordo com vocês, cavalheiros. Uma das primeiras lições que aprendi no Amanhecer Dourado é que a percepção depende da mente do observador, quão mesmo o que revela uma lente depende do ângulo de reflexão. Recordaram-me que isto é um trabalho de super poder e que não afeta ao terror fundamental de minha posição, como alguém que é atacado por bruxos negros, que já mostraram sua capacidade para desenquadrar as mentes de três pessoas e as conduzir ao suicídio.

         — Bem —respondeu Einstein brandamente—, se você estiver seguro de ser um homem com perigosos inimigos, aceitamo-lo. O que fica por determinar é se atualmente eles podem manipular o universo físico com sua... isto... magia, ou se tão somente, são superlativamente, preparados para manipular as mentes dos seres humanos que caem sob suas garras. Para fazê-lo, estaríamos encantados de ouvir o resto de sua história.

         — Sim — corroborou Joyce—. Certamente, quero saber tudo. Tenho uma primeira hipótese sobre o que se trama, detrás de todas as máscaras e mascarados, e interessa-me muito comprovar que tal teoria encaixe com os subseqüentes fatos.

         — Muito bem — respondeu Sir John—. Nesse caso, sigamos.

         E, enquanto o Föhn seguia açoitando a janela, contou ao Joyce e Einstein um relato que confundiu suas esperanças.

                                 DE ILLUMINATORUM OPERIBUS DIVERSIS

         Sir John achou tão perturbadora a carta de Verey sobre a criatura com asas de morcego que decidiu saber todo o possível sobre o enigmático Aleister Crowley: o homem descrito por Jones como líder da falsa loja maçônica do Amanhecer Dourado dedicada à licenciosidade e à magia negra; o amante de Lola Levine, de acordo com o Ezequiel (ou Ezra, ou Jeremias) Pound; o bruxo que, possivelmente, transformou Víctor Neuberg em camelo; e, nas crescentes suspeita de Sir John, o canal humano através do qual a multidão que nunca descansa se lançou sobre a família Verey.

         Começou no Museu Britânico, recordando com desagrado o sonho no qual encontrou com Karl Max, enquanto ouvia uma confusa história da Franco-maçonaria mesclada com o assassinato de Julio Cesar.

         As Revistas de Literatura Contemporânea dos últimos dez anos revelaram que Crowley era autor de mais de uma dúzia de volumes de poesia, cada um dos quais tinha recebido, de modo pouco habitual, críticas díspares. A crítica do The Listener não parecia capaz de decidir-se a respeito de um dos livros de Crowley, A Espada da Canção, descrito como «valente», «sério e intrépido» e «cada vez mais repelente» em um só parágrafo. The Seeker era mais caridoso: «Crowley foi rechaçado por alguns desconsiderados, ou maliciosos... porque realmente não é fácil seguir à ave real em seu brilhante vôo»; enquanto isso, The Clarion sumia, francamente, no desespero: «Devemos confessar que nossa inteligência não é equivalente à tarefa». A Cambridge Review mostrava-se, simplesmente, furiosa ante uma nova publicação de Crowley, alegando que era «obsceno», «insultante» e uma «monstruosidade» que «reclama um enérgico protesto por parte dos amantes da literatura e da decência». O Arboath Herald, como o Clarion, rendia-se, descrevendo os versos de Crowley como «tão inteligentes que alguém os encontra ininteligíveis». The Atheist por outro lado, elogiava ao Crowley a contra gosto, enquanto o denunciava: «Embora não cheguemos a admirar seu onírico romantismo, sua fiel negação do sobrenatural, do divino e do místico merece nosso respeito»; paradoxalmente, o Prophetic Mercury encontrava os mesmos versos esperançosos por razão oposta, dizendo: «O contínuo sentimento de Deus na mente do poeta nos leva a piedosa esperança de que algum dia será iluminado». O Yorkshire Post ficava pasmo, sem mais: «A poesia do Mr. Crowley, se é que pode receber esse nome, não é séria»; a Literary Cuide, por contra, era rapsódica: «Uma obra mestra do ensino e da sátira».

  1. Mostre um exemplo sucinto e representativo da controvertida poética do Mr. Crowley.
  2. De Konx Om Pax, 1907:

                                      Assobio o Tam-Tam, ressoa a flauta!

                                      Sejamos felizes!

                                      Sou um indivíduo com aguda pauta

                                      E crônico beribéri.

                                      na segunda-feira sou um fraco gritalhão

                                      Bastante Felician-Ropsy.

                                      Sopra o címbalo, ressoa o trombone!

                                      na terça-feira tenho hidropisia.

                                     na quarta-feira, começam os sintomas cardíacos;

                                      na quinta-feira hemiplejía

                                      Sopra o violino, rasga o tambor!

                                      na sexta-feira paralítico.

                                      Sim no sábado a meu amor

                                      Atacam em apertadas legiões,

                                      no domingo, imagino,

                                      Terei beribéri!

         Sir John provou, a continuação, nos periódicos. Em um exemplar do Times de 1909 — o mesmo ano em que Sir John se graduou em Cambridge e o louco Picasso impressionou ao mundo artístico de Paris com suas primeiras e incompreensíveis pinturas «Cubistas» — Crowley aparecia envolto em um assunto legal com o MacGregor Mathers. O jornalista do Times que cobria a notícia não era partidário nem de Crowley, nem de Mathers, todavia, Sir John foi capaz de estabelecer que o visível objetivo do julgamento — o intento de evitar que Crowley publicasse, em uma revista chamada The Equinox, certos rituais do Amanhecer Dourado original— era só uma desculpa para ocultar o verdadeiro conflito que existia entre eles: o fato de que ambos declaravam ser os verdadeiros líderes do Colégio Invisível Rosacruz. Bom, aquilo era totalmente novo para o Sir John; Jones dissera que Crowley, Mathers e outras pessoas atuavam falsificando lojas maçônicas Rosa-cruzes como oposição ao verdadeiro Amanhecer Dourado. O juiz, descobriu divertido Sir John, negou-se a permitir que o julgamento degenerasse em um debate sobre tais propostas, cuja verdadeira natureza não se podia elucidar em uma corte legal; e, simplesmente, decidiu que Mathers não tinha autoridade, para impedir que Crowley publicasse uns documentos de antigüidade e autoria indefinidas; como admitiam ambos litigantes, estipulando, inclusive, que foram escritos por inteligências sobre-humanas que não eram capazes de adotar forma corpórea para atestar a favor de nenhum.

         Sir John, igualmente divertido, encontrou que Mathers, sob interrogatório, teve que confessar que, ocasionalmente, reconheceu ter sido reencarnação do rei Carlos I. Em uma observação casual, encontrou uma pista para procurar nova informação a respeito de Crowley: ele mesmo considerava-se como o melhor escalador de montanhas do mundo.

         Depois de uma visita ao Clube Alpino obteve várias veementes negações daquela asseveração.

         — Aleister Crowley — explicou o secretário do Clube, um tal Mr. Mortimer —, é o maior fanfarrão do mundo. Nenhuma de suas escaladas foi considerada como certa por nós. —Posteriores pesquisas conduziram à usual ambigüidade, que parecia associar-se ao Crowley, como a névoa às ruas de Londres: era óbvio que o enfrentamento entre o Crowley e o Clube Alpino se remontava até 1890 e que ambas as partes acusaram-se entre si de mentirosas em tantas ocasiões, que nenhum observador exterior poderia ter uma opinião imparcial dos fatos. Mortimer deslizou, em troca, uma observação que sugeria que os êxitos montanheiros de Crowley, possivelmente, não fossem completamente incertos, admitindo que Oscar Eckenstein, o principal escalador alemão, freqüentemente, denominava ao Crowley como seu melhor adversário inglês—. Mas — acrescentou Mortimer precipitadamente—, Eckenstein é um judeu alemão e nos guarda certo rancor, por isso, possivelmente, a isso se deva que apóie as mentiras de Crowley.

         Sir John decidiu procurar novos dados a respeito daquele enigmático personagem entre várias pessoas que tinham fama de conhecer a vida londrina em profundidade.

         — Crowley, certamente, é um astuto bastante divertido — disse Max Beerbohm —. Se também é um verdadeiro canalha, não posso dizer, embora, dedicou uma considerável quantidade de energia para demonstrar ao mundo a verdade dessa afirmação.

         — Bom, sim —respondeu Sir John, duvidoso—, mas, como se distingue a um pícaro de um canalha?

         — Um pícaro — concretizou Beerbohm — não se preocupa com a moral de seu tempo, embora, possua seu próprio tipo de honra. Um canalha não tem nem moral, nem honra.

         — Oh — disse Sir John, ainda indeciso—. Poder-me-ia dar algum exemplo da... boa, picaresca de Crowley?

         Beerbohm riu entre dentes. As fortes lembranças de Horeb, Sinai, e de quarenta anos apareceram como a luz do dia em sua cara.

         — Há mil exemplos —respondeu, afrouxando-se com graça o pescoço duro—. Meu favorito é o da estátua de Oscar Wilde, em Paris, desenhada por esse jovem cheio de talento, chamado Jacob Epstein. Os franceses a colocaram, deve sabê-lo, para mostrar sua compreensão a respeito de... de, bom, as inclinações sexuais de Wilde e para lhe reconhecer como o grande artista que era apesar de seus... suas peculiaridades. — Voltou a rir entre dentes—. Não foram tão pormenorizados com a estátua de Epstein: é um nu. Havia certo problema, relacionado com a... reputação de Wilde, mas não podiam, ah, insultar ao Epstein rechaçando a estátua depois de encomendada. De modo que contrataram alguém para que acrescentasse uma folha de parra em... no ponto sensível, se quer me entender. Bom, sabe o que fez Crowley? arrastou-se ao parque durante a noite, com um martelo e um cinzel, e retirou a folha de parra. Logo, para acrescentar o escândalo ao ultraje, aquela mesma noite se dirigiu ao Claridge's, aqui mesmo, em Londres, com a folha de parra na parte dianteira de suas calças! — Beerbohm pôs-se a rir—. A isso chamo picaresca, e não me atrevo a qualificá-lo como obra de um canalha.

         A formosa Florence Farra, a atriz mais famosa de Londres, resultou tão paradoxal como quase todos os comentaristas da poesia de Crowley.

         — Aleister — disse — era, quando lhe conheci faz já dez anos, o jovem mais arrumado, engenhoso e brilhante de Londres. Também era o mais implacável canalha e descarado. Por isso, ouço a respeito de sua vida, essas contradições suas, tornaram-se cada vez mais violentas. Estou seguro de que acabará, ou no cárcere, ou canonizado como santo.

         Victor Neuberg, o jovem poeta que diziam, foi convertido em camelo pelo Crowley, negou-se a entrevistar-se com o Sir John, enviando uma nota de escritura sucinta que dizia: «Nenhum homem vivente compreende, ou pode compreender, ao Aleister Crowley, mas os que valorizem sua saúde, não devem aproximar-se dele».

         Richard Aldington, editor, comentou:

         — Rodin considera o Crowley como nosso maior poeta vivente, porém, temo que seja devido ao fato de que Crowley escreveu todo um volume de versos glorificando a escultura de Rodin. Pessoalmente, eu não gosto dos versos de Crowley. Os encontros Vitorianos, retóricos e empolados. Totalmente carentes da nota moderna.

         Gerald Kelly, o mais admirado pintor da Inglaterra, parecia ser exatamente o que era —um homem que não demoraria para ser eleito membro da Real Academia — e disse:

         — Não posso falar a respeito de Aleister Crowley, Sir John. Evidentemente, você não ouviu que é meu cunhado. Tudo que posso dizer é que, quando minha irmã se divorcie dele, não me sentirei muito desgraçado.

         Bertrand Rusell, o matemático, declarou de modo preciso:

         — Nunca me encontrei com um profano, que compreenda tão bem a matemática, como Aleister Crowley, mas, além disto, sua cabeça é uma restinga de sentimentalóide misticismo. Ouvi que joga, excelentemente, ao xadrez, de modo que lhe poderão dizer algo mais no London Chess Club.

         O London Chess Club estava cheio de admiradores de Crowley, todos os quais lamentavam que não tivesse dedicado mais tempo ao jogo.

         — Seria um Grande Mestre — declarou um dos membros tristemente — se não perdesse o tempo dedicando-se à essas tolices de escalar montanhas e escrever poesia e não pusesse-se a correr para Oriente para destroçar a mente com as superstições hindus.

         — Aleister — explicou outro entusiasta do clube — é o único homem, além dos Grandes Mestres, que pode jogar realmente às cegas contra vários oponentes e ganhar a maioria das partidas. De fato — baixou a voz neste ponto—, uma de suas afeições é quase preternatural. Em mais de uma ocasião, retirou-se ao dormitório com sua amante ditando, eventualmente, os movimentos a um jogador que permanecia sentado na habitação do lado... e ganhando. Diz que o faz para nos demonstrar o que é a verdadeira concentração.

         Sir John ruborizou-se violentamente.

         — Que modo mais insuportável de tratar a uma mulher — disse furiosamente.

         — Bom — replicou o informante com um olhar malicioso—, por isso ouvi, os sons procedentes do dormitório indicavam que a dama estava passando por uma experiência agradável; de fato, provavelmente, mais de uma.

         Sir John considerou que aquele especialista poderia olhar de frente ao demônio sem lhe reconhecer. O que só parecia uma mescla de vulgar proeza e ginástica intelectual para o jogador de xadrez significava, obviamente, algo muito pior para qualquer um que compreendesse os aspectos sexuais da magia negra: aquilo formava parte do contínuo treinamento de Crowley para as ordálias dos rituais de Pan, nos quais a prolongada sensualidade se empregava para intoxicar os sentidos e abrir a porta às entidades astrais.

         O passo seguinte de Sir John foi o de buscar em livrarias onde, depois de uma frustrante investigação, encontrou finalmente um dos livros de Crowley: uma obra em prosa intitulada Livro Quarto, que dizia explicar todos os mistérios do ioga e da magia com palavras singelas para que o homem comum pudesse compreendê-lo. Sir John o comprou e o levou à casa para estudá-lo.

         Quando se encontrou de novo na Mansão Babcock após compilar toda a contraditória e perturbadora informação sobre o Inimigo, encontrou um pequeno pacote remetido pelo escritório postal do Amanhecer Dourado de Londres. Era estranho, pois Jones continuava em Paris; entretanto, Sir John não tinha ciência certa, que Jones estivesse a cargo daqueles envios. Possivelmente algum outro oficial da Ordem enviava as adequadas lições aos estudantes em datas predeterminadas. Sir John abriu o pacote, com a secreta esperança de que contivesse o ritual secreto dos Rosa-Cruzes: algo para o qual Jones lhe disse que não demoraria para estar qualificado.

         Para sua dor, o panfleto intitulava-se:

                                           DE OCULO HOOR

                                         Publicação de Classe A

                                      Ordem Hermética do A.·.D.·.

         Sir John retirou-se à biblioteca para lê-lo com considerável curiosidade. Dizia:

  1. Este é o Livro que Abre o Olho de Hórus, cujo símbolo no mundo profano é o olho no triângulo, e cujo significado é Iluminação.
  2. Os que o leiam não o lerão; os que o olhem não o verão; os que o compreendam não o compreenderão. O entendimento e a compreensão só se alcançam quando a gente não é um, quando a gente é nada.
  3. Houve uma vez um monge, um discípulo de um grande Mago de nossa Ordem a quem os homens chamavam Buda cujo significado é O Que Despertou. Os homens perguntavam ao senhor Gautama: É um Deus? E ele respondia: Não. E eles voltavam a lhe perguntar, É um santo? E ele voltava responder, Não. E eles perguntavam então, Quem é? E ele respondia, Estou desperto. Depois, ficou conhecido como o Buda, o Desperto.
  4. E o monge, para despertar, praticou a Arte da Meditação, como foi ensinado por Buda, cuja forma original resultou alterada pelas Falsas Imaginações e Elaborações dos Teólogos, mas que é: Para ver todos os incidentes e eventos e Recordar, Deve Dizer a Si mesmo: Isto é Transitório.
  5. E o monge viu todos os incidentes e eventos, Recordando-se sempre a si mesmo: Isto é Transitório.
  6. E o monge se aproximou do Despertar, e se encontrou em grande perigo, pois o Senhor do Abismo das Alucinações, ao que os Budistas chamam Mara, o Tentador, aproximou-se apressado ao que estava a ponto de Despertar, hipnotizando-lhe com o Sonho dos Loucos que é a ordinária consciência do Homem.
  7. E Mara afligiu tristemente ao monge com a morte de seu primogênito, e a enfermidade dos seres queridos, e a cegueira, e as calúnias, e a malícia, e a grande maldição dos Pleitos, e muitos sofrimentos; mas o monge só pensava: Isto é Transitório. E esteve mais perto de Despertar.
  8. E Mara, Senhor do Abismo das Alucinações, fez que o monge morresse e reencarnasse em uma criatura quase Sem Mente, um Louro, que revoava de ramo em ramo pela selva; e Mara pensou: Agora não poderá Despertar.
  9. Mas um irmão Monge da ordem Budista chegou um dia à selva, cantando os Ensinos, e o Louro lhe ouviu, e repetiu sua frase uma e outra vez: Isto é Transitório.
  10. A Atividade Mental se iniciou no Louro, e as lembranças de sua vida passada foram a seu entendimento, assim como o significado do ensino, Isto é Transitório; e Mara amaldiçoou horrivelmente, pela frustração, e fez que morresse de novo e se reencarnasse como Elefante, muito mais dentro da selva e muito mais longe das vozes dos homens.
  11. E passaram muitos anos, e parecia que não existia oportunidade alguma de que aquela alma Despertasse; mas os efeitos do benéfico carma, como os do mal, continuam eternamente; e por isso, os Homens chegaram à selva, e capturaram ao Elefante, e o enviaram a um grande Rajah.
  12. E o Elefante viveu nos jardins do Rajah, e passaram muitos anos.
  13. E outro monge da ordem Budista chegou junto ao Rajah, e ensinou em seus jardins e seu ensino era: Isto é Transitório. E as lembranças renasceram no Elefante, e compreendeu o significado das lembranças, e o Depenar se aproximou.
  14. E Mará amaldiçoou furiosamente, e fez que o Elefante morresse; e naquela ocasião Mará se ocupou de que a reencarnação tivesse lugar em um lugar tão longínquo que não ficasse possibilidade de Despertar, pois Mara fez que o monge renascesse como Evangelista Americano.
  15. E o Evangelista era da Maioria Moral [bocca grande giganticus] e viajou pela nação Americana, Norte e Sul e Este e Oeste, pregando que todos estavam ameaçados pelos perigos do Inferno, e que só havia um Caminho de Salvação, e que aquele caminho era acreditar Tudo o que ele Dizia e Fazer Tudo o que ele Pedia.
  16. E escravizou a muitos, que se converteram em Autômatos mentais, e aqueles Autômatos, gritaram, Aleluia, Estamos Salvos.
  17. E Mara se sentiu jubiloso, pois a alma do monge estava mais longe da Iluminação que nunca; antes fora um Idiota Subjetivamente Sem Esperança — id est, alguém que é consciente de sua própria idiotice sem esperança— mas agora era um Idiota Objetivamente Sem Esperança —id est, alguém que Pensa que Sabe quando realmente Não Sabe Nada.
  18. Mas o Evangelista se reuniu com outros Clérigos para enviar Missionários ao Pagão Este; e Às pessoas falou das superstições do Oriente, e mencionou a ensino Budista de que Tudo é Transitório.
  19. E a Atividade mental começou a atuar no Evangelista, e afloraram as lembranças das Passadas Encarnações; e Mara, cheio de amarga frustração, tentou a Última Armadilha, fazendo que o Evangelista se convertesse em Mahabrahma, Senhor de Senhores, Deus de todos os Universos possíveis.
  20. E Mahabrahma permaneceu em Divina Cegueira durante bilhões de anos, criando pequenos Brahmas que criavam Seus próprios universos e eram Deuses neles; e Mahabrahma olhava toda sua atividade e se regozijava com sua Alta Indiferença; Mahabrahma era Consciente Sem Desejo.
  21. E o monge pareceu ficar afastado da Iluminação para sempre.
  22. Mas finalmente Mahabrahma observou, depois de ver muitas idas e vindas dos Deuses, que todos Seus universos cresciam e floresciam e pereciam, que a grande Lei de Leis é Tudo é Transitório.
  23. E Mahabrahma descobriu que Ele, também, era Transitório.
  24. E Mahabrahma conseguiu a Iluminação.
  25. E Mahabrahma retornou à ordinária consciência da mente do monge praticando a meditação budista, olhando todas as coisas e pensando: Isto é Transitório.
  26. E o monge não soube se era um monge que imaginava ser Mahabrahma, ou Mahabrahma pensando ser um monge; e aquela foi a Iluminação perfeita.

                            DE FRATRIBUS NIGRIS FILIIS INIQUITATIS

         No dia seguinte recebeu outra carta de Verey, e o coração de Sir John se estremeceu ao descobrir que a letra manuscrita do envelope via-se claramente alterada e errática. Abriu-a, preparado para qualquer coisa.

         Querido Sir John:

         As forças invocadas por meu enlouquecido irmão menor, Arthur, e a maldita Lola se mostraram mais terríveis do que nunca tivesse imaginado. Descubro — ao fim — que nunca tinha considerado a Sagrada Escritura [especialmente o Livro das Revelações] muito literalmente. As «forças e poderes» do Inferno não são figuras retóricas.

         «Desgraçados os que não acreditam, pois estão condenados».

         Cheguei a este ponto: alcancei o climax dos horrores.

         AÇÃO - SOM

         EXTERIOR. FORA DA IGREJA DE VEREY. PELA TARDE. PLANO SUBJETIVO: DO PONTO DE VISTA DE VEREY.

         A CÂMARA se desprende para a porta da igreja.

         Voz de Verey: «A noite do passado sábado antes de me retirar, olhei para a igreja como de costume, e descobri...»

         EXTERIOR. O MESMO: A PORTA FECHADA. PLANO SUBJETIVO: DO PONTO DE VISTA DE VEREY.

         A CÂMARA se centra na ferrugenta fechadura da porta.  

         Voz de Verey: «...que o enorme e antigo cadeado da porta enferrujou-se e necessitava óleo. Estava tão forte que não podia mover a chave, e me perguntei se seria capaz de abrir a porta para os serviços do dia seguinte.»

EXTERIOR. O MESMO. SUBJETIVO. PLANO EM MOVIMENTO: DO PONTO DE VISTA DE VEREY.

         A CÂMARA traça uma panorâmica da igreja ao bosque.

         Voz de Verey: «Procurei um azeite...»

EXTERIOR. O MESMO. PRIMEIRO PLANO SUBJETIVO: DO PONTO DE VISTA DE

VEREY.

         A mão de VEREY vira uma lata de azeite, a inclina... não cai azeite.

         Voz de Verey: «...mas não tinha azeite e anotei mentalmente comprá-lo assim que baixasse à cidade.»

         EXTERIOR. O MESMO. PANORÂMICA SUBJETIVA: DO PONTO DE VISTA DE VEREY.

         A CÂMARA retrocede para deixar ver a igreja e se detém em uma janela da parte alta do edifício.  

         Voz de Verey: «Tenho que acrescentar que a igreja só tem uma janela, por cima do altar, e que está embutida no muro, sem que possa abrir-se nem para dentro nem para fora; de fato, não se move ao mínimo.»

         EXTERIOR. CÉU NOTURNO. PLANO LONGO.

         Nuvens negras que correm pelo céu. Trovão.

         EXTERIOR. NOITE. PLANO LONGO. A GRANJA VEREY.

         A chuva empapa a granja de Verey. Vemos a igreja, a casa e o celeiro.

         Voz de Verey: «Aquela noite chovia com bastante força.»

         EXTERIOR. AMANHECER. PLANO LONGO. A GRANJA VEREY. GALO NO GALINHEIRO.

         O galo canta. Galo: Multidão! Multidão! Multidão!

         INTERIOR. DORMITÓRIO DE VEREY. PLANO SUBJETIVO: DO PONTO DE VISTA DE VEREY.

         A CÂMARA «senta-se na cama» e olha pela janela, para as luzes da alvorada

         Voz de Verey: «Despertei pensando em que a torrencial chuva possivelmente tinha contribuído em grande medida ao total emboloramento da fechadura da igreja.»

         EXTERIOR. O PÁTIO DA GRANJA. PLANO EM MOVIMENTO SUBJETIVO: DESDE O PONTO DE VISTA DE VEREY.

         A CÂMARA avança para a porta da igreja.

         Voz de Verey: «Saí para dar uma olhada à fechadura.»

         EXTERIOR. PORTA DA IGREJA, PRIMEIRO PLANO. PLANO SUBJETIVO: DO PONTO DE VISTA DE VEREY

         A fechadura parece mais embolorada que antes. A chave entra, mas não gira.

         A chave está fixa na fechadura.

         Voz de Verey: «Encontrei, como temia, que estava totalmente oxidada e que não podia girar a chave. Era como se tivessem me trancado na igreja.»      

         «Bastante desagradável, pois os operários não demorariam para chegar para os serviços matinais.»

         EXTERIOR. A GRANJA. PLANO EM MOVIMENTO SUBJETIVO: DO PONTO DE VISTA DE VEREY.

         A CÂMARA se desprende por volta do quarto de ferramentas.

         Voz de Verey: «Decidi recorrer à força bruta...»

         Violino muito apagado: A Valsa de A Viúva Alegre.

         EXTERIOR. A GRANJA. PRIMEIRO PLANO.

         A mão de Verey empunhando um martelo.

         Voz de Verey: «e encaminhei a por um martelo...»

         EXTERIOR. A PORTA DA IGREJA. PRIMEIRO PLANO.

         O martelo golpeando a fechadura.

         Voz de Verey: «... com o que forçar a fechadura.»

         INTERIOR. A IGREJA. PLANO EM MOVIMENTO SUBJETIVO: DO PONTO DE VISTA DE VEREY.

         A CÂMARA se adianta para o altar, onde encontra um gato sacrificado dentro de pentáculo.

         Voz de Verey: A cena que apareceu ante meus olhos foi indescritível. Sobre o altar se achava o corpo de um gato morto, estrangulado com uma liga azul e empalado com um punhal ou uma adaga oriental, dentro de um pentáculo.

         A CÂMARA aponta a cada detalhe que indica a voz de Verey.

         Uma Bíblia, salpicada de sangue, aberta na Epístola de São Judas.

         «Gotas de sangue manchavam a Bíblia. Deus julgará quão malvados cometem tais loucuras.»

         A Valsa da Viúva Alegre sobe de tom até alcançar um máximo de dolorosa intensidade.

         O blasfemo horror daquela imagem ainda se alberga em minha imaginação, mas resultou inclusive pior o fato de que fui capaz de imaginar que não eram meros servidores humanos do Demônio quem podia ter cometido aquela atrocidade.

         A janela [que lhe recordo que não pode abrir-se] estava intacta, e a porta, de fechadura embolorada não permitia o passo mais que martelando e rompendo a fechadura, método que eu mesmo empreguei: entretanto, também a fechadura estava intacta, salvo pela ferrugem, quando a forcei.

         Naturalmente, tirei o gato, limpei o sangue e apaguei o pentáculo antes de que chegassem os operários [pois assim se teria difundido o medo pela região], mas minha esposa me encontrou em meio da desagradável operação e não ficou outra opção que reconhecer o que passara. Desde aquele dia vive em um estado de permanente ansiedade, e nada deseja mais fervorosamente que sair deste solitário lugar. A verdade é que ainda me sinto muito unido a estas maravilhosas colinas e gargantas, como já lhe disse em anteriores ocasiões, e realmente não sei se em outra parte estaríamos mais seguros.

         De modo incidental, tentei chegar a uma explicação deste mistério em termos puramente humanos. Incluir um degradado Oriental em qualquer assunto maligno é coisa fácil. Vestir a um miúdo com um traje estranho, até tão pouco adequado como o de um pássaro anormalmente grande, e rodear de medo e superstição para ampliar tudo isto até um reino de terror... é completamente possível para a maldade de certos humanos. Então, disse a mim mesmo: Poderia ter entrado alguém em minha casa subrepticiamente na noite do sábado enquanto eu dormia e apropriar-se da chave da igreja, usando-a antes de que a chuva gerasse mais ferrugem e convertesse a fechadura em algo imprestável? Mas, ai, aquela explicação não era consistente. Guardo a chave em uma pequena corrente pendurada de um bracelete que me rodeia a boneca, e a corrente, pela manhã, não estava rota.

         É absurdo pensar que um intruso rompesse a corrente, cometesse a desprezível morte na igreja, voltasse para meu quarto e soldasse a corrente, na escuridão, sem despertar.

         A única conclusão é que tratamos com uma entidade que pode atravessar as paredes.

         Oxalá o proteção do Senhor esteja com todos nós.

         Sinceramente

                                                                                              Rev. C. Verey.

         —Uma chave duplicada —disse Albert Einstein.

         Joyce levantou os turvos olhos detrás dos grossos óculos, com um lento sorriso amanhecendo neles.

         — Quão parecidos somos —comentou—. Também esse foi meu primeiro pensamento.

         —É um singelo processo —continuou Einstein—. Se se deseja aterrar a um ancião fanático religioso como esse Reverendo Verey, basta, conseguindo uns quantos assistentes adequados: o anão, o confederado oriental, o hipotético pássaro de incomum tamanho (inclusive poderia valer um cometa de cartão ou algo semelhante); pois já o cenário se dispõe às mais loucas idéias. Então, uma noite escura, muito quieto, vai à igreja e passa um pouco de cera líqüida na fechadura. Em poucos momentos, a cera se solidifica. Cuidadosamente, tira-se e se consegue uma cópia da chave. Qualquer ferreiro habilidoso o conseguiria. E já se tem: o cenário de um milagre.

         Joyce, acendendo um cigarro, sorriu ao Babcock.

         —Bem, Sir John?

         — Com efeito, bem —respondeu Sir John—. Embora minhas crenças são mais místicas que as suas, cavalheiros, eu mesmo não careço de inteligência. Também eu pensei na explicação da cópia da chave e, inclusive, escrevi ao pobre Verey para sugerir-lhe.

         Einstein reacendeu o cachimbo, aspirando pensativamente.

         — Diga-me o que lhe respondeu.

         —Bom —começou Sir John com cuidado—, as objeções foram as seguintes. Primeira, a propriedade Verey inclui a igreja, a casa e um pequeno prado no que apascentam cabras, porcos e uma família de cavalos. Ninguém se aproximou por ali depois de obscurecer, diz Verey, sem que os cães dessem aviso, inquietando à totalidade dos animais e criando um estrépito tão grande que despertava toda a família: Verey, sua esposa, Annie, e seu irmão maior, Bertran.

         «Agora cavalheiros, afastem suas hipóteses sobre o anterior e concebam a um ladrão profissional capaz de mover-se com o legendário silêncio dos índios apaches, atravessando o prado e fazendo um modelo de cera, como sugeriram. A luz, efetivamente, é péssima; mas reconheço que tão improvavelmente habilidoso ladrão pode existir.» Muito bem —prosseguiu Babcock—. Nosso homem tem a cópia da chave. Volta aquela chuvosa noite de sábado e outra vez consegue passar entre os animais sem despertar nem uma mosca. Entra na igreja e comete o brutal e blasfemo ato. Logo, vai. Muito bem. O único problema é que o Reverendo Verey detecta, assim que descobre o horror do altar, que não há mais rastros que os seus no lodo próximo à porta da igreja. Ao parecer, nosso bandoleiro não só se move pela granja sem despertar aos animais, em duas noites distintas, recordem —uma, quando fez o molde; outra, quando voltou para o sacrifício satânico—, mas sim, além disso, na segunda ocasião, cruzou o pátio sem deixar rastros no barro. —Sir John sorriu dissimuladamente —. Como explica tudo isto o Livre Pensamento, meus céticos amigos?

         AÇÃO - SOM

         INTERIOR. IGREJA DE VEREY DE DIA. PLANO SUBJETIVO EM MOVIMENTO.

         A CÂMARA se move espasmodicamente para a porta.

         Fortes batimentos do coração.

         DA PORTA DA IGREJA DE VEREY, OLHANDO PARA FORA. PLANO LONGO SUBJETIVO.

         O que vê VEREY: o pátio, com uns rastros — os seus — aproximando-se da porta.

         Tambores vodu.

         Einstein examinou o cachimbo pensativamente e ficou a limpá-lo com cuidado. Seu rosto se mostrava impassível.

         —Esse irmão maior, Bertran —disse, olhando atentamente nas cinzas do cachimbo como Sherlock Holmes procurando uma pista—, até agora não é nada mais que um nome. Não sabemos nada dele.

         —Ah —exclamou Joyce—, procura um confederado conspirador dentro da casa. Muito ardiloso, Professor. Se um de cada três irmãos pode ser um renegado, por que não dois? Lembre-se de minha teoria do Hamlet, da que lhe falei freqüentemente. Posso considerar inclusive um possível cenário se a casa e a igreja se encontram bastante perto. O sinistro Bertran, como um D'Artagnan das Terras Altas, cruzamento o telhado da casa, salta ao da igreja, e se desprende cabeça abaixo até a porta. Um pouco atlético para o irmão maior do Reverendo Verey, quem, por isso ouvi, tem já sessenta e dois anos. Pouco verossímil, embora não impossível, como Holmes recorda-nos tão freqüentemente: «Quando se eliminou o impossível, o que fique, por improvável que seja, tem que ser verdade». Entretanto, tristemente, tenho que lhe informar, Professor, que não posso acreditá-lo no momento.

         —Um globo —disse Einstein pensativo, rebuscando tabaco fresco. [Um caso de nove cachimbos pensou Joyce.]—. Um globo pequeno, cheio de hélio, com uma casquinha para um ou dois passageiros, como os que se vêem nas feiras. Não —acrescentou—, não se preocupem comigo. Neste momento estou reunindo os indícios. O globo é possível, mas custa-me mais trabalho acreditar que nosso intruso descesse do céu com ele sem alarmar a todos quão animais o que pudesse atravessar as paredes. Acredito que nos vemos com um ardiloso grupo de conspiradores. Chegar ao fundo de tudo isto porá a prova todas minhas faculdades analíticas.

         —Se —acrescentou Joyce taciturno— é que chegamos ao fundo.

         —Ou do relato —replicou Einstein—. Precisamos conhecer mais fatos antes de aventurar qualquer conclusão.

         Disse o vigário «Gracioso/É o irmão Ignatius». Sim: finalmente, estou fazendo. Ed eran duo in uno. Sim.

         —Naturalmente...! Sigamos com a história —disse Joyce, sorrindo por dentro.

                                         DE SAPIENTIA ET STULTITIA

         Esperando com crescente impaciência a volta de Jones de Paris, e esperando também com temor e pressentimento os subseqüentes eventos do Loch Ness, Sir John começou a estudar o Quarto livro de Crowley. Efetivamente, era uma singela e mundana explicação das artes e ciências ocultas... ao menos nos primeiros capítulos.

         Crowley começava rechaçando a Fé e a Razão como respostas finais ao mistério da existência: a Fé porque era uma Fé em um deus equivocado, uma igreja equivocada e um mestre equivocado; a Razão porque com ela não se podia chegar além das permutações e combinações de seus próprios axiomas. Só ficava o método da Experimentação, e Crowley definia cada sistema de verdade oculta como uma técnica de Experimentação fisiológica e neurológica em que a consciência se multiplicava e a evolução se acelerava.

         Tudo aquilo, descobriu Sir John, provinha dos ensinos do Amanhecer Dourado, e — para dar o que deve aos demônios— Crowley tinha capacidade para explicá-lo com maravilhosa claridade e precisão científica.

         O Quarto Livro chegava a explicar as técnicas do ioga como experimentos fisiológicos.

         Asana, retorcida a ginástica que Sir John tinha aprendido tão dolorosamente a partir de Jones, era simplesmente um método para que o corpo obtivesse a máxima relaxação sem necessidade de dormir. Pranayana, a técnica especial yogi de respiração, seguia dizendo Crowley, era um método para manter as emoções sob o controle da Vontade. Sir John voltou a encontrar-se admitindo, a contra gosto, que o Inimigo mantinha o tom necessário para esclarecer artes ocultas, cientificamente.

         A primeira nota sinistra se encontrava na discussão de yama e niyama, castidade e autocontrole. Crowley denunciava todos os ensinos tradicionais sobre estes temas como supersticiosos, perniciosos e supérfluos; em seu lugar, oferecia a divisa anarquista: «Que o estudante dita por si mesmo que forma de vida, que código moral, excitará menos sua mente». Sir John descobriu a insídia de tudo aquilo: enquanto pretendia ser objetivamente científico, abria a porta a qualquer sistema de moralidade ou amoralidade que pudesse preferir o leitor.

         Quando Crowley chegava ao cerimonial mágico, explicava-o com ajuda do ioga. A mente sozinha, dizia, não pode compreender sua própria transcendência, nem sequer com as técnicas do ioga, até que a Vontade não se converta em uma arma capaz de manter uma absoluta ditadura sobre as vorazes emoções do corpo e os costumes mecânicos. Cada técnica de magia, explicava Crowley, constituía simplesmente um truque ou uma artimanha para ajudar ao estudante a desenvolver a autotranscendente Vontade. As considerações morais a respeito da manipulação daquela Vontade eram totalmente ignoradas, percebeu Sir John; a perversidade do sistema de Crowley parecia cada vez mais evidente.

         E então Sir John chegou ao capítulo de Mamãe Ganso.

         «Cada rima das canções de ninar contém profundos segredos místicos», começava dizendo Crowley afavelmente, com o mesmo tom racionalista do resto do tratado. Oferecia um exemplo:

                                      A velha Mãe Hubbard

                            Ia à despensa para dar um osso ao cão...

         Crowley facilitava a chave daquele verso místico aduzindo:

         Quem é a anciã e venerável mãe da que se fala? Realmente, não é outra que Binah, como resulta evidente pelo emprego da letra sagrada H, com a que começa seu nome.

         Sir John ficou olhando a página, estupefato. Aquilo, maldito fosse aquele homem, era a Cabala da mais plausível. Binah era o aspecto obscuro e secundário de Deus, co-igual ao Chockmah, a primariedade da Divindade ou aspecto racional. E Binah simbolizava usualmente como uma anciã, quão mesmo Chockmah era simbolizado por um ancião de barba branca. Os cabalistas ensinavam que as mentes vulgares compreenderiam tão somente o aspecto masculino ou patriarcal da Divindade, mas que o primeiro passo para a Iluminação consistia em compreender, por intuição direta, seu Altíssimo feminino e passivo aspecto. Hé era a segunda letra do Nome Divino, Yod Hé Vau Hé, identificada com o aspecto secundário da Divindade, pois Hé significa janela e simboliza a matriz. Crowley lançava alguma brincadeira cabalística muito complicada, para dizer ligeiramente sobre o particular. Com surpresa, Sir John continuou lendo:

         E, quem é o cão? Acaso não é o nome de Deus pronunciado cabalisticamente ao reverso? E o osso? O osso é a Vara, o Lingam sagrado!

         A interpretação completa da runa está a nosso alcance. A rima é a lenda do assassinato de Osiris à mãos de Tifon.

         Os membros de Osiris foram jogados no Nilo. Isis os buscou por todos os rincões do Universo, e encontrou todos exceto o sagrado lingam, que não foi achado até recentemente.

         Aquilo não só era um exercício de Cabala, mas também de mitologia comparada. Isis, descobriu Sir John com temor, encaixava realmente no simbolismo do cão, pois estava acostumado a identificar-se com a Estrela Cão, Sirius. Todavia, era uma áspera paródia da Cabala querer encontrar tudo aquilo na Mamãe Ganso.

         Igualmente, Crowley chegava a explicar o significado místico profundo do Little Bo Peep (Buda sob a árvore bó) e seu cordeirinho (o Cordeiro, El Salvador); em Little Miss Muffet (Malkus, o mundo da ilusão) e a aranha (a Morte, a grande ilusão); e assim sucessivamente, passando pelo Little Jack Honer, Humpty Dumpty e todos outros.

         O Quarto Livro, que começou como o mais claro e empírico volume de misticismo que Sir John tivesse visto, transformou-se em uma enorme brincadeira prática para o leitor. Sir John recordou a tensa observação de Victor Neuberg: «Nenhum homem vivente compreende, ou pode compreender, ao Aleister Crowley, mas os que valorizem sua saúde não devem aproximar-se dele».

         Quando Mr. George Cecil Jones voltou de suas férias na França, Sir John se apressou a reunir-se com ele para lhe contar a saga inteira de Lola Levine, Nuvens Sem Água, O Grande Deus Pan e o gato morto do Rev. Verey.

         A entrevista teve lugar em casa de Jones, no Soho de Londres. Jones apresentou a sua esposa e a seus filhos —uma encantada e normal família inglesa— e, ato seguido, retirou-se junto com o Sir John a um estúdio cheio de prateleiras carregadas de livros que chegavam do chão ao teto.

         — Você esteve em contato com os espíritos dos Abramelins —disse Jones.

         —Não —respondeu Sir John, procurando que seu nervosismo não pudesse ser detectado.

         —Bem, nesse caso, eles pusseram-se em contato com você —replicou Jones—. conte-me isso tudo. —sentou-se com o rosto atento mas impassível, como se se encontrasse em uma reunião de negócios em sua empresa química, enquanto Sir John relatava a história completa. Ao seu redor poderia haver uma dúzia de velas, em candelabros de bronze e várias mais nas palmatórias das paredes, de modo que a habitação resultava brilhantemente iluminada; mas Sir John detectava que cada movimento nas sombras era um bosquejo de obscuros pressentimentos.

         —Bem —disse Jones quando terminou o relato de Sir John—, certamente, padeceu uma situação muito desagradável—. Você tem medo?

         — O medo é o fracasso e o prólogo...

         — Sei, sei; isso é o que tinha você que acreditar — interrompeu-lhe Jones—. A pergunta é: neste momento, quanto acredita?

         —Tenho meus momentos de insegurança —confessou Sir John.

         —Só momentos? Não horas ou dias inteiros?

         —Momentos —respondeu Sir John—. Penso que, entre a técnica do pranayana e o Ritual de Desterro do Pentáculo, aprendi a vencer qualquer estado emocional negativo antes de que possa apoderar-se de mim.

         —Isso é o que, ao menos, espera-se que consiga no grau de Praticante —replicou Jones—. Entretanto, se pudesse você passar por maiores provas... se, digamos, consigo que um cirurgião amigo meu, admita-lhe como observador, enquanto pratica uma operação ou uma autópsia... ou se, recorrendo aos adequados contatos governamentais, ganho que lhe permitam assistir a um enforcamento na Prisão de Newgate seguiria você como Buda, com o olhar claro, sem medo ou aversão?

         — Não inteiramente — admitiu Sir John —. Mas alcancei o grau suficiente de afastamento das emoções do corpo que posso garantir que não me deprimiria ou me poria doente.

         Jones levantou-se e começou a passear pela habitação, tão silencioso e inescrutável como uma pantera enjaulada.

         — Suponhamos —disse finalmente— que lhe levo a dar uma volta por Paris e conduzo a um desses clubes, dos quais terá ouvido rumores, nos quais se celebram orgias sexuais para diversão dos espectadores. Você mostrar-se-ia como Buda, com a visão clara, sem assaltos de lascívia e sem que aflorassem os reflexos condicionados de horror da educação vitoriana?

         Sir John olhou a chaminé enquanto os sermões que falavam do inferno cruzavam por sua mente.

         —Não —disse roncamente— Penso que me alteraria tanto o desejo como o desagrado.

         Jones sorriu tranqüilizador.

         —Pelo menos, você é honesto —respondeu simplesmente. Deixou de passear, aproximou-se uma cadeira a de Sir John e, em voz baixa, perguntou—: Tenho que lhe dizer que tome o seguinte trem para Inverness e vá a casa do Reverendo Verey para pôr em prática o grande ritual de exorcismo que expulsará às forças que ameaçam tão desgraçado lar?

         O coração de Sir John saltou-lhe no peito.

         — Não posso fazê-lo — disse, miseravelmente —. Não confio o suficiente em mim mesmo, nem em meu controle, sobre as forças astrais.

         Jones riu, e bateu no jovem no ombro.

         — Excelente, muito bem —exclamou inesperadamente—. Você chegou muito longe neste aterrador assunto —continuou, com os olhos cheios de cálida admiração—, e tenho que reconhecer que meus sentimentos se dividem entre meu mais sincero reconhecimento por seu valor e minha mais intensa desaprovação por sua temeridade. Se tivesse assentido ante minha sugestão sobre o exorcismo, chegaria à conclusão de que você não só é temerário, mas também um exemplo dos piores casos de autoconfiança que conheci mais próximos ao bíblico pecado do Orgulho. Ninguém com o grau de Praticante deveria tentar o que lhe sugeri. Executar adequadamente um exorcismo requer ter chegado, pelo menos, ao grau de Adepto Maior.

         Sir John respirou profundamente, aliviado.

         —Obrigado —disse, querendo dizer muito mais do que significava a palavra.

         —Pensarei em tudo isto durante a noite —acrescentou Jones—. Possivelmente consulte com meu Superior na Ordem, embora espere que não seja um assunto tão sério. Acredito que poderia tratar-se tão somente de uma malvada travessura.

         Sir John levantou-se violentamente.

         — Uma travessura muito malvada —objetou.

         — Oh, certamente —reconheceu Jones—. Mas acalme-se um pouco e pense em tudo isto de um modo mais racional. Viu-me alguma vez levitar ou atravessar as paredes? Imagina que posso fazer tais coisas e que as oculto por modéstia? Asseguro-lhe que tais siddhis, como os hindus chamam a este tipo de poderes, são muito estranhos e, fundamentalmente, uma separação da Grande Obra. Que um grupo de libertinos satanistas se encontrem muito adiantados nos siddhis parece simplesmente absurdo, Sir John. Usualmente, têm personalidades amplificadas, não poderes amplificados. A verdade é que em tudo o que me contou se intui muito mal, mas também se detecta muita truculência e a mais completa fanfarronice. Deixe-me pensar nisso com calma.

                                 DE CLAVICULA SOMNIORUM

         Naquela noite, uma vez mais, os sonhos de Sir John foram bestiais e aterradores. Lola, Lola, Lola estava em qualquer parte das gnômicas cavernas do Sonho. O velho Celine guiava a Sir John por algum escuro e hispânico tipo de pinacoteca e chegava finalmente ante A Simpática nua: o rosto do quadro era o de Lola, e seus olhos pareciam vivos, olhando na alma de Sir John com obscena brincadeira.

         —Espera —disse Celine, olhando o objeto—, é só Arte...

         Mas Sir John corria por um jardim e passava sob uma árvore a cujo ao redor se enrolava uma serpente com forma de ligas; do tamanho de uma serpente sob a árvore, nua e zombadora, Lola o chamava: «Olhe se estiver quente o chá». NÃO PASSAR dizia um pôster, «C.O.Ñ.O está quente», dizia um eco. Encontrava-se no Museu Boulak, no Cairo (onde estava Celine?) e uma antiga esteira que se elevava ante ele mostrava ao Hórus, com cabeça de falcão, um globo alado e à nua deusa Nuit. O Cirurgião Peel cantava:

                                      Sacerdotes vestidos de negro fazem visitas

                                      Asfixiando com sarças nossas alegrias e desejos

         —Olhem ao Cirurgião Peel —dizia o Cirurgião Talis.

         Sir John se encontrava na Santa Sofia, em Constantinopla, examinando a intrincada joalheria de um crucifixo ortodoxo oriental.

         —Fala —pediu Irmã Loin—, diz se é Kay. —E Sir John via que as iniciais I.N.R.I. Foram seguidas por uma pequena anotação:

                                               Ipsum Nomen Res Ipsa

                                               [Comam com catsup]

         — O nome é o próprio objeto —traduziu Sir John—. O que quer dizer isso?

         A cruz se convertia no corpo de Lola, com os braços abertos, brilhando como se fosse de ouro.

         —Yod: Isis: Virgem Mãe, —disse, hermética—. O sêmen da alvorada.

         —Nun: Morte. Apophis: o Destruidor —disse o velho Verey mórbido —. Sir Talis ao meio-dia.

         —Yod: Isis: Virgem Mãe —repetiu Lola—. Comendo com catsup!

         —Isis: Apophis: Osiris: IAO! —gritou uma voz como um trovão.

         O NOME É O PRÓPRIO OBJETO, escreveu Sir John apressadamente em seu diário: era muito importante para esquecê-lo.

         E amanheceu. Os pássaros cantavam no exterior, a luz do sol se derramava como uma cascata de ouro pelas janelas; e Sir John se perguntou se se aproximaria mais à realidade final por mediação da consciência ordinária ou pelo gnômico simbolismo de seus sonhos. Registrou toda a visão no diário mágico antes de perdê-la e logo desceu para tomar o café da manhã ainda ruminando o Ipsum Nomen Res Ipsa : O Nome É O Próprio Objeto. I.N.R.I.: Isis, Apophis, Osiris: IAO.

         O correio da manhã incluía um pacote de estranha forma enviado pela Sociedade para a Propagação Religiosa, Inverness, Escócia. Sir John o abriu enquanto se sentava a tomar o café da manhã e encontrou que continha uma carta de Verey e uma cilíndrica gravação fonográfica. Dirigiu-se em primeiro lugar à carta.

         A letra de Verey parecia alterada, difícil de ler em alguns parágrafos. Começava sem formalidade alguma:

         Querido Sir John:

         O pior ocorreu. Logo que possa me recuperar o suficiente como para escrever um relato detalhado. Deus nos ajude.

         A noite antepassada, o zumbido e as risadas das criaturas horríveis que ultimamente espreitam este desgraçado lugar se fizeram mais aterradoras que nunca. Decidi gravar esses sons, para que outros pudessem ouvir e julgar se é só em minha imaginação, onde as coisas com asas de morcego balbuciam com vozes humanas. Agora, não me ocorre mais uso para o cilindro que enviar a você. Outras pessoas, estou seguro, rechaçariam-no, dizendo que estou louco; ao voltá-lo para ouvir descobri, que nem sequer eu estou seguro de ter estado no cenário quando gravou-se.

         Mas conheci um horror muito pior.

         No correio de ontem veio um pacote para meu irmão, Bertran. Observei que o remetente empregava a abreviatura M.M.M., que não me disse nada, salvo que me surpreendeu. Sob aquelas iniciais figurava uma direção da rua Jermyn, em Londres, embora não recordo o número.

         Enquanto eu lia meu próprio correio, Bertran se dirigiu à biblioteca para abrir o pacote. Depois de uns momentos me alarmou um som que, suponho, ouviu pouca gente; ao princípio, não pude decidir se era risada ou pranto. Logo descobri que era risada provocada por certa loucura histérica. Dirigi-me à biblioteca, mas, ai, era já muito tarde. Meu Deus, Sir John, quando entrei na habitação, Bertran tinha um rifle de caça apoiado na cabeça. Gritei-lhe: «Alto», e me equilibrei para frente, mas ele limitou-se a me olhar com olhos aterrados e loucos e apertou o gatilho. Vejo agora mesmo a desagradável imagem de sua nuca explorando E... os detalhes são muito insuportáveis para escrevê-los. Eu gostaria de saber como os policiais e os médicos podem acostumar-se a ver tais coisas sem enlouquecer eles mesmos.

         Certamente, perdi a razão durante uns momentos; lembro-me que me sentei no chão, sujeitando o corpo morto de Bertran em meu regaço, quão mesmo se fosse uma mãe abraçando a seu filho, chorando. Penso, com uma irrelevante, mas terrível emoção, que os escritores de «mistério» não sabem do que escrevem e que cometem uma atrocidade plasmando cenas como aquela para procurar simples entretenimento. Meu Deus, eu [palavra incompreensível] obra de Satanás.

         Comecei a procurar o pacote que, evidentemente, tinha disparado aquela inexplicável crise de suicida melancolia. Vi fogo na chaminé, que estava apagada antes de que entrasse Bertran, e fiz a correta dedução. Embora o tentei, já era muito tarde para salvar uma só partícula das chamas. Só vi que o objeto era um livro ou algo assim... aparentava tratar-se de um pequeno volume. Tive que despistar ao delegado e enviar tudo isto o melhor que pude. Se encontrar a algum M.M.M. na rua Jermyn, Sir John, pelo amor de Deus, não lhe ponha sobre aviso mas, por favor, me informe se encontrar alguma pista. Esperando sua notícias,

  1. Verey

         Sir John se deu conta de que o ovo esquentado e o presunto lhe esfriavam no prato. Não sabia quanto tempo estava sentado, olhando ao vazio e com a carta caída no chão a seu lado.

         Bagunceiras pombas cantarolavam ao outro lado da janela. Encontrava-se no universo real e tangível, e as forças da magia e do pesadelo também atuavam ali, não só nos reinos dos sonhos astrais.

         —Não foi suicídio —disse em voz alta, sem dar-se conta de que sucumbia aos sintomas de falar comigo mesmo—. Foi assassinato.

         —M.M.M., quem ou o que fosse, tinha enviado ao Bertran Verey um livro que lhe levou a conclusão de que era melhor morrer que continuar vivendo neste universo.

         Sir John recordou então a gravação fonográfica do «zumbido e das risadas» que mencionava na carta. Entumecidamente, como quem anda dormindo, levou o cilindro à sala de música e o inseriu no fonógrafo.

         O que escutou —as vozes das criaturas que afligiam o Loch Ness— foi uma paródia insectoide da fala humana.

         [Sons zumbantes e ininteligíveis]

         [Ladra um cão com os chiados de um animal assustado]

         VOZ DEMENTE FEMININA

         Infernos! Infernos! Todo o inferno está aqui!

         VOZ MASCULINA

         Não há escapatória, não há escapatória, não há escapatória, não há escapatória, não há escapatória, não há escapatória...

         [a voz degenera até converter-se em um zumbido sub-humano]

         SEGUNDA VOZ MASCULINA

         Está bem. Está bem. Está bem.

         VOZ ASSEXUADA DE MÁQUINA

         Todos voltarão loucos à casa.

         VOZ DEMENTE FEMININA

         Sim, todos voltarão loucos. Charlie e Bertie e Annie voltarão loucos.

         VOZ MASCULINA

         [cantando]

         Charlie volta louco, Charlie volta louco, Charlie volta louco...

         TERCEIRA VOZ MASCULINA

         Já chegam as baratas gigantes!

         VOZ BESTIAL

         Chegam as formigas...

         VOZ DEMENTE MASCULINA

         Chegam os centípedos...

         VOZ DEMENTE FEMININA

         Nem esposa, nem cavalo, nem bigode!

         TERCEIRA VOZ MASCULINA

         Sangue, bastardo, ensinarei ao que sabe.

         VOZ BESTIAL

         Mosquitos mortos! Matam mariposas nas ruas!

         [Sons ininteligíveis]

         [Trovão]

         VOZ MECÂNICA

         Uma parte cloreto de sódio e uma parte liga...

         TERCEIRA VOZ MASCULINA

         [cantando]

         Dos abismos do espaço, dos escuros planetas, das estrelas que brilham malignas...

         [ininteligível]

         ... a cripta dos Devoradores Cegos, o vale maldito de Pnath, Que Não Tem Nome...

         VOZ BESTIAL

         Quer uma vagina, Charlie, quer uma vagina.

         VOZ DEMENTE MASCULINA

         Nas Boscosas Terras do Horror, um estrangeiro se detém para derramar uma lágrima.

         VOZ DEMENTE FEMININA

         Henry Fielding escreveu Tom Jones e será maldito por remover meus ossos!

         TERCEIRA VOZ MASCULINA

         Todos a bordo para a Terra dos Elfos. Comprove sua mente na porta.

         VOZ BESTIAL

         Charlie volta louco, Charlie volta louco, Charlie volta louco...

         [O cão volta a uivar aterrorizado]

         VOZ MECÂNICA

         Isto está bem: você está equivocado. Isto está bem: você está equivocado.

         Isto está bem: você está equivocado.

         VOZ ZUMBINDO, APENAS HUMANA

         Quem quer nadar comigo?

         TERCEIRA VOZ MASCULINA

         Io Pan! Io Pan Pan! Adoro-te, Evoe! Adoro-te, IAO!

         VOZ DEMENTE FEMININA

         Sim, minha vagina, Charlie. Quer minha vagina.

         QUARTA VOZ MASCULINA

         ...ao Cabrito Negro dos Bosques, ao altar de setenta mil degraus que descem às profundidades da terra e à Abominação das Abominações...

         VOZ DEMENTE FEMININA

         Magna Mater! Magna Mater! Atys Dia ad aghaidh's ad Adoin! Agus bs dunach ort!

         A gravação se deteve abruptamente. Sir John sentou-se assombrado, sabendo que tinha ouvido as vozes do insano pesadelo desatado na parte mais escura da fantasia humana e o medo: assumindo substância real insuficiente para atormentar ao pobre Verey e a justa para impressionar o cilindro. A interpenetração dos mundos do sonho e a realidade era completa.

         As palavras de Arthur Machen em Grande Deus Pan foram à sua mente: «Deve haver alguma explicação, alguma saída do terror. Porque, meu amigo, se isso fosse possível, nossa terra seria um pesadelo.»

         AÇÃO SOM

         INTERIOR. DE NOITE. UM BAILE DE MÁSCARAS. PLANO LONGO EM MOVIMENTO.

         A CÂMARA cruza entre os bailarinos — entre os quais se encontram YEATS, TROTSKY, HITLER e BERTRAND RUSSELL — até que chega a uma Figura vestida com Hábitos.

         A Valsa de A Viúva Alegre.

         E dos Hábitos: «Oh, leão-sol-serpente que descem juntos com os demônios da noite! Adoro-te , Evoe! Adoro-te, IAO!»

         George Cecil Jones soltou a carta de Verey. Tremia-lhe a mão.

         — Meu Deus — disse.

         Encontravam-se no estúdio de Jones; Sir John pôde apreciar, inclusive à luz das velas, quão pálido estava o químico.

         —Você sabe algo destas M.M.M.? —perguntou.

         —Naturalmente —respondeu Jones—. É uma livraria. Mysteria Mystica Maxima : Livros de Ocultismo e Mística de Todos os Tempos; no 93 da rua Jermyn.

         —Sim, Verey disse que a direção era a rua Jermyn... mas uma livraria?

         Jones sorriu levemente.

         —Esperava algo assim como um templo satânico com gárgulas gesticulantes? Como livraria de ocultismo é tão boa como qualquer outra... se a presa for a busca individual de segredos místicos e o objetivo ir do caminho da luz ao das trevas. Imagina você que Scotland Yard ia se dedicar à investigar uma livraria em uma terra como a nossa, tão cheia de direitos e liberdades constitucionais? Oh, uma livraria é uma armadilha ideal para tolos... —Sacudiu a cabeça, lento—. A Mysteria Mystica Maxima é uma criatura que estudamos com interesse no Amanhecer Dourado desde sua inauguração, faz dois anos. Possui uma quantidade notável de livros místicos de todas as tradições, mas muitos mais volumes de Aleister Crowley que de nenhum outro autor. Ocasionalmente efetuam apresentações, em geral do Mr. Crowley.

         —Era Lola Levine uma das amantes de Crowley?

         —Era-o —respondeu Jones—, e imagino que ainda o é.

         —É a mesma Lola de Nuvens Sem Água?

         —Não tenho a menor dúvida.

         Sir John saltou da cadeira e plantou-se diante de Jones.

         —Por Deus! —gritou—. Um homem enlouqueceu por um livro! Cometeu-se um assassinato... um assassinato que, provavelmente, nunca se demonstre em um julgamento, mas, contudo, assassinato. Criaturas com asas de morcego que riem e falam como ilusões da loucura... malignos miúdos da mitologia celta... coisas monstruosas... o horrível sacrifício no altar... Jones, Jones, deixe de ser o inescrutável professor: é muito tarde. Diga-me com palavras singelas, pelo amor de Deus, ao que nos enfrentamos.

         — Senta— pediu-lhe Jones tranqüilamente— e deixe de ofegar. Vou lhe contar tudo o que sabemos. Rogo-lhe que acredite que não dedicamos aos mercados de mistério por seu próprio bem. Os principiantes não conhecem toda a verdade, quão mesmo os soldados não têm uma idéia clara da batalha antes de dirigir-se à frente.

         Sir John se sentou.

         — Lamento o arrebatamento — disse sórdido.

         — Era de esperar nas presentes circunstâncias —replicou Jones, apaziguando-lhe —. Agora, sejamos breves e precisos...

         Mas Jones esteve muito longe de ser breve; de fato, permaneceu falando durante quase duas horas.

         A Franco-maçonaria, disse-lhe Jones, começou com os Cavaleiros Templários, como Sir John argumentasse em seu livro Os Amos Secretos, que os historiadores não maçons considerassem a história da origem da maçonaria como um mito, era devido a que só conheciam os rituais e ensinos das ordens maçônicas públicas: o Livre e Aceito Rito Escocês e o Arco Real. Os que estavam a par dos segredos das ordens mais ocultas, como a Brethren da Rosa Cruz e o Amanhecer Dourado, podiam ver facilmente, seguiu Jones, a continuidade direta dos Cavaleiros Templários até o presente.

         Por outra parte, continuou, existiam, da destruição dos Templários pela Sagrada Inquisição em 1314, duas tradições distintas da Franco-maçonaria mística, cada uma das quais denunciava à outra por falsa e absurda.

         — Sim — disse Sir John —, acredito saber o que quer dizer. Os que aceitam a culpabilidade dos Templários e os que a rechaçam.

         — Precisamente — confessou Jones. levantou-se para jogar mais lenha ao fogo e continuou falando, pensativo.

         Os encargos contra os Templários, recordou Jones ao Sir John, incluíam a blasfêmia, perversões sexuais e magia negra. Todos os historiadores reconhecem que estas acusações foram lançadas pelo Felipe II, rei da França, para ficar com as enormes riquezas dos Templários. Mas não há dois historiadores que estejam em total acordo a respeito da veracidade dos encargos. Todo o assunto é muito mais complicado de entender devido ao inconsistente comportamento de Jacques de Molay, Grande Mestre do Templo.

         — Seu comportamento —interrompeu Sir John— é dolorosamente claro para qualquer que tenha investigado os instrumentos que a Inquisição empregava naqueles dias para obter as confissões.

         — Efetivamente —replicou Jones, sombrio—. O fato é que de Molay deixou à sua morte uma ambígua herança. —Depois de ser detido, confessou sob tortura todos os encargos efetuados contra a Ordem dos Templários, incluindo extremos tais, como que cuspiam no crucifixo e todos os excessos sexuais imagináveis. Levado a julgamento, de Molay repudiou a totalidade da confissão e declarou, enfaticamente, que só o tinha admitido para escapar das sádicas máquinas que a Inquisição empregava nos interrogatórios. Voltaram-lhe a torturar, confessou novamente, e foi julgado pela segunda vez sem mais alterações de seu testemunho. Na pira da execução, antes de que acendessem as chamas, reafirmou, apaixonadamente, sua inocência e a da Ordem Templária, denunciando à Inquisição e à Casa Real Francesa, e —de acordo com algumas fontes—, morreu gritando: Vekam, Adonai!: Vingança, Senhor!

         «Qualquer historiador objetivo —prosseguiu Jones—, face aos prejuízos existentes contra a asseveração de que a Franco-maçonaria está enraizada com os ensinos secretos dos Templários, admitirá que todos os Templários não foram assassinados durante a grande purga de 1314. Efetivamente, existem documentos que provam que as lojas maçônicas espanholas dos Templários não foram perseguidas e seguiram atuando, enquanto as lojas maçônicas francesas eram exterminadas sistematicamente. Inclusive as ordens mais abertas da Franco-maçonaria, como o Rito Escocês, usam ainda as últimas palavras que disse de Molay — Vekam, Adonai! nas Iniciações de Terceiro Grau, embora a maior parte deles não tenham muita idéia sobre o significado das palavras ou sua origem.

         - Uma contínua série de tragédias se cevou no trono francês ao longo dos séculos, continuou explicando Jones. - Começou com o assassinato do Felipe II, que denunciou aos Templários e se apropriou de sua fortuna; Felipe morreu apunhalado um ano e um dia depois de que de Molay fora queimado em estaca. O clímax se alcançou com a decapitação do Luis XVI durante a Revolução Francesa. Tudo isso foi obra de uma loja maçônica dos Templários maçons que seguiam literalmente o grito vingativo que emitiu de Molay.

         —Estava em seu ânimo — disse Jones sombrio —, depois de abolir a monarquia francesa, derrocar a cada rei da Europa e, inclusive, destruir o Papado.

         Jones ficou a rebuscar entre seus livros e tirou um pergaminho de impressão moderna.

         — Este — disse — é um documento da loja maçônica da qual lhe falo. Chama-se a si mesmo Ordo Templi Orientis — a Ordem dos Templários do Oriente — e é a proprietária da livraria do 93 da rua Jermyn, Mysteria Mystica Maxima. Isto é um sumário conciso das crenças da falsa Maçonaria a qual no Amanhecer Dourado queremos nos opor e vencer.

         Passou o pergaminho ao Sir John e este leu:

                                      Não há mais Deus que o Homem.

                                      O homem tem direito a viver segundo sua própria lei.

                                      O homem tem direito a viver como melhor lhe pareça.

                                      O homem tem direito a vestir como goste.

                                      O homem tem direito a viver onde escolha.

                                      O homem tem direito a viajar aonde queira pela face da Terra.

                                      O homem tem direito a comer o que quiser.

                                      O homem tem direito a beber o que quiser.

                                      O homem tem direito a pensar o que quiser.

                                      O homem tem direito a falar como queira.

                                      O homem tem direito a escrever como quero.

                                      O homem tem direito a moldar como queira.

                                      O homem tem direito a esculpir como queira.

                                      O homem tem direito a trabalhar como queira.

                                      O homem tem direito a descansar como queira.

                                      O homem tem direito a amar como queira, onde, quando e com quem quer.

                                      O homem tem direito a matar a qualquer que transgrida estes direitos.

         —Isto é a anarquia! —exclamou Sir John.

         —Exatamente —asseverou Jones—. É uma declaração de guerra contra tudo o que conhecemos como civilização cristã.

         —É insidioso —observou Sir John—. Muitas pessoas de bons sentimentos estariam de acordo em aspectos parciais. A incitação à promiscuidade, ao assassinato e à revolução foram redigidas para que pareçam formar parte e facção de uma filosofia integrista de liberdade. Resulta particularmente atrativo para mentes jovens e impressionáveis.

         —Olhe outra vez a primeira linha —pediu Jones—. A marca da blasfêmia: «Não há mais Deus que o Homem». Vê você como poderia esta frase conduzir à fracas mentes atéias até certo tipo de misticismo humanista, e aos pobres místicos ao ateísmo, atuando ambos em uma trama de âmbito mundial para acabar tanto com os governos civis como a religião organizada? Pode compreender agora como este ultraindividualismo chegou a atrair a mentes realmente boas e corações nobres durante as Idades Obscuras, quando os governos estavam apoiados na tirania e o motor principal da religião era o satânico terrorismo da Inquisição?

         —E as perversões codificadas em Nuvens Sem Água são as mesmas das que acusaram aos Templários —murmurou Sir John—. A continuidade é inegável... ao longo de seis séculos... Realmente acreditam que tão vis e inomináveis práticas podem fazer que a humanidade chegue ao estado divino?

         —Estas práticas eróticas são o centro de muitos cultos —disse Jones—. As encontrará entre certo tipo de alquimistas taoístas da China, entre os tantristas da Índia, nos cultos de mistérios da Grécia e Egito, entre certas seitas obscuras de sufis da Idade Média... de onde provavelmente evoluiu este lado obscuro e diabólico da Maçonaria, junto à verdadeira Maçonaria.

         —Mas —exclamou Sir John—, como um homem educado no Amanhecer Dourado, como o foi Crowley, pode dar as costas deliberadamente a todo o bom e unir-se a esta perversão da verdadeira Arte?

         Jones suspirou.

         — Por que caiu Lúcifer? —perguntou—. Orgulho. O desejo não de servir a Deus... mas sim de ser Deus.

         Houve um longo silêncio durante o qual os dois homens contemplaram o horror que se ocultava detrás das iniciais M.M.M.

         Sir John foi o primeiro em falar.

         —O que podemos fazer pelo Reverendo Verey e sua esposa?

         —Só podemos fazer uma coisa —respondeu Jones, decidido—. Devemos lhe enviar um telegrama e lhe apressar, com as mais duras palavras, a que ele e a Senhora Verey viajem a Londres a toda pressa. Aqui, trabalhando com os Chefes de nossa Ordem, poderemos criar um escudo psíquico que os proteja. Se seguirem em seu solitário lar do Loch Ness, novos horrores lançar-se-ão contra eles. — Jones moveu a cabeça pesaroso —. Devemos enviar um telegrama o mais duro possível —repetiu—. Qualquer atraso por nossa parte poderia permitir que ocorresse uma segunda tragédia.

                                 DE FORMULA DEOR UM MORIENTIUM

         Jones e Sir John estiveram perto de uma hora compondo o telegrama; eram quase as duas da manhã quando Sir John chegou a sua casa, na Mansão Babcock, totalmente exausto.

         Se teve maus sonhos, foi incapaz de recordá-los, pois seu mordomo, Wildeblood, o despertou abruptamente às sete da manhã.

         —Não sabe quanto o sinto, senhor — disse Wildeblood—, mas há um cavalheiro que insiste em lhe ver. Encontra-se terrivelmente agitado.

         —A esta maldita hora? — resmungou Sir John, procurando as sapatilhas ainda meio dormindo—. Quem demônios é?

         — Um clérigo, senhor. Diz chamar-se Reverendo Charles Verey.

         Sir John saltou da cama, vestindo a bata apressadamente. Soube em sua alma que o horror havia tornado a golpear em Inverness antes de que chegasse o telegrama.

         —Chá, não —disse—. Café... muito carregado. E ovos e bacon para dois. Na estufa. Lavou-se e penteou-se rapidamente, sem incomodar-se em barbear-se. Monstruosidades com asas de morcego... o maligno Povo Diminuto, considerado como pitoresco e inofensivo tão somente por os ignorantes folcloristas de cidade... a Coisa do Loch Ness... Que nova abominação expulsou por fim ao velho Verey de suas amadas colinas das Montanhas?

         Descendo as escadas quase ao galope, Sir John recebeu duas impressões simultâneas. O Rev. Verey era um vulnerável (coisa que, naturalmente, não tinha mencionado em suas cartas...) e mostrava o rosto mais fastigado e trágico que Sir John tivesse visto até então.

         Compondo seus próprios rasgos com grande dificuldade, Sir John estendeu uma mão firme.

         — A seu serviço, senhor — disse com voz nivelada. Calma, calma, pediu a si mesmo severamente.

         O ancião tomou a mão de Sir John fracamente.

         —Tem ante seus olhos um homem destroçado —disse, rouco—. Quase estou a ponto de desesperar-se para a bondade de Deus —acrescentou, sufocando um soluço.

         — Entre — pediu-lhe Sir John amavelmente—. Deve estar tão esgotado pela viagem como pelo enfrentamento com as forças do mal. Tomemos o café da manhã juntos e discutamos a respeito do que terá que fazer. —Verey estava tão pálido, observou, como se lhe tivessem pintado a cara para uma cena de morte de Ol Vic.

         Os dois homens, lutando por dominar-se, sentaram-se à lareira — onde Sir John conservava uma excelente coleção de helehos, forsitias e dondiegos, entre jaulas de canários e louros. Era, sem dúvida, o refeitório mais luminoso da mansão, e Sir John o escolheu por aquela mesma razão. Desgraçadamente, um dos louros tinha retido uma frase muito pouco delicada de um dos operários que colocassem novas prateleiras na semana anterior.

         — Levanta seu chulo extremo, Bert! — gritou a ave quando Sir John acomodava ao ancião sacerdote à mesa.

         — Silêncio! — gritou Sir John, esquecendo que, em tais ocasiões, o melhor é esquecer do louro.

         — Levanta seu chulo extremo, Bert! — repetiu o pássaro, animado pela atenção prestada.

         — Sente — disse Sir John bobamente —. Aprendeu-o de algum operário.

         — Não importa —respondeu Verey, ausente—. Annie morreu. —ficou olhando a mesa, como se não pudesse dizer nada mais.

         [Levanta seu chulo extremo, Bert!]

         —Annie? —perguntou Sir John gentilmente—. Sua esposa?

         —Sim —gritou Verey—. Annie, minha esposa. Minha companheira durante quarenta anos. Meu tesouro, meu céu na terra. —Sir John também olhou a mesa, sem querer fixar a vista no ancião arrasado pelas lágrimas.

         — Café, senhor —disse Wildeblood, aparecendo de improviso entre os helehos—. A comida estará pronta em um momento.

         —Tome, Reverendo, tome-o quente e sem leite —disse Sir John—. Estimular-lhe-á e dar-lhe-á novas forças. Não posso lhe dizer quanto... o que sente meu coração neste momento... não tenho palavras...

         Levanta seu chulo extremo, Bert!

         — Wildeblood! — exclamou Sir John—. Leve esse maldito... esse pássaro louco a qualquer parte!

         — Muito bem, senhor. — Wildeblood saiu levando a gaiola.

         — Olá. Olá — chiava o pássaro enquanto o levavam—. Puto louco. Puto louco.

         — Não sabe quanto sinto —começou de novo Sir John, descobrindo que se repetia—.

O que é o que... o que acontece? —perguntou—. Abra-me seu peito, senhor.

         — Foi no dia depois da investigação sobre o Bertran. —disse Verey, atonamente [Ainda está impressionado, pensou Sir John.]—. Não disse nada à Annie sobre o pacote que desenquadrou a mente de Bertran... para que lhe dar mais quebradeira de cabeça? Oh, que louco fui, que cego, que ignorante...! Se ela o tivesse sabido... se a tivesse advertido...

         — Controle-se — pediu-lhe Sir John amavelmente.

         —Sim, claro. Sinto muito. — [As vítimas das piores tragédias, pensou Sir John, sempre o lamentam por outros, como se se envergonhassem pela dívida de piedade que lhes devemos...]—. Foi outro pacote —prosseguiu Verey—. Não me dava conta da chegada do correio. Estava no estúdio, rezando... pedindo a intervenção divina para que detivesse aqueles diabólicos seres que afligiam a minha família. Como Job, queria saber que Deus me ouvia e a razão que tinha para que o Adversário lançasse aquelas crueldades contra nós. Não sei... Acredito que estava rezando e chorando. Bertran foi um dos homens mais valentes que tenha conhecido, e não imagino o que é que lhe pôde levar a cometer a covardia, o anticristão ato do suicídio. Qual era aquele livro tão imperdoável? A menos que o tivesse composto eu mesmo. Disse: «Faça-se Sua vontade, Pai, não a minha», e decidi me refugiar em minha fé apesar de tudo. — Atormentados os olhos de Verey olharam ao Sir John como se o clérigo fosse um animal ferido—. Foi então quando escutei o horrível som pela segunda vez em minha vida... a risada da loucura histérica.

         Sir John tocou o curvado ombro do ancião.

         —Valor — disse cordialmente.

         — Corri à cozinha —continuou Verey, com voz átona e indiferente, impressionado—. Havia arrojado algo ao fogão, e pude ver que era um livro. Inclusive consegui ler as sílabas MA GA na ardente coberta. Oh, Deus... MA GA, MA GA: o que queria dizer? Mas Annie chiava agonicamente e, em um terrível instante, compreendi por que. Tinha ingerido de um só trago todo o conteúdo da garrafa de iodo que guardávamos no estojo de primeiros socorros. A garrafa vazia se achava a seus pés. Segurei à Annie durante um momento, enquanto morria, e tentava me dizer algo. Acredito que queria me explicar que não pensava que o suicídio com iodo fosse tão doloroso...

         O velho escocês ficou olhando ao vazio. Finalmente, voltou a falar.

         —Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste?

         —Ovos e bacon —disse Wildeblood, reaparecendo.

         —MA GA! MA GA! -chiou um louro.

         Depois do café da manhã, Sir John e o Rev. Verey tomaram outra taça de café na biblioteca repassando todos os terrores que lhes tinham reunido.

         Babcock explicou que tinha conhecido Lola Levine, ao Aleister Crowley, à M.M.M. e O Grande Deus Pan. Verey escutou distraído, como se estivesse tão possuído de horrores que nada pudesse lhe afetar.

         — O livro —disse Babcock finalmente—, o terrível livro que conduz ao suicídio... poderia ser a chave de todo o mistério. Essas condenadas sílabas que recorda —MA GA— são atormentadoramente pouco claras. Não pode recordar nada mais?

         —Nada —respondeu Verey inflexível, fracamente —. Deve recordar que só as vi durante um instante, entre as chamas, e que minha mente estava muito turvada naquele momento.

         Sir John serviu mais café, pensando em frases como «tema galego», «sofisma galáctico», «estigma gasoso». Subitamente, chegou-lhe à cabeça um novo pensamento.

         —Pelo menos podemos eliminar dois —disse—. O livro não era nem Nuvens Sem Água nem O Grande Deus Pan. Nenhum dos dois leva em seu título nenhum MA GA. Além disso, você e eu, e muita mais gente leu esses livros sem enlouquecer...

         Verey se incorporou e começou a passear; seu aspecto, com as costas curvadas e o rosto branco e cinzento, resultava trágico.

         —O livro de que falamos não é feito com indiretas ou códigos, como O Grande Deus Pan ou Nuvens Sem Água —disse—. O horror deve resultar visível em todas as suas páginas, assim que se abra. Tanto Bertran, como a pobre Annie, reagiram em dois ou três minutos, após abrirem o volume. Enlouqueceram com um ou dois parágrafos... possivelmente uma só frase...

         Babcock empalideceu.

         — Acabo de dar-me conta, Reverendo, de que deve haver algum objetivo óbvio para esta monstruosidade — disse com muita dificuldade—. Você mesmo. Deve ficar aqui, comigo, como meu convidado, até que solucionemos todo este terrível assunto. Qualquer pacote que chegue para você do M.M.M. deve ficar sem abrir, ou, ao menos, aberto tão somente por um homem a quem conheço e de que posso asseverar que está tão adiantado em conhecimento oculto que será capaz de ver com algo que suporte o livro.

         Verey ficou olhando a chaminé.

         —Sei que tem você razão —disse, cansado—, embora, neste ponto, odiaria ver ninguém, por adiantado que estivesse a seu entender em conhecimento oculto, abrindo um pacote da imperdoável M.M.M.

                   Verey suspirou.

         — Por causa dos ateus de Oxford e Cambridge — disse —. A herança de Voltarie, Nietzche, Darwin... Todo o clima intelectual europeu durante cento e cinqüenta anos foi orquestrado pelo Anti Cristo para nos cegar...

         — Bem, mudará a história —disse Sir John—, pois nosso futuro se acha em nossas próprias mãos. Instalei o telefone recentemente, e posso chamar Londres para pedir à Jones —Possivelmente —replicou Sir John—. Terá que decidir Jones, o homem de quem lhe falo. Mas, certamente, nem você nem eu abriremos o pacote. Se você for o próximo objetivo, eu serei o seguinte. Deus —exclamou—, como passando todas estas coisas o mundo segue dentro da névoa de sua cegueira materialista?1

que venha aqui quanto antes. Acredite-me se lhe disser que ele está melhor preparado para enfrentar este horror que você ou eu.

         Levantou-se, mas se deteve ao ver o súbito olhar de angústia que cruzava o rosto de Verey.

         —Meu Deus —exclamou Verey—. McPherson.

         Sir John voltou para lhe olhar.

         — McPherson? —perguntou—. Quem é McPherson?

         — O Reverendo Duncan McPherson — respondeu Verey—. Meu sócio na Sociedade para a Propagação da Verdade Religiosa. Também ele recebeu um dos postais.

         Sir John sentiu que a terra sólida se convertia em átomos sob seus pés.

         —Que postais? —perguntou—. Nunca mencionou nada a respeito de postais.

         Verey, literalmente, saltava de cima abaixo dominado pela angústia e a impaciência.

         —Devo lhe advertir —concluiu—. Diz você que tem telefone. A quem conheço eu em Inverness que tenha telefone?

         — A polícia! — exclamou Sir John —. Devemos chamar à polícia e que vá em busca de McPherson! Que postais?

         — Logo, senhor! — gritou Verey—. Diga-me , onde se encontra o telefone?

         — No vestíbulo — respondeu Babcock—. Mas, como explicar tudo isto à polícia?

         Puseram-se a correr para o vestíbulo intercambiando incoerentes observações.

         — A polícia sabe tudo referente aos suicídios — explicou Verey excitadamente — e ouviram meu testemunho sobre os pacotes que chegaram por correio antes das mortes... embora me parece que me acreditaram só pela metade...

         Os dois homens chegaram à sala do telefone, no vestíbulo, e foram capazes de voltar para falar tranqüila e racionalmente de novo. Verey solicitou à operadora que lhe pusesse com Inverness 418 e, depois da usual e aborrecida espera, conectaram-lhe.

         — Sou o Reverendo Verey — disse quando lhe responderam ao outro extremo da linha—. Quero falar com o Inspetor McIntosh sobre o assunto dos suicídios.

         Babcock admirou durante os seguintes minutos o sentido da diplomacia do ancião.

         Verey explicou só o que um oficial de polícia poderia compreender, inclusive improvisando a teoria de que os misteriosos pacotes de Londres pudessem conter algum veneno químico que alterasse a razão.

         — Sob nenhuma circunstância —disse agudamente o clérigo vulnerável— deve abrir McPherson nenhum pacote procedente de Londres... ou nenhum pacote pouco comum, para estar totalmente seguro. Esses vilãos poderiam mudar a direção do remetente para nos pilhar por surpresa.

         Quando Verey desligou o telefone, parecia um pouco mais tranqüilo.

         —Enviarão um policial a ver o McPherson —explicou—. A idéia que me ocorreu mais próxima do veneno parece que lhes impressionou.

         Sir John assentiu, preocupado.

         —Por um momento, impressionou-me inclusive —reconheceu—. Mas, naturalmente, não é a verdade. Não há droga que reaja de modo tão específico. A beladona, o maior gerador de delírios conhecido, tem uma variedade muito grande de efeitos. Alguns choram histericamente; outros riem de um modo demente; outros alucinam; alguns morrem por reação tóxica. O hashish é igualmente variável quanto à seus efeitos. Não há nada nesse sentido que nos possa ajudar, embora ao menos valeu, para persuadir à polícia de que advirta ao McPherson contra pacotes misteriosos...

         Voltaram em silêncio à biblioteca onde Sir John, por fim, recordou a incoerente excitação de Verey a respeito «dos postais» antes de que se pusessem a correr para o telefone.

         Quando se sentaram, expôs o tema.

         — O que eram esses postais dos quais falava?

         Verey sacudiu a cabeça com humildade.

         — Algo parvo e absurdo — disse —. Não as relacionei com tudo isto até o momento em que você me viu fazê-lo. Naturalmente, agora não estou seguro... possivelmente tudo seja uma coincidência.

         Uma coincidência, pensou Sir John com amargura. Essas palavras sempre parecer-me-ão idiotas ou sinistras.

         — Nem sequer vinham franqueadas de Londres —continuou Verey—. Vinham de Inverness, por isso não estabeleci a relação. Mas, claro, agora sabemos que também têm agentes ali, como o misterioso Oriental...

         — Fale-me a respeito dos postais — sugeriu Sir John amavelmente.

         — O primeiro chegou para o Bertran —começou Verey—, exatamente dois dias antes que o pacote que provocou o suicídio. Não tinha sentido... só era um bastão, com uma letra hebréia.

         — Você sabe que letra hebréia? — perguntou Sir John,

         Verey pensou durante um minuto.

         — Dê-me um papel — pediu —. Naturalmente, estudei hebreu no seminário... mas faz já quarenta anos. Entretanto, a educação escocesa é muito estrita e... Acredito que já sei.

         Sir John estendeu-lhe um bloco de papel e Verey desenhou rapidamente.

         — Parecia-se com isto — disse—. Só levava o desenho e o nome de Bertran.

         Sir John olhou o desenho:

 

         — Yod, verdade? —perguntou Verey.

         Sir John se ruborizou.

         — Sim —respondeu—. Yod. Significa mão ou punho. —Realmente, estava recordando a opinião de alguns estudiosos que diziam que mão e punho eram eufemismos e que yod, originalmente, significava espermatozoo. O desenho tinha aparência fálica de um modo perturbador —. E o seguinte postal? — perguntou, suspeitando que conteria nun, de novo o peixe. Outro I.N.R.I.

         — Esta ia dirigida à Annie —respondeu Verey—, e o remete era outra vez de Inverness. Uma vez mais, não compreendi a conexão, fosse qual fosse, com a tragédia que ocorreu dois dias depois—. Rapidamente, desenhou:

                              

 

         — Não estou muito seguro de recordar esta — admitiu Verey.

         — Hé — disse Sir John—. Uma janela. E a primeira nota não representava um bastão, mas, uma vara de mando quão mesmo esta outra simboliza uma taça. São os implementos da magia. A carta de McPherson não foi uma espada?

         —É maravilhoso —expressou Verey—.Você tem toda a razão. Muito parecida com esta.

         — Vau – concretizou Sir John—. O prego.

         Ambos os homens empalideceram.

         — Algumas coisas não se esquecem, embora passem décadas — disse Verey, atemorizado —. Ao ver as três juntas, posso deduzir qual seria a quarta.

         — Sim — corroborou Sir John—. até agora contamos com o Yod Hé Vau, as três primeiras letras do Inexpressável Nome de Deus. A quarta só pode ser uma segunda Hé, para formar Yod Hé Vau Hé: YHVH, palavra que é habitualmente traduzida como Jehová. Esses monstros estão empregando o nome mais sacrossanto da Cabala como leitmotif de uma cadeia de assassinatos. É blasfêmia e sacrilégio da pior classe, a mais negra das magias negras. Quando recebeu McPherson o postal com a Vau?

         — Faz dois dias! — ofegou Verey.

         Sir John também ofegou.

         —Nesse caso, o pacote com o livro do horror chegaria no correio de hoje!

         — Deus Salvador —sussurrou Verey com os olhos fechados—. Oxalá a polícia chegue antes que o carteiro...

         Ambos ouviram o toque do telefone no mesmo momento.

         Sir John nunca recordará se correu ou se se cambaleou pelo vestíbulo.

         —Sir John Babcock —disse ao desprender.

         —Sou o Inspetor McIntosh —explicou a voz eletrônica a seu ouvido—. Está aí o Reverendo Charles Verey?

         Sir John apontou ao Verey com o telefone e ficou como um zombie escutando a parte da conversação correspondente ao Verey:

         —Sim... Oh, Deus, não... Sim... Como...? Totalmente seguro... Deus tenha piedade de todos nós, Inspetor... Farei-o...

         O vulnerável sacerdote parecia ter encolhido e minguado quando desligou.

         — Tornou a ocorrer — disse.

         — Meu Deus conte-me isso.

         — O policial que enviaram à casa de McPherson encontrou-lhe já morto. Cortou-se a garganta de orelha a orelha com uma navalha. Na chaminé encontraram os restos de um pacote, como nos dois casos anteriores. O policial diz que pôde ver parte de um livro que ainda ardia, e que distinguiu as letras SOU.

         — MA GA SOU —repetiu Sir John—. Loucura além de blasfêmia. Que Deus proteja a todos nós.

O COMENTARISTA DE RÁDIO: E agora, senhores, é a Hora do Mistério. A quem o corresponderá a sorte de ganhar cem dólares? O dia já corre... toca o telefone... e tenho alguém ao outro lado da linha. Olá, olá?

VOZ MASCULINA: Olá, olá? [Apaga o condenado carro de bombeiros.]

COMENTARISTA: Olá, quem é?

VOZ MASCULINA: Olá? É a Hora do Mistério? [ Brigit, não pegue a seu irmão com o carro de bombeiros!]

COMENTARISTA: Sim, é a Hora do Mistério... e esta é sua oportunidade de ganhar cem dólares! Mas, antes, qual é seu nome, cavalheiro?

VOZ MASCULINA: James Patrick Hennesy.

COMENTARISTA: James Patrick Hennesy!!! Vá, nome esquimó! Agora a sério, aposto que os seus vieram da Velha Pátria.

HENNESY: Não, nasceram em Brooklyn. Como eu.

COMENTARISTA: Oh! Bom, suponho que seus avós sim vieram da Velha Pátria!

HENNESY: Sim, alguns. Acredito que eram italianos ou algo assim.

COMENTARISTA: Uma verdadeira família americana!!! Bem, Mr. Hennesy, enviou-nos você um postal e nos tem já ao telefone... somos sua oportunidade de ganhar cem dólares. Vamos lá! Por cem dólares!! A pergunta Misteriosa desta semana é...!!! Preparado, Mr. Hennesy? Aí vai a pergunta: É a magia a causa dos suicídios, ou existe alguma explicação racional? Você que pensa, Mr. Hennesy?

HENNESY: [Deixa de pegar ao Brigit com a jaula, Tommy. Assusta ao pássaro.] Oh, ah, uh, acredito que é a magia.

COMENTARISTA: Crê!! É-o!!! Magia!!!! Poderia nos contar por que o pensa, Mr. Hennesy?

HENNESY: Tenho razão?

COMENTARISTA: Terá que vê-lo Mr. Hennesy. Descobrirá-o com o resto de nossa audiência. Diga-nos por que pensa que é a magia.

HENNESY: É evidente.

COMENTARISTA: Evidente, Mr. Hennesy?

HENNESY: Bom, ninguém caminha através das paredes, verdade?

COMENTARISTA: Não, a menos que seja muito preparado.

HENNESY: É uma indireta?

COMENTARISTA: Não lançamos indiretas, Mr. Hennesy. Ficam trinta segundos. Por que a magia?

HENNESY: É evidente. Isso é tudo. Ninguém pode atravessar as paredes ou, bom, fazer que a gente se suicide com um livro. Terá que ser a magia, não?

COMENTARISTA: Bom, tentou-o, Mr. Hennesy. Embora não tenha conseguido os cem dólares, ao menos receberá o prêmio de consolação consistente em um ano de fornecimento de Preparação H e o modo de usá-la! E agora! Voltamos para nosso espetáculo!

         Os sinos de Fraümünster davam às seis, e os raios de cor canela do crepúsculo esfumavam, tetricamente, sombras de tons mortiços pela habitação, o encanto de uma bruxa tinta em vermelho dourado, tão gótica como o conto de Sir John. Einstein, Babcock e Joyce aceitaram a sugestão da Mileva Einstein de descansar para o jantar. O refeitório cheirava à fumaça por causa do cachimbo de Einstein. Mileva abriu uma janela para renovar a atmosfera, com o desafortunado resultado de que o pegajoso Föhn penetrou na habitação.

         Einstein levantou-se para estirar-se e ficou a caminhar de um lado para outro pensativamente.

         Joyce ficou sentado na cadeira de felpa vermelha com o rosto carente de expressão, introspectivo.

         —Bem, Jeem —disse Einstein finalmente—. Parece como se toda essa parafernália dos poetas do Crepúsculo Celta caísse-nos em cima, a seu pesar. Inclusive o das fadas...

         Joyce assentiu, sorrindo caprichosamente.

         — Inclusive temos um apropriado e tétrico entardecer — disse—. Se parece muito à história do Tar Baby que contam os negros americanos. Estão aliando-se com o que combatem...

         Einstein deixou de passear e seus brincalhões olhos de spaniel desfocaram-se completamente, como se olhasse para dentro e não para fora; Joyce se perguntou se teria deixado de pensar com palavras para começar com imagens, como disse que fazia quando enfrentava algum problema de física. Babcock e Joyce intercambiaram os vazios olhares dos Apóstolos ao terminarem uma das mais obscuras parábolas, pensando os dois que a referência ao Tar Baby tinha desatado que Einstein ficasse naquele transe como de fakir. Quanto mais se pega a um Tar Baby, mais fiel resulta: aquela era a moral da lenda do negro. Mas, o que tinha a ver com o livro que fazia com que matasse a gente? Destruindo o livro se destruía também ao destinatário, como se tudo fosse uma alegoria dos censores?

         —Ação e reação —sussurrou Einstein, falando para si mesmo—. O velho Newton ainda nos manda sua sabedoria através de três séculos...

         —Professor —perguntou Babcock—, é possível? Você está começando a construir uma resposta científica para todos estes incríveis eventos?

         Einstein piscou e voltou a sentar, cansadamente.

         — Bom, não de tudo —disse—. Mas começo a encontrar alguma luz científica em meio de todas estas trevas medievais... uma hipótese que começa a cobrar forma... embora ainda não sei...

         —Neste ponto —opinou Joyce—, qualquer hipótese será bem-vinda, embora se trate só de um bosquejo, embora esteja incompleta. Por Deus, Einstein, passei vários meses todo o ano passado, escrevendo o mais horrível e fétido sermão sobre o Inferno jamais redigido. Extraio fragmentos de cada classe de teologia e exercício espiritual de minha juventude, dos livros de texto dos jesuítas, e organizo tudo com a esperança de redigir uma arenga que gele o sangue, revolva o estômago e arrepie o cabelo dos leitores não católicos, quando descobrirem as alegres horas que meu herói tem que suportar durante a piedosa educação irlandesa católica. Todavia, para ser honesto, passei uma temporada maravilhosa e cheia de glória escrevendo tão sangrento horror, pois tais coisas não têm poder para me atemorizar e posso escrever sobre elas com um afastamento frio, clínico e documentário. Escutando o relato de Babcock, por outro lado, estive a ponto de voltar para os rançosos terrores reais de minha adolescência.

         — Naturalmente — disse Einstein, corado na luz moribunda—. Esse é o ponto gélido da questão.

         —Perdão? —pediu Babcock.

         —Espere —replicou Einstein—. É uma luz muito pálida, muito longínqua; poderia ser um falso amanhecer; ainda estou trabalhando nisso. Entretanto, certamente, poderá você generalizar que o homem enredado com o Tar Baby, passaria muito melhor se houvesse dois Tar Babies lutando um com o outro.

         Joyce e Babcock ficaram com o olhar vazio, como estátuas escarlates nas trevas que se amontoavam.

         Mileva Einstein apareceu na soleira de cor laranja pálido.

         —Para jantar, cavalheiros!

         A comida se iniciou com umas peças de queijo, azeitonas e anchovas.

         —Acostumei-me à comida italiana durante os anos que estive em Milão —explicou Einstein—. Uma das razões de que eu goste de Zurique é que os restaurantes oferecem uma ampla variedade de pratos: pode-se jantar ao estilo italiano, alemão ou francês em três noites distintas, se alguém tem que jantar fora três noites seguidas.

         —Eu jantava nos restaurantes mais caros do Trieste uma vez ao mês, o dia em que cobrava. Aquilo garantia que não pudesse pagar o aluguel a tempo.

         — E isso não lhe causava enormes problemas? —perguntou Babcock.

         — Tinha-os meu irmão. Os caseiros, freqüentemente, acossavam-lhe pelo dinheiro, quando se fartavam de minha suja linguagem e minhas maus maneiras ao Byron.

         — Não tem você vergonha — disse Mileva, com um brilho bem humorado que exagerava sua maternal desaprovação.

         — Não posso me permitir a vergonha —replicou a sua vez Joyce—. Interfere com a percepção. Provocando aos caseiros, descobri áreas da psicologia humana que resultariam livros fechados para homens tão sábios como o Dr. Jung, ou seu competidor vem, o Dr. Freud.

         Os homens pareciam ter chegado a um acordo tácito de não discutir os horrores do medieval relato de Babcock durante a comida, enquanto Milly estivesse presente. Joyce, de fato, cercou conversação com o Frau Einstein sobre a história de Zurique, surpreendendo a todos ao assinalar a origem celta de vários costumes locais, como por exemplo o festival Secheslaüten da primavera.

         —Levar um boneco de palha que representa o inverno e queimá-lo —disse—, encontra-se, sob uma ou outra aparência, em todas as culturas celtas.

         — Todavia, faz mais de dois mil anos que a Suíça deixou de ser celta — disse Mrs. Einstein surpreso.

         — Os arquétipos históricos, como os denominava Vico, permanecem — declarou Joyce—. E as etimologias. Sabia que o nome «Zurique» se deriva do latim Turicum?

         — Tinha ouvido — admitiu Mileva.

         — Ah — continuou Joyce —. Mas por que chamavam os romanos Turicum a esta praça? Procure, como eu fiz, e descobrirá que os originais habitantes celtas a chamavam Dur, que significa, aproximadamente, «o lugar onde se unem as águas», o ponto onde o rio Limmat se junta com o lago Zurique. Os romanos se limitaram a latinizar Dur pelo Turicum.

         Einstein arqueou uma sobrancelha, divertido.

         — Jeem —disse—, fala como um cientista olhando pelo microscópio. Começo a acreditar que tem um significado para todos os paradoxos que contou você ontem à noite a respeito de que o conteúdo da mente não é mais que palavras.

         — A história da consciência é uma história de palavras — replicou Joyce de modo imediato —. Shelley estava justificado em sua minuciosidade e insuportável arrogância quando escrevia que os poetas eram os desconhecidos legisladores do mundo. Os que fazem com as palavras novas metáforas que se imbricam na consciência do público, acreditam novos modos de conhecer-se si mesmos e a outros.

         — L'amor che movete il sol e altare Stella — demarcou Einstein repentinamente—. Quando um encontra esta frase de Dante, sua música lhe domina a consciência. É muito difícil olhar às estrelas durante a noite sem sentir-se tão pequeno como se sentiu Dante. E sei, racionalmente, que o sol e as demais estrelas desprendem-se mediante um processo estocástico.

         —Estocástico? —perguntou Babcock.

         —Aleatório —traduziu Joyce—. O professor fala da Segunda Lei da Termodinâmica.

         —A estocástica não é aleatória —corrigiu Einstein com toda pressa—. Em todo processo estocástico sempre há alguma variável oculta. Uma lei racional. Pensar de outro modo suporia refazer e deificar o Caos. É a lei cósmica quão mesma intuíram os batimentos do coração de Amor de Dante como subjacente no cosmos? Ninguém que responda a isso pode escapar da catalogação de rei dos filósofos ou rei dos loucos?

         — Custa-me menos trabalho acreditar no amor que em uma lei — disse Milly corajosamente—. Embora vocês, como homens, serão os que digam tudo, pois eu só sou uma mulher.

         —Ah —replicou Joyce—. Eu não diria isso. Possivelmente a Ilha do Homem não é mais que um subúrbio do Continente da Mulher. Biologicamente, o homem é acessório, um foco ambulante.

         — Grande parte do universo, ai, carece de amor —disse Einstein—. Mas nenhum aspecto carece de leis.

         —Parece lógico —argumentou Joyce—. Todavia, a lógica é a generalização aristotélica das leis da gramática grega. Uma parte, só uma parte, do trabalho da consciência. A lógica chinesa, como sabem, não é aristotélica. Outras facetas da atuação do pensamento humano são totalmente ilógicas e irracionais. Você demonstrou, Professor, matematicamente, que o espaço e o tempo não existem separadamente. O estudo psicoanalítico da consciência demonstra muito depressa o que Sir John e eu descobrimos, seguindo métodos distintos e instrospectivamente: ou seja, que a razão e a injustiça estão, inextricavelmente, unidas... como dois Tar Babies depois de uma luta prolongada...

         — Você é um homem muito pouco comum — disse Mileva quando terminaram de jantar —. Se existe alguma, Mrs. Joyce, tem que ser uma mulher muito notável.

         —Não há nenhuma Miss Joyce. Mas vivo com a mesma mulher há dez anos, e certamente continuarei durante o resto de minha vida, se é que ela consegue suportar minha intransigência durante tanto tempo.

         Os homens se retiraram ao estúdio de Einstein enquanto Mileva começava a limpar o refeitório.

         — Maldição! — espetou Babcock ao Joyce—. Você deve vangloriar-se de sua imoralidade assim que lhe apresenta a mais mínima ocasião? Estou seguro de que Frau Einstein estará terrivelmente impressionada. Fanfarroneando sobre caseiros fraudados e sua forma de viver abertamente imoral.

         — Frau Einstein é uma mulher a prova de escândalo — respondeu Einstein tranqüilamente —. Muitos amigos meus são bastante excêntricos. Às vezes, suspeito que eu mesmo seja outro excêntrico.

         —Todos os indivíduos são uns desviados —acrescentou Joyce—. Nunca me encontrei com ninguém que valesse um tostão em toda minha vida, o normal é que ninguém o seja. Se se escutar a gente vulgar durante um tempo, a gente acaba por descobrir que todos estão loucos de um modo diferente e interessante, embora procurem camuflar tal fato. A máscara é a chave do comportamento humano. E, embora eu esteja interessado em seus únicos problemas —acrescentou, olhando ao Babcock —, isso não lhe dá autoridade alguma para julgar minhas decisões morais. Nem a têm nenhum Estado ladrão ou rechonchuda Igreja. Nora vive comigo porque é livre para decidir, não porque a obrigue à superstição ou às leis. Não quero ter uma esposa, ou uma concubina, ou uma amante... só quero ter uma companheira que seja meu igual.

                            Firme como a montanha pela qual galopo

                            Mostro orgulhoso minha gargalhada

         Um nobre sentimento para um homem doente de ciúmes. Ouvir! Ouvir! A voz é a voz por minha juventude; a linguagem de Ibsen e Nietzche. Mas, já sou muito velho para continuar sendo Stephen Dedalus. Pergunto e ela me responde; mas não voltarei a perguntar. Eleutheria. Meu destino. Übermensch ou maldito seja esse Deus Idiota. Postura heróica: merda.

         — Algumas coisas — respondeu Babcock, acalorado—, em uma sociedade decente, simplesmente não se fazem.

         — Você não é psicólogo —disse Joyce com suave ironia celta—. Eles o fazem todo o tempo. Simplesmente, não falam disso.

         — Cavalheiros —interrompeu Einstein gravemente—, este debate acaba desenvolvendo durante um século, do início do movimento romântico. Não acredito que o resolvamos esta noite. Dediquemos nossos cérebros, mais vantajosamente, aos góticos mistérios que nos oferece o singular relato de Sir John.

         Joyce se espreguiçou flacidamente em uma cadeira.

         — Cheguei já a algumas conclusões sobre tudo isto —disse—. Estão interessados em as ouvir?

         — Sim — respondeu Einstein —. Quero ver como se encaixam com minhas próprias hipóteses parciais.

         — Adiante — pediu Babcock, retirando uma pilha de revistas científicas em francês e alemão da única cadeira vazia.

         — Para começar — começou Joyce — devo reconhecer que não acredito no livro que torna loucas às pessoas por duas razões. Primeira: é intrinsecamente incrível. Nenhuma droga tem tão específico [e dramático] efeito em todos os seus usuários, nem nenhum livro tem tal poder. Segunda: finalmente recordei-me que encontrei já com esta mesma história em uma obra de ficção. Suspeito que Mr. Aleister Crowley e seus sócios da M.M.M. terão lido a mesma obra de ficção e adaptaram-na como máscara para ocultar seu verdadeiro modo de assassinar.

         Einstein quase derrubou o cachimbo.

         — Muito interessante —disse—. Começo a acreditar em minha própria hipótese, pois isto é o que antecipava. Em que obra de ficção está pensando?

         — É um livro de medo, de histórias sobrenaturais, intitulado O Rei de Amarelo. O autor é um norte-americano chamado Robert W. Chambers. As histórias entrelaçam-se em torno de um livro horrível, que nunca é mencionado, mas que enlouquece a quem o lê. Acrescentarei que há interessante material alegórico a respeito das mascaradas e das máscaras em O Rei de Amarelo, possivelmente a melhor história de terror do Drácula de Stoker. Devem tê-lo lido milhões de pessoas. Estou seguro de que o tema do livro sugeriu aos do M.M.M. alguma maligna máscara em que criavam a impressão de que existia realmente uma obra como imaginada pelo Chambers.

         Einstein reacendeu o cachimbo: um reflexo vermelho cereja no escuro tabaco.

         — Máscaras e mascaradas — disse—. O que nos interessa. Mas, como podemos tirar as máscaras e ver o que há sob elas? Como foram executados esses aparentes «milagres»? Se não fosse pela história de Ernst Mach e Tar Baby, não teria nem o princípio de uma indireta teoria... todavia, embora assim fosse, desde qualquer ponto que possa explicá-lo, há três coisas que me deixam na escuridão.

         «Suponhamos — continuou — que você leu O Rei de Amarelo e é o suficientemente cruel para reproduzir a trama na vida real. O melhor que poderia fazer, a meu entender, seria algo assim: inclui uma carta com o livro. A carta diria: «Este papel foi saturado com o germe da lepra...» Ou a sífilis, ou qualquer outra enfermidade com o desejado grau de terror. Seria efetivo? Possivelmente, uma pessoa fosse bastante histérica e facilmente sugestionável para acreditá-lo e suicidar-se. Já? Mas, não três. Estatisticamente, é inverossímil. Uma, pelo menos uma, consultaria um médico antes de acreditar na carta envenenada.

         — Inclusive para um calvinista escocês —reconheceu Joyce—, tal coisa é verdade. Apesar das notícias políticas de todos os dias, a raça humana não está composta inteiramente por imbecis congênitos. O livro dos horrores é um pretexto para desviar nossa atenção e nos confundir. O método autêntico de enlouquecer às pessoas e conduzi-las ao suicídio é muito diferente, estou seguro, e os livros enviados não têm feito mais que gerar um aura de crepúsculo sobrenatural ao redor de tudo isto.

         — Eu gostaria de estar tão seguro como o está você — disse Babcock francamente.

         Joyce encolheu os ombros com resignação agnóstica.

         —Não estou seguro de nada —admitiu—. Só teorizo. Eu também estive trabalhando com os misteriosos fragmentos que parecem constituir o título do livro. Não estamos seguros de havê-los recebido na ordem correta, pois as testemunhas só viram fragmentos das palavras. Tento mediante permutação. Em lugar de ma-ga-so, ponhamos ga-so-ma. Os gases são importantes dentro da física e da química. Conhece você algum termo científico que comece por gas-oma, Professor?

         — O melhor que posso fazer com essas letras — disse Einstein, pesaroso — seria dinâmica de gases. Como gás oma.

         — Bom, também encontrei so-ga-ma. Imediatamente, ocorreu-me um título: Soga, maldição! Poderia resultar muito sugestivo para os leitores de convencionais sensibilidades, mas não acredito que levasse nenhum a suicidar-se.

         O vento Föhn: fétido e escuro fôlego de úmidas cinzas: maga, sopra. Deixe-me ser e viver. Não servirei ao deus que mata com câncer. Absinto. Cruéis pinças de caranguejos, os dentes do predador.

         — Ouçamos o resto da história — disse Einstein, levantando-se da escurecida cadeira escarlate em que se desabou a pensar—. Estivemos elaborando teorias com dados insuficientes.

         — Não há muito mais que contar —concluiu Sir John—. O climax, entretanto, foi mais aterrador e incrível que nada do que tenha contado até agora.

         Escuras sombras noturnas encheram a habitação, apagando os últimos raios dourados do sol. O relógio de Fraümünster deu às sete; o Föhn encheu-lhes os olhos de ar morto e quente.

                                                 DE STELLA MACROCOSMI

         Quando Sir John telefonou ao Jones à sua casa, foi entregue pelo Wildeblood o correio do dia, e Sir John se dedicou a olhar as cartas enquanto discutia com o Jones os últimos acontecimentos.

         — A primeira regra do xadrez — disse Jones, com voz eletrônica e eunocoide por causa do aparelho — é proteger ao rei. Verey é o rei... a peça atacada. Acredito que temos que movê-lo.

         Sir John demonstrou seu desacordo.

         — Tenho oito serventes, cinco dos quais são bastante aguerridos. Acredito que a Mansão Babcock é tão segura como qualquer outro ponto da Inglaterra... — Sua voz começou a desvanecer-se na incerteza quando o incrível, o impensável, apareceu no correio: um postal dirigida ao:

         Rev. Charles Verey

         Mansão Babcock

         Greystoke, Weems

         Logo que escutou:

         — Eu não estaria tão seguro — replicava Jones—. Do que sim, estou seguro, é de que vigiaram sua correspondência com o Verey e que, depois de lhe seguir desde Inverness, buscar-lhe-ão sem tardança a seu lado... se é que não o encontraram já...

         — Você tem razão — disse Sir John, com um leve beliscão na boca do estômago, pensando: somos da mesma matéria que os pesadelos; virou o postal e viu o que esperava encontrar:

         — Há um postal para ele no correio de hoje — ouviu-se dizer —. Efetivamente, estão muito avançados em técnicas de terrorismo. Meu Deus, Jones, saiu de Inverness no trem de meia-noite e chegou aqui nesta mesma manhã. Sendo assim, o postal teve que ser enviado ontem para que o recebêssemos hoje. Têm previsto seus movimentos exatamente.

         Yod Hé Vau Hé: o Sagrado e Impronunciável nome estava já completo, como a seqüência: Paus , taças, espadas, ouros. Para fazê-lo possível, o próprio tempo tinha que ter sido alterado.

         — Ninguém aceita um milagre ao vê-lo — disse Jones ao ouvido, com uma voz, escandalosamente, alterada pela eletricidade —. Olhe o carimbo.

         Sir John virou o postal, olhou-o e não se atreveu a acreditar no que via: não havia carimbo. Pensou: o tempo não se move para os lados ainda.

         — Bem? —apressou Jones.

         Vekam, Adonai... O nome é o próprio objeto...

         — Não há carimbo. Não foi enviada ontem; não foi enviada nunca. Limitaram-se a colocá-la em minha caixa depois de que o carteiro jogasse nele o correio regular, imagino... —Terror crescente, pensando: sempre vai adiante de nós.

         — Entende agora por que quero mover o rei? Levam-nos vantagem. Ou trocamos as voltas, ou iniciamos algum movimento estratégico. — Jones fez uma pausa—. Temos que assumir que a Mansão Babcock está sob sua maligna vigilância. Nossa única vantagem é que você conhece a zona melhor que eles; você luta em campo próprio. Pense em um método para que você e Verey possam sair sem serem vistos. Ocorre-lhe algo?

         Sir John sorriu amargamente.

         — Criei-me aqui — disse —. Vêm-me à cabeça pelo menos cinco planos, que não ocorreriam a ninguém mais.

         — Bem. Há uma coisa mais, que você tem que considerar. Não se aproxime do trem.

         — Sim — replicou Sir John —. Naturalmente, tê-lo-ão vigiado se por acaso consigo que Verey saia sem ser visto. — Os instrumentos empregados contra de Molay: as perscrutações em torno, a bota de ferro... Vekam, Adonai...

         — Excelente. Você começa a pensar estrategicamente. O próximo ponto será óbvio. Tem algum amigo que possua um automóvel?

         — O Visconde Greystoke — respondeu Sir John—. E nosso melhor plano consiste em escapar atravessando os bosques das propriedades de Greystoke.

         — Muito bem. Lembro-me corretamente, você não conduz. Poderia lhe emprestar Greystoke a seu chofer junto com o automóvel?

         — Se lhe disser que é uma emergência, fá-lo-á.

         Sir John começou a recordar sua Iniciação incoerentemente:

         Onde vai? Ao Este. Que buscas? A Luz.

         Jones ficou em silêncio durante um tempo, pensando.

         — Com sorte, chegará à Londres às primeiras horas da tarde. Naturalmente, não tem que vir à minha casa, pois será o primeiro lugar onde lhes buscarão. Vá aos 201 da rua Paul. meu amigo, Kenneth Campbell, receber-lhes-á. É de inteira confiança e formidável. Reunir-me-ei com você e com Verey ali mesmo.

         — Duzentos e um da rua Paul — repetiu Sir John—. Acredito que conheço o bairro. Não está ao final do Tottenham Court Road?

         — Assim é. Não é a mais distinguida, nem respeitável zona de Londres, mas é um excelente lugar para refugiar nosso rei durante um tempo. Espero que nos possamos ver com o Mr. Campbell às seis, ou às sete. Cuidado, Sir John: recorde que um homem vulnerável como Verey resulta um indivíduo suspeito.

         Sir John começou a sentir-se divertido quando contou o plano ao Verey. Teve que recordar a si mesmo que já tinham morrido três pessoas horrivelmente — três irreparáveis perdas para o pobre Verey— e não considerar assim o que lhe proporcionava o dia como uma esplêndida aventura.

         Os encontros com a morte e o perigo constituem aventuras tão somente para os superviventes, descobriu Sir John desagradavelmente; e ainda faltava muito para averiguar quem sobreviveria àquele horrível assunto; entretanto, ainda era jovem e, maldição!, planejar como despistar a um sinistro inimigo resultava excitante.

         Um olhar ao cinzento rosto do clérigo lhe recordou que não se encontrava em uma novela de Conan Doyle, ou Rider Haggard; a não ser, no mundo real, onde as mortes eram mortes reais e os seres queridos realmente penavam e não choramingavam no lenço antes de que o novelista os lançasse a seguinte ameaça.

         Quando Sir John terminou de perfilar a estratégia da fuga, Verey assentiu quase ausentemente. Era surpreendente o modo em que fora drenada a arrogância do ancião, tão dócil para aceitar qualquer sugestão.

         O plano de Sir John implicava o fato de que a adega conduzia a um curto túnel que conectava com um abandonado edifício exterior à casa em que um remoto Babcock, várias gerações antes que a sua, montou um lagar particular, que permanecia em desuso desde muito tempo atrás.

         O sacerdote sorriu tetricamente. Não falou com seu habitual estilo, de fato, até que se encontraram na adega.

         — Tem aqui muitos licores — disse cheio de receio — para ser um homem sóbrio e um bom cristão.

         Sir John abria o caminho com um candelabro.

         — A adega da família — disse, apologeticamente —. A maioria das garrafas têm cinqüenta, ou cem anos, possivelmente mais. Exceto para convidados especiais, logo que abro alguma.

         — Sim — disse a curvada silhueta na escuridão —. Assim é como se começa. Desarrolhando uma garrafa ocasionalmente, para convidados especiais. Todos os desgraçados que vi com a vida destroçada pela bebida começaram do mesmo modo.

         Graças às trevas, Sir John se permitiu um ligeiro sorriso. Era reconfortante, em certo modo, comprovar que parte do caráter do ancião seguia intacto depois de todas as tragédias que tinha padecido. Durante certo tempo, Verey pareceu quase um autômato.

         Sir John começou a dar-se conta de quão grande realmente devia resultar a adega aos olhos de um presbiteriano escocês. Babcock não descera ali desde a infância, quando explorava o túnel regularmente com a esperança de encontrar algum tesouro pirata, ou as cavernas dos trasgos.

         Enquanto passavam fileira após fileira de garrafas cheias de teias de aranhas Sir John começou a considerar aos Babcock do mesmo modo que via os Verey: uma família de alcoólicos libertinos.

         Finalmente, encontraram o túnel. Estava tão escuro que o candelabro logo que iluminava um pé, ou dois em qualquer direção. Sir John lamentou não ter levado dois candelabros, de modo que Verey pudesse iluminar seu próprio caminho. Como não o fizeram, tinham que caminhar estreitamente juntos e, portanto, avançar muito lentamente.

         Um confederado na casa: Sir John recordou, repentinamente, suas suspeitas sobre o irmão de Verey, Bertran, quando não tinha que resolver mais mistério que o do gato estrangulado. Haveria um confederado da M.M.M. de Crowley em sua própria casa? O que poderia lhes esperar apenas a um pé de distância naquele negrume Estige?

         Sorriu de novo nas trevas. Os servidores estiveram trabalhando com os Babcock durante muito tempo: eram singelas, sólidas almas nas quais confiava desde a infância. Aquele maldito mistério começava a lhe infectar a mente com os gérmenes da paranóia. Por Deus. Suspeitar que Wildeblood, ou Dorn ou Mrs. Maple estivessem relacionados com magos negros era tão ridículo como suspeitar da Família Real, ou do Arcebispo de Canterbury.

         Um zumbante som no ambiente do túnel fez pensar Sir John no cantarolar insectoide da Capela Perigosa e a terrível gravação de Verey; pensou: farão ninho as abelhas ou as vespas?, o que lhe recordou o zumbante som atribuído às vozes das fadas pelos folcloristas igualmente, recuperando o valor graças a um ato de mera Vontade, rememorou possivelmente irrelevantemente que a abelha, por alguma inexplicável razão, era o emblema dos Iluminados de Baviera, a mais atéia e revolucionária de todas as segregações maçônicas. Teve que conter-se, maldição; não podia continuar pensando daquele modo. Lembrou-se do antigo quebra-cabeças cabalístico: por que a Bíblia começa com B (beth) e não pela (aleph)? Resposta: porque A é a inicial de Arar, amaldiçoar, e B a inicial do Berakah, benzer. Por que é a abelha o símbolo dos Iluminados? O que era o zumbido insectoide e nos quais aquelas pessoas vestidas de mel de seus primeiros sonhos na Capela Perigosa?

         Temer é fracassar e prólogo do fracasso... Não era ele o pobre camundongo de campo apanhado nas mãos de um ser incompreensível. Era um Cavaleiro da Rosa Cruz ocupado em assuntos de Deus e «nenhum demônio deteria poder sobre ele porque sua armadura é a verdade».

         Lembrou-se também de tio Bentley explicando que o medo à escuridão é uma das emoções primárias mais antigas, gerada nas brutais idades nas quais nossos mudos, peludos e enanoides ancestrais estavam submetidos aos ataques das garras de muitas classes de carnívoros noturnos, com o que dificilmente nenhum menino do mundo carecia de algum remanescente daquele medo primitivo, que inclusive assalta aos adultos em momentos de tensão; e se era grotesco suspeitar dos serventes da família, até ficava o inquietante pensamento dos operários que instalaram a eletricidade na Mansão Babcock e repararam a totalidade da casa. Um deles poderia ter sido um agente do M.M.M. capaz de pôr uma armadilha em qualquer parte, em um lugar tão escuro como aquele...

         —Temer é fracassar e prólogo do fracasso —voltou a repetir-se Sir John. Onde vai? Ao este. Que buscas? A luz.

         De acordo com o povo Gales, a multidão que nunca descansa vivia em túneis como aquele, sob a terra...

         Com grande alívio, Sir John, por fim, viu a porta que fechava o túnel. Aquele era um assunto bestialmente horrível, pois tinha convertido em uma temível ordalia atravessar um túnel que, quando era jovem, parecesse-lhe sempre uma verdadeira aventura.

         Bom já dissera Jones: «Uma verdadeira iniciação nunca termina». Aquele passeio através do legendário submundo — O N ou Hades do processo do I.N.R.I.— era outra parte de sua iniciação, outra lição da coragem que o ocultista deve adquirir se não quer cair presa da obsessão e da posse de qualquer tipo de entidade demoníaca, real e imaginária. Lembrou-se de um hino negro americano que ouviu em certa ocasião:

                                      Devo avançar por este vale solitário

                                      Devo avançar por mim mesmo

                                      Ninguém pode avançar por mim

                                      Devo avançar sozinho

         Compreendeu subitamente por que nun, o peixe, era a letra que correspondia à experiência do Hades, senhor do submundo; atuamos, pensou, efetivamente, como o peixe que nada nas águas amnióticas da matriz, e o inconsciente pensa sempre na morte, simbolicamente, como um retorno à matriz; o seguinte passo no I.N.R.I. é Resh, a cabeça humana, a morte e renascimento dos deuses revestir, Osiris e Apolo. «O Reino dos Céus está em seu interior»: dentro da cabeça, nas células do cérebro. Sabia em seu foro interno: uma verdadeira iniciação nunca termina: passamos pelo mesmo processo arquetípico uma e outra vez, compreendendo-o mais profundamente em cada nova ocasião. Isis, Apophis, Osiris! IAO... a Virgem, os salões da Morte, a Divindade... A luz que brilha nas trevas sem que saibam as trevas...

         Com um grunhido de mamífero macho triunfante, Sir John abriu a porta do edifício do lagar. «O homem não está sujeito aos anjos, nem à Morte, inteiramente, salvo se seu enguiço Vontade», dizia o manual do Amanhecer Dourado, e Sir John acreditou e se encorajou.

         O barraco estava mais sujo e cheio de teias de aranhas do que recordava Sir John, mas o lagar ainda parecia tão firme e indestrutível como sempre. O Reverendo Verey o olhou com certa surpresa.

         —Bom Deus, cavalheiro —perguntou—, o que é isto?

         Assinalou com um dedo irritado o Brasão da imprensa: uma cinta azul com um laço dourado, vinte e seis ligas de ouro pendurando de um colar sobre a frase: Honi soit qui mal e pense.

         —É da Ordem de São Jorge —explicou Sir John, ruborizando-se nervosamente—. Foi entregue a meu tataravô pelo Rei, por algum serviço prestado à Coroa. —Pensou: O pesadelo é real, não há máscara: o nome é o próprio objeto.

         —Sim, já sei que ninguém mais que o Rei pode conferir a Ordem da Liga —replicou Verey impacientemente—. Mas, por que seu tataravô a gravou na imprensa? Afirmo que com isso se falta à Coroa e se demonstra um humor bastante libertino.

         Sir John se ruborizou ainda mais.

         —Meu tataravô era um tipo curioso —explicou—. Circulam sobre ele escandalosas lendas, lamento admiti-lo. Alguns dizem que esteve envolto com Sir Francis Dashwood e o Clube do Fogo do Inferno. Em todas as famílias há pelo menos um trapaceiro —acrescentou, agudo—, como você deve saber.

         —Efetivamente —replicou Verey—. Não quero faltar ao respeito de sua família. Mas alcanço a compreender que ocultas inclinações pode haver em seu sangue, Sir John, embora você se ata mais às normas diretivas cristãs que o que o fez seu tataravô. —Não parecia adequado lamentar-se, e Sir John ficou a pensar em que seu sangue estava corrupto de um modo bastante insano.

         —A Ordem de São Jorge é a mais alta ordem de cavalaria de toda Grã-Bretanha —disse, defendendo os gens dos Babcock como se, devido a algum traço familiar, acusassem-lhes de licantropia ou bruxaria.

         —Sim —seguiu Verey—, uma alta honra para qualquer familiar o receber da Coroa. Mas, não é mais conhecido como Ordem da Liga?

         Sir John voltou a ruborizar-se.

         O vulnerável clérigo ainda devia estar alterado, supôs; aquela era a mais parva das conversações. Gaguejando, argumentou, pouco convencido:

         — Estudei bastante a história medieval. Freqüentemente, emprego as velhas palavras e termos em lugar de usar as mais modernas. O nome de Ordem da Jarre Jarre Liga não se fez habitual até o reinado do Eduardo VI, embora a Ordem se remonta no tempo até Eduardo III, em 1344, quando foi chamada, originalmente, Ordem de São Jorge, como muito bem disse —Por alguma razão, continuava tendo a sensação de achar-se em um pesadelo.

         —Honi soit qui mal e pense —leu o sacerdote no Brasão—. Um estranho lema para tão nobre ordem.

         —Bom, já saberá a história... sobre a Condessa do Salisbury... —Sir John tinha quase a sensação de que o vulnerável lhe estava examinando—. Ela perdeu a Li Li liga em um baile, sabe, e o Rei a recolheu, quando alguém riu dela, a pôs em sua própria phi phi perna, e disse isso. Disse Honi soit qui mal e pense.

         —«Mal vai a quem mal deseja» —traduziu Verey—. Continua uma estranha história. Por que os maçons levam uma liga em suas iniciações?

         —Por Deus, senhor, devemos continuar! —exclamou Sir John—. Não podemos seguir discutindo pontos obscuros de história medieval...

         Poucos momentos depois tinham rodeado a imprensa e, depois de atravessar a porta, chegaram a um sombrio arvoredo rodeado de grandes carvalhos por todos lados. Dentro do arvoredo, junto ao barraco, havia uma fantasmagórica imagem branca de Afrodite

         — Estátuas pagãs — murmurou Verey, mas aquela vez parecia falar mais consigo mesmo que acusar à família Babcock.

         O passeio pelos bosques, depois da passagem pelos subterrâneos e da idiota mas perturbadora conversação do lagar, resultou revigorante. Por uns momentos, o sacerdote pareceu totalmente enlouquecido: ou possivelmente Sir John se mostrou hipersensível ante as excentricidades de seu tataravô? Uma arvoredo escondido dedicado ao vinho e à Afrodite... os rumores a respeito das conexões com o libertino Clube do Fogo do Inferno... a corrupção de seu sangue... ligas azuis... manchas brancas...

         Apesar de seus anos, Verey adotou um bom passo; mas os escoceses das Terras Altas eram famosos por sua longevidade, inclusive eram pais em avançada idade. Se não fossem tão aficionados a contar, com excessivo prazer macabro, contos de fantasmas e bruxas «e coisas que saltam na noite»... Mas, naturalmente, aquilo seria devido a que experimentavam muitas daquelas coisas nas frias e tétricas noites nórdicas. O Racionalista, desprezando àquele povo singelo e áspero por supersticioso, sem ter vivido entre eles compartilhando as experiências que geravam aqueles loucos contos, demonstrava tão infantil chauvinismo como o estreito inglês que considerava a todos os franceses como imorais e aos italianos como traidores.

         Recordou então que o lema do Clube do Fogo do Inferno foi «Faz o que queira», frase de Rabelais, e seu blasfemo ícone ou ídolo, na deserta abadia que comprasse Sir Francis Dashwood para suas orgias, era um falo gigantesco com a inscrição «Salvador do Mundo». O mesmo ícone, de fato, foi impresso como frontispício do lascivo «Ensaio sobre a Mulher», editado clandestinamente pelo John Wilkes sob o luxurioso nom de plume de «Pego Borewell»: Wilkes foi expulso da Câmara dos Lores quando sua autoria do panfleto, e sua pertença ao Clube do Fogo do Inferno, resultou descoberta pelo Duque de Sandwich, ele mesmo sócio numerário que renunciou quando alguma horrível Coisa (um orangutan solto como brincadeira prática, asseverou Wilkes mais adiante) mordeu-lhe durante uma Missa Negra. Tudo aquilo era considerado como cômico, por mais desagradável que fosse, por quase todos os historiadores. Sir John começou a perguntar-se a respeito de possíveis relações entre aquela estranha conspiração e as contemporâneas lojas maçônicas do Grande Oriente da Maçonaria Francesa, nas quais se pregavam doutrinas ocultas e revolucionárias onde o próprio Conde Cagliostro era Grande Mestre. Era tudo aquilo, quão mesmo os sinistros Iluminados da Baviera, parte de uma tradição negra e subterrânea encarnada na Ordo Templi Orientis?

         —Ouvi essa história anteriormente —disse Verey, de repente.

         As árvores eram tão espessas no lugar em que se encontravam que tudo estava em profundas sombras, ainda no meio-dia. Oh, escuridão, escuridão entre o brilho do sol, disse-se Sir John a si mesmo.

         — Que história? —perguntou, ausente.

         — A do Rei Eduardo III e a Condessa de Salisbury — replicou Verey com impaciência—. Não sei se é verdade, mas ouvi que a liga azul era também a insígnia da Rainha das Bruxas durante aqueles tempos. O rei, colocando a liga em sua própria coxa, disse a todo mundo que teria que denunciar à Inquisição a qualquer um que tivesse valor para denunciar à dama. Possivelmente salvasse sua vida. Esse é o significado de «Mal vai a quem mal deseja».

         Era um horrível tema para discutir com um doído; de certo modo, transtornado, vulnerável, em um bosque tão escuro. A selva escura, pensou Sir John.

         — Não teria sentido — disse, irritado —, a menos que o rei fosse um bruxo, ou um guerreiro das bruxas. Esse ponto da história nos pode fazer pensar que a monarquia britânica se acha infectada pela bruxaria e o satanismo?

         — Não sei — respondeu Verey —. O homem que me contou tinha disso algumas estranhas noções sobre as ordens da cavalaria da Europa. Acreditava que a Ordem da Liga era o oculto círculo interno que governava a Franco-maçonaria. Sabe agora por que os maçons usam ligas em suas iniciações?

         Algo bateu as asas sobre eles com o som de um morcego. Mas os morcegos não voam de dia, recordou Sir John.

         — A história da Franco-maçonaria é muito complicada — disse —. Escrevi um livro sobre o tema, Os Amos Secretos, e posso afirmar que só se podem resolver a terceira parte dos mistérios históricos importantes. É verdade que o Rei é cabeça da Ordem da Jarre Jarre Liga e que o Príncipe de Gales sempre tem o grau 33 dos Franco-maçons, mas não tem nada de sini... sini... sinistro, o asseguro. O patrão da Ordem é São Jorge, não Satanás.

         — Naturalmente — disse Verey, apologeticamente—. Dizia que o homem que me contou tudo isto sustentava muitas noções estranhas. Disse que as 26 ligas de ouro que penduravam no colar tinham algo a ver com a Palavra Maçônica, mas nunca o entendi. Acredito que estará relacionado com Cabala judia.

         26: Sir John recordou: Yod, 10; He, 5; Vau, 6; segundo He, 5. Total: 26. YHVH, o Sagrado e Impronunciável Nome de Deus... naquele momento, devido à odiosa M.M.M., inextricavelmente unida em sua mente com o suicídio e a loucura. E escondido na numerologia da Ordem da Liga.

         As asas de morcego, voltaram a bater as asas por cima de suas cabeças. Seria um pássaro comum. Os morcegos não batem as asas ao meio-dia. Nem «as pedras andam no crepúsculo». Onde tinha lido aquilo?

         — Todo o assunto é muito estranho — murmurou Verey —. Homens com ligas. Entrevistas secretas. Não admitem mulheres. Não foram sentenciados os membros da Ordem dos Cavaleiros Templários de Jerusalém do antinatural pecado de sodomia?

         — Maldita seja! — chiou Babcock —. Você está totalmente confuso, Reverendo. Mescla a verdadeira maçonaria mística com todas as perversões e mentiras.

         O bosque pareceu fazer-se mais escuro. O morcego voltou a bater as asas.

         — Não sei nada de tais matérias —reconheceu Verey, humildemente—. Só menciono as opiniões de um homem cujas idéias, admito-o, eram muito estranhas. As sociedades secretas incitam muito à especulação, já sabe. Todo mundo pergunta o mesmo: Se não têm nada que ocultar, por que são secretas?

         Quanto mais desculpas pedia o velho louco, mais ofensivo resultava. Sir John se dispunha a replicar de algum modo ofensivo, quando apreciou a palidez do rosto de Verey e as linhas de dor que lhe emolduravam os olhos e a boca. O ancião tinha sofrido muito e merecia a maior tolerância. Além disso, o verdadeiro Irmão da Rosa Cruz era paciente e imensamente piedoso com os ignorantes dos mistérios. Sir John não disse nada e avançou com dificuldade.

         As asas de morcego deixaram de ouvir-se por cima de suas cabeças. Provavelmente, só fora um pássaro ordinário, gigantesco pela imaginação e pela sugestão.

         Apareceu uma claridade e as torres de Greystoke foram visíveis à distância.

         —Ali é —exclamou Sir John, dominado de novo pela sensação da juvenil aventura—.

A porta de escapatória e nosso surpreendente contra-ataque.

  1. Cite a um historiador contemporâneo, com a suficiente brevidade para que não haja problemas a respeito do direito autoral, com respeito a: a Condessa de Salisbury e a Ordem da Liga.
  2. «Embora a história poderia resultar apócrifa, há nela certo leito de verdade. A confusão da Condessa não foi devida ao ataque contra sua modéstia —tinham que ocorrer mais coisas que perder uma liga para afetar a uma dama do século quatorze—, mas a posse daquela liga demonstrava não só que era membro da Velha Religião, mas, além disso, o alto escalão que ocupava nela... é notável que a capa do Rei, como Chefe da Ordem, estivesse constituída por cento sessenta e oito ligas que, própria que levava na perna, somavam 169, ou treze vezes treze: por exemplo, treze reuniões de treze bruxas.» Dra. Margaret Murray, O Deus das Bruxas.
  3. Cite, sem exceder as limitações legais de Uso Adequado, outra fonte.
  4. «Como já vimos, o Rei Plantagenet [tradicionalmente 'pagão'], depois de desprezar qualquer aparência, declarou-se aberto à Velha Religião, estabelecendo uma dupla reunião de treze bruxas como Grupo Perito —a Ordem da Liga— para que 'fosse o cérebro' pelo que Eduardo e a Formosa Donzela do Kent, sua prima 'bruxa' Plantagenet, consideravam a Fé Verdadeira... Os Tudor, igualmente, não escaparam da suspeita de pertencer ao que, por todas as evidências, é a 'religião da família' na Casa Real Britânica.» Michael Garrison, As Raízes da Bruxaria. Kenneth Campbell, no 201 da rua Paul, demonstrou ser, como prometeu Jones, formidável. Mediria uns seis pés e meio de altura e pesaria uns vinte pesos. Um enorme pôster na parede lhe mostrava, fazendo uma horrível careta, sob um explicativo O MUTILADOR DE Liverpool. Não eram necessárias as habilidades do Sherlock Holmes para deduzir que Campbell era lutador profissional.

         — Como com isso — disse Campbell, reconhecendo em Babcock um cavalheiro—. Não é muito fino, admito-o, mas pagamento de minha dignidade quando tenho a tripa vazia, não?

         Ao Babcock custava trabalho decodificar o liverpolés de Campbell.

         — A luta era considerada assunto de cavaleiros na Atenas de Sócrates — disse-lhe Sir John, tranqüilizador.

         — Sócrates? — Campbell se mostrava encantado—. Não é aquele tipo que bebeu um veneno quando os malditos bastardos foram lutar com ele? Perdoe, Reverendo.

         Babcock nem se atreveu a olhar à cara de Verey.

         — Efetivamente, Sócrates foi um homem valente —respondeu, evasivo.

         —Valente? —Campbell sacudiu a cabeça—. Estive no Exército de Sua Majestade durante o Levantamento Boer —disse—. Sei tudo sobre o valor, senhor. Não é muita prova de valor sentar-se a beber veneno para demonstrá-lo. Fá-lo-ia você? Fá-lo-ia eu? Fá-lo-ia qualquer valente amigo do exército? Em toda sua puta vida [volto a lhe pedir perdão, Reverendo]. Isso não é valor. Isso é outra coisa.

         Um lutador filósofo, pensou Babcock; mas, que outra classe de lutador poderia ter eleito Jones? Outro de nós? Não podia perguntar.

         —O que fez Sócrates que fosse mais à frente do valor? —perguntou a sua vez.

         —Não sei —replicou o lutador—. Adivinho que algo sobre o estado que há além da humanidade, o Seguinte Passado do que Jones não deixa de falar.

         —Sócrates era um pagão —cortou Verey repentinamente—. Era infiel a sua esposa com outra mulher e com Alcibíades, com quem mantinha antinaturais relações. Foi valente e sábio, mas deve estar ardendo no Inferno.

         O rosto do lutador se deslocou.

         — Não seja tão estrito, Vigário —disse, com aspecto irritado—. Ninguém é perfeito.

         Felizmente, Jones chegou justo então, e Babcock economizou a ordalia de ouvir como a moral de Sócrates era tema de debate entre um gigante infantil e um vulnerável autoconvencido.

         — Ah, Kenneth, meu amigo! —exclamou um radiante Jones, sujeitando a mão do lutador com um apertão aparentemente ritual que Babcock não reconheceu—. Tem um magnífico aspecto!

         O apertão não se empregava no Amanhecer Dourado; Babcock conjeturou que seria um apertão do Rito Escocês.

         —Tenho para outros cinco anos, com sorte —replicou o gigante modestamente—. Se para então não economizei o suficiente para comprar uma loja ou um bar, voltarei para exército.

         — Voltar para o exército? — perguntou Jones—. Não acredito. Nunca entendi como pode voltar vivo de uma guerra; o inimigo tem que estar cego para não lhe dar um branco tão grande como você. Não permitiremos que volte a passar por isso. Recorda aos filhos das viúvas.

         A última frase confirmou as suspeitas de Sir John; era a fórmula que descrevia todas as caridosas atividades do Antigo e Aceito Rito Escocês da Franco-maçonaria. Provavelmente, Jones, igualmente à Robert Wenworth Little, fundador do Amanhecer Dourado, fossem membros da Antiga e Aceita Loja maçônica, coisa que Campbell, obviamente, era.

         —Reverendo Verey —disse Jones, apertando a mão do sacerdote calidamente e lhe batendo no ombro—, não posso lhe expressar minha simpatia em momentos de tanto pesar. Sem embargo, sim posso lhe assegurar que tanto eu como a Ordem a que represento, vigiaremos para que não ocorram mais tragédias e que os malvados responsáveis por sua dor receberão o justo castigo à seus crimes.

         —Isso está em mãos de Deus —respondeu Verey, inexpressivo, voltando para a carência total de sentimentos da típica reação à dor. São feito ondas, pensou Babcock, recordando sua própria pena quando morreram seus pais.

         —Em mãos de Deus? Não é assim —disse Jones, agudo, atraindo os olhos do clérigo com uma olhar que Babcock não tinha visto antes—. Nós somos as mãos de Deus —seguiu Jones, solene— e estamos no mundo para cumprir Sua vontade. Nossa religião é muito mais que puro teatro.

         Verey voltou o rosto, lutando por ocultar as lágrimas.

         — Deus me perdoe —disse—; eu, um sacerdote ordenado, necessitando que me recordem isso...

         Jones suavizou o tom de sua voz.

         —Não necessitará que voltem a recordar - esclareceu—. Não duvide de novo, não desespere. — Deu a volta ao sacerdote brandamente, olhando-lhe de novo aos olhos—. Você sabe que digo a verdade —concluiu.

         —Sim —respondeu Verey—. Quem você é?

         —Um homem comum —replicou Jones—. Mas treinado, um pouco, em certas artes curativas. Ocasionalmente —tocou a frente de Verey—, posso sentir a angústia que lhe abandona. Não volte a se desesperar para a bondade de Deus ou a perguntar-se quão mesmo Job. Em muito pouco tempo, descansará.

         O Irmão da Rosa Cruz, recordou Babcock, podia efetuar curas em caso de emergência, embora, em qualquer outro caso, devia ocultar sua sobre-humana condição aos humanos entre os quais caminhava.

         Jones deslocou a mão até o peito de Verey.

         —Sim —disse—, os batimentos do coração são muito melhores. O chakra de seu coração se encontra menos agitado. Os seres humanos são as mãos de Deus, e Ele atua através de nós se O permitimos —continuou. Levou as mãos aos ombros de Verey e as baixou rapidamente ao longo dos braços para acabar sujeitando calidamente as mãos do sacerdote—. Você sofreu muito e deve descansar. Recorde: «Deus é como um fogo de purificação.»

         Cada vez que ouvia aquela citação do verso bíblico renovada pelo Haendel, Sir John sempre se excitava; era seu fragmento favorito do Messias. A energia do Vril corria por ele, o mesmo que quando traduziu I.N.R.I. como «o mundo se refaz pelo fogo»; e pôde ver que aquela energia também fluía pelo Verey.

         —Não demorará para dormir —acrescentou Jones brandamente.

         Em poucos momentos, Verey anunciou que queria deitar-se. O Mutilador de Liverpool conduziu ao velho vulnerável a um dormitório e retornou atemorizado.

         — Já lhe deitei —disse—. Cada vez que lhe vejo fazer isso, senhor, impressiona-me.

         — Com sete anos de esforços concentrados, poderá fazê-lo tão rápida e eficazmente como eu — respondeu Jones.

         — Mesmerismo? —perguntou Babcock.

         — Sim —confirmou Jones—. Um sistema mais efetivo que o hipnotismo inventado pelos imitadores de Mesmer do século dezenove, embora, como disse, lento de aprender.

         — Gor — disse o Mutilador de Liverpool —, também esteve Mesmer na Obra?

         — Em uma Grande Loja maçônica do Oriente —respondeu Jones.

         Babcock ficou estupefato.

         —Minhas investigações me levaram a acreditar que as Grandes Lojas maçônicas do Oriente estavam infiltradas entre os ateus Iluminados da Baviera e aliadas com a Ordo Templi Orientis!

         —Tudo é muito complicado —admitiu Jones—. Os nomes não significam nada. Deve recordar que junto ao Amanhecer Dourado há várias dúzias de grupos na Europa que dizem prosseguir a obra do original colégio Rosa Cruz. A metade das lojas maçônicas da Inglaterra não reconhecem como autênticas à outra metade. E, por isso vem ao caso, o Amanhecer Dourado tem vários competidores que empregam o mesmo nome, dirigidos pelo A.E. Waite, Michael Brodie-Innes e outros, incluindo o do astuto Crowley.

         Curioso, curioso, como disse Alicia...

         — Começo a detectar que — recitou Sir John, prudentemente — quando alguém se inscreve em uma loja maçônica oculta não sabe a qual se uniu...

         — Os nomes nada significam — repetiu-lhe Jones—. Por seus frutos os conhecerão...

         — Bom, sim — seguiu Sir John—, mas...

         — Não é momento de revisar a história do Colégio Invisível e suas ramificações e divergências — disse Jones —. Esta tarde, tenho que lhe encarregar uma tarefa, e é algo que teria que fazer eu mesmo. Deixemos aqui ao pobre Verey, sob o proteção do Mutilador de Liverpool e nos dediquemos à nossas coisas. O rei está protegido e é a ocasião adequada para um gambito.

         Sir John se encontrou na rua e a bordo de um cabriolé antes de que se desse conta da aceleração dos acontecimentos.

         — Fiz que meu secretário conseguisse uma cópia do Express Journal de Inverness desta mesma tarde — disse Jones por cima dos cascos do cavalo—. Dê-lhe uma olhada antes de seguir adiante.

         Sir John tomou o recorte de periódico que lhe entregava Jones e leu:

                          O CASO DOS SUICÍDIOS CONSTANTES

                                            O terror brota no Loch Ness;

                                              A Polícia desconcertada

         INVERNESS, 23 ABRIL 1914.- O Inspetor James McIntoch da Polícia de Inverness enfrenta um mistério mais terrível que qualquer dos narrados em contos de Poe ou Conan Doyle

         Sir John leu apressadamente o resto da notícia.

         — Entende o significado? —perguntou Jones—. Amanhã, esta história se poderá ler em todos os jornais de Londres; note-se no que lhe digo. Será o horror maior desde que Jack, o Estripador; assolasse o East End. Os periódicos do continente o plasmarão a semana que vem.

         — É bom ou mau? —perguntou Babcock, guardando o recorte no bolso.

         Jones parecia exasperado.

         — É o pior que poderia passar — disse, cheio de impaciência —. Você deve compreender agora que o sistema de crenças humano determina a experiência dos homens. Por que o Colégio Invisível continua sendo Invisível? Por que você acredita que não fazemos milagres na rua para converter multidões? Não se dá conta de que a filosofia materialista é o melhor que poderia ocorrer na Europa?

         — Você fala com paradoxos — lamentou-se Sir John, observando que a névoa começava a espessar. O clip-clop dos cascos do cavalo parecia lhes transportar por um mundo mais misterioso que qualquer dos que apareciam em seus sonhos ou visões astrais da Capela Perigosa.

         Jones suspirou.

         — Observou você — disse pacientemente — o que acontece quando a notícia de uma casa encantada aparece na imprensa? Em uma semana, em outras partes do país, aparecem cinco casas encantadas mais. As pessoas não pode projetar-se astralmente até que acredite que pode consegui-lo. A Cabala carece de sentido até que a gente acredita que o pode ter. Por que acredita que disse Buda que «Tudo o que somos é resultado de tudo o que pensamos»? Sabe por que massacramos aos Aprendizes com a frase de que «Temer é fracassar e prólogo do fracasso»? Salvo um ser perfeitamente Iluminado, todos nós vemos e sentimos só quando estamos preparados para ver e sentir. Uma história jornalística como esta, uma vez que seja recolhida e repetida, desencadeará milhares — centenas de milhares — de invasões semelhantes dos poderes das trevas. Cada pessoa que leia acontecimentos como estes, em maior ou menor grau, abrir-se-á à seus ataques. Os livros de tais temas são venenosos. Por isso, não combatemos a extensão do ateísmo e do materialismo! Por isso, lhes animamos a seguir!

         — Animar-lhes? — Sir John estava espantado.

         —Naturalmente! —gritou Jones—. Os antigos Mistérios estão fechados para todos menos para uma pequena elite, como já sabe. Não é esnobismo aristocrático, senão pragmática sabedoria. Quanto menos saibam os homens e mulheres normais destas coisas, melhor para eles. Só os que foram especialmente treinados, intelectual e moralmente, podem dirigir essas Forças com segurança.

         Sir John refletiu durante uns minutos.

         — Pensa que esta forma de pensar é antiliberal — seguiu Jones—. Mas considere os bons resultados. As massas sem educação têm uma fé singela, que lhes protege, na maioria dos casos, de invasões como a deste horror do Loch Ness. Atrasando os mentais que saem das universidades por pelotões mantêm um cepticismo simples, que também lhes protege. Tudo isso resulta satisfatório, e constitui o melhor emprego para esta era científica, até que a natureza humana se transforme. As pessoas ordinárias, se abandonarem a fé e o cepticismo e começam a experimentar nesta área — como você fez —, poderia voltar louca em seis meses se não contasse com um cuidadoso guia como o que eu mesmo brindei você.

         — Sim — afirmou Sir John – Isto vai contra os princípios liberais, mas tem você razão. Nunca poderia realizar de um modo seguro nenhum experimento astral eu sozinho. O melhor é que os homens e as mulheres ordinários não se aproximem destes assuntos.

         — A fé para os loucos sem educação, o cepticismo para os loucos ao meio educar —disse Jones —. Assim deve ser até que tudo esteja preparado para o encontro com Aquele ao que chamamos Sagrado Anjo Guardião... que será, como recordei recentemente ao Verey, «um fogo de purificação.»

         Uma vez mais, como quatro anos antes, os cascos do cavalo pareceram sugerir em Sir John o estribilho do poema alquímico:

                                      Não terá que acreditar no olho humano

                                      Nem sob o sol nem na sombra

                                      Os arlequins que vêem e sentem

                                      Só participam da Máscara do Diabo.

         O Mundo Invisível lhe parecia mais real, naquele momento, que o mundo material meio oculto pela bruma de Londres.

         — Aonde vamos? —perguntou.

         — Vou conferenciar com o Cabeça Interior do Colégio Invisível dos Rosa Cruzes pela primeira vez em sete anos — respondeu Jones—. De caminho, deixar-lhe-ei na livraria M.M.M. Da rua Jermyn.

         — O que?

         Jones logo sorriu.

         — Sim — disse—. chegou a hora de você passar à Capela Perigosa. Asseguro-lhe que estará a salvo, e isso encherá de consternação os corações do Inimigo.

         Sei no que acabará tudo isto, pensou Sir John.

         — Olhe — seguiu Jones, tirando um singular objeto do bolso do casaco. Sir John percebeu um brilho que encheu o interior do cabriolé antes de poder enfocar o objeto em si.

         — O que é? —perguntou.

         — Um pentáculo, similar ao empregado nas cerimônias mágicas — explicou Jones—. Este se encontra carregado com toda a força espiritual concentrada dos quatro mil e quinhentos anos de vida de nossa Ordem... Somos muito mais antigos do que supunha você, inclusive nas mais atrevidas passagens de seus livros. Também foi construído seguindo especiais princípios ópticos.

         Sir John foi incapaz, em que pese a que o tentou insistentemente, de ver o pentáculo com claridade.

         — Parece-se com o panteão de Christian Rosycross? — perguntou.

         — É o panteão — replicou Jones —. Uma miniatura exata. A razão de que a luz dentro do panteão resulte tão «cegadora» é que cada faceta — e há milhares de facetas, inclusive nesta miniatura — é complementar das cores que a rodeiam, de acordo com estritas leis ópticas e geométricas. A luz é refletida, refratada e difundida em uma miríade de prismas de um modo tal

que é irrepetível por qualquer outra estrutura. É o autêntico modelo do Universo cabalístico, em que cada parte contém e reflete às outras... uma analogia da Luz Individida. É formoso, verdade? Embora isto é um modelo, uma interpretação parcial da divina refulgência... algum dia experimentá-lo-á quando alcançar o que, de modo inadequado, denominamos Conhecimento e Conversação com o Sagrado Anjo Guardião.

         Sir John parecia levemente alucinante.

         — É como éter — disse —, ou como alguma droga exótica como o hassish...

         — Não o olhe muito tempo durante o primeiro contato — explicou-lhe Jones —. Tome-o. Meta-lhe em um bolso, junto ao coração. Nem experimentará medo, nem estará em perigo enquanto leve consigo este talismã.

         Sir John tomou o aparentemente autorefulgente talismã e sentiu um calafrio quando o colocou entre a roupa.

         — Por São Jorge! — exclamou —. Realmente posso senti-lo. Estou preparado para me enfrentar ao mesmíssimo Diabo.

         — Não faz falta que se mostre tão melodramático — disse-lhe Jones —. De fato, só vai à uma apresentação do Mr. Aleister Crowley. Se conhecer esse homem, será consciente da presença do pentáculo assim que você entre. Depois da leitura, estou quase seguro de que se aproximará de você para, com uma astúcia ou outra, tentar fazer-se com o pentáculo com seu consentimento. Não poderá fazer nada que você não deseje. Resista seus encantos e volte a reunir-se comigo em minha casa dentro de duas horas. Isso é tudo.

         — Tudo? Para que?

         — Compreenderá melhor por própria experiência que pelo que eu pudesse lhe explicar nos poucos minutos que ficam. - Justificou Jones —. O que está a ponto de viver lhe surpreenderá, e esse é o segundo objetivo desta missão. Encontrará que Mr. Crowley é muito distinto da imagem mental de vilão que receiam estes horrores. É importante, pois descobrirá algo: a realidade do inimigo é totalmente diferente das temíveis hipóteses que fazemos sobre ele. Entende-o?

                                      Devo avançar por este vale solitário

                                      Devo avançar sozinho

         — Sim — replicou Sir John —.Uma verdadeira iniciação nunca termina. — Sorriu.

         Jones também sorriu.

         — Conseguirá, moço — disse-lhe —. Em todos estes anos, nunca confiei mais em nenhum estudante.

         — A rua Jermyn — disse o condutor, agachando —. O número 93, senhores, aqui está.                                                                      QUARTA PARTE

         Verdade! Verdade! Verdade! gritou o Senhor do Abismo das Alucinações... Este Abismo também se chama «Inferno» ou «Os Muitos»... [ou] «Consciência» ou «O Universo».

                                                                               Aleister Crowley, O Livro das Mentiras.

         Sir John cruzou a rua coberta pela névoa, empurrou a porta do M.M.M.: Livros Ocultos e Místicos de Todos os Tempos, e, uma vez mais, entrou na Capela Perigosa, esperando encontrar demônios com chifres e caudas com ponta de flecha.

         Em vez daquilo, encontrou uma ampla variedade de ingleses totalmente normais rebuscando entre as prateleiras. Os livros foram desde exemplares novos e brilhantes a puídos tomos de segunda mão e cobriam um amplo espectro; havia cartelas que dividiam as fileiras com etiquetas como: TAOISMO, BUDISMO, VEDANTA, CABALA, SUFISMO, TEOSOFIA, INVESTIGAÇÃO PSÍQUICA, e assim sucessivamente. Sir John apreciou a observação de Jones a respeito do absurdo que seria pedir ao Scotland Yard que vigiasse aquele estabelecimento naquela terra de liberdades e em plena era de iluminação.

         Um enorme pôster anunciava:

                                               HOJE Às 8

                                      «O Soldado e o Astuto»

                               uma leitura de misticismo e racionalismo

                                             pelo Sir Aleister Crowley

                                                       Entrada Livre

         O pôster levava como ilustração uma fotografia de Crowley, com o rosto totalmente inexpressivo e os olhos olhando diretamente à câmara, como se escrutinassem de frente ao observador: mas os olhos, como a cara, não revelavam absolutamente nada. Embora era a de um desconhecido, a cara não parecia ocultar nada; entretanto, tampouco nada mostrava: era uma cara, nada mais. Sumiu-se o próprio Crowley em algum transe de profunda concentração quando tomaram a foto? Não era nem arrumado nem feio (embora Sir John recordava que denominaram em certa ocasião à Crowley como o homem mais atrativo de Londres) e teria uma idade que parecia oscilar entre os quarenta e os cinqüenta anos. Aquela era a cara de um homem, descobriu Sir John, com um perfeito autocontrole.

         Sir John olhou o título da leitura: «O Soldado e o Astuto». Se Verey era o vulnerável, quem era o soldado? O mesmo? Jones? Crowley? Acaso atribuía excessiva presciência à Inteligência do Inimigo? Possivelmente o título não contivera nenhuma referência pessoal.

         Uma prateleira mostrava o rótulo ORDO TEMPLI ORIENTIS : o nome da ordem maçônica clandestina proprietária da livraria e que exigia que todos seus membros assinassem três cópias do niilista Ato de Fé que começava dizendo: «Não há mais Deus que o Homem». Sir John examinou a prateleira com curiosidade: quase todo o material eram panfletos ou livros antigos de autores como Karl Kellner, Adam Weishaupt, Leopold Engels, P.B. Randolph, Theodore Reuss — quase todos em alemão—, mas também se viam vários livros do próprio Crowley. Sir John tomou um volume de Crowley intitulado, com todo descaramento, O Livro das Mentiras.

         Abriu-o e se encontrou com a página do título:

         O LIVRO DAS MENTIRAS TAMBÉM FALSAMENTE CHAMADO MUDANÇAS ÀS VAGABUNDAGENS Ou FALSIFICAÇÕES DE ÚNICO PENSAMENTO DE IRMÃO PERDURABO CUJO PENSAMENTO TAMBÉM É FALSO.

         A seu pesar, Sir John sorriu. Era uma variação do paradoxo da lógica de Empédocles, que consistia na pergunta: «Empédocles, o cretense, diz que tudo o que dizem os cretenses é mentira; diz Empédocles a verdade?» Naturalmente, se Empédocles dizia a verdade, sua declaração de «que tudo o que dizem os cretenses é mentira» seria verdade e ele estaria mentindo.

         Por outro lado, se Empédocles mentia, tudo o que diziam os cretenses não era mentira, e poderia estar dizendo a verdade. O título do livro de Crowley era ainda mais perverso: se o livro for «também falsamente chamado mudanças», então (a causa do «também») o título original era falso, e não era um livro de mentiras depois de tudo. Devia considerar-se além que o de «falsificações... do único pensamento... também é falso» era negação da incerteza e, portanto, da verdade. Ou não?

         Sir John se dirigiu ao primeiro capítulo e encontrou que consistia em um único símbolo, o signo ortográfico: ?

         Bom, comparado com o título, aquilo era, ao menos, breve. Sir John voltou a página para dirigir-se ao segundo capítulo e encontrou nele a mesma brevidade:

         Que classe de brincadeira era aquela? Sir John procurou o capítulo 3 e sua cabeça girou:

                                               Nada é.

                                               Nada se transforma.

                                               Nada é não.

         As duas primeiras frases representavam a conclusão básica do niilismo; mas a terceira, levava o niilismo um pouco mais à frente, caindo de novo no paradoxo de Empédocles contradizendo-se a si mesmo. Se «nada é não», então algo é...

         Que mais haveria naquele notável tomo? Sir John olhou surpreendentes páginas e, abruptamente, encontrou-se, no Capítulo 77, olhando uma fotografia de Lola Levine. O pé dizia: «L.A.Y.L.A.H.». A foto e o pé compunham a totalidade do capítulo. Lola aparecia da cintura para acima e estava vergonhosamente nua, embora, como concessão à moral inglesa, o cabelo solto ocultava a maior parte de seus seios.

         Sir John, seguindo uma intuição, contou cabalisticamente. Lamed era 30; mais Aleph, 1; mais Yod, 10; mais uma segunda Lamed, 30; mais uma segunda Aleph, outra vez 1; mais He, 5; total, 77, o número do capítulo. E Laylah não era tão somente a transliteração de Lola; também era a palavra árabe que designava a «noite». E 77 era o valor da curiosa palavra hebréia que significa «valor» ou «cabrito»: Oz. A foto e o pé lhe diziam, ao habilidoso cabalista, que Lola era a sacerdotisa que encarnava a Noite de Pan, a dissolução do ego no vazio...

         Sir John decidiu comprar O Livro das Mentiras; seria interessante, e possivelmente vantajoso, poder aprofundar na mente do Inimigo, por paradoxais e perversas que fossem suas expressões. Aproximou-se da caixa, e encontrou com desgosto que a empregada era a própria Lola Levine. Como acabava de ver sua foto, nua da cintura para acima, ruborizou-se e disse gaguejando:

         — Eu gostaria de comprar este.

         — Uma libra seis xelins, senhor — disse-lhe Lola, com a mesma expressão que qualquer outra caixa. Sir John pensou que tinham transcorrido quase três anos da última ocasião em que se encontraram no plano da Terra; ela não tinha razão alguma para lhe recordar. Seria possível que todas aquelas visões astrais nas quais lhe atormentava e lhe tentava para lhe seduzir não fossem produto mais que de sua impura imaginação? Ou aquelas visões foram tão reais como pareciam e ela era meramente uma consumada e hipócrita atriz? Resultado o equivalente metafísico do paradoxo de Empédocles.

         Uma robusta mulher de certa idade, com acento do Cornualles, perguntou à Lola:

         — Eu gostaria de ficar para a leitura. Pronuncia-se Crouly ou Crowley.

         — Pronuncia-se Crowly — disse uma voz da porta —. Para recordar que sou sagrado. Todavia, meus inimigos, dizem Crouly, se tiverem desejos de me manchar.

         Sir John virou-se e viu Aleister Crowley, inclinando-se cortesmente ante a mulher de Cornualles ao terminar sua declaração. Crowley era um homem de estatura média, vestido com um conservador traje de raias que não combinava nem com o escandaloso lenço azul que levava em vez de gravata, nem com o Borsalino que levava inclinado. Era o conjunto que poderia vestir um artista da Extrema Esquerda como demonstração de seu triunfo; para Londres, resultava definitivamente excêntrico.

         A mulher do Cornualles lhe olhou fixamente.

         — Você é realmente o Grande Mago que dizem as pessoas?

         — Não — disse Crowley—. Sou o mais encarniçado inimigo do Grande Mago. — E passou ante ela imperiosamente. A de Cornualles ficou boquiaberta.

         — O que quis dizer com isso? —perguntou, sem dirigir-se a ninguém em particular. Sir John o compreendeu, mas não perdeu tempo em explicações. Crowley se dirigia para a sala de leitura e Sir John lhe seguiu de perto, procurando um dos primeiros assentos para poder observar ao Amo da M.M.M. mais atentamente. O paradoxo era um produto típico do estilo de Crowley: referia-se, obviamente, ao ensino gnóstico de que o universo sensorial é uma ilusão criada pelo Diabo, para que a Humanidade não visse a Individida Luz da Divindade por si mesmo. Uma estranha brincadeira para provir de um satanista; mas, naturalmente, alguns gnósticos ensinavam que Jehovah, criador do universo material, era o Diabo, o Grande Mago. A Bíblia começa com o Beth, de acordo com este ensino, porque Beth é a inicial do Mago do Tarot, o Senhor do Abismo das Alucinações...

         A sala de leitura se encheu rapidamente e Sir John brincou de correr para sentar-se numa das primeiras cadeiras. Advertiu que Crowley tinha inclinado a cabeça e mantinha os olhos fechados, obviamente, preparando-se para a leitura mediante algum método de invocação ou meditação. À suas costas, na parede, via-se uma grande estrela de prata com um olho no centro, um símbolo associado (por isso sabia Sir John) com a deusa Isis e a Estrela Cão, Sirius.

         — Façam que vejam a totalidade da lei — entoou Crowley sem levantar a cabeça. A continuação, olhou pela habitação caprichosamente.» É tradicional na grande Ordem a que humildemente represento — continuou —, começar todas as cerimônias e leituras com esta frase. Como no Ducdame de Shakespeare, existe um ritual para expulsar aos loucos, muitos dos quais deixariam a sala se o ouvissem. Como não observo nenhuma correria para as portas, só posso me perguntar se esta noite terá ocorrido algum milagre e estarei falando, pela primeira vez, a uma audiência inglesa que não está formada inteiramente por loucos.

         Sir John sorriu por seu pesar.

         — O tema desta noite —seguiu dizendo Crowley— é o soldado e o vulnerável. Estes dois termos poéticos os emprego regularmente para designar às duas pontuações ortográficas mais empregadas na Europa: a exclamação e a interrogação. Não procurem maiores profundidades neste momento. Chamo o signo de admiração «o soldado», só como licença poética, pois se mantém erguido, ereto, como um soldado de guarda. A interrogação, a que chamo «o vulnerável», de modo similar, recebe o nome tão somente por sua forma. Repito-o: não existe nenhuma outra profundidade, ainda.

         Sir John ficou a pensar nos dois primeiros capítulos do Livro das Mentiras, aqueles que só diziam «?» e «!».

         - A interrogação, ou vulnerável, continuou Crowley, aparecia em todos o problemas filosóficos básicos que angustiavam à humanidade: Por que estamos aqui? Quem ou o que nos pôs aqui? Se podemos fazer algo, o que é? Como podemos começar? Onde podemos encontrar a sabedoria? Por que nasci? Quem sou?

         — A menos que alguém enfrente à imediatos problemas de sobrevivência, devido à pobreza ou a livre eleição de uma vida aventureira, todos estes incômodos aparecerão na mente numerosas vezes ao longo da existência —disse Crowley—. Geralmente são pacificados ou desaparecem ao recitar as respostas oficiais da tribo em que nascemos, ou, simplesmente, decidimos que não têm resposta.

         Entretanto, alguns, - continuou dizendo Crowley, - não podem contentar-se com a cega tradição ou o resignado agnosticismo, e procuram respostas por si mesmos apoiando-se na experiência. As pessoas ordinárias, disse, tinha um sentido totalmente adormecido, que nem sequer conheciam; os que persistiam em seguir formulando as perguntas podiam ser descritos como lutadores pelo despertar.

         O soldado, a exclamação, continuou, representava o momento em que se via ou se intuía que uma pergunta era respondida, como nas expressões «É isto!» ou «Eureca!»

         — Agora apresentarei a dois dos mais asquerosos incômodos que conheço — disse Crowley, sorrindo perversamente—. Ambos se expõem a cada candidato que chega a nossa Ordem procurando a Luz. São os seguintes:

»Número Um: por que, dentre todos os mestres do misticismo e das ciências ocultas, vem para mim?

»Número Dois: por que, dentre todos os dias de sua vida, vem precisamente hoje?

»É quanto necessitam vocês saberem —explicou Crowley—. Poderia descer da plataforma agora mesmo, pois, se fossem vocês capazes de responder essas perguntas, teriam alcançado a Iluminação; e se não puderem, é que são tão lerdos que falar seria esbanjar as palavras. Mas, de qualquer modo, terei piedade de vocês e terminarei o bate-papo.

         Crowley continuou definindo o estado da filosofia moderna (a posterior ao David Hume) como «uma reunião de incômodos». Tudo era concebido como pergunta; todos os axiomas haviam sido transformados: «incluindo a geometria de Euclides entre os modernos matemáticos»; nada é seguro. Por toda parte, seguiu Crowley, não vemos mais que incômodos: perguntas, perguntas, perguntas. O misticismo tradicional, explicou então, é pelo contrário um regimento de soldados. O místico, disse, depois de conseguir a experiência de um «É isto!» ou um «Eureca!» —um repentino olhar sobre a realidade invisível que subjaz depois das decepções subjetivas dos sentidos— sucede apto para deleitar-se consigo mesmo, pois nunca responderá a nenhuma outra pergunta e deixará de pensar completamente. Fora deste engano, advertiu Crowley, flui a religião dogmática, «uma força quase tão perigosa para o misticismo como o pode ser a liberdade para a ciência ou a política».

         O caminho da verdadeira Iluminação, prossegue Crowley, enquanto avançava até uma lousa que havia à direita da sala, não consiste em lançar um olhar intuitivo atrás de outro. Não é um desfile, «como este», disse, escrevendo na lousa: !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

         — Qualquer um que se ache neste estado ou é um imbecil, ou um catatônico, cego por sua própria loucura —afirmou Crowley, severo. O verdadeiro caminho dos Iluminados, declarou logo mais enfaticamente, está constituído por uma série de soldados e incômodos em conjuntos cada vez mais acelerados, por exemplo ?...!...?...!...?...!...?...!...?...!...?...!...?!?!?!?!?!?!?!?etc. —Ficar em qualquer ponto, tanto com intuitiva certeza como em duvidosa interrogação — disse sinceramente—, é estancamento. Seja qual for o estado de êxtase de visão que se alcance, um deve procurar a visão mais elevada. Sejam quais forem as perguntas respondidas, devem buscar as perguntas mais difíceis. A Luz que se busca se chama, corretamente, na Cabala ain soph auer, a luz ilimitada, que, literalmente, matemáticos como Cantor o demonstraram, pertence ao infinito. Já dizem os Upanishads: «pode-se esvaziar o infinito, mas o infinito continuará existindo». Quanto mais profunda seja a união com a Luz, esta se fará mais profunda: podem chamá-la Cristo, ou Buda, ou Brahma, ou Pan. Como sou, graças a Deus —pronunciou aquelas três últimas palavras com grande piedade—, um ateu, prefiro chamar um nada... pois algo que digamos sobre ela é finita e limitada, quando em realidade é infinita e ilimitada.

         Crowley discorreu sobre o infinito com grande detalhe, resumindo teorias matemáticas a respeito daquele particular, com notável erudição e acerto.

         — Mas, tudo isto — terminou —, não é o verdadeiro infinito. Só é o que nossas pequenas mentes simiescas puderam compreender até agora. Façam a seguinte pergunta. Procurem a visão mais elevada. Esse é o caminho que une o misticismo com o racionalismo, e que transcende a ambos. Como escreveu o grande Poeta:

                                      Não depositamos nossa confiança

                                      Na Virgem ou na Pomba;

                                      Nosso método é a Ciência,

                                      Nosso objetivo a Religião.

         Benditas palavras! —exclamou, arrebatado—. Sagrado seja o nome do sábio que as escreveu!

         Ao chegar àquele ponto, Sir John já duvidou se tinha escutado a mais elevada sabedoria ou a mais pretensiosa gíria que tivesse ouvido até então. Seu Divino Não-Ser era muito parecido à certos conceitos budistas e taoístas, mas também, parecia uma divertida maneira de considerar temas profundos sem dizer grande coisa. Para tal questão, naturalmente, a postura de Crowley afirmava que dizer o que fosse sobre o infinito era Nada se se comparava com o próprio infinito...

         Sobressaltado, Sir John se deu conta de que o bate-papo tinha concluído. A audiência aplaudia, alguns de maneira indecisa, e quase todos tão confundidos como Sir John pelo que acabavam de ouvir.

         — Agora podem — disse Crowley com certa inapetência — desafogar-se dos pensamentos com que aconteceram o tempo, enquanto simulavam me escutar atentamente; mas, de acordo com o decoro inglês e os rituais das conferências, podem converter suas observações em perguntas.

         Ouviu-se uma risada nervosa.

         — O que nos diz de Cristo? — O homem que formulou a pergunta era um tipo corado com bigodes de foca; parecia mais irritado pelo que tinha ouvido que o resto da audiência—. Não disse nada sobre Cristo — acrescentou, ofendido.

         — Um lamentável descuido — confessou Crowley, lisonjeador —. Efetivamente, que digo de Cristo? Pessoalmente, considero-lhe culpado pela religião que nos impôs postumamente. A seguinte pergunta... a senhora da fila de atrás?

         — É inevitável o socialismo?

         Sir John se perguntou quando se daria conta Crowley do Talismã e como tentaria lhe enrolar para consegui-lo. Com horror, descobriu que a anunciada dominação de sua mente parecia possível: Crowley possuía encanto, magnetismo e carisma, como tantos outros servidores do Demônio. O que era o que Pope tinha escrito sobre o Vício? Uma criatura de tão odioso aspecto / Que para ser odiada só tem que ser vista / Mas tem algo que algo que algo que / Primeiro nos dá pena, logo o suportamos, logo o abraçamos...

         — Há muitas coisas inevitáveis — estava dizendo Crowley—. As marés. As estações. O fato de que algumas perguntas depois de uma conferência, logo que tenham nada a ver, com o conteúdo do bate-papo... — Que buscas? A Luz. A luz ilimitada: ain soph auer. E as trevas souberam...

         — O que nos diz sobre a Vontade Mágica? — perguntou Sir John repentinamente durante uma pausa.

         — Ah — exclamou. - Essa Crowley é uma Pergunta Significante. — De algum modo, transmitiu as maiúsculas—. Algumas perguntas têm que ser respondidas com demonstrações, não com meras palavras. Laylah — chamou, dirigindo-se com a voz ao fundo da habitação—. Poderia nos trazer o psicobulômetro?

         Lola aproximou-se do estrado com algo que se parecia desagradavelmente umas empulgueras medievais.

         — O primeiro que existe é a vontade consciente — explicou Crowley, olhando diretamente ao Sir John—. A exercitamos cada dia. «Vou fumar», «Serei fiel a minha esposa». Noventa e nove vezes de cada cem, tais resoluções falham, pois estão em conflito com a força que realmente nos controla, a Vontade Inconsciente, que não pode resultar frustrada. Efetivamente, inclusive os psicólogos profanos redescobriram o que a mística sempre soube: a Vontade Inconsciente, embora incapacitada para atuar, retorna durante a noite e espreita em nossos sonhos. E, às vezes, retorna durante o dia, sob a forma de comportamentos irracionais que não podemos compreender. A Vontade Mágica não deve confundir-se com nenhuma das duas coisas anteriores, pois inclui ambas e é maior que elas. Atrever-me-ia a dizer que executar um ato de Vontade Mágica é cumprir a Grande Obra. O mais sagrado de todos os livros diz a respeito desta conexão: «Não tem direito, mas o fará». Aí, se acreditarem que exercem sua verdadeira Vontade sem treinamento mágico, enganarão a si mesmos... Mas, estou me limitando a falar, coisa que prometi evitar, e aqui chega o instrumento da demonstração. Quer alguém nos oferecer uma exibição do que é capaz de fazer com a Vontade consciente?

         — Acredito que eu o tentarei — disse Sir John, intrigado por sua própria ousadia —. Parece-me que me corresponde depois de formular a pergunta —acrescentou, sentindo-se mal.

         — Bom, nesse caso, muito bem! Venha aqui, senhor —disse Crowley com uma careta que a Sir John lhe pareceu já sinistra—. Aqui temos —continuou, elevando as empulgueras para que todo o mundo pudesse ver— um dos implementos usados pela Ordem dos Dominicanos para reforçar a religião que, como disse antes, foi imposta por Cristo. —Colocou o instrumento de tortura no estrado —. O empregavam como utensílio de tortura, mas nós o empregaremos como calibre da Vontade.

         Sir John se encontrava de pé, ao lado de Crowley, olhando desassossego as empulgueras.

         — Insira aqui o polegar, senhor — disse-lhe Crowley amavelmente.

         — O que diz? —Sir John não podia dar crédito ao que ouvia.

         — Que insira o polegar, aqui — Crowley seguia falando brandamente — e gire a manivela que aperta o parafuso. A agulha do bulômetro, meu aplique pessoal a este brinquedo, registrará a dor que você é capaz de suportar mediante o emprego da Vontade; 10 é uma boa pontuação, e 0 significa que você é um verdadeiro condescendente aonde acredita que pode chegar?

         Sir John sentia todos os olhos da habitação cravados nele e quis gritar: «Não estou tão louco para torturar a mim mesmo só para lhe divertir», mas... Sir John temia mais ficar publicamente como um covarde. Será por isso mesmo pelo que a gente vai à guerra?, perguntou-se severamente...

         — Muito bem —disse com frieza ao fim, inserindo o polegar,

         E Abraham se levantou muito cedo e selou seus asnos, e tomou a dois de seus homens, e a seu filho Isaac, e cortou a lenha para o sacrifício, e a recolheu, e se dirigiram ao lugar de que Deus lhe tinha falado.

         E era perto da sexta hora, e toda a terra estaria sumida em trevas até a hora nove.

         E o sol se obscureceu, e o véu do templo se fendeu entre a névoa.

         E Abraham tomou a lenha da pira, e a colocou sobre seu filho Isaac; tomou uma tocha na mão, uma faca; e ambos caminharam juntos.

         E quando Jesus gritou, em voz alta e, disse, Pai, em suas mãos encomendo meu espírito; e dizendo isto, deixou de ser o fantasma.

         — Só alcançou o dois do bulômetro —disse Crowley—. A audiência deve estar pensando que nem sequer o tentou, senhor.

         — Vá para o inferno! — sussurrou Sir John, com um calafrio lhe percorrendo as costas—. Cansei-me já desta cruel brincadeira. Agora nos ensine o que pode fazer você com sua Vontade Mágica!

         — Certamente — disse Crowley, muito tranqüilo. Colocou o polegar no cruel mecanismo e começou a girar a porca com lenta deliberação. Não moveu nem um músculo de seu rosto. (Sir John suspeitava que se encontrava em transe). A agulha do bulômetro subiu lentamente, acompanhada de aplausos da audiência, até alcançar o 10.

         — Isto — disse Crowley amavelmente — poderia passar por uma demonstração elementar de Vontade Mágica.

         Soou o estrépito de um espontâneo aplauso.

         — Também valeria — acrescentou Crowley — como uma ilustração de nossa tese sobre o soldado e o vulnerável. A primeira regra de nossa Magia é: «Nunca terá que acreditar tudo o que se ouça e deve duvidar-se inclusive do que se vê.»

         Deu a volta ao «psicobulômetro», revelando com isso que tinha soltado o parafuso e que com isso deu voltas à manivela sem apertar a porca. Escutou-se um lamento irritado.

         — Oh — seguiu Crowley —, sentem-se extorquidos? Recordem-no: são enganados do mesmo modo cada vez que a confusão emocional ou as idéias fixas alteram sua percepção do que têm ante a vista. E não se esqueçam de procurar o vulnerável que há detrás de cada soldado.

         A audiência começou a sair, murmurando e charloteando tão excitada como um grupo de macacos que se vê refletido frente a um espelho. E, naquele preciso momento, Sir John percebeu que Crowley tinha descido do estrado e se dirigia para ele.

         — Sir John Babcock — disse Crowley amavelmente—, você conhece a história do homem que levava uma mangosta na cesta?

         Pelo menos, ao contrário de Lola, Crowley não pretendia não ter reconhecido ao Sir John.

         — Que mangosta? —perguntou Babcock com cautela.

         — Ocorreu em um trem — explicou-lhe Crowley —. Aquele homem levava uma cesta sob o assento e outro passageiro lhe perguntou o que levava nela. «Uma mangosta», respondeu. «Uma mangosta!», disse o outro. «Que demônios faz você levando uma mangosta?» «Bom», respondeu nosso herói, «meu irmão bebe mais do que é bom para ele e às vezes vê serpentes. A mangosta liberta-o delas.» O outro passageiro ficou desconcertado por aquela explicação lógica. «Mas as serpentes são imaginárias!.», exclamou. «É isto!», disse nosso herói. «Pensa que não sei? O bom é que esta mangosta também é imaginária!»

         Sir John sorriu cheio de nervosismo.

         — Passa o mesmo com os talismãs — continuou dizendo Crowley—. Quando um fantasma sobe, sempre o faz pelo espectro de uma escada. Continue levando o pentáculo no bolso se com isso se sente mais protegido. Agora devo ir. Voltaremos a nos ver.

         E Sir John ficou olhando como Crowley se afastava para o fundo da habitação, onde saudou a Lola com um beijou. Sussurrou algo; logo ambos voltaram , deram as costas ao Sir John e puseram-se a andar alegremente. E desapareceram.

                   DE ARTE ALCHEMICA

         Quando Sir John chegou a casa de Jones, no Soho, relatou-lhe sua experiência na livraria M.M.M. com todo detalhe.

         — Crowley não tentou me enrolar para que lhe desse o talismã — concluiu, com certa aspereza —. Tratou-o com todo desprezo.

         — Esse homem tem uma Vontade de Ferro — admitiu Jones —, mas não terá que deixar-se enganar por sua atuação. Acima de tudo, sabe que passamos ao contra-ataque e estará atemorizado.

         — Você está realmente seguro disso? — perguntou Sir John com sufocada moderação.

         — Nós dois necessitamos uma boa noite de sonho — disse Jones como se ignorasse a pergunta —. Ensinar-lhe-ei a habitação de convidados. Antes de dormir, medite um pouco sobre a Parábola da Mangosta Imaginária. Há muitos níveis de significado...

         O certo foi que Sir John se encontrou muito cansado para refletir sobre a Mangosta Imaginária quando se achou na habitação. Dormiu rapidamente e sonhou coisas que foi incapaz de recordar pela manhã, embora despertou com uma vaga lembrança de Sir Aleister Crowley e uma mangosta gigante lhe perseguindo pela Capela Perigosa.

         Depois de lavar-se e vestir-se, Sir John recordou que ainda tinha a cópia do Livro das Mentiras que comprou na M.M.M. Decidiu provar a bibliomancia em sentido inverso e ver o que o Inimigo podia oferecer como oráculo. Abrindo o livro ao reverso, encontrou-se no Capítulo 50:

         No bosque Deus se encontrou com o Cervo Volante. «Detenha! Adore-me!», disse Deus. «Sou o Grande, o Bom, o Sábio... As estrelas são faíscas nas forjas de Meus ferreiros...»

         «Assim seja e Amém», disse o Cervo Volante, «acredito em tudo isso e sou devoto.»

         «Nesse caso, por que não me adora?»

         «Porque eu sou real e você imaginário.»

         As folhas do bosque sussurraram com a risada do vento.

         Disseram o Vento e o Bosque: «Nenhum dos dois sabe nada!»

         — Maldição, trovões e relâmpagos! — explorou Sir John. O escaravelho negava a Deus, mas o vento e o bosque também negavam ao escaravelho. Era outra vez o quebra-cabeças da Mangosta Imaginária a um nível muito mais empedocleano.

         Descendo as escadas em busca do café da manhã, Sir John experimentou com o solipsismo. Possivelmente não existiam nem os deuses nem os escaravelhos... ou possivelmente todo mundo era, como anunciavam os gnósticos, o Abismo das Alucinações, a Máscara do Diabo. Mas devemos considerar o argumento de David Hume: o cepticismo deve aplicar-se a Gente mesmo. Estou eu realmente aqui? São só reais o vento e o bosque? Se os fantasmas baixarem, servir-lhes-ão os espectros das escadas?

         O Dr. Johnson refutava aquela filosofia dando patadas às pedras. Sir John a refutou comprovando o faminto que estava. Os ovos e os pãozinhos eram tão reais como desejáveis àquelas horas, e seu estômago era o suficientemente real como para não negar-se a eles.

         Para sua surpresa, encontrou ao Jones tomando o café da manhã com o Reverendo Verey.

         — Acreditava que lhe tínhamos deixado com o Mutilador do Liverpool — disse, confuso.

         — Nossos planos mudaram totalmente depois de minha conversação com o Cabeça Interior da Ordem na noite passada. As coisas são mais sérias do que supunha — explicou Jones — Nós três iremos visitar o Mr. Aleister Crowley, à sua casa, para lhe levar uma surpresa.

         Sir John sentou-se.

         — Não será outro talismã? — perguntou, ironicamente.

         — Querido, não — disse Jones, brandamente —. Esta vez será uma surpresa real. Mas, antes, coma algo, Sir John. Os pãozinhos estão deliciosos.

         Sir John decidiu deixar o tema durante um momento; sentia-se muito faminto.

         Verey estava lendo o mesmo recorte jornalístico que Jones mostrou ao Sir John na tarde anterior.

         — Está cheio de enganos — lamentou-se —. Bobbie McMaster não tem quarenta e três anos a muito tempo tempo; pelo menos é tão velho como eu. E a mulher sem cabeça que encanta Glen Carng não é nova; vêem-na há tantos séculos como à Ana Bolena na Torre de Londres. Por que os jornalistas alguma vez fazem nada bem?

         — Acredito que foi Bernard Shaw quem o explicou — disse-lhe Jones, acrescentando um pouco de limão ao chá, ao estilo parisino —. Em quase todas as demais profissões, um homem deve ser capaz de observar cuidadosamente e informar de modo acertado sobre tudo o que vê. Essas qualificações, não obstante, são desnecessárias para os jornalistas, pois seu trabalho é escrever sensacionalistas histórias para os periódicos. Portanto, todos os incompetentes que não são capazes de exatidão na hora da observação ou da memória, fracassam em quase todas as demais profissões, por isso, eventualmente, muitos deles chegam ao jornalismo.

         — É isto! — exclamou Sir John, quem se tinha perguntado, mais ao mesmo tempo, por que nada do que diziam os periódicos era acertado. Naturalmente: um químico, um lojista, ou um homem comum, a quem lhe pedisse que descrevesse aquele café da manhã, informaria corretamente que consistia em ovos, presunto e pãozinhos com chá. Um jornalista mencionaria purê de aveia, bacon e torradas, com uma orgia de sexo e um assassinato.

         Verdade! Verdade! Verdade! gritou o Senhor do Abismo das Alucinações...

         «Nessie» era real de acordo com virtualmente todos os residentes em Inverness; «Nessie» era um mito de acordo «peritos» que nunca tinham estado ali.

         — Tem que saber — disse Sir John ao Jones— que me dei conta de que embora você se refere sempre ao Crowley como «Mr.», em um pôster que vi ontem à noite se referiam a ele como «Sir ». O que é o correto?

         — Crowley é filho de um cervejeiro — explicou-lhe Jones—. Mas o «Sir» é legítimo de acordo com suas próprias luzes. Nos 90, quando só era um jovem singularmente romântico e aventureiro que ainda não era corrompido pela Magia Negra, uniu-se à causa dos Carlistas. Don Carlos, pessoalmente, armou-lhe cavaleiro.

         — Mas — protestou Sir John —, Don Carlos era simplesmente um pretendente ao trono.

         — Para você e para a imprensa diária, sim. Crowley ainda insiste em que Don Carlos era o verdadeiro monarca e Vitória a pretendente. Assim, segundo suas próprias luzes, o título de Sir Aleister é correto.

         — Esse homem é parvo — disse Verey —. Sinto por ele.

         — Oh, certamente — assentiu Jones, com um tranqüilo sorriso —. Todavia, é brilhante e friamente racional... a seu próprio estilo. Ele e eu fomos amigos durante um tempo, faz muitos anos, antes de que nossos caminhos se separassem, e ainda continuo dizendo, em que pesem todas as suas maldades, que Aleister Crowley tem o potencial necessário para converter-se no mais importante de todos nós. — Jones suspirou —. Mas, só o mais exaltado pode cair até os mais recônditos abismos — acrescentou, amargamente.

         — «Lúcifer, filho da alvorada, que abaixo cai» — anotou Verey, com profundo e sentido dramatismo, como se se encontrasse em um púlpito.

         Como muitos clérigos, Verey tinha uma citação da Bíblia para cada ocasião, considerou Sir John.

         Quando o servente de Jones apareceu para recolher os pratos do café da manhã, Sir John perguntou intrepidamente:

         — Bom, quando vamos barbear ao leão em sua toca? Espero que não seja nada tão decepcionante como o de ontem à noite.

         — Acredito que iremos em seguida — disse Jones com a calma de um Adepto.

         — Sim — declarou Verey —. Anseio que chegue o momento em que esse diabólico Aleister Crowley e eu nos vejamos cara a cara.

         Sir John teve a sensação de ser um dos Três Mosqueteiros dispondo-se a lutar contra os homens de Richelieu.

         — Crowley vive na rua Regent — explicou Jones —. De fato, sua casa é uma das melhores de toda a rua. Seu pai não era só cervejeiro, a não ser um cervejeiro muito famoso. Vamos a nos dirigir a uma das vizinhanças mais respeitáveis de Londres. Crowley edita suas próprias obras com as mais caras encadernações e os melhores papéis, e vive como um verdadeiro príncipe oriental.

         — Iremos andando ou chamaremos um carro? — perguntou Sir John.

         — Acredito que um passeio nos viria bem — replicou Jones.

         A verdade, como pensou Sir John, é que formavam um estranho grupo de Mosqueteiros: Verey, velho e vulnerável; Jones, robusto, mas na quarentena; só ele mesmo, com vinte e oito anos, era o suficientemente jovem para desempenhar o papel de herói de melodrama... embora, com toda probabilidade, era o mais nervoso de todos.

         Jones ficou a falar de Crowley, enquanto passeava. Encontraram-se pela primeira vez dezesseis anos antes, em 1898, quando Crowley foi admitido no Amanhecer Dourado original como Aprendiz.

         — Era um jovem muito impressionante — explicou Jones —. Aos vinte e três anos já havia publicado vários volumes de excelente poesia e tinha certa fama de escalador nos Alpes. Possuía um título de Química Orgânica por Cambridge e lembro-me que lhe perguntei por que, pois, eu era incapaz de ver nele o menor temperamento científico. Nunca esquecerei sua resposta: «Minha personalidade é totalmente poética, estética e romântica», disse-me. «Precisava efetuar algum trabalho de índole científica para voltar a baixar à terra.» Pensei que constituía um surpreendente exemplo de autoconhecimento e auto-disciplina para alguém tão jovem.

         Jones continuou falando da rápida ascensão de Crowley no Amanhecer Dourado,

         — Nunca vi a um homem que tivesse tal capacidade natural para a Magia Cabalística como ele — disse, sinceramente.

         Logo, ocorreu o desastre de 1900, quando o feudo entre o William Butler Yeats e McGregor Mathers explorou em uma dúzia de feudos menores que desagregaram o Amanhecer Dourado em facções que nunca mais voltariam a reunir-se. Jones perdeu a pista ao Crowley durante vários anos, embora ouviu dizer que viajou e estudou Ioga ao Longínquo Oriente e Sufismo à África do Norte. Em 1902, Crowley e um engenheiro alemão, Oscar Eckenstein, escalaram triunfais à mais elevada altura obtida em Chogo Ri, no Himalaya, chegando aos vinte e três mil pés. Em 1905, Crowley dirigiu-se à China, e dali voltou convertido em um novo homem.

         — Lembro-me — disse Jones — minha infantil resposta quando voltei a encontrar com ele em 1906. Encontrei-lhe tão mudado que agora acredito que era um ser totalmente Iluminado, além de qualquer graduação do Amanhecer Dourado. Perguntei-lhe como o tinha conseguido e me disse literalmente: «convertendo-me em um menino.»

         Estavam cruzando a rua Rupert quando Jones sorriu ironicamente.

         — Minhas ilusões a respeito de Crowley não duraram muito mais — disse —. Naquele mesmo ano publicou o infame Bhag-i-Muatur, que dizia ter traduzido do persa. Não era nada disso. Crowley foi um admirador de Sir Richard Burton e se limitou a copiar a seu herói, que tinha publicado o Hasidah — uma obtusa declaração de filosofia atéia — como tradução do árabe, quando em realidade era sua própria obra. O Bhag-i-Muatur, um título que traduzia como «O Jardim Perfumado», era uma obra de Crowley disfarçada como tradução. Tratava-se, levianamente, de uma alegoria sobre as relações da Alma com Deus. Atualmente, se se ler com atenção, parece uma glorificação da sodomia.

         Resumindo, acrescentou o seguinte: Crowley se divorciou de sua esposa por adultério e começou a viver vergonhosamente com o Oscar Wilde antes de seus julgamentos, fazendo ostentação de seus numerosos assuntos, heterossexuais e homossexuais, como se desfrutasse de algum jeito diabólico impressionando às sensibilidades cristãs.

         Nos anos seguintes, Crowley dividiu seu tempo entre Londres, Paris e os desertos do norte da África. Em 1909, montou um espetáculo chamado «Os Ritos de Elêusis», em um teatro de Londres, e levantou uma tormenta de controvérsias. Os «ritos» começavam com um coro que informava à audiência, seguindo a moda de Nietzche, de que «Deus morreu.» A seguinte cerimônia incluía balé, música, ritual, poesia e, então, servia-se à audiência um pretendido «elixir dos deuses» (que alguns suspeitaram depois continha algum tipo de droga alucinógena), terminando com o anúncio de que tinha nascido um novo Deus, um «Senhor da Força e do Fogo», que destruiria a civilização ocidental e criaria, de suas ruínas, uma nova civilização apoiada na frase de Rabelais: «Faz o que queira.»

         — Esse homem é parvo — repetiu Verey com fria fúria.

         Desde 1910, continuou Jones, Crowley foi o líder inglês da Ordo Templi Orientis, uma ordem maçônica com apoio em Berlim que dizia guardar os primitivos segredos maçons em uma forma mais depurada, que qualquer outro grupo. A Outra Cabeça da Ordem, explicou Jones, foi Theodore Reuss, um ator que atuava como agente da polícia secreta alemã.

         — Sabendo de Scotland Yard? — perguntou Sir John.

         — Oh, efetivamente —respondeu Jones—. Assim é como atua a Inteligência Militar. Vigiaram ao Reuss conscientemente, todavia, não se meteram com ele, pois a área de suas operações se restringia a espiar aos alemães exilados na Inglaterra. Durante um tempo, relacionou-se com o Karl Marx, Friedrich Engels e seu círculo.

         Jones continuou falando das relações entre a Ordo Templi Orientis e certas seitas dervixes do Próximo Oriente que se diziam conectadas com os Jovens Turcos que haviam tombado à monarquia para introduzir a democracia parlamentar. Rasputín, o monge possuidor de estranhos poderes hipnóticos, quem parecia controlar totalmente ao Czar e a sua família, também se achava associado com as mesmas ordens dervixes, explicou Jones, quão mesmo o Coronel Dragutin Dimitrievic, chefe da Inteligência Militar de Sérvia, quem por sua vez era, simultaneamente, e sob o nome em chave de «Apis», membro da «União ou Morte», um grupo secreto revolucionário pansérvio.

         — Graças ao Rasputín, aos Jovens Turcos e ao coronel Dimitrievic — disse-lhes Jone— a situação do Próximo Oriente e os Bálcãs se fez tão instável que as alianças entre a Inglaterra, França, Alemanha e Rússia foram rotas, pois cada uma das Grandes Potências suspeitava que as demais tramavam para aproveitar-se, da cada vez mais volátil situação em seu próprio benefício. Os Jovens Turcos chegaram a jurar ostensivamente que lutariam até a morte para manter às Grandes Potências fora da zona. Como a ferrovia Berlim-Bagdad foi construído em 1896 — continuou Jones—, certos membros do Governo suspeitaram que a Alemanha pretendia nos substituir na Índia... mas cada uma das Grandes Potências suspeitava coisas parecidas das outras.

         — Tudo resulta cada vez mais profundo, mais obscuro, à medida que fala — afirmou Sir John —. Temos que ver com uma guerra espiritual entre teologias rivais, ou com uma guerra econômica entre interesses comerciais rivais?

         — Falamos de Guerra Total — replicou Jones, sombrio.

         Sir John levantou a vista para o Big Ben que se elevava na distância: pedra sólida, tangível, real. Mas chegaram a sua mente as palavras de Shakespeare:

                                               estes nossos atores

                                      Como já predisse, são todos espíritos, e

                                      derretem-se no ar, no ligeiro ar:

                                      E, igualmente à infundada origem desta visão

                                      As torres rematadas por nuvens, os belos palácios,

                                      Os solenes templos, o próprio círculo,

                                      Sim, com tudo o que nele vive, dissolver-se-á

         O monstro do Loch Ness e o Movimento Pansérvio criaturas com asas de morcego que riam e a polícia secreta alemã; suicídios incríveis e perversões sem nome; assassinatos por todo mundo e a história secreta da Franco-maçonaria; um gato assassinado em uma igreja fechada e o trem Berlim-Bagdad... Mascarados e máscaras detrás das máscaras. Sir John não estava já seguro de nada. 358: a Serpente é o Messias. I.N.R.I.: Jesus é Dionisio. HONI SOIT: a Ordem da Liga era um bacanal que governava a Grã-Bretanha desde fazia quinhentos anos. A própria vida era um paradoxo de Empédocles e David Hume tinha razão: a gente não pode provar, mediante a lógica, sua própria existência. Verdade! Verdade! Verdade! gritou o Senhor do Abismo das Alucinações...

         — Você é consciente, naturalmente, Sir John — seguiu Jones — de que os Iluminados bávaros, financiados pelos Rothschild, controlaram secretamente as revoluções que derrocaram as velhas monarquias feudais e abriram o caminho ao sistema de mercado «livre» com o que o monopólio do Capital domina o mundo moderno. Os Iluminados, é desnecessário dizê-lo, tinham seus próprios motivos: «Não há mais Deus que o Homem» era já seu lema antes da chegada de Crowley. De fato, a Ordo Templi Orientis, em sua forma moderna, foi criada pela união dos Iluminados de Leopold Engels, em 1888, e a Irmandade Hermética da Luz do P.B. Randolph. Randolph, um negro americano, começou como sacerdote vodu, mas recebeu educação avançada às mãos da mesma seita dervixe que havia detrás de Rasputin e dos Jovens Turcos. Theodore Reuss, a Outra Cabeça da Ordo Templi Orientis, temos razões para acreditá-lo, não era tão somente um espião entre o Marx e seu grupo da inteligência militar alemã, a não ser um duplo agente que espiava em Alemanha para os marxistas. O próprio Crowley mantinha relações com o comandante Marsden de nossa própria Inteligência Militar, coisa em que não pretendo entrar. Não resulta estranho pensar que tudo isto nos faz retroceder no tempo até o Husayn Mansur Halladj, o dervixe lapidado pelos muçulmanos ortodoxos no nono século por dizer «Eu sou a Verdade e dentro de meu turbante não há outra coisa que Deus»? Por mediação dos discípulos do Mansur, os Cavaleiros Templários foram iniciados nos ritos secretos mágicos da magia sexual do tantrismo... E a Mãe Hubbad é realmente Isis disfarçada e o osso que busca é o falo de Osiris, pensou Sir John loucamente. Todo o imaginável é verdade em certo sentido: se acreditar que posso voar, flutuarei livremente até a estratosfera...

         — Arthur! — exclamou Verey tirando o Sir John de suas solipsísticas reflitas. Jones e Babcock dirigiram a vista para onde tinha os olhos do sacerdote cravados. Do outro lado da rua havia um jardim: movia-se uma sombria forma ambiguamente por ele ou se tratava tão só de uma árvore agitada pela brisa?

         — Meu Deus — sussurrou Verey, quase representando—. É meu irmão morto, Arthur!

         — Não pode ser... você confunde-se — começou a protestar Jones. Todavia, o sacerdote afastou-lhe rudemente.

         — Arthur! —repetiu—. O monstro que converteu em ruínas a toda minha família! Volta da tumba para mofar-se de mim. — Lançou-se a cruzar a rua.

         — Atrás dele! — apressou Jones, pondo-se a correr.

         Sir John chegou primeiro à outra calçada, ao mesmo tempo que Verey abria a porta e entrava no caminho que corria entre os maciços de plantas exóticas. O caminho girava abruptamente; Verey ia correndo, quase dez pés adiante deles, em uma direção paralela à rua. Desapareceu detrás de um imenso carvalho, ao tempo que Sir John penetrava no jardim e punha-se a correr atrás dele.

         Embora virasse no mesmo ponto em que o fizesse Verey, Sir John não foi capaz de ver o clérigo. Apressou-se à seguinte curva e tropeçou com um homem alto, de barba negra, com um gorro russo de pele, ocupado em arrumar de perto.

         — Onde está? —perguntou Sir John.

         — Onde está, quem? — perguntou o desconhecido barbudo com um forte acento eslavo.

         — O Reverendo Verey... corria pelo jardim...

         Ofegante, chegou Jones.

         — O que passou? —perguntou—. Parece que Verey desapareceu.

         — Verey? — disse o eslavo —. Por aqui não passou ninguém.

         Jones e Babcock intercambiaram um confuso olhar. Jones foi o primeiro em recuperar-se.

         — Quem você é, senhor?

         — Sou o Barão Nicolás Salmonovich Zaharov — disse o desconhecido—, e esta é minha casa, e este meu jardim, e suspeito que vocês estiveram bebendo desde muito cedo se imaginarem que alguém veio por aqui. Asseguro-lhes que não passou ninguém.

         Sir John recordou.

                                      ... estes nossos atores...

                                      ... se

                                      ... derretem em ao ar, no ligeiro ar...

         — Por fim —disse Albert Einstein enquanto seu cachimbo fumegava abundantemente—. Aqui temos algo ao qual podemos fincar os dentes.

         James Joyce trocou-se a uma nova e indiferente postura na cadeira.

         — Encontramos — murmurou — um bocado maior do que podemos mastigar.

         Einstein começou a procurar uma folha de papel que não estivesse cheia de equações matemáticas.

         — Barão Zaharov — murmurou —. A luz ao final do túnel. É isto! — Encontrou vários fólios virgens —. Aqui — disse ao Babcock—. Quero um diagrama exato da cena desse milagre.

         — Não desenho muito bem — declarou Babcock, incômodo.

         — Não necessitamos que seja um artista — disse-lhe Einstein impacientemente—. Esboce a cena como o faria um engenheiro ou um arquiteto, verstehen Sie ? Como um homem que a visse por cima, como se flutuasse no ar.

         — Algo esquemático — observou Babcock—. Posso fazê-lo.

         Einstein estudou o diagrama enquanto o riscava, formulando perguntas, pedindo detalhes, até que ao fim emergiu algo com a claridade suficiente para lhe satisfazer.

                                

 

         — Bem — disse Einstein brandamente, estudando o diagrama —, muito parecido ao que suspeitava. São preparados esses trapaceiros...

         — Espero que saiba do que está falando — entoou Joyce obscuramente do rincão em que vagabundeava —. Para mim, cheio de ignorância não científica esta é a mais maravilhosa maravilha de a aventura de As Mil e Uma Noites de Sir John.

         Einstein sorriu.

         — Este Barão Zaharon — disse ao Babcock—... Suponho que não lhe diria adieu naquele momento e aceitaria seu testemunho sem pigarrear.

         Babcock, silenciosamente, fez um gesto de desespero com as mãos.

         — Não — disse —, mas era muito difícil. Em primeiro lugar, insistia em nos considerar ou bêbados ou dementes, e Jones teve que empregar toda sua diplomacia para lhe persuadir de que o levassem à sério. Finalmente, mostrou-se mais cooperativo, embora continuou atuando como se se burlasse de nós. Ninguém resulta tão distante como um nobre russo, já sabem. Mas concedeu em nos deixar procurar por ali com mais parada. O jardim estava tão cheio de flores de ambos os lados do caminho que só lhe poderia definir como luxurioso. Não havia modo algum de que o Reverendo Verey pudesse ter saltado a grade e passado pelo jardim sem esmagar ou danificar centenas de plantas, e não se via nenhuma só em tais condições.

         — Quão alta era a grade? —perguntou Einstein enfaticamente.

         — Mediria uns três pés. A metade superior do corpo de Verey me resultou claramente visível até que desapareceu atrás do carvalho.

         — E as plantas? —insistiu Einstein.

         — De vários tamanhos... de um pé, até três ou quatro. Nenhuma se via truncada ou danificada em modo algum —repetiu Babcock.

         — Naturalmente — disse Einstein —. Agora, com cuidado, Sir John, visualize ao Reverendo Verey e ao Barão Zaharov. O que diria você de suas alturas respectivas?

         Sir John franziu o cenho pensativamente.

         — Verey era mais baixo — concluiu—. Um pouco menos de cinco pés, diria eu. O Barão teria pelo menos minha estatura, ou isso, acredito: uns cinco pés oito polegadas, polegada mais ou menos. Mostrava-se tão seguro de si mesmo que não me lembro dele a não ser falando, de modo que não estou muito seguro da estatura que pudesse ter.

         Einstein assentiu com a cabeça.

         —Trovões e centelhas —murmurou para si. Voltou a prestar atenção ao Babcock—. O que passou quando você e Jones terminaram de inspecionar o jardim?

         — O Barão nos acompanhou até a rua, enquanto nos dirigia certas observações paternais sobre a gente que ingere bebidas fortes pela manhã. Eu estava totalmente desconcertado, mas Jones me disse: «Não confio neste homem. Vamos ver o que podemos averiguar dele na casa do lado.»

         — Já? — disse Einstein, encantado.

         — Sei o que está pensando — acrescentou Babcock —. Assim que Jones falou ocorreu também a mim. Estava tão impressionado pela aparente desmaterialização, tão intimidado pelas arrogantes maneiras do Barão, que minha mente deixou virtualmente de funcionar enquanto permanecemos ali. Mas, naturalmente, se havia algum truque, o Barão tinha que ser cúmplice do mesmo.

         — Siga — pediu Einstein, com uma careta divertida na comissura da boca.

         — Verão, a seguinte casa pertencia ao Miss Isadora Duncan, a célebre dançarina americana. Algum de vocês a viu dançar alguma vez? —perguntou Babcock, interrompendo-se.

         —Detesto o balé —disse Joyce—. Toda essa gente dançando distrai a um da música.

         —Eu tampouco, nunca vi Miss Duncan —confessou Einstein—. Mas, claro, todo o mundo ouviu falar dela na Europa. É, como dizem alguns, tão boa como Pavlova?

         —Melhor —confirmou Babcock—. A vi dançar só uma vez, em 1909, mas nunca a esquecerei. Naturalmente, desaprovo os libertinos princípios que essa mulher proclama tão atrevidamente, mas admito que é uma das maiores artistas de nosso tempo. Lamentei muito que não estivesse em casa. Ao menos, pudemos falar com sua secretária, outra norte-americana chamada Miss Sturgis.

         —E o que lhes pôde dizer Miss Sturgis sobre o Barão Zaharov? —perguntou Einstein.

         —Muitos coisas —continuou Babcock com um débil sorriso—. Mais do que queríamos ouvir, essa é a verdade. Detestava ao homem violentamente.

         —Oh? —Einstein se mostrou desconcertado—. Não é o que eu esperava.

         —Miss Sturgis descreveu ao Barão como um dissimulado, como um fanático religioso, e um intrometido —seguiu Sir John—. Parece que uma vez tentou organizar uma cruzada moral na vizinhança para jogar Miss Duncan... bom, sob a acusação de ser o equivalente a uma prostituta guia de ruas. Depois de falhar naquele intento, seguiu incomodando aos vizinhos enviando cartas nas quais demarcava as mais controvertidas elocuções dos escritos de Miss Duncan, aduzindo que era uma perigosa revolucionária. Miss Sturgis disse que se não fose por seu posto na Embaixada Russa, os vizinhos teriam organizado um comitê para lhe expulsar.

         — Algo mais? — perguntou Einstein, abruptamente alegre e com os olhos brilhantes de novo.

         — Oh, muito —replicou Babcock—. Zaharov prestava serviços na Igreja Ortodoxa Oriental cada manhã, embora tinha que percorrer várias milhas e levantar-se às cinco da madrugada para poder chegar. Uma vez tentou empregar as influências que lhe outorgava seu posto na embaixada para intimidar a um livreiro russo e lhe obrigar a que deixasse de levar as obras do Conde Tolstoi porque Tolstoi tinha questionado a doutrina da Virgindade de Maria. Seu tio, em Moscou, era Patriarca da Igreja Ortodoxa. Suspeitava dos católicos romanos e dos judeus, e considerava os protestantes só um pouco melhor que aos ateus. Miss Sturgis disse, lembro-me muito bem: «Depois de lhe ter como vizinho, compreendo por que a Rússia é um país tão atrasado.»

         Einstein riu.

         — Wunderbar! — exclamou —. O testemunho de Miss Sturgis encaixa perfeitamente em minha teoria.

         Joyce murmurou:

         — Nesse caso, estou louco.

         Einstein sorriu.

         — Mas como?

         — Se o Barão fosse um homem capaz de levantar-se às cinco da manhã para matar gatos nas igrejas — disse Joyce —, ou se admirasse e elogiasse os princípios revolucionários de Miss Duncan, entenderia que fosse conspirador do ramo de Crowley. Mas, por isso parece, está por cima de qualquer suspeita.

         Einstein assentiu.

         — Mas é o que eu esperava. Quando Babcock disse que Miss Sturgis considerava o Barão como um ser detestável, temi que minha hipótese se derrubasse. Mas agora estou mais seguro que nunca de que vou pelo bom caminho. O que passou a seguir? — perguntou ao Babcock.

         — Quando deixamos a casa de Duncan, Jones disse que a desmaterialização de Verey voltava a mudar tudo, e que eu não devia lhe acompanhar à casa de Crowley; que iria ele sozinho. Protestei, e discutimos algo acaloradamente. Ao final, persuadiu-me para ir sozinho. Dirigi-me ao Clube Diógenes, onde freqüentemente me hospedo quando venho à Londres, e esperei...

         —Sim? —apressou Einstein, como se fosse um professor examinando a um estudante.

         — Esperei até a meia-noite — seguiu Babcock —. E então não pude resistir por mais tempo a incerteza. Tomei um carro para que me levasse ao Soho, a casa de Jones... E...

         — Deixe-me que lhe diga o que encontrou — disse Einstein—. Ali vivia uma família inglesa, nada mais, com rostos abertos e francos, que juraram solenemente que nunca tinham ouvido falar do Mr. George Cecil Jones.

         — Meu Deus! — exclamou Babcock, sentando-se repentinamente —. É incrível! Como o sabe?

         — Estou certo? —perguntou Einstein.

         — Sim — afirmou Babcock—. Por amor do Céu, não posso imaginar como o adivinhou.

         — A adivinhação não tem nada a ver com o pensamento científico — disse Einstein, agudo —. Por acaso, tentou também contatar com o Mutilador de Liverpool, como seu último contato com o Jones?

         — Sim — disse Babcock – Seu quarto estava totalmente vazio. A caseira jurou que levava meses sem alugá-lo.

         — O que fez você então? — apressou-lhe Einstein.

         — Voltei para o Clube Diógenes e fiquei em vigília durante toda a noite, pensando e perguntando-me coisas. Pela manhã, dirigi ao escritório principal de correios de Londres, para ver se encontrava alguma informação sobre o Compartimento Postal 718. Era o último que ficava como enlace com o Amanhecer Dourado. Disseram-me que não existia tal compartimento; os números só chegavam até o 600. O Colégio Invisível, parecia ser de novo completamente invisível. Tive a sensação de que os quatro últimos anos foram um sonho. Uma mangosta imaginária lutando com serpentes imaginárias. — Sir John ficou calado, olhando ao vazio com a expressão de alguém que dúvida de tudo no que acreditava. O silêncio era tenso.

         — Formoso — disse Joyce, finalmente.

         — O que? —perguntou Einstein, irritado—. Diz «formoso»?

         — Digo-o —replicou Joyce, sombrio—. E o lamento, Sir John; possivelmente seja a palavra mais dura que nunca haja dito. Mas eu, como artista que sou, deixei-me levar durante uns momentos pela admiração ante a minuciosidade e a elegância de seus antagonistas. Certamente, fizeram um bom trabalho com você. Quase de uma nudez matemática, verdade, Professor? Alguém não pode deixar de perguntar-se se escreveriam Quod Erat Demostrandum na última linha.

         —Do que está você falando? —perguntou Babcock, cansado.

         —Do arremate —repetiu Joyce, acrescentando—... como disse o legendário francês depois do terremoto. Imagine: inclusive o compartimento postal era falso. Um toque que agradeço.

         — São preparados — reconheceu Einstein—. Diabolicamente preparados.

         — Todavia, elegantes — voltou a repetir-se Joyce —. Sabem qual era seu modelo... inclusive antes de que tomassem O Rei de Amarelo do Mr. Chambers pelo tema do livro que enlouquece à gente e a leva à autodestruição? É um conto velho, muito velho — um dos mais velhos do mundo — e freqüentemente eu mesmo pensei nele. O encanto desta história, descobri, é que se a conta você a alguém, esse alguém terá a sensação de havê-la ouvido antes, ou havê-la lido, mas sem que possa recordar onde...» O conto é o seguinte —seguiu Joyce—: Um homem é forasteiro em uma cidade desconhecida; ou, em algumas versões mais sutis, em uma cidade que lhe resulta familiar, uma cidade que acredita conhecer. Mas se perde e vaga por um bairro que não tinha visto antes. Faz-se de noite; não há ninguém a quem possa perguntar. E, subitamente, Ela está ali: a mulher mais formosa do mundo. Com certas variações, Ela leva uma pérola de grande valor, ou alguma outra jóia fabulosa. Convida à sua casa, quão mesmo a Rainha das Fadas convida ao Cavaleiro errante à cruzar sua soleira nas lendas medievais. Vai com Ela; tudo é encantador, e paradisíaco, a realização de todos os sonhos românticos. Sabem qual é o final desta imortal história, meus amigos?

         — Sim — disse Einstein em voz baixa —. Tem razão com o do conto... acredito que o ouvi antes, ou o li, mas não posso me lembrar de onde ou quando. No dia seguinte, fica de voltar e ver-se com Ela, em Sua casa. Vai à hora convinda; mas não há casa, só um solar. Os vizinhos lhe dizem que ali não houve casa alguma há um século.

         Babcock tinha a vista fixa.

         — Sim — disse —. Lembra a história. Só que, por isso lembro-me, era todo o bairro o que desaparecia. O herói procura pela cidade eternamente, mas nunca volta a encontrar aquela rua.

         Joyce sorriu amavelmente.

         — Em algumas versões, é um ancião a quem se vê percorrendo a cidade durante a noite. Enquanto conta sua história, segue procurando a rua que uma vez existiu mas já não existe. Algumas pessoas com as que me tropecei inclusive dizem ter conhecido ao homem a quem lhe ocorreu esta aventura. É o que Jung chama uma visão arquetípica. As portas ao mundo da magia se abrem uma vez, voltam a fechar-se, e a gente não pode encontrar o caminho de volta ao lugar em que se encontravam. Vê, Sir John? Envolveram você em um guia que existe desde que nasceu a imaginação humana. Em seu caso, adaptaram o cenário à suas próprias ansiedades: Rainha Bruxa, a Elfa, a Deusa, ou como quer um chamá-la, era hostil e maligna desde o começo; só nesse ponto alteraram o modelo clássico.

         — Eles — repetiu Babcock com amargura—. Eles. Pensa você, senhor, que Eles são simplesmente humanos e que Eles realizam quanto fazem por meros meios materiais?

         Antes de que Joyce pudesse replicar, foi Einsten quem comentou secamente:

         — Chegaremos a esse ponto em uns momentos. Mas, antes, Sir John, terminou sua história? Suspeito que ainda faltará um climax...

         Babcock levantou-se e estirou-se.

         — Sim — disse, começando a passear—. falta um climax...»Depois das visitas ao afastado postal e o descobrimento de que não existia o 718, voltei para Clube Diógenes, meio convencido de que estava louco. Antes de que pudesse subir a minha habitação, o porteiro me disse que havia um cavalheiro me esperando na sala de fumantes. Fui até ali como um autômato; achava-me em tão estranho estado mental que não me preocupava que Jones, ou Verey, voltassem milagrosamente atrás de suas desmaterializações, ou que estivessem me esperando o mesmíssimo Diabo. Entretanto, com quem me encontrei, Deus me ajude, não era outro que Aleister Crowley.» Custava-me trabalho falar; de fato, logo que sentia nada... nem sequer medo. 'O que é o que quer?' perguntei-lhe. Pensava nas palavras de Scott a respeito de que tudo o que produzem as bruxas não são a não ser coisas tão imateriais como ar.

         «Falou com voz pretendidamente complacente, sem bravatas nem dramatismo; alguém que se encontrasse a uns pés de nós, teria pensado que se tratava de uma conversação ordinária.

Disse-me: 'Passam coisas estranhas quando as mangostas imaginárias lutam contra serpentes imaginárias. Não convém entremeter-se em nossos assuntos. Alguns ficam loucos e se matam. Outros, simplesmente desaparecem. Outros fogem até os limites do mundo, sem encontrar nunca escapatória. Teremo-o vigiado sempre, e acabaremos com você quando nos convier.' Inclusive sorriu, como se estivesse elogiando minha gravata ou algo assim... e logo se virou para ir-se.» Naquele momento, voltou-se de novo para mim. 'Finalmente, compreendeu?', me perguntou com voz muito fica. 'Seu Deus e seu Jesus estão mortos. Não têm poder para proteger nem a você nem a ninguém que peça sua ajuda. Nossa magia é muito forte, pois os Antigos tornaram, e o Homem será liberado da culpabilidade e do pecado. Se puder, peça ajuda ao Jesus; não ajudará a você mais que o que ajudou ao Jones ou ao Verey. Nossas mãos lhe rodeiam a garganta, embora não as possa ver. Voltaremos a nos encontrar quando você menos o espere.' «Aquilo foi tudo — disse Babcock decaidamente —. partiu antes de que tivesse ocasião de me recuperar por completo de suas blasfemas palavras. Saí da Inglaterra naquela mesma noite, viajando sob nome suposto. Cheguei ao Arlés, no sul da França, e me alojei em uma hospedaria. Depois de uns dias, voltei para meu quarto depois de visitar a igreja local e encontrei um crucifixo invertido pendurando sobre minha cama. Depois disso, vou de cidade em cidade, fugindo.

         Joyce se levantou e estirou os membros, formando uma grotesca sombra aracnídea na parede que havia a suas costas.

         — Bem, Professor —perguntou—. Vivemos no século vinte ou no treze?

         O Föhn assobiou na janela.

         Einstein estudou cuidadosamente a cazoleta do cachimbo apagada. Sob suas espessas sobrancelhas, seus olhos procuravam algo que o frio aroma das cinzas não poderia descobrir..

         — Bem — disse finalmente —. Não acredito que tudo isto seja algo ao qual não possamos encontrar explicação. Existem rastros de luz entre as profundas trevas, não lhe parece, Jeem?

         Joyce sorriu macilentamente.

         — Vejo uns quantos raios de luz — disse, cuidando as palavras —. Mas ainda me escapa algo pequeno e fugitivo e minhas trevas são ainda muito grandes. Faço uma lista dos pontos mais conflitivos?

         — Naturalmente — apressou Einstein.

         — São quatro — disse Joyce—. Intitular-os-ei da seguinte maneira:

  1. A Pista da Metáfora Quadrilateral;
  2. O Assunto da Reunião de Tragédias;
  3. O Assunto da Contagem de Sonetos;
  4. A Pista das 26 Ligas.» Sugere-lhes algo, à vocês dois? — concluiu, impassível.

         — A mim não — respondeu Babcock, desconcertado.

         — Nem a mim — acrescentou Einstein —. Pergunto-me se você encontrou as partes da resposta que se situam além de minha compreensão. Entretanto, imitando seu estilo, posso relacionar os pontos que me ajudaram a ordenar todo este maligno drama. Em meu caso, são oito; os seguintes:

  1. A Navalha de David Hume;
  2. O Assunto da Multiplicação Maravilhosa;
  3. O Incidente da Telepatia Casual;
  4. O Assunto das Coincidências Superabundantes;
  5. A Pista da Imagem Muito Definida;
  6. O Mistério do Extraordinário Escalador;
  7. A Pista do Nome Impossível;
  8. O Assunto da Relatividade das Dimensões.

         Acredito que estes pontos revelarão o que transpira todo o assunto — concluiu —. Compreende o que implica, Jeem?

         — Não sou o mais torpe — disse Joyce —. Entretanto, agora estou mais confuso que antes de que enumerasse você a lista das supostas ajudas.

         — Muito interessante — disse Einstein pensativamente—. Só vemos o que estamos treinados para ver... Bom, como você foi o primeiro em dar uma lista, explique-nos isso antes de que eu faça o mesmo com a minha.

         Joyce tirou os óculos com cuidado, limpando-os, meticulosamente, com um lenço.

         — Agora mesmo estou cego em uns setenta e cinco por cento — disse, pensativo; ao terminar, voltou a colocar os óculos sobre o nariz —. Depois! O mundo foi criado de novo: posso ver. — Uma piscada: Sinto-o —. O mundo cria-se de novo, cada vez, que trocamos nosso enfoque ou nosso ponto de vista — seguiu —. Troquemos o enfoque por um momento e estudemos o princípio de tudo isto, Nuvens Sem Água, com melhores óculos. — Fez uma pausa.

         — Sim? — apressou Babcock.

         — O autor de Nuvens Sem Água é um jovem singularmente profundo, como dizem Gilbert e Sullivan em casos semelhantes — prosseguiu Joyce —. Pode ver duas coisas ao mesmo tempo: inclusive, em alguns lugares, três coisas ao mesmo tempo. Ocasionalmente, consummatum est, as palavras que fecham um dos sonetos sobre os quais Sir John chamou nossa atenção, podem referir-se [como previamente se fez notar] tanto à Missa católica como a uma Missa negra; mas também, pode estar se falando da terminação de um ato sexual: estimulação sexual, união, climax, consumação. Mas nosso autor poderia aludir às quatro coisas ao mesmo tempo: o simbolismo do vinho místico na seqüência alquímica, observo, pode referir-se às secreções vaginais da amante do poeta, como suspeitava Sir John; ao vinho da Missa; ao vinho da Missa Negra; ou ao «vinho» como símbolo de intoxicação divina em autores sufis como, por exemplo, Omar Khayam. Esta é a Pista da Metáfora Quadrilateral.» Deste modo, chego a me perguntar o verdadeiramente profundo que pode ser este jovem especialmente profundo. O tráfico fim da saga é, para mim, evidentemente falso e propagandístico. O número de adúlteros da Europa não é maior que a areia do Sahara, ou os átomos da galáxia, mas é, certamente, grande; e não sucumbem à sífilis avançada e incurável em todos os casos. Nem tampouco, quando diagnosticam a enfermidade, se suicida nenhum de modo imediato. Tratam-se, e se têm sorte e a enfermidade não está muito adiantada, terminam curados rotineiramente. Não posso dizer que o triste fim de Arthur Angus Verey seja impossível, mas sim improvável. Detecto muito mais tom moralista e exortante, como se fosse obra do próprio Reverendo Charles Verey. Este é o Assunto da Reunião de Tragédias que mencionei antes. Mas quero perguntar uma coisa: esta autoria dual, encaixa em nossas noções de psicologia humana, cavalheiros?

         Einstein foi o primeiro em falar:

         — Siga — pediu—. Definitivamente, parece estar completando a parte do quebra-cabeças que me resultava impossível.

         — Posso garantir — acrescentou Babcock — que Verey nunca teria publicado aquele livro de não introduzisse ao final uma dura lição moral...

         Joyce raspou o chão com a bengala.

         — Ponto um solucionado — disse —. Bem, a partir daqui, o velho refrão legal que diz «Culpado em parte, culpado em tudo», pode ser verdade ou não, mas, não obstante, empresta-me um simpático pensamento. Se o Reverendo Charles Verey escreveu o final, por que não pôde escrever tudo? Uma frase de Dante me dá voltas pela cabeça todo o dia: ed eran duo in um, ed um in duo. «Eram dois em um, e um em dois». É a descrição de Bertran de Born, descabeçado, no Inferno. Recorda-me ao Dr. Jekyll e ao Mr. Ride, ao Dr. Frankenstein e a seu Monstro, a Fausto e Mefistófeles...

         Einstein riu.

         — Surpreendente — disse —. Levou dois dias pensando em Fausto e Mefistófeles e a linha que Goethe pôs em boca de Fausto: Zwei Seelen wohnen ach! in meiner Brust. Meu pai costumava nos dizer que era a linha mais profunda de toda a obra. Vivem duas almas, aí, dentro de meu peito.

         — A forma extrema de dualismo é o Desdobramento, ou Múltipla Personalidade que se discute nos textos de psicologia — continuou Joyce —. Todos somos prismas... duplas e múltiplas personalidades, de certa extensão. Cada um de nós tem um lado oculto: o que Jung, poeticamente, chama a Sombra. Qual seria a Sombra do Reverendo Verey? Naturalmente, a oposta a sua personalidade pública de reto presbiteriano. Seria, de fato, muito parecida com a que ele dizia que possuía o suposto Arthur Angus Verey: libertino, sensual, adúltero, blasfemo contra Cristo e a Igreja. Resumindo sugiro que Nuvens Sem Água foi escrito inteiramente pelo Reverendo Charles Verey. A cada «Não devem» público Reverendo Charles Verey, o oculto «Arthur» grita «Fá-lo-ei!». A Sombra, o satânico Arthur, escreve os voluptuosos sonetos, espraiando-se longamente em cada detalhe lascivo e licencioso de um fantástico namorico com uma gloriosamente malvada e totalmente desejável mulher; a Pessoa pública arruma tudo para que o livro de sonhos úmidos termine com «o Arthur» sendo destroçado por seus pecados e acrescentando as nota ao pé, que reafirmam a moralidade tradicional.»Bem, cavalheiros —acrescentou Joyce —, entende-se agora o Ponto Dois? São as duas almas de Nuvens Sem Água habitantes do mesmo seio?

         Babcock, cheio de dúvida, sacudiu a cabeça.

         — É possível em psicologia — disse—. Mas, contradiz quão fatos conhecemos.

         — Quão fatos conhecemos — opinou Einstein brandamente — foram distorcidos por uma conspiração deliberada que nos impede de conhecer sua autêntica realidade. Adiante, Jeem.

         — Temos, em Nuvens Sem Água, um livro que eu mesmo tentaria escrever — continuou Joyce —. Um livro de múltiplas dimensões, múltiplos níveis e múltiplos significados. Um livro quebra-cabeças, poder-se-ia dizer... cabe algo mais apropriado para estes tempos atuais, nos quais as mentes mais claras, reconhecem cada vez, com maior unanimidade, que nossa própria existência é um quebra-cabeças? O leitor resulta desafiado, se se mostrar o bastante inteligente para ver além da mera superfície, a dizer o que é realmente Nuvens Sem Água. Em primeiro lugar, aparece o que significa e o que pretende ser: o relato de um adultério que termina mal, com um comentário acrescentado por um sacerdote que sublinha a lição «moral» de que As Ondas Do Pecado representam a Morte. Para os leitores britânicos, perfeito. Logo, em segundo termo, fica o que Sir John decifrou: um manual de práticas sexuais tantristas, que demonstra que as permutações e variações da união erótica, entre um homem e uma mulher, atrozmente prolongadas, até o êxtase, exploram no esquecimento e em um transe de perda da identidade. Mas, e este constituiria o terceiro ponto, poderia ser como eu digo: o registro do desdobramento da personalidade de um presbiteriano puritano, sonhando com insanos prazeres de coito, felação e cunilingus; castigando a seu Outro Eu por desfrutar com esses sonhos.

         — E o que é o real? — perguntou Babcock —. Você só acrescenta novos mistérios, sem esclarecer os antigos... ignotium per ignotius!

         — Qual é a «longitude» real de uma barra, Professor? — perguntou Joyce.

         — Depende do sistema de coordenadas da barra — respondeu Einstein, divertido —; do sistema de coordenadas do observador, e das relações existentes entre suas velocidades.      Babcock fez uma careta.

         — Não tem sentido algum para mim—disse—. A longitude é a longitude, e isso é tudo.

         — Não é tudo — replicou Einstein —. Todas as nossas opiniões nas quais a longitude joga algum papel, são opiniões sobre os instrumentos empregados na medida dessa longitude. E as leituras dos instrumentos dependem de nossa velocidade com respeito à velocidade da coisa que estejamos medindo. Lorenz trabalhou com tudo isto desde fora da matemática, mas sem acreditá-lo. Em 1904, eu decidi acreditá-lo e ver aonde me levava. Puderam resolver todos os quebra-cabeças que complicavam a vida dos físicos do experimento de Michelson-Morley. Conduziu, de fato, à singela conclusão de que não há uma longitude ding an sich, uma entidade objetiva, a não ser só longitude como leitura do instrumento 1; longitude 2 como leitura do instrumento 2; e assim, sucessivamente. O mesmo se aplica ao tempo, como demonstrei.

         — Todavia — opinou Babcock — isto nos conduz fora do espaço sensorial e do tempo linear por completo. É um conceito gnóstico e platônico.

         — Em certo modo — afirmou Einstein —. A diferença é que Platão terminou no ponto de vista com o qual eu comecei. Nunca conectou seus arquétipos geométricos com o empirismo dos sentidos-datos. Eu efetuei essa conexão científica. Minha teoria explica experimentos que não se podem explicar de outro modo.

         — Conte-nos o da pedra e do trem — sugeriu Joyce languidamente, da sombra.

         — Oh! É o tipo conceitual de relatividade que se conhece dos tempos de Galileo — explicou Einstein—. Limitei-me a ilustrá-lo de um modo mais moderno. Suponhamos que atiro uma pedra a um trem. Que linha descreverá antes de cair?

         Babcock pareceu duvidar.

         — Não estou seguro — admitiu—. Parece que teria que o fazer seguindo uma linha reta.

         — Ah! — disse Einstein —. Assim seria... do ponto de vista de dentro do trem. Mas se alguém se encontrasse no campo, ao lado das vias do trem, como a veria cair?

         Babcock ficou em silêncio.

         — Isto... — disse finalmente —. Tampouco estou muito seguro, mas intento imaginá-lo visualmente e acredito que cairia seguindo uma curva.

         — Uma curva chamada parábola — corrigiu Einstein—. A veria cair descrevendo uma parábola perfeita. Agora, qual das duas percepções é verdade? O ponto de vista do homem do trem, ou o do homem do campo?

         — Começo a compreender aonde quer chegar — reconheceu Babcock—. Ambos têm razão, dentro do... — como o chamou? —... sistema de coordenadas dos observadores.

         Joyce pôs-se a rir.

         — Embora tudo isto não lhe resulte familiar — disse ao Babcock—, aprende você rapidamente. Sabe por que? Direi. Porque sua Cabala se apóia nos mesmos princípios, embora apliquem-se à psicologia mais que à física. Está aprendendo um novo aspecto de algo que já conhecia.

         Einstein arqueou uma sobrancelha.

         — Assim, sou cabalista? — perguntou, divertido.

         — O que é a Cabala? — demandou Joyce, socraticamente —. Bom, seja o que for, desde meu ponto de vista como artista é um método de visão múltiplo. Tomando um exemplo da história de Sir John, I.N.R.I., analisado cabalisticamente, não tem um significado tão singelo como do ponto de vista cristão, mas sim, além disso, conta com um significado mitológico grego, outro egípcio, outro alquímico, um significado dentro do simbolismo das cartas do Tarot... e assim, sucessivamente. As correspondências não são ilógicas, mas, analógicas. Os cabalistas vêem em cada símbolo — Cristo, Dionisio, Osiris, as cartas do Tarot e todo o resto— um significado dentro de seu próprio contexto místico, igualmente à teoria do Professor Einstein considera cada medida, como acertada, dentro de seu próprio sistema de coordenadas. Os cabalistas procuram, detrás de todos esses símbolos diversos e contraditórios, o arquetípico significado que constitui a própria psicologia humana, coisa que redescobriu o Dr. Jung recentemente. Igualmente, o Professor Einstein, vai além dos diversos e contraditórios instrumentos de medida, em busca das relações matemáticas abstratas, transladando de um sistema de coordenadas à outro.

         — Visão múltipla — repetiu Babcock —. Sim. É uma forma muito afortunada de resumir o cabalístico.

         — Bem, nesse caso — seguiu Joyce —, o que é Nuvens Sem Água? Não é acaso um perfeito exemplo de pensamento cabalístico, um livro que pode, de fato, ser lido de, ao menos, quatro formas, e possivelmente mais, se o considerarmos com a devida profundidade? Acaso não é um modelo cabalístico de múltiplos significados? Além disso, observemos que conta exatamente com 114 sonetos. Isto conforme o Assunto da Contagem de Sonetos. Agora, eu que não sou hermetista, mas que me passei boa parte da juventude escutando ao John Eglington e George Russell, como a outros místicos dublineses, sei que 114 é um importante número cabalístico, não é assim?

         — Sim — respondeu Babcock —. A tradição diz que o Colégio Invisível atuou publicamente durante 114 anos, até que se dissolveu e permaneceu inativo durante 114 anos, reinstaurando-se novamente para outros 114 anos... e assim segue a história.

         — Mais importante que isso — disse Joyce—. Sempre há algo mais na Cabala. Eglington ou Russell — esqueci qual deles — explicou-me uma vez, como exemplo da conexão histórica entre a Franco-maçonaria e a Rosa-Cruz que as misteriosas letras dos monumentos e documentos maçons, L.P.D., cabalisticamente somavam 114. Confunde-me a memória?

         — Não — replicou Babcock —. Lamed é 30, P é 80 e Daleth é 4. Total: 114. O significado supõe-se que é Luz, Pressão, Densidade, e se refere à transformação interna do processo alquímico.

         — Também se refere à outras coisas — ajustou Joyce —. As lojas maçônicas do Grande Oriente anteriores à Revolução Francesa, das quais proclama descender a Ordo Templi Orientis do Mr. Crowley, explicavam L.P.D. como Lilia perdita destrute: «Pisa na lilás a seus pés», a flor de lis que aparece no escudo dos Bourbones, a família real da França contra a qual esta facção da maçonaria se acha em guerra da destruição dos Templários à mãos do Felipe II. Uma vez mais, já o vê, os símbolos cabalistas significam coisas diferentes em diferentes níveis de interpretação.

         Einstein voltou para acender o cachimbo.

         — Assim — disse entre duas chupadas —, depois de tão comprido rodeio, Jeem, sua conclusão é...?

         — Nuvens Sem Água é obra de um cabalista muito adiantado — respondeu Joyce—. E o Reverendo Verey não é tão ignorante da Cabala como diz. Provas: sabe que há 26 ligas pendurando na Ordem da Liga e conhece seu significado cabalístico e esteve apressando à você, Sir John, até que lhe fez recordar que 26 é o valor do Yod Hé Vau Hé, o Sagrado e Inexpressável Nome de Deus. A Pista das 26 Ligas, que diria o Dr. Watson.

         Joyce fez uma pausa e, a seguir continuou falando.

         — Não sei como assassinou Verey a sua família e, certamente, tampouco sei por que [quem pode compreender o fanatismo religioso?], mas moralmente estou seguro de que o fez. Toda a história do livro dos horrores que enlouquece às pessoas é seu invento em sua totalidade, considerando, como indiquei sempre, minhas razões para pensar que espoliou a idéia do O Rei de Amarelo de Robert W. Chambers. Vem-me à mente outro vulnerável que enlouqueceu por causa do ardor religioso e das ânsias sexuais, São Paulo, quem uma vez escreveu uma frase que descreve ao Verey admiravelmente: «Não farei o que deveria, a não ser o que me aterra». O espelho duplicado novamente.

         O rosto de Babcock refletia um conflito de emoções.

         — Você... quase me convence. Mas sua teoria é parcial e ainda fica muito por explicar.

         Soou o timbre. Os três homens se incorporaram ligeiramente.

         — Esta sua história constituiu toda uma experiência — disse Einstein—. Mas Joyce há esclarecido pontos em que eu me achava às escuras. Com sua contribuição, acredito que já posso explicar tudo, e fazer que os espectros desapareçam para sempre.

         Na soleira apareceu Mileva Einstein, com um pacote envolto em papel marrom.

         — Albert — disse—, um moço acaba de trazer isto para ti.

         Os três homens se olharam. Einstein se levantou como um gato.

         — Não é algo totalmente inesperado — disse, cruzando a habitação.

         Joyce e Babcock se endireitaram repentinamente, observando com tensão como saía Mileva e Einstein levava o pacote à mesa.

         — É... — gaguejou Babcock.

         — Oh, sim. —Einstein parecia divertido—. O golpe artístico final. Os gestos do remetente são «M.M.M. Cale Jermyn, 93. Londres. R.U.», embora não apresente selos e, evidentemente, nunca passou por Correios. — Começou a rasgar o papel.

         — Pelo amor de Deus! —gritou Babcock—. Não! Não pode estar você seguro de sua teoria! Não você é imune ao perigo!

         — Oh, não estou preocupado — disse Einstein, rasgando e rompendo o envoltório até que apareceu o livro. Tornou-se então a rir; ao princípio, com uma risada apagada, que logo, foi fazendo mais e mais forte, até que seu rosto se distorceu e apareceram lágrimas em seus olhos. A risada da loucura histérica? Não: Einstein, finalmente, recuperou o controle e levantou o livro para que Joyce e Babcock pudessem vê-lo.

         — Aqui está, cavalheiros! — disse. O horror dos horrores...

         O livro que sujeitava intitulava-se Rimas Infantis de Mamãe Ganso.

         — MA... GA... sou... — disse Joyce lentamente—. Encaixa com os fragmentos que conhecíamos.

         — E contém todos os segredos mágicos em código! — gritou Babcock—. depois de tudo, Crowley não brincava.

         — Sim, sim que o fazia — disse Einstein – Isto é a última linha da piada. —voltou-se para sentar, limpando-as lágrimas provocadas pela risada de seus olhos de mocho com os nódulos.

         — É a Divina Comédia — ofegou Joyce, afogando uma risada que nascia no fundo de sua garganta —. Ter-nos-ão que levar a todos à Enfermaria de Dante se seguirmos com esta risada.

         — Acaso sou tão torpe — perguntou Babcock, sem diversão alguma — que estive metido nisso tanto tempo e não me dei conta?

         — Sim e não — respondeu-lhe Einstein.

         — Outro paradoxo! — exclamou Babcock —. Não há um inequívoco sim, ou um absoluto não em tudo isto?

         Joyce, ainda meio rindo , cantarolou:

                                      Um paradoxo, um paradoxo,

                                      Um muito engenhoso paradoxo...

         — Pelo amor de Deus! —pediu Babcock—. Deixem de burlar-se de mim, cavalheiros.

         Einstein assentiu.

         — Sinto-o —disse—. Neste momento, não estou seguro de poder explicar-lhe possivelmente nunca me perdoaria. O que lhe parece, Jeem?

         — Acredito —replicou Joyce—, que este guia foi tão brilhantemente construído que não fará falta que explique nada. O timbre voltará a soar antes de que tenha aprofundado na questão e o próprio Autor porá o clímax que tinha pensado desde o começo.

         — Sim — disse-lhe Einstein—. Suponho que tem razão. Bom, então — dirigindo-se à Babcock —, ao menos daremos o princípio de uma explicação...

         — Quando o timbre soe pela segunda vez — declamou Joyce—, voltaremos a levarmos cabaças. — Antes de que isso passe — disse Einstein—, acredito que devo ao Sir John o resto da explicação do que aconteceu aqui.

         — Até que enfim! — exclamou Babcock com certo acaloro.

         — Até que soe o timbre... — entoou Joyce.

         Einstein se concentrou durante um momento.

         — Comecemos pelo mais básico: pelo contexto do pensamento moderno, que quer dizer com o David Hume. Em sua discussão dos milagres, Hume apontaria que o argumento tem que ser totalmente satisfatório e totalmente necessário, para demonstrar a realidade de um suposto milagre. O argumento deve ser, brevemente, capaz de demonstrar que qualquer outra explicação do evento poderia ser mais milagrosa que o próprio suposto milagre. Isto é o equivalente de Hume à Navalha de Occam. Por exemplo, se dissermos que minha querida esposa, Milly, flutua na cozinha a dois pés por cima do chão, teriam que me acreditar justificadamente só se fosse muito mais milagroso que eu, Albert Einstein, pudesse dizer uma mentira. Agora bem, embora tenha por um tesouro minha reputação de pessoa honesta, acredito que não caberia dúvida em escolher qual das duas interpretações é mais milagrosa no presente caso: [a] que Milly, realmente, está voando por aí, ou [b] que minto. Não: nunca houve um homem de tão sobrenatural honestidade do que se pudesse dizer que é mais milagroso nele mentir que a possibilidade de que sua esposa levite.» Isto, como todo o pensamento de Hume, é puro sentido comum. Nunca damos crédito a uma história incrível, cheia de fenômenos no céu, e seres no chão, quando só um só homem diz ter sido testemunha. Começamos a duvidar quando as testemunhas são vários, mas inclusive, assim o consideramos com cepticismo e supomos que pode haver alguma conspiração entre eles, ou que a bebida, ou alguma impressão traumática, uma explosão, suponho por acaso, pudesse-lhes fazer alucinar.

         «Agora, apliquemos esta Navalha de Hume ao Milagre do Gato Assassinado no Altar. De que testemunho obtemos a história? Do testemunho do Reverendo Verey, e de ninguém mais. Inclusive o detalhe sobre o encontro por parte do Mrs. Verey de certos fragmentos da evidência posterior não é tal testemunho [nunca nos vimos com ele], a não ser parte da própria história de Verey.» Assim — continuou Einstein —, segundo as bases lógicas de David Hume e o ordinário sentido comum da humanidade, perguntamo-nos o seguinte: É mais milagroso que, um misterioso satanista, possa atravessar as paredes, ou que um curioso ancião, possa nos mentir? A resposta é óbvia: resulta menos milagroso que Verey possa nos mentir. Parece, ao menos, mais milagroso que alguém possa atravessar paredes sólidas. Assim, em apoio à razão, escolhemos a teoria menos milagrosa: Verey mente.

         — O qual não esclarece o mistério dos suicídios — disse Sir John—. Não temos que depender tão somente da palavra de Verey. Contamos com uma notícia no periódico — Sua voz se apagou.

         — Sim? — perguntou Einstein —. Temos a notícia, ou parece que a temos. Em que jornal apareceu a notícia?

         — No Express Journal de Inverness — respondeu Babcock.

         — Não exatamente — disse Einstein—. Saiu do bolso do Mr. George Cecil Jones, quem só lhe disse que tinha aparecido no Express Journal de Inverness. Conectado com isto, recordo-me também que Jones lhe disse que enviou seu secretário à comprar «uma cópia» do periódico. Não disse «duas cópias», e não há razão para isso, pois, tomando sua história ao pé da letra, comprou dois. Embora você guardou no bolso a cópia da história que lhe entregou Jones, Verey lia uma cópia distinta, no dia seguinte, no café da manhã. Esta é a Multiplicação Maravilhosa que mencionei antes. Não tem sentido; assim, outra vez, alguém nos mente. Agora, temos várias pessoas relacionadas com publicações de vários tipos. O Reverendo Verey e a Sociedade para a Propagação da Verdade Religiosa publicam Nuvens Sem Água, ao menos, e possivelmente outras obras igualmente curiosas. Jones e/ou seus associados publicam manuais de instrução para os estudantes do Amanhecer Dourado. Crowley edita seus próprios livros, por isso sabemos. Algum destes muito misteriosos traficantes de mistério teria facilidades para fazer que um documento parecesse um recorte de periódico?

         — Meu Deus — disse Babcock —. Mas ouvi como Verey falava com o Inspetor McInstoch da Polícia de Inverness sobre os suicídios... quer dizer que...

         — Sim — replicou Einstein —, viu-o, verdade? Escutou que Verey falava com alguém em algum número de Inverness, e você assumiu que falava com o Inspetor da Polícia de Inverness. De novo, é mais milagroso acreditar nos incríveis suicídios provocados — sorriu estranhamente — por Mamãe Ganso, como nos vemos obrigados a supor, ou é mais milagroso assumir que Verey e um cúmplice de Inverness lhe enganaram com o telefone? De novo, acredito, a resposta é evidente: o último resulta menos milagroso.

         — Soa plausível — reconheceu Babcock —. O que encontro difícil de acreditar é que Jones e Crowley conspirassem juntos em tudo isto...

         — Ao princípio, eu também acreditei — disse Einstein —, até que nos descreveu você a conversação com o Jones na manhã que se encontrou com o Verey. Jones disse, e as palavras gravaram-me na mente de um modo muito especial: Cuidado, Sir John: recorde que um homem vulnerável como Verey resulta um indivíduo suspeito. Agora, pergunto-me: Como sabia que Verey era vulnerável? Aparentemente, nunca lhe tinha visto. Possivelmente o dissesse Sir John e não o mencionou quando nos falou daquela conversação. Mas Sir John nos disse que Verey esteve a seu lado durante o bate-papo. Como educado que você é, custa-me trabalho acreditar que dissesse, «Oh, por certo, é um vulnerável», tendo a seu lado ao vulnerável enquanto o dizia. Assim, como diabos o soube Jones? Estaríamos ante um caso de Telepatia Casual, se acreditássemos. Todavia, eu não acredito.» A alternativa óbvia é que Jones e Verey trabalhavam de comum acordo. Verey conta-lhe, primeiro por carta e logo em pessoa, uma série de terríveis acontecimentos calculados para amedrontar você, e Jones fabrica o suposto recorte «de periódico» que aparentemente confirma essas histórias.

         Einstein reacendeu o cachimbo.

         — Para averiguar — disse — se Jones e Verey eram cúmplices, comecemos primeiro por esclarecer alguns obscuros mistérios deste misterioso assunto. Eu acredito que as coincidências podem multiplicar-se de um modo surpreendente... especialmente, no sistema perceptivo de coordenadas de um homem treinado para buscá-las, considerando-as como sinais ocultos, ou presságios. Entretanto, seu relato, Sir John, conta com muitas coincidências para qualquer universo sensato. Em particular, refiro-me ao insistente e aterrador modo em que os detalhe de seus sonhos e visões astrais — as últimas das quais me tem você que permitir que as considere como sonhos em vigília — cobram vida no mundo real à medida que você se integra com o Verey e crescem seus problemas. Assim que me pergunto mesmo: Como podem ter lugar estas Superabundantes Coincidências?» Aqui têm uma só resposta — continuou dizendo Einstein —. Um homem tem acesso a seu «Diário Mágico». Um homem o vê cada mês, como você nos disse, para lhe ajudar em seu progresso espiritual. Um homem, George Cecil Jones, poderia ter colaborado com o Verey para criar a impressão de que seus pesadelos se manifestavam no universo físico. George Cecil Jones, que sabia, de algum modo, que Verey era um vulnerável quando dizia que nunca lhe vira em sua vida .

         — Meu Deus — voltou a dizer Babcock.

         — Voltemos agora para recorte do periódico — continuou Einstein —. Penso que sem o recorte, você começaria a pensar, cedo ou tarde, que não tinha mais palavra que a de Verey como asseveração da história, toda ela tomada emprestada da escola de terror gótico de ficção, em geral; de Arthur Machen e Robert W. Chambers, em particular. O recorte, então, formava parte do plano, como a conversação com o «Inspetor McInstoch», para evitar que à você se passassem idéias suspeitas pela imaginação.

         — Mas — alegou Babcock —, por mais razoável que soe tudo isto, custa-me ainda acreditar que um sacerdote cristão como Verey, embora estivesse possuído por uma dupla personalidade como sugere Mr. Joyce, colaborasse com uma criatura tão vil como Crowley.

         Einstein sorriu.

         — Lancemos uma olhada. Joyce sugeriu que «Arthur Angus Verey» nunca existiu e que Charles Verey escreveu a totalidade de Nuvens Sem Água. Demos um rodeio, e consideremos outra alternativa. Suponhamos que «Charles Verey» não existiu nunca e que todo o livro foi escrito pelo Arthur Angus Verey».

         — Eu vi Charles Verey! — exclamou Babcock.

         — Não — di